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+The Project Gutenberg EBook of Mysterio do Natal, by Henrique Coelho Neto
+
+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.org
+
+
+Title: Mysterio do Natal
+
+Author: Henrique Coelho Neto
+
+Release Date: December 24, 2010 [EBook #34750]
+
+Language: Portuguese
+
+Character set encoding: ISO-8859-1
+
+*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK MYSTERIO DO NATAL ***
+
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+
+
+Produced by Pedro Saborano
+
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+
+MYSTERIO DO NATAL
+
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+
+DO MESMO AUCTOR
+
+ Esphynge, 1 vol. . . . . . . . . . 600
+ Sertão, 1 vol. . . . . . . . . . . 600
+ Agua de Juventa, 1 vol. . . . . . 700
+ A bico de penna, 1 vol. . . . . . 700
+ Romanceiro, 1 vol. . . . . . . . . 500
+ Jardim das Oliveiras, 1 vol. . . . 500
+ Fabulario, 1 vol. . . . . . . . . 500
+ Miragem, romance, 1 vol. . . . . . 600
+ Theatro, vol. 1.º . . . . . . no prélo
+ Theatro, vol. 2.º. . . . . . . . . 400
+ Ouebranto (Theatro), vol. 4.º. . . 500
+ Apologos, 1 vol. . . . . . . . . . 500
+
+No prélo, a seguir em novas edições:
+
+ Inverno em flor. . . . . . . . . 1 vol.
+ O Rei phantasma. . . . . . . . . 1 vol.
+ Capital federal. . . . . . . . . 1 vol.
+ O morto. . . . . . . . . . . . . 1 vol.
+ O paraiso. . . . . . . . . . . . 1 vol.
+ O Rajah de Pendejab. . . . . . . 2 vol.
+ A Conquista. . . . . . . . . . . 1 vol.
+ A Tormenta. . . . . . . . . . . 1 vol.
+ O Turbilhão. . . . . . . . . . . 1 vol.
+
+
+
+
+Coelho Netto
+
+
+
+
+ COELHO NETTO
+
+
+ MYSTERIO
+
+ DO NATAL
+
+
+
+
+ PORTO
+ LIVRARIA CHARDRON
+ De LELLO & IRMÃO, editores
+ RUA DAS CARMELITAS, 144
+ ----
+ 1911
+
+
+
+
+O "Accordo" assignado no Rio de Janeiro em 9 de Setembro de 1889, entre
+o Brasil e Portugal, assegurou o direito de propriedade litteraria e
+artistica em ambos os paizes.
+
+
+A presente edição está devidamente registada nas Bibliothecas nacionaes,
+de Lisboa e Rio de Janeiro.
+
+
+
+
+PORTO--IMPRENSA MODERNA
+
+ * * * * *
+
+
+
+
+A partida
+
+
+Era a hora silenciosa e triste do crepusculo.
+
+Abrumados de ouro os montes, em duros perfis, esmaltavam de negro o
+horizonte abrazado. Abriam-se as primeiras estrellas. Subiam da terra,
+como o fumo das aras, pannos alvos de nevoa.
+
+Pelos caminhos esbarrondados, em aspero acclive, beirando grotas
+espontadas de cardos, cantaro ao hombro, as tunicas arrepanhadas á
+cinta, desfilavam donzellas conversando e rindo.
+
+Juntas, em passo miudo, trepidando nas pedras, com um cheiro de suarda e
+de silvas, passavam nas trilhas ovelhas em rebanhos. Um rude e mazorro
+pastor seguia-as cabisbaixo.
+
+Esbatiam-se as nuvens de ouro quando José e Maria appareceram no limiar
+da casa promptos para a longa jornada, por valles e montanhas, em
+direcção á terra farta de Bethleem onde iam cumprir a lei de Augusto.
+
+Fechada a porta ainda demoraram um instante sob a vinha, contidos pela
+saudade.
+
+O homem, por fim, decidiu-se, tomou a frente, vagaroso, pensativo e
+logo, limpando os olhos que as lagrimas nublavam, a donzella seguiu.
+
+Elle grisalho, alto, robusto, ainda que um tanto curvado pelo pendor
+constante em que vivia, sempre inclinado sobre o lenho do officio,
+falquejando-o, acepilhando-o, dando-lhe fórma e lustro. Ella, mean de
+altura, fina e fragil.
+
+Suavemente morena, os olhos grandes e tristes eram dum limpido verde
+d'agua, e como dois lagos purissimos num areal, ao sol; e os cabellos,
+escapando-se do cairel do manto, punham-lhe na fronte uma frisa de ouro.
+
+Mal se lhe adivinhava o collo abotoado.
+
+Os pés, alvos e pequeninos, assentavam em sandalias e toda a sua riqueza
+consistia em um par de braceletes de marfim que lhe cingiam
+graciosamente os pulsos finos.
+
+Trilhando a estrada que ia ter á fonte e seguia direita aos campos,
+paravam para falar ás moças, companheiras e amigas de Maria, para
+corresponder á saudação dos homens, para attender ás crianças que
+deixavam os seixos tomando-lhes o passo, pedindo que lhes trouxessem das
+terras de além conchas, como as de Ascalon, que conservam no bojo o
+soluço das ondas.
+
+E Maria, commovida, chorava sobre o sorriso.
+
+Os campos toldavam-se de bruma e as oliveiras de pallida folhagem faziam
+no recosto das collinas como estendaes de nevoa.
+
+Ainda havia quem trabalhasse a leira na ancia do fruto. Chiava um carro
+de lavoura, o guieiro afalava aos bois animando-os no lance abrupto de
+uma rampa.
+
+Chegando ao planalto esteril, que dominava os horizontes e onde o vento
+zunia, os viajantes fizeram uma parada olhando em redor o redente dos
+montes.
+
+Lá ficava Nazareth no valle feliz, com o seu casario, em cubos brancos,
+como um pacifico rebanho adormecido.
+
+Ao longe tudo era carregado e lugubre.
+
+A noite chegava primeiro ás alturas.
+
+Isolado, com a lua pairando acima do seu viso, o Thabor era como um
+peito de gigante de onde houvesse espirrado aquella gotta de leite.
+
+Maria ignorava o mundo. Nunca houvera passado além da fronteira da terra
+natal. Alongando os olhos pela vastidão que a vista alcançava, montes,
+varzeas, esplanados desertos tristes, sentia-se mesquinha e com medo.
+
+Voltou-se, ainda uma vez, para olhar o tranquillo recanto em que sempre
+vivera em pobreza e virtude. Mas a noite baixára; raros lumes picavam a
+tréva. Ouvia-se vago murmurio, como escachôo d'aguas, subindo do fundo
+obscuro onde jazia a cidade. Sahiu-lhe do coração um suspiro maguado:
+
+--Onde fica Bethleem? José levantou o braço e estendia o cajado na
+direcção da terra de David, quando uma estrella fulgurou, illuminando
+radiosamente o ceu profundo.
+
+--Ali! disse o patriarcha, numa voz que tremia, comprehendendo,
+maravilhado, que aquelle astro surgira dentro da noite como uma resposta
+de Deus á moça predestinada.
+
+ * * * * *
+
+
+
+
+O anjo
+
+
+A noite, profundamente escura e fria, atravessada de vento, atroava o
+fragor de ramagens estortegadas e d'aguas precipitosas que se
+despenhavam, aos jorros, pelos algares. Nas chans ainda o transito era
+facil, sem o varejo da ventania que repulsava os caminhantes, como a
+impedir-lhes a marcha; mas nas gargantas, entre alcantis, as lufadas,
+abocando á entrada, esfusiavam desabridas, uivando com a furia de
+alcatéas famintas em ronda céva, a fariscar redis.
+
+Todas as estrellas haviam-se apagado, apenas rutilava, enorme, como
+lumareu de vigilia em torre, a que surgira e brilhava sobre Bethleem.
+
+Os passos estrepitavam nos seixos, estalavam nas folhas e no ramalho secco.
+
+Um ramo que bolisse, o lento defluir de um fio d'agua por entre pedras
+levantavam ruidos temerosos.
+
+Ás vezes José detinha-se, hesitante na bifurcação de duas trilhas, mas
+pouco durava a duvida porque uma das veredas ennegrecia ainda mais, ao
+passo que a outra rutilava fulgida, como calçada a diamantes,
+offerecendo-se, clara e segura, aos peregrinos.
+
+Como entrassem em sinuosa e esgalgada passagem, murada de rochas
+anfractuosas, eriçada de agaves e echoando como o ambito de uma caverna,
+ouviram leve, frouxo ruido como de esfrolar d'azas.
+
+Uma aguia, talvez, que acordara em algum teso e de pé, attenta,
+alargando as azas, ficára em attitude hostil prompta a arremetter em
+defeza do ninho.
+
+O patriarcha, acolhendo a esposa meiga, cujas faces pareciam de neve,
+apertou com força o cajado e levantou os olhos.
+
+Maria, sentindo o perigo, tartamudeou, timida e tremula, uma oração ao
+Senhor. O receio de um ataque em sitio tão desolado, longe de toda
+habitação, onde nem choça de pegureiro havia, deteve o homem.
+
+Os corações batiam. Nella era o pavor do desconhecido, o grande medo
+tragico das sombras do Scheól, que erram, á noite, pelos descampados;
+nelle era temor por ella.
+
+Não falavam, de olhos muito abertos, quietos, immoveis como os rochedos
+que os emparedavam.
+
+De repente um clarão fulgurou. A passagem illuminou-se, as pedras
+scintillaram e as palmouras dos cardos ficaram como de prata. E elles
+viram uma grande luz á flor da terra e clareando as rochas.
+
+Aves despertando galreavam festivamente o canto da madrugada.
+
+Levantando o olhar viram os dois a fonte do esplendor. Era um anjo que
+os precedia, ora trilhando os caminhos, ora voando acima das rochas,
+pousando nos alcandores quando o lento e fatigado andar de Maria
+retardava a marcha.
+
+A virgem sorria de enlevo e José, tolhido de commoção, não se atrevia a
+encarar o guia resplandecente, cujo reflexo abria na terra um clarão de
+luar. E as azas aflavam docemente no silencio.
+
+A virgem reconheceu no anjo o mancebo que a saudára com as palavras
+mysteriosas, cuja promessa cumpria-se e José reviu o divino emissario
+que lhe apparecera em sonho, sob a figueira do horto, defendendo a
+innocencia de Maria, em cujo seio, cemo em corolla de flor, a Graça
+perpassava em genese immareavel, fecundando-o como o sol fecunda a
+leiva, eternamente pura.
+
+ * * * * *
+
+
+
+
+Lyrios
+
+
+Clareava.
+
+Manhan opáca, envolta em bruma que algodoava a terra, fluctuando com um
+lento ondular, fluindo em frouxeis alvissimos como pennugem,
+esgarçando-se, diluindo-se em fumo tenue que se esvaía no ar silencioso.
+
+A espaços frondes boiavam, ramarias exciduas irrompiam.
+
+Ouvia-se o lentejo lacrimoso das folhas orvalhadas.
+
+A terra dava-se avaramente, a trechos curtos, á medida que os viajantes
+avançavam e o caminho percorrido, como os dias da vida, eram logo
+fechados em branco pelos nevoeiros.
+
+Branco era tambem o ceu e triste, pesando sobre a terra, tão baixo que
+as nuvens, por vezes, envolviam os peregrinos.
+
+Passaros piavam nas taliscas, occultos; vozes de gado, longinquas,
+evocativas, annunciavam casaes.
+
+Maria tiritava.
+
+A tunica pesava-lhe nos hombros, humida, e as faces, rorejadas,
+tingiam-se em duas rosas como se as flores, transidas, houvessem
+procurado abrigo ao calor carinhoso daquella mocidade pura.
+
+José distrahia a companheira falando-lhe dos lugares que iam atravessando.
+
+Todos aquelles atalhos tortuosos, aquelles carreiros invios haviam sido,
+em tempos remotos, trilhados por patriarchas.
+
+Ali haviam-se travado batalhas sanguentas; ali alvejara a tenda,
+crescera, em louro estendal, o trigo, retorcera-se a vinha, pastara o
+armento, correra o azeite, fundira-se o ferro, britara-se a pedra,
+cosera-se o barro sob as vistas de Iaveh omnipotente.
+
+Por ali andara Elias trovejando oraculos. Judith afiára o gladio
+libertador nas arestas daquellas penhas.
+
+
+Em poeira de ouro foi-se mudando a nevoa: era o sol.
+
+Já apparecia uma nesga de azul; arvores, moutas destacavam-se: a
+mortalha rasgava-se para a resurreição.
+
+Alegremente as aves, em claras vozes, cantaram a victoria da Luz. E
+Maria, contente, d'olhos em extase, esperava o astro annunciado pela
+fulguração das nuvens.
+
+Num recanto, entre mirradas arvores de troncos retorcidos, uma agua
+escura e quieta reluzia.
+
+Pedras negras, cobertas de limo, escondiam-se sob ramos acenosos.
+
+Maria, sentindo a dobrez da fadiga, os olhos pesados de somno, sentou-se
+tão perto d'agua que toda ella reflectiu-se na superficie espelhenta.
+
+Viu-se sem vaidade, com a mesma innocencia com que se revê o passaro e,
+num momento, infantilmente, mergulhou, até o punho, as mãos ambas no paul.
+
+Quiz José reprehendel-a, vendo-a, porém, sorrir, sorriu tambem.
+
+Gottejando sahiram as pequeninas mãos da agua que tremia.
+
+Olhavam os dois os circulos que se abriam quando viram duas flores
+subirem á tona, brancas, abertas em cinco petalas, erectas em finas
+hastes, como se o reflexo das mãos da Immaculada se houvesse
+materialisado em memoria da ablução ligeira.
+
+Eram lirios e trescalavam.
+
+
+Virtude, brilho das almas, que importa que desças á vasa? és impermeavel
+como a luz, purificadora como o raio de sol.
+
+Não perdes a limpida pureza e, se entras no Vicio, fazes desabrochar a
+Graça; se afundas no Crime, tiras o arrependimento.
+
+O pantano era lobrego, coberto de folhas mortas e as mãos de Maria, só
+com o aflorarem, tanto o purificaram que delle nasceu o lirio sem
+macula, symbolo formoso e candido da innocencia.
+
+ * * * * *
+
+
+
+
+A refeição
+
+
+Suave som de frauta pastoril deu a Maria o encanto de uma egloga. Voltou
+a cabeça dourada e viu o rebanho que se aproximava em vagaroso passo.
+
+Trazia-o um menino, guiando-o por entre as hervas de aroma. Um lindo
+menino, tão alvo que não despedia sombra, como as neves que os raios do
+sol atravessam; tão louro que a sua cabeça alumiava.
+
+Vinha a frauta soando em suaves accentos e attrahidas, enlevadas na
+musica, abelhas voavam em volta do pastorinho, que assim apascentava
+dois rebanhos: um pela terra verde, outro pelos ares claros.
+
+Ergueu-se Maria e, sem dizer palavra, olhando os ubres apojados das
+ovelhas, deu a sentir o seu desejo.
+
+Como devia saber aquelle leite que era a metamorphose das flores dos
+silvados! Como devia rescender na boca e aquecer e fartar!
+
+Calou-se a frauta e o menino, fitando os olhos meigos no casal errante,
+como se de muito o conhecesse e amasse, deteve-se, e os animaes pararam.
+
+Ficou o rebanho unido, tão junto que não fazia mais que um vello e as
+abelhas, zumbindo, puzeram-se a esvoaçar em torno dos lirios alvos.
+
+José adiantou-se e, offerecendo um obulo ao menino, pediu-lhe um pouco
+de leite. Sorrindo, o pastorinho tomou o tarro que trazia ao flanco.
+
+Logo, entre as ovelhas, houve um movimento ancioso. Balavam todas
+offerecendo as tetas refertas, atropelavam-se, saltavam querendo, cada
+qual, ser a escolhida e o pastorinho brandamente as afastava.
+
+Foi á primeira, ordenhou-a. O leite esguichou em fio; outra chegou,
+depois outra e a todas elle attendia para que nenhuma ficasse preterida.
+
+Já a espuma fervia crescendo em flor, transbordando do vaso e as ovelhas
+festejavam-se contentes.
+
+Sorrindo, aceitou Maria a offerta do zagal; bebeu a lentos goles,
+saboreando. E foi a vez de José.
+
+Refeito, o patriarcha insistiu na dádiva da moeda, mas o menino negou-se
+a recebel-a:
+
+«Que era um pouco de leite? Qualquer pastor faria o mesmo.»
+
+Saudou-os, e, pondo-se á frente das ovelhas, levou a frauta aos labios.
+
+Os sons vibraram. Lento e manso o rebanho proseguiu. Foi então que Maria
+viu que as abelhas, tantas que occultavam os lirios, deixavam as flores
+voando á musica da frauta.
+
+--Lindo pastor! Lindo rebanho! disse, enlevada, a Virgem. Mas logo,
+referindo-se ás abelhas que fugiam, perguntou a José: Que terão ellas
+buscado nas flores d'agua?
+
+--O arôma e o néctar, explicou o patriarcha.
+
+Chegaram-se os dois ás flores e viram, maravilhados, que estavam cheias
+de mel crystallino e louro como o ambar precioso e tão perfumado como se
+contivesse toda a essencia das flores.
+
+Tomou José um dos lirios e deu-o a Maria; a Virgem offereceu-lhe o
+outro. Depois, deliciados, contemplaram-se felizes.
+
+--A frauta já não sôa, vai muito longe o pastor, disse Maria.
+
+--Vai muito longe! repetiu José contricto, levantando os olhos para o
+ceu, como se procurasse nas nuvens o pastorinho louro e as ovelhinhas
+brancas.
+
+ * * * * *
+
+
+
+
+A nuvem
+
+
+Sob a irradiação do sol a terra secca abrazava, exhalando um bafio de
+rescaldo.
+
+Triste, flagellada Samária pagan!
+
+Os deuses do Garizin, depois da destruição do templo, pareciam haver
+desertado o monte onde os homens subiam a retemperar a fé, de onde
+manava a seiva que se infiltrava nos campos e mantinha vivas todas as
+fontes, entre rochas humidas.
+
+Ermo o sagrado monte, esquecido o santuario antigo, as lavouras mirraram
+e um sol mais árdego crestou as hervas, sorveu as aguas outr'ora copiosas.
+
+Nem as torrentes ligeiras conseguiram, fugindo, escapar á inclemencia e
+os leitos dos corregos, em lodo secco, estalavam, fendiam-se em gretas
+fundas.
+
+Um fio d'agua rastejava nos lugares que, antigamente, rios largos alagavam.
+
+Das fontes restavam apenas as pedras calvas sobre areias torridas onde
+viboras esfusiavam, entaliscando-se ao rumor de passos.
+
+De ponto em ponto uma cisterna funda offerecia ao caminhante a sua agua
+salobra.
+
+Ás vezes o terebintho forte sombreava-a ou figueiras e mimosas
+formavam-lhe em torno um bosque ameno.
+
+Mas os trilhos, arenosos e pedrentos, eram apenas habitados pelo cardo
+que esgalhava os ramos espinhosos, abertos em feridas, feios, disformes
+como aleijões. Não se ouvia cantar um passaro--só o gypaeto atravessava
+o espaço fulgurante ou grandes aguias hostis, pousadas no cabeço das
+penhas, devassavam os arredores buscando o que prear.
+
+Maria offegava seguindo o esposo. A areia escaldava-lhe os pés mimosos,
+o sol abrazava-lhe a cabeça.
+
+Caminhavam como atravez de chammas, sem que os olhos avistassem um
+colmado, a grata ramagem duma arvore.
+
+Ó terras férteis da Galiléa! valles alfombrados e frescos de tanta
+belleza por onde correm numerosos ribeiros claros. Ó Galiléa!
+
+
+Tudo era desolação na tristonha Samária e o sol do outono queimava como
+nos incendidos dias estivaes.
+
+Seria melhor esperarem a tarde, proseguirem com a brandura do
+crepusculo; mas a pressa que levavam não lhes permittia demora.
+
+José, mais robusto e affeito a rigores, resistia; a Virgem, porém,
+começava a sentir-se atordoada: faltava-lhe o ar, os olhos ardiam-lhe.
+
+--Chega-te á sombra do meu corpo, disse-lhe o patriarcha. Ella obedeceu.
+Mas o sol zombava da misericordia do amor e Maria continha as lagrimas,
+calava as dores dos delicados pés abertos em feridas, não querendo que o
+esposo soffresse com o seu soffrimento.
+
+O sol subia, augmentava o calor e o animo da Virgem desfallecia quando
+uma nuvem cresceu acima do monte Ebal.
+
+Era escura como os nimbus e apressava-se como impellida por um grande
+vento.
+
+Barulho surdo annunciava-a, igual ao ronco soturno que precede as
+saraivadas de verão.
+
+A terra entenebrecia á passagem obumbrada da nuvem, que vinha direita ao
+caminho trilhado pelo casal.
+
+O ruido augmentava tornando-se como o escachôo das catadupas.
+
+Detiveram-se os dois, pallidos, tolhidos de espanto.
+
+Subito Maria sorriu:
+
+--São pombas, disse. Eram, effectivamente, milhares de pombas azues que,
+muito juntas, formavam a nuvem escura. Pairaram, ficaram adejando sobre
+elles, com rumoroso arrulho, e o sol quebrava-se-lhes nas azas estendidas.
+
+José baixou os olhos, dobraram-se-lhe os joelhos e a Virgem, olhando as
+aves, não deu pelo gesto piedoso nem ouviu as palavras devotas com que
+elle, em extase, adorava-a.
+
+Então proseguiram á sombra do immenso pallio azul e fóra da nuvem viva a
+terra, quente e rutila, ardia e faiscava ao sol.
+
+ * * * * *
+
+
+
+
+Ao pôr do sol
+
+
+No ceu desbotavam, esbatiam-se as côres vivas, o ouro e a purpura
+fundiam-se em violete e, docemente, a melancolia vesperal envolvia a
+natureza e penetrava as almas. E Maria perguntou:
+
+--Porque é mais triste do que a noite o breve instante do pôr do sol?
+
+--Porque é uma agonia, respondeu José. Não é a morte que impressiona, é
+o morrer.
+
+A luz que vasqueja é como o corpo que estrebucha. A noite é serena, tem
+a immobilidade do cadaver.
+
+Quantas sombras havia na terra? tantas quantas são os seres e as coisas
+que existem. O sol, porque é a vida, discrimina, dá a cada um a sua
+autonomia para o bem ou para o mal.
+
+O homem tem a sua sombra, como a formiga; a cordilheira escurece uma
+região e o grão de areia destaca a sua mancha.
+
+A noite condensa na mesma sombra todo o universo.
+
+No instante da agonia a alma, como o saltador que recúa para ganhar
+impulso na corrida e formar o pulo, regressa na reminescencia recordando
+a vida, desde os dias primévos até á hora suprema.
+
+O crepusculo, que lembra o amanhecer, sem a alegria, é um recúo á
+madrugada para o salto dentro da noite.
+
+--Aquelle clarão que alveja nos montes é o luar. A lua é como uma
+lampada que o sol deixa accesa quando parte. Como a noite é linda!
+
+--E purificadora. O somno é um mergulho na Eternidade.
+
+--Quando eu era pequenina, mal anoitecia, punha-me a tremer de medo e só
+depois de rezar conseguia adormecer.
+
+--Porque a Fé é uma claridade que desfaz as sombras interiores. O que
+não crê é como o cégo que anda tacteando, sempre arriscado a perigos,
+bastando resvalar num talude para precipitar-se no abysmo.
+
+A Fé é como a lampada dos templos: sempre accesa e fulgurando.
+
+O homem de fé anda mais seguro na escuridão do que o incrédulo ao sol. O
+horizonte do crente é Deus.
+
+--Porque bate com mais vigor o coração á noite?
+
+--As aguas murmuram mais alto no silencio? não, a voz é a mesma, a calma
+é que isola fazendo-a parecer mais forte. Quando trabalhas á sombra da
+vinha ouves balar o rebanho? não, entanto, á noite, soergues-te no leito
+á voz lamentosa duma ovelha perdida.
+
+O coração parece pulsar com mais impeto nas horas de recolhimento.
+
+Nas cavernas profundas as vozes reboam, o estellicidio de uma gotta faz
+ruido. É essa uma das vantagens da noite--estabelecer o silencio, a
+quietude nalma para que a consciencia faça o seu acto de contricção.
+
+--E as estrellas? quem as accende no ceu?
+
+--Aquelle mesmo que abre as flores na terra.
+
+--Ninguem o vê.
+
+--E o Pensamento, quem o vê? Enunciado é um relampago, realisado é um
+esplendor; a sua essencia é o genio, que gera a Ordem. O mundo é a
+realisação do Pensamento de Deus; as obras ephemeras do mundo são a
+consubstanciação do pensamento humano. O homem constróe, é o artista;
+Deus crêa, é o Verbo.
+
+--E eu?
+
+--Tu és Maria, disse o patriarcha, afagando-a paternalmente.
+
+Iterativas, afinadas vozes murmuraram nos ares concluindo o dizer do
+ancião:
+
+ ... cheia de Graça, o Senhor é comtigo.
+ Bemdita és tu entre as mulheres.
+
+Ella deteve-se assustada e interrogou o esposo, tremulo:
+
+--Que dizeis, meu senhor? José, que nada ouvira, respondeu:
+
+--Digo que és uma creatura de Deus, como a flor, como a estrella.
+
+Os chacaes latiam no deserto ao doce clarão da lua.
+
+ * * * * *
+
+
+
+
+A tentação
+
+
+Numerosa estropeada de innumeros corceis atroou o silencio; tubas
+clangoraram e, repentinamente, como passassem entre duas alcantiladas
+penhas, que o luar vestia d'alvo, viram altos pylonos de basalto,
+sarapintados de hyerogliphos, ante os quaes esphynges monstruosas,
+deitadas sobre stelas negras, laivadas de sanguineo, com os bicos dos
+rijos peitos incrustados de rubis, cravavam no ceu os olhos mysteriosos.
+
+Mal chegaram á entrada portentosa logo uma luzente guarda de
+cataphractos, com petrinas de prata, montando ginetes brancos de crinas
+rastejantes, hasteando lanças que alumiavam, formaram duas extensas alas
+ao longo do caminho areado de ouro, sobre o qual frescamente rociava uma
+serena pulverisação de aromas.
+
+Os olhos perdiam-se na visão de uma vasta cidade mirifica, toda em
+marmores e pórphydos, com enormes templos, palacios que eram cidadellas,
+jardins de redolentes áleas, rios beirados de arvores, com as rampas em
+alcatifa de flores, rolando alisadas aguas sobre as quaes rebrilhava, em
+tremulina, o luar.
+
+Barcos de prôas curvas, transbordando brocados, cruzavam-se com musicos
+sob doceis de seda.
+
+Nos bosques que os cysnes percorriam, alvos como vivos marmores,
+mulheres, veladas de gaze, coroadas de rosas, repousavam na fina relva
+ou balouçavam-se em redouças.
+
+Os zimborios dourados, os frontões dos templos tauxiados de ouro, as
+escadarias largas, de zebrados degraus de cypolino, subindo a pateos de
+mosaico, esplendiam.
+
+Surdo rumor agitava a cidade onde a multidão, em festa, tumultuava numa
+variedade de trajos multicores.
+
+Passavam palanques sob flabellos empunhados por grandes negros vestidos
+de saios rubros, com franjas de prata, adagas á cinta, emplumados
+turbantes á cabeça.
+
+Plaustros rodavam com crepitações levantando uma nevoa loura.
+
+Photinas de harpas respondiam-se de um eirado a outro e, num obelisco de
+onix canellado, molle serpente de escamas de ouro, vibrando a lingua
+bifida, enroscava-se, em lentas espiras, ficando, ás vezes, pendente, a
+oscillar como uma grossa liana.
+
+José olhava pasmado e Maria encolhia-se timida, contemplando,
+deslumbrada, a cidade fulgente.
+
+Não era a triste Sichem nem a sombria Jerichó. Que cidade seria aquella
+tão rica, de tanta vida, isolada na tristonha e maninha região da Samária?
+
+Subitamente, com improvisa fulguração, abriram-se de par em par as
+portas do templo maior e um grave cortejo appareceu no peristylo e
+vagaroso, solemne, poz-se a descer a fulgida escaleira.
+
+Vozes, ao rythmo de instrumentos lyturgicos, entoaram um cantico glorioso.
+
+O povo prostrou-se na areia micante das alamedas bradando um nome forte.
+
+Ceruleo clarão refulgiu celestialmente. Coalharam-se os ares de aves,
+armas lampejaram em meneio heroico e toda a turba templaria formou no
+atrium, ergueu um sonoro louvor e rojou-se de bruços, com um tinir
+argentino de armillas e braceletes. E um homem alto, alado, com dois
+cornos de luz purpurea ardendo-lhe entre os cabellos crespos, surgiu no
+limiar de ouro estendendo amorosamente os braços a Maria extatica.
+
+A voz com que a chamou reproduziu-se em echo no silencio mystico; o seu
+olhar ardia e, em torno do seu corpo atorreado, relumbrava um halo como
+se o emmoldurassem chammas.
+
+--Vem! O meu amor esperava-te ancioso. És a eleita de minh'alma.
+Chegaste no tempo em que as rosas florescem. As vinhas crespas dão
+fruto, as abelhas fazem o seu mel, o trigo redoura os campos, os lagos
+são açucenaes extensos.
+
+Eu puz em ordem a natureza para as nossas nupcias sagradas. Vem!
+
+A terra em que pisas nunca recolheu cadaveres. Entraste no reino da
+ventura eterna. Vem! E estendeu os longos braços que alumiavam como
+caudas d'astros.
+
+Houve um clamor ovante feito com o nome suave de Maria e outro que
+ribombava e os cataphractos, levantando-se, a prumo, nos estribos,
+cruzaram as lanças formando uma abobada de scintillações.
+
+José olhava, mudo e receioso, acolhendo ao peito a timida donzella. Um
+gallo cantou em alguma herdade proxima.
+
+Instantaneamente, com uma surda explosão, toda a cidade maravilhosa e os
+seres que a animavam subverteram-se.
+
+Os ares ficaram nublados de fumo, estryges chirriaram.
+
+De novo reappareceram os campos rasos, ermos, estereis, calados, ao luar
+livido.
+
+Maria, com o coração sobresaltado, murmurou:
+
+--Que lindo sonho, meu senhor.
+
+--Não foi sonho, Maria, tornou sombriamente o patriarcha. Vamos! Os
+lirios trescalam, os gallos cantam; é a madrugada que vem.
+
+Puzeram-se a caminho.
+
+E, pelos ares, contorcendo-se em furor, uma sombra alada fugia, enorme,
+monstruosa, com dois cornos que coruscavam.
+
+ * * * * *
+
+
+
+
+O milagre das lagrimas
+
+
+A estrada, a duas horas de Sichem, pelos montes, larga e suave, com
+acceitosas sombras de sycomoros e de amendoeiras, era toda orlada de
+anemonas vermelhas e de margaridas brancas e amarellas.
+
+Os khans succediam-se sempre abrigados em hortos frondosos, com a
+cisterna ao lado ou perto de alguma fonte, com a alpendrada reverdecida
+pela vinha, debaixo da qual os mercadores, que desciam de Tyro ou do
+Libano ou subiam de Joppé, comiam uma febra de anho regando-a com o
+vinho fresco de Engaddi, emquanto os dromedarios soltos iam e vinham
+vagarosamente ou deitados, ruminando, cerravam os olhos nostalgicos á
+vivida fulguração do sol.
+
+Casas miserrimas, de muros de lodo, cobertas de palha, confundiam-se com
+a ramagem dos eloendros, perdiam-se nos olivaes.
+
+Caravanas desfilavam--os homens a cavallo, com as lanças altas, o
+albornoz ao vento; as mulheres em jumentos ou em carros, entre fardos e
+alcofas, agasalhando crianças sob as pontas dos mantos.
+
+Por vezes um canto suave rompia da turba, rufavam tamboris, kinnareths
+vibravam, frautas desferiam e os cavalleiros alegres faziam caracolar os
+ginetes, as mulheres punham-se de pé nos carros olhando as muralhas que
+se aprumavam ao longe, fechando cidades, cujas casas, em cubos brancos,
+semelhavam tumulos.
