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You may copy it, give it away or +re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included +with this eBook or online at www.gutenberg.org + + +Title: Mysterio do Natal + +Author: Henrique Coelho Neto + +Release Date: December 24, 2010 [EBook #34750] + +Language: Portuguese + +Character set encoding: ISO-8859-1 + +*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK MYSTERIO DO NATAL *** + + + + +Produced by Pedro Saborano + + + + + + +MYSTERIO DO NATAL + + + + +DO MESMO AUCTOR + + Esphynge, 1 vol. . . . . . . . . . 600 + Sertão, 1 vol. . . . . . . . . . . 600 + Agua de Juventa, 1 vol. . . . . . 700 + A bico de penna, 1 vol. . . . . . 700 + Romanceiro, 1 vol. . . . . . . . . 500 + Jardim das Oliveiras, 1 vol. . . . 500 + Fabulario, 1 vol. . . . . . . . . 500 + Miragem, romance, 1 vol. . . . . . 600 + Theatro, vol. 1.º . . . . . . no prélo + Theatro, vol. 2.º. . . . . . . . . 400 + Ouebranto (Theatro), vol. 4.º. . . 500 + Apologos, 1 vol. . . . . . . . . . 500 + +No prélo, a seguir em novas edições: + + Inverno em flor. . . . . . . . . 1 vol. + O Rei phantasma. . . . . . . . . 1 vol. + Capital federal. . . . . . . . . 1 vol. + O morto. . . . . . . . . . . . . 1 vol. + O paraiso. . . . . . . . . . . . 1 vol. + O Rajah de Pendejab. . . . . . . 2 vol. + A Conquista. . . . . . . . . . . 1 vol. + A Tormenta. . . . . . . . . . . 1 vol. + O Turbilhão. . . . . . . . . . . 1 vol. + + + + +Coelho Netto + + + + + COELHO NETTO + + + MYSTERIO + + DO NATAL + + + + + PORTO + LIVRARIA CHARDRON + De LELLO & IRMÃO, editores + RUA DAS CARMELITAS, 144 + ---- + 1911 + + + + +O "Accordo" assignado no Rio de Janeiro em 9 de Setembro de 1889, entre +o Brasil e Portugal, assegurou o direito de propriedade litteraria e +artistica em ambos os paizes. + + +A presente edição está devidamente registada nas Bibliothecas nacionaes, +de Lisboa e Rio de Janeiro. + + + + +PORTO--IMPRENSA MODERNA + + * * * * * + + + + +A partida + + +Era a hora silenciosa e triste do crepusculo. + +Abrumados de ouro os montes, em duros perfis, esmaltavam de negro o +horizonte abrazado. Abriam-se as primeiras estrellas. Subiam da terra, +como o fumo das aras, pannos alvos de nevoa. + +Pelos caminhos esbarrondados, em aspero acclive, beirando grotas +espontadas de cardos, cantaro ao hombro, as tunicas arrepanhadas á +cinta, desfilavam donzellas conversando e rindo. + +Juntas, em passo miudo, trepidando nas pedras, com um cheiro de suarda e +de silvas, passavam nas trilhas ovelhas em rebanhos. Um rude e mazorro +pastor seguia-as cabisbaixo. + +Esbatiam-se as nuvens de ouro quando José e Maria appareceram no limiar +da casa promptos para a longa jornada, por valles e montanhas, em +direcção á terra farta de Bethleem onde iam cumprir a lei de Augusto. + +Fechada a porta ainda demoraram um instante sob a vinha, contidos pela +saudade. + +O homem, por fim, decidiu-se, tomou a frente, vagaroso, pensativo e +logo, limpando os olhos que as lagrimas nublavam, a donzella seguiu. + +Elle grisalho, alto, robusto, ainda que um tanto curvado pelo pendor +constante em que vivia, sempre inclinado sobre o lenho do officio, +falquejando-o, acepilhando-o, dando-lhe fórma e lustro. Ella, mean de +altura, fina e fragil. + +Suavemente morena, os olhos grandes e tristes eram dum limpido verde +d'agua, e como dois lagos purissimos num areal, ao sol; e os cabellos, +escapando-se do cairel do manto, punham-lhe na fronte uma frisa de ouro. + +Mal se lhe adivinhava o collo abotoado. + +Os pés, alvos e pequeninos, assentavam em sandalias e toda a sua riqueza +consistia em um par de braceletes de marfim que lhe cingiam +graciosamente os pulsos finos. + +Trilhando a estrada que ia ter á fonte e seguia direita aos campos, +paravam para falar ás moças, companheiras e amigas de Maria, para +corresponder á saudação dos homens, para attender ás crianças que +deixavam os seixos tomando-lhes o passo, pedindo que lhes trouxessem das +terras de além conchas, como as de Ascalon, que conservam no bojo o +soluço das ondas. + +E Maria, commovida, chorava sobre o sorriso. + +Os campos toldavam-se de bruma e as oliveiras de pallida folhagem faziam +no recosto das collinas como estendaes de nevoa. + +Ainda havia quem trabalhasse a leira na ancia do fruto. Chiava um carro +de lavoura, o guieiro afalava aos bois animando-os no lance abrupto de +uma rampa. + +Chegando ao planalto esteril, que dominava os horizontes e onde o vento +zunia, os viajantes fizeram uma parada olhando em redor o redente dos +montes. + +Lá ficava Nazareth no valle feliz, com o seu casario, em cubos brancos, +como um pacifico rebanho adormecido. + +Ao longe tudo era carregado e lugubre. + +A noite chegava primeiro ás alturas. + +Isolado, com a lua pairando acima do seu viso, o Thabor era como um +peito de gigante de onde houvesse espirrado aquella gotta de leite. + +Maria ignorava o mundo. Nunca houvera passado além da fronteira da terra +natal. Alongando os olhos pela vastidão que a vista alcançava, montes, +varzeas, esplanados desertos tristes, sentia-se mesquinha e com medo. + +Voltou-se, ainda uma vez, para olhar o tranquillo recanto em que sempre +vivera em pobreza e virtude. Mas a noite baixára; raros lumes picavam a +tréva. Ouvia-se vago murmurio, como escachôo d'aguas, subindo do fundo +obscuro onde jazia a cidade. Sahiu-lhe do coração um suspiro maguado: + +--Onde fica Bethleem? José levantou o braço e estendia o cajado na +direcção da terra de David, quando uma estrella fulgurou, illuminando +radiosamente o ceu profundo. + +--Ali! disse o patriarcha, numa voz que tremia, comprehendendo, +maravilhado, que aquelle astro surgira dentro da noite como uma resposta +de Deus á moça predestinada. + + * * * * * + + + + +O anjo + + +A noite, profundamente escura e fria, atravessada de vento, atroava o +fragor de ramagens estortegadas e d'aguas precipitosas que se +despenhavam, aos jorros, pelos algares. Nas chans ainda o transito era +facil, sem o varejo da ventania que repulsava os caminhantes, como a +impedir-lhes a marcha; mas nas gargantas, entre alcantis, as lufadas, +abocando á entrada, esfusiavam desabridas, uivando com a furia de +alcatéas famintas em ronda céva, a fariscar redis. + +Todas as estrellas haviam-se apagado, apenas rutilava, enorme, como +lumareu de vigilia em torre, a que surgira e brilhava sobre Bethleem. + +Os passos estrepitavam nos seixos, estalavam nas folhas e no ramalho secco. + +Um ramo que bolisse, o lento defluir de um fio d'agua por entre pedras +levantavam ruidos temerosos. + +Ás vezes José detinha-se, hesitante na bifurcação de duas trilhas, mas +pouco durava a duvida porque uma das veredas ennegrecia ainda mais, ao +passo que a outra rutilava fulgida, como calçada a diamantes, +offerecendo-se, clara e segura, aos peregrinos. + +Como entrassem em sinuosa e esgalgada passagem, murada de rochas +anfractuosas, eriçada de agaves e echoando como o ambito de uma caverna, +ouviram leve, frouxo ruido como de esfrolar d'azas. + +Uma aguia, talvez, que acordara em algum teso e de pé, attenta, +alargando as azas, ficára em attitude hostil prompta a arremetter em +defeza do ninho. + +O patriarcha, acolhendo a esposa meiga, cujas faces pareciam de neve, +apertou com força o cajado e levantou os olhos. + +Maria, sentindo o perigo, tartamudeou, timida e tremula, uma oração ao +Senhor. O receio de um ataque em sitio tão desolado, longe de toda +habitação, onde nem choça de pegureiro havia, deteve o homem. + +Os corações batiam. Nella era o pavor do desconhecido, o grande medo +tragico das sombras do Scheól, que erram, á noite, pelos descampados; +nelle era temor por ella. + +Não falavam, de olhos muito abertos, quietos, immoveis como os rochedos +que os emparedavam. + +De repente um clarão fulgurou. A passagem illuminou-se, as pedras +scintillaram e as palmouras dos cardos ficaram como de prata. E elles +viram uma grande luz á flor da terra e clareando as rochas. + +Aves despertando galreavam festivamente o canto da madrugada. + +Levantando o olhar viram os dois a fonte do esplendor. Era um anjo que +os precedia, ora trilhando os caminhos, ora voando acima das rochas, +pousando nos alcandores quando o lento e fatigado andar de Maria +retardava a marcha. + +A virgem sorria de enlevo e José, tolhido de commoção, não se atrevia a +encarar o guia resplandecente, cujo reflexo abria na terra um clarão de +luar. E as azas aflavam docemente no silencio. + +A virgem reconheceu no anjo o mancebo que a saudára com as palavras +mysteriosas, cuja promessa cumpria-se e José reviu o divino emissario +que lhe apparecera em sonho, sob a figueira do horto, defendendo a +innocencia de Maria, em cujo seio, cemo em corolla de flor, a Graça +perpassava em genese immareavel, fecundando-o como o sol fecunda a +leiva, eternamente pura. + + * * * * * + + + + +Lyrios + + +Clareava. + +Manhan opáca, envolta em bruma que algodoava a terra, fluctuando com um +lento ondular, fluindo em frouxeis alvissimos como pennugem, +esgarçando-se, diluindo-se em fumo tenue que se esvaía no ar silencioso. + +A espaços frondes boiavam, ramarias exciduas irrompiam. + +Ouvia-se o lentejo lacrimoso das folhas orvalhadas. + +A terra dava-se avaramente, a trechos curtos, á medida que os viajantes +avançavam e o caminho percorrido, como os dias da vida, eram logo +fechados em branco pelos nevoeiros. + +Branco era tambem o ceu e triste, pesando sobre a terra, tão baixo que +as nuvens, por vezes, envolviam os peregrinos. + +Passaros piavam nas taliscas, occultos; vozes de gado, longinquas, +evocativas, annunciavam casaes. + +Maria tiritava. + +A tunica pesava-lhe nos hombros, humida, e as faces, rorejadas, +tingiam-se em duas rosas como se as flores, transidas, houvessem +procurado abrigo ao calor carinhoso daquella mocidade pura. + +José distrahia a companheira falando-lhe dos lugares que iam atravessando. + +Todos aquelles atalhos tortuosos, aquelles carreiros invios haviam sido, +em tempos remotos, trilhados por patriarchas. + +Ali haviam-se travado batalhas sanguentas; ali alvejara a tenda, +crescera, em louro estendal, o trigo, retorcera-se a vinha, pastara o +armento, correra o azeite, fundira-se o ferro, britara-se a pedra, +cosera-se o barro sob as vistas de Iaveh omnipotente. + +Por ali andara Elias trovejando oraculos. Judith afiára o gladio +libertador nas arestas daquellas penhas. + + +Em poeira de ouro foi-se mudando a nevoa: era o sol. + +Já apparecia uma nesga de azul; arvores, moutas destacavam-se: a +mortalha rasgava-se para a resurreição. + +Alegremente as aves, em claras vozes, cantaram a victoria da Luz. E +Maria, contente, d'olhos em extase, esperava o astro annunciado pela +fulguração das nuvens. + +Num recanto, entre mirradas arvores de troncos retorcidos, uma agua +escura e quieta reluzia. + +Pedras negras, cobertas de limo, escondiam-se sob ramos acenosos. + +Maria, sentindo a dobrez da fadiga, os olhos pesados de somno, sentou-se +tão perto d'agua que toda ella reflectiu-se na superficie espelhenta. + +Viu-se sem vaidade, com a mesma innocencia com que se revê o passaro e, +num momento, infantilmente, mergulhou, até o punho, as mãos ambas no paul. + +Quiz José reprehendel-a, vendo-a, porém, sorrir, sorriu tambem. + +Gottejando sahiram as pequeninas mãos da agua que tremia. + +Olhavam os dois os circulos que se abriam quando viram duas flores +subirem á tona, brancas, abertas em cinco petalas, erectas em finas +hastes, como se o reflexo das mãos da Immaculada se houvesse +materialisado em memoria da ablução ligeira. + +Eram lirios e trescalavam. + + +Virtude, brilho das almas, que importa que desças á vasa? és impermeavel +como a luz, purificadora como o raio de sol. + +Não perdes a limpida pureza e, se entras no Vicio, fazes desabrochar a +Graça; se afundas no Crime, tiras o arrependimento. + +O pantano era lobrego, coberto de folhas mortas e as mãos de Maria, só +com o aflorarem, tanto o purificaram que delle nasceu o lirio sem +macula, symbolo formoso e candido da innocencia. + + * * * * * + + + + +A refeição + + +Suave som de frauta pastoril deu a Maria o encanto de uma egloga. Voltou +a cabeça dourada e viu o rebanho que se aproximava em vagaroso passo. + +Trazia-o um menino, guiando-o por entre as hervas de aroma. Um lindo +menino, tão alvo que não despedia sombra, como as neves que os raios do +sol atravessam; tão louro que a sua cabeça alumiava. + +Vinha a frauta soando em suaves accentos e attrahidas, enlevadas na +musica, abelhas voavam em volta do pastorinho, que assim apascentava +dois rebanhos: um pela terra verde, outro pelos ares claros. + +Ergueu-se Maria e, sem dizer palavra, olhando os ubres apojados das +ovelhas, deu a sentir o seu desejo. + +Como devia saber aquelle leite que era a metamorphose das flores dos +silvados! Como devia rescender na boca e aquecer e fartar! + +Calou-se a frauta e o menino, fitando os olhos meigos no casal errante, +como se de muito o conhecesse e amasse, deteve-se, e os animaes pararam. + +Ficou o rebanho unido, tão junto que não fazia mais que um vello e as +abelhas, zumbindo, puzeram-se a esvoaçar em torno dos lirios alvos. + +José adiantou-se e, offerecendo um obulo ao menino, pediu-lhe um pouco +de leite. Sorrindo, o pastorinho tomou o tarro que trazia ao flanco. + +Logo, entre as ovelhas, houve um movimento ancioso. Balavam todas +offerecendo as tetas refertas, atropelavam-se, saltavam querendo, cada +qual, ser a escolhida e o pastorinho brandamente as afastava. + +Foi á primeira, ordenhou-a. O leite esguichou em fio; outra chegou, +depois outra e a todas elle attendia para que nenhuma ficasse preterida. + +Já a espuma fervia crescendo em flor, transbordando do vaso e as ovelhas +festejavam-se contentes. + +Sorrindo, aceitou Maria a offerta do zagal; bebeu a lentos goles, +saboreando. E foi a vez de José. + +Refeito, o patriarcha insistiu na dádiva da moeda, mas o menino negou-se +a recebel-a: + +«Que era um pouco de leite? Qualquer pastor faria o mesmo.» + +Saudou-os, e, pondo-se á frente das ovelhas, levou a frauta aos labios. + +Os sons vibraram. Lento e manso o rebanho proseguiu. Foi então que Maria +viu que as abelhas, tantas que occultavam os lirios, deixavam as flores +voando á musica da frauta. + +--Lindo pastor! Lindo rebanho! disse, enlevada, a Virgem. Mas logo, +referindo-se ás abelhas que fugiam, perguntou a José: Que terão ellas +buscado nas flores d'agua? + +--O arôma e o néctar, explicou o patriarcha. + +Chegaram-se os dois ás flores e viram, maravilhados, que estavam cheias +de mel crystallino e louro como o ambar precioso e tão perfumado como se +contivesse toda a essencia das flores. + +Tomou José um dos lirios e deu-o a Maria; a Virgem offereceu-lhe o +outro. Depois, deliciados, contemplaram-se felizes. + +--A frauta já não sôa, vai muito longe o pastor, disse Maria. + +--Vai muito longe! repetiu José contricto, levantando os olhos para o +ceu, como se procurasse nas nuvens o pastorinho louro e as ovelhinhas +brancas. + + * * * * * + + + + +A nuvem + + +Sob a irradiação do sol a terra secca abrazava, exhalando um bafio de +rescaldo. + +Triste, flagellada Samária pagan! + +Os deuses do Garizin, depois da destruição do templo, pareciam haver +desertado o monte onde os homens subiam a retemperar a fé, de onde +manava a seiva que se infiltrava nos campos e mantinha vivas todas as +fontes, entre rochas humidas. + +Ermo o sagrado monte, esquecido o santuario antigo, as lavouras mirraram +e um sol mais árdego crestou as hervas, sorveu as aguas outr'ora copiosas. + +Nem as torrentes ligeiras conseguiram, fugindo, escapar á inclemencia e +os leitos dos corregos, em lodo secco, estalavam, fendiam-se em gretas +fundas. + +Um fio d'agua rastejava nos lugares que, antigamente, rios largos alagavam. + +Das fontes restavam apenas as pedras calvas sobre areias torridas onde +viboras esfusiavam, entaliscando-se ao rumor de passos. + +De ponto em ponto uma cisterna funda offerecia ao caminhante a sua agua +salobra. + +Ás vezes o terebintho forte sombreava-a ou figueiras e mimosas +formavam-lhe em torno um bosque ameno. + +Mas os trilhos, arenosos e pedrentos, eram apenas habitados pelo cardo +que esgalhava os ramos espinhosos, abertos em feridas, feios, disformes +como aleijões. Não se ouvia cantar um passaro--só o gypaeto atravessava +o espaço fulgurante ou grandes aguias hostis, pousadas no cabeço das +penhas, devassavam os arredores buscando o que prear. + +Maria offegava seguindo o esposo. A areia escaldava-lhe os pés mimosos, +o sol abrazava-lhe a cabeça. + +Caminhavam como atravez de chammas, sem que os olhos avistassem um +colmado, a grata ramagem duma arvore. + +Ó terras férteis da Galiléa! valles alfombrados e frescos de tanta +belleza por onde correm numerosos ribeiros claros. Ó Galiléa! + + +Tudo era desolação na tristonha Samária e o sol do outono queimava como +nos incendidos dias estivaes. + +Seria melhor esperarem a tarde, proseguirem com a brandura do +crepusculo; mas a pressa que levavam não lhes permittia demora. + +José, mais robusto e affeito a rigores, resistia; a Virgem, porém, +começava a sentir-se atordoada: faltava-lhe o ar, os olhos ardiam-lhe. + +--Chega-te á sombra do meu corpo, disse-lhe o patriarcha. Ella obedeceu. +Mas o sol zombava da misericordia do amor e Maria continha as lagrimas, +calava as dores dos delicados pés abertos em feridas, não querendo que o +esposo soffresse com o seu soffrimento. + +O sol subia, augmentava o calor e o animo da Virgem desfallecia quando +uma nuvem cresceu acima do monte Ebal. + +Era escura como os nimbus e apressava-se como impellida por um grande +vento. + +Barulho surdo annunciava-a, igual ao ronco soturno que precede as +saraivadas de verão. + +A terra entenebrecia á passagem obumbrada da nuvem, que vinha direita ao +caminho trilhado pelo casal. + +O ruido augmentava tornando-se como o escachôo das catadupas. + +Detiveram-se os dois, pallidos, tolhidos de espanto. + +Subito Maria sorriu: + +--São pombas, disse. Eram, effectivamente, milhares de pombas azues que, +muito juntas, formavam a nuvem escura. Pairaram, ficaram adejando sobre +elles, com rumoroso arrulho, e o sol quebrava-se-lhes nas azas estendidas. + +José baixou os olhos, dobraram-se-lhe os joelhos e a Virgem, olhando as +aves, não deu pelo gesto piedoso nem ouviu as palavras devotas com que +elle, em extase, adorava-a. + +Então proseguiram á sombra do immenso pallio azul e fóra da nuvem viva a +terra, quente e rutila, ardia e faiscava ao sol. + + * * * * * + + + + +Ao pôr do sol + + +No ceu desbotavam, esbatiam-se as côres vivas, o ouro e a purpura +fundiam-se em violete e, docemente, a melancolia vesperal envolvia a +natureza e penetrava as almas. E Maria perguntou: + +--Porque é mais triste do que a noite o breve instante do pôr do sol? + +--Porque é uma agonia, respondeu José. Não é a morte que impressiona, é +o morrer. + +A luz que vasqueja é como o corpo que estrebucha. A noite é serena, tem +a immobilidade do cadaver. + +Quantas sombras havia na terra? tantas quantas são os seres e as coisas +que existem. O sol, porque é a vida, discrimina, dá a cada um a sua +autonomia para o bem ou para o mal. + +O homem tem a sua sombra, como a formiga; a cordilheira escurece uma +região e o grão de areia destaca a sua mancha. + +A noite condensa na mesma sombra todo o universo. + +No instante da agonia a alma, como o saltador que recúa para ganhar +impulso na corrida e formar o pulo, regressa na reminescencia recordando +a vida, desde os dias primévos até á hora suprema. + +O crepusculo, que lembra o amanhecer, sem a alegria, é um recúo á +madrugada para o salto dentro da noite. + +--Aquelle clarão que alveja nos montes é o luar. A lua é como uma +lampada que o sol deixa accesa quando parte. Como a noite é linda! + +--E purificadora. O somno é um mergulho na Eternidade. + +--Quando eu era pequenina, mal anoitecia, punha-me a tremer de medo e só +depois de rezar