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+The Project Gutenberg EBook of Memoria dos feitos macaenses contra os
+piratas da China, by José Ignacio de Andrade
+
+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.org
+
+
+Title: Memoria dos feitos macaenses contra os piratas da China
+ e da entrada violenta dos inglezes na cidade de Macáo
+
+Author: José Ignacio de Andrade
+
+Release Date: May 17, 2011 [EBook #36163]
+
+Language: Portuguese
+
+Character set encoding: ISO-8859-1
+
+*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK MEMORIA DOS FEITOS MACAENSES ***
+
+
+
+
+Produced by Rita Farinha, Alberto Manuel Brandão Simões
+and the Online Distributed Proofreading Team at
+https://www.pgdp.net (This book was produced from scanned
+images of public domain material from the Google Print
+project.)
+
+
+
+
+
+ *Nota de editor:* Devido à existência de erros tipográficos neste
+ texto, foram tomadas várias decisões quanto à versão final. Em caso
+ de dúvida, a grafia foi mantida de acordo com o original. No final
+ deste livro encontrará a lista de erros corrigidos.
+
+ Rita Farinha (Maio 2011)
+
+
+
+
+ MEMORIA
+ DOS
+ FEITOS MACAENSES
+ CONTRA OS PIRATAS DA CHINA:
+ E DA
+ ENTRADA VIOLENTA DOS INGLEZES
+ NA CIDADE DE MACÁO:
+
+ AUCTOR
+
+ _JOSÉ IGNACIO ANDRADE_.
+
+
+ SEGUNDA EDIÇÃO.
+
+
+ [Figura]
+
+
+ LISBOA: NA TYPOGRAFIA LISBONENSE 1835.
+ Largo de S. Roque N. 12
+ _A C. Dias_.
+
+
+
+
+ _Rien ne peut arretêr dans leurs projets nouveaux
+ Ces Portugais ardens qui volent sur les eaux,
+ O' com bien de héros guiderent leur audace!
+ Que de faits immortels ont signalé leur trace!_
+
+
+ Esmenarde, C. V. pg. 26.
+
+
+
+
+
+ PROEMIO.
+
+
+Quanto é arriscado escrever feitos gloriosos de homens, que ainda vivem!
+Não só os seus inimigos, mas tambem os feridos do orgulho, ou da inveja,
+saírão a vociferar contra a mesma evidencia. Ha quem julgue mais
+prudente calar as grandes acções dos heroes em sua vida. Mas porque se
+ha de recusar este premio ás pessoas, que o ganharam a risco da vida e
+fazenda?[1] Por se temer a mordacidade dos _zoilos_? Eis a fraqueza, que
+não tenho. Transmittindo a verdade aos vindouros, e dizendo o que
+fizeram os Portuguezes dignos deste nome; se fôr censurado por alguns,
+louvarão outros o meu zelo.
+
+
+
+
+ INTRODUCÇÃO.
+
+
+De todos os espectaculos, que a industria humana tem dado ao mundo
+nenhum mais admiravel do que a navegação. Entes fracos e mortaes filhos
+da terra ousaram transportar-se sobre elemento inestavel e perigoso,
+levantar edificios em cima das aguas, dominar os ventos, e voar ás
+extremidades do mundo por baixo de Ceos desconhecidos.
+
+Mas qual é a sorte do homem? Dotado de coração tão perverso, quanto o
+espirito é grande; o crime assenta-se ao lado do genio. De todas as
+invenções sublimes tem os homens abusado. Dos vegetaes extraíram
+venenos: do ouro a moeda que tudo corrompe. As artes serviram-lhe para
+multiplicarem os meios de se destruirem. A navegação é, sobre tudo,
+origem de mortandades; o mar tornou-se campo de carnagem; e as ondas
+foram ensanguentadas pela guerra.
+
+As duas partes do globo oriente, e occidente, terra e mar, são
+igualmente o theatro das desgraças e crimes do homem: com a differença,
+que dilatando as vistas e passos ao longo do continente, descobrimos
+ruinas e despojos do ferro e fogo; campos e ermos incultos; porém o mar
+sendo tumulo de grande parte da humanidade, nenhum vestigio offerece de
+tantos estragos. Todos os dias passa o navegador com despejo por cima
+das ondas, que tem engolido milhares de homens.
+
+Quem não desejará voltar aos tempos felizes de ignorancia e parcimonia,
+em que nossos avós menos grandes, porém menos criminosos, sem industria,
+mas sem remorsos, viviam pobres e virtuosos, e morriam nos campos que os
+tinham visto nascer.[2]
+
+Á custa das vidas portuguezas formaram os nossos antepassados um
+estabelecimento na China: os nossos contemporaneos foram de novo
+obrigados a ensanguentar as ondas para submetter Cam-pau-sai ás leis do
+imperio; e a usar prudencia consummada além do valor, a fim de livrar
+Macáo da invasão britanica.==Nada ha mais proveitoso que a historia para
+adquirir prudencia, (diz Jeronimo Osorio) nem mais poderoso do que ella
+para despertar virtudes, mais saudavel para sanar as feridas da
+republica, nem mais aprasivel para o deleitamento da vida. Mas segundo
+os homens foram sempre, não crêm nunca feitos, quem sahêm álém do seu
+engenho e posses; nem ha meio que admittam o que sobrepuja os termos de
+trivial esforço, e usada industria.==Todavia os feitos exarados nesta
+memoria jámais serão desmentidos; e podem despertar virtudes.
+
+A China por nós ha muito tempo ignorada, depois inteiramente
+desfigurada, e hoje melhor conhecida do que algumas provincias da
+Europa, é o imperio mais antigo, extenso, e florecente do globo. Pelo
+ultimo censo, feito no seculo passado, foram avaliados os seus
+habitantes em duzentos milhões de almas. O rendimento annual sobe a
+quinhentos milhões de cruzados. Sustenta oitocentos mil soldados, e
+trezentos mil cavallos, que emprega nas armas, e correios publicos.
+
+Ha tempo immemoriavel são os imperadores tambem pontifices do imperio;
+para que as authoridades civil, e religiosa nunca se achem em conflicto.
+Adoram um Deus unico; e offerecem-lhe as primicias de um campo lavrado,
+todos os annos em dia solemne, por suas proprias mãos. Alento exemplar á
+agricultura, primeira base da independencia e prosperidade nacional.
+
+Pela maxima da tolerancia geral seguida no oriente, admittem-se os
+bonzos de todas as religiões, e deixam-os espalhar os seus desvarios:
+mas se chegam a amutinar o povo, são logo enforcados. Assim os toleram e
+os reprimem. O imperador Cham-hi mandou gravar no frontispicio da sua
+capella:==O Chang-ti não tem principio nem fim: creou e governa tudo: é
+summamente bom e justo.==
+
+Os Chinezes em geral são polidos e virtuosos. O Imperador tem uma só
+mulher legitima, mas póde segundo as leis do Imperio ter grande numero
+de amasias. A sorte destas é triste, por viverem encerradas. Pagam com a
+privação em que vivem da sociedade, a honra de satisfazer ao imperante,
+a qual devem á formosura, e não ao nascimento, que os Chinezes
+desapreciam, quando não é accompanhado da virtude.
+
+Os Coláos e mandarins letrados são mais estimados no imperio do que os
+militares. Entre o grande numero dos primeiros ha seis que acompanham a
+côrte. O coláo mais antigo e de maior merito nomeia os mandarins para
+todos os empregos superiores, e os manda punir se não cumprem com o seu
+dever; o segundo cuida nos cultos, e dispõe as ceremonias da côrte; o
+terceiro é o Ministro da Justiça; o quarto administra a fazenda; o
+quinto preside no ministerio da guerra, e determina tudo, quando é
+preciso sustentala; o sexto tem a seu cargo as obras publicas.
+
+Ha outros que deliberam com o Imperador sobre os negocios do Estado.
+Além disso tem censores publicos de officio. Em cada uma provincia ha um
+Suntó (delegado imperial) com tres mandarins letrados debaixo das suas
+ordens. O primeiro conhece das causas civis e criminaes; o segundo
+recebe os tributos; o terceiro mantém a segurança publica. Para chegar a
+ser mandarim é preciso passar por tres gráos, como os nossos de
+Bacharel, Licenciado, e Doutor: destes são tirados os coláos.
+
+O governo não é despotico como se pensa. Os mandarins oppõem-se aos seus
+decretos, quando são contrarios ás leis do Estado. Querendo certo
+Imperador abusar do poder, um mandarim escreveo-lhe pelo modo
+seguinte:--Senhor sei que me arrisco em offender o vosso amor proprio,
+mas devo preferir a morte á perda da honra: não posso deixar de vos
+advertir, que o máo exemplo dado por vós ao Imperio nos lança a todos no
+abysmo.--O Imperador foi generoso para não se agravar, mas não o foi
+para mudar de conducta. Todos os mandarins esperaram occasião para lhe
+mostrar serem dos sentimentos do primeiro.
+
+Não tinha o Imperador filhos legitimos, e pelas leis do Estado devem ser
+chamados á successão do Imperio os bastardos, preferindo sempre o
+primogenito. O Imperador tinha grande affeição a um dos outros:
+pretendeu que o reconhecessem, com perjuizo do mais velho. Os mandarins
+representaram ao Imperador a injustiça que pretendia fazer: este por
+isso privou alguns dos empregos. Aquelles publicaram um aviso dirigido a
+todos os mandarins anexos á côrte para se acharem um dia aprazado no
+logar ordinario. Ahi decidiram em junta que visto o Imperador desprezar
+as leis do Estado, deviam elles desistir dos seus empregos e ir para
+suas casas viver como particulares: assim o executaram.
+
+O Imperador entrou em seus deveres: mandou aos mandarins que tornassem
+aos seus empregos, que estava pelo que elles entendiam. Assim obedeceram
+todos á lei. Os mandarins ganharam nesta occasião honra por sua firmeza,
+e o Imperador por sua prudencia.
+
+O tribunal da historia, para tudo ser conforme, é surdo ás supplicas, ou
+ameaços dos imperantes. Na sala do tribunal ha um cofre, onde cada
+historiador lança suas memorias sem as communicar a pessoa alguma. No
+fim de cada reinado abre-se o deposito, e dos escriptos alli achados
+formam os annaes do Imperio: Para conhecer o espirito deste tribunal
+basta o caso seguinte:
+
+Tai-te-song, Imperador da dynastia de Tang, rogou ao presidente do
+tribunal, que lhe mostrasse as memorias que deviam formar a historia do
+seu reinado. Senhor, deveis saber, que damos conta exacta dos vicios e
+das virtudes dos Soberanos, e que deixariamos de ser livres se
+consentissimos no que exigis--O Imperador tornou:--Pois vós que me sois
+tão obrigado, pretendeis levar á posteridade os meus defeitos?--Com
+summa dôr os escreverei, mas é tal o dever do meu emprego, que me obriga
+a levar á posteridade a pretenção, que hoje tivestes de mim.--
+
+Em todos os paizes as leis punem os crimes, na China fazem mais premeiam
+a virtude. A noticia de uma acção generosa, de uma virtude extremada,
+assim que se divulga em qualquer provincia, é obrigado o mandarim de
+policia a participala ao Imperador: este manda logo áquelle subdito um
+signal, que o distingue no caminho da virtude.
+
+O certo é, que os vicios e as virtudes dos povos nascem da sua
+legislação: esse conhecimento deu talvez motivo a esta boa lei dos
+Chinezes.--Para fecundar o germen da virtude, os mandarins participam da
+gloria, ou da vergonha das acções virtuosas ou injustas commettidas em
+seu governo.
+
+A moral, a obediencia ás leis, e o culto ao ente supremo, formam a
+religião do Estado. O Imperador não é só pontifice, mas tambem o
+primeiro orador do Imperio. Seus decretos são quasi sempre lições de
+moral. Subsistem ha mais de quatro mil annos com a mesma forma de
+governo, as mesmas leis e costumes, sempre estudiosos e apreciadores das
+letras.
+
+Com tudo o povo é idolatra; os letrados deistas, sem acreditarem em
+revelação alguma, nem na vida eterna. Dados ao estudo das leis,
+desprezam por ellas os dogmas e ritos de seus bonzos. Em verdade estes
+são ignorantes, supersticiosos, credulos e ambiciosos de riquezas. A
+maior parte dos Chinezes observam as seguintes maximas de Confucio.
+
+Lembra-te que és homem, a tua natureza é fraca, podes succumbir. Afasta
+de ti os obstaculos que te embaracem o caminho da virtude.
+
+O homem bom occupa-se de suas virtudes: o máo de suas riquezas. Aquelle
+trata do interesse da patria: este só no seu cuida.
+
+Faze aos outros o que desejas te façam: eis a unica lei que te é
+precisa.
+
+O silencio é indispensavel ao sabio; este despreza sempre os rasgos da
+eloquencia por inuteis; explica-se por suas acções. O ceo falla, mas por
+que modo nos diz elle ser o Soberano principio de todas as cousas? O seu
+movimento é a sua linguagem: creou e deu impulso á natureza, e esta como
+filha sua obedece-lhe e produz.
+
+Quando se trata da saude da patria despreza-se o perigo da vida.
+
+O ganho do imperante avalia-se pela felicidade publica.
+
+Estas poucas regras bastam para se fazer perfeita idéa da moral Chineza.
+
+Por morte de Afonso de Albuquerque, em 1515, succedeu-lhe no governo da
+India Lopo Soares de Albergaria: no principio do anno de 1517, mandou
+este uma esquadra de nove embarcações commandadas por Fernão Peres de
+Andrade, levar ao Imperador dos Chinezes o Embaixador Thomé Pires, como
+El-Rei D. Manoel lhe tinha ordenado.
+
+Por motivo de grande temporal arribou a frota a Malaca, e só pôde sair
+daquelle porto, para estrear as quilhas portuguezas no mar da China, em
+Junho do mesmo anno. Já os nossos sabiam, pela amisade contrahida em
+Malaca, com os Chinezes, a que rumo lhe demorava Cantão: foram ás ilhas
+visinhas daquella cidade por onde enviaram o nosso Embaixador á côrte.
+
+Quando alli aportou o nosso Andrade, achou uma frota Chineza destinada a
+combater os piratas, que infestavam aquelles mares. Sendo Fernão Peres
+de Andrade benefico e destemido, anniquillava preversos, e attrahia qual
+iman os discipulos de Confucio. Largou aquelle Imperio deixando nelle as
+cem trombetas da fama apregoando sua magnanimidade.
+
+
+ _Do meu arco possante
+ Hoje o famoso Andrade
+ Alvo será: seu nome triunfante
+ No porto surgirá da Eternidade._[3]
+
+
+Assim que largou de Cantão chegou alli Simão de Andrade, com outros:
+procederam de forma, que perderam, em credito, tudo quanto Fernão Peres
+tinha adquirido. Usaram tão grandes violencias, que os Chinezes
+resolveram tratalos como a piratas. Equiparam grande frota, e cercaram
+os portuguezes por todos os lados. Se não fôra um temporal, que abrio
+caminho por onde fugiram, ficariam todos prisioneiros.
+
+Depois de tal desar das armas e da honra portugueza, chegou alli Afonso
+Martins de Mello, ignorando o que se tinha passado. Assim que os
+mandarins o descobriram reuniram a sua frota para atacalo. Martins de
+Mello, dizia-lhe, que ia levar paz e não guerra; mas estes só lhe
+respondiam por bocas de fogo. Travou-se o combate; os nossos
+succumbiram. Assim que Martins de Mello vio perdidos todos os recursos,
+cortou a linha inimiga como raio abrazador, e ganhou o mar largo,
+deixando os Chinezes pasmados de tal audacia. Foi preciso que os
+portuguezes com seu valor e prudencia, fizessem esquecer aos Chinezes a
+memoria do immoral Simão, para serem outra vez recebidos em seus portos.
+
+Recuperada a boa fé entre as duas nações obtiveram os portuguezes, em
+recompensa de serviços prestados ao Imperio, o isthmo do Sul na ilha de
+Macáo, para levantarem casas, debaixo de certas condições; mas fizeram
+delle uma cidade a que deram o nome da ilha.
+
+Foi no anno de 1557, que o Imperador da China concedeu aos portuguezes
+aforarem aquelle isthmo em premio de terem anniquilado a esquadra do
+pirata Chang-Silau.
+
+Em 1584 prometteram os macaenses obediencia a Filippe II, porém a
+bandeira portugueza tremulou sempre nas fortalezas de Macáo.
+
+Em 1586 recebeu Macáo o titulo de cidade do nome de Deus na China, e
+todas as liberdades e preeminencias, que tinha a cidade de Evora, cujos
+foros se confirmaram em 1709.
+
+Em 1622 tendo Macáo apenas 80 portuguezes, e alguns cafres, foi atacado
+por 800 hollandezes: deixaram 500 mortos, e 100 prisioneiros; os
+restantes fugiram largando em nosso poder 8 bandeiras, armas e bagagens.
+
+Antes de fazerem o desembarque, pediram a dois navios inglezes, surtos
+na bahia, para ajudalos; estes não duvidaram, mas exigiam o fruto de
+todo o saque. Os hollandezes rejeitaram: julgaram muito excessiva a
+ambição dos inglezes.
+
+De 1557 até 1625 foi Macáo governado pelos capitães de navios do Estado,
+que todos os annos iam de viagem ao Japão, e faziam escala naquella
+cidade. Com esses governadores teve prosperidade.
+
+Em 1626 foi de Goa para Macáo D. Francisco Mascaranhas para Governador
+com o titulo de Capitão Geral. Começou no seu governo a desintelligencia
+com o Senado, e a dissolução praticada pelos Governadores. Este foi
+grande assassino, grande roubador e forçador cruel das mulheres e filhas
+dos cidadãos. Levou os macaenses a tal desesperação, que o mataram, a
+fim de se verem livres de tão horrendo monstro.
+
+Em 1641 chegou alli a noticia da feliz aclamação do Senhor D. João IV:
+os macaenses logo romperam os grilhões de Filippe, e mandaram grande
+donativo á capital do Rei legitimo.
+
+Em 1709 soffreram segundo Verres; Diogo de Pinho Teixeira; chegou a
+mandar bombardear o Senado, onde ferio e matou, por não consentir em
+suas prepotencias.
+
+Em 1726 chegou a Macáo o Embaixador Alexandre Metello de Sousa Menezes,
+mandado por El-Rei D. João V. ao Imperador da China. Os moradores
+daquella cidade cooperaram muito para sustentar-se o decoro nacional
+naquella embaixada.
+
+Em 1747 foi governar Macáo, Antonio José Telles: espantou os algozes do
+Imperio Chinez por suas crueldades. Levou aquelle estabelecimento aponto
+de perder-se.
+
+Esta cidade celebre pela riqueza de seu trato, illustre pela fama de
+nossas victorias, é situada na latitude de 22-1/4 gráos ao Nórte do
+Equador, e 122.° ao Oriente de Lisboa. Seus habitantes pouco distam dos
+nossos periecios; motivo talvez por que o Padre Antonio Vieira disse:
+que a espada dos portuguezes tinha chegado, onde não alcançou a penna de
+Santo Agostinho. Tem de extensão a cidade pouco mais de uma legua. Do
+lado do Norte é defendida por grossa muralha guarnecida de fortins: e do
+Sul por tres fortalezas. A de S. Francisco na parte oriental da Praia
+Grande; a do Bom porto na ponta occidental e a de Sant-Iago que defende
+a entrada da barra: tem mais entre as primeiras duas, o forte de S.
+Pedro. No centro a fortaleza do monte domina toda a cidade. Além destas
+fortalezas tem outra sobre o monte da Sr.^a da Guia, fora dos muros da
+cidade. As casas são bem edificadas, mas as ruas desiguaes. O porto é
+bom: podem entrar nelle navios em lastro de oitocentas tonelladas.
+Tambem podem surgir ao largo náos de 74. A povoação é de 20 mil
+individuos, a maior parte Chinezes. O Governo é o Senado composto de
+dois Juizes ordinarios, tres Vereadores, um Procurador, e um Escrivão. O
+Governador militar ou Capitão Geral, e o Ouvidor, são chamados ao
+Senado, quando ha negocios politicos, ou de fazenda. Neste caso preside
+no Senado o Capitão Geral, e tem voto de qualidade. A tudo o que é
+relativo ao governo municipal preside o Vereador do mez.
+
+Os macaenses são tão zelozos das suas liberdades, que até na meza das
+sessões do Governo tiraram ao Presidente a regalia de ficar isolado no
+extremo della. Sendo nove os membros, collocaram a meza dentro de uma
+tribuna de modo, que ficam tres de cada lado; a frente é livre para
+entrar e sair.
+
+Sobre a meza descança um extremo da vara da Justiça, e o outro fica
+encostado na parede por cima da cabeça do Ministro: um delles (Lazaro da
+Silva Ferreira) assombrando-se com ella tocou-lhe de proposito para a
+fazer cair, e mandou-a tirar, dizendo lhe ferira a cabeça. Os Senadores
+mandaram por-lhe um gancho no extremo, e uma argola na parede para
+segurar assim a insignia da Justiça. Outro dia o Ministro ao entrar
+tocou-lhe para caindo lançala fora: ficou surpreso ao ver, que estava
+segura. O Vereador do mez tirou-o do embaraço dizendo:--Tributamos tão
+grande respeito a nossos maiores, que não podemos prescindir deste seu
+costume; e presamos tanto a V. S.^a, que para não o ferir a vara da
+Justiça mandamo-la segurar.
+
+Ha um Bispo, e um Batalhão de naturaes de Goa, commandados por Officiaes
+macaenses; guarnece as fortalezas, e faz as rondas da cidade. Seus
+rendimentos são os direitos da Alfandega.
+
+As minhas viagens á China deram-me occasião para conhecer os
+descendentes dos honrados portuguezes, que no tempo do nosso captiveiro
+debaixo do pezado grilhão dos Filippes tiverão a constancia e valor de
+conservar illesos os foros nacionaes naquelle canto do mundo. Ainda que
+logravam a amizade dos Chinezes, só tinham seus braços para se
+defenderem das nações da Europa, que alli foram atacalos. A historia diz
+pouco ácerca dos grandes feitos macaenses daquella época.[4] Apenas
+dessas grandes acções ha hoje pintadas algumas mais notaveis na Sé e
+Senado de Macáo. Tudo o mais se tem perdido com os heróes, que tão
+dignos eram de memoria eterna.
+
+Em 1808 foram os macaenses atacados por tal forma, que a não terem
+herdado o valor de seus maiores, de certo succumbiriam[Nota 1^a]. Fui
+testimunha de feitos mui gloriosos. Os portuguezes nesta época
+mostraram-se grandes nas armas, e na politica; nas armas pelo valor com
+que tomaram a grande esquadra de Campau-sai, na politica, pelo bem que
+se houveram com os Chinezes e Inglezes. Salvaram Macáo de nadar em
+sangue; acreditaram-se com os primeiros; e foram uteis aos segundos.
+Deixarei tão nobres acções no esquecimento á maneira de nossos maiores?
+Não: farei diligencia para as transmittir á posteridade. Se não forem
+uteis aos presentes, se-lo-hão por certo aos vindouros. Não ha cousa
+mais capaz de fortalecer nossas almas, do que as proezas de nossos avós.
+Julgo de obrigação referilas a nossos nétos.
+
+Macáo é monumento precioso da gloria portugueza. Fernão Peres de
+Andrade, foi quem primeiro immortalisou os portuguezes naquella parte do
+mundo. Ver-se-ha firmado pela mão dos Chinezes, que ainda temos grande
+consideração naquelle imperio.
+
+Contendo esta memoria dois objectos differentes, julguei a proposito
+lançalos em separado; ainda que um principia antes e acaba depois do
+outro. Pegaram os macaenses ás mãos com os piratas em 1805: A esquadra
+ingleza aportou em Macáo a 18 de Setembro de 1808, e saiu a 10 de
+Dezembro do mesmo anno. O Tratado entre o Governo Chinez e o Macaense,
+para a completa derrota da esquadra de Cam-pau-sai, foi assignado em 23
+de Novembro de 1809, e concluido tão importante negocio em Abril de
+1810. Para o leitor vêr sem custo as grandes difficuldades, que em Macáo
+se venceram, dividirei, esta memoria em duas partes. Tractarei na
+primeira da extincção dos piratas. Cousas ha nesta parte, que se fossem
+praticadas em tempos mais tenebrosos, seriam tidas por milagres, sendo
+só o esforço de almas valorosas que mandaram seus braços com a penna e
+espada obrar taes prodigios. Na segunda fallarei da invasão dos inglezes
+em Macáo, da sua e nossa conducta, assim como da politica Chineza, e do
+final resultado.