+
+José evitava os pousos, fugia aos rumorosos aduares, mettendo por
+atalhos para evitar a chacota da gente nomade.
+
+Justamente atravessavam uma trilha deserta quando ouviram um choro
+triste e deram de rosto com uma moça morena que trazia nos braços uma
+criança inerte.
+
+Pós ella uma pequenita, já com abundancia de flores, ainda varejava os
+mattos procurando anemonas.
+
+Vendo-os, a misera susteve o pranto e, fitando em José os olhos rasos
+d'agua, perguntou:
+
+«Se ainda distava muito Endor, onde vivia Baruc, o nazir, que conhecia a
+virtude das hervas e realisava curas maravilhosas. Vendera as suas
+ovelhas e levava oito cyclos de prata e um collar de ouro comprado em
+Jerusalem e, se tanto não bastasse, dar-se-ia como escrava pela saude do
+filho.»
+
+José estendeu o braço na direcção do Levante:
+
+--Era além, muito longe, atravez da montanha, num valle sombrio, a horas
+do Jordão.
+
+Maria, commovida, quiz vêr o infante.
+
+A mãi descobriu-lhe o rosto.
+
+Era lindo!
+
+Os cabellos rolavam-lhe em cachos louros, os olhos jaziam como dois
+mortos sob as cupulas tumbaes das palpebras, com os longos cilios
+repontando como a herva que viça no abandono.
+
+A boca, de labios cerrados, livida, era como o leito secco de uma
+torrente que o sol exhauriu e estalou.
+
+Não se movia e, tão rigido, tão frio estava que só a illusão do amor
+podia ainda emprestar-lhe vida.
+
+A pequenita continuava a rebuscar anemonas cantando.
+
+--Ides debalde a Endor com o vosso filho, disse commiserado o
+patriarcha, accrescentando: Baruc póde sarar enfermos, mas só Elias
+resuscitava os mortos.
+
+--Quereis dizer que elle está morto!? exclamou a mulher tremendo. Se,
+ainda hontem, embalei-o nos braços... Se ainda estou com os peitos
+cheios de leite, manando copiosamente como as ribeiras das collinas.
+
+Ai! de mim... Bem que eu não queria cantar a cantiga tristonha! Foi o
+canto triste que o fez fugir dos meus braços. Ai de mim!
+
+Adormeci-o para sempre.
+
+E agora? quem terá piedade da minha solidão? Era elle só...
+
+Nasceu em noite de luar, finou-se em manhan de nevoa. E hei-de o deixar
+na terra justamente agora quando o inverno chega! Ai! de mim... A
+saudade mudará o leite dos meus peitos em lagrimas para os meus olhos.
+Pobre de mim! Coitada de mim!
+
+E a moça deixou-se cahir á beira do caminho apertando nos braços o corpo
+do filho morto.
+
+A pequenita continuava a rebuscar anemonas.
+
+Maria inclinou-se compadecida sobre o cadaver e duas lagrimas da sua
+piedade rolaram na fronte gelida do defunto.
+
+Logo abriram-se os olhos da criança. Eram azues, côr do ceu;
+renasceram-lhe as rosas das faces, os bracinhos inertes estenderam-se e,
+lindo, com o esplendor da vida, o pequeno sorria afogando a cabeça no
+collo materno.
+
+O espanto emmudecera, immobilisara a moça.
+
+Subito, ergueu-se com um grito d'alma, poz-se a rasgar a tunica na
+pressa sofrega de amamentar o filho.
+
+Os peitos saltaram tumidos. O pequeno abocou avidamente e a mãi,
+sentindo-o sugar, contente e com lagrimas, ajoelhou-se e, d'olhos no
+ceu, ficou como petrificada.
+
+Maria chorava por vêl-a chorar venturosa e, como as suas lagrimas
+cahissem na terra, a pequenita não teve mãos para colher as flores que
+nasciam, brotando como acima d'agua borbulham, ás mil, as bolhas de ar.
+
+ * * * * *
+
+
+
+
+Caminhando
+
+
+Maria caminhava em silencio, pensando naquella mãi que, repentinamente,
+passára da maior desventura á maior felicidade pelo prestigio das
+lagrimas misericordiosas.
+
+--O pequenito dormia e a pobre mãi tinha-o por morto. Foi bastante que
+eu lhe tocasse para que logo abrisse os olhos.
+
+--É que o despertaste, disse o patriarcha sem alludir ao prodigio que
+testemunhara.
+
+Elle ia notando, com discreta reserva, todas as maravilhas que se
+realisavam á passagem da Virgem: ribeiros que sustavam o curso
+offerecendo o leito enxuto para a travessia; arvores que se cobriam de
+flores, carregavam-se de frutos vergando generosamente os galhos; vozes
+que murmuravam; veios limpidos que rebentavam das pedras e, durante os
+curtos somnos da donzella, não lhe passavam despercebidos anjos que
+rondavam em torno dos bosques pisando, de leve, os caminhos avelludados.
+
+A mais e mais se lhe firmava nalma a certeza de que as palavras que
+ouvira em sonho haviam sido pronunciadas por um mensageiro do ceu.
+
+Aquella era, em verdade, a eleita da Divina Graça, a Virgem pura de
+Judá, da qual devia nascer o Messias das gentes.
+
+Elle acompanhava-a, não como esposo e sim como servo, adorando-a de
+joelhos quando a via adormecida.
+
+Ella ignorava tudo. Sabia apenas que era mãi porque sentia no seio os
+movimentos do Sêr Perfeito, no qual concentrava todo o seu amor.
+
+Já lhe crescia o collo, pesando, arredondado e turgido.
+
+O amor preparava o alimento para Aquelle que se nutria de mysterio.
+
+--As mãis soffrem tanto pelos filhos!... O amor das mãis é como a rosa
+que cresce entre espinhos. Praza aos céus que meu filho não soffra
+emquanto fôr pequenino.
+
+As crianças não falam, não atinam a indicar onde lhes punge a dôr, de
+sorte que a gente não sabe como as ha de alliviar quando soffrem.
+
+--As mãis adivinham.
+
+--São tão fracas as criancinhas que tudo é perigo em torno dellas. Tremo
+quando penso no meu pequenino filho que vai nascer, tão franzino e tão
+pobre. Onde o agasalharemos nós?
+
+--Entre os nossos braços, como os passaros resguardam o ninho entre os
+ramos.
+
+--E o frio?
+
+--Temos o nosso calor.
+
+--E a fome?
+
+--Os peitos maternos são dois celleiros sempre cheios.
+
+--Haveis de amal-o, senhor, e ajudar-me emquanto elle carecer de nós?
+
+--Por ti, por Elle, por todos, disse José enlevado.
+
+Chegavam a um bosque de tamareiras, onde havia uma cisterna cercada de
+musgo.
+
+Um velho cégo repousava á sombra, ouvindo cantar uma criança que
+brincava sentada nas folhas seccas.
+
+ * * * * *
+
+
+
+
+O cégo
+
+
+O velho era de Jerichó.
+
+Esperava naquelle retiro a passagem das caravanas que se encaminhavam a
+Jerusalem e sempre recolhia uma azinhavrada moeda, um punhado de tâmaras
+ou um esgarçado albornoz em que se enrolava, bemdizendo, com palavras
+humildes e agradecidas, a generosidade dos homens, recommendando-os ao
+deus de Abrahão, de Isaac e de Jacob e indicando-lhes os melhores e mais
+seguros caminhos pelos montes.
+
+José ajuntou as folhas espalhadas e fez uma alfombra onde Maria
+adormeceu revendo, em sonho, a sua alegre Nazareth, as moças á beira da
+fonte, os pastores nos cerros, á hora macia da tarde, quando as cotovias
+baixam e desapparecem nas searas e as aguas das levadas cantam.
+
+Conversaram os dois velhos--José falou da sua viagem, o cégo falou da
+sua cegueira.
+
+--Estava assim desde moço, um raio cegara-o no campo, sob um sycomoro.
+Já se habituara á treva como um prisioneiro que se houvesse acostumado
+ao carcere.
+
+Um magico de Suza offerecera-se para cural-o. Pedira cem drachmas,
+baixara a cincoenta; faria por vinte se elle lh'as offerecesse.
+
+Tinha ainda a sua cabana e ovelhas, vendendo-as reuniria a somma, mas,
+pensando, resolvera deixar-se ficar na cegueira. E suspirou:
+
+--Illude-se quem julga que, ao voltar aos antigos lugares, encontrará as
+coisas como deixou: as proprias pedras modificam-se e não são varias
+como as almas.
+
+Quando me annunciaram a morte de meu filho, pedi que me puzessem junto
+do cadaver, apalpei-o, beijei-o; ouvi os passos dos que o levaram a
+enterrar, mas não vi o enterro.
+
+Ouvi o estrondo da queda do cedro que cobria de sombra a minha eira e,
+ainda hoje, vou sentar-me no sitio em que elle avultava e sinto-me
+agasalhado pela ramagem que não existe e ouço a alegre voz dos
+passarinhos de outr'ora.
+
+As coisas foram desapparecendo uma a uma, eu mesmo envelhecia, mas a
+cegueira conserva a visão do passado.
+
+O sol parou para mim na mocidade como parou sobre os muros de Jerichó á
+voz do batalhador.
+
+Vejo dentro de mim tudo quanto deixei: as gentes, os animaes, as
+arvores, os lugares com as suas cabanas e os seus campos floridos.
+
+Sou como a ave aprisionada, de pequenina, em uma gaiola, que não olha
+senão a limitada paizagem que fica em torno da sua vivenda triste.
+Soltai-a, esvoaçará atordoada e, se não regressar á prisão, morrerá de
+fome perdida nas florestas frondosas, se não cahir nas garras dos abutres.
+
+O homem de Suza queria dar-me a liberdade. Para que? para eu morrer de
+saudosa tristeza sentindo o deserto em volta de mim? Não!
+
+Vivo no passado, o meu tempo já foi.
+
+Não caminho para a morte, espero-a, sentado no limiar da mocidade,
+ouvindo o rumor do tempo devastador, sem vêr os desastres, sem vêr as
+lagrimas, sem vêr os enterros.
+
+Perdi-me dos meus, dei em uma furna e nella vivo. Já agora estou
+habituado á sombra. Para que hei de sahir se, lá fóra, só me esperam
+ossadas? Se o proprio Deus me offerecesse a luz eu lhe pediria a morte.
+
+Voltar atraz...! A herva cresce, o vento revolve a areia desmanchando as
+nossas pegadas.
+
+O campo, que conhecemos florido, mudou-se em carrascal; a gente
+envelheceu ou morreu. Só ha um meio de não caminhar chorando--é seguir
+sempre em frente e se eu recobrasse a vista teria de retroceder e
+cegaria de novo com os olhos afogados em lagrimas. Aonde vos dirigis?
+
+--A Bethleem.
+
+--Casa do pão. É ali que deve nascer o Annunciado. Casa da abundancia,
+celleiro do Senhor, Bethleem da fertilidade! De lá é que nos ha de vir o
+Messias. O campo de Booz dará o trigo que ha de fartar as almas.
+
+--É para lá que vamos.
+
+--Que as estrellas vos sejam propicias, como fôram a Ruth, a moça de Moab.
+
+ * * * * *
+
+
+
+
+Dentro da noite
+
+
+Maria abriu os olhos quando as estrellas nasciam.
+
+O cégo já havia partido levado pelo menino. As cigarras cantavam vesperas.
+
+José empunhou o cajado: Maria deixou o leito agreste, e seguiram.
+
+As ultimas chammas do sol apagavam-se no occaso e a nevoa polvilhava os
+ares como uma cinza.
+
+Monstruosos penhascos, talhados a pique á beira de precipicios,
+avultavam temerosamente na sombra.
+
+Palmeiras debruçavam-se sobre as rampas. Toda a vegetação contorcida,
+com as raizes á flor da terra, agarrando-se nervosamente ás arestas dos
+penhascos, parecia receiar aquelles despenhadeiros de onde subia
+atroadoramente um escachôo soturno d'aguas constrangidas.
+
+Escurecia. Os montes áridos da Judéa apresentavam-se hostis aos peregrinos.
+
+Os caminhos, aos torcicollos, confundiam-se augustos, escavados em
+brocas, eriçados d'aspas calcareas, orlados de intonsos espinheiros que,
+ás vezes, como garras, detinham os viajantes pelas tunicas.
+
+Estryges voavam, pousavam nos ramos, nos penedos com gritos lugubres.
+
+José caminhava a passo cauteloso, sondando o piso com o cajado, detendo
+Maria, buscando tranquillisal-a com palavras carinhosas.
+
+Mas a treva adensava-se a mais e mais, os roçados confundiam-se com a
+sombra. Julgando seguir a trilha direita, o patriarcha estendia a mão e
+sentia a aspereza das penhas.
+
+--É imprudencia insistirmos em proseguir em tal escuridão, disse Maria
+com medo. É Deus que nos retém.
+
+José deteve-se. Parecera-lhe ter ouvido vozes, rumor de passos, estalos
+de ramos seccos, como se viessem outros caminheiros. Escutou attentamente.
+
+Era o vento que agitava o folhedo e eram as aguas profundas que
+referviam nos algares.
+
+Mas um clarão suave accendeu-se no fundo espesso do arvoredo. Quem
+seria? Encolheram-se os dois, olhos fitos na claridade, que se adiantava
+como a luz de um facho.
+
+Uma centelha passou na escuridão, outra gyrou nos ares, as folhas, os
+ramos das arvores ficaram incrustados de brazas.
+
+Surgiram da terra, saltaram das rochas, subiram dos desfiladeiros, a
+espessidão estrellou-se e todas as fagulhas, unindo-se, formaram uma
+rutila umbella pairando sobre Maria e José como a nuvem seguiu Israel
+guiando-o luminosamente pelo negror das noites no deserto.
+
+Eram pyrilampos que voavam em ordenada phalange alumiando os caminhos
+obscuros.
+
+E os dois, sob o relume dos insectos, continuaram a viagem dentro dum
+reverbero que só ao clarear d'alva desappareceu nos ares.
+
+ * * * * *
+
+
+
+
+Presagio
+
+
+O ceu, d'um azul transparente, ia-se, aos poucos, illuminando.
+
+Os montes, em recortes rigidos, calvos, com a pedra exposta, a reluzir
+de humidade, ou eriçados de hispidos mattos, resaltavam em aspero,
+mordente relevo, com os cimos resplandecendo sob uma nevoa de ouro.
+
+Docemente baliam placidos rebanhos.
+
+As casas abriam-se; homens, ainda estremunhados, vinham ás portas,
+bocejavam lançando por entre as barbas um halito brumoso.
+
+Sentia-se a visinhança de Jerusalem pelo maior numero de casas, pela
+abundancia de gado nos valles verdes, recortados de veios d'aguas.
+Burricos trotavam com alcofas e ceirões de frutas.
+
+Risos crystallinos annunciavam crianças; ouvia-se um estrepitante
+chapinhar e, á volta de um caminho, no claro remanso de uma ribeira, sob
+a acenosa ramagem do salgueiral, meninos nús saltavam, atiravam-se de
+mergulho, aos gritos alegres, flagellando a agua com ramos ou
+pendurando-se, a rir, dos galhos inclinados.
+
+Nos campos, a espaços, alvejavam sepulchros; ovelhas pastavam em torno,
+pombos cercavam-nos em revoada arrulhante.
+
+Por entre a palha das choças esfiava-se o fumo azul.
+
+Já os moinhos trabalhavam e junto aos immensos lagares, onde se pisava a
+azeitona, reluziam, em fumeiro, montes de bagaço oleoso.
+
+Maria, que caminhara contente até aquellas paragens, á medida que
+avançava, sentia apertar-se-lhe o coração em presagio funesto.
+
+Olhava anciosa os longes dos horizontes.
+
+Tudo era calmo. A paizagem estendia-se acceitosa, cortada de muros de
+hortos, toda verde, bem differente dos desolados ermos que ella deixára.
+
+Todavia a tristeza empannava-lhe os olhos, enchia-lhe o coração e já
+transbordava em lagrimas.
+
+Vendo-a chorar, José perguntou com meiguice:
+
+--Sentes-te fatigada?
+
+--Não, meu senhor: voltaria a Nazareth sem parar, se pudesse.
+
+--E porque choras?
+
+--Não sei. O coração aperta-se-me, um grande medo invade-me,
+constrange-me. Tremo e sinto-me gelar. As proprias flores causam-me
+horror. As anemonas parecem-me chagas que sangram. Tenho medo, um grande
+medo, como se fosse caminhando para a morte. Que tumulo é aquelle que
+apparece além, tão alto, tão negro, sob o vôo dos corvos?
+
+José seguiu com o olhar a direcção do gesto de Maria.
+
+--O que vês são as muralhas de Jerusalem, onde chegaremos antes do pôr
+do sol.
+
+--Além das muralhas, aquelle tumulo negro, tão triste, onde agora o sol
+brilha.
+
+Uma velha, trazendo um jumento pela arreata, sahiu ao caminho vagarosa.
+
+José saudou-a, a velha sorriu á Maria abençoando-a e a Virgem,
+escondendo a tristeza num sorriso, perguntou-lhe:
+
+--Que tumulo é aquelle, além! tão alto, dentro dos muros da cidade? Os
+corvos rondam-no, deve haver mortos ali.
+
+--É um monte, disse a mulher.
+
+--Um monte! repetiu Maria surprehendida.
+
+--O Golgotha. O outro é o Goreb.
+
+--O Golgotha! suspirou a Virgem e, depois de um silencio dolorido,
+deixando-se cahir sobre as hervas, desatou a chorar convulsamente. A
+velha animou-a, teve palavras inuteis de consolo e alento. José
+assentou-se-lhe ao lado e, tomando-lhe as mãos frias, alisando-lhe os
+cabellos humidos de orvalho, perguntou-lhe:
+
+--Que tens? Ella não poude responder. Levantou-se e, resignadamente, de
+olhos baixos, contendo os soluços, poz-se, de novo, a caminho, em
+direcção á cidade branca e atorreada, ao sol.
+
+ * * * * *
+
+
+
+
+Piedade
+
+
+Com um rebanho que recolhia levado por um pastor coberto de pelles, as
+pernas enroladas até os joelhos em vello sórdido, entraram em Jerusalem
+pela porta do mercado, á hora em que as buzinas romanas troavam nas torres.
+
+José procurava distrahir Maria mostrando-lhe as grandes bellezas, a
+magnificencia da cidade; nomeava os edificios, alguns longinquos,
+esfumados nas primeiras sombras da noite.
+
+A Virgem, porém, seguia calada, sem animo de levantar os olhos, o
+coração cerrado em tristeza invencivel.
+
+Gentes diversas cruzavam-se nas ruas: homens abaçanados do deserto, com
+o albornoz ao vento, o punho esmaltado das adagas reluzindo á cinta;
+phenicios cobertos de jóias, com enormes collares de contas de ouro e
+braceletes de marfim; gregos ágeis passando ligeiros entre a multidão,
+com a tunica colhida ao braço, as pernas enlaçadas em tiras de couro.
+
+Mulheres mostravam-se ás portas das casas, encostadas languidamente aos
+umbraes, olhando em extase, com um sorriso nos labios côr de purpura.
+
+A algumas viam-se-lhes os peitos pela abertura das tunicas; outras,
+reclinadas em leitos marchetados, cerravam mollemente as palpebras
+gosando o frescor dos flabellos que escravas agitavam.
+
+Errava no ar denso um cheiro forte de aromatas.
+
+Estranhas musicas soavam e, como os albergues estavam cheios, era um
+babariso alegre sob as frescas latadas, por entre as quaes, em
+corridinha airosa, moças iam e vinham com amphoras e crateres.
+
+O pastor falara-lhes em uma modesta estalagem em Bezetha, para o lado do
+forte, onde podiam encontrar agasalho seguro.
+
+A casa era dirigida por um velho de Siloeh e tinha, fama pelo seu anho
+tenro e pelo seu vinho puro. Lá achariam pousada e, como ficava longe e
+não recebia mulheres, não seriam incommodados pelos legionarios que, á
+menor agitação, invadiam as casas brutalmente levando tudo a conto de
+lança.
+
+Era um rancho pauperrimo, entre sebes de espinhos, onde aboletavam-se
+mesteiraes e homens dos montes que traziam ao mercado favos de mel,
+resinas, balsamos e raizes.
+
+O velho acolheu-os de boa sombra, serviu-lhes a refeição na sala lobrega
+que uma candeia alumiava.
+
+Rusticos bebiam, jogavam e fóra, junto a um monte de pedras, um velho
+resmungava raspando, com voracidade, o fundo de uma escudella.
+
+Era um leproso nojentamente abostellado de ulceras.
+
+Ás chufas dos homens, que lhe atiravam cascas, bagaços de frutas,
+respondia aos regougos, bramindo maldições e, como prorompesse aos
+berros, apanhando pedras para defender-se, os homens revoltaram-se.
+
+O hospede tranquillisou-os e, sahindo ao terreiro, poz-se a assobiar.
+
+Enorme cão saltou da sombra rosnando, o taverneiro açulou-o contra o
+leproso que se encolhera estarrecido.
+
+Vendo o cão investir, Maria cahiu de joelhos, juntou as mãos frias e,
+tremula, d'olhos no ceu, implorou pelo infeliz.
+
+O animal raivava, aos saltos; os homens vociferavam incitando-o. Alguns
+riam no ante-gosto da scena cruel, mas como o leproso, tentando correr,
+tropeçasse rolando na terra e ferindo o rosto no pedregulho, o cão, que
+o alcançara, poz-se a ganir e, sacudindo a cauda, ficou de rastos,
+lambendo mansamente o sangue que escorria da cicatriz do mendigo.
+
+E Maria, extactica, não via a doce misericordia que immobilisara em
+espanto os hospedes do albergue.
+
+ * * * * *
+
+
+
+
+Cantico messianico
+
+
+Ao romper d'alva quando, do lado do templo, as cegonhas partiam em
+direcção ao deserto e as pombas baixavam em nuvens sobre o mercado
+catando o grão que transbordava das ceiras, o patriarcha despertou Maria
+e, ligeiros como foragidos, deixaram a estalagem com os votos de boa
+jornada do hospedeiro. As buzinas romanas resoavam na serenidade.
+
+Legionarios recolhiam cançadamente a Makéros.
+
+Pobres, que haviam pernoitado ao relento, estremunhavam sobre farrapos.
+
+Num pateo, entre muros de maceria, espontado de hervas sylvestres,
+mugiam bois e homens bradavam.
+
+Corvos rondavam os ares attrahidos pelo cheiro do sangue.
+
+Quando passaram as muralhas, sahindo no campo do oleiro, o sol brilhava
+nas pastagens humidas e passarinhos cruzavam o vôo cantando na alegria
+do sol.
+
+Maria caminhava d'olhos altos, como enlevada. Ineffavel sorriso
+illuminava-lhe o rosto lindo, arrepios nervosos sacudiam-na de instante
+a instante.
+
+--Lá está Bethleem! disse José estendendo o cajado na direcção dos
+montes ainda enfaixados em nevoa.
+
+Maria empallideceu e, d'olhos fitos nos outeiros graciosos da terra de
+David, rompeu, de repente, a cantar, sobre uma antiga melodia hebraica,
+repetindo inspiradamente as palavras que lhe sahiam d'alma:
+
+
+«Espirito Perfeito, ancia das almas miseras, se és Tu que em mim
+assistes, bemdita seja a carne fragil em que te encerraste e de onde
+deves romper, germen da Redempção, em Flor de Misericordia.
+
+
+Espirito Perfeito, lume que de mim fizeste a Tua lampada, que o Teu
+clarão espalhe-se pela terra fazendo brotar a sementeira nos campos e o
+Amor no coração dos homens.
+
+
+Espirito Perfeito, fonte de copiosas aguas bemfazejas, se é do meu seio
+que vais jorrar, bemdita seja a Dôr que me lançou na vida, bemditas
+sejam as lagrimas que já por Ti hei vertido.
+
+
+Espirito Perfeito, esperança dos desanimados, se eu sou o ramo verde que
+Te hei de dar, bemdita seja a afflicção de minh'alma na hora atormentada
+em que, innocente, me julguei culpada e, pura, vi a suspeita manchar a
+minha virgindade.
+
+
+Espirito Perfeito, se És a Redempção annunciada, bemdigo a Tua vinda,
+sem orgulho, por me haveres tomado por Teu trámite e prostro-me ante a
+Tua Graça e exalto a Tua Beneficencia.
+
+
+Espirito Perfeito, Sêr dos sêres, não nado ainda, gloria a Ti e á Tua
+origem celestial. Virgem, dar-te-ei ao mundo. Eu sou como o olhar que se
+não macula por transmittir ao corpo a visão.
+
+Por mim entras no mundo como o sol, e tudo que elle alumia, entra, pelo
+olhar, no cerebro.
+
+Eu sou a pupilla que communica ao Universo a Claridade Magnifica.
+
+
+Espirito Perfeito, louvado sejas sempre pela Tua Virtude e pela Tua
+Excellencia. Sahes da carne mortal sem trazeres peccados: passas por
+ella como uma imagem que se reflecte nagua.
+
+
+Espirito Perfeito, Graça de Israel, Esperança das Gentes, Messias... Meu
+coração alegra-se sentindo-Te e o meu coração é o captivo que almeja a
+liberdade.
+
+Eu sou a Fraqueza humilde chamada Mulher. Sou a escrava que gera o seu
+Libertador, a Sombra de onde sahe a Luz, o Peccado que floresce em
+Perdão...»
+
+
+José ouvia-a com os olhos rasos d'agua.
+
+As cotovias cantavam na altura luminosa.
+
+Longe, sob a fulguração do sol, resplandeciam os muros de Bethleem,
+entre outeiros.
+
+ * * * * *
+
+
+
+
+O campo de Booz
+
+
+Á hora cálida, abafada em que as folhas dormem e as ribeiras murmuram de
+leve, vagarosas, remansando-se sob as quietas sombras, e toda aza
+encolhe-se entre os ramos mais densos, e todo reptil encova-se na terra
+mais humida, deram os dois num campo de farta seara onde alumiavam
+foices e moças juntavam gavellas, cantando, emquanto os homens ceifavam
+assustando as cotovias que tinham os seus ninhos rentes do chão, na raiz
+do trigal.
+
+Maria, com o manto sobre a cabeça, enlevada naquella messe de ouro e na
+alegria ruidosa do trabalho, ouvia as vozes que se cruzavam subindo dos
+trigos altos, onde os seareiros desappareciam, como se fôsse o proprio
+campo que cantasse o louvor do sol.
+
+Ia tão entretida que não viu José adiantar-se, direito a uma palhoça
+onde um velho jazia, sentado ante um monte de vergas, tecendo um alcofe
+e cantando.
+
+Aligeirou os passos e alcançou o esposo justamente quando elle saudava o
+ancião.
+
+--Dizei-me a quem pertence este campo tão rico e cheio de tanta alegria?
+
+--A Obed, segundo deste nome, descendente de Booz, o semeador.
+
+--Foi, então, nesta terra que a moabita achou agasalho junto do homem
+bom, que a amou?
+
+--Sim, foi aqui. Esta é a leira de Ephracta, a mais fertil entre as mais
+abundantes e generosas. Este campo foi o leito nupcial onde se gerou a
+raça robusta dos reis de Israel.
+
+Aqui nasceu David, tronco forte, estirpe augusta de que ha de sahir a
+Immarcessivel Flor annunciada, cujo perfume encherá as almas de
+ineffavel ventura. Este é o celleiro de Iaveh. E vós, vindes de longe?
+
+--De Nazareth, na Galiléa.
+
+--E ides?
+
+--A Bethleem. Urge que lá cheguemos antes do pôr do sol.
+
+--Tendes tempo. Sentai-vos um momento, é a hora da refeição. O que tenho
+dá para repartir comvosco. A vossa companheira, esposa ou filha, vem
+fatigada; que descance um instante á sombra, gosando a sesta. Entrareis
+na cidade com a fresca da tarde.
+
+Aceitaram os peregrinos o convite hospitaleiro: sentaram-se e comeram do
+pão molhado em mel e beberam pelo mesmo tarro o leite cheiroso.
+
+Ficaram os dois velhos conversando e Maria, encostando-se aos feixes de
+trigo, cobriu o rosto com o manto e adormeceu.
+
+As moças cantavam na eira levantando medas de ouro e, sob o sol
+escaldante, no alto ceu azul, as cotovias voavam e os seus gritos
+abrandavam-se na distancia, esmoreciam perdidamente.
+
+ * * * * *
+
+
+
+
+Na estrada de Bethleem
+
+
+Frio e pallido, esfumado em brumas, o crepusculo baixava na tristeza da
+tarde silenciosa.
+
+No remonte dos cerros pedregosos, hirtas palmeiras immoveis pareciam
+gravadas, em negro, no fundo dourado do occaso. Aves esvoaçavam caladas.
+
+Docemente, com um tremulo murmurio, fluiam pelos canaes de rega as aguas
+levadias, e as vozes soturnas dos bois soltos, errando, de vagar, no
+campo restolhado, soavam como gemidos.
+
+Os peregrinos seguiam uma vereda suave, entre debruns de anemonas.
+
+Maria parava de instante a instante, arfando.
+
+Amollecida, alquebrada, olhava com desanimo os outeiros ainda longinquos
+e suspirava, sem atrever-se a dizer ao esposo o seu cançaço.
+
+José, porém, notou-lhe a lentidão dos passos e, amparando-a, animou-a
+carinhoso:
+
+--Estamos a chegar. Lá apparecem as casas de Bethleem; as luzes brilham
+por entre as arvores. Mais um momento e teremos repouso em alguma
+estalagem.
+
+Ella parou, ficou a olhar o ceu nublado como a implorar alento para
+chegar ao termo da viagem.
+
+--É um peso que me curva, murmurou em voz sumida. Sinto-me tão fraca que
+não sei se poderei acompanhar-vos até as collinas de além. Toda eu
+esmoreço. O meu desejo é deixar-me ficar no caminho, deitada nas hervas,
+e dormir um somno grande.
+
+Nunca me pesou tanto o corpo, o proprio espirito pesa-me, tão carregado
+está de medo e de cuidados sombrios.
+
+Que será de mim e d'Elle ao nascer em tão desabrigados lugares, longe de
+tudo, á friagem da noite, com este vento que retalha as carnes como um
+ferro mortal?
+
+O chiar de um carro levou-lhes a attenção para o caminho deserto. Uma
+voz cantava na tristeza da tarde moribunda:
+
+ Hervas do campo florido,
+ Que aroma! Que trescalar!
+ Bem se vê que o seu vestido
+ Andou por vós a roçar.
+
+ Outeiro em flor, o teu vello,
+ Verde e fino, ao meu ciume
+ Confessa que o seu cabello
+ Deixou nelle o seu perfume.
+
+O carro appareceu acogulado de trigo, rinchando, ao passo moroso dos
+bois que traziam os cornos floridos de acacias.
+
+José dirigiu-se ao carreiro, robusto moço, e pediu-lhe passagem para
+Maria, mostrando-a, prostrada e languida, entre o rosmaninho cheiroso.
+
+O moço accedeu e os dois ajudaram a Virgem a subir, fizeram-lhe lugar
+macio sobre as paveias louras e os bois arrancaram.
+
+E caminhando, José ia enlevado na esposa e o carreiro, d'aguilhada ao
+hombro, olhos fitos no ceu, insistia na egloga:
+
+ Hervas do campo florido,
+ Que aroma! Que trescalar
+ Bem se vê que o seu vestido
+ Andou por vós a roçar.
+
+ * * * * *
+
+
+
+
+Na caverna
+
+
+Diante de uma trilha que se perdia no arvoredo deteve-se o carreiro e
+disse:
+
+--Aqui me despeço, este é o meu rumo. A estrada em que estais, direita e
+facil, guia-vos a Bethleem. Seja o Senhor comvosco.
+
+Sem esforço José tomou a Virgem nos braços, pousou-a na terra,
+agradecendo ao moço a gentileza de a haver recebido no seu carro. E
+elle, galantemente, respondeu:
+
+--Trouxe a flor viva no trigal ceifado, e, com tão geitosa resposta,
+despediu-se e foi-se, aguilhada ao hombro, de vagar, á frente dos bois,
+cantando, em voz apaixonada, os louvores do seu amor mimoso.
