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diff --git a/.gitattributes b/.gitattributes new file mode 100644 index 0000000..6833f05 --- /dev/null +++ b/.gitattributes @@ -0,0 +1,3 @@ +* text=auto +*.txt text +*.md text diff --git a/36608-8.txt b/36608-8.txt new file mode 100644 index 0000000..c194af7 --- /dev/null +++ b/36608-8.txt @@ -0,0 +1,3758 @@ +Project Gutenberg's Obras posthumas, by Nicolau Tolentino de Almeida + +This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with +almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or +re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included +with this eBook or online at www.gutenberg.org + + +Title: Obras posthumas + +Author: Nicolau Tolentino de Almeida + +Release Date: July 3, 2011 [EBook #36608] + +Language: Portuguese + +Character set encoding: ISO-8859-1 + +*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK OBRAS POSTHUMAS *** + + + + +Produced by Rita Farinha and the Online Distributed +Proofreading Team at http://www.pgdp.net (This file was +produced from images generously made available by National +Library of Portugal (Biblioteca Nacional de Portugal).) + + + + + + + + + +OBRAS + +POSTHUMAS + +DE + +NICOLÁO TOLENTINO + +DE ALMEIDA. + + + +LISBOA, 1828. + +NA TYPOGRAPHIA ROLLANDIANA. + +_Com Licença da Meza do Desembargo +do Paço._ + + + + +_A Sua Alteza._ + + +SONETO I. + + +Tornai, tornai, Senhor, ao Tejo undoso, + Vinde honrar-lhe outra vez a clara enchente, + E deixai que ajoelhe entre a mais gente + Hum protegido humilde, e respeitoso. + +Não leva a vossos pés rogo teimoso + De importuno cansado pertendente; + Vem beijar-vos a mão humildemente, + A mão augusta que o fará ditoso. + +Pois foi por Vós benignamente ouvido, + Não vai fazer em pertenções estudo, + Vai só mostrar-vos que he agradecido. + +Ante Vós ajoelha humilde, e mudo: + Mostrai-lhe que inda he Vosso protegido; + Que se isto lhe ficou, ficou-lhe tudo. + + + + +_A Sua Alteza._ + + +SONETO II. + + +Qual naufrago, Senhor, que foi alçado + Por mão piedosa d'entre as ondas frias, + Tal eu de antigas duras agonias + Por vossas Reaes mãos fui resgatado: + +Pois vencestes as teimas do meu fado, + E já vejo raiar dourados dias, + Deixai que possa em minhas poesias + O vosso Augusto Nome ser cantado. + +Não he digna de vós minha escriptura, + Nem harmonia, nem estilo a adoça; + Mas valha-lhe, Senhor, vontade pura. + +Principe excelso, consentí que eu possa + Fazer inda maior minha ventura, + Contando ao mundo que foi obra Vossa. + + + + +_Sahindo Conselheiro da Fazenda o Illustrissimo, e Excellentissimo +Senhor D. Diogo de Noronha_. + + +SONETO III. + + +Nem sempre em verdes annos a imprudencia + Produz irregular procedimento: + Nem sempre encontra o humano entendimento + Só perto do sepulcro a sã prudencia. + +Em Vós não esperou a Providencia + Que longas cans vos dêm merecimento: + Em Vós mostrou que estudos, e talento + Valem mais do que a larga experiencia. + +Os eruditos velhos Conselheiros, + Depois que o vosso voto alli for dado, + Serão de Vós eternos pregoeiros: + +E dirão que deveis ser escutado + Onde os Ministros vossos companheiros + Não sejão da Fazenda, mas do Estado. + + + + +_Aos leques mui pequenos, chamados Marotinhos._ + +SONETO IV.[1] + + +Fofo colchão, as plumas bem erguidas, + E sobre os hombros nas jucundas frentes + De enrolado cabello anneis pendentes, + Longos chorões, bellezas estendidas, + +Era esta das matronas presumidas + A moda, que trazião bem contentes; + Rião-se dellas as modestas gentes + Vendo pequenas poupas esquecidas. + +Nisto a gentil Madama aperaltada, + Grande auctora de trastes exquisitos, + Nova moda lhe inventa abandalhada. + +Reprova-lhe aureos leques com mil ditos. + Eis senão quando (oh moda endiabrada!) + Abanão-se com azas de mosquitos. + + + + +_O cruel disfarce._ + +SONETO V. + + +Sem murmurar padecerei callado + Cumprindo o teu preceito violento: + Faltava a envenenar o meu tormento + Dever ser por mim mesmo disfarçado. + +De trazer o semblante socegado + Farei o inculpavel fingimento: + Nos olhos mostrarei contentamento, + Tendo hum punhal no coração cravado. + +Este peito onde nunca engano viste, + Que não sabe a vil arte de affectar-se, + Onde a verdade, e a intacta fé existe, + +Martyr do amor, e do infiel disfarce, + Nas tuas adoraveis mãos desiste + Té dos tristes direitos de queixar-se! + + + + +_Ao Illustrissimo, e Excellentissimo Senhor Visconde de Ponte de Lima, +Secretario de Estado_. + + +SONETO VI. + + +A longa cabelleira branquejando, + Encostado no braço de hum Tenente, + Cercado de infeliz chorosa gente + Hia passando o velho venerando.[2] + +Geraes repostas para o lado dando: + «Sim Senhor; Bem me lembra; Brevemente;» + Na praguejada mão omnipotente + Nunca lidos papeis hia aceitando. + +Mas eu que já esperava altas mudanças, + Melhor tempo aguardei, e na algibeira + Metti a Petição, e as esperanças. + +Chegou, Senhor Visconde, a _viradeira_: + Soltai-me a mim tambem destas crianças, + Onde tenho o meu Forte da Junqueira. + + + + +_Fazendo Annos a Illustrissima, e Excellentissima Senhora Marqueza de +Angeja._ + + +SONETO VII. + + +Senhora, ha muito tempo pertendia + Ser do vosso favor patrocinado: + Mil vezes vos quiz dar este recado; + Porém sempre o respeito me impedia. + +Chegou em fim o venturoso dia + A fazer beneficios destinado: + Vou neste privilegio confiado; + Que a não ser isso não me atreveria: + +Vou pedir que descendo da Cadeira, + Onde explico os crueis Quintilianos, + Me ensineis a tomar melhor carreira. + +Que em mim ponhais os olhos soberanos, + E que me chegue em fim a _viradeira_[3] + No faustissimo dia destes annos. + + + + +_Aos Annos do Illustrissimo, e Excellentissimo Senhor Conde de +Avintes._ + + +SONETO VIII. + + +A varonil idade florecente + Vos tece, illustre Heróe, annos dourados + Para serem á Patria consagrados; + Pois sois de Almeidas claro descendente. + +Sobre as terras, e mares do Oriente + Inda vejo os trofeos alevantados: + Vejo beber mil corpos aboiados + Do turvo Gange a fervida corrente. + +No difficil caminho d'honra, e gloria + Por ferro, e fogo a seus bons Reis servindo, + Vos deixão por doutrina a sua historia. + +Forão diante o duro passo abrindo: + Entrai, Senhor, no Templo da Memoria, + Os bons Avós, e o illustre Pai seguindo. + + + + +_Estando nas Caldas_. + + +SONETO IX. + + +Por mais que vos alongue olhos cansados, + Olhos ha tanto tempo descontentes, + Não vedes mais que pallidos doentes + Por mãos estranhas n'agoa sustentados. + +Quantas vezes ficastes magoados + Por ver ir entre as fervidas correntes + Envolvidas mil lagrimas ardentes + Do que em vão quer alçar braços mirrados! + +Vistas são estas de bem pouco gosto; + Porém bem pagos ficareis hum dia + Quando virdes de Arminda o lindo rosto. + +E o pranto, que atégora vos cahia + De lastima, d'auzencia, e de desgosto, + Ella o fará correr; mas de alegria. + + + + +_A huns Annos._ + + +SONETO X. + + +Foi este o dia em que a teus pés baixárão + Venus, e as lindas Graças innocentes, + E em torno do aureo berço reverentes + Ao som de alegres hymnos te embalárão. + +Aos teus olhos gentís communicárão + Cruel poder de conquistar as gentes: + Mil suspiros, mil lagrimas ardentes + A muitos corações prognosticárão. + +Dérão-te huma alma heroica, hum nobre peito: + Dérão-te discrição, e formosura, + Dons a que o mundo está mui pouco afeito. + +Mas, oh humana sorte, triste, escura! + Para na terra nada haver perfeito, + Dérão-te hum coração de pedra dura. + + + + +_Ao disfarce das Mulheres._ + + +SONETO XI. + + +Vens debalde, oh bellissima perjura, + C'o lindo rosto em lagrimas banhado: + Já fui por ti mil vezes enganado, + E sempre me affectaste essa ternura. + +Esse alvo peito, que he de neve pura, + Mas de aço, e fino bronze temperado, + Encobre hum coração refalseado, + Hum coração de viva rocha dura. + +Em vão trabalhas, se enganar-me queres, + Vejo correr com animo sereno + Esse pranto em que fundas teus poderes: + +Mal inventado ardil: ardil pequeno: + Tu mesma me ensinaste, que as mulheres + Misturão com as lagrimas veneno. + + + + +_A huma Camponeza._ + +SONETO XII. + + +Não morão em palacios estucados + Almas singelas, almas extremosas: + Nutrem da Corte as damas enganosas + Em tenros peitos corações dobrados. + +Venhão por longos mares conquistados + As Indianas sedas preciosas: + Cubrão-lhe as carnes alvas, e mimosas + Ricos vestidos em Paris bordados. + +São isto effeitos da arte, e da ventura: + Estimo mais que toda a vã grandeza + Hum limpo coração, huma alma pura. + +Não na Corte; das serras na aspereza + Fui achar innocencia, e formosura, + Sagrados dons da simples Natureza. + + + + +_A huma Dama interesseira._ + + +SONETO XIII. + + +Podião ser felices meus amores + Quando por ouro o amor se não vendia: + Já de palavras Nize desconfia, + Só crê ou em dinheiro, ou em penhores. + +Vio-me assaltado d'ancias, e temores + Quando na porta irada mão batia: + Por costume infeliz ella sabia + Que era algum dos cansados acredores. + +Forão-se os dias bemaventurados, + Em que só almas grandes, peitos nobres, + Erão do Deus de amor agazalhados: + +Negro destino hoje preside aos pobres: + Poz termo a bella Nize aos seus agrados, + Vendo esta bolça condemnada a cobres. + + + + +_Ao faustissimo dia da Inauguração da Estatua Equestre d'El-Rey +Fidelissimo o Senhor D. José I._ + + +SONETO XIV. + + +Em quanto o Reino cheio de ternura + Ao grande Bemfeitor te ha consagrado, + E respeita aos teus pés ajoelhado + O Rey Augusto de quem és figura: + +Em quanto os que me vencem em ventura + Abrindo o antigo cofre chapeado, + Mandão de prata, e d'ouro recamado + Entretecer a rica vestidura: + +Eu que não tenho desta louçania, + De outra sem pejo sahirei composto, + Que não cede á mais fina pedraria. + +São ternissimas lagrimas de gosto: + Nem infama o triunfo deste dia + Quem põe por gala o coração no rosto. + + + + +_Descripção de Badajoz._ + + +SONETO XV. + + +Passei o Rio, que tornou atraz, + Se acaso he certo o que Camões nos diz, + Em cuja ponte hum bando de Aguazis + Registrão tudo quanto a gente traz. + +Segue-se hum largo, em frente delle jaz + Longa fileira de baiucas vís: + Cigarro acezo, fumo no nariz, + He como a companhia alli se faz. + +A cidade por dentro he fraca rez, + As moças põem mantilhas, e andão sós, + Tem boa cara; mas não tem bons pés. + +Isto, coifas de prata, e de retroz, + E a cada canto hum sórdido Marquez, + Foi tudo quanto vi em Badajoz. + + + + +_Á Serenissima Princeza entrando no banho._ + + +SONETO XVI. + + +Nynfas do Téjo já por mim cantadas, + Nossa Augusta Princeza esta presente; + Pedí-lhe, que honre a placida corrente, + E as agoas ficaráõ mais prateadas. + +Diante de seus pés ajoelhadas + Em justo acatamento reverente, + Serenem vossas mãos a clara enchente, + E as frias agoas corrão temperadas. + +Sobre as ondas as frentes levantando, + Ao tempo que as douradas tranças bellas + Brandamente lhe fordes enxugando, + +Dizei-lhe, que sustento Irmãas donzellas, + Outras viuvas; e ide-lhe lembrando, + Que o bem que me fizer he feito a ellas. + + + + +_Levantando-se o Author da meza de hum Grande por serem horas de ir para +a Aula._ + + +SONETO XVII. + + +Não tomando em desprezo o escuro estado + Em que me poz Fortuna, e Natureza, + Olhastes sem horror minha baixeza, + E fizestes sentar-me ao vosso lado. + +Então de ingrata obrigação chamado + Deixei á força a companhia, e a meza, + E inda cheio de ideias de grandeza + Vim dar por thema hum Verbo conjugado. + +Não sei com dous oppostos conformar-me; + Soffrem-me os Grandes, sou taful, e moço, + Não sei a _Senhor Mestre_ costumar-me. + +Taes extremos, Senhor, unir não posso; + De dous genios não sou: mandai fechar-me + Ou a minha Aula, ou o Palacio vosso. + + + + +_Ao Excellentissimo Senhor Marquez de Penalva chegando o A. á quinta das +Lapas._ + + +SONETO XVIII. + + +Hum triste fatigado caminhante + Chega a Vós, Illustrissimo Penalva: + Co'a mão na espada a augusta Casa salva + Segundo as leis de cavalleiro andante. + +Sobre ronceiro fraco Rocinante, + Que pesca a dente encontradiça malva + Por duras rochas, por areia calva + Cem vezes pronta morte vio diante. + +Cuidando achar aqui melhores fados, + Aos pés de outro Rocim, por novo caso, + Quasi que vio seus dias acabados. + +Quiz correr junto a Vós sobre o Pegaso: + Cahio, e por sinal colheis regados + Do sangue seu os louros do Parnaso. + + + + +_Descripção de hum Peralta amaltezado._ + +SONETO XIX.[4] + + +Hum vulto cuja fórma desconsola + Pelo muito que mostra o pouco sizo, + E que pela pobreza do juizo + Mil trastes exquisitos desenrola: + +Chapeo que bem carrega hum mariola, + E que ainda aos sizudos causa rizo, + Cazaquinha cortada de improvizo, + Fivela que lhe vem de sola a sola: + +Espantalho que em praça nunca falta + Sem ter occupação nem má, nem boa, + Que apenas moça vê logo lhe salta: + +Eis-aqui, sem medir qualquer pessoa, + Breve quadro de hum misero Peralta, + Que affecta de Maltez cá em Lisboa. + + + + +_Aos Annos do Serenissimo Principe Nosso Senhor._ + + +SONETO XX. + + +Foi este, Alto Senhor, o santo dia, + O Ceo o concedeo, o Ceo que he justo + Afflicto o Povo, posto em dôr, e em susto + Com lagrimas ardentes lho pedia. + +O fertil Ganges nas entranhas cria + Offertas para Vós, Principe Augusto, + E ajoelhado na praia o Povo adusto + Rico thesouro a vossos pés envia. + +Ao Reino tecereis dias dourados, + Sem precizar que os Fastos Lusitanos + Vos contem as acções dos Reis passados. + +Ponde os olhos nos vivos Soberanos, + Estudai-lhe as doutrinas, e os cuidados, + E a patria acclamará os vossos Annos. + + + + +_A hum Leigo Arrabido vesgo, despedido da Meza do S. C. P. Silva, por +tomar a melhor pera da Meza. He o de que se trata nas Decimas, Tom. II. +pag. 178_, Ferio sacrilega espada. + + +SONETO XXI. + + +O vesgo monstro que co'a gente ralha + E de manhãa a todos atravessa, + A cuja hirsuta sordida cabeça + Nunca chegou juizo, nem navalha; + +Que os gazeos olhos pela meza espalha + Por ver se ha mais comer que tire, ou peça, + Entrando nelle com tal fome, e pressa + Qual faminto frizão em branda palha; + +Por crimes de alta gula, e pouco sizo, + De meza bem servida, mas severa, + Foi n'hum dia lançado de improviso. + +Hoje chorando o seu perdão espera: + Perdêrão dous glotões o Paraiso, + O antigo por maçãa, este por pera. + + + + +_Aos toucados altos._ + + +SONETO XXII.[5] + + +Foi ao Manique hum homem accusado + Por contrabandos ter; elle sciente + Chama a quadrilha, corre diligente, + Entra, busca, e não acha o Malsinado. + +Acha a mulher, que tinha por toucado + A torre de Belem: ella que o sente, + Banhada em pranto, desmaiada a frente, + Prostra por terra o corpo delicado. + +C'o boléo se esbandalha a mata espessa, + Sahem della esguiões, cassas lavradas, + E de belbute trinta e huma peça, + +Fivelas, espadins, rendas bordadas: + Até tinha escondido na cabeça + O marido, e tres arcas encouradas. + + + + +_Mettendo a ridiculo humas contradanças_. + + +SONETO XXIII. + + +N'huma tremula sala mal armada + Com placas velhas, e papel pintado; + Clamava já o povo alvoroçado + Que fosse a Favorita começada. + +Guincha em venal rabeca desgrudada + De velho musico o arco estuporado: + Cadeia, grita hum muito suado, + Olhem que vai a contradança errada. + +Nervoso chispo, saborosas frutas + He fazenda que alli nunca governa: + Aquellas bocas andão sempre enxutas. + +Nunca mais alli tórno a fazer perna: + Quanto mais val o ir com quatro trutas + Fazer huma função n'huma taberna. + + + + +_Por occasião de estranharem ao Author hum sonho que a ninguem +offendia._ + + +SONETO XXIV. + + +Atiça, ó moço, a moribunda chama + Dessa faminta, sordida candêa, + E encostado á parede cabecêa, + Posta de guarda ao pé da minha cama. + +Se o sono, que em meus olhos se derrama, + E os languidos sentidos me encadêa, + Tentar com sonhos esta pobre idéa, + Em altos gritos por meu nome chama: + +Assenta-me na cara essas mãos frias: + Pois ves o fructo, que sonhando tiro, + Corta em raiz traidores fantasias. + +Contra os sonhos desde hoje me conspiro: + Se ao primeiro me dizem heresias, + Em sonhando outros pregão-me hum tiro! + + + + +_Á moda dos chapeos maiores da marca._ + + +SONETO XXV. + + +Amigos, e Senhor meu, de França, ou Malta + Hum chapeo mande vir a toda a pressa; + A cópa que me ajuste na cabeça; + Mas as abas na fórma a mais peralta. + +A detraz que me fique muito alta, + A prezilha, e botão pequena peça: + Estimarei que disto não se esqueça; + Que a demora me faz bastante falta. + +Gostei muito do invento, he bem traçado, + Porque vi no Loreto hum certo dia + Muito povo a correr para o Chiado, + +Para ver hum Senhor, quem tal diria: + C'hum chapeo de tal fórma desmarcado + Que nem a gente a pé passar podia. + + + + +_Ás fivelas chamadas a la Chartre._ + + +SONETO XXVI. + + +Oh quantos Mexicanos patacões, + Mareados talheres já sem par, + Á tonta Avó o neto vai furtar + De mofentos decrepitos caixões: + +Fundidos em quadrados fivelões + Para á Chartres o neto passear, + Traz nos pés a baixela singular + Que podia servir em correões. + +Capitão Vento-Sul, rico Hollandez, + Que de prata subtil pequenos Ós + Servem só de fivelas nos teus pés, + +Vem admirar-te, vendo que entre nós + Traz o pobre peralta Portuguez + Por fivelas molduras de tremós. + + + + +_A huma Velha presumida._ + + +SONETO XXVII. + + +Debalde sobre a face encarquilhada + Pendendo louros bugres emprestados, + Dás inda ao louco amor teus vãos cuidados, + Em carmins enganosos confiada. + +Postiça formosura, em vão comprada, + Não torna atraz os annos apressados: + Nem alvos dentes de marfim talhados, + Tornão em nova a tremula queixada. + +De ti no mesmo tempo que do Gama + Cantou mil bens a Deosa Trombeteira, + A que os baixos Poetas chamão Fama: + +Porém sempre ficaste em boa esteira; + Porque, se já não prestas para dama, + Inda serves mui bem como terceira. + + + + +_Aos Annos de huma formosa Dama._ + + +SONETO XXVIII. + + +Deixai, Pastores, na montanha os gados, + Vinde ao sitio melhor desta campina + Beijar a mão á bella, e peregrina + Deidade tutelar dos nossos prados: + +Vinde offertar-lhe aos annos celebrados + O cravo, a roza, a angelica, a bonina; + E ao mais suave som da flauta fina + Decantar seus illustres predicados. + +Mas já a cercão pastores, e pastoras; + Huma lhe beija a mão, outra o vestido; + Elles a coroão de vistosas flores, + +E em doces vozes todo o rancho unido + Canta que ella he a Deosa dos Amores; + Pois tem no rosto as settas de Cupido. + + + + +_A Sua Alteza._ + + +SONETO XXIX. + + +Nesta cansada triste poesia + Vedes, Senhor, hum novo pertendente, + Que aborrece o que estima toda a gente, + Que he ter no mundo cargos, e valia. + +Sobre alto throno ha annos que regia + De docil povo turba obediente: + Mas quer antes sentar-se humildemente + N'hum banco da Real Secretaria; + +Qual modesto Capucho reverendo, + Que em fim de Guardiania triennal + Passa a Porteiro as chaves recebendo. + +Em mim conheço vocação igual: + E co'a mesma humildade hoje pertendo + Passar de Mestre a ser Official. + + + + +_A hum Padre Guardião._ + + +SONETO XXX. + + +Meu Padre Guardião, que exemplarmente + Regeis essa Capucha Sociedade, + Que munida do véo da Santidade + Passa como não passa a mais da gente: + +Vós que á força de braço omnipotente + Fazeis tremer do inferno a potestade, + E aos exorcismos só de hum vosso Frade + Se explica o Demo em Portuguez corrente: + +Logo que dessa estola o forte escudo + Buscar esbelta Nynfa, que atacada + Seja d'algum Demonio surdo, ou mudo, + +Mandai dos Márques conte a trapalhada:[6] + Pois só elle, que foi o que urdio tudo, + Sabe quem commetteo a velhacada. + + + + +_Em louvor de Caporalini, Actor do Theatro de S. Carlos._ + + +SONETO XXXI. + + +No grão Theatro vejo sempre enchentes: + As cans annosas, os cabellos louros, + Illustradas nações, barbaros Mouros, + Todos da tua voz ficão pendentes. + +Que importa que não deixem descendentes + Teus ex-virís deshabitados couros; + Que importa que tu roubes aos vindouros + Se enriqueces, se encantas os presentes? + +Não he traição ao sexo feminino; + He só razão quem te elogia, e preza, + Comico Mestre, Musico divino. + +Oh nação de harmonia, e de crueza! + O teu ferro nem sempre he assassino: + Não insultou, honrou a natureza. + + + + +_Achando-se o Author prezo dos bellos olhos de Marcia._ + + +SONETO XXXII. + + +Eu vi a Marcia bella, vi Cupido + Com arco, settas, e cruel aljava, + Com impeto sahir de donde estava, + E voar para mim enfurecido. + +Fugí; bradei: porém não fui ouvido; + E o tyranno Rapaz que me buscava, + Com huma, e outra setta me atirava, + Até de todo me deixar rendido. + +Atou-me as mãos com asperas cadeias, + Sem o mover o sangue que corria + Do roto coração, das rotas veias. + +Antes, com frio rizo me dizia: + «E não sabias tu, que Amor receias, + Que nos olhos de Marcia Amor vivia?» + + + + +_Sobre a Ingratidão de huma Dama._ + + +SONETO XXXIII. + + +Coração, de que gemes, de que choras? + Que parece tens odio á propria vida! + Se perdeste teu bem, foi mão perdida, + Com te pôr a morrer nada melhoras. + +Eu bem sei que a belleza a quem adoras, + Foi-te ingrata, e cruel, foi fementida; + Mas que esperavas tu, se he lei sabida + O mudar-se a Mulher todas as horas. + +Socega, Coração, deixa a tristeza; + Quem te mandou querer com fé tão pura, + Quem te mandou mostrar tanta firmeza! + +Erraste, tem paciencia, em fim procura + Não fazer por Mulher jámais fineza, + Acharás mais amor, maior ventura. + + + + +CANTIGAS + +_Feitas nas Caldas com o Estribilho:_ + + + _Negras tristezas, + Adeos, adeos._ + +Não ha nas Caldas +Melancolia, +Dão alegria +Os ares seus. + _Negras tristezas, + Adeos, adeos._ + +Sara-me a terra, +E não as agoas: +Não curão magoas +Os banhos seus. + _Negras &c._ + +Huns lindos olhos, +Que o dia aclárão, +Afugentárão +Os males meus. + _Negras &c._ + +Brandos sorrizos +A furto dados +Fazem dourados +Os dias meus. + _Negras &c._ + +Se entra nos banhos +Marilia bella, +Entra com ella +O cego Deos. + _Negras &c._ + +Alli tempéra +Nas agoas puras +As pontas duras +Dos ferros seus. + _Negras &c._ + +Enxuga as tranças +Da Nynfa loura, +E nellas doura +Os farpões seus. + _Negras &c._ + +Caldas ditosas +Teu nome cresça, +Alça a cabeça +Até os Ceos. + _Negras &c._ + +O pobre Anfriso, +Que estas calçadas +Deixou regadas +Dos olhos seus, + _Negras &c._ + +Hoje em triunfo +De seus pezares +Levanta altares +De Gnido ao Deos. + _Negras &c._ + + + + +ENDECHAS. + + + +No sacro Templo + Que Amor habita + Minha alma afflicta + Fui immolar. + +Na ruiva flamma + Que silva ardendo + A mão detendo + Jurei-te amar. + +Fumoso sangue, + Mal findo o voto, + Do peito roto + Vi gotejar. + +D'alma opprimida + A insana pena + Causou-lhe Elena + Que soube amar. + +Nos fidos peitos + O morto lume + Negro Ciume + Hia ateiar. + +Vulcano féro + Ante Mavorte + O rival forte + Não póde olhar. + +Dos desprezados, + Que soffrem tanto, + O rouco pranto + Feria o ar. + +Aqui jaz Delio + Terno, e vencido. + Sem de Cupido + Premio alcançar: + +Que Dafne esquiva, + Com triste agouro, + Em verde louro + Vio transformar. + +Pan segue a Nynfa, + Que tanto adora; + Seu fado chora + Vendo-a mudar. + +De tenras cannas + Amor lhe manda, + Que a frauta branda + Vá fabricar. + +Cercada Dido + De angustias fêas, + Ah falso Eneas! + Se ouve bradar. + +Seus lindos olhos + Frouxos erravão; + Em vão buscavão + O vago mar. + +Subtís enredos + De acerbo dano + Bifronte engano + Eu vi tramar. + +Por Thisbe bella, + Que busca errante, + Pyramo amante + Vai acabar. + +Conhece a amada + O infeliz erro, + Ousa impio ferro + Em si cravar. + +Serve-lhe a terra + De duro leito, + Vê-se-lhe o peito + Inda arquejar: + +As pardas sombras; + Que Amor mistura, + Na Estyge escura + Vão aportar: + +Desenrugando + A crespa fronte, + Lédo Acheronte + As foi buscar. + +E eu combatido + De mil pezares + Vou pelos ares + A suspirar. + +Sei ser-te amante + Sem premios vivo, + Este o motivo + Do meu penar. + +Vês mil exemplos, + E jámais pensas + Que póde offensas + Amor vingar. + +Ah! sê piedosa: + As cruas penas + Torne serenas + Teu brando olhar. + + + + +_Em dia dos annos do Illustrissimo Principal Almeida._ + + +Por mais que esse sangue honrado +Vos inspire os pondonores +De merecer os louvores +E não querer ser louvado, +Este dia he consagrado +A elogios soberanos: +Sem vir enfeitar enganos +Com mão venal, e fingida, +Em contar a minha vida +Louvarei os vossos annos. + +Tecêrão-me em baixo estado +A Fortuna, e a Natureza: +Entre os braços da Pobreza +Fui desde o berço lançado. +Pelas vossas mãos alçado +Quebrei da desgraça o fio: + +Se da crua fome, e frio +Livro o Pai, livro os Irmãos, +He obra das vossas mãos, +E faz o vosso elogio.