conseguia adormecer. + +--Porque a Fé é uma claridade que desfaz as sombras interiores. O que +não crê é como o cégo que anda tacteando, sempre arriscado a perigos, +bastando resvalar num talude para precipitar-se no abysmo. + +A Fé é como a lampada dos templos: sempre accesa e fulgurando. + +O homem de fé anda mais seguro na escuridão do que o incrédulo ao sol. O +horizonte do crente é Deus. + +--Porque bate com mais vigor o coração á noite? + +--As aguas murmuram mais alto no silencio? não, a voz é a mesma, a calma +é que isola fazendo-a parecer mais forte. Quando trabalhas á sombra da +vinha ouves balar o rebanho? não, entanto, á noite, soergues-te no leito +á voz lamentosa duma ovelha perdida. + +O coração parece pulsar com mais impeto nas horas de recolhimento. + +Nas cavernas profundas as vozes reboam, o estellicidio de uma gotta faz +ruido. É essa uma das vantagens da noite--estabelecer o silencio, a +quietude nalma para que a consciencia faça o seu acto de contricção. + +--E as estrellas? quem as accende no ceu? + +--Aquelle mesmo que abre as flores na terra. + +--Ninguem o vê. + +--E o Pensamento, quem o vê? Enunciado é um relampago, realisado é um +esplendor; a sua essencia é o genio, que gera a Ordem. O mundo é a +realisação do Pensamento de Deus; as obras ephemeras do mundo são a +consubstanciação do pensamento humano. O homem constróe, é o artista; +Deus crêa, é o Verbo. + +--E eu? + +--Tu és Maria, disse o patriarcha, afagando-a paternalmente. + +Iterativas, afinadas vozes murmuraram nos ares concluindo o dizer do +ancião: + + ... cheia de Graça, o Senhor é comtigo. + Bemdita és tu entre as mulheres. + +Ella deteve-se assustada e interrogou o esposo, tremulo: + +--Que dizeis, meu senhor? José, que nada ouvira, respondeu: + +--Digo que és uma creatura de Deus, como a flor, como a estrella. + +Os chacaes latiam no deserto ao doce clarão da lua. + + * * * * * + + + + +A tentação + + +Numerosa estropeada de innumeros corceis atroou o silencio; tubas +clangoraram e, repentinamente, como passassem entre duas alcantiladas +penhas, que o luar vestia d'alvo, viram altos pylonos de basalto, +sarapintados de hyerogliphos, ante os quaes esphynges monstruosas, +deitadas sobre stelas negras, laivadas de sanguineo, com os bicos dos +rijos peitos incrustados de rubis, cravavam no ceu os olhos mysteriosos. + +Mal chegaram á entrada portentosa logo uma luzente guarda de +cataphractos, com petrinas de prata, montando ginetes brancos de crinas +rastejantes, hasteando lanças que alumiavam, formaram duas extensas alas +ao longo do caminho areado de ouro, sobre o qual frescamente rociava uma +serena pulverisação de aromas. + +Os olhos perdiam-se na visão de uma vasta cidade mirifica, toda em +marmores e pórphydos, com enormes templos, palacios que eram cidadellas, +jardins de redolentes áleas, rios beirados de arvores, com as rampas em +alcatifa de flores, rolando alisadas aguas sobre as quaes rebrilhava, em +tremulina, o luar. + +Barcos de prôas curvas, transbordando brocados, cruzavam-se com musicos +sob doceis de seda. + +Nos bosques que os cysnes percorriam, alvos como vivos marmores, +mulheres, veladas de gaze, coroadas de rosas, repousavam na fina relva +ou balouçavam-se em redouças. + +Os zimborios dourados, os frontões dos templos tauxiados de ouro, as +escadarias largas, de zebrados degraus de cypolino, subindo a pateos de +mosaico, esplendiam. + +Surdo rumor agitava a cidade onde a multidão, em festa, tumultuava numa +variedade de trajos multicores. + +Passavam palanques sob flabellos empunhados por grandes negros vestidos +de saios rubros, com franjas de prata, adagas á cinta, emplumados +turbantes á cabeça. + +Plaustros rodavam com crepitações levantando uma nevoa loura. + +Photinas de harpas respondiam-se de um eirado a outro e, num obelisco de +onix canellado, molle serpente de escamas de ouro, vibrando a lingua +bifida, enroscava-se, em lentas espiras, ficando, ás vezes, pendente, a +oscillar como uma grossa liana. + +José olhava pasmado e Maria encolhia-se timida, contemplando, +deslumbrada, a cidade fulgente. + +Não era a triste Sichem nem a sombria Jerichó. Que cidade seria aquella +tão rica, de tanta vida, isolada na tristonha e maninha região da Samária? + +Subitamente, com improvisa fulguração, abriram-se de par em par as +portas do templo maior e um grave cortejo appareceu no peristylo e +vagaroso, solemne, poz-se a descer a fulgida escaleira. + +Vozes, ao rythmo de instrumentos lyturgicos, entoaram um cantico glorioso. + +O povo prostrou-se na areia micante das alamedas bradando um nome forte. + +Ceruleo clarão refulgiu celestialmente. Coalharam-se os ares de aves, +armas lampejaram em meneio heroico e toda a turba templaria formou no +atrium, ergueu um sonoro louvor e rojou-se de bruços, com um tinir +argentino de armillas e braceletes. E um homem alto, alado, com dois +cornos de luz purpurea ardendo-lhe entre os cabellos crespos, surgiu no +limiar de ouro estendendo amorosamente os braços a Maria extatica. + +A voz com que a chamou reproduziu-se em echo no silencio mystico; o seu +olhar ardia e, em torno do seu corpo atorreado, relumbrava um halo como +se o emmoldurassem chammas. + +--Vem! O meu amor esperava-te ancioso. És a eleita de minh'alma. +Chegaste no tempo em que as rosas florescem. As vinhas crespas dão +fruto, as abelhas fazem o seu mel, o trigo redoura os campos, os lagos +são açucenaes extensos. + +Eu puz em ordem a natureza para as nossas nupcias sagradas. Vem! + +A terra em que pisas nunca recolheu cadaveres. Entraste no reino da +ventura eterna. Vem! E estendeu os longos braços que alumiavam como +caudas d'astros. + +Houve um clamor ovante feito com o nome suave de Maria e outro que +ribombava e os cataphractos, levantando-se, a prumo, nos estribos, +cruzaram as lanças formando uma abobada de scintillações. + +José olhava, mudo e receioso, acolhendo ao peito a timida donzella. Um +gallo cantou em alguma herdade proxima. + +Instantaneamente, com uma surda explosão, toda a cidade maravilhosa e os +seres que a animavam subverteram-se. + +Os ares ficaram nublados de fumo, estryges chirriaram. + +De novo reappareceram os campos rasos, ermos, estereis, calados, ao luar +livido. + +Maria, com o coração sobresaltado, murmurou: + +--Que lindo sonho, meu senhor. + +--Não foi sonho, Maria, tornou sombriamente o patriarcha. Vamos! Os +lirios trescalam, os gallos cantam; é a madrugada que vem. + +Puzeram-se a caminho. + +E, pelos ares, contorcendo-se em furor, uma sombra alada fugia, enorme, +monstruosa, com dois cornos que coruscavam. + + * * * * * + + + + +O milagre das lagrimas + + +A estrada, a duas horas de Sichem, pelos montes, larga e suave, com +acceitosas sombras de sycomoros e de amendoeiras, era toda orlada de +anemonas vermelhas e de margaridas brancas e amarellas. + +Os khans succediam-se sempre abrigados em hortos frondosos, com a +cisterna ao lado ou perto de alguma fonte, com a alpendrada reverdecida +pela vinha, debaixo da qual os mercadores, que desciam de Tyro ou do +Libano ou subiam de Joppé, comiam uma febra de anho regando-a com o +vinho fresco de Engaddi, emquanto os dromedarios soltos iam e vinham +vagarosamente ou deitados, ruminando, cerravam os olhos nostalgicos á +vivida fulguração do sol. + +Casas miserrimas, de muros de lodo, cobertas de palha, confundiam-se com +a ramagem dos eloendros, perdiam-se nos olivaes. + +Caravanas desfilavam--os homens a cavallo, com as lanças altas, o +albornoz ao vento; as mulheres em jumentos ou em carros, entre fardos e +alcofas, agasalhando crianças sob as pontas dos mantos. + +Por vezes um canto suave rompia da turba, rufavam tamboris, kinnareths +vibravam, frautas desferiam e os cavalleiros alegres faziam caracolar os +ginetes, as mulheres punham-se de pé nos carros olhando as muralhas que +se aprumavam ao longe, fechando cidades, cujas casas, em cubos brancos, +semelhavam tumulos. + +José evitava os pousos, fugia aos rumorosos aduares, mettendo por +atalhos para evitar a chacota da gente nomade. + +Justamente atravessavam uma trilha deserta quando ouviram um choro +triste e deram de rosto com uma moça morena que trazia nos braços uma +criança inerte. + +Pós ella uma pequenita, já com abundancia de flores, ainda varejava os +mattos procurando anemonas. + +Vendo-os, a misera susteve o pranto e, fitando em José os olhos rasos +d'agua, perguntou: + +«Se ainda distava muito Endor, onde vivia Baruc, o nazir, que conhecia a +virtude das hervas e realisava curas maravilhosas. Vendera as suas +ovelhas e levava oito cyclos de prata e um collar de ouro comprado em +Jerusalem e, se tanto não bastasse, dar-se-ia como escrava pela saude do +filho.» + +José estendeu o braço na direcção do Levante: + +--Era além, muito longe, atravez da montanha, num valle sombrio, a horas +do Jordão. + +Maria, commovida, quiz vêr o infante. + +A mãi descobriu-lhe o rosto. + +Era lindo! + +Os cabellos rolavam-lhe em cachos louros, os olhos jaziam como dois +mortos sob as cupulas tumbaes das palpebras, com os longos cilios +repontando como a herva que viça no abandono. + +A boca, de labios cerrados, livida, era como o leito secco de uma +torrente que o sol exhauriu e estalou. + +Não se movia e, tão rigido, tão frio estava que só a illusão do amor +podia ainda emprestar-lhe vida. + +A pequenita continuava a rebuscar anemonas cantando. + +--Ides debalde a Endor com o vosso filho, disse commiserado o +patriarcha, accrescentando: Baruc póde sarar enfermos, mas só Elias +resuscitava os mortos. + +--Quereis dizer que elle está morto!? exclamou a mulher tremendo. Se, +ainda hontem, embalei-o nos braços... Se ainda estou com os peitos +cheios de leite, manando copiosamente como as ribeiras das collinas. + +Ai! de mim... Bem que eu não queria cantar a cantiga tristonha! Foi o +canto triste que o fez fugir dos meus braços. Ai de mim! + +Adormeci-o para sempre. + +E agora? quem terá piedade da minha solidão? Era elle só... + +Nasceu em noite de luar, finou-se em manhan de nevoa. E hei-de o deixar +na terra justamente agora quando o inverno chega! Ai! de mim... A +saudade mudará o leite dos meus peitos em lagrimas para os meus olhos. +Pobre de mim! Coitada de mim! + +E a moça deixou-se cahir á beira do caminho apertando nos braços o corpo +do filho morto. + +A pequenita continuava a rebuscar anemonas. + +Maria inclinou-se compadecida sobre o cadaver e duas lagrimas da sua +piedade rolaram na fronte gelida do defunto. + +Logo abriram-se os olhos da criança. Eram azues, côr do ceu; +renasceram-lhe as rosas das faces, os bracinhos inertes estenderam-se e, +lindo, com o esplendor da vida, o pequeno sorria afogando a cabeça no +collo materno. + +O espanto emmudecera, immobilisara a moça. + +Subito, ergueu-se com um grito d'alma, poz-se a rasgar a tunica na +pressa sofrega de amamentar o filho. + +Os peitos saltaram tumidos. O pequeno abocou avidamente e a mãi, +sentindo-o sugar, contente e com lagrimas, ajoelhou-se e, d'olhos no +ceu, ficou como petrificada. + +Maria chorava por vêl-a chorar venturosa e, como as suas lagrimas +cahissem na terra, a pequenita não teve mãos para colher as flores que +nasciam, brotando como acima d'agua borbulham, ás mil, as bolhas de ar. + + * * * * * + + + + +Caminhando + + +Maria caminhava em silencio, pensando naquella mãi que, repentinamente, +passára da maior desventura á maior felicidade pelo prestigio das +lagrimas misericordiosas. + +--O pequenito dormia e a pobre mãi tinha-o por morto. Foi bastante que +eu lhe tocasse para que logo abrisse os olhos. + +--É que o despertaste, disse o patriarcha sem alludir ao prodigio que +testemunhara. + +Elle ia notando, com discreta reserva, todas as maravilhas que se +realisavam á passagem da Virgem: ribeiros que sustavam o curso +offerecendo o leito enxuto para a travessia; arvores que se cobriam de +flores, carregavam-se de frutos vergando generosamente os galhos; vozes +que murmuravam; veios limpidos que rebentavam das pedras e, durante os +curtos somnos da donzella, não lhe passavam despercebidos anjos que +rondavam em torno dos bosques pisando, de leve, os caminhos avelludados. + +A mais e mais se lhe firmava nalma a certeza de que as palavras que +ouvira em sonho haviam sido pronunciadas por um mensageiro do ceu. + +Aquella era, em verdade, a eleita da Divina Graça, a Virgem pura de +Judá, da qual devia nascer o Messias das gentes. + +Elle acompanhava-a, não como esposo e sim como servo, adorando-a de +joelhos quando a via adormecida. + +Ella ignorava tudo. Sabia apenas que era mãi porque sentia no seio os +movimentos do Sêr Perfeito, no qual concentrava todo o seu amor. + +Já lhe crescia o collo, pesando, arredondado e turgido. + +O amor preparava o alimento para Aquelle que se nutria de mysterio. + +--As mãis soffrem tanto pelos filhos!... O amor das mãis é como a rosa +que cresce entre espinhos. Praza aos céus que meu filho não soffra +emquanto fôr pequenino. + +As crianças não falam, não atinam a indicar onde lhes punge a dôr, de +sorte que a gente não sabe como as ha de alliviar quando soffrem. + +--As mãis adivinham. + +--São tão fracas as criancinhas que tudo é perigo em torno dellas. Tremo +quando penso no meu pequenino filho que vai nascer, tão franzino e tão +pobre. Onde o agasalharemos nós? + +--Entre os nossos braços, como os passaros resguardam o ninho entre os +ramos. + +--E o frio? + +--Temos o nosso calor. + +--E a fome? + +--Os peitos maternos são dois celleiros sempre cheios. + +--Haveis de amal-o, senhor, e ajudar-me emquanto elle carecer de nós? + +--Por ti, por Elle, por todos, disse José enlevado. + +Chegavam a um bosque de tamareiras, onde havia uma cisterna cercada de +musgo. + +Um velho cégo repousava á sombra, ouvindo cantar uma criança que +brincava sentada nas folhas seccas. + + * * * * * + + + + +O cégo + + +O velho era de Jerichó. + +Esperava naquelle retiro a passagem das caravanas que se encaminhavam a +Jerusalem e sempre recolhia uma azinhavrada moeda, um punhado de tâmaras +ou um esgarçado albornoz em que se enrolava, bemdizendo, com palavras +humildes e agradecidas, a generosidade dos homens, recommendando-os ao +deus de Abrahão, de Isaac e de Jacob e indicando-lhes os melhores e mais +seguros caminhos pelos montes. + +José ajuntou as folhas espalhadas e fez uma alfombra onde Maria +adormeceu revendo, em sonho, a sua alegre Nazareth, as moças á beira da +fonte, os pastores nos cerros, á hora macia da tarde, quando as cotovias +baixam e desapparecem nas searas e as aguas das levadas cantam. + +Conversaram os dois velhos--José falou da sua viagem, o cégo falou da +sua cegueira. + +--Estava assim desde moço, um raio cegara-o no campo, sob um sycomoro. +Já se habituara á treva como um prisioneiro que se houvesse acostumado +ao carcere. + +Um magico de Suza offerecera-se para cural-o. Pedira cem drachmas, +baixara a cincoenta; faria por vinte se elle lh'as offerecesse. + +Tinha ainda a sua cabana e ovelhas, vendendo-as reuniria a somma, mas, +pensando, resolvera deixar-se ficar na cegueira. E suspirou: + +--Illude-se quem julga que, ao voltar aos antigos lugares, encontrará as +coisas como deixou: as proprias pedras modificam-se e não são varias +como as almas. + +Quando me annunciaram a morte de meu filho, pedi que me puzessem junto +do cadaver, apalpei-o, beijei-o; ouvi os passos dos que o levaram a +enterrar, mas não vi o enterro. + +Ouvi o estrondo da queda do cedro que cobria de sombra a minha eira e, +ainda hoje, vou sentar-me no sitio em que elle avultava e sinto-me +agasalhado pela ramagem que não existe e ouço a alegre voz dos +passarinhos de outr'ora. + +As coisas foram desapparecendo uma a uma, eu mesmo envelhecia, mas a +cegueira conserva a visão do passado. + +O sol parou para mim na mocidade como parou sobre os muros de Jerichó á +voz do batalhador. + +Vejo dentro de mim tudo quanto deixei: as gentes, os animaes, as +arvores, os lugares com as suas cabanas e os seus campos floridos. + +Sou como a ave aprisionada, de pequenina, em uma gaiola, que não olha +senão a limitada paizagem que fica em torno da sua vivenda triste. +Soltai-a, esvoaçará atordoada e, se não regressar á prisão, morrerá de +fome perdida nas florestas frondosas, se não cahir nas garras dos abutres. + +O homem de Suza queria dar-me a liberdade. Para que? para eu morrer de +saudosa tristeza sentindo o deserto em volta de mim? Não! + +Vivo no passado, o meu tempo já foi. + +Não caminho para a morte, espero-a, sentado no limiar da mocidade, +ouvindo o rumor do tempo devastador, sem vêr os desastres, sem vêr as +lagrimas, sem vêr os enterros. + +Perdi-me dos meus, dei em uma furna e nella vivo. Já agora estou +habituado á sombra. Para que hei de sahir se, lá fóra, só me esperam +ossadas? Se o proprio Deus me offerecesse a luz eu lhe pediria a morte. + +Voltar atraz...! A herva cresce, o vento revolve a areia desmanchando as +nossas pegadas. + +O campo, que conhecemos florido, mudou-se em carrascal; a gente +envelheceu ou morreu. Só ha um meio de não caminhar chorando--é seguir +sempre em frente e se eu recobrasse a vista teria de retroceder e +cegaria de novo com os olhos afogados em lagrimas. Aonde vos dirigis? + +--A Bethleem. + +--Casa do pão. É ali que deve nascer o Annunciado. Casa da abundancia, +celleiro do Senhor, Bethleem da fertilidade! De lá é que nos ha de vir o +Messias. O campo de Booz dará o trigo que ha de fartar as almas. + +--É para lá que vamos. + +--Que as estrellas vos sejam propicias, como fôram a Ruth, a moça de Moab. + + * * * * * + + + + +Dentro da noite + + +Maria abriu os olhos quando as estrellas nasciam. + +O cégo já havia partido levado pelo menino. As cigarras cantavam vesperas. + +José empunhou o cajado: Maria deixou o leito agreste, e seguiram. + +As ultimas chammas do sol apagavam-se no occaso e a nevoa polvilhava os +ares como uma cinza. + +Monstruosos penhascos, talhados a pique á beira de precipicios, +avultavam temerosamente na sombra. + +Palmeiras debruçavam-se sobre as rampas. Toda a vegetação contorcida, +com as raizes á flor da terra, agarrando-se nervosamente ás arestas dos +penhascos, parecia receiar aquelles despenhadeiros de onde subia +atroadoramente um escachôo soturno d'aguas constrangidas. + +Escurecia. Os montes áridos da Judéa apresentavam-se hostis aos peregrinos. + +Os caminhos, aos torcicollos, confundiam-se augustos, escavados em +brocas, eriçados d'aspas calcareas, orlados de intonsos espinheiros que, +ás vezes, como garras, detinham os viajantes pelas tunicas. + +Estryges voavam, pousavam nos ramos, nos penedos com gritos lugubres. + +José caminhava a passo cauteloso, sondando o piso com o cajado, detendo +Maria, buscando tranquillisal-a com palavras carinhosas. + +Mas a treva adensava-se a mais e mais, os roçados confundiam-se com a +sombra. Julgando seguir a trilha direita, o patriarcha estendia a mão e +sentia a aspereza das penhas. + +--É imprudencia insistirmos em proseguir em tal escuridão, disse Maria +com medo. É Deus que nos retém. + +José deteve-se. Parecera-lhe ter ouvido vozes, rumor de passos, estalos +de ramos seccos, como se viessem outros caminheiros. Escutou attentamente. + +Era o vento que agitava o folhedo e eram as aguas profundas que +referviam nos algares. + +Mas um clarão suave accendeu-se no fundo espesso do arvoredo. Quem +seria? Encolheram-se os dois, olhos fitos na claridade, que se adiantava +como a luz de um facho. + +Uma centelha passou na escuridão, outra gyrou nos ares, as folhas, os +ramos das arvores ficaram incrustados de brazas. + +Surgiram da terra, saltaram das rochas, subiram dos desfiladeiros, a +espessidão estrellou-se e todas as fagulhas, unindo-se, formaram uma +rutila umbella pairando sobre Maria e José como a nuvem seguiu Israel +guiando-o luminosamente pelo negror das noites no deserto. + +Eram pyrilampos que voavam em ordenada phalange alumiando os caminhos +obscuros. + +E os dois, sob o relume dos insectos, continuaram a viagem dentro dum +reverbero