summaryrefslogtreecommitdiff
path: root/34756-h
diff options
context:
space:
mode:
Diffstat (limited to '34756-h')
-rw-r--r--34756-h/34756-h.htm7719
1 files changed, 7719 insertions, 0 deletions
diff --git a/34756-h/34756-h.htm b/34756-h/34756-h.htm
new file mode 100644
index 0000000..58f2b46
--- /dev/null
+++ b/34756-h/34756-h.htm
@@ -0,0 +1,7719 @@
+<!DOCTYPE HTML PUBLIC "-//W3C//DTD HTML 4.01 Transitional//EN" "http://www.w3.org/TR/html4/loose.dtd">
+<html>
+<head>
+ <title>Livro de Consolação, por Camilo Castelo Branco</title>
+ <meta name="Author" content="Camilo Castelo Branco">
+ <meta name="Edition" content="Porto: Viúva Moré Editora, 1873.">
+ <meta http-equiv="content-type" content="text/html; charset=iso-8859-15">
+ <style type="text/css">
+ body{margin-left: 10%;
+ margin-right: 10%;
+ }
+ .pn {
+ text-indent: 0em;
+ text-decoration: none;
+ position: absolute;
+ left: 92%;
+ font-size: smaller;
+ text-align: right;
+ color: silver;
+ }
+ .capa {
+ border: solid 2px #000;
+ border-bottom: solid 5px #000;
+ border-right: solid 5px #000;
+ text-align: center;
+ padding: 1em;
+ }
+ .capa blockquote {
+ text-align: justify;
+ font-size: 0.7em;
+ margin-left: 30%;
+ }
+ p.obra {margin-left: 6em; text-indent: -3em;}
+ #corpo p{text-align: justify; text-indent: 1.5em;}
+ h1, h2, h3, h4 {text-align: center; margin-top: 2em;}
+ h2 {text-align: center; margin-bottom: 2em;}
+ #corpo p.sinopse {margin: 2em; font-size: small; text-indent: -2em;}
+ #corpo p.ni {text-indent: 0;}
+ #corpo p.centrado {text-indent: 0; text-align: center;}
+ #corpo blockquote p {text-indent: 0;}
+ #corpo p.assin {text-indent: 0; text-align: right; margin-right: 2em;}
+ #corpo p.obra {margin-left: 6em; text-indent: -3em;}
+ p.centrado {text-indent: 0; text-align: center;}
+ hr.dotted {border: 0; border-bottom: dotted 2px #000;}
+ hr {border: 0; border-bottom: solid 2px #000;}
+ blockquote {margin-left: 40%; font-size: 0.7em;}
+ #corpo .ilustracao p {text-align: center; font-size: small;}
+ a {text-decoration: none;}
+ .rodape {
+ font-size: 0.7em;
+ color: #000;
+ margin-left: 2em;
+ margin-right: 2em;
+ }
+ #corpo .rodape p {text-indent: 0;}
+ .errata {border-bottom: dotted 2px #aaaaaa;}
+ .typo {border-bottom: dotted 2px #77dd77;}
+ .ntransc {border: solid black 1px; background-color: #FFFFCC; font-size: 0.8em;
+ margin-left: 10%; margin-right: 10%;}
+ </style>
+</head>
+
+<body>
+
+
+<pre>
+
+The Project Gutenberg EBook of Livro de Consolação, by Camilo Castelo Branco
+
+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.org
+
+
+Title: Livro de Consolação
+
+Author: Camilo Castelo Branco
+
+Release Date: December 27, 2010 [EBook #34756]
+
+Language: Portuguese
+
+Character set encoding: UTF-8
+
+*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK LIVRO DE CONSOLAÇÃO ***
+
+
+
+
+Produced by Pedro Saborano and the Online Distributed
+Proofreading Team at https://www.pgdp.net (This book was
+produced from scanned images of public domain material
+from the Google Print project.)
+
+
+
+
+
+
+</pre>
+
+
+<div>
+<p> </p>
+
+<div class="ntransc">
+<p><b>Notas de transcrição:</b></p>
+
+<p>O texto aqui transcrito, é uma cópia integral do livro impresso em 1872.</p>
+
+<p>Foi mantida a grafia usada na edição original de 1872, tendo sido corrigidos
+apenas pequenos erros tipográficos que não alteram a leitura do texto, e que
+por isso não foram assinalados.</p>
+</div>
+
+<p> </p>
+
+<div class="capa">
+<p style="font-size: 1.2em;">BIBLIOTHECA&mdash;MORÉ</p>
+
+<hr style="width: 30%">
+
+<p style="font-size: 2em;">LIVRO DE CONSOLAÇÃO</p>
+
+<p style="font-size: 1.2em;">ROMANCE</p>
+
+<p>POR</p>
+
+<p style="font-size: 1.4em;">CAMILLO CASTELLO BRANCO</p>
+
+<p> </p>
+
+<blockquote>
+ <p>Não nos sirva de medo ou de desvio<br>
+ Vêr como vai o mundo concertado.</p>
+
+ <p class="obra">D. F<small>RANCISCO </small>M<small>ANOEL DE
+ </small>M<small>ELLO</small>&mdash;<em>A tuba de Caliope.</em></p>
+</blockquote>
+
+<p> </p>
+
+<p> </p>
+
+<p style="font-size: 1.2em;">PORTO<br>
+VIUVA MORÉ&mdash;EDITORA<br>
+<small>PRAÇA DE D. PEDRO</small><br>
+&mdash;<br>
+1872</p>
+</div>
+
+<p> </p>
+
+<p><span class="pn">{1}</span></p>
+
+<p> </p>
+<p> </p>
+<p> </p>
+
+<p style="font-size: 1.8em; text-align: center;">LIVRO DE
+CONSOLAÇÃO</p>
+
+<p><span class="pn">{2}</span></p>
+
+<p> </p>
+
+<p> </p>
+
+<p> </p>
+<p> </p>
+
+<p style="font-size: 0.8em; text-align: center;"><small
+class="SMALL">PORTO&mdash;IMPRENSA PORTUGUEZA</small></p>
+
+<p><span class="pn">{3}</span></p>
+
+<div style="text-align: center; padding: 1em;">
+
+<p style="font-size: 2em;">LIVRO</p>
+
+<p>DE</p>
+
+<p style="font-size: 2.5em;">CONSOLAÇÃO</p>
+
+<p style="font-size: 1.2em;">ROMANCE</p>
+
+<p>POR</p>
+
+<p style="font-size: 1.4em;">CAMILLO CASTELLO BRANCO</p>
+
+<p> </p>
+
+<blockquote>
+ <p>Não nos sirva de medo ou de desvio<br>
+ Vêr como vai o mundo concertado.</p>
+
+ <p class="obra">D. F<small>RANCISCO </small>M<small>ANOEL DE
+ </small>M<small>ELLO</small>&mdash;<em>A tuba de Caliope.</em></p>
+</blockquote>
+
+<p> </p>
+
+<p> </p>
+
+<p style="font-size: 1.2em;">PORTO<br>
+VIUVA MORÉ&mdash;EDITORA<br>
+<small>PRAÇA DE D. PEDRO</small><br>
+&mdash;<br>
+1872</p>
+</div>
+
+<p><span class="pn">{4}<br>{5}</span></p>
+
+<p> </p>
+<p> </p>
+<p> </p>
+
+<div style="text-align: center;">
+<p style="font-size: 1.2em;">A SUA MAGESTADE</p>
+
+<p style="font-size: 1.4em;">O SENHOR DOM PEDRO SEGUNDO</p>
+
+<p style="font-size: 1.2em;">IMPERADOR DO BRAZIL</p>
+</div>
+
+<p> </p>
+<p><span class="pn">{6}</span></p>
+
+<p> </p>
+<p> </p>
+<p> </p>
+
+<div id="corpo">
+<p style="text-align:right;">S<small>ENHOR</small></p>
+
+<p>Eu não solicitei licença para dedicar a V<small>OSSA
+</small>M<small>AGESTADE </small>I<small>MPERIAL</small> este livro que
+representa um trabalho&mdash;palavra sagrada que nobilita e exalta os mais
+futeis lavores do espirito. Vi por esta lente de ambicioso alcance a pequenez
+da offerta, para que me não fallecesse a affoiteza de ir depor na livraria de
+V<small>OSSA </small>M<small>AGESTADE</small> as paginas estereis da historia
+d'umas paixões triviaes da vulgaridade, do mal.</p>
+
+<p>Além de que, S<small>ENHOR</small>, quando eu escrevia estas linhas, em
+frente da cadeira onde V<small>OSSA </small>M<small>AGESTADE</small> se
+assentou, no escriptorio do operario, esqueci-me de que é Imperador do Brazil
+Aquelle a quem as envio; e vejo tão sómente o sabio, o modelo de principes que,
+ao descerem até aos pequenos, deixam o diadema em altura onde mais subidos vão
+os respeitos.</p>
+
+<p>Desde o momento que V<small>OSSA </small>M<small>AGESTADE</small> me honrou
+a obscuridade, fazendo-me sentir que vinte e dous annos de incessante lidar
+mereciam o galardão de alguns minutos gloriosos,<span class="pn">{7}</span>
+tambem eu cobrei alentos para chegar até á meza de estudo do douto Imperador, e
+esperar ahi uma hora muito feriada de leituras proveitosas para então
+<small>LHE</small> offerecer com respeitosa confiança um livro de mero
+desenfado, pois não tenho mais nada com que possa significar a V<small>OSSA
+</small>M<small>AGESTADE</small> a minha gratidão. De V<small>OSSA
+</small>M<small>AGESTADE </small>I<small>MPERIAL</small></p>
+
+<p> </p>
+
+<p style="text-align:right;">o mais reverente criado</p>
+
+<p> </p>
+
+<p style="text-align:right;"><em>Camillo Castello-Branco.</em></p>
+
+<p><span class="pn">{8}<br>{9}</span></p>
+
+<p> </p>
+<p> </p>
+
+<h1><a name="SECTION00010000000000000000">INTRODUCÇÃO</a></h1>
+
+<blockquote>
+ <p>Le résultat de l'art... c'est l'adoucissement des esprits et des m½urs,
+ c'est la civilisation même.</p>
+
+ <p class="obra">V. H<small>UGO.</small>&mdash;<em>Les voix intérieures.</em></p>
+</blockquote>
+
+<p>Em uma tarde de agosto de 1867, passeava eu, com um amigo de aprazivel
+tracto, nos arrabaldes de Lisboa, e comparávamos a desamena e árida vegetação
+d'aquellas gándaras com os arvoredos e verdejantes valles do Minho.</p>
+
+<p>Alli por perto de Odivelas me disse o meu amigo Luiz da Silva:</p>
+
+<p>&mdash;Entremos por esta azinhaga que não tem sahida. Isto vae dar áquella
+casinha branca. Móra lá um velho a quem te vou apresentar. Mas quem sabe se o
+homem morreu?! Ha tres annos que o não vi...</p>
+
+<p>&mdash;Tem esse sujeito&mdash;perguntei eu com a minha natural magnanimidade
+de immortalisador&mdash;passagens na vida dignas de chronica?<span
+class="pn">{10}</span></p>
+
+<p>&mdash;Tem, e magnificas.</p>
+
+<p>&mdash;Capazes de um volume de 250 paginas em 8.º?</p>
+
+<p>&mdash;Isso não sei. A biographia d'este homem é uma infelicidade vulgar,
+que, todavia, fez grande estrondo; mas os naufragios do coração parecem-se aos
+do mar: abre-se um abysmo, que sorve centenares de vidas, e d'ahi a pouco
+nenhum vestigio sobrenada á flor das ondas; assim succedeu na procella que
+sossobrou o velho que vaes vêr.</p>
+
+<p>&mdash;Fez grande estrondo, disseste ahi tu! Mas eu, attento aos escandalos
+estrondosos do meu paiz, não me lembro d'isso...</p>
+
+<p>&mdash;Não eras ainda nascido.</p>
+
+<p>&mdash;Ah! eu não era ainda nascido? Isso então é caso muito antigo...</p>
+
+<p>&mdash;Um pouco depois da edade-media&mdash;replicou Luiz da Silva.</p>
+
+<p>E d'esta fórma gracejando por conta da nossa velhice, entestamos com uma
+porta estreita e baixa pertencente ao quintal da casinha branca.</p>
+
+<p>O meu amigo bateu duas aldravadas na porta.</p>
+
+<p>&mdash;Está aberta; levante o ferrolho quem é&mdash;disse uma voz de
+dentro.</p>
+
+<p>&mdash;É vivo o homem!&mdash;disse Luiz, entrando.</p>
+
+<p>Caminhamos por debaixo de uma parreira, cujos pilares se vestiam de festões
+de rozeiras vulgares e descuradas, alastrando-se por terra, e formando alcatifa
+de rosas murchas. Ao cabo da fresca e assombrada avenida, encontramos um
+caramanchel enverdecido de trepadeiras,<span class="pn">{11}</span> e lá dentro
+um ancião sentado em escabello de cortiça, afagando um gato maltez que lhe
+dormitava sobre os joelhos, e com pachorrento desdem entre-abriu os olhos á
+nossa chegada.</p>
+
+<p>O velho formou com a mão direita um quebra-luz sobre os oculos verdes que
+pareciam coar-lhe aos olhos escassa claridade, e disse com prasenteiro
+semblante:</p>
+
+<p>&mdash;Quem me faz a honra?...</p>
+
+<p>&mdash;É Luiz da Silva e um amigo que tem a honra de ser apresentado a V.
+Ex.ª </p>
+
+<p>Depois da apresentação, o sujeito, para quem o meu nome não era inteiramente
+desconhecido, disse ao meu amigo:</p>
+
+<p>&mdash;Muito ha que o não vejo, snr. Silva. Seu tio general esteve aqui ha
+tempos, e me contou que V. Ex.ª andava a correr mundo. Conte o que viu.</p>
+
+<p>&mdash;Vi o que Salomão via em tudo: vaidade.&mdash;Respondeu, sorrindo, o
+meu companheiro.</p>
+
+<p>&mdash;Então, caro senhor meu, não só viu, mas estudou muito&mdash;volveu
+Venceslau Taveira, afagando o lubrico dorso do gato que, estrouvinhado pela
+incommoda palestra, se remechia no regaço do dono, resmuneando, e afofando o
+ninho para recomeçar o seu placido dormir.&mdash;Escusava de sahir de si
+proprio, snr. Silva, para vêr o homem qual é em toda parte&mdash;proseguiu o
+velho.</p>
+
+<p>&mdash;E, se eu quizesse vêr um homem distincto do commum&mdash;tornou o meu
+amigo&mdash;bastar-me-hia ter conhecido V. Ex.ª<span class="pn">{12}</span></p>
+
+<p>&mdash;<em>Distincto</em>, quer dizer, distincto na
+infelicidade...&mdash;acudiu Taveira.</p>
+
+<p>&mdash;Na honra e na virtude&mdash;emendou Luiz da Silva.</p>
+
+<p>&mdash;Agora vejo que não estudou nada... Vaidade, tudo vaidade, e...
+algumas lagrimas.</p>
+
+<p>E, voltado contra mim, perguntou:</p>
+
+<p>&mdash;O seu amigo disse que v. é da provincia. É minhoto?</p>
+
+<p>&mdash;Tenho vivido no Porto&mdash;respondí.</p>
+
+<p>&mdash;Lá viví tambem dois annos e tanto. Os suburbios são graciosos, quanto
+me podiam parecel-o atravez do fumo das batalhas. Sou um dos sete mil e
+quinhentos. Conservo recordações agradaveis de umas grandes arvores da quinta
+do Vanzeller. Verdade é que as contemplei em posição molesta. Havia-se-me
+cravado uma bala na perna direita, e assim estive duas horas esperando a maca.
+Foi n'este espaço de tempo que eu, confrangido, de dôres, admirei a serenidade
+das arvores, e ponderei a vantagem de ser vegetal, estranho ás côrtes de Lamego
+e á constituição da monarchia. E a impassibilidade das carvalheiras aparando as
+balas no seu arnez de cortiça! Tudo é grande e forte, excepto o homem! O
+homem... esse é um mixto de odios, de angustias e vaidades, segundo assevera o
+nosso viajante Luiz da Silva...</p>
+
+<p>Proseguiu o ancião, entremeando de discretas jocosidades a deleitosa
+conversação, que durou duas fugitivas horas.<span class="pn">{13}</span></p>
+
+<p>Não se me abriu ensejo de pedir a Venceslau Taveira licença de o visitar,
+nem elle me offereceu a sua casa. Facil era de perceber que, se as visitas lhe
+eram agradaveis, a solidão lhe era mais recreativa que as visitas.</p>
+
+<p>Convidou-nos para o seu chá, quando anoiteceu, e acompanhou-nos até á porta
+do quintal.</p>
+
+<p>&mdash;Quem é este homem?&mdash;perguntei ao meu amigo.</p>
+
+<p>&mdash;A historia d'este homem ha de contar-t'a meu tio general que é do
+tempo d'elle, e vem todos os annos da provincia de Traz-os-Montes visitar o seu
+companheiro de infancia. Os lances essenciaes poderei referir-t'os; mas as
+particularidades só meu tio Pedro as sabe.</p>
+
+<p>&mdash;Que posição social tem elle? Ouvi-te dar-lhe excellencia.</p>
+
+<p>&mdash;A «excellencia» poderia significar que elle não tem alguma posição
+social; ainda assim, dou-lhe excellencia, porque o seu appellido representa
+familias antiquissimas da Beira Alta; além d'isso, é do conselho de Sua
+Magestade, official maior de secretaria aposentado, gran-cruz da ordem de
+Christo, etc. </p>
+
+<hr style="width: 30%;">
+
+<p>Desde Odivelas a Lisboa, me referiu Luiz da Silva as passagens capitaes da
+historia de Venceslau Taveira.</p>
+
+<p>Alguns mezes depois, o general Pedro da Silva chegou a Lisboa, e, a rogos do
+sobrinho, contou-me circumstanciadamente<span class="pn">{14}</span> successos
+que elle denominava os obscuros heroismos da mais honrada e excruciada alma.
+</p>
+
+<p>E concluiu d'esta maneira:</p>
+
+<p>&mdash;Se v. quer obrigar-me, escreva estes acontecimentos; mas não os
+enfeite com episodios de sua casa. Se a narrativa sahir verdadeira, poderá ser
+util. Deve v. fazer um livro dulcificante para alguns corações amargurados.
+Póde até denominal-o, se quizer: <small>LIVRO DE CONSOLAÇÃO</small>. Dou-lhe
+por cada lagrima, que fizer verter, um germen de boa acção, ou se quer de um
+bom pensamento. Porém, se v. adulterar a tragica singeleza d'esta desgraça com
+as inverosimilhanças do genio francez, o seu livro ficará sendo meramente uma
+novella. Escuso pedir-lhe&mdash;terminou o general&mdash;que empregue tão
+sómente a sua phantasia nos nomes dos personagens, em razão de estar ainda vivo
+o principal.<span class="pn">{15}</span></p>
+
+<h1><a name="SECTION00020000000000000000">I</a></h1>
+
+<blockquote>
+ <p>Historia infantil de todo o homem que sente....</p>
+
+ <p class="obra">L<small>OPO DE </small>S<small>OUZA</small>&mdash;<em>Herança de
+ lagrimas.</em></p>
+</blockquote>
+
+<p>Venceslau Taveira nasceu na comarca de Lamego em 1795. Como filho segundo de
+casa vinculada, foi destinado desde o berço a frade cruzio ou benedictino.
+Estudou humanidades em Coimbra, e entrou, portanto, a noviciar na casa
+capitular de Tibães aos quinze annos.</p>
+
+<p>Findo o anno de prova, o profitente interrogado manifestou que lhe faltava
+genio e fé para ser frade como cumpria.</p>
+
+<p>Fr. Francisco de S. Luiz, então conventual em Tibães, e, mais tarde, bispo,
+ministro liberal, patriarcha e cardeal, sahiu em defeza do noviço contra as
+violentas persuasões dos monges escandalisados da impiedade de Venceslau.</p>
+
+<p>Não ter fé! Era a primeira vez que um noviço ousára dizer que não tinha fé!
+Que elle não tivesse virtudes,<span class="pn">{16}</span> vá; que muito frade
+se salvou sem ellas, graças ao habito que faz o monge e á contricção final que
+faz o santo; mas não ter fé!...</p>
+
+<p>Sem impedimento d'estas e outras razões dos frades escandalisados,
+argumentava o sabio benedictino que era desprimor notavel para a religião o
+acorrentarem-lhe ao altar os seus sacerdotes; que o descredito das ordens
+monasticas havia sido motivado pelo vicioso proceder dos frades constrangidos;
+e que, finalmente, ninguem esperasse que a violencia abrisse á luz da fé
+corações fechados e escurecidos pela duvida.</p>
+
+<p>Com tão válido protector, o noviço despiu o habito e foi para casa.
+Recebeu-o a mãe com amorosa indulgencia; mas o pae, affrontado da insolita
+rebeldia, apertou-o no duro dilemma: ser frade, ou, quando não, ir grangear sua
+vida onde lhe bem quadrasse.</p>
+
+<p>Baldados os rogos e piedades da mãe, já ao marido para que perdoasse, já ao
+filho para que obedecesse vestindo o habito, Venceslau, com algumas moedas
+liberalisadas pela commiseração maternal, foi caminho de Lisboa onde não tinha
+parentes nem amigos.</p>
+
+<p>Principiava o anno 1811.</p>
+
+<p>O mancebo chegou a Santarem no dia em que o general Massena alli
+aquartellava a sua divisão. O reboliço da cidade desbordando de tropa, o
+espectaculo offuscante de um exercito embriagado de victorias, aquellas
+magestosas figuras dos generaes do imperio alvoroçaram o animo do rapaz cuja
+imaginação verdejava as epicas fantasmagorias dos dezesseis annos.<span
+class="pn">{17}</span></p>
+
+<p>Que farte ouvira elle em Tibães execrar Napoleão, Massena, Soult, Junot e os
+outros d'aquella funesta constellação. O seu entendimento queria duvidar da
+justiça das accusações; mas o patriotismo insinuava-lhe o dever de odiar
+francezes, salvante Rousseau, cujas obras elle podéra lêr clandestinamente,
+subtrahindo-as da gavêta defeza da livraria de Tibães, onde talvez as recadasse
+com prudente cautela o esclarecido fr. Francisco de S. Luiz.</p>
+
+<p>Á conta pois do auctor do <em>Contracto Social</em> está, por desventura de
+sua alma, a grave responsabilidade de haver-se esquivado á tunica de S. Bento
+aquelle rapaz que em Santarem perguntava a outros:&mdash;Depois d'este acto de
+justiça quem póde negar a Massena as virtudes militares que Plutarco refere dos
+varões illustres de Grecia e Roma?</p>
+
+<p>O leitor vae recordar a sabida passagem que, no espirito do moço
+enthusiasta, emparceirava o general francez com Themistocles ou Paulo Emilio.
+</p>
+
+<p>Quando os francezes retiravam de Alemquer, certa familia de notoria
+fidalguia, receando insultos da plebe, acompanhou o exercito invasor com uma
+escolta de dois dragões. Ora um d'estes indignos guardas, ageitada a occasião,
+e vencido do impeto do sangue e dos conselhos do demonio, maculou mais ou
+menos&mdash;mas é de crêr que fosse mais&mdash;a pudicicia de uma das damas
+confiadas á sua vigilancia.</p>
+
+<p>Eis pois um dragão indigno de aparelhar com o outro que, no jardim das
+Hesperides, guardava o vélo<span class="pn">{18}</span> de ouro, de certo com
+mais peso e quilates, mas com muito menos direitos á nossa consternação.</p>
+
+<p>E succedeu que a dama queixosa, posto que o infando desastre houvesse sido
+secreto, (ave rara!) preferisse ser honrada a parecel-o. Assim pois, logo que
+chegou a Santarem, D. Lucrecia (ouso chrismal-a assim em honra da sua memoria
+bastante romana) expoz a Massena o affrontamento que lhe fizera o dragão.
+Ordenou para logo o general que o criminoso entrasse em conselho de guerra, e
+tão summario correu o processo que, no lapso de meia hora, foi o carnalissimo
+réo interrogado, sentenciado, confessado e espingardeado!</p>
+
+<p>E como quer que alguem intercedesse em favor do comdemnado exorando menos
+rigorosa pena, o general respondeu: «Depois de arcabuzado, requeira».</p>
+
+<p>Tal foi o caso de disciplina que obteve para as aguias de Austerlitz um
+acerrimo partidario.</p>
+
+<p>Apresentou-se Venceslau Taveira ao marquez de Alorna, um dos generaes
+portuguezes que seguiram deslumbrados o metheoro da Corsega, quando as côres
+ardentes já se íam esmaiando ao visinhar-se do céo de Waterloo.</p>
+
+<p>O marquez, illustrado e dadivoso, agasalhou o foragido noviço com tanta
+cortezia como caridade, sentando-o á sua mesa e provendo-o das coisas que lhe
+escasseavam, na crise em que a fome apalpava os portuguezes menos protegidos.
+</p>
+
+<p>Comprazia-se o provinciano em convivencia d'alguns fidalgos, commensaes de
+Alorna, taes como o marquez<span class="pn">{19}</span> de Loulé, o conde de S.
+Miguel e D. Luiz de Athaide. Este ultimo foi grande parte no precoce rancor de
+Venceslau aos governos absolutos.</p>
+
+<p>Era D. Luiz de Athaide filho do conde de Atouguia e neto do marquez de
+Tavora, ambos justiçados como regicidas sob o reinado de D. José
+<small>I</small>.</p>
+
+<p>Um dos amigos de Venceslau, então adquiridos em casa do marquez, escrevendo,
+quarenta e cinco annos depois, as suas <em>Memorias</em>, avaliou ineptamente
+D. Luiz de Athaide com estas descaroadas linhas:</p>
+
+<p>«... Não posso deixar de mencionar outro homem notavel que alli encontrei, e
+que, descendente da mais alta fidalguia da nossa terra, era um tristissimo
+exemplo da degradação a que póde chegar a especie humana, decahida do explendor
+da grandeza e mergulhada no lodaçal da miseria e despreso. Foi D. Luiz de
+Athaide filho e neto d'essas familias desgraçadas a quem o inexoravel grande
+marquez de Pombal sacrificou sobre o horroroso altar do poder absoluto e de
+quem até pretendeu riscar os nomes da superficie da terra... Em verdade, era
+digno de ser observado por quem podésse bem avaliar o que são e podem ser os
+destinos do animal chamado homem... Quem o via, e não sabia quem era, só o
+podia ter por um sordido e baixo môço de cavallariça. Na sua figura e no seu
+trage trazia todas as insignias das maldições humanas, e nas suas palavras não
+havia senão rancor e odio, e esse rancor e odio tão profundos e inveterados,
+quantos eram os annos desde que poude conhecer as suas<span
+class="pn">{20}</span> mizerias. A quem lhe fallasse na casa de Bragança,
+respondia com rugidos de leão; parecia que lhe saltavam os olhos pela cara fóra
+estimulados pela raiva, e só socegava depois que desafogava o coração ulcerado
+com imprecações horriveis. Para elle só Napoleão era o rei legitimo de
+Portugal; e tal era a affeição que lhe tinha que, havendo, não sei porque
+artes, ganhado uma grande porção de dinheiro a foi entregar a Massena assim que
+entrou em Portugal. Este lh'a acceitou e agradeceu, declarando-lhe ao mesmo
+tempo que esta lhe seria restituida em Paris, se para lá fosse...»<a
+name="tex2html1" href="#foot508"><sup>[1]</sup></a></p>
+
+<p>Apezar d'esta apreciação indicativa de escriptor e espirito menos de
+ordinarios, e incapazes de alçarem-se até onde a desgraça ergue pelos cabellos
+as suas preas, D. Luiz de Athaide, no conceito de Venceslau, incutia a um tempo
+compaixão, respeito e assombro. Aterrava e commovia ouvil-o vociferar contra a
+raça de D. José <small>I</small>, e de repente levar as mãos aos olhos afogados
+em lagrimas, soluçando o nome de seu pae. Se alguem lhe lembrava que elle era
+proximo parente da familia real, e portanto devia cohibir-se de insultal-a no
+mais sensivel da honra, exasperava-se a termos de repellar-se por não poder
+inventar maneira de denegrir em si proprio as gotas de sangue real que lhe
+deshonravam as veias.</p>
+
+<p>Tanto escogitou, porém, que descobriu facil processo de enxurdar quanto
+humanamente se podia a sua<span class="pn">{21}</span> progenie realenga. Foi
+assim. Encontrando, mezes depois, em Paris, no derradeiro escalão social, um
+vulto de mulher desfigurada pelo squalor do vicio, fêl-a sua esposa, com o
+intuito de a fazer mãe dos parentes da casa de Bragança. D'este caso tambem
+teve noticia José Liberato Freire de Carvalho, nas citadas <em>Memorias</em>.
+</p>
+
+<p>Escreve elle: «... Mas como casou! Consta-me tambem que alli em Paris
+vascolejára as ultimas fezes da sociedade para encontrar uma mulher que fosse
+digna d'elle e que a achára. Reduzido na sua terra á infima sorte de um paria
+na India, quiz, no seu mesmo aviltamento, vêr se podia tambem aviltar, como
+elle dizia, algumas gotas de sangue que lhe circulassem no corpo, e fossem
+d'essas que animavam a familia real portugueza.»</p>
+
+<p>Homem de tão singular e descommunal condição tinha direito a ser estudado e
+desenhado por quem tivesse vista d'alma que alcançasse o enorme desgraçado no
+fundo da sua voragem. Dos seus coevos e camaradas nenhum deu tento d'esse
+extraordinario martyr senão o ex-frade José Liberato, que nunca pôde
+desfazer-se de tres partes de máo frade com que fugiu aleijado do convento. O
+neto do brioso Tavora, o representante da opulenta familia, cujos bens haviam
+sido confiscados para a casa reinante, ou para a do valido que se pascia nas
+lagrimas, no sangue e no espolio dos degolados em Belem, emfim, aquella sublime
+e rancorosa desesperação de D. Luiz, que dava o ouro ganhado em azares do jogo
+para derruir o throno, e trajava andrajos para que<span class="pn">{22}</span>
+assim o vissem roubado nas ultimas mealhas de seu pae&mdash;tal homem assim
+maltrapido e crucificado no seu opprobio, figurou-se aos olhos de José Liberato
+o compendio «de todas as maldições humanas»!</p>
+
+<p>Com interesse de respeitoso compungimento o via Venceslau Taveira, e o
+escutava nas apostrophes iracundas contra a dynastia de Bragança. Já decrepito,
+o solitario da charneca de Odivelas, recordava o neto dos Athouguias, e dizia
+que se a França houvesse tido um homem assim recaldeado em fraguas de tamanhas
+angustias&mdash;um tão extravagante complexo de soberba e aviltamento, de
+saudade maviosa e sevos odios&mdash;os mais grados litteratos o exalçariam
+diante do mundo, tornando-o interessante como historia, como philosophia, como
+moral, e até o poeta se não pejaria de ir procurar nas cavallariças de Massena
+esse neto de reis portuguezes, e vestil-o dos esplendores da poesia tragica, ao
+mesmo passo que o seu real parente, o principe D. João de Bragança, apenas
+vingaria ser dignamente cantado nas epopêas bordalengas de José Daniel.</p>
+
+<p>Affeição de outra tempera, como de eguaes e de mancebos em alvorada de
+esperanças, ligou Venceslau Taveira a um official de infanteria do
+quartel-general de Pamplona.<span class="pn">{23}</span></p>
+
+<h1><a name="SECTION00030000000000000000">II</a></h1>
+
+<blockquote>
+ <p>O célestes concerts de joie et de douleur!</p>
+
+ <p class="obra">H<small>ENRI
+ </small>B<small>LAZE.</small>&mdash;<em>Matutina.</em></p>
+</blockquote>
+
+<p>Era um rapaz de vinte e dous annos, chamado Eduardo Pimenta, natural de
+Braga.</p>
+
+<p>Este moço levava uma vida tanto em comêço já cortada de profundos golpes; e,
+por amor d'isso, como as suas dôres não podiam ser expiação de maus actos, a
+gente de coração queria suavisar-lh'as, linimentando-lh'as com o balsamo da
+amizade.</p>
+
+<p>Bosquejemos a historia d'esta mal estreada existencia.</p>
+
+<p>D. Antonia de Portugal, famigerada formosura n'aquelle tempo, viera de
+Lisboa a visitar irmãos, que tinha no Porto, alliados por casamento nas duas
+casas de mais gothica estirpe. Affeiçoara-se aquella dama a um alferes, sem
+discriminar os distantissimos pontos de partida<span class="pn">{24}</span> em
+que o Creador pozera o seu primeiro avô do avô de Eduardo Pimenta:&mdash;erro
+talvez devido á insufficiente leitura que a menina tinha de Moysés.</p>
+
+<p>Era orphã D. Antonia; mas a tutela de um tio que por vezes exercera o então
+poderoso cargo de ministro de Estado, pesava-lhe mais oppressiva e inflexivel
+que o poder paterno. Assim pois, tão depressa raspou nos ouvidos do fidalgo o
+indecoroso affecto da sobrinha, que logo Eduardo Pimenta foi chamado á capital
+e transferido ao Brazil em serviço militar. Inquebrantavel em seu amor, D.
+Antonia incutiu no peito do desterrado a flamma da sua coragem, accendendo-lhe
+esperanças temerarias e perigosas.</p>
+
+<p>Os parentes d'ella tomaram-se de espanto e ira, ao saberem que o alferes
+desertára do seu regimento, desembarcára em Lisboa, e ajoelhára aos pés do
+principe regente solicitando e impetrando licença para casar-se com D. Antonia
+de Portugal.</p>
+
+<p>O consentimento, porém, do bondoso principe não tolheu que o alferes,
+acossado pela perseguição de sicarios, se evadisse da côrte, refugiando-se nos
+arrabaldes de Braga, d'onde em vão implorou por mediação de amigos a malograda
+protecção do principe.</p>
+
+<p>No entanto, a pertinaz menina, cansada de reagir á pressão dos parentes,
+acolheu-se ao mosteiro de S. Bento da Ave Maria, no Porto, onde tinha uma tia
+professa; mas d'ahi ainda o braço rijo do tio ministro, mediante o chanceller
+das justiças, a foi arrancar, allegando que<span class="pn">{25}</span> a
+reclusa, escrevendo e recebendo cartas, gosava liberdades deshonestas que em
+sua casa lhe eram prohibidas.</p>
+
+<p>E em verdade escrevia muitissima carta D. Antonia, e dispunha de estylo que,
+relativamente á época, não era menos de romantico. Se o leitor quizer, logo lhe
+darei occasião de apreciar a linguagem e a sensibilidade extrema d'esta senhora
+que pagou penosamente os dons do seu espirito.</p>
+
+<p>Apartada judicialmente da indulgente freira, foi transferida para o collegio
+das orphãs que n'aquelle tempo foi viveiro de meninas lastimosas, mormente as
+pensionistas, as formosas, as amadas, as ricas, as filhas segundas&mdash;e hoje
+em dia está sendo&mdash;graças á santa Casa da Misericordia&mdash;um alfôbre de
+educação moral onde o vicio não póde coar-se senão em parcellas diminutissimas,
+por onde se vê que a Misericordia conseguiu estar-se em pleno osculo com sua
+irmã ou prima, a Castidade.</p>
+
+<p>N'aquelles dias, pois, a urna dos divinos balsamos de Jesus caritativo
+transformára-se em gral onde os corações eram pulverisados. E d'este pó
+amassado com lagrimas sustentava-se a honra das familias, a dignidade das
+mulheres, e nutriam-se as boas esposas que depois sahiam a repartir affectos
+entre maridos, e primos e capellães, e tudo mais que convinha a manter honesto
+equilibrio entre as coisas humanas e divinas.</p>
+
+<p>Pois, sem impedimento das vigilantes espias que lhe espreitavam os gemidos e
+os arremessos, a reclusa vingou<span class="pn">{26}</span> passar na roda uma
+imprudente carta que denunciava a residencia do alferes homiziado.</p>
+
+<p>Guiados pelo destino da carta, os aguazis do corregedor, com auxilio de
+escolta cedida pelo general da provincia, cercaram o escondrijo do desertor,
+prenderam-o com affrontosas precauções, e aferrolharam-o na mais escura
+masmorra do castello de S. João da Foz, onde, quarenta annos antes, alguns
+padres da Companhia de Jesus haviam expirado de fome e frio por ordem do
+deshumano marquez de Pombal.</p>
+
+<p>Avisada do desastre causado por sua indiscrição, D. Antonia rompeu em
+tamanhos desatinos que a regente, por amor á vida não votada ao martyrio,
+requereu que lhe tirassem d'aquella casa mansa e quieta a turbulenta fidalga,
+que ameaçava tortural-a com a roda de navalhas de Santa Catharina, virgem e
+martyr. A regente, diga-se verdade liza, parece ter tido escrupulos de mentir,
+e receios de não poder entrar no reino da gloria eterna com a dupla corôa da
+santa anavalhada. Não lhe pezem, todavia, as minhas suspeitas sobre os ossos
+que D. Antonia lhe ameaçou tres vezes ou mais.</p>
+
+<p>O certo é que a louca de amor foi d'alli passada com guardas de esbirros
+para Santa Clara de Coimbra, mosteiro onde áquelle tempo se exercitavam
+maleficios inquisitoriaes sobre donzellas eivadas do judaismo da ternura por
+sugeitos incongruentes com suas pessoas e bens.</p>
+
+<p>N'esta conjunctura, succedeu entrar em Portugal o invasor Junot, e com elle
+a vanguarda de ideias livres,<span class="pn">{27}</span> vestidas com as
+pompas da egualdade humana&mdash;santas palavras que desafogaram corações
+abafados ás mãos da tyrannia de paes e tutores. D. Antonia, alumiada na
+escuridade da sua cella por lampejos de esperança, ao saber que o general
+estava em Coimbra, escreveu a seguinte carta que vae textualmente copiada da
+que tenho e que é a original com toda a certeza. Bem póde ser que semelhante
+documento desquadre á urdidura d'esta narrativa; vá, não obstante, como
+homenagem a uma dama infelicissima, a qual, ao fechar-se em sua sepultura,
+abriu algumas que mais tarde se encerraram depois de cruciantes agonias, como
+no discurso do livro se irá vendo.</p>
+
+<p>Dizia assim a carta a Junot:</p>
+
+<p>«A alta consideração que por tantos titulos é devida a V. Ex.ª, imporia á
+minha triste situação o mais respeitoso silencio, se a vossa generosidade,
+Senhor, a não tivesse prevenido, assegurando aos habitantes de Portugal uma
+protecção que, fazendo a nossa gloria, é a mais sublime recommendação da vossa
+virtude e nobreza. Estes dons tão preciosos me animam e prestam valor de elevar
+minhas supplicas e lagrimas á respeitavel presença de V. Ex.ª O illustre
+guerreiro que participa da gloria do maior dos heroes que tem visto os seculos,
+saberá como elle unir clemencia e piedade ao valor que no campo de Marte
+immortalisa seu nome.</p>
+
+<p>«É do fundo de um claustro que a mortal mais desgraçada ousa aspirar á honra
+de invocar o illustre general. É a innocencia tyrannisada e os direitos
+mais<span class="pn">{28}</span> sagrados combatidos que se refugiam no asylo
+de vossos pés.</p>
+
+<p>«Tenho a infelicidade de pertencer a uma familia nobre e desde a minha mais
+tenra infancia me decidi por um militar que servia com honra em um dos
+regimentos do Porto. Se elle não tinha fortuna tão brilhante como minha
+familia, possuia todas as boas qualidades que caracterisam as almas nobres. Por
+um caprichoso orgulho, que não póde soffrer as virtudes puras (porque lhes
+ignoram o preço e os encantos) oppõe-se minha familia fortemente á minha
+escolha, prevenindo nossas vistas definitivas de um casamento occulto; e,
+conhecendo bastante a firmeza de nossos desejos, meus parentes solicitaram e
+obtiveram uma ordem para que o meu pretendido passasse á America. Este injusto
+procedimento feriu sensivelmente a minha delicadeza e reputação.</p>
+
+<p>«Empreguei todo o poder que eu tinha sobre o espirito do meu esposo,
+obrigando-o a voltar clandestinamente a este reino, assegurando-lhe a minha mão
+e a minha fé. Apoz um anno de ausencia, chegou á côrte; lançou-se aos pés do
+throno, e foi recebido pelo virtuoso principe com a maior affabilidade; porém,
+o ministro de estado impediu a conclusão de tão ditosas esperanças, forçando
+meu esposo á cruel necessidade de se esconder dos seus perseguidores que o
+espiavam em toda a parte para satisfazerem o seu antigo odio e incompleta
+vingança. Em quanto elle se foragia no seio de sua honrada familia, eu fui por
+meus parentes forçada<span class="pn">{29}</span> a receber outro esposo.
+Resisti. Não pude. Abracei o ultimo partido que me restava para subtrahir-me ás
+suas violencias. Abandonei a casa de meus algozes e acolhi-me aos pés da cruz.
+Ahi mesmo a minha desgraça amparada nos confortos da religião, foi diffamada de
+astucia. Deu-se-me um Recolhimento de orfãs, onde até as lagrimas me eram
+empeçonhadas pelos conselhos brutaes das minhas directoras, que me chamavam á
+penitencia por ter amado um homem pobre em quem Deus influira as virtudes mais
+bellas e caracteristicas do seu divino creador; mas, Senhor, como n'aquelle
+Recolhimento os meus gritos de desesperação me dessem o triste semblante de
+louca, a commiseração dos meus parentes enviou-me a umas torturas novas n'este
+convento de Santa Clara, d'onde, banhada em lagrimas, estou escrevendo a V.
+Ex.ª</p>
+
+<p>«Apezar dos espiões, ameaças e insultos, eu conseguira remetter ao meu
+consternado amigo uma procuração que devia servir ao nosso casamento,
+consentido pelo arcebispo de Braga. Quando, porém, os meus parentes souberam
+que este acto se havia praticado em uma egreja de Barcellos, instauraram
+processo contra o meu esposo com o proposito de o condemnarem a degredo.
+Exigiram de mim que eu negasse a minha assignatura na procuração, com o fim de
+o sentencearem como falsificador de firmas; mas eu, invocando o meu amor e a
+minha honra, achei pequenas e covardes as tyrannias que se augmentaram a ponto
+de me ser negada a mais necessaria e urgente subsistencia. As queixas de<span
+class="pn">{30}</span> meus irmãos chegaram ao throno; todavia, apesar do
+valimento de tão poderosos inimigos, não quiz sua alteza real que meu esposo
+fosse castigado sem ser convencido. A innocencia d'elle ia ser patenteada, e
+por tanto destruida a opposição da minha familia, quando a partida do regente
+para o Brazil, nos deixou outra vez expostos á furia dos nossos perseguidores.
+É fortissimo o partido d'elles. O snr. Br**, nomeado membro da regencia, e
+outros fidalgos parentes de minha mãe, me fazem tremer pela nossa sorte. O
+nosso triumpho está sómente reservado a um poder superior. Só um general de
+Napoleão, immortal como elle, poderá salvar-nos, libertar-nos e unir-nos. Este
+prodigio de grandeza de alma é proprio de V. Ex.ª; é uma das maiores victorias
+do Anjo que já está gosando a immortalidade no nome que ellas lhe deram.</p>
+
+<p>«Dignae-vos, pois, Senhor, em nome de tudo que ha sagrado, ser o protector
+de dois amantes desgraçados, que a vossos pés imploram uma graça que lhes será
+a elles a suprema felicidade. Uma palavra só que vos digneis proferir a nosso
+favor, a iremos de joelhos agradecer, beijando-vos mil vezes a mão que nos
+abriu o céo; ao mesmo tempo que em nossas almas, Senhor, sereis adorado como
+homem a quem Deus conferiu poder de nos resurgir da morte, se tal vida não é
+mais digna da vossa commiseração...»</p>
+
+<p>Esta carta foi vertida para francez por Vidal, ajudante do general Tiebau,
+coadjuvado por outro que depois se fez conhecido no mundo scientifico,
+chamando-se<span class="pn">{31}</span> Geofroi de Saint-Hilaire. Este, egual
+no talento e na sensibilidade, leu a carta a Junot, internecendo-a de pauzas e
+modulações, tendentes a mover o peito do soldado pouco affeito a commoções
+dramaticas.</p>
+
+<p>D. Antonia de Portugal recebeu da mão de Vidal a seguinte resposta:</p>
+
+<p>«Madame. A innocencia opprimida não se dirige inutilmente ao representante
+do Grande Napoleão, cujo poder abrange o mundo, e cuja justiça se distribue por
+vassalos e reis. Ordeno que se vos dê liberdade e passaporte para Lisboa. Vinde
+alli, e de lá ser-vos-ha facil fazer sahir dos carceres do Porto o ente que vos
+interessa, e que, como vós, ha sido a victima do orgulho de um ministro. Eu vos
+protegerei a ambos. Tenho a honra de ser vosso muito humilde e obediente
+servo&mdash;<em>Junot</em>.»<a name="tex2html2"
+href="#foot509"><sup>[2]</sup></a><span class="pn">{32}<br>{33}</span></p>
+
+<h1><a name="SECTION00040000000000000000">III</a></h1>
+
+<blockquote>
+ <p>Ton chemin est devant toi. Marche! marche!</p>
+
+ <p class="obra">E<small>D.
+ </small>Q<small>UINET.</small>&mdash;<em>Ashaverus.</em></p>
+</blockquote>
+
+<p>Em seguimento, a prelada de Santa Clara recebeu intimação militar para
+entregar D. Antonia de Portugal.</p>
+
+<p>Os enviados á redempção da gentilissima captiva espavoriram as freiras,
+quando marcialmente entraram ao portico do mosteiro.</p>
+
+<p>As mais avançadas em edade e virtude não ficaram estranhas ao receio de
+serem desbalisadas do thesouro de merecimentos que haviam amealhado á custa de
+muitas violencias, renunciações, cilicios e jejuns debilitantes. As menos
+jejuadas e mais propensas a crêr na malicia dos homens, se tivessem lido o que
+asseveram chronicas e o snr. A. Herculano repete no <em>Eurico</em>, a respeito
+de certas monjas em risco de serem presa lasciva dos sarracenos, é bem de crêr
+que pedissem á prioreza<span class="pn">{34}</span> que as degolasse na crypta,
+antes que o bafejo pestilencial dos francezes lhes mareasse a candura,
+obrigando-as a córar.</p>
+
+<p>E, tantos visos de exactidão offerece a hypothese lisongeira, que, ao
+saber-se que D. Antonia era reclamada pelo general Junot, todas&mdash;que eram
+cento e vinte as professas&mdash;illudidas, talvez, pediram voz em grita que as
+deixassem soffrer por concomitancia o mesmo martyrio. Que jubilo iria no
+empyreo, se as famosas onze mil da legenda sahissem a receber no atrio dos seus
+jardins eternos subsidio que lhes enviava, d'uma assentada,
+Portugal&mdash;torrão bastante sáfaro para tal messe!</p>
+
+<p>Não eram já, entretanto, aquelles dias os azados para tão heroicos
+martyrios. A prelada, exemplificando comsigo a privação do holocausto, forçou a
+commedirem-se as noviças, as noviças principalmente, que tinham os olhos
+sedentos de mortificação fitos nos algozes que as remiravam do pateo com uns
+olhares assaz significativos das carniceiras entranhas que os distinguiam dos
+frades portuguezes. Ora estes frades da comparação eram uns que frequentavam os
+locutorios, e suspiravam tão mysticamente quanto lhes permittia a eructação da
+orelheira mal esmoida.</p>
+
+<p>Não pude averiguar se o agiologio das franciscanas conimbricenses commemora
+algumas martyres empolgadas no tempo dos francezes em que a roupa d'elles e a
+virtude das mulheres portuguezas era tudo o mesmo para tão desmedidos
+facinoras, segundo affirmam piedosas tradições. Do que tenho certeza é que D.
+Antonia<span class="pn">{35}</span> de Portugal sahiu do convento com tanta
+precipitação, ou tantas lagrimas a nublarem-lhe a vista, que nem sequer
+divisava, entre os officiaes francezes, Eduardo Pimenta, que parecia ajoelhar
+quebrantado pelo pezo da felicidade.</p>
+
+<p>Quando Venceslau Taveira conheceu este moço, mezes depois dos acontecimentos
+referidos, chorava elle, e quantos viam Eduardo a braços com a desgraça que
+raras vezes, em episodios amorosos, se defronta com o coração humano tão
+inexoravelmente.</p>
+
+<p>Um dia, o alferes promovido a capitão no exercito francez, foi mandado
+servir ás ordens de La Borde na batalha do Vimieiro, em que a estrella dos
+valorosos portuguezes lampejou uns clarões que davam a lembrar o cyclo heroico
+de que nem sequer, para tudo se perder, nos resta já agora uma briosa saudade.
+</p>
+
+<p>D. Antonia estanceava então na Alhandra esperando que seu marido a mandasse
+recolher a Lisboa.</p>
+
+<p>N'esta anciedade a fulminou a noticia de que o general La Borde morrera na
+Roliça e com elle todo o estado maior.</p>
+
+<p>E, no mesmo lance em que tal nova lhe deram, uns homens, que se diziam seus
+valedores no immenso infortunio, quasi a forçaram a cavalgar, caminho de
+Coimbra, onde, áquelle tempo, iam chegando os inglezes desembarcados na
+Figueira.</p>
+
+<p>E alli, da portaria do mosteiro de Santa Clara avisinhou-se chusma de
+homens, que levaram uma mulher<span class="pn">{36}</span> estorcendo-se a
+brados afflictivos. Depois, abriu-se a porta do mosteiro, e fechou-se logo que
+sobre o escabello foi deposta D. Antonia de Portugal, que desmaiára, se é que a
+morte se não amerciára d'ella.</p>
+
+<p>Entretanto, nem La Borde nem o capitão Pimenta haviam morrido dos
+ferimentos. Alguem vira o official portuguez n'um olivedo do Tojal enfaixando
+um braço que sangrava. D'este encontro resultou o boato da morte, ao mesmo
+tempo que outros juravam de vista assistirem ao enterro do general na egreja do
+Carmo em Lisboa.</p>
+
+<p>Como quer que fosse, os portadores da falsa noticia a D. Antonia eram
+confidentes dos tios d'ella, e a bala, que raspára na espadua do capitão,
+fôra-lhe apontada ao peito por um d'esses homens. N'aquelle tempo a fidalguia
+d'estes reinos ainda resfolegava por taes respiradouros o sangue brioso que se
+lhe emborrascava nas arterias. O timbre das armas obrigava. Os paquifes do
+elmo, arcando-se sobre as cabeças d'uns mouros, esculpturados com barbaridade
+digna das proezas, obrigavam seus donos ao preceito heraldico de guardar a
+honra da familia com ferocia egual ao disvelo que punham em honrar a patria nos
+açougues da Asia.</p>
+
+<p>Enviára Eduardo Pimenta dous soldados portuguezes que levassem D. Antonia a
+Cintra onde se estavam redigindo os artigos da convenção. Como fosse clausula
+antevista d'aquelle convenio sahirem os vencidos com as honras da guerra, o
+official contra-pesava o infortunio<span class="pn">{37}</span> do desterro com
+o jubilo de passar com a esposa a França, onde os generaes portuguezes lhe
+promettiam protecção.</p>
+
+<p>Os enviados de Eduardo voltaram dizendo que D. Antonia sahira da Alhandra,
+algumas horas antes, acompanhada por milicianos.</p>
+
+<p>Alanciado por tão inesperada agonia, o official affrontou o maximo risco,
+perpassando pelas guerrilhas que confluiam a Lisboa. As insignias e a rapidez
+da carreira acirraram o patriotismo de alguns bravos que o espingardiaram e
+feriram mortalmente.</p>
+
+<p>Uns caridosos frades cruzios que seguiam para uma quinta chamada Cadafaes,
+nos arrabaldes da Alhandra, transportaram o ferido. Alli, a peito com a morte,
+o desgraçado venceu-a, quando lhe seria redempção de maiores penas succumbir.
+</p>
+
+<p>Apoz longo tratamento, vae-se aquelle homem só, pobre, cercado de incertezas
+e perigos. Ninguem sabia indicar-lhe o destino de D. Antonia. Os amigos
+negavam-se a acoital-o da sanha da plebe. Por sobre tantos desamparos, a
+pobreza antepunha-lhe uma cadeia de adversidades, por entre as quaes lhe
+transluzia a consoladora ideia do suicidio.</p>
+
+<p>O pae de Eduardo era portuguez de marca maior, entranhas nacionaes,
+ferventes de nacionalismo e odio ao filho amaldiçoado que se bandeára com
+jacobinos.</p>
+
+<p>Quando, pois, Eduardo, disfarçado em almocreve, lhe appareceu á beira do
+leito onde o velho se esperguiçava nos regalos de quem dormiu somno de justo,
+repulsou-o<span class="pn">{38}</span> com vociferações dignas dos paes romanos
+que sentenciavam os filhos á morte, e mais dignas ainda do proverbial amor
+patrio dos bracharenses.</p>
+
+<p>&mdash;Fóra d'ahi, herege!&mdash;exclamou o ancião, estirando os braços á
+cara do filho.&mdash;Pegaste em armas contra a nação de Affonso
+Henriques&mdash;proseguiu o honrado portuguez com ira azedada pelas
+reminiscencias historicas&mdash;tu! jacobino! ousaste desembainhar a espada
+contra a tua patria! contra a patria de Affonso Henriques, que venceu cinco
+reis mouros, com auxilio de Jesus Christo, que lhe fallou no campo de Ourique!
+Vae-te da minha presença, maldito, em nome do Padre e do Filho e do Espirito
+Santo! Não me tornes a pôr o pé em casa, sem te limpares com uma confissão
+geral, impio, atheu!</p>
+
+<p>Aturdido pela apostrophe e coberto de lagrimas, Eduardo ajoelhou, referindo
+os infortunios que o levaram por necessidade e gratidão a servir o seu
+libertador. Com o soccorro da mãe compadecida, conseguiu commover o velho até
+ao extremo de prometter-lhe não o denunciar á justiça, com a clausula de que
+iria sumir-se nas Alturas de Barroso em casa de parentes.</p>
+
+<p>Foi; mas poucos dias permaneceu na soledade agra de uma serrania onde o
+desejo de morrer o debruçava sobre os despenhadeiros, implorando á sua desgraça
+a coragem do suicidio. A coragem! Porque não hei de, acostado a moralistas de
+grande tomo, chamar-lhe antes cobardia? É porque ha mister enorme coração quem
+dentro d'elle se abre um tumulo. É porque vae esforçada<span
+class="pn">{39}</span> valentia n'isto de um infeliz se aniquilar com a certeza
+de que em vez de lagrimas, lhe pesará sobre a memoria a censura dos felizes, o
+horror dos espiritualistas catholicos, e a nota da demencia&mdash;suprema
+injuria a essas pobres almas que a divina justiça não mandaria ás penas eternas
+sem lhes descontar os terribilissimos paroxismos, aquelle tormentoso
+debaterem-se nas prezas da desgraça, aquelle relanço d'olhos ao céo e o grito
+d'alma n'esta dilacerante pergunta: «Quando te pedí eu a vida, ó Creador?»</p>
+
+<p>Eduardo desceu um dia das Alturas de Barroso e entrou no Porto demudado e
+vestido por maneira que o não poderiam suspeitar. Acercou-se do páteo de um
+irmão de D. Antonia de Portugal, e conversou com os palafreneiros, occasionando
+perguntar novas da fidalga. Disseram-lhe que ella estava em um convento de
+Coimbra, onde a encerraram depois que o marido acabára na batalha de Vimieiro.
+</p>
+
+<p>Dias depois, n'aquelle anno de 1809, o marechal Soult entrou no Porto. O
+capitão vestiu a farda e apresentou-se ao general.<span class="pn">{40}<br>{41}</span></p>
+
+<h1><a name="SECTION00050000000000000000">IV</a></h1>
+
+<blockquote>
+ <p>Il est plus glorieux de tomber généreuse,<br>
+ D'embrasser en partant ceux qui nous font souffrir,<br>
+ De fluir sans remords, comme une femme heureuse.</p>
+
+ <p class="obra">M<small>AD.
