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diff --git a/34756-h/34756-h.htm b/34756-h/34756-h.htm new file mode 100644 index 0000000..58f2b46 --- /dev/null +++ b/34756-h/34756-h.htm @@ -0,0 +1,7719 @@ +<!DOCTYPE HTML PUBLIC "-//W3C//DTD HTML 4.01 Transitional//EN" "http://www.w3.org/TR/html4/loose.dtd"> +<html> +<head> + <title>Livro de Consolação, por Camilo Castelo Branco</title> + <meta name="Author" content="Camilo Castelo Branco"> + <meta name="Edition" content="Porto: Viúva Moré Editora, 1873."> + <meta http-equiv="content-type" content="text/html; charset=iso-8859-15"> + <style type="text/css"> + body{margin-left: 10%; + margin-right: 10%; + } + .pn { + text-indent: 0em; + text-decoration: none; + position: absolute; + left: 92%; + font-size: smaller; + text-align: right; + color: silver; + } + .capa { + border: solid 2px #000; + border-bottom: solid 5px #000; + border-right: solid 5px #000; + text-align: center; + padding: 1em; + } + .capa blockquote { + text-align: justify; + font-size: 0.7em; + margin-left: 30%; + } + p.obra {margin-left: 6em; text-indent: -3em;} + #corpo p{text-align: justify; text-indent: 1.5em;} + h1, h2, h3, h4 {text-align: center; margin-top: 2em;} + h2 {text-align: center; margin-bottom: 2em;} + #corpo p.sinopse {margin: 2em; font-size: small; text-indent: -2em;} + #corpo p.ni {text-indent: 0;} + #corpo p.centrado {text-indent: 0; text-align: center;} + #corpo blockquote p {text-indent: 0;} + #corpo p.assin {text-indent: 0; text-align: right; margin-right: 2em;} + #corpo p.obra {margin-left: 6em; text-indent: -3em;} + p.centrado {text-indent: 0; text-align: center;} + hr.dotted {border: 0; border-bottom: dotted 2px #000;} + hr {border: 0; border-bottom: solid 2px #000;} + blockquote {margin-left: 40%; font-size: 0.7em;} + #corpo .ilustracao p {text-align: center; font-size: small;} + a {text-decoration: none;} + .rodape { + font-size: 0.7em; + color: #000; + margin-left: 2em; + margin-right: 2em; + } + #corpo .rodape p {text-indent: 0;} + .errata {border-bottom: dotted 2px #aaaaaa;} + .typo {border-bottom: dotted 2px #77dd77;} + .ntransc {border: solid black 1px; background-color: #FFFFCC; font-size: 0.8em; + margin-left: 10%; margin-right: 10%;} + </style> +</head> + +<body> + + +<pre> + +The Project Gutenberg EBook of Livro de Consolação, by Camilo Castelo Branco + +This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with +almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or +re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included +with this eBook or online at www.gutenberg.org + + +Title: Livro de Consolação + +Author: Camilo Castelo Branco + +Release Date: December 27, 2010 [EBook #34756] + +Language: Portuguese + +Character set encoding: UTF-8 + +*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK LIVRO DE CONSOLAÇÃO *** + + + + +Produced by Pedro Saborano and the Online Distributed +Proofreading Team at https://www.pgdp.net (This book was +produced from scanned images of public domain material +from the Google Print project.) + + + + + + +</pre> + + +<div> +<p> </p> + +<div class="ntransc"> +<p><b>Notas de transcrição:</b></p> + +<p>O texto aqui transcrito, é uma cópia integral do livro impresso em 1872.</p> + +<p>Foi mantida a grafia usada na edição original de 1872, tendo sido corrigidos +apenas pequenos erros tipográficos que não alteram a leitura do texto, e que +por isso não foram assinalados.</p> +</div> + +<p> </p> + +<div class="capa"> +<p style="font-size: 1.2em;">BIBLIOTHECA—MORÉ</p> + +<hr style="width: 30%"> + +<p style="font-size: 2em;">LIVRO DE CONSOLAÇÃO</p> + +<p style="font-size: 1.2em;">ROMANCE</p> + +<p>POR</p> + +<p style="font-size: 1.4em;">CAMILLO CASTELLO BRANCO</p> + +<p> </p> + +<blockquote> + <p>Não nos sirva de medo ou de desvio<br> + Vêr como vai o mundo concertado.</p> + + <p class="obra">D. F<small>RANCISCO </small>M<small>ANOEL DE + </small>M<small>ELLO</small>—<em>A tuba de Caliope.</em></p> +</blockquote> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p style="font-size: 1.2em;">PORTO<br> +VIUVA MORÉ—EDITORA<br> +<small>PRAÇA DE D. PEDRO</small><br> +—<br> +1872</p> +</div> + +<p> </p> + +<p><span class="pn">{1}</span></p> + +<p> </p> +<p> </p> +<p> </p> + +<p style="font-size: 1.8em; text-align: center;">LIVRO DE +CONSOLAÇÃO</p> + +<p><span class="pn">{2}</span></p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> +<p> </p> + +<p style="font-size: 0.8em; text-align: center;"><small +class="SMALL">PORTO—IMPRENSA PORTUGUEZA</small></p> + +<p><span class="pn">{3}</span></p> + +<div style="text-align: center; padding: 1em;"> + +<p style="font-size: 2em;">LIVRO</p> + +<p>DE</p> + +<p style="font-size: 2.5em;">CONSOLAÇÃO</p> + +<p style="font-size: 1.2em;">ROMANCE</p> + +<p>POR</p> + +<p style="font-size: 1.4em;">CAMILLO CASTELLO BRANCO</p> + +<p> </p> + +<blockquote> + <p>Não nos sirva de medo ou de desvio<br> + Vêr como vai o mundo concertado.</p> + + <p class="obra">D. F<small>RANCISCO </small>M<small>ANOEL DE + </small>M<small>ELLO</small>—<em>A tuba de Caliope.</em></p> +</blockquote> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p style="font-size: 1.2em;">PORTO<br> +VIUVA MORÉ—EDITORA<br> +<small>PRAÇA DE D. PEDRO</small><br> +—<br> +1872</p> +</div> + +<p><span class="pn">{4}<br>{5}</span></p> + +<p> </p> +<p> </p> +<p> </p> + +<div style="text-align: center;"> +<p style="font-size: 1.2em;">A SUA MAGESTADE</p> + +<p style="font-size: 1.4em;">O SENHOR DOM PEDRO SEGUNDO</p> + +<p style="font-size: 1.2em;">IMPERADOR DO BRAZIL</p> +</div> + +<p> </p> +<p><span class="pn">{6}</span></p> + +<p> </p> +<p> </p> +<p> </p> + +<div id="corpo"> +<p style="text-align:right;">S<small>ENHOR</small></p> + +<p>Eu não solicitei licença para dedicar a V<small>OSSA +</small>M<small>AGESTADE </small>I<small>MPERIAL</small> este livro que +representa um trabalho—palavra sagrada que nobilita e exalta os mais +futeis lavores do espirito. Vi por esta lente de ambicioso alcance a pequenez +da offerta, para que me não fallecesse a affoiteza de ir depor na livraria de +V<small>OSSA </small>M<small>AGESTADE</small> as paginas estereis da historia +d'umas paixões triviaes da vulgaridade, do mal.</p> + +<p>Além de que, S<small>ENHOR</small>, quando eu escrevia estas linhas, em +frente da cadeira onde V<small>OSSA </small>M<small>AGESTADE</small> se +assentou, no escriptorio do operario, esqueci-me de que é Imperador do Brazil +Aquelle a quem as envio; e vejo tão sómente o sabio, o modelo de principes que, +ao descerem até aos pequenos, deixam o diadema em altura onde mais subidos vão +os respeitos.</p> + +<p>Desde o momento que V<small>OSSA </small>M<small>AGESTADE</small> me honrou +a obscuridade, fazendo-me sentir que vinte e dous annos de incessante lidar +mereciam o galardão de alguns minutos gloriosos,<span class="pn">{7}</span> +tambem eu cobrei alentos para chegar até á meza de estudo do douto Imperador, e +esperar ahi uma hora muito feriada de leituras proveitosas para então +<small>LHE</small> offerecer com respeitosa confiança um livro de mero +desenfado, pois não tenho mais nada com que possa significar a V<small>OSSA +</small>M<small>AGESTADE</small> a minha gratidão. De V<small>OSSA +</small>M<small>AGESTADE </small>I<small>MPERIAL</small></p> + +<p> </p> + +<p style="text-align:right;">o mais reverente criado</p> + +<p> </p> + +<p style="text-align:right;"><em>Camillo Castello-Branco.</em></p> + +<p><span class="pn">{8}<br>{9}</span></p> + +<p> </p> +<p> </p> + +<h1><a name="SECTION00010000000000000000">INTRODUCÇÃO</a></h1> + +<blockquote> + <p>Le résultat de l'art... c'est l'adoucissement des esprits et des m½urs, + c'est la civilisation même.</p> + + <p class="obra">V. H<small>UGO.</small>—<em>Les voix intérieures.</em></p> +</blockquote> + +<p>Em uma tarde de agosto de 1867, passeava eu, com um amigo de aprazivel +tracto, nos arrabaldes de Lisboa, e comparávamos a desamena e árida vegetação +d'aquellas gándaras com os arvoredos e verdejantes valles do Minho.</p> + +<p>Alli por perto de Odivelas me disse o meu amigo Luiz da Silva:</p> + +<p>—Entremos por esta azinhaga que não tem sahida. Isto vae dar áquella +casinha branca. Móra lá um velho a quem te vou apresentar. Mas quem sabe se o +homem morreu?! Ha tres annos que o não vi...</p> + +<p>—Tem esse sujeito—perguntei eu com a minha natural magnanimidade +de immortalisador—passagens na vida dignas de chronica?<span +class="pn">{10}</span></p> + +<p>—Tem, e magnificas.</p> + +<p>—Capazes de um volume de 250 paginas em 8.º?</p> + +<p>—Isso não sei. A biographia d'este homem é uma infelicidade vulgar, +que, todavia, fez grande estrondo; mas os naufragios do coração parecem-se aos +do mar: abre-se um abysmo, que sorve centenares de vidas, e d'ahi a pouco +nenhum vestigio sobrenada á flor das ondas; assim succedeu na procella que +sossobrou o velho que vaes vêr.</p> + +<p>—Fez grande estrondo, disseste ahi tu! Mas eu, attento aos escandalos +estrondosos do meu paiz, não me lembro d'isso...</p> + +<p>—Não eras ainda nascido.</p> + +<p>—Ah! eu não era ainda nascido? Isso então é caso muito antigo...</p> + +<p>—Um pouco depois da edade-media—replicou Luiz da Silva.</p> + +<p>E d'esta fórma gracejando por conta da nossa velhice, entestamos com uma +porta estreita e baixa pertencente ao quintal da casinha branca.</p> + +<p>O meu amigo bateu duas aldravadas na porta.</p> + +<p>—Está aberta; levante o ferrolho quem é—disse uma voz de +dentro.</p> + +<p>—É vivo o homem!—disse Luiz, entrando.</p> + +<p>Caminhamos por debaixo de uma parreira, cujos pilares se vestiam de festões +de rozeiras vulgares e descuradas, alastrando-se por terra, e formando alcatifa +de rosas murchas. Ao cabo da fresca e assombrada avenida, encontramos um +caramanchel enverdecido de trepadeiras,<span class="pn">{11}</span> e lá dentro +um ancião sentado em escabello de cortiça, afagando um gato maltez que lhe +dormitava sobre os joelhos, e com pachorrento desdem entre-abriu os olhos á +nossa chegada.</p> + +<p>O velho formou com a mão direita um quebra-luz sobre os oculos verdes que +pareciam coar-lhe aos olhos escassa claridade, e disse com prasenteiro +semblante:</p> + +<p>—Quem me faz a honra?...</p> + +<p>—É Luiz da Silva e um amigo que tem a honra de ser apresentado a V. +Ex.ª </p> + +<p>Depois da apresentação, o sujeito, para quem o meu nome não era inteiramente +desconhecido, disse ao meu amigo:</p> + +<p>—Muito ha que o não vejo, snr. Silva. Seu tio general esteve aqui ha +tempos, e me contou que V. Ex.ª andava a correr mundo. Conte o que viu.</p> + +<p>—Vi o que Salomão via em tudo: vaidade.—Respondeu, sorrindo, o +meu companheiro.</p> + +<p>—Então, caro senhor meu, não só viu, mas estudou muito—volveu +Venceslau Taveira, afagando o lubrico dorso do gato que, estrouvinhado pela +incommoda palestra, se remechia no regaço do dono, resmuneando, e afofando o +ninho para recomeçar o seu placido dormir.—Escusava de sahir de si +proprio, snr. Silva, para vêr o homem qual é em toda parte—proseguiu o +velho.</p> + +<p>—E, se eu quizesse vêr um homem distincto do commum—tornou o meu +amigo—bastar-me-hia ter conhecido V. Ex.ª<span class="pn">{12}</span></p> + +<p>—<em>Distincto</em>, quer dizer, distincto na +infelicidade...—acudiu Taveira.</p> + +<p>—Na honra e na virtude—emendou Luiz da Silva.</p> + +<p>—Agora vejo que não estudou nada... Vaidade, tudo vaidade, e... +algumas lagrimas.</p> + +<p>E, voltado contra mim, perguntou:</p> + +<p>—O seu amigo disse que v. é da provincia. É minhoto?</p> + +<p>—Tenho vivido no Porto—respondí.</p> + +<p>—Lá viví tambem dois annos e tanto. Os suburbios são graciosos, quanto +me podiam parecel-o atravez do fumo das batalhas. Sou um dos sete mil e +quinhentos. Conservo recordações agradaveis de umas grandes arvores da quinta +do Vanzeller. Verdade é que as contemplei em posição molesta. Havia-se-me +cravado uma bala na perna direita, e assim estive duas horas esperando a maca. +Foi n'este espaço de tempo que eu, confrangido, de dôres, admirei a serenidade +das arvores, e ponderei a vantagem de ser vegetal, estranho ás côrtes de Lamego +e á constituição da monarchia. E a impassibilidade das carvalheiras aparando as +balas no seu arnez de cortiça! Tudo é grande e forte, excepto o homem! O +homem... esse é um mixto de odios, de angustias e vaidades, segundo assevera o +nosso viajante Luiz da Silva...</p> + +<p>Proseguiu o ancião, entremeando de discretas jocosidades a deleitosa +conversação, que durou duas fugitivas horas.<span class="pn">{13}</span></p> + +<p>Não se me abriu ensejo de pedir a Venceslau Taveira licença de o visitar, +nem elle me offereceu a sua casa. Facil era de perceber que, se as visitas lhe +eram agradaveis, a solidão lhe era mais recreativa que as visitas.</p> + +<p>Convidou-nos para o seu chá, quando anoiteceu, e acompanhou-nos até á porta +do quintal.</p> + +<p>—Quem é este homem?—perguntei ao meu amigo.</p> + +<p>—A historia d'este homem ha de contar-t'a meu tio general que é do +tempo d'elle, e vem todos os annos da provincia de Traz-os-Montes visitar o seu +companheiro de infancia. Os lances essenciaes poderei referir-t'os; mas as +particularidades só meu tio Pedro as sabe.</p> + +<p>—Que posição social tem elle? Ouvi-te dar-lhe excellencia.</p> + +<p>—A «excellencia» poderia significar que elle não tem alguma posição +social; ainda assim, dou-lhe excellencia, porque o seu appellido representa +familias antiquissimas da Beira Alta; além d'isso, é do conselho de Sua +Magestade, official maior de secretaria aposentado, gran-cruz da ordem de +Christo, etc. </p> + +<hr style="width: 30%;"> + +<p>Desde Odivelas a Lisboa, me referiu Luiz da Silva as passagens capitaes da +historia de Venceslau Taveira.</p> + +<p>Alguns mezes depois, o general Pedro da Silva chegou a Lisboa, e, a rogos do +sobrinho, contou-me circumstanciadamente<span class="pn">{14}</span> successos +que elle denominava os obscuros heroismos da mais honrada e excruciada alma. +</p> + +<p>E concluiu d'esta maneira:</p> + +<p>—Se v. quer obrigar-me, escreva estes acontecimentos; mas não os +enfeite com episodios de sua casa. Se a narrativa sahir verdadeira, poderá ser +util. Deve v. fazer um livro dulcificante para alguns corações amargurados. +Póde até denominal-o, se quizer: <small>LIVRO DE CONSOLAÇÃO</small>. Dou-lhe +por cada lagrima, que fizer verter, um germen de boa acção, ou se quer de um +bom pensamento. Porém, se v. adulterar a tragica singeleza d'esta desgraça com +as inverosimilhanças do genio francez, o seu livro ficará sendo meramente uma +novella. Escuso pedir-lhe—terminou o general—que empregue tão +sómente a sua phantasia nos nomes dos personagens, em razão de estar ainda vivo +o principal.<span class="pn">{15}</span></p> + +<h1><a name="SECTION00020000000000000000">I</a></h1> + +<blockquote> + <p>Historia infantil de todo o homem que sente....</p> + + <p class="obra">L<small>OPO DE </small>S<small>OUZA</small>—<em>Herança de + lagrimas.</em></p> +</blockquote> + +<p>Venceslau Taveira nasceu na comarca de Lamego em 1795. Como filho segundo de +casa vinculada, foi destinado desde o berço a frade cruzio ou benedictino. +Estudou humanidades em Coimbra, e entrou, portanto, a noviciar na casa +capitular de Tibães aos quinze annos.</p> + +<p>Findo o anno de prova, o profitente interrogado manifestou que lhe faltava +genio e fé para ser frade como cumpria.</p> + +<p>Fr. Francisco de S. Luiz, então conventual em Tibães, e, mais tarde, bispo, +ministro liberal, patriarcha e cardeal, sahiu em defeza do noviço contra as +violentas persuasões dos monges escandalisados da impiedade de Venceslau.</p> + +<p>Não ter fé! Era a primeira vez que um noviço ousára dizer que não tinha fé! +Que elle não tivesse virtudes,<span class="pn">{16}</span> vá; que muito frade +se salvou sem ellas, graças ao habito que faz o monge e á contricção final que +faz o santo; mas não ter fé!...</p> + +<p>Sem impedimento d'estas e outras razões dos frades escandalisados, +argumentava o sabio benedictino que era desprimor notavel para a religião o +acorrentarem-lhe ao altar os seus sacerdotes; que o descredito das ordens +monasticas havia sido motivado pelo vicioso proceder dos frades constrangidos; +e que, finalmente, ninguem esperasse que a violencia abrisse á luz da fé +corações fechados e escurecidos pela duvida.</p> + +<p>Com tão válido protector, o noviço despiu o habito e foi para casa. +Recebeu-o a mãe com amorosa indulgencia; mas o pae, affrontado da insolita +rebeldia, apertou-o no duro dilemma: ser frade, ou, quando não, ir grangear sua +vida onde lhe bem quadrasse.</p> + +<p>Baldados os rogos e piedades da mãe, já ao marido para que perdoasse, já ao +filho para que obedecesse vestindo o habito, Venceslau, com algumas moedas +liberalisadas pela commiseração maternal, foi caminho de Lisboa onde não tinha +parentes nem amigos.</p> + +<p>Principiava o anno 1811.</p> + +<p>O mancebo chegou a Santarem no dia em que o general Massena alli +aquartellava a sua divisão. O reboliço da cidade desbordando de tropa, o +espectaculo offuscante de um exercito embriagado de victorias, aquellas +magestosas figuras dos generaes do imperio alvoroçaram o animo do rapaz cuja +imaginação verdejava as epicas fantasmagorias dos dezesseis annos.<span +class="pn">{17}</span></p> + +<p>Que farte ouvira elle em Tibães execrar Napoleão, Massena, Soult, Junot e os +outros d'aquella funesta constellação. O seu entendimento queria duvidar da +justiça das accusações; mas o patriotismo insinuava-lhe o dever de odiar +francezes, salvante Rousseau, cujas obras elle podéra lêr clandestinamente, +subtrahindo-as da gavêta defeza da livraria de Tibães, onde talvez as recadasse +com prudente cautela o esclarecido fr. Francisco de S. Luiz.</p> + +<p>Á conta pois do auctor do <em>Contracto Social</em> está, por desventura de +sua alma, a grave responsabilidade de haver-se esquivado á tunica de S. Bento +aquelle rapaz que em Santarem perguntava a outros:—Depois d'este acto de +justiça quem póde negar a Massena as virtudes militares que Plutarco refere dos +varões illustres de Grecia e Roma?</p> + +<p>O leitor vae recordar a sabida passagem que, no espirito do moço +enthusiasta, emparceirava o general francez com Themistocles ou Paulo Emilio. +</p> + +<p>Quando os francezes retiravam de Alemquer, certa familia de notoria +fidalguia, receando insultos da plebe, acompanhou o exercito invasor com uma +escolta de dois dragões. Ora um d'estes indignos guardas, ageitada a occasião, +e vencido do impeto do sangue e dos conselhos do demonio, maculou mais ou +menos—mas é de crêr que fosse mais—a pudicicia de uma das damas +confiadas á sua vigilancia.</p> + +<p>Eis pois um dragão indigno de aparelhar com o outro que, no jardim das +Hesperides, guardava o vélo<span class="pn">{18}</span> de ouro, de certo com +mais peso e quilates, mas com muito menos direitos á nossa consternação.</p> + +<p>E succedeu que a dama queixosa, posto que o infando desastre houvesse sido +secreto, (ave rara!) preferisse ser honrada a parecel-o. Assim pois, logo que +chegou a Santarem, D. Lucrecia (ouso chrismal-a assim em honra da sua memoria +bastante romana) expoz a Massena o affrontamento que lhe fizera o dragão. +Ordenou para logo o general que o criminoso entrasse em conselho de guerra, e +tão summario correu o processo que, no lapso de meia hora, foi o carnalissimo +réo interrogado, sentenciado, confessado e espingardeado!</p> + +<p>E como quer que alguem intercedesse em favor do comdemnado exorando menos +rigorosa pena, o general respondeu: «Depois de arcabuzado, requeira».</p> + +<p>Tal foi o caso de disciplina que obteve para as aguias de Austerlitz um +acerrimo partidario.</p> + +<p>Apresentou-se Venceslau Taveira ao marquez de Alorna, um dos generaes +portuguezes que seguiram deslumbrados o metheoro da Corsega, quando as côres +ardentes já se íam esmaiando ao visinhar-se do céo de Waterloo.</p> + +<p>O marquez, illustrado e dadivoso, agasalhou o foragido noviço com tanta +cortezia como caridade, sentando-o á sua mesa e provendo-o das coisas que lhe +escasseavam, na crise em que a fome apalpava os portuguezes menos protegidos. +</p> + +<p>Comprazia-se o provinciano em convivencia d'alguns fidalgos, commensaes de +Alorna, taes como o marquez<span class="pn">{19}</span> de Loulé, o conde de S. +Miguel e D. Luiz de Athaide. Este ultimo foi grande parte no precoce rancor de +Venceslau aos governos absolutos.</p> + +<p>Era D. Luiz de Athaide filho do conde de Atouguia e neto do marquez de +Tavora, ambos justiçados como regicidas sob o reinado de D. José +<small>I</small>.</p> + +<p>Um dos amigos de Venceslau, então adquiridos em casa do marquez, escrevendo, +quarenta e cinco annos depois, as suas <em>Memorias</em>, avaliou ineptamente +D. Luiz de Athaide com estas descaroadas linhas:</p> + +<p>«... Não posso deixar de mencionar outro homem notavel que alli encontrei, e +que, descendente da mais alta fidalguia da nossa terra, era um tristissimo +exemplo da degradação a que póde chegar a especie humana, decahida do explendor +da grandeza e mergulhada no lodaçal da miseria e despreso. Foi D. Luiz de +Athaide filho e neto d'essas familias desgraçadas a quem o inexoravel grande +marquez de Pombal sacrificou sobre o horroroso altar do poder absoluto e de +quem até pretendeu riscar os nomes da superficie da terra... Em verdade, era +digno de ser observado por quem podésse bem avaliar o que são e podem ser os +destinos do animal chamado homem... Quem o via, e não sabia quem era, só o +podia ter por um sordido e baixo môço de cavallariça. Na sua figura e no seu +trage trazia todas as insignias das maldições humanas, e nas suas palavras não +havia senão rancor e odio, e esse rancor e odio tão profundos e inveterados, +quantos eram os annos desde que poude conhecer as suas<span +class="pn">{20}</span> mizerias. A quem lhe fallasse na casa de Bragança, +respondia com rugidos de leão; parecia que lhe saltavam os olhos pela cara fóra +estimulados pela raiva, e só socegava depois que desafogava o coração ulcerado +com imprecações horriveis. Para elle só Napoleão era o rei legitimo de +Portugal; e tal era a affeição que lhe tinha que, havendo, não sei porque +artes, ganhado uma grande porção de dinheiro a foi entregar a Massena assim que +entrou em Portugal. Este lh'a acceitou e agradeceu, declarando-lhe ao mesmo +tempo que esta lhe seria restituida em Paris, se para lá fosse...»<a +name="tex2html1" href="#foot508"><sup>[1]</sup></a></p> + +<p>Apezar d'esta apreciação indicativa de escriptor e espirito menos de +ordinarios, e incapazes de alçarem-se até onde a desgraça ergue pelos cabellos +as suas preas, D. Luiz de Athaide, no conceito de Venceslau, incutia a um tempo +compaixão, respeito e assombro. Aterrava e commovia ouvil-o vociferar contra a +raça de D. José <small>I</small>, e de repente levar as mãos aos olhos afogados +em lagrimas, soluçando o nome de seu pae. Se alguem lhe lembrava que elle era +proximo parente da familia real, e portanto devia cohibir-se de insultal-a no +mais sensivel da honra, exasperava-se a termos de repellar-se por não poder +inventar maneira de denegrir em si proprio as gotas de sangue real que lhe +deshonravam as veias.</p> + +<p>Tanto escogitou, porém, que descobriu facil processo de enxurdar quanto +humanamente se podia a sua<span class="pn">{21}</span> progenie realenga. Foi +assim. Encontrando, mezes depois, em Paris, no derradeiro escalão social, um +vulto de mulher desfigurada pelo squalor do vicio, fêl-a sua esposa, com o +intuito de a fazer mãe dos parentes da casa de Bragança. D'este caso tambem +teve noticia José Liberato Freire de Carvalho, nas citadas <em>Memorias</em>. +</p> + +<p>Escreve elle: «... Mas como casou! Consta-me tambem que alli em Paris +vascolejára as ultimas fezes da sociedade para encontrar uma mulher que fosse +digna d'elle e que a achára. Reduzido na sua terra á infima sorte de um paria +na India, quiz, no seu mesmo aviltamento, vêr se podia tambem aviltar, como +elle dizia, algumas gotas de sangue que lhe circulassem no corpo, e fossem +d'essas que animavam a familia real portugueza.»</p> + +<p>Homem de tão singular e descommunal condição tinha direito a ser estudado e +desenhado por quem tivesse vista d'alma que alcançasse o enorme desgraçado no +fundo da sua voragem. Dos seus coevos e camaradas nenhum deu tento d'esse +extraordinario martyr senão o ex-frade José Liberato, que nunca pôde +desfazer-se de tres partes de máo frade com que fugiu aleijado do convento. O +neto do brioso Tavora, o representante da opulenta familia, cujos bens haviam +sido confiscados para a casa reinante, ou para a do valido que se pascia nas +lagrimas, no sangue e no espolio dos degolados em Belem, emfim, aquella sublime +e rancorosa desesperação de D. Luiz, que dava o ouro ganhado em azares do jogo +para derruir o throno, e trajava andrajos para que<span class="pn">{22}</span> +assim o vissem roubado nas ultimas mealhas de seu pae—tal homem assim +maltrapido e crucificado no seu opprobio, figurou-se aos olhos de José Liberato +o compendio «de todas as maldições humanas»!</p> + +<p>Com interesse de respeitoso compungimento o via Venceslau Taveira, e o +escutava nas apostrophes iracundas contra a dynastia de Bragança. Já decrepito, +o solitario da charneca de Odivelas, recordava o neto dos Athouguias, e dizia +que se a França houvesse tido um homem assim recaldeado em fraguas de tamanhas +angustias—um tão extravagante complexo de soberba e aviltamento, de +saudade maviosa e sevos odios—os mais grados litteratos o exalçariam +diante do mundo, tornando-o interessante como historia, como philosophia, como +moral, e até o poeta se não pejaria de ir procurar nas cavallariças de Massena +esse neto de reis portuguezes, e vestil-o dos esplendores da poesia tragica, ao +mesmo passo que o seu real parente, o principe D. João de Bragança, apenas +vingaria ser dignamente cantado nas epopêas bordalengas de José Daniel.</p> + +<p>Affeição de outra tempera, como de eguaes e de mancebos em alvorada de +esperanças, ligou Venceslau Taveira a um official de infanteria do +quartel-general de Pamplona.<span class="pn">{23}</span></p> + +<h1><a name="SECTION00030000000000000000">II</a></h1> + +<blockquote> + <p>O célestes concerts de joie et de douleur!</p> + + <p class="obra">H<small>ENRI + </small>B<small>LAZE.</small>—<em>Matutina.</em></p> +</blockquote> + +<p>Era um rapaz de vinte e dous annos, chamado Eduardo Pimenta, natural de +Braga.</p> + +<p>Este moço levava uma vida tanto em comêço já cortada de profundos golpes; e, +por amor d'isso, como as suas dôres não podiam ser expiação de maus actos, a +gente de coração queria suavisar-lh'as, linimentando-lh'as com o balsamo da +amizade.</p> + +<p>Bosquejemos a historia d'esta mal estreada existencia.</p> + +<p>D. Antonia de Portugal, famigerada formosura n'aquelle tempo, viera de +Lisboa a visitar irmãos, que tinha no Porto, alliados por casamento nas duas +casas de mais gothica estirpe. Affeiçoara-se aquella dama a um alferes, sem +discriminar os distantissimos pontos de partida<span class="pn">{24}</span> em +que o Creador pozera o seu primeiro avô do avô de Eduardo Pimenta:—erro +talvez devido á insufficiente leitura que a menina tinha de Moysés.</p> + +<p>Era orphã D. Antonia; mas a tutela de um tio que por vezes exercera o então +poderoso cargo de ministro de Estado, pesava-lhe mais oppressiva e inflexivel +que o poder paterno. Assim pois, tão depressa raspou nos ouvidos do fidalgo o +indecoroso affecto da sobrinha, que logo Eduardo Pimenta foi chamado á capital +e transferido ao Brazil em serviço militar. Inquebrantavel em seu amor, D. +Antonia incutiu no peito do desterrado a flamma da sua coragem, accendendo-lhe +esperanças temerarias e perigosas.</p> + +<p>Os parentes d'ella tomaram-se de espanto e ira, ao saberem que o alferes +desertára do seu regimento, desembarcára em Lisboa, e ajoelhára aos pés do +principe regente solicitando e impetrando licença para casar-se com D. Antonia +de Portugal.</p> + +<p>O consentimento, porém, do bondoso principe não tolheu que o alferes, +acossado pela perseguição de sicarios, se evadisse da côrte, refugiando-se nos +arrabaldes de Braga, d'onde em vão implorou por mediação de amigos a malograda +protecção do principe.</p> + +<p>No entanto, a pertinaz menina, cansada de reagir á pressão dos parentes, +acolheu-se ao mosteiro de S. Bento da Ave Maria, no Porto, onde tinha uma tia +professa; mas d'ahi ainda o braço rijo do tio ministro, mediante o chanceller +das justiças, a foi arrancar, allegando que<span class="pn">{25}</span> a +reclusa, escrevendo e recebendo cartas, gosava liberdades deshonestas que em +sua casa lhe eram prohibidas.</p> + +<p>E em verdade escrevia muitissima carta D. Antonia, e dispunha de estylo que, +relativamente á época, não era menos de romantico. Se o leitor quizer, logo lhe +darei occasião de apreciar a linguagem e a sensibilidade extrema d'esta senhora +que pagou penosamente os dons do seu espirito.</p> + +<p>Apartada judicialmente da indulgente freira, foi transferida para o collegio +das orphãs que n'aquelle tempo foi viveiro de meninas lastimosas, mormente as +pensionistas, as formosas, as amadas, as ricas, as filhas segundas—e hoje +em dia está sendo—graças á santa Casa da Misericordia—um alfôbre de +educação moral onde o vicio não póde coar-se senão em parcellas diminutissimas, +por onde se vê que a Misericordia conseguiu estar-se em pleno osculo com sua +irmã ou prima, a Castidade.</p> + +<p>N'aquelles dias, pois, a urna dos divinos balsamos de Jesus caritativo +transformára-se em gral onde os corações eram pulverisados. E d'este pó +amassado com lagrimas sustentava-se a honra das familias, a dignidade das +mulheres, e nutriam-se as boas esposas que depois sahiam a repartir affectos +entre maridos, e primos e capellães, e tudo mais que convinha a manter honesto +equilibrio entre as coisas humanas e divinas.</p> + +<p>Pois, sem impedimento das vigilantes espias que lhe espreitavam os gemidos e +os arremessos, a reclusa vingou<span class="pn">{26}</span> passar na roda uma +imprudente carta que denunciava a residencia do alferes homiziado.</p> + +<p>Guiados pelo destino da carta, os aguazis do corregedor, com auxilio de +escolta cedida pelo general da provincia, cercaram o escondrijo do desertor, +prenderam-o com affrontosas precauções, e aferrolharam-o na mais escura +masmorra do castello de S. João da Foz, onde, quarenta annos antes, alguns +padres da Companhia de Jesus haviam expirado de fome e frio por ordem do +deshumano marquez de Pombal.</p> + +<p>Avisada do desastre causado por sua indiscrição, D. Antonia rompeu em +tamanhos desatinos que a regente, por amor á vida não votada ao martyrio, +requereu que lhe tirassem d'aquella casa mansa e quieta a turbulenta fidalga, +que ameaçava tortural-a com a roda de navalhas de Santa Catharina, virgem e +martyr. A regente, diga-se verdade liza, parece ter tido escrupulos de mentir, +e receios de não poder entrar no reino da gloria eterna com a dupla corôa da +santa anavalhada. Não lhe pezem, todavia, as minhas suspeitas sobre os ossos +que D. Antonia lhe ameaçou tres vezes ou mais.</p> + +<p>O certo é que a louca de amor foi d'alli passada com guardas de esbirros +para Santa Clara de Coimbra, mosteiro onde áquelle tempo se exercitavam +maleficios inquisitoriaes sobre donzellas eivadas do judaismo da ternura por +sugeitos incongruentes com suas pessoas e bens.</p> + +<p>N'esta conjunctura, succedeu entrar em Portugal o invasor Junot, e com elle +a vanguarda de ideias livres,<span class="pn">{27}</span> vestidas com as +pompas da egualdade humana—santas palavras que desafogaram corações +abafados ás mãos da tyrannia de paes e tutores. D. Antonia, alumiada na +escuridade da sua cella por lampejos de esperança, ao saber que o general +estava em Coimbra, escreveu a seguinte carta que vae textualmente copiada da +que tenho e que é a original com toda a certeza. Bem póde ser que semelhante +documento desquadre á urdidura d'esta narrativa; vá, não obstante, como +homenagem a uma dama infelicissima, a qual, ao fechar-se em sua sepultura, +abriu algumas que mais tarde se encerraram depois de cruciantes agonias, como +no discurso do livro se irá vendo.</p> + +<p>Dizia assim a carta a Junot:</p> + +<p>«A alta consideração que por tantos titulos é devida a V. Ex.ª, imporia á +minha triste situação o mais respeitoso silencio, se a vossa generosidade, +Senhor, a não tivesse prevenido, assegurando aos habitantes de Portugal uma +protecção que, fazendo a nossa gloria, é a mais sublime recommendação da vossa +virtude e nobreza. Estes dons tão preciosos me animam e prestam valor de elevar +minhas supplicas e lagrimas á respeitavel presença de V. Ex.ª O illustre +guerreiro que participa da gloria do maior dos heroes que tem visto os seculos, +saberá como elle unir clemencia e piedade ao valor que no campo de Marte +immortalisa seu nome.</p> + +<p>«É do fundo de um claustro que a mortal mais desgraçada ousa aspirar á honra +de invocar o illustre general. É a innocencia tyrannisada e os direitos +mais<span class="pn">{28}</span> sagrados combatidos que se refugiam no asylo +de vossos pés.</p> + +<p>«Tenho a infelicidade de pertencer a uma familia nobre e desde a minha mais +tenra infancia me decidi por um militar que servia com honra em um dos +regimentos do Porto. Se elle não tinha fortuna tão brilhante como minha +familia, possuia todas as boas qualidades que caracterisam as almas nobres. Por +um caprichoso orgulho, que não póde soffrer as virtudes puras (porque lhes +ignoram o preço e os encantos) oppõe-se minha familia fortemente á minha +escolha, prevenindo nossas vistas definitivas de um casamento occulto; e, +conhecendo bastante a firmeza de nossos desejos, meus parentes solicitaram e +obtiveram uma ordem para que o meu pretendido passasse á America. Este injusto +procedimento feriu sensivelmente a minha delicadeza e reputação.</p> + +<p>«Empreguei todo o poder que eu tinha sobre o espirito do meu esposo, +obrigando-o a voltar clandestinamente a este reino, assegurando-lhe a minha mão +e a minha fé. Apoz um anno de ausencia, chegou á côrte; lançou-se aos pés do +throno, e foi recebido pelo virtuoso principe com a maior affabilidade; porém, +o ministro de estado impediu a conclusão de tão ditosas esperanças, forçando +meu esposo á cruel necessidade de se esconder dos seus perseguidores que o +espiavam em toda a parte para satisfazerem o seu antigo odio e incompleta +vingança. Em quanto elle se foragia no seio de sua honrada familia, eu fui por +meus parentes forçada<span class="pn">{29}</span> a receber outro esposo. +Resisti. Não pude. Abracei o ultimo partido que me restava para subtrahir-me ás +suas violencias. Abandonei a casa de meus algozes e acolhi-me aos pés da cruz. +Ahi mesmo a minha desgraça amparada nos confortos da religião, foi diffamada de +astucia. Deu-se-me um Recolhimento de orfãs, onde até as lagrimas me eram +empeçonhadas pelos conselhos brutaes das minhas directoras, que me chamavam á +penitencia por ter amado um homem pobre em quem Deus influira as virtudes mais +bellas e caracteristicas do seu divino creador; mas, Senhor, como n'aquelle +Recolhimento os meus gritos de desesperação me dessem o triste semblante de +louca, a commiseração dos meus parentes enviou-me a umas torturas novas n'este +convento de Santa Clara, d'onde, banhada em lagrimas, estou escrevendo a V. +Ex.ª</p> + +<p>«Apezar dos espiões, ameaças e insultos, eu conseguira remetter ao meu +consternado amigo uma procuração que devia servir ao nosso casamento, +consentido pelo arcebispo de Braga. Quando, porém, os meus parentes souberam +que este acto se havia praticado em uma egreja de Barcellos, instauraram +processo contra o meu esposo com o proposito de o condemnarem a degredo. +Exigiram de mim que eu negasse a minha assignatura na procuração, com o fim de +o sentencearem como falsificador de firmas; mas eu, invocando o meu amor e a +minha honra, achei pequenas e covardes as tyrannias que se augmentaram a ponto +de me ser negada a mais necessaria e urgente subsistencia. As queixas de<span +class="pn">{30}</span> meus irmãos chegaram ao throno; todavia, apesar do +valimento de tão poderosos inimigos, não quiz sua alteza real que meu esposo +fosse castigado sem ser convencido. A innocencia d'elle ia ser patenteada, e +por tanto destruida a opposição da minha familia, quando a partida do regente +para o Brazil, nos deixou outra vez expostos á furia dos nossos perseguidores. +É fortissimo o partido d'elles. O snr. Br**, nomeado membro da regencia, e +outros fidalgos parentes de minha mãe, me fazem tremer pela nossa sorte. O +nosso triumpho está sómente reservado a um poder superior. Só um general de +Napoleão, immortal como elle, poderá salvar-nos, libertar-nos e unir-nos. Este +prodigio de grandeza de alma é proprio de V. Ex.ª; é uma das maiores victorias +do Anjo que já está gosando a immortalidade no nome que ellas lhe deram.</p> + +<p>«Dignae-vos, pois, Senhor, em nome de tudo que ha sagrado, ser o protector +de dois amantes desgraçados, que a vossos pés imploram uma graça que lhes será +a elles a suprema felicidade. Uma palavra só que vos digneis proferir a nosso +favor, a iremos de joelhos agradecer, beijando-vos mil vezes a mão que nos +abriu o céo; ao mesmo tempo que em nossas almas, Senhor, sereis adorado como +homem a quem Deus conferiu poder de nos resurgir da morte, se tal vida não é +mais digna da vossa commiseração...»</p> + +<p>Esta carta foi vertida para francez por Vidal, ajudante do general Tiebau, +coadjuvado por outro que depois se fez conhecido no mundo scientifico, +chamando-se<span class="pn">{31}</span> Geofroi de Saint-Hilaire. Este, egual +no talento e na sensibilidade, leu a carta a Junot, internecendo-a de pauzas e +modulações, tendentes a mover o peito do soldado pouco affeito a commoções +dramaticas.</p> + +<p>D. Antonia de Portugal recebeu da mão de Vidal a seguinte resposta:</p> + +<p>«Madame. A innocencia opprimida não se dirige inutilmente ao representante +do Grande Napoleão, cujo poder abrange o mundo, e cuja justiça se distribue por +vassalos e reis. Ordeno que se vos dê liberdade e passaporte para Lisboa. Vinde +alli, e de lá ser-vos-ha facil fazer sahir dos carceres do Porto o ente que vos +interessa, e que, como vós, ha sido a victima do orgulho de um ministro. Eu vos +protegerei a ambos. Tenho a honra de ser vosso muito humilde e obediente +servo—<em>Junot</em>.»<a name="tex2html2" +href="#foot509"><sup>[2]</sup></a><span class="pn">{32}<br>{33}</span></p> + +<h1><a name="SECTION00040000000000000000">III</a></h1> + +<blockquote> + <p>Ton chemin est devant toi. Marche! marche!</p> + + <p class="obra">E<small>D. + </small>Q<small>UINET.</small>—<em>Ashaverus.</em></p> +</blockquote> + +<p>Em seguimento, a prelada de Santa Clara recebeu intimação militar para +entregar D. Antonia de Portugal.</p> + +<p>Os enviados á redempção da gentilissima captiva espavoriram as freiras, +quando marcialmente entraram ao portico do mosteiro.</p> + +<p>As mais avançadas em edade e virtude não ficaram estranhas ao receio de +serem desbalisadas do thesouro de merecimentos que haviam amealhado á custa de +muitas violencias, renunciações, cilicios e jejuns debilitantes. As menos +jejuadas e mais propensas a crêr na malicia dos homens, se tivessem lido o que +asseveram chronicas e o snr. A. Herculano repete no <em>Eurico</em>, a respeito +de certas monjas em risco de serem presa lasciva dos sarracenos, é bem de crêr +que pedissem á prioreza<span class="pn">{34}</span> que as degolasse na crypta, +antes que o bafejo pestilencial dos francezes lhes mareasse a candura, +obrigando-as a córar.</p> + +<p>E, tantos visos de exactidão offerece a hypothese lisongeira, que, ao +saber-se que D. Antonia era reclamada pelo general Junot, todas—que eram +cento e vinte as professas—illudidas, talvez, pediram voz em grita que as +deixassem soffrer por concomitancia o mesmo martyrio. Que jubilo iria no +empyreo, se as famosas onze mil da legenda sahissem a receber no atrio dos seus +jardins eternos subsidio que lhes enviava, d'uma assentada, +Portugal—torrão bastante sáfaro para tal messe!</p> + +<p>Não eram já, entretanto, aquelles dias os azados para tão heroicos +martyrios. A prelada, exemplificando comsigo a privação do holocausto, forçou a +commedirem-se as noviças, as noviças principalmente, que tinham os olhos +sedentos de mortificação fitos nos algozes que as remiravam do pateo com uns +olhares assaz significativos das carniceiras entranhas que os distinguiam dos +frades portuguezes. Ora estes frades da comparação eram uns que frequentavam os +locutorios, e suspiravam tão mysticamente quanto lhes permittia a eructação da +orelheira mal esmoida.</p> + +<p>Não pude averiguar se o agiologio das franciscanas conimbricenses commemora +algumas martyres empolgadas no tempo dos francezes em que a roupa d'elles e a +virtude das mulheres portuguezas era tudo o mesmo para tão desmedidos +facinoras, segundo affirmam piedosas tradições. Do que tenho certeza é que D. +Antonia<span class="pn">{35}</span> de Portugal sahiu do convento com tanta +precipitação, ou tantas lagrimas a nublarem-lhe a vista, que nem sequer +divisava, entre os officiaes francezes, Eduardo Pimenta, que parecia ajoelhar +quebrantado pelo pezo da felicidade.</p> + +<p>Quando Venceslau Taveira conheceu este moço, mezes depois dos acontecimentos +referidos, chorava elle, e quantos viam Eduardo a braços com a desgraça que +raras vezes, em episodios amorosos, se defronta com o coração humano tão +inexoravelmente.</p> + +<p>Um dia, o alferes promovido a capitão no exercito francez, foi mandado +servir ás ordens de La Borde na batalha do Vimieiro, em que a estrella dos +valorosos portuguezes lampejou uns clarões que davam a lembrar o cyclo heroico +de que nem sequer, para tudo se perder, nos resta já agora uma briosa saudade. +</p> + +<p>D. Antonia estanceava então na Alhandra esperando que seu marido a mandasse +recolher a Lisboa.</p> + +<p>N'esta anciedade a fulminou a noticia de que o general La Borde morrera na +Roliça e com elle todo o estado maior.</p> + +<p>E, no mesmo lance em que tal nova lhe deram, uns homens, que se diziam seus +valedores no immenso infortunio, quasi a forçaram a cavalgar, caminho de +Coimbra, onde, áquelle tempo, iam chegando os inglezes desembarcados na +Figueira.</p> + +<p>E alli, da portaria do mosteiro de Santa Clara avisinhou-se chusma de +homens, que levaram uma mulher<span class="pn">{36}</span> estorcendo-se a +brados afflictivos. Depois, abriu-se a porta do mosteiro, e fechou-se logo que +sobre o escabello foi deposta D. Antonia de Portugal, que desmaiára, se é que a +morte se não amerciára d'ella.</p> + +<p>Entretanto, nem La Borde nem o capitão Pimenta haviam morrido dos +ferimentos. Alguem vira o official portuguez n'um olivedo do Tojal enfaixando +um braço que sangrava. D'este encontro resultou o boato da morte, ao mesmo +tempo que outros juravam de vista assistirem ao enterro do general na egreja do +Carmo em Lisboa.</p> + +<p>Como quer que fosse, os portadores da falsa noticia a D. Antonia eram +confidentes dos tios d'ella, e a bala, que raspára na espadua do capitão, +fôra-lhe apontada ao peito por um d'esses homens. N'aquelle tempo a fidalguia +d'estes reinos ainda resfolegava por taes respiradouros o sangue brioso que se +lhe emborrascava nas arterias. O timbre das armas obrigava. Os paquifes do +elmo, arcando-se sobre as cabeças d'uns mouros, esculpturados com barbaridade +digna das proezas, obrigavam seus donos ao preceito heraldico de guardar a +honra da familia com ferocia egual ao disvelo que punham em honrar a patria nos +açougues da Asia.</p> + +<p>Enviára Eduardo Pimenta dous soldados portuguezes que levassem D. Antonia a +Cintra onde se estavam redigindo os artigos da convenção. Como fosse clausula +antevista d'aquelle convenio sahirem os vencidos com as honras da guerra, o +official contra-pesava o infortunio<span class="pn">{37}</span> do desterro com +o jubilo de passar com a esposa a França, onde os generaes portuguezes lhe +promettiam protecção.</p> + +<p>Os enviados de Eduardo voltaram dizendo que D. Antonia sahira da Alhandra, +algumas horas antes, acompanhada por milicianos.</p> + +<p>Alanciado por tão inesperada agonia, o official affrontou o maximo risco, +perpassando pelas guerrilhas que confluiam a Lisboa. As insignias e a rapidez +da carreira acirraram o patriotismo de alguns bravos que o espingardiaram e +feriram mortalmente.</p> + +<p>Uns caridosos frades cruzios que seguiam para uma quinta chamada Cadafaes, +nos arrabaldes da Alhandra, transportaram o ferido. Alli, a peito com a morte, +o desgraçado venceu-a, quando lhe seria redempção de maiores penas succumbir. +</p> + +<p>Apoz longo tratamento, vae-se aquelle homem só, pobre, cercado de incertezas +e perigos. Ninguem sabia indicar-lhe o destino de D. Antonia. Os amigos +negavam-se a acoital-o da sanha da plebe. Por sobre tantos desamparos, a +pobreza antepunha-lhe uma cadeia de adversidades, por entre as quaes lhe +transluzia a consoladora ideia do suicidio.</p> + +<p>O pae de Eduardo era portuguez de marca maior, entranhas nacionaes, +ferventes de nacionalismo e odio ao filho amaldiçoado que se bandeára com +jacobinos.</p> + +<p>Quando, pois, Eduardo, disfarçado em almocreve, lhe appareceu á beira do +leito onde o velho se esperguiçava nos regalos de quem dormiu somno de justo, +repulsou-o<span class="pn">{38}</span> com vociferações dignas dos paes romanos +que sentenciavam os filhos á morte, e mais dignas ainda do proverbial amor +patrio dos bracharenses.</p> + +<p>—Fóra d'ahi, herege!—exclamou o ancião, estirando os braços á +cara do filho.—Pegaste em armas contra a nação de Affonso +Henriques—proseguiu o honrado portuguez com ira azedada pelas +reminiscencias historicas—tu! jacobino! ousaste desembainhar a espada +contra a tua patria! contra a patria de Affonso Henriques, que venceu cinco +reis mouros, com auxilio de Jesus Christo, que lhe fallou no campo de Ourique! +Vae-te da minha presença, maldito, em nome do Padre e do Filho e do Espirito +Santo! Não me tornes a pôr o pé em casa, sem te limpares com uma confissão +geral, impio, atheu!</p> + +<p>Aturdido pela apostrophe e coberto de lagrimas, Eduardo ajoelhou, referindo +os infortunios que o levaram por necessidade e gratidão a servir o seu +libertador. Com o soccorro da mãe compadecida, conseguiu commover o velho até +ao extremo de prometter-lhe não o denunciar á justiça, com a clausula de que +iria sumir-se nas Alturas de Barroso em casa de parentes.