+
+Em Athenas, eram os famosos oradores quem celebravam os heroes de
+Salamina; e tinham por ouvintes os Socrates e os Pericles. Eu não tenho
+os mesmos talentos, e tenho juizes não menos temiveis. Mas em objecto
+desta natureza a eloquencia consiste em ser sincero.
+
+
+
+
+ PRIMEIRA PARTE.
+
+
+Ao valor dos Portuguezes deve o Imperio da China ver-se livre dos
+piratas, que por duas vezes pertenderam dominalo. A primeira foi obra
+dos Lusitanos do seculo XVI: a segunda de seus descendentes nossos
+contemporaneos, a tempo que seus irmãos na Patria anniquilavam as aguias
+do oppressor da Europa. Depois que no seculo XVI os piratas foram
+destruidos, tentaram formar novo partido; e pouco a pouco engrossaram
+seu numero e força de modo, que em 1805 estavam senhores de grande
+esquadra, bem guarnecida de artilheria, e com perto de quarenta mil
+homens de tripulação. Tendo morrido o Chefe dos piratas ficou sua
+mulher, não só herdeira do posto, mas tambem da sua audacia no exercicio
+da piratagem. Assim que tomou posse do commando de tão grande poderio,
+dividio-o em duas esquadras, e deu o commando dellas a dois parentes do
+marido, que mais se tinham acreditado debaixo das suas ordens. A
+primeira e mais possante coube ao celebre _Apócha_, que depois se chamou
+_Cam-pau-sai_, e onde sempre residio a viuva. _Apau-tai_ foi commandar a
+segunda, composta de 130 embarcações, e com bandeira preta.
+
+Cam-pau-sai, homem forte, ardiloso e emprehendedor, depois de ter
+ganhado o affecto dos seus, teve arte de dispolos a executar qualquer
+empreza que imaginasse. Com effeito concebeu projecto tão elevado, que
+bem se pode comparar com o de Afonso de Albuquerque, quando pertendeu
+tirar da Meca o corpo do Profeta, e mudar a direcção do rio Nilo,
+fazendo-o desaguar no mar roxo para anniquilar desse modo os Turcos no
+Egypto! Cam-pau-sai tentou coroar-se Imperador dos Chinezes, e lançar a
+dynastia Tartara para o Norte da grande muralha, que a divide da China.
+Começou a fazer guerra tão atroz, que não só paralisou o commercio
+maritimo nas costas meredionaes do Imperio, mas tambem fazia
+desembarques no continente, e arrasava todos os logares por onde
+passava. Sendo a Cidade de Cantão a mais rica e a mais commerciante,
+quiz embaraçar alli o negocio com os europeos. Para esse fim veio postar
+suas forças na emboccadura do rio Tygre, e em todos os canaes que formam
+as ilhas visinhas de Macáo. Assombrando assim Cam-pau-sai os mares das
+ilhas da China com seu poder, não se limitou a perseguir seus irmãos
+Chinezes, tambem se atreveu a insultar os navios da Europa.
+
+Vendo o Governo de Macáo o risco em que ficava, rodeado de immensa força
+inimiga, na estação em que todos os navios da praça se achavam ausentes;
+mandou a Bengalla fazer um brigue para ficar de guarda costa, em quanto
+estes não se recolhiam: porque em os piratas sabendo, não haverem navios
+dentro do porto, que os fossem acommetter, chegavam quasi ao alcance da
+artilheria das nossas fortalesas, para embaraçarem os mantimentos, que
+todos os dias entram na Cidade.
+
+Deu-se tanta pressa á factura do brigue, que do momento em que se lançou
+a quilha no Estaleiro, até sair da barra fóra, só mediaram vinte e oito
+dias! Quando chegou a Macáo estavam os piratas tam destemidos, que o
+Governo julgou ser insufficiente tão pequena força, para os afastar da
+Cidade. Comprou mais o navio Arriaga, a que deu o nome de Ulises, e
+mandou-o armar, abrindo-lhe uma bateria na coberta.
+
+Assim que estas duas embarcações começaram a bater os piratas, estes não
+ousavam aproximar-se dellas. Com tudo ainda faziam damno ao commercio;
+porque os nossos vasos não podiam entrar nos pequenos canaes, onde elles
+o interceptavam. Alli podia a esquadra Imperial fazer-lhe algum ataque;
+mas o respeito devido a Cam-pau-sai, tirava a lembrança de o
+acommetterem. Passou o anno de 1806, e parte de 1807, sem que os piratas
+arriscassem entrar em combate com os nossos. Esperavam achalos
+separados, e em parte onde não se podessem soccorrer; no entanto iam
+devastando a provincia de Cantão.
+
+Meado o anno de 1807 achou o nosso brigue em boa posição para atacalo.
+Mandou uma divisão commandada por um de seus Capitães mais
+experimentados, que o fosse combater. Commandava o nosso brigue, o
+valente e destemido _Pereira Barreto_. Já nesse tempo havia adquirido
+tam grande credito entre os Chinezes, que lhe chamavam o Tygre do
+mar.[5] O impavido _Barreto_ tinha valor para investir com toda a
+esquadra de Cam-pau-sai, quanto mais com uma de suas divisões. Assim que
+a julgou ao alcance da artilheria, virou sobre ella fez-lhe fogo tão
+vivo, e estrago tão grande, que todos fugiram deixando a Capitanía ás
+mãos com o brigue. Vendo o forte _Barreto_, que a artilheria inimiga éra
+de maior calibre, resolveu abordar o Taó[6]. Deve imaginar-se uma grande
+lancha dando abordagem a uma Náo. Assim parecia o brigue junto ao Taó, e
+apenas tinha um quinto da equipagem do navio inimigo. Todavia o forte
+_Barreto_ dirige a sua embarcação á pôpa do Taó. Quando se lhe botavam
+os arpéos lançaram os piratas uma balça de fogo dentro da prôa do
+brigue, que decerto o abrazaria, se o previdente _Barreto_ não corresse
+a lançala ao mar. A este tempo unem se as embarcações; _Barreto_ é o
+primeiro que trépa pelo Taó acima, e tão depressa pôde firmar os pés
+sobre a tolda inimiga, cantou victoria:
+
+
+ _Saltando a fará só com lança e espada
+ De quatro centos mouros despejada_[7]
+
+
+_Barreto_ usava de espada colubrina, e manejava de sorte que dos setenta
+homens, equipagem do brigue, os que poderam subir disseram, que chegando
+acima, viram a tolda coberta de mutilados! Achou o nosso heroe tão
+porfiada resistencia, que todos foram mortos porém nenhum vencido, ou
+aprisionado. Os que pertenderam escapar aos golpes do nosso Marte irado,
+lançaram-se ao mar. O seu Chefe, vendo-se perdido desceu á camara, pegou
+em sua mulher pelos cabellos, cortou-lhe a cabeça com o alfange, e
+sepultou-se no mar com ella.[8]
+
+Este combate foi dado perto de Macáo; _Barreto_ conduzio immediatamente
+a preza ao porto. Os macaenses e muitos estrangeiros, foram logo dar o
+parabem a tão valente Capitão, e ver o navio inimigo. Ficaram
+horrorisados da carnagem, porque os piratas só se rendiam com a morte.
+Haviam seculos, que já se não faziam d'estas proezas; e até nos parecia
+impossivel, que no tempo de Camões, D. Lourenço de Almeida fosse
+bastante para debellar em uma Náo da Méca quatro centos mouros. Mas
+ainda em nossos dias mostra o entendimento supremo, que um portuguez só
+com seu braço é sufficiente para destruir em um Taó mais de 300
+Chinezes.
+
+Esta verdade precisa quasi de tanto valor para escrevela, como para
+obrala, ainda sendo evidente ao escriptor; mas é qualificada pelos
+habitantes de uma cidade, onde residiam subditos de varias nações. Já o
+nosso Diniz cantou as victorias de outro Barreto; justo é que tão divino
+estro sirva para immortalisar os dois.
+
+
+ _Lavremos pois, oh! Musa, á gran memoria
+ Com argivo buril padrão sagrado:
+ Morda-se o tempo irado,
+ Que ella eterna fará a clara historia
+ Alma que atraz da fama immenso espaço
+ Corre, veja em meus hymnos
+ Que em vão não sua bellicoso braço._[9]
+
+
+Por feito tão assombroso ficou Macáo em socego. Os piratas retiraram-se
+para longe, mas sempre fazendo estrago em tudo que podiam vencer. A
+esquadra imperial com a noticia d'esta victoria animou-se a sair de
+Cantão e aproximar-se de Macáo, cruzeiro que ella já não ousava fazer
+com receio dos piratas. A brilhante proeza do invicto _Barreto_ fez
+desapparecer das ilhas da China aquella praga devastadora: por
+consequencia o Governo de Macáo mandou recolher as suas embarcações.
+
+Sabendo-se na China, que o Sr. D. João VI tinha deixado Portugal para
+reinar no Brazil; lembraram-se os macaenses de mandar cumprimentar o Rei
+dos Lusos nas suas possessões do polo antarctico. Apromptaram o navio
+Ulises, nomeando para ir saudar El-Rei, pelo Senado, ao honrado cidadão
+Antonio Joaquim de Oliveira Matos; e deram o commando da embarcação ao
+denodado _Barreto_. Destinando-se aquella enviatura a obsequiar o Chefe
+dos Lusos, pensaram não ser pequeno mimo fazer-lhe conhecer quem tanto
+honrava o nome portuguez. Foi o nosso heroe recebido no Brazil, quasi da
+mesma sorte que os Dias, e os Gamas, recolhendo-se de suas trabalhosas
+viagens, eram recebidos pelos antigos reis portuguezes. O Sr. D. João VI
+o elevou de primeiro Tenente a Capitão de Fragata: Premiou os macaenses:
+deu-lhes distinctivos, que foram assaz estimados, talvez por se
+esquecerem das altas virtudes de seus maiores, que os despresavam por
+bons costumes.
+
+Affastado Cam-Pau-Sai de Macáo por temer os portuguezes, não esfriou em
+sua empreza. Começou então a proclamar a todos os do seu partido a
+tyrannica oppressão, que sofria o imperio, por consentirem no thorono a
+intrusa dinastia barbara. Demonstrou-lhe quão facil éra depôr aquella,
+restabelecer a Chineza, e fazer a cada um dos seus regulo do imperio.
+Tal pericia desenvolveu na piratagem, e na persuasão, que já os seus não
+duvidavam ser elle o unico capaz de restaurar a dignidade da Patria.
+
+Andavam assim de animo affeito á guerra, quando tiveram a feliz noticia,
+de já não existir em Macáo o _tygre do mar_. Voaram como bando de Açores
+famintos a devorar tudo quanto podiam encontrar pelas ilhas visinhas de
+Macáo. Não esperando o Almirante Chinez aquelle infausto encontro,
+cruzava afoito na bocca do Tyre. Assim que foi descoberto por
+Cam-pau-sai, carregou sobre elle. Uma divisão imperial de 28 navios de
+15 a 20 peças cada um, que não fugio para fazer-lhe frente, ficou
+prisioneira. Soberbo com essa victoria, começou de novo a investir as
+embarcações da Europa, e as macaenses. Nesta epoca alguns navios
+Americanos se poderam escapar ao abrigo das nossas fortalezas.
+
+Recolhendo-se de Goa o brigue do _Botelho_, Capitão Manoel José Vianna,
+foi visto dos piratas; carregaram sobre elle; mas acharam tão grande
+resistencia naquelle esforçado Capitão, que restando apenas seis homens
+da sua equipagem, com elles fazia grande estrago ao inimigo. Com tudo o
+fogo abrandou, pelo cansaço; mas vendo Apautai, que não arreavam
+bandeira, mandou abordalos. O impavido Vianna ao ver-se rodeado de
+torres ambulantes e coberto de lanças, longe de esmorecer, tomou em sua
+alma o espirito de Duarte Pacheco; e á imitação dos nossos _Barretos_,
+quantos inimigos lhe saltavam na sua embarcação, tantos a sua espada
+lançava no abysmo. Os Chinezes espantados já não o julgavam homem, mas
+sim algum ente superior á especie humana. Parecia invulneravel! Com tudo
+morreu no combate. Mas como? Cançado de matar piratas.
+
+
+ _Cem paráos torreados,
+ Donde por boccas mil brota Mavorte;
+ Entre horrorosos brados_
+
+ _Em fogo, em fumo, em sangue envolta a morte
+ Zarguchos, flexas, que em chuveiro voam._[10]
+
+
+Tal foi o combate supportado pelo Magnanimo Vianna. Com a sua morte
+ganharam os piratas tal audacia, que tiveram a ousadia de passar com o
+navio prisioneiro, e com a bandeira de rasto, á vista de Macáo. A
+sensação que fez esse triste espectaculo nos moradores daquella cidade é
+inexplicavel. Juraram não só retomar a sua embarcação, mas tambem dar
+aos piratas o castigo merecido. Os navios que então se achavam no porto
+capazes de tal empreza, eram o brigue do _Senado_, e o navio Belisario.
+O brigue achava-se desarmado, e desaparelhado, assim como o Belisario.
+
+Seriam nove horas da manhã, quando se avistou o navio apresado; e antes
+de anoitecer já os nossos iam no alcance da esquadra inimiga! Como foi
+possivel obrar tanto em tão pouco tempo? Tudo se deveu á generosidade
+dos macaenses, e ao estimulo dado pelo incançavel Arriaga. Este digno
+Ministro, honra dos togados, e columna forte da gloria nacional, não se
+limitou a ser o primeiro em votar, e concorrer com meios para o
+desempenho desta empreza. Pesando a importancia da cidade, e o perigo em
+que ella se achava, resolveu sobre sua defeza penhorar todas as forças
+sem perdoar as despezas, diligencias ou perigos. Foi com seus braços dar
+exemplo aos macaenses mais distinctos, que todos trabalharam na
+promptificação dos navios.
+
+Era este varão entre os macaenses bem similhante á alma dos estoicos,
+espalhada pelo universo. Estava em toda a parte. Seria preciso
+eloquencia extremada e presencear todos os seus illustres feitos, para
+elogiar as altas qualidades deste preclaro varão: sem isso não é
+possivel apparecerem tão brilhantes como foram praticados.
+
+Por não haver então em Macáo Official de mar, que se julgasse dextro na
+politica, ainda que todos sobrepujavam, no valor, deu-se o commando em
+chefe ao Capitão de artilheria José Pinto Alcoforado de Azevedo e Sousa.
+Sustentou este invicto heroe, em toda a lucta contra os piratas, a
+dignidade portugueza de modo, que bem se parecia com o primeiro Capitão
+Lusitano, que aportou naquelle imperio.[Nota 2^a] Theotonio da Silva
+Braga, commandava o navio Belisario. Caío tão grande tufão na noite
+seguinte ao dia em que saíram os navios, que se julgava telos
+submergido.
+
+Ao amanhecer subirão os montes, sobranceiros á cidade, anciosos por ver
+seus campeões; avistaram o brigue do _Botelho_, que tendo surgido em
+Lantáo prisioneiro, e ficando-lhe abordo os portuguezes restantes do
+combate, assim que o tufão soprou do Oriente, cortaram as amarras e
+vieram encalhar na Taipa. Os macaenses exultaram com este successo, e
+muito mais por avistarem o brigue, e o Belisario, que pela grande
+pericia de seus officiaes tinha escapado á furia do tufão.
+
+Havia tambem uma lorcha armada em guerra[11] commandada por Antonio José
+Gonçalves Caroxa: mancebo activo e destemido. Era commando de difficil
+desempenho; por ser a embarcação conductora dos viveres para os nossos,
+levados por entre os inimigos em frequentes combates. A força da lorcha
+constava de quatro pedreiros, um obuz de doze, e trinta homens de
+tripulação. Algumas vezes aconteceu estar encorporada aos nossos navios,
+quando batiam os piratas. Se o acaso permittia accalmar o vento, nessas
+occasiões fazia o nosso Caroxa maravilhas extremadas.
+
+Desejava Cam-pau-sai encontralo, onde não podessem defendelo os nossos,
+para mais a salvo descarregar sobre elle seu poder, e seu odio. Teve
+quem lhe desse dia certo em que a lorcha havia passar por logar, onde
+Cam-pau-sai podia satisfazer seus desejos. Amanheceu o dia aprasado, e o
+novo _Aquilles Lusitano_ chegou ao passo, que bem pode nomear-se
+Cabalão[12]. Achou-o coberto de inimigos: mas julgando urgente o
+desempenho da sua commissão, tentou abrir caminho. Ainda que a sua
+tripolação era toda de Chinezes, tinha a sua disciplina: julgou que isso
+bastava.
+
+Os inimigos tentaram rodealo; mas o intrepido Caroxa lançou mãos ao
+obuz, e como o reparo era de pião, jogava para todos os lados. Aos que
+se lhe aproximavam cortava-os com metralha; e aos que estavam mais longe
+passava-os com balas. Mas os navios inimigos eram tantos, que mal podia
+desbaratar a todos os que lhe vinham ao alcance. Com tudo apezar de ver
+a maior parte da tripolação morta, não esfriava no empenho de vencer.
+Não usava render-se, nem fugir; cada vez mais afouto pertendia
+desembaraçar o passo. Mas os restantes da tripolação vendo passar-lhe as
+ballas pelo vestido, sem lhe offender o corpo, e irem matar os seus
+companheiros; por que não lhes succedesse o mesmo, ousaram lançar-se a
+elle, e amarralo de pés e mãos. Segurando assim o homem, que lhes
+parecia invulneravel, fugiram para a cidade, onde o entregáram cheios de
+espanto e de temor, dando por desculpa do seu arrojo, o muito que
+apreciavam a existencia do seu commandante.
+
+Os macaenses receberam o destemido Caroxa com estimação digna dos
+importantes serviços, que lhes fazia, e do valor com que se
+immortalisava. Mas o conselheiro Arriaga sobresaía a todos. Tinha
+maneiras singulares para introduzir heroismo nos homens, que destinava a
+emprezas arriscadas. O sentimento lugubre, que mostrava pela morte de um
+marinheiro habil, ou o elogio feito a outro que se distinguia, dava a
+todos cobiça de se verem acatados e elogiados por elle. Nesta occasião
+um abraço dado no Caroxa, em nome da patria fortaleceu a alma deste
+Lusitano de modo, que só elle em sua lorcha, com outra equipagem, se
+julgava sufficiente para arrostar com todos os piratas.
+
+Em verdade, onde as leis são respeitadas, a sociedade é livre: e os
+homens serão livres em toda a parte, que houver governo justo como era
+então o de Macáo. Longe de envejar a seus concidadãos as vantagens,
+grangiadas por sua industria, cuidava com muito desvelo em augmenta-las.
+Não só deixava de opprimilos; mas assegurava a sua liberdade; bem
+precioso ao homem, e necessario á sua ventura; tão distante da licença
+perigosa, como da humiliação servil. O governo providente apenas liga as
+mãos aos homens para não se offenderem; mas deixa-os trabalhar sem
+obstaculo para a sua felicidade; sabe que a ignorancia não só deslumbra
+os homens mas tambem os faz pusillanimes e desgraçados: a razão e a
+liberdade melhoram o coração e os faz virtuosos e resolutos.
+
+Arriaga sabia que a justa destribuição dos premios e das penas é a
+melhor acção do governo sobre o povo: servio-se destas principaes molas
+do coração humano, para animar a virtude e o merito; e obrigar o
+interesse particular a promover o interesse publico. O certo é que a
+virtude desapparece, quando o vicio é honrado. Algumas vezes lhe ouvi eu
+que os favores dados á incapacidade, são roubos feitos ao merecimento; e
+as recompensas dadas a quem bem serve a patria são dividas, que o
+governo paga por ella. Fui testimunha das bençãos, que lhe lançavam os
+macaenses pelo muito que se occupava da sua ventura.--Fazia do
+merecimento dos homens estimação tão justa, que nem á conveniencia, nem
+ao estado ficava devedor: virtude nos principes difficultosa, e nos
+ministros rara[13].
+
+Os temerarios, que tinham amarrado o invicto Caroxa, foram excluidos do
+serviço portuguez. Tomou nova tripolação e continuou a destruir os
+piratas. Cam-pau-sai vio constantemente frustradas, quantas diligencias
+fez para o tomar.
+
+Logo que amainou o tufão, partiram os nossos em procura do inimigo.
+Acharam reunidas as esquadras de Cam-pau-sai, e Apau-tai, nos canaes de
+Wam-poo, em 15 de Septembro de 1809. Assim que avistaram os navios
+Macaenses, suspenderam, mas os nossos carregaram sobre elles.
+Cam-pau-sai empenhou-se no combate; fez entrar nelle os seus melhores
+navios: mas o fogo violento das nossas embarcações fazia-lhe tal
+estrago, que saindo elles do alcance da nossa artilheria, poucas ficavam
+em estado de entrar segunda vez no fogo. Com tudo cevados de raiva, e
+avidos de gloria, a fim de illudir os povos do seu partido, ainda bem
+uns não se tinham retirado, já outros tomavam o logar vago. Não sendo o
+Belisario construido para guerra tão violenta, abrio com o impulso da
+artilheria; tornou-se incapaz de combater: retirou-se. O invito
+Alcoforado não podendo vencer força tão superior tambem se retirou, mas
+deixou em cinzas muitas embarcações inimigas.
+
+É sempre a guerra origem fecunda de calamidades, vexames, e ruinas para
+os povos. Appareceu na China o torbulento Cam-pau-sai, para estrago de
+seus moradores, e vexação dos macaenses. É evidente, que o conquistador,
+não é só inimigo dos povos, onde recruta; mas tambem se torna flagello
+do genero humano. Sim a guerra sobrecarrega os povos de impostos, e
+raras vezes o tumulto dos combates deixa ouvir as supplicas da
+justiça.[14]
+
+Os macaenses tiveram nesta occasião motivo para julgar quão forte éra o
+inimigo: e Cam-pau-sai a ufania de fazer retirar dois navios
+portuguezes.
+
+Apezar da perda que sofreu, ficou mais altivo, e mais assolador. Exaltou
+o espirito dos Chinezes de modo, que se levantaram em Cantão partidos de
+descontentes. O Suntó prevendo a ruina, que ameaçava o Imperio, tratou
+com o Governo de Macáo para reforçar a esquadra portugueza, e junta com
+a Chineza cruzar nos mares daquellas ilhas, afim de livrar o commercio
+das duas cidades, e portos contiguos. O Governo macaense testimunha do
+vexame em que se achavam os moradores da cidade, e dos gastos que tinham
+feito em guerra tão dilatada, mal podia convencionar com os Chinezes,
+por ser a empreza mui dispendiosa. Com tudo o magnanimo Arriaga, a quem
+nada parecia impossivel decidio o Governo macaense a tratar com o de
+Cantão, e fez-se a convenção seguinte:[15]
+
+O Governo das duas provincias de Cantão e Quang-si, e o de Macáo,
+igualmente convencidos da precisão, que tem de pôr fim ás invasões dos
+piratas (os quaes sem temor infestam os mares, que cercam estas duas
+cidades) de restituirem a publica tranquillidade, e as relações
+commerciaes, formarão uma guarda costa, combinando a força dos dois
+governos: para esse fim nomearam os seus plenipotenciarios: Cantão, os
+mandarins de Nam-hay, Shon-key-chi, de Hiang-sam, Pom, e o da Caza
+branca, Chu: Macáo ao Conselheiro Arriaga, e ao Procurador do Senado,
+José Joaquim de Barros; os quaes depois de terem respectivamente
+communicado os seus plenos poderes, e discutido a materia, concluiram e
+ajustaram os artigos seguintes:
+
+1.^o Haverá uma guarda costa, de seis navios portuguezes, conbinada com
+uma esquadra imperial; cruzará seis mezes, desde a bocca do tygre á
+cidade de Macáo, a fim de embaraçar que os piratas não entrem nos
+canaes, que até agora tem infestado.