[7] + + + + +MOTE. + + +_Olhos de Lize, olhos bellos, +Olhos para mim fataes, +Que hum vosso girar sómente +Me faz temer mil rivaes._ + + + + +GLOZA. + + +Da alva Lize os brancos dentes, +O rosto affavel, e brando, +A boca, donde em fallando +Ficamos todos pendentes, +Nos lizos hombros patentes +Soltos os longos cabellos +Não são causa dos desvellos, +Nem das ancias em que vivo: +Vós sois, vós sois o motivo, +Olhos de Lize, olhos bellos. + +Vós sois os meus vencedores, +E sois gloria do vencido: +De vós me atira Cupido +Mil farpados passadores. +Se vence o Deus dos Amores, +Vós as armas lhe emprestais. +Que ternos saudosos ais, +Que pranto em vão derramado, +Me não tendes vós custado, +Olhos para mim fataes! + +Se o rosto ao Ceo levantado +Alçais as pestanas pretas, +Logo de brilhantes setas +Vejo todo o ar cruzado. +Cupido, que tem jurado +Crua guerra á humana gente, +Das nuas costas pendente +Dura aljava, e passadores, +Fará conquistas menores +Que hum vosso girar sómente. + +Quando desses claros lumes +Sahem as chammas brilhantes; +De mil rendidos amantes +Ouço saudosos queixumes. +Não chameis loucos ciumes, +Ó Lize, os que em mim causaes: +Do poder de huns olhos taes +Quem ha que livrar-se possa, +Se a menor perfeição vossa +Me faz temer mil rivaes? + + + + +MOTE. + + +_Tu teimas em desprezar-me, +Eu teimo em te idolatrar, +Juntarei teima com teima, +Teimando te hei de abrandar._ + + + + +GLOZA. + + +De ser comigo piedosa +Não dás, Marilia, esperanças: +Inda, cruel, não te cansas +De ser esquiva, e teimosa! +Que importa, ó Ninfa formosa, +Vir neste pégo arriscar-me, +De mergulho ao mar lançar-me, +E os livres peixes colher-te; +Se quanto eu teimo em querer-te, +Tu teimas em desprezar-me? + +C'os olhos ao Ceo erguidos, +Ou postos nos longos mares, +Por ti encho os vagos ares +De mil saudosos gemidos: +Nos rochedos desabridos, +Que em vão bate o rouco mar, +Devorando o meu pezar, +Já que de ouvi-lo te cansas, +Sem premio, sem esperanças +Eu teimo em te idolatrar. + +Teimando, se mal não penso, +Hei de abrandar teus rigores; +Porque assim como em amores, +Tambem em teimas te venço. +Juro pelo Sol intenso, +Que a prumo estas rochas queima, +Que mais do que eu ninguem teima. +São as causas desiguais: +Mas por vêr quem teima mais, +Juntarei teima com teima. + +Se alva fonte murmurando +Gasta em torno os duros seixos, +E vai dos annosos freixos +As raizes escarnando: +Se duras rochas quebrando +Vai c'o tempo o bravo mar: +Se bronzes póde cortar +Mordente lima teimosa: +Tambem eu, Ninfa formosa, +Teimando te hei de abrandar. + + + + +MOTE. + + +_Não sei que quer a desgraça, +Que atraz de mim corre tanto: +Hei de parar, e mostrar-lhe +Que de ve-la não me espanto._ + + + + +GLOZA. + + +Não sei que outro mal profundo +Inda a desgraça me guarda, +Se me tirou em Anarda +O que tem de bom o mundo! +Foi este golpe tão fundo, +Que outro não tem que me faça: +Se em levar-me o gesto, e a graça +De huns olhos, por quem vivia, +Me fez quanto mal podia, +Não sei que quer a desgraça! + +Debalde outros gostos pintas, +Amor, para cativar-me: +Já não tornas a enganar-me, +Por mais, e mais que me mintas. +Inda tens as settas tintas, +Inda enxugo inutil pranto: +Ao teu venenoso encanto +Novas victimas procura; +E dá-lhe dessa ventura, +Que atraz de mim corre tanto. + +Fizeste, ó desgraça, hum erro +Em vires do Amor valer-te: +Como ha de elle socorrer-te, +Se eu já conheço o seu ferro? +Á sua voz o ouvido cerro: +Custou-me sangue o escapar-lhe: +E para melhor provar-lhe, +Que eu já sou dos seus cortados, +Sinaes inda mal fechados +Hei de parar, e mostrar-lhe. + +Tu só me déste hum desgosto, +Outro já não pódes dar-me: +Já agora sempre has de achar-me +A mesma alma, e o mesmo rosto, +Se em ferros por ti for posto, +Verás que ao som delles canto; +Se envolta em sanguineo manto +Me pões a morte diante, +Notarás no meu semblante, +Que de ve-la não me espanto. + + + + +MOTE. + +_Os meus olhos a chorar._ + + + + +GLOZA. + + +Pranto inutil são os meios +Das pessoas desgraçadas: +Pagai, lagrimas cansadas, +Pagai delictos alheios. +Já que de ouro cofres cheios +Nunca pude a Nize dar, +Já que devo em fim pagar +Culpa, que só tem meus fados, +Fiquem sempre condemnados +Os meus olhos a chorar. + + + + +MOTE. + +_Já disse tudo a Cupido._ + + + + +GLOZA. + + +Na vossa gentil figura +Mil dões natureza pôz: +Todos cuidão que sois vós +A Deosa da Formosura. +Venus mil vinganças jura, +Vendo o seu culto esquecido: +Vai de settas o ar ferido. +Senhora, andai cuidadosa, +Que a louca Deosa invejosa +Já disse tudo a Cupido. + + + + +MOTE. + +_Distancias, e saudades._ + + + + +GLOZA. + + +As nodosas carvalheiras, +Que assombrão hermas estradas; +Altas rochas, penduradas +Sobre medonhas ribeiras; +Duras, íngremes ladeiras, +Escuras concavidades; +São as tristes soledades, +A quem meu cansado peito +Conta o mal, que lhe tem feito +Distancias, e saudades. + + + + +MOTE. + + +_Cantarei alegres penas, +Que cercão meu coração._ + + + + +GLOZA. + + +Que eu cante alegre me ordenas? +Que cruel, que dura Lei! +Porém obedecerei, +Cantarei alegres penas: +Por todo o modo envenenas +A minha infeliz paixão; +Tu déras valor á acção +De eu affectar alegrias, +Se visses as agonias +Que cercão meu coração. + + + + +MOTE. + + +_Nada no mundo figura, +Quem não chega a ter amor._ + + + + +GLOZA. + + +Deos de Amor, sempre a ventura +De tuas mãos pendente vi: +Tu pódes tudo; sem ti +Nada no mundo figura. +Recolhe da terra dura +Fructo immenso o Lavrador; +Mas occulto dissabor +No fundo da alma lhe diz, +Que não chega a ser feliz +Quem não chega a ter amor. + + + + +MOTE. + + +_Amor para me prender +Os teus olhos me mostrou._ + + + + +GLOZA. + + +Mil bellezas me fez vêr, +Porque alguma me rendesse, +Não sabia o que fizesse +Amor, para me prender. +Mil laços me foi tecer, +Laços vãos, que em vão me armou; +Provadas settas tirou, +Que hia em veneno ensopando; +Porém só me rendi quando +Os teus olhos me mostrou. + + + + +MOTE. + + +_A minha felicidade._ + + + + +GLOZA. + + +Cesse, ó Nize, o teu rigor: +Esse odio injusto reprime: +Perdem o nome de crime +Os crimes que faz amor. +Torne ao seu antigo ardor +A nossa antiga amizade: +Adoça a rigoridade +Do penoso estado meu, +E faze c'hum riso teu +A minha felicidade. + + + + +MOTE. + + +_Quem adora occultamente +Sem declarar seu amor +Sente mil ancias no peito, +Vive cercado de dôr._ + + + + +GLOZA. + + +Por que barbara razão +Hum justo amor se reprime, +E ha de julgar-se por crime +Pôr na boca o coração? +Claros olhos ferir vão +Hum coração innocente; +Nem ao triste se consente +Dar sinaes de seu cuidado! +Deoses! quanto he desgraçado +Quem adora occultamente! + +No peito a chamma accendida +As entranhas lhe abrazou; +Mas da ingrata, que a ateou, +He crime ser percebida. +Se deita sangue a ferida +Á vista do matador, +Vejão de que nova dôr +Sente o triste a alma cortada, +Fallando co'a sua Amada +Sem declarar seu amor! + +Arde em hum fogo escondido: +Pois se conta o seu cuidado, +Além de ser desgraçado, +Chamão-lhe em cima atrevido. +Até quasi tem perdido +De olhar o livre direito; +Vive sempre contrafeito; +E entre mil contrarios posto, +Mostra alegria no rosto, +Sente mil ancias no peito. + +Busca alegres companhias, +Por curar o mal que sente: +Entra a ingrata de repente, +Despertão-se as cinzas frias. +Ternas Arias, Synfonias, +Tudo aviva o seu amor; +Mas dos fados o rigor +Tem sobre elle taes poderes, +Que no meio dos prazeres +Vive cercado de dôr. + + + + +MOTE. + + +_Nos olhos o amor explico +Que trago no coração; +Que não se póde occultar +No peito a doce paixão._ + + + + +GLOZA. + + +Mandas-me, ó Anarda, em vão +Os olhos meus reprimir; +Que elles sempre hão de seguir +O impulso do coração. +Sem querer sinaes daráõ +Do affecto, que não publíco: +Co'a boca, que mortifico, +Que importa que o não revele, +Se eu, por mais que me acautele, +Nos olhos o amor explico? + +Amor os faz descuidados: +Em vão, Anarda, os abaxo; +Pois dahi a pouco os acho +Outra vez nos teus pregados. +Trazellos mais castigados +Não está na minha mão: +Esta continua omissão, +Este erro, como tu dizes, +He hum fructo das raizes, +Que trago no coração. + +De que serve olhar a medo, +E fallar acautelado, +Se hum suspiro descuidado +Vem descobrir o segredo? +Este artificio, este enredo +Pouco poderá durar: +Meus olhos me hão de entregar; +Que hum amor na alma arraigado +He como hum fogo ateado, +Que se não póde occultar. + +Tempo, e arte tenho posto +Para disfarçar-me em tudo: +Mas sae-me perdido o estudo, +Em vendo o teu lindo rosto. +Disfarça-se mal hum gosto, +Que nasce do coração: +Tambem tu dessa lição +Talvez que bem não sahiras, +Se assim como eu sentiras +No peito a doce paixão: + + + + +MOTE. + + +_Por passos sem esperança, +Onde me leva o dezejo?_ + + + + +GLOZA. + + +Vão pensamento, descança, +Reconhece as forças minhas: +Tu não sabes, que caminhas +Por passos sem esperança? +Junto da corrente mansa +Me pões do dourado Tejo: +Cá de longe o sitio vejo: +Mas não devo hum passo dar, +Que eu não mereço chegar +Onde me leva o dezejo. + + + + +MOTE. + + +_Eu já tenho exp'rimentado +As minhas inclinações._ + + + + +GLOZA. + + +Que nunca teu doce agrado +De amizade simples passa, +Por minha grande desgraça +Eu já tenho exp'rimentado. +Antes odio declarado, +Que estas equivocações! +Quero as ternas espressões +De que as almas se alimentão: +Com menos não se contentão +As minhas inclinações. + + + + +_Ao mesmo Mote outra_ + + +GLOZA. + + +Senhora, eu tenho encontrado +No teu amor mil intrigas: +Não preciso que mo digas, +Eu já tenho exp'rimentado. +São premios do meu cuidado +Enganos, e ingratidões; +E por occultas razões +São, inda que mo não dizes, +Tão justas, como infelizes, +As minhas inclinações. + + + + +MOTE. + + +_Ouvi, ó Senhora, ouvi +Os suspiros de huma voz, +Que quando por vós suspira, +Aspira sómente a vós._ + + + + +GLOZA. + + +Chegou finalmente a hora +De saberdes quem vos ama: +Rebente esta antiga chama, +Que ardeo occulta atégora. +Amar callando, Senhora, +Assaz o fiz atéqui: +As ancias, que padeci, +Sejão finalmente expostas... +Ah! não me volteis as costas: +Ouví, ó Senhora, ouví. + +Perdei huma vez o horror +A ouvir ternos gemidos; +Nunca ferírão ouvidos +Brandas palavras de Amor. +Que hora, e que sitio melhor, +Do que este em que estamos sós? +Que culpa, que crime atroz +Temeis que ante vós farão +As queixas de hum coração, +Os suspiros de huma voz? + +Meu coração vos adora; +Sem saber o conquistais: +Estas ancias, estes ais +São obra vossa, ó Senhora. +Em segredo amou atégora; +De amor vive; amor respira; +E se vós, depondo a ira, +Lhe prometteis compaixão, +Que melhor occasião, +Que quando por vós suspira? + +Nelle, Senhora, não posso +Nutrir estranha paixão: +Em fim este coração +Foi feito para ser vosso: +Para encher-se de alvoroço +Basta ouvir a vossa voz: +Passa indiff'rente, e veloz +Por mil bellezas, que admira, +Nada o enche, a nada aspira, +Aspira sómente a vós. + + + + +MOTE. + + +_Hei de amar-te até á morte, +Quer tu me queiras, quer não: +Serei no amor desgraçado; +Mas com discreta eleição._ + + + + +GLOZA. + + +Não fujo, pódes rasgar +Este peito desgraçado; +Que o teu gesto retratado +Has de, cruel, nelle achar. +Posto que veja roubar +Á Parca a tesoura forte, +E dar-me na vida córte, +Inda ouvirás, que te digo: +«Ingrata, não me desdigo, +Hei de amar-te até á morte.» + +Vem, Amor, auctorizar +O sagrado juramento +De até ao final alento +Firmemente te adorar. +De joelhos, no Altar +Co'a devida submissão +Resoluto ponho a mão; +Juro nas settas tremendas +De te amar, quer tu me offendas, +Quer tu me queiras, quer não. + +Amor co'as mãos apressadas +Ergue dos olhos a venda, +E pasma da jura horrenda, +Que assusta as aras sagradas. +«Eis as correntes pezadas, +Que te esperão,» diz irado. +Eu as acceito humilhado, +«Não, ó Deos, não esmoreço +C'os ferros, posto conheço +Serei no amor desgraçado.» + +A Liberdade ultrajada +Lança-me a revez a vista; +Risca-me da honrada lista, +E chama-me escravo irada. +Não crimines indignada +Esta nobre sujeição. +Arrastro o ferreo grilhão; +Mas por quem? Por Nize bella. +Ah! sim te deixo por ella; +Mas com discreta eleição. + + + + +MOTE. + +_Toda a Mulher he perjura._ + + + + +GLOZA. + + +Triste solitario freixo, +Mais triste do que eras d'antes, +Conta, conta aos caminhantes +A razão com que eu me queixo. +Em teu tronco escrita deixo +Minha funesta aventura: +Reconta esta historia dura, +Por que veja quem a ler, +Que depois de Armida o ser +Toda a Mulher he perjura. + + + + +_Ao Illustrissimo, e Excellentissimo Senhor Marquez de Penalva._ + + +Illustrissimo Penalva, +Já que me dais protecção, +Sentido na occasião, +Porque bem sabeis que he calva. +Se o vosso braço me salva +Das crianças pertinazes, +Se a poder das vossas frazes +Meu duro grilhão se corta, +Por triunfo á vossa porta +Pendurarei dous rapazes. + + + + +MOTE. + +_De mil suspiros que eu dou._ + + + + +GLOZA. + + +Parto em fim desesperado, +E sem que o motivo conte +Vou a estranho horizonte +Chorar o meu triste fado. +Já vejo o laço quebrado +Que a ventura me forjou; +E como Nize o quebrou, +Conservando os olhos seccos, +Ao menos não ouça os éccos +De mil suspiros que eu dou. + + + + +_Ao Illustrissimo, e Excellentissimo Senhor Marquez de Penalva._ + + +Hontem soube o que podia +Estilo suave, e brando: +E quanto podeis fallando +Eu o vi na Academia. +Nas almas fogo accendia +Vossa discreta Oração. +Sobre a minha pertensão +Vos peço que assim oreis, +E que ao Principe falleis +Como fallais á Nação. + + + + +_Ao Illustrissimo, e Excellentissimo Senhor Conde de Villa Verde._ + + +Mandais-me que os versos traga +Que na almofada fallárão; +Porque os outros vos ficárão +Nas mãos da Illustre Arriaga. +Essa honra he huma paga, +Que elles nunca merecêrão: +Se os seus olhos se puzerão +Sobre tão baixa escritura, +Devo essa grande ventura +Ás illustres mãos que os dérão. + +Mas he do meu triste fado +Tão teimosa a crueldade, +Que até na felicidade +Vejo que sou desgraçado: +Pois devieis cautelado +Segurar a occasião: +Fingindo que errava a mão, +Entre mil papeis diversos +Podieis em vez dos Versos +Dar-lhe a minha petição. + + + + +_Ao Illustrissimo, e Excellentissimo Senhor Conde de Villa Verde._ + + +Assisti á Sagração, +Acto, Senhor, dos mais serios, +Que envolve augustos Mysterios +Da nossa Religião. +Lembrou-me crismar-me então +Por ser acto Episcopal; +Por permittir acção tal +Que outro appellido se tome; +Lembrou-me trocar o nome +De Mestre em Official. + +Busquei as horas melhores, +E encommendei-me á fortuna; +Cheguei, e para a Tribuna +Tinhão já ido os Senhores. +Pelos frios corredores +O bom Lima me encaminha; +Foi-me pôr na tal portinha +Onde os pertendentes vão +Pôr os joelhos no chão, +E os olhos na Rainha. + +Co'a cabeça estopetada, +Como quem dorme sem cama, +Roto fumo, e alguma lama +Sobre a casaca encarnada, +Vi o tal que grita, e brada, +Quer na Sala, quer na rua. +Por mais que trabalha, e sua, +Guarda-roupa he louca idéa: +Como ha de guardar a alhêa +Quem trata tão mal da sua? + +Ao pé a figura rara +Do pardo Cardeal astuto, +Que para cumprir o luto +Lhe basta mostrar a cara. +Dos dous na justiça clara +Grandes fundamentos acho; +Mas fujo mais para baixo, +E dispenso amigos taes, +Por não ficarmos iguaes +Na justiça, e no despacho. + + + + +_Ao Illustrissimo, e Excellentissimo Senhor Conde de Villa Verde, quando +morreo o Pai do Author._ + + +Peito de tanta bondade +De bom Pai o nome preza; +Levou-me hum a Natureza; +Mas deixou-me outro a piedade. +Amparai minha orfandade, +Porque a vossos pés me humilho: +Se não me abrís outro trilho, +Tal a minha estrada vai, +Que irão co'a vida do Pai +As esperanças do Filho. + + + + +_Vagando hum Officio que o A. pertendia._ + + +Jaz o defunto enterrado: +E agora saber intento, +Se a caso no testamento +Me ficou algum legado. +A vossos pés ajoelhado +Ponho em vós minha esperança: +Tenho Parte, e não descansa; +E nesta causa infeliz, +Se não fordes o juiz, +Perderei de certo a herança. + + + + +_Ao Doutor Joaquim Ignacio Seixas, Medico das Caldas._ + + +Meu Doutor, bem sei que quer +Que eu venha ás Ave-Marias; +Mas olhe: ha huns certos dias +Em que isto não póde ser. +Dona Antonia Xavier +(Que o Ceo por seculos guarde) +Faz annos, e eu esta tarde +Perco á Medicina o medo: +N'outros dias virei cedo; +Mas neste, ha de ser bem tarde. + + + + +DECIMA. + + +_A hum Prégador celebre (Fr. João Jacintho) estando jantando com o A._ + + +Se deste potente vinho +Não cerceias as rações, +Temo que nos teus Sermões +Allegues só São Martinho. +Se lhe dás largo caminho +Pelo teu fecundo peito +Seu fatal magico effeito +Deixando-te a tres de fundo, +Te fará ser o segundo +Que diga: _sempre me deito_.[8] + + + + +_Carta a Lourenço da Mota, Official da Secretaria._ + + +Amigo Lourenço: Se tu não sabes o que he não ter dinheiro, eu to +explico: Abaixo de Estupores he o maior mal do mundo, principalmente +para quem herdou Irmãas sem nenhum rendimento, e com muito bom estomago. + +Por vêr se aligeirava esta carga, empenhei-me em hum milhão para lhes +comprar tenças, e em outro para lhas assentar; mas como as não cobrão, +morrem de fome, e depois que são ricas, tornão-se a mim, e dellas +aprendo o que são lucros cessantes, e damnos emergentes. Cuidei que +tinha mettido huma lança em Africa, e vejo que a metti em mim mesmo; e +arde agora a vela pelas duas pontas. + +Tu que tens bom coração, e que estás ao pé do Senhor Marquez, que o tem +melhor, pede-lhe por caridade o despacho dessa petição. + +Não te assustem os tres annos; porque ainda mal que ouço que no de 93 +não tiverão cabimento. Pede-lhe que já que me livrou de crianças, me +livre tambem de velhas, gado ainda mais impertinente, e que se não +contenta com figuras de Rhetorica. Interessa-te pelo teu Nicoláo, Amigo, +e Collega, e sabe que, se lhe não mandas as Portarias, terás a vergonha +de o vêr andar pelas outras. Recomenda-se á tua efficacia. + + +O teu fiel Amigo + +_N. T._ + + + + + +Peço que mates a fome +A este meu povo immenso, +E peço-te, meu Lourenço, +Pelo Santo do teu Nome. +Por hum bom serviço tome +A paga das taes tencinhas. +Pois teve as carnes mesquinhas +Em vivas brazas vermelhas, +Em louvor das suas grelhas +Peço me livres das minhas. + +Com esta tenho enviado +Tres cartas, segundo penso, +Ao meu amigo Lourenço: +Nem reposta, nem mandado. +A dôr de que estou tomado +Sim desejo allivialla: +Mas a tua mais me aballa, +E parece mais intensa: +Pois eu sim fico sem Tença; +Porém tu estás sem falla. + + + + +_Ao Illustrissimo, e Excellentissimo Senhor Conde de Villa Verde, +andando o A. na pertenção de ser Official da Secretaria de Estado._ + + +DECIMA. + + +Senhor, venho perguntar +Quando ides ficar no Paço: +Para que á força de braço +Lanceis esta náo ao mar. +Sabe montes aplanar +Vossa discreta portia: +E pinta-me a fantasia, +A qual nem sempre me engana, +Que só na Vossa semana +Me ha de chegar o meu dia. + + + + +_Ao Juiz do Crime de Andaluz, dando-lhe este parte que estava para +casar, e mostrando-lhe versos, que fizera á Noiva. He o de que trata o +soneto 33, Tom. I. pag. 35._ + + +Manoel, muda o cuidado, +Abafa essa chamma ardente: +Não falla hum são a hum doente; +Falla-te outro exp'rimentado. + +Já servi ao Deos do engano, +Fórte com forças alheias. +Passei nas suas cadeias +Apoz hum anno outro anno. + +Prometteo-me alto favor; +Mas sabe, pois que começas, +Que o que tive das promessas +Forão lagrimas, e dôr. + +Não te deixes enganar +Do rosto brando, e sereno: +Tempéra em riso o veneno; +Afaga para matar. + +Com mil modos attractivos +Chama a cega, e incauta gente: +Lança-lhe dura corrente, +E escarnece dos cativos. + +Como trata os infelizes, +Que andou outr'ora amimando, +Meu peito to está mostrando +Nesta frescas cicatrizes. + +Até em cousas de peta +Quer mostrar o seu rigor: +Faz entrar n'hum prosador +A mania de poeta. + +Mas esses laços que trazes, +Dom desse Deos inimigo, +Talvez que sejão castigo +D'outras prizões, que tu fazes. + +Fere a muitos tua mão, +Inda que tanto a reprimes, +E vens a pagar teus crimes +Com pena de Talião. + + + + +MEMORIAL + + +_A Suas Altezas._ + + +Se os Principes nos são dados +Para geral beneficio, +E se o seu mais digno officio +He ouvir os desgraçados: + +Ouví minha desventura, +E consentí que esta vez +Se lastime a vossos pés +Hum queixoso da ventura. + +Sahirem humildes ais +De hum peito singelo, e aberto, +He o direito mais certo, +Quando os Juizes são tais. + +Fundadas sobre a verdade +As minhas supplicas vão: +Não peço por ambição, +Peço por necessidade. + +Em mim o cuidado cae +De Irmãs postas em pobreza: +A piedade, e a natureza +Me fazem Irmão, e Pae. + +Olhos em pranto banhados, +Que eu sem dôr não posso ver, +Vos fazem agora ler +Estes versos mal limados. + +São tristes Orfãs donzellas, +E merecem suas dôres +Que vós, Augustos Senhores, +Hajais piedade dellas. + +Por mais esforços que eu faça +Como hei de dar-lhe favor, +Se o seu triste bemfeitor +Vive na mesma desgraça? + +Da miseria as tirareis, +Se eu da miseria sahir: +Sobre muitos vai cahir +O favor que me fazeis. + +Vós, ó Augusta Princeza, +Em quem o Ceo quiz juntar +O melhor que pódem dar +A fortuna, a natureza, + +Tende dó de seu lamento; +E dai a mão favoravel +A hum sexo respeitavel, +De que vós sois ornamento. + +A petição que vos faço +Não he de facil indulto; +Para pouco, fora insulto +Valer-me do Vosso braço. + +Não he facil, mas he justa: +E será bem despachada, +Se huma vez apresentada +For por Vós á Irmã Augusta. + +Principes, tende piedade: +Ponde a meus queixumes pausa: +Protegei na minha causa +A causa da humanidade. + +O que de Tito se diz, +Hum Rei Vosso Avô dizia; +Chamava perdido o dia, +Se não fez alguem feliz. + +Motivo de tristes ais +Quaesquer mãos o pódem dar; +Más venturas emendar +Só pertence a mãos Reais. + +Dos homens, inda que ingratos, +Ouve Deos os rogos justos: +Vós, ó Principes Augustos, +Sois na terra os seus retratos. + +Mas já o tempo opportuno +Apressa as azas escassas, +E não devo ás mais desgraças +Ajuntar a de importuno. + +Acabe a triste escriptura, +Digna por tal de piedade: +Eu dei-lhe pranto, e verdade, +Vós podeis dar-lhe ventura. + + + + +_No dia dos Annos do Illustrissimo, e Excellentissimo Senhor Conde de +Villa Verde._ + + +Não venho dourar enganos; +A vida não he louvor; +Pois tambem vivem Tyrannos: +Eu venho, illustre Senhor +Louvar obras, e não annos. + +De homem commum não se exime +Quem não tem virtudes claras: +He pouco fugir do crime: +Consagrão-se as almas raras +A trabalho mais sublime; + +A trabalho heroico: e creio +Pelo provado aforismo, +Que em sãos Filosofos leio, +Que o verdadeiro heroismo +He fazer o bem alheio. + +Taes trabalhos honra dão +Á digna mão que os procura: +Não amo Heróes da ambição: +Buscão a sua ventura; +Vós buscais a da Nação. + +Serem por vós levantados +Os talentos esquecidos; +Do triste os ais desprezados +Serem aos Reaes Ouvidos +Pelas vossas mãos levados; + +De quem a vós se acolheo, +Remediar o queixume; +Ter como proprio o mal seu; +He este o vosso costume, +E o genio que o Ceo vos deo. + +E o Throno aos Povos propicio, +Que vigia em seu favor, +Fez-lhe o geral beneficio +De mandar, que em vós, Senhor, +O que he genio fosse Officio. + +Partio Officios pezados +Com quem os servisse bem: +São projectos acertados: +Quem do Throno o sangue tem, +Tenha tambem os cuidados. + +Dai aos gratos Lusitanos +Longo tempo Mão segura +Contra injustiças, e enganos; +E seja a sua ventura +O louvor dos vossos Annos. + +Mas, Senhor, moços Poetas +Vinguem meus esforços vãos: +Musas zombão de Jarretas: +Pedem-me as tremulas mãos, +Mais do que Lyra, muletas. + +Fogosos Vates emprehendão +Altos vôos neste dia: +Musas com Musas contendão: +Sáião Odes á porfia; +E queira Deos que se entendão. + + + + +QUINTILHAS + + +_Em louvor de huma Senhora._ + + +Lyra minha, rouca lyra, +Hoje afinada consente, +Que a tremula mão te fira: +Cante huma só vez contente +Quem por costume suspira. + +Louvemos Anarda bella; +Eu vejo aos astros subir +Meus versos em honra della, +E possa quem os ouvir +Adora-la antes de vê-la. + +Já lédo as vozes desato: +Ouve, ó Nynfa, os teus louvores: +Não pertendo ser-te grato +Traçando com vivas cores +Teu angelico retrato. + +Permitte, Anarda piedosa, +Que se farte o meu desejo +N'outra empreza mais gloriosa; +Que o menor dom que em ti vejo, +He o dom de ser formosa. + +Rubra boca, os olhos bellos, +Que brandamente movidos, +São de Amor agudos zelos; +Sobre alvo collo esparzídos +Louros ondados cabellos; + +Braço airoso, a mão de neve; +Proporcionada cintura; +Eis a tua copia breve: +Porém vôa a formosura +Nas azas do tempo leve. + +Outros bens mais duradouros +Não são á tua alma esquivos, +Bens que nos annos vindouros +Valem mais que huns olhos vivos, +Que huns soltos cabellos louros. + +A destruir a belleza +A curva velhice corre: +Nada conserva firmeza; +Só a virtude não morre: +Vence as leis da Natureza. + +Tu, que prezas a verdade; +Que tratas falsos sujeitos +Só com a côr de amizade, +E para os sinceros peitos +Mostras ter sinceridade; + +Tu, que os enganos deslizas; +Que sabes vencer desgostos; +Que a lisonja ufana pizas; +Que não vês sómente os rostos; +Que até corações divizas; + +Tu, que da seria prudencia +Segues os dictames puros; +Que tens amado a innocencia, +E nos conselhos maduros +Mostras de idade experiencia; + +Teu nome eterno ha de ser +Estampado entre as estrellas; +Has de as mais Nynfas vencer, +Que sómente em serem bellas +Fundão todo o seu poder. + +Amão a fofa vaidade; +Dos homens a seu sabor +Prendem a solta vontade: +Trazem nos olhos amor, +No coração falsidade. + +Muitas fingem desprezar +Finezas de amante rude; +Fingem os sabios amar: +Não o fazem por virtude, +Querem talentos mostrar. + +De que serve huma alma pura, +Se os pezados membros cobre +Rota humilde vestidura? +Nada val hum peito nobre +N'huma grosseira figura. + +Corpo esbelto, onde ajustado +Brilha, cheio de ouro immenso, +Curto fraque afrancezado; +Cheiroso, candido lenço; +O cabello apolvilhado; + +Jocosas palavras ôcas; +Estes os dons relevantes, +Que deixão de vencer poucas +Das que fingem ser amantes, +E não passão de ser loucas. + +Tu tens outro entendimento: +És sempre igual: não te vales +Das côres do fingimento: +Quer séria, quer rindo falles, +Não fundas torres no vento. + +Rís da baixa adulação, +Mal que os teus ouvidos toca +A contrafeita expressão: +Conheces na falsa boca +O enganoso coração. + +Ver sobre molle tapete, +Curvando as pernas, e os braços, +Peralta de alto topete, +Com destros miudos passos, +Dançar Francez minuete; + +Vê-lo nutrindo esperanças +Entre agradaveis parceiras, +Fazer rapidas mudanças, +Torcendo as mãos nas ligeiras +Buliçosas contradanças; + +Fervente rebeca ouvir, +Que infunde vivos prazeres, +Jámais te faz distrahir; +Pois antes dos Sabios queres +Sabios conceitos ouvir. + +Só te vejo attenta em quanto +Ouves palavras discretas; +As Musas estimas tanto, +Que até dos tristes Poetas +Te commove o triste pranto. + +Conheces seu duro mal; +Que sempre tributão fé +A coração desleal: +Que por isso em todos he +A tristeza natural. + +Que ás Nynfas endurecidas +Lhes não causão terno effeito; +Que triunfão das fingidas, +Guardando dentro do peito +Inda frescas as feridas. + +Porém já que ouzei fallar +De Amor nas sanguineas reixas, +Vou a lyra pendurar: +Não quero com minhas queixas +Teus louvores misturar. + +Tu dirás que não tens parte +No meu mal cruento, e fero; +Que vou tristezas lembrar-te; +Dirás que affligir-te quero, +Quando desejo louvar-te. + +Não te deves admirar: +Sei que em vão me estou queixando; +Mas quem sente o seu pezar, +Se principia cantando, +Sempre acaba a suspirar. + + + + +QUIXOTADA. + + +Espicaça esse animal, +Companheiro Sancho Pança, +Entremos em Portugal, +E vamos molhar a lança +A pró do triste Pombal. + +Poetas principiantes, +Já estou em circo raso: +Tambem Apollo he Cervantes, +Tambem cria no Parnaso +Seus cavalleiros andantes. + +Não vos chamo, ó sujo rancho, +Que até os versos errais; +Em tal sangue as mãos não mancho: +Para vós, e outros que taes +Sobeja a espada do Sancho. + +Sobre vós carrego a mão, +Sobre vós, ó folhas velhas, +Que dais n'hum homem no chão, +Sem vos lembrar, que entre ovelhas +He fraqueza ser leão. + +Essa boca enganadora, +Que he hoje da maldição, +Mil vezes se poz outra hora +Sobre a praguejada mão, +E lhe chamou bemfeitora. + +Pois já que vós sois assim, +Povo revoltoso, e ingrato, +Hoje castigar-vos vim: +Ireis pelo pó do gato, +Nem esp'reis quartel em mim. + +Santo Téjo, o curso enfreia, +E montando rochas duras +Torna atraz a clara veia: +Conta novas aventuras +Á formosa Dulcineia. + +Nova guerra o mundo veja, +Guerra em que pouco se arrisca: +Serão armas na peleja, +Provado fuzil, e isca, +Secca, espinhosa carqueja. + +Irmão Sancho, põe-te a pé, +Põe essas Rimas a prumo, +Principio á obra se dê, +Tolde o ar o negro fumo +Deste novo Auto da Fé. + +Queima essas Satyras frias, +Faltas de sizo, e conselho: +Queima prosas, e poesias: +Acabe o cansado velho +Em paz os seus tristes dias. + +Porém poupa sempre alguma +Das raras que tem sabor: +Das outras nem deixes huma, +Dessas que tudo he rancor, +E poesia nenhuma. + +Em tanto as armas pendura: +Mas se houver desassizados, +Que queirão guerra mais dura, +Da minha lança cortados +Descerão á sepultura. + +Já nuvens de fumo vejo: +Já chamma brilhante o arreda: +Já se farta o meu desejo; +Já da viva lavareda +Dá o clarão sobre o Tejo. + +Essas cinzas denegridas, +Que ao velho poupão mil magoas, +Leve-as o Téjo envolvidas, +Fiquem no fundo das aguas +Para sempre submergidas. + +Vês, Sancho, do nome meu +Como vôa a clara fama? +Nem viva alma appareceo +A apagar a voraz chamma, +Ninguem, ninguem se atreveo! + +Vês como ajuda o destino. +A hum bom cavalleiro andante? +Não precizei de aço fino, +Nem de pés de Rocinante, +Nem de elmo de Mambrino. + +Ó tu que alçaste a viseira +Forcejando os nervos velhos, +E para ver a fogueira +Limpaste os olhos vermelhos +Na felpuda cabelleira: + +Abaixa a proa huma vez, +Chega a Dulcinea bella, +E dize posto a seus pés: +«Formosissima Donzella, +Eu sou hum triste Marquez, + +«Que fugindo a hum povo inteiro, +A quem mettêra em furor +Minha privança, e dinheiro, +Vim achar mantenedor +Em teu nobre cavalleiro. + +«Disse este povo malvado, +Que eu tinha o reino extorquido; +Que era gatuno afamado, +E que em jogos de partido +Tinha com todos levado; + +«Que no Tabaco levava +Hum quinhão avantajado; +Que o Sabão não me escapava; +E que sem ser Deputado +Nas Companhias entrava. + +«Das minhas Leis murmuravão: +E os seus pequenos juizos +Tão pouco o ponto tocavão, +Que sempre me erão precisos +Assentos que as declaravão. + +«Té na lingoa sem motivo +Dérão criticos revezes: +Fiz nella estudo excessivo, +Bebi nos bons Portuguezes +_Monopolio_, e _respectivo_. + +«Disse mais o povo insano, +Que perdi de Roma o trilho; +Que fui Sultão soberano; +Que andei cazando meu filho +Segundo o rito Othomano. + +«Mas toda a maldade he sua: +Vêm riquezas, e palacio, +Comem-se de inveja crua: +São huns novos cães de Horacio +Ladrando debalde á lua. + +«Já se me dá pouco, ou nada +Da sua guerra pequena: +Tenho gente em campo armada, +Tenho Mendoça co'a penna, +E Dom Quixote co'a espada.» + +Esta falla, ou outra igual +Acabada, meu Marquez, +Faze rev'rencia formal, +E arrastra os gotozos pés +Para a villa do Pombal. + +Nella vive descansado, +Porque as aguas vão serenas; +Sempre Ministro de Estado, +Mandando cousas pequenas +No teu Lopes encostado. + +Junto á Estatua vil canalha +Desprende as lingoas tyrannas: +E se esta rude gentalha +Arrancar com mãos profanas +A carrancuda medalha: + +Armas em ouro gravadas +Ser-te-hão por mim erigidas, +E por ti mesmo traçadas, +Em sangue humano tingidas, +E com mil leis penduradas. + + + + +ODE + + +_Offerecida a SS. MAGESTADES, no dia da Acclamação da Rainha N. +Senhora._ + + +A vida escura em que a natureza, e a fortuna me lançárão tão longe dos +Reaes pés de VV. MAGESTADES; o medo justo de mandar huma voz fraca, e +desconhecida aos ouvidos de Reis, prenderião hoje a minha lingoa +temerosa, se o amor da Patria, e o gosto de a ver feliz, dando-me novo +espirito, me não puzessem na boca esta lingoagem, de huma alma singela, +estes versos sem arte dictados pelo amor respeitoso, e que em lugar de +enganosa, e enfeitada poesia, descobrem unicamente os sentimentos de hum +coração fiel, onde VV. MAGESTADES reinão Soberanamente. + +Neste Throno, a que poucos Monarcas sobem, tem a Nação Portugueza +collocado a VV. MAGESTADES por aquelle talento de agradar, dom do Ceo, +precioso, e raro na Sagrada Pessoa dos Reis, que querem (como VV. +MAGESTADES conseguírão) ser acclamados pela alegria publica, e pela +torrente de lagrimas, com que hum povo inteiro, transportado de gosto, +levantava ás estrellas os Augustos Nomes de seus novos Reis. Eu vi, +Senhores, este grande espectaculo; foi huma scena de ternura, que +arrancaria lagrimas ainda a hum coração que não fosse Portuguez. Vi +soldados velhos, que endurecidos ao frio, e á calma, queimados com o +fogo da polvora, annunciavão hum coração de ferro, banharem pela +primeira vez de lagrimas ternissimas aquelles honrados rostos, aquellas +cerradas feridas, que recebêrão pela Patria, e que tornarião a abrir com +gosto, se o felicissimo Reinado de VV. MAGESTADES não estivesse +destinado á paz, e á felicidade dos seus povos; era preciso ser +insensivel para que no meio de hum povo entregue á doce, e tumultuosa +desordem, que cansa a alegria excessiva, se conservasse a minha alma na +sua situação ordinaria; prendeo nella huma faisca do fogo sublime, que +eu vi atear nos corações Portuguezes: a alta idéa das Virtudes de VV. +MAGESTADES, a multidão de beneficios com que vemos dourados os dias do +seu faustissimo Reinado, huma longa serie de felicidades aberta no +futuro diante dos meus olhos, me levarião a través do povo, e das armas +ao Throno dos Reis, onde á face do Ceo, e dos homens me desentranhasse +em gritos de alegria, e mostrasse nesta especie de delirio, que o +coração de VV. MAGESTADES não trabalha para ingratos; mas o profundo, e +sagrado respeito, que pôde suffocar em mim este impeto de ternura, não +pôde fazer callar-me; levado da invencivel força do amor, e do +reconhecimento, me atrevo a pôr na Real presença de VV. MAGESTADES +grandes cousas em máos versos; ponho a simples verdade, ponho os votos +da Nação, e algumas das muitas acções de piedade com que VV. MAGESTADES +tem mandado contentes os que levão por valia a razão, ou as desgraças. +Se VV. MAGESTADES do alto do Throno se dignarem lançar os olhos sobre +estes humildes versos, reconheceráõ nelles não o Estro que faz Poetas, +mas o que faz vassallos amantes de seus Soberanos. Estro sublime, e que +deve tocar mais no coração dos Monarcas, do que o das Odes famosas de +Pindaro, e de Horacio, cheias da mais bella poesia; mas filhas da arte, +e da lisonja, e onde não fuzila aquella luz de verdade, que dará logo +nos Reaes olhos de VV. MAGESTADES, se eu tiver a incomparavel honra de +que este papel seja apresentado diante do Augusto, e Respeitavel Throno +dos Pais da Patria, dos Amigos, dos Bemfeitores, dos Reis adorados da +felicissima, e sempre fiel Nação Portugueza. + + + + +ODE. + + + Das virtudes guiados +Subí ao alto Throno, oh Reis Augustos; + Nem sempre esquivos fados +Se nos hão de mostrar surdos, e injustos: + Abrem vasto thesouro, +E nos mandão por Vós a Idade de Ouro. + + Do Rei aos Ceos erguido +O Reino, e o coração tendes herdado, + Benigno, enternecido, +De mil virtudes solidas dotado; + Por genio piedoso, +E digno em fim de tempo mais ditoso. + + Da Eterna Providencia +Os beneficos raios fuzilárão; + Já se estima a innocencia, +Já os tempos de Ferro se abrandárão, + Já vem o ar talhando +A Piedade, e a Justiça os braços dando. + + Com subita alegria +Tornai a ver os conhecidos lares, + Tornai a ver o dia, +Vós que habitastes horridos lugares, + Lugares deshumanos +Onde passastes dez, e outros dez annos. + + Do chão desentranhados +Vinde jurar os novos Reis felizes: + Nos pulsos descarnados +Mostrai ao Povo as roxas cicatrizes, + E os grilhões inda quentes +Na praça triunfal deixai pendentes. + + Que lagrimas levaste, +Patrio Téjo, na tua escura veia + Quando turvo passaste! +E as ondas, que quebravas sobre a areia, + Que cinzas que regárão! +Que triste sangue para o mar levárão! + + Mas torna, oh manso Téjo, +Torna a volver corrente prateada: + Já taes males não vejo: +E até já foge a nuvem carregada, + Que á triste Lusa terra +Promettia fatal, e pronta guerra. + + De pelouro violento +Não vê cahir o exangue companheiro; + E dorme ao som do vento +Em campo aberto o molle pegureiro; + O lavrador cantando +Em paz herdados campos vai cortando. + + Da sorte das batalhas +Livrai, Piedosos Reis, os Portuguezes; + Pendurem duras malhas, +E os temperados lucidos arnezes + Os ardidos soldados +Das lagrimosas Mãis em vão chamados. + + Que dias florecentes +Ao vosso fiel povo preparastes! + Quando com mãos prudentes +O pezo dos negocios espalhastes + Sobre os hombros robustos +De Ministros inteiros, sabios, justos. + + Gemêo maniatado +Longo tempo o infeliz merecimento; + Mas já, o collo alçado, +Sacode o negro pó do esquecimento, + E a virtude innocente +De illustres palmas lhe coroa a frente. + + Já vingadas seráõ +Do vil tutor as timidas donzellas; + Já não erguem em vão +As mãos, e os tristes olhos ás estrellas; + Nua de falsidade +Aos ouvidos dos Reis chega a verdade. + + Mil louvores lhe cantão, +O limpo coração pondo no rosto: + E n'alma lhe levantão +Novo Throno, sobre ella melhor posto, + Que entre espessas falanges, +Que sobre ouro, ou perolas do Ganges. + + Novos Reis Soberanos, +Que hoje as rédeas tomais do Reino vosso, + Os Fastos Lusitanos +Dirão de Vós o que eu dizer não posso: + Vossa Augusta Memoria +Abrirá largo campo á longa Historia. + + Sem trabalho podeis +Fazer feliz a gente Portugueza, + Seguindo as santas leis, +Que n'alma vos gravou a Natureza, + A rara humanidade +A incorrupta Justiça, a sã Verdade. + + + + +_No dia dos Annos do Illustrissimo, e Excellentissimo Senhor Marquez de +Angeja._ + + +ODE + + +A rouca Lyra, Musa, temperemos, + Cordas de ouro lhe ponho: +O triste Boticario em paz deixemos, + E o Gamaõ enfadonho; +Inspira-me huma vez sonoros hinos, +Que Apollo julgue deste dia dinos. + +Ensina-me a louvar do Illustre Angeja + Talentos sup'riores; +Que soffreo os assaltos d'alta inveja, + Como soffre os louvores; +Cuja alma não conhece vís mudanças, +Ou corrão tempestades, ou bonanças. + +Sem temor estalar o raio ouvia, + Que ao perto fuzilava; +O recto coração tendo por guia, + Seguro caminhava; +Em vão medonha tempestade freme, +Seu grande coração só crimes teme. + +Ao pé do Throno Augusto em fim chamado + Venceo a crua inveja; +Quem no Conselho o poz dos Reis ao lado + Não foi sangue de Angeja, +Não foi de Hespanha antigo Filhamento, +Foi sã justiça, foi merecimento. + +Não revolvo a Real Genealogia + De Henrique, e de Fernando; +Os sãos louvores deste grande dia + De ti mesmo tirando, +Só louvarei com paternaes façanhas +Quem seu nome dever a mãos estranhas. + +Vias correr teus dias socegados + Nutrindo esse alto esp'rito +No que ficou dos seculos dourados + Em prosa, ou verso escrito; +Recolhendo na próvida memoria +De estranhos Reis, e de teus Reis a historia. + +Outras vezes rasgando á vasta terra + Seu peito cavernoso, +Ou descobrindo quanto o mar encerra + De raro, e precioso, +Profundavas com seria madureza +Os segredos da occulta natureza. + +De tão doces estudos arrancado + Por mais altos destinos, +Da Lusa gente, e de seus Reis chamado + A empregos de ti dinos, +Sacrificas aos novos Soberanos +De maduro saber teus cheios annos. + +Permitta o Ceo que em taes trabalhos vivas + Claro nome estendendo; +E que as douradas horas fugitivas, + As azas encolhendo, +Fação que o tempo demorando o passo +Sinta a fouce cahir do frouxo braço. + +Que cem vezes raiando este bom dia + O Oriente esclareça; +Que imperturbavel solida alegria + Com elle te amanheça; +Que em naturaes ternissimos affetos +A mão te beijem Netos de teus Netos. + +Mas deixa, ó Musa, a frouxa poesia + Para assumptos menores; +Não profanem de Angeja a gloria, e o dia + Importunos louvores; +Pois inda que soubesses dirigi-los, +Quer merece-los; mas não quer ouvi-los. + +Engana-te o dezejo, que te inspira, + Reconhece o teu erro; +Se vês, que só ajustão nesta lyra + Negras cordas de ferro, +Não torças, não, teu misero fadario: +Torna ao Gamão, e ao triste Boticario. + + + + +ODE + + +_Ao Senhor D. Domingos de Assís Mascarenhas._ + + + + Clio huma setta tira +Da aljava de ouro, que pelo ar vazio + Longe correndo fira +Junto ao Mondego saudoso rio: +Alli em torno ás suas margens vôe, +E por feliz tres vezes o apregôe. + + As claras aguas regão +Plantas bellas, fecundas, generosas: + Com desvelo se empregão +Em cultiva-las mãos industriosas: +Quão doces fructos, quão cheirosas flores +De taes aguas, taes plantas, taes cultores: + + Ergue, illustre Mondego, +Ergue tua cabeça sobre as agoas: + Assás no fundo pégo +Choraste hum tempo tuas tristes magoas. +Olha teus campos como esmalta agora +Em formosa união Pomona, e Flora. + + Ó seio de candura, +Mascarenhas, Tu és o alvo, a méta, + Que anciosa procura +Da minha Clio a empennada setta. +Tu na alma paz, na sanguinosa guerra +Pódes ornar a tua, e alheia terra. + + Mas boa sorte mude +Meu dito, e a outra parte te não chame + E onde tanta virtude +Tem a raiz, os fructos seus derrame; +Nem menos tempo o Sol illustre, e aquente +A quem o vio desde o seu claro oriente. + + Porém, se he ordenado +Da Providencia sabia, santa, eterna, + Christão peito humilhado +Adora o Summo Ser que assim governa: +Antes se goza, e dentro n'alma estima +Que Astro tão bello alegre mais d'hum clima. + + Entre tanto diffunde +Na Patria tua luz copiosa, e clara; + Que, se logo confunde +Os fracos olhos, depois guia, e aclara. +Arda ante incertos pés (e gritem vicios) +Alta tocha, que mostre os precipicios. + + Constancia! que guardado +Está o galardão a teus suores, + Onde em cume estrellado +Vibra o Templo da Gloria resplandores. +Dalli olhos não tires; que ao trabalho +He doce viração, he fresco orvalho. + + Tu, e esse Coro illustre +De mancebos Heróes, que se obrigárão + A dar ao mundo lustre, +Quando o alto sangue dos Avós herdárão; +Concebei novo fogo, e novo brio +Ouvindo onde vos chama a minha Clio. + + Oh, se alguem me puzesse +Nas margens do Mondego claro, e frio: + Certo me não vencesse +Cysne de Dirce sobre o patrio rio. +Alli tão docemente vos cantára, +Que a ouvir-me feras, montes abalára. + + Mas engenho ir recusa +Onde ir Amor, e Gratidão me incita: + Nescia, se o esperas, Musa! +Não corre lasso pé 'strada infinita. +Almas illustres, havereis sómente +O dom sincero de hum dezejo ardente. + + Só mal sonora rima, +Que sem veia forjou saudade, e zelo, + Leráõ o amavel Lima, +O sabio Castro, e o profundo Mello, +Pedras, que tu mal soffres, ó Lisboa, +Faltarem tanto tempo á tua c'roa. + + + + +_Em louvor da Saude._ + + +ODE. + + +Não procura palacios sumptuozos + A brilhante Saude; +O seu rosto agradavel, e rizonho, + Até aos Reis se esconde: +Ella faz com que seja venturozo + O roto Peregrino, +Se entre a negra gadelha, lhe apparece + Hum semblante sádio. +O Captivo Remeiro fatigado, + Do ardente Sol não fuja: +Em ferros envolvido o duro corpo, + Trabalhe o dia inteiro: +O queimado semblante ande banhando + De violento suor: +Apressado mastigue, e poucas vezes, + O corrupto biscoito: +Mas tenha o rosto alegre, e socegado + Entre as duras prizões, +Se á pallida doença não tem visto + O macilento aspeito; +Se com braço membrudo, e vigorozo + Força o remo pezado. +Inda sinto inflammar-me em teus louvores, + Oh Saude aprazivel! +Tu és Filha do Ceo, Mãi da alegria, + Dom de Deus Piedoso. +Se os miseros mortaes expõem a vida + Por danozas riquezas; +Por ellas que farião, se servissem + De te fazer propicia? +Filha do Ceo benigno, se te déras + Por ouro, ou fina prata, +Eu não temêra as tempestuosas ondas + Do fervido oceano: +Nos occultos sertões iria entrando + Co'a mesma côr no rosto; +Não me assustára o dente venenozo + Da enroscada serpente; +Do fertil oriente nos outeiros + Cavaria anciozo, +Por ver se das entranhas te trazia + Abundantes thesouros. +Mas a bella Saude, he dom celeste; + Com ouro não se compra: +Ella foge dos impios, que se assentão + A saborozas mezas; +Que adormecem em leitos guarnecidos + De preciosas sedas; +E vai guardar, com próvido cuidado, + O simples Pescador, +Que sobre ásperas rochas, sem abrigo + Aos rigorozos tempos, +Vai nutrindo no corpo mal vestido + Hum coração sincero; +Que humilde sabe erguer ao Ceo piedozo + As innocentes mãos. + + +FIM. + + + + +INDICE. + + +SONETOS. + + +_A Sua Alteza_ Pag. 3. 4. 31. + +_Sahindo Conselheiro da Fazenda o Illustrissimo, e Excellentissimo +Senhor D. Diogo de Noronha_ 5. + +_Aos leques mui pequenos, chamados Marotinhos_ 6. + +_O cruel Disfarce_ 7. + +_Ao Illustrissimo, e Excellentissimo Senhor Visconde de Ponte de +Lima, Secretario de Estado_ 8. + +_Fazendo annos a Illustrissima, e Excellentissima Senhora Marqueza +de Angeja_ 9. + +_Aos Annos do Illustrissimo, e Excellentissimo Senhor Conde de +Avintes_ 10. + +_Estando nas Caldas_ 11. + +_A huns Annos_ 12. + +_Ao Disfarce das Mulheres_ 13. + +_A huma Camponeza_ 14. + +_A huma Dama interesseira_ 15. + +_Ao faustissimo dia da Inauguração da Estatua Equestre d'El-Rei +Fidelissimo o Senhor D. José I._ 16. + +_Descripção de Badajoz_ 17. + +_Á Serenissima Princeza entrando no banho_ 18. + +_Levantando-se o Author da meza de hum Grande por serem horas de ir para +a Aula_ 19. + +_Ao Illustrissimo, e Excellentissimo Senhor Marquez de Penalva, chegando +o Author á Quinta das Lapas_ 20. + +_Descripção de hum Peralta amaltezado_ 21. + +_Aos Annos do Serenissimo Principe N. Senhor_ 22. + +_A hum Leigo Arrabido vesgo_ 23. + +_Aos Toucados altos_ 24. + +_Mettendo a ridiculo humas Contradanças_ 25. + +_Por occasião de estranharem ao Author hum sonho que a ninguem offendia_ +26. + +_Á moda dos Chapéos maiores da marca_ 27. + +_Ás Fivelas chamadas_ à la Chartre 28. + +_A huma Velha presumida_ 29. + +_Aos Annos de huma formosa Dama_ 30. + +_A hum Padre Guardião_ 32. + +_Em louvor de Caporalini, Actor do Theatro de S. Carlos_ 33. + +_Achando-se o Author prezo dos bellos olhos de Marcia_ 34. + +_Sobre a Ingratidão de huma Dama_ 35. + +CANTIGAS _feitas nas Caldas_ 36. + +ENDECHAS 39. + + + + +DECIMAS + + +_Em dia dos annos do Illustrissimo Principal Almeida_ 45. + +Mote: _Olhos de Lize, olhos bellos, &c._ 47. + +Mote: _Tu teimas em desprezar-me, &c._ 50. + +Mote: _Não sei que quer a desgraçada, &c._ 53. + +Mote: _Os meus olhos a chorar_ 56. + +Mote: _Já disse tudo a Cupido_ 57. + +Mote: _Distancias, e saudades_ 58. + +Mote: _Cantarei alegres penas, &c._ 59. + +Mote: _Nada no mundo figura, &c._ 60. + +Mote: _Amor para me prender, &c._ 61. + +Mote: _A minha felicidade_ 62. + +Mote: _Quem adora occultamente &c._ 63. + +Mote: _Nos olhos o amor explico, &c._ 66. + +Mote: _Por passos sem esperança, &c._ 69. + +Mote: _Eu já tenho exp'rimentado &c._ 70. 71. + +Mote: _Ouvi, ó Senhora, ouvi, &c._ 72. + +Mote: _Hei de amar-te até á morte, &c._ 75. + +Mote: _Toda a Mulher he perjura_ 78. + +Mote: _De mil suspiros que eu dou_ 80. + +_Ao Illustrissimo, e Excellentissimo Senhor Marquez de Penalva_ 79. 81. + +_Ao Illustrissimo, e Excellentissimo Senhor Conde de Villa Verde_ 82. +84. 87. 94. + +_Vagando hum Officio que o A. pertendia_ 88. + +_Ao Doutor Joaquim Ignacio Seixas, Medico das Caldas_ 89. + +_A hum Pregador celebre_ 90. + +_Carta a Lourenço da Mota, Official da Secretaria_ 91. + + + + +QUADRAS. + + +_Ao Juiz do Crime de Andaluz_ 95. + +_Memorial a Suas Altezas_ 98. + + + + +QUINTILHAS. + + +_No dia dos Annos do Illustrissimo, e Excellentissimo Senhor Conde de +Villa Verde_ 103. + +_Em louvor de huma Senhora_ 106. + +_Quixotada._ 114. + + + + +ODES. + + +_A SS. MAGESTADES, no dia da Acclamação da Rainha N. Senhora_ 122. + +_No dia dos Annos do Illustrissimo, e Excellentissimo Senhor Marquez de +Angeja_ 132. + +_Ao Senhor D. Domingos de Assís Mascarenhas_ 137. + +_Em louvor da Saude_ 142. + + + + + +Notas: + +[1] _Duvidoso._ + +[2] _O Marquez de Pombal._ + +[3] _Tem allusão ao Soneto VI._ + +[4] _Duvidoso._ + +[5] _Duvidoso._ + +[6] _Os Márques comprárão em Lisboa humas casas a certo homem da mesma +por preço exorbitante: feita a escritura, e passado o dinheiro em +cartuxos, voltou brevemente o vendedor dizendo que indo em casa a contar +os cartuxos achára cobre, e não ouro. Quem compra por preço tal, parece +que não faz tenção de pagar: Quem vende por tal preço, parece ter +demasiada cubiça. Todos estavão em boa reputação._ + +[7] _Estas Decimas fez o A. em agradecimento de ser provido pelo +Principal, então Director dos Estudos, na Cadeira de Rhetorica, de que +depois se queixou tanto._ + +[8] _Outro Pregador tendo bebido demasiado, chegou ao pulpito, e só +pronunciou estas palavras:_ Sempre me deito. + + + + + +End of Project Gutenberg's Obras posthumas, by Nicolau Tolentino de Almeida + +*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK OBRAS POSTHUMAS *** + +***** This file should be named 36608-8.txt or 36608-8.zip ***** +This and all associated files of various formats will be found in: + http://www.gutenberg.org/3/6/6/0/36608/ + +Produced by Rita Farinha and the Online Distributed +Proofreading Team at http://www.pgdp.net (This file was +produced from images generously made available by National +Library of Portugal (Biblioteca Nacional de Portugal).) + + +Updated editions will replace the previous one--the old editions +will be renamed. + +Creating the works from public domain print editions means that no +one owns a United States copyright in these works, so the Foundation +(and you!) can copy and distribute it in the United States without +permission and without paying copyright royalties. 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Information about the Project Gutenberg Literary Archive +Foundation + +The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit +501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the +state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal +Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification +number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at +http://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg +Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent +permitted by U.S. federal laws and your state's laws. + +The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S. +Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered +throughout numerous locations. Its business office is located at +809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email +business@pglaf.org. 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You may copy it, give it away or +re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included +with this eBook or online at www.gutenberg.org + + +Title: Obras posthumas + +Author: Nicolau Tolentino de Almeida + +Release Date: July 3, 2011 [EBook #36608] + +Language: Portuguese + +Character set encoding: ISO-8859-1 + +*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK OBRAS POSTHUMAS *** + + + + +Produced by Rita Farinha and the Online Distributed +Proofreading Team at http://www.pgdp.net (This file was +produced from images generously made available by National +Library of Portugal (Biblioteca Nacional de Portugal).) + + + + + + +</pre> + + +<div> +<br /> +<br /> +<br /> +<br /> +<br /> +<div class="bbox"> <br /> +<h1>OBRAS </h1> +<h1>POSTHUMAS</h1> +<h3>DE </h3> +<h3><br /> +NICOLÁO TOLENTINO </h3> +<h3>DE ALMEIDA. </h3> +<br /> +<div class="sbreak"> +<hr /></div> +<br /> +<h4> +LISBOA, 1828.<br /> +<br /> +NA TYPOGRAFIA ROLLANDIANA. </h4> +<div class="breaks"> +<hr /></div> +<br /> +<div style="text-align: center;"><em>Com +Licença da Meza do Desembargo </em><br /> +<em>do Paço.</em><br /> +<br /> +</div> +</div> +<br /> +<br /> +<br /> +<br /> +<div style="text-align: center;"><a name="p3" id="p3"><em>A Sua +Alteza.</em></a> +</div> +<br /> +<h4>SONETO I.</h4> +<br /> +<br /> +<div class="poetry">Tornai, tornai, Senhor, ao +Tejo +undoso,</div> +<div class="poetry1">Vinde honrar-lhe outra vez a +clara +enchente, <br /> +E deixai que ajoelhe entre a mais gente <br /> +Hum protegido humilde, e respeitoso.</div> +<br /> +<div class="poetry">Não leva a vossos +pés rogo teimoso</div> +<div class="poetry1"> +De importuno cansado pertendente; <br /> +Vem beijar-vos a mão humildemente, <br /> +A mão augusta que o fará ditoso.</div> +<br /> +<div class="poetry">Pois foi por Vós +benignamente ouvido,</div> +<div class="poetry1">Não vai fazer em +pertenções +estudo, <br /> +Vai só mostrar-vos que he agradecido.</div> +<br /> +<div class="poetry">Ante Vós ajoelha humilde, e +mudo:</div> +<div class="poetry1">Mostrai-lhe que inda he Vosso +protegido; <br /> +Que se isto lhe ficou, ficou-lhe tudo.</div> +<br /> +<br /> +<br /> +<br /> +<span class="pagenum"><a name="p4" id="p4">[4]</a></span> +<div style="text-align: center;"><em>A Sua Alteza.</em> +</div> +<br /> +<h4>SONETO II.</h4> +<br /> +<br /> +<div class="poetry">Qual naufrago, Senhor, que foi +alçado </div> +<div class="poetry1"> +Por mão piedosa d'entre as ondas frias, <br /> +Tal eu de antigas duras agonias <br /> +Por vossas Reaes mãos fui resgatado: </div> +<br /> +<div class="poetry">Pois vencestes as teimas do meu fado, </div> +<div class="poetry1">E já vejo raiar dourados +dias, <br /> +Deixai que possa em minhas poesias <br /> +O vosso Augusto Nome ser cantado. </div> +<br /> +<div class="poetry">Não he digna de +vós minha escriptura, </div> +<div class="poetry1">Nem harmonia, nem estilo a +adoça; <br /> +Mas valha-lhe, Senhor, vontade pura. </div> +<br /> +<div class="poetry">Principe excelso, consentí +que eu possa </div> +<div class="poetry1">Fazer inda maior minha ventura, <br /> +Contando ao mundo que foi obra Vossa. </div> +<br /> +<br /> +<br /> +<br /> +<span class="pagenum"><a name="p5" id="p5">[5]</a></span> +<div style="text-align: center;"><em>Sahindo +Conselheiro da Fazenda o Illustrissimo, </em><br /> +<em>e Excellentissimo Senhor D. Diogo </em><br /> +<em>de Noronha</em>. <br /> +</div> +<br /> +<h4>SONETO III.</h4> +<br /> +<br /> +<div class="poetry">Nem sempre em verdes annos a +imprudencia</div> +<div class="poetry1">Produz irregular procedimento: <br /> +Nem sempre encontra o humano entendimento <br /> +Só perto do sepulcro a sã prudencia.</div> +<br /> +<div class="poetry">Em Vós não +esperou a Providencia</div> +<div class="poetry1">Que longas cans vos dêm +merecimento: <br /> +Em Vós mostrou que estudos, e talento <br /> +Valem mais do que a larga experiencia.</div> +<br /> +<div class="poetry">Os eruditos velhos Conselheiros,</div> +<div class="poetry1"> +Depois que o vosso voto alli for dado, <br /> +Serão de Vós eternos pregoeiros:</div> +<br /> +<div class="poetry">E dirão que deveis ser +escutado</div> +<div class="poetry1">Onde os Ministros vossos companheiros +<br /> +Não sejão da Fazenda, mas do Estado.</div> +<br /> +<br /> +<br /> +<br /> +<span class="pagenum"><a name="p6" id="p6">[6]</a></span> +<div style="text-align: center;"><em>Aos leques mui +pequenos, chamados +Marotinhos.</em> </div> +<br /> +<h4>SONETO IV.<sup><a href="#n1">[1]</a></sup></h4> +<br /> +<br /> +<div class="poetry">Fofo colchão, as plumas bem +erguidas,</div> +<div class="poetry1"> +E sobre os hombros nas jucundas frentes <br /> +De enrolado cabello anneis pendentes, <br /> +Longos chorões, bellezas estendidas,</div> +<br /> +<div class="poetry">Era esta das matronas +presumidas</div> +<div class="poetry1">A moda, que trazião bem +contentes; <br /> +Rião-se dellas as modestas gentes <br /> +Vendo pequenas poupas esquecidas.