+ </small>G<small>IRARDIN.</small>&mdash;<em>Poésies.</em></p>
+</blockquote>
+
+<p>Prescinde o leitor que lhe historiem os sabidos desastres do exercito
+francez até ao dia em que Massena, o abatido «anjo da victoria», entrou em
+Coimbra.</p>
+
+<p>Eduardo Pimenta correu á portaria do convento, e perguntou por D. Antonia de
+Portugal, a quem desde o Porto enviára cartas repetidas que nunca ella recebeu
+das religiosas, testemunhas impassiveis do lucto da supposta viuva e dos
+trances de agonia tão demorada.</p>
+
+<p>Quando o official perguntou por sua mulher, a porteira, tremente de pavor,
+disse que a snr.ª D. Antonia estava moribunda. Lançou-se Eduardo contra a
+porta, com supplicantes lagrimas, já a repellões de raiva, bradando que lh'a
+abrissem. As freiras terrorisadas capitularam em avisar a reclusa de que seu
+marido a procurava.</p>
+
+<p>Estava D. Antonia, senão moribunda, prostrada nos ultimos esvahimentos de
+pthysica. Disseram-lhe que a<span class="pn">{42}</span> buscava seu marido, e
+ella cuidou que ouvia uma voz a dizer-lh'o, como tantissimas vezes a ouvira nos
+seus delirios, antes que as ultimas golfadas de sangue a privassem do prazer de
+delirar. Mas, como aquella voz se repetisse por bocca de algumas religiosas que
+mais caritativas lhe velavam a enfermidade, Antonia sentou-se de golpe no
+leito, e circumvagou pelas faces de tantas mulheres os olhos torvos, não de
+lagrimas, senão do véo da morte.</p>
+
+<p>Entendeu-as, convenceu-se, acreditou, porque a Virgem celestial lhe tinha
+segredado que seu marido não era morto. As madres, com quanto crendeiras em
+raptos e visões asceticas, julgaram-n'a delirante quando a viram ajoelhar com
+muita fadiga, e contemplar a imagem da Senhora das Dores, á qual dizia com
+anciosas intercadencias: «Fez-se o milagre, Mãe Santisssima! Eu bem vi que os
+vossos labios se moveram hontem, quando eu me arrastei até junto de vós. Elle
+vive!... mas eu... vou morrer... morro n'este instante, ó consoladora dos
+afflictos, se me não daes algumas horas de vida em troca de tantas dôres, e de
+morte tão custosa nos meus annos, com tanto amor e esperanças a morrerem
+comigo! Outro milagre, Senhora! Deixai-me vêl-o... vêr o meu esposo!..»</p>
+
+<p>E orou uma prece inaudivel, com sorriso de esperança a embellecer-lhe as
+lagrimas. Depois, lançou-se do leito aos braços d'uma religiosa, exclamando:
+</p>
+
+<p>&mdash;Não morro... não quero morrer assim! A Virgem Santissima quer que eu
+expire abençoando todos<span class="pn">{43}</span> os algozes, e beijando
+todos os instrumentos das minhas torturas... Chamem as pessoas que mais me
+despedaçaram... Eu quero chorar nas mãos onde houver signaes de sangue do meu
+coração... Vistam-me... amparem-me... E, se eu morrer agora, levem-me assim
+morta onde estiver Eduardo, ouviram?</p>
+
+<p>Balbuciadas poucas mais palavras inintelligiveis, D. Antonia inclinou a face
+ao seio de uma noviça, e immudeceu, ressumando da fronte e das palpebras um
+suor frio.</p>
+
+<p>&mdash;Estará morta?!&mdash;perguntavam-se as freiras quando nos dormitorios
+do convento reboava grande alvoroço de passos e gritos.</p>
+
+<p>Os sacrilegos e algum tanto romanescos officiaes francezes, que tinham
+acompanhado o seu camarada ao mosteiro, não lhes soffrendo o animo a demora da
+reclusa e a impaciencia do esposo, intimaram arrogantemente a porteira a
+franquear a porta. Como ella se negasse, esconjurando os depravados hereges, e
+sacudindo o hyssope da agua benta contra as paredes, uns francezes espadaúdos
+pozeram hombros contra as portadas em quanto outros escavacavam a roda a
+cutiladas, ou esgarçavam á ponta de sabre o crivo dos palratorios. Desacatos
+tamanhos e tanto para lastima eram crime vulgar e habitual em taes sujeitos,
+vezados desde 1792 a profanarem conventos e a matarem freiras, principalmente
+as velhas.</p>
+
+<p>Passadas de sensato horror, as religiosas abriram a porta. Eduardo foi quem
+primeiro transpoz o limiar<span class="pn">{44}</span> d'aquelle pombal de aves
+do empyreo, que apenas tinham de mulheres o receio de serem tratadas menos ao
+espiritual do que se usa com as jerarchias celicolas. Era, ao mesmo tempo,
+mavioso e compungente vêr como aquellas abelhas da divina ambrosia volteavam e
+zumbiam, ao darem tento dos zangãos francezes! Se, por mofina sorte, colmeia
+tão do céo, favos amellados com essencia de quantas flores perfumam cenobios de
+noviças, se&mdash;diga-se ao claro&mdash;aquellas raparigas cahissem nos
+colmilhos de tamanhos canibaes, com que vergonha nacional e minha não contaria
+eu aqui o escandalo!</p>
+
+<p>Ainda bem que o decoro d'esta minha terra, n'aquillo como no restante, ha
+sempre uma providencia que o salva illeso.</p>
+
+<p>As freiras, pelo menos, salvaram-se d'aquelle inferno que lhes andou a
+chammejar por perto dos véos e dos escapularios; todavia, o alarido e
+corrimaças que ellas faziam no claustro, accusariam de incontinentes os gallos,
+(aqui a palavra <em>gallos</em> não é contingencia de capoeira) se ellas mesmas
+não confessassem depois ao bispo e ás familias que os camaradas de Eduardo
+Pimenta haviam procedido mais castamente do que era de esperar de atheus, sem
+lei, nem rei, nem roque.</p>
+
+<p>E disseram verdade.</p>
+
+<p>Vem aqui a ponto sahir com uma defeza, embora serôdia, do exercito francez,
+no tocante a ominosos attentados contra mosteiros portuguezes, segundo consta
+d'uns poemas calumniosos que ahi correram, quanto javardos<span
+class="pn">{45}</span> correm por lameiraes, e ainda sujam as bibliothecas de
+alguns collectores de sordicias. Exceptuado o dragão que embaciou o cristallino
+pudor da menina de Alemquer, não me chegou noticia authentica de outro aggravo
+feito por parte da França á honra das nossas patricias. É regalo&mdash;não
+é?&mdash;poder a gente escrever isto, e, por isto mesmo, asseverar que na
+construcção das gerações sequentes a 1808 não ha gallicismo notavel que eu
+saiba. Não obstante, dizem praguentos que as joldas invasoras dos mosteiros
+arrebanhavam baixellas, pinturas, joias d'arte, e pospunham com desdem joias da
+natureza, as esposas do cordeiro. Aqui ha acinte menoscabador da belleza das
+nossas freiras, sendo certo que n'aquelle tempo as havia peregrinas,
+primorosas, dignas patricias d'aquella Marianna Alcoforado, conventual em Beja,
+que tão celebrada formosura e espirito deixou na Europa em cartas ainda hoje
+relidas com dó, admiração, e somnolencia.</p>
+
+<p>Á imitação d'esta deviam ser as cento e vinte que esvoaçavam dos dormitorios
+para a claustra e da claustra para a cêrca, do mesmo passo que Eduardo e os
+seus honestos amigos seguiam a porteira em direitura á cella de D. Antonia de
+Portugal.</p>
+
+<p>Quando o marido da desmaiada senhora assomou á porta, as freiras conclamaram
+tão rijo grito que a enferma retranziu-se espavorindo os olhos.</p>
+
+<p>N'este lance, os braços, que a sustinham, eram já os d'elle, cujos labios,
+crispando estremecidos de angustia, balbuciaram:<span class="pn">{46}</span>
+</p>
+
+<p>&mdash;Esposa da minha alma!... Mataram-te... Fui eu quem te matou!... Oh!
+falla-me, querida filha!... Não me conheces, Antonia?...</p>
+
+<p>Quando esta e outras exclamações iam avocando a razão da pavida agonizante,
+a prioreza chamou fóra da cella as freiras testemunhas do trance doloroso, e
+observou-lhes:</p>
+
+<p>&mdash;Não assistam a essa diabrura! Venham comigo ao côro pedir ao divino
+esposo que despene d'esta vida a alma da peccadora, que veiu dar escandalo
+n'esta casa.</p>
+
+<p>&mdash;Assim é, nossa madre!&mdash;obtemperou a escrivã, offerecendo uma vez
+de simonte á madre boticaria, e olhando de esconso contra um official que lhe
+careteava enviezando o beiço de baixo até cobrir a ponta do queixo.</p>
+
+<p>O verso e o reverso das coisas d'este planeta, leitor philosopho!</p>
+
+<p>Dentro da cella, agonias que as lagrimas afogavam no silencio; cá fóra, a
+irrisão, a farça, a jogralidade que a critica descobre á beira das grandes
+dôres, á beira até das sepulturas!</p>
+
+<p>Mas ao pé da sepultura de Antonia de Portugal, no templo de S. Salvador de
+Coimbra, se não havia preces nem olhos lagrimosos, tambem não passava o motejo
+sacrilego. Ahi moravam o silencio, a soledade, e a mudez do esquecimento que
+deve ser nas almas idas e saudosas d'esta vida um chorar sem consolação no seio
+da eterna gloria.</p>
+
+<p>Estava pois resalva das borrascas a luctadora vencida<span
+class="pn">{47}</span> e ao mesmo tempo victoriosa; que morrer assim é
+triumphar.</p>
+
+<p>A presença inesperada do esposo, que ella considerava morto, foi o osculo
+santo do anjo que desde muito lhe condensava a treva para que um lampejo final
+lhe abrisse o dia da perpetua luz. Aquella immensa alegria reviveu-lhe o
+coração, galvanisou-lhe as potencias da alma entorpecidas, restituiu-lhe por
+momentos a plena vitalidade; todavia, aniquilou-lhe o corpo subitamente
+arrefecido nos braços de Eduardo.</p>
+
+<p>Do mosteiro de Santa Clara sahiu o cadaver sobraçado por aquelle homem que
+relançava á volta de si o olhar sôffrego da posse da esposa morta. Quando elle,
+vagarosamente, passava no longo dormitorio, ouviu o murmurio das freiras que
+rezavam psalmos no côro. A desgraça faz prodigios de fé, desvarios de crença
+que seriam galardoados com milagres, se os actos da omnipotencia divina se
+pautassem pela regra do nosso entendimento. Eduardo, accêso em ardente fé,
+escutava o soturno rumor das vozes, e orava em espirito com os olhos fitos nos
+do cadaver ainda não fechados. O infeliz pedia a resurreição d'aquella mulher,
+dobrando os joelhos, e inclinando a face sobre os seus labios alvacentos, como
+se esperasse sentir-lhe o halito dos pulmões revividos.</p>
+
+<p>Instaram os officiaes, que o acompanhavam, para que lhes confiasse o
+cadaver; mas, não conseguindo desabraçal-o da morta, ajudaram-o a transportal-a
+ao quartel de um d'elles, que se incumbiu do enterro.<span
+class="pn">{48}</span></p>
+
+<p>Ao descahir da noite em que D. Antonia foi sepultada, soaram os clarins a
+reunir. Massena ordenára um movimento sobre Condeixa depois de se deter em
+Coimbra tres dias que malograram todos os seus planos. Eduardo Pimenta, que
+servia no quartel-general de Pamplona, recusou acompanhar o exercito.</p>
+
+<p>Os seus amigos propriamente lhe deram voz de preso, em nome do principe de
+Esling, e o levaram á força de ao pé do cadaver já amortalhado. Commovidos
+pelas supplicas, concederam-lhe que muitas vezes retrocedesse a beijal-a no
+rosto, já quando a passavam para o esquife.</p>
+
+<p>Fechada a sepultura, e feito o silencio do esquecimento á volta d'ella,
+ninguem diria que vida assim dilacerada podésse acabar por maneira tão singela!
+</p>
+
+<p>Morrer! Que suave desfecho, se o desfazer-se a vida a desfibrações lentas
+não custasse tanto! E, se Deus dispensasse as torturas do corpo aos que em si
+já sentem o ingente supplicio da alma, a sua divina justiça nos deixaria
+melhormente comprehender os liames que prendem a terra ao céo, a creatura ao
+Creador, o espirito do homem perecivel á insuflação do grande espirito
+immortal...</p>
+
+<p>Não sejamos mais especulativos do que foram os indifferentes que viram
+passar o esquife de Antonia, ao mesmo tempo que Eduardo marchava sobre
+Condeixa.</p>
+
+<p>Ahi fica esboçada a biographia do official que Venceslau Taveira encontrou
+em Santarem.</p>
+
+<p>Ai! se elle então morresse! Que tragico vulto na legenda<span
+class="pn">{49}</span> dos amores desgraçados! quantos anjos tristes, nascidos
+em almas de poetas, iriam deplorativos esfolhar uma rosa de cada primavera na
+sepultura d'aquelles vinte e quatro annos! Quem cuidára então que os dons
+celestiaes da alma d'este homem se esvasiavam todos em lagrimas, e no fundo
+d'esse peito germinavam os embriões de vicios que resvalariam á derradeira
+infamia!<span class="pn">{50}<br>{51}</span></p>
+
+<h1><a name="SECTION00060000000000000000">V</a></h1>
+
+<blockquote>
+ <p>                Ah Senhor,<br>
+ Amor sejais vós de nós<br>
+ E não haja amor com dor.</p>
+
+ <p class="obra">G<small>IL </small>V<small>ICENTE.</small>&mdash;<em>Farças.</em></p>
+</blockquote>
+
+<p>No coração juvenil e compassivo do fidalgo beirão a historia d'estes amores
+deixou a melancolia piedosa propria de animos que ainda não padeceram.</p>
+
+<p>Cuidam que a dôr experimentada afina o sentimento, e abrolha as flores
+perfumadas da compaixão quando lhe orvalham lagrimas alheias? Não é
+absolutamente verdade. Os muitos infelizes são por via de regra os menos
+sensiveis. Os desgraçados são egoistas. Não sabem, não podem, não querem
+consolar, porque se julgam credores das consolações dos outros.</p>
+
+<p>Ao principiar da vida, a ignorancia do mal pende á condolencia e amiseração
+dos que choram. O homem que então nos contrasta a nossa alegria com lagrimas, e
+os hymnos de graças á Providencia com blasphemias,<span class="pn">{52}</span>
+assombra-nos. Das muitas flores e luz que nos abrilhantam e aromatisam a vida,
+formamos o reverso espantoso da escureza e avidez do desditoso que nos dá a
+entrever o mal, nem sequer sonhado nas nossas noites serenas. Então é o
+compadecerem-se de infantil dó umas almas predestinadas a revezes, abaladas por
+vaticinios lugubres do seu destino.</p>
+
+<p>Não ha pois fiar-se a gente n'aquella compaixão da heroina de Virgilio que,
+recordando os seus, se pungia dos alheios males.</p>
+
+<p>São peitos impenetraveis os cicatrisados de muitos golpes. O que ahi está
+dentro é a sciencia da vida com a terrivel certeza de que o mal é necessario e
+fatalissimo. Esta sciencia que nos vem por morgadio herdado, obra, não sabemos
+se divina, se diabolica da serpente do paraiso, dá-nos ares de philosofantes
+selvaticos, inflexos e frios. As lagrimas com que intentam amollecer-nos são
+como outras que já choramos sem mais utilidade que vingarmos affogar n'ellas o
+germen da confiança nos homens, e&mdash;quantas vezes!&mdash;da fé em Deus. E,
+se esta sublime palavra, e inenarravel sentimento, D<small>EUS</small>, chega a
+desluzir-se nos lances em que o invocamos, os affligidos cessem de confiar em
+nós. Devorem-se, salvem-se pelo despejo ou pelo suicidio, que a religião não
+lhes alvitra melhores recursos que a philosophia: tanto monta Jesus como
+Platão. Nem nós podemos encarecer a efficacia dos balsamos que nos coaram ao
+coração apenas um torpor, a paralysia das faculdades amantes da vida,
+ignorando-lhe as condições<span class="pn">{53}</span> durissimas, o terrivel
+desdem com que adormecemos debaixo da mancenilha, sem recear-lhe as exhalações
+homicidas.</p>
+
+<p>Venceslau solicitou a estima de Eduardo, e affeiçoou-se-lhe com estremecida
+amisade. No fervor do seu affecto, parecia ser elle a providencial indemnisação
+á desventura do moço repulso dos braços do pae para os braços da esposa
+moribunda. Raras horas se apartava d'elle, velando-lhe as do repouso, e
+privando-se da convivencia dos alegres mancebos que se espantavam de tamanha
+devoção e tão desusado sacrificio a um desgraçado vulgar.</p>
+
+<p>Por março de 1811 retirou o exercito francez de Santarem, perseguido por
+Wellington. Eduardo, ao entrar em Pombal, abraçou Venceslau, e disse-lhe
+tranquillamente:</p>
+
+<p>&mdash;Vamos ter batalha decisiva. Heide morrer n'ella. Separa-te desde já
+de mim, que não quero vêr lagrimas, nem ouvir palavras piedosas em meio dos
+gritos dos agonisantes.</p>
+
+<p>Pouco depois, escaramuraçaram as avançadas dos dois exercitos. Ao primeiro
+recontro, Eduardo Pimenta, arrancando do pôsto muito distante dos piquetes,
+embrenhou-se pela selva das bayonetas que retiniam dentro da cerrada bruma da
+polvorada. Em breve lanço, o impetuoso official cahiu cortado do ferro inimigo,
+e, quando a nuvem se rarefez, viu á sua beira Venceslau, descolchetando-lhe a
+farda para examinar-lhe as feridas.<span class="pn">{54}</span></p>
+
+<p>Eduardo, cerrando os dentes, abafava o grito da dôr; faltava-lhe, porém,
+vigor para repugnar ao curativo.</p>
+
+<p>Um cirurgião francez disse a Venceslau que nenhum dos ferimentos era mortal.
+O ferido então abriu um riso de raiva á desgraça de sentir-se viver, e
+murmurou:</p>
+
+<p>&mdash;Não sou um desgraçado vulgar...</p>
+
+<p>E, rodeando a vista pelos moribundos roixos dos paroxismos, accrescentou:
+</p>
+
+<p>&mdash;Eram talvez felizes esses que ahi morrem. Um d'elles fallou em sua
+mãe, e o outro pediu a Deus que lhe amparasse os filhos... Vês, Taveira? A
+providencia deixa morrer esses, e quer que eu viva, e que por nenhuma d'estas
+feridas eu possa arrancar a alma da sua cruz.</p>
+
+<hr class="dotted">
+
+<p>Não é tão raro morrer quem ardentemente o deseja?</p>
+
+<p>Sei de homens desesperados que se offereceram em alvo, no ponto onde a
+metralha das pelejas varria as victimas a rôdo. Sei d'outros que procuraram a
+morte nos focos mais ardentes da peste. Vi uns que romperam contra as lavaredas
+das casas incendiadas simulando caridade heroica no proposito do suicidio. Vi
+alguns que se entregaram cegamente á medicina. E não morreram!</p>
+
+<p>A morte praz-se em destillar ás gotas a peçonha do seu calix na garganta
+onde fervem e affogam soluços,<span class="pn">{55}</span> se as lagrimas da
+saudade derivam sobre o suor gélido da agonia. Foi a morte creada á porta do
+paraizo, quando a nossa archi-avó comeu o pomo. Creada como castigo, o seu
+officio é matar, dilacerando; unhar com a ponta da garra um por um os liames da
+vida, distendel-os devagar, descansando a intervallos, para que a seiva da
+esperança os reforce, e depois a angustia lateje n'elles em redobro. Como
+castigo, missão que o Creador lhe deu, a morte seria indigna do seu officio, se
+nos decepasse de um golpe. As trevas subitas, a paragem do coração, um dormir
+suave, um esquecermo-nos de tudo&mdash;morrer no instante em que tudo bom
+d'este mundo nos sorria esmaltado de todas as estrellas&mdash;seria supplicio
+condigno do affrontamento que Eva e o logrado marido fizeram ao Creador?</p>
+
+<p>Não. Á morte urgia-lhe, em cumprimento do seu encargo, maior dominio sobre
+as potencias espirituaes que ella (convence-te, ó razão!) não mata, mas
+tortura.</p>
+
+<p>Ahi está um coração de pae a arquejar em soluços de moribundo. Ha tres dias
+que se debate nas ultimas vascas. No decurso d'esses tres dias, ha visto muitas
+vezes os filhos que o chamam, que lhe affastam dos olhos os cabellos humidos,
+que lhe enxugam nas faces lividas umas lagrimas onde vae diluida a derradeira
+claridade das pupilas baças. Pois tres dias não bastam á maceração do
+holocausto e ás dilicias do sacrificador que sahiu do paraiso com o peccado!?
+Não. Aquelle homem está assim penando, ha de assim penar mais tres, mais
+seis,<span class="pn">{56}</span> mais nove dias, porque expia pelo corpo
+vibrante de nevrozes, e pela alma que se revolve em suas lagrimas.</p>
+
+<p>Meu Deus, meu Deus, que triste, que procelloso, que vilipendio vos seria o
+mundo, se a minha alma só podésse entender vossa força nas dôres, nos medos, na
+morte, na viuvez, na orphandade, nos ricos sem caridade, nos pobrinhos sem
+enxerga!</p>
+
+<p>Afaça-se, leitor, obsequiosamente a este meu velho sestro de vagamundear á
+volta dos assumptos, vestindo as nudezas da ideia com umas roupagens
+variegadas. É pensão da velhice, e talvez desejo perdoavel de fazer pensar as
+pessoas que abrem uma novella justamente para não pensarem.<span
+class="pn">{57}</span></p>
+
+<h1><a name="SECTION00070000000000000000">VI</a></h1>
+
+<blockquote>
+ <p>Aperta-lhe a sorte ingrata<br>
+ O laço em que os pés lhe enreda.</p>
+
+ <p class="obra">T<small>HOMAZ </small>R<small>IBEIRO.</small>&mdash;<em>A Delfina do
+ Mal.</em></p>
+</blockquote>
+
+<p>Eduardo Pimenta, levado em braços a casa d'um aldeão que não estremava entre
+jacobino e portuguez, pensou que seria alli miseravelmente esfaqueado logo que
+os patriotas lhe descobrissem a paragem.</p>
+
+<p>Não se esquivou Venceslau ao perigo de ser sacrificado ao amigo que primeiro
+o captivára com as dôres da alma, e agora com as da enfermidade. Ambos se
+haviam despojado das fardas suspeitas e vestido á moda dos camponezes,
+inculcando-se guerrilheiros fieis ao throno e altar.</p>
+
+<p>Como lhes minguassem recursos, mandou o beirão a sua mãe um portador com
+carta bem commovente á piedade. Respondeu-lhe a mãe que era fallecido o pae, e
+accudisse elle a receber o ultimo suspiro d'ella que o já sentia na
+garganta.<span class="pn">{58}</span></p>
+
+<p>Sahiram os dois amigos dos arrabaldes de Pombal, e acantoaram-se na casa dos
+Taveiras, onde corriam maior perigo, porque o corregedor de Lamego perseguia os
+jacobinos, não com alçada morosa, mas com a justiça summaria dos sicarios.</p>
+
+<p>Além d'isto, bem que D. Antonia de Portugal, por sua parte, houvesse dado a
+vida ao odio dos parentes, estes cavalheiros não eram da casta dos máos
+corações que se contentam com a vingança de fazerem cahir uma campa sobre a
+victima dilacerada. Duas campas é que elles queriam para que a sua posteridade
+podésse apontar para ellas, quando outros aventureiros ousassem pôr olhos no
+rosto defeso das mulheres de raça.</p>
+
+<p>No rasto do plebeu de Braga farejavam espertos assassinos, protegidos pela
+justiça. Os sustos rodeavam já a casa senhorial dos Taveiras, atterrando a mãe
+de Venceslau a ponto de bastarem poucos dias de afflicção a dar-lhe o descanço
+eterno.</p>
+
+<p>Como filho segundo, pequena legitima cobrou Venceslau. O morgado, receoso de
+compartir no perigo dos dous perseguidos, antecipou ao irmão o valor do
+patrimonio, aconselhando-lhe a emigração.</p>
+
+<p>Entraram os dous expatriados por Hespanha em 1813. Da Corunha passaram a
+Falmouth em companhia do cruzio D. José Liberato Freire de Carvalho, que depois
+em Londres aproveitou a habilidade de Taveira, contractando-o para fazer
+traducções no periodico intitulado <em>O Investigador</em>.</p>
+
+<p>Do seu patrimonio, e ganhos nas lettras, repartia<span
+class="pn">{59}</span> o moço com o seu amigo, adoçando-lhe delicadamente o
+agro da dependencia, com a clausula de que eram emprestados os recursos que lhe
+offerecia.</p>
+
+<p>Seis annos assim viveram, durante os quaes Eduardo não despiu o lucto de sua
+viuvez, nem desfitou os olhos scismadores de uma estrella por onde lhe
+transluzia o que quer que fosse, vago e impalpavel, semelhante a uma alma.</p>
+
+<p>N'este enlevo e lucto bastante insolito, e não vulgares em poeta seis annos
+viuvo, gastava o homem sua actividade, distrahindo-a das preoccupações dos
+outros emigrados.</p>
+
+<p>Com o fim de o levantar de uns quebrantos quasi ridiculos, Venceslau
+invocava-lhe o animo para os deveres que lhe impunham a infelicidade dos seus
+conterraneos e a sua propria de desterrado. Baldados esforços. Pimenta era
+sempre o inconsolavel.</p>
+
+<p>São pouquissimo interessantes os pormenores da vida d'estes emigrados, no
+correr de sete annos. A pobreza por vezes venceu o trabalho assiduo de
+Venceslau Taveira, esponjando-lhe o fel da penuria ás chagas da saudade da
+patria. A inercia do amigo, motivada pelos crepes sempre carregados da sua
+paixão, aggravava as difficuldades do moço laborioso.</p>
+
+<p>Eduardo distanciava-se, quanto a genio, dos martyres, que têm a acta do seu
+martyrio nos romances, os quaes não sabe a gente se almoçam e jantam com a
+trivial estupidez das especies carnivoras a que a leitora ideal não desejaria
+pertencer, nem eu. Afóra o almoço<span class="pn">{60}</span> e jantar, o viuvo
+consternado de D. Antonia de Portugal ceava, e recozia tudo ao fogo interno que
+o escaldava, retemperando-lhe, ao que parecia, de fino aço as molas digestivas.
+Á feição d'este, ha muitos sugeitos da mesma laia que, logo abaixo de um
+coração abeberado em lagrimas, vos maravilham com um estomago de ógre. Raro
+conseguem estes infelizes amiserar ninguem com suas lastimas em verso ou prosa,
+porque a nediez do musculo os está sempre a desmentir de modo que o observador
+incauto cuida que o humor vitreo das lagrimas é ressumação oleosa do chorume
+que lhes sobeja. É mister, porém, não confundir as duas especies, a fim de que
+a alçada bruta do chylo não leze os phenomenos da psyche&mdash;expressão grega
+que os gregos não percebiam melhor que Venceslau quando via o seu amigo a
+chorar e a comer ao mesmo tempo.</p>
+
+<p>Entretanto, assim que um simulacro de liberdade em Portugal, no anno 1820,
+amnistiou os portuguezes que tinham servido as ideias da França, o fidalgo da
+Beira com o sempre melancolico bracharense repatriaram-se.</p>
+
+<p>Protegido por José Liberato, e outros liberaes, o intelligente moço e já
+notavel publicista offereceu a sua penna a Joaquim Manoel Alves Sinval que
+então redigia o <em>Astro da Lusitania</em>.</p>
+
+<p>Notaveis artigos realçaram aquelle periodico e o nome do modesto escriptor,
+cujos serviços á liberdade ainda no berço se contentavam da gloria de lhe
+poetisar a infancia.<span class="pn">{61}</span></p>
+
+<p>No lapso d'estes successos Eduardo Pimenta, sempre ocioso e confiado á
+liberdade do amigo, ia cogitando em ganhar de salto posição que o habilitasse a
+indemnisar os favores do companheiro.</p>
+
+<p>Honrado empenho! suprema e unica dignidade dos ingratos.</p>
+
+<p>Este proposito, porém, não significava louvavel desejo de independencia: era
+antes ruim plano de se desonerar da divida de reconhecimento que o vexava.
+Sentimentos d'esta especie affectam exteriores de nobreza, e disparam em
+villania, se bem os esgaravatamos no barril do lixo humano que se chama
+<em>alma</em>, a qual se decompõe em <em>lama</em>, se lhe trocaes as lettras.
+</p>
+
+<p>Começa Eduardo a enxergar os arreboes de uma estrella benigna que lhe
+destece boa parte das suas escuridões. É um contentamento menos máo. Recebe a
+noticia da morte do pae.</p>
+
+<p>Este velho, portuguez de lei como viram, typo symbolico da Braga de 1820,
+patriota acrizolado no recontro com os francezes em Carvalho d'Este, um dos
+Codros que tomaram parte no assassinio do general portuguez Bernardim Freire de
+Andrade, tal sujeito, a não poder afogar n'agua benta a liberdade em pessoa,
+devia morrer apopletico, e de feito morreu, deixando 1:600 missas á sua alma, e
+tres solemnes maldições ao filho. Infere-se d'estes legados que a sua apoplexia
+não foi das mais fulminativas; foi um ramo de ar, ou estupor, como a viuva
+escrevia a Eduardo.<span class="pn">{62}</span></p>
+
+<p>Além das missas á alma e das maldições ao filho, o morto deixou bens
+rusticos que formavam a mais rendosa lavoira de S. João de Nogueira.</p>
+
+<p>O viuvo de D. Antonia não era filho unico. Erguendo-se o melhor que pôde
+debaixo do pezo da maldição triple, foi a Braga fazer partilhas com o irmão
+clerigo, e tão intolerante se portou por causa d'um faqueiro de prata abafado
+pelo padre em beneficio de uma freira dos Remedios, que chegaram ás ultimas,
+esmurraçando-se sobre o espolio do honrado defunto, o qual tinha apanhado o
+faqueiro no embornal cahido do cavallo ferido de um dragão que elle ou outros
+tinham matado. O pae do clerigo&mdash;Deus lhe perdoe&mdash;gabava-se d'isso, e
+o filho, theologo casuista, não achou em Bazembáo o caso da restituição da
+coisa roubada a ladrão! 1:600 missas davam ensanchas para maroteiras
+maiores.</p>
+
+<p>Regressou a Lisboa com quinze mil cruzados Eduardo Pimenta.</p>
+
+<p>O dinheiro influe bastante no espirito, e no resto. Adormece e acorda melhor
+quem o tem. A espinha dorsal tem outra casta de aprumo. O olfacto fareja
+essencia de violetas em tudo. O coração tem azas. A fantasia é mais allemã. Os
+olhos comprehendem a fabula dos Argos e dos lynces. Os ouvidos afinam-se tão
+agudos que, em comparação, a lebre é surda. Cada gaita de feira sôa-nos como a
+tuba de Oberon.</p>
+
+<p>Sobre tudo, as faculdades do amor urdem romances, tecem-os de lhama de oiro
+nas cabeças negras, castanhas<span class="pn">{63}</span> e loiras das mulheres
+lindas, das feias, das Philamintas, das Felizardas. Todo o pé nos intriga, toda
+a botinha é de Cendrillon, todo o vestido apanhado com elegante descuido é naça
+que nos pesca a alma em lago de aguas cristalinas. O dinheiro faz isto: quando
+nos sobram dentes para morder pomos, sómente prohibidos a quem não tem dentes,
+nem dinheiro principalmente.</p>
+
+<p>Deu que scismar a Venceslau Taveira a transfiguração moral do amigo. A
+linguagem mais expedita, a ideia lucida, prismatica, borboleteando por
+assumptos que recendiam a rosas, a margaridas, a madrigaes. Emfim, Eduardo
+fallava muito de amor, de poesia, de coração, de mulheres, de muitas mulheres
+vivas, e de algumas mortas, de Fiammeta, de Fornarina, de Collona, de Leonor,
+de Corinna, etc., excepto de Antonia. D'aquella Antonia, que elle andára sete
+ou oito annos a procurar no crepusculo das tardes e no diluculo das madrugadas,
+d'essa, que se mirrava entre os farrapos da mortalha e as pranchas do esquife,
+não dizia nada.</p>
+
+<p>&mdash;Que vaes fazer ao teu dinheiro, Eduardo?&mdash;perguntou-lhe o
+collaborador do <em>Astro da Luzitania</em>, rodando sobre a sua banca de
+trabalho duas peças que havia recebido pelo serviço de um mez.&mdash;Empregas
+esse capital em officio ou beneficio que te renda um passadío modesto?</p>
+
+<p>&mdash;Hei-de pensar n'isso...&mdash;respondeu desattentamente o
+outro.&mdash;Por ora, assisto á renascença da minha alma, que esteve atrophiada
+nos regêlos da desgraça. Estou acordando do lethargo, a reconhecer as<span
+class="pn">{64}</span> commoções, as alegrias do viver. O cerebro ha de
+funccionar, quando o coração lhe radiar o seu calor. Depois pensarei. Mas antes
+de mais nada... Nós temos contas, Venceslau. Na emigração, tiveste a delicadeza
+de me dizer que me emprestavas e não davas a subsistencia. A divida principal
+não t'a pago, que não posso: é a gratidão insoluvel; mas o que é dinheiro quero
+pagal-o, não só porque devo, mas porque me sentirei melhor na tua presença
+quando t'o não dever.</p>
+
+<p>&mdash;N'esse caso, paga. Não quero que te sintas mal na minha
+presença&mdash;disse Venceslau com semblante sereno e severo.</p>
+
+<p>&mdash;Sabes quanto é?</p>
+
+<p>&mdash;Não.</p>
+
+<p>&mdash;Calcúla.</p>
+
+<p>&mdash;Esse calculo pertence á tua pontualidade. É trabalho que está a cargo
+d'aquelle que, depois da liquidação das contas, se sentir melhor na presença do
+outro.</p>
+
+<p>&mdash;Vejo-te muito sério!&mdash;atalhou Eduardo.&mdash;Offendi-te?!</p>
+
+<p>&mdash;Foste apenas pouco delicado comigo. Eu não sou da especie dos
+credores que apresentam a conta copiada do livro... Quando em Londres comprava
+por um schilling um jantar para nós ambos, nunca lancei á tua conta seis pence.
+Afiz-me a repartir com o irmão; não emprestava ao homem que havia de ser rico.
+Nunca preví que houvesses de o ser... No meu trabalho não eras tu pequena
+parte...</p>
+
+<p>&mdash;Eu?! que fazia eu?<span class="pn">{65}</span></p>
+
+<p>&mdash;Davas-me animo com a tua mesma ociosidade; redobravas-me o goso de
+cumprir o dever de homem, por ti e por mim. Quanto a esperar de ti retribuição
+em moeda corrente, não cabia semelhante conjectura no conhecimento que eu tinha
+da tua indole...</p>
+
+<p>&mdash;Ora essa!...&mdash;interrompeu pondunorosamente Eduardo.&mdash;Então
+figurei de parasita aos teus olhos...</p>
+
+<p>&mdash;Não: figuraste de homem engolfado por abysmos de saudade, amortalhado
+em luctos de viuvez eterna...&mdash;respondeu Venceslau sorrindo.&mdash;Quem
+havia de prever que sahirias do antro da tua dôr, ao fim de oito annos, com o
+rosto banhado dos resplendores d'um novo dia? Eu, que então me julguei
+reservado para a suprema angustia de te sepultar envolto no lençol da nossa
+pobre enxerga, como sonharia esses quinze mil cruzados que te auctorisam a
+perguntar quanto me deves? Quem diria que nas leiras e montados de teu pae
+succederia o filho amaldiçoado? Desandou a roda funesta, Eduardo. O teu mau
+anjo era a pobreza. Repelliste-o para as trevas dos indigentes. Voga
+affoitamente no mar da vida, que estás em maré de felicidade. Que tregeitos de
+impaciencia me fazes, meu amigo?.... Tem paciencia; escuta-me. Volta o rosto
+alegre algumas vezes para o passado. Repara nas lagrimas e angustias em que se
+desfizeram as tuas illusões. Olha que está uma sepultura de mulher innocente a
+servir de base ao monumento das tuas recordações. Abre o livro funebre da tua
+mocidade, e lê os preceitos da experiencia. Toda a desgraça é uma raiz, que se
+arreiga dolorosamente na<span class="pn">{66}</span> alma; porém, lá vem um dia
+em que a raiz abrolha flores que parecem de planta abençoada: essas flores são
+o escarmento, o desengano, a verdade, a sciencia da vida como ella é, vista á
+luz da razão.</p>
+
+<p>&mdash;Mas onde vaes tu com essas praticas tão bem
+discursadas?!&mdash;perguntou Eduardo Pimenta, entre risonho e enfastiado.</p>
+
+<p>&mdash;Vou entregal-as á tua memoria para que te sirvam de <em>memento</em>,
+quando escreveres á filha do commendador.</p>
+
+<p>&mdash;A filha do commendador? Querem vêr que me entroncas na progenie de D.
+Juan Tenorio! Temos, pois, uma Anna, a filha do fidalgo de Burgos!...</p>
+
+<p>Venceslau Taveira pôz as mãos nos hombros do viuvo de Antonia de Portugal, e
+disse-lhe com boa sombra e graça affectuosa:</p>
+
+<p>&mdash;Não achas notavel a coincidencia do pae que é commendador e da filha
+que é Anna?... Dize-me agora: que motivos te justificam da reserva com um amigo
+de oito annos? Que tinha que eu soubesse da tua bocca esses amores? Dizias-me,
+ha dois mezes, que o teu coração era o Lazaro apodrecido na sua cova; e, como a
+ideia de Lazaro envolve a ideia de Christo, o Christo do teu coração defuncto
+foi o dinheiro. Não dou nada pela vida assim galvanisada por correntes
+electricas do metal...</p>
+
+<p>Eduardo interrompeu o impertinente amigo com uma cascalhada de riso secco;
+Venceslau, porém, carregando o semblante, concluiu:<span class="pn">{67}</span>
+</p>
+
+<p>&mdash;Nunca te esqueças de que fui eu quem te apresentou ao commendador
+Francisco Vaz e a sua filha D. Anna. Eu disse-lhes que tu, Eduardo Pimenta,
+eras homem de bem, e infeliz, sem o haver merecido.<span class="pn">{68}<br>{69}</span></p>
+
+<h1><a name="SECTION00080000000000000000">VII</a></h1>
+
+<blockquote>
+ <p>Desejas conhecer o que és? repara nos outros: tal tu és.</p>
+
+ <p>Desejas conhecer os outros? Olha para dentro de ti, que em ti os vês.</p>
+
+ <p class="obra">S<small>CHILLER.</small>&mdash;<em>Poesias.</em></p>
+</blockquote>
+
+<p>D. Anna Vaz, a filha do commendador de Santa Christina de
+Almudena&mdash;commendador, entendam, de velha estôfa, aparentado com os
+descendentes dos Pelagios e Ordonhos&mdash;era creança de quinze annos, quasi
+bella, mas, melhor do que perfeita belleza, era boa, candida, innocente, e
+triste das saudades de sua mãe, poetica da sagrada poesia que se curva a
+derramar prantos sobre a urna de umas cinzas queridas.</p>
+
+<p>Venceslau conhecera em Londres um irmão d'esta menina, alferes emigrado,
+compleição doentia, éthico da enfermidade nostálgica, exacerbada por amor a uma
+senhora de Lisboa, com quem destinára casar-se, quando os franceses invadiram
+Portugal.<span class="pn">{70}</span></p>
+
+<p>Falleceu este moço nos braços de Venceslau Taveira, pedindo-lhe que, se um
+dia regressasse á patria, procurasse em Lisboa seu pae, e lhe pedisse que
+entregasse á sua promettida esposa o retrato que lhe confiava.</p>
+
+<p>O portador do triste legado cumpriu a vontade do moribundo seis annos
+depois.</p>
+
+<p>O commendador acceitou o retrato, e voltando-se para uma senhora, que estava
+ao lado de sua filha no canapé, disse:</p>
+
+<p>&mdash;D. Julia, aqui tem o seu retrato.</p>
+
+<p>Venceslau inclinou-se profundamente diante da querida do seu amigo e disse:
+</p>
+
+<p>&mdash;Era V. Ex.ª digna da paixão de Antonio Vaz, porque, se a comparo com
+o retrato, noto que a semelhança foi já apagada pelas lagrimas. A formosura da
+mocidade foi substituida pela formosura da mágoa.</p>
+
+<p>Julia, muito commovida, pediu ao portador do retrato que lhe referisse as
+particularidades da vida e morte de Antonio Vaz. Depois, disse ella que o seu
+malogrado noivo lhe contava em cartas as virtudes do seu amigo Venceslau
+Taveira, e os impagaveis carinhos de irmão com que elle tentava suavisar-lhe os
+espinhos da saudade, alentando-lhe com esperanças o animo quebrantado.
+Terminada a sensibilisadora reminiscencia das cartas, proferida entre soluços,
+D. Julia apertou a mão de Venceslau; e, levando-a aos labios, apesar do esforço
+d'elle, balbuciou:</p>
+
+<p>&mdash;Beijo a mão que fechou os olhos do meu extremoso amigo!<span
+class="pn">{71}</span></p>
+
+<p>Pouco depois, chegou uma sege á porta do commendador, e logo depois entrou
+um criado a annunciar que era esperada a snr.ª D. Julia de Miranda. Venceslau,
+obtida licença de Francisco Vaz, deu o braço á dama, e levou-a á traquitana,
+reparando então que o cocheiro e lacaio vestiam libré, indicativa de familia
+illustre.</p>
+
+<p>Voltando á sala, contou-lhe o commendador estas admiraveis coisas de D.
+Julia:</p>
+
+<p>Era filha d'um desembargador do paço, já defuncto. Herdára trezentos mil
+cruzados em propriedades rusticas e urbanas. Tinha vinte e sete annos de idade,
+e deixára de ser formosissima desde que a paixão por Antonio Vaz a desfigurou,
+mostrando-lhe repetidas vezes a morte no seu espelho o semblante cadaverico.
+Mas contou o commendador que, sem impedimento da decadente belleza, eram muitos
+os pretendentes á mão de Julia, bem que no pensar do ironico sugeito, muitos
+haveria que a tomassem por esposa, ainda que ella não tivesse mãos, tão
+necessarias ás formulas sacramentaes do matrimonio.</p>
+
+<p>Assim começaram as boas e logo familiares relações do escriptor com esta
+excellente familia. Rara noite Venceslau deixava de visitar o agradecido
+fidalgo, cujas ideias liberaes a morte do filho perseguido acrizolára. Fugiam
+as horas de alegre palestra entre os dois, em quanto D. Anna estudava as suas
+lições de musica, para depois, ao fim da noute, conversar em francez com o
+jornalista.<span class="pn">{72}</span></p>
+
+<p>Intencionado a divertir Eduardo das suas abstracções penosas, Venceslau
+apresentou o amigo, depois de prevenir os hospedeiros a favor da tristeza
+taciturna do homem, que parecia assombrado do raio fulminador da sua mocidade.
+</p>
+
+<p>Acolheram Eduardo, tanto o pae como a filha, com tanta sympathia e dó que, a
+poucos dias andados, já o confundiam na familiar lhaneza com Venceslau Taveira.
+E esta bella alma alegrava-se quando o via tão bem acceito, e já tão outro do
+que era nas escuras melancolias, pelas quaes elle se havia feito aborrecer de
+quantos o tratavam.</p>
+
+<p>Algumas noites concorria tambem D. Julia de Miranda, com o seu capellão;
+homem de avançados annos, e tão amigo da fidalga que dizia idolatramente que
+não era capellão, mas sim sacerdote d'aquella divindade.</p>
+
+<p>Em um d'esses saráos, desconfiou Venceslau que o seu amigo, abeirando-se do
+piano em que Julia tocava, lhe passára uma carta. Sobresaltou-o a suspeita,
+como se o caso tivesse a importancia d'um delicto contra as regras da sã moral.
+Não espanta semelhante estranheza em homem que rossava pelos vinte e oito annos
+sem haver entregado carta de amores, nem sequer ter sentido a precisão de
+escrever uma, no intervallo de dois artigos politicos! A virgindade
+epistolographica é hoje, e era então mais rara que todas as outras.</p>
+
+<p>Aconselhou-lhe a prudencia que, antes de interrogar o amigo sobre o caso
+suspeito, obtivesse e certeza, para que as advertencias assentassem na culpa
+incontestavel.<span class="pn">{73}</span> N'este em meio, chegou a Eduardo a
+nova da morte do pae, e por tanto a sahida temporaria do herdeiro para a
+provincia.</p>
+
+<p>No espaço dos dois mezes de ausencia, espiou Venceslau o coração de D. Anna,
+e tão facilmente quanto era de esperar da candura da menina, descobriu a
+saudade no empenho das perguntas e desejos de vêr as cartas de Eduardo.</p>
+
+<p>Além de que, D. Julia, em pratica sósinha com o jornalista, perguntou-lhe se
+o seu amigo alguma vez lhe tinha confidenciado sentimentos amorosos.</p>
+
+<p>&mdash;Muitos e profundos, minha senhora&mdash;respondeu Venceslau,
+despercebido da pergunta intencional.</p>
+
+<p>&mdash;A respeito de quem?</p>
+
+<p>&mdash;Da sancta que ha dez annos está no céo.</p>
+
+<p>&mdash;Ah! eu não perguntava isso...</p>
+
+<p>&mdash;Que era então, snr.ª D. Julia?</p>
+
+<p>&mdash;Já vejo que me enganei... Eu referia-me...</p>
+
+<p>&mdash;Á sua amiga D. Anna Vaz? Respondo que não, minha senhora. Eduardo
+Pimenta nunca me revelou, depois que D. Antonia de Portugal morreu, affectos a
+outra senhora. Isto, porém, não é desmentil-o, se elle disse o contrario.
+Eduardo é tão meu amigo que me não confia tal intento, se o tiver.</p>
+
+<p>&mdash;Porquê?&mdash;atalhou admirada D. Julia.&mdash;Os intentos, que um
+amigo esconde de outro, são os máos. Revelar um affecto nobre, honesto e
+natural, é prova de amisade. Aos inimigos e indifferentes é que taes segredos
+não se communicam. O snr. Taveira, se amasse a<span class="pn">{74}</span>
+minha amiga, duvidaria revelar tão bom sentimento a Eduardo?</p>
+
+<p>&mdash;Se Eduardo me houvesse apresentado n'esta casa, eu sahiria d'ella
+pretextando um motivo acceitavel, e depois denunciaria a minha pusillanimidade
+ao meu amigo.</p>
+
+<p>&mdash;Santo Deus! como V. S.ª é austero!&mdash;voltou sorrindo a rica
+herdeira.&mdash;Não cuidei que do estrangeiro se trouxessem regras de moral tão
+rigorosas!</p>
+
+<p>Venceslau fitou com desgosto o semblante ironico de D. Julia. Penalisava-o o
+desconcerto da reflexão, impropria de tal dama, com o primoroso juizo que elle
+compozera da sua sensatez.</p>
+
+<p>E ella, que se viu encarada com estranheza, sentiu logo beliscado o amor
+proprio, a fibra sensivel da vaidade de parecer moralmente perfeita.</p>
+
+<p>&mdash;Não me parece&mdash;proseguiu a dama gravemente&mdash;desdourar-se um
+rapaz que estima uma senhora da casa onde o apresentam. Conheço muitas amigas
+minhas casadas e virtuosas, que encontraram affeições nobres e dignos maridos
+em pessoas apresentadas na casa de seus paes. Póde ser que d'outro modo se
+hajam casado muitas; mas eu, se fosse mãe, estimaria conhecer os noivos de
+minhas filhas; e, se fosse noiva, preferiria ouvir na sala de meu pae a ouvil-o
+da janella, para a rua, o homem que houvesse de ser meu marido.</p>
+
+<p>Taveira sentiu-se enredado na dialectica de D. Julia; mas, desatado dos
+embaraços pouco menos de melindrosos, objectou:</p>
+
+<p>&mdash;Eduardo Pimenta ha de ser sempre infeliz. A<span
+class="pn">{75}</span> enorme desgraça da sua mocidade foi repellão de vento
+que lhe apagou na alma toda a luz das alegrias puras. A sombra d'uma martyr não
+consente que outra mulher, embora seja um anjo, repouse venturosa no coração
+onde ella deve ter deixado a sua imagem, como Deus deixou á porta do eden o
+archanjo da espada de fogo.</p>
+
+<p>D. Julia, maravilhada da ideia e da fórma, ia replicar, quando Venceslau
+proseguiu, abalando-lhe o animo ás primeiras palavras:</p>
+
+<p>&mdash;V. Ex.ª amou ardentemente o meu chorado amigo Antonio Vaz. Elle
+morreu, e a snr.ª D. Julia, que não era sua esposa nem devia ao amor das
+primeiras nupcias o honrado sacrificio das segundas, guarda á memoria do homem
+amado a lealdade que eu respeito e que todos lhe admiram. Ficou V. Ex.ª nova,
+bella e rica; e d'estes tres dons que raras vezes se conciliam e tão desejados
+se procuram, fez V. Ex.ª realçar o merecimento do seu holocausto ao amor unico
+da sua vida, querendo assim que a nobre alma de Antonio Vaz se gose na
+bemaventurança da religiosidade com que V. Ex.ª n'este mundo se lhe devota. Se
+a snr.ª D. Julia me permitte o comparal-a, Eduardo Pimenta, está em ponto de
+maior obrigação e fineza á alma de Antonia de Portugal. O homem que levantou
+nos braços o cadaver da mulher lentamente assassinada por amor d'elle, não deve
+mais apertar n'esses braços outra, se a essa tem de render os votos e palavras
+com que venceu o coração da desditosa que lhe immolou mocidade, gentileza,
+nascimento, parentes, contentamento, futuro,<span class="pn">{76}</span> e até
+a memoria hoje em dia despresada d'esses que ainda se lembram da martyr para a
+execrarem.</p>
+
+<p>D. Julia, enternecida pelo convulso proferir d'estas vozes, não conteve as
+lagrimas. Era n'este sentir grande parte o admirar, em moço tanto na flor dos
+annos, um respeito assim fervoroso á consagração do primeiro amor, e holocausto
+perpetuo e por tanta maneira penoso da alma á mulher amada, primeira e unica.
+</p>
+
+<p>Vendo-a pezarosa e absorta, Venceslau desculpou-se da crueldade de suas
+tristes reminiscencias, e derivou a pratica a outros assumptos,
+ageitando-se-lhe bom lanço com a entrada do commendador.</p>
+
+<p>D. Julia, entretanto, foi ter com a sua amiga que de proposito se affastára
+para dar logar ás averiguações que tanto interessavam ao seu desassocego.</p>
+
+<p>&mdash;Tu vens triste?!&mdash;perguntou Anna assustada.</p>
+
+<p>&mdash;Triste, não; filha... Venho peor que triste... Não vês que chorei?</p>
+
+<p>&mdash;Choraste!... é verdade!... Porque?</p>
+
+<p>&mdash;Que rapaz é este Venceslau! Bem m'o dizia teu mano. Chamava-lhe elle
+o coração de uma creança temperado pela prudencia de um velho sem manchas na
+sua vida de moço. É assim... é admiravel; mas Deus nos livre que todos os paes
+e noivos se parecessem com elle em escrupulos e severidade.</p>
+
+<p>&mdash;Então que te disse a respeito do Eduardo?... que me não ama?</p>
+
+<p>&mdash;Não lhe fiz semelhante pergunta, menina. Apenas me adivinhou a tenção
+franziu a testa, mudou de<span class="pn">{77}</span> aspecto, e reprovou que
+tu amasses um homem nas circumstancias de Eduardo, viuvo de uma martyr,
+devastado por essa grande e unica paixão da mocidade, incapaz de fazer feliz a
+mulher que lhe pedisse amor impossivel; emfim, Annica, comparou-o na sua
+posição com a minha, para vir a dizer, se eu bem o entendi, que não deves
+arrancar o coração de Eduardo á saudade da outra desgraçada que lhe expirou nos
+braços... Fallou-me de teu irmão, e fez-me chorar... Olha, filha, é
+extraordinario este homem! Eu, quando o ouvia ainda agora, sentia em mim não
+sei se assombro, se admiração, se profunda sympathia por elle!</p>
+
+<p>&mdash;Mas então...&mdash;interrompeu a infantil menina, como se as
+admirações ou sympathias de Julia não diminuissem nada do seu
+alvoroço.&mdash;Disse elle que Eduardo não me ama?</p>
+
+<p>&mdash;Tal não disse, creança...</p>
+
+<p>&mdash;Pois que foi? Eu não entendi...</p>
+
+<p>&mdash;Nem admira que não entendas, filha. Vê se percebes o receio de
+Venceslau: diz elle que o amor de Eduardo morreu com outra que elle amou, e não
+póde repetir-se comtigo.</p>
+
+<p>Anna fitou os seus fulgurantes olhos nos de Julia, quedou-se abysmada longo
+tempo na sua contemplação, e, só depois de chamada pela amiga, sorriu com mais
+tristeza do que se chorára, e murmurou:</p>
+
+<p>&mdash;Para que me escreveu elle duas cartas a dizer que me adorava como os
+anjos adoram a Deus?<span class="pn">{78}</span></p>
+
+<p>&mdash;E eu creio bem que elle te adora, minha querida Annica...</p>
+
+<p>&mdash;Não digas isso... Dize-me a verdade, porque eu...</p>
+
+<p>&mdash;Tu... quê, filha?</p>
+
+<p>&mdash;Eu perdi a minha alegria, ando triste, não penso senão n'elle; e
+antes queria morrer que não o vêr mais...</p>
+
+<p>&mdash;Pobre creança!... Não pensei que o amavas assim!&mdash;disse Julia
+beijando-a e acariciando-lhe os cabellos.&mdash;Pois filha, tem esperança... As
+coisas, que disse o Taveira, bem pensadas, importam pouco. Elle entende a
+dignidade, o amor e o dever de um modo excepcional. Os corações alheios hão de
+regular-se por preceitos mais faceis e humanos. Se Eduardo te merecer, e teu
+pae consentir, que tem que cazes com um homem que muito amou outra mulher digna
+d'elle? Peor seria cazares com outro que houvesse sido mau marido, e quizesse
+fazer vêr isso como virtude aos teus olhos... Mas... mas se...</p>
+
+<p>&mdash;Mas se...&mdash;acudiu Anna impaciente da suspensão.</p>
+
+<p>&mdash;Mas se teu pae impedir tal casamento? Ainda não pensaste n'isso?</p>
+
+<p>&mdash;Não... É verdade... Se meu pae impedir... que hei-de eu fazer?...</p>
+
+<p>&mdash;Eu sei lá, filha! Obedecer a teu pae; que outra coisa ha de fazer uma
+menina da tua qualidade? Eu<span class="pn">{79}</span> bem sei que teu pae é o
+fidalgo menos vaidoso que eu conheço. Tenho-o visto ser egual com todos, e
+admittir em sua casa pessoas de baixa extracção sem indagar a procedencia
+d'ellas; mas tambem é certo que, uma vez, antes de cá vir o Eduardo, me disse
+elle a mim que morreria feliz se te deixasse casada com um homem como Venceslau
+Taveira... Ah!&mdash;esta subita exclamação de D. Julia foi solemnisada com um
+bater de palmas significativo de valioso descobrimento nos arcanos do
+coração.&mdash;Queres tu vêr que eu comprehendi perfeitamente agora as
+repugnancias de Taveira?</p>
+
+<p>&mdash;Sim? que é?</p>
+
+<p>&mdash;É ciume, olha que é ciume! O Venceslau não t'o declarou; mas pensou
+em te cortejar. Como tem um genio exquisito, esperava occasião de manifestar-se
+a teu pae, antes de consultar a tua vontade. Mas eu que tal não imaginava fui
+fallar-lhe do teu amor ao outro, e ahi tens a razão porque elle expoz as
+extravagantes theorias, que eu nunca ouvi a ninguem. Pois não é outra coisa,
+Annica. O Venceslau ama-te, e começa a odiar o rival. Complicam-se as
+situações. Veremos o desfecho d'isto.</p>
+
+<p>&mdash;Eu não caso com o Taveira, ainda que o papá me
+obrigue!&mdash;exclamou D. Anna, batendo o pé, e tregeitando uns gestos de
+mimo, que davam a lembrar irritações de menina por amor das bonecas.</p>
+
+<p>&mdash;Pois então, creança&mdash;aconselhou Julia com o siso dos treze annos
+que levava de vantagem á sua confidente&mdash;tem prudencia, não te precipites.
+Parece-me<span class="pn">{80}</span> que o Taveira, se teve aspirações, como
+creio que teve, á tua mão, sabendo que o Eduardo te namora, é incapaz de
+prevalecer-se da estima de teu pae para desviar o outro d'esta casa.
