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+Project Gutenberg's Obras posthumas, by Nicolau Tolentino de Almeida
+
+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.org
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+
+Title: Obras posthumas
+
+Author: Nicolau Tolentino de Almeida
+
+Release Date: July 3, 2011 [EBook #36608]
+
+Language: Portuguese
+
+Character set encoding: ISO-8859-1
+
+*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK OBRAS POSTHUMAS ***
+
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+
+
+Produced by Rita Farinha and the Online Distributed
+Proofreading Team at http://www.pgdp.net (This file was
+produced from images generously made available by National
+Library of Portugal (Biblioteca Nacional de Portugal).)
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+
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+OBRAS
+
+POSTHUMAS
+
+DE
+
+NICOLÁO TOLENTINO
+
+DE ALMEIDA.
+
+
+
+LISBOA, 1828.
+
+NA TYPOGRAPHIA ROLLANDIANA.
+
+_Com Licença da Meza do Desembargo
+do Paço._
+
+
+
+
+_A Sua Alteza._
+
+
+SONETO I.
+
+
+Tornai, tornai, Senhor, ao Tejo undoso,
+ Vinde honrar-lhe outra vez a clara enchente,
+ E deixai que ajoelhe entre a mais gente
+ Hum protegido humilde, e respeitoso.
+
+Não leva a vossos pés rogo teimoso
+ De importuno cansado pertendente;
+ Vem beijar-vos a mão humildemente,
+ A mão augusta que o fará ditoso.
+
+Pois foi por Vós benignamente ouvido,
+ Não vai fazer em pertenções estudo,
+ Vai só mostrar-vos que he agradecido.
+
+Ante Vós ajoelha humilde, e mudo:
+ Mostrai-lhe que inda he Vosso protegido;
+ Que se isto lhe ficou, ficou-lhe tudo.
+
+
+
+
+_A Sua Alteza.­_
+
+
+SONETO II.
+
+
+Qual naufrago, Senhor, que foi alçado
+ Por mão piedosa d'entre as ondas frias,
+ Tal eu de antigas duras agonias
+ Por vossas Reaes mãos fui resgatado:
+
+Pois vencestes as teimas do meu fado,
+ E já vejo raiar dourados dias,
+ Deixai que possa em minhas poesias
+ O vosso Augusto Nome ser cantado.
+
+Não he digna de vós minha escriptura,
+ Nem harmonia, nem estilo a adoça;
+ Mas valha-lhe, Senhor, vontade pura.
+
+Principe excelso, consentí que eu possa
+ Fazer inda maior minha ventura,
+ Contando ao mundo que foi obra Vossa.
+
+
+
+
+_Sahindo Conselheiro da Fazenda o Illustrissimo, e Excellentissimo
+Senhor D. Diogo de Noronha_.
+
+
+SONETO III.
+
+
+Nem sempre em verdes annos a imprudencia
+ Produz irregular procedimento:
+ N­em sempre encontra o humano entendimento
+ Só perto do sepulcro a sã prudencia.
+
+Em Vós não esperou a Providencia
+ Que longas cans vos dêm merecimento:
+ Em Vós mostrou que estudos, e talento
+ Valem mais do que a larga experiencia.
+
+Os eruditos velhos Conselheiros,
+ Depois que o vosso voto alli for dado,
+ Serão de Vós eternos pregoeiros:
+
+E dirão que deveis ser escutado
+ Onde os Ministros vossos companheiros
+ Não sejão da Fazenda, mas do Estado.
+
+
+
+
+_Aos leques mui pequenos, chamados Marotinhos._
+
+SONETO IV.[1]
+
+
+Fofo colchão, as plumas bem erguidas,
+ E sobre os hombros nas jucundas frentes
+ De enrolado cabello anneis pendentes,
+ Longos chorões, bellezas estendidas,
+
+Era esta das­ matronas presumidas
+ A moda, que trazião bem contentes;
+ Rião-se dellas as modestas gentes
+ Vendo pequenas poupas esquecidas.
+
+Nisto a gentil Madama aperaltada,
+ Grande auctora de trastes exquisitos,
+ Nova moda lhe inventa abandalhada.
+
+Reprova-lhe aureos leques com mil ditos.
+ Eis senão quando (oh moda endiabrada!)
+ Abanão-se com azas de mosquitos.
+
+
+
+
+_O cruel disfarce._
+
+SONETO V.
+
+
+Sem murmurar padecerei callado
+ Cumprindo o teu preceito violento:
+ Faltava a envenenar o meu tormento
+ Dever ser por mim mesmo disfarçado.
+
+De trazer o semblante socegado
+ Farei o inculpavel fingimento:
+ Nos olhos mostrarei contentamento,
+ Tendo hum punhal no coração cravado.
+
+Este peito onde nunca engano viste,
+ Que não sabe a vil arte de affectar-se,
+ Onde a verdade, e a intacta fé­ existe,
+
+Martyr do amor, e do infiel disfarce,
+ Nas tuas adoraveis mãos desiste
+ Té dos tristes direitos de quei­xar-se!
+
+
+
+
+_Ao Illustrissimo, e Excellentissimo Senhor Visconde de Ponte de Lima,
+Secretario de Estado_.
+
+
+SONETO VI.
+
+
+A longa cabelleira branquejando,
+ Encostado no braço de hum Tenente,
+ Cercado de infeliz chorosa gente
+ Hia passando o velho venerando.[2]
+
+Geraes repostas para o lado dando:
+ «Sim Senhor; Bem me lembra; Brevemente;»
+ Na praguejada mão omnipotente
+ Nunca lidos papeis hia aceitando.
+
+Mas eu que já esperava altas mudanças,
+ Melhor tempo aguardei, e na algibeira
+ Metti a Petiçã­o, e as esperanças.
+
+Chegou, Senhor Visconde, a _viradeira_:
+ Soltai-me a mim tambem destas crianças,
+ Onde tenho o meu Forte da Junqueira.
+
+
+
+
+_Fazendo Annos a Illustrissima, e Excellentissima Senhora Marqueza de
+Angeja._
+
+
+SONETO VII.
+
+
+Senhora, ha muito tempo pertendia
+ Ser do vosso favor patrocinado:
+ Mil vezes vos quiz dar este recado;
+ Porém sempre o respeito me impedia.
+
+Chegou em fim o venturoso dia
+ A fazer beneficios destinado:
+ Vou neste privilegio confiado;
+ Que a não ser isso não me atreveria:
+
+Vou pedir que descendo da Cadeira,
+ Onde explico os crueis Quintilianos,
+ Me ensineis a tomar melhor carreira.
+
+Que em mim ponhais os olhos soberanos,
+ E que me chegue em fim a _viradeira_[3]
+ No faustissimo dia destes annos.
+
+
+
+
+_Aos Annos do Illustrissimo, e Excellentissimo Senhor Conde d­e
+Avintes._
+
+
+SONETO VIII.
+
+
+A varonil idade florecente
+ Vos tece, illustre Heróe, annos dourados­
+ Para serem á Patria consagrados;
+ Pois sois de Almeidas claro descendente.
+
+Sobre as terras, e mares do Oriente
+ Inda vejo os trofeos alevantados:
+ Vejo beber mil corpos aboiados
+ Do turvo Gange a fervida corrente.
+
+No difficil caminho d'honra, e gloria
+ Por ferro, e fogo a seus bons Reis servindo,
+ Vos deixão por doutrina a sua historia.
+
+Forão diante o duro passo abrindo:
+ Entrai, Senhor, no Templo da Memoria,
+ Os­ bons Avós, e o illustre Pai seguindo.
+
+
+
+
+_Estando nas Caldas_.
+
+
+SONETO IX.
+
+
+Por mais que vos alongue olhos cansados,
+ Olhos ha tanto tempo descontentes,
+ Não vedes mais que pallidos doentes
+ Por mãos estranhas n'agoa sustentados.
+
+Quantas vezes ficastes magoados
+ Por ver ir entre as fervidas correntes
+ Envolvidas mil lagrimas ardentes
+ Do que em vão quer alçar braços mirrados!
+
+Vistas são estas de bem pouco gosto;
+ Poré­m bem pagos ficareis hum dia
+ Quando virdes de Arminda o lindo rosto.
+
+E o pranto, que atégora vos cahia
+ De lastima, d'auzencia, e de desgosto,
+ Ella o fará correr; mas de alegria.
+
+
+
+
+_A huns Annos._
+
+
+SONETO X.
+
+
+Foi este o dia em que a teus pés baixárão
+ Venus, e as lindas Graças innocentes,
+ E em torno do aureo berço reverentes
+ Ao som de alegres hymnos te embalárão.
+
+Aos teus olhos gentís communicárão
+ Cruel poder de conquistar as gentes:
+ Mil suspiros, mil lagrimas ardentes
+ A muitos corações prognosticárão.
+
+Dérão-te huma alma heroica, hum nobre peito:
+ Dérão-te discrição, e formosura,
+ Dons a que o mundo está mui pouco afeito.
+
+Mas, oh humana sorte, triste, escura!
+ Para na terra nada haver perfeito,
+ Dérão-te hum coração de pedra dura.
+
+
+
+
+_Ao disfarce das Mulheres._
+
+
+SONETO XI.
+
+
+Vens debalde, oh bellissima perjura,
+ C'o lindo rosto em lagrimas banhado:
+ Já fui por ti mil vezes enganado,
+ E sempre me affectaste essa ternura.
+
+Esse alvo peito, que he de neve pura,
+ Mas de aço, e fino bronze temperado,
+ Encobre hum coração refalseado,
+ Hum coração de viva rocha dura.
+
+Em vão trabalhas, se enganar-me queres,
+ Vejo correr com animo sereno
+ Esse pranto em que fundas teus poderes:
+
+Mal inventado ardil: ardil pequeno:
+ Tu mesma me ensinaste, que as mulheres
+ Misturão com as lagrimas veneno.
+
+
+
+
+_A huma Camponeza._
+
+SONETO XII.
+
+
+Não morão em palacios estucados
+ Almas singelas, almas extremosas:
+ Nutrem da Corte as damas enganosas
+ Em tenros peitos corações dobrados.
+
+Venhão por longos mares conquistados
+ As Indianas sedas preciosas:
+ Cubrão-lhe as carnes alvas, e mimosas
+ Ricos vestidos em Paris bordados.
+
+São isto effeitos da arte, e da ventura:
+ Estimo mais que toda a vã grandeza
+ Hum limpo coração, huma alma pura.
+
+Não na Corte; das serras na aspereza
+ Fui achar innocencia, e formosura,
+ Sagrados dons da simples Natureza.
+
+
+
+
+_A huma Dama interesseira._
+
+
+SONETO XIII.
+
+
+Podião ser felices meus amores
+ Quando por ouro o amor se não vendia:
+ Já de palavras Nize desconfia,
+ Só crê ou em dinheiro, ou em penhores.
+
+Vio-me assaltado d'ancias, e temores
+ Quando na porta irada mão batia:
+ Por costume infeliz ella sabia
+ Que era algum dos cansados acredores.
+
+Forão-se os dias bemaventurados,
+ Em que só almas grandes, peitos nobres,
+ Erão do Deus de amor agazalhados:
+
+Negro destino hoje preside aos pobres:
+ Poz termo a bella Nize aos seus agrados,
+ Vendo esta bolça condemnada a cobres.
+
+
+
+
+_Ao faustissimo dia da Inauguração da Estatua Equestre­ d'El-Rey
+Fidelissimo o Senhor D. José I._
+
+
+SONETO XIV.
+
+
+Em quanto o Reino cheio de ternura
+ Ao grande Bemfeitor te ha consagrado,
+ E respeita aos teus pés ajoelhado
+ O Rey Augusto de quem és figura:
+
+Em quanto os que me vencem em ventura
+ Abrindo o antigo cofre chapeado,
+ Mandão de prata, e d'ouro recamado
+ Entretecer a rica vestidura:
+
+Eu que não tenho desta louçania,
+ De outra sem pejo sahirei composto,
+ Que não cede á mais fina pedraria.
+
+São ternissimas lagrimas de gosto:
+ Nem infama o triunfo deste dia
+ Quem põe por gala o coração no rosto.
+
+
+
+
+_Descripção de­ Badajoz._
+
+
+SONETO XV.
+
+
+Passei o Rio, que tornou atraz,
+ Se acaso he certo o que Camões nos diz,
+ Em cuja ponte hum bando de Aguazis
+ Registrão tudo quanto a gente traz.
+
+Segue-se hum largo, em frente delle jaz
+ Longa fileira de baiucas vís:
+ Cigarro acezo, fumo no nariz,
+ He como a companhia alli se faz.
+
+A cidade por dentro he fraca rez,
+ As moças põem mantilhas, e andão sós,
+ Tem boa cara; mas não tem bons pés.
+
+Isto, coifas de prata, e de retroz,
+ E a cada canto hum sórdido Marquez,
+ Foi tudo quanto vi em Badajoz.
+
+
+
+
+_Á Serenissima Princeza entrando no banho._
+
+
+SONETO XVI.
+
+
+Nynfas do Téjo já por mim cantadas,­
+ Nossa Augusta Princeza esta presente;
+ Pedí-lhe, que honre a placida corrente,
+ E as agoas ficaráõ mais prateadas.
+
+Diante de seus pés ajoelhadas
+ Em justo acatamento reverente,
+ Serenem vossas mãos a clara enchente,
+ E as frias agoas corrão temperadas.
+
+Sobre as ondas as frentes levantando,
+ Ao tempo que as douradas tranças bellas
+ Brandamente lhe fordes enxugando,
+
+Dizei-lhe, que sustento Irmãas donzellas,
+ Outras viuvas; e ide-lhe lembrando,
+ Que o bem que me fizer he feito a ellas.
+
+
+
+
+_Levantando-se o Author da meza de hum Grande por serem horas de ir para
+a Aula._
+
+
+SONETO XVII.
+
+
+Não tomando em desprezo o escuro estado
+ Em que me poz Fortuna, e Natureza,
+ Olhastes sem horror minha baixeza,
+ E fizestes sentar-me ao vosso lado.
+
+Então de ingrata obrigação chamado
+ Deixei á força a companhia, e a meza,
+ E inda cheio de ideias de grandeza
+ Vim dar por thema hum Verbo conjugado.
+
+Não sei com dous oppostos conformar-me;
+ Soffrem-me os Grandes, sou taful, e moço,
+ Não sei a _Senhor Mestre_ costumar-me.
+
+Taes extremos, Senhor, unir não posso;
+ De dous genios não sou: mandai fechar-me
+ Ou a minha Aula, ou o Palacio vosso.
+
+
+
+
+_Ao Excellentissimo Senhor Marquez de Penalva chegando o A. á quinta das
+Lapas._
+
+
+SONETO XVIII.
+
+
+Hum triste fatigado caminhante
+ Chega a Vós, Illustrissimo Penalva:
+ Co'a mão na espada a augusta Casa salva
+ Segundo as leis de cavalleiro andante.
+
+Sobre ronceiro fraco Rocinante,
+ Que pesca a dente encontradiça malva
+ Por duras rochas, por areia calva
+ Cem vezes pronta morte vio diante.
+
+Cuidando achar aqui melhores fados,
+ Aos pés de outro Rocim, por novo caso,
+ Quasi que vio seus dias acabados.
+
+Quiz correr junto a Vós sobre o Pegaso:
+ Cahio, e por sinal colheis regados
+ Do sangue seu os louros do Parnaso.
+
+
+
+
+_Descripção de hum Peralta amaltezado._
+
+SONETO XIX.[4]
+
+
+Hum vulto cuja fórma desconsola
+ Pelo muito que mostra o pouco sizo,
+ E que pela pobreza do juizo
+ Mil trastes exquisitos desenrola:
+
+Chapeo que bem carrega hum mariola,
+ E que ainda aos sizudos causa rizo,
+ Cazaqui­nha cortada de improvizo,
+ Fivela que lhe vem de sola a sola:
+
+Espantalho que em praça nunca falta
+ Sem ter occupação nem má, nem boa,
+ Que apenas moça vê logo lhe salta:
+
+Eis-aqui, sem medir qualquer pessoa,
+ Breve quadro de hum mi­sero Peralta,
+ Que affecta de Maltez cá em Lisboa.
+
+
+
+
+_Aos Annos do Serenissimo Principe Nosso Senhor._
+
+
+SONETO XX.
+
+
+Foi este, Alto Senhor, o santo dia,
+ O Ceo o concedeo, o Ceo que he justo
+ Afflicto o Povo, posto em dôr, e em susto
+ Com lagrimas ardentes lho pedia.
+
+O fertil Ganges nas entranhas cria
+ Offertas para Vós, Principe Augusto,
+ E ajoelhado na praia o Povo adusto
+ Rico thesouro a vossos pés envia.
+
+Ao Reino tecereis dias dourados,
+ Sem precizar que os Fastos Lusitanos
+ Vos contem as acções dos Reis passados.
+
+Ponde os olhos nos vivos Soberanos,
+ Estudai-lhe as doutrinas, e os cuidados,
+ E a patria acclamará os vossos Annos.
+
+
+
+
+_A hum Leigo Arrabido vesgo, despedido da Meza do S. C. P. Silva, por
+tomar a melhor pera da Meza. He o de que se trata nas Decimas, Tom. II.
+pag. 178_, Ferio sacrilega espada.
+
+
+SONETO XXI.
+
+
+O vesgo monstro que co'a gente ralha
+ E de manhãa a todos atravessa,
+ A cuja hirsuta sordida cabeça
+ Nunca chegou juizo, nem navalha;
+
+Que os gazeos olhos pela meza espalha
+ Por ver se ha mais comer que tire, ou peça,
+ Entrando nelle com tal fome, e pressa
+ Qual faminto frizão em branda palha;
+
+Por crimes de alta gula, e pouco sizo,
+ De meza bem servida, mas severa,
+ Foi n'hum dia lançado de improviso.
+
+Hoje chorando o seu perdão espera:
+ Perdêrão dous glotões o Paraiso,
+ O antigo por maçãa, este por pera.
+
+
+
+
+_Aos toucados altos._
+
+
+SONETO XXII.[5]
+
+
+Foi ao Manique hum homem accusado
+ Por contrabandos ter; elle sciente
+ Chama a quadrilha, corre diligente,
+ Entra, busca, e não acha o Malsinado.
+
+Acha a mulher, que tinha por toucado
+ A torre de Belem: ella que o sente,
+ Banhada em pranto, desmaiada a frente,
+ Prostra por terra o corpo delicado.
+
+C'o boléo se esbandalha a mata espessa,
+ Sahem della esguiões, cassas lavradas,
+ E de belbute trinta e huma peça,
+
+Fivelas, espadins, rendas bordadas:
+ Até tinha escondido na cabeça
+ O marido, e tres arcas encouradas.
+
+
+
+
+_Mettendo a ridiculo humas contradanças_.
+
+
+SONETO XXIII.
+
+
+N'huma tremula s­ala mal armada
+ Com placas velhas, e papel pintado;
+ Clamava já o povo alvoroçado
+ Que fosse a Favorita começada.
+
+Guincha em venal rabeca desgrudada
+ De velho musico o arco estuporado:
+ Cadeia, grita hum muito suado,
+ Olhem que vai a contradança errada.
+
+Ne­rvoso chispo, saborosas frutas
+ He fazenda que alli nunca governa:
+ Aquellas bocas andão sempre enxutas.
+
+Nunca mais alli tórno a fazer perna:
+ Quanto mais val o ir com quatro trutas
+ Fazer huma função n'huma taberna.
+
+
+
+
+_Por occasião de estranharem ao Author hum sonho que a ninguem
+offendia._
+
+
+SONETO XXIV.
+
+
+Atiça, ó moço, a moribunda chama
+ Dessa faminta, sordida candêa,
+ E encostado á parede cabecêa,
+ Posta de guarda ao pé da minha cama.
+
+Se o sono, que em meus olhos se derrama,
+ E os languidos sentidos me encadêa,
+ Tentar com sonhos esta pobre idéa,
+ Em altos gritos por meu nome chama:
+
+Assenta-me na cara essas mãos frias:
+ Pois ves o fructo, que sonhando tiro,
+ Corta em raiz traidores fantasias.
+
+Contra os sonhos desde hoje me conspiro:
+ Se ao primeiro me dizem heresias,
+ Em sonhando outros pregão-me hum tiro!
+
+
+
+
+_Á moda dos chapeos maiores da marca._
+
+
+SONETO XXV.
+
+
+Amigos, e Senhor meu, de França, ou Malta
+ Hum chapeo mande vir a toda a pressa;
+ A cópa que me ajuste na cabeça;
+ Mas as abas na fórma a mais peralta.
+
+A detraz que me fique muito alta,
+ A prezilha, e botão pequena peça:
+ Estimarei que disto não se esqueça;
+ Que a demora me faz bastante falta.
+
+Gostei muito do invento, he bem traçado,
+ Porque vi no Loreto hum certo dia
+ Muito povo a correr para o Chiado,
+
+Para ver hum Senhor, quem tal diria:
+ C'hum chapeo de tal fórma desmarcado
+ Que nem a gente a pé passar podia.
+
+
+
+
+_Ás fivelas chamadas a la Chartre._
+
+
+SONETO XXVI.
+
+
+Oh quantos Mexicanos patacões,
+ Mareados talheres já sem par,
+ Á tonta Avó o neto vai furtar
+ De mofentos­ decrepitos caixões:
+
+Fundidos em quadrados fivelões
+ Para á Chartres o neto passear,
+ Traz nos pés a baixela singular
+ Que podia servir em correões.
+
+Capitão Vento-Sul, rico Hollandez,
+ Que de prata subtil pequenos Ós
+ Servem só de fivelas nos teus pés,
+
+Vem admirar-te, vendo que entre nós
+ Traz o pobre peralta Portuguez
+ Por fivelas molduras de tremós.
+
+
+
+
+_A huma Velha presumida._
+
+
+SONETO XXVII.
+
+
+Debalde sobre a face encarquilhada
+ Pendendo louros bugres emprestados,
+ Dás inda ao louco amor teus vãos cuidados,
+ Em carmins enganosos confiada.
+
+Postiça formosura, em vão comprada,
+ Não torna atraz os annos apressados:
+ Nem alvos dentes de marfim talhados,
+ Tornão em nova a tremula queixada.
+
+De ti no mesmo tempo que do Gama
+ Cantou mil bens a Deosa Trombeteira,
+ A que os baixos Poetas chamão Fama:
+
+Porém sempre ficaste em boa esteira;
+ Porque, se já não prestas para dama,
+ Inda serves mui bem como terceira.
+
+
+
+
+_Aos Annos de huma formosa Dama._
+
+
+SONETO XXVIII.
+
+
+Deixai, Pastores, na montanha os gados,
+ Vinde ao sitio melhor desta campina
+ Beijar a mão á bella, e peregrina
+ Deidade tutelar dos nossos prados:
+
+Vinde offertar-lhe aos annos celebrados
+ O cravo, a roza, a angelica, a bonina;
+ E ao mais suave som da flauta fina
+ Decantar seus illustres predicados.
+
+Mas já a cercão pastores, e pastoras;
+ Huma lhe beija a mão, outra o vestido;
+ Elles a coroão de vistosas flores,
+
+E em doces vozes todo o rancho unido
+ Canta que ella he a Deosa dos Amores;
+ Pois tem no rosto as settas d­e Cupido.
+
+
+
+
+_A Sua Alteza._
+
+
+SONETO XXIX.
+
+
+Nesta cansada triste poesia
+ Vedes, Senhor, hum novo pertendente,
+ Que aborrece o que estima toda a gente,
+ Que he ter no mundo cargos, e valia.
+
+Sobre alto throno ha annos que regia
+ De docil povo turba obediente:
+ Mas quer antes sentar-se humildemente
+ N'hum banco da Real Secretaria;
+
+Qual modesto Capucho reverendo,
+ Que em fim de Guardiania triennal
+ Passa a Porteiro as chaves recebendo.
+
+Em mim conheço vocação igual:
+ E co'a mesma humildade hoje pertendo
+ Passar de Mestre a ser Official.
+
+
+
+
+_A hum Padre Guardião._
+
+
+SONETO XXX.
+
+
+Meu Padre Guardião, que exemplarmente
+ Regeis essa Capucha Sociedade,
+ Que munida do véo da Santidade
+ Passa como não passa a mais da gente:
+
+Vós que á força de braço omnipotente
+ Fazeis tremer do inferno a potestade,
+ E aos exorcismos só de hum vosso Frade
+ Se explica o Demo em Portuguez corrente:
+
+Logo que dessa estola o forte escudo
+ Buscar esbelta Nynfa, que atacada
+ Seja d'algum Demonio surdo, ou mudo,
+
+Mandai dos Márques conte a trapalhada:[6]
+ Pois só elle, que foi o que urdio tudo,
+ Sabe quem commetteo a velhacada.
+
+
+
+
+_Em louvor de Caporalini, Actor do Theatro de S. Carlos._
+
+
+SONETO XXXI.
+
+
+No grão Theatro vejo sempre enchentes:
+ As cans annosas, os cabellos louros,
+ Illustradas nações, barbaros Mouros,
+ Todos da tua voz ficão pendentes.
+
+Que importa que não deixem descendentes
+ Teus ex-virís deshabitados couros;
+ Que importa que tu roubes aos vindouros
+ Se enriqueces, se encantas os presentes?
+
+Não he traição ao sexo feminino;
+ He só razão quem te elogia, e preza,
+ Comico Mestre, Musico divino.
+
+Oh nação de harmonia, e de crueza!
+ O teu ferro nem sempre he assassino:
+ Não i­nsultou, honrou a natureza.
+
+
+
+
+_Achando-se o Author prezo dos bellos olhos de Marcia._
+
+
+SONETO XXXII.
+
+
+Eu vi a Marcia bella, vi Cupido
+ Com arco, settas, e cruel aljava,
+ Com impeto sahir de donde estava,
+ E voar para mim enfurecido.
+
+Fugí; bradei: porém não fui ouvido;
+ E o tyranno Rapaz que me buscava,
+ Com huma, e outra setta me atirava,
+ Até de todo me deixar rendido.
+
+Atou-me as mãos com asperas cadeias,
+ Sem o mover o sangue que corria
+ Do roto coração, das rotas veias.
+
+Antes, com frio rizo me dizia:
+ «E não sabias tu, que Amor receias,
+ Que nos olhos de Marcia Amor vivia?»
+
+
+
+
+_Sobre a Ingratidão de huma Dama._
+
+
+SONETO XXXIII.
+
+
+Coração, de que gemes, de que choras?
+ Que parece tens odio á propria vida!
+ Se perdeste teu bem, foi mão perdida,
+ Com te pôr a morrer nada melhoras.
+
+Eu bem sei­ que a belleza a quem adoras,
+ Foi-te ingrata, e cruel, foi fementida;
+ Mas que esperavas tu, se he lei sabida
+ O mudar-se a Mulher todas as horas.
+
+Socega, Coração, deixa a tristeza;
+ Quem te mandou querer com fé tão pura,
+ Quem te mandou mostrar tanta firmeza!
+
+Erraste, tem paciencia, em fim procura
+ Não fazer por Mulher jámais fineza,
+ Acharás mais amor, maior ventura.
+
+
+
+
+CANTIGAS
+
+_Feitas nas Caldas com o Estribilho:_
+
+
+ _Negras tristezas,
+ Adeos, adeos._
+
+Não ha nas Caldas­
+Melancolia,
+Dão alegria
+Os ares seus.
+ _Negras tristezas,
+ Adeos, adeos._
+
+Sara-me a terra,
+E não as agoas:
+Não curão magoas
+Os banhos seus.
+ _Negras &c._
+
+Huns lindos olhos,
+Que o dia aclárão,
+Afugentárão
+Os males meus.
+ _Negras &c._
+
+Brandos­ sorrizos
+A furto dados
+Fazem dourados
+Os dias meus.
+ _Negras &c._
+
+Se entra nos banhos
+Marilia bella,
+Entra com ella
+O cego Deos.
+ _Negras &c._
+
+Alli tempéra
+Nas agoas puras
+As pontas duras
+Dos ferros seus.
+ _Negras &c._
+
+Enxuga as tranças
+Da Nynfa loura,
+E nellas doura
+Os farpões seus.
+ _Negras &c._
+
+Caldas ditosas
+Teu nome cresça,
+Alça a cabeça
+Até­ os Ceos.
+ _Negras &c._
+
+O pobre Anfriso,
+Que estas calçadas
+Deixou regadas
+Dos olhos seus,
+ _Negras &c._
+
+Hoje em triunfo
+De seus pezares
+Levanta altares
+De Gnido ao Deos.
+ _Negras &c._
+
+
+
+
+ENDECHAS.
+
+
+
+No sacro Templo
+ Que Amor habita
+ Minha alma afflicta
+ Fui immolar.
+
+Na ruiva flamma
+ Que silva ardendo
+ A mão detendo
+ Jurei-te amar.
+
+Fumoso sangue,
+ Mal findo o voto,
+ Do peito roto
+ Vi gotejar.
+
+D'alma opprimida
+ A insana pena
+ Causou-lhe El­ena
+ Que soube amar.
+
+N­os fidos peitos
+ O morto lume
+ Negro Ciume
+ Hia ateiar.
+
+Vulcano féro
+ Ante Mavorte
+ O rival forte
+ Não póde olhar.
+
+Dos desprezados,
+ Que soffrem tanto,
+ O rouco pranto
+ Feria o ar.
+
+Aqui jaz Delio
+ Terno, e vencido.
+ Sem de Cupido
+ Premio alcançar:
+
+Que Dafne esquiva,
+ Com triste agouro,
+ Em verde louro
+ Vio transformar.
+
+Pan segue a Nynfa,
+ Que tanto adora;
+ Seu fado chora
+ Vendo-a mudar.
+
+De tenras cannas
+ Amor lhe manda,
+ Que a frauta branda
+ Vá fabricar.
+
+Cercada Dido
+ De angustias fêas,
+ Ah falso Eneas!
+ Se ouve bradar.
+
+Seus lindos olhos
+ Frouxos erravão;
+ Em vão buscavão
+ O vago mar.
+
+Subtís enredos
+ De acerbo dano
+ Bifronte engano
+ Eu vi tramar.
+
+Por Thisbe bella,
+ Que busca errante,
+ Pyramo amante
+ Vai acabar.
+
+Conhece a amada
+ O infeliz erro,
+ Ousa impio ferro
+ Em si cravar.
+
+Serve-lhe a terra
+ De duro leito,
+ Vê-s­e-lhe o peito
+ Inda arquejar:
+
+As pardas sombras;
+ Que Amor mistura,
+ Na Estyge escura
+ Vão aportar:
+
+Desenrugando
+ A crespa fronte,
+ Lédo Acheronte
+ As foi buscar.
+
+E eu combatido
+ De mil pezares
+ Vou pelos ares
+ A suspirar.
+
+Sei ser-te amante
+ Sem premios vivo,
+ Este o motivo
+ Do meu penar.
+
+Vês mil exemplos,
+ E jámais pensas
+ Que póde offensas
+ Amor vingar.
+
+Ah! sê piedosa:
+ As­ cruas penas
+ Torne serenas
+ Teu brando olhar.
+
+
+
+
+_Em dia dos annos do Illustrissimo Principal Almeida._
+
+
+Por mais que esse sangue honrado
+Vos inspire os pondonores
+De merecer os louvores
+E não querer ser louvado,
+Este dia he consagrado
+A elogios soberanos:
+Sem vir enfeitar enganos
+Com mão venal, e fingida,
+Em contar a minha vida
+Louvarei os vossos annos.
+
+Tecêrão-me em baixo estado
+A Fortuna, e a Natureza:
+Entre os­ braços da Pobreza
+Fui desde o berço lançado.
+Pelas vossas mãos alçado
+Quebrei da desgraça o fio:
+
+Se da crua fome, e frio
+Livro o Pai­, livro os Irmãos,
+He obra das vossas mãos,
+E faz o vosso elogio.[7]
+
+
+
+
+MOTE.
+
+
+_Olhos de Lize, olhos bellos,
+Olhos para mim fataes,
+Que hum vosso girar sómente
+Me faz temer mil rivaes._
+
+
+
+
+GLOZA.
+
+
+Da alva Lize os brancos dentes,
+O rosto affavel, e brando,
+A boca, donde em fallando
+Ficamos todos pendentes,
+Nos lizos hombros patentes
+Soltos os longos cabellos
+Não são causa dos desvellos­,
+Nem das ancias em que vivo:
+Vós sois, vós sois o motivo,
+Olhos de Lize, olhos bellos.
+
+Vós sois os meus vencedores,
+E sois gloria do vencido:­
+De vós me atira Cupido
+Mil farpados passadores.
+Se vence o Deus dos Amores,
+Vós as armas lhe emprestais.
+Que ternos saudosos ais,
+Que pranto em vão derramado,
+Me não tendes vós custado,
+Olhos para mim fataes!