</p> + +<p>Foi; mas poucos dias permaneceu na soledade agra de uma serrania onde o +desejo de morrer o debruçava sobre os despenhadeiros, implorando á sua desgraça +a coragem do suicidio. A coragem! Porque não hei de, acostado a moralistas de +grande tomo, chamar-lhe antes cobardia? É porque ha mister enorme coração quem +dentro d'elle se abre um tumulo. É porque vae esforçada<span +class="pn">{39}</span> valentia n'isto de um infeliz se aniquilar com a certeza +de que em vez de lagrimas, lhe pesará sobre a memoria a censura dos felizes, o +horror dos espiritualistas catholicos, e a nota da demencia—suprema +injuria a essas pobres almas que a divina justiça não mandaria ás penas eternas +sem lhes descontar os terribilissimos paroxismos, aquelle tormentoso +debaterem-se nas prezas da desgraça, aquelle relanço d'olhos ao céo e o grito +d'alma n'esta dilacerante pergunta: «Quando te pedí eu a vida, ó Creador?»</p> + +<p>Eduardo desceu um dia das Alturas de Barroso e entrou no Porto demudado e +vestido por maneira que o não poderiam suspeitar. Acercou-se do páteo de um +irmão de D. Antonia de Portugal, e conversou com os palafreneiros, occasionando +perguntar novas da fidalga. Disseram-lhe que ella estava em um convento de +Coimbra, onde a encerraram depois que o marido acabára na batalha de Vimieiro. +</p> + +<p>Dias depois, n'aquelle anno de 1809, o marechal Soult entrou no Porto. O +capitão vestiu a farda e apresentou-se ao general.<span class="pn">{40}<br>{41}</span></p> + +<h1><a name="SECTION00050000000000000000">IV</a></h1> + +<blockquote> + <p>Il est plus glorieux de tomber généreuse,<br> + D'embrasser en partant ceux qui nous font souffrir,<br> + De fluir sans remords, comme une femme heureuse.</p> + + <p class="obra">M<small>AD. + </small>G<small>IRARDIN.</small>—<em>Poésies.</em></p> +</blockquote> + +<p>Prescinde o leitor que lhe historiem os sabidos desastres do exercito +francez até ao dia em que Massena, o abatido «anjo da victoria», entrou em +Coimbra.</p> + +<p>Eduardo Pimenta correu á portaria do convento, e perguntou por D. Antonia de +Portugal, a quem desde o Porto enviára cartas repetidas que nunca ella recebeu +das religiosas, testemunhas impassiveis do lucto da supposta viuva e dos +trances de agonia tão demorada.</p> + +<p>Quando o official perguntou por sua mulher, a porteira, tremente de pavor, +disse que a snr.ª D. Antonia estava moribunda. Lançou-se Eduardo contra a +porta, com supplicantes lagrimas, já a repellões de raiva, bradando que lh'a +abrissem. As freiras terrorisadas capitularam em avisar a reclusa de que seu +marido a procurava.</p> + +<p>Estava D. Antonia, senão moribunda, prostrada nos ultimos esvahimentos de +pthysica. Disseram-lhe que a<span class="pn">{42}</span> buscava seu marido, e +ella cuidou que ouvia uma voz a dizer-lh'o, como tantissimas vezes a ouvira nos +seus delirios, antes que as ultimas golfadas de sangue a privassem do prazer de +delirar. Mas, como aquella voz se repetisse por bocca de algumas religiosas que +mais caritativas lhe velavam a enfermidade, Antonia sentou-se de golpe no +leito, e circumvagou pelas faces de tantas mulheres os olhos torvos, não de +lagrimas, senão do véo da morte.</p> + +<p>Entendeu-as, convenceu-se, acreditou, porque a Virgem celestial lhe tinha +segredado que seu marido não era morto. As madres, com quanto crendeiras em +raptos e visões asceticas, julgaram-n'a delirante quando a viram ajoelhar com +muita fadiga, e contemplar a imagem da Senhora das Dores, á qual dizia com +anciosas intercadencias: «Fez-se o milagre, Mãe Santisssima! Eu bem vi que os +vossos labios se moveram hontem, quando eu me arrastei até junto de vós. Elle +vive!... mas eu... vou morrer... morro n'este instante, ó consoladora dos +afflictos, se me não daes algumas horas de vida em troca de tantas dôres, e de +morte tão custosa nos meus annos, com tanto amor e esperanças a morrerem +comigo! Outro milagre, Senhora! Deixai-me vêl-o... vêr o meu esposo!..»</p> + +<p>E orou uma prece inaudivel, com sorriso de esperança a embellecer-lhe as +lagrimas. Depois, lançou-se do leito aos braços d'uma religiosa, exclamando: +</p> + +<p>—Não morro... não quero morrer assim! A Virgem Santissima quer que eu +expire abençoando todos<span class="pn">{43}</span> os algozes, e beijando +todos os instrumentos das minhas torturas... Chamem as pessoas que mais me +despedaçaram... Eu quero chorar nas mãos onde houver signaes de sangue do meu +coração... Vistam-me... amparem-me... E, se eu morrer agora, levem-me assim +morta onde estiver Eduardo, ouviram?</p> + +<p>Balbuciadas poucas mais palavras inintelligiveis, D. Antonia inclinou a face +ao seio de uma noviça, e immudeceu, ressumando da fronte e das palpebras um +suor frio.</p> + +<p>—Estará morta?!—perguntavam-se as freiras quando nos dormitorios +do convento reboava grande alvoroço de passos e gritos.</p> + +<p>Os sacrilegos e algum tanto romanescos officiaes francezes, que tinham +acompanhado o seu camarada ao mosteiro, não lhes soffrendo o animo a demora da +reclusa e a impaciencia do esposo, intimaram arrogantemente a porteira a +franquear a porta. Como ella se negasse, esconjurando os depravados hereges, e +sacudindo o hyssope da agua benta contra as paredes, uns francezes espadaúdos +pozeram hombros contra as portadas em quanto outros escavacavam a roda a +cutiladas, ou esgarçavam á ponta de sabre o crivo dos palratorios. Desacatos +tamanhos e tanto para lastima eram crime vulgar e habitual em taes sujeitos, +vezados desde 1792 a profanarem conventos e a matarem freiras, principalmente +as velhas.</p> + +<p>Passadas de sensato horror, as religiosas abriram a porta. Eduardo foi quem +primeiro transpoz o limiar<span class="pn">{44}</span> d'aquelle pombal de aves +do empyreo, que apenas tinham de mulheres o receio de serem tratadas menos ao +espiritual do que se usa com as jerarchias celicolas. Era, ao mesmo tempo, +mavioso e compungente vêr como aquellas abelhas da divina ambrosia volteavam e +zumbiam, ao darem tento dos zangãos francezes! Se, por mofina sorte, colmeia +tão do céo, favos amellados com essencia de quantas flores perfumam cenobios de +noviças, se—diga-se ao claro—aquellas raparigas cahissem nos +colmilhos de tamanhos canibaes, com que vergonha nacional e minha não contaria +eu aqui o escandalo!</p> + +<p>Ainda bem que o decoro d'esta minha terra, n'aquillo como no restante, ha +sempre uma providencia que o salva illeso.</p> + +<p>As freiras, pelo menos, salvaram-se d'aquelle inferno que lhes andou a +chammejar por perto dos véos e dos escapularios; todavia, o alarido e +corrimaças que ellas faziam no claustro, accusariam de incontinentes os gallos, +(aqui a palavra <em>gallos</em> não é contingencia de capoeira) se ellas mesmas +não confessassem depois ao bispo e ás familias que os camaradas de Eduardo +Pimenta haviam procedido mais castamente do que era de esperar de atheus, sem +lei, nem rei, nem roque.</p> + +<p>E disseram verdade.</p> + +<p>Vem aqui a ponto sahir com uma defeza, embora serôdia, do exercito francez, +no tocante a ominosos attentados contra mosteiros portuguezes, segundo consta +d'uns poemas calumniosos que ahi correram, quanto javardos<span +class="pn">{45}</span> correm por lameiraes, e ainda sujam as bibliothecas de +alguns collectores de sordicias. Exceptuado o dragão que embaciou o cristallino +pudor da menina de Alemquer, não me chegou noticia authentica de outro aggravo +feito por parte da França á honra das nossas patricias. É regalo—não +é?—poder a gente escrever isto, e, por isto mesmo, asseverar que na +construcção das gerações sequentes a 1808 não ha gallicismo notavel que eu +saiba. Não obstante, dizem praguentos que as joldas invasoras dos mosteiros +arrebanhavam baixellas, pinturas, joias d'arte, e pospunham com desdem joias da +natureza, as esposas do cordeiro. Aqui ha acinte menoscabador da belleza das +nossas freiras, sendo certo que n'aquelle tempo as havia peregrinas, +primorosas, dignas patricias d'aquella Marianna Alcoforado, conventual em Beja, +que tão celebrada formosura e espirito deixou na Europa em cartas ainda hoje +relidas com dó, admiração, e somnolencia.</p> + +<p>Á imitação d'esta deviam ser as cento e vinte que esvoaçavam dos dormitorios +para a claustra e da claustra para a cêrca, do mesmo passo que Eduardo e os +seus honestos amigos seguiam a porteira em direitura á cella de D. Antonia de +Portugal.</p> + +<p>Quando o marido da desmaiada senhora assomou á porta, as freiras conclamaram +tão rijo grito que a enferma retranziu-se espavorindo os olhos.</p> + +<p>N'este lance, os braços, que a sustinham, eram já os d'elle, cujos labios, +crispando estremecidos de angustia, balbuciaram:<span class="pn">{46}</span> +</p> + +<p>—Esposa da minha alma!... Mataram-te... Fui eu quem te matou!... Oh! +falla-me, querida filha!... Não me conheces, Antonia?...</p> + +<p>Quando esta e outras exclamações iam avocando a razão da pavida agonizante, +a prioreza chamou fóra da cella as freiras testemunhas do trance doloroso, e +observou-lhes:</p> + +<p>—Não assistam a essa diabrura! Venham comigo ao côro pedir ao divino +esposo que despene d'esta vida a alma da peccadora, que veiu dar escandalo +n'esta casa.</p> + +<p>—Assim é, nossa madre!—obtemperou a escrivã, offerecendo uma vez +de simonte á madre boticaria, e olhando de esconso contra um official que lhe +careteava enviezando o beiço de baixo até cobrir a ponta do queixo.</p> + +<p>O verso e o reverso das coisas d'este planeta, leitor philosopho!</p> + +<p>Dentro da cella, agonias que as lagrimas afogavam no silencio; cá fóra, a +irrisão, a farça, a jogralidade que a critica descobre á beira das grandes +dôres, á beira até das sepulturas!</p> + +<p>Mas ao pé da sepultura de Antonia de Portugal, no templo de S. Salvador de +Coimbra, se não havia preces nem olhos lagrimosos, tambem não passava o motejo +sacrilego. Ahi moravam o silencio, a soledade, e a mudez do esquecimento que +deve ser nas almas idas e saudosas d'esta vida um chorar sem consolação no seio +da eterna gloria.</p> + +<p>Estava pois resalva das borrascas a luctadora vencida<span +class="pn">{47}</span> e ao mesmo tempo victoriosa; que morrer assim é +triumphar.</p> + +<p>A presença inesperada do esposo, que ella considerava morto, foi o osculo +santo do anjo que desde muito lhe condensava a treva para que um lampejo final +lhe abrisse o dia da perpetua luz. Aquella immensa alegria reviveu-lhe o +coração, galvanisou-lhe as potencias da alma entorpecidas, restituiu-lhe por +momentos a plena vitalidade; todavia, aniquilou-lhe o corpo subitamente +arrefecido nos braços de Eduardo.</p> + +<p>Do mosteiro de Santa Clara sahiu o cadaver sobraçado por aquelle homem que +relançava á volta de si o olhar sôffrego da posse da esposa morta. Quando elle, +vagarosamente, passava no longo dormitorio, ouviu o murmurio das freiras que +rezavam psalmos no côro. A desgraça faz prodigios de fé, desvarios de crença +que seriam galardoados com milagres, se os actos da omnipotencia divina se +pautassem pela regra do nosso entendimento. Eduardo, accêso em ardente fé, +escutava o soturno rumor das vozes, e orava em espirito com os olhos fitos nos +do cadaver ainda não fechados. O infeliz pedia a resurreição d'aquella mulher, +dobrando os joelhos, e inclinando a face sobre os seus labios alvacentos, como +se esperasse sentir-lhe o halito dos pulmões revividos.</p> + +<p>Instaram os officiaes, que o acompanhavam, para que lhes confiasse o +cadaver; mas, não conseguindo desabraçal-o da morta, ajudaram-o a transportal-a +ao quartel de um d'elles, que se incumbiu do enterro.<span +class="pn">{48}</span></p> + +<p>Ao descahir da noite em que D. Antonia foi sepultada, soaram os clarins a +reunir. Massena ordenára um movimento sobre Condeixa depois de se deter em +Coimbra tres dias que malograram todos os seus planos. Eduardo Pimenta, que +servia no quartel-general de Pamplona, recusou acompanhar o exercito.</p> + +<p>Os seus amigos propriamente lhe deram voz de preso, em nome do principe de +Esling, e o levaram á força de ao pé do cadaver já amortalhado. Commovidos +pelas supplicas, concederam-lhe que muitas vezes retrocedesse a beijal-a no +rosto, já quando a passavam para o esquife.</p> + +<p>Fechada a sepultura, e feito o silencio do esquecimento á volta d'ella, +ninguem diria que vida assim dilacerada podésse acabar por maneira tão singela! +</p> + +<p>Morrer! Que suave desfecho, se o desfazer-se a vida a desfibrações lentas +não custasse tanto! E, se Deus dispensasse as torturas do corpo aos que em si +já sentem o ingente supplicio da alma, a sua divina justiça nos deixaria +melhormente comprehender os liames que prendem a terra ao céo, a creatura ao +Creador, o espirito do homem perecivel á insuflação do grande espirito +immortal...</p> + +<p>Não sejamos mais especulativos do que foram os indifferentes que viram +passar o esquife de Antonia, ao mesmo tempo que Eduardo marchava sobre +Condeixa.</p> + +<p>Ahi fica esboçada a biographia do official que Venceslau Taveira encontrou +em Santarem.</p> + +<p>Ai! se elle então morresse! Que tragico vulto na legenda<span +class="pn">{49}</span> dos amores desgraçados! quantos anjos tristes, nascidos +em almas de poetas, iriam deplorativos esfolhar uma rosa de cada primavera na +sepultura d'aquelles vinte e quatro annos! Quem cuidára então que os dons +celestiaes da alma d'este homem se esvasiavam todos em lagrimas, e no fundo +d'esse peito germinavam os embriões de vicios que resvalariam á derradeira +infamia!<span class="pn">{50}<br>{51}</span></p> + +<h1><a name="SECTION00060000000000000000">V</a></h1> + +<blockquote> + <p> Ah Senhor,<br> + Amor sejais vós de nós<br> + E não haja amor com dor.</p> + + <p class="obra">G<small>IL </small>V<small>ICENTE.</small>—<em>Farças.</em></p> +</blockquote> + +<p>No coração juvenil e compassivo do fidalgo beirão a historia d'estes amores +deixou a melancolia piedosa propria de animos que ainda não padeceram.</p> + +<p>Cuidam que a dôr experimentada afina o sentimento, e abrolha as flores +perfumadas da compaixão quando lhe orvalham lagrimas alheias? Não é +absolutamente verdade. Os muitos infelizes são por via de regra os menos +sensiveis. Os desgraçados são egoistas. Não sabem, não podem, não querem +consolar, porque se julgam credores das consolações dos outros.</p> + +<p>Ao principiar da vida, a ignorancia do mal pende á condolencia e amiseração +dos que choram. O homem que então nos contrasta a nossa alegria com lagrimas, e +os hymnos de graças á Providencia com blasphemias,<span class="pn">{52}</span> +assombra-nos. Das muitas flores e luz que nos abrilhantam e aromatisam a vida, +formamos o reverso espantoso da escureza e avidez do desditoso que nos dá a +entrever o mal, nem sequer sonhado nas nossas noites serenas. Então é o +compadecerem-se de infantil dó umas almas predestinadas a revezes, abaladas por +vaticinios lugubres do seu destino.</p> + +<p>Não ha pois fiar-se a gente n'aquella compaixão da heroina de Virgilio que, +recordando os seus, se pungia dos alheios males.</p> + +<p>São peitos impenetraveis os cicatrisados de muitos golpes. O que ahi está +dentro é a sciencia da vida com a terrivel certeza de que o mal é necessario e +fatalissimo. Esta sciencia que nos vem por morgadio herdado, obra, não sabemos +se divina, se diabolica da serpente do paraiso, dá-nos ares de philosofantes +selvaticos, inflexos e frios. As lagrimas com que intentam amollecer-nos são +como outras que já choramos sem mais utilidade que vingarmos affogar n'ellas o +germen da confiança nos homens, e—quantas vezes!—da fé em Deus. E, +se esta sublime palavra, e inenarravel sentimento, D<small>EUS</small>, chega a +desluzir-se nos lances em que o invocamos, os affligidos cessem de confiar em +nós. Devorem-se, salvem-se pelo despejo ou pelo suicidio, que a religião não +lhes alvitra melhores recursos que a philosophia: tanto monta Jesus como +Platão. Nem nós podemos encarecer a efficacia dos balsamos que nos coaram ao +coração apenas um torpor, a paralysia das faculdades amantes da vida, +ignorando-lhe as condições<span class="pn">{53}</span> durissimas, o terrivel +desdem com que adormecemos debaixo da mancenilha, sem recear-lhe as exhalações +homicidas.</p> + +<p>Venceslau solicitou a estima de Eduardo, e affeiçoou-se-lhe com estremecida +amisade. No fervor do seu affecto, parecia ser elle a providencial indemnisação +á desventura do moço repulso dos braços do pae para os braços da esposa +moribunda. Raras horas se apartava d'elle, velando-lhe as do repouso, e +privando-se da convivencia dos alegres mancebos que se espantavam de tamanha +devoção e tão desusado sacrificio a um desgraçado vulgar.</p> + +<p>Por março de 1811 retirou o exercito francez de Santarem, perseguido por +Wellington. Eduardo, ao entrar em Pombal, abraçou Venceslau, e disse-lhe +tranquillamente:</p> + +<p>—Vamos ter batalha decisiva. Heide morrer n'ella. Separa-te desde já +de mim, que não quero vêr lagrimas, nem ouvir palavras piedosas em meio dos +gritos dos agonisantes.</p> + +<p>Pouco depois, escaramuraçaram as avançadas dos dois exercitos. Ao primeiro +recontro, Eduardo Pimenta, arrancando do pôsto muito distante dos piquetes, +embrenhou-se pela selva das bayonetas que retiniam dentro da cerrada bruma da +polvorada. Em breve lanço, o impetuoso official cahiu cortado do ferro inimigo, +e, quando a nuvem se rarefez, viu á sua beira Venceslau, descolchetando-lhe a +farda para examinar-lhe as feridas.<span class="pn">{54}</span></p> + +<p>Eduardo, cerrando os dentes, abafava o grito da dôr; faltava-lhe, porém, +vigor para repugnar ao curativo.</p> + +<p>Um cirurgião francez disse a Venceslau que nenhum dos ferimentos era mortal. +O ferido então abriu um riso de raiva á desgraça de sentir-se viver, e +murmurou:</p> + +<p>—Não sou um desgraçado vulgar...</p> + +<p>E, rodeando a vista pelos moribundos roixos dos paroxismos, accrescentou: +</p> + +<p>—Eram talvez felizes esses que ahi morrem. Um d'elles fallou em sua +mãe, e o outro pediu a Deus que lhe amparasse os filhos... Vês, Taveira? A +providencia deixa morrer esses, e quer que eu viva, e que por nenhuma d'estas +feridas eu possa arrancar a alma da sua cruz.</p> + +<hr class="dotted"> + +<p>Não é tão raro morrer quem ardentemente o deseja?</p> + +<p>Sei de homens desesperados que se offereceram em alvo, no ponto onde a +metralha das pelejas varria as victimas a rôdo. Sei d'outros que procuraram a +morte nos focos mais ardentes da peste. Vi uns que romperam contra as lavaredas +das casas incendiadas simulando caridade heroica no proposito do suicidio. Vi +alguns que se entregaram cegamente á medicina. E não morreram!</p> + +<p>A morte praz-se em destillar ás gotas a peçonha do seu calix na garganta +onde fervem e affogam soluços,<span class="pn">{55}</span> se as lagrimas da +saudade derivam sobre o suor gélido da agonia. Foi a morte creada á porta do +paraizo, quando a nossa archi-avó comeu o pomo. Creada como castigo, o seu +officio é matar, dilacerando; unhar com a ponta da garra um por um os liames da +vida, distendel-os devagar, descansando a intervallos, para que a seiva da +esperança os reforce, e depois a angustia lateje n'elles em redobro. Como +castigo, missão que o Creador lhe deu, a morte seria indigna do seu officio, se +nos decepasse de um golpe. As trevas subitas, a paragem do coração, um dormir +suave, um esquecermo-nos de tudo—morrer no instante em que tudo bom +d'este mundo nos sorria esmaltado de todas as estrellas—seria supplicio +condigno do affrontamento que Eva e o logrado marido fizeram ao Creador?</p> + +<p>Não. Á morte urgia-lhe, em cumprimento do seu encargo, maior dominio sobre +as potencias espirituaes que ella (convence-te, ó razão!) não mata, mas +tortura.</p> + +<p>Ahi está um coração de pae a arquejar em soluços de moribundo. Ha tres dias +que se debate nas ultimas vascas. No decurso d'esses tres dias, ha visto muitas +vezes os filhos que o chamam, que lhe affastam dos olhos os cabellos humidos, +que lhe enxugam nas faces lividas umas lagrimas onde vae diluida a derradeira +claridade das pupilas baças. Pois tres dias não bastam á maceração do +holocausto e ás dilicias do sacrificador que sahiu do paraiso com o peccado!? +Não. Aquelle homem está assim penando, ha de assim penar mais tres, mais +seis,<span class="pn">{56}</span> mais nove dias, porque expia pelo corpo +vibrante de nevrozes, e pela alma que se revolve em suas lagrimas.</p> + +<p>Meu Deus, meu Deus, que triste, que procelloso, que vilipendio vos seria o +mundo, se a minha alma só podésse entender vossa força nas dôres, nos medos, na +morte, na viuvez, na orphandade, nos ricos sem caridade, nos pobrinhos sem +enxerga!</p> + +<p>Afaça-se, leitor, obsequiosamente a este meu velho sestro de vagamundear á +volta dos assumptos, vestindo as nudezas da ideia com umas roupagens +variegadas. É pensão da velhice, e talvez desejo perdoavel de fazer pensar as +pessoas que abrem uma novella justamente para não pensarem.<span +class="pn">{57}</span></p> + +<h1><a name="SECTION00070000000000000000">VI</a></h1> + +<blockquote> + <p>Aperta-lhe a sorte ingrata<br> + O laço em que os pés lhe enreda.</p> + + <p class="obra">T<small>HOMAZ </small>R<small>IBEIRO.</small>—<em>A Delfina do + Mal.</em></p> +</blockquote> + +<p>Eduardo Pimenta, levado em braços a casa d'um aldeão que não estremava entre +jacobino e portuguez, pensou que seria alli miseravelmente esfaqueado logo que +os patriotas lhe descobrissem a paragem.</p> + +<p>Não se esquivou Venceslau ao perigo de ser sacrificado ao amigo que primeiro +o captivára com as dôres da alma, e agora com as da enfermidade. Ambos se +haviam despojado das fardas suspeitas e vestido á moda dos camponezes, +inculcando-se guerrilheiros fieis ao throno e altar.</p> + +<p>Como lhes minguassem recursos, mandou o beirão a sua mãe um portador com +carta bem commovente á piedade. Respondeu-lhe a mãe que era fallecido o pae, e +accudisse elle a receber o ultimo suspiro d'ella que o já sentia na +garganta.<span class="pn">{58}</span></p> + +<p>Sahiram os dois amigos dos arrabaldes de Pombal, e acantoaram-se na casa dos +Taveiras, onde corriam maior perigo, porque o corregedor de Lamego perseguia os +jacobinos, não com alçada morosa, mas com a justiça summaria dos sicarios.</p> + +<p>Além d'isto, bem que D. Antonia de Portugal, por sua parte, houvesse dado a +vida ao odio dos parentes, estes cavalheiros não eram da casta dos máos +corações que se contentam com a vingança de fazerem cahir uma campa sobre a +victima dilacerada. Duas campas é que elles queriam para que a sua posteridade +podésse apontar para ellas, quando outros aventureiros ousassem pôr olhos no +rosto defeso das mulheres de raça.</p> + +<p>No rasto do plebeu de Braga farejavam espertos assassinos, protegidos pela +justiça. Os sustos rodeavam já a casa senhorial dos Taveiras, atterrando a mãe +de Venceslau a ponto de bastarem poucos dias de afflicção a dar-lhe o descanço +eterno.</p> + +<p>Como filho segundo, pequena legitima cobrou Venceslau. O morgado, receoso de +compartir no perigo dos dous perseguidos, antecipou ao irmão o valor do +patrimonio, aconselhando-lhe a emigração.</p> + +<p>Entraram os dous expatriados por Hespanha em 1813. Da Corunha passaram a +Falmouth em companhia do cruzio D. José Liberato Freire de Carvalho, que depois +em Londres aproveitou a habilidade de Taveira, contractando-o para fazer +traducções no periodico intitulado <em>O Investigador</em>.</p> + +<p>Do seu patrimonio, e ganhos nas lettras, repartia<span +class="pn">{59}</span> o moço com o seu amigo, adoçando-lhe delicadamente o +agro da dependencia, com a clausula de que eram emprestados os recursos que lhe +offerecia.</p> + +<p>Seis annos assim viveram, durante os quaes Eduardo não despiu o lucto de sua +viuvez, nem desfitou os olhos scismadores de uma estrella por onde lhe +transluzia o que quer que fosse, vago e impalpavel, semelhante a uma alma.</p> + +<p>N'este enlevo e lucto bastante insolito, e não vulgares em poeta seis annos +viuvo, gastava o homem sua actividade, distrahindo-a das preoccupações dos +outros emigrados.</p> + +<p>Com o fim de o levantar de uns quebrantos quasi ridiculos, Venceslau +invocava-lhe o animo para os deveres que lhe impunham a infelicidade dos seus +conterraneos e a sua propria de desterrado. Baldados esforços. Pimenta era +sempre o inconsolavel.</p> + +<p>São pouquissimo interessantes os pormenores da vida d'estes emigrados, no +correr de sete annos. A pobreza por vezes venceu o trabalho assiduo de +Venceslau Taveira, esponjando-lhe o fel da penuria ás chagas da saudade da +patria. A inercia do amigo, motivada pelos crepes sempre carregados da sua +paixão, aggravava as difficuldades do moço laborioso.</p> + +<p>Eduardo distanciava-se, quanto a genio, dos martyres, que têm a acta do seu +martyrio nos romances, os quaes não sabe a gente se almoçam e jantam com a +trivial estupidez das especies carnivoras a que a leitora ideal não desejaria +pertencer, nem eu. Afóra o almoço<span class="pn">{60}</span> e jantar, o viuvo +consternado de D. Antonia de Portugal ceava, e recozia tudo ao fogo interno que +o escaldava, retemperando-lhe, ao que parecia, de fino aço as molas digestivas. +Á feição d'este, ha muitos sugeitos da mesma laia que, logo abaixo de um +coração abeberado em lagrimas, vos maravilham com um estomago de ógre. Raro +conseguem estes infelizes amiserar ninguem com suas lastimas em verso ou prosa, +porque a nediez do musculo os está sempre a desmentir de modo que o observador +incauto cuida que o humor vitreo das lagrimas é ressumação oleosa do chorume +que lhes sobeja. É mister, porém, não confundir as duas especies, a fim de que +a alçada bruta do chylo não leze os phenomenos da psyche—expressão grega +que os gregos não percebiam melhor que Venceslau quando via o seu amigo a +chorar e a comer ao mesmo tempo.</p> + +<p>Entretanto, assim que um simulacro de liberdade em Portugal, no anno 1820, +amnistiou os portuguezes que tinham servido as ideias da França, o fidalgo da +Beira com o sempre melancolico bracharense repatriaram-se.</p> + +<p>Protegido por José Liberato, e outros liberaes, o intelligente moço e já +notavel publicista offereceu a sua penna a Joaquim Manoel Alves Sinval que +então redigia o <em>Astro da Lusitania</em>.</p> + +<p>Notaveis artigos realçaram aquelle periodico e o nome do modesto escriptor, +cujos serviços á liberdade ainda no berço se contentavam da gloria de lhe +poetisar a infancia.<span class="pn">{61}</span></p> + +<p>No lapso d'estes successos Eduardo Pimenta, sempre ocioso e confiado á +liberdade do amigo, ia cogitando em ganhar de salto posição que o habilitasse a +indemnisar os favores do companheiro.</p> + +<p>Honrado empenho! suprema e unica dignidade dos ingratos.</p> + +<p>Este proposito, porém, não significava louvavel desejo de independencia: era +antes ruim plano de se desonerar da divida de reconhecimento que o vexava. +Sentimentos d'esta especie affectam exteriores de nobreza, e disparam em +villania, se bem os esgaravatamos no barril do lixo humano que se chama +<em>alma</em>, a qual se decompõe em <em>lama</em>, se lhe trocaes as lettras. +</p> + +<p>Começa Eduardo a enxergar os arreboes de uma estrella benigna que lhe +destece boa parte das suas escuridões. É um contentamento menos máo. Recebe a +noticia da morte do pae.</p> + +<p>Este velho, portuguez de lei como viram, typo symbolico da Braga de 1820, +patriota acrizolado no recontro com os francezes em Carvalho d'Este, um dos +Codros que tomaram parte no assassinio do general portuguez Bernardim Freire de +Andrade, tal sujeito, a não poder afogar n'agua benta a liberdade em pessoa, +devia morrer apopletico, e de feito morreu, deixando 1:600 missas á sua alma, e +tres solemnes maldições ao filho. Infere-se d'estes legados que a sua apoplexia +não foi das mais fulminativas; foi um ramo de ar, ou estupor, como a viuva +escrevia a Eduardo.<span class="pn">{62}</span></p> + +<p>Além das missas á alma e das maldições ao filho, o morto deixou bens +rusticos que formavam a mais rendosa lavoira de S. João de Nogueira.</p> + +<p>O viuvo de D. Antonia não era filho unico. Erguendo-se o melhor que pôde +debaixo do pezo da maldição triple, foi a Braga fazer partilhas com o irmão +clerigo, e tão intolerante se portou por causa d'um faqueiro de prata abafado +pelo padre em beneficio de uma freira dos Remedios, que chegaram ás ultimas, +esmurraçando-se sobre o espolio do honrado defunto, o qual tinha apanhado o +faqueiro no embornal cahido do cavallo ferido de um dragão que elle ou outros +tinham matado. O pae do clerigo—Deus lhe perdoe—gabava-se d'isso, e +o filho, theologo casuista, não achou em Bazembáo o caso da restituição da +coisa roubada a ladrão! 1:600 missas davam ensanchas para maroteiras +maiores.</p> + +<p>Regressou a Lisboa com quinze mil cruzados Eduardo Pimenta.</p> + +<p>O dinheiro influe bastante no espirito, e no resto. Adormece e acorda melhor +quem o tem. A espinha dorsal tem outra casta de aprumo. O olfacto fareja +essencia de violetas em tudo. O coração tem azas. A fantasia é mais allemã. Os +olhos comprehendem a fabula dos Argos e dos lynces. Os ouvidos afinam-se tão +agudos que, em comparação, a lebre é surda. Cada gaita de feira sôa-nos como a +tuba de Oberon.</p> + +<p>Sobre tudo, as faculdades do amor urdem romances, tecem-os de lhama de oiro +nas cabeças negras, castanhas<span class="pn">{63}</span> e loiras das mulheres +lindas, das feias, das Philamintas, das Felizardas. Todo o pé nos intriga, toda +a botinha é de Cendrillon, todo o vestido apanhado com elegante descuido é naça +que nos pesca a alma em lago de aguas cristalinas. O dinheiro faz isto: quando +nos sobram dentes para morder pomos, sómente prohibidos a quem não tem dentes, +nem dinheiro principalmente.</p> + +<p>Deu que scismar a Venceslau Taveira a transfiguração moral do amigo. A +linguagem mais expedita, a ideia lucida, prismatica, borboleteando por +assumptos que recendiam a rosas, a margaridas, a madrigaes. Emfim, Eduardo +fallava muito de amor, de poesia, de coração, de mulheres, de muitas mulheres +vivas, e de algumas mortas, de Fiammeta, de Fornarina, de Collona, de Leonor, +de Corinna, etc., excepto de Antonia. D'aquella Antonia, que elle andára sete +ou oito annos a procurar no crepusculo das tardes e no diluculo das madrugadas, +d'essa, que se mirrava entre os farrapos da mortalha e as pranchas do esquife, +não dizia nada.</p> + +<p>—Que vaes fazer ao teu dinheiro, Eduardo?—perguntou-lhe o +collaborador do <em>Astro da Luzitania</em>, rodando sobre a sua banca de +trabalho duas peças que havia recebido pelo serviço de um mez.—Empregas +esse capital em officio ou beneficio que te renda um passadío modesto?</p> + +<p>—Hei-de pensar n'isso...—respondeu desattentamente o +outro.—Por ora, assisto á renascença da minha alma, que esteve atrophiada +nos regêlos da desgraça. Estou acordando do lethargo, a reconhecer as<span +class="pn">{64}</span> commoções, as alegrias do viver. O cerebro ha de +funccionar, quando o coração lhe radiar o seu calor. Depois pensarei. Mas antes +de mais nada... Nós temos contas, Venceslau. Na emigração, tiveste a delicadeza +de me dizer que me emprestavas e não davas a subsistencia. A divida principal +não t'a pago, que não posso: é a gratidão insoluvel; mas o que é dinheiro quero +pagal-o, não só porque devo, mas porque me sentirei melhor na tua presença +quando t'o não dever.</p> + +<p>—N'esse caso, paga. Não quero que te sintas mal na minha +presença—disse Venceslau com semblante sereno e severo.</p> + +<p>—Sabes quanto é?</p> + +<p>—Não.</p> + +<p>—Calcúla.</p> + +<p>—Esse calculo pertence á tua pontualidade. É trabalho que está a cargo +d'aquelle que, depois da liquidação das contas, se sentir melhor na presença do +outro.</p> + +<p>—Vejo-te muito sério!—atalhou Eduardo.—Offendi-te?!</p> + +<p>—Foste apenas pouco delicado comigo. Eu não sou da especie dos +credores que apresentam a conta copiada do livro... Quando em Londres comprava +por um schilling um jantar para nós ambos, nunca lancei á tua conta seis pence. +Afiz-me a repartir com o irmão; não emprestava ao homem que havia de ser rico. +Nunca preví que houvesses de o ser... No meu trabalho não eras tu pequena +parte...</p> + +<p>—Eu?! que fazia eu?<span class="pn">{65}</span></p> + +<p>—Davas-me animo com a tua mesma ociosidade; redobravas-me o goso de +cumprir o dever de homem, por ti e por mim. Quanto a esperar de ti retribuição +em moeda corrente, não cabia semelhante conjectura no conhecimento que eu tinha +da tua indole...</p> + +<p>—Ora essa!...—interrompeu pondunorosamente Eduardo.—Então +figurei de parasita aos teus olhos...</p> + +<p>—Não: figuraste de homem engolfado por abysmos de saudade, amortalhado +em luctos de viuvez eterna...—respondeu Venceslau sorrindo.—Quem +havia de prever que sahirias do antro da tua dôr, ao fim de oito annos, com o +rosto banhado dos resplendores d'um novo dia? Eu, que então me julguei +reservado para a suprema angustia de te sepultar envolto no lençol da nossa +pobre enxerga, como sonharia esses quinze mil cruzados que te auctorisam a +perguntar quanto me deves? Quem diria que nas leiras e montados de teu pae +succederia o filho amaldiçoado? Desandou a roda funesta, Eduardo. O teu mau +anjo era a pobreza. Repelliste-o para as trevas dos indigentes. Voga +affoitamente no mar da vida, que estás em maré de felicidade. Que tregeitos de +impaciencia me fazes, meu amigo?.... Tem paciencia; escuta-me. Volta o rosto +alegre algumas vezes para o passado. Repara nas lagrimas e angustias em que se +desfizeram as tuas illusões. Olha que está uma sepultura de mulher innocente a +servir de base ao monumento das tuas recordações. Abre o livro funebre da tua +mocidade, e lê os preceitos da experiencia. Toda a desgraça é uma raiz, que se +arreiga dolorosamente na<span class="pn">{66}</span> alma; porém, lá vem um dia +em que a raiz abrolha flores que parecem de planta abençoada: essas flores são +o escarmento, o desengano, a verdade, a sciencia da vida como ella é, vista á +luz da razão.</p> + +<p>—Mas onde vaes tu com essas praticas tão bem +discursadas?!—perguntou Eduardo Pimenta, entre risonho e enfastiado.</p> + +<p>—Vou entregal-as á tua memoria para que te sirvam de <em>memento</em>, +quando escreveres á filha do commendador.</p> + +<p>—A filha do commendador? Querem vêr que me entroncas na progenie de D. +Juan Tenorio! Temos, pois, uma Anna, a filha do fidalgo de Burgos!...</p> + +<p>Venceslau Taveira pôz as mãos nos hombros do viuvo de Antonia de Portugal, e +disse-lhe com boa sombra e graça affectuosa:</p> + +<p>—Não achas notavel a coincidencia do pae que é commendador e da filha +que é Anna?... Dize-me agora: que motivos te justificam da reserva com um amigo +de oito annos? Que tinha que eu soubesse da tua bocca esses amores? Dizias-me, +ha dois mezes, que o teu coração era o Lazaro apodrecido na sua cova; e, como a +ideia de Lazaro envolve a ideia de Christo, o Christo do teu coração defuncto +foi o dinheiro. Não dou nada pela vida assim galvanisada por correntes +electricas do metal...</p> + +<p>Eduardo interrompeu o impertinente amigo com uma cascalhada de riso secco; +Venceslau, porém, carregando o semblante, concluiu:<span class="pn">{67}</span> +</p> + +<p>—Nunca te esqueças de que fui eu quem te apresentou ao commendador +Francisco Vaz e a sua filha D. Anna. Eu disse-lhes que tu, Eduardo Pimenta, +eras homem de bem, e infeliz, sem o haver merecido.<span class="pn">{68}<br>{69}</span></p> + +<h1><a name="SECTION00080000000000000000">VII</a></h1> + +<blockquote> + <p>Desejas conhecer o que és? repara nos outros: tal tu és.</p> + + <p>Desejas conhecer os outros? Olha para dentro de ti, que em ti os vês.</p> + + <p class="obra">S<small>CHILLER.</small>—<em>Poesias.</em></p> +</blockquote> + +<p>D. Anna Vaz, a filha do commendador de Santa Christina de +Almudena—commendador, entendam, de velha estôfa, aparentado com os +descendentes dos Pelagios e Ordonhos—era creança de quinze annos, quasi +bella, mas, melhor do que perfeita belleza, era boa, candida, innocente, e +triste das saudades de sua mãe, poetica da sagrada poesia que se curva a +derramar prantos sobre a urna de umas cinzas queridas.</p> + +<p>Venceslau conhecera em Londres um irmão d'esta menina, alferes emigrado, +compleição doentia, éthico da enfermidade nostálgica, exacerbada por amor a uma +senhora de Lisboa, com quem destinára casar-se, quando os franceses invadiram +Portugal.<span class="pn">{70}</span></p> + +<p>Falleceu este moço nos braços de Venceslau Taveira, pedindo-lhe que, se um +dia regressasse á patria, procurasse em Lisboa seu pae, e lhe pedisse que +entregasse á sua promettida esposa o retrato que lhe confiava.</p> + +<p>O portador do triste legado cumpriu a vontade do moribundo seis annos +depois.</p> + +<p>O commendador acceitou o retrato, e voltando-se para uma senhora, que estava +ao lado de sua filha no canapé, disse:</p> + +<p>—D. Julia, aqui tem o seu retrato.</p> + +<p>Venceslau inclinou-se profundamente diante da querida do seu amigo e disse: +</p> + +<p>—Era V. Ex.ª digna da paixão de Antonio Vaz, porque, se a comparo com +o retrato, noto que a semelhança foi já apagada pelas lagrimas. A formosura da +mocidade foi substituida pela formosura da mágoa.</p> + +<p>Julia, muito commovida, pediu ao portador do retrato que lhe referisse as +particularidades da vida e morte de Antonio Vaz. Depois, disse ella que o seu +malogrado noivo lhe contava em cartas as virtudes do seu amigo Venceslau +Taveira, e os impagaveis carinhos de irmão com que elle tentava suavisar-lhe os +espinhos da saudade, alentando-lhe com esperanças o animo quebrantado. +Terminada a sensibilisadora reminiscencia das cartas, proferida entre soluços, +D. Julia apertou a mão de Venceslau; e, levando-a aos labios, apesar do esforço +d'elle, balbuciou:</p> + +<p>—Beijo a mão que fechou os olhos do meu extremoso amigo!<span +class="pn">{71}</span></p> + +<p>Pouco depois, chegou uma sege á porta do commendador, e logo depois entrou +um criado a annunciar que era esperada a snr.ª D. Julia de Miranda. Venceslau, +obtida licença de Francisco Vaz, deu o braço á dama, e levou-a á traquitana, +reparando então que o cocheiro e lacaio vestiam libré, indicativa de familia +illustre.</p> + +<p>Voltando á sala, contou-lhe o commendador estas admiraveis coisas de D. +Julia:</p> + +<p>Era filha d'um desembargador do paço, já defuncto. Herdára trezentos mil +cruzados em propriedades rusticas e urbanas. Tinha vinte e sete annos de idade, +e deixára de ser formosissima desde que a paixão por Antonio Vaz a desfigurou, +mostrando-lhe repetidas vezes a morte no seu espelho o semblante cadaverico. +Mas contou o commendador que, sem impedimento da decadente belleza, eram muitos +os pretendentes á mão de Julia, bem que no pensar do ironico sugeito, muitos +haveria que a tomassem por esposa, ainda que ella não tivesse mãos, tão +necessarias ás formulas sacramentaes do matrimonio.</p> + +<p>Assim começaram as boas e logo familiares relações do escriptor com esta +excellente familia. Rara noite Venceslau deixava de visitar o agradecido +fidalgo, cujas ideias liberaes a morte do filho perseguido acrizolára. Fugiam +as horas de alegre palestra entre os dois, em quanto D. Anna estudava as suas +lições de musica, para depois, ao fim da noute, conversar em francez com o +jornalista.<span class="pn">{72}</span></p> + +<p>Intencionado a divertir Eduardo das suas abstracções penosas, Venceslau +apresentou o amigo, depois de prevenir os hospedeiros a favor da tristeza +taciturna do homem, que parecia assombrado do raio fulminador da sua mocidade. +</p> + +<p>Acolheram Eduardo, tanto o pae como a filha, com tanta sympathia e dó que, a +poucos dias andados, já o confundiam na familiar lhaneza com Venceslau Taveira. +E esta bella alma alegrava-se quando o via tão bem acceito, e já tão outro do +que era nas escuras melancolias, pelas quaes elle se havia feito aborrecer de +quantos o tratavam.</p> + +<p>Algumas noites concorria tambem D. Julia de Miranda, com o seu capellão; +homem de avançados annos, e tão amigo da fidalga que dizia idolatramente que +não era capellão, mas sim sacerdote d'aquella divindade.</p> + +<p>Em um d'esses saráos, desconfiou Venceslau que o seu amigo, abeirando-se do +piano em que Julia tocava, lhe passára uma carta. Sobresaltou-o a suspeita, +como se o caso tivesse a importancia d'um delicto contra as regras da sã moral. +Não espanta semelhante estranheza em homem que rossava pelos vinte e oito annos +sem haver entregado carta de amores, nem sequer ter sentido a precisão de +escrever uma, no intervallo de dois artigos politicos! A virgindade +epistolographica é hoje, e era então mais rara que todas as outras.</p> + +<p>Aconselhou-lhe a prudencia que, antes de interrogar o amigo sobre o caso +suspeito, obtivesse e certeza, para que as advertencias assentassem na culpa +incontestavel.<span class="pn">{73}</span> N'este em meio, chegou a Eduardo a +nova da morte do pae, e por tanto a sahida temporaria do herdeiro para a +provincia.</p> + +<p>No espaço dos dois mezes de ausencia, espiou Venceslau o coração de D. Anna, +e tão facilmente quanto era de esperar da candura da menina, descobriu a +saudade no empenho das perguntas e desejos de vêr as cartas de Eduardo.</p> + +<p>Além de que, D. Julia, em pratica sósinha com o jornalista, perguntou-lhe se +o seu amigo alguma vez lhe tinha confidenciado sentimentos amorosos.</p> + +<p>—Muitos e profundos, minha senhora—respondeu Venceslau, +despercebido da pergunta intencional.</p> + +<p>—A respeito de quem?</p> + +<p>—Da sancta que ha dez annos está no céo.</p> + +<p>—Ah! eu não perguntava isso...</p> + +<p>—Que era então, snr.ª D. Julia?</p> + +<p>—Já vejo que me enganei... Eu referia-me...</p> + +<p>—Á sua amiga D. Anna Vaz? Respondo que não, minha senhora. Eduardo +Pimenta nunca me revelou, depois que D. Antonia de Portugal morreu, affectos a +outra senhora. Isto, porém, não é desmentil-o, se elle disse o contrario. +Eduardo é tão meu amigo que me não confia tal intento, se o tiver.</p> + +<p>—Porquê?—atalhou admirada D. Julia.—Os intentos, que um +amigo esconde de outro, são os máos. Revelar um affecto nobre, honesto e +natural, é prova de amisade. Aos inimigos e indifferentes é que taes segredos +não se communicam. O snr. Taveira, se amasse a<span class="pn">{74}</span> +minha amiga, duvidaria revelar tão bom sentimento a Eduardo?</p> + +<p>—Se Eduardo me houvesse apresentado n'esta casa, eu sahiria d'ella +pretextando um motivo acceitavel, e depois denunciaria a minha pusillanimidade +ao meu amigo.</p> + +<p>—Santo Deus! como V. S.ª é austero!—voltou sorrindo a rica +herdeira.—Não cuidei que do estrangeiro se trouxessem regras de moral tão +rigorosas!</p> + +<p>Venceslau fitou com desgosto o semblante ironico de D. Julia. Penalisava-o o +desconcerto da reflexão, impropria de tal dama, com o primoroso juizo que elle +compozera da sua sensatez.</p> + +<p>E ella, que se viu encarada com estranheza, sentiu logo beliscado o amor +proprio, a fibra sensivel da vaidade de parecer moralmente perfeita.</p> + +<p>—Não me parece—proseguiu a dama gravemente—desdourar-se um +rapaz que estima uma senhora da casa onde o apresentam. Conheço muitas amigas +minhas casadas e virtuosas, que encontraram affeições nobres e dignos maridos +em pessoas apresentadas na casa de seus paes. Póde ser que d'outro modo se +hajam casado muitas; mas eu, se fosse mãe, estimaria conhecer os noivos de +minhas filhas; e, se fosse noiva, preferiria ouvir na sala de meu pae a ouvil-o +da janella, para a rua, o homem que houvesse de ser meu marido.</p> + +<p>Taveira sentiu-se enredado na dialectica de D. Julia; mas, desatado dos +embaraços pouco menos de melindrosos, objectou:</p> + +<p>—Eduardo Pimenta ha de ser sempre infeliz. A<span +class="pn">{75}</span> enorme desgraça da sua mocidade foi repellão de vento +que lhe apagou na alma toda a luz das alegrias puras. A sombra d'uma martyr não +consente que outra mulher, embora seja um anjo, repouse venturosa no coração +onde ella deve ter deixado a sua imagem, como Deus deixou á porta do eden o +archanjo da espada de fogo.</p> + +<p>D. Julia, maravilhada da ideia e da fórma, ia replicar, quando Venceslau +proseguiu, abalando-lhe o animo ás primeiras palavras:</p> + +<p>—V. Ex.ª amou ardentemente o meu chorado amigo Antonio Vaz. Elle +morreu, e a snr.ª D. Julia, que não era sua esposa nem devia ao amor das +primeiras nupcias o honrado sacrificio das segundas, guarda á memoria do homem +amado a lealdade que eu respeito e que todos lhe admiram. Ficou V. Ex.ª nova, +bella e rica; e d'estes tres dons que raras vezes se conciliam e tão desejados +se procuram, fez V. Ex.ª realçar o merecimento do seu holocausto ao amor unico +da sua vida, querendo assim que a nobre alma de Antonio Vaz se gose na +bemaventurança da religiosidade com que V. Ex.ª n'este mundo se lhe devota. Se +a snr.ª D. Julia me permitte o comparal-a, Eduardo Pimenta, está em ponto de +maior obrigação e fineza á alma de Antonia de Portugal. O homem que levantou +nos braços o cadaver da mulher lentamente assassinada por amor d'elle, não deve +mais apertar n'esses braços outra, se a essa tem de render os votos e palavras +com que venceu o coração da desditosa que lhe immolou mocidade, gentileza, +nascimento, parentes, contentamento, futuro,<span class="pn">{76}</span> e até +a memoria hoje em dia despresada d'esses que ainda se lembram da martyr para a +execrarem.</p> + +<p>D. Julia, enternecida pelo convulso proferir d'estas vozes, não conteve as +lagrimas. Era n'este sentir grande parte o admirar, em moço tanto na flor dos +annos, um respeito assim fervoroso á consagração do primeiro amor, e holocausto +perpetuo e por tanta maneira penoso da alma á mulher amada, primeira e unica. +</p> + +<p>Vendo-a pezarosa e absorta, Venceslau desculpou-se da crueldade de suas +tristes reminiscencias, e derivou a pratica a outros assumptos, +ageitando-se-lhe bom lanço com a entrada do commendador.</p> + +<p>D. Julia, entretanto, foi ter com a sua amiga que de proposito se affastára +para dar logar ás averiguações que tanto interessavam ao seu desassocego.</p> + +<p>—Tu vens triste?!—perguntou Anna assustada.</p> + +<p>—Triste, não; filha... Venho peor que triste... Não vês que chorei?</p> + +<p>—Choraste!... é verdade!... Porque?</p> + +<p>—Que rapaz é este Venceslau! Bem m'o dizia teu mano. Chamava-lhe elle +o coração de uma creança temperado pela prudencia de um velho sem manchas na +sua vida de moço. É assim... é admiravel; mas Deus nos livre que todos os paes +e noivos se parecessem com elle em escrupulos e severidade.</p> + +<p>—Então que te disse a respeito do Eduardo?... que me não ama?