</div> +<br /> +<div class="poetry">Nisto a gentil Madama aperaltada,</div> +<div class="poetry1">Grande auctora de trastes exquisitos, +<br /> +Nova moda lhe inventa abandalhada.</div> +<br /> +<div class="poetry">Reprova-lhe aureos leques com mil +ditos.</div> +<div class="poetry1">Eis senão quando (oh moda +endiabrada!) <br /> +Abanão-se com azas de mosquitos. </div> +<br /> +<br /> +<br /> +<br /> +<span class="pagenum"><a name="p7" id="p7">[7]</a></span> +<div style="text-align: center;"><em>O cruel +disfarce.</em> </div> +<br /> +<h4>SONETO V.</h4> +<br /> +<div class="poetry"> +Sem murmurar padecerei callado</div> +<div class="poetry1">Cumprindo o teu preceito violento: <br /> +Faltava a envenenar o meu tormento <br /> +Dever ser por mim mesmo disfarçado.</div> +<br /> +<div class="poetry">De trazer o semblante socegado</div> +<div class="poetry1">Farei o inculpavel fingimento: <br /> +Nos olhos mostrarei contentamento, <br /> +Tendo hum punhal no coração cravado.</div> +<br /> +<div class="poetry">Este peito onde nunca engano viste,</div> +<div class="poetry1">Que não sabe a vil arte de +affectar-se, <br /> +Onde a verdade, e a intacta fé existe,</div> +<br /> +<div class="poetry">Martyr do amor, e do infiel disfarce,</div> +<div class="poetry1">Nas tuas adoraveis mãos +desiste <br /> +Té dos tristes direitos de queixar-se! </div> +<br /> +<br /> +<br /> +<br /> +<span class="pagenum"><a name="p8" id="p8">[8]</a></span> +<div style="text-align: center;"><em>Ao +Illustrissimo, e Excellentissimo Senhor </em><br /> +<em>Visconde de Ponte de Lima, Secretario </em><br /> +<em>de Estado</em>. <br /> +</div> +<br /> +<h4>SONETO VI.</h4> +<br /> +<div class="poetry"> +A longa cabelleira branquejando,</div> +<div class="poetry1">Encostado no braço de hum +Tenente, <br /> +Cercado de infeliz chorosa gente <br /> +Hia passando o velho venerando.<sup><a href="#n2">[2]</a></sup></div> +<br /> +<div class="poetry">Geraes repostas para o lado dando:</div> +<div class="poetry1">«Sim Senhor; Bem me lembra; +Brevemente;» <br /> +Na praguejada mão omnipotente <br /> +Nunca lidos papeis hia aceitando.</div> +<br /> +<div class="poetry">Mas eu que já esperava +altas mudanças,</div> +<div class="poetry1">Melhor tempo aguardei, e na algibeira +<br /> +Metti a Petição, e as +esperanças.</div> +<br /> +<div class="poetry">Chegou, Senhor Visconde, a +<em>viradeira</em>:</div> +<div class="poetry1">Soltai-me a mim tambem destas +crianças, <br /> +Onde tenho o meu Forte da Junqueira.</div> +<br /> +<br /> +<br /> +<br /> +<span class="pagenum"><a name="p9" id="p9">[9]</a></span> +<div style="text-align: center;"><em>Fazendo Annos a +Illustrissima, e Excellentissima </em><br /> +<em>Senhora Marqueza de Angeja.</em></div> +<br /> +<br /> +<h4>SONETO VII.</h4> +<br /> +<div class="poetry"> +Senhora, ha muito tempo pertendia</div> +<div class="poetry1">Ser do vosso favor patrocinado: <br /> +Mil vezes vos quiz dar este recado; <br /> +Porém sempre o respeito me impedia.</div> +<br /> +<div class="poetry">Chegou em fim o venturoso dia</div> +<div class="poetry1">A fazer beneficios destinado: <br /> +Vou neste privilegio confiado; <br /> +Que a não ser isso não me atreveria:</div> +<br /> +<div class="poetry">Vou pedir que descendo da Cadeira,</div> +<div class="poetry1">Onde explico os crueis Quintilianos, <br /> +Me ensineis a tomar melhor carreira.</div> +<br /> +<div class="poetry">Que em mim ponhais os olhos soberanos,</div> +<div class="poetry1">E que me chegue em fim a +<em>viradeira</em><sup><a href="#n3">[3]</a></sup><br /> +No faustissimo dia destes annos.</div> +<br /> +<br /> +<br /> +<br /> +<span class="pagenum"><a name="p10" id="p10">[10]</a></span> +<div style="text-align: center;"><em>Aos Annos do +Illustrissimo, e Excellentissimo <br /> +Senhor Conde de Avintes.</em></div> +<br /> +<br /> +<h4>SONETO VIII.</h4> +<br /> +<div class="poetry">A varonil idade florecente</div> +<div class="poetry1"> +Vos tece, illustre Heróe, annos dourados +<br /> +Para serem á Patria consagrados; <br /> +Pois sois de Almeidas claro descendente.</div> +<br /> +<div class="poetry">Sobre as terras, e mares do Oriente</div> +<div class="poetry1">Inda vejo os trofeos alevantados: <br /> +Vejo beber mil corpos aboiados <br /> +Do turvo Gange a fervida corrente.</div> +<br /> +<div class="poetry">No difficil caminho d'honra, e gloria</div> +<div class="poetry1"> +Por ferro, e fogo a seus bons Reis servindo, <br /> +Vos deixão por doutrina a sua historia.</div> +<br /> +<div class="poetry">Forão diante o duro passo +abrindo:</div> +<div class="poetry1">Entrai, Senhor, no Templo da Memoria, +<br /> +Os bons Avós, e o illustre Pai seguindo.</div> +<br /> +<br /> +<br /> +<br /> +<span class="pagenum"><a name="p11" id="p11">[11]</a></span> +<div style="text-align: center;"><em>Estando nas +Caldas</em>. +</div> +<br /> +<br /> +<h4>SONETO IX.</h4> +<br /> +<div class="poetry"> +Por mais que vos alongue olhos cansados, </div> +<div class="poetry1">Olhos ha tanto tempo descontentes, <br /> +Não vedes mais que pallidos doentes <br /> +Por mãos estranhas n'agoa sustentados.</div> +<br /> +<div class="poetry">Quantas vezes ficastes magoados </div> +<div class="poetry1">Por ver ir entre as fervidas +correntes <br /> +Envolvidas mil lagrimas ardentes <br /> +Do que em vão quer alçar +braços mirrados!</div> +<br /> +<div class="poetry">Vistas são estas de bem +pouco gosto;</div> +<div class="poetry1">Porém bem pagos +ficareis hum dia <br /> +Quando virdes de Arminda o lindo rosto.</div> +<br /> +<div class="poetry">E o pranto, que atégora vos +cahia</div> +<div class="poetry1">De lastima, d'auzencia, e de +desgosto, <br /> +Ella o fará correr; mas de alegria.</div> +<br /> +<br /> +<br /> +<br /> +<span class="pagenum"><a name="p12" id="p12">[12]</a></span> +<div style="text-align: center;"><em>A huns Annos.</em> +</div> +<br /> +<br /> +<h4>SONETO X.</h4> +<br /> +<div class="poetry"> +Foi este o dia em que a teus pés +baixárão</div> +<div class="poetry1">Venus, e as lindas Graças +innocentes, <br /> +E em torno do aureo berço reverentes <br /> +Ao som de alegres hymnos te embalárão.</div> +<br /> +<div class="poetry">Aos teus olhos gentís +communicárão</div> +<div class="poetry1">Cruel poder de conquistar as gentes: <br /> +Mil suspiros, mil lagrimas ardentes <br /> +A muitos corações +prognosticárão.</div> +<br /> +<div class="poetry">Dérão-te huma +alma heroica, hum nobre peito:</div> +<div class="poetry1">Dérão-te +discrição, e formosura, <br /> +Dons a que o mundo está mui pouco afeito.</div> +<br /> +<div class="poetry">Mas, oh humana sorte, triste, escura!</div> +<div class="poetry1">Para na terra nada haver perfeito, <br /> +Dérão-te hum +coração de pedra dura.</div> +<br /> +<br /> +<br /> +<br /> +<span class="pagenum"><a name="p13" id="p13">[13]</a></span> +<div style="text-align: center;"><em>Ao disfarce das +Mulheres.</em> +</div> +<br /> +<br /> +<h4>SONETO XI.</h4> +<br /> +<div class="poetry"> +Vens debalde, oh bellissima perjura,</div> +<div class="poetry1">C'o lindo rosto em lagrimas banhado: <br /> +Já fui por ti mil vezes enganado, <br /> +E sempre me affectaste essa ternura.</div> +<br /> +<div class="poetry">Esse alvo peito, que he de neve pura,</div> +<div class="poetry1">Mas de aço, e fino bronze +temperado, <br /> +Encobre hum coração refalseado, <br /> +Hum coração de viva rocha dura.</div> +<br /> +<div class="poetry">Em vão trabalhas, se +enganar-me queres,</div> +<div class="poetry1">Vejo correr com animo sereno <br /> +Esse pranto em que fundas teus poderes:</div> +<br /> +<div class="poetry">Mal inventado ardil: ardil pequeno:</div> +<div class="poetry1">Tu mesma me ensinaste, que as +mulheres <br /> +Misturão com as lagrimas veneno.</div> +<br /> +<br /> +<br /> +<br /> +<span class="pagenum"><a name="p14" id="p14">[14]</a></span> +<div style="text-align: center;"><em>A huma +Camponeza.</em> +</div> +<br /> +<br /> +<h4>SONETO XII.</h4> +<br /> +<div class="poetry"> +Não morão em palacios estucados</div> +<div class="poetry1">Almas singelas, almas extremosas: <br /> +Nutrem da Corte as damas enganosas <br /> +Em tenros peitos corações dobrados.</div> +<br /> +<div class="poetry">Venhão por longos mares +conquistados</div> +<div class="poetry1">As Indianas sedas preciosas: <br /> +Cubrão-lhe as carnes alvas, e mimosas <br /> +Ricos vestidos em Paris bordados.</div> +<br /> +<div class="poetry">São isto effeitos da arte, +e da ventura:</div> +<div class="poetry1">Estimo mais que toda a vã +grandeza <br /> +Hum limpo coração, huma alma pura.</div> +<br /> +<div class="poetry">Não na Corte; das serras na +aspereza</div> +<div class="poetry1">Fui achar innocencia, e formosura, <br /> +Sagrados dons da simples Natureza.</div> +<br /> +<br /> +<br /> +<br /> +<span class="pagenum"><a name="p15" id="p15">[15]</a></span> +<div style="text-align: center;"><em>A huma Dama +interesseira.</em> +</div> +<br /> +<br /> +<h4>SONETO XIII.</h4> +<br /> +<div class="poetry"> +Podião ser felices meus amores</div> +<div class="poetry1">Quando por ouro o amor se +não vendia: <br /> +Já de palavras Nize desconfia, <br /> +Só crê ou em dinheiro, ou em penhores.</div> +<br /> +<div class="poetry">Vio-me assaltado d'ancias, e temores</div> +<div class="poetry1">Quando na porta irada mão +batia: <br /> +Por costume infeliz ella sabia <br /> +Que era algum dos cansados acredores.</div> +<br /> +<div class="poetry">Forão-se os dias +bemaventurados,</div> +<div class="poetry1"> +Em que só almas grandes, peitos nobres, <br /> +Erão do Deus de amor agazalhados:</div> +<br /> +<div class="poetry">Negro destino hoje preside aos pobres:</div> +<div class="poetry1">Poz termo a bella Nize aos seus +agrados, <br /> +Vendo esta bolça condemnada a cobres.</div> +<br /> +<br /> +<br /> +<br /> +<span class="pagenum"><a name="p16" id="p16">[16]</a></span> +<div style="text-align: center;"><em>Ao faustissimo +dia da +Inauguração da Estatua <br /> +Equestre d'El-Rey Fidelissimo o <br /> +Senhor D. José I.</em> +</div> +<br /> +<br /> +<h4>SONETO XIV.</h4> +<br /> +<div class="poetry"> +Em quanto o Reino cheio de ternura</div> +<div class="poetry1">Ao grande Bemfeitor te ha consagrado, +<br /> +E respeita aos teus pés ajoelhado <br /> +O Rey Augusto de quem és figura:</div> +<br /> +<div class="poetry">Em quanto os que me vencem em ventura</div> +<div class="poetry1"> +Abrindo o antigo cofre chapeado, <br /> +Mandão de prata, e d'ouro recamado <br /> +Entretecer a rica vestidura:</div> +<br /> +<div class="poetry">Eu que não tenho desta +louçania,</div> +<div class="poetry1">De outra sem pejo sahirei composto, <br /> +Que não cede á mais fina pedraria.</div> +<br /> +<div class="poetry">São ternissimas lagrimas de +gosto:</div> +<div class="poetry1">Nem infama o triunfo deste dia <br /> +Quem põe por gala o coração +no rosto.</div> +<br /> +<br /> +<br /> +<br /> +<span class="pagenum"><a name="p17" id="p17">[17]</a></span> +<div style="text-align: center;"><em>Descripção +de +Badajoz.</em> +</div> +<br /> +<br /> +<h4>SONETO XV.</h4> +<br /> +<div class="poetry"> +Passei o Rio, que tornou atraz,</div> +<div class="poetry1">Se acaso he certo o que +Camões nos diz, <br /> +Em cuja ponte hum bando de Aguazis <br /> +Registrão tudo quanto a gente traz.</div> +<br /> +<div class="poetry">Segue-se hum largo, em frente delle jaz</div> +<div class="poetry1"> +Longa fileira de baiucas vís: <br /> +Cigarro acezo, fumo no nariz, <br /> +He como a companhia alli se faz.</div> +<br /> +<div class="poetry">A cidade por dentro he fraca rez,</div> +<div class="poetry1"> +As moças põem mantilhas, e +andão sós, <br /> +Tem boa cara; mas não tem bons pés.</div> +<br /> +<div class="poetry">Isto, coifas de prata, e de retroz,</div> +<div class="poetry1">E a cada canto hum sórdido +Marquez, <br /> +Foi tudo quanto vi em Badajoz. </div> +<br /> +<br /> +<br /> +<br /> +<span class="pagenum"><a name="p18" id="p18">[18]</a></span> +<div style="text-align: center;"><em>Á +Serenissima Princeza entrando no +banho.</em> +</div> +<br /> +<br /> +<h4>SONETO XVI.</h4> +<br /> +<div class="poetry"> +Nynfas do Téjo já por mim cantadas,</div> +<div class="poetry1"> +Nossa Augusta Princeza esta presente;<br /> +Pedí-lhe, que honre a placida corrente, <br /> +E as agoas ficaráõ mais prateadas.</div> +<br /> +<div class="poetry">Diante de seus pés +ajoelhadas</div> +<div class="poetry1">Em justo acatamento reverente, <br /> +Serenem vossas mãos a clara enchente, <br /> +E as frias agoas corrão temperadas.</div> +<br /> +<div class="poetry">Sobre as ondas as frentes levantando,</div> +<div class="poetry1">Ao tempo que as douradas +tranças bellas<br /> +Brandamente lhe fordes enxugando,</div> +<br /> +<div class="poetry">Dizei-lhe, que sustento +Irmãas donzellas,</div> +<div class="poetry1">Outras viuvas; e ide-lhe lembrando, <br /> +Que o bem que me fizer he feito a ellas.</div> +<br /> +<br /> +<br /> +<br /> +<span class="pagenum"><a name="p19" id="p19">[19]</a></span> +<div style="text-align: center;"><em>Levantando-se o +Author da meza de hum <br /> +Grande por serem horas de ir para a Aula.</em> +</div> +<br /> +<br /> +<h4>SONETO XVII.</h4> +<br /> +<div class="poetry"> +Não tomando em desprezo o escuro estado</div> +<div class="poetry1">Em que me poz Fortuna, e Natureza, <br /> +Olhastes sem horror minha baixeza, <br /> +E fizestes sentar-me ao vosso lado.</div> +<br /> +<div class="poetry">Então de ingrata +obrigação chamado</div> +<div class="poetry1">Deixei á força +a companhia, e a meza, <br /> +E inda cheio de ideias de grandeza <br /> +Vim dar por thema hum Verbo conjugado.</div> +<br /> +<div class="poetry">Não sei com dous oppostos +conformar-me;</div> +<div class="poetry1">Soffrem-me os Grandes, sou taful, e +moço, <br /> +Não sei a <em>Senhor +Mestre</em> costumar-me.</div> +<br /> +<div class="poetry">Taes extremos, Senhor, unir +não posso;</div> +<div class="poetry1">De dous genios não sou: +mandai fechar-me <br /> +Ou a minha Aula, ou o Palacio vosso.</div> +<br /> +<br /> +<br /> +<br /> +<span class="pagenum"><a name="p20" id="p20">[20]</a></span> +<div style="text-align: center;"><em>Ao +Excellentissimo Senhor Marquez de Penalva <br /> +chegando o A. á quinta das Lapas.</em> </div> +<br /> +<br /> +<h4>SONETO XVIII.</h4> +<br /> +<div class="poetry"> +Hum triste fatigado caminhante</div> +<div class="poetry1">Chega a Vós, Illustrissimo +Penalva: <br /> +Co'a mão na espada a augusta Casa salva <br /> +Segundo as leis de cavalleiro andante.</div> +<br /> +<div class="poetry">Sobre ronceiro fraco Rocinante,</div> +<div class="poetry1">Que pesca a dente +encontradiça malva <br /> +Por duras rochas, por areia calva <br /> +Cem vezes pronta morte vio diante.</div> +<br /> +<div class="poetry">Cuidando achar aqui melhores fados,</div> +<div class="poetry1">Aos pés de outro Rocim, +por novo +caso, <br /> +Quasi que vio seus dias acabados.</div> +<br /> +<div class="poetry">Quiz correr junto a Vós +sobre o Pegaso:</div> +<div class="poetry1"> +Cahio, e por sinal colheis regados <br /> +Do sangue seu os louros do Parnaso. </div> +<br /> +<br /> +<br /> +<br /> +<span class="pagenum"><a name="p21" id="p21">[21]</a></span> +<div style="text-align: center;"><em>Descripção +de hum Peralta +amaltezado.</em> +</div> +<br /> +<br /> +<h4>SONETO XVIX.<sup><a href="#n4">[4]</a></sup></h4> +<br /> +<div class="poetry"> +Hum vulto cuja fórma desconsola </div> +<div class="poetry1"> +Pelo muito que mostra o pouco sizo, <br /> +E que pela pobreza do juizo <br /> +Mil trastes exquisitos desenrola:</div> +<br /> +<div class="poetry">Chapeo que bem carrega hum mariola,</div> +<div class="poetry1">E que ainda aos sizudos causa rizo, <br /> +Cazaquinha cortada de improvizo, <br /> +Fivela que lhe vem de sola a sola:</div> +<br /> +<div class="poetry">Espantalho que em praça +nunca falta</div> +<div class="poetry1">Sem ter +occupação nem má, +nem boa, <br /> +Que apenas moça vê logo lhe salta:</div> +<br /> +<div class="poetry">Eis-aqui, sem medir qualquer pessoa,</div> +<div class="poetry1">Breve quadro de hum misero Peralta, <br /> +Que affecta de Maltez cá em Lisboa.</div> +<br /> +<br /> +<br /> +<br /> +<span class="pagenum"><a name="p22" id="p22">[22]</a></span> +<div style="text-align: center;"><em>Aos Annos do +Serenissimo Principe Nosso <br /> +Senhor.</em></div> +<br /> +<br /> +<h4>SONETO XX.</h4> +<br /> +<div class="poetry"> +Foi este, Alto Senhor, o santo dia,</div> +<div class="poetry1"> +O Ceo o concedeo, o Ceo que he justo <br /> +Afflicto o Povo, posto em dôr, e em susto <br /> +Com lagrimas ardentes lho pedia.</div> +<br /> +<div class="poetry">O fertil Ganges nas entranhas cria</div> +<div class="poetry1">Offertas para Vós, +Principe Augusto, <br /> +E ajoelhado na praia o Povo adusto <br /> +Rico thesouro a vossos pés envia.</div> +<br /> +<div class="poetry">Ao Reino tecereis dias dourados,</div> +<div class="poetry1">Sem precizar que os Fastos Lusitanos <br /> +Vos contem as acções dos Reis +passados.</div> +<br /> +<div class="poetry">Ponde os olhos nos vivos Soberanos,</div> +<div class="poetry1">Estudai-lhe as doutrinas, e os +cuidados, <br /> +E a patria acclamará os vossos Annos.</div> +<br /> +<br /> +<br /> +<br /> +<span class="pagenum"><a name="p23" id="p23">[23]</a></span> +<div style="text-align: center;"><em>A hum Leigo +Arrabido vesgo, despedido da <br /> +Meza do S. C. P. Silva, por tomar a melhor <br /> +pera da Meza. He o de que se trata <br /> +nas Decimas, Tom. II. pag. 178</em>, Ferio <br /> +sacrilega espada. +</div> +<br /> +<br /> +<h4>SONETO XXI.</h4> +<br /> +<div class="poetry"> +O vesgo monstro que co'a gente ralha</div> +<div class="poetry1"> +E de manhãa a todos atravessa, <br /> +A cuja hirsuta sordida cabeça <br /> +Nunca chegou juizo, nem navalha;</div> +<br /> +<div class="poetry">Que os gazeos olhos pela meza espalha</div> +<div class="poetry1"> +Por ver se ha mais comer que tire, ou peça, <br /> +Entrando nelle com tal fome, e pressa <br /> +Qual faminto frizão em branda palha;</div> +<br /> +<div class="poetry">Por crimes de alta gula, e pouco sizo,</div> +<div class="poetry1"> +De meza bem servida, mas severa, <br /> +Foi n'hum dia lançado de improviso.</div> +<br /> +<div class="poetry">Hoje chorando o seu perdão +espera:</div> +<div class="poetry1">Perdêrão dous +glotões o +Paraiso, <br /> +O antigo por maçãa, este por pera.</div> +<br /> +<br /> +<br /> +<br /> +<span class="pagenum"><a name="p24" id="p24">[24]</a></span> +<div style="text-align: center;"><em>Aos toucados +altos.</em> +</div> +<br /> +<br /> +<h4>SONETO XXII.<sup><a href="#n5">[5]</a></sup></h4> +<br /> +<div class="poetry"> +Foi ao Manique hum homem accusado</div> +<div class="poetry1"> +Por contrabandos ter; elle sciente <br /> +Chama a quadrilha, corre diligente, <br /> +Entra, busca, e não acha o Malsinado.</div> +<br /> +<div class="poetry">Acha a mulher, que tinha por toucado</div> +<div class="poetry1"> +A torre de Belem: ella que o sente, <br /> +Banhada em pranto, desmaiada a frente, <br /> +Prostra por terra o corpo delicado.</div> +<br /> +<div class="poetry">C'o boléo se esbandalha a +mata espessa,</div> +<div class="poetry1"> +Sahem della esguiões, cassas lavradas, <br /> +E de belbute trinta e huma peça,</div> +<br /> +<div class="poetry">Fivelas, espadins, rendas bordadas:</div> +<div class="poetry1">Até tinha escondido na +cabeça <br /> +O marido, e tres arcas encouradas. </div> +<br /> +<br /> +<br /> +<br /> +<span class="pagenum"><a name="p25" id="p25">[25]</a></span> +<div style="text-align: center;"><em>Mettendo a +ridiculo humas +contradanças</em>. +</div> +<br /> +<br /> +<h4>SONETO XXIII.</h4> +<br /> +<div class="poetry"> +N'huma tremula sala mal armada</div> +<div class="poetry1">Com placas velhas, e papel pintado; <br /> +Clamava já o povo alvoroçado <br /> +Que fosse a Favorita começada.</div> +<br /> +<div class="poetry">Guincha em venal rabeca desgrudada</div> +<div class="poetry1">De velho musico o arco estuporado: <br /> +Cadeia, grita hum muito suado, <br /> +Olhem que vai a contradança errada.</div> +<br /> +<div class="poetry">Nervoso chispo, saborosas frutas</div> +<div class="poetry1"> +He fazenda que alli nunca governa: <br /> +Aquellas bocas andão sempre enxutas.</div> +<br /> +<div class="poetry">Nunca mais alli tórno a +fazer perna:</div> +<div class="poetry1"> +Quanto mais val o ir com quatro trutas <br /> +Fazer huma função n'huma taberna.</div> +<br /> +<br /> +<br /> +<br /> +<span class="pagenum"><a name="p26" id="p26">[26]</a></span> +<div style="text-align: center;"><em>Por +occasião de estranharem ao Author hum <br /> +sonho que a ninguem offendia.</em> +</div> +<br /> +<br /> +<h4>SONETO XXIV.</h4> +<br /> +<div class="poetry"> +Atiça, ó moço, a moribunda chama </div> +<div class="poetry1">Dessa faminta, sordida +candêa, <br /> +E encostado á parede cabecêa, <br /> +Posta de guarda ao pé da minha cama. </div> +<br /> +<div class="poetry">Se o sono, que em meus olhos se +derrama, </div> +<div class="poetry1"> +E os languidos sentidos me encadêa, <br /> +Tentar com sonhos esta pobre idéa, <br /> +Em altos gritos por meu nome chama: </div> +<br /> +<div class="poetry">Assenta-me na cara essas +mãos frias: </div> +<div class="poetry1">Pois ves o fructo, que sonhando tiro, +<br /> +Corta em raiz traidores fantasias. </div> +<br /> +<div class="poetry">Contra os sonhos desde hoje me +conspiro: </div> +<div class="poetry1">Se ao primeiro me dizem heresias, <br /> +Em sonhando outros pregão-me hum tiro! </div> +<br /> +<br /> +<br /> +<br /> +<span class="pagenum"><a name="p27" id="p27">[27]</a></span> +<div style="text-align: center;"><em>Á +moda dos chapeos maiores da +marca.</em> +</div> +<br /> +<br /> +<h4>SONETO XXV.</h4> +<br /> +<div class="poetry"> +Amigos, e Senhor meu, de França, ou Malta </div> +<div class="poetry1">Hum chapeo mande vir a toda a pressa; +<br /> +A cópa que me ajuste na cabeça; <br /> +Mas as abas na fórma a mais peralta. </div> +<br /> +<div class="poetry">A detraz que me fique muito alta,</div> +<div class="poetry1">A prezilha, e botão +pequena peça: <br /> +Estimarei que disto não se esqueça; <br /> +Que a demora me faz bastante falta.</div> +<br /> +<div class="poetry">Gostei muito do invento, he bem +traçado,</div> +<div class="poetry1"> +Porque vi no Loreto hum certo dia <br /> +Muito povo a correr para o Chiado,</div> +<br /> +<div class="poetry">Para ver hum Senhor, quem tal diria:</div> +<div class="poetry1">C'hum chapeo de tal fórma +desmarcado <br /> +Que nem a gente a pé passar podia.</div> +<br /> +<br /> +<br /> +<br /> +<span class="pagenum"><a name="p28" id="p28">[28]</a></span> +<div style="text-align: center;"><em>Ás +fivelas chamadas a la +Chartre.</em> +</div> +<br /> +<br /> +<h4>SONETO XXVI.</h4> +<br /> +<div class="poetry"> +Oh quantos Mexicanos patacões,</div> +<div class="poetry1"> +Mareados talheres já sem par, <br /> +Á tonta Avó o neto vai furtar <br /> +De mofentos decrepitos caixões:</div> +<br /> +<div class="poetry">Fundidos em quadrados +fivelões</div> +<div class="poetry1"> +Para á Chartres o neto passear, <br /> +Traz nos pés a baixela singular <br /> +Que podia servir em correões.</div> +<br /> +<div class="poetry">Capitão Vento-Sul, rico +Hollandez,</div> +<div class="poetry1"> +Que de prata subtil pequenos Ós <br /> +Servem só de fivelas nos teus pés,</div> +<br /> +<div class="poetry">Vem admirar-te, vendo que entre +nós</div> +<div class="poetry1"> +Traz o pobre peralta Portuguez <br /> +Por fivelas molduras de tremós.</div> +<br /> +<br /> +<br /> +<br /> +<span class="pagenum"><a name="p29" id="p29">[29]</a></span> +<div style="text-align: center;"><em>A huma Velha +presumida.</em> +</div> +<br /> +<br /> +<h4>SONETO XXVII.</h4> +<br /> +<div class="poetry"> +Debalde sobre a face encarquilhada</div> +<div class="poetry1">Pendendo louros bugres emprestados, <br /> +Dás inda ao louco amor teus vãos +cuidados, <br /> +Em carmins enganosos confiada.</div> +<br /> +<div class="poetry">Postiça formosura, em +vão comprada,</div> +<div class="poetry1">Não torna atraz os annos +apressados: <br /> +Nem alvos dentes de marfim talhados, <br /> +Tornão em nova a tremula queixada.</div> +<br /> +<div class="poetry">De ti no mesmo tempo que do Gama</div> +<div class="poetry1"> +Cantou mil bens a Deosa Trombeteira, <br /> +A que os baixos Poetas chamão Fama:</div> +<br /> +<div class="poetry">Porém sempre ficaste em boa +esteira;</div> +<div class="poetry1">Porque, se já +não prestas para dama, <br /> +Inda serves mui bem como terceira.</div> +<br /> +<br /> +<br /> +<br /> +<span class="pagenum"><a name="p30" id="p30">[30]</a></span> +<div style="text-align: center;"><em>Aos Annos de +huma formosa Dama.</em> +</div> +<br /> +<br /> +<h4>SONETO XXVIII.</h4> +<br /> +<div class="poetry"> +Deixai, Pastores, na montanha os gados,</div> +<div class="poetry1"> +Vinde ao sitio melhor desta campina <br /> +Beijar a mão á bella, e peregrina <br /> +Deidade tutelar dos nossos prados:</div> +<br /> +<div class="poetry">Vinde offertar-lhe aos annos celebrados</div> +<div class="poetry1">O cravo, a roza, a angelica, a +bonina; <br /> +E ao mais suave som da flauta fina <br /> +Decantar seus illustres predicados.</div> +<br /> +<div class="poetry">Mas já a cercão +pastores, e pastoras;</div> +<div class="poetry1"> +Huma lhe beija a mão, outra o vestido; <br /> +Elles a coroão de vistosas flores,</div> +<br /> +<div class="poetry">E em doces vozes todo o rancho unido</div> +<div class="poetry1"> +Canta que ella he a Deosa dos Amores;<br /> +Pois tem no rosto as settas de Cupido.</div> +<br /> +<br /> +<br /> +<br /> +<span class="pagenum"><a name="p31" id="p31">[31]</a></span> +<div style="text-align: center;"><em>A Sua Alteza.</em> +</div> +<br /> +<br /> +<h4>SONETO XXIX.</h4> +<br /> +<div class="poetry"> +Nesta cansada triste poesia</div> +<div class="poetry1">Vedes, Senhor, hum novo pertendente, <br /> +Que aborrece o que estima toda a gente, <br /> +Que he ter no mundo cargos, e valia.</div> +<br /> +<div class="poetry">Sobre alto throno ha annos que regia</div> +<div class="poetry1">De docil povo turba obediente: <br /> +Mas quer antes sentar-se humildemente <br /> +N'hum banco da Real Secretaria;</div> +<br /> +<div class="poetry">Qual modesto Capucho reverendo,</div> +<div class="poetry1">Que em fim de Guardiania triennal <br /> +Passa a Porteiro as chaves recebendo.</div> +<br /> +<div class="poetry">Em mim conheço +vocação igual:</div> +<div class="poetry1">E co'a mesma humildade hoje pertendo <br /> +Passar de Mestre a ser Official.</div> +<br /> +<br /> +<br /> +<br /> +<span class="pagenum"><a name="p32" id="p32">[32]</a></span> +<div style="text-align: center;"><em>A hum Padre +Guardião.