+
+Os dois caminharam alguns passos, Maria amparada ao esposo, lenta,
+tolhida de soffrimento; mas não poude ir além da caverna e deteve-se.
+
+O aspero interior do antro tingia-se de laivos rubros, ao tremulo
+flammejar d'uma fogueira junto á qual um velho pastor, as mãos
+estendidas ao lume, cantarolava baixinho.
+
+Ovelhas ondulavam na sombra.
+
+Logo á entrada, na anfractuosidade da rocha, havia uma mangedoura. Um
+jumento dormitava e, junto delle, ruminando, jazia deitada uma vacca com
+o seu novilho.
+
+Disse José a Maria:
+
+--Firma-te a mim e vamos devagarinho. Havemos de achar aposento em
+alguma estalagem. Ella sorriu docemente, resignada, mas os seus olhos
+meigos foram para a caverna.
+
+O patriarcha, apiedado, adiantou-se e falou ao pastor.
+
+--Seja o Senhor comvosco!
+
+--Seja bemvindo quem chega e assim annuncia-se ao humilde.
+
+--Hospede na terra venho de longe e commigo, em estado que não consente
+esforço, trago a minha esposa, que aqui vedes. Se permittirdes que ella
+fique um momento comvosco emquanto procuro hospedagem, sempre o meu
+coração vos ha de louvar.
+
+O velho pastor, idoso, de fartas barbas amarellecidas, longos cabellos
+espalhados pelos hombros, que um melóte cobria, soergueu-se e falou:
+
+--A caverna não tem porta, ainda é mais franca que os templos. Entrai e
+abeirai-vos do lume, que a noite começa a esfriar.
+
+--Ella fica, eu sigo pela pousada. Maria, timida, entrou. Logo o pastor
+acamou as palhas, alargando um leito fofo e, vendo-a recostar-se, voltou
+ao seu lume e ao canto com que se entretinha.
+
+E o patriarcha partiu.
+
+Ainda que não conhecesse a cidade, tanta era a gente que se movia nas
+ruas, que não lhe foi difficil, perguntando, encaminhar-se a uma estalagem.
+
+Logo á entrada, sob o vasto alpendre, viu altas pilhas de fardos e, em
+torno, estendidos em pelles, mercadores e recoveiros.
+
+O hospede, mostrando-lhe o transbordo da casa, disse:
+
+--São homens que se aboletam ao relento, por falta de commodos.
+Difficilmente encontrareis quem vos receba, porque as festas attrahiram
+grande mó de estrangeiros e as feiras trazem das cercanias todos os
+lavradores. Guie-vos o Senhor. E José proseguiu.
+
+Nas viellas e alfurjas havia turbas cantando e bailando em volta de
+fogueiras.
+
+Debalde o ancião entrava nas estalagens; as proprias choupanas recebiam
+hospedes e, pelas collinas, entre fogos, clareavam tendas. Errou até
+tarde sem exito.
+
+Já o silencio annunciava hora alta quando, quebrado de fadiga,
+retrocedeu pelas betesgas desertas, ao latido dos cães errantes, em rumo
+á caverna.
+
+Avistou-a de longe, alumiada por um clarão de luar, e, como levantasse
+os olhos demandando o astro, deu com um anjo deslumbrante que, abrindo
+azas largas, diaphanas, feitas como de nevoa e luz, ia e vinha no
+espaço, rondando a noite.
+
+Entrou. O velho pastor velava diante das brazas vividas e, entre
+ovelhas, sobre a palha loura, a Virgem dormia serena.
+
+ * * * * *
+
+
+
+
+Natal
+
+
+O esplendor é mais impenetravel que a treva e foi uma muralha fulgurante
+que encobriu Maria quando se realisou a prophecia do Bem.
+
+Na hora em que os gallos cantaram a primeira vez subito clarão
+resplandeceu no fundo da caverna. A luz foi tanta, tão intensa que
+atravessou o somno em que jaziam o patriarcha e o pastor.
+
+José soergueu-se d'impeto, firmando-se nas mãos, offuscado pela
+claridade vivida que irradiava em stalactites de um brilho augusto,
+mudando em rutilos diamantes todas as pedras brutas e fazendo do aspero
+sólo, eriçado em pedrouços, uma área esplendida como se fosse embutida
+de gemmas lapidadas.
+
+O pastor, attonito, deslumbrado, arrastava-se tacteando e a caverna, a
+mais e mais aclarada, parecia toda uma chamma alva como se um luar
+maravilhoso a enchesse magnificamente.
+
+Os dois homens, atordoados, não falavam--estendiam as mãos e os seus
+dedos chammejavam como raios d'astros e da luminosidade desprendia-se um
+perfume, novo na terra, aroma celestial que enlevava como um encantamento.
+
+Além da caverna a noite negrejava calada e erma de estrellas. Poude o
+pastor arrastar-se até o limiar e o seu corpo, esgueirando-se, refulgia
+como o de uma salamandra.
+
+Tremulo, chegou á entrada, respirando, a largos sorvos, o ar frio que
+vinha dos outeiros. Levantou o olhar e recuou espavorido.
+
+Escada altissima, de scintillantes degraus, ligava o cimo do outeiro ao
+ceu aberto em radiante pórtico e anjos desciam, tantos que pareciam uma
+catadupa que se despenhava espumejando iriada de sol, com scintillações
+de pedrarias.
+
+Não poude olhar e, rojando-se, com a face na terra, ouvia o murmurio das
+azas.
+
+Não disse palavra, immovel, tolhido de assombro, sentindo a
+transfiguração da noite.
+
+José conseguiu levantar-se e caminhou lentamente atravez do esplendor.
+
+Maria appareceu-lhe entre as mansas ovelhas que, reunidas, bafejavam as
+palhas onde um pequenino infante, as mãosinhas na boca, os olhos
+candidos abertos, parecia contemplar a Virgem que sobre Elle inclinava-se.
+
+Olhou-a, fitou no tenro corpo os olhos e viu que o cercavam tres figuras
+de incomparavel belleza.
+
+Uma, as mãos diaphanas cruzadas sobre o peito, os olhos baixos,
+concentrada, rezava. Outra, d'olhos enlevados, com uma palma verde na
+mão debil, sorria. A terceira, de joelhos, aquecia com o halito,
+envolvendo-o nos seus longos cabellos louros, o corpo recem-nado.
+
+Por onde teriam entrado os tres seres? Que anjos seriam? Não os poude
+reconhecer o patriarcha, mas chegando-se á Virgem tomou-lhe a mão e
+beijou-a.
+
+Ella mostrou-lhe o Filho com uma ternura tão meiga que o sorriso não
+poude por si só exprimil-a e lagrimas correram.
+
+Assim deram os olhos, d'uma só vez, todos os seus thesouros: o brilho do
+olhar e os diamantes da meiguice, essa humildade do amor.
+
+Pouco a pouco foi-se a luz extinguindo, a sombra retomou a caverna.
+
+As Virgens desappareceram e Maria, acolhendo o pequenino nos braços,
+chegou-o ao collo, aqueceu-o, afagou-o.
+
+Foi mãi antes de ser serva. Só depois de o beijar estremecidamente ouviu
+as vozes que atroavam a noite:
+
+«Gloria a Deus nas Alturas, Paz aos homens na terra de bôa vontade.»
+
+Occorreram-lhe as palavras do anjo. Lembrou-se, então, que o Sêr nascido
+do seu seio era o Deus da Promessa.
+
+Deitou-o delicadamente nas palhas e ajoelhou-se adorando-o.
+
+José, afastado do grupo, prestava culto á Virgem e ao Infante e o ceu,
+pela voz dos Espiritos eleitos, saudava o Natal messianico, apregoando a
+vinda do Filho do Homem, portador da Piedade.
+
+Ergueu-se o pastor, olhou o ceu e, ouvindo os anjos, sahiu a correr
+bradando inspiradamente a Bôa Nova.
+
+E os gallos puzeram-se a cantar annunciando a maior e a mais bella
+madrugada do mundo.
+
+ * * * * *
+
+
+
+
+As tres virgens
+
+
+Quando o Menino adormeceu José, aproximando-se de Maria, perguntou-lhe
+baixinho: «Se vira as tres virgens que cercavam o Infante ungindo-o de
+luz?» A Immaculada respondeu no mesmo tom discreto:
+
+--Logo que sahiu do somno, ainda antes de vêr meu filho, dei com ellas,
+immoveis, aclarando toda a caverna, de joelhos em torno do Recem-nascido.
+
+Não falavam. Não sei quem são.
+
+Desappareceram de repente como as estrellas desapparecem.
+
+--Seriam anjos? Uma serena voz, sahindo das pedras, falou no silencio:
+
+--A primeira é toda a Crença do Homem: é a Virtude que leva a Alma á
+presença do Altissimo.
+
+Antes da vinda do Messias era a nevoa indecisa que resplandecia e
+obumbrava-se; agora é a Luz pura e perenne, a luz viva que guia ao
+Paraiso atravez de todos os abrolhos, por meio dos mais árduos
+soffrimentos, vencendo as mais perversas tentações, sempre direita,
+inflexivel e segura. É a Fé.
+
+O seu olhar não se desvia, a sua linguagem é a prece, a sua confiança é
+Deus. É a mais forte das tres. A segunda é uma consoladora. Parece um
+reflexo da primeira: É a Esperança.
+
+Veste-se de illusões, recama-se de sonhos para distrahir a Alma,
+livrando-a do desespero. É como o ramo verde que se inclina á borda dos
+abysmos. É a divina miragem que, atravez das agruras da vida, reanima o
+coração combalido, creando perspectivas venturosas.
+
+Só, é uma encantadora que vive a inventar maravilhas, ligada á Fé é a
+precursora que desbrava o caminho para a travessia da alma.
+
+Sem ella a miseria seria um flagello, a dôr seria intoleravel. É uma
+força feita de sonho. Isolada é a fantasia.
+
+A terceira é o Amor, é a lagrima que se converte em misericordia, é a
+bondade omnipotente, a meiguice que salva, a resignação que remitte, a
+paciencia que conforta, a lan que agasalha, o linho que estanca o
+sangue, o lume que aquece.
+
+É o conjuncto amoroso de todas as beneficencias--a Caridade.
+
+São as tres irmans que acompanham o Messias.
+
+Elle tomou-as ao paganismo e converteu-as transmittindo-lhes a sua
+essencia.
+
+Eram as Karites, são as Virtudes. Fôram as Graças, são as beneficiadoras.
+
+Com ellas Jesus fará a redempção do Homem.
+
+Para combater o mal, podendo trazer as legiões adamantinas, trouxe as
+humildades.
+
+Calou-se a voz e os dois olharam-se maravilhados.
+
+--Não ouviste falar?
+
+--Sim, meu senhor, falaram. As ovelhas estavam de pé e olhavam, como se
+tambem procurassem o mysterioso, interlocutor.
+
+Mas o Menino agitou-se no leito palhiço, estendeu os bracinhos e chorou.
+
+Presto, Maria tomou-o ao collo, aconchegou-o cobrindo-o com o manto.
+
+--Deve ser frio, disse José.
+
+--Fome, talvez, disse Maria, anciosa por dar o peito farto ao pequenino
+Filho.
+
+ * * * * *
+
+
+
+
+O primeiro leite
+
+
+Á primeira sucção da boca da criança Maria estremeceu, sentindo uma dôr
+aguda, como se um punhal lhe houvesse atravessado o seio. Longe, porém,
+de fugir com o peito dolorido, inclinou o busto, dando-se toda ao
+sublime martyrio, com a alma a brilhar nos olhos que a dôr orvalhara de
+lagrimas.
+
+Ávido, o infante sugava, cavando as bochechas e o leite, afluindo,
+rasgava passagens como a torrente que se despenha da altura vincando a
+terra e arrastando o que se lhe antolha á levada.
+
+O Divino alimentava-se do soffrimento humano e naquellas opalinas gottas
+de leite--sangue e agua fundidos em candura--o ceu commungava na terra.
+
+A Carne mortal nutria o Espirito Perenne, o ephemero transfundia-se no
+Eterno: as duas collinas alvas tocavam o Infinito, que era a boca de
+Jesus, de onde deviam jorrar, em caudaes, as leis santas, os sabios
+julgamentos, a benção e o perdão.
+
+A Virgem sorria e o seu collo turgido ondulava de ventura, em quanto o
+patriarcha, ajoelhado, contemplava o grupo, aureolado pelo clarão da
+fogueira, cuja chamma resurgira ao sopro da brisa nocturna.
+
+Fóra resoavam canticos; vozes, sons de harpas enchiam o espaço.
+
+Por vezes um clarão relampejava diante da gruta á esplendida passagem
+rapida de um anjo.
+
+Maria, inclinada sobre o Filho, só a elle sentia, ouvindo apenas o lento
+gorgulhar do leite que elle sugava soffrego.
+
+Todo o mundo ali estava nos seus braços: a terra com os seus vergeis
+floridos, o ceu com as suas estrellas fulgidas.
+
+Que lhe importava a aurora se na pennugem loura que seus dedos afagavam
+na cabecinha do filho, ella via o esplendor maior que podem contemplar
+olhos de mãi!
+
+Que lhe importavam os anjos se, no fundo luminoso das pupillas da
+criança, via dois pequeninos seraphins alegres?
+
+Que lhe importava a immensa alegria universal, se o seu coração
+transbordava de felicidade com aquelle amor!
+
+Levantou-se um alarido fóra, na estrada obscura. José sahiu ao limiar.
+
+Um bando de homens corria em tropel em direcção ao abrigo agreste. Á
+frente delles, voando e alumiando-lhes o caminho com o esplendor das
+azas, um anjo estendia o braço mostrando a caverna. Outros cruzavam
+longe, em enxames claros.
+
+No cimo dos cerros grupos resplandeciam.
+
+Subito uma grita atroou o silencio:
+
+ «Hosannah! Hosannah!»
+
+O pequeno adormeceu docemente com a boca collada ao peito materno. Maria
+beijou-o e, inclinada, quedou em enlevo.
+
+ «Hosannah! Hosannah!»
+
+bradavam fora. Ella sobresaltou-se e, chamando o esposo, perguntou:
+
+--Quem clama assim, meu senhor?
+
+--Pastores. Guia-os um anjo. Vêm adorar o Infante. E ella, cuidadosa:
+
+--Comtanto que o não despertem... E aconchegou-o ao collo agasalhando-o
+junto do coração.
+
+ * * * * *
+
+
+
+
+Adoração dos pastores
+
+
+Tumultuosamente os pastores chegaram á caverna e o velho, dono do
+rebanho, que acolhera o casal no seu tugurio, adiantou-se ao grupo e
+falou ao patriarcha:
+
+--Deixai-nos vêr e adorar o Deus vivo. Já o tinha por tal e quando sahi
+para a noite, com os olhos offuscados, fui bradando no silencio a Bôa Nova.
+
+Os homens que dormiam nas choças, as ovelhas que se apertavam nos
+apriscos, as mesmas arvores sem folhas, as mesmas pedras sem vida
+estremeceram á minha voz pregoeira.
+
+Eu levava na boca uma palavra que estrondava. O que eu dizia aos que me
+ficavam perto retumbava como o som da buzina que vai de quebrada em
+quebrada ou como o trovão tempestuoso que se ouve em todos os pontos: na
+planicie e no valle, na montanha e na furna.
+
+De mim sahia a annunciação e, certo, a minha palavra ainda vai pelos
+ares viva, levando ás póvoas mais remotas a venturosa noticia.
+
+O que eu dizia na terra anjos repetiam nos ares. Os espiritos celestiaes
+fizeram-se meus echos e ainda clamam batendo as azas, tangendo lyras que
+sôam docemente.
+
+Não havia uma estrella e todas agora reluzem; astros nunca vistos
+brilham no fundo ceu.
+
+Não havia folha em ramo e as arvores estão todas cobertas e cantam
+festivamente passarinhos nas montas.
+
+O outono vestiu-se com as galas da Primavera.
+
+Só um Deus faria prodigios taes.
+
+Deixai-nos vêr e adorar o Deus vivo.
+
+Os pastores brandiram os cajados bradando, de novo:
+
+ «Hosannah! Hosannah!»
+
+E, como José se afastasse dando-lhes passagem, precipitaram-se
+tumultuosamente e, ajoelhando-se, adoraram o Divino Infante.
+
+Todos levavam dádivas campestres: este um anho, de vello fino, a boca
+rescendendo a leite; outro um casal de rolas; esse, um favo de mel,
+aquelle uma lan sedosa e, cada qual, offertando o seu presente, pedia,
+em oração intima, a graça do Menino Deus.
+
+Maria olhava receiosa aquelles homens rudes que cercavam seu Filho. Como
+eram muitos os mais velhos levantavam nos braços os pequenos para que
+vissem o Recem-nado e diziam-lhes: «Pede!»
+
+As crianças, sorrindo, pediam pelo gado e pelas fontes: que ovelha
+alguma morresse, que nunca as aguas seccassem.
+
+Um pequenito, sentado no hombro de um agigantado pegureiro, olhava
+pensativo e calado.
+
+«Pede!» disse-lhe o homem.
+
+--Se Elle fosse Deus... murmurou a criança, e uma lagrima rolou dos
+lindos olhos infantis. Os outros adoravam e, no silencio, ouvia-se
+apenas, de quando em quando, um timido balido.
+
+Repentina, triumphante, uma voz bradou á entrada da caverna:
+
+--Gloria a Deus Salvador! O pastorinho estremeceu no hombro do
+pegureiro, voltou a cabeça e viu uma andrajosa mulher livida, macilenta,
+que estendia os braços magros procurando abrir passagem na multidão
+reverente.
+
+Reconheceu-a e, desprendendo-se dos braços que o mantinham, correu ao
+seu encontro e, lançando-lhe os braços á cinta, disse commovido:
+
+--Fui eu, mãi, que Lhe pedi. É Deus! Entra e adora-o. Dorme nas palhas.
+
+Os pastores, reconhecendo a entrevada que vivia a gemer, encolhida num
+estrame, recuaram pasmados e ella, tremendo como se estivesse de pé
+sobre uma lapide de neve, perguntou ao filho que a contemplava:
+
+--E tu, tão pobresinho! que lhe deste, meu filho?
+
+--Uma lagrima, minha mãi... e foi tudo que lhe pude dar.
+
+ * * * * *
+
+
+
+
+Dôr
+
+
+Tomando a urna, ao clarear d'alva, quando o velho pastor sahia com o
+rebanho, José acompanhou-o para que elle o guiasse á fonte.
+
+Logo que os dois homens desappareceram as hervas que ourelavam a caverna
+cresceram prodigiosamente, emmaranhando-se em tapigo que encobriu a
+entrada.
+
+A Virgem, de instante a instante, abria os olhos e, soerguendo-se,
+ficava em extase contemplando o Filho, cujo halito débil cheirava
+docemente a leite.
+
+Posto que apenas tivesse horas já ella lhe havia descoberto todos os
+encantos e se lh'o arrebatassem dos braços, confundindo-o com mil
+crianças, reconhecel-o-ia sem trabalho, tanto o tinha nos olhos e no
+coração gravado.
+
+Olhava-o quando o sentiu mover-se, contorcendo-se. Num tremor de
+sobresalto enrijou os bracinhos, bateu as palhas com os pés rosados e
+rompeu num choro forte que repercutia no interior como se as pedras
+chorassem com elle, commovidas.
+
+Tomou-o Maria ao collo, acalentando-o ao calor do seio. Falava-lhe com
+ternura, interrogava-o, chamava-o e, sem poder allivial-o, poz-se a
+chorar afflicta e, sobre a divina face as suas lagrimas cahiam gotta a
+gotta como o orvalho cahe das folhas sacudidas pelo vento.
+
+Ai! d'ella, como se julgava culpada e infeliz vendo soffrer o pequenino
+amor, tão novo, tão innocente, tão sem culpa e já supportando as
+torturas herdadas da carne.
+
+Começava a Divindade a visitar o soffrimento: a peregrinação de Deus
+atravez da Agonia annunciava-se pelo primeiro choro.
+
+Elle havia de conhecer todas as Dôres, todas as Angustias para poder
+julgal-as alliviando o Homem, cuja redempção trazia.
+
+Tenro, mal pousado na vida, já estrebuchava doridamente. E começava
+apenas--era a iniciação.
+
+Outros maiores tormentos formavam a phalange suppliciante, a alameda
+tragica da existencia, onde a alegria é como o nimbo solar que passa
+difficilmente por entre as frondes compactas.
+
+Que fazer? Deu-lhe o peito. Poz-se o Infante a mamar vagindo,
+estremecendo e ella, relanceando em torno os olhos humidos e afflictos,
+implorava o mysterio.
+
+Tudo era silencio em volta, ninguem que a soccorresse. E os anjos? Já
+haviam regressado ao ceu.
+
+O Infante ficara entregue ao seu piedoso voto. Deus entrava
+desacompanhado no mundo, ser como os demais seres, homem como os outros
+homens, integrando-se na Humanidade.
+
+Só lhe valeram os carinhos de Maria: o calor do collo, o enlace amoroso
+dos braços, os beijos repetidos foram, pouco a pouco, alliviando-o e, de
+novo, adormeceu tranquillo, não mais sobre a palha loura, mas
+aconchegado ao seio, ninado pelas palpitações do coração materno.
+
+ * * * * *
+
+
+
+
+Receio
+
+
+Fino raio de sol insinuando-se na caverna pousou na palha abrindo um aro
+de ouro em torno da cabeça do Infante adormecido.
+
+Todas as aves chilreavam, garrulas moças passavam na estrada; ás vezes
+eram récuas de dromedarios desfilando em ruidoso atropello.
+
+Maria prestava attenção ao rumor, receiando pelo Filho. Tomou-o muito ao
+seio e, quasi de rastos, aprofundou-se na sombra escondendo o seu
+thesouro com amorosa avareza.
+
+Tão lindo! quem o não desejaria! E se um d'aquelles homens,
+descobrindo-o, investisse para arrebatal-o, quem o defenderia?
+
+Na treva ficava a coberto de todos os olhares.
+
+No fundo da caverna lentejava tristemente uma mina e a cada gotta do
+estellicidio respondia um som lacrimoso.
+
+O ar era frio e humido, as paredes luziam lutulentas e, fóra, o sol
+brilhava, alegre e tepido, em fitas, em nimbos de ouro, lampejando nas
+arestas agudas da abobada escabrosa.
+
+Quando José reappareceu--a herva da entrada subitamente esmarriu--vendo
+deserta a palha, estacou, olhando espantado, com apprehensões de desgraça.
+
+Que seria feito delles? Caminhou alguns passos. O coração batia-lhe,
+tremia-lhe a urna ao hombro. Maria, reconhecendo-o, falou do seu
+esconderijo:
+
+--Aqui, meu senhor. O patriarcha adiantou-se e, sentindo a friagem do
+sitio, ouvindo o triste gottejar na lage, perguntou:
+
+--Porque buscaste tão obscura jazida onde o ar regela e a luz não chega?
+Lá fóra ha um calor macio e sente-se o aroma das hervas vivas, ouvem-se
+as vozes alegres. Aqui ha o silencio e a melancolica espessidão dos
+tumulos.
+
+--Eu estava só, meu senhor e o coração, dantes tão animoso, é agora tão
+timido que eu viveria, de boa mente, num subterraneo só para que olhos
+maus não fitassem meu filho nem o invejassem adoentando-o.
+
+Não sei que voz me fala dentro do coração pedindo-me que o defenda.
+Ouço-a a todo instante.
+
+Dizem-me os anjos que Elle é Deus... Não me passaram despercebidos os
+prodigios da noite: tudo vi, tudo ouvi, mas minh'alma ordena-me que o
+resguarde, que o não perca de vista, que sempre o traga acautelado,
+talvez porque é pequenino e fraco.
+
+Não sei se pecco com a presumpção de defender quem é omnipotente, mas
+como hei de lutar contra mim?
+
+--Mas se o ceu nos diz e prova que Elle é o Filho de Deus porque has de
+receiar os homens?
+
+--É o coração que receia.
+
+--E entre o que diz o coração e o que affirmam os anjos hesitas, Maria?
+
+--Senhor, os anjos falam pelo Ceu, o coração fala pelo meu amor. Se Deus
+acha-me rebelde, curvo-me ao seu castigo.
+
+E, humildemente, ajoelhou-se ante o berço.
+
+Jesus, abrindo os olhos claros, profundos, fitou-os nella e, como se lhe
+quizesse responder, sorriu.
+
+ * * * * *
+
+
+
+
+O somno
+
+
+Maria mal humedeceu os labios á borda do tarro de leite de ovelha que o
+pastor ordenhara antes de partir. Cuidados traziam-na apprehensiva. Se o
+filho estremecia sobresaltava-se-lhe o coração, se o via immovel,
+dormindo, temia que houvesse morrido e logo, anciosamente, afagando-o,
+chamando-o, despertava-o.
+
+--Deixa-o dormir, disse-lhe o patriarcha, o somno é necessario á vida, é
+a sombra em que a alma repousa.
+
+O espirito das crianças refugia-se no somno como o dos velhinhos--o
+primeiro porque d'elle sahiu e ainda o tem por ninho; o segundo porque o
+procura como abrigo. Não o despertes, deixa-o dormir.
+
+--É que me parece estar morto. Não faz o mais leve movimento e, quando
+elle assim fica, meu coração pára retransido.
+
+--É a serenidade. Só o somno dos maus transmitte ao corpo a convulsão do
+pesadello.
+
+O somno é uma visita á morte: os innocentes fazem-na sorrindo, os
+peccadores fazem-na espavoridos.
+
+Não receies que Elle passe tão cedo á Eternidade de onde veiu. Ainda que
+não trouxesse a missão que o fez baixar ao mundo, fosse Elle tão da
+terra como o filho da zagala dos montes, não o deverias tirar do repouso.
+
+Não desenterras a semente por não a veres á flor do solo, deixas que
+ella venha a flux e rebente, abra o renovo e cresça.
+
+O somno é uma incubação. Porque não sonha? porque não tem impressões. O
+sonho é como um reflexo em que ha echo, é a reproducção confusa da vida
+com a repercução indistincta das vozes e dos ruidos.
+
+Ha quem veja presagios no sonho como o nómade vê realidades na miragem.
+
+Com que ha de sonhar quem não tem consciencia da vida? Deixa-o dormir.
+
+É á noite que a floresta cresce e a criança é como a arvore.
+
+O luar é manso, é uma luz silenciosa de vigilia, uma tunica diaphana
+sobre a treva--não desperta. As estrellas são meigas porque a noite deve
+ser tranquilla para que a Natureza descance. Peixa-o dormir.
+
+Conserva-te immovel e calada, não perturbes a vida mysteriosa. Demais,
+Elle é o Eterno. A Morte passa por Elle como a lamina de uma espada por
+um raio de sol. Deixa-o dormir.
+
+Bem sei que o egoismo das mãis chega a insurgir-se contra as leis de
+Deus; não te insurjas tu, que O geraste. Elle precisa rever a Humanidade
+entrando na Vida e gozando, sahindo, talvez, pela Morte com soffrimento.
+
+--Meu senhor! exclamou a Virgem estendendo as mãos, commovida.
+
+--São palavras, Maria. Ai! de mim, quem sou eu para pronunciar oraculos
+sobre Aquelle que tem o destino da Vida na sua mão direita!
+
+São palavras que digo. Deixa-o dormir.
+
+ * * * * *
+
+
+
+
+Palavras de Maria
+
+
+Como eu agora comprehendo que se viva escravisada a um sorriso!
+
+Quando tenho meu filho ao collo, nutrindo-se do meu sangue, que deixa a
+côr da purpura e veste-se de branco para não macular os labios
+innocentes, toda a minha vida nelle se concentra.
+
+A Felicidade e a Desgraça sentam-se junto de mim, sinto-as no
+contentamento que me alvoroça e nos presagios estranhos que me occorrem.
+
+É preciso ser mãi, ter gerado para conhecer o verdadeiro amor.
+
+A alma sahe-me do corpo e fica junto do Infante. Se me arredo um momento
+sinto-me logo attrahida como por uma pesada corrente que se me prende ao
+coração. E tanto o contemplo, tanto! que fico com elle dentro dos olhos
+como quem fita um objecto ao sol e depois o vê em toda parte, ainda na
+treva mais densa.
+
+Dantes, quando as mãis falavam-me de seus filhos, sempre eu as achava
+exaggeradas nos louvores. Que diriam de mim as que agora me ouvissem!
+
+O meu desejo era não ter na boca outras palavras senão estas: «Meu
+filho!» São as que o coração inspira-me, são as que me agradam ouvir.
+
+Ellas fazem um gyro alegre como um casal de passarinhos brincando.
+Sahem-me dos labios, entram-me pelos ouvidos cantando, circulam o meu
+coração e tornam á boca.
+
+Meu filho! E não ha todo um mundo de amor dentro d'ellas? Que mais é
+preciso para a ventura?
+
+Quando as suas palpebras descerram-se inclino-me e busco vêr nas suas
+pupillas--que são agora os meus espelhos--o que ellas contêm.
+
+Fico tão perto que ellas só a mim reproduzem.
+
+Do mais tenho ciume, nem quero que seus olhos tenham outros habitantes.
+
+Quando Elle estremece, tremo. Quando Elle sorri é tão grande a minha
+alegria que fico num atordoamento desvairado, sem saber que faça, e
+choro e rio.
+
+Ai! de mim quando Elle chora.
+
+Não tendes notado que sou agora como uma faminta perdida que não se
+sacia de alimento?
+
+Não é que tenha fome, não; mas penso n'Elle e, como é preciso que Elle
+encontre sempre farto o peito em que se nutre, transformo-me em celleiro.
+
+Dormir, nem sei se durmo, porque ao mais leve movimento que Elle faça
+surprehendo-me a mim mesma achando-me a seu lado, agasalhando-o,
+afagando-o, procurando readormecel-o ou acalentando-o, se chora.
+
+Eu não era assim amorosa, meu senhor. Agora que o tenho não parece que
+vivo no mundo, só d'Elle me lembro. Onde Elle está ahi é que me apraz
+viver.
+
+O seu berço é um oasis em immenso deserto.
+
+Dizeis, ás vezes, que me distraio porque não vos respondo de prompto.
+Não é distracção, é que a alma está junto d'Elle--o corpo fica vasio
+como uma casa fechada cujo dono trabalha na seara.
+
+Dissestes uma vez: «As mãis adivinham.» Como conheceis o coração materno!
+
+E ha mãis que ficam no mundo quando lhes morre o filho. Como se podem
+guiar na vida? Como podem caminhar sem arrimo? Como podem vêr sem luz?
+Como não sossobram no pranto? Eu...
+
+--Porque choras, Maria?
+
+--Porque sou feliz, meu senhor...
+
+ * * * * *
+
+
+
+
+As duas mãis
+
+
+Junto a uma velha figueira, que ficava a dois passos da caverna, onde a
+estrada, bifurcando-se, dava uma sinuosa trilha para os montes e um
+caminho direito para os campos, sentara-se Maria com Jesus ao collo,
+gozando o frescor da manhan serena e vendo os pombos revoarem, com
+rumoroso ruflo d'azas, passando, repassando em torno.
+
+José descera á fonte.
+
+Zagalejos passavam soprando frautas e o sol, accendendo as camarinhas do
+orvalho, fazia da paizagem uma extensa scintillação.
+
+A Virgem entretinha-se, enlevada no pequenito que acompanhava a ronda
+aligera das aves, quando uma pallida mulher, andrajosa e descalça, os
+cabellos desgrenhados, os olhos fundos, a caveira estalando a pelle
+secca, appareceu no caminho, tão lenta e com tão alto e angustioso
+arquejo que foi por elle que Maria sentiu a aproximação da infeliz.
+
+Era ainda moça, conservava na miseria um resto de emmurchecida belleza.
+
+Os olhos negros ardiam febris como dois carvões em que faiscassem
+fagulhas; as rosas das faces haviam amarellecido, os labios, reseccados
+e lividos, estalavam em fendas como golpes.
+
+Trazia nos braços, envolta em grosseiras faixas, uma criança que vagia.
+
+Diante da Virgem deteve-se. Arrasaram-se-lhe os olhos d'agua e, parada,
+tremendo, estendeu a mão magra, a pedir.