</p> + +<p>—Não lhe fiz semelhante pergunta, menina. Apenas me adivinhou a tenção +franziu a testa, mudou de<span class="pn">{77}</span> aspecto, e reprovou que +tu amasses um homem nas circumstancias de Eduardo, viuvo de uma martyr, +devastado por essa grande e unica paixão da mocidade, incapaz de fazer feliz a +mulher que lhe pedisse amor impossivel; emfim, Annica, comparou-o na sua +posição com a minha, para vir a dizer, se eu bem o entendi, que não deves +arrancar o coração de Eduardo á saudade da outra desgraçada que lhe expirou nos +braços... Fallou-me de teu irmão, e fez-me chorar... Olha, filha, é +extraordinario este homem! Eu, quando o ouvia ainda agora, sentia em mim não +sei se assombro, se admiração, se profunda sympathia por elle!</p> + +<p>—Mas então...—interrompeu a infantil menina, como se as +admirações ou sympathias de Julia não diminuissem nada do seu +alvoroço.—Disse elle que Eduardo não me ama?</p> + +<p>—Tal não disse, creança...</p> + +<p>—Pois que foi? Eu não entendi...</p> + +<p>—Nem admira que não entendas, filha. Vê se percebes o receio de +Venceslau: diz elle que o amor de Eduardo morreu com outra que elle amou, e não +póde repetir-se comtigo.</p> + +<p>Anna fitou os seus fulgurantes olhos nos de Julia, quedou-se abysmada longo +tempo na sua contemplação, e, só depois de chamada pela amiga, sorriu com mais +tristeza do que se chorára, e murmurou:</p> + +<p>—Para que me escreveu elle duas cartas a dizer que me adorava como os +anjos adoram a Deus?<span class="pn">{78}</span></p> + +<p>—E eu creio bem que elle te adora, minha querida Annica...</p> + +<p>—Não digas isso... Dize-me a verdade, porque eu...</p> + +<p>—Tu... quê, filha?</p> + +<p>—Eu perdi a minha alegria, ando triste, não penso senão n'elle; e +antes queria morrer que não o vêr mais...</p> + +<p>—Pobre creança!... Não pensei que o amavas assim!—disse Julia +beijando-a e acariciando-lhe os cabellos.—Pois filha, tem esperança... As +coisas, que disse o Taveira, bem pensadas, importam pouco. Elle entende a +dignidade, o amor e o dever de um modo excepcional. Os corações alheios hão de +regular-se por preceitos mais faceis e humanos. Se Eduardo te merecer, e teu +pae consentir, que tem que cazes com um homem que muito amou outra mulher digna +d'elle? Peor seria cazares com outro que houvesse sido mau marido, e quizesse +fazer vêr isso como virtude aos teus olhos... Mas... mas se...</p> + +<p>—Mas se...—acudiu Anna impaciente da suspensão.</p> + +<p>—Mas se teu pae impedir tal casamento? Ainda não pensaste n'isso?</p> + +<p>—Não... É verdade... Se meu pae impedir... que hei-de eu fazer?...</p> + +<p>—Eu sei lá, filha! Obedecer a teu pae; que outra coisa ha de fazer uma +menina da tua qualidade? Eu<span class="pn">{79}</span> bem sei que teu pae é o +fidalgo menos vaidoso que eu conheço. Tenho-o visto ser egual com todos, e +admittir em sua casa pessoas de baixa extracção sem indagar a procedencia +d'ellas; mas tambem é certo que, uma vez, antes de cá vir o Eduardo, me disse +elle a mim que morreria feliz se te deixasse casada com um homem como Venceslau +Taveira... Ah!—esta subita exclamação de D. Julia foi solemnisada com um +bater de palmas significativo de valioso descobrimento nos arcanos do +coração.—Queres tu vêr que eu comprehendi perfeitamente agora as +repugnancias de Taveira?</p> + +<p>—Sim? que é?</p> + +<p>—É ciume, olha que é ciume! O Venceslau não t'o declarou; mas pensou +em te cortejar. Como tem um genio exquisito, esperava occasião de manifestar-se +a teu pae, antes de consultar a tua vontade. Mas eu que tal não imaginava fui +fallar-lhe do teu amor ao outro, e ahi tens a razão porque elle expoz as +extravagantes theorias, que eu nunca ouvi a ninguem. Pois não é outra coisa, +Annica. O Venceslau ama-te, e começa a odiar o rival. Complicam-se as +situações. Veremos o desfecho d'isto.</p> + +<p>—Eu não caso com o Taveira, ainda que o papá me +obrigue!—exclamou D. Anna, batendo o pé, e tregeitando uns gestos de +mimo, que davam a lembrar irritações de menina por amor das bonecas.</p> + +<p>—Pois então, creança—aconselhou Julia com o siso dos treze annos +que levava de vantagem á sua confidente—tem prudencia, não te precipites. +Parece-me<span class="pn">{80}</span> que o Taveira, se teve aspirações, como +creio que teve, á tua mão, sabendo que o Eduardo te namora, é incapaz de +prevalecer-se da estima de teu pae para desviar o outro d'esta casa. +Entretanto, é preciso cuidado. Previne o Eduardo. Escreve-lhe, se não poderes +dizer-lh'o. Que se acautele; que não conte nada; que vá grangeando a confiança +de teu pae, até conseguir a intimidade que Venceslau obteve. Depois, eu te +auxiliarei, intercedendo a favor de Eduardo, se houver resistencia.</p> + +<p>Este dialogo precedeu a chegada do viuvo de D. Antonia.</p> + +<p>Quando Venceslau Taveira, entre severo e jocoso, lhe feriu o melindre com as +ironias allusivas ao legendario D. Juan e á sacrificada filha do commendador, +já o mysterioso amador de D. Anna Vaz estava prevenido.</p> + +<p>O ingrato acceitára as insinuações offensivas do caracter do seu amigo. Não +duvidou serem ciumes os brios, d'outro modo inexplicaveis, do seu mentor +gratuito. D'ahi a ancia de se desendividar a dinheiro, para assim se emancipar +da preponderancia que o seu valedor na emigração parecia exercer-lhe na +vontade, e mais que tudo no alvedrio dos seus amores.</p> + +<p>Em meio d'isto, no animo do bracharense, transfigurado pelos quinze mil +cruzados, operavam-se curiosas perplexidades que o accusam de espirito +destragado talvez pela desgraça da sua juventude. Aconteceu, pois, que estando +elle na sala do commendador Vaz, ao mesmo tempo que D. Julia de Miranda referia +a um advogado presente o bom exito de certo pleito, d'onde acresciam<span +class="pn">{81}</span> aos seus bens vinculos no valor de sessenta mil +cruzados, ouviu perguntar o pae de D. Anna ao capellão da opulenta herdeira, em +quanto orçava elle os haveres da senhora. E o padre, recolhido alguns segundos, +respondeu:</p> + +<p>—Por morte do snr. desembargador, a snr.ª D. Julia succedeu em bens +avaliados pelo barato, em trezentos mil cruzados. Ora, como sua excellencia não +gasta os seus rendimentos, o seu dote cresceu em sete annos dezoito a vinte mil +cruzados. Ajunte-lhe V. S.ª o vinculo de Collares, e póde sem receio de errar +cem moedas, computar em quinhentos mil cruzados a casa da snr.ª D. Julia.</p> + +<p>—E que ha de ella fazer a tamanhos bens de fortuna?—perguntou o +commendador.</p> + +<p>—Comigo não os levo para a cova—respondeu a dama.—Os +vinculos irão a quem tocarem; os bens livres a quem eu quizer.</p> + +<p>Esta resposta rejubilou Francisco Vaz, esperançado que os filhos da sua Anna +viessem a herdar os bens d'aquella que vestira eterno lucto d'alma por seu +filho Antonio.</p> + +<p>Mas, ao mesmo tempo, Eduardo Pimenta bascolejava no craneo uns pensamentos, +que não se inculcam por originaes nem torpes; mas que merecem ser marginalmente +assignalados por quem estuda a vida nos romances.</p> + +<p>Dizia elle para dentro da sua consciencia:</p> + +<p>—Esta mulher convinha-me. Andei muito depressa<span +class="pn">{82}</span> na declaração á outra. Se Venceslau conseguir fechar-me +uma porta, já sei a qual hei-de ir bater. Anna inquestionavelmente é uma linda +flôr; mas Julia de certo é um fructo cubiçavel. Anna é um anjo de belleza; mas +quinhentos mil cruzados...</p> + +<p>—Quinhentos mil cruzados—dizia Venceslau Taveira ao commendador, +como se désse complemento á phrase ou resposta á pergunta mental do +amigo—não bastam para comprar um dia de pura felicidade, se o possuidor +os não depõe nas mãos da Caridade, segunda mãe dos orfãos, e divindade luminosa +nas almas que a desgraça entenebreceu. Quinhentos mil cruzados não vingam +ajuntar mais uma hora de vida aos que se estorcem nas ancias da morte, com as +mesmas contorsões dos que expiram nos muladares e nas palhas fetidas dos +sótãos.</p> + +<p>—Isso é pavoroso!—disse Eduardo Pimenta, contando com o applauso +dos circumstantes.</p> + +<p>Riu-se apenas o capellão, talvez despeitado por vêr que um profano lhe +tomava a mão no seu direito de moralisar ácerca da inutilidade do dinheiro. E +ninguem mais applaudiu a reclamação faceta do interruptor. Venceslau, porém, +encarando-o com boa sombra, respondeu:</p> + +<p>—Bem se vê que este meu amigo está rico!... A moral dos pobres é +sempre o pavor dos que se receiam que ao apostolado da esmola se siga a +tentativa do roubo...<span class="pn">{83}</span></p> + +<h1><a name="SECTION00090000000000000000">VII</a></h1> + +<blockquote> + <p>Franqueza e mais franqueza. Assim é que a amisade<br> + Póde ter duração e dar felicidade.</p> + + <p class="obra">V<small>ISCONDE DE </small>C<small>ASTILHO</small>—No + <em>Avarento</em>.</p> +</blockquote> + +<p>Se as sympathias de quem lê este livro começam a divorciar-se do viuvo de +Antonia, apresso-me a divulgar um galhardo lance que deve restituil-o á estima +das familias.</p> + +<p>Eduardo, tres dias depois dos successos contados no anterior capitulo, +procurou Venceslau, e abriu-lhe a sua alma d'este feitio:</p> + +<p>—Volto a buscar o amigo extremoso que, depois de dez annos, me deixou +vêr que tudo n'este mundo é imperfeito, sem excepção dos amigos.</p> + +<p>Venceslau, ouvido o esperançoso exordio, depoz a penna, recostou-se á +espalda da cadeira, fixou-o com attenção menos cordeal que admirada, e esperou +em silencio.<span class="pn">{84}</span></p> + +<p>E o querido de D. Anna, com a firmeza e gravidade dos arrojos nobres, +proseguiu:</p> + +<p>—Houve um tempo em que tu, Venceslau, compadecido da insulação em que +vias a minha pobre alma, raciocinavas amigavelmente reprovando a fraqueza menos +de mulheril a que a saudade me extenuára, a ponto de inutilisar a minha aptidão +para o trabalho, para o dever e para tudo que é proprio de homem. Eu +escutava-te, soffreando ora as lagrimas, ora a indignação: as lagrimas, quando +realmente me via inutil, a depender das tuas liberalidades; a indignação, +quando se me pedia esforço incompativel com a minha amargura. Esta doença moral +durou nove annos, queimando-me nas suas febres, e lacerando nas suas roscas de +fogo o melhor da minha mocidade, introvertendo-me no devorar-se intimo da alma, +em quanto, á volta de mim, os meus companheiros de exilio se distrahiam com o +trabalho, ou se acalentavam com esperanças. Entrei na patria, chorando, em +quanto os outros jubilavam, restituidos ás familias e recompensados com as +posições e empregos de que se estão gosando. Quiz, porém, a Providencia que um +raio de luz entrasse á noite profunda do meu coração, quando as supplicas da +minha infeliz esposa alcançaram talvez da bondade divina que desviasse dos meus +labios a taça da desesperação. Ao mesmo tempo que o desejo de viver renascia do +seu sepulchro de nove annos, o cortejo das miserias que me confrangiam a +virilidade e nobreza do meu caracter, deram-me treguas, permittindo o céo que a +maldição de meu pae não chegasse<span class="pn">{85}</span> a esterilisar o +meu patrimonio. A minha felicidade parecia recomeçar, ou antes começava para +mim, quando de repente se levanta uma nuvem a negrejar no horisonte que tão +claro se me prefigurava nos sonhos; mas, ao travez d'esta nuvem, +transluzia-se-me uma imagem de mulher, formosa e innocente como ha doze annos +eu vira outra que depois a chuva das lagrimas apagou. Esta segunda, santa e ao +mesmo tempo sinistra visão, é Anna Vaz, é aquelle anjo de resgate que tu me +apontaste na via dolorosa da minha paixão. Venceslau, o teu caracter é +nobilissimo; é, mas o meu entendimento não sonda todos os seus arcanos. Ha +delicadezas reconditas nas grandes almas; ha mysterios de abnegação que se não +descortinam sem grande iniciação de virtudes que não tenho. Bem longe estava eu +de suspeitar que tu amavas a filha do commendador; bem longe estavas tambem tu +de me communicar esse segredo. Duas maravilhas para mim: uma, a reserva, para +quem a não devias ter; outra, a renuncia para quem seria capaz de t'a acceitar. +De qualquer das fórmas considerado o teu proceder, assombras-me, porque és +homem, porque és bom, porque tens vinte e oito annos; todavia, se melhor +pondero a tua indole, isto que em mim é assombro talvez se deva considerar +incapacidade para entender o melindre da tua honradez, nas grandes e nas +pequenas coisas, na politica e na moral, nos actos da consciencia e nos do +coração. Não obstante, Venceslau Taveira, consente que eu te pergunte porque me +não disseste que amavas D. Anna Vaz?<span class="pn">{86}</span></p> + +<p>—Porque eu não amava D. Anna Vaz—respondeu serenamente o +interrogado.</p> + +<p>—Então amaste-a depois que desconfiaste da minha dedicação?</p> + +<p>—Nem antes nem depois.</p> + +<p>—Amigo, abre-me a tua alma, se ainda me prezas. Não te julgues abatido +da tua dignidade com semelhante revelação. Se fui teu competidor, a ignorancia +me desculpa. Poderia accusar-te eu d'este dissabor, culpando-te o resguardo que +tens para os mais communicativos sentimentos. Conheço o primor dos teus brios; +sei que regeitarás a mulher que não teve espirito bastante para entrar ao +secreto das tuas intenções. Não pódes arguil-a, meu amigo, porque ninguem te +ouviu palavra indicativa de affeição superior ás affeições triviaes das salas. +O commendador disse algumas vezes a D. Julia que tu deixáras o coração onde +deixaste o habito de noviço. Os amigos d'elle e teus pasmavam que sahisse do +mosteiro quem tão de molde nascera para as frialdades do claustro e desdens da +vida social. Em meio d'estas apreciações, não era natural que a innocente Anna +entendesse melhor a tua indole...</p> + +<p>—Que desperdicio de palavras!—atalhou Venceslau Taveira, vencido +da impaciencia, que elle tantas vezes subjugava a esforços de cortezia.</p> + +<p>—Eu já sabia que principiava a cansar a tua attenção—replicou Eduardo, +dissimulando a custo o dezar.—O que tenho que dizer-te é pouco mais, +todavia o que mais importa. Deponho nas tuas mãos a inabalavel<span +class="pn">{87}</span> resolução de desviar o espirito d'essa mulher que é +causa innocente dos nossos primeiros desgostos, e peço á tua bondade que me +absolvas da culpa, se delinqui, não te adivinhando. Se eu souber ou podér +descobrir que o ausentar-me da casa do commendador te é aprazivel, mais grato +me será a mim o sacrificio do que a ti. O que eu repulso com todas as forças da +minha honra é a imputação de rival do meu maior amigo.</p> + +<p>—Respondo—voltou Venceslau, retomando a penna para continuar o +seu artigo.—Não amei a filha do commendador. Zelei a dignidade da familia +que nos recebeu cordealmente. Demasiei-me comtigo em transcendencias de +melindres, que, melhor avisado, eram pieguices. Se Anna Vaz te ama, paga-lhe +com honrado amor a divida. Se tens coração e brios, se crês que esse amor é luz +para durar e não relampago para deslumbrar, apagar-se e tecer-te mais espessas +trevas, ama a creatura que te ama. O commendador estima-te: se lhe pedires a +filha, persuado-me que lhe será agradavel conceder-t'a. Quanto a riquezas, ouço +dizer que elle as não tem; mas sobeja-lhe a mediania. Nunca te conheci +ambicioso. O que tens sobra-te á felicidade, se a procurares áquem da +opulencia. Não sei que mais deva dizer-te sobre o ponto.</p> + +<p>Eduardo não redarguiu. Havia o que quer que fosse adstringente e intallador +na garganta do homem. Preparára-se para outro desfecho. Contava com lances +irritantes que explicassem a sua ausencia da casa do commendador. A situação +por tanto era a mesma, era boa,<span class="pn">{88}</span> mas elle queria +peoral-a. Venceslau não amava D. Anna; mas elle, para acerbar o trago do seu +absyntho, queria immolar-se ao amigo, recolher outra vez o coração ao seu +tumulo, revestir o crepe d'uma segunda viuvez, e recomeçar o seu ir-se d'olhos +no céo pelas regiões sombrias da saudade immortal.</p> + +<p>Devia ser isto o que martellava o peito do homem, quando elle entrou no +pateo d'um palacete ás Amoreiras.</p> + +<p>Morava ahi D. Julia de Miranda. Estavam os cavallos postos á traquitana; e +já na escada fremiam os vestidos da fidalga, quando elle entrou.</p> + +<p>—Está aqui, snr. Pimenta!—exclamou Julia.—Procura-me ou +vae de passagem? </p> + +<p>—V. Exc.ª vae sahir; voltarei, quando lhe não for tão incommodo.</p> + +<p>—Não, senhor: suba. Eu ia a compras que posso adiar, e talvez fosse +jantar com a minha Annica; mas, como não sou esperada, não receio que ella se +queixe. Suba. Ha muito que eu ambicionava o prazer da sua visita.</p> + +<p>Eduardo deu-lhe o braço, e entrou pela primeira vez nas magestosas e severas +salas do desembargador Miranda, que se prezava (isto vae como nota) de ter +n'ellas as principaes alfaias dos marquezes de Tavora, condemnados ao supplicio +por seu pae—acquisição, a das alfaias, legitimamente feita, por ter sido +um brinde do marquez de Pombal ao ministro que, em particular e não por +sentença, incumbíra os tres carrascos de mostrarem<span class="pn">{89}</span> +previamente á marqueza de Tavora, D. Leonor, os supplicios reservados para o +esposo, filho e parentes.</p> + +<p>Ditas as frivolidades usuaes, Eduardo ageitou o semblante ao proposito, e +por esta maneira respondeu á curiosidade de D. Julia:</p> + +<p>—Sahi ha pouco de casa de Venceslau Taveira...</p> + +<p>—Foi talvez—interrompeu a dama—felicital-o por ter sido +eleito deputado? Eu mandei-lhe agora mesmo o meu bilhete de visita. Não sabe +quanto folguei com esta prova dada ao talento e á virtude d'aquelle rapaz! +Deve-o a si, á sua dedicação, e a nenhuns protectores.</p> + +<p>—É verdade, minha senhora, Venceslau é um complexo de excellencias que +ha de ir muito longe, se a distincção é carreira em Portugal. Fui lá; mas, +snr.ª D. Julia, o meu espirito ia tão preoccupado d'outro assumpto que nem me +occorreu dar-lhe os emboras. V. Ex.ª consente-me que eu seja rasgadamente +franco nas melindrosas confidencias que lhe vou fazer?</p> + +<p>—Oh! pois não!</p> + +<p>—Dá-me a honra de eu a considerar minha amiga?</p> + +<p>—E sou deveras, snr. Pimenta.</p> + +<p>—E portanto faculta-me a liberdade de lhe fallar como se falla a... +uma irmã?</p> + +<p>—Assim é que me consideram as pessoas de quem sou sincera amiga.</p> + +<p>—V. Ex.ª tem n'essa conta a snr.ª D. Anna Vaz.</p> + +<p>—E muito no intimo da minha alma. Não lh'o disse ella?</p> + +<p>—Raras vezes tenho trocado duas phrases com a<span +class="pn">{90}</span> snr.ª D. Anna; mas facilmente conheci a intimidade que +liga dois anjos. Quando voltei do desterro, era eu em Lisboa um como +desamparado dos mais vulgares affectos. Ninguem me saudou, ninguem me deu o +festival abraço do bem-vindo; nada me deu a conhecer que pizava chão da patria; +o céo era pesado e silencioso para mim como o do exilio; todas as physionomias +me eram estranhas: vi-me proscripto entre os homens que fallavam a minha +lingua, sem me darem d'ella uma das doces palavras que fazem sentir a patria na +alma e no coração. Repulso das caricias da familia para os braços d'uma adorada +mulher, nas agonias do trespasse, como que, ao mesmo tempo, me vi viuvo e +orphão. Arrastei o meu lucto, oito annos de emigrado, e, ao saltar em terra +portugueza, a dôr pungia-me mais, porque não achei ninguem que me désse um +peito onde encostasse o rosto coberto de lagrimas. Redobrou-se-me o tedio da +vida. Invejei a paz dos mortos. Abominei-me pela cobardia de viver...</p> + +<p>—Tendo um amigo como Venceslau Taveira!...—interrompeu D. Julia, +retendo a custo as lagrimas justificadas pela toada plangente d'aquella bem +discursada elegia.</p> + +<p>—Venceslau—tornou o lastimado Pimenta—é um caracter +nobilissimo; porém n'elle as operações reflexivas e frias da razão predominam +as outras faculdades. Não sei se elle é capaz de grandes paixões; mas +experimentei que as paixões alheias não o desvairam das linhas que pautou aos +actos do seu bem ordenado<span class="pn">{91}</span> juizo. Venceslau +consolava-me com as theorias e dictames dos pensadores de gabinete; mas eu, +fóra do ambiente sereno do meu amigo, encontrava as tempestades soltas que me +baldeavam a alma por quantos golphãos se abrem aos pés de quem uma vez tomou +nos braços o cadaver d'uma mulher formosa e amada, e o collocou debaixo da +enxada de um coveiro.</p> + +<p>N'este lance, Eduardo, quanto dos olhos marejados cumpria inferir, tinha +ante si o phantasma de Antonia, não como apparição do anjo consolador, mas sim +a reprovar-lhe a invocação da sacratissima memoria para o entrecho d'uma +comedia ignobil, com seus entremeios de declamação tragica.</p> + +<p>D. Julia, d'esta feita, não pôde estancar duas lagrimas, signaes da +enternecida admiração que lhe estava entrando na alma pelos desastres de tão +sensivel quanto infeliz moço. E elle continuou, guardadas as pausas da arte +scenica:</p> + +<p>—Quando Venceslau me convidou a ser apresentado ao commendador Vaz, +dizia-me uma voz secreta que este passo de tão simples natureza seria na minha +existencia uma phase nova, o marco erguido entre dois abysmos—o que se +fechou e outro que se abre.</p> + +<p>—Porque?!—atalhou D. Julia.</p> + +<p>—O presentimento, minha senhora; a vista dupla dos grandes +desgraçados...—a sombra do anjo negro que esvoaça á volta de mim, e ás +vezes me rossa no peito com a aza, como ave nocturna que bate na pedra de uma +sepultura. Agora diga-me V. Ex.ª se o meu<span class="pn">{92}</span> presagio +era chimera de visionario. Entrei na sala do commendador, e vi duas senhoras. +Na face de uma desabotoavam-se em sorrisos as flores do primeiro abril do +coração; na face da outra havia uns toques de dôr, a pallidez reflexa dos +luctos do espirito, a formosura esculptural de estatua que se curva a chorar +sobre uma urna de cinzas. Esta era V. Ex.ª; a outra, a innocencia radiando +alegrias, era a snr.ª D. Anna Vaz. Eu contemplei-as ambas com o olhar profundo +de quem já viu muita alegria de repente morta, e não viu ainda resurgir aurora +de dia bonançoso para quem uma vez sentiu anoitecer-se-lhe tudo que lhe era +claridade. Contemplei-as, e disse comigo: «Aquella que sorrí não me +comprehenderia; aquella que já chorou, e tem os vestigios de lagrimas no rosto, +saberia comprehendel-a eu.</p> + +<p>D. Julia, n'esta passagem, abaixou os olhos, menos pudibundos que sensiveis +á fulguração penetrante dos olhares de Eduardo. E logo, inspirado pelo mavioso +gesto da dama, continuou:</p> + +<p>—V. Exc.ª concedeu-me liberdade de irmão... recorda-se?</p> + +<p>—Sim...</p> + +<p>—Não me está accusando no silencio da sua alma?</p> + +<p>—De quê?</p> + +<p>—Nem me accusará?...</p> + +<p>—Posso eu prever até onde irão as suas confidencias?</p> + +<p>—Estão em principio, minha senhora... não tardo a concluil-as... +Mas...—disse elle com suspensivo receio,<span class="pn">{93}</span> +adocicando o aranzel á feição de galan timido:—No semblante de V. Exc.ª +ha uma alteração que me está opprimindo...</p> + +<p>—Isso é illusão de V. S.ª; mas não se admire, se me vê mais triste... +Eu não posso ouvir friamente referencias ás desventuras que V. S.ª não +ignora... </p> + +<p>—Disse-m'as Venceslau. Bastou que elle me lembrasse o nosso +companheiro de emigração, aquelle gentil espirito a quem V. Exc.ª está honrando +com esses prantos, que nenhum homem, nenhum amor, nenhuma paixão fará +estancar.</p> + +<p>A este tempo, D. Julia embebia no lenço as lagrimas e abafava os soluços. +</p> + +<p>—Dôr respeitabilissima! coração fechado ao alvorejar de +esperanças!—proseguiu Eduardo enfaticamente.—Como ousaria voltar eu +a pôr olhos na face da martyr, sem medo de profanal-a! Quantos homens a teriam +visto e amado, snr.ª D. Julia! quantos labios se teriam cerrado, afogando as +temerarias revelações d'um amor vehemente! Quantos pensariam disputar á memoria +de Antonio Vaz morto o coração da sua esposa promettida, do anjo comtemplativo +de uma imagem entrevista no céo! Eu não! e todavia...</p> + +<p>D. Julia fez um gesto de antôjo, que eu, na minha ignorancia de traduzir +todos os gestos de senhoras, não me atrevo a certificar que fosse enfado. Era +um mover-se altivo de cabeça e um alçar de olhos com um franzido de +fronte—coisas que a gente vê nos palcos e<span class="pn">{94}</span> nas +salas, sem decidir onde o movimento obedece á rubrica, ou á natureza.</p> + +<p>Como quer que fosse, Eduardo quasi que se estupidificou e amarelleceu, +principalmente quando a filha do desembargador, abrindo um sorriso acre, disse: +</p> + +<p>—Cuidei que o snr. Pimenta ia fallar-me da minha amiga Anna Vaz.</p> + +<p>—Não se enganou, minha senhora...</p> + +<p>—Já sei que me vae dizer que sentiu por ella o digno amor que lhe tem +declarado nas suas cartas...</p> + +<p>—Sem duvida...</p> + +<p>—E eu lhe assevero que ella o ama com toda a candura e sinceridade dos +quinze annos.</p> + +<p>—Ignorando que me realisou o presagio dos renovados infortunios...</p> + +<p>—Que infortunios!.. Vê tudo tão negro, senhor Eduardo!...</p> + +<p>—Como hei-de eu dizer a V. Ex.ª que vou fugir da sua amiga, á +semelhança de quem foge d'um segundo abysmo?</p> + +<p>—Fugir!... que ingratidão!...</p> + +<p>—E que injustiça me faz, snr.ª D. Julia! Ingrato, eu! Se uma alma +invocada podésse descer do céo a depôr contra essa dolorosa iniquidade!... Eu, +que nem pude ser ingrato a uma sombra!...</p> + +<p>—Se não é ingrato, que nome darei ao homem que motivou um amor +extremo, e diz que vae fugir da pobre menina que nenhum desgosto lhe deu? Quem +o obriga a fugir?<span class="pn">{95}</span></p> + +<p>—A honra.</p> + +<p>—Pois semelhante amor deshonra-o?</p> + +<p>—Condemna-me aos olhos de Venceslau Taveira. V. Ex.ª sabe-o.</p> + +<p>—Que sei eu? Que Taveira tem umas singulares theorias a respeito do +cavalheirismo...</p> + +<p>—Sabe mais... Sabe que Taveira amava D. Anna Vaz quando eu lhe fui, em +funesta hora, apresentado.</p> + +<p>—Não tenho a certeza de que elle a ama...</p> + +<p>—Mas attribuiu a ciumes a má vontade com que elle me via bemquisto da +amiga de V. Ex.ª</p> + +<p>—É verdade, suspeitei ciumes; mas V. S.ª mais de perto e com melhor +percepção lhe terá sondado o espirito...</p> + +<p>—É insondavel... Disse-me que a não amava; mas tambem me não soube +dizer porque eu não devia amal-a.</p> + +<p>—E em resultado d'essa conferencia enigmatica, deixa V. S.ª de amar a +minha innocente amiga!... Não sei qual dos dois é mais excentrico! Pobres +mulheres! Vá lá uma alma dar-se infantilmente a um coração frio que traz o seu +amor n'um prato da balança, e uns problematicos pontos de honra na outra!... +Acha bonito que seja sacrificada a minha amiga á conciliação cavalheirosa de V. +S.<sup>as</sup>? Ai! felizes aquellas que não amaram nunca!... e as que amaram +e perderam um homem de coração, fechem os olhos para o amor como elle os fechou +para a vida... Acabei de entender o fim da sua visita—continuou D. Julia +com mui senhoril compostura<span class="pn">{96}</span> e gravidade.—Vem +encarregar-me de avisar Anna Vaz que...</p> + +<p>—Não, minha senhora—accudiu Eduardo—o infortunio é +conciliavel com a delicadeza. Quando me eu lembrasse de encarregar V. Exc.ª de +tal commissão, o meu logar era no pateo com os creados d'esta casa, e não +n'esta sala onde V. Exc.ª me está honrando, e soffrendo com mais que extrema +indulgencia. Vim, minha senhora, pedir-lhe que me diga até que ponto o que devo +a Venceslau e o que devo á filha do snr. commendador Vaz podem congraçar-se sem +despundonor para mim. Vim, minha senhora...</p> + +<p>E, levantando-se de impeto melodramatico, fitou D. Julia com estranha +fixidez, e ajuntou:</p> + +<p>—Vim pedir-lhe a sua amisade...</p> + +<p>—Tem-n'a, sincera, profunda e inalteravel.</p> + +<p>—Não tenho...</p> + +<p>—Não tem? outra singularidade! Porquê?!...</p> + +<p>—Porque V. Exc.ª, prêsa sagradamente á memoria de Antonio Vaz, não +póde ser verdadeiramente amiga do homem que, a não poder merecel-a, quereria +ser na sua alma a imagem d'um morto bem amado.</p> + +<p>E sahiu apertando-lhe com estremecimento a mão.</p> + +<p>D. Julia não respondeu senão palavras balbuciantes, ou porque estivesse +digerindo a substancia d'aquellas palavras abstruzas, ou porque ficasse passada +do imprevisto desfecho do dialogo.</p> + +<p>Sei mal o que foi, e sei menos ainda que scismar era<span +class="pn">{97}</span> o seu com a face encostada á palma da mão direita, +relançando a espaços a vista para um grande espelho, onde se via toda. Estaria +ella perguntando á copia do aço se o original estava nos seus momentos de +formosura quando o gentil moço lhe dizia coisas d'uma escandecencia original? +</p> + +<p>A gente sabe lá o que as senhoras dizem aos espelhos!...<span +class="pn">{98}<br>{99}</span></p> + +<h1><a name="SECTION000100000000000000000">IX</a></h1> + +<blockquote> + <p>A desgraça não os tomará de assalto. Bom é esperal-a, para que a alma se + lhe affaça, e o supportal-a seja menos exulcerante.</p> + + <p class="obra">L<small>UCIANO</small>,—<em>Da Astrologia.</em></p> +</blockquote> + +<p>D. Julia não se ficou todo o dia scismatica, a remirar-se no espelho. Os +cavallos ainda escarvavam as lagens apostos á traquitana. Sahiu, e foi, como +tencionava, a casa do commendador Vaz.</p> + +<p>—Olha que estou afflicta, Lulu!—exclamou Anna, atirando-se-lhe +aos braços. </p> + +<p>—Afflicta! que é?</p> + +<p>—O papá, hoje depois de almoço, ficou sósinho comigo, e esteve a +dizer-me que Venceslau era muito bom rapaz, muito esperto, muito fidalgo, e que +ainda havia de ser um grande homem em Portugal.</p> + +<p>—E depois? aposto que te fallou em casares com elle?</p> + +<p>—Isso mesmo... Já viste infelicidade assim?</p> + +<p>—Então o Venceslau pediu-te?<span class="pn">{100}</span></p> + +<p>—Eu sei cá! Talvez... Não sei... O papá nada me disse, senão isto: que +eu seria a mais ditosa creatura, se casasse com elle.</p> + +<p>—E tu, fizeste biquinho? choraste?—voltou Julia, rindo.</p> + +<p>—Chorei muito, mas foi no meu quarto; porque o papá, vendo que eu não +respondia sim nem não, esteve a olhar para mim com os olhos mal encarados, e +disse-me: «dar-se-ha caso que a tua cabeça tenha lido alguma leviandade? Anna, +vê lá o que fazes e o que tens feito. Com teu pae não ha segredos nem +disfarces.» E, depois, disse já muito zangado: «Respondes ou não? Se a tua boa +estrella te dér por marido Venceslau, agrada-te este casamento?» Eu que havia +de responder, Lulu? Dize lá, tu que respondias?</p> + +<p>—Eu sei, filha!.. essas respostas só sabe dal-as quem se vê nos +apertos de taes perguntas. Respondeste que sim?</p> + +<p>—Fiquei atemorisada... nem soube o que respondia... Respondi que fazia +o que o papá quizesse... Elle então deu-me a beijar a mão e sahiu; e eu fui +chorar para o meu quarto. D'ahi a pouco, voltou o papá, bateu-me á porta, eu +limpei as lagrimas e escondi as cartas de Eduardo que estava a lêr. Disse-me +elle então que ia dar ao Venceslau os parabens por ter sahido deputado ás +côrtes; e tornou a fazer-me a mesma prégação das virtudes e talento do Taveira, +dizendo que elle era deputado aos vinte e oito annos, e seria ministro de +estado antes de ter quarenta. Ora que me importa a<span class="pn">{101}</span> +mim cá isso? não me dirás? Aqui tens, Lulu, quanto eu sou desgraçada! Foi Deus +que te trouxe. Tu has de valer-me, has de aconselhar-me, sim?</p> + +<p>—Socega—respondeu Julia.—Se o teu casamento com Venceslau +depende da vontade do noivo, estás tu bem.</p> + +<p>—Sim? conta lá o que sabes!... que sabes tu, Julinha?</p> + +<p>—Sei que Venceslau não te ama.</p> + +<p>—Não? ai que alegria! quem t'o disse?</p> + +<p>—O Eduardo.</p> + +<p>—Sim? viste-o hoje?</p> + +<p>—Esteve em minha casa.</p> + +<p>—Esteve? que foi lá fazer? Eu não sabia que elle ia lá!</p> + +<p>—Foi contar-me o que passára com o Taveira a teu respeito. O amigo +affirmou-lhe que não teve ideia alguma de te amar, mas elle, apezar d'isso, +desconfia que sim...</p> + +<p>—Oh diacho! isso é máo?</p> + +<p>—O que é máo?</p> + +<p>—Se o papá lhe pergunta se elle quer casar comigo, e elle diz que +sim... E depois? ai! que má sorte a minha!... Que desgraça!</p> + +<p>—Que lamuria, Deus da minha alma!—atalhou D. Julia sorrindo ás +lastimas e gesticulação da linda creança.—Não te disse eu já que +Venceslau não te ama? </p> + +<p>—Disseste, sim.<span class="pn">{102}</span></p> + +<p>—Pois se te não ama, que importa que teu pae lhe offereça uma esposa +que elle não quer?</p> + +<p>—Achas, Lulu?</p> + +<p>—Acho; mas...</p> + +<p>—Que é?... estás com medo que elle queira? é isso?—voltou já +muito alarmada a filha do commendador alternando as ancias desabaladas com os +tregeitos jubilosos.</p> + +<p>Em quanto o volatil espirito da menina avoejava das conjecturas risonhas +para as tristes, e D. Julia, presumindo-se interprete do coração humano, +folgava de serenar ou alvorotar as inquietações da sua candida amiga, corria o +seguinte dialogo entre o commendador e o deputado.</p> + +<hr class="dotted"> + +<p>—A minha admiração—dizia Francisco Vaz—foi grande quando +hoje li a fausta nova da sua eleição, meu caro senhor e amigo...</p> + +<p>—Admirou a grandeza do encargo em tão pequeno vulto? Tambem eu me +assombro da irreflexão do governo, que me indicou e do povo que me elegeu, +quasi sem me conhecer.</p> + +<p>—Não foi isso que me admirou, cavalheiro que sabe tão destramente +embeber no arco da modestia a frecha da ironia. Innocente como a pomba, com sua +malicia de serpente, seu maganão!—dizia o commendador espirrando uns +sorrisos de inoffensiva perspicacia.—Sabe o que me admirou? foi a nenhuma +importancia que<span class="pn">{103}</span> V. S.ª dava ás honras que lhe +estavam eminentes. Já hontem o meu amigo sabia que era representante em côrtes +e não quiz dar-me a satisfação de m'o annunciar!</p> + +<p>—Se o ser eleito me désse gloria, V. S.ª seria o primeiro a participar +do meu desvanecimento; porém, se a missão me é penoza, como hei-de eu suppôr +que os meus amigos se regosijem?</p> + +<p>—Ora vamos, ora vamos. Deixemos os Cincinnatos desprendidos da gloria +ao fabulario da historia romana. Eu não consinto á natureza humana tal +desapêgo, mormente se a façanha incrivel se dá em moço de vinte e oito annos, +pouco abastado em bens...</p> + +<p>—Pouco!—interrompeu Venceslau a sorrir.—Parece-me que eu +já disse ao snr. commendador que vivo do meu trabalho, e que, se a doença me +impedir de escrever, terei de pedir um catre ao hospital.</p> + +<p>—Ó pavorosa imaginação! ó ingrato amigo!—acudiu o commendador, +batendo-lhe no hombro com ares de affectuoso despeito.—Venceslau Taveira, +se adoecer, não vae para casa do velho Francisco Vaz; não, senhor; Francisco +Vaz é um desprezivel amigo; o doente irá para o hospital. Com effeito, moço! +paga-me generosamente!—proseguiu severisando o aspecto.—O +enfermeiro de meu filho Antonio, o caridoso anjo que adoçou o fel da agonia do +exilado, o amigo que deu lagrimas e sepultura ao cadaver de meu filho, é o +mesmo que diz ao velho pae do seu morto companheiro: «Eu, se adoecer, não quero +o teu leito, nem os teus cuidados, nem a tua gratidão! Irei para o hospital, +para que não<span class="pn">{104}</span> possas pagar-me parte da divida de +teu filho, que me expirou nos braços.»</p> + +<p>Venceslau abraçou o commendador com enthusiasta commoção, murmurando:</p> + +<p>—Se o offendi, perdôe-me em nome de seu filho. Eu não suppuz que V. +S.ª désse tal interpretação ás minhas palavras irreflectidas.</p> + +<p>—Está perdoado, porque peccou involuntariamente. Bem sabia eu que não +ha orgulho tamanho em homem que exercitou a caridade com tantos... Póde ser que +o amigo intimo de meu filho despreze as honras de deputado, e acceite com +vaidade o coração de pae que lhe offerece o pae do seu defuncto amigo.</p> + +<p>Venceslau curvou-se e beijou a mão do commendador, o qual, exultando, e +estreitando ao seio o moço, continuou;</p> + +<p>—Quer-me parecer que ha o que quer que seja providencial na sua +intimidade com o meu Antonio!... Vou fazer-lhe uma pergunta, snr. Taveira: O +meu filho nunca lhe disse que tinha uma irmã?</p> + +<p>—Muitas vezes me fallou d'ella, como se falla de uma creancinha muito +formosa, e d'uma irmã acariciada como filha. Quando Antonio Vaz morreu, a snr.ª +D. Anna teria, quando muito, sete annos. Recordo-me dizer-me elle, dias antes +de morrer, que seria menor a sua paixão de acabar tão longe dos seus, se a irmã +estivesse em edade de comprehender a angustia do pae, e podésse consolal-o com +os sentimentos do coração capaz de intelligentes lagrimas. «É muito +nova—dizia elle—verá<span class="pn">{105}</span> chorar o pae, +terá alguns momentos de saudade, e irá logo depois distrahir-se com os seus +brinquedos.»</p> + +<p>—Enganou-se o meu infeliz filho—disse o commendador enxugando os +olhos.—A creança tinha coração de mulher. Quando eu lhe disse «teu irmão +é morto», Anna abraçou-se a mim, debulhada em chôro, exclamando:—Não +morra, meu querido pae; deixe-me primeiro morrer a mim, que fico sem ninguem +n'este mundo. Este grito da menina que presagiava a orphandade, deu-me forças +sobre-humanas. Defendi-me da morte com a minha filha no colo. E, quando me +sentia desfallecer e estalar de saudade, voltava-me para Deus, mostrava-lhe a +creança, e dizia «Se me deixaes morrer, Senhor, aqui a tendes, amparae-m'a!» +Foi ella quem me amparou a mim; ás suas reminiscencias estava eu sempre pedindo +memorias de meu filho; ella contava-me as pueris historias que lhe ouvira; +mostrava-me as bonecas e bugiarías que lhe elle dera. Se me via chorar, +chorava, e folgava de me vêr chorar, dizendo que eu, depois que respirava assim +da cerrada oppressão, lhe parecia mais animado. Eu cobrei alivios de muito +amargurar-me. Ha saudades que esquecem delidas por esperanças. Não pude eu +esquecel-as assim. Outras nunca esquecem, mas deixam de pungir: dóem, mas +desafogam-se no seio d'um bom anjo que nol-as leva á alma que choramos. O meu +anjo medianeiro com meu filho era Anna. Ella vinha contar-me em sobresalto que +vira em sonhos o irmão a sorrir-lhe. E eu acreditava; e, se ella piedosamente +me enganasse, ainda assim abençoaria<span class="pn">{106}</span> a sua +caridade. Aqui tem, snr. Venceslau, proseguiu o commendador restaurando o +folego afadigado por soluços que, a espaços, lhe embargavam a voz—aqui +tem o que foi a minha filha em menina muito tenra; e hoje, que ella vae nos +seus dezeseis annos, peço-lhe, snr. Taveira, que desculpe ao amor paternal, o +bom conceito em que a tenho... </p> + +<p>—Em que a temos todos os que a conhecemos.</p> + +<p>—Alegra-me essa opinião—exclamou o velho com +vehemencia—enche-me de santa vaidade, porque vem d'uma sincera alma! Não +quiz Deus que meu filho Antonio participasse da minha alegria, encontrando a +creança, que me deixou nos braços, a amparar nos seus a minha velhice. Como +elle amaria esta irmã! como seria bem-aventurado a esta hora entre os dous +santos amores que o esperavam—o de Julia, a sua amada desde a infancia, e +o da irmã, que rivalisaria com a esposa no empenho de o cumularem de +contentamentos! E quem sabe, snr. Venceslau Taveira, quem sabe se meu filho, +tentando completar a felicidade sempre imperfeita n'esta vida, pensaria no modo +de identificar em coração á sua familia o honrado companheiro de desterro, o +consolador nos desalentos, o irmão na soledade da terra alheia, o confidente +nas saudades cruciantes, o enfermeiro na doença, o exemplo emfim da coragem, da +probidade, e do esforço caritativo, d'essa grande virtude dos ricos, e divino +prodigio dos pobres...</p> + +<p>—Oh snr. commendador!—atalhou Venceslau—a sua amisade vae +tão adiante do que eu fui e sou...<span class="pn">{107}</span></p> + +<p>—Quem sabe—ajuntou Francisco Vaz, apertando convulsamente ambas +as mãos do deputado—quem sabe se meu filho, para fazer seu e da sua +querida familia o homem de bem, lhe diria um dia, mostrando-lhe a irmã: +«Venceslau, se amas esta doce creatura, sê meu irmão; sê filho de meu pae que +t'a offerece; entra no seio das nossas mais intimas alegrias; deixa-nos afazer +á ideia de que não é só a gratidão, mas tambem laços de sangue que nos +prendem.» Que responderia ao seu Antonio Vaz, snr. Taveira?</p> + +<p>O interrogado, colhido de sobresalto, emmudeceu, enfiou, passou a mão pela +fronte, e sentiu momentos de verdadeira angustia.</p> + +<p>Estranhando a confusão silenciosa, o commendador não podia dilucidar o que +havia aviltador ou respeitavelmente justificado n'aquella mudez, semelhante a +uma resposta negativa e indelicada.</p> + +<p>—Impressionei-o dolorosamente!—balbuciou o +velho.—Receba-me como gracejo de louco ou de amigo essas palavras que o +perturbaram, snr. Taveira.</p> + +<p>Venceslau abraçou-o com impetuoso fervor, e disse:</p> + +<p>—Faça-me justiça!...</p> + +<p>—Completa e sincera, meu amigo. Comprehendi-o... Isso é nobre; e tudo +que nos vem da honra, seja alegria ou tristeza, é sempre um sentimento que deve +expandir-se nos braços do homem de bem. Sei o que é. Eu devia suspeital-o. Os +moços da sua condição encontram esposas á competencia, e não o revelam porque a +fatuidade desdoura, profana e deslustra o segredo,<span class="pn">{108}</span> +que é a mais bella caução do amor sisudo e competente ao homem honesto. Se V. +S.ª não guardasse tanto o seu segredo, evitava-lhe este desgosto. A mim, o +lance, bem que pouco usual, não me afflige. Offereci-lhe minha filha: +offereci-lhe tudo que tenho, toda a minha riqueza; dei-lhe a maxima prova de +quanto o prézo: estou contente; desobriguei-me de parte da divida de meu +filho—divida de amor, que não podia ser paga em outra moeda. Agora, não +me esteja assim pensativo, snr. Taveira!... fallemos n'outra coisa.</p> + +<p>—Não, senhor, fallemos d'esta—replicou Venceslau já +tranquillo.—Principío por asseverar ao snr. commendador Vaz que conheço +em Lisboa duas senhoras: sua filha, que amo como irmão, porque ella, bem que +lhe sobejem qualidades proprias para ser estimada, é irmã do meu amigo Antonio +Vaz. A outra senhora é D. Julia, que respeito e considero, porque vi tanta +lagrima saudosa a encarecer-lhe as virtudes, que me afiz a vêl-a do desterro +como um anjo, e na patria como senhora de quem as outras devem aprender a +lealdade na viuvez. Durante o meu exilio, a minha mocidade, snr. Vaz, +namorou-se do trabalho, da fortuna avára dos que lá viveram das lides do +espirito. As amantes d'esta especie costumam ser tão zelosas e egoistas das +nossas attenções, que nos não abrem ensejo de pensar nos affagos d'outra. Foi +assim comigo a fortuna do proscripto. Ou luctar com as extremas privações, +deshonrando-me nos expedientes que ellas aconselham; ou lidar sempre, ora +escrevendo, ora ensinando; mas, tendo<span class="pn">{109}</span> sempre em +vista a inutilidade do coração, debaixo d'um casaco cossado e remendado. Não +amei ninguem na terra alheia; não amo ninguem na minha. Sou aqui o que fui lá +fóra: um operario labutando o pão quotidiano. Escasseia-me o tempo nas +obrigações urgentes; não tenho podido desbaratal-o em diversões da alma, em +preoccupações deliciosas que denotam ferias de espirito e necessidades +levantadas acima do positivismo da vida commum. Sou pobre, como V. S.ª sabe. +Entretanto, snr. commendador, pobreza e trabalho não esterilisam o coração. O +homem, fiado no seu braço robusto ou em sua intelligencia productora, está bem +no caso de poder aspirar ás consolações e alentos d'uma esposa, que lhe alumie +a solidão escura do seu gabinete, e lhe duplique o esforço para a lucta. +Algumas vezes me entreluziu ao animo quebrantado a doce alliança da +intelligencia com os prazeres do coração. Figurou-se-me vêr perpassar por +diante d'esta banca, onde a aurora de cada dia me encontra, uma imagem vaga, +com o sorriso da coragem nos labios, e a luz da esperança nos olhos, fixos em +mim, que a contemplava como a varonil inspiração dos meus rudes trabalhos. Era +o relampago do secreto fogo que não se extinguiu—era talvez o estremecer +dos sentimentos abafados no recondito da alma. Bem póde ser, snr. commendador, +que o fogo chammejasse, e o sentir abafado se expandisse, no momento em que V. +S.ª agora mesmo me disse que eu podia ser o esposo da snr.ª D. Anna Vaz. Eu +cuidaria<span class="pn">{110}</span> então que era ella a imagem entrevista +nos meus enlevos; sentiria a subita mudança do sonho para a realisação; e, se a +surpreza me cortasse as palavras de reconhecimento, o meu silencio teria a +eloquencia das lagrimas. Sua filha, snr. commendador—proseguiu Venceslau +apoz uma grande pausa—sua filha não me ama... </p> + +<p>—Como?—interrompeu Francisco Vaz, erguendo-se de golpe, e +batendo rijo a bengala no pavimento.—Como sabe que minha filha o não +ama?</p> + +<p>—Como sei que a não amo eu tambem. O meu coração, posto que +inexperiente, adivinhal-a-hia, se lhe eu motivasse algum sentimento distincto +da amisade, que lhe mereci, como amigo de seu irmão, e affectivo apreciador de +seu pae. Eu não podia ser amado, porque os meus breves instantes de conversação +com a snr.ª D. Anna foram sempre alheios da minima referencia ao amor, ás vagas +coisas do coração com que as horas se aligeiram e saboreiam nas salas, segundo +julgo da intimidade dos que são ou dos que parecem ser felizes. Praticávamos +ácerca do nosso saudoso Antonio, ou dialogávamos em francez sobre assumptos que +me pareciam adequados á perspicacia intellectual de tão habil menina...</p> + +<p>—Sei isso, snr. Venceslau—sobreveiu o commendador.—Está-me +V. S.ª dando ares de quem se justifica de honrado comportamento.</p> + +<p>—Não me justifico, snr. Vaz: explico a suprema<span +class="pn">{111}</span> quietação da minha alma em presença d'uma senhora que +eu estimava como se estima uma irmã favorecida de excellentes qualidades.</p> + +<p>—Que ainda assim V. S.ª não podia amar...</p> + +<p>—Não vem acertada essa reflexão; consinta o snr. commendador esta +rudeza. As excellentes qualidades são amaveis; mas não é dever da mulher que as +tem acceitar o culto de quem lh'as reconhece; nem é judicioso a quem lh'as +admira revelar-lhe a sua dedicação, além dos limites do respeito. Era, todavia, +muito de esperar que a snr.ª D. Anna Vaz inspirasse um grande amor e ao mesmo +tempo o sentisse pelo homem a quem o inspirasse. Isso aconteceu.</p> + +<p>—Que é? pois minha filha ama alguem?—interrogou Francisco Vaz +com aspecto iracundo.</p> + +<p>—Ama, sim, senhor.</p> + +<p>—Quem?</p> + +<p>—O meu, o nosso amigo Eduardo Pimenta.</p> + +<p>O commendador percorreu tres vezes o estreito escriptorio do deputado, +enxugou o suor da calva, comprimiu a testa com ambas as mãos e murmurou:</p> + +<p>—Deu-me um profundo golpe, snr. Taveira!... Estou a braços com a +desgraça...</p> + +<p>—Eis-ahi uma dôr que me assombra!—redarguiu o +jornalista.—Que conceito, pois, fórma V. S.ª de Eduardo?</p> + +<p>—Não sei, não sei que presagios me despedaçam o coração! Não lhe +conheço vicios... ninguem o accusa, ninguem o denegriu na minha presença, +tenho-o recebido<span class="pn">{112}</span> com affectuosa familiaridade; +pois, apesar d'isso, eu não queria que tal homem casasse com minha filha. E, se +eu impugno tal casamento, qual é a dignidade de Eduardo Pimenta em requestar +minha filha?