+
+2.^o O Governo chinez obriga-se a contribuir com oitenta mil taés para
+ajudar o armamento dos navios portuguezes.
+
+3.^o O Governo de Macáo fará logo cruzar os dois navios, que tem
+armados, e apromptará com brevidade os quatro restantes.
+
+4.^o Ambos os Governos devem ajudar-se em tudo o que for a bem do
+cruzeiro, o qual não se estenderá além dos pontos determinados.
+
+5.^o As presas seram repartidas entre os dois Governos.
+
+6.^o Quando a expedição finalisar serão restituidos aos macaenses os
+seus antigos privilegios.
+
+7.^o As partes contractantes obrigam-se a cumprir tudo quanto se
+estipulou nos mencionados artigos sem alterar cousa alguma, e a
+consideralos como ratificados em virtude de seus plenos poderes. Macáo
+23 de Novembro de 1809.
+
+
+ Shou-Key-chi.--Arriaga.
+
+ Pom.--Chu--Barros.
+
+
+O governo de Macáo observou logo o 3.^o artigo. Arriaga entrou a
+promover os aprestos dos navios restantes, mas o thesouro do Senado não
+podia suprir a tão grandes despesas. Arriaga tomou de seus amigos
+grandes sommas sobre o seu credito: então era valor de sobejo para os
+negociantes, que lhe offereceram quanto possuiam[16].
+
+Havia na cidade pouca gente para tripolar os navios se não suprissem os
+prodigios obrados pela gente portugueza.
+
+
+ _.....Tornando frio
+ De espanto o ardor immenso do oriente,
+ Que verá tanto obrar tão pouca gente._
+
+
+Mojatecão, observando e experimentando o valor dos portuguezes em Diu,
+exclamou:--São dignos de que os sirvam as outras gentes. A fortuna do
+mundo está em serem poucos.--Em verdade com cem portuguezes, e sete
+centos manillas e cambojas, se fez á véla a esquadra (seis dias depois
+da convenção) levando por chefe o destemido Alcoforado, na galera
+inconquistavel. Luiz Carlos de Miranda commandava a Pala, Anacleto José
+da Silva o Indiano, Antonio José Gonçalves Caroxa, o brigue do Senado,
+José Felis dos Remedios o navio S. Miguel, José Alves o Belisario. Nesse
+mesmo dia attacáram e dispersaram os piratas, que se retiraram para mais
+longe de Macáo.
+
+O governo de Cantão, não foi activo como o dos macaenses; além disso a
+esquadra chineza nem uma só vez chegou a auxiliar os nossos. Tanto medo
+tinham de Cam-pau-sai, que nem ao lado dos portuguezes se atreviam
+acommettelo. O governo de Macáo vendo assombrada toda a provincia de
+Cantão, pelo grande vulto, que faziam os piratas, resolveu despresar os
+soccorros da esquadra imperial, e anniquilar só o grande poder de
+Cam-pau-sai. Mandou pelo chefe Alcoforado intimar-lhe, que se entregasse
+á obediencia do imperador, promettendo-lhe perdão, e gráo superior na
+classe mandarina.
+
+Entraram os chefes am correspondencia: o nosso pedia ao dos piratas, que
+viesse a Macáo para tractarem de convenção amigavel: declarando-lhe, que
+se não conviesse com elle, poria em acção todos os recursos da guerra, e
+não descançaria sem exterminalo.
+
+Campau-sai, respondeu:--Tenho presente a vossa carta: não me assusta.
+Desejo fazer a paz com os portuguezes, com tanto que não entendam
+comigo. Quanto a submetter-me ao imperador, jámais o farei, ainda que me
+assegureis e digais o que quizerdes. Sô não terei duvida no que tenho
+acima dito. Quando abraceis esse partido, podeis retirar-vos para Macáo,
+e mandai-mo dizer para não entender com os vasos portuguezes. Esta
+resposta de Cam-pau-sai, firmada no dia 18 de Dezembro de 1809, foi
+moderada em razão de ter sido atacado e batido pelos nossos em 11 do
+mesmo mez.
+
+Em quanto estas cousas se passavam entre Alcoforado e Cam-pau-sai, deu o
+imperador amnistia a todos os piratas, que se lhe entregassem. Apau-tai
+receando o valor dos nossos, julgou conveniente entregar-se. Concordou
+com os principaes da sua divisão: rendeu-se com cento e trinta
+embarcações bem equipadas de homens e de armas.
+
+Trahido Cam-pau-sai pelo amigo, que mais estimava, ficou magoado por ver
+a pouca perseverança dos homens, ainda mesmo os que tem as mais intimas
+relações de interesse, parentesco e amisade; mas era tal o seu animo,
+que nenhuma desgraça o intimidava. Mais atrevido ainda mandou apromptar
+a esquadra do seu commando a fim de concluir seus designios.
+
+Alcoforado aproveitou-se da cobardia de Apau-tai, attacou, e fez retirar
+Cam-pau-sai. Logo depois mandou-lhe dizer, que assim como Apau-tai, o
+havia abandonado, assim o fariam os outros seus companheiros; e
+diminuidas assim as suas forças seria obrigado a entregar-se
+prisioneiro: que era melhor capitular já, alcançando honra e interesse,
+como lhe tinha promettido e affiançado. A esta segunda instancia
+respondeu Cam-pau-sai pelo modo seguinte.
+
+Hontem recebi uma carta vossa mui persuasiva: conheço o desejo que
+tendes de me ver em Macáo: fico-vos agradecido por tão singular obsequio
+e estimação.
+
+Estando sobre os mares, como no centro de um reino, no qual empunho o
+sceptro do poder, e governança para todos os que me obedecem, vivo muito
+occupado. Não é simples negocio o governo de um reino: eis o motivo por
+que não cumpro o vosso desejo.
+
+Agora todo o meu empenho é restaurar e possuir as terras deste orbe:
+assim ficarão completos os meus desejos. Digo-vos ingenuamente este é o
+fim a que me proponho. Tenho muitas embarcações, e mantimentos para
+longo tempo: nada me falta. Vendo que me estimaes, por isso vos dou a
+conhecer o meu projecto.
+
+Se quizerdes emprestar-me quatro navios para fazer com elles o que me
+aprouver, mais depressa restaurarei o imperio. Depois dar-vos-ei duas o
+tres provincias a vosso contento. Asseguro-vos a fidelidade da minha
+promessa. Se não podeis agora mandar-me os navios seja quando vos
+convier.
+
+Ha muitas pessoas, que me aconselham para render vassalagem a um
+tartaro! São exortações baldadas. Possuindo esta esquadra com a divisa
+da bandeira vermelha, farei com ella os maiores esforços para restaurar
+o imperio. Já mandei apromptar a minha esquadra, para se dirigir á bocca
+do rio tygre; a fim de bater os imperiaes. Tenho outros assumptos a
+communicar-vos, porém agora não o posso fazer. Basta o conteudo desta,
+para viveres na intelligencia do meu firme proposito. Dezembro 26, de
+1809.
+
+Desenganado Alcoforado de que não conseguia a entrega dos piratas sem
+fusão de sangue, começou de novo a batelos. Os nossos estavam já tão
+praticos nos canaes das ilhas da China, que os piratas apenas lhe
+escapavam nos pequenos rios, onde os nossos vasos não podiam entrar.
+Cam-pau-sai usou entreter as embarcações portuguezas com alguns Taós, em
+quanto a dextrava os seus no exercicio da artilharia, tomando por
+mestres os americanos inglezes, que tinham aprisionado.
+
+Era tão sagaz e ardiloso, que nos encobria seus planos com extranho
+recato. Em 21 de Janeiro de 1810, julgou-se em estado de poder vencer a
+frota macaense. Pairava esta junto á ilha de Lantáo, quando entraram a
+levantar do oriente os piratas alinhados em divisões. Nesta occasião
+obrou o invicto Alcoforado tão grandes prodigios, que só poderam ser
+cantados antes, pelo nosso Diniz.
+
+
+ _A fiel ave, que arma vigilante
+ O grão furor a Jove.
+ Quando sobre os mortaes os raios chove
+ A dextra coruscante,
+ Tão rapida ao rebanho temeroso
+ Não cala, a garra abrindo, das estrellas,
+ Como o varão famoso
+ Sobre as immensas velas
+ Cahe de grande ira armado
+ Treçando denodado
+ A féra espada, e torna em seu estrago
+ O azul oceano em roxo lago._[17]
+
+
+Considere-se uma lagôa com seis leguas de diametro, semeada de ilhas e
+syrtes, onde apenas Galerno encrepava a superficie das aguas. A esquadra
+portugueza constando de seis navios, sendo o maior de quatro centas
+tonelladas, e o mais pequeno de 120: guarnecidos todos com 120 peças de
+artilheria; e 700 homens. A esquadra inimiga, de 300 vasos, com mil e
+quinhentas peças de artilheria, e mais de 20:000 homens aguerridos,
+commandados por chefe valoroso e desesperado. Neste conflicto o famoso
+Alcoforado, treçando denodado a féra espada mandou atacar. Foi sentelha
+electrica lançada no coração dos seus companheiros. Dirigiram-se os
+nossos á vanguarda das columnas inimigas despresando suas hostilidades
+até chegar a tiro de espingarda. Nessa distancia uma descarga de
+metralha punha em fugida o navio, que a soffria. Alguns mais destemidos
+arribavam para sotavento afim de metter os nossos entre dois fogos;
+manobra que estes concertavam para lançar-lhes a morte por todos os
+lados. O fumo mal lhes dixava vêr as embarcações portuguezas, cercadas
+pelas suas. O astuto e bravo pirata, julgava que dividindo os nossos
+poderia destruilos; e o chefe portuguez julgando ter Marte em cada um de
+seus companheiros quiz dar a todos motivo para demonstrarem a sua
+pericia e desmedido valor. Ficaram deste modo os navios macaenses no
+centro de cada circulo dos piratas: assim os raios despedidos do centro
+levavam á circumferencia o estrago, o horror, e a morte. As balas da
+circumferencia, raras vezes acertavam no ponto central: qualquer
+desmancho nas pontarias fazia com que empregassem as balas nos seus
+mesmos companheiros. Todos os Commandantes portuguezes adqueriram fama
+neste dia; mas ha acasos em uma batalha, que fazem uns mais distinctos
+do que outros. O navio commandado por _Luiz Carlos de Miranda_, na maior
+força do combate, deu em escôlho: Cam-pau-sai, vendo aquelle navio
+encalhado, considerou-o em desordem; mandou carregar sobre elle, a ver
+se podia principiar o seu triunfo por destruilo. Mas o denodado Miranda,
+vendo perigos por todos os lados, resolveu debellar o inimigo, ou não
+saír com vida do conflicto. Entre o valor e a desesperação (ultimo
+sentimento das almas grandes), disse a seus companheiros:--Creio não
+haver entre nós quem regeite a immortal gloria, que este feliz dia lhe
+destina: assim faça cada um o seu dever. Mandou empregar a gente da
+mareação nas baterias, e diffundindo o seu valor em toda a equipagem,
+fez tão grande estrago no inimigo, que já este não tinha animo para
+acommettelo. Emquanto debellava os piratas, o fluxo das aguas tirou o
+navio do escôlho.
+
+O Caroxa tambem fez cousas admiraveis. Deparou-lhe o acaso o Taó do
+pagode.[Nota 3^a] Logo que assomou o deposito do erro, virou sobre elle;
+e emquanto não o lançou no abismo, não descançou. O templo, os bonzos,
+os idolos tudo foi submergido no orco. Esta proeza do atrevido Caroxa
+lançou o espanto e o horror no espirito de todos os piratas. A vista dos
+seus deuses espedaçados, e levados, á discrição das aguas, tirou-lhes de
+todo o animo: apenas ousaram largar as velas todas, e por entre syrtes
+foram abrigar-se na bocca do rio de Hiang-san: logar onde os nossos
+vazos não podiam entrar.
+
+Não ha cores assás vivas para demonstrar a sua confusão na fugida.
+Cam-pau-sai medío então as forças macaenses ainda mais pelo valor, do
+que pelo seu atrevimento. Os nossos cantaram victoria! Mas incançaveis
+na destruição do inimigo, não deixaram de perseguilo até á bocca do rio.
+Alli formou o previdente Alcoforado apertado bloqueio a Cam-pau-sai. Só
+o deixou saír para entregar-se.
+
+Cam-pau-sai resolveu entregar-se, mas uma das principaes condições éra
+de ser Miguel de Arriaga fiador de tudo quanto se ajustasse no acto de
+capitulação; e que só trataria com os imperiaes, estando elle presente.
+Logo que o Governo de Macáo recebeu esta participação do chefe
+Alcoforado, remetteo-a ao Suntó, e este dirigio-a ao Imperador.
+
+Succedeu nesta occasião um facto, que muita honra faz á memoria do
+generoso Arriaga. Quando se tratava da entrega dos piratas, chegou a
+Macáo, um novo _Ouvidor_, e segundo a lei, Arriaga deu-lhe posse do
+logar. Mas Cam-pau-sai, e os mandarins, logo que o souberam avisaram o
+Governo de Macáo, não poderem entrar naquella negociação com o Ouvidor
+novo, mas sim com o antigo; já por saber este melhor daquelle negocio,
+já porque só com elle Cam-pau-sai capitularia. O Senado e todos os
+macaenses desejavam o mesmo; pois éra publica a grande reputação, que
+Arriaga havia entre os Chinezes. Foi completa a vontade geral; e é só em
+táes occasiões, que padecendo a lei exultam os povos. O Ouvidor Peixoto
+começou no exercicio das suas funções: mas o famoso Arriaga continuou a
+tractar deste importante negocio.
+
+Em quanto os nossos bloqueavam a esquadra inimiga, e Arriaga ajustava a
+capitulação com os mandarins, aconteceu outro facto, que muito honra a
+memoria do invicto Alcoforado. Logo que a frota portugueza saío de
+Macáo, convidou elle o chefe dos piratas para entrar em Macáo, e tractar
+alli da sua capitulação: mas Cam-pau-sai confiado em suas forças
+respondeu pela negativa como fica dito. Agora vendo-se obrigado a fazer
+o que então recusou, pedio ao nosso Alcoforado a mercê de honralo com
+uma visita para ter o gosto de o conhecer pessoalmente.
+
+Alcoforado mandou apromptar um escaler para satisfazer Cam-pau-sai mas
+os seus espozeram-lhe ser grande temeridade entregar-se a um pirata.
+Esta lembrança foi acompanhada da responsabilidade, e isso obrigou
+Alcoforado a chamar os commandantes das mais embarcações,
+communicou-lhes o convite de Cam-pau-sai, e a deliberação, que havia
+tomado. Todos acordaram com os Officiaes do seu navio, menos elle, que
+fallou da maneira seguinte.--Grande é meu contentamento por ver o
+empenho, que fazeis para não me arriscar nesta visita; seja por
+estimardes a minha existencia, ou por julgardes em mim algum prestimo.
+Confesso-vos, que tão grande é o vosso empenho, quanto mais firme se
+torna a minha resolução: já porque recusando este convite ficará mui
+cerceada a nossa reputação já porque seria o primeiro signal de fraqueza
+da esquadra Macaense: se for traída a minha boa fé, tereis novo
+incentivo para anniquilardes o inimigo vingando-me. Asseguro-vos que
+vendo-me Cam-pau-sai, em seu navio, de coração socegado e alma firme,
+tremerá de vós--Todos o escutavam com attenção: e ás ultimas palavras
+cada um desejava ser Alcoforado: Mas a gloria de sacrificar-se pela
+honra da Patria, e pela humanidade, só a ella pertencia, naquella
+occasião. Despedio-se e partio para a esquadra inimiga. Assim que passou
+a primeira embarcação da vanguada[Nota 4^a]:
+
+
+ _Sonorosas trombetas incitavam
+ Os animos alegres resonando:
+ Dos_ Chinas _os bateis o mar coalhavam,
+ Os toldos pelas aguas arrojando.
+ As bombardas horrisonas bramavam
+ Com as nuves de fumo o sol toldando._[18]
+
+
+Ao chegar Alcoforado ao navio de Cam-pau-sai, veio este recebelo ao
+portaló, e o conduzio pela mão á camara. Alli trocáram as mais apuradas
+civilidades. Cam-pau-sai, estudando o modo de obsequiar o nosso heroe,
+não achou outro mais capaz de lisongear a sua alma, do que offerecer-lhe
+pela honra, que lhe tinha feito, a liberdade de todos os prisioneiros
+europeos, que tinha em sua esquadra. O presente foi recebido com
+demonstrações proprias de captivar o offerente pelas cadêas da amizade.
+Cam-pau-sai assegurou-lhe, ser então o seu maior empenho não o ter por
+inimigo; pois havia experimentado o valor dos portuguezes.
+
+Demonstrou, que arriscando uma batalha, poderia ter a vantagem de saír
+do bloqueio com as embarcações mais veleiras, para onde não podessemos
+incommodalo; porém que a honra daquella visita o tinha penhorado de
+modo, que estava resolvido a entregar-se com toda a esquadra; vista a
+promessa que lhe fizera o ministro Arriaga, de quem formava alto
+conceito, e a quem de boa vontade se rendia.
+
+Alcoforado afiançou a promessa do ministro, mostrando-se pesaroso em não
+depender só delle a capitulação para em tudo a fazer a contento de
+Cam-pau-sai. Disse mais:--como chefe da esquadra macaense, tenho ordem
+para destruir a vossa, se tentardes saír daqui: e serei obrigado a
+fazelo por ser usança portugueza romper as linhas da amizade, quando
+assim o urgem as precisões do estado. Espero de vós não ter occasião
+para rompelas. Assim o prometteu Cam-pau-sai; e o nosso Alcoforado,
+levantou-se:
+
+Lembrai-vos de como se despedio Luiz XI, quando visitou o nosso Affonso
+V;[19] ajuntai-lhe os requintes das ceremonias asiaticas, e julgai da
+separação destes guerreiros; não querendo ceder um ao outro a primasia
+em affectos delicados. Com tudo não pôde Alcoforado impedir a
+Cam-pau-sai, de acompanhalo até ao escaler em que partio para a sua
+frota. Ao entrar nella salvaram todos os navios, e os marinheiros
+subiram ás vergas para todos a um tempo lhe darem os emboras.
+
+Em quanto os chefes se visitavam cuidava-se em Macáo; no ponto, onde se
+faria a entrega da esquadra inimiga, visto ser da vontade de
+Cam-pau-sai, entregala aos portuguezes. Lucas José de Alvarenga,
+governador militar daquella cidade, obstou a que os macaences tivessem
+mais esse dia de triunfo. Temeu gente, que estremecia só de ouvir fallar
+das façanhas portuguezas[20]. Assim foi Arriaga obrigado a concluir este
+importante negocio fóra de Macáo.
+
+Avisou os mondarins, _Chu_, e _Pom_, que viessem ao pagode[21]:
+ajustaram alli, que o logar do congresso seria na villa de Hiang-san e
+fizeram aviso aos delegados do imperador para se acharem alli em dia
+aprazado. Juntaram-se os mandarins do destricto, os mandarins da côrte,
+e o nosso Arriaga, que foi recebido entre elles com singular distincção.
+
+Já o congresso deliberava sobre a capitulação, quando chegou de Macáo a
+relação do que se tinha passado entre os chefes das esquadras. A ousadia
+do atrevido Alcoforado não só penhorou Cam-pau-sai, mas tambem os
+mandarins, que pasmados do que ouviam, ficaram por algum tempo notando o
+gesto e maneiras com que o magnanimo Arriaga captivava as suas vontades.
+
+Tornando o congresso de novo os seus trabalhos, caminhou o negocio com
+mais rapidez; pois dalli em diante estavam os mandarins quasi sempre de
+accordo com o nosso ministro. Convieram em mandar a Cam-pau-sai, que
+viesse com sua esquadra para Chumpin, onde elles se deviam tambem
+reunir: e ordenaram ao chefe Alcoforado, que levantasse o bloqueio. As
+ordens foram derigidas a Cam-pau-sai, em direitura, e a José Pinto
+Alcoforado, pelo governador de Macáo: homem pouco experiente dos
+costumes chinezes, e cobarde, por isso demorou a ordem do congresso. No
+dia seguinte recebendo Cam-pau-sai, a que lhe fora dirigida, levantou
+ancora e principiou a velejar para fora. Alcoforado, ignorando as ordens
+do congresso, e vendo a esquadra inimiga em movimento, mandou suspender
+a sua, e manobrar de modo hostil. Cam-pau-sai, percebeu logo haver
+desintelligencia: ordenou á sua frota, que amainasse e surgisse.
+Sabendo-se no congresso da imprudencia do timido Alvarenga, dirigio-se
+Arriaga a Macáo para animalo, e os delegados do imperador tomaram a
+resolução de ir á esquadra portugueza certificar ao chefe o que se tinha
+tractado com o ministro.
+
+Assim que o nosso Alcaforado vio em sua embarcação dois chinezes de
+cabaias amarellas, conheceu a gerarquia dos hospedes; por ser côr
+privativa da familia imperial. Tractou-os com a cortezia devida á
+civilidade chineza. Rogaram ao chefe portuguez, não compromettesse a
+palavra de Arriaga, nem a delles, para com o chefe dos piratas, a quem
+tinham mandado dizer, que velejasse para Chumpin, e a elle Alcaforado,
+que o deixasse saír; que a inexperiencia do governador, não devia
+embaraçar a execução dos poderes dados pelo Senado ao ministro Arriaga.
+
+Alcoforado respondeu:--aprecío muito a honra, que me fazeis--e desejo,
+ainda mais, ser-vos util: porém as leis militares entre nós executam-se
+sem discrepancia. Tenho ordem do governo para bater a esquadra inimiga,
+se tentar saír, em quanto não houver outra em contrario, não posso
+deixar de fazelo.
+
+Os mandarins tornaram-lhe:--Homem recto e valoroso, conhecemos os
+serviços que tens feito ao imperio, e á tua nação: não offusques essa
+gloria deixando outra vez as costas da China cobertas de piratas.
+Cam-pau-sai ainda tem grandes recursos: não o irrites. Grande parte da
+provincia de Chin-cheu segue o seu partido: sabes que é povoada de
+homens marcantes, robustos, e denodados; a gente creada sobre as ondas é
+audaz, e ardilosa; em pouco tempo equiparão outra esquadra para
+obrigar-te a levantar o bloqueio; assim apezar do teu valor, e do
+esforço macaense, teremos guerra eterna. Pedimos-te, pelo que mais
+estimas, modefiques as ordens que tens, a fim de Cam-pau-sai não
+desconfiar da nossa palavra.--Nesta occasião chegou a ordem de Macáo,
+por diligencia de Arriaga, para Alcoforado levantar o bloqueio, e seguir
+Cam-pau-sai para Chumpin. Mui contentes ficaram os mandarins: partiram
+satisfeitos para o logar do congresso, onde já acharam o nosso Arriaga.
+Mandou-se nova ordem a Cam-pau-sai; no dia immediato surgio no logar
+aprazado.
+
+Mandou-se a bordo cumprimentar o chefe dos piratas, e convida-lo a
+entrar no congresso, onde devia firmar a sua capitulação. Promptamente
+chegou: ao entrar na salla dos congregados, conheceu por vestiario e
+gesto, o nosso ministro: dirigio-se a elle e fallou desta maneira.
+
+Grandes motivos me fazem render e tractar comvosco da minha capitulação,
+para entrar na classe dos Coláos, como mo promettestes pelo imperador.
+Mas confesso-vos, que o principal foi conhecer o fulcro da lavanca
+destruidora do meu poder. Já vos vi: estou satisfeito. Devo muito á
+natureza, e á minha assidua applicação; mas em tudo me acho vencido por
+vós.--E virando-se para os mandarins:--Tendes por experiencia de 14
+annos, quão poderoso e vigilante foi o meu sceptro: sabei agora da minha
+bocca, que o valor portuguez foi quem o destruira. Aqui me tendes em
+vossa presença: espero que me trateis como a homem livre, e destemido--E
+tomou assento.
+
+Disseram-lhe que para exemplo era preciso castigar alguns dos seus, que
+fossem mais criminosos.--Para satisfazer a esse requisito, darei os
+nomes de 14 faccinorosos, que existem na esquadra. Paguem com suas
+cabeças as atrocidades que fizeram, e eu desaprovei.--Sendo este o unico
+embaraço que havia, concluio-se o negocio.