</em></div> +<br /> +<br /> +<h4>SONETO XXX.</h4> +<br /> +<div class="poetry"> +Meu Padre Guardião, que exemplarmente</div> +<div class="poetry1">Regeis essa Capucha Sociedade, <br /> +Que munida do véo da Santidade <br /> +Passa como não passa a mais da gente:</div> +<br /> +<div class="poetry">Vós que á +força de braço +omnipotente</div> +<div class="poetry1">Fazeis tremer do inferno a potestade, +<br /> +E aos exorcismos só de hum vosso Frade <br /> +Se explica o Demo em Portuguez corrente:</div> +<br /> +<div class="poetry">Logo que dessa estola o forte escudo</div> +<div class="poetry1">Buscar esbelta Nynfa, que atacada <br /> +Seja d'algum Demonio surdo, ou mudo,</div> +<br /> +<div class="poetry">Mandai dos Márques conte a +trapalhada:<sup><a href="#n6">[6]</a></sup></div> +<div class="poetry1"> +Pois só elle, que foi o que urdio tudo, <br /> +Sabe quem commetteo a velhacada.</div> +<br /> +<br /> +<br /> +<br /> +<span class="pagenum"><a name="p33" id="p33">[33]</a></span> +<div style="text-align: center;"><em>Em louvor de +Caporalini, Actor do Theatro <br /> +de S. Carlos.</em> +</div> +<br /> +<br /> +<h4>SONETO XXXI.</h4> +<br /> +<div class="poetry"> +No grão Theatro vejo sempre enchentes:</div> +<div class="poetry1">As cans annosas, os cabellos louros, <br /> +Illustradas nações, barbaros Mouros, <br /> +Todos da tua voz ficão pendentes.</div> +<br /> +<div class="poetry">Que importa que não deixem +descendentes</div> +<div class="poetry1">Teus ex-virís deshabitados +couros; <br /> +Que importa que tu roubes aos vindouros <br /> +Se enriqueces, se encantas os presentes?</div> +<br /> +<div class="poetry">Não he +traição ao sexo feminino;</div> +<div class="poetry1">He só razão +quem te elogia, e preza, <br /> +Comico Mestre, Musico divino.</div> +<br /> +<div class="poetry">Oh nação de +harmonia, e de crueza!</div> +<div class="poetry1">O teu ferro nem sempre he assassino: <br /> +Não insultou, honrou a natureza.</div> +<br /> +<br /> +<br /> +<br /> +<span class="pagenum"><a name="p34" id="p34">[34]</a></span> +<div style="text-align: center;"><em>Achando-se o +Author prezo dos bellos olhos de <br /> +Marcia.</em> +</div> +<br /> +<br /> +<h4>SONETO XXXII.</h4> +<br /> +<div class="poetry"> +Eu vi a Marcia bella, vi Cupido</div> +<div class="poetry1">Com arco, settas, e cruel aljava, <br /> +Com impeto sahir de donde estava, <br /> +E voar para mim enfurecido.</div> +<br /> +<div class="poetry">Fugí; bradei: +porém não fui ouvido;</div> +<div class="poetry1"> +E o tyranno Rapaz que me buscava, <br /> +Com huma, e outra setta me atirava, <br /> +Até de todo me deixar rendido.</div> +<br /> +<div class="poetry">Atou-me as mãos com asperas +cadeias,</div> +<div class="poetry1">Sem o mover o sangue que corria <br /> +Do roto coração, das rotas veias.</div> +<br /> +<div class="poetry">Antes, com frio rizo me dizia:</div> +<div class="poetry1"> +«E não sabias tu, que Amor receias, <br /> +Que nos olhos de Marcia Amor vivia?»</div> +<br /> +<br /> +<br /> +<br /> +<span class="pagenum"><a name="p35" id="p35">[35]</a></span> +<div style="text-align: center;"><em>Sobre a +Ingratidão de huma +Dama.</em> +</div> +<br /> +<br /> +<h4>SONETO XXXIII.</h4> +<br /> +<div class="poetry"> +Coração, de que gemes, de que choras? </div> +<div class="poetry1"> +Que parece tens odio á propria vida! <br /> +Se perdeste teu bem, foi mão perdida, <br /> +Com te pôr a morrer nada melhoras. </div> +<br /> +<div class="poetry">Eu bem sei que a belleza a quem +adoras, </div> +<div class="poetry1">Foi-te ingrata, e cruel, foi +fementida; <br /> +Mas que esperavas tu, se he lei sabida <br /> +O mudar-se a Mulher todas as horas. </div> +<br /> +<div class="poetry">Socega, Coração, +deixa a tristeza; </div> +<div class="poetry1">Quem te mandou querer com +fé tão pura, +<br /> +Quem te mandou mostrar tanta firmeza! </div> +<br /> +<div class="poetry">Erraste, tem paciencia, em fim procura +</div> +<div class="poetry1">Não fazer por Mulher +jámais fineza, <br /> +Acharás mais amor, maior ventura. </div> +<br /> +<br /> +<br /> +<span class="pagenum"><a name="p36" id="p36">[36]</a></span> +<h4>CANTIGAS</h4> +<br /> +<div style="text-align: center;"><em>Feitas nas +Caldas com o Estribilho:</em> </div> +<br /> +<br /> +<br /> +<div class="poetry3"><em>Negras tristezas, <br /> +Adeos, adeos.</em> </div> +<br /> +<div class="poetry2">Não ha nas Caldas <br /> +Melancolia, <br /> +Dão alegria <br /> +Os ares seus. </div> +<div class="poetry3"> +<em>Negras tristezas, <br /> +Adeos, adeos.</em> </div> +<br /> +<div class="poetry2">Sara-me a terra, <br /> +E não as agoas: <br /> +Não curão magoas <br /> +Os banhos seus. </div> +<div class="poetry3"><em>Negras &c.</em> +</div> +<br /> +<span class="pagenum">[37]</span> +<div class="poetry2">Huns lindos olhos, <br /> +Que o dia aclárão, <br /> +Afugentárão <br /> +Os males meus. </div> +<div class="poetry3"><em>Negras &c.</em> +</div> +<br /> +<div class="poetry2">Brandos sorrizos <br /> +A furto dados <br /> +Fazem dourados <br /> +Os dias meus. </div> +<div class="poetry3"><em>Negras &c.</em> +</div> +<br /> +<div class="poetry2">Se entra nos banhos <br /> +Marilia bella, <br /> +Entra com ella <br /> +O cego Deos. </div> +<div class="poetry3"><em>Negras &c.</em> +</div> +<br /> +<div class="poetry2">Alli tempéra <br /> +Nas agoas puras <br /> +As pontas duras <br /> +Dos ferros seus. </div> +<div class="poetry3"><em>Negras &c.</em> +</div> +<br /> +<span class="pagenum">[38]</span> +<div class="poetry2">Enxuga as tranças <br /> +Da Nynfa loura, <br /> +E nellas doura <br /> +Os farpões seus. </div> +<div class="poetry3"><em>Negras &c.</em> +</div> +<br /> +<div class="poetry2">Caldas ditosas <br /> +Teu nome cresça, <br /> +Alça a cabeça <br /> +Até os Ceos. </div> +<div class="poetry3"><em>Negras &c.</em> +</div> +<br /> +<div class="poetry2">O pobre Anfriso, <br /> +Que estas calçadas <br /> +Deixou regadas <br /> +Dos olhos seus, </div> +<div class="poetry3"><em>Negras &c.</em> +</div> +<br /> +<div class="poetry2">Hoje em triunfo <br /> +De seus pezares <br /> +Levanta altares <br /> +De Gnido ao Deos. </div> +<div class="poetry3"><em>Negras &c.</em> +</div> +<br /> +<br /> +<br /> +<span class="pagenum"><a name="p39" id="p39">[39]</a></span> +<h4>ENDECHAS. </h4> +<br /> +<div class="poetry2"> +No sacro Templo </div> +<div class="poetry3">Que Amor habita <br /> +Minha alma afflicta <br /> +Fui immolar. </div> +<br /> +<div class="poetry2">Na ruiva flamma </div> +<div class="poetry3">Que silva ardendo <br /> +A mão detendo <br /> +Jurei-te amar. </div> +<br /> +<div class="poetry2">Fumoso sangue, </div> +<div class="poetry3"> +Mal findo o voto, <br /> +Do peito roto <br /> +Vi gotejar. </div> +<br /> +<span class="pagenum">[40]</span> +<div class="poetry2">D'alma opprimida </div> +<div class="poetry3">A insana pena <br /> +Causou-lhe Elena <br /> +Que soube amar. </div> +<br /> +<div class="poetry2">Nos fidos peitos </div> +<div class="poetry3">O morto lume <br /> +Negro Ciume <br /> +Hia ateiar. </div> +<br /> +<div class="poetry2">Vulcano féro </div> +<div class="poetry3">Ante Mavorte <br /> +O rival forte <br /> +Não póde olhar. </div> +<br /> +<div class="poetry2">Dos desprezados, </div> +<div class="poetry3">Que soffrem tanto, <br /> +O rouco pranto <br /> +Feria o ar. </div> +<br /> +<span class="pagenum">[41]</span> +<div class="poetry2">Aqui jaz Delio </div> +<div class="poetry3"> +Terno, e vencido. <br /> +Sem de Cupido <br /> +Premio alcançar: </div> +<br /> +<div class="poetry2">Que Dafne esquiva, </div> +<div class="poetry3">Com triste agouro, <br /> +Em verde louro <br /> +Vio transformar. </div> +<br /> +<div class="poetry2">Pan segue a Nynfa, </div> +<div class="poetry3">Que tanto adora; <br /> +Seu fado chora <br /> +Vendo-a mudar. </div> +<br /> +<div class="poetry2">De tenras cannas </div> +<div class="poetry3">Amor lhe manda, <br /> +Que a frauta branda <br /> +Vá fabricar. </div> +<br /> +<span class="pagenum">[42]</span> +<div class="poetry2">Cercada Dido </div> +<div class="poetry3">De angustias fêas, <br /> +Ah falso Eneas! <br /> +Se ouve bradar. </div> +<br /> +<div class="poetry2">Seus lindos olhos </div> +<div class="poetry3">Frouxos erravão; <br /> +Em vão buscavão <br /> +O vago mar. </div> +<br /> +<div class="poetry2">Subtís enredos </div> +<div class="poetry3">De acerbo dano <br /> +Bifronte engano <br /> +Eu vi tramar. </div> +<br /> +<div class="poetry2">Por Thisbe bella, </div> +<div class="poetry3">Que busca errante, <br /> +Pyramo amante <br /> +Vai acabar. </div> +<br /> +<span class="pagenum">[43]</span> +<div class="poetry2">Conhece a amada </div> +<div class="poetry3">O infeliz erro, <br /> +Ousa impio ferro <br /> +Em si cravar. </div> +<br /> +<div class="poetry2">Serve-lhe a terra </div> +<div class="poetry3"> +De duro leito, <br /> +Vê-se-lhe o peito <br /> +Inda arquejar: </div> +<br /> +<div class="poetry2">As pardas sombras; </div> +<div class="poetry3"> +Que Amor mistura, <br /> +Na Estyge escura <br /> +Vão aportar: </div> +<br /> +<div class="poetry2">Desenrugando </div> +<div class="poetry3"> +A crespa fronte, <br /> +Lédo Acheronte <br /> +As foi buscar. </div> +<br /> +<span class="pagenum">[44]</span> +<div class="poetry2">E eu combatido </div> +<div class="poetry3">De mil pezares <br /> +Vou pelos ares <br /> +A suspirar. </div> +<br /> +<div class="poetry2">Sei ser-te amante </div> +<div class="poetry3">Sem premios vivo, <br /> +Este o motivo <br /> +Do meu penar. </div> +<br /> +<div class="poetry2">Vês mil exemplos, </div> +<div class="poetry3">E jámais pensas <br /> +Que póde offensas <br /> +Amor vingar. </div> +<br /> +<div class="poetry2">Ah! sê piedosa: </div> +<div class="poetry3">As cruas penas <br /> +Torne serenas <br /> +Teu brando olhar. </div> +<br /> +<br /> +<br /> +<br /> +<span class="pagenum"><a name="p45" id="p45">[45]</a></span> +<div style="text-align: center;"><em>Em dia dos +annos do Illustrissimo Principal <br /> +Almeida.</em> +</div> +<br /> +<br /> +<br /> +<div class="poetry1">Por mais que esse sangue honrado <br /> +Vos inspire os pondonores <br /> +De merecer os louvores <br /> +E não querer ser louvado, <br /> +Este dia he consagrado <br /> +A elogios soberanos: <br /> +Sem vir enfeitar enganos <br /> +Com mão venal, e fingida, <br /> +Em contar a minha vida <br /> +Louvarei os vossos annos. <br /> +<br /> +Tecêrão-me em baixo estado <br /> +A Fortuna, e a Natureza: <br /> +Entre os braços da Pobreza <br /> +Fui desde o berço lançado. <br /> +Pelas vossas mãos alçado <br /> +Quebrei da desgraça o fio: </div> +<br /> +<span class="pagenum">[46]</span> +<div class="poetry1">Se da crua fome, e frio <br /> +Livro o Pai, livro os Irmãos, <br /> +He obra das vossas mãos, <br /> +E faz o vosso elogio.<sup><a href="#n7">[7]</a></sup> +</div> +<br /> +<br /> +<br /> +<span class="pagenum"><a name="p47" id="p47">[47]</a></span> +<h4>MOTE. </h4> +<br /> +<div class="poetry1"> +<em>Olhos de Lize, olhos bellos, <br /> +Olhos para mim fataes, <br /> +Que hum vosso girar sómente <br /> +Me faz temer mil rivaes.</em> </div> +<br /> +<br /> +<h4>GLOZA. </h4> +<br /> +<div class="poetry1"> +Da alva Lize os brancos dentes, <br /> +O rosto affavel, e brando, <br /> +A boca, donde em fallando <br /> +Ficamos todos pendentes, <br /> +Nos lizos hombros patentes <br /> +Soltos os longos cabellos <br /> +Não são causa dos desvellos, <br /> +Nem das ancias em que vivo: <br /> +Vós sois, vós sois o motivo, <br /> +Olhos de Lize, olhos bellos. </div> +<br /> +<span class="pagenum">[48]</span> +<div class="poetry1">Vós sois os meus +vencedores, <br /> +E sois gloria do vencido: <br /> +De vós me atira Cupido <br /> +Mil farpados passadores. <br /> +Se vence o Deus dos Amores, <br /> +Vós as armas lhe emprestais. <br /> +Que ternos saudosos ais, <br /> +Que pranto em vão derramado, <br /> +Me não tendes vós custado, <br /> +Olhos para mim fataes! <br /> +<br /> +Se o rosto ao Ceo levantado <br /> +Alçais as pestanas pretas, <br /> +Logo de brilhantes setas <br /> +Vejo todo o ar cruzado. <br /> +Cupido, que tem jurado <br /> +Crua guerra á humana gente, <br /> +Das nuas costas pendente <br /> +Dura aljava, e passadores, <br /> +Fará conquistas menores <br /> +Que hum vosso girar sómente. </div> +<br /> +<span class="pagenum">[49]</span> +<div class="poetry1">Quando desses claros lumes <br /> +Sahem as chammas brilhantes; <br /> +De mil rendidos amantes <br /> +Ouço saudosos queixumes. <br /> +Não chameis loucos ciumes, <br /> +Ó Lize, os que em mim causaes: <br /> +Do poder de huns olhos taes <br /> +Quem ha que livrar-se possa, <br /> +Se a menor perfeição vossa <br /> +Me faz temer mil rivaes? </div> +<br /> +<br /> +<br /> +<span class="pagenum"><a name="p50" id="p50">[50]</a></span> +<h4>MOTE. </h4> +<br /> +<div class="poetry1"> +<em>Tu teimas em desprezar-me, <br /> +Eu teimo em te idolatrar, <br /> +Juntarei teima com teima, <br /> +Teimando te hei de abrandar.</em> </div> +<br /> +<br /> +<h4>GLOZA. </h4> +<br /> +<div class="poetry1"> +De ser comigo piedosa <br /> +Não dás, Marilia, esperanças: <br /> +Inda, cruel, não te cansas <br /> +De ser esquiva, e teimosa! <br /> +Que importa, ó Ninfa formosa, <br /> +Vir neste pégo arriscar-me, <br /> +De mergulho ao mar lançar-me, <br /> +E os livres peixes colher-te; <br /> +Se quanto eu teimo em querer-te, <br /> +Tu teimas em desprezar-me? </div> +<br /> +<span class="pagenum">[51]</span> +<div class="poetry1">C'os olhos ao Ceo erguidos, <br /> +Ou postos nos longos mares, <br /> +Por ti encho os vagos ares <br /> +De mil saudosos gemidos: <br /> +Nos rochedos desabridos, <br /> +Que em vão bate o rouco mar, <br /> +Devorando o meu pezar, <br /> +Já que de ouvi-lo te cansas, <br /> +Sem premio, sem esperanças <br /> +Eu teimo em te idolatrar. <br /> +<br /> +Teimando, se mal não penso, <br /> +Hei de abrandar teus rigores; <br /> +Porque assim como em amores, <br /> +Tambem em teimas te venço. <br /> +Juro pelo Sol intenso, <br /> +Que a prumo estas rochas queima, <br /> +Que mais do que eu ninguem teima. <br /> +São as causas desiguais: <br /> +Mas por vêr quem teima mais, <br /> +Juntarei teima com teima. </div> +<br /> +<span class="pagenum">[52]</span> +<div class="poetry1">Se alva fonte murmurando <br /> +Gasta em torno os duros seixos, <br /> +E vai dos annosos freixos <br /> +As raizes escarnando: <br /> +Se duras rochas quebrando <br /> +Vai c'o tempo o bravo mar: <br /> +Se bronzes póde cortar <br /> +Mordente lima teimosa: <br /> +Tambem eu, Ninfa formosa, <br /> +Teimando te hei de abrandar. </div> +<br /> +<br /> +<br /> +<span class="pagenum"><a name="p53" id="p53">[53]</a></span> +<h4>MOTE. </h4> +<br /> +<div class="poetry1"> +<em>Não sei que quer a desgraça, <br /> +Que atraz de mim corre tanto: <br /> +Hei de parar, e mostrar-lhe <br /> +Que de ve-la não me espanto.</em> +</div> +<br /> +<br /> +<h4>GLOZA. </h4> +<br /> +<div class="poetry1"> +Não sei que outro mal profundo <br /> +Inda a desgraça me guarda, <br /> +Se me tirou em Anarda <br /> +O que tem de bom o mundo! <br /> +Foi este golpe tão fundo, <br /> +Que outro não tem que me faça: <br /> +Se em levar-me o gesto, e a graça <br /> +De huns olhos, por quem vivia, <br /> +Me fez quanto mal podia, <br /> +Não sei que quer a desgraça! </div> +<br /> +<span class="pagenum">[54]</span> +<div class="poetry1">Debalde outros gostos pintas, <br /> +Amor, para cativar-me: <br /> +Já não tornas a enganar-me, <br /> +Por mais, e mais que me mintas. <br /> +Inda tens as settas tintas, <br /> +Inda enxugo inutil pranto: <br /> +Ao teu venenoso encanto <br /> +Novas victimas procura; <br /> +E dá-lhe dessa ventura, <br /> +Que atraz de mim corre tanto. <br /> +<br /> +Fizeste, ó desgraça, hum erro <br /> +Em vires do Amor valer-te: <br /> +Como ha de elle socorrer-te, <br /> +Se eu já conheço o seu ferro? <br /> +Á sua voz o ouvido cerro: <br /> +Custou-me sangue o escapar-lhe: <br /> +E para melhor provar-lhe, <br /> +Que eu já sou dos seus cortados, <br /> +Sinaes inda mal fechados <br /> +Hei de parar, e mostrar-lhe. </div> +<br /> +<span class="pagenum">[55]</span> +<div class="poetry1">Tu só me déste +hum desgosto, <br /> +Outro já não pódes dar-me: <br /> +Já agora sempre has de achar-me <br /> +A mesma alma, e o mesmo rosto, <br /> +Se em ferros por ti for posto, <br /> +Verás que ao som delles canto; <br /> +Se envolta em sanguineo manto <br /> +Me pões a morte diante, <br /> +Notarás no meu semblante, <br /> +Que de ve-la não me espanto. </div> +<br /> +<br /> +<br /> +<span class="pagenum"><a name="p56" id="p56">[56]</a></span> +<h4>MOTE.</h4> +<br /> +<div class="poetry1"> +<em>Os meus olhos a chorar.</em> +</div> +<br /> +<br /> +<h4>GLOZA.</h4> +<br /> +<div class="poetry1"> +Pranto inutil são os meios <br /> +Das pessoas desgraçadas: <br /> +Pagai, lagrimas cansadas, <br /> +Pagai delictos alheios. <br /> +Já que de ouro cofres cheios <br /> +Nunca pude a Nize dar, <br /> +Já que devo em fim pagar <br /> +Culpa, que só tem meus fados, <br /> +Fiquem sempre condemnados <br /> +Os meus olhos a chorar. </div> +<br /> +<br /> +<br /> +<span class="pagenum"><a name="p57" id="p57">[57]</a></span> +<h4>MOTE.</h4> +<br /> +<div class="poetry1"> +<em>Já disse tudo a Cupido.</em> +</div> +<br /> +<br /> +<h4>GLOZA.</h4> +<br /> +<div class="poetry1"> +Na vossa gentil figura <br /> +Mil dões natureza pôz: <br /> +Todos cuidão que sois vós <br /> +A Deosa da Formosura. <br /> +Venus mil vinganças jura, <br /> +Vendo o seu culto esquecido: <br /> +Vai de settas o ar ferido. <br /> +Senhora, andai cuidadosa, <br /> +Que a louca Deosa invejosa <br /> +Já disse tudo a Cupido. </div> +<br /> +<br /> +<br /> +<span class="pagenum"><a name="p58" id="p58">[58]</a></span> +<h4>MOTE.</h4> +<br /> +<div class="poetry1"> +<em>Distancias, e saudades.</em> +</div> +<br /> +<br /> +<h4>GLOZA.</h4> +<br /> +<div class="poetry1"> +As nodosas carvalheiras, <br /> +Que assombrão hermas estradas; <br /> +Altas rochas, penduradas <br /> +Sobre medonhas ribeiras; <br /> +Duras, íngremes ladeiras, <br /> +Escuras concavidades; <br /> +São as tristes soledades, <br /> +A quem meu cansado peito <br /> +Conta o mal, que lhe tem feito <br /> +Distancias, e saudades. </div> +<br /> +<br /> +<br /> +<span class="pagenum"><a name="p59" id="p59">[59]</a></span> +<h4>MOTE.</h4> +<br /> +<div class="poetry1"> +<em>Cantarei alegres penas, <br /> +Que cercão meu +coração.</em> +</div> +<br /> +<br /> +<h4>GLOZA.</h4> +<br /> +<div class="poetry1"> +Que eu cante alegre me ordenas? <br /> +Que cruel, que dura Lei! <br /> +Porém obedecerei, <br /> +Cantarei alegres penas: <br /> +Por todo o modo envenenas <br /> +A minha infeliz paixão; <br /> +Tu déras valor á acção <br /> +De eu affectar alegrias, <br /> +Se visses as agonias <br /> +Que cercão meu coração. </div> +<br /> +<br /> +<br /> +<span class="pagenum"><a name="p60" id="p60">[60]</a></span> +<h4>MOTE.</h4> +<br /> +<div class="poetry1"> +<em>Nada no mundo figura, <br /> +Quem não chega a ter amor.</em> +</div> +<br /> +<br /> +<h4>GLOZA.</h4> +<br /> +<div class="poetry1"> +Deos de Amor, sempre a ventura <br /> +De tuas mãos pendente vi: <br /> +Tu pódes tudo; sem ti <br /> +Nada no mundo figura. <br /> +Recolhe da terra dura <br /> +Fructo immenso o Lavrador; <br /> +Mas occulto dissabor <br /> +No fundo da alma lhe diz, <br /> +Que não chega a ser feliz <br /> +Quem não chega a ter amor. </div> +<br /> +<br /> +<br /> +<span class="pagenum"><a name="p61" id="p61">[61]</a></span> +<h4>MOTE.</h4> +<br /> +<div class="poetry1"> +<em>Amor para me prender <br /> +Os teus olhos me mostrou.</em> +</div> +<br /> +<br /> +<h4>GLOZA.</h4> +<br /> +<div class="poetry1"> +Mil bellezas me fez vêr, <br /> +Porque alguma me rendesse, <br /> +Não sabia o que fizesse <br /> +Amor, para me prender. <br /> +Mil laços me foi tecer, <br /> +Laços vãos, que em vão me armou; <br /> +Provadas settas tirou, <br /> +Que hia em veneno ensopando; <br /> +Porém só me rendi quando <br /> +Os teus olhos me mostrou. </div> +<br /> +<br /> +<br /> +<span class="pagenum"><a name="p62" id="p62">[62]</a></span> +<h4>MOTE.</h4> +<br /> +<div class="poetry1"> +<em>A minha felicidade.</em> +</div> +<br /> +<br /> +<h4>GLOZA.</h4> +<br /> +<div class="poetry1"> +Cesse, ó Nize, o teu rigor: <br /> +Esse odio injusto reprime: <br /> +Perdem o nome de crime <br /> +Os crimes que faz amor. <br /> +Torne ao seu antigo ardor <br /> +A nossa antiga amizade: <br /> +Adoça a rigoridade <br /> +Do penoso estado meu, <br /> +E faze c'hum riso teu <br /> +A minha felicidade.</div> +<br /> +<br /> +<br /> +<span class="pagenum"><a name="p63" id="p63">[63]</a></span> +<h4>MOTE.</h4> +<br /> +<div class="poetry1"> +<em>Quem adora occultamente <br /> +Sem declarar seu amor <br /> +Sente mil ancias no peito, <br /> +Vive cercado de dôr.</em> +</div> +<br /> +<br /> +<h4>GLOZA.</h4> +<br /> +<div class="poetry1"> +Por que barbara razão <br /> +Hum justo amor se reprime, <br /> +E ha de julgar-se por crime <br /> +Pôr na boca o coração? <br /> +Claros olhos ferir vão <br /> +Hum coração innocente; <br /> +Nem ao triste se consente <br /> +Dar sinaes de seu cuidado! <br /> +Deoses! quanto he desgraçado <br /> +Quem adora occultamente! </div> +<br /> +<span class="pagenum">[64]</span> +<div class="poetry1">No peito a chamma accendida <br /> +As entranhas lhe abrazou; <br /> +Mas da ingrata, que a ateou, <br /> +He crime ser percebida. <br /> +Se deita sangue a ferida <br /> +Á vista do matador, <br /> +Vejão de que nova dôr <br /> +Sente o triste a alma cortada, <br /> +Fallando co'a sua Amada <br /> +Sem declarar seu amor! <br /> +<br /> +Arde em hum fogo escondido: <br /> +Pois se conta o seu cuidado, <br /> +Além de ser desgraçado, <br /> +Chamão-lhe em cima atrevido. <br /> +Até quasi tem perdido <br /> +De olhar o livre direito; <br /> +Vive sempre contrafeito; <br /> +E entre mil contrarios posto, <br /> +Mostra alegria no rosto, <br /> +Sente mil ancias no peito. </div> +<br /> +<span class="pagenum">[65]</span> +<div class="poetry1">Busca alegres companhias, <br /> +Por curar o mal que sente: <br /> +Entra a ingrata de repente, <br /> +Despertão-se as cinzas frias. <br /> +Ternas Arias, Synfonias, <br /> +Tudo aviva o seu amor; <br /> +Mas dos fados o rigor <br /> +Tem sobre elle taes poderes, <br /> +Que no meio dos prazeres <br /> +Vive cercado de dôr. </div> +<br /> +<br /> +<br /> +<span class="pagenum"><a name="p66" id="p66">[66]</a></span> +<h4>MOTE.</h4> +<br /> +<div class="poetry1"> +<em>Nos olhos o amor explico <br /> +Que trago no coração; <br /> +Que não se póde occultar <br /> +No peito a doce paixão.</em> +</div> +<br /> +<br /> +<h4>GLOZA.</h4> +<br /> +<div class="poetry1"> +Mandas-me, ó Anarda, em vão <br /> +Os olhos meus reprimir; <br /> +Que elles sempre hão de seguir <br /> +O impulso do coração. <br /> +Sem querer sinaes daráõ <br /> +Do affecto, que não publíco: <br /> +Co'a boca, que mortifico, <br /> +Que importa que o não revele, <br /> +Se eu, por mais que me acautele, <br /> +Nos olhos o amor explico? </div> +<br /> +<span class="pagenum">[67]</span> +<div class="poetry1">Amor os faz descuidados: <br /> +Em vão, Anarda, os abaxo; <br /> +Pois dahi a pouco os acho <br /> +Outra vez nos teus pregados. <br /> +Trazellos mais castigados <br /> +Não está na minha mão: <br /> +Esta continua omissão, <br /> +Este erro, como tu dizes, <br /> +He hum fructo das raizes, <br /> +Que trago no coração. <br /> +<br /> +De que serve olhar a medo, <br /> +E fallar acautelado, <br /> +Se hum suspiro descuidado <br /> +Vem descobrir o segredo? <br /> +Este artificio, este enredo <br /> +Pouco poderá durar: <br /> +Meus olhos me hão de entregar; <br /> +Que hum amor na alma arraigado <br /> +He como hum fogo ateado, <br /> +Que se não póde occultar. </div> +<br /> +<span class="pagenum">[68]</span> +<div class="poetry1">Tempo, e arte tenho posto <br /> +Para disfarçar-me em tudo: <br /> +Mas sae-me perdido o estudo, <br /> +Em vendo o teu lindo rosto. <br /> +Disfarça-se mal hum gosto, <br /> +Que nasce do coração: <br /> +Tambem tu dessa lição <br /> +Talvez que bem não sahiras, <br /> +Se assim como eu sentiras <br /> +No peito a doce paixão: </div> +<br /> +<br /> +<br /> +<span class="pagenum"><a name="p69" id="p69">[69]</a></span> +<h4>MOTE.</h4> +<br /> +<div class="poetry1"> +<em>Por passos sem esperança, <br /> +Onde me leva o dezejo?</em> +</div> +<br /> +<br /> +<h4>GLOZA.</h4> +<br /> +<div class="poetry1"> +Vão pensamento, descança, <br /> +Reconhece as forças minhas: <br /> +Tu não sabes, que caminhas <br /> +Por passos sem esperança? <br /> +Junto da corrente mansa <br /> +Me pões do dourado Tejo: <br /> +Cá de longe o sitio vejo: <br /> +Mas não devo hum passo dar, <br /> +Que eu não mereço chegar <br /> +Onde me leva o dezejo. </div> +<br /> +<br /> +<br /> +<span class="pagenum"><a name="p70" id="p70">[70]</a></span> +<h4>MOTE.</h4> +<br /> +<div class="poetry1"> +<em>Eu já tenho exp'rimentado <br /> +As minhas inclinações.</em> +</div> +<br /> +<br /> +<h4>GLOZA.</h4> +<br /> +<div class="poetry1"> +Que nunca teu doce agrado <br /> +De amizade simples passa, <br /> +Por minha grande desgraça <br /> +Eu já tenho exp'rimentado. <br /> +Antes odio declarado, <br /> +Que estas equivocações! <br /> +Quero as ternas espressões <br /> +De que as almas se alimentão: <br /> +Com menos não se contentão <br /> +As minhas inclinações. </div> +<br /> +<br /> +<br /> +<span class="pagenum"><a name="p71" id="p71">[71]</a></span> +<div style="text-align: center;"><em>Ao mesmo Mote +outra</em> +</div> +<br /> +<h4>GLOZA.</h4> +<br /> +<div class="poetry1"> +Senhora, eu tenho encontrado <br /> +No teu amor mil intrigas: <br /> +Não preciso que mo digas, <br /> +Eu já tenho exp'rimentado. <br /> +São premios do meu cuidado <br /> +Enganos, e ingratidões; <br /> +E por occultas razões <br /> +São, inda que mo não dizes, <br /> +Tão justas, como infelizes, <br /> +As minhas inclinações. </div> +<br /> +<br /> +<br /> +<span class="pagenum"><a name="p72" id="p72">[72]</a></span> +<h4>MOTE.</h4> +<br /> +<div class="poetry1"> +<em>Ouvi, ó Senhora, ouvi <br /> +Os suspiros de huma voz, <br /> +Que quando por vós suspira, <br /> +Aspira sómente a vós.</em> +</div> +<br /> +<br /> +<h4>GLOZA.