</p> + +<p>—Seria indignidade grande requestal-a com a certeza de que V. S.ª +recusa conceder-lh'a.</p> + +<p>—Pois, snr. Taveira, auctoriso-o a declarar ao seu amigo que lhe nego +minha filha. Não ha nada mais explicito e summario.</p> + +<p>—E, se o meu amigo me perguntar que actos de sua vida o desconsideram +na opinião do snr. commendador, que responderei?</p> + +<p>—Responda que um pae não é obrigado a justificar a sua vontade.</p> + +<p>—Muito bem. Eduardo não póde honestamente voltar a casa de V. S.ª</p> + +<p>—É claro.</p> + +<p>—Foi por tanto expulso de sua casa, snr. Vaz, o homem que eu lhe +apresentei, não é assim?</p> + +<p>—Elle é que se fez indigno da minha estima.</p> + +<p>—Seja qual for a causa, o meu amigo foi expulso; e eu, que ainda me +não vexo de o haver apresentado, expulso me considero tambem.</p> + +<p>—O senhor!? que desconchavo!</p> + +<p>—Póde ser que eu ignore as praticas da boa sociedade. Se ellas +diversificam do modo como eu as professo, abstenho-me de as aprender. Quem +apresenta, no gremio d'uma familia, pessoa que desmereceu a estimação que lhe +deram, retira-se ao mesmo tempo, ou envergonhado<span class="pn">{113}</span> +do ultrage que o seu vil amigo commetteu, ou offendido da injuria que se lhe +faz, se elle é expulso immerecidamente. Não questiono sobre a justiça ou +injustiça com que V. S.ª o repelle: qualquer das hypotheses me aconselha a não +voltar á casa defeza a Eduardo Pimenta.</p> + +<p>—E sacrifica-me ás indiscrições de Eduardo Pimenta, snr. Taveira? +Quer-me convencer de que o procedimento d'elle é regular?</p> + +<p>—Já disse ao meu bom amigo que me abstinha de contestar a razão dos +seus aggravos; mas, se V. S.ª me força a defender-me, defendendo Eduardo, +afoitamente lhe confesso que o não culpo. Amar a snr.ª D. Anna, que é amavel +como formosa e como rica das graças do espirito, não é delicto, ainda mesmo que +os meritos de quem a ama não possam egualal-a. A Eduardo faltam pergaminhos; +nasceu na casa de lavradores; os brazões de seu pae eram os utensilios da +lavoura. Prouvera a Deus que o fanatismo o deixasse viver e morrer na obscura +honra dos que lidam de sol a sol, e obedecem ao preceito da incessante lida, +sem blasfemar da Providencia que instituiu as desigualdades da fortuna. +Amargamente pagou Eduardo Pimenta o acaso de ter nascido plebeu. D'essa enorme +culpa resultou-lhe a perseguição, o carcere, o desterro e a morte da esposa que +o adorava...</p> + +<p>—Consequencias do erro...—atalhou o commendador.</p> + +<p>—Do erro?<span class="pn">{114}</span></p> + +<p>—Sim, da culpa de cortejar uma dama illustre que não podia ser d'elle +sem arrostar grandes perigos, sem desdourar seus parentes, sem se atirar a si +mesma aos abysmos cavados pela desobediencia. Que fez elle amando a mulher +nascida em outra esphera? matou-a; formou os elos da corrente que a levou de +rôjo á sepultura. Com que direito affrontou elle as leis sociaes?</p> + +<p>—Quaes leis?... Não sabia eu que o meu amigo tinha affrontado algum +direito...</p> + +<p>—O direito consuetudinario, a ordem de coisas, o estylo que rege os +costumes. Se o amor votado por plebeu a mulher nobre causa a desgraça d'essa +mulher, tal amor, com quanto os poetas o celebrem, é calamidade que faz chorar +muita gente, e desata laços que nunca mais se refazem.</p> + +<p>—Essas ideias, snr. Vaz—redarguiu Venceslau—são boas; mas +permitta o céo que o genero humano vingue d'aqui a um seculo não vêr a +fronteira que divide o coração plebeu do coração fidalgo. Quando esse oiro das +almas sahir depurado do cadinho dos annos, as ideias de V. S.ª serão acoimadas +de absurdas ou transviadas do trilho por onde a luz do christianismo nos vae +alumiando. Não argumentemos sobre o ponto, porque ainda não é tempo de se +abraçarem os adversarios. Antonio Vaz, o fidalgo, filho do decimo commendador +de Santa Christina de Almudena pensava como eu; e, nas nossas palestras de +socialismo e regeneração do homem, nunca nos lembramos que nossos bisavós +haviam ganhado, com o sangue proprio e com<span class="pn">{115}</span> a vida +de seus paes mortos em Alcacer-kibir, no Ameixial ou Montes Claros, as +commendas que a liberdade nos vae tirar como mal adquiridas. A liberdade, que +nós andavamos servindo, é essa que nos desbalisa e nivela com os filhos dos +criados de nossos avós.</p> + +<p>—Boa a fizeram...—resmuneou o fidalgo.</p> + +<p>—Nada fizemos: foi o tempo. A luz, que doira e aquece as penedias dos +montes, não é d'ellas, é do sol. O fructo não se enverdece e sazona a si: é o +calor dos dias successivos. O instrumento obedece ao impulso; a ideia é o motor +do braço. Seu filho e eu tinhamos nascido, quando a França se refundia e +recaldeava ao fogo reconcentrado do lavor de seculos. Entramos na torrente; +fomos levados; um é morto ao pé do berço da liberdade; o outro não foge da +morte; mas nenhum de nós, tendo uma irmã, lhe poria o preceito de estudar +heraldica para saber que timbre e escudo lhes cumpria descobrir nos corações +dos homens que as requestassem.</p> + +<p>—Graceja, snr. Taveira? Não escolhe a opportunidade...—increpou +o commendador com sincera mágoa.</p> + +<p>—Não gracejo com V. S.ª: é com os preconceitos. Se eu os combati com +as armas, não é muito que os desattenda com a ironia. E, depois, todas as +razões que V. S.ª allegar contra o casamento de sua filha serão boas, +exceptuada a da incompatibilidade dos nascimentos. O snr. Vaz é illustrado. Se +pertence ao passado pelos appellidos, deve-se ao edificio do futuro pela +intelligencia, e á humanidade collectiva pelo coração, e de modo nenhum á raça +exclusiva dos nobres pelo acaso<span class="pn">{116}</span> do nascimento. O +pae de Antonio Vaz deve ser por força um alto espirito: de troncos verminosos +não bracejam frondes com seiva de tão generoso sangue. Tal pae corre-lhe o +dever de consentir que os abusos da ignorancia sejam motejados na sua presença, +e que os paes, sacrificadores das filhas no infamado altar das tradições +genealogicas, sejam malsinados de tyrannos.</p> + +<p>—O seu apostolado, snr. Taveira—replicou o velho—é +temporão em respeito á época; e é tardio em relação a mim. Sessenta annos não +se remoçam; das raizes da educação inveterada não abrolham as flores com que em +França os <em>sans-culottes</em> vestiam a deusa da Razão. Estou muito velho, e +sou pae muito extremoso. Gósto da liberdade comedida, desde que odiei o +despotismo que levou á forca meu parente Gomes Freire de Andrade. Abomino por +egual o despotismo dos reis e o despotismo do povo. Repito que desejo a +victoria dos programmas liberaes; mas reprovo que, em nome d'elles, me queiram +a mim esbulhar da liberdade de casar minha filha com quem eu quizer. Repugna-me +dal-a ao snr. Eduardo Pimenta, de quem aliás não recebi maior offensa que o +intento de captar o amor de minha filha, sem consultar as minhas luminosas ou +obscuras ideias ácerca de tal casamento. Contra esta resistencia não me parece +que a liberdade bem entendida legisle reacções.</p> + +<p>—Pelo contrario—obtemperou Taveira—as leis protegem os +paes, submettendo os filhos menores ao seu consentimento; e eu, indigno +legislador, se tal lei não existisse, propôl-a-hia. Emfim, não se enfade mais +V. S.ª<span class="pn">{117}</span> com esta discussão esteril. Eu me +encarrego, conforme á sua ordem, de avisar o meu amigo. Como elle tem pundonor, +não ha motivo para que as inquietações de V. S.ª continuem. Hoje veiu elle aqui +dar um testemunho da sua probidade. Suspeitou que eu amava a senhora D. Anna +Vaz, porque lhe censurei indirectamente que a cortejasse. Tomou á conta de +zelos a minha intervenção nos seus affectos; e offereceu-me sacrifical-os á +minha felicidade, se eu alimentava alguma esperança contrariada por elle que me +não soube adivinhar. Creio que o desconvenci da sua desconfiança. Ora o homem +que se victimava a um amigo, de melhor vontade e com mais honrado primor se ha +de immolar a um pae tão respeitado quanto estimado. Vá por tanto V. S.ª bem +certo de que cessam hoje os seus sobresaltos. Eduardo não volta a sua +casa...</p> + +<p>—E o snr. Taveira?</p> + +<p>—Já disse ao snr. commendador que devo á leal camaradagem de nove +annos a observancia de um dever que implica desdouro para o meu amigo, se eu me +esquivar a cumpril-o.</p> + +<p>—Mas—volveu Francisco Vaz, depois de um longo silencio, +acompanhado de gestos que significavam desgosto e perplexidade—não é +possivel combinarem-se a continuação da frequencia de minha casa com a +desistencia das intenções do seu amigo? Não poderá elle ser meu hospede sem ser +o namoro de minha filha?</p> + +<p>—Sei pouco do coração humano, snr. Vaz; e por isso appéllo da minha +ignorancia para a experiencia que<span class="pn">{118}</span> lhe deram a V. +S.ª os annos e a vida das salas. O entreverem-se duas pessoas que se amam e +violentamente se apartam, será bom expediente para as desligar? Se os olhos do +rosto se contemplam, deveremos suppor que os olhos da alma se fechem? Que +responde V. S.ª?</p> + +<p>—Que tem razão. Melhor é que não se vejam. Mas eu peço licença para +visitar o snr. Taveira.</p> + +<p>—Tamanha honra lhe pediria eu, se me não faltasse a ousadia.</p> + +<p>—Adeus. Não lhe desbarato mais tempo. Abraço o irmão de meu filho, e +deponho nas suas mãos o meu socego e a innocencia de minha filha. Defenda-nos a +ambos, já que eu perdi quem devêra a esta hora velar a honra de seu velho pae e +a inexperiencia de sua irmã.</p> + +<p>Abraçaram-se estreitamente, chorando ambos.<span class="pn">{119}</span></p> + +<h1><a name="SECTION000110000000000000000">X</a></h1> + +<blockquote> + <p>Venez après cela crier d'un ton de maître<br> + Que c'est le c½ur humain qu'un auteur doit connaître!<br> + Toujours le c½ur humain pour modèle et pour loi!<br> + Le c½ur humain de qui? le c½ur humain de quoi?<br> + Celui de mon voisin a sa manière d'être.<br> + Mais, morbleu! comme lui j'ai mon c½ur humain, moi.</p> + + <p class="obra">A<small>LF. DE + </small>M<small>USSET.</small>—<em>Namouna.</em></p> +</blockquote> + +<p>Chegada a noite d'aquelle dia, e já corrida a hora costumada das visitas, +Anna Vaz perguntou a Julia:</p> + +<p>—Que será isto? elles não vem!</p> + +<p>—Estava a scismar n'isso tambem eu...</p> + +<p>—Olha que ha desgraça!... Não vês o papá tão carrancudo?</p> + +<p>—Já reparei... Vae tu até lá dentro, e não voltes á sala sem me ouvir +tocar no cravo.</p> + +<p>Anna sahiu, e Julia aproximou-se do commendador que lia, ou fingia lêr, o +<em>Astro da Lusitania</em>.</p> + +<p>—Que ha de novo? Está lendo o artigo do nosso +deputado?—perguntou ella, curvando-se para o periodico.—Já li... +Ninguem dirá que d'aquelle rapaz tão<span class="pn">{120}</span> sereno e +moderado possam saltar essas faiscas de colera contra as ideias antigas! É um +ethna escondido em moitas de flores, não acha, snr. commendador?</p> + +<p>—É um apostolo de boa fé, um peito cheio de honra, que se offereceu ao +martyrio das ideias novas. Tem a devoção dos cathecúmenos de todas as +religiões. Trabalha para os que hão de vir, não é para elle. Sahiu d'uma +familia illustre do velho Portugal para servir de degrau aos que hoje calçam +sapatos ferrados.</p> + +<p>—Porque não o aconselha? Diga-lhe que seja mais prudente no que +escreve; que não esteja a ganhar inimigos... Quem sabe lá onde isto vae dar? Os +prejuizos não se pulverisam com palavras, nem com gazetas. Eu ouço todos os +dias vaticinar que este governo ha de durar pouco. Em casa do tio Gião ouvi +hontem dizer que os monarchas formaram o congresso de Laybac para enfrear as +demasias da liberdade, e que D. João <small>VI</small> não levára a mal que o +governador da Ilha Terceira resistisse á proclamação do systema constitucional. +</p> + +<p>—Vejo-a muito enfronhada em politicas de seu tio desembargador Gião, +minha senhora D. Julia!—observou graciosamente o commendador.</p> + +<p>—A mim que se me dá de politicas!—retorquiu a dama.—O que +eu desejo é não vêr expostas com tanto perigo as pessoas que estimamos. O +Pimenta parece-me que adoptou mais sensato papel nestas tragedias. Não quer +saber de nada; não se importa com gazetas nem com governos. A emigração +aproveitou-lhe... É verdade, elles não virão hoje? São dez horas!<span +class="pn">{121}</span> O Taveira talvez esteja na reunião dos deputados; mas o +outro onde estará? São horas do chá...</p> + +<p>—Se são horas, não esperemos, menina, que elles não vem.</p> + +<p>—Ah! o snr. commendador já sabia que não vem?!</p> + +<p>—Já. Fallaremos ámanhã, snr.ª D. Julia. Eu hei-de +procural-a...—E abaixando a voz, continuou em segredo:—Eduardo +Pimenta comportou-se indignamente comigo. Se lhe não dou a novidade de se estar +planeando um casamento n'esta casa sem minha licença, escuso de motivar-lhe o +rompimento de relações com tão inconveniente amigo. Pelo que toca a Venceslau +Taveira, esse não vem porque não quer. Sinto-o devéras. É homem de honrada +tempera. Lastimo que os seus amigos o não mereçam...</p> + +<p>D. Julia, cogitando na inquietação da amiga, não prolongou as segredadas +confidencias. Acercou-se disfarçadamente do cravo e dedilhou no teclado. O +commendador ergueu o rosto de sobre o periodico, fitou a hospeda e disse-lhe: +</p> + +<p>—Onde está Anna?</p> + +<p>—Vem ahi.</p> + +<p>A menina entendeu o relance d'olhos de Julia. Detiveram-se alguns minutos +silenciosos na sala. O velho continuou a ler, em quanto Julia, interrogada +pelos olhares anciados de D. Anna, esperava o ensejo favoravel de apartar-se +com ella e revelar-lhe as más novas.</p> + +<p>Do mesmo passo que o commendador ouvia contrafeito as prophecias politicas +de um primo conego da patriarchal,<span class="pn">{122}</span> que alli ia +sempre, depois de ceia, digerir o bôlo copioso, psalmeando threnos em prosa de +conego sobre a futura perdição dos cabidos, D. Julia referia, commentando as +palavras do pae da sua amiga.</p> + +<p>D. Anna Vaz, primeiro estupefacta, depois agitada, e por fim afogada em +lagrimas, escondeu o rosto no seio de Julia para que as criadas lhe não +ouvissem o soluçar. Baldaram-se as consolativas esperanças da confidente, que +parecia não ter nenhumas nos seus alvitres. Pelo espirito de qualquer d'ellas +não sombreou sequer o mau pensamento de recorrer da vontade paterna para o +poder civil. N'aquelle tempo as paixões das donzellas, contrariadas pelos paes, +raras vezes iam dizer da sua justiça no tribunal. Usavam-se então umas +mordaças, que fechavam os respiraculos dos corações rebeldes ao alvedrio +paternal: era o convento. O mais egregio amor de mulher, leal ao seu amador, +era aquelle que de bom animo vestia o habito monacal, e depunha aos pés da cruz +a corôa do noivado. Estas nupcias com o divino esposo quasi sempre se +contrahiam, levando a esposa o coração repleto de odio e calor do inferno para +o cenobio, onde mais tarde a benigna hypocrisia lhe segredava refrigerios e +tonicos restaurantes.</p> + +<p>N'isto cogitava D. Julia de Miranda, quando disse á sua amiga:</p> + +<p>—Faz o que te peço, filha. Não mostres resistencia á vontade de teu +pae. Finge-te resignada. Entrega ao tempo o que não podemos conseguir com +irritações; que não vá teu pae fechar-te no convento, onde eu estive<span +class="pn">{123}</span> dois annos por causa de teu irmão. Cuidei que poderia +recalcitrar, porque era tratada com mimo de filha unica. Enganei-me. Fui +convidada a dar um passeio até ao Campo Grande; voltamos a visitar a tia +Clotilde no convento de Sant'Anna; entrei na portaria para abraçal-a; e lá +fiquei infernada até que meu pae me tirou por saber que teu irmão, envolvido +com os jacobinos, emigrára para Londres. Aprende de mim, filha. Dissimula +quanto poderes, e confia no tempo e nos milagres da tua constancia.</p> + +<p>—Na morte é que eu confio...—replicou Anna, apertando a mão de +Julia.</p> + +<p>—Tens febre... A tua mão escalda!—clamou a surprehendida +senhora.</p> + +<p>—Vou deitar-me... Doe-me muito a cabeça... Não posso voltar á sala... +Está lá gente, e não quero que me vejam assim... Olha, se vires Eduardo, +dize-lhe que me escreva, que me deixe morrer com a certeza de que elle me +lamenta e ama, sim? Não te custa a trazer-me as cartas, Julia?</p> + +<p>—Não, filha; sem tu m'o recommendares, já eu tencionava dar-te esse +prazer; mas com a condição de que has de ter coragem e prudencia.</p> + +<p>—Pois sim, pois sim: faço o que tu quizeres...</p> + +<p>—Então, vem á sala.</p> + +<p>—Não posso, Julia... Olha que me sinto muito doente. Hei de estar +melhor ámanhã, depois de chorar muito.</p> + +<p>O commendador, n'este lanço, mandava perguntar<span class="pn">{124}</span> +á filha se o chá teria demora, porque o conego, eructando o mal esmoido repasto +nocturno, reclamava uma bebida digestiva.</p> + +<p>Foi Julia á sala, e disse que a sua amiga se deitára molestada da cabeça. +</p> + +<p>Francisco Vaz cravou os olhos coruscantes na hospeda e murmurou:</p> + +<p>—Já?! tão cêdo...</p> + +<p>—São onze horas—disse Julia.</p> + +<p>—Não me refiro ao relogio; é á cabeça—replicou o commendador, +acerando a ironia com um sorriso, que deu que scismar ao primo conego.</p> + +<p>Depois do chá, D. Julia ainda foi á alcova de Anna. Encontrou-a a ler as +cartas de Eduardo, humidas de lagrimas. Beijou-a reiterando promessas e +esperanças que ella fundava no muito amor que o pae lhe tinha.</p> + +<p>—Quem sabe?—concluiu ella, modificando a sua primeira +opinião—talvez que um poucochinho de febre assuste o extremoso coração de +teu pae, e, em vez de te levar á sepultura, te conduza aos braços do teu +Eduardo!...</p> + +<p>Este erotico dizer, que não revia candor d'alma capaz de edificar as virgens +legendarias, foi apimentado por certo sorriso que travaria ao acre da malicia +feminil, se tal conjectura coubesse em dama tão exemplar na edade em que os +impulsos da innocencia não são vulgares.</p> + +<p>O velho, á meia noite, mandou saber de sua filha. Soube que a menina estava +muito afogueada, e ao mesmo<span class="pn">{125}</span> tempo pedia á sua +criada de quarto que a cobrisse com mais cobertores, porque tiritava de frio. +Ante-manhã já o inquieto pae andava no corredor contiguo ao quarto da enferma. +A creada sahiu espavorida da antecamara, dizendo que a fidalga, ahi pelas tres +horas, delirára na febre, e se lançára do leito a querer abrir as janellas, +quando a chuva estalava nas vidraças.</p> + +<p>—Vá dizer á menina que eu quero vêl-a—mandou o commendador já +attribulado. </p> + +<p>Abeirou-se o velho do leito, onde ella o esperava, encostando a cabeça +esvahida á almofada do espaldar. Elle chamou-a cariciosamente, apalpando-lhe as +faces esbrazeadas; e ella, sorrindo-lhe com meiguice de quem implora +indulgencia, beijou-lhe a mão.</p> + +<p>Poucas palavras se trocaram, e nenhuma que viesse ao ponto da causa da +doença. Disse o pae que ia chamar medico. Pediu-lhe a filha com um gesto meigo +que não, e accrescentou:</p> + +<p>—Isto não é nada, papá.</p> + +<p>Não obstante, o medico, chamado com urgencia, receitou-lhe o que quer que +fosse medicinalmente gastrico, entendendo que a viscera mais nobre, o estomago, +devia ser a primeira a medicar-se.</p> + +<p>Tanto o pae como a filha repelliram a sciencia representada n'uma poção em +que de certo não entrava o contra-veneno do amor. Bem sabia o commendador que +os phyltros cupidineos não cedem aos revolucivos que debellam as lombrigas.</p> + +<p>D. Julia chegou ao meio dia, encerrou-se com a<span class="pn">{126}</span> +doente, e deu-lhe uma receita de virtudes febrifugas. O doutor, quem quer que +fosse, ao avêsso do ancião de Coz, abreviava a arte para alongar a vida. Era +medico de mão cheia. Leu a febril menina o bilhete de Eduardo, e para logo as +rosas do rosto se desmaiaram nos alvores da assucena. O pulso quebrou, os +labios purpurejaram-se, e a arida lingua lubrificou-se. Milagres que a cada +passo se topam nos florilegios, por influxo de agentes d'outra procedencia. +N'estes, ha therapeutica do céo; n'aquelles prodigios de natureza toda humana, +entra droga das boticas de Fausto, de Hamlet, de Manfredo, e de outros heroes +do luciferino bardo que cantou as «Trevas».</p> + +<p>Contou Julia que, ás nove da manhã, escrevêra a Eduardo, pedindo-lhe conta +dos casos tristes do dia anterior. O moço correu ao palacio das Amoreiras, e +referiu que Venceslau o prevenira da conversação com o commendador.</p> + +<p>Se Julia, mais sincera que condoída de sua amiga, relatasse as impressões +que Eduardo lhe deixára, diria que o viu menos consternado do que era de +esperar, e tão christã ou stoicamente conformado á sua desventura, que faria +inveja a Epictéto ou Kempis. Seria crueza não omittir este escuro traço do +caracter do seu confidente. A ferida da sua amiga queria balsamos, e não +cauterio. Semelhante denuncia iria coar a peçonha da desconfiança—a +tortura da morte—áquella alma flammejante de fé.</p> + +<p>As poucas linhas do bilhete, ainda assim, continham<span +class="pn">{127}</span> duas phrases dignas do <em>Secretario dos Amantes</em>. +Eduardo Pimenta promettia luctar contra a desgraça, e succumbir na lucta quando +não podesse sahir com a victoria. Estes dizeres cadenciosos e arredondados +andavam na voga, no respigo dos ledores das novellas de madame Cottin e do +abbade Prevost.</p> + +<p>Sem embargo, Anna rejubilou-se, e decerto se levantaria reanimada aos olhos +do pae, se Julia não lhe advertisse que seria bom espacejar a convalescença, já +para amollecer o coração do velho, já para afastar suspeitas de correspondencia +clandestina.</p> + +<p>Este dia e o seguinte passaram atormentados para o commendador. O medico, na +segunda visita, farejou da arca do peito para dentro molestia inviolavel ás +pilulas. Belleza, edade, respiração suspirosa, rubor dos lagrimaes, olhos +pisados, e outros symptomas de inflammação psycologica, illucidaram o +diagnostico. Declarou, pois, o doutor, sem auxilio da nomenclatura +greco-latina, que a doente padecia da alma, e que o debil temperamento da sua +organisação ainda imperfeita muito a custo resistiria ás commoções +devastadoras. Era o systema d'este medico: primeiro o apparelho digestivo; +depois o espiritual, se as doentes eram novas e solteiras. O segundo +prognostico havia-lhe rendido a mais selecta clinica da capital. Muitos maridos +d'aquelle tempo os levára elle ás enfermas capituladas de éthicas, como os +medicos de hoje em dia lhes levariam das pharmacias garrafas de oleo de figados +de bacalhau ou sulphato de ferro soluvel de Lerás.<span class="pn">{128}</span> +</p> + +<p>Compenetrado da consulta, o commendador lembrou-se aterrado que sua mulher e +seu filho haviam morrido pthysicos. A perda da filha prefigurou-se-lhe +calamidade superior a quantas elle poderia fantasiar, casando-a com homem +somenos de Eduardo. Penetravam-no já de antemão espinhos de remorso. A ternura +encarecia-lhe o perigo; e o quebranto moral proprio da edade arguia-o de +inclemencia e fereza.</p> + +<p>Tão rapido precipitára as invectivas contra Eduardo, quanto depois, +ligeiramente e a só comsigo, rebatia os proprios argumentos.</p> + +<p>—E se ella morre!—exclamava elle, invocando agora o juizo de +Julia, tendo menosprezado os judiciosos dictames de Venceslau.—Que lhe +diz o seu coração, minha amiga? Ella ama-o tanto que não possa esquecel-o? As +distrações serão inuteis? Se fossemos para a quinta do Riba-Tejo..., se a minha +boa Julia a levasse para a sua bella vivenda de Collares, conseguiriamos +restaurar aquelle coração que ainda ha pouco era tão innocente, tão meu, tão +alegre?... Que me diz, D. Julia?</p> + +<p>—Façam-se as diligencias; mas desconfiemos do resultado. É o primeiro +amor. Tem a força que aniquila todas as outras. Anna amou sem reflectir; a +reflexão, que vem depois do amor entranhado, não aproveita. Foi assim que eu +amei seu filho, snr. commendador. Bem sabe que trances padeci, que violencias +arrostei, que inuteis severidades empregou meu pae. Nem o convento, nem as +ameaças de me privar do patrimonio<span class="pn">{129}</span> me demoveram. A +ideia de morrer, em vez de me acovardar o animo, alentava-me. Que valeram +tantas dôres? Morreu elle, vergando ao pezo da minha cruz, e eu sobrevivi... +para me condoer de quem soffre das minhas agonias. Tenho muito dó de sua filha, +meu bom amigo, muitissimo. Hoje encontro-a mais animada, porque lhe dei +esperanças, como os medicos as dão a uma thysica já nas ultimas vascas; mas se +ámanhã eu não podér animal-a, a febre voltará, e depois Deus sabe se no peito +d'ella está o germen da terrivel doença...</p> + +<p>—Por piedade, não me diga isso, Julia... Esse punhal toda a noite me +golpeou no coração... O meu grande terror é esse: é a morte da mãe, que um dia +se queixou do peito, salivou sangue, cahiu esvahida, desfigurou-se, e... vinte +dias depois, expirava-me nos braços, procurando com as mãos as cabeças dos +filhinhos...</p> + +<p>O velho, afogado por crebros gemidos, calou-se, enxugando as lagrimas que +lhe resvalavam aos beiços trémulos da commoção.</p> + +<p>D. Julia balbuciou expressões de enternecido allivio, e conseguiu conduzir o +commendador ao quarto da filha, insinuando-lhe que só a presença d'ella, +n'aquelle momento, lhe seria consolação.</p> + +<p>Estava já em pé a doente, quando o pae se annunciou. Tinha-lhe ouvido as +vozes trementes de lagrimas. Erguera-se pressurosa, qual se os remorsos de +affligir o estremecido velho a pungissem. Lançou-se-lhe nos braços, chorando, +como quem se accusa de não poder vencer-se. Era condição divina a d'aquella +creatura! Se,<span class="pn">{130}</span> tres mezes antes, a vissem ajoelhada +diante do Christo sombrio da claustra, Anna Vaz seria uma santa. Se Eduardo +Pimenta, o moço pallido, aureolado pela tragedia do amor que o revestira do +crepe sympatico da viuvez, não fitasse n'ella os olhos tristes da meiguice que +pede as consolações amantissimas d'outra alma, a creança seria ainda para seu +pae o sorriso que do céo lhe enviava, em labios innocentissimos, a chorada +esposa.</p> + +<p>Tomou nas suas o velho as mãos da filha. As arterias não arfavam de mais nem +a epiderme denunciava perturbações de máo agouro; mas assim mesmo, os olhos do +pae já não viam nas feições de Anna o viço purpurejado da saude, o sorrir +florescente dos dezeseis annos. Deu-lhe o braço, e levou-a á sala, onde o fogão +aquecia o ar d'aquelle famoso janeiro de 1821.</p> + +<p>Anna aconchegou-se da fogueira; D. Julia sentou-se defronte, e o commendador +entre as duas.</p> + +<p>A passagem do quarto para a sala ao longo dos corredores frios constipára a +menina. Tossiu com pouco esforço; mas, na audição do pae, aquelle accesso dava +o som aspero das crepitações pulmonares; figurou-se-lhe estar ouvindo tossir +sua mulher.</p> + +<p>Nublou-se-lhe o semblante, e revia-se-lhe nos olhos a turvação da alma.</p> + +<p>—Anna—disse elle, tomando-lhe a mão com extremada +caricia—eu quero que sejas feliz; quero até que sejas infeliz, mas que +vivas. Reanima-te, filha. Dou-te licença para casares com Eduardo.</p> + +<p>A menina beijou-lhe a mão fervorosamente, e inclinou<span +class="pn">{131}</span> a cabeça ao braço d'elle, como se quizesse esconder a +exultação que devia parecer reprehensivel ao amor de seu pae.</p> + +<p>—Crês, minha filha, que a vida te será mais agradavel, +cazando?—interrogou o velho; e, sem aguardar resposta, voltou-se para D. +Julia, accrescentando:—Que pergunta, que frivola pergunta! É o mesmo que +perguntar a um cego, se crê que lhe ha de ser mais agradavel vêr!... Casarás, +filha; mas com uma condição que teu pae propõe: não me deixarás; o amor, que me +tinhas, dá-o a teu marido; mas não me deixarás, não?</p> + +<p>—Ó meu papá, nunca! por alma de minha mãe lhe juro que nunca o +deixarei, nem amarei menos do que hoje.</p> + +<p>—Não jures, Anna... Pede á alma de tua santa mãe que te guie; mas não +a invoques para affiançar as mudanças da tua vida...</p> + +<p>—Meu papá!—replicou a filha perturbada pela solemnidade da +objecção—se me julga capaz de o amar menos, então não me diga que case. É +melhor que eu...</p> + +<p>—Que tu, filha?</p> + +<p>—Que eu morra, com a certeza de o não ter affligido...</p> + +<p>—Eu bem sabia que tu eras a boa creança, o adoravel coração que és... +Por isso é que eu cuidava que nenhum homem te merecia... E se pensei em te dar +a outro, foi porque, entre tantos com que lidei no espaço de quarenta annos, eu +nunca tinha encontrado condição<span class="pn">{132}</span> mais nobre de +homem, na flor da juventude, mas sem mocidade... Entretanto, os amigos d'este +homem, que a tua innocencia não viu, devem ser dignos d'elle. Se Venceslau +Taveira assevera que Eduardo Pimenta é honrado, seja teu marido Eduardo +Pimenta. Agora, minha filha, não me estejas doente; paga-me esta alegria que te +dou; alegra-te, vive, renova a côr sadía das tuas faces desmaiadas... Dize-me +ámanhã que estás boa, e me não has-de deixar, n'esta escurecida velhice, a +esperar o beneficio da morte, sósinho, entre tres sepulturas.</p> + +<p>Ergueu-se o commendador, e passou ao seu gabinete. Escreveu, e enviou a +carta a Venceslau Taveira. E, depois, apoiou o rosto sobre os braços cruzados +na banca, e chorou longo tempo. Ao emergir d'este lethargo, levantou-se de +golpe, e murmurou: «Meu Deus! em que se funda o presagio da desgraça de minha +filha! Que ha no rosto d'aquelle homem que me está aterrando! Ha dois dias que +eu o via com affecto; não lhe admirava as virtudes nem arguia os vicios; +pintava-se-me um como tantos que a sociedade préza; porém, desde que o imagino +tão identificado á minha vida, esposo de minha filha, que fatidico horror é +este!...</p> + +<p>E, n'este emtanto, D. Julia de Miranda, testemunhava medianamente commovida +o jubilo da sua amiga. Póde ser que ella, vendo desfechar o drama d'estes +amores tão depressa quanto ao avêsso de suas previsões, se arguisse de +imperfeita amiga, escondendo de Julia dous traços equivocos, senão maus do +caracter de Eduardo. Um—aquellas amphibologicas palavras, que lhe +elle<span class="pn">{133}</span> dissera um dia antes, e ella recebêra com tal +qual severidade. Outro—a supportavel tristeza com que Eduardo, n'aquelle +mesmo dia, lhe referira a quebra de suas relações com o commendador. Se outra +causa menos para louvar-se era parte na limitada satisfação de Julia, quando a +noiva de Eduardo festejava a sua inesperada ventura, não é facil averiguar, em +quanto o curso dos successos nos não remover a triple muralha que véda o +insondavel coração das creaturas predestinadas a distincções deploraveis.</p> + +<p>Bem que inexperta e apenas alumiada pela escassa luz matinal do seu amor, +Anna Vaz reparou, entristecida, n'estas palavras enigmaticas de Julia:</p> + +<p>—Fez-me impressão o enthusiasmo de teu papá quando fallou de +Venceslau! O rapaz decerto é o complexo de boas qualidades que teu pae avalia; +nós, porém, as mulheres, temos o coração nos olhos, e o juizo no coração. O +nosso vêr é tão diverso do reparar da experiencia! Quem nos diz que o melhor +marido seria o menos amavel á primeira vista? Eduardo tem a eloquencia +sympathica e melancolica do soffrimento que lhe deixou uma paixão contrariada; +Venceslau tem o ar sereno de quem nunca soffreu nem motivou dôres a ninguem. +Estes dois homens são a consolação ao pé da desgraça. O coração cheio de +balsamos ao lado do coração cheio de lagrimas. Um amou muito, o outro não amou +nunca. Eduardo tem um passado que ha de vir aguar-lhe as alegrias do presente. +Venceslau, quando amar, ha de ser todo a felicidade do momento, a primeira<span +class="pn">{134}</span> florescencia da alma sem imagem de mulher morta ou viva +que venha confrontar-se com outra...</p> + +<p>—Mas que quer dizer isso?!—interrompeu Anna.—Tu bem sabes +que eu não amo o Venceslau.</p> + +<p>—Pois não sei, filha!... O que eu te queria dizer é que, se em vez de +amar Eduardo amasses o outro, talvez o teu anjo da guarda te inspirasse +melhor... </p> + +<p>—Porquê?... Não me disseste tantas vezes que o Eduardo era sympathico +e muito amavel?...</p> + +<p>—E eu digo-te agora o contrario?</p> + +<p>—Mas achas que o outro seria melhor...</p> + +<p>—Melhor para a felicidade da vida intima, filha; mas o coração não +calcula o que ha de vir pelo tempo além...</p> + +<p>—Tu atterras-me Julia!—exclamou a enleada menina, fitando na +impenetravel amiga os seus olhos explendidos.</p> + +<p>—Has de ser sempre creança!... volveu a desconcertada confidente, +emendando as demazias da sua imprudencia.—Estou conversando comtigo, que +vaes ser senhora; e tu queres que eu não tenha vinte e oito annos, e te falle a +linguagem das meninas.</p> + +<p>—Pois sim... mas tu desconfias de Eduardo...</p> + +<p>—Eu desconfio?</p> + +<p>—Sim... hontem não me dizias isso...</p> + +<p>—E hoje que te digo?</p> + +<p>—Que eu seria mais feliz se amasse o Taveira...</p> + +<p>—Ai! que calumnia!... Calla-te, que ahi vem teu pae.<span +class="pn">{135}</span></p> + +<p>O commendador entrou. A filha contemplou-o, e disse meigamente:</p> + +<p>—O papá chorou?</p> + +<p>—Se chorei? sim, filha... Dá-me os parabens, que chorei. Chorar é +esmagar a dôr. As lagrimas são o sangue das angustias que os padecentes podem +afogar entre as mãos. Quando ellas vencem, o homem não chora; morre.</p> + +<p>—Morrer, meu Deus!—exclamou Anna.—Ó papá, meu querido +papá!... não me falle em morrer, que eu já não quero...—E susteve-se por +segundos.</p> + +<p>—Que não queres, filha?... Pobre anjo!... não ousou proferir a +palavra, receiando que lh'a acceitasse... Ai! não, minha pobre Anna... Has de +casar com Eduardo... Se houveres de morrer, a teu pae basta-lhe a dôr... O +remorso seria um supplicio que a minha alma nunca experimentou...</p> + +<p>Ficaram os tres largo espaço silenciosos. Librava-se no ambiente d'aquella +sala o archanjo das propheticas agonias.<span class="pn">{136}<br>{137}</span></p> + +<h1><a name="SECTION000120000000000000000">XI</a></h1> + +<blockquote> + <p>Qualquer honesta se abala,<br> + Como sabe que é querida.</p> + + <p class="obra">C<small>AMÕES.</small>—<em>Filodemo.</em></p> +</blockquote> + +<p>Observou Venceslau Taveira que o seu amigo, ouvindo lêr a complacente carta +do commendador, manifestou mais que moderadamente o seu contentamento. +Estranhando-lhe a quasi indifferença, perguntou-lhe se a noticia lhe era +desagradavel, e se a conformidade do pae ao amor da filha despoetisava a noiva. +</p> + +<p>Respondeu Eduardo, alteando a fronte, que a injuria da despedida era muito +recente, e a honra da readmissão pouco desejada.</p> + +<p>Taveira obtemperou com a sobranceria do seu amigo. Pareceu-lhe bem aquelle +pundonor: achou até natural que os brios e o coração se digladiassem dentro do +nobre peito do rapaz. Isto, porém, não impediu que elle desculpasse o velho e +resalvasse a menina da responsabilidade, a fim de amolentar as asperezas +timbrosas de Eduardo, o qual se considerava offendido em sua justa<span +class="pn">{138}</span> hombridade de plebeu pela propria mulher que talvez +imaginasse descer os degraus de sua gerarchia para lhe dar a mão. É o que elle +dizia, encaracolando o bigode e avincando a testa.</p> + +<p>Insistiu Taveira declinando da amorosa menina as queixas do plebeu irritado. +Teve que fazer. A ralé, se traja ao bizarro, e se tem nos miolos o fervilhar +das aspirações, destampa em orgulhos desmesurados: faz saudades do barão +feudal. Dava-se em Eduardo, ao que parecia, o sangrar da ferida antiga. O viuvo +da filha dos Portugaes tinha nas cavernas da alma latibulos de rancor ás raças, +aos pergaminhos, e nomeadamente aos paes que lhe não offereciam as filhas e os +vinculos. De mais a mais, além d'estes pontos-de-honra, outras procellas lhe +emborrascavam o animo quando elle, de subito, fez esta pergunta:</p> + +<p>—Que dote tem ella?</p> + +<p>—Eu sei lá!...—respondeu o outro enleado.</p> + +<p>—Eu devia ter indagado...</p> + +<p>—Sim, tu, e não eu, a dever ser algum. Se casas com o dote, começas +pelo fim. Devias estudar o archivo do commendador, antes de pôr a sonda ao +coração da filha, acho eu.</p> + +<p>—Fallemos serios—volveu o galan dos olhos tristes e das +palpebras morbidas.—Parece-te inutil isto de saber-se com quanto um homem +póde contar, quando se constitue chefe de familia?</p> + +<p>—Parece-me util; é sem duvida util mercantilismo. Mas o util nem +sempre se combina com o agradavel,<span class="pn">{139}</span> como aconselha +o poeta romano. E, n'este caso, essa averiguação, sobre ser desagradavel, é +extemporanea. Já te disse: acabas por onde devias principar. Suppõe tu que +farejas os contadores de Francisco Vaz, e não achas lá aroma de vintem! Que +fazes? Retiras o requerimento á mão da menina, visto que a menina se não +presume herdeira?</p> + +<p>—Se retiro o requerimento? Eu não requeri nada... não a pedi...</p> + +<p>—É verdade, não a pediste... Fui eu quem a pediu para ti, por me +haveres dito que ella se suppunha amada, e não embaida por velhacaria de +mercador que anda de armazem para armazem comparando e apalavrando fazenda. +Entretanto, respeito a dote, não te informes comigo. Como vês, tens aberta a +porta do commendador: pergunta-lh'o. E, se elle te disser que é pobre, e as +lavaredas do amor se apagarem no teu peito, suicida-te.</p> + +<p>—Que me suicide?!—bradou espantado o sugeito, que annos antes +andára a metter-se nas tezouras da parca.</p> + +<p>—Sim, homem—voltou Venceslau tregeitando no sorrir um gesto de +aborrecimento, se não era de menospreço.—Mata-te por egoismo. O amor +proprio de um homem de bem deve ministrar-lhe o veneno ou o punhal suicida, +quando se lhe está abrindo um abysmo de... de... não me lembra a palavra...</p> + +<p>—É pena que te não lembre...—acudiu ironicamente o outro.<span +class="pn">{140}</span></p> + +<p>—Ah!... lembrou: de infamia.</p> + +<p>—Mercês!—redarguiu Eduardo—se fosses um qualquer homem, +respondia-te no campo da honra; mas ao amigo, que comprou com os seus favores o +direito de me aviltar, digo: obrigado!</p> + +<p>—Ao campo da honra vão os honrados—concluiu Venceslau, +erguendo-se de golpe, e tomando o chapéo.—Tenho que fazer... Não me dá +Deus horas baldias para palestras d'esta especie.</p> + +<p>E sahiu arrebatadamente.</p> + +<p>Eduardo seguiu, deu-lhe o braço já na rua, e disse-lhe em tom de muita +brandura:</p> + +<p>—Nunca te imaginei condição tão brava, Taveira! A tua honra tem +espinhos... </p> + +<p>—Pois não te firas, Eduardo... Temos duas estradas. Segue uma das duas +por onde nunca possamos encontrar-nos.</p> + +<p>—Ao menos permitte que hoje á noite nos encontremos em casa do +commendador. </p> + +<p>—Como te aprouver... adeus.</p> + +<p>Venceslau foi para as côrtes, e Eduardo para casa de D. Julia de Miranda. +</p> + +<p>—Parabens!—exclamou ella, quando entrou á sala, onde era +esperada pelo noivo de D. Anna Vaz.—Quem diria? Olhe que bonito e rapido +desfecho teve o romance, que parecia complicar-se em tenebrosos enredos!</p> + +<p>—É verdade, minha senhora!...</p> + +<p>—Tambem me dou a mim os emboras pela auspiciosa<span +class="pn">{141}</span> intervenção que tive n'estes bem-logrados amores!</p> + +<p>—Obrigado, snr.ª D. Julia—respondeu elle glacialmente.</p> + +<p>—Que seccura, santo Deus! que frieza a sua, snr. Eduardo! E eu a +imaginal-o doido de alegria como todos os que amam anjos com o rosto e o +coração da minha Annica! Ai! se ella agora o visse decerto...</p> + +<p>—Me não amava?</p> + +<p>—Decerto abafava de mágoa de o ter amado... Que tem? que genio é o +seu? que é isso?!</p> + +<p>—É a fatalidade—respondeu funeralmente o joven pallido.</p> + +<p>—Não sei o que é a fatalidade... Explique-se.</p> + +<p>—Quer V. Ex.ª que eu lhe diga o que é a fatalidade?... Ah! não queira +ouvir...</p> + +<p>—Quero... diga... Preciso entender o enigma da sua alma...</p> + +<p>—A fatalidade é o calix intransmissivel. É a attracção do abysmo. É o +resvalar por despenhadeiro onde não ha aresta de rocha em que se recravem os +dedos. É o supplicio de Tantalo, a braza viva nos labios e a torrente da agua a +derivar por diante da enorme agonia da sêde. É o tormento de Mezencio: o vivo +enleiado ao cadaver. A fatalidade é o abutre que roía o figado immortal do +acorrentado do Caucaso. É o estanque de lagrimas onde se afogam as esperanças, +apenas nascidas. É o clamor incessante d'uma alma, que sóbe até o céo nas azas +da fé, e desce até ao inferno<span class="pn">{142}</span> abatida com o pezo +das suas maldições. É duvidar de Deus, quando a face bate nas lageas do templo, +e o coração se confrange e arde sem aura refrigerante. A fatalidade é o +holocausto forçoso da vida n'um altar onde a victima não leva sequer a +compaixão dos que sabem que alli se está suicidando um homem. É a vacillação +incomportavel de quem balanceia entre matar-se para esquecer e sacrificar-se +para que o não deshonrem as vaias das multidões. A fatalidade, snr.ª D. Julia, +é não ter eu morrido quando me atirei á bayoneta e ás balas no fragor das +pelejas. A fatalidade é ter eu olhos e alma, e o torturar da vaga esperança, +quando a imagem d'uma mulher predestinada me appareceu a apontar-me a voragem +onde eu devia engolphar-me. A fatalidade, emfim, senhora, é tel-a eu visto; +é... tel-a eu amado.</p> + +<p>Esbofada a vulcanica declamação, D. Julia ergueu-se placidamente, +soberanamente, hirta, severa, formosa de magestosos assomos, e disse:</p> + +<p>—Se é o snr. Eduardo Pimenta quem está em casa de Julia de Miranda, +amiga de Anna Vaz, peço-lhe que se esqueça de ter aqui entrado.</p> + +<p>—Perdão, minha senhora!—balbuciou o galan, como quem não trazia +mais diamantes no thesouro da memoria.—Perdão!</p> + +<p>—Perdoei, porque... esqueci.</p> + +<p>—Perdôa—volveu elle com alguma felicidade—perdôa, +porque... matou. Eu vou ser marido de D. Anna Vaz, snr.ª D. Julia. Ha de vêl-a +feliz...</p> + +<p>—Praza a Deus... mas... duvído.<span class="pn">{143}</span></p> + +<p>—Ha de vêl-a feliz... ha de vêl-a sorrir para mim sem suspeitar que +lhe sorri nos meus labios a morte... o sorrir do martyr para o cutello, a +palavra indulgente do Christo para os seus verdugos. Agora, uma supplica... +Segredo, minha senhora! Que ella o não saiba... Não me prive da gloria de ser +eu só desgraçado. Se ella vê em mim o coração que se abraza do seu amor, +deixe-a ser feliz; diga-lhe que eu a amo... prometto a V. Ex.ª que nunca a +desmentirei... </p> + +<p>—Mas... enganou-a... mentiu-lhe... para quê? objectou D. Julia, +enredada nos amphiguris d'aquellas tiradas de Arlincourt.</p> + +<p>—Não a enganei... forçou-me a fatalidade a adoral-a...</p> + +<p>—E então?... Que incomprehensivel!... que indecifravel adoração!... +Pois não me diz que adorava a minha amiga? Por que deixou de adoral-a?!</p> + +<p>—Porque a mão do anjo negro me trouxe, desde o tumulo da primeira +mulher que amei, até ao segundo calvario onde eu devia amar a segunda, +mostrou-me... V. Ex.ª Eu disse tudo, senhora! Agora odeie-me; mas não me +denuncie. O seu silencio ha de deixar-me agonisar lentamente; a sua denuncia... +fulminar-me-ha... A minha morte é desnecessaria á sua glorificação.</p> + +<p>Disse e sahiu.</p> + +<p>Não era odio o mais caustico sentimento que Eduardo incutiu no animo de +Julia. Tambem não era asco nem sequer desprezo. A fidalga ficára agitada, mas +não febril dos estos da indignação. Viu-se escarlate no espelho,<span +class="pn">{144}</span> e nenhuma das hypotheses explicativas da congestão +sanguinea das faces lhe pareceu realmente ser pudor. Vêr-se ao espelho seria +acaso; curiosidade de remirar o seu aspecto rubente de colera é que não era. +Ella não sabia que estava iracunda e rubra. Fulgurou-lhe no espirito um +relampago de electricidade tão offuscante que fechou os olhos. Teve pejo de +si:—pudenda alma que se sentia estremecer no lapso da candura ao +indecoro! Atirou-se a uma cadeira estofada, e abarcou o rosto nas mãos +convulsas. Quando se levantou, as lagrimas embebiam-se no ardor das faces. +Aquellas lagrimas eram as perolas que o seu bom anjo derramava sobre o seio +onde os latejos do coração respondiam aos clamores da consciencia. N'este +lance, enclavinhou os dedos das mãos, e comprimiu com ellas o arfar do peito. +E, depois, tirando um profundo gemido, murmurou: «Se eu podesse amar um +homem!»<span class="pn">{145}</span></p> + +<h1><a name="SECTION000130000000000000000">XII</a></h1> + +<blockquote> + <p> Deus organisou<br> + O homem que vemos...</p> + + <p class="obra">A<small>NTONIO </small>P<small>RESTES.</small>—<em>Auto da + Ave-Maria.</em></p> +</blockquote> + +<p>Estavam todos melancolicos, á feição de amigos que se ajuntam em casa do +dorído, na noite seguinte á do passatempo.</p> + +<p>O commendador Vaz dirigia ao seu futuro genro palavras de contrafeita +amabilidade.</p> + +<p>Venceslau Taveira lia o diario das camaras e tirava notas. O conego das +digestões morosas esperava o chá na espectativa silenciosa, ouvindo o rugir das +proprias entranhas. O capellão da fidalga contemplava o conego, censurando +mentalmente que as murças se déssem a sugeitos estupidos. D. Julia, no desvão +da sacada, ciciava com a sua amiga um dialogo apparentemente gélido e remoto do +interesse que era de presumir em tão festivo sarau.<span +class="pn">{146}</span></p> + +<p>Durante o chá, animou-se aquelle palco da comedia humana. O prebendado +contou os antigos faustos da patriarchal de D. João <small>V</small>. O +commendador abriu ensejo ao capellão para que demonstrasse que D. João +<small>V</small>, orando em Odivelas, não fôra mais util á religião dos pobres +que os chantres da patriarchal gosmando psalmos na real basilica. Venceslau +Taveira fez a apologia de Ferreira Borges e Manoel Fernandes Thomaz. Eduardo +Pimenta descreveu a batalha da Roliça, azando ao conego breves, mas energicos +protestos contra Bonaparte, e a vigesima edição de suas crenças politicas, que +fundavam todas na paz e concordia entre os principes christãos e extirpação das +herezias—votos sinceros, senão eloquentes, que influiam no cerebro do +capellão filtros soporiferos.</p> + +<p>Em amor ninguem fallou.</p> + +<p>Soára meia noute: era a hora costumada de se apartarem.</p> + +<p>Francisco Vaz, aproximando-se de Eduardo, disse-lhe a meia voz:</p> + +<p>—Queira dizer a Venceslau que fique e V. S.ª ficará tambem alguns +minutos. </p> + +<p>D. Julia sahiu com os dois clerigos; D. Anna não voltou á sala; e o +commendador fallou assim a Eduardo, na presença do deputado.</p> + +<p>—Tive noticia de que o snr. Pimenta préza minha filha. É sua intenção +esposal-a?</p> + +<p>—Eu não podia ter outra intenção.