+
+Maria encarou-a compadecida e, como não possuisse moeda, não respondeu á
+infeliz, alanceada de pena. E a mulher soluçou:
+
+--Não é por mim que peço, é por elle. Tenho-o, desde hontem, ao seio,
+bebendo sangue--não é um peito que lhe dou, mas uma ferida. A boca do
+pobresinho está da côr da anemona.
+
+Não lamentaria a dôr com que a sua fome me apunhala se o visse saciado,
+mas o sangue não farta e, ainda que eu lhe não recuse o que me resta de
+vida, sinto-o enfraquecer a mais e mais.
+
+Já não chóra, nem abre os olhos, começa a agonisar, como a planta que o
+sol mirra na terra adusta.
+
+Dai-me o bastante para que elle viva um dia, só emquanto eu viva. Que
+elle morra depois de mim para que eu o receba na morte.
+
+Maria fez lugar junto á figueira para a enferma e, entregando-lhe Jesus,
+tomou o pequenino moribundo. Poz-lhe na boca o peito turgido e logo o
+sentiu sugar avidamente.
+
+A misera mulher embalava o divino Infante, apertava-O ao collo com medo
+de que chorasse e interrompesse a esmola que seu filho recebia.
+
+Tão enlevada estava vendo o seu penhor mamar que nem sentiu que os seus
+peitos, junto aos quaes Jesus agasalhava-se, enchiam-se, apojavam-se. E
+toda ella refazia-se: a carne renovava-se-lhe robusta, voltava-lhe a côr
+ao rosto.
+
+Satisfeita, a criança adormeceu ao collo de Maria e da boquinha
+entreaberta escorreu, rolou na terra uma gotta de leite, cahindo, como
+uma pérola, na raiz da figueira.
+
+As duas mãis olharam-se caladas por que as crianças dormiam.
+Trocaram-nas tomando, cada qual, a que lhe pertencia e a miseravel,
+agradecendo a esmola, foi-se por entre as margaridas do caminho.
+
+Perdeu-se no meio das arvores, reappareceu no lançante do cerro.
+
+De repente, já no cimo, envolta em luz, estacou derreando a cabeça como
+para olhar o ceu em pleno e subito, lançando os braços, tombou sobre os
+joelhos.
+
+Dera, sem duvida, pelos peitos cheios.
+
+Maria, para seguil-a com o olhar, levantou-se e, como se apoiasse á
+figueira, uma folha cahiu. Sentindo os dedos humidos mirou-os--estavam
+molhados de leite.
+
+D'onde proviria? da fina haste da figueira de onde se destacara a folha.
+
+A arvore sorvera a gotta de leite que rolara da boca do pobresinho e
+sempre a verte mostrando-a aos incredulos, mal se lhe arranca uma folha
+ou se lhe golpeia um galho, como uma prova da misericordia suave.
+
+ * * * * *
+
+
+
+
+A estrella
+
+
+Ao declinar do sol, quando cessava toda a alegria rural e, quietos, em
+magotes brancos, os rebanhos desciam das pasturas e o canto das aves
+morria em estrebilhos tristes, José, á entrada da caverna, as mãos
+cruzadas sobre o cajado, contemplava o ceu macio, barrado de ouro no
+occidente, onde os outeiros pareciam arder como altas pyras sobre as
+quaes flammejasse um lume votivo.
+
+Um molle, languido quebranto prostrava a natureza.
+
+As arvores espreguiçavam-se em movimentos morosos; raros passaros
+aligeiravam o vôo atravessando a luz vesperal.
+
+Nas quebradas sombrias crescia a voz das aguas borbulhantes, saltando,
+escachoando de pedra em pedra até fluirem mansas sob as pendidas ramas
+que pareciam tremer de frio.
+
+Longe, na cidade, resoava o tumulto humano.
+
+Grossos rolos de fumo negro subiam aos ares, fundiam-se, dissipavam-se
+e, á medida que a noite conquistava a paizagem, apontavam pequeninas
+estrellas esmaltando o ceu.
+
+A voz de Maria no fundo da caverna entoava suavemente. Era o
+encantamento maternal, a mimosa cantilena com que Jesus adormecia.
+
+O patriarcha, recolhido em pensamento, olhava, e, como se voltasse para
+o lado do oriente obscuro, viu um como fulgido alfange chammejando na
+treva.
+
+Tremeu e, fitando o olhar na estranha apparição, notou que avançava no
+ceu vagarosamente.
+
+Era uma estrella enorme, de brilho coruscante, que parecia haver
+atravessasado a teia da Via Lactea, tendo della trazido um rutilo
+farrapo que a seguia atravez do espaço.
+
+O astro subia em marcha grave e as demais estrellas esmoreciam á sua
+passagem como se se retrahissem timidas.
+
+Pelos caminhos, pelos outeiros homens, mulheres paravam attonitos
+olhando o prodigio.
+
+Alguns, atemorisados, invocavam deuses, rojando-se por terra; outros
+fugiam aterrados; crianças choravam espavoridas.
+
+E quando a noite negrejou fechada, o astro, com a flammejante cauda
+aberta, pairou no ceu, sobre a caverna, como uma palma de luz que
+assignalasse o berço do Messias.
+
+ * * * * *
+
+
+
+
+Epiphania
+
+
+Pastores, que faziam a vigilia no campo, contemplavam embevecidamente a
+estrella maravilhosa, quando ouviram cantares e rumorosa estropeada como
+se festiva e densa turba viesse pela encosta do cerro mais alto.
+
+Ergueram-se estranhando a caravana e viram romper, á luz de archotes,
+cujo clarão tingia sanguineamente a noite, um cortejo brilhante e desusado.
+
+Os animaes pareciam ajaezados de ouro, com recamos de pedrarias, tamanho
+era o fulgor que irradiavam nos cabeios ardegos em que vinham.
+
+Onagros, tangidos por negros, trotavam sacolejando fardos e tres
+dromedarios enxairelados caminhavam entre lanças garbosamente empunhadas
+por cavalleiros robustos.
+
+Tamborinos e anafis soavam em concerto, regulando o rythmo da marcha;
+vozes bradavam e a turba descia assustando as ovelhas e os grandes bois
+que trasmalhavam mettendo-se pelos mattos.
+
+Os cães de guarda, attentos, d'orelhas fitas, conservavam-se silenciosos
+como se reconhecessem os chegadiços.
+
+Por vezes as lanças chocavam-se, tinindo, e cerrada, na claridade fulva
+dos archotes, a caravana aproximava-se.
+
+Na planicie, ao rouco estrugir de uma buzina, estacou em ordem.
+
+Ligeiramente, destros e açodados negros desfizeram grandes rolos,
+fincaram cepos e, em pouco, tendas retesaram-se.
+
+Os animaes, alliviados da carga, deitavam-se na herva fresca,
+espojavam-se contentes e, em volta das tendas, como uma sebe de guerra,
+os cavalleiros cravaram as lanças pelos cantos ficando os ferros luzindo
+como estrellas.
+
+Os pastores, esgueirando-se na sombra, procuravam chegar ao acampamento
+para vêr de perto os chefes da hoste que com tanta grandeza se movia.
+
+Um d'elles, mais ousado, foi descoberto por um grande negro que trazia
+ás costas, suspenso d'uma corrente, um dardo de ferro.
+
+Sem tempo de fugir cahiu em poder do vigia que logo o conduziu á tenda
+mais sumptuosa, toda alfaiada de seda e purpura e nublada de aromatas.
+
+Lampadarios de ouro illuminavam-na. A herva desapparecia sob tapetes
+altos, escudos lampejavam e, como o negro o impellisse, viu-se o pastor
+na presença de tres homens ricamente paramentados, com fotas na cabeça
+rutilantes de gemmas.
+
+Eram magos das terras remotas.
+
+Um alvo, a barba negra e farta espalhada no peito scintillante de
+pedrarias; outro da côr amarellada dos filhos das extremas da Asia; o
+terceiro negro, com immensas camandulas de ouro em volta do pescoço,
+braceletes nos punhos, argolas nas orelhas e na fronte alta, preso por
+um nastro, um diamante que coruscava.
+
+O pastor ajoelhou-se e, medroso, esperava ouvir palavras severas, quando
+um dos homens tranquillisadoramente perguntou:
+
+--Se sabia em que paço, por ali perto, nascera o rei dos judeus. O
+rustico, sem entender a pergunta, ficou arvoado, imaginando-se victima
+de uma zombaria. Lembrando-se, porém, dos anjos e de todos os prodigios
+da noite messianica, respondeu vagamente:
+
+--Perto d'aqui nasceu--e os ceus festejaram o seu natal--um menino,
+filho de pobres, vindos de terras longinquas. Ainda lá está no mesmo
+tugurio, ao collo da mãi, que é uma linda moça, sob a guarda de um
+ancião veneravel. É bem perto d'aqui, na caverna do outeiro sobre o qual
+paira e brilha a estrella alada que appareceu no ceu.
+
+Levantaram-se os tres homens--o pastor sahiu da tenda e, estendendo o
+braço na direcção do outeiro, disse:
+
+--É ali, sob a estrella.
+
+--Deve ser, disse o negro. E os dois outros concordaram. E, despedindo o
+pastor com uma bolsa de moedas de ouro, ficaram de pé, em silencio,
+contemplando adorativamente a estrella que resplandecia.
+
+ * * * * *
+
+
+
+
+Adoração dos magos
+
+
+Ao dealbar tronaram as buzinas e a caravana moveu-se em direcção á caverna.
+
+A grande estrella ainda luzia no ceu.
+
+Os magos seguiam á frente nos dromedarios e, em torno delles, nitriam,
+caracolavam os ginetes dos cavalleiros com os seus telizes dourados, os
+seus caparações de purpura.
+
+Quando a turba defrontou com a caverna todos os homens apearam e,
+respeitosamente, com humildade de servos, deixando no limiar os papuzes
+marchetados, os magos penetraram zumbridos, como se fossem de rastos,
+levando nas mãos, devotamente, as pareas significativas.
+
+Recebeu-os o patriarcha e, como a Virgem se levantasse, com Jesus ao
+collo, os tres homens prostraram-se de joelhos, descobrindo-se, depondo
+os turbantes, e, inclinando a cabeça, ficaram um momento em veneração
+silenciosa.
+
+O primeiro falou offerecendo a myrrha.
+
+--Homem, Filho de Deus, a arvore do deserto deu do seu tronco a resina
+que te offereço. O seu perfume é uma força que se oppõe á destruição da
+carne: eternisa o corpo como a Virtude eternisa o espirito.
+
+O segundo inclinou-se com um escrinio cheio de ouro:
+
+--Rei, as minas, onde rebrilham os veios rutilantes, deram a poeira que
+te offereço: ouro, symbolo do poder, chamma fria da terra. Tudo elle
+vence: a miseria e a propria Virtude. Desopprime e escravisa, redime e
+perverte, é o bem e é o mal. Nas mãos munificas é luz que aclara e
+salva; nas mãos crueis é chamma que consome.
+
+O negro falou por ultimo com uma patena de incenso:
+
+--A arvore instilla a lagrima que rescende, lagrima que, ao lume,
+converte-se em fumo e evola, demandando o ceu, como homenagem da terra.
+
+Como lagrima, é uma concentração; como aroma, é uma oblata. É o incenso
+com que se glorificam os deuses. É a offerenda das terras negras ao Deus
+que redime.
+
+Gente, que afluira á caverna, pastores e seareiros, mesteiraes, velhos,
+mulheres e crianças das arribanas proximas entraram e, diante da palha
+humilde, toda a grandeza e toda a humildade confraternisaram e tambem o
+sol, como enviado do ceu, adorando o Infante da Misericordia que baixara
+para cumprir as prophecias trazendo aos homens a religião do Amor.
+
+E Maria, deslumbrada, sem ouvir as vozes glorificadoras, olhava,
+contemplava, adorava o pequenino Filho.
+
+O sol cercou-os de esplendor e a Virgem, de pé no meio da turba, com
+Jesus ao collo, era o purissimo altar sobre o qual se mostrara ás gentes
+o Divino Perdão.
+
+
+
+
+INDICE
+
+ Pag.
+ A partida 5
+ O anjo 13
+ Lyrios 19
+ A refeição 25
+ A nuvem 31
+ Ao pôr do sol 39
+ A tentação 45
+ O milagre das lagrimas 55
+ Caminhando 65
+ O cégo 71
+ Dentro da noite 77
+ Presagio 83
+ Piedade 91
+ Cantico messianico 97
+ O campo de Booz 105
+ Na estrada de Bethleem 109
+ Na caverna 113
+ Natal 121
+ As tres virgens 129
+ O primeiro leite 135
+ Adoração dos pastores 141
+ Dôr 147
+ Receio 151
+ O somno 157
+ Palavras de Maria 161
+ As duas mãis 167
+ A estrella 175
+ Epiphania 179
+ Adoração dos magos 185
+
+
+
+
+
+
+End of Project Gutenberg's Mysterio do Natal, by Henrique Coelho Neto
+
+*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK MYSTERIO DO NATAL ***
+
+***** This file should be named 34750-8.txt or 34750-8.zip *****
+This and all associated files of various formats will be found in:
+ http://www.gutenberg.org/3/4/7/5/34750/
+
+Produced by Pedro Saborano
+
+Updated editions will replace the previous one--the old editions
+will be renamed.
+
+Creating the works from public domain print editions means that no
+one owns a United States copyright in these works, so the Foundation
+(and you!) can copy and distribute it in the United States without
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+set forth in the General Terms of Use part of this license, apply to
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+Gutenberg is a registered trademark, and may not be used if you
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+such as creation of derivative works, reports, performances and
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+practically ANYTHING with public domain eBooks. Redistribution is
+subject to the trademark license, especially commercial
+redistribution.
+
+
+
+*** START: FULL LICENSE ***
+
+THE FULL PROJECT GUTENBERG LICENSE
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+
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+
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+
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+If you paid a fee for obtaining a copy of or access to a Project
+Gutenberg-tm electronic work and you do not agree to be bound by the
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+entity to whom you paid the fee as set forth in paragraph 1.E.8.
+
+1.B. "Project Gutenberg" is a registered trademark. It may only be
+used on or associated in any way with an electronic work by people who
+agree to be bound by the terms of this agreement. There are a few
+things that you can do with most Project Gutenberg-tm electronic works
+even without complying with the full terms of this agreement. See
+paragraph 1.C below. There are a lot of things you can do with Project
+Gutenberg-tm electronic works if you follow the terms of this agreement
+and help preserve free future access to Project Gutenberg-tm electronic
+works. See paragraph 1.E below.
+
+1.C. The Project Gutenberg Literary Archive Foundation ("the Foundation"
+or PGLAF), owns a compilation copyright in the collection of Project
+Gutenberg-tm electronic works. Nearly all the individual works in the
+collection are in the public domain in the United States. If an
+individual work is in the public domain in the United States and you are
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+
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+
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+
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+or charges. If you are redistributing or providing access to a work
+with the phrase "Project Gutenberg" associated with or appearing on the
+work, you must comply either with the requirements of paragraphs 1.E.1
+through 1.E.7 or obtain permission for the use of the work and the
+Project Gutenberg-tm trademark as set forth in paragraphs 1.E.8 or
+1.E.9.
+
+1.E.3. If an individual Project Gutenberg-tm electronic work is posted
+with the permission of the copyright holder, your use and distribution
+must comply with both paragraphs 1.E.1 through 1.E.7 and any additional
+terms imposed by the copyright holder. Additional terms will be linked
+to the Project Gutenberg-tm License for all works posted with the
+permission of the copyright holder found at the beginning of this work.
+
+1.E.4. Do not unlink or detach or remove the full Project Gutenberg-tm
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+work or any other work associated with Project Gutenberg-tm.
+
+1.E.5. Do not copy, display, perform, distribute or redistribute this
+electronic work, or any part of this electronic work, without
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+
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+compressed, marked up, nonproprietary or proprietary form, including any
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+that
+
+- You pay a royalty fee of 20% of the gross profits you derive from
+ the use of Project Gutenberg-tm works calculated using the method
+ you already use to calculate your applicable taxes. The fee is
+ owed to the owner of the Project Gutenberg-tm trademark, but he
+ has agreed to donate royalties under this paragraph to the
+ Project Gutenberg Literary Archive Foundation. Royalty payments
+ must be paid within 60 days following each date on which you
+ prepare (or are legally required to prepare) your periodic tax
+ returns. Royalty payments should be clearly marked as such and
+ sent to the Project Gutenberg Literary Archive Foundation at the
+ address specified in Section 4, "Information about donations to
+ the Project Gutenberg Literary Archive Foundation."
+
+- You provide a full refund of any money paid by a user who notifies
+ you in writing (or by e-mail) within 30 days of receipt that s/he
+ does not agree to the terms of the full Project Gutenberg-tm
+ License. You must require such a user to return or
+ destroy all copies of the works possessed in a physical medium
+ and discontinue all use of and all access to other copies of
+ Project Gutenberg-tm works.
+
+- You provide, in accordance with paragraph 1.F.3, a full refund of any
+ money paid for a work or a replacement copy, if a defect in the
+ electronic work is discovered and reported to you within 90 days
+ of receipt of the work.
+
+- You comply with all other terms of this agreement for free
+ distribution of Project Gutenberg-tm works.
+
+1.E.9. If you wish to charge a fee or distribute a Project Gutenberg-tm
+electronic work or group of works on different terms than are set
+forth in this agreement, you must obtain permission in writing from
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+Foundation as set forth in Section 3 below.
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+1.F.
+
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+providing it to you may choose to give you a second opportunity to
+receive the work electronically in lieu of a refund. If the second copy
+is also defective, you may demand a refund in writing without further
+opportunities to fix the problem.
+
+1.F.4. Except for the limited right of replacement or refund set forth
+in paragraph 1.F.3, this work is provided to you 'AS-IS' WITH NO OTHER
+WARRANTIES OF ANY KIND, EXPRESS OR IMPLIED, INCLUDING BUT NOT LIMITED TO
+WARRANTIES OF MERCHANTIBILITY OR FITNESS FOR ANY PURPOSE.
+
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+warranties or the exclusion or limitation of certain types of damages.
+If any disclaimer or limitation set forth in this agreement violates the
+law of the state applicable to this agreement, the agreement shall be
+interpreted to make the maximum disclaimer or limitation permitted by
+the applicable state law. The invalidity or unenforceability of any
+provision of this agreement shall not void the remaining provisions.
+
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+trademark owner, any agent or employee of the Foundation, anyone
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+that arise directly or indirectly from any of the following which you do
+or cause to occur: (a) distribution of this or any Project Gutenberg-tm
+work, (b) alteration, modification, or additions or deletions to any
+Project Gutenberg-tm work, and (c) any Defect you cause.
+
+
+Section 2. Information about the Mission of Project Gutenberg-tm
+
+Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
+electronic works in formats readable by the widest variety of computers
+including obsolete, old, middle-aged and new computers. It exists
+because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
+people in all walks of life.
+
+Volunteers and financial support to provide volunteers with the
+assistance they need, are critical to reaching Project Gutenberg-tm's
+goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
+remain freely available for generations to come. In 2001, the Project
+Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
+and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
+To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
+and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
+and the Foundation web page at http://www.pglaf.org.
+
+
+Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive
+Foundation
+
+The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
+501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
+state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
+Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification
+number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at
+http://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
+permitted by U.S. federal laws and your state's laws.
+
+The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
+Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
+throughout numerous locations. Its business office is located at
+809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
+business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact
+information can be found at the Foundation's web site and official
+page at http://pglaf.org
+
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+ Dr. Gregory B. Newby
+ Chief Executive and Director
+ gbnewby@pglaf.org
+
+
+Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation
+
+Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
+spread public support and donations to carry out its mission of
+increasing the number of public domain and licensed works that can be
+freely distributed in machine readable form accessible by the widest
+array of equipment including outdated equipment. Many small donations
+($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
+status with the IRS.
+
+The Foundation is committed to complying with the laws regulating
+charities and charitable donations in all 50 states of the United
+States. Compliance requirements are not uniform and it takes a
+considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
+with these requirements. We do not solicit donations in locations
+where we have not received written confirmation of compliance. To
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+particular state visit http://pglaf.org
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+While we cannot and do not solicit contributions from states where we
+have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
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+approach us with offers to donate.
+
+International donations are gratefully accepted, but we cannot make
+any statements concerning tax treatment of donations received from
+outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff.
+
+Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
+methods and addresses. Donations are accepted in a number of other
+ways including checks, online payments and credit card donations.
+To donate, please visit: http://pglaf.org/donate
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+
+Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic
+works.
+
+Professor Michael S. Hart is the originator of the Project Gutenberg-tm
+concept of a library of electronic works that could be freely shared
+with anyone. For thirty years, he produced and distributed Project
+Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.
+
+
+Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
+editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
+unless a copyright notice is included. Thus, we do not necessarily
+keep eBooks in compliance with any particular paper edition.
+
+
+Most people start at our Web site which has the main PG search facility:
+
+ http://www.gutenberg.org
+
+This Web site includes information about Project Gutenberg-tm,
+including how to make donations to the Project Gutenberg Literary
+Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to
+subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks.
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+ <title>Mysterio do Natal, por Coelho Neto</title>
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+ margin-right: 2em;
+ }
+ #corpo.rodape p {text-indent: 0;}
+ </style>
+</head>
+
+<body>
+
+
+<pre>
+
+The Project Gutenberg EBook of Mysterio do Natal, by Henrique Coelho Neto
+
+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.org
+
+
+Title: Mysterio do Natal
+
+Author: Henrique Coelho Neto
+
+Release Date: December 24, 2010 [EBook #34750]
+
+Language: Portuguese
+
+Character set encoding: ISO-8859-1
+
+*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK MYSTERIO DO NATAL ***
+
+
+
+
+Produced by Pedro Saborano
+
+
+
+
+
+</pre>
+
+<p> </p>
+
+<p> </p>
+
+<p> </p>
+
+<p> </p>
+
+<p style="text-align: center; font-size: 1.8em;">M<small>YSTERIO DO</small>
+N<small>ATAL</small></p>
+
+<p> </p>
+
+<p> </p>
+
+<p> </p>
+
+<p> </p>
+
+<div style="font-size: small; margin: 5%;margin-left:2em;">
+<p><u>DO MESMO AUCTOR</u></p>
+
+<p>Esphynge, 1 vol. . . . . . . . . . 600<br>
+Sertão, 1 vol. . . . . . . . . . . . . 600<br>
+Agua de Juventa, 1 vol. . . . 700<br>
+A bico de penna, 1 vol. . . . 700<br>
+Romanceiro, 1 vol. . . . . . . . 500<br>
+Jardim das Oliveiras, 1 vol. . . 500<br>
+Fabulario, 1 vol. . . . . . . . . . . . 500<br>
+Miragem, romance, 1 vol. . . 600<br>
+Theatro, vol. 1.º. . . . . . . . . . . no prélo<br>
+Theatro, vol. 2.º. . . . . . . . . . . 400<br>
+Ouebranto (Theatro), vol. 4.º. . . 500<br>
+Apologos, 1 vol. . . . . . . . . . . 500</p>
+
+<p>No prélo, a seguir em novas edições:</p>
+
+<p>Inverno em flor. . . . . . . 1 vol.<br>
+O Rei phantasma. . . . . 1 vol.<br>
+Capital federal. . . . . . . . 1 vol.<br>
+O morto. . . . . . . . . . . . . 1 vol.<br>
+O paraiso. . . . . . . . . . . . 1 vol.<br>
+O Rajah de Pendejab. . . 2 vol.<br>
+A Conquista. . . . . . . . . . 1 vol.<br>
+A Tormenta. . . . . . . . . . 1 vol.<br>
+O Turbilhão. . . . . . . . . . 1 vol.</p>
+</div>
+
+<p> </p>
+
+<p> </p>
+
+<p> </p>
+
+<p> </p>
+
+<div class="ilustracao" style="text-align:center;">
+<img src="images/cneto.jpg" width="80%" border="0"
+alt="Fotografia de Coelho Neto">
+
+<p style="font-size: 1.4em;">Coelho Netto</p>
+</div>
+
+<p> </p>
+
+<p> </p>
+
+<p> </p>
+
+<p> </p>
+
+<div style="text-align:center;">
+<p style="font-size: 1.2em;">COELHO NETTO</p>
+<hr style="width: 30%;">
+
+<p> </p>
+
+<p style="font-size: 3em; margin-right: 3em;">MYSTERIO</p>
+
+<p style="font-size: 3em; margin-left: 3em;"><small>DO</small> NATAL</p>
+
+<p> </p>
+
+<p> </p>
+<p><img src="images/lello.jpg" width="100" border="0" alt="Logotipo Lello"></p>
+
+<p> </p>
+
+<p> </p>
+
+<p>PORTO<br>
+LIVRARIA CHARDRON<br>
+<small>De LELLO &amp; IRMÃO, editores<br>
+RUA DAS CARMELITAS, 144<br>
+&mdash;<br>
+1911</small></p>
+</div>
+
+<p> </p>
+
+<p> </p>
+
+<p> </p>
+
+<p> </p>
+
+<p style="text-align:justify; font-size: small;">  O "Accordo" assignado no Rio
+de Janeiro em 9 de Setembro de 1889, entre o Brasil e Portugal, assegurou o
+direito de propriedade litteraria e artistica em ambos os paizes.</p>
+<hr style="width: 30%;">
+
+<p style="text-align:justify; font-size: small;">  A presente edição está
+devidamente registada nas Bibliothecas nacionaes, de Lisboa e Rio de
+Janeiro.</p>
+
+<p> </p>
+
+<p> </p>
+
+<p> </p>
+
+<p> </p>
+<hr style="width: 30%;">
+
+<p style="text-align:center; font-size: small;">PORTO&mdash;IMPRENSA MODERNA</p>
+
+<div id="corpo">
+<p>  <span class="pn"><a name="pag_5">{5}</a></span></p>
+<hr width="30%">
+
+<h1>A partida</h1>
+
+<p>Era a hora silenciosa e triste do crepusculo.</p>
+
+<p>Abrumados de ouro os montes, em duros perfis, esmaltavam de negro o
+horizonte abrazado. Abriam-se as primeiras estrellas. Subiam da terra, como o
+fumo das aras, pannos alvos de nevoa.</p>
+
+<p>Pelos caminhos esbarrondados, em aspero acclive, beirando grotas espontadas
+de cardos, cantaro ao hombro, as tunicas arrepanhadas á cinta, desfilavam
+donzellas conversando e rindo. <span class="pn"><a
+name="pag_6">{6}</a></span></p>
+
+<p class="ilustracao"><img src="images/pag006.jpg" width="80%" border="0"
+alt=""></p>
+
+<p>Juntas, em passo miudo, trepidando nas pedras, com um cheiro de suarda e de
+silvas, passavam nas trilhas ovelhas em rebanhos. Um rude e mazorro pastor
+seguia-as cabisbaixo. <span class="pn"><a name="pag_7">{7}</a></span></p>
+
+<p>Esbatiam-se as nuvens de ouro quando José e Maria appareceram no limiar da
+casa promptos para a longa jornada, por valles e montanhas, em direcção á terra
+farta de Bethleem onde iam cumprir a lei de Augusto.</p>
+
+<p>Fechada a porta ainda demoraram um instante sob a vinha, contidos pela
+saudade.</p>
+
+<p>O homem, por fim, decidiu-se, tomou a frente, vagaroso, pensativo e logo,
+limpando os olhos que as lagrimas nublavam, a donzella seguiu.</p>
+
+<p>Elle grisalho, alto, robusto, ainda que um tanto curvado pelo pendor
+constante em que vivia, sempre inclinado sobre o lenho do officio,
+falquejando-o, acepilhando-o, dando-lhe fórma e lustro. Ella, mean de altura,
+fina e fragil.</p>
+
+<p>Suavemente morena, os olhos grandes e tristes eram dum limpido verde d'agua,
+e como dois lagos purissimos <span class="pn"><a name="pag_8">{8}</a></span> num
+areal, ao sol; e os cabellos, escapando-se do cairel do manto, punham-lhe na
+fronte uma frisa de ouro.</p>
+
+<p>Mal se lhe adivinhava o collo abotoado.</p>
+
+<p>Os pés, alvos e pequeninos, assentavam em sandalias e toda a sua riqueza
+consistia em um par de braceletes de marfim que lhe cingiam graciosamente os
+pulsos finos.</p>
+
+<p>Trilhando a estrada que ia ter á fonte e seguia direita aos campos, paravam
+para falar ás moças, companheiras e amigas de Maria, para corresponder á
+saudação dos homens, para attender ás crianças que deixavam os seixos
+tomando-lhes o passo, pedindo que lhes trouxessem das terras de além conchas,
+como as de Ascalon, que conservam no bojo o soluço das ondas.</p>
+
+<p>E Maria, commovida, chorava sobre o sorriso. <span class="pn"><a
+name="pag_9">{9}</a></span></p>
+
+<p>Os campos toldavam-se de bruma e as oliveiras de pallida folhagem faziam no
+recosto das collinas como estendaes de nevoa.</p>
+
+<p>Ainda havia quem trabalhasse a leira na ancia do fruto. Chiava um carro de
+lavoura, o guieiro afalava aos bois animando-os no lance abrupto de uma
+rampa.</p>
+
+<p>Chegando ao planalto esteril, que dominava os horizontes e onde o vento
+zunia, os viajantes fizeram uma parada olhando em redor o redente dos
+montes.</p>
+
+<p>Lá ficava Nazareth no valle feliz, com o seu casario, em cubos brancos, como
+um pacifico rebanho adormecido.</p>
+
+<p>Ao longe tudo era carregado e lugubre.</p>
+
+<p>A noite chegava primeiro ás alturas.</p>
+
+<p>Isolado, com a lua pairando acima do seu viso, o Thabor era como um
+peito <span class="pn"><a name="pag_10">{10}</a></span> de gigante de onde
+houvesse espirrado aquella gotta de leite.</p>
+
+<p>Maria ignorava o mundo. Nunca houvera passado além da fronteira da terra
+natal. Alongando os olhos pela vastidão que a vista alcançava, montes, varzeas,
+esplanados desertos tristes, sentia-se mesquinha e com medo.</p>
+
+<p>Voltou-se, ainda uma vez, para olhar o tranquillo recanto em que sempre
+vivera em pobreza e virtude. Mas a noite baixára; raros lumes picavam a tréva.
