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+ <title>Memoria dos feitos macaenses contra os piratas da China</title>
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+ <meta content="Jos&eacute; Ignacio de Andrade" name="AUTHOR" />
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+<pre>
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+The Project Gutenberg EBook of Memoria dos feitos macaenses contra os
+piratas da China, by José Ignacio de Andrade
+
+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.org
+
+
+Title: Memoria dos feitos macaenses contra os piratas da China
+ e da entrada violenta dos inglezes na cidade de Macáo
+
+Author: José Ignacio de Andrade
+
+Release Date: May 17, 2011 [EBook #36163]
+
+Language: Portuguese
+
+Character set encoding: ISO-8859-1
+
+*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK MEMORIA DOS FEITOS MACAENSES ***
+
+
+
+
+Produced by Rita Farinha, Alberto Manuel Brandão Simões
+and the Online Distributed Proofreading Team at
+https://www.pgdp.net (This book was produced from scanned
+images of public domain material from the Google Print
+project.)
+
+
+
+
+
+
+</pre>
+
+
+<div>
+<div class="fbox"><b>Nota de editor:</b>
+Devido &agrave;
+quantidade de erros tipogr&aacute;ficos existentes neste texto,
+foram tomadas v&aacute;rias decis&otilde;es quanto &agrave;
+vers&atilde;o final. Em caso de d&uacute;vida, a grafia foi
+mantida de acordo com o original. No final deste livro
+encontrar&aacute; a lista de erros corrigidos.<br />
+
+<br />
+
+<div style="text-align: right; font-style: italic;">Rita
+Farinha (Maio 2011)
+</div>
+
+</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="bbox"><br />
+
+<h1>MEMORIA</h1>
+
+<h2>DOS</h2>
+
+<h2>FEITOS MACAENSES</h2>
+
+<h3>CONTRA OS PIRATAS DA CHINA:</h3>
+
+<h3>E DA</h3>
+
+<h3>ENTRADA VIOLENTA DOS INGLEZES</h3>
+
+<h3>NA CIDADE DE MAC&Aacute;O: </h3>
+
+<br />
+
+<h4>
+AUCTOR<br />
+
+<br />
+
+<em>JOS&Eacute; IGNACIO ANDRADE</em>.<br />
+
+<br />
+
+</h4>
+
+<div class="sbreak">
+<hr /></div>
+
+<h4>SEGUNDA EDI&Ccedil;&Atilde;O.<br />
+
+<br />
+
+</h4>
+
+<div class="sbreak">
+<hr /></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div style="text-align: center;"><img style="width: 150px; height: 111px;" alt="" src="images/fig01.png" /><br />
+
+</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h4>LISBOA: NA TYPOGRAFIA LISBONENSE 1835.<br />
+
+Largo de S. Roque N. 12<span style="font-style: italic;"></span><em><br />
+
+A C. Dias</em>.</h4>
+
+<br />
+
+</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="poetry"><em>Rien ne peut
+arret&ecirc;r dans leurs projets nouveaux<br />
+
+Ces Portugais ardens
+qui volent sur les eaux,<br />
+
+O' com bien de h&eacute;ros guiderent leur
+audace!<br />
+
+Que de faits immortels ont signal&eacute; leur
+trace!</em></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="signature">Esmenarde, C. V. pg. 26.</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h3>PROEMIO. </h3>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Quanto &eacute; arriscado escrever feitos gloriosos de homens, que
+ainda vivem! N&atilde;o s&oacute; os seus inimigos, mas tambem
+os feridos do orgulho, ou da inveja, sa&iacute;r&atilde;o a
+vociferar contra a mesma evidencia. Ha quem julgue mais prudente calar
+as grandes ac&ccedil;&otilde;es
+dos heroes em sua vida. Mas porque se ha de recusar
+este premio &aacute;s pessoas, que o ganharam a risco da vida e
+fazenda?<sup><a href="#n1">[1]</a></sup>
+Por se temer a mordacidade dos <em>zoilos</em>?
+Eis a fraqueza, que n&atilde;o tenho. Transmittindo a verdade aos
+vindouros, e dizendo o que fizeram os Portuguezes dignos deste nome; se
+f&ocirc;r censurado por alguns, louvar&atilde;o outros o meu
+zelo. <br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[5]</span>
+<h3>INTRODUC&Ccedil;&Atilde;O. </h3>
+
+<br />
+
+<br />
+
+De todos os espectaculos, que a industria humana tem dado ao mundo
+nenhum mais admiravel do que a navega&ccedil;&atilde;o. Entes
+fracos e mortaes filhos da terra ousaram transportar-se sobre elemento
+inestavel e perigoso, levantar edificios em cima das aguas, dominar os
+ventos, e voar &aacute;s extremidades do mundo por baixo de Ceos
+desconhecidos. <br />
+
+<br />
+
+Mas qual &eacute; a sorte do homem? Dotado de
+cora&ccedil;&atilde;o t&atilde;o perverso, quanto o
+espirito &eacute; grande; o crime assenta-se ao lado do genio. De
+todas as
+inven&ccedil;&otilde;es sublimes tem os homens abusado. Dos
+vegetaes extra&iacute;ram venenos: do ouro a moeda que tudo
+corrompe. As artes serviram-lhe para multiplicarem os meios de se
+destruirem. A navega&ccedil;&atilde;o &eacute;, sobre tudo,
+origem de mortandades; o mar tornou-se campo de carnagem; e as ondas
+foram ensanguentadas pela guerra. <br />
+
+<br />
+
+As duas partes do globo oriente, e occidente,
+<span class="pagenum">[6]</span>
+terra e mar, s&atilde;o igualmente
+o theatro das desgra&ccedil;as e crimes do homem: com a
+differen&ccedil;a, que dilatando as vistas e passos ao longo do
+continente, descobrimos ruinas e despojos do ferro e fogo; campos e
+ermos incultos; por&eacute;m o mar sendo tumulo de grande parte da
+humanidade, nenhum vestigio offerece de tantos estragos. Todos os dias
+passa o navegador com despejo por cima das ondas, que tem engolido
+milhares de homens. <br />
+
+<br />
+
+Quem n&atilde;o desejar&aacute; voltar aos tempos felizes de
+ignorancia e parcimonia, em que nossos av&oacute;s menos grandes,
+por&eacute;m menos criminosos, sem industria, mas sem remorsos,
+viviam pobres e virtuosos, e morriam nos campos que os tinham visto
+nascer.<sup><a href="#n2">[2]</a></sup><br />
+
+<br />
+
+&Aacute; custa das vidas portuguezas formaram os nossos
+antepassados um estabelecimento na China: os nossos contemporaneos
+foram de novo obrigados a ensanguentar as ondas para submetter
+Cam-pau-sai &aacute;s leis do imperio; e a usar prudencia
+consummada al&eacute;m
+<span class="pagenum">[7]</span>
+do
+valor, a fim de livrar Mac&aacute;o da invas&atilde;o
+britanica.==Nada ha mais proveitoso que a historia para adquirir
+prudencia, (diz Jeronimo Osorio) nem mais poderoso do que ella para
+despertar virtudes, mais saudavel para sanar as feridas da republica,
+nem mais aprasivel para o deleitamento da vida. Mas segundo os homens
+foram sempre, n&atilde;o cr&ecirc;m nunca feitos, quem
+sah&ecirc;m &aacute;l&eacute;m do seu
+engenho e posses; nem ha meio que admittam o que sobrepuja os termos de
+trivial esfor&ccedil;o, e usada industria.==Todavia os feitos
+exarados nesta memoria j&aacute;mais ser&atilde;o desmentidos;
+e podem despertar virtudes. <br />
+
+<br />
+
+A China por n&oacute;s ha muito tempo ignorada, depois inteiramente
+desfigurada, e hoje melhor conhecida do que algumas provincias da
+Europa, &eacute; o imperio mais antigo, extenso, e florecente do
+globo. Pelo ultimo censo, feito no seculo passado, foram avaliados os
+seus habitantes em duzentos milh&otilde;es de almas. O rendimento
+annual sobe a quinhentos milh&otilde;es de cruzados. Sustenta
+oitocentos mil soldados, e trezentos mil cavallos, que emprega nas
+armas, e correios publicos.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum"><a name="p8" id="p8">[8]</a></span>
+Ha tempo immemoriavel s&atilde;o os imperadores tambem pontifices
+do imperio; para que as authoridades civil, e religiosa nunca se achem
+em conflicto. Adoram um Deus unico; e offerecem-lhe as primicias de um
+campo lavrado, todos os annos em dia solemne, por suas proprias
+m&atilde;os. Alento exemplar &aacute; agricultura, primeira
+base da independencia e prosperidade nacional. <br />
+
+<br />
+
+Pela maxima da tolerancia geral seguida no oriente, admittem-se os
+bonzos de todas as religi&otilde;es, e deixam-os espalhar os seus
+desvarios: mas se chegam a amutinar o povo, s&atilde;o logo
+enforcados. Assim os toleram e os reprimem. O imperador <a href="#eo1">Cham-hi</a> mandou
+gravar no frontispicio da sua capella:==O Chang-ti
+n&atilde;o tem
+principio nem fim: creou e governa tudo: &eacute; summamente bom e
+justo.== <br />
+
+<br />
+
+Os Chinezes em geral s&atilde;o polidos e virtuosos. O Imperador
+tem uma s&oacute; mulher legitima, mas p&oacute;de segundo as
+leis do Imperio ter grande numero de amasias. A sorte destas
+&eacute; triste, por viverem encerradas. Pagam com a
+priva&ccedil;&atilde;o em que vivem da
+<span class="pagenum">[9]</span>
+sociedade, a honra de satisfazer ao imperante, a
+qual devem &aacute; formosura, e n&atilde;o ao nascimento, que
+os Chinezes desapreciam, quando n&atilde;o &eacute;
+accompanhado da virtude. <br />
+
+<br />
+
+Os Col&aacute;os e mandarins letrados s&atilde;o mais estimados
+no imperio do que os militares. Entre o grande numero dos primeiros ha
+seis que acompanham a c&ocirc;rte. O col&aacute;o mais antigo e
+de maior merito nomeia os mandarins para todos os empregos superiores,
+e os manda punir se n&atilde;o cumprem com o seu dever; o segundo
+cuida nos cultos, e disp&otilde;e as ceremonias da c&ocirc;rte;
+o terceiro &eacute; o Ministro da
+Justi&ccedil;a; o quarto administra a fazenda; o quinto preside no
+ministerio da guerra, e determina tudo, quando &eacute; preciso
+sustentala; o sexto tem a seu cargo as obras publicas. <br />
+
+<br />
+
+Ha outros que deliberam com o Imperador sobre os negocios do Estado.
+Al&eacute;m disso tem censores publicos de officio. Em cada uma
+provincia ha um Sunt&oacute; (delegado imperial) com tres mandarins
+letrados debaixo das suas ordens. O primeiro conhece das causas civis e
+criminaes; o segundo recebe
+<span class="pagenum">[10]</span>
+os
+tributos; o terceiro mant&eacute;m a seguran&ccedil;a publica.
+Para chegar a ser mandarim &eacute; preciso passar por tres
+gr&aacute;os, como os nossos de Bacharel, Licenciado, e Doutor:
+destes s&atilde;o tirados os col&aacute;os. <br />
+
+<br />
+
+O governo n&atilde;o &eacute; despotico como se pensa. Os
+mandarins opp&otilde;em-se aos seus decretos, quando s&atilde;o
+contrarios &aacute;s leis do Estado. Querendo certo Imperador
+abusar do poder, um mandarim escreveo-lhe pelo modo
+seguinte:&mdash;Senhor
+sei que me arrisco em offender o vosso amor proprio, mas devo preferir
+a morte &aacute; perda da honra: n&atilde;o posso deixar de vos
+advertir, que o m&aacute;o exemplo dado por v&oacute;s ao
+Imperio nos lan&ccedil;a a todos no abysmo.&mdash;O Imperador
+foi
+generoso para n&atilde;o se agravar, mas n&atilde;o o foi para
+mudar de conducta. Todos os mandarins esperaram occasi&atilde;o
+para lhe mostrar serem dos sentimentos do primeiro. <br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o tinha o Imperador filhos legitimos, e pelas leis do
+Estado devem ser chamados &aacute; success&atilde;o do Imperio
+os bastardos, preferindo sempre o primogenito. O Imperador tinha grande
+affei&ccedil;&atilde;o a um dos outros: pretendeu
+<span class="pagenum">[11]</span>
+que o reconhecessem, com perjuizo do mais
+velho. Os mandarins representaram ao Imperador a injusti&ccedil;a
+que pretendia fazer: este por isso privou alguns dos empregos. Aquelles
+publicaram um aviso dirigido a todos os mandarins anexos &aacute;
+c&ocirc;rte para se acharem um dia aprazado no logar ordinario. Ahi
+decidiram em junta que visto o Imperador desprezar as leis do Estado,
+deviam elles desistir dos seus empregos e ir para suas casas viver como
+particulares: assim o executaram. <br />
+
+<br />
+
+O Imperador entrou em seus deveres: mandou aos mandarins que tornassem
+aos seus empregos, que estava pelo que elles entendiam. Assim
+obedeceram todos &aacute; lei. Os mandarins ganharam nesta
+occasi&atilde;o honra por sua firmeza, e o Imperador por sua
+prudencia. <br />
+
+<br />
+
+O tribunal da historia, para tudo ser conforme, &eacute; surdo
+&aacute;s supplicas, ou amea&ccedil;os dos imperantes. Na sala
+do tribunal ha um
+cofre, onde cada historiador lan&ccedil;a suas memorias sem as
+communicar a pessoa alguma. No fim de cada reinado abre-se o deposito,
+e dos escriptos alli achados formam os annaes
+<span class="pagenum"><a name="p12" id="p12">[12]</a></span>
+do Imperio: Para conhecer o espirito deste tribunal
+basta o caso seguinte: <br />
+
+<br />
+
+<a href="#eo2">Tai-te-song</a>, Imperador da
+dynastia de Tang, rogou ao presidente do
+tribunal, que lhe mostrasse as memorias que deviam formar a historia do
+seu reinado. Senhor, deveis saber, que damos conta exacta dos vicios e
+das virtudes dos Soberanos, e que deixariamos de ser livres se
+consentissimos no que exigis&mdash;O Imperador
+tornou:&mdash;Pois v&oacute;s
+que me sois t&atilde;o obrigado, pretendeis levar &aacute;
+posteridade
+os meus defeitos?&mdash;Com summa d&ocirc;r os escreverei, mas
+&eacute; tal o dever do meu emprego, que me obriga a levar
+&aacute; posteridade a preten&ccedil;&atilde;o, que hoje
+tivestes de mim.&mdash; <br />
+
+<br />
+
+Em todos os paizes as leis punem os crimes, na China fazem mais
+premeiam a virtude. A noticia de uma ac&ccedil;&atilde;o
+generosa, de uma virtude extremada, assim que se divulga em <a href="#e1">qualquer</a>
+provincia, &eacute; obrigado o mandarim de policia a participala ao
+Imperador: este manda logo &aacute;quelle subdito um signal, que o
+distingue no caminho da virtude. <br />
+
+<br />
+
+O certo &eacute;, que os vicios e as virtudes dos povos nascem da
+sua legisla&ccedil;&atilde;o: esse conhecimento
+<span class="pagenum"><a name="p13" id="p13">[13]</a></span>
+deu talvez motivo a esta boa lei dos
+Chinezes.&mdash;Para fecundar o germen da virtude, os mandarins
+participam
+da gloria, ou da vergonha das ac&ccedil;&otilde;es virtuosas ou
+injustas commettidas em seu governo. <br />
+
+<br />
+
+A moral, a obediencia &aacute;s leis, e o culto ao ente supremo,
+formam a religi&atilde;o do Estado. O Imperador n&atilde;o
+&eacute; s&oacute; pontifice, mas
+tambem o primeiro orador do Imperio. Seus decretos s&atilde;o quasi
+sempre li&ccedil;&otilde;es de moral.
+Subsistem ha mais de quatro mil annos com a mesma forma de governo, as
+mesmas leis e costumes, sempre estudiosos e apreciadores das letras. <br />
+
+<br />
+
+Com tudo o povo &eacute; idolatra; os letrados deistas, sem
+acreditarem em revela&ccedil;&atilde;o alguma, nem na vida
+eterna. Dados ao estudo das leis, desprezam por ellas os dogmas e ritos
+de seus bonzos. Em verdade estes s&atilde;o ignorantes,
+supersticiosos, credulos e ambiciosos de riquezas. A maior parte dos
+Chinezes observam as seguintes maximas de Confucio. <br />
+
+<br />
+
+Lembra-te que &eacute;s homem, a tua <a href="#e2">natureza</a>
+&eacute; fraca, podes succumbir. Afasta de ti os obstaculos que te
+embaracem o caminho da virtude.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum"><a name="p14" id="p14">[14]</a></span>
+O homem bom occupa-se de suas virtudes: o m&aacute;o de suas
+riquezas. Aquelle trata do interesse da patria: este s&oacute; no
+seu cuida. <br />
+
+<br />
+
+Faze aos outros o que desejas te fa&ccedil;am: eis a unica lei que
+te &eacute; precisa. <br />
+
+<br />
+
+O silencio &eacute; indispensavel ao sabio; este despreza sempre os
+rasgos da eloquencia por inuteis; explica-se por suas
+ac&ccedil;&otilde;es. O ceo falla,
+mas por que modo nos diz elle ser o Soberano principio de todas as
+cousas? O seu movimento &eacute; a sua linguagem: creou e deu
+impulso &aacute; natureza, e esta como filha sua obedece-lhe e
+produz. <br />
+
+<br />
+
+Quando se trata da saude da patria despreza-se o perigo da vida. <br />
+
+<br />
+
+O ganho do imperante avalia-se pela felicidade publica. <br />
+
+<br />
+
+Estas poucas regras bastam para se fazer perfeita id&eacute;a da
+moral Chineza. <br />
+
+<br />
+
+Por morte de Afonso de <a href="#e3">Albuquerque</a>,
+em 1515,
+succedeu-lhe no governo da India Lopo Soares de Albergaria: no
+principio do anno de 1517, mandou este uma esquadra de nove
+embarc,
+em 1515,
+succedeu-lhe no governo da India Lopo Soares de Albergaria: no
+principio do anno de 1517, mandou este uma esquadra de nove
+embarca&ccedil;&otilde;es commandadas por
+Fern&atilde;o Peres de Andrade, levar ao Imperador dos
+<span class="pagenum">[15]</span>
+Chinezes o Embaixador Thom&eacute; Pires, como
+El-Rei D. Manoel lhe tinha ordenado. <br />
+
+<br />
+
+Por motivo de grande temporal arribou a frota a Malaca, e s&oacute;
+p&ocirc;de sair daquelle porto, para estrear as quilhas portuguezas
+no mar da China, em Junho do mesmo anno. J&aacute; os nossos
+sabiam, pela amisade contrahida em Malaca, com os Chinezes, a que rumo
+lhe demorava Cant&atilde;o: foram &aacute;s ilhas visinhas
+daquella cidade por onde enviaram o nosso Embaixador &aacute;
+c&ocirc;rte. <br />
+
+<br />
+
+Quando alli aportou o nosso Andrade, achou uma frota Chineza destinada
+a combater os piratas, que infestavam aquelles mares. Sendo
+Fern&atilde;o Peres de Andrade benefico e destemido, anniquillava
+preversos, e attrahia qual iman os discipulos de Confucio. Largou
+aquelle Imperio deixando nelle as cem trombetas da fama apregoando sua
+magnanimidade. <br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="poetry"><em>Do meu arco possante<br />
+
+Hoje o famoso Andrade<br />
+
+Alvo
+ser&aacute;: seu nome triunfante<br />
+
+No porto surgir&aacute; da
+Eternidade.</em><sup><a href="#n3">[3]</a></sup></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[16]</span>
+Assim que largou de Cant&atilde;o chegou alli Sim&atilde;o de
+Andrade, com outros: procederam de forma, que perderam, em credito,
+tudo quanto Fern&atilde;o Peres tinha adquirido. Usaram
+t&atilde;o grandes violencias, que os Chinezes resolveram tratalos
+como a piratas. Equiparam grande frota, e cercaram os portuguezes por
+todos os lados. Se n&atilde;o f&ocirc;ra um temporal, que abrio
+caminho por onde fugiram, ficariam todos prisioneiros. <br />
+
+<br />
+
+Depois de tal desar das armas e da honra portugueza, chegou alli Afonso
+Martins de Mello, ignorando o que se tinha passado. Assim que os
+mandarins o descobriram reuniram a sua frota para atacalo. Martins de
+Mello, dizia-lhe, que ia levar paz e n&atilde;o guerra; mas estes
+s&oacute; lhe respondiam por bocas de fogo. Travou-se o combate; os
+nossos succumbiram. Assim que Martins de Mello vio perdidos todos os
+recursos, cortou a linha inimiga como raio abrazador, e ganhou o mar
+largo, deixando os Chinezes pasmados de tal audacia. Foi preciso que os
+portuguezes com seu valor e prudencia, fizessem esquecer aos Chinezes a
+memoria do immoral Sim&atilde;o, para
+<span class="pagenum"><a name="p17" id="p17">[17]</a></span>
+serem outra vez recebidos em seus portos. <br />
+
+<br />
+
+Recuperada a boa f&eacute; entre as duas
+na&ccedil;&otilde;es obtiveram os portuguezes, em recompensa de
+servi&ccedil;os prestados ao Imperio, o isthmo do Sul na ilha de
+Mac&aacute;o, para levantarem casas, debaixo de certas
+condi&ccedil;&otilde;es; mas <a href="#eo3">fizeram
+delle</a> uma cidade a que
+deram o nome da ilha. <br />
+
+<br />
+
+Foi no anno de 1557, que o Imperador da China concedeu aos portuguezes
+aforarem aquelle isthmo em premio de terem anniquilado a esquadra do
+pirata Chang-Silau. <br />
+
+<br />
+
+Em 1584 prometteram os macaenses obediencia a Filippe II,
+por&eacute;m a bandeira portugueza tremulou sempre nas fortalezas
+de Mac&aacute;o. <br />
+
+<br />
+
+Em 1586 recebeu Mac&aacute;o o titulo de cidade do nome de Deus na
+China, e todas as liberdades e preeminencias, que tinha a cidade de
+Evora, cujos foros se confirmaram em 1709. <br />
+
+<br />
+
+Em 1622 tendo Mac&aacute;o apenas 80 portuguezes, e alguns cafres,
+foi atacado por 800 hollandezes: deixaram 500 mortos, e 100
+prisioneiros; os restantes fugiram largando em
+<span class="pagenum"><a name="p18" id="p18">[18]</a></span>
+nosso poder 8 bandeiras, armas e bagagens. <br />
+
+<br />
+
+Antes de fazerem o desembarque, pediram a dois navios inglezes, surtos
+na bahia, para ajudalos; estes n&atilde;o duvidaram, mas exigiam o
+fruto de todo o saque. Os hollandezes rejeitaram: julgaram muito
+excessiva a ambi&ccedil;&atilde;o dos inglezes. <br />
+
+<br />
+
+De 1557 at&eacute; 1625 foi Mac&aacute;o governado pelos
+capit&atilde;es de navios do Estado, que todos os annos iam de
+viagem ao Jap&atilde;o, e faziam escala naquella cidade. Com esses
+governadores teve prosperidade. <br />
+
+<br />
+
+Em 1626 foi de Goa para Mac&aacute;o D. Francisco Mascaranhas para
+Governador com o titulo de Capit&atilde;o Geral. Come&ccedil;ou
+no seu governo a desintelligencia com o Senado, e a
+dissolu&ccedil;&atilde;o praticada pelos Governadores. Este foi
+grande assassino, grande roubador e for&ccedil;ador cruel das
+mulheres e filhas dos <a href="#e4">cidad&atilde;os</a>.
+Levou os macaenses a tal
+desespera&ccedil;&atilde;o, que o mataram, a fim de se verem
+livres de t&atilde;o horrendo monstro. <br />
+
+<br />
+
+Em 1641 chegou alli a noticia da feliz aclama&ccedil;&atilde;o
+do Senhor D. Jo&atilde;o IV: os
+macaenses logo romperam os grilh&otilde;es de Filippe, e
+<span class="pagenum"><a name="p19" id="p19">[19]</a></span>
+mandaram grande donativo &aacute; capital do Rei
+legitimo. <br />
+
+<br />
+
+Em 1709 soffreram segundo Verres; Diogo de Pinho Teixeira; chegou a
+mandar bombardear o Senado, onde ferio e matou, por n&atilde;o
+consentir em suas prepotencias. <br />
+
+<br />
+
+Em 1726 chegou a Mac&aacute;o o Embaixador Alexandre Metello de
+Sousa Menezes, mandado por El-Rei D. Jo&atilde;o V. ao Imperador
+da China. Os moradores daquella cidade cooperaram muito para
+sustentar-se o decoro nacional naquella embaixada. <br />
+
+<br />
+
+Em 1747 foi governar Mac&aacute;o, Antonio Jos&eacute; Telles:
+espantou os algozes do Imperio Chinez por suas crueldades. Levou
+aquelle estabelecimento aponto de perder-se. <br />
+
+<br />
+
+Esta cidade celebre pela riqueza de seu trato, illustre pela fama de
+nossas victorias, &eacute; situada na latitude de 22 <sup>1</sup><big>&frasl;</big><sub>4</sub>
+gr&aacute;os ao N&oacute;rte do Equador, e 122.&deg; ao
+Oriente de Lisboa. Seus habitantes pouco distam dos nossos
+<a href="#e5">periecos</a>; motivo talvez por que o
+Padre Antonio
+Vieira disse: que a espada dos portuguezes tinha chegado, onde
+n&atilde;o alcan&ccedil;ou a penna de Santo Agostinho. Tem de
+extens&atilde;o a cidade pouco mais
+<span class="pagenum">[20]</span>
+de uma legua. Do lado do Norte &eacute; defendida por grossa
+muralha guarnecida de fortins: e do Sul por tres fortalezas. A de S.
+Francisco na parte oriental da Praia Grande; a do Bom porto na ponta
+occidental e a de Sant-Iago que defende a entrada da barra: tem mais
+entre as primeiras duas, o forte de S. Pedro. No centro a fortaleza do
+monte domina toda a cidade. Al&eacute;m destas fortalezas tem outra
+sobre o monte da Sr.<sup>a</sup> da Guia, fora dos muros da
+cidade. As casas
+s&atilde;o bem edificadas, mas as ruas desiguaes. O porto
+&eacute; bom: podem entrar nelle navios em lastro de oitocentas
+tonelladas. Tambem podem surgir ao largo n&aacute;os de 74. A
+povoa&ccedil;&atilde;o &eacute; de 20 mil individuos, a
+maior parte Chinezes. O Governo &eacute; o Senado composto de dois
+Juizes ordinarios, tres Vereadores, um Procurador, e um
+Escriv&atilde;o. O Governador militar ou Capit&atilde;o Geral,
+e o Ouvidor, s&atilde;o chamados ao Senado, quando ha negocios
+politicos, ou de fazenda. Neste caso preside no Senado o
+Capit&atilde;o Geral, e tem voto de qualidade. A tudo o que
+&eacute; relativo ao governo municipal preside o Vereador do mez. <br />
+
+<br />
+
+Os macaenses s&atilde;o t&atilde;o zelozos das suas liberdades,
+<span class="pagenum">[21]</span>
+que at&eacute; na meza das
+sess&otilde;es do Governo tiraram ao Presidente a regalia de ficar
+isolado no extremo della. Sendo nove os membros, collocaram a meza
+dentro de uma tribuna de modo, que ficam tres de cada lado; a frente
+&eacute; livre para entrar e sair. <br />
+
+<br />
+
+Sobre a meza descan&ccedil;a um extremo da vara da
+Justi&ccedil;a, e o outro fica encostado na parede por cima da
+cabe&ccedil;a do Ministro: um delles (Lazaro da Silva Ferreira)
+assombrando-se com ella tocou-lhe de proposito para a fazer cair, e
+mandou-a tirar, dizendo lhe ferira a cabe&ccedil;a. Os Senadores
+mandaram por-lhe um gancho no extremo, e uma argola na parede para
+segurar assim a insignia da Justi&ccedil;a. Outro dia o Ministro ao
+entrar tocou-lhe para caindo lan&ccedil;ala fora: ficou surpreso ao
+ver, que estava segura. O Vereador do mez tirou-o do
+embara&ccedil;o dizendo:&mdash;Tributamos t&atilde;o grande
+respeito
+a nossos maiores, que n&atilde;o podemos prescindir deste seu
+costume; e presamos tanto a V. S.<sup>a</sup>, que para
+n&atilde;o o ferir a
+vara da Justi&ccedil;a mandamo-la segurar. <br />
+
+<br />
+
+Ha um Bispo, e um Batalh&atilde;o de naturaes de Goa, commandados
+por Officiaes macaenses;
+<span class="pagenum">[22]</span>
+guarnece as
+fortalezas, e faz as rondas da cidade. Seus rendimentos s&atilde;o
+os direitos da Alfandega. <br />
+
+<br />
+
+As minhas viagens &aacute; China deram-me occasi&atilde;o para
+conhecer os descendentes dos honrados portuguezes, que no tempo do
+nosso captiveiro debaixo do pezado grilh&atilde;o dos Filippes
+tiver&atilde;o a constancia e valor de conservar illesos os foros
+nacionaes naquelle canto do mundo. Ainda que logravam a amizade dos
+Chinezes, s&oacute; tinham seus bra&ccedil;os para se
+defenderem das na&ccedil;&otilde;es da Europa, que alli foram
+atacalos. A historia diz pouco &aacute;cerca dos grandes feitos
+macaenses daquella &eacute;poca.<sup><a href="#n4">[4]</a></sup>
+Apenas dessas grandes
+ac&ccedil;&otilde;es ha hoje pintadas algumas mais notaveis na
+S&eacute; e Senado de Mac&aacute;o. Tudo o mais se tem perdido
+com os her&oacute;es, que t&atilde;o dignos eram de memoria
+eterna. <br />
+
+<br />
+
+Em 1808 foram os macaenses atacados por tal forma, que a n&atilde;o
+terem herdado o valor de seus maiores, de certo succumbiriam<sup><a href="#nt1">[Nota 1&ordf;]</a></sup>.
+Fui testimunha de feitos mui gloriosos. Os
+portuguezes
+<span class="pagenum">[23]</span>
+nesta &eacute;poca mostraram-se grandes
+nas armas, e na politica; nas armas pelo valor com que tomaram a grande
+esquadra de Campau-sai, na politica, pelo bem que se houveram com os
+Chinezes e Inglezes. Salvaram Mac&aacute;o de nadar em sangue;
+acreditaram-se com os primeiros; e foram uteis aos segundos. Deixarei
+t&atilde;o nobres ac&ccedil;&otilde;es no esquecimento
+&aacute;
+maneira de nossos maiores? N&atilde;o: farei diligencia para as
+transmittir &aacute; posteridade. Se n&atilde;o forem uteis aos
+presentes, se-lo-h&atilde;o por certo aos vindouros. N&atilde;o
+ha cousa mais capaz de fortalecer nossas almas, do que as proezas de
+nossos av&oacute;s. Julgo de obriga&ccedil;&atilde;o
+referilas a nossos
+n&eacute;tos. <br />
+
+<br />
+
+Mac&aacute;o &eacute; monumento precioso da gloria portugueza.
+Fern&atilde;o Peres de Andrade, foi quem primeiro immortalisou os
+portuguezes naquella parte do mundo. Ver-se-ha firmado pela
+m&atilde;o dos Chinezes, que ainda temos grande
+considera&ccedil;&atilde;o naquelle imperio. <br />
+
+<br />
+
+Contendo esta memoria dois objectos differentes, julguei a proposito
+lan&ccedil;alos em separado; ainda que um principia antes e acaba
+depois do outro. Pegaram os macaenses &aacute;s m&atilde;os com
+os piratas em 1805: A esquadra
+<span class="pagenum">[24]</span>
+ingleza
+aportou em Mac&aacute;o a 18 de Setembro de 1808, e saiu a 10 de
+Dezembro do mesmo anno. O Tratado entre o Governo Chinez e o Macaense,
+para a completa derrota da esquadra de Cam-pau-sai, foi assignado em 23
+de Novembro de 1809, e concluido t&atilde;o importante negocio em
+Abril de 1810. Para o leitor v&ecirc;r sem custo as grandes
+difficuldades, que em Mac&aacute;o se venceram, dividirei, esta
+memoria em duas partes. Tractarei na primeira da
+extinc&ccedil;&atilde;o dos piratas. Cousas ha nesta parte, que
+se fossem praticadas em tempos mais tenebrosos, seriam tidas por
+milagres, sendo s&oacute; o esfor&ccedil;o de almas valorosas
+que mandaram seus bra&ccedil;os com a penna e espada obrar taes
+prodigios. Na segunda fallarei da invas&atilde;o dos inglezes em
+Mac&aacute;o, da sua e nossa conducta, assim como da politica
+Chineza, e do final resultado. <br />
+
+<br />
+
+Em Athenas, eram os famosos oradores quem celebravam os heroes de
+Salamina; e tinham por ouvintes os Socrates e os Pericles. Eu
+n&atilde;o tenho os mesmos talentos, e tenho juizes n&atilde;o
+menos temiveis. Mas em objecto desta natureza a eloquencia consiste em
+ser sincero.<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum"><a name="p25" id="p25">[25]</a></span>
+<h3>PRIMEIRA PARTE. </h3>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Ao valor dos Portuguezes deve o Imperio da China ver-se livre dos
+piratas, que por duas vezes pertenderam dominalo. A primeira foi obra
+dos Lusitanos do seculo XVI: a segunda de seus descendentes nossos
+contemporaneos, a tempo que seus irm&atilde;os na Patria
+anniquilavam as aguias do oppressor da Europa. Depois que no seculo XVI
+os piratas foram destruidos, tentaram formar novo partido; e pouco a
+pouco engrossaram seu numero e for&ccedil;a de modo, que em <a href="#eo4">1805</a>
+estavam senhores de grande esquadra, bem guarnecida de artilheria, e
+com perto de quarenta mil homens de tripula&ccedil;&atilde;o.
+Tendo morrido o Chefe dos piratas ficou sua mulher, n&atilde;o
+s&oacute; herdeira do posto, mas tambem da sua audacia no exercicio
+da piratagem. Assim que tomou posse do commando de t&atilde;o
+grande poderio, dividio-o em duas esquadras, e deu o commando dellas a
+dois parentes do marido, que mais se tinham acreditado debaixo das suas
+ordens. A primeira e mais possante coube ao
+<span class="pagenum"><a name="p26" id="p26">[26]</a></span>
+celebre <em>Ap&oacute;cha</em>,
+que
+depois se chamou <em>Cam-pau-sai</em>, e onde sempre
+residio a viuva.
+<em>Apau-tai</em> foi commandar a segunda, composta de 130
+embarca&ccedil;&otilde;es, e com bandeira preta. <br />
+
+<br />
+
+Cam-pau-sai, homem forte, ardiloso e emprehendedor, depois de ter
+ganhado o affecto dos seus, teve arte de dispolos a executar qualquer
+empreza que imaginasse. Com effeito concebeu projecto t&atilde;o
+elevado, que bem se pode comparar com o de Afonso de Albuquerque,
+quando pertendeu tirar da Meca o corpo do Profeta, e mudar a
+direc&ccedil;&atilde;o do rio Nilo, fazendo-o desaguar no mar
+roxo para anniquilar desse modo os Turcos no Egypto! Cam-pau-sai tentou
+coroar-se Imperador dos Chinezes, e lan&ccedil;ar a dynastia
+Tartara para o Norte da grande muralha, que a divide da China.
+Come&ccedil;ou a fazer guerra t&atilde;o atroz, que
+n&atilde;o s&oacute; paralisou o commercio maritimo nas costas
+meredionaes do Imperio, mas tambem fazia desembarques no
+continente, e arrasava todos os logares por onde passava.
+Sendo a <a href="#e6">Cidade</a> de
+Cant&atilde;o a mais rica e a
+mais commerciante, quiz embara&ccedil;ar alli o negocio com os
+europeos. Para esse fim veio postar
+<span class="pagenum">[27]</span>
+suas for&ccedil;as na emboccadura do rio Tygre, e em todos os
+canaes que formam as ilhas visinhas de Mac&aacute;o. Assombrando
+assim Cam-pau-sai os mares das ilhas da China com seu poder,
+n&atilde;o se limitou a perseguir seus irm&atilde;os Chinezes,
+tambem se atreveu a insultar os navios da Europa. <br />
+
+<br />
+
+Vendo o Governo de Mac&aacute;o o risco em que ficava, rodeado de
+immensa for&ccedil;a inimiga, na esta&ccedil;&atilde;o em
+que todos os navios da pra&ccedil;a se achavam ausentes; mandou a
+Bengalla fazer um brigue para ficar de guarda costa, em quanto estes
+n&atilde;o se recolhiam: porque em os piratas sabendo,
+n&atilde;o haverem navios dentro do porto, que os fossem
+acommetter, chegavam quasi ao alcance da artilheria das nossas
+fortalesas, para embara&ccedil;arem os mantimentos, que todos os
+dias entram na Cidade. <br />
+
+<br />
+
+Deu-se tanta pressa &aacute; factura do brigue, que do momento em
+que se lan&ccedil;ou a quilha no Estaleiro, at&eacute; sair da
+barra f&oacute;ra,
+s&oacute; mediaram vinte e oito dias! Quando chegou a
+Mac&aacute;o estavam os piratas tam destemidos,
+que o Governo julgou ser insufficiente t&atilde;o
+<span class="pagenum">[28]</span>
+pequena for&ccedil;a, para os afastar da Cidade.
+Comprou mais o navio Arriaga, a que deu o nome de Ulises, e mandou-o
+armar, abrindo-lhe uma bateria na coberta. <br />
+
+<br />
+
+Assim que estas duas embarca&ccedil;&otilde;es
+come&ccedil;aram a bater os piratas, estes n&atilde;o ousavam
+aproximar-se dellas. Com tudo ainda faziam damno ao commercio; porque
+os nossos vasos n&atilde;o podiam entrar nos pequenos canaes, onde
+elles o interceptavam. Alli podia a esquadra Imperial
+fazer-lhe algum ataque; mas o respeito devido a Cam-pau-sai, tirava a
+lembran&ccedil;a de o acommetterem. Passou o anno de 1806, e parte
+de 1807, sem que os piratas arriscassem entrar em combate com os
+nossos. Esperavam achalos separados, e em parte onde n&atilde;o se
+podessem soccorrer; no entanto iam devastando a provincia de
+Cant&atilde;o. <br />
+
+<br />
+
+Meado o anno de 1807 achou o nosso brigue em boa
+posi&ccedil;&atilde;o para atacalo. Mandou uma
+divis&atilde;o commandada por um de seus Capit&atilde;es mais
+experimentados, que o fosse combater. Commandava o nosso brigue, o
+valente e destemido <em>Pereira Barreto</em>.
+J&aacute; nesse tempo havia adquirido tam grande credito
+<span class="pagenum"><a name="p29" id="p29">[29]</a></span>
+entre os Chinezes, que lhe chamavam o Tygre do
+mar.<sup><a href="#n5">[5]</a></sup> O
+impavido <em>Barreto</em>tinha valor para
+investir com toda a esquadra de Cam-pau-sai, quanto mais com uma de
+suas divis&otilde;es. Assim que a julgou ao alcance da artilheria,
+virou sobre ella fez-lhe fogo t&atilde;o vivo, e estrago
+t&atilde;o grande, que todos fugiram deixando a
+Capitan&iacute;a &aacute;s m&atilde;os com o
+<a href="#eo5">brigue</a>. Vendo o forte <a href="#e7"><em>Barreto</em></a>, que a
+artilheria inimiga &eacute;ra de maior
+calibre, resolveu abordar o Ta&oacute;<sup><a href="#n6">[6]</a></sup>.
+Deve
+imaginar-se uma grande lancha dando abordagem a uma N&aacute;o.
+Assim parecia o brigue junto ao Ta&oacute;, e apenas tinha um
+quinto da equipagem do navio inimigo. Todavia o forte <em>Barreto</em>dirige
+a sua
+embarca&ccedil;&atilde;o &aacute; p&ocirc;pa do
+Ta&oacute;. Quando se lhe botavam os arp&eacute;os
+lan&ccedil;aram os piratas uma
+bal&ccedil;a de fogo dentro da pr&ocirc;a do brigue, que
+decerto o abrazaria, se o previdente <em>Barreto</em>
+n&atilde;o corresse a lan&ccedil;ala ao mar. A este tempo unem
+se as embarca&ccedil;&otilde;es;
+<em>Barreto</em>&eacute; o primeiro que
+tr&eacute;pa pelo Ta&oacute; acima, e t&atilde;o depressa
+p&ocirc;de firmar os p&eacute;s sobre a tolda inimiga, cantou
+victoria: <br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[30]</span>
+<div class="poetry"><em>Saltando a far&aacute;
+s&oacute; com
+lan&ccedil;a e espada<br />
+
+De quatro centos mouros despejada</em><sup><a href="#n7">[7]</a></sup></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<em>Barreto</em>usava de espada colubrina, e
+manejava de sorte que dos setenta homens, equipagem do brigue, os que
+poderam subir disseram, que chegando acima, viram a tolda coberta de
+mutilados! Achou o nosso heroe t&atilde;o porfiada resistencia, que
+todos foram mortos por&eacute;m nenhum vencido, ou aprisionado. Os
+que pertenderam escapar aos golpes do nosso Marte irado,
+lan&ccedil;aram-se ao mar. O seu Chefe, vendo-se perdido desceu
+&aacute; camara, pegou em sua mulher pelos cabellos, cortou-lhe a
+cabe&ccedil;a com o alfange, e sepultou-se no mar com ella.<sup><a href="#n8">[8]</a></sup> <br />
+
+<br />
+
+Este combate foi dado perto de Mac&aacute;o; <em>Barreto</em>conduzio
+immediatamente a
+preza ao porto. Os macaenses e muitos estrangeiros, foram logo dar o
+parabem a t&atilde;o valente Capit&atilde;o, e ver o navio
+inimigo. Ficaram horrorisados da carnagem, porque os piratas
+s&oacute; se rendiam com a morte. Haviam seculos, que j&aacute;
+se n&atilde;o faziam d'estas proezas; e
+at&eacute;
+<span class="pagenum"><a name="p31" id="p31">[31]</a></span>
+nos parecia impossivel,
+que no tempo de Cam&otilde;es, D. Louren&ccedil;o de Almeida
+fosse bastante para debellar em uma N&aacute;o da M&eacute;ca
+quatro centos mouros. Mas ainda em nossos dias mostra o entendimento
+supremo, que um portuguez s&oacute; com seu bra&ccedil;o
+&eacute; sufficiente para destruir em um Ta&oacute; mais de 300
+Chinezes. <br />
+
+<br />
+
+Esta verdade precisa quasi de tanto valor para escrevela, como para
+obrala, ainda sendo evidente ao escriptor; mas &eacute; qualificada
+pelos habitantes de uma cidade, onde residiam subditos de varias
+na&ccedil;&otilde;es. J&aacute; o nosso Diniz cantou as
+victorias de outro Barreto; justo &eacute; que t&atilde;o
+divino estro sirva para
+immortalisar os dois.<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="poetry"><em>Lavremos pois, oh! Musa,
+&aacute;
+gran memoria<br />
+
+Com <a href="#eo6">argivo</a> buril
+padr&atilde;o sagrado:</em></div>
+
+<div class="poetry2">
+<em>Morda-se o tempo irado,</em></div>
+
+<div class="poetry"><em>Que ella eterna
+far&aacute; a
+clara
+historia<br />
+
+Alma que atraz da fama immenso espa&ccedil;o</em></div>
+
+<div class="poetry2">
+<em>Corre, veja em meus hymnos</em></div>
+
+<div class="poetry"><em>Que em v&atilde;o
+n&atilde;o
+sua
+bellicoso bra&ccedil;o.</em><sup><a href="#n9">[9]</a></sup>
+</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Por feito t&atilde;o assombroso ficou Mac&aacute;o em socego.
+Os piratas retiraram-se para longe, mas sempre fazendo estrago em tudo
+que podiam
+<span class="pagenum">[32]</span>
+vencer. A esquadra imperial com a noticia d'esta victoria
+animou-se a sair de Cant&atilde;o e aproximar-se de
+Mac&aacute;o, cruzeiro que ella j&aacute; n&atilde;o ousava
+fazer com receio dos piratas. A brilhante proeza do invicto
+<em>Barreto</em>
+fez desapparecer das ilhas da China aquella praga devastadora: por
+consequencia o Governo de Mac&aacute;o mandou recolher as suas
+embarca&ccedil;&otilde;es. <br />
+
+<br />
+
+Sabendo-se na China, que o Sr. D. Jo&atilde;o VI tinha deixado
+Portugal para reinar no Brazil; lembraram-se os macaenses de mandar
+cumprimentar o Rei dos Lusos nas suas possess&otilde;es do polo
+antarctico. Apromptaram o navio Ulises, nomeando para ir saudar El-Rei,
+pelo Senado, ao honrado cidad&atilde;o Antonio Joaquim de Oliveira
+Matos; e deram o commando da embarca&ccedil;&atilde;o ao
+denodado
+<em>Barreto</em>. Destinando-se aquella enviatura a
+obsequiar o Chefe dos Lusos, pensaram n&atilde;o ser pequeno mimo
+fazer-lhe conhecer quem tanto honrava o nome portuguez. Foi o nosso
+heroe recebido no Brazil, quasi da mesma sorte que os Dias, e os Gamas,
+recolhendo-se de suas trabalhosas viagens, eram recebidos
+pelos antigos
+<span class="pagenum">[33]</span>
+reis portuguezes. O Sr.
+D. Jo&atilde;o VI o elevou de primeiro Tenente a Capit&atilde;o
+de Fragata: Premiou os macaenses: deu-lhes distinctivos, que foram
+assaz estimados, talvez por se esquecerem das altas virtudes de seus
+maiores, que os despresavam por bons costumes. <br />
+
+<br />
+
+Affastado Cam-Pau-Sai de Mac&aacute;o por temer os portuguezes,
+n&atilde;o esfriou em sua empreza. Come&ccedil;ou
+ent&atilde;o a proclamar a todos os do seu partido a tyrannica
+oppress&atilde;o, que sofria o imperio, por consentirem no
+thorono a intrusa dinastia barbara. Demonstrou-lhe
+qu&atilde;o facil &eacute;ra dep&ocirc;r aquella,
+restabelecer a Chineza, e fazer a cada um dos seus regulo do imperio.
+Tal pericia desenvolveu na piratagem, e na persuas&atilde;o, que
+j&aacute; os seus
+n&atilde;o duvidavam ser elle o unico capaz de restaurar a
+dignidade da Patria. <br />
+
+<br />
+
+Andavam assim de animo affeito &aacute; guerra,
+quando tiveram a feliz noticia, de j&aacute; n&atilde;o existir
+em Mac&aacute;o o <em>tygre do mar</em>.
+Voaram como bando de A&ccedil;ores famintos a devorar
+tudo quanto podiam encontrar pelas ilhas visinhas de Mac&aacute;o.
+N&atilde;o esperando o Almirante Chinez aquelle infausto encontro,
+cruzava afoito na
+<span class="pagenum">[34]</span>
+bocca do
+Tyre. Assim que foi descoberto por Cam-pau-sai,
+carregou sobre elle. Uma divis&atilde;o imperial de 28 navios de 15
+a 20 pe&ccedil;as cada um, que n&atilde;o fugio para fazer-lhe
+frente, ficou prisioneira. Soberbo com essa victoria,
+come&ccedil;ou de novo a investir as
+embarca&ccedil;&otilde;es da Europa, e as macaenses. Nesta
+epoca alguns navios Americanos se poderam escapar ao abrigo das nossas
+fortalezas. <br />
+
+<br />
+
+Recolhendo-se de Goa o brigue do
+<em>Botelho</em>, Capit&atilde;o Manoel Jos&eacute;
+Vianna, foi visto dos piratas; carregaram sobre elle; mas acharam
+t&atilde;o grande resistencia naquelle esfor&ccedil;ado
+Capit&atilde;o, que restando apenas seis homens da sua equipagem,
+com elles fazia grande estrago ao inimigo. Com tudo o fogo abrandou,
+pelo cansa&ccedil;o; mas vendo Apautai, que n&atilde;o arreavam
+bandeira, mandou abordalos. O impavido Vianna ao ver-se rodeado de
+torres ambulantes e coberto de lan&ccedil;as, longe de esmorecer,
+tomou em sua alma o espirito de Duarte Pacheco; e &aacute;
+imita&ccedil;&atilde;o dos
+nossos <em>Barretos</em>, quantos inimigos lhe saltavam na
+sua embarca&ccedil;&atilde;o, tantos a sua espada
+lan&ccedil;ava no abysmo. Os Chinezes espantados j&aacute;
+n&atilde;o o julgavam
+<span class="pagenum"><a name="p35" id="p35">[35]</a></span>
+homem, mas
+sim algum ente superior &aacute; especie humana. Parecia
+invulneravel! Com tudo morreu no combate. Mas como? Can&ccedil;ado
+de matar piratas. <br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="poetry2"><em><a href="#eo7">Cem
+par&aacute;os</a>
+torreados,</em></div>
+
+<div class="poetry"><em>Donde por boccas mil brota
+Mavorte;</em></div>
+
+<div class="poetry2"><em>Entre horrorosos
+brados</em></div>
+
+<br />
+
+<div class="poetry"><em>Em fogo, em fumo, em sangue
+envolta a morte<br />
+
+Zarguchos,
+flexas, que em chuveiro voam.</em><sup><a href="#n10">[10]</a></sup></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Tal foi o combate supportado pelo Magnanimo Vianna. Com a sua morte
+ganharam os piratas tal audacia, que tiveram a ousadia de passar com o
+navio prisioneiro, e com a bandeira de rasto, &aacute; vista de
+Mac&aacute;o. A
+sensa&ccedil;&atilde;o que fez esse triste espectaculo nos
+moradores daquella cidade &eacute; inexplicavel. Juraram
+n&atilde;o s&oacute; retomar a sua
+embarca&ccedil;&atilde;o, mas tambem dar aos piratas o castigo
+merecido. Os navios que ent&atilde;o se achavam no porto capazes de
+tal empreza, eram o brigue do <em>Senado</em>, e o navio
+Belisario. O
+brigue achava-se desarmado, e desaparelhado, assim como o Belisario. <br />
+
+<br />
+
+Seriam nove horas da manh&atilde;, quando
+<span class="pagenum"><a name="p36" id="p36">[36]</a></span>
+se
+avistou o navio apresado; e antes de anoitecer j&aacute; os nossos
+iam no alcance da esquadra inimiga! Como foi possivel obrar tanto em
+t&atilde;o pouco tempo? Tudo se deveu &aacute; generosidade dos
+macaenses, e ao estimulo dado pelo incan&ccedil;avel Arriaga. Este
+digno Ministro, honra dos togados, e columna forte da gloria nacional,
+n&atilde;o se limitou a ser o primeiro em votar, e concorrer com
+meios para o desempenho desta empreza. Pesando a importancia da cidade,
+e o perigo em que ella se achava, resolveu sobre sua defeza penhorar
+todas as for&ccedil;as sem perdoar as despezas, diligencias ou
+perigos. Foi com seus bra&ccedil;os dar exemplo aos macaenses mais
+distinctos, que todos trabalharam na
+promptifica&ccedil;&atilde;o dos navios.<br />
+
+<br />
+
+Era este var&atilde;o entre os macaenses bem similhante
+&aacute; alma dos estoicos, espalhada pelo universo. Estava em toda
+a parte. Seria preciso eloquencia extremada e presencear todos os seus
+<a href="#e8">illustres</a> feitos, para elogiar
+as altas qualidades deste preclaro var&atilde;o: sem isso
+n&atilde;o &eacute; possivel apparecerem t&atilde;o
+brilhantes como foram praticados.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum"><a name="p37" id="p37">[37]</a></span>
+Por n&atilde;o haver ent&atilde;o em Mac&aacute;o Official
+de mar, que se julgasse dextro na politica, ainda que todos
+sobrepujavam, no valor, deu-se o commando em chefe ao
+Capit&atilde;o de artilheria Jos&eacute; Pinto Alcoforado de
+Azevedo e Sousa. Sustentou este invicto heroe, em toda a lucta contra
+os piratas, a dignidade portugueza de modo, que bem se parecia com o
+primeiro Capit&atilde;o Lusitano, que aportou naquelle imperio.<sup><a href="#nt2">[Nota 2&ordf;]</a></sup>
+Theotonio da Silva Braga, commandava o navio Belisario. Ca&iacute;o
+t&atilde;o grande tuf&atilde;o na noite seguinte ao dia em que
+sa&iacute;ram os navios, que se julgava telos submergido. <br />
+
+<br />
+
+Ao amanhecer <a href="#eo8">subir&atilde;o</a>
+os montes,
+sobranceiros &aacute; cidade, anciosos por ver seus
+campe&otilde;es; avistaram o brigue do
+<em>Botelho</em>, que tendo surgido em Lant&aacute;o
+prisioneiro, e ficando-lhe abordo os portuguezes restantes do combate,
+assim que o tuf&atilde;o soprou do Oriente, cortara, que tendo
+surgido em Lant&aacute;o
+prisioneiro, e ficando-lhe abordo os portuguezes restantes do combate,
+assim que o tuf&atilde;o soprou do Oriente, cortaram as amarras e
+vieram encalhar na Taipa. Os macaenses exultaram com este
+successo, e muito mais por avistarem o brigue, e o Belisario, que pela
+grande pericia de seus officiaes <a href="#eo9">tinh&atilde;o</a>
+escapado &aacute; furia do
+tuf&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[38]</span>
+Havia tambem uma lorcha armada em guerra<sup><a href="#n11">[11]</a></sup>
+commandada por Antonio
+Jos&eacute; Gon&ccedil;alves Caroxa: mancebo activo e
+destemido. Era commando de difficil desempenho; por ser a
+embarca&ccedil;&atilde;o conductora dos viveres para os nossos,
+levados por entre os inimigos em frequentes combates. A
+for&ccedil;a da lorcha constava de quatro pedreiros, um obuz de
+doze, e trinta homens de tripula&ccedil;&atilde;o. Algumas
+vezes aconteceu estar encorporada aos nossos navios, quando batiam os
+piratas. Se o acaso permittia accalmar o vento, nessas
+occasi&otilde;es fazia o nosso Caroxa maravilhas extremadas. <br />
+
+<br />
+
+Desejava Cam-pau-sai encontralo, onde n&atilde;o podessem defendelo
+os nossos, para mais a salvo descarregar sobre elle seu poder, e seu
+odio. Teve quem lhe desse dia certo em que a lorcha havia passar por
+logar, onde Cam-pau-sai podia satisfazer seus desejos. Amanheceu o dia
+aprasado, e o novo <em>Aquilles Lusitano</em>chegou ao
+passo, que bem pode nomear-se Cabal&atilde;o<sup><a href="#n12">[12]</a></sup>. Achou-o coberto de
+inimigos: mas julgando urgente o desempenho
+<span class="pagenum">[39]</span>
+da sua commiss&atilde;o, tentou abrir caminho.
+Ainda que a sua tripola&ccedil;&atilde;o era toda de Chinezes,
+tinha a sua disciplina: julgou que isso bastava. <br />
+
+<br />
+
+Os inimigos tentaram rodealo; mas o intrepido Caroxa lan&ccedil;ou
+m&atilde;os ao obuz, e como o reparo era de pi&atilde;o, jogava
+para todos os lados. Aos que se lhe aproximavam cortava-os com
+metralha; e aos que estavam mais longe passava-os com balas. Mas os
+navios inimigos eram tantos, que mal podia desbaratar a todos os que
+lhe vinham ao alcance. Com tudo apezar de ver a maior parte da
+tripola&ccedil;&atilde;o morta, n&atilde;o esfriava no
+empenho de vencer. N&atilde;o usava render-se, nem fugir; cada vez
+mais afouto pertendia desembara&ccedil;ar o passo. Mas os restantes
+da tripola&ccedil;&atilde;o vendo passar-lhe as ballas pelo
+vestido, sem lhe offender o corpo, e irem matar os seus companheiros;
+por que n&atilde;o lhes succedesse o mesmo, ousaram
+lan&ccedil;ar-se a elle, e amarralo de p&eacute;s e
+m&atilde;os. Segurando assim o homem, que lhes parecia
+invulneravel, fugiram para a cidade, onde o entreg&aacute;ram
+cheios de espanto e de temor, dando por desculpa do seu arrojo, o muito
+que
+<span class="pagenum">[40]</span>
+apreciavam a existencia do seu
+commandante. <br />
+
+<br />
+
+Os macaenses receberam o destemido Caroxa com
+estima&ccedil;&atilde;o digna dos importantes
+servi&ccedil;os, que lhes fazia, e do valor com que se
+immortalisava. Mas o conselheiro Arriaga sobresa&iacute;a a todos.
+Tinha maneiras singulares para introduzir heroismo nos homens, que
+destinava a emprezas arriscadas. O sentimento lugubre, que mostrava
+pela morte de um marinheiro habil, ou o elogio feito a outro que se
+distinguia, dava a todos cobi&ccedil;a de se verem acatados e
+elogiados por elle. Nesta occasi&atilde;o um abra&ccedil;o dado
+no Caroxa, em nome da patria fortaleceu a alma deste Lusitano de modo,
+que s&oacute; elle em sua lorcha, com outra equipagem, se julgava
+sufficiente para arrostar com todos os piratas. <br />
+
+<br />
+
+Em verdade, onde as leis s&atilde;o respeitadas, a sociedade
+&eacute; livre: e os homens ser&atilde;o livres em toda a
+parte, que houver governo justo como era ent&atilde;o o de
+Mac&aacute;o. Longe de envejar a seus concidad&atilde;os as
+vantagens, grangiadas por sua industria, cuidava com muito desvelo em
+augmenta-las. N&atilde;o s&oacute; deixava de opprimilos; mas
+assegurava a sua liberdade;
+<span class="pagenum">[41]</span>
+bem precioso
+ao homem, e necessario &aacute; sua ventura; t&atilde;o
+distante da licen&ccedil;a perigosa, como da
+humilia&ccedil;&atilde;o servil. O governo providente apenas
+liga as m&atilde;os aos homens para n&atilde;o se offenderem;
+mas deixa-os trabalhar sem obstaculo para a sua felicidade; sabe que a
+ignorancia n&atilde;o s&oacute; deslumbra os homens mas tambem
+os faz pusillanimes e desgra&ccedil;ados: a raz&atilde;o e a
+liberdade melhoram o cora&ccedil;&atilde;o
+e os faz virtuosos e resolutos. <br />
+
+<br />
+
+Arriaga sabia que a justa destribui&ccedil;&atilde;o dos
+premios e das penas &eacute; a melhor ac&ccedil;&atilde;o
+do governo sobre o povo: servio-se destas principaes molas do
+cora&ccedil;&atilde;o humano, para animar a virtude e o merito;
+e obrigar o interesse particular a promover o interesse publico. O
+certo &eacute; que a virtude desapparece, quando o vicio
+&eacute; honrado. Algumas vezes lhe ouvi eu que os favores dados
+&aacute; incapacidade, s&atilde;o roubos feitos ao merecimento;
+e as recompensas dadas a quem bem serve a patria s&atilde;o
+dividas, que o governo paga por ella. Fui testimunha das
+ben&ccedil;&atilde;os, que lhe
+lan&ccedil;avam os macaenses pelo muito que se occupava da sua
+ventura.&mdash;Fazia do merecimento dos homens
+<span class="pagenum"><a name="p42" id="p42">[42]</a></span>
+estima&ccedil;&atilde;o t&atilde;o justa, que nem
+&aacute; conveniencia, nem ao estado ficava devedor: virtude nos
+principes difficultosa, e nos ministros rara<sup><a href="#n13">[13]</a></sup>.
+<br />
+
+<br />
+
+Os temerarios, que tinham amarrado o invicto Caroxa, foram excluidos do
+servi&ccedil;o portuguez. Tomou nova
+tripola&ccedil;&atilde;o e continuou a destruir os piratas.
+Cam-pau-sai vio constantemente frustradas, quantas diligencias fez para
+o tomar. <br />
+
+<br />
+
+Logo que amainou o tuf&atilde;o, partiram os nossos em procura do
+inimigo. Acharam reunidas as esquadras de Cam-pau-sai, e Apau-tai, nos
+canaes de <a href="#eo10">Wam-poo</a>,
+em 15 de Septembro
+de 1809. Assim que avistaram os navios Macaenses, suspenderam, mas os
+nossos carregaram sobre elles. Cam-pau-sai empenhou-se no combate; fez
+entrar nelle os seus melhores navios: mas o fogo violento das nossas
+embarca&ccedil;&otilde;es fazia-lhe tal estrago, que saindo
+elles do alcance da nossa artilheria, poucas ficavam em estado de
+entrar segunda vez no fogo. Com tudo cevados de raiva, e avidos de
+gloria, a fim de illudir os povos do seu partido, ainda bem uns
+n&atilde;o se
+<span class="pagenum">[43]</span>
+tinham retirado, j&aacute; outros tomavam o logar vago.
+N&atilde;o sendo o Belisario construido para guerra t&atilde;o
+violenta, abrio com o impulso da artilheria; tornou-se incapaz de
+combater: retirou-se. O invito Alcoforado n&atilde;o podendo vencer
+for&ccedil;a t&atilde;o superior tambem se retirou, mas deixou
+em cinzas muitas embarca&ccedil;&otilde;es inimigas. <br />
+
+<br />
+
+&Eacute; sempre a guerra origem fecunda de calamidades, vexames, e
+ruinas para os povos. Appareceu na China o torbulento Cam-pau-sai, para
+estrago de seus moradores, e vexa&ccedil;&atilde;o dos
+macaenses. &Eacute; evidente, que
+o conquistador, n&atilde;o &eacute; s&oacute; inimigo dos
+povos, onde recruta; mas tambem se torna flagello do genero humano. Sim
+a guerra sobrecarrega os povos de impostos, e raras vezes o tumulto dos
+combates deixa ouvir as supplicas da justi&ccedil;a.<sup><a href="#n14">[14]</a></sup> <br />
+
+<br />
+
+Os macaenses tiveram nesta occasi&atilde;o motivo para julgar
+qu&atilde;o forte &eacute;ra o inimigo: e Cam-pau-sai a ufania
+de fazer retirar dois navios portuguezes. <br />
+
+<br />
+
+Apezar da perda que sofreu, ficou mais
+<span class="pagenum"><a name="p44" id="p44">[44]</a></span>
+altivo, e
+mais assolador. Exaltou o espirito dos Chinezes de modo, que se
+levantaram em Cant&atilde;o partidos de descontentes. O
+Sunt&oacute; prevendo a ruina, que amea&ccedil;ava o Imperio,
+tratou com o Governo de Mac&aacute;o para refor&ccedil;ar a
+esquadra portugueza, e junta com a Chineza cruzar nos mares daquellas
+ilhas, afim de livrar o commercio das duas cidades, e portos contiguos.
+O Governo macaense testimunha do vexame em que se achavam os moradores
+da cidade, e dos gastos que tinham feito em guerra t&atilde;o
+dilatada, mal podia convencionar com os Chinezes, <a href="#eo11">por
+ser</a> a empreza
+<a href="#eo12">mui</a> dispendiosa. Com tudo o
+magnanimo Arriaga, a quem nada
+parecia
+impossivel decidio o Governo macaense a tratar com o de
+Cant&atilde;o, e fez-se a conven&ccedil;&atilde;o
+seguinte:<sup><a href="#n15">[15]</a></sup>
+<br />
+
+<br />
+
+O Governo das duas provincias de Cant&atilde;o e Quang-si, e o de
+Mac&aacute;o, igualmente convencidos da precis&atilde;o, que
+tem de p&ocirc;r fim
+<span class="pagenum"><a name="p45" id="p45">[45]</a></span>
+&aacute;s invas&otilde;es dos piratas (os
+quaes sem temor infestam os mares, que
+cercam estas duas cidades) de restituirem a publica tranquillidade, e
+as rela&ccedil;&otilde;es commerciaes, <a href="#eo13">formar&atilde;o</a>
+uma guarda
+costa, combinando a for&ccedil;a dos dois governos: para esse fim
+nomearam os seus plenipotenciarios: Cant&atilde;o, os mandarins de
+Nam-hay, Shon-key-chi, de Hiang-sam, Pom, e o da Caza branca, Chu:
+Mac&aacute;o ao Conselheiro Arriaga, e ao Procurador do Senado,
+Jos&eacute; Joaquim de Barros; os quaes depois de terem
+respectivamente communicado os seus plenos poderes, e discutido a
+materia, concluiram e ajustaram os artigos seguintes: <br />
+
+<br />
+
+1.&ordm; Haver&aacute; uma guarda costa, de seis navios
+portuguezes,
+conbinada com uma esquadra imperial; cruzar&aacute;
+seis mezes, desde a bocca do tygre &aacute; cidade de
+Mac&aacute;o, a fim de embara&ccedil;ar que os piratas
+n&atilde;o entrem nos canaes, que at&eacute; agora tem
+infestado. <br />
+
+<br />
+
+2.&ordm; O Governo chinez obriga-se a contribuir com oitenta mil
+ta&eacute;s para ajudar o armamento dos navios portuguezes. <br />
+
+<br />
+
+3.&ordm; O Governo de Mac&aacute;o far&aacute; logo cruzar
+os dois
+navios, que tem armados, e apromptar&aacute;
+<span class="pagenum"><a name="p46" id="p46">[46]</a></span>
+com brevidade os quatro restantes. <br />
+
+<br />
+
+4.&ordm; Ambos os Governos devem ajudar-se em tudo o que for a bem
+do
+cruzeiro, o qual n&atilde;o se estender&aacute; al&eacute;m
+dos pontos
+determinados. <br />
+
+<br />
+
+5.&ordm; As presas seram repartidas entre os dois Governos. <br />
+
+<br />
+
+6.&ordm; Quando a expedi&ccedil;&atilde;o finalisar
+ser&atilde;o restituidos aos macaenses os seus antigos privilegios.
+<br />
+
+<br />
+
+7.&ordm; As partes contractantes obrigam-se a cumprir tudo quanto
+se
+estipulou nos mencionados artigos sem alterar cousa alguma, e a
+consideralos como ratificados em virtude de seus plenos poderes.
+Mac&aacute;o 23 de Novembro de 1809. <br />
+
+<br />
+
+<div style="text-align: center;">Shou-Key-chi.&mdash;Arriaga.
+<br />
+
+<br />
+
+Pom.&mdash;Chu&mdash;Barros.<br />
+
+<br />
+
+</div>
+
+<br />
+
+O governo de Mac&aacute;o observou logo o <a href="#eo14">3&ordm;</a>
+artigo. Arriaga entrou a promover os aprestos dos navios restantes, mas
+o thesouro do Senado n&atilde;o podia suprir a t&atilde;o
+grandes despesas. Arriaga tomou de seus amigos grandes sommas sobre o
+seu credito: ent&atilde;o e
+artigo. Arriaga entrou a promover os aprestos dos navios restantes, mas
+o thesouro do Senado n&atilde;o podia suprir a t&atilde;o
+grandes despesas. Arriaga tomou de seus amigos grandes sommas sobre o
+seu credito: ent&atilde;o era valor
+<span class="pagenum">[47]</span>
+de sobejo para os negociantes, que lhe offereceram quanto possuiam<sup><a href="#n16">[16]</a></sup>. <br />
+
+<br />
+
+Havia na cidade pouca gente para tripolar os navios se n&atilde;o
+suprissem os prodigios obrados pela gente portugueza.<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="poetry"><em>.....Tornando frio<br />
+
+De espanto o ardor immenso do oriente,<br />
+
+Que ver&aacute; tanto obrar t&atilde;o pouca
+gente.</em></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Mojatec&atilde;o, observando e experimentando o valor dos
+portuguezes em Diu, exclamou:&mdash;S&atilde;o dignos de que os
+sirvam
+as outras gentes. A fortuna do mundo est&aacute; em serem
+poucos.&mdash;Em verdade com cem portuguezes, e sete centos
+manillas e
+cambojas, se fez &aacute; v&eacute;la a esquadra (seis dias
+depois da conven&ccedil;&atilde;o) levando por chefe o
+destemido
+Alcoforado, na galera inconquistavel. Luiz Carlos de Miranda commandava
+a Pala, Anacleto Jos&eacute; da Silva o Indiano, Antonio
+Jos&eacute; Gon&ccedil;alves Caroxa, o brigue do Senado,
+Jos&eacute; Felis dos Remedios o navio S. Miguel, Jos&eacute;
+Alves o Belisario. Nesse mesmo dia attac&aacute;ram
+e dispersaram os piratas, que se retiraram para mais longe de
+Mac&aacute;o.<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[48]</span>
+O governo de Cant&atilde;o, n&atilde;o foi activo como o dos
+macaenses; al&eacute;m disso a esquadra chineza nem uma
+s&oacute; vez chegou a auxiliar os nossos. Tanto medo tinham de
+Cam-pau-sai, que nem ao lado dos portuguezes se atreviam acommettelo. O
+governo de Mac&aacute;o vendo assombrada toda a provincia de
+Cant&atilde;o, pelo grande vulto, que faziam os piratas, resolveu
+despresar os soccorros da esquadra imperial, e anniquilar s&oacute;
+o grande poder de Cam-pau-sai. Mandou pelo chefe Alcoforado
+intimar-lhe, que se entregasse &aacute; obediencia do imperador,
+promettendo-lhe perd&atilde;o, e gr&aacute;o superior
+na classe mandarina. <br />
+
+<br />
+
+Entraram os chefes am correspondencia: o nosso pedia ao dos
+piratas, que viesse a Mac&aacute;o para tractarem de
+conven&ccedil;&atilde;o amigavel: declarando-lhe, que se
+n&atilde;o conviesse com elle, poria em ac&ccedil;&atilde;o
+todos os recursos da guerra, e n&atilde;o descan&ccedil;aria
+sem exterminalo. <br />
+
+<br />
+
+Campau-sai, respondeu:&mdash;Tenho presente a vossa carta:
+n&atilde;o me
+assusta. Desejo fazer a paz com os portuguezes, com tanto que
+n&atilde;o entendam comigo. Quanto a submetter-me ao imperador,
+j&aacute;mais o farei, ainda
+<span class="pagenum">[49]</span>
+que
+me assegureis e digais o que quizerdes. S&ocirc;
+n&atilde;o terei duvida no que tenho
+acima dito. Quando abraceis esse partido, podeis retirar-vos para
+Mac&aacute;o, e mandai-mo dizer para n&atilde;o entender com os
+vasos portuguezes. Esta resposta de Cam-pau-sai, firmada no dia 18 de
+Dezembro de 1809, foi moderada em raz&atilde;o de ter sido atacado
+e batido pelos nossos em 11 do mesmo mez. <br />
+
+<br />
+
+Em quanto estas cousas se passavam entre Alcoforado e Cam-pau-sai, deu
+o imperador amnistia a todos os piratas, que se lhe entregassem.
+Apau-tai receando o valor dos nossos, julgou conveniente entregar-se.
+Concordou com os principaes da sua divis&atilde;o: rendeu-se com
+cento e trinta embarca&ccedil;&otilde;es bem equipadas de
+homens e de armas. <br />
+
+<br />
+
+Trahido Cam-pau-sai pelo amigo, que mais estimava, ficou magoado por
+ver a pouca perseveran&ccedil;a dos homens, ainda mesmo os que tem
+as mais intimas rela&ccedil;&otilde;es de interesse,
+parentesco e amisade; mas era tal o seu animo, que nenhuma
+desgra&ccedil;a o intimidava. Mais atrevido ainda mandou apromptar
+a esquadra do seu commando a fim de concluir seus designios.<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[50]</span>
+Alcoforado aproveitou-se da cobardia de Apau-tai, attacou, e fez
+retirar Cam-pau-sai. Logo depois mandou-lhe dizer, que assim como
+Apau-tai, o havia abandonado, assim o fariam os outros seus
+companheiros; e diminuidas assim as suas for&ccedil;as seria
+obrigado a entregar-se prisioneiro: que era melhor capitular
+j&aacute;, alcan&ccedil;ando honra e interesse, como lhe tinha
+promettido e affian&ccedil;ado. A esta segunda instancia respondeu
+Cam-pau-sai pelo modo seguinte. <br />
+
+<br />
+
+Hontem recebi uma carta vossa mui persuasiva: conhe&ccedil;o o
+desejo que tendes de me ver em Mac&aacute;o: fico-vos agradecido
+por t&atilde;o singular obsequio e estima&ccedil;&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+Estando sobre os mares, como no centro de um reino, no qual empunho o
+sceptro do poder, e governan&ccedil;a para todos os que me
+obedecem, vivo muito occupado. N&atilde;o &eacute; simples
+negocio o governo de um reino: eis o motivo por que n&atilde;o
+cumpro o vosso desejo. <br />
+
+<br />
+
+Agora todo o meu empenho &eacute; restaurar e possuir as terras
+deste orbe: assim ficar&atilde;o completos os meus desejos.
+Digo-vos ingenuamente este &eacute; o fim a que me proponho. Tenho
+<span class="pagenum"><a name="p51" id="p51">[51]</a></span>
+muitas
+embarca&ccedil;&otilde;es, e mantimentos para longo tempo: nada
+me falta. Vendo que me estimaes, por isso vos dou a conhecer o meu
+projecto. <br />
+
+<br />
+
+Se quizerdes emprestar-me quatro navios para fazer com elles o que me
+aprouver, mais depressa restaurarei o imperio. Depois dar-vos-ei duas
+o tres provincias a vosso contento. Asseguro-vos a fidelidade da
+minha promessa. Se n&atilde;o podeis agora mandar-me os navios seja
+quando vos convier. <br />
+
+<br />
+
+Ha muitas pessoas, que me aconselham para render vassalagem a um
+tartaro! S&atilde;o
+exorta&ccedil;&otilde;es baldadas. Possuindo esta esquadra com
+a divisa da bandeira vermelha, farei com ella os maiores
+esfor&ccedil;os para restaurar o imperio. J&aacute; mandei
+apromptar a minha esquadra, para se dirigir &aacute; bocca do rio
+tygre; a fim de bater os imperiaes. Tenho outros assumptos a
+communicar-vos, por&eacute;m agora n&atilde;o o posso fazer.
+Basta o conteudo desta, para viveres na intelligencia do meu firme
+proposito. Dezembro 26, de 1809. <br />
+
+<br />
+
+Desenganado Alcoforado de que n&atilde;o conseguia a entrega dos
+piratas sem <a href="#eo15">effus&atilde;o</a>
+de
+<span class="pagenum">[52]</span>
+sangue,
+come&ccedil;ou de novo a batelos. Os nossos estavam j&aacute;
+t&atilde;o praticos nos canaes das ilhas da China, que os piratas
+apenas lhe escapavam nos pequenos rios, onde os nossos vasos
+n&atilde;o podiam entrar. Cam-pau-sai usou entreter as
+embarca&ccedil;&otilde;es portuguezas com alguns
+Ta&oacute;s, em quanto a dextrava os seus no
+exercicio da artilharia, tomando por mestres os americanos inglezes,
+que tinham aprisionado. <br />
+
+<br />
+
+Era t&atilde;o sagaz e ardiloso, que nos encobria seus planos com
+extranho recato. Em 21 de Janeiro de 1810, julgou-se em estado de poder
+vencer a frota macaense. Pairava esta junto &aacute; ilha de
+Lant&aacute;o, quando entraram a levantar do oriente os piratas
+alinhados em divis&otilde;es. Nesta occasi&atilde;o obrou o
+invicto
+Alcoforado t&atilde;o grandes prodigios, que s&oacute; poderam
+ser cantados antes, pelo nosso Diniz.<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[53]</span>
+<div class="poetry"><em>A fiel ave, que arma
+vigilante</em></div>
+
+<div class="poetry2"><em>O gr&atilde;o furor a
+Jove.</em></div>
+
+<div class="poetry"><em>Quando
+sobre os mortaes os raios chove</em></div>
+
+<div class="poetry2"><em>A dextra
+coruscante,</em></div>
+
+<div class="poetry">
+<em>T&atilde;o rapida ao rebanho temeroso<br />
+
+N&atilde;o
+cala, a garra abrindo, das estrellas,</em></div>
+
+<div class="poetry2">
+<em>Como o var&atilde;o
+famoso</em><br />
+
+<em>Sobre as immensas velas<br />
+
+Cahe de grande ira armado<br />
+
+Tre&ccedil;ando
+denodado</em></div>
+
+<div class="poetry">
+<em>A f&eacute;ra espada, e torna em seu estrago<br />
+
+O azul
+oceano em roxo lago.</em><sup><a href="#n17">[17]</a></sup></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Considere-se uma lag&ocirc;a com seis leguas de diametro, semeada
+de ilhas e syrtes, onde apenas Galerno encrepava a superficie das
+aguas. A esquadra portugueza constando de seis navios, sendo o maior de
+quatro centas tonelladas, e o mais pequeno de 120: guarnecidos todos
+com 120 pe&ccedil;as de artilheria; e 700 homens. A esquadra
+inimiga, de 300 vasos, com mil e quinhentas pe&ccedil;as de
+artilheria, e mais de 20:000 homens aguerridos, commandados por chefe
+valoroso e desesperado. Neste conflicto o famoso Alcoforado,
+tre&ccedil;ando denodado a f&eacute;ra espada mandou atacar.
+Foi sentelha
+<span class="pagenum">[54]</span>
+electrica
+lan&ccedil;ada no cora&ccedil;&atilde;o dos seus
+companheiros. Dirigiram-se os nossos &aacute; vanguarda das
+columnas inimigas despresando suas hostilidades at&eacute; chegar a
+tiro de espingarda. Nessa distancia uma descarga de metralha punha em
+fugida o navio, que a soffria. Alguns mais destemidos arribavam para
+sotavento afim de metter os nossos entre dois fogos; manobra que estes
+concertavam para lan&ccedil;ar-lhes a morte por todos os lados. O
+fumo mal lhes dixava v&ecirc;r as
+embarca&ccedil;&otilde;es portuguezas, cercadas pelas suas. O
+astuto e bravo pirata, julgava que dividindo os nossos poderia
+destruilos; e o chefe portuguez julgando ter Marte em cada um de seus
+companheiros quiz dar a todos motivo para demonstrarem a sua pericia e
+desmedido valor. Ficaram deste modo os navios macaenses no centro de
+cada circulo dos piratas: assim os raios despedidos do centro levavam
+&aacute; circumferencia o estrago, o horror, e a morte. As balas da
+circumferencia, raras vezes acertavam no ponto central: qualquer
+desmancho nas pontarias fazia com que empregassem as balas nos seus
+mesmos companheiros. Todos
+<span class="pagenum">[55]</span>
+os
+Commandantes portuguezes adqueriram fama neste dia; mas ha acasos em
+uma batalha, que fazem uns mais distinctos do que outros. O navio
+commandado por <em>Luiz Carlos de Miranda</em>, na maior
+for&ccedil;a do combate, deu em esc&ocirc;lho: Cam-pau-sai,
+vendo aquelle navio encalhado, considerou-o em desordem; mandou
+carregar sobre elle, a ver se podia principiar o seu triunfo por
+destruilo. Mas o denodado Miranda, vendo perigos por todos os lados,
+resolveu debellar o inimigo, ou n&atilde;o sa&iacute;r com vida
+do conflicto. Entre o valor e a desespera&ccedil;&atilde;o
+(ultimo sentimento das almas grandes), disse a seus
+companheiros:&mdash;Creio n&atilde;o haver entre n&oacute;s
+quem
+regeite a immortal gloria, que este feliz dia lhe destina: assim
+fa&ccedil;a cada um o seu dever. Mandou empregar a gente da
+marea&ccedil;&atilde;o nas baterias, e diffundindo o seu valor
+em toda a equipagem, fez t&atilde;o grande estrago no inimigo, que
+j&aacute; este n&atilde;o tinha animo para acommettelo.
+Emquanto debellava os piratas, o fluxo das aguas tirou o navio do
+esc&ocirc;lho. <br />
+
+<br />
+
+O Caroxa tambem fez cousas admiraveis. Deparou-lhe o acaso o
+Ta&oacute; do pagode.<sup><a href="#nt3">[Nota
+3&ordf;]</a></sup> Logo
+<span class="pagenum"><a name="p56" id="p56">[56]</a></span>
+que assomou o
+deposito do erro, virou sobre elle; e emquanto n&atilde;o o
+lan&ccedil;ou no abismo, n&atilde;o descan&ccedil;ou. O
+templo, os bonzos, os idolos tudo foi submergido no orco. Esta proeza
+do atrevido Caroxa lan&ccedil;ou o espanto e o horror no espirito
+de todos os piratas. A vista dos seus deuses
+<a href="#e9">espeda&ccedil;ados</a>, e
+levados, &aacute; discri&ccedil;&atilde;o das aguas,
+tirou-lhes de
+todo o animo: apenas ousaram largar <a href="#e10">as
+velas</a> todas, e por entre
+syrtes foram abrigar-se na bocca do rio de Hiang-san: logar onde os
+nossos vazos n&atilde;o podiam entrar. <br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o ha cores ass&aacute;s vivas para demonstrar a sua
+confus&atilde;o na fugida. Cam-pau-sai med&iacute;o
+ent&atilde;o as for&ccedil;as macaenses ainda mais pelo valor,
+do que pelo seu atrevimento. Os nossos cantaram victoria! Mas
+incan&ccedil;aveis na destrui&ccedil;&atilde;o do inimigo,
+n&atilde;o deixaram
+de perseguilo at&eacute; &aacute; bocca do rio. Alli formou o
+previdente Alcoforado apertado bloqueio a Cam-pau-sai. S&oacute; o
+deixou sa&iacute;r para entregar-se. <br />
+
+<br />
+
+Cam-pau-sai resolveu entregar-se, mas uma das principaes
+condi&ccedil;&otilde;es &eacute;ra de ser
+Miguel de Arriaga fiador de tudo quanto se ajustasse no acto de
+capitula&ccedil;&atilde;o; e que s&oacute; trataria
+com os
+<span class="pagenum">[57]</span>
+imperiaes, estando elle presente.
+Logo que o Governo de Mac&aacute;o recebeu esta
+participa&ccedil;&atilde;o do chefe Alcoforado, remetteo-a ao
+Sunt&oacute;, e este dirigio-a ao Imperador. <br />
+
+<br />
+
+Succedeu nesta occasi&atilde;o um facto, que muita honra faz
+&aacute; memoria do generoso Arriaga. Quando se tratava da entrega
+dos piratas, chegou a Mac&aacute;o, um novo
+<em>Ouvidor</em>, e segundo a lei, Arriaga deu-lhe posse do
+logar. Mas Cam-pau-sai, e os mandarins, logo que o souberam avisaram o
+Governo de Mac&aacute;o, n&atilde;o poderem entrar naquella
+negocia&ccedil;&atilde;o
+com o Ouvidor novo, mas sim com o antigo; j&aacute; por saber este
+melhor daquelle negocio, j&aacute; porque s&oacute; com elle
+Cam-pau-sai capitularia. O Senado e todos os macaenses desejavam o
+mesmo; pois &eacute;ra publica a grande
+reputa&ccedil;&atilde;o,
+que Arriaga havia entre os Chinezes. Foi completa a vontade geral; e
+&eacute; s&oacute; em t&aacute;es
+occasi&otilde;es, que padecendo a lei exultam os povos. O Ouvidor
+Peixoto come&ccedil;ou no exercicio das suas
+fun&ccedil;&otilde;es: mas o famoso Arriaga continuou a tractar
+deste importante negocio. <br />
+
+<br />
+
+Em quanto os nossos bloqueavam a esquadra inimiga, e Arriaga ajustava a
+capitula&ccedil;&atilde;o
+<span class="pagenum"><a name="p58" id="p58">[58]</a></span>
+com os mandarins, aconteceu outro facto, que muito honra a memoria do
+invicto Alcoforado. Logo que a frota portugueza sa&iacute;o de
+Mac&aacute;o, convidou elle o chefe dos piratas para entrar em
+Mac&aacute;o, e tractar alli da sua
+capitula&ccedil;&atilde;o: mas Cam-pau-sai confiado em suas
+for&ccedil;as respondeu pela negativa como fica dito. Agora
+vendo-se obrigado a fazer o que ent&atilde;o recusou, pedio ao
+nosso Alcoforado a merc&ecirc; de honralo com uma visita para ter o
+gosto de o conhecer pessoalmente. <br />
+
+<br />
+
+Alcoforado mandou apromptar um escaler para satisfazer Cam-pau-sai mas
+os seus espozeram-lhe ser grande temeridade entregar-se a um pirata.
+Esta lembran&ccedil;a foi acompanhada da responsabilidade, e isso
+obrigou Alcoforado a chamar os commandantes das mais
+embarca&ccedil;&otilde;es, communicou-lhes o convite de
+Cam-pau-sai, e a delibera&ccedil;&atilde;o, que havia tomado.
+Todos acordaram com os <a href="#e11">Officiaes</a>
+do seu navio, menos
+elle, que fallou da maneira seguinte.&mdash;Grande &eacute; meu
+contentamento por ver o empenho, que fazeis para n&atilde;o me
+arriscar nesta visita; seja por estimardes a minha existencia, ou por
+julgardes em mim
+<span class="pagenum">[59]</span>
+algum prestimo.
+Confesso-vos, que t&atilde;o grande &eacute; o vosso empenho,
+quanto mais firme se torna a minha resolu&ccedil;&atilde;o:
+j&aacute; porque
+recusando este convite ficar&aacute; mui cerceada a nossa
+reputa&ccedil;&atilde;o j&aacute; porque seria o
+primeiro signal de fraqueza da esquadra Macaense: se for
+tra&iacute;da a minha boa f&eacute;, tereis novo
+incentivo para anniquilardes o inimigo vingando-me. Asseguro-vos que
+vendo-me Cam-pau-sai, em seu navio, de cora&ccedil;&atilde;o
+socegado e alma firme, tremer&aacute; de
+v&oacute;s&mdash;Todos o
+escutavam com atten&ccedil;&atilde;o: e &aacute;s ultimas
+palavras
+cada um desejava ser Alcoforado: Mas a gloria de sacrificar-se pela
+honra da Patria, e pela humanidade, s&oacute; a ella
+pertencia, naquella occasi&atilde;o. Despedio-se e partio para a
+esquadra inimiga. Assim que passou a primeira
+embarca&ccedil;&atilde;o da vanguada<sup><a href="#nt4">[Nota
+4&ordf;]</a></sup>:<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="poetry"><em>Sonorosas trombetas incitavam<br />
+
+Os animos alegres
+resonando:<br />
+
+Dos</em> Chinas <em>os bateis o
+mar
+coalhavam,<br />
+
+Os toldos pelas aguas arrojando.<br />
+
+As bombardas horrisonas
+bramavam<br />
+
+Com as nuves de fumo o sol toldando.</em><sup><a href="#n18">[18]</a></sup></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[60]</span>
+Ao chegar Alcoforado ao navio de Cam-pau-sai, veio este recebelo ao
+portal&oacute;, e o conduzio pela m&atilde;o &aacute;
+camara. Alli
+troc&aacute;ram as mais apuradas civilidades. Cam-pau-sai,
+estudando o modo de obsequiar o nosso heroe, n&atilde;o achou outro
+mais capaz de lisongear a sua alma, do que offerecer-lhe pela honra,
+que lhe tinha feito, a liberdade de todos os prisioneiros europeos, que
+tinha em sua esquadra. O presente foi recebido com
+demonstra&ccedil;&otilde;es proprias de captivar o offerente
+pelas cad&ecirc;as da amizade. Cam-pau-sai assegurou-lhe, ser
+ent&atilde;o o seu maior empenho n&atilde;o o ter por inimigo;
+pois havia experimentado o valor dos portuguezes. <br />
+
+<br />
+
+Demonstrou, que arriscando uma batalha, poderia ter a vantagem de
+sa&iacute;r do bloqueio com as embarca&ccedil;&otilde;es
+mais veleiras, para onde n&atilde;o podessemos incommodalo;
+por&eacute;m que a honra daquella visita o tinha penhorado de modo,
+que estava resolvido a entregar-se com toda a esquadra; vista a
+promessa que lhe fizera o ministro Arriaga, de quem formava alto
+conceito, e a quem de boa vontade se rendia.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[61]</span>
+Alcoforado afian&ccedil;ou a promessa do ministro, mostrando-se
+pesaroso em n&atilde;o depender s&oacute; delle a
+capitula&ccedil;&atilde;o para em tudo a
+fazer a contento de Cam-pau-sai. Disse mais:&mdash;como chefe da
+esquadra
+macaense, tenho ordem para destruir a vossa, se tentardes
+sa&iacute;r daqui: e serei obrigado a fazelo por ser
+usan&ccedil;a portugueza romper as linhas da amizade, quando assim
+o urgem as precis&otilde;es do estado. Espero de v&oacute;s
+n&atilde;o ter occasi&atilde;o para
+rompelas. Assim o prometteu Cam-pau-sai; e o nosso Alcoforado,
+levantou-se: <br />
+
+<br />
+
+Lembrai-vos de como se despedio Luiz XI, quando visitou o nosso Affonso
+V;<sup><a href="#n19">[19]</a></sup>
+ajuntai-lhe os requintes das ceremonias asiaticas, e julgai da
+separa&ccedil;&atilde;o destes guerreiros;
+n&atilde;o querendo ceder um ao outro a primasia em affectos
+delicados. Com tudo n&atilde;o p&ocirc;de Alcoforado impedir a
+Cam-pau-sai, de acompanhalo at&eacute; ao escaler em que partio
+para a sua frota. Ao entrar nella salvaram todos os navios, e os
+marinheiros subiram &aacute;s vergas para todos a um tempo lhe
+darem os emboras. <br />
+
+<br />
+
+Em quanto os chefes se visitavam cuidava-se
+<span class="pagenum">[62]</span>
+em Mac&aacute;o; no
+ponto,
+onde se faria a entrega da esquadra inimiga, visto ser da vontade de
+Cam-pau-sai, entregala aos portuguezes. Lucas Jos&eacute; de
+Alvarenga, governador militar daquella cidade, obstou a que os
+macaences tivessem mais esse dia de triunfo. Temeu gente, que
+estremecia s&oacute; de ouvir fallar das fa&ccedil;anhas
+portuguezas<sup><a href="#n20">[20]</a></sup>.
+Assim foi Arriaga obrigado a concluir este importante
+negocio f&oacute;ra de Mac&aacute;o. <br />
+
+<br />
+
+Avisou os mondarins,
+<em>Chu</em>, e
+<em>Pom</em>, que viessem ao pagode<sup><a href="#n21">[21]</a></sup>: ajustaram alli, que
+o logar do congresso seria na villa de Hiang-san e fizeram aviso aos
+delegados do imperador para se acharem alli em dia aprazado.
+Juntaram-se os mandarins do destricto, os mandarins da c&ocirc;rte,
+e o nosso Arriaga, que foi recebido entre elles com singular
+distinc&ccedil;&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+J&aacute; o congresso deliberava sobre a
+capitula&ccedil;&atilde;o, quando chegou de Mac&aacute;o a
+rela&ccedil;&atilde;o do que se tinha passado entre os chefes
+das esquadras. A ousadia do atrevido Alcoforado n&atilde;o
+s&oacute; penhorou Cam-pau-sai, mas tambem
+<span class="pagenum">[63]</span>
+os
+mandarins, que pasmados do que ouviam, ficaram por algum tempo notando
+o gesto e maneiras com que o magnanimo Arriaga captivava as suas
+vontades. <br />
+
+<br />
+
+Tornando o congresso de novo os seus trabalhos, caminhou o negocio com
+mais rapidez; pois dalli em diante estavam os mandarins quasi sempre de
+accordo com o nosso ministro. Convieram em mandar a Cam-pau-sai, que
+viesse com sua esquadra para Chumpin, onde elles se deviam tambem
+reunir: e ordenaram ao chefe Alcoforado, que levantasse o bloqueio. As
+ordens foram derigidas a Cam-pau-sai, em direitura, e a
+Jos&eacute; Pinto Alcoforado, pelo governador de Mac&aacute;o:
+homem pouco experiente dos costumes chinezes, e cobarde, por isso
+demorou a ordem do congresso. No dia seguinte recebendo Cam-pau-sai, a
+que lhe fora dirigida, levantou ancora e principiou a velejar para
+fora. Alcoforado, ignorando as ordens do congresso, e vendo a esquadra
+inimiga em movimento, mandou suspender a sua, e manobrar de modo
+hostil. Cam-pau-sai, percebeu logo haver desintelligencia: ordenou
+&aacute; sua frota, que amainasse e surgisse.
+<span class="pagenum"><a name="p64" id="p64">[64]</a></span>
+Sabendo-se no congresso da imprudencia do
+timido Alvarenga, dirigio-se Arriaga a Mac&aacute;o para animalo, e
+os delegados do imperador tomaram a resolu&ccedil;&atilde;o de
+ir &aacute; esquadra
+portugueza certificar ao chefe o que se tinha tractado com o ministro. <br />
+
+<br />
+
+Assim que o nosso Alcaforado vio
+em sua
+embarca&ccedil;&atilde;o dois chinezes de cabaias amarellas,
+conheceu a gerarquia dos hospedes; por ser c&ocirc;r privativa da
+familia imperial. Tractou-os com a cortezia devida &aacute;
+civilidade chineza. Rogaram ao chefe portuguez, n&atilde;o
+compromettesse a palavra de Arriaga, nem a delles, para com o chefe dos
+piratas, a quem tinham mandado dizer, que velejasse para Chumpin, e a
+elle Alcaforado, que o deixasse
+sa&iacute;r;
+que a inexperiencia do governador, n&atilde;o devia
+embara&ccedil;ar a execu&ccedil;&atilde;o dos poderes dados
+pelo Senado ao ministro Arriaga. <br />
+
+<br />
+
+Alcoforado respondeu:&mdash;aprec&iacute;o muito <a href="#e12">a honra</a>,
+que me fazeis&mdash;e desejo, ainda mais, ser-vos util:
+por&eacute;m as leis militares entre n&oacute;s executam-se sem
+discrepancia. Tenho ordem do governo para bater a esquadra inimiga, se
+tentar sa&iacute;r, em quanto n&atilde;o houver
+<span class="pagenum"><a name="p65" id="p65">[65]</a></span>
+outra em contrario, n&atilde;o posso deixar de
+fazelo. <br />
+
+<br />
+
+Os mandarins tornaram-lhe:&mdash;Homem recto e valoroso, conhecemos
+os
+servi&ccedil;os que tens feito ao imperio, e &aacute; tua
+na&ccedil;&atilde;o:
+n&atilde;o offusques essa gloria deixando outra vez as costas da
+China cobertas de piratas. Cam-pau-sai ainda tem grandes recursos:
+n&atilde;o o irrites. Grande parte da provincia de Chin-cheu segue
+o seu partido: sabes que &eacute; povoada de homens <a href="#eo16">marcantes</a>,
+robustos, e denodados; a gente creada sobre as ondas &eacute;
+audaz, e ardilosa; em pouco tempo equipar&atilde;o outra esquadra
+para obrigar-te a levantar o bloqueio; assim apezar do teu valor, e do
+esfor&ccedil;o macaense, teremos guerra eterna. Pedimos-te, pelo
+que mais estimas, modefiques as ordens que tens, a fim de Cam-pau-sai
+n&atilde;o desconfiar da nossa palavra.&mdash;Nesta
+occasi&atilde;o
+chegou a ordem de Mac&aacute;o, por diligencia de Arriaga, para
+Alcoforado levantar o bloqueio, e seguir Cam-pau-sai <a href="#eo17">para
+Chumpin</a>. Mui
+contentes ficaram os mandarins: partiram satisfeitos para o logar do
+congresso, onde j&aacute; acharam o nosso Arriaga. Mandou-se nova
+ordem a
+<span class="pagenum">[66]</span>
+Cam-pau-sai;
+no dia immediato surgio no logar aprazado. <br />
+
+<br />
+
+Mandou-se a bordo cumprimentar o chefe dos piratas, e convida-lo a
+entrar no congresso, onde devia firmar a sua
+capitula&ccedil;&atilde;o. Promptamente
+chegou: ao entrar na salla dos congregados, conheceu por vestiario e
+gesto, o nosso ministro: dirigio-se a elle e fallou desta maneira. <br />
+
+<br />
+
+Grandes motivos me fazem render e tractar comvosco da minha
+capitula&ccedil;&atilde;o, para entrar na classe dos
+Col&aacute;os, como mo promettestes pelo imperador. Mas
+confesso-vos, que o principal foi conhecer o fulcro da lavanca
+destruidora do meu poder. J&aacute; vos vi:
+estou satisfeito. Devo muito &aacute; natureza, e &aacute;
+minha assidua applica&ccedil;&atilde;o; mas em tudo me acho
+vencido por v&oacute;s.&mdash;E virando-se para os
+mandarins:&mdash;Tendes
+por experiencia de 14 annos, qu&atilde;o poderoso e vigilante foi o
+meu sceptro: sabei agora da minha bocca, que o valor portuguez foi quem
+o destruira. Aqui me tendes em vossa presen&ccedil;a: espero que me
+trateis como a homem livre, e destemido&mdash;E tomou assento.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum"><a name="p67" id="p67">[67]</a></span>
+Disseram-lhe que para exemplo era preciso castigar <a href="#e13">alguns
+dos seus</a>, que fossem mais criminosos.&mdash;Para
+satisfazer a
+esse requisito, darei os nomes de 14 faccinorosos, que existem na
+esquadra. Paguem com suas cabe&ccedil;as as atrocidades que
+fizeram, e eu desaprovei.&mdash;Sendo este o unico
+embara&ccedil;o que
+havia, concluio-se o negocio. <br />
+
+<br />
+
+Cam-pau-sai declarou ter ainda uma divis&atilde;o de 80
+embarca&ccedil;&otilde;es, que antes de vir attacar a esquadra
+macaense, tinha mandado para Chin-cheu receber os tributos do anno
+passado; mas que por aviso seu viriam entregar-se. <br />
+
+<br />
+
+Ordenadas assim as cousas principaes, tractaram da forma porque se
+devia repartir a preza; visto s&atilde;o ser o artigo 1.&ordm;
+da
+conven&ccedil;&atilde;o preenchido pelo Governo Chinez; e ter
+s&oacute; a esquadra macaense reduzido Cam-pau-sai a capitular. <br />
+
+<br />
+
+J&aacute; o Ministro Arriaga tinha mostrado aos Chinezes,
+qu&atilde;o valoroso e sensivel &eacute;ra o seu
+cora&ccedil;&atilde;o; mas ent&atilde;o quiz mostrar-lhe
+quanto &eacute;ra liberal. De tudo quanto existia na esquadra de
+Cam-pau-sai, exigio a melhor parte
+<span class="pagenum">[68]</span>
+das bombardas: tudo o mais deixou &aacute;
+disposi&ccedil;&atilde;o do Imperador. Os companheiros de
+Cam-pau-sai ficaram cidad&atilde;os chinezes; elle Col&aacute;o
+do Imperio; e as cabe&ccedil;as dos 14 criminosos, para exemplo dos
+malevolos, foram espetadas em paos no istmo que devide, a cidade, da
+ilha de Mac&aacute;o, onde ficaram at&eacute; serem consumidas
+pelo tempo. <br />
+
+<br />
+
+Concluida a capitula&ccedil;&atilde;o, disse Cam-pau-sai, ao
+Conselheiro Arriaga:&mdash;Ainda tenho um favor a pedir-vos.
+Pertendo ir a
+Mac&aacute;o, se me concederes licen&ccedil;a, para ter o gosto
+de ver todos os meus vencedores&mdash;O Ministro agradeceu: e
+dissolveu-se o
+congresso, saindo todos os seus membros cheios de alegria e
+admira&ccedil;&atilde;o: Arriaga, da inexplicavel civilidade e
+sciencia dos mandarins da c&ocirc;rte, ou col&aacute;os!
+Cam-pau-sai, da pessoa, e do espirito de Arriaga! Os col&aacute;os!
+de Cam-pau-sai, e de Arriaga! Tudo lhe parecia prodigioso. Mal podiam
+capacitar-se de ver livre o imperio do flagelo, que o tinha assolado em
+14 annos continuos. <br />
+
+<br />
+
+Assim que Arriaga entrou na cidade, tractou do triumfo dos heroes
+macaenses, que
+<span class="pagenum">[69]</span>
+&eacute;ra ao mesmo
+tempo o seu. A caza deste illustre var&atilde;o tinha para elles a
+mesma
+considera&ccedil;&atilde;o, que o Capitolio para os romanos.
+N&atilde;o foi este triumfo t&atilde;o aparatoso no exterior
+como os de Cesar, ou o de D. Jo&atilde;o de Castro em Goa. Mas os
+cora&ccedil;&otilde;es de todos os habitantes de
+Mac&aacute;o exultavam de prazer at&eacute; alli nunco visto
+nem sentido.<sup><a href="#nt5">[Nota 5&ordf;]</a></sup><br />
+
+<br />
+
+Em Maio chegou a Cant&atilde;o a noticia de n&atilde;o querer
+entregar-se a divis&atilde;o rebelde, despresando a ordem do seu
+antigo chefe. Avisou-se a Cam-pau-sai da conducta dos piratas, e
+Pedio-se-lhe o desempenho da palavra dada no acto da
+capitula&ccedil;&atilde;o. Respondeu:&mdash;Rebellada a
+divis&atilde;o a primeira vez contra a minha ordem n&atilde;o
+devo mandar-lhe outra. Tenho recurso mais prompto. Dai-me sessenta
+embarca&ccedil;&otilde;es das que foram minhas, deixai-mas
+tripolar com os que j&aacute; me obedeceram; e se n&atilde;o
+trouxer os rebeldes dou a minha cabe&ccedil;a. Lembro-me que podeis
+desconfiar da minha palavra: deixarei em refens o que possuo de mais
+apreciavel; dois filhos que me deu a natureza. Se sois pai, avaliareis
+a qualidade do penhor.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[70]</span>
+O Sunt&oacute;: apezar das demonstra&ccedil;&otilde;es de
+firmesa e honrada conducta de Cam-pau-sai, recusou entregar-lhe a
+esquadra que elle pedia. Mandou apromptar uma frota imperial de perto
+de duzentas embarca&ccedil;&otilde;es, e bem equipadas com
+parte dos instrumentos de guerra que tinham sido de Cam-pau-sai.
+Sa&iacute;o esta de Cant&atilde;o e foi encontrar o inimigo. Em
+pouco tempo veio entrar em Mac&aacute;o fugida, e derrotada pela
+divis&atilde;o rebelde. Chegando esta noticia a Cant&atilde;o,
+o Sunt&oacute; mandou perguntar ao Conselheiro Arriaga, o que
+deveria fazer &aacute;cerca do offerecimento de
+Cam-pau-sai.&mdash;Que
+se estivesse no seu logar, tornou Arriaga, tinha aceitado os
+servi&ccedil;os de Cam-pau-sai, logo que elle os offereceu, sem lhe
+tomar refens; pois esperava delle tudo quanto &eacute; proprio de
+honralo, e de utilisar ao imperio.&mdash; <br />
+
+<br />
+
+O Sunt&oacute; com tal resposta, mandou entregar a Cam-pau-sai
+sessenta embarca&ccedil;&otilde;es, e tudo quanto pedio. Largou
+o novo Almirante de Cant&atilde;o deixando a todos em expectativa.
+Dirigio-se a Mac&aacute;o, onde estava tudo prompto para recebelo.
+Em dia assignalado foram os
+<span class="pagenum">[71]</span>
+commandantes
+da nossa esquadra<sup><a href="#nt6">[Nota
+6&ordf;]</a></sup> com os bons moradores da
+cidade a caza do Ministro Arriaga. Ainda bem o n&atilde;o tinham
+cumprimentado, annunciou-se a entrada de Cam-pau-sai. Foi conduzido
+&aacute; Sala. Acabadas as civilidades requintadas, segundo o
+costume Chinez disse:&mdash;Deus immortal, est&atilde;o
+completos os
+meus ultimos desejos, vendo e abra&ccedil;ando heroes
+t&atilde;o sublimados&mdash;Brilhava o jubilo no rosto de todos
+vendo Marte humilhado em sua presen&ccedil;a.&mdash;Acha-se
+neste
+circulo o valoroso commandante da Lorcha Le&atilde;o? Desejo
+conhecelo&mdash;Aqui me tendes respondeu o <em>Caroxa</em>.
+Cam-pau-sai caminhou para
+elle, abra&ccedil;ou-o: e virando-se para o Ministro
+disse:&mdash;Este
+homem fez mais damno ao meu poder, do que toda a vossa esquadra. Eu fui
+vencido: mas quem disputando a gloria aos portuguezes dirigidos por
+v&oacute;s, ficar&aacute; victorioso. Cedo vos mostrarei como
+ven&ccedil;o a outra gente. <br />
+
+<br />
+
+&mdash;Tenho conhecido em vossas ac&ccedil;&otilde;es,
+disse
+Arriaga, que sois var&atilde;o assignalado. Agrade&ccedil;o-vos
+por todos o alto conceito, que de n&oacute;s fazeis: affirmo-vos
+ser o maior premio de nossas fadigas, ter-vos elevado &aacute;
+ordem dos Col&aacute;os,
+<span class="pagenum">[72]</span>
+onde fareis a ventura da vossa patria,
+e as delicias do Imperador. Imitai os vossos vencedores promptos sempre
+a dar a vida pela restaura&ccedil;&atilde;o da gloria nacional,
+pelos seus direitos, e pelos do seu Monarca legitimo. Lembrai-vos de
+todas as ac&ccedil;&otilde;es que lhes vistes
+praticar:<sup><a href="#nt7">[Nota
+7&ordf;]</a></sup>
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="poetry"><em>E julgareis qual
+&eacute; mais excellente,<br />
+
+Se ser do
+mundo rei, se de tal gente.</em><sup><a href="#n22">[22]</a></sup></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Se a liberdade, a propriedade, e a seguran&ccedil;a s&atilde;o
+as unicas linhas, que prendem os homens &aacute; terra onde
+habitam, e ao rei; sen&atilde;o ha amor de patria, onde
+n&atilde;o existem estas vantagens; julgue-se pelo amor dos
+Portuguezes ao rei e &aacute; patria, das qualidades do Senhor D.
+Jo&atilde;o VI. Paga o amor que lhe temos usando do seu poder, para
+opp&ocirc;r barreiras fortes, e dar remedio &aacute;s
+paix&otilde;es dos subditos, sem que possamos conhecer as suas
+proprias paix&otilde;es.<sup><a href="#n23">[23]</a></sup>
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[73]</span>
+<div class="poetry"><em>Do vosso nome um
+gr&atilde;o Rei</em></div>
+
+<div class="poetry2"><em>Neste
+reino Lusitano<br />
+
+Se poz esta mesma lei:<br />
+
+Que diz o
+seu Pelicano<br />
+
+Pela lei, e pela grei</em><sup><a href="#n24">[24]</a></sup></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Em todo o tempo, que esteve em Mac&aacute;o o celebre Cam-pau-sai,
+foi surprendido pelas maneiras singulares com que o obsequiou o
+ministro Arriaga: mas foi obrigado a sa&iacute;r de
+Mac&aacute;o para em breve desempenhar a sua commiss&atilde;o.
+Em poucos dias encontrou a divis&atilde;o rebelde, a quem fez saber
+que era o Almirante da esquadra imperial pela seguinte:<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div style="text-align: center;"><em>Procclam&atilde;o</em>.
+<br />
+
+</div>
+
+<br />
+
+Camaradas e amigos, sei que duvidastes da minha ordem: fizestes bem.
+Lembrastes-vos sem duvida, que era falsa; ou eu ter sido obrigado pela
+for&ccedil;a a escrevela. N&atilde;o: assignei-a por minha
+vontade. Se ainda o duvidais, vinde ouvilo da minha bocca. Dir-vos-hei
+tambem os motivos, que me fizeram render. Neste mundo ha dois caminhos
+a seguir, o do bem, ou o do mal. Todos desejamos seguir
+<span class="pagenum"><a name="p74" id="p74">[74]</a></span>
+o do bem, mas somos muitas vezes lan&ccedil;ados pelo erro
+em precipicios. Em outro tempo vos aconselhava eu a seguirdes o meu
+partido; mas ent&atilde;o ainda eu n&atilde;o havia encetado o
+caminho do bem. Hoje conhe&ccedil;o que marchava pela estrada do
+erro, afastado da vontade do maior numero. O imperio tem
+povoa&ccedil;&atilde;o summamente grande; e o nosso partido a
+seu respeito &eacute; <a href="#e14">summamente</a>
+pequeno. N&atilde;o podeis negar-me, que &eacute;
+preciso haver desmedida ambi&ccedil;&atilde;o nos poucos, que
+pertendem apossar-se do que &eacute; de muitos. N&atilde;o
+&eacute; conforme &aacute;s leis do imperio, nem &aacute;s
+do entendimento supremo. Todos devemos concorrer para a felicidade dos
+outros homens; e no caminho em que andavamos
+deivairados, faziamos a sua desgra&ccedil;a<sup><a href="#n25">[25]</a></sup>.
+Exposta assim a verdade a vossos olhos, espero n&atilde;o duvideis
+abra&ccedil;ala; e quando useis tenacidade, em vosso erro,
+experimentareis pela primeira vez o meu rigor. <br />
+
+<br />
+
+Os rebeldes n&atilde;o attenderam &aacute;s ras&otilde;es
+de Cam-pau-sai: julgando-se superiores em for&ccedil;a, cresceu, a
+sua audacia; responderam com
+<span class="pagenum"><a name="p75" id="p75">[75]</a></span>
+despreso.
+Cam-pau-sai dispoz os seus de tal sorte, que dando sobre os rebeldes,
+em poucas horas os que n&atilde;o se afundaram,
+ficaram prisioneiros. Navegou com elles para Mac&aacute;o; a fim de
+mostrar ao ministro Arriaga, e a todos os macaenses, a verdade do que
+lhe havia dito. <br />
+
+<br />
+
+Entrou alli a divis&atilde;o rebelde em estado t&atilde;o
+deploravel pelo estrago soffrido no combate, que levou muitos dias a
+concertar para ir a Cant&atilde;o. Cam-pau-sai largando o nosso
+porto, dirigio-se &aacute; <em>bocca do
+tygre</em>. Alli encontrou o mar cheio de
+embarca&ccedil;&otilde;es, que tinham vindo para o levar em
+triumfo ao Sunt&oacute;. &Eacute; inexplicavel o contentamento,
+que o povo d'aquella cidade teve nessa occasi&atilde;o. O
+Sunt&oacute; obsequiou <a href="#e15">Cam-pau-sai</a>
+de
+modo, que se o imperador viesse a Cant&atilde;o, n&atilde;o
+haveria mais nada a fazer-lhe para honra-lo. Dirigio &aacute;
+c&ocirc;rte t&atilde;o grandes
+recommenda&ccedil;&otilde;es
+&aacute;cerca do novo Almirante, que o imperador mandou, que fosse
+a Pekim, para ter o gosto de velo. <br />
+
+<br />
+
+Partio Cam-pau-sai; e foi dando interessante espectaculo a todas as
+villas e cidades, por onde passava. Todos ambicionavam ver o
+<span class="pagenum">[76]</span>
+chefe dos piratas (que tanto havia
+assustado o throno e o imperio) tornado uma das pessoas mais
+interessantes ao mesmo imperio. Assim que entrou na capital foi
+apresentado ao imperador: teve com elle larga
+conversa&ccedil;&atilde;o: depois houve conselho de estado, em
+que foi Cam-pau-sai um dos seus membros. Emprego superior aos ministros
+de Estado. <br />
+
+<br />
+
+Pode-se julgar por este facto, qual &eacute; a politica do Governo
+Chinez. J&aacute; n&atilde;o tinha que temer no mar; com tudo
+premiou Cam-pau-sai, n&atilde;o s&oacute; para cumprir o que
+havia promettido, mas tambem para se approveitar dos seus conhecimentos
+e qualidades relevantes.<sup><a href="#n26">[26]</a></sup>
+&Eacute; provavel, que em quanto
+elle for Conselheiro de Estado, n&atilde;o hajam piratas nos mares
+da China. Tem adquerido t&atilde;o grande
+reputa&ccedil;&atilde;o na c&ocirc;rte, que n&atilde;o
+s&oacute; os particulares mas tambem o Imperador o tracta com
+singular distinc&ccedil;&atilde;o. <br />
+
+<br />
+
+Por mais que sejam plausiveis os motivos da guerra, sempre offende:
+ainda custando s&oacute; a vida de um homem, assim mesmo
+&eacute; funesta.
+<span class="pagenum">[77]</span>
+A
+estatua do vencedor &eacute; sempre banhada de lagrimas pelos
+vencidos. Todavia esta guerra foi differente. Obrigados os macaenses
+por <em>Ladr&otilde;es</em>a defenderem
+as vidas e a fazenda, mediram as for&ccedil;as mais pelo valor, do
+que pelo numero; atacaram e venceram. Castigando malvados,
+lan&ccedil;aram todos os mais ao seio da patria, nos
+bra&ccedil;os de seus
+irm&atilde;os. Em logar de pranto de vencidos, derramaram lagrimas
+de prazer trocando trabalhos e miserias por vida socegada. Nesta guerra
+sempre os nossos attenderam mais &aacute; humanidade, do que
+&aacute; vingan&ccedil;a: f&oacute;ra do conflicto
+das batalhas, n&atilde;o houveram crueldades. <br />
+
+<br />
+
+Quando o generoso Arriaga exigio, no acto da
+capitula&ccedil;&atilde;o, a melhor parte das bombardas de
+Cam-pau-sai, foi com intento de presentear com ellas ao Senhor D.
+Jo&atilde;o VI. Recolhendo-se a Mac&aacute;o, declarou o seu
+projecto no Senado que de boa vontade assentio. <br />
+
+<br />
+
+J&aacute; em 1642 o senado de Mac&aacute;o mand&aacute;ra a
+El-Rei D. Jo&atilde;o IV, as bombardas tomadas aos hollandezes,
+para com ellas romper de todo o jugo dos Filippes. O mesmo senado em
+1811 mandou ao Senhor D. Jo&atilde;o VI, a artilheria
+<span class="pagenum">[78]</span>
+tomada aos piratas da China,
+n&atilde;o s&oacute; para mostrar-lhe a grande for&ccedil;a
+do inimigo vencido, mas tambem para com ella debellar as falanges de
+Bonaparte. <br />
+
+<br />
+
+A cidade de Mac&aacute;o tinha perdido muitos dos seus privilegios.
+Os chinezes, esquecidos do que os nossos antepassados tinham feito em
+beneficio de seus maiores, j&aacute; come&ccedil;avam a ver os
+portuguezes com a mesma indifferen&ccedil;a, com que olhavam para
+os outros europeos. Mas a serie de factos brilhantes,
+paraticados no espa&ccedil;o de cinco annos, fizeram
+reviver a nossa antiga reputa&ccedil;&atilde;o naquelle
+imperio.<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div style="text-align: center;"><img style="width: 150px; height: 123px;" alt="" src="images/fig02.png" /><br />
+
+</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum"><a name="p79" id="p79">[79]</a></span>
+<div style="text-align: center;"><em><a name="nt1"></a>Nota
+</em>(1.&ordf;)<br />
+
+</div>
+
+<br />
+
+Lendo a pagina 253 da rela&ccedil;&atilde;o abbreviada da
+viagem de La-Perouse, as
+falsidades alli escriptas em desabono dos
+Macaenses, n&atilde;o posso deixar de as repelir. Come&ccedil;a
+dizendo n&atilde;o ter
+espress&otilde;es para louvar o Governador de Mac&aacute;o. A
+paginas 255 rompe:&mdash;De grande importancia seria
+Mac&aacute;o a uma
+na&ccedil;&atilde;o justa, e que tivesse firmesa e
+dignidade, contra o Governo Chinez, injusto, oppressor e cobarde! Alli
+diz que o Governador de Mac&aacute;o &eacute;ra optimo, aqui o
+Governo Portuguez n&atilde;o
+&eacute; digno, nem justo; e o Governo Chinez, &eacute;
+reputado por elle o peior do mundo! <br />
+
+<br />
+
+Se La Perou-se
+pertendeu fallar do Governo Portuguez em rela&ccedil;&atilde;o
+a Mac&aacute;o, tambem
+n&atilde;o foi exacto. Que mais poderia fazer El-Rei, ou os seus
+delegados, do que nomear, para governar Mac&aacute;o, um homem, que
+segundo o juizo do mesmo La Perouse, estava prompto a sacrificar-se <a href="#e16">pela honra</a> da
+na&ccedil;&atilde;o? La Perouse, queria
+achar nos Macaenses firmesa, que desse a todos os europeos liberdade
+para irem &aacute; China quebrar as leis do Imperio como elle mesmo
+fez desembarcando pelles por contrabando. E atreve-se a dizer que o
+Governo Chinez &eacute; injusto, oppressor e cobarde! Como se
+poder&atilde;o avaliar os costumes e o caracter das
+na&ccedil;&otilde;es pelo juizo de taes escriptores? A
+Na&ccedil;&atilde;o Chineza
+&eacute; independente; n&atilde;o quer ter
+communica&ccedil;&atilde;o com
+<span class="pagenum">[80]</span>
+os Europeos; renunc&iacute;a a ganancia do commercio exterior pelo
+socego do Imperio. Todavia Le Perou-se, e outros europeos queriam achar
+em
+Mac&aacute;o homens que fossem agriolhar em Pekim o mesmo
+Imperador! Vesse nesta memoria pelos judiciosos discursos dos
+Mandarins, qu&atilde;o falsas e injustas s&atilde;o as
+invectivas de La Perouse contra os Chinezes e Macaenses. <br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div style="text-align: center;"><a name="nt2" id="nt2"></a><em>Nota</em> (2.&ordf;) <br />
+
+</div>
+
+<br />
+
+Quando louvo Fern&atilde;o Peres de Andrade e outros navegadores e
+guerreiros, tomo por base a justi&ccedil;a e as suas virtudes.
+J&aacute;mais escreveria este opusculo, se a guerra feita aos
+piratas n&atilde;o tivesse por fundamento a defesa natural, e o bem
+estar dos povos constituidos em sociedade. <br />
+
+<br />
+
+Desta guerra resultou grande beneficio &aacute; humanidade. Eu
+louvo s&oacute; os Portuguezes que em &eacute;pocas mais
+felizes, para n&oacute;s, se conduziram com valor e dignidade; e os
+que em nossos dias os imitam. Afonso de Albuquerque foi respeitado
+ainda mais pelas suas virtudes perfeitas e pela justi&ccedil;a, que
+praticava, do que pelo extremado valor. <br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div style="text-align: center;"><a name="nt3" id="nt3"></a><em>Nota </em>(3.&ordf;)
+<br />
+
+</div>
+
+<br />
+
+Era Cam-pau-sai t&atilde;o extremoso em ardiz, que n&atilde;o
+lhe escapou de enredar os seus no fanatismo para mais devotamente
+chegar aos fins dos seus designios. Logo que os interesseiros bonzos
+lhe afian&ccedil;aram o bom resultado da empreza, lan&ccedil;ou
+<span class="pagenum">[81]</span>
+m&atilde;o desses instrumentos do
+erro, que degradam o homem para a classe dos brutos fazendo-os tirar o
+carro dos conquistadores quasi sempre seus verdugos, mandou erigir-lhe
+um pagode na maior embarca&ccedil;&atilde;o, e deu o commando
+della ao
+Capit&atilde;o mais experimentado para defender de todo o risco o
+templo dos idolos. <br />
+
+<br />
+
+Aqui temos Cam-pau-sai, pescador dos mares da China feito protector dos
+bonzos, e reputado seu chefe. <br />
+
+<br />
+
+Deram passos t&atilde;o agigantados na estrada da
+superstitui&ccedil;&atilde;o, que j&aacute; n&atilde;o
+faziam guerra nem paz sem consultar o oraculo. Sa&iacute;am todos
+os commandantes de seus Ta&oacute;s para irem &aacute;quelle
+onde se achava o pagode incensar os idolos, e ouvir do oraculo o que
+deviam fazer; isto &eacute; o que o chefe dos piratas havia
+concertado com o principal dos bonzos. <br />
+
+<br />
+
+Estes delirios julgados propicios aos seus intentos, eram favoraveis
+aos nossos. Em quanto elles praticavam taes momisses, o valor macaense
+anniquilava pagode, idolos, bonzos, e supersticiosos. <br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div style="text-align: center;"><a name="nt4" id="nt4"></a>
+<em>Nota</em>
+(4.&ordf;) <br />
+
+</div>
+
+<br />
+
+Em quasi todas as circunstancias da vida, foi Alcoforado, digno de
+eterna memoria: Na guerra fazia maravilhas extremadas; na paz, o juizo
+de
+<span class="pagenum">[82]</span>
+Mr. Arago, d&aacute; bem a
+conhecer o caracter do nosso heroe.<sup><a href="#n27">[27]</a></sup>
+Eis como elle o pinta. <br />
+
+<br />
+
+&mdash;Parabens, meu amigo; chegamos a Diely.<sup><a href="#n28">[28]</a></sup>
+Dir-te-hei o modo porque
+fomos hospedados. &Aacute;s
+protesta&ccedil;&otilde;es de amisade cheias de
+franqueza, a maneiras honestas e frequente agrado, &eacute;
+difficil ajuntar mais polidez, nem mais desvelo para obsequiar-nos.
+Desde o primeiro dia a generosidade do Governador, mandou &aacute;
+nossa meza, com profus&atilde;o, os manjares mais delicados. Queria
+mostrar, dizia elle, o prazer que sentia em brindar os patricios dos
+maiores sabios do mundo. <br />
+
+<br />
+
+Jantares sumptuosos, presididos pelas a&ccedil;afroadas bondades do
+paiz, cobertas de joias; festas encantadoras, onde reinava a
+galantaria, mais franca e mais activa, faziam desapparecer as horas,
+que voam nas azas do prazer. <br />
+
+<br />
+
+O Governador achou ainda outro modo de augmentar as provas da sua
+generosa affei&ccedil;&atilde;o: fez
+acceitar, a quasi todos, presentes; e fingia n&atilde;o lhes dar
+valor para nos livrar de escrupulos. Chamava-se Jos&eacute; Pinto
+Alcoforado de Azevedo e Souza: mancebo amavel, jovial, e de
+conhecimentos. O motivo de sua especie de degredo para
+<span class="pagenum"><a name="p83" id="p83">[83]</a></span>
+Timor, pelo que nos
+deu a entender, procedeu de causas politicas.<sup><a href="#n29">[29]</a></sup> Ocupou-se com desvelo
+em felicitar o paiz que lhe foi confiado: a sua
+administra&ccedil;&atilde;o &eacute; doce. Os Rajaz
+n&atilde;o s&atilde;o aviltados
+pelo despotismo como succede em Coupang. Pelo
+contratrio s&atilde;o tratados com amor.&mdash; <br />
+
+<br />
+
+J&aacute;, em outras &eacute;ras, menores virtudes de outro
+Souza foram assim cantadas.<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="poetry"><em>Le
+g&eacute;n&eacute;reux Souza, qui sut
+domter l'amour<br />
+
+Dans ces climats ardens o&uacute; son feu nous
+d&eacute;vore,<br />
+
+Et q'apr&eacute;s Scipion la vertu
+<a href="#e17">nomme</a> encore.</em>
+</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div style="text-align: center;"><a name="nt5" id="nt5"></a>
+<em>Nota</em>
+(5.&ordf;) <br />
+
+</div>
+
+<br />
+
+No dia 3 de Junho de 1810, cantou o honrado e benemerito
+cidad&atilde;o Jos&eacute; Baptista de Miranda e Lima as
+virtudes do nosso Arriaga pelo modo seguinte: <br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="poetry2">&Aacute; sombra de frondifera
+oliveira,</div>
+
+<div class="poetry">Por ti, ha
+tanto tempo, desejada,<br />
+
+(Gra&ccedil;as ao creador Omnipotente.)<br />
+
+Te
+vejo, cara patria<sup><a href="#np1">[1]</a></sup>
+reclinada. </div>
+
+<div class="poetry2">No pelago espa&ccedil;oso, que te
+cerca,</div>
+
+<div class="poetry">Ja
+n&atilde;o v&ecirc;s tremular hostis pend&otilde;es<sup><a href="#np2">[2]</a></sup>.<br />
+
+N&atilde;o ouves rebombar os horisontes<sup><a href="#np3">[3]</a></sup><br />
+
+Com horrorosos tiros de
+canh&otilde;es<sup><a href="#np4">[4]</a></sup>.</div>
+
+<span class="pagenum">[84]</span>
+<div class="poetry2">De salitroso
+p&oacute;<sup><a href="#np5">[5]</a></sup>
+que antes servia</div>
+
+<div class="poetry">Para ao longe mandar lethaes pelouros<br />
+
+Se ferreos tubos hoje tu carregas<sup><a href="#np6">[6]</a></sup>,<br />
+
+&Eacute; s&oacute; por
+festejar c'os seus estouros.</div>
+
+<div class="poetry2">Centenares de
+Ta&oacute;s<sup><a href="#np7">[7]</a></sup>
+prenhes de tygres,</div>
+
+<div class="poetry">Que ao p&eacute; de ti
+rasgavam cruelmente<sup><a href="#np8">[8]</a></sup><br />
+
+Meninas e donzelas delicadas<br />
+
+A teu Pai
+sujeitou<sup><a href="#np9">[9]</a></sup>
+o Eterno Ente.</div>
+
+<div class="poetry2">Teu benefico Pai, o Arriaga<sup><a href="#np10">[10]</a></sup></div>
+
+<div class="poetry">Estes tygres de Hyrcania domou<br />
+
+E a frondente oliveira, que te cobre,<br />
+
+Cortando mil obstaculos, plantou.</div>
+
+<div class="poetry2">J&aacute;mais pois
+riscar&atilde;o da fantasia<sup><a href="#np11">[11]</a></sup></div>
+
+<div class="poetry">O nome deste Heroe da lusa gente:<br />
+
+E
+agora, que celebras seu triumfo,<br />
+
+De verde palma vai cingir-lhe a
+frente.</div>
+
+<div class="poetry2">Da victoria este emblema para ornares,</div>
+
+<div class="poetry">Lindas flores
+procura designantes<br />
+
+D'aquelles predicados appreciaveis,<br />
+
+Neste filho de
+Lisia mui brilhantes.</div>
+
+<div class="poetry2">O louro girasol, que sempre segue</div>
+
+<div class="poetry">O
+planeta, que os outros illumina<sup><a href="#np12">[12]</a></sup><br />
+
+Designa a bem notoria lealdade<br />
+
+Do
+nosso Heroe &aacute; prole Bragantina.</div>
+
+<div class="poetry2">Os rubros
+amaranthos, que resistem</div>
+
+<div class="poetry">Ao vento, &aacute; calma, ao gelo,
+symbolisam<br />
+
+A intrepida constancia nas empresas<sup><a href="#np13">[13]</a></sup>,<br />
+
+Que o nome de
+Arriaga immortalizam.</div>
+
+<span class="pagenum"><a name="p85" id="p85">[85]</a></span>
+<div class="poetry2">A candida a&ccedil;ucena, que
+dispende</div>
+
+<div class="poetry">Liberalmente o corceo, de
+que gosa<br />
+
+&Eacute; symbolo do seu singello peito<sup><a href="#np14">[14]</a></sup>,<br />
+
+Emblema da sua
+alma generosa.</div>
+
+<div class="poetry2">O Lirio, que nascendo d'alta vara,</div>
+
+<div class="poetry">Sendo rei
+da florida monarquia<br />
+
+Para baixo a sublime frente inclina,<br />
+
+Sua clemencia
+designa, e cortezia<sup><a href="#np15">[15]</a></sup>.</div>
+
+<div class="poetry2">Das mais virtudes symbolos procura</div>
+
+<div class="poetry">N'outros lindos matizes dos jardins;<br />
+
+N&atilde;o te
+esque&ccedil;as das rosas rubicundas,<br />
+
+Dos junquilhos, dos cravos,
+dos Jasmins.</div>
+
+<div class="poetry2">De ti receba agora esta
+cor&ocirc;a</div>
+
+<div class="poetry">Bem que inferior ao seu merecimento;<br />
+
+Em quanto outra
+melhor se lhe prepara<br />
+
+No reino superior ao firmamento.</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div style="text-align: center;"><em>Notas de
+Antonio Francisco de Miranda e Sousa,
+De&atilde;o da S&eacute; de Mac&aacute;o.</em>
+<br />
+
+</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<a name="np1" id="np1"></a>1.&ordf; A
+patria &eacute;
+a cidade de Mac&aacute;o. <br />
+
+<br />
+
+<a name="np2" id="np2"></a>2.&ordf; As
+bandeiras
+vermelhas e pretas das duas columnas
+inimigas. <br />
+
+<br />
+
+<a name="np3" id="np3"></a><a href="#n47">3.&ordf;
+?</a><br />
+
+<br />
+
+<a name="np4" id="np4"></a>4.&ordf; Mil e
+oitocentas bombardas de diversos calibres entregou
+Cam-pau-sai, e mais de mil Apau-tai, chefes dos piratas. <br />
+
+<br />
+
+<a name="np5" id="np5"></a>5.&ordf;
+Polvora, cuja fabrica Miguel de Arriaga estabeleceu em
+Mac&aacute;o em 1809, pelo Boticario J. J. dos Santos.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[86]</span>
+<a name="np6" id="np6"></a>6.&ordf;
+Quando appareceu o retrato de El-Rei, na sala onde se
+celebrava o
+triunfo, e onde se achava a nobreza, o clero, e nos seus
+contornos, a melhor parte do povo da cidade. <br />
+
+<br />
+
+<a name="np7" id="np7"></a>7.&ordf;
+Embarca&ccedil;&otilde;es de guerra. Cam-pau-sai
+entregou
+3800 homens, Apautai 2000. <br />
+
+<br />
+
+<a name="np8" id="np8"></a>8.&ordf;
+S&oacute; no canal de Hiangsan mataram mais de 15000
+pessoas. <br />
+
+<br />
+
+<a name="np9" id="np9"></a>9.&ordf;
+Entrega de Cam-pau-sai &aacute; benevolencia de Miguel
+de
+Arriaga, seu medianeiro para com o imperador da China. <br />
+
+<br />
+
+<a name="np10" id="np10"></a>10.&ordf;
+Miguel de Arriaga Brum da Silveira, ouvidor de
+Mac&aacute;o. <br />
+
+<br />
+
+<a name="np11" id="np11"></a>11.&ordf; O
+nome de Miguel de Arriaga ser&aacute; lembrado
+n&atilde;o s&oacute; na ilha de Mac&aacute;o mas tambem no
+imperio da China, pois o Sunt&oacute; o mandou gravar em seus
+annaes para haver delle eterna memoria. <br />
+
+<br />
+
+<a name="np12" id="np12"></a>12.&ordf;
+Grande e indefectivel zelo com que Arriaga trabalhou para
+dirigir
+o Senado e o Governador, contra os inglezes, a fim destes
+n&atilde;o arrebatarem esta cidade &aacute;
+na&ccedil;&atilde;o portugueza. <br />
+
+<br />
+
+<a name="np13" id="np13"></a>13.&ordf;
+Contra a inveja, a intriga, e odio de alguns
+que
+mofaram da empreza. A constancia de Arriaga foi quem nos deu a
+victoria. <br />
+
+<br />
+
+<a name="np14" id="np14"></a>14.&ordf; A
+candura, e inteiresa com que tratou a Cam-pau-sai, e ao
+Sunt&oacute;. S&oacute; o nosso Arriaga foi capaz de conciliar
+amizade entre aquelles desavindos.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum"><a name="p87" id="p87">[87]</a></span>
+<a name="np15" id="np15"></a>15.&ordf;
+Despresando difficuldades tratou sempre em
+Mac&aacute;o os
+m&aacute;os, com a mesma clemencia que usava para com os bons, e
+tudo isso nascia da sua nobreza de cora&ccedil;&atilde;o e das
+altas e perfeitas <a href="#eo18">virtudes que
+possuia</a>. <br />
+
+<br />
+
+Em recompensa de t&atilde;o relevantes servi&ccedil;os o
+conservou El-Rei D. Jo&atilde;o VI, na ouvidoria de
+Mac&aacute;o, sem limete de tempo, e d'ahi
+nasceram seus imfortunios, e sua morte prematura. <br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div style="text-align: center;"><a name="nt6" id="nt6"></a>
+<em>Nota</em>
+(6.&ordf;) <br />
+
+</div>
+
+<br />
+
+Entre os nossos heroes n&atilde;o haviam grandes patentes: a mais
+subida era a do chefe, Jos&eacute; Pinto Alcoforado de Azevedo e
+Sousa: Capit&atilde;o de artilheria. Em verdade para obrar grandes
+cousas n&atilde;o s&atilde;o precisos gr&aacute;os
+elevados. No tempo dos
+Andrades, Sousas, Pachecos e outros, que obraram prodigios custosos de
+crer, por extraordinarios, tambem foram praticados por homens, que
+sabiam honrar-se com o gr&aacute;o do seu nome! <br />
+
+<br />
+
+Para n&atilde;o ser extenso fallei s&oacute; dos macaenses, que
+fizeram ac&ccedil;&otilde;es extremadas. Se mencionasse
+todos os que nos cinco annos da guerra contra os piratas, obraram
+cousas uteis, <a href="#eo19">faria</a> mui grosso
+o volume; porque muitos foram elles, e
+todos merecem elogio. <br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div style="text-align: center;"><a name="nt7" id="nt7"></a>
+<em>Nota</em>
+(7.&ordf;) <br />
+
+</div>
+
+<br />
+
+Quando os governos n&atilde;o excitam os homens &aacute;
+gloria, os concidad&atilde;os tem em pouco a
+estima&ccedil;&atilde;o
+<span class="pagenum"><a name="p88" id="p88">[88]</a></span>
+publica. A maior parte dos homens s&atilde;o como o negociante
+avaro: se armam n&atilde;o &eacute; com
+esperan&ccedil;a de immortalisar seu nome. Unicamente sensiveis ao
+ganho temem, que o navio se afaste do caminho j&aacute; sulcado;
+por este sabem elles n&atilde;o haverem novas terras para
+descobrir. Com tudo recommendam ao piloto, que se por algum temporal
+for levado a ilha desconhecida, e obrigado a surgir, n&atilde;o a
+explore nem reconhe&ccedil;a os <a href="#e18">habitantes</a>:
+<a href="#eo20">tome agoa</a> e largue as
+velas ao seu
+destino sem lhe importar descobertas<sup><a href="#n30">[30]</a></sup>
+. J&aacute; n&atilde;o
+ha Zarcos nem Gamas! Sobre os mares deste mundo, unicamente invejosos
+de honras, empregos, e riquezas poucos homens embarcam a fim de
+explorar a naturesa<sup><a href="#n31">[31]</a></sup>
+. Todavia o governo de Mac&aacute;o provou o
+muito que tinha excitado os seus concidad&atilde;os &aacute;
+gloria.
+Estes para merecela, n&atilde;o receberam pens&otilde;es,
+arriscaram a vida e prestaram a fazenda. <a href="#e19">Gra&ccedil;as</a>
+aos macaenses; pela gloria que adqueriram, e pelo desinteresse que
+mostraram, chegaram a par dos Castros e Albuquerques.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[89]</span>
+<h2>SEGUNDA PARTE. </h2>
+
+<br />
+
+<h3>INVAS&Atilde;O DAS TROPAS INGLEZAS</h3>
+
+<h3>EM MAC&Aacute;O</h3>
+
+<h3>E SUA
+RETIRADA.</h3>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[90]</span>
+<h3>PROLOGO DA SEGUNDA PARTE. </h3>
+
+<br />
+
+<br />
+
+A Virtude &eacute; o nexo da sociedade: e consiste em nos abstermos
+de fazer mal; n&atilde;o privar pessoa alguma das vantagens que
+desfructa; dar a cada um o que &eacute; devido; e promover a
+felicidade dos outros em geral. O homem s&oacute; merece o nome de
+virtuoso se contribue para a utilidade e seguran&ccedil;a da
+sociedade. <br />
+
+<br />
+
+A primeira das virtudes sociaes &eacute; a humanidade; esta pode
+considerar-se o centro comum de todas as outras. Ella d&aacute; aos
+entes da especie humana direitos sobre o nosso
+cora&ccedil;&atilde;o.
+Sim ella tem por base a sensibilidade, e esse sentimento
+disp&otilde;e-nos a fazer aos outros todo o bem de que as nossas
+faculdades s&atilde;o capazes. Seus effeitos s&atilde;o o amor,
+a
+beneficencia, a liberalidade, a indulgencia, e a piedade. <br />
+
+<br />
+
+Quando a humanidade reside na sociedade em que vivemos, constitue o
+amor da patria; isto &eacute;, produz a necessaria
+affei&ccedil;&atilde;o
+nacional.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum"><a name="p91" id="p91">[91]</a></span>
+A for&ccedil;a deve s&oacute; respeitar-se como virtude; quando
+defende a sociedade em que vivemos, quando se acha acompanhada de
+grandeza d'alma, valor, e modera&ccedil;&atilde;o. A actividade
+tambem deve entrar na ordem das virtudes sociaes; <a href="#eo21">as
+que tem</a> por
+objecto o bem da sociedade devem ser efficazes e n&atilde;o inertes
+como outras quimericas e falsas, introduzidas pela impostura, ou
+fanatismo. A sociedade s&oacute; agradece
+ac&ccedil;&otilde;es proveitosas: s&oacute; essas
+merecem a sua estima&ccedil;&atilde;o e <a href="#e20">reconhecimento</a>.
+<br />
+
+<br />
+
+A justi&ccedil;a &eacute; o vinculo da uni&atilde;o social;
+sustenta a balan&ccedil;a em equilibrio entre os membros da
+sociedade; remedeia os males que resultam da differen&ccedil;a que
+a natureza poz entre os homens; e faz servir essa mesma desigualdade ao
+bem geral. A justi&ccedil;a pelas leis da equiedade e
+s&aacute;bia distribui&ccedil;&atilde;o do
+premio e do castigo excita a virtude, reprime o vicio, e chama
+&aacute; ordem os que s&atilde;o tentados a obrar contra os
+entes da sua especie. <br />
+
+<br />
+
+Taes s&atilde;o as disposi&ccedil;&otilde;es que a
+sociedade deve exigir dos seus membros; tudo nos mostra a sua
+utilidade; s&atilde;o necessarias e invariaveis; pois tem por
+fundamento a natureza
+<span class="pagenum">[92]</span>
+e as
+precis&otilde;es constantes da especie humana. Faltando a
+justi&ccedil;a n&atilde;o ha ventura na sociedade; sem ella o
+estado social torna-se mais desagradavel do que o estado selvagem.
+&Eacute; melhor viver s&oacute; do que rodeado de homens
+injustos. <br />
+
+<br />
+
+A tempran&ccedil;a &eacute; igualmente necessaria: a prudencia
+nasce da raz&atilde;o ou da experiencia das cousas. A
+raz&atilde;o eleva o homem &aacute;s causas, ensina-lhe a
+estudar a sua influencia, e a prev&ecirc;r os effeitos. Sim, a
+raz&atilde;o compara os objectos, e despoja-os de apparencias
+falsas; e aproveita-se do preterito, e do futuro para n&atilde;o
+sa&iacute;r da meta conveniente na
+occasi&atilde;o opportuna. <br />
+
+<br />
+
+Do governo humano, activo, justo e prudente, resulta o bem estar da
+sociedade; o seu maior cuidado &eacute; fazer gosar os
+cidad&atilde;os, em paz e socego, o fructo dos seus trabalhos;
+conservalos exemptos dos vicios internos, e das invas&otilde;es
+externas. O Senado de Mac&aacute;o firme nestes principios, e
+sabendo quanto os sobrecargas inglezes ambicionavam aquelle nosso
+estabelecimento, poz-se em guarda contra os que pertendiam esbulha-lo
+da
+<span class="pagenum">[93]</span>
+sua p&oacute;sse, ou perturbar
+o socego publico. <br />
+
+<br />
+
+Aportando alli o Almirante Drury, com ordem de Lord Minto (Governador
+de Bengalla) para introduzir tropas inglezas em Mac&aacute;o, ainda
+que elles diziam ser aquelle procedimento a nosso favor; com tudo o
+Senado desconfiou do empenho com que pertendiam verificar a offerta. <br />
+
+<br />
+
+Assim firme em sua resolu&ccedil;&atilde;o, sustentou entre os
+Chinezes e os britanicos a seguinte correspondencia.<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[95]</span>
+<h3>SEGUNDA PARTE </h3>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Assim que o Almirante Drury aportou em Mac&aacute;o, remeteu uma
+intima&ccedil;&atilde;o de Lord
+Minto, a Bernardo Aleixo (Governador de Mac&aacute;o)<sup><a href="#n32">[32]</a></sup> e mandou
+Robert, (primeiro sobrecarga da companhia) em
+deputa&ccedil;&atilde;o ao
+Governador. Robert fallou neste espirito.<sup><a href="#n33">[33]</a></sup>
+<br />
+
+<br />
+
+&mdash;Sou mandado pelo Almirante Drury participar-vos, que o seu
+intento
+&eacute; empregar as for&ccedil;as do seu commando na defeza de
+Mac&aacute;o, contra os francezes! A
+explica&ccedil;&atilde;o desta medida feita a V. Exc. por Lord
+Minto dispensa-me de repetir os motivos porque o Governo Britanico
+assim procede. <br />
+
+<br />
+
+O Almirante est&aacute; disposto a conferir com vosco antes do
+desembarque das tropas: com tudo &eacute; preciso que o Senado
+esteja tambem disposto a cooperar com os inglezes para a
+seguran&ccedil;a desta cidade e do commercio; se o
+<span class="pagenum"><a name="p96" id="p96">[96]</a></span>
+plano proposto n&atilde;o tiver effeito por motivo do Senado, o
+Almirante, a seu pesar; ter&aacute; conducta opposta. <br />
+
+<br />
+
+<span class="sidenote">Setembro 11</span>
+&Eacute; para notar o amea&ccedil;o que faz o sobre carga na
+primeira entre vista! <br />
+
+<br />
+
+&Eacute; grato ao meu cora&ccedil;&atilde;o, tornou
+Bernardo Aleixo, ver o empenho que tomais em defender as <a href="#eo22">possess&otilde;es</a>
+lusitanas: com tudo pela intima allian&ccedil;a dos nossos
+monarcas, pelas ordens que tenho do Sr. D. Jo&atilde;o VI, e pelos
+tratados feitos com os Chinezes, n&atilde;o devo consentir no
+desembarque das vossas tropas, sem ordem superior. <br />
+
+<br />
+
+<span class="sidenote"><a href="#e21">Septembro</a>
+12</span>
+N&atilde;o posso duvidar, replicou Drury, da vossa franquesa nem da
+convic&ccedil;&atilde;o em que estais da intimidade dos nossos
+monarcas: sou sensivel &aacute; situa&ccedil;&atilde;o em
+que vos achaes:
+comtudo previno-vos, que pela grande distancia do logar donde podeis
+receber ordem superior, n&atilde;o a tereis t&atilde;o
+c&ecirc;do, como
+&eacute; de meu dever cumprir o que me foi determinado por Lord
+Minto. Para a conclus&atilde;o deste negocio desejo ter uma
+conferencia com vosco. <br />
+
+<span class="sidenote">Septembro 13</span><br />
+
+N&atilde;o s&oacute; na primeira
+participa&ccedil;&atilde;o, mas tambem na primeira replica teve
+o Senado
+<span class="pagenum">[97]</span>
+motivo bastante para
+desconfiar das inten&ccedil;&otilde;es britannicas; por tanto
+officiou ao Almirante pelo modo seguinte:<sup><a href="#n34">[34]</a></sup>
+<br />
+
+<br />
+
+Suppondo-vos certo da raz&atilde;o que me assiste para
+n&atilde;o alterar as ordens que tenho; devo lisongiarme da vossa
+persuas&atilde;o tanto da lealdade no desempenho dos meus deveres,
+como da certeza em que estou da intima allian&ccedil;a dos nossos
+monarcas: assim espero que modifiqueis as
+instru&ccedil;&otilde;es de Lord Minto, em quanto
+n&atilde;o chegam ordens do Brazil, ou de Goa. Eu tambem demorarei
+a participa&ccedil;&atilde;o das vossas
+inten&ccedil;&otilde;es ao Governo Chinez:
+inten&ccedil;&otilde;es de dificil compreens&atilde;o a
+povos altivos e desconfiados. <br />
+
+<br />
+
+Estimarei a vossa visita, farei tudo para satisfazer-vos, menos
+consentir no desembarque das vossas tropas. Terei a
+satisfa&ccedil;&atilde;o de aprender com vosco o modo de tirar
+a estes povos o receio, que lhe ficou em 1802, e agora renovado pela
+vossa preten&ccedil;&atilde;o.<sup><a href="#n35">[35]</a></sup>
+O Imperio da China
+&eacute; o protector desta cidade ha 270 annos; nada mais
+&eacute; preciso para sua
+<span class="pagenum"><a name="p98" id="p98">[98]</a></span>
+defeza. Sendo a coac&ccedil;&atilde;o origem de disturbios e
+conhecendo v&oacute;s a nossa raz&atilde;o, espero que se
+houver m&aacute;o resultado na vossa empreza, n&atilde;o o
+imputareis ao governo de Mac&aacute;o. <br />
+
+<br />
+
+<span class="sidenote">Setembro 14</span>
+N&atilde;o havendo resposta do Almirante at&eacute; o dia 16 o
+Senado intimou um protesto aos sobrecargas, e disse mais:
+Ser&aacute; infalivel a
+complica&ccedil;&atilde;o dos negocios britanicos, se o vosso
+Almirante tentar contra os ajustes feitos em 1802 pelo Senado com o
+Governo Chinez, para n&atilde;o admittir auxilio extrangeiro. <br />
+
+<br />
+
+Sabendo agora pelo Governador de Bengalla, que tendes grande parte
+nesta empreza, &eacute; do meu dever segnificar-vos, que no caso
+n&atilde;o esperado, de continuarem as mesmas instancias para a
+admiss&atilde;o das <a href="#e22">vossas tropas</a>
+nesta cidade, farei
+p&ocirc;r em execu&ccedil;&atilde;o o que no protesto junto
+declaro. &Eacute; repugnante o vosso procedimento contra povos
+fieis e amigos da Caza de Bragan&ccedil;a desde a sua
+restaura&ccedil;&atilde;o. Exijo que o protesto junto com a
+copia desta carta seja remettido ao Almirante. <br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o produzindo estes escriptos o effeito desejado, o Senado
+enviou a participa&ccedil;&atilde;o seguinte
+ao mandarim de Hiang-san.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[99]</span>
+A dez de Setembro surgiram em frente desta cidade, uma n&aacute;o,
+uma fragata, e um brigue da na&ccedil;&atilde;o ingleza, sendo
+chefe desta for&ccedil;a o Almirante Drury. Trouxe uma carta de
+Lord Minto, que diz mandar, da parte do seu rei, antigo alliado do
+nosso, soldados para defenderem esta cidade de alguma
+invas&atilde;o franceza. O Almirante assegura n&atilde;o
+exceder os limites de defesa; por&eacute;m como o seu desembarque
+nesta cidade, quebra os tractados deste governo com a celestial
+dynastia, somos obrigados a fazer-vos este aviso a fim de o levares ao
+Sunt&oacute;, em virtude dos mesmos tractados. <br />
+
+<br />
+
+O Governo de Mac&aacute;o, animado do ardente desejo de manter as
+rela&ccedil;&otilde;es politicas e commerciaes, que tem ligado
+esta cidade com os Chinezes, e varias na&ccedil;&otilde;es da
+Europa; e tendo o mesmo empenho em continuar a merecer na
+opini&atilde;o das na&ccedil;&otilde;es, propria e
+extrangeiras, a considera&ccedil;&atilde;o de leal e honrado,
+titulo nunca recusado a este Senado: julgou preciso offerecer ao
+publico a succinta e franca exposi&ccedil;&atilde;o dos factos
+acontecidos desde a chegada do Almirante Drury a este porto
+at&eacute; hoje, no protesto seguinte.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[100]</span>
+A dez de Setembro de 1808, chegou ao porto desta cidade a frota
+commandada pelo almirante Drury. A 11 recebi uma carta de Lord Minto,
+onde refere os desastres de Portugal; e o favor recebido, pelo nosso
+Rei, de George IV, para conservar as possess&otilde;es da India e
+China; e que sendo esta de muita importancia para os inglezes, devia
+ser guarnecida com as suas tropas. Para esse fim mandava um
+destacamento a esta cidade, e pedia pelo vinculo de antiga amizade, a
+sua admiss&atilde;o e necessario arranjo. <br />
+
+<br />
+
+No mesmo acto disse, que pelos motivos da amizade expendida
+n&atilde;o deviam obrar de modo, que destruissem a independencia,
+que deviam querer segurar; nem admittia ser eu violentado a fazer o que
+n&atilde;o devo. <br />
+
+<br />
+
+Esperava desta resposta alguma modera&ccedil;&atilde;o, e mais
+por saberem, que os chinezes n&atilde;o admittem novidades com que
+possam julgar menos segura a sua independencia. Com tudo reagiram,
+mandando intimar pelo chefe da companhia, que se n&atilde;o fossem
+admittidas as tropas, seria differente o seu procedimento. <br />
+
+<br />
+
+Firme nos meus principios, e na minha
+<span class="pagenum"><a name="p101" id="p101">[101]</a></span>
+primeira resolu&ccedil;&atilde;o, assegurei-lhe a
+immutabilidade do meu pensar, e dos habitantes desta cidade, que
+j&aacute;mais deram motivo para serem invadidos e atropellados por
+uma na&ccedil;&atilde;o, que se dizia alliada: por&eacute;m
+que a ter logar aquella intima&ccedil;&atilde;o
+amea&ccedil;adora, eu me defenderia
+conforme o direito natural, e os limites desta pra&ccedil;a, que
+sempre fora respeitada por todas as na&ccedil;&otilde;es
+costumadas a
+descan&ccedil;ar &aacute; sombra da bandeira portugueza. <br />
+
+<br />
+
+Vendo que os inglezes n&atilde;o socegavam, e que eram baldados os
+esfor&ccedil;os da mais estudada prudencia; querendo salvar a
+honra, e a paz constrangida pelo nosso mais antigo alliado;
+n&atilde;o devo demorar por mais tempo a necessaria
+participa&ccedil;&atilde;o ao governo chinez. Este como
+protector da cidade fundada por sua concess&atilde;o em seus
+dominios, da qual recebe foro a seu contento; prestar&aacute; com
+brevidade os socorros precizos. Sou obrigado a participar-lhe todas as
+circunstancias, n&atilde;o obstante saber <a href="#e23">qu&atilde;o</a>
+tristes se tornar&atilde;o as suas
+providencias, se o almirante n&atilde;o cessar da sua contumacia. <br />
+
+<br />
+
+O senado tomar&aacute; como hostil o procedimento que tiver por fim
+desembarcar tropas<span class="pagenum">[102]</span>
+inglezas nesta cidade; declara que se defender&aacute;
+at&eacute; o ultimo extremo. Protesta contra taes procedimentos: a
+responsabilidade reca&iacute;r&aacute; sobre os aggressores. A
+raz&atilde;o anima os habitantes desta cidade, que tanta honra e
+gloria tem dado &aacute; na&ccedil;&atilde;o portugueza em
+sua n&atilde;o interrompida posse. <br />
+
+<br />
+
+<span class="sidenote">Setembro
+16
+</span>Quem n&atilde;o esperaria
+modera&ccedil;&atilde;o nos
+britannicos, pela leitura daquelle protesto?
+Retorquiram!&mdash;Sendo os
+offerecimentos liberaes de Lord Minto rejeitados pela desleal conducta
+do governo macaense<sup><a href="#n36">[36]</a></sup>,
+e os esfor&ccedil;os da nossa parte a fim
+de livrar esta cidade da invas&atilde;o franceza, e querendo
+n&oacute;s conservar boa intelligencia entre o governo chinez e a
+na&ccedil;&atilde;o britannica: somos arrastados pela
+inexperada conducta dos macaenses a tomar medidas, que
+podem offender os chinezes; mas o senado responder&aacute; por
+tudo. <br />
+
+<br />
+
+Achamos-nos levados ao penoso extremo de vos participar, que em breve
+os soldados inglezes occupar&atilde;o Ma&ccedil;&aacute;o.
+A nossa ten&ccedil;&atilde;o,
+quando chegar esse momento, &eacute; desembarcar
+<br />
+
+<span class="pagenum"><a name="p103" id="p103">[103]</a></span>
+tambem os marinheiros, e tomar posse da cidade &aacute; ponta de
+bayoneta. Consideraremos qualquer opposi&ccedil;&atilde;o como
+rebeli&atilde;o
+directa. Para evitar o conflicto de soldados e marinheiros raivosos,
+deve o Senado admittir j&aacute; as tropas britannicas. <br />
+
+<br />
+
+<span class="sidenote">Setembro 19</span>
+Foi recebida esta intima&ccedil;&atilde;o, quando chegava outra
+dos mandarins do destricto, para n&atilde;o deixar o Senado,
+desembarcar as tropas inglezas. O governador remetteu-a por copia ao
+almirante, com a seguinte carta. <br />
+
+<br />
+
+Agora me foi presente a vossa intima&ccedil;&atilde;o! Com
+pesar vejo nella, <a href="#eo23">tratada</a> de
+infiel a conducta do governo desta
+cidade por n&atilde;o admittir, contra o seu dever,
+guarni&ccedil;&atilde;o ingleza! E que tomareis como acto
+hostil qualquer resistencia da nossa parte, dando para unico remedio a
+tantos males, introduzir aqui tropas britannicas! Tenho presente as
+ras&otilde;es que vos expuz; extranho caracterisares este governo
+de mal intencionado no cumprimento dos seus deveres. Confesso que da
+minha parte os tenho modificado, julgando continuar assim a distincta
+amizade dos respectivos monarcas. Ponderei em pleno conselho a vossa
+<span class="pagenum">[104]</span>
+intima&ccedil;&atilde;o: sendo
+bem examinada a ultima parte em que dizeis cesser&aacute; o vosso
+rigor, admittindo-se um destacamento inglez, desejo saber como fareis
+isso sem nos dar motivo para desconfiar das
+inten&ccedil;&otilde;es britannicas; e sem que os chinezes se
+offendam de t&atilde;o escandaloso procedimento. Posso
+assegurar-vos, que elle n&atilde;o s&oacute; ha de ser
+prejudicial a
+Mac&aacute;o: a companhia ingleza soffrer&aacute; tambem os
+seus effeitos. <br />
+
+<br />
+
+No dia 20 os sobrecargas Roberts, Patlle, Brameston, Helphinstone, e
+Baring dirigiram ao governador a carta seguinte.&mdash;O protesto
+de Vossa
+Excellencia, ser&aacute; apresentado ao almirante, assim como a
+intima&ccedil;&atilde;o dos mandarins. N&oacute;s sabemos o
+que elles s&atilde;o: o almirante n&atilde;o far&aacute;
+caso delles. Sendo preciso concluir&aacute; este negocio com o
+Sunt&oacute;. <br />
+
+<br />
+
+&Eacute; memoravel nos annaes macaenses, o dia 20 de Setembro de
+1808. Achavam-se &aacute;s m&atilde;os com os piratas da China,
+e amea&ccedil;ados, pelo almirante inglez, de serem atacados
+&aacute; bayoneta. Mas quanto maiores eram as adversidades, mais se
+engrandecia o animo dos macaenses... Assim que se publicou no Senado
+<span class="pagenum"><a name="p105" id="p105">[105]</a></span>
+a injusta, cruel, e atroz
+intima&ccedil;&atilde;o da for&ccedil;a ingleza, gritaram
+todos:&mdash;S&oacute; depois de morrermos na defesa destes
+muros
+levantados por nossos maiores, poder&atilde;o entrar esses
+barbaros, que n&atilde;o podendo tomar nossas casas pela
+hypocrisia, tentam fazelo com amea&ccedil;os. O capit&atilde;o
+m&oacute;r Jos&eacute; Joaquim de Barros, ardendo em lavaredas
+de amor patriotico, disse para o governador;&mdash;Irei para o
+logar mais
+arriscado, l&aacute; darei a vida na defesa do meu
+posto&mdash;Bernardo
+Aleixo, consummado em prudencia, n&atilde;o soffreu ser vencido em
+valor. Dirigio-se ao <a href="#eo24">Ministro</a>
+Arriaga, dizendo:&mdash;Honrado collega, com
+taes companheiros n&atilde;o ser&atilde;o arrebatados <a href="#eo25">os lares</a>
+macaenses. Devemos acabar de ter contempla&ccedil;&atilde;o com
+homens, que mais parecem inimigos do que alliados. Deixo a minha
+residencia da praia grande; vou tomar o meu logar na fortaleza do
+monte, confiado em que ordenareis tudo para conservar o socego publico;
+e fiquem todos na intelligencia, que ella n&atilde;o se
+render&aacute; em quanto eu existir. <br />
+
+<br />
+
+Quem poder&aacute; escrever os dons naturaes e do estudo,
+desenvolvidos pelo magnanimo
+<span class="pagenum"><a name="p106" id="p106">[106]</a></span>
+Arriaga
+neste conflicto? Soube moderar o valor exaltado que tinha accendido <a href="#eo26">nos
+peitos macaenses</a>, <a href="#eo27">e persuadilos</a>,
+que n&atilde;o se
+offendia em cousa
+alguma a honra nacional, desembarcando a tropa ingleza, com <a href="#eo28">permiss&atilde;o</a> do Senado; e
+talvez isso
+desse novo realce &aacute; gloria dos portuguezes; <a href="#eo29">afian&ccedil;ou</a> n&atilde;o
+ser longa a demora dos inglezes em
+Mac&aacute;o. Disse que todos sabiam ter o governo feito, quanto
+estava ao seu alcance para livrar a cidade da invas&atilde;o
+ingleza; mas que em todo esse andamento haviam chegado os negocios a
+tal extremo, que a julgava necessaria para ensinar os britanicos, pela
+experiencia, que os macaenses n&atilde;o toleram invasores. <br />
+
+<br />
+
+Socegaram os animos; deram-se todas as providencias para se effectuar o
+desembarque sem disturbios. Entregaram-se as fortalezas a pessoas de
+confian&ccedil;a. O Governador foi para a do monte: e o
+Capit&atilde;o m&oacute;r para a de S. <a href="#e24">Francisco</a>.
+Commandava ent&atilde;o a
+guarni&ccedil;&atilde;o da pra&ccedil;a, o Senhor
+Jos&eacute; Ozorio de Castro Cabral e Albuquerque; sempre mereceu
+elogios do Governo por saber conciliar as qualidades militares com as
+virtudes civicas.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum"><a name="p107" id="p107">[107]</a></span>
+No dia 21 ao romper da alva desembarcaram os Capit&atilde;es
+Robertson, e Claulfield, com plenos poderes para tractarem com o
+Governo de Mac&aacute;o, &aacute;cerca do desembarque da tropa;
+e levaram a Bernardo Aleixo a carta seguinte. <br />
+
+<br />
+
+Tive a honra de receber a vossa participa&ccedil;&atilde;o, diz
+o Almirante, em que me informais da sabia e leal
+determina&ccedil;&atilde;o do Senado, em adimittir um
+destacamento inglez na defesa desta cidade. &Eacute;
+grande o meu prazer entrar em Mac&aacute;o como sincero amigo, e
+sem <a href="#eo30">quebrar-se</a> a antiga
+amizade dos nossos monarcas.
+Affirmo-vos que haveis achar nas tropas britanicas, obediencia e
+respeito. <br />
+
+<br />
+
+Qu&atilde;o differente linguagem da que empregou no dia 17! Em
+quanto os macaenses n&atilde;o cederam &aacute; tenacidade
+britanica, &eacute;ram infieis; agora que pareciam afrouxar na
+defesa dos seus direitos, s&atilde;o leaes e sabios! Ver-se-ha
+mudarem de linguagem em pouco tempo. <br />
+
+<br />
+
+No mesmo dia os delegados do Almirante, e os do Senado (Bernardo
+Aleixo, e Miguel de Arriaga) convencionaram nos artigos seguintes.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[108]</span>
+1.&ordm; As leis do paiz reger&atilde;o com toda a sua
+plenitude. <br />
+
+<br />
+
+2.&ordm; Os crimes contra os Chinezes, seguir&atilde;o o
+julgado
+estabelecido. <br />
+
+<br />
+
+3.&ordm; O destacamento inglez ser&aacute; subordinado ao
+governo desta
+cidade, combinando com o Capit&atilde;o Robertson, em casos
+extraordinarios. <br />
+
+<br />
+
+4.&ordm; Nenhuma outra bandeira ser&aacute; arvorada em
+Mac&aacute;o, al&eacute;m da portugueza. <br />
+
+<br />
+
+5.&ordm; As muni&ccedil;&otilde;es do destacamento
+entrar&atilde;o nos armazens publicos, &aacute;s ordens do
+governo desta cidade. Os inglezes ter&atilde;o permiss&atilde;o
+para beneficialas. <br />
+
+<br />
+
+6.&ordm; Os navios que pelas leis do paiz tem livre entrada neste
+porto
+n&atilde;o ser&atilde;o
+interrompidos, nem registados pelos britanicos: e os navios inglezes
+ficar&atilde;o no mesmo estado em que se achavam antes desta
+conven&ccedil;&atilde;o. <br />
+
+<br />
+
+Depois de assignada, o Senado far&aacute; diligencia para evitar
+complica&ccedil;&atilde;o com o governo chinez. O governo de S.
+M. Britanica fica responsavel ao Sr. D. Jo&atilde;o VI, pelas
+consequencias deste tractado. <br />
+
+<br />
+
+Desembarcaram as tropas sem tumulto;
+<span class="pagenum"><a name="p109" id="p109">[109]</a></span>
+aquartelaram-se na feitoria de Bernardo Gomes de Lemos, e nas
+fortalezas da Guia, e do Bom-parto. O Almirante requereu estes dois
+ultimos quarteis, para n&atilde;o haverem disturbios. <br />
+
+<br />
+
+Antes de desembarcar as tropas dizia, que ellas guardariam obediencia e
+respeito, assim que entrou com ellas na cidade, mudou de
+lingoagem: temeu logo que os britanicos insultassem os
+Chinezes. A inten&ccedil;&atilde;o dos sobrecargas e do
+Almirante, &eacute;ra de ir pouco a pouco, escondidos na capa da
+amizade, appossando-se de todas as fortalezas: e exigindo sempre, que o
+Governo de Mac&aacute;o avisasse ao de Cant&atilde;o, que tudo
+aquillo procedia da intima allian&ccedil;a entre as duas
+C&ocirc;roas de Portugal, e Gran-Bertanha. <br />
+
+<br />
+
+No primeiro de Outubro, pedio o Almirante ao Senado, licen&ccedil;a
+para enviar ao Sunt&oacute; o tractado feito com o Senado, antes de
+<a href="#e25">entrarem</a> as tropas inglezas em
+Mac&aacute;o.
+J&aacute; a esse tempo o Sunt&oacute; estava sciente de tudo
+quanto se tinha feito em Mac&aacute;o. <br />
+
+<br />
+
+No dia 8, come&ccedil;ou o almirante, com os seus, a dirigir
+queixas ao governador, pelos
+<span class="pagenum"><a name="p110" id="p110">[110]</a></span>
+insultos,
+que faziam os chinezes aos britannicos; e dirigiram-lhe a
+participa&ccedil;&atilde;o seguinte.&mdash;Somos obrigados,
+com
+pezar nosso, a representar-vos a necessidade de mettermos o nosso
+destacamento na fortaleza de monte, a fim de evitar a
+communica&ccedil;&atilde;o com os chinezes; por <a href="#e26">quanto</a> j&aacute; espancaram alguns
+officiaes, e esta manh&atilde;a insultaram
+outros de modo, que se n&atilde;o estivessem dentro dos limites do
+quartel, haveria grande desordem. Se o destacamento se
+estabelecer na <a href="#e27">fortaleza</a> do
+monte, acabar-se-ha a id&eacute;a de
+perigo. Asseguramos-vos a repugnancia com que fazemos esta
+applica&ccedil;&atilde;o, mas somos a isso obrigados para
+evitar males, que podem envolver os nossos governos com o dos chinezes,
+de quem temos ouvido dizer est&aacute; fazendo grandes preparativos
+de guerra. Seria bom, que assim como publicastes a ordem de Goa para
+receber o nosso destacamento, fizesseis o mesmo &aacute;
+proclama&ccedil;&atilde;o do vice-rei de Goa. <br />
+
+<br />
+
+Os inglezes esperavam, sem duvida, achar os macaenses no estado em que
+os havia descripto o capit&atilde;o Laperouse: e que Bernardo
+Aleixo n&atilde;o possuia o talento e virtudes exaradas
+<span class="pagenum">[111]</span>
+por aquelle celebre navegador nas paginas
+da sua viagem. A carta seguinte tirou os inglezes da illus&atilde;o
+em que estavam. <br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o tenho duvida em passar o vosso destacamento para a
+fortalesa do monte: sendo necessaria para defeza contra os
+francezes, est&aacute; nos termos da ordem que recebi de Goa<sup><a href="#n37">[37]</a></sup>:
+por&eacute;m sendo o motivo dessa exigencia evitar a
+communica&ccedil;&atilde;o e disputa com os chinezes, estou
+certo de que na feitoria, onde se acha aquartelada, observada a
+disciplina que hade usar na fortaleza, conseguir&aacute; o mesmo
+fim sem dar logar a ciumes da parte dos chinezes; causa sem duvida de
+males maiores do que pretendeis evitar: e de mais, isso n&atilde;o
+&eacute; conforme com o tractado, que fizemos. <br />
+
+<br />
+
+&mdash;A desconfian&ccedil;a do governo chinez tem augmentado
+pela
+occupa&ccedil;&atilde;o das fortalezas da Guia, e Bom-parto com
+tropas britanicas. Assim acrescer&aacute; mais em prejuizo do
+commercio das duas na&ccedil;&otilde;es, que na
+uni&atilde;o, com os chinezes tem igual parte nesta cidade. A
+na&ccedil;&atilde;o britanica n&atilde;o
+consentir&aacute; em plano algum,
+<span class="pagenum"><a name="p112" id="p112">[112]</a></span>
+que destrua esta uni&atilde;o: e
+<a href="#e28">a mim</a>
+n&atilde;o &eacute; permittido admittir defeza opposta
+&aacute; lealdade, que este governo tem &aacute;
+constitui&ccedil;&atilde;o do
+imperio, seu protector; e com direito sobre o territorio a que chama
+parte do mesmo imperio. <br />
+
+<br />
+
+<a href="#e29">Ainda</a> que &eacute; forte a
+raz&atilde;o que me
+assiste, maior ser&aacute; o meu pesar, quando pare&ccedil;a
+falta de condescendencia da minha vontade prompta em reconhecer os
+servi&ccedil;os de S. Magestade Britanica, ao S. D. Jo&atilde;o
+VI. Elles exigem, que espereis a resposta do governo chinez, aos
+artigos da nossa conven&ccedil;&atilde;o, que n&atilde;o
+pode alterar-se para n&atilde;o sermos obrigados a fazer outra
+participa&ccedil;&atilde;o. Ser&iacute;a
+agora passo arriscado, pelo escrupulo dos Chinezes &aacute;cerca
+das inten&ccedil;&otilde;es britanicas. O
+Senado j&aacute; mais deixar&aacute; de cooperar no que for
+util &aacute; na&ccedil;&atilde;o britanica. Agora mesmo
+acaba de pedir aos mandarins do districto, providencias para evitar,
+que os chinezes insultem os vossos officiaes. <br />
+
+<br />
+
+Lisongeio-me constar-vos a publicidade que dei &aacute; ordem de
+Goa. Tambem fiz publica
+Lisongeio-me constar-vos a publicidade que dei &aacute; ordem de
+Goa. Tambem fiz publicar a proclama&ccedil;&atilde;o segundo o
+costume deste governo. Vivei na intelligencia, que n&atilde;o
+esconderei
+<span class="pagenum">[113]</span>
+o que vos possa
+interessar, n&atilde;o offendendo o dec&oacute;ro desta cidade.
+<br />
+
+<br />
+
+De 3 a 14 de Outubro recebeu o Senado varios avisos do Mandarin de
+Hiang-san, aos quaes o procurador, Jos&eacute; Joaquim de Barros,
+respondeu neste espirito.&mdash;Eu o procurador da Cidade de
+Mac&aacute;o, mandarim de Hao-king, remetto-vos toda a nossa
+correspondencia com os inglezes, a fim de conheceres a verdade. O
+Senado remetteu ao Almirante todas as vossas chapas, (avisos) nestas
+circunstancias &eacute; o que podemos fazer.&mdash; <br />
+
+<br />
+
+O mandarim respondeu:&mdash;Pelo que respeita &aacute;s cartas
+do
+Almirante, ainda que as tenho feito interpretar, n&atilde;o posso
+entender o seu verdadeiro sentido: espero que o declarareis ao portador
+desta para minha intelligencia. A ordem do Vice-Rei de G&ocirc;a
+n&atilde;o prevalece contra os tractados existentes do Governo
+celestial com o vosso Rei. Em quanto ao desasocego dos moradores
+chinezes em Mac&aacute;o, depende de v&oacute;s: fazei com que
+os inglezes tornem para os seus navios, todos ficar&atilde;o em
+perfeita quieta&ccedil;&atilde;o.&mdash; <br />
+
+<br />
+
+<span class="sidenote">Outubro.</span>
+No dia 16 remetteu outro aviso.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum"><a name="p114" id="p114">[114]</a></span>
+&mdash;Sei que f&ocirc;ra apresentada a minha carta aos
+inglezes para
+sa&iacute;rem de Mac&aacute;o, e que <a href="#e30">responderam</a>
+terem vindo para defenderem Mac&aacute;o dos francezes, visto
+n&atilde;o o poder agora fazer o vosso Rei; e que para
+sa&iacute;rem precisam que venham soldados portuguezes! <br />
+
+<br />
+
+&Eacute; inegavel ser Mac&aacute;o territorio da China, assim
+como ter-vo-lo <a href="#e31">concedido</a> a
+celestial dynastia, attendendo a <a href="#eo31">virdes</a>
+de t&atilde;o longe, e
+quererdes repousar neste Imperio. Ha perto de tres seculos,
+n&atilde;o s&oacute; vos tracta sem differen&ccedil;a de
+seus povos, mas tambem como filhos enchendo-vos de beneficios.<sup><a href="#n38">[38]</a></sup> Os
+francezes n&atilde;o costumam insultar as terras deste imperio:
+quando usassem agora commetter essa injusti&ccedil;a, os inglezes
+deviam lembrar-se, que temos mandarins de letras e de armas e poderoso
+exercito para defender-vos, sendo preciso. Exponde estas verdades ao
+Almirante, e aos sobrecargas, e intimai-lhe de minha parte que
+embarquem o seu destacamento sem demora.&mdash; <br />
+
+<br />
+
+No dia 17 sabendo o mesmo mandarim,
+<span class="pagenum">[115]</span>
+que os Chinezes emigravam de
+Mac&aacute;o assustados pelo amea&ccedil;o da guerra, mandou
+outra chapa ao procurador, offerecendo-lhe tropas para auxiliar os
+portuguezes, e animar os Chinezes a fazerem o trato do costume, para
+n&atilde;o soffrerem os habitantes da cidade por falta de
+alimentos. <br />
+
+<br />
+
+<span class="tiny">(18 de
+Outubro.)</span>&mdash;Mostrei a vossa chapa de hontem ao
+Almirante
+(tornou o
+procurador
+ao mandarim) assegurou-me ir a Cant&atilde;o ultimar este negocio
+com o Sunt&oacute;. Desejo que vos empenheis no bom tractamento
+para com elle, visto ir encarregado de negocio t&atilde;o
+importante. <br />
+
+<br />
+
+No mesmo dia 17, recebeu o Governador a carta seguinte (dos
+sobrecargas).&mdash;Capacitesse V. Exc.<sup>a</sup> da
+grande
+importancia, que
+&eacute; para as duas na&ccedil;&otilde;es Portugueza e
+ingleza, accommodar em breve a desintelligencia, que reina entre
+n&oacute;s e os Chinezes. A viagem do Almirante a
+Cant&atilde;o, dirige-se a esse fim; mas &eacute; preciso que
+os seus intentos sejam sincenramente narrados ao Sunt&oacute;.
+S&oacute;
+o padre Rodrigo o pode fazer como desejamos; assim rogamos a V. Exc.
+faculdade para elle acompanhar
+<span class="pagenum">[116]</span>
+o
+Almirante. O Governador concedeu a licen&ccedil;a pedida. <br />
+
+<br />
+
+Quando em Mac&aacute;o se esperava que fossem diminuidas as
+calamidades, augmentaram. Assim o demonstram os sobrecargas na carta
+seguinte: basta meditala com reflex&atilde;o para se conhecerem as
+inten&ccedil;&otilde;es britanicas. <br />
+
+<br />
+
+&mdash;Soubemos esta manh&atilde;a&mdash;ter
+chegado de Bombaim outro destacamento. O Almirante ordena que
+desembarque immediatamente. Rogamos a V. Exc., que mande fazer os
+arranjos necessarios para esse fim. Alcan&ccedil;aremos grandes
+vantagens se persuadires os chinezes, que s&atilde;o tropas
+mandadas pelo vosso Rei; e que desembarcadas estas
+embarcar&atilde;o as que se acham em terra. Para dar mais
+for&ccedil;a a esta lembran&ccedil;a pode V. Exc. mandar entrar
+os navios com bandeira portugueza. As objec&ccedil;&otilde;es
+dos chinezes s&atilde;o de pouca entidade. Para este segundo
+desembarque, escusa V. Exc. pedir-lhe venia. Pedimos licen&ccedil;a
+para manifestar a V. Exc. o escandaloso procedimento de alguns
+macaenses infieis ao Senhor D. Jo&atilde;o VI; pois enviam aos
+mandarins representa&ccedil;&otilde;es desfavoraveis
+<span class="pagenum"><a name="p117" id="p117">[117]</a></span>
+aos britanicos. Da sua m&aacute; conducta
+nascem os inconvenientes, que temos soffrido. Se V. Exc. n&atilde;o
+d&aacute; remedio a tam grande mal, o Almirante enviar&aacute;
+para o Brazil as pessoas suspeitas.<sup><a href="#n39">[39]</a></sup>
+Esta carta demonstra bem a
+protec&ccedil;&atilde;o levada pelos inglezes a
+Mac&aacute;o. 1.&ordm; soberba, 2.&ordm; falsidades,
+3.&ordm; arrogancia
+<a href="#e32">fraudulenta</a>, 4&ordm;
+calumnias, 5.&ordm;
+despotismo da
+sua consumada</a> prudencia,
+respondeu nestes termos. <br />
+
+<br />
+
+<span class="tiny">(Outubro 21.)</span>&mdash;Dizeis
+ter
+ordem do
+Almirante para desambarcar
+tropas novamente chegadas! E desejais, que eu d&ecirc; a entender
+aos chinezes, virem da parte do Sr. D. Jo&atilde;o VI! Nenhuma
+duvida teria no seu desembarque, se as circunstancias decorridas depois
+que desembarcaram as primeiras n&atilde;o tivessem de dia em dia
+complicado mais este negocio com os mandarins. Effeituando-se este
+segundo desembarque antes de conferir o Almirante com o
+Sunt&oacute;, pode transtornar o negocio, e ser funesto ao
+commercio, j&aacute; suspenso em Cant&atilde;o. Accresce ter eu
+agora recebido, &aacute;cerca dessa tropa, protesto, que devo tomar
+em
+<span class="pagenum">[118]</span>
+muita
+considera&ccedil;&atilde;o. Esta cidade tem soffrido muito com
+a vossa expedi&ccedil;&atilde;o; e a meu cargo est&aacute;
+vigiar por seus interesses. N&atilde;o me consta haver aqui morador
+algum infiel &aacute; Caza de Bragan&ccedil;a, apesar de ser
+dever
+meu cuidar nessa indaga&ccedil;&atilde;o. <br />
+
+<br />
+
+<span class="tiny">(Outubro 21.)</span>&mdash;No
+mesmo
+dia,
+escreveu o mandarin de Hiang-san, ao procurador de Mac&aacute;o,
+neste espirito.&mdash;Consta-me chegarem ahi mais tropas inglezas;
+j&aacute;mais deveis permittir o seu desembarque. Duvidamos muito
+dos seus intentos. Se o consentirdes darei parte ao Sunt&oacute;,
+de que faltais ao vosso dever. <br />
+
+<br />
+
+<span class="tiny">(Outubro.)</span>&mdash;De 21
+a 28
+houveram
+disturbios entre os inglezes e os chinezes. O procurador representou
+aos mandarins, que n&atilde;o tinha leis por onde castigasse os
+chinezes em casos taes; e que para isso exigia
+providencias.&mdash;Aquelles
+tornaram. N&atilde;o s&atilde;o precisas leis para castigar
+crimes, que j&aacute;mais devem existir neste imperio. Embarquem os
+inglezes, tudo fica remediado.&mdash;N&atilde;o davam resposta,
+&aacute; exigencia de providencias. <br />
+
+<br />
+
+<span class="tiny">(Outubro.)</span>&mdash;Em 29
+escreveram os
+sobrecargas ao Governador:&mdash;Sabemos com certeza
+<span class="pagenum"><a name="p119" id="p119">[119]</a></span>
+n&atilde;o serem as
+partecipa&ccedil;&otilde;es de V.
+Exc. (&aacute;cerca do auxilio britanico) expostas ao
+Sunt&oacute; como deviam; antes sim pelo contrario. Rogamos a V.
+Exc. lhe declare o justo procedimento do governo britanico, e que esta
+declara&ccedil;&atilde;o seja remettida ao Almirante para elle
+mesmo a entregar ao Sunt&oacute;. Extranhamos a repugnancia de V.
+Exc. em seguir o exemplo do Vice-Rei de Goa, isto &eacute;, animar
+os portuguezes contra os nossos inimigos. Se os moradores desta cidade
+fossem assim admoestados, desejariam o nosso auxilio em logar de o
+aborrecer.&mdash; <br />
+
+<br />
+
+<span class="tiny">(Outubro 30.)</span>&mdash;Entre
+as
+difficuldades, que vos apresentei, tornou Bernardo Aleixo, <a href="#eo33">foi uma
+a complica&ccedil;&atilde;o</a> com os chinezes. Tenho
+conhecimento
+do systema do seu governo por longa experiencia adquirida na pratica;
+sei os vinculos que os unem a esta cidade; e por isso previ o
+m&aacute;o resultado da vossa empreza. Falleivos com franqueza, fui
+considerado como desaffecto aos vossos projectos. Em 20 do mez passado
+desclarasteis (ainda que pouco favoravel ao
+exercicio do meu emprego) ser qual quer opposi&ccedil;&atilde;o
+do
+<span class="pagenum">[120]</span>
+governo chinez,
+desembara&ccedil;ada pelo Almirante com o Sunt&oacute;; agora
+vejo depender deste governo a ultima&ccedil;&atilde;o do
+negocio. <br />
+
+<br />
+
+O Senado trabalha para que n&atilde;o sejam reputados sinistros os
+fins da vossa expedi&ccedil;&atilde;o: se tem havido
+desconfian&ccedil;a nos mandarins, n&atilde;o &eacute;
+motivada por este governo; pois tem patenteado com franqueza a sua
+correspondencia entre v&oacute;s e os chinezes. <br />
+
+<br />
+
+J&aacute; vos disse, e agora o repito: dos macaenses, nem um
+s&oacute; deixa de respeitar a caza de Bragan&ccedil;a,
+costumada a encher esta cidade de beneficios em honra do seu governo, e
+gloria de seus moradores. Por&eacute;m como n&atilde;o lhe seja
+vedado amar a tranquillidade publica do seu paiz, n&atilde;o deve
+extranhar-se a cada um chorar a sua desgra&ccedil;a: sem blasfemar
+da causa, aborrece os effeitos. <br />
+
+<br />
+
+Os pais de familias lastimam a morte de seus filhos, pelo abandono das
+amas chinezas&mdash;que se retiram. Os infelizes que tem na
+labuta&ccedil;&atilde;o diaria o seu recurso, lastimam-se pela
+escacez e carestia dos generos alimentares. Os mais abastados
+lastimam-se por ver chegar o tempo de fazerem suas
+negocia&ccedil;&otilde;es, e terem
+<span class="pagenum">[121]</span>
+ainda as mercadorias empatadas por falta de
+gyro, ha cincoenta dias. At&eacute; os navios est&atilde;o
+ainda por fabricar &aacute; mingua de artifices, que tambem
+fugiram. Os empregados publicos vendo parar o commercio, lastimam-se
+por saberem, que delle tira o estado rendimento para pagar-lhes. Os
+mesmos habitantes chinezes, dados ao commercio, tem emigrado e levado
+at&eacute; o mais inferior dos seus trastes. Isto era de esperar de
+homens pacificos ao verem apparatos de guerra. Al&eacute;m disso
+amea&ccedil;ados pelos mandarins, que julgam a
+constitui&ccedil;&atilde;o do imperio atacada pela vossa
+imprudencia. <br />
+
+<br />
+
+&Aacute; vista do exposto n&atilde;o admira haverem
+descontentes, que deplorem a sua desgra&ccedil;a, e aspirem ao
+socego deste fiel estabelecimento, que ha 252 annos tem sempre
+respeitado as ordens do seu monarcha. Julgai por este quadro se um tal
+povo necessita de proclama&ccedil;&otilde;es para ser fiel ao
+Rei a quem adora? <br />
+
+<br />
+
+Assim que esta carta foi remetida, mandou o Senado ao procurador, que
+exigisse do mandarim de Hiang-san, o motivo da queixa dos Inglezes; o
+que fez pelo modo seguinte.&mdash;O
+<span class="pagenum"><a name="p122" id="p122">[122]</a></span>
+chefe da companhia
+ingleza accusa-vos de n&atilde;o teres enviado as minhas chapas ao
+Sunt&oacute;, ou que mandando-as lhes viciastes o texto.
+N&atilde;o posso crer teres procedimento alheio do vosso emprego e
+caracter. Espero que immediatamente apresenteis os originaes ao
+Sunt&oacute;: eu envio as copias ao almirante para as conferir
+<a href="#e34">com elle</a>, e ficar desse
+modo illesa a vossa reputa&ccedil;&atilde;o. <br />
+
+<br />
+
+Os sobrecargas responderam &aacute; carta de trinta pelo modo
+seguinte:&mdash;A vossa carta encheu de magoa os nossos
+cora&ccedil;&otilde;es pelas
+circunstancias em que se acham os habitantes de Mac&aacute;o; tudo
+nasceu da conducta do Senado: se adoptasse o nosso systema,
+n&atilde;o teria agora de v&ecirc;r essas lastimas. Os
+macaenses julgaram a proposito tomar medidas contra a nossa
+expedi&ccedil;&atilde;o; e fizeram repetidas instancias ao
+governo chinez, pedindo soccorro contra os hostis procedimentos
+britannicos: o excessivo ciume dos chinezes, e o manejo do Senado
+motivaram todos os males.&mdash;Em verdade dissemos, que o
+almirante
+removeria todos os obstaculos em Cant&atilde;o; assim aconteceria
+se o governo de Mac&aacute;o se unisse cordialmente
+<span class="pagenum"><a name="p123" id="p123">[123]</a></span>
+com o almirante<a href="#eo34">.</a><br />
+
+<br />
+
+Os esfor&ccedil;os
+que V. Ex.<sup>a</sup> promette fazer em suas
+applica&ccedil;&otilde;es
+ao governo chinez, s&atilde;o para n&oacute;s de grande
+importancia. Sabemos que h&atilde;o-de produzir bom affeito.
+Estamos persuadidos, que s&oacute; o governo de Mac&aacute;o
+pode remover as presentes difficuldades e miserias. <br />
+
+<br />
+
+Grande documento &eacute; este para augmentar, se &eacute;
+possivel, a honra dos macaenses, pelo valimento que tem com os
+chinezes. No principio da carta, invectivam os sobrecargas aos
+macaenses; no fim pedem-lhe misericordia! Era tal a
+ambi&ccedil;&atilde;o, ou a impudencia daquelles
+bret&otilde;es, que diziam em face ao governo de Mac&aacute;o
+serem motivadas as calamidades daquella cidade pela ignorancia dos
+chinezes, e manejo do Senado! Quem n&atilde;o v&ecirc; provir
+tudo da tenacidade dos sobrecargas em quererem apossar-se daquelle
+nosso estabelecimento? Quem poder&aacute; capacitar-se de ser
+aquelle empenho unicamente sustentado para guardar Mac&aacute;o aos
+portuguezes? Em pouco sair&aacute; o almirante da
+illus&atilde;o em que o tinham os sobrecargas. <br />
+
+<br />
+
+O ultimo paragrafo desta carta merece
+<span class="pagenum">[124]</span>
+particular atten&ccedil;&atilde;o: O governador despresou as
+argucias do primeiro, e respondeu ao segundo.&mdash;Vejo a
+necessidade que
+tendes de novo recurso deste governo ao de Cant&atilde;o: O Senado
+j&aacute; enviou uma chapa ao mandarim do destricto, da qual se vos
+remette copia, e de toda a nossa correspondencia com os chinezes, a
+vosso respeito. Fa&ccedil;o isto para ver se acabam as vossas
+desconfian&ccedil;as. <br />
+
+<br />
+
+Nesta intelligencia e com o mesmo desvelo (posto que at&eacute;
+agora equivoco) farei novas representa&ccedil;&otilde;es ao
+governo chinez sempre que me indiqueis a forma de applacar a
+tormenta, que vos amea&ccedil;a, pela desconfian&ccedil;a dos
+mandarins superiores. <br />
+
+<br />
+
+&Aacute; vista do corpo disforme, que tomou este negocio, quem
+n&atilde;o esperaria
+modera&ccedil;&atilde;o nos sobrecargas? A carta seguinte
+mostra o contrario! <br />
+
+<br />
+
+<span class="sidenote">(Novembro 3.)</span>
+&mdash;Pertendem ainda quebrar as leis do imperio, introduzindo e
+descarregando navios britannicos em Mac&aacute;o.&mdash;Em
+virtude de
+ordens do almirante, dizem elles, participamos a V. Ex.<sup>a</sup>
+que mande
+apromptar armazens para depositar nelles os generos vindos em nossas
+<span class="pagenum">[125]</span>
+embarca&ccedil;&otilde;es.
+Esta medida nasce da
+oppo&ccedil;&atilde;o
+que os chinezes fazem ao auxilio dado por n&oacute;s a esta cidade.
+Esperamos que V. Ex.<sup>a</sup> n&atilde;o recuse os
+seus extremosos
+esfor&ccedil;os em nosso beneficio, vendo que os sacrificios do
+governo de Mac&aacute;o s&atilde;o bagatela em
+compara&ccedil;&atilde;o dos que temos soffrido pelo embargo do
+commercio britannico (em Cant&atilde;o) s&oacute; por usarmos a
+generosidade de querermos dar seguran&ccedil;a a esta cidade: Assim
+esperamos a ordem para a descarga, sem dila&ccedil;&atilde;o. <br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o tenho duvida em prestar a minha condescendencia
+&aacute; vontade do almirante, respondeu Bernardo Aleixo, com tudo
+sou for&ccedil;ado a dizer o que sendo publico, admira ser por
+v&oacute;s ignorado. As leis deste paiz s&oacute; admittem
+navios estrangeiros no caso de mera hospitalidade, segundo o direito
+das gentes. Applica-se aos navios de entrada e sa&iacute;da de
+Cant&atilde;o, at&eacute; poderem seguir o seu destino.
+Achando-se em iguaes circunstancias, qualquer navio da companhia,
+n&atilde;o haver&aacute; duvida na sua admiss&atilde;o;
+por&eacute;m se a descarga, que se pertende fazer em
+Mac&aacute;o provem da opposi&ccedil;&atilde;o dos chinezes
+ao commercio britannico, tenho
+<span class="pagenum">[126]</span>
+grande
+embara&ccedil;o no cumprimento do meu desejo. <br />
+
+<br />
+
+Os tractados desta cidade, com o governo chinez, permittem
+s&oacute; carrega&ccedil;&otilde;es neste
+porto vindas em navios portuguezes, ou hespanhoes; se o commercio
+inglez est&aacute; prohibido em Cant&atilde;o, como o poderei
+admittir em Mac&aacute;o, sendo dominio chinez, s&oacute;mente
+aforado aos portuguezes debaixo de certas
+condi&ccedil;&otilde;es, que v&oacute;s, dizendo auxiliar,
+pretendeis romper? <br />
+
+<br />
+
+Accresce n&atilde;o haver logar para t&atilde;o grandes
+carrega&ccedil;&otilde;es: por falta de gyro, acham-se todos os
+armazens cheios de generos vindos na mon&ccedil;&atilde;o
+ultima. Dizeis que s&atilde;o
+grandes os vossos sacrificios, e os nossos bagatela! Os sacrificios,
+neste sentido, n&atilde;o devem considerar-se pelo valor das
+riquezas: por perderes muito n&atilde;o se segue, que
+n&atilde;o sejam maiores os nossos sacrificios perdendo tudo.
+Lan&ccedil;ais as culpas das vossas perdas sobre n&oacute;s, e
+que faremos a vosso respeito? O tempo far&aacute;
+justi&ccedil;a ao nosso procedimento<sup><a href="#n40">[40]</a></sup>.
+<br />
+
+<br />
+
+Agora (apezar de tudo) &eacute; tal o meu desvelo
+<span class="pagenum">[127]</span>
+em vos servir, que se
+algum navio
+se acha em estado de tornar indispensavel a sua descarga,
+ter&aacute; os soccorros necessarios como se pratica entre povos
+civilisados; sem offensa dos la&ccedil;os domicilarios e
+privativos, sustentados pelo esfor&ccedil;o e gloria da
+Na&ccedil;&atilde;o
+Portugueza. <br />
+
+<br />
+
+Em todo o mez de Novembro houveram disturbios entre os chinezes e os
+britannicos: aquelles n&atilde;o s&oacute; maltractavam estes,
+encontrando-os nas ruas, mas tambem lhe apedrejavam as
+janallas. Por mais que o procurador do Senado exigisse
+providencias dos mandarins, a resposta &eacute;ra sempre a
+mesma.&mdash;S&aacute;iam os britannicos da cidade, e tudo
+ficar&aacute; em socego.&mdash;Quando os inglezes estavam mais
+teimosos
+em descarregar os seus navios em Mac&aacute;o, baixou a seguinte
+admoesta&ccedil;&atilde;o do Sunt&oacute; aos sobre-cargas.
+<br />
+
+<br />
+
+Sobre-cargas da companhia ingleza, sabei que a virtude do nosso
+Imperador se manifesta como o c&eacute;o, abrange tudo:
+considerando elle que os reinos da Europa se tem mostrado, ha muito
+tempo, obedientes e politicos, concedeu aos europeos licen&ccedil;a
+para negociar
+<span class="pagenum">[128]</span>
+em Cant&atilde;o;
+reputando-vos como individuos da mesma familia. V&oacute;s o tendes
+experimentado, e sabeis, que nunca foi concedido ficardes permanentes
+na China. Logo n&atilde;o devieis trazer navios cheios de soldados,
+nem desembarcalos contra as leis do imperio. Mac&aacute;o
+&eacute; cidade edificada em terreno chinez: a dynastia passada
+concedeu aos portuguezes estabelecerem-se alli; a presente, em virtude
+da sua antiga posse, deixou-os ficar como d'antes; por&eacute;m
+debaixo de certas condi&ccedil;&otilde;es. A nenhuns outros
+europeos se concedeu privilegio semilhante! Como pertendeis
+v&oacute;s agora persistir em Mac&aacute;o? Dizeis recear
+venham os francezes insultar os macaenses! Nunca se attreveram a
+pertubar as terras deste imperio: e quando venham com
+muito socego os esperaremos; vindo desfalecidos, e sendo poucos contra
+muitos, sem batalha ficar&atilde;o vencidos. Ter&atilde;o a
+sorte da carne na banca do cosinheiro. Dizeis ser amigos dos
+Portuguezes e que viesteis ajudalos contra os francezes! Porque
+n&atilde;o obrasteis este excesso de amizade la na Europa, ou
+porque n&atilde;o os esperais fora das ilhas da china para
+os baterdes quando cheguem?
+<span class="pagenum">[129]</span>
+N&atilde;o &eacute; justo estares em Mac&aacute;o
+quebrantando as leis do imperio, e dissolvendo a uni&atilde;o
+mutua, que deve existir em todos os seus dominios: desse modo perdeis o
+direito, que haveis &aacute; nossa benevolencia. Por ventura
+n&atilde;o sabeis o que vos &eacute; interessante? Podereis
+existir sem commercio? Por certo n&atilde;o: pois quanto mais
+depressa embarcardes os soldados, mais cedo se vos abrir&atilde;o
+as Alfandegas. Se retardares o seu embarque, n&atilde;o tereis
+communica&ccedil;&atilde;o com a terra. Ponderai bem o que vos
+proponho, e n&atilde;o me incommodeis com mais
+peditorios.&mdash; <br />
+
+<br />
+
+Em quanto o governo de Mac&aacute;o pedia aos mandarins do
+districto, que o ajudassem a sanear as feridas abertas pelos inglezes,
+nas leis do imperio, a fim de n&atilde;o se irritar contra elles o
+Sunt&oacute;, chegou outra chapa deste, pelo mandarim de Hiangsan,
+em que dizia:&mdash; <br />
+
+<br />
+
+Eu o Governador das duas provincias de Cant&atilde;o e Kuansi,
+fa&ccedil;o saber ao mandarin de Hiang-san, que da entrada dos
+soldados inglezes em Mac&aacute;o, s&atilde;o culpados os seus
+moradores; pois deviam tela embara&ccedil;ado. Mas examinando o seu
+antigo, e moderno
+<span class="pagenum"><a name="p130" id="p130">[130]</a></span>
+procedimento, achei
+serem sempre gratos aos nossos Imperadores; por esse motivo
+tol&eacute;ro o erro commettido. <br />
+
+<br />
+
+&Aacute;cerca dos navios inglezes, j&aacute; consultei o
+Kuam-pu, a fim de lhes permittir descarga, e poderem negociar. Pelo que
+pertence aos soldados, dei parte ao Imperador; eis a sua
+resposta:&mdash;Se
+os inglezes tiverem a ousadia de presistirem em sua
+teima, lan&ccedil;aios fora com o nosso exercito.&mdash;Em
+poucos dias
+elle marchar&aacute; sobre Mac&aacute;o: no entanto recommendai
+aos portuguezes a seguran&ccedil;a da fortaleza do monte. Adverti
+ao Procurador, que n&atilde;o se fie desses inglezes.<br />
+
+<br />
+
+Como estes n&atilde;o fossem promptos na
+execu&ccedil;&atilde;o das ordens do Sunt&oacute;,
+augmentou-se a soberba e desconfian&ccedil;a chineza de modo, que
+julgaram tambem sermos culpados no insulto commettido pelos inglezes.
+Desembarcarem estes as tropas j&aacute; n&atilde;o
+&eacute;ra a maior
+offensa: o que mais ferio o orgulho chinez, foi n&atilde;o <a href="#eo35">obedecerem</a>
+logo ao mando do Imperador. Tomaram os mandarins calor t&atilde;o
+ardente, que n&atilde;o deixavam passar um dia sem repetirem
+intima&ccedil;&otilde;es para que os inglezes
+sa&iacute;ssem de Mac&aacute;o: eis o seu
+espirito.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[131]</span>
+Senhor Procurador, esses inglezes entrando em Mac&aacute;o
+apossaram-se das igrejas e das fortalezas! Em pouco tomar&atilde;o
+vossas cazas possuidas ha seculos; depois tirar-vos-h&atilde;o
+mulheres e filhos: n&atilde;o podemos soffrer tam grande offensa.
+Marcham oitenta mil homens sobre os campos de M&oacute;a. (proximos
+&aacute; cidade de Mac&aacute;o) afim de os anniquilar.
+Despresaram a gra&ccedil;a feita pelo Sunt&oacute;;
+soffrer&atilde;o o peso da for&ccedil;a, que marcha contra
+elles. Esses inglezes sendo homens n&atilde;o tem
+cora&ccedil;&atilde;o humano; conhecem os males que tem feito,
+e n&atilde;o se arrependem! Desejamos que todos vivam em paz, e
+somos obrigados a mandar um exercito receando, que nem um s&oacute;
+inglez escape &aacute; morte! Fazei-lhe conhecer estas verdades, e
+perguntai-lhe se ainda querem teimar contra a justi&ccedil;a, que
+os amea&ccedil;a.&mdash;O
+procurador respondeu:&mdash; <br />
+
+<br />
+
+&mdash;Tenho apresentado as mais essenciaes das vossas chapas aos
+sobrecargas inglezes; n&atilde;o despresam as gra&ccedil;as do
+Sunt&oacute;;
+acham-se promptos para retirar-se; mas n&atilde;o o podem fazer de
+repente. Os inglezes vieram com designio de nos auxiliar assim julgo
+ser mal
+<span class="pagenum">[132]</span>
+fundada a vossa
+desconfian&ccedil;a. N&atilde;o precisamos do vosso exercito;
+viria fazer maior damno &aacute; cidade. Sabeis quaes
+s&atilde;o as leis que regem este nosso estabelecimento:
+n&atilde;o deve entrar nelle, nem mesmo aproximar-se &aacute;s
+muralhas desta cidade tropa chineza, sem que a pessa, e &eacute;
+cousa, que ainda me n&atilde;o veio &aacute;
+lembran&ccedil;a. N&atilde;o &eacute;
+justo imitares aos inglezes: estes diziam vir-nos auxiliar;
+trouxeram-nos incommodos e perdas.&mdash; <br />
+
+<br />
+
+&Eacute; notavel a prudencia e a generosidade do Senado macaense
+para com os inglezes, quando estes s&oacute; lhe dirigiam offensas!
+Ao mesmo tempo enviaram os sobrecargas a Bernardo Aleixo a carta
+seguinte, <br />
+
+<br />
+
+&mdash;A situa&ccedil;&atilde;o em que nos achamos
+&eacute;
+triste: temos recommenda&ccedil;&atilde;o do Almirante para
+evitar hostilidades e fazer tudo quanto possa reconciliar-nos com os
+chinezes. Se esta
+recommenda&ccedil;&atilde;o for confirmada aos manderins, por
+V. Exc. por certo diminuir&aacute; o seu rigor para com os
+inglezes. <br />
+
+<br />
+
+Nos maiores conflictos apparecia em publico o Magnanimo Arriaga e dava
+socego a todos. Offereceu-se para convencionar com os
+<span class="pagenum"><a name="p133" id="p133">[133]</a></span>
+mandarins, sobre a retirada da
+espedi&ccedil;&atilde;o britanica sem efus&atilde;o de
+sangue, donde resultou o tratado seguinte. <br />
+
+<br />
+
+Bernardo Aleixo de Lemos e Faria, Miguel de Arriaga Brun da Silveira, e
+o commandante das for&ccedil;as britanicas com os sobrecargas da
+selecta companhia, desejando retirar o destacamento inglez,
+decorosamente, ajustaram: <br />
+
+<br />
+
+1.&ordm; O <a href="#e35">Ministro</a> Arriaga
+tractar&aacute; com
+os mandarins &aacute;cerca da retirada das for&ccedil;as
+britannicas, ficando o commercio inglez no mesmo estado em que se
+achava, antes da sua entrada nesta cidade. <br />
+
+<br />
+
+2.&ordm; Exigindo este negocio a coopera&ccedil;&atilde;o
+do
+Almirante, Miguel de Arriaga ir&aacute; a Wampo-o, para se concluir
+alli do modo mais vantajoso ao vinculo das tres
+na&ccedil;&otilde;es. <br />
+
+<br />
+
+3.&ordm; Concluido este negocio cessar&aacute; a
+prohibi&ccedil;&atilde;o de mantimentos para sustento dos
+<a href="#e36">inglezes</a>. <br />
+
+<br />
+
+4.&ordm; Os mandarins far&atilde;o suspender immediatamente a
+marcha das tropas chinezas dirigidas a esta cidade.<br />
+
+<span class="sidenote">(Dezembro 11.)</span>
+<br />
+
+A presente conven&ccedil;&atilde;o mostra a
+confian&ccedil;a,
+<span class="pagenum">[134]</span>
+que o Ministro Arriaga
+tinha em domar o orgulho e o rigor dos mandarins. Parece impossivel,
+que s&oacute; a politica a firmesa de caracter, e a urbanidade de
+um homem pudesse conter a justi&ccedil;a chineza, sustentada por 80
+mil homens! A carta seguinte dirigida a Bernardo Aleixo, d&aacute;
+bem a conhecer o dominio que Arriaga tinha na vontade dos mandarins. <br />
+
+<br />
+
+<span class="tiny">(Dezembro 11)</span>&mdash;Depois
+que
+assign&aacute;mos a conven&ccedil;&atilde;o esta
+manh&atilde;, fui ao pagode,
+onde me esperavam os mandarins: tive larga discuss&atilde;o com
+elles a fim de soltar difficuldades proprias a uma
+na&ccedil;&atilde;o escrupulosa e desconfiada; todavia
+consentiram em tudo o que lhes propuz. Al&eacute;m disso
+capaciteios das boas
+inten&ccedil;&otilde;es britannicas (apezar de terem sido
+m&aacute;s para n&oacute;s); naquella intelligencia
+asseguraram-me ficar o commercio inglez no mesmo p&eacute; e
+systema antigo&mdash;Despedidos os mandarins; tornou Arriaga
+&aacute;
+cidade contente por ter concluido negocio t&atilde;o espinhoso por
+meios t&atilde;o honrosos para a na&ccedil;&atilde;o
+portugueza, como lisongeiros para o negociador. <br />
+
+<br />
+
+Sabendo o mandarin de Hiang-san, que
+<span class="pagenum">[135]</span>
+o
+novo governador Lucas Jos&eacute; de Alvarenga, instava pela posse
+do seu emprego, remetteu ao procurador a chapa seguinte. <br />
+
+<br />
+
+&mdash;Da entrada dos inglezes at&eacute; hoje, tem o antigo
+governador
+dirigido bem este negocio; agora constame, que o successor insta para
+tomar posse e que o Sr. Bernardo Aleixo de Lemos e Faria o pretende
+fazer: n&atilde;o &eacute; conveniente: os inglezes entraram no
+tempo do seu governo, nelle devem sa&iacute;r. Sabemos que o novo
+governador veio em navio inglez; quem nos assegura n&atilde;o ter
+elle correspondencia com esses homens? N&atilde;o &eacute;
+justo nem conveniente tomar elle agora posse do governo. Em casos
+extraordinarios nem sempre podem seguir-se as leis ordinarias: quando
+os inglezes sa&iacute;rem de Mac&aacute;o e ficarem todos em
+socego, far-se-ha tudo segundo a lei e os costumes. <br />
+
+<br />
+
+<span class="sidenote">(Dezembro 11 de 1808.)</span>
+No mesmo dia partio Miguel de Arriaga, no brigue do Senado, para
+Wam-poo. Em 24 horas chegou a bocca do rio Tygre: logo que da
+n&aacute;o se avistou suspendeu esta e veio ao encontro do brigue.
+Em 14 de Dezembro, j&aacute; de volta fez Arriaga, a
+participa&ccedil;&atilde;o seguinte
+<span class="pagenum">[136]</span>
+a Bernardo Aleixo.&mdash;Assim que cheguei
+&aacute; falla da n&aacute;o, fiz saber ao almirante, qual era
+a minha commiss&atilde;o: respondeu ter j&aacute; ordenado o
+embarque das tropas, e que desejava ser grato &aacute;s officiosas
+declara&ccedil;&otilde;es
+anteriormente feitas pelo governo de Mac&aacute;o; pois eram
+veridicas e rasoaveis. Recebeu-me com a civilidade propria de sua
+pessoa: disse que esperava do governo de
+Moc&aacute;o o bom servi&ccedil;o de remover
+qualquer difficuldade, que de novo apparecesse. Despedi-mo-nos com as
+mesmas ceremonias da entrada, e n&atilde;o querendo elle ceder veio
+acompanhar-me ao portal&oacute;. <br />
+
+<br />
+
+Logo que o ministro Arriaga concluio a sua
+negocia&ccedil;&atilde;o com o almirante, dirigio-lhe o
+governador Bernardo Aleixo de Lemos e Faria a carta seguinte. <br />
+
+<br />
+
+<span class="tiny">(Dezembro de 1808.)</span>&mdash;Os
+officios de
+V. S., de 11 e 14, manifestam o grande trabalho, que teve na
+conferencia com os mandarins: Pelo contexto dos mesmos se conhece a
+excessiva applica&ccedil;&atilde;o e desvelo com que V. S.,
+al&eacute;m dos limites ordinarios, se empenhou em acalmar, com
+heroico patriotismo, a cruel revolu&ccedil;&atilde;o que
+amea&ccedil;ava esta cidade.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[137]</span>
+Com o seu grande zelo e reconhecido talento, fez V. S. o mais
+importante servi&ccedil;o &aacute; patria. &Aacute;
+for&ccedil;a de t&atilde;o efficazes e
+singulares deligencias <em>devem os inglezes</em>fazer
+a sua retirada sem effus&atilde;o de sangue, e os macaenses o
+socego da cidade. <br />
+
+<br />
+
+<span class="tiny">(Dezembro de 1808.)</span>&mdash;No
+dia 16
+come&ccedil;ou a retirar-se o destacamento britannico; depois de se
+effeituar o embarque de tudo quanto lhe pertencia, cuidaram logo os
+sobrecargas em obter licen&ccedil;a para desembarcar as suas
+mercadorias em Cant&atilde;o. No 1.&ordm; de Janeiro expedio o
+Sunt&oacute; a chapa seguinte. <br />
+
+<br />
+
+&mdash;Qu-Hiung-Kuang, Sunt&oacute; (vice-rei) de
+Cant&atilde;o, faz
+saber a todos os europeos, que por desembarcarem soldados inglezes em
+Mac&aacute;o j&aacute;mais se lhes devia permittir commerciar
+neste imperio. Com tudo lembrando-nos que o seu rei offerecera tributo
+ao nosso imperador, relevamos a offensa, que nos fizeram pela sua
+entrada em Mac&aacute;o. Agora depois de enviarem os soldados
+&aacute;s suas terras, pedem os sobrecargas, arrependidos,
+perd&atilde;o com muita humildade, a fim de se lhes permittir
+commerciar neste imperio. Conhecendo a misericord&iacute;a
+<span class="pagenum">[138]</span>
+do nosso imperador, cedi
+&aacute;s suas repetidas supplicas, deixando que desembarquem as
+mercadorias, e possam vendelas nesta cidade. Devem receber esta
+gra&ccedil;a como um beneficio extraordinario. Assim mostramos, que
+as leis chinezas tem enfraquecido com o tempo: no futuro
+haver&atilde;o medidas mais rigorosas. Daqui em diante se algum
+europeo se atrever a quebrar as leis do imperio ser&aacute;
+lan&ccedil;ado fora para sempre. <br />
+
+<br />
+
+Assim fic&aacute;ram os inglezes no mesmo estado em que se achavam
+antes de tentarem invadir Mac&aacute;o; perdendo a companhia
+enormes sommas dispendidas naquella empreza. <br />
+
+<br />
+
+Tendo demonstrado com os sobrecargas desistiram
+della, farei ver agora o motivo porque atentaram. <br />
+
+<br />
+
+A grande influencia de Bonaparte na peninsula, obrigou El-Rei D.
+Jo&atilde;o VI, a fechar os portos aos inglezes: esta medida fez
+julgar aos bret&otilde;es, que Bonaparte se apossaria de Portugal,
+assim como o tinha feito da maior parte da Europa. <br />
+
+<br />
+
+Considirando-nos debaixo do jugo do novo Filippe,
+seu inimigo, seu inimigo, como
+<span class="pagenum">[139]</span>
+havia sido o antigo, praticaram a li&ccedil;&atilde;o tomada
+dos hollandezes; isto &eacute; pretenderam apossar-se do que ainda
+tinhamos no Oriente. <br />
+
+<br />
+
+Sendo os nossos estabelecimentos da Asia, interessantes aos inglezes,
+n&atilde;o lhes conv&eacute;m possuilos outra
+na&ccedil;&atilde;o, que n&atilde;o seja a portugueza,
+j&aacute; pela sua antiga allian&ccedil;a, j&aacute; por
+n&atilde;o a temerem. Avisaram os agentes da companhia, para
+guardarem as terras, que nos pertenciam naquella parte do mundo, a fim
+de n&atilde;o serem tomadas pelos francezes; na
+esperan&ccedil;a de que voltando Portugal &aacute; sua
+independencia, tudo ficaria como dantes; e se n&atilde;o podesse
+livrar-se do jugo francez, herdarem elles o que haviamos ainda no
+Oriente. Eis o motivo porque os inglezes invadiram Goa, e
+Mac&aacute;o, cidades que immortalisaram sempre o nome portuguez. <br />
+
+<br />
+
+Accresce a estes successos da Europa, o desejo, que tinham os
+sobrecargas inglezes de possuirem um estabelecimento na China; julgavam
+desairoso ao seu poder, haverem os portuguezes na China o que os
+britannicos n&atilde;o podiam alcan&ccedil;ar. Sendo ricos
+espalharam dinheiro na feira de Cant&atilde;o, esperando que
+<span class="pagenum">[140]</span>
+havendo alguma desintelligencia entre
+os portuguezes e os chinezes, estes os preferissem. <br />
+
+<br />
+
+Os lusos soffrem grande critica pelo que praticaram nas suas conquistas
+em seculos tenebrosos; com tudo s&atilde;o menos culpados do que os
+inglezes; por quanto estes n&atilde;o s&atilde;o menos
+violentos em seculo mais illustrado. Veja-se no quadro seguinte a
+differen&ccedil;a de ambi&ccedil;&atilde;o e despotismo das
+duas
+na&ccedil;&otilde;es. <br />
+
+<br />
+
+&mdash;Existe no Oriente imperio immenso, com mais de 100
+milh&otilde;es
+de homens de castas, c&ocirc;res, e ra&ccedil;as differentes:
+&eacute; a India
+ingleza. A Soberania n&atilde;o pertence &aacute;
+na&ccedil;&atilde;o; exemplo unico na historia do mundo;
+&eacute; propriedade de uma companhia de negociantes! Viram-se os
+cartiginezes enriquecidos pelo commercio, conquistaram
+a Sicilia e a Hespanha; mas a republica, o corpo inteiro da
+na&ccedil;&atilde;o, foi quem adquerio pelas armas importantes
+possess&otilde;es. Em tempos modernos, a companhia hollandeza
+adquirio grande esplendor; mas os seus estabelecimentos nas costas da
+Asia, eram arma&ccedil;&otilde;es fortificadas, e
+n&atilde;o colonias. <br />
+
+<br />
+
+A companhia ingleza sem perder o commercio
+<span class="pagenum">[141]</span>
+dos portos de mar, estendeu o seu dominio a mais de trezentas
+leguas pelo interior das terras. As regi&otilde;es mais ferteis e
+mais ricas do globo pertencem-lhe como fardos de fazenda
+amantoados em seus armazens. O chefe, e delegados,
+ostentam luxo asiatico, e reinam com orgulho. <br />
+
+<br />
+
+Especula&ccedil;&otilde;es mercantis elevaram este thesouro de
+nova especie, que subsiste sem ser mantido como os outros pela gloria
+dos Principes, respeito dos povos, ou pelo tempo que tol&eacute;ra
+e consagra nefandas
+usurpa&ccedil;&otilde;es. <br />
+
+<br />
+
+As authoridades de t&atilde;o grandes dominios, podem dizer-se, que
+s&atilde;o vendidas em leil&atilde;o, o mais vil inglez, em
+tendo algumas livras e comprando ac&ccedil;&otilde;es da
+companhia pode ficar membro desta sociedade, que tem fortalezas,
+n&aacute;os, e mais de cem mil soldados; al&eacute;m disso pode
+vir e dirigir este poder colossal, que tem destruido o imperio do
+Gr&atilde;o-Mogol, o do Teppo-Sail, e amea&ccedil;ado algumas
+vezes o Sofi da Persia e Grande As authoridades de t&atilde;o
+grandes dominios, podem dizer-se, que
+s&atilde;o vendidas em leil&atilde;o, o mais vil inglez, em
+tendo algumas livras e comprando ac&ccedil;&otilde;es da
+companhia pode ficar membro desta sociedade, que tem fortalezas,
+n&aacute;os, e mais de cem mil soldados; al&eacute;m disso pode
+vir e dirigir este poder colossal, que tem destruido o imperio do
+Gr&atilde;o-Mogol, o do Teppo-Sail, e amea&ccedil;ado algumas
+vezes o Sofi da Persia e Grande Lama<sup><a href="#n41">[41]</a></sup>!
+<br />
+
+<br />
+
+Os portuguezes combateram na India os
+<span class="pagenum">[142]</span>
+sectarios de Mafoma livrando
+desse modo a seus pacificos habitantes do captiveiro turco; os inglezes
+servem-se dos bra&ccedil;os sarracenos para agrilhoar os mal
+fadados bramas. <br />
+
+<br />
+
+Assim v&ecirc;-se que se nessa &eacute;poca tenebrosa os
+lusitanos obraram prodigios na India, vingando sobre os turcos os males
+que lhe haviam soffrido em nossa terra, hoje n&atilde;o
+desmerecemos na ordem dos nossos maiores; por quanto o Sunt&oacute;
+disse:&mdash;Nenhuns outros europeos
+alcan&ccedil;ar&atilde;o (por merito) os privilegios concedidos
+aos portuguezes.&mdash;Os sobrecargas confessaram, que
+s&oacute; o
+Governo de Mac&aacute;o podia remover as difficuldades e miserias
+(que elles tinham motivado): o Almirante Drury tambem
+disse:&mdash;Estou
+muito obrigado ao governo de Mac&aacute;o pelas suas
+declara&ccedil;&otilde;es
+anteriores; por quanto eram veridicas e justas.&mdash;Taes
+declara&ccedil;&otilde;es confirmam a dignidade do caracter
+Luzitano, em todos os tempos e logares. <br />
+
+<br />
+
+Sabendo-se em Londres a conducta daquelles sobrecargas, foram outros
+nomeados: chegando a Mac&aacute;o esconderam o que se havia passado
+alli em 1808, e fallaram do que viram
+<span class="pagenum"><a name="p143" id="p143">[143]</a></span>
+praticar em 1809, pelo modo seguinte.&mdash;As patrioticas
+applica&ccedil;&otilde;es e desvelos dos macaenses, adquiriram
+a esta cidade muitas vantagens; ao governo portuguez gloria; e a todas
+as na&ccedil;&otilde;es commerciantes a liberdade dos mares da
+China<sup><a href="#n42">[42]</a></sup>.
+Os povos chinezes congratulam-se com a
+extinc&ccedil;&atilde;o do inimigo que por mais de 20 annos os
+havia opprimido, por serem as for&ccedil;as maritimas do imperio
+insufficientes para destruilo.&mdash; <br />
+
+<br />
+
+Accrescentarei o que os sobrecargas n&atilde;o poderam escrever:
+n&atilde;o foi menor a vantagem de Mac&aacute;o e a gloria da
+na&ccedil;&atilde;o
+portugueza, lan&ccedil;ar fora daquella cidade as tropas inglezas,
+que della se pertendiam apossar. <br />
+
+<br />
+
+Vendo uma memoria do Sr. Lucas Jos&eacute; de Alvarenga, Governador
+que f&ocirc;ra de Mac&aacute;o, sou obrigado a contestala para
+desagravar os macaenses das offensas que alli lhes derige aquella
+triste e
+<a href="#e37">miseravel</a> jactancioso. <br />
+
+<br />
+
+Imprimio a sua memoria no Rio de Janeiro em 1828, e diz que lhe dera
+motivo a isso outra <a href="#eo36">impressa em Lisboa</a>
+em 1824; por se
+<span class="pagenum"><a name="p144" id="p144">[144]</a></span>
+achar nella o seu nome inglorio. Sendo eu quem a
+escreveu, devo mostrar a raz&atilde;o de n&atilde;o fallar em
+louvor do Sr. Lucas. <br />
+
+<br />
+
+Sa&iacute; de Mac&aacute;o para Lisboa em janeiro de 1808, e
+o Sr. Lucas entrou naquella cidade em Setembro do mesmo anno.
+Tornei a Mac&aacute;o em Novembro de 1810, j&aacute; elle tinha
+saido dalli em Abril desse anno. Querendo recolher factos sobre a
+extinc&ccedil;&atilde;o dos piratas, a fim de completar o meu
+opusculo, tomeios das actas do Senado, e das pessoas conspicuas
+daquella cidade. Haviam em t&atilde;o pouca conta este cavalheiro,
+que n&atilde;o se atreveram a confiar-lhe o governo das armas
+sen&atilde;o depois de fazerem retirar as tropas inglezas, como
+fica demonstrado, no officio do mandarim de Hiang-san. <br />
+
+<br />
+
+O Sr. Lucas, a pag. 4 da sua memoria diz serem verdadeiros os factos
+lan&ccedil;ados na que se imprimira em Lisboa; isto &eacute;,
+1.&ordm; O zelo e a actividade do <a href="#eo37">o
+Ministro</a>
+Arriaga;
+2.&ordm; o valor das pessoas empregadas na esquadra; 3.&ordm;
+a existencia dos
+tractados; 4.&ordm; a entrega dos piratas 5.&ordm; a
+invas&atilde;o e a
+retirada das tropas inglezas; mas offende-se do silencio guardado
+<span class="pagenum">[145]</span>
+a seu respeito; e julga
+haver nesse procedimento algum misterio. <br />
+
+<br />
+
+Assim julga o Sr. Lucas n&atilde;o haver exactid&atilde;o nesta
+memoria por n&atilde;o fallar na sua entrada em Mac&aacute;o,
+no dia da sua sa&iacute;da, e talvez naquelle em que f&ocirc;ra
+encontrado na S&eacute; vestido com trajos de mulher. Confesso
+n&atilde;o ter fallado do Sr. Lucas para n&atilde;o ennodoar um
+escripto consagrado &aacute;s virtudes Luso-Macaenses, com a
+irregular conducta de tal governador. <br />
+
+<br />
+
+Como fallaria em louvor de um individuo desprezado n&atilde;o
+s&oacute; pela sua conducta, mas tambem pela sua cobardia? O Sr.
+Lucas por fraco obstou ao mais glorioso triunfo que podiamos obter em
+recompensa de tantas e t&atilde;o longas fadigas: obstou que o
+chefe dos piratas se entregasse com toda a sua esquadra no porto de
+Mac&aacute;o. Destas e outras
+ac&ccedil;&otilde;es do Sr. Lucas devia eu fallar, se
+escrevesse a historia de Mac&aacute;o, mas eu apenas me encarreguei
+de levar &aacute; posteridade dois factos dessa historia, a
+destrui&ccedil;&atilde;o dos piratas, e o desembarque e
+retirada das tropas britanicas. N&atilde;o fazendo o Sr. Lucas
+cousa boa
+digna de
+<span class="pagenum">[146]</span>
+notar-se, julguei fazer
+merc&ecirc; ao Sr. Lucas, deixando-o no escuro em
+que alli se lan&ccedil;ou. <br />
+
+<br />
+
+Sendo este opusculo destinado a louvar as ac&ccedil;&otilde;es
+dos Luso-Macaenses, n&atilde;o devia
+apparecer entre elles um brasileiro empenhado em fazer o contrario do
+que os outros praticavam. Como se fallaria em louvor de um governador,
+cuja administra&ccedil;&atilde;o foi tempo de martyrio para os
+macaenses, n&atilde;o s&oacute; pela falta de caracter do Sr.
+Lucas, mas tambem pela grande rapina do ouvidor Peixoto? <br />
+
+<br />
+
+&Eacute; verdade innegavel ser tudo quanto alli se praticou de
+maravilhoso, devido ao genio extenso e luminoso de Miguel de Arriaga.
+Assim o provam as actas do Senado, as cartas de Cam-pau-sai, as de
+Bernardo Aleixo, e o hymno cantado na presen&ccedil;a dos bons
+Macaenses, pelo benemerito cidad&atilde;o Jos&eacute; Baptista
+de Lima, no dia em que estes celebraram o triumfo de Miguel de Arriaga
+pela extinc&ccedil;&atilde;o dos piratas. <br />
+
+<br />
+
+Quando fallei, em 1824, na 1.&ordf; parte desta memoria,
+&aacute;cerca
+do bom governo Macaense referime &aacute; sua f&oacute;rma e
+aos annos em que influio nelle Miguel de Arriaga, e Bernardo
+<span class="pagenum"><a name="p147" id="p147">[147]</a></span>
+Aleixo. Agora vejo, com
+admira&ccedil;&atilde;o, o Sr. Lucas arrogar a s&iacute; os
+louvores de outros, quando elle ainda nem ao menos tinha visto
+Mac&aacute;o! <br />
+
+<br />
+
+O Sr. Lucas diz, a paginas 23 de sua memoria:&mdash;Sei em ultima
+analyse
+que n&atilde;o sei nada, e n&atilde;o sou nada&mdash;e a
+paginas 7
+diz:&mdash;Tendo eu sido autor de todos os negocios publicos e mui
+particularmente este, ser&iacute;a bastante para dar
+id&eacute;a do objecto contestado, e da falta de
+exactid&atilde;o da memoria impressa em 1824, do espirito,
+conhecimentos, e fins com que foi escripta.&mdash;<br />
+
+<br />
+
+O homem que n&atilde;o &eacute; nada, e n&atilde;o quer
+nada pretende roubar a gloria dos que foram alguma cousa; contestar com
+falsidades, documentos legaes e autenticos. Confessa a veracidade dos
+factos impressos nesta memoria, e censura o seu autor por
+n&atilde;o lhe dar a elle o que pertencia a outros! Eis a falta de
+exactid&atilde;o encontrada pelo Sr. Lucas: dahi nasce a sua
+desconfian&ccedil;a &aacute;cerca do espirito,
+conhecimentos e fins com que ella f&ocirc;ra escripta. <br />
+
+<br />
+
+P&oacute;de viver certo <a href="#eo38">de que o
+espirito</a>
+foi patriotico; os conhecimentos extra&iacute;dos, parte das actas
+do Senado, parte <a href="#eo39">adqueridos</a> na
+presen&ccedil;a
+<span class="pagenum"><a name="p148" id="p148">[148]</a></span>
+dos factos; e os fins limitaram-se no gosto de levar
+&aacute; posteridade os factos macaenses. <br />
+
+<br />
+
+Arriaga, Bernardo Aleixo, Pereira Barreto, Alcoforado, e outros muitos
+empregados naquella empreza, j&aacute; o mundo os havia perdido
+quando tive a honra de publicar pela imprensa as suas virtudes e
+proezas; o Sr. Lucas n&atilde;o sendo nada e n&atilde;o
+querendo nada, esperou que elles morressem para denegrir n&atilde;o
+s&oacute; as proezas, mas tambem as virtudes daquelles
+var&otilde;es illustres! <br />
+
+<br />
+
+&mdash;N&atilde;o posso deixar passar semelhante
+express&atilde;o,
+diz o Sr. Lucas a pag. 11, por conter no&ccedil;&otilde;es
+erroneas e falsas em perjuizo da honra e da gloria que me provem do
+resultado de todos os brilhantes feitos na &eacute;poca
+s&oacute;mente do meu governo, e cujo brilhantismo principiou com a
+minha chegada e acabou com a minha retirada!&mdash; <br />
+
+<br />
+
+Ainda sen&atilde;o vio maior
+jactancia. O Sr. Lucas chega aponto de alterar a <a href="#e38">f&oacute;rma</a>
+do governo s&oacute; a fim de roubar a gloria
+que n&atilde;o lhe pertence. <br />
+
+<br />
+
+&Eacute; elle mesmo quem confessa, apesar do
+<span class="pagenum"><a name="p149" id="p149">[149]</a></span>
+roubo que pretende fazer, a paginas
+42 da sua memoria, n&atilde;o ter influencia no
+governo.&mdash;O Senado,
+diz elle, projectou mandar a galera Ulises ao Rio de
+Janeiro, afim de cumprimentar El-Rei; oppuz-me; com tudo a galera
+proseguio&mdash;Assim destroe o mesmo Sr. Lucas as suas argucias. <br />
+
+<br />
+
+Em quasi todas as paginas da sua memoria lan&ccedil;ou argumentos
+contra-producentes.&mdash;Chegaram os piratas pela sua quantidade e
+for&ccedil;a, diz elle a paginas 43, a dominar os canaes de
+Wampo-o; ent&atilde;o por circunstancias, apesar das ordens
+superiores que me embara&ccedil;avam a fazelo, expedi ordens em
+Setembro de 1809 para serem batidos. O Sr. Lucas, em seus improvisos
+desacredita os mesmos a quem pretende elogiar. As ordens superiores
+referem-se ao Vice-Rei de Goa: porque motivo daria este ordem para
+n&atilde;o se atacar os piratas? Estaria comprado por elles? Que
+mais &eacute; preciso para saber-se <a href="#eo40">que
+o Sr. Lucas</a> n&atilde;o
+<a href="#eo41">cooperara</a>
+cousa alguma para a destrui&ccedil;&atilde;o dos piratas, <a href="#eo42">elle mesmo confessa que f&ocirc;ra</a>
+obrigado a
+mandar ordens para serem batidos os piratas?
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[150]</span>
+Em verdade o Senado, de quem Arriaga &eacute;ra a alma, foi quem o
+obrigou a mandar aquella ordem; logo fica demonstrado pelo mesmo Sr.
+Lucas, que o brilhantismo daquella &eacute;poca n&atilde;o lhe
+pertence, pois at&eacute; para expedir a ordem para serem batidos
+os piratas foi obrigado pelo Senado. <br />
+
+<br />
+
+&Eacute; certo, diz elle a pag. 46, que um dia depois que recebi
+parte do commandante da esquadra, em que dava por verificada a entrega
+de Cam-pau-sai,
+partio Arriaga para a bocca do rio Tygre, dizendo &iacute;r a
+negocio
+particular, e &eacute; certo que indo, esteve com o
+cabe&ccedil;a dos piratas; e &eacute; certo tambem que este
+logo se retirou com toda a sua esquadra; e que a entrega se
+n&atilde;o fez, quando a parte do commandante (Alcoforado) a dava
+por verificada!&mdash; <br />
+
+<br />
+
+Que mais se poderia dizer em desabono do Sr. Lucas, do que elle mesmo
+escreveo? Pois quem diz fizera tudo, n&atilde;o sabendo nada! Quem
+diz que o brilhantismo de Mac&aacute;o principiara com a sua
+chegada alli, e acabara com a sua retirada, confessa que tendo uma
+esquadra vencedora debaixo das suas ordens,
+<span class="pagenum"><a name="p151" id="p151">[151]</a></span>
+deixara fugir o inimigo depois de se ter
+j&aacute; <a href="#eo43">entregado</a>?
+Ent&atilde;o a quem comprou Arriaga na
+sua viagem &aacute; bocca do rio Tigre, <a href="#eo44">ao
+Chefe</a> da esquadra
+portugueza, ou <a href="#eo44">ao chefe</a> dos
+piratas? Compraria ambos? Tudo aquillo
+&eacute; falso; mas quando fosse verdadeiro, <a href="#eo45">provaria</a>
+que
+&eacute;ra Miguel de Arriaga quem predominava em Mac&aacute;o. <br />
+
+<br />
+
+Os documentos improvisados pelo Sr. Lucas; e o Officio dirigido ao
+Vice-rei, s&atilde;o partos do seu estro, quando se achava dominado
+pelo furor de elogiar-se. O enviado inglez, no Rio de Janeiro,
+servio-se delles para desacreditar Arriaga, e Bernardo Aleixo na
+opini&atilde;o de El-Rei; mas este desmascarou a intriga, premiou
+os macaenses, e castigou o Vice-rei, por ter mandado a Mac&aacute;o
+o Sr. Lucas, que desde ent&atilde;o j&aacute; mais obteve
+emprego algum. <br />
+
+<br />
+
+Este cavalheiro al&eacute;m de pretender a gloria alheia, deixa ver
+na sua memoria o azedume com que a escrev&ecirc;ra! Tentou deprimir
+os macaenses, e denegrio a sua estirpe. Um brasileiro j&aacute;mais
+deve fallar em desabono &aacute;cerca de colonias povoadas por
+degradados; por quanto assim que Pedro Alves Cabral descobrio
+<span class="pagenum"><a name="p152" id="p152">[152]</a></span>
+o Brazil despejaram-se as masmorras de
+Portugal. Quando nossos maiores chegaram a edificar uma cidade no
+imperio chinez, os criminozos de todo o reino eram diminutos para domar
+a sanha dos <a href="#eo46">butecudos e tupinambas</a>
+nos sert&otilde;es do Brazil. <br />
+
+<br />
+
+Timor &eacute; o unico presidio que temos al&eacute;m da
+Taprobana. S&oacute; Cam&otilde;es, pelo respeito devido ao
+genio, obteve ficar em Mac&aacute;o servindo o emprego de Juiz dos
+orf&atilde;os naquella cidade, rica pela salubridade do clima,
+pelos alimentos, pela forma do seu governo, e pelas virtudes de seus
+moradores.<br />
+
+<br />
+
+O Sr. Lucas n&atilde;o escreveu para fornecer
+&aacute; historia cousas proprias a fazer os homens melhores;
+pertendeu injuriar os macaenses com despreso da raz&atilde;o e da
+justi&ccedil;a. As providencias que ele diz foram a
+Mac&aacute;o em 1783, s&atilde;o impoliticas e desconcertadas:
+que outra cousa se poderia esperar de dois theologos no governo de um
+reino? (Martinho de Mello, <a href="#eo47">e um frade</a>)
+vis&otilde;es, argucias,
+e fogueiras. <br />
+
+<br />
+
+Fallava Martinho de Mello, naquella &eacute;poca, dos
+incontestaveis direitos que tem a cor&ocirc;a de Portugal sobre
+Mac&aacute;o! Que dir&aacute; o imperador
+<span class="pagenum"><a name="p153" id="p153">[153]</a></span>
+da China, a quem pagamos f&oacute;ro?
+Mas quando assim fosse, quem sustentou ha perto de 300 annos esses
+direitos? Degradados? Por certo n&atilde;o. Martinho de Mello era
+t&atilde;o hospede na historia daquelle paiz, que ignorava haver um
+decreto feito em 31 de Agosto de 1629, que prohibe a qualquer
+degredado, que alli se refugie, servir os encargos da cidade, <a href="#eo48">e mesmo de eleger</a>
+para elles. <br />
+
+<br />
+
+&mdash;O Senado de Mac&aacute;o, composto de degradados que
+para alli se
+refugiam, diz Martinho de Mello, ou de outros similhantes,
+ignorantissimos em materia de governo, n&atilde;o lhe importa cousa
+alguma que diga respeito a o decoro nacional, nem ao
+incontestavel direito da soberania, que Portugal tem &aacute;quelle
+importante dominio!&mdash; <br />
+
+<br />
+
+Fallar assim a povos residentes na China, n&atilde;o &eacute;
+s&oacute; grande impolitica mas tambem supina ignorancia das
+materias de governo. Gra&ccedil;as aos generozos macaenses, que
+despresando as invectivas dos sejanos, tem sempre concorrido para tudo
+quanto &eacute; decoroso e interessante a Portugal. O procedimento
+daquelle ministro deixa ver que elle tinha mais
+<span class="pagenum">[154]</span>
+carencia de luzes e de virtudes, do que os homens
+a quem offendeu. <br />
+
+<br />
+
+Nem Martinho de Mello, nem o Sr. Lucas (da viola) j&aacute;mais
+poderiam fazer as proezas que em todos os tempos obraram os illustres
+macaenses. Thomaz Vieira, natural de Mac&aacute;o, sendo governador
+daquella cidade em 1627, vendo-a sitiada pelos hollandezes, armou seis
+pequenas embarca&ccedil;&otilde;es e foi accommettelos. Abordou
+uma grande n&aacute;o, que tomou, fazendo horrivel mortandade no
+inimigo; os restantes fugiram deixando triumfante o denodado Vieira. <br />
+
+<br />
+
+Os macaenses sempre honraram e prestaram a Portugal, j&aacute;
+fazendo despezas avultadas com os nossos embaixadores ao imperador da
+China, j&aacute; mandando generosos presentes &aacute; capital
+do reino luso, j&aacute; derramando o proprio sangue a fim de
+limpar as costas da China de piratas, j&aacute; na defeza dos muros
+levantados por seus maiores. <br />
+
+<br />
+
+Os governadores exigentes das providencias, que alli mandou Martinho de
+Mello, eram similhantes aos que desolaram Mac&aacute;o em 1626,
+1709, 1747, e mesmo ao Sr. Lucas
+<span class="pagenum"><a name="p155" id="p155">[155]</a></span>
+seu elogiador aprol da tyrannia. Para se avaliar dos homens que pedem
+taes providencias, bastar&aacute; ler a carta seguinte do Conde de
+S. Vicente. Tem por objecto responder a El-Rei D. <a href="#eo49">Afonso
+VI.</a> sobre o
+oitavo que mandava receber, de todos os rendimentos particulares;
+tributo imposto em 1666 pelo vice-rei Antonio de Mello e Castro. <br />
+
+<br />
+
+&mdash;Sr.: a India ve-se de muito longe, e ouve-se mui tarde:
+assim
+n&atilde;o me espanto da f&oacute;rma com que muitas ordens se
+expedem, nem do mal <a href="#eo50">com que outros se
+guardam</a><sup><a href="#n43">[43]</a></sup>.
+J&aacute; um grande
+ministro disse:&mdash;A jurisdic&ccedil;&atilde;o dos Reis
+de
+Portugal apenas chega a Santarem; dahi para cima tudo &eacute; dos
+corregedores&mdash;Na India a dos vice-reis n&atilde;o chega a
+tanto; o
+mais &eacute; dos capit&atilde;es das fortalezas! Os gentios
+n&atilde;o tem fazendas, os canarins apenas cultivam para comer;
+assim n&atilde;o ha de quem se receba esse oitavo. Das pedras
+n&atilde;o se tira mel. Vossa Magestade deve mandar &aacute;
+India quem lhe fa&ccedil;a desses impossiveis, que eu
+n&atilde;o sei mais do que chorar as miserias, que vejo. Se isto
+vai de mim, venha outro; se
+<span class="pagenum">[156]</span>
+nasce dos povos,
+tenha Vossa Magestade delles piedade. Goa 26 de Janeiro de 1668. <br />
+
+<br />
+
+Se todos os vice-reis fallassem deste modo aos imperantes,
+n&atilde;o &iacute;riam a Mac&aacute;o
+aquellas offen&ccedil;as em logar de providencias; os povos seriam
+felizes, os portuguezes respeitados, e os Alvarengas mais commedidos. <br />
+
+<br />
+
+Julgo ter dito quanto basta para fazer arrepender o Sr. Lucas de querer
+arrogar asi a honra, que
+n&atilde;o lhe pertence, e de ser ingrato aos macaenses que tanto
+lhe soffreram. Para o Sr. Lucas avaliar, com mais conhecimento de
+causa, o espirito e fins com que fora escripta esta memoria, ahi lhe
+remetto a copia fiel de uma carta que dirigi ao Senado de
+Mac&aacute;o em 1826, assim como a sua resposta. <br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div style="text-align: center;"><em>Carta dirigida
+ao Senado de
+Mac&aacute;o.</em><br />
+
+</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Senhores, ainda que separado de v&oacute;s ha doze annos pela
+distancia immensa da Europa &aacute; China, o meu espirito esteve
+sempre comvosco. Havendo no cora&ccedil;&atilde;o o germen de
+<span class="pagenum">[157]</span>
+todas as virtudes, e recebido da natureza
+alma docil &aacute;s suas impress&otilde;es, j&aacute;mais
+poderia esquecer-me das sublimes qualidades que possuis. Deviam ser
+escriptas por outro Andrade como Jacinto Freire, mas tivesteis a
+desventura de viverdes em seculo diminuto em escriptores capazes de dar
+vida &aacute;s proezas dos heroes. <br />
+
+<br />
+
+&mdash;Grandes e magnificos foram sem duvida os feitos dos
+athenienses; mas
+quanto a mim, diz Salustio, menores do que a fama. Havendo alli muitos
+e grandes escriptores, as proezas dos athenienses foram celebradas no
+mundo pelas maiores. Assim o valor dos que as fizeram passa por tal,
+qual nos seus exagerados escriptos o figuraram esses preclaros
+engenhos<sup><a href="#n44">[44]</a></sup>&mdash;Em
+nosso tempo n&atilde;o acontece o mesmo; para
+o mundo saber das vossas proesas na carreira da gloria servio-se da
+minha tosca penna. <br />
+
+<br />
+
+O livro que vos offere&ccedil;o &eacute; pequeno em volume,
+por&eacute;m grande em seu objecto: basta conter os grandes feitos
+que praticasteis na
+extinc&ccedil;&atilde;o dos piratas. Na segunda parte que ficou
+<span class="pagenum"><a name="p158" id="p158">[158]</a></span>
+a imprimir-se em Lisboa
+ainda
+alcan&ccedil;asteis mais gloria. Na primeira real&ccedil;am os
+vencedores de Cam-pau-sai, na segunda brilha o Senado com a
+expuls&atilde;o dos inglezes. Por&eacute;m n&atilde;o
+&eacute; elle a mesma cousa, o Leal Senado de Mac&aacute;o, e
+os cidad&atilde;os macaenses? Nesse tempo luctuoso viviam todos
+animados do mesmo espirito; a todos se ouvia a mesma
+voz:&mdash;Morrer,
+dizeis, ou mostrar que descendemos dos Castros e dos
+Almeidas.&mdash; <br />
+
+<br />
+
+Desculpai, Srs., se desafio a vossa m&aacute;goa recordando-vos os
+illustres collegas, que por longa serie de annos regeram com vosco esta
+cidade. <a href="#eo51">Julgo-os</a> com direito
+&aacute; minha lembran&ccedil;a e
+aos vossos elogios. Porque motivo usar&atilde;o os oradores
+celebrar s&oacute; os poderosos? Por que n&atilde;o louvam
+elles as pessoas abalisadas em merito e virtudes? Se &eacute;
+preciso celebrar sempre os grandes, porque n&atilde;o se lembram
+tambem dos homens que foram uteis? N&atilde;o ser&aacute; digno
+de louvor o magistrado que usando da espada de Astr&ecirc;a, por
+muitos annos, o fez com tanta prudencia, que n&atilde;o ferio
+cidad&atilde;o algum? Magistrado que havia
+cora&ccedil;&atilde;o t&atilde;o sensivel e humano, que
+n&atilde;o se limitando
+<span class="pagenum">[159]</span>
+em fazer
+a paz e a ventura de uma cidade, pretendia abranger com esses dons
+&aacute; maior parte do mundo? Que abrazado no sancto amor da
+patria, empenhava quanto possuia para engrandecela e glorificala? Em
+fim o var&atilde;o forte que assaltado por intrigas e calumnias de
+ingratos, capazes de enfraquecer o espirito de Zeno, as supportava de
+animo tranquillo? V&oacute;s sabeis que Miguel de Arriaga possuio
+estas sublimes qualidades. <br />
+
+<br />
+
+Quem, Senhores, deixar&aacute; de louvar o illustre Jos&eacute;
+Joaquim de Barros, quando nesse mesmo recinto, agitando-se a
+quest&atilde;o se deviam, ou n&atilde;o ter, accesso os
+inglezes, exclamou.&mdash;Voto que n&atilde;o se deixem entrar;
+desse-me
+o lugar mais arriscado para defendelo; se a fortuna me for adversa,
+gostoso darei a vida em honra da Pa
+Quem, Senhores, deixar&aacute; de louvar o illustre Jos&eacute;
+Joaquim de Barros, quando nesse mesmo recinto, agitando-se a
+quest&atilde;o se deviam, ou n&atilde;o ter, accesso os
+inglezes, exclamou.&mdash;Voto que n&atilde;o se deixem entrar;
+desse-me
+o lugar mais arriscado para defendelo; se a fortuna me for adversa,
+gostoso darei a vida em honra da Patria<sup><a href="#n45">[45]</a></sup>.
+<br />
+
+<br />
+
+Qual de v&oacute;s, macaenses, nessa crise perigosa houve
+differentes sentimentos? Todos repulsasteis o inimigo por modo singular
+e extraordinario. <br />
+
+<br />
+
+Do monumento consagrado &aacute; vossa memoria, offereci um
+exemplar ao Sr. D. Jo&atilde;o
+<span class="pagenum">[160]</span>
+VI; dizendo-lhe que certo de em parte alguma
+depositar melhor as proezas macaenses do que em suas reaes
+m&atilde;os, alli lhe entregava feitos praticados em dias, bem
+similhantes aos do feliz tempo em que os lusitanos pelo caminho da
+virtude subiram ao templo da immortalidade. Fiquei satisfeito por saber
+depois, que El-Rei apreci&aacute;ra o livro, onde se acham exaradas
+as proezas macaenses; por&eacute;m ser&aacute; completo o meu
+gosto se as julgardes levadas &aacute; posteridade por maneira
+digna de v&oacute;s. <br />
+
+<br />
+
+Em verdade, Senhores, &eacute; preciso ser estupido para
+n&atilde;o admirar o vosso animo, e barbaro para com o vosso
+exemplo n&atilde;o sentir o estimulo da virtude. Coimbra, Mattos,
+Limas, e outros, possuiram virtudes perfeitas: serviram por mais de
+trinta annos os encargos desta cidade por modo, que nem Focio, ou
+Aristides o fez melhor
+Em verdade, Senhores, &eacute; preciso ser estupido para
+n&atilde;o admirar o vosso animo, e barbaro para com o vosso
+exemplo n&atilde;o sentir o estimulo da virtude. Coimbra, Mattos,
+Limas, e outros, possuiram virtudes perfeitas: serviram por mais de
+trinta annos os encargos desta cidade por modo, que nem Focio, ou
+Aristides o fez melhor em Athenas<sup><a href="#n46">[46]</a></sup>.
+<br />
+
+<br />
+
+Macaenses, se os louvores prov&eacute;m de interesse, devem
+despresar-se; se a lisonja tenta
+<span class="pagenum"><a name="p161" id="p161">[161]</a></span>
+enganar os poderosos,
+deve temer-se; por&eacute;m quando a
+admira&ccedil;&atilde;o tributa homenagem &aacute; virtude
+deve estimar-se. <br />
+
+<br />
+
+Assevero-vos que <a href="#eo52">nesse opusculo</a>
+liguei sempre a minha alma
+&aacute;s vossas ac&ccedil;&otilde;es;
+se lhes faltam pensamentos animados, por mingua de genio, tem o grito
+da verdade, unico preciso para immortalisar-vos. <br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div style="text-align: center;"><em>Resposta.</em><br />
+
+</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+O Senado recebeo com satisfa&ccedil;&atilde;o a vossa memoria,
+por ver nella immortalisados os feitos macaenses, na
+estinc&ccedil;&atilde;o dos piratas, que infestavam o nosso
+arquipelago. Em verdade v&oacute;s ornasteis o vosso e o nosso
+quadro com as flores e bellesas de Cam&otilde;es e dos Andrades. O
+Senado n&atilde;o perder&aacute;
+occasi&atilde;o, em que vos possa ser util em reconhecimento de
+t&atilde;o precioso presente. <br />
+
+<br />
+
+<em>Cartorio do Senado, 16 de Novembro de
+1826</em><br />
+
+<br />
+
+<h4>FIM.</h4>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<b>Notas:</b><br />
+
+<br />
+
+<a name="n1" id="n1"></a><sup>[1]</sup>
+Sacrifico a minha vida e fortuna &aacute; vossa (dizia
+Cicero ao povo Romano); s&oacute; exijo em recompensa conserveis a
+memoria dos
+meus servi&ccedil;os <br />
+
+<br />
+
+<div class="signature"><em>Catilinaria IV.</em></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<a name="n2" id="n2"></a><sup>[2]</sup>
+M. Thomas.<br />
+
+<br />
+
+<a name="n3" id="n3"></a><sup>[3]</sup>
+Diniz
+Ode XV.<br />
+
+<br />
+
+<a name="n4" id="n4"></a><sup>[4]</sup>
+O reprehensivel descuido dos nossos auctores agora o
+pagamos por castigo, ignorando os nossos proprios successos; e
+sujeitando-nos a
+cr&ecirc;r, e a estimar delles s&oacute;mente aquella pequena
+parte, que nos quizeram contar os inimigos, mais obrigados da
+d&ocirc;r, que da verdade. <br />
+
+<br />
+
+<div class="signature"><em>D. F. M. C. 26.</em></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<a name="n5" id="n5"></a><sup>[5]</sup>
+Era este Illustre Var&atilde;o de mediana altura,
+refor&ccedil;ado, largo de ombros, mui cabelludo e tinha
+olhos amarellos.<br />
+
+<br />
+
+<a name="n6" id="n6"></a><sup>[6]</sup>
+Navio de 20 bombardas com 300 homens.<br />
+
+<br />
+
+<a name="n7" id="n7"></a><sup>[7]</sup>
+<em>Cam&otilde;es,
+C. X. Est
+82<br />
+
+<br />
+
+</em><a name="n8" id="n8"></a><sup>[8]</sup>
+Por
+estas ac&ccedil;&otilde;es heroicas, ainda que
+barbaras, pode julgar-se o valor dos inimigos que tinhamos a vencer.<br />
+
+<br />
+
+<a name="n9" id="n9"></a><sup>[9]</sup>
+Ode
+XI. Epodo 4<br />
+
+<br />
+
+<a name="n10" id="n10"></a><sup>[10]</sup>
+Ode XV. Dinis.<br />
+
+<br />
+
+<a name="n11" id="n11"></a><sup>[11]</sup>
+Embarca&ccedil;&atilde;o de 20 tonelladas.<br />
+
+<br />
+
+<a name="n12" id="n12"></a><sup>[12]</sup>
+Cam&otilde;es, C. X. Est. 12 e 13.<br />
+
+<br />
+
+<a name="n13" id="n13"></a><sup>[13]</sup>
+Jacintho F. de Andrade.<br />
+
+<br />
+
+<a name="n14" id="n14"></a><sup>[14]</sup>
+Cam-pau-sai flagelou as provincias meridionaes do Imperio
+com repetidos tributos; e saques aos remissos.<br />
+
+<br />
+
+<a name="n15" id="n15"></a><sup>[15]</sup>
+Foi mui reprehensivel o modo porque obrigaram Arriaga a
+dacontas do dinheiro, que seus inimigos
+divulgavam ter elle levado dos cofres publicos, em sua
+administra&ccedil;&atilde;o; sabendo-se em
+Mac&aacute;o, os sacreficios que elle tinha feito em honra da
+Na&ccedil;&atilde;o e a bem
+daquella cidade. Gra&ccedil;as eternas sejam dadas &aacute; sua
+memoria.
+Al&eacute;m de n&atilde;o dever nada aos cofres publicos, (<a href="#en1">como</a> mostrou a
+Commiss&atilde;o nomeada para lhe tomar contas) ficou sendo credor
+de 11 contos de r&eacute;is; o que foi
+publico nas gazetas de Mac&aacute;o.<br />
+
+<br />
+
+<a name="n16" id="n16"></a><sup>[16]</sup>
+Com especialidade F. A. P. Thovar e Felis Jos&eacute;
+Coimbra.<br />
+
+<br />
+
+<a name="n17" id="n17"></a><sup>[17]</sup>
+Diuiz Ode <a href="#en2">34</a><br />
+
+<br />
+
+<a name="n18" id="n18"></a><sup>[18]</sup>
+Cam&otilde;es, Canto 2, Est. 100.<br />
+
+<br />
+
+<a name="n19" id="n19"></a><sup>[19]</sup>
+Duarte Nunes de Le&atilde;o, C. dos reis de Portugal.<br />
+
+<br />
+
+<a name="n20" id="n20"></a><sup>[20]</sup>
+L. J. de Alvarenga, queixa-se do mysterioso silencio
+guardado a seu respeito nesta memoria. No fim della direi qual foi o
+mysterio.<br />
+
+<br />
+
+<a name="n21" id="n21"></a><sup>[21]</sup>
+No suburbio da cidade.<br />
+
+<br />
+
+<a name="n22" id="n22"></a><sup>[22]</sup>
+Cam&otilde;es, Canto 1. Est X.<br />
+
+<br />
+
+<a name="n23" id="n23"></a><sup>[23]</sup>
+Este paragrafo foi composto no dia 9 de Maio de 1824; dia
+em que o Senhor D. J. VI proclamou aos portuguezes de bordo da Nao
+Windsor Castle; tomou aquelle asilo para escapar aos malevolos que o
+tinham cercado desde o dia 30 de Abril.<br />
+
+<br />
+
+<a name="n24" id="n24"></a><sup>[24]</sup>
+S&aacute;
+de Miranda.<br />
+
+<br />
+
+<a name="n25" id="n25"></a><sup>[25]</sup>
+Allud e a uma maxima de
+confucio.<br />
+
+<br />
+
+<a name="n26" id="n26"></a><sup>[26]</sup>
+O Imperador observou a seguinte maxima de
+Confucio.&mdash;Respeitos que te levam vantagem
+por natureza.<br />
+
+<br />
+
+<a name="n27" id="n27"></a><sup>[27]</sup>
+Promenade autour du monde, em 1817, 1818, 1819, 1820,
+Carta 68.<br />
+
+<br />
+
+<a name="n28" id="n28"></a><sup>[28]</sup>
+Cidade portugueza na ilha de Timor. Procedia este
+contentamento por terem sa&iacute;do de Coupang, cidade hollandeza
+na parte
+occidental da mesma ilha aonde Arago e seus companheiros foram mal
+recebidos.<br />
+
+<br />
+
+<a name="n29" id="n29"></a><sup>[29]</sup>
+Duarte Pacheco, depois de fazer prodigios na Asia, a
+inveja, a calumnia e a intriga trouxeram-o da Africa a Lisboa
+em ferros. Albuquerque, de-pois de immortalisar a
+na&ccedil;&atilde;o a que pertencia, foi victima das
+mesmas furias. N&atilde;o admira ter Alcoforado em premio de seus
+ma-Portantes servi&ccedil;os o governo da pestilente ilha de Timor,
+onde morreu na flor da idade.<br />
+
+<br />
+
+<a name="n30" id="n30"></a><sup>[30]</sup>
+Como estariam hoje os brazileiros se Pedro Alves Cabral levasse
+taes ordens. <br />
+
+<br />
+
+<a name="n31" id="n31"></a><sup>[31]</sup>
+Vede se esses homens que prestaram servi&ccedil;os, para terem
+patria, recusaram as enormes pens&otilde;es com que pertendem
+inchar!<br />
+
+<br />
+
+<a name="n32" id="n32"></a><sup>[32]</sup>
+No protesto de Bernardo Aleixo se ver&aacute; o
+espirito da intima&ccedil;&atilde;o.<br />
+
+<br />
+
+<a name="n33" id="n33"></a><sup>[33]</sup>
+Esta correspondencia foi extrahida, por integra, do
+Senado, mas &eacute; dada aqui em espirito.<br />
+
+<br />
+
+<a name="n34" id="n34"></a><sup>[34]</sup>
+O Governador &eacute;ra o org&atilde;o do Senado.<br />
+
+<br />
+
+<a name="n35" id="n35"></a><sup>[35]</sup>
+J&aacute; em 1802 quizeram os Inglezes abusar dos
+nossos tractados com o governo Chinez.<br />
+
+<br />
+
+<a name="n36" id="n36"></a><sup>[36]</sup>
+&Eacute; notavel o modo <a href="#en3">civ&iacute;l</a>
+e urbano
+do governo de Mac&aacute;o, e as maneiras asperas de
+Roberts, etc. companhia.<br />
+
+<br />
+
+<a name="n37" id="n37"></a><sup>[37]</sup>
+Tinha chegado na antevespora ordem de Goa para entrarem os
+inglezes em Mac&aacute;o!<br />
+
+<br />
+
+<a name="n38" id="n38"></a><sup>[38]</sup>
+Note-se como fallam os mandarins a nosso respeito. Eis o
+que prometti na introduc&ccedil;&atilde;o da primeira
+parte.<br />
+
+<br />
+
+<a name="n39" id="n39"></a><sup>[39]</sup>
+Admira n&atilde;o dizer que os mandaria para
+Botany-bay.<br />
+
+<br />
+
+<a name="n40" id="n40"></a><sup>[40]</sup>
+Bernardo Aleixo apelou para o tempo: esse inflexivel juiz
+dos homens e das cousas j&aacute; castigou os seus detractores.<br />
+
+<br />
+
+<a name="n41" id="n41"></a><sup>[41]</sup>
+M. de Levis.<br />
+
+<br />
+
+<a name="n42" id="n42"></a><sup>[42]</sup>
+Juizo dos sobrecargas, mandado a Londres.<br />
+
+<br />
+
+<a name="n43" id="n43"></a><sup>[43]</sup>
+&Eacute; boa resposta &aacute;s providencias de
+Martinho de Mello.<br />
+
+<br />
+
+<a name="n44" id="n44"></a><sup>[44]</sup>
+Vers&atilde;o do Sr. J. V. B. Feio.<br />
+
+<br />
+
+<a name="n45" id="n45"></a><sup>[45]</sup>
+Var&atilde;o septuagenario.<br />
+
+<br />
+
+<a name="n46" id="n46"></a><sup>[46]</sup>
+Cat&atilde;o o censor, n&atilde;o possuio
+t&atilde;o grande somma de virtudes perfeitas, como havia o
+benemerito cidad&atilde;o Felis Jos&eacute;
+Coimbra.<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="fbox">
+<h2>Lista de erros corrigidos</h2>
+
+<div style="text-align: center;">Aqui encontram-se
+listados todos os erros encontrados e corrigidos:</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<table style="width: 80%; text-align: left; margin-left: auto; margin-right: auto;" border="0" cellpadding="4" cellspacing="4">
+
+ <tbody>
+
+ <tr align="right">
+
+ <td style="width: 61px;"></td>
+
+ <td style="font-weight: bold; text-align: center; width: 121px;">Original</td>
+
+ <td style="text-align: center; width: 5px;"></td>
+
+ <td style="font-weight: bold; text-align: center; width: 135px;">Correc&ccedil;&atilde;o</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;"><a name="eo1" id="eo1"></a><a href="#p8">#p&aacute;g.
+8</a></td>
+
+ <td style="text-align: center;">Chang-ti</td>
+
+ <td style="text-align: center;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center;">Cham-hi <sup>(*)</sup></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;"><a name="eo2" id="eo2"></a><a href="#p12">#p&aacute;g.
+12</a></td>
+
+ <td style="text-align: center;">Tai-te-sang</td>
+
+ <td style="text-align: center;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center;">Tai-te song <sup>(*)</sup></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;"><a name="e1" id="e1"></a><a href="#p12">#p&aacute;g.
+12</a><br />
+
+ </td>
+
+ <td style="text-align: center;">qualqner</td>
+
+ <td style="text-align: center;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center;">qualquer</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;"><a name="e2" id="e2"></a><a href="#p13">#p&aacute;g.
+13</a></td>
+
+ <td style="text-align: center;">natueza</td>
+
+ <td style="text-align: center;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center;">natureza</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;"><a name="e3" id="e3"></a><a href="#p14">#p&aacute;g.
+14</a></td>
+
+ <td style="text-align: center;">Abuquerque</td>
+
+ <td style="text-align: center;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center;">Albuquerque</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;"><a name="eo3" id="eo3"></a><a href="#p17">#p&aacute;g.
+17</a></td>
+
+ <td style="text-align: center;">fizer&atilde;o
+della</td>
+
+ <td style="text-align: center;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center;">fizer&atilde;o
+delle <sup>(*)</sup></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;"><a name="e4" id="e4"></a><a href="#p18">#p&aacute;g.
+18</a> </td>
+
+ <td style="text-align: center;">cidadad&atilde;os</td>
+
+ <td style="text-align: center;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center;">cidad&atilde;os</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;"><a name="e5" id="e5"></a><a href="#p19">#p&aacute;g.
+19</a> </td>
+
+ <td style="text-align: center;">periecios</td>
+
+ <td style="text-align: center;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center;">periecos</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;"><a name="eo4" id="eo4"></a><a href="#p25">#p&aacute;g.
+25</a></td>
+
+ <td style="text-align: center;">1585</td>
+
+ <td style="text-align: center;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center;">1805 <sup>(*)</sup></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;"><a name="e6" id="e6"></a><a href="#p26">#p&aacute;g.
+26</a> </td>
+
+ <td style="text-align: center;">Ciadde</td>
+
+ <td style="text-align: center;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center;">Cidade</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;"><a name="eo5" id="eo5"></a><a href="#p29">#p&aacute;g.
+29</a> </td>
+
+ <td style="text-align: center;">bribue</td>
+
+ <td style="text-align: center;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center;">brigue <sup>(*)</sup></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;"><a name="e7" id="e7"></a><a href="#p29">#p&aacute;g.
+29</a></td>
+
+ <td style="text-align: center;"><em>Bareto</em></td>
+
+ <td style="text-align: center;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center;"><em>Barreto</em></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;"><a name="eo6" id="eo6"></a><a href="#p31">#p&aacute;g.
+31</a></td>
+
+ <td style="text-align: center;">argino</td>
+
+ <td style="text-align: center;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center;">argivo <sup>(*)</sup></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;"><a name="eo7" id="eo7"></a><a href="#p35">#p&aacute;g.
+35</a> </td>
+
+ <td style="text-align: center;">Com par&aacute;os</td>
+
+ <td style="text-align: center;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center;">Cem
+par&aacute;os <sup>(*)</sup></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;"><a name="e8" id="e8"></a><a href="#p36">#p&aacute;g.
+36</a> </td>
+
+ <td style="text-align: center;">illultres</td>
+
+ <td style="text-align: center;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center;">illustres</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;"><a name="eo8" id="eo8"></a><a href="#p37">#p&aacute;g.
+37</a></td>
+
+ <td style="text-align: center;">aubiram</td>
+
+ <td style="text-align: center;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center;">subir&atilde;o <sup>(*)</sup></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;"><a name="eo9" id="eo9"></a><a href="#p37">#p&aacute;g.
+37</a></td>
+
+ <td style="text-align: center;">tinha</td>
+
+ <td style="text-align: center;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center;">tinh&atilde;o <sup>(*)</sup></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;"><a name="eo10" id="eo10"></a><a href="#p42">#p&aacute;g.
+42</a></td>
+
+ <td style="text-align: center;">Wam-pao</td>
+
+ <td style="text-align: center;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center;">Wam-poo <sup>(*)</sup></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;"><a name="eo11" id="eo11"></a><a href="#p44">#p&aacute;g.
+44</a></td>
+
+ <td style="text-align: center;">para ser</td>
+
+ <td style="text-align: center;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center;">por ser <sup>(*)</sup></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;"><a name="eo12" id="eo12"></a><a href="#p44">#p&aacute;g.
+44</a></td>
+
+ <td style="text-align: center;">mais</td>
+
+ <td style="text-align: center;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center;">mui <sup>(*)</sup></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;"><a name="eo13"></a><a href="#p45">#p&aacute;g. 45</a></td>
+
+ <td style="text-align: center;">formaram</td>
+
+ <td style="text-align: center;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center;">formar&atilde;o <sup>(*)</sup></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;"><a name="eo14" id="eo14"></a><a href="#p46">#p&aacute;g.
+46</a></td>
+
+ <td style="text-align: center;">8&ordm;</td>
+
+ <td style="text-align: center;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center;">3&ordm; <sup>(*)</sup></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;"><a name="eo15" id="eo15"></a><a href="#p51">#p&aacute;g.
+51</a></td>
+
+ <td style="text-align: center;">fus&atilde;o</td>
+
+ <td style="text-align: center;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center;">effus&atilde;o <sup>(*)</sup></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;"><a name="e9" id="e9"></a><a href="#p56">#p&aacute;g.
+56</a></td>
+
+ <td style="text-align: center;">espedada&ccedil;ados</td>
+
+ <td style="text-align: center;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center;">espeda&ccedil;ados</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;"><a name="e10" id="e10"></a><a href="#p56">#p&aacute;g.
+56</a> </td>
+
+ <td style="text-align: center;">os velas</td>
+
+ <td style="text-align: center;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center;">as velas</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;"><a name="e11" id="e11"></a><a href="#p58">#p&aacute;g.
+58</a></td>
+
+ <td style="text-align: center;">Officiciaes</td>
+
+ <td style="text-align: center;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center;">Officiaes</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;"><a name="e12" id="e12"></a><a href="#p64">#p&aacute;g.
+64</a></td>
+
+ <td style="text-align: center;">a a honra</td>
+
+ <td style="text-align: center;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center;">a honra</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;"><a name="eo16" id="eo16"></a><a href="#p65">#p&aacute;g.
+65</a></td>
+
+ <td style="text-align: center;">mercantes</td>
+
+ <td style="text-align: center;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center;">marcantes <sup>(*)</sup></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;"><a name="eo17" id="eo17"></a><a href="#p65">#p&aacute;g.
+65</a></td>
+
+ <td style="text-align: center;">a Chum-pin</td>
+
+ <td style="text-align: center;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center;">para Chumpin <sup>(*)</sup></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;"><a name="e13" id="e13"></a><a href="#p67">#p&aacute;g.
+67</a></td>
+
+ <td style="text-align: center;">alguns do seus</td>
+
+ <td style="text-align: center;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center;">alguns dos seus</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;"><a name="e14" id="e14"></a><a href="#p74">#p&aacute;g.
+74</a></td>
+
+ <td style="text-align: center;">snummameute</td>
+
+ <td style="text-align: center;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center;">summamente</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;"><a name="e15" id="e15"></a><a href="#p75">#p&aacute;g.
+75</a></td>
+
+ <td style="text-align: center;">Cam-paui-sai</td>
+
+ <td style="text-align: center;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center;">Cam-pau-sai</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;"><a name="e16" id="e16"></a><a href="#p79">#p&aacute;g.
+79</a></td>
+
+ <td style="text-align: center;">pala honra</td>
+
+ <td style="text-align: center;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center;">pela honra</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;"><a name="e17" id="e17"></a><a href="#p83">#p&aacute;g.
+83</a></td>
+
+ <td style="text-align: center;"><em>nommme</em></td>
+
+ <td style="text-align: center;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center;"><em>nomme</em></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;"><a name="eo18" id="eo18"></a><a href="#p87">#p&aacute;g.
+87</a> </td>
+
+ <td style="text-align: center;">Virtudes </td>
+
+ <td style="text-align: center;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center;">virtudes que
+possuia <sup>(*)</sup></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;"><a name="eo19" id="eo19"></a><a href="#p87">#p&aacute;g.
+87</a> </td>
+
+ <td style="text-align: center;">fazia</td>
+
+ <td style="text-align: center;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center;">faria <sup>(*)</sup></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;"><a name="e18" id="e18"></a><a href="#p88">#p&aacute;g.
+88</a></td>
+
+ <td style="text-align: center;">habitautes</td>
+
+ <td style="text-align: center;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center;">habitantes</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;"><a name="eo20" id="eo20"></a><a href="#p88">#p&aacute;g.
+88</a></td>
+
+ <td style="text-align: center;">tome a agua</td>
+
+ <td style="text-align: center;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center;">tome agoa <sup>(*)</sup></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;"><a name="e19" id="e19"></a><a href="#p88">#p&aacute;g.
+88</a></td>
+
+ <td style="text-align: center;">Gragas</td>
+
+ <td style="text-align: center;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center;">Gra&ccedil;as</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;"><a name="eo21" id="eo21"></a><a href="#p91">#p&aacute;g.
+91</a></td>
+
+ <td style="text-align: center;">as quaes tem</td>
+
+ <td style="text-align: center;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center;">as que tem <sup>(*)</sup></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;"><a name="e20" id="e20"></a><a href="#p91">#p&aacute;g.
+91</a></td>
+
+ <td style="text-align: center;">reconhcimento</td>
+
+ <td style="text-align: center;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center;">reconhecimento</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;"><a name="eo22" id="eo22"></a><a href="#p96">#p&aacute;g.
+96</a></td>
+
+ <td style="text-align: center;">pessoas</td>
+
+ <td style="text-align: center;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center;">posses&otilde;es
+ <sup>(*)</sup></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;"><a name="e21" id="e21"></a><a href="#p96">#p&aacute;g.
+96</a></td>
+
+ <td style="text-align: center;">Septemero</td>
+
+ <td style="text-align: center;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center;">Septembro</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;"><a name="e22" id="e22"></a><a href="#p98">#p&aacute;g.
+98</a></td>
+
+ <td style="text-align: center;">vosas tropas</td>
+
+ <td style="text-align: center;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center;">vossas tropas</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;"><a name="e23" id="e23"></a><a href="#p101">#p&aacute;g.
+101</a> </td>
+
+ <td style="text-align: center;">qu&atilde; o</td>
+
+ <td style="text-align: center;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center;">qu&atilde;o</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;"><a name="eo23" id="eo23"></a><a href="#p103">#p&aacute;g.
+103</a></td>
+
+ <td style="text-align: center;">a tractada</td>
+
+ <td style="text-align: center;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center;">tratada <sup>(*)</sup></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;"><a name="eo24" id="eo24"></a><a href="#p105">#p&aacute;g.
+105</a></td>
+
+ <td style="text-align: center;">presidente</td>
+
+ <td style="text-align: center;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center;">Ministro <sup>(*)</sup></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;"><a name="eo25" id="eo25"></a><a href="#p105">#p&aacute;g.
+105</a></td>
+
+ <td style="text-align: center;">lares</td>
+
+ <td style="text-align: center;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center;">os lares <sup>(*)</sup></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;"><a name="eo26" id="eo26"></a><a href="#p106">#p&aacute;g.
+106</a></td>
+
+ <td style="text-align: center;">nos macaenses</td>
+
+ <td style="text-align: center;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center;">nos peitos macaenses
+ <sup>(*)</sup></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;"><a name="eo27" id="eo27"></a><a href="#p106">#p&aacute;g.
+106</a></td>
+
+ <td style="text-align: center;">a persuadilos</td>
+
+ <td style="text-align: center;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center;">e persuadilos <sup>(*)</sup></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;"><a name="eo28" id="eo28"></a><a href="#p106">#p&aacute;g.
+106</a></td>
+
+ <td style="text-align: center;">por miss&atilde;o</td>
+
+ <td style="text-align: center;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center;">permiss&atilde;o
+ <sup>(*)</sup></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;"><a name="eo29" id="eo29"></a><a href="#p106">#p&aacute;g.
+106</a></td>
+
+ <td style="text-align: center;">e afian&ccedil;ou</td>
+
+ <td style="text-align: center;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center;">afian&ccedil;ou <sup>(*)</sup></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;"><a name="e24" id="e24"></a><a href="#p106">#p&aacute;g.
+106</a></td>
+
+ <td style="text-align: center;">Francico</td>
+
+ <td style="text-align: center;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center;">Francisco</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;"><a name="eo30" id="eo30"></a><a href="#p107">#p&aacute;g.
+107</a></td>
+
+ <td style="text-align: center;">quebar-se</td>
+
+ <td style="text-align: center;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center;">quebrar-se <sup>(*)</sup></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;"><a name="e25" id="e25"></a><a href="#p109">#p&aacute;g.
+109</a></td>
+
+ <td style="text-align: center;">enentrarem</td>
+
+ <td style="text-align: center;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center;">entrarem</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;"><a name="e26" id="e26"></a><a href="#p110">#p&aacute;g.
+110</a></td>
+
+ <td style="text-align: center;">qnanto</td>
+
+ <td style="text-align: center;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center;">quanto</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;"><a name="e27" id="e27"></a><a href="#p110">#p&aacute;g.
+110</a></td>
+
+ <td style="text-align: center;">tortaleza</td>
+
+ <td style="text-align: center;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center;">fortaleza</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;"><a name="e28" id="e28"></a><a href="#p112">#p&aacute;g.
+112</a></td>
+
+ <td style="text-align: center;">amim</td>
+
+ <td style="text-align: center;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center;">a mim</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;"><a name="e29" id="e29"></a><a href="#p112">#p&aacute;g.
+112</a></td>
+
+ <td style="text-align: center;">A inda</td>
+
+ <td style="text-align: center;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center;">Ainda</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;"><a name="e30" id="e30"></a><a href="#p114">#p&aacute;g.
+114</a></td>
+
+ <td style="text-align: center;">respoderam</td>
+
+ <td style="text-align: center;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center;">responderam</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;"><a name="e31" id="e31"></a><a href="#p114">#p&aacute;g.
+114</a></td>
+
+ <td style="text-align: center;">cencedido</td>
+
+ <td style="text-align: center;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center;">concedido</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;"><a name="eo31" id="eo31"></a><a href="#p114">#p&aacute;g.
+114</a></td>
+
+ <td style="text-align: center;">virtudes</td>
+
+ <td style="text-align: center;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center;">virdes <sup>(*)</sup></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;"><a name="e32" id="e32"></a><a href="#p117">#p&aacute;g.
+117</a></td>
+
+ <td style="text-align: center;">fraududulenta<br />
+
+ </td>
+
+ <td style="text-align: center;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center;">fraudulenta<br />
+
+ </td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+
+
+ <td style="text-align: center;">horririvel</td>
+
+ <td style="text-align: center;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center;">horrivel</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: center;">da consumada</td>
+
+ <td style="text-align: center;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center;">da sua consumada <sup>(*)</sup></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;"><a name="eo33" id="eo33"></a><a href="#p119">#p&aacute;g.
+119</a></td>
+
+ <td style="text-align: center;">foi uma
+complica&ccedil;&atilde;o</td>
+
+ <td style="text-align: center;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center;">foi uma a
+complica&ccedil;&atilde;o <sup>(*)</sup></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;"><a name="e34" id="e34"></a><a href="#p122">#p&aacute;g.
+122</a></td>
+
+ <td style="text-align: center;">&ccedil;om elle</td>
+
+ <td style="text-align: center;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center;">com elle</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;"><a name="eo34" id="eo34"></a><a href="#p123">#p&aacute;g.
+123</a></td>
+
+ <td style="text-align: center;"></td>
+
+ <td style="text-align: center;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center;">o 1.&ordm;
+&sect; acaba no ponto final <sup>(*)</sup></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;"><a name="eo35" id="eo35"></a><a href="#p130">#p&aacute;g.
+130</a> </td>
+
+ <td style="text-align: center;">obedecer</td>
+
+ <td style="text-align: center;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center;">obedecerem <sup>(*)</sup></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;"><a name="e35" id="e35"></a><a href="#p133">#p&aacute;g.
+133</a></td>
+
+ <td style="text-align: center;">Winistro</td>
+
+ <td style="text-align: center;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center;">Ministro</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;"><a name="e36" id="e36"></a><a href="#p133">#p&aacute;g.
+133</a> </td>
+
+ <td style="text-align: center;">innlezes</td>
+
+ <td style="text-align: center;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center;">inglezes</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;"><a name="e37" id="e37"></a><a href="#p143">#p&aacute;g.
+143</a></td>
+
+ <td style="text-align: center;">miseraravel</td>
+
+ <td style="text-align: center;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center;">miseravel</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;"><a name="eo36" id="eo36"></a><a href="#p143">#p&aacute;g.
+143</a></td>
+
+ <td style="text-align: center;">em Lx.<sup>a</sup>
+impressa</td>
+
+ <td style="text-align: center;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center;">impressa em Lisboa <sup>(*)</sup></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;"><a name="eo37" id="eo37"></a><a href="#p144">#p&aacute;g.
+144</a></td>
+
+ <td style="text-align: center;">o Prezidente</td>
+
+ <td style="text-align: center;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center;">o Ministro <sup>(*)</sup></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;"><a name="eo38" id="eo38"></a><a href="#p147">#p&aacute;g.
+147</a></td>
+
+ <td style="text-align: center;">de que este espirito</td>
+
+ <td style="text-align: center;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center;">de que o espirito <sup>(*)</sup></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;"><a name="eo39" id="eo39"></a><a href="#p147">#p&aacute;g.
+147</a> </td>
+
+ <td style="text-align: center;">adquerida</td>
+
+ <td style="text-align: center;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center;">adqueridos <sup>(*)</sup></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;"><a name="e38" id="e38"></a><a href="#p148">#p&aacute;g.
+148</a></td>
+
+ <td style="text-align: center;">fr&oacute;ma</td>
+
+ <td style="text-align: center;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center;">f&oacute;rma</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;"><a name="eo40" id="eo40"></a><a href="#p149">#p&aacute;g.
+149</a> </td>
+
+ <td style="text-align: center;">que elle</td>
+
+ <td style="text-align: center;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center;">que o Sr. Lucas <sup>(*)</sup></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;"><a name="eo41" id="eo41"></a><a href="#p149">#p&aacute;g.
+149</a></td>
+
+ <td style="text-align: center;">cooperarem</td>
+
+ <td style="text-align: center;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center;">cooperara <sup>(*)</sup></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right; vertical-align: top;"><a name="eo42" id="eo42"></a><a href="#p149">#p&aacute;g.
+149</a></td>
+
+ <td style="text-align: center;">do
+que a sua mesma confiss&atilde;o de que f&ocirc;ra</td>
+
+ <td style="text-align: center; vertical-align: top;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center; vertical-align: top;">elle
+mesmo confessa
+que f&ocirc;ra <sup>(*)</sup></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;"><a name="eo43" id="eo43"></a><a href="#p151">#p&aacute;g.
+151</a> </td>
+
+ <td style="text-align: center;">encontrado</td>
+
+ <td style="text-align: center;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center;">entregado <sup>(*)</sup></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;"><a name="eo44" id="eo44"></a><a href="#p151">#p&aacute;g.
+151</a> </td>
+
+ <td style="text-align: center;">o Chefe</td>
+
+ <td style="text-align: center;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center;">ao Chefe <sup>(*)</sup></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;"><a name="eo45" id="eo45"></a><a href="#p151">#p&aacute;g.
+151</a></td>
+
+ <td style="text-align: center;">prova</td>
+
+ <td style="text-align: center;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center;">provaria <sup>(*)</sup></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;"><a name="eo46" id="eo46"></a><a href="#p152">#p&aacute;g.
+152</a></td>
+
+ <td style="text-align: center;">butucudos Tupinambas</td>
+
+ <td style="text-align: center;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center;">butecudos e
+tupinambas <sup>(*)</sup></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;"><a name="eo47" id="eo47"></a><a href="#p152">#p&aacute;g.
+152</a></td>
+
+ <td style="text-align: center;">e o Arcebispo</td>
+
+ <td style="text-align: center;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center;">e um frade <sup>(*)</sup></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;"><a name="eo48" id="eo48"></a><a href="#p153">#p&aacute;g.
+153</a></td>
+
+ <td style="text-align: center;">e mesmo
+eleger</td>
+
+ <td style="text-align: center;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center;">e mesmo de eleger <sup>(*)</sup></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;"><a name="eo49" id="eo49"></a><a href="#p155">#p&aacute;g.
+155</a></td>
+
+ <td style="text-align: center;">Afonso V.</td>
+
+ <td style="text-align: center;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center;">Afonso VI. <sup>(*)</sup></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;"><a name="eo50" id="eo50"></a><a href="#p155">#p&aacute;g.
+155</a></td>
+
+ <td style="text-align: center;">que outros guardam</td>
+
+ <td style="text-align: center;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center;">com que outros se
+guardam <sup>(*)</sup></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;"><a name="eo51" id="eo51"></a><a href="#p158">#p&aacute;g.
+158</a></td>
+
+ <td style="text-align: center;">Julgo-vos</td>
+
+ <td style="text-align: center;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center;">Julgo-os <sup>(*)</sup></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;"><a name="eo52" id="eo52"></a><a href="#p161">#p&aacute;g.
+161</a></td>
+
+ <td style="text-align: center;">neste apuzento</td>
+
+ <td style="text-align: center;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center;">neste opusculo <sup>(*)</sup></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;"></td>
+
+ <td style="text-align: center;"></td>
+
+ <td style="text-align: center;"></td>
+
+ <td style="text-align: center;"></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;"><a name="en1" id="en1"></a><a href="#n15">#nota 15</a></td>
+
+ <td style="text-align: center;">oomo</td>
+
+ <td style="text-align: center;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center;">como</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;"><a name="en2" id="en2"></a><a href="#n17">#nota 17</a>
+ </td>
+
+ <td style="text-align: center;">24</td>
+
+ <td style="text-align: center;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center;">34 <sup>(*)</sup></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;"><a name="en3" id="en3"></a><a href="#n36">#nota 36</a>
+ </td>
+
+ <td style="text-align: center;">civ&iacute;i</td>
+
+ <td style="text-align: center;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center;">civ&iacute;l</td>
+
+ </tr>
+
+ </tbody>
+</table>
+
+<br />
+
+<div style="text-align: center;"><sup>(*)</sup>
+Correc&ccedil;&otilde;es efectuadas com base na errada da obra
+original. <br />
+
+</div>
+
+<br />
+
+<div style="text-align: center;">Foram mantidas as
+varia&ccedil;&otilde;es das palavras "La Perouse", "Le
+Perou-se", "La Perou-se"...<br />
+
+<br />
+
+<a name="n47" id="n47"></a>Na <a href="#p85">p&aacute;gina
+85</a>, n&atilde;o existe ponto 3&ordm;//nota 3. <br />
+
+<br />
+
+A
+pontua&ccedil;&atilde;o foi corrigida de acordo.<br />
+
+Exemplo:
+coloca&ccedil;&atilde;o de pontos finais em vez de
+v&iacute;rgulas no final de frases.<br />
+
+</div>
+
+<br />
+
+</div>
+
+</div>
+
+
+
+
+
+
+
+
+<pre>
+
+
+
+
+
+End of the Project Gutenberg EBook of Memoria dos feitos macaenses contra os
+piratas da China, by José Ignacio de Andrade
+
+*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK MEMORIA DOS FEITOS MACAENSES ***
+
+***** This file should be named 36163-h.htm or 36163-h.zip *****
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+Produced by Rita Farinha, Alberto Manuel Brandão Simões
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+provision of this agreement shall not void the remaining provisions.
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+1.F.6. INDEMNITY - You agree to indemnify and hold the Foundation, the
+trademark owner, any agent or employee of the Foundation, anyone
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+with this agreement, and any volunteers associated with the production,
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+harmless from all liability, costs and expenses, including legal fees,
+that arise directly or indirectly from any of the following which you do
+or cause to occur: (a) distribution of this or any Project Gutenberg-tm
+work, (b) alteration, modification, or additions or deletions to any
+Project Gutenberg-tm work, and (c) any Defect you cause.
+
+
+Section 2. Information about the Mission of Project Gutenberg-tm
+
+Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
+electronic works in formats readable by the widest variety of computers
+including obsolete, old, middle-aged and new computers. It exists
+because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
+people in all walks of life.
+
+Volunteers and financial support to provide volunteers with the
+assistance they need are critical to reaching Project Gutenberg-tm's
+goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
+remain freely available for generations to come. In 2001, the Project
+Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
+and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
+To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
+and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
+and the Foundation web page at https://www.pglaf.org.
+
+
+Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive
+Foundation
+
+The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
+501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
+state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
+Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification
+number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at
+https://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
+permitted by U.S. federal laws and your state's laws.
+
+The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
+Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
+throughout numerous locations. Its business office is located at
+809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
+business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact
+information can be found at the Foundation's web site and official
+page at https://pglaf.org
+
+For additional contact information:
+ Dr. Gregory B. Newby
+ Chief Executive and Director
+ gbnewby@pglaf.org
+
+
+Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation
+
+Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
+spread public support and donations to carry out its mission of
+increasing the number of public domain and licensed works that can be
+freely distributed in machine readable form accessible by the widest
+array of equipment including outdated equipment. Many small donations
+($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
+status with the IRS.
+
+The Foundation is committed to complying with the laws regulating
+charities and charitable donations in all 50 states of the United
+States. Compliance requirements are not uniform and it takes a
+considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
+with these requirements. We do not solicit donations in locations
+where we have not received written confirmation of compliance. To
+SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
+particular state visit https://pglaf.org
+
+While we cannot and do not solicit contributions from states where we
+have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
+against accepting unsolicited donations from donors in such states who
+approach us with offers to donate.
+
+International donations are gratefully accepted, but we cannot make
+any statements concerning tax treatment of donations received from
+outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff.
+
+Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
+methods and addresses. Donations are accepted in a number of other
+ways including including checks, online payments and credit card
+donations. To donate, please visit: https://pglaf.org/donate
+
+
+Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic
+works.
+
+Professor Michael S. Hart was the originator of the Project Gutenberg-tm
+concept of a library of electronic works that could be freely shared
+with anyone. For thirty years, he produced and distributed Project
+Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.
+
+
+Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
+editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
+unless a copyright notice is included. Thus, we do not necessarily
+keep eBooks in compliance with any particular paper edition.
+
+
+Most people start at our Web site which has the main PG search facility:
+
+ https://www.gutenberg.org
+
+This Web site includes information about Project Gutenberg-tm,
+including how to make donations to the Project Gutenberg Literary
+Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to
+subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks.
+
+
+</pre>
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