</p> + +<p>—Costumam alguns paes extremosos pedir aos noivos<span +class="pn">{147}</span> de suas filhas que sejam bons, meigos e carinhosos para +ellas. O amor santo dos pobres velhos desculpa-os d'este pedido banal. É +respeitavel a supplica, porque Deus sabe como se cerra e estorce o coração do +pae que separa de si ao fim de dezeseis annos a creança, que se fez mulher, e +todavia lhe falla ainda na alma com a mesma ternura dos vagidos da infancia. Um +pae vê sua filha senhora, e cuida sempre que ella lhe está sorrindo no berço. +Não lhe pedirei, pois, snr. Pimenta, que ame sua esposa, porque eu a estremeço +e adoro. Peço-lhe só que m'a receba como excellente creatura que ella é. Outra +coisa que muito desejo me não esqueça. Queixei-me austeramente ao snr. +Venceslau das intelligencias affectuosas que V. S.ª contrahiu com minha filha. +Não m'o leve a mal. Um pae treme de susto e ira quando de repente sabe que lhe +tentam usurpar as alegrias unicas da sua vida: é como o avarento a quem ameaçam +espolial-o do cofre onde tem o sangue e a alma. Queixei-me; depois, abri os +olhos, vi o mundo como elle foi sempre, vi minha filha como todas as filhas, e +vi no snr. Pimenta um homem como eu fui, como são todos. Resignei-me. Algum +sedimento de despeito e intolerancia sahiu nas lagrimas. Estou preparado para a +renunciação, para a soledade, e para um fim de velhice mais triste do que eu +imaginara entre a minha Anna e o retrato de sua mãe. Não sei qual é a tenção de +V. S.ª depois de casado. Ella disse-me que não se apartava de mim; +porém...<span class="pn">{148}</span></p> + +<p>—Em quanto o snr. commendador quizer acceitar a estimação sincera do +marido de sua filha, eu não pensarei jámais em sahir de sua companhia.</p> + +<p>—Agradeço!—disse o velho, estendendo-lhe a mão com vehemente +transporte; e proseguiu, feita breve pausa:—O homem, que se casa, deve +avançar vinte annos a dentro do futuro e prefigurar-se ahi pae de familias, +rodeado de canceiras, cuidadoso e perplexo com o porvir de seus filhos. O amor +opera prodigios de desinteresse, mas não faz que os bens da fortuna surjam +miraculosamente. Parece-me util que V. S.ª saiba qual é o patrimonio de minha +filha. Tenho uma commenda que me rende dois mil cruzados, e duas quintas que me +dão outro tanto rendimento. Esta mediania tem bastado á modestia do nosso +tracto. Não frequento bailes ha muitos annos, porque não posso retribuil-os. +Alheei-me da sociedade faustuosa dos meus parentes, porque minha filha apenas +poderia occupar dignamente o posto que lhe dá o seu nascimento; mas decerto, a +equipar-se das pompas que as damas de hoje estadeam nas salas, o seu dote +ser-lhe-hia muito desfalcado, e, no andar dos annos, muito custoso lhe havia de +ser trajar vestidos de chita, quem os desperdiçára de sêda. Além de que, fartas +vezes tenho previsto que os dois mil cruzados da commenda correm perigo de ser +absorvidos pela liberdade, inimiga de tudo que é antigo, sem catar dos direitos +que, sendo justos, não deviam postergar-se. Espero, porém, que os sacerdotes da +liberdade, se todos forem<span class="pn">{149}</span> da condição do snr. +Taveira, curem primeiro de desentranhar as riquezas do paiz, antes de +arrebanharem as migalhas herdadas dos antigos conquistadores da Asia e Africa. +</p> + +<p>Venceslau correspondeu com um aceno de complacencia ao sorriso do +commendador, que proseguiu:</p> + +<p>—Na hypothese, portanto, de que tenho pouco e menos poderei ter d'um +momento para outro, não receio melindrar o snr. Pimenta, aconselhando-lhe, já +como amigo e já como pae de sua esposa, que procure empregar-se, como tantos +emigrados que o não egualam em meritos de serviços e intelligencia. Se lhe não +quadra a vida militar, que renunciou, ha encargos civis honrados e lucrativos. +Na sua edade e com tanta capacidade, a vida ociosa deve dar-lhe tédios, fadigas +sem actividade que as explique, dissabores e quebrantos que volvem aborrecida a +monotonia do viver cazeiro. Eu, em quanto o vigor me ajudou, fui agricultor; +depois fiz-me o mestre de meus filhos; e li quanto achei e pude entender para +acreditar que Cicero, escrevendo louvores da velhice, não sophismava o desanimo +frio e inerte d'este inverno sem sol, em que a luz dos olhos de minha filha me +dava mais calor que as ardentes apologias do orador romano. Basta. É tarde, +meus amigos. São horas de repouso. O snr. Pimenta recebe ámanhã a certidão de +edade de sua noiva para os reclames. Boas noites. Minha filha não vem á sala, +porque está recolhida.</p> + +<p>—Que bello caracter de homem!—dizia Eduardo, intimamente +compenetrado da honrada simpleza do commendador.—Parecia<span +class="pn">{150}</span> um pae dos tempos patriarchaes! Começo a sentir doçuras +imprevistas n'este enlace! Adquiro uma esposa adoravel, e um pae venerando! +Achei o santo aconchêgo da familia que nunca tive!... Não vou ser rico; mas +quantos centenares de contos daria Cressus pelas delicias domesticas no seio de +tal familia?... Mas tambem não vou ser pobre...</p> + +<p>—Decerto, não—assentiu Venceslau, reparando na subitanea +passagem das tradições patriarchaes á vulgaridade moderna da +riqueza.—Quanto tens de teu? </p> + +<p>—Quatorze mil cruzados, pouco mais ou menos.</p> + +<p>—Ouço dizer que os empregos se compram. Emprega o teu capital n'essa +veniaga, ou augmenta os rendimentos do casal comprando predios rusticos. Podes +viver desafogadamente com cinco ou seis mil cruzados annuaes, se continuares a +parcimónia e resguardo de teu sogro. Tens a felicidade de casar com senhora não +acostumada a bailes nem ás fatuidades do toucador. Só isso de per si vale um +dote dos mais cubiçaveis.</p> + +<p>—Dizes bem; mas—objectou Eduardo—bem sabes que eu não +posso conformar-me aos habitos de meu sôgro, nem quero que minha mulher passe +as noutes todas a ouvir discutir o tio conego com o capellão de Julia. Uma vez +por outra, hei de leval-a ao baile, ao theatro, ao passeio, á convivencia das +damas da sua parentella. Isto não desbarata os bens, acho eu; ao mesmo passo +que aligeira os cuidados da lida domestica, e reveza umas sensações por outras, +tomando-as todas apraziveis. Não te parece?<span class="pn">{151}</span></p> + +<p>—Sim... parece-me que a indole constrangida é o germen de grandes +desgostos. O commendador não levará a mal que sua filha gose os prazeres que +não conhece; mas, se tu visses que ella é ditosa desconhecendo-os, serias bom e +discreto deixando-a na feliz ignorancia d'esses vistosos fructos das cidades +arrasadas da Palestina, as quaes tinham cinzas envoltas em formosa casca...</p> + +<p>—Ahi estás tu encarecendo perigos!—tornou Eduardo, adocicando a +facecia.—O noviciado em Tibães deixou-te uns longes de frade em missão. +Se te não desfradas, destampavas em Jeremias, e a esta hora alta da noute havia +de ser lugubre ouvir-te por aqui a declamar: «Converte-te, Lisboa! Fazei +penitencia, peraltas!»—E, voltando ao tom serio, ajuntou:—Eu, a +dizer-te verdade, tenho precisão de ar, de sol, dos esmaltes da existencia, das +coisas sublimes que Deus poz como matizes de oiro sobre o negro pano da vida. +Caso-me para unir á minha uma alma, que me duplique o sentimento do bello. Dois +corações identificados devem receber em dobro a sensação das alegrias honestas. +Bem sabes que escura mocidade tive. Dôres sobre dôres. O horisonte fechado por +um tumulo. A repulsão da familia e da patria. A perseguição dos poderosos. A +pobreza no desterro. Beneficios de Deus recebi só um: a tua amisade, a mão que +me desviava do seio o punhal suicida. Quem assim viveu até aos trinta annos tem +direito a sahir d'este lethargo, e a commungar dos prazeres que não desdouram +nem arruinam. Não é assim?<span class="pn">{152}</span></p> + +<p>—É.</p> + +<p>—Dizes <em>é</em> por condescendencia?</p> + +<p>—Digo.</p> + +<p>—Mas não digas; discute.</p> + +<p>—Boa hora para discutir, aqui, na rua dos Fanqueiros, se os prazeres +desdouram e arruinam! Isso é questão philosophica de grande folego, meu amigo. +Eu, por mim, em philosophia moral, conheço uma só palavra, que é o lemma d'uma +eschola: <em>Abstem-te e soffre</em>.</p> + +<p>—Isso não é philosophia: é uma questão de temperamento...</p> + +<p>—E de temperatura cá para mim... Está muito frio... Adeus, até +ámanhã.</p> + +<p>Venceslau entrou na modestissima sobre-loja onde morava na calçada do +Caldas; e Eduardo, recolhido aos confortos do seu gabinete no hotel-francez da +rua de S. Paulo, sentou-se á banca da escrivaninha, e escreveu vinte e sete +vezes a palavra <em>Julia</em>, inflorando as hastes do <em>J</em> e do +<em>l</em> com recortes de muito ingenho. Durante esta obra-prima de +caligraphia, o seu espirito desenhava na tela que lhe offerecia o demonio de +Fausto, uns hediondos esboços de romance, que elle não tirou a limpo, e eu, por +desventura minha, hei de restaurar no pano delido por lagrimas.</p> + +<p>Depois, deitou-se no colchão de pennas, e adormeceu como raras vezes dormem +os justos.</p> + +<p>E ao mesmo tempo, quando a aurora já repontava do seu leito de neblinas +frigidissimas, Venceslau concluia o seu artigo do <em>Astro</em>, friccionára +as mãos gelidas,<span class="pn">{153}</span> deitava-se no enxergão ingrato ao +longo repouso, e não podia conciliar o somno com a febre cerebral do longo +trabalho.</p> + +<p>Ah! os justos dormem bem quando... não tem que fazer.<span +class="pn">{154}<br>{155}</span></p> + +<h1><a name="SECTION000140000000000000000">XIII</a></h1> + +<blockquote> + <p>Sempre bom, sempre douto, sempre amigo<br> + Da honra e da virtude.</p> + + <p class="obra">F<small>ILINTO </small>E<small>LYSIO.</small>—<em>Ode.</em></p> +</blockquote> + +<p>«Se eu podesse amar um homem!»—verbo de recondito mysterio que passou +nos labios de Julia, por entre umas crispações, que tanto podiam ser nervosas +como sanguineas.</p> + +<p>Estas mesmas palavras repetiu ella á sua amiga D. Anna Vaz, um mez depois de +celebrado o casamento.</p> + +<p>Vieram ellas de molde no seguinte dialogo:</p> + +<p>—Diz o meu Eduardo que tu não amaste nunca meu mano Antonio.</p> + +<p>—Ora essa! O teu Eduardo não tem senso commum! Em que funda elle essa +calumnia?</p> + +<p>—Diz que tem estudado o teu genio; que te não acha nos olhos, nem nas +palavras a doçura e tom de mulher,—a meiguice que elle chama +feminilidade. Disse<span class="pn">{156}</span> mais que tens uns ares +varonís, e umas attitudes fortes, inflexiveis e refractarias á ternura.</p> + +<p>Julia soltou uma cascalhada de riso, exclamando entre froixos de tosse:</p> + +<p>—Teu marido é admiravel! Não tem graça, mas faz-me rir! Com que então +tenho ares varonís! Espera talvez que eu, se os francezes voltarem a Portugal, +vista a armadura da donzella de Orleans para salvar a patria! Desconfia +provavelmente que eu trago na algibeira do vestido a faca de Carlota Corday! +Ai, filha, dize-lhe que não! Assevera-lhe que eu dou um grito pavoroso quando +vejo uma carocha...—Continuou a casquinar e a dizer:—Estas más +qualidades do sexo forte em que m'as viu elle? Nos olhos sem doçura, e nas +palavras... sem quê? Não te lembras?... Ah! sem tom de mulher. Olha que +injustiça, ó Annica! O timbre da minha voz é feio de fino que é; e os meus +olhos, na opinião da gente que me faz favor de olhar para mim, são tristes e +ternos. Não sei quem foi que me chamou antilopa de olhos scismadores... Ainda +hontem ao Venceslau Taveira ouvi que nos meus olhos brilhava uma congelação de +lagrimas. Vê tu, meu amor, que opiniões tão oppostas!</p> + +<p>—Ai! a proposito... Sabes o que Eduardo me disse, Lulu?</p> + +<p>—Que o Taveira me fazia a côrte?</p> + +<p>—Isso... como adivinhas tu, feiticeira?—perguntou D. Anna +maravilhada.</p> + +<p>—Como adivinho eu!... Isto não é feitiçaria, é raciocinio.<span +class="pn">{157}</span> Elle que diz que eu não posso amar, é porque sabe que +os meus pretendentes indefiridos são muitos. Ora, sendo Taveira o unico sugeito +com quem fallo na presença de teu marido, este ha de ser por força o meu +namorador rejeitado...</p> + +<p>—Mas elle ama-te decerto?—contraveiu D. Anna Pimenta.</p> + +<p>—Ó menina, a pergunta é seria?</p> + +<p>—É, Lulu... Quem me déra vêr-te casada e tão feliz como eu sou!...</p> + +<p>—És realmente feliz?...</p> + +<p>—Porque duvídas?!</p> + +<p>—Isto não é duvidar, minha filha... é o vivo jubilo que sinto quando +me repetes todos os dias que o teu Eduardo é o ente digno de ti. Queres tu +saber? Teu pae estava hontem triste e só na sala, quando eu entrei: +Perguntei-lhe que tinha... e elle...</p> + +<p>—Ah! eu te digo... O Eduardo lembrou-se de dar um baile para festejar +os meus annos. O papá observou-lhe que os annos de uma pessoa querida +festejavam-se em familia, e que o prazer de festas vaidosas e estrondosas era +cerceado pela canceira de quem dava bailes em que os divertidos eram os de +fóra. Eduardo ficou descontente; mas não respondeu. O que elle particularmente +me disse não o soube o pae.</p> + +<p>—Que foi?...</p> + +<p>—Desculpa-me, Lulu... não t'o digo... prometti segredo...</p> + +<p>—Desculpa-me tu a curiosidade, minha querida<span +class="pn">{158}</span> amiga. Foi uma inadvertencia que a tua amisade me +releva... Mas então não me illudi... A tristeza do teu papá tinha relação +comtigo; e por isso insisti em perguntar se...</p> + +<p>—Mas—atalhou a filha do commendador—ias contar-me a +respeito do Venceslau...</p> + +<p>—Ah! sim... O Venceslau é um rapaz que merece ser admirado. É serio e +melancolico. Tem certa graça contrafeita no rir, quando se alegra por +condescender. Em outro homem, cuidaria eu que a sua grave compostura e madureza +intempestiva é artificio. N'elle, não. Eu sei o que é... A sua paixão é a +politica; os seus namoros são os livros; a sua noiva é a Liberdade; e o seu céo +ou inferno é a gloria. Homens assim não amam mulheres feminís nem mulheres +varonís; podes dizer isto ao teu Eduardo. Dize-lhe mais que eu não repellí a +declaração do Taveira. Ainda lhe não ouvi palavra que me assuste nem +lisongeie...</p> + +<p>—Mas se elle te dissesse que te amava?...—inquiriu com malicioso +tregeito D. Anna.—Que fazias?</p> + +<p>—Eu sei!... Forte aperto!—respondeu ridentissima D. Julia, a +deplorativa Arthemisa do defuncto emigrado.</p> + +<p>—Ah!... entrei-te no coração, Lulu!... Cuidas que me enganas?</p> + +<p>—Enganar-te!... Quando te menti eu, filha? Perguntaste-me se me elle +amava, disse-te que não. Perguntas-me se eu o amaria... Olha, minha amiga... se +eu podésse amar um homem...<span class="pn">{159}</span></p> + +<p>—Ainda agora te ouvi dizer que se elle declarasse que te amava...</p> + +<p>—Que mais ouviste?</p> + +<p>—As reticencias... o embaraço... aquelle <em>eu sei</em>!</p> + +<p>—Sim, eu sei! Provavelmente ouvia-o com senhoril delicadeza, pedia-lhe +que me deixasse pensar, e depois...</p> + +<p>—Que dizias depois?</p> + +<p>—Se eu ainda não pensei para responder a elle, como hei de responder a +ti! Que indagadora! Se não fechassem a inquisição no anno passado, e fosses +varoníl como eu, vestias a tunica dos dominicos, e ias interrogar judeus e +feiticeiros! </p> + +<p>—Vou fazer-te uma prophecia—disse solemnisando o gesto de +sibylla a esposa de Eduardo.</p> + +<p>—Vá, sóbe á cadeira, já que não temos tripode, e prophetisa de lá, na +certeza de que és oraculo por tal modo transparente que eu já sei o que vaes +vaticinar.</p> + +<p>—Casarás com Venceslau Taveira!—exclamou D. Anna, alongando o +braço em postura esculptural.</p> + +<p>—Era isso mesmo. Desce o braço, propheta! podes apagar a chamma divina +que te alumia o futuro, e convida-me para jantar comtigo, visto que o teu homem +foi jantar com o general Sepulveda, e podemos parolar toda a tarde... Olha, não +gósto d'estas deserções que faz teu marido a jantares alheios. Casado ha um +mez, e jantar fóra...</p> + +<p>—Que tem isso?</p> + +<p>—Eu não no consentia a meu marido.<span class="pn">{160}</span></p> + +<p>—Pois sim... eu tambem não gósto; mas o papá deseja que elle se +empregue, e o general Sepulveda prometteu-lhe não sei quê no commissariado. Diz +o Eduardo que é preciso fazer a côrte ao general. Ora agora, tu, que tens +quinhentos mil cruzados, se casasses, não consentias que teu marido fizesse a +côrte aos que dispõem dos empregos. Olha, casa com o Taveira, e verás que elle +janta sempre em casa...</p> + +<p>—O Taveira? olha quem!... O Taveira jantaria comigo, se a santa +Liberdade o não convidasse a comer o caldo negro dos spartanos. A politica é +uma amante que supplanta as esposas. Em quanto houvesse leis que fazer e +costaneiras que rabiscar para vestir a Liberdade, com trapos reduzidos a papel +sujo, meu marido apenas me daria a honra de me lêr os seus artigos e discursos. +Venceslau ha de ser um bom esposo, se a Liberdade morrer; mas depois tambem a +mulher, que o acceitasse viuvo de tamanha deusa, corria o perigo de o ir +procurar aos sertões da America, onde ha tanta liberdade, sem constituição nem +hymno, que toda a gente faz o que quer e traja o mais livremente que é +possivel.</p> + +<p>N'este estylo, que denota frescura, desafogo e irrisão, proseguiu D. Julia +de Miranda até á chegada do commendador. A pratica, durante o jantar, correu á +conta do soberbo discurso que Venceslau proferira n'aquelle dia, captando o +assombro das galerias, e consolidando a reputação de primeiro orador, em tão +verdes annos. Francisco Vaz, á medida que realçava os<span +class="pn">{161}</span> talentos do deputado, vibrava de esconso á filha uns +olhares expressivos de mágoa e censura, como se quizesse d'esta sorte arguil-a +de ter-se esquivado a consultar o pae na escolha do marido.</p> + +<p>—Que brilhante futuro aguarda este rapaz!—insistiu o +enthusiasta, apezar da voragem que o deputado abria para sorvedoiro das +commendas rendosas.—Dizia-se ha pouco no Rocio que é bem de esperar que +elle seja chamado ao governo. Que admira? Quando o talento se allia á honra, +que monta a falta dos cabellos brancos! Vida immaculada com profunda sciencia +combinam o grande prodigio, n'estes tempos de muito vicio com muitissima +ignorancia! Ó snr.ª D. Julia, que homem aquelle quando o fogo do genio e a +consciencia da justiça lhe alumiam a fronte! Tenho pena que as damas +portuguezas se considerem tão alheias dos negocios publicos. Se a instrucção +mulheril ou a moda levassem senhoras ao parlamento, quantas não sahiriam de lá +hoje, não direi convencidas pela oração, mas apaixonadas pelo orador!...</p> + +<p>Ao gracejo do velho respondeu D. Julia:</p> + +<p>—É bom que as senhoras não frequentem o parlamento. Pobre deputado, se +as apaixonadas o assaltassem á sahida da camara, a repucharem-no cada uma de +seu lado, e elle a defender-se d'essas mulheres de Pharaó, com argumentos de +irreprehensivel rhetorica! O pobre rapaz havia de julgar-se novo Orpheu +dilacerado pelas donzellas da Thracia.</p> + +<p>O commendador franziu a epiderme da testa, revelando<span +class="pn">{162}</span> assim o desgosto que lhe causavam as demasias de sal, +com que a sua hospeda, desde certo tempo, polvilhava as facecias.</p> + +<p>—As damas portuguezas—tornou o commendador +sisudamente—quando admiram os bons ingenhos não os assaltam na rua; e, se +os prézam, não se desprezam a si mesmas.</p> + +<p>—Perdão, snr. commendador,—emendou D. Julia, despeitada pela +censura—eu respondi gracejando, por me parecer que V. S.ª não calculava +com a maior seriedade o numero das damas apaixonadadas pelo orador. Eu tenho a +honra de ser uma das leitoras, que admiram Venceslau Taveira, e já n'esta casa +o ouvi improvisar luminosos discursos; porém...</p> + +<p>—Não se apaixonou...—accudiu o velho.</p> + +<p>—Não, senhor. As mulheres portuguezas, em geral, não têm a +sensibilidade erudita que se extasia e captiva de discursos politicos. +Comprehende-se que um poeta leve de poz a sua lyra mulheres, como Amphião +levava pedras. A poesia é musica, e a musica, não sei onde li isto, fascina +cobras e outras alimarias ferozes. Mas um discurso sobre a liberdade de +imprensa e a egualdade perante a lei não seria capaz de me arrebatar +grandemente.</p> + +<p>—Desconheço-a, minha amavel senhora!... replicou o commendador, +alongando os beiços, e tomando na mão um prato, cujos relevos japonezes parecia +examinar em quanto fallava.—Essa linguagem, adubada de chistes e +epigrammas, d'onde lhe veiu? A menina,<span class="pn">{163}</span> d'antes, +conversava em termos ingenuos, modestos e familiares: revia candura no pensar e +no dizer. Hoje, porém, e n'estes dous ultimos mezes, as suas phrases têm +novidade, que me desconsola. Ouço dizer que os emigrados trouxeram de França +uns livros que apagam os lumes do coração e accendem os fogos fatuos do +espirito... Dar-se-ha caso que a minha Juliazinha haja lido muito?</p> + +<p>—Leio desde os quinze annos, como V. S.ª sabe—respondeu com +altiva seriedade a fidalga.—Meu pae era rapaz quando o Pombal expulsou os +jesuitas e abriu as barreiras aos livros francezes. Meu pae estudou então, e +mandou-me ensinar a mim o que lhe pareceu bom que eu soubesse. Li muito, +durante os annos que estive inclausurada em castigo de amar seu filho. Lia para +distrahir-me, e arrancar das presas da desesperação a alma que eu guardava para +elle. Os livros, que li então, são os livros que hoje recordo. Dos que +ultimamente vieram com os emigrados não conheço nenhum que me abraze nem que me +géle. Ha todavia para mim dois optimos exemplos de que os ares que os emigrados +respiraram não impestam. Bem lidos e sabios da sciencia dos francezes devem ser +Eduardo e Venceslau; não obstante, elles são homens de bons costumes e +excellente porte.</p> + +<p>—São...—murmurou o commendador.—Não duvido... não devo +duvidar que sejam...</p> + +<p>E, balbuciando como se as palavras resistissem á<span +class="pn">{164}</span> repressão da vontade, levantou-se da mesa, onde se +havia demorado, concluido o jantar.</p> + +<p>N'este acto, annunciou-se Venceslau Taveira.</p> + +<p>D. Julia deu-lhe os emboras do seu triumpho que elle recebeu com um +silencioso gesto de respeitosa gratidão.</p> + +<p>Perguntou por Eduardo; e, como lhe dissessem que jantára com Sepulveda, a +quem empenhára na sua collocação, disse:</p> + +<p>—Eu obtive o despacho de Eduardo...</p> + +<p>—Mas ninguem lhe tinha pedido esse favor, meu amigo!—disse com +jubilosa commoção o velho.</p> + +<p>—Não, senhor. Eduardo nada me pediu; vi na secretaria o requerimento. +É bem de crêr que o ministro o attendesse; mas com as delongas usuaes. Ora, +como eu melhor do que ninguem podia depôr do merecimento e probidade do meu +amigo, fallei ao secretario de estado, e alcancei sem esforço que o decreto +seja lavrado.</p> + +<p>—Nobilissima alma!—exclamou o commendador, abraçando-o.</p> + +<p>D. Anna apertou-lhe tambem a mão com vehemente agrado; e, n'este lance, +disse alegremente o deputado:</p> + +<p>—Dou-lhe os parabens, snr.ª D. Anna, porque, despachado o nosso +Eduardo, não terá V. Ex.ª o desgosto de jantar sem elle. O emprego é sempre uma +felicidade na vida intima, quando traz a uma esposa extremosa mais duas horas +de convivencia com seu marido.</p> + +<p>—Mas tem percalços o officio...—disse D. Julia.<span +class="pn">{165}</span></p> + +<p>—Qual officio, minha senhora, o de chefe do commissariado?</p> + +<p>—Esse ou qualquer outro que involva nas alternativas da politica o +socego de Eduardo.</p> + +<p>—D'accordo, minha senhora; mas o socego é um egoismo improprio do +homem que deve ao pobre paiz o obulo da sua actividade e talentos.</p> + +<p>—A mulher, primeiro—redarguiu a dama.</p> + +<p>—A esposa primeiro nas prerogativas do coração—obviou +Venceslau—mas nos dons do espirito a humanidade, o commum de nossos +concidadãos, que constituem a patria. Eduardo Pimenta deve arrotear os maninhos +em que seus filhos hão de colher as messes. Aos fundadores da familia corre +maior obrigação de desaffrontar os herdeiros do seu nome dos vexames do +despotismo e da ignorancia d'este paiz, para que não hajam de envergonhar-se os +que nasceram n'elle...</p> + +<p>—Vês, Anna?—disse Julia intencionalmente á sua amiga.—Não +é isto que eu te dizia ha pouco?</p> + +<p>Venceslau, olhando alternadamente para as duas senhoras, disse:</p> + +<p>—Vê-se que eu tive a honra de ser discutido por V. +Ex.<sup>as</sup>...</p> + +<p>—Foi—tornou a fidalga das Amoreiras.—Dizia Anna Vaz que V. +S.ª, se fosse casado, nunca deixaria de jantar com sua esposa; e dizia eu que a +sua esposa teria de succumbir rivalisando-se com os interesses da patria.</p> + +<p>—V. Ex.<sup>as</sup> ambas tinham razão. Se eu fosse casado,<span +class="pn">{166}</span> deixaria de jantar com minha mulher, quando as +obrigações indeclinaveis de cidadão me não deixassem jantar n'outra parte. Se +esse infortunio, porém, acontecesse muito repetido, e eu deixasse de jantar +alguns dias successivos, minha mulher choraria amargamente quando lhe +restituissem o cadaver do marido morto de fome... no altar da patria.</p> + +<p>Riram as duas senhoras da facecia expressada com seriedade despretenciosa; +mas o commendador que entreviu no dizer engraçado uma indirecta censura ao +genro, murmurou:</p> + +<p>—Democrito dizia eternas verdades, rindo.</p> + +<p>—Não me dê foros de philosopho, meu bom amigo—volveu o deputado, +atinando com o intuito do velho.—Verdade é que, se a philosophia é ou foi +officio de gente mal enroupada e mal alimentada, eu, pelo que toca ao alimento, +estou a ponto de professar o stoicismo dos famintos mais celebres da Grecia e +Roma. São seis horas e não jantei ainda. Recebo as ordens de V. +Ex.<sup>as</sup></p> + +<p>—Se recebe as nossas ordens—disse D. Julia—ámanhã irá +jantar comnosco á sua casa das Amoreiras.</p> + +<p>—Beijo as mãos de V. Ex.ª por tamanha honra...</p> + +<p>—Mas se a patria o impedir?—tornou ella.</p> + +<p>—É vão o receio, minha querida senhora. A patria por em quanto janta, +e deixa jantar os seus filhos. Não se trata de lhe matar a fome; da indigestão +de lautos banquetes é que eu e outros mezinheiros a queremos curar.<span +class="pn">{167}</span></p> + +<h1><a name="SECTION000150000000000000000">XIV</a></h1> + +<blockquote> + <p>Cuida que as namora todas.</p> + + <p class="obra">S<small>A DE + </small>M<small>IRANDA.</small>—<em>Egloga.</em></p> +</blockquote> + +<p>Desde que o desembargador do paço Paulo Henrique Henriques de Miranda +fallecera, os candelabros e serpentinas nunca mais illuminaram as salas +luxuosamente estofadas com as alfaias dos Tavoras. A herdeira, porque vivia +magoada e era só, esquivou-se a receber as antigas relações de seu pae, e até +dos proprios parentes se desonerou, não pagando visitas além das cerimoniosas. +Poucas horas do dia demorava na sombria casa; e o restante d'ellas e o mais da +noute eram de Anna Vaz e do commendador que ella considerava sua familia.</p> + +<p>O capellão, padre instruido, que devia ordenação e bens de fortuna ao +desembargador Paulo, muito tempo lidou com D. Julia, instando-a a casar-se, a +fim de repôr aquella casa no esplendor antigo, aviventar as salas<span +class="pn">{168}</span> desertas, dar vozes áquelles corredores funebres, e +crear os netos do illustre desembargador, cujos parentes lateraes elle +desadorava por immensamente brutos. «Se esta casa—dizia quasi iracundo o +padre Manoel Ferreira—resvalava aos grandes abysmos de ignorancia em que +jazem seus primos, receio bem, fidalga, que seu pae a maltratasse no céo, +embora V. Ex.ª lá subisse virgem, e, de mais a mais, martyr das suas quimeras. +Caze-se, minha senhora! caze-se!»</p> + +<p>D. Julia galhofava com o capellão, e dizia-lhe:</p> + +<p>—Não se afflija, padre Manoel, que eu hei de casar. Vá pensando no +noivo, que eu faço o mesmo. Que seja galante, gentil, poeta... ouviu?</p> + +<p>—Poeta!—resmuneava o clerigo com reprovativo esgar.—V. +Ex.ª não sabe o que são poetas em Portugal? Aqui não ha Horacios nem Racines, +nem Virgilios nem Delillos, honrados pelas musas, e coevos dos grandes reis na +immortalidade. Cá, os poetas são os ebrios do café das Parras e do Nicola do +Rocio. É o ex-frade corruptissimo Macedo, era o virulento Bocage, é o +safadissimo histrião José Daniel, e quem mais? Poetas!... Poeta era o snr. +desembargador do paço, a quem o meu amigo Francisco Manoel do Nascimento mandou +lá do desterro odes puro horacianas em resposta d'outras; pois saiba, +exc.<sup>ma</sup> snr.ª, que seu pae, sendo poeta que não invejava Garção, +nunca admittiu ás suas salas esses poetastros, que por ahi ornejam a trocar +sonetos magros pelas sopas gordas d'uns Mecenas dignos d'elles. Olhe-me o +Tolentino... aquelle pedintão...<span class="pn">{169}</span></p> + +<p>—Está bom, padre Manoel!—suspendia D. Julia—não me +leccione a historia dos poetas que detesta; mas escolha-me um que faça odes +como Horacio, e Georgicas como o seu Virgilio: ache-m'o que eu prometto +devorciar-me d'elle se me obrigar a ouvir-lhe os poemas.</p> + +<p>O bom do padre, a rir e a tabaquear, citava alguns versos latinos, já quando +a fidalga ía longe do supplicio de ouvir-lh'os.</p> + +<p>Isto veiu ao ponto de se dizer agora que o capellão se alegrou devéras +quando viu sentados á mesa grande—que estivera devoluta no lapso de nove +annos,—o commendador Vaz, sua filha, o genro, e, sobre todos lhe dava +prazer infinito, Venceslau Taveira, o moço em quem elle venerava virtudes sem +alardo e conhecimentos ponderosos da latinidade classica.</p> + +<p>Ao primeiro convite seguiram-se outros para banquetes em que reverberavam a +baixela antiga, os cristaes da Saxonia, as louças indiaticas, a opulencia dos +Henriques de Miranda, herdadas d'um celebrado avô, ministro e valido, que tão +funesta e deshonestamente privára com Affonso <small>VI</small>.</p> + +<p>Venceslau Taveira, constrangido pela urbanidade, concorria ás festas da +sumptuosa dama.</p> + +<p>Aos jantares lautos seguiram-se os bailes; onde a nobreza ostentava aos +olhos reflexivos do deputado a incuria desleixada do seu porvir, a serodia +soberba da stirpe,—o tronco secular corroido pela ignorancia, com<span +class="pn">{170}</span> alguma folhagem nas vergonteas ressequidas pelo sol +ardente dos novos tempos.</p> + +<p>Não contribuia Venceslau com a sua parte de contentamento para os prazeres +da liberal hospedeira. Se ella o buscava entre os que jogavam, dançavam ou +zumbiam amoriscados á volta das colmeias, não o via. Perguntava a Eduardo se o +seu amigo lhe teria sido levado de casa pela mãe patria. Ia o marido de D. Anna +em demanda do philosopho, e encontrava-o na bibliotheca e mais o padre Manoel +Ferreira folheando um Tibullo de 1465, commentado por Vulpus, ou quejando +estafermo embalado no berço da arte typographica.</p> + +<p>Reconduzido ás salas, Taveira esforçava-se por aquinhoar da alegria +contagiosa dos outros, e, á força de fingir-se alegre, simulava um provinciano +emparvecido na contemplação dos collos despeitorados, das espaduas brancas como +as faces destingidas de rubente pejo, dos minuetes mais ridiculos que lascivos, +da refinação assucarada dos colloquios, e do ar, nem sempre fragrante de todas +aquellas vaporações de flores desbotadas e de epidermes escandecidas.</p> + +<p>Mas a cortezia era inefficaz a violental-o. Assim que os olhos da fidalga o +desfitavam, elle ahi ia á sala onde alguns magistrados anciãos satyrisavam os +máos costumes da geração nova, não levando em conta que a geração arguida era a +dos seus filhos, educados por elles. Venceslau tractava-os com veneração, +cedia-lhes a vantagem nos debates politicos, e captivava d'esta arte a estima +dos mais testudos absolutistas.<span class="pn">{171}</span></p> + +<p>Quem o seguia sempre com admiração e amisade era padre Manoel, para quem o +reboliço dos bailes já seria intoleravel, se Venceslau Taveira, de vontade ou +sem ella, os não frequentasse. E, ao mesmo tempo que este affecto entranhado +lhe deliciava as noites mal dormidas, uma paixão inversa o inquietava. O +capellão aborrecia Eduardo Pimenta, em tanto extremo que o malsinava de +ignorante, de vaidoso da sua profissão de petimetre, de bonifrate sem proposito +de marido, olhando para todas as damas com tregeitos e galanices de +piza-verdes, cacarejando uns dizeres improprios de homem casado, e apenas +perdoaveis aos que andam de amoríos com quantas levianas fazem barato das suas +finezas. Esta censura não era elle homem que a calasse comsigo. Sempre que lhe +cahia a talho, desembuchava as azías do animo nos ouvidos de D. Julia, que +lh'as ouvia indulgente por saber que o padre derivava sempre a objurgatoria em +louvor de Venceslau Taveira.</p> + +<p>A opinião do clerigo era n'alguns pontos injusta. O genro do commendador, se +não ia á bibliotheca pasmar-se nas edições quinhentistas, e antes se queria nas +salas a extasiar-se na nitidez dos typos do seculo <small>XIX</small>—era +iniquidade acoimal-o de ignorante. Estylo, fórma, geito dramatico, attitudes ao +romantico, verbo e nervo como á moderna se diz, isso tinha elle, como raros do +seu tempo. E a menos valiosa d'estas qualidades bastaria, nas salas, a +sobrepujal-o ao seu amigo Venceslau, o misantropo, que entre as Thais e as +Dydimas de Lisboa era importuno decerto com as suas, ainda bem que<span +class="pn">{172}</span> silenciosas, austeridades de Timão atheniense. Que o +chefe do commissariado andasse galanteando as damas dos bailes de D. Julia é +menos verdadeiro. O capellão, a tal respeito, sabia menos que a dona da casa. +Se alguem podia queixar-se era ella.</p> + +<p>Mas não se queixava.</p> + +<p>O silencio, nas mulheres dignas, quando a impertinencia da paixão immoral as +ultraja, é virtude superior. As que medem a grandeza dos dissabores que +resultam de repudiarem á vista de testemunhas as finezas d'um homem desvairado, +mantêm-se honradamente affectando que o não percebem em publico, e +defendendo-se em particular com o desprezo.</p> + +<p>Pouco mais ou menos era assim que D. Julia de Miranda procedia com Eduardo +Pimenta.</p> + +<p>Devia de ser, todavia, descommunal o sentimento que esporeára o marido da +formosa Anna, tres mezes depois de casado, a entremetter nas paginas de um +livro, que Julia andava lendo, uma carta phraseada a sabor de lagrimas, as mais +commoventes que podem sahir de peito ferido pelo primeiro amor!</p> + +<p>O immediato pensamento que assaltou Julia foi retirar-se a uma das suas +quintas no Alto Minho; mas semelhante fuga, sem causa justificativa na +sociedade que a cortejava, pareceu-lhe covardia, ao mesmo tempo que o temerario +galan teria motivo a lisongear-se do expediente, reputando-o vacillação.</p> + +<p>Não fugiu. Fechou a carta, lacrou-a, enviou-a á repartição em que Eduardo +era certo em determinadas<span class="pn">{173}</span> horas. Elle abriu, +releu-a de espaço, e quando chegou ao fim, encontrou duas linhas de pulso +estranho que rezavam assim: <em>Não lerei outra; mas, se ella vier, pedirei á +minha amiga D. Anna Pimenta que m'a leia</em>.</p> + +<p>Ao outro dia a fidalga foi jantar com o commendador: ia alegre, +contentissima de seu nobre feito. Máo agouro! Mulher que, em lances analogos, +crê praticar um heroismo, e d'isso se compraz em sua consciencia, ha de +faltar-lhe o folego para subir muitos degráos na escada da virtude.</p> + +<p>Eduardo assistiu melancolico ao jantar, e respondeu friamente ás caricias da +esposa. O commendador olhava-o de esconso, e fitava olhos piedosos na filha +assustada. Julia fingia-se despreoccupada; e, a seu pezar, mais que nunca, +n'aquelle dia, se recolheu n'uma concentração desacostumada.</p> + +<p>A noite d'este dia passou vagarosa e triste. Não obstante, as assembleias +aos domingos continuaram no palacio das Amoreiras.</p> + +<p>Eduardo Pimenta, desatinado ou precavido, fez praça de namorado a varias +senhoras, que lhe não estremaram os galanteios das attenções e obsequiosas +lisonjas, como era de esperar d'um cavalheiro amestrado na polidez estrangeira. +Á excepção de uma ou duas, ou talvez tres, menos conscias da cortezia +parisiense, e portanto portuguezas da lei antiga n'isto de amar quem as amava, +as restantes senhoras, se deram suspeitas a padre Manoel Ferreira, sahiram +impollutas. D. Anna, porém, affligia-se secretamente dos modos cortezãos +do<span class="pn">{174}</span> marido, porque não via tão azougados os moços +solteiros á volta das mulheres e reparava nos sorrisos que ellas entre si +trocavam, ao passo que a olhavam de travez lastimando-a ou escarnecendo-a.</p> + +<p>Neste desatino do homem preponderava o estulto despique do amor despeitado. +Beliscar a vaidade de Julia, melindrar-lhe o amor proprio, irrital-a, dar-lhe a +certeza de que outras mulheres mais viçosas e não menos fidalgas o não +desdenhavam: tal era a manha trivial do sugeito. Julia, por sua parte, +dissimulava o azedume que lhe fazia aquelle vil artificio em sua propria casa, +e dizia muitas vezes á sua consciencia que todo o seu despeito era isso, e de +modo nenhum o orgulho de ser comparada. Como quer que fosse, e por mais +protestos que fizesse de si para comsigo, é certo que ella, relampagueando +olhares severos a uma ou outra condessa, que reclinava a face languida ao +hombro de Eduardo, segredava á sua amiga a baixa conta em que tinha a +moralidade das suas parentas. Depois, repêza da inconsiderada confidencia, +affligia-se, desmentia-se, pedia á esposa de Eduardo que não desse valor aos +sustos proprios da amisade; e occultasse do marido as suspeitas que lhe ella +infundia por excesso de zelo, e receio de dissabores domesticos.</p> + +<p>Que desconchavadas incongruencias!</p> + +<p>Estas torvações de entendimento precedem a cegueira da alma, á semelhança +d'aquelles pontos escuros que se enredam e prenunciam a cegueira dos olhos. A +medicina chama a estes prodromos da amorose «moscas»:<span +class="pn">{175}</span> a linguagem do povo diz que as nevoas da vista da alma, +em crise de cegar, são «peneiras».</p> + +<p>D. Julia de Miranda, um dia, desceu a luz da razão aos arcanos da sua alma. +Córou de si; retranziu-se de pejo; porque vira passar diante da dignidade +abatida, a imagem soberba de Eduardo, e não podéra odial-o.</p> + +<p>Desde esta hora, a amiga de Anna Vaz meditou na salvação da sua honra já +denegrida. D'esta vez o alvitre da fuga cedeu o passo a outro mais sereno e +estavel. Pensou em casar-se, pensou em amar, em transferir o seu coração a +peito alheio que lh'o defendesse das injurias d'uma paixão ignominiosa. +Louvavel deliberação!</p> + +<p>Padre Manoel Ferreira viu a fidalga melancolicamente reconcentrada, e, com +instancias repetidas, arrancou-lhe estas palavras que ella exclamava pela +terceira vez:</p> + +<p>—Se eu podesse amar um homem!<span class="pn">{176}<br>{177}</span></p> + +<h1><a name="SECTION000160000000000000000">XV</a></h1> + +<blockquote> + <p>Flor la vimos primero, hermosa y pura,<br> + Luego....</p> + + <p class="obra">F<small>RANCISCO DE </small>R<small>IOJA.</small>—<em>Epist. + moral.</em></p> +</blockquote> + +<p>—O homem que V. Ex.ª ha de amar—disse padre Manoel, +inculcando-se inspirado de cima, e accentuando de pausas solemnes as syllabas +da prophecia—o homem que V. Ex.ª ha de amar é o mais digno de ser amado: +chama-se Venceslau Taveira.</p> + +<p>Era a segunda vez que D. Julia ouvira e adivinhára tal presagio; uma, quando +os labios de Anna se entreabriram ao interno ephta de illuminada; outra, quando +o padre, carregando os dedos de rapé, e silvando chromaticamente a pitada, +espiritava no cerebro a previdencia dos matrimonios acertados. E como a fidalga +o escutasse silenciosa, sem levantar olhos do recosto da cadeira, onde apoiava +o cotovêllo, o capellão proseguiu:</p> + +<p>—Minha senhora, vou dar-lhe conta da missão de que V. Ex.ª me não +encarregou...</p> + +<p>—Que missão!?—perguntou ella, erguendo o rosto.<span +class="pn">{178}</span></p> + +<p>—Circumvagando eu os olhos por quantos cavalheiros, ha tres mezes, +frequentam esta casa—respondeu o padre compassando as vozes—e, +procurando, entre tantos, um que merecesse ser o esposo da filha do snr. +desembargador Paulo Henrique, encontrei-o. E porisso que ás perecedouras +riquezas da fortuna cega não quiz Deus ajuntar sempre as riquezas immortaes da +virtude, acontece que o homem mais digno de V. Ex.ª, seja o mais pobre que vem +a esta casa.</p> + +<p>—Bem...—atalhou D. Julia—; mas deixe-me interrompel-o com +uma observação que devia anteceder o seu cuidado de me procurar marido. O snr. +padre Manoel não devia escolher entre as pessoas que vem a minha casa; mas sim +entre as pessoas que me tivessem dado signaes do seu amor. Venceslau Taveira é +homem de quem nunca ouvi palavra mais affectuosa do que é costume dizer-se ás +pessoas que se respeitam ou simplesmente se estimam. O snr. padre Manoel sabe +que elle, n'esta casa, o que mais conhece é a livraria; e em quanto á volta de +mim ou do meu patrimonio se dispendem as lisonjas, está o sabio a lêr os amores +dos poetas latinos. Estou convencida ha muito da honradez de Venceslau. Estou +até em crêr que a sua indifferença não seja orgulho do talento. Convenho na +distincção que o snr. padre Manoel lhe dá; mas não são essas qualidades as que +promettem um bom marido. A mulher, que se casa, aprecia a sciencia e a virtude +do esposo; mas, além de tudo isso, deseja ser amada. Quem lhe disse que +Venceslau me ama? foi elle?<span class="pn">{179}</span></p> + +<p>—Não, minha senhora.</p> + +<p>—Ora ahi está!... Que quer então, padre Manoel? Que eu vá pedir-lhe o +obsequio de me conceder o seu amor?</p> + +<p>—Eu ainda não disse a V. Ex.ª a minha missão—replicou o +padre.—Se dá licença...</p> + +<p>—Diga então.</p> + +<p>—Ha muitos dias que eu andava sondando o espirito de Venceslau a +respeito de V. Ex.ª</p> + +<p>—O espirito ou o coração?</p> + +<p>—Deixemo-nos d'essas distincções romanescas, minha senhora! O coração +é um orgão do apparelho do sangue. O espirito ou alma é o motor das nossas +cogitações. Não estou fallando poetica nem rhetoricamente. Se eu quizesse dizer +que procurava aneurismas ou outras irregularidades de circulação, diria que +sondei o coração de Venceslau; mas, se o meu intuito era indagar actos +puramente moraes, digo que lhe sondei o espirito.</p> + +<p>—Está bom: fico sciente. Ora conte lá o que sondou.</p> + +<p>—Sondei que elle sentia por V. Ex.ª profunda estima, e aquelle grande +respeito que se deve a uma dama bella, nova, rica, e sobre tudo honradora da +memoria do primeiro e unico homem que amou. Dizendo-lhe eu que não cessava de +instar com V. Ex.ª para que tomasse estado, advertiu-me elle que seria difficil +o meu desejo, porque a fidalga não poderia amar alguem, depois de ter amado +Antonio Vaz, que Deus tem. Tornei eu, redarguindo-lhe que Antonio Vaz, ao sahir +d'este<span class="pn">{180}</span> mundo, lhe entregára o retrato da sua +adorada noiva, por ser elle—o confidente de tantas angustias e +saudades—alma digna de receber as lagrimas do amigo que morria, e as de +V. Ex.ª que o ficava carpindo. Logo, conclui eu, se ha homem digno de ser amado +pela snr.ª D. Julia, minha senhora, é aquelle que Antonio Vaz julgou digno das +suas confidencias e da mensagem do moribundo para a sua amada.</p> + +<p>—Que disse elle?...—interrompeu a curiosa vivacidade da +senhora.</p> + +<p>—Disse que V. Ex.ª o honrava com a sua amisade, e que este sentimento +era o maximo galardão que elle devia esperar da fraternal cordialidade com que +aliviára algumas mágoas de Antonio Vaz.</p> + +<p>—Isso é amor?</p> + +<p>—Queira V. Ex.ª esperar... Passados alguns dias, chamei a pratica ao +mesmo assumpto; e, quando elle menos esperava, perguntei-lhe +<em>ex-abrupto</em>: «Se a snr.ª D. Julia escolhesse para esposo o snr. +Venceslau Taveira?» Elle poz-me os olhos espantados, e tartamudeou esta +resposta: «O snr. padre Manoel Ferreira tem illusões proprias de quem as não +gastou em desenganos.»—Que quer isso dizer?—voltei eu bastante +esperançado n'uma resposta que me servisse de itenerario n'esta peregrinação +até ao arco do altar.—«Quer dizer (respondeu o modestissimo moço) que a +snr.ª D. Julia de Miranda tem quinhentos mil cruzados; tem provavelmente +adoradores que façam consistir toda a sua actividade em adoral-a; tem a alma +preza á saudade de<span class="pn">{181}</span> outra que alguma vez a visita e +enlucta em meio das pompas dos seus bailes. Um homem pobre—continuou +elle—circumscripto aos deveres que contrahiu com a patria, sujeito a +perseguições d'odios politicos, ameaçado com o desterro, e até com a morte no +campo da batalha ou no patibulo, tal homem seria o involuntario algoz da +felicidade d'uma senhora que o acceitasse para os gosos da vida intima, cercada +por tantos perigos.» Dito isto, Venceslau foi procurado por ordem de V. Ex.ª, +que o mandava chamar á sala, para o apresentar a seu tio o snr. conde de +Villa-Cova. Eu segui-o, e espionei-lhe os olhos n'aquella noite. E que vi eu +com interior satisfação, minha senhora? que elle andava por entre os +reposteiros a contemplar V. Ex.ª, e que, ás vezes, se se affastava para a sala +dos retratos, era para estar só, mergulhado em funda meditação. Eis-aqui, +exc.<sup>ma</sup> snr.ª, o que ha passado. Digne-se agora dizer-me se eu tenho +precisão de lh'o ouvir confessar, para saber que elle a ama?!</p> + +<p>—Precisa—respondeu ella prompta e serenamente.</p> + +<p>—Preciso? Perguntar-lh'o-hei.</p> + +<p>—Não pergunte. O padre Manoel tracta isto de casamentos pelo systema +antigo da Biblia. O patriarcha mandava recado á matriarcha; e, quadrando a +resposta, casavam.</p> + +<p>—O povo de Deus era assim.</p> + +<p>—Concordo; mas a gente, de hoje em dia, não...</p> + +<p>—Não é de Deus?—atalhou o padre.</p> + +<p>—Estou que é; mas Deus é que não manda o seu<span +class="pn">{182}</span> divino espirito presidir aos casamentos da freguezia +dos Martyres ou de Santa Justa.</p> + +<p>—Ah! não se me faça espirito-forte, fidalga!—exclamou +sombriamente o padre.—Aquelles livros de seu pae... aquelles livros de +Rousseau... a Encyclopedia... <em>etc., etc!</em>... Olhe que Venceslau, posto +que sapientissimo e sectario da liberdade, e lido em tudo que o seculo +<small>XVIII</small> escreveu contra Deus, entra nos templos, ajoelha, ora, e +crê que a alma de sua mãe lhe radía de sua luz celestial nas escuras veredas da +vida!...</p> + +<p>—E eu então sou atheista? Não creio em Deus, porque entendo que não é +bonito ir o meu capellão perguntar a um sugeito se elle me ama? Ah padre, +padre! a sua intelligencia tem ás vezes uns eclipses que nem por isso o tornam +comparavel ao sol...—disse ella rindo com o consenso do clerigo que +tambem escancarou as mandibulas em sincera gargalhada.</p> + +<p>E, no tocante a casamento nada mais tractaram, porque D. Anna Pimenta vinha +desde a sala de espera chamando Julia acceleradamente.</p> + +<p>—Que é, filha!!—exclamou a amiga, indo recebêl-a nos braços.</p> + +<p>—Manda embora o capellão—disse-lhe ella ao ouvido.</p> + +<p>O padre retirou-se antes de avisado, porque viu grande afflicção no rosto de +D. Anna.