+
+Cam-pau-sai declarou ter ainda uma divisão de 80 embarcações, que antes
+de vir attacar a esquadra macaense, tinha mandado para Chin-cheu receber
+os tributos do anno passado; mas que por aviso seu viriam entregar-se.
+
+Ordenadas assim as cousas principaes, tractaram da forma porque se devia
+repartir a preza; visto são ser o artigo 1.^o da convenção preenchido
+pelo Governo Chinez; e ter só a esquadra macaense reduzido Cam-pau-sai a
+capitular.
+
+Já o Ministro Arriaga tinha mostrado aos Chinezes, quão valoroso e
+sensivel éra o seu coração; mas então quiz mostrar-lhe quanto éra
+liberal. De tudo quanto existia na esquadra de Cam-pau-sai, exigio a
+melhor parte das bombardas: tudo o mais deixou á disposição do
+Imperador. Os companheiros de Cam-pau-sai ficaram cidadãos chinezes;
+elle Coláo do Imperio; e as cabeças dos 14 criminosos, para exemplo dos
+malevolos, foram espetadas em paos no istmo que devide, a cidade, da
+ilha de Macáo, onde ficaram até serem consumidas pelo tempo.
+
+Concluida a capitulação, disse Cam-pau-sai, ao Conselheiro
+Arriaga:--Ainda tenho um favor a pedir-vos. Pertendo ir a Macáo, se me
+concederes licença, para ter o gosto de ver todos os meus vencedores--O
+Ministro agradeceu: e dissolveu-se o congresso, saindo todos os seus
+membros cheios de alegria e admiração: Arriaga, da inexplicavel
+civilidade e sciencia dos mandarins da côrte, ou coláos! Cam-pau-sai, da
+pessoa, e do espirito de Arriaga! Os coláos! de Cam-pau-sai, e de
+Arriaga! Tudo lhe parecia prodigioso. Mal podiam capacitar-se de ver
+livre o imperio do flagelo, que o tinha assolado em 14 annos continuos.
+
+Assim que Arriaga entrou na cidade, tractou do triumfo dos heroes
+macaenses, que éra ao mesmo tempo o seu. A caza deste illustre varão
+tinha para elles a mesma consideração, que o Capitolio para os romanos.
+Não foi este triumfo tão aparatoso no exterior como os de Cesar, ou o de
+D. João de Castro em Goa. Mas os corações de todos os habitantes de
+Macáo exultavam de prazer até alli nunco visto nem sentido.[Nota 5^a]
+
+Em Maio chegou a Cantão a noticia de não querer entregar-se a divisão
+rebelde, despresando a ordem do seu antigo chefe. Avisou-se a
+Cam-pau-sai da conducta dos piratas, e Pedio-se-lhe o desempenho da
+palavra dada no acto da capitulação. Respondeu:--Rebellada a divisão a
+primeira vez contra a minha ordem não devo mandar-lhe outra. Tenho
+recurso mais prompto. Dai-me sessenta embarcações das que foram minhas,
+deixai-mas tripolar com os que já me obedeceram; e se não trouxer os
+rebeldes dou a minha cabeça. Lembro-me que podeis desconfiar da minha
+palavra: deixarei em refens o que possuo de mais apreciavel; dois filhos
+que me deu a natureza. Se sois pai, avaliareis a qualidade do penhor.
+
+O Suntó: apezar das demonstrações de firmesa e honrada conducta de
+Cam-pau-sai, recusou entregar-lhe a esquadra que elle pedia. Mandou
+apromptar uma frota imperial de perto de duzentas embarcações, e bem
+equipadas com parte dos instrumentos de guerra que tinham sido de
+Cam-pau-sai. Saío esta de Cantão e foi encontrar o inimigo. Em pouco
+tempo veio entrar em Macáo fugida, e derrotada pela divisão rebelde.
+Chegando esta noticia a Cantão, o Suntó mandou perguntar ao Conselheiro
+Arriaga, o que deveria fazer ácerca do offerecimento de
+Cam-pau-sai.--Que se estivesse no seu logar, tornou Arriaga, tinha
+aceitado os serviços de Cam-pau-sai, logo que elle os offereceu, sem lhe
+tomar refens; pois esperava delle tudo quanto é proprio de honralo, e de
+utilisar ao imperio.--
+
+O Suntó com tal resposta, mandou entregar a Cam-pau-sai sessenta
+embarcações, e tudo quanto pedio. Largou o novo Almirante de Cantão
+deixando a todos em expectativa. Dirigio-se a Macáo, onde estava tudo
+prompto para recebelo. Em dia assignalado foram os commandantes da nossa
+esquadra[Nota 6^a] com os bons moradores da cidade a caza do Ministro
+Arriaga. Ainda bem o não tinham cumprimentado, annunciou-se a entrada de
+Cam-pau-sai. Foi conduzido á Sala. Acabadas as civilidades requintadas,
+segundo o costume Chinez disse:--Deus immortal, estão completos os meus
+ultimos desejos, vendo e abraçando heroes tão sublimados--Brilhava o
+jubilo no rosto de todos vendo Marte humilhado em sua presença.--Acha-se
+neste circulo o valoroso commandante da Lorcha Leão? Desejo
+conhecelo--Aqui me tendes respondeu o _Caroxa_. Cam-pau-sai caminhou
+para elle, abraçou-o: e virando-se para o Ministro disse:--Este homem
+fez mais damno ao meu poder, do que toda a vossa esquadra. Eu fui
+vencido: mas quem disputando a gloria aos portuguezes dirigidos por vós,
+ficará victorioso. Cedo vos mostrarei como venço a outra gente.
+
+--Tenho conhecido em vossas acções, disse Arriaga, que sois varão
+assignalado. Agradeço-vos por todos o alto conceito, que de nós fazeis:
+affirmo-vos ser o maior premio de nossas fadigas, ter-vos elevado á
+ordem dos Coláos, onde fareis a ventura da vossa patria, e as delicias
+do Imperador. Imitai os vossos vencedores promptos sempre a dar a vida
+pela restauração da gloria nacional, pelos seus direitos, e pelos do seu
+Monarca legitimo. Lembrai-vos de todas as acções que lhes vistes
+praticar:[Nota 7^a]
+
+
+ _E julgareis qual é mais excellente,
+ Se ser do mundo rei, se de tal gente._[22]
+
+
+Se a liberdade, a propriedade, e a segurança são as unicas linhas, que
+prendem os homens á terra onde habitam, e ao rei; senão ha amor de
+patria, onde não existem estas vantagens; julgue-se pelo amor dos
+Portuguezes ao rei e á patria, das qualidades do Senhor D. João VI. Paga
+o amor que lhe temos usando do seu poder, para oppôr barreiras fortes, e
+dar remedio ás paixões dos subditos, sem que possamos conhecer as suas
+proprias paixões.[23]
+
+
+
+ _Do vosso nome um grão Rei
+ Neste reino Lusitano
+ Se poz esta mesma lei:
+ Que diz o seu Pelicano
+ Pela lei, e pela grei_[24]
+
+
+Em todo o tempo, que esteve em Macáo o celebre Cam-pau-sai, foi
+surprendido pelas maneiras singulares com que o obsequiou o ministro
+Arriaga: mas foi obrigado a saír de Macáo para em breve desempenhar a
+sua commissão. Em poucos dias encontrou a divisão rebelde, a quem fez
+saber que era o Almirante da esquadra imperial pela seguinte:
+
+
+ _Procclamão_.
+
+Camaradas e amigos, sei que duvidastes da minha ordem: fizestes bem.
+Lembrastes-vos sem duvida, que era falsa; ou eu ter sido obrigado pela
+força a escrevela. Não: assignei-a por minha vontade. Se ainda o
+duvidais, vinde ouvilo da minha bocca. Dir-vos-hei tambem os motivos,
+que me fizeram render. Neste mundo ha dois caminhos a seguir, o do bem,
+ou o do mal. Todos desejamos seguir o do bem, mas somos muitas vezes
+lançados pelo erro em precipicios. Em outro tempo vos aconselhava eu a
+seguirdes o meu partido; mas então ainda eu não havia encetado o caminho
+do bem. Hoje conheço que marchava pela estrada do erro, afastado da
+vontade do maior numero. O imperio tem povoação summamente grande; e o
+nosso partido a seu respeito é summamente pequeno. Não podeis negar-me,
+que é preciso haver desmedida ambição nos poucos, que pertendem
+apossar-se do que é de muitos. Não é conforme ás leis do imperio, nem ás
+do entendimento supremo. Todos devemos concorrer para a felicidade dos
+outros homens; e no caminho em que andavamos deivairados, faziamos a sua
+desgraça[25]. Exposta assim a verdade a vossos olhos, espero não
+duvideis abraçala; e quando useis tenacidade, em vosso erro,
+experimentareis pela primeira vez o meu rigor.
+
+Os rebeldes não attenderam ás rasões de Cam-pau-sai: julgando-se
+superiores em força, cresceu, a sua audacia; responderam com despreso.
+Cam-pau-sai dispoz os seus de tal sorte, que dando sobre os rebeldes, em
+poucas horas os que não se afundaram, ficaram prisioneiros. Navegou com
+elles para Macáo; a fim de mostrar ao ministro Arriaga, e a todos os
+macaenses, a verdade do que lhe havia dito.
+
+Entrou alli a divisão rebelde em estado tão deploravel pelo estrago
+soffrido no combate, que levou muitos dias a concertar para ir a Cantão.
+Cam-pau-sai largando o nosso porto, dirigio-se á _bocca do tygre_. Alli
+encontrou o mar cheio de embarcações, que tinham vindo para o levar em
+triumfo ao Suntó. É inexplicavel o contentamento, que o povo d'aquella
+cidade teve nessa occasião. O Suntó obsequiou Cam-pau-sai de modo, que
+se o imperador viesse a Cantão, não haveria mais nada a fazer-lhe para
+honra-lo. Dirigio á côrte tão grandes recommendações ácerca do novo
+Almirante, que o imperador mandou, que fosse a Pekim, para ter o gosto
+de velo.
+
+Partio Cam-pau-sai; e foi dando interessante espectaculo a todas as
+villas e cidades, por onde passava. Todos ambicionavam ver o chefe dos
+piratas (que tanto havia assustado o throno e o imperio) tornado uma das
+pessoas mais interessantes ao mesmo imperio. Assim que entrou na capital
+foi apresentado ao imperador: teve com elle larga conversação: depois
+houve conselho de estado, em que foi Cam-pau-sai um dos seus membros.
+Emprego superior aos ministros de Estado.
+
+Pode-se julgar por este facto, qual é a politica do Governo Chinez. Já
+não tinha que temer no mar; com tudo premiou Cam-pau-sai, não só para
+cumprir o que havia promettido, mas tambem para se approveitar dos seus
+conhecimentos e qualidades relevantes.[26] É provavel, que em quanto
+elle for Conselheiro de Estado, não hajam piratas nos mares da China.
+Tem adquerido tão grande reputação na côrte, que não só os particulares
+mas tambem o Imperador o tracta com singular distincção.
+
+Por mais que sejam plausiveis os motivos da guerra, sempre offende:
+ainda custando só a vida de um homem, assim mesmo é funesta. A estatua
+do vencedor é sempre banhada de lagrimas pelos vencidos. Todavia esta
+guerra foi differente. Obrigados os macaenses por _Ladrões_ a defenderem
+as vidas e a fazenda, mediram as forças mais pelo valor, do que pelo
+numero; atacaram e venceram. Castigando malvados, lançaram todos os mais
+ao seio da patria, nos braços de seus irmãos. Em logar de pranto de
+vencidos, derramaram lagrimas de prazer trocando trabalhos e miserias
+por vida socegada. Nesta guerra sempre os nossos attenderam mais á
+humanidade, do que á vingança: fóra do conflicto das batalhas, não
+houveram crueldades.
+
+Quando o generoso Arriaga exigio, no acto da capitulação, a melhor parte
+das bombardas de Cam-pau-sai, foi com intento de presentear com ellas ao
+Senhor D. João VI. Recolhendo-se a Macáo, declarou o seu projecto no
+Senado que de boa vontade assentio.
+
+Já em 1642 o senado de Macáo mandára a El-Rei D. João IV, as bombardas
+tomadas aos hollandezes, para com ellas romper de todo o jugo dos
+Filippes. O mesmo senado em 1811 mandou ao Senhor D. João VI, a
+artilheria tomada aos piratas da China, não só para mostrar-lhe a grande
+força do inimigo vencido, mas tambem para com ella debellar as falanges
+de Bonaparte.
+
+A cidade de Macáo tinha perdido muitos dos seus privilegios. Os
+chinezes, esquecidos do que os nossos antepassados tinham feito em
+beneficio de seus maiores, já começavam a ver os portuguezes com a mesma
+indifferença, com que olhavam para os outros europeos. Mas a serie de
+factos brilhantes, paraticados no espaço de cinco annos, fizeram reviver
+a nossa antiga reputação naquelle imperio.
+
+
+ [Figura]
+
+
+
+
+ _Nota_ (1.^a)
+
+Lendo a pagina 253 da relação abbreviada da viagem de La-Perouse, as
+falsidades alli escriptas em desabono dos Macaenses, não posso deixar de
+as repelir. Começa dizendo não ter espressões para louvar o Governador
+de Macáo. A paginas 255 rompe:--De grande importancia seria Macáo a uma
+nação justa, e que tivesse firmesa e dignidade, contra o Governo Chinez,
+injusto, oppressor e cobarde! Alli diz que o Governador de Macáo éra
+optimo, aqui o Governo Portuguez não é digno, nem justo; e o Governo
+Chinez, é reputado por elle o peior do mundo!
+
+Se La Perou-se pertendeu fallar do Governo Portuguez em relação a Macáo,
+tambem não foi exacto. Que mais poderia fazer El-Rei, ou os seus
+delegados, do que nomear, para governar Macáo, um homem, que segundo o
+juizo do mesmo La Perouse, estava prompto a sacrificar-se pela honra da
+nação? La Perouse, queria achar nos Macaenses firmesa, que desse a todos
+os europeos liberdade para irem á China quebrar as leis do Imperio como
+elle mesmo fez desembarcando pelles por contrabando. E atreve-se a dizer
+que o Governo Chinez é injusto, oppressor e cobarde! Como se poderão
+avaliar os costumes e o caracter das nações pelo juizo de taes
+escriptores? A Nação Chineza é independente; não quer ter communicação
+com os Europeos; renuncía a ganancia do commercio exterior pelo socego
+do Imperio. Todavia Le Perou-se, e outros europeos queriam achar em
+Macáo homens que fossem agriolhar em Pekim o mesmo Imperador! Vesse
+nesta memoria pelos judiciosos discursos dos Mandarins, quão falsas e
+injustas são as invectivas de La Perouse contra os Chinezes e Macaenses.
+
+
+ _Nota_ (2.^a)
+
+Quando louvo Fernão Peres de Andrade e outros navegadores e guerreiros,
+tomo por base a justiça e as suas virtudes. Jámais escreveria este
+opusculo, se a guerra feita aos piratas não tivesse por fundamento a
+defesa natural, e o bem estar dos povos constituidos em sociedade.
+
+Desta guerra resultou grande beneficio á humanidade. Eu louvo só os
+Portuguezes que em épocas mais felizes, para nós, se conduziram com
+valor e dignidade; e os que em nossos dias os imitam. Afonso de
+Albuquerque foi respeitado ainda mais pelas suas virtudes perfeitas e
+pela justiça, que praticava, do que pelo extremado valor.
+
+
+ _Nota_ (3.^a)
+
+Era Cam-pau-sai tão extremoso em ardiz, que não lhe escapou de enredar
+os seus no fanatismo para mais devotamente chegar aos fins dos seus
+designios. Logo que os interesseiros bonzos lhe afiançaram o bom
+resultado da empreza, lançou mão desses instrumentos do erro, que
+degradam o homem para a classe dos brutos fazendo-os tirar o carro dos
+conquistadores quasi sempre seus verdugos, mandou erigir-lhe um pagode
+na maior embarcação, e deu o commando della ao Capitão mais
+experimentado para defender de todo o risco o templo dos idolos.
+
+Aqui temos Cam-pau-sai, pescador dos mares da China feito protector dos
+bonzos, e reputado seu chefe.
+
+Deram passos tão agigantados na estrada da superstituição, que já não
+faziam guerra nem paz sem consultar o oraculo. Saíam todos os
+commandantes de seus Taós para irem áquelle onde se achava o pagode
+incensar os idolos, e ouvir do oraculo o que deviam fazer; isto é o que
+o chefe dos piratas havia concertado com o principal dos bonzos.
+
+Estes delirios julgados propicios aos seus intentos, eram favoraveis aos
+nossos. Em quanto elles praticavam taes momisses, o valor macaense
+anniquilava pagode, idolos, bonzos, e supersticiosos.
+
+
+ _Nota_ (4.^a)
+
+Em quasi todas as circunstancias da vida, foi Alcoforado, digno de
+eterna memoria: Na guerra fazia maravilhas extremadas; na paz, o juizo
+de Mr. Arago, dá bem a conhecer o caracter do nosso heroe.[27] Eis como
+elle o pinta.
+
+--Parabens, meu amigo; chegamos a Diely.[28] Dir-te-hei o modo porque
+fomos hospedados. Ás protestações de amisade cheias de franqueza, a
+maneiras honestas e frequente agrado, é difficil ajuntar mais polidez,
+nem mais desvelo para obsequiar-nos. Desde o primeiro dia a generosidade
+do Governador, mandou á nossa meza, com profusão, os manjares mais
+delicados. Queria mostrar, dizia elle, o prazer que sentia em brindar os
+patricios dos maiores sabios do mundo.
+
+Jantares sumptuosos, presididos pelas açafroadas bondades do paiz,
+cobertas de joias; festas encantadoras, onde reinava a galantaria, mais
+franca e mais activa, faziam desapparecer as horas, que voam nas azas do
+prazer.
+
+O Governador achou ainda outro modo de augmentar as provas da sua
+generosa affeição: fez acceitar, a quasi todos, presentes; e fingia não
+lhes dar valor para nos livrar de escrupulos. Chamava-se José Pinto
+Alcoforado de Azevedo e Souza: mancebo amavel, jovial, e de
+conhecimentos. O motivo de sua especie de degredo para Timor, pelo que
+nos deu a entender, procedeu de causas politicas.[29] Ocupou-se com
+desvelo em felicitar o paiz que lhe foi confiado: a sua administração é
+doce. Os Rajaz não são aviltados pelo despotismo como succede em
+Coupang. Pelo contratrio são tratados com amor.--
+
+Já, em outras éras, menores virtudes de outro Souza foram assim
+cantadas.
+
+
+ _Le généreux Souza, qui sut domter l'amour
+ Dans ces climats ardens oú son feu nous dévore,
+ Et q'aprés Scipion la vertu nomme encore._
+
+
+
+ _Nota_ (5.^a)
+
+No dia 3 de Junho de 1810, cantou o honrado e benemerito cidadão José
+Baptista de Miranda e Lima as virtudes do nosso Arriaga pelo modo
+seguinte:
+
+
+ Á sombra de frondifera oliveira,
+ Por ti, ha tanto tempo, desejada,
+ (Graças ao creador Omnipotente.)
+ Te vejo, cara patria[N1] reclinada.
+ No pelago espaçoso, que te cerca,
+ Ja não vês tremular hostis pendões[N2].
+ Não ouves rebombar os horisontes[N3]
+ Com horrorosos tiros de canhões[N4].
+ De salitroso pó[N5] que antes servia
+ Para ao longe mandar lethaes pelouros
+ Se ferreos tubos hoje tu carregas[N6],
+ É só por festejar c'os seus estouros.
+ Centenares de Taós[N7] prenhes de tygres,
+ Que ao pé de ti rasgavam cruelmente[N8]
+ Meninas e donzelas delicadas
+ A teu Pai sujeitou[N9] o Eterno Ente.
+ Teu benefico Pai, o Arriaga[N10]
+ Estes tygres de Hyrcania domou
+ E a frondente oliveira, que te cobre,
+ Cortando mil obstaculos, plantou.
+ Jámais pois riscarão da fantasia[N11]
+ O nome deste Heroe da lusa gente:
+ E agora, que celebras seu triumfo,
+ De verde palma vai cingir-lhe a frente.
+ Da victoria este emblema para ornares,
+ Lindas flores procura designantes
+ D'aquelles predicados appreciaveis,
+ Neste filho de Lisia mui brilhantes.
+ O louro girasol, que sempre segue
+ O planeta, que os outros illumina[N12]
+ Designa a bem notoria lealdade
+ Do nosso Heroe á prole Bragantina.
+ Os rubros amaranthos, que resistem
+ Ao vento, á calma, ao gelo, symbolisam
+ A intrepida constancia nas empresas[N13],
+ Que o nome de Arriaga immortalizam.
+ A candida açucena, que dispende
+ Liberalmente o corceo, de que gosa
+ É symbolo do seu singello peito[N14],
+ Emblema da sua alma generosa.
+ O Lirio, que nascendo d'alta vara,
+ Sendo rei da florida monarquia
+ Para baixo a sublime frente inclina,
+ Sua clemencia designa, e cortezia[N15].
+ Das mais virtudes symbolos procura
+ N'outros lindos matizes dos jardins;
+ Não te esqueças das rosas rubicundas,
+ Dos junquilhos, dos cravos, dos Jasmins.
+ De ti receba agora esta corôa
+ Bem que inferior ao seu merecimento;
+ Em quanto outra melhor se lhe prepara
+ No reino superior ao firmamento.
+
+
+_Notas de Antonio Francisco de Miranda e Sousa, Deão da Sé de Macáo._
+
+[N1] 1.^a A patria é a cidade de Macáo.
+
+[N2] 2.^a As bandeiras vermelhas e pretas das duas columnas inimigas.
+
+[N3] ?
+
+[N4] 4.^a Mil e oitocentas bombardas de diversos calibres entregou
+Cam-pau-sai, e mais de mil Apau-tai, chefes dos piratas.
+
+[N5] 5.^a Polvora, cuja fabrica Miguel de Arriaga estabeleceu em Macáo
+em 1809, pelo Boticario J. J. dos Santos.
+
+[N6] 6.^a Quando appareceu o retrato de El-Rei, na sala onde se
+celebrava o triunfo, e onde se achava a nobreza, o clero, e nos seus
+contornos, a melhor parte do povo da cidade.
+
+[N7] 7.^a Embarcações de guerra. Cam-pau-sai entregou 3800 homens,
+Apautai 2000.
+
+[N8] 8.^a Só no canal de Hiangsan mataram mais de 15000 pessoas.
+
+[N9] 9.^a Entrega de Cam-pau-sai á benevolencia de Miguel de Arriaga,
+seu medianeiro para com o imperador da China.
+
+[N10] 10.^a Miguel de Arriaga Brum da Silveira, ouvidor de Macáo.
+
+[N11] 11.^a O nome de Miguel de Arriaga será lembrado não só na ilha de
+Macáo mas tambem no imperio da China, pois o Suntó o mandou gravar em
+seus annaes para haver delle eterna memoria.
+
+[N12] 12.^a Grande e indefectivel zelo com que Arriaga trabalhou para
+dirigir o Senado e o Governador, contra os inglezes, a fim destes não
+arrebatarem esta cidade á nação portugueza.
+
+[N13] 13.^a Contra a inveja, a intriga, e odio de alguns que mofaram da
+empreza. A constancia de Arriaga foi quem nos deu a victoria.
+
+[N14] 14.^a A candura, e inteiresa com que tratou a Cam-pau-sai, e ao
+Suntó. Só o nosso Arriaga foi capaz de conciliar amizade entre aquelles
+desavindos.
+
+[N15] 15.^a Despresando difficuldades tratou sempre em Macáo os máos,
+com a mesma clemencia que usava para com os bons, e tudo isso nascia da
+sua nobreza de coração e das altas e perfeitas virtudes que possuia.
+
+Em recompensa de tão relevantes serviços o conservou El-Rei D. João VI,
+na ouvidoria de Macáo, sem limete de tempo, e d'ahi nasceram seus
+imfortunios, e sua morte prematura.