+Entretanto, é preciso cuidado. Previne o Eduardo. Escreve-lhe, se não poderes
+dizer-lh'o. Que se acautele; que não conte nada; que vá grangeando a confiança
+de teu pae, até conseguir a intimidade que Venceslau obteve. Depois, eu te
+auxiliarei, intercedendo a favor de Eduardo, se houver resistencia.</p>
+
+<p>Este dialogo precedeu a chegada do viuvo de D. Antonia.</p>
+
+<p>Quando Venceslau Taveira, entre severo e jocoso, lhe feriu o melindre com as
+ironias allusivas ao legendario D. Juan e á sacrificada filha do commendador,
+já o mysterioso amador de D. Anna Vaz estava prevenido.</p>
+
+<p>O ingrato acceitára as insinuações offensivas do caracter do seu amigo. Não
+duvidou serem ciumes os brios, d'outro modo inexplicaveis, do seu mentor
+gratuito. D'ahi a ancia de se desendividar a dinheiro, para assim se emancipar
+da preponderancia que o seu valedor na emigração parecia exercer-lhe na
+vontade, e mais que tudo no alvedrio dos seus amores.</p>
+
+<p>Em meio d'isto, no animo do bracharense, transfigurado pelos quinze mil
+cruzados, operavam-se curiosas perplexidades que o accusam de espirito
+destragado talvez pela desgraça da sua juventude. Aconteceu, pois, que estando
+elle na sala do commendador Vaz, ao mesmo tempo que D. Julia de Miranda referia
+a um advogado presente o bom exito de certo pleito, d'onde acresciam<span
+class="pn">{81}</span> aos seus bens vinculos no valor de sessenta mil
+cruzados, ouviu perguntar o pae de D. Anna ao capellão da opulenta herdeira, em
+quanto orçava elle os haveres da senhora. E o padre, recolhido alguns segundos,
+respondeu:</p>
+
+<p>&mdash;Por morte do snr. desembargador, a snr.ª D. Julia succedeu em bens
+avaliados pelo barato, em trezentos mil cruzados. Ora, como sua excellencia não
+gasta os seus rendimentos, o seu dote cresceu em sete annos dezoito a vinte mil
+cruzados. Ajunte-lhe V. S.ª o vinculo de Collares, e póde sem receio de errar
+cem moedas, computar em quinhentos mil cruzados a casa da snr.ª D. Julia.</p>
+
+<p>&mdash;E que ha de ella fazer a tamanhos bens de fortuna?&mdash;perguntou o
+commendador.</p>
+
+<p>&mdash;Comigo não os levo para a cova&mdash;respondeu a dama.&mdash;Os
+vinculos irão a quem tocarem; os bens livres a quem eu quizer.</p>
+
+<p>Esta resposta rejubilou Francisco Vaz, esperançado que os filhos da sua Anna
+viessem a herdar os bens d'aquella que vestira eterno lucto d'alma por seu
+filho Antonio.</p>
+
+<p>Mas, ao mesmo tempo, Eduardo Pimenta bascolejava no craneo uns pensamentos,
+que não se inculcam por originaes nem torpes; mas que merecem ser marginalmente
+assignalados por quem estuda a vida nos romances.</p>
+
+<p>Dizia elle para dentro da sua consciencia:</p>
+
+<p>&mdash;Esta mulher convinha-me. Andei muito depressa<span
+class="pn">{82}</span> na declaração á outra. Se Venceslau conseguir fechar-me
+uma porta, já sei a qual hei-de ir bater. Anna inquestionavelmente é uma linda
+flôr; mas Julia de certo é um fructo cubiçavel. Anna é um anjo de belleza; mas
+quinhentos mil cruzados...</p>
+
+<p>&mdash;Quinhentos mil cruzados&mdash;dizia Venceslau Taveira ao commendador,
+como se désse complemento á phrase ou resposta á pergunta mental do
+amigo&mdash;não bastam para comprar um dia de pura felicidade, se o possuidor
+os não depõe nas mãos da Caridade, segunda mãe dos orfãos, e divindade luminosa
+nas almas que a desgraça entenebreceu. Quinhentos mil cruzados não vingam
+ajuntar mais uma hora de vida aos que se estorcem nas ancias da morte, com as
+mesmas contorsões dos que expiram nos muladares e nas palhas fetidas dos
+sótãos.</p>
+
+<p>&mdash;Isso é pavoroso!&mdash;disse Eduardo Pimenta, contando com o applauso
+dos circumstantes.</p>
+
+<p>Riu-se apenas o capellão, talvez despeitado por vêr que um profano lhe
+tomava a mão no seu direito de moralisar ácerca da inutilidade do dinheiro. E
+ninguem mais applaudiu a reclamação faceta do interruptor. Venceslau, porém,
+encarando-o com boa sombra, respondeu:</p>
+
+<p>&mdash;Bem se vê que este meu amigo está rico!... A moral dos pobres é
+sempre o pavor dos que se receiam que ao apostolado da esmola se siga a
+tentativa do roubo...<span class="pn">{83}</span></p>
+
+<h1><a name="SECTION00090000000000000000">VII</a></h1>
+
+<blockquote>
+ <p>Franqueza e mais franqueza. Assim é que a amisade<br>
+ Póde ter duração e dar felicidade.</p>
+
+ <p class="obra">V<small>ISCONDE DE </small>C<small>ASTILHO</small>&mdash;No
+ <em>Avarento</em>.</p>
+</blockquote>
+
+<p>Se as sympathias de quem lê este livro começam a divorciar-se do viuvo de
+Antonia, apresso-me a divulgar um galhardo lance que deve restituil-o á estima
+das familias.</p>
+
+<p>Eduardo, tres dias depois dos successos contados no anterior capitulo,
+procurou Venceslau, e abriu-lhe a sua alma d'este feitio:</p>
+
+<p>&mdash;Volto a buscar o amigo extremoso que, depois de dez annos, me deixou
+vêr que tudo n'este mundo é imperfeito, sem excepção dos amigos.</p>
+
+<p>Venceslau, ouvido o esperançoso exordio, depoz a penna, recostou-se á
+espalda da cadeira, fixou-o com attenção menos cordeal que admirada, e esperou
+em silencio.<span class="pn">{84}</span></p>
+
+<p>E o querido de D. Anna, com a firmeza e gravidade dos arrojos nobres,
+proseguiu:</p>
+
+<p>&mdash;Houve um tempo em que tu, Venceslau, compadecido da insulação em que
+vias a minha pobre alma, raciocinavas amigavelmente reprovando a fraqueza menos
+de mulheril a que a saudade me extenuára, a ponto de inutilisar a minha aptidão
+para o trabalho, para o dever e para tudo que é proprio de homem. Eu
+escutava-te, soffreando ora as lagrimas, ora a indignação: as lagrimas, quando
+realmente me via inutil, a depender das tuas liberalidades; a indignação,
+quando se me pedia esforço incompativel com a minha amargura. Esta doença moral
+durou nove annos, queimando-me nas suas febres, e lacerando nas suas roscas de
+fogo o melhor da minha mocidade, introvertendo-me no devorar-se intimo da alma,
+em quanto, á volta de mim, os meus companheiros de exilio se distrahiam com o
+trabalho, ou se acalentavam com esperanças. Entrei na patria, chorando, em
+quanto os outros jubilavam, restituidos ás familias e recompensados com as
+posições e empregos de que se estão gosando. Quiz, porém, a Providencia que um
+raio de luz entrasse á noite profunda do meu coração, quando as supplicas da
+minha infeliz esposa alcançaram talvez da bondade divina que desviasse dos meus
+labios a taça da desesperação. Ao mesmo tempo que o desejo de viver renascia do
+seu sepulchro de nove annos, o cortejo das miserias que me confrangiam a
+virilidade e nobreza do meu caracter, deram-me treguas, permittindo o céo que a
+maldição de meu pae não chegasse<span class="pn">{85}</span> a esterilisar o
+meu patrimonio. A minha felicidade parecia recomeçar, ou antes começava para
+mim, quando de repente se levanta uma nuvem a negrejar no horisonte que tão
+claro se me prefigurava nos sonhos; mas, ao travez d'esta nuvem,
+transluzia-se-me uma imagem de mulher, formosa e innocente como ha doze annos
+eu vira outra que depois a chuva das lagrimas apagou. Esta segunda, santa e ao
+mesmo tempo sinistra visão, é Anna Vaz, é aquelle anjo de resgate que tu me
+apontaste na via dolorosa da minha paixão. Venceslau, o teu caracter é
+nobilissimo; é, mas o meu entendimento não sonda todos os seus arcanos. Ha
+delicadezas reconditas nas grandes almas; ha mysterios de abnegação que se não
+descortinam sem grande iniciação de virtudes que não tenho. Bem longe estava eu
+de suspeitar que tu amavas a filha do commendador; bem longe estavas tambem tu
+de me communicar esse segredo. Duas maravilhas para mim: uma, a reserva, para
+quem a não devias ter; outra, a renuncia para quem seria capaz de t'a acceitar.
+De qualquer das fórmas considerado o teu proceder, assombras-me, porque és
+homem, porque és bom, porque tens vinte e oito annos; todavia, se melhor
+pondero a tua indole, isto que em mim é assombro talvez se deva considerar
+incapacidade para entender o melindre da tua honradez, nas grandes e nas
+pequenas coisas, na politica e na moral, nos actos da consciencia e nos do
+coração. Não obstante, Venceslau Taveira, consente que eu te pergunte porque me
+não disseste que amavas D. Anna Vaz?<span class="pn">{86}</span></p>
+
+<p>&mdash;Porque eu não amava D. Anna Vaz&mdash;respondeu serenamente o
+interrogado.</p>
+
+<p>&mdash;Então amaste-a depois que desconfiaste da minha dedicação?</p>
+
+<p>&mdash;Nem antes nem depois.</p>
+
+<p>&mdash;Amigo, abre-me a tua alma, se ainda me prezas. Não te julgues abatido
+da tua dignidade com semelhante revelação. Se fui teu competidor, a ignorancia
+me desculpa. Poderia accusar-te eu d'este dissabor, culpando-te o resguardo que
+tens para os mais communicativos sentimentos. Conheço o primor dos teus brios;
+sei que regeitarás a mulher que não teve espirito bastante para entrar ao
+secreto das tuas intenções. Não pódes arguil-a, meu amigo, porque ninguem te
+ouviu palavra indicativa de affeição superior ás affeições triviaes das salas.
+O commendador disse algumas vezes a D. Julia que tu deixáras o coração onde
+deixaste o habito de noviço. Os amigos d'elle e teus pasmavam que sahisse do
+mosteiro quem tão de molde nascera para as frialdades do claustro e desdens da
+vida social. Em meio d'estas apreciações, não era natural que a innocente Anna
+entendesse melhor a tua indole...</p>
+
+<p>&mdash;Que desperdicio de palavras!&mdash;atalhou Venceslau Taveira, vencido
+da impaciencia, que elle tantas vezes subjugava a esforços de cortezia.</p>
+
+<p>&mdash;Eu já sabia que principiava a cansar a tua attenção&mdash;replicou Eduardo,
+dissimulando a custo o dezar.&mdash;O que tenho que dizer-te é pouco mais,
+todavia o que mais importa. Deponho nas tuas mãos a inabalavel<span
+class="pn">{87}</span> resolução de desviar o espirito d'essa mulher que é
+causa innocente dos nossos primeiros desgostos, e peço á tua bondade que me
+absolvas da culpa, se delinqui, não te adivinhando. Se eu souber ou podér
+descobrir que o ausentar-me da casa do commendador te é aprazivel, mais grato
+me será a mim o sacrificio do que a ti. O que eu repulso com todas as forças da
+minha honra é a imputação de rival do meu maior amigo.</p>
+
+<p>&mdash;Respondo&mdash;voltou Venceslau, retomando a penna para continuar o
+seu artigo.&mdash;Não amei a filha do commendador. Zelei a dignidade da familia
+que nos recebeu cordealmente. Demasiei-me comtigo em transcendencias de
+melindres, que, melhor avisado, eram pieguices. Se Anna Vaz te ama, paga-lhe
+com honrado amor a divida. Se tens coração e brios, se crês que esse amor é luz
+para durar e não relampago para deslumbrar, apagar-se e tecer-te mais espessas
+trevas, ama a creatura que te ama. O commendador estima-te: se lhe pedires a
+filha, persuado-me que lhe será agradavel conceder-t'a. Quanto a riquezas, ouço
+dizer que elle as não tem; mas sobeja-lhe a mediania. Nunca te conheci
+ambicioso. O que tens sobra-te á felicidade, se a procurares áquem da
+opulencia. Não sei que mais deva dizer-te sobre o ponto.</p>
+
+<p>Eduardo não redarguiu. Havia o que quer que fosse adstringente e intallador
+na garganta do homem. Preparára-se para outro desfecho. Contava com lances
+irritantes que explicassem a sua ausencia da casa do commendador. A situação
+por tanto era a mesma, era boa,<span class="pn">{88}</span> mas elle queria
+peoral-a. Venceslau não amava D. Anna; mas elle, para acerbar o trago do seu
+absyntho, queria immolar-se ao amigo, recolher outra vez o coração ao seu
+tumulo, revestir o crepe d'uma segunda viuvez, e recomeçar o seu ir-se d'olhos
+no céo pelas regiões sombrias da saudade immortal.</p>
+
+<p>Devia ser isto o que martellava o peito do homem, quando elle entrou no
+pateo d'um palacete ás Amoreiras.</p>
+
+<p>Morava ahi D. Julia de Miranda. Estavam os cavallos postos á traquitana; e
+já na escada fremiam os vestidos da fidalga, quando elle entrou.</p>
+
+<p>&mdash;Está aqui, snr. Pimenta!&mdash;exclamou Julia.&mdash;Procura-me ou
+vae de passagem? </p>
+
+<p>&mdash;V. Exc.ª vae sahir; voltarei, quando lhe não for tão incommodo.</p>
+
+<p>&mdash;Não, senhor: suba. Eu ia a compras que posso adiar, e talvez fosse
+jantar com a minha Annica; mas, como não sou esperada, não receio que ella se
+queixe. Suba. Ha muito que eu ambicionava o prazer da sua visita.</p>
+
+<p>Eduardo deu-lhe o braço, e entrou pela primeira vez nas magestosas e severas
+salas do desembargador Miranda, que se prezava (isto vae como nota) de ter
+n'ellas as principaes alfaias dos marquezes de Tavora, condemnados ao supplicio
+por seu pae&mdash;acquisição, a das alfaias, legitimamente feita, por ter sido
+um brinde do marquez de Pombal ao ministro que, em particular e não por
+sentença, incumbíra os tres carrascos de mostrarem<span class="pn">{89}</span>
+previamente á marqueza de Tavora, D. Leonor, os supplicios reservados para o
+esposo, filho e parentes.</p>
+
+<p>Ditas as frivolidades usuaes, Eduardo ageitou o semblante ao proposito, e
+por esta maneira respondeu á curiosidade de D. Julia:</p>
+
+<p>&mdash;Sahi ha pouco de casa de Venceslau Taveira...</p>
+
+<p>&mdash;Foi talvez&mdash;interrompeu a dama&mdash;felicital-o por ter sido
+eleito deputado? Eu mandei-lhe agora mesmo o meu bilhete de visita. Não sabe
+quanto folguei com esta prova dada ao talento e á virtude d'aquelle rapaz!
+Deve-o a si, á sua dedicação, e a nenhuns protectores.</p>
+
+<p>&mdash;É verdade, minha senhora, Venceslau é um complexo de excellencias que
+ha de ir muito longe, se a distincção é carreira em Portugal. Fui lá; mas,
+snr.ª D. Julia, o meu espirito ia tão preoccupado d'outro assumpto que nem me
+occorreu dar-lhe os emboras. V. Ex.ª consente-me que eu seja rasgadamente
+franco nas melindrosas confidencias que lhe vou fazer?</p>
+
+<p>&mdash;Oh! pois não!</p>
+
+<p>&mdash;Dá-me a honra de eu a considerar minha amiga?</p>
+
+<p>&mdash;E sou deveras, snr. Pimenta.</p>
+
+<p>&mdash;E portanto faculta-me a liberdade de lhe fallar como se falla a...
+uma irmã?</p>
+
+<p>&mdash;Assim é que me consideram as pessoas de quem sou sincera amiga.</p>
+
+<p>&mdash;V. Ex.ª tem n'essa conta a snr.ª D. Anna Vaz.</p>
+
+<p>&mdash;E muito no intimo da minha alma. Não lh'o disse ella?</p>
+
+<p>&mdash;Raras vezes tenho trocado duas phrases com a<span
+class="pn">{90}</span> snr.ª D. Anna; mas facilmente conheci a intimidade que
+liga dois anjos. Quando voltei do desterro, era eu em Lisboa um como
+desamparado dos mais vulgares affectos. Ninguem me saudou, ninguem me deu o
+festival abraço do bem-vindo; nada me deu a conhecer que pizava chão da patria;
+o céo era pesado e silencioso para mim como o do exilio; todas as physionomias
+me eram estranhas: vi-me proscripto entre os homens que fallavam a minha
+lingua, sem me darem d'ella uma das doces palavras que fazem sentir a patria na
+alma e no coração. Repulso das caricias da familia para os braços d'uma adorada
+mulher, nas agonias do trespasse, como que, ao mesmo tempo, me vi viuvo e
+orphão. Arrastei o meu lucto, oito annos de emigrado, e, ao saltar em terra
+portugueza, a dôr pungia-me mais, porque não achei ninguem que me désse um
+peito onde encostasse o rosto coberto de lagrimas. Redobrou-se-me o tedio da
+vida. Invejei a paz dos mortos. Abominei-me pela cobardia de viver...</p>
+
+<p>&mdash;Tendo um amigo como Venceslau Taveira!...&mdash;interrompeu D. Julia,
+retendo a custo as lagrimas justificadas pela toada plangente d'aquella bem
+discursada elegia.</p>
+
+<p>&mdash;Venceslau&mdash;tornou o lastimado Pimenta&mdash;é um caracter
+nobilissimo; porém n'elle as operações reflexivas e frias da razão predominam
+as outras faculdades. Não sei se elle é capaz de grandes paixões; mas
+experimentei que as paixões alheias não o desvairam das linhas que pautou aos
+actos do seu bem ordenado<span class="pn">{91}</span> juizo. Venceslau
+consolava-me com as theorias e dictames dos pensadores de gabinete; mas eu,
+fóra do ambiente sereno do meu amigo, encontrava as tempestades soltas que me
+baldeavam a alma por quantos golphãos se abrem aos pés de quem uma vez tomou
+nos braços o cadaver d'uma mulher formosa e amada, e o collocou debaixo da
+enxada de um coveiro.</p>
+
+<p>N'este lance, Eduardo, quanto dos olhos marejados cumpria inferir, tinha
+ante si o phantasma de Antonia, não como apparição do anjo consolador, mas sim
+a reprovar-lhe a invocação da sacratissima memoria para o entrecho d'uma
+comedia ignobil, com seus entremeios de declamação tragica.</p>
+
+<p>D. Julia, d'esta feita, não pôde estancar duas lagrimas, signaes da
+enternecida admiração que lhe estava entrando na alma pelos desastres de tão
+sensivel quanto infeliz moço. E elle continuou, guardadas as pausas da arte
+scenica:</p>
+
+<p>&mdash;Quando Venceslau me convidou a ser apresentado ao commendador Vaz,
+dizia-me uma voz secreta que este passo de tão simples natureza seria na minha
+existencia uma phase nova, o marco erguido entre dois abysmos&mdash;o que se
+fechou e outro que se abre.</p>
+
+<p>&mdash;Porque?!&mdash;atalhou D. Julia.</p>
+
+<p>&mdash;O presentimento, minha senhora; a vista dupla dos grandes
+desgraçados...&mdash;a sombra do anjo negro que esvoaça á volta de mim, e ás
+vezes me rossa no peito com a aza, como ave nocturna que bate na pedra de uma
+sepultura. Agora diga-me V. Ex.ª se o meu<span class="pn">{92}</span> presagio
+era chimera de visionario. Entrei na sala do commendador, e vi duas senhoras.
+Na face de uma desabotoavam-se em sorrisos as flores do primeiro abril do
+coração; na face da outra havia uns toques de dôr, a pallidez reflexa dos
+luctos do espirito, a formosura esculptural de estatua que se curva a chorar
+sobre uma urna de cinzas. Esta era V. Ex.ª; a outra, a innocencia radiando
+alegrias, era a snr.ª D. Anna Vaz. Eu contemplei-as ambas com o olhar profundo
+de quem já viu muita alegria de repente morta, e não viu ainda resurgir aurora
+de dia bonançoso para quem uma vez sentiu anoitecer-se-lhe tudo que lhe era
+claridade. Contemplei-as, e disse comigo: «Aquella que sorrí não me
+comprehenderia; aquella que já chorou, e tem os vestigios de lagrimas no rosto,
+saberia comprehendel-a eu.</p>
+
+<p>D. Julia, n'esta passagem, abaixou os olhos, menos pudibundos que sensiveis
+á fulguração penetrante dos olhares de Eduardo. E logo, inspirado pelo mavioso
+gesto da dama, continuou:</p>
+
+<p>&mdash;V. Exc.ª concedeu-me liberdade de irmão... recorda-se?</p>
+
+<p>&mdash;Sim...</p>
+
+<p>&mdash;Não me está accusando no silencio da sua alma?</p>
+
+<p>&mdash;De quê?</p>
+
+<p>&mdash;Nem me accusará?...</p>
+
+<p>&mdash;Posso eu prever até onde irão as suas confidencias?</p>
+
+<p>&mdash;Estão em principio, minha senhora... não tardo a concluil-as...
+Mas...&mdash;disse elle com suspensivo receio,<span class="pn">{93}</span>
+adocicando o aranzel á feição de galan timido:&mdash;No semblante de V. Exc.ª
+ha uma alteração que me está opprimindo...</p>
+
+<p>&mdash;Isso é illusão de V. S.ª; mas não se admire, se me vê mais triste...
+Eu não posso ouvir friamente referencias ás desventuras que V. S.ª não
+ignora... </p>
+
+<p>&mdash;Disse-m'as Venceslau. Bastou que elle me lembrasse o nosso
+companheiro de emigração, aquelle gentil espirito a quem V. Exc.ª está honrando
+com esses prantos, que nenhum homem, nenhum amor, nenhuma paixão fará
+estancar.</p>
+
+<p>A este tempo, D. Julia embebia no lenço as lagrimas e abafava os soluços.
+</p>
+
+<p>&mdash;Dôr respeitabilissima! coração fechado ao alvorejar de
+esperanças!&mdash;proseguiu Eduardo enfaticamente.&mdash;Como ousaria voltar eu
+a pôr olhos na face da martyr, sem medo de profanal-a! Quantos homens a teriam
+visto e amado, snr.ª D. Julia! quantos labios se teriam cerrado, afogando as
+temerarias revelações d'um amor vehemente! Quantos pensariam disputar á memoria
+de Antonio Vaz morto o coração da sua esposa promettida, do anjo comtemplativo
+de uma imagem entrevista no céo! Eu não! e todavia...</p>
+
+<p>D. Julia fez um gesto de antôjo, que eu, na minha ignorancia de traduzir
+todos os gestos de senhoras, não me atrevo a certificar que fosse enfado. Era
+um mover-se altivo de cabeça e um alçar de olhos com um franzido de
+fronte&mdash;coisas que a gente vê nos palcos e<span class="pn">{94}</span> nas
+salas, sem decidir onde o movimento obedece á rubrica, ou á natureza.</p>
+
+<p>Como quer que fosse, Eduardo quasi que se estupidificou e amarelleceu,
+principalmente quando a filha do desembargador, abrindo um sorriso acre, disse:
+</p>
+
+<p>&mdash;Cuidei que o snr. Pimenta ia fallar-me da minha amiga Anna Vaz.</p>
+
+<p>&mdash;Não se enganou, minha senhora...</p>
+
+<p>&mdash;Já sei que me vae dizer que sentiu por ella o digno amor que lhe tem
+declarado nas suas cartas...</p>
+
+<p>&mdash;Sem duvida...</p>
+
+<p>&mdash;E eu lhe assevero que ella o ama com toda a candura e sinceridade dos
+quinze annos.</p>
+
+<p>&mdash;Ignorando que me realisou o presagio dos renovados infortunios...</p>
+
+<p>&mdash;Que infortunios!.. Vê tudo tão negro, senhor Eduardo!...</p>
+
+<p>&mdash;Como hei-de eu dizer a V. Ex.ª que vou fugir da sua amiga, á
+semelhança de quem foge d'um segundo abysmo?</p>
+
+<p>&mdash;Fugir!... que ingratidão!...</p>
+
+<p>&mdash;E que injustiça me faz, snr.ª D. Julia! Ingrato, eu! Se uma alma
+invocada podésse descer do céo a depôr contra essa dolorosa iniquidade!... Eu,
+que nem pude ser ingrato a uma sombra!...</p>
+
+<p>&mdash;Se não é ingrato, que nome darei ao homem que motivou um amor
+extremo, e diz que vae fugir da pobre menina que nenhum desgosto lhe deu? Quem
+o obriga a fugir?<span class="pn">{95}</span></p>
+
+<p>&mdash;A honra.</p>
+
+<p>&mdash;Pois semelhante amor deshonra-o?</p>
+
+<p>&mdash;Condemna-me aos olhos de Venceslau Taveira. V. Ex.ª sabe-o.</p>
+
+<p>&mdash;Que sei eu? Que Taveira tem umas singulares theorias a respeito do
+cavalheirismo...</p>
+
+<p>&mdash;Sabe mais... Sabe que Taveira amava D. Anna Vaz quando eu lhe fui, em
+funesta hora, apresentado.</p>
+
+<p>&mdash;Não tenho a certeza de que elle a ama...</p>
+
+<p>&mdash;Mas attribuiu a ciumes a má vontade com que elle me via bemquisto da
+amiga de V. Ex.ª</p>
+
+<p>&mdash;É verdade, suspeitei ciumes; mas V. S.ª mais de perto e com melhor
+percepção lhe terá sondado o espirito...</p>
+
+<p>&mdash;É insondavel... Disse-me que a não amava; mas tambem me não soube
+dizer porque eu não devia amal-a.</p>
+
+<p>&mdash;E em resultado d'essa conferencia enigmatica, deixa V. S.ª de amar a
+minha innocente amiga!... Não sei qual dos dois é mais excentrico! Pobres
+mulheres! Vá lá uma alma dar-se infantilmente a um coração frio que traz o seu
+amor n'um prato da balança, e uns problematicos pontos de honra na outra!...
+Acha bonito que seja sacrificada a minha amiga á conciliação cavalheirosa de V.
+S.<sup>as</sup>? Ai! felizes aquellas que não amaram nunca!... e as que amaram
+e perderam um homem de coração, fechem os olhos para o amor como elle os fechou
+para a vida... Acabei de entender o fim da sua visita&mdash;continuou D. Julia
+com mui senhoril compostura<span class="pn">{96}</span> e gravidade.&mdash;Vem
+encarregar-me de avisar Anna Vaz que...</p>
+
+<p>&mdash;Não, minha senhora&mdash;accudiu Eduardo&mdash;o infortunio é
+conciliavel com a delicadeza. Quando me eu lembrasse de encarregar V. Exc.ª de
+tal commissão, o meu logar era no pateo com os creados d'esta casa, e não
+n'esta sala onde V. Exc.ª me está honrando, e soffrendo com mais que extrema
+indulgencia. Vim, minha senhora, pedir-lhe que me diga até que ponto o que devo
+a Venceslau e o que devo á filha do snr. commendador Vaz podem congraçar-se sem
+despundonor para mim. Vim, minha senhora...</p>
+
+<p>E, levantando-se de impeto melodramatico, fitou D. Julia com estranha
+fixidez, e ajuntou:</p>
+
+<p>&mdash;Vim pedir-lhe a sua amisade...</p>
+
+<p>&mdash;Tem-n'a, sincera, profunda e inalteravel.</p>
+
+<p>&mdash;Não tenho...</p>
+
+<p>&mdash;Não tem? outra singularidade! Porquê?!...</p>
+
+<p>&mdash;Porque V. Exc.ª, prêsa sagradamente á memoria de Antonio Vaz, não
+póde ser verdadeiramente amiga do homem que, a não poder merecel-a, quereria
+ser na sua alma a imagem d'um morto bem amado.</p>
+
+<p>E sahiu apertando-lhe com estremecimento a mão.</p>
+
+<p>D. Julia não respondeu senão palavras balbuciantes, ou porque estivesse
+digerindo a substancia d'aquellas palavras abstruzas, ou porque ficasse passada
+do imprevisto desfecho do dialogo.</p>
+
+<p>Sei mal o que foi, e sei menos ainda que scismar era<span
+class="pn">{97}</span> o seu com a face encostada á palma da mão direita,
+relançando a espaços a vista para um grande espelho, onde se via toda. Estaria
+ella perguntando á copia do aço se o original estava nos seus momentos de
+formosura quando o gentil moço lhe dizia coisas d'uma escandecencia original?
+</p>
+
+<p>A gente sabe lá o que as senhoras dizem aos espelhos!...<span
+class="pn">{98}<br>{99}</span></p>
+
+<h1><a name="SECTION000100000000000000000">IX</a></h1>
+
+<blockquote>
+ <p>A desgraça não os tomará de assalto. Bom é esperal-a, para que a alma se
+ lhe affaça, e o supportal-a seja menos exulcerante.</p>
+
+ <p class="obra">L<small>UCIANO</small>,&mdash;<em>Da Astrologia.</em></p>
+</blockquote>
+
+<p>D. Julia não se ficou todo o dia scismatica, a remirar-se no espelho. Os
+cavallos ainda escarvavam as lagens apostos á traquitana. Sahiu, e foi, como
+tencionava, a casa do commendador Vaz.</p>
+
+<p>&mdash;Olha que estou afflicta, Lulu!&mdash;exclamou Anna, atirando-se-lhe
+aos braços. </p>
+
+<p>&mdash;Afflicta! que é?</p>
+
+<p>&mdash;O papá, hoje depois de almoço, ficou sósinho comigo, e esteve a
+dizer-me que Venceslau era muito bom rapaz, muito esperto, muito fidalgo, e que
+ainda havia de ser um grande homem em Portugal.</p>
+
+<p>&mdash;E depois? aposto que te fallou em casares com elle?</p>
+
+<p>&mdash;Isso mesmo... Já viste infelicidade assim?</p>
+
+<p>&mdash;Então o Venceslau pediu-te?<span class="pn">{100}</span></p>
+
+<p>&mdash;Eu sei cá! Talvez... Não sei... O papá nada me disse, senão isto: que
+eu seria a mais ditosa creatura, se casasse com elle.</p>
+
+<p>&mdash;E tu, fizeste biquinho? choraste?&mdash;voltou Julia, rindo.</p>
+
+<p>&mdash;Chorei muito, mas foi no meu quarto; porque o papá, vendo que eu não
+respondia sim nem não, esteve a olhar para mim com os olhos mal encarados, e
+disse-me: «dar-se-ha caso que a tua cabeça tenha lido alguma leviandade? Anna,
+vê lá o que fazes e o que tens feito. Com teu pae não ha segredos nem
+disfarces.» E, depois, disse já muito zangado: «Respondes ou não? Se a tua boa
+estrella te dér por marido Venceslau, agrada-te este casamento?» Eu que havia
+de responder, Lulu? Dize lá, tu que respondias?</p>
+
+<p>&mdash;Eu sei, filha!.. essas respostas só sabe dal-as quem se vê nos
+apertos de taes perguntas. Respondeste que sim?</p>
+
+<p>&mdash;Fiquei atemorisada... nem soube o que respondia... Respondi que fazia
+o que o papá quizesse... Elle então deu-me a beijar a mão e sahiu; e eu fui
+chorar para o meu quarto. D'ahi a pouco, voltou o papá, bateu-me á porta, eu
+limpei as lagrimas e escondi as cartas de Eduardo que estava a lêr. Disse-me
+elle então que ia dar ao Venceslau os parabens por ter sahido deputado ás
+côrtes; e tornou a fazer-me a mesma prégação das virtudes e talento do Taveira,
+dizendo que elle era deputado aos vinte e oito annos, e seria ministro de
+estado antes de ter quarenta. Ora que me importa a<span class="pn">{101}</span>
+mim cá isso? não me dirás? Aqui tens, Lulu, quanto eu sou desgraçada! Foi Deus
+que te trouxe. Tu has de valer-me, has de aconselhar-me, sim?</p>
+
+<p>&mdash;Socega&mdash;respondeu Julia.&mdash;Se o teu casamento com Venceslau
+depende da vontade do noivo, estás tu bem.</p>
+
+<p>&mdash;Sim? conta lá o que sabes!... que sabes tu, Julinha?</p>
+
+<p>&mdash;Sei que Venceslau não te ama.</p>
+
+<p>&mdash;Não? ai que alegria! quem t'o disse?</p>
+
+<p>&mdash;O Eduardo.</p>
+
+<p>&mdash;Sim? viste-o hoje?</p>
+
+<p>&mdash;Esteve em minha casa.</p>
+
+<p>&mdash;Esteve? que foi lá fazer? Eu não sabia que elle ia lá!</p>
+
+<p>&mdash;Foi contar-me o que passára com o Taveira a teu respeito. O amigo
+affirmou-lhe que não teve ideia alguma de te amar, mas elle, apezar d'isso,
+desconfia que sim...</p>
+
+<p>&mdash;Oh diacho! isso é máo?</p>
+
+<p>&mdash;O que é máo?</p>
+
+<p>&mdash;Se o papá lhe pergunta se elle quer casar comigo, e elle diz que
+sim... E depois? ai! que má sorte a minha!... Que desgraça!</p>
+
+<p>&mdash;Que lamuria, Deus da minha alma!&mdash;atalhou D. Julia sorrindo ás
+lastimas e gesticulação da linda creança.&mdash;Não te disse eu já que
+Venceslau não te ama? </p>
+
+<p>&mdash;Disseste, sim.<span class="pn">{102}</span></p>
+
+<p>&mdash;Pois se te não ama, que importa que teu pae lhe offereça uma esposa
+que elle não quer?</p>
+
+<p>&mdash;Achas, Lulu?</p>
+
+<p>&mdash;Acho; mas...</p>
+
+<p>&mdash;Que é?... estás com medo que elle queira? é isso?&mdash;voltou já
+muito alarmada a filha do commendador alternando as ancias desabaladas com os
+tregeitos jubilosos.</p>
+
+<p>Em quanto o volatil espirito da menina avoejava das conjecturas risonhas
+para as tristes, e D. Julia, presumindo-se interprete do coração humano,
+folgava de serenar ou alvorotar as inquietações da sua candida amiga, corria o
+seguinte dialogo entre o commendador e o deputado.</p>
+
+<hr class="dotted">
+
+<p>&mdash;A minha admiração&mdash;dizia Francisco Vaz&mdash;foi grande quando
+hoje li a fausta nova da sua eleição, meu caro senhor e amigo...</p>
+
+<p>&mdash;Admirou a grandeza do encargo em tão pequeno vulto? Tambem eu me
+assombro da irreflexão do governo, que me indicou e do povo que me elegeu,
+quasi sem me conhecer.</p>
+
+<p>&mdash;Não foi isso que me admirou, cavalheiro que sabe tão destramente
+embeber no arco da modestia a frecha da ironia. Innocente como a pomba, com sua
+malicia de serpente, seu maganão!&mdash;dizia o commendador espirrando uns
+sorrisos de inoffensiva perspicacia.&mdash;Sabe o que me admirou? foi a nenhuma
+importancia que<span class="pn">{103}</span> V. S.ª dava ás honras que lhe
+estavam eminentes. Já hontem o meu amigo sabia que era representante em côrtes
+e não quiz dar-me a satisfação de m'o annunciar!</p>
+
+<p>&mdash;Se o ser eleito me désse gloria, V. S.ª seria o primeiro a participar
+do meu desvanecimento; porém, se a missão me é penoza, como hei-de eu suppôr
+que os meus amigos se regosijem?</p>
+
+<p>&mdash;Ora vamos, ora vamos. Deixemos os Cincinnatos desprendidos da gloria
+ao fabulario da historia romana. Eu não consinto á natureza humana tal
+desapêgo, mormente se a façanha incrivel se dá em moço de vinte e oito annos,
+pouco abastado em bens...</p>
+
+<p>&mdash;Pouco!&mdash;interrompeu Venceslau a sorrir.&mdash;Parece-me que eu
+já disse ao snr. commendador que vivo do meu trabalho, e que, se a doença me
+impedir de escrever, terei de pedir um catre ao hospital.</p>
+
+<p>&mdash;Ó pavorosa imaginação! ó ingrato amigo!&mdash;acudiu o commendador,
+batendo-lhe no hombro com ares de affectuoso despeito.&mdash;Venceslau Taveira,
+se adoecer, não vae para casa do velho Francisco Vaz; não, senhor; Francisco
+Vaz é um desprezivel amigo; o doente irá para o hospital. Com effeito, moço!
+paga-me generosamente!&mdash;proseguiu severisando o aspecto.&mdash;O
+enfermeiro de meu filho Antonio, o caridoso anjo que adoçou o fel da agonia do
+exilado, o amigo que deu lagrimas e sepultura ao cadaver de meu filho, é o
+mesmo que diz ao velho pae do seu morto companheiro: «Eu, se adoecer, não quero
+o teu leito, nem os teus cuidados, nem a tua gratidão! Irei para o hospital,
+para que não<span class="pn">{104}</span> possas pagar-me parte da divida de
+teu filho, que me expirou nos braços.»</p>
+
+<p>Venceslau abraçou o commendador com enthusiasta commoção, murmurando:</p>
+
+<p>&mdash;Se o offendi, perdôe-me em nome de seu filho. Eu não suppuz que V.
+S.ª désse tal interpretação ás minhas palavras irreflectidas.</p>
+
+<p>&mdash;Está perdoado, porque peccou involuntariamente. Bem sabia eu que não
+ha orgulho tamanho em homem que exercitou a caridade com tantos... Póde ser que
+o amigo intimo de meu filho despreze as honras de deputado, e acceite com
+vaidade o coração de pae que lhe offerece o pae do seu defuncto amigo.</p>
+
+<p>Venceslau curvou-se e beijou a mão do commendador, o qual, exultando, e
+estreitando ao seio o moço, continuou;</p>
+
+<p>&mdash;Quer-me parecer que ha o que quer que seja providencial na sua
+intimidade com o meu Antonio!... Vou fazer-lhe uma pergunta, snr. Taveira: O
+meu filho nunca lhe disse que tinha uma irmã?</p>
+
+<p>&mdash;Muitas vezes me fallou d'ella, como se falla de uma creancinha muito
+formosa, e d'uma irmã acariciada como filha. Quando Antonio Vaz morreu, a snr.ª
+D. Anna teria, quando muito, sete annos. Recordo-me dizer-me elle, dias antes
+de morrer, que seria menor a sua paixão de acabar tão longe dos seus, se a irmã
+estivesse em edade de comprehender a angustia do pae, e podésse consolal-o com
+os sentimentos do coração capaz de intelligentes lagrimas. «É muito
+nova&mdash;dizia elle&mdash;verá<span class="pn">{105}</span> chorar o pae,
+terá alguns momentos de saudade, e irá logo depois distrahir-se com os seus
+brinquedos.»</p>
+
+<p>&mdash;Enganou-se o meu infeliz filho&mdash;disse o commendador enxugando os
+olhos.&mdash;A creança tinha coração de mulher. Quando eu lhe disse «teu irmão
+é morto», Anna abraçou-se a mim, debulhada em chôro, exclamando:&mdash;Não
+morra, meu querido pae; deixe-me primeiro morrer a mim, que fico sem ninguem
+n'este mundo. Este grito da menina que presagiava a orphandade, deu-me forças
+sobre-humanas. Defendi-me da morte com a minha filha no colo. E, quando me
+sentia desfallecer e estalar de saudade, voltava-me para Deus, mostrava-lhe a
+creança, e dizia «Se me deixaes morrer, Senhor, aqui a tendes, amparae-m'a!»
+Foi ella quem me amparou a mim; ás suas reminiscencias estava eu sempre pedindo
+memorias de meu filho; ella contava-me as pueris historias que lhe ouvira;
+mostrava-me as bonecas e bugiarías que lhe elle dera. Se me via chorar,
+chorava, e folgava de me vêr chorar, dizendo que eu, depois que respirava assim
+da cerrada oppressão, lhe parecia mais animado. Eu cobrei alivios de muito
+amargurar-me. Ha saudades que esquecem delidas por esperanças. Não pude eu
+esquecel-as assim. Outras nunca esquecem, mas deixam de pungir: dóem, mas
+desafogam-se no seio d'um bom anjo que nol-as leva á alma que choramos. O meu
+anjo medianeiro com meu filho era Anna. Ella vinha contar-me em sobresalto que
+vira em sonhos o irmão a sorrir-lhe. E eu acreditava; e, se ella piedosamente
+me enganasse, ainda assim abençoaria<span class="pn">{106}</span> a sua
+caridade. Aqui tem, snr. Venceslau, proseguiu o commendador restaurando o
+folego afadigado por soluços que, a espaços, lhe embargavam a voz&mdash;aqui
+tem o que foi a minha filha em menina muito tenra; e hoje, que ella vae nos
+seus dezeseis annos, peço-lhe, snr. Taveira, que desculpe ao amor paternal, o
+bom conceito em que a tenho... </p>
+
+<p>&mdash;Em que a temos todos os que a conhecemos.</p>
+
+<p>&mdash;Alegra-me essa opinião&mdash;exclamou o velho com
+vehemencia&mdash;enche-me de santa vaidade, porque vem d'uma sincera alma! Não
+quiz Deus que meu filho Antonio participasse da minha alegria, encontrando a
+creança, que me deixou nos braços, a amparar nos seus a minha velhice. Como
+elle amaria esta irmã! como seria bem-aventurado a esta hora entre os dous
+santos amores que o esperavam&mdash;o de Julia, a sua amada desde a infancia, e
+o da irmã, que rivalisaria com a esposa no empenho de o cumularem de
+contentamentos! E quem sabe, snr. Venceslau Taveira, quem sabe se meu filho,
+tentando completar a felicidade sempre imperfeita n'esta vida, pensaria no modo
+de identificar em coração á sua familia o honrado companheiro de desterro, o
+consolador nos desalentos, o irmão na soledade da terra alheia, o confidente
+nas saudades cruciantes, o enfermeiro na doença, o exemplo emfim da coragem, da
+probidade, e do esforço caritativo, d'essa grande virtude dos ricos, e divino
+prodigio dos pobres...</p>
+
+<p>&mdash;Oh snr. commendador!&mdash;atalhou Venceslau&mdash;a sua amisade vae
+tão adiante do que eu fui e sou...<span class="pn">{107}</span></p>
+
+<p>&mdash;Quem sabe&mdash;ajuntou Francisco Vaz, apertando convulsamente ambas
+as mãos do deputado&mdash;quem sabe se meu filho, para fazer seu e da sua
+querida familia o homem de bem, lhe diria um dia, mostrando-lhe a irmã:
+«Venceslau, se amas esta doce creatura, sê meu irmão; sê filho de meu pae que
+t'a offerece; entra no seio das nossas mais intimas alegrias; deixa-nos afazer
+á ideia de que não é só a gratidão, mas tambem laços de sangue que nos
+prendem.» Que responderia ao seu Antonio Vaz, snr. Taveira?</p>
+
+<p>O interrogado, colhido de sobresalto, emmudeceu, enfiou, passou a mão pela
+fronte, e sentiu momentos de verdadeira angustia.</p>
+
+<p>Estranhando a confusão silenciosa, o commendador não podia dilucidar o que
+havia aviltador ou respeitavelmente justificado n'aquella mudez, semelhante a
+uma resposta negativa e indelicada.</p>
+
+<p>&mdash;Impressionei-o dolorosamente!&mdash;balbuciou o
+velho.&mdash;Receba-me como gracejo de louco ou de amigo essas palavras que o
+perturbaram, snr. Taveira.</p>
+
+<p>Venceslau abraçou-o com impetuoso fervor, e disse:</p>
+
+<p>&mdash;Faça-me justiça!...</p>
+
+<p>&mdash;Completa e sincera, meu amigo. Comprehendi-o... Isso é nobre; e tudo
+que nos vem da honra, seja alegria ou tristeza, é sempre um sentimento que deve
+expandir-se nos braços do homem de bem. Sei o que é. Eu devia suspeital-o. Os
+moços da sua condição encontram esposas á competencia, e não o revelam porque a
+fatuidade desdoura, profana e deslustra o segredo,<span class="pn">{108}</span>
+que é a mais bella caução do amor sisudo e competente ao homem honesto. Se V.
+S.ª não guardasse tanto o seu segredo, evitava-lhe este desgosto. A mim, o
+lance, bem que pouco usual, não me afflige. Offereci-lhe minha filha:
+offereci-lhe tudo que tenho, toda a minha riqueza; dei-lhe a maxima prova de
+quanto o prézo: estou contente; desobriguei-me de parte da divida de meu
+filho&mdash;divida de amor, que não podia ser paga em outra moeda. Agora, não
+me esteja assim pensativo, snr. Taveira!... fallemos n'outra coisa.</p>
+
+<p>&mdash;Não, senhor, fallemos d'esta&mdash;replicou Venceslau já
+tranquillo.&mdash;Principío por asseverar ao snr. commendador Vaz que conheço
+em Lisboa duas senhoras: sua filha, que amo como irmão, porque ella, bem que
+lhe sobejem qualidades proprias para ser estimada, é irmã do meu amigo Antonio
+Vaz. A outra senhora é D. Julia, que respeito e considero, porque vi tanta
+lagrima saudosa a encarecer-lhe as virtudes, que me afiz a vêl-a do desterro
+como um anjo, e na patria como senhora de quem as outras devem aprender a
+lealdade na viuvez. Durante o meu exilio, a minha mocidade, snr. Vaz,
+namorou-se do trabalho, da fortuna avára dos que lá viveram das lides do
+espirito. As amantes d'esta especie costumam ser tão zelosas e egoistas das
+nossas attenções, que nos não abrem ensejo de pensar nos affagos d'outra. Foi
+assim comigo a fortuna do proscripto. Ou luctar com as extremas privações,
+deshonrando-me nos expedientes que ellas aconselham; ou lidar sempre, ora
+escrevendo, ora ensinando; mas, tendo<span class="pn">{109}</span> sempre em
+vista a inutilidade do coração, debaixo d'um casaco cossado e remendado. Não
+amei ninguem na terra alheia; não amo ninguem na minha. Sou aqui o que fui lá
+fóra: um operario labutando o pão quotidiano. Escasseia-me o tempo nas
+obrigações urgentes; não tenho podido desbaratal-o em diversões da alma, em
+preoccupações deliciosas que denotam ferias de espirito e necessidades
+levantadas acima do positivismo da vida commum. Sou pobre, como V. S.ª sabe.
+Entretanto, snr. commendador, pobreza e trabalho não esterilisam o coração. O
+homem, fiado no seu braço robusto ou em sua intelligencia productora, está bem
+no caso de poder aspirar ás consolações e alentos d'uma esposa, que lhe alumie
+a solidão escura do seu gabinete, e lhe duplique o esforço para a lucta.
+Algumas vezes me entreluziu ao animo quebrantado a doce alliança da
+intelligencia com os prazeres do coração. Figurou-se-me vêr perpassar por
+diante d'esta banca, onde a aurora de cada dia me encontra, uma imagem vaga,
+com o sorriso da coragem nos labios, e a luz da esperança nos olhos, fixos em
+mim, que a contemplava como a varonil inspiração dos meus rudes trabalhos. Era
+o relampago do secreto fogo que não se extinguiu&mdash;era talvez o estremecer
+dos sentimentos abafados no recondito da alma. Bem póde ser, snr. commendador,
+que o fogo chammejasse, e o sentir abafado se expandisse, no momento em que V.
+S.ª agora mesmo me disse que eu podia ser o esposo da snr.ª D. Anna Vaz. Eu
+cuidaria<span class="pn">{110}</span> então que era ella a imagem entrevista
+nos meus enlevos; sentiria a subita mudança do sonho para a realisação; e, se a
+surpreza me cortasse as palavras de reconhecimento, o meu silencio teria a
+eloquencia das lagrimas. Sua filha, snr. commendador&mdash;proseguiu Venceslau
+apoz uma grande pausa&mdash;sua filha não me ama... </p>
+
+<p>&mdash;Como?&mdash;interrompeu Francisco Vaz, erguendo-se de golpe, e
+batendo rijo a bengala no pavimento.&mdash;Como sabe que minha filha o não
+ama?</p>
+
+<p>&mdash;Como sei que a não amo eu tambem. O meu coração, posto que
+inexperiente, adivinhal-a-hia, se lhe eu motivasse algum sentimento distincto
+da amisade, que lhe mereci, como amigo de seu irmão, e affectivo apreciador de
+seu pae. Eu não podia ser amado, porque os meus breves instantes de conversação
+com a snr.ª D. Anna foram sempre alheios da minima referencia ao amor, ás vagas
+coisas do coração com que as horas se aligeiram e saboreiam nas salas, segundo
+julgo da intimidade dos que são ou dos que parecem ser felizes. Praticávamos
+ácerca do nosso saudoso Antonio, ou dialogávamos em francez sobre assumptos que
+me pareciam adequados á perspicacia intellectual de tão habil menina...</p>
+
+<p>&mdash;Sei isso, snr. Venceslau&mdash;sobreveiu o commendador.&mdash;Está-me
+V. S.ª dando ares de quem se justifica de honrado comportamento.</p>
+
+<p>&mdash;Não me justifico, snr. Vaz: explico a suprema<span
+class="pn">{111}</span> quietação da minha alma em presença d'uma senhora que
+eu estimava como se estima uma irmã favorecida de excellentes qualidades.</p>
+
+<p>&mdash;Que ainda assim V. S.ª não podia amar...</p>
+
+<p>&mdash;Não vem acertada essa reflexão; consinta o snr. commendador esta
+rudeza. As excellentes qualidades são amaveis; mas não é dever da mulher que as
+tem acceitar o culto de quem lh'as reconhece; nem é judicioso a quem lh'as
+admira revelar-lhe a sua dedicação, além dos limites do respeito. Era, todavia,
+muito de esperar que a snr.ª D. Anna Vaz inspirasse um grande amor e ao mesmo
+tempo o sentisse pelo homem a quem o inspirasse. Isso aconteceu.</p>
+
+<p>&mdash;Que é? pois minha filha ama alguem?&mdash;interrogou Francisco Vaz
+com aspecto iracundo.</p>
+
+<p>&mdash;Ama, sim, senhor.</p>
+
+<p>&mdash;Quem?</p>
+
+<p>&mdash;O meu, o nosso amigo Eduardo Pimenta.</p>
+
+<p>O commendador percorreu tres vezes o estreito escriptorio do deputado,
+enxugou o suor da calva, comprimiu a testa com ambas as mãos e murmurou:</p>
+
+<p>&mdash;Deu-me um profundo golpe, snr. Taveira!... Estou a braços com a
+desgraça...</p>
+
+<p>&mdash;Eis-ahi uma dôr que me assombra!&mdash;redarguiu o
+jornalista.&mdash;Que conceito, pois, fórma V. S.ª de Eduardo?</p>
+
+<p>&mdash;Não sei, não sei que presagios me despedaçam o coração! Não lhe
+conheço vicios... ninguem o accusa, ninguem o denegriu na minha presença,
+tenho-o recebido<span class="pn">{112}</span> com affectuosa familiaridade;
+pois, apesar d'isso, eu não queria que tal homem casasse com minha filha. E, se
+eu impugno tal casamento, qual é a dignidade de Eduardo Pimenta em requestar
+minha filha?</p>
+
+<p>&mdash;Seria indignidade grande requestal-a com a certeza de que V. S.ª
+recusa conceder-lh'a.</p>
+
+<p>&mdash;Pois, snr. Taveira, auctoriso-o a declarar ao seu amigo que lhe nego
+minha filha. Não ha nada mais explicito e summario.</p>
+
+<p>&mdash;E, se o meu amigo me perguntar que actos de sua vida o desconsideram
+na opinião do snr. commendador, que responderei?</p>
+
+<p>&mdash;Responda que um pae não é obrigado a justificar a sua vontade.</p>
+
+<p>&mdash;Muito bem. Eduardo não póde honestamente voltar a casa de V. S.ª</p>
+
+<p>&mdash;É claro.</p>
+
+<p>&mdash;Foi por tanto expulso de sua casa, snr. Vaz, o homem que eu lhe
+apresentei, não é assim?</p>
+
+<p>&mdash;Elle é que se fez indigno da minha estima.</p>
+
+<p>&mdash;Seja qual for a causa, o meu amigo foi expulso; e eu, que ainda me
+não vexo de o haver apresentado, expulso me considero tambem.</p>
+
+<p>&mdash;O senhor!? que desconchavo!</p>
+
+<p>&mdash;Póde ser que eu ignore as praticas da boa sociedade. Se ellas
+diversificam do modo como eu as professo, abstenho-me de as aprender. Quem
+apresenta, no gremio d'uma familia, pessoa que desmereceu a estimação que lhe
+deram, retira-se ao mesmo tempo, ou envergonhado<span class="pn">{113}</span>
+do ultrage que o seu vil amigo commetteu, ou offendido da injuria que se lhe
+faz, se elle é expulso immerecidamente. Não questiono sobre a justiça ou
+injustiça com que V. S.ª o repelle: qualquer das hypotheses me aconselha a não
+voltar á casa defeza a Eduardo Pimenta.</p>
+
+<p>&mdash;E sacrifica-me ás indiscrições de Eduardo Pimenta, snr. Taveira?
+Quer-me convencer de que o procedimento d'elle é regular?</p>
+
+<p>&mdash;Já disse ao meu bom amigo que me abstinha de contestar a razão dos
+seus aggravos; mas, se V. S.ª me força a defender-me, defendendo Eduardo,
+afoitamente lhe confesso que o não culpo. Amar a snr.ª D. Anna, que é amavel
+como formosa e como rica das graças do espirito, não é delicto, ainda mesmo que
+os meritos de quem a ama não possam egualal-a. A Eduardo faltam pergaminhos;
+nasceu na casa de lavradores; os brazões de seu pae eram os utensilios da
+lavoura. Prouvera a Deus que o fanatismo o deixasse viver e morrer na obscura
+honra dos que lidam de sol a sol, e obedecem ao preceito da incessante lida,
+sem blasfemar da Providencia que instituiu as desigualdades da fortuna.
+Amargamente pagou Eduardo Pimenta o acaso de ter nascido plebeu. D'essa enorme
+culpa resultou-lhe a perseguição, o carcere, o desterro e a morte da esposa que
+o adorava...</p>
+
+<p>&mdash;Consequencias do erro...&mdash;atalhou o commendador.</p>
+
+<p>&mdash;Do erro?<span class="pn">{114}</span></p>
+
+<p>&mdash;Sim, da culpa de cortejar uma dama illustre que não podia ser d'elle
+sem arrostar grandes perigos, sem desdourar seus parentes, sem se atirar a si
+mesma aos abysmos cavados pela desobediencia. Que fez elle amando a mulher
+nascida em outra esphera? matou-a; formou os elos da corrente que a levou de
+rôjo á sepultura. Com que direito affrontou elle as leis sociaes?</p>
+
+<p>&mdash;Quaes leis?... Não sabia eu que o meu amigo tinha affrontado algum
+direito...</p>
+
+<p>&mdash;O direito consuetudinario, a ordem de coisas, o estylo que rege os
+costumes. Se o amor votado por plebeu a mulher nobre causa a desgraça d'essa
+mulher, tal amor, com quanto os poetas o celebrem, é calamidade que faz chorar
+muita gente, e desata laços que nunca mais se refazem.</p>
+
+<p>&mdash;Essas ideias, snr. Vaz&mdash;redarguiu Venceslau&mdash;são boas; mas
+permitta o céo que o genero humano vingue d'aqui a um seculo não vêr a
+fronteira que divide o coração plebeu do coração fidalgo. Quando esse oiro das
+almas sahir depurado do cadinho dos annos, as ideias de V. S.ª serão acoimadas
+de absurdas ou transviadas do trilho por onde a luz do christianismo nos vae
+alumiando. Não argumentemos sobre o ponto, porque ainda não é tempo de se
+abraçarem os adversarios. Antonio Vaz, o fidalgo, filho do decimo commendador
+de Santa Christina de Almudena pensava como eu; e, nas nossas palestras de
+socialismo e regeneração do homem, nunca nos lembramos que nossos bisavós
+haviam ganhado, com o sangue proprio e com<span class="pn">{115}</span> a vida
+de seus paes mortos em Alcacer-kibir, no Ameixial ou Montes Claros, as
+commendas que a liberdade nos vae tirar como mal adquiridas. A liberdade, que
+nós andavamos servindo, é essa que nos desbalisa e nivela com os filhos dos
+criados de nossos avós.</p>
+
+<p>&mdash;Boa a fizeram...&mdash;resmuneou o fidalgo.</p>
+
+<p>&mdash;Nada fizemos: foi o tempo. A luz, que doira e aquece as penedias dos
+montes, não é d'ellas, é do sol. O fructo não se enverdece e sazona a si: é o
+calor dos dias successivos. O instrumento obedece ao impulso; a ideia é o motor
+do braço. Seu filho e eu tinhamos nascido, quando a França se refundia e
+recaldeava ao fogo reconcentrado do lavor de seculos. Entramos na torrente;
+fomos levados; um é morto ao pé do berço da liberdade; o outro não foge da
+morte; mas nenhum de nós, tendo uma irmã, lhe poria o preceito de estudar
+heraldica para saber que timbre e escudo lhes cumpria descobrir nos corações
+dos homens que as requestassem.</p>
+
+<p>&mdash;Graceja, snr. Taveira? Não escolhe a opportunidade...&mdash;increpou
+o commendador com sincera mágoa.</p>
+
+<p>&mdash;Não gracejo com V. S.ª: é com os preconceitos. Se eu os combati com
+as armas, não é muito que os desattenda com a ironia. E, depois, todas as
+razões que V. S.ª allegar contra o casamento de sua filha serão boas,
+exceptuada a da incompatibilidade dos nascimentos. O snr. Vaz é illustrado. Se
+pertence ao passado pelos appellidos, deve-se ao edificio do futuro pela
+intelligencia, e á humanidade collectiva pelo coração, e de modo nenhum á raça
+exclusiva dos nobres pelo acaso<span class="pn">{116}</span> do nascimento. O
+pae de Antonio Vaz deve ser por força um alto espirito: de troncos verminosos
+não bracejam frondes com seiva de tão generoso sangue. Tal pae corre-lhe o
+dever de consentir que os abusos da ignorancia sejam motejados na sua presença,
+e que os paes, sacrificadores das filhas no infamado altar das tradições
+genealogicas, sejam malsinados de tyrannos.</p>
+
+<p>&mdash;O seu apostolado, snr. Taveira&mdash;replicou o velho&mdash;é
+temporão em respeito á época; e é tardio em relação a mim. Sessenta annos não
+se remoçam; das raizes da educação inveterada não abrolham as flores com que em
+França os <em>sans-culottes</em> vestiam a deusa da Razão. Estou muito velho, e
+sou pae muito extremoso. Gósto da liberdade comedida, desde que odiei o
+despotismo que levou á forca meu parente Gomes Freire de Andrade. Abomino por
+egual o despotismo dos reis e o despotismo do povo. Repito que desejo a
+victoria dos programmas liberaes; mas reprovo que, em nome d'elles, me queiram
+a mim esbulhar da liberdade de casar minha filha com quem eu quizer. Repugna-me
+dal-a ao snr. Eduardo Pimenta, de quem aliás não recebi maior offensa que o
+intento de captar o amor de minha filha, sem consultar as minhas luminosas ou
+obscuras ideias ácerca de tal casamento. Contra esta resistencia não me parece
+que a liberdade bem entendida legisle reacções.</p>
+
+<p>&mdash;Pelo contrario&mdash;obtemperou Taveira&mdash;as leis protegem os
+paes, submettendo os filhos menores ao seu consentimento; e eu, indigno
+legislador, se tal lei não existisse, propôl-a-hia. Emfim, não se enfade mais
+V. S.ª<span class="pn">{117}</span> com esta discussão esteril. Eu me
+encarrego, conforme á sua ordem, de avisar o meu amigo. Como elle tem pundonor,
+não ha motivo para que as inquietações de V. S.ª continuem. Hoje veiu elle aqui
+dar um testemunho da sua probidade. Suspeitou que eu amava a senhora D. Anna
+Vaz, porque lhe censurei indirectamente que a cortejasse. Tomou á conta de
+zelos a minha intervenção nos seus affectos; e offereceu-me sacrifical-os á
+minha felicidade, se eu alimentava alguma esperança contrariada por elle que me
+não soube adivinhar. Creio que o desconvenci da sua desconfiança. Ora o homem
+que se victimava a um amigo, de melhor vontade e com mais honrado primor se ha
+de immolar a um pae tão respeitado quanto estimado. Vá por tanto V. S.ª bem
+certo de que cessam hoje os seus sobresaltos. Eduardo não volta a sua
+casa...</p>
+
+<p>&mdash;E o snr. Taveira?</p>
+
+<p>&mdash;Já disse ao snr. commendador que devo á leal camaradagem de nove
+annos a observancia de um dever que implica desdouro para o meu amigo, se eu me
+esquivar a cumpril-o.</p>
+
+<p>&mdash;Mas&mdash;volveu Francisco Vaz, depois de um longo silencio,
+acompanhado de gestos que significavam desgosto e perplexidade&mdash;não é
+possivel combinarem-se a continuação da frequencia de minha casa com a
+desistencia das intenções do seu amigo? Não poderá elle ser meu hospede sem ser
+o namoro de minha filha?</p>
+
+<p>&mdash;Sei pouco do coração humano, snr. Vaz; e por isso appéllo da minha
+ignorancia para a experiencia que<span class="pn">{118}</span> lhe deram a V.