+
+Se o rosto ao Ceo levantado
+Alçais as pestanas pretas,
+Logo de brilhantes setas
+Vejo todo o ar cruzado.
+Cupido, que tem jurado
+Crua guerra á humana gente,
+Das nuas costas pendente
+Dura aljava, e passadores,
+Fará conquistas menores
+Que hum vosso girar sómente.
+
+Quando desses claros lumes
+Sahem as chammas brilhantes;
+De mil rendidos amantes
+Ouço saudosos queixumes.
+Não chameis loucos ciumes,
+Ó Lize, os que em mim causaes:
+Do poder de huns olhos taes
+Quem ha que livrar-se possa,
+Se a menor perfeição vossa
+Me faz temer mil rivaes?
+
+
+
+
+MOTE.
+
+
+_Tu teimas em desprezar-me,
+Eu teimo em te idolatrar,
+Juntarei teima com teima,
+Teimando te hei de abrandar._
+
+
+
+
+GLOZA.
+
+
+De ser comigo piedosa
+Não dás, Marilia, esperanças:
+Inda, cruel, não te cansas
+De ser esquiva, e teimosa!
+Que importa, ó Ninfa formosa,
+Vir neste pégo arriscar-me,
+De mergulho ao mar lançar-me,
+E os livres peixes colher-te;
+Se quanto eu teimo em querer-te,
+Tu teimas em desprezar-me?
+
+C'os olhos ao Ceo erguidos,
+Ou postos nos longos mares,
+Por ti encho os vagos ares
+De mil saudosos gemidos:
+Nos rochedos desabridos,
+Que em vão bate o rouco mar,
+Devorando o meu pezar,
+Já que de ouvi­-lo te cansas,
+Sem premio, sem esperanças
+Eu teimo em te idolatrar.
+
+Teimando, se mal não penso,
+Hei de abrandar teus rigores;
+Porque assim como em amores,
+Tambem em teimas te venço.
+Juro pelo Sol intenso,
+Que a prumo estas rochas queima,
+Que mais do que eu ninguem teima.
+São as causas desiguais:
+Mas por vêr quem teima mais,
+Juntarei teima com teima.
+
+Se alva fonte murmurando
+Gasta em torno os duros seixos,
+E vai dos annosos freixos
+As raizes escarnando:
+Se duras rochas quebrando
+Vai c'o tempo o bravo mar:
+Se bronzes póde cortar
+Mordente lima teimosa:
+Tambem eu, Ninfa formosa,
+Teimando te hei de abrandar.
+
+
+
+
+MOTE.
+
+
+_Não sei que quer a desgraça,
+Que atraz de mim corre tanto:
+Hei de parar, e mostrar-lhe
+Que de ve-la não me espanto._
+
+
+
+
+GLOZA.
+
+
+Não sei que outro mal profundo
+Inda a desgraça me guarda,
+Se me tirou em Anarda
+O que tem de bom o mundo!
+Foi este golpe tão fundo,
+Que outro não tem que me faça:
+Se em levar-me o gesto, e a graça
+De huns olhos, por quem vivia,
+Me fez quanto mal podia,
+Não sei que quer a desgraça!
+
+Debalde outros gostos pintas,
+Amor, para cativar-me:
+Já não tornas a enganar-me,
+Por mais, e mais que me mintas.
+Inda tens as settas tintas,
+Inda enxugo inutil pranto:
+Ao teu venenoso encanto
+Novas victimas procura;
+E dá-lhe dessa ventura,
+Que atraz de mim corre tanto.
+
+Fizeste, ó desgraça, hum erro
+Em vires do Amor valer-te:
+Como ha de elle socorrer-te,
+Se eu já conheço o seu ferro?­
+Á sua voz o ouvido cerro:
+Custou-me sangue o escapar-lhe:
+E para melhor provar-lhe,
+Que eu já sou dos seus cortados,
+Sinaes inda mal fechados
+Hei de parar, e mostrar-lhe.
+
+Tu só me déste hum desgosto,
+Outro já não pódes dar-me:
+Já agora sempre has de achar-me
+A mesma alma, e o mesmo rosto,
+Se em ferros por ti for posto,
+Verás que ao som delles canto;
+Se envolta em sanguineo manto
+Me pões a morte diante,
+Notarás no meu semblante,
+Que de ve-la não me espanto.
+
+
+
+
+MOTE.
+
+_Os meus olhos a chorar._
+
+
+
+
+GLOZA.
+
+
+Pranto inutil são os meios
+Das pessoas desgraçadas:
+Pagai, lagrimas cansadas,
+Pagai delictos alheios.
+Já que de ouro cofres cheios
+Nunca pude a Nize dar,
+Já que devo em fim pagar
+Culpa, que só tem meus fados,
+Fiquem sempre condemnados
+Os meus olhos a chorar.
+
+
+
+
+MOTE.
+
+_Já disse tudo a Cupido._
+
+
+
+
+GLOZA.
+
+
+Na vossa ­gentil figura
+Mil dões natureza pôz:
+Todos cuidão que sois vós
+A Deosa da Formosura.
+Venus mil vinganças jura,
+Vendo o seu culto esquecido:
+Vai de settas o ar ferido.
+Senhora, andai cuidadosa,
+Que a louca Deosa invejosa
+Já disse tudo a Cupido.
+
+
+
+
+MOTE.
+
+_Distancias, e saudades._
+
+
+
+
+GLOZA.
+
+
+As nodosas carvalheiras,
+Que assombrão hermas estradas;
+Altas rochas, penduradas
+Sobre medonhas ribeiras;
+Duras, íngremes ladeiras,
+Escuras concavidades;
+São as tristes soledades,
+A quem meu cansado peito
+Conta o mal, que lhe tem feito
+Distancias, e saudades.
+
+
+
+
+MOTE.
+
+
+_Cantarei alegres penas,
+Que cercão meu coração._
+
+
+
+
+GLOZA.
+
+
+Que eu cante alegre me ordenas?
+Que cruel, que dura Lei!
+Porém obedecerei,
+Cantarei alegres penas:
+Por todo o modo envenenas
+A minha infeliz paixão;
+Tu déras valor á acção
+De eu affectar alegrias,
+Se visses as agonias
+Que cercão meu coração.
+
+
+
+
+MOTE.
+
+
+_Nada no mundo figura,
+Quem não chega a ter amor._
+
+
+
+
+GLOZA.
+
+
+Deos de Amor, sempre a ventura
+De tuas mãos pendente vi:
+Tu pódes tudo; sem ti
+Nada no mundo figura.
+Recolhe da terra dura
+Fructo immenso o Lavrador;
+Mas occulto dissabor
+No fundo da alma lhe diz,
+Que não chega a ser feliz
+Quem não chega a ter amor.
+
+
+
+
+MOTE.
+
+
+_Amor para me prender
+Os teus olhos me mostrou._
+
+
+
+
+GLOZA.
+
+
+Mil bellezas me fez vêr,
+Porque alguma me rendesse,
+Não sabia o que fizesse
+Amor, para me prender.
+Mil laços me foi tecer,
+Laços vãos, que em vão me armou;
+Provadas settas tirou,
+Que hia em veneno ensopando;
+Porém só me rendi quando
+Os teus olhos me mostrou.
+
+
+
+
+MOTE.
+
+
+_A minha felicidade._
+
+
+
+
+GLOZA.
+
+
+Cesse, ó Nize, o teu rigor:
+Esse odio injusto reprime:
+Perdem o nome de crime
+Os crimes que faz amor.
+Torne ao seu antigo ardor
+A nossa antiga amizade:
+Adoça a rigoridade
+Do penoso estado meu,
+E faze c'hum riso teu
+A minha felicidade.
+
+
+
+
+MOTE.
+
+
+_Quem adora occultamente
+Sem declarar seu amor
+Sente mil ancias no peito,
+Vive cercado de dôr._
+
+
+
+
+GLOZA.
+
+
+Por que barbara razão
+Hum justo amor se reprime,
+E ha de julgar-se por crime
+Pôr na boca o coração?
+Claros olhos ferir vão
+Hum coração innocente;
+Nem ao triste se consente
+Dar sinaes de seu cuidado!
+Deoses! quanto he desgraçado
+Quem adora occultamente!
+
+No peito a chamma accendida
+As entranhas lhe abrazou;
+Mas da ingrata, que a ateou,
+He crime ser percebida.
+Se deita sangue a ferida
+Á vista do matador,
+Vejão de que nova dôr
+Sente o triste a alma cortada,
+Fallando co'a sua Amada
+Sem declarar seu amor!
+
+Arde em hum fogo escondido:
+Pois­ se conta o seu cuidado,
+Além de ser desgraçado,
+Chamão-lhe em cima atrevido.
+Até quasi tem perdido
+De olhar o livre direito;
+Vive sempre contrafeito;
+E entre mil contrarios posto,
+Mostra alegria no rosto,
+Sente mil ancias no peito.
+
+Busca alegres companhias,
+Por curar o mal que sente:
+Entra a ingrata de repente,
+Despertão-se as­ cinzas frias.
+Ternas Arias, Synfonias,
+Tudo aviva o seu amor;
+Mas dos fados o rigor
+Tem sobre elle taes poderes,
+Que no meio dos prazeres
+Vive cercado de dôr.
+
+
+
+
+MOTE.
+
+
+_Nos olhos o amor explico
+Que trago no coração;
+Que não se póde occultar
+No peito a doce paixão._
+
+
+
+
+GLOZA.
+
+
+Mandas-me, ó Anarda, em vão
+Os olhos meus reprimir;
+Que elles sempre hão de seguir
+O impulso do coração.
+Sem querer sinaes daráõ
+Do affecto, que não publíco:
+Co'a boca, que mortifico,
+Que importa que o não revele,
+Se eu, por mais que me acautele,
+Nos olhos o amor explico?
+
+Amor os faz descuidados:
+Em vão, Anarda, os abaxo;­
+Pois dahi a pouco os acho
+Outra vez nos teus pregados.
+Trazellos mais castigados
+Não está­ na minha mão:
+Esta continua omissão,
+Este erro, como tu dizes,
+He hum fructo das raizes,
+Que trago no coração.
+
+De que serve olhar a medo,
+E fallar acautelado,
+Se hum suspiro descuidado
+Vem descobrir o segredo?
+Este artificio, este enredo
+Pouco poderá durar:
+Meus olhos me hão de entregar;
+Que hum amor na alma arraigado
+He como hum fogo ateado,
+Que se não póde occultar.
+
+Tempo, e arte tenho posto
+Para disfarçar-me em tudo:
+Mas sae-me perdido o estudo,
+Em vendo o teu lindo rosto.
+Disfarça-se mal hum gosto,
+Que nasce do coração:
+Tambem tu dessa lição
+Talvez­ que bem não sahiras,
+Se assim como eu sentiras
+No peito a doce paixão:
+
+
+
+
+MOTE.
+
+
+_Por passos sem esperança,
+Onde me leva o dezejo?_
+
+
+
+
+GLOZA.
+
+
+Vão pensamento, descança,
+Reconhece as forças minhas:
+Tu não sabes, que caminhas
+Por passos sem esperança?
+Junto da corrente mansa
+Me pões do dourado Tejo:
+Cá de longe o si­tio vejo:
+Mas não devo hum passo dar,
+Que eu não mereço chegar
+Onde me leva o dezejo.
+
+
+
+
+MOTE.
+
+
+_Eu já tenho exp'rimentado
+As minhas inclinações._
+
+
+
+
+GLOZA.
+
+
+Que nunca teu doce agrado
+De amizade simples passa,
+Por minha grande desgraça
+Eu já tenho exp'rimentado.
+Antes odio declarado,
+Que estas equivocações!
+Quero as ternas espressões
+De que as almas se alimentão:
+Com menos não se contentão
+As minhas inclinações.
+
+
+
+
+_Ao mesmo Mote outra_
+
+
+GLOZA.
+
+
+Senhora, eu tenho encontrado
+No teu amor mil intrigas:
+Não preciso que mo digas,
+Eu já tenho exp'rimentado.
+São premios do meu cuidado
+Enganos, e ingratidões;
+E por occultas razões
+São, inda que mo não dizes,
+Tão justas, como infelizes,
+As­ minhas inclinações.
+
+
+
+
+MOTE.
+
+
+_Ouvi, ó Senhora, ouvi
+Os suspiros de huma voz,
+Que quando por vós suspira,
+Aspira sómente a vós._
+
+
+
+
+GLOZA.
+
+
+Chegou finalmente a hora
+De saberdes quem vos ama:
+Rebente esta antiga chama,
+Que ardeo occulta atégora.
+Amar callando, Senhora,
+Assaz o fiz atéqui:
+As ancias, que padeci,
+Sejão finalmente expostas...
+Ah! não me volteis as costas:
+Ouví­, ó Senhora, ouví.
+
+Perdei huma vez o horror
+A ouvir ternos gemidos;
+Nunca ferírão ouvidos
+Brandas palavras de Amor.
+Que hora, e que sitio melhor,
+Do que este em que estamos sós?
+Que culpa, que crime atroz
+Temeis que ante vós farão
+As queixas de hum coração,
+Os suspiros de huma voz?­
+
+Meu coração vos adora;
+Sem saber o conquistais:
+Estas ancias, estes ais
+São obra vossa, ó Senhora.
+Em segredo amou até­gora;
+De amor vive; amor respira;
+E se vós, depondo a ira,
+Lhe prometteis compaixão,
+Que melhor occasião,
+Que quando por vós suspira?
+
+Nelle, Senhora, não posso
+Nutrir estranha paixão:
+Em fim este coração
+Foi feito para ser vosso:
+Para encher-se de alvoroço
+Basta ouvir a vossa voz:
+Passa indiff'rente, e veloz
+Por mil bellezas, que admira,
+Nada o enche, a nada aspira­,
+Aspira sómente a vós.
+
+
+
+
+MOTE.
+
+
+_Hei de amar-te até á morte,
+Quer tu me queiras, quer não:
+Serei no amor desgraçado;
+Mas com discreta eleição._
+
+
+
+
+GLOZA.
+
+
+Não fujo, pódes rasgar
+Este peito desgraçado;
+Que o teu gesto retratado
+Has de, cruel, nelle achar.
+Posto que veja roubar
+Á Parca a tesoura forte,
+E dar-me na vida córte,
+Inda ouvirás, que te digo:
+«Ingrata, não me desdigo,
+Hei de amar-te até á morte.»
+
+Vem, Amor, auctorizar
+O sagrado juramento
+De até ao final alento
+Firmemente te adorar.
+De joelhos, no Altar
+Co'a devida submissão
+Resoluto ponho a mão;
+Juro nas settas tremendas
+De te amar, quer tu me offendas,
+Quer tu me queiras, quer não.
+
+Amor co'as mãos apressadas
+Ergue dos olhos a venda,
+E pasma da jura horrenda,
+Que assusta as aras sagradas.
+«Eis as correntes pezadas,
+Que te esperão,» diz irado.
+Eu as acceito humilhado,
+«Não, ó Deos, não esmoreço
+C'os ferros, posto conheço
+Serei no amor desgraçado.»
+
+A Liberdade ultrajada
+Lança-me a revez a vista;
+Risca-me da honrada lista,
+E chama-me escravo irada.
+Não crimines indignada
+Esta nobre sujeição.
+Arrastro o ferreo grilhão;
+Mas por quem? Por Nize bella.
+Ah! sim te deixo por ella;
+Mas com discreta eleição.
+
+
+
+
+MOTE.
+
+_Toda a Mulher he perjura._
+
+
+
+
+GLOZA.
+
+
+Triste solitario freixo,
+Mais triste do que eras d'antes,
+Conta, conta aos caminhantes
+A razão com que eu me queixo.
+Em teu tronco escrita deixo
+Minha funesta aventura:
+Reconta esta historia dura,
+Por que veja quem a ler,
+Que depois de Armida o ser
+Toda a Mulher he perjura.
+
+
+
+
+_Ao Illustrissimo, e Excellentissimo Senhor Marquez de Penalva._
+
+
+Illustrissimo Penalva,
+Já que me dais protecção,
+Sentido na occasião,
+Porque bem sabeis que he calva.
+Se o vosso braço me salva
+Das­ criança­s pertinazes,
+Se a poder das vossas frazes
+Meu duro grilhão se corta,
+Por triunfo á vossa porta
+Pendurarei dous rapazes.
+
+
+
+
+MOTE.
+
+_De mil suspiros que eu dou._
+
+
+
+
+GLOZA.
+
+
+Parto em fim desesperado,
+E sem que o motivo conte
+Vou a estranho horizonte
+Chorar o meu triste fado.
+Já vejo o laço quebrado
+Que a ventura me forjou;
+E como Nize o quebrou,
+Conservando os olhos seccos,
+Ao menos não ouça os éccos
+De mil suspiros que eu dou.
+
+
+
+
+_Ao Illustrissimo, e Excellentissimo Senhor Marquez de Penalva._
+
+
+Hontem soube o que podia
+Estilo suave, e brando:
+E quanto podeis fallando
+Eu o vi na Academia.
+Nas almas fogo accendia
+Vossa discreta Oração.
+Sobre a minha pertensão
+Vos peço que assim oreis,
+E que ao Principe falleis
+Como fallais á Nação.
+
+
+
+
+_Ao Illustrissimo, e Excellentissimo Senhor Conde de Villa Verde._
+
+
+Mandais-me que os versos traga
+Que na almofada fallárão;
+Porque os outros vos ficárão
+Nas mãos da Illustre Arriaga.
+Essa honra he huma paga,
+Que elles nunca merecêrão:
+Se os seus olhos se puzerão
+Sobre tão baixa escritura,
+Devo essa grande ventura
+Ás illustres mãos que os dérão.
+
+Mas he do meu triste fado
+Tão teimosa a crueldade,
+Que até na felicidade
+Vejo que sou desgraçado:
+Pois devi­eis cautelado
+Segurar a occasião:
+Fingindo que errava a mão,
+Entre mil papeis diversos
+Podieis em vez dos Versos
+Dar-lhe a minha petição.
+
+
+
+
+_Ao Illustrissimo, e Excellentissimo Senhor Conde de Villa Verde._
+
+
+Assisti á Sagração,
+Acto, Senhor, dos mais serios,
+Que envolve augustos Mysterios
+Da nossa Religião.
+Lembrou-me crismar-me então
+Por ser acto Episcopal;
+Por permittir acção tal
+Que outro appellido se tome;
+Lembrou-me trocar o nome
+De Mestre em Official.
+
+Busquei as horas melhores,
+E encommendei-me á fortuna;
+Cheguei, e para a Tribuna
+Tinhão já ido os Senhores.
+Pelos frios corredores
+O bom Lima me encaminha;­
+Foi-me pôr na tal portinha
+Onde os pertendentes vão
+Pôr os joelhos no chão,
+E os olhos na Rainha.
+
+Co'a cabeça estopetada,
+Como quem dorme sem cama,
+Roto fumo, e alguma lama
+Sobre a casaca encarnada,
+Vi o tal que grita, e brada,
+Quer na Sala, quer na rua.
+Por mais que trabalha, e sua,
+Guarda-roupa he louca idéa:
+Como ha de guardar a alhêa
+Quem trata tão mal da sua?
+
+Ao pé a figura rara
+Do pardo Cardeal astuto,
+Que para cumprir o luto
+Lhe basta mostrar a cara.
+Dos dous na justiça clara
+Grandes fundamentos acho;
+Mas fujo mais para baixo,
+E dispenso amigos taes,
+Por não ficarmos iguaes
+Na justiça, e no despacho.
+
+
+
+
+_Ao Illustrissimo, e Excellentissimo Senhor Conde de Villa Verde, quando
+morreo o Pai do Author._
+
+
+Peito de tanta bondade
+De bom Pai o nome preza;
+Levou-me hum a Natureza;
+Mas deixou-me outro a piedade.
+Amparai minha orfandade,
+Porque a vossos pés me humilho:
+Se não me abrís outro trilho,
+Tal a minha estrada vai­,
+Que irão co'a vida do Pai
+As esperanças do Filho.
+
+
+
+
+_Vagando hum Officio que o A. pertendia._
+
+
+Jaz o defunto enterrado:
+E agora saber intento,
+Se a caso no testamento
+Me ficou algum legado.
+A vossos pés ajoelhado
+Ponho em vós minha esperança:
+Tenho Parte, e não descansa;
+E nesta causa infeliz­,
+Se não fordes o juiz,
+Perderei de certo a herança.
+
+
+
+
+_Ao Doutor Joaquim Ignacio Seixas, Medico das Caldas._
+
+
+Meu Doutor, bem sei que quer
+Que eu venha ás Ave-Marias;
+Mas olhe: ha huns certos dias
+Em que isto não póde ser.
+Dona Antonia Xavier
+(Que o Ceo por seculos guarde)
+Faz annos, e eu esta tarde
+Perco á Medicina o medo:
+N'outros dias virei cedo;
+Mas neste, ha de ser bem tarde.
+
+
+
+
+DECIMA.
+
+
+_A hum Prégador celebre (Fr. João Jacintho) estando jantando com o A._
+
+
+Se deste potente vinho
+Não cerceias as rações,
+Temo que nos teus Sermões
+Allegues só São Martinho.
+Se lhe dás largo caminho
+Pelo teu fecundo peito
+Seu fatal magico effeito
+Deixando-te a tres de fundo,
+Te fará ser o segundo
+Que diga: _sempre me deito_.[8]
+
+
+
+
+_Carta a Lourenço da Mota, Official da Secretaria._
+
+
+Amigo Lourenço: Se tu não sabes o que he não ter dinheiro, eu to
+explico: Abaixo de Estupores he o maior mal do mundo, principalmente
+para quem herdou Irmãas sem nenhum rendimento, e com muito bom estomago.
+
+Por vêr se aligeirava esta carga, empenhei-me em hum milhão para lhes
+comprar tenças, e em outro para lhas assentar; mas como as não cobrão,
+morrem de fome, e depois que são ricas, tornão-se a mim, e dellas
+aprendo o que são lucros cessantes, e damnos emergentes. Cuidei que
+tinha mettido huma lança em Africa, e vejo que a metti em mim mesmo; e
+arde agora a vela pelas duas pontas.
+
+Tu que tens bom coração, e que estás ao pé do Senhor Marquez, que o tem
+melhor, pede-lhe por caridade o despacho dessa petição.
+
+Não te assustem os tres annos; porque ainda mal que ouço que no de 93
+não tiverão cabimento. Pede-lhe que já que me livrou de crianças, me
+livre tambem de velhas, gado ainda mais impertinente, e que se não
+contenta com figuras de Rhetorica. Interessa-te pelo teu Nicoláo, Amigo,
+e Collega, e sabe que, se lhe não mandas as Portarias, terás a vergonha
+de o vêr andar pelas outras. Recomenda-se á tua efficacia.
+
+
+O teu fiel Amigo
+
+_N. T._
+
+
+
+
+
+Peço que mates a fome
+A este meu povo immenso,
+E peço-te, meu Lourenço,
+Pelo Santo do teu Nome.
+Por hum bom serviço tome
+A paga das taes tencinhas.
+Pois teve as carnes mesquinhas
+Em vivas brazas vermelhas,
+Em louvor das suas grelhas
+Peço me livres das minhas.
+
+Com esta tenho enviado
+Tres cartas, segundo penso,
+Ao meu amigo Lourenço:
+Nem reposta, nem mandado.
+A dôr de que estou tomado
+Sim desejo allivialla:
+Mas a tua mais me aballa,
+E parece mais intensa:
+Pois eu sim fico sem Tença;
+Porém tu estás sem falla.
+
+
+
+
+_Ao Illustrissimo, e Excellentissimo Senhor Conde de Villa Verde,
+andando o A. na pertenção de ser Official da Secretaria de Estado._
+
+
+DECIMA.
+
+
+Senhor, venho perguntar
+Quando ides ficar no Paço:
+Para que á força de braço
+Lanceis esta náo ao mar.
+Sabe montes aplanar
+Vossa discreta portia:
+E pinta-me a fantasia,
+A qual nem sempre me engana,
+Que só na Vossa semana
+Me ha de chegar o meu dia.
+
+
+
+
+_Ao Juiz do Crime de Andaluz, dando-lhe este parte que estava para
+casar, e mostrando-lhe versos, que fizera á Noiva. He o de que trata o
+soneto 33, Tom. I. pag. 35._
+
+
+M­anoel, muda o cuidado,
+Abafa essa chamma ardente:
+Não falla hum são a hum doente;
+Falla-te outro exp'ri­mentado.
+
+Já servi ao Deos do engano,
+Fórte com forças alheias.
+Passei nas suas cadeias
+Apoz hum anno outro anno.
+
+Prometteo-me alto favor;
+Mas sabe, pois que começas,
+Que o que tive das promessas
+Forão lagrimas, e dôr.
+
+Não te deixes enganar
+Do rosto brando, e sereno:
+Tempéra em riso o veneno;
+Afaga para matar.
+
+Com mil modos attractivos
+Chama a cega, e incauta gente:
+Lança-lhe dura corrente,
+E escarnece dos cativos.
+
+Como trata os infelizes,
+Que andou outr'ora amimando,
+Meu peito to está mostrando
+Nesta frescas cicatrizes.
+
+Até em cousas de peta
+Quer mostrar o seu rigor:
+Faz entrar n'hum prosador
+A mania de poeta.
+
+Mas esses laços que trazes,
+Dom desse Deos inimigo,
+Talvez que sejão castigo
+D'outras prizões, que tu fazes.
+
+Fere a muitos tua mão,
+Inda que tanto a reprimes,
+E vens a pagar teus crimes
+Com pena de Talião.
+
+
+
+
+MEMORIAL
+
+
+_A Suas Altezas._
+
+
+Se os Principes nos são dados
+Para geral beneficio,
+E se o seu mais digno officio
+He ouvir os desgraçados:
+
+Ouví minha desventura,
+E consentí que esta vez
+Se lastime a vossos pés
+Hum queixoso da ventura.
+
+Sahirem humildes ais
+De hum peito singelo, e aberto,
+He o direito mais certo,
+Quando os Juizes são tais.
+
+Fundadas sobre a verdade
+As minhas supplicas vão:
+Não peço por ambição,
+Peço por necessidade.
+
+Em mim o cuidado cae
+De Irmãs postas em pobreza:
+A piedade, e a natureza
+Me fazem Irmão, e Pae.
+
+Olhos em pranto banhados,
+Que eu sem dôr não posso ver,
+Vos fazem agora ler
+Estes versos mal limados.
+
+São tristes Orfãs donzellas,
+E merecem suas dôres
+Que vós, Augustos Senhores,
+Hajais piedade dellas.
+
+Por mais esforços que eu faça
+Como hei de dar-lhe favor,
+Se o seu triste bemfeitor
+Vive na mesma desgraça?
+
+Da miseria as tirareis,
+Se eu da miseria sahir:
+Sobre muitos vai cahir
+O favor que me fazeis.
+
+Vós, ó Augusta Princeza,
+Em quem o Ceo quiz juntar
+O melhor que pódem dar
+A fortuna, a natureza,
+
+Tende dó de seu lamento;
+E dai a mão favoravel
+A hum sexo respeitavel,
+De que vós sois ornamento.
+
+A petição que vos faço
+Não he de facil indulto;
+Para pouco, fora insulto
+Valer-me do Vosso braço.
+
+Não he facil, mas he justa:
+E será bem despachada,
+Se huma vez apresentada
+For por Vós á Irmã Augusta.
+
+Principes, tende piedade:
+Ponde a meus queixumes pausa:
+Protegei na minha causa
+A causa da humanidade.
+
+O que de Tito se diz,
+Hum Rei Vosso Avô dizia;
+Chamava perdido o dia,
+Se não fez alguem feliz.
+
+Motivo de tristes ais
+Quaesquer mãos o pódem dar;
+Más venturas emendar
+Só pertence a mãos Reais.
+
+Dos homens, inda que ingratos,
+Ouve Deos os rogos justos:
+Vós, ó Pri­ncipes Augustos,
+Sois na terra os seus retratos.
+
+Mas já o tempo opportuno
+Apressa as azas escassas,
+E não devo ás mais desgraças
+Ajuntar a de importuno.
+
+Acabe a triste escriptura,
+Digna por tal de piedade:
+Eu dei-lhe pranto, e verdade,
+Vós podeis dar-lhe ventura.
+
+
+
+
+_No dia dos Annos do Illustrissimo, e Excellentissimo Senhor Conde de
+Villa Verde._
+
+
+Não venho dourar enganos;
+A vida não he louvor;
+Pois tambem vivem Tyrannos:
+Eu venho, illustre Senhor
+Louvar obras, e não annos.
+
+De homem commum não se exime
+Quem não tem virtudes claras:
+He pouco fugir do crime:
+Consagrão-se as almas raras
+A trabalho mais sublime;
+
+A trabalho heroico: e creio
+Pelo provado aforismo,
+Que em sãos Filosofos leio,
+Que o verdadeiro heroismo
+He fazer o bem alheio.
+
+Taes trabalhos honra dão
+Á digna mão que os procura:
+Não amo Heróes da ambição:
+Buscão a sua ventura;
+Vós buscais a da Nação.
+
+Serem por vós levantados
+Os talentos esquecidos;
+Do triste os ais desprezados
+Serem aos Reaes Ouvidos
+Pelas vossas mãos levados;
+
+De quem a vós se a­colheo,
+Remediar o queixume;
+Ter como proprio o mal seu;
+He este o vosso costume,
+E o genio que o Ceo vos deo.
+
+E o Throno aos Povos propicio,
+Que vigia em seu favor,
+Fez-lhe o geral beneficio
+De mandar, que em vós, Senhor,
+O que he genio fosse Officio.
+
+Parti­o Offi­cios pezados
+Com quem os servisse bem:
+São projectos acertados:
+Quem do Throno o sangue tem,
+Tenha tambem os cuidados.
+
+Dai aos gratos Lusitanos
+Longo tempo Mão segura
+Contra injustiças, e enganos;
+E seja a sua ventura
+O louvor dos vossos Annos.
+
+Mas, Senhor, moços Poetas
+Vinguem meus esforços vãos:
+Musas zombão de Jarretas:
+Pedem-me as tremulas mãos,
+Mais do que Lyra, muletas.
+
+Fogosos Vates emprehendão
+Altos vôos neste dia:
+Musas com Musas contendão:
+Sáião Odes á porfia;
+E queira Deos que se entendão.
+
+
+
+
+QUINTILHAS
+
+
+_Em louvor de hu­ma Senhora._
+
+
+Lyra minha, rouca lyra,
+Hoje afinada consente,
+Que a tremula mão te fira:
+Cante huma só vez contente
+Quem por costume suspira.
+
+Louvemos Anarda bella;
+Eu vejo aos astros subir
+Meus versos em honra della,
+E possa quem os ouvir
+Adora-la antes de vê-la.
+
+Já lédo as vozes desato:
+Ouve, ó Nynfa, os teus louvores:
+Não pertendo ser-te grato
+Traçando com vivas cores
+Teu angelico retrato.
+
+Permitte, Anarda piedosa,
+Que se farte o meu desejo
+N'outra empreza mais gloriosa;
+Que o menor dom que em ti vejo,
+He o dom de ser formosa.
+
+Rubra boca, os olhos bel­los,
+Que brandamente movidos,
+São de Amor agudos zelos;
+Sobre alvo collo es­parzídos
+Louros ondados cabellos;
+
+Braço airoso, a mão de neve;
+Proporcionada cintura;
+Eis a tua copia breve:
+Porém vôa a formosura
+Nas azas do tempo leve.
+
+Outros bens mais duradouros
+Não são á tua alma esquivos,
+Bens que nos annos vindouros
+Valem mais que huns olhos vivos,
+Que huns soltos cabellos louros.
+
+A destruir a belleza
+A curva velhice corre:
+Nada conserva firmeza;
+Só a virtude não morre:
+Vence as leis da Natureza.
+
+Tu, que prezas a verdade;
+Que tratas falsos sujeitos
+Só com a côr de amizade,
+E para os sinceros peitos
+Mostras ter sinceridade;
+
+Tu, que os enganos deslizas;
+Que sabes vencer desgostos;
+Que a lisonja ufana pizas;
+Que não vês sómente os rostos;
+Que até corações divizas;
+
+Tu, que da seria prudencia
+Segues os dictames puros;
+Que tens amado a innocencia,
+E nos conselhos maduros
+Mostras de idade experiencia;
+
+Teu nome eterno ha de ser
+Estampado entre as estrellas;
+Has de as mais Nynfas vencer,
+Que sómente em serem bellas
+Fundão todo o seu poder.
+
+Amão a fofa vaidade;
+Dos homens a seu sabor
+Prendem a solta vontade:
+Trazem nos olhos amor,
+No coração falsidade.