+Ouvia-se vago murmurio, como escachôo d'aguas, subindo do fundo obscuro onde
+jazia a cidade. Sahiu-lhe do coração um suspiro maguado:</p>
+
+<p>&mdash;Onde fica Bethleem? José levantou o braço e estendia o cajado na
+direcção da terra de David, quando uma estrella fulgurou, illuminando
+radiosamente o ceu profundo.</p>
+
+<p>&mdash;Ali! disse o patriarcha, numa voz <span class="pn"><a
+name="pag_11">{11}</a></span> que tremia, comprehendendo, maravilhado, que
+aquelle astro surgira dentro da noite como uma resposta de Deus á moça
+predestinada.</p>
+
+<p class="ilustracao"><img src="images/pag011.jpg" width="80%" border="0"
+alt=""> <span class="pn"><a name="pag_12">{12}</a></span></p>
+
+<p>  <span class="pn"><a name="pag_13">{13}</a></span></p>
+<hr width="30%">
+
+<h1>O anjo</h1>
+
+<p>A noite, profundamente escura e fria, atravessada de vento, atroava o fragor
+de ramagens estortegadas e d'aguas precipitosas que se despenhavam, aos jorros,
+pelos algares. Nas chans ainda o transito era facil, sem o varejo da ventania
+que repulsava os caminhantes, como a impedir-lhes a marcha; mas nas gargantas,
+entre alcantis, as lufadas, abocando á entrada, esfusiavam desabridas, uivando
+com a furia de alcatéas famintas em ronda céva, a fariscar redis. <span
+class="pn"><a name="pag_14">{14}</a></span></p>
+
+<p>Todas as estrellas haviam-se apagado, apenas rutilava, enorme, como lumareu
+de vigilia em torre, a que surgira e brilhava sobre Bethleem.</p>
+
+<p>Os passos estrepitavam nos seixos, estalavam nas folhas e no ramalho
+secco.</p>
+
+<p>Um ramo que bolisse, o lento defluir de um fio d'agua por entre pedras
+levantavam ruidos temerosos.</p>
+
+<p>Ás vezes José detinha-se, hesitante na bifurcação de duas trilhas, mas pouco
+durava a duvida porque uma das veredas ennegrecia ainda mais, ao passo que a
+outra rutilava fulgida, como calçada a diamantes, offerecendo-se, clara e
+segura, aos peregrinos.</p>
+
+<p>Como entrassem em sinuosa e esgalgada passagem, murada de rochas
+anfractuosas, eriçada de agaves e echoando como o ambito de uma caverna,
+ouviram <span class="pn"><a name="pag_15">{15}</a></span> leve, frouxo ruido
+como de esfrolar d'azas.</p>
+
+<p>Uma aguia, talvez, que acordara em algum teso e de pé, attenta, alargando as
+azas, ficára em attitude hostil prompta a arremetter em defeza do ninho.</p>
+
+<p>O patriarcha, acolhendo a esposa meiga, cujas faces pareciam de neve,
+apertou com força o cajado e levantou os olhos.</p>
+
+<p>Maria, sentindo o perigo, tartamudeou, timida e tremula, uma oração ao
+Senhor. O receio de um ataque em sitio tão desolado, longe de toda habitação,
+onde nem choça de pegureiro havia, deteve o homem.</p>
+
+<p>Os corações batiam. Nella era o pavor do desconhecido, o grande medo tragico
+das sombras do Scheól, que erram, á noite, pelos descampados; nelle era temor
+por ella.</p>
+
+<p>Não falavam, de olhos muito abertos, <span class="pn"><a
+name="pag_16">{16}</a></span> quietos, immoveis como os rochedos que os
+emparedavam.</p>
+
+<p>De repente um clarão fulgurou. A passagem illuminou-se, as pedras
+scintillaram e as palmouras dos cardos ficaram como de prata. E elles viram uma
+grande luz á flor da terra e clareando as rochas.</p>
+
+<p>Aves despertando galreavam festivamente o canto da madrugada.</p>
+
+<p>Levantando o olhar viram os dois a fonte do esplendor. Era um anjo que os
+precedia, ora trilhando os caminhos, ora voando acima das rochas, pousando nos
+alcandores quando o lento e fatigado andar de Maria retardava a marcha.</p>
+
+<p>A virgem sorria de enlevo e José, tolhido de commoção, não se atrevia a
+encarar o guia resplandecente, cujo reflexo abria na terra um clarão de luar. E
+as azas aflavam docemente no silencio. <span class="pn"><a
+name="pag_17">{17}</a></span></p>
+
+<p class="ilustracao"><img src="images/pag017.jpg" width="80%" border="0"
+alt=""></p>
+
+<p>A virgem reconheceu no anjo o mancebo que a saudára com as palavras
+mysteriosas, cuja promessa cumpria-se e José reviu o divino emissario que
+lhe <span class="pn"><a name="pag_18">{18}</a></span> apparecera em sonho, sob a
+figueira do horto, defendendo a innocencia de Maria, em cujo seio, cemo em
+corolla de flor, a Graça perpassava em genese immareavel, fecundando-o como o
+sol fecunda a leiva, eternamente pura. <span class="pn"><a
+name="pag_19">{19}</a></span></p>
+<hr width="30%">
+
+<h1>Lyrios</h1>
+
+<p>Clareava.</p>
+
+<p>Manhan opáca, envolta em bruma que algodoava a terra, fluctuando com um
+lento ondular, fluindo em frouxeis alvissimos como pennugem, esgarçando-se,
+diluindo-se em fumo tenue que se esvaía no ar silencioso.</p>
+
+<p>A espaços frondes boiavam, ramarias exciduas irrompiam.</p>
+
+<p>Ouvia-se o lentejo lacrimoso das folhas orvalhadas.</p>
+
+<p>A terra dava-se avaramente, a trechos <span class="pn"><a
+name="pag_20">{20}</a></span> curtos, á medida que os viajantes avançavam e o
+caminho percorrido, como os dias da vida, eram logo fechados em branco pelos
+nevoeiros.</p>
+
+<p>Branco era tambem o ceu e triste, pesando sobre a terra, tão baixo que as
+nuvens, por vezes, envolviam os peregrinos.</p>
+
+<p>Passaros piavam nas taliscas, occultos; vozes de gado, longinquas,
+evocativas, annunciavam casaes.</p>
+
+<p>Maria tiritava.</p>
+
+<p>A tunica pesava-lhe nos hombros, humida, e as faces, rorejadas, tingiam-se
+em duas rosas como se as flores, transidas, houvessem procurado abrigo ao calor
+carinhoso daquella mocidade pura.</p>
+
+<p>José distrahia a companheira falando-lhe dos lugares que iam
+atravessando.</p>
+
+<p>Todos aquelles atalhos tortuosos, <span class="pn"><a
+name="pag_21">{21}</a></span> aquelles carreiros invios haviam sido, em tempos
+remotos, trilhados por patriarchas.</p>
+
+<p>Ali haviam-se travado batalhas sanguentas; ali alvejara a tenda, crescera,
+em louro estendal, o trigo, retorcera-se a vinha, pastara o armento, correra o
+azeite, fundira-se o ferro, britara-se a pedra, cosera-se o barro sob as vistas
+de Iaveh omnipotente.</p>
+
+<p>Por ali andara Elias trovejando oraculos. Judith afiára o gladio libertador
+nas arestas daquellas penhas.</p>
+
+<p> </p>
+
+<p>Em poeira de ouro foi-se mudando a nevoa: era o sol.</p>
+
+<p>Já apparecia uma nesga de azul; arvores, moutas destacavam-se: a mortalha
+rasgava-se para a resurreição.</p>
+
+<p>Alegremente as aves, em claras vozes, cantaram a victoria da Luz. E Maria,
+contente, d'olhos em extase, esperava <span class="pn"><a
+name="pag_22">{22}</a></span> o astro annunciado pela fulguração das nuvens.</p>
+
+<p>Num recanto, entre mirradas arvores de troncos retorcidos, uma agua escura e
+quieta reluzia.</p>
+
+<p>Pedras negras, cobertas de limo, escondiam-se sob ramos acenosos.</p>
+
+<p>Maria, sentindo a dobrez da fadiga, os olhos pesados de somno, sentou-se tão
+perto d'agua que toda ella reflectiu-se na superficie espelhenta.</p>
+
+<p>Viu-se sem vaidade, com a mesma innocencia com que se revê o passaro e, num
+momento, infantilmente, mergulhou, até o punho, as mãos ambas no paul.</p>
+
+<p>Quiz José reprehendel-a, vendo-a, porém, sorrir, sorriu tambem.</p>
+
+<p>Gottejando sahiram as pequeninas mãos da agua que tremia.</p>
+
+<p>Olhavam os dois os circulos que se abriam quando viram duas flores
+subirem <span class="pn"><a name="pag_23">{23}</a></span> á tona, brancas,
+abertas em cinco petalas, erectas em finas hastes, como se o reflexo das mãos
+da Immaculada se houvesse materialisado em memoria da ablução ligeira.</p>
+
+<p>Eram lirios e trescalavam.</p>
+
+<p> </p>
+
+<p>Virtude, brilho das almas, que importa que desças á vasa? és impermeavel
+como a luz, purificadora como o raio de sol.</p>
+
+<p>Não perdes a limpida pureza e, se entras no Vicio, fazes desabrochar a
+Graça; se afundas no Crime, tiras o arrependimento.</p>
+
+<p>O pantano era lobrego, coberto de folhas mortas e as mãos de Maria, só com o
+aflorarem, tanto o purificaram que delle nasceu o lirio sem macula, symbolo
+formoso e candido da innocencia. <span class="pn"><a
+name="pag_24">{24}</a></span></p>
+
+<p>  <span class="pn"><a name="pag_25">{25}</a></span></p>
+<hr width="30%">
+
+<h1>A refeição</h1>
+
+<p>Suave som de frauta pastoril deu a Maria o encanto de uma egloga. Voltou a
+cabeça dourada e viu o rebanho que se aproximava em vagaroso passo.</p>
+
+<p>Trazia-o um menino, guiando-o por entre as hervas de aroma. Um lindo menino,
+tão alvo que não despedia sombra, como as neves que os raios do sol atravessam;
+tão louro que a sua cabeça alumiava.</p>
+
+<p>Vinha a frauta soando em suaves accentos e attrahidas, enlevadas na
+musica, <span class="pn"><a name="pag_26">{26}</a></span> abelhas voavam em
+volta do pastorinho, que assim apascentava dois rebanhos: um pela terra verde,
+outro pelos ares claros.</p>
+
+<p>Ergueu-se Maria e, sem dizer palavra, olhando os ubres apojados das ovelhas,
+deu a sentir o seu desejo.</p>
+
+<p>Como devia saber aquelle leite que era a metamorphose das flores dos
+silvados! Como devia rescender na boca e aquecer e fartar!</p>
+
+<p>Calou-se a frauta e o menino, fitando os olhos meigos no casal errante, como
+se de muito o conhecesse e amasse, deteve-se, e os animaes pararam.</p>
+
+<p>Ficou o rebanho unido, tão junto que não fazia mais que um vello e as
+abelhas, zumbindo, puzeram-se a esvoaçar em torno dos lirios alvos.</p>
+
+<p>José adiantou-se e, offerecendo um obulo ao menino, pediu-lhe um pouco
+de <span class="pn"><a name="pag_27">{27}</a></span> leite. Sorrindo, o
+pastorinho tomou o tarro que trazia ao flanco.</p>
+
+<p class="ilustracao"><img src="images/pag027.jpg" width="80%" border="0"
+alt=""> <span class="pn"><a name="pag_28">{28}</a></span></p>
+
+<p>Logo, entre as ovelhas, houve um movimento ancioso. Balavam todas
+offerecendo as tetas refertas, atropelavam-se, saltavam querendo, cada qual,
+ser a escolhida e o pastorinho brandamente as afastava.</p>
+
+<p>Foi á primeira, ordenhou-a. O leite esguichou em fio; outra chegou, depois
+outra e a todas elle attendia para que nenhuma ficasse preterida.</p>
+
+<p>Já a espuma fervia crescendo em flor, transbordando do vaso e as ovelhas
+festejavam-se contentes.</p>
+
+<p>Sorrindo, aceitou Maria a offerta do zagal; bebeu a lentos goles,
+saboreando. E foi a vez de José.</p>
+
+<p>Refeito, o patriarcha insistiu na dádiva da moeda, mas o menino negou-se a
+recebel-a: <span class="pn"><a name="pag_29">{29}</a></span></p>
+
+<p>«Que era um pouco de leite? Qualquer pastor faria o mesmo.»</p>
+
+<p>Saudou-os, e, pondo-se á frente das ovelhas, levou a frauta aos labios.</p>
+
+<p>Os sons vibraram. Lento e manso o rebanho proseguiu. Foi então que Maria viu
+que as abelhas, tantas que occultavam os lirios, deixavam as flores voando á
+musica da frauta.</p>
+
+<p>&mdash;Lindo pastor! Lindo rebanho! disse, enlevada, a Virgem. Mas logo,
+referindo-se ás abelhas que fugiam, perguntou a José: Que terão ellas buscado
+nas flores d'agua?</p>
+
+<p>&mdash;O arôma e o néctar, explicou o patriarcha.</p>
+
+<p>Chegaram-se os dois ás flores e viram, maravilhados, que estavam cheias de
+mel crystallino e louro como o ambar precioso e tão perfumado como se
+contivesse toda a essencia das flores.</p>
+
+<p>Tomou José um dos lirios e deu-o a <span class="pn"><a
+name="pag_30">{30}</a></span> Maria; a Virgem offereceu-lhe o outro. Depois,
+deliciados, contemplaram-se felizes.</p>
+
+<p>&mdash;A frauta já não sôa, vai muito longe o pastor, disse Maria.</p>
+
+<p>&mdash;Vai muito longe! repetiu José contricto, levantando os olhos para o
+ceu, como se procurasse nas nuvens o pastorinho louro e as ovelhinhas
+brancas. <span class="pn"><a name="pag_31">{31}</a></span></p>
+<hr width="30%">
+
+<h1>A nuvem</h1>
+
+<p>Sob a irradiação do sol a terra secca abrazava, exhalando um bafio de
+rescaldo.</p>
+
+<p>Triste, flagellada Samária pagan!</p>
+
+<p>Os deuses do Garizin, depois da destruição do templo, pareciam haver
+desertado o monte onde os homens subiam a retemperar a fé, de onde manava a
+seiva que se infiltrava nos campos e mantinha vivas todas as fontes, entre
+rochas humidas. <span class="pn"><a name="pag_32">{32}</a></span></p>
+
+<p>Ermo o sagrado monte, esquecido o santuario antigo, as lavouras mirraram e
+um sol mais árdego crestou as hervas, sorveu as aguas outr'ora copiosas.</p>
+
+<p>Nem as torrentes ligeiras conseguiram, fugindo, escapar á inclemencia e os
+leitos dos corregos, em lodo secco, estalavam, fendiam-se em gretas fundas.</p>
+
+<p>Um fio d'agua rastejava nos lugares que, antigamente, rios largos
+alagavam.</p>
+
+<p>Das fontes restavam apenas as pedras calvas sobre areias torridas onde
+viboras esfusiavam, entaliscando-se ao rumor de passos.</p>
+
+<p>De ponto em ponto uma cisterna funda offerecia ao caminhante a sua agua
+salobra.</p>
+
+<p>Ás vezes o terebintho forte sombreava-a ou figueiras e mimosas formavam-lhe
+em torno um bosque ameno.</p>
+
+<p>Mas os trilhos, arenosos e pedrentos, eram apenas habitados pelo cardo
+que <span class="pn"><a name="pag_33">{33}</a></span> esgalhava os ramos
+espinhosos, abertos em feridas, feios, disformes como aleijões. Não se ouvia
+cantar um passaro&mdash;só o gypaeto atravessava o espaço fulgurante ou grandes
+aguias hostis, pousadas no cabeço das penhas, devassavam os arredores buscando
+o que prear.</p>
+
+<p>Maria offegava seguindo o esposo. A areia escaldava-lhe os pés mimosos, o
+sol abrazava-lhe a cabeça.</p>
+
+<p>Caminhavam como atravez de chammas, sem que os olhos avistassem um colmado,
+a grata ramagem duma arvore.</p>
+
+<p>Ó terras férteis da Galiléa! valles alfombrados e frescos de tanta belleza
+por onde correm numerosos ribeiros claros. Ó Galiléa!</p>
+
+<p> </p>
+
+<p>Tudo era desolação na tristonha Samária e o sol do outono queimava como nos
+incendidos dias estivaes. <span class="pn"><a name="pag_34">{34}</a></span></p>
+
+<p>Seria melhor esperarem a tarde, proseguirem com a brandura do crepusculo;
+mas a pressa que levavam não lhes permittia demora.</p>
+
+<p>José, mais robusto e affeito a rigores, resistia; a Virgem, porém, começava
+a sentir-se atordoada: faltava-lhe o ar, os olhos ardiam-lhe.</p>
+
+<p>&mdash;Chega-te á sombra do meu corpo, disse-lhe o patriarcha. Ella
+obedeceu. Mas o sol zombava da misericordia do amor e Maria continha as
+lagrimas, calava as dores dos delicados pés abertos em feridas, não querendo
+que o esposo soffresse com o seu soffrimento.</p>
+
+<p>O sol subia, augmentava o calor e o animo da Virgem desfallecia quando uma
+nuvem cresceu acima do monte Ebal.</p>
+
+<p>Era escura como os nimbus e apressava-se como impellida por um grande
+vento. <span class="pn"><a name="pag_35">{35}</a></span></p>
+
+<p>Barulho surdo annunciava-a, igual ao ronco soturno que precede as saraivadas
+de verão.</p>
+
+<p>A terra entenebrecia á passagem obumbrada da nuvem, que vinha direita ao
+caminho trilhado pelo casal.</p>
+
+<p>O ruido augmentava tornando-se como o escachôo das catadupas.</p>
+
+<p>Detiveram-se os dois, pallidos, tolhidos de espanto.</p>
+
+<p>Subito Maria sorriu:</p>
+
+<p>&mdash;São pombas, disse. Eram, effectivamente, milhares de pombas azues
+que, muito juntas, formavam a nuvem escura. Pairaram, ficaram adejando sobre
+elles, com rumoroso arrulho, e o sol quebrava-se-lhes nas azas estendidas.</p>
+
+<p>José baixou os olhos, dobraram-se-lhe os joelhos e a Virgem, olhando as
+aves, não deu pelo gesto piedoso nem ouviu as palavras devotas com que elle, em
+extase, adorava-a. <span class="pn"><a name="pag_36">{36}</a></span></p>
+
+<p class="ilustracao"><img src="images/pag036.jpg" width="80%" border="0"
+alt=""> <span class="pn"><a name="pag_37">{37}</a></span></p>
+
+<p>Então proseguiram á sombra do immenso pallio azul e fóra da nuvem viva a
+terra, quente e rutila, ardia e faiscava ao sol. <span class="pn"><a
+name="pag_38">{38}</a></span></p>
+
+<p>  <span class="pn"><a name="pag_39">{39}</a></span></p>
+<hr width="30%">
+
+<h1>Ao pôr do sol</h1>
+
+<p>No ceu desbotavam, esbatiam-se as côres vivas, o ouro e a purpura fundiam-se
+em violete e, docemente, a melancolia vesperal envolvia a natureza e penetrava
+as almas. E Maria perguntou:</p>
+
+<p>&mdash;Porque é mais triste do que a noite o breve instante do pôr do
+sol?</p>
+
+<p>&mdash;Porque é uma agonia, respondeu José. Não é a morte que impressiona, é
+o morrer.</p>
+
+<p>A luz que vasqueja é como o corpo que estrebucha. A noite é serena, tem a
+immobilidade do cadaver. <span class="pn"><a name="pag_40">{40}</a></span></p>
+
+<p>Quantas sombras havia na terra? tantas quantas são os seres e as coisas que
+existem. O sol, porque é a vida, discrimina, dá a cada um a sua autonomia para
+o bem ou para o mal.</p>
+
+<p>O homem tem a sua sombra, como a formiga; a cordilheira escurece uma região
+e o grão de areia destaca a sua mancha.</p>
+
+<p>A noite condensa na mesma sombra todo o universo.</p>
+
+<p>No instante da agonia a alma, como o saltador que recúa para ganhar impulso
+na corrida e formar o pulo, regressa na reminescencia recordando a vida, desde
+os dias primévos até á hora suprema.</p>
+
+<p>O crepusculo, que lembra o amanhecer, sem a alegria, é um recúo á madrugada
+para o salto dentro da noite.</p>
+
+<p>&mdash;Aquelle clarão que alveja nos montes é o luar. A lua é como uma
+lampada <span class="pn"><a name="pag_41">{41}</a></span> que o sol deixa accesa
+quando parte. Como a noite é linda!</p>
+
+<p>&mdash;E purificadora. O somno é um mergulho na Eternidade.</p>
+
+<p>&mdash;Quando eu era pequenina, mal anoitecia, punha-me a tremer de medo e
+só depois de rezar conseguia adormecer.</p>
+
+<p>&mdash;Porque a Fé é uma claridade que desfaz as sombras interiores. O que
+não crê é como o cégo que anda tacteando, sempre arriscado a perigos, bastando
+resvalar num talude para precipitar-se no abysmo.</p>
+
+<p>A Fé é como a lampada dos templos: sempre accesa e fulgurando.</p>
+
+<p>O homem de fé anda mais seguro na escuridão do que o incrédulo ao sol. O
+horizonte do crente é Deus.</p>
+
+<p>&mdash;Porque bate com mais vigor o coração á noite?</p>
+
+<p>&mdash;As aguas murmuram mais alto no silencio? não, a voz é a mesma, a
+calma <span class="pn"><a name="pag_42">{42}</a></span> é que isola fazendo-a
+parecer mais forte. Quando trabalhas á sombra da vinha ouves balar o rebanho?
+não, entanto, á noite, soergues-te no leito á voz lamentosa duma ovelha
+perdida.</p>
+
+<p>O coração parece pulsar com mais impeto nas horas de recolhimento.</p>
+
+<p>Nas cavernas profundas as vozes reboam, o estellicidio de uma gotta faz
+ruido. É essa uma das vantagens da noite&mdash;estabelecer o silencio, a
+quietude nalma para que a consciencia faça o seu acto de contricção.</p>
+
+<p>&mdash;E as estrellas? quem as accende no ceu?</p>
+
+<p>&mdash;Aquelle mesmo que abre as flores na terra.</p>
+
+<p>&mdash;Ninguem o vê.</p>
+
+<p>&mdash;E o Pensamento, quem o vê? Enunciado é um relampago, realisado é um
+esplendor; a sua essencia é o genio, que gera a Ordem. O mundo é a
+realisação <span class="pn"><a name="pag_43">{43}</a></span> do Pensamento de
+Deus; as obras ephemeras do mundo são a consubstanciação do pensamento humano.
+O homem constróe, é o artista; Deus crêa, é o Verbo.</p>
+
+<p>&mdash;E eu?</p>
+
+<p>&mdash;Tu és Maria, disse o patriarcha, afagando-a paternalmente.</p>
+
+<p>Iterativas, afinadas vozes murmuraram nos ares concluindo o dizer do
+ancião:</p>
+
+<blockquote>
+ <p>... cheia de Graça, o Senhor é comtigo.<br>
+ Bemdita és tu entre as mulheres.</p>
+</blockquote>
+
+<p>Ella deteve-se assustada e interrogou o esposo, tremulo:</p>
+
+<p>&mdash;Que dizeis, meu senhor? José, que nada ouvira, respondeu:</p>
+
+<p>&mdash;Digo que és uma creatura de Deus, como a flor, como a estrella.</p>
+
+<p>Os chacaes latiam no deserto ao doce clarão da lua. <span class="pn"><a
+name="pag_44">{44}</a></span></p>
+
+<p>  <span class="pn"><a name="pag_45">{45}</a></span></p>
+<hr width="30%">
+
+<h1>A tentação</h1>
+
+<p>Numerosa estropeada de innumeros corceis atroou o silencio; tubas
+clangoraram e, repentinamente, como passassem entre duas alcantiladas penhas,
+que o luar vestia d'alvo, viram altos pylonos de basalto, sarapintados de
+hyerogliphos, ante os quaes esphynges monstruosas, deitadas sobre stelas
+negras, laivadas de sanguineo, com os bicos dos rijos peitos incrustados de
+rubis, cravavam no ceu os olhos mysteriosos.</p>
+
+<p class="ilustracao"><img src="images/pag046.jpg" width="80%" border="0"
+alt=""></p>
+
+<p>Mal chegaram á entrada portentosa <span class="pn"><a
+name="pag_46">{46}</a></span> logo uma luzente guarda de cataphractos, com
+petrinas de prata, montando ginetes brancos de crinas rastejantes, hasteando
+lanças que alumiavam, formaram <span class="pn"><a name="pag_47">{47}</a></span>
+duas extensas alas ao longo do caminho areado de ouro, sobre o qual frescamente
+rociava uma serena pulverisação de aromas.</p>
+
+<p>Os olhos perdiam-se na visão de uma vasta cidade mirifica, toda em marmores
+e pórphydos, com enormes templos, palacios que eram cidadellas, jardins de
+redolentes áleas, rios beirados de arvores, com as rampas em alcatifa de
+flores, rolando alisadas aguas sobre as quaes rebrilhava, em tremulina, o
+luar.</p>
+
+<p>Barcos de prôas curvas, transbordando brocados, cruzavam-se com musicos sob
+doceis de seda.</p>
+
+<p>Nos bosques que os cysnes percorriam, alvos como vivos marmores, mulheres,
+veladas de gaze, coroadas de rosas, repousavam na fina relva ou balouçavam-se
+em redouças.</p>
+
+<p>Os zimborios dourados, os frontões <span class="pn"><a
+name="pag_48">{48}</a></span> dos templos tauxiados de ouro, as escadarias
+largas, de zebrados degraus de cypolino, subindo a pateos de mosaico,
+esplendiam.</p>
+
+<p>Surdo rumor agitava a cidade onde a multidão, em festa, tumultuava numa
+variedade de trajos multicores.</p>
+
+<p>Passavam palanques sob flabellos empunhados por grandes negros vestidos de
+saios rubros, com franjas de prata, adagas á cinta, emplumados turbantes á
+cabeça.</p>
+
+<p>Plaustros rodavam com crepitações levantando uma nevoa loura.</p>
+
+<p>Photinas de harpas respondiam-se de um eirado a outro e, num obelisco de
+onix canellado, molle serpente de escamas de ouro, vibrando a lingua bifida,
+enroscava-se, em lentas espiras, ficando, ás vezes, pendente, a oscillar como
+uma grossa liana.</p>
+
+<p>José olhava pasmado e Maria encolhia-se <span class="pn"><a
+name="pag_49">{49}</a></span> timida, contemplando, deslumbrada, a cidade
+fulgente.</p>
+
+<p>Não era a triste Sichem nem a sombria Jerichó. Que cidade seria aquella tão
+rica, de tanta vida, isolada na tristonha e maninha região da Samária?</p>
+
+<p>Subitamente, com improvisa fulguração, abriram-se de par em par as portas do
+templo maior e um grave cortejo appareceu no peristylo e vagaroso, solemne,
+poz-se a descer a fulgida escaleira.</p>
+
+<p>Vozes, ao rythmo de instrumentos lyturgicos, entoaram um cantico
+glorioso.</p>
+
+<p>O povo prostrou-se na areia micante das alamedas bradando um nome forte.</p>
+
+<p>Ceruleo clarão refulgiu celestialmente. Coalharam-se os ares de aves, armas
+lampejaram em meneio heroico e toda a turba templaria formou no atrium, <span
+class="pn"><a name="pag_50">{50}</a></span> ergueu um sonoro louvor e rojou-se
+de bruços, com um tinir argentino de armillas e braceletes. E um homem alto,
+alado, com dois cornos de luz purpurea ardendo-lhe entre os cabellos crespos,
+surgiu no limiar de ouro estendendo amorosamente os braços a Maria extatica.</p>
+
+<p>A voz com que a chamou reproduziu-se em echo no silencio mystico; o seu
+olhar ardia e, em torno do seu corpo atorreado, relumbrava um halo como se o
+emmoldurassem chammas.</p>
+
+<p>&mdash;Vem! O meu amor esperava-te ancioso. És a eleita de minh'alma.
+Chegaste no tempo em que as rosas florescem. As vinhas crespas dão fruto, as
+abelhas fazem o seu mel, o trigo redoura os campos, os lagos são açucenaes
+extensos.</p>
+
+<p>Eu puz em ordem a natureza para as nossas nupcias sagradas. Vem! <span
+class="pn"><a name="pag_51">{51}</a></span></p>
+
+<p class="ilustracao"><img src="images/pag051.jpg" width="80%" border="0"
+alt=""></p>
+
+<p>A terra em que pisas nunca recolheu cadaveres. Entraste no reino da ventura
+eterna. Vem! E estendeu os longos <span class="pn"><a
+name="pag_52">{52}</a></span> braços que alumiavam como caudas d'astros.</p>
+
+<p>Houve um clamor ovante feito com o nome suave de Maria e outro que ribombava
+e os cataphractos, levantando-se, a prumo, nos estribos, cruzaram as lanças
+formando uma abobada de scintillações.</p>
+
+<p>José olhava, mudo e receioso, acolhendo ao peito a timida donzella. Um gallo
+cantou em alguma herdade proxima.</p>
+
+<p>Instantaneamente, com uma surda explosão, toda a cidade maravilhosa e os
+seres que a animavam subverteram-se.</p>
+
+<p>Os ares ficaram nublados de fumo, estryges chirriaram.</p>
+
+<p>De novo reappareceram os campos rasos, ermos, estereis, calados, ao luar
+livido.</p>
+
+<p>Maria, com o coração sobresaltado, murmurou: <span class="pn"><a
+name="pag_53">{53}</a></span></p>
+
+<p>&mdash;Que lindo sonho, meu senhor.</p>
+
+<p>&mdash;Não foi sonho, Maria, tornou sombriamente o patriarcha. Vamos! Os
+lirios trescalam, os gallos cantam; é a madrugada que vem.</p>
+
+<p>Puzeram-se a caminho.</p>
+
+<p>E, pelos ares, contorcendo-se em furor, uma sombra alada fugia, enorme,
+monstruosa, com dois cornos que coruscavam. <span class="pn"><a
+name="pag_54">{54}</a></span></p>
+
+<p>  <span class="pn"><a name="pag_55">{55}</a></span></p>
+<hr width="30%">
+
+<h1>O milagre das lagrimas</h1>
+
+<p>A estrada, a duas horas de Sichem, pelos montes, larga e suave, com
+acceitosas sombras de sycomoros e de amendoeiras, era toda orlada de anemonas
+vermelhas e de margaridas brancas e amarellas.</p>
+
+<p>Os khans succediam-se sempre abrigados em hortos frondosos, com a cisterna
+ao lado ou perto de alguma fonte, com a alpendrada reverdecida pela vinha,
+debaixo da qual os mercadores, que desciam de Tyro ou do Libano ou subiam <span
+class="pn"><a name="pag_56">{56}</a></span> de Joppé, comiam uma febra de anho
+regando-a com o vinho fresco de Engaddi, emquanto os dromedarios soltos iam e
+vinham vagarosamente ou deitados, ruminando, cerravam os olhos nostalgicos á
+vivida fulguração do sol.</p>
+
+<p>Casas miserrimas, de muros de lodo, cobertas de palha, confundiam-se com a
+ramagem dos eloendros, perdiam-se nos olivaes.</p>
+
+<p>Caravanas desfilavam&mdash;os homens a cavallo, com as lanças altas, o
+albornoz ao vento; as mulheres em jumentos ou em carros, entre fardos e
+alcofas, agasalhando crianças sob as pontas dos mantos.</p>
+
+<p>Por vezes um canto suave rompia da turba, rufavam tamboris, kinnareths
+vibravam, frautas desferiam e os cavalleiros alegres faziam caracolar os
+ginetes, as mulheres punham-se de pé nos <span class="pn"><a
+name="pag_57">{57}</a></span> carros olhando as muralhas que se aprumavam ao
+longe, fechando cidades, cujas casas, em cubos brancos, semelhavam
+tumulos. <span class="pn"><a name="pag_58">{58}</a></span></p>
+
+<p class="ilustracao"><img src="images/pag057.jpg" width="80%" border="0"
+alt=""></p>
+
+<p>José evitava os pousos, fugia aos rumorosos aduares, mettendo por atalhos
+para evitar a chacota da gente nomade.</p>
+
+<p>Justamente atravessavam uma trilha deserta quando ouviram um choro triste e
+deram de rosto com uma moça morena que trazia nos braços uma criança inerte.</p>
+
+<p>Pós ella uma pequenita, já com abundancia de flores, ainda varejava os
+mattos procurando anemonas.</p>
+
+<p>Vendo-os, a misera susteve o pranto e, fitando em José os olhos rasos
+d'agua, perguntou:</p>
+
+<p>«Se ainda distava muito Endor, onde vivia Baruc, o nazir, que conhecia a
+virtude das hervas e realisava curas maravilhosas. Vendera as suas ovelhas e
+levava oito cyclos de prata e um collar de ouro comprado em Jerusalem e, se
+tanto não bastasse, dar-se-ia como escrava pela saude do filho.» <span
+class="pn"><a name="pag_59">{59}</a></span></p>
+
+<p>José estendeu o braço na direcção do Levante:</p>
+
+<p>&mdash;Era além, muito longe, atravez da montanha, num valle sombrio, a
+horas do Jordão.</p>
+
+<p>Maria, commovida, quiz vêr o infante.</p>
+
+<p>A mãi descobriu-lhe o rosto.</p>
+
+<p>Era lindo!</p>
+
+<p>Os cabellos rolavam-lhe em cachos louros, os olhos jaziam como dois mortos
+sob as cupulas tumbaes das palpebras, com os longos cilios repontando como a
+herva que viça no abandono.</p>
+
+<p>A boca, de labios cerrados, livida, era como o leito secco de uma torrente
+que o sol exhauriu e estalou.</p>
+
+<p>Não se movia e, tão rigido, tão frio estava que só a illusão do amor podia
+ainda emprestar-lhe vida.</p>
+
+<p>A pequenita continuava a rebuscar anemonas cantando. <span class="pn"><a
+name="pag_60">{60}</a></span></p>
+
+<p>&mdash;Ides debalde a Endor com o vosso filho, disse commiserado o
+patriarcha, accrescentando: Baruc póde sarar enfermos, mas só Elias resuscitava
+os mortos.</p>
+
+<p>&mdash;Quereis dizer que elle está morto!? exclamou a mulher tremendo. Se,
+ainda hontem, embalei-o nos braços... Se ainda estou com os peitos cheios de
+leite, manando copiosamente como as ribeiras das collinas.</p>
+
+<p>Ai! de mim... Bem que eu não queria cantar a cantiga tristonha! Foi o canto
+triste que o fez fugir dos meus braços. Ai de mim!</p>
+
+<p>Adormeci-o para sempre.</p>
+
+<p>E agora? quem terá piedade da minha solidão? Era elle só...</p>
+
+<p>Nasceu em noite de luar, finou-se em manhan de nevoa. E hei-de o deixar na
+terra justamente agora quando o inverno chega! Ai! de mim... A saudade
+mudará <span class="pn"><a name="pag_61">{61}</a></span> o leite dos meus peitos
+em lagrimas para os meus olhos. Pobre de mim! Coitada de mim!</p>
+
+<p>E a moça deixou-se cahir á beira do caminho apertando nos braços o corpo do
+filho morto.</p>
+
+<p>A pequenita continuava a rebuscar anemonas.</p>
+
+<p>Maria inclinou-se compadecida sobre o cadaver e duas lagrimas da sua piedade
+rolaram na fronte gelida do defunto.</p>
+
+<p>Logo abriram-se os olhos da criança. Eram azues, côr do ceu; renasceram-lhe
+as rosas das faces, os bracinhos inertes estenderam-se e, lindo, com o
+esplendor da vida, o pequeno sorria afogando a cabeça no collo materno.</p>
+
+<p>O espanto emmudecera, immobilisara a moça.</p>
+
+<p class="ilustracao"><img src="images/pag062.jpg" width="80%" border="0"
+alt=""> <span class="pn"><a name="pag_62">{62}</a></span></p>
+
+<p>Subito, ergueu-se com um grito d'alma, <span class="pn"><a
+name="pag_63">{63}</a></span> poz-se a rasgar a tunica na pressa sofrega de
+amamentar o filho.</p>
+
+<p>Os peitos saltaram tumidos. O pequeno abocou avidamente e a mãi, sentindo-o
+sugar, contente e com lagrimas, ajoelhou-se e, d'olhos no ceu, ficou como
+petrificada.</p>
+
+<p>Maria chorava por vêl-a chorar venturosa e, como as suas lagrimas cahissem
+na terra, a pequenita não teve mãos para colher as flores que nasciam, brotando
+como acima d'agua borbulham, ás mil, as bolhas de ar. <span class="pn"><a
+name="pag_64">{64}</a></span></p>
+
+<p> <span class="pn"><a name="pag_65">{65}</a></span></p>
+<hr width="30%">
+
+<h1>Caminhando</h1>
+
+<p>Maria caminhava em silencio, pensando naquella mãi que, repentinamente,
+passára da maior desventura á maior felicidade pelo prestigio das lagrimas
+misericordiosas.</p>
+
+<p>&mdash;O pequenito dormia e a pobre mãi tinha-o por morto. Foi bastante que
+eu lhe tocasse para que logo abrisse os olhos.</p>
+
+<p>&mdash;É que o despertaste, disse o patriarcha sem alludir ao prodigio que
+testemunhara. <span class="pn"><a name="pag_66">{66}</a></span></p>
+
+<p>Elle ia notando, com discreta reserva, todas as maravilhas que se realisavam
+á passagem da Virgem: ribeiros que sustavam o curso offerecendo o leito enxuto
+para a travessia; arvores que se cobriam de flores, carregavam-se de frutos
+vergando generosamente os galhos; vozes que murmuravam; veios limpidos que
+rebentavam das pedras e, durante os curtos somnos da donzella, não lhe passavam
+despercebidos anjos que rondavam em torno dos bosques pisando, de leve, os
+caminhos avelludados.</p>
+
+<p>A mais e mais se lhe firmava nalma a certeza de que as palavras que ouvira
+em sonho haviam sido pronunciadas por um mensageiro do ceu.</p>
+
+<p>Aquella era, em verdade, a eleita da Divina Graça, a Virgem pura de Judá, da
+qual devia nascer o Messias das gentes. <span class="pn"><a
+name="pag_67">{67}</a></span></p>
+
+<p>Elle acompanhava-a, não como esposo e sim como servo, adorando-a de joelhos
+quando a via adormecida.</p>
+
+<p>Ella ignorava tudo. Sabia apenas que era mãi porque sentia no seio os
+movimentos do Sêr Perfeito, no qual concentrava todo o seu amor.</p>
+
+<p>Já lhe crescia o collo, pesando, arredondado e turgido.</p>
+
+<p>O amor preparava o alimento para Aquelle que se nutria de mysterio.</p>
+
+<p>&mdash;As mãis soffrem tanto pelos filhos!... O amor das mãis é como a rosa
+que cresce entre espinhos. Praza aos céus que meu filho não soffra emquanto fôr
+pequenino.</p>
+
+<p>As crianças não falam, não atinam a indicar onde lhes punge a dôr, de sorte
+que a gente não sabe como as ha de alliviar quando soffrem.</p>
+
+<p>&mdash;As mãis adivinham.</p>
+
+<p class="ilustracao"><img src="images/pag068.jpg" width="80%" border="0"
+alt=""></p>
+
+<p>&mdash;São tão fracas as criancinhas que <span class="pn"><a
+name="pag_68">{68}</a></span> tudo é perigo em torno dellas. Tremo quando penso
+no meu pequenino filho <span class="pn"><a name="pag_69">{69}</a></span> que vai
+nascer, tão franzino e tão pobre. Onde o agasalharemos nós?</p>
+
+<p>&mdash;Entre os nossos braços, como os passaros resguardam o ninho entre os
+ramos.</p>
+
+<p>&mdash;E o frio?</p>
+
+<p>&mdash;Temos o nosso calor.</p>
+
+<p>&mdash;E a fome?</p>
+
+<p>&mdash;Os peitos maternos são dois celleiros sempre cheios.</p>
+
+<p>&mdash;Haveis de amal-o, senhor, e ajudar-me emquanto elle carecer de
+nós?</p>
+
+<p>&mdash;Por ti, por Elle, por todos, disse José enlevado.</p>
+
+<p>Chegavam a um bosque de tamareiras, onde havia uma cisterna cercada de
+musgo.</p>
+
+<p>Um velho cégo repousava á sombra, ouvindo cantar uma criança que brincava
+sentada nas folhas seccas. <span class="pn"><a name="pag_70">{70}</a></span></p>
+
+<p> <span class="pn"><a name="pag_71">{71}</a></span></p>
+<hr width="30%">
+
+<h1>O cégo</h1>
+
+<p>O velho era de Jerichó.</p>
+
+<p>Esperava naquelle retiro a passagem das caravanas que se encaminhavam a
+Jerusalem e sempre recolhia uma azinhavrada moeda, um punhado de tâmaras ou um
+esgarçado albornoz em que se enrolava, bemdizendo, com palavras humildes e
+agradecidas, a generosidade dos homens, recommendando-os ao deus de Abrahão, de
+Isaac e de Jacob e indicando-lhes os melhores e mais seguros caminhos pelos
+montes. <span class="pn"><a name="pag_72">{72}</a></span></p>
+
+<p>José ajuntou as folhas espalhadas e fez uma alfombra onde Maria adormeceu
+revendo, em sonho, a sua alegre Nazareth, as moças á beira da fonte, os
+pastores nos cerros, á hora macia da tarde, quando as cotovias baixam e
+desapparecem nas searas e as aguas das levadas cantam.</p>
+
+<p>Conversaram os dois velhos&mdash;José falou da sua viagem, o cégo falou da
+sua cegueira.</p>
+
+<p>&mdash;Estava assim desde moço, um raio cegara-o no campo, sob um sycomoro.
+Já se habituara á treva como um prisioneiro que se houvesse acostumado ao
+carcere.</p>
+
+<p>Um magico de Suza offerecera-se para cural-o. Pedira cem drachmas, baixara a
+cincoenta; faria por vinte se elle lh'as offerecesse.</p>
+
+<p>Tinha ainda a sua cabana e ovelhas, vendendo-as reuniria a somma, mas, <span
+class="pn"><a name="pag_73">{73}</a></span> pensando, resolvera deixar-se ficar
+na cegueira. E suspirou:</p>
+
+<p>&mdash;Illude-se quem julga que, ao voltar aos antigos lugares, encontrará
+as coisas como deixou: as proprias pedras modificam-se e não são varias como as
+almas.</p>
+
+<p>Quando me annunciaram a morte de meu filho, pedi que me puzessem junto do
+cadaver, apalpei-o, beijei-o; ouvi os passos dos que o levaram a enterrar, mas
+não vi o enterro.</p>
+
+<p>Ouvi o estrondo da queda do cedro que cobria de sombra a minha eira e, ainda
+hoje, vou sentar-me no sitio em que elle avultava e sinto-me agasalhado pela
+ramagem que não existe e ouço a alegre voz dos passarinhos de outr'ora.</p>
+
+<p>As coisas foram desapparecendo uma a uma, eu mesmo envelhecia, mas a
+cegueira conserva a visão do passado.</p>
+
+<p>O sol parou para mim na mocidade <span class="pn"><a
+name="pag_74">{74}</a></span> como parou sobre os muros de Jerichó á voz do
+batalhador.</p>
+
+<p>Vejo dentro de mim tudo quanto deixei: as gentes, os animaes, as arvores, os
+lugares com as suas cabanas e os seus campos floridos.</p>
+
+<p>Sou como a ave aprisionada, de pequenina, em uma gaiola, que não olha senão
+a limitada paizagem que fica em torno da sua vivenda triste. Soltai-a,
+esvoaçará atordoada e, se não regressar á prisão, morrerá de fome perdida nas
+florestas frondosas, se não cahir nas garras dos abutres.</p>
+
+<p>O homem de Suza queria dar-me a liberdade. Para que? para eu morrer de
+saudosa tristeza sentindo o deserto em volta de mim? Não!</p>
+
+<p>Vivo no passado, o meu tempo já foi.</p>
+
+<p>Não caminho para a morte, espero-a, sentado no limiar da mocidade,
+ouvindo <span class="pn"><a name="pag_75">{75}</a></span> o rumor do tempo
+devastador, sem vêr os desastres, sem vêr as lagrimas, sem vêr os enterros.</p>
+
+<p>Perdi-me dos meus, dei em uma furna e nella vivo. Já agora estou habituado á
+sombra. Para que hei de sahir se, lá fóra, só me esperam ossadas? Se o proprio
+Deus me offerecesse a luz eu lhe pediria a morte.</p>
+
+<p>Voltar atraz...! A herva cresce, o vento revolve a areia desmanchando as
+nossas pegadas.</p>
+
+<p>O campo, que conhecemos florido, mudou-se em carrascal; a gente envelheceu
+ou morreu. Só ha um meio de não caminhar chorando&mdash;é seguir sempre em
+frente e se eu recobrasse a vista teria de retroceder e cegaria de novo com os
+olhos afogados em lagrimas. Aonde vos dirigis?</p>
+
+<p>&mdash;A Bethleem.</p>
+
+<p>&mdash;Casa do pão. É ali que deve nascer <span class="pn"><a
+name="pag_76">{76}</a></span> o Annunciado. Casa da abundancia, celleiro do
+Senhor, Bethleem da fertilidade! De lá é que nos ha de vir o Messias. O campo
+de Booz dará o trigo que ha de fartar as almas.</p>
+
+<p>&mdash;É para lá que vamos.</p>
+
+<p>&mdash;Que as estrellas vos sejam propicias, como fôram a Ruth, a moça de
+Moab. <span class="pn"><a name="pag_77">{77}</a></span></p>
+<hr width="30%">
+
+<h1>Dentro da noite</h1>
+
+<p>Maria abriu os olhos quando as estrellas nasciam.</p>
+
+<p>O cégo já havia partido levado pelo menino. As cigarras cantavam
+vesperas.</p>
+
+<p>José empunhou o cajado: Maria deixou o leito agreste, e seguiram.</p>
+
+<p>As ultimas chammas do sol apagavam-se no occaso e a nevoa polvilhava os ares
+como uma cinza.</p>
+
+<p>Monstruosos penhascos, talhados a pique á beira de precipicios, avultavam
+temerosamente na sombra. <span class="pn"><a name="pag_78">{78}</a></span></p>
+
+<p>Palmeiras debruçavam-se sobre as rampas. Toda a vegetação contorcida, com as
+raizes á flor da terra, agarrando-se nervosamente ás arestas dos penhascos,
+parecia receiar aquelles despenhadeiros de onde subia atroadoramente um
+escachôo soturno d'aguas constrangidas.</p>
+
+<p>Escurecia. Os montes áridos da Judéa apresentavam-se hostis aos
+peregrinos.</p>
+
+<p>Os caminhos, aos torcicollos, confundiam-se augustos, escavados em brocas,
+eriçados d'aspas calcareas, orlados de intonsos espinheiros que, ás vezes, como
+garras, detinham os viajantes pelas tunicas.</p>
+
+<p>Estryges voavam, pousavam nos ramos, nos penedos com gritos lugubres.</p>
+
+<p>José caminhava a passo cauteloso, sondando o piso com o cajado, detendo <span
+class="pn"><a name="pag_79">{79}</a></span> Maria, buscando tranquillisal-a com
+palavras carinhosas.</p>
+
+<p>Mas a treva adensava-se a mais e mais, os roçados confundiam-se com a
+sombra. Julgando seguir a trilha direita, o patriarcha estendia a mão e sentia
+a aspereza das penhas.</p>
+
+<p>&mdash;É imprudencia insistirmos em proseguir em tal escuridão, disse Maria
+com medo. É Deus que nos retém.</p>
+
+<p>José deteve-se. Parecera-lhe ter ouvido vozes, rumor de passos, estalos de
+ramos seccos, como se viessem outros caminheiros. Escutou attentamente.</p>
+
+<p>Era o vento que agitava o folhedo e eram as aguas profundas que referviam
+nos algares.</p>
+
+<p>Mas um clarão suave accendeu-se no fundo espesso do arvoredo. Quem seria?
+Encolheram-se os dois, olhos fitos na claridade, que se adiantava como a luz de
+um facho. <span class="pn"><a name="pag_80">{80}</a></span></p>
+
+<p class="ilustracao"><img src="images/pag080.jpg" width="80%" border="0"
+alt=""> <span class="pn"><a name="pag_81">{81}</a></span></p>
+
+<p>Uma centelha passou na escuridão, outra gyrou nos ares, as folhas, os ramos
+das arvores ficaram incrustados de brazas.</p>
+
+<p>Surgiram da terra, saltaram das rochas, subiram dos desfiladeiros, a
+espessidão estrellou-se e todas as fagulhas, unindo-se, formaram uma rutila
+umbella pairando sobre Maria e José como a nuvem seguiu Israel guiando-o
+luminosamente pelo negror das noites no deserto.</p>
+
+<p>Eram pyrilampos que voavam em ordenada phalange alumiando os caminhos
+obscuros.</p>
+
+<p>E os dois, sob o relume dos insectos, continuaram a viagem dentro dum
+reverbero que só ao clarear d'alva desappareceu nos ares. <span class="pn"><a
+name="pag_82">{82}</a></span></p>
+
+<p> <span class="pn"><a name="pag_83">{83}</a></span></p>
+<hr width="30%">
+
+<h1>Presagio</h1>
+
+<p>O ceu, d'um azul transparente, ia-se, aos poucos, illuminando.</p>
+
+<p>Os montes, em recortes rigidos, calvos, com a pedra exposta, a reluzir de
+humidade, ou eriçados de hispidos mattos, resaltavam em aspero, mordente
+relevo, com os cimos resplandecendo sob uma nevoa de ouro.</p>
+
+<p>Docemente baliam placidos rebanhos.</p>
+
+<p>As casas abriam-se; homens, ainda estremunhados, vinham ás portas,
+bocejavam <span class="pn"><a name="pag_84">{84}</a></span> lançando por entre
+as barbas um halito brumoso.</p>
+
+<p>Sentia-se a visinhança de Jerusalem pelo maior numero de casas, pela
+abundancia de gado nos valles verdes, recortados de veios d'aguas. Burricos
+trotavam com alcofas e ceirões de frutas.</p>
+
+<p>Risos crystallinos annunciavam crianças; ouvia-se um estrepitante chapinhar
+e, á volta de um caminho, no claro remanso de uma ribeira, sob a acenosa
+ramagem do salgueiral, meninos nús saltavam, atiravam-se de mergulho, aos
+gritos alegres, flagellando a agua com ramos ou pendurando-se, a rir, dos
+galhos inclinados.</p>
+
+<p>Nos campos, a espaços, alvejavam sepulchros; ovelhas pastavam em torno,
+pombos cercavam-nos em revoada arrulhante.</p>
+
+<p>Por entre a palha das choças esfiava-se o fumo azul. <span class="pn"><a
+name="pag_85">{85}</a></span></p>
+
+<p>Já os moinhos trabalhavam e junto aos immensos lagares, onde se pisava a
+azeitona, reluziam, em fumeiro, montes de bagaço oleoso.</p>
+
+<p>Maria, que caminhara contente até aquellas paragens, á medida que avançava,
+sentia apertar-se-lhe o coração em presagio funesto.</p>
+
+<p>Olhava anciosa os longes dos horizontes.</p>
+
+<p>Tudo era calmo. A paizagem estendia-se acceitosa, cortada de muros de
+hortos, toda verde, bem differente dos desolados ermos que ella deixára.</p>
+
+<p>Todavia a tristeza empannava-lhe os olhos, enchia-lhe o coração e já
+transbordava em lagrimas.</p>
+
+<p>Vendo-a chorar, José perguntou com meiguice:</p>
+
+<p>&mdash;Sentes-te fatigada?</p>
+
+<p>&mdash;Não, meu senhor: voltaria a Nazareth sem parar, se pudesse. <span
+class="pn"><a name="pag_86">{86}</a></span></p>
+
+<p>&mdash;E porque choras?</p>
+
+<p>&mdash;Não sei. O coração aperta-se-me, um grande medo invade-me,
+constrange-me. Tremo e sinto-me gelar. As proprias flores causam-me horror. As
+anemonas parecem-me chagas que sangram. Tenho medo, um grande medo, como se
+fosse caminhando para a morte. Que tumulo é aquelle que apparece além, tão
+alto, tão negro, sob o vôo dos corvos?</p>
+
+<p>José seguiu com o olhar a direcção do gesto de Maria.</p>
+
+<p>&mdash;O que vês são as muralhas de Jerusalem, onde chegaremos antes do pôr
+do sol.</p>
+
+<p>&mdash;Além das muralhas, aquelle tumulo negro, tão triste, onde agora o sol
+brilha.</p>
+
+<p>Uma velha, trazendo um jumento pela arreata, sahiu ao caminho vagarosa. <span
+class="pn"><a name="pag_87">{87}</a></span></p>
+
+<p class="ilustracao"><img src="images/pag087.jpg" width="80%" border="0"
+alt=""> <span class="pn"><a name="pag_88">{88}</a></span></p>
+
+<p>José saudou-a, a velha sorriu á Maria abençoando-a e a Virgem, escondendo a
+tristeza num sorriso, perguntou-lhe:</p>
+
+<p>&mdash;Que tumulo é aquelle, além! tão alto, dentro dos muros da cidade? Os
+corvos rondam-no, deve haver mortos ali.</p>
+
+<p>&mdash;É um monte, disse a mulher.</p>
+
+<p>&mdash;Um monte! repetiu Maria surprehendida.</p>
+
+<p>&mdash;O Golgotha. O outro é o Goreb.</p>
+
+<p>&mdash;O Golgotha! suspirou a Virgem e, depois de um silencio dolorido,
+deixando-se cahir sobre as hervas, desatou a chorar convulsamente. A velha
+animou-a, teve palavras inuteis de consolo e alento. José assentou-se-lhe ao
+lado e, tomando-lhe as mãos frias, alisando-lhe os cabellos humidos de orvalho,
+perguntou-lhe:</p>
+
+<p>&mdash;Que tens? Ella não poude responder. <span class="pn"><a
+name="pag_89">{89}</a></span> Levantou-se e, resignadamente, de olhos baixos,
+contendo os soluços, poz-se, de novo, a caminho, em direcção á cidade branca e
+atorreada, ao sol. <span class="pn"><a name="pag_90">{90}</a></span></p>
+
+<p> <span class="pn"><a name="pag_91">{91}</a></span></p>
+<hr width="30%">
+
+<h1>Piedade</h1>
+
+<p>Com um rebanho que recolhia levado por um pastor coberto de pelles, as
+pernas enroladas até os joelhos em vello sórdido, entraram em Jerusalem pela
+porta do mercado, á hora em que as buzinas romanas troavam nas torres.</p>
+
+<p>José procurava distrahir Maria mostrando-lhe as grandes bellezas, a
+magnificencia da cidade; nomeava os edificios, alguns longinquos, esfumados nas
+primeiras sombras da noite.</p>
+
+<p>A Virgem, porém, seguia calada, sem <span class="pn"><a
+name="pag_92">{92}</a></span> animo de levantar os olhos, o coração cerrado em
+tristeza invencivel.</p>
+
+<p>Gentes diversas cruzavam-se nas ruas: homens abaçanados do deserto, com o
+albornoz ao vento, o punho esmaltado das adagas reluzindo á cinta; phenicios
+cobertos de jóias, com enormes collares de contas de ouro e braceletes de
+marfim; gregos ágeis passando ligeiros entre a multidão, com a tunica colhida
+ao braço, as pernas enlaçadas em tiras de couro.</p>
+
+<p>Mulheres mostravam-se ás portas das casas, encostadas languidamente aos
+umbraes, olhando em extase, com um sorriso nos labios côr de purpura.</p>
+
+<p>A algumas viam-se-lhes os peitos pela abertura das tunicas; outras,
+reclinadas em leitos marchetados, cerravam mollemente as palpebras gosando o
+frescor dos flabellos que escravas agitavam. <span class="pn"><a
+name="pag_93">{93}</a></span></p>
+
+<p>Errava no ar denso um cheiro forte de aromatas.</p>
+
+<p>Estranhas musicas soavam e, como os albergues estavam cheios, era um
+babariso alegre sob as frescas latadas, por entre as quaes, em corridinha
+airosa, moças iam e vinham com amphoras e crateres.</p>
+
+<p>O pastor falara-lhes em uma modesta estalagem em Bezetha, para o lado do
+forte, onde podiam encontrar agasalho seguro.</p>
+
+<p>A casa era dirigida por um velho de Siloeh e tinha, fama pelo seu anho tenro
+e pelo seu vinho puro. Lá achariam pousada e, como ficava longe e não recebia
+mulheres, não seriam incommodados pelos legionarios que, á menor agitação,
+invadiam as casas brutalmente levando tudo a conto de lança.</p>
+
+<p>Era um rancho pauperrimo, entre sebes de espinhos, onde aboletavam-se <span
+class="pn"><a name="pag_94">{94}</a></span> mesteiraes e homens dos montes que
+traziam ao mercado favos de mel, resinas, balsamos e raizes.</p>
+
+<p>O velho acolheu-os de boa sombra, serviu-lhes a refeição na sala lobrega que
+uma candeia alumiava.</p>
+
+<p>Rusticos bebiam, jogavam e fóra, junto a um monte de pedras, um velho
+resmungava raspando, com voracidade, o fundo de uma escudella.</p>
+
+<p>Era um leproso nojentamente abostellado de ulceras.</p>
+
+<p>Ás chufas dos homens, que lhe atiravam cascas, bagaços de frutas, respondia
+aos regougos, bramindo maldições e, como prorompesse aos berros, apanhando
+pedras para defender-se, os homens revoltaram-se.</p>
+
+<p>O hospede tranquillisou-os e, sahindo ao terreiro, poz-se a assobiar.</p>
+
+<p>Enorme cão saltou da sombra rosnando, o taverneiro açulou-o contra <span
+class="pn"><a name="pag_95">{95}</a></span> o leproso que se encolhera
+estarrecido.</p>
+
+<p class="ilustracao"><img src="images/pag095.jpg" width="80%" border="0"
+alt=""> <span class="pn"><a name="pag_96">{96}</a></span></p>
+
+<p>Vendo o cão investir, Maria cahiu de joelhos, juntou as mãos frias e,
+tremula, d'olhos no ceu, implorou pelo infeliz.</p>
+
+<p>O animal raivava, aos saltos; os homens vociferavam incitando-o. Alguns riam
+no ante-gosto da scena cruel, mas como o leproso, tentando correr, tropeçasse
+rolando na terra e ferindo o rosto no pedregulho, o cão, que o alcançara,
+poz-se a ganir e, sacudindo a cauda, ficou de rastos, lambendo mansamente o
+sangue que escorria da cicatriz do mendigo.</p>
+
+<p>E Maria, extactica, não via a doce misericordia que immobilisara em espanto
+os hospedes do albergue. <span class="pn"><a name="pag_97">{97}</a></span></p>
+<hr width="30%">
+
+<h1>Cantico messianico</h1>
+
+<p>Ao romper d'alva quando, do lado do templo, as cegonhas partiam em direcção
+ao deserto e as pombas baixavam em nuvens sobre o mercado catando o grão que
+transbordava das ceiras, o patriarcha despertou Maria e, ligeiros como
+foragidos, deixaram a estalagem com os votos de boa jornada do hospedeiro. As
+buzinas romanas resoavam na serenidade.</p>
+
+<p>Legionarios recolhiam cançadamente a Makéros. <span class="pn"><a
+name="pag_98">{98}</a></span></p>
+
+<p class="ilustracao"><img src="images/pag098.jpg" width="80%" border="0"
+alt=""></p>
+
+<p>Pobres, que haviam pernoitado ao relento, estremunhavam sobre farrapos. <span
+class="pn"><a name="pag_99">{99}</a></span></p>
+
+<p>Num pateo, entre muros de maceria, espontado de hervas sylvestres, mugiam
+bois e homens bradavam.</p>
+
+<p>Corvos rondavam os ares attrahidos pelo cheiro do sangue.</p>
+
+<p>Quando passaram as muralhas, sahindo no campo do oleiro, o sol brilhava nas
+pastagens humidas e passarinhos cruzavam o vôo cantando na alegria do sol.</p>
+
+<p>Maria caminhava d'olhos altos, como enlevada. Ineffavel sorriso
+illuminava-lhe o rosto lindo, arrepios nervosos sacudiam-na de instante a
+instante.</p>
+
+<p>&mdash;Lá está Bethleem! disse José estendendo o cajado na direcção dos
+montes ainda enfaixados em nevoa.</p>
+
+<p>Maria empallideceu e, d'olhos fitos nos outeiros graciosos da terra de
+David, rompeu, de repente, a cantar, sobre uma antiga melodia hebraica,
+repetindo <span class="pn"><a name="pag_100">{100}</a></span> inspiradamente as
+palavras que lhe sahiam d'alma:</p>
+
+<p> </p>
+
+<p>«Espirito Perfeito, ancia das almas miseras, se és Tu que em mim assistes,
+bemdita seja a carne fragil em que te encerraste e de onde deves romper, germen
+da Redempção, em Flor de Misericordia.</p>
+
+<p> </p>
+
+<p>Espirito Perfeito, lume que de mim fizeste a Tua lampada, que o Teu clarão
+espalhe-se pela terra fazendo brotar a sementeira nos campos e o Amor no
+coração dos homens.</p>
+
+<p> </p>
+
+<p>Espirito Perfeito, fonte de copiosas aguas bemfazejas, se é do meu seio que
+vais jorrar, bemdita seja a Dôr que me lançou na vida, bemditas sejam as
+lagrimas que já por Ti hei vertido. <span class="pn"><a
+name="pag_101">{101}</a></span></p>
+
+<p> </p>
+
+<p>Espirito Perfeito, esperança dos desanimados, se eu sou o ramo verde que Te
+hei de dar, bemdita seja a afflicção de minh'alma na hora atormentada em que,
+innocente, me julguei culpada e, pura, vi a suspeita manchar a minha
+virgindade.</p>
+
+<p> </p>
+
+<p>Espirito Perfeito, se És a Redempção annunciada, bemdigo a Tua vinda, sem
+orgulho, por me haveres tomado por Teu trámite e prostro-me ante a Tua Graça e
+exalto a Tua Beneficencia.</p>
+
+<p> </p>
+
+<p>Espirito Perfeito, Sêr dos sêres, não nado ainda, gloria a Ti e á Tua origem
+celestial. Virgem, dar-te-ei ao mundo. Eu sou como o olhar que se não macula
+por transmittir ao corpo a visão.</p>
+
+<p>Por mim entras no mundo como o sol, e tudo que elle alumia, entra, pelo
+olhar, no cerebro. <span class="pn"><a name="pag_102">{102}</a></span></p>
+
+<p>Eu sou a pupilla que communica ao Universo a Claridade Magnifica.</p>
+
+<p> </p>
+
+<p>Espirito Perfeito, louvado sejas sempre pela Tua Virtude e pela Tua
+Excellencia. Sahes da carne mortal sem trazeres peccados: passas por ella como
+uma imagem que se reflecte nagua.</p>
+
+<p> </p>
+
+<p>Espirito Perfeito, Graça de Israel, Esperança das Gentes, Messias... Meu
+coração alegra-se sentindo-Te e o meu coração é o captivo que almeja a
+liberdade.</p>
+
+<p>Eu sou a Fraqueza humilde chamada Mulher. Sou a escrava que gera o seu
+Libertador, a Sombra de onde sahe a Luz, o Peccado que floresce em
+Perdão...»</p>
+
+<p> </p>
+
+<p>José ouvia-a com os olhos rasos d'agua. <span class="pn"><a
+name="pag_103">{103}</a></span></p>
+
+<p>As cotovias cantavam na altura luminosa.</p>
+
+<p>Longe, sob a fulguração do sol, resplandeciam os muros de Bethleem, entre
+outeiros. <span class="pn"><a name="pag_104">{104}</a></span></p>
+
+<p> <span class="pn"><a name="pag_105">{105}</a></span></p>
+<hr width="30%">
+
+<h1>O campo de Booz</h1>
+
+<p>Á hora cálida, abafada em que as folhas dormem e as ribeiras murmuram de
+leve, vagarosas, remansando-se sob as quietas sombras, e toda aza encolhe-se
+entre os ramos mais densos, e todo reptil encova-se na terra mais humida, deram
+os dois num campo de farta seara onde alumiavam foices e moças juntavam
+gavellas, cantando, emquanto os homens ceifavam assustando as cotovias que
+tinham os seus ninhos rentes do chão, na raiz do trigal. <span class="pn"><a
+name="pag_106">{106}</a></span></p>
+
+<p>Maria, com o manto sobre a cabeça, enlevada naquella messe de ouro e na
+alegria ruidosa do trabalho, ouvia as vozes que se cruzavam subindo dos trigos
+altos, onde os seareiros desappareciam, como se fôsse o proprio campo que
+cantasse o louvor do sol.</p>
+
+<p>Ia tão entretida que não viu José adiantar-se, direito a uma palhoça onde um
+velho jazia, sentado ante um monte de vergas, tecendo um alcofe e cantando.</p>
+
+<p>Aligeirou os passos e alcançou o esposo justamente quando elle saudava o
+ancião.</p>
+
+<p>&mdash;Dizei-me a quem pertence este campo tão rico e cheio de tanta
+alegria?</p>
+
+<p>&mdash;A Obed, segundo deste nome, descendente de Booz, o semeador.</p>
+
+<p>&mdash;Foi, então, nesta terra que a moabita achou agasalho junto do homem
+bom, que a amou?</p>
+
+<p>&mdash;Sim, foi aqui. Esta é a leira de <span class="pn"><a
+name="pag_107">{107}</a></span> Ephracta, a mais fertil entre as mais
+abundantes e generosas. Este campo foi o leito nupcial onde se gerou a raça
+robusta dos reis de Israel.</p>
+
+<p>Aqui nasceu David, tronco forte, estirpe augusta de que ha de sahir a
+Immarcessivel Flor annunciada, cujo perfume encherá as almas de ineffavel
+ventura. Este é o celleiro de Iaveh. E vós, vindes de longe?</p>
+
+<p>&mdash;De Nazareth, na Galiléa.</p>
+
+<p>&mdash;E ides?</p>
+
+<p>&mdash;A Bethleem. Urge que lá cheguemos antes do pôr do sol.</p>
+
+<p>&mdash;Tendes tempo. Sentai-vos um momento, é a hora da refeição. O que
+tenho dá para repartir comvosco. A vossa companheira, esposa ou filha, vem
+fatigada; que descance um instante á sombra, gosando a sesta. Entrareis na
+cidade com a fresca da tarde.</p>
+
+<p>Aceitaram os peregrinos o convite <span class="pn"><a
+name="pag_108">{108}</a></span> hospitaleiro: sentaram-se e comeram do pão
+molhado em mel e beberam pelo mesmo tarro o leite cheiroso.</p>
+
+<p>Ficaram os dois velhos conversando e Maria, encostando-se aos feixes de
+trigo, cobriu o rosto com o manto e adormeceu.</p>
+
+<p>As moças cantavam na eira levantando medas de ouro e, sob o sol escaldante,
+no alto ceu azul, as cotovias voavam e os seus gritos abrandavam-se na
+distancia, esmoreciam perdidamente. <span class="pn"><a
+name="pag_109">{109}</a></span></p>
+<hr width="30%">
+
+<h1>Na estrada de Bethleem</h1>
+
+<p>Frio e pallido, esfumado em brumas, o crepusculo baixava na tristeza da
+tarde silenciosa.</p>
+
+<p>No remonte dos cerros pedregosos, hirtas palmeiras immoveis pareciam
+gravadas, em negro, no fundo dourado do occaso. Aves esvoaçavam caladas.</p>
+
+<p>Docemente, com um tremulo murmurio, fluiam pelos canaes de rega as aguas
+levadias, e as vozes soturnas dos bois soltos, errando, de vagar, no campo
+restolhado, soavam como gemidos. <span class="pn"><a
+name="pag_110">{110}</a></span></p>
+
+<p>Os peregrinos seguiam uma vereda suave, entre debruns de anemonas.</p>
+
+<p>Maria parava de instante a instante, arfando.</p>
+
+<p>Amollecida, alquebrada, olhava com desanimo os outeiros ainda longinquos e
+suspirava, sem atrever-se a dizer ao esposo o seu cançaço.</p>
+
+<p>José, porém, notou-lhe a lentidão dos passos e, amparando-a, animou-a
+carinhoso:</p>
+
+<p>&mdash;Estamos a chegar. Lá apparecem as casas de Bethleem; as luzes brilham
+por entre as arvores. Mais um momento e teremos repouso em alguma estalagem.</p>
+
+<p>Ella parou, ficou a olhar o ceu nublado como a implorar alento para chegar
+ao termo da viagem.</p>
+
+<p>&mdash;É um peso que me curva, murmurou em voz sumida. Sinto-me tão fraca
+que não sei se poderei acompanhar-vos até as collinas de além. Toda <span
+class="pn"><a name="pag_111">{111}</a></span> eu esmoreço. O meu desejo é
+deixar-me ficar no caminho, deitada nas hervas, e dormir um somno grande.</p>
+
+<p>Nunca me pesou tanto o corpo, o proprio espirito pesa-me, tão carregado está
+de medo e de cuidados sombrios.</p>
+
+<p>Que será de mim e d'Elle ao nascer em tão desabrigados lugares, longe de
+tudo, á friagem da noite, com este vento que retalha as carnes como um ferro
+mortal?</p>
+
+<p>O chiar de um carro levou-lhes a attenção para o caminho deserto. Uma voz
+cantava na tristeza da tarde moribunda:</p>
+
+<blockquote>
+ <p>Hervas do campo florido,<br>
+ Que aroma! Que trescalar!<br>
+ Bem se vê que o seu vestido<br>
+ Andou por vós a roçar.</p>
+
+ <p>Outeiro em flor, o teu vello,<br>
+ Verde e fino, ao meu ciume<br>
+ Confessa que o seu cabello<br>
+ Deixou nelle o seu perfume. <span class="pn"><a
+ name="pag_112">{112}</a></span></p>
+</blockquote>
+
+<p>O carro appareceu acogulado de trigo, rinchando, ao passo moroso dos bois
+que traziam os cornos floridos de acacias.</p>
+
+<p>José dirigiu-se ao carreiro, robusto moço, e pediu-lhe passagem para Maria,
+mostrando-a, prostrada e languida, entre o rosmaninho cheiroso.</p>
+
+<p>O moço accedeu e os dois ajudaram a Virgem a subir, fizeram-lhe lugar macio
+sobre as paveias louras e os bois arrancaram.</p>
+
+<p>E caminhando, José ia enlevado na esposa e o carreiro, d'aguilhada ao
+hombro, olhos fitos no ceu, insistia na egloga:</p>
+
+<blockquote>
+ <p>Hervas do campo florido,<br>
+ Que aroma! Que trescalar<br>
+ Bem se vê que o seu vestido<br>
+ Andou por vós a roçar. <span class="pn"><a name="pag_113">{113}</a></span></p>
+</blockquote>
+<hr width="30%">
+
+<h1>Na caverna</h1>
+
+<p>Diante de uma trilha que se perdia no arvoredo deteve-se o carreiro e
+disse:</p>
+
+<p>&mdash;Aqui me despeço, este é o meu rumo. A estrada em que estais, direita
+e facil, guia-vos a Bethleem. Seja o Senhor comvosco.</p>
+
+<p>Sem esforço José tomou a Virgem nos braços, pousou-a na terra, agradecendo
+ao moço a gentileza de a haver recebido no seu carro. E elle, galantemente,
+respondeu:</p>
+
+<p>&mdash;Trouxe a flor viva no trigal ceifado, <span class="pn"><a
+name="pag_114">{114}</a></span> e, com tão geitosa resposta, despediu-se e
+foi-se, aguilhada ao hombro, de vagar, á frente dos bois, cantando, em voz
+apaixonada, os louvores do seu amor mimoso.</p>
+
+<p>Os dois caminharam alguns passos, Maria amparada ao esposo, lenta, tolhida
+de soffrimento; mas não poude ir além da caverna e deteve-se.</p>
+
+<p>O aspero interior do antro tingia-se de laivos rubros, ao tremulo flammejar
+d'uma fogueira junto á qual um velho pastor, as mãos estendidas ao lume,
+cantarolava baixinho.</p>
+
+<p>Ovelhas ondulavam na sombra.</p>
+
+<p>Logo á entrada, na anfractuosidade da rocha, havia uma mangedoura. Um
+jumento dormitava e, junto delle, ruminando, jazia deitada uma vacca com o seu
+novilho.</p>
+
+<p>Disse José a Maria: <span class="pn"><a name="pag_115">{115}</a></span></p>
+
+<p class="ilustracao"><img src="images/pag115.jpg" width="80%" border="0"
+alt=""> <span class="pn"><a name="pag_116">{116}</a></span></p>
+
+<p>&mdash;Firma-te a mim e vamos devagarinho. Havemos de achar aposento em
+alguma estalagem. Ella sorriu docemente, resignada, mas os seus olhos meigos
+foram para a caverna.</p>
+
+<p>O patriarcha, apiedado, adiantou-se e falou ao pastor.</p>
+
+<p>&mdash;Seja o Senhor comvosco!</p>
+
+<p>&mdash;Seja bemvindo quem chega e assim annuncia-se ao humilde.</p>
+
+<p>&mdash;Hospede na terra venho de longe e commigo, em estado que não consente
+esforço, trago a minha esposa, que aqui vedes. Se permittirdes que ella fique
+um momento comvosco emquanto procuro hospedagem, sempre o meu coração vos ha de
+louvar.</p>
+
+<p>O velho pastor, idoso, de fartas barbas amarellecidas, longos cabellos
+espalhados pelos hombros, que um melóte cobria, soergueu-se e falou:</p>
+
+<p>&mdash;A caverna não tem porta, ainda é mais franca que os templos. Entrai
+e <span class="pn"><a name="pag_117">{117}</a></span> abeirai-vos do lume, que a
+noite começa a esfriar.</p>
+
+<p>&mdash;Ella fica, eu sigo pela pousada. Maria, timida, entrou. Logo o pastor
+acamou as palhas, alargando um leito fofo e, vendo-a recostar-se, voltou ao seu
+lume e ao canto com que se entretinha.</p>
+
+<p>E o patriarcha partiu.</p>
+
+<p>Ainda que não conhecesse a cidade, tanta era a gente que se movia nas ruas,
+que não lhe foi difficil, perguntando, encaminhar-se a uma estalagem.</p>
+
+<p>Logo á entrada, sob o vasto alpendre, viu altas pilhas de fardos e, em
+torno, estendidos em pelles, mercadores e recoveiros.</p>
+
+<p>O hospede, mostrando-lhe o transbordo da casa, disse:</p>
+
+<p>&mdash;São homens que se aboletam ao relento, por falta de commodos.
+Difficilmente encontrareis quem vos receba, porque as festas attrahiram grande
+mó <span class="pn"><a name="pag_118">{118}</a></span> de estrangeiros e as
+feiras trazem das cercanias todos os lavradores. Guie-vos o Senhor. E José
+proseguiu.</p>
+
+<p>Nas viellas e alfurjas havia turbas cantando e bailando em volta de
+fogueiras.</p>
+
+<p>Debalde o ancião entrava nas estalagens; as proprias choupanas recebiam
+hospedes e, pelas collinas, entre fogos, clareavam tendas. Errou até tarde sem
+exito.</p>
+
+<p>Já o silencio annunciava hora alta quando, quebrado de fadiga, retrocedeu
+pelas betesgas desertas, ao latido dos cães errantes, em rumo á caverna.</p>
+
+<p>Avistou-a de longe, alumiada por um clarão de luar, e, como levantasse os
+olhos demandando o astro, deu com um anjo deslumbrante que, abrindo azas
+largas, diaphanas, feitas como de nevoa e luz, ia e vinha no espaço, rondando a
+noite. <span class="pn"><a name="pag_119">{119}</a></span></p>
+
+<p>Entrou. O velho pastor velava diante das brazas vividas e, entre ovelhas,
+sobre a palha loura, a Virgem dormia serena. <span class="pn"><a
+name="pag_120">{120}</a></span></p>
+
+<p> <span class="pn"><a name="pag_121">{121}</a></span></p>
+<hr width="30%">
+
+<h1>Natal</h1>
+
+<p>O esplendor é mais impenetravel que a treva e foi uma muralha fulgurante que
+encobriu Maria quando se realisou a prophecia do Bem.</p>
+
+<p>Na hora em que os gallos cantaram a primeira vez subito clarão resplandeceu
+no fundo da caverna. A luz foi tanta, tão intensa que atravessou o somno em que
+jaziam o patriarcha e o pastor.</p>
+
+<p>José soergueu-se d'impeto, firmando-se nas mãos, offuscado pela claridade
+vivida que irradiava em stalactites de <span class="pn"><a
+name="pag_122">{122}</a></span> um brilho augusto, mudando em rutilos diamantes
+todas as pedras brutas e fazendo do aspero sólo, eriçado em pedrouços, uma área
+esplendida como se fosse embutida de gemmas lapidadas.</p>
+
+<p>O pastor, attonito, deslumbrado, arrastava-se tacteando e a caverna, a mais
+e mais aclarada, parecia toda uma chamma alva como se um luar maravilhoso a
+enchesse magnificamente.</p>
+
+<p>Os dois homens, atordoados, não falavam&mdash;estendiam as mãos e os seus
+dedos chammejavam como raios d'astros e da luminosidade desprendia-se um
+perfume, novo na terra, aroma celestial que enlevava como um encantamento.</p>
+
+<p>Além da caverna a noite negrejava calada e erma de estrellas. Poude o pastor
+arrastar-se até o limiar e o seu corpo, esgueirando-se, refulgia como o de uma
+salamandra. <span class="pn"><a name="pag_123">{123}</a></span></p>
+
+<p>Tremulo, chegou á entrada, respirando, a largos sorvos, o ar frio que vinha
+dos outeiros. Levantou o olhar e recuou espavorido.</p>
+
+<p>Escada altissima, de scintillantes degraus, ligava o cimo do outeiro ao ceu
+aberto em radiante pórtico e anjos desciam, tantos que pareciam uma catadupa
+que se despenhava espumejando iriada de sol, com scintillações de pedrarias.</p>
+
+<p>Não poude olhar e, rojando-se, com a face na terra, ouvia o murmurio das
+azas.</p>
+
+<p>Não disse palavra, immovel, tolhido de assombro, sentindo a transfiguração
+da noite.</p>
+
+<p>José conseguiu levantar-se e caminhou lentamente atravez do esplendor.</p>
+
+<p>Maria appareceu-lhe entre as mansas ovelhas que, reunidas, bafejavam as
+palhas onde um pequenino infante, as mãosinhas na boca, os olhos <span
+class="pn"><a name="pag_124">{124}</a></span> candidos abertos, parecia
+contemplar a Virgem que sobre Elle inclinava-se.</p>
+
+<p class="ilustracao"><img src="images/pag124.jpg" width="80%" border="0"
+alt=""> <span class="pn"><a name="pag_125">{125}</a></span></p>
+
+<p>Olhou-a, fitou no tenro corpo os olhos e viu que o cercavam tres figuras de
+incomparavel belleza.</p>
+
+<p>Uma, as mãos diaphanas cruzadas sobre o peito, os olhos baixos, concentrada,
+rezava. Outra, d'olhos enlevados, com uma palma verde na mão debil, sorria. A
+terceira, de joelhos, aquecia com o halito, envolvendo-o nos seus longos
+cabellos louros, o corpo recem-nado.</p>
+
+<p>Por onde teriam entrado os tres seres? Que anjos seriam? Não os poude
+reconhecer o patriarcha, mas chegando-se á Virgem tomou-lhe a mão e
+beijou-a.</p>
+
+<p>Ella mostrou-lhe o Filho com uma ternura tão meiga que o sorriso não poude
+por si só exprimil-a e lagrimas correram.</p>
+
+<p>Assim deram os olhos, d'uma só vez, todos os seus thesouros: o brilho do
+olhar e os diamantes da meiguice, essa humildade do amor. <span class="pn"><a
+name="pag_126">{126}</a></span></p>
+
+<p>Pouco a pouco foi-se a luz extinguindo, a sombra retomou a caverna.</p>
+
+<p>As Virgens desappareceram e Maria, acolhendo o pequenino nos braços,
+chegou-o ao collo, aqueceu-o, afagou-o.</p>
+
+<p>Foi mãi antes de ser serva. Só depois de o beijar estremecidamente ouviu as
+vozes que atroavam a noite:</p>
+
+<p>«Gloria a Deus nas Alturas, Paz aos homens na terra de bôa vontade.»</p>
+
+<p>Occorreram-lhe as palavras do anjo. Lembrou-se, então, que o Sêr nascido do
+seu seio era o Deus da Promessa.</p>
+
+<p>Deitou-o delicadamente nas palhas e ajoelhou-se adorando-o.</p>
+
+<p>José, afastado do grupo, prestava culto á Virgem e ao Infante e o ceu, pela
+voz dos Espiritos eleitos, saudava o Natal messianico, apregoando a vinda do
+Filho do Homem, portador da Piedade.</p>
+
+<p>Ergueu-se o pastor, olhou o ceu e, <span class="pn"><a
+name="pag_127">{127}</a></span> ouvindo os anjos, sahiu a correr bradando
+inspiradamente a Bôa Nova.</p>
+
+<p>E os gallos puzeram-se a cantar annunciando a maior e a mais bella madrugada
+do mundo. <span class="pn"><a name="pag_128">{128}</a></span></p>
+
+<p> <span class="pn"><a name="pag_129">{129}</a></span></p>
+<hr width="30%">
+
+<h1>As tres virgens</h1>
+
+<p>Quando o Menino adormeceu José, aproximando-se de Maria, perguntou-lhe
+baixinho: «Se vira as tres virgens que cercavam o Infante ungindo-o de luz?» A
+Immaculada respondeu no mesmo tom discreto:</p>
+
+<p>&mdash;Logo que sahiu do somno, ainda antes de vêr meu filho, dei com ellas,
+immoveis, aclarando toda a caverna, de joelhos em torno do Recem-nascido.</p>
+
+<p>Não falavam. Não sei quem são. <span class="pn"><a
+name="pag_130">{130}</a></span></p>
+
+<p>Desappareceram de repente como as estrellas desapparecem.</p>
+
+<p>&mdash;Seriam anjos? Uma serena voz, sahindo das pedras, falou no
+silencio:</p>
+
+<p>&mdash;A primeira é toda a Crença do Homem: é a Virtude que leva a Alma á
+presença do Altissimo.</p>
+
+<p>Antes da vinda do Messias era a nevoa indecisa que resplandecia e
+obumbrava-se; agora é a Luz pura e perenne, a luz viva que guia ao Paraiso
+atravez de todos os abrolhos, por meio dos mais árduos soffrimentos, vencendo
+as mais perversas tentações, sempre direita, inflexivel e segura. É a Fé.</p>
+
+<p>O seu olhar não se desvia, a sua linguagem é a prece, a sua confiança é
+Deus. É a mais forte das tres. A segunda é uma consoladora. Parece um reflexo
+da primeira: É a Esperança.</p>
+
+<p>Veste-se de illusões, recama-se de sonhos para distrahir a Alma,
+livrando-a <span class="pn"><a name="pag_131">{131}</a></span> do desespero. É
+como o ramo verde que se inclina á borda dos abysmos. É a divina miragem que,
+atravez das agruras da vida, reanima o coração combalido, creando perspectivas
+venturosas.</p>
+
+<p>Só, é uma encantadora que vive a inventar maravilhas, ligada á Fé é a
+precursora que desbrava o caminho para a travessia da alma.</p>
+
+<p>Sem ella a miseria seria um flagello, a dôr seria intoleravel. É uma força
+feita de sonho. Isolada é a fantasia.</p>
+
+<p>A terceira é o Amor, é a lagrima que se converte em misericordia, é a
+bondade omnipotente, a meiguice que salva, a resignação que remitte, a
+paciencia que conforta, a lan que agasalha, o linho que estanca o sangue, o
+lume que aquece.</p>
+
+<p>É o conjuncto amoroso de todas as beneficencias&mdash;a Caridade.</p>
+
+<p>São as tres irmans que acompanham o Messias. <span class="pn"><a
+name="pag_132">{132}</a></span></p>
+
+<p>Elle tomou-as ao paganismo e converteu-as transmittindo-lhes a sua
+essencia.</p>
+
+<p>Eram as Karites, são as Virtudes. Fôram as Graças, são as beneficiadoras.</p>
+
+<p>Com ellas Jesus fará a redempção do Homem.</p>
+
+<p>Para combater o mal, podendo trazer as legiões adamantinas, trouxe as
+humildades.</p>
+
+<p>Calou-se a voz e os dois olharam-se maravilhados.</p>
+
+<p>&mdash;Não ouviste falar?</p>
+
+<p>&mdash;Sim, meu senhor, falaram. As ovelhas estavam de pé e olhavam, como se
+tambem procurassem o mysterioso, interlocutor.</p>
+
+<p>Mas o Menino agitou-se no leito palhiço, estendeu os bracinhos e chorou.</p>
+
+<p>Presto, Maria tomou-o ao collo, aconchegou-o cobrindo-o com o manto. <span
+class="pn"><a name="pag_133">{133}</a></span></p>
+
+<p>&mdash;Deve ser frio, disse José.</p>
+
+<p>&mdash;Fome, talvez, disse Maria, anciosa por dar o peito farto ao pequenino
+Filho. <span class="pn"><a name="pag_134">{134}</a></span></p>
+
+<p> <span class="pn"><a name="pag_135">{135}</a></span></p>
+<hr width="30%">
+
+<h1>O primeiro leite</h1>
+
+<p>Á primeira sucção da boca da criança Maria estremeceu, sentindo uma dôr
+aguda, como se um punhal lhe houvesse atravessado o seio. Longe, porém, de
+fugir com o peito dolorido, inclinou o busto, dando-se toda ao sublime
+martyrio, com a alma a brilhar nos olhos que a dôr orvalhara de lagrimas.</p>
+
+<p>Ávido, o infante sugava, cavando as bochechas e o leite, afluindo, rasgava
+passagens como a torrente que se despenha <span class="pn"><a
+name="pag_136">{136}</a></span> da altura vincando a terra e arrastando o que
+se lhe antolha á levada.</p>
+
+<p class="ilustracao"><img src="images/pag136.jpg" width="80%" border="0"
+alt=""></p>
+
+<p>O Divino alimentava-se do soffrimento humano e naquellas opalinas gottas de
+leite&mdash;sangue e agua fundidos <span class="pn"><a
+name="pag_137">{137}</a></span> em candura&mdash;o ceu commungava na terra.</p>
+
+<p>A Carne mortal nutria o Espirito Perenne, o ephemero transfundia-se no
+Eterno: as duas collinas alvas tocavam o Infinito, que era a boca de Jesus, de
+onde deviam jorrar, em caudaes, as leis santas, os sabios julgamentos, a benção
+e o perdão.</p>
+
+<p>A Virgem sorria e o seu collo turgido ondulava de ventura, em quanto o
+patriarcha, ajoelhado, contemplava o grupo, aureolado pelo clarão da fogueira,
+cuja chamma resurgira ao sopro da brisa nocturna.</p>
+
+<p>Fóra resoavam canticos; vozes, sons de harpas enchiam o espaço.</p>
+
+<p>Por vezes um clarão relampejava diante da gruta á esplendida passagem rapida
+de um anjo.</p>
+
+<p>Maria, inclinada sobre o Filho, só a elle sentia, ouvindo apenas o lento
+gorgulhar <span class="pn"><a name="pag_138">{138}</a></span> do leite que elle
+sugava soffrego.</p>
+
+<p>Todo o mundo ali estava nos seus braços: a terra com os seus vergeis
+floridos, o ceu com as suas estrellas fulgidas.</p>
+
+<p>Que lhe importava a aurora se na pennugem loura que seus dedos afagavam na
+cabecinha do filho, ella via o esplendor maior que podem contemplar olhos de
+mãi!</p>
+
+<p>Que lhe importavam os anjos se, no fundo luminoso das pupillas da criança,
+via dois pequeninos seraphins alegres?</p>
+
+<p>Que lhe importava a immensa alegria universal, se o seu coração transbordava
+de felicidade com aquelle amor!</p>
+
+<p>Levantou-se um alarido fóra, na estrada obscura. José sahiu ao limiar.</p>
+
+<p>Um bando de homens corria em tropel em direcção ao abrigo agreste. Á frente
+delles, voando e alumiando-lhes <span class="pn"><a
+name="pag_139">{139}</a></span> o caminho com o esplendor das azas, um anjo
+estendia o braço mostrando a caverna. Outros cruzavam longe, em enxames
+claros.</p>
+
+<p>No cimo dos cerros grupos resplandeciam.</p>
+
+<p>Subito uma grita atroou o silencio:</p>
+
+<blockquote>
+ <p>«Hosannah! Hosannah!»</p>
+</blockquote>
+
+<p>O pequeno adormeceu docemente com a boca collada ao peito materno. Maria
+beijou-o e, inclinada, quedou em enlevo.</p>
+
+<blockquote>
+ <p>«Hosannah! Hosannah!»</p>
+</blockquote>
+
+<p class="ni">bradavam fora. Ella sobresaltou-se e, chamando o esposo,
+perguntou:</p>
+
+<p>&mdash;Quem clama assim, meu senhor?</p>
+
+<p>&mdash;Pastores. Guia-os um anjo. Vêm adorar o Infante. E ella,
+cuidadosa:</p>
+
+<p>&mdash;Comtanto que o não despertem... E aconchegou-o ao collo agasalhando-o
+junto do coração. <span class="pn"><a name="pag_140">{140}</a></span></p>
+
+<p> <span class="pn"><a name="pag_141">{141}</a></span></p>
+<hr width="30%">
+
+<h1>Adoração dos pastores</h1>
+
+<p>Tumultuosamente os pastores chegaram á caverna e o velho, dono do rebanho,
+que acolhera o casal no seu tugurio, adiantou-se ao grupo e falou ao
+patriarcha:</p>
+
+<p>&mdash;Deixai-nos vêr e adorar o Deus vivo. Já o tinha por tal e quando sahi
+para a noite, com os olhos offuscados, fui bradando no silencio a Bôa Nova.</p>
+
+<p>Os homens que dormiam nas choças, as ovelhas que se apertavam nos apriscos,
+as mesmas arvores sem folhas, as <span class="pn"><a
+name="pag_142">{142}</a></span> mesmas pedras sem vida estremeceram á minha voz
+pregoeira.</p>
+
+<p>Eu levava na boca uma palavra que estrondava. O que eu dizia aos que me
+ficavam perto retumbava como o som da buzina que vai de quebrada em quebrada ou
+como o trovão tempestuoso que se ouve em todos os pontos: na planicie e no
+valle, na montanha e na furna.</p>
+
+<p>De mim sahia a annunciação e, certo, a minha palavra ainda vai pelos ares
+viva, levando ás póvoas mais remotas a venturosa noticia.</p>
+
+<p>O que eu dizia na terra anjos repetiam nos ares. Os espiritos celestiaes
+fizeram-se meus echos e ainda clamam batendo as azas, tangendo lyras que sôam
+docemente.</p>
+
+<p>Não havia uma estrella e todas agora reluzem; astros nunca vistos brilham no
+fundo ceu.</p>
+
+<p>Não havia folha em ramo e as arvores <span class="pn"><a
+name="pag_143">{143}</a></span> estão todas cobertas e cantam festivamente
+passarinhos nas montas.</p>
+
+<p>O outono vestiu-se com as galas da Primavera.</p>
+
+<p>Só um Deus faria prodigios taes.</p>
+
+<p>Deixai-nos vêr e adorar o Deus vivo.</p>
+
+<p>Os pastores brandiram os cajados bradando, de novo:</p>
+
+<blockquote>
+ <p>«Hosannah! Hosannah!»</p>
+</blockquote>
+
+<p>E, como José se afastasse dando-lhes passagem, precipitaram-se
+tumultuosamente e, ajoelhando-se, adoraram o Divino Infante.</p>
+
+<p>Todos levavam dádivas campestres: este um anho, de vello fino, a boca
+rescendendo a leite; outro um casal de rolas; esse, um favo de mel, aquelle uma
+lan sedosa e, cada qual, offertando o seu presente, pedia, em oração intima, a
+graça do Menino Deus. <span class="pn"><a name="pag_144">{144}</a></span></p>
+
+<p>Maria olhava receiosa aquelles homens rudes que cercavam seu Filho. Como
+eram muitos os mais velhos levantavam nos braços os pequenos para que vissem o
+Recem-nado e diziam-lhes: «Pede!»</p>
+
+<p>As crianças, sorrindo, pediam pelo gado e pelas fontes: que ovelha alguma
+morresse, que nunca as aguas seccassem.</p>
+
+<p>Um pequenito, sentado no hombro de um agigantado pegureiro, olhava pensativo
+e calado.</p>
+
+<p>«Pede!» disse-lhe o homem.</p>
+
+<p>&mdash;Se Elle fosse Deus... murmurou a criança, e uma lagrima rolou dos
+lindos olhos infantis. Os outros adoravam e, no silencio, ouvia-se apenas, de
+quando em quando, um timido balido.</p>
+
+<p>Repentina, triumphante, uma voz bradou á entrada da caverna:</p>
+
+<p>&mdash;Gloria a Deus Salvador! O pastorinho estremeceu no hombro do
+pegureiro, <span class="pn"><a name="pag_145">{145}</a></span> voltou a cabeça e
+viu uma andrajosa mulher livida, macilenta, que estendia os braços magros
+procurando abrir passagem na multidão reverente.</p>
+
+<p>Reconheceu-a e, desprendendo-se dos braços que o mantinham, correu ao seu
+encontro e, lançando-lhe os braços á cinta, disse commovido:</p>
+
+<p>&mdash;Fui eu, mãi, que Lhe pedi. É Deus! Entra e adora-o. Dorme nas
+palhas.</p>
+
+<p>Os pastores, reconhecendo a entrevada que vivia a gemer, encolhida num
+estrame, recuaram pasmados e ella, tremendo como se estivesse de pé sobre uma
+lapide de neve, perguntou ao filho que a contemplava:</p>
+
+<p>&mdash;E tu, tão pobresinho! que lhe deste, meu filho?</p>
+
+<p>&mdash;Uma lagrima, minha mãi... e foi tudo que lhe pude dar. <span
+class="pn"><a name="pag_146">{146}</a></span></p>
+
+<p> <span class="pn"><a name="pag_147">{147}</a></span></p>
+<hr width="30%">
+
+<h1>Dôr</h1>
+
+<p>Tomando a urna, ao clarear d'alva, quando o velho pastor sahia com o
+rebanho, José acompanhou-o para que elle o guiasse á fonte.</p>
+
+<p>Logo que os dois homens desappareceram as hervas que ourelavam a caverna
+cresceram prodigiosamente, emmaranhando-se em tapigo que encobriu a entrada.</p>
+
+<p>A Virgem, de instante a instante, abria os olhos e, soerguendo-se, ficava em
+extase contemplando o Filho, <span class="pn"><a name="pag_148">{148}</a></span>
+cujo halito débil cheirava docemente a leite.</p>
+
+<p>Posto que apenas tivesse horas já ella lhe havia descoberto todos os
+encantos e se lh'o arrebatassem dos braços, confundindo-o com mil crianças,
+reconhecel-o-ia sem trabalho, tanto o tinha nos olhos e no coração gravado.</p>
+
+<p>Olhava-o quando o sentiu mover-se, contorcendo-se. Num tremor de sobresalto
+enrijou os bracinhos, bateu as palhas com os pés rosados e rompeu num choro
+forte que repercutia no interior como se as pedras chorassem com elle,
+commovidas.</p>
+
+<p>Tomou-o Maria ao collo, acalentando-o ao calor do seio. Falava-lhe com
+ternura, interrogava-o, chamava-o e, sem poder allivial-o, poz-se a chorar
+afflicta e, sobre a divina face as suas lagrimas cahiam gotta a gotta como o
+orvalho cahe das folhas sacudidas pelo vento. <span class="pn"><a
+name="pag_149">{149}</a></span></p>
+
+<p>Ai! d'ella, como se julgava culpada e infeliz vendo soffrer o pequenino
+amor, tão novo, tão innocente, tão sem culpa e já supportando as torturas
+herdadas da carne.</p>
+
+<p>Começava a Divindade a visitar o soffrimento: a peregrinação de Deus atravez
+da Agonia annunciava-se pelo primeiro choro.</p>
+
+<p>Elle havia de conhecer todas as Dôres, todas as Angustias para poder
+julgal-as alliviando o Homem, cuja redempção trazia.</p>
+
+<p>Tenro, mal pousado na vida, já estrebuchava doridamente. E começava
+apenas&mdash;era a iniciação.</p>
+
+<p>Outros maiores tormentos formavam a phalange suppliciante, a alameda tragica
+da existencia, onde a alegria é como o nimbo solar que passa difficilmente por
+entre as frondes compactas.</p>
+
+<p>Que fazer? Deu-lhe o peito. Poz-se <span class="pn"><a
+name="pag_150">{150}</a></span> o Infante a mamar vagindo, estremecendo e ella,
+relanceando em torno os olhos humidos e afflictos, implorava o mysterio.</p>
+
+<p>Tudo era silencio em volta, ninguem que a soccorresse. E os anjos? Já haviam
+regressado ao ceu.</p>
+
+<p>O Infante ficara entregue ao seu piedoso voto. Deus entrava desacompanhado
+no mundo, ser como os demais seres, homem como os outros homens, integrando-se
+na Humanidade.</p>
+
+<p>Só lhe valeram os carinhos de Maria: o calor do collo, o enlace amoroso dos
+braços, os beijos repetidos foram, pouco a pouco, alliviando-o e, de novo,
+adormeceu tranquillo, não mais sobre a palha loura, mas aconchegado ao seio,
+ninado pelas palpitações do coração materno. <span class="pn"><a
+name="pag_151">{151}</a></span></p>
+<hr width="30%">
+
+<h1>Receio</h1>
+
+<p>Fino raio de sol insinuando-se na caverna pousou na palha abrindo um aro de
+ouro em torno da cabeça do Infante adormecido.</p>
+
+<p>Todas as aves chilreavam, garrulas moças passavam na estrada; ás vezes eram
+récuas de dromedarios desfilando em ruidoso atropello.</p>
+
+<p>Maria prestava attenção ao rumor, receiando pelo Filho. Tomou-o muito ao
+seio e, quasi de rastos, aprofundou-se na sombra escondendo o seu thesouro com
+amorosa avareza. <span class="pn"><a name="pag_152">{152}</a></span></p>
+
+<p>Tão lindo! quem o não desejaria! E se um d'aquelles homens, descobrindo-o,
+investisse para arrebatal-o, quem o defenderia?</p>
+
+<p>Na treva ficava a coberto de todos os olhares.</p>
+
+<p>No fundo da caverna lentejava tristemente uma mina e a cada gotta do
+estellicidio respondia um som lacrimoso.</p>
+
+<p>O ar era frio e humido, as paredes luziam lutulentas e, fóra, o sol
+brilhava, alegre e tepido, em fitas, em nimbos de ouro, lampejando nas arestas
+agudas da abobada escabrosa.</p>
+
+<p>Quando José reappareceu&mdash;a herva da entrada subitamente
+esmarriu&mdash;vendo deserta a palha, estacou, olhando espantado, com
+apprehensões de desgraça.</p>
+
+<p>Que seria feito delles? Caminhou alguns passos. O coração batia-lhe,
+tremia-lhe a urna ao hombro. Maria, reconhecendo-o, falou do seu
+esconderijo: <span class="pn"><a name="pag_153">{153}</a></span></p>
+
+<p>&mdash;Aqui, meu senhor. O patriarcha adiantou-se e, sentindo a friagem do
+sitio, ouvindo o triste gottejar na lage, perguntou:</p>
+
+<p class="ilustracao"><img src="images/pag153.jpg" width="80%" border="0"
+alt=""></p>
+
+<p>&mdash;Porque buscaste tão obscura jazida onde o ar regela e a luz não
+chega? Lá fóra ha um calor macio e sente-se o aroma das hervas vivas, ouvem-se
+as vozes alegres. Aqui ha o silencio e a melancolica espessidão dos tumulos.</p>
+
+<p>&mdash;Eu estava só, meu senhor e o coração, <span class="pn"><a
+name="pag_154">{154}</a></span> dantes tão animoso, é agora tão timido que eu
+viveria, de boa mente, num subterraneo só para que olhos maus não fitassem meu
+filho nem o invejassem adoentando-o.</p>
+
+<p>Não sei que voz me fala dentro do coração pedindo-me que o defenda. Ouço-a a
+todo instante.</p>
+
+<p>Dizem-me os anjos que Elle é Deus... Não me passaram despercebidos os
+prodigios da noite: tudo vi, tudo ouvi, mas minh'alma ordena-me que o
+resguarde, que o não perca de vista, que sempre o traga acautelado, talvez
+porque é pequenino e fraco.</p>
+
+<p>Não sei se pecco com a presumpção de defender quem é omnipotente, mas como
+hei de lutar contra mim?</p>
+
+<p>&mdash;Mas se o ceu nos diz e prova que Elle é o Filho de Deus porque has de
+receiar os homens?</p>
+
+<p>&mdash;É o coração que receia. <span class="pn"><a
+name="pag_155">{155}</a></span></p>
+
+<p>&mdash;E entre o que diz o coração e o que affirmam os anjos hesitas,
+Maria?</p>
+
+<p>&mdash;Senhor, os anjos falam pelo Ceu, o coração fala pelo meu amor. Se
+Deus acha-me rebelde, curvo-me ao seu castigo.</p>
+
+<p>E, humildemente, ajoelhou-se ante o berço.</p>
+
+<p>Jesus, abrindo os olhos claros, profundos, fitou-os nella e, como se lhe
+quizesse responder, sorriu. <span class="pn"><a
+name="pag_156">{156}</a></span></p>
+
+<p> <span class="pn"><a name="pag_157">{157}</a></span></p>
+<hr width="30%">
+
+<h1>O somno</h1>
+
+<p>Maria mal humedeceu os labios á borda do tarro de leite de ovelha que o
+pastor ordenhara antes de partir. Cuidados traziam-na apprehensiva. Se o filho
+estremecia sobresaltava-se-lhe o coração, se o via immovel, dormindo, temia que
+houvesse morrido e logo, anciosamente, afagando-o, chamando-o, despertava-o.</p>
+
+<p>&mdash;Deixa-o dormir, disse-lhe o patriarcha, o somno é necessario á vida,
+é a sombra em que a alma repousa. <span class="pn"><a
+name="pag_158">{158}</a></span></p>
+
+<p>O espirito das crianças refugia-se no somno como o dos velhinhos&mdash;o
+primeiro porque d'elle sahiu e ainda o tem por ninho; o segundo porque o
+procura como abrigo. Não o despertes, deixa-o dormir.</p>
+
+<p>&mdash;É que me parece estar morto. Não faz o mais leve movimento e, quando
+elle assim fica, meu coração pára retransido.</p>
+
+<p>&mdash;É a serenidade. Só o somno dos maus transmitte ao corpo a convulsão
+do pesadello.</p>
+
+<p>O somno é uma visita á morte: os innocentes fazem-na sorrindo, os peccadores
+fazem-na espavoridos.</p>
+
+<p>Não receies que Elle passe tão cedo á Eternidade de onde veiu. Ainda que não
+trouxesse a missão que o fez baixar ao mundo, fosse Elle tão da terra como o
+filho da zagala dos montes, não o deverias tirar do repouso.</p>
+
+<p>Não desenterras a semente por não <span class="pn"><a
+name="pag_159">{159}</a></span> a veres á flor do solo, deixas que ella venha a
+flux e rebente, abra o renovo e cresça.</p>
+
+<p>O somno é uma incubação. Porque não sonha? porque não tem impressões. O
+sonho é como um reflexo em que ha echo, é a reproducção confusa da vida com a
+repercução indistincta das vozes e dos ruidos.</p>
+
+<p>Ha quem veja presagios no sonho como o nómade vê realidades na miragem.</p>
+
+<p>Com que ha de sonhar quem não tem consciencia da vida? Deixa-o dormir.</p>
+
+<p>É á noite que a floresta cresce e a criança é como a arvore.</p>
+
+<p>O luar é manso, é uma luz silenciosa de vigilia, uma tunica diaphana sobre a
+treva&mdash;não desperta. As estrellas são meigas porque a noite deve ser
+tranquilla para que a Natureza descance. Peixa-o dormir. <span class="pn"><a
+name="pag_160">{160}</a></span></p>
+
+<p>Conserva-te immovel e calada, não perturbes a vida mysteriosa. Demais, Elle
+é o Eterno. A Morte passa por Elle como a lamina de uma espada por um raio de
+sol. Deixa-o dormir.</p>
+
+<p>Bem sei que o egoismo das mãis chega a insurgir-se contra as leis de Deus;
+não te insurjas tu, que O geraste. Elle precisa rever a Humanidade entrando na
+Vida e gozando, sahindo, talvez, pela Morte com soffrimento.</p>
+
+<p>&mdash;Meu senhor! exclamou a Virgem estendendo as mãos, commovida.</p>
+
+<p>&mdash;São palavras, Maria. Ai! de mim, quem sou eu para pronunciar oraculos
+sobre Aquelle que tem o destino da Vida na sua mão direita!</p>
+
+<p>São palavras que digo. Deixa-o dormir. <span class="pn"><a
+name="pag_161">{161}</a></span></p>
+<hr width="30%">
+
+<h1>Palavras de Maria</h1>
+
+<p>Como eu agora comprehendo que se viva escravisada a um sorriso!</p>
+
+<p>Quando tenho meu filho ao collo, nutrindo-se do meu sangue, que deixa a côr
+da purpura e veste-se de branco para não macular os labios innocentes, toda a
+minha vida nelle se concentra.</p>
+
+<p>A Felicidade e a Desgraça sentam-se junto de mim, sinto-as no contentamento
+que me alvoroça e nos presagios estranhos que me occorrem. <span class="pn"><a
+name="pag_162">{162}</a></span></p>
+
+<p>É preciso ser mãi, ter gerado para conhecer o verdadeiro amor.</p>
+
+<p>A alma sahe-me do corpo e fica junto do Infante. Se me arredo um momento
+sinto-me logo attrahida como por uma pesada corrente que se me prende ao
+coração. E tanto o contemplo, tanto! que fico com elle dentro dos olhos como
+quem fita um objecto ao sol e depois o vê em toda parte, ainda na treva mais
+densa.</p>
+
+<p>Dantes, quando as mãis falavam-me de seus filhos, sempre eu as achava
+exaggeradas nos louvores. Que diriam de mim as que agora me ouvissem!</p>
+
+<p>O meu desejo era não ter na boca outras palavras senão estas: «Meu filho!»
+São as que o coração inspira-me, são as que me agradam ouvir.</p>
+
+<p>Ellas fazem um gyro alegre como um casal de passarinhos brincando. Sahem-me
+dos labios, entram-me pelos ouvidos <span class="pn"><a
+name="pag_163">{163}</a></span> cantando, circulam o meu coração e tornam á
+boca.</p>
+
+<p>Meu filho! E não ha todo um mundo de amor dentro d'ellas? Que mais é preciso
+para a ventura?</p>
+
+<p>Quando as suas palpebras descerram-se inclino-me e busco vêr nas suas
+pupillas&mdash;que são agora os meus espelhos&mdash;o que ellas contêm.</p>
+
+<p>Fico tão perto que ellas só a mim reproduzem.</p>
+
+<p>Do mais tenho ciume, nem quero que seus olhos tenham outros habitantes.</p>
+
+<p>Quando Elle estremece, tremo. Quando Elle sorri é tão grande a minha alegria
+que fico num atordoamento desvairado, sem saber que faça, e choro e rio.</p>
+
+<p>Ai! de mim quando Elle chora.</p>
+
+<p>Não tendes notado que sou agora como uma faminta perdida que não se sacia de
+alimento? <span class="pn"><a name="pag_164">{164}</a></span></p>
+
+<p>Não é que tenha fome, não; mas penso n'Elle e, como é preciso que Elle
+encontre sempre farto o peito em que se nutre, transformo-me em celleiro.</p>
+
+<p>Dormir, nem sei se durmo, porque ao mais leve movimento que Elle faça
+surprehendo-me a mim mesma achando-me a seu lado, agasalhando-o, afagando-o,
+procurando readormecel-o ou acalentando-o, se chora.</p>
+
+<p>Eu não era assim amorosa, meu senhor. Agora que o tenho não parece que vivo
+no mundo, só d'Elle me lembro. Onde Elle está ahi é que me apraz viver.</p>
+
+<p>O seu berço é um oasis em immenso deserto.</p>
+
+<p>Dizeis, ás vezes, que me distraio porque não vos respondo de prompto. Não é
+distracção, é que a alma está junto d'Elle&mdash;o corpo fica vasio como uma
+casa fechada cujo dono trabalha na seara. <span class="pn"><a
+name="pag_165">{165}</a></span></p>
+
+<p>Dissestes uma vez: «As mãis adivinham.» Como conheceis o coração materno!</p>
+
+<p>E ha mãis que ficam no mundo quando lhes morre o filho. Como se podem guiar
+na vida? Como podem caminhar sem arrimo? Como podem vêr sem luz? Como não
+sossobram no pranto? Eu...</p>
+
+<p>&mdash;Porque choras, Maria?</p>
+
+<p>&mdash;Porque sou feliz, meu senhor... <span class="pn"><a
+name="pag_166">{166}</a></span></p>
+
+<p>  <span class="pn"><a name="pag_167">{167}</a></span></p>
+<hr width="30%">
+
+<h1>As duas mãis</h1>
+
+<p>Junto a uma velha figueira, que ficava a dois passos da caverna, onde a
+estrada, bifurcando-se, dava uma sinuosa trilha para os montes e um caminho
+direito para os campos, sentara-se Maria com Jesus ao collo, gozando o frescor
+da manhan serena e vendo os pombos revoarem, com rumoroso ruflo d'azas,
+passando, repassando em torno.</p>
+
+<p>José descera á fonte.</p>
+
+<p>Zagalejos passavam soprando frautas e o sol, accendendo as camarinhas <span
+class="pn"><a name="pag_168">{168}</a></span> do orvalho, fazia da paizagem uma
+extensa scintillação.</p>
+
+<p class="ilustracao"><img src="images/pag168.jpg" width="80%" border="0"
+alt=""></p>
+
+<p>A Virgem entretinha-se, enlevada no pequenito que acompanhava a ronda <span
+class="pn"><a name="pag_169">{169}</a></span> aligera das aves, quando uma
+pallida mulher, andrajosa e descalça, os cabellos desgrenhados, os olhos
+fundos, a caveira estalando a pelle secca, appareceu no caminho, tão lenta e
+com tão alto e angustioso arquejo que foi por elle que Maria sentiu a
+aproximação da infeliz.</p>
+
+<p>Era ainda moça, conservava na miseria um resto de emmurchecida belleza.</p>
+
+<p>Os olhos negros ardiam febris como dois carvões em que faiscassem fagulhas;
+as rosas das faces haviam amarellecido, os labios, reseccados e lividos,
+estalavam em fendas como golpes.</p>
+
+<p>Trazia nos braços, envolta em grosseiras faixas, uma criança que vagia.</p>
+
+<p>Diante da Virgem deteve-se. Arrasaram-se-lhe os olhos d'agua e, parada,
+tremendo, estendeu a mão magra, a pedir. <span class="pn"><a
+name="pag_170">{170}</a></span></p>
+
+<p>Maria encarou-a compadecida e, como não possuisse moeda, não respondeu á
+infeliz, alanceada de pena. E a mulher soluçou:</p>
+
+<p>&mdash;Não é por mim que peço, é por elle. Tenho-o, desde hontem, ao seio,
+bebendo sangue&mdash;não é um peito que lhe dou, mas uma ferida. A boca do
+pobresinho está da côr da anemona.</p>
+
+<p>Não lamentaria a dôr com que a sua fome me apunhala se o visse saciado, mas
+o sangue não farta e, ainda que eu lhe não recuse o que me resta de vida,
+sinto-o enfraquecer a mais e mais.</p>
+
+<p>Já não chóra, nem abre os olhos, começa a agonisar, como a planta que o sol
+mirra na terra adusta.</p>
+
+<p>Dai-me o bastante para que elle viva um dia, só emquanto eu viva. Que elle
+morra depois de mim para que eu o receba na morte. <span class="pn"><a
+name="pag_171">{171}</a></span></p>
+
+<p>Maria fez lugar junto á figueira para a enferma e, entregando-lhe Jesus,
+tomou o pequenino moribundo. Poz-lhe na boca o peito turgido e logo o sentiu
+sugar avidamente.</p>
+
+<p>A misera mulher embalava o divino Infante, apertava-O ao collo com medo de
+que chorasse e interrompesse a esmola que seu filho recebia.</p>
+
+<p>Tão enlevada estava vendo o seu penhor mamar que nem sentiu que os seus
+peitos, junto aos quaes Jesus agasalhava-se, enchiam-se, apojavam-se. E toda
+ella refazia-se: a carne renovava-se-lhe robusta, voltava-lhe a côr ao
+rosto.</p>
+
+<p>Satisfeita, a criança adormeceu ao collo de Maria e da boquinha entreaberta
+escorreu, rolou na terra uma gotta de leite, cahindo, como uma pérola, na raiz
+da figueira.</p>
+
+<p>As duas mãis olharam-se caladas por <span class="pn"><a
+name="pag_172">{172}</a></span> que as crianças dormiam. Trocaram-nas tomando,
+cada qual, a que lhe pertencia e a miseravel, agradecendo a esmola, foi-se por
+entre as margaridas do caminho.</p>
+
+<p>Perdeu-se no meio das arvores, reappareceu no lançante do cerro.</p>
+
+<p>De repente, já no cimo, envolta em luz, estacou derreando a cabeça como para
+olhar o ceu em pleno e subito, lançando os braços, tombou sobre os joelhos.</p>
+
+<p>Dera, sem duvida, pelos peitos cheios.</p>
+
+<p>Maria, para seguil-a com o olhar, levantou-se e, como se apoiasse á
+figueira, uma folha cahiu. Sentindo os dedos humidos mirou-os&mdash;estavam
+molhados de leite.</p>
+
+<p>D'onde proviria? da fina haste da figueira de onde se destacara a folha.</p>
+
+<p>A arvore sorvera a gotta de leite que rolara da boca do pobresinho e
+sempre <span class="pn"><a name="pag_173">{173}</a></span> a verte mostrando-a
+aos incredulos, mal se lhe arranca uma folha ou se lhe golpeia um galho, como
+uma prova da misericordia suave. <span class="pn"><a
+name="pag_174">{174}</a></span></p>
+
+<p>  <span class="pn"><a name="pag_175">{175}</a></span></p>
+<hr width="30%">
+
+<h1>A estrella</h1>
+
+<p>Ao declinar do sol, quando cessava toda a alegria rural e, quietos, em
+magotes brancos, os rebanhos desciam das pasturas e o canto das aves morria em
+estrebilhos tristes, José, á entrada da caverna, as mãos cruzadas sobre o
+cajado, contemplava o ceu macio, barrado de ouro no occidente, onde os outeiros
+pareciam arder como altas pyras sobre as quaes flammejasse um lume votivo.</p>
+
+<p>Um molle, languido quebranto prostrava a natureza. <span class="pn"><a
+name="pag_176">{176}</a></span></p>
+
+<p>As arvores espreguiçavam-se em movimentos morosos; raros passaros
+aligeiravam o vôo atravessando a luz vesperal.</p>
+
+<p>Nas quebradas sombrias crescia a voz das aguas borbulhantes, saltando,
+escachoando de pedra em pedra até fluirem mansas sob as pendidas ramas que
+pareciam tremer de frio.</p>
+
+<p>Longe, na cidade, resoava o tumulto humano.</p>
+
+<p>Grossos rolos de fumo negro subiam aos ares, fundiam-se, dissipavam-se e, á
+medida que a noite conquistava a paizagem, apontavam pequeninas estrellas
+esmaltando o ceu.</p>
+
+<p>A voz de Maria no fundo da caverna entoava suavemente. Era o encantamento
+maternal, a mimosa cantilena com que Jesus adormecia.</p>
+
+<p>O patriarcha, recolhido em pensamento, olhava, e, como se voltasse para <span
+class="pn"><a name="pag_177">{177}</a></span> o lado do oriente obscuro, viu um
+como fulgido alfange chammejando na treva.</p>
+
+<p class="ilustracao"><img src="images/pag177.jpg" width="80%" border="0"
+alt=""></p>
+
+<p>Tremeu e, fitando o olhar na estranha apparição, notou que avançava no ceu
+vagarosamente. <span class="pn"><a name="pag_178">{178}</a></span></p>
+
+<p>Era uma estrella enorme, de brilho coruscante, que parecia haver
+atravessasado a teia da Via Lactea, tendo della trazido um rutilo farrapo que a
+seguia atravez do espaço.</p>
+
+<p>O astro subia em marcha grave e as demais estrellas esmoreciam á sua
+passagem como se se retrahissem timidas.</p>
+
+<p>Pelos caminhos, pelos outeiros homens, mulheres paravam attonitos olhando o
+prodigio.</p>
+
+<p>Alguns, atemorisados, invocavam deuses, rojando-se por terra; outros fugiam
+aterrados; crianças choravam espavoridas.</p>
+
+<p>E quando a noite negrejou fechada, o astro, com a flammejante cauda aberta,
+pairou no ceu, sobre a caverna, como uma palma de luz que assignalasse o berço
+do Messias. <span class="pn"><a name="pag_179">{179}</a></span></p>
+<hr width="30%">
+
+<h1>Epiphania</h1>
+
+<p>Pastores, que faziam a vigilia no campo, contemplavam embevecidamente a
+estrella maravilhosa, quando ouviram cantares e rumorosa estropeada como se
+festiva e densa turba viesse pela encosta do cerro mais alto.</p>
+
+<p>Ergueram-se estranhando a caravana e viram romper, á luz de archotes, cujo
+clarão tingia sanguineamente a noite, um cortejo brilhante e desusado.</p>
+
+<p>Os animaes pareciam ajaezados de ouro, com recamos de pedrarias,
+tamanho <span class="pn"><a name="pag_180">{180}</a></span> era o fulgor que
+irradiavam nos cabeios ardegos em que vinham.</p>
+
+<p>Onagros, tangidos por negros, trotavam sacolejando fardos e tres dromedarios
+enxairelados caminhavam entre lanças garbosamente empunhadas por cavalleiros
+robustos.</p>
+
+<p>Tamborinos e anafis soavam em concerto, regulando o rythmo da marcha; vozes
+bradavam e a turba descia assustando as ovelhas e os grandes bois que
+trasmalhavam mettendo-se pelos mattos.</p>
+
+<p>Os cães de guarda, attentos, d'orelhas fitas, conservavam-se silenciosos
+como se reconhecessem os chegadiços.</p>
+
+<p>Por vezes as lanças chocavam-se, tinindo, e cerrada, na claridade fulva dos
+archotes, a caravana aproximava-se.</p>
+
+<p>Na planicie, ao rouco estrugir de uma buzina, estacou em ordem.</p>
+
+<p>Ligeiramente, destros e açodados negros desfizeram grandes rolos,
+fincaram <span class="pn"><a name="pag_181">{181}</a></span> cepos e, em pouco,
+tendas retesaram-se.</p>
+
+<p>Os animaes, alliviados da carga, deitavam-se na herva fresca, espojavam-se
+contentes e, em volta das tendas, como uma sebe de guerra, os cavalleiros
+cravaram as lanças pelos cantos ficando os ferros luzindo como estrellas.</p>
+
+<p>Os pastores, esgueirando-se na sombra, procuravam chegar ao acampamento para
+vêr de perto os chefes da hoste que com tanta grandeza se movia.</p>
+
+<p>Um d'elles, mais ousado, foi descoberto por um grande negro que trazia ás
+costas, suspenso d'uma corrente, um dardo de ferro.</p>
+
+<p>Sem tempo de fugir cahiu em poder do vigia que logo o conduziu á tenda mais
+sumptuosa, toda alfaiada de seda e purpura e nublada de aromatas.</p>
+
+<p>Lampadarios de ouro illuminavam-na. A herva desapparecia sob tapetes <span
+class="pn"><a name="pag_182">{182}</a></span> altos, escudos lampejavam e, como
+o negro o impellisse, viu-se o pastor na presença de tres homens ricamente
+paramentados, com fotas na cabeça rutilantes de gemmas.</p>
+
+<p>Eram magos das terras remotas.</p>
+
+<p>Um alvo, a barba negra e farta espalhada no peito scintillante de pedrarias;
+outro da côr amarellada dos filhos das extremas da Asia; o terceiro negro, com
+immensas camandulas de ouro em volta do pescoço, braceletes nos punhos, argolas
+nas orelhas e na fronte alta, preso por um nastro, um diamante que
+coruscava.</p>
+
+<p>O pastor ajoelhou-se e, medroso, esperava ouvir palavras severas, quando um
+dos homens tranquillisadoramente perguntou:</p>
+
+<p>&mdash;Se sabia em que paço, por ali perto, nascera o rei dos judeus. O
+rustico, sem entender a pergunta, ficou arvoado, <span class="pn"><a
+name="pag_183">{183}</a></span> imaginando-se victima de uma zombaria.
+Lembrando-se, porém, dos anjos e de todos os prodigios da noite messianica,
+respondeu vagamente:</p>
+
+<p class="ilustracao"><img src="images/pag183.jpg" width="80%" border="0"
+alt=""> <span class="pn"><a name="pag_184">{184}</a></span></p>
+
+<p>&mdash;Perto d'aqui nasceu&mdash;e os ceus festejaram o seu natal&mdash;um
+menino, filho de pobres, vindos de terras longinquas. Ainda lá está no mesmo
+tugurio, ao collo da mãi, que é uma linda moça, sob a guarda de um ancião
+veneravel. É bem perto d'aqui, na caverna do outeiro sobre o qual paira e
+brilha a estrella alada que appareceu no ceu.</p>
+
+<p>Levantaram-se os tres homens&mdash;o pastor sahiu da tenda e, estendendo o
+braço na direcção do outeiro, disse:</p>
+
+<p>&mdash;É ali, sob a estrella.</p>
+
+<p>&mdash;Deve ser, disse o negro. E os dois outros concordaram. E, despedindo
+o pastor com uma bolsa de moedas de ouro, ficaram de pé, em silencio,
+contemplando adorativamente a estrella que resplandecia. <span class="pn"><a
+name="pag_185">{185}</a></span></p>
+<hr width="30%">
+
+<h1>Adoração dos magos</h1>
+
+<p>Ao dealbar tronaram as buzinas e a caravana moveu-se em direcção á
+caverna.</p>
+
+<p>A grande estrella ainda luzia no ceu.</p>
+
+<p>Os magos seguiam á frente nos dromedarios e, em torno delles, nitriam,
+caracolavam os ginetes dos cavalleiros com os seus telizes dourados, os seus
+caparações de purpura.</p>
+
+<p>Quando a turba defrontou com a caverna todos os homens apearam e,
+respeitosamente, com humildade de servos, <span class="pn"><a
+name="pag_186">{186}</a></span> deixando no limiar os papuzes marchetados, os
+magos penetraram zumbridos, como se fossem de rastos, levando nas mãos,
+devotamente, as pareas significativas.</p>
+
+<p class="ilustracao"><img src="images/pag186.jpg" width="80%" border="0"
+alt=""> <span class="pn"><a name="pag_187">{187}</a></span></p>
+
+<p>Recebeu-os o patriarcha e, como a Virgem se levantasse, com Jesus ao collo,
+os tres homens prostraram-se de joelhos, descobrindo-se, depondo os turbantes,
+e, inclinando a cabeça, ficaram um momento em veneração silenciosa.</p>
+
+<p>O primeiro falou offerecendo a myrrha.</p>
+
+<p>&mdash;Homem, Filho de Deus, a arvore do deserto deu do seu tronco a resina
+que te offereço. O seu perfume é uma força que se oppõe á destruição da carne:
+eternisa o corpo como a Virtude eternisa o espirito.</p>
+
+<p>O segundo inclinou-se com um escrinio cheio de ouro:</p>
+
+<p>&mdash;Rei, as minas, onde rebrilham os veios rutilantes, deram a poeira que
+te offereço: ouro, symbolo do poder, chamma fria da terra. Tudo elle vence: a
+miseria e a propria Virtude. Desopprime e escravisa, redime e perverte, é
+o <span class="pn"><a name="pag_188">{188}</a></span> bem e é o mal. Nas mãos
+munificas é luz que aclara e salva; nas mãos crueis é chamma que consome.</p>
+
+<p>O negro falou por ultimo com uma patena de incenso:</p>
+
+<p>&mdash;A arvore instilla a lagrima que rescende, lagrima que, ao lume,
+converte-se em fumo e evola, demandando o ceu, como homenagem da terra.</p>
+
+<p>Como lagrima, é uma concentração; como aroma, é uma oblata. É o incenso com
+que se glorificam os deuses. É a offerenda das terras negras ao Deus que
+redime.</p>
+
+<p>Gente, que afluira á caverna, pastores e seareiros, mesteiraes, velhos,
+mulheres e crianças das arribanas proximas entraram e, diante da palha humilde,
+toda a grandeza e toda a humildade confraternisaram e tambem o sol, como
+enviado do ceu, adorando o Infante da Misericordia que baixara para
+cumprir <span class="pn"><a name="pag_189">{189}</a></span> as prophecias
+trazendo aos homens a religião do Amor.</p>
+
+<p>E Maria, deslumbrada, sem ouvir as vozes glorificadoras, olhava,
+contemplava, adorava o pequenino Filho.</p>
+
+<p>O sol cercou-os de esplendor e a Virgem, de pé no meio da turba, com Jesus
+ao collo, era o purissimo altar sobre o qual se mostrara ás gentes o Divino
+Perdão. <span class="pn"><a name="pag_190">{190}</a></span></p>
+
+<p> <span class="pn"><a name="pag_191">{191}</a></span></p>
+
+<table cellspacing="2" border="0" summary="Indice" align="center" width="80%">
+ <tbody>
+ <tr>
+ <th colspan="2">INDICE</th>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td> </td>
+ <td>Pag.</td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td><a href="#pag_5">A partida</a></td>
+ <td><a href="#pag_5">5</a></td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td><a href="#pag_13">O anjo</a></td>
+ <td><a href="#pag_13">13</a></td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td><a href="#pag_19">Lyrios</a></td>
+ <td><a href="#pag_19">19</a></td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td><a href="#pag_25">A refeição</a></td>
+ <td><a href="#pag_25">25</a></td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td><a href="#pag_31">A nuvem</a></td>
+ <td><a href="#pag_31">31</a></td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td><a href="#pag_39">Ao pôr do sol</a></td>
+ <td><a href="#pag_39">39</a></td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td><a href="#pag_45">A tentação</a></td>
+ <td><a href="#pag_45">45</a></td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td><a href="#pag_55">O milagre das lagrimas</a></td>
+ <td><a href="#pag_55">55</a></td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td><a href="#pag_65">Caminhando</a></td>
+ <td><a href="#pag_65">65</a></td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td><a href="#pag_71">O cégo</a></td>
+ <td><a href="#pag_71">71</a></td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td><a href="#pag_77">Dentro da noite</a></td>
+ <td><a href="#pag_77">77</a></td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td><a href="#pag_83">Presagio</a></td>
+ <td><a href="#pag_83">83</a></td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td><a href="#pag_91">Piedade</a></td>
+ <td><a href="#pag_91">91</a></td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td><a href="#pag_97">Cantico messianico</a></td>
+ <td><a href="#pag_97">97</a></td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td><a href="#pag_105">O campo de Booz</a></td>
+ <td><a href="#pag_105">105</a></td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td><a href="#pag_109">Na estrada de Bethleem</a></td>
+ <td><a href="#pag_109">109</a></td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td><a href="#pag_113">Na caverna</a></td>
+ <td><a href="#pag_113">113</a></td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td><a href="#pag_121">Natal</a></td>
+ <td><a href="#pag_121">121</a></td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td><a href="#pag_129">As tres virgens</a></td>
+ <td><a href="#pag_129">129</a></td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td><a href="#pag_135">O primeiro leite</a></td>
+ <td><a href="#pag_135">135</a></td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td><a href="#pag_141">Adoração dos pastores</a></td>
+ <td><a href="#pag_141">141</a></td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td><a href="#pag_147">Dôr</a></td>
+ <td><a href="#pag_147">147</a></td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td><a href="#pag_151">Receio</a></td>
+ <td><a href="#pag_151">151</a></td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td><a href="#pag_157">O somno</a></td>
+ <td><a href="#pag_157">157</a></td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td><a href="#pag_161">Palavras de Maria</a></td>
+ <td><a href="#pag_161">161</a></td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td><a href="#pag_167">As duas mãis</a></td>
+ <td><a href="#pag_167">167</a></td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td><a href="#pag_175">A estrella</a></td>
+ <td><a href="#pag_175">175</a></td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td><a href="#pag_179">Epiphania</a></td>
+ <td><a href="#pag_179">179</a></td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td><a href="#pag_185">Adoração dos magos</a></td>
+ <td><a href="#pag_185">185</a></td>
+ </tr>
+ </tbody>
+</table>
+</div>
+
+
+
+
+
+
+
+<pre>
+
+
+
+
+
+End of Project Gutenberg's Mysterio do Natal, by Henrique Coelho Neto
+
+*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK MYSTERIO DO NATAL ***
+
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+Produced by Pedro Saborano
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+
+
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+To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
+and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
+and the Foundation web page at http://www.pglaf.org.
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+Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive
+Foundation
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+The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
+501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
+state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
+Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification
+number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at
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+Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
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+Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
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+business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact
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+Literary Archive Foundation
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+freely distributed in machine readable form accessible by the widest
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+The Foundation is committed to complying with the laws regulating
+charities and charitable donations in all 50 states of the United
+States. Compliance requirements are not uniform and it takes a
+considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
+with these requirements. We do not solicit donations in locations
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+ways including checks, online payments and credit card donations.
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+works.
+
+Professor Michael S. Hart is the originator of the Project Gutenberg-tm
+concept of a library of electronic works that could be freely shared
+with anyone. For thirty years, he produced and distributed Project
+Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.
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+Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
+editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
+unless a copyright notice is included. Thus, we do not necessarily
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