+
+
+ _Nota_ (6.^a)
+
+Entre os nossos heroes não haviam grandes patentes: a mais subida era a
+do chefe, José Pinto Alcoforado de Azevedo e Sousa: Capitão de
+artilheria. Em verdade para obrar grandes cousas não são precisos gráos
+elevados. No tempo dos Andrades, Sousas, Pachecos e outros, que obraram
+prodigios custosos de crer, por extraordinarios, tambem foram praticados
+por homens, que sabiam honrar-se com o gráo do seu nome!
+
+Para não ser extenso fallei só dos macaenses, que fizeram acções
+extremadas. Se mencionasse todos os que nos cinco annos da guerra contra
+os piratas, obraram cousas uteis, faria mui grosso o volume; porque
+muitos foram elles, e todos merecem elogio.
+
+
+ _Nota_ (7.^a)
+
+Quando os governos não excitam os homens á gloria, os concidadãos tem em
+pouco a estimação publica. A maior parte dos homens são como o
+negociante avaro: se armam não é com esperança de immortalisar seu nome.
+Unicamente sensiveis ao ganho temem, que o navio se afaste do caminho já
+sulcado; por este sabem elles não haverem novas terras para descobrir.
+Com tudo recommendam ao piloto, que se por algum temporal for levado a
+ilha desconhecida, e obrigado a surgir, não a explore nem reconheça os
+habitantes: tome agoa e largue as velas ao seu destino sem lhe importar
+descobertas[30]. Já não ha Zarcos nem Gamas! Sobre os mares deste mundo,
+unicamente invejosos de honras, empregos, e riquezas poucos homens
+embarcam a fim de explorar a naturesa[31]. Todavia o governo de Macáo
+provou o muito que tinha excitado os seus concidadãos á gloria. Estes
+para merecela, não receberam pensões, arriscaram a vida e prestaram a
+fazenda. Graças aos macaenses; pela gloria que adqueriram, e pelo
+desinteresse que mostraram, chegaram a par dos Castros e Albuquerques.
+
+
+
+
+ SEGUNDA PARTE.
+
+
+ INVASÃO DAS TROPAS INGLEZAS
+ EM MACÁO
+ E SUA RETIRADA.
+
+
+
+
+ PROLOGO DA SEGUNDA PARTE.
+
+
+A Virtude é o nexo da sociedade: e consiste em nos abstermos de fazer
+mal; não privar pessoa alguma das vantagens que desfructa; dar a cada um
+o que é devido; e promover a felicidade dos outros em geral. O homem só
+merece o nome de virtuoso se contribue para a utilidade e segurança da
+sociedade.
+
+A primeira das virtudes sociaes é a humanidade; esta pode considerar-se
+o centro comum de todas as outras. Ella dá aos entes da especie humana
+direitos sobre o nosso coração. Sim ella tem por base a sensibilidade, e
+esse sentimento dispõe-nos a fazer aos outros todo o bem de que as
+nossas faculdades são capazes. Seus effeitos são o amor, a beneficencia,
+a liberalidade, a indulgencia, e a piedade.
+
+Quando a humanidade reside na sociedade em que vivemos, constitue o amor
+da patria; isto é, produz a necessaria affeição nacional.
+
+A força deve só respeitar-se como virtude; quando defende a sociedade em
+que vivemos, quando se acha acompanhada de grandeza d'alma, valor, e
+moderação. A actividade tambem deve entrar na ordem das virtudes
+sociaes; as quaes tem por objecto o bem da sociedade devem ser efficazes
+e não inertes como outras quimericas e falsas, introduzidas pela
+impostura, ou fanatismo. A sociedade só agradece acções proveitosas: só
+essas merecem a sua estimação e reconhecimento.
+
+A justiça é o vinculo da união social; sustenta a balança em equilibrio
+entre os membros da sociedade; remedeia os males que resultam da
+differença que a natureza poz entre os homens; e faz servir essa mesma
+desigualdade ao bem geral. A justiça pelas leis da equiedade e sábia
+distribuição do premio e do castigo excita a virtude, reprime o vicio, e
+chama á ordem os que são tentados a obrar contra os entes da sua
+especie.
+
+Taes são as disposições que a sociedade deve exigir dos seus membros;
+tudo nos mostra a sua utilidade; são necessarias e invariaveis; pois tem
+por fundamento a natureza e as precisões constantes da especie humana.
+Faltando a justiça não ha ventura na sociedade; sem ella o estado social
+torna-se mais desagradavel do que o estado selvagem. É melhor viver só
+do que rodeado de homens injustos.
+
+A temprança é igualmente necessaria: a prudencia nasce da razão ou da
+experiencia das cousas. A razão eleva o homem ás causas, ensina-lhe a
+estudar a sua influencia, e a prevêr os effeitos. Sim, a razão compara
+os objectos, e despoja-os de apparencias falsas; e aproveita-se do
+preterito, e do futuro para não saír da meta conveniente na occasião
+opportuna.
+
+Do governo humano, activo, justo e prudente, resulta o bem estar da
+sociedade; o seu maior cuidado é fazer gosar os cidadãos, em paz e
+socego, o fructo dos seus trabalhos; conservalos exemptos dos vicios
+internos, e das invasões externas. O Senado de Macáo firme nestes
+principios, e sabendo quanto os sobrecargas inglezes ambicionavam
+aquelle nosso estabelecimento, poz-se em guarda contra os que pertendiam
+esbulha-lo da sua pósse, ou perturbar o socego publico.
+
+Aportando alli o Almirante Drury, com ordem de Lord Minto (Governador de
+Bengalla) para introduzir tropas inglezas em Macáo, ainda que elles
+diziam ser aquelle procedimento a nosso favor; com tudo o Senado
+desconfiou do empenho com que pertendiam verificar a offerta.
+
+Assim firme em sua resolução, sustentou entre os Chinezes e os
+britanicos a seguinte correspondencia.
+
+
+
+
+ SEGUNDA PARTE
+
+
+Assim que o Almirante Drury aportou em Macáo, remeteu uma intimação de
+Lord Minto, a Bernardo Aleixo (Governador de Macáo)[32] e mandou Robert,
+(primeiro sobrecarga da companhia) em deputação ao Governador. Robert
+fallou neste espirito.[33]
+
+--Sou mandado pelo Almirante Drury participar-vos, que o seu intento é
+empregar as forças do seu commando na defeza de Macáo, contra os
+francezes! A explicação desta medida feita a V. Exc. por Lord Minto
+dispensa-me de repetir os motivos porque o Governo Britanico assim
+procede.
+
+O Almirante está disposto a conferir com vosco antes do desembarque das
+tropas: com tudo é preciso que o Senado esteja tambem disposto a
+cooperar com os inglezes para a segurança desta cidade e do commercio;
+se o plano proposto não tiver effeito por motivo do Senado, o Almirante,
+a seu pesar; terá conducta opposta.
+
+[Nota: Setembro 11]
+
+É para notar o ameaço que faz o sobre carga na primeira entre vista!
+
+É grato ao meu coração, tornou Bernardo Aleixo, ver o empenho que tomais
+em defender as possessões lusitanas: com tudo pela intima alliança dos
+nossos monarcas, pelas ordens que tenho do Sr. D. João VI, e pelos
+tratados feitos com os Chinezes, não devo consentir no desembarque das
+vossas tropas, sem ordem superior.
+
+[Nota: Septembro 12.]
+
+Não posso duvidar, replicou Drury, da vossa franquesa nem da convicção
+em que estais da intimidade dos nossos monarcas: sou sensivel á situação
+em que vos achaes: comtudo previno-vos, que pela grande distancia do
+logar donde podeis receber ordem superior, não a tereis tão cêdo, como é
+de meu dever cumprir o que me foi determinado por Lord Minto. Para a
+conclusão deste negocio desejo ter uma conferencia com vosco.
+
+[Nota: Septembro 13.]
+
+Não só na primeira participação, mas tambem na primeira replica teve o
+Senado motivo bastante para desconfiar das intenções britannicas; por
+tanto officiou ao Almirante pelo modo seguinte:[34]
+
+Suppondo-vos certo da razão que me assiste para não alterar as ordens
+que tenho; devo lisongiarme da vossa persuasão tanto da lealdade no
+desempenho dos meus deveres, como da certeza em que estou da intima
+alliança dos nossos monarcas: assim espero que modifiqueis as instruções
+de Lord Minto, em quanto não chegam ordens do Brazil, ou de Goa. Eu
+tambem demorarei a participação das vossas intenções ao Governo Chinez:
+intenções de dificil compreensão a povos altivos e desconfiados.
+
+Estimarei a vossa visita, farei tudo para satisfazer-vos, menos
+consentir no desembarque das vossas tropas. Terei a satisfação de
+aprender com vosco o modo de tirar a estes povos o receio, que lhe ficou
+em 1802, e agora renovado pela vossa pretenção.[35] O Imperio da China é
+o protector desta cidade ha 270 annos; nada mais é preciso para sua
+defeza. Sendo a coacção origem de disturbios e conhecendo vós a nossa
+razão, espero que se houver máo resultado na vossa empreza, não o
+imputareis ao governo de Macáo.
+
+[Nota: Setembro 14]
+
+Não havendo resposta do Almirante até o dia 16 o Senado intimou um
+protesto aos sobrecargas, e disse mais: Será infalivel a complicação dos
+negocios britanicos, se o vosso Almirante tentar contra os ajustes
+feitos em 1802 pelo Senado com o Governo Chinez, para não admittir
+auxilio extrangeiro.
+
+Sabendo agora pelo Governador de Bengalla, que tendes grande parte nesta
+empreza, é do meu dever segnificar-vos, que no caso não esperado, de
+continuarem as mesmas instancias para a admissão das vossas tropas nesta
+cidade, farei pôr em execução o que no protesto junto declaro. É
+repugnante o vosso procedimento contra povos fieis e amigos da Caza de
+Bragança desde a sua restauração. Exijo que o protesto junto com a copia
+desta carta seja remettido ao Almirante.
+
+Não produzindo estes escriptos o effeito desejado, o Senado enviou a
+participação seguinte ao mandarim de Hiang-san. A dez de Setembro
+surgiram em frente desta cidade, uma náo, uma fragata, e um brigue da
+nação ingleza, sendo chefe desta força o Almirante Drury. Trouxe uma
+carta de Lord Minto, que diz mandar, da parte do seu rei, antigo alliado
+do nosso, soldados para defenderem esta cidade de alguma invasão
+franceza. O Almirante assegura não exceder os limites de defesa; porém
+como o seu desembarque nesta cidade, quebra os tractados deste governo
+com a celestial dynastia, somos obrigados a fazer-vos este aviso a fim
+de o levares ao Suntó, em virtude dos mesmos tractados.
+
+O Governo de Macáo, animado do ardente desejo de manter as relações
+politicas e commerciaes, que tem ligado esta cidade com os Chinezes, e
+varias nações da Europa; e tendo o mesmo empenho em continuar a merecer
+na opinião das nações, propria e extrangeiras, a consideração de leal e
+honrado, titulo nunca recusado a este Senado: julgou preciso offerecer
+ao publico a succinta e franca exposição dos factos acontecidos desde a
+chegada do Almirante Drury a este porto até hoje, no protesto seguinte.
+
+A dez de Setembro de 1808, chegou ao porto desta cidade a frota
+commandada pelo almirante Drury. A 11 recebi uma carta de Lord Minto,
+onde refere os desastres de Portugal; e o favor recebido, pelo nosso
+Rei, de George IV, para conservar as possessões da India e China; e que
+sendo esta de muita importancia para os inglezes, devia ser guarnecida
+com as suas tropas. Para esse fim mandava um destacamento a esta cidade,
+e pedia pelo vinculo de antiga amizade, a sua admissão e necessario
+arranjo.
+
+No mesmo acto disse, que pelos motivos da amizade expendida não deviam
+obrar de modo, que destruissem a independencia, que deviam querer
+segurar; nem admittia ser eu violentado a fazer o que não devo.
+
+Esperava desta resposta alguma moderação, e mais por saberem, que os
+chinezes não admittem novidades com que possam julgar menos segura a sua
+independencia. Com tudo reagiram, mandando intimar pelo chefe da
+companhia, que se não fossem admittidas as tropas, seria differente o
+seu procedimento.
+
+Firme nos meus principios, e na minha primeira resolução, assegurei-lhe
+a immutabilidade do meu pensar, e dos habitantes desta cidade, que
+jámais deram motivo para serem invadidos e atropellados por uma nação,
+que se dizia alliada: porém que a ter logar aquella intimação
+ameaçadora, eu me defenderia conforme o direito natural, e os limites
+desta praça, que sempre fora respeitada por todas as nações costumadas a
+descançar á sombra da bandeira portugueza.
+
+Vendo que os inglezes não socegavam, e que eram baldados os esforços da
+mais estudada prudencia; querendo salvar a honra, e a paz constrangida
+pelo nosso mais antigo alliado; não devo demorar por mais tempo a
+necessaria participação ao governo chinez. Este como protector da cidade
+fundada por sua concessão em seus dominios, da qual recebe foro a seu
+contento; prestará com brevidade os socorros precizos. Sou obrigado a
+participar-lhe todas as circunstancias, não obstante saber quão tristes
+se tornarão as suas providencias, se o almirante não cessar da sua
+contumacia.
+
+O senado tomará como hostil o procedimento que tiver por fim desembarcar
+tropas inglezas nesta cidade; declara que se defenderá até o ultimo
+extremo. Protesta contra taes procedimentos: a responsabilidade recaírá
+sobre os aggressores. A razão anima os habitantes desta cidade, que
+tanta honra e gloria tem dado á nação portugueza em sua não interrompida
+posse.
+
+[Nota: Setembro 16]
+
+Quem não esperaria moderação nos britannicos, pela leitura daquelle
+protesto? Retorquiram!--Sendo os offerecimentos liberaes de Lord Minto
+rejeitados pela desleal conducta do governo macaense[36], e os esforços
+da nossa parte a fim de livrar esta cidade da invasão franceza, e
+querendo nós conservar boa intelligencia entre o governo chinez e a
+nação britannica: somos arrastados pela inexperada conducta dos
+macaenses a tomar medidas, que podem offender os chinezes; mas o senado
+responderá por tudo.
+
+Achamos-nos levados ao penoso extremo de vos participar, que em breve os
+soldados inglezes occuparão Maçáo. A nossa tenção, quando chegar esse
+momento, é desembarcar tambem os marinheiros, e tomar posse da cidade á
+ponta de bayoneta. Consideraremos qualquer opposição como rebelião
+directa. Para evitar o conflicto de soldados e marinheiros raivosos,
+deve o Senado admittir já as tropas britannicas.
+
+[Nota: Setembro 19]
+
+Foi recebida esta intimação, quando chegava outra dos mandarins do
+destricto, para não deixar o Senado, desembarcar as tropas inglezas. O
+governador remetteu-a por copia ao almirante, com a seguinte carta.
+
+Agora me foi presente a vossa intimação! Com pesar vejo nella, tratada
+de infiel a conducta do governo desta cidade por não admittir, contra o
+seu dever, guarnição ingleza! E que tomareis como acto hostil qualquer
+resistencia da nossa parte, dando para unico remedio a tantos males,
+introduzir aqui tropas britannicas! Tenho presente as rasões que vos
+expuz; extranho caracterisares este governo de mal intencionado no
+cumprimento dos seus deveres. Confesso que da minha parte os tenho
+modificado, julgando continuar assim a distincta amizade dos respectivos
+monarcas. Ponderei em pleno conselho a vossa intimação: sendo bem
+examinada a ultima parte em que dizeis cesserá o vosso rigor,
+admittindo-se um destacamento inglez, desejo saber como fareis isso sem
+nos dar motivo para desconfiar das intenções britannicas; e sem que os
+chinezes se offendam de tão escandaloso procedimento. Posso
+assegurar-vos, que elle não só ha de ser prejudicial a Macáo: a
+companhia ingleza soffrerá tambem os seus effeitos.
+
+No dia 20 os sobrecargas Roberts, Patlle, Brameston, Helphinstone, e
+Baring dirigiram ao governador a carta seguinte.--O protesto de Vossa
+Excellencia, será apresentado ao almirante, assim como a intimação dos
+mandarins. Nós sabemos o que elles são: o almirante não fará caso
+delles. Sendo preciso concluirá este negocio com o Suntó.
+
+É memoravel nos annaes macaenses, o dia 20 de Setembro de 1808.
+Achavam-se ás mãos com os piratas da China, e ameaçados, pelo almirante
+inglez, de serem atacados á bayoneta. Mas quanto maiores eram as
+adversidades, mais se engrandecia o animo dos macaenses... Assim que se
+publicou no Senado a injusta, cruel, e atroz intimação da força ingleza,
+gritaram todos:--Só depois de morrermos na defesa destes muros
+levantados por nossos maiores, poderão entrar esses barbaros, que não
+podendo tomar nossas casas pela hypocrisia, tentam fazelo com ameaços. O
+capitão mór José Joaquim de Barros, ardendo em lavaredas de amor
+patriotico, disse para o governador;--Irei para o logar mais arriscado,
+lá darei a vida na defesa do meu posto--Bernardo Aleixo, consummado em
+prudencia, não soffreu ser vencido em valor. Dirigio-se ao Ministro
+Arriaga, dizendo:--Honrado collega, com taes companheiros não serão
+arrebatados os lares macaenses. Devemos acabar de ter contemplação com
+homens, que mais parecem inimigos do que alliados. Deixo a minha
+residencia da praia grande; vou tomar o meu logar na fortaleza do monte,
+confiado em que ordenareis tudo para conservar o socego publico; e
+fiquem todos na intelligencia, que ella não se renderá em quanto eu
+existir.
+
+Quem poderá escrever os dons naturaes e do estudo, desenvolvidos pelo
+magnanimo Arriaga neste conflicto? Soube moderar o valor exaltado que
+tinha accendido nos peitos macaenses, e persuadilos, que não se offendia
+em cousa alguma a honra nacional, desembarcando a tropa ingleza, com
+permissão do Senado; e talvez isso desse novo realce á gloria dos
+portuguezes; afiançou não ser longa a demora dos inglezes em Macáo.
+Disse que todos sabiam ter o governo feito, quanto estava ao seu alcance
+para livrar a cidade da invasão ingleza; mas que em todo esse andamento
+haviam chegado os negocios a tal extremo, que a julgava necessaria para
+ensinar os britanicos, pela experiencia, que os macaenses não toleram
+invasores.
+
+Socegaram os animos; deram-se todas as providencias para se effectuar o
+desembarque sem disturbios. Entregaram-se as fortalezas a pessoas de
+confiança. O Governador foi para a do monte: e o Capitão mór para a de
+S. Francisco. Commandava então a guarnição da praça, o Senhor José
+Ozorio de Castro Cabral e Albuquerque; sempre mereceu elogios do Governo
+por saber conciliar as qualidades militares com as virtudes civicas.
+
+No dia 21 ao romper da alva desembarcaram os Capitães Robertson, e
+Claulfield, com plenos poderes para tractarem com o Governo de Macáo,
+ácerca do desembarque da tropa; e levaram a Bernardo Aleixo a carta
+seguinte.
+
+Tive a honra de receber a vossa participação, diz o Almirante, em que me
+informais da sabia e leal determinação do Senado, em adimittir um
+destacamento inglez na defesa desta cidade. É grande o meu prazer entrar
+em Macáo como sincero amigo, e sem quebrar-se a antiga amizade dos
+nossos monarcas. Affirmo-vos que haveis achar nas tropas britanicas,
+obediencia e respeito.
+
+Quão differente linguagem da que empregou no dia 17! Em quanto os
+macaenses não cederam á tenacidade britanica, éram infieis; agora que
+pareciam afrouxar na defesa dos seus direitos, são leaes e sabios!
+Ver-se-ha mudarem de linguagem em pouco tempo.
+
+No mesmo dia os delegados do Almirante, e os do Senado (Bernardo Aleixo,
+e Miguel de Arriaga) convencionaram nos artigos seguintes.
+
+1.^o As leis do paiz regerão com toda a sua plenitude.
+
+2.^o Os crimes contra os Chinezes, seguirão o julgado estabelecido.
+
+3.^o O destacamento inglez será subordinado ao governo desta cidade,
+combinando com o Capitão Robertson, em casos extraordinarios.
+
+4.^o Nenhuma outra bandeira será arvorada em Macáo, além da portugueza.
+
+5.^o As munições do destacamento entrarão nos armazens publicos, ás
+ordens do governo desta cidade. Os inglezes terão permissão para
+beneficialas.
+
+6.^o Os navios que pelas leis do paiz tem livre entrada neste porto não
+serão interrompidos, nem registados pelos britanicos: e os navios
+inglezes ficarão no mesmo estado em que se achavam antes desta
+convenção.
+
+Depois de assignada, o Senado fará diligencia para evitar complicação
+com o governo chinez. O governo de S. M. Britanica fica responsavel ao
+Sr. D. João VI, pelas consequencias deste tractado.
+
+Desembarcaram as tropas sem tumulto; aquartelaram-se na feitoria de
+Bernardo Gomes de Lemos, e nas fortalezas da Guia, e do Bom-parto. O
+Almirante requereu estes dois ultimos quarteis, para não haverem
+disturbios.
+
+Antes de desembarcar as tropas dizia, que ellas guardariam obediencia e
+respeito, assim que entrou com ellas na cidade, mudou de lingoagem:
+temeu logo que os britanicos insultassem os Chinezes. A intenção dos
+sobrecargas e do Almirante, éra de ir pouco a pouco, escondidos na capa
+da amizade, appossando-se de todas as fortalezas: e exigindo sempre, que
+o Governo de Macáo avisasse ao de Cantão, que tudo aquillo procedia da
+intima alliança entre as duas Côroas de Portugal, e Gran-Bertanha.
+
+No primeiro de Outubro, pedio o Almirante ao Senado, licença para enviar
+ao Suntó o tractado feito com o Senado, antes de entrarem as tropas
+inglezas em Macáo. Já a esse tempo o Suntó estava sciente de tudo quanto
+se tinha feito em Macáo.
+
+No dia 8, começou o almirante, com os seus, a dirigir queixas ao
+governador, pelos insultos, que faziam os chinezes aos britannicos; e
+dirigiram-lhe a participação seguinte.--Somos obrigados, com pezar
+nosso, a representar-vos a necessidade de mettermos o nosso destacamento
+na fortaleza de monte, a fim de evitar a communicação com os chinezes;
+por quanto já espancaram alguns officiaes, e esta manhãa insultaram
+outros de modo, que se não estivessem dentro dos limites do quartel,
+haveria grande desordem. Se o destacamento se estabelecer na fortaleza
+do monte, acabar-se-ha a idéa de perigo. Asseguramos-vos a repugnancia
+com que fazemos esta applicação, mas somos a isso obrigados para evitar
+males, que podem envolver os nossos governos com o dos chinezes, de quem
+temos ouvido dizer está fazendo grandes preparativos de guerra. Seria
+bom, que assim como publicastes a ordem de Goa para receber o nosso
+destacamento, fizesseis o mesmo á proclamação do vice-rei de Goa.
+
+Os inglezes esperavam, sem duvida, achar os macaenses no estado em que
+os havia descripto o capitão Laperouse: e que Bernardo Aleixo não
+possuia o talento e virtudes exaradas por aquelle celebre navegador nas
+paginas da sua viagem. A carta seguinte tirou os inglezes da illusão em
+que estavam.
+
+Não tenho duvida em passar o vosso destacamento para a fortalesa do
+monte: sendo necessaria para defeza contra os francezes, está nos termos
+da ordem que recebi de Goa[37]: porém sendo o motivo dessa exigencia
+evitar a communicação e disputa com os chinezes, estou certo de que na
+feitoria, onde se acha aquartelada, observada a disciplina que hade usar
+na fortaleza, conseguirá o mesmo fim sem dar logar a ciumes da parte dos
+chinezes; causa sem duvida de males maiores do que pretendeis evitar: e
+de mais, isso não é conforme com o tractado, que fizemos.
+
+--A desconfiança do governo chinez tem augmentado pela occupação das
+fortalezas da Guia, e Bom-parto com tropas britanicas. Assim acrescerá
+mais em prejuizo do commercio das duas nações, que na união, com os
+chinezes tem igual parte nesta cidade. A nação britanica não consentirá
+em plano algum, que destrua esta união: e a mim não é permittido
+admittir defeza opposta á lealdade, que este governo tem á constituição
+do imperio, seu protector; e com direito sobre o territorio a que chama
+parte do mesmo imperio.