</p> + +<p>A esposa de Eduardo, trémula, offegante, e incendida de febril anciedade, +disse entre soluços:</p> + +<p>—Olha que venho afflictissima... Deixa-me respirar...<span +class="pn">{183}</span> Depois que Eduardo sahiu, fui á escrivaninha d'elle, e +achei, pela primeira vez, uma gaveta fechada. Como ando muito suspeitosa de que +elle corteja a tua prima Nazareth, desconfiei que n'aquella gaveta devia estar +alguma carta d'ella...</p> + +<p>D. Julia empallideceu. Arfava-lhe o coração, com o terror de ter sido +encontrada a carta que ella devolvera, com duas linhas de sua lettra; e, posto +que a justificação lhe sahisse facil e digna, a sua posição em tal conflicto +era má.</p> + +<p>D. Anna desattenta ao gesto denunciativo da amiga, proseguiu:</p> + +<p>—Procurei uma chave que servisse, e achei-a. Abri a tremer a gaveta, e +vi estas tres folhas de papel, dobradas em carta, mas sem sobrescripto. Li-as, +e fiquei certa de que Eduardo está ardentemente apaixonado por uma mulher quem +quer que seja... Lê tu, vê se podes adivinhar a quem essa carta é escripta; mas +lê depressa, que eu quero ir repôl-a na gaveta antes que Eduardo venha da +repartição.</p> + +<p>Julia, com tremente voz, leu a carta. Logo no primeiro periodo se lhe +acclarou o destino, por estas palavras: <em>Se V. Ex.ª cumprir a ameaça que me +escreve—se me denunciar, fará duas victimas. Mata uma innocente, e ordena +ao criminoso que se suicide: será obedecida.</em></p> + +<p>—Que quererá isso dizer?!—perguntou Anna.—Quem será essa +innocente e esse criminoso?... E que ameaça lhe faria a tal mulher?... Podes +decifrar isso?</p> + +<p>—Eu não, filha... Que mysterio!...—balbuciou<span +class="pn">{184}</span> Julia. E continuou lendo, e relançando a furto os olhos +em toda a extensão da lauda, buscando perturbada alguma inicial que a +denunciasse.</p> + +<p>O conteudo da longa carta era vago, declamatorio, tiradas funebres de prosa +campanuda com muito lardo poetico de céos, infernos, furias, anjos precitos, +archanjos da morte, calices de fel, esponjas de vinagre, golgothas, +estrangulação de suicida, almas devastadas, arestas d'abysmos, e o mais que +cabe nas cavernas lôbregas d'um peito romantico, onde uma vez entraram as +novellas de Anna Radcliffe.</p> + +<p>Lida a carta, Julia suspirou desafogadamente o seu sobresalto, e disse +enternecida:</p> + +<p>—E tu que fazes agora, filha?</p> + +<p>—Que hei de eu fazer?! nada...</p> + +<p>—Então vaes fechar a carta onde a encontraste?</p> + +<p>—Vou...</p> + +<p>—E não dizes nada a teu marido?</p> + +<p>—Acho que não... porque, se lh'o digo, ha desordem grande em casa, e +meu pobre pae morre de paixão. Tu não vês como elle já está soffrendo só de me +vêr triste, e de o vêr a elle tão descuidado de nós?...</p> + +<p>—Nem a teu pae dizes nada?...</p> + +<p>—Deus me livre!... Se elle via esta carta, estalava de dôr...</p> + +<p>—Tu és uma sancta!—exclamou D. Julia, abraçando-a +arrebatadamente.</p> + +<p>—O que eu sou é uma grande desgraçada!—emendou Anna.—Que +me dizes então, Lulu?<span class="pn">{185}</span></p> + +<p>—Que queres que te diga, se o teu plano está feito? Quem a si mesma se +aconselha com tanta dignidade, não tem necessidade de conselho.</p> + +<p>—O que eu queria era que tu descobrisses quem é a mulher; e, se ella +fosse tua relação, a expulsasses d'esta casa, ou me não convidasses a mim...</p> + +<p>—Dizes-me isso tão desabridamente, filha! <em>Não te convidar a +ti!...</em> </p> + +<p>—Digo-t'o com amargura, mas sem desabrimento, minha amiga. Que gosto +posso eu ter em vir a uma casa onde sei que ha uma mulher que me +escarnece...</p> + +<p>—Bem vês, menina, que a mulher a quem esta carta foi escripta não póde +escarnecer-te... Não vês que ella despreza teu marido!</p> + +<p>—Sim? despreza?</p> + +<p>—Pois que diz essa carta? É um desesperado queixume contra a mulher +que o repelliu. Tomáras tu, meu amor, que todas assim procedessem, quando elle +as requestar...</p> + +<p>—Tens razão, Julia! tens razão! Olha que eu nem tive socego de +espirito para entender a carta... Olha, vou mais contente... Póde ser que elle +a esqueça... Mas esta carta assim apaixonada, se ella vem a recebel-a, talvez +que...</p> + +<p>—O ame?</p> + +<p>—Sim...</p> + +<p>—Não, filha, não receies. A mulher de coração ama sem este mixtiforio +de maravalhas, e a mulher de intelligencia zomba d'estes estrondos de palavras. +Sabes tu<span class="pn">{186}</span> outra coisa? Teu marido leu maus +romances, e principia a escrevel-os peores. Deixa-o sangrar a veia do genio que +não vá morrer apopletico. Não faças caso d'isso... Ai! já me esquecia!... Não +te vás sem uma novidade...</p> + +<p>—Que é?</p> + +<p>—Vou casar-me.</p> + +<p>—Sim? com...</p> + +<p>—Com o teu vaticinado. Adivinhaste.</p> + +<p>—Venceslau?</p> + +<p>—Sim.</p> + +<p>—Não t'o disse eu?!... Mas ainda hontem estiveste comigo á noite, e +nada me disseste!</p> + +<p>—Resolução tomada hoje.</p> + +<p>—Veiu cá elle?</p> + +<p>—Não... Eu te contarei tudo... Vae praticar a heroica virtude de +fechar a carta, que não esteja eu a privar-te da benção de tua santa mãe... +Adeus, até á noite.<span class="pn">{187}</span></p> + +<h1><a name="SECTION000170000000000000000">XVI</a></h1> + +<blockquote> + <p><em>Melius est pubere, quàm uri.</em><br> + Melhor é cazar-se do que queimar-se.</p> + + <p class="obra">S. P<small>AULO.</small></p> +</blockquote> + +<p>Seguidamente procurou D. Julia o capellão no seu escriptorio e disse-lhe: +</p> + +<p>—Snr. padre Manoel, mande sahir a traquitana, e vá á camara dos +deputados convidar o snr. Venceslau Taveira a jantar hoje comigo. Peço á sua +probidade nunca desmentida que lhe não diga a conversação que tivemos.</p> + +<p>—Que tem V. Ex.ª? o seu espirito está desasocegado!—notou o +padre com a mágoa do muito que lhe doía vêl-a estranhamente agitada.</p> + +<p>—Vá! não me pergunte nada agora... Eu me confessarei á sua boa alma, +quando me sentir mais tranquilla.</p> + +<p>—Bem sei...—murmurou o padre—bem sei...<span +class="pn">{188}</span></p> + +<p>E ella, fixando-o maviosamente parecia dizer: «se sabe...»</p> + +<p>A improvisa deliberação de Julia é lance que nos revela indole generosa, mas +precipitada; alma capaz de virtudes impetuosas, mas raras vezes encaminhadas á +direita vereda por onde ellas conduzem á felicidade estavel. Convém saber que +ha logica de ferro, pauta rigorosa nos actos encadeados da vida estreme de +romance. As phantasias energicas e destemperadas que partem aquella cadeia, +conhecem mais tarde que os élos quebrados eram a parte mais solida por onde a +esperança devia prender-se á realidade.</p> + +<p>De prompto occorre á sizuda leitora d'este livro que D. Julia resolveu +repentinamente casar, quando a sua amiga lhe pedia conselho—a ella, unica +pessoa que sabia o segredo da paixão de seu marido. Affastal-o de repellão, +fulminar-lhe as esperanças, defender-se do ultraje com a respeitabilidade de +esposa, e esposa de Venceslau Taveira—o amigo e bemfeitor de +Eduardo—este foi o sentimento elevado que a impulsou a decidir do seu +destino, como se os destinos impendessem d'estas determinações instantaneas. +Foi um relampago que lhe allumiou o futuro; mas, se o fulgor electrico abrange +dilatada circumferencia, densa escuridade se tece depois aos que apalpam rochas +áridas que a luz azulejára como kioskes.</p> + +<p>De mais d'isso, o reverso da ideia irreflectida não offerece contraste que a +desdoira, sendo parte n'ella a vaidade, por não dizer soberba? Dispor de +antemão da<span class="pn">{189}</span> condescendencia de homem tal como +Venceslau, era fiar talvez de mais no iman dos seus quinhentos mil cruzados, ou +illudir-se muito com a já desluzida belleza dos seus vinte e nove annos, ou +então enlaçar presumpçosamente essas duas prendas ás graças do espirito que, em +verdade, lhe davam a primazia entre as suas contemporaneas.</p> + +<p>Se o padre Manoel, syndico do animo do deputado, se houvesse illudido nas +suas analyses; se Venceslau nos sahir mais austero philosopho que o divino +Socrates—para quem Aspazia e Lais eram espectaculos dignos da admiração +do universo—a vaidade de Julia será derrotada irrisoriamente aos olhos de +Eduardo; e o cahir de tamanha altura, onde ella se fantasiou alçada pela honra, +dará o estrondo d'um escandalo ridiculo nas salas de Lisboa.</p> + +<p>Antes da chegada de Venceslau Taveira já a tortura da incerteza flagelava D. +Julia de Miranda, a ponto de sentir-se desvigorosa de espiritos para +honestamente abrir conferencia de tanto melindre.</p> + +<p>N'este desanimo dessimulado pela viveza propria do temperamento, a +encontraram o deputado e o clerigo.</p> + +<p>No semblante de Venceslau transparecia tambem a turvação das conjecturas. +Aquelle convite era o primeiro, particularissimo, e subitamente resolvido. Até +aqui havia chegado a confidencia do padre, cujo contentamento extraordinario +devia ter mysteriosa significação nas perplexidades do convidado.<span +class="pn">{190}</span></p> + +<p>Observou o hospede que D. Julia, a só com elle, denotava acanhamento +desacostumado. A conversação esfriava no trivial. A politica era chamada á +pratica, por ella mesma que tantas vezes a matraqueára, pedindo ao orador que +deixasse a noiva em casa a fazer leis, quando lhe désse a honra de a visitar. +</p> + +<p>Quando um criado entrou á sala a saber se a fidalga mandava servir o jantar, +D. Julia deu o braço a Venceslau Taveira, e foi dizendo:</p> + +<p>—Somos sós, e mais o capellão. Ainda bem que na pessoa de padre Manoel +Ferreira está symbolisada toda a academia real das sciencias. Eu concedo que +fallem latim, e convidem para a meza todos os classicos romanos da minha +livraria. Sinto não ter um triclinio para offerecer a Horacio; mas sentar-se-ha +no collo do padre. Cicero, se vier; irá para o collo do snr. Taveira.</p> + +<p>—Convidaremos Corinna, para que V. Exc.ª tenha alguem no regaço, disse +o deputado.</p> + +<p>O capellão, que já os estava esperando, ouviu a fineza do politico, e acudiu +logo:</p> + +<p>—Fallam da infiel amante de Ovidio?</p> + +<p>—Não, senhor—disse Venceslau—fallavamos da poetisa +grega...</p> + +<p>—Rival de Pindaro—ajuntou o padre—a qual cinco vezes foi +premiada nos jogos olympicos...</p> + +<p>—Primeiro discurso academico!—atalhou D. Julia.—Não lh'o +disse eu, snr. Taveira? Padre Manoel, continue, que eu sirvo-o de sôpa, se o +snr. Venceslau não quizer acceitar o meu logar.<span class="pn">{191}</span></p> + +<p>—Ó minha senhora, apresso-me a receber tamanha honra...—disse +Taveira.</p> + +<p>—Gosto de o vêr ahi, snr. futuro secretario de estado...—disse o +capellão.—Está na cadeira do snr. desembargador do paço Paulo Henrique. +Nove annos esteve empacotada; e, tirante a snr.ª D. Julia, ninguem mais occupou +essa cadeira. Não ha ainda quarenta e oito horas que eu perguntei a S. Ex.ª: +«quando verei alli sentado seu marido?»</p> + +<p>D. Julia córou, e o deputado tambem; mas padre Manoel, que não córava nos +banquetes sem poder explicar o pudor com a alcoolisação do seu rico sangue, +continuou:</p> + +<p>—Voltando a Corinna, se viessem fallando da celebre amada do +desterrado do Ponto, citar-lhes-hia a canção do banquete em que o poeta lhe +impropéra a perfidia...</p> + +<p>—Má iguaria nos banqueteava, padre Manoel!—contraveiu D. +Julia.—Antes uma canção de amor fiel, quando a censura do crime não tem +auditorio a quem possa aproveitar. Eu fico pela lealdade do snr. Venceslau aos +seus mais caros affectos...</p> + +<p>—E eu serei o fiador de V. Ex.ª—acudiu o deputado—mas se +eu abono a lealdade de quem ama uma saudade, V. Ex.ª fica pelo vago amor de +quem namora uma esperança. A favor da snr.ª D. Julia está o passado que funda +em provas incontestaveis; eu, de mim, não posso consentir que V. Ex.ª me abone, +sendo coisa tão incerta o futuro.<span class="pn">{192}</span></p> + +<p>—Eu referia-me ao seu amor privativo da patria—explicou a +dama.</p> + +<p>—A patria é como aquelle pão de que o homem não póde unicamente +alimentar-se, na phrase do Evangelho—retorquiu Venceslau.—Varias +vezes V. Ex.ª e a snr.ª D. Anna Vaz, motejando com bondosa graça a diligente +assiduidade com que tento cumprir meus deveres, me tem dado fóros de selvagem +desconversavel e alheio da lei commum do amor, que tanto influe no sybarita +como no estoico. O gracejo era uma lisonja, visto que eu merecia as amaveis +censuras de SS. Ex.<sup>as</sup>, mas, em verdade, minha senhora, se eu me +vangloriasse de ser o que as minhas amigas imaginam, tarde ou cedo as faria rir +da minha enfatuada insensibilidade.</p> + +<p>—Pois quê?!—exclamou o padre—snr. Taveira, bebo á sua +saude. <em>Nunc est bibendum.</em> Gósto d'essa franqueza! <em>Homo sum et +nihil a me alienum</em>, etc.</p> + +<p>—Estamos em casa de Mecenas—disse, sorrindo, D. +Julia.—Entrou Horacio, e lá está a discretear com o padre.</p> + +<p>—O latim é de Terencio—illucidou o erudito—e quer dizer +que o snr. Venceslau Taveira é homem como os outros... Como os outros, quero +dizer, os raros que se lhe assemelham na virtude e na sabedoria, na modestia e +na moral, na vida illibada e...</p> + +<p>—Pelo amor de Deus—interrompeu o deputado.—Parece que me +está dictando a necrología, snr. padre Ferreira! Não usurpe aos mortos essas +hyperboles... Veja os meus defeitos para que eu me considere tambem<span +class="pn">{193}</span> examinado nas imperfeições menores. Já não é pequeno +aleijão moral o defeito de coração que me censuram...</p> + +<p>—Pois que quer?—volveu D. Julia—como hei-de eu julgar a +sua indifferença em meio de tantas damas formosas e espirituosas que frequentam +esta casa? Nenhuma o impressionou?</p> + +<p>—Admirei-as... e passei, sem que ellas me vissem.</p> + +<p>—Mas admirar...</p> + +<p>—Admirar não é amar. As estatuas do Louvre admiram-se, e não se amam. +A mãe que nos affaga, ama-se e não se admira. O amor brota da alma. A admiração +forma-se no entendimento. Uma coisa tem muito d'arte; a outra deve ser +espontaneamente natural.</p> + +<p>—Materia estranha é essa em que não tenho voto—disse padre +Manoel, engatilhando a pitada ao nariz.</p> + +<p>—O homem do Evangelho não é o de Terencio—assentiu Venceslau.</p> + +<p>—Mas—voltou o clerigo—posto que o Evangelho me não ensine +nem consinta que eu aprenda experimentalmente o processo do amor, sei que Jesus +Christo, instituindo o Sacramento que cinge com indissoluvel nó duas almas, +santificou o amor que as identifica. D'este sacratissimo amor percebo eu; não +se me importa saber se vem antes ou se vem depois da admiração; se é espontaneo +da alma, se a alma é estimulada por affectos de natureza menos psycologica. Ha +opiniões. <em>Grammatici certant.</em><span class="pn">{194}</span></p> + +<p>Venceslau sorriu, sem encarar em D. Julia, que provavelmente não entendeu a +phrase nem o sorriso.</p> + +<p>E o padre seguiu n'este dizer mesurado e solemne:</p> + +<p>—Ha de haver trinta e seis annos que o snr. doutor Paulo Henrique era +solteiro e eu estudante <em>in minoribus</em>, já então familiar d'esta +hospedeira casa, onde me fiz gente. Bem que eu fosse filho do mordomo do +fidalgo, a honra de me sentar a esta mesa já vem d'esse tempo. O joven doutor +folgava de me ouvir recitar versos dos poetas cezarios, e dava-me a honra de +lhe ouvir os seus magnificos hexametros. Fallavamos um dia de outros assumptos +menos litterarios, mas não menos poeticos. Conversavamos de amores, mas amores +honestos como a mocidade de então os tratava theorica e praticamente, eis que o +snr. doutor me disse, respeito a casamento: «Olha, Ferreira, eu não ando por +salas em damarias de peralvilho; abomino os insulsos requebros com que os +namorados parecem noviciar antes de professarem votos tantas vezes +quebrantados. Se eu encontrar mulher que me deixe viva saudade, e desejo de +tornar a vêl-a, indago-lhe da vida; e se as informações m'a derem ao sabor da +ideia que fórmo da esposa excellente, pergunto-lhe se me quer para marido. Se +me responder que sim, a minha mulher ha de ser essa.» Pouco tempo depois, na +cadeira em que está sentada a snr.ª D. Julia, estava a snr.ª D. Maria das Dores +Mascarenhas, mãe de V. Ex.ª, exemplar de todas as virtudes conjugaes, tão amada +na vida, quanto chorada na morte.<span class="pn">{195}</span> Sendo já +fallecida sua Ex.<sup>ma</sup> mãe, estava V. Ex.ª, menina de nove annos, no +logar onde a vejo, eu estava onde estou, e o snr. desembargador alli. +Recordamos então com lagrimas a nossa pratica passada nove annos antes; e seu +pae, correndo-lhe a mão pelas faces, disse: «permitta o céo que esta creança +seja amada como foi sua mãe; e que as galanterias das salas e os fumos da +lisonja lhe não offusquem o entendimento na escolha de marido.» Contava quinze +annos esta senhora, quando Antonio Vaz, cadete de cavallaria, a cortejou. O +snr. desembargador foi avisado. Soube cujo filho era o moço. Não lhe desfez na +geração honrada e antiga; mas, averiguando qualidades proprias—que eram o +essencial para o snr. desembargador—descobriu que Antonio Vaz, tendo +amado uma filha segunda, formosa e todavia pobre, se esquivára de compromissos +havidos com ella para requestar a rica herdeira, a snr.ª D. Julia. Tal foi a +origem dos dissabores que lhe amarguraram os derradeiros annos, e vestiram de +pesado lucto a mocidade da constante senhora, sacrificada não ao capricho, mas +á moral sublime de seu pae. Prézo-me de fazer justiça á memoria do meu +bemfeitor, sem apoucar nos merecimentos de Antonio Vaz. Elle era digno de tal +esposa, desde o momento que ella o considerou digno de si...</p> + +<p>—Mal cabidas reminiscencias...—murmurou D. Julia magoada.</p> + +<p>—Tristes...—observou Venceslau—mas sempre bemquistas da +alma que não as quer nem póde esquecer. Entretanto, sendo ambas as memorias +veneraveis,<span class="pn">{196}</span> uma do pae que foi illudido, outra, a +do primoroso moço que não podia mentir-me, peço á snr.ª D. Julia que respeite +por egual a memoria do seu pae, que viu a infelicidade atravez das nevoas do +seu affecto paternal, e a memoria do coração que se deliu nas lagrimas do +primeiro amor, flagellado por quantos supplicios podia consagrar uma +sepultura.</p> + +<p>Susteve-se, compenetrado da impertinencia do logar com a funeral memoria, e +disse commovido:</p> + +<p>—Absolva-me V. Ex.ª d'esta indiscrição... Eu hei de ser sempre o homem +inculto, que se deixa levar para onde a alma o leva, sem vêr quando a tristeza +ou a alegria competem ás occasiões.</p> + +<p>—A culpa não é sua—desculpou D. Julia—quem nos deu este +quarto de hora escuro, foi o snr. padre Manoel Ferreira... nem eu sei para +quê...</p> + +<p>—Primeiro para commemorar—respondeu o imperturbavel +capellão—o profundo juizo do pae de V. Ex.ª respectivamente a casamentos; +segundo para lhe defender a memoria, em presença de sua filha, da arguição +iniqua, mas involuntaria, que lhe fez o snr. Venceslau Taveira, quando ha dias +me disse que o snr. desembargador tolhera a felicidade da snr.ª D. Julia. +Enganaram-no, meu honrado amigo. O snr. desembargador, amando extremadamente +sua filha, teve da bondade divina o dom da previsão, e anteviu que, depois de +sua morte, viria guiado pela Providencia a esta casa o homem predestinado a ser +esposo e pae de sua filha, esposo pelo amor e pae pela seriedade do seu porte e +madureza<span class="pn">{197}</span> de juizo. Ora, o homem previsto e +vaticinado pelo pae d'esta senhora... era Venceslau Taveira.</p> + +<p>Não espere o leitor que se lhe dê o esboço de grandes assombros e +perturbações. Se elles não se espantaram do remate do discurso, é justo que eu +me contenha nos limites do mais moderado espanto. D. Julia rozou-se, abriu um +sorriso pudibundo, que lhe agraciou angelicalmente os labios silenciosos; mas +fitou os olhos no prato, onde depozera o talher, e só os levantou, quando +Venceslau Taveira principiou fallando.</p> + +<p>Vão vêr que nas palavras d'elle transluz amor; mas amor sem o enthusiasmo +pautado e obrigado em casos d'esta natureza. É alma sincera e rija, que opéra +sem o complicado apparelho nervoso com que se fabricam os extasis e os spasmos +que a natureza copía dos palcos. Tem o coração subordinado ao raciocinio. +Faltam-lhe ahi as fragrancias e as musicas que perfumam a palavra e lhe dão o +rythmo apaixonado. Mas não é isso a esterilidade, o desapego, a aridez que +imbebe as lagrimas improductivas como areal onde os orvalhos não verdejam uma +hervinha. É indole corrigida pela severidade dos costumes, prevalecimento da +razão sobre os sentimentos que a fantasia não desabotoou na razão propria. +Venceslau orçava pelos trinta annos. N'esta edade, o amor, pela primeira vez +experimentado, não abrolha em luxuosas florescencias. O arrebol do coração +encontra já o meio-dia do espirito. Quasi que uma luz serena e egual neutralisa +os incertos esplendores da outra. E, se ha escuridade no intimo sentir d'essa +edade, a luz<span class="pn">{198}</span> ideal resvala pelo seio frio do gear +da desgraça, e não o aquece. A condição do deputado não era bem esta; mas +tambem não era optima para exuberar delicias no coração de mulher que o amasse +ambiciosa das idolatrias do amor virginal. Talvez coubesse aqui averiguarmos se +Julia o amava; protrahiremos a penosissima resposta: ella que responda +opportunamente. Pelo emtanto, vejamos que sahida elle deu áquelle passo +angustioso, de que o leitor e eu nos tirariamos tartamudeando lyrismos dignos +de mais levantada historia.</p> + +<p>—O silencio da snr.ª D. Julia convence-me de que o snr. padre Manoel +Ferreira deu ás suas palavras o espirito de respeito que se deve a V. Ex.ª, e o +de sinceridade que ouso pedir para mim. O que vou dizer, minha senhora, será +dito sem commoção. A felicidade alvoreceu na minha vida pela primeira vez; mas, +não tendo eu visto senão homens desgraçados pelo amor, a experiencia das dôres +alheias faz que o raio da luz nova toque já menos ardente na minha alma, tendo +de atravesar a frialdade da razão. Ouça-me V. Ex.ª: eu vi-a no exilio espelhada +nas lagrimas de Antonio Vaz; vi-a ajoelhada ao pé da vala onde eu ajudei a +descer o caixão; vi-a nos dias eternos de oito annos de proscripto, e procurava +nos olhos do seu retrato a scintillação do pranto. Ha muito tempo, pois, que V. +Ex.ª vive nas minhas meditações, na minha poesia triste;—porque tambem eu +fui poeta, não para cantar amores ou saudades e ainda menos esperanças, mas +para me enlevar nos espectaculos do soffrimento a que assisti. O poeta +adopta<span class="pn">{199}</span> as imagens da sua fantazia e com ellas +fórma a ideal convivencia em regiões de luz ou de trevas; eu tambem vesti de +crepe uma suave e pallida imagem de mulher, unica em minhas contemplações: era +V. Ex.ª Interrogando o meu coração, impunha-lhe violentamente o preceito de me +enganar; amordaçava-o para que me elle não dissesse que eu poderia apagar a +saudade de Antonio Vaz, e renovar no seio puro d'outro affecto um segundo amor. +Além d'isto, retrahia-me o escrupulo da deslealdade ás cinzas do meu amigo: +parecia-me que era ultrajar-lh'as afoitar-me a pedir para mim a felicidade que +elle anhelou, e mais acerba lhe fez a desesperação que aos olhos embaciados +pela morte se mostra ainda a negrejar e a sumir-se no abysmo do passado. +Descendo do alto ponto d'estas considerações ao vulgar e mais positivo do juizo +social, vi que muitos homens abastados, e ao mesmo tempo prendados de amaveis +dons, rendiam a V. Ex.ª o preito de seus affectos, sem todavia lhe perturbarem +a serenidade da sua heroica renunciação. Ao mesmo tempo, olhando em mim, com a +reflexão que me esclarece os meritos alheios, via-me pobre, desvalido das +qualidades que dispensam a riqueza, incapaz de pedir ao artificio os donaires e +geitos que modificam a rudeza natural, peorada pela soledade do gabinete e +preoccupação de estudos incompativeis com as finas graças da cortezia. Se +algumas vezes, um intimo alvoroço me dizia que V. Ex.ª me honrava com estranhas +distincções, eu mandava immudecer o amor proprio, e explicava a mim mesmo +a<span class="pn">{200}</span> estima de V. Ex.ª pelo sentimento de gratidão ao +confidente de Antonio Vaz—ao homem que lhe trouxera no retrato d'elle o +ultimo lampejo dos olhos que a tinham contemplado. Iria mal a meu caracter +franco fingir-me surprezo por este imprevisto abalo. Hoje, quando o snr. padre +Manoel Ferreira me convidou a jantar com a snr.ª D. Julia, experimentei a nunca +sentida impressão que produz os ineffaveis estremecimentos do susto, da +vaidade, do orgulho, do jubilo das creanças—felicidade febril que eu +sentia nas palpitações do coração. O amor que a tantos homens se manifesta em +commoções, que augmentam de intensidade, com intercadencias de despeitos, com +irritações de ciumes, com o remorso até das injustiças que se commettem—o +amor, que nasce já santificado pela pureza do seu destino, esse, minha senhora, +o deposíto aos pés de V. Ex.ª</p> + +<p>D. Julia offereceu-lhe a mão tremula de poetico enthusiasmo. E d'amor? Ai! +eu não sei. Venceslau ergueu-se, aproximou-a dos labios. Padre Manoel Ferreira +apertou nas suas as mãos dos noivos, e disse a D. Julia:</p> + +<p>—Eu sonhava esta felicidade desde que o pae de V. Ex.ª, na sua hora +final, me balbuciou estas palavras: «Abençôe minha filha em meu nome, se ella +não deshonrar a memoria de sua mãe.» Eu não ouso abençoal-a; mas curvo o joelho +para lhe agradecer em nome das duas almas que a inspiraram. Snr. Venceslau, +aqui tem o anjo que Deus envia aos virtuosos.<span class="pn">{201}</span></p> + +<h1><a name="SECTION000180000000000000000">XVII</a></h1> + +<blockquote> + <p>Oh desenho temerario<br> + Que tal perigo intentava!...</p> + + <p class="obra">J<small>ORGE</small> F. <small>DE</small> + V<small>ASCONCELLOS</small>—<em>Memorial.</em></p> +</blockquote> + +<p>Quando, na noite d'aquelle dia, D. Julia entrou em casa do commendador, a +esposa de Eduardo estava no seu quarto; e o pae, curvado sobre a jardineira, +com a face entre as mãos, meditava abstrahido. Espertado pelo fremito de sedas +e rangir de passos na sala proxima, ergueu-se rapido e foi ao encontro de +Julia.</p> + +<p>—Esperava-a anciosamente para lhe dar os parabens—disse +elle.—Eu quiz ir de tarde procural-a; mas minha filha asseverou-me que V. +Ex.ª vinha aqui. Vai ser feliz, D. Julia; se eu me engano, são falsos todos os +prognosticos que podemos tirar em materia de casamento. Eu não devia hoje +fallar-lhe d'outro assumpto; mas...<span class="pn">{202}</span></p> + +<p>—Onde está a Annica?—interrompeu Julia.</p> + +<p>—Na cama.</p> + +<p>—Doente?</p> + +<p>—Febril. Chorou muito...</p> + +<p>—Porquê?</p> + +<p>—Não sei, não m'o diz; o marido sahiu antes de jantar, e não voltou. +Vá lá, vá a minha querida Julia consolar essa nova dôr que eu ignoro... Olhe +que infortunio este! casados ha cinco mezes! Onde irá isto findar com taes +começos!... Metti em casa o verdugo de minha filha... V. Exc.ª verá que a +pobresinha vai muito cedo unir-se á mãe, que a está chamando para si...</p> + +<p>—Que imaginação a sua, snr. commendador!... Deixe-me lá ir, que estou +inquieta... mas espero que isto não passe de alguma passageira tempestade de +ciumes...</p> + +<p>—Pois sim, será; mas n'essas tempestades é que naufragam as mulheres +do coração... as desgraçadas que amam, e preferem morrer martyres a viver +vingadas... Vá, vá, seja o anjo amparador d'essa creança... que ninguem quiz +salvar... ninguem... Eu só... eu só previ este desastre; mas succumbi ao receio +de a perder...</p> + +<p>D. Julia foi recebida sem a costumada expansão. Anna Vaz estava recostada ao +espaldar do leito; e ao lado da cama a sua creada de quarto enchugava as +lagrimas.</p> + +<p>—Que tens, filha?—perguntou Julia.<span +class="pn">{203}</span></p> + +<p>—Que hei de ter?... a minha sorte a cumprir...</p> + +<p>A creada sahiu.</p> + +<p>Anna pediu á sua amiga que fechasse a porta á chave, pegou-lhe das mãos com +vibração nervosa, e disse-lhe:</p> + +<p>—Vou contar-te tudo... has-de ouvir-me tudo sem te magoares, sim?</p> + +<p>—Tudo, filha...—balbuciou D. Julia traspassada por dolorosa +suspeita.</p> + +<p>—Olha que meu marido... ama-te.</p> + +<p>—Jesus!—exclamou a noiva de Venceslau affectando naturalissimo +pavor.—Tu deliras, Anna!</p> + +<p>—Não deliro, infelizmente não deliro... Eduardo ama-te... Queres saber +como eu descobri esta desgraça que nunca me resvalou pelo espirito, apesar das +palavras que me elle dizia de ti, e todas agora me lembram para me +atormentarem?... Olha... quando elle hoje ás quatro horas chegou da repartição, +perguntou-me se eu tinha sahido, porque me viu vestida como fui a tua casa. +Respondi-lhe que estivera comtigo e recebera a inesperada nova do teu casamento +com Venceslau. Não te posso pintar o transtorno das suas feições! Fitou-me com +os olhos espavoridos, e perguntou-me em tom desabrido: «Que historia +extravagante é essa?»—Isto não é historia—disse-lhe eu—é a +noticia que me deu Julia. Mas ficaste assombrado! Estás pallido! Que tens? que +te importa que Julia case ou que não case?—«Não me importa +nada...—respondeu elle, disfarçando miseravelmente a agitação—não +me importa... mas o espanto<span class="pn">{204}</span> é, n'este caso, bem +natural!... Pois hontem ainda estive com o Taveira, e com ella... e nada me +disseram...» Continuamos a conversar sobre o assumpto, sem elle poder dominar a +ancia em que estava de se esconder aos meus olhos... Chamaram para a meza...; e +Eduardo n'esta occasião, muito perturbado, tira o relogio, vê as horas, e diz: +«não janto cá hoje... Hei de estar infallivelmente ás quatro horas em casa do +Sepulveda... Desculpa-me... que não posso faltar.» E, quasi sem esperar que eu +o contrariasse, sahiu com os olhos desvairados como um ebrio... e não voltou +ainda. Aqui tens a minha enorme desventura... aqui me tens na angustia que nunca +podia prever a minha alma preparada para as maiores provações... Até hoje, eras +tu a minha consoladora... Que has de ser tu para mim de hoje em diante?</p> + +<p>—O que fui sempre...—disse Julia com firmeza. Se as tuas +suspeitas são verdadeiras, o desatino de teu marido ha de ser curado com a +vergonha de me ter querido vêr na plana d'algumas infames que elle terá +conhecido.</p> + +<p>—Pois sim; mas não serei eu a victima?</p> + +<p>—Não, minha filha; se houver alguma victima, não o serás tu...</p> + +<p>—Então quem?</p> + +<p>—Elle...</p> + +<p>—Como?... Não te comprehendo...</p> + +<p>—Será a victima do seu opprobrio... Perderá a estima de todas as +pessoas de bem, e a tua...<span class="pn">{205}</span></p> + +<p>—A minha? não! não que o amo...</p> + +<p>—Has de odial-o, quando a sociedade o abominar... Mas não antecipemos +as consequencias d'essa loucura... Se ella é verdadeira, lembra-te que vou +casar com o homem que teu marido mais respeita. Eduardo, se ousar erguer os +olhos para mim, ha de baixal-os envergonhados. Se é uma paixão... +Paixão!—repetiu ella falseando n'um sorriso a dissimulada +duvida.—Paixão!... não creias que tal sentimento possa nascer n'um homem +que me respeita e deve conhecer que o desprezarei... se se atrever a +manifestal-o...</p> + +<p>—E nunca t'o manifestou?...</p> + +<p>—Porque me fazes tal pergunta?</p> + +<p>—Mas dize, Julia, nunca t'o manifestou?</p> + +<p>—Não...—respondeu sem turvação a interrogada, rosto a +rosto.—Que lembrança a tua!</p> + +<p>—É verdade... Lembrou-me se seria para ti a carta que eu hoje te +mostrei... </p> + +<p>—A carta?!</p> + +<p>—Sim, Julia; e, quando fosse, o teu nobre procedimento está bem +justificado n'aquella carta. Eduardo queixa-se de ter sido repellido... Que +outra coisa podia esperar eu de ti? Queixar-me porque m'o não disseste, seria +fazer injustiça á tua prudencia... Todo o teu empenho de boa amiga devia ser +que eu ignorasse a indigna tentativa de Eduardo... Permittisse Deus que elle me +não désse rivaes com menos virtude...</p> + +<p>—Rivaes!—contradisse Julia irritadamente.—Rivaes são as +que acceitam a competencia... É preciso<span class="pn">{206}</span> que duas +mulheres amem o mesmo homem para que se chamem rivaes. Em quanto eu desprezasse +as declarações de teu marido, não devias dar-me nome tão injurioso...</p> + +<p>—Então confessas que era para ti a carta?</p> + +<p>—Se confesso!...—tartamudeou Julia.</p> + +<p>—Sim... tu não pódes enganar-me... Vejo-te a alma nos olhos, e a +perturbação nas palavras... Tens piedade de mim, não tens? Então dize-me que +meu marido te escreveu... que tu lhe respondeste como devias... e que elle te +mandava depois aquella carta...</p> + +<p>D. Julia apertou ao seio a face lagrimosa de D. Anna, balbuciando:</p> + +<p>—É verdade... é atrozmente verdade que teu marido me escreveu... Não te +peço perdão, porque não tenho de quê. Na resposta, que lhe dei em duas linhas +escriptas na sua mesma carta, ameacei-o de te mostrar a segunda, se m'a elle +enviasse... Lembra-te das palavras.</p> + +<p>—Que eu não pude entender... bem me recordo... <em>Se V. Ex.ª cumprir +a ameaça que me escreve, se me denunciar, fará duas victimas. Mata uma +innocente, e ordena ao criminoso que se suicide...</em> Era isto; +mas—proseguiu Anna em pranto desfeito—o meu infortunio ainda assim +fica sendo enorme... Se te elle ama com tamanha paixão, e te vê casada, e +perdida para sempre, onde o levará o desespêro...</p> + +<p>—Paixão!...—repetiu Julia motejando a palavra.</p> + +<p>—Paixão, sim... pois, se o não fosse, Eduardo teria a fraqueza de +alterar-se a tal ponto? Sahiria de casa<span class="pn">{207}</span> como +louco? Teria escripto uma carta em que tantas vezes falla no suicidio?...</p> + +<p>—Ó filha, essa palavra em cartas de namoro não tem significação +assustadora...—replicou Julia jovialmente.—Creio que não recebi uma +só carta das muitas que devolvi, em que essa funebre responsabilidade me não +fosse imputada; e nenhum dos muitos que me escreveram se matou...</p> + +<p>—E como tu pódes rir, sendo tamanha a minha infelicidade, ó +Julia!...</p> + +<p>—Não exageres, creança!—animou a noiva de Venceslau Taveira com +incrivel frieza de animo.—Teu marido ha de voltar para ti curado pela +reflexão e melhorado pelo remorso de te haver sacrificado á mais estupida +vaidade que podia desnortear o tino d'um homem intelligente.</p> + +<p>—Mas não te magôa vêr que é necessario acabarem as nossas relações?</p> + +<p>—Como? acabarem...—acudiu D. Julia espantada.</p> + +<p>—Sim... acabarem... Com que alma hei de eu estar na tua presença e na +de meu marido?!</p> + +<p>—Então queres dar ao caso as proporções do escandalo?—replicou +Julia altivamente.—Dirás a teu pae que Eduardo me fez a côrte? +Obrigar-me-has a dizer a Venceslau que as nossas relações se romperam, porque +teu marido me namorava? Permittes que a nossa sociedade me considere a infame +que te amou o marido,<span class="pn">{208}</span> e a ti a honesta dama que me +expulsou de sua casa, e não quiz manchar-se no descredito da minha?</p> + +<p>—Jesus! onde tu vaes!—exclamou D. Anna—pois, se eu deixar +de ir a tua casa, é forçoso que se publiquem estes desgostos que ninguem +sabe?</p> + +<p>—É: ha de sabêl-o teu pae, ha de sabêl-o o homem que não será meu +marido... nem eu o quero... com tal condição. E, depois, tu tens força para a +lucta horrivel que vaes travar com teu marido, se publicares a sua deploravel +fraqueza? E não temes que teu pae, já tão quebrado de forças, morra de pena de +ti, odiando o homem, que eu, tão enganada pelos teus olhos, affirmei havia de +ser um excellente esposo?</p> + +<p>—Que hei de eu então fazer, Julia? Aconselha-me...</p> + +<p>—Fazes o que eu te pedir?</p> + +<p>—Se podér...</p> + +<p>—Pódes... ha de custar-te, mas pódes... Todas as victorias são +difficeis, filha; mas as da paciencia, nas tuas circumstancias, são sempre +seguras... Finge que tudo ignoras. Não profiras o meu nome com azedume, não dês +côr suspeitosa ao que de mim disseres. Recebe-me com o mesmo amor, que cada vez +t'o mereço mais extremoso. Vae a minha casa; e, na presença de teu marido, +falla-me sem a minima reserva, e não procures surprehender nos olhos d'elle a +intenção com que me olha. Se fizeres isto, restituo-te Eduardo com o juizo +restaurado. </p> + +<p>—Mas, se não poderes...<span class="pn">{209}</span></p> + +<p>—Se não podér, vou viajar, ou sósinha ou casada, e só voltarei a +Portugal, quando me tu disseres que teu marido recuperou a honra perdida.</p> + +<p>Anna Vaz beijou ardentemente a face da sua amiga, e exclamou:</p> + +<p>—Espera... deixa-me levantar que eu vou comtigo para a sala... Quero +que o meu pobre pae me veja sorrir... Vae dizer-lhe que me estou erguendo, e +que estou boa... Inventa qualquer coisa...</p> + +<p>Já estava na sala Venceslau Taveira recebendo os emboras do commendador, e +explicando os pormenores da sua imprevista alliança. Ao tempo que D. Julia +entrava, acabava de dizer o commendador ao noivo:</p> + +<p>—Mas que é isso?! Acho-o extraordinariamente triste!... Narrou-me em +termos tão gélidos uma historia para tantas alegrias!... Que não vá o meu +querido amigo enganar-se com o seu coração ferido de sobresalto... Agouro não +sei quê... Eu queria-o vêr mais contente... mais rapaz... mais noivo!... Os +homens da sua têmpera parece-me que têm uma só familia—a patria, e uma só +paixão—a das conquistas da felicidade para o genero humano...</p> + +<p>Venceslau escutava ainda o écco das palavras do velho que se lhe repetiam na +alma, quando Julia entrou, incendida no rosto da violenta crise em que as +interrogações de Anna Vaz a mortificaram.</p> + +<p>—Está febril minha filha, não está?—perguntou o +commendador.<span class="pn">{210}</span></p> + +<p>—Está levantando-se... Não tem febre, e vem ahi já.</p> + +<p>—Mas que era?...—volveu Francisco Vaz.</p> + +<p>—O que eu lhe disse...</p> + +<p>—Ciumes?...</p> + +<p>—Sem fundamento... Apprehensões de quem muito ama...</p> + +<p>—Torturas...—emendou o velho; e voltando-se para Taveira, +continuou:—O tedio, o enôjo em esposos de cinco mezes, o que será aos +cinco annos, snr. Taveira?</p> + +<p>—Póde ser que seja a felicidade de ambos, a reciproca e serena +confiança, quando os zêlos fundam em leviandades passageiras.</p> + +<p>—Conhece muito as sciencias que o espirito humano creou; mas sabe +pouco do coração do homem, snr. Taveira—contrariou o commendador.—A +mulher que, ao quinto mez de casada, nova e bella, apaixonada e incapaz de +comprehender a perfidia, se vê trahida, perdôa, se é honesta; mas o homem, +capaz de arrependimento, e de ajoelhar aos pés da esposa generosa, se algum +existe, não é Eduardo. Na vida d'este mal-fadado ha condão funesto...</p> + +<p>—Ha apenas, e quando muito, uma preoccupação...—disse o +deputado.—Esteve hontem comigo, e causou-me estranheza. Fallou-me em +sahir de Lisboa com licença de seis mezes para uma quinta. Suspeito que a +frequencia dos bailes lhe haja colorido falsamente os quadros que elle não +examinou quando era moço... Espero<span class="pn">{211}</span> que o mentiroso +prisma se lhe quebre, logo que a mão da lealdade contricta lhe desperte a +consciencia...</p> + +<p>Chegou D. Anna.</p> + +<p>A palestra d'aquella noite foi mais trivial que nunca. Venceslau Taveira +conversou nos assumptos habituaes—politica, e congresso dos reis em +Verona, o juramento da constituição e a suspeita de que a rainha D. Carlota +recusaria jural-a, etc.—materia duvidosamente lyrica para noivo.</p> + +<p>Á hora do costume, o deputado sahiu, bem que o commendador Vaz lhe désse a +perceber que muito desejava elle podesse encontrar-se com Eduardo n'aquella +noite.</p> + +<p>—Ámanhã o procurarei—disse Venceslau, em quanto Anna e Julia se +trocavam um lance de olhos que significava a incompetencia do mediador +escolhido pelo velho.—Hoje tenho ainda trabalhos de escripta e estudo que +me devem levar a noite toda.—Accrescentou o deputado.</p> + +<p>—Está a chegar o dia do repouso...—observou o commendador +alludindo ao casamento, d'onde lhe resultaria a inercia dos ricos.</p> + +<p>—O dia do repouso é o primeiro da morte—contraveiu +Venceslau.—Ninguem repousa n'esta vida; e, a meu juizo, os espiritos mais +trabalhados, e talvez mais infelizes, são os que se agitam em inutil +actividade. A riqueza, que convida ao ocio, é pessima, quando por ella trocamos +o thesouro dos bens da alma.</p> + +<p>Eis-aqui maximas stoicas não vulgares em noivos,<span +class="pn">{212}</span> salvo se elles são philosophos; mas a raridade d'esta +especie é já grande; e algum Socrates que ainda apparece a maridar-se, é contar +com elle bem castigado por Xantipas.</p> + +<p>Na ausencia de Venceslau Taveira, contou D. Julia concisamente ao +commendador o breve prefacio do seu projectado casamento; +porém—rasoavelmente lh'o advertiu o velho—tão desenthusiasta +expunha ella como expozera o noivo aquelle importante e solemnissimo acto.</p> + +<p>—Eu bem sei...—dizia o commendador—que entre pessoas +sisudas o casamento é passo para mui serias meditações; mas, logo que a +deliberação está feita, parecia-me natural vêl-os muito alegremente fallarem do +seu futuro...</p> + +<p>D. Julia sahiu á meia noute. Ia triste, e perguntando a si mesma: «Estarei +eu enganada com elle e comigo? Este sentimento de estima será bem o amor que +preciso hoje mais do que nunca alimentar no ardente coração de um homem?... Com +que frieza elle fallava de politica, olhando para mim hoje como hontem, como +sempre, como se eu alli não fosse mais do que uma das costumadas pesssoas do +seu auditorio... Mas...»</p> + +<p>Proferia ella mentalmente aquella conjunção—aquelle <em>mas</em>, que +daria as melhores dez paginas d'este livro, quando a traquitana, desembocando +da rua da Patriarchal, atravessava o largo do Rato, em direitura ao palacio das +Amoreiras.</p> + +<p>Parou subita a sege. O bolieiro, reconhecendo a<span class="pn">{213}</span> +pessoa que sahira á frente da parelha, bradando que parasse, obedeceu.</p> + +<p>—Que é?—perguntou D. Julia com receio, por entre as cortinas, +que afastou. </p> + +<p>—Não se assuste, minha senhora—disse Eduardo Pimenta no mais +baixo tom de voz que podia ser, abrindo mais as cortinas para ser conhecido.</p> + +<p>—Aqui, a tal hora, o snr. Eduardo?—murmurou ella tremendo a seu +grande pesar.</p> + +<p>—Esperava-a, snr.ª D. Julia... para lhe dar os parabens do seu +consorcio. </p> + +<p>—Acho improprio o local... Venho de sua casa; era lá que eu devia +merecer-lhe essa delicadeza...</p> + +<p>—Nada de ironias, senhora!</p> + +<p>—Ironias!? em que tom V. S.ª me está fallando! Eu não preciso de +contrafazer-me com o disfarce da ironia... Que me quer o marido de Anna Vaz? +</p> + +<p>—Que me restitua a minha felicidade!... que me mate, senão póde +restituir-m'a... Um reptil que nos nauzêa esmaga-se com o pé... Que mais vale o +coração do homem que a fatalidade poz de joelhos diante de V. Ex.ª? +esmague-me... Diga-me affoitamente, diga-me sem piedade que me despreza...</p> + +<p>—Não o desprezo; estimo-o, quanto posso estimar o marido d'uma amiga +intima—disse D. Julia sensibilisada, mas serena.</p> + +<p>—Eu não quero ser estimado, porque estou preso com um grilhão de ferro +á amiga de V. Ex.ª... Guarde a sua piedosa estima para as victimas +resignadas...<span class="pn">{214}</span></p> + +<p>—Que quer então?</p> + +<p>—Pouco... quero que V. Ex.ª me diga que no momento em que tractava o +seu casamento com Venceslau Taveira não viu passar entre o seu coração e o seu +futuro a imagem lagrimosa do homem que V. Exc.ª ameaçou com uma denuncia...</p> + +<p>—Não vi a sua imagem; vi a imagem lagrimosa de sua esposa... Essa é +que eu vi, e venho de vêr agora prostrada no leito, e receio vêl-a brevemente +prostrada na sepultura... Snr. Eduardo, tenha compaixão d'ella e de mim!</p> + +<p>—De V. Ex.ª!?—interrogou elle, alvoroçado pela commoção que se +delatava no tremor da voz.—Compadecer-me eu de V. Ex.ª?! Quando deixei eu +de adoral-a, para offendel-a?</p> + +<p>—Não diga que me adorou, supplico-lhe que desfaça essa illusão da sua +alma. </p> + +<p>—Oh! para que está mentindo á sua consciencia, snr.ª D. Julia? Pois +não viu que eu a amava quando casei? Não me impôz delicadamente em sua casa o +preceito de lh'o não revelar?</p> + +<p>—Falle baixo—acudiu Julia—que póde ouvil-o o creado. +Jesus, que desventura a minha! Ó snr. Eduardo, tenha brios e valor! Deixe-me, +esqueça-me!... por alma de sua mãe, e d'essa infeliz senhora que lhe morreu nos +braços, em nome de ambas lhe rogo que me esqueça, que me não obrigue a fugir de +Portugal!... Mal sabe quanta gratidão lhe daria a minha alma, se me attendesse, +se me deixasse ser sua verdadeira amiga! Juro-lhe<span class="pn">{215}</span> +pela memoria de meu pae que me não torna a vêr, se não domina o desatino que +está cavando a sepultura de sua mulher...</p> + +<p>—Sempre a minha mulher!... Por que me não falla do seu marido?</p> + +<p>—Pois bem... peço-lhe em nome de meu marido que me +respeite!—disse D. Julia com a maxima gravidade e decoro.—E, se +não, adeus para sempre! Não sustentarei com V. S.ª uma lucta odiosa. Ha +afflicções que se tornam ridiculas, se a coragem as não subjuga. +Desterrar-me-hei para que o snr. Pimenta, esquecendo-me a mim, se lembre de que +ha uma coisa mais preciosa que eu: é a honra, a sua propria honra. Peço-lhe que +me deixe recolher. Os meus creados não estão habituados a assistirem a estes +dialogos por alta noite, e eu não lhes quero dar direito a suspeitarem de +mim.</p> + +<p>—Só duas palavras, snr.ª D. Julia. Não sáia de +Portugal—supplicou Eduardo com apaixonada resignação.—Juro que não +perturbarei a sua tranquilidade. Fique, rogo-lhe com as mãos erguidas que +fique; mas não me prohiba que eu a ame... Será um amor sem lagrimas, sem um +gemido, sem que nos olhos se me veja o reflexo do fogo que me ha de ir +devorando. Não me prohibe esta inoffensiva tortura, não?</p> + +<p>—Ó snr. Eduardo...—balbuciou Julia.</p> + +<p>—Adeus! vá!... Olhe que o mundo não encerra mais desgraçado homem! Eu +hei de obrigal-a, hei de, Julia, a confessar que foi muito amada, e talvez... +muito ingrata... Adeus.<span class="pn">{216}</span></p> + +<p>Eduardo desviou-se, e a sege abalou.</p> + +<p>E D. Julia de Miranda, enxugando os olhos, de certo sinceramente chorava, +porque não é de presumir que uma mulher finja lagrimas, quando ninguem a +observa.</p> + +<p>Mas chorar, ó Deus do céo, ó creador omnisciente do prodigioso coração de +mulher! Chorar! porquê?</p> + +<p>Ai! chorava por que não podia odial-o...</p> + +<p>Leitor florído, se V. Ex.ª é menos honesto do que eu penso, de certo estima +que as suas visinhas chorem por não poderem odial-o.<span +class="pn">{217}</span></p> + +<h1><a name="SECTION000190000000000000000">XVIII</a></h1> + +<blockquote> + <p>C'etait incompréhensible, inouï, miraculeux...</p> + + <p class="obra">A. D<small>UMAS.</small>—<em>Amaury.