+S.ª os annos e a vida das salas. O entreverem-se duas pessoas que se amam e
+violentamente se apartam, será bom expediente para as desligar? Se os olhos do
+rosto se contemplam, deveremos suppor que os olhos da alma se fechem? Que
+responde V. S.ª?</p>
+
+<p>&mdash;Que tem razão. Melhor é que não se vejam. Mas eu peço licença para
+visitar o snr. Taveira.</p>
+
+<p>&mdash;Tamanha honra lhe pediria eu, se me não faltasse a ousadia.</p>
+
+<p>&mdash;Adeus. Não lhe desbarato mais tempo. Abraço o irmão de meu filho, e
+deponho nas suas mãos o meu socego e a innocencia de minha filha. Defenda-nos a
+ambos, já que eu perdi quem devêra a esta hora velar a honra de seu velho pae e
+a inexperiencia de sua irmã.</p>
+
+<p>Abraçaram-se estreitamente, chorando ambos.<span class="pn">{119}</span></p>
+
+<h1><a name="SECTION000110000000000000000">X</a></h1>
+
+<blockquote>
+ <p>Venez après cela crier d'un ton de maître<br>
+ Que c'est le c½ur humain qu'un auteur doit connaître!<br>
+ Toujours le c½ur humain pour modèle et pour loi!<br>
+ Le c½ur humain de qui? le c½ur humain de quoi?<br>
+ Celui de mon voisin a sa manière d'être.<br>
+ Mais, morbleu! comme lui j'ai mon c½ur humain, moi.</p>
+
+ <p class="obra">A<small>LF. DE
+ </small>M<small>USSET.</small>&mdash;<em>Namouna.</em></p>
+</blockquote>
+
+<p>Chegada a noite d'aquelle dia, e já corrida a hora costumada das visitas,
+Anna Vaz perguntou a Julia:</p>
+
+<p>&mdash;Que será isto? elles não vem!</p>
+
+<p>&mdash;Estava a scismar n'isso tambem eu...</p>
+
+<p>&mdash;Olha que ha desgraça!... Não vês o papá tão carrancudo?</p>
+
+<p>&mdash;Já reparei... Vae tu até lá dentro, e não voltes á sala sem me ouvir
+tocar no cravo.</p>
+
+<p>Anna sahiu, e Julia aproximou-se do commendador que lia, ou fingia lêr, o
+<em>Astro da Lusitania</em>.</p>
+
+<p>&mdash;Que ha de novo? Está lendo o artigo do nosso
+deputado?&mdash;perguntou ella, curvando-se para o periodico.&mdash;Já li...
+Ninguem dirá que d'aquelle rapaz tão<span class="pn">{120}</span> sereno e
+moderado possam saltar essas faiscas de colera contra as ideias antigas! É um
+ethna escondido em moitas de flores, não acha, snr. commendador?</p>
+
+<p>&mdash;É um apostolo de boa fé, um peito cheio de honra, que se offereceu ao
+martyrio das ideias novas. Tem a devoção dos cathecúmenos de todas as
+religiões. Trabalha para os que hão de vir, não é para elle. Sahiu d'uma
+familia illustre do velho Portugal para servir de degrau aos que hoje calçam
+sapatos ferrados.</p>
+
+<p>&mdash;Porque não o aconselha? Diga-lhe que seja mais prudente no que
+escreve; que não esteja a ganhar inimigos... Quem sabe lá onde isto vae dar? Os
+prejuizos não se pulverisam com palavras, nem com gazetas. Eu ouço todos os
+dias vaticinar que este governo ha de durar pouco. Em casa do tio Gião ouvi
+hontem dizer que os monarchas formaram o congresso de Laybac para enfrear as
+demasias da liberdade, e que D. João <small>VI</small> não levára a mal que o
+governador da Ilha Terceira resistisse á proclamação do systema constitucional.
+</p>
+
+<p>&mdash;Vejo-a muito enfronhada em politicas de seu tio desembargador Gião,
+minha senhora D. Julia!&mdash;observou graciosamente o commendador.</p>
+
+<p>&mdash;A mim que se me dá de politicas!&mdash;retorquiu a dama.&mdash;O que
+eu desejo é não vêr expostas com tanto perigo as pessoas que estimamos. O
+Pimenta parece-me que adoptou mais sensato papel nestas tragedias. Não quer
+saber de nada; não se importa com gazetas nem com governos. A emigração
+aproveitou-lhe... É verdade, elles não virão hoje? São dez horas!<span
+class="pn">{121}</span> O Taveira talvez esteja na reunião dos deputados; mas o
+outro onde estará? São horas do chá...</p>
+
+<p>&mdash;Se são horas, não esperemos, menina, que elles não vem.</p>
+
+<p>&mdash;Ah! o snr. commendador já sabia que não vem?!</p>
+
+<p>&mdash;Já. Fallaremos ámanhã, snr.ª D. Julia. Eu hei-de
+procural-a...&mdash;E abaixando a voz, continuou em segredo:&mdash;Eduardo
+Pimenta comportou-se indignamente comigo. Se lhe não dou a novidade de se estar
+planeando um casamento n'esta casa sem minha licença, escuso de motivar-lhe o
+rompimento de relações com tão inconveniente amigo. Pelo que toca a Venceslau
+Taveira, esse não vem porque não quer. Sinto-o devéras. É homem de honrada
+tempera. Lastimo que os seus amigos o não mereçam...</p>
+
+<p>D. Julia, cogitando na inquietação da amiga, não prolongou as segredadas
+confidencias. Acercou-se disfarçadamente do cravo e dedilhou no teclado. O
+commendador ergueu o rosto de sobre o periodico, fitou a hospeda e disse-lhe:
+</p>
+
+<p>&mdash;Onde está Anna?</p>
+
+<p>&mdash;Vem ahi.</p>
+
+<p>A menina entendeu o relance d'olhos de Julia. Detiveram-se alguns minutos
+silenciosos na sala. O velho continuou a ler, em quanto Julia, interrogada
+pelos olhares anciados de D. Anna, esperava o ensejo favoravel de apartar-se
+com ella e revelar-lhe as más novas.</p>
+
+<p>Do mesmo passo que o commendador ouvia contrafeito as prophecias politicas
+de um primo conego da patriarchal,<span class="pn">{122}</span> que alli ia
+sempre, depois de ceia, digerir o bôlo copioso, psalmeando threnos em prosa de
+conego sobre a futura perdição dos cabidos, D. Julia referia, commentando as
+palavras do pae da sua amiga.</p>
+
+<p>D. Anna Vaz, primeiro estupefacta, depois agitada, e por fim afogada em
+lagrimas, escondeu o rosto no seio de Julia para que as criadas lhe não
+ouvissem o soluçar. Baldaram-se as consolativas esperanças da confidente, que
+parecia não ter nenhumas nos seus alvitres. Pelo espirito de qualquer d'ellas
+não sombreou sequer o mau pensamento de recorrer da vontade paterna para o
+poder civil. N'aquelle tempo as paixões das donzellas, contrariadas pelos paes,
+raras vezes iam dizer da sua justiça no tribunal. Usavam-se então umas
+mordaças, que fechavam os respiraculos dos corações rebeldes ao alvedrio
+paternal: era o convento. O mais egregio amor de mulher, leal ao seu amador,
+era aquelle que de bom animo vestia o habito monacal, e depunha aos pés da cruz
+a corôa do noivado. Estas nupcias com o divino esposo quasi sempre se
+contrahiam, levando a esposa o coração repleto de odio e calor do inferno para
+o cenobio, onde mais tarde a benigna hypocrisia lhe segredava refrigerios e
+tonicos restaurantes.</p>
+
+<p>N'isto cogitava D. Julia de Miranda, quando disse á sua amiga:</p>
+
+<p>&mdash;Faz o que te peço, filha. Não mostres resistencia á vontade de teu
+pae. Finge-te resignada. Entrega ao tempo o que não podemos conseguir com
+irritações; que não vá teu pae fechar-te no convento, onde eu estive<span
+class="pn">{123}</span> dois annos por causa de teu irmão. Cuidei que poderia
+recalcitrar, porque era tratada com mimo de filha unica. Enganei-me. Fui
+convidada a dar um passeio até ao Campo Grande; voltamos a visitar a tia
+Clotilde no convento de Sant'Anna; entrei na portaria para abraçal-a; e lá
+fiquei infernada até que meu pae me tirou por saber que teu irmão, envolvido
+com os jacobinos, emigrára para Londres. Aprende de mim, filha. Dissimula
+quanto poderes, e confia no tempo e nos milagres da tua constancia.</p>
+
+<p>&mdash;Na morte é que eu confio...&mdash;replicou Anna, apertando a mão de
+Julia.</p>
+
+<p>&mdash;Tens febre... A tua mão escalda!&mdash;clamou a surprehendida
+senhora.</p>
+
+<p>&mdash;Vou deitar-me... Doe-me muito a cabeça... Não posso voltar á sala...
+Está lá gente, e não quero que me vejam assim... Olha, se vires Eduardo,
+dize-lhe que me escreva, que me deixe morrer com a certeza de que elle me
+lamenta e ama, sim? Não te custa a trazer-me as cartas, Julia?</p>
+
+<p>&mdash;Não, filha; sem tu m'o recommendares, já eu tencionava dar-te esse
+prazer; mas com a condição de que has de ter coragem e prudencia.</p>
+
+<p>&mdash;Pois sim, pois sim: faço o que tu quizeres...</p>
+
+<p>&mdash;Então, vem á sala.</p>
+
+<p>&mdash;Não posso, Julia... Olha que me sinto muito doente. Hei de estar
+melhor ámanhã, depois de chorar muito.</p>
+
+<p>O commendador, n'este lanço, mandava perguntar<span class="pn">{124}</span>
+á filha se o chá teria demora, porque o conego, eructando o mal esmoido repasto
+nocturno, reclamava uma bebida digestiva.</p>
+
+<p>Foi Julia á sala, e disse que a sua amiga se deitára molestada da cabeça.
+</p>
+
+<p>Francisco Vaz cravou os olhos coruscantes na hospeda e murmurou:</p>
+
+<p>&mdash;Já?! tão cêdo...</p>
+
+<p>&mdash;São onze horas&mdash;disse Julia.</p>
+
+<p>&mdash;Não me refiro ao relogio; é á cabeça&mdash;replicou o commendador,
+acerando a ironia com um sorriso, que deu que scismar ao primo conego.</p>
+
+<p>Depois do chá, D. Julia ainda foi á alcova de Anna. Encontrou-a a ler as
+cartas de Eduardo, humidas de lagrimas. Beijou-a reiterando promessas e
+esperanças que ella fundava no muito amor que o pae lhe tinha.</p>
+
+<p>&mdash;Quem sabe?&mdash;concluiu ella, modificando a sua primeira
+opinião&mdash;talvez que um poucochinho de febre assuste o extremoso coração de
+teu pae, e, em vez de te levar á sepultura, te conduza aos braços do teu
+Eduardo!...</p>
+
+<p>Este erotico dizer, que não revia candor d'alma capaz de edificar as virgens
+legendarias, foi apimentado por certo sorriso que travaria ao acre da malicia
+feminil, se tal conjectura coubesse em dama tão exemplar na edade em que os
+impulsos da innocencia não são vulgares.</p>
+
+<p>O velho, á meia noite, mandou saber de sua filha. Soube que a menina estava
+muito afogueada, e ao mesmo<span class="pn">{125}</span> tempo pedia á sua
+criada de quarto que a cobrisse com mais cobertores, porque tiritava de frio.
+Ante-manhã já o inquieto pae andava no corredor contiguo ao quarto da enferma.
+A creada sahiu espavorida da antecamara, dizendo que a fidalga, ahi pelas tres
+horas, delirára na febre, e se lançára do leito a querer abrir as janellas,
+quando a chuva estalava nas vidraças.</p>
+
+<p>&mdash;Vá dizer á menina que eu quero vêl-a&mdash;mandou o commendador já
+attribulado. </p>
+
+<p>Abeirou-se o velho do leito, onde ella o esperava, encostando a cabeça
+esvahida á almofada do espaldar. Elle chamou-a cariciosamente, apalpando-lhe as
+faces esbrazeadas; e ella, sorrindo-lhe com meiguice de quem implora
+indulgencia, beijou-lhe a mão.</p>
+
+<p>Poucas palavras se trocaram, e nenhuma que viesse ao ponto da causa da
+doença. Disse o pae que ia chamar medico. Pediu-lhe a filha com um gesto meigo
+que não, e accrescentou:</p>
+
+<p>&mdash;Isto não é nada, papá.</p>
+
+<p>Não obstante, o medico, chamado com urgencia, receitou-lhe o que quer que
+fosse medicinalmente gastrico, entendendo que a viscera mais nobre, o estomago,
+devia ser a primeira a medicar-se.</p>
+
+<p>Tanto o pae como a filha repelliram a sciencia representada n'uma poção em
+que de certo não entrava o contra-veneno do amor. Bem sabia o commendador que
+os phyltros cupidineos não cedem aos revolucivos que debellam as lombrigas.</p>
+
+<p>D. Julia chegou ao meio dia, encerrou-se com a<span class="pn">{126}</span>
+doente, e deu-lhe uma receita de virtudes febrifugas. O doutor, quem quer que
+fosse, ao avêsso do ancião de Coz, abreviava a arte para alongar a vida. Era
+medico de mão cheia. Leu a febril menina o bilhete de Eduardo, e para logo as
+rosas do rosto se desmaiaram nos alvores da assucena. O pulso quebrou, os
+labios purpurejaram-se, e a arida lingua lubrificou-se. Milagres que a cada
+passo se topam nos florilegios, por influxo de agentes d'outra procedencia.
+N'estes, ha therapeutica do céo; n'aquelles prodigios de natureza toda humana,
+entra droga das boticas de Fausto, de Hamlet, de Manfredo, e de outros heroes
+do luciferino bardo que cantou as «Trevas».</p>
+
+<p>Contou Julia que, ás nove da manhã, escrevêra a Eduardo, pedindo-lhe conta
+dos casos tristes do dia anterior. O moço correu ao palacio das Amoreiras, e
+referiu que Venceslau o prevenira da conversação com o commendador.</p>
+
+<p>Se Julia, mais sincera que condoída de sua amiga, relatasse as impressões
+que Eduardo lhe deixára, diria que o viu menos consternado do que era de
+esperar, e tão christã ou stoicamente conformado á sua desventura, que faria
+inveja a Epictéto ou Kempis. Seria crueza não omittir este escuro traço do
+caracter do seu confidente. A ferida da sua amiga queria balsamos, e não
+cauterio. Semelhante denuncia iria coar a peçonha da desconfiança&mdash;a
+tortura da morte&mdash;áquella alma flammejante de fé.</p>
+
+<p>As poucas linhas do bilhete, ainda assim, continham<span
+class="pn">{127}</span> duas phrases dignas do <em>Secretario dos Amantes</em>.
+Eduardo Pimenta promettia luctar contra a desgraça, e succumbir na lucta quando
+não podesse sahir com a victoria. Estes dizeres cadenciosos e arredondados
+andavam na voga, no respigo dos ledores das novellas de madame Cottin e do
+abbade Prevost.</p>
+
+<p>Sem embargo, Anna rejubilou-se, e decerto se levantaria reanimada aos olhos
+do pae, se Julia não lhe advertisse que seria bom espacejar a convalescença, já
+para amollecer o coração do velho, já para afastar suspeitas de correspondencia
+clandestina.</p>
+
+<p>Este dia e o seguinte passaram atormentados para o commendador. O medico, na
+segunda visita, farejou da arca do peito para dentro molestia inviolavel ás
+pilulas. Belleza, edade, respiração suspirosa, rubor dos lagrimaes, olhos
+pisados, e outros symptomas de inflammação psycologica, illucidaram o
+diagnostico. Declarou, pois, o doutor, sem auxilio da nomenclatura
+greco-latina, que a doente padecia da alma, e que o debil temperamento da sua
+organisação ainda imperfeita muito a custo resistiria ás commoções
+devastadoras. Era o systema d'este medico: primeiro o apparelho digestivo;
+depois o espiritual, se as doentes eram novas e solteiras. O segundo
+prognostico havia-lhe rendido a mais selecta clinica da capital. Muitos maridos
+d'aquelle tempo os levára elle ás enfermas capituladas de éthicas, como os
+medicos de hoje em dia lhes levariam das pharmacias garrafas de oleo de figados
+de bacalhau ou sulphato de ferro soluvel de Lerás.<span class="pn">{128}</span>
+</p>
+
+<p>Compenetrado da consulta, o commendador lembrou-se aterrado que sua mulher e
+seu filho haviam morrido pthysicos. A perda da filha prefigurou-se-lhe
+calamidade superior a quantas elle poderia fantasiar, casando-a com homem
+somenos de Eduardo. Penetravam-no já de antemão espinhos de remorso. A ternura
+encarecia-lhe o perigo; e o quebranto moral proprio da edade arguia-o de
+inclemencia e fereza.</p>
+
+<p>Tão rapido precipitára as invectivas contra Eduardo, quanto depois,
+ligeiramente e a só comsigo, rebatia os proprios argumentos.</p>
+
+<p>&mdash;E se ella morre!&mdash;exclamava elle, invocando agora o juizo de
+Julia, tendo menosprezado os judiciosos dictames de Venceslau.&mdash;Que lhe
+diz o seu coração, minha amiga? Ella ama-o tanto que não possa esquecel-o? As
+distrações serão inuteis? Se fossemos para a quinta do Riba-Tejo..., se a minha
+boa Julia a levasse para a sua bella vivenda de Collares, conseguiriamos
+restaurar aquelle coração que ainda ha pouco era tão innocente, tão meu, tão
+alegre?... Que me diz, D. Julia?</p>
+
+<p>&mdash;Façam-se as diligencias; mas desconfiemos do resultado. É o primeiro
+amor. Tem a força que aniquila todas as outras. Anna amou sem reflectir; a
+reflexão, que vem depois do amor entranhado, não aproveita. Foi assim que eu
+amei seu filho, snr. commendador. Bem sabe que trances padeci, que violencias
+arrostei, que inuteis severidades empregou meu pae. Nem o convento, nem as
+ameaças de me privar do patrimonio<span class="pn">{129}</span> me demoveram. A
+ideia de morrer, em vez de me acovardar o animo, alentava-me. Que valeram
+tantas dôres? Morreu elle, vergando ao pezo da minha cruz, e eu sobrevivi...
+para me condoer de quem soffre das minhas agonias. Tenho muito dó de sua filha,
+meu bom amigo, muitissimo. Hoje encontro-a mais animada, porque lhe dei
+esperanças, como os medicos as dão a uma thysica já nas ultimas vascas; mas se
+ámanhã eu não podér animal-a, a febre voltará, e depois Deus sabe se no peito
+d'ella está o germen da terrivel doença...</p>
+
+<p>&mdash;Por piedade, não me diga isso, Julia... Esse punhal toda a noite me
+golpeou no coração... O meu grande terror é esse: é a morte da mãe, que um dia
+se queixou do peito, salivou sangue, cahiu esvahida, desfigurou-se, e... vinte
+dias depois, expirava-me nos braços, procurando com as mãos as cabeças dos
+filhinhos...</p>
+
+<p>O velho, afogado por crebros gemidos, calou-se, enxugando as lagrimas que
+lhe resvalavam aos beiços trémulos da commoção.</p>
+
+<p>D. Julia balbuciou expressões de enternecido allivio, e conseguiu conduzir o
+commendador ao quarto da filha, insinuando-lhe que só a presença d'ella,
+n'aquelle momento, lhe seria consolação.</p>
+
+<p>Estava já em pé a doente, quando o pae se annunciou. Tinha-lhe ouvido as
+vozes trementes de lagrimas. Erguera-se pressurosa, qual se os remorsos de
+affligir o estremecido velho a pungissem. Lançou-se-lhe nos braços, chorando,
+como quem se accusa de não poder vencer-se. Era condição divina a d'aquella
+creatura! Se,<span class="pn">{130}</span> tres mezes antes, a vissem ajoelhada
+diante do Christo sombrio da claustra, Anna Vaz seria uma santa. Se Eduardo
+Pimenta, o moço pallido, aureolado pela tragedia do amor que o revestira do
+crepe sympatico da viuvez, não fitasse n'ella os olhos tristes da meiguice que
+pede as consolações amantissimas d'outra alma, a creança seria ainda para seu
+pae o sorriso que do céo lhe enviava, em labios innocentissimos, a chorada
+esposa.</p>
+
+<p>Tomou nas suas o velho as mãos da filha. As arterias não arfavam de mais nem
+a epiderme denunciava perturbações de máo agouro; mas assim mesmo, os olhos do
+pae já não viam nas feições de Anna o viço purpurejado da saude, o sorrir
+florescente dos dezeseis annos. Deu-lhe o braço, e levou-a á sala, onde o fogão
+aquecia o ar d'aquelle famoso janeiro de 1821.</p>
+
+<p>Anna aconchegou-se da fogueira; D. Julia sentou-se defronte, e o commendador
+entre as duas.</p>
+
+<p>A passagem do quarto para a sala ao longo dos corredores frios constipára a
+menina. Tossiu com pouco esforço; mas, na audição do pae, aquelle accesso dava
+o som aspero das crepitações pulmonares; figurou-se-lhe estar ouvindo tossir
+sua mulher.</p>
+
+<p>Nublou-se-lhe o semblante, e revia-se-lhe nos olhos a turvação da alma.</p>
+
+<p>&mdash;Anna&mdash;disse elle, tomando-lhe a mão com extremada
+caricia&mdash;eu quero que sejas feliz; quero até que sejas infeliz, mas que
+vivas. Reanima-te, filha. Dou-te licença para casares com Eduardo.</p>
+
+<p>A menina beijou-lhe a mão fervorosamente, e inclinou<span
+class="pn">{131}</span> a cabeça ao braço d'elle, como se quizesse esconder a
+exultação que devia parecer reprehensivel ao amor de seu pae.</p>
+
+<p>&mdash;Crês, minha filha, que a vida te será mais agradavel,
+cazando?&mdash;interrogou o velho; e, sem aguardar resposta, voltou-se para D.
+Julia, accrescentando:&mdash;Que pergunta, que frivola pergunta! É o mesmo que
+perguntar a um cego, se crê que lhe ha de ser mais agradavel vêr!... Casarás,
+filha; mas com uma condição que teu pae propõe: não me deixarás; o amor, que me
+tinhas, dá-o a teu marido; mas não me deixarás, não?</p>
+
+<p>&mdash;Ó meu papá, nunca! por alma de minha mãe lhe juro que nunca o
+deixarei, nem amarei menos do que hoje.</p>
+
+<p>&mdash;Não jures, Anna... Pede á alma de tua santa mãe que te guie; mas não
+a invoques para affiançar as mudanças da tua vida...</p>
+
+<p>&mdash;Meu papá!&mdash;replicou a filha perturbada pela solemnidade da
+objecção&mdash;se me julga capaz de o amar menos, então não me diga que case. É
+melhor que eu...</p>
+
+<p>&mdash;Que tu, filha?</p>
+
+<p>&mdash;Que eu morra, com a certeza de o não ter affligido...</p>
+
+<p>&mdash;Eu bem sabia que tu eras a boa creança, o adoravel coração que és...
+Por isso é que eu cuidava que nenhum homem te merecia... E se pensei em te dar
+a outro, foi porque, entre tantos com que lidei no espaço de quarenta annos, eu
+nunca tinha encontrado condição<span class="pn">{132}</span> mais nobre de
+homem, na flor da juventude, mas sem mocidade... Entretanto, os amigos d'este
+homem, que a tua innocencia não viu, devem ser dignos d'elle. Se Venceslau
+Taveira assevera que Eduardo Pimenta é honrado, seja teu marido Eduardo
+Pimenta. Agora, minha filha, não me estejas doente; paga-me esta alegria que te
+dou; alegra-te, vive, renova a côr sadía das tuas faces desmaiadas... Dize-me
+ámanhã que estás boa, e me não has-de deixar, n'esta escurecida velhice, a
+esperar o beneficio da morte, sósinho, entre tres sepulturas.</p>
+
+<p>Ergueu-se o commendador, e passou ao seu gabinete. Escreveu, e enviou a
+carta a Venceslau Taveira. E, depois, apoiou o rosto sobre os braços cruzados
+na banca, e chorou longo tempo. Ao emergir d'este lethargo, levantou-se de
+golpe, e murmurou: «Meu Deus! em que se funda o presagio da desgraça de minha
+filha! Que ha no rosto d'aquelle homem que me está aterrando! Ha dois dias que
+eu o via com affecto; não lhe admirava as virtudes nem arguia os vicios;
+pintava-se-me um como tantos que a sociedade préza; porém, desde que o imagino
+tão identificado á minha vida, esposo de minha filha, que fatidico horror é
+este!...</p>
+
+<p>E, n'este emtanto, D. Julia de Miranda, testemunhava medianamente commovida
+o jubilo da sua amiga. Póde ser que ella, vendo desfechar o drama d'estes
+amores tão depressa quanto ao avêsso de suas previsões, se arguisse de
+imperfeita amiga, escondendo de Julia dous traços equivocos, senão maus do
+caracter de Eduardo. Um&mdash;aquellas amphibologicas palavras, que lhe
+elle<span class="pn">{133}</span> dissera um dia antes, e ella recebêra com tal
+qual severidade. Outro&mdash;a supportavel tristeza com que Eduardo, n'aquelle
+mesmo dia, lhe referira a quebra de suas relações com o commendador. Se outra
+causa menos para louvar-se era parte na limitada satisfação de Julia, quando a
+noiva de Eduardo festejava a sua inesperada ventura, não é facil averiguar, em
+quanto o curso dos successos nos não remover a triple muralha que véda o
+insondavel coração das creaturas predestinadas a distincções deploraveis.</p>
+
+<p>Bem que inexperta e apenas alumiada pela escassa luz matinal do seu amor,
+Anna Vaz reparou, entristecida, n'estas palavras enigmaticas de Julia:</p>
+
+<p>&mdash;Fez-me impressão o enthusiasmo de teu papá quando fallou de
+Venceslau! O rapaz decerto é o complexo de boas qualidades que teu pae avalia;
+nós, porém, as mulheres, temos o coração nos olhos, e o juizo no coração. O
+nosso vêr é tão diverso do reparar da experiencia! Quem nos diz que o melhor
+marido seria o menos amavel á primeira vista? Eduardo tem a eloquencia
+sympathica e melancolica do soffrimento que lhe deixou uma paixão contrariada;
+Venceslau tem o ar sereno de quem nunca soffreu nem motivou dôres a ninguem.
+Estes dois homens são a consolação ao pé da desgraça. O coração cheio de
+balsamos ao lado do coração cheio de lagrimas. Um amou muito, o outro não amou
+nunca. Eduardo tem um passado que ha de vir aguar-lhe as alegrias do presente.
+Venceslau, quando amar, ha de ser todo a felicidade do momento, a primeira<span
+class="pn">{134}</span> florescencia da alma sem imagem de mulher morta ou viva
+que venha confrontar-se com outra...</p>
+
+<p>&mdash;Mas que quer dizer isso?!&mdash;interrompeu Anna.&mdash;Tu bem sabes
+que eu não amo o Venceslau.</p>
+
+<p>&mdash;Pois não sei, filha!... O que eu te queria dizer é que, se em vez de
+amar Eduardo amasses o outro, talvez o teu anjo da guarda te inspirasse
+melhor... </p>
+
+<p>&mdash;Porquê?... Não me disseste tantas vezes que o Eduardo era sympathico
+e muito amavel?...</p>
+
+<p>&mdash;E eu digo-te agora o contrario?</p>
+
+<p>&mdash;Mas achas que o outro seria melhor...</p>
+
+<p>&mdash;Melhor para a felicidade da vida intima, filha; mas o coração não
+calcula o que ha de vir pelo tempo além...</p>
+
+<p>&mdash;Tu atterras-me Julia!&mdash;exclamou a enleada menina, fitando na
+impenetravel amiga os seus olhos explendidos.</p>
+
+<p>&mdash;Has de ser sempre creança!... volveu a desconcertada confidente,
+emendando as demazias da sua imprudencia.&mdash;Estou conversando comtigo, que
+vaes ser senhora; e tu queres que eu não tenha vinte e oito annos, e te falle a
+linguagem das meninas.</p>
+
+<p>&mdash;Pois sim... mas tu desconfias de Eduardo...</p>
+
+<p>&mdash;Eu desconfio?</p>
+
+<p>&mdash;Sim... hontem não me dizias isso...</p>
+
+<p>&mdash;E hoje que te digo?</p>
+
+<p>&mdash;Que eu seria mais feliz se amasse o Taveira...</p>
+
+<p>&mdash;Ai! que calumnia!... Calla-te, que ahi vem teu pae.<span
+class="pn">{135}</span></p>
+
+<p>O commendador entrou. A filha contemplou-o, e disse meigamente:</p>
+
+<p>&mdash;O papá chorou?</p>
+
+<p>&mdash;Se chorei? sim, filha... Dá-me os parabens, que chorei. Chorar é
+esmagar a dôr. As lagrimas são o sangue das angustias que os padecentes podem
+afogar entre as mãos. Quando ellas vencem, o homem não chora; morre.</p>
+
+<p>&mdash;Morrer, meu Deus!&mdash;exclamou Anna.&mdash;Ó papá, meu querido
+papá!... não me falle em morrer, que eu já não quero...&mdash;E susteve-se por
+segundos.</p>
+
+<p>&mdash;Que não queres, filha?... Pobre anjo!... não ousou proferir a
+palavra, receiando que lh'a acceitasse... Ai! não, minha pobre Anna... Has de
+casar com Eduardo... Se houveres de morrer, a teu pae basta-lhe a dôr... O
+remorso seria um supplicio que a minha alma nunca experimentou...</p>
+
+<p>Ficaram os tres largo espaço silenciosos. Librava-se no ambiente d'aquella
+sala o archanjo das propheticas agonias.<span class="pn">{136}<br>{137}</span></p>
+
+<h1><a name="SECTION000120000000000000000">XI</a></h1>
+
+<blockquote>
+ <p>Qualquer honesta se abala,<br>
+ Como sabe que é querida.</p>
+
+ <p class="obra">C<small>AMÕES.</small>&mdash;<em>Filodemo.</em></p>
+</blockquote>
+
+<p>Observou Venceslau Taveira que o seu amigo, ouvindo lêr a complacente carta
+do commendador, manifestou mais que moderadamente o seu contentamento.
+Estranhando-lhe a quasi indifferença, perguntou-lhe se a noticia lhe era
+desagradavel, e se a conformidade do pae ao amor da filha despoetisava a noiva.
+</p>
+
+<p>Respondeu Eduardo, alteando a fronte, que a injuria da despedida era muito
+recente, e a honra da readmissão pouco desejada.</p>
+
+<p>Taveira obtemperou com a sobranceria do seu amigo. Pareceu-lhe bem aquelle
+pundonor: achou até natural que os brios e o coração se digladiassem dentro do
+nobre peito do rapaz. Isto, porém, não impediu que elle desculpasse o velho e
+resalvasse a menina da responsabilidade, a fim de amolentar as asperezas
+timbrosas de Eduardo, o qual se considerava offendido em sua justa<span
+class="pn">{138}</span> hombridade de plebeu pela propria mulher que talvez
+imaginasse descer os degraus de sua gerarchia para lhe dar a mão. É o que elle
+dizia, encaracolando o bigode e avincando a testa.</p>
+
+<p>Insistiu Taveira declinando da amorosa menina as queixas do plebeu irritado.
+Teve que fazer. A ralé, se traja ao bizarro, e se tem nos miolos o fervilhar
+das aspirações, destampa em orgulhos desmesurados: faz saudades do barão
+feudal. Dava-se em Eduardo, ao que parecia, o sangrar da ferida antiga. O viuvo
+da filha dos Portugaes tinha nas cavernas da alma latibulos de rancor ás raças,
+aos pergaminhos, e nomeadamente aos paes que lhe não offereciam as filhas e os
+vinculos. De mais a mais, além d'estes pontos-de-honra, outras procellas lhe
+emborrascavam o animo quando elle, de subito, fez esta pergunta:</p>
+
+<p>&mdash;Que dote tem ella?</p>
+
+<p>&mdash;Eu sei lá!...&mdash;respondeu o outro enleado.</p>
+
+<p>&mdash;Eu devia ter indagado...</p>
+
+<p>&mdash;Sim, tu, e não eu, a dever ser algum. Se casas com o dote, começas
+pelo fim. Devias estudar o archivo do commendador, antes de pôr a sonda ao
+coração da filha, acho eu.</p>
+
+<p>&mdash;Fallemos serios&mdash;volveu o galan dos olhos tristes e das
+palpebras morbidas.&mdash;Parece-te inutil isto de saber-se com quanto um homem
+póde contar, quando se constitue chefe de familia?</p>
+
+<p>&mdash;Parece-me util; é sem duvida util mercantilismo. Mas o util nem
+sempre se combina com o agradavel,<span class="pn">{139}</span> como aconselha
+o poeta romano. E, n'este caso, essa averiguação, sobre ser desagradavel, é
+extemporanea. Já te disse: acabas por onde devias principar. Suppõe tu que
+farejas os contadores de Francisco Vaz, e não achas lá aroma de vintem! Que
+fazes? Retiras o requerimento á mão da menina, visto que a menina se não
+presume herdeira?</p>
+
+<p>&mdash;Se retiro o requerimento? Eu não requeri nada... não a pedi...</p>
+
+<p>&mdash;É verdade, não a pediste... Fui eu quem a pediu para ti, por me
+haveres dito que ella se suppunha amada, e não embaida por velhacaria de
+mercador que anda de armazem para armazem comparando e apalavrando fazenda.
+Entretanto, respeito a dote, não te informes comigo. Como vês, tens aberta a
+porta do commendador: pergunta-lh'o. E, se elle te disser que é pobre, e as
+lavaredas do amor se apagarem no teu peito, suicida-te.</p>
+
+<p>&mdash;Que me suicide?!&mdash;bradou espantado o sugeito, que annos antes
+andára a metter-se nas tezouras da parca.</p>
+
+<p>&mdash;Sim, homem&mdash;voltou Venceslau tregeitando no sorrir um gesto de
+aborrecimento, se não era de menospreço.&mdash;Mata-te por egoismo. O amor
+proprio de um homem de bem deve ministrar-lhe o veneno ou o punhal suicida,
+quando se lhe está abrindo um abysmo de... de... não me lembra a palavra...</p>
+
+<p>&mdash;É pena que te não lembre...&mdash;acudiu ironicamente o outro.<span
+class="pn">{140}</span></p>
+
+<p>&mdash;Ah!... lembrou: de infamia.</p>
+
+<p>&mdash;Mercês!&mdash;redarguiu Eduardo&mdash;se fosses um qualquer homem,
+respondia-te no campo da honra; mas ao amigo, que comprou com os seus favores o
+direito de me aviltar, digo: obrigado!</p>
+
+<p>&mdash;Ao campo da honra vão os honrados&mdash;concluiu Venceslau,
+erguendo-se de golpe, e tomando o chapéo.&mdash;Tenho que fazer... Não me dá
+Deus horas baldias para palestras d'esta especie.</p>
+
+<p>E sahiu arrebatadamente.</p>
+
+<p>Eduardo seguiu, deu-lhe o braço já na rua, e disse-lhe em tom de muita
+brandura:</p>
+
+<p>&mdash;Nunca te imaginei condição tão brava, Taveira! A tua honra tem
+espinhos... </p>
+
+<p>&mdash;Pois não te firas, Eduardo... Temos duas estradas. Segue uma das duas
+por onde nunca possamos encontrar-nos.</p>
+
+<p>&mdash;Ao menos permitte que hoje á noite nos encontremos em casa do
+commendador. </p>
+
+<p>&mdash;Como te aprouver... adeus.</p>
+
+<p>Venceslau foi para as côrtes, e Eduardo para casa de D. Julia de Miranda.
+</p>
+
+<p>&mdash;Parabens!&mdash;exclamou ella, quando entrou á sala, onde era
+esperada pelo noivo de D. Anna Vaz.&mdash;Quem diria? Olhe que bonito e rapido
+desfecho teve o romance, que parecia complicar-se em tenebrosos enredos!</p>
+
+<p>&mdash;É verdade, minha senhora!...</p>
+
+<p>&mdash;Tambem me dou a mim os emboras pela auspiciosa<span
+class="pn">{141}</span> intervenção que tive n'estes bem-logrados amores!</p>
+
+<p>&mdash;Obrigado, snr.ª D. Julia&mdash;respondeu elle glacialmente.</p>
+
+<p>&mdash;Que seccura, santo Deus! que frieza a sua, snr. Eduardo! E eu a
+imaginal-o doido de alegria como todos os que amam anjos com o rosto e o
+coração da minha Annica! Ai! se ella agora o visse decerto...</p>
+
+<p>&mdash;Me não amava?</p>
+
+<p>&mdash;Decerto abafava de mágoa de o ter amado... Que tem? que genio é o
+seu? que é isso?!</p>
+
+<p>&mdash;É a fatalidade&mdash;respondeu funeralmente o joven pallido.</p>
+
+<p>&mdash;Não sei o que é a fatalidade... Explique-se.</p>
+
+<p>&mdash;Quer V. Ex.ª que eu lhe diga o que é a fatalidade?... Ah! não queira
+ouvir...</p>
+
+<p>&mdash;Quero... diga... Preciso entender o enigma da sua alma...</p>
+
+<p>&mdash;A fatalidade é o calix intransmissivel. É a attracção do abysmo. É o
+resvalar por despenhadeiro onde não ha aresta de rocha em que se recravem os
+dedos. É o supplicio de Tantalo, a braza viva nos labios e a torrente da agua a
+derivar por diante da enorme agonia da sêde. É o tormento de Mezencio: o vivo
+enleiado ao cadaver. A fatalidade é o abutre que roía o figado immortal do
+acorrentado do Caucaso. É o estanque de lagrimas onde se afogam as esperanças,
+apenas nascidas. É o clamor incessante d'uma alma, que sóbe até o céo nas azas
+da fé, e desce até ao inferno<span class="pn">{142}</span> abatida com o pezo
+das suas maldições. É duvidar de Deus, quando a face bate nas lageas do templo,
+e o coração se confrange e arde sem aura refrigerante. A fatalidade é o
+holocausto forçoso da vida n'um altar onde a victima não leva sequer a
+compaixão dos que sabem que alli se está suicidando um homem. É a vacillação
+incomportavel de quem balanceia entre matar-se para esquecer e sacrificar-se
+para que o não deshonrem as vaias das multidões. A fatalidade, snr.ª D. Julia,
+é não ter eu morrido quando me atirei á bayoneta e ás balas no fragor das
+pelejas. A fatalidade é ter eu olhos e alma, e o torturar da vaga esperança,
+quando a imagem d'uma mulher predestinada me appareceu a apontar-me a voragem
+onde eu devia engolphar-me. A fatalidade, emfim, senhora, é tel-a eu visto;
+é... tel-a eu amado.</p>
+
+<p>Esbofada a vulcanica declamação, D. Julia ergueu-se placidamente,
+soberanamente, hirta, severa, formosa de magestosos assomos, e disse:</p>
+
+<p>&mdash;Se é o snr. Eduardo Pimenta quem está em casa de Julia de Miranda,
+amiga de Anna Vaz, peço-lhe que se esqueça de ter aqui entrado.</p>
+
+<p>&mdash;Perdão, minha senhora!&mdash;balbuciou o galan, como quem não trazia
+mais diamantes no thesouro da memoria.&mdash;Perdão!</p>
+
+<p>&mdash;Perdoei, porque... esqueci.</p>
+
+<p>&mdash;Perdôa&mdash;volveu elle com alguma felicidade&mdash;perdôa,
+porque... matou. Eu vou ser marido de D. Anna Vaz, snr.ª D. Julia. Ha de vêl-a
+feliz...</p>
+
+<p>&mdash;Praza a Deus... mas... duvído.<span class="pn">{143}</span></p>
+
+<p>&mdash;Ha de vêl-a feliz... ha de vêl-a sorrir para mim sem suspeitar que
+lhe sorri nos meus labios a morte... o sorrir do martyr para o cutello, a
+palavra indulgente do Christo para os seus verdugos. Agora, uma supplica...
+Segredo, minha senhora! Que ella o não saiba... Não me prive da gloria de ser
+eu só desgraçado. Se ella vê em mim o coração que se abraza do seu amor,
+deixe-a ser feliz; diga-lhe que eu a amo... prometto a V. Ex.ª que nunca a
+desmentirei... </p>
+
+<p>&mdash;Mas... enganou-a... mentiu-lhe... para quê? objectou D. Julia,
+enredada nos amphiguris d'aquellas tiradas de Arlincourt.</p>
+
+<p>&mdash;Não a enganei... forçou-me a fatalidade a adoral-a...</p>
+
+<p>&mdash;E então?... Que incomprehensivel!... que indecifravel adoração!...
+Pois não me diz que adorava a minha amiga? Por que deixou de adoral-a?!</p>
+
+<p>&mdash;Porque a mão do anjo negro me trouxe, desde o tumulo da primeira
+mulher que amei, até ao segundo calvario onde eu devia amar a segunda,
+mostrou-me... V. Ex.ª Eu disse tudo, senhora! Agora odeie-me; mas não me
+denuncie. O seu silencio ha de deixar-me agonisar lentamente; a sua denuncia...
+fulminar-me-ha... A minha morte é desnecessaria á sua glorificação.</p>
+
+<p>Disse e sahiu.</p>
+
+<p>Não era odio o mais caustico sentimento que Eduardo incutiu no animo de
+Julia. Tambem não era asco nem sequer desprezo. A fidalga ficára agitada, mas
+não febril dos estos da indignação. Viu-se escarlate no espelho,<span
+class="pn">{144}</span> e nenhuma das hypotheses explicativas da congestão
+sanguinea das faces lhe pareceu realmente ser pudor. Vêr-se ao espelho seria
+acaso; curiosidade de remirar o seu aspecto rubente de colera é que não era.
+Ella não sabia que estava iracunda e rubra. Fulgurou-lhe no espirito um
+relampago de electricidade tão offuscante que fechou os olhos. Teve pejo de
+si:&mdash;pudenda alma que se sentia estremecer no lapso da candura ao
+indecoro! Atirou-se a uma cadeira estofada, e abarcou o rosto nas mãos
+convulsas. Quando se levantou, as lagrimas embebiam-se no ardor das faces.
+Aquellas lagrimas eram as perolas que o seu bom anjo derramava sobre o seio
+onde os latejos do coração respondiam aos clamores da consciencia. N'este
+lance, enclavinhou os dedos das mãos, e comprimiu com ellas o arfar do peito.
+E, depois, tirando um profundo gemido, murmurou: «Se eu podesse amar um
+homem!»<span class="pn">{145}</span></p>
+
+<h1><a name="SECTION000130000000000000000">XII</a></h1>
+
+<blockquote>
+ <p>       Deus organisou<br>
+ O homem que vemos...</p>
+
+ <p class="obra">A<small>NTONIO </small>P<small>RESTES.</small>&mdash;<em>Auto da
+ Ave-Maria.</em></p>
+</blockquote>
+
+<p>Estavam todos melancolicos, á feição de amigos que se ajuntam em casa do
+dorído, na noite seguinte á do passatempo.</p>
+
+<p>O commendador Vaz dirigia ao seu futuro genro palavras de contrafeita
+amabilidade.</p>
+
+<p>Venceslau Taveira lia o diario das camaras e tirava notas. O conego das
+digestões morosas esperava o chá na espectativa silenciosa, ouvindo o rugir das
+proprias entranhas. O capellão da fidalga contemplava o conego, censurando
+mentalmente que as murças se déssem a sugeitos estupidos. D. Julia, no desvão
+da sacada, ciciava com a sua amiga um dialogo apparentemente gélido e remoto do
+interesse que era de presumir em tão festivo sarau.<span
+class="pn">{146}</span></p>
+
+<p>Durante o chá, animou-se aquelle palco da comedia humana. O prebendado
+contou os antigos faustos da patriarchal de D. João <small>V</small>. O
+commendador abriu ensejo ao capellão para que demonstrasse que D. João
+<small>V</small>, orando em Odivelas, não fôra mais util á religião dos pobres
+que os chantres da patriarchal gosmando psalmos na real basilica. Venceslau
+Taveira fez a apologia de Ferreira Borges e Manoel Fernandes Thomaz. Eduardo
+Pimenta descreveu a batalha da Roliça, azando ao conego breves, mas energicos
+protestos contra Bonaparte, e a vigesima edição de suas crenças politicas, que
+fundavam todas na paz e concordia entre os principes christãos e extirpação das
+herezias&mdash;votos sinceros, senão eloquentes, que influiam no cerebro do
+capellão filtros soporiferos.</p>
+
+<p>Em amor ninguem fallou.</p>
+
+<p>Soára meia noute: era a hora costumada de se apartarem.</p>
+
+<p>Francisco Vaz, aproximando-se de Eduardo, disse-lhe a meia voz:</p>
+
+<p>&mdash;Queira dizer a Venceslau que fique e V. S.ª ficará tambem alguns
+minutos. </p>
+
+<p>D. Julia sahiu com os dois clerigos; D. Anna não voltou á sala; e o
+commendador fallou assim a Eduardo, na presença do deputado.</p>
+
+<p>&mdash;Tive noticia de que o snr. Pimenta préza minha filha. É sua intenção
+esposal-a?</p>
+
+<p>&mdash;Eu não podia ter outra intenção.</p>
+
+<p>&mdash;Costumam alguns paes extremosos pedir aos noivos<span
+class="pn">{147}</span> de suas filhas que sejam bons, meigos e carinhosos para
+ellas. O amor santo dos pobres velhos desculpa-os d'este pedido banal. É
+respeitavel a supplica, porque Deus sabe como se cerra e estorce o coração do
+pae que separa de si ao fim de dezeseis annos a creança, que se fez mulher, e
+todavia lhe falla ainda na alma com a mesma ternura dos vagidos da infancia. Um
+pae vê sua filha senhora, e cuida sempre que ella lhe está sorrindo no berço.
+Não lhe pedirei, pois, snr. Pimenta, que ame sua esposa, porque eu a estremeço
+e adoro. Peço-lhe só que m'a receba como excellente creatura que ella é. Outra
+coisa que muito desejo me não esqueça. Queixei-me austeramente ao snr.
+Venceslau das intelligencias affectuosas que V. S.ª contrahiu com minha filha.
+Não m'o leve a mal. Um pae treme de susto e ira quando de repente sabe que lhe
+tentam usurpar as alegrias unicas da sua vida: é como o avarento a quem ameaçam
+espolial-o do cofre onde tem o sangue e a alma. Queixei-me; depois, abri os
+olhos, vi o mundo como elle foi sempre, vi minha filha como todas as filhas, e
+vi no snr. Pimenta um homem como eu fui, como são todos. Resignei-me. Algum
+sedimento de despeito e intolerancia sahiu nas lagrimas. Estou preparado para a
+renunciação, para a soledade, e para um fim de velhice mais triste do que eu
+imaginara entre a minha Anna e o retrato de sua mãe. Não sei qual é a tenção de
+V. S.ª depois de casado. Ella disse-me que não se apartava de mim;
+porém...<span class="pn">{148}</span></p>
+
+<p>&mdash;Em quanto o snr. commendador quizer acceitar a estimação sincera do
+marido de sua filha, eu não pensarei jámais em sahir de sua companhia.</p>
+
+<p>&mdash;Agradeço!&mdash;disse o velho, estendendo-lhe a mão com vehemente
+transporte; e proseguiu, feita breve pausa:&mdash;O homem, que se casa, deve
+avançar vinte annos a dentro do futuro e prefigurar-se ahi pae de familias,
+rodeado de canceiras, cuidadoso e perplexo com o porvir de seus filhos. O amor
+opera prodigios de desinteresse, mas não faz que os bens da fortuna surjam
+miraculosamente. Parece-me util que V. S.ª saiba qual é o patrimonio de minha
+filha. Tenho uma commenda que me rende dois mil cruzados, e duas quintas que me
+dão outro tanto rendimento. Esta mediania tem bastado á modestia do nosso
+tracto. Não frequento bailes ha muitos annos, porque não posso retribuil-os.
+Alheei-me da sociedade faustuosa dos meus parentes, porque minha filha apenas
+poderia occupar dignamente o posto que lhe dá o seu nascimento; mas decerto, a
+equipar-se das pompas que as damas de hoje estadeam nas salas, o seu dote
+ser-lhe-hia muito desfalcado, e, no andar dos annos, muito custoso lhe havia de
+ser trajar vestidos de chita, quem os desperdiçára de sêda. Além de que, fartas
+vezes tenho previsto que os dois mil cruzados da commenda correm perigo de ser
+absorvidos pela liberdade, inimiga de tudo que é antigo, sem catar dos direitos
+que, sendo justos, não deviam postergar-se. Espero, porém, que os sacerdotes da
+liberdade, se todos forem<span class="pn">{149}</span> da condição do snr.
+Taveira, curem primeiro de desentranhar as riquezas do paiz, antes de
+arrebanharem as migalhas herdadas dos antigos conquistadores da Asia e Africa.
+</p>
+
+<p>Venceslau correspondeu com um aceno de complacencia ao sorriso do
+commendador, que proseguiu:</p>
+
+<p>&mdash;Na hypothese, portanto, de que tenho pouco e menos poderei ter d'um
+momento para outro, não receio melindrar o snr. Pimenta, aconselhando-lhe, já
+como amigo e já como pae de sua esposa, que procure empregar-se, como tantos
+emigrados que o não egualam em meritos de serviços e intelligencia. Se lhe não
+quadra a vida militar, que renunciou, ha encargos civis honrados e lucrativos.
+Na sua edade e com tanta capacidade, a vida ociosa deve dar-lhe tédios, fadigas
+sem actividade que as explique, dissabores e quebrantos que volvem aborrecida a
+monotonia do viver cazeiro. Eu, em quanto o vigor me ajudou, fui agricultor;
+depois fiz-me o mestre de meus filhos; e li quanto achei e pude entender para
+acreditar que Cicero, escrevendo louvores da velhice, não sophismava o desanimo
+frio e inerte d'este inverno sem sol, em que a luz dos olhos de minha filha me
+dava mais calor que as ardentes apologias do orador romano. Basta. É tarde,
+meus amigos. São horas de repouso. O snr. Pimenta recebe ámanhã a certidão de
+edade de sua noiva para os reclames. Boas noites. Minha filha não vem á sala,
+porque está recolhida.</p>
+
+<p>&mdash;Que bello caracter de homem!&mdash;dizia Eduardo, intimamente
+compenetrado da honrada simpleza do commendador.&mdash;Parecia<span
+class="pn">{150}</span> um pae dos tempos patriarchaes! Começo a sentir doçuras
+imprevistas n'este enlace! Adquiro uma esposa adoravel, e um pae venerando!
+Achei o santo aconchêgo da familia que nunca tive!... Não vou ser rico; mas
+quantos centenares de contos daria Cressus pelas delicias domesticas no seio de
+tal familia?... Mas tambem não vou ser pobre...</p>
+
+<p>&mdash;Decerto, não&mdash;assentiu Venceslau, reparando na subitanea
+passagem das tradições patriarchaes á vulgaridade moderna da
+riqueza.&mdash;Quanto tens de teu? </p>
+
+<p>&mdash;Quatorze mil cruzados, pouco mais ou menos.</p>
+
+<p>&mdash;Ouço dizer que os empregos se compram. Emprega o teu capital n'essa
+veniaga, ou augmenta os rendimentos do casal comprando predios rusticos. Podes
+viver desafogadamente com cinco ou seis mil cruzados annuaes, se continuares a
+parcimónia e resguardo de teu sogro. Tens a felicidade de casar com senhora não
+acostumada a bailes nem ás fatuidades do toucador. Só isso de per si vale um
+dote dos mais cubiçaveis.</p>
+
+<p>&mdash;Dizes bem; mas&mdash;objectou Eduardo&mdash;bem sabes que eu não
+posso conformar-me aos habitos de meu sôgro, nem quero que minha mulher passe
+as noutes todas a ouvir discutir o tio conego com o capellão de Julia. Uma vez
+por outra, hei de leval-a ao baile, ao theatro, ao passeio, á convivencia das
+damas da sua parentella. Isto não desbarata os bens, acho eu; ao mesmo passo
+que aligeira os cuidados da lida domestica, e reveza umas sensações por outras,
+tomando-as todas apraziveis. Não te parece?<span class="pn">{151}</span></p>
+
+<p>&mdash;Sim... parece-me que a indole constrangida é o germen de grandes
+desgostos. O commendador não levará a mal que sua filha gose os prazeres que
+não conhece; mas, se tu visses que ella é ditosa desconhecendo-os, serias bom e
+discreto deixando-a na feliz ignorancia d'esses vistosos fructos das cidades
+arrasadas da Palestina, as quaes tinham cinzas envoltas em formosa casca...</p>
+
+<p>&mdash;Ahi estás tu encarecendo perigos!&mdash;tornou Eduardo, adocicando a
+facecia.&mdash;O noviciado em Tibães deixou-te uns longes de frade em missão.
+Se te não desfradas, destampavas em Jeremias, e a esta hora alta da noute havia
+de ser lugubre ouvir-te por aqui a declamar: «Converte-te, Lisboa! Fazei
+penitencia, peraltas!»&mdash;E, voltando ao tom serio, ajuntou:&mdash;Eu, a
+dizer-te verdade, tenho precisão de ar, de sol, dos esmaltes da existencia, das
+coisas sublimes que Deus poz como matizes de oiro sobre o negro pano da vida.
+Caso-me para unir á minha uma alma, que me duplique o sentimento do bello. Dois
+corações identificados devem receber em dobro a sensação das alegrias honestas.
+Bem sabes que escura mocidade tive. Dôres sobre dôres. O horisonte fechado por
+um tumulo. A repulsão da familia e da patria. A perseguição dos poderosos. A
+pobreza no desterro. Beneficios de Deus recebi só um: a tua amisade, a mão que
+me desviava do seio o punhal suicida. Quem assim viveu até aos trinta annos tem
+direito a sahir d'este lethargo, e a commungar dos prazeres que não desdouram
+nem arruinam. Não é assim?<span class="pn">{152}</span></p>
+
+<p>&mdash;É.</p>
+
+<p>&mdash;Dizes <em>é</em> por condescendencia?</p>
+
+<p>&mdash;Digo.</p>
+
+<p>&mdash;Mas não digas; discute.</p>
+
+<p>&mdash;Boa hora para discutir, aqui, na rua dos Fanqueiros, se os prazeres
+desdouram e arruinam! Isso é questão philosophica de grande folego, meu amigo.