</h4> +<br /> +<div class="poetry1"> +Chegou finalmente a hora <br /> +De saberdes quem vos ama: <br /> +Rebente esta antiga chama, <br /> +Que ardeo occulta atégora. <br /> +Amar callando, Senhora, <br /> +Assaz o fiz atéqui: <br /> +As ancias, que padeci, <br /> +Sejão finalmente expostas... <br /> +Ah! não me volteis as costas: <br /> +Ouví, ó Senhora, ouví. </div> +<br /> +<span class="pagenum">[73]</span> +<div class="poetry1">Perdei huma vez o horror <br /> +A ouvir ternos gemidos; <br /> +Nunca ferírão ouvidos <br /> +Brandas palavras de Amor. <br /> +Que hora, e que sitio melhor, <br /> +Do que este em que estamos sós? <br /> +Que culpa, que crime atroz <br /> +Temeis que ante vós farão <br /> +As queixas de hum coração, <br /> +Os suspiros de huma voz? <br /> +<br /> +Meu coração vos adora; <br /> +Sem saber o conquistais: <br /> +Estas ancias, estes ais <br /> +São obra vossa, ó Senhora. <br /> +Em segredo amou atégora; <br /> +De amor vive; amor respira; <br /> +E se vós, depondo a ira, <br /> +Lhe prometteis compaixão, <br /> +Que melhor occasião, <br /> +Que quando por vós suspira? </div> +<br /> +<span class="pagenum">[74]</span> +<div class="poetry1">Nelle, Senhora, não posso <br /> +Nutrir estranha paixão: <br /> +Em fim este coração <br /> +Foi feito para ser vosso: <br /> +Para encher-se de alvoroço <br /> +Basta ouvir a vossa voz: <br /> +Passa indiff'rente, e veloz <br /> +Por mil bellezas, que admira, <br /> +Nada o enche, a nada aspira, <br /> +Aspira sómente a vós. </div> +<br /> +<br /> +<br /> +<span class="pagenum"><a name="p75" id="p75">[75]</a></span> +<h4>MOTE.</h4> +<br /> +<div class="poetry1"> +<em>Hei de amar-te até á morte, <br /> +Quer tu me queiras, quer não: <br /> +Serei no amor desgraçado; <br /> +Mas com discreta eleição.</em> +</div> +<br /> +<br /> +<h4>GLOZA.</h4> +<br /> +<div class="poetry1"> +Não fujo, pódes rasgar <br /> +Este peito desgraçado; <br /> +Que o teu gesto retratado <br /> +Has de, cruel, nelle achar. <br /> +Posto que veja roubar <br /> +Á Parca a tesoura forte, <br /> +E dar-me na vida córte, <br /> +Inda ouvirás, que te digo: <br /> +«Ingrata, não me desdigo, <br /> +Hei de amar-te até á morte.» </div> +<br /> +<span class="pagenum">[76]</span> +<div class="poetry1">Vem, Amor, auctorizar <br /> +O sagrado juramento <br /> +De até ao final alento <br /> +Firmemente te adorar. <br /> +De joelhos, no Altar <br /> +Co'a devida submissão <br /> +Resoluto ponho a mão; <br /> +Juro nas settas tremendas <br /> +De te amar, quer tu me offendas, <br /> +Quer tu me queiras, quer não. <br /> +<br /> +Amor co'as mãos apressadas <br /> +Ergue dos olhos a venda, <br /> +E pasma da jura horrenda, <br /> +Que assusta as aras sagradas. <br /> +«Eis as correntes pezadas, <br /> +Que te esperão,» diz irado. <br /> +Eu as acceito humilhado, <br /> +«Não, ó Deos, não +esmoreço <br /> +C'os ferros, posto conheço <br /> +Serei no amor desgraçado.» </div> +<br /> +<span class="pagenum">[77]</span> +<div class="poetry1">A Liberdade ultrajada <br /> +Lança-me a revez a vista; <br /> +Risca-me da honrada lista, <br /> +E chama-me escravo irada. <br /> +Não crimines indignada <br /> +Esta nobre sujeição. <br /> +Arrastro o ferreo grilhão; <br /> +Mas por quem? Por Nize bella. <br /> +Ah! sim te deixo por ella; <br /> +Mas com discreta eleição. </div> +<br /> +<br /> +<br /> +<span class="pagenum"><a name="p78" id="p78">[78]</a></span> +<h4>MOTE.</h4> +<br /> +<div class="poetry1"> +<em>Toda a Mulher he perjura.</em> +</div> +<br /> +<br /> +<h4>GLOZA.</h4> +<br /> +<div class="poetry1"> +Triste solitario freixo, <br /> +Mais triste do que eras d'antes, <br /> +Conta, conta aos caminhantes <br /> +A razão com que eu me queixo. <br /> +Em teu tronco escrita deixo <br /> +Minha funesta aventura: <br /> +Reconta esta historia dura, <br /> +Por que veja quem a ler, <br /> +Que depois de Armida o ser <br /> +Toda a Mulher he perjura. </div> +<br /> +<br /> +<br /> +<br /> +<span class="pagenum"><a name="p79" id="p79">[79]</a></span> +<div style="text-align: center;"><em>Ao +Illustrissimo, e Excellentissimo Senhor <br /> +Marquez de Penalva.</em> </div> +<br /> +<br /> +<br /> +<div class="poetry1"> +Illustrissimo Penalva, <br /> +Já que me dais protecção, <br /> +Sentido na occasião, <br /> +Porque bem sabeis que he calva. <br /> +Se o vosso braço me salva <br /> +Das crianças pertinazes, <br /> +Se a poder das vossas frazes <br /> +Meu duro grilhão se corta, <br /> +Por triunfo á vossa porta <br /> +Pendurarei dous rapazes. </div> +<br /> +<br /> +<br /> +<span class="pagenum"><a name="p80" id="p80">[80]</a></span> +<h4>MOTE.</h4> +<br /> +<div class="poetry1"> +<em>De mil suspiros que eu dou.</em> +</div> +<br /> +<br /> +<h4>GLOZA.</h4> +<br /> +<div class="poetry1"> +Parto em fim desesperado, <br /> +E sem que o motivo conte <br /> +Vou a estranho horizonte <br /> +Chorar o meu triste fado. <br /> +Já vejo o laço quebrado <br /> +Que a ventura me forjou; <br /> +E como Nize o quebrou, <br /> +Conservando os olhos seccos, <br /> +Ao menos não ouça os éccos <br /> +De mil suspiros que eu dou. </div> +<br /> +<br /> +<br /> +<br /> +<span class="pagenum"><a name="p81" id="p81">[81]</a></span> +<div style="text-align: center;"><em>Ao +Illustrissimo, e Excellentissimo Senhor <br /> +Marquez de Penalva.</em> +</div> +<br /> +<br /> +<br /> +<div class="poetry1"> +Hontem soube o que podia <br /> +Estilo suave, e brando: <br /> +E quanto podeis fallando <br /> +Eu o vi na Academia. <br /> +Nas almas fogo accendia <br /> +Vossa discreta Oração. <br /> +Sobre a minha pertensão <br /> +Vos peço que assim oreis, <br /> +E que ao Principe falleis <br /> +Como fallais á Nação. </div> +<br /> +<br /> +<br /> +<br /> +<span class="pagenum"><a name="p82" id="p82">[82]</a></span> +<div style="text-align: center;"><em>Ao +Illustrissimo, e Excellentissimo Senhor <br /> +Conde de Villa Verde.</em> +</div> +<br /> +<br /> +<br /> +<div class="poetry1"> +Mandais-me que os versos traga <br /> +Que na almofada fallárão; <br /> +Porque os outros vos ficárão <br /> +Nas mãos da Illustre Arriaga. <br /> +Essa honra he huma paga, <br /> +Que elles nunca +merecêrão: <br /> +Se os seus olhos se puzerão <br /> +Sobre tão baixa escritura, <br /> +Devo essa grande ventura <br /> +Ás illustres mãos que os +dérão. <br /> +<br /> +Mas he do meu triste fado <br /> +Tão teimosa a crueldade, <br /> +Que até na felicidade </div> +<span class="pagenum">[83]</span> +<div class="poetry1">Vejo que sou desgraçado: <br /> +Pois devieis cautelado <br /> +Segurar a occasião: <br /> +Fingindo que errava a mão, <br /> +Entre mil papeis diversos <br /> +Podieis em vez dos Versos <br /> +Dar-lhe a minha petição. </div> +<br /> +<br /> +<br /> +<br /> +<span class="pagenum"><a name="p84" id="p84">[84]</a></span> +<div style="text-align: center;"><em>Ao Illustrissimo, e +Excellentissimo Senhor <br /> +Conde de Villa Verde.</em> +</div> +<br /> +<br /> +<br /> +<div class="poetry1"> +Assisti á Sagração, <br /> +Acto, Senhor, dos mais serios, <br /> +Que envolve augustos Mysterios <br /> +Da nossa Religião. <br /> +Lembrou-me crismar-me então <br /> +Por ser acto Episcopal; <br /> +Por permittir acção tal <br /> +Que outro appellido se tome; <br /> +Lembrou-me trocar o nome <br /> +De Mestre em Official. <br /> +<br /> +Busquei as horas melhores, <br /> +E encommendei-me á fortuna; <br /> +Cheguei, e para a Tribuna <br /> +Tinhão já ido os Senhores. <br /> +Pelos frios corredores.<br /> +</div> +<span class="pagenum">[85]</span> +<div class="poetry1">O bom Lima me encaminha; <br /> +Foi-me pôr na tal portinha <br /> +Onde os pertendentes vão <br /> +Pôr os joelhos no chão, <br /> +E os olhos na Rainha. <br /> +<br /> +Co'a cabeça estopetada, <br /> +Como quem dorme sem cama, <br /> +Roto fumo, e alguma lama <br /> +Sobre a casaca encarnada, <br /> +Vi o tal que grita, e brada, <br /> +Quer na Sala, quer na rua. <br /> +Por mais que trabalha, e sua, <br /> +Guarda-roupa he louca idéa: <br /> +Como ha de guardar a alhêa <br /> +Quem trata tão mal da sua? <br /> +<br /> +Ao pé a figura rara <br /> +Do pardo Cardeal astuto, <br /> +Que para cumprir o luto </div> +<span class="pagenum">[86]</span> +<div class="poetry1">Lhe basta mostrar a cara. <br /> +Dos dous na justiça clara <br /> +Grandes fundamentos acho; <br /> +Mas fujo mais para baixo, <br /> +E dispenso amigos taes, <br /> +Por não ficarmos iguaes <br /> +Na justiça, e no despacho. </div> +<br /> +<br /> +<br /> +<br /> +<span class="pagenum"><a name="p87" id="p87">[87]</a></span> +<div style="text-align: center;"><em>Ao Illustrissimo, e +Excellentissimo Senhor <br /> +Conde de Villa Verde, quando morreo o <br /> +Pai do Author.</em> +</div> +<br /> +<br /> +<br /> +<div class="poetry1"> +Peito de tanta bondade <br /> +De bom Pai o nome preza; <br /> +Levou-me hum a Natureza; <br /> +Mas deixou-me outro a piedade. <br /> +Amparai minha orfandade, <br /> +Porque a vossos pés me humilho: <br /> +Se não me abrís outro trilho, <br /> +Tal a minha estrada vai, <br /> +Que irão co'a vida do Pai <br /> +As esperanças do Filho. </div> +<br /> +<br /> +<br /> +<br /> +<span class="pagenum"><a name="p88" id="p88">[88]</a></span> +<div style="text-align: center;"><em>Vagando hum Officio que o A. +pertendia.</em> +</div> +<br /> +<br /> +<br /> +<div class="poetry1"> +Jaz o defunto enterrado: <br /> +E agora saber intento, <br /> +Se a caso no testamento <br /> +Me ficou algum legado. <br /> +A vossos pés ajoelhado <br /> +Ponho em vós minha esperança: <br /> +Tenho Parte, e não descansa; <br /> +E nesta causa infeliz, <br /> +Se não fordes o juiz, <br /> +Perderei de certo a herança. </div> +<br /> +<br /> +<br /> +<br /> +<span class="pagenum"><a name="p89" id="p89">[89]</a></span> +<div style="text-align: center;"><em>Ao Doutor Joaquim Ignacio Seixas, +Medico <br /> +das Caldas.</em> +</div> +<br /> +<br /> +<br /> +<div class="poetry1"> +Meu Doutor, bem sei que quer <br /> +Que eu venha ás Ave-Marias; <br /> +Mas olhe: ha huns certos dias <br /> +Em que isto não póde ser. <br /> +Dona Antonia Xavier <br /> +(Que o Ceo por seculos guarde) <br /> +Faz annos, e eu esta tarde <br /> +Perco á Medicina o medo: <br /> +N'outros dias virei cedo; <br /> +Mas neste, ha de ser bem tarde. </div> +<br /> +<br /> +<br /> +<br /> +<span class="pagenum"><a name="p90" id="p90">[90]</a></span> +<h4>DECIMA.</h4> +<br /> +<br /> +<div style="text-align: center;"><em>A hum Prégador celebre (Fr. João +Jacintho) <br /> +estando jantando com o A.</em> +</div> +<br /> +<br /> +<br /> +<div class="poetry1"> +Se deste potente vinho <br /> +Não cerceias as rações, <br /> +Temo que nos teus Sermões <br /> +Allegues só São Martinho. <br /> +Se lhe dás largo caminho <br /> +Pelo teu fecundo peito <br /> +Seu fatal magico effeito <br /> +Deixando-te a tres de fundo, <br /> +Te fará ser o segundo <br /> +Que diga: <em>sempre me deito</em>.<sup><a href="#n8">[8]</a></sup> </div> +<br /> +<br /> +<br /> +<br /> +<span class="pagenum"><a name="p91" id="p91">[91]</a></span> +<div style="text-align: center;"><em>Carta a Lourenço da Mota, Official +da <br /> +Secretaria.</em> +</div> +<br /> +<br /> +<br /> +Amigo Lourenço: Se tu não sabes o que he não ter dinheiro, eu to +explico: Abaixo de Estupores he o maior mal do mundo, principalmente +para quem herdou Irmãas sem nenhum rendimento, e com<br /> +muito bom estomago. <br /> +<br /> +Por vêr se aligeirava esta carga, empenhei-me em hum milhão para lhes +comprar tenças, e em outro para lhas assentar; mas como as não cobrão, +morrem de fome, e depois que são ricas, tornão-se a mim, e dellas +aprendo o que são lucros cessantes, e damnos emergentes. Cuidei que +tinha mettido huma lança em Africa, e vejo que a metti em mim mesmo; e +arde agora a vela pelas duas pontas. <br /> +<br /> +Tu que tens bom coração, e que estás +<span class="pagenum">[92]</span> +ao pé do Senhor Marquez, que o tem melhor, +pede-lhe por caridade o despacho +dessa petição. <br /> +<br /> +Não te assustem os tres annos; porque +ainda mal que ouço que no de 93 não +tiverão +cabimento. Pede-lhe que já que me +livrou de crianças, me livre tambem de +velhas, gado ainda mais impertinente, e +que se não contenta com figuras de Rhetorica. +Interessa-te pelo teu Nicoláo, Amigo, +e Collega, e sabe que, se lhe não +mandas as Portarias, terás a vergonha de +o vêr andar pelas outras. Recomenda-se á +tua efficacia.<br /> +<br /> +<div class="signature"> +O teu fiel Amigo </div> +<br /> +<div class="signature1"><em>N. T.</em> </div> +<br /> +<br /> +<br /> +<br /> +<span class="pagenum">[93]</span> +<div class="poetry1">Peço que mates a fome <br /> +A este meu povo immenso, <br /> +E peço-te, meu Lourenço, <br /> +Pelo Santo do teu Nome. <br /> +Por hum bom serviço tome <br /> +A paga das taes tencinhas. <br /> +Pois teve as carnes mesquinhas <br /> +Em vivas brazas vermelhas, <br /> +Em louvor das suas grelhas <br /> +Peço me livres das minhas. <br /> +<br /> +Com esta tenho enviado <br /> +Tres cartas, segundo penso, <br /> +Ao meu amigo Lourenço: <br /> +Nem reposta, nem mandado. <br /> +A dôr de que estou tomado <br /> +Sim desejo allivialla: <br /> +Mas a tua mais me aballa, <br /> +E parece mais intensa: <br /> +Pois eu sim fico sem Tença; <br /> +Porém tu estás sem falla. </div> +<br /> +<br /> +<br /> +<br /> +<span class="pagenum"><a name="p94" id="p94">[94]</a></span> +<div style="text-align: center;"><em>Ao Illustrissimo, e +Excellentissimo Senhor <br /> +Conde de Villa Verde, andando o A. na <br /> +pertenção de ser Official da Secretaria <br /> +de Estado.</em></div> +<br /> +<br /> +<br /> +<br /> +<h4>DECIMA.</h4> +<br /> +<br /> +<div class="poetry1"> +Senhor, venho perguntar <br /> +Quando ides ficar no Paço: <br /> +Para que á força de braço <br /> +Lanceis esta náo ao mar. <br /> +Sabe montes aplanar <br /> +Vossa discreta portia: <br /> +E pinta-me a fantasia, <br /> +A qual nem sempre me engana, <br /> +Que só na Vossa semana <br /> +Me ha de chegar o meu dia. </div> +<br /> +<br /> +<br /> +<br /> +<span class="pagenum"><a name="p95" id="p95">[95]</a></span> +<div style="text-align: center;"><em>Ao Juiz do Crime de Andaluz, +dando-lhe este <br /> +parte que estava para casar, e mostrando-lhe <br /> +versos, que fizera á Noiva. He o <br /> +de que trata o soneto 33, Tom. I. pag. 35.</em> +</div> +<br /> +<br /> +<br /> +<div class="poetry1"> +Manoel, muda o cuidado, <br /> +Abafa essa chamma ardente: <br /> +Não falla hum são a hum doente; <br /> +Falla-te outro exp'rimentado. <br /> +<br /> +Já servi ao Deos do engano, <br /> +Fórte com forças alheias. <br /> +Passei nas suas cadeias <br /> +Apoz hum anno outro anno. <br /> +<br /> +Prometteo-me alto favor; <br /> +Mas sabe, pois que começas, <br /> +Que o que tive das promessas <br /> +Forão lagrimas, e dôr. </div> +<br /> +<span class="pagenum">[96]</span> +<div class="poetry1">Não te deixes enganar <br /> +Do rosto brando, e sereno: <br /> +Tempéra em riso o veneno; <br /> +Afaga para matar. <br /> +<br /> +Com mil modos attractivos <br /> +Chama a cega, e incauta gente: <br /> +Lança-lhe dura corrente, <br /> +E escarnece dos cativos. <br /> +<br /> +Como trata os infelizes, <br /> +Que andou outr'ora amimando, <br /> +Meu peito to está mostrando <br /> +Nesta frescas cicatrizes. <br /> +<br /> +Até em cousas de peta <br /> +Quer mostrar o seu rigor: <br /> +Faz entrar n'hum prosador <br /> +A mania de poeta. </div> +<br /> +<span class="pagenum">[97]</span> +<div class="poetry1">Mas esses laços que trazes, <br /> +Dom desse Deos inimigo, <br /> +Talvez que sejão castigo <br /> +D'outras prizões, que tu fazes. <br /> +<br /> +Fere a muitos tua mão, <br /> +Inda que tanto a reprimes, <br /> +E vens a pagar teus crimes <br /> +Com pena de Talião. </div> +<br /> +<br /> +<br /> +<br /> +<span class="pagenum"><a name="p98" id="p98">[98]</a></span> +<h4>MEMORIAL</h4> +<br /> +<br /> +<div style="text-align: center;"><em>A Suas Altezas.</em> </div> +<br /> +<br /> +<br /> +<div class="poetry1"> +Se os Principes nos são dados <br /> +Para geral beneficio, <br /> +E se o seu mais digno officio <br /> +He ouvir os desgraçados: <br /> +<br /> +Ouví minha desventura, <br /> +E consentí que esta vez <br /> +Se lastime a vossos pés <br /> +Hum queixoso da ventura. <br /> +<br /> +Sahirem humildes ais <br /> +De hum peito singelo, e aberto, <br /> +He o direito mais certo, <br /> +Quando os Juizes são tais. </div> +<br /> +<span class="pagenum">[99]</span> +<div class="poetry1">Fundadas sobre a verdade <br /> +As minhas supplicas vão: <br /> +Não peço por ambição, <br /> +Peço por necessidade. <br /> +<br /> +Em mim o cuidado cae <br /> +De Irmãs postas em pobreza: <br /> +A piedade, e a natureza <br /> +Me fazem Irmão, e Pae. <br /> +<br /> +Olhos em pranto banhados, <br /> +Que eu sem dôr não posso ver, <br /> +Vos fazem agora ler <br /> +Estes versos mal limados. <br /> +<br /> +São tristes Orfãs donzellas, <br /> +E merecem suas dôres <br /> +Que vós, Augustos Senhores, <br /> +Hajais piedade dellas. </div> +<br /> +<span class="pagenum">[100]</span> +<div class="poetry1">Por mais esforços que eu faça <br /> +Como hei de dar-lhe favor, <br /> +Se o seu triste bemfeitor <br /> +Vive na mesma desgraça? <br /> +<br /> +Da miseria as tirareis, <br /> +Se eu da miseria sahir: <br /> +Sobre muitos vai cahir <br /> +O favor que me fazeis. <br /> +<br /> +Vós, ó Augusta Princeza, <br /> +Em quem o Ceo quiz juntar <br /> +O melhor que pódem dar <br /> +A fortuna, a natureza, <br /> +<br /> +Tende dó de seu lamento; <br /> +E dai a mão favoravel <br /> +A hum sexo respeitavel, <br /> +De que vós sois ornamento. </div> +<br /> +<span class="pagenum">[101]</span> +<div class="poetry1">A petição que vos faço <br /> +Não he de facil indulto; <br /> +Para pouco, fora insulto <br /> +Valer-me do Vosso braço. <br /> +<br /> +Não he facil, mas he justa: <br /> +E será bem despachada, <br /> +Se huma vez apresentada <br /> +For por Vós á Irmã Augusta. <br /> +<br /> +Principes, tende piedade: <br /> +Ponde a meus queixumes pausa: <br /> +Protegei na minha causa <br /> +A causa da humanidade. <br /> +<br /> +O que de Tito se diz, <br /> +Hum Rei Vosso Avô dizia; <br /> +Chamava perdido o dia, <br /> +Se não fez alguem feliz. </div> +<br /> +<span class="pagenum">[102]</span> +<div class="poetry1">Motivo de tristes ais <br /> +Quaesquer mãos o pódem dar; <br /> +Más venturas emendar <br /> +Só pertence a mãos Reais. <br /> +<br /> +Dos homens, inda que ingratos, <br /> +Ouve Deos os rogos justos: <br /> +Vós, ó Principes Augustos, <br /> +Sois na terra os seus retratos. <br /> +<br /> +Mas já o tempo opportuno <br /> +Apressa as azas escassas, <br /> +E não devo ás mais desgraças <br /> +Ajuntar a de importuno. <br /> +<br /> +Acabe a triste escriptura, <br /> +Digna por tal de piedade: <br /> +Eu dei-lhe pranto, e verdade, <br /> +Vós podeis dar-lhe ventura. </div> +<br /> +<br /> +<br /> +<br /> +<span class="pagenum"><a name="p103" id="p103">[103]</a></span> +<div style="text-align: center;"><em>No dia dos Annos do Illustrissimo, +e Excellentissimo <br /> +Senhor Conde de Villa Verde.</em> +</div> +<br /> +<br /> +<br /> +<div class="poetry1"> +Não venho dourar enganos; <br /> +A vida não he louvor; <br /> +Pois tambem vivem Tyrannos: <br /> +Eu venho, illustre Senhor <br /> +Louvar obras, e não annos. <br /> +<br /> +De homem commum não se exime <br /> +Quem não tem virtudes claras: <br /> +He pouco fugir do crime: <br /> +Consagrão-se as almas raras <br /> +A trabalho mais sublime; <br /> +<br /> +A trabalho heroico: e creio <br /> +Pelo provado aforismo, <br /> +Que em sãos Filosofos leio, <br /> +Que o verdadeiro heroismo <br /> +He fazer o bem alheio. </div> +<br /> +<span class="pagenum">[104]</span> +<div class="poetry1">Taes trabalhos honra dão <br /> +Á digna mão que os procura: <br /> +Não amo Heróes da ambição: <br /> +Buscão a sua ventura; <br /> +Vós buscais a da Nação. <br /> +<br /> +Serem por vós levantados <br /> +Os talentos esquecidos; <br /> +Do triste os ais desprezados <br /> +Serem aos Reaes Ouvidos <br /> +Pelas vossas mãos levados; <br /> +<br /> +De quem a vós se acolheo, <br /> +Remediar o queixume; <br /> +Ter como proprio o mal seu; <br /> +He este o vosso costume, <br /> +E o genio que o Ceo vos deo. <br /> +<br /> +E o Throno aos Povos propicio, <br /> +Que vigia em seu favor, <br /> +Fez-lhe o geral beneficio <br /> +De mandar, que em vós, Senhor,<br /> +O que he genio fosse Officio. </div> +<br /> +<span class="pagenum">[105]</span> +<div class="poetry1">Partio Officios pezados <br /> +Com quem os servisse bem: <br /> +São projectos acertados: <br /> +Quem do Throno o sangue tem, <br /> +Tenha tambem os cuidados. <br /> +<br /> +Dai aos gratos Lusitanos <br /> +Longo tempo Mão segura <br /> +Contra injustiças, e enganos; <br /> +E seja a sua ventura <br /> +O louvor dos vossos Annos. <br /> +<br /> +Mas, Senhor, moços Poetas <br /> +Vinguem meus esforços vãos: <br /> +Musas zombão de Jarretas: <br /> +Pedem-me as tremulas mãos, <br /> +Mais do que Lyra, muletas. <br /> +<br /> +Fogosos Vates emprehendão <br /> +Altos vôos neste dia: <br /> +Musas com Musas contendão: <br /> +Sáião Odes á porfia; <br /> +E queira Deos que se entendão. </div> +<br /> +<br /> +<br /> +<br /> +<span class="pagenum"><a name="p106" id="p106">[106]</a></span> +<h4>QUINTILHAS </h4> +<br /> +<br /> +<div style="text-align: center;"> +<em>Em louvor de huma Senhora.</em> +</div> +<br /> +<br /> +<br /> +<div class="poetry1"> +Lyra minha, rouca lyra, <br /> +Hoje afinada consente, <br /> +Que a tremula mão te fira: <br /> +Cante huma só vez contente <br /> +Quem por costume suspira. <br /> +<br /> +Louvemos Anarda bella; <br /> +Eu vejo aos astros subir <br /> +Meus versos em honra della, <br /> +E possa quem os ouvir <br /> +Adora-la antes de vê-la. <br /> +<br /> +Já lédo as vozes desato: <br /> +Ouve, ó Nynfa, os teus louvores: <br /> +Não pertendo ser-te grato <br /> +Traçando com vivas cores <br /> +Teu angelico retrato. </div> +<br /> +<span class="pagenum">[107]</span> +<div class="poetry1">Permitte, Anarda piedosa, <br /> +Que se farte o meu desejo <br /> +N'outra empreza mais gloriosa; <br /> +Que o menor dom que em ti vejo, <br /> +He o dom de ser formosa. <br /> +<br /> +Rubra boca, os olhos bellos, <br /> +Que brandamente movidos, <br /> +São de Amor agudos zelos; <br /> +Sobre alvo collo esparzídos <br /> +Louros ondados cabellos; <br /> +<br /> +Braço airoso, a mão de neve; <br /> +Proporcionada cintura; <br /> +Eis a tua copia breve: <br /> +Porém vôa a formosura <br /> +Nas azas do tempo leve. <br /> +<br /> +Outros bens mais duradouros <br /> +Não são á tua alma esquivos, <br /> +Bens que nos annos vindouros <br /> +Valem mais que huns olhos vivos, <br /> +Que huns soltos cabellos louros. </div> +<br /> +<span class="pagenum">[108]</span> +<div class="poetry1">A destruir a belleza <br /> +A curva velhice corre: <br /> +Nada conserva firmeza; <br /> +Só a virtude não morre: <br /> +Vence as leis da Natureza. <br /> +<br /> +Tu, que prezas a verdade; <br /> +Que tratas falsos sujeitos <br /> +Só com a côr de amizade, <br /> +E para os sinceros peitos <br /> +Mostras ter sinceridade; <br /> +<br /> +Tu, que os enganos deslizas; <br /> +Que sabes vencer desgostos; <br /> +Que a lisonja ufana pizas; <br /> +Que não vês sómente os rostos; <br /> +Que até corações divizas; <br /> +<br /> +Tu, que da seria prudencia <br /> +Segues os dictames puros; <br /> +Que tens amado a innocencia, <br /> +E nos conselhos maduros <br /> +Mostras de idade experiencia; </div> +<br /> +<span class="pagenum">[109]</span> +<div class="poetry1">Teu nome eterno ha de ser <br /> +Estampado entre as estrellas; <br /> +Has de as mais Nynfas vencer, <br /> +Que sómente em serem bellas <br /> +Fundão todo o seu poder. <br /> +<br /> +Amão a fofa vaidade; <br /> +Dos homens a seu sabor <br /> +Prendem a solta vontade: <br /> +Trazem nos olhos amor, <br /> +No coração falsidade. <br /> +<br /> +Muitas fingem desprezar <br /> +Finezas de amante rude; <br /> +Fingem os sabios amar: <br /> +Não o fazem por virtude, <br /> +Querem talentos mostrar. <br /> +<br /> +De que serve huma alma pura, <br /> +Se os pezados membros cobre <br /> +Rota humilde vestidura? <br /> +Nada val hum peito nobre <br /> +N'huma grosseira figura. </div> +<br /> +<span class="pagenum">[110]</span> +<div class="poetry1">Corpo esbelto, onde ajustado <br /> +Brilha, cheio de ouro immenso, <br /> +Curto fraque afrancezado; <br /> +Cheiroso, candido lenço; <br /> +O cabello apolvilhado; <br /> +<br /> +Jocosas palavras ôcas; <br /> +Estes os dons relevantes, <br /> +Que deixão de vencer poucas <br /> +Das que fingem ser amantes, <br /> +E não passão de ser loucas. <br /> +<br /> +Tu tens outro entendimento: <br /> +És sempre igual: não te vales <br /> +Das côres do fingimento: <br /> +Quer séria, quer rindo falles, <br /> +Não fundas torres no vento. <br /> +<br /> +Rís da baixa adulação, <br /> +Mal que os teus ouvidos toca <br /> +A contrafeita expressão: <br /> +Conheces na falsa boca <br /> +O enganoso coração. </div> +<br /> +<span class="pagenum">[111]</span> +<div class="poetry1">Ver sobre molle tapete, <br /> +Curvando as pernas, e os braços, <br /> +Peralta de alto topete, <br /> +Com destros miudos passos, <br /> +Dançar Francez minuete; <br /> +<br /> +Vê-lo nutrindo esperanças <br /> +Entre agradaveis parceiras, <br /> +Fazer rapidas mudanças, <br /> +Torcendo as mãos nas ligeiras <br /> +Buliçosas contradanças; <br /> +<br /> +Fervente rebeca ouvir, <br /> +Que infunde vivos prazeres, <br /> +Jámais te faz distrahir; <br /> +Pois antes dos Sabios queres <br /> +Sabios conceitos ouvir. <br /> +<br /> +Só te vejo attenta em quanto <br /> +Ouves palavras discretas; <br /> +As Musas estimas tanto, <br /> +Que até dos tristes Poetas <br /> +Te commove o triste pranto. </div> +<br /> +<span class="pagenum">[112]</span> +<div class="poetry1">Conheces seu duro mal; <br /> +Que sempre tributão fé <br /> +A coração desleal: <br /> +Que por isso em todos he <br /> +A tristeza natural. <br /> +<br /> +Que ás Nynfas endurecidas <br /> +Lhes não causão terno effeito; <br /> +Que triunfão das fingidas, <br /> +Guardando dentro do peito <br /> +Inda frescas as feridas. <br /> +<br /> +Porém já que ouzei fallar <br /> +De Amor nas sanguineas reixas, <br /> +Vou a lyra pendurar: <br /> +Não quero com minhas queixas <br /> +Teus louvores misturar. <br /> +<br /> +Tu dirás que não tens parte <br /> +No meu mal cruento, e fero; <br /> +Que vou tristezas lembrar-te; <br /> +Dirás que affligir-te quero, <br /> +Quando desejo louvar-te. </div> +<br /> +<span class="pagenum">[113]</span> +<div class="poetry1">Não te deves admirar: <br /> +Sei que em vão me estou queixando; <br /> +Mas quem sente o seu pezar, <br /> +Se principia cantando, <br /> +Sempre acaba a suspirar. </div> +<br /> +<br /> +<br /> +<br /> +<span class="pagenum"><a name="p114" id="p114">[114]</a></span> +<h4>QUIXOTADA.