+
+Muitas fingem desprezar
+Finezas de amante rude;
+Fingem os sabios amar:
+Não o fazem por virtude,
+Querem talentos mostrar.
+
+De que serve huma alma pura,
+Se os pezados membros cobre
+Rota humilde vestidura?
+Nada val hum peito nobre
+N'huma grosseira figura.
+
+Corpo esbelto, onde ajustado
+Brilha, cheio de ouro immenso,
+Curto fraque afrancezado;
+Cheiroso, candido lenço;
+O cabello apolvilhado;
+
+Jocosas palavras ôcas;
+Estes os dons relevantes,
+Que deixão de vencer poucas
+Das que fingem ser amantes,
+E não passão de ser loucas.
+
+Tu tens outro entendimento:
+És sempre igual: não te vales
+Das côres do fingimento:
+Quer séria, quer rindo falles,
+Não fundas torres no vento.
+
+Rís da baixa adulação,
+Mal que os teus ouvidos toca
+A contrafeita expressão:
+Conheces na falsa boca
+O enganoso coração.
+
+Ver sobre molle tapete,
+Curvando as pernas, e os braços,
+Peralta de alto topete,
+Com destros miudos passos,
+Dançar Francez minuete;
+
+Vê-lo nutrindo esperanças
+Entre agradaveis parceiras,
+Fazer rapidas mudanças,
+Torcendo as mãos nas ligeiras
+Buliçosas contradanças;
+
+Fervente rebeca ouvir,
+Que infunde vivos prazeres,
+Jámais te faz distrahir;
+Pois antes dos Sabios queres
+Sabios conceitos ouvir.
+
+Só te vejo attenta em quanto
+Ouves palavras discretas;
+As Musas estimas tanto,
+Que até dos tristes Poetas
+Te commove o triste pranto.
+
+Conheces seu duro mal;
+Que sempre tributão fé
+A coração desleal:
+Que por isso em todos he
+A tristeza natural.
+
+Que ás Nynfas endurecidas
+Lhes não causão terno effeito;
+Que triunfão das fingidas,
+Guardando dentro do peito
+Inda frescas as feridas.
+
+Porém já que ouzei fallar
+De Amor nas sanguineas reixas,
+Vou a lyra pendurar:
+Não quero com minhas queixas
+Teus louvores misturar.
+
+Tu dirás que não tens parte
+No meu mal cruento, e fero;
+Que vou tristezas lembrar-te;
+Dirás que affligir-te quero,
+Quando desejo louvar-te.
+
+Não te deves admirar:
+Sei que em vão me estou queixando;
+Mas quem sente o seu pezar,
+Se principia cantando,
+Sempre acaba a suspirar.
+
+
+
+
+QUIXOTADA.
+
+
+Espicaça esse animal,
+Companheiro Sancho Pança,
+Entremos em Portugal,
+E vamos molhar a lança
+A pró do triste Pombal.
+
+Poetas principiantes,
+Já estou em circo raso:
+Tambem Apollo he Cervantes,
+Tambem cria no Parnaso
+Seus cavalleiros andantes.
+
+Não vos chamo, ó sujo rancho,
+Que até os versos errais;
+Em tal sangue as mãos não mancho:
+Para vós, e outros que taes
+Sobeja a espada do Sancho.
+
+Sobre vós carrego a mão,
+Sobre vós, ó folhas velhas,
+Que dais n'hum homem no chão,
+Sem vos lembrar, que entre ovelhas
+He fraqueza ser leão.
+
+Essa boca enganadora,
+Que he hoje da maldição,
+Mil vezes se poz outra hora
+Sobre a praguejada mão,
+E lhe chamou bemfeitora.
+
+Pois já que vós sois assim,
+Povo revoltoso, e ingrato,
+Hoje castigar-vos vim:
+Ireis pelo pó do gato,
+Nem esp'reis quartel em mim.
+
+Santo Téjo, o curso enfreia,
+E montando rochas duras
+Torna atraz a clara veia:
+Conta novas aventuras
+Á formosa Dulcineia.
+
+Nova guerra o mundo veja,
+Guerra em que pouco se arrisca:
+Serão armas na peleja,
+Provado fuzil, e isca,
+Secca, espinhosa carqueja.
+
+Irmão Sancho, põe-te a pé,
+Põe essas Rimas a prumo,
+Principio á obra se dê,
+Tolde o ar o negro fumo
+Deste novo Auto da Fé.
+
+Queima essas Satyras frias,
+Faltas de sizo, e conselho:
+Queima prosas, e poesias:
+Acabe o cansado velho
+Em paz os seus tristes dias.
+
+Porém poupa sempre alguma
+Das raras que tem sabor:
+Das outras nem deixes huma,
+Dessas que tudo he rancor,
+E poesia nenhuma.
+
+Em tanto as­ armas pendura:
+Mas se houver desassizados,
+Que queirão guerra mais dura,
+Da minha lança cortados
+Descerão á sepultura.
+
+Já nuvens de fumo vejo:
+Já chamma brilhante o arreda:
+Já se farta o meu desejo;
+Já da viva lavareda
+Dá o clarão sobre o Tejo.
+
+Essas cinzas denegridas,
+Que ao velho poupão mil magoas,
+Leve-as o Téjo envolvidas,
+Fiquem no fundo das aguas
+Para sempre submergidas.
+
+Vês, Sancho, do nome meu
+Como vôa a clara fama?
+Nem viva alma appareceo
+A apagar a voraz chamma,
+Ninguem, ninguem se atreveo!
+
+Vês como ajuda o destino.
+A hum bom cavalleiro andante?
+Não precizei de aço fino,
+Nem de pés de Rocinante,
+Nem de elmo de Mambrino.
+
+Ó tu que alçaste a viseira
+Forcejando os nervos velhos,
+E para ver a fogueira
+Limpaste os olhos vermelhos
+Na felpuda cabelleira:
+
+Abaixa a proa huma vez,
+Chega a Dulcinea bella,
+E dize posto a seus pés:
+«Formosissima Donzella,
+Eu sou hum triste Marquez,
+
+«Que fugindo a hum povo inteiro,
+A quem mettêra em furor
+Minha privança, e dinheiro,
+Vim achar mantenedor
+Em teu nobre cavalleiro.
+
+«Disse este povo malvado,
+Que eu tinha o reino extorquido;
+Que era gatuno afamado,
+E que em jogos de partido
+Tinha com todos levado;
+
+«Que no Tabaco levava
+Hum quinhão avantajado;
+Que o Sabão não me escapava;
+E que sem ser Deputado
+Nas Companhias entrava.
+
+«Das minhas Leis murmuravão:
+E os seus pequenos juizos
+Tão pouco o ponto tocavão,
+Que sempre me erão precisos
+Assentos que as declaravão.
+
+«Té na lingoa sem motivo
+Dérão criticos revezes:
+Fiz nella estudo excessivo,
+Bebi nos bons Portuguezes
+_Monopolio_, e _respectivo_.
+
+«Disse mais o povo insano,
+Que perdi de Roma o trilho;
+Que fui Sultão soberano;
+Que andei cazando meu filho
+Segundo o rito Othomano.
+
+«Mas toda a maldade he sua:
+Vêm riquezas, e palacio,
+Comem-se de inveja crua:
+São huns novos cães de Horacio
+Ladrando debalde á lua.
+
+«Já se me dá pouco, ou nada
+Da sua guerra pequena:
+Tenho gente em campo armada,
+Tenho Mendoça co'a penna,
+E Dom Quixote co'a espada.»
+
+Es­ta falla, ou outra igual
+Acabada, meu Marquez,
+Faze rev'rencia formal,
+E arrastra os gotozos pés
+Para a villa do Pombal.
+
+Nella vive descansado,
+Porque as aguas vão serenas;
+Sempre Ministro de Estado,
+Mandando cousas pequenas
+No teu Lopes encostado.
+
+Junto á Estatua vil canalha
+Desprende as lingoas tyrannas:
+E se esta rude gentalha
+Arrancar com mãos profanas
+A carrancuda medalha:
+
+Armas em ouro gravadas
+Ser-te-hão por mim erigidas,
+E por ti mesmo traçadas,
+Em sangue humano tingidas,
+E com mil leis penduradas.
+
+
+
+
+ODE
+
+
+_Offerecida a SS. MAGESTADES, no dia da Acclamação da Rainha N.
+Senhora._
+
+
+A vida escura em que a natureza, e a fortuna me lançárão tão longe dos
+Reaes pés de VV. MAGESTADES; o medo justo de mandar huma voz fraca, e
+desconhecida aos ouvidos de Reis, prenderião hoje a minha lingoa
+temerosa, se o amor da Patria, e o gosto de a ver feliz, dando-me novo
+espirito, me não puzessem na boca esta lingoagem, de huma alma singela,
+estes versos sem arte dictados pelo amor respeitoso, e que em lugar de
+enganosa, e enfeitada poesia, descobrem unicamente os sentimentos de hum
+coração fiel, onde VV. MAGESTADES reinão Soberanamente.
+
+Neste Throno, a que poucos Monarcas sobem, tem a Nação Portugueza
+collocado a VV. MAGESTADES por aquelle talento de agradar, dom do Ceo,
+precioso, e raro na Sagrada Pessoa dos Reis, que querem (como VV.
+MAGESTADES conseguírão) ser acclamados pela alegria publica, e pela
+torrente de lagrimas, com que hum povo inteiro, transportado de gosto,
+levantava ás estrellas os Augustos Nomes de seus novos Reis. Eu vi,
+Senhores, este grande espectaculo; foi huma scena de ternura, que
+arrancaria lagrimas ainda a hum coração que não fosse Portuguez. Vi
+soldados velhos, que endurecidos ao frio, e á calma, queimados com o
+fogo da polvora, annunciavão hum coração de ferro, banharem pela
+primeira vez de lagrimas ternissimas aquelles honrados rostos, aquellas
+cerradas feridas, que recebêrão pela Patria, e que tornarião a abrir com
+gosto, se o felicissimo Reinado de VV. MAGESTADES não estivesse
+destinado á paz, e á felicidade dos seus povos; era preciso ser
+insensivel para que no meio de hum povo entregue á doce, e tumultuosa
+desordem, que cansa a alegria excessiva, se conservasse a minha alma na
+sua situação ordinaria; prendeo nella huma faisca do fogo sublime, que
+eu vi atear nos corações Portuguezes: a alta idéa das Virtudes de VV.
+MAGESTADES, a multidão de beneficios com que vemos dourados os dias do
+seu faustissimo Reinado, huma longa serie de felicidades aberta no
+futuro diante dos meus olhos, me levarião a través do povo, e das armas
+ao Throno dos Reis, onde á face do Ceo, e dos homens me desentranhasse
+em gritos de alegria, e mostrasse nesta especie de delirio, que o
+coração de VV. MAGESTADES não trabalha para ingratos; mas o profundo, e
+sagrado respeito, que pôde suffocar em mim este impeto de ternura, não
+pôde fazer callar-me; levado da invencivel força do amor, e do
+reconhecimento, me atrevo a pôr na Real presença de VV. MAGESTADES
+grandes cousas em máos versos; ponho a simples verdade, ponho os votos
+da Nação, e algumas das muitas acções de piedade com que VV. MAGESTADES
+tem mandado contentes os que levão por valia a razão, ou as desgraças.
+Se VV. MAGESTADES do alto do Throno se dignarem lançar os olhos sobre
+estes humildes versos, reconheceráõ nelles não o Estro que faz Poetas,
+mas o que faz vassallos amantes de seus Soberanos. Estro sublime, e que
+deve tocar mais no coração dos Monarcas, do que o das Odes famosas de
+Pindaro, e de Horacio, cheias da mais bella poesia; mas filhas da arte,
+e da lisonja, e onde não fuzila aquella luz de verdade, que dará logo
+nos Reaes olhos de VV. MAGESTADES, se eu tiver a incomparavel honra de
+que este papel seja apresentado diante do Augusto, e Respeitavel Throno
+dos Pais da Patria, dos Amigos, dos Bemfeitores, dos Reis adorados da
+felicissima, e sempre fiel Nação Portugueza.
+
+
+
+
+ODE.
+
+
+ Das virtudes guiados
+Subí ao alto Throno, oh Reis Augustos;
+ Nem sempre esquivos fados
+Se nos hão de mostrar surdos, e injustos:
+ Abrem vasto thesouro,
+E nos mandão por Vós a Idade de Ouro.
+
+ Do Rei aos Ceos erguido
+O Reino, e o coração tendes herdado,
+ Benigno, enternecido,
+De mil virtudes solidas dotado;
+ Por genio piedoso,
+E digno em fim de tempo mais ditoso.
+
+ Da Eterna Providencia
+Os beneficos raios fuzilárão;
+ Já se estima a innocencia,
+Já os tempos de Ferro se abrandárão,
+ Já vem o ar talhando
+A Piedade, e a Justiça os braços dando.
+
+ Com subita alegria
+Tornai a ver os conhecidos lares,
+ Tornai a ver o dia,
+Vós que habitastes horridos lugares,
+ Lugares deshumanos
+Onde passastes dez, e outros dez annos.
+
+ Do chão desentranhados
+Vinde jurar os novos Reis felizes:
+ Nos pulsos descarnados
+Mostrai ao Povo as roxas cicatrizes,
+ E os grilhões inda quentes
+Na praça triunfal deixai pendentes.
+
+ Que lagrimas levaste,
+Patrio Téjo, na tua escura veia
+ Quando turvo passaste!
+E as ondas, que quebravas sobre a areia,
+ Que cinzas que regárão!
+Que triste sangue para o mar levárão!
+
+ Mas torna, oh manso Téjo,
+Torna a volver corrente prateada:
+ Já taes males não vejo:
+E até já foge a nuvem carregada,
+ Que á triste Lusa terra
+Promettia fatal, e pronta guerra.
+
+ De pelouro violento
+Não vê cahir o exangue companheiro;
+ E dorme ao som do vento
+Em campo aberto o molle pegureiro;
+ O lavrador cantando
+Em paz herdados campos vai cortando.
+
+ Da sorte das batalhas
+Livrai, Piedosos Reis, os Portuguezes;
+ Pendurem duras malhas,
+E os temperados lucidos arnezes
+ Os ardidos soldados
+Das lagrimosas Mãis em vão chamados.
+
+ Que dias florecentes
+Ao vosso fiel povo preparastes!
+ Quando com mãos prudentes
+O pezo dos negocios espalhastes
+ Sobre os hombros robustos
+De Ministros inteiros, sabios, justos.
+
+ Gemêo maniatado
+Longo tempo o infeliz merecimento;
+ Mas já, o collo alçado,
+Sacode o negro pó do esquecimento,
+ E a virtude innocente
+De illustres palmas lhe coroa a frente.
+
+ Já vingadas seráõ
+Do vil tutor as timidas donzellas;
+ Já não erguem em vão
+As mãos, e os tristes olhos ás estrellas;
+ Nua de falsidade
+Aos ouvidos dos Reis chega a verdade.
+
+ Mil louvores lhe cantão,
+O limpo coração pondo no rosto:
+ E n'alma lhe levantão
+Novo Throno, sobre ella melhor posto,
+ Que entre espessas falanges,
+Que sobre ouro, ou perolas do Ganges.
+
+ Novos Reis Soberanos,
+Que hoje as rédeas tomais do Reino vosso,
+ Os Fastos Lusitanos
+Dirão de Vós o que eu dizer não posso:
+ Vossa Augusta Memoria
+Abrirá largo campo á longa Historia.
+
+ Sem trabalho podeis
+Fazer feliz a gente Portugueza,
+ Seguindo as santas leis,
+Que n'alma vos gravou a Natureza,
+ A rara humanidade
+A incorrupta Justiça, a sã Verdade.
+
+
+
+
+_No dia dos Annos do Illustrissimo, e Excellentissimo Senhor Marquez de
+Angeja._
+
+
+ODE
+
+
+A rouca Lyra, Musa, temperemos,
+ Cordas de ouro lhe ponho:
+O triste Boticario em paz deixemos,
+ E o Gamaõ enfadonho;
+Inspira-me huma vez sonoros hinos,
+Que Apollo julgue deste dia dinos.
+
+Ensina-me a louvar do Illustre Angeja
+ Talentos sup'riores;
+Que soffreo os­ assaltos d'alta inveja,
+ Como soffre os louvores;
+Cuja alma não conhece vís mudanças,
+Ou corrão tempestades, ou bonanças.
+
+Sem temor estalar o raio ouvia,
+ Que ao perto fuzilava;
+O recto coração tendo por guia,
+ Seguro caminhava;
+Em vão medonha tempestade freme,
+Seu grande coração só crimes teme.
+
+Ao pé do Throno Augusto em fim chamado
+ Venceo a crua inveja;
+Quem no Conselho o poz dos Reis ao lado
+ Não foi sangue de Angeja,
+Não foi de Hespanha antigo Filhamento,
+Foi sã justiça, foi merecimento.
+
+Não revolvo a Real Genealogia
+ De Henrique, e de Fernando;
+Os sãos louvores deste grande dia
+ De ti mesmo tirando,
+Só louvarei com paternaes façanhas
+Quem seu nome dever a mãos estranhas.
+
+Vias correr teus dias socegados­
+ Nutrindo esse alto esp'rito
+No que ficou dos seculos dourados
+ Em prosa, ou verso escrito;
+Recolhendo na próvida memoria
+De estranhos Reis, e de teus Reis a historia.
+
+Outras vezes rasgando á vasta terra
+ Seu peito cavernoso,
+Ou descobrindo quanto o mar encerra
+ De raro, e precioso,
+Profundavas com seria madureza
+Os segredos da occulta natureza.
+
+De tão doces estudos arrancado
+ Por mais altos destinos,
+Da Lusa gente, e de seus Reis chamado
+ A empregos de ti dinos,
+Sacrificas aos novos Soberanos
+De maduro saber teus cheios annos.
+
+Permitta o Ceo que em taes trabalhos vivas
+ Claro nome estendendo;
+E que as douradas horas fugitivas,
+ As azas encolhendo,
+Fação que o tempo demorando o passo
+Sinta a fouce cahir do frouxo braço.
+
+Que cem vezes raiando este bom dia
+ O Oriente esclareça;
+Que imperturbavel solida alegria
+ Com elle te amanheça;
+Que em naturaes ternissimos affetos
+A mão te beijem Netos de teus Netos.
+
+Mas deixa, ó Musa, a frouxa poesia
+ Para assumptos menores;
+Não profanem de Angeja a gloria, e o dia
+ Importunos louvores;
+Pois inda que soubesses dirigi-los,
+Quer merece-los; mas não quer ouvi-los.
+
+Engana-te o dezejo, que te inspira,
+ Reconhece o teu erro;
+Se vês, que só ajustão nesta lyra
+ Negras cordas de ferro,
+Não torças, não, teu misero fadario:
+Torna ao Gamão, e ao triste Boticario.
+
+
+
+
+ODE
+
+
+_Ao Senhor D. Domingos de Assís Mascarenhas._
+
+
+
+ Clio huma setta tira
+Da aljava de ouro, que pelo ar vazio
+ Longe correndo fira
+Junto ao Mondego saudoso rio:
+Alli em torno ás suas margens vôe,
+E por feliz tres vezes o apregôe.
+
+ As claras aguas regão
+Plantas bellas, fecundas, generosas:
+ Com desvelo se empregão
+Em cultiva-las mãos industriosas:
+Quão doces fructos, quão cheirosas flores
+De taes aguas, taes plantas, taes cultores:
+
+ Ergue, illustre Mondego,
+Ergue tua cabeça sobre as agoas:
+ Assás no fundo pégo
+Choraste hum tempo tuas tristes magoas.
+Olha teus campos como esmalta agor­a
+Em formosa união Pomona, e Flora.
+
+ Ó seio de candura,
+Mascarenhas, Tu és o alvo, a méta,
+ Que anciosa procura
+Da minha Clio a empennada setta.
+Tu na alma paz, na sanguinosa guerra
+Pódes ornar a tua, e alheia terra.
+
+ Mas boa sorte mude
+Meu dito, e a outra parte te não chame
+ E onde tanta virtude
+Tem a raiz, os fructos seus derrame;
+Nem menos tempo o Sol illustre, e aquente
+A quem o vio desde o seu claro oriente.
+
+ Porém, se he ordenado
+Da Providencia sabia, santa, eterna,
+ Christão peito humilhado
+Adora o Summo Ser que assim governa:
+Antes se goza, e dentro n'alma estima
+Que Astro tão bello alegre mais d'hum clima.
+
+ Entre tanto diffunde
+Na Patria tua luz copiosa, e clara;
+ Que, se logo confunde
+Os fracos olhos, depois guia, e aclara.
+Arda ante incertos pés (e gritem vicios)
+Alta tocha, que mostre os precipicios.
+
+ Constancia! que guardado
+Está o galardão a teus suores,
+ Onde em cume estrellado
+Vibra o Templo da Gloria resplandores.
+Dalli olhos não tires; que ao trabalho
+He doce viração, he fresco orvalho.
+
+ Tu, e esse Coro illustre
+De mancebos Heróes, que se obrigárão
+ A dar ao mundo lustre,
+Quando o alto sangue dos Avós herdárão;
+Concebei novo fogo, e novo brio
+Ouvindo onde vos chama a minha Clio.
+
+ Oh, se alguem me puzesse
+Nas margens do Mondego claro, e frio:
+ Certo me não vencesse
+Cysne de Dirce sobre o patrio rio.
+Alli tão docemente vos cantára,
+Que a ouvir-me feras, montes abalára.
+
+ Mas engenho ir recusa
+Onde ir Amor, e Gratidão me incita:
+ Nescia, se o esperas, Musa!
+Não corre lasso pé 'strada infinita.
+Almas illustres, havereis sómente
+O dom sincero de hum dezejo ardente.
+
+ Só mal sonora rima,
+Que sem veia forjou saudade, e zelo,
+ Leráõ o amavel Lima,
+O sabio Castro, e o profundo Mello,
+Pedras, que tu mal soffres, ó Lisboa,
+Faltarem tanto tempo á tua c'roa.
+
+
+
+
+_Em louvor da Saude._
+
+
+ODE.
+
+
+Não procura palacios sumptuozos
+ A brilhante Saude;
+O seu rosto agradavel, e rizonho,
+ Até aos Reis se esconde:
+Ella faz com que seja venturozo
+ O roto Peregrino,
+Se entre a negra gadelha, lhe apparece
+ Hum semblante sádio.
+O Captivo Remeiro fatigado,
+ Do ardente Sol não fuja:
+Em ferros envolvido o duro corpo,
+ Trabalhe o dia inteiro:
+O queimado semblante ande banhando
+ De violento suor:
+Apressado mastigue, e poucas vezes,
+ O corrupto biscoito:
+Mas tenha o rosto alegre, e socegado
+ Entre as duras prizões,
+Se á pallida doença não tem visto
+ O macilento aspeito;
+Se com braço membrudo, e vigorozo
+ Força o remo pezado.
+Inda sinto inflammar-me em teus louvores,
+ Oh Saude aprazivel!
+Tu és Filha do Ceo, Mãi da alegria,
+ Dom de Deus Piedoso.
+Se os miseros mortaes expõem a vida
+ Por danozas riquezas;
+Por ellas que farião, se servissem
+ De te fazer propicia?­
+Filha do Ceo benigno, se te déras
+ Por ouro, ou fina prata,
+Eu não temêra as tempestuosas ondas
+ Do fervido oceano:
+Nos occultos sertões iria entrando
+ Co'a mesma côr no rosto;
+Não me assustára o dente venenozo
+ Da enroscada serpente;
+Do fertil oriente nos outeiros
+ Cavaria anciozo,
+Por ver se das entranhas te trazia
+ Abundantes thesouros.
+Mas a bella Saude, he dom celeste;
+ Com ouro não se compra:
+Ella foge dos impios, que se assentão
+ A saborozas mezas;
+Que adormecem em leitos guarnecidos
+ De preciosas sedas;
+E vai guardar, com próvido cuidado,
+ O simples Pescador,
+Que sobre ásperas rochas, sem abrigo
+ Aos rigorozos tempos,
+Vai nutrindo no corpo mal vestido
+ Hum coração sincero;
+Que humilde sabe erguer ao Ceo piedozo
+ As innocentes mãos.
+
+
+FIM.
+
+
+
+
+INDICE.
+
+
+SONETOS.
+
+
+_A Sua Alteza_ Pag. 3. 4. 31.
+
+_Sahindo Conselheiro da Fazenda o Illustrissimo, e Excellentissimo
+Senhor D. Diogo de Noronha_ 5.
+
+_Aos leques mui pequenos, chamados Marotinhos_ 6.
+
+_O cruel Disfarce_ 7.
+
+_Ao Illustrissimo, e Excellentissimo Senhor Visconde de Ponte de
+Lima, Secretario de Estado_ 8.
+
+_Fazendo annos a Illustrissima, e Excellentissima Senhora Marqueza
+de Angeja_ 9.
+
+_Aos Annos do Illustrissimo, e Excellentissimo Senhor Conde de
+Avintes_ 10.
+
+_Estando nas Caldas_ 11.
+
+_A huns Annos_ 12.
+
+_Ao Disfarce das Mulheres_ 13.
+
+_A huma Camponeza_ 14.
+
+_A huma Dama interesseira_ 15.
+
+_Ao faustissimo dia da Inauguração da Estatua Equestre d'El-Rei
+Fidelissimo o Senhor D. José I._ 16.
+
+_Descripção de Badajoz_ 17.
+
+_Á Serenissima Princeza entrando no banho_ 18.
+
+_Levantando-se o Author da meza de hum Grande por serem horas de ir para
+a Aula_ 19.
+
+_Ao Illustrissimo, e Excellentissimo Senhor Marquez de Penalva, chegando
+o Author á Quinta das Lapas_ 20.
+
+_Descripção de hum Peralta amaltezado_ 21.
+
+_Aos Annos do Serenissimo Principe N. Senhor_ 22.
+
+_A hum Leigo Arrabido vesgo_ 23.
+
+_Aos Toucados altos_ 24.
+
+_Mettendo a ridiculo humas Contradanças_ 25.
+
+_Por occasião de estranharem ao Author hum sonho que a ninguem offendia_
+26.
+
+_Á moda dos Chapéos maiores da marca_ 27.
+
+_Ás Fivelas chamadas_ à la Chartre 28.
+
+_A huma Velha presumida_ 29.
+
+_Aos Annos de huma formosa Dama_ 30.
+
+_A hum Padre Guardião_ 32.
+
+_Em louvor de Caporalini, Actor do Theatro de S. Carlos_ 33.
+
+_Achando-se o Author prezo dos bellos olhos de Marcia_ 34.
+
+_Sobre a Ingratidão de huma Dama_ 35.
+
+CANTIGAS _feitas nas Caldas_ 36.
+
+ENDECHAS 39.
+
+
+
+
+DECIMAS
+
+
+_Em dia dos annos do Illustrissimo Principal Almeida_ 45.
+
+Mote: _Olhos de Lize, olhos bellos, &c._ 47.
+
+Mote: _Tu teimas em desprezar-me, &c._ 50.
+
+Mote: _Não sei que quer a desgraçada, &c._ 53.
+
+Mote: _Os meus olhos a chorar_ 56.
+
+Mote: _Já disse tudo a Cupido_ 57.
+
+Mote: _Distancias, e saudades_ 58.
+
+Mote: _Cantarei alegres penas, &c._ 59.
+
+Mote: _Nada no mundo figura, &c._ 60.
+
+Mote: _Amor para me prender, &c._ 61.
+
+Mote: _A minha felicidade_ 62.
+
+Mote: _Quem adora occultamente &c._ 63.
+
+Mote: _Nos olhos o amor explico, &c._ 66.
+
+Mote: _Por passos sem esperança, &c._ 69.
+
+Mote: _Eu já tenho exp'rimentado &c._ 70. 71.
+
+Mote: _Ouvi, ó Senhora, ouvi, &c._ 72.
+
+Mote: _Hei de amar-te até á morte, &c._ 75.
+
+Mote: _Toda a Mulher he perjura_ 78.
+
+Mote: _De mil suspiros que eu dou_ 80.
+
+_Ao Illustrissimo, e Excellentissimo Senhor Marquez de Penalva_ 79. 81.
+
+_Ao Illustrissimo, e Excellentissimo Senhor Conde de Villa Verde_ 82.
+84. 87. 94.
+
+_Vagando hum Officio que o A. pertendia_ 88.
+
+_Ao Doutor Joaquim Ignacio Seixas, Medico das Caldas_ 89.
+
+_A hum Pregador celebre_ 90.
+
+_Carta a Lourenço da Mota, Official da Secretaria_ 91.
+
+
+
+
+QUADRAS.
+
+
+_Ao Juiz do Crime de Andaluz_ 95.
+
+_Memorial a Suas Altezas_ 98.
+
+
+
+
+QUINTILHAS.
+
+
+_No dia dos Annos do Illustrissimo, e Excellentissimo Senhor Conde de
+Villa Verde_ 103.
+
+_Em louvor de huma Senhora_ 106.
+
+_Quixotada._ 114.
+
+
+
+
+ODES.
+
+
+_A SS. MAGESTADES, no dia da Acclamação da Rainha N. Senhora_ 122.
+
+_No dia dos Annos do Illustrissimo, e Excellentissimo Senhor Marquez de
+Angeja_ 132.
+
+_Ao Senhor D. Domingos de Assís Mascarenhas_ 137.
+
+_Em louvor da Saude_ 142.
+
+
+
+
+
+Notas:
+
+[1] _Duvidoso._
+
+[2] _O Marquez de Pombal._
+
+[3] _Tem allusão ao Soneto VI._
+
+[4] _Duvidoso._
+
+[5] _Duvidoso._
+
+[6] _Os Márques comprárão em Lisboa humas casas a certo homem da mesma
+por preço exorbitante: feita a escritura, e passado o dinheiro em
+cartuxos, voltou brevemente o vendedor dizendo que indo em casa a contar
+os cartuxos achára cobre, e não ouro. Quem compra por preço tal, parece
+que não faz tenção de pagar: Quem vende por tal preço, parece ter
+demasiada cubiça. Todos estavão em boa reputação._
+
+[7] _Estas Decimas fez o A. em agradecimento de ser provido pelo
+Principal, então Director dos Estudos, na Cadeira de Rhetorica, de que
+depois se queixou tanto._
+
+[8] _Outro Pregador tendo bebido demasiado, chegou ao pulpito, e só
+pronunciou estas palavras:_ Sempre me deito.