+Eu, por mim, em philosophia moral, conheço uma só palavra, que é o lemma d'uma
+eschola: <em>Abstem-te e soffre</em>.</p>
+
+<p>&mdash;Isso não é philosophia: é uma questão de temperamento...</p>
+
+<p>&mdash;E de temperatura cá para mim... Está muito frio... Adeus, até
+ámanhã.</p>
+
+<p>Venceslau entrou na modestissima sobre-loja onde morava na calçada do
+Caldas; e Eduardo, recolhido aos confortos do seu gabinete no hotel-francez da
+rua de S. Paulo, sentou-se á banca da escrivaninha, e escreveu vinte e sete
+vezes a palavra <em>Julia</em>, inflorando as hastes do <em>J</em> e do
+<em>l</em> com recortes de muito ingenho. Durante esta obra-prima de
+caligraphia, o seu espirito desenhava na tela que lhe offerecia o demonio de
+Fausto, uns hediondos esboços de romance, que elle não tirou a limpo, e eu, por
+desventura minha, hei de restaurar no pano delido por lagrimas.</p>
+
+<p>Depois, deitou-se no colchão de pennas, e adormeceu como raras vezes dormem
+os justos.</p>
+
+<p>E ao mesmo tempo, quando a aurora já repontava do seu leito de neblinas
+frigidissimas, Venceslau concluia o seu artigo do <em>Astro</em>, friccionára
+as mãos gelidas,<span class="pn">{153}</span> deitava-se no enxergão ingrato ao
+longo repouso, e não podia conciliar o somno com a febre cerebral do longo
+trabalho.</p>
+
+<p>Ah! os justos dormem bem quando... não tem que fazer.<span
+class="pn">{154}<br>{155}</span></p>
+
+<h1><a name="SECTION000140000000000000000">XIII</a></h1>
+
+<blockquote>
+ <p>Sempre bom, sempre douto, sempre amigo<br>
+         Da honra e da virtude.</p>
+
+ <p class="obra">F<small>ILINTO </small>E<small>LYSIO.</small>&mdash;<em>Ode.</em></p>
+</blockquote>
+
+<p>«Se eu podesse amar um homem!»&mdash;verbo de recondito mysterio que passou
+nos labios de Julia, por entre umas crispações, que tanto podiam ser nervosas
+como sanguineas.</p>
+
+<p>Estas mesmas palavras repetiu ella á sua amiga D. Anna Vaz, um mez depois de
+celebrado o casamento.</p>
+
+<p>Vieram ellas de molde no seguinte dialogo:</p>
+
+<p>&mdash;Diz o meu Eduardo que tu não amaste nunca meu mano Antonio.</p>
+
+<p>&mdash;Ora essa! O teu Eduardo não tem senso commum! Em que funda elle essa
+calumnia?</p>
+
+<p>&mdash;Diz que tem estudado o teu genio; que te não acha nos olhos, nem nas
+palavras a doçura e tom de mulher,&mdash;a meiguice que elle chama
+feminilidade. Disse<span class="pn">{156}</span> mais que tens uns ares
+varonís, e umas attitudes fortes, inflexiveis e refractarias á ternura.</p>
+
+<p>Julia soltou uma cascalhada de riso, exclamando entre froixos de tosse:</p>
+
+<p>&mdash;Teu marido é admiravel! Não tem graça, mas faz-me rir! Com que então
+tenho ares varonís! Espera talvez que eu, se os francezes voltarem a Portugal,
+vista a armadura da donzella de Orleans para salvar a patria! Desconfia
+provavelmente que eu trago na algibeira do vestido a faca de Carlota Corday!
+Ai, filha, dize-lhe que não! Assevera-lhe que eu dou um grito pavoroso quando
+vejo uma carocha...&mdash;Continuou a casquinar e a dizer:&mdash;Estas más
+qualidades do sexo forte em que m'as viu elle? Nos olhos sem doçura, e nas
+palavras... sem quê? Não te lembras?... Ah! sem tom de mulher. Olha que
+injustiça, ó Annica! O timbre da minha voz é feio de fino que é; e os meus
+olhos, na opinião da gente que me faz favor de olhar para mim, são tristes e
+ternos. Não sei quem foi que me chamou antilopa de olhos scismadores... Ainda
+hontem ao Venceslau Taveira ouvi que nos meus olhos brilhava uma congelação de
+lagrimas. Vê tu, meu amor, que opiniões tão oppostas!</p>
+
+<p>&mdash;Ai! a proposito... Sabes o que Eduardo me disse, Lulu?</p>
+
+<p>&mdash;Que o Taveira me fazia a côrte?</p>
+
+<p>&mdash;Isso... como adivinhas tu, feiticeira?&mdash;perguntou D. Anna
+maravilhada.</p>
+
+<p>&mdash;Como adivinho eu!... Isto não é feitiçaria, é raciocinio.<span
+class="pn">{157}</span> Elle que diz que eu não posso amar, é porque sabe que
+os meus pretendentes indefiridos são muitos. Ora, sendo Taveira o unico sugeito
+com quem fallo na presença de teu marido, este ha de ser por força o meu
+namorador rejeitado...</p>
+
+<p>&mdash;Mas elle ama-te decerto?&mdash;contraveiu D. Anna Pimenta.</p>
+
+<p>&mdash;Ó menina, a pergunta é seria?</p>
+
+<p>&mdash;É, Lulu... Quem me déra vêr-te casada e tão feliz como eu sou!...</p>
+
+<p>&mdash;És realmente feliz?...</p>
+
+<p>&mdash;Porque duvídas?!</p>
+
+<p>&mdash;Isto não é duvidar, minha filha... é o vivo jubilo que sinto quando
+me repetes todos os dias que o teu Eduardo é o ente digno de ti. Queres tu
+saber? Teu pae estava hontem triste e só na sala, quando eu entrei:
+Perguntei-lhe que tinha... e elle...</p>
+
+<p>&mdash;Ah! eu te digo... O Eduardo lembrou-se de dar um baile para festejar
+os meus annos. O papá observou-lhe que os annos de uma pessoa querida
+festejavam-se em familia, e que o prazer de festas vaidosas e estrondosas era
+cerceado pela canceira de quem dava bailes em que os divertidos eram os de
+fóra. Eduardo ficou descontente; mas não respondeu. O que elle particularmente
+me disse não o soube o pae.</p>
+
+<p>&mdash;Que foi?...</p>
+
+<p>&mdash;Desculpa-me, Lulu... não t'o digo... prometti segredo...</p>
+
+<p>&mdash;Desculpa-me tu a curiosidade, minha querida<span
+class="pn">{158}</span> amiga. Foi uma inadvertencia que a tua amisade me
+releva... Mas então não me illudi... A tristeza do teu papá tinha relação
+comtigo; e por isso insisti em perguntar se...</p>
+
+<p>&mdash;Mas&mdash;atalhou a filha do commendador&mdash;ias contar-me a
+respeito do Venceslau...</p>
+
+<p>&mdash;Ah! sim... O Venceslau é um rapaz que merece ser admirado. É serio e
+melancolico. Tem certa graça contrafeita no rir, quando se alegra por
+condescender. Em outro homem, cuidaria eu que a sua grave compostura e madureza
+intempestiva é artificio. N'elle, não. Eu sei o que é... A sua paixão é a
+politica; os seus namoros são os livros; a sua noiva é a Liberdade; e o seu céo
+ou inferno é a gloria. Homens assim não amam mulheres feminís nem mulheres
+varonís; podes dizer isto ao teu Eduardo. Dize-lhe mais que eu não repellí a
+declaração do Taveira. Ainda lhe não ouvi palavra que me assuste nem
+lisongeie...</p>
+
+<p>&mdash;Mas se elle te dissesse que te amava?...&mdash;inquiriu com malicioso
+tregeito D. Anna.&mdash;Que fazias?</p>
+
+<p>&mdash;Eu sei!... Forte aperto!&mdash;respondeu ridentissima D. Julia, a
+deplorativa Arthemisa do defuncto emigrado.</p>
+
+<p>&mdash;Ah!... entrei-te no coração, Lulu!... Cuidas que me enganas?</p>
+
+<p>&mdash;Enganar-te!... Quando te menti eu, filha? Perguntaste-me se me elle
+amava, disse-te que não. Perguntas-me se eu o amaria... Olha, minha amiga... se
+eu podésse amar um homem...<span class="pn">{159}</span></p>
+
+<p>&mdash;Ainda agora te ouvi dizer que se elle declarasse que te amava...</p>
+
+<p>&mdash;Que mais ouviste?</p>
+
+<p>&mdash;As reticencias... o embaraço... aquelle <em>eu sei</em>!</p>
+
+<p>&mdash;Sim, eu sei! Provavelmente ouvia-o com senhoril delicadeza, pedia-lhe
+que me deixasse pensar, e depois...</p>
+
+<p>&mdash;Que dizias depois?</p>
+
+<p>&mdash;Se eu ainda não pensei para responder a elle, como hei de responder a
+ti! Que indagadora! Se não fechassem a inquisição no anno passado, e fosses
+varoníl como eu, vestias a tunica dos dominicos, e ias interrogar judeus e
+feiticeiros! </p>
+
+<p>&mdash;Vou fazer-te uma prophecia&mdash;disse solemnisando o gesto de
+sibylla a esposa de Eduardo.</p>
+
+<p>&mdash;Vá, sóbe á cadeira, já que não temos tripode, e prophetisa de lá, na
+certeza de que és oraculo por tal modo transparente que eu já sei o que vaes
+vaticinar.</p>
+
+<p>&mdash;Casarás com Venceslau Taveira!&mdash;exclamou D. Anna, alongando o
+braço em postura esculptural.</p>
+
+<p>&mdash;Era isso mesmo. Desce o braço, propheta! podes apagar a chamma divina
+que te alumia o futuro, e convida-me para jantar comtigo, visto que o teu homem
+foi jantar com o general Sepulveda, e podemos parolar toda a tarde... Olha, não
+gósto d'estas deserções que faz teu marido a jantares alheios. Casado ha um
+mez, e jantar fóra...</p>
+
+<p>&mdash;Que tem isso?</p>
+
+<p>&mdash;Eu não no consentia a meu marido.<span class="pn">{160}</span></p>
+
+<p>&mdash;Pois sim... eu tambem não gósto; mas o papá deseja que elle se
+empregue, e o general Sepulveda prometteu-lhe não sei quê no commissariado. Diz
+o Eduardo que é preciso fazer a côrte ao general. Ora agora, tu, que tens
+quinhentos mil cruzados, se casasses, não consentias que teu marido fizesse a
+côrte aos que dispõem dos empregos. Olha, casa com o Taveira, e verás que elle
+janta sempre em casa...</p>
+
+<p>&mdash;O Taveira? olha quem!... O Taveira jantaria comigo, se a santa
+Liberdade o não convidasse a comer o caldo negro dos spartanos. A politica é
+uma amante que supplanta as esposas. Em quanto houvesse leis que fazer e
+costaneiras que rabiscar para vestir a Liberdade, com trapos reduzidos a papel
+sujo, meu marido apenas me daria a honra de me lêr os seus artigos e discursos.
+Venceslau ha de ser um bom esposo, se a Liberdade morrer; mas depois tambem a
+mulher, que o acceitasse viuvo de tamanha deusa, corria o perigo de o ir
+procurar aos sertões da America, onde ha tanta liberdade, sem constituição nem
+hymno, que toda a gente faz o que quer e traja o mais livremente que é
+possivel.</p>
+
+<p>N'este estylo, que denota frescura, desafogo e irrisão, proseguiu D. Julia
+de Miranda até á chegada do commendador. A pratica, durante o jantar, correu á
+conta do soberbo discurso que Venceslau proferira n'aquelle dia, captando o
+assombro das galerias, e consolidando a reputação de primeiro orador, em tão
+verdes annos. Francisco Vaz, á medida que realçava os<span
+class="pn">{161}</span> talentos do deputado, vibrava de esconso á filha uns
+olhares expressivos de mágoa e censura, como se quizesse d'esta sorte arguil-a
+de ter-se esquivado a consultar o pae na escolha do marido.</p>
+
+<p>&mdash;Que brilhante futuro aguarda este rapaz!&mdash;insistiu o
+enthusiasta, apezar da voragem que o deputado abria para sorvedoiro das
+commendas rendosas.&mdash;Dizia-se ha pouco no Rocio que é bem de esperar que
+elle seja chamado ao governo. Que admira? Quando o talento se allia á honra,
+que monta a falta dos cabellos brancos! Vida immaculada com profunda sciencia
+combinam o grande prodigio, n'estes tempos de muito vicio com muitissima
+ignorancia! Ó snr.ª D. Julia, que homem aquelle quando o fogo do genio e a
+consciencia da justiça lhe alumiam a fronte! Tenho pena que as damas
+portuguezas se considerem tão alheias dos negocios publicos. Se a instrucção
+mulheril ou a moda levassem senhoras ao parlamento, quantas não sahiriam de lá
+hoje, não direi convencidas pela oração, mas apaixonadas pelo orador!...</p>
+
+<p>Ao gracejo do velho respondeu D. Julia:</p>
+
+<p>&mdash;É bom que as senhoras não frequentem o parlamento. Pobre deputado, se
+as apaixonadas o assaltassem á sahida da camara, a repucharem-no cada uma de
+seu lado, e elle a defender-se d'essas mulheres de Pharaó, com argumentos de
+irreprehensivel rhetorica! O pobre rapaz havia de julgar-se novo Orpheu
+dilacerado pelas donzellas da Thracia.</p>
+
+<p>O commendador franziu a epiderme da testa, revelando<span
+class="pn">{162}</span> assim o desgosto que lhe causavam as demasias de sal,
+com que a sua hospeda, desde certo tempo, polvilhava as facecias.</p>
+
+<p>&mdash;As damas portuguezas&mdash;tornou o commendador
+sisudamente&mdash;quando admiram os bons ingenhos não os assaltam na rua; e, se
+os prézam, não se desprezam a si mesmas.</p>
+
+<p>&mdash;Perdão, snr. commendador,&mdash;emendou D. Julia, despeitada pela
+censura&mdash;eu respondi gracejando, por me parecer que V. S.ª não calculava
+com a maior seriedade o numero das damas apaixonadadas pelo orador. Eu tenho a
+honra de ser uma das leitoras, que admiram Venceslau Taveira, e já n'esta casa
+o ouvi improvisar luminosos discursos; porém...</p>
+
+<p>&mdash;Não se apaixonou...&mdash;accudiu o velho.</p>
+
+<p>&mdash;Não, senhor. As mulheres portuguezas, em geral, não têm a
+sensibilidade erudita que se extasia e captiva de discursos politicos.
+Comprehende-se que um poeta leve de poz a sua lyra mulheres, como Amphião
+levava pedras. A poesia é musica, e a musica, não sei onde li isto, fascina
+cobras e outras alimarias ferozes. Mas um discurso sobre a liberdade de
+imprensa e a egualdade perante a lei não seria capaz de me arrebatar
+grandemente.</p>
+
+<p>&mdash;Desconheço-a, minha amavel senhora!... replicou o commendador,
+alongando os beiços, e tomando na mão um prato, cujos relevos japonezes parecia
+examinar em quanto fallava.&mdash;Essa linguagem, adubada de chistes e
+epigrammas, d'onde lhe veiu? A menina,<span class="pn">{163}</span> d'antes,
+conversava em termos ingenuos, modestos e familiares: revia candura no pensar e
+no dizer. Hoje, porém, e n'estes dous ultimos mezes, as suas phrases têm
+novidade, que me desconsola. Ouço dizer que os emigrados trouxeram de França
+uns livros que apagam os lumes do coração e accendem os fogos fatuos do
+espirito... Dar-se-ha caso que a minha Juliazinha haja lido muito?</p>
+
+<p>&mdash;Leio desde os quinze annos, como V. S.ª sabe&mdash;respondeu com
+altiva seriedade a fidalga.&mdash;Meu pae era rapaz quando o Pombal expulsou os
+jesuitas e abriu as barreiras aos livros francezes. Meu pae estudou então, e
+mandou-me ensinar a mim o que lhe pareceu bom que eu soubesse. Li muito,
+durante os annos que estive inclausurada em castigo de amar seu filho. Lia para
+distrahir-me, e arrancar das presas da desesperação a alma que eu guardava para
+elle. Os livros, que li então, são os livros que hoje recordo. Dos que
+ultimamente vieram com os emigrados não conheço nenhum que me abraze nem que me
+géle. Ha todavia para mim dois optimos exemplos de que os ares que os emigrados
+respiraram não impestam. Bem lidos e sabios da sciencia dos francezes devem ser
+Eduardo e Venceslau; não obstante, elles são homens de bons costumes e
+excellente porte.</p>
+
+<p>&mdash;São...&mdash;murmurou o commendador.&mdash;Não duvido... não devo
+duvidar que sejam...</p>
+
+<p>E, balbuciando como se as palavras resistissem á<span
+class="pn">{164}</span> repressão da vontade, levantou-se da mesa, onde se
+havia demorado, concluido o jantar.</p>
+
+<p>N'este acto, annunciou-se Venceslau Taveira.</p>
+
+<p>D. Julia deu-lhe os emboras do seu triumpho que elle recebeu com um
+silencioso gesto de respeitosa gratidão.</p>
+
+<p>Perguntou por Eduardo; e, como lhe dissessem que jantára com Sepulveda, a
+quem empenhára na sua collocação, disse:</p>
+
+<p>&mdash;Eu obtive o despacho de Eduardo...</p>
+
+<p>&mdash;Mas ninguem lhe tinha pedido esse favor, meu amigo!&mdash;disse com
+jubilosa commoção o velho.</p>
+
+<p>&mdash;Não, senhor. Eduardo nada me pediu; vi na secretaria o requerimento.
+É bem de crêr que o ministro o attendesse; mas com as delongas usuaes. Ora,
+como eu melhor do que ninguem podia depôr do merecimento e probidade do meu
+amigo, fallei ao secretario de estado, e alcancei sem esforço que o decreto
+seja lavrado.</p>
+
+<p>&mdash;Nobilissima alma!&mdash;exclamou o commendador, abraçando-o.</p>
+
+<p>D. Anna apertou-lhe tambem a mão com vehemente agrado; e, n'este lance,
+disse alegremente o deputado:</p>
+
+<p>&mdash;Dou-lhe os parabens, snr.ª D. Anna, porque, despachado o nosso
+Eduardo, não terá V. Ex.ª o desgosto de jantar sem elle. O emprego é sempre uma
+felicidade na vida intima, quando traz a uma esposa extremosa mais duas horas
+de convivencia com seu marido.</p>
+
+<p>&mdash;Mas tem percalços o officio...&mdash;disse D. Julia.<span
+class="pn">{165}</span></p>
+
+<p>&mdash;Qual officio, minha senhora, o de chefe do commissariado?</p>
+
+<p>&mdash;Esse ou qualquer outro que involva nas alternativas da politica o
+socego de Eduardo.</p>
+
+<p>&mdash;D'accordo, minha senhora; mas o socego é um egoismo improprio do
+homem que deve ao pobre paiz o obulo da sua actividade e talentos.</p>
+
+<p>&mdash;A mulher, primeiro&mdash;redarguiu a dama.</p>
+
+<p>&mdash;A esposa primeiro nas prerogativas do coração&mdash;obviou
+Venceslau&mdash;mas nos dons do espirito a humanidade, o commum de nossos
+concidadãos, que constituem a patria. Eduardo Pimenta deve arrotear os maninhos
+em que seus filhos hão de colher as messes. Aos fundadores da familia corre
+maior obrigação de desaffrontar os herdeiros do seu nome dos vexames do
+despotismo e da ignorancia d'este paiz, para que não hajam de envergonhar-se os
+que nasceram n'elle...</p>
+
+<p>&mdash;Vês, Anna?&mdash;disse Julia intencionalmente á sua amiga.&mdash;Não
+é isto que eu te dizia ha pouco?</p>
+
+<p>Venceslau, olhando alternadamente para as duas senhoras, disse:</p>
+
+<p>&mdash;Vê-se que eu tive a honra de ser discutido por V.
+Ex.<sup>as</sup>...</p>
+
+<p>&mdash;Foi&mdash;tornou a fidalga das Amoreiras.&mdash;Dizia Anna Vaz que V.
+S.ª, se fosse casado, nunca deixaria de jantar com sua esposa; e dizia eu que a
+sua esposa teria de succumbir rivalisando-se com os interesses da patria.</p>
+
+<p>&mdash;V. Ex.<sup>as</sup> ambas tinham razão. Se eu fosse casado,<span
+class="pn">{166}</span> deixaria de jantar com minha mulher, quando as
+obrigações indeclinaveis de cidadão me não deixassem jantar n'outra parte. Se
+esse infortunio, porém, acontecesse muito repetido, e eu deixasse de jantar
+alguns dias successivos, minha mulher choraria amargamente quando lhe
+restituissem o cadaver do marido morto de fome... no altar da patria.</p>
+
+<p>Riram as duas senhoras da facecia expressada com seriedade despretenciosa;
+mas o commendador que entreviu no dizer engraçado uma indirecta censura ao
+genro, murmurou:</p>
+
+<p>&mdash;Democrito dizia eternas verdades, rindo.</p>
+
+<p>&mdash;Não me dê foros de philosopho, meu bom amigo&mdash;volveu o deputado,
+atinando com o intuito do velho.&mdash;Verdade é que, se a philosophia é ou foi
+officio de gente mal enroupada e mal alimentada, eu, pelo que toca ao alimento,
+estou a ponto de professar o stoicismo dos famintos mais celebres da Grecia e
+Roma. São seis horas e não jantei ainda. Recebo as ordens de V.
+Ex.<sup>as</sup></p>
+
+<p>&mdash;Se recebe as nossas ordens&mdash;disse D. Julia&mdash;ámanhã irá
+jantar comnosco á sua casa das Amoreiras.</p>
+
+<p>&mdash;Beijo as mãos de V. Ex.ª por tamanha honra...</p>
+
+<p>&mdash;Mas se a patria o impedir?&mdash;tornou ella.</p>
+
+<p>&mdash;É vão o receio, minha querida senhora. A patria por em quanto janta,
+e deixa jantar os seus filhos. Não se trata de lhe matar a fome; da indigestão
+de lautos banquetes é que eu e outros mezinheiros a queremos curar.<span
+class="pn">{167}</span></p>
+
+<h1><a name="SECTION000150000000000000000">XIV</a></h1>
+
+<blockquote>
+ <p>Cuida que as namora todas.</p>
+
+ <p class="obra">S<small>A DE
+ </small>M<small>IRANDA.</small>&mdash;<em>Egloga.</em></p>
+</blockquote>
+
+<p>Desde que o desembargador do paço Paulo Henrique Henriques de Miranda
+fallecera, os candelabros e serpentinas nunca mais illuminaram as salas
+luxuosamente estofadas com as alfaias dos Tavoras. A herdeira, porque vivia
+magoada e era só, esquivou-se a receber as antigas relações de seu pae, e até
+dos proprios parentes se desonerou, não pagando visitas além das cerimoniosas.
+Poucas horas do dia demorava na sombria casa; e o restante d'ellas e o mais da
+noute eram de Anna Vaz e do commendador que ella considerava sua familia.</p>
+
+<p>O capellão, padre instruido, que devia ordenação e bens de fortuna ao
+desembargador Paulo, muito tempo lidou com D. Julia, instando-a a casar-se, a
+fim de repôr aquella casa no esplendor antigo, aviventar as salas<span
+class="pn">{168}</span> desertas, dar vozes áquelles corredores funebres, e
+crear os netos do illustre desembargador, cujos parentes lateraes elle
+desadorava por immensamente brutos. «Se esta casa&mdash;dizia quasi iracundo o
+padre Manoel Ferreira&mdash;resvalava aos grandes abysmos de ignorancia em que
+jazem seus primos, receio bem, fidalga, que seu pae a maltratasse no céo,
+embora V. Ex.ª lá subisse virgem, e, de mais a mais, martyr das suas quimeras.
+Caze-se, minha senhora! caze-se!»</p>
+
+<p>D. Julia galhofava com o capellão, e dizia-lhe:</p>
+
+<p>&mdash;Não se afflija, padre Manoel, que eu hei de casar. Vá pensando no
+noivo, que eu faço o mesmo. Que seja galante, gentil, poeta... ouviu?</p>
+
+<p>&mdash;Poeta!&mdash;resmuneava o clerigo com reprovativo esgar.&mdash;V.
+Ex.ª não sabe o que são poetas em Portugal? Aqui não ha Horacios nem Racines,
+nem Virgilios nem Delillos, honrados pelas musas, e coevos dos grandes reis na
+immortalidade. Cá, os poetas são os ebrios do café das Parras e do Nicola do
+Rocio. É o ex-frade corruptissimo Macedo, era o virulento Bocage, é o
+safadissimo histrião José Daniel, e quem mais? Poetas!... Poeta era o snr.
+desembargador do paço, a quem o meu amigo Francisco Manoel do Nascimento mandou
+lá do desterro odes puro horacianas em resposta d'outras; pois saiba,
+exc.<sup>ma</sup> snr.ª, que seu pae, sendo poeta que não invejava Garção,
+nunca admittiu ás suas salas esses poetastros, que por ahi ornejam a trocar
+sonetos magros pelas sopas gordas d'uns Mecenas dignos d'elles. Olhe-me o
+Tolentino... aquelle pedintão...<span class="pn">{169}</span></p>
+
+<p>&mdash;Está bom, padre Manoel!&mdash;suspendia D. Julia&mdash;não me
+leccione a historia dos poetas que detesta; mas escolha-me um que faça odes
+como Horacio, e Georgicas como o seu Virgilio: ache-m'o que eu prometto
+devorciar-me d'elle se me obrigar a ouvir-lhe os poemas.</p>
+
+<p>O bom do padre, a rir e a tabaquear, citava alguns versos latinos, já quando
+a fidalga ía longe do supplicio de ouvir-lh'os.</p>
+
+<p>Isto veiu ao ponto de se dizer agora que o capellão se alegrou devéras
+quando viu sentados á mesa grande&mdash;que estivera devoluta no lapso de nove
+annos,&mdash;o commendador Vaz, sua filha, o genro, e, sobre todos lhe dava
+prazer infinito, Venceslau Taveira, o moço em quem elle venerava virtudes sem
+alardo e conhecimentos ponderosos da latinidade classica.</p>
+
+<p>Ao primeiro convite seguiram-se outros para banquetes em que reverberavam a
+baixela antiga, os cristaes da Saxonia, as louças indiaticas, a opulencia dos
+Henriques de Miranda, herdadas d'um celebrado avô, ministro e valido, que tão
+funesta e deshonestamente privára com Affonso <small>VI</small>.</p>
+
+<p>Venceslau Taveira, constrangido pela urbanidade, concorria ás festas da
+sumptuosa dama.</p>
+
+<p>Aos jantares lautos seguiram-se os bailes; onde a nobreza ostentava aos
+olhos reflexivos do deputado a incuria desleixada do seu porvir, a serodia
+soberba da stirpe,&mdash;o tronco secular corroido pela ignorancia, com<span
+class="pn">{170}</span> alguma folhagem nas vergonteas ressequidas pelo sol
+ardente dos novos tempos.</p>
+
+<p>Não contribuia Venceslau com a sua parte de contentamento para os prazeres
+da liberal hospedeira. Se ella o buscava entre os que jogavam, dançavam ou
+zumbiam amoriscados á volta das colmeias, não o via. Perguntava a Eduardo se o
+seu amigo lhe teria sido levado de casa pela mãe patria. Ia o marido de D. Anna
+em demanda do philosopho, e encontrava-o na bibliotheca e mais o padre Manoel
+Ferreira folheando um Tibullo de 1465, commentado por Vulpus, ou quejando
+estafermo embalado no berço da arte typographica.</p>
+
+<p>Reconduzido ás salas, Taveira esforçava-se por aquinhoar da alegria
+contagiosa dos outros, e, á força de fingir-se alegre, simulava um provinciano
+emparvecido na contemplação dos collos despeitorados, das espaduas brancas como
+as faces destingidas de rubente pejo, dos minuetes mais ridiculos que lascivos,
+da refinação assucarada dos colloquios, e do ar, nem sempre fragrante de todas
+aquellas vaporações de flores desbotadas e de epidermes escandecidas.</p>
+
+<p>Mas a cortezia era inefficaz a violental-o. Assim que os olhos da fidalga o
+desfitavam, elle ahi ia á sala onde alguns magistrados anciãos satyrisavam os
+máos costumes da geração nova, não levando em conta que a geração arguida era a
+dos seus filhos, educados por elles. Venceslau tractava-os com veneração,
+cedia-lhes a vantagem nos debates politicos, e captivava d'esta arte a estima
+dos mais testudos absolutistas.<span class="pn">{171}</span></p>
+
+<p>Quem o seguia sempre com admiração e amisade era padre Manoel, para quem o
+reboliço dos bailes já seria intoleravel, se Venceslau Taveira, de vontade ou
+sem ella, os não frequentasse. E, ao mesmo tempo que este affecto entranhado
+lhe deliciava as noites mal dormidas, uma paixão inversa o inquietava. O
+capellão aborrecia Eduardo Pimenta, em tanto extremo que o malsinava de
+ignorante, de vaidoso da sua profissão de petimetre, de bonifrate sem proposito
+de marido, olhando para todas as damas com tregeitos e galanices de
+piza-verdes, cacarejando uns dizeres improprios de homem casado, e apenas
+perdoaveis aos que andam de amoríos com quantas levianas fazem barato das suas
+finezas. Esta censura não era elle homem que a calasse comsigo. Sempre que lhe
+cahia a talho, desembuchava as azías do animo nos ouvidos de D. Julia, que
+lh'as ouvia indulgente por saber que o padre derivava sempre a objurgatoria em
+louvor de Venceslau Taveira.</p>
+
+<p>A opinião do clerigo era n'alguns pontos injusta. O genro do commendador, se
+não ia á bibliotheca pasmar-se nas edições quinhentistas, e antes se queria nas
+salas a extasiar-se na nitidez dos typos do seculo <small>XIX</small>&mdash;era
+iniquidade acoimal-o de ignorante. Estylo, fórma, geito dramatico, attitudes ao
+romantico, verbo e nervo como á moderna se diz, isso tinha elle, como raros do
+seu tempo. E a menos valiosa d'estas qualidades bastaria, nas salas, a
+sobrepujal-o ao seu amigo Venceslau, o misantropo, que entre as Thais e as
+Dydimas de Lisboa era importuno decerto com as suas, ainda bem que<span
+class="pn">{172}</span> silenciosas, austeridades de Timão atheniense. Que o
+chefe do commissariado andasse galanteando as damas dos bailes de D. Julia é
+menos verdadeiro. O capellão, a tal respeito, sabia menos que a dona da casa.
+Se alguem podia queixar-se era ella.</p>
+
+<p>Mas não se queixava.</p>
+
+<p>O silencio, nas mulheres dignas, quando a impertinencia da paixão immoral as
+ultraja, é virtude superior. As que medem a grandeza dos dissabores que
+resultam de repudiarem á vista de testemunhas as finezas d'um homem desvairado,
+mantêm-se honradamente affectando que o não percebem em publico, e
+defendendo-se em particular com o desprezo.</p>
+
+<p>Pouco mais ou menos era assim que D. Julia de Miranda procedia com Eduardo
+Pimenta.</p>
+
+<p>Devia de ser, todavia, descommunal o sentimento que esporeára o marido da
+formosa Anna, tres mezes depois de casado, a entremetter nas paginas de um
+livro, que Julia andava lendo, uma carta phraseada a sabor de lagrimas, as mais
+commoventes que podem sahir de peito ferido pelo primeiro amor!</p>
+
+<p>O immediato pensamento que assaltou Julia foi retirar-se a uma das suas
+quintas no Alto Minho; mas semelhante fuga, sem causa justificativa na
+sociedade que a cortejava, pareceu-lhe covardia, ao mesmo tempo que o temerario
+galan teria motivo a lisongear-se do expediente, reputando-o vacillação.</p>
+
+<p>Não fugiu. Fechou a carta, lacrou-a, enviou-a á repartição em que Eduardo
+era certo em determinadas<span class="pn">{173}</span> horas. Elle abriu,
+releu-a de espaço, e quando chegou ao fim, encontrou duas linhas de pulso
+estranho que rezavam assim: <em>Não lerei outra; mas, se ella vier, pedirei á
+minha amiga D. Anna Pimenta que m'a leia</em>.</p>
+
+<p>Ao outro dia a fidalga foi jantar com o commendador: ia alegre,
+contentissima de seu nobre feito. Máo agouro! Mulher que, em lances analogos,
+crê praticar um heroismo, e d'isso se compraz em sua consciencia, ha de
+faltar-lhe o folego para subir muitos degráos na escada da virtude.</p>
+
+<p>Eduardo assistiu melancolico ao jantar, e respondeu friamente ás caricias da
+esposa. O commendador olhava-o de esconso, e fitava olhos piedosos na filha
+assustada. Julia fingia-se despreoccupada; e, a seu pezar, mais que nunca,
+n'aquelle dia, se recolheu n'uma concentração desacostumada.</p>
+
+<p>A noite d'este dia passou vagarosa e triste. Não obstante, as assembleias
+aos domingos continuaram no palacio das Amoreiras.</p>
+
+<p>Eduardo Pimenta, desatinado ou precavido, fez praça de namorado a varias
+senhoras, que lhe não estremaram os galanteios das attenções e obsequiosas
+lisonjas, como era de esperar d'um cavalheiro amestrado na polidez estrangeira.
+Á excepção de uma ou duas, ou talvez tres, menos conscias da cortezia
+parisiense, e portanto portuguezas da lei antiga n'isto de amar quem as amava,
+as restantes senhoras, se deram suspeitas a padre Manoel Ferreira, sahiram
+impollutas. D. Anna, porém, affligia-se secretamente dos modos cortezãos
+do<span class="pn">{174}</span> marido, porque não via tão azougados os moços
+solteiros á volta das mulheres e reparava nos sorrisos que ellas entre si
+trocavam, ao passo que a olhavam de travez lastimando-a ou escarnecendo-a.</p>
+
+<p>Neste desatino do homem preponderava o estulto despique do amor despeitado.
+Beliscar a vaidade de Julia, melindrar-lhe o amor proprio, irrital-a, dar-lhe a
+certeza de que outras mulheres mais viçosas e não menos fidalgas o não
+desdenhavam: tal era a manha trivial do sugeito. Julia, por sua parte,
+dissimulava o azedume que lhe fazia aquelle vil artificio em sua propria casa,
+e dizia muitas vezes á sua consciencia que todo o seu despeito era isso, e de
+modo nenhum o orgulho de ser comparada. Como quer que fosse, e por mais
+protestos que fizesse de si para comsigo, é certo que ella, relampagueando
+olhares severos a uma ou outra condessa, que reclinava a face languida ao
+hombro de Eduardo, segredava á sua amiga a baixa conta em que tinha a
+moralidade das suas parentas. Depois, repêza da inconsiderada confidencia,
+affligia-se, desmentia-se, pedia á esposa de Eduardo que não desse valor aos
+sustos proprios da amisade; e occultasse do marido as suspeitas que lhe ella
+infundia por excesso de zelo, e receio de dissabores domesticos.</p>
+
+<p>Que desconchavadas incongruencias!</p>
+
+<p>Estas torvações de entendimento precedem a cegueira da alma, á semelhança
+d'aquelles pontos escuros que se enredam e prenunciam a cegueira dos olhos. A
+medicina chama a estes prodromos da amorose «moscas»:<span
+class="pn">{175}</span> a linguagem do povo diz que as nevoas da vista da alma,
+em crise de cegar, são «peneiras».</p>
+
+<p>D. Julia de Miranda, um dia, desceu a luz da razão aos arcanos da sua alma.
+Córou de si; retranziu-se de pejo; porque vira passar diante da dignidade
+abatida, a imagem soberba de Eduardo, e não podéra odial-o.</p>
+
+<p>Desde esta hora, a amiga de Anna Vaz meditou na salvação da sua honra já
+denegrida. D'esta vez o alvitre da fuga cedeu o passo a outro mais sereno e
+estavel. Pensou em casar-se, pensou em amar, em transferir o seu coração a
+peito alheio que lh'o defendesse das injurias d'uma paixão ignominiosa.
+Louvavel deliberação!</p>
+
+<p>Padre Manoel Ferreira viu a fidalga melancolicamente reconcentrada, e, com
+instancias repetidas, arrancou-lhe estas palavras que ella exclamava pela
+terceira vez:</p>
+
+<p>&mdash;Se eu podesse amar um homem!<span class="pn">{176}<br>{177}</span></p>
+
+<h1><a name="SECTION000160000000000000000">XV</a></h1>
+
+<blockquote>
+ <p>Flor la vimos primero, hermosa y pura,<br>
+ Luego....</p>
+
+ <p class="obra">F<small>RANCISCO DE </small>R<small>IOJA.</small>&mdash;<em>Epist.
+ moral.</em></p>
+</blockquote>
+
+<p>&mdash;O homem que V. Ex.ª ha de amar&mdash;disse padre Manoel,
+inculcando-se inspirado de cima, e accentuando de pausas solemnes as syllabas
+da prophecia&mdash;o homem que V. Ex.ª ha de amar é o mais digno de ser amado:
+chama-se Venceslau Taveira.</p>
+
+<p>Era a segunda vez que D. Julia ouvira e adivinhára tal presagio; uma, quando
+os labios de Anna se entreabriram ao interno ephta de illuminada; outra, quando
+o padre, carregando os dedos de rapé, e silvando chromaticamente a pitada,
+espiritava no cerebro a previdencia dos matrimonios acertados. E como a fidalga
+o escutasse silenciosa, sem levantar olhos do recosto da cadeira, onde apoiava
+o cotovêllo, o capellão proseguiu:</p>
+
+<p>&mdash;Minha senhora, vou dar-lhe conta da missão de que V. Ex.ª me não
+encarregou...</p>
+
+<p>&mdash;Que missão!?&mdash;perguntou ella, erguendo o rosto.<span
+class="pn">{178}</span></p>
+
+<p>&mdash;Circumvagando eu os olhos por quantos cavalheiros, ha tres mezes,
+frequentam esta casa&mdash;respondeu o padre compassando as vozes&mdash;e,
+procurando, entre tantos, um que merecesse ser o esposo da filha do snr.
+desembargador Paulo Henrique, encontrei-o. E porisso que ás perecedouras
+riquezas da fortuna cega não quiz Deus ajuntar sempre as riquezas immortaes da
+virtude, acontece que o homem mais digno de V. Ex.ª, seja o mais pobre que vem
+a esta casa.</p>
+
+<p>&mdash;Bem...&mdash;atalhou D. Julia&mdash;; mas deixe-me interrompel-o com
+uma observação que devia anteceder o seu cuidado de me procurar marido. O snr.
+padre Manoel não devia escolher entre as pessoas que vem a minha casa; mas sim
+entre as pessoas que me tivessem dado signaes do seu amor. Venceslau Taveira é
+homem de quem nunca ouvi palavra mais affectuosa do que é costume dizer-se ás
+pessoas que se respeitam ou simplesmente se estimam. O snr. padre Manoel sabe
+que elle, n'esta casa, o que mais conhece é a livraria; e em quanto á volta de
+mim ou do meu patrimonio se dispendem as lisonjas, está o sabio a lêr os amores
+dos poetas latinos. Estou convencida ha muito da honradez de Venceslau. Estou
+até em crêr que a sua indifferença não seja orgulho do talento. Convenho na
+distincção que o snr. padre Manoel lhe dá; mas não são essas qualidades as que
+promettem um bom marido. A mulher, que se casa, aprecia a sciencia e a virtude
+do esposo; mas, além de tudo isso, deseja ser amada. Quem lhe disse que
+Venceslau me ama? foi elle?<span class="pn">{179}</span></p>
+
+<p>&mdash;Não, minha senhora.</p>
+
+<p>&mdash;Ora ahi está!... Que quer então, padre Manoel? Que eu vá pedir-lhe o
+obsequio de me conceder o seu amor?</p>
+
+<p>&mdash;Eu ainda não disse a V. Ex.ª a minha missão&mdash;replicou o
+padre.&mdash;Se dá licença...</p>
+
+<p>&mdash;Diga então.</p>
+
+<p>&mdash;Ha muitos dias que eu andava sondando o espirito de Venceslau a
+respeito de V. Ex.ª</p>
+
+<p>&mdash;O espirito ou o coração?</p>
+
+<p>&mdash;Deixemo-nos d'essas distincções romanescas, minha senhora! O coração
+é um orgão do apparelho do sangue. O espirito ou alma é o motor das nossas
+cogitações. Não estou fallando poetica nem rhetoricamente. Se eu quizesse dizer
+que procurava aneurismas ou outras irregularidades de circulação, diria que
+sondei o coração de Venceslau; mas, se o meu intuito era indagar actos
+puramente moraes, digo que lhe sondei o espirito.</p>
+
+<p>&mdash;Está bom: fico sciente. Ora conte lá o que sondou.</p>
+
+<p>&mdash;Sondei que elle sentia por V. Ex.ª profunda estima, e aquelle grande
+respeito que se deve a uma dama bella, nova, rica, e sobre tudo honradora da
+memoria do primeiro e unico homem que amou. Dizendo-lhe eu que não cessava de
+instar com V. Ex.ª para que tomasse estado, advertiu-me elle que seria difficil
+o meu desejo, porque a fidalga não poderia amar alguem, depois de ter amado
+Antonio Vaz, que Deus tem. Tornei eu, redarguindo-lhe que Antonio Vaz, ao sahir
+d'este<span class="pn">{180}</span> mundo, lhe entregára o retrato da sua
+adorada noiva, por ser elle&mdash;o confidente de tantas angustias e
+saudades&mdash;alma digna de receber as lagrimas do amigo que morria, e as de
+V. Ex.ª que o ficava carpindo. Logo, conclui eu, se ha homem digno de ser amado
+pela snr.ª D. Julia, minha senhora, é aquelle que Antonio Vaz julgou digno das
+suas confidencias e da mensagem do moribundo para a sua amada.</p>
+
+<p>&mdash;Que disse elle?...&mdash;interrompeu a curiosa vivacidade da
+senhora.</p>
+
+<p>&mdash;Disse que V. Ex.ª o honrava com a sua amisade, e que este sentimento
+era o maximo galardão que elle devia esperar da fraternal cordialidade com que
+aliviára algumas mágoas de Antonio Vaz.</p>
+
+<p>&mdash;Isso é amor?</p>
+
+<p>&mdash;Queira V. Ex.ª esperar... Passados alguns dias, chamei a pratica ao
+mesmo assumpto; e, quando elle menos esperava, perguntei-lhe
+<em>ex-abrupto</em>: «Se a snr.ª D. Julia escolhesse para esposo o snr.
+Venceslau Taveira?» Elle poz-me os olhos espantados, e tartamudeou esta
+resposta: «O snr. padre Manoel Ferreira tem illusões proprias de quem as não
+gastou em desenganos.»&mdash;Que quer isso dizer?&mdash;voltei eu bastante
+esperançado n'uma resposta que me servisse de itenerario n'esta peregrinação
+até ao arco do altar.&mdash;«Quer dizer (respondeu o modestissimo moço) que a
+snr.ª D. Julia de Miranda tem quinhentos mil cruzados; tem provavelmente
+adoradores que façam consistir toda a sua actividade em adoral-a; tem a alma
+preza á saudade de<span class="pn">{181}</span> outra que alguma vez a visita e
+enlucta em meio das pompas dos seus bailes. Um homem pobre&mdash;continuou
+elle&mdash;circumscripto aos deveres que contrahiu com a patria, sujeito a
+perseguições d'odios politicos, ameaçado com o desterro, e até com a morte no
+campo da batalha ou no patibulo, tal homem seria o involuntario algoz da
+felicidade d'uma senhora que o acceitasse para os gosos da vida intima, cercada
+por tantos perigos.» Dito isto, Venceslau foi procurado por ordem de V. Ex.ª,
+que o mandava chamar á sala, para o apresentar a seu tio o snr. conde de
+Villa-Cova. Eu segui-o, e espionei-lhe os olhos n'aquella noite. E que vi eu
+com interior satisfação, minha senhora? que elle andava por entre os
+reposteiros a contemplar V. Ex.ª, e que, ás vezes, se se affastava para a sala
+dos retratos, era para estar só, mergulhado em funda meditação. Eis-aqui,
+exc.<sup>ma</sup> snr.ª, o que ha passado. Digne-se agora dizer-me se eu tenho
+precisão de lh'o ouvir confessar, para saber que elle a ama?!</p>
+
+<p>&mdash;Precisa&mdash;respondeu ella prompta e serenamente.</p>
+
+<p>&mdash;Preciso? Perguntar-lh'o-hei.</p>
+
+<p>&mdash;Não pergunte. O padre Manoel tracta isto de casamentos pelo systema
+antigo da Biblia. O patriarcha mandava recado á matriarcha; e, quadrando a
+resposta, casavam.</p>
+
+<p>&mdash;O povo de Deus era assim.</p>
+
+<p>&mdash;Concordo; mas a gente, de hoje em dia, não...</p>
+
+<p>&mdash;Não é de Deus?&mdash;atalhou o padre.</p>
+
+<p>&mdash;Estou que é; mas Deus é que não manda o seu<span
+class="pn">{182}</span> divino espirito presidir aos casamentos da freguezia
+dos Martyres ou de Santa Justa.</p>
+
+<p>&mdash;Ah! não se me faça espirito-forte, fidalga!&mdash;exclamou
+sombriamente o padre.&mdash;Aquelles livros de seu pae... aquelles livros de
+Rousseau... a Encyclopedia... <em>etc., etc!</em>... Olhe que Venceslau, posto
+que sapientissimo e sectario da liberdade, e lido em tudo que o seculo
+<small>XVIII</small> escreveu contra Deus, entra nos templos, ajoelha, ora, e
+crê que a alma de sua mãe lhe radía de sua luz celestial nas escuras veredas da
+vida!...</p>
+
+<p>&mdash;E eu então sou atheista? Não creio em Deus, porque entendo que não é
+bonito ir o meu capellão perguntar a um sugeito se elle me ama? Ah padre,
+padre! a sua intelligencia tem ás vezes uns eclipses que nem por isso o tornam
+comparavel ao sol...&mdash;disse ella rindo com o consenso do clerigo que
+tambem escancarou as mandibulas em sincera gargalhada.</p>
+
+<p>E, no tocante a casamento nada mais tractaram, porque D. Anna Pimenta vinha
+desde a sala de espera chamando Julia acceleradamente.</p>
+
+<p>&mdash;Que é, filha!!&mdash;exclamou a amiga, indo recebêl-a nos braços.</p>
+
+<p>&mdash;Manda embora o capellão&mdash;disse-lhe ella ao ouvido.</p>
+
+<p>O padre retirou-se antes de avisado, porque viu grande afflicção no rosto de
+D. Anna.</p>
+
+<p>A esposa de Eduardo, trémula, offegante, e incendida de febril anciedade,
+disse entre soluços:</p>
+
+<p>&mdash;Olha que venho afflictissima... Deixa-me respirar...<span
+class="pn">{183}</span> Depois que Eduardo sahiu, fui á escrivaninha d'elle, e
+achei, pela primeira vez, uma gaveta fechada. Como ando muito suspeitosa de que
+elle corteja a tua prima Nazareth, desconfiei que n'aquella gaveta devia estar
+alguma carta d'ella...</p>
+
+<p>D. Julia empallideceu. Arfava-lhe o coração, com o terror de ter sido
+encontrada a carta que ella devolvera, com duas linhas de sua lettra; e, posto
+que a justificação lhe sahisse facil e digna, a sua posição em tal conflicto
+era má.</p>
+
+<p>D. Anna desattenta ao gesto denunciativo da amiga, proseguiu:</p>
+
+<p>&mdash;Procurei uma chave que servisse, e achei-a. Abri a tremer a gaveta, e
+vi estas tres folhas de papel, dobradas em carta, mas sem sobrescripto. Li-as,
+e fiquei certa de que Eduardo está ardentemente apaixonado por uma mulher quem
+quer que seja... Lê tu, vê se podes adivinhar a quem essa carta é escripta; mas
+lê depressa, que eu quero ir repôl-a na gaveta antes que Eduardo venha da
+repartição.</p>
+
+<p>Julia, com tremente voz, leu a carta. Logo no primeiro periodo se lhe
+acclarou o destino, por estas palavras: <em>Se V. Ex.ª cumprir a ameaça que me
+escreve&mdash;se me denunciar, fará duas victimas. Mata uma innocente, e ordena
+ao criminoso que se suicide: será obedecida.</em></p>
+
+<p>&mdash;Que quererá isso dizer?!&mdash;perguntou Anna.&mdash;Quem será essa
+innocente e esse criminoso?... E que ameaça lhe faria a tal mulher?... Podes
+decifrar isso?</p>
+
+<p>&mdash;Eu não, filha... Que mysterio!...&mdash;balbuciou<span
+class="pn">{184}</span> Julia. E continuou lendo, e relançando a furto os olhos
+em toda a extensão da lauda, buscando perturbada alguma inicial que a
+denunciasse.</p>
+
+<p>O conteudo da longa carta era vago, declamatorio, tiradas funebres de prosa
+campanuda com muito lardo poetico de céos, infernos, furias, anjos precitos,
+archanjos da morte, calices de fel, esponjas de vinagre, golgothas,
+estrangulação de suicida, almas devastadas, arestas d'abysmos, e o mais que
+cabe nas cavernas lôbregas d'um peito romantico, onde uma vez entraram as
+novellas de Anna Radcliffe.</p>
+
+<p>Lida a carta, Julia suspirou desafogadamente o seu sobresalto, e disse
+enternecida:</p>
+
+<p>&mdash;E tu que fazes agora, filha?</p>
+
+<p>&mdash;Que hei de eu fazer?! nada...</p>
+
+<p>&mdash;Então vaes fechar a carta onde a encontraste?</p>
+
+<p>&mdash;Vou...</p>
+
+<p>&mdash;E não dizes nada a teu marido?</p>
+
+<p>&mdash;Acho que não... porque, se lh'o digo, ha desordem grande em casa, e
+meu pobre pae morre de paixão. Tu não vês como elle já está soffrendo só de me
+vêr triste, e de o vêr a elle tão descuidado de nós?...</p>
+
+<p>&mdash;Nem a teu pae dizes nada?...</p>
+
+<p>&mdash;Deus me livre!... Se elle via esta carta, estalava de dôr...</p>
+
+<p>&mdash;Tu és uma sancta!&mdash;exclamou D. Julia, abraçando-a
+arrebatadamente.</p>
+
+<p>&mdash;O que eu sou é uma grande desgraçada!&mdash;emendou Anna.&mdash;Que
+me dizes então, Lulu?<span class="pn">{185}</span></p>
+
+<p>&mdash;Que queres que te diga, se o teu plano está feito? Quem a si mesma se
+aconselha com tanta dignidade, não tem necessidade de conselho.</p>
+
+<p>&mdash;O que eu queria era que tu descobrisses quem é a mulher; e, se ella
+fosse tua relação, a expulsasses d'esta casa, ou me não convidasses a mim...</p>
+
+<p>&mdash;Dizes-me isso tão desabridamente, filha! <em>Não te convidar a
+ti!...</em> </p>
+
+<p>&mdash;Digo-t'o com amargura, mas sem desabrimento, minha amiga. Que gosto
+posso eu ter em vir a uma casa onde sei que ha uma mulher que me
+escarnece...</p>
+
+<p>&mdash;Bem vês, menina, que a mulher a quem esta carta foi escripta não póde
+escarnecer-te... Não vês que ella despreza teu marido!</p>
+
+<p>&mdash;Sim? despreza?</p>
+
+<p>&mdash;Pois que diz essa carta? É um desesperado queixume contra a mulher
+que o repelliu. Tomáras tu, meu amor, que todas assim procedessem, quando elle
+as requestar...</p>
+
+<p>&mdash;Tens razão, Julia! tens razão! Olha que eu nem tive socego de
+espirito para entender a carta... Olha, vou mais contente... Póde ser que elle
+a esqueça... Mas esta carta assim apaixonada, se ella vem a recebel-a, talvez
+que...</p>
+
+<p>&mdash;O ame?</p>
+
+<p>&mdash;Sim...</p>
+
+<p>&mdash;Não, filha, não receies. A mulher de coração ama sem este mixtiforio
+de maravalhas, e a mulher de intelligencia zomba d'estes estrondos de palavras.
+Sabes tu<span class="pn">{186}</span> outra coisa? Teu marido leu maus
+romances, e principia a escrevel-os peores. Deixa-o sangrar a veia do genio que
+não vá morrer apopletico. Não faças caso d'isso... Ai! já me esquecia!... Não
+te vás sem uma novidade...</p>
+
+<p>&mdash;Que é?</p>
+
+<p>&mdash;Vou casar-me.</p>
+
+<p>&mdash;Sim? com...</p>
+
+<p>&mdash;Com o teu vaticinado. Adivinhaste.</p>
+
+<p>&mdash;Venceslau?</p>
+
+<p>&mdash;Sim.</p>
+
+<p>&mdash;Não t'o disse eu?!... Mas ainda hontem estiveste comigo á noite, e
+nada me disseste!</p>
+
+<p>&mdash;Resolução tomada hoje.</p>
+
+<p>&mdash;Veiu cá elle?</p>
+
+<p>&mdash;Não... Eu te contarei tudo... Vae praticar a heroica virtude de
+fechar a carta, que não esteja eu a privar-te da benção de tua santa mãe...
+Adeus, até á noite.<span class="pn">{187}</span></p>
+
+<h1><a name="SECTION000170000000000000000">XVI</a></h1>
+
+<blockquote>
+ <p><em>Melius est pubere, quàm uri.</em><br>
+ Melhor é cazar-se do que queimar-se.</p>
+
+ <p class="obra">S. P<small>AULO.</small></p>
+</blockquote>
+
+<p>Seguidamente procurou D. Julia o capellão no seu escriptorio e disse-lhe:
+</p>
+
+<p>&mdash;Snr. padre Manoel, mande sahir a traquitana, e vá á camara dos
+deputados convidar o snr. Venceslau Taveira a jantar hoje comigo. Peço á sua
+probidade nunca desmentida que lhe não diga a conversação que tivemos.</p>
+
+<p>&mdash;Que tem V. Ex.ª? o seu espirito está desasocegado!&mdash;notou o
+padre com a mágoa do muito que lhe doía vêl-a estranhamente agitada.</p>
+
+<p>&mdash;Vá! não me pergunte nada agora... Eu me confessarei á sua boa alma,
+quando me sentir mais tranquilla.</p>
+
+<p>&mdash;Bem sei...&mdash;murmurou o padre&mdash;bem sei...<span
+class="pn">{188}</span></p>
+
+<p>E ella, fixando-o maviosamente parecia dizer: «se sabe...»</p>
+
+<p>A improvisa deliberação de Julia é lance que nos revela indole generosa, mas
+precipitada; alma capaz de virtudes impetuosas, mas raras vezes encaminhadas á
+direita vereda por onde ellas conduzem á felicidade estavel. Convém saber que
+ha logica de ferro, pauta rigorosa nos actos encadeados da vida estreme de
+romance. As phantasias energicas e destemperadas que partem aquella cadeia,
+conhecem mais tarde que os élos quebrados eram a parte mais solida por onde a
+esperança devia prender-se á realidade.</p>
+
+<p>De prompto occorre á sizuda leitora d'este livro que D. Julia resolveu
+repentinamente casar, quando a sua amiga lhe pedia conselho&mdash;a ella, unica
+pessoa que sabia o segredo da paixão de seu marido. Affastal-o de repellão,
+fulminar-lhe as esperanças, defender-se do ultraje com a respeitabilidade de
+esposa, e esposa de Venceslau Taveira&mdash;o amigo e bemfeitor de
+Eduardo&mdash;este foi o sentimento elevado que a impulsou a decidir do seu
+destino, como se os destinos impendessem d'estas determinações instantaneas.
+Foi um relampago que lhe allumiou o futuro; mas, se o fulgor electrico abrange
+dilatada circumferencia, densa escuridade se tece depois aos que apalpam rochas
+áridas que a luz azulejára como kioskes.</p>
+
+<p>De mais d'isso, o reverso da ideia irreflectida não offerece contraste que a
+desdoira, sendo parte n'ella a vaidade, por não dizer soberba? Dispor de
+antemão da<span class="pn">{189}</span> condescendencia de homem tal como
+Venceslau, era fiar talvez de mais no iman dos seus quinhentos mil cruzados, ou
+illudir-se muito com a já desluzida belleza dos seus vinte e nove annos, ou
+então enlaçar presumpçosamente essas duas prendas ás graças do espirito que, em
+verdade, lhe davam a primazia entre as suas contemporaneas.</p>
+
+<p>Se o padre Manoel, syndico do animo do deputado, se houvesse illudido nas
+suas analyses; se Venceslau nos sahir mais austero philosopho que o divino
+Socrates&mdash;para quem Aspazia e Lais eram espectaculos dignos da admiração
+do universo&mdash;a vaidade de Julia será derrotada irrisoriamente aos olhos de
+Eduardo; e o cahir de tamanha altura, onde ella se fantasiou alçada pela honra,
+dará o estrondo d'um escandalo ridiculo nas salas de Lisboa.</p>
+
+<p>Antes da chegada de Venceslau Taveira já a tortura da incerteza flagelava D.