</h4> +<br /> +<br /> +<br /> +<div class="poetry1"> +Espicaça esse animal, <br /> +Companheiro Sancho Pança, <br /> +Entremos em Portugal, <br /> +E vamos molhar a lança <br /> +A pró do triste Pombal. <br /> +<br /> +Poetas principiantes, <br /> +Já estou em circo raso: <br /> +Tambem Apollo he Cervantes, <br /> +Tambem cria no Parnaso <br /> +Seus cavalleiros andantes. <br /> +<br /> +Não vos chamo, ó sujo rancho, <br /> +Que até os versos errais; <br /> +Em tal sangue as mãos não mancho: <br /> +Para vós, e outros que taes <br /> +Sobeja a espada do Sancho. </div> +<br /> +<span class="pagenum">[115]</span> +<div class="poetry1">Sobre vós carrego a mão, <br /> +Sobre vós, ó folhas velhas, <br /> +Que dais n'hum homem no chão, <br /> +Sem vos lembrar, que entre ovelhas <br /> +He fraqueza ser leão. <br /> +<br /> +Essa boca enganadora, <br /> +Que he hoje da maldição, <br /> +Mil vezes se poz outra hora <br /> +Sobre a praguejada mão, <br /> +E lhe chamou bemfeitora. <br /> +<br /> +Pois já que vós sois assim, <br /> +Povo revoltoso, e ingrato, <br /> +Hoje castigar-vos vim: <br /> +Ireis pelo pó do gato, <br /> +Nem esp'reis quartel em mim. <br /> +<br /> +Santo Téjo, o curso enfreia, <br /> +E montando rochas duras <br /> +Torna atraz a clara veia: <br /> +Conta novas aventuras <br /> +Á formosa Dulcineia. </div> +<br /> +<span class="pagenum">[116]</span> +<div class="poetry1">Nova guerra o mundo veja, <br /> +Guerra em que pouco se arrisca: <br /> +Serão armas na peleja, <br /> +Provado fuzil, e isca, <br /> +Secca, espinhosa carqueja. <br /> +<br /> +Irmão Sancho, põe-te a pé, <br /> +Põe essas Rimas a prumo, <br /> +Principio á obra se dê, <br /> +Tolde o ar o negro fumo <br /> +Deste novo Auto da Fé. <br /> +<br /> +Queima essas Satyras frias, <br /> +Faltas de sizo, e conselho: <br /> +Queima prosas, e poesias: <br /> +Acabe o cansado velho <br /> +Em paz os seus tristes dias. <br /> +<br /> +Porém poupa sempre alguma <br /> +Das raras que tem sabor: <br /> +Das outras nem deixes huma, <br /> +Dessas que tudo he rancor, <br /> +E poesia nenhuma. </div> +<br /> +<span class="pagenum">[117]</span> +<div class="poetry1">Em tanto as armas pendura: <br /> +Mas se houver desassizados, <br /> +Que queirão guerra mais dura, <br /> +Da minha lança cortados <br /> +Descerão á sepultura. <br /> +<br /> +Já nuvens de fumo vejo: <br /> +Já chamma brilhante o arreda: <br /> +Já se farta o meu desejo; <br /> +Já da viva lavareda <br /> +Dá o clarão sobre o Tejo. <br /> +<br /> +Essas cinzas denegridas, <br /> +Que ao velho poupão mil magoas, <br /> +Leve-as o Téjo envolvidas, <br /> +Fiquem no fundo das aguas <br /> +Para sempre submergidas. <br /> +<br /> +Vês, Sancho, do nome meu <br /> +Como vôa a clara fama? <br /> +Nem viva alma appareceo <br /> +A apagar a voraz chamma, <br /> +Ninguem, ninguem se atreveo! </div> +<br /> +<span class="pagenum">[118]</span> +<div class="poetry1">Vês como ajuda o destino. <br /> +A hum bom cavalleiro andante? <br /> +Não precizei de aço fino, <br /> +Nem de pés de Rocinante, <br /> +Nem de elmo de Mambrino. <br /> +<br /> +Ó tu que alçaste a viseira <br /> +Forcejando os nervos velhos, <br /> +E para ver a fogueira <br /> +Limpaste os olhos vermelhos <br /> +Na felpuda cabelleira: <br /> +<br /> +Abaixa a proa huma vez, <br /> +Chega a Dulcinea bella, <br /> +E dize posto a seus pés: <br /> +«Formosissima Donzella, <br /> +Eu sou hum triste Marquez, <br /> +<br /> +«Que fugindo a hum povo inteiro, <br /> +A quem mettêra em furor <br /> +Minha privança, e dinheiro, <br /> +Vim achar mantenedor <br /> +Em teu nobre cavalleiro. </div> +<br /> +<span class="pagenum">[119]</span> +<div class="poetry1">«Disse este povo malvado, <br /> +Que eu tinha o reino extorquido; <br /> +Que era gatuno afamado, <br /> +E que em jogos de partido <br /> +Tinha com todos levado; <br /> +<br /> +«Que no Tabaco levava <br /> +Hum quinhão avantajado; <br /> +Que o Sabão não me escapava; <br /> +E que sem ser Deputado <br /> +Nas Companhias entrava. <br /> +<br /> +«Das minhas Leis murmuravão: <br /> +E os seus pequenos juizos <br /> +Tão pouco o ponto tocavão, <br /> +Que sempre me erão precisos <br /> +Assentos que as declaravão. <br /> +<br /> +«Té na lingoa sem motivo <br /> +Dérão criticos revezes: <br /> +Fiz nella estudo excessivo, <br /> +Bebi nos bons Portuguezes <br /> +<em>Monopolio</em>, e +<em>respectivo</em>. </div> +<br /> +<span class="pagenum">[120]</span> +<div class="poetry1">«Disse mais o povo insano, <br /> +Que perdi de Roma o trilho; <br /> +Que fui Sultão soberano; <br /> +Que andei cazando meu filho <br /> +Segundo o rito Othomano. <br /> +<br /> +«Mas toda a maldade he sua: <br /> +Vêm riquezas, e palacio, <br /> +Comem-se de inveja crua: <br /> +São huns novos cães de Horacio <br /> +Ladrando debalde á lua. <br /> +<br /> +«Já se me dá pouco, ou nada <br /> +Da sua guerra pequena: <br /> +Tenho gente em campo armada, <br /> +Tenho Mendoça co'a penna, <br /> +E Dom Quixote co'a espada.» <br /> +<br /> +Esta falla, ou outra igual <br /> +Acabada, meu Marquez, <br /> +Faze rev'rencia formal, <br /> +E arrastra os gotozos pés <br /> +Para a villa do Pombal. </div> +<br /> +<span class="pagenum">[121]</span> +<div class="poetry1">Nella vive descansado, <br /> +Porque as aguas vão serenas; <br /> +Sempre Ministro de Estado, <br /> +Mandando cousas pequenas <br /> +No teu Lopes encostado. <br /> +<br /> +Junto á Estatua vil canalha <br /> +Desprende as lingoas tyrannas: <br /> +E se esta rude gentalha <br /> +Arrancar com mãos profanas <br /> +A carrancuda medalha: <br /> +<br /> +Armas em ouro gravadas <br /> +Ser-te-hão por mim erigidas, <br /> +E por ti mesmo traçadas, <br /> +Em sangue humano tingidas, <br /> +E com mil leis penduradas. </div> +<br /> +<br /> +<br /> +<br /> +<span class="pagenum"><a name="p122" id="p122">[122]</a></span> +<h4>ODE</h4> +<br /> +<br /> +<div style="text-align: center;"> +<em>Offerecida a SS. MAGESTADES, no dia <br /> +da Acclamação da Rainha N. +Senhora.</em> +</div> +<br /> +<br /> +<br /> +A vida escura em que a natureza, e a fortuna me lançárão tão +longe dos Reaes pés de VV. MAGESTADES; o medo justo de mandar huma voz +fraca, e desconhecida aos ouvidos de Reis, prenderião hoje a minha +lingoa temerosa, se o amor da Patria, e o gosto de a ver feliz, +dando-me novo espirito, me não puzessem na boca esta lingoagem, de huma +alma singela, estes versos sem arte dictados pelo amor respeitoso, e +que em lugar de enganosa, e enfeitada poesia, descobrem unicamente os +sentimentos de hum coração fiel, onde VV. MAGESTADES reinão +Soberanamente. <br /> +<br /> +Neste Throno, a que poucos Monarcas +<span class="pagenum">[123]</span> +sobem, tem a Nação Portugueza collocado a VV. MAGESTADES por aquelle +talento de agradar, dom do Ceo, precioso, e raro na Sagrada Pessoa dos +Reis, que querem (como VV. MAGESTADES conseguírão) ser acclamados pela +alegria publica, e pela torrente de lagrimas, com que hum povo inteiro, +transportado de gosto, levantava ás estrellas os Augustos Nomes de seus +novos Reis. Eu vi, Senhores, este grande espectaculo; foi huma scena de +ternura, que arrancaria lagrimas ainda a hum coração que não fosse +Portuguez. Vi soldados velhos, que endurecidos ao frio, e á calma, +queimados com o fogo da polvora, annunciavão hum coração de ferro, +banharem pela primeira vez de lagrimas ternissimas aquelles honrados +rostos, aquellas cerradas feridas, que recebêrão pela Patria, e que +tornarião a abrir com gosto, se o felicissimo Reinado de VV. MAGESTADES +não estivesse destinado á paz, e á felicidade dos seus povos; era +preciso ser insensivel para que no meio de hum povo entregue á doce, e +tumultuosa desordem, +<span class="pagenum">[124]</span> +que cansa a alegria excessiva, se conservasse a minha alma na sua +situação ordinaria; prendeo nella huma faisca do fogo sublime, que eu +vi atear nos corações +Portuguezes: a alta idéa das Virtudes de VV. MAGESTADES, a multidão de +beneficios com que vemos dourados os dias do seu faustissimo Reinado, +huma longa serie de felicidades aberta no futuro diante dos meus olhos, +me levarião a través do povo, e das armas ao Throno dos Reis, onde á +face do Ceo, e dos homens me desentranhasse em gritos de alegria, e +mostrasse nesta especie de delirio, que o coração de VV. MAGESTADES não +trabalha para ingratos; mas o profundo, e sagrado respeito, que pôde +suffocar em mim este impeto de ternura, não pôde fazer callar-me; +levado da invencivel força do amor, e do reconhecimento, me atrevo a +pôr na Real presença de VV. MAGESTADES grandes cousas em máos versos; +ponho a simples verdade, ponho os votos da Nação, e algumas das muitas +acções de piedade com que VV. MAGESTADES tem mandado contentes os +<span class="pagenum">[125]</span> +que levão por valia a razão, ou as +desgraças. Se VV. MAGESTADES do alto do Throno se dignarem lançar os +olhos sobre estes humildes versos, reconheceráõ nelles não o Estro que +faz Poetas, mas o que faz vassallos amantes de seus Soberanos. Estro +sublime, e que deve tocar mais no coração dos Monarcas, do que o das +Odes famosas de Pindaro, e de Horacio, cheias da mais bella poesia; mas +filhas da arte, e da lisonja, e onde não fuzila aquella luz de verdade, +que dará logo nos Reaes olhos de VV. MAGESTADES, se eu tiver a +incomparavel honra de que este papel seja apresentado diante do +Augusto, e Respeitavel Throno dos Pais da Patria, dos Amigos, dos +Bemfeitores, dos Reis adorados da felicissima, e sempre fiel Nação +Portugueza. <br /> +<br /> +<br /> +<br /> +<br /> +<span class="pagenum">[126]</span> +<h4>ODE.</h4> +<br /> +<br /> +<br /> +<div class="poetry1">Das virtudes guiados </div> +<div class="poetry">Subí ao alto Throno, oh Reis Augustos; </div> +<div class="poetry1">Nem sempre esquivos fados </div> +<div class="poetry">Se nos hão de mostrar surdos, e injustos: </div> +<div class="poetry1">Abrem vasto thesouro, </div> +<div class="poetry">E nos mandão por Vós a Idade de Ouro. </div> +<br /> +<div class="poetry1">Do Rei aos Ceos erguido</div> +<div class="poetry">O Reino, e o coração tendes herdado,</div> +<div class="poetry1">Benigno, enternecido,</div> +<div class="poetry">De mil virtudes solidas dotado;</div> +<div class="poetry1">Por genio piedoso,</div> +<div class="poetry">E digno em fim de tempo mais ditoso.</div> +<br /> +<span class="pagenum">[127]</span> +<div class="poetry1">Da Eterna Providencia </div> +<div class="poetry">Os beneficos raios fuzilárão; </div> +<div class="poetry1">Já se estima a innocencia, </div> +<div class="poetry">Já os tempos de Ferro se abrandárão, </div> +<div class="poetry1">Já vem o ar talhando </div> +<div class="poetry">A Piedade, e a Justiça os braços dando. </div> +<br /> +<div class="poetry1">Com subita alegria </div> +<div class="poetry">Tornai a ver os conhecidos lares, </div> +<div class="poetry1">Tornai a ver o dia, </div> +<div class="poetry">Vós que habitastes horridos lugares, </div> +<div class="poetry1">Lugares deshumanos </div> +<div class="poetry">Onde passastes dez, e outros dez annos. </div> +<br /> +<div class="poetry1">Do chão desentranhados </div> +<div class="poetry">Vinde jurar os novos Reis felizes: </div> +<div class="poetry1">Nos pulsos descarnados </div> +<div class="poetry">Mostrai ao Povo as roxas cicatrizes, </div> +<div class="poetry1">E os grilhões inda quentes </div> +<div class="poetry">Na praça triunfal deixai pendentes. </div> +<br /> +<span class="pagenum">[128]</span> +<div class="poetry1">Que lagrimas levaste,</div> +<div class="poetry">Patrio Téjo, na tua escura veia </div> +<div class="poetry1">Quando turvo passaste!</div> +<div class="poetry">E as ondas, que quebravas sobre a areia,</div> +<div class="poetry1">Que cinzas que +regárão!</div> +<div class="poetry">Que triste sangue para o mar levárão!</div> +<br /> +<div class="poetry1">Mas torna, oh manso Téjo,</div> +<div class="poetry">Torna a volver corrente prateada:</div> +<div class="poetry1">Já taes males não +vejo:</div> +<div class="poetry">E até já foge a nuvem carregada,</div> +<div class="poetry1">Que á triste Lusa terra</div> +<div class="poetry">Promettia fatal, e pronta guerra.</div> +<br /> +<div class="poetry1">De pelouro violento</div> +<div class="poetry">Não vê cahir o exangue companheiro;</div> +<div class="poetry1">E dorme ao som do vento</div> +<div class="poetry">Em campo aberto o molle pegureiro;</div> +<div class="poetry1">O lavrador cantando</div> +<div class="poetry">Em paz herdados campos vai cortando.</div> +<br /> +<span class="pagenum">[129]</span> +<div class="poetry1">Da sorte das batalhas</div> +<div class="poetry">Livrai, Piedosos Reis, os Portuguezes;</div> +<div class="poetry1">Pendurem duras malhas,</div> +<div class="poetry">E os temperados lucidos arnezes</div> +<div class="poetry1">Os ardidos soldados</div> +<div class="poetry">Das lagrimosas Mãis em vão chamados.</div> +<br /> +<div class="poetry1">Que dias florecentes</div> +<div class="poetry">Ao vosso fiel povo preparastes!</div> +<div class="poetry1">Quando com mãos prudentes</div> +<div class="poetry">O pezo dos negocios espalhastes</div> +<div class="poetry1">Sobre os hombros robustos</div> +<div class="poetry">De Ministros inteiros, sabios, justos.</div> +<br /> +<div class="poetry1">Gemêo maniatado</div> +<div class="poetry">Longo tempo o infeliz merecimento;</div> +<div class="poetry1">Mas já, o collo +alçado,</div> +<div class="poetry">Sacode o negro pó do esquecimento,</div> +<div class="poetry1">E a virtude innocente</div> +<div class="poetry">De illustres palmas lhe coroa a frente.</div> +<br /> +<span class="pagenum">[130]</span> +<div class="poetry1">Já vingadas +seráõ</div> +<div class="poetry">Do vil tutor as timidas donzellas;</div> +<div class="poetry1">Já não erguem em +vão</div> +<div class="poetry">As mãos, e os tristes olhos ás estrellas;</div> +<div class="poetry1">Nua de falsidade</div> +<div class="poetry">Aos ouvidos dos Reis chega a verdade.</div> +<br /> +<div class="poetry1">Mil louvores lhe cantão,</div> +<div class="poetry">O limpo coração pondo no rosto:</div> +<div class="poetry1">E n'alma lhe levantão</div> +<div class="poetry">Novo Throno, sobre ella melhor posto,</div> +<div class="poetry1">Que entre espessas falanges,</div> +<div class="poetry">Que sobre ouro, ou perolas do Ganges.</div> +<br /> +<div class="poetry1">Novos Reis +Soberanos,</div> +<div class="poetry">Que hoje as rédeas tomais do Reino vosso,</div> +<div class="poetry1">Os Fastos Lusitanos</div> +<div class="poetry">Dirão de Vós o que eu dizer não posso: +</div> +<div class="poetry1">Vossa Augusta Memoria</div> +<div class="poetry">Abrirá largo campo á longa Historia.</div> +<br /> +<span class="pagenum">[131]</span> +<div class="poetry1">Sem trabalho podeis </div> +<div class="poetry">Fazer feliz a gente Portugueza, </div> +<div class="poetry1">Seguindo as santas leis, </div> +<div class="poetry">Que n'alma vos gravou a Natureza, </div> +<div class="poetry1">A rara humanidade </div> +<div class="poetry">A incorrupta Justiça, a sã Verdade. </div> +<br /> +<br /> +<br /> +<br /> +<span class="pagenum"><a name="p132" id="p132">[132]</a></span> +<div style="text-align: center;"><em>No dia dos Annos do Illustrissimo, +e Excellentissimo <br /> +Senhor Marquez de Angeja.</em> </div> +<br /> +<h4>ODE</h4> +<br /> +<br /> +<br /> +<div class="poetry">A rouca Lyra, Musa, temperemos,</div> +<div class="poetry1">Cordas de ouro lhe ponho:</div> +<div class="poetry">O triste Boticario em paz deixemos,</div> +<div class="poetry1">E o Gamaõ enfadonho;</div> +<div class="poetry">Inspira-me huma vez sonoros hinos, <br /> +Que Apollo julgue deste dia dinos. <br /> +<br /> +Ensina-me a louvar do Illustre Angeja</div> +<div class="poetry1">Talentos sup'riores;</div> +<div class="poetry">Que soffreo os assaltos d'alta inveja,</div> +<div class="poetry1">Como soffre os louvores;</div> +<div class="poetry">Cuja alma não conhece vís mudanças, <br /> +Ou corrão tempestades, ou bonanças.</div> +<br /> +<span class="pagenum">[133]</span> +<div class="poetry">Sem temor estalar o raio ouvia,</div> +<div class="poetry1">Que ao perto fuzilava;</div> +<div class="poetry">O recto coração tendo por guia,</div> +<div class="poetry1">Seguro caminhava;</div> +<div class="poetry">Em vão medonha tempestade freme, <br /> +Seu grande coração só crimes teme. <br /> +<br /> +Ao pé do Throno Augusto em fim chamado</div> +<div class="poetry1">Venceo a crua inveja;</div> +<div class="poetry">Quem no Conselho o poz dos Reis ao lado</div> +<div class="poetry1">Não foi sangue de Angeja,</div> +<div class="poetry">Não foi de Hespanha antigo Filhamento, <br /> +Foi sã justiça, foi merecimento. <br /> +<br /> +Não revolvo a Real Genealogia</div> +<div class="poetry1">De Henrique, e de Fernando;</div> +<div class="poetry">Os sãos louvores deste grande dia</div> +<div class="poetry1">De ti mesmo tirando,</div> +<div class="poetry">Só louvarei com paternaes façanhas <br /> +Quem seu nome dever a mãos estranhas. </div> +<br /> +<span class="pagenum">[134]</span> +<div class="poetry">Vias correr teus dias socegados</div> +<div class="poetry1">Nutrindo esse alto esp'rito</div> +<div class="poetry">No que ficou dos seculos dourados</div> +<div class="poetry1">Em prosa, ou verso escrito;</div> +<div class="poetry">Recolhendo na próvida memoria <br /> +De estranhos Reis, e de teus Reis a historia. <br /> +<br /> +Outras vezes rasgando á vasta terra</div> +<div class="poetry1">Seu peito cavernoso,</div> +<div class="poetry">Ou descobrindo quanto o mar encerra</div> +<div class="poetry1">De raro, e precioso,</div> +<div class="poetry">Profundavas com seria madureza <br /> +Os segredos da occulta natureza. <br /> +<br /> +De tão doces estudos arrancado</div> +<div class="poetry1">Por mais altos destinos,</div> +<div class="poetry">Da Lusa gente, e de seus Reis chamado</div> +<div class="poetry1">A empregos de ti dinos,</div> +<div class="poetry">Sacrificas aos novos Soberanos <br /> +De maduro saber teus cheios annos.</div> +<br /> +<span class="pagenum">[135]</span> +<div class="poetry">Permitta o Ceo que em taes trabalhos vivas</div> +<div class="poetry1">Claro nome estendendo;</div> +<div class="poetry">E que as douradas horas fugitivas,</div> +<div class="poetry1">As azas encolhendo,</div> +<div class="poetry">Fação que o tempo demorando o passo <br /> +Sinta a fouce cahir do frouxo braço. <br /> +<br /> +Que cem vezes raiando este bom dia</div> +<div class="poetry1">O Oriente esclareça;</div> +<div class="poetry">Que imperturbavel solida alegria</div> +<div class="poetry1">Com elle te amanheça;</div> +<div class="poetry">Que em naturaes ternissimos affetos <br /> +A mão te beijem Netos de teus Netos. <br /> +<br /> +Mas deixa, ó Musa, a frouxa poesia</div> +<div class="poetry1">Para assumptos menores;</div> +<div class="poetry">Não profanem de Angeja a gloria, e o dia</div> +<div class="poetry1">Importunos louvores;</div> +<div class="poetry">Pois inda que soubesses dirigi-los, <br /> +Quer merece-los; mas não quer ouvi-los.</div> +<br /> +<span class="pagenum">[136]</span> +<div class="poetry">Engana-te o dezejo, que te inspira,</div> +<div class="poetry1">Reconhece o teu erro;</div> +<div class="poetry">Se vês, que só ajustão nesta lyra</div> +<div class="poetry1">Negras cordas de ferro,</div> +<div class="poetry">Não torças, não, teu misero fadario: <br /> +Torna ao Gamão, e ao triste Boticario. </div> +<br /> +<br /> +<br /> +<br /> +<span class="pagenum"><a name="p137" id="p137">[137]</a></span> +<h4>ODE</h4> +<br /> +<br /> +<div style="text-align: center;"> +<em>Ao Senhor D. Domingos de Assís +Mascarenhas.</em></div> +<br /> +<br /> +<br /> +<div class="poetry1">Clio huma setta tira</div> +<div class="poetry">Da aljava de ouro, que pelo ar vazio</div> +<div class="poetry1">Longe correndo fira</div> +<div class="poetry">Junto ao Mondego saudoso rio: <br /> +Alli em torno ás suas margens vôe, <br /> +E por feliz tres vezes o apregôe.</div> +<br /> +<div class="poetry1">As claras aguas regão</div> +<div class="poetry">Plantas bellas, fecundas, generosas:</div> +<div class="poetry1">Com desvelo se empregão</div> +<div class="poetry">Em cultiva-las mãos industriosas: <br /> +Quão doces fructos, quão cheirosas flores <br /> +De taes aguas, taes plantas, taes cultores: </div> +<br /> +<span class="pagenum">[138]</span> +<div class="poetry1">Ergue, illustre Mondego, </div> +<div class="poetry">Ergue tua cabeça sobre as agoas: </div> +<div class="poetry1">Assás no fundo +pégo </div> +<div class="poetry">Choraste hum tempo tuas tristes magoas. <br /> +Olha teus campos como esmalta agora <br /> +Em formosa união Pomona, e Flora. </div> +<br /> +<div class="poetry1">Ó seio de candura, </div> +<div class="poetry">Mascarenhas, Tu és o alvo, a méta, </div> +<div class="poetry1">Que anciosa procura </div> +<div class="poetry">Da minha Clio a empennada setta. <br /> +Tu na alma paz, na sanguinosa guerra <br /> +Pódes ornar a tua, e alheia terra. </div> +<br /> +<div class="poetry1">Mas boa sorte mude </div> +<div class="poetry">Meu dito, e a outra parte te não chame </div> +<div class="poetry1">E onde tanta virtude </div> +<div class="poetry">Tem a raiz, os fructos seus derrame; <br /> +Nem menos tempo o Sol illustre, e aquente <br /> +A quem o vio desde o seu claro oriente. </div> +<br /> +<span class="pagenum">[139]</span> +<div class="poetry1">Porém, se he ordenado</div> +<div class="poetry">Da Providencia sabia, santa, eterna,</div> +<div class="poetry1">Christão peito humilhado</div> +<div class="poetry">Adora o Summo Ser que assim governa: <br /> +Antes se goza, e dentro n'alma estima <br /> +Que Astro tão bello alegre mais d'hum clima.</div> +<br /> +<div class="poetry1">Entre tanto diffunde</div> +<div class="poetry">Na Patria tua luz copiosa, e clara;</div> +<div class="poetry1">Que, se logo confunde</div> +<div class="poetry">Os fracos olhos, depois guia, e aclara. <br /> +Arda ante incertos pés (e gritem vicios) <br /> +Alta tocha, que mostre os precipicios.</div> +<br /> +<div class="poetry1">Constancia! que guardado</div> +<div class="poetry">Está o galardão a teus suores,</div> +<div class="poetry1">Onde em cume estrellado</div> +<div class="poetry">Vibra o Templo da Gloria resplandores. <br /> +Dalli olhos não tires; que ao trabalho <br /> +He doce viração, he fresco orvalho. </div> +<br /> +<span class="pagenum">[140]</span> +<div class="poetry1">Tu, e esse Coro illustre</div> +<div class="poetry">De mancebos Heróes, que se obrigárão</div> +<div class="poetry1">A dar ao mundo lustre,</div> +<div class="poetry">Quando o alto sangue dos Avós +herdárão; <br /> +Concebei novo fogo, e novo brio <br /> +Ouvindo onde vos chama a minha Clio.</div> +<br /> +<div class="poetry1">Oh, se alguem me puzesse</div> +<div class="poetry">Nas margens do Mondego claro, e frio:</div> +<div class="poetry1">Certo me não vencesse</div> +<div class="poetry">Cysne de Dirce sobre o patrio rio. <br /> +Alli tão docemente vos cantára, <br /> +Que a ouvir-me feras, montes abalára.</div> +<br /> +<div class="poetry1">Mas engenho ir recusa</div> +<div class="poetry">Onde ir Amor, e Gratidão me incita:</div> +<div class="poetry1">Nescia, se o esperas, Musa!</div> +<div class="poetry">Não corre lasso pé 'strada infinita. <br /> +Almas illustres, havereis sómente <br /> +O dom sincero de hum dezejo ardente.</div> +<br /> +<span class="pagenum">[141]</span> +<div class="poetry1">Só mal sonora rima,</div> +<div class="poetry">Que sem veia forjou saudade, e zelo,</div> +<div class="poetry1">Leráõ o amavel +Lima,</div> +<div class="poetry">O sabio Castro, e o profundo Mello, <br /> +Pedras, que tu mal soffres, ó Lisboa, <br /> +Faltarem tanto tempo á tua c'roa. </div> +<br /> +<br /> +<br /> +<br /> +<span class="pagenum"><a name="p142" id="p142">[142]</a></span> +<div style="text-align: center;"><em>Em louvor da Saude.</em></div> +<br /> +<h4>ODE. </h4> +<br /> +<br /> +<br /> +<div class="poetry">Não procura palacios sumptuozos </div> +<div class="poetry1">A brilhante Saude; </div> +<div class="poetry">O seu rosto agradavel, e rizonho, </div> +<div class="poetry1">Até aos Reis se esconde:</div> +<div class="poetry">Ella faz com que seja venturozo </div> +<div class="poetry1">O roto Peregrino,</div> +<div class="poetry">Se entre a negra gadelha, lhe apparece </div> +<div class="poetry1">Hum semblante sádio.</div> +<div class="poetry">O Captivo Remeiro fatigado, </div> +<div class="poetry1">Do ardente Sol não fuja: </div> +<div class="poetry">Em ferros envolvido o duro corpo, </div> +<div class="poetry1">Trabalhe o dia inteiro: </div> +<div class="poetry">O queimado semblante ande banhando </div> +<div class="poetry1">De violento suor:</div> +<div class="poetry">Apressado mastigue, e poucas vezes,</div> +<div class="poetry1">O corrupto biscoito:</div> +<span class="pagenum">[143]</span> +<div class="poetry">Mas tenha o rosto alegre, e socegado</div> +<div class="poetry1">Entre as duras prizões,</div> +<div class="poetry">Se á pallida doença não tem visto</div> +<div class="poetry1">O macilento aspeito;</div> +<div class="poetry">Se com braço membrudo, e vigorozo</div> +<div class="poetry1">Força o remo pezado.</div> +<div class="poetry">Inda sinto inflammar-me em teus louvores,</div> +<div class="poetry1">Oh Saude aprazivel!</div> +<div class="poetry">Tu és Filha do Ceo, Mãi da alegria,</div> +<div class="poetry1">Dom de Deus Piedoso.</div> +<div class="poetry">Se os miseros mortaes expõem a vida</div> +<div class="poetry1">Por danozas riquezas;</div> +<div class="poetry">Por ellas que farião, se servissem</div> +<div class="poetry1">De te fazer propicia?</div> +<div class="poetry">Filha do Ceo benigno, se te déras</div> +<div class="poetry1">Por ouro, ou fina prata,</div> +<div class="poetry">Eu não temêra as tempestuosas ondas</div> +<div class="poetry1">Do fervido oceano:</div> +<div class="poetry">Nos occultos sertões iria entrando</div> +<div class="poetry1">Co'a mesma côr no rosto;</div> +<div class="poetry">Não me assustára o dente venenozo</div> +<div class="poetry1">Da enroscada serpente;</div> +<div class="poetry">Do fertil oriente nos outeiros</div> +<div class="poetry1">Cavaria anciozo,</div> +<span class="pagenum">[144]</span> +<div class="poetry">Por ver se das entranhas te trazia</div> +<div class="poetry1">Abundantes thesouros.</div> +<div class="poetry">Mas a bella Saude, he dom celeste;</div> +<div class="poetry1">Com ouro não se compra:</div> +<div class="poetry">Ella foge dos impios, que se assentão</div> +<div class="poetry1">A saborozas mezas;</div> +<div class="poetry">Que adormecem em leitos guarnecidos</div> +<div class="poetry1">De preciosas sedas;</div> +<div class="poetry">E vai guardar, com próvido cuidado, </div> +<div class="poetry1">O simples Pescador,</div> +<div class="poetry">Que sobre ásperas rochas, sem abrigo </div> +<div class="poetry1">Aos rigorozos tempos,</div> +<div class="poetry">Vai nutrindo no corpo mal vestido</div> +<div class="poetry1">Hum coração +sincero;</div> +<div class="poetry">Que humilde sabe erguer ao Ceo piedozo</div> +<div class="poetry1">As innocentes mãos. </div> +<br /> +<h4>FIM. </h4> +<br /> +<br /> +<br /> +<h3>INDICE. </h3> +<br /> +<h4>SONETOS. </h4> +<br /> +<table style="text-align: left; margin-left: 5%; width: 90%;" border="0" cellpadding="2" cellspacing="2"> + <tbody> + <tr> + <td style="vertical-align: top; width: 80%; text-align: justify;"><em>A +Sua +Alteza</em></td> + <td style="vertical-align: top;"><br /> + </td> + <td style="vertical-align: top; text-align: right; width: 15%;">Pag. + <a href="#p3">3</a>. <a href="#p4">4</a>. <a href="#p31">31</a>.</td> + </tr> + <tr> + <td style="vertical-align: top; text-align: justify;"><em>Sahindo +Conselheiro da +Fazenda o Illustrissimo, e Excellentissimo Senhor D. Diogo de +Noronha</em></td> + <td style="vertical-align: top;"><br /> + </td> + <td style="vertical-align: bottom; text-align: right;"><a href="#p5">5</a>.<br /> + </td> + </tr> + <tr> + <td style="vertical-align: top; text-align: justify;"><em>Aos +leques mui pequenos, +chamados Marotinhos</em> </td> + <td style="vertical-align: top;"><br /> + </td> + <td style="vertical-align: bottom; text-align: right;"><a href="#p6">6</a>.<br /> + </td> + </tr> + <tr> + <td style="vertical-align: top; text-align: justify;"><em>O cruel +Disfarce</em> </td> + <td style="vertical-align: top;"><br /> + </td> + <td style="vertical-align: bottom; text-align: right;"><a href="#p7">7</a>.<br /> + </td> + </tr> + <tr> + <td style="vertical-align: top; text-align: justify;"><em>Ao +Illustrissimo, e +Excellentissimo Senhor Visconde de Ponte de Lima, Secretario de +Estado</em></td> + <td style="vertical-align: top;"><br /> + </td> + <td style="vertical-align: bottom; text-align: right;"><a href="#p8">8</a>.<br /> + </td> + </tr> + <tr> + <td style="vertical-align: top; text-align: justify;"><em>Fazendo +annos a +Illustrissima, e Excellentissima Senhora Marqueza de Angeja</em></td> + <td style="vertical-align: top;"><br /> + </td> + <td style="text-align: right; vertical-align: bottom;"><a href="#p9">9</a>.<br /> + </td> + </tr> + <tr> + <td style="vertical-align: top; text-align: justify;"><em>Aos +Annos do Illustrissimo, +e Excellentissimo Senhor Conde de +Avintes</em></td> + <td style="vertical-align: top;"><br /> + </td> + <td style="text-align: right; vertical-align: bottom;"><a href="#p10">10</a>.<br /> + </td> + </tr> + </tbody> +</table> +<span class="pagenum">[146]</span> +<table style="text-align: left; margin-left: 5%; width: 90%;" border="0" cellpadding="2" cellspacing="2"> + <tbody> + <tr> + <td style="vertical-align: top; width: 80%; text-align: justify;">Estando +nas +Caldas <br /> + </td> + <td style="vertical-align: top;"><br /> + </td> + <td style="vertical-align: top; text-align: right; width: 15%;"><a href="#p11">11</a>.<br /> + </td> + </tr> + <tr> + <td style="vertical-align: top; text-align: justify;">A +huns +Annos</td> + <td style="vertical-align: top;"><br /> + </td> + <td style="vertical-align: bottom; text-align: right;"><a href="#p12">12</a>.<br /> + </td> + </tr> + <tr> + <td style="vertical-align: top; text-align: justify;">Ao +Disfarce das +Mulheres</td> + <td style="vertical-align: top;"><br /> + </td> + <td style="vertical-align: bottom; text-align: right;"><a href="#p13">13</a>.<br /> + </td> + </tr> + <tr> + <td style="vertical-align: top; text-align: justify;"><em>A +huma +Camponeza</em></td> + <td style="vertical-align: top;"><br /> + </td> + <td style="vertical-align: bottom; text-align: right;"><a href="#p14">14</a>.<br /> + </td> + </tr> + <tr> + <td style="vertical-align: top; text-align: justify;">A +huma Dama +interesseira</td> + <td style="vertical-align: top;"><br /> + </td> + <td style="vertical-align: bottom; text-align: right;"><a href="#p15">15</a>.<br /> + </td> + </tr> + <tr> + <td style="vertical-align: top; text-align: justify;">Ao +faustissimo dia da +Inauguração da Estatua Equestre d'El-Rei Fidelissimo o Senhor D. José +I.</td> + <td style="vertical-align: top;"><br /> + </td> + <td style="text-align: right; vertical-align: bottom;"><a href="#p16">16</a>.<br /> + </td> + </tr> + <tr> + <td style="vertical-align: top; text-align: justify;"><em>Descripção +de +Badajoz</em> </td> + <td style="vertical-align: top;"><br /> + </td> + <td style="text-align: right; vertical-align: bottom;"><a href="#p17">17</a>.<br /> + </td> + </tr> + <tr> + <td style="vertical-align: top; text-align: justify;"><em>Á +Serenissima Princeza entrando no banho</em> </td> + <td style="vertical-align: top;"><br /> + </td> + <td style="text-align: right; vertical-align: bottom;"><a href="#p18">18</a>.<br /> + </td> + </tr> + <tr> + <td style="vertical-align: top; text-align: justify;"><em>Levantando-se +o Author da meza de hum Grande por serem horas de ir para a +Aula</em> </td> + <td style="vertical-align: top;"><br /> + </td> + <td style="text-align: right; vertical-align: bottom;"><a href="#p19">19</a>.<br /> + </td> + </tr> + <tr> + <td style="vertical-align: top; text-align: justify;"><em>Ao +Illustrissimo, e Excellentissimo Senhor Marquez de Penalva, chegando o +Author á Quinta das +Lapas</em> </td> + <td style="vertical-align: top;"><br /> + </td> + <td style="text-align: right; vertical-align: bottom;"><a href="#p20">20</a>.<br /> + </td> + </tr> + <tr> + <td style="vertical-align: top; text-align: justify;"><em>Descripção +de hum Peralta +amaltezado</em> </td> + <td style="vertical-align: top;"><br /> + </td> + <td style="text-align: right; vertical-align: bottom;"><a href="#p21">21</a>.<br /> + </td> + </tr> + <tr> + <td style="vertical-align: top; text-align: justify;"><em>Aos +Annos do Serenissimo Principe N. Senhor</em> </td> + <td style="vertical-align: top;"><br /> + </td> + <td style="text-align: right; vertical-align: bottom;"><a href="#p22">22</a>.<br /> + </td> + </tr> + <tr> + <td style="vertical-align: top; text-align: justify;"><em>A +hum Leigo Arrabido +vesgo</em> </td> + <td style="vertical-align: top;"><br /> + </td> + <td style="text-align: right; vertical-align: bottom;"><a href="#p23">23</a>.<br /> + </td> + </tr> + <tr> + <td style="vertical-align: top; text-align: justify;"><em>Aos +Toucados +altos</em> </td> + <td style="vertical-align: top;"><br /> + </td> + <td style="text-align: right; vertical-align: bottom;"><a href="#p24">24</a>.<br /> + </td> + </tr> + </tbody> +</table> +<span class="pagenum">[147]</span> +<table style="text-align: left; margin-left: 5%; width: 90%;" border="0" cellpadding="2" cellspacing="2"> + <tbody> + <tr> + <td style="vertical-align: top; width: 80%; text-align: justify;"><em>Mettendo +a ridiculo humas +Contradanças</em></td> + <td style="vertical-align: top;"><br /> + </td> + <td style="vertical-align: top; text-align: right; width: 15%;"><a href="#p25">25</a>.<br /> + </td> + </tr> + <tr> + <td style="vertical-align: top; text-align: justify;"><em>Por +occasião de estranharem ao Author hum sonho que a ninguem +offendia</em></td> + <td style="vertical-align: top;"><br /> + </td> + <td style="vertical-align: bottom; text-align: right;"><a href="#p26">26</a>.<br /> + </td> + </tr> + <tr> + <td style="vertical-align: top; text-align: justify;"><em>Á +moda dos Chapéos maiores da +marca</em></td> + <td style="vertical-align: top;"><br /> + </td> + <td style="vertical-align: bottom; text-align: right;"><a href="#p27">27</a>.<br /> + </td> + </tr> + <tr> + <td style="vertical-align: top; text-align: justify;"><em>Ás +Fivelas chamadas</em> +à la +Chartre</td> + <td style="vertical-align: top;"><br /> + </td> + <td style="vertical-align: bottom; text-align: right;"><a href="#p28">28</a>.<br /> + </td> + </tr> + <tr> + <td style="vertical-align: top; text-align: justify;"><em>A +huma Velha +presumida</em></td> + <td style="vertical-align: top;"><br /> + </td> + <td style="vertical-align: bottom; text-align: right;"><a href="#p29">29</a>.<br /> + </td> + </tr> + <tr> + <td style="vertical-align: top; text-align: justify;"><em>Aos +Annos de huma formosa +Dama</em> <br /> + </td> + <td style="vertical-align: top;"><br /> + </td> + <td style="text-align: right; vertical-align: bottom;"><a href="#p30">30</a>.<br /> + </td> + </tr> + <tr> + <td style="vertical-align: top; text-align: justify;"><em>A +hum Padre +Guardião</em></td> + <td style="vertical-align: top;"><br /> + </td> + <td style="text-align: right; vertical-align: bottom;"><a href="#p32">32</a>.<br /> + </td> + </tr> + <tr> + <td style="vertical-align: top; text-align: justify;"><em>Em +louvor de Caporalini, Actor do Theatro de S. +Carlos</em></td> + <td style="vertical-align: top;"><br /> + </td> + <td style="text-align: right; vertical-align: bottom;"><a href="#p33">33</a>.<br /> + </td> + </tr> + <tr> + <td style="vertical-align: top; text-align: justify;"><em>Achando-se +o Author prezo dos bellos olhos de +Marcia</em></td> + <td style="vertical-align: top;"><br /> + </td> + <td style="text-align: right; vertical-align: bottom;"><a href="#p34">34</a>.<br /> + </td> + </tr> + <tr> + <td style="vertical-align: top; text-align: justify;"><em>Sobre +a Ingratidão de huma +Dama</em></td> + <td style="vertical-align: top;"><br /> + </td> + <td style="text-align: right; vertical-align: bottom;"><a href="#p35">35</a>.<br /> + </td> + </tr> + <tr> + <td style="vertical-align: top; text-align: justify;">CANTIGAS <em>feitas +nas +Caldas</em></td> + <td style="vertical-align: top;"><br /> + </td> + <td style="text-align: right; vertical-align: bottom;"><a href="#p36">36</a>.<br /> + </td> + </tr> + <tr> + <td style="vertical-align: top; text-align: justify;">ENDECHAS</td> + <td style="vertical-align: top;"><br /> + </td> + <td style="text-align: right; vertical-align: bottom;"><a href="#p39">39</a>.<br /> + </td> + </tr> + </tbody> +</table> +<br /> +<br /> +<br /> +<h4>DECIMAS.</h4> +<br /> +<table style="text-align: left; margin-left: 5%; width: 90%;" border="0" cellpadding="2" cellspacing="2"> + <tbody> + <tr> + <td style="vertical-align: top; width: 80%; text-align: justify;"><em>Em +dia dos annos do Illustrissimo Principal Almeida</em></td> + <td style="vertical-align: top;"><br /> + </td> + <td style="vertical-align: top; text-align: right; width: 15%;"><a href="#p45">45</a>.</td> + </tr> + </tbody> +</table> +<span class="pagenum">[148]</span> +<table style="text-align: left; margin-left: 5%; width: 90%;" border="0" cellpadding="2" cellspacing="2"> + <tbody> + <tr> + <td style="vertical-align: top; width: 80%; text-align: justify;">Mote: + <em>Olhos de Lize, olhos bellos, &c.</em></td> + <td style="vertical-align: top;"><br /> + </td> + <td style="vertical-align: top; text-align: right; width: 15%;"><a href="#p47">47</a>.<br /> + </td> + </tr> + <tr> + <td style="vertical-align: top; text-align: justify;">Mote: <em>Tu +teimas em desprezar-me, +&c.</em></td> + <td style="vertical-align: top;"><br /> + </td> + <td style="vertical-align: bottom; text-align: right;"><a href="#p50">50</a>.<br /> + </td> + </tr> + <tr> + <td style="vertical-align: top; text-align: justify;">Mote: <em>Não +sei que quer a +desgraçada, +&c.</em></td> + <td style="vertical-align: top;"><br /> + </td> + <td style="vertical-align: bottom; text-align: right;"><a href="#p53">53</a>.<br /> + </td> + </tr> + <tr> + <td style="vertical-align: top; text-align: justify;">Mote: <em>Os +meus olhos a +chorar</em></td> + <td style="vertical-align: top;"><br /> + </td> + <td style="vertical-align: bottom; text-align: right;"><a href="#p56">56</a>.<br /> + </td> + </tr> + <tr> + <td style="vertical-align: top; text-align: justify;">Mote: <em>Já +disse tudo a +Cupido</em></td> + <td style="vertical-align: top;"><br /> + </td> + <td style="vertical-align: bottom; text-align: right;"><a href="#p57">57</a>.<br /> + </td> + </tr> + <tr> + <td style="vertical-align: top; text-align: justify;">Mote: <em>Distancias, +e +saudades</em></td> + <td style="vertical-align: top;"><br /> + </td> + <td style="text-align: right; vertical-align: bottom;"><a href="#p58">58</a>.<br /> + </td> + </tr> + <tr> + <td style="vertical-align: top; text-align: justify;">Mote: <em>Cantarei +alegres penas, +&c.</em></td> + <td style="vertical-align: top;"><br /> + </td> + <td style="text-align: right; vertical-align: bottom;"><a href="#p59">59</a>.<br /> + </td> + </tr> + <tr> + <td style="vertical-align: top; text-align: justify;">Mote: <em>Nada +no mundo figura, &c.</em></td> + <td style="vertical-align: top;"><br /> + </td> + <td style="text-align: right; vertical-align: bottom;"><a href="#p60">60</a>.<br /> + </td> + </tr> + <tr> + <td style="vertical-align: top; text-align: justify;">Mote: <em>Amor +para me prender, +&c.</em> <br /> + </td> + <td style="vertical-align: top;"><br /> + </td> + <td style="text-align: right; vertical-align: bottom;"><a href="#p61">61</a>.<br /> + </td> + </tr> + <tr> + <td style="vertical-align: top; text-align: justify;">Mote: <em>A +minha +felicidade</em></td> + <td style="vertical-align: top;"><br /> + </td> + <td style="text-align: right; vertical-align: bottom;"><a href="#p62">62</a>.<br /> + </td> + </tr> + <tr> + <td style="vertical-align: top; text-align: justify;">Mote: <em>Quem +adora occultamente &c.</em></td> + <td style="vertical-align: top;"><br /> + </td> + <td style="text-align: right; vertical-align: bottom;"><a href="#p63">63</a>.<br /> + </td> + </tr> + <tr> + <td style="vertical-align: top; text-align: justify;">Mote: <em>Nos +olhos o amor explico, +&c.</em> </td> + <td style="vertical-align: top;"><br /> + </td> + <td style="text-align: right; vertical-align: bottom;"><a href="#p66">66</a>.<br /> + </td> + </tr> + <tr> + <td style="vertical-align: top; text-align: justify;">Mote: <em>Por +passos sem esperança, +&c.</em> </td> + <td style="vertical-align: top;"><br /> + </td> + <td style="text-align: right; vertical-align: bottom;"><a href="#p69">69</a>.<br /> + </td> + </tr> + <tr> + <td style="vertical-align: top; text-align: justify;">Mote: <em>Eu +já tenho exp'rimentado &c.</em> </td> + <td style="vertical-align: top;"><br /> + </td> + <td style="text-align: right; vertical-align: bottom;"><a href="#p70">70</a>. <a href="#p71">71</a>.<br /> + </td> + </tr> + <tr> + <td style="vertical-align: top; text-align: justify;">Mote: <em>Ouvi, +ó Senhora, ouvi, +&c.</em> </td> + <td style="vertical-align: top;"><br /> + </td> + <td style="text-align: right; vertical-align: bottom;"><a href="#p72">72</a>.<br /> + </td> + </tr> + <tr> + <td style="vertical-align: top; text-align: justify;">Mote: <em>Hei +de amar-te até á +morte, +&c.</em> </td> + <td style="vertical-align: top;"><br /> + </td> + <td style="text-align: right; vertical-align: bottom;"><a href="#p75">75</a>.<br /> + </td> + </tr> + <tr> + <td style="vertical-align: top; text-align: justify;">Mote: <em>Toda +a Mulher he +perjura</em> </td> + <td style="vertical-align: top;"><br /> + </td> + <td style="text-align: right; vertical-align: bottom;"><a href="#p78">78</a>.<br /> + </td> + </tr> + <tr> + <td style="vertical-align: top; text-align: justify;">Mote: <em>De +mil suspiros que eu +dou</em> </td> + <td style="vertical-align: top;"><br /> + </td> + <td style="text-align: right; vertical-align: bottom;"><a href="#p80">80</a>.<br /> + </td> + </tr> + <tr> + <td style="vertical-align: top; text-align: justify;"><em>Ao +Illustrissimo, e Excellentissimo Senhor Marquez de +Penalva</em> </td> + <td style="vertical-align: top;"><br /> + </td> + <td style="text-align: right; vertical-align: bottom;"><a href="#p79">79</a>. <a href="#p81">81</a>.<br /> + </td> + </tr> + <tr> + <td style="vertical-align: top; text-align: justify;"><em>Ao +Illustrissimo, e Excellentissimo Senhor Conde de Villa +Verde</em> </td> + <td style="vertical-align: top;"><br /> + </td> + <td style="text-align: right; vertical-align: bottom;"><a href="#p82">82</a>. <a href="#p84">84</a>. <a href="#p87">87</a>. <a href="#p94">94</a>. </td> + </tr> + <tr> + <td style="vertical-align: top; text-align: justify;"><em>Vagando +hum Officio que o A. +pertendi</em> </td> + <td style="vertical-align: top;"><br /> + </td> + <td style="text-align: right; vertical-align: bottom;"><a href="#p88">88</a>.<br /> + </td> + </tr> + </tbody> +</table> +<span class="pagenum">[149]</span> +<table style="text-align: left; margin-left: 5%; width: 90%;" border="0" cellpadding="2" cellspacing="2"> + <tbody> + <tr> + <td style="vertical-align: top; width: 80%; text-align: justify;"><em>Joaquim +Ignacio Seixas, Medico das +Caldas</em> </td> + <td style="vertical-align: top;"><br /> + </td> + <td style="vertical-align: top; text-align: right; width: 15%;"><a href="#p89">89</a>.<br /> + </td> + </tr> + <tr> + <td style="vertical-align: top; text-align: justify;"><em>hum +Pregador +celebre</em> </td> + <td style="vertical-align: top;"><br /> + </td> + <td style="vertical-align: bottom; text-align: right;"><a href="#p90">90</a>.<br /> + </td> + </tr> + <tr> + <td style="vertical-align: top; text-align: justify;"><em>Carta +a Lourenço da Mota, Officialda +Secretaria</em> </td> + <td style="vertical-align: top;"><br /> + </td> + <td style="vertical-align: bottom; text-align: right;"><a href="#p91">91</a>.<br /> + </td> + </tr> + </tbody> +</table> +<br /> +<br /> +<br /> +<br /> +<h4>QUADRAS.</h4> +<br /> +<table style="text-align: left; margin-left: 5%; width: 90%;" border="0" cellpadding="2" cellspacing="2"> + <tbody> + <tr> + <td style="vertical-align: top; width: 80%; text-align: justify;"><em>Ao +Juiz do Crime de +Andaluz</em></td> + <td style="vertical-align: top;"><br /> + </td> + <td style="vertical-align: bottom; text-align: right; width: 15%;"><a href="#p95">95</a>.<br /> + </td> + </tr> + <tr> + <td style="vertical-align: top;"><em>Memorial a Suas +Altezas</em></td> + <td style="vertical-align: top;"><br /> + </td> + <td style="vertical-align: bottom; text-align: right;"><a href="#p98">98</a>.<br /> + </td> + </tr> + </tbody> +</table> +<br /> +<br /> +<br /> +<br /> +<h4>QUINTILHAS.</h4> +<br /> +<table style="text-align: left; margin-left: 5%; width: 90%;" border="0" cellpadding="2" cellspacing="2"> + <tbody> + <tr> + <td style="vertical-align: top; width: 80%; text-align: justify;"><em>No +dia dos Annos do Illustrissimo, e Excellentissimo Senhor Conde de Villa +Verde</em> </td> + <td style="vertical-align: top;"><br /> + </td> + <td style="vertical-align: bottom; text-align: right; width: 15%;"><a href="#p103">103</a>.<br /> + </td> + </tr> + <tr> + <td style="vertical-align: top;"><em>Em louvor de huma +Senhora</em></td> + <td style="vertical-align: top;"><br /> + </td> + <td style="vertical-align: bottom; text-align: right;"><a href="#p106">106</a>.<br /> + </td> + </tr> + <tr> + <td style="vertical-align: top;"><em>Quixotada.</em> </td> + <td style="vertical-align: top;"><br /> + </td> + <td style="vertical-align: bottom; text-align: right;"><a href="#p114">114</a>.<br /> + </td> + </tr> + </tbody> +</table> +<br /> +<br /> +<br /> +<br /> +<span class="pagenum">[150]</span> +<h4>ODES.</h4> +<br /> +<table style="text-align: left; margin-left: 5%; width: 90%;" border="0" cellpadding="2" cellspacing="2"> + <tbody> + <tr> + <td style="vertical-align: top; width: 80%; text-align: justify;"><em>A +SS. MAGESTADES, no dia da Acclamação da Rainha N. +Senhora</em></td> + <td style="vertical-align: top;"><br /> + </td> + <td style="vertical-align: bottom; text-align: right; width: 15%;"><a href="#p122">122</a>.<br /> + </td> + </tr> + <tr> + <td style="vertical-align: top;"><em>No dia dos Annos do +Illustrissimo, e Excellentissimo Senhor Marquez de Angeja</em></td> + <td style="vertical-align: top;"><br /> + </td> + <td style="vertical-align: bottom; text-align: right;"><a href="#p132">132</a>.<br /> + </td> + </tr> + <tr> + <td style="vertical-align: top;"><em>Ao Senhor D. Domingos de +Assís Mascarenhas</em></td> + <td style="vertical-align: top;"><br /> + </td> + <td style="vertical-align: bottom; text-align: right;"><a href="#p137">137</a>.<br /> + </td> + </tr> + <tr> + <td style="vertical-align: top;"><em>Em louvor da +Saude</em></td> + <td style="vertical-align: top;"><br /> + </td> + <td style="vertical-align: bottom; text-align: right;"><a href="#p142">142</a>.<br /> + </td> + </tr> + </tbody> +</table> +<br /> +<br /> +<br /> +<b>Notas:</b> +<br /> +<br /> +<a name="n1" id="n1"><sup>[1]</sup></a> +<em>Duvidoso.</em><br /> +<br /> +<a name="n2" id="n2"><sup>[2]</sup> +<em>O Marquez de Pombal.</em><br /> +<br /> +</a><a name="n3" id="n3"><sup>[3]</sup></a> +<em>Tem allusão ao Soneto +VI.</em> +<br /> +<br /> +<a name="n4" id="n4"><sup>[4]</sup></a> +<em>Duvidoso.</em> +<br /> +<br /> +<a name="n5" id="n5"><sup>[5]</sup></a> +<em>Duvidoso.</em><br /> +<br /> +<a name="n6" id="n6"><sup>[6]</sup></a> +<em>Os Márques +comprárão em Lisboa +humas casas a certo homem da mesma por +preço exorbitante: feita a escritura, e passado +o dinheiro em cartuxos, voltou brevemente +o vendedor dizendo que indo em casa +a contar os cartuxos achára cobre, e +não +ouro. Quem compra por preço tal, parece +que não faz tenção de pagar: Quem +vende +por tal preço, parece ter demasiada cubiça. +Todos estavão em boa +reputação.</em><br /> +<br /> +<a name="n7" id="n7"><sup>[7]</sup></a> +<em>Estas Decimas fez o A. em agradecimento de ser provido pelo +Principal, +então Director dos Estudos, na Cadeira de Rhetorica, de que +depois se queixou tanto.</em> +<br /> +<br /> +<a name="n8" id="n8"><sup>[8]</sup></a> <em>Outro Pregador tendo +bebido +demasiado, +chegou ao pulpito, e só pronunciou +estas palavras:</em> Sempre me deito. +</div> + + + + + + + + +<pre> + + + + + +End of Project Gutenberg's Obras posthumas, by Nicolau Tolentino de Almeida + +*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK OBRAS POSTHUMAS *** + +***** This file should be named 36608-h.htm or 36608-h.zip ***** +This and all associated files of various formats will be found in: + http://www.gutenberg.org/3/6/6/0/36608/ + +Produced by Rita Farinha and the Online Distributed +Proofreading Team at http://www.pgdp.net (This file was +produced from images generously made available by National +Library of Portugal (Biblioteca Nacional de Portugal).) + + +Updated editions will replace the previous one--the old editions +will be renamed. + +Creating the works from public domain print editions means that no +one owns a United States copyright in these works, so the Foundation +(and you!) can copy and distribute it in the United States without +permission and without paying copyright royalties. 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If you do not agree to abide by all +the terms of this agreement, you must cease using and return or destroy +all copies of Project Gutenberg-tm electronic works in your possession. +If you paid a fee for obtaining a copy of or access to a Project +Gutenberg-tm electronic work and you do not agree to be bound by the +terms of this agreement, you may obtain a refund from the person or +entity to whom you paid the fee as set forth in paragraph 1.E.8. + +1.B. "Project Gutenberg" is a registered trademark. It may only be +used on or associated in any way with an electronic work by people who +agree to be bound by the terms of this agreement. There are a few +things that you can do with most Project Gutenberg-tm electronic works +even without complying with the full terms of this agreement. See +paragraph 1.C below. 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It exists +because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from +people in all walks of life. + +Volunteers and financial support to provide volunteers with the +assistance they need, are critical to reaching Project Gutenberg-tm's +goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will +remain freely available for generations to come. In 2001, the Project +Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure +and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations. +To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation +and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4 +and the Foundation web page at http://www.pglaf.org. + + +Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive +Foundation + +The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit +501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the +state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal +Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification +number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at +http://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg +Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent +permitted by U.S. federal laws and your state's laws. + +The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S. +Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered +throughout numerous locations. Its business office is located at +809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email +business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact +information can be found at the Foundation's web site and official +page at http://pglaf.org + +For additional contact information: + Dr. Gregory B. Newby + Chief Executive and Director + gbnewby@pglaf.org + + +Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg +Literary Archive Foundation + +Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide +spread public support and donations to carry out its mission of +increasing the number of public domain and licensed works that can be +freely distributed in machine readable form accessible by the widest +array of equipment including outdated equipment. Many small donations +($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt +status with the IRS. + +The Foundation is committed to complying with the laws regulating +charities and charitable donations in all 50 states of the United +States. 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Thus, we do not necessarily +keep eBooks in compliance with any particular paper edition. + + +Most people start at our Web site which has the main PG search facility: + + http://www.gutenberg.org + +This Web site includes information about Project Gutenberg-tm, +including how to make donations to the Project Gutenberg Literary +Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to +subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks. + + +</pre> + +</body> +</html> diff --git a/LICENSE.txt b/LICENSE.txt new file mode 100644 index 0000000..6312041 --- /dev/null +++ b/LICENSE.txt @@ -0,0 +1,11 @@ +This eBook, including all associated images, markup, improvements, +metadata, and any other content or labor, has been confirmed to be +in the PUBLIC DOMAIN IN THE UNITED STATES. + +Procedures for determining public domain status are described in +the "Copyright How-To" at https://www.gutenberg.org. + +No investigation has been made concerning possible copyrights in +jurisdictions other than the United States. 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