</em></p> +</blockquote> + +<p>A criada antiga, que dormia na recamara de D. Julia, segredou ao padre +Manoel Ferreira que a fidalga, durante as noites seguintes á decisão de +casar-se, poucas horas descansára, e algumas vezes dava uns ais tão do amago da +alma que parecia gemer em grande afflicção.</p> + +<p>O padre comprehendeu poeticamente as insomnias, attribuindo-as ao alvoroço +proprio de noiva. Bem é de entender que o sabio, nos seus livros latinos, não +tinha lido casos de noites desveladas por motivos molestos, se era amor quem +desafinava a harmonia das funcções empenhadas no phenemeno do somno. Não +obstante o silencio dos classicos romanos a tal respeito, padre Manoel indagou +da propria fidalga a causa das suas noites<span class="pn">{218}</span> mal +dormidas. Respondeu D. Julia que a preoccupavam receios de infelicidade, +resultantes d'um casamento pouco meditado e talvez incompetente, assim a +Venceslau como a ella.</p> + +<p>O capellão, atonito com tal resposta, nem de leve curou de lhe dissipar as +apprehensões; antes, muito de sizo, se offereceu para desfazer o que +intempestivamente fizera, espacejando com qualquer honroso subterfugio o +cumprimento da promessa, até que Venceslau, cavalheiro pundonoroso, aconselhado +por sua dignidade, desquitasse a noiva do compromisso.</p> + +<p>D. Julia repugnou tal evasiva, declarando com fidalgo entono que desadorava +entrar em porfia de pundonor com Venceslau. E concluiu dizendo que a sua +palavra estava dada.</p> + +<p>—E o seu coração, minha senhora?—perguntou o padre.</p> + +<p>—O meu coração...—murmurou ella—morreu quando as pulsações +cessaram no coração do primeiro e unico homem que amei.</p> + +<p>E o capellão, fitando-a silencioso e magoado, de si para comsigo julgou que +D. Julia não podia ser dada como exemplo de senhora perfeita, moralmente +fallando.</p> + +<p>E, desde esta hora, padre Manoel, sentindo sobre a consciencia o gravame de +tremenda responsabilidade, andava triste, como assombrado, a cogitar e a pedir +a Deus que interviesse de modo que o casamento não se realisasse.<span +class="pn">{219}</span></p> + +<p>Deus não o attendeu, ou interveiu mysteriosamente. Como quer que fosse, o +casamento fez-se no fim do anno 1821.</p> + +<p>Foi muito soado o caso em Lisboa, e muito invejado o provinciano. O juro dos +quinhentos mil cruzados da consorte deu-lhe direitos á consideração publica +muito mais relevantes que os do talento acrisolado por altas virtudes de +patriota. Haveria quem lhe emulasse a qualidade de primeiro orador e +preconisado ministro; mas a de proprietario da mulher, que representava +duzentos contos, seria capaz de ajuntar á inveja o respeito +abjecto—mascara do odio. E, comtudo, os habitos de Venceslau Taveira +mantiveram-se no mesmo grau de solicitude, trabalho e mediania. A traquitana de +sua esposa ninguem lh'a viu em frente do paço das Necessidades, onde então +legislava o congresso. Madrugava mais que os seus collegas abastados para poder +chegar ao mesmo tempo que as carruagens d'elles. O seu trajar arguia decente +mediocridade, auxiliada pelo esmero na limpeza; não era o surrado desalinho com +que desculpamos os philosophos, quando nos fallece direito a mandal-os lavar a +cara.</p> + +<p>Este proceder de Venceslau recendia aromas de virtude, era abnegação que +muito louvava padre Manoel Ferreira; porém D. Julia de Miranda não se admirava +nem comprasia. Em conta de affectação orgulhosa foi que ella tomou a isempção +do marido, julgando-se por isso menospresada na riqueza. Quanto a ser amada, +confessava D. Julia que o era como seria qualquer outra<span +class="pn">{220}</span> menina pobre que não désse tão brilhante, e tão +desdenhada independencia a seu esposo.</p> + +<p>O viver intimo de Venceslau, em verdade, destoava do que é costume serem +maridos amantissimos, em quanto a corôa nupcial se não desmaia de todo.</p> + +<p>Tinha horas de gabinete, e então folgava que Julia se detivesse a +contemplal-o folheando livros, tirando notas, arquitectando discursos, e +comparando a indole da nação ignorante com os luminosos codigos das nações +civilisadas. Isto não é bem poetico; realmente não é.</p> + +<p>Assim que era tempo, ia para as côrtes, e recolhia com a maxima pontualidade +a jantar; mas, se os negocios do estado implicavam á exactidão do repasto +domestico, o funccionario, submissso ao sacrificio, não antepunha o gozo da +familia aos deveres de cidadão estipendiado para a servir. A poesia aqui tambem +não é que farte para um madrigal.</p> + +<p>As noites eram todas de sua esposa. Se ella sahia a bailes ou visitas, de +bom rosto a acompanhava; mas uma por outra vez lhe disse, beijando-a e +ameigando-a:</p> + +<p>—Não passarias melhor a noite no socego da tua salêta comigo, com os +teus livros, e com a doce companhia do teu fogão?</p> + +<p>Julia algumas vezes cedia suavemente ao brando convite; Venceslau, porém, +notou com secreta mágoa que ella, por volta das dez horas da noite, +difficilmente resistia aos enfados do coração que se manifestam em abrimentos +de bocca.</p> + +<p>A esposa deitava-se; e o esposo ia para o seu gabinete<span +class="pn">{221}</span> onde trabalhava até ás tres da manhã. Se ha n'isto +poesia, confessemos que em casa de cada mercieiro ha inspirações para tres +opopêas.</p> + +<p>E porque não iria Anna Vaz passar as noites com a sua amiga? Por que não ía +Julia esparecer saudades da juventude, se as tinha, na familiar convivencia do +commendador?</p> + +<p>É simples a resposta; mas ha que presagiar calamidades n'ella.</p> + +<p>Marcado o dia do casamento, Venceslau convidára Eduardo a ter parte na sua +festa do coração, assignando como testemunha na egreja. O commendador tambem +foi como padrinho e madrinha a filha. Os restantes do pequeno cortejo eram +alguns deputados anciãos e militares companheiros do exilio do noivo.</p> + +<p>Eduardo apresentou-se na ceremonia com certa compostura grave, melancolica; +porém de modo algum suspeita. Anna, docil aos preceitos de Julia, mas talvez +mais submissa aos do coração, espionava involuntariamente os raios vizuaes do +esposo. Escassas vezes o colheu em flagrante delicto. A noiva por sua parte +parecia esconder mais do que elle o relance furtivo de olhos; todavia, se +alguem lhe chamava a attenção para Eduardo, se Venceslau lhe dizia: «o Pimenta +está pallido e triste», ella encarava-o com desassombro, e respondia qualquer +coisa, sorrindo banalmente, como se fosse uma tola vulgar.</p> + +<p>O banquete das nupcias foi modesto, moderadamente animado, e concorrido de +velhos que nem sequer primavam<span class="pn">{222}</span> nas jogralidades +proprias do acto, e sempre bem acolhidas, quando vem auctorisadas pelas cans; +que o impudor senil tem fôro de graça lusitana, segundo parece, em festins de +noivado. Os coroneis e os legisladores commensaes de Venceslau fallavam de +politica e de batalhas. Venceslau foi eloquente n'estes assumptos. Padre Manoel +Ferreira manteve-se em silencio meditabundo. O commendador conversou sempre com +Julia. E Eduardo nunca se mostrou tão apontado em attenções carinhosas a D. +Anna.</p> + +<p>O restante da noite correu mais animada, graças ao espiritismo dos coroneis, +que tinham brindado repetidas vezes á liberdade, e ungido com profuzas libações +o seu athletico odio contra o despotismo. Os legisladores tambem.</p> + +<p>Findo o saráo, Eduardo apertou a mão da esposa do seu amigo, e pôde ceciar +umas palavras que ella ouviu com a audição interior da alma: «Nunca mais».</p> + +<p>Ninguem a viu descorar; mas ella desconfiou que a vissem, porque lhe quiz +parecer que o sangue se lhe congestionára no peito e que ao longo das faces lhe +resvalára a sensação do frio. Imaginações, talvez. Nervos.</p> + +<p>Ao outro dia, D. Anna Pimenta, a hora desacostumada, e menos propria de +visitar noivas recentissimas, appareceu em casa de Julia. Eram onze da manhã, e +já encontrou Venceslau a sahir. Aos reparos da esposa do seu amigo respondeu +elle que não podia faltar ao congresso, onde se pleiteavam graves projectos de +lei. A amorosa senhora não pôde sequer por delicadeza louvar<span +class="pn">{223}</span> semelhante patriotismo. Lá no seu recondito juizo diria +talvez ella, em prosa menos pedestre, que não havia lei em projecto que valesse +uma formosa mulher já realisada.</p> + +<p>Encontrou Julia no toucador, sentada, em frente do alto espelho, n'um +reclinatorio de estofo cramezim, com os opulentos cabellos a serpearem sobre as +rendas do penteador, e umas travessas d'oiro a desviarem-lh'os das fontes. A +posição languida da noiva, um pouco antes, denotava abatimento moral, um ar +reflexivo de quem se quer imaginar n'um sonho infeliz, e não póde tirar dessa +forçada quimera senão tristezas.</p> + +<p>Mas, ainda assim, quando ouviu passos e conheceu a tosse nervosa de Anna +Vaz, desanuviou a face, illuminou-a d'um sorriso, e apertou nas suas as mãos da +amiga.</p> + +<p>—Tão cedo?—perguntou ella.—Tu vens febril!...</p> + +<p>—E agitada, porque vim a pé... Venho despedir-me...</p> + +<p>—Para onde vaes?!</p> + +<p>—Para a quinta do Riba-Tejo. O Eduardo esta manhã, ergueu-se ás seis +horas, e pediu-me carinhosamente licença para ir passar á quinta algum tempo. +Eu disse-lhe logo que o acompanhava; elle mostrou-se grato á minha dedicação, e +resolvemos partir ámanhã de madrugada. Agora preciso dizer-te o que penso de +meu marido. Esta resolução de sahir sei eu, e tu tambem sabes, d'onde procede; +mas eu não lhe disse a menor palavra<span class="pn">{224}</span> a tal +respeito, deixando-o persuadir da minha ignorancia. Creio que elle te ama... +digo-te isto sem lagrimas, porque já chorei quantas tinha... Se elle foje de ti +para te esquecer, espero que a nossa tranquillidade se restabeleça. Da minha +parte, seguirei até ao fim os teus dictames. Hei-de fingir sempre que tudo +ignoro, por amor d'elle, de meu pae, de ti... e de mim tambem... Olha, Julia, +sorri-me uma esperança... Póde ser que o nosso primeiro filho seja o anjo de +reconciliação entre nós. Pareceu-me que os olhos d'elle me encaravam com +extraordinaria ternura, quando ha dias lhe disse, que eu, d'aqui a quatro +mezes, havia de vêl-o a acalentar nos braços a nossa creancinha... Porque não +choro eu agora ao despedir-me de ti? porque te amo, Julia, apesar de saber que +és mais amada que eu? Sabes porque é? Quando se tem no seio um filho, as +lagrimas estancam-se, e os odios não podem empeçonhar o coração onde se está +formando a alma d'um innocentinho... Deixemos passar esta borrasca... Tempo +virá em que sejamos muito felizes...</p> + +<p>—Eu? Nunca mais...—murmurou Julia.</p> + +<p>—Porquê?...</p> + +<p>—Não torno a ser o que era antes que á casa de teu pae entrassem estes +dois homens fataes, um que escureceu a tua alegria, e o outro... que eu +não...—E susteve-se, como envergonhada de si mesma.</p> + +<p>—Que tu...—instou Anna.</p> + +<p>—Nada, filha... não me interrogues... Olha... eu<span +class="pn">{225}</span> amei teu irmão... amei-o quando tinha a edade e as +illusões da infancia... Elle morreu... e envolveu na sua mortalha o meu +coração...</p> + +<p>—Mas... para que...—disse D. Anna hesitante.</p> + +<p>—Para que casei, queres tu perguntar-me?...</p> + +<p>—Sim...</p> + +<p>—Se eu t'o disser... has de querer ajoelhar aos pés da tua amiga +victimada... e eu levantar-te-hei nos meus braços para te pedir que não me +faças responsavel dos teus dissabores...</p> + +<p>—Dize... que eu não te entendi...</p> + +<p>—Para que me casei?... para que teu marido me respeitasse casada... +Para que me casei com Venceslau? Para ter por defeza da minha dignidade o homem +que teu marido mais respeita...</p> + +<p>D. Anna abraçou-a com vehemencia, bebeu-lhe as lagrimas nos beijos, e +murmurou:</p> + +<p>—É impossivel que Deus não te dê o galardão de tanta virtude... Esse +grande sacrificio ha de trazer-te dias de inefavel contentamento...</p> + +<p>—Nenhuns... ha-de trazer-me apenas—e já não é pouco—a +satisfação de te ver socegada.... Vae, filha, e escreve-me sempre que possas. +Se vires que elle quer voltar a Lisboa antes de me ter esquecido como se +esquece uma mulher já desfeita na sepultura, avisa-me, que eu hei de mover +Venceslau a ir viajar... Depois, quando eu voltar, estarei velha e tu ainda +nova e bella. Os cabellos brancos não tardam. As rugas já me começam na alma... +Ha uma velhice que nos passa do coração<span class="pn">{226}</span> para o +rosto... é a saudade... é vêr o passado feliz lá ao longe, e o presentir a +morte no frio que nos cerca... </p> + +<p>—Mas, ó meu Deus!—exclamou Anna, pondo as mãos—Venceslau +Taveira não te ama?</p> + +<p>—Ama com o amor dos trinta annos, quando desde os vinte se procuram e +encontram as paixões na politica, na meditação e no estudo... Não vês isto? +Casei hontem; e meu marido foi hoje ás dez horas para o congresso, depois de me +dizer que prevía a emancipação do Brazil em breve tempo, e que hoje mais que +nunca os bons portuguezes deviam acercar-se do leito da mãe patria que ia +perder a filha que lhe era o amparo da velhice. E se visses a gravidade com que +elle me discursava estas coisas? Parecia um pae illustrando a ignorancia de uma +filha!... Ó Anna... se eu tivesse coração... se houvesse casado com Venceslau +amando-o muito, que lagrimas me não custaria este desengano!...</p> + +<p>—Pois, sim—redarguiu Anna Vaz—convenho que Venceslau seja +tudo que dizes, mas verás que nunca te ha de dar a mágoa da perfidia...</p> + +<p>D. Julia sorriu-se com aspereza, ironia, e talvez motejo d'essa virtude da +lealdade que apenas lhe lisongeava o orgulho.</p> + +<p>—E tu verás—proseguiu aquella perfeita alma cheia de lagrimas, +quando a outra sorria—verás que te ha de amar cada dia mais; e que, +depois das suas occupações, virá para ti cheio de alegria, e sedento dos suaves +prazeres da vida intima...<span class="pn">{227}</span></p> + +<p>—Porque o não amaste, Anna?—perguntou de salto e +desapropositadamente D. Julia.</p> + +<p>—Porque o não amei?... Se eu amava Eduardo...</p> + +<p>—Viste-os ao mesmo tempo... ou, mais exactamente, viste primeiro +Venceslau... Porque o não amaste?—insistiu a arguciosa dama.</p> + +<p>—Se elle me tivesse amado, antes que Eduardo me escrevesse, eu de +certo lhe correspondia, porque me pareceu sempre estimavel, nobre, honrado, +fallando de meu irmão com as lagrimas nos olhos, e respeitando meu pae, que o +presava extremamente.</p> + +<p>—Sei isso... mas o teu coração, á vista d'elle, não sentiu os +estremecimentos que lhe causou Eduardo.</p> + +<p>—Bem sabes como foi, filha!... Eduardo, á segunda vez que foi a nossa +casa, estando eu a tocar, disse-me que, se o não podia salvar com o amor, que +lhe tocasse musicas bem tristes que o podessem salvar com as lagrimas... Estas +palavras acharam em minha alma toda a sensibilidade d'uma rapariga innocente... +Depois vieram as cartas... depois... tu sabes tudo como se passou...</p> + +<p>—Sei...</p> + +<p>—Mas que perguntas me fazes!... Ó Julia, se não amavas Venceslau, não +devias casar. A tua dignidade não precisava que um marido a defendesse. Ha +quantos annos eu te conheço pretendida e amada; e nunca te vi receosa de +ninguem! Bastava o teu desprezo para rebater os mais atrevidos. O sacrificio, +que fizeste da tua liberdade, para que eu te não julgue causa dos meus +occultos<span class="pn">{228}</span> desgostos, era desnecessario. Tão +confiada estava eu na tua virtude de solteira como na de casada...</p> + +<p>—Sacrifiquei-me então inutilmente?—interrompeu Julia.</p> + +<p>—Inutilmente não, que eu irei jurar que se eras um anjo para mim, és +agora uma victima da santa amisade que me tens; mas inutilmente para a tua +honra, isso sim; porque não é teu marido que te ensina os deveres; és tu que os +prescreves ás tuas paixões...</p> + +<p>—Quaes são as minhas paixões?—perguntou D. Julia por tão +estranha maneira que incutiu na amiga receio de a ter offendido.</p> + +<p>—Eu não digo que as tenhas, filha...—emendou ingenuamente D. +Anna.</p> + +<p>—Então?</p> + +<p>—Queria eu dizer que tu dominarias as tuas paixões, se fossem más... +Comprehendeste, Julia?...</p> + +<p>A esposa do deputado, levantando-se energicamente, travou do braço da amiga, +e disse:</p> + +<p>—Vamos passear nas salas... Estou muito nervosa... A final, tudo que +tenho é uma febre cerebral, uma enfermidade estupida na cabeça.</p> + +<hr class="dotted"> + +<p>Na hypothese de que as duas senhoras vão dizer coisas frivolas, não as +sigamos; e, se o leitor conjectura que ellas podem dizel-as transcendentes, não +as sigamos tambem.</p> + +<p>Sentemo-nos aqui na sala de espera, n'este grande escabello de castanho, com +espaldar blazonado, e philosophemos,<span class="pn">{229}</span> mas façamos +philosophia portugueza, chã, de soalheiro, murmuração delicada; mas, repito, +portugueza. Nada de esthetica. Nada de germanismos. A gente está em 1822, +quarenta annos antes da entrada do apocalypse em Portugal com todas aquellas +bestas de que falla S. João.</p> + +<p>Philosophemos então a respeito de D. Julia.</p> + +<p>O leitor medita, reflexiona, combina, discute, compara e conclue, formando o +seu juizo.</p> + +<p>Formou? Philosophou?</p> + +<p>Eu tambem.</p> + +<p>Agora tenha a condescendencia de esperar que os factos correspondam á +lucidez das suas previsões.<span class="pn">{230}<br>{231}</span></p> + +<h1><a name="SECTION000200000000000000000">XIX</a></h1> + +<blockquote> + <p>A ira que entumece e arqueja e vibra no proprio coração dos grandes + sabios.</p> + + <p class="obra">H<small>OMERO.</small>—<em>Iliada</em>, cant. + <small>IX</small>.</p> +</blockquote> + +<p>As cartas vindas de D. Anna para Julia eram discretas e pensadas de modo que +Venceslau Taveira, da sahida de Eduardo, inferia apenas que o seu amigo se +desviára com plausivel prudencia dos perigos amorosos que o assediavam na alta +sociedade. Esta supposição colhida de algumas phrases problematicas das cartas, +que Julia não escondia, dava margem a que entre os dois esposos e padre Manoel +Ferreira se conversasse sobre a desmoralisação dos costumes.</p> + +<p>O capellão raramente perdia lanço de lamentar a filha do commendador, +ferindo assim de soslaio o caracter do marido, a quem não desculpava a +peralvilhice com que bandarreava nas salas, galanteando a esmo todas<span +class="pn">{232}</span> as damas. Venceslau, motejando a severidade do padre, +attribuia os geitos galãs do amigo não á ruindade das intenções, senão ao +temperamento, ao genio alegre, ao instincto da sociabilidade, que era sempre +excellente prenda nos cavalheiros propensos aos futeis recreios das +assembleias. D. Julia escutava estas discussões, e assentia á indulgencia do +marido, sem reparar que o padre lhe estudava o pensamento nas menos expressivas +alterações do semblante.</p> + +<p>Padre Manoel—digamol-o de corrida—não lia sómente livros +latinos, nem estudára nas Lesbias e Lydias as versatilidades femeaes. Parece +que o sabio, antes de vir á poesia romana, tinha sido poeta por sua conta, e +risco, talvez, da dignidade sacerdotal. Como vivêra trinta ou quarenta annos +entre fidalgas, confidenciando-as nas salas e nos confessionarios, bem é de vêr +que n'aquelle espirito escrutador se formassem desconfianças ingratas ao bom +juizo de D. Julia, desde que ella se lhe figurou duvidoso exemplar de +perfeição. Isto, aggravado pela secreta aversão que tinha a Eduardo Pimenta, +explica o tom detrahidor com que lhe desfazia nas virtudes conjugaes e o olhar +de travez que dardejava á phisionomia da desprecatada fidalga.</p> + +<p>Uma vez o padre, invectivando contra o seculo, proferiu a palavra +«adulterio», como thema de certa historia contemporanea. Venceslau avincou a +fronte, recurvou os dedos para as palmas das mãos, fez uma vizagem desabrida de +zanga, e cortou de golpe o discurso, sobrevindo com outro assumpto.<span +class="pn">{233}</span></p> + +<p>Padre Manoel ficou um tanto corrido, e D. Julia suspensa, e até certo ponto +inquieta.</p> + +<p>Assim que teve ensejo de fallar particularmente com o capellão, pediu-lhe o +deputado desculpa do impeto com que o interrompera, e rogou-lhe que, na +presença de sua mulher, se abstivesse de contar historias de vicios, e +principalmente de adulterios; visto que, em historias d'esta natureza, a +moralidade do conto era sempre equivoca, senão era ridicula, como nas comedias +de Molière, e de todos os propaladores de taes desregramentos. E ajuntou:</p> + +<p>—Se o meu amigo, contando os adulterios das diversas senhoras do seu +tempo, rematasse a narração, mostrando-nos o castigo do crime, dou-lhe que não +perdesse o tempo, o incutisse saudavel terror no animo das mulheres ou dos +homens que não delinquiram ainda...</p> + +<p>—Mas o castigo, snr. Venceslau, se não é patente, lá lh'o influe a +invisivel mão de Deus na consciencia dos culpados...—objectou o padre.</p> + +<p>—Convenho; mas eu não vejo o castigo, nem sequer vejo joeiradas da boa +sociedade as mulheres, nem dos altos cargos da republica os homens, cujas +consciencias o meu caro snr. padre Manoel Ferreira piamente imagina +atormentadas. Essa especie de contos rematava mais edificantemente, se o meu +amigo os concluisse d'este feitio: «a condessa de tal atraiçoou o marido, que +era um homem de bem, extremoso por sua honra e sua mulher. Um dia, o marido, +avisado da traição, matou a mulher, e matou o adultero.» Aqui tem um +desenlace<span class="pn">{234}</span> tragico, talvez o unico para poder +dizer-se n'uma sala sem receio de fazer rir os circumstantes. Tudo mais que não +for isto é prudente e honesto que não se divulgue ás pessoas que o ignorarem. +Se o conde de tal vive, ha annos, na sua quinta, só, sequestrado do mundo, +chorando, dilacerando-se a golpes de vergonha, em quanto sua mulher +despejadamente alardêa seus vicios em Lisboa—se era essa a historia que o +snr. padre Manoel ia hoje contar a minha mulher, com que moralidade tencionava +encerrar o conto? O conde foragido do mundo para se não vêr escarnecido, é a +moralidade? A condessa rodeada de cortezãos nas suas salas é a moralidade?</p> + +<p>—Não, senhor. A moralidade é que V. S.ª e outros homens honrados não +levam suas esposas a casa da condessa.</p> + +<p>—Está enganado. Eu conheci n'estas salas a condessa, e ouvi esta +senhora, que é hoje minha mulher, chamar-lhe prima. É certo que Julia não irá +lá mais, penso eu; mas não é menos certo que muitas damas de regular proceder +lá vão. </p> + +<p>—Lisboa está assim...—murmurou o padre transigindo.—É o +baixo imperio... a libertinagem da França de Luiz <small>XV</small> que chegou +a Portugal cem annos retardada, abordoando-se ás muletas da civilisação. As +luzes são boas, quando não pegam fogo ao templo das velhas crenças. +<em>Corruptio optimi pessima</em>, como diz Horacio. Bem-aventurados aquelles +que circumscrevem á familia as regalias do repouso, e cerram as suas +portas<span class="pn">{235}</span> á ociosidade que se desenfastia a bailar, a +jogar, a cacarejar frioleiras nos salões. Cada vez me felicito mais por vêr que +V. S.ª vae brandamente reduzindo sua senhora ao socego da vida intima...</p> + +<p>—Reduzindo, não, meu amigo—corrigiu Venceslau.—Não se +persuada que eu reajo aos desejos de minha mulher. N'esta casa, que é d'ella, +faz-se o que sua dona quer. Julia visita quem lhe praz, e recebe quem lhe +parece. Acompanho-a umas vezes por vontade, outras com repugnancia; mas vou +sempre com o mesmo semblante. É certo que a vejo triste; mas attribuo a mudança +á natural e providencial transformação que se vae operando no animo das +mulheres da sua edade e na sua posição; além d'isto, póde ser que as saudades +da sua amiga Anna Vaz tenham parte n'esta melancolia. Felizmente, Eduardo volta +para Lisboa na proxima semana, e eu muito estimarei que a intimidade das duas +senhoras se renove como a tiveram em solteiras.</p> + +<p>N'este ponto, padre Manoel acudiu a esfregar o nariz, onde era costume +acudir-lhe a zanga em pruridos incommodos. Venceslau não reparou n'aquella +réplica toda nazal, nem o capellão entendeu fazer commentarios oraes ás suas +comichões freneticas. As ideias que lhe obumbravam o espirito eram negras, +inexprimiveis, e taes que elle fugia de as repetir a si mesmo, sendo que um +demonio contumaz lh'as estava sempre a martelar na fragua da cabeça. Não ha ahi +duvidar da esclarecida razão de padre Manoel Ferreira, que sabia latim a +preceito e muitas sciencias boas e más; pois,<span class="pn">{236}</span> sem +embargo, ás vezes via-se tão importunado de satanicas suggestões contra +Eduardo, que chegava a persignar-se e a repetir mentalmente o <em>et ne nos +inducas in tentationem</em>.</p> + +<p>D. Anna e o marido voltaram para Lisboa; mas o affecto da esposa de Eduardo +a D. Julia havia esfriado bastante. Poderemos sem grandes deslizes da verdade +conjecturar que, no animo d'aquella senhora offendida pelo esposo, a amisade á +outra que a fazia soffrer—bem que involuntariamente—cedeu o passo +ao amor-proprio e a outros nobres sentimentos. O despeito era inevitavel, +embora a sua bonissima condição lh'o demorasse. Este arrefecimento devia +crescer á medida que ella deduzisse das tristezas silenciosas do marido +vestigios da saudade indomavel; porque, se a saudade era prova da grande valia +da mulher não esquecida, razão de mais para que Anna Vaz a considerasse +perigosa; e, se o marido á custa de nobres esforços, vingasse olvidal-a, outra +razão para que a esposa precavida temesse a reincidencia na aproximação.</p> + +<p>Esta, a meu pensar, parece ser a natural interpretação das raras visitas, e +essas pouquissimo expansivas, que as duas damas se trocaram.</p> + +<p>Entretanto, D. Anna explicava as suas faltas com os cuidados da maternidade, +porque já então era mãe. Venceslau achava louvavel a razão, e dizia a sua +mulher que a esposa de Eduardo era uma respeitavel dama que se fazia venerar de +seu marido, quando não fosse extremamente amada.<span class="pn">{237}</span> +</p> + +<p>Quando estas palavras foram ditas, padre Manoel Ferreira observou com os +olhos esconsos que D. Julia mordia o beiço inferior. Não sei o que elle colheu +d'este acto. O homem provavelmente julgava que os máos pensamentos tanto podiam +pruir no nariz como nos beiços.</p> + +<p>Aquelle anno de 1822, trabalhoso e irrequieto para os liberaes, trouxe para +D. Julia horas aborrecidas de solidão e irritantes dissabores.</p> + +<p>O deputado nunca fôra tão politico e cidadão afreimado. Quatro successos +importantes lhe absorviam a maior parte das suas horas diurnas e nocturnas. +Primeiro, a independencia do Brazil, d'onde elle inferia que Portugal ficava +sendo uma grande cabeça sem cerebro, um gigante paraplegico, bracejando, sem +pernas que o movessem. Depois, a reunião das tropas francezas nos Pyreneos, +ameaçando cassar as cartas de alforria dadas pelos reis ás nações amotinadas. +Em seguida as facções liberticidas conjuradas com o titulo de <em>Junta +Apostolica</em>. Por ultimo a formal recusa da rainha D. Carlota Joaquina em +jurar a constituição.</p> + +<p>Nas fogosas luctas que então se travaram no congresso, entre gladiadores +inveterados de absolutismo, e outros exaltados fautores da liberdade, Venceslau +Taveira ia na vanguarda dos liberrimos. Os seus discursos poderiam ser +acoimados de demagogos, se a audacia dos adversarios não lhes justificassem a +iracundia. Depois que a rainha pediu licença para sahir de Portugal, visto que +a lei a obrigava não jurando a constituição,<span class="pn">{238}</span> as +duas parcialidades do congresso defrontaram-se rancorosamente, até ao extremo +de se arcarem peito a peito.</p> + +<p>Uma noite Venceslau entrou no seu escriptorio, e demorou-se largo tempo a +passear agitadissimo. D. Julia, admirando a insolita demora, desceu á livraria, +e viu sobre a banca da escripta um par de pistolas novas e um pacote de polvora +e balla.</p> + +<p>—Pistolas!—exclamou ella—isto que é?... Nunca te vi +d'estas coisas!</p> + +<p>—São hoje necessarias, minha filha—disse brandamente o deputado, +desenrugando a fronte assim que viu a esposa alvoroçada.</p> + +<p>—Para quê? tens inimigos?</p> + +<p>—Tenho, e enormes: são os mil algozes symbolisados na palavra +«despotismo». Hoje, mais do que nunca, me sinto obrigado a combatel-o. Preciso +defender a felicidade que me déste. D'antes era eu um homem, que podia morrer, +sem o pezar de ser chorado. Hoje, que a vida me é mais cara, mais me devo +prevenir na defeza d'ella. Não te assustes, Julia...—proseguiu elle +abraçando-a.—O despotismo ainda cá não metteu a garra; mas eu tenho +collegas no congresso que nos estão atraiçoando, e já vão tomando nota dos que +hão de apontar ás alçadas se o infante D. Miguel for acclamado absoluto. Eu hei +de ser o primeiro, se antes d'isso me não poderem apunhalar traiçoeiramente. +Contra os traidores é que os homens de bem se armam. Ámanhã espera-se +estrondoso escandalo no congresso, onde vae debater-se<span +class="pn">{239}</span> a recusação da rainha. Eu hei de votar pelo cumprimento +da lei que a manda sahir de Portugal; mas suspeito que alguns atrabiliarios lhe +vão entoar vivas. Se tamanha protervia couber na alma vendida dos deputados +absolutistas, é preciso expulsal-os da camara; e, se reagirem, será forçoso que +deixem a vida onde alardearam a deshonra.</p> + +<p>—Mas que necessidade tens tu de te arriscares?—perguntou +Julia.—És rico, pódes viver tranquillo; em qualquer parte do mundo achas +a liberdade sem receios, e a independencia das alternativas da politica... +Olha, Venceslau, deixa ficar Portugal aos que o exploram, e vamos viajar.</p> + +<p>—Iremos forçados—disse Venceslau—; mas, por emquanto, não. +Eu hasteei no congresso a bandeira mais odiada dos despotas. Se eu desertar +d'entre os poucos que me seguem, o meu nome ficará infamado de covardia, e a +tua riqueza será a alavanca de ouro com que eu arrazei o honroso edificiosinho +que ha dez annos estou levantando. Não póde ser, minha querida Julia... O teu +amor quer-me desviar d'um perigo onde a tua razão me deve aconselhar que +esteja. Conciliaremos o amor com o dever. Quanto mais direitos eu for +grangeando á gratidão da patria, por mais digno me hei de ter da tua +estima...</p> + +<p>—Mas eu—volveu D. Julia com meiguice—desejo que tu não +penses mais na patria do que em mim, Venceslau. Não me disseste hontem que +Eduardo, desde que era pae, te parecia mais meditativo...<span +class="pn">{240}</span></p> + +<p>—Sim... disse.</p> + +<p>—Pois então, lembra-te que és pae d'aqui a pouco tempo, e que a +patria, se tu faltares aos teus filhos, não t'os ha de indemnisar do amor que +perderam. </p> + +<p>Venceslau beijou a fronte da esposa, e murmurou:</p> + +<p>—Minha filha, quando o alento me esmorecer no cumprimento dos meus +deveres, anima-me tu, dizendo-me que o sacrificio d'um pae na causa santa da +liberdade é um legado precioso a seus filhos. Que elles herdem de ti os bens da +fortuna, e de mim a parte que eu tiver na liberdade da patria, para que se não +envergonhem de ser portuguezes.</p> + +<p>Não era visionario desvairado pela paixão politica Venceslau Taveira.</p> + +<p>Quadraram os disturbios das côrtes, no dia seguinte, aos seus +presentimentos.</p> + +<p>Ventilava-se afogueadamente a questão da recusa de D. Carlota na casa +legislativa. Os liberaes pediam o cumprimento da lei com desabrida virulencia, +provocada pelos murmurios de alguns deputados sequazes das conspirações de +Queluz. Venceslau Taveira, vibrante da eloquencia da justiça, resoluto a pôr +peito aos perigos que lhe ameaçavam a singular coragem em meio dos seus +correligionarios abatidos pelo terror do exilio, dos carceres e dos patibulos, +irrompeu em apostrophes á Junta Apostolica, á facção infame que viera +arrebanhar vilissimos escravos ao gremio da representação nacional.</p> + +<p>N'esta conjunctura, um deputado dilecto da rainha,<span +class="pn">{241}</span> por nome Antonio José da Silva Peixoto, coadjuvado pelo +foliculario José Accursio das Neves, levantaram-se e proromperam em «vivas» á +rainha nossa senhora, e «morras» aos carbonarios, agitando os lenços. Os +membros da sua facção, incitados pela audacia dos dois absolutistas, +conclamaram a rainha absoluta, e tal houve que no tumultuar do alarido vingou +avantajar-se em brados, offerecendo o nome do infante D. Miguel á espectação +dos deputados para quem a desthronisação de D. João <small>VI</small> era a +traça gizada pela rainha.</p> + +<p>Venceslau, interrompido por aquelles brados, perdeu a serenidade do aspecto +que sempre mantivera nas mais degladiadas controversias. Os seus collegas +convisinhos, coevos das formidaveis tempestades de 93, e identificados ás +tradições dos magestosos tribunos da carnificina, disseram que no afuzilar dos +olhos e convulsão vertiginosa de Venceslau havia a colera de Mirabeau. Mas este +juizo inoffensivamente plastico ficou áquem da ambiciosa comparação, quando o +viram correr por entre a camara turbulenta, com duas pistolas aperradas, de +encontro ao grupo onde se bradavam vivas a D. Carlota Joaquina.</p> + +<p>Difficilmente impedido na passagem, os seus amigos deram tempo a que a +facção da rainha se evadisse pela cêrca das Necessidades.</p> + +<p>Serenado o tumulto, Venceslau, descido do impeto da ira, e corrido do acto, +pediu perdão aos seus collegas; mas assim mesmo appellou da sua propria +consciencia, que o accusava, para a justiça dos vindouros; e,<span +class="pn">{242}</span> como, apezar da prostração moral, a alteza da ideia lhe +não fallisse, consta do <em>Diario das Camaras</em> que elle dissera: «aos meus +collegas, que estremeceram por me vêr pistolas engatilhadas, peço que se vão +afazendo a vêr instrumentos de morte, para que não se aterrem quando, vestidos +com a alva de condemnados, se defrontarem com os patibulos.»</p> + +<p>Desde este dia, o nome de Venceslau Taveira foi inscripto na lista dos +votados á morte nos conciliabulos de Queluz.</p> + +<p>Quando o governo descobriu n'aquelle anno a celebrada conspiração da rua +Formosa, entre os papeis encontrados no subterraneo da officina typographica, +estava um com as bazes do projecto revolucionario.</p> + +<p>O artigo 3.º dizia: «Assassinar aquelles entre os membros das côrtes e do +ministerio que são os mais celebres defensores dos direitos nacionaes.»</p> + +<p>O primeiro nome era Venceslau Taveira.<a name="tex2html3" +href="#foot510"><sup>[3]</sup></a></p> + +<p>O conflicto do congresso parecia ter sido apenas um sonho máo no espirito do +deputado, quando entrou no seu escriptorio, onde Julia o esperava +assustadissima. Um sorriso de paz lhe deu elle com o beijo da sua extrema +ternura, e na firmeza de voz e bom concerto das ideias denotava que os +transportes de uma coragem honrosa, depois de o abalarem, lhe repunham a alma +descansada no reclinatorio da consciencia.<span class="pn">{243}</span></p> + +<p>—Fujamos de Portugal!—disse-lhe Julia vivamente.</p> + +<p>—Não fujamos, minha amiga... Jantemos—disse serenamente o +marido.</p> + +<p>E, durante o jantar, perguntou padre Manoel Ferreira:</p> + +<p>—E, se V. S.ª, cego na sua justa ira, matasse o Peixoto ou o +Neves...</p> + +<p>—Ou ambos...—ajuntou Venceslau.</p> + +<p>—Sim, ou ambos... suppomos...</p> + +<p>—Suppomos...</p> + +<p>—Que acontecia?—insistiu o capellão.</p> + +<p>—Que elles estavam a esta hora mortos—respondeu o deputado.</p> + +<p>D. Julia fitou com certo assombro o placido rosto do marido, e disse:</p> + +<p>—Pois tu... eras capaz de matar...</p> + +<p>—E de morrer, minha filha.<span class="pn">{244}<br>{245}</span></p> + +<h1><a name="SECTION000210000000000000000">XX</a></h1> + +<blockquote> + <p>É assim o viver.</p> + + <p class="obra">A<small>LVARES + D'</small>A<small>ZEVEDO.</small>—<em>Obras</em>, tom. + <small>III</small>.</p> +</blockquote> + +<p>Este capitulo abrange o espaço de quatro annos.</p> + +<p>Em 1827, D. Anna Vaz tem tres filhos. Eduardo Pimenta perdeu o emprego com +grave desdouro de sua probidade politica, por ter acompanhado o brigadeiro +Sepulveda ao encontro do infante D. Miguel em Santarem, quando em 1823, José de +Souza Sampayo, depois visconde de Santa Martha, e o conde de Amarante, +acclamaram o principe, e tentaram nomear uma regencia presidida por D. Carlota +de Bourbon.</p> + +<p>Venceslau, por affecto a D. Anna Vaz e ao commendador, quiz reintegrar o +homem a quem chamava ainda amigo, desculpando-lhe a queda com os fumos da +lisonja em que o haviam aturdido as familias da alta nobreza com quem elle se +relacionára, já por parentesco<span class="pn">{246}</span> de sua mulher, já +porque assim cuidava sanear o aleijão de um baixo nascimento. O generoso +fidalgo beirão perdoava esta miseria ao filho do lavrador de S. João de +Nogueira, cujos primeiros amores já denotavam aspirações levantadas.</p> + +<p>Eduardo, porém, rejeitou a valiosa intercessão do amigo, declarando que não +queria nada de constitucionaes nem de absolutistas; que não tinha fé nas +virtudes civicas de quem quer que fosse, nem sacrificaria a sua dignidade nas +aras profanadas de algum idolo. Venceslau sorriu-se áquella negação das +virtudes civicas, e de si para comsigo entendeu que Eduardo era um louco, +subordinado ao influxo d'algum astro funesto.</p> + +<p>Entretanto, o viver do marido de D. Anna Vaz, na sociedade que lhe admirava +o talento, a reconsideração de ideias, e os discursos ora scepticos, ora +enthusiastas; que lhe admirava tambem a figura, aureolada pelo romanticismo da +sua mocidade—o viver de Eduardo Pimenta em meio de espiritos arrogantes, +mas ineptos, era o que as lagrimas de sua mulher davam a entender.</p> + +<p>Eduardo tinha lido os poemas de Lord Byron. Admirava com inveja aquelle +feito e refeito heroe da eterna legenda, onde á volta de um homem fatal se +acatovellam dezenas de mulheres a amal-o, a chorar e a morrerem de amor. O dom +João fervia-lhe nos miolos, aquecido um pouco pela temperatura calida do +sangue, e bastante pelo fogo da phantasia. Isto de phantasia era coisa +pouquissimo vulgar em portuguezes d'aquelle tempo, se elles não haviam +corrigido lá fóra a sua compleição,<span class="pn">{247}</span> prevertendo a +boa indole de frades com que até aquelle tempo toda a gente nascia em +Portugal—indole provavelmente devida á preponderancia que exerciam os +frades no phenomeno das reproducções, psycologicamente fallando.</p> + +<p>Allucinado, pois, pelo seu modêlo poeticamente immoral, Eduardo, com quanto +não immolasse illustres victimas, e já encontrasse muitas sem sacrificadores, +ganhou fama de bem-quisto de senhoras titulares, e realmente era. Contaram-se +n'aquelles annos casos de ciumes palacianos em que elle era o personagem menos +irrisorio; arrufos conjugaes, projectados divorcios, reclusões em severos +claustros, <em>etc.</em>; mas tudo isto eram atoardas que lhe esmaltavam a +reputação.</p> + +<p>Este genero de costumes involvia despezas grandes, a pompa no trajar, os +bailes, a liberalidade no despender em natalicios, o hombrear com os ricos, e +deslumbral-os em lances generosos.</p> + +<p>Em menos, pois, de tres annos, Eduardo sem officio nem aptidão para tornar +lucrativa a sua intelligencia, gastou os quinze mil cruzados do patrimonio e +contrahiu dividas caucionadas pelo futuro dote de sua mulher.</p> + +<p>Em 1827, o commendador Vaz dissera a Venceslau Taveira que os seus netos +chegariam a mendigar, e sua filha, quando elle fechasse os olhos, teria de +vender o leito de sua mãe.</p> + +<p>A estima do marido de Julia por Eduardo Pimenta diminuira proporcionalmente +com os creditos do seu amigo d'outro tempo. O homem austero não podia +desculpar<span class="pn">{248}</span> o vadio que, depois de bandear-se com os +fautores do absolutismo, rejeitára petulantemente o perdão e o emprego, para se +andar a fazer praça escandalosa das serodias verduras de rapaz solteiro, com o +enfatuamento de homem de boas aventuras. Poucas visitas se faziam +reciprocamente; mas d'esta omissão dera o exemplo D. Anna Vaz.</p> + +<p>Ainda assim, Venceslau informado pelo commendador, procurou assiduamente +Eduardo, instando-o a empregar-se, a cahir em si, a cortar relações que o +abysmavam, e a pensar no futuro de seus tres filhinhos, lavados pelas lagrimas +da mãe.</p> + +<p>A commoção do reprehendido parecia sincera, quando elle se prestou a servir +a nação, a quebrar os encantos da sua aziaga estrella, e a restaurar em fim a +honra e a felicidade da sua familia.</p> + +<p>Amiudaram-se então as visitas de D. Anna, instigadas já pelo marido, que a +movêra pela dependencia em que estavam do deputado, já pelo pae que +inteiramente ignorava os despeitos da filha, e por amor d'ella e dos netos lhe +aconselhava acolher-se ao valimento de Venceslau.</p> + +<p>N'este tempo D. Julia tinha dous filhos, ambos meninos, entre tres e cinco +annos. A vida domestica, bem que estrellada pelos dous anjos, parecia-lhe +escura. A pouco e pouco, o marido, cada vez mais enredado na politica, lhe fôra +obrigando suavemente o animo a conformar-se com os deveres de senhora de casa, +e a desligar-se da intimidade dos parentes.<span class="pn">{249}</span></p> + +<p>D. Julia rica, festejada, sedenta de competir em fausto com as damas de mais +voga, reagia surdamente aos affectuosos conselhos de Venceslau. Elle, porém, +com habil descrição, ia cedendo ás menores exigencias, e cortando n'estas até a +reduzir ao orgulho de não fazer nenhumas—orgulho onde se levedam +fermentos de amarissimos resultados.</p> + +<p>Casos politicos de importancia um apenas alterou o monotono, mas agitado, +duello do liberal contra a tyrannia. Em 1824 foi convidado pelo ministro dos +negocios estrangeiros, marquez de Palmella, a ser o secretario particular, o +collaborador dos seus notaveis actos diplomaticos. N'aquelle anno, operou D. +Miguel o movimento de 30 d'abril, que ficou na historia conhecido pela +<em>Abrilada</em>. N'esse mesmo dia foi preso o marquez de Palmella e com elle +o seu secretario, á ordem do infante, por intermedio do intendente Belforte; +mas já no dia 5 de maio o ex-ministro e Venceslau eram soltos, graças ao corpo +diplomatico.</p> + +<p>Repostas as coisas no antigo estado, com a sahida do infante no dia 13, +Venceslau alcançou empregar Eduardo na secretaria da guerra, abonando-lhe a +lealdade, bem que o commendador o quizesse exonerar de tão perigosa fiança.</p> + +<p>N'este em meio, o ar de renovada estima que parecia reatar os corações das +duas senhoras, emborrascou-se outra vez. D. Anna Vaz valia-se de desculpas com +o pae para não seguir o marido a casa de Julia; esta, sem queixar-se ao marido +da ausencia da sua amiga, dizia<span class="pn">{250}</span> que D. Anna era +muito mais affectuosa quando Eduardo carecia de emprego.</p> + +<p>Quaesquer que fossem os juizos de Julia, havia um sinistro esculca, de +carrancudo aspecto, que parecia querer-lh'os escutar no silencio da alma: era o +padre Manoel Ferreira.</p> + +<p>Este previsto sabio andava sobre brazas desde que vira o antipathico Pimenta +frequentar de novo o palacio das Amoreiras, bem que nunca só, nem a horas +desacostumadas, mas sempre acompanhado da esposa, ou quando Venceslau era certo +em casa. Se, relançando a vista ardilosa entre Julia e Eduardo, cuidava ter +colhido um gesto intencional de ruim sentido, a raiva esbravejava-lhe nos +olhos, e as comichões do nariz eram taes que lh'o avermelhavam como irrupção de +bertoeja. Que vira elle, afinal? Dois olhares melancolicos e timidos, duas +almas silenciosas a confidenciarem-se os seus sombrios destinos.</p> + +<p>Ah! mas que dupla vista a do padre!</p> + +<p>No fim d'aquelle anno de 1827, uma creada velha de D. Julia despediu-se da +casa que servira cincoenta e dois annos. A ama forcejou por demovel-a, +interpondo a auctoridade do capellão, cuja confessada era. Baldou-se a +interferencia do padre.</p> + +<p>Sahiu a creada, deixando grandemente suspeitoso o confessor. Que motivo +teria ella para deixar a casa onde já sua mãe havia nascido? Que iria ella +fazer em um cazebre de Campolide, sem parentes, só, no termo da vida e tão +descaroadamente apartada de Julia que se<span class="pn">{251}</span> lhe +creára no colo? Perguntas que o padre fazia ao seu familiar demonio, que lhe +andava negaceando ás cavalleiras de Eduardo.</p> + +<p>Uma manhã, sahiu de casa, e foi a Campolide. Entrou em casa da velha, fechou +a porta, deteve-se duas horas, e, quando sahiu, trazia os olhos humidos, as +faces enrugadas por mais dez annos de velhice, e as pernas trementes, vagarosas +e vergando ao pezo da dôr que lhe empedrára o coração.</p> + +<p>Entrou no seu escriptorio, atirou-se para cima da cama, com a face entre as +mãos, meditou largo espaço; e, afinal, abalado por subita deliberação, subiu á +sala de espera, e mandou pedir á snr.ª D. Julia se fazia favor de descer á sala +do archivo.</p> + +<p>A esposa de Venceslau descorou. Desde que era casada, nunca o padre a +chamára a intender em papeis do archivo. A sahida da creada, e a auctoridade do +confessionario, pareciam dar-lhe horas crueis, denunciadas pela fixidez +averiguadora com que fitava o capellão.</p> + +<p>Desceu a fidalga ao archivo. O padre esperava-a com a mão na chave. Apenas +ella entrou, correu a lingua da fechadura; e, mantendo-se em pé defronte da +senhora, disse:</p> + +<p>—Como eu soubesse que V. Ex.ª estava perdida...</p> + +<p>—Perdida!...—interrompeu D. Julia.</p> + +<p>—Não me interrompa, senhora. Como eu soubesse que V. Ex.ª estava +perdida, consultei a alma de sua virtuosa mãe e de seu honrado pae, +pedindo-lhes que me inspirassem. O milagre de a levantarem do seu abysmo,<span +class="pn">{252}</span> não podiam elles fazer-m'o; porém, fechar esse abysmo +aos olhos de seu marido, isso sim, isso lhes pedi com estas lagrimas que estou +chorando na sua presença...</p> + +<p>—Mas que é?... que vae dizer-me?... que calumnias?—disse +precipitadamente D. Julia, gesticulando uns movimentos de cabeça e braços que +arguiam mais terror que assombro.</p> + +<p>—Não gastemos exclamações, minha senhora. Eu não sou capaz de +accusal-a sem a certeza de que V. Ex.ª é criminosa. Respeito-a na queda, porque +a conheci e amei na pureza dos anjos. Não sou ecco de calumnias. Sou uma das +pessoas que tem o segredo da sua desgraça. As altercações são inuteis, são +extemporaneas. Não percamos tempo. Responda, snr.ª D. Julia: afóra a creada, +que sahiu d'esta casa, e eu que brevemente sahirei, quem sabe esta grande +desgraça? Quem viu aqui entrar, a horas desencontradas de seu marido, esse +ingrato e infame homem? </p> + +<p>—Ninguem...—balbuciou D. Julia, tapando o rosto com as mãos. +Depois, sacudindo a cabeça com impetuosa colera, perguntou:—A quem devo +eu a desgraça? quem fez este casamento?... quem me aconselhou a victimar a +minha liberdade a um homem que me fez envelhecer em contacto com o gelo da sua +alma? Eu não precisava de um sabio, snr. padre Manoel, para ser feliz. +Deixasse-me estar solteira, que eu era virtuosa...