+
+Ainda que é forte a razão que me assiste, maior será o meu pesar, quando
+pareça falta de condescendencia da minha vontade prompta em reconhecer
+os serviços de S. Magestade Britanica, ao S. D. João VI. Elles exigem,
+que espereis a resposta do governo chinez, aos artigos da nossa
+convenção, que não pode alterar-se para não sermos obrigados a fazer
+outra participação. Sería agora passo arriscado, pelo escrupulo dos
+Chinezes ácerca das intenções britanicas. O Senado já mais deixará de
+cooperar no que for util á nação britanica. Agora mesmo acaba de pedir
+aos mandarins do districto, providencias para evitar, que os chinezes
+insultem os vossos officiaes.
+
+Lisongeio-me constar-vos a publicidade que dei á ordem de Goa. Tambem
+fiz publicar a proclamação segundo o costume deste governo. Vivei na
+intelligencia, que não esconderei o que vos possa interessar, não
+offendendo o decóro desta cidade.
+
+De 3 a 14 de Outubro recebeu o Senado varios avisos do Mandarin de
+Hiang-san, aos quaes o procurador, José Joaquim de Barros, respondeu
+neste espirito.--Eu o procurador da Cidade de Macáo, mandarim de
+Hao-king, remetto-vos toda a nossa correspondencia com os inglezes, a
+fim de conheceres a verdade. O Senado remetteu ao Almirante todas as
+vossas chapas, (avisos) nestas circunstancias é o que podemos fazer.--
+
+O mandarim respondeu:--Pelo que respeita ás cartas do Almirante, ainda
+que as tenho feito interpretar, não posso entender o seu verdadeiro
+sentido: espero que o declarareis ao portador desta para minha
+intelligencia. A ordem do Vice-Rei de Gôa não prevalece contra os
+tractados existentes do Governo celestial com o vosso Rei. Em quanto ao
+desasocego dos moradores chinezes em Macáo, depende de vós: fazei com
+que os inglezes tornem para os seus navios, todos ficarão em perfeita
+quietação.--
+
+[Nota: Outubro.]
+
+No dia 16 remetteu outro aviso.
+
+--Sei que fôra apresentada a minha carta aos inglezes para saírem de
+Macáo, e que responderam terem vindo para defenderem Macáo dos
+francezes, visto não o poder agora fazer o vosso Rei; e que para saírem
+precisam que venham soldados portuguezes!
+
+É inegavel ser Macáo territorio da China, assim como ter-vo-lo concedido
+a celestial dynastia, attendendo a virdes de tão longe, e quererdes
+repousar neste Imperio. Ha perto de tres seculos, não só vos tracta sem
+differença de seus povos, mas tambem como filhos enchendo-vos de
+beneficios.[38] Os francezes não costumam insultar as terras deste
+imperio: quando usassem agora commetter essa injustiça, os inglezes
+deviam lembrar-se, que temos mandarins de letras e de armas e poderoso
+exercito para defender-vos, sendo preciso. Exponde estas verdades ao
+Almirante, e aos sobrecargas, e intimai-lhe de minha parte que embarquem
+o seu destacamento sem demora.--
+
+No dia 17 sabendo o mesmo mandarim, que os Chinezes emigravam de Macáo
+assustados pelo ameaço da guerra, mandou outra chapa ao procurador,
+offerecendo-lhe tropas para auxiliar os portuguezes, e animar os
+Chinezes a fazerem o trato do costume, para não soffrerem os habitantes
+da cidade por falta de alimentos.
+
+(18 de Outubro.)--Mostrei a vossa chapa de hontem ao Almirante (tornou o
+procurador ao mandarim) assegurou-me ir a Cantão ultimar este negocio
+com o Suntó. Desejo que vos empenheis no bom tractamento para com elle,
+visto ir encarregado de negocio tão importante.
+
+No mesmo dia 17, recebeu o Governador a carta seguinte (dos
+sobrecargas).--Capacitesse V. Exc.^a da grande importancia, que é para
+as duas nações Portugueza e ingleza, accommodar em breve a
+desintelligencia, que reina entre nós e os Chinezes. A viagem do
+Almirante a Cantão, dirige-se a esse fim; mas é preciso que os seus
+intentos sejam sincenramente narrados ao Suntó. Só o padre Rodrigo o
+pode fazer como desejamos; assim rogamos a V. Exc. faculdade para elle
+acompanhar o Almirante. O Governador concedeu a licença pedida.
+
+Quando em Macáo se esperava que fossem diminuidas as calamidades,
+augmentaram. Assim o demonstram os sobrecargas na carta seguinte: basta
+meditala com reflexão para se conhecerem as intenções britanicas.
+
+--Soubemos esta manhãa--ter chegado de Bombaim outro destacamento. O
+Almirante ordena que desembarque immediatamente. Rogamos a V. Exc., que
+mande fazer os arranjos necessarios para esse fim. Alcançaremos grandes
+vantagens se persuadires os chinezes, que são tropas mandadas pelo vosso
+Rei; e que desembarcadas estas embarcarão as que se acham em terra. Para
+dar mais força a esta lembrança pode V. Exc. mandar entrar os navios com
+bandeira portugueza. As objecções dos chinezes são de pouca entidade.
+Para este segundo desembarque, escusa V. Exc. pedir-lhe venia. Pedimos
+licença para manifestar a V. Exc. o escandaloso procedimento de alguns
+macaenses infieis ao Senhor D. João VI; pois enviam aos mandarins
+representações desfavoraveis aos britanicos. Da sua má conducta nascem
+os inconvenientes, que temos soffrido. Se V. Exc. não dá remedio a tam
+grande mal, o Almirante enviará para o Brazil as pessoas suspeitas.[39]
+Esta carta demonstra bem a protecção levada pelos inglezes a Macáo. 1.^o
+soberba, 2.^o falsidades, 3.^o arrogancia fraudulenta, 4^o calumnias,
+5.^o despotismo horrivel. Bernardo Aleixo usando da sua consumada
+prudencia, respondeu nestes termos.
+
+(Outubro 21.)--Dizeis ter ordem do Almirante para desambarcar tropas
+novamente chegadas! E desejais, que eu dê a entender aos chinezes, virem
+da parte do Sr. D. João VI! Nenhuma duvida teria no seu desembarque, se
+as circunstancias decorridas depois que desembarcaram as primeiras não
+tivessem de dia em dia complicado mais este negocio com os mandarins.
+Effeituando-se este segundo desembarque antes de conferir o Almirante
+com o Suntó, pode transtornar o negocio, e ser funesto ao commercio, já
+suspenso em Cantão. Accresce ter eu agora recebido, ácerca dessa tropa,
+protesto, que devo tomar em muita consideração. Esta cidade tem soffrido
+muito com a vossa expedição; e a meu cargo está vigiar por seus
+interesses. Não me consta haver aqui morador algum infiel á Caza de
+Bragança, apesar de ser dever meu cuidar nessa indagação.
+
+(Outubro 21.)--No mesmo dia, escreveu o mandarin de Hiang-san, ao
+procurador de Macáo, neste espirito.--Consta-me chegarem ahi mais tropas
+inglezas; jámais deveis permittir o seu desembarque. Duvidamos muito dos
+seus intentos. Se o consentirdes darei parte ao Suntó, de que faltais ao
+vosso dever.
+
+(Outubro.)--De 21 a 28 houveram disturbios entre os inglezes e os
+chinezes. O procurador representou aos mandarins, que não tinha leis por
+onde castigasse os chinezes em casos taes; e que para isso exigia
+providencias.--Aquelles tornaram. Não são precisas leis para castigar
+crimes, que jámais devem existir neste imperio. Embarquem os inglezes,
+tudo fica remediado.--Não davam resposta, á exigencia de providencias.
+
+(Outubro.)--Em 29 escreveram os sobrecargas ao Governador:--Sabemos com
+certeza não serem as partecipações de V. Exc. (ácerca do auxilio
+britanico) expostas ao Suntó como deviam; antes sim pelo contrario.
+Rogamos a V. Exc. lhe declare o justo procedimento do governo britanico,
+e que esta declaração seja remettida ao Almirante para elle mesmo a
+entregar ao Suntó. Extranhamos a repugnancia de V. Exc. em seguir o
+exemplo do Vice-Rei de Goa, isto é, animar os portuguezes contra os
+nossos inimigos. Se os moradores desta cidade fossem assim admoestados,
+desejariam o nosso auxilio em logar de o aborrecer.--
+
+(Outubro 30.)--Entre as difficuldades, que vos apresentei, tornou
+Bernardo Aleixo, foi uma a complicação com os chinezes. Tenho
+conhecimento do systema do seu governo por longa experiencia adquirida
+na pratica; sei os vinculos que os unem a esta cidade; e por isso previ
+o máo resultado da vossa empreza. Falleivos com franqueza, fui
+considerado como desaffecto aos vossos projectos. Em 20 do mez passado
+desclarasteis (ainda que pouco favoravel ao exercicio do meu emprego)
+ser qual quer opposição do governo chinez, desembaraçada pelo Almirante
+com o Suntó; agora vejo depender deste governo a ultimação do negocio.
+
+O Senado trabalha para que não sejam reputados sinistros os fins da
+vossa expedição: se tem havido desconfiança nos mandarins, não é
+motivada por este governo; pois tem patenteado com franqueza a sua
+correspondencia entre vós e os chinezes.
+
+Já vos disse, e agora o repito: dos macaenses, nem um só deixa de
+respeitar a caza de Bragança, costumada a encher esta cidade de
+beneficios em honra do seu governo, e gloria de seus moradores. Porém
+como não lhe seja vedado amar a tranquillidade publica do seu paiz, não
+deve extranhar-se a cada um chorar a sua desgraça: sem blasfemar da
+causa, aborrece os effeitos.
+
+Os pais de familias lastimam a morte de seus filhos, pelo abandono das
+amas chinezas--que se retiram. Os infelizes que tem na labutação diaria
+o seu recurso, lastimam-se pela escacez e carestia dos generos
+alimentares. Os mais abastados lastimam-se por ver chegar o tempo de
+fazerem suas negociações, e terem ainda as mercadorias empatadas por
+falta de gyro, ha cincoenta dias. Até os navios estão ainda por fabricar
+á mingua de artifices, que tambem fugiram. Os empregados publicos vendo
+parar o commercio, lastimam-se por saberem, que delle tira o estado
+rendimento para pagar-lhes. Os mesmos habitantes chinezes, dados ao
+commercio, tem emigrado e levado até o mais inferior dos seus trastes.
+Isto era de esperar de homens pacificos ao verem apparatos de guerra.
+Além disso ameaçados pelos mandarins, que julgam a constituição do
+imperio atacada pela vossa imprudencia.
+
+Á vista do exposto não admira haverem descontentes, que deplorem a sua
+desgraça, e aspirem ao socego deste fiel estabelecimento, que ha 252
+annos tem sempre respeitado as ordens do seu monarcha. Julgai por este
+quadro se um tal povo necessita de proclamações para ser fiel ao Rei a
+quem adora?
+
+Assim que esta carta foi remetida, mandou o Senado ao procurador, que
+exigisse do mandarim de Hiang-san, o motivo da queixa dos Inglezes; o
+que fez pelo modo seguinte.--O chefe da companhia ingleza accusa-vos de
+não teres enviado as minhas chapas ao Suntó, ou que mandando-as lhes
+viciastes o texto. Não posso crer teres procedimento alheio do vosso
+emprego e caracter. Espero que immediatamente apresenteis os originaes
+ao Suntó: eu envio as copias ao almirante para as conferir com elle, e
+ficar desse modo illesa a vossa reputação.
+
+Os sobrecargas responderam á carta de trinta pelo modo seguinte:--A
+vossa carta encheu de magoa os nossos corações pelas circunstancias em
+que se acham os habitantes de Macáo; tudo nasceu da conducta do Senado:
+se adoptasse o nosso systema, não teria agora de vêr essas lastimas. Os
+macaenses julgaram a proposito tomar medidas contra a nossa expedição; e
+fizeram repetidas instancias ao governo chinez, pedindo soccorro contra
+os hostis procedimentos britannicos: o excessivo ciume dos chinezes, e o
+manejo do Senado motivaram todos os males.--Em verdade dissemos, que o
+almirante removeria todos os obstaculos em Cantão; assim aconteceria se
+o governo de Macáo se unisse cordialmente com o almirante.
+
+Os esforços que V. Ex.^a promette fazer em suas applicações ao governo
+chinez, são para nós de grande importancia. Sabemos que hão-de produzir
+bom affeito. Estamos persuadidos, que só o governo de Macáo pode remover
+as presentes difficuldades e miserias.
+
+Grande documento é este para augmentar, se é possivel, a honra dos
+macaenses, pelo valimento que tem com os chinezes. No principio da
+carta, invectivam os sobrecargas aos macaenses; no fim pedem-lhe
+misericordia! Era tal a ambição, ou a impudencia daquelles bretões, que
+diziam em face ao governo de Macáo serem motivadas as calamidades
+daquella cidade pela ignorancia dos chinezes, e manejo do Senado! Quem
+não vê provir tudo da tenacidade dos sobrecargas em quererem apossar-se
+daquelle nosso estabelecimento? Quem poderá capacitar-se de ser aquelle
+empenho unicamente sustentado para guardar Macáo aos portuguezes? Em
+pouco sairá o almirante da illusão em que o tinham os sobrecargas.
+
+O ultimo paragrafo desta carta merece particular attenção: O governador
+despresou as argucias do primeiro, e respondeu ao segundo.--Vejo a
+necessidade que tendes de novo recurso deste governo ao de Cantão: O
+Senado já enviou uma chapa ao mandarim do destricto, da qual se vos
+remette copia, e de toda a nossa correspondencia com os chinezes, a
+vosso respeito. Faço isto para ver se acabam as vossas desconfianças.
+
+Nesta intelligencia e com o mesmo desvelo (posto que até agora equivoco)
+farei novas representações ao governo chinez sempre que me indiqueis a
+forma de applacar a tormenta, que vos ameaça, pela desconfiança dos
+mandarins superiores.
+
+Á vista do corpo disforme, que tomou este negocio, quem não esperaria
+moderação nos sobrecargas? A carta seguinte mostra o contrario!
+
+[Nota: (Novembro 3.)]
+
+--Pertendem ainda quebrar as leis do imperio, introduzindo e
+descarregando navios britannicos em Macáo.--Em virtude de ordens do
+almirante, dizem elles, participamos a V. Ex.^a que mande apromptar
+armazens para depositar nelles os generos vindos em nossas embarcações.
+Esta medida nasce da oppoção que os chinezes fazem ao auxilio dado por
+nós a esta cidade. Esperamos que V. Ex.^a não recuse os seus extremosos
+esforços em nosso beneficio, vendo que os sacrificios do governo de
+Macáo são bagatela em comparação dos que temos soffrido pelo embargo do
+commercio britannico (em Cantão) só por usarmos a generosidade de
+querermos dar segurança a esta cidade: Assim esperamos a ordem para a
+descarga, sem dilação.
+
+Não tenho duvida em prestar a minha condescendencia á vontade do
+almirante, respondeu Bernardo Aleixo, com tudo sou forçado a dizer o que
+sendo publico, admira ser por vós ignorado. As leis deste paiz só
+admittem navios estrangeiros no caso de mera hospitalidade, segundo o
+direito das gentes. Applica-se aos navios de entrada e saída de Cantão,
+até poderem seguir o seu destino. Achando-se em iguaes circunstancias,
+qualquer navio da companhia, não haverá duvida na sua admissão; porém se
+a descarga, que se pertende fazer em Macáo provem da opposição dos
+chinezes ao commercio britannico, tenho grande embaraço no cumprimento
+do meu desejo.
+
+Os tractados desta cidade, com o governo chinez, permittem só
+carregações neste porto vindas em navios portuguezes, ou hespanhoes; se
+o commercio inglez está prohibido em Cantão, como o poderei admittir em
+Macáo, sendo dominio chinez, sómente aforado aos portuguezes debaixo de
+certas condições, que vós, dizendo auxiliar, pretendeis romper?
+
+Accresce não haver logar para tão grandes carregações: por falta de
+gyro, acham-se todos os armazens cheios de generos vindos na monção
+ultima. Dizeis que são grandes os vossos sacrificios, e os nossos
+bagatela! Os sacrificios, neste sentido, não devem considerar-se pelo
+valor das riquezas: por perderes muito não se segue, que não sejam
+maiores os nossos sacrificios perdendo tudo. Lançais as culpas das
+vossas perdas sobre nós, e que faremos a vosso respeito? O tempo fará
+justiça ao nosso procedimento[40].
+
+Agora (apezar de tudo) é tal o meu desvelo em vos servir, que se algum
+navio se acha em estado de tornar indispensavel a sua descarga, terá os
+soccorros necessarios como se pratica entre povos civilisados; sem
+offensa dos laços domicilarios e privativos, sustentados pelo esforço e
+gloria da Nação Portugueza.
+
+Em todo o mez de Novembro houveram disturbios entre os chinezes e os
+britannicos: aquelles não só maltractavam estes, encontrando-os nas
+ruas, mas tambem lhe apedrejavam as janallas. Por mais que o procurador
+do Senado exigisse providencias dos mandarins, a resposta éra sempre a
+mesma.--Sáiam os britannicos da cidade, e tudo ficará em socego.--Quando
+os inglezes estavam mais teimosos em descarregar os seus navios em
+Macáo, baixou a seguinte admoestação do Suntó aos sobre-cargas.
+
+Sobre-cargas da companhia ingleza, sabei que a virtude do nosso
+Imperador se manifesta como o céo, abrange tudo: considerando elle que
+os reinos da Europa se tem mostrado, ha muito tempo, obedientes e
+politicos, concedeu aos europeos licença para negociar em Cantão;
+reputando-vos como individuos da mesma familia. Vós o tendes
+experimentado, e sabeis, que nunca foi concedido ficardes permanentes na
+China. Logo não devieis trazer navios cheios de soldados, nem
+desembarcalos contra as leis do imperio. Macáo é cidade edificada em
+terreno chinez: a dynastia passada concedeu aos portuguezes
+estabelecerem-se alli; a presente, em virtude da sua antiga posse,
+deixou-os ficar como d'antes; porém debaixo de certas condições. A
+nenhuns outros europeos se concedeu privilegio semilhante! Como
+pertendeis vós agora persistir em Macáo? Dizeis recear venham os
+francezes insultar os macaenses! Nunca se attreveram a pertubar as
+terras deste imperio: e quando venham com muito socego os esperaremos;
+vindo desfalecidos, e sendo poucos contra muitos, sem batalha ficarão
+vencidos. Terão a sorte da carne na banca do cosinheiro. Dizeis ser
+amigos dos Portuguezes e que viesteis ajudalos contra os francezes!
+Porque não obrasteis este excesso de amizade la na Europa, ou porque não
+os esperais fora das ilhas da china para os baterdes quando cheguem? Não
+é justo estares em Macáo quebrantando as leis do imperio, e dissolvendo
+a união mutua, que deve existir em todos os seus dominios: desse modo
+perdeis o direito, que haveis á nossa benevolencia. Por ventura não
+sabeis o que vos é interessante? Podereis existir sem commercio? Por
+certo não: pois quanto mais depressa embarcardes os soldados, mais cedo
+se vos abrirão as Alfandegas. Se retardares o seu embarque, não tereis
+communicação com a terra. Ponderai bem o que vos proponho, e não me
+incommodeis com mais peditorios.--
+
+Em quanto o governo de Macáo pedia aos mandarins do districto, que o
+ajudassem a sanear as feridas abertas pelos inglezes, nas leis do
+imperio, a fim de não se irritar contra elles o Suntó, chegou outra
+chapa deste, pelo mandarim de Hiangsan, em que dizia:--
+
+Eu o Governador das duas provincias de Cantão e Kuansi, faço saber ao
+mandarin de Hiang-san, que da entrada dos soldados inglezes em Macáo,
+são culpados os seus moradores; pois deviam tela embaraçado. Mas
+examinando o seu antigo, e moderno procedimento, achei serem sempre
+gratos aos nossos Imperadores; por esse motivo toléro o erro commettido.
+
+Ácerca dos navios inglezes, já consultei o Kuam-pu, a fim de lhes
+permittir descarga, e poderem negociar. Pelo que pertence aos soldados,
+dei parte ao Imperador; eis a sua resposta:--Se os inglezes tiverem a
+ousadia de presistirem em sua teima, lançaios fora com o nosso
+exercito.--Em poucos dias elle marchará sobre Macáo: no entanto
+recommendai aos portuguezes a segurança da fortaleza do monte. Adverti
+ao Procurador, que não se fie desses inglezes.
+
+Como estes não fossem promptos na execução das ordens do Suntó,
+augmentou-se a soberba e desconfiança chineza de modo, que julgaram
+tambem sermos culpados no insulto commettido pelos inglezes.
+Desembarcarem estes as tropas já não éra a maior offensa: o que mais
+ferio o orgulho chinez, foi não obedecerem logo ao mando do Imperador.
+Tomaram os mandarins calor tão ardente, que não deixavam passar um dia
+sem repetirem intimações para que os inglezes saíssem de Macáo: eis o
+seu espirito.
+
+Senhor Procurador, esses inglezes entrando em Macáo apossaram-se das
+igrejas e das fortalezas! Em pouco tomarão vossas cazas possuidas ha
+seculos; depois tirar-vos-hão mulheres e filhos: não podemos soffrer tam
+grande offensa. Marcham oitenta mil homens sobre os campos de Móa.
+(proximos á cidade de Macáo) afim de os anniquilar. Despresaram a graça
+feita pelo Suntó; soffrerão o peso da força, que marcha contra elles.
+Esses inglezes sendo homens não tem coração humano; conhecem os males
+que tem feito, e não se arrependem! Desejamos que todos vivam em paz, e
+somos obrigados a mandar um exercito receando, que nem um só inglez
+escape á morte! Fazei-lhe conhecer estas verdades, e perguntai-lhe se
+ainda querem teimar contra a justiça, que os ameaça.--O procurador
+respondeu:--
+
+--Tenho apresentado as mais essenciaes das vossas chapas aos sobrecargas
+inglezes; não despresam as graças do Suntó; acham-se promptos para
+retirar-se; mas não o podem fazer de repente. Os inglezes vieram com
+designio de nos auxiliar assim julgo ser mal fundada a vossa
+desconfiança. Não precisamos do vosso exercito; viria fazer maior damno
+á cidade. Sabeis quaes são as leis que regem este nosso estabelecimento:
+não deve entrar nelle, nem mesmo aproximar-se ás muralhas desta cidade
+tropa chineza, sem que a pessa, e é cousa, que ainda me não veio á
+lembrança. Não é justo imitares aos inglezes: estes diziam vir-nos
+auxiliar; trouxeram-nos incommodos e perdas.--
+
+É notavel a prudencia e a generosidade do Senado macaense para com os
+inglezes, quando estes só lhe dirigiam offensas! Ao mesmo tempo enviaram
+os sobrecargas a Bernardo Aleixo a carta seguinte.
+
+--A situação em que nos achamos é triste: temos recommendação do
+Almirante para evitar hostilidades e fazer tudo quanto possa
+reconciliar-nos com os chinezes. Se esta recommendação for confirmada
+aos manderins, por V. Exc. por certo diminuirá o seu rigor para com os
+inglezes.
+
+Nos maiores conflictos apparecia em publico o Magnanimo Arriaga e dava
+socego a todos. Offereceu-se para convencionar com os mandarins, sobre a
+retirada da espedição britanica sem efusão de sangue, donde resultou o
+tratado seguinte.
+
+Bernardo Aleixo de Lemos e Faria, Miguel de Arriaga Brun da Silveira, e
+o commandante das forças britanicas com os sobrecargas da selecta
+companhia, desejando retirar o destacamento inglez, decorosamente,
+ajustaram:
+
+1.^o O Ministro Arriaga tractará com os mandarins ácerca da retirada das
+forças britannicas, ficando o commercio inglez no mesmo estado em que se
+achava, antes da sua entrada nesta cidade.
+
+2.^o Exigindo este negocio a cooperação do Almirante, Miguel de Arriaga
+irá a Wampo-o, para se concluir alli do modo mais vantajoso ao vinculo
+das tres nações.
+
+3.^o Concluido este negocio cessará a prohibição de mantimentos para
+sustento dos inglezes.
+
+4.^o Os mandarins farão suspender immediatamente a marcha das tropas
+chinezas dirigidas a esta cidade.
+
+[Nota: (Dezembro 11.)]
+
+A presente convenção mostra a confiança, que o Ministro Arriaga tinha em
+domar o orgulho e o rigor dos mandarins. Parece impossivel, que só a
+politica a firmesa de caracter, e a urbanidade de um homem pudesse
+conter a justiça chineza, sustentada por 80 mil homens! A carta seguinte
+dirigida a Bernardo Aleixo, dá bem a conhecer o dominio que Arriaga
+tinha na vontade dos mandarins.
+
+(Dezembro 11)--Depois que assignámos a convenção esta manhã, fui ao
+pagode, onde me esperavam os mandarins: tive larga discussão com elles a
+fim de soltar difficuldades proprias a uma nação escrupulosa e
+desconfiada; todavia consentiram em tudo o que lhes propuz. Além disso
+capaciteios das boas intenções britannicas (apezar de terem sido más
+para nós); naquella intelligencia asseguraram-me ficar o commercio
+inglez no mesmo pé e systema antigo--Despedidos os mandarins; tornou
+Arriaga á cidade contente por ter concluido negocio tão espinhoso por
+meios tão honrosos para a nação portugueza, como lisongeiros para o
+negociador.
+
+Sabendo o mandarin de Hiang-san, que o novo governador Lucas José de
+Alvarenga, instava pela posse do seu emprego, remetteu ao procurador a
+chapa seguinte.
+
+--Da entrada dos inglezes até hoje, tem o antigo governador dirigido bem
+este negocio; agora constame, que o successor insta para tomar posse e
+que o Sr. Bernardo Aleixo de Lemos e Faria o pretende fazer: não é
+conveniente: os inglezes entraram no tempo do seu governo, nelle devem
+saír. Sabemos que o novo governador veio em navio inglez; quem nos
+assegura não ter elle correspondencia com esses homens? Não é justo nem
+conveniente tomar elle agora posse do governo. Em casos extraordinarios
+nem sempre podem seguir-se as leis ordinarias: quando os inglezes saírem
+de Macáo e ficarem todos em socego, far-se-ha tudo segundo a lei e os
+costumes.
+
+[Nota: (Dezembro 11 de 1808.)]
+
+No mesmo dia partio Miguel de Arriaga, no brigue do Senado, para
+Wam-poo. Em 24 horas chegou a bocca do rio Tygre: logo que da náo se
+avistou suspendeu esta e veio ao encontro do brigue. Em 14 de Dezembro,
+já de volta fez Arriaga, a participação seguinte a Bernardo
+Aleixo.--Assim que cheguei á falla da náo, fiz saber ao almirante, qual
+era a minha commissão: respondeu ter já ordenado o embarque das tropas,
+e que desejava ser grato ás officiosas declarações anteriormente feitas
+pelo governo de Macáo; pois eram veridicas e rasoaveis. Recebeu-me com a
+civilidade propria de sua pessoa: disse que esperava do governo de Mocáo
+o bom serviço de remover qualquer difficuldade, que de novo apparecesse.
+Despedi-mo-nos com as mesmas ceremonias da entrada, e não querendo elle
+ceder veio acompanhar-me ao portaló.
+
+Logo que o ministro Arriaga concluio a sua negociação com o almirante,
+dirigio-lhe o governador Bernardo Aleixo de Lemos e Faria a carta
+seguinte.
+
+(Dezembro de 1808.)--Os officios de V. S., de 11 e 14, manifestam o
+grande trabalho, que teve na conferencia com os mandarins: Pelo contexto
+dos mesmos se conhece a excessiva applicação e desvelo com que V. S.,
+além dos limites ordinarios, se empenhou em acalmar, com heroico
+patriotismo, a cruel revolução que ameaçava esta cidade.
+
+Com o seu grande zelo e reconhecido talento, fez V. S. o mais importante
+serviço á patria. Á força de tão efficazes e singulares deligencias
+_devem os inglezes_ fazer a sua retirada sem effusão de sangue, e os
+macaenses o socego da cidade.
+
+(Dezembro de 1808.)--No dia 16 começou a retirar-se o destacamento
+britannico; depois de se effeituar o embarque de tudo quanto lhe
+pertencia, cuidaram logo os sobrecargas em obter licença para
+desembarcar as suas mercadorias em Cantão. No 1.^o de Janeiro expedio o
+Suntó a chapa seguinte.
+
+--Qu-Hiung-Kuang, Suntó (vice-rei) de Cantão, faz saber a todos os
+europeos, que por desembarcarem soldados inglezes em Macáo jámais se
+lhes devia permittir commerciar neste imperio. Com tudo lembrando-nos
+que o seu rei offerecera tributo ao nosso imperador, relevamos a
+offensa, que nos fizeram pela sua entrada em Macáo. Agora depois de
+enviarem os soldados ás suas terras, pedem os sobrecargas, arrependidos,
+perdão com muita humildade, a fim de se lhes permittir commerciar neste
+imperio. Conhecendo a misericordía do nosso imperador, cedi ás suas
+repetidas supplicas, deixando que desembarquem as mercadorias, e possam
+vendelas nesta cidade. Devem receber esta graça como um beneficio
+extraordinario. Assim mostramos, que as leis chinezas tem enfraquecido
+com o tempo: no futuro haverão medidas mais rigorosas. Daqui em diante
+se algum europeo se atrever a quebrar as leis do imperio será lançado
+fora para sempre.
+
+Assim ficáram os inglezes no mesmo estado em que se achavam antes de
+tentarem invadir Macáo; perdendo a companhia enormes sommas dispendidas
+naquella empreza.
+
+Tendo demonstrado com os sobrecargas desistiram della, farei ver agora o
+motivo porque atentaram.
+
+A grande influencia de Bonaparte na peninsula, obrigou El-Rei D. João
+VI, a fechar os portos aos inglezes: esta medida fez julgar aos bretões,
+que Bonaparte se apossaria de Portugal, assim como o tinha feito da
+maior parte da Europa.
+
+Considirando-nos debaixo do jugo do novo Filippe, seu inimigo, seu
+inimigo, como havia sido o antigo, praticaram a lição tomada dos
+hollandezes; isto é pretenderam apossar-se do que ainda tinhamos no
+Oriente.
+
+Sendo os nossos estabelecimentos da Asia, interessantes aos inglezes,
+não lhes convém possuilos outra nação, que não seja a portugueza, já
+pela sua antiga alliança, já por não a temerem. Avisaram os agentes da
+companhia, para guardarem as terras, que nos pertenciam naquella parte
+do mundo, a fim de não serem tomadas pelos francezes; na esperança de
+que voltando Portugal á sua independencia, tudo ficaria como dantes; e
+se não podesse livrar-se do jugo francez, herdarem elles o que haviamos
+ainda no Oriente. Eis o motivo porque os inglezes invadiram Goa, e
+Macáo, cidades que immortalisaram sempre o nome portuguez.
+
+Accresce a estes successos da Europa, o desejo, que tinham os
+sobrecargas inglezes de possuirem um estabelecimento na China; julgavam
+desairoso ao seu poder, haverem os portuguezes na China o que os
+britannicos não podiam alcançar. Sendo ricos espalharam dinheiro na
+feira de Cantão, esperando que havendo alguma desintelligencia entre os
+portuguezes e os chinezes, estes os preferissem.
+
+Os lusos soffrem grande critica pelo que praticaram nas suas conquistas
+em seculos tenebrosos; com tudo são menos culpados do que os inglezes;
+por quanto estes não são menos violentos em seculo mais illustrado.
+Veja-se no quadro seguinte a differença de ambição e despotismo das duas
+nações.
+
+--Existe no Oriente imperio immenso, com mais de 100 milhões de homens
+de castas, côres, e raças differentes: é a India ingleza. A Soberania
+não pertence á nação; exemplo unico na historia do mundo; é propriedade
+de uma companhia de negociantes! Viram-se os cartiginezes enriquecidos
+pelo commercio, conquistaram a Sicilia e a Hespanha; mas a republica, o
+corpo inteiro da nação, foi quem adquerio pelas armas importantes
+possessões. Em tempos modernos, a companhia hollandeza adquirio grande
+esplendor; mas os seus estabelecimentos nas costas da Asia, eram
+armações fortificadas, e não colonias.
+
+A companhia ingleza sem perder o commercio dos portos de mar, estendeu o
+seu dominio a mais de trezentas leguas pelo interior das terras. As
+regiões mais ferteis e mais ricas do globo pertencem-lhe como fardos de
+fazenda amantoados em seus armazens. O chefe, e delegados, ostentam luxo
+asiatico, e reinam com orgulho.
+
+Especulações mercantis elevaram este thesouro de nova especie, que
+subsiste sem ser mantido como os outros pela gloria dos Principes,
+respeito dos povos, ou pelo tempo que toléra e consagra nefandas
+usurpações.
+
+As authoridades de tão grandes dominios, podem dizer-se, que são
+vendidas em leilão, o mais vil inglez, em tendo algumas livras e
+comprando acções da companhia pode ficar membro desta sociedade, que tem
+fortalezas, náos, e mais de cem mil soldados; além disso pode vir e
+dirigir este poder colossal, que tem destruido o imperio do Grão-Mogol,
+o do Teppo-Sail, e ameaçado algumas vezes o Sofi da Persia e Grande
+Lama[41]!
+
+Os portuguezes combateram na India os sectarios de Mafoma livrando desse
+modo a seus pacificos habitantes do captiveiro turco; os inglezes
+servem-se dos braços sarracenos para agrilhoar os mal fadados bramas.
+
+Assim vê-se que se nessa época tenebrosa os lusitanos obraram prodigios
+na India, vingando sobre os turcos os males que lhe haviam soffrido em
+nossa terra, hoje não desmerecemos na ordem dos nossos maiores; por
+quanto o Suntó disse:--Nenhuns outros europeos alcançarão (por merito)
+os privilegios concedidos aos portuguezes.--Os sobrecargas confessaram,
+que só o Governo de Macáo podia remover as difficuldades e miserias (que
+elles tinham motivado): o Almirante Drury tambem disse:--Estou muito
+obrigado ao governo de Macáo pelas suas declarações anteriores; por
+quanto eram veridicas e justas.--Taes declarações confirmam a dignidade
+do caracter Luzitano, em todos os tempos e logares.
+
+Sabendo-se em Londres a conducta daquelles sobrecargas, foram outros
+nomeados: chegando a Macáo esconderam o que se havia passado alli em
+1808, e fallaram do que viram praticar em 1809, pelo modo seguinte.--As
+patrioticas applicações e desvelos dos macaenses, adquiriram a esta
+cidade muitas vantagens; ao governo portuguez gloria; e a todas as
+nações commerciantes a liberdade dos mares da China[42]. Os povos
+chinezes congratulam-se com a extincção do inimigo que por mais de 20
+annos os havia opprimido, por serem as forças maritimas do imperio
+insufficientes para destruilo.--
+
+Accrescentarei o que os sobrecargas não poderam escrever: não foi menor
+a vantagem de Macáo e a gloria da nação portugueza, lançar fora daquella
+cidade as tropas inglezas, que della se pertendiam apossar.
+
+Vendo uma memoria do Sr. Lucas José de Alvarenga, Governador que fôra de
+Macáo, sou obrigado a contestala para desagravar os macaenses das
+offensas que alli lhes derige aquella triste e miseravel jactancioso.
+
+Imprimio a sua memoria no Rio de Janeiro em 1828, e diz que lhe dera
+motivo a isso outra impressa em Lisboa em 1824; por se achar nella o seu
+nome inglorio. Sendo eu quem a escreveu, devo mostrar a razão de não
+fallar em louvor do Sr. Lucas.
+
+Saí de Macáo para Lisboa em janeiro de 1808, e o Sr. Lucas entrou
+naquella cidade em Setembro do mesmo anno. Tornei a Macáo em Novembro de
+1810, já elle tinha saido dalli em Abril desse anno. Querendo recolher
+factos sobre a extincção dos piratas, a fim de completar o meu opusculo,
+tomeios das actas do Senado, e das pessoas conspicuas daquella cidade.
+Haviam em tão pouca conta este cavalheiro, que não se atreveram a
+confiar-lhe o governo das armas senão depois de fazerem retirar as
+tropas inglezas, como fica demonstrado, no officio do mandarim de
+Hiang-san.
+
+O Sr. Lucas, a pag. 4 da sua memoria diz serem verdadeiros os factos
+lançados na que se imprimira em Lisboa; isto é, 1.^o O zelo e a
+actividade do Ministro Arriaga; 2.^o o valor das pessoas empregadas na
+esquadra; 3.^o a existencia dos tractados; 4.^o a entrega dos piratas
+5.^o a invasão e a retirada das tropas inglezas; mas offende-se do
+silencio guardado a seu respeito; e julga haver nesse procedimento algum
+misterio.
+
+Assim julga o Sr. Lucas não haver exactidão nesta memoria por não fallar
+na sua entrada em Macáo, no dia da sua saída, e talvez naquelle em que
+fôra encontrado na Sé vestido com trajos de mulher. Confesso não ter
+fallado do Sr. Lucas para não ennodoar um escripto consagrado ás
+virtudes Luso-Macaenses, com a irregular conducta de tal governador.
+
+Como fallaria em louvor de um individuo desprezado não só pela sua
+conducta, mas tambem pela sua cobardia? O Sr. Lucas por fraco obstou ao
+mais glorioso triunfo que podiamos obter em recompensa de tantas e tão
+longas fadigas: obstou que o chefe dos piratas se entregasse com toda a
+sua esquadra no porto de Macáo. Destas e outras acções do Sr. Lucas
+devia eu fallar, se escrevesse a historia de Macáo, mas eu apenas me
+encarreguei de levar á posteridade dois factos dessa historia, a
+destruição dos piratas, e o desembarque e retirada das tropas
+britanicas. Não fazendo o Sr. Lucas cousa boa digna de notar-se, julguei
+fazer mercê ao Sr. Lucas, deixando-o no escuro em que alli se lançou.
+
+Sendo este opusculo destinado a louvar as acções dos Luso-Macaenses, não
+devia apparecer entre elles um brasileiro empenhado em fazer o contrario
+do que os outros praticavam. Como se fallaria em louvor de um
+governador, cuja administração foi tempo de martyrio para os macaenses,
+não só pela falta de caracter do Sr. Lucas, mas tambem pela grande
+rapina do ouvidor Peixoto?
+
+É verdade innegavel ser tudo quanto alli se praticou de maravilhoso,
+devido ao genio extenso e luminoso de Miguel de Arriaga. Assim o provam
+as actas do Senado, as cartas de Cam-pau-sai, as de Bernardo Aleixo, e o
+hymno cantado na presença dos bons Macaenses, pelo benemerito cidadão
+José Baptista de Lima, no dia em que estes celebraram o triumfo de
+Miguel de Arriaga pela extincção dos piratas.
+
+Quando fallei, em 1824, na 1.^a parte desta memoria, ácerca do bom
+governo Macaense referime á sua fórma e aos annos em que influio nelle
+Miguel de Arriaga, e Bernardo Aleixo. Agora vejo, com admiração, o Sr.
+Lucas arrogar a sí os louvores de outros, quando elle ainda nem ao menos
+tinha visto Macáo!
+
+O Sr. Lucas diz, a paginas 23 de sua memoria:--Sei em ultima analyse que
+não sei nada, e não sou nada--e a paginas 7 diz:--Tendo eu sido autor de
+todos os negocios publicos e mui particularmente este, sería bastante
+para dar idéa do objecto contestado, e da falta de exactidão da memoria
+impressa em 1824, do espirito, conhecimentos, e fins com que foi
+escripta.--
+
+O homem que não é nada, e não quer nada pretende roubar a gloria dos que
+foram alguma cousa; contestar com falsidades, documentos legaes e
+autenticos. Confessa a veracidade dos factos impressos nesta memoria, e
+censura o seu autor por não lhe dar a elle o que pertencia a outros! Eis
+a falta de exactidão encontrada pelo Sr. Lucas: dahi nasce a sua
+desconfiança ácerca do espirito, conhecimentos e fins com que ella fôra
+escripta.
+
+Póde viver certo de que o espirito foi patriotico; os conhecimentos
+extraídos, parte das actas do Senado, parte adquerida na presença dos
+factos; e os fins limitaram-se no gosto de levar á posteridade os factos
+macaenses.
+
+Arriaga, Bernardo Aleixo, Pereira Barreto, Alcoforado, e outros muitos
+empregados naquella empreza, já o mundo os havia perdido quando tive a
+honra de publicar pela imprensa as suas virtudes e proezas; o Sr. Lucas
+não sendo nada e não querendo nada, esperou que elles morressem para
+denegrir não só as proezas, mas tambem as virtudes daquelles varões
+illustres!
+
+--Não posso deixar passar semelhante expressão, diz o Sr. Lucas a pag.
+11, por conter noções erroneas e falsas em perjuizo da honra e da gloria
+que me provem do resultado de todos os brilhantes feitos na época
+sómente do meu governo, e cujo brilhantismo principiou com a minha
+chegada e acabou com a minha retirada!--
+
+Ainda senão vio maior jactancia. O Sr. Lucas chega aponto de alterar a
+fórma do governo só a fim de roubar a gloria que não lhe pertence.
+
+É elle mesmo quem confessa, apesar do roubo que pretende fazer, a
+paginas 42 da sua memoria, não ter influencia no governo.--O Senado, diz
+elle, projectou mandar a galera Ulises ao Rio de Janeiro, afim de
+cumprimentar El-Rei; oppuz-me; com tudo a galera proseguio--Assim
+destroe o mesmo Sr. Lucas as suas argucias.
+
+Em quasi todas as paginas da sua memoria lançou argumentos
+contra-producentes.--Chegaram os piratas pela sua quantidade e força,
+diz elle a paginas 43, a dominar os canaes de Wampo-o; então por
+circunstancias, apesar das ordens superiores que me embaraçavam a
+fazelo, expedi ordens em Setembro de 1809 para serem batidos. O Sr.
+Lucas, em seus improvisos desacredita os mesmos a quem pretende elogiar.
+As ordens superiores referem-se ao Vice-Rei de Goa: porque motivo daria
+este ordem para não se atacar os piratas? Estaria comprado por elles?
+Que mais é preciso para saber-se que o Sr. Lucas não cooperara cousa
+alguma para a destruição dos piratas, elle mesmo confessa que fôra
+obrigado a mandar ordens para serem batidos os piratas?
+
+Em verdade o Senado, de quem Arriaga éra a alma, foi quem o obrigou a
+mandar aquella ordem; logo fica demonstrado pelo mesmo Sr. Lucas, que o
+brilhantismo daquella época não lhe pertence, pois até para expedir a
+ordem para serem batidos os piratas foi obrigado pelo Senado.
+
+É certo, diz elle a pag. 46, que um dia depois que recebi parte do
+commandante da esquadra, em que dava por verificada a entrega de
+Cam-pau-sai, partio Arriaga para a bocca do rio Tygre, dizendo ír a
+negocio particular, e é certo que indo, esteve com o cabeça dos piratas;
+e é certo tambem que este logo se retirou com toda a sua esquadra; e que
+a entrega se não fez, quando a parte do commandante (Alcoforado) a dava
+por verificada!--
+
+Que mais se poderia dizer em desabono do Sr. Lucas, do que elle mesmo
+escreveo? Pois quem diz fizera tudo, não sabendo nada! Quem diz que o
+brilhantismo de Macáo principiara com a sua chegada alli, e acabara com
+a sua retirada, confessa que tendo uma esquadra vencedora debaixo das
+suas ordens, deixara fugir o inimigo depois de se ter já entregado?
+Então a quem comprou Arriaga na sua viagem á bocca do rio Tigre, ao
+Chefe da esquadra portugueza, ou ao chefe dos piratas? Compraria ambos?
+Tudo aquillo é falso; mas quando fosse verdadeiro, provaria que éra
+Miguel de Arriaga quem predominava em Macáo.
+
+Os documentos improvisados pelo Sr. Lucas; e o Officio dirigido ao
+Vice-rei, são partos do seu estro, quando se achava dominado pelo furor
+de elogiar-se. O enviado inglez, no Rio de Janeiro, servio-se delles
+para desacreditar Arriaga, e Bernardo Aleixo na opinião de El-Rei; mas
+este desmascarou a intriga, premiou os macaenses, e castigou o Vice-rei,
+por ter mandado a Macáo o Sr. Lucas, que desde então já mais obteve
+emprego algum.
+
+Este cavalheiro além de pretender a gloria alheia, deixa ver na sua
+memoria o azedume com que a escrevêra! Tentou deprimir os macaenses, e
+denegrio a sua estirpe. Um brasileiro jámais deve fallar em desabono
+ácerca de colonias povoadas por degradados; por quanto assim que Pedro
+Alves Cabral descobrio -----File: 0166.png---\\\\\\-----o Brazil
+despejaram-se as masmorras de Portugal. Quando nossos maiores chegaram a
+edificar uma cidade no imperio chinez, os criminozos de todo o reino
+eram diminutos para domar a sanha dos butecudos e tupinambas nos sertões
+do Brazil.
+
+Timor é o unico presidio que temos além da Taprobana. Só Camões, pelo
+respeito devido ao genio, obteve ficar em Macáo servindo o emprego de
+Juiz dos orfãos naquella cidade, rica pela salubridade do clima, pelos
+alimentos, pela forma do seu governo, e pelas virtudes de seus
+moradores.
+
+O Sr. Lucas não escreveu para fornecer á historia cousas proprias a
+fazer os homens melhores; pertendeu injuriar os macaenses com despreso
+da razão e da justiça. As providencias que ele diz foram a Macáo em
+1783, são impoliticas e desconcertadas: que outra cousa se poderia
+esperar de dois theologos no governo de um reino? (Martinho de Mello, e
+um frade) visões, argucias, e fogueiras.
+
+Fallava Martinho de Mello, naquella época, dos incontestaveis direitos
+que tem a corôa de Portugal sobre Macáo! Que dirá o imperador da China,
+a quem pagamos fóro? Mas quando assim fosse, quem sustentou ha perto de
+300 annos esses direitos? Degradados? Por certo não. Martinho de Mello
+era tão hospede na historia daquelle paiz, que ignorava haver um decreto
+feito em 31 de Agosto de 1629, que prohibe a qualquer degredado, que
+alli se refugie, servir os encargos da cidade, e mesmo de eleger para
+elles.
+
+--O Senado de Macáo, composto de degradados que para alli se refugiam,
+diz Martinho de Mello, ou de outros similhantes, ignorantissimos em
+materia de governo, não lhe importa cousa alguma que diga respeito a o
+decoro nacional, nem ao incontestavel direito da soberania, que Portugal
+tem áquelle importante dominio!--
+
+Fallar assim a povos residentes na China, não é só grande impolitica mas
+tambem supina ignorancia das materias de governo. Graças aos generozos
+macaenses, que despresando as invectivas dos sejanos, tem sempre
+concorrido para tudo quanto é decoroso e interessante a Portugal. O
+procedimento daquelle ministro deixa ver que elle tinha mais carencia de
+luzes e de virtudes, do que os homens a quem offendeu.
+
+Nem Martinho de Mello, nem o Sr. Lucas (da viola) jámais poderiam fazer
+as proezas que em todos os tempos obraram os illustres macaenses. Thomaz
+Vieira, natural de Macáo, sendo governador daquella cidade em 1627,
+vendo-a sitiada pelos hollandezes, armou seis pequenas embarcações e foi
+accommettelos. Abordou uma grande náo, que tomou, fazendo horrivel
+mortandade no inimigo; os restantes fugiram deixando triumfante o
+denodado Vieira.
+
+Os macaenses sempre honraram e prestaram a Portugal, já fazendo despezas
+avultadas com os nossos embaixadores ao imperador da China, já mandando
+generosos presentes á capital do reino luso, já derramando o proprio
+sangue a fim de limpar as costas da China de piratas, já na defeza dos
+muros levantados por seus maiores.