que só ao clarear d'alva desappareceu nos ares. + + * * * * * + + + + +Presagio + + +O ceu, d'um azul transparente, ia-se, aos poucos, illuminando. + +Os montes, em recortes rigidos, calvos, com a pedra exposta, a reluzir +de humidade, ou eriçados de hispidos mattos, resaltavam em aspero, +mordente relevo, com os cimos resplandecendo sob uma nevoa de ouro. + +Docemente baliam placidos rebanhos. + +As casas abriam-se; homens, ainda estremunhados, vinham ás portas, +bocejavam lançando por entre as barbas um halito brumoso. + +Sentia-se a visinhança de Jerusalem pelo maior numero de casas, pela +abundancia de gado nos valles verdes, recortados de veios d'aguas. +Burricos trotavam com alcofas e ceirões de frutas. + +Risos crystallinos annunciavam crianças; ouvia-se um estrepitante +chapinhar e, á volta de um caminho, no claro remanso de uma ribeira, sob +a acenosa ramagem do salgueiral, meninos nús saltavam, atiravam-se de +mergulho, aos gritos alegres, flagellando a agua com ramos ou +pendurando-se, a rir, dos galhos inclinados. + +Nos campos, a espaços, alvejavam sepulchros; ovelhas pastavam em torno, +pombos cercavam-nos em revoada arrulhante. + +Por entre a palha das choças esfiava-se o fumo azul. + +Já os moinhos trabalhavam e junto aos immensos lagares, onde se pisava a +azeitona, reluziam, em fumeiro, montes de bagaço oleoso. + +Maria, que caminhara contente até aquellas paragens, á medida que +avançava, sentia apertar-se-lhe o coração em presagio funesto. + +Olhava anciosa os longes dos horizontes. + +Tudo era calmo. A paizagem estendia-se acceitosa, cortada de muros de +hortos, toda verde, bem differente dos desolados ermos que ella deixára. + +Todavia a tristeza empannava-lhe os olhos, enchia-lhe o coração e já +transbordava em lagrimas. + +Vendo-a chorar, José perguntou com meiguice: + +--Sentes-te fatigada? + +--Não, meu senhor: voltaria a Nazareth sem parar, se pudesse. + +--E porque choras? + +--Não sei. O coração aperta-se-me, um grande medo invade-me, +constrange-me. Tremo e sinto-me gelar. As proprias flores causam-me +horror. As anemonas parecem-me chagas que sangram. Tenho medo, um grande +medo, como se fosse caminhando para a morte. Que tumulo é aquelle que +apparece além, tão alto, tão negro, sob o vôo dos corvos? + +José seguiu com o olhar a direcção do gesto de Maria. + +--O que vês são as muralhas de Jerusalem, onde chegaremos antes do pôr +do sol. + +--Além das muralhas, aquelle tumulo negro, tão triste, onde agora o sol +brilha. + +Uma velha, trazendo um jumento pela arreata, sahiu ao caminho vagarosa. + +José saudou-a, a velha sorriu á Maria abençoando-a e a Virgem, +escondendo a tristeza num sorriso, perguntou-lhe: + +--Que tumulo é aquelle, além! tão alto, dentro dos muros da cidade? Os +corvos rondam-no, deve haver mortos ali. + +--É um monte, disse a mulher. + +--Um monte! repetiu Maria surprehendida. + +--O Golgotha. O outro é o Goreb. + +--O Golgotha! suspirou a Virgem e, depois de um silencio dolorido, +deixando-se cahir sobre as hervas, desatou a chorar convulsamente. A +velha animou-a, teve palavras inuteis de consolo e alento. José +assentou-se-lhe ao lado e, tomando-lhe as mãos frias, alisando-lhe os +cabellos humidos de orvalho, perguntou-lhe: + +--Que tens? Ella não poude responder. Levantou-se e, resignadamente, de +olhos baixos, contendo os soluços, poz-se, de novo, a caminho, em +direcção á cidade branca e atorreada, ao sol. + + * * * * * + + + + +Piedade + + +Com um rebanho que recolhia levado por um pastor coberto de pelles, as +pernas enroladas até os joelhos em vello sórdido, entraram em Jerusalem +pela porta do mercado, á hora em que as buzinas romanas troavam nas torres. + +José procurava distrahir Maria mostrando-lhe as grandes bellezas, a +magnificencia da cidade; nomeava os edificios, alguns longinquos, +esfumados nas primeiras sombras da noite. + +A Virgem, porém, seguia calada, sem animo de levantar os olhos, o +coração cerrado em tristeza invencivel. + +Gentes diversas cruzavam-se nas ruas: homens abaçanados do deserto, com +o albornoz ao vento, o punho esmaltado das adagas reluzindo á cinta; +phenicios cobertos de jóias, com enormes collares de contas de ouro e +braceletes de marfim; gregos ágeis passando ligeiros entre a multidão, +com a tunica colhida ao braço, as pernas enlaçadas em tiras de couro. + +Mulheres mostravam-se ás portas das casas, encostadas languidamente aos +umbraes, olhando em extase, com um sorriso nos labios côr de purpura. + +A algumas viam-se-lhes os peitos pela abertura das tunicas; outras, +reclinadas em leitos marchetados, cerravam mollemente as palpebras +gosando o frescor dos flabellos que escravas agitavam. + +Errava no ar denso um cheiro forte de aromatas. + +Estranhas musicas soavam e, como os albergues estavam cheios, era um +babariso alegre sob as frescas latadas, por entre as quaes, em +corridinha airosa, moças iam e vinham com amphoras e crateres. + +O pastor falara-lhes em uma modesta estalagem em Bezetha, para o lado do +forte, onde podiam encontrar agasalho seguro. + +A casa era dirigida por um velho de Siloeh e tinha, fama pelo seu anho +tenro e pelo seu vinho puro. Lá achariam pousada e, como ficava longe e +não recebia mulheres, não seriam incommodados pelos legionarios que, á +menor agitação, invadiam as casas brutalmente levando tudo a conto de +lança. + +Era um rancho pauperrimo, entre sebes de espinhos, onde aboletavam-se +mesteiraes e homens dos montes que traziam ao mercado favos de mel, +resinas, balsamos e raizes. + +O velho acolheu-os de boa sombra, serviu-lhes a refeição na sala lobrega +que uma candeia alumiava. + +Rusticos bebiam, jogavam e fóra, junto a um monte de pedras, um velho +resmungava raspando, com voracidade, o fundo de uma escudella. + +Era um leproso nojentamente abostellado de ulceras. + +Ás chufas dos homens, que lhe atiravam cascas, bagaços de frutas, +respondia aos regougos, bramindo maldições e, como prorompesse aos +berros, apanhando pedras para defender-se, os homens revoltaram-se. + +O hospede tranquillisou-os e, sahindo ao terreiro, poz-se a assobiar. + +Enorme cão saltou da sombra rosnando, o taverneiro açulou-o contra o +leproso que se encolhera estarrecido. + +Vendo o cão investir, Maria cahiu de joelhos, juntou as mãos frias e, +tremula, d'olhos no ceu, implorou pelo infeliz. + +O animal raivava, aos saltos; os homens vociferavam incitando-o. Alguns +riam no ante-gosto da scena cruel, mas como o leproso, tentando correr, +tropeçasse rolando na terra e ferindo o rosto no pedregulho, o cão, que +o alcançara, poz-se a ganir e, sacudindo a cauda, ficou de rastos, +lambendo mansamente o sangue que escorria da cicatriz do mendigo. + +E Maria, extactica, não via a doce misericordia que immobilisara em +espanto os hospedes do albergue. + + * * * * * + + + + +Cantico messianico + + +Ao romper d'alva quando, do lado do templo, as cegonhas partiam em +direcção ao deserto e as pombas baixavam em nuvens sobre o mercado +catando o grão que transbordava das ceiras, o patriarcha despertou Maria +e, ligeiros como foragidos, deixaram a estalagem com os votos de boa +jornada do hospedeiro. As buzinas romanas resoavam na serenidade. + +Legionarios recolhiam cançadamente a Makéros. + +Pobres, que haviam pernoitado ao relento, estremunhavam sobre farrapos. + +Num pateo, entre muros de maceria, espontado de hervas sylvestres, +mugiam bois e homens bradavam. + +Corvos rondavam os ares attrahidos pelo cheiro do sangue. + +Quando passaram as muralhas, sahindo no campo do oleiro, o sol brilhava +nas pastagens humidas e passarinhos cruzavam o vôo cantando na alegria +do sol. + +Maria caminhava d'olhos altos, como enlevada. Ineffavel sorriso +illuminava-lhe o rosto lindo, arrepios nervosos sacudiam-na de instante +a instante. + +--Lá está Bethleem! disse José estendendo o cajado na direcção dos +montes ainda enfaixados em nevoa. + +Maria empallideceu e, d'olhos fitos nos outeiros graciosos da terra de +David, rompeu, de repente, a cantar, sobre uma antiga melodia hebraica, +repetindo inspiradamente as palavras que lhe sahiam d'alma: + + +«Espirito Perfeito, ancia das almas miseras, se és Tu que em mim +assistes, bemdita seja a carne fragil em que te encerraste e de onde +deves romper, germen da Redempção, em Flor de Misericordia. + + +Espirito Perfeito, lume que de mim fizeste a Tua lampada, que o Teu +clarão espalhe-se pela terra fazendo brotar a sementeira nos campos e o +Amor no coração dos homens. + + +Espirito Perfeito, fonte de copiosas aguas bemfazejas, se é do meu seio +que vais jorrar, bemdita seja a Dôr que me lançou na vida, bemditas +sejam as lagrimas que já por Ti hei vertido. + + +Espirito Perfeito, esperança dos desanimados, se eu sou o ramo verde que +Te hei de dar, bemdita seja a afflicção de minh'alma na hora atormentada +em que, innocente, me julguei culpada e, pura, vi a suspeita manchar a +minha virgindade. + + +Espirito Perfeito, se És a Redempção annunciada, bemdigo a Tua vinda, +sem orgulho, por me haveres tomado por Teu trámite e prostro-me ante a +Tua Graça e exalto a Tua Beneficencia. + + +Espirito Perfeito, Sêr dos sêres, não nado ainda, gloria a Ti e á Tua +origem celestial. Virgem, dar-te-ei ao mundo. Eu sou como o olhar que se +não macula por transmittir ao corpo a visão. + +Por mim entras no mundo como o sol, e tudo que elle alumia, entra, pelo +olhar, no cerebro. + +Eu sou a pupilla que communica ao Universo a Claridade Magnifica. + + +Espirito Perfeito, louvado sejas sempre pela Tua Virtude e pela Tua +Excellencia. Sahes da carne mortal sem trazeres peccados: passas por +ella como uma imagem que se reflecte nagua. + + +Espirito Perfeito, Graça de Israel, Esperança das Gentes, Messias... Meu +coração alegra-se sentindo-Te e o meu coração é o captivo que almeja a +liberdade. + +Eu sou a Fraqueza humilde chamada Mulher. Sou a escrava que gera o seu +Libertador, a Sombra de onde sahe a Luz, o Peccado que floresce em +Perdão...» + + +José ouvia-a com os olhos rasos d'agua. + +As cotovias cantavam na altura luminosa. + +Longe, sob a fulguração do sol, resplandeciam os muros de Bethleem, +entre outeiros. + + * * * * * + + + + +O campo de Booz + + +Á hora cálida, abafada em que as folhas dormem e as ribeiras murmuram de +leve, vagarosas, remansando-se sob as quietas sombras, e toda aza +encolhe-se entre os ramos mais densos, e todo reptil encova-se na terra +mais humida, deram os dois num campo de farta seara onde alumiavam +foices e moças juntavam gavellas, cantando, emquanto os homens ceifavam +assustando as cotovias que tinham os seus ninhos rentes do chão, na raiz +do trigal. + +Maria, com o manto sobre a cabeça, enlevada naquella messe de ouro e na +alegria ruidosa do trabalho, ouvia as vozes que se cruzavam subindo dos +trigos altos, onde os seareiros desappareciam, como se fôsse o proprio +campo que cantasse o louvor do sol. + +Ia tão entretida que não viu José adiantar-se, direito a uma palhoça +onde um velho jazia, sentado ante um monte de vergas, tecendo um alcofe +e cantando. + +Aligeirou os passos e alcançou o esposo justamente quando elle saudava o +ancião. + +--Dizei-me a quem pertence este campo tão rico e cheio de tanta alegria? + +--A Obed, segundo deste nome, descendente de Booz, o semeador. + +--Foi, então, nesta terra que a moabita achou agasalho junto do homem +bom, que a amou? + +--Sim, foi aqui. Esta é a leira de Ephracta, a mais fertil entre as mais +abundantes e generosas. Este campo foi o leito nupcial onde se gerou a +raça robusta dos reis de Israel. + +Aqui nasceu David, tronco forte, estirpe augusta de que ha de sahir a +Immarcessivel Flor annunciada, cujo perfume encherá as almas de +ineffavel ventura. Este é o celleiro de Iaveh. E vós, vindes de longe? + +--De Nazareth, na Galiléa. + +--E ides? + +--A Bethleem. Urge que lá cheguemos antes do pôr do sol. + +--Tendes tempo. Sentai-vos um momento, é a hora da refeição. O que tenho +dá para repartir comvosco. A vossa companheira, esposa ou filha, vem +fatigada; que descance um instante á sombra, gosando a sesta. Entrareis +na cidade com a fresca da tarde. + +Aceitaram os peregrinos o convite hospitaleiro: sentaram-se e comeram do +pão molhado em mel e beberam pelo mesmo tarro o leite cheiroso. + +Ficaram os dois velhos conversando e Maria, encostando-se aos feixes de +trigo, cobriu o rosto com o manto e adormeceu. + +As moças cantavam na eira levantando medas de ouro e, sob o sol +escaldante, no alto ceu azul, as cotovias voavam e os seus gritos +abrandavam-se na distancia, esmoreciam perdidamente. + + * * * * * + + + + +Na estrada de Bethleem + + +Frio e pallido, esfumado em brumas, o crepusculo baixava na tristeza da +tarde silenciosa. + +No remonte dos cerros pedregosos, hirtas palmeiras immoveis pareciam +gravadas, em negro, no fundo dourado do occaso. Aves esvoaçavam caladas. + +Docemente, com um tremulo murmurio, fluiam pelos canaes de rega as aguas +levadias, e as vozes soturnas dos bois soltos, errando, de vagar, no +campo restolhado, soavam como gemidos. + +Os peregrinos seguiam uma vereda suave, entre debruns de anemonas. + +Maria parava de instante a instante, arfando. + +Amollecida, alquebrada, olhava com desanimo os outeiros ainda longinquos +e suspirava, sem atrever-se a dizer ao esposo o seu cançaço. + +José, porém, notou-lhe a lentidão dos passos e, amparando-a, animou-a +carinhoso: + +--Estamos a chegar. Lá apparecem as casas de Bethleem; as luzes brilham +por entre as arvores. Mais um momento e teremos repouso em alguma +estalagem. + +Ella parou, ficou a olhar o ceu nublado como a implorar alento para +chegar ao termo da viagem. + +--É um peso que me curva, murmurou em voz sumida. Sinto-me tão fraca que +não sei se poderei acompanhar-vos até as collinas de além. Toda eu +esmoreço. O meu desejo é deixar-me ficar no caminho, deitada nas hervas, +e dormir um somno grande. + +Nunca me pesou tanto o corpo, o proprio espirito pesa-me, tão carregado +está de medo e de cuidados sombrios. + +Que será de mim e d'Elle ao nascer em tão desabrigados lugares, longe de +tudo, á friagem da noite, com este vento que retalha as carnes como um +ferro mortal? + +O chiar de um carro levou-lhes a attenção para o caminho deserto. Uma +voz cantava na tristeza da tarde moribunda: + + Hervas do campo florido, + Que aroma! Que trescalar! + Bem se vê que o seu vestido + Andou por vós a roçar. + + Outeiro em flor, o teu vello, + Verde e fino, ao meu ciume + Confessa que o seu cabello + Deixou nelle o seu perfume. + +O carro appareceu acogulado de trigo, rinchando, ao passo moroso dos +bois que traziam os cornos floridos de acacias. + +José dirigiu-se ao carreiro, robusto moço, e pediu-lhe passagem para +Maria, mostrando-a, prostrada e languida, entre o rosmaninho cheiroso. + +O moço accedeu e os dois ajudaram a Virgem a subir, fizeram-lhe lugar +macio sobre as paveias louras e os bois arrancaram. + +E caminhando, José ia enlevado na esposa e o carreiro, d'aguilhada ao +hombro, olhos fitos no ceu, insistia na egloga: + + Hervas do campo florido, + Que aroma! Que trescalar + Bem se vê que o seu vestido + Andou por vós a roçar. + + * * * * * + + + + +Na caverna + + +Diante de uma trilha que se perdia no arvoredo deteve-se o carreiro e +disse: + +--Aqui me despeço, este é o meu rumo. A estrada em que estais, direita e +facil, guia-vos a Bethleem. Seja o Senhor comvosco. + +Sem esforço José tomou a Virgem nos braços, pousou-a na terra, +agradecendo ao moço a gentileza de a haver recebido no seu carro. E +elle, galantemente, respondeu: + +--Trouxe a flor viva no trigal ceifado, e, com tão geitosa resposta, +despediu-se e foi-se, aguilhada ao hombro, de vagar, á frente dos bois, +cantando, em voz apaixonada, os louvores do seu amor mimoso. + +Os dois caminharam alguns passos, Maria amparada ao esposo, lenta, +tolhida de soffrimento; mas não poude ir além da caverna e deteve-se. + +O aspero interior do antro tingia-se de laivos rubros, ao tremulo +flammejar d'uma fogueira junto á qual um velho pastor, as mãos +estendidas ao lume, cantarolava baixinho. + +Ovelhas ondulavam na sombra. + +Logo á entrada, na anfractuosidade da rocha, havia uma mangedoura. Um +jumento dormitava e, junto delle, ruminando, jazia deitada uma vacca com +o seu novilho. + +Disse José a Maria: + +--Firma-te a mim e vamos devagarinho. Havemos de achar aposento em +alguma estalagem. Ella sorriu docemente, resignada, mas os seus olhos +meigos foram para a caverna. + +O patriarcha, apiedado, adiantou-se e falou ao pastor. + +--Seja o Senhor comvosco! + +--Seja bemvindo quem chega e assim annuncia-se ao humilde. + +--Hospede na terra venho de longe e commigo, em estado que não consente +esforço, trago a minha esposa, que aqui vedes. Se permittirdes que ella +fique um momento comvosco emquanto procuro hospedagem, sempre o meu +coração vos ha de louvar. + +O velho pastor, idoso, de fartas barbas amarellecidas, longos cabellos +espalhados pelos hombros, que um melóte cobria, soergueu-se e falou: + +--A caverna não tem porta, ainda é mais franca que os templos. Entrai e +abeirai-vos do lume, que a noite começa a esfriar. + +--Ella fica, eu sigo pela pousada. Maria, timida, entrou. Logo o pastor +acamou as palhas, alargando um leito fofo e, vendo-a recostar-se, voltou +ao seu lume e ao canto com que se entretinha. + +E o patriarcha partiu. + +Ainda que não conhecesse a cidade, tanta era a gente que se movia nas +ruas, que não lhe foi difficil, perguntando, encaminhar-se a uma estalagem. + +Logo á entrada, sob o vasto alpendre, viu altas pilhas de fardos e, em +torno, estendidos em pelles, mercadores e recoveiros. + +O hospede, mostrando-lhe o transbordo da casa, disse: + +--São homens que se aboletam ao relento, por falta de commodos. +Difficilmente encontrareis quem vos receba, porque as festas attrahiram +grande mó de estrangeiros e as feiras trazem das cercanias todos os +lavradores. Guie-vos o Senhor. E José proseguiu. + +Nas viellas e alfurjas havia turbas cantando e bailando em volta de +fogueiras. + +Debalde o ancião entrava nas estalagens; as proprias choupanas recebiam +hospedes e, pelas collinas, entre fogos, clareavam tendas. Errou até +tarde sem exito. + +Já o silencio annunciava hora alta quando, quebrado de fadiga, +retrocedeu pelas betesgas desertas, ao latido dos cães errantes, em rumo +á caverna. + +Avistou-a de longe, alumiada por um clarão de luar, e, como levantasse +os olhos demandando o astro, deu com um anjo deslumbrante que, abrindo +azas largas, diaphanas, feitas como de nevoa e luz, ia e vinha no +espaço, rondando a noite. + +Entrou. O velho pastor velava diante das brazas vividas e, entre +ovelhas, sobre a palha loura, a Virgem dormia serena. + + * * * * * + + + + +Natal + + +O esplendor é mais impenetravel que a treva e foi uma muralha fulgurante +que encobriu Maria quando se realisou a prophecia do Bem. + +Na hora em que os gallos cantaram a primeira vez subito clarão +resplandeceu no fundo da caverna. A luz foi tanta, tão intensa que +atravessou o somno em que jaziam o patriarcha e o pastor. + +José soergueu-se d'impeto, firmando-se nas mãos, offuscado pela +claridade vivida que irradiava em stalactites de um brilho augusto, +mudando em rutilos diamantes todas as pedras brutas e fazendo do aspero +sólo, eriçado em pedrouços, uma área esplendida como se fosse embutida +de gemmas lapidadas. + +O pastor, attonito, deslumbrado, arrastava-se tacteando e a caverna, a +mais e mais aclarada, parecia toda uma chamma alva como se um luar +maravilhoso a enchesse magnificamente. + +Os dois homens, atordoados, não falavam--estendiam as mãos e os seus +dedos chammejavam como raios d'astros e da luminosidade desprendia-se um +perfume, novo na terra, aroma celestial que enlevava como um encantamento. + +Além da caverna a noite negrejava calada e erma de estrellas. Poude o +pastor arrastar-se até o limiar e o seu corpo, esgueirando-se, refulgia +como o de uma salamandra. + +Tremulo, chegou á