</p> + +<p>—Tudo que fiz, minha senhora, V. Ex.ª m'o auctorisou... Não +discutamos... A minha razão perturba-se,<span class="pn">{253}</span> e eu +depois receio que a snr.ª D. Julia não tenha um amigo que a salve. Se a +consciencia me arguir de ter eu sido o agente d'este casamento, e eu não podér +combatel-a, creia que morro de dôr, de vergonha e remorso. Não me diga tal, que +me obriga a ajoelhar diante de seu marido a pedir-lhe perdão de lhe haver dito +que V. Ex.ª havia de ser honrada como sua mãe.</p> + +<p>—Virgem Maria!—exclamou anciosa D. Julia.—Não faça isso... +pedem-lh'o os meus filhos...</p> + +<p>—E não lhe pediram seus filhos que fosse honesta?...—replicou +severamente o capellão.—Ter dois filhos, dois anjos da guarda, dois +amparadores, affectos tão grandes com que encher a sua alma... ter dois +filhos... e resvalar por entre elles á voragem!...</p> + +<p>—Olhe que me despedaça!...—murmurou ella, contorcendo-se, em +postura supplicante.—Lembre-se de meu pae...</p> + +<p>—Seu pae... matal-a-hia... Eu, por mim, choro-a... porque não pude +saber isto um dia antes da sua perdição... não pude salval-a eu... a quem seu +pae a entregou...</p> + +<p>Padre Manoel arquejava, debulhado em pranto, fincando os pulsos na fronte. +</p> + +<p>—V. Ex.ª... a snr.ª D. Julia...—proseguiu elle—aquella +menina que eu adorava... está ahi... polluida... por quem, meu Deus?... Onde +aquelle scelerado veiu continuar as devassidões das alcovas em que achou já +perdidas as mulheres... V. Ex.ª... a esposa<span class="pn">{254}</span> de +Venceslau Taveira... amante do miseravel esposo da sua infeliz amiga D. Anna +Vaz!...</p> + +<p>D. Julia, mortalmente pallida, sentou-se, expedindo um ai gemente, um som +rouco das valvulas do coração, como se o sangue lhe confluisse a torrentes. Não +seria facil decidir se era remorso, se vergonha, se colera: seria tudo a um +tempo.</p> + +<p>Aproximou-se o padre, tomou-lhe a mão fria, e disse-lhe com brandura:</p> + +<p>—Olhe que só Deus é testemunha do que eu lhe disse... Eu hei de sahir +d'este mundo sem a denunciar... Reanime-se, que eu não hei de ser-lhe peor +algoz que a sua propria consciencia... Eu vou sahir d'esta casa... porque a +presença de seu marido, d'hoje em diante, seria para mim o maior tormento... +Não posso encarar aquelle honradissimo homem... vituperado, trahido... e por +quem?... Ó meu Deus—clamou elle pondo as mãos—porque não me déstes +o beneficio da morte antes d'esta horrivel certeza!</p> + +<p>D. Julia soluçava, debatendo-se, ora afogando as faces nas mãos, ora +erguendo-as supplicantes.</p> + +<p>E o padre, contemplando-a n'aquelles desesperados movimentos, disse:</p> + +<p>—Eu cuidei que o crime endurecia mais a coragem para lhe affrontar as +consequencias. Pois nunca previu o remorso? Não conhecia o homem que a +chafurdou na lama das libertinas das suas sordidas proezas? Não o comparou com +seu marido?<span class="pn">{255}</span></p> + +<p>Estas phrases duras e hervadas batiam tão pungentes no peito da atormentada +mulher, que o padre, olhando-a já compassivo, imaginou vêr-lhe no rosto a +lividez cadaverica da mãe que morrêra thysica.</p> + +<p>Acercando-se então d'ella com brandura e lagrimas na voz, continuou:</p> + +<p>—Snr.ª D. Julia, peço-lhe emenda de vida... Não sei que mais possa nem +deva pedir-lhe. Promette-me, senhora, promette nunca mais...</p> + +<p>Foi n'este passo interrompido o padre por um gesto afflicto de Julia.</p> + +<p>No mesmo lanço do rez da casa do archivo, estava o páteo da casa, onde, +n'aquelle instante, soavam uns passos que ella reconheceu.</p> + +<p>Era Venceslau Taveira, que se antecipára duas horas.</p> + +<p>D. Julia subiu celeradamente as escadas, entrou no seu quarto, compoz o +semblante, e cogitava indecisa no que diria ao marido se lhe elle notasse a +desfiguração.</p> + +<p>N'este comenos, entrou elle na ante-camara, chamando-a.</p> + +<p>Ella sahiu, e elle, ao vêl-a, disse-lhe:</p> + +<p>—Choraste?... Então já sabes alguma coisa da pobre Anna Vaz?</p> + +<p>—Não... que é?...</p> + +<p>—Pois não sabes?... porque choraste, filha?</p> + +<p>—Tristeza... dôres de peito... o presentimento da morte...<span +class="pn">{256}</span></p> + +<p>—Ó filha...—disse elle acariciando-a.—Que lembrança!... +Deixei-te alegre, a brincar com os filhos... Que tens tu, Julia?</p> + +<p>—Nada...</p> + +<p>Esta palavra deu nos labios tremulos de Julia um sonido gemente, ao mesmo +tempo que as lagrimas a quatro deslisavam nos cantos da bocca.</p> + +<p>E Venceslau mergulhava uma profunda vista d'alma no abysmo d'onde sahiam +aquellas lagrimas. Tudo trevas.</p> + +<p>—Eu suppuz que a pobre Anna Vaz te escrevêra...—tornou +Venceslau, procurando desassombrar o silencio em que estiveram alguns +segundos.</p> + +<p>—Não...—disse ella, cobrando alento do insuspeito ar do +marido.</p> + +<p>—Recebi este bilhete do commendador, e sahi immediatamente das côrtes. +Lê... Eu t'o leio. «Meu nobre amigo. Vae hoje um inferno n'esta casa. +Romperam-se os diques da prudencia. A minha santa filha, por já não poder com o +martyrio, insurgiu contra o algoz. Sei que o facho d'este incendio, que me +queima o restante da vida, é o ciume; porém, a nobre menina, se eu lhe pergunto +a causa nova d'esta insupportavel affronta—insupportavel em relação +d'outras que soffreu com paciencia—chora, e não me responde. Rogo-lhe, +meu querido Venceslau, amparador do meu chorado Antonio, que o seja tambem da +malfadada irmã. Venha applacar esta feia tormenta que ameaça engulir a vida da +minha infeliz Anna.»<span class="pn">{257}</span></p> + +<p>—Aqui tens a carta—proseguiu Venceslau.—Não quiz lá ir sem +te avisar. Se quizesses ir tambem...</p> + +<p>—Não posso...—disse ella no maior grau de quebranto +moral.—Vae tu... depois me dirás... Vae...</p> + +<p>E apertou-lhe a mão estremecidamente.</p> + +<p>—Tens fogo n'esta mão... acudiu o esposo com enternecido susto.</p> + +<p>—É febre... disse ella, fitando-o piedosamente.<span +class="pn">{258}<br>{259}</span></p> + +<h1><a name="SECTION000220000000000000000">XXI</a></h1> + +<blockquote> + <p>C'est un mort..............................<br> + Que cette horrible fin puisse épurer son âme.</p> + + <p class="obra">P<small>ONROY.</small>—<em>Formes et couleurs.</em></p> +</blockquote> + +<p>Quando Venceslau entrou ao pateo do palacete do commendador, andava elle +passeando no casarão rente da rua, recinto abandonado onde se viam as reliquias +de equipagens, significativas de antiga e extincta opulencia.</p> + +<p>—Nunca o encontrei aqui, meu commendador!—disse o +deputado.—Está no seu museu archeologico... Estas carruagens devem ser as +locomotivas que transponham a ideia velha para fóra das fronteiras, quando a +mandarmos civilisar-se a Argel... Mas não lhe vejo rosto para gracejos... Que +temos? onde estão os ciumosos?</p> + +<p>—Lá em cima, e eu fugi para os não ouvir... Escute... Não ouve chorar +minha filha?... Escute... olhe...</p> + +<p>—Ouço.<span class="pn">{260}</span></p> + +<p>—Vá lá, meu amigo. Estão na salêta proxima do quarto. A sua presença +ha de conter Eduardo, e evitar que a pobre menina seja enxovalhada por algum +insulto de lacaio. Olhe que brados elle está dando em quanto ella chora... Que +verdugo!...</p> + +<p>Venceslau subiu á primeira sala, passou á segunda e entrou n'um longo +corredor que abria na ante-camara de Eduardo. Quando chegou a meio do corredor, +pareceu-lhe ouvir o nome de Julia entre os soluços de D. Anna Vaz; e, ao mesmo +tempo, um estropear de passos rapidos, que lhe levavam para mais longe as vozes +já indistinctas.</p> + +<p>Hesitou se devia atravessar a ante-camara, e seguil-os no interior da casa +ou retroceder; mas os gritos supplicantes da amiga de sua esposa attrahiam-no, +commiserando-o.</p> + +<p>Bosquejemos a parte da casa onde está passando o conflicto.</p> + +<p>A saleta, em que principiou a vigorosa altercação, exacerbada muitas vezes +n'aquelle dia, tem tres portas: uma que abre para o corredor onde está +Venceslau; outra que diz para a alcova onde demoram os leitos dos tres meninos; +e a terceira que leva á camara dos esposos. N'esta camara ha outra porta que +communica para outros repartimentos, por entre os quaes ha escada para um +patim, que dá sahida para o quintal ajardinado. Esta era a serventia regular de +Eduardo, quando recolhia tarde, entrando pela porta do quintal que entestava +com a rua dos Cavalleiros.<span class="pn">{261}</span></p> + +<p>Ao avisinhar da salêta colligiu Venceslau que Eduardo, seguido da esposa, +que talvez o ia retendo em grandes clamores, sahiu do quarto, e evadiu-se pelo +interior da casa, descendo ao quintal para esquivar-se ás importunas lastimas. +</p> + +<p>N'esta acertada conjectura, deliberou Venceslau seguil-os, bem que ainda, ao +entrar na salêta, o contivesse o decoro de atravessar uma alcova de esposos. +</p> + +<p>Durante os breves segundos da perplexidade, reparou em papeis dispersos no +pavimento. Suppoz que eram cartas occasionaes da desordem, talvez colhidas +ardilosamente nas algibeiras do imprevidente marido.</p> + +<p>Venceslau envergonhar-se-hia da sua sombra, se se curvasse a devassar alguma +d'aquellas cartas; mas, sobre uma banqueta que occupava o centro da +ante-camara, estava meio amarrotado um papel escripto, cujos caracteres deram +logo e mais de perto na vista de Venceslau.</p> + +<p>Era lettra de D. Julia.</p> + +<p>Hesitou ainda em lançar mão do papel; mas a particularidade dos signaes +impressos na carta por mão que a enrugasse, estimulou-o a vêr que phrases deram +causa ao phrenesi de Eduardo. Tanto quanto a rapidez de tal juizo consentia, +Venceslau imaginou que o pessimo marido se exasperára, talvez, por ter lido +cartas de compaixão de Julia para a sua mortificada amiga.</p> + +<p>Pegou do papel, distendeu-o, leu a primeira palavra no alto da lauda, alisou +um vinco onde uma lettra parecia desfeita, releu e... vibrou-se todo no +estremecer<span class="pn">{262}</span> dolorosissimo de homem que um subito +ferro encravou pelo peito. A palavra era <em>querido</em>. A lettra final +d'ella não era um <em>a</em>.</p> + +<p>Leu a carta rapido, offegante, respirando a trancos, sopesando o arfar do +peito. Dizia assim:</p> + +<p>«Calcula a minha inquietação, meu E.! Não pude dissuadir a creada... Sahiu, +regeitando todas as minhas dadivas. Foi uma desgraça que ella te visse... Devo +isto ás tuas imprudencias. O que mais me assusta é o padre, que está espantado +com tal sahida. Elle tem sido o confessor d'ella. Se a interrogar no +confessionario, arranca-lhe o segredo. E depois?... que hei de eu fazer?!... +Espero que o padre me não denuncie... mas com que olhos me ficarão espionando +os passos!... Não voltes aqui em quanto eu não te avisar. Vae todas as tardes +ao logar que sabes. Lá irá ter a minha carta; mas, repito, não voltes aqui sem +que eu t'o diga. Prudencia, ouviste? Olha que a situação é muito seria... +Tenho-te dito muitas vezes que o V. é capaz de tudo... Adeus. Cuidado com as +minhas cartas...»</p> + +<p>Venceslau, terrivelmente sereno, depoz o papel sobre a mesa, retrocedeu ao +longo do corredor, e, no fim, parou, escutando passos em uma das salas. A este +tempo já elle ouvia o chorar de D. Anna que tambem retrocedêra para o seu +quarto. O andar, que escutava, era do pae de D. Anna que subira para as salas e +estava esperando o effeito da intervenção do amigo.</p> + +<p>Venceslau, estugando o passo surdamente, passou<span class="pn">{263}</span> +sem rumor na alcatifa da sala de espera, desceu a escada, e sahiu á rua.</p> + +<p>O commendador, entretanto, como não ouvisse vozes, mas sómente o arquejar da +filha, murmurando: «ah! pobres creancinhas!» seguiu o corredor, e foi dar com +ella apanhando do chão as cartas espalhadas.</p> + +<p>—Que papeis são esses?—perguntou o commendador.</p> + +<p>—Nada, meu pae... cartas...</p> + +<p>—O Venceslau sahiu com Eduardo?</p> + +<p>—O Venceslau!—disse ella com espanto.—Onde está elle?!</p> + +<p>—Veiu para aqui... ha de haver cinco minutos... não o viste?</p> + +<p>—Não, meu pae! Elle esteve aqui? aqui? n'esta salêta?—exclamou +Anna.</p> + +<p>—Esteve, sim, filha.</p> + +<p>—E viu estas cartas?—bradou com as mãos afincadas nas fontes.</p> + +<p>—Se viu estas cartas?... Eu sei lá, filha... O Venceslau era incapaz +de ler papeis que estivessem no teu quarto... Mas, se essas cartas são o que eu +entendo, que importaria que as visse?</p> + +<p>—Jesus! Virgem Santa!—volveu D. Anna, enclavinhando os dedos, e +estirando os braços supplicantes para uma imagem da Mãe de Christo.</p> + +<p>—Mas onde está elle?—tornou o velho.—Se não sahiu pelo +quintal, por onde é que foi? Eu estava na sala do meio, e não o vi passar na +sala de espera...<span class="pn">{264}</span></p> + +<p>—Não? não viu?...—perguntou ella precipitando as vozes +acompanhadas de gestos de pavor.</p> + +<p>—Não, menina...</p> + +<p>—Então é que viu as cartas... sabe tudo... sabe tudo...</p> + +<p>—O que?—acudiu o commendador assombrado.</p> + +<p>—Ai! quem fosse procurar Eduardo...—exclamou ella, agitando-se +d'um para outro angulo da salêta—ó meu pae, salve-o, salve-o; mande +procurar meu marido, que Venceslau mata-o... Estas cartas são de Julia...</p> + +<p>—De Julia?!—bradou o velho, encostando-se tremente ao alizar da +porta—De Julia? Julia é amante de teu marido?... Venceslau foi deshonrado +pela mulher?... Oh! não me digas isso, filha!... Tu estás cega pela paixão do +ciume... Deixa-me vêr essas cartas...</p> + +<p>—Não queira vel-as... não queira... Mas, meu pae, olhe que o Venceslau +mata Eduardo... Acuda aos seus netos...</p> + +<p>O commendador fitou na filha os olhos chammejantes de odio, que raiára de +sangue o alvor do spasmo, e murmurou:</p> + +<p>—Se o matar... matou o mais infame dos homens... porque matou o +assassino da felicidade, da honra e do futuro do seu bemfeitor...</p> + +<p>—Mas...—insistiu Anna com as mãos postas—mas eu amo-o... +eu quero que elle viva... fugirei com elle e com os meus filhos para onde o pae +quizer que vamos... Deixe-me ir a mim procural-o...<span +class="pn">{265}</span></p> + +<p>—Não sahirás d'esta casa... Não sei se é sangue, se lodo que te gira +nas veias... Não sahirás d'esta casa, Anna!... e se teu marido aqui voltar, +quem o mata... sou eu!</p> + +<hr class="dotted"> + +<p>Simultaneamente com a prolongada lucta entre o velho inflexivel e a +dilacerada alma d'aquella santa, recebia D. Julia este bilhete do marido:</p> + +<p>«Juliazinha, era uma tormenta de ciumes que deixei abonançada. Não te dê +cuidado. Depois d'estas borrascas, reponta no céo dos amantes a serena +claridade. O ministro mandava um correio procurar-me, quando eu chegava a S. +Roque, já de volta para casa. Tive de retroceder, e sei que tenho tarefa até á +meia noite. Não esperes por mim. Janta. Se eu podér desembaraçar-me, irei; mas +não poderei, porque ha reunião de deputados no ministerio dos negocios +estrangeiros. Adeus, querida. Teu V.»</p> + +<p>D'esta carta, assim placida e amoravel, transluziu-se no animo alvoroçado de +Julia receio e desconfiança.</p> + +<p>Deu-se pressa em escrever com febril agitação. Chamou um lacaio, confidente +unico, e deu-lhe uma carta.</p> + +<p>Eram cinco horas da tarde.</p> + +<p>O lacaio foi encontrar-se com Eduardo Pimenta debaixo dos arcos das +Aguas-livres.</p> + +<p>Deu-lhe a carta, em que Julia concisamente lhe pedia que não a procurasse, +mas lhe escrevesse a referir-lhe os acontecimentos domesticos d'aquelle dia. Á +intimação positiva de lá não ir, nenhuma explicação ajuntava.<span +class="pn">{266}</span> «Elle—concluia a carta—escreveu-me agora, +dizendo-me que só vem á meia noite; mas eu estou muitissimo assustada. Não +venhas.»</p> + +<p>Eduardo pesou as apprehensões de Julia, e não lhes achou gravidade. O creado +esperava alguma resposta vocal.</p> + +<p>—Não digas nada á senhora—ordenou-lhe o generoso +confidente—mas ás dez horas abre-me a porta da cocheira; e, depois que eu +lá estiver, então irás dizer á senhora que eu entrei.</p> + +<p>Dito isto, foi ao Hotel de França, na praça dos Romulares, saboreou os +acepipes do condimentoso jantar, digeriu-os em alegre palestra com os convivas, +conversou das logrativas lorettes de França, das alabastrinas mulheres de +Londres, das morenas de Sevilha, das pallidas de Lisboa, e fez-se ouvir e +invejar dos admiradores de seu espirito e das famosas aventuras.</p> + +<p>Ás nove horas e meia, carregou pela quarta vez o seu cachimbo de procelana e +ouro, apertou a mão dos discipulos e sahiu.</p> + +<p>Ás dez entrou na estrebaria do palacio das Amoreiras, e enviou o recado á +fidalga, quando ella estava no seu quarto contemplando os filhos adormecidos. +</p> + +<p>Por volta das onze, padre Manoel Ferreira, cujos aposentos nivelavam com o +jardim, ouviu que lhe batiam mansamente na vidraça de uma janella. Collou o +ouvido ás portadas interiores, e perguntou assustado quem era.<span +class="pn">{267}</span></p> + +<p>—Abra a janella, padre Manoel—disse Venceslau a meia voz.</p> + +<p>O capellão reconheceu-o, e disse que ía abrir a porta.</p> + +<p>—A porta não... a janella...—insistiu o outro.</p> + +<p>Cumprida a ordem, Venceslau Taveira transpoz o peitoril.</p> + +<p>—Que é isto?! Snr. Venceslau, porque entra d'esta maneira em sua +casa?!—perguntou o padre a tremer de susto.</p> + +<p>—Abra o mais subtilmente que poder.</p> + +<p>E apontava-lhe para a porta de communicação com o pateo onde estava a escada +de serventia para o andar nobre.</p> + +<p>—Agora—disse Venceslau, sahindo—não me siga.</p> + +<p>—Ó snr. Taveira!... onde vae?...—balbuciou o padre.</p> + +<p>—Sabe onde vou?!—inquiriu severamente o marido de Julia.</p> + +<p>—Não, senhor.</p> + +<p>—Então porque se assusta?</p> + +<p>—Estranho isto...</p> + +<p>—Bem. Fique!—respondeu sêccamente.</p> + +<p>Minutos depois, D. Julia, pondo a mão nos labios de Eduardo, segredava-lhe: +</p> + +<p>—Espera... não ouviste nada?...</p> + +<p>—Não...</p> + +<p>—Pareceu-me ouvir uns passos abafados na sala...</p> + +<p>Eduardo fitou o ouvido, e apesar de pallido e enfiado, murmurou:<span +class="pn">{268}</span></p> + +<p>—Não é nada...</p> + +<p>N'este lance, abriu-se a porta da salêta, como se a impellisse um repellão +de vento.</p> + +<p>Entre as hombreiras da porta estava Venceslau com uma pistola empunhada.</p> + +<p>Julia, já de pé, soltou um grito estridulo, e fugiu para o quarto onde +estivera contemplando os filhos.</p> + +<p>Eduardo, ao levantar-se, fêl-o como de um salto de cadaver sacudido pela +electricidade: tão de morto era a amarellidão do seu terror! Ergueu os braços +inteiriçados. É impossivel conjecturar se o impulso d'aquelle movimento de +indefinivel agonia era aggredir ou supplicar. A pederneira da pistola estalejou +na cassoleta. Um dos braços de Eduardo retrahiu-se, e a mão, batendo rija no +lado esquerdo do peito, parecia querer reprezar a vida no ponto onde entrára +uma bala. Rodou meio giro sobre si, amparando a fronte na outra mão; e, +resvalando pela espalda da cadeira onde estivera sentado, cahiu vasquejante. +</p> + +<p>Venceslau atravessou a salêta, e parou no limiar da alcôva.</p> + +<p>Os meninos tinham acordado ao troar do tiro. Estavam sentados na cama, +espavoridos, com os loiros cabellos riçados em anneis, e os olhos spasmodicos, +brilhantes, fitos na mãe que os abraçava, e escondia o rosto entre elles.</p> + +<p>—Não se aterre, senhora!—disse serenamente Venceslau.—Olhe +que não morre... Essas creanças não tem pae... é preciso que tenham mãe... Se +fossem meninas,<span class="pn">{269}</span> se d'essas creanças podessem +fazer-se mulheres, seria misericordioso estrangular as futuras herdeiras da sua +infamia... Viva... peça a esses dous innocentes que a defendem da morte do +remorso... E, se elles algum dia lhe perguntarem pelo pae, diga-lhes que as +mulheres perdidas não sabem quem é o pae de seus filhos...</p> + +<p>O homicida atravessou a salêta, relançando um olhar inexprimivel ao cadaver. +</p> + +<p>Quando sahia, viu o padre, que difficilmente se tinha em pé, com as mãos +postas para elle.</p> + +<p>—Snr. padre Manoel—disse o marido de Julia—tenha a bondade +de procurar ámanhã no Limoeiro o assassino Venceslau Taveira.<span +class="pn">{270}<br>{271}</span></p> + +<h1><a name="SECTION000230000000000000000">XXII</a></h1> + +<blockquote> + <p>Seule, elle reste assise, et son front sans couleur<br> + Du remords qui s'approche a dejà la pâleur.</p> + + <p class="obra">A. <small>DE </small>V<small>IGNY.</small>—<em>Poesies.</em></p> +</blockquote> + +<p>Venceslau esperou o diluculo do dia seguinte, nas lages do Caes das Columnas +onde a ventania do mar, encrespando o Tejo n'aquella noite de novembro, +borrifava aguaceiros glaciaes.</p> + +<p>Mas elle, enroupado na sua febre, sentia refrigerar-se-lhe a fronte, se os +pegões de vento lh'a roçavam, irriçando-lhe os cabellos.</p> + +<p>Ás vezes, n'aquella treva exterior, relampagueava um sulco de luz. E elle, +ao clarão sulphuroso do corisco, via um cadaver boiando á flor da onda, e então +era um rir asperrimo do louco—a epilepsia dos beiços onde espumava o +rancor; e, logo depois, chorava, se, ao lampejo alvacento d'outra fulguração, +via um berço com<span class="pn">{272}</span> duas creanças queridas, +acorrentado no esquife de uma mulher, que a voragem ora sorvia, ora regolphava +aos clarões da procella.</p> + +<p>Não meditava, não comparava, não carpia os bens da honra perdidos, nem se +confrangia das punhaladas do coração. Era a agonia estupida.</p> + +<p>Os syndicos da alma, quando se demoram a descrevel-a n'aquella impenetravel +escuridão, illudem-nos. Nós não sabemos graduar o frio e o fogo d'esses +infernos. Os que passaram por ahi, não sabem dizer o que viram. A fantasia dos +que lá não foram, por mais calcinadas que lhe flammegem as imagens, apenas +vingará dar-nos em sombra as vascas do corpo que se esfacella; as da alma, não. +</p> + +<p>Á primeira luz da manhã, Venceslau parecia ir caminho da casa onde deixára +um cadaver. Não ía. Parou na travessa do Secretario da guerra, onde morava o +corregedor do crime José Antonio da Silva Pedroza, seu companheiro de +emigração.</p> + +<p>Fez-se annunciar a tempo que o magistrado ainda dormia. Não o attenderam os +creados que o não conheciam. Sentou-se no escabello do pateo, esperando. Mais +tarde entrou um official de justiça que conheceu o grande orador, o rico +fidalgo das Amoreiras. Cortejou-o reverentemente, e foi acordar o corregedor, +dizendo-lhe que o conselheiro, official-maior da secretaria dos negocios +estrangeiros, o esperava no pateo desde o romper da manhã.</p> + +<p>O magistrado, erguendo-se em inquieta expectação,<span +class="pn">{273}</span> foi recebel-o á sala, e fez pé atraz ao vêr-lhe o +transtorno das feições.</p> + +<p>—V. S.ª a estas horas aqui?... grande caso!... Ha revolta?...</p> + +<p>—Snr. Pedroza—disse Venceslau.—Vi um homem na ante-camara +de minha mulher. Matei-o. Não sei se era o crime que o levou alli, se a +intenção do crime. Matei-o. Eu era amigo d'este homem, amigo de dezeseis annos, +valedor nas suas miserias, consolador nas suas lagrimas. Matei-o, porque o +tinha amado como os infelizes bons amam os infelizes bons e máos.</p> + +<p>—Snr. conselheiro—disse o corregedor.—Nós fômos +companheiros no desterro. V. S.ª tinha dois amigos: um era Antonio Vaz que lhe +morreu nos braços; o outro era...</p> + +<p>—Matei esse...—atalhou o homicida.</p> + +<p>—Bem morto...—murmurou o juiz.</p> + +<p>—A justiça me julgará.</p> + +<p>—Está julgado; mas fuja... cá o livraremos.</p> + +<p>—Não fujo. Dê-me V. S.ª um mandado de prisão para me eu apresentar ao +carcereiro. Desde o momento que me accusei ao executor da lei, estou preso.</p> + +<p>O corregedor abraçou-o, dando livre curso ás lagrimas.</p> + +<p>Como não tivesse áquella hora escrivão que lavrasse o mandado, escreveu ao +carcereiro, enviando-lhe o preso que deveria ser hospedado em sua casa.</p> + +<p>N'aquelle tempo os ministros criminaes podiam ter<span +class="pn">{274}</span> d'estes rasgos, sem receio que a imprensa lhes +lembrasse a egualdade dos criminosos perante a lei.</p> + +<p>Em quanto o preso seguia só para o Limoeiro, o corregedor mandava lavrar +auto, e entregar o cadaver á viuva, ou ao coveiro da mais proxima egreja.</p> + +<p>Quando Venceslau chegou ao pateo da cadeia, já lá estava o padre Manoel +Ferreira.</p> + +<p>O réo apertou-lhe a mão silenciosamente, e enviou ao carcereiro a carta.</p> + +<p>Acudiu logo o funccionario a conduzil-o aos seus aposentos.</p> + +<p>—Onde é o meu quarto?—perguntou o preso.</p> + +<p>—É toda a minha casa, snr. conselheiro.</p> + +<p>—Não lh'a acceito, mas muito grato lhe fico. Se me quer favorecer, +dê-me um quarto, onde eu esteja sósinho.</p> + +<p>—Ninguem virá incommodar V. S.ª sem sua ordem.</p> + +<p>O carcereiro sahiu da confortavel salêta onde ficaram o preso e o capellão. +</p> + +<p>Assim que ficaram a sós, o padre apertou-o contra o peito que lhe rebentava +em lagrimas.</p> + +<p>Venceslau não pôde reter as suas; porém, se o padre queria abrir ensejo de +conversarem sobre os successos d'aquella noite, era estorvado por um gesto +afflicto.</p> + +<p>Não obstante, o capellão pôde dizer que D. Julia tinha sahido ás duas horas +da manhã com os filhos para a sua quinta da Ericeira, e que não deixára ordem +nenhuma a respeito da casa.<span class="pn">{275}</span></p> + +<p>—De mim não tem ordens a receber, snr. padre Manoel—acudiu +Venceslau.</p> + +<p>—Pois de quem?</p> + +<p>—Essa pergunta diz mal com a sua provada honra. Na casa, onde V. S.ª é +capellão, deixei uns poucos de livros, que receberei, porque são os utensilios +do meu pão de cada dia. Recebel-os-hei porque sou pobre; e porque a Providencia +me ha de defender com elles a razão, e corroborar a honra.</p> + +<p>—Mas os seus filhos...—balbuciou o padre.</p> + +<p>—Silencio!—interrompeu Venceslau.—Por piedade, calle-se... +e deixe-me! Que novo inferno me vem trazer aqui!... <em>Meus filhos!...</em> +Filhos d'ella, sim, padre! filhos da mulher a quem eu deixei um cadaver, sobre +o qual, ella... e elles... podem rezar suffragios por alma de... seu pae!</p> + +<p>—Oh! por Deus!... Essa suspeita é horrenda... e injusta!...</p> + +<p>—Basta!—bradou Venceslau.—Vá, snr. padre Manoel, que me +está despedaçando...</p> + +<p>E levou-o até á porta impellindo-o com quanta brandura cabia na delicadeza, +incompativel com o arrebatamento.</p> + +<p>O padre foi encontrar a justiça no palacio das Amoreiras. Os aguazís e +visinhos devassavam a alcova de Julia, os leitos, os vestidos em desalinho nos +cabides, a guarda-roupa estofada de setins e velludos, as roupas brancas das +creancinhas, os sapatos da fidalga com as<span class="pn">{276}</span> fitas de +rojo, e alli á beira de tudo isto, que respirava a felicidade conjugal, as +delicias da intimidade, estava um cadaver rôxo, nú para o exame, com uma chaga +escalavrada entre a quarta e quinta costella, e uns meandros de sangue +denegrido a serpejarem-lhe peito abaixo até á cintura.</p> + +<p>D'ahi a pouco parou a sege funeraria que devia conduzir a tumba a casa da +viuva. Era acompanhada por seis homens de crepes, a pé, com os cirios apagados +pelas rajadas do vento.</p> + +<p>Padre Manoel perguntou ao escudeiro do commendador qual era a situação de D. +Anna Vaz.</p> + +<p>—Está fechada com os filhos e com o snr. commendador—respondeu o +escudeiro.—Ouvi chorar os meninos, mas ella não na ouvi. A aia disse-me +que a senhora morre.</p> + +<hr class="dotted"> + +<p><span class="pn">{277}</span></p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p>Todos os homens assignalados por talento e encargos publicos procuraram o +preso. No primeiro dia, Venceslau, sem força para reagir, recebeu-os. A visita +era silenciosa, funeral, como a dos que vão desanojar um viuvo extremoso. O +encarcerado apenas chorou nos braços de um homem que lhe disse: «Dou-te os +parabens, porque a não mataste. A tua condemnação maior, e talvez unica, +ser-te-hia haver morto a mulher, que amaste tanto.» Então, sim, chorou. O homem +que disse aquellas palavras, tão penetrativas aos abysmos do coração, chorava, +quando m'as repetia, quarenta e um annos depois. Era o tenente de cavallaria, +que em 1868, se chamava o general Pedro da Silva, a quem devo o titulo d'este +livro.</p> + +<p>E, se bem me recordo, o general proseguiu n'este theor, referindo-se á epoca +do encarceramento:<span class="pn">{278}</span></p> + +<p>«O padre Manoel Ferreira e eu eramos as unicas pessoas recebidas no quarto +de Venceslau, o n.º 6 do ultimo andar, onde, n'aquelle tempo se lia ainda +aberto no alisar de uma porta o nome de Bocage que alli estivera preso por +atheu. O padre Manoel Ferreira, não ousava proferir o nome de Julia; mas +particularmente me contou a mim que ella na madrugada do dia seguinte á grande +desgraça, soffrêra uma febre cerebral, indo na sege, caminho da Ericeira. E +ajuntou, nas diversas vezes que a tal respeito conversamos, que a doença de +peito com successivas hemorragias, ia tão adiantada que, na opinião do medico, +os tecidos pulmonares estavam dilacerados. Pedia-me então o padre que fosse eu +preparando Venceslau para dispôr dos filhos, logo que ella expirasse.</p> + +<p>«Ora eu evitava quanto podia fallar em creanças, porque o meu amigo +reconcentrava-se; e, se as lagrimas o não desabafavam, a dôr prostrava-o por +tal maneira que fazia recear a loucura. Os filhos do carcereiro visitavam-no. +Elle acariciava-os com uns carinhos tão doces e ao mesmo tempo tão angustiados, +que eu tive de pedir ao pae dos pequeninos que os prohibisse de ir ao quarto do +preso.</p> + +<p>«Venceslau era indifferente ao processo; mas a justiça, independente de +solicitações, andou tão pressurosa nos seus deveres, que em meado de +janeiro—mez e meio depois do delicto—o réo foi julgado e +absolvido.</p> + +<p>Á sua entrada no tribunal fez-se um rumor de compadecido assombro. +Venceslau, que então contava trinta<span class="pn">{279}</span> e sete annos, +tinha encanecido. Os sulcos da velhice, abertos pelas lagrimas, arrugavam-lhe o +rosto, cujas feições pareciam estar como atrophiadas, paradas, immoveis +d'aquelle sombrio marasmo da demencia estupida e morta.</p> + +<p>«Ao sahir do carcere, entrou na carruagem do marquez de Palmella, que então +era nosso ministro em Londres, e de lá providenciára em favor do seu +intelligente secretario e collaborador no ministerio dos negocios estrangeiros. +Por conselho dos medicos, levamol-o para a quinta do marquez, no Lumiar, onde +eu passei com elle as horas vagas do serviço militar, até fevereiro do seguinte +anno de 1828, em que chegou D. Miguel.</p> + +<p>«Estavamos em uma sala triste por tarde tenebrosa de janeiro, quando chegou +padre Manoel Ferreira, e me chamou de parte, para me dizer entre soluços que a +infeliz D. Julia tinha morrido, pouco depois que em confissão lhe jurára pelo +futuro da sua alma, e na presença da sagrada Eucharistia, que Venceslau era o +pae dos seus filhinhos.</p> + +<p>«—E onde estão os meninos?—perguntei eu ao padre.</p> + +<p>«—Deixei-os entregues ás suas amas, e venho saber que destino devo +dar-lhes.</p> + +<p>«—O snr. padre Manoel—disse eu—tem n'este lance a uncção +religiosa que requer semelhante revelação. Revista-se de animo, e diga-lh'o, +porque é inevitavel avisal-o, e não póde espaçar-se a noticia.</p> + +<p>«O padre entrou á sala onde Venceslau, ao pé do<span class="pn">{280}</span> +fogão, parecia amolentado n'um lethargico dormir em que passava os dias e as +noites, como se o cerebro, a pouco e pouco, se estivesse repassando da +narcotisação da morte.</p> + +<p>«O padre apertou-lhe a mão, espertou-o, e quedou-se longo espaço a +contemplal-o, até que Venceslau lhe disse:</p> + +<p>«—Porque chora, padre Manoel?</p> + +<p>«—Choro por seus filhos...</p> + +<p>«—Não venha ensopar mais fel na esponja...—murmurou Taveira.</p> + +<p>«—Venho pedir-lhe que consinta que seus filhos o vejam. As creançinhas +já não tem mãe. A snr.ª D. Julia é morta.</p> + +<p>Venceslau ergueu-se amparado nos braços do capellão, encarou-o muito a fito, +e tartamudeou:</p> + +<p>«—Que diz? morta?...</p> + +<p>«—Rendeu o espirito a Deus, ás duas horas da manhã, na sua quinta da +Ericeira. Quando o vigario lhe ministrava a extrema-uncção, a moribunda +chamou-me, e, pondo as mãos nas cabeças de seus filhos, disse-me: «Juro-lhe, na +presença de Deus, onde vou dar contas da minha vida, que Venceslau é o pae +d'estes dous innocentinhos, que vão ficar sem mãe.» Duas horas depois, estava +no tribunal divino.</p> + +<p>Venceslau inclinou a fronte ao peito do padre, e murmurou: «perdôa-lhe, ó +justiça divina!...»<span class="pn">{281}</span></p> + +<h1><a name="SECTION000240000000000000000">XXIII</a></h1> + +<blockquote> + <p>Do ferro o peito atravessado tinha<br> + De que o sangue ainda fresco lhe manava.</p> + + <p class="obra">G<small>ABRIEL </small>P. <small>DE + </small>C<small>ASTRO.</small>—<em>Ulyssea.</em></p> +</blockquote> + +<p>Os amigos do marquez de Palmella compelliram Venceslau Taveira a sahir para +Londres, quando os primeiros actos precursores do absolutismo deram rebate á +emigração dos liberaes mais expostos ao odio.</p> + +<p>Sabia-se que o fogoso deputado era, sem impedimento da sua queda, +rancorosamente visto pelos realistas, que lhe sobrepunham aos delictos de +liberal a sobrecarga de assassino.</p> + +<p>A vasta parentella da viuva de Eduardo Pimenta conjurára em vingar a +inconsolavel senhora, inflexivel contra o homem, que lhe matára o marido, e +deixára com vida a mulher em cujo quarto o encontrára. N'esta<span +class="pn">{282}</span> conjuração o commendador Vaz era de todo estranho. +Desde a hora em que a tumba do genro entrára em casa, o velho sahira com os +netos para o Riba-Tejo, deixando a filha entregue aos parentes.</p> + +<p>Venceslau, porém, resistira ás insinuações dos amigos, até ao momento em que +lhe figuraram os filhos trajando lucto por seu pae, morto no patibulo. +Levaram-no, pois, á deliberação de exilar-se, entregando os meninos a padre +Manoel Ferreira, depois de os haver tido comsigo um mez, na quinta do Lumiar. +</p> + +<p>E, como o padre lhe perguntasse por que via as remessas de dinheiro haviam +de ser feitas para Londres, Venceslau respondeu que todos os haveres de D. +Julia eram dos filhos, e elle nada receberia do patrimonio das creanças.</p> + +<p>Expatriou-se, na vespera do dia em que era procurado á ordem de José Antonio +de Oliveira Leite Barros, aquelle celebrado conde de Basto, que se mascarrou de +sangue para dar uns longes de semelhança com o marquez de Pombal, injuriando-o. +</p> + +<p>A intelligencia de Venceslau Taveira, durante os quatro annos de exilio, +quedou-se no torpor esteril d'onde nunca mais resurgiu. Espirito e coração +haviam sido fulminados da mesma morte. O marquez de Palmella, sentando-o á sua +mesa, e forçando-o a vestir-se da sua guarda roupa, venerava-o mais que +n'aquelles annos em que o consultava nos casos melindrosos da sua missão +diplomatica. Se ás vezes, em signal de preito<span class="pn">{283}</span> a um +talento apagado pelas lagrimas, o convidava a pensar em perigosas conjuncturas +diplomaticas, Venceslau entrava-se d'uma tristeza consternadora, e dizia:</p> + +<p>—Perdido... tudo negro n'este pobre espirito...</p> + +<p>E era deploravel no convencimento da sua inutilidade. Pedia a Deus que lhe +apagasse a luz, que o queimava, sem lhe alumiar a razão escurecida.</p> + +<p>Em 1832 despediu-se do marquez e alistou-se na expedição de D. Pedro +<small>IV</small>.</p> + +<p>Desembarcou no Mindello, vestiu a farda de simples soldado, entrou nas +principaes batalhas, e de quasi todas sahiu ferido.</p> + +<p>O governo do Porto reintegrou-o no seu antigo posto de official maior de +secretaria, cujo serviço lhe era penoso, porque o cansaço, á menor applicação, +lhe abastecia as trevas do entendimento.</p> + +<p>Levantado o cêrco foi para Lisboa, e avisou o padre Manoel, de quem, a +grandes intervalos, recebia cartas em nome supposto.</p> + +<p>O filho mais velho tinha então onze annos e o outro nove. Eram ambos +educados no Collegio dos Nobres, e denotavam dotes de rara capacidade.</p> + +<p>O padre apresentou ao official maior as contas da sua administração, +dando-lhe a guardar alguns contos de reis excedentes ás despezas. Venceslau +rejeitou o deposito, insistindo em declinar de si a minima interferencia na +herança de seus filhos.</p> + +<p>Indagou da existencia de D. Anna Vaz. Disse-lhe<span class="pn">{284}</span> +o padre que o commendador era fallecido; que os credores de Eduardo Pimenta +haviam penhorado as duas quintas e palacete do patrimonio da viuva, e que esta +se acolhêra ao convento da Encarnação, onde vivia pobremente. Quanto aos tres +filhos alguns parentes se haviam encarregado de os educar.</p> + +<p>O governo constituido mandou pagar ao conselheiro official maior os +ordenados suspensos durante a emigração. Recusou-os.</p> + +<p>Habitava um quarto andar na rua da Rosa das Partilhas, e alimentava-se d'uma +taverna que occupava os baixos da casa. E, como os remanescentes do seu +ordenado abastavam para vida mais desafogada, elle enviava mensalmente uma +quantia ao convento da Encarnação, mediante padre Manoel Ferreira, que não era +todavia o portador da esmola. O capellão do mosteiro, adestrado por conselho do +outro, dava o dinheiro a D. Anna Vaz, dizendo-lhe que uma illustre dama, que a +conhecêra na abastança, lhe pedia licença para a soccorrer em tão honrada +quanto penosa viuvez.</p> + +<p>Em 1834, a cholera-morbus entrou no Collegio dos Nobres. Venceslau ordenou +ao padre, administrador da casa de seus filhos, que os transferisse para o seu +palacio das Amoreiras. Ao mesmo tempo, o contagio feria tambem o pae. Padre +Manoel achou-o no leito, quando lhe levava nova de ser fallecido um filho. +Chorou, mas enguliu o segredo nas lagrimas. O enfermo disse-lhe então +serenamente:<span class="pn">{285}</span></p> + +<p>—Posso morrer; os atacados n'este predio têm morrido todos. Levo +saudades dos meus filhos;... mas deixo-lh'os. Nunca lhes conte a historia de +sua mãe. </p> + +<p>E o padre a ouvil-o, e a estancar nos olhos o sangue do coração!</p> + +<p>Quando lá voltou no dia seguinte, encontrou Venceslau livre de perigo; mas +como era já de dois gumes o ferro com que devia cortar-lhe os fios da vida, +calou-se ainda. O segundo filho estava moribundo.</p> + +<p>Um dia, Venceslau, já convalescente, disse ao padre que lhe levasse os +filhos ao Campo Grande, que os queria vêr.</p> + +<p>—Não m'os conduza aqui—accrescentou elle—porque ainda ha +colericos n'este predio.</p> + +<p>E o padre, cahindo em joelhos, poz as mãos, e exclamou:</p> + +<p>—Coragem, senhor!</p> + +<p>—Que vae dizer-me, padre Manoel?</p> + +<p>—Que os seus filhos...</p> + +<p>—Morreram?</p> + +<p>—Estão no céo, pedindo a Nosso Senhor Jesus Christo que lhes dê a alma +de seu pae.</p> + +<p>Venceslau perdeu o alento.</p> + +<p>Era a primeira vez que aquella forte alma se escondia por largo espaço nas +trevas da morte.</p> + +<p>Quando recuperou os sentidos, e apalpou a realidade medonha da sua vida, +inspirou aos amigos, que o rodeavam, o receio da loucura.</p> + +<p>Um d'aquelles amigos era o presidente de ministros<span +class="pn">{286}</span> duque de Palmella, que o levantou nos braços, e o +amparou até o assentar na sua carruagem.</p> + +<p>Depois, o anjo da piedade beijou-lhe as palpebras. As lagrimas golpharam a +torrentes; mas a luz dos olhos sahiu diluida n'ellas. Venceslau aos quarenta e +dous annos estava quasi cego.</p> + +<p>E viveu!</p> + +<p>Vivia em 1867 n'aquella casa triste da charneca de Odivellas, para onde fôra +depois que o duque de Palmella fallecêra.</p> + +<p>E vivia então pobrissimo, porque a grande riqueza em bens livres que herdára +de seus filhos, mandára entregar aos herdeiros de sua mulher; e a maior parte +de seus ordenados de official-maior aposentado era repartida pelos filhos de D. +Anna Vaz, já morta áquelle tempo no mosteiro da Encarnação, alanciada em todas +as fibras do coração de esposa, de filha e de mãe, porque a morte apiedou-se +d'ella, só depois que o opprobrio dos filhos lhe deu ao esparto da garganta o +derradeiro aperto.<span class="pn">{287}</span></p> + +<h1><a name="SECTION000250000000000000000">CONCLUSÃO</a></h1> + +<h2><a name="SECTION000251000000000000000">CARTA DE LUIZ DA SILVA</a> </h2> + +<p>«Ha cinco annos que meu tio te referiu a historia do conselheiro da +azinhaga.</p> + +<p>«Nos raros livros, que apparecem com o teu nome, não tenho encontrado o caso +triste.</p> + +<p>«Se a opulencia, adquirida nas lettras, te não remiu da galé de escriptor +portuguez, conta a historia de Venceslau.</p> + +<p>«Esperarias que elle morresse para melhor te inspirares no silencio do +tumulo d'aquelle calcinado coração?</p> + +<p>«Morreu. Podes afoitamente levantar-lhe o sudario da face morta, e +mostral-o.</p> + +<p>«Se lhe queres vêr a sepultura, vae á casa onde elle nasceu, ahi nos +arrabaldes de Lamego.</p> + +<p>«Morreu rico. Em 1868, succedeu na herança do irmão morgado, realista +inflexivel que nunca lhe perdoára a loucura de trocar o habito de benedictino +pela<span class="pn">{288}</span> fardeta de voluntario da Rainha no cêrco do +Porto. Colhido de sobresalto pela morte, não teve tempo de desvincular os bens +e dal-os ao Papa.</p> + +<p>«Venceslau sahiu da casa, onde esperava morrer n'aquella gandra arida onde o +viste.</p> + +<p>«Levou-o o desejo de fechar os olhos onde a sua estrella funesta lh'os +abrira.</p> + +<p>«Viveu lá seis mezes.</p> + +<p>«Legou importantes bens de raiz e oiro em barda que encontrou amuado nos +velhos contadores de seus avós.</p> + +<p>«Os seus herdeiros foram os tres filhos de D. Anna Vaz. No testamento não +nomeia o nome do marido d'aquella senhora.</p> + +<p>«Um dos filhos está em Africa cumprindo degredo por crime de morte na pessoa +d'um cocheiro que apunhalou em um latibulo de jogadores de esquineta. O +miseravel, apezar do secreto amparo que lhe dava Venceslau, tinha cahido até +áquella paragem.</p> + +<p>«O outro filho de Eduardo Pimenta, depois de ter sido expulso com ignominia +d'um logar de confiança que o conselheiro indirectamente lhe impetrára, estava +marcador de bilhar no Café-Grego.</p> + +<p>«A menina vivia de esmolas no mosteiro onde falleceu a mãe.</p> + +<p>«Suspeito que a herança vae cahir nas fauces do dragão que sorveu todos os +personagens da tua inedita historia.</p> + +<p>«Hontem vi o marcador de bilhar, com os bigodes<span class="pn">{289}</span> +pintados, guiando dois alazões, que tiravam um char-à-bancs, em que íam +reclinadas e retrançadas de serpejantes cabelleiras tres mulheres d'aquella +especie ephemera de borboletas que tem uma segunda crisalida nos amphitheatros +dos hospitaes.</p> + +<p>«Ouvi dizer que a reclusa da Encarnação, senhora de quarenta e nove annos, é +pretendida d'um major reformado.</p> + +<p>«O outro herdeiro, que está em Moçambique, se tiver juizo, em recebendo a +herança, levanta-se com o vice-reinado de Africa.</p> + +<p>«Se estas novas achêgas podem ser argamassa para mais um capitulo do teu +livro, ahi as tens.</p> + +<p>«Não me esqueça satisfazer uma pergunta, que me fizeste em 1868.</p> + +<p>«Padre Manoel Ferreira morreu em 1835. Os actuaes possuidores dos grandes +haveres de D. Julia de Miranda contam que o padre, depois de lhes entregar a +herança, andára abraçando alguns moveis d'aquella casa onde vivera cincoenta +annos, e chorára muito curvado sobre a cadeira onde costumava sentar-se D. +Julia. Depois pedira que lhe déssem o leito onde haviam nascido e morrido os +dous meninos, e o levou comsigo, e o queimára. Os herdeiros de D. Julia riem +d'esta excentricidade. Eu vi no fundo da nobre alma do padre, a significação +d'aquelle aniquilamento. As lagrimas, que solemnisaram aquelle devoto +sacrificio do ancião, foram as ultimas. Foi a Odivellas, beijou os olhos +apagados<span class="pn">{290}</span> de Venceslau, voltou para os parentes que +o acolheram, e finou-se. Adeus.»</p> + +<hr style="width: 30%;"> + +<p>Qual foi o intuito do general Pedro da Silva quando me pediu que denominasse +este romance L<small>IVRO DE </small>C<small>ONSOLAÇÃO</small>?</p> + +<p>Foi, como se me dissesse:</p> + +<p>«Raro desgraçado haverá ahi a quem se não deparem, no seu livro, infortunios +que lhe despontem os espinhos de angustias menores.»</p> + +<p>As supremas felicidades desta vida sabe a gente gradual-as: são poucas, e +ficam muito áquem do desejo. Mas as escaleiras da desgraça são tantas e tão +avantajadas á fantasia das mais ardentes e requeimadas almas, que não ha +medil-as, nem descer a sonda ao ultimo abysmo.</p> + +<p>Bemdito seja Deus, que nos ha dado o consolador egoismo de ouvir muito +gemido, muito desesperar, muito blasphemar de infelizes á volta de nós.</p> + +<p> </p> + +<p style="text-align:center;">FIM.</p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<div class="rodape"> +<p><a name="foot508" href="#tex2html1"><sup>[1]</sup></a> <em>Memorias da vida +de José Liberato Freire de Carvalho.</em> Lisboa, 1855, pag. 94 e seguintes.</p> + +<p><a name="foot509" href="#tex2html2"><sup>[2]</sup></a> Esta resposta é +trasladada de um volume de manuscriptos estimaveis que pertenceu ao fallecido +bibliographo o desembargador Thomaz Norton. Na folha de guarda do livro +escreveu o citado possuidor o seguinte: <em>Theotonio José Maria de Queiroz, +penultimo ministro da Congregação de Oliveira pertencente aos padres +Congregados. Morreu de edade de 84 annos, e ainda lia e escrevia sem oculos. +Norton.</em> O collector rubricou a collecção em 1811.</p> + +<p><a name="foot510" href="#tex2html3"><sup>[3]</sup></a> Veja <em>Os +Portuguezes e os factos</em>. Londres, 1833, p. 39.</p> +</div> +</div> +</div> + + + + + + + + +<pre> + + + + + +End of Project Gutenberg's Livro de Consolação, by Camilo Castelo Branco + +*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK LIVRO DE CONSOLAÇÃO *** + +***** This file should be named 34756-h.htm or 34756-h.zip ***** +This and all associated files of various formats will be found in: + https://www.gutenberg.org/3/4/7/5/34756/ + +Produced by Pedro Saborano and the Online Distributed +Proofreading Team at https://www.pgdp.net (This book was +produced from scanned images of public domain material +from the Google Print project.) + + +Updated editions will replace the previous one--the old editions +will be renamed. + +Creating the works from public domain print editions means that no +one owns a United States copyright in these works, so the Foundation +(and you!) can copy and distribute it in the United States without +permission and without paying copyright royalties. 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