+Julia de Miranda, a ponto de sentir-se desvigorosa de espiritos para
+honestamente abrir conferencia de tanto melindre.</p>
+
+<p>N'este desanimo dessimulado pela viveza propria do temperamento, a
+encontraram o deputado e o clerigo.</p>
+
+<p>No semblante de Venceslau transparecia tambem a turvação das conjecturas.
+Aquelle convite era o primeiro, particularissimo, e subitamente resolvido. Até
+aqui havia chegado a confidencia do padre, cujo contentamento extraordinario
+devia ter mysteriosa significação nas perplexidades do convidado.<span
+class="pn">{190}</span></p>
+
+<p>Observou o hospede que D. Julia, a só com elle, denotava acanhamento
+desacostumado. A conversação esfriava no trivial. A politica era chamada á
+pratica, por ella mesma que tantas vezes a matraqueára, pedindo ao orador que
+deixasse a noiva em casa a fazer leis, quando lhe désse a honra de a visitar.
+</p>
+
+<p>Quando um criado entrou á sala a saber se a fidalga mandava servir o jantar,
+D. Julia deu o braço a Venceslau Taveira, e foi dizendo:</p>
+
+<p>&mdash;Somos sós, e mais o capellão. Ainda bem que na pessoa de padre Manoel
+Ferreira está symbolisada toda a academia real das sciencias. Eu concedo que
+fallem latim, e convidem para a meza todos os classicos romanos da minha
+livraria. Sinto não ter um triclinio para offerecer a Horacio; mas sentar-se-ha
+no collo do padre. Cicero, se vier; irá para o collo do snr. Taveira.</p>
+
+<p>&mdash;Convidaremos Corinna, para que V. Exc.ª tenha alguem no regaço, disse
+o deputado.</p>
+
+<p>O capellão, que já os estava esperando, ouviu a fineza do politico, e acudiu
+logo:</p>
+
+<p>&mdash;Fallam da infiel amante de Ovidio?</p>
+
+<p>&mdash;Não, senhor&mdash;disse Venceslau&mdash;fallavamos da poetisa
+grega...</p>
+
+<p>&mdash;Rival de Pindaro&mdash;ajuntou o padre&mdash;a qual cinco vezes foi
+premiada nos jogos olympicos...</p>
+
+<p>&mdash;Primeiro discurso academico!&mdash;atalhou D. Julia.&mdash;Não lh'o
+disse eu, snr. Taveira? Padre Manoel, continue, que eu sirvo-o de sôpa, se o
+snr. Venceslau não quizer acceitar o meu logar.<span class="pn">{191}</span></p>
+
+<p>&mdash;Ó minha senhora, apresso-me a receber tamanha honra...&mdash;disse
+Taveira.</p>
+
+<p>&mdash;Gosto de o vêr ahi, snr. futuro secretario de estado...&mdash;disse o
+capellão.&mdash;Está na cadeira do snr. desembargador do paço Paulo Henrique.
+Nove annos esteve empacotada; e, tirante a snr.ª D. Julia, ninguem mais occupou
+essa cadeira. Não ha ainda quarenta e oito horas que eu perguntei a S. Ex.ª:
+«quando verei alli sentado seu marido?»</p>
+
+<p>D. Julia córou, e o deputado tambem; mas padre Manoel, que não córava nos
+banquetes sem poder explicar o pudor com a alcoolisação do seu rico sangue,
+continuou:</p>
+
+<p>&mdash;Voltando a Corinna, se viessem fallando da celebre amada do
+desterrado do Ponto, citar-lhes-hia a canção do banquete em que o poeta lhe
+impropéra a perfidia...</p>
+
+<p>&mdash;Má iguaria nos banqueteava, padre Manoel!&mdash;contraveiu D.
+Julia.&mdash;Antes uma canção de amor fiel, quando a censura do crime não tem
+auditorio a quem possa aproveitar. Eu fico pela lealdade do snr. Venceslau aos
+seus mais caros affectos...</p>
+
+<p>&mdash;E eu serei o fiador de V. Ex.ª&mdash;acudiu o deputado&mdash;mas se
+eu abono a lealdade de quem ama uma saudade, V. Ex.ª fica pelo vago amor de
+quem namora uma esperança. A favor da snr.ª D. Julia está o passado que funda
+em provas incontestaveis; eu, de mim, não posso consentir que V. Ex.ª me abone,
+sendo coisa tão incerta o futuro.<span class="pn">{192}</span></p>
+
+<p>&mdash;Eu referia-me ao seu amor privativo da patria&mdash;explicou a
+dama.</p>
+
+<p>&mdash;A patria é como aquelle pão de que o homem não póde unicamente
+alimentar-se, na phrase do Evangelho&mdash;retorquiu Venceslau.&mdash;Varias
+vezes V. Ex.ª e a snr.ª D. Anna Vaz, motejando com bondosa graça a diligente
+assiduidade com que tento cumprir meus deveres, me tem dado fóros de selvagem
+desconversavel e alheio da lei commum do amor, que tanto influe no sybarita
+como no estoico. O gracejo era uma lisonja, visto que eu merecia as amaveis
+censuras de SS. Ex.<sup>as</sup>, mas, em verdade, minha senhora, se eu me
+vangloriasse de ser o que as minhas amigas imaginam, tarde ou cedo as faria rir
+da minha enfatuada insensibilidade.</p>
+
+<p>&mdash;Pois quê?!&mdash;exclamou o padre&mdash;snr. Taveira, bebo á sua
+saude. <em>Nunc est bibendum.</em> Gósto d'essa franqueza! <em>Homo sum et
+nihil a me alienum</em>, etc.</p>
+
+<p>&mdash;Estamos em casa de Mecenas&mdash;disse, sorrindo, D.
+Julia.&mdash;Entrou Horacio, e lá está a discretear com o padre.</p>
+
+<p>&mdash;O latim é de Terencio&mdash;illucidou o erudito&mdash;e quer dizer
+que o snr. Venceslau Taveira é homem como os outros... Como os outros, quero
+dizer, os raros que se lhe assemelham na virtude e na sabedoria, na modestia e
+na moral, na vida illibada e...</p>
+
+<p>&mdash;Pelo amor de Deus&mdash;interrompeu o deputado.&mdash;Parece que me
+está dictando a necrología, snr. padre Ferreira! Não usurpe aos mortos essas
+hyperboles... Veja os meus defeitos para que eu me considere tambem<span
+class="pn">{193}</span> examinado nas imperfeições menores. Já não é pequeno
+aleijão moral o defeito de coração que me censuram...</p>
+
+<p>&mdash;Pois que quer?&mdash;volveu D. Julia&mdash;como hei-de eu julgar a
+sua indifferença em meio de tantas damas formosas e espirituosas que frequentam
+esta casa? Nenhuma o impressionou?</p>
+
+<p>&mdash;Admirei-as... e passei, sem que ellas me vissem.</p>
+
+<p>&mdash;Mas admirar...</p>
+
+<p>&mdash;Admirar não é amar. As estatuas do Louvre admiram-se, e não se amam.
+A mãe que nos affaga, ama-se e não se admira. O amor brota da alma. A admiração
+forma-se no entendimento. Uma coisa tem muito d'arte; a outra deve ser
+espontaneamente natural.</p>
+
+<p>&mdash;Materia estranha é essa em que não tenho voto&mdash;disse padre
+Manoel, engatilhando a pitada ao nariz.</p>
+
+<p>&mdash;O homem do Evangelho não é o de Terencio&mdash;assentiu Venceslau.</p>
+
+<p>&mdash;Mas&mdash;voltou o clerigo&mdash;posto que o Evangelho me não ensine
+nem consinta que eu aprenda experimentalmente o processo do amor, sei que Jesus
+Christo, instituindo o Sacramento que cinge com indissoluvel nó duas almas,
+santificou o amor que as identifica. D'este sacratissimo amor percebo eu; não
+se me importa saber se vem antes ou se vem depois da admiração; se é espontaneo
+da alma, se a alma é estimulada por affectos de natureza menos psycologica. Ha
+opiniões. <em>Grammatici certant.</em><span class="pn">{194}</span></p>
+
+<p>Venceslau sorriu, sem encarar em D. Julia, que provavelmente não entendeu a
+phrase nem o sorriso.</p>
+
+<p>E o padre seguiu n'este dizer mesurado e solemne:</p>
+
+<p>&mdash;Ha de haver trinta e seis annos que o snr. doutor Paulo Henrique era
+solteiro e eu estudante <em>in minoribus</em>, já então familiar d'esta
+hospedeira casa, onde me fiz gente. Bem que eu fosse filho do mordomo do
+fidalgo, a honra de me sentar a esta mesa já vem d'esse tempo. O joven doutor
+folgava de me ouvir recitar versos dos poetas cezarios, e dava-me a honra de
+lhe ouvir os seus magnificos hexametros. Fallavamos um dia de outros assumptos
+menos litterarios, mas não menos poeticos. Conversavamos de amores, mas amores
+honestos como a mocidade de então os tratava theorica e praticamente, eis que o
+snr. doutor me disse, respeito a casamento: «Olha, Ferreira, eu não ando por
+salas em damarias de peralvilho; abomino os insulsos requebros com que os
+namorados parecem noviciar antes de professarem votos tantas vezes
+quebrantados. Se eu encontrar mulher que me deixe viva saudade, e desejo de
+tornar a vêl-a, indago-lhe da vida; e se as informações m'a derem ao sabor da
+ideia que fórmo da esposa excellente, pergunto-lhe se me quer para marido. Se
+me responder que sim, a minha mulher ha de ser essa.» Pouco tempo depois, na
+cadeira em que está sentada a snr.ª D. Julia, estava a snr.ª D. Maria das Dores
+Mascarenhas, mãe de V. Ex.ª, exemplar de todas as virtudes conjugaes, tão amada
+na vida, quanto chorada na morte.<span class="pn">{195}</span> Sendo já
+fallecida sua Ex.<sup>ma</sup> mãe, estava V. Ex.ª, menina de nove annos, no
+logar onde a vejo, eu estava onde estou, e o snr. desembargador alli.
+Recordamos então com lagrimas a nossa pratica passada nove annos antes; e seu
+pae, correndo-lhe a mão pelas faces, disse: «permitta o céo que esta creança
+seja amada como foi sua mãe; e que as galanterias das salas e os fumos da
+lisonja lhe não offusquem o entendimento na escolha de marido.» Contava quinze
+annos esta senhora, quando Antonio Vaz, cadete de cavallaria, a cortejou. O
+snr. desembargador foi avisado. Soube cujo filho era o moço. Não lhe desfez na
+geração honrada e antiga; mas, averiguando qualidades proprias&mdash;que eram o
+essencial para o snr. desembargador&mdash;descobriu que Antonio Vaz, tendo
+amado uma filha segunda, formosa e todavia pobre, se esquivára de compromissos
+havidos com ella para requestar a rica herdeira, a snr.ª D. Julia. Tal foi a
+origem dos dissabores que lhe amarguraram os derradeiros annos, e vestiram de
+pesado lucto a mocidade da constante senhora, sacrificada não ao capricho, mas
+á moral sublime de seu pae. Prézo-me de fazer justiça á memoria do meu
+bemfeitor, sem apoucar nos merecimentos de Antonio Vaz. Elle era digno de tal
+esposa, desde o momento que ella o considerou digno de si...</p>
+
+<p>&mdash;Mal cabidas reminiscencias...&mdash;murmurou D. Julia magoada.</p>
+
+<p>&mdash;Tristes...&mdash;observou Venceslau&mdash;mas sempre bemquistas da
+alma que não as quer nem póde esquecer. Entretanto, sendo ambas as memorias
+veneraveis,<span class="pn">{196}</span> uma do pae que foi illudido, outra, a
+do primoroso moço que não podia mentir-me, peço á snr.ª D. Julia que respeite
+por egual a memoria do seu pae, que viu a infelicidade atravez das nevoas do
+seu affecto paternal, e a memoria do coração que se deliu nas lagrimas do
+primeiro amor, flagellado por quantos supplicios podia consagrar uma
+sepultura.</p>
+
+<p>Susteve-se, compenetrado da impertinencia do logar com a funeral memoria, e
+disse commovido:</p>
+
+<p>&mdash;Absolva-me V. Ex.ª d'esta indiscrição... Eu hei de ser sempre o homem
+inculto, que se deixa levar para onde a alma o leva, sem vêr quando a tristeza
+ou a alegria competem ás occasiões.</p>
+
+<p>&mdash;A culpa não é sua&mdash;desculpou D. Julia&mdash;quem nos deu este
+quarto de hora escuro, foi o snr. padre Manoel Ferreira... nem eu sei para
+quê...</p>
+
+<p>&mdash;Primeiro para commemorar&mdash;respondeu o imperturbavel
+capellão&mdash;o profundo juizo do pae de V. Ex.ª respectivamente a casamentos;
+segundo para lhe defender a memoria, em presença de sua filha, da arguição
+iniqua, mas involuntaria, que lhe fez o snr. Venceslau Taveira, quando ha dias
+me disse que o snr. desembargador tolhera a felicidade da snr.ª D. Julia.
+Enganaram-no, meu honrado amigo. O snr. desembargador, amando extremadamente
+sua filha, teve da bondade divina o dom da previsão, e anteviu que, depois de
+sua morte, viria guiado pela Providencia a esta casa o homem predestinado a ser
+esposo e pae de sua filha, esposo pelo amor e pae pela seriedade do seu porte e
+madureza<span class="pn">{197}</span> de juizo. Ora, o homem previsto e
+vaticinado pelo pae d'esta senhora... era Venceslau Taveira.</p>
+
+<p>Não espere o leitor que se lhe dê o esboço de grandes assombros e
+perturbações. Se elles não se espantaram do remate do discurso, é justo que eu
+me contenha nos limites do mais moderado espanto. D. Julia rozou-se, abriu um
+sorriso pudibundo, que lhe agraciou angelicalmente os labios silenciosos; mas
+fitou os olhos no prato, onde depozera o talher, e só os levantou, quando
+Venceslau Taveira principiou fallando.</p>
+
+<p>Vão vêr que nas palavras d'elle transluz amor; mas amor sem o enthusiasmo
+pautado e obrigado em casos d'esta natureza. É alma sincera e rija, que opéra
+sem o complicado apparelho nervoso com que se fabricam os extasis e os spasmos
+que a natureza copía dos palcos. Tem o coração subordinado ao raciocinio.
+Faltam-lhe ahi as fragrancias e as musicas que perfumam a palavra e lhe dão o
+rythmo apaixonado. Mas não é isso a esterilidade, o desapego, a aridez que
+imbebe as lagrimas improductivas como areal onde os orvalhos não verdejam uma
+hervinha. É indole corrigida pela severidade dos costumes, prevalecimento da
+razão sobre os sentimentos que a fantasia não desabotoou na razão propria.
+Venceslau orçava pelos trinta annos. N'esta edade, o amor, pela primeira vez
+experimentado, não abrolha em luxuosas florescencias. O arrebol do coração
+encontra já o meio-dia do espirito. Quasi que uma luz serena e egual neutralisa
+os incertos esplendores da outra. E, se ha escuridade no intimo sentir d'essa
+edade, a luz<span class="pn">{198}</span> ideal resvala pelo seio frio do gear
+da desgraça, e não o aquece. A condição do deputado não era bem esta; mas
+tambem não era optima para exuberar delicias no coração de mulher que o amasse
+ambiciosa das idolatrias do amor virginal. Talvez coubesse aqui averiguarmos se
+Julia o amava; protrahiremos a penosissima resposta: ella que responda
+opportunamente. Pelo emtanto, vejamos que sahida elle deu áquelle passo
+angustioso, de que o leitor e eu nos tirariamos tartamudeando lyrismos dignos
+de mais levantada historia.</p>
+
+<p>&mdash;O silencio da snr.ª D. Julia convence-me de que o snr. padre Manoel
+Ferreira deu ás suas palavras o espirito de respeito que se deve a V. Ex.ª, e o
+de sinceridade que ouso pedir para mim. O que vou dizer, minha senhora, será
+dito sem commoção. A felicidade alvoreceu na minha vida pela primeira vez; mas,
+não tendo eu visto senão homens desgraçados pelo amor, a experiencia das dôres
+alheias faz que o raio da luz nova toque já menos ardente na minha alma, tendo
+de atravesar a frialdade da razão. Ouça-me V. Ex.ª: eu vi-a no exilio espelhada
+nas lagrimas de Antonio Vaz; vi-a ajoelhada ao pé da vala onde eu ajudei a
+descer o caixão; vi-a nos dias eternos de oito annos de proscripto, e procurava
+nos olhos do seu retrato a scintillação do pranto. Ha muito tempo, pois, que V.
+Ex.ª vive nas minhas meditações, na minha poesia triste;&mdash;porque tambem eu
+fui poeta, não para cantar amores ou saudades e ainda menos esperanças, mas
+para me enlevar nos espectaculos do soffrimento a que assisti. O poeta
+adopta<span class="pn">{199}</span> as imagens da sua fantazia e com ellas
+fórma a ideal convivencia em regiões de luz ou de trevas; eu tambem vesti de
+crepe uma suave e pallida imagem de mulher, unica em minhas contemplações: era
+V. Ex.ª Interrogando o meu coração, impunha-lhe violentamente o preceito de me
+enganar; amordaçava-o para que me elle não dissesse que eu poderia apagar a
+saudade de Antonio Vaz, e renovar no seio puro d'outro affecto um segundo amor.
+Além d'isto, retrahia-me o escrupulo da deslealdade ás cinzas do meu amigo:
+parecia-me que era ultrajar-lh'as afoitar-me a pedir para mim a felicidade que
+elle anhelou, e mais acerba lhe fez a desesperação que aos olhos embaciados
+pela morte se mostra ainda a negrejar e a sumir-se no abysmo do passado.
+Descendo do alto ponto d'estas considerações ao vulgar e mais positivo do juizo
+social, vi que muitos homens abastados, e ao mesmo tempo prendados de amaveis
+dons, rendiam a V. Ex.ª o preito de seus affectos, sem todavia lhe perturbarem
+a serenidade da sua heroica renunciação. Ao mesmo tempo, olhando em mim, com a
+reflexão que me esclarece os meritos alheios, via-me pobre, desvalido das
+qualidades que dispensam a riqueza, incapaz de pedir ao artificio os donaires e
+geitos que modificam a rudeza natural, peorada pela soledade do gabinete e
+preoccupação de estudos incompativeis com as finas graças da cortezia. Se
+algumas vezes, um intimo alvoroço me dizia que V. Ex.ª me honrava com estranhas
+distincções, eu mandava immudecer o amor proprio, e explicava a mim mesmo
+a<span class="pn">{200}</span> estima de V. Ex.ª pelo sentimento de gratidão ao
+confidente de Antonio Vaz&mdash;ao homem que lhe trouxera no retrato d'elle o
+ultimo lampejo dos olhos que a tinham contemplado. Iria mal a meu caracter
+franco fingir-me surprezo por este imprevisto abalo. Hoje, quando o snr. padre
+Manoel Ferreira me convidou a jantar com a snr.ª D. Julia, experimentei a nunca
+sentida impressão que produz os ineffaveis estremecimentos do susto, da
+vaidade, do orgulho, do jubilo das creanças&mdash;felicidade febril que eu
+sentia nas palpitações do coração. O amor que a tantos homens se manifesta em
+commoções, que augmentam de intensidade, com intercadencias de despeitos, com
+irritações de ciumes, com o remorso até das injustiças que se commettem&mdash;o
+amor, que nasce já santificado pela pureza do seu destino, esse, minha senhora,
+o deposíto aos pés de V. Ex.ª</p>
+
+<p>D. Julia offereceu-lhe a mão tremula de poetico enthusiasmo. E d'amor? Ai!
+eu não sei. Venceslau ergueu-se, aproximou-a dos labios. Padre Manoel Ferreira
+apertou nas suas as mãos dos noivos, e disse a D. Julia:</p>
+
+<p>&mdash;Eu sonhava esta felicidade desde que o pae de V. Ex.ª, na sua hora
+final, me balbuciou estas palavras: «Abençôe minha filha em meu nome, se ella
+não deshonrar a memoria de sua mãe.» Eu não ouso abençoal-a; mas curvo o joelho
+para lhe agradecer em nome das duas almas que a inspiraram. Snr. Venceslau,
+aqui tem o anjo que Deus envia aos virtuosos.<span class="pn">{201}</span></p>
+
+<h1><a name="SECTION000180000000000000000">XVII</a></h1>
+
+<blockquote>
+ <p>Oh desenho temerario<br>
+ Que tal perigo intentava!...</p>
+
+ <p class="obra">J<small>ORGE</small> F. <small>DE</small>
+ V<small>ASCONCELLOS</small>&mdash;<em>Memorial.</em></p>
+</blockquote>
+
+<p>Quando, na noite d'aquelle dia, D. Julia entrou em casa do commendador, a
+esposa de Eduardo estava no seu quarto; e o pae, curvado sobre a jardineira,
+com a face entre as mãos, meditava abstrahido. Espertado pelo fremito de sedas
+e rangir de passos na sala proxima, ergueu-se rapido e foi ao encontro de
+Julia.</p>
+
+<p>&mdash;Esperava-a anciosamente para lhe dar os parabens&mdash;disse
+elle.&mdash;Eu quiz ir de tarde procural-a; mas minha filha asseverou-me que V.
+Ex.ª vinha aqui. Vai ser feliz, D. Julia; se eu me engano, são falsos todos os
+prognosticos que podemos tirar em materia de casamento. Eu não devia hoje
+fallar-lhe d'outro assumpto; mas...<span class="pn">{202}</span></p>
+
+<p>&mdash;Onde está a Annica?&mdash;interrompeu Julia.</p>
+
+<p>&mdash;Na cama.</p>
+
+<p>&mdash;Doente?</p>
+
+<p>&mdash;Febril. Chorou muito...</p>
+
+<p>&mdash;Porquê?</p>
+
+<p>&mdash;Não sei, não m'o diz; o marido sahiu antes de jantar, e não voltou.
+Vá lá, vá a minha querida Julia consolar essa nova dôr que eu ignoro... Olhe
+que infortunio este! casados ha cinco mezes! Onde irá isto findar com taes
+começos!... Metti em casa o verdugo de minha filha... V. Exc.ª verá que a
+pobresinha vai muito cedo unir-se á mãe, que a está chamando para si...</p>
+
+<p>&mdash;Que imaginação a sua, snr. commendador!... Deixe-me lá ir, que estou
+inquieta... mas espero que isto não passe de alguma passageira tempestade de
+ciumes...</p>
+
+<p>&mdash;Pois sim, será; mas n'essas tempestades é que naufragam as mulheres
+do coração... as desgraçadas que amam, e preferem morrer martyres a viver
+vingadas... Vá, vá, seja o anjo amparador d'essa creança... que ninguem quiz
+salvar... ninguem... Eu só... eu só previ este desastre; mas succumbi ao receio
+de a perder...</p>
+
+<p>D. Julia foi recebida sem a costumada expansão. Anna Vaz estava recostada ao
+espaldar do leito; e ao lado da cama a sua creada de quarto enchugava as
+lagrimas.</p>
+
+<p>&mdash;Que tens, filha?&mdash;perguntou Julia.<span
+class="pn">{203}</span></p>
+
+<p>&mdash;Que hei de ter?... a minha sorte a cumprir...</p>
+
+<p>A creada sahiu.</p>
+
+<p>Anna pediu á sua amiga que fechasse a porta á chave, pegou-lhe das mãos com
+vibração nervosa, e disse-lhe:</p>
+
+<p>&mdash;Vou contar-te tudo... has-de ouvir-me tudo sem te magoares, sim?</p>
+
+<p>&mdash;Tudo, filha...&mdash;balbuciou D. Julia traspassada por dolorosa
+suspeita.</p>
+
+<p>&mdash;Olha que meu marido... ama-te.</p>
+
+<p>&mdash;Jesus!&mdash;exclamou a noiva de Venceslau affectando naturalissimo
+pavor.&mdash;Tu deliras, Anna!</p>
+
+<p>&mdash;Não deliro, infelizmente não deliro... Eduardo ama-te... Queres saber
+como eu descobri esta desgraça que nunca me resvalou pelo espirito, apesar das
+palavras que me elle dizia de ti, e todas agora me lembram para me
+atormentarem?... Olha... quando elle hoje ás quatro horas chegou da repartição,
+perguntou-me se eu tinha sahido, porque me viu vestida como fui a tua casa.
+Respondi-lhe que estivera comtigo e recebera a inesperada nova do teu casamento
+com Venceslau. Não te posso pintar o transtorno das suas feições! Fitou-me com
+os olhos espavoridos, e perguntou-me em tom desabrido: «Que historia
+extravagante é essa?»&mdash;Isto não é historia&mdash;disse-lhe eu&mdash;é a
+noticia que me deu Julia. Mas ficaste assombrado! Estás pallido! Que tens? que
+te importa que Julia case ou que não case?&mdash;«Não me importa
+nada...&mdash;respondeu elle, disfarçando miseravelmente a agitação&mdash;não
+me importa... mas o espanto<span class="pn">{204}</span> é, n'este caso, bem
+natural!... Pois hontem ainda estive com o Taveira, e com ella... e nada me
+disseram...» Continuamos a conversar sobre o assumpto, sem elle poder dominar a
+ancia em que estava de se esconder aos meus olhos... Chamaram para a meza...; e
+Eduardo n'esta occasião, muito perturbado, tira o relogio, vê as horas, e diz:
+«não janto cá hoje... Hei de estar infallivelmente ás quatro horas em casa do
+Sepulveda... Desculpa-me... que não posso faltar.» E, quasi sem esperar que eu
+o contrariasse, sahiu com os olhos desvairados como um ebrio... e não voltou
+ainda. Aqui tens a minha enorme desventura... aqui me tens na angustia que nunca
+podia prever a minha alma preparada para as maiores provações... Até hoje, eras
+tu a minha consoladora... Que has de ser tu para mim de hoje em diante?</p>
+
+<p>&mdash;O que fui sempre...&mdash;disse Julia com firmeza. Se as tuas
+suspeitas são verdadeiras, o desatino de teu marido ha de ser curado com a
+vergonha de me ter querido vêr na plana d'algumas infames que elle terá
+conhecido.</p>
+
+<p>&mdash;Pois sim; mas não serei eu a victima?</p>
+
+<p>&mdash;Não, minha filha; se houver alguma victima, não o serás tu...</p>
+
+<p>&mdash;Então quem?</p>
+
+<p>&mdash;Elle...</p>
+
+<p>&mdash;Como?... Não te comprehendo...</p>
+
+<p>&mdash;Será a victima do seu opprobrio... Perderá a estima de todas as
+pessoas de bem, e a tua...<span class="pn">{205}</span></p>
+
+<p>&mdash;A minha? não! não que o amo...</p>
+
+<p>&mdash;Has de odial-o, quando a sociedade o abominar... Mas não antecipemos
+as consequencias d'essa loucura... Se ella é verdadeira, lembra-te que vou
+casar com o homem que teu marido mais respeita. Eduardo, se ousar erguer os
+olhos para mim, ha de baixal-os envergonhados. Se é uma paixão...
+Paixão!&mdash;repetiu ella falseando n'um sorriso a dissimulada
+duvida.&mdash;Paixão!... não creias que tal sentimento possa nascer n'um homem
+que me respeita e deve conhecer que o desprezarei... se se atrever a
+manifestal-o...</p>
+
+<p>&mdash;E nunca t'o manifestou?...</p>
+
+<p>&mdash;Porque me fazes tal pergunta?</p>
+
+<p>&mdash;Mas dize, Julia, nunca t'o manifestou?</p>
+
+<p>&mdash;Não...&mdash;respondeu sem turvação a interrogada, rosto a
+rosto.&mdash;Que lembrança a tua!</p>
+
+<p>&mdash;É verdade... Lembrou-me se seria para ti a carta que eu hoje te
+mostrei... </p>
+
+<p>&mdash;A carta?!</p>
+
+<p>&mdash;Sim, Julia; e, quando fosse, o teu nobre procedimento está bem
+justificado n'aquella carta. Eduardo queixa-se de ter sido repellido... Que
+outra coisa podia esperar eu de ti? Queixar-me porque m'o não disseste, seria
+fazer injustiça á tua prudencia... Todo o teu empenho de boa amiga devia ser
+que eu ignorasse a indigna tentativa de Eduardo... Permittisse Deus que elle me
+não désse rivaes com menos virtude...</p>
+
+<p>&mdash;Rivaes!&mdash;contradisse Julia irritadamente.&mdash;Rivaes são as
+que acceitam a competencia... É preciso<span class="pn">{206}</span> que duas
+mulheres amem o mesmo homem para que se chamem rivaes. Em quanto eu desprezasse
+as declarações de teu marido, não devias dar-me nome tão injurioso...</p>
+
+<p>&mdash;Então confessas que era para ti a carta?</p>
+
+<p>&mdash;Se confesso!...&mdash;tartamudeou Julia.</p>
+
+<p>&mdash;Sim... tu não pódes enganar-me... Vejo-te a alma nos olhos, e a
+perturbação nas palavras... Tens piedade de mim, não tens? Então dize-me que
+meu marido te escreveu... que tu lhe respondeste como devias... e que elle te
+mandava depois aquella carta...</p>
+
+<p>D. Julia apertou ao seio a face lagrimosa de D. Anna, balbuciando:</p>
+
+<p>&mdash;É verdade... é atrozmente verdade que teu marido me escreveu... Não te
+peço perdão, porque não tenho de quê. Na resposta, que lhe dei em duas linhas
+escriptas na sua mesma carta, ameacei-o de te mostrar a segunda, se m'a elle
+enviasse... Lembra-te das palavras.</p>
+
+<p>&mdash;Que eu não pude entender... bem me recordo... <em>Se V. Ex.ª cumprir
+a ameaça que me escreve, se me denunciar, fará duas victimas. Mata uma
+innocente, e ordena ao criminoso que se suicide...</em> Era isto;
+mas&mdash;proseguiu Anna em pranto desfeito&mdash;o meu infortunio ainda assim
+fica sendo enorme... Se te elle ama com tamanha paixão, e te vê casada, e
+perdida para sempre, onde o levará o desespêro...</p>
+
+<p>&mdash;Paixão!...&mdash;repetiu Julia motejando a palavra.</p>
+
+<p>&mdash;Paixão, sim... pois, se o não fosse, Eduardo teria a fraqueza de
+alterar-se a tal ponto? Sahiria de casa<span class="pn">{207}</span> como
+louco? Teria escripto uma carta em que tantas vezes falla no suicidio?...</p>
+
+<p>&mdash;Ó filha, essa palavra em cartas de namoro não tem significação
+assustadora...&mdash;replicou Julia jovialmente.&mdash;Creio que não recebi uma
+só carta das muitas que devolvi, em que essa funebre responsabilidade me não
+fosse imputada; e nenhum dos muitos que me escreveram se matou...</p>
+
+<p>&mdash;E como tu pódes rir, sendo tamanha a minha infelicidade, ó
+Julia!...</p>
+
+<p>&mdash;Não exageres, creança!&mdash;animou a noiva de Venceslau Taveira com
+incrivel frieza de animo.&mdash;Teu marido ha de voltar para ti curado pela
+reflexão e melhorado pelo remorso de te haver sacrificado á mais estupida
+vaidade que podia desnortear o tino d'um homem intelligente.</p>
+
+<p>&mdash;Mas não te magôa vêr que é necessario acabarem as nossas relações?</p>
+
+<p>&mdash;Como? acabarem...&mdash;acudiu D. Julia espantada.</p>
+
+<p>&mdash;Sim... acabarem... Com que alma hei de eu estar na tua presença e na
+de meu marido?!</p>
+
+<p>&mdash;Então queres dar ao caso as proporções do escandalo?&mdash;replicou
+Julia altivamente.&mdash;Dirás a teu pae que Eduardo me fez a côrte?
+Obrigar-me-has a dizer a Venceslau que as nossas relações se romperam, porque
+teu marido me namorava? Permittes que a nossa sociedade me considere a infame
+que te amou o marido,<span class="pn">{208}</span> e a ti a honesta dama que me
+expulsou de sua casa, e não quiz manchar-se no descredito da minha?</p>
+
+<p>&mdash;Jesus! onde tu vaes!&mdash;exclamou D. Anna&mdash;pois, se eu deixar
+de ir a tua casa, é forçoso que se publiquem estes desgostos que ninguem
+sabe?</p>
+
+<p>&mdash;É: ha de sabêl-o teu pae, ha de sabêl-o o homem que não será meu
+marido... nem eu o quero... com tal condição. E, depois, tu tens força para a
+lucta horrivel que vaes travar com teu marido, se publicares a sua deploravel
+fraqueza? E não temes que teu pae, já tão quebrado de forças, morra de pena de
+ti, odiando o homem, que eu, tão enganada pelos teus olhos, affirmei havia de
+ser um excellente esposo?</p>
+
+<p>&mdash;Que hei de eu então fazer, Julia? Aconselha-me...</p>
+
+<p>&mdash;Fazes o que eu te pedir?</p>
+
+<p>&mdash;Se podér...</p>
+
+<p>&mdash;Pódes... ha de custar-te, mas pódes... Todas as victorias são
+difficeis, filha; mas as da paciencia, nas tuas circumstancias, são sempre
+seguras... Finge que tudo ignoras. Não profiras o meu nome com azedume, não dês
+côr suspeitosa ao que de mim disseres. Recebe-me com o mesmo amor, que cada vez
+t'o mereço mais extremoso. Vae a minha casa; e, na presença de teu marido,
+falla-me sem a minima reserva, e não procures surprehender nos olhos d'elle a
+intenção com que me olha. Se fizeres isto, restituo-te Eduardo com o juizo
+restaurado. </p>
+
+<p>&mdash;Mas, se não poderes...<span class="pn">{209}</span></p>
+
+<p>&mdash;Se não podér, vou viajar, ou sósinha ou casada, e só voltarei a
+Portugal, quando me tu disseres que teu marido recuperou a honra perdida.</p>
+
+<p>Anna Vaz beijou ardentemente a face da sua amiga, e exclamou:</p>
+
+<p>&mdash;Espera... deixa-me levantar que eu vou comtigo para a sala... Quero
+que o meu pobre pae me veja sorrir... Vae dizer-lhe que me estou erguendo, e
+que estou boa... Inventa qualquer coisa...</p>
+
+<p>Já estava na sala Venceslau Taveira recebendo os emboras do commendador, e
+explicando os pormenores da sua imprevista alliança. Ao tempo que D. Julia
+entrava, acabava de dizer o commendador ao noivo:</p>
+
+<p>&mdash;Mas que é isso?! Acho-o extraordinariamente triste!... Narrou-me em
+termos tão gélidos uma historia para tantas alegrias!... Que não vá o meu
+querido amigo enganar-se com o seu coração ferido de sobresalto... Agouro não
+sei quê... Eu queria-o vêr mais contente... mais rapaz... mais noivo!... Os
+homens da sua têmpera parece-me que têm uma só familia&mdash;a patria, e uma só
+paixão&mdash;a das conquistas da felicidade para o genero humano...</p>
+
+<p>Venceslau escutava ainda o écco das palavras do velho que se lhe repetiam na
+alma, quando Julia entrou, incendida no rosto da violenta crise em que as
+interrogações de Anna Vaz a mortificaram.</p>
+
+<p>&mdash;Está febril minha filha, não está?&mdash;perguntou o
+commendador.<span class="pn">{210}</span></p>
+
+<p>&mdash;Está levantando-se... Não tem febre, e vem ahi já.</p>
+
+<p>&mdash;Mas que era?...&mdash;volveu Francisco Vaz.</p>
+
+<p>&mdash;O que eu lhe disse...</p>
+
+<p>&mdash;Ciumes?...</p>
+
+<p>&mdash;Sem fundamento... Apprehensões de quem muito ama...</p>
+
+<p>&mdash;Torturas...&mdash;emendou o velho; e voltando-se para Taveira,
+continuou:&mdash;O tedio, o enôjo em esposos de cinco mezes, o que será aos
+cinco annos, snr. Taveira?</p>
+
+<p>&mdash;Póde ser que seja a felicidade de ambos, a reciproca e serena
+confiança, quando os zêlos fundam em leviandades passageiras.</p>
+
+<p>&mdash;Conhece muito as sciencias que o espirito humano creou; mas sabe
+pouco do coração do homem, snr. Taveira&mdash;contrariou o commendador.&mdash;A
+mulher que, ao quinto mez de casada, nova e bella, apaixonada e incapaz de
+comprehender a perfidia, se vê trahida, perdôa, se é honesta; mas o homem,
+capaz de arrependimento, e de ajoelhar aos pés da esposa generosa, se algum
+existe, não é Eduardo. Na vida d'este mal-fadado ha condão funesto...</p>
+
+<p>&mdash;Ha apenas, e quando muito, uma preoccupação...&mdash;disse o
+deputado.&mdash;Esteve hontem comigo, e causou-me estranheza. Fallou-me em
+sahir de Lisboa com licença de seis mezes para uma quinta. Suspeito que a
+frequencia dos bailes lhe haja colorido falsamente os quadros que elle não
+examinou quando era moço... Espero<span class="pn">{211}</span> que o mentiroso
+prisma se lhe quebre, logo que a mão da lealdade contricta lhe desperte a
+consciencia...</p>
+
+<p>Chegou D. Anna.</p>
+
+<p>A palestra d'aquella noite foi mais trivial que nunca. Venceslau Taveira
+conversou nos assumptos habituaes&mdash;politica, e congresso dos reis em
+Verona, o juramento da constituição e a suspeita de que a rainha D. Carlota
+recusaria jural-a, etc.&mdash;materia duvidosamente lyrica para noivo.</p>
+
+<p>Á hora do costume, o deputado sahiu, bem que o commendador Vaz lhe désse a
+perceber que muito desejava elle podesse encontrar-se com Eduardo n'aquella
+noite.</p>
+
+<p>&mdash;Ámanhã o procurarei&mdash;disse Venceslau, em quanto Anna e Julia se
+trocavam um lance de olhos que significava a incompetencia do mediador
+escolhido pelo velho.&mdash;Hoje tenho ainda trabalhos de escripta e estudo que
+me devem levar a noite toda.&mdash;Accrescentou o deputado.</p>
+
+<p>&mdash;Está a chegar o dia do repouso...&mdash;observou o commendador
+alludindo ao casamento, d'onde lhe resultaria a inercia dos ricos.</p>
+
+<p>&mdash;O dia do repouso é o primeiro da morte&mdash;contraveiu
+Venceslau.&mdash;Ninguem repousa n'esta vida; e, a meu juizo, os espiritos mais
+trabalhados, e talvez mais infelizes, são os que se agitam em inutil
+actividade. A riqueza, que convida ao ocio, é pessima, quando por ella trocamos
+o thesouro dos bens da alma.</p>
+
+<p>Eis-aqui maximas stoicas não vulgares em noivos,<span
+class="pn">{212}</span> salvo se elles são philosophos; mas a raridade d'esta
+especie é já grande; e algum Socrates que ainda apparece a maridar-se, é contar
+com elle bem castigado por Xantipas.</p>
+
+<p>Na ausencia de Venceslau Taveira, contou D. Julia concisamente ao
+commendador o breve prefacio do seu projectado casamento;
+porém&mdash;rasoavelmente lh'o advertiu o velho&mdash;tão desenthusiasta
+expunha ella como expozera o noivo aquelle importante e solemnissimo acto.</p>
+
+<p>&mdash;Eu bem sei...&mdash;dizia o commendador&mdash;que entre pessoas
+sisudas o casamento é passo para mui serias meditações; mas, logo que a
+deliberação está feita, parecia-me natural vêl-os muito alegremente fallarem do
+seu futuro...</p>
+
+<p>D. Julia sahiu á meia noute. Ia triste, e perguntando a si mesma: «Estarei
+eu enganada com elle e comigo? Este sentimento de estima será bem o amor que
+preciso hoje mais do que nunca alimentar no ardente coração de um homem?... Com
+que frieza elle fallava de politica, olhando para mim hoje como hontem, como
+sempre, como se eu alli não fosse mais do que uma das costumadas pesssoas do
+seu auditorio... Mas...»</p>
+
+<p>Proferia ella mentalmente aquella conjunção&mdash;aquelle <em>mas</em>, que
+daria as melhores dez paginas d'este livro, quando a traquitana, desembocando
+da rua da Patriarchal, atravessava o largo do Rato, em direitura ao palacio das
+Amoreiras.</p>
+
+<p>Parou subita a sege. O bolieiro, reconhecendo a<span class="pn">{213}</span>
+pessoa que sahira á frente da parelha, bradando que parasse, obedeceu.</p>
+
+<p>&mdash;Que é?&mdash;perguntou D. Julia com receio, por entre as cortinas,
+que afastou. </p>
+
+<p>&mdash;Não se assuste, minha senhora&mdash;disse Eduardo Pimenta no mais
+baixo tom de voz que podia ser, abrindo mais as cortinas para ser conhecido.</p>
+
+<p>&mdash;Aqui, a tal hora, o snr. Eduardo?&mdash;murmurou ella tremendo a seu
+grande pesar.</p>
+
+<p>&mdash;Esperava-a, snr.ª D. Julia... para lhe dar os parabens do seu
+consorcio. </p>
+
+<p>&mdash;Acho improprio o local... Venho de sua casa; era lá que eu devia
+merecer-lhe essa delicadeza...</p>
+
+<p>&mdash;Nada de ironias, senhora!</p>
+
+<p>&mdash;Ironias!? em que tom V. S.ª me está fallando! Eu não preciso de
+contrafazer-me com o disfarce da ironia... Que me quer o marido de Anna Vaz?
+</p>
+
+<p>&mdash;Que me restitua a minha felicidade!... que me mate, senão póde
+restituir-m'a... Um reptil que nos nauzêa esmaga-se com o pé... Que mais vale o
+coração do homem que a fatalidade poz de joelhos diante de V. Ex.ª?
+esmague-me... Diga-me affoitamente, diga-me sem piedade que me despreza...</p>
+
+<p>&mdash;Não o desprezo; estimo-o, quanto posso estimar o marido d'uma amiga
+intima&mdash;disse D. Julia sensibilisada, mas serena.</p>
+
+<p>&mdash;Eu não quero ser estimado, porque estou preso com um grilhão de ferro
+á amiga de V. Ex.ª... Guarde a sua piedosa estima para as victimas
+resignadas...<span class="pn">{214}</span></p>
+
+<p>&mdash;Que quer então?</p>
+
+<p>&mdash;Pouco... quero que V. Ex.ª me diga que no momento em que tractava o
+seu casamento com Venceslau Taveira não viu passar entre o seu coração e o seu
+futuro a imagem lagrimosa do homem que V. Exc.ª ameaçou com uma denuncia...</p>
+
+<p>&mdash;Não vi a sua imagem; vi a imagem lagrimosa de sua esposa... Essa é
+que eu vi, e venho de vêr agora prostrada no leito, e receio vêl-a brevemente
+prostrada na sepultura... Snr. Eduardo, tenha compaixão d'ella e de mim!</p>
+
+<p>&mdash;De V. Ex.ª!?&mdash;interrogou elle, alvoroçado pela commoção que se
+delatava no tremor da voz.&mdash;Compadecer-me eu de V. Ex.ª?! Quando deixei eu
+de adoral-a, para offendel-a?</p>
+
+<p>&mdash;Não diga que me adorou, supplico-lhe que desfaça essa illusão da sua
+alma. </p>
+
+<p>&mdash;Oh! para que está mentindo á sua consciencia, snr.ª D. Julia? Pois
+não viu que eu a amava quando casei? Não me impôz delicadamente em sua casa o
+preceito de lh'o não revelar?</p>
+
+<p>&mdash;Falle baixo&mdash;acudiu Julia&mdash;que póde ouvil-o o creado.
+Jesus, que desventura a minha! Ó snr. Eduardo, tenha brios e valor! Deixe-me,
+esqueça-me!... por alma de sua mãe, e d'essa infeliz senhora que lhe morreu nos
+braços, em nome de ambas lhe rogo que me esqueça, que me não obrigue a fugir de
+Portugal!... Mal sabe quanta gratidão lhe daria a minha alma, se me attendesse,
+se me deixasse ser sua verdadeira amiga! Juro-lhe<span class="pn">{215}</span>
+pela memoria de meu pae que me não torna a vêr, se não domina o desatino que
+está cavando a sepultura de sua mulher...</p>
+
+<p>&mdash;Sempre a minha mulher!... Por que me não falla do seu marido?</p>
+
+<p>&mdash;Pois bem... peço-lhe em nome de meu marido que me
+respeite!&mdash;disse D. Julia com a maxima gravidade e decoro.&mdash;E, se
+não, adeus para sempre! Não sustentarei com V. S.ª uma lucta odiosa. Ha
+afflicções que se tornam ridiculas, se a coragem as não subjuga.
+Desterrar-me-hei para que o snr. Pimenta, esquecendo-me a mim, se lembre de que
+ha uma coisa mais preciosa que eu: é a honra, a sua propria honra. Peço-lhe que
+me deixe recolher. Os meus creados não estão habituados a assistirem a estes
+dialogos por alta noite, e eu não lhes quero dar direito a suspeitarem de
+mim.</p>
+
+<p>&mdash;Só duas palavras, snr.ª D. Julia. Não sáia de
+Portugal&mdash;supplicou Eduardo com apaixonada resignação.&mdash;Juro que não
+perturbarei a sua tranquilidade. Fique, rogo-lhe com as mãos erguidas que
+fique; mas não me prohiba que eu a ame... Será um amor sem lagrimas, sem um
+gemido, sem que nos olhos se me veja o reflexo do fogo que me ha de ir
+devorando. Não me prohibe esta inoffensiva tortura, não?</p>
+
+<p>&mdash;Ó snr. Eduardo...&mdash;balbuciou Julia.</p>
+
+<p>&mdash;Adeus! vá!... Olhe que o mundo não encerra mais desgraçado homem! Eu
+hei de obrigal-a, hei de, Julia, a confessar que foi muito amada, e talvez...
+muito ingrata... Adeus.<span class="pn">{216}</span></p>
+
+<p>Eduardo desviou-se, e a sege abalou.</p>
+
+<p>E D. Julia de Miranda, enxugando os olhos, de certo sinceramente chorava,
+porque não é de presumir que uma mulher finja lagrimas, quando ninguem a
+observa.</p>
+
+<p>Mas chorar, ó Deus do céo, ó creador omnisciente do prodigioso coração de
+mulher! Chorar! porquê?</p>
+
+<p>Ai! chorava por que não podia odial-o...</p>
+
+<p>Leitor florído, se V. Ex.ª é menos honesto do que eu penso, de certo estima
+que as suas visinhas chorem por não poderem odial-o.<span
+class="pn">{217}</span></p>
+
+<h1><a name="SECTION000190000000000000000">XVIII</a></h1>
+
+<blockquote>
+ <p>C'etait incompréhensible, inouï, miraculeux...</p>
+
+ <p class="obra">A. D<small>UMAS.</small>&mdash;<em>Amaury.</em></p>
+</blockquote>
+
+<p>A criada antiga, que dormia na recamara de D. Julia, segredou ao padre
+Manoel Ferreira que a fidalga, durante as noites seguintes á decisão de
+casar-se, poucas horas descansára, e algumas vezes dava uns ais tão do amago da
+alma que parecia gemer em grande afflicção.</p>
+
+<p>O padre comprehendeu poeticamente as insomnias, attribuindo-as ao alvoroço
+proprio de noiva. Bem é de entender que o sabio, nos seus livros latinos, não
+tinha lido casos de noites desveladas por motivos molestos, se era amor quem
+desafinava a harmonia das funcções empenhadas no phenemeno do somno. Não
+obstante o silencio dos classicos romanos a tal respeito, padre Manoel indagou
+da propria fidalga a causa das suas noites<span class="pn">{218}</span> mal
+dormidas. Respondeu D. Julia que a preoccupavam receios de infelicidade,
+resultantes d'um casamento pouco meditado e talvez incompetente, assim a
+Venceslau como a ella.</p>
+
+<p>O capellão, atonito com tal resposta, nem de leve curou de lhe dissipar as
+apprehensões; antes, muito de sizo, se offereceu para desfazer o que
+intempestivamente fizera, espacejando com qualquer honroso subterfugio o
+cumprimento da promessa, até que Venceslau, cavalheiro pundonoroso, aconselhado
+por sua dignidade, desquitasse a noiva do compromisso.</p>
+
+<p>D. Julia repugnou tal evasiva, declarando com fidalgo entono que desadorava
+entrar em porfia de pundonor com Venceslau. E concluiu dizendo que a sua
+palavra estava dada.</p>
+
+<p>&mdash;E o seu coração, minha senhora?&mdash;perguntou o padre.</p>
+
+<p>&mdash;O meu coração...&mdash;murmurou ella&mdash;morreu quando as pulsações
+cessaram no coração do primeiro e unico homem que amei.</p>
+
+<p>E o capellão, fitando-a silencioso e magoado, de si para comsigo julgou que
+D. Julia não podia ser dada como exemplo de senhora perfeita, moralmente
+fallando.</p>
+
+<p>E, desde esta hora, padre Manoel, sentindo sobre a consciencia o gravame de
+tremenda responsabilidade, andava triste, como assombrado, a cogitar e a pedir
+a Deus que interviesse de modo que o casamento não se realisasse.<span
+class="pn">{219}</span></p>
+
+<p>Deus não o attendeu, ou interveiu mysteriosamente. Como quer que fosse, o
+casamento fez-se no fim do anno 1821.</p>
+
+<p>Foi muito soado o caso em Lisboa, e muito invejado o provinciano. O juro dos
+quinhentos mil cruzados da consorte deu-lhe direitos á consideração publica
+muito mais relevantes que os do talento acrisolado por altas virtudes de
+patriota. Haveria quem lhe emulasse a qualidade de primeiro orador e
+preconisado ministro; mas a de proprietario da mulher, que representava
+duzentos contos, seria capaz de ajuntar á inveja o respeito
+abjecto&mdash;mascara do odio. E, comtudo, os habitos de Venceslau Taveira
+mantiveram-se no mesmo grau de solicitude, trabalho e mediania. A traquitana de
+sua esposa ninguem lh'a viu em frente do paço das Necessidades, onde então
+legislava o congresso. Madrugava mais que os seus collegas abastados para poder
+chegar ao mesmo tempo que as carruagens d'elles. O seu trajar arguia decente
+mediocridade, auxiliada pelo esmero na limpeza; não era o surrado desalinho com
+que desculpamos os philosophos, quando nos fallece direito a mandal-os lavar a
+cara.</p>
+
+<p>Este proceder de Venceslau recendia aromas de virtude, era abnegação que
+muito louvava padre Manoel Ferreira; porém D. Julia de Miranda não se admirava
+nem comprasia. Em conta de affectação orgulhosa foi que ella tomou a isempção
+do marido, julgando-se por isso menospresada na riqueza. Quanto a ser amada,
+confessava D. Julia que o era como seria qualquer outra<span
+class="pn">{220}</span> menina pobre que não désse tão brilhante, e tão
+desdenhada independencia a seu esposo.</p>
+
+<p>O viver intimo de Venceslau, em verdade, destoava do que é costume serem
+maridos amantissimos, em quanto a corôa nupcial se não desmaia de todo.</p>
+
+<p>Tinha horas de gabinete, e então folgava que Julia se detivesse a
+contemplal-o folheando livros, tirando notas, arquitectando discursos, e
+comparando a indole da nação ignorante com os luminosos codigos das nações
+civilisadas. Isto não é bem poetico; realmente não é.</p>
+
+<p>Assim que era tempo, ia para as côrtes, e recolhia com a maxima pontualidade
+a jantar; mas, se os negocios do estado implicavam á exactidão do repasto
+domestico, o funccionario, submissso ao sacrificio, não antepunha o gozo da
+familia aos deveres de cidadão estipendiado para a servir. A poesia aqui tambem
+não é que farte para um madrigal.</p>
+
+<p>As noites eram todas de sua esposa. Se ella sahia a bailes ou visitas, de
+bom rosto a acompanhava; mas uma por outra vez lhe disse, beijando-a e
+ameigando-a:</p>
+
+<p>&mdash;Não passarias melhor a noite no socego da tua salêta comigo, com os
+teus livros, e com a doce companhia do teu fogão?</p>
+
+<p>Julia algumas vezes cedia suavemente ao brando convite; Venceslau, porém,
+notou com secreta mágoa que ella, por volta das dez horas da noite,
+difficilmente resistia aos enfados do coração que se manifestam em abrimentos
+de bocca.</p>
+
+<p>A esposa deitava-se; e o esposo ia para o seu gabinete<span
+class="pn">{221}</span> onde trabalhava até ás tres da manhã. Se ha n'isto
+poesia, confessemos que em casa de cada mercieiro ha inspirações para tres
+opopêas.</p>
+
+<p>E porque não iria Anna Vaz passar as noites com a sua amiga? Por que não ía
+Julia esparecer saudades da juventude, se as tinha, na familiar convivencia do
+commendador?</p>
+
+<p>É simples a resposta; mas ha que presagiar calamidades n'ella.</p>
+
+<p>Marcado o dia do casamento, Venceslau convidára Eduardo a ter parte na sua
+festa do coração, assignando como testemunha na egreja. O commendador tambem
+foi como padrinho e madrinha a filha. Os restantes do pequeno cortejo eram
+alguns deputados anciãos e militares companheiros do exilio do noivo.</p>
+
+<p>Eduardo apresentou-se na ceremonia com certa compostura grave, melancolica;
+porém de modo algum suspeita. Anna, docil aos preceitos de Julia, mas talvez
+mais submissa aos do coração, espionava involuntariamente os raios vizuaes do
+esposo. Escassas vezes o colheu em flagrante delicto. A noiva por sua parte
+parecia esconder mais do que elle o relance furtivo de olhos; todavia, se
+alguem lhe chamava a attenção para Eduardo, se Venceslau lhe dizia: «o Pimenta
+está pallido e triste», ella encarava-o com desassombro, e respondia qualquer
+coisa, sorrindo banalmente, como se fosse uma tola vulgar.</p>
+
+<p>O banquete das nupcias foi modesto, moderadamente animado, e concorrido de
+velhos que nem sequer primavam<span class="pn">{222}</span> nas jogralidades
+proprias do acto, e sempre bem acolhidas, quando vem auctorisadas pelas cans;
+que o impudor senil tem fôro de graça lusitana, segundo parece, em festins de
+noivado. Os coroneis e os legisladores commensaes de Venceslau fallavam de
+politica e de batalhas. Venceslau foi eloquente n'estes assumptos. Padre Manoel
+Ferreira manteve-se em silencio meditabundo. O commendador conversou sempre com
+Julia. E Eduardo nunca se mostrou tão apontado em attenções carinhosas a D.
+Anna.</p>
+
+<p>O restante da noite correu mais animada, graças ao espiritismo dos coroneis,
+que tinham brindado repetidas vezes á liberdade, e ungido com profuzas libações
+o seu athletico odio contra o despotismo. Os legisladores tambem.</p>
+
+<p>Findo o saráo, Eduardo apertou a mão da esposa do seu amigo, e pôde ceciar
+umas palavras que ella ouviu com a audição interior da alma: «Nunca mais».</p>
+
+<p>Ninguem a viu descorar; mas ella desconfiou que a vissem, porque lhe quiz
+parecer que o sangue se lhe congestionára no peito e que ao longo das faces lhe
+resvalára a sensação do frio. Imaginações, talvez. Nervos.</p>
+
+<p>Ao outro dia, D. Anna Pimenta, a hora desacostumada, e menos propria de
+visitar noivas recentissimas, appareceu em casa de Julia. Eram onze da manhã, e
+já encontrou Venceslau a sahir. Aos reparos da esposa do seu amigo respondeu
+elle que não podia faltar ao congresso, onde se pleiteavam graves projectos de
+lei. A amorosa senhora não pôde sequer por delicadeza louvar<span
+class="pn">{223}</span> semelhante patriotismo. Lá no seu recondito juizo diria
+talvez ella, em prosa menos pedestre, que não havia lei em projecto que valesse
+uma formosa mulher já realisada.</p>
+
+<p>Encontrou Julia no toucador, sentada, em frente do alto espelho, n'um
+reclinatorio de estofo cramezim, com os opulentos cabellos a serpearem sobre as
+rendas do penteador, e umas travessas d'oiro a desviarem-lh'os das fontes. A
+posição languida da noiva, um pouco antes, denotava abatimento moral, um ar
+reflexivo de quem se quer imaginar n'um sonho infeliz, e não póde tirar dessa
+forçada quimera senão tristezas.</p>
+
+<p>Mas, ainda assim, quando ouviu passos e conheceu a tosse nervosa de Anna
+Vaz, desanuviou a face, illuminou-a d'um sorriso, e apertou nas suas as mãos da
+amiga.</p>
+
+<p>&mdash;Tão cedo?&mdash;perguntou ella.&mdash;Tu vens febril!...</p>
+
+<p>&mdash;E agitada, porque vim a pé... Venho despedir-me...</p>
+
+<p>&mdash;Para onde vaes?!</p>
+
+<p>&mdash;Para a quinta do Riba-Tejo. O Eduardo esta manhã, ergueu-se ás seis
+horas, e pediu-me carinhosamente licença para ir passar á quinta algum tempo.
+Eu disse-lhe logo que o acompanhava; elle mostrou-se grato á minha dedicação, e
+resolvemos partir ámanhã de madrugada. Agora preciso dizer-te o que penso de
+meu marido. Esta resolução de sahir sei eu, e tu tambem sabes, d'onde procede;
+mas eu não lhe disse a menor palavra<span class="pn">{224}</span> a tal
+respeito, deixando-o persuadir da minha ignorancia. Creio que elle te ama...
+digo-te isto sem lagrimas, porque já chorei quantas tinha... Se elle foje de ti
+para te esquecer, espero que a nossa tranquillidade se restabeleça. Da minha
+parte, seguirei até ao fim os teus dictames. Hei-de fingir sempre que tudo
+ignoro, por amor d'elle, de meu pae, de ti... e de mim tambem... Olha, Julia,
+sorri-me uma esperança... Póde ser que o nosso primeiro filho seja o anjo de
+reconciliação entre nós. Pareceu-me que os olhos d'elle me encaravam com
+extraordinaria ternura, quando ha dias lhe disse, que eu, d'aqui a quatro
+mezes, havia de vêl-o a acalentar nos braços a nossa creancinha... Porque não
+choro eu agora ao despedir-me de ti? porque te amo, Julia, apesar de saber que
+és mais amada que eu? Sabes porque é? Quando se tem no seio um filho, as
+lagrimas estancam-se, e os odios não podem empeçonhar o coração onde se está
+formando a alma d'um innocentinho... Deixemos passar esta borrasca... Tempo
+virá em que sejamos muito felizes...</p>
+
+<p>&mdash;Eu? Nunca mais...&mdash;murmurou Julia.</p>
+
+<p>&mdash;Porquê?...</p>
+
+<p>&mdash;Não torno a ser o que era antes que á casa de teu pae entrassem estes
+dois homens fataes, um que escureceu a tua alegria, e o outro... que eu
+não...&mdash;E susteve-se, como envergonhada de si mesma.</p>
+
+<p>&mdash;Que tu...&mdash;instou Anna.</p>
+
+<p>&mdash;Nada, filha... não me interrogues... Olha... eu<span
+class="pn">{225}</span> amei teu irmão... amei-o quando tinha a edade e as
+illusões da infancia... Elle morreu... e envolveu na sua mortalha o meu
+coração...</p>
+
+<p>&mdash;Mas... para que...&mdash;disse D. Anna hesitante.</p>
+
+<p>&mdash;Para que casei, queres tu perguntar-me?...</p>
+
+<p>&mdash;Sim...</p>
+
+<p>&mdash;Se eu t'o disser... has de querer ajoelhar aos pés da tua amiga
+victimada... e eu levantar-te-hei nos meus braços para te pedir que não me
+faças responsavel dos teus dissabores...</p>
+
+<p>&mdash;Dize... que eu não te entendi...</p>
+
+<p>&mdash;Para que me casei?... para que teu marido me respeitasse casada...
+Para que me casei com Venceslau? Para ter por defeza da minha dignidade o homem
+que teu marido mais respeita...</p>
+
+<p>D. Anna abraçou-a com vehemencia, bebeu-lhe as lagrimas nos beijos, e
+murmurou:</p>
+
+<p>&mdash;É impossivel que Deus não te dê o galardão de tanta virtude... Esse
+grande sacrificio ha de trazer-te dias de inefavel contentamento...</p>
+
+<p>&mdash;Nenhuns... ha-de trazer-me apenas&mdash;e já não é pouco&mdash;a
+satisfação de te ver socegada.... Vae, filha, e escreve-me sempre que possas.
+Se vires que elle quer voltar a Lisboa antes de me ter esquecido como se
+esquece uma mulher já desfeita na sepultura, avisa-me, que eu hei de mover
+Venceslau a ir viajar... Depois, quando eu voltar, estarei velha e tu ainda
+nova e bella. Os cabellos brancos não tardam. As rugas já me começam na alma...
+Ha uma velhice que nos passa do coração<span class="pn">{226}</span> para o
+rosto... é a saudade... é vêr o passado feliz lá ao longe, e o presentir a
+morte no frio que nos cerca... </p>
+
+<p>&mdash;Mas, ó meu Deus!&mdash;exclamou Anna, pondo as mãos&mdash;Venceslau
+Taveira não te ama?</p>
+
+<p>&mdash;Ama com o amor dos trinta annos, quando desde os vinte se procuram e
+encontram as paixões na politica, na meditação e no estudo... Não vês isto?
+Casei hontem; e meu marido foi hoje ás dez horas para o congresso, depois de me
+dizer que prevía a emancipação do Brazil em breve tempo, e que hoje mais que
+nunca os bons portuguezes deviam acercar-se do leito da mãe patria que ia
+perder a filha que lhe era o amparo da velhice. E se visses a gravidade com que
+elle me discursava estas coisas? Parecia um pae illustrando a ignorancia de uma
+filha!... Ó Anna... se eu tivesse coração... se houvesse casado com Venceslau
+amando-o muito, que lagrimas me não custaria este desengano!...</p>
+
+<p>&mdash;Pois, sim&mdash;redarguiu Anna Vaz&mdash;convenho que Venceslau seja
+tudo que dizes, mas verás que nunca te ha de dar a mágoa da perfidia...</p>
+
+<p>D. Julia sorriu-se com aspereza, ironia, e talvez motejo d'essa virtude da
+lealdade que apenas lhe lisongeava o orgulho.</p>
+
+<p>&mdash;E tu verás&mdash;proseguiu aquella perfeita alma cheia de lagrimas,
+quando a outra sorria&mdash;verás que te ha de amar cada dia mais; e que,
+depois das suas occupações, virá para ti cheio de alegria, e sedento dos suaves
+prazeres da vida intima...<span class="pn">{227}</span></p>
+
+<p>&mdash;Porque o não amaste, Anna?&mdash;perguntou de salto e
+desapropositadamente D. Julia.</p>
+
+<p>&mdash;Porque o não amei?... Se eu amava Eduardo...</p>
+
+<p>&mdash;Viste-os ao mesmo tempo... ou, mais exactamente, viste primeiro
+Venceslau... Porque o não amaste?&mdash;insistiu a arguciosa dama.</p>
+
+<p>&mdash;Se elle me tivesse amado, antes que Eduardo me escrevesse, eu de
+certo lhe correspondia, porque me pareceu sempre estimavel, nobre, honrado,
+fallando de meu irmão com as lagrimas nos olhos, e respeitando meu pae, que o
+presava extremamente.</p>
+
+<p>&mdash;Sei isso... mas o teu coração, á vista d'elle, não sentiu os
+estremecimentos que lhe causou Eduardo.</p>
+
+<p>&mdash;Bem sabes como foi, filha!... Eduardo, á segunda vez que foi a nossa
+casa, estando eu a tocar, disse-me que, se o não podia salvar com o amor, que
+lhe tocasse musicas bem tristes que o podessem salvar com as lagrimas... Estas
+palavras acharam em minha alma toda a sensibilidade d'uma rapariga innocente...
+Depois vieram as cartas... depois... tu sabes tudo como se passou...</p>
+
+<p>&mdash;Sei...</p>
+
+<p>&mdash;Mas que perguntas me fazes!... Ó Julia, se não amavas Venceslau, não
+devias casar. A tua dignidade não precisava que um marido a defendesse. Ha
+quantos annos eu te conheço pretendida e amada; e nunca te vi receosa de
+ninguem! Bastava o teu desprezo para rebater os mais atrevidos. O sacrificio,
+que fizeste da tua liberdade, para que eu te não julgue causa dos meus
+occultos<span class="pn">{228}</span> desgostos, era desnecessario. Tão
+confiada estava eu na tua virtude de solteira como na de casada...</p>
+
+<p>&mdash;Sacrifiquei-me então inutilmente?&mdash;interrompeu Julia.</p>
+
+<p>&mdash;Inutilmente não, que eu irei jurar que se eras um anjo para mim, és
+agora uma victima da santa amisade que me tens; mas inutilmente para a tua
+honra, isso sim; porque não é teu marido que te ensina os deveres; és tu que os
+prescreves ás tuas paixões...</p>
+
+<p>&mdash;Quaes são as minhas paixões?&mdash;perguntou D. Julia por tão
+estranha maneira que incutiu na amiga receio de a ter offendido.</p>
+
+<p>&mdash;Eu não digo que as tenhas, filha...&mdash;emendou ingenuamente D.
+Anna.</p>
+
+<p>&mdash;Então?</p>
+
+<p>&mdash;Queria eu dizer que tu dominarias as tuas paixões, se fossem más...
+Comprehendeste, Julia?...</p>
+
+<p>A esposa do deputado, levantando-se energicamente, travou do braço da amiga,
+e disse:</p>
+
+<p>&mdash;Vamos passear nas salas... Estou muito nervosa... A final, tudo que
+tenho é uma febre cerebral, uma enfermidade estupida na cabeça.</p>
+
+<hr class="dotted">
+
+<p>Na hypothese de que as duas senhoras vão dizer coisas frivolas, não as
+sigamos; e, se o leitor conjectura que ellas podem dizel-as transcendentes, não
+as sigamos tambem.</p>
+
+<p>Sentemo-nos aqui na sala de espera, n'este grande escabello de castanho, com
+espaldar blazonado, e philosophemos,<span class="pn">{229}</span> mas façamos
+philosophia portugueza, chã, de soalheiro, murmuração delicada; mas, repito,
+portugueza. Nada de esthetica. Nada de germanismos. A gente está em 1822,
+quarenta annos antes da entrada do apocalypse em Portugal com todas aquellas
+bestas de que falla S. João.</p>
+
+<p>Philosophemos então a respeito de D. Julia.</p>
+
+<p>O leitor medita, reflexiona, combina, discute, compara e conclue, formando o
+seu juizo.</p>
+
+<p>Formou? Philosophou?</p>
+
+<p>Eu tambem.</p>
+
+<p>Agora tenha a condescendencia de esperar que os factos correspondam á
+lucidez das suas previsões.<span class="pn">{230}<br>{231}</span></p>
+
+<h1><a name="SECTION000200000000000000000">XIX</a></h1>
+
+<blockquote>
+ <p>A ira que entumece e arqueja e vibra no proprio coração dos grandes
+ sabios.</p>
+
+ <p class="obra">H<small>OMERO.</small>&mdash;<em>Iliada</em>, cant.
+ <small>IX</small>.</p>
+</blockquote>
+
+<p>As cartas vindas de D. Anna para Julia eram discretas e pensadas de modo que
+Venceslau Taveira, da sahida de Eduardo, inferia apenas que o seu amigo se
+desviára com plausivel prudencia dos perigos amorosos que o assediavam na alta
+sociedade. Esta supposição colhida de algumas phrases problematicas das cartas,
+que Julia não escondia, dava margem a que entre os dois esposos e padre Manoel
+Ferreira se conversasse sobre a desmoralisação dos costumes.</p>
+
+<p>O capellão raramente perdia lanço de lamentar a filha do commendador,
+ferindo assim de soslaio o caracter do marido, a quem não desculpava a
+peralvilhice com que bandarreava nas salas, galanteando a esmo todas<span
+class="pn">{232}</span> as damas. Venceslau, motejando a severidade do padre,
+attribuia os geitos galãs do amigo não á ruindade das intenções, senão ao
+temperamento, ao genio alegre, ao instincto da sociabilidade, que era sempre
+excellente prenda nos cavalheiros propensos aos futeis recreios das
+assembleias. D. Julia escutava estas discussões, e assentia á indulgencia do
+marido, sem reparar que o padre lhe estudava o pensamento nas menos expressivas
+alterações do semblante.</p>
+
+<p>Padre Manoel&mdash;digamol-o de corrida&mdash;não lia sómente livros
+latinos, nem estudára nas Lesbias e Lydias as versatilidades femeaes. Parece
+que o sabio, antes de vir á poesia romana, tinha sido poeta por sua conta, e
+risco, talvez, da dignidade sacerdotal. Como vivêra trinta ou quarenta annos
+entre fidalgas, confidenciando-as nas salas e nos confessionarios, bem é de vêr
+que n'aquelle espirito escrutador se formassem desconfianças ingratas ao bom
+juizo de D. Julia, desde que ella se lhe figurou duvidoso exemplar de
+perfeição. Isto, aggravado pela secreta aversão que tinha a Eduardo Pimenta,
+explica o tom detrahidor com que lhe desfazia nas virtudes conjugaes e o olhar
+de travez que dardejava á phisionomia da desprecatada fidalga.</p>
+
+<p>Uma vez o padre, invectivando contra o seculo, proferiu a palavra
+«adulterio», como thema de certa historia contemporanea. Venceslau avincou a
+fronte, recurvou os dedos para as palmas das mãos, fez uma vizagem desabrida de
+zanga, e cortou de golpe o discurso, sobrevindo com outro assumpto.<span
+class="pn">{233}</span></p>
+
+<p>Padre Manoel ficou um tanto corrido, e D. Julia suspensa, e até certo ponto
+inquieta.</p>
+
+<p>Assim que teve ensejo de fallar particularmente com o capellão, pediu-lhe o
+deputado desculpa do impeto com que o interrompera, e rogou-lhe que, na
+presença de sua mulher, se abstivesse de contar historias de vicios, e
+principalmente de adulterios; visto que, em historias d'esta natureza, a
+moralidade do conto era sempre equivoca, senão era ridicula, como nas comedias
+de Molière, e de todos os propaladores de taes desregramentos. E ajuntou:</p>
+
+<p>&mdash;Se o meu amigo, contando os adulterios das diversas senhoras do seu
+tempo, rematasse a narração, mostrando-nos o castigo do crime, dou-lhe que não
+perdesse o tempo, o incutisse saudavel terror no animo das mulheres ou dos
+homens que não delinquiram ainda...</p>
+
+<p>&mdash;Mas o castigo, snr. Venceslau, se não é patente, lá lh'o influe a
+invisivel mão de Deus na consciencia dos culpados...&mdash;objectou o padre.</p>
+
+<p>&mdash;Convenho; mas eu não vejo o castigo, nem sequer vejo joeiradas da boa
+sociedade as mulheres, nem dos altos cargos da republica os homens, cujas
+consciencias o meu caro snr. padre Manoel Ferreira piamente imagina
+atormentadas. Essa especie de contos rematava mais edificantemente, se o meu
+amigo os concluisse d'este feitio: «a condessa de tal atraiçoou o marido, que
+era um homem de bem, extremoso por sua honra e sua mulher. Um dia, o marido,
+avisado da traição, matou a mulher, e matou o adultero.» Aqui tem um
+desenlace<span class="pn">{234}</span> tragico, talvez o unico para poder
+dizer-se n'uma sala sem receio de fazer rir os circumstantes. Tudo mais que não
+for isto é prudente e honesto que não se divulgue ás pessoas que o ignorarem.
+Se o conde de tal vive, ha annos, na sua quinta, só, sequestrado do mundo,
+chorando, dilacerando-se a golpes de vergonha, em quanto sua mulher
+despejadamente alardêa seus vicios em Lisboa&mdash;se era essa a historia que o
+snr. padre Manoel ia hoje contar a minha mulher, com que moralidade tencionava
+encerrar o conto? O conde foragido do mundo para se não vêr escarnecido, é a
+moralidade? A condessa rodeada de cortezãos nas suas salas é a moralidade?</p>
+
+<p>&mdash;Não, senhor. A moralidade é que V. S.ª e outros homens honrados não
+levam suas esposas a casa da condessa.</p>
+
+<p>&mdash;Está enganado. Eu conheci n'estas salas a condessa, e ouvi esta
+senhora, que é hoje minha mulher, chamar-lhe prima. É certo que Julia não irá
+lá mais, penso eu; mas não é menos certo que muitas damas de regular proceder
+lá vão. </p>
+
+<p>&mdash;Lisboa está assim...&mdash;murmurou o padre transigindo.&mdash;É o
+baixo imperio... a libertinagem da França de Luiz <small>XV</small> que chegou
+a Portugal cem annos retardada, abordoando-se ás muletas da civilisação. As
+luzes são boas, quando não pegam fogo ao templo das velhas crenças.
+<em>Corruptio optimi pessima</em>, como diz Horacio. Bem-aventurados aquelles
+que circumscrevem á familia as regalias do repouso, e cerram as suas
+portas<span class="pn">{235}</span> á ociosidade que se desenfastia a bailar, a
+jogar, a cacarejar frioleiras nos salões. Cada vez me felicito mais por vêr que
+V. S.ª vae brandamente reduzindo sua senhora ao socego da vida intima...</p>
+
+<p>&mdash;Reduzindo, não, meu amigo&mdash;corrigiu Venceslau.&mdash;Não se
+persuada que eu reajo aos desejos de minha mulher. N'esta casa, que é d'ella,
+faz-se o que sua dona quer. Julia visita quem lhe praz, e recebe quem lhe
+parece. Acompanho-a umas vezes por vontade, outras com repugnancia; mas vou
+sempre com o mesmo semblante. É certo que a vejo triste; mas attribuo a mudança
+á natural e providencial transformação que se vae operando no animo das
+mulheres da sua edade e na sua posição; além d'isto, póde ser que as saudades
+da sua amiga Anna Vaz tenham parte n'esta melancolia. Felizmente, Eduardo volta
+para Lisboa na proxima semana, e eu muito estimarei que a intimidade das duas
+senhoras se renove como a tiveram em solteiras.</p>
+
+<p>N'este ponto, padre Manoel acudiu a esfregar o nariz, onde era costume
+acudir-lhe a zanga em pruridos incommodos. Venceslau não reparou n'aquella
+réplica toda nazal, nem o capellão entendeu fazer commentarios oraes ás suas
+comichões freneticas. As ideias que lhe obumbravam o espirito eram negras,
+inexprimiveis, e taes que elle fugia de as repetir a si mesmo, sendo que um
+demonio contumaz lh'as estava sempre a martelar na fragua da cabeça. Não ha ahi
+duvidar da esclarecida razão de padre Manoel Ferreira, que sabia latim a
+preceito e muitas sciencias boas e más; pois,<span class="pn">{236}</span> sem
+embargo, ás vezes via-se tão importunado de satanicas suggestões contra
+Eduardo, que chegava a persignar-se e a repetir mentalmente o <em>et ne nos
+inducas in tentationem</em>.</p>
+
+<p>D. Anna e o marido voltaram para Lisboa; mas o affecto da esposa de Eduardo
+a D. Julia havia esfriado bastante. Poderemos sem grandes deslizes da verdade
+conjecturar que, no animo d'aquella senhora offendida pelo esposo, a amisade á
+outra que a fazia soffrer&mdash;bem que involuntariamente&mdash;cedeu o passo
+ao amor-proprio e a outros nobres sentimentos. O despeito era inevitavel,
+embora a sua bonissima condição lh'o demorasse. Este arrefecimento devia
+crescer á medida que ella deduzisse das tristezas silenciosas do marido
+vestigios da saudade indomavel; porque, se a saudade era prova da grande valia
+da mulher não esquecida, razão de mais para que Anna Vaz a considerasse
+perigosa; e, se o marido á custa de nobres esforços, vingasse olvidal-a, outra
+razão para que a esposa precavida temesse a reincidencia na aproximação.</p>
+
+<p>Esta, a meu pensar, parece ser a natural interpretação das raras visitas, e
+essas pouquissimo expansivas, que as duas damas se trocaram.</p>
+
+<p>Entretanto, D. Anna explicava as suas faltas com os cuidados da maternidade,
+porque já então era mãe. Venceslau achava louvavel a razão, e dizia a sua
+mulher que a esposa de Eduardo era uma respeitavel dama que se fazia venerar de
+seu marido, quando não fosse extremamente amada.<span class="pn">{237}</span>
+</p>
+
+<p>Quando estas palavras foram ditas, padre Manoel Ferreira observou com os
+olhos esconsos que D. Julia mordia o beiço inferior. Não sei o que elle colheu
+d'este acto. O homem provavelmente julgava que os máos pensamentos tanto podiam
+pruir no nariz como nos beiços.</p>
+
+<p>Aquelle anno de 1822, trabalhoso e irrequieto para os liberaes, trouxe para
+D. Julia horas aborrecidas de solidão e irritantes dissabores.</p>
+
+<p>O deputado nunca fôra tão politico e cidadão afreimado. Quatro successos
+importantes lhe absorviam a maior parte das suas horas diurnas e nocturnas.
+Primeiro, a independencia do Brazil, d'onde elle inferia que Portugal ficava
+sendo uma grande cabeça sem cerebro, um gigante paraplegico, bracejando, sem
+pernas que o movessem. Depois, a reunião das tropas francezas nos Pyreneos,
+ameaçando cassar as cartas de alforria dadas pelos reis ás nações amotinadas.
+Em seguida as facções liberticidas conjuradas com o titulo de <em>Junta
+Apostolica</em>. Por ultimo a formal recusa da rainha D. Carlota Joaquina em
+jurar a constituição.</p>
+
+<p>Nas fogosas luctas que então se travaram no congresso, entre gladiadores
+inveterados de absolutismo, e outros exaltados fautores da liberdade, Venceslau
+Taveira ia na vanguarda dos liberrimos. Os seus discursos poderiam ser
+acoimados de demagogos, se a audacia dos adversarios não lhes justificassem a
+iracundia. Depois que a rainha pediu licença para sahir de Portugal, visto que
+a lei a obrigava não jurando a constituição,<span class="pn">{238}</span> as
+duas parcialidades do congresso defrontaram-se rancorosamente, até ao extremo
+de se arcarem peito a peito.</p>
+
+<p>Uma noite Venceslau entrou no seu escriptorio, e demorou-se largo tempo a
+passear agitadissimo. D. Julia, admirando a insolita demora, desceu á livraria,
+e viu sobre a banca da escripta um par de pistolas novas e um pacote de polvora
+e balla.</p>
+
+<p>&mdash;Pistolas!&mdash;exclamou ella&mdash;isto que é?... Nunca te vi
+d'estas coisas!</p>
+
+<p>&mdash;São hoje necessarias, minha filha&mdash;disse brandamente o deputado,
+desenrugando a fronte assim que viu a esposa alvoroçada.</p>
+
+<p>&mdash;Para quê? tens inimigos?</p>
+
+<p>&mdash;Tenho, e enormes: são os mil algozes symbolisados na palavra
+«despotismo». Hoje, mais do que nunca, me sinto obrigado a combatel-o. Preciso
+defender a felicidade que me déste. D'antes era eu um homem, que podia morrer,
+sem o pezar de ser chorado. Hoje, que a vida me é mais cara, mais me devo
+prevenir na defeza d'ella. Não te assustes, Julia...&mdash;proseguiu elle
+abraçando-a.&mdash;O despotismo ainda cá não metteu a garra; mas eu tenho
+collegas no congresso que nos estão atraiçoando, e já vão tomando nota dos que
+hão de apontar ás alçadas se o infante D. Miguel for acclamado absoluto. Eu hei
+de ser o primeiro, se antes d'isso me não poderem apunhalar traiçoeiramente.
+Contra os traidores é que os homens de bem se armam. Ámanhã espera-se
+estrondoso escandalo no congresso, onde vae debater-se<span
+class="pn">{239}</span> a recusação da rainha. Eu hei de votar pelo cumprimento
+da lei que a manda sahir de Portugal; mas suspeito que alguns atrabiliarios lhe
+vão entoar vivas. Se tamanha protervia couber na alma vendida dos deputados
+absolutistas, é preciso expulsal-os da camara; e, se reagirem, será forçoso que
+deixem a vida onde alardearam a deshonra.</p>
+
+<p>&mdash;Mas que necessidade tens tu de te arriscares?&mdash;perguntou
+Julia.&mdash;És rico, pódes viver tranquillo; em qualquer parte do mundo achas
+a liberdade sem receios, e a independencia das alternativas da politica...
+Olha, Venceslau, deixa ficar Portugal aos que o exploram, e vamos viajar.</p>
+
+<p>&mdash;Iremos forçados&mdash;disse Venceslau&mdash;; mas, por emquanto, não.
+Eu hasteei no congresso a bandeira mais odiada dos despotas. Se eu desertar
+d'entre os poucos que me seguem, o meu nome ficará infamado de covardia, e a
+tua riqueza será a alavanca de ouro com que eu arrazei o honroso edificiosinho
+que ha dez annos estou levantando. Não póde ser, minha querida Julia... O teu
+amor quer-me desviar d'um perigo onde a tua razão me deve aconselhar que
+esteja. Conciliaremos o amor com o dever. Quanto mais direitos eu for
+grangeando á gratidão da patria, por mais digno me hei de ter da tua
+estima...</p>
+
+<p>&mdash;Mas eu&mdash;volveu D. Julia com meiguice&mdash;desejo que tu não
+penses mais na patria do que em mim, Venceslau. Não me disseste hontem que
+Eduardo, desde que era pae, te parecia mais meditativo...<span
+class="pn">{240}</span></p>
+
+<p>&mdash;Sim... disse.</p>
+
+<p>&mdash;Pois então, lembra-te que és pae d'aqui a pouco tempo, e que a
+patria, se tu faltares aos teus filhos, não t'os ha de indemnisar do amor que
+perderam. </p>
+
+<p>Venceslau beijou a fronte da esposa, e murmurou:</p>
+
+<p>&mdash;Minha filha, quando o alento me esmorecer no cumprimento dos meus
+deveres, anima-me tu, dizendo-me que o sacrificio d'um pae na causa santa da
+liberdade é um legado precioso a seus filhos. Que elles herdem de ti os bens da
+fortuna, e de mim a parte que eu tiver na liberdade da patria, para que se não
+envergonhem de ser portuguezes.</p>
+
+<p>Não era visionario desvairado pela paixão politica Venceslau Taveira.</p>
+
+<p>Quadraram os disturbios das côrtes, no dia seguinte, aos seus
+presentimentos.</p>
+
+<p>Ventilava-se afogueadamente a questão da recusa de D. Carlota na casa
+legislativa. Os liberaes pediam o cumprimento da lei com desabrida virulencia,
+provocada pelos murmurios de alguns deputados sequazes das conspirações de
+Queluz. Venceslau Taveira, vibrante da eloquencia da justiça, resoluto a pôr
+peito aos perigos que lhe ameaçavam a singular coragem em meio dos seus
+correligionarios abatidos pelo terror do exilio, dos carceres e dos patibulos,
+irrompeu em apostrophes á Junta Apostolica, á facção infame que viera
+arrebanhar vilissimos escravos ao gremio da representação nacional.</p>
+
+<p>N'esta conjunctura, um deputado dilecto da rainha,<span
+class="pn">{241}</span> por nome Antonio José da Silva Peixoto, coadjuvado pelo
+foliculario José Accursio das Neves, levantaram-se e proromperam em «vivas» á
+rainha nossa senhora, e «morras» aos carbonarios, agitando os lenços. Os
+membros da sua facção, incitados pela audacia dos dois absolutistas,
+conclamaram a rainha absoluta, e tal houve que no tumultuar do alarido vingou
+avantajar-se em brados, offerecendo o nome do infante D. Miguel á espectação
+dos deputados para quem a desthronisação de D. João <small>VI</small> era a
+traça gizada pela rainha.</p>
+
+<p>Venceslau, interrompido por aquelles brados, perdeu a serenidade do aspecto
+que sempre mantivera nas mais degladiadas controversias. Os seus collegas
+convisinhos, coevos das formidaveis tempestades de 93, e identificados ás
+tradições dos magestosos tribunos da carnificina, disseram que no afuzilar dos
+olhos e convulsão vertiginosa de Venceslau havia a colera de Mirabeau. Mas este
+juizo inoffensivamente plastico ficou áquem da ambiciosa comparação, quando o
+viram correr por entre a camara turbulenta, com duas pistolas aperradas, de
+encontro ao grupo onde se bradavam vivas a D. Carlota Joaquina.</p>
+
+<p>Difficilmente impedido na passagem, os seus amigos deram tempo a que a
+facção da rainha se evadisse pela cêrca das Necessidades.</p>
+
+<p>Serenado o tumulto, Venceslau, descido do impeto da ira, e corrido do acto,
+pediu perdão aos seus collegas; mas assim mesmo appellou da sua propria
+consciencia, que o accusava, para a justiça dos vindouros; e,<span
+class="pn">{242}</span> como, apezar da prostração moral, a alteza da ideia lhe
+não fallisse, consta do <em>Diario das Camaras</em> que elle dissera: «aos meus
+collegas, que estremeceram por me vêr pistolas engatilhadas, peço que se vão
+afazendo a vêr instrumentos de morte, para que não se aterrem quando, vestidos
+com a alva de condemnados, se defrontarem com os patibulos.»</p>
+
+<p>Desde este dia, o nome de Venceslau Taveira foi inscripto na lista dos
+votados á morte nos conciliabulos de Queluz.</p>
+
+<p>Quando o governo descobriu n'aquelle anno a celebrada conspiração da rua
+Formosa, entre os papeis encontrados no subterraneo da officina typographica,
+estava um com as bazes do projecto revolucionario.</p>
+
+<p>O artigo 3.º dizia: «Assassinar aquelles entre os membros das côrtes e do
+ministerio que são os mais celebres defensores dos direitos nacionaes.»</p>
+
+<p>O primeiro nome era Venceslau Taveira.<a name="tex2html3"
+href="#foot510"><sup>[3]</sup></a></p>
+
+<p>O conflicto do congresso parecia ter sido apenas um sonho máo no espirito do
+deputado, quando entrou no seu escriptorio, onde Julia o esperava
+assustadissima. Um sorriso de paz lhe deu elle com o beijo da sua extrema
+ternura, e na firmeza de voz e bom concerto das ideias denotava que os
+transportes de uma coragem honrosa, depois de o abalarem, lhe repunham a alma
+descansada no reclinatorio da consciencia.<span class="pn">{243}</span></p>
+
+<p>&mdash;Fujamos de Portugal!&mdash;disse-lhe Julia vivamente.</p>
+
+<p>&mdash;Não fujamos, minha amiga... Jantemos&mdash;disse serenamente o
+marido.</p>
+
+<p>E, durante o jantar, perguntou padre Manoel Ferreira:</p>
+
+<p>&mdash;E, se V. S.ª, cego na sua justa ira, matasse o Peixoto ou o
+Neves...</p>
+
+<p>&mdash;Ou ambos...&mdash;ajuntou Venceslau.</p>
+
+<p>&mdash;Sim, ou ambos... suppomos...</p>
+
+<p>&mdash;Suppomos...</p>
+
+<p>&mdash;Que acontecia?&mdash;insistiu o capellão.</p>
+
+<p>&mdash;Que elles estavam a esta hora mortos&mdash;respondeu o deputado.</p>
+
+<p>D. Julia fitou com certo assombro o placido rosto do marido, e disse:</p>
+
+<p>&mdash;Pois tu... eras capaz de matar...</p>
+
+<p>&mdash;E de morrer, minha filha.<span class="pn">{244}<br>{245}</span></p>
+
+<h1><a name="SECTION000210000000000000000">XX</a></h1>
+
+<blockquote>
+ <p>É assim o viver.</p>
+
+ <p class="obra">A<small>LVARES
+ D'</small>A<small>ZEVEDO.</small>&mdash;<em>Obras</em>, tom.
+ <small>III</small>.</p>
+</blockquote>
+
+<p>Este capitulo abrange o espaço de quatro annos.</p>
+
+<p>Em 1827, D. Anna Vaz tem tres filhos. Eduardo Pimenta perdeu o emprego com
+grave desdouro de sua probidade politica, por ter acompanhado o brigadeiro
+Sepulveda ao encontro do infante D. Miguel em Santarem, quando em 1823, José de
+Souza Sampayo, depois visconde de Santa Martha, e o conde de Amarante,
+acclamaram o principe, e tentaram nomear uma regencia presidida por D. Carlota
+de Bourbon.</p>
+
+<p>Venceslau, por affecto a D. Anna Vaz e ao commendador, quiz reintegrar o
+homem a quem chamava ainda amigo, desculpando-lhe a queda com os fumos da
+lisonja em que o haviam aturdido as familias da alta nobreza com quem elle se
+relacionára, já por parentesco<span class="pn">{246}</span> de sua mulher, já
+porque assim cuidava sanear o aleijão de um baixo nascimento. O generoso
+fidalgo beirão perdoava esta miseria ao filho do lavrador de S. João de
+Nogueira, cujos primeiros amores já denotavam aspirações levantadas.</p>
+
+<p>Eduardo, porém, rejeitou a valiosa intercessão do amigo, declarando que não
+queria nada de constitucionaes nem de absolutistas; que não tinha fé nas
+virtudes civicas de quem quer que fosse, nem sacrificaria a sua dignidade nas
+aras profanadas de algum idolo. Venceslau sorriu-se áquella negação das
+virtudes civicas, e de si para comsigo entendeu que Eduardo era um louco,
+subordinado ao influxo d'algum astro funesto.</p>
+
+<p>Entretanto, o viver do marido de D. Anna Vaz, na sociedade que lhe admirava
+o talento, a reconsideração de ideias, e os discursos ora scepticos, ora
+enthusiastas; que lhe admirava tambem a figura, aureolada pelo romanticismo da
+sua mocidade&mdash;o viver de Eduardo Pimenta em meio de espiritos arrogantes,
+mas ineptos, era o que as lagrimas de sua mulher davam a entender.</p>
+
+<p>Eduardo tinha lido os poemas de Lord Byron. Admirava com inveja aquelle
+feito e refeito heroe da eterna legenda, onde á volta de um homem fatal se
+acatovellam dezenas de mulheres a amal-o, a chorar e a morrerem de amor. O dom
+João fervia-lhe nos miolos, aquecido um pouco pela temperatura calida do
+sangue, e bastante pelo fogo da phantasia. Isto de phantasia era coisa
+pouquissimo vulgar em portuguezes d'aquelle tempo, se elles não haviam
+corrigido lá fóra a sua compleição,<span class="pn">{247}</span> prevertendo a
+boa indole de frades com que até aquelle tempo toda a gente nascia em
+Portugal&mdash;indole provavelmente devida á preponderancia que exerciam os
+frades no phenomeno das reproducções, psycologicamente fallando.</p>
+
+<p>Allucinado, pois, pelo seu modêlo poeticamente immoral, Eduardo, com quanto
+não immolasse illustres victimas, e já encontrasse muitas sem sacrificadores,
+ganhou fama de bem-quisto de senhoras titulares, e realmente era. Contaram-se
+n'aquelles annos casos de ciumes palacianos em que elle era o personagem menos
+irrisorio; arrufos conjugaes, projectados divorcios, reclusões em severos
+claustros, <em>etc.</em>; mas tudo isto eram atoardas que lhe esmaltavam a
+reputação.</p>
+
+<p>Este genero de costumes involvia despezas grandes, a pompa no trajar, os
+bailes, a liberalidade no despender em natalicios, o hombrear com os ricos, e
+deslumbral-os em lances generosos.</p>
+
+<p>Em menos, pois, de tres annos, Eduardo sem officio nem aptidão para tornar
+lucrativa a sua intelligencia, gastou os quinze mil cruzados do patrimonio e
+contrahiu dividas caucionadas pelo futuro dote de sua mulher.</p>
+
+<p>Em 1827, o commendador Vaz dissera a Venceslau Taveira que os seus netos
+chegariam a mendigar, e sua filha, quando elle fechasse os olhos, teria de
+vender o leito de sua mãe.</p>
+
+<p>A estima do marido de Julia por Eduardo Pimenta diminuira proporcionalmente
+com os creditos do seu amigo d'outro tempo. O homem austero não podia
+desculpar<span class="pn">{248}</span> o vadio que, depois de bandear-se com os
+fautores do absolutismo, rejeitára petulantemente o perdão e o emprego, para se
+andar a fazer praça escandalosa das serodias verduras de rapaz solteiro, com o
+enfatuamento de homem de boas aventuras. Poucas visitas se faziam
+reciprocamente; mas d'esta omissão dera o exemplo D. Anna Vaz.</p>
+
+<p>Ainda assim, Venceslau informado pelo commendador, procurou assiduamente
+Eduardo, instando-o a empregar-se, a cahir em si, a cortar relações que o
+abysmavam, e a pensar no futuro de seus tres filhinhos, lavados pelas lagrimas
+da mãe.</p>
+
+<p>A commoção do reprehendido parecia sincera, quando elle se prestou a servir
+a nação, a quebrar os encantos da sua aziaga estrella, e a restaurar em fim a
+honra e a felicidade da sua familia.</p>
+
+<p>Amiudaram-se então as visitas de D. Anna, instigadas já pelo marido, que a
+movêra pela dependencia em que estavam do deputado, já pelo pae que
+inteiramente ignorava os despeitos da filha, e por amor d'ella e dos netos lhe
+aconselhava acolher-se ao valimento de Venceslau.</p>
+
+<p>N'este tempo D. Julia tinha dous filhos, ambos meninos, entre tres e cinco
+annos. A vida domestica, bem que estrellada pelos dous anjos, parecia-lhe
+escura. A pouco e pouco, o marido, cada vez mais enredado na politica, lhe fôra
+obrigando suavemente o animo a conformar-se com os deveres de senhora de casa,
+e a desligar-se da intimidade dos parentes.<span class="pn">{249}</span></p>
+
+<p>D. Julia rica, festejada, sedenta de competir em fausto com as damas de mais
+voga, reagia surdamente aos affectuosos conselhos de Venceslau. Elle, porém,
+com habil descrição, ia cedendo ás menores exigencias, e cortando n'estas até a
+reduzir ao orgulho de não fazer nenhumas&mdash;orgulho onde se levedam
+fermentos de amarissimos resultados.</p>
+
+<p>Casos politicos de importancia um apenas alterou o monotono, mas agitado,
+duello do liberal contra a tyrannia. Em 1824 foi convidado pelo ministro dos
+negocios estrangeiros, marquez de Palmella, a ser o secretario particular, o
+collaborador dos seus notaveis actos diplomaticos. N'aquelle anno, operou D.
+Miguel o movimento de 30 d'abril, que ficou na historia conhecido pela
+<em>Abrilada</em>. N'esse mesmo dia foi preso o marquez de Palmella e com elle
+o seu secretario, á ordem do infante, por intermedio do intendente Belforte;
+mas já no dia 5 de maio o ex-ministro e Venceslau eram soltos, graças ao corpo
+diplomatico.</p>
+
+<p>Repostas as coisas no antigo estado, com a sahida do infante no dia 13,
+Venceslau alcançou empregar Eduardo na secretaria da guerra, abonando-lhe a
+lealdade, bem que o commendador o quizesse exonerar de tão perigosa fiança.</p>
+
+<p>N'este em meio, o ar de renovada estima que parecia reatar os corações das
+duas senhoras, emborrascou-se outra vez. D. Anna Vaz valia-se de desculpas com
+o pae para não seguir o marido a casa de Julia; esta, sem queixar-se ao marido
+da ausencia da sua amiga, dizia<span class="pn">{250}</span> que D. Anna era
+muito mais affectuosa quando Eduardo carecia de emprego.</p>
+
+<p>Quaesquer que fossem os juizos de Julia, havia um sinistro esculca, de
+carrancudo aspecto, que parecia querer-lh'os escutar no silencio da alma: era o
+padre Manoel Ferreira.</p>
+
+<p>Este previsto sabio andava sobre brazas desde que vira o antipathico Pimenta
+frequentar de novo o palacio das Amoreiras, bem que nunca só, nem a horas
+desacostumadas, mas sempre acompanhado da esposa, ou quando Venceslau era certo
+em casa. Se, relançando a vista ardilosa entre Julia e Eduardo, cuidava ter
+colhido um gesto intencional de ruim sentido, a raiva esbravejava-lhe nos
+olhos, e as comichões do nariz eram taes que lh'o avermelhavam como irrupção de
+bertoeja. Que vira elle, afinal? Dois olhares melancolicos e timidos, duas
+almas silenciosas a confidenciarem-se os seus sombrios destinos.</p>
+
+<p>Ah! mas que dupla vista a do padre!</p>
+
+<p>No fim d'aquelle anno de 1827, uma creada velha de D. Julia despediu-se da
+casa que servira cincoenta e dois annos. A ama forcejou por demovel-a,
+interpondo a auctoridade do capellão, cuja confessada era. Baldou-se a
+interferencia do padre.</p>
+
+<p>Sahiu a creada, deixando grandemente suspeitoso o confessor. Que motivo
+teria ella para deixar a casa onde já sua mãe havia nascido? Que iria ella
+fazer em um cazebre de Campolide, sem parentes, só, no termo da vida e tão
+descaroadamente apartada de Julia que se<span class="pn">{251}</span> lhe
+creára no colo? Perguntas que o padre fazia ao seu familiar demonio, que lhe
+andava negaceando ás cavalleiras de Eduardo.</p>
+
+<p>Uma manhã, sahiu de casa, e foi a Campolide. Entrou em casa da velha, fechou
+a porta, deteve-se duas horas, e, quando sahiu, trazia os olhos humidos, as
+faces enrugadas por mais dez annos de velhice, e as pernas trementes, vagarosas
+e vergando ao pezo da dôr que lhe empedrára o coração.</p>
+
+<p>Entrou no seu escriptorio, atirou-se para cima da cama, com a face entre as
+mãos, meditou largo espaço; e, afinal, abalado por subita deliberação, subiu á
+sala de espera, e mandou pedir á snr.ª D. Julia se fazia favor de descer á sala
+do archivo.</p>
+
+<p>A esposa de Venceslau descorou. Desde que era casada, nunca o padre a
+chamára a intender em papeis do archivo. A sahida da creada, e a auctoridade do
+confessionario, pareciam dar-lhe horas crueis, denunciadas pela fixidez
+averiguadora com que fitava o capellão.</p>
+
+<p>Desceu a fidalga ao archivo. O padre esperava-a com a mão na chave. Apenas
+ella entrou, correu a lingua da fechadura; e, mantendo-se em pé defronte da
+senhora, disse:</p>
+
+<p>&mdash;Como eu soubesse que V. Ex.ª estava perdida...</p>
+
+<p>&mdash;Perdida!...&mdash;interrompeu D. Julia.</p>
+
+<p>&mdash;Não me interrompa, senhora. Como eu soubesse que V. Ex.ª estava
+perdida, consultei a alma de sua virtuosa mãe e de seu honrado pae,
+pedindo-lhes que me inspirassem. O milagre de a levantarem do seu abysmo,<span
+class="pn">{252}</span> não podiam elles fazer-m'o; porém, fechar esse abysmo
+aos olhos de seu marido, isso sim, isso lhes pedi com estas lagrimas que estou
+chorando na sua presença...</p>
+
+<p>&mdash;Mas que é?... que vae dizer-me?... que calumnias?&mdash;disse
+precipitadamente D. Julia, gesticulando uns movimentos de cabeça e braços que
+arguiam mais terror que assombro.</p>
+
+<p>&mdash;Não gastemos exclamações, minha senhora. Eu não sou capaz de
+accusal-a sem a certeza de que V. Ex.ª é criminosa. Respeito-a na queda, porque
+a conheci e amei na pureza dos anjos. Não sou ecco de calumnias. Sou uma das
+pessoas que tem o segredo da sua desgraça. As altercações são inuteis, são
+extemporaneas. Não percamos tempo. Responda, snr.ª D. Julia: afóra a creada,
+que sahiu d'esta casa, e eu que brevemente sahirei, quem sabe esta grande
+desgraça? Quem viu aqui entrar, a horas desencontradas de seu marido, esse
+ingrato e infame homem? </p>
+
+<p>&mdash;Ninguem...&mdash;balbuciou D. Julia, tapando o rosto com as mãos.
+Depois, sacudindo a cabeça com impetuosa colera, perguntou:&mdash;A quem devo
+eu a desgraça? quem fez este casamento?... quem me aconselhou a victimar a
+minha liberdade a um homem que me fez envelhecer em contacto com o gelo da sua
+alma? Eu não precisava de um sabio, snr. padre Manoel, para ser feliz.
+Deixasse-me estar solteira, que eu era virtuosa...</p>
+
+<p>&mdash;Tudo que fiz, minha senhora, V. Ex.ª m'o auctorisou... Não
+discutamos... A minha razão perturba-se,<span class="pn">{253}</span> e eu
+depois receio que a snr.ª D. Julia não tenha um amigo que a salve. Se a
+consciencia me arguir de ter eu sido o agente d'este casamento, e eu não podér
+combatel-a, creia que morro de dôr, de vergonha e remorso. Não me diga tal, que
+me obriga a ajoelhar diante de seu marido a pedir-lhe perdão de lhe haver dito
+que V. Ex.ª havia de ser honrada como sua mãe.</p>
+
+<p>&mdash;Virgem Maria!&mdash;exclamou anciosa D. Julia.&mdash;Não faça isso...
+pedem-lh'o os meus filhos...</p>
+
+<p>&mdash;E não lhe pediram seus filhos que fosse honesta?...&mdash;replicou
+severamente o capellão.&mdash;Ter dois filhos, dois anjos da guarda, dois
+amparadores, affectos tão grandes com que encher a sua alma... ter dois
+filhos... e resvalar por entre elles á voragem!...</p>
+
+<p>&mdash;Olhe que me despedaça!...&mdash;murmurou ella, contorcendo-se, em
+postura supplicante.&mdash;Lembre-se de meu pae...</p>
+
+<p>&mdash;Seu pae... matal-a-hia... Eu, por mim, choro-a... porque não pude
+saber isto um dia antes da sua perdição... não pude salval-a eu... a quem seu
+pae a entregou...</p>
+
+<p>Padre Manoel arquejava, debulhado em pranto, fincando os pulsos na fronte.
+</p>
+
+<p>&mdash;V. Ex.ª... a snr.ª D. Julia...&mdash;proseguiu elle&mdash;aquella
+menina que eu adorava... está ahi... polluida... por quem, meu Deus?... Onde
+aquelle scelerado veiu continuar as devassidões das alcovas em que achou já
+perdidas as mulheres... V. Ex.ª... a esposa<span class="pn">{254}</span> de
+Venceslau Taveira... amante do miseravel esposo da sua infeliz amiga D. Anna
+Vaz!...</p>
+
+<p>D. Julia, mortalmente pallida, sentou-se, expedindo um ai gemente, um som
+rouco das valvulas do coração, como se o sangue lhe confluisse a torrentes. Não
+seria facil decidir se era remorso, se vergonha, se colera: seria tudo a um
+tempo.</p>
+
+<p>Aproximou-se o padre, tomou-lhe a mão fria, e disse-lhe com brandura:</p>
+
+<p>&mdash;Olhe que só Deus é testemunha do que eu lhe disse... Eu hei de sahir
+d'este mundo sem a denunciar... Reanime-se, que eu não hei de ser-lhe peor
+algoz que a sua propria consciencia... Eu vou sahir d'esta casa... porque a
+presença de seu marido, d'hoje em diante, seria para mim o maior tormento...
+Não posso encarar aquelle honradissimo homem... vituperado, trahido... e por
+quem?... Ó meu Deus&mdash;clamou elle pondo as mãos&mdash;porque não me déstes
+o beneficio da morte antes d'esta horrivel certeza!</p>
+
+<p>D. Julia soluçava, debatendo-se, ora afogando as faces nas mãos, ora
+erguendo-as supplicantes.</p>
+
+<p>E o padre, contemplando-a n'aquelles desesperados movimentos, disse:</p>
+
+<p>&mdash;Eu cuidei que o crime endurecia mais a coragem para lhe affrontar as
+consequencias. Pois nunca previu o remorso? Não conhecia o homem que a
+chafurdou na lama das libertinas das suas sordidas proezas? Não o comparou com
+seu marido?<span class="pn">{255}</span></p>
+
+<p>Estas phrases duras e hervadas batiam tão pungentes no peito da atormentada
+mulher, que o padre, olhando-a já compassivo, imaginou vêr-lhe no rosto a
+lividez cadaverica da mãe que morrêra thysica.</p>
+
+<p>Acercando-se então d'ella com brandura e lagrimas na voz, continuou:</p>
+
+<p>&mdash;Snr.ª D. Julia, peço-lhe emenda de vida... Não sei que mais possa nem
+deva pedir-lhe. Promette-me, senhora, promette nunca mais...</p>
+
+<p>Foi n'este passo interrompido o padre por um gesto afflicto de Julia.</p>
+
+<p>No mesmo lanço do rez da casa do archivo, estava o páteo da casa, onde,
+n'aquelle instante, soavam uns passos que ella reconheceu.</p>
+
+<p>Era Venceslau Taveira, que se antecipára duas horas.</p>
+
+<p>D. Julia subiu celeradamente as escadas, entrou no seu quarto, compoz o
+semblante, e cogitava indecisa no que diria ao marido se lhe elle notasse a
+desfiguração.</p>
+
+<p>N'este comenos, entrou elle na ante-camara, chamando-a.</p>
+
+<p>Ella sahiu, e elle, ao vêl-a, disse-lhe:</p>
+
+<p>&mdash;Choraste?... Então já sabes alguma coisa da pobre Anna Vaz?</p>
+
+<p>&mdash;Não... que é?...</p>
+
+<p>&mdash;Pois não sabes?... porque choraste, filha?</p>
+
+<p>&mdash;Tristeza... dôres de peito... o presentimento da morte...<span
+class="pn">{256}</span></p>
+
+<p>&mdash;Ó filha...&mdash;disse elle acariciando-a.&mdash;Que lembrança!...
+Deixei-te alegre, a brincar com os filhos... Que tens tu, Julia?</p>
+
+<p>&mdash;Nada...</p>
+
+<p>Esta palavra deu nos labios tremulos de Julia um sonido gemente, ao mesmo
+tempo que as lagrimas a quatro deslisavam nos cantos da bocca.</p>
+
+<p>E Venceslau mergulhava uma profunda vista d'alma no abysmo d'onde sahiam
+aquellas lagrimas. Tudo trevas.</p>
+
+<p>&mdash;Eu suppuz que a pobre Anna Vaz te escrevêra...&mdash;tornou
+Venceslau, procurando desassombrar o silencio em que estiveram alguns
+segundos.</p>
+
+<p>&mdash;Não...&mdash;disse ella, cobrando alento do insuspeito ar do
+marido.</p>
+
+<p>&mdash;Recebi este bilhete do commendador, e sahi immediatamente das côrtes.
+Lê... Eu t'o leio. «Meu nobre amigo. Vae hoje um inferno n'esta casa.
+Romperam-se os diques da prudencia. A minha santa filha, por já não poder com o
+martyrio, insurgiu contra o algoz. Sei que o facho d'este incendio, que me
+queima o restante da vida, é o ciume; porém, a nobre menina, se eu lhe pergunto
+a causa nova d'esta insupportavel affronta&mdash;insupportavel em relação
+d'outras que soffreu com paciencia&mdash;chora, e não me responde. Rogo-lhe,
+meu querido Venceslau, amparador do meu chorado Antonio, que o seja tambem da
+malfadada irmã. Venha applacar esta feia tormenta que ameaça engulir a vida da
+minha infeliz Anna.»<span class="pn">{257}</span></p>
+
+<p>&mdash;Aqui tens a carta&mdash;proseguiu Venceslau.&mdash;Não quiz lá ir sem
+te avisar. Se quizesses ir tambem...</p>
+
+<p>&mdash;Não posso...&mdash;disse ella no maior grau de quebranto
+moral.&mdash;Vae tu... depois me dirás... Vae...</p>
+
+<p>E apertou-lhe a mão estremecidamente.</p>
+
+<p>&mdash;Tens fogo n'esta mão... acudiu o esposo com enternecido susto.</p>
+
+<p>&mdash;É febre... disse ella, fitando-o piedosamente.<span
+class="pn">{258}<br>{259}</span></p>
+
+<h1><a name="SECTION000220000000000000000">XXI</a></h1>
+
+<blockquote>
+ <p>C'est un mort..............................<br>
+ Que cette horrible fin puisse épurer son âme.</p>
+
+ <p class="obra">P<small>ONROY.</small>&mdash;<em>Formes et couleurs.</em></p>
+</blockquote>
+
+<p>Quando Venceslau entrou ao pateo do palacete do commendador, andava elle
+passeando no casarão rente da rua, recinto abandonado onde se viam as reliquias
+de equipagens, significativas de antiga e extincta opulencia.</p>
+
+<p>&mdash;Nunca o encontrei aqui, meu commendador!&mdash;disse o
+deputado.&mdash;Está no seu museu archeologico... Estas carruagens devem ser as
+locomotivas que transponham a ideia velha para fóra das fronteiras, quando a
+mandarmos civilisar-se a Argel... Mas não lhe vejo rosto para gracejos... Que
+temos? onde estão os ciumosos?</p>
+
+<p>&mdash;Lá em cima, e eu fugi para os não ouvir... Escute... Não ouve chorar
+minha filha?... Escute... olhe...</p>
+
+<p>&mdash;Ouço.<span class="pn">{260}</span></p>
+
+<p>&mdash;Vá lá, meu amigo. Estão na salêta proxima do quarto. A sua presença
+ha de conter Eduardo, e evitar que a pobre menina seja enxovalhada por algum
+insulto de lacaio. Olhe que brados elle está dando em quanto ella chora... Que
+verdugo!...</p>
+
+<p>Venceslau subiu á primeira sala, passou á segunda e entrou n'um longo
+corredor que abria na ante-camara de Eduardo. Quando chegou a meio do corredor,
+pareceu-lhe ouvir o nome de Julia entre os soluços de D. Anna Vaz; e, ao mesmo
+tempo, um estropear de passos rapidos, que lhe levavam para mais longe as vozes
+já indistinctas.</p>
+
+<p>Hesitou se devia atravessar a ante-camara, e seguil-os no interior da casa
+ou retroceder; mas os gritos supplicantes da amiga de sua esposa attrahiam-no,
+commiserando-o.</p>
+
+<p>Bosquejemos a parte da casa onde está passando o conflicto.</p>
+
+<p>A saleta, em que principiou a vigorosa altercação, exacerbada muitas vezes
+n'aquelle dia, tem tres portas: uma que abre para o corredor onde está
+Venceslau; outra que diz para a alcova onde demoram os leitos dos tres meninos;
+e a terceira que leva á camara dos esposos. N'esta camara ha outra porta que
+communica para outros repartimentos, por entre os quaes ha escada para um
+patim, que dá sahida para o quintal ajardinado. Esta era a serventia regular de
+Eduardo, quando recolhia tarde, entrando pela porta do quintal que entestava
+com a rua dos Cavalleiros.<span class="pn">{261}</span></p>
+
+<p>Ao avisinhar da salêta colligiu Venceslau que Eduardo, seguido da esposa,
+que talvez o ia retendo em grandes clamores, sahiu do quarto, e evadiu-se pelo
+interior da casa, descendo ao quintal para esquivar-se ás importunas lastimas.
+</p>
+
+<p>N'esta acertada conjectura, deliberou Venceslau seguil-os, bem que ainda, ao
+entrar na salêta, o contivesse o decoro de atravessar uma alcova de esposos.
+</p>
+
+<p>Durante os breves segundos da perplexidade, reparou em papeis dispersos no
+pavimento. Suppoz que eram cartas occasionaes da desordem, talvez colhidas
+ardilosamente nas algibeiras do imprevidente marido.</p>
+
+<p>Venceslau envergonhar-se-hia da sua sombra, se se curvasse a devassar alguma
+d'aquellas cartas; mas, sobre uma banqueta que occupava o centro da
+ante-camara, estava meio amarrotado um papel escripto, cujos caracteres deram
+logo e mais de perto na vista de Venceslau.</p>
+
+<p>Era lettra de D. Julia.</p>
+
+<p>Hesitou ainda em lançar mão do papel; mas a particularidade dos signaes
+impressos na carta por mão que a enrugasse, estimulou-o a vêr que phrases deram
+causa ao phrenesi de Eduardo. Tanto quanto a rapidez de tal juizo consentia,
+Venceslau imaginou que o pessimo marido se exasperára, talvez, por ter lido
+cartas de compaixão de Julia para a sua mortificada amiga.</p>
+
+<p>Pegou do papel, distendeu-o, leu a primeira palavra no alto da lauda, alisou
+um vinco onde uma lettra parecia desfeita, releu e... vibrou-se todo no
+estremecer<span class="pn">{262}</span> dolorosissimo de homem que um subito
+ferro encravou pelo peito. A palavra era <em>querido</em>. A lettra final
+d'ella não era um <em>a</em>.</p>
+
+<p>Leu a carta rapido, offegante, respirando a trancos, sopesando o arfar do
+peito. Dizia assim:</p>
+
+<p>«Calcula a minha inquietação, meu E.! Não pude dissuadir a creada... Sahiu,
+regeitando todas as minhas dadivas. Foi uma desgraça que ella te visse... Devo
+isto ás tuas imprudencias. O que mais me assusta é o padre, que está espantado
+com tal sahida. Elle tem sido o confessor d'ella. Se a interrogar no
+confessionario, arranca-lhe o segredo. E depois?... que hei de eu fazer?!...
+Espero que o padre me não denuncie... mas com que olhos me ficarão espionando
+os passos!... Não voltes aqui em quanto eu não te avisar. Vae todas as tardes
+ao logar que sabes. Lá irá ter a minha carta; mas, repito, não voltes aqui sem
+que eu t'o diga. Prudencia, ouviste? Olha que a situação é muito seria...
+Tenho-te dito muitas vezes que o V. é capaz de tudo... Adeus. Cuidado com as
+minhas cartas...»</p>
+
+<p>Venceslau, terrivelmente sereno, depoz o papel sobre a mesa, retrocedeu ao
+longo do corredor, e, no fim, parou, escutando passos em uma das salas. A este
+tempo já elle ouvia o chorar de D. Anna que tambem retrocedêra para o seu
+quarto. O andar, que escutava, era do pae de D. Anna que subira para as salas e
+estava esperando o effeito da intervenção do amigo.</p>
+
+<p>Venceslau, estugando o passo surdamente, passou<span class="pn">{263}</span>
+sem rumor na alcatifa da sala de espera, desceu a escada, e sahiu á rua.</p>
+
+<p>O commendador, entretanto, como não ouvisse vozes, mas sómente o arquejar da
+filha, murmurando: «ah! pobres creancinhas!» seguiu o corredor, e foi dar com
+ella apanhando do chão as cartas espalhadas.</p>
+
+<p>&mdash;Que papeis são esses?&mdash;perguntou o commendador.</p>
+
+<p>&mdash;Nada, meu pae... cartas...</p>
+
+<p>&mdash;O Venceslau sahiu com Eduardo?</p>
+
+<p>&mdash;O Venceslau!&mdash;disse ella com espanto.&mdash;Onde está elle?!</p>
+
+<p>&mdash;Veiu para aqui... ha de haver cinco minutos... não o viste?</p>
+
+<p>&mdash;Não, meu pae! Elle esteve aqui? aqui? n'esta salêta?&mdash;exclamou
+Anna.</p>
+
+<p>&mdash;Esteve, sim, filha.</p>
+
+<p>&mdash;E viu estas cartas?&mdash;bradou com as mãos afincadas nas fontes.</p>
+
+<p>&mdash;Se viu estas cartas?... Eu sei lá, filha... O Venceslau era incapaz
+de ler papeis que estivessem no teu quarto... Mas, se essas cartas são o que eu
+entendo, que importaria que as visse?</p>
+
+<p>&mdash;Jesus! Virgem Santa!&mdash;volveu D. Anna, enclavinhando os dedos, e
+estirando os braços supplicantes para uma imagem da Mãe de Christo.</p>
+
+<p>&mdash;Mas onde está elle?&mdash;tornou o velho.&mdash;Se não sahiu pelo
+quintal, por onde é que foi? Eu estava na sala do meio, e não o vi passar na
+sala de espera...<span class="pn">{264}</span></p>
+
+<p>&mdash;Não? não viu?...&mdash;perguntou ella precipitando as vozes
+acompanhadas de gestos de pavor.</p>
+
+<p>&mdash;Não, menina...</p>
+
+<p>&mdash;Então é que viu as cartas... sabe tudo... sabe tudo...</p>
+
+<p>&mdash;O que?&mdash;acudiu o commendador assombrado.</p>
+
+<p>&mdash;Ai! quem fosse procurar Eduardo...&mdash;exclamou ella, agitando-se
+d'um para outro angulo da salêta&mdash;ó meu pae, salve-o, salve-o; mande
+procurar meu marido, que Venceslau mata-o... Estas cartas são de Julia...</p>
+
+<p>&mdash;De Julia?!&mdash;bradou o velho, encostando-se tremente ao alizar da
+porta&mdash;De Julia? Julia é amante de teu marido?... Venceslau foi deshonrado
+pela mulher?... Oh! não me digas isso, filha!... Tu estás cega pela paixão do
+ciume... Deixa-me vêr essas cartas...</p>
+
+<p>&mdash;Não queira vel-as... não queira... Mas, meu pae, olhe que o Venceslau
+mata Eduardo... Acuda aos seus netos...</p>
+
+<p>O commendador fitou na filha os olhos chammejantes de odio, que raiára de
+sangue o alvor do spasmo, e murmurou:</p>
+
+<p>&mdash;Se o matar... matou o mais infame dos homens... porque matou o
+assassino da felicidade, da honra e do futuro do seu bemfeitor...</p>
+
+<p>&mdash;Mas...&mdash;insistiu Anna com as mãos postas&mdash;mas eu amo-o...
+eu quero que elle viva... fugirei com elle e com os meus filhos para onde o pae
+quizer que vamos... Deixe-me ir a mim procural-o...<span
+class="pn">{265}</span></p>
+
+<p>&mdash;Não sahirás d'esta casa... Não sei se é sangue, se lodo que te gira
+nas veias... Não sahirás d'esta casa, Anna!... e se teu marido aqui voltar,
+quem o mata... sou eu!</p>
+
+<hr class="dotted">
+
+<p>Simultaneamente com a prolongada lucta entre o velho inflexivel e a
+dilacerada alma d'aquella santa, recebia D. Julia este bilhete do marido:</p>
+
+<p>«Juliazinha, era uma tormenta de ciumes que deixei abonançada. Não te dê
+cuidado. Depois d'estas borrascas, reponta no céo dos amantes a serena
+claridade. O ministro mandava um correio procurar-me, quando eu chegava a S.
+Roque, já de volta para casa. Tive de retroceder, e sei que tenho tarefa até á
+meia noite. Não esperes por mim. Janta. Se eu podér desembaraçar-me, irei; mas
+não poderei, porque ha reunião de deputados no ministerio dos negocios
+estrangeiros. Adeus, querida. Teu V.»</p>
+
+<p>D'esta carta, assim placida e amoravel, transluziu-se no animo alvoroçado de
+Julia receio e desconfiança.</p>
+
+<p>Deu-se pressa em escrever com febril agitação. Chamou um lacaio, confidente
+unico, e deu-lhe uma carta.</p>
+
+<p>Eram cinco horas da tarde.</p>
+
+<p>O lacaio foi encontrar-se com Eduardo Pimenta debaixo dos arcos das
+Aguas-livres.</p>
+
+<p>Deu-lhe a carta, em que Julia concisamente lhe pedia que não a procurasse,
+mas lhe escrevesse a referir-lhe os acontecimentos domesticos d'aquelle dia. Á
+intimação positiva de lá não ir, nenhuma explicação ajuntava.<span
+class="pn">{266}</span> «Elle&mdash;concluia a carta&mdash;escreveu-me agora,
+dizendo-me que só vem á meia noite; mas eu estou muitissimo assustada. Não
+venhas.»</p>
+
+<p>Eduardo pesou as apprehensões de Julia, e não lhes achou gravidade. O creado
+esperava alguma resposta vocal.</p>
+
+<p>&mdash;Não digas nada á senhora&mdash;ordenou-lhe o generoso
+confidente&mdash;mas ás dez horas abre-me a porta da cocheira; e, depois que eu
+lá estiver, então irás dizer á senhora que eu entrei.</p>
+
+<p>Dito isto, foi ao Hotel de França, na praça dos Romulares, saboreou os
+acepipes do condimentoso jantar, digeriu-os em alegre palestra com os convivas,
+conversou das logrativas lorettes de França, das alabastrinas mulheres de
+Londres, das morenas de Sevilha, das pallidas de Lisboa, e fez-se ouvir e
+invejar dos admiradores de seu espirito e das famosas aventuras.</p>
+
+<p>Ás nove horas e meia, carregou pela quarta vez o seu cachimbo de procelana e
+ouro, apertou a mão dos discipulos e sahiu.</p>
+
+<p>Ás dez entrou na estrebaria do palacio das Amoreiras, e enviou o recado á
+fidalga, quando ella estava no seu quarto contemplando os filhos adormecidos.
+</p>
+
+<p>Por volta das onze, padre Manoel Ferreira, cujos aposentos nivelavam com o
+jardim, ouviu que lhe batiam mansamente na vidraça de uma janella. Collou o
+ouvido ás portadas interiores, e perguntou assustado quem era.<span
+class="pn">{267}</span></p>
+
+<p>&mdash;Abra a janella, padre Manoel&mdash;disse Venceslau a meia voz.</p>
+
+<p>O capellão reconheceu-o, e disse que ía abrir a porta.</p>
+
+<p>&mdash;A porta não... a janella...&mdash;insistiu o outro.</p>
+
+<p>Cumprida a ordem, Venceslau Taveira transpoz o peitoril.</p>
+
+<p>&mdash;Que é isto?! Snr. Venceslau, porque entra d'esta maneira em sua
+casa?!&mdash;perguntou o padre a tremer de susto.</p>
+
+<p>&mdash;Abra o mais subtilmente que poder.</p>
+
+<p>E apontava-lhe para a porta de communicação com o pateo onde estava a escada
+de serventia para o andar nobre.</p>
+
+<p>&mdash;Agora&mdash;disse Venceslau, sahindo&mdash;não me siga.</p>
+
+<p>&mdash;Ó snr. Taveira!... onde vae?...&mdash;balbuciou o padre.</p>
+
+<p>&mdash;Sabe onde vou?!&mdash;inquiriu severamente o marido de Julia.</p>
+
+<p>&mdash;Não, senhor.</p>
+
+<p>&mdash;Então porque se assusta?</p>
+
+<p>&mdash;Estranho isto...</p>
+
+<p>&mdash;Bem. Fique!&mdash;respondeu sêccamente.</p>
+
+<p>Minutos depois, D. Julia, pondo a mão nos labios de Eduardo, segredava-lhe:
+</p>
+
+<p>&mdash;Espera... não ouviste nada?...</p>
+
+<p>&mdash;Não...</p>
+
+<p>&mdash;Pareceu-me ouvir uns passos abafados na sala...</p>
+
+<p>Eduardo fitou o ouvido, e apesar de pallido e enfiado, murmurou:<span
+class="pn">{268}</span></p>
+
+<p>&mdash;Não é nada...</p>
+
+<p>N'este lance, abriu-se a porta da salêta, como se a impellisse um repellão
+de vento.</p>
+
+<p>Entre as hombreiras da porta estava Venceslau com uma pistola empunhada.</p>
+
+<p>Julia, já de pé, soltou um grito estridulo, e fugiu para o quarto onde
+estivera contemplando os filhos.</p>
+
+<p>Eduardo, ao levantar-se, fêl-o como de um salto de cadaver sacudido pela
+electricidade: tão de morto era a amarellidão do seu terror! Ergueu os braços
+inteiriçados. É impossivel conjecturar se o impulso d'aquelle movimento de
+indefinivel agonia era aggredir ou supplicar. A pederneira da pistola estalejou
+na cassoleta. Um dos braços de Eduardo retrahiu-se, e a mão, batendo rija no
+lado esquerdo do peito, parecia querer reprezar a vida no ponto onde entrára
+uma bala. Rodou meio giro sobre si, amparando a fronte na outra mão; e,
+resvalando pela espalda da cadeira onde estivera sentado, cahiu vasquejante.
+</p>
+
+<p>Venceslau atravessou a salêta, e parou no limiar da alcôva.</p>
+
+<p>Os meninos tinham acordado ao troar do tiro. Estavam sentados na cama,
+espavoridos, com os loiros cabellos riçados em anneis, e os olhos spasmodicos,
+brilhantes, fitos na mãe que os abraçava, e escondia o rosto entre elles.</p>
+
+<p>&mdash;Não se aterre, senhora!&mdash;disse serenamente Venceslau.&mdash;Olhe
+que não morre... Essas creanças não tem pae... é preciso que tenham mãe... Se
+fossem meninas,<span class="pn">{269}</span> se d'essas creanças podessem
+fazer-se mulheres, seria misericordioso estrangular as futuras herdeiras da sua
+infamia... Viva... peça a esses dous innocentes que a defendem da morte do
+remorso... E, se elles algum dia lhe perguntarem pelo pae, diga-lhes que as
+mulheres perdidas não sabem quem é o pae de seus filhos...</p>
+
+<p>O homicida atravessou a salêta, relançando um olhar inexprimivel ao cadaver.
+</p>
+
+<p>Quando sahia, viu o padre, que difficilmente se tinha em pé, com as mãos
+postas para elle.</p>
+
+<p>&mdash;Snr. padre Manoel&mdash;disse o marido de Julia&mdash;tenha a bondade
+de procurar ámanhã no Limoeiro o assassino Venceslau Taveira.<span
+class="pn">{270}<br>{271}</span></p>
+
+<h1><a name="SECTION000230000000000000000">XXII</a></h1>
+
+<blockquote>
+ <p>Seule, elle reste assise, et son front sans couleur<br>
+ Du remords qui s'approche a dejà la pâleur.</p>
+
+ <p class="obra">A. <small>DE </small>V<small>IGNY.</small>&mdash;<em>Poesies.</em></p>
+</blockquote>
+
+<p>Venceslau esperou o diluculo do dia seguinte, nas lages do Caes das Columnas
+onde a ventania do mar, encrespando o Tejo n'aquella noite de novembro,
+borrifava aguaceiros glaciaes.</p>
+
+<p>Mas elle, enroupado na sua febre, sentia refrigerar-se-lhe a fronte, se os
+pegões de vento lh'a roçavam, irriçando-lhe os cabellos.</p>
+
+<p>Ás vezes, n'aquella treva exterior, relampagueava um sulco de luz. E elle,
+ao clarão sulphuroso do corisco, via um cadaver boiando á flor da onda, e então
+era um rir asperrimo do louco&mdash;a epilepsia dos beiços onde espumava o
+rancor; e, logo depois, chorava, se, ao lampejo alvacento d'outra fulguração,
+via um berço com<span class="pn">{272}</span> duas creanças queridas,
+acorrentado no esquife de uma mulher, que a voragem ora sorvia, ora regolphava
+aos clarões da procella.</p>
+
+<p>Não meditava, não comparava, não carpia os bens da honra perdidos, nem se
+confrangia das punhaladas do coração. Era a agonia estupida.</p>
+
+<p>Os syndicos da alma, quando se demoram a descrevel-a n'aquella impenetravel
+escuridão, illudem-nos. Nós não sabemos graduar o frio e o fogo d'esses
+infernos. Os que passaram por ahi, não sabem dizer o que viram. A fantasia dos
+que lá não foram, por mais calcinadas que lhe flammegem as imagens, apenas
+vingará dar-nos em sombra as vascas do corpo que se esfacella; as da alma, não.
+</p>
+
+<p>Á primeira luz da manhã, Venceslau parecia ir caminho da casa onde deixára
+um cadaver. Não ía. Parou na travessa do Secretario da guerra, onde morava o
+corregedor do crime José Antonio da Silva Pedroza, seu companheiro de
+emigração.</p>
+
+<p>Fez-se annunciar a tempo que o magistrado ainda dormia. Não o attenderam os
+creados que o não conheciam. Sentou-se no escabello do pateo, esperando. Mais
+tarde entrou um official de justiça que conheceu o grande orador, o rico
+fidalgo das Amoreiras. Cortejou-o reverentemente, e foi acordar o corregedor,
+dizendo-lhe que o conselheiro, official-maior da secretaria dos negocios
+estrangeiros, o esperava no pateo desde o romper da manhã.</p>
+
+<p>O magistrado, erguendo-se em inquieta expectação,<span
+class="pn">{273}</span> foi recebel-o á sala, e fez pé atraz ao vêr-lhe o
+transtorno das feições.</p>
+
+<p>&mdash;V. S.ª a estas horas aqui?... grande caso!... Ha revolta?...</p>
+
+<p>&mdash;Snr. Pedroza&mdash;disse Venceslau.&mdash;Vi um homem na ante-camara
+de minha mulher. Matei-o. Não sei se era o crime que o levou alli, se a
+intenção do crime. Matei-o. Eu era amigo d'este homem, amigo de dezeseis annos,
+valedor nas suas miserias, consolador nas suas lagrimas. Matei-o, porque o
+tinha amado como os infelizes bons amam os infelizes bons e máos.</p>
+
+<p>&mdash;Snr. conselheiro&mdash;disse o corregedor.&mdash;Nós fômos
+companheiros no desterro. V. S.ª tinha dois amigos: um era Antonio Vaz que lhe
+morreu nos braços; o outro era...</p>
+
+<p>&mdash;Matei esse...&mdash;atalhou o homicida.</p>
+
+<p>&mdash;Bem morto...&mdash;murmurou o juiz.</p>
+
+<p>&mdash;A justiça me julgará.</p>
+
+<p>&mdash;Está julgado; mas fuja... cá o livraremos.</p>
+
+<p>&mdash;Não fujo. Dê-me V. S.ª um mandado de prisão para me eu apresentar ao
+carcereiro. Desde o momento que me accusei ao executor da lei, estou preso.</p>
+
+<p>O corregedor abraçou-o, dando livre curso ás lagrimas.</p>
+
+<p>Como não tivesse áquella hora escrivão que lavrasse o mandado, escreveu ao
+carcereiro, enviando-lhe o preso que deveria ser hospedado em sua casa.</p>
+
+<p>N'aquelle tempo os ministros criminaes podiam ter<span
+class="pn">{274}</span> d'estes rasgos, sem receio que a imprensa lhes
+lembrasse a egualdade dos criminosos perante a lei.</p>
+
+<p>Em quanto o preso seguia só para o Limoeiro, o corregedor mandava lavrar
+auto, e entregar o cadaver á viuva, ou ao coveiro da mais proxima egreja.</p>
+
+<p>Quando Venceslau chegou ao pateo da cadeia, já lá estava o padre Manoel
+Ferreira.</p>
+
+<p>O réo apertou-lhe a mão silenciosamente, e enviou ao carcereiro a carta.</p>
+
+<p>Acudiu logo o funccionario a conduzil-o aos seus aposentos.</p>
+
+<p>&mdash;Onde é o meu quarto?&mdash;perguntou o preso.</p>
+
+<p>&mdash;É toda a minha casa, snr. conselheiro.</p>
+
+<p>&mdash;Não lh'a acceito, mas muito grato lhe fico. Se me quer favorecer,
+dê-me um quarto, onde eu esteja sósinho.</p>
+
+<p>&mdash;Ninguem virá incommodar V. S.ª sem sua ordem.</p>
+
+<p>O carcereiro sahiu da confortavel salêta onde ficaram o preso e o capellão.
+</p>
+
+<p>Assim que ficaram a sós, o padre apertou-o contra o peito que lhe rebentava
+em lagrimas.</p>
+
+<p>Venceslau não pôde reter as suas; porém, se o padre queria abrir ensejo de
+conversarem sobre os successos d'aquella noite, era estorvado por um gesto
+afflicto.</p>
+
+<p>Não obstante, o capellão pôde dizer que D. Julia tinha sahido ás duas horas
+da manhã com os filhos para a sua quinta da Ericeira, e que não deixára ordem
+nenhuma a respeito da casa.<span class="pn">{275}</span></p>
+
+<p>&mdash;De mim não tem ordens a receber, snr. padre Manoel&mdash;acudiu
+Venceslau.</p>
+
+<p>&mdash;Pois de quem?</p>
+
+<p>&mdash;Essa pergunta diz mal com a sua provada honra. Na casa, onde V. S.ª é
+capellão, deixei uns poucos de livros, que receberei, porque são os utensilios
+do meu pão de cada dia. Recebel-os-hei porque sou pobre; e porque a Providencia
+me ha de defender com elles a razão, e corroborar a honra.</p>
+
+<p>&mdash;Mas os seus filhos...&mdash;balbuciou o padre.</p>
+
+<p>&mdash;Silencio!&mdash;interrompeu Venceslau.&mdash;Por piedade, calle-se...
+e deixe-me! Que novo inferno me vem trazer aqui!... <em>Meus filhos!...</em>
+Filhos d'ella, sim, padre! filhos da mulher a quem eu deixei um cadaver, sobre
+o qual, ella... e elles... podem rezar suffragios por alma de... seu pae!</p>
+
+<p>&mdash;Oh! por Deus!... Essa suspeita é horrenda... e injusta!...</p>
+
+<p>&mdash;Basta!&mdash;bradou Venceslau.&mdash;Vá, snr. padre Manoel, que me
+está despedaçando...</p>
+
+<p>E levou-o até á porta impellindo-o com quanta brandura cabia na delicadeza,
+incompativel com o arrebatamento.</p>
+
+<p>O padre foi encontrar a justiça no palacio das Amoreiras. Os aguazís e
+visinhos devassavam a alcova de Julia, os leitos, os vestidos em desalinho nos
+cabides, a guarda-roupa estofada de setins e velludos, as roupas brancas das
+creancinhas, os sapatos da fidalga com as<span class="pn">{276}</span> fitas de
+rojo, e alli á beira de tudo isto, que respirava a felicidade conjugal, as
+delicias da intimidade, estava um cadaver rôxo, nú para o exame, com uma chaga
+escalavrada entre a quarta e quinta costella, e uns meandros de sangue
+denegrido a serpejarem-lhe peito abaixo até á cintura.</p>
+
+<p>D'ahi a pouco parou a sege funeraria que devia conduzir a tumba a casa da
+viuva. Era acompanhada por seis homens de crepes, a pé, com os cirios apagados
+pelas rajadas do vento.</p>
+
+<p>Padre Manoel perguntou ao escudeiro do commendador qual era a situação de D.
+Anna Vaz.</p>
+
+<p>&mdash;Está fechada com os filhos e com o snr. commendador&mdash;respondeu o
+escudeiro.&mdash;Ouvi chorar os meninos, mas ella não na ouvi. A aia disse-me
+que a senhora morre.</p>
+
+<hr class="dotted">
+
+<p><span class="pn">{277}</span></p>
+
+<p> </p>
+
+<p> </p>
+
+<p> </p>
+
+<p> </p>
+
+<p>Todos os homens assignalados por talento e encargos publicos procuraram o
+preso. No primeiro dia, Venceslau, sem força para reagir, recebeu-os. A visita
+era silenciosa, funeral, como a dos que vão desanojar um viuvo extremoso. O
+encarcerado apenas chorou nos braços de um homem que lhe disse: «Dou-te os
+parabens, porque a não mataste. A tua condemnação maior, e talvez unica,
+ser-te-hia haver morto a mulher, que amaste tanto.» Então, sim, chorou. O homem
+que disse aquellas palavras, tão penetrativas aos abysmos do coração, chorava,
+quando m'as repetia, quarenta e um annos depois. Era o tenente de cavallaria,
+que em 1868, se chamava o general Pedro da Silva, a quem devo o titulo d'este
+livro.</p>
+
+<p>E, se bem me recordo, o general proseguiu n'este theor, referindo-se á epoca
+do encarceramento:<span class="pn">{278}</span></p>
+
+<p>«O padre Manoel Ferreira e eu eramos as unicas pessoas recebidas no quarto
+de Venceslau, o n.º 6 do ultimo andar, onde, n'aquelle tempo se lia ainda
+aberto no alisar de uma porta o nome de Bocage que alli estivera preso por
+atheu. O padre Manoel Ferreira, não ousava proferir o nome de Julia; mas
+particularmente me contou a mim que ella na madrugada do dia seguinte á grande
+desgraça, soffrêra uma febre cerebral, indo na sege, caminho da Ericeira. E
+ajuntou, nas diversas vezes que a tal respeito conversamos, que a doença de
+peito com successivas hemorragias, ia tão adiantada que, na opinião do medico,
+os tecidos pulmonares estavam dilacerados. Pedia-me então o padre que fosse eu
+preparando Venceslau para dispôr dos filhos, logo que ella expirasse.</p>
+
+<p>«Ora eu evitava quanto podia fallar em creanças, porque o meu amigo
+reconcentrava-se; e, se as lagrimas o não desabafavam, a dôr prostrava-o por
+tal maneira que fazia recear a loucura. Os filhos do carcereiro visitavam-no.
+Elle acariciava-os com uns carinhos tão doces e ao mesmo tempo tão angustiados,
+que eu tive de pedir ao pae dos pequeninos que os prohibisse de ir ao quarto do
+preso.</p>
+
+<p>«Venceslau era indifferente ao processo; mas a justiça, independente de
+solicitações, andou tão pressurosa nos seus deveres, que em meado de
+janeiro&mdash;mez e meio depois do delicto&mdash;o réo foi julgado e
+absolvido.</p>
+
+<p>Á sua entrada no tribunal fez-se um rumor de compadecido assombro.
+Venceslau, que então contava trinta<span class="pn">{279}</span> e sete annos,
+tinha encanecido. Os sulcos da velhice, abertos pelas lagrimas, arrugavam-lhe o
+rosto, cujas feições pareciam estar como atrophiadas, paradas, immoveis
+d'aquelle sombrio marasmo da demencia estupida e morta.</p>
+
+<p>«Ao sahir do carcere, entrou na carruagem do marquez de Palmella, que então
+era nosso ministro em Londres, e de lá providenciára em favor do seu
+intelligente secretario e collaborador no ministerio dos negocios estrangeiros.
+Por conselho dos medicos, levamol-o para a quinta do marquez, no Lumiar, onde
+eu passei com elle as horas vagas do serviço militar, até fevereiro do seguinte
+anno de 1828, em que chegou D. Miguel.</p>
+
+<p>«Estavamos em uma sala triste por tarde tenebrosa de janeiro, quando chegou
+padre Manoel Ferreira, e me chamou de parte, para me dizer entre soluços que a
+infeliz D. Julia tinha morrido, pouco depois que em confissão lhe jurára pelo
+futuro da sua alma, e na presença da sagrada Eucharistia, que Venceslau era o
+pae dos seus filhinhos.</p>
+
+<p>«&mdash;E onde estão os meninos?&mdash;perguntei eu ao padre.</p>
+
+<p>«&mdash;Deixei-os entregues ás suas amas, e venho saber que destino devo
+dar-lhes.</p>
+
+<p>«&mdash;O snr. padre Manoel&mdash;disse eu&mdash;tem n'este lance a uncção
+religiosa que requer semelhante revelação. Revista-se de animo, e diga-lh'o,
+porque é inevitavel avisal-o, e não póde espaçar-se a noticia.</p>
+
+<p>«O padre entrou á sala onde Venceslau, ao pé do<span class="pn">{280}</span>
+fogão, parecia amolentado n'um lethargico dormir em que passava os dias e as
+noites, como se o cerebro, a pouco e pouco, se estivesse repassando da
+narcotisação da morte.</p>
+
+<p>«O padre apertou-lhe a mão, espertou-o, e quedou-se longo espaço a
+contemplal-o, até que Venceslau lhe disse:</p>
+
+<p>«&mdash;Porque chora, padre Manoel?</p>
+
+<p>«&mdash;Choro por seus filhos...</p>
+
+<p>«&mdash;Não venha ensopar mais fel na esponja...&mdash;murmurou Taveira.</p>
+
+<p>«&mdash;Venho pedir-lhe que consinta que seus filhos o vejam. As creançinhas
+já não tem mãe. A snr.ª D. Julia é morta.</p>
+
+<p>Venceslau ergueu-se amparado nos braços do capellão, encarou-o muito a fito,
+e tartamudeou:</p>
+
+<p>«&mdash;Que diz? morta?...</p>
+
+<p>«&mdash;Rendeu o espirito a Deus, ás duas horas da manhã, na sua quinta da
+Ericeira. Quando o vigario lhe ministrava a extrema-uncção, a moribunda
+chamou-me, e, pondo as mãos nas cabeças de seus filhos, disse-me: «Juro-lhe, na
+presença de Deus, onde vou dar contas da minha vida, que Venceslau é o pae
+d'estes dous innocentinhos, que vão ficar sem mãe.» Duas horas depois, estava
+no tribunal divino.</p>
+
+<p>Venceslau inclinou a fronte ao peito do padre, e murmurou: «perdôa-lhe, ó
+justiça divina!...»<span class="pn">{281}</span></p>
+
+<h1><a name="SECTION000240000000000000000">XXIII</a></h1>
+
+<blockquote>
+ <p>Do ferro o peito atravessado tinha<br>
+ De que o sangue ainda fresco lhe manava.</p>
+
+ <p class="obra">G<small>ABRIEL </small>P. <small>DE
+ </small>C<small>ASTRO.</small>&mdash;<em>Ulyssea.</em></p>
+</blockquote>
+
+<p>Os amigos do marquez de Palmella compelliram Venceslau Taveira a sahir para
+Londres, quando os primeiros actos precursores do absolutismo deram rebate á
+emigração dos liberaes mais expostos ao odio.</p>
+
+<p>Sabia-se que o fogoso deputado era, sem impedimento da sua queda,
+rancorosamente visto pelos realistas, que lhe sobrepunham aos delictos de
+liberal a sobrecarga de assassino.</p>
+
+<p>A vasta parentella da viuva de Eduardo Pimenta conjurára em vingar a
+inconsolavel senhora, inflexivel contra o homem, que lhe matára o marido, e
+deixára com vida a mulher em cujo quarto o encontrára. N'esta<span
+class="pn">{282}</span> conjuração o commendador Vaz era de todo estranho.
+Desde a hora em que a tumba do genro entrára em casa, o velho sahira com os
+netos para o Riba-Tejo, deixando a filha entregue aos parentes.</p>
+
+<p>Venceslau, porém, resistira ás insinuações dos amigos, até ao momento em que
+lhe figuraram os filhos trajando lucto por seu pae, morto no patibulo.
+Levaram-no, pois, á deliberação de exilar-se, entregando os meninos a padre
+Manoel Ferreira, depois de os haver tido comsigo um mez, na quinta do Lumiar.
+</p>
+
+<p>E, como o padre lhe perguntasse por que via as remessas de dinheiro haviam
+de ser feitas para Londres, Venceslau respondeu que todos os haveres de D.
+Julia eram dos filhos, e elle nada receberia do patrimonio das creanças.</p>
+
+<p>Expatriou-se, na vespera do dia em que era procurado á ordem de José Antonio
+de Oliveira Leite Barros, aquelle celebrado conde de Basto, que se mascarrou de
+sangue para dar uns longes de semelhança com o marquez de Pombal, injuriando-o.
+</p>
+
+<p>A intelligencia de Venceslau Taveira, durante os quatro annos de exilio,
+quedou-se no torpor esteril d'onde nunca mais resurgiu. Espirito e coração
+haviam sido fulminados da mesma morte. O marquez de Palmella, sentando-o á sua
+mesa, e forçando-o a vestir-se da sua guarda roupa, venerava-o mais que
+n'aquelles annos em que o consultava nos casos melindrosos da sua missão
+diplomatica. Se ás vezes, em signal de preito<span class="pn">{283}</span> a um
+talento apagado pelas lagrimas, o convidava a pensar em perigosas conjuncturas
+diplomaticas, Venceslau entrava-se d'uma tristeza consternadora, e dizia:</p>
+
+<p>&mdash;Perdido... tudo negro n'este pobre espirito...</p>
+
+<p>E era deploravel no convencimento da sua inutilidade. Pedia a Deus que lhe
+apagasse a luz, que o queimava, sem lhe alumiar a razão escurecida.</p>
+
+<p>Em 1832 despediu-se do marquez e alistou-se na expedição de D. Pedro
+<small>IV</small>.</p>
+
+<p>Desembarcou no Mindello, vestiu a farda de simples soldado, entrou nas
+principaes batalhas, e de quasi todas sahiu ferido.</p>
+
+<p>O governo do Porto reintegrou-o no seu antigo posto de official maior de
+secretaria, cujo serviço lhe era penoso, porque o cansaço, á menor applicação,
+lhe abastecia as trevas do entendimento.</p>
+
+<p>Levantado o cêrco foi para Lisboa, e avisou o padre Manoel, de quem, a
+grandes intervalos, recebia cartas em nome supposto.</p>
+
+<p>O filho mais velho tinha então onze annos e o outro nove. Eram ambos
+educados no Collegio dos Nobres, e denotavam dotes de rara capacidade.</p>
+
+<p>O padre apresentou ao official maior as contas da sua administração,
+dando-lhe a guardar alguns contos de reis excedentes ás despezas. Venceslau
+rejeitou o deposito, insistindo em declinar de si a minima interferencia na
+herança de seus filhos.</p>
+
+<p>Indagou da existencia de D. Anna Vaz. Disse-lhe<span class="pn">{284}</span>
+o padre que o commendador era fallecido; que os credores de Eduardo Pimenta
+haviam penhorado as duas quintas e palacete do patrimonio da viuva, e que esta
+se acolhêra ao convento da Encarnação, onde vivia pobremente. Quanto aos tres
+filhos alguns parentes se haviam encarregado de os educar.</p>
+
+<p>O governo constituido mandou pagar ao conselheiro official maior os
+ordenados suspensos durante a emigração. Recusou-os.</p>
+
+<p>Habitava um quarto andar na rua da Rosa das Partilhas, e alimentava-se d'uma
+taverna que occupava os baixos da casa. E, como os remanescentes do seu
+ordenado abastavam para vida mais desafogada, elle enviava mensalmente uma
+quantia ao convento da Encarnação, mediante padre Manoel Ferreira, que não era
+todavia o portador da esmola. O capellão do mosteiro, adestrado por conselho do
+outro, dava o dinheiro a D. Anna Vaz, dizendo-lhe que uma illustre dama, que a
+conhecêra na abastança, lhe pedia licença para a soccorrer em tão honrada
+quanto penosa viuvez.</p>
+
+<p>Em 1834, a cholera-morbus entrou no Collegio dos Nobres. Venceslau ordenou
+ao padre, administrador da casa de seus filhos, que os transferisse para o seu
+palacio das Amoreiras. Ao mesmo tempo, o contagio feria tambem o pae. Padre
+Manoel achou-o no leito, quando lhe levava nova de ser fallecido um filho.
+Chorou, mas enguliu o segredo nas lagrimas. O enfermo disse-lhe então
+serenamente:<span class="pn">{285}</span></p>
+
+<p>&mdash;Posso morrer; os atacados n'este predio têm morrido todos. Levo
+saudades dos meus filhos;... mas deixo-lh'os. Nunca lhes conte a historia de
+sua mãe. </p>
+
+<p>E o padre a ouvil-o, e a estancar nos olhos o sangue do coração!</p>
+
+<p>Quando lá voltou no dia seguinte, encontrou Venceslau livre de perigo; mas
+como era já de dois gumes o ferro com que devia cortar-lhe os fios da vida,
+calou-se ainda. O segundo filho estava moribundo.</p>
+
+<p>Um dia, Venceslau, já convalescente, disse ao padre que lhe levasse os
+filhos ao Campo Grande, que os queria vêr.</p>
+
+<p>&mdash;Não m'os conduza aqui&mdash;accrescentou elle&mdash;porque ainda ha
+colericos n'este predio.</p>
+
+<p>E o padre, cahindo em joelhos, poz as mãos, e exclamou:</p>
+
+<p>&mdash;Coragem, senhor!</p>
+
+<p>&mdash;Que vae dizer-me, padre Manoel?</p>
+
+<p>&mdash;Que os seus filhos...</p>
+
+<p>&mdash;Morreram?</p>
+
+<p>&mdash;Estão no céo, pedindo a Nosso Senhor Jesus Christo que lhes dê a alma
+de seu pae.</p>
+
+<p>Venceslau perdeu o alento.</p>
+
+<p>Era a primeira vez que aquella forte alma se escondia por largo espaço nas
+trevas da morte.</p>
+
+<p>Quando recuperou os sentidos, e apalpou a realidade medonha da sua vida,
+inspirou aos amigos, que o rodeavam, o receio da loucura.</p>
+
+<p>Um d'aquelles amigos era o presidente de ministros<span
+class="pn">{286}</span> duque de Palmella, que o levantou nos braços, e o
+amparou até o assentar na sua carruagem.</p>
+
+<p>Depois, o anjo da piedade beijou-lhe as palpebras. As lagrimas golpharam a
+torrentes; mas a luz dos olhos sahiu diluida n'ellas. Venceslau aos quarenta e
+dous annos estava quasi cego.</p>
+
+<p>E viveu!</p>
+
+<p>Vivia em 1867 n'aquella casa triste da charneca de Odivellas, para onde fôra
+depois que o duque de Palmella fallecêra.</p>
+
+<p>E vivia então pobrissimo, porque a grande riqueza em bens livres que herdára
+de seus filhos, mandára entregar aos herdeiros de sua mulher; e a maior parte
+de seus ordenados de official-maior aposentado era repartida pelos filhos de D.
+Anna Vaz, já morta áquelle tempo no mosteiro da Encarnação, alanciada em todas
+as fibras do coração de esposa, de filha e de mãe, porque a morte apiedou-se
+d'ella, só depois que o opprobrio dos filhos lhe deu ao esparto da garganta o
+derradeiro aperto.<span class="pn">{287}</span></p>
+
+<h1><a name="SECTION000250000000000000000">CONCLUSÃO</a></h1>
+
+<h2><a name="SECTION000251000000000000000">CARTA DE LUIZ DA SILVA</a> </h2>
+
+<p>«Ha cinco annos que meu tio te referiu a historia do conselheiro da
+azinhaga.</p>
+
+<p>«Nos raros livros, que apparecem com o teu nome, não tenho encontrado o caso
+triste.</p>
+
+<p>«Se a opulencia, adquirida nas lettras, te não remiu da galé de escriptor
+portuguez, conta a historia de Venceslau.</p>
+
+<p>«Esperarias que elle morresse para melhor te inspirares no silencio do
+tumulo d'aquelle calcinado coração?</p>
+
+<p>«Morreu. Podes afoitamente levantar-lhe o sudario da face morta, e
+mostral-o.</p>
+
+<p>«Se lhe queres vêr a sepultura, vae á casa onde elle nasceu, ahi nos
+arrabaldes de Lamego.</p>
+
+<p>«Morreu rico. Em 1868, succedeu na herança do irmão morgado, realista
+inflexivel que nunca lhe perdoára a loucura de trocar o habito de benedictino
+pela<span class="pn">{288}</span> fardeta de voluntario da Rainha no cêrco do
+Porto. Colhido de sobresalto pela morte, não teve tempo de desvincular os bens
+e dal-os ao Papa.</p>
+
+<p>«Venceslau sahiu da casa, onde esperava morrer n'aquella gandra arida onde o
+viste.</p>
+
+<p>«Levou-o o desejo de fechar os olhos onde a sua estrella funesta lh'os
+abrira.</p>
+
+<p>«Viveu lá seis mezes.</p>
+
+<p>«Legou importantes bens de raiz e oiro em barda que encontrou amuado nos
+velhos contadores de seus avós.</p>
+
+<p>«Os seus herdeiros foram os tres filhos de D. Anna Vaz. No testamento não
+nomeia o nome do marido d'aquella senhora.</p>
+
+<p>«Um dos filhos está em Africa cumprindo degredo por crime de morte na pessoa
+d'um cocheiro que apunhalou em um latibulo de jogadores de esquineta. O
+miseravel, apezar do secreto amparo que lhe dava Venceslau, tinha cahido até
+áquella paragem.</p>
+
+<p>«O outro filho de Eduardo Pimenta, depois de ter sido expulso com ignominia
+d'um logar de confiança que o conselheiro indirectamente lhe impetrára, estava
+marcador de bilhar no Café-Grego.</p>
+
+<p>«A menina vivia de esmolas no mosteiro onde falleceu a mãe.</p>
+
+<p>«Suspeito que a herança vae cahir nas fauces do dragão que sorveu todos os
+personagens da tua inedita historia.</p>
+
+<p>«Hontem vi o marcador de bilhar, com os bigodes<span class="pn">{289}</span>
+pintados, guiando dois alazões, que tiravam um char-à-bancs, em que íam
+reclinadas e retrançadas de serpejantes cabelleiras tres mulheres d'aquella
+especie ephemera de borboletas que tem uma segunda crisalida nos amphitheatros
+dos hospitaes.</p>
+
+<p>«Ouvi dizer que a reclusa da Encarnação, senhora de quarenta e nove annos, é
+pretendida d'um major reformado.</p>
+
+<p>«O outro herdeiro, que está em Moçambique, se tiver juizo, em recebendo a
+herança, levanta-se com o vice-reinado de Africa.</p>
+
+<p>«Se estas novas achêgas podem ser argamassa para mais um capitulo do teu
+livro, ahi as tens.</p>
+
+<p>«Não me esqueça satisfazer uma pergunta, que me fizeste em 1868.</p>
+
+<p>«Padre Manoel Ferreira morreu em 1835. Os actuaes possuidores dos grandes
+haveres de D. Julia de Miranda contam que o padre, depois de lhes entregar a
+herança, andára abraçando alguns moveis d'aquella casa onde vivera cincoenta
+annos, e chorára muito curvado sobre a cadeira onde costumava sentar-se D.
+Julia. Depois pedira que lhe déssem o leito onde haviam nascido e morrido os
+dous meninos, e o levou comsigo, e o queimára. Os herdeiros de D. Julia riem
+d'esta excentricidade. Eu vi no fundo da nobre alma do padre, a significação
+d'aquelle aniquilamento. As lagrimas, que solemnisaram aquelle devoto
+sacrificio do ancião, foram as ultimas. Foi a Odivellas, beijou os olhos
+apagados<span class="pn">{290}</span> de Venceslau, voltou para os parentes que
+o acolheram, e finou-se. Adeus.»</p>
+
+<hr style="width: 30%;">
+
+<p>Qual foi o intuito do general Pedro da Silva quando me pediu que denominasse
+este romance L<small>IVRO DE </small>C<small>ONSOLAÇÃO</small>?</p>
+
+<p>Foi, como se me dissesse:</p>
+
+<p>«Raro desgraçado haverá ahi a quem se não deparem, no seu livro, infortunios
+que lhe despontem os espinhos de angustias menores.»</p>
+
+<p>As supremas felicidades desta vida sabe a gente gradual-as: são poucas, e
+ficam muito áquem do desejo. Mas as escaleiras da desgraça são tantas e tão
+avantajadas á fantasia das mais ardentes e requeimadas almas, que não ha
+medil-as, nem descer a sonda ao ultimo abysmo.</p>
+
+<p>Bemdito seja Deus, que nos ha dado o consolador egoismo de ouvir muito
+gemido, muito desesperar, muito blasphemar de infelizes á volta de nós.</p>
+
+<p> </p>
+
+<p style="text-align:center;">FIM.</p>
+
+<p> </p>
+
+<p> </p>
+
+<p> </p>
+
+<p> </p>
+
+<div class="rodape">
+<p><a name="foot508" href="#tex2html1"><sup>[1]</sup></a> <em>Memorias da vida
+de José Liberato Freire de Carvalho.</em> Lisboa, 1855, pag. 94 e seguintes.</p>
+
+<p><a name="foot509" href="#tex2html2"><sup>[2]</sup></a> Esta resposta é
+trasladada de um volume de manuscriptos estimaveis que pertenceu ao fallecido
+bibliographo o desembargador Thomaz Norton. Na folha de guarda do livro
+escreveu o citado possuidor o seguinte: <em>Theotonio José Maria de Queiroz,
+penultimo ministro da Congregação de Oliveira pertencente aos padres
+Congregados. Morreu de edade de 84 annos, e ainda lia e escrevia sem oculos.
+Norton.</em> O collector rubricou a collecção em 1811.</p>
+
+<p><a name="foot510" href="#tex2html3"><sup>[3]</sup></a> Veja <em>Os
+Portuguezes e os factos</em>. Londres, 1833, p. 39.</p>
+</div>
+</div>
+</div>
+
+
+
+
+
+
+
+
+<pre>
+
+
+
+
+
+End of Project Gutenberg's Livro de Consolação, by Camilo Castelo Branco
+
+*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK LIVRO DE CONSOLAÇÃO ***
+
+***** This file should be named 34756-h.htm or 34756-h.zip *****
+This and all associated files of various formats will be found in:
+ https://www.gutenberg.org/3/4/7/5/34756/
+
+Produced by Pedro Saborano and the Online Distributed
+Proofreading Team at https://www.pgdp.net (This book was
+produced from scanned images of public domain material
+from the Google Print project.)
+
+
+Updated editions will replace the previous one--the old editions
+will be renamed.
+
+Creating the works from public domain print editions means that no
+one owns a United States copyright in these works, so the Foundation
+(and you!) can copy and distribute it in the United States without
+permission and without paying copyright royalties. Special rules,
+set forth in the General Terms of Use part of this license, apply to
+copying and distributing Project Gutenberg-tm electronic works to
+protect the PROJECT GUTENBERG-tm concept and trademark. Project
+Gutenberg is a registered trademark, and may not be used if you
+charge for the eBooks, unless you receive specific permission. If you
+do not charge anything for copies of this eBook, complying with the
+rules is very easy. You may use this eBook for nearly any purpose
+such as creation of derivative works, reports, performances and
+research. They may be modified and printed and given away--you may do
+practically ANYTHING with public domain eBooks. Redistribution is
+subject to the trademark license, especially commercial
+redistribution.
+
+
+
+*** START: FULL LICENSE ***
+
+THE FULL PROJECT GUTENBERG LICENSE
+PLEASE READ THIS BEFORE YOU DISTRIBUTE OR USE THIS WORK
+
+To protect the Project Gutenberg-tm mission of promoting the free
+distribution of electronic works, by using or distributing this work
+(or any other work associated in any way with the phrase "Project
+Gutenberg"), you agree to comply with all the terms of the Full Project
+Gutenberg-tm License (available with this file or online at
+https://gutenberg.org/license).
+
+
+Section 1. General Terms of Use and Redistributing Project Gutenberg-tm
+electronic works
+
+1.A. By reading or using any part of this Project Gutenberg-tm
+electronic work, you indicate that you have read, understand, agree to
+and accept all the terms of this license and intellectual property
+(trademark/copyright) agreement. If you do not agree to abide by all
+the terms of this agreement, you must cease using and return or destroy
+all copies of Project Gutenberg-tm electronic works in your possession.
+If you paid a fee for obtaining a copy of or access to a Project
+Gutenberg-tm electronic work and you do not agree to be bound by the
+terms of this agreement, you may obtain a refund from the person or
+entity to whom you paid the fee as set forth in paragraph 1.E.8.
+
+1.B. "Project Gutenberg" is a registered trademark. It may only be
+used on or associated in any way with an electronic work by people who
+agree to be bound by the terms of this agreement. There are a few
+things that you can do with most Project Gutenberg-tm electronic works
+even without complying with the full terms of this agreement. See
+paragraph 1.C below. There are a lot of things you can do with Project
+Gutenberg-tm electronic works if you follow the terms of this agreement
+and help preserve free future access to Project Gutenberg-tm electronic
+works. See paragraph 1.E below.
+
+1.C. The Project Gutenberg Literary Archive Foundation ("the Foundation"
+or PGLAF), owns a compilation copyright in the collection of Project
+Gutenberg-tm electronic works. Nearly all the individual works in the
+collection are in the public domain in the United States. If an
+individual work is in the public domain in the United States and you are
+located in the United States, we do not claim a right to prevent you from
+copying, distributing, performing, displaying or creating derivative
+works based on the work as long as all references to Project Gutenberg
+are removed. Of course, we hope that you will support the Project
+Gutenberg-tm mission of promoting free access to electronic works by
+freely sharing Project Gutenberg-tm works in compliance with the terms of
+this agreement for keeping the Project Gutenberg-tm name associated with
+the work. You can easily comply with the terms of this agreement by
+keeping this work in the same format with its attached full Project
+Gutenberg-tm License when you share it without charge with others.
+
+1.D. The copyright laws of the place where you are located also govern
+what you can do with this work. Copyright laws in most countries are in
+a constant state of change. If you are outside the United States, check
+the laws of your country in addition to the terms of this agreement
+before downloading, copying, displaying, performing, distributing or
+creating derivative works based on this work or any other Project
+Gutenberg-tm work. The Foundation makes no representations concerning
+the copyright status of any work in any country outside the United
+States.
+
+1.E. Unless you have removed all references to Project Gutenberg:
+
+1.E.1. The following sentence, with active links to, or other immediate
+access to, the full Project Gutenberg-tm License must appear prominently
+whenever any copy of a Project Gutenberg-tm work (any work on which the
+phrase "Project Gutenberg" appears, or with which the phrase "Project
+Gutenberg" is associated) is accessed, displayed, performed, viewed,
+copied or distributed:
+
+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.org
+
+1.E.2. If an individual Project Gutenberg-tm electronic work is derived
+from the public domain (does not contain a notice indicating that it is
+posted with permission of the copyright holder), the work can be copied
+and distributed to anyone in the United States without paying any fees
+or charges. If you are redistributing or providing access to a work
+with the phrase "Project Gutenberg" associated with or appearing on the
+work, you must comply either with the requirements of paragraphs 1.E.1
+through 1.E.7 or obtain permission for the use of the work and the
+Project Gutenberg-tm trademark as set forth in paragraphs 1.E.8 or
+1.E.9.
+
+1.E.3. If an individual Project Gutenberg-tm electronic work is posted
+with the permission of the copyright holder, your use and distribution
+must comply with both paragraphs 1.E.1 through 1.E.7 and any additional
+terms imposed by the copyright holder. Additional terms will be linked
+to the Project Gutenberg-tm License for all works posted with the
+permission of the copyright holder found at the beginning of this work.
+
+1.E.4. Do not unlink or detach or remove the full Project Gutenberg-tm
+License terms from this work, or any files containing a part of this
+work or any other work associated with Project Gutenberg-tm.
+
+1.E.5. Do not copy, display, perform, distribute or redistribute this
+electronic work, or any part of this electronic work, without
+prominently displaying the sentence set forth in paragraph 1.E.1 with
+active links or immediate access to the full terms of the Project
+Gutenberg-tm License.
+
+1.E.6. You may convert to and distribute this work in any binary,
+compressed, marked up, nonproprietary or proprietary form, including any
+word processing or hypertext form. However, if you provide access to or
+distribute copies of a Project Gutenberg-tm work in a format other than
+"Plain Vanilla ASCII" or other format used in the official version
+posted on the official Project Gutenberg-tm web site (www.gutenberg.org),
+you must, at no additional cost, fee or expense to the user, provide a
+copy, a means of exporting a copy, or a means of obtaining a copy upon
+request, of the work in its original "Plain Vanilla ASCII" or other
+form. Any alternate format must include the full Project Gutenberg-tm
+License as specified in paragraph 1.E.1.
+
+1.E.7. Do not charge a fee for access to, viewing, displaying,
+performing, copying or distributing any Project Gutenberg-tm works
+unless you comply with paragraph 1.E.8 or 1.E.9.
+
+1.E.8. You may charge a reasonable fee for copies of or providing
+access to or distributing Project Gutenberg-tm electronic works provided
+that
+
+- You pay a royalty fee of 20% of the gross profits you derive from
+ the use of Project Gutenberg-tm works calculated using the method
+ you already use to calculate your applicable taxes. The fee is
+ owed to the owner of the Project Gutenberg-tm trademark, but he
+ has agreed to donate royalties under this paragraph to the
+ Project Gutenberg Literary Archive Foundation. Royalty payments
+ must be paid within 60 days following each date on which you
+ prepare (or are legally required to prepare) your periodic tax
+ returns. Royalty payments should be clearly marked as such and
+ sent to the Project Gutenberg Literary Archive Foundation at the
+ address specified in Section 4, "Information about donations to
+ the Project Gutenberg Literary Archive Foundation."
+
+- You provide a full refund of any money paid by a user who notifies
+ you in writing (or by e-mail) within 30 days of receipt that s/he
+ does not agree to the terms of the full Project Gutenberg-tm
+ License. You must require such a user to return or
+ destroy all copies of the works possessed in a physical medium
+ and discontinue all use of and all access to other copies of
+ Project Gutenberg-tm works.
+
+- You provide, in accordance with paragraph 1.F.3, a full refund of any
+ money paid for a work or a replacement copy, if a defect in the
+ electronic work is discovered and reported to you within 90 days
+ of receipt of the work.
+
+- You comply with all other terms of this agreement for free
+ distribution of Project Gutenberg-tm works.
+
+1.E.9. If you wish to charge a fee or distribute a Project Gutenberg-tm
+electronic work or group of works on different terms than are set
+forth in this agreement, you must obtain permission in writing from
+both the Project Gutenberg Literary Archive Foundation and Michael
+Hart, the owner of the Project Gutenberg-tm trademark. Contact the
+Foundation as set forth in Section 3 below.
+
+1.F.
+
+1.F.1. Project Gutenberg volunteers and employees expend considerable
+effort to identify, do copyright research on, transcribe and proofread
+public domain works in creating the Project Gutenberg-tm
+collection. Despite these efforts, Project Gutenberg-tm electronic
+works, and the medium on which they may be stored, may contain
+"Defects," such as, but not limited to, incomplete, inaccurate or
+corrupt data, transcription errors, a copyright or other intellectual
+property infringement, a defective or damaged disk or other medium, a
+computer virus, or computer codes that damage or cannot be read by
+your equipment.
+
+1.F.2. LIMITED WARRANTY, DISCLAIMER OF DAMAGES - Except for the "Right
+of Replacement or Refund" described in paragraph 1.F.3, the Project
+Gutenberg Literary Archive Foundation, the owner of the Project
+Gutenberg-tm trademark, and any other party distributing a Project
+Gutenberg-tm electronic work under this agreement, disclaim all
+liability to you for damages, costs and expenses, including legal
+fees. YOU AGREE THAT YOU HAVE NO REMEDIES FOR NEGLIGENCE, STRICT
+LIABILITY, BREACH OF WARRANTY OR BREACH OF CONTRACT EXCEPT THOSE
+PROVIDED IN PARAGRAPH 1.F.3. YOU AGREE THAT THE FOUNDATION, THE
+TRADEMARK OWNER, AND ANY DISTRIBUTOR UNDER THIS AGREEMENT WILL NOT BE
+LIABLE TO YOU FOR ACTUAL, DIRECT, INDIRECT, CONSEQUENTIAL, PUNITIVE OR
+INCIDENTAL DAMAGES EVEN IF YOU GIVE NOTICE OF THE POSSIBILITY OF SUCH
+DAMAGE.
+
+1.F.3. LIMITED RIGHT OF REPLACEMENT OR REFUND - If you discover a
+defect in this electronic work within 90 days of receiving it, you can
+receive a refund of the money (if any) you paid for it by sending a
+written explanation to the person you received the work from. If you
+received the work on a physical medium, you must return the medium with
+your written explanation. The person or entity that provided you with
+the defective work may elect to provide a replacement copy in lieu of a
+refund. If you received the work electronically, the person or entity
+providing it to you may choose to give you a second opportunity to
+receive the work electronically in lieu of a refund. If the second copy
+is also defective, you may demand a refund in writing without further
+opportunities to fix the problem.
+
+1.F.4. Except for the limited right of replacement or refund set forth
+in paragraph 1.F.3, this work is provided to you 'AS-IS' WITH NO OTHER
+WARRANTIES OF ANY KIND, EXPRESS OR IMPLIED, INCLUDING BUT NOT LIMITED TO
+WARRANTIES OF MERCHANTIBILITY OR FITNESS FOR ANY PURPOSE.
+
+1.F.5. Some states do not allow disclaimers of certain implied
+warranties or the exclusion or limitation of certain types of damages.
+If any disclaimer or limitation set forth in this agreement violates the
+law of the state applicable to this agreement, the agreement shall be
+interpreted to make the maximum disclaimer or limitation permitted by
+the applicable state law. The invalidity or unenforceability of any
+provision of this agreement shall not void the remaining provisions.
+
+1.F.6. INDEMNITY - You agree to indemnify and hold the Foundation, the
+trademark owner, any agent or employee of the Foundation, anyone
+providing copies of Project Gutenberg-tm electronic works in accordance
+with this agreement, and any volunteers associated with the production,
+promotion and distribution of Project Gutenberg-tm electronic works,
+harmless from all liability, costs and expenses, including legal fees,
+that arise directly or indirectly from any of the following which you do
+or cause to occur: (a) distribution of this or any Project Gutenberg-tm
+work, (b) alteration, modification, or additions or deletions to any
+Project Gutenberg-tm work, and (c) any Defect you cause.
+
+
+Section 2. Information about the Mission of Project Gutenberg-tm
+
+Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
+electronic works in formats readable by the widest variety of computers
+including obsolete, old, middle-aged and new computers. It exists
+because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
+people in all walks of life.
+
+Volunteers and financial support to provide volunteers with the
+assistance they need are critical to reaching Project Gutenberg-tm's
+goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
+remain freely available for generations to come. In 2001, the Project
+Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
+and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
+To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
+and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
+and the Foundation web page at https://www.pglaf.org.
+
+
+Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive
+Foundation
+
+The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
+501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
+state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
+Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification
+number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at
+https://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
+permitted by U.S. federal laws and your state's laws.
+
+The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
+Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
+throughout numerous locations. Its business office is located at
+809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
+business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact
+information can be found at the Foundation's web site and official
+page at https://pglaf.org
+
+For additional contact information:
+ Dr. Gregory B. Newby
+ Chief Executive and Director
+ gbnewby@pglaf.org
+
+
+Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation
+
+Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
+spread public support and donations to carry out its mission of
+increasing the number of public domain and licensed works that can be
+freely distributed in machine readable form accessible by the widest
+array of equipment including outdated equipment. Many small donations
+($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
+status with the IRS.
+
+The Foundation is committed to complying with the laws regulating
+charities and charitable donations in all 50 states of the United
+States. Compliance requirements are not uniform and it takes a
+considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
+with these requirements. We do not solicit donations in locations
+where we have not received written confirmation of compliance. To
+SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
+particular state visit https://pglaf.org
+
+While we cannot and do not solicit contributions from states where we
+have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
+against accepting unsolicited donations from donors in such states who
+approach us with offers to donate.
+
+International donations are gratefully accepted, but we cannot make
+any statements concerning tax treatment of donations received from
+outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff.
+
+Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
+methods and addresses. Donations are accepted in a number of other
+ways including including checks, online payments and credit card
+donations. To donate, please visit: https://pglaf.org/donate
+
+
+Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic
+works.
+
+Professor Michael S. Hart was the originator of the Project Gutenberg-tm
+concept of a library of electronic works that could be freely shared
+with anyone. For thirty years, he produced and distributed Project
+Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.
+
+
+Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
+editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
+unless a copyright notice is included. Thus, we do not necessarily
+keep eBooks in compliance with any particular paper edition.
+
+
+Most people start at our Web site which has the main PG search facility:
+
+ https://www.gutenberg.org
+
+This Web site includes information about Project Gutenberg-tm,
+including how to make donations to the Project Gutenberg Literary
+Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to
+subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks.
+
+
+</pre>
+
+</body>
+</html>