+
+
+
+
+
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+
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+Project Gutenberg's Obras posthumas, by Nicolau Tolentino de Almeida
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+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
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+with this eBook or online at www.gutenberg.org
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+Title: Obras posthumas
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+Author: Nicolau Tolentino de Almeida
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+Release Date: July 3, 2011 [EBook #36608]
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+*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK OBRAS POSTHUMAS ***
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+Produced by Rita Farinha and the Online Distributed
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+
+<div>
+<br />
+<br />
+<br />
+<br />
+<br />
+<div class="bbox"> <br />
+<h1>OBRAS </h1>
+<h1>POSTHUMAS</h1>
+<h3>DE </h3>
+<h3><br />
+NICOLÁO TOLENTINO </h3>
+<h3>DE ALMEIDA. </h3>
+<br />
+<div class="sbreak">
+<hr /></div>
+<br />
+<h4>
+LISBOA, 1828.<br />
+<br />
+NA TYPOGRAFIA ROLLANDIANA. </h4>
+<div class="breaks">
+<hr /></div>
+<br />
+<div style="text-align: center;"><em>Com
+Licença da Meza do Desembargo </em><br />
+<em>do Paço.</em><br />
+<br />
+</div>
+</div>
+<br />
+<br />
+<br />
+<br />
+<div style="text-align: center;"><a name="p3" id="p3"><em>A Sua
+Alteza.</em></a>
+</div>
+<br />
+<h4>SONETO I.</h4>
+<br />
+<br />
+<div class="poetry">Tornai, tornai, Senhor, ao
+Tejo
+undoso,</div>
+<div class="poetry1">Vinde honrar-lhe outra vez a
+clara
+enchente, <br />
+E deixai que ajoelhe entre a mais gente <br />
+Hum protegido humilde, e respeitoso.</div>
+<br />
+<div class="poetry">Não leva a vossos
+pés rogo teimoso</div>
+<div class="poetry1">
+De importuno cansado pertendente; <br />
+Vem beijar-vos a mão humildemente, <br />
+A mão augusta que o fará ditoso.</div>
+<br />
+<div class="poetry">Pois foi por Vós
+benignamente ouvido,</div>
+<div class="poetry1">Não vai fazer em
+pertenções
+estudo, <br />
+Vai só mostrar-vos que he agradecido.</div>
+<br />
+<div class="poetry">Ante Vós ajoelha humilde, e
+mudo:</div>
+<div class="poetry1">Mostrai-lhe que inda he Vosso
+protegido; <br />
+Que se isto lhe ficou, ficou-lhe tudo.</div>
+<br />
+<br />
+<br />
+<br />
+<span class="pagenum"><a name="p4" id="p4">[4]</a></span>
+<div style="text-align: center;"><em>A Sua Alteza.</em>
+</div>
+<br />
+<h4>SONETO II.</h4>
+<br />
+<br />
+<div class="poetry">Qual naufrago, Senhor, que foi
+alçado </div>
+<div class="poetry1">
+Por mão piedosa d'entre as ondas frias, <br />
+Tal eu de antigas duras agonias <br />
+Por vossas Reaes mãos fui resgatado: </div>
+<br />
+<div class="poetry">Pois vencestes as teimas do meu fado, </div>
+<div class="poetry1">E já vejo raiar dourados
+dias, <br />
+Deixai que possa em minhas poesias <br />
+O vosso Augusto Nome ser cantado. </div>
+<br />
+<div class="poetry">Não he digna de
+vós minha escriptura, </div>
+<div class="poetry1">Nem harmonia, nem estilo a
+adoça; <br />
+Mas valha-lhe, Senhor, vontade pura. </div>
+<br />
+<div class="poetry">Principe excelso, consentí
+que eu possa </div>
+<div class="poetry1">Fazer inda maior minha ventura, <br />
+Contando ao mundo que foi obra Vossa. </div>
+<br />
+<br />
+<br />
+<br />
+<span class="pagenum"><a name="p5" id="p5">[5]</a></span>
+<div style="text-align: center;"><em>Sahindo
+Conselheiro da Fazenda o Illustrissimo, </em><br />
+<em>e Excellentissimo Senhor D. Diogo </em><br />
+<em>de Noronha</em>. <br />
+</div>
+<br />
+<h4>SONETO III.</h4>
+<br />
+<br />
+<div class="poetry">Nem sempre em verdes annos a
+imprudencia</div>
+<div class="poetry1">Produz irregular procedimento: <br />
+Nem sempre encontra o humano entendimento <br />
+Só perto do sepulcro a sã prudencia.</div>
+<br />
+<div class="poetry">Em Vós não
+esperou a Providencia</div>
+<div class="poetry1">Que longas cans vos dêm
+merecimento: <br />
+Em Vós mostrou que estudos, e talento <br />
+Valem mais do que a larga experiencia.</div>
+<br />
+<div class="poetry">Os eruditos velhos Conselheiros,</div>
+<div class="poetry1">
+Depois que o vosso voto alli for dado, <br />
+Serão de Vós eternos pregoeiros:</div>
+<br />
+<div class="poetry">E dirão que deveis ser
+escutado</div>
+<div class="poetry1">Onde os Ministros vossos companheiros
+<br />
+Não sejão da Fazenda, mas do Estado.</div>
+<br />
+<br />
+<br />
+<br />
+<span class="pagenum"><a name="p6" id="p6">[6]</a></span>
+<div style="text-align: center;"><em>Aos leques mui
+pequenos, chamados
+Marotinhos.</em> </div>
+<br />
+<h4>SONETO IV.<sup><a href="#n1">[1]</a></sup></h4>
+<br />
+<br />
+<div class="poetry">Fofo colchão, as plumas bem
+erguidas,</div>
+<div class="poetry1">
+E sobre os hombros nas jucundas frentes <br />
+De enrolado cabello anneis pendentes, <br />
+Longos chorões, bellezas estendidas,</div>
+<br />
+<div class="poetry">Era esta das matronas
+presumidas</div>
+<div class="poetry1">A moda, que trazião bem
+contentes; <br />
+Rião-se dellas as modestas gentes <br />
+Vendo pequenas poupas esquecidas.</div>
+<br />
+<div class="poetry">Nisto a gentil Madama aperaltada,</div>
+<div class="poetry1">Grande auctora de trastes exquisitos,
+<br />
+Nova moda lhe inventa abandalhada.</div>
+<br />
+<div class="poetry">Reprova-lhe aureos leques com mil
+ditos.</div>
+<div class="poetry1">Eis senão quando (oh moda
+endiabrada!) <br />
+Abanão-se com azas de mosquitos. </div>
+<br />
+<br />
+<br />
+<br />
+<span class="pagenum"><a name="p7" id="p7">[7]</a></span>
+<div style="text-align: center;"><em>O cruel
+disfarce.</em> </div>
+<br />
+<h4>SONETO V.</h4>
+<br />
+<div class="poetry">
+Sem murmurar padecerei callado</div>
+<div class="poetry1">Cumprindo o teu preceito violento: <br />
+Faltava a envenenar o meu tormento <br />
+Dever ser por mim mesmo disfarçado.</div>
+<br />
+<div class="poetry">De trazer o semblante socegado</div>
+<div class="poetry1">Farei o inculpavel fingimento: <br />
+Nos olhos mostrarei contentamento, <br />
+Tendo hum punhal no coração cravado.</div>
+<br />
+<div class="poetry">Este peito onde nunca engano viste,</div>
+<div class="poetry1">Que não sabe a vil arte de
+affectar-se, <br />
+Onde a verdade, e a intacta fé existe,</div>
+<br />
+<div class="poetry">Martyr do amor, e do infiel disfarce,</div>
+<div class="poetry1">Nas tuas adoraveis mãos
+desiste <br />
+Té dos tristes direitos de queixar-se! </div>
+<br />
+<br />
+<br />
+<br />
+<span class="pagenum"><a name="p8" id="p8">[8]</a></span>
+<div style="text-align: center;"><em>Ao
+Illustrissimo, e Excellentissimo Senhor </em><br />
+<em>Visconde de Ponte de Lima, Secretario </em><br />
+<em>de Estado</em>. <br />
+</div>
+<br />
+<h4>SONETO VI.</h4>
+<br />
+<div class="poetry">
+A longa cabelleira branquejando,</div>
+<div class="poetry1">Encostado no braço de hum
+Tenente, <br />
+Cercado de infeliz chorosa gente <br />
+Hia passando o velho venerando.<sup><a href="#n2">[2]</a></sup></div>
+<br />
+<div class="poetry">Geraes repostas para o lado dando:</div>
+<div class="poetry1">«Sim Senhor; Bem me lembra;
+Brevemente;» <br />
+Na praguejada mão omnipotente <br />
+Nunca lidos papeis hia aceitando.</div>
+<br />
+<div class="poetry">Mas eu que já esperava
+altas mudanças,</div>
+<div class="poetry1">Melhor tempo aguardei, e na algibeira
+<br />
+Metti a Petição, e as
+esperanças.</div>
+<br />
+<div class="poetry">Chegou, Senhor Visconde, a
+<em>viradeira</em>:</div>
+<div class="poetry1">Soltai-me a mim tambem destas
+crianças, <br />
+Onde tenho o meu Forte da Junqueira.</div>
+<br />
+<br />
+<br />
+<br />
+<span class="pagenum"><a name="p9" id="p9">[9]</a></span>
+<div style="text-align: center;"><em>Fazendo Annos a
+Illustrissima, e Excellentissima </em><br />
+<em>Senhora Marqueza de Angeja.</em></div>
+<br />
+<br />
+<h4>SONETO VII.</h4>
+<br />
+<div class="poetry">
+Senhora, ha muito tempo pertendia</div>
+<div class="poetry1">Ser do vosso favor patrocinado: <br />
+Mil vezes vos quiz dar este recado; <br />
+Porém sempre o respeito me impedia.</div>
+<br />
+<div class="poetry">Chegou em fim o venturoso dia</div>
+<div class="poetry1">A fazer beneficios destinado: <br />
+Vou neste privilegio confiado; <br />
+Que a não ser isso não me atreveria:</div>
+<br />
+<div class="poetry">Vou pedir que descendo da Cadeira,</div>
+<div class="poetry1">Onde explico os crueis Quintilianos, <br />
+Me ensineis a tomar melhor carreira.</div>
+<br />
+<div class="poetry">Que em mim ponhais os olhos soberanos,</div>
+<div class="poetry1">E que me chegue em fim a
+<em>viradeira</em><sup><a href="#n3">[3]</a></sup><br />
+No faustissimo dia destes annos.</div>
+<br />
+<br />
+<br />
+<br />
+<span class="pagenum"><a name="p10" id="p10">[10]</a></span>
+<div style="text-align: center;"><em>Aos Annos do
+Illustrissimo, e Excellentissimo <br />
+Senhor Conde de Avintes.</em></div>
+<br />
+<br />
+<h4>SONETO VIII.</h4>
+<br />
+<div class="poetry">A varonil idade florecente</div>
+<div class="poetry1">
+Vos tece, illustre Heróe, annos dourados
+<br />
+Para serem á Patria consagrados; <br />
+Pois sois de Almeidas claro descendente.</div>
+<br />
+<div class="poetry">Sobre as terras, e mares do Oriente</div>
+<div class="poetry1">Inda vejo os trofeos alevantados: <br />
+Vejo beber mil corpos aboiados <br />
+Do turvo Gange a fervida corrente.</div>
+<br />
+<div class="poetry">No difficil caminho d'honra, e gloria</div>
+<div class="poetry1">
+Por ferro, e fogo a seus bons Reis servindo, <br />
+Vos deixão por doutrina a sua historia.</div>
+<br />
+<div class="poetry">Forão diante o duro passo
+abrindo:</div>
+<div class="poetry1">Entrai, Senhor, no Templo da Memoria,
+<br />
+Os bons Avós, e o illustre Pai seguindo.</div>
+<br />
+<br />
+<br />
+<br />
+<span class="pagenum"><a name="p11" id="p11">[11]</a></span>
+<div style="text-align: center;"><em>Estando nas
+Caldas</em>.
+</div>
+<br />
+<br />
+<h4>SONETO IX.</h4>
+<br />
+<div class="poetry">
+Por mais que vos alongue olhos cansados, </div>
+<div class="poetry1">Olhos ha tanto tempo descontentes, <br />
+Não vedes mais que pallidos doentes <br />
+Por mãos estranhas n'agoa sustentados.</div>
+<br />
+<div class="poetry">Quantas vezes ficastes magoados </div>
+<div class="poetry1">Por ver ir entre as fervidas
+correntes <br />
+Envolvidas mil lagrimas ardentes <br />
+Do que em vão quer alçar
+braços mirrados!</div>
+<br />
+<div class="poetry">Vistas são estas de bem
+pouco gosto;</div>
+<div class="poetry1">Porém bem pagos
+ficareis hum dia <br />
+Quando virdes de Arminda o lindo rosto.</div>
+<br />
+<div class="poetry">E o pranto, que atégora vos
+cahia</div>
+<div class="poetry1">De lastima, d'auzencia, e de
+desgosto, <br />
+Ella o fará correr; mas de alegria.</div>
+<br />
+<br />
+<br />
+<br />
+<span class="pagenum"><a name="p12" id="p12">[12]</a></span>
+<div style="text-align: center;"><em>A huns Annos.</em>
+</div>
+<br />
+<br />
+<h4>SONETO X.</h4>
+<br />
+<div class="poetry">
+Foi este o dia em que a teus pés
+baixárão</div>
+<div class="poetry1">Venus, e as lindas Graças
+innocentes, <br />
+E em torno do aureo berço reverentes <br />
+Ao som de alegres hymnos te embalárão.</div>
+<br />
+<div class="poetry">Aos teus olhos gentís
+communicárão</div>
+<div class="poetry1">Cruel poder de conquistar as gentes: <br />
+Mil suspiros, mil lagrimas ardentes <br />
+A muitos corações
+prognosticárão.</div>
+<br />
+<div class="poetry">Dérão-te huma
+alma heroica, hum nobre peito:</div>
+<div class="poetry1">Dérão-te
+discrição, e formosura, <br />
+Dons a que o mundo está mui pouco afeito.</div>
+<br />
+<div class="poetry">Mas, oh humana sorte, triste, escura!</div>
+<div class="poetry1">Para na terra nada haver perfeito, <br />
+Dérão-te hum
+coração de pedra dura.</div>
+<br />
+<br />
+<br />
+<br />
+<span class="pagenum"><a name="p13" id="p13">[13]</a></span>
+<div style="text-align: center;"><em>Ao disfarce das
+Mulheres.</em>
+</div>
+<br />
+<br />
+<h4>SONETO XI.</h4>
+<br />
+<div class="poetry">
+Vens debalde, oh bellissima perjura,</div>
+<div class="poetry1">C'o lindo rosto em lagrimas banhado: <br />
+Já fui por ti mil vezes enganado, <br />
+E sempre me affectaste essa ternura.</div>
+<br />
+<div class="poetry">Esse alvo peito, que he de neve pura,</div>
+<div class="poetry1">Mas de aço, e fino bronze
+temperado, <br />
+Encobre hum coração refalseado, <br />
+Hum coração de viva rocha dura.</div>
+<br />
+<div class="poetry">Em vão trabalhas, se
+enganar-me queres,</div>
+<div class="poetry1">Vejo correr com animo sereno <br />
+Esse pranto em que fundas teus poderes:</div>
+<br />
+<div class="poetry">Mal inventado ardil: ardil pequeno:</div>
+<div class="poetry1">Tu mesma me ensinaste, que as
+mulheres <br />
+Misturão com as lagrimas veneno.</div>
+<br />
+<br />
+<br />
+<br />
+<span class="pagenum"><a name="p14" id="p14">[14]</a></span>
+<div style="text-align: center;"><em>A huma
+Camponeza.</em>
+</div>
+<br />
+<br />
+<h4>SONETO XII.</h4>
+<br />
+<div class="poetry">
+Não morão em palacios estucados</div>
+<div class="poetry1">Almas singelas, almas extremosas: <br />
+Nutrem da Corte as damas enganosas <br />
+Em tenros peitos corações dobrados.</div>
+<br />
+<div class="poetry">Venhão por longos mares
+conquistados</div>
+<div class="poetry1">As Indianas sedas preciosas: <br />
+Cubrão-lhe as carnes alvas, e mimosas <br />
+Ricos vestidos em Paris bordados.</div>
+<br />
+<div class="poetry">São isto effeitos da arte,
+e da ventura:</div>
+<div class="poetry1">Estimo mais que toda a vã
+grandeza <br />
+Hum limpo coração, huma alma pura.</div>
+<br />
+<div class="poetry">Não na Corte; das serras na
+aspereza</div>
+<div class="poetry1">Fui achar innocencia, e formosura, <br />
+Sagrados dons da simples Natureza.</div>
+<br />
+<br />
+<br />
+<br />
+<span class="pagenum"><a name="p15" id="p15">[15]</a></span>
+<div style="text-align: center;"><em>A huma Dama
+interesseira.</em>
+</div>
+<br />
+<br />
+<h4>SONETO XIII.</h4>
+<br />
+<div class="poetry">
+Podião ser felices meus amores</div>
+<div class="poetry1">Quando por ouro o amor se
+não vendia: <br />
+Já de palavras Nize desconfia, <br />
+Só crê ou em dinheiro, ou em penhores.</div>
+<br />
+<div class="poetry">Vio-me assaltado d'ancias, e temores</div>
+<div class="poetry1">Quando na porta irada mão
+batia: <br />
+Por costume infeliz ella sabia <br />
+Que era algum dos cansados acredores.</div>
+<br />
+<div class="poetry">Forão-se os dias
+bemaventurados,</div>
+<div class="poetry1">
+Em que só almas grandes, peitos nobres, <br />
+Erão do Deus de amor agazalhados:</div>
+<br />
+<div class="poetry">Negro destino hoje preside aos pobres:</div>
+<div class="poetry1">Poz termo a bella Nize aos seus
+agrados, <br />
+Vendo esta bolça condemnada a cobres.</div>
+<br />
+<br />
+<br />
+<br />
+<span class="pagenum"><a name="p16" id="p16">[16]</a></span>
+<div style="text-align: center;"><em>Ao faustissimo
+dia da
+Inauguração da Estatua <br />
+Equestre d'El-Rey Fidelissimo o <br />
+Senhor D. José I.</em>
+</div>
+<br />
+<br />
+<h4>SONETO XIV.</h4>
+<br />
+<div class="poetry">
+Em quanto o Reino cheio de ternura</div>
+<div class="poetry1">Ao grande Bemfeitor te ha consagrado,
+<br />
+E respeita aos teus pés ajoelhado <br />
+O Rey Augusto de quem és figura:</div>
+<br />
+<div class="poetry">Em quanto os que me vencem em ventura</div>
+<div class="poetry1">
+Abrindo o antigo cofre chapeado, <br />
+Mandão de prata, e d'ouro recamado <br />
+Entretecer a rica vestidura:</div>
+<br />
+<div class="poetry">Eu que não tenho desta
+louçania,</div>
+<div class="poetry1">De outra sem pejo sahirei composto, <br />
+Que não cede á mais fina pedraria.</div>
+<br />
+<div class="poetry">São ternissimas lagrimas de
+gosto:</div>
+<div class="poetry1">Nem infama o triunfo deste dia <br />
+Quem põe por gala o coração
+no rosto.</div>
+<br />
+<br />
+<br />
+<br />
+<span class="pagenum"><a name="p17" id="p17">[17]</a></span>
+<div style="text-align: center;"><em>Descripção
+de
+Badajoz.</em>
+</div>
+<br />
+<br />
+<h4>SONETO XV.</h4>
+<br />
+<div class="poetry">
+Passei o Rio, que tornou atraz,</div>
+<div class="poetry1">Se acaso he certo o que
+Camões nos diz, <br />
+Em cuja ponte hum bando de Aguazis <br />
+Registrão tudo quanto a gente traz.</div>
+<br />
+<div class="poetry">Segue-se hum largo, em frente delle jaz</div>
+<div class="poetry1">
+Longa fileira de baiucas vís: <br />
+Cigarro acezo, fumo no nariz, <br />
+He como a companhia alli se faz.</div>
+<br />
+<div class="poetry">A cidade por dentro he fraca rez,</div>
+<div class="poetry1">
+As moças põem mantilhas, e
+andão sós, <br />
+Tem boa cara; mas não tem bons pés.</div>
+<br />
+<div class="poetry">Isto, coifas de prata, e de retroz,</div>
+<div class="poetry1">E a cada canto hum sórdido
+Marquez, <br />
+Foi tudo quanto vi em Badajoz. </div>
+<br />
+<br />
+<br />
+<br />
+<span class="pagenum"><a name="p18" id="p18">[18]</a></span>
+<div style="text-align: center;"><em>Á
+Serenissima Princeza entrando no
+banho.</em>
+</div>
+<br />
+<br />
+<h4>SONETO XVI.</h4>
+<br />
+<div class="poetry">
+Nynfas do Téjo já por mim cantadas,</div>
+<div class="poetry1">
+Nossa Augusta Princeza esta presente;<br />
+Pedí-lhe, que honre a placida corrente, <br />
+E as agoas ficaráõ mais prateadas.</div>
+<br />
+<div class="poetry">Diante de seus pés
+ajoelhadas</div>
+<div class="poetry1">Em justo acatamento reverente, <br />
+Serenem vossas mãos a clara enchente, <br />
+E as frias agoas corrão temperadas.</div>
+<br />
+<div class="poetry">Sobre as ondas as frentes levantando,</div>
+<div class="poetry1">Ao tempo que as douradas
+tranças bellas<br />
+Brandamente lhe fordes enxugando,</div>
+<br />
+<div class="poetry">Dizei-lhe, que sustento
+Irmãas donzellas,</div>
+<div class="poetry1">Outras viuvas; e ide-lhe lembrando, <br />
+Que o bem que me fizer he feito a ellas.</div>
+<br />
+<br />
+<br />
+<br />
+<span class="pagenum"><a name="p19" id="p19">[19]</a></span>
+<div style="text-align: center;"><em>Levantando-se o
+Author da meza de hum <br />
+Grande por serem horas de ir para a Aula.</em>
+</div>
+<br />
+<br />
+<h4>SONETO XVII.</h4>
+<br />
+<div class="poetry">
+Não tomando em desprezo o escuro estado</div>
+<div class="poetry1">Em que me poz Fortuna, e Natureza, <br />
+Olhastes sem horror minha baixeza, <br />
+E fizestes sentar-me ao vosso lado.</div>
+<br />
+<div class="poetry">Então de ingrata
+obrigação chamado</div>
+<div class="poetry1">Deixei á força
+a companhia, e a meza, <br />
+E inda cheio de ideias de grandeza <br />
+Vim dar por thema hum Verbo conjugado.</div>
+<br />
+<div class="poetry">Não sei com dous oppostos
+conformar-me;</div>
+<div class="poetry1">Soffrem-me os Grandes, sou taful, e
+moço, <br />
+Não sei a <em>Senhor
+Mestre</em> costumar-me.</div>
+<br />
+<div class="poetry">Taes extremos, Senhor, unir
+não posso;</div>
+<div class="poetry1">De dous genios não sou:
+mandai fechar-me <br />
+Ou a minha Aula, ou o Palacio vosso.</div>
+<br />
+<br />
+<br />
+<br />
+<span class="pagenum"><a name="p20" id="p20">[20]</a></span>
+<div style="text-align: center;"><em>Ao
+Excellentissimo Senhor Marquez de Penalva <br />
+chegando o A. á quinta das Lapas.</em> </div>
+<br />
+<br />
+<h4>SONETO XVIII.</h4>
+<br />
+<div class="poetry">
+Hum triste fatigado caminhante</div>
+<div class="poetry1">Chega a Vós, Illustrissimo
+Penalva: <br />
+Co'a mão na espada a augusta Casa salva <br />
+Segundo as leis de cavalleiro andante.</div>
+<br />
+<div class="poetry">Sobre ronceiro fraco Rocinante,</div>
+<div class="poetry1">Que pesca a dente
+encontradiça malva <br />
+Por duras rochas, por areia calva <br />
+Cem vezes pronta morte vio diante.</div>
+<br />
+<div class="poetry">Cuidando achar aqui melhores fados,</div>
+<div class="poetry1">Aos pés de outro Rocim,
+por novo
+caso, <br />
+Quasi que vio seus dias acabados.</div>
+<br />
+<div class="poetry">Quiz correr junto a Vós
+sobre o Pegaso:</div>
+<div class="poetry1">
+Cahio, e por sinal colheis regados <br />
+Do sangue seu os louros do Parnaso. </div>
+<br />
+<br />
+<br />
+<br />
+<span class="pagenum"><a name="p21" id="p21">[21]</a></span>
+<div style="text-align: center;"><em>Descripção
+de hum Peralta
+amaltezado.</em>
+</div>
+<br />
+<br />
+<h4>SONETO XVIX.<sup><a href="#n4">[4]</a></sup></h4>
+<br />
+<div class="poetry">
+Hum vulto cuja fórma desconsola </div>
+<div class="poetry1">
+Pelo muito que mostra o pouco sizo, <br />
+E que pela pobreza do juizo <br />
+Mil trastes exquisitos desenrola:</div>
+<br />
+<div class="poetry">Chapeo que bem carrega hum mariola,</div>
+<div class="poetry1">E que ainda aos sizudos causa rizo, <br />
+Cazaquinha cortada de improvizo, <br />
+Fivela que lhe vem de sola a sola:</div>
+<br />
+<div class="poetry">Espantalho que em praça
+nunca falta</div>
+<div class="poetry1">Sem ter
+occupação nem má,
+nem boa, <br />
+Que apenas moça vê logo lhe salta:</div>
+<br />
+<div class="poetry">Eis-aqui, sem medir qualquer pessoa,</div>
+<div class="poetry1">Breve quadro de hum misero Peralta, <br />
+Que affecta de Maltez cá em Lisboa.</div>
+<br />
+<br />
+<br />
+<br />
+<span class="pagenum"><a name="p22" id="p22">[22]</a></span>
+<div style="text-align: center;"><em>Aos Annos do
+Serenissimo Principe Nosso <br />
+Senhor.</em></div>
+<br />
+<br />
+<h4>SONETO XX.</h4>
+<br />
+<div class="poetry">
+Foi este, Alto Senhor, o santo dia,</div>
+<div class="poetry1">
+O Ceo o concedeo, o Ceo que he justo <br />
+Afflicto o Povo, posto em dôr, e em susto <br />
+Com lagrimas ardentes lho pedia.</div>
+<br />
+<div class="poetry">O fertil Ganges nas entranhas cria</div>
+<div class="poetry1">Offertas para Vós,
+Principe Augusto, <br />
+E ajoelhado na praia o Povo adusto <br />
+Rico thesouro a vossos pés envia.</div>
+<br />
+<div class="poetry">Ao Reino tecereis dias dourados,</div>
+<div class="poetry1">Sem precizar que os Fastos Lusitanos <br />
+Vos contem as acções dos Reis
+passados.</div>
+<br />
+<div class="poetry">Ponde os olhos nos vivos Soberanos,</div>
+<div class="poetry1">Estudai-lhe as doutrinas, e os
+cuidados, <br />
+E a patria acclamará os vossos Annos.</div>
+<br />
+<br />
+<br />
+<br />
+<span class="pagenum"><a name="p23" id="p23">[23]</a></span>
+<div style="text-align: center;"><em>A hum Leigo
+Arrabido vesgo, despedido da <br />
+Meza do S. C. P. Silva, por tomar a melhor <br />
+pera da Meza. He o de que se trata <br />
+nas Decimas, Tom. II. pag. 178</em>, Ferio <br />
+sacrilega espada.
+</div>
+<br />
+<br />
+<h4>SONETO XXI.</h4>
+<br />
+<div class="poetry">
+O vesgo monstro que co'a gente ralha</div>
+<div class="poetry1">
+E de manhãa a todos atravessa, <br />
+A cuja hirsuta sordida cabeça <br />
+Nunca chegou juizo, nem navalha;</div>
+<br />
+<div class="poetry">Que os gazeos olhos pela meza espalha</div>
+<div class="poetry1">
+Por ver se ha mais comer que tire, ou peça, <br />
+Entrando nelle com tal fome, e pressa <br />
+Qual faminto frizão em branda palha;</div>
+<br />
+<div class="poetry">Por crimes de alta gula, e pouco sizo,</div>
+<div class="poetry1">
+De meza bem servida, mas severa, <br />
+Foi n'hum dia lançado de improviso.</div>
+<br />
+<div class="poetry">Hoje chorando o seu perdão
+espera:</div>
+<div class="poetry1">Perdêrão dous
+glotões o
+Paraiso, <br />
+O antigo por maçãa, este por pera.</div>
+<br />
+<br />
+<br />
+<br />
+<span class="pagenum"><a name="p24" id="p24">[24]</a></span>
+<div style="text-align: center;"><em>Aos toucados
+altos.</em>
+</div>
+<br />
+<br />
+<h4>SONETO XXII.<sup><a href="#n5">[5]</a></sup></h4>
+<br />
+<div class="poetry">
+Foi ao Manique hum homem accusado</div>
+<div class="poetry1">
+Por contrabandos ter; elle sciente <br />
+Chama a quadrilha, corre diligente, <br />
+Entra, busca, e não acha o Malsinado.</div>
+<br />
+<div class="poetry">Acha a mulher, que tinha por toucado</div>
+<div class="poetry1">
+A torre de Belem: ella que o sente, <br />
+Banhada em pranto, desmaiada a frente, <br />
+Prostra por terra o corpo delicado.</div>
+<br />
+<div class="poetry">C'o boléo se esbandalha a
+mata espessa,</div>
+<div class="poetry1">
+Sahem della esguiões, cassas lavradas, <br />
+E de belbute trinta e huma peça,</div>
+<br />
+<div class="poetry">Fivelas, espadins, rendas bordadas:</div>
+<div class="poetry1">Até tinha escondido na
+cabeça <br />
+O marido, e tres arcas encouradas. </div>
+<br />
+<br />
+<br />
+<br />
+<span class="pagenum"><a name="p25" id="p25">[25]</a></span>
+<div style="text-align: center;"><em>Mettendo a
+ridiculo humas
+contradanças</em>.
+</div>
+<br />
+<br />
+<h4>SONETO XXIII.</h4>
+<br />
+<div class="poetry">
+N'huma tremula sala mal armada</div>
+<div class="poetry1">Com placas velhas, e papel pintado; <br />
+Clamava já o povo alvoroçado <br />
+Que fosse a Favorita começada.</div>
+<br />
+<div class="poetry">Guincha em venal rabeca desgrudada</div>
+<div class="poetry1">De velho musico o arco estuporado: <br />
+Cadeia, grita hum muito suado, <br />
+Olhem que vai a contradança errada.</div>
+<br />
+<div class="poetry">Nervoso chispo, saborosas frutas</div>
+<div class="poetry1">
+He fazenda que alli nunca governa: <br />
+Aquellas bocas andão sempre enxutas.</div>
+<br />
+<div class="poetry">Nunca mais alli tórno a
+fazer perna:</div>
+<div class="poetry1">
+Quanto mais val o ir com quatro trutas <br />
+Fazer huma função n'huma taberna.</div>
+<br />
+<br />
+<br />
+<br />
+<span class="pagenum"><a name="p26" id="p26">[26]</a></span>
+<div style="text-align: center;"><em>Por
+occasião de estranharem ao Author hum <br />
+sonho que a ninguem offendia.</em>
+</div>
+<br />
+<br />
+<h4>SONETO XXIV.</h4>
+<br />
+<div class="poetry">
+Atiça, ó moço, a moribunda chama </div>
+<div class="poetry1">Dessa faminta, sordida
+candêa, <br />
+E encostado á parede cabecêa, <br />
+Posta de guarda ao pé da minha cama. </div>
+<br />
+<div class="poetry">Se o sono, que em meus olhos se
+derrama, </div>
+<div class="poetry1">
+E os languidos sentidos me encadêa, <br />
+Tentar com sonhos esta pobre idéa, <br />
+Em altos gritos por meu nome chama: </div>
+<br />
+<div class="poetry">Assenta-me na cara essas
+mãos frias: </div>
+<div class="poetry1">Pois ves o fructo, que sonhando tiro,
+<br />
+Corta em raiz traidores fantasias. </div>
+<br />
+<div class="poetry">Contra os sonhos desde hoje me
+conspiro: </div>
+<div class="poetry1">Se ao primeiro me dizem heresias, <br />
+Em sonhando outros pregão-me hum tiro! </div>
+<br />
+<br />
+<br />
+<br />
+<span class="pagenum"><a name="p27" id="p27">[27]</a></span>
+<div style="text-align: center;"><em>Á
+moda dos chapeos maiores da
+marca.</em>
+</div>
+<br />
+<br />
+<h4>SONETO XXV.</h4>
+<br />
+<div class="poetry">
+Amigos, e Senhor meu, de França, ou Malta </div>
+<div class="poetry1">Hum chapeo mande vir a toda a pressa;
+<br />
+A cópa que me ajuste na cabeça; <br />
+Mas as abas na fórma a mais peralta. </div>
+<br />
+<div class="poetry">A detraz que me fique muito alta,</div>
+<div class="poetry1">A prezilha, e botão
+pequena peça: <br />
+Estimarei que disto não se esqueça; <br />
+Que a demora me faz bastante falta.</div>
+<br />
+<div class="poetry">Gostei muito do invento, he bem
+traçado,</div>
+<div class="poetry1">
+Porque vi no Loreto hum certo dia <br />
+Muito povo a correr para o Chiado,</div>
+<br />
+<div class="poetry">Para ver hum Senhor, quem tal diria:</div>
+<div class="poetry1">C'hum chapeo de tal fórma
+desmarcado <br />
+Que nem a gente a pé passar podia.</div>
+<br />
+<br />
+<br />
+<br />
+<span class="pagenum"><a name="p28" id="p28">[28]</a></span>
+<div style="text-align: center;"><em>Ás
+fivelas chamadas a la
+Chartre.</em>
+</div>
+<br />
+<br />
+<h4>SONETO XXVI.</h4>
+<br />
+<div class="poetry">
+Oh quantos Mexicanos patacões,</div>
+<div class="poetry1">
+Mareados talheres já sem par, <br />
+Á tonta Avó o neto vai furtar <br />
+De mofentos decrepitos caixões:</div>
+<br />
+<div class="poetry">Fundidos em quadrados
+fivelões</div>
+<div class="poetry1">
+Para á Chartres o neto passear, <br />
+Traz nos pés a baixela singular <br />
+Que podia servir em correões.</div>
+<br />
+<div class="poetry">Capitão Vento-Sul, rico
+Hollandez,</div>
+<div class="poetry1">
+Que de prata subtil pequenos Ós <br />
+Servem só de fivelas nos teus pés,</div>
+<br />
+<div class="poetry">Vem admirar-te, vendo que entre
+nós</div>
+<div class="poetry1">
+Traz o pobre peralta Portuguez <br />
+Por fivelas molduras de tremós.</div>
+<br />
+<br />
+<br />
+<br />
+<span class="pagenum"><a name="p29" id="p29">[29]</a></span>
+<div style="text-align: center;"><em>A huma Velha
+presumida.</em>
+</div>
+<br />
+<br />
+<h4>SONETO XXVII.</h4>
+<br />
+<div class="poetry">
+Debalde sobre a face encarquilhada</div>
+<div class="poetry1">Pendendo louros bugres emprestados, <br />
+Dás inda ao louco amor teus vãos
+cuidados, <br />
+Em carmins enganosos confiada.</div>
+<br />
+<div class="poetry">Postiça formosura, em
+vão comprada,</div>
+<div class="poetry1">Não torna atraz os annos
+apressados: <br />
+Nem alvos dentes de marfim talhados, <br />
+Tornão em nova a tremula queixada.</div>
+<br />
+<div class="poetry">De ti no mesmo tempo que do Gama</div>
+<div class="poetry1">
+Cantou mil bens a Deosa Trombeteira, <br />
+A que os baixos Poetas chamão Fama:</div>
+<br />
+<div class="poetry">Porém sempre ficaste em boa
+esteira;</div>
+<div class="poetry1">Porque, se já
+não prestas para dama, <br />
+Inda serves mui bem como terceira.</div>
+<br />
+<br />
+<br />
+<br />
+<span class="pagenum"><a name="p30" id="p30">[30]</a></span>
+<div style="text-align: center;"><em>Aos Annos de
+huma formosa Dama.</em>
+</div>
+<br />
+<br />
+<h4>SONETO XXVIII.</h4>
+<br />
+<div class="poetry">
+Deixai, Pastores, na montanha os gados,</div>
+<div class="poetry1">
+Vinde ao sitio melhor desta campina <br />
+Beijar a mão á bella, e peregrina <br />
+Deidade tutelar dos nossos prados:</div>
+<br />
+<div class="poetry">Vinde offertar-lhe aos annos celebrados</div>
+<div class="poetry1">O cravo, a roza, a angelica, a
+bonina; <br />
+E ao mais suave som da flauta fina <br />
+Decantar seus illustres predicados.</div>
+<br />
+<div class="poetry">Mas já a cercão
+pastores, e pastoras;</div>
+<div class="poetry1">
+Huma lhe beija a mão, outra o vestido; <br />
+Elles a coroão de vistosas flores,</div>
+<br />
+<div class="poetry">E em doces vozes todo o rancho unido</div>
+<div class="poetry1">
+Canta que ella he a Deosa dos Amores;<br />
+Pois tem no rosto as settas de Cupido.</div>
+<br />
+<br />
+<br />
+<br />
+<span class="pagenum"><a name="p31" id="p31">[31]</a></span>
+<div style="text-align: center;"><em>A Sua Alteza.</em>
+</div>
+<br />
+<br />
+<h4>SONETO XXIX.</h4>
+<br />
+<div class="poetry">
+Nesta cansada triste poesia</div>
+<div class="poetry1">Vedes, Senhor, hum novo pertendente, <br />
+Que aborrece o que estima toda a gente, <br />
+Que he ter no mundo cargos, e valia.</div>
+<br />
+<div class="poetry">Sobre alto throno ha annos que regia</div>
+<div class="poetry1">De docil povo turba obediente: <br />
+Mas quer antes sentar-se humildemente <br />
+N'hum banco da Real Secretaria;</div>
+<br />
+<div class="poetry">Qual modesto Capucho reverendo,</div>
+<div class="poetry1">Que em fim de Guardiania triennal <br />
+Passa a Porteiro as chaves recebendo.</div>
+<br />
+<div class="poetry">Em mim conheço
+vocação igual:</div>
+<div class="poetry1">E co'a mesma humildade hoje pertendo <br />
+Passar de Mestre a ser Official.</div>
+<br />
+<br />
+<br />
+<br />
+<span class="pagenum"><a name="p32" id="p32">[32]</a></span>
+<div style="text-align: center;"><em>A hum Padre
+Guardião.</em></div>
+<br />
+<br />
+<h4>SONETO XXX.</h4>
+<br />
+<div class="poetry">
+Meu Padre Guardião, que exemplarmente</div>
+<div class="poetry1">Regeis essa Capucha Sociedade, <br />
+Que munida do véo da Santidade <br />
+Passa como não passa a mais da gente:</div>
+<br />
+<div class="poetry">Vós que á
+força de braço
+omnipotente</div>
+<div class="poetry1">Fazeis tremer do inferno a potestade,
+<br />
+E aos exorcismos só de hum vosso Frade <br />
+Se explica o Demo em Portuguez corrente:</div>
+<br />
+<div class="poetry">Logo que dessa estola o forte escudo</div>
+<div class="poetry1">Buscar esbelta Nynfa, que atacada <br />
+Seja d'algum Demonio surdo, ou mudo,</div>
+<br />
+<div class="poetry">Mandai dos Márques conte a
+trapalhada:<sup><a href="#n6">[6]</a></sup></div>
+<div class="poetry1">
+Pois só elle, que foi o que urdio tudo, <br />
+Sabe quem commetteo a velhacada.</div>
+<br />
+<br />
+<br />
+<br />
+<span class="pagenum"><a name="p33" id="p33">[33]</a></span>
+<div style="text-align: center;"><em>Em louvor de
+Caporalini, Actor do Theatro <br />
+de S. Carlos.</em>
+</div>
+<br />
+<br />
+<h4>SONETO XXXI.</h4>
+<br />
+<div class="poetry">
+No grão Theatro vejo sempre enchentes:</div>
+<div class="poetry1">As cans annosas, os cabellos louros, <br />
+Illustradas nações, barbaros Mouros, <br />
+Todos da tua voz ficão pendentes.</div>
+<br />
+<div class="poetry">Que importa que não deixem
+descendentes</div>
+<div class="poetry1">Teus ex-virís deshabitados
+couros; <br />
+Que importa que tu roubes aos vindouros <br />
+Se enriqueces, se encantas os presentes?</div>
+<br />
+<div class="poetry">Não he
+traição ao sexo feminino;</div>
+<div class="poetry1">He só razão
+quem te elogia, e preza, <br />
+Comico Mestre, Musico divino.</div>
+<br />
+<div class="poetry">Oh nação de
+harmonia, e de crueza!</div>
+<div class="poetry1">O teu ferro nem sempre he assassino: <br />
+Não insultou, honrou a natureza.</div>
+<br />
+<br />
+<br />
+<br />
+<span class="pagenum"><a name="p34" id="p34">[34]</a></span>
+<div style="text-align: center;"><em>Achando-se o
+Author prezo dos bellos olhos de <br />
+Marcia.</em>
+</div>
+<br />
+<br />
+<h4>SONETO XXXII.</h4>
+<br />
+<div class="poetry">
+Eu vi a Marcia bella, vi Cupido</div>
+<div class="poetry1">Com arco, settas, e cruel aljava, <br />
+Com impeto sahir de donde estava, <br />
+E voar para mim enfurecido.</div>
+<br />
+<div class="poetry">Fugí; bradei:
+porém não fui ouvido;</div>
+<div class="poetry1">
+E o tyranno Rapaz que me buscava, <br />
+Com huma, e outra setta me atirava, <br />
+Até de todo me deixar rendido.</div>
+<br />
+<div class="poetry">Atou-me as mãos com asperas
+cadeias,</div>
+<div class="poetry1">Sem o mover o sangue que corria <br />
+Do roto coração, das rotas veias.</div>
+<br />
+<div class="poetry">Antes, com frio rizo me dizia:</div>
+<div class="poetry1">
+«E não sabias tu, que Amor receias, <br />
+Que nos olhos de Marcia Amor vivia?»</div>
+<br />
+<br />
+<br />
+<br />
+<span class="pagenum"><a name="p35" id="p35">[35]</a></span>
+<div style="text-align: center;"><em>Sobre a
+Ingratidão de huma
+Dama.</em>
+</div>
+<br />
+<br />
+<h4>SONETO XXXIII.</h4>
+<br />
+<div class="poetry">
+Coração, de que gemes, de que choras? </div>
+<div class="poetry1">
+Que parece tens odio á propria vida! <br />
+Se perdeste teu bem, foi mão perdida, <br />
+Com te pôr a morrer nada melhoras. </div>
+<br />
+<div class="poetry">Eu bem sei que a belleza a quem
+adoras, </div>
+<div class="poetry1">Foi-te ingrata, e cruel, foi
+fementida; <br />
+Mas que esperavas tu, se he lei sabida <br />
+O mudar-se a Mulher todas as horas. </div>
+<br />
+<div class="poetry">Socega, Coração,
+deixa a tristeza; </div>
+<div class="poetry1">Quem te mandou querer com
+fé tão pura,
+<br />
+Quem te mandou mostrar tanta firmeza! </div>
+<br />
+<div class="poetry">Erraste, tem paciencia, em fim procura
+</div>
+<div class="poetry1">Não fazer por Mulher
+jámais fineza, <br />
+Acharás mais amor, maior ventura. </div>
+<br />
+<br />
+<br />
+<span class="pagenum"><a name="p36" id="p36">[36]</a></span>
+<h4>CANTIGAS</h4>
+<br />
+<div style="text-align: center;"><em>Feitas nas
+Caldas com o Estribilho:</em> </div>
+<br />
+<br />
+<br />
+<div class="poetry3"><em>Negras tristezas, <br />
+Adeos, adeos.</em> </div>
+<br />
+<div class="poetry2">Não ha nas Caldas <br />
+Melancolia, <br />
+Dão alegria <br />
+Os ares seus. </div>
+<div class="poetry3">
+<em>Negras tristezas, <br />
+Adeos, adeos.</em> </div>
+<br />
+<div class="poetry2">Sara-me a terra, <br />
+E não as agoas: <br />
+Não curão magoas <br />
+Os banhos seus. </div>
+<div class="poetry3"><em>Negras &amp;c.</em>
+</div>
+<br />
+<span class="pagenum">[37]</span>
+<div class="poetry2">Huns lindos olhos, <br />
+Que o dia aclárão, <br />
+Afugentárão <br />
+Os males meus. </div>
+<div class="poetry3"><em>Negras &amp;c.</em>
+</div>
+<br />
+<div class="poetry2">Brandos sorrizos <br />
+A furto dados <br />
+Fazem dourados <br />
+Os dias meus. </div>
+<div class="poetry3"><em>Negras &amp;c.</em>
+</div>
+<br />
+<div class="poetry2">Se entra nos banhos <br />
+Marilia bella, <br />
+Entra com ella <br />
+O cego Deos. </div>
+<div class="poetry3"><em>Negras &amp;c.</em>
+</div>
+<br />
+<div class="poetry2">Alli tempéra <br />
+Nas agoas puras <br />
+As pontas duras <br />
+Dos ferros seus. </div>
+<div class="poetry3"><em>Negras &amp;c.</em>
+</div>
+<br />
+<span class="pagenum">[38]</span>
+<div class="poetry2">Enxuga as tranças <br />
+Da Nynfa loura, <br />
+E nellas doura <br />
+Os farpões seus. </div>
+<div class="poetry3"><em>Negras &amp;c.</em>
+</div>
+<br />
+<div class="poetry2">Caldas ditosas <br />
+Teu nome cresça, <br />
+Alça a cabeça <br />
+Até os Ceos. </div>
+<div class="poetry3"><em>Negras &amp;c.</em>
+</div>
+<br />
+<div class="poetry2">O pobre Anfriso, <br />
+Que estas calçadas <br />
+Deixou regadas <br />
+Dos olhos seus, </div>
+<div class="poetry3"><em>Negras &amp;c.</em>
+</div>
+<br />
+<div class="poetry2">Hoje em triunfo <br />
+De seus pezares <br />
+Levanta altares <br />
+De Gnido ao Deos. </div>
+<div class="poetry3"><em>Negras &amp;c.</em>
+</div>
+<br />
+<br />
+<br />
+<span class="pagenum"><a name="p39" id="p39">[39]</a></span>
+<h4>ENDECHAS. </h4>
+<br />
+<div class="poetry2">
+No sacro Templo </div>
+<div class="poetry3">Que Amor habita <br />
+Minha alma afflicta <br />
+Fui immolar. </div>
+<br />
+<div class="poetry2">Na ruiva flamma </div>
+<div class="poetry3">Que silva ardendo <br />
+A mão detendo <br />
+Jurei-te amar. </div>
+<br />
+<div class="poetry2">Fumoso sangue, </div>
+<div class="poetry3">
+Mal findo o voto, <br />
+Do peito roto <br />
+Vi gotejar. </div>
+<br />
+<span class="pagenum">[40]</span>
+<div class="poetry2">D'alma opprimida </div>
+<div class="poetry3">A insana pena <br />
+Causou-lhe Elena <br />
+Que soube amar. </div>
+<br />
+<div class="poetry2">Nos fidos peitos </div>
+<div class="poetry3">O morto lume <br />
+Negro Ciume <br />
+Hia ateiar. </div>
+<br />
+<div class="poetry2">Vulcano féro </div>
+<div class="poetry3">Ante Mavorte <br />
+O rival forte <br />
+Não póde olhar. </div>
+<br />
+<div class="poetry2">Dos desprezados, </div>
+<div class="poetry3">Que soffrem tanto, <br />
+O rouco pranto <br />
+Feria o ar. </div>
+<br />
+<span class="pagenum">[41]</span>
+<div class="poetry2">Aqui jaz Delio </div>
+<div class="poetry3">
+Terno, e vencido. <br />
+Sem de Cupido <br />
+Premio alcançar: </div>
+<br />
+<div class="poetry2">Que Dafne esquiva, </div>
+<div class="poetry3">Com triste agouro, <br />
+Em verde louro <br />
+Vio transformar. </div>
+<br />
+<div class="poetry2">Pan segue a Nynfa, </div>
+<div class="poetry3">Que tanto adora; <br />
+Seu fado chora <br />
+Vendo-a mudar. </div>
+<br />
+<div class="poetry2">De tenras cannas </div>
+<div class="poetry3">Amor lhe manda, <br />
+Que a frauta branda <br />
+Vá fabricar. </div>
+<br />
+<span class="pagenum">[42]</span>
+<div class="poetry2">Cercada Dido </div>
+<div class="poetry3">De angustias fêas, <br />
+Ah falso Eneas! <br />
+Se ouve bradar. </div>
+<br />
+<div class="poetry2">Seus lindos olhos </div>
+<div class="poetry3">Frouxos erravão; <br />
+Em vão buscavão <br />
+O vago mar. </div>
+<br />
+<div class="poetry2">Subtís enredos </div>
+<div class="poetry3">De acerbo dano <br />
+Bifronte engano <br />
+Eu vi tramar. </div>
+<br />
+<div class="poetry2">Por Thisbe bella, </div>
+<div class="poetry3">Que busca errante, <br />
+Pyramo amante <br />
+Vai acabar. </div>
+<br />
+<span class="pagenum">[43]</span>
+<div class="poetry2">Conhece a amada </div>
+<div class="poetry3">O infeliz erro, <br />
+Ousa impio ferro <br />
+Em si cravar. </div>
+<br />
+<div class="poetry2">Serve-lhe a terra </div>
+<div class="poetry3">
+De duro leito, <br />
+Vê-se-lhe o peito <br />
+Inda arquejar: </div>
+<br />
+<div class="poetry2">As pardas sombras; </div>
+<div class="poetry3">
+Que Amor mistura, <br />
+Na Estyge escura <br />
+Vão aportar: </div>
+<br />
+<div class="poetry2">Desenrugando </div>
+<div class="poetry3">
+A crespa fronte, <br />
+Lédo Acheronte <br />
+As foi buscar. </div>
+<br />
+<span class="pagenum">[44]</span>
+<div class="poetry2">E eu combatido </div>
+<div class="poetry3">De mil pezares <br />
+Vou pelos ares <br />
+A suspirar. </div>
+<br />
+<div class="poetry2">Sei ser-te amante </div>
+<div class="poetry3">Sem premios vivo, <br />
+Este o motivo <br />
+Do meu penar. </div>
+<br />
+<div class="poetry2">Vês mil exemplos, </div>
+<div class="poetry3">E jámais pensas <br />
+Que póde offensas <br />
+Amor vingar. </div>
+<br />
+<div class="poetry2">Ah! sê piedosa: </div>
+<div class="poetry3">As cruas penas <br />
+Torne serenas <br />
+Teu brando olhar. </div>
+<br />
+<br />
+<br />
+<br />
+<span class="pagenum"><a name="p45" id="p45">[45]</a></span>
+<div style="text-align: center;"><em>Em dia dos
+annos do Illustrissimo Principal <br />
+Almeida.</em>
+</div>
+<br />
+<br />
+<br />
+<div class="poetry1">Por mais que esse sangue honrado <br />
+Vos inspire os pondonores <br />
+De merecer os louvores <br />
+E não querer ser louvado, <br />
+Este dia he consagrado <br />
+A elogios soberanos: <br />
+Sem vir enfeitar enganos <br />
+Com mão venal, e fingida, <br />
+Em contar a minha vida <br />
+Louvarei os vossos annos. <br />
+<br />
+Tecêrão-me em baixo estado <br />
+A Fortuna, e a Natureza: <br />
+Entre os braços da Pobreza <br />
+Fui desde o berço lançado. <br />
+Pelas vossas mãos alçado <br />
+Quebrei da desgraça o fio: </div>
+<br />
+<span class="pagenum">[46]</span>
+<div class="poetry1">Se da crua fome, e frio <br />
+Livro o Pai, livro os Irmãos, <br />
+He obra das vossas mãos, <br />
+E faz o vosso elogio.<sup><a href="#n7">[7]</a></sup>
+</div>
+<br />
+<br />
+<br />
+<span class="pagenum"><a name="p47" id="p47">[47]</a></span>
+<h4>MOTE. </h4>
+<br />
+<div class="poetry1">
+<em>Olhos de Lize, olhos bellos, <br />
+Olhos para mim fataes, <br />
+Que hum vosso girar sómente <br />
+Me faz temer mil rivaes.</em> </div>
+<br />
+<br />
+<h4>GLOZA. </h4>
+<br />
+<div class="poetry1">
+Da alva Lize os brancos dentes, <br />
+O rosto affavel, e brando, <br />
+A boca, donde em fallando <br />
+Ficamos todos pendentes, <br />
+Nos lizos hombros patentes <br />
+Soltos os longos cabellos <br />
+Não são causa dos desvellos, <br />
+Nem das ancias em que vivo: <br />
+Vós sois, vós sois o motivo, <br />
+Olhos de Lize, olhos bellos. </div>
+<br />
+<span class="pagenum">[48]</span>
+<div class="poetry1">Vós sois os meus
+vencedores, <br />
+E sois gloria do vencido: <br />
+De vós me atira Cupido <br />
+Mil farpados passadores. <br />
+Se vence o Deus dos Amores, <br />
+Vós as armas lhe emprestais. <br />
+Que ternos saudosos ais, <br />
+Que pranto em vão derramado, <br />
+Me não tendes vós custado, <br />
+Olhos para mim fataes! <br />
+<br />
+Se o rosto ao Ceo levantado <br />
+Alçais as pestanas pretas, <br />
+Logo de brilhantes setas <br />
+Vejo todo o ar cruzado. <br />
+Cupido, que tem jurado <br />
+Crua guerra á humana gente, <br />
+Das nuas costas pendente <br />
+Dura aljava, e passadores, <br />
+Fará conquistas menores <br />
+Que hum vosso girar sómente. </div>
+<br />
+<span class="pagenum">[49]</span>
+<div class="poetry1">Quando desses claros lumes <br />
+Sahem as chammas brilhantes; <br />
+De mil rendidos amantes <br />
+Ouço saudosos queixumes. <br />
+Não chameis loucos ciumes, <br />
+Ó Lize, os que em mim causaes: <br />
+Do poder de huns olhos taes <br />
+Quem ha que livrar-se possa, <br />
+Se a menor perfeição vossa <br />
+Me faz temer mil rivaes? </div>
+<br />
+<br />
+<br />
+<span class="pagenum"><a name="p50" id="p50">[50]</a></span>
+<h4>MOTE. </h4>
+<br />
+<div class="poetry1">
+<em>Tu teimas em desprezar-me, <br />
+Eu teimo em te idolatrar, <br />
+Juntarei teima com teima, <br />
+Teimando te hei de abrandar.</em> </div>
+<br />
+<br />
+<h4>GLOZA. </h4>
+<br />
+<div class="poetry1">
+De ser comigo piedosa <br />
+Não dás, Marilia, esperanças: <br />
+Inda, cruel, não te cansas <br />
+De ser esquiva, e teimosa! <br />
+Que importa, ó Ninfa formosa, <br />
+Vir neste pégo arriscar-me, <br />
+De mergulho ao mar lançar-me, <br />
+E os livres peixes colher-te; <br />
+Se quanto eu teimo em querer-te, <br />
+Tu teimas em desprezar-me? </div>
+<br />
+<span class="pagenum">[51]</span>
+<div class="poetry1">C'os olhos ao Ceo erguidos, <br />
+Ou postos nos longos mares, <br />
+Por ti encho os vagos ares <br />
+De mil saudosos gemidos: <br />
+Nos rochedos desabridos, <br />
+Que em vão bate o rouco mar, <br />
+Devorando o meu pezar, <br />
+Já que de ouvi-lo te cansas, <br />
+Sem premio, sem esperanças <br />
+Eu teimo em te idolatrar. <br />
+<br />
+Teimando, se mal não penso, <br />
+Hei de abrandar teus rigores; <br />
+Porque assim como em amores, <br />
+Tambem em teimas te venço. <br />
+Juro pelo Sol intenso, <br />
+Que a prumo estas rochas queima, <br />
+Que mais do que eu ninguem teima. <br />
+São as causas desiguais: <br />
+Mas por vêr quem teima mais, <br />
+Juntarei teima com teima. </div>
+<br />
+<span class="pagenum">[52]</span>
+<div class="poetry1">Se alva fonte murmurando <br />
+Gasta em torno os duros seixos, <br />
+E vai dos annosos freixos <br />
+As raizes escarnando: <br />
+Se duras rochas quebrando <br />
+Vai c'o tempo o bravo mar: <br />
+Se bronzes póde cortar <br />
+Mordente lima teimosa: <br />
+Tambem eu, Ninfa formosa, <br />
+Teimando te hei de abrandar. </div>
+<br />
+<br />
+<br />
+<span class="pagenum"><a name="p53" id="p53">[53]</a></span>
+<h4>MOTE. </h4>
+<br />
+<div class="poetry1">
+<em>Não sei que quer a desgraça, <br />
+Que atraz de mim corre tanto: <br />
+Hei de parar, e mostrar-lhe <br />
+Que de ve-la não me espanto.</em>
+</div>
+<br />
+<br />
+<h4>GLOZA. </h4>
+<br />
+<div class="poetry1">
+Não sei que outro mal profundo <br />
+Inda a desgraça me guarda, <br />
+Se me tirou em Anarda <br />
+O que tem de bom o mundo! <br />
+Foi este golpe tão fundo, <br />
+Que outro não tem que me faça: <br />
+Se em levar-me o gesto, e a graça <br />
+De huns olhos, por quem vivia, <br />
+Me fez quanto mal podia, <br />
+Não sei que quer a desgraça! </div>
+<br />
+<span class="pagenum">[54]</span>
+<div class="poetry1">Debalde outros gostos pintas, <br />
+Amor, para cativar-me: <br />
+Já não tornas a enganar-me, <br />
+Por mais, e mais que me mintas. <br />
+Inda tens as settas tintas, <br />
+Inda enxugo inutil pranto: <br />
+Ao teu venenoso encanto <br />
+Novas victimas procura; <br />
+E dá-lhe dessa ventura, <br />
+Que atraz de mim corre tanto. <br />
+<br />
+Fizeste, ó desgraça, hum erro <br />
+Em vires do Amor valer-te: <br />
+Como ha de elle socorrer-te, <br />
+Se eu já conheço o seu ferro? <br />
+Á sua voz o ouvido cerro: <br />
+Custou-me sangue o escapar-lhe: <br />
+E para melhor provar-lhe, <br />
+Que eu já sou dos seus cortados, <br />
+Sinaes inda mal fechados <br />
+Hei de parar, e mostrar-lhe. </div>
+<br />
+<span class="pagenum">[55]</span>
+<div class="poetry1">Tu só me déste
+hum desgosto, <br />
+Outro já não pódes dar-me: <br />
+Já agora sempre has de achar-me <br />
+A mesma alma, e o mesmo rosto, <br />
+Se em ferros por ti for posto, <br />
+Verás que ao som delles canto; <br />
+Se envolta em sanguineo manto <br />
+Me pões a morte diante, <br />
+Notarás no meu semblante, <br />
+Que de ve-la não me espanto. </div>
+<br />
+<br />
+<br />
+<span class="pagenum"><a name="p56" id="p56">[56]</a></span>
+<h4>MOTE.</h4>
+<br />
+<div class="poetry1">
+<em>Os meus olhos a chorar.</em>
+</div>
+<br />
+<br />
+<h4>GLOZA.</h4>
+<br />
+<div class="poetry1">
+Pranto inutil são os meios <br />
+Das pessoas desgraçadas: <br />
+Pagai, lagrimas cansadas, <br />
+Pagai delictos alheios. <br />
+Já que de ouro cofres cheios <br />
+Nunca pude a Nize dar, <br />
+Já que devo em fim pagar <br />
+Culpa, que só tem meus fados, <br />
+Fiquem sempre condemnados <br />
+Os meus olhos a chorar. </div>
+<br />
+<br />
+<br />
+<span class="pagenum"><a name="p57" id="p57">[57]</a></span>
+<h4>MOTE.</h4>
+<br />
+<div class="poetry1">
+<em>Já disse tudo a Cupido.</em>
+</div>
+<br />
+<br />
+<h4>GLOZA.</h4>
+<br />
+<div class="poetry1">
+Na vossa gentil figura <br />
+Mil dões natureza pôz: <br />
+Todos cuidão que sois vós <br />
+A Deosa da Formosura. <br />
+Venus mil vinganças jura, <br />
+Vendo o seu culto esquecido: <br />
+Vai de settas o ar ferido. <br />
+Senhora, andai cuidadosa, <br />
+Que a louca Deosa invejosa <br />
+Já disse tudo a Cupido. </div>
+<br />
+<br />
+<br />
+<span class="pagenum"><a name="p58" id="p58">[58]</a></span>
+<h4>MOTE.</h4>
+<br />
+<div class="poetry1">
+<em>Distancias, e saudades.</em>
+</div>
+<br />
+<br />
+<h4>GLOZA.</h4>
+<br />
+<div class="poetry1">
+As nodosas carvalheiras, <br />
+Que assombrão hermas estradas; <br />
+Altas rochas, penduradas <br />
+Sobre medonhas ribeiras; <br />
+Duras, íngremes ladeiras, <br />
+Escuras concavidades; <br />
+São as tristes soledades, <br />
+A quem meu cansado peito <br />
+Conta o mal, que lhe tem feito <br />
+Distancias, e saudades. </div>
+<br />
+<br />
+<br />
+<span class="pagenum"><a name="p59" id="p59">[59]</a></span>
+<h4>MOTE.</h4>
+<br />
+<div class="poetry1">
+<em>Cantarei alegres penas, <br />
+Que cercão meu
+coração.</em>
+</div>
+<br />
+<br />
+<h4>GLOZA.</h4>
+<br />
+<div class="poetry1">
+Que eu cante alegre me ordenas? <br />
+Que cruel, que dura Lei! <br />
+Porém obedecerei, <br />
+Cantarei alegres penas: <br />
+Por todo o modo envenenas <br />
+A minha infeliz paixão; <br />
+Tu déras valor á acção <br />
+De eu affectar alegrias, <br />
+Se visses as agonias <br />
+Que cercão meu coração. </div>
+<br />
+<br />
+<br />
+<span class="pagenum"><a name="p60" id="p60">[60]</a></span>
+<h4>MOTE.</h4>
+<br />
+<div class="poetry1">
+<em>Nada no mundo figura, <br />
+Quem não chega a ter amor.</em>
+</div>
+<br />
+<br />
+<h4>GLOZA.</h4>
+<br />
+<div class="poetry1">
+Deos de Amor, sempre a ventura <br />
+De tuas mãos pendente vi: <br />
+Tu pódes tudo; sem ti <br />
+Nada no mundo figura. <br />
+Recolhe da terra dura <br />
+Fructo immenso o Lavrador; <br />
+Mas occulto dissabor <br />
+No fundo da alma lhe diz, <br />
+Que não chega a ser feliz <br />
+Quem não chega a ter amor. </div>
+<br />
+<br />
+<br />
+<span class="pagenum"><a name="p61" id="p61">[61]</a></span>
+<h4>MOTE.</h4>
+<br />
+<div class="poetry1">
+<em>Amor para me prender <br />
+Os teus olhos me mostrou.</em>
+</div>
+<br />
+<br />
+<h4>GLOZA.</h4>
+<br />
+<div class="poetry1">
+Mil bellezas me fez vêr, <br />
+Porque alguma me rendesse, <br />
+Não sabia o que fizesse <br />
+Amor, para me prender. <br />
+Mil laços me foi tecer, <br />
+Laços vãos, que em vão me armou; <br />
+Provadas settas tirou, <br />
+Que hia em veneno ensopando; <br />
+Porém só me rendi quando <br />
+Os teus olhos me mostrou. </div>
+<br />
+<br />
+<br />
+<span class="pagenum"><a name="p62" id="p62">[62]</a></span>
+<h4>MOTE.</h4>
+<br />
+<div class="poetry1">
+<em>A minha felicidade.</em>
+</div>
+<br />
+<br />
+<h4>GLOZA.</h4>
+<br />
+<div class="poetry1">
+Cesse, ó Nize, o teu rigor: <br />
+Esse odio injusto reprime: <br />
+Perdem o nome de crime <br />
+Os crimes que faz amor. <br />
+Torne ao seu antigo ardor <br />
+A nossa antiga amizade: <br />
+Adoça a rigoridade <br />
+Do penoso estado meu, <br />
+E faze c'hum riso teu <br />
+A minha felicidade.</div>
+<br />
+<br />
+<br />
+<span class="pagenum"><a name="p63" id="p63">[63]</a></span>
+<h4>MOTE.</h4>
+<br />
+<div class="poetry1">
+<em>Quem adora occultamente <br />
+Sem declarar seu amor <br />
+Sente mil ancias no peito, <br />
+Vive cercado de dôr.</em>
+</div>
+<br />
+<br />
+<h4>GLOZA.</h4>
+<br />
+<div class="poetry1">
+Por que barbara razão <br />
+Hum justo amor se reprime, <br />
+E ha de julgar-se por crime <br />
+Pôr na boca o coração? <br />
+Claros olhos ferir vão <br />
+Hum coração innocente; <br />
+Nem ao triste se consente <br />
+Dar sinaes de seu cuidado! <br />
+Deoses! quanto he desgraçado <br />
+Quem adora occultamente! </div>
+<br />
+<span class="pagenum">[64]</span>
+<div class="poetry1">No peito a chamma accendida <br />
+As entranhas lhe abrazou; <br />
+Mas da ingrata, que a ateou, <br />
+He crime ser percebida. <br />
+Se deita sangue a ferida <br />
+Á vista do matador, <br />
+Vejão de que nova dôr <br />
+Sente o triste a alma cortada, <br />
+Fallando co'a sua Amada <br />
+Sem declarar seu amor! <br />
+<br />
+Arde em hum fogo escondido: <br />
+Pois se conta o seu cuidado, <br />
+Além de ser desgraçado, <br />
+Chamão-lhe em cima atrevido. <br />
+Até quasi tem perdido <br />
+De olhar o livre direito; <br />
+Vive sempre contrafeito; <br />
+E entre mil contrarios posto, <br />
+Mostra alegria no rosto, <br />
+Sente mil ancias no peito. </div>
+<br />
+<span class="pagenum">[65]</span>
+<div class="poetry1">Busca alegres companhias, <br />
+Por curar o mal que sente: <br />
+Entra a ingrata de repente, <br />
+Despertão-se as cinzas frias. <br />
+Ternas Arias, Synfonias, <br />
+Tudo aviva o seu amor; <br />
+Mas dos fados o rigor <br />
+Tem sobre elle taes poderes, <br />
+Que no meio dos prazeres <br />
+Vive cercado de dôr. </div>
+<br />
+<br />
+<br />
+<span class="pagenum"><a name="p66" id="p66">[66]</a></span>
+<h4>MOTE.</h4>
+<br />
+<div class="poetry1">
+<em>Nos olhos o amor explico <br />
+Que trago no coração; <br />
+Que não se póde occultar <br />
+No peito a doce paixão.</em>
+</div>
+<br />
+<br />
+<h4>GLOZA.</h4>
+<br />
+<div class="poetry1">
+Mandas-me, ó Anarda, em vão <br />
+Os olhos meus reprimir; <br />
+Que elles sempre hão de seguir <br />
+O impulso do coração. <br />
+Sem querer sinaes daráõ <br />
+Do affecto, que não publíco: <br />
+Co'a boca, que mortifico, <br />
+Que importa que o não revele, <br />
+Se eu, por mais que me acautele, <br />
+Nos olhos o amor explico? </div>
+<br />
+<span class="pagenum">[67]</span>
+<div class="poetry1">Amor os faz descuidados: <br />
+Em vão, Anarda, os abaxo; <br />
+Pois dahi a pouco os acho <br />
+Outra vez nos teus pregados. <br />
+Trazellos mais castigados <br />
+Não está na minha mão: <br />
+Esta continua omissão, <br />
+Este erro, como tu dizes, <br />
+He hum fructo das raizes, <br />
+Que trago no coração. <br />
+<br />
+De que serve olhar a medo, <br />
+E fallar acautelado, <br />
+Se hum suspiro descuidado <br />
+Vem descobrir o segredo? <br />
+Este artificio, este enredo <br />
+Pouco poderá durar: <br />
+Meus olhos me hão de entregar; <br />
+Que hum amor na alma arraigado <br />
+He como hum fogo ateado, <br />
+Que se não póde occultar. </div>
+<br />
+<span class="pagenum">[68]</span>
+<div class="poetry1">Tempo, e arte tenho posto <br />
+Para disfarçar-me em tudo: <br />
+Mas sae-me perdido o estudo, <br />
+Em vendo o teu lindo rosto. <br />
+Disfarça-se mal hum gosto, <br />
+Que nasce do coração: <br />
+Tambem tu dessa lição <br />
+Talvez que bem não sahiras, <br />
+Se assim como eu sentiras <br />
+No peito a doce paixão: </div>
+<br />
+<br />
+<br />
+<span class="pagenum"><a name="p69" id="p69">[69]</a></span>
+<h4>MOTE.</h4>
+<br />
+<div class="poetry1">
+<em>Por passos sem esperança, <br />
+Onde me leva o dezejo?</em>
+</div>
+<br />
+<br />
+<h4>GLOZA.</h4>
+<br />
+<div class="poetry1">
+Vão pensamento, descança, <br />
+Reconhece as forças minhas: <br />
+Tu não sabes, que caminhas <br />
+Por passos sem esperança? <br />
+Junto da corrente mansa <br />
+Me pões do dourado Tejo: <br />
+Cá de longe o sitio vejo: <br />
+Mas não devo hum passo dar, <br />
+Que eu não mereço chegar <br />
+Onde me leva o dezejo. </div>
+<br />
+<br />
+<br />
+<span class="pagenum"><a name="p70" id="p70">[70]</a></span>
+<h4>MOTE.</h4>
+<br />
+<div class="poetry1">
+<em>Eu já tenho exp'rimentado <br />
+As minhas inclinações.</em>
+</div>
+<br />
+<br />
+<h4>GLOZA.</h4>
+<br />
+<div class="poetry1">
+Que nunca teu doce agrado <br />
+De amizade simples passa, <br />
+Por minha grande desgraça <br />
+Eu já tenho exp'rimentado. <br />
+Antes odio declarado, <br />
+Que estas equivocações! <br />
+Quero as ternas espressões <br />
+De que as almas se alimentão: <br />
+Com menos não se contentão <br />
+As minhas inclinações. </div>
+<br />
+<br />
+<br />
+<span class="pagenum"><a name="p71" id="p71">[71]</a></span>
+<div style="text-align: center;"><em>Ao mesmo Mote
+outra</em>
+</div>
+<br />
+<h4>GLOZA.</h4>
+<br />
+<div class="poetry1">
+Senhora, eu tenho encontrado <br />
+No teu amor mil intrigas: <br />
+Não preciso que mo digas, <br />
+Eu já tenho exp'rimentado. <br />
+São premios do meu cuidado <br />
+Enganos, e ingratidões; <br />
+E por occultas razões <br />
+São, inda que mo não dizes, <br />
+Tão justas, como infelizes, <br />
+As minhas inclinações. </div>
+<br />
+<br />
+<br />
+<span class="pagenum"><a name="p72" id="p72">[72]</a></span>
+<h4>MOTE.</h4>
+<br />
+<div class="poetry1">
+<em>Ouvi, ó Senhora, ouvi <br />
+Os suspiros de huma voz, <br />
+Que quando por vós suspira, <br />
+Aspira sómente a vós.</em>
+</div>
+<br />
+<br />
+<h4>GLOZA.</h4>
+<br />
+<div class="poetry1">
+Chegou finalmente a hora <br />
+De saberdes quem vos ama: <br />
+Rebente esta antiga chama, <br />
+Que ardeo occulta atégora. <br />
+Amar callando, Senhora, <br />
+Assaz o fiz atéqui: <br />
+As ancias, que padeci, <br />
+Sejão finalmente expostas... <br />
+Ah! não me volteis as costas: <br />
+Ouví, ó Senhora, ouví. </div>
+<br />
+<span class="pagenum">[73]</span>
+<div class="poetry1">Perdei huma vez o horror <br />
+A ouvir ternos gemidos; <br />
+Nunca ferírão ouvidos <br />
+Brandas palavras de Amor. <br />
+Que hora, e que sitio melhor, <br />
+Do que este em que estamos sós? <br />
+Que culpa, que crime atroz <br />
+Temeis que ante vós farão <br />
+As queixas de hum coração, <br />
+Os suspiros de huma voz? <br />
+<br />
+Meu coração vos adora; <br />
+Sem saber o conquistais: <br />
+Estas ancias, estes ais <br />
+São obra vossa, ó Senhora. <br />
+Em segredo amou atégora; <br />
+De amor vive; amor respira; <br />
+E se vós, depondo a ira, <br />
+Lhe prometteis compaixão, <br />
+Que melhor occasião, <br />
+Que quando por vós suspira? </div>
+<br />
+<span class="pagenum">[74]</span>
+<div class="poetry1">Nelle, Senhora, não posso <br />
+Nutrir estranha paixão: <br />
+Em fim este coração <br />
+Foi feito para ser vosso: <br />
+Para encher-se de alvoroço <br />
+Basta ouvir a vossa voz: <br />
+Passa indiff'rente, e veloz <br />
+Por mil bellezas, que admira, <br />
+Nada o enche, a nada aspira, <br />
+Aspira sómente a vós. </div>
+<br />
+<br />
+<br />
+<span class="pagenum"><a name="p75" id="p75">[75]</a></span>
+<h4>MOTE.</h4>
+<br />
+<div class="poetry1">
+<em>Hei de amar-te até á morte, <br />
+Quer tu me queiras, quer não: <br />
+Serei no amor desgraçado; <br />
+Mas com discreta eleição.</em>
+</div>
+<br />
+<br />
+<h4>GLOZA.</h4>
+<br />
+<div class="poetry1">
+Não fujo, pódes rasgar <br />
+Este peito desgraçado; <br />
+Que o teu gesto retratado <br />
+Has de, cruel, nelle achar. <br />
+Posto que veja roubar <br />
+Á Parca a tesoura forte, <br />
+E dar-me na vida córte, <br />
+Inda ouvirás, que te digo: <br />
+«Ingrata, não me desdigo, <br />
+Hei de amar-te até á morte.» </div>
+<br />
+<span class="pagenum">[76]</span>
+<div class="poetry1">Vem, Amor, auctorizar <br />
+O sagrado juramento <br />
+De até ao final alento <br />
+Firmemente te adorar. <br />
+De joelhos, no Altar <br />
+Co'a devida submissão <br />
+Resoluto ponho a mão; <br />
+Juro nas settas tremendas <br />
+De te amar, quer tu me offendas, <br />
+Quer tu me queiras, quer não. <br />
+<br />
+Amor co'as mãos apressadas <br />
+Ergue dos olhos a venda, <br />
+E pasma da jura horrenda, <br />
+Que assusta as aras sagradas. <br />
+«Eis as correntes pezadas, <br />
+Que te esperão,» diz irado. <br />
+Eu as acceito humilhado, <br />
+«Não, ó Deos, não
+esmoreço <br />
+C'os ferros, posto conheço <br />
+Serei no amor desgraçado.» </div>
+<br />
+<span class="pagenum">[77]</span>
+<div class="poetry1">A Liberdade ultrajada <br />
+Lança-me a revez a vista; <br />
+Risca-me da honrada lista, <br />
+E chama-me escravo irada. <br />
+Não crimines indignada <br />
+Esta nobre sujeição. <br />
+Arrastro o ferreo grilhão; <br />
+Mas por quem? Por Nize bella. <br />
+Ah! sim te deixo por ella; <br />
+Mas com discreta eleição. </div>
+<br />
+<br />
+<br />
+<span class="pagenum"><a name="p78" id="p78">[78]</a></span>
+<h4>MOTE.</h4>
+<br />
+<div class="poetry1">
+<em>Toda a Mulher he perjura.</em>
+</div>
+<br />
+<br />
+<h4>GLOZA.</h4>
+<br />
+<div class="poetry1">
+Triste solitario freixo, <br />
+Mais triste do que eras d'antes, <br />
+Conta, conta aos caminhantes <br />
+A razão com que eu me queixo. <br />
+Em teu tronco escrita deixo <br />
+Minha funesta aventura: <br />
+Reconta esta historia dura, <br />
+Por que veja quem a ler, <br />
+Que depois de Armida o ser <br />
+Toda a Mulher he perjura. </div>
+<br />
+<br />
+<br />
+<br />
+<span class="pagenum"><a name="p79" id="p79">[79]</a></span>
+<div style="text-align: center;"><em>Ao
+Illustrissimo, e Excellentissimo Senhor <br />
+Marquez de Penalva.</em> </div>
+<br />
+<br />
+<br />
+<div class="poetry1">
+Illustrissimo Penalva, <br />
+Já que me dais protecção, <br />
+Sentido na occasião, <br />
+Porque bem sabeis que he calva. <br />
+Se o vosso braço me salva <br />
+Das crianças pertinazes, <br />
+Se a poder das vossas frazes <br />
+Meu duro grilhão se corta, <br />
+Por triunfo á vossa porta <br />
+Pendurarei dous rapazes. </div>
+<br />
+<br />
+<br />
+<span class="pagenum"><a name="p80" id="p80">[80]</a></span>
+<h4>MOTE.</h4>
+<br />
+<div class="poetry1">
+<em>De mil suspiros que eu dou.</em>
+</div>
+<br />
+<br />
+<h4>GLOZA.</h4>
+<br />
+<div class="poetry1">
+Parto em fim desesperado, <br />
+E sem que o motivo conte <br />
+Vou a estranho horizonte <br />
+Chorar o meu triste fado. <br />
+Já vejo o laço quebrado <br />
+Que a ventura me forjou; <br />
+E como Nize o quebrou, <br />
+Conservando os olhos seccos, <br />
+Ao menos não ouça os éccos <br />
+De mil suspiros que eu dou. </div>
+<br />
+<br />
+<br />
+<br />
+<span class="pagenum"><a name="p81" id="p81">[81]</a></span>
+<div style="text-align: center;"><em>Ao
+Illustrissimo, e Excellentissimo Senhor <br />
+Marquez de Penalva.</em>
+</div>
+<br />
+<br />
+<br />
+<div class="poetry1">
+Hontem soube o que podia <br />
+Estilo suave, e brando: <br />
+E quanto podeis fallando <br />
+Eu o vi na Academia. <br />
+Nas almas fogo accendia <br />
+Vossa discreta Oração. <br />
+Sobre a minha pertensão <br />
+Vos peço que assim oreis, <br />
+E que ao Principe falleis <br />
+Como fallais á Nação. </div>
+<br />
+<br />
+<br />
+<br />
+<span class="pagenum"><a name="p82" id="p82">[82]</a></span>
+<div style="text-align: center;"><em>Ao
+Illustrissimo, e Excellentissimo Senhor <br />
+Conde de Villa Verde.</em>
+</div>
+<br />
+<br />
+<br />
+<div class="poetry1">
+Mandais-me que os versos traga <br />
+Que na almofada fallárão; <br />
+Porque os outros vos ficárão <br />
+Nas mãos da Illustre Arriaga. <br />
+Essa honra he huma paga, <br />
+Que elles nunca
+merecêrão: <br />
+Se os seus olhos se puzerão <br />
+Sobre tão baixa escritura, <br />
+Devo essa grande ventura <br />
+Ás illustres mãos que os
+dérão. <br />
+<br />
+Mas he do meu triste fado <br />
+Tão teimosa a crueldade, <br />
+Que até na felicidade </div>
+<span class="pagenum">[83]</span>
+<div class="poetry1">Vejo que sou desgraçado: <br />
+Pois devieis cautelado <br />
+Segurar a occasião: <br />
+Fingindo que errava a mão, <br />
+Entre mil papeis diversos <br />
+Podieis em vez dos Versos <br />
+Dar-lhe a minha petição. </div>
+<br />
+<br />
+<br />
+<br />
+<span class="pagenum"><a name="p84" id="p84">[84]</a></span>
+<div style="text-align: center;"><em>Ao Illustrissimo, e
+Excellentissimo Senhor <br />
+Conde de Villa Verde.</em>
+</div>
+<br />
+<br />
+<br />
+<div class="poetry1">
+Assisti á Sagração, <br />
+Acto, Senhor, dos mais serios, <br />
+Que envolve augustos Mysterios <br />
+Da nossa Religião. <br />
+Lembrou-me crismar-me então <br />
+Por ser acto Episcopal; <br />
+Por permittir acção tal <br />
+Que outro appellido se tome; <br />
+Lembrou-me trocar o nome <br />
+De Mestre em Official. <br />
+<br />
+Busquei as horas melhores, <br />
+E encommendei-me á fortuna; <br />
+Cheguei, e para a Tribuna <br />
+Tinhão já ido os Senhores. <br />
+Pelos frios corredores.<br />
+</div>
+<span class="pagenum">[85]</span>
+<div class="poetry1">O bom Lima me encaminha; <br />
+Foi-me pôr na tal portinha <br />
+Onde os pertendentes vão <br />
+Pôr os joelhos no chão, <br />
+E os olhos na Rainha. <br />
+<br />
+Co'a cabeça estopetada, <br />
+Como quem dorme sem cama, <br />
+Roto fumo, e alguma lama <br />
+Sobre a casaca encarnada, <br />
+Vi o tal que grita, e brada, <br />
+Quer na Sala, quer na rua. <br />
+Por mais que trabalha, e sua, <br />
+Guarda-roupa he louca idéa: <br />
+Como ha de guardar a alhêa <br />
+Quem trata tão mal da sua? <br />
+<br />
+Ao pé a figura rara <br />
+Do pardo Cardeal astuto, <br />
+Que para cumprir o luto </div>
+<span class="pagenum">[86]</span>
+<div class="poetry1">Lhe basta mostrar a cara. <br />
+Dos dous na justiça clara <br />
+Grandes fundamentos acho; <br />
+Mas fujo mais para baixo, <br />
+E dispenso amigos taes, <br />
+Por não ficarmos iguaes <br />
+Na justiça, e no despacho. </div>
+<br />
+<br />
+<br />
+<br />
+<span class="pagenum"><a name="p87" id="p87">[87]</a></span>
+<div style="text-align: center;"><em>Ao Illustrissimo, e
+Excellentissimo Senhor <br />
+Conde de Villa Verde, quando morreo o <br />
+Pai do Author.</em>
+</div>
+<br />
+<br />
+<br />
+<div class="poetry1">
+Peito de tanta bondade <br />
+De bom Pai o nome preza; <br />
+Levou-me hum a Natureza; <br />
+Mas deixou-me outro a piedade. <br />
+Amparai minha orfandade, <br />
+Porque a vossos pés me humilho: <br />
+Se não me abrís outro trilho, <br />
+Tal a minha estrada vai, <br />
+Que irão co'a vida do Pai <br />
+As esperanças do Filho. </div>
+<br />
+<br />
+<br />
+<br />
+<span class="pagenum"><a name="p88" id="p88">[88]</a></span>
+<div style="text-align: center;"><em>Vagando hum Officio que o A.
+pertendia.</em>
+</div>
+<br />
+<br />
+<br />
+<div class="poetry1">
+Jaz o defunto enterrado: <br />
+E agora saber intento, <br />
+Se a caso no testamento <br />
+Me ficou algum legado. <br />
+A vossos pés ajoelhado <br />
+Ponho em vós minha esperança: <br />
+Tenho Parte, e não descansa; <br />
+E nesta causa infeliz, <br />
+Se não fordes o juiz, <br />
+Perderei de certo a herança. </div>
+<br />
+<br />
+<br />
+<br />
+<span class="pagenum"><a name="p89" id="p89">[89]</a></span>
+<div style="text-align: center;"><em>Ao Doutor Joaquim Ignacio Seixas,
+Medico <br />
+das Caldas.</em>
+</div>
+<br />
+<br />
+<br />
+<div class="poetry1">
+Meu Doutor, bem sei que quer <br />
+Que eu venha ás Ave-Marias; <br />
+Mas olhe: ha huns certos dias <br />
+Em que isto não póde ser. <br />
+Dona Antonia Xavier <br />
+(Que o Ceo por seculos guarde) <br />
+Faz annos, e eu esta tarde <br />
+Perco á Medicina o medo: <br />
+N'outros dias virei cedo; <br />
+Mas neste, ha de ser bem tarde. </div>
+<br />
+<br />
+<br />
+<br />
+<span class="pagenum"><a name="p90" id="p90">[90]</a></span>
+<h4>DECIMA.</h4>
+<br />
+<br />
+<div style="text-align: center;"><em>A hum Prégador celebre (Fr. João
+Jacintho) <br />
+estando jantando com o A.</em>
+</div>
+<br />
+<br />
+<br />
+<div class="poetry1">
+Se deste potente vinho <br />
+Não cerceias as rações, <br />
+Temo que nos teus Sermões <br />
+Allegues só São Martinho. <br />
+Se lhe dás largo caminho <br />
+Pelo teu fecundo peito <br />
+Seu fatal magico effeito <br />
+Deixando-te a tres de fundo, <br />
+Te fará ser o segundo <br />
+Que diga: <em>sempre me deito</em>.<sup><a href="#n8">[8]</a></sup> </div>
+<br />
+<br />
+<br />
+<br />
+<span class="pagenum"><a name="p91" id="p91">[91]</a></span>
+<div style="text-align: center;"><em>Carta a Lourenço da Mota, Official
+da <br />
+Secretaria.</em>
+</div>
+<br />
+<br />
+<br />
+Amigo Lourenço: Se tu não sabes o que he não ter dinheiro, eu to
+explico: Abaixo de Estupores he o maior mal do mundo, principalmente
+para quem herdou Irmãas sem nenhum rendimento, e com<br />
+muito bom estomago. <br />
+<br />
+Por vêr se aligeirava esta carga, empenhei-me em hum milhão para lhes
+comprar tenças, e em outro para lhas assentar; mas como as não cobrão,
+morrem de fome, e depois que são ricas, tornão-se a mim, e dellas
+aprendo o que são lucros cessantes, e damnos emergentes. Cuidei que
+tinha mettido huma lança em Africa, e vejo que a metti em mim mesmo; e
+arde agora a vela pelas duas pontas. <br />
+<br />
+Tu que tens bom coração, e que estás
+<span class="pagenum">[92]</span>
+ao pé do Senhor Marquez, que o tem melhor,
+pede-lhe por caridade o despacho
+dessa petição. <br />
+<br />
+Não te assustem os tres annos; porque
+ainda mal que ouço que no de 93 não
+tiverão
+cabimento. Pede-lhe que já que me
+livrou de crianças, me livre tambem de
+velhas, gado ainda mais impertinente, e
+que se não contenta com figuras de Rhetorica.
+Interessa-te pelo teu Nicoláo, Amigo,
+e Collega, e sabe que, se lhe não
+mandas as Portarias, terás a vergonha de
+o vêr andar pelas outras. Recomenda-se á
+tua efficacia.<br />
+<br />
+<div class="signature">
+O teu fiel Amigo </div>
+<br />
+<div class="signature1"><em>N. T.</em> </div>
+<br />
+<br />
+<br />
+<br />
+<span class="pagenum">[93]</span>
+<div class="poetry1">Peço que mates a fome <br />
+A este meu povo immenso, <br />
+E peço-te, meu Lourenço, <br />
+Pelo Santo do teu Nome. <br />
+Por hum bom serviço tome <br />
+A paga das taes tencinhas. <br />
+Pois teve as carnes mesquinhas <br />
+Em vivas brazas vermelhas, <br />
+Em louvor das suas grelhas <br />
+Peço me livres das minhas. <br />
+<br />
+Com esta tenho enviado <br />
+Tres cartas, segundo penso, <br />
+Ao meu amigo Lourenço: <br />
+Nem reposta, nem mandado. <br />
+A dôr de que estou tomado <br />
+Sim desejo allivialla: <br />
+Mas a tua mais me aballa, <br />
+E parece mais intensa: <br />
+Pois eu sim fico sem Tença; <br />
+Porém tu estás sem falla. </div>
+<br />
+<br />
+<br />
+<br />
+<span class="pagenum"><a name="p94" id="p94">[94]</a></span>
+<div style="text-align: center;"><em>Ao Illustrissimo, e
+Excellentissimo Senhor <br />
+Conde de Villa Verde, andando o A. na <br />
+pertenção de ser Official da Secretaria <br />
+de Estado.</em></div>
+<br />
+<br />
+<br />
+<br />
+<h4>DECIMA.</h4>
+<br />
+<br />
+<div class="poetry1">
+Senhor, venho perguntar <br />
+Quando ides ficar no Paço: <br />
+Para que á força de braço <br />
+Lanceis esta náo ao mar. <br />
+Sabe montes aplanar <br />
+Vossa discreta portia: <br />
+E pinta-me a fantasia, <br />
+A qual nem sempre me engana, <br />
+Que só na Vossa semana <br />
+Me ha de chegar o meu dia. </div>
+<br />
+<br />
+<br />
+<br />
+<span class="pagenum"><a name="p95" id="p95">[95]</a></span>
+<div style="text-align: center;"><em>Ao Juiz do Crime de Andaluz,
+dando-lhe este <br />
+parte que estava para casar, e mostrando-lhe <br />
+versos, que fizera á Noiva. He o <br />
+de que trata o soneto 33, Tom. I. pag. 35.</em>
+</div>
+<br />
+<br />
+<br />
+<div class="poetry1">
+Manoel, muda o cuidado, <br />
+Abafa essa chamma ardente: <br />
+Não falla hum são a hum doente; <br />
+Falla-te outro exp'rimentado. <br />
+<br />
+Já servi ao Deos do engano, <br />
+Fórte com forças alheias. <br />
+Passei nas suas cadeias <br />
+Apoz hum anno outro anno. <br />
+<br />
+Prometteo-me alto favor; <br />
+Mas sabe, pois que começas, <br />
+Que o que tive das promessas <br />
+Forão lagrimas, e dôr. </div>
+<br />
+<span class="pagenum">[96]</span>
+<div class="poetry1">Não te deixes enganar <br />
+Do rosto brando, e sereno: <br />
+Tempéra em riso o veneno; <br />
+Afaga para matar. <br />
+<br />
+Com mil modos attractivos <br />
+Chama a cega, e incauta gente: <br />
+Lança-lhe dura corrente, <br />
+E escarnece dos cativos. <br />
+<br />
+Como trata os infelizes, <br />
+Que andou outr'ora amimando, <br />
+Meu peito to está mostrando <br />
+Nesta frescas cicatrizes. <br />
+<br />
+Até em cousas de peta <br />
+Quer mostrar o seu rigor: <br />
+Faz entrar n'hum prosador <br />
+A mania de poeta. </div>
+<br />
+<span class="pagenum">[97]</span>
+<div class="poetry1">Mas esses laços que trazes, <br />
+Dom desse Deos inimigo, <br />
+Talvez que sejão castigo <br />
+D'outras prizões, que tu fazes. <br />
+<br />
+Fere a muitos tua mão, <br />
+Inda que tanto a reprimes, <br />
+E vens a pagar teus crimes <br />
+Com pena de Talião. </div>
+<br />
+<br />
+<br />
+<br />
+<span class="pagenum"><a name="p98" id="p98">[98]</a></span>
+<h4>MEMORIAL</h4>
+<br />
+<br />
+<div style="text-align: center;"><em>A Suas Altezas.</em> </div>
+<br />
+<br />
+<br />
+<div class="poetry1">
+Se os Principes nos são dados <br />
+Para geral beneficio, <br />
+E se o seu mais digno officio <br />
+He ouvir os desgraçados: <br />
+<br />
+Ouví minha desventura, <br />
+E consentí que esta vez <br />
+Se lastime a vossos pés <br />
+Hum queixoso da ventura. <br />
+<br />
+Sahirem humildes ais <br />
+De hum peito singelo, e aberto, <br />
+He o direito mais certo, <br />
+Quando os Juizes são tais. </div>
+<br />
+<span class="pagenum">[99]</span>
+<div class="poetry1">Fundadas sobre a verdade <br />
+As minhas supplicas vão: <br />
+Não peço por ambição, <br />
+Peço por necessidade. <br />
+<br />
+Em mim o cuidado cae <br />
+De Irmãs postas em pobreza: <br />
+A piedade, e a natureza <br />
+Me fazem Irmão, e Pae. <br />
+<br />
+Olhos em pranto banhados, <br />
+Que eu sem dôr não posso ver, <br />
+Vos fazem agora ler <br />
+Estes versos mal limados. <br />
+<br />
+São tristes Orfãs donzellas, <br />
+E merecem suas dôres <br />
+Que vós, Augustos Senhores, <br />
+Hajais piedade dellas. </div>
+<br />
+<span class="pagenum">[100]</span>
+<div class="poetry1">Por mais esforços que eu faça <br />
+Como hei de dar-lhe favor, <br />
+Se o seu triste bemfeitor <br />
+Vive na mesma desgraça? <br />
+<br />
+Da miseria as tirareis, <br />
+Se eu da miseria sahir: <br />
+Sobre muitos vai cahir <br />
+O favor que me fazeis. <br />
+<br />
+Vós, ó Augusta Princeza, <br />
+Em quem o Ceo quiz juntar <br />
+O melhor que pódem dar <br />
+A fortuna, a natureza, <br />
+<br />
+Tende dó de seu lamento; <br />
+E dai a mão favoravel <br />
+A hum sexo respeitavel, <br />
+De que vós sois ornamento. </div>
+<br />
+<span class="pagenum">[101]</span>
+<div class="poetry1">A petição que vos faço <br />
+Não he de facil indulto; <br />
+Para pouco, fora insulto <br />
+Valer-me do Vosso braço. <br />
+<br />
+Não he facil, mas he justa: <br />
+E será bem despachada, <br />
+Se huma vez apresentada <br />
+For por Vós á Irmã Augusta. <br />
+<br />
+Principes, tende piedade: <br />
+Ponde a meus queixumes pausa: <br />
+Protegei na minha causa <br />
+A causa da humanidade. <br />
+<br />
+O que de Tito se diz, <br />
+Hum Rei Vosso Avô dizia; <br />
+Chamava perdido o dia, <br />
+Se não fez alguem feliz. </div>
+<br />
+<span class="pagenum">[102]</span>
+<div class="poetry1">Motivo de tristes ais <br />
+Quaesquer mãos o pódem dar; <br />
+Más venturas emendar <br />
+Só pertence a mãos Reais. <br />
+<br />
+Dos homens, inda que ingratos, <br />
+Ouve Deos os rogos justos: <br />
+Vós, ó Principes Augustos, <br />
+Sois na terra os seus retratos. <br />
+<br />
+Mas já o tempo opportuno <br />
+Apressa as azas escassas, <br />
+E não devo ás mais desgraças <br />
+Ajuntar a de importuno. <br />
+<br />
+Acabe a triste escriptura, <br />
+Digna por tal de piedade: <br />
+Eu dei-lhe pranto, e verdade, <br />
+Vós podeis dar-lhe ventura. </div>
+<br />
+<br />
+<br />
+<br />
+<span class="pagenum"><a name="p103" id="p103">[103]</a></span>
+<div style="text-align: center;"><em>No dia dos Annos do Illustrissimo,
+e Excellentissimo <br />
+Senhor Conde de Villa Verde.</em>
+</div>
+<br />
+<br />
+<br />
+<div class="poetry1">
+Não venho dourar enganos; <br />
+A vida não he louvor; <br />
+Pois tambem vivem Tyrannos: <br />
+Eu venho, illustre Senhor <br />
+Louvar obras, e não annos. <br />
+<br />
+De homem commum não se exime <br />
+Quem não tem virtudes claras: <br />
+He pouco fugir do crime: <br />
+Consagrão-se as almas raras <br />
+A trabalho mais sublime; <br />
+<br />
+A trabalho heroico: e creio <br />
+Pelo provado aforismo, <br />
+Que em sãos Filosofos leio, <br />
+Que o verdadeiro heroismo <br />
+He fazer o bem alheio. </div>
+<br />
+<span class="pagenum">[104]</span>
+<div class="poetry1">Taes trabalhos honra dão <br />
+Á digna mão que os procura: <br />
+Não amo Heróes da ambição: <br />
+Buscão a sua ventura; <br />
+Vós buscais a da Nação. <br />
+<br />
+Serem por vós levantados <br />
+Os talentos esquecidos; <br />
+Do triste os ais desprezados <br />
+Serem aos Reaes Ouvidos <br />
+Pelas vossas mãos levados; <br />
+<br />
+De quem a vós se acolheo, <br />
+Remediar o queixume; <br />
+Ter como proprio o mal seu; <br />
+He este o vosso costume, <br />
+E o genio que o Ceo vos deo. <br />
+<br />
+E o Throno aos Povos propicio, <br />
+Que vigia em seu favor, <br />
+Fez-lhe o geral beneficio <br />
+De mandar, que em vós, Senhor,<br />
+O que he genio fosse Officio. </div>
+<br />
+<span class="pagenum">[105]</span>
+<div class="poetry1">Partio Officios pezados <br />
+Com quem os servisse bem: <br />
+São projectos acertados: <br />
+Quem do Throno o sangue tem, <br />
+Tenha tambem os cuidados. <br />
+<br />
+Dai aos gratos Lusitanos <br />
+Longo tempo Mão segura <br />
+Contra injustiças, e enganos; <br />
+E seja a sua ventura <br />
+O louvor dos vossos Annos. <br />
+<br />
+Mas, Senhor, moços Poetas <br />
+Vinguem meus esforços vãos: <br />
+Musas zombão de Jarretas: <br />
+Pedem-me as tremulas mãos, <br />
+Mais do que Lyra, muletas. <br />
+<br />
+Fogosos Vates emprehendão <br />
+Altos vôos neste dia: <br />
+Musas com Musas contendão: <br />
+Sáião Odes á porfia; <br />
+E queira Deos que se entendão. </div>
+<br />
+<br />
+<br />
+<br />
+<span class="pagenum"><a name="p106" id="p106">[106]</a></span>
+<h4>QUINTILHAS </h4>
+<br />
+<br />
+<div style="text-align: center;">
+<em>Em louvor de huma Senhora.</em>
+</div>
+<br />
+<br />
+<br />
+<div class="poetry1">
+Lyra minha, rouca lyra, <br />
+Hoje afinada consente, <br />
+Que a tremula mão te fira: <br />
+Cante huma só vez contente <br />
+Quem por costume suspira. <br />
+<br />
+Louvemos Anarda bella; <br />
+Eu vejo aos astros subir <br />
+Meus versos em honra della, <br />
+E possa quem os ouvir <br />
+Adora-la antes de vê-la. <br />
+<br />
+Já lédo as vozes desato: <br />
+Ouve, ó Nynfa, os teus louvores: <br />
+Não pertendo ser-te grato <br />
+Traçando com vivas cores <br />
+Teu angelico retrato. </div>
+<br />
+<span class="pagenum">[107]</span>
+<div class="poetry1">Permitte, Anarda piedosa, <br />
+Que se farte o meu desejo <br />
+N'outra empreza mais gloriosa; <br />
+Que o menor dom que em ti vejo, <br />
+He o dom de ser formosa. <br />
+<br />
+Rubra boca, os olhos bellos, <br />
+Que brandamente movidos, <br />
+São de Amor agudos zelos; <br />
+Sobre alvo collo esparzídos <br />
+Louros ondados cabellos; <br />
+<br />
+Braço airoso, a mão de neve; <br />
+Proporcionada cintura; <br />
+Eis a tua copia breve: <br />
+Porém vôa a formosura <br />
+Nas azas do tempo leve. <br />
+<br />
+Outros bens mais duradouros <br />
+Não são á tua alma esquivos, <br />
+Bens que nos annos vindouros <br />
+Valem mais que huns olhos vivos, <br />
+Que huns soltos cabellos louros. </div>
+<br />
+<span class="pagenum">[108]</span>
+<div class="poetry1">A destruir a belleza <br />
+A curva velhice corre: <br />
+Nada conserva firmeza; <br />
+Só a virtude não morre: <br />
+Vence as leis da Natureza. <br />
+<br />
+Tu, que prezas a verdade; <br />
+Que tratas falsos sujeitos <br />
+Só com a côr de amizade, <br />
+E para os sinceros peitos <br />
+Mostras ter sinceridade; <br />
+<br />
+Tu, que os enganos deslizas; <br />
+Que sabes vencer desgostos; <br />
+Que a lisonja ufana pizas; <br />
+Que não vês sómente os rostos; <br />
+Que até corações divizas; <br />
+<br />
+Tu, que da seria prudencia <br />
+Segues os dictames puros; <br />
+Que tens amado a innocencia, <br />
+E nos conselhos maduros <br />
+Mostras de idade experiencia; </div>
+<br />
+<span class="pagenum">[109]</span>
+<div class="poetry1">Teu nome eterno ha de ser <br />
+Estampado entre as estrellas; <br />
+Has de as mais Nynfas vencer, <br />
+Que sómente em serem bellas <br />
+Fundão todo o seu poder. <br />
+<br />
+Amão a fofa vaidade; <br />
+Dos homens a seu sabor <br />
+Prendem a solta vontade: <br />
+Trazem nos olhos amor, <br />
+No coração falsidade. <br />
+<br />
+Muitas fingem desprezar <br />
+Finezas de amante rude; <br />
+Fingem os sabios amar: <br />
+Não o fazem por virtude, <br />
+Querem talentos mostrar. <br />
+<br />
+De que serve huma alma pura, <br />
+Se os pezados membros cobre <br />
+Rota humilde vestidura? <br />
+Nada val hum peito nobre <br />
+N'huma grosseira figura. </div>
+<br />
+<span class="pagenum">[110]</span>
+<div class="poetry1">Corpo esbelto, onde ajustado <br />
+Brilha, cheio de ouro immenso, <br />
+Curto fraque afrancezado; <br />
+Cheiroso, candido lenço; <br />
+O cabello apolvilhado; <br />
+<br />
+Jocosas palavras ôcas; <br />
+Estes os dons relevantes, <br />
+Que deixão de vencer poucas <br />
+Das que fingem ser amantes, <br />
+E não passão de ser loucas. <br />
+<br />
+Tu tens outro entendimento: <br />
+És sempre igual: não te vales <br />
+Das côres do fingimento: <br />
+Quer séria, quer rindo falles, <br />
+Não fundas torres no vento. <br />
+<br />
+Rís da baixa adulação, <br />
+Mal que os teus ouvidos toca <br />
+A contrafeita expressão: <br />
+Conheces na falsa boca <br />
+O enganoso coração. </div>
+<br />
+<span class="pagenum">[111]</span>
+<div class="poetry1">Ver sobre molle tapete, <br />
+Curvando as pernas, e os braços, <br />
+Peralta de alto topete, <br />
+Com destros miudos passos, <br />
+Dançar Francez minuete; <br />
+<br />
+Vê-lo nutrindo esperanças <br />
+Entre agradaveis parceiras, <br />
+Fazer rapidas mudanças, <br />
+Torcendo as mãos nas ligeiras <br />
+Buliçosas contradanças; <br />
+<br />
+Fervente rebeca ouvir, <br />
+Que infunde vivos prazeres, <br />
+Jámais te faz distrahir; <br />
+Pois antes dos Sabios queres <br />
+Sabios conceitos ouvir. <br />
+<br />
+Só te vejo attenta em quanto <br />
+Ouves palavras discretas; <br />
+As Musas estimas tanto, <br />
+Que até dos tristes Poetas <br />
+Te commove o triste pranto. </div>
+<br />
+<span class="pagenum">[112]</span>
+<div class="poetry1">Conheces seu duro mal; <br />
+Que sempre tributão fé <br />
+A coração desleal: <br />
+Que por isso em todos he <br />
+A tristeza natural. <br />
+<br />
+Que ás Nynfas endurecidas <br />
+Lhes não causão terno effeito; <br />
+Que triunfão das fingidas, <br />
+Guardando dentro do peito <br />
+Inda frescas as feridas. <br />
+<br />
+Porém já que ouzei fallar <br />
+De Amor nas sanguineas reixas, <br />
+Vou a lyra pendurar: <br />
+Não quero com minhas queixas <br />
+Teus louvores misturar. <br />
+<br />
+Tu dirás que não tens parte <br />
+No meu mal cruento, e fero; <br />
+Que vou tristezas lembrar-te; <br />
+Dirás que affligir-te quero, <br />
+Quando desejo louvar-te. </div>
+<br />
+<span class="pagenum">[113]</span>
+<div class="poetry1">Não te deves admirar: <br />
+Sei que em vão me estou queixando; <br />
+Mas quem sente o seu pezar, <br />
+Se principia cantando, <br />
+Sempre acaba a suspirar. </div>
+<br />
+<br />
+<br />
+<br />
+<span class="pagenum"><a name="p114" id="p114">[114]</a></span>
+<h4>QUIXOTADA.</h4>
+<br />
+<br />
+<br />
+<div class="poetry1">
+Espicaça esse animal, <br />
+Companheiro Sancho Pança, <br />
+Entremos em Portugal, <br />
+E vamos molhar a lança <br />
+A pró do triste Pombal. <br />
+<br />
+Poetas principiantes, <br />
+Já estou em circo raso: <br />
+Tambem Apollo he Cervantes, <br />
+Tambem cria no Parnaso <br />
+Seus cavalleiros andantes. <br />
+<br />
+Não vos chamo, ó sujo rancho, <br />
+Que até os versos errais; <br />
+Em tal sangue as mãos não mancho: <br />
+Para vós, e outros que taes <br />
+Sobeja a espada do Sancho. </div>
+<br />
+<span class="pagenum">[115]</span>
+<div class="poetry1">Sobre vós carrego a mão, <br />
+Sobre vós, ó folhas velhas, <br />
+Que dais n'hum homem no chão, <br />
+Sem vos lembrar, que entre ovelhas <br />
+He fraqueza ser leão. <br />
+<br />
+Essa boca enganadora, <br />
+Que he hoje da maldição, <br />
+Mil vezes se poz outra hora <br />
+Sobre a praguejada mão, <br />
+E lhe chamou bemfeitora. <br />
+<br />
+Pois já que vós sois assim, <br />
+Povo revoltoso, e ingrato, <br />
+Hoje castigar-vos vim: <br />
+Ireis pelo pó do gato, <br />
+Nem esp'reis quartel em mim. <br />
+<br />
+Santo Téjo, o curso enfreia, <br />
+E montando rochas duras <br />
+Torna atraz a clara veia: <br />
+Conta novas aventuras <br />
+Á formosa Dulcineia. </div>
+<br />
+<span class="pagenum">[116]</span>
+<div class="poetry1">Nova guerra o mundo veja, <br />
+Guerra em que pouco se arrisca: <br />
+Serão armas na peleja, <br />
+Provado fuzil, e isca, <br />
+Secca, espinhosa carqueja. <br />
+<br />
+Irmão Sancho, põe-te a pé, <br />
+Põe essas Rimas a prumo, <br />
+Principio á obra se dê, <br />
+Tolde o ar o negro fumo <br />
+Deste novo Auto da Fé. <br />
+<br />
+Queima essas Satyras frias, <br />
+Faltas de sizo, e conselho: <br />
+Queima prosas, e poesias: <br />
+Acabe o cansado velho <br />
+Em paz os seus tristes dias. <br />
+<br />
+Porém poupa sempre alguma <br />
+Das raras que tem sabor: <br />
+Das outras nem deixes huma, <br />
+Dessas que tudo he rancor, <br />
+E poesia nenhuma. </div>
+<br />
+<span class="pagenum">[117]</span>
+<div class="poetry1">Em tanto as armas pendura: <br />
+Mas se houver desassizados, <br />
+Que queirão guerra mais dura, <br />
+Da minha lança cortados <br />
+Descerão á sepultura. <br />
+<br />
+Já nuvens de fumo vejo: <br />
+Já chamma brilhante o arreda: <br />
+Já se farta o meu desejo; <br />
+Já da viva lavareda <br />
+Dá o clarão sobre o Tejo. <br />
+<br />
+Essas cinzas denegridas, <br />
+Que ao velho poupão mil magoas, <br />
+Leve-as o Téjo envolvidas, <br />
+Fiquem no fundo das aguas <br />
+Para sempre submergidas. <br />
+<br />
+Vês, Sancho, do nome meu <br />
+Como vôa a clara fama? <br />
+Nem viva alma appareceo <br />
+A apagar a voraz chamma, <br />
+Ninguem, ninguem se atreveo! </div>
+<br />
+<span class="pagenum">[118]</span>
+<div class="poetry1">Vês como ajuda o destino. <br />
+A hum bom cavalleiro andante? <br />
+Não precizei de aço fino, <br />
+Nem de pés de Rocinante, <br />
+Nem de elmo de Mambrino. <br />
+<br />
+Ó tu que alçaste a viseira <br />
+Forcejando os nervos velhos, <br />
+E para ver a fogueira <br />
+Limpaste os olhos vermelhos <br />
+Na felpuda cabelleira: <br />
+<br />
+Abaixa a proa huma vez, <br />
+Chega a Dulcinea bella, <br />
+E dize posto a seus pés: <br />
+«Formosissima Donzella, <br />
+Eu sou hum triste Marquez, <br />
+<br />
+«Que fugindo a hum povo inteiro, <br />
+A quem mettêra em furor <br />
+Minha privança, e dinheiro, <br />
+Vim achar mantenedor <br />
+Em teu nobre cavalleiro. </div>
+<br />
+<span class="pagenum">[119]</span>
+<div class="poetry1">«Disse este povo malvado, <br />
+Que eu tinha o reino extorquido; <br />
+Que era gatuno afamado, <br />
+E que em jogos de partido <br />
+Tinha com todos levado; <br />
+<br />
+«Que no Tabaco levava <br />
+Hum quinhão avantajado; <br />
+Que o Sabão não me escapava; <br />
+E que sem ser Deputado <br />
+Nas Companhias entrava. <br />
+<br />
+«Das minhas Leis murmuravão: <br />
+E os seus pequenos juizos <br />
+Tão pouco o ponto tocavão, <br />
+Que sempre me erão precisos <br />
+Assentos que as declaravão. <br />
+<br />
+«Té na lingoa sem motivo <br />
+Dérão criticos revezes: <br />
+Fiz nella estudo excessivo, <br />
+Bebi nos bons Portuguezes <br />
+<em>Monopolio</em>, e
+<em>respectivo</em>. </div>
+<br />
+<span class="pagenum">[120]</span>
+<div class="poetry1">«Disse mais o povo insano, <br />
+Que perdi de Roma o trilho; <br />
+Que fui Sultão soberano; <br />
+Que andei cazando meu filho <br />
+Segundo o rito Othomano. <br />
+<br />
+«Mas toda a maldade he sua: <br />
+Vêm riquezas, e palacio, <br />
+Comem-se de inveja crua: <br />
+São huns novos cães de Horacio <br />
+Ladrando debalde á lua. <br />
+<br />
+«Já se me dá pouco, ou nada <br />
+Da sua guerra pequena: <br />
+Tenho gente em campo armada, <br />
+Tenho Mendoça co'a penna, <br />
+E Dom Quixote co'a espada.» <br />
+<br />
+Esta falla, ou outra igual <br />
+Acabada, meu Marquez, <br />
+Faze rev'rencia formal, <br />
+E arrastra os gotozos pés <br />
+Para a villa do Pombal. </div>
+<br />
+<span class="pagenum">[121]</span>
+<div class="poetry1">Nella vive descansado, <br />
+Porque as aguas vão serenas; <br />
+Sempre Ministro de Estado, <br />
+Mandando cousas pequenas <br />
+No teu Lopes encostado. <br />
+<br />
+Junto á Estatua vil canalha <br />
+Desprende as lingoas tyrannas: <br />
+E se esta rude gentalha <br />
+Arrancar com mãos profanas <br />
+A carrancuda medalha: <br />
+<br />
+Armas em ouro gravadas <br />
+Ser-te-hão por mim erigidas, <br />
+E por ti mesmo traçadas, <br />
+Em sangue humano tingidas, <br />
+E com mil leis penduradas. </div>
+<br />
+<br />
+<br />
+<br />
+<span class="pagenum"><a name="p122" id="p122">[122]</a></span>
+<h4>ODE</h4>
+<br />
+<br />
+<div style="text-align: center;">
+<em>Offerecida a SS. MAGESTADES, no dia <br />
+da Acclamação da Rainha N.
+Senhora.</em>
+</div>
+<br />
+<br />
+<br />
+A vida escura em que a natureza, e a fortuna me lançárão tão
+longe dos Reaes pés de VV. MAGESTADES; o medo justo de mandar huma voz
+fraca, e desconhecida aos ouvidos de Reis, prenderião hoje a minha
+lingoa temerosa, se o amor da Patria, e o gosto de a ver feliz,
+dando-me novo espirito, me não puzessem na boca esta lingoagem, de huma
+alma singela, estes versos sem arte dictados pelo amor respeitoso, e
+que em lugar de enganosa, e enfeitada poesia, descobrem unicamente os
+sentimentos de hum coração fiel, onde VV. MAGESTADES reinão
+Soberanamente. <br />
+<br />
+Neste Throno, a que poucos Monarcas
+<span class="pagenum">[123]</span>
+sobem, tem a Nação Portugueza collocado a VV. MAGESTADES por aquelle
+talento de agradar, dom do Ceo, precioso, e raro na Sagrada Pessoa dos
+Reis, que querem (como VV. MAGESTADES conseguírão) ser acclamados pela
+alegria publica, e pela torrente de lagrimas, com que hum povo inteiro,
+transportado de gosto, levantava ás estrellas os Augustos Nomes de seus
+novos Reis. Eu vi, Senhores, este grande espectaculo; foi huma scena de
+ternura, que arrancaria lagrimas ainda a hum coração que não fosse
+Portuguez. Vi soldados velhos, que endurecidos ao frio, e á calma,
+queimados com o fogo da polvora, annunciavão hum coração de ferro,
+banharem pela primeira vez de lagrimas ternissimas aquelles honrados
+rostos, aquellas cerradas feridas, que recebêrão pela Patria, e que
+tornarião a abrir com gosto, se o felicissimo Reinado de VV. MAGESTADES
+não estivesse destinado á paz, e á felicidade dos seus povos; era
+preciso ser insensivel para que no meio de hum povo entregue á doce, e
+tumultuosa desordem,
+<span class="pagenum">[124]</span>
+que cansa a alegria excessiva, se conservasse a minha alma na sua
+situação ordinaria; prendeo nella huma faisca do fogo sublime, que eu
+vi atear nos corações
+Portuguezes: a alta idéa das Virtudes de VV. MAGESTADES, a multidão de
+beneficios com que vemos dourados os dias do seu faustissimo Reinado,
+huma longa serie de felicidades aberta no futuro diante dos meus olhos,
+me levarião a través do povo, e das armas ao Throno dos Reis, onde á
+face do Ceo, e dos homens me desentranhasse em gritos de alegria, e
+mostrasse nesta especie de delirio, que o coração de VV. MAGESTADES não
+trabalha para ingratos; mas o profundo, e sagrado respeito, que pôde
+suffocar em mim este impeto de ternura, não pôde fazer callar-me;
+levado da invencivel força do amor, e do reconhecimento, me atrevo a
+pôr na Real presença de VV. MAGESTADES grandes cousas em máos versos;
+ponho a simples verdade, ponho os votos da Nação, e algumas das muitas
+acções de piedade com que VV. MAGESTADES tem mandado contentes os
+<span class="pagenum">[125]</span>
+que levão por valia a razão, ou as
+desgraças. Se VV. MAGESTADES do alto do Throno se dignarem lançar os
+olhos sobre estes humildes versos, reconheceráõ nelles não o Estro que
+faz Poetas, mas o que faz vassallos amantes de seus Soberanos. Estro
+sublime, e que deve tocar mais no coração dos Monarcas, do que o das
+Odes famosas de Pindaro, e de Horacio, cheias da mais bella poesia; mas
+filhas da arte, e da lisonja, e onde não fuzila aquella luz de verdade,
+que dará logo nos Reaes olhos de VV. MAGESTADES, se eu tiver a
+incomparavel honra de que este papel seja apresentado diante do
+Augusto, e Respeitavel Throno dos Pais da Patria, dos Amigos, dos
+Bemfeitores, dos Reis adorados da felicissima, e sempre fiel Nação
+Portugueza. <br />
+<br />
+<br />
+<br />
+<br />
+<span class="pagenum">[126]</span>
+<h4>ODE.</h4>
+<br />
+<br />
+<br />
+<div class="poetry1">Das virtudes guiados </div>
+<div class="poetry">Subí ao alto Throno, oh Reis Augustos; </div>
+<div class="poetry1">Nem sempre esquivos fados </div>
+<div class="poetry">Se nos hão de mostrar surdos, e injustos: </div>
+<div class="poetry1">Abrem vasto thesouro, </div>
+<div class="poetry">E nos mandão por Vós a Idade de Ouro. </div>
+<br />
+<div class="poetry1">Do Rei aos Ceos erguido</div>
+<div class="poetry">O Reino, e o coração tendes herdado,</div>
+<div class="poetry1">Benigno, enternecido,</div>
+<div class="poetry">De mil virtudes solidas dotado;</div>
+<div class="poetry1">Por genio piedoso,</div>
+<div class="poetry">E digno em fim de tempo mais ditoso.</div>
+<br />
+<span class="pagenum">[127]</span>
+<div class="poetry1">Da Eterna Providencia </div>
+<div class="poetry">Os beneficos raios fuzilárão; </div>
+<div class="poetry1">Já se estima a innocencia, </div>
+<div class="poetry">Já os tempos de Ferro se abrandárão, </div>
+<div class="poetry1">Já vem o ar talhando </div>
+<div class="poetry">A Piedade, e a Justiça os braços dando. </div>
+<br />
+<div class="poetry1">Com subita alegria </div>
+<div class="poetry">Tornai a ver os conhecidos lares, </div>
+<div class="poetry1">Tornai a ver o dia, </div>
+<div class="poetry">Vós que habitastes horridos lugares, </div>
+<div class="poetry1">Lugares deshumanos </div>
+<div class="poetry">Onde passastes dez, e outros dez annos. </div>
+<br />
+<div class="poetry1">Do chão desentranhados </div>
+<div class="poetry">Vinde jurar os novos Reis felizes: </div>
+<div class="poetry1">Nos pulsos descarnados </div>
+<div class="poetry">Mostrai ao Povo as roxas cicatrizes, </div>
+<div class="poetry1">E os grilhões inda quentes </div>
+<div class="poetry">Na praça triunfal deixai pendentes. </div>
+<br />
+<span class="pagenum">[128]</span>
+<div class="poetry1">Que lagrimas levaste,</div>
+<div class="poetry">Patrio Téjo, na tua escura veia </div>
+<div class="poetry1">Quando turvo passaste!</div>
+<div class="poetry">E as ondas, que quebravas sobre a areia,</div>
+<div class="poetry1">Que cinzas que
+regárão!</div>
+<div class="poetry">Que triste sangue para o mar levárão!</div>
+<br />
+<div class="poetry1">Mas torna, oh manso Téjo,</div>
+<div class="poetry">Torna a volver corrente prateada:</div>
+<div class="poetry1">Já taes males não
+vejo:</div>
+<div class="poetry">E até já foge a nuvem carregada,</div>
+<div class="poetry1">Que á triste Lusa terra</div>
+<div class="poetry">Promettia fatal, e pronta guerra.</div>
+<br />
+<div class="poetry1">De pelouro violento</div>
+<div class="poetry">Não vê cahir o exangue companheiro;</div>
+<div class="poetry1">E dorme ao som do vento</div>
+<div class="poetry">Em campo aberto o molle pegureiro;</div>
+<div class="poetry1">O lavrador cantando</div>
+<div class="poetry">Em paz herdados campos vai cortando.</div>
+<br />
+<span class="pagenum">[129]</span>
+<div class="poetry1">Da sorte das batalhas</div>
+<div class="poetry">Livrai, Piedosos Reis, os Portuguezes;</div>
+<div class="poetry1">Pendurem duras malhas,</div>
+<div class="poetry">E os temperados lucidos arnezes</div>
+<div class="poetry1">Os ardidos soldados</div>
+<div class="poetry">Das lagrimosas Mãis em vão chamados.</div>
+<br />
+<div class="poetry1">Que dias florecentes</div>
+<div class="poetry">Ao vosso fiel povo preparastes!</div>
+<div class="poetry1">Quando com mãos prudentes</div>
+<div class="poetry">O pezo dos negocios espalhastes</div>
+<div class="poetry1">Sobre os hombros robustos</div>
+<div class="poetry">De Ministros inteiros, sabios, justos.</div>
+<br />
+<div class="poetry1">Gemêo maniatado</div>
+<div class="poetry">Longo tempo o infeliz merecimento;</div>
+<div class="poetry1">Mas já, o collo
+alçado,</div>
+<div class="poetry">Sacode o negro pó do esquecimento,</div>
+<div class="poetry1">E a virtude innocente</div>
+<div class="poetry">De illustres palmas lhe coroa a frente.</div>
+<br />
+<span class="pagenum">[130]</span>
+<div class="poetry1">Já vingadas
+seráõ</div>
+<div class="poetry">Do vil tutor as timidas donzellas;</div>
+<div class="poetry1">Já não erguem em
+vão</div>
+<div class="poetry">As mãos, e os tristes olhos ás estrellas;</div>
+<div class="poetry1">Nua de falsidade</div>
+<div class="poetry">Aos ouvidos dos Reis chega a verdade.</div>
+<br />
+<div class="poetry1">Mil louvores lhe cantão,</div>
+<div class="poetry">O limpo coração pondo no rosto:</div>
+<div class="poetry1">E n'alma lhe levantão</div>
+<div class="poetry">Novo Throno, sobre ella melhor posto,</div>
+<div class="poetry1">Que entre espessas falanges,</div>
+<div class="poetry">Que sobre ouro, ou perolas do Ganges.</div>
+<br />
+<div class="poetry1">Novos Reis
+Soberanos,</div>
+<div class="poetry">Que hoje as rédeas tomais do Reino vosso,</div>
+<div class="poetry1">Os Fastos Lusitanos</div>
+<div class="poetry">Dirão de Vós o que eu dizer não posso:
+</div>
+<div class="poetry1">Vossa Augusta Memoria</div>
+<div class="poetry">Abrirá largo campo á longa Historia.</div>
+<br />
+<span class="pagenum">[131]</span>
+<div class="poetry1">Sem trabalho podeis </div>
+<div class="poetry">Fazer feliz a gente Portugueza, </div>
+<div class="poetry1">Seguindo as santas leis, </div>
+<div class="poetry">Que n'alma vos gravou a Natureza, </div>
+<div class="poetry1">A rara humanidade </div>
+<div class="poetry">A incorrupta Justiça, a sã Verdade. </div>
+<br />
+<br />
+<br />
+<br />
+<span class="pagenum"><a name="p132" id="p132">[132]</a></span>
+<div style="text-align: center;"><em>No dia dos Annos do Illustrissimo,
+e Excellentissimo <br />
+Senhor Marquez de Angeja.</em> </div>
+<br />
+<h4>ODE</h4>
+<br />
+<br />
+<br />
+<div class="poetry">A rouca Lyra, Musa, temperemos,</div>
+<div class="poetry1">Cordas de ouro lhe ponho:</div>
+<div class="poetry">O triste Boticario em paz deixemos,</div>
+<div class="poetry1">E o Gamaõ enfadonho;</div>
+<div class="poetry">Inspira-me huma vez sonoros hinos, <br />
+Que Apollo julgue deste dia dinos. <br />
+<br />
+Ensina-me a louvar do Illustre Angeja</div>
+<div class="poetry1">Talentos sup'riores;</div>
+<div class="poetry">Que soffreo os assaltos d'alta inveja,</div>
+<div class="poetry1">Como soffre os louvores;</div>
+<div class="poetry">Cuja alma não conhece vís mudanças, <br />
+Ou corrão tempestades, ou bonanças.</div>
+<br />
+<span class="pagenum">[133]</span>
+<div class="poetry">Sem temor estalar o raio ouvia,</div>
+<div class="poetry1">Que ao perto fuzilava;</div>
+<div class="poetry">O recto coração tendo por guia,</div>
+<div class="poetry1">Seguro caminhava;</div>
+<div class="poetry">Em vão medonha tempestade freme, <br />
+Seu grande coração só crimes teme. <br />
+<br />
+Ao pé do Throno Augusto em fim chamado</div>
+<div class="poetry1">Venceo a crua inveja;</div>
+<div class="poetry">Quem no Conselho o poz dos Reis ao lado</div>
+<div class="poetry1">Não foi sangue de Angeja,</div>
+<div class="poetry">Não foi de Hespanha antigo Filhamento, <br />
+Foi sã justiça, foi merecimento. <br />
+<br />
+Não revolvo a Real Genealogia</div>
+<div class="poetry1">De Henrique, e de Fernando;</div>
+<div class="poetry">Os sãos louvores deste grande dia</div>
+<div class="poetry1">De ti mesmo tirando,</div>
+<div class="poetry">Só louvarei com paternaes façanhas <br />
+Quem seu nome dever a mãos estranhas. </div>
+<br />
+<span class="pagenum">[134]</span>
+<div class="poetry">Vias correr teus dias socegados</div>
+<div class="poetry1">Nutrindo esse alto esp'rito</div>
+<div class="poetry">No que ficou dos seculos dourados</div>
+<div class="poetry1">Em prosa, ou verso escrito;</div>
+<div class="poetry">Recolhendo na próvida memoria <br />
+De estranhos Reis, e de teus Reis a historia. <br />
+<br />
+Outras vezes rasgando á vasta terra</div>
+<div class="poetry1">Seu peito cavernoso,</div>
+<div class="poetry">Ou descobrindo quanto o mar encerra</div>
+<div class="poetry1">De raro, e precioso,</div>
+<div class="poetry">Profundavas com seria madureza <br />
+Os segredos da occulta natureza. <br />
+<br />
+De tão doces estudos arrancado</div>
+<div class="poetry1">Por mais altos destinos,</div>
+<div class="poetry">Da Lusa gente, e de seus Reis chamado</div>
+<div class="poetry1">A empregos de ti dinos,</div>
+<div class="poetry">Sacrificas aos novos Soberanos <br />
+De maduro saber teus cheios annos.</div>
+<br />
+<span class="pagenum">[135]</span>
+<div class="poetry">Permitta o Ceo que em taes trabalhos vivas</div>
+<div class="poetry1">Claro nome estendendo;</div>
+<div class="poetry">E que as douradas horas fugitivas,</div>
+<div class="poetry1">As azas encolhendo,</div>
+<div class="poetry">Fação que o tempo demorando o passo <br />
+Sinta a fouce cahir do frouxo braço. <br />
+<br />
+Que cem vezes raiando este bom dia</div>
+<div class="poetry1">O Oriente esclareça;</div>
+<div class="poetry">Que imperturbavel solida alegria</div>
+<div class="poetry1">Com elle te amanheça;</div>
+<div class="poetry">Que em naturaes ternissimos affetos <br />
+A mão te beijem Netos de teus Netos. <br />
+<br />
+Mas deixa, ó Musa, a frouxa poesia</div>
+<div class="poetry1">Para assumptos menores;</div>
+<div class="poetry">Não profanem de Angeja a gloria, e o dia</div>
+<div class="poetry1">Importunos louvores;</div>
+<div class="poetry">Pois inda que soubesses dirigi-los, <br />
+Quer merece-los; mas não quer ouvi-los.</div>
+<br />
+<span class="pagenum">[136]</span>
+<div class="poetry">Engana-te o dezejo, que te inspira,</div>
+<div class="poetry1">Reconhece o teu erro;</div>
+<div class="poetry">Se vês, que só ajustão nesta lyra</div>
+<div class="poetry1">Negras cordas de ferro,</div>
+<div class="poetry">Não torças, não, teu misero fadario: <br />
+Torna ao Gamão, e ao triste Boticario. </div>
+<br />
+<br />
+<br />
+<br />
+<span class="pagenum"><a name="p137" id="p137">[137]</a></span>
+<h4>ODE</h4>
+<br />
+<br />
+<div style="text-align: center;">
+<em>Ao Senhor D. Domingos de Assís
+Mascarenhas.</em></div>
+<br />
+<br />
+<br />
+<div class="poetry1">Clio huma setta tira</div>
+<div class="poetry">Da aljava de ouro, que pelo ar vazio</div>
+<div class="poetry1">Longe correndo fira</div>
+<div class="poetry">Junto ao Mondego saudoso rio: <br />
+Alli em torno ás suas margens vôe, <br />
+E por feliz tres vezes o apregôe.</div>
+<br />
+<div class="poetry1">As claras aguas regão</div>
+<div class="poetry">Plantas bellas, fecundas, generosas:</div>
+<div class="poetry1">Com desvelo se empregão</div>
+<div class="poetry">Em cultiva-las mãos industriosas: <br />
+Quão doces fructos, quão cheirosas flores <br />
+De taes aguas, taes plantas, taes cultores: </div>
+<br />
+<span class="pagenum">[138]</span>
+<div class="poetry1">Ergue, illustre Mondego, </div>
+<div class="poetry">Ergue tua cabeça sobre as agoas: </div>
+<div class="poetry1">Assás no fundo
+pégo </div>
+<div class="poetry">Choraste hum tempo tuas tristes magoas. <br />
+Olha teus campos como esmalta agora <br />
+Em formosa união Pomona, e Flora. </div>
+<br />
+<div class="poetry1">Ó seio de candura, </div>
+<div class="poetry">Mascarenhas, Tu és o alvo, a méta, </div>
+<div class="poetry1">Que anciosa procura </div>
+<div class="poetry">Da minha Clio a empennada setta. <br />
+Tu na alma paz, na sanguinosa guerra <br />
+Pódes ornar a tua, e alheia terra. </div>
+<br />
+<div class="poetry1">Mas boa sorte mude </div>
+<div class="poetry">Meu dito, e a outra parte te não chame </div>
+<div class="poetry1">E onde tanta virtude </div>
+<div class="poetry">Tem a raiz, os fructos seus derrame; <br />
+Nem menos tempo o Sol illustre, e aquente <br />
+A quem o vio desde o seu claro oriente. </div>
+<br />
+<span class="pagenum">[139]</span>
+<div class="poetry1">Porém, se he ordenado</div>
+<div class="poetry">Da Providencia sabia, santa, eterna,</div>
+<div class="poetry1">Christão peito humilhado</div>
+<div class="poetry">Adora o Summo Ser que assim governa: <br />
+Antes se goza, e dentro n'alma estima <br />
+Que Astro tão bello alegre mais d'hum clima.</div>
+<br />
+<div class="poetry1">Entre tanto diffunde</div>
+<div class="poetry">Na Patria tua luz copiosa, e clara;</div>
+<div class="poetry1">Que, se logo confunde</div>
+<div class="poetry">Os fracos olhos, depois guia, e aclara. <br />
+Arda ante incertos pés (e gritem vicios) <br />
+Alta tocha, que mostre os precipicios.</div>
+<br />
+<div class="poetry1">Constancia! que guardado</div>
+<div class="poetry">Está o galardão a teus suores,</div>
+<div class="poetry1">Onde em cume estrellado</div>
+<div class="poetry">Vibra o Templo da Gloria resplandores. <br />
+Dalli olhos não tires; que ao trabalho <br />
+He doce viração, he fresco orvalho. </div>
+<br />
+<span class="pagenum">[140]</span>
+<div class="poetry1">Tu, e esse Coro illustre</div>
+<div class="poetry">De mancebos Heróes, que se obrigárão</div>
+<div class="poetry1">A dar ao mundo lustre,</div>
+<div class="poetry">Quando o alto sangue dos Avós
+herdárão; <br />
+Concebei novo fogo, e novo brio <br />
+Ouvindo onde vos chama a minha Clio.</div>
+<br />
+<div class="poetry1">Oh, se alguem me puzesse</div>
+<div class="poetry">Nas margens do Mondego claro, e frio:</div>
+<div class="poetry1">Certo me não vencesse</div>
+<div class="poetry">Cysne de Dirce sobre o patrio rio. <br />
+Alli tão docemente vos cantára, <br />
+Que a ouvir-me feras, montes abalára.</div>
+<br />
+<div class="poetry1">Mas engenho ir recusa</div>
+<div class="poetry">Onde ir Amor, e Gratidão me incita:</div>
+<div class="poetry1">Nescia, se o esperas, Musa!</div>
+<div class="poetry">Não corre lasso pé 'strada infinita. <br />
+Almas illustres, havereis sómente <br />
+O dom sincero de hum dezejo ardente.</div>
+<br />
+<span class="pagenum">[141]</span>
+<div class="poetry1">Só mal sonora rima,</div>
+<div class="poetry">Que sem veia forjou saudade, e zelo,</div>
+<div class="poetry1">Leráõ o amavel
+Lima,</div>
+<div class="poetry">O sabio Castro, e o profundo Mello, <br />
+Pedras, que tu mal soffres, ó Lisboa, <br />
+Faltarem tanto tempo á tua c'roa. </div>
+<br />
+<br />
+<br />
+<br />
+<span class="pagenum"><a name="p142" id="p142">[142]</a></span>
+<div style="text-align: center;"><em>Em louvor da Saude.</em></div>
+<br />
+<h4>ODE. </h4>
+<br />
+<br />
+<br />
+<div class="poetry">Não procura palacios sumptuozos </div>
+<div class="poetry1">A brilhante Saude; </div>
+<div class="poetry">O seu rosto agradavel, e rizonho, </div>
+<div class="poetry1">Até aos Reis se esconde:</div>
+<div class="poetry">Ella faz com que seja venturozo </div>
+<div class="poetry1">O roto Peregrino,</div>
+<div class="poetry">Se entre a negra gadelha, lhe apparece </div>
+<div class="poetry1">Hum semblante sádio.</div>
+<div class="poetry">O Captivo Remeiro fatigado, </div>
+<div class="poetry1">Do ardente Sol não fuja: </div>
+<div class="poetry">Em ferros envolvido o duro corpo, </div>
+<div class="poetry1">Trabalhe o dia inteiro: </div>
+<div class="poetry">O queimado semblante ande banhando </div>
+<div class="poetry1">De violento suor:</div>
+<div class="poetry">Apressado mastigue, e poucas vezes,</div>
+<div class="poetry1">O corrupto biscoito:</div>
+<span class="pagenum">[143]</span>
+<div class="poetry">Mas tenha o rosto alegre, e socegado</div>
+<div class="poetry1">Entre as duras prizões,</div>
+<div class="poetry">Se á pallida doença não tem visto</div>
+<div class="poetry1">O macilento aspeito;</div>
+<div class="poetry">Se com braço membrudo, e vigorozo</div>
+<div class="poetry1">Força o remo pezado.</div>
+<div class="poetry">Inda sinto inflammar-me em teus louvores,</div>
+<div class="poetry1">Oh Saude aprazivel!</div>
+<div class="poetry">Tu és Filha do Ceo, Mãi da alegria,</div>
+<div class="poetry1">Dom de Deus Piedoso.</div>
+<div class="poetry">Se os miseros mortaes expõem a vida</div>
+<div class="poetry1">Por danozas riquezas;</div>
+<div class="poetry">Por ellas que farião, se servissem</div>
+<div class="poetry1">De te fazer propicia?</div>
+<div class="poetry">Filha do Ceo benigno, se te déras</div>
+<div class="poetry1">Por ouro, ou fina prata,</div>
+<div class="poetry">Eu não temêra as tempestuosas ondas</div>
+<div class="poetry1">Do fervido oceano:</div>
+<div class="poetry">Nos occultos sertões iria entrando</div>
+<div class="poetry1">Co'a mesma côr no rosto;</div>
+<div class="poetry">Não me assustára o dente venenozo</div>
+<div class="poetry1">Da enroscada serpente;</div>
+<div class="poetry">Do fertil oriente nos outeiros</div>
+<div class="poetry1">Cavaria anciozo,</div>
+<span class="pagenum">[144]</span>
+<div class="poetry">Por ver se das entranhas te trazia</div>
+<div class="poetry1">Abundantes thesouros.</div>
+<div class="poetry">Mas a bella Saude, he dom celeste;</div>
+<div class="poetry1">Com ouro não se compra:</div>
+<div class="poetry">Ella foge dos impios, que se assentão</div>
+<div class="poetry1">A saborozas mezas;</div>
+<div class="poetry">Que adormecem em leitos guarnecidos</div>
+<div class="poetry1">De preciosas sedas;</div>
+<div class="poetry">E vai guardar, com próvido cuidado, </div>
+<div class="poetry1">O simples Pescador,</div>
+<div class="poetry">Que sobre ásperas rochas, sem abrigo </div>
+<div class="poetry1">Aos rigorozos tempos,</div>
+<div class="poetry">Vai nutrindo no corpo mal vestido</div>
+<div class="poetry1">Hum coração
+sincero;</div>
+<div class="poetry">Que humilde sabe erguer ao Ceo piedozo</div>
+<div class="poetry1">As innocentes mãos. </div>
+<br />
+<h4>FIM. </h4>
+<br />
+<br />
+<br />
+<h3>INDICE. </h3>
+<br />
+<h4>SONETOS. </h4>
+<br />
+<table style="text-align: left; margin-left: 5%; width: 90%;" border="0" cellpadding="2" cellspacing="2">
+ <tbody>
+ <tr>
+ <td style="vertical-align: top; width: 80%; text-align: justify;"><em>A
+Sua
+Alteza</em></td>
+ <td style="vertical-align: top;"><br />
+ </td>
+ <td style="vertical-align: top; text-align: right; width: 15%;">Pag.
+ <a href="#p3">3</a>. <a href="#p4">4</a>. <a href="#p31">31</a>.</td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td style="vertical-align: top; text-align: justify;"><em>Sahindo
+Conselheiro da
+Fazenda o Illustrissimo, e Excellentissimo Senhor D. Diogo de
+Noronha</em></td>
+ <td style="vertical-align: top;"><br />
+ </td>
+ <td style="vertical-align: bottom; text-align: right;"><a href="#p5">5</a>.<br />
+ </td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td style="vertical-align: top; text-align: justify;"><em>Aos
+leques mui pequenos,
+chamados Marotinhos</em> </td>
+ <td style="vertical-align: top;"><br />
+ </td>
+ <td style="vertical-align: bottom; text-align: right;"><a href="#p6">6</a>.<br />
+ </td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td style="vertical-align: top; text-align: justify;"><em>O cruel
+Disfarce</em> </td>
+ <td style="vertical-align: top;"><br />
+ </td>
+ <td style="vertical-align: bottom; text-align: right;"><a href="#p7">7</a>.<br />
+ </td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td style="vertical-align: top; text-align: justify;"><em>Ao
+Illustrissimo, e
+Excellentissimo Senhor Visconde de Ponte de Lima, Secretario de
+Estado</em></td>
+ <td style="vertical-align: top;"><br />
+ </td>
+ <td style="vertical-align: bottom; text-align: right;"><a href="#p8">8</a>.<br />
+ </td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td style="vertical-align: top; text-align: justify;"><em>Fazendo
+annos a
+Illustrissima, e Excellentissima Senhora Marqueza de Angeja</em></td>
+ <td style="vertical-align: top;"><br />
+ </td>
+ <td style="text-align: right; vertical-align: bottom;"><a href="#p9">9</a>.<br />
+ </td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td style="vertical-align: top; text-align: justify;"><em>Aos
+Annos do Illustrissimo,
+e Excellentissimo Senhor Conde de
+Avintes</em></td>
+ <td style="vertical-align: top;"><br />
+ </td>
+ <td style="text-align: right; vertical-align: bottom;"><a href="#p10">10</a>.<br />
+ </td>
+ </tr>
+ </tbody>
+</table>
+<span class="pagenum">[146]</span>
+<table style="text-align: left; margin-left: 5%; width: 90%;" border="0" cellpadding="2" cellspacing="2">
+ <tbody>
+ <tr>
+ <td style="vertical-align: top; width: 80%; text-align: justify;">Estando
+nas
+Caldas <br />
+ </td>
+ <td style="vertical-align: top;"><br />
+ </td>
+ <td style="vertical-align: top; text-align: right; width: 15%;"><a href="#p11">11</a>.<br />
+ </td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td style="vertical-align: top; text-align: justify;">A
+huns
+Annos</td>
+ <td style="vertical-align: top;"><br />
+ </td>
+ <td style="vertical-align: bottom; text-align: right;"><a href="#p12">12</a>.<br />
+ </td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td style="vertical-align: top; text-align: justify;">Ao
+Disfarce das
+Mulheres</td>
+ <td style="vertical-align: top;"><br />
+ </td>
+ <td style="vertical-align: bottom; text-align: right;"><a href="#p13">13</a>.<br />
+ </td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td style="vertical-align: top; text-align: justify;"><em>A
+huma
+Camponeza</em></td>
+ <td style="vertical-align: top;"><br />
+ </td>
+ <td style="vertical-align: bottom; text-align: right;"><a href="#p14">14</a>.<br />
+ </td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td style="vertical-align: top; text-align: justify;">A
+huma Dama
+interesseira</td>
+ <td style="vertical-align: top;"><br />
+ </td>
+ <td style="vertical-align: bottom; text-align: right;"><a href="#p15">15</a>.<br />
+ </td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td style="vertical-align: top; text-align: justify;">Ao
+faustissimo dia da
+Inauguração da Estatua Equestre d'El-Rei Fidelissimo o Senhor D. José
+I.</td>
+ <td style="vertical-align: top;"><br />
+ </td>
+ <td style="text-align: right; vertical-align: bottom;"><a href="#p16">16</a>.<br />
+ </td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td style="vertical-align: top; text-align: justify;"><em>Descripção
+de
+Badajoz</em> </td>
+ <td style="vertical-align: top;"><br />
+ </td>
+ <td style="text-align: right; vertical-align: bottom;"><a href="#p17">17</a>.<br />
+ </td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td style="vertical-align: top; text-align: justify;"><em>Á
+Serenissima Princeza entrando no banho</em> </td>
+ <td style="vertical-align: top;"><br />
+ </td>
+ <td style="text-align: right; vertical-align: bottom;"><a href="#p18">18</a>.<br />
+ </td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td style="vertical-align: top; text-align: justify;"><em>Levantando-se
+o Author da meza de hum Grande por serem horas de ir para a
+Aula</em> </td>
+ <td style="vertical-align: top;"><br />
+ </td>
+ <td style="text-align: right; vertical-align: bottom;"><a href="#p19">19</a>.<br />
+ </td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td style="vertical-align: top; text-align: justify;"><em>Ao
+Illustrissimo, e Excellentissimo Senhor Marquez de Penalva, chegando o
+Author á Quinta das
+Lapas</em> </td>
+ <td style="vertical-align: top;"><br />
+ </td>
+ <td style="text-align: right; vertical-align: bottom;"><a href="#p20">20</a>.<br />
+ </td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td style="vertical-align: top; text-align: justify;"><em>Descripção
+de hum Peralta
+amaltezado</em> </td>
+ <td style="vertical-align: top;"><br />
+ </td>
+ <td style="text-align: right; vertical-align: bottom;"><a href="#p21">21</a>.<br />
+ </td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td style="vertical-align: top; text-align: justify;"><em>Aos
+Annos do Serenissimo Principe N. Senhor</em> </td>
+ <td style="vertical-align: top;"><br />
+ </td>
+ <td style="text-align: right; vertical-align: bottom;"><a href="#p22">22</a>.<br />
+ </td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td style="vertical-align: top; text-align: justify;"><em>A
+hum Leigo Arrabido
+vesgo</em> </td>
+ <td style="vertical-align: top;"><br />
+ </td>
+ <td style="text-align: right; vertical-align: bottom;"><a href="#p23">23</a>.<br />
+ </td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td style="vertical-align: top; text-align: justify;"><em>Aos
+Toucados
+altos</em> </td>
+ <td style="vertical-align: top;"><br />
+ </td>
+ <td style="text-align: right; vertical-align: bottom;"><a href="#p24">24</a>.<br />
+ </td>
+ </tr>
+ </tbody>
+</table>
+<span class="pagenum">[147]</span>
+<table style="text-align: left; margin-left: 5%; width: 90%;" border="0" cellpadding="2" cellspacing="2">
+ <tbody>
+ <tr>
+ <td style="vertical-align: top; width: 80%; text-align: justify;"><em>Mettendo
+a ridiculo humas
+Contradanças</em></td>
+ <td style="vertical-align: top;"><br />
+ </td>
+ <td style="vertical-align: top; text-align: right; width: 15%;"><a href="#p25">25</a>.<br />
+ </td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td style="vertical-align: top; text-align: justify;"><em>Por
+occasião de estranharem ao Author hum sonho que a ninguem
+offendia</em></td>
+ <td style="vertical-align: top;"><br />
+ </td>
+ <td style="vertical-align: bottom; text-align: right;"><a href="#p26">26</a>.<br />
+ </td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td style="vertical-align: top; text-align: justify;"><em>Á
+moda dos Chapéos maiores da
+marca</em></td>
+ <td style="vertical-align: top;"><br />
+ </td>
+ <td style="vertical-align: bottom; text-align: right;"><a href="#p27">27</a>.<br />
+ </td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td style="vertical-align: top; text-align: justify;"><em>Ás
+Fivelas chamadas</em>
+à la
+Chartre</td>
+ <td style="vertical-align: top;"><br />
+ </td>
+ <td style="vertical-align: bottom; text-align: right;"><a href="#p28">28</a>.<br />
+ </td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td style="vertical-align: top; text-align: justify;"><em>A
+huma Velha
+presumida</em></td>
+ <td style="vertical-align: top;"><br />
+ </td>
+ <td style="vertical-align: bottom; text-align: right;"><a href="#p29">29</a>.<br />
+ </td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td style="vertical-align: top; text-align: justify;"><em>Aos
+Annos de huma formosa
+Dama</em> <br />
+ </td>
+ <td style="vertical-align: top;"><br />
+ </td>
+ <td style="text-align: right; vertical-align: bottom;"><a href="#p30">30</a>.<br />
+ </td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td style="vertical-align: top; text-align: justify;"><em>A
+hum Padre
+Guardião</em></td>
+ <td style="vertical-align: top;"><br />
+ </td>
+ <td style="text-align: right; vertical-align: bottom;"><a href="#p32">32</a>.<br />
+ </td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td style="vertical-align: top; text-align: justify;"><em>Em
+louvor de Caporalini, Actor do Theatro de S.
+Carlos</em></td>
+ <td style="vertical-align: top;"><br />
+ </td>
+ <td style="text-align: right; vertical-align: bottom;"><a href="#p33">33</a>.<br />
+ </td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td style="vertical-align: top; text-align: justify;"><em>Achando-se
+o Author prezo dos bellos olhos de
+Marcia</em></td>
+ <td style="vertical-align: top;"><br />
+ </td>
+ <td style="text-align: right; vertical-align: bottom;"><a href="#p34">34</a>.<br />
+ </td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td style="vertical-align: top; text-align: justify;"><em>Sobre
+a Ingratidão de huma
+Dama</em></td>
+ <td style="vertical-align: top;"><br />
+ </td>
+ <td style="text-align: right; vertical-align: bottom;"><a href="#p35">35</a>.<br />
+ </td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td style="vertical-align: top; text-align: justify;">CANTIGAS <em>feitas
+nas
+Caldas</em></td>
+ <td style="vertical-align: top;"><br />
+ </td>
+ <td style="text-align: right; vertical-align: bottom;"><a href="#p36">36</a>.<br />
+ </td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td style="vertical-align: top; text-align: justify;">ENDECHAS</td>
+ <td style="vertical-align: top;"><br />
+ </td>
+ <td style="text-align: right; vertical-align: bottom;"><a href="#p39">39</a>.<br />
+ </td>
+ </tr>
+ </tbody>
+</table>
+<br />
+<br />
+<br />
+<h4>DECIMAS.</h4>
+<br />
+<table style="text-align: left; margin-left: 5%; width: 90%;" border="0" cellpadding="2" cellspacing="2">
+ <tbody>
+ <tr>
+ <td style="vertical-align: top; width: 80%; text-align: justify;"><em>Em
+dia dos annos do Illustrissimo Principal Almeida</em></td>
+ <td style="vertical-align: top;"><br />
+ </td>
+ <td style="vertical-align: top; text-align: right; width: 15%;"><a href="#p45">45</a>.</td>
+ </tr>
+ </tbody>
+</table>
+<span class="pagenum">[148]</span>
+<table style="text-align: left; margin-left: 5%; width: 90%;" border="0" cellpadding="2" cellspacing="2">
+ <tbody>
+ <tr>
+ <td style="vertical-align: top; width: 80%; text-align: justify;">Mote:
+ <em>Olhos de Lize, olhos bellos, &amp;c.</em></td>
+ <td style="vertical-align: top;"><br />
+ </td>
+ <td style="vertical-align: top; text-align: right; width: 15%;"><a href="#p47">47</a>.<br />
+ </td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td style="vertical-align: top; text-align: justify;">Mote: <em>Tu
+teimas em desprezar-me,
+&amp;c.</em></td>
+ <td style="vertical-align: top;"><br />
+ </td>
+ <td style="vertical-align: bottom; text-align: right;"><a href="#p50">50</a>.<br />
+ </td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td style="vertical-align: top; text-align: justify;">Mote: <em>Não
+sei que quer a
+desgraçada,
+&amp;c.</em></td>
+ <td style="vertical-align: top;"><br />
+ </td>
+ <td style="vertical-align: bottom; text-align: right;"><a href="#p53">53</a>.<br />
+ </td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td style="vertical-align: top; text-align: justify;">Mote: <em>Os
+meus olhos a
+chorar</em></td>
+ <td style="vertical-align: top;"><br />
+ </td>
+ <td style="vertical-align: bottom; text-align: right;"><a href="#p56">56</a>.<br />
+ </td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td style="vertical-align: top; text-align: justify;">Mote: <em>Já
+disse tudo a
+Cupido</em></td>
+ <td style="vertical-align: top;"><br />
+ </td>
+ <td style="vertical-align: bottom; text-align: right;"><a href="#p57">57</a>.<br />
+ </td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td style="vertical-align: top; text-align: justify;">Mote: <em>Distancias,
+e
+saudades</em></td>
+ <td style="vertical-align: top;"><br />
+ </td>
+ <td style="text-align: right; vertical-align: bottom;"><a href="#p58">58</a>.<br />
+ </td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td style="vertical-align: top; text-align: justify;">Mote: <em>Cantarei
+alegres penas,
+&amp;c.</em></td>
+ <td style="vertical-align: top;"><br />
+ </td>
+ <td style="text-align: right; vertical-align: bottom;"><a href="#p59">59</a>.<br />
+ </td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td style="vertical-align: top; text-align: justify;">Mote: <em>Nada
+no mundo figura, &amp;c.</em></td>
+ <td style="vertical-align: top;"><br />
+ </td>
+ <td style="text-align: right; vertical-align: bottom;"><a href="#p60">60</a>.<br />
+ </td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td style="vertical-align: top; text-align: justify;">Mote: <em>Amor
+para me prender,
+&amp;c.</em> <br />
+ </td>
+ <td style="vertical-align: top;"><br />
+ </td>
+ <td style="text-align: right; vertical-align: bottom;"><a href="#p61">61</a>.<br />
+ </td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td style="vertical-align: top; text-align: justify;">Mote: <em>A
+minha
+felicidade</em></td>
+ <td style="vertical-align: top;"><br />
+ </td>
+ <td style="text-align: right; vertical-align: bottom;"><a href="#p62">62</a>.<br />
+ </td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td style="vertical-align: top; text-align: justify;">Mote: <em>Quem
+adora occultamente &amp;c.</em></td>
+ <td style="vertical-align: top;"><br />
+ </td>
+ <td style="text-align: right; vertical-align: bottom;"><a href="#p63">63</a>.<br />
+ </td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td style="vertical-align: top; text-align: justify;">Mote: <em>Nos
+olhos o amor explico,
+&amp;c.</em> </td>
+ <td style="vertical-align: top;"><br />
+ </td>
+ <td style="text-align: right; vertical-align: bottom;"><a href="#p66">66</a>.<br />
+ </td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td style="vertical-align: top; text-align: justify;">Mote: <em>Por
+passos sem esperança,
+&amp;c.</em> </td>
+ <td style="vertical-align: top;"><br />
+ </td>
+ <td style="text-align: right; vertical-align: bottom;"><a href="#p69">69</a>.<br />
+ </td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td style="vertical-align: top; text-align: justify;">Mote: <em>Eu
+já tenho exp'rimentado &amp;c.</em> </td>
+ <td style="vertical-align: top;"><br />
+ </td>
+ <td style="text-align: right; vertical-align: bottom;"><a href="#p70">70</a>. <a href="#p71">71</a>.<br />
+ </td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td style="vertical-align: top; text-align: justify;">Mote: <em>Ouvi,
+ó Senhora, ouvi,
+&amp;c.</em> </td>
+ <td style="vertical-align: top;"><br />
+ </td>
+ <td style="text-align: right; vertical-align: bottom;"><a href="#p72">72</a>.<br />
+ </td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td style="vertical-align: top; text-align: justify;">Mote: <em>Hei
+de amar-te até á
+morte,
+&amp;c.</em> </td>
+ <td style="vertical-align: top;"><br />
+ </td>
+ <td style="text-align: right; vertical-align: bottom;"><a href="#p75">75</a>.<br />
+ </td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td style="vertical-align: top; text-align: justify;">Mote: <em>Toda
+a Mulher he
+perjura</em> </td>
+ <td style="vertical-align: top;"><br />
+ </td>
+ <td style="text-align: right; vertical-align: bottom;"><a href="#p78">78</a>.<br />
+ </td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td style="vertical-align: top; text-align: justify;">Mote: <em>De
+mil suspiros que eu
+dou</em> </td>
+ <td style="vertical-align: top;"><br />
+ </td>
+ <td style="text-align: right; vertical-align: bottom;"><a href="#p80">80</a>.<br />
+ </td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td style="vertical-align: top; text-align: justify;"><em>Ao
+Illustrissimo, e Excellentissimo Senhor Marquez de
+Penalva</em> </td>
+ <td style="vertical-align: top;"><br />
+ </td>
+ <td style="text-align: right; vertical-align: bottom;"><a href="#p79">79</a>. <a href="#p81">81</a>.<br />
+ </td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td style="vertical-align: top; text-align: justify;"><em>Ao
+Illustrissimo, e Excellentissimo Senhor Conde de Villa
+Verde</em> </td>
+ <td style="vertical-align: top;"><br />
+ </td>
+ <td style="text-align: right; vertical-align: bottom;"><a href="#p82">82</a>. <a href="#p84">84</a>. <a href="#p87">87</a>. <a href="#p94">94</a>. </td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td style="vertical-align: top; text-align: justify;"><em>Vagando
+hum Officio que o A.
+pertendi</em> </td>
+ <td style="vertical-align: top;"><br />
+ </td>
+ <td style="text-align: right; vertical-align: bottom;"><a href="#p88">88</a>.<br />
+ </td>
+ </tr>
+ </tbody>
+</table>
+<span class="pagenum">[149]</span>
+<table style="text-align: left; margin-left: 5%; width: 90%;" border="0" cellpadding="2" cellspacing="2">
+ <tbody>
+ <tr>
+ <td style="vertical-align: top; width: 80%; text-align: justify;"><em>Joaquim
+Ignacio Seixas, Medico das
+Caldas</em> </td>
+ <td style="vertical-align: top;"><br />
+ </td>
+ <td style="vertical-align: top; text-align: right; width: 15%;"><a href="#p89">89</a>.<br />
+ </td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td style="vertical-align: top; text-align: justify;"><em>hum
+Pregador
+celebre</em> </td>
+ <td style="vertical-align: top;"><br />
+ </td>
+ <td style="vertical-align: bottom; text-align: right;"><a href="#p90">90</a>.<br />
+ </td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td style="vertical-align: top; text-align: justify;"><em>Carta
+a Lourenço da Mota, Officialda
+Secretaria</em> </td>
+ <td style="vertical-align: top;"><br />
+ </td>
+ <td style="vertical-align: bottom; text-align: right;"><a href="#p91">91</a>.<br />
+ </td>
+ </tr>
+ </tbody>
+</table>
+<br />
+<br />
+<br />
+<br />
+<h4>QUADRAS.</h4>
+<br />
+<table style="text-align: left; margin-left: 5%; width: 90%;" border="0" cellpadding="2" cellspacing="2">
+ <tbody>
+ <tr>
+ <td style="vertical-align: top; width: 80%; text-align: justify;"><em>Ao
+Juiz do Crime de
+Andaluz</em></td>
+ <td style="vertical-align: top;"><br />
+ </td>
+ <td style="vertical-align: bottom; text-align: right; width: 15%;"><a href="#p95">95</a>.<br />
+ </td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td style="vertical-align: top;"><em>Memorial a Suas
+Altezas</em></td>
+ <td style="vertical-align: top;"><br />
+ </td>
+ <td style="vertical-align: bottom; text-align: right;"><a href="#p98">98</a>.<br />
+ </td>
+ </tr>
+ </tbody>
+</table>
+<br />
+<br />
+<br />
+<br />
+<h4>QUINTILHAS.</h4>
+<br />
+<table style="text-align: left; margin-left: 5%; width: 90%;" border="0" cellpadding="2" cellspacing="2">
+ <tbody>
+ <tr>
+ <td style="vertical-align: top; width: 80%; text-align: justify;"><em>No
+dia dos Annos do Illustrissimo, e Excellentissimo Senhor Conde de Villa
+Verde</em> </td>
+ <td style="vertical-align: top;"><br />
+ </td>
+ <td style="vertical-align: bottom; text-align: right; width: 15%;"><a href="#p103">103</a>.<br />
+ </td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td style="vertical-align: top;"><em>Em louvor de huma
+Senhora</em></td>
+ <td style="vertical-align: top;"><br />
+ </td>
+ <td style="vertical-align: bottom; text-align: right;"><a href="#p106">106</a>.<br />
+ </td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td style="vertical-align: top;"><em>Quixotada.</em> </td>
+ <td style="vertical-align: top;"><br />
+ </td>
+ <td style="vertical-align: bottom; text-align: right;"><a href="#p114">114</a>.<br />
+ </td>
+ </tr>
+ </tbody>
+</table>
+<br />
+<br />
+<br />
+<br />
+<span class="pagenum">[150]</span>
+<h4>ODES.</h4>
+<br />
+<table style="text-align: left; margin-left: 5%; width: 90%;" border="0" cellpadding="2" cellspacing="2">
+ <tbody>
+ <tr>
+ <td style="vertical-align: top; width: 80%; text-align: justify;"><em>A
+SS. MAGESTADES, no dia da Acclamação da Rainha N.
+Senhora</em></td>
+ <td style="vertical-align: top;"><br />
+ </td>
+ <td style="vertical-align: bottom; text-align: right; width: 15%;"><a href="#p122">122</a>.<br />
+ </td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td style="vertical-align: top;"><em>No dia dos Annos do
+Illustrissimo, e Excellentissimo Senhor Marquez de Angeja</em></td>
+ <td style="vertical-align: top;"><br />
+ </td>
+ <td style="vertical-align: bottom; text-align: right;"><a href="#p132">132</a>.<br />
+ </td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td style="vertical-align: top;"><em>Ao Senhor D. Domingos de
+Assís Mascarenhas</em></td>
+ <td style="vertical-align: top;"><br />
+ </td>
+ <td style="vertical-align: bottom; text-align: right;"><a href="#p137">137</a>.<br />
+ </td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td style="vertical-align: top;"><em>Em louvor da
+Saude</em></td>
+ <td style="vertical-align: top;"><br />
+ </td>
+ <td style="vertical-align: bottom; text-align: right;"><a href="#p142">142</a>.<br />
+ </td>
+ </tr>
+ </tbody>
+</table>
+<br />
+<br />
+<br />
+<b>Notas:</b>
+<br />
+<br />
+<a name="n1" id="n1"><sup>[1]</sup></a>
+<em>Duvidoso.</em><br />
+<br />
+<a name="n2" id="n2"><sup>[2]</sup>
+<em>O Marquez de Pombal.</em><br />
+<br />
+</a><a name="n3" id="n3"><sup>[3]</sup></a>
+<em>Tem allusão ao Soneto
+VI.</em>
+<br />
+<br />
+<a name="n4" id="n4"><sup>[4]</sup></a>
+<em>Duvidoso.</em>
+<br />
+<br />
+<a name="n5" id="n5"><sup>[5]</sup></a>
+<em>Duvidoso.</em><br />
+<br />
+<a name="n6" id="n6"><sup>[6]</sup></a>
+<em>Os Márques
+comprárão em Lisboa
+humas casas a certo homem da mesma por
+preço exorbitante: feita a escritura, e passado
+o dinheiro em cartuxos, voltou brevemente
+o vendedor dizendo que indo em casa
+a contar os cartuxos achára cobre, e
+não
+ouro. Quem compra por preço tal, parece
+que não faz tenção de pagar: Quem
+vende
+por tal preço, parece ter demasiada cubiça.
+Todos estavão em boa
+reputação.</em><br />
+<br />
+<a name="n7" id="n7"><sup>[7]</sup></a>
+<em>Estas Decimas fez o A. em agradecimento de ser provido pelo
+Principal,
+então Director dos Estudos, na Cadeira de Rhetorica, de que
+depois se queixou tanto.</em>
+<br />
+<br />
+<a name="n8" id="n8"><sup>[8]</sup></a> <em>Outro Pregador tendo
+bebido
+demasiado,
+chegou ao pulpito, e só pronunciou
+estas palavras:</em> Sempre me deito.
+</div>
+
+
+
+
+
+
+
+
+<pre>
+
+
+
+
+
+End of Project Gutenberg's Obras posthumas, by Nicolau Tolentino de Almeida
+
+*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK OBRAS POSTHUMAS ***
+
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+Gutenberg-tm electronic works if you follow the terms of this agreement
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+works. See paragraph 1.E below.
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+ money paid for a work or a replacement copy, if a defect in the
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+
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+or cause to occur: (a) distribution of this or any Project Gutenberg-tm
+work, (b) alteration, modification, or additions or deletions to any
+Project Gutenberg-tm work, and (c) any Defect you cause.
+
+
+Section 2. Information about the Mission of Project Gutenberg-tm
+
+Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
+electronic works in formats readable by the widest variety of computers
+including obsolete, old, middle-aged and new computers. It exists
+because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
+people in all walks of life.
+
+Volunteers and financial support to provide volunteers with the
+assistance they need, are critical to reaching Project Gutenberg-tm's
+goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
+remain freely available for generations to come. In 2001, the Project
+Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
+and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
+To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
+and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
+and the Foundation web page at http://www.pglaf.org.
+
+
+Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive
+Foundation
+
+The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
+501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
+state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
+Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification
+number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at
+http://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
+permitted by U.S. federal laws and your state's laws.
+
+The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
+Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
+throughout numerous locations. Its business office is located at
+809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
+business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact
+information can be found at the Foundation's web site and official
+page at http://pglaf.org
+
+For additional contact information:
+ Dr. Gregory B. Newby
+ Chief Executive and Director
+ gbnewby@pglaf.org
+
+
+Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation
+
+Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
+spread public support and donations to carry out its mission of
+increasing the number of public domain and licensed works that can be
+freely distributed in machine readable form accessible by the widest
+array of equipment including outdated equipment. Many small donations
+($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
+status with the IRS.
+
+The Foundation is committed to complying with the laws regulating
+charities and charitable donations in all 50 states of the United
+States. Compliance requirements are not uniform and it takes a
+considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
+with these requirements. We do not solicit donations in locations
+where we have not received written confirmation of compliance. To
+SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
+particular state visit http://pglaf.org
+
+While we cannot and do not solicit contributions from states where we
+have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
+against accepting unsolicited donations from donors in such states who
+approach us with offers to donate.
+
+International donations are gratefully accepted, but we cannot make
+any statements concerning tax treatment of donations received from
+outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff.
+
+Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
+methods and addresses. Donations are accepted in a number of other
+ways including checks, online payments and credit card donations.
+To donate, please visit: http://pglaf.org/donate
+
+
+Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic
+works.
+
+Professor Michael S. Hart is the originator of the Project Gutenberg-tm
+concept of a library of electronic works that could be freely shared
+with anyone. For thirty years, he produced and distributed Project
+Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.
+
+
+Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
+editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
+unless a copyright notice is included. Thus, we do not necessarily
+keep eBooks in compliance with any particular paper edition.
+
+
+Most people start at our Web site which has the main PG search facility:
+
+ http://www.gutenberg.org
+
+This Web site includes information about Project Gutenberg-tm,
+including how to make donations to the Project Gutenberg Literary
+Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to
+subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks.
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+
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+This eBook, including all associated images, markup, improvements,
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+Procedures for determining public domain status are described in
+the "Copyright How-To" at https://www.gutenberg.org.
+
+No investigation has been made concerning possible copyrights in
+jurisdictions other than the United States. Anyone seeking to utilize
+this eBook outside of the United States should confirm copyright
+status under the laws that apply to them.
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+Project Gutenberg (https://www.gutenberg.org) public repository for
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