+
+Os governadores exigentes das providencias, que alli mandou Martinho de
+Mello, eram similhantes aos que desolaram Macáo em 1626, 1709, 1747, e
+mesmo ao Sr. Lucas seu elogiador aprol da tyrannia. Para se avaliar dos
+homens que pedem taes providencias, bastará ler a carta seguinte do
+Conde de S. Vicente. Tem por objecto responder a El-Rei D. Afonso V,
+sobre o oitavo que mandava receber, de todos os rendimentos
+particulares; tributo imposto em 1666 pelo vice-rei Antonio de Mello e
+Castro.
+
+--Sr.: a India ve-se de muito longe, e ouve-se mui tarde: assim não me
+espanto da fórma com que muitas ordens se expedem, nem do mal com que
+outros se guardam[43]. Já um grande ministro disse:--A jurisdicção dos
+Reis de Portugal apenas chega a Santarem; dahi para cima tudo é dos
+corregedores--Na India a dos vice-reis não chega a tanto; o mais é dos
+capitães das fortalezas! Os gentios não tem fazendas, os canarins apenas
+cultivam para comer; assim não ha de quem se receba esse oitavo. Das
+pedras não se tira mel. Vossa Magestade deve mandar á India quem lhe
+faça desses impossiveis, que eu não sei mais do que chorar as miserias,
+que vejo. Se isto vai de mim, venha outro; se nasce dos povos, tenha
+Vossa Magestade delles piedade. Goa 26 de Janeiro de 1668.
+
+Se todos os vice-reis fallassem deste modo aos imperantes, não íriam a
+Macáo aquellas offenças em logar de providencias; os povos seriam
+felizes, os portuguezes respeitados, e os Alvarengas mais commedidos.
+
+Julgo ter dito quanto basta para fazer arrepender o Sr. Lucas de querer
+arrogar asi a honra, que não lhe pertence, e de ser ingrato aos
+macaenses que tanto lhe soffreram. Para o Sr. Lucas avaliar, com mais
+conhecimento de causa, o espirito e fins com que fora escripta esta
+memoria, ahi lhe remetto a copia fiel de uma carta que dirigi ao Senado
+de Macáo em 1826, assim como a sua resposta.
+
+
+ _Carta dirigida ao Senado de Macáo._
+
+Senhores, ainda que separado de vós ha doze annos pela distancia immensa
+da Europa á China, o meu espirito esteve sempre comvosco. Havendo no
+coração o germen de todas as virtudes, e recebido da natureza alma docil
+ás suas impressões, jámais poderia esquecer-me das sublimes qualidades
+que possuis. Deviam ser escriptas por outro Andrade como Jacinto Freire,
+mas tivesteis a desventura de viverdes em seculo diminuto em escriptores
+capazes de dar vida ás proezas dos heroes.
+
+--Grandes e magnificos foram sem duvida os feitos dos athenienses; mas
+quanto a mim, diz Salustio, menores do que a fama. Havendo alli muitos e
+grandes escriptores, as proezas dos athenienses foram celebradas no
+mundo pelas maiores. Assim o valor dos que as fizeram passa por tal,
+qual nos seus exagerados escriptos o figuraram esses preclaros
+engenhos[44]--Em nosso tempo não acontece o mesmo; para o mundo saber
+das vossas proesas na carreira da gloria servio-se da minha tosca penna.
+
+O livro que vos offereço é pequeno em volume, porém grande em seu
+objecto: basta conter os grandes feitos que praticasteis na extincção
+dos piratas. Na segunda parte que ficou a imprimir-se em Lisboa ainda
+alcançasteis mais gloria. Na primeira realçam os vencedores de
+Cam-pau-sai, na segunda brilha o Senado com a expulsão dos inglezes.
+Porém não é elle a mesma cousa, o Leal Senado de Macáo, e os cidadãos
+macaenses? Nesse tempo luctuoso viviam todos animados do mesmo espirito;
+a todos se ouvia a mesma voz:--Morrer, dizeis, ou mostrar que
+descendemos dos Castros e dos Almeidas.--
+
+Desculpai, Srs., se desafio a vossa mágoa recordando-vos os illustres
+collegas, que por longa serie de annos regeram com vosco esta cidade.
+Julgo-os com direito á minha lembrança e aos vossos elogios. Porque
+motivo usarão os oradores celebrar só os poderosos? Por que não louvam
+elles as pessoas abalisadas em merito e virtudes? Se é preciso celebrar
+sempre os grandes, porque não se lembram tambem dos homens que foram
+uteis? Não será digno de louvor o magistrado que usando da espada de
+Astrêa, por muitos annos, o fez com tanta prudencia, que não ferio
+cidadão algum? Magistrado que havia coração tão sensivel e humano, que
+não se limitando em fazer a paz e a ventura de uma cidade, pretendia
+abranger com esses dons á maior parte do mundo? Que abrazado no sancto
+amor da patria, empenhava quanto possuia para engrandecela e
+glorificala? Em fim o varão forte que assaltado por intrigas e calumnias
+de ingratos, capazes de enfraquecer o espirito de Zeno, as supportava de
+animo tranquillo? Vós sabeis que Miguel de Arriaga possuio estas
+sublimes qualidades.
+
+Quem, Senhores, deixará de louvar o illustre José Joaquim de Barros,
+quando nesse mesmo recinto, agitando-se a questão se deviam, ou não ter,
+accesso os inglezes, exclamou.--Voto que não se deixem entrar; desse-me
+o lugar mais arriscado para defendelo; se a fortuna me for adversa,
+gostoso darei a vida em honra da Patria[45].
+
+Qual de vós, macaenses, nessa crise perigosa houve differentes
+sentimentos? Todos repulsasteis o inimigo por modo singular e
+extraordinario.
+
+Do monumento consagrado á vossa memoria, offereci um exemplar ao Sr. D.
+João VI; dizendo-lhe que certo de em parte alguma depositar melhor as
+proezas macaenses do que em suas reaes mãos, alli lhe entregava feitos
+praticados em dias, bem similhantes aos do feliz tempo em que os
+lusitanos pelo caminho da virtude subiram ao templo da immortalidade.
+Fiquei satisfeito por saber depois, que El-Rei apreciára o livro, onde
+se acham exaradas as proezas macaenses; porém será completo o meu gosto
+se as julgardes levadas á posteridade por maneira digna de vós.
+
+Em verdade, Senhores, é preciso ser estupido para não admirar o vosso
+animo, e barbaro para com o vosso exemplo não sentir o estimulo da
+virtude. Coimbra, Mattos, Limas, e outros, possuiram virtudes perfeitas:
+serviram por mais de trinta annos os encargos desta cidade por modo, que
+nem Focio, ou Aristides o fez melhor em Athenas[46].
+
+Macaenses, se os louvores provém de interesse, devem despresar-se; se a
+lisonja tenta enganar os poderosos, deve temer-se; porém quando a
+admiração tributa homenagem á virtude deve estimar-se.
+
+Assevero-vos que nesse opusculo liguei sempre a minha alma ás vossas
+acções; se lhes faltam pensamentos animados, por mingua de genio, tem o
+grito da verdade, unico preciso para immortalisar-vos.
+
+
+ _Resposta._
+
+O Senado recebeo com satisfação a vossa memoria, por ver nella
+immortalisados os feitos macaenses, na estincção dos piratas, que
+infestavam o nosso arquipelago. Em verdade vós ornasteis o vosso e o
+nosso quadro com as flores e bellesas de Camões e dos Andrades. O Senado
+não perderá occasião, em que vos possa ser util em reconhecimento de tão
+precioso presente.
+
+_Cartorio do Senado, 16 de Novembro de 1826_
+
+
+ FIM.
+
+
+
+Notas:
+
+[1] Sacrifico a minha vida e fortuna á vossa (dizia Cicero ao povo
+Romano); só exijo em recompensa conserveis a memoria dos meus serviços
+
+ _Catilinaria IV._
+
+[2] M. Thomas.
+
+[3] Diniz Ode XV.
+
+[4] O reprehensivel descuido dos nossos auctores agora o pagamos por
+castigo, ignorando os nossos proprios successos; e sujeitando-nos a
+crêr, e a estimar delles sómente aquella pequena parte, que nos quizeram
+contar os inimigos, mais obrigados da dôr, que da verdade.
+
+ _D. F. M. C. 26._
+
+[5] Era este Illustre Varão de mediana altura, reforçado, largo de
+ombros, mui cabelludo e tinha olhos amarellos.
+
+[6] Navio de 20 bombardas com 300 homens.
+
+[7] _Camões, C. X. Est 82_
+
+[8] Por estas acções heroicas, ainda que barbaras, pode julgar-se o
+valor dos inimigos que tinhamos a vencer.
+
+[9] Ode XI. Epodo 4
+
+[10] Ode XV. Dinis.
+
+[11] Embarcação de 20 tonelladas.
+
+[12] Camões, C. X. Est. 12 e 13.
+
+[13] Jacintho F. de Andrade.
+
+[14] Cam-pau-sai flagelou as provincias meridionaes do Imperio com
+repetidos tributos; e saques aos remissos.
+
+[15] Foi mui reprehensivel o modo porque obrigaram Arriaga a dacontas do
+dinheiro, que seus inimigos divulgavam ter elle levado dos cofres
+publicos, em sua administração; sabendo-se em Macáo, os sacreficios que
+elle tinha feito em honra da Nação e a bem daquella cidade. Graças
+eternas sejam dadas á sua memoria. Além de não dever nada aos cofres
+publicos, (como mostrou a Commissão nomeada para lhe tomar contas) ficou
+sendo credor de 11 contos de réis; o que foi publico nas gazetas de
+Macáo.
+
+[16] Com especialidade F. A. P. Thovar e Felis José Coimbra.
+
+[17] Diuiz Ode 34
+
+[18] Camões, Canto 2, Est. 100.
+
+[19] Duarte Nunes de Leão, C. dos reis de Portugal.
+
+[20] L. J. de Alvarenga, queixa-se do mysterioso silencio guardado a seu
+respeito nesta memoria. No fim della direi qual foi o mysterio.
+
+[21] No suburbio da cidade.
+
+[22] Camões, Canto 1. Est X.
+
+[23] Este paragrafo foi composto no dia 9 de Maio de 1824; dia em que o
+Senhor D. J. VI proclamou aos portuguezes de bordo da Nao Windsor
+Castle; tomou aquelle asilo para escapar aos malevolos que o tinham
+cercado desde o dia 30 de Abril.
+
+[24] Sá de Miranda.
+
+[25] Allud e a uma maxima de confucio.
+
+[26] O Imperador observou a seguinte maxima de Confucio.--Respeitos que
+te levam vantagem por natureza.
+
+[27] Promenade autour du monde, em 1817, 1818, 1819, 1820, Carta 68.
+
+[28] Cidade portugueza na ilha de Timor. Procedia este contentamento por
+terem saído de Coupang, cidade hollandeza na parte occidental da mesma
+ilha aonde Arago e seus companheiros foram mal recebidos.
+
+[29] Duarte Pacheco, depois de fazer prodigios na Asia, a inveja, a
+calumnia e a intriga trouxeram-o da Africa a Lisboa em ferros.
+Albuquerque, de-pois de immortalisar a nação a que pertencia, foi
+victima das mesmas furias. Não admira ter Alcoforado em premio de seus
+ma-Portantes serviços o governo da pestilente ilha de Timor, onde morreu
+na flor da idade.
+
+[30] Como estariam hoje os brazileiros se Pedro Alves Cabral levasse
+taes ordens.
+
+[31] Vede se esses homens que prestaram serviços, para terem patria,
+recusaram as enormes pensões com que pertendem inchar!
+
+[32] No protesto de Bernardo Aleixo se verá o espirito da intimação.
+
+[33] Esta correspondencia foi extrahida, por integra, do Senado, mas é
+dada aqui em espirito.
+
+[34] O Governador éra o orgão do Senado.
+
+[35] Já em 1802 quizeram os Inglezes abusar dos nossos tractados com o
+governo Chinez.
+
+[36] É notavel o modo civíl e urbano do governo de Macáo, e as maneiras
+asperas de Roberts, etc. companhia.
+
+[37] Tinha chegado na antevespora ordem de Goa para entrarem os inglezes
+em Macáo!
+
+[38] Note-se como fallam os mandarins a nosso respeito. Eis o que
+prometti na introducção da primeira parte.
+
+[39] Admira não dizer que os mandaria para Botany-bay.
+
+[40] Bernardo Aleixo apelou para o tempo: esse inflexivel juiz dos
+homens e das cousas já castigou os seus detractores.
+
+[41] M. de Levis.
+
+[42] Juizo dos sobrecargas, mandado a Londres.
+
+[43] É boa resposta ás providencias de Martinho de Mello.
+
+[44] Versão do Sr. J. V. B. Feio.
+
+[45] Varão septuagenario.
+
+[46] Catão o censor, não possuio tão grande somma de virtudes perfeitas,
+como havia o benemerito cidadão Felis José Coimbra.
+
+
+
+
+Lista de erros corrigidos
+
+
+Aqui encontram-se listados todos os erros encontrados e corrigidos:
+
+
+ +----------+----------------------+---------------------------+
+ | | Original | Correcção |
+ +----------+----------------------+---------------------------+
+ |#pág. 8| Chang-ti | Cham-hi(*) |
+ |#pág. 12| Tai-te-sang | Tai-te song(*) |
+ |#pág. 12| qualqner | qualquer |
+ |#pág. 13| natueza | natureza |
+ |#pág. 14| Abuquerque | Albuquerque |
+ |#pág. 17| fizerão della | fizerão delle(*) |
+ |#pág. 18| cidadadãos | cidadãos |
+ |#pág. 19| periecios | periecos |
+ |#pág. 25| 1585 | 1805(*) |
+ |#pág. 26| Ciadde | Cidade |
+ |#pág. 29| bribue | brigue(*) |
+ |#pág. 29| Bareto | Barreto |
+ |#pág. 31| argino | argivo(*) |
+ |#pág. 35| Com paráos | Cem paráos(*) |
+ |#pág. 36| illultres | illustres |
+ |#pág. 37| aubiram | subirão(*) |
+ |#pág. 37| tinha | tinhão(*) |
+ |#pág. 42| Wam-pao | Wam-poo(*) |
+ |#pág. 44| para ser | por ser(*) |
+ |#pág. 44| mais | mui(*) |
+ |#pág. 45| formaram | formarão(*) |
+ |#pág. 46| 8^o | 3^o(*) |
+ |#pág. 51| fusão | effusão(*) |
+ |#pág. 56| espedadaçados | espedaçados |
+ |#pág. 56| os velas | as velas |
+ |#pág. 58| Officiciaes | Officiaes |
+ |#pág. 64| a a honra | a honra |
+ |#pág. 65| mercantes | marcantes(*) |
+ |#pág. 65| a Chum-pin | para Chumpin(*) |
+ |#pág. 67| alguns do seus | alguns dos seus |
+ |#pág. 74| snummameute | summamente |
+ |#pág. 75| Cam-paui-sai | Cam-pau-sai |
+ |#pág. 79| pala honra | pela honra |
+ |#pág. 83| nommme | nomme |
+ |#pág. 87| Virtudes | virtudes que possuia(*) |
+ |#pág. 87| fazia | faria(*) |
+ |#pág. 88| habitautes | habitantes |
+ |#pág. 88| tome a agua | tome agoa(*) |
+ |#pág. 88| Gragas | Graças |
+ |#pág. 91| as quaes tem | as que tem(*) |
+ |#pág. 91| reconhcimento | reconhecimento |
+ |#pág. 96| pessoas | possesões(*) |
+ |#pág. 96| Septemero | Septembro |
+ |#pág. 98| vosas tropas | vossas tropas |
+ |#pág. 101| quã o | quão |
+ |#pág. 103| a tractada | tratada(*) |
+ |#pág. 105| presidente | Ministro(*) |
+ |#pág. 105| lares | os lares(*) |
+ |#pág. 106| nos macaenses | nos peitos macaenses(*) |
+ |#pág. 106| a persuadilos | e persuadilos(*) |
+ |#pág. 106| por missão | permissão(*) |
+ |#pág. 106| e afiançou | afiançou(*) |
+ |#pág. 106| Francico | Francisco |
+ |#pág. 107| quebar-se | quebrar-se(*) |
+ |#pág. 109| enentrarem | entrarem |
+ |#pág. 110| qnanto | quanto |
+ |#pág. 110| tortaleza | fortaleza |
+ |#pág. 112| amim | a mim |
+ |#pág. 112| A inda | Ainda |
+ |#pág. 114| respoderam | responderam |
+ |#pág. 114| cencedido | concedido |
+ |#pág. 114| virtudes | virdes(*) |
+ |#pág. 117| fraududulenta | fraudulenta |
+ |#pág. 117| horririvel | horrivel |
+ |#pág. 117| da consumada | da sua consumada(*) |
+ |#pág. 119| foi uma complicação | foi uma a complicação(*) |
+ |#pág. 122| çom elle | com elle |
+ |#pág. 123| o 1.º § acaba no ponto final(*) |
+ |#pág. 130| obedecer | obedecerem(*) |
+ |#pág. 133| Winistro | Ministro |
+ |#pág. 133| innlezes | inglezes |
+ |#pág. 143| miseraravel | miseravel |
+ |#pág. 143| em Lx.a impressa | impressa em Lisboa(*) |
+ |#pág. 144| o Prezidente | o Ministro(*) |
+ |#pág. 147| de que este espirito | de que o espirito(*) |
+ |#pág. 147| adquerida | adqueridos(*) |
+ |#pág. 148| fróma | fórma |
+ |#pág. 149| que elle | que o Sr. Lucas(*) |
+ |#pág. 149| cooperarem | cooperara(*) |
+ |#pág. 149| do que a sua mesma | elle mesmo |
+ | | confissão de que fôra| confessa que fôra(*) |
+ |#pág. 151| encontrado | entregado(*) |
+ |#pág. 151| o Chefe | ao Chefe(*) |
+ |#pág. 151| prova | provaria(*) |
+ |#pág. 152| butucudos Tupinambas | butecudos e tupinambas(*) |
+ |#pág. 152| e o Arcebispo | e um frade(*) |
+ |#pág. 153| e mesmo eleger | e mesmo de eleger(*) |
+ |#pág. 155| Afonso V. | Afonso VI. (*) |
+ |#pág. 155| que outros guardam | com que outros se |
+ | | | guardam(*) |
+ |#pág. 158| Julgo-vos | Julgo-os(*) |
+ |#pág. 161| neste apuzento | neste opusculo(*) |
+ | | | |
+ |#nota 15| oomo | como |
+ |#nota 17| 24 | 34(*) |
+ |#nota 36| civíi | civíl |
+ +----------+----------------------+---------------------------+
+
+
+(*) Correcções efectuadas com base na errada da obra original.
+
+Foram mantidas as variações das palavras "La Perouse", "Le Perou-se",
+"La Perou-se"...
+
+Na página 85, não existe ponto 3º//nota 3.
+
+A pontuação foi corrigida de acordo.
+Exemplo: colocação de pontos finais em vez de vírgulas no final de frases.
+
+
+
+
+
+End of the Project Gutenberg EBook of Memoria dos feitos macaenses contra os
+piratas da China, by José Ignacio de Andrade
+
+*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK MEMORIA DOS FEITOS MACAENSES ***
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+
+
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+Gutenberg-tm electronic works if you follow the terms of this agreement
+and help preserve free future access to Project Gutenberg-tm electronic
+works. See paragraph 1.E below.
+
+1.C. The Project Gutenberg Literary Archive Foundation ("the Foundation"
+or PGLAF), owns a compilation copyright in the collection of Project
+Gutenberg-tm electronic works. Nearly all the individual works in the
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+
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+unless you comply with paragraph 1.E.8 or 1.E.9.
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+1.E.8. You may charge a reasonable fee for copies of or providing
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+that
+
+- You pay a royalty fee of 20% of the gross profits you derive from
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+ you already use to calculate your applicable taxes. The fee is
+ owed to the owner of the Project Gutenberg-tm trademark, but he
+ has agreed to donate royalties under this paragraph to the
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+ must be paid within 60 days following each date on which you
+ prepare (or are legally required to prepare) your periodic tax
+ returns. Royalty payments should be clearly marked as such and
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+ address specified in Section 4, "Information about donations to
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+
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+ destroy all copies of the works possessed in a physical medium
+ and discontinue all use of and all access to other copies of
+ Project Gutenberg-tm works.
+
+- You provide, in accordance with paragraph 1.F.3, a full refund of any
+ money paid for a work or a replacement copy, if a defect in the
+ electronic work is discovered and reported to you within 90 days
+ of receipt of the work.
+
+- You comply with all other terms of this agreement for free
+ distribution of Project Gutenberg-tm works.
+
+1.E.9. If you wish to charge a fee or distribute a Project Gutenberg-tm
+electronic work or group of works on different terms than are set
+forth in this agreement, you must obtain permission in writing from
+both the Project Gutenberg Literary Archive Foundation and Michael
+Hart, the owner of the Project Gutenberg-tm trademark. Contact the
+Foundation as set forth in Section 3 below.
+
+1.F.
+
+1.F.1. Project Gutenberg volunteers and employees expend considerable
+effort to identify, do copyright research on, transcribe and proofread
+public domain works in creating the Project Gutenberg-tm
+collection. Despite these efforts, Project Gutenberg-tm electronic
+works, and the medium on which they may be stored, may contain
+"Defects," such as, but not limited to, incomplete, inaccurate or
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+1.F.2. LIMITED WARRANTY, DISCLAIMER OF DAMAGES - Except for the "Right
+of Replacement or Refund" described in paragraph 1.F.3, the Project
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+fees. YOU AGREE THAT YOU HAVE NO REMEDIES FOR NEGLIGENCE, STRICT
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+or cause to occur: (a) distribution of this or any Project Gutenberg-tm
+work, (b) alteration, modification, or additions or deletions to any
+Project Gutenberg-tm work, and (c) any Defect you cause.
+
+
+Section 2. Information about the Mission of Project Gutenberg-tm
+
+Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
+electronic works in formats readable by the widest variety of computers
+including obsolete, old, middle-aged and new computers. It exists
+because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
+people in all walks of life.
+
+Volunteers and financial support to provide volunteers with the
+assistance they need are critical to reaching Project Gutenberg-tm's
+goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
+remain freely available for generations to come. In 2001, the Project
+Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
+and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
+To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
+and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
+and the Foundation web page at https://www.pglaf.org.
+
+
+Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive
+Foundation
+
+The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
+501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
+state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
+Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification
+number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at
+https://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
+permitted by U.S. federal laws and your state's laws.
+
+The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
+Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
+throughout numerous locations. Its business office is located at
+809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
+business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact
+information can be found at the Foundation's web site and official
+page at https://pglaf.org
+
+For additional contact information:
+ Dr. Gregory B. Newby
+ Chief Executive and Director
+ gbnewby@pglaf.org
+
+
+Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation
+
+Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
+spread public support and donations to carry out its mission of
+increasing the number of public domain and licensed works that can be
+freely distributed in machine readable form accessible by the widest
+array of equipment including outdated equipment. Many small donations
+($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
+status with the IRS.
+
+The Foundation is committed to complying with the laws regulating
+charities and charitable donations in all 50 states of the United
+States. Compliance requirements are not uniform and it takes a
+considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
+with these requirements. We do not solicit donations in locations
+where we have not received written confirmation of compliance. To
+SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
+particular state visit https://pglaf.org
+
+While we cannot and do not solicit contributions from states where we
+have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
+against accepting unsolicited donations from donors in such states who
+approach us with offers to donate.
+
+International donations are gratefully accepted, but we cannot make
+any statements concerning tax treatment of donations received from
+outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff.
+
+Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
+methods and addresses. Donations are accepted in a number of other
+ways including including checks, online payments and credit card
+donations. To donate, please visit: https://pglaf.org/donate
+
+
+Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic
+works.
+
+Professor Michael S. Hart was the originator of the Project Gutenberg-tm
+concept of a library of electronic works that could be freely shared
+with anyone. For thirty years, he produced and distributed Project
+Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.
+
+
+Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
+editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
+unless a copyright notice is included. Thus, we do not necessarily
+keep eBooks in compliance with any particular paper edition.
+
+
+Most people start at our Web site which has the main PG search facility:
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+ https://www.gutenberg.org
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+This Web site includes information about Project Gutenberg-tm,
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