entrada, respirando, a largos sorvos, o ar frio que +vinha dos outeiros. Levantou o olhar e recuou espavorido. + +Escada altissima, de scintillantes degraus, ligava o cimo do outeiro ao +ceu aberto em radiante pórtico e anjos desciam, tantos que pareciam uma +catadupa que se despenhava espumejando iriada de sol, com scintillações +de pedrarias. + +Não poude olhar e, rojando-se, com a face na terra, ouvia o murmurio das +azas. + +Não disse palavra, immovel, tolhido de assombro, sentindo a +transfiguração da noite. + +José conseguiu levantar-se e caminhou lentamente atravez do esplendor. + +Maria appareceu-lhe entre as mansas ovelhas que, reunidas, bafejavam as +palhas onde um pequenino infante, as mãosinhas na boca, os olhos +candidos abertos, parecia contemplar a Virgem que sobre Elle inclinava-se. + +Olhou-a, fitou no tenro corpo os olhos e viu que o cercavam tres figuras +de incomparavel belleza. + +Uma, as mãos diaphanas cruzadas sobre o peito, os olhos baixos, +concentrada, rezava. Outra, d'olhos enlevados, com uma palma verde na +mão debil, sorria. A terceira, de joelhos, aquecia com o halito, +envolvendo-o nos seus longos cabellos louros, o corpo recem-nado. + +Por onde teriam entrado os tres seres? Que anjos seriam? Não os poude +reconhecer o patriarcha, mas chegando-se á Virgem tomou-lhe a mão e +beijou-a. + +Ella mostrou-lhe o Filho com uma ternura tão meiga que o sorriso não +poude por si só exprimil-a e lagrimas correram. + +Assim deram os olhos, d'uma só vez, todos os seus thesouros: o brilho do +olhar e os diamantes da meiguice, essa humildade do amor. + +Pouco a pouco foi-se a luz extinguindo, a sombra retomou a caverna. + +As Virgens desappareceram e Maria, acolhendo o pequenino nos braços, +chegou-o ao collo, aqueceu-o, afagou-o. + +Foi mãi antes de ser serva. Só depois de o beijar estremecidamente ouviu +as vozes que atroavam a noite: + +«Gloria a Deus nas Alturas, Paz aos homens na terra de bôa vontade.» + +Occorreram-lhe as palavras do anjo. Lembrou-se, então, que o Sêr nascido +do seu seio era o Deus da Promessa. + +Deitou-o delicadamente nas palhas e ajoelhou-se adorando-o. + +José, afastado do grupo, prestava culto á Virgem e ao Infante e o ceu, +pela voz dos Espiritos eleitos, saudava o Natal messianico, apregoando a +vinda do Filho do Homem, portador da Piedade. + +Ergueu-se o pastor, olhou o ceu e, ouvindo os anjos, sahiu a correr +bradando inspiradamente a Bôa Nova. + +E os gallos puzeram-se a cantar annunciando a maior e a mais bella +madrugada do mundo. + + * * * * * + + + + +As tres virgens + + +Quando o Menino adormeceu José, aproximando-se de Maria, perguntou-lhe +baixinho: «Se vira as tres virgens que cercavam o Infante ungindo-o de +luz?» A Immaculada respondeu no mesmo tom discreto: + +--Logo que sahiu do somno, ainda antes de vêr meu filho, dei com ellas, +immoveis, aclarando toda a caverna, de joelhos em torno do Recem-nascido. + +Não falavam. Não sei quem são. + +Desappareceram de repente como as estrellas desapparecem. + +--Seriam anjos? Uma serena voz, sahindo das pedras, falou no silencio: + +--A primeira é toda a Crença do Homem: é a Virtude que leva a Alma á +presença do Altissimo. + +Antes da vinda do Messias era a nevoa indecisa que resplandecia e +obumbrava-se; agora é a Luz pura e perenne, a luz viva que guia ao +Paraiso atravez de todos os abrolhos, por meio dos mais árduos +soffrimentos, vencendo as mais perversas tentações, sempre direita, +inflexivel e segura. É a Fé. + +O seu olhar não se desvia, a sua linguagem é a prece, a sua confiança é +Deus. É a mais forte das tres. A segunda é uma consoladora. Parece um +reflexo da primeira: É a Esperança. + +Veste-se de illusões, recama-se de sonhos para distrahir a Alma, +livrando-a do desespero. É como o ramo verde que se inclina á borda dos +abysmos. É a divina miragem que, atravez das agruras da vida, reanima o +coração combalido, creando perspectivas venturosas. + +Só, é uma encantadora que vive a inventar maravilhas, ligada á Fé é a +precursora que desbrava o caminho para a travessia da alma. + +Sem ella a miseria seria um flagello, a dôr seria intoleravel. É uma +força feita de sonho. Isolada é a fantasia. + +A terceira é o Amor, é a lagrima que se converte em misericordia, é a +bondade omnipotente, a meiguice que salva, a resignação que remitte, a +paciencia que conforta, a lan que agasalha, o linho que estanca o +sangue, o lume que aquece. + +É o conjuncto amoroso de todas as beneficencias--a Caridade. + +São as tres irmans que acompanham o Messias. + +Elle tomou-as ao paganismo e converteu-as transmittindo-lhes a sua +essencia. + +Eram as Karites, são as Virtudes. Fôram as Graças, são as beneficiadoras. + +Com ellas Jesus fará a redempção do Homem. + +Para combater o mal, podendo trazer as legiões adamantinas, trouxe as +humildades. + +Calou-se a voz e os dois olharam-se maravilhados. + +--Não ouviste falar? + +--Sim, meu senhor, falaram. As ovelhas estavam de pé e olhavam, como se +tambem procurassem o mysterioso, interlocutor. + +Mas o Menino agitou-se no leito palhiço, estendeu os bracinhos e chorou. + +Presto, Maria tomou-o ao collo, aconchegou-o cobrindo-o com o manto. + +--Deve ser frio, disse José. + +--Fome, talvez, disse Maria, anciosa por dar o peito farto ao pequenino +Filho. + + * * * * * + + + + +O primeiro leite + + +Á primeira sucção da boca da criança Maria estremeceu, sentindo uma dôr +aguda, como se um punhal lhe houvesse atravessado o seio. Longe, porém, +de fugir com o peito dolorido, inclinou o busto, dando-se toda ao +sublime martyrio, com a alma a brilhar nos olhos que a dôr orvalhara de +lagrimas. + +Ávido, o infante sugava, cavando as bochechas e o leite, afluindo, +rasgava passagens como a torrente que se despenha da altura vincando a +terra e arrastando o que se lhe antolha á levada. + +O Divino alimentava-se do soffrimento humano e naquellas opalinas gottas +de leite--sangue e agua fundidos em candura--o ceu commungava na terra. + +A Carne mortal nutria o Espirito Perenne, o ephemero transfundia-se no +Eterno: as duas collinas alvas tocavam o Infinito, que era a boca de +Jesus, de onde deviam jorrar, em caudaes, as leis santas, os sabios +julgamentos, a benção e o perdão. + +A Virgem sorria e o seu collo turgido ondulava de ventura, em quanto o +patriarcha, ajoelhado, contemplava o grupo, aureolado pelo clarão da +fogueira, cuja chamma resurgira ao sopro da brisa nocturna. + +Fóra resoavam canticos; vozes, sons de harpas enchiam o espaço. + +Por vezes um clarão relampejava diante da gruta á esplendida passagem +rapida de um anjo. + +Maria, inclinada sobre o Filho, só a elle sentia, ouvindo apenas o lento +gorgulhar do leite que elle sugava soffrego. + +Todo o mundo ali estava nos seus braços: a terra com os seus vergeis +floridos, o ceu com as suas estrellas fulgidas. + +Que lhe importava a aurora se na pennugem loura que seus dedos afagavam +na cabecinha do filho, ella via o esplendor maior que podem contemplar +olhos de mãi! + +Que lhe importavam os anjos se, no fundo luminoso das pupillas da +criança, via dois pequeninos seraphins alegres? + +Que lhe importava a immensa alegria universal, se o seu coração +transbordava de felicidade com aquelle amor! + +Levantou-se um alarido fóra, na estrada obscura. José sahiu ao limiar. + +Um bando de homens corria em tropel em direcção ao abrigo agreste. Á +frente delles, voando e alumiando-lhes o caminho com o esplendor das +azas, um anjo estendia o braço mostrando a caverna. Outros cruzavam +longe, em enxames claros. + +No cimo dos cerros grupos resplandeciam. + +Subito uma grita atroou o silencio: + + «Hosannah! Hosannah!» + +O pequeno adormeceu docemente com a boca collada ao peito materno. Maria +beijou-o e, inclinada, quedou em enlevo. + + «Hosannah! Hosannah!» + +bradavam fora. Ella sobresaltou-se e, chamando o esposo, perguntou: + +--Quem clama assim, meu senhor? + +--Pastores. Guia-os um anjo. Vêm adorar o Infante. E ella, cuidadosa: + +--Comtanto que o não despertem... E aconchegou-o ao collo agasalhando-o +junto do coração. + + * * * * * + + + + +Adoração dos pastores + + +Tumultuosamente os pastores chegaram á caverna e o velho, dono do +rebanho, que acolhera o casal no seu tugurio, adiantou-se ao grupo e +falou ao patriarcha: + +--Deixai-nos vêr e adorar o Deus vivo. Já o tinha por tal e quando sahi +para a noite, com os olhos offuscados, fui bradando no silencio a Bôa Nova. + +Os homens que dormiam nas choças, as ovelhas que se apertavam nos +apriscos, as mesmas arvores sem folhas, as mesmas pedras sem vida +estremeceram á minha voz pregoeira. + +Eu levava na boca uma palavra que estrondava. O que eu dizia aos que me +ficavam perto retumbava como o som da buzina que vai de quebrada em +quebrada ou como o trovão tempestuoso que se ouve em todos os pontos: na +planicie e no valle, na montanha e na furna. + +De mim sahia a annunciação e, certo, a minha palavra ainda vai pelos +ares viva, levando ás póvoas mais remotas a venturosa noticia. + +O que eu dizia na terra anjos repetiam nos ares. Os espiritos celestiaes +fizeram-se meus echos e ainda clamam batendo as azas, tangendo lyras que +sôam docemente. + +Não havia uma estrella e todas agora reluzem; astros nunca vistos +brilham no fundo ceu. + +Não havia folha em ramo e as arvores estão todas cobertas e cantam +festivamente passarinhos nas montas. + +O outono vestiu-se com as galas da Primavera. + +Só um Deus faria prodigios taes. + +Deixai-nos vêr e adorar o Deus vivo. + +Os pastores brandiram os cajados bradando, de novo: + + «Hosannah! Hosannah!» + +E, como José se afastasse dando-lhes passagem, precipitaram-se +tumultuosamente e, ajoelhando-se, adoraram o Divino Infante. + +Todos levavam dádivas campestres: este um anho, de vello fino, a boca +rescendendo a leite; outro um casal de rolas; esse, um favo de mel, +aquelle uma lan sedosa e, cada qual, offertando o seu presente, pedia, +em oração intima, a graça do Menino Deus. + +Maria olhava receiosa aquelles homens rudes que cercavam seu Filho. Como +eram muitos os mais velhos levantavam nos braços os pequenos para que +vissem o Recem-nado e diziam-lhes: «Pede!» + +As crianças, sorrindo, pediam pelo gado e pelas fontes: que ovelha +alguma morresse, que nunca as aguas seccassem. + +Um pequenito, sentado no hombro de um agigantado pegureiro, olhava +pensativo e calado. + +«Pede!» disse-lhe o homem. + +--Se Elle fosse Deus... murmurou a criança, e uma lagrima rolou dos +lindos olhos infantis. Os outros adoravam e, no silencio, ouvia-se +apenas, de quando em quando, um timido balido. + +Repentina, triumphante, uma voz bradou á entrada da caverna: + +--Gloria a Deus Salvador! O pastorinho estremeceu no hombro do +pegureiro, voltou a cabeça e viu uma andrajosa mulher livida, macilenta, +que estendia os braços magros procurando abrir passagem na multidão +reverente. + +Reconheceu-a e, desprendendo-se dos braços que o mantinham, correu ao +seu encontro e, lançando-lhe os braços á cinta, disse commovido: + +--Fui eu, mãi, que Lhe pedi. É Deus! Entra e adora-o. Dorme nas palhas. + +Os pastores, reconhecendo a entrevada que vivia a gemer, encolhida num +estrame, recuaram pasmados e ella, tremendo como se estivesse de pé +sobre uma lapide de neve, perguntou ao filho que a contemplava: + +--E tu, tão pobresinho! que lhe deste, meu filho? + +--Uma lagrima, minha mãi... e foi tudo que lhe pude dar. + + * * * * * + + + + +Dôr + + +Tomando a urna, ao clarear d'alva, quando o velho pastor sahia com o +rebanho, José acompanhou-o para que elle o guiasse á fonte. + +Logo que os dois homens desappareceram as hervas que ourelavam a caverna +cresceram prodigiosamente, emmaranhando-se em tapigo que encobriu a +entrada. + +A Virgem, de instante a instante, abria os olhos e, soerguendo-se, +ficava em extase contemplando o Filho, cujo halito débil cheirava +docemente a leite. + +Posto que apenas tivesse horas já ella lhe havia descoberto todos os +encantos e se lh'o arrebatassem dos braços, confundindo-o com mil +crianças, reconhecel-o-ia sem trabalho, tanto o tinha nos olhos e no +coração gravado. + +Olhava-o quando o sentiu mover-se, contorcendo-se. Num tremor de +sobresalto enrijou os bracinhos, bateu as palhas com os pés rosados e +rompeu num choro forte que repercutia no interior como se as pedras +chorassem com elle, commovidas. + +Tomou-o Maria ao collo, acalentando-o ao calor do seio. Falava-lhe com +ternura, interrogava-o, chamava-o e, sem poder allivial-o, poz-se a +chorar afflicta e, sobre a divina face as suas lagrimas cahiam gotta a +gotta como o orvalho cahe das folhas sacudidas pelo vento. + +Ai! d'ella, como se julgava culpada e infeliz vendo soffrer o pequenino +amor, tão novo, tão innocente, tão sem culpa e já supportando as +torturas herdadas da carne. + +Começava a Divindade a visitar o soffrimento: a peregrinação de Deus +atravez da Agonia annunciava-se pelo primeiro choro. + +Elle havia de conhecer todas as Dôres, todas as Angustias para poder +julgal-as alliviando o Homem, cuja redempção trazia. + +Tenro, mal pousado na vida, já estrebuchava doridamente. E começava +apenas--era a iniciação. + +Outros maiores tormentos formavam a phalange suppliciante, a alameda +tragica da existencia, onde a alegria é como o nimbo solar que passa +difficilmente por entre as frondes compactas. + +Que fazer? Deu-lhe o peito. Poz-se o Infante a mamar vagindo, +estremecendo e ella, relanceando em torno os olhos humidos e afflictos, +implorava o mysterio. + +Tudo era silencio em volta, ninguem que a soccorresse. E os anjos? Já +haviam regressado ao ceu. + +O Infante ficara entregue ao seu piedoso voto. Deus entrava +desacompanhado no mundo, ser como os demais seres, homem como os outros +homens, integrando-se na Humanidade. + +Só lhe valeram os carinhos de Maria: o calor do collo, o enlace amoroso +dos braços, os beijos repetidos foram, pouco a pouco, alliviando-o e, de +novo, adormeceu tranquillo, não mais sobre a palha loura, mas +aconchegado ao seio, ninado pelas palpitações do coração materno. + + * * * * * + + + + +Receio + + +Fino raio de sol insinuando-se na caverna pousou na palha abrindo um aro +de ouro em torno da cabeça do Infante adormecido. + +Todas as aves chilreavam, garrulas moças passavam na estrada; ás vezes +eram récuas de dromedarios desfilando em ruidoso atropello. + +Maria prestava attenção ao rumor, receiando pelo Filho. Tomou-o muito ao +seio e, quasi de rastos, aprofundou-se na sombra escondendo o seu +thesouro com amorosa avareza. + +Tão lindo! quem o não desejaria! E se um d'aquelles homens, +descobrindo-o, investisse para arrebatal-o, quem o defenderia? + +Na treva ficava a coberto de todos os olhares. + +No fundo da caverna lentejava tristemente uma mina e a cada gotta do +estellicidio respondia um som lacrimoso. + +O ar era frio e humido, as paredes luziam lutulentas e, fóra, o sol +brilhava, alegre e tepido, em fitas, em nimbos de ouro, lampejando nas +arestas agudas da abobada escabrosa. + +Quando José reappareceu--a herva da entrada subitamente esmarriu--vendo +deserta a palha, estacou, olhando espantado, com apprehensões de desgraça. + +Que seria feito delles? Caminhou alguns passos. O coração batia-lhe, +tremia-lhe a urna ao hombro. Maria, reconhecendo-o, falou do seu +esconderijo: + +--Aqui, meu senhor. O patriarcha adiantou-se e, sentindo a friagem do +sitio, ouvindo o triste gottejar na lage, perguntou: + +--Porque buscaste tão obscura jazida onde o ar regela e a luz não chega? +Lá fóra ha um calor macio e sente-se o aroma das hervas vivas, ouvem-se +as vozes alegres. Aqui ha o silencio e a melancolica espessidão dos +tumulos. + +--Eu estava só, meu senhor e o coração, dantes tão animoso, é agora tão +timido que eu viveria, de boa mente, num subterraneo só para que olhos +maus não fitassem meu filho nem o invejassem adoentando-o. + +Não sei que voz me fala dentro do coração pedindo-me que o defenda. +Ouço-a a todo instante. + +Dizem-me os anjos que Elle é Deus... Não me passaram despercebidos os +prodigios da noite: tudo vi, tudo ouvi, mas minh'alma ordena-me que o +resguarde, que o não perca de vista, que sempre o traga acautelado, +talvez porque é pequenino e fraco. + +Não sei se pecco com a presumpção de defender quem é omnipotente, mas +como hei de lutar contra mim? + +--Mas se o ceu nos diz e prova que Elle é o Filho de Deus porque has de +receiar os homens? + +--É o coração que receia. + +--E entre o que diz o coração e o que affirmam os anjos hesitas, Maria? + +--Senhor, os anjos falam pelo Ceu, o coração fala pelo meu amor. Se Deus +acha-me rebelde, curvo-me ao seu castigo. + +E, humildemente, ajoelhou-se ante o berço. + +Jesus, abrindo os olhos claros, profundos, fitou-os nella e, como se lhe +quizesse responder, sorriu. + + * * * * * + + + + +O somno + + +Maria mal humedeceu os labios á borda do tarro de leite de ovelha que o +pastor ordenhara antes de partir. Cuidados traziam-na apprehensiva. Se o +filho estremecia sobresaltava-se-lhe o coração, se o via immovel, +dormindo, temia que houvesse morrido e logo, anciosamente, afagando-o, +chamando-o, despertava-o. + +--Deixa-o dormir, disse-lhe o patriarcha, o somno é necessario á vida, é +a sombra em que a alma repousa. + +O espirito das crianças refugia-se no somno como o dos velhinhos--o +primeiro porque d'elle sahiu e ainda o tem por ninho; o segundo porque o +procura como abrigo. Não o despertes, deixa-o dormir. + +--É que me parece estar morto. Não faz o mais leve movimento e, quando +elle assim fica, meu coração pára retransido. + +--É a serenidade. Só o somno dos maus transmitte ao corpo a convulsão do +pesadello. + +O somno é uma visita á morte: os innocentes fazem-na sorrindo, os +peccadores fazem-na espavoridos. + +Não receies que Elle passe tão cedo á Eternidade de onde veiu. Ainda que +não trouxesse a missão que o fez baixar ao mundo, fosse Elle tão da +terra como o filho da zagala dos montes, não o deverias tirar do repouso. + +Não desenterras a semente por não a veres á flor do solo, deixas que +ella venha a flux e rebente, abra o renovo e cresça. + +O somno é uma incubação. Porque não sonha? porque não tem impressões. O +sonho é como um reflexo em que ha echo, é a reproducção confusa da vida +com a repercução indistincta das vozes e dos ruidos. + +Ha quem veja presagios no sonho como o nómade vê realidades na miragem. + +Com que ha de sonhar quem não tem consciencia da vida? Deixa-o dormir. + +É á noite que a floresta cresce e a criança é como a arvore. + +O luar é manso, é uma luz silenciosa de vigilia, uma tunica diaphana +sobre a treva--não desperta. As estrellas são meigas porque a noite deve +ser tranquilla para que a Natureza descance. Peixa-o dormir. + +Conserva-te immovel e calada, não perturbes a vida mysteriosa. Demais, +Elle é o Eterno. A Morte passa por Elle como a lamina de uma espada por +um raio de sol. Deixa-o dormir. + +Bem sei que o egoismo das mãis chega a insurgir-se contra as leis de +Deus; não te insurjas tu, que O geraste. Elle precisa rever a Humanidade +entrando na Vida e gozando, sahindo, talvez, pela Morte com soffrimento. + +--Meu senhor! exclamou a Virgem estendendo as mãos, commovida. + +--São palavras, Maria. Ai! de mim, quem sou eu para pronunciar oraculos +sobre Aquelle que tem o destino da Vida na sua mão direita! + +São palavras que digo. Deixa-o dormir. + + * * * * * + + + + +Palavras de Maria + + +Como eu agora comprehendo que se viva escravisada a um sorriso! + +Quando tenho meu filho ao collo, nutrindo-se do meu sangue, que deixa a +côr da purpura e veste-se de branco para não macular os labios +innocentes, toda a minha vida nelle se concentra. + +A Felicidade e a Desgraça sentam-se junto de mim, sinto-as no +contentamento que me alvoroça e nos presagios estranhos que me occorrem. + +É preciso ser mãi, ter gerado para conhecer o verdadeiro amor. + +A alma sahe-me do corpo e fica junto do Infante. Se me arredo um momento +sinto-me logo attrahida como por uma pesada corrente que se me prende ao +coração. E tanto o contemplo, tanto! que fico com elle dentro dos olhos +como quem fita um objecto ao sol e depois o vê em toda parte, ainda na +treva mais densa. + +Dantes, quando as mãis falavam-me de seus filhos, sempre eu as achava +exaggeradas nos louvores. Que diriam de mim as que agora me ouvissem! + +O meu desejo era não ter na boca outras palavras senão estas: «Meu +filho!» São as que o coração inspira-me, são as que me agradam ouvir. + +Ellas fazem um gyro alegre como um casal de passarinhos brincando. +Sahem-me dos labios, entram-me pelos ouvidos cantando, circulam o meu +coração e tornam á boca. + +Meu filho! E não ha todo um mundo de amor dentro d'ellas? Que mais é +preciso para a ventura? + +Quando as suas palpebras descerram-se inclino-me e busco vêr nas suas +pupillas--que são agora os meus espelhos--o que ellas contêm. + +Fico tão perto que ellas só a mim reproduzem. + +Do mais tenho ciume, nem quero que seus olhos tenham outros habitantes. + +Quando Elle estremece, tremo. Quando Elle sorri é tão grande a minha +alegria que fico num atordoamento desvairado, sem saber que faça, e +choro e rio. + +Ai! de mim quando Elle chora. + +Não tendes notado que sou agora como uma faminta perdida que não se +sacia de alimento? + +Não é que tenha fome, não; mas penso n'Elle e, como é preciso que Elle +encontre sempre farto o peito em que se nutre, transformo-me em celleiro. + +Dormir, nem sei se durmo, porque ao mais leve movimento que Elle faça +surprehendo-me a mim mesma achando-me a seu lado, agasalhando-o, +afagando-o, procurando readormecel-o ou acalentando-o, se chora. + +Eu não era assim amorosa, meu senhor. Agora que o tenho não parece que +vivo no mundo, só d'Elle me lembro. Onde Elle está ahi é que me apraz +viver. + +O seu berço é um oasis em immenso deserto. + +Dizeis, ás vezes, que me distraio porque não vos respondo de prompto. +Não é distracção, é que a alma está junto d'Elle--o corpo fica vasio +como uma casa fechada cujo dono trabalha na seara. + +Dissestes uma vez: «As mãis adivinham.» Como conheceis o coração materno! + +E ha mãis que ficam no mundo quando lhes morre o filho. Como se podem +guiar na vida? Como podem caminhar sem arrimo? Como podem vêr sem luz? +Como não sossobram no pranto? Eu... + +--Porque choras, Maria? + +--Porque sou feliz, meu senhor... + + * * * * * + + + + +As duas mãis + + +Junto a uma velha figueira, que ficava a dois passos da caverna, onde a +estrada, bifurcando-se, dava uma sinuosa trilha para os montes e um +caminho direito para os campos, sentara-se Maria com Jesus ao collo, +gozando o frescor da manhan serena e vendo os pombos revoarem, com +rumoroso ruflo d'azas, passando, repassando em torno. + +José descera á fonte. + +Zagalejos passavam soprando frautas e o sol, accendendo as camarinhas do +orvalho, fazia da paizagem uma extensa scintillação. + +A Virgem entretinha-se, enlevada no pequenito que acompanhava a ronda +aligera das aves, quando uma pallida mulher, andrajosa e descalça, os +cabellos desgrenhados, os olhos fundos, a caveira estalando a pelle +secca, appareceu no caminho, tão lenta e com tão alto e angustioso +arquejo que foi por elle que Maria sentiu a aproximação da infeliz. + +Era ainda moça, conservava na miseria um resto de emmurchecida belleza. + +Os olhos negros ardiam febris como dois carvões em que faiscassem +fagulhas; as rosas das faces haviam amarellecido, os labios, reseccados +e lividos, estalavam em fendas como golpes. + +Trazia nos braços, envolta em grosseiras faixas, uma criança que vagia. + +Diante da Virgem deteve-se. Arrasaram-se-lhe os olhos d'agua e, parada, +tremendo, estendeu a mão magra, a pedir. + +Maria encarou-a compadecida e, como não possuisse moeda, não respondeu á +infeliz, alanceada de pena. E a mulher soluçou: + +--Não é por mim que peço, é por elle. Tenho-o, desde hontem, ao seio, +bebendo sangue--não é um peito que lhe dou, mas uma ferida. A boca do +pobresinho está da côr da anemona. + +Não lamentaria a dôr com que a sua fome me apunhala se o visse saciado, +mas o sangue não farta e, ainda que eu lhe não recuse o que me resta de +vida, sinto-o enfraquecer a mais e mais. + +Já não chóra, nem abre os olhos, começa a agonisar, como a planta que o +sol mirra na terra adusta. + +Dai-me o bastante para que elle viva um dia, só emquanto eu viva. Que +elle morra depois de mim para que eu o receba na morte. + +Maria fez lugar junto á figueira para a enferma e, entregando-lhe Jesus, +tomou o pequenino moribundo. Poz-lhe na boca o peito turgido e logo o +sentiu sugar avidamente. + +A misera mulher embalava o divino Infante, apertava-O ao collo com medo +de que chorasse e interrompesse a esmola que seu filho recebia. + +Tão enlevada estava vendo o seu penhor mamar que nem sentiu que os seus +peitos, junto aos quaes Jesus agasalhava-se, enchiam-se, apojavam-se. E +toda ella refazia-se: a carne renovava-se-lhe robusta, voltava-lhe a côr +ao rosto. + +Satisfeita, a criança adormeceu ao collo de Maria e da boquinha +entreaberta escorreu, rolou na terra uma gotta de leite, cahindo, como +uma pérola, na raiz da figueira. + +As duas mãis olharam-se caladas por que as crianças dormiam. +Trocaram-nas tomando, cada qual, a que lhe pertencia e a miseravel, +agradecendo a esmola, foi-se por entre as margaridas do caminho. + +Perdeu-se no meio das arvores, reappareceu no lançante do cerro. + +De repente, já no cimo, envolta em luz, estacou derreando a cabeça como +para olhar o ceu em pleno e subito, lançando os braços, tombou sobre os +joelhos. + +Dera, sem duvida, pelos peitos cheios. + +Maria, para seguil-a com o olhar, levantou-se e, como se apoiasse á +figueira, uma folha cahiu. Sentindo os dedos humidos mirou-os--estavam +molhados de leite. + +D'onde proviria? da fina haste da figueira de onde se destacara a folha. + +A arvore sorvera a gotta de leite que rolara da boca do pobresinho e +sempre a verte mostrando-a aos incredulos, mal se lhe arranca uma folha +ou se lhe golpeia um galho, como uma prova da misericordia suave. + + * * * * * + + + + +A estrella + + +Ao declinar do sol, quando cessava toda a alegria rural e, quietos, em +magotes brancos, os rebanhos desciam das pasturas e o canto das aves +morria em estrebilhos tristes, José, á entrada da caverna, as mãos +cruzadas sobre o cajado, contemplava o ceu macio, barrado de ouro no +occidente, onde os outeiros pareciam arder como altas pyras sobre as +quaes flammejasse um lume votivo. + +Um molle, languido quebranto prostrava a natureza. + +As arvores espreguiçavam-se em movimentos morosos; raros passaros +aligeiravam o vôo atravessando a luz vesperal. + +Nas quebradas sombrias crescia a voz das aguas borbulhantes, saltando, +escachoando de pedra em pedra até fluirem mansas sob as pendidas ramas +que pareciam tremer de frio. + +Longe, na cidade, resoava o tumulto humano. + +Grossos rolos de fumo negro subiam aos ares, fundiam-se, dissipavam-se +e, á medida que a noite conquistava a paizagem, apontavam pequeninas +estrellas esmaltando o ceu. + +A voz de Maria no fundo da caverna entoava suavemente. Era o +encantamento maternal, a mimosa cantilena com que Jesus adormecia. + +O patriarcha, recolhido em pensamento, olhava, e, como se voltasse para +o lado do oriente obscuro, viu um como fulgido alfange chammejando na +treva. + +Tremeu e, fitando o olhar na estranha apparição, notou que avançava no +ceu vagarosamente. + +Era uma estrella enorme, de brilho coruscante, que parecia haver +atravessasado a teia da Via Lactea, tendo della trazido um rutilo +farrapo que a seguia atravez do espaço. + +O astro subia em marcha grave e as demais estrellas esmoreciam á sua +passagem como se se retrahissem timidas. + +Pelos caminhos, pelos outeiros homens, mulheres paravam attonitos +olhando o prodigio. + +Alguns, atemorisados, invocavam deuses, rojando-se por terra; outros +fugiam aterrados; crianças choravam espavoridas. + +E quando a noite negrejou fechada, o astro, com a flammejante cauda +aberta, pairou no ceu, sobre a caverna, como uma palma de luz que +assignalasse o berço do Messias. + + * * * * * + + + + +Epiphania + + +Pastores, que faziam a vigilia no campo, contemplavam embevecidamente a +estrella maravilhosa, quando ouviram cantares e rumorosa estropeada como +se festiva e densa turba viesse pela encosta do cerro mais alto. + +Ergueram-se estranhando a caravana e viram romper, á luz de archotes, +cujo clarão tingia sanguineamente a noite, um cortejo brilhante e desusado. + +Os animaes pareciam ajaezados de ouro, com recamos de pedrarias, tamanho +era o fulgor que irradiavam nos cabeios ardegos em que vinham. + +Onagros, tangidos por negros, trotavam sacolejando fardos e tres +dromedarios enxairelados caminhavam entre lanças garbosamente empunhadas +por cavalleiros robustos. + +Tamborinos e anafis soavam em concerto, regulando o rythmo da marcha; +vozes bradavam e a turba descia assustando as ovelhas e os grandes bois +que trasmalhavam mettendo-se pelos mattos. + +Os cães de guarda, attentos, d'orelhas fitas, conservavam-se silenciosos +como se reconhecessem os chegadiços. + +Por vezes as lanças chocavam-se, tinindo, e cerrada, na claridade fulva +dos archotes, a caravana aproximava-se. + +Na planicie, ao rouco estrugir de uma buzina, estacou em ordem. + +Ligeiramente, destros e açodados negros desfizeram grandes rolos, +fincaram cepos e, em pouco, tendas retesaram-se. + +Os animaes, alliviados da carga, deitavam-se na herva fresca, +espojavam-se contentes e, em volta das tendas, como uma sebe de guerra, +os cavalleiros cravaram as lanças pelos cantos ficando os ferros luzindo +como estrellas. + +Os pastores, esgueirando-se na sombra, procuravam chegar ao acampamento +para vêr de perto os chefes da hoste que com tanta grandeza se movia. + +Um d'elles, mais ousado, foi descoberto por um grande negro que trazia +ás costas, suspenso d'uma corrente, um dardo de ferro. + +Sem tempo de fugir cahiu em poder do vigia que logo o conduziu á tenda +mais sumptuosa, toda alfaiada de seda e purpura e nublada de aromatas. + +Lampadarios de ouro illuminavam-na. A herva desapparecia sob tapetes +altos, escudos lampejavam e, como o negro o impellisse, viu-se o pastor +na presença de tres homens ricamente paramentados, com fotas na cabeça +rutilantes de gemmas. + +Eram magos das terras remotas. + +Um alvo, a barba negra e farta espalhada no peito scintillante de +pedrarias; outro da côr amarellada dos filhos das extremas da Asia; o +terceiro negro, com immensas camandulas de ouro em volta do pescoço, +braceletes nos punhos, argolas nas orelhas e na fronte alta, preso por +um nastro, um diamante que coruscava. + +O pastor ajoelhou-se e, medroso, esperava ouvir palavras severas, quando +um dos homens tranquillisadoramente perguntou: + +--Se sabia em que paço, por ali perto, nascera o rei dos judeus. O +rustico, sem entender a pergunta, ficou arvoado, imaginando-se victima +de uma zombaria. Lembrando-se, porém, dos anjos e de todos os prodigios +da noite messianica, respondeu vagamente: + +--Perto d'aqui nasceu--e os ceus festejaram o seu natal--um menino, +filho de pobres, vindos de terras longinquas. Ainda lá está no mesmo +tugurio, ao collo da mãi, que é uma linda moça, sob a guarda de um +ancião veneravel. É bem perto d'aqui, na caverna do outeiro sobre o qual +paira e brilha a estrella alada que appareceu no ceu. + +Levantaram-se os tres homens--o pastor sahiu da tenda e, estendendo o +braço na direcção do outeiro, disse: + +--É ali, sob a estrella. + +--Deve ser, disse o negro. E os dois outros concordaram. E, despedindo o +pastor com uma bolsa de moedas de ouro, ficaram de pé, em silencio, +contemplando adorativamente a estrella que resplandecia. + + * * * * * + + + + +Adoração dos magos + + +Ao dealbar tronaram as buzinas e a caravana moveu-se em direcção á caverna. + +A grande estrella ainda luzia no ceu. + +Os magos seguiam á frente nos dromedarios e, em torno delles, nitriam, +caracolavam os ginetes dos cavalleiros com os seus telizes dourados, os +seus caparações de purpura. + +Quando a turba defrontou com a caverna todos os homens apearam e, +respeitosamente, com humildade de servos, deixando no limiar os papuzes +marchetados, os magos penetraram zumbridos, como se fossem de rastos, +levando nas mãos, devotamente, as pareas significativas. + +Recebeu-os o patriarcha e, como a Virgem se levantasse, com Jesus ao +collo, os tres homens prostraram-se de joelhos, descobrindo-se, depondo +os turbantes, e, inclinando a cabeça, ficaram um momento em veneração +silenciosa. + +O primeiro falou offerecendo a myrrha. + +--Homem, Filho de Deus, a arvore do deserto deu do seu tronco a resina +que te offereço. O seu perfume é uma força que se oppõe á destruição da +carne: eternisa o corpo como a Virtude eternisa o espirito. + +O segundo inclinou-se com um escrinio cheio de ouro: + +--Rei, as minas, onde rebrilham os veios rutilantes, deram a poeira que +te offereço: ouro, symbolo do poder, chamma fria da terra. Tudo elle +vence: a miseria e a propria Virtude. Desopprime e escravisa, redime e +perverte, é o bem e é o mal. Nas mãos munificas é luz que aclara e +salva; nas mãos crueis é chamma que consome. + +O negro falou por ultimo com uma patena de incenso: + +--A arvore instilla a lagrima que rescende, lagrima que, ao lume, +converte-se em fumo e evola, demandando o ceu, como homenagem da terra. + +Como lagrima, é uma concentração; como aroma, é uma oblata. É o incenso +com que se glorificam os deuses. É a offerenda das terras negras ao Deus +que redime. + +Gente, que afluira á caverna, pastores e seareiros, mesteiraes, velhos, +mulheres e crianças das arribanas proximas entraram e, diante da palha +humilde, toda a grandeza e toda a humildade confraternisaram e tambem o +sol, como enviado do ceu, adorando o Infante da Misericordia que baixara +para cumprir as prophecias trazendo aos homens a religião do Amor. + +E Maria, deslumbrada, sem ouvir as vozes glorificadoras, olhava, +contemplava, adorava o pequenino Filho. + +O sol cercou-os de esplendor e a Virgem, de pé no meio da turba, com +Jesus ao collo, era o purissimo altar sobre o qual se mostrara ás gentes +o Divino Perdão. + + + + +INDICE + + Pag. + A partida 5 + O anjo 13 + Lyrios 19 + A refeição 25 + A nuvem 31 + Ao pôr do sol 39 + A tentação 45 + O milagre das lagrimas 55 + Caminhando 65 + O cégo 71 + Dentro da noite 77 + Presagio 83 + Piedade 91 + Cantico messianico 97 + O campo de Booz 105 + Na estrada de Bethleem 109 + Na caverna 113 + Natal 121 + As tres virgens 129 + O primeiro leite 135 + Adoração dos pastores 141 + Dôr 147 + Receio 151 + O somno 157 + Palavras de Maria 161 + As duas mãis 167 + A estrella 175 + Epiphania 179 + Adoração dos magos 185 + + + + + + +End of Project Gutenberg's Mysterio do Natal, by Henrique Coelho Neto + +*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK MYSTERIO DO NATAL *** + +***** This file should be named 34750-8.txt or 34750-8.zip ***** +This and all associated files of various formats will be found in: + http://www.gutenberg.org/3/4/7/5/34750/ + +Produced by Pedro Saborano + +Updated editions will replace the previous one--the old editions +will be renamed. + +Creating the works from public domain print editions means that no +one owns a United States copyright in these works, so the Foundation +(and you!) can copy and distribute it in the United States without +permission and without paying copyright royalties. Special rules, +set forth in the General Terms of Use part of this license, apply to +copying and distributing Project Gutenberg-tm electronic works to +protect the PROJECT GUTENBERG-tm concept and trademark. Project +Gutenberg is a registered trademark, and may not be used if you +charge for the eBooks, unless you receive specific permission. If you +do not charge anything for copies of this eBook, complying with the +rules is very easy. You may use this eBook for nearly any purpose +such as creation of derivative works, reports, performances and +research. They may be modified and printed and given away--you may do +practically ANYTHING with public domain eBooks. Redistribution is +subject to the trademark license, especially commercial +redistribution. + + + +*** START: FULL LICENSE *** + +THE FULL PROJECT GUTENBERG LICENSE +PLEASE READ THIS BEFORE YOU DISTRIBUTE OR USE THIS WORK + +To protect the Project Gutenberg-tm mission of promoting the free +distribution of electronic works, by using or distributing this work +(or any other work associated in any way with the phrase "Project +Gutenberg"), you agree to comply with all the terms of the Full Project +Gutenberg-tm License (available with this file or online at +http://gutenberg.org/license). + + +Section 1. General Terms of Use and Redistributing Project Gutenberg-tm +electronic works + +1.A. By reading or using any part of this Project Gutenberg-tm +electronic work, you indicate that you have read, understand, agree to +and accept all the terms of this license and intellectual property +(trademark/copyright) agreement. 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It exists +because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from +people in all walks of life. + +Volunteers and financial support to provide volunteers with the +assistance they need, are critical to reaching Project Gutenberg-tm's +goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will +remain freely available for generations to come. In 2001, the Project +Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure +and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations. +To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation +and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4 +and the Foundation web page at http://www.pglaf.org. + + +Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive +Foundation + +The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit +501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the +state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal +Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification +number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at +http://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg +Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent +permitted by U.S. federal laws and your state's laws. + +The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S. +Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered +throughout numerous locations. Its business office is located at +809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email +business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact +information can be found at the Foundation's web site and official +page at http://pglaf.org + +For additional contact information: + Dr. Gregory B. Newby + Chief Executive and Director + gbnewby@pglaf.org + + +Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg +Literary Archive Foundation + +Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide +spread public support and donations to carry out its mission of +increasing the number of public domain and licensed works that can be +freely distributed in machine readable form accessible by the widest +array of equipment including outdated equipment. Many small donations +($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt +status with the IRS. + +The Foundation is committed to complying with the laws regulating +charities and charitable donations in all 50 states of the United +States. 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Donations are accepted in a number of other +ways including checks, online payments and credit card donations. +To donate, please visit: http://pglaf.org/donate + + +Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic +works. + +Professor Michael S. Hart is the originator of the Project Gutenberg-tm +concept of a library of electronic works that could be freely shared +with anyone. For thirty years, he produced and distributed Project +Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support. + + +Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed +editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S. +unless a copyright notice is included. Thus, we do not necessarily +keep eBooks in compliance with any particular paper edition. + + +Most people start at our Web site which has the main PG search facility: + + http://www.gutenberg.org + +This Web site includes information about Project Gutenberg-tm, +including how to make donations to the Project Gutenberg Literary +Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to +subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks. diff --git a/34750-8.zip b/34750-8.zip Binary files differnew file mode 100644 index 0000000..3fbf631 --- /dev/null +++ b/34750-8.zip diff --git a/34750-h.zip b/34750-h.zip Binary files differnew file mode 100644 index 0000000..0e1b20b --- /dev/null +++ b/34750-h.zip diff --git a/34750-h/34750-h.htm b/34750-h/34750-h.htm new file mode 100644 index 0000000..411849f --- /dev/null +++ b/34750-h/34750-h.htm @@ -0,0 +1,3232 @@ +<!DOCTYPE HTML PUBLIC "-//W3C//DTD HTML 4.01 Transitional//EN" "http://www.w3.org/TR/html4/loose.dtd"> +<html> +<head> + <title>Mysterio do Natal, por Coelho Neto</title> + <meta name="Author" content="Coelho Neto"> + <meta name="Edition" content="Porto: Livraria Chardron, 1911."> + <meta http-equiv="content-type" content="text/html; charset=iso-8859-15"> + <style type="text/css"> +@media print { +.pn { display: none;} +} +@media handheld { +.pn { display: none;} +} + body{margin-left: 10%; + margin-right: 10%; + } + .pn { + text-indent: 0em; + text-decoration: none;position: absolute; + left: 92%; + font-size: 7pt; + text-align: right; + color: silver; + } + #corpo p{text-align: justify; text-indent: 1.5em;} + h1 {text-align: left; margin-top: 4em; margin-bottom:2em; text-decoration:underline; margin-left: 1em;} + h3 small {font-weight: normal;} + #corpo p.ni {text-indent: 0;} + #corpo p.centrado {text-indent: 0; text-align: center;} + #corpo blockquote p {text-indent: 0;} + #corpo p.assin {text-indent: 0; text-align: right; margin-right: 2em;} + p.centrado {text-indent: 0; text-align: center;} + hr.dotted {border: 0; border-bottom: dotted 2px #000;} + hr {border: 0; border-bottom: solid 2px #000;} + blockquote {margin-left: 20%; font-size: small;} + .ilustracao {text-indent: 0; text-align: center; font-size: small;} + #corpo p.ilustracao {text-indent: 0; text-align: center; font-size: small;} + a {text-decoration: none;} + .rodape { + font-size: small; + color: gray; + margin-left: 2em; + margin-right: 2em; + } + #corpo.rodape p {text-indent: 0;} + </style> +</head> + +<body> + + +<pre> + +The Project Gutenberg EBook of Mysterio do Natal, by Henrique Coelho Neto + +This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with +almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or +re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included +with this eBook or online at www.gutenberg.org + + +Title: Mysterio do Natal + +Author: Henrique Coelho Neto + +Release Date: December 24, 2010 [EBook #34750] + +Language: Portuguese + +Character set encoding: ISO-8859-1 + +*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK MYSTERIO DO NATAL *** + + + + +Produced by Pedro Saborano + + + + + +</pre> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p style="text-align: center; font-size: 1.8em;">M<small>YSTERIO DO</small> +N<small>ATAL</small></p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<div style="font-size: small; margin: 5%;margin-left:2em;"> +<p><u>DO MESMO AUCTOR</u></p> + +<p>Esphynge, 1 vol. . . . . . . . . . 600<br> +Sertão, 1 vol. . . . . . . . . . . . . 600<br> +Agua de Juventa, 1 vol. . . . 700<br> +A bico de penna, 1 vol. . . . 700<br> +Romanceiro, 1 vol. . . . . . . . 500<br> +Jardim das Oliveiras, 1 vol. . . 500<br> +Fabulario, 1 vol. . . . . . . . . . . . 500<br> +Miragem, romance, 1 vol. . . 600<br> +Theatro, vol. 1.º. . . . . . . . . . . no prélo<br> +Theatro, vol. 2.º. . . . . . . . . . . 400<br> +Ouebranto (Theatro), vol. 4.º. . . 500<br> +Apologos, 1 vol. . . . . . . . . . . 500</p> + +<p>No prélo, a seguir em novas edições:</p> + +<p>Inverno em flor. . . . . . . 1 vol.<br> +O Rei phantasma. . . . . 1 vol.<br> +Capital federal. . . . . . . . 1 vol.<br> +O morto. . . . . . . . . . . . . 1 vol.<br> +O paraiso. . . . . . . . . . . . 1 vol.<br> +O Rajah de Pendejab. . . 2 vol.<br> +A Conquista. . . . . . . . . . 1 vol.<br> +A Tormenta. . . . . . . . . . 1 vol.<br> +O Turbilhão. . . . . . . . . . 1 vol.</p> +</div> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<div class="ilustracao" style="text-align:center;"> +<img src="images/cneto.jpg" width="80%" border="0" +alt="Fotografia de Coelho Neto"> + +<p style="font-size: 1.4em;">Coelho Netto</p> +</div> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<div style="text-align:center;"> +<p style="font-size: 1.2em;">COELHO NETTO</p> +<hr style="width: 30%;"> + +<p> </p> + +<p style="font-size: 3em; margin-right: 3em;">MYSTERIO</p> + +<p style="font-size: 3em; margin-left: 3em;"><small>DO</small> NATAL</p> + +<p> </p> + +<p> </p> +<p><img src="images/lello.jpg" width="100" border="0" alt="Logotipo Lello"></p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p>PORTO<br> +LIVRARIA CHARDRON<br> +<small>De LELLO & IRMÃO, editores<br> +RUA DAS CARMELITAS, 144<br> +—<br> +1911</small></p> +</div> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p style="text-align:justify; font-size: small;"> O "Accordo" assignado no Rio +de Janeiro em 9 de Setembro de 1889, entre o Brasil e Portugal, assegurou o +direito de propriedade litteraria e artistica em ambos os paizes.</p> +<hr style="width: 30%;"> + +<p style="text-align:justify; font-size: small;"> A presente edição está +devidamente registada nas Bibliothecas nacionaes, de Lisboa e Rio de +Janeiro.</p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> +<hr style="width: 30%;"> + +<p style="text-align:center; font-size: small;">PORTO—IMPRENSA MODERNA</p> + +<div id="corpo"> +<p> <span class="pn"><a name="pag_5">{5}</a></span></p> +<hr width="30%"> + +<h1>A partida</h1> + +<p>Era a hora silenciosa e triste do crepusculo.</p> + +<p>Abrumados de ouro os montes, em duros perfis, esmaltavam de negro o +horizonte abrazado. Abriam-se as primeiras estrellas. Subiam da terra, como o +fumo das aras, pannos alvos de nevoa.</p> + +<p>Pelos caminhos esbarrondados, em aspero acclive, beirando grotas espontadas +de cardos, cantaro ao hombro, as tunicas arrepanhadas á cinta, desfilavam +donzellas conversando e rindo. <span class="pn"><a +name="pag_6">{6}</a></span></p> + +<p class="ilustracao"><img src="images/pag006.jpg" width="80%" border="0" +alt=""></p> + +<p>Juntas, em passo miudo, trepidando nas pedras, com um cheiro de suarda e de +silvas, passavam nas trilhas ovelhas em rebanhos. Um rude e mazorro pastor +seguia-as cabisbaixo. <span class="pn"><a name="pag_7">{7}</a></span></p> + +<p>Esbatiam-se as nuvens de ouro quando José e Maria appareceram no limiar da +casa promptos para a longa jornada, por valles e montanhas, em direcção á terra +farta de Bethleem onde iam cumprir a lei de Augusto.</p> + +<p>Fechada a porta ainda demoraram um instante sob a vinha, contidos pela +saudade.</p> + +<p>O homem, por fim, decidiu-se, tomou a frente, vagaroso, pensativo e logo, +limpando os olhos que as lagrimas nublavam, a donzella seguiu.</p> + +<p>Elle grisalho, alto, robusto, ainda que um tanto curvado pelo pendor +constante em que vivia, sempre inclinado sobre o lenho do officio, +falquejando-o, acepilhando-o, dando-lhe fórma e lustro. Ella, mean de altura, +fina e fragil.</p> + +<p>Suavemente morena, os olhos grandes e tristes eram dum limpido verde d'agua, +e como dois lagos purissimos <span class="pn"><a name="pag_8">{8}</a></span> num +areal, ao sol; e os cabellos, escapando-se do cairel do manto, punham-lhe na +fronte uma frisa de ouro.</p> + +<p>Mal se lhe adivinhava o collo abotoado.</p> + +<p>Os pés, alvos e pequeninos, assentavam em sandalias e toda a sua riqueza +consistia em um par de braceletes de marfim que lhe cingiam graciosamente os +pulsos finos.</p> + +<p>Trilhando a estrada que ia ter á fonte e seguia direita aos campos, paravam +para falar ás moças, companheiras e amigas de Maria, para corresponder á +saudação dos homens, para attender ás crianças que deixavam os seixos +tomando-lhes o passo, pedindo que lhes trouxessem das terras de além conchas, +como as de Ascalon, que conservam no bojo o soluço das ondas.</p> + +<p>E Maria, commovida, chorava sobre o sorriso. <span class="pn"><a +name="pag_9">{9}</a></span></p> + +<p>Os campos toldavam-se de bruma e as oliveiras de pallida folhagem faziam no +recosto das collinas como estendaes de nevoa.</p> + +<p>Ainda havia quem trabalhasse a leira na ancia do fruto. Chiava um carro de +lavoura, o guieiro afalava aos bois animando-os no lance abrupto de uma +rampa.</p> + +<p>Chegando ao planalto esteril, que dominava os horizontes e onde o vento +zunia, os viajantes fizeram uma parada olhando em redor o redente dos +montes.</p> + +<p>Lá ficava Nazareth no valle feliz, com o seu casario, em cubos brancos, como +um pacifico rebanho adormecido.</p> + +<p>Ao longe tudo era carregado e lugubre.</p> + +<p>A noite chegava primeiro ás alturas.</p> + +<p>Isolado, com a lua pairando acima do seu viso, o Thabor era como um +peito <span class="pn"><a name="pag_10">{10}</a></span> de gigante de onde +houvesse espirrado aquella gotta de leite.</p> + +<p>Maria ignorava o mundo. Nunca houvera passado além da fronteira da terra +natal. Alongando os olhos pela vastidão que a vista alcançava, montes, varzeas, +esplanados desertos tristes, sentia-se mesquinha e com medo.</p> + +<p>Voltou-se, ainda uma vez, para olhar o tranquillo recanto em que sempre +vivera em pobreza e virtude. Mas a noite baixára; raros lumes picavam a tréva. +Ouvia-se vago murmurio, como escachôo d'aguas, subindo do fundo obscuro onde +jazia a cidade. Sahiu-lhe do coração um suspiro maguado:</p> + +<p>—Onde fica Bethleem? José levantou o braço e estendia o cajado na +direcção da terra de David, quando uma estrella fulgurou, illuminando +radiosamente o ceu profundo.</p> + +<p>—Ali! disse o patriarcha, numa voz <span class="pn"><a +name="pag_11">{11}</a></span> que tremia, comprehendendo, maravilhado, que +aquelle astro surgira dentro da noite como uma resposta de Deus á moça +predestinada.</p> + +<p class="ilustracao"><img src="images/pag011.jpg" width="80%" border="0" +alt=""> <span class="pn"><a name="pag_12">{12}</a></span></p> + +<p> <span class="pn"><a name="pag_13">{13}</a></span></p> +<hr width="30%"> + +<h1>O anjo</h1> + +<p>A noite, profundamente escura e fria, atravessada de vento, atroava o fragor +de ramagens estortegadas e d'aguas precipitosas que se despenhavam, aos jorros, +pelos algares. Nas chans ainda o transito era facil, sem o varejo da ventania +que repulsava os caminhantes, como a impedir-lhes a marcha; mas nas gargantas, +entre alcantis, as lufadas, abocando á entrada, esfusiavam desabridas, uivando +com a furia de alcatéas famintas em ronda céva, a fariscar redis. <span +class="pn"><a name="pag_14">{14}</a></span></p> + +<p>Todas as estrellas haviam-se apagado, apenas rutilava, enorme, como lumareu +de vigilia em torre, a que surgira e brilhava sobre Bethleem.</p> + +<p>Os passos estrepitavam nos seixos, estalavam nas folhas e no ramalho +secco.</p> + +<p>Um ramo que bolisse, o lento defluir de um fio d'agua por entre pedras +levantavam ruidos temerosos.</p> + +<p>Ás vezes José detinha-se, hesitante na bifurcação de duas trilhas, mas pouco +durava a duvida porque uma das veredas ennegrecia ainda mais, ao passo que a +outra rutilava fulgida, como calçada a diamantes, offerecendo-se, clara e +segura, aos peregrinos.</p> + +<p>Como entrassem em sinuosa e esgalgada passagem, murada de rochas +anfractuosas, eriçada de agaves e echoando como o ambito de uma caverna, +ouviram <span class="pn"><a name="pag_15">{15}</a></span> leve, frouxo ruido +como de esfrolar d'azas.</p> + +<p>Uma aguia, talvez, que acordara em algum teso e de pé, attenta, alargando as +azas, ficára em attitude hostil prompta a arremetter em defeza do ninho.</p> + +<p>O patriarcha, acolhendo a esposa meiga, cujas faces pareciam de neve, +apertou com força o cajado e levantou os olhos.</p> + +<p>Maria, sentindo o perigo, tartamudeou, timida e tremula, uma oração ao +Senhor. O receio de um ataque em sitio tão desolado, longe de toda habitação, +onde nem choça de pegureiro havia, deteve o homem.</p> + +<p>Os corações batiam. Nella era o pavor do desconhecido, o grande medo tragico +das sombras do Scheól, que erram, á noite, pelos descampados; nelle era temor +por ella.</p> + +<p>Não falavam, de olhos muito abertos, <span class="pn"><a +name="pag_16">{16}</a></span> quietos, immoveis como os rochedos que os +emparedavam.</p> + +<p>De repente um clarão fulgurou. A passagem illuminou-se, as pedras +scintillaram e as palmouras dos cardos ficaram como de prata. E elles viram uma +grande luz á flor da terra e clareando as rochas.</p> + +<p>Aves despertando galreavam festivamente o canto da madrugada.</p> + +<p>Levantando o olhar viram os dois a fonte do esplendor. Era um anjo que os +precedia, ora trilhando os caminhos, ora voando acima das rochas, pousando nos +alcandores quando o lento e fatigado andar de Maria retardava a marcha.</p> + +<p>A virgem sorria de enlevo e José, tolhido de commoção, não se atrevia a +encarar o guia resplandecente, cujo reflexo abria na terra um clarão de luar. E +as azas aflavam docemente no silencio. <span class="pn"><a +name="pag_17">{17}</a></span></p> + +<p class="ilustracao"><img src="images/pag017.jpg" width="80%" border="0" +alt=""></p> + +<p>A virgem reconheceu no anjo o mancebo que a saudára com as palavras +mysteriosas, cuja promessa cumpria-se e José reviu o divino emissario que +lhe <span class="pn"><a name="pag_18">{18}</a></span> apparecera em sonho, sob a +figueira do horto, defendendo a innocencia de Maria, em cujo seio, cemo em +corolla de flor, a Graça perpassava em genese immareavel, fecundando-o como o +sol fecunda a leiva, eternamente pura. <span class="pn"><a +name="pag_19">{19}</a></span></p> +<hr width="30%"> + +<h1>Lyrios</h1> + +<p>Clareava.</p> + +<p>Manhan opáca, envolta em bruma que algodoava a terra, fluctuando com um +lento ondular, fluindo em frouxeis alvissimos como pennugem, esgarçando-se, +diluindo-se em fumo tenue que se esvaía no ar silencioso.</p> + +<p>A espaços frondes boiavam, ramarias exciduas irrompiam.</p> + +<p>Ouvia-se o lentejo lacrimoso das folhas orvalhadas.</p> + +<p>A terra dava-se avaramente, a trechos <span class="pn"><a +name="pag_20">{20}</a></span> curtos, á medida que os viajantes avançavam e o +caminho percorrido, como os dias da vida, eram logo fechados em branco pelos +nevoeiros.</p> + +<p>Branco era tambem o ceu e triste, pesando sobre a terra, tão baixo que as +nuvens, por vezes, envolviam os peregrinos.</p> + +<p>Passaros piavam nas taliscas, occultos; vozes de gado, longinquas, +evocativas, annunciavam casaes.</p> + +<p>Maria tiritava.</p> + +<p>A tunica pesava-lhe nos hombros, humida, e as faces, rorejadas, tingiam-se +em duas rosas como se as flores, transidas, houvessem procurado abrigo ao calor +carinhoso daquella mocidade pura.</p> + +<p>José distrahia a companheira falando-lhe dos lugares que iam +atravessando.</p> + +<p>Todos aquelles atalhos tortuosos, <span class="pn"><a +name="pag_21">{21}</a></span> aquelles carreiros invios haviam sido, em tempos +remotos, trilhados por patriarchas.</p> + +<p>Ali haviam-se travado batalhas sanguentas; ali alvejara a tenda, crescera, +em louro estendal, o trigo, retorcera-se a vinha, pastara o armento, correra o +azeite, fundira-se o ferro, britara-se a pedra, cosera-se o barro sob as vistas +de Iaveh omnipotente.</p> + +<p>Por ali andara Elias trovejando oraculos. Judith afiára o gladio libertador +nas arestas daquellas penhas.</p> + +<p> </p> + +<p>Em poeira de ouro foi-se mudando a nevoa: era o sol.</p> + +<p>Já apparecia uma nesga de azul; arvores, moutas destacavam-se: a mortalha +rasgava-se para a resurreição.</p> + +<p>Alegremente as aves, em claras vozes, cantaram a victoria da Luz. E Maria, +contente, d'olhos em extase, esperava <span class="pn"><a +name="pag_22">{22}</a></span> o astro annunciado pela fulguração das nuvens.</p> + +<p>Num recanto, entre mirradas arvores de troncos retorcidos, uma agua escura e +quieta reluzia.</p> + +<p>Pedras negras, cobertas de limo, escondiam-se sob ramos acenosos.</p> + +<p>Maria, sentindo a dobrez da fadiga, os olhos pesados de somno, sentou-se tão +perto d'agua que toda ella reflectiu-se na superficie espelhenta.</p> + +<p>Viu-se sem vaidade, com a mesma innocencia com que se revê o passaro e, num +momento, infantilmente, mergulhou, até o punho, as mãos ambas no paul.</p> + +<p>Quiz José reprehendel-a, vendo-a, porém, sorrir, sorriu tambem.</p> + +<p>Gottejando sahiram as pequeninas mãos da agua que tremia.</p> + +<p>Olhavam os dois os circulos que se abriam quando viram duas flores +subirem <span class="pn"><a name="pag_23">{23}</a></span> á tona, brancas, +abertas em cinco petalas, erectas em finas hastes, como se o reflexo das mãos +da Immaculada se houvesse materialisado em memoria da ablução ligeira.</p> + +<p>Eram lirios e trescalavam.</p> + +<p> </p> + +<p>Virtude, brilho das almas, que importa que desças á vasa? és impermeavel +como a luz, purificadora como o raio de sol.</p> + +<p>Não perdes a limpida pureza e, se entras no Vicio, fazes desabrochar a +Graça; se afundas no Crime, tiras o arrependimento.</p> + +<p>O pantano era lobrego, coberto de folhas mortas e as mãos de Maria, só com o +aflorarem, tanto o purificaram que delle nasceu o lirio sem macula, symbolo +formoso e candido da innocencia. <span class="pn"><a +name="pag_24">{24}</a></span></p> + +<p> <span class="pn"><a name="pag_25">{25}</a></span></p> +<hr width="30%"> + +<h1>A refeição</h1> + +<p>Suave som de frauta pastoril deu a Maria o encanto de uma egloga. Voltou a +cabeça dourada e viu o rebanho que se aproximava em vagaroso passo.</p> + +<p>Trazia-o um menino, guiando-o por entre as hervas de aroma. Um lindo menino, +tão alvo que não despedia sombra, como as neves que os raios do sol atravessam; +tão louro que a sua cabeça alumiava.</p> + +<p>Vinha a frauta soando em suaves accentos e attrahidas, enlevadas na +musica, <span class="pn"><a name="pag_26">{26}</a></span> abelhas voavam em +volta do pastorinho, que assim apascentava dois rebanhos: um pela terra verde, +outro pelos ares claros.</p> + +<p>Ergueu-se Maria e, sem dizer palavra, olhando os ubres apojados das ovelhas, +deu a sentir o seu desejo.</p> + +<p>Como devia saber aquelle leite que era a metamorphose das flores dos +silvados! Como devia rescender na boca e aquecer e fartar!</p> + +<p>Calou-se a frauta e o menino, fitando os olhos meigos no casal errante, como +se de muito o conhecesse e amasse, deteve-se, e os animaes pararam.</p> + +<p>Ficou o rebanho unido, tão junto que não fazia mais que um vello e as +abelhas, zumbindo, puzeram-se a esvoaçar em torno dos lirios alvos.</p> + +<p>José adiantou-se e, offerecendo um obulo ao menino, pediu-lhe um pouco +de <span class="pn"><a name="pag_27">{27}</a></span> leite. Sorrindo, o +pastorinho tomou o tarro que trazia ao flanco.</p> + +<p class="ilustracao"><img src="images/pag027.jpg" width="80%" border="0" +alt=""> <span class="pn"><a name="pag_28">{28}</a></span></p> + +<p>Logo, entre as ovelhas, houve um movimento ancioso. Balavam todas +offerecendo as tetas refertas, atropelavam-se, saltavam querendo, cada qual, +ser a escolhida e o pastorinho brandamente as afastava.</p> + +<p>Foi á primeira, ordenhou-a. O leite esguichou em fio; outra chegou, depois +outra e a todas elle attendia para que nenhuma ficasse preterida.</p> + +<p>Já a espuma fervia crescendo em flor, transbordando do vaso e as ovelhas +festejavam-se contentes.</p> + +<p>Sorrindo, aceitou Maria a offerta do zagal; bebeu a lentos goles, +saboreando. E foi a vez de José.</p> + +<p>Refeito, o patriarcha insistiu na dádiva da moeda, mas o menino negou-se a +recebel-a: <span class="pn"><a name="pag_29">{29}</a></span></p> + +<p>«Que era um pouco de leite? Qualquer pastor faria o mesmo.»</p> + +<p>Saudou-os, e, pondo-se á frente das ovelhas, levou a frauta aos labios.</p> + +<p>Os sons vibraram. Lento e manso o rebanho proseguiu. Foi então que Maria viu +que as abelhas, tantas que occultavam os lirios, deixavam as flores voando á +musica da frauta.</p> + +<p>—Lindo pastor! Lindo rebanho! disse, enlevada, a Virgem. Mas logo, +referindo-se ás abelhas que fugiam, perguntou a José: Que terão ellas buscado +nas flores d'agua?</p> + +<p>—O arôma e o néctar, explicou o patriarcha.</p> + +<p>Chegaram-se os dois ás flores e viram, maravilhados, que estavam cheias de +mel crystallino e louro como o ambar precioso e tão perfumado como se +contivesse toda a essencia das flores.</p> + +<p>Tomou José um dos lirios e deu-o a <span class="pn"><a +name="pag_30">{30}</a></span> Maria; a Virgem offereceu-lhe o outro. Depois, +deliciados, contemplaram-se felizes.</p> + +<p>—A frauta já não sôa, vai muito longe o pastor, disse Maria.</p> + +<p>—Vai muito longe! repetiu José contricto, levantando os olhos para o +ceu, como se procurasse nas nuvens o pastorinho louro e as ovelhinhas +brancas. <span class="pn"><a name="pag_31">{31}</a></span></p> +<hr width="30%"> + +<h1>A nuvem</h1> + +<p>Sob a irradiação do sol a terra secca abrazava, exhalando um bafio de +rescaldo.</p> + +<p>Triste, flagellada Samária pagan!</p> + +<p>Os deuses do Garizin, depois da destruição do templo, pareciam haver +desertado o monte onde os homens subiam a retemperar a fé, de onde manava a +seiva que se infiltrava nos campos e mantinha vivas todas as fontes, entre +rochas humidas. <span class="pn"><a name="pag_32">{32}</a></span></p> + +<p>Ermo o sagrado monte, esquecido o santuario antigo, as lavouras mirraram e +um sol mais árdego crestou as hervas, sorveu as aguas outr'ora copiosas.</p> + +<p>Nem as torrentes ligeiras conseguiram, fugindo, escapar á inclemencia e os +leitos dos corregos, em lodo secco, estalavam, fendiam-se em gretas fundas.</p> + +<p>Um fio d'agua rastejava nos lugares que, antigamente, rios largos +alagavam.</p> + +<p>Das fontes restavam apenas as pedras calvas sobre areias torridas onde +viboras esfusiavam, entaliscando-se ao rumor de passos.</p> + +<p>De ponto em ponto uma cisterna funda offerecia ao caminhante a sua agua +salobra.</p> + +<p>Ás vezes o terebintho forte sombreava-a ou figueiras e mimosas formavam-lhe +em torno um bosque ameno.</p> + +<p>Mas os trilhos, arenosos e pedrentos, eram apenas habitados pelo cardo +que <span class="pn"><a name="pag_33">{33}</a></span> esgalhava os ramos +espinhosos, abertos em feridas, feios, disformes como aleijões. Não se ouvia +cantar um passaro—só o gypaeto atravessava o espaço fulgurante ou grandes +aguias hostis, pousadas no cabeço das penhas, devassavam os arredores buscando +o que prear.</p> + +<p>Maria offegava seguindo o esposo. A areia escaldava-lhe os pés mimosos, o +sol abrazava-lhe a cabeça.</p> + +<p>Caminhavam como atravez de chammas, sem que os olhos avistassem um colmado, +a grata ramagem duma arvore.</p> + +<p>Ó terras férteis da Galiléa! valles alfombrados e frescos de tanta belleza +por onde correm numerosos ribeiros claros. Ó Galiléa!</p> + +<p> </p> + +<p>Tudo era desolação na tristonha Samária e o sol do outono queimava como nos +incendidos dias estivaes. <span class="pn"><a name="pag_34">{34}</a></span></p> + +<p>Seria melhor esperarem a tarde, proseguirem com a brandura do crepusculo; +mas a pressa que levavam não lhes permittia demora.</p> + +<p>José, mais robusto e affeito a rigores, resistia; a Virgem, porém, começava +a sentir-se atordoada: faltava-lhe o ar, os olhos ardiam-lhe.</p> + +<p>—Chega-te á sombra do meu corpo, disse-lhe o patriarcha. Ella +obedeceu. Mas o sol zombava da misericordia do amor e Maria continha as +lagrimas, calava as dores dos delicados pés abertos em feridas, não querendo +que o esposo soffresse com o seu soffrimento.</p> + +<p>O sol subia, augmentava o calor e o animo da Virgem desfallecia quando uma +nuvem cresceu acima do monte Ebal.</p> + +<p>Era escura como os nimbus e apressava-se como impellida por um grande +vento. <span class="pn"><a name="pag_35">{35}</a></span></p> + +<p>Barulho surdo annunciava-a, igual ao ronco soturno que precede as saraivadas +de verão.</p> + +<p>A terra entenebrecia á passagem obumbrada da nuvem, que vinha direita ao +caminho trilhado pelo casal.</p> + +<p>O ruido augmentava tornando-se como o escachôo das catadupas.</p> + +<p>Detiveram-se os dois, pallidos, tolhidos de espanto.</p> + +<p>Subito Maria sorriu:</p> + +<p>—São pombas, disse. Eram, effectivamente, milhares de pombas azues +que, muito juntas, formavam a nuvem escura. Pairaram, ficaram adejando sobre +elles, com rumoroso arrulho, e o sol quebrava-se-lhes nas azas estendidas.</p> + +<p>José baixou os olhos, dobraram-se-lhe os joelhos e a Virgem, olhando as +aves, não deu pelo gesto piedoso nem ouviu as palavras devotas com que elle, em +extase, adorava-a. <span class="pn"><a name="pag_36">{36}</a></span></p> + +<p class="ilustracao"><img src="images/pag036.jpg" width="80%" border="0" +alt=""> <span class="pn"><a name="pag_37">{37}</a></span></p> + +<p>Então proseguiram á sombra do immenso pallio azul e fóra da nuvem viva a +terra, quente e rutila, ardia e faiscava ao sol. <span class="pn"><a +name="pag_38">{38}</a></span></p> + +<p> <span class="pn"><a name="pag_39">{39}</a></span></p> +<hr width="30%"> + +<h1>Ao pôr do sol</h1> + +<p>No ceu desbotavam, esbatiam-se as côres vivas, o ouro e a purpura fundiam-se +em violete e, docemente, a melancolia vesperal envolvia a natureza e penetrava +as almas. E Maria perguntou:</p> + +<p>—Porque é mais triste do que a noite o breve instante do pôr do +sol?</p> + +<p>—Porque é uma agonia, respondeu José. Não é a morte que impressiona, é +o morrer.</p> + +<p>A luz que vasqueja é como o corpo que estrebucha. A noite é serena, tem a +immobilidade do cadaver. <span class="pn"><a name="pag_40">{40}</a></span></p> + +<p>Quantas sombras havia na terra? tantas quantas são os seres e as coisas que +existem. O sol, porque é a vida, discrimina, dá a cada um a sua autonomia para +o bem ou para o mal.</p> + +<p>O homem tem a sua sombra, como a formiga; a cordilheira escurece uma região +e o grão de areia destaca a sua mancha.</p> + +<p>A noite condensa na mesma sombra todo o universo.</p> + +<p>No instante da agonia a alma, como o saltador que recúa para ganhar impulso +na corrida e formar o pulo, regressa na reminescencia recordando a vida, desde +os dias primévos até á hora suprema.</p> + +<p>O crepusculo, que lembra o amanhecer, sem a alegria, é um recúo á madrugada +para o salto dentro da noite.</p> + +<p>—Aquelle clarão que alveja nos montes é o luar. A lua é como uma +lampada <span class="pn"><a name="pag_41">{41}</a></span> que o sol deixa accesa +quando parte. Como a noite é linda!</p> + +<p>—E purificadora. O somno é um mergulho na Eternidade.</p> + +<p>—Quando eu era pequenina, mal anoitecia, punha-me a tremer de medo e +só depois de rezar conseguia adormecer.</p> + +<p>—Porque a Fé é uma claridade que desfaz as sombras interiores. O que +não crê é como o cégo que anda tacteando, sempre arriscado a perigos, bastando +resvalar num talude para precipitar-se no abysmo.</p> + +<p>A Fé é como a lampada dos templos: sempre accesa e fulgurando.</p> + +<p>O homem de fé anda mais seguro na escuridão do que o incrédulo ao sol. O +horizonte do crente é Deus.</p> + +<p>—Porque bate com mais vigor o coração á noite?</p> + +<p>—As aguas murmuram mais alto no silencio? não, a voz é a mesma, a +calma <span class="pn"><a name="pag_42">{42}</a></span> é que isola fazendo-a +parecer mais forte. Quando trabalhas á sombra da vinha ouves balar o rebanho? +não, entanto, á noite, soergues-te no leito á voz lamentosa duma ovelha +perdida.</p> + +<p>O coração parece pulsar com mais impeto nas horas de recolhimento.</p> + +<p>Nas cavernas profundas as vozes reboam, o estellicidio de uma gotta faz +ruido. É essa uma das vantagens da noite—estabelecer o silencio, a +quietude nalma para que a consciencia faça o seu acto de contricção.</p> + +<p>—E as estrellas? quem as accende no ceu?</p> + +<p>—Aquelle mesmo que abre as flores na terra.</p> + +<p>—Ninguem o vê.</p> + +<p>—E o Pensamento, quem o vê? Enunciado é um relampago, realisado é um +esplendor; a sua essencia é o genio, que gera a Ordem. O mundo é a +realisação <span class="pn"><a name="pag_43">{43}</a></span> do Pensamento de +Deus; as obras ephemeras do mundo são a consubstanciação do pensamento humano. +O homem constróe, é o artista; Deus crêa, é o Verbo.</p> + +<p>—E eu?</p> + +<p>—Tu és Maria, disse o patriarcha, afagando-a paternalmente.</p> + +<p>Iterativas, afinadas vozes murmuraram nos ares concluindo o dizer do +ancião:</p> + +<blockquote> + <p>... cheia de Graça, o Senhor é comtigo.<br> + Bemdita és tu entre as mulheres.</p> +</blockquote> + +<p>Ella deteve-se assustada e interrogou o esposo, tremulo:</p> + +<p>—Que dizeis, meu senhor? José, que nada ouvira, respondeu:</p> + +<p>—Digo que és uma creatura de Deus, como a flor, como a estrella.</p> + +<p>Os chacaes latiam no deserto ao doce clarão da lua. <span class="pn"><a +name="pag_44">{44}</a></span></p> + +<p> <span class="pn"><a name="pag_45">{45}</a></span></p> +<hr width="30%"> + +<h1>A tentação</h1> + +<p>Numerosa estropeada de innumeros corceis atroou o silencio; tubas +clangoraram e, repentinamente, como passassem entre duas alcantiladas penhas, +que o luar vestia d'alvo, viram altos pylonos de basalto, sarapintados de +hyerogliphos, ante os quaes esphynges monstruosas, deitadas sobre stelas +negras, laivadas de sanguineo, com os bicos dos rijos peitos incrustados de +rubis, cravavam no ceu os olhos mysteriosos.</p> + +<p class="ilustracao"><img src="images/pag046.jpg" width="80%" border="0" +alt=""></p> + +<p>Mal chegaram á entrada portentosa <span class="pn"><a +name="pag_46">{46}</a></span> logo uma luzente guarda de cataphractos, com +petrinas de prata, montando ginetes brancos de crinas rastejantes, hasteando +lanças que alumiavam, formaram <span class="pn"><a name="pag_47">{47}</a></span> +duas extensas alas ao longo do caminho areado de ouro, sobre o qual frescamente +rociava uma serena pulverisação de aromas.</p> + +<p>Os olhos perdiam-se na visão de uma vasta cidade mirifica, toda em marmores +e pórphydos, com enormes templos, palacios que eram cidadellas, jardins de +redolentes áleas, rios beirados de arvores, com as rampas em alcatifa de +flores, rolando alisadas aguas sobre as quaes rebrilhava, em tremulina, o +luar.</p> + +<p>Barcos de prôas curvas, transbordando brocados, cruzavam-se com musicos sob +doceis de seda.</p> + +<p>Nos bosques que os cysnes percorriam, alvos como vivos marmores, mulheres, +veladas de gaze, coroadas de rosas, repousavam na fina relva ou balouçavam-se +em redouças.</p> + +<p>Os zimborios dourados, os frontões <span class="pn"><a +name="pag_48">{48}</a></span> dos templos tauxiados de ouro, as escadarias +largas, de zebrados degraus de cypolino, subindo a pateos de mosaico, +esplendiam.</p> + +<p>Surdo rumor agitava a cidade onde a multidão, em festa, tumultuava numa +variedade de trajos multicores.</p> + +<p>Passavam palanques sob flabellos empunhados por grandes negros vestidos de +saios rubros, com franjas de prata, adagas á cinta, emplumados turbantes á +cabeça.</p> + +<p>Plaustros rodavam com crepitações levantando uma nevoa loura.</p> + +<p>Photinas de harpas respondiam-se de um eirado a outro e, num obelisco de +onix canellado, molle serpente de escamas de ouro, vibrando a lingua bifida, +enroscava-se, em lentas espiras, ficando, ás vezes, pendente, a oscillar como +uma grossa liana.</p> + +<p>José olhava pasmado e Maria encolhia-se <span class="pn"><a +name="pag_49">{49}</a></span> timida, contemplando, deslumbrada, a cidade +fulgente.</p> + +<p>Não era a triste Sichem nem a sombria Jerichó. Que cidade seria aquella tão +rica, de tanta vida, isolada na tristonha e maninha região da Samária?</p> + +<p>Subitamente, com improvisa fulguração, abriram-se de par em par as portas do +templo maior e um grave cortejo appareceu no peristylo e vagaroso, solemne, +poz-se a descer a fulgida escaleira.</p> + +<p>Vozes, ao rythmo de instrumentos lyturgicos, entoaram um cantico +glorioso.</p> + +<p>O povo prostrou-se na areia micante das alamedas bradando um nome forte.</p> + +<p>Ceruleo clarão refulgiu celestialmente. Coalharam-se os ares de aves, armas +lampejaram em meneio heroico e toda a turba templaria formou no atrium, <span +class="pn"><a name="pag_50">{50}</a></span> ergueu um sonoro louvor e rojou-se +de bruços, com um tinir argentino de armillas e braceletes. E um homem alto, +alado, com dois cornos de luz purpurea ardendo-lhe entre os cabellos crespos, +surgiu no limiar de ouro estendendo amorosamente os braços a Maria extatica.</p> + +<p>A voz com que a chamou reproduziu-se em echo no silencio mystico; o seu +olhar ardia e, em torno do seu corpo atorreado, relumbrava um halo como se o +emmoldurassem chammas.</p> + +<p>—Vem! O meu amor esperava-te ancioso. És a eleita de minh'alma. +Chegaste no tempo em que as rosas florescem. As vinhas crespas dão fruto, as +abelhas fazem o seu mel, o trigo redoura os campos, os lagos são açucenaes +extensos.</p> + +<p>Eu puz em ordem a natureza para as nossas nupcias sagradas. Vem! <span +class="pn"><a name="pag_51">{51}</a></span></p> + +<p class="ilustracao"><img src="images/pag051.jpg" width="80%" border="0" +alt=""></p> + +<p>A terra em que pisas nunca recolheu cadaveres. Entraste no reino da ventura +eterna. Vem! E estendeu os longos <span class="pn"><a +name="pag_52">{52}</a></span> braços que alumiavam como caudas d'astros.</p> + +<p>Houve um clamor ovante feito com o nome suave de Maria e outro que ribombava +e os cataphractos, levantando-se, a prumo, nos estribos, cruzaram as lanças +formando uma abobada de scintillações.</p> + +<p>José olhava, mudo e receioso, acolhendo ao peito a timida donzella. Um gallo +cantou em alguma herdade proxima.</p> + +<p>Instantaneamente, com uma surda explosão, toda a cidade maravilhosa e os +seres que a animavam subverteram-se.</p> + +<p>Os ares ficaram nublados de fumo, estryges chirriaram.</p> + +<p>De novo reappareceram os campos rasos, ermos, estereis, calados, ao luar +livido.</p> + +<p>Maria, com o coração sobresaltado, murmurou: <span class="pn"><a +name="pag_53">{53}</a></span></p> + +<p>—Que lindo sonho, meu senhor.</p> + +<p>—Não foi sonho, Maria, tornou sombriamente o patriarcha. Vamos! Os +lirios trescalam, os gallos cantam; é a madrugada que vem.</p> + +<p>Puzeram-se a caminho.</p> + +<p>E, pelos ares, contorcendo-se em furor, uma sombra alada fugia, enorme, +monstruosa, com dois cornos que coruscavam. <span class="pn"><a +name="pag_54">{54}</a></span></p> + +<p> <span class="pn"><a name="pag_55">{55}</a></span></p> +<hr width="30%"> + +<h1>O milagre das lagrimas</h1> + +<p>A estrada, a duas horas de Sichem, pelos montes, larga e suave, com +acceitosas sombras de sycomoros e de amendoeiras, era toda orlada de anemonas +vermelhas e de margaridas brancas e amarellas.</p> + +<p>Os khans succediam-se sempre abrigados em hortos frondosos, com a cisterna +ao lado ou perto de alguma fonte, com a alpendrada reverdecida pela vinha, +debaixo da qual os mercadores, que desciam de Tyro ou do Libano ou subiam <span +class="pn"><a name="pag_56">{56}</a></span> de Joppé, comiam uma febra de anho +regando-a com o vinho fresco de Engaddi, emquanto os dromedarios soltos iam e +vinham vagarosamente ou deitados, ruminando, cerravam os olhos nostalgicos á +vivida fulguração do sol.</p> + +<p>Casas miserrimas, de muros de lodo, cobertas de palha, confundiam-se com a +ramagem dos eloendros, perdiam-se nos olivaes.</p> + +<p>Caravanas desfilavam—os homens a cavallo, com as lanças altas, o +albornoz ao vento; as mulheres em jumentos ou em carros, entre fardos e +alcofas, agasalhando crianças sob as pontas dos mantos.</p> + +<p>Por vezes um canto suave rompia da turba, rufavam tamboris, kinnareths +vibravam, frautas desferiam e os cavalleiros alegres faziam caracolar os +ginetes, as mulheres punham-se de pé nos <span class="pn"><a +name="pag_57">{57}</a></span> carros olhando as muralhas que se aprumavam ao +longe, fechando cidades, cujas casas, em cubos brancos, semelhavam +tumulos. <span class="pn"><a name="pag_58">{58}</a></span></p> + +<p class="ilustracao"><img src="images/pag057.jpg" width="80%" border="0" +alt=""></p> + +<p>José evitava os pousos, fugia aos rumorosos aduares, mettendo por atalhos +para evitar a chacota da gente nomade.</p> + +<p>Justamente atravessavam uma trilha deserta quando ouviram um choro triste e +deram de rosto com uma moça morena que trazia nos braços uma criança inerte.</p> + +<p>Pós ella uma pequenita, já com abundancia de flores, ainda varejava os +mattos procurando anemonas.</p> + +<p>Vendo-os, a misera susteve o pranto e, fitando em José os olhos rasos +d'agua, perguntou:</p> + +<p>«Se ainda distava muito Endor, onde vivia Baruc, o nazir, que conhecia a +virtude das hervas e realisava curas maravilhosas. Vendera as suas ovelhas e +levava oito cyclos de prata e um collar de ouro comprado em Jerusalem e, se +tanto não bastasse, dar-se-ia como escrava pela saude do filho.» <span +class="pn"><a name="pag_59">{59}</a></span></p> + +<p>José estendeu o braço na direcção do Levante:</p> + +<p>—Era além, muito longe, atravez da montanha, num valle sombrio, a +horas do Jordão.</p> + +<p>Maria, commovida, quiz vêr o infante.</p> + +<p>A mãi descobriu-lhe o rosto.</p> + +<p>Era lindo!</p> + +<p>Os cabellos rolavam-lhe em cachos louros, os olhos jaziam como dois mortos +sob as cupulas tumbaes das palpebras, com os longos cilios repontando como a +herva que viça no abandono.</p> + +<p>A boca, de labios cerrados, livida, era como o leito secco de uma torrente +que o sol exhauriu e estalou.</p> + +<p>Não se movia e, tão rigido, tão frio estava que só a illusão do amor podia +ainda emprestar-lhe vida.</p> + +<p>A pequenita continuava a rebuscar anemonas cantando. <span class="pn"><a +name="pag_60">{60}</a></span></p> + +<p>—Ides debalde a Endor com o vosso filho, disse commiserado o +patriarcha, accrescentando: Baruc póde sarar enfermos, mas só Elias resuscitava +os mortos.</p> + +<p>—Quereis dizer que elle está morto!? exclamou a mulher tremendo. Se, +ainda hontem, embalei-o nos braços... Se ainda estou com os peitos cheios de +leite, manando copiosamente como as ribeiras das collinas.</p> + +<p>Ai! de mim... Bem que eu não queria cantar a cantiga tristonha! Foi o canto +triste que o fez fugir dos meus braços. Ai de mim!</p> + +<p>Adormeci-o para sempre.</p> + +<p>E agora? quem terá piedade da minha solidão? Era elle só...</p> + +<p>Nasceu em noite de luar, finou-se em manhan de nevoa. E hei-de o deixar na +terra justamente agora quando o inverno chega! Ai! de mim... A saudade +mudará <span class="pn"><a name="pag_61">{61}</a></span> o leite dos meus peitos +em lagrimas para os meus olhos. Pobre de mim! Coitada de mim!</p> + +<p>E a moça deixou-se cahir á beira do caminho apertando nos braços o corpo do +filho morto.</p> + +<p>A pequenita continuava a rebuscar anemonas.</p> + +<p>Maria inclinou-se compadecida sobre o cadaver e duas lagrimas da sua piedade +rolaram na fronte gelida do defunto.</p> + +<p>Logo abriram-se os olhos da criança. Eram azues, côr do ceu; renasceram-lhe +as rosas das faces, os bracinhos inertes estenderam-se e, lindo, com o +esplendor da vida, o pequeno sorria afogando a cabeça no collo materno.</p> + +<p>O espanto emmudecera, immobilisara a moça.</p> + +<p class="ilustracao"><img src="images/pag062.jpg" width="80%" border="0" +alt=""> <span class="pn"><a name="pag_62">{62}</a></span></p> + +<p>Subito, ergueu-se com um grito d'alma, <span class="pn"><a +name="pag_63">{63}</a></span> poz-se a rasgar a tunica na pressa sofrega de +amamentar o filho.</p> + +<p>Os peitos saltaram tumidos. O pequeno abocou avidamente e a mãi, sentindo-o +sugar, contente e com lagrimas, ajoelhou-se e, d'olhos no ceu, ficou como +petrificada.</p> + +<p>Maria chorava por vêl-a chorar venturosa e, como as suas lagrimas cahissem +na terra, a pequenita não teve mãos para colher as flores que nasciam, brotando +como acima d'agua borbulham, ás mil, as bolhas de ar. <span class="pn"><a +name="pag_64">{64}</a></span></p> + +<p> <span class="pn"><a name="pag_65">{65}</a></span></p> +<hr width="30%"> + +<h1>Caminhando</h1> + +<p>Maria caminhava em silencio, pensando naquella mãi que, repentinamente, +passára da maior desventura á maior felicidade pelo prestigio das lagrimas +misericordiosas.</p> + +<p>—O pequenito dormia e a pobre mãi tinha-o por morto. Foi bastante que +eu lhe tocasse para que logo abrisse os olhos.</p> + +<p>—É que o despertaste, disse o patriarcha sem alludir ao prodigio que +testemunhara. <span class="pn"><a name="pag_66">{66}</a></span></p> + +<p>Elle ia notando, com discreta reserva, todas as maravilhas que se realisavam +á passagem da Virgem: ribeiros que sustavam o curso offerecendo o leito enxuto +para a travessia; arvores que se cobriam de flores, carregavam-se de frutos +vergando generosamente os galhos; vozes que murmuravam; veios limpidos que +rebentavam das pedras e, durante os curtos somnos da donzella, não lhe passavam +despercebidos anjos que rondavam em torno dos bosques pisando, de leve, os +caminhos avelludados.</p> + +<p>A mais e mais se lhe firmava nalma a certeza de que as palavras que ouvira +em sonho haviam sido pronunciadas por um mensageiro do ceu.</p> + +<p>Aquella era, em verdade, a eleita da Divina Graça, a Virgem pura de Judá, da +qual devia nascer o Messias das gentes. <span class="pn"><a +name="pag_67">{67}</a></span></p> + +<p>Elle acompanhava-a, não como esposo e sim como servo, adorando-a de joelhos +quando a via adormecida.</p> + +<p>Ella ignorava tudo. Sabia apenas que era mãi porque sentia no seio os +movimentos do Sêr Perfeito, no qual concentrava todo o seu amor.</p> + +<p>Já lhe crescia o collo, pesando, arredondado e turgido.</p> + +<p>O amor preparava o alimento para Aquelle que se nutria de mysterio.</p> + +<p>—As mãis soffrem tanto pelos filhos!... O amor das mãis é como a rosa +que cresce entre espinhos. Praza aos céus que meu filho não soffra emquanto fôr +pequenino.</p> + +<p>As crianças não falam, não atinam a indicar onde lhes punge a dôr, de sorte +que a gente não sabe como as ha de alliviar quando soffrem.</p> + +<p>—As mãis adivinham.</p> + +<p class="ilustracao"><img src="images/pag068.jpg" width="80%" border="0" +alt=""></p> + +<p>—São tão fracas as criancinhas que <span class="pn"><a +name="pag_68">{68}</a></span> tudo é perigo em torno dellas. Tremo quando penso +no meu pequenino filho <span class="pn"><a name="pag_69">{69}</a></span> que vai +nascer, tão franzino e tão pobre. Onde o agasalharemos nós?</p> + +<p>—Entre os nossos braços, como os passaros resguardam o ninho entre os +ramos.</p> + +<p>—E o frio?</p> + +<p>—Temos o nosso calor.</p> + +<p>—E a fome?</p> + +<p>—Os peitos maternos são dois celleiros sempre cheios.</p> + +<p>—Haveis de amal-o, senhor, e ajudar-me emquanto elle carecer de +nós?</p> + +<p>—Por ti, por Elle, por todos, disse José enlevado.</p> + +<p>Chegavam a um bosque de tamareiras, onde havia uma cisterna cercada de +musgo.</p> + +<p>Um velho cégo repousava á sombra, ouvindo cantar uma criança que brincava +sentada nas folhas seccas. <span class="pn"><a name="pag_70">{70}</a></span></p> + +<p> <span class="pn"><a name="pag_71">{71}</a></span></p> +<hr width="30%"> + +<h1>O cégo</h1> + +<p>O velho era de Jerichó.</p> + +<p>Esperava naquelle retiro a passagem das caravanas que se encaminhavam a +Jerusalem e sempre recolhia uma azinhavrada moeda, um punhado de tâmaras ou um +esgarçado albornoz em que se enrolava, bemdizendo, com palavras humildes e +agradecidas, a generosidade dos homens, recommendando-os ao deus de Abrahão, de +Isaac e de Jacob e indicando-lhes os melhores e mais seguros caminhos pelos +montes. <span class="pn"><a name="pag_72">{72}</a></span></p> + +<p>José ajuntou as folhas espalhadas e fez uma alfombra onde Maria adormeceu +revendo, em sonho, a sua alegre Nazareth, as moças á beira da fonte, os +pastores nos cerros, á hora macia da tarde, quando as cotovias baixam e +desapparecem nas searas e as aguas das levadas cantam.</p> + +<p>Conversaram os dois velhos—José falou da sua viagem, o cégo falou da +sua cegueira.</p> + +<p>—Estava assim desde moço, um raio cegara-o no campo, sob um sycomoro. +Já se habituara á treva como um prisioneiro que se houvesse acostumado ao +carcere.</p> + +<p>Um magico de Suza offerecera-se para cural-o. Pedira cem drachmas, baixara a +cincoenta; faria por vinte se elle lh'as offerecesse.</p> + +<p>Tinha ainda a sua cabana e ovelhas, vendendo-as reuniria a somma, mas, <span +class="pn"><a name="pag_73">{73}</a></span> pensando, resolvera deixar-se ficar +na cegueira. E suspirou:</p> + +<p>—Illude-se quem julga que, ao voltar aos antigos lugares, encontrará +as coisas como deixou: as proprias pedras modificam-se e não são varias como as +almas.</p> + +<p>Quando me annunciaram a morte de meu filho, pedi que me puzessem junto do +cadaver, apalpei-o, beijei-o; ouvi os passos dos que o levaram a enterrar, mas +não vi o enterro.</p> + +<p>Ouvi o estrondo da queda do cedro que cobria de sombra a minha eira e, ainda +hoje, vou sentar-me no sitio em que elle avultava e sinto-me agasalhado pela +ramagem que não existe e ouço a alegre voz dos passarinhos de outr'ora.</p> + +<p>As coisas foram desapparecendo uma a uma, eu mesmo envelhecia, mas a +cegueira conserva a visão do passado.</p> + +<p>O sol parou para mim na mocidade <span class="pn"><a +name="pag_74">{74}</a></span> como parou sobre os muros de Jerichó á voz do +batalhador.</p> + +<p>Vejo dentro de mim tudo quanto deixei: as gentes, os animaes, as arvores, os +lugares com as suas cabanas e os seus campos floridos.</p> + +<p>Sou como a ave aprisionada, de pequenina, em uma gaiola, que não olha senão +a limitada paizagem que fica em torno da sua vivenda triste. Soltai-a, +esvoaçará atordoada e, se não regressar á prisão, morrerá de fome perdida nas +florestas frondosas, se não cahir nas garras dos abutres.</p> + +<p>O homem de Suza queria dar-me a liberdade. Para que? para eu morrer de +saudosa tristeza sentindo o deserto em volta de mim? Não!</p> + +<p>Vivo no passado, o meu tempo já foi.</p> + +<p>Não caminho para a morte, espero-a, sentado no limiar da mocidade, +ouvindo <span class="pn"><a name="pag_75">{75}</a></span> o rumor do tempo +devastador, sem vêr os desastres, sem vêr as lagrimas, sem vêr os enterros.</p> + +<p>Perdi-me dos meus, dei em uma furna e nella vivo. Já agora estou habituado á +sombra. Para que hei de sahir se, lá fóra, só me esperam ossadas? Se o proprio +Deus me offerecesse a luz eu lhe pediria a morte.</p> + +<p>Voltar atraz...! A herva cresce, o vento revolve a areia desmanchando as +nossas pegadas.</p> + +<p>O campo, que conhecemos florido, mudou-se em carrascal; a gente envelheceu +ou morreu. Só ha um meio de não caminhar chorando—é seguir sempre em +frente e se eu recobrasse a vista teria de retroceder e cegaria de novo com os +olhos afogados em lagrimas. Aonde vos dirigis?</p> + +<p>—A Bethleem.</p> + +<p>—Casa do pão. É ali que deve nascer <span class="pn"><a +name="pag_76">{76}</a></span> o Annunciado. Casa da abundancia, celleiro do +Senhor, Bethleem da fertilidade! De lá é que nos ha de vir o Messias. O campo +de Booz dará o trigo que ha de fartar as almas.</p> + +<p>—É para lá que vamos.</p> + +<p>—Que as estrellas vos sejam propicias, como fôram a Ruth, a moça de +Moab. <span class="pn"><a name="pag_77">{77}</a></span></p> +<hr width="30%"> + +<h1>Dentro da noite</h1> + +<p>Maria abriu os olhos quando as estrellas nasciam.</p> + +<p>O cégo já havia partido levado pelo menino. As cigarras cantavam +vesperas.</p> + +<p>José empunhou o cajado: Maria deixou o leito agreste, e seguiram.</p> + +<p>As ultimas chammas do sol apagavam-se no occaso e a nevoa polvilhava os ares +como uma cinza.</p> + +<p>Monstruosos penhascos, talhados a pique á beira de precipicios, avultavam +temerosamente na sombra. <span class="pn"><a name="pag_78">{78}</a></span></p> + +<p>Palmeiras debruçavam-se sobre as rampas. Toda a vegetação contorcida, com as +raizes á flor da terra, agarrando-se nervosamente ás arestas dos penhascos, +parecia receiar aquelles despenhadeiros de onde subia atroadoramente um +escachôo soturno d'aguas constrangidas.</p> + +<p>Escurecia. Os montes áridos da Judéa apresentavam-se hostis aos +peregrinos.</p> + +<p>Os caminhos, aos torcicollos, confundiam-se augustos, escavados em brocas, +eriçados d'aspas calcareas, orlados de intonsos espinheiros que, ás vezes, como +garras, detinham os viajantes pelas tunicas.</p> + +<p>Estryges voavam, pousavam nos ramos, nos penedos com gritos lugubres.</p> + +<p>José caminhava a passo cauteloso, sondando o piso com o cajado, detendo <span +class="pn"><a name="pag_79">{79}</a></span> Maria, buscando tranquillisal-a com +palavras carinhosas.</p> + +<p>Mas a treva adensava-se a mais e mais, os roçados confundiam-se com a +sombra. Julgando seguir a trilha direita, o patriarcha estendia a mão e sentia +a aspereza das penhas.</p> + +<p>—É imprudencia insistirmos em proseguir em tal escuridão, disse Maria +com medo. É Deus que nos retém.</p> + +<p>José deteve-se. Parecera-lhe ter ouvido vozes, rumor de passos, estalos de +ramos seccos, como se viessem outros caminheiros. Escutou attentamente.</p> + +<p>Era o vento que agitava o folhedo e eram as aguas profundas que referviam +nos algares.</p> + +<p>Mas um clarão suave accendeu-se no fundo espesso do arvoredo. Quem seria? +Encolheram-se os dois, olhos fitos na claridade, que se adiantava como a luz de +um facho. <span class="pn"><a name="pag_80">{80}</a></span></p> + +<p class="ilustracao"><img src="images/pag080.jpg" width="80%" border="0" +alt=""> <span class="pn"><a name="pag_81">{81}</a></span></p> + +<p>Uma centelha passou na escuridão, outra gyrou nos ares, as folhas, os ramos +das arvores ficaram incrustados de brazas.</p> + +<p>Surgiram da terra, saltaram das rochas, subiram dos desfiladeiros, a +espessidão estrellou-se e todas as fagulhas, unindo-se, formaram uma rutila +umbella pairando sobre Maria e José como a nuvem seguiu Israel guiando-o +luminosamente pelo negror das noites no deserto.</p> + +<p>Eram pyrilampos que voavam em ordenada phalange alumiando os caminhos +obscuros.</p> + +<p>E os dois, sob o relume dos insectos, continuaram a viagem dentro dum +reverbero que só ao clarear d'alva desappareceu nos ares. <span class="pn"><a +name="pag_82">{82}</a></span></p> + +<p> <span class="pn"><a name="pag_83">{83}</a></span></p> +<hr width="30%"> + +<h1>Presagio</h1> + +<p>O ceu, d'um azul transparente, ia-se, aos poucos, illuminando.</p> + +<p>Os montes, em recortes rigidos, calvos, com a pedra exposta, a reluzir de +humidade, ou eriçados de hispidos mattos, resaltavam em aspero, mordente +relevo, com os cimos resplandecendo sob uma nevoa de ouro.</p> + +<p>Docemente baliam placidos rebanhos.</p> + +<p>As casas abriam-se; homens, ainda estremunhados, vinham ás portas, +bocejavam <span class="pn"><a name="pag_84">{84}</a></span> lançando por entre +as barbas um halito brumoso.</p> + +<p>Sentia-se a visinhança de Jerusalem pelo maior numero de casas, pela +abundancia de gado nos valles verdes, recortados de veios d'aguas. Burricos +trotavam com alcofas e ceirões de frutas.</p> + +<p>Risos crystallinos annunciavam crianças; ouvia-se um estrepitante chapinhar +e, á volta de um caminho, no claro remanso de uma ribeira, sob a acenosa +ramagem do salgueiral, meninos nús saltavam, atiravam-se de mergulho, aos +gritos alegres, flagellando a agua com ramos ou pendurando-se, a rir, dos +galhos inclinados.</p> + +<p>Nos campos, a espaços, alvejavam sepulchros; ovelhas pastavam em torno, +pombos cercavam-nos em revoada arrulhante.</p> + +<p>Por entre a palha das choças esfiava-se o fumo azul. <span class="pn"><a +name="pag_85">{85}</a></span></p> + +<p>Já os moinhos trabalhavam e junto aos immensos lagares, onde se pisava a +azeitona, reluziam, em fumeiro, montes de bagaço oleoso.</p> + +<p>Maria, que caminhara contente até aquellas paragens, á medida que avançava, +sentia apertar-se-lhe o coração em presagio funesto.</p> + +<p>Olhava anciosa os longes dos horizontes.</p> + +<p>Tudo era calmo. A paizagem estendia-se acceitosa, cortada de muros de +hortos, toda verde, bem differente dos desolados ermos que ella deixára.</p> + +<p>Todavia a tristeza empannava-lhe os olhos, enchia-lhe o coração e já +transbordava em lagrimas.</p> + +<p>Vendo-a chorar, José perguntou com meiguice:</p> + +<p>—Sentes-te fatigada?</p> + +<p>—Não, meu senhor: voltaria a Nazareth sem parar, se pudesse. <span +class="pn"><a name="pag_86">{86}</a></span></p> + +<p>—E porque choras?</p> + +<p>—Não sei. O coração aperta-se-me, um grande medo invade-me, +constrange-me. Tremo e sinto-me gelar. As proprias flores causam-me horror. As +anemonas parecem-me chagas que sangram. Tenho medo, um grande medo, como se +fosse caminhando para a morte. Que tumulo é aquelle que apparece além, tão +alto, tão negro, sob o vôo dos corvos?</p> + +<p>José seguiu com o olhar a direcção do gesto de Maria.</p> + +<p>—O que vês são as muralhas de Jerusalem, onde chegaremos antes do pôr +do sol.</p> + +<p>—Além das muralhas, aquelle tumulo negro, tão triste, onde agora o sol +brilha.</p> + +<p>Uma velha, trazendo um jumento pela arreata, sahiu ao caminho vagarosa. <span +class="pn"><a name="pag_87">{87}</a></span></p> + +<p class="ilustracao"><img src="images/pag087.jpg" width="80%" border="0" +alt=""> <span class="pn"><a name="pag_88">{88}</a></span></p> + +<p>José saudou-a, a velha sorriu á Maria abençoando-a e a Virgem, escondendo a +tristeza num sorriso, perguntou-lhe:</p> + +<p>—Que tumulo é aquelle, além! tão alto, dentro dos muros da cidade? Os +corvos rondam-no, deve haver mortos ali.</p> + +<p>—É um monte, disse a mulher.</p> + +<p>—Um monte! repetiu Maria surprehendida.</p> + +<p>—O Golgotha. O outro é o Goreb.</p> + +<p>—O Golgotha! suspirou a Virgem e, depois de um silencio dolorido, +deixando-se cahir sobre as hervas, desatou a chorar convulsamente. A velha +animou-a, teve palavras inuteis de consolo e alento. José assentou-se-lhe ao +lado e, tomando-lhe as mãos frias, alisando-lhe os cabellos humidos de orvalho, +perguntou-lhe:</p> + +<p>—Que tens? Ella não poude responder. <span class="pn"><a +name="pag_89">{89}</a></span> Levantou-se e, resignadamente, de olhos baixos, +contendo os soluços, poz-se, de novo, a caminho, em direcção á cidade branca e +atorreada, ao sol. <span class="pn"><a name="pag_90">{90}</a></span></p> + +<p> <span class="pn"><a name="pag_91">{91}</a></span></p> +<hr width="30%"> + +<h1>Piedade</h1> + +<p>Com um rebanho que recolhia levado por um pastor coberto de pelles, as +pernas enroladas até os joelhos em vello sórdido, entraram em Jerusalem pela +porta do mercado, á hora em que as buzinas romanas troavam nas torres.</p> + +<p>José procurava distrahir Maria mostrando-lhe as grandes bellezas, a +magnificencia da cidade; nomeava os edificios, alguns longinquos, esfumados nas +primeiras sombras da noite.</p> + +<p>A Virgem, porém, seguia calada, sem <span class="pn"><a +name="pag_92">{92}</a></span> animo de levantar os olhos, o coração cerrado em +tristeza invencivel.</p> + +<p>Gentes diversas cruzavam-se nas ruas: homens abaçanados do deserto, com o +albornoz ao vento, o punho esmaltado das adagas reluzindo á cinta; phenicios +cobertos de jóias, com enormes collares de contas de ouro e braceletes de +marfim; gregos ágeis passando ligeiros entre a multidão, com a tunica colhida +ao braço, as pernas enlaçadas em tiras de couro.</p> + +<p>Mulheres mostravam-se ás portas das casas, encostadas languidamente aos +umbraes, olhando em extase, com um sorriso nos labios côr de purpura.</p> + +<p>A algumas viam-se-lhes os peitos pela abertura das tunicas; outras, +reclinadas em leitos marchetados, cerravam mollemente as palpebras gosando o +frescor dos flabellos que escravas agitavam. <span class="pn"><a +name="pag_93">{93}</a></span></p> + +<p>Errava no ar denso um cheiro forte de aromatas.</p> + +<p>Estranhas musicas soavam e, como os albergues estavam cheios, era um +babariso alegre sob as frescas latadas, por entre as quaes, em corridinha +airosa, moças iam e vinham com amphoras e crateres.</p> + +<p>O pastor falara-lhes em uma modesta estalagem em Bezetha, para o lado do +forte, onde podiam encontrar agasalho seguro.</p> + +<p>A casa era dirigida por um velho de Siloeh e tinha, fama pelo seu anho tenro +e pelo seu vinho puro. Lá achariam pousada e, como ficava longe e não recebia +mulheres, não seriam incommodados pelos legionarios que, á menor agitação, +invadiam as casas brutalmente levando tudo a conto de lança.</p> + +<p>Era um rancho pauperrimo, entre sebes de espinhos, onde aboletavam-se <span +class="pn"><a name="pag_94">{94}</a></span> mesteiraes e homens dos montes que +traziam ao mercado favos de mel, resinas, balsamos e raizes.</p> + +<p>O velho acolheu-os de boa sombra, serviu-lhes a refeição na sala lobrega que +uma candeia alumiava.</p> + +<p>Rusticos bebiam, jogavam e fóra, junto a um monte de pedras, um velho +resmungava raspando, com voracidade, o fundo de uma escudella.</p> + +<p>Era um leproso nojentamente abostellado de ulceras.</p> + +<p>Ás chufas dos homens, que lhe atiravam cascas, bagaços de frutas, respondia +aos regougos, bramindo maldições e, como prorompesse aos berros, apanhando +pedras para defender-se, os homens revoltaram-se.</p> + +<p>O hospede tranquillisou-os e, sahindo ao terreiro, poz-se a assobiar.</p> + +<p>Enorme cão saltou da sombra rosnando, o taverneiro açulou-o contra <span +class="pn"><a name="pag_95">{95}</a></span> o leproso que se encolhera +estarrecido.</p> + +<p class="ilustracao"><img src="images/pag095.jpg" width="80%" border="0" +alt=""> <span class="pn"><a name="pag_96">{96}</a></span></p> + +<p>Vendo o cão investir, Maria cahiu de joelhos, juntou as mãos frias e, +tremula, d'olhos no ceu, implorou pelo infeliz.</p> + +<p>O animal raivava, aos saltos; os homens vociferavam incitando-o. Alguns riam +no ante-gosto da scena cruel, mas como o leproso, tentando correr, tropeçasse +rolando na terra e ferindo o rosto no pedregulho, o cão, que o alcançara, +poz-se a ganir e, sacudindo a cauda, ficou de rastos, lambendo mansamente o +sangue que escorria da cicatriz do mendigo.</p> + +<p>E Maria, extactica, não via a doce misericordia que immobilisara em espanto +os hospedes do albergue. <span class="pn"><a name="pag_97">{97}</a></span></p> +<hr width="30%"> + +<h1>Cantico messianico</h1> + +<p>Ao romper d'alva quando, do lado do templo, as cegonhas partiam em direcção +ao deserto e as pombas baixavam em nuvens sobre o mercado catando o grão que +transbordava das ceiras, o patriarcha despertou Maria e, ligeiros como +foragidos, deixaram a estalagem com os votos de boa jornada do hospedeiro. As +buzinas romanas resoavam na serenidade.</p> + +<p>Legionarios recolhiam cançadamente a Makéros. <span class="pn"><a +name="pag_98">{98}</a></span></p> + +<p class="ilustracao"><img src="images/pag098.jpg" width="80%" border="0" +alt=""></p> + +<p>Pobres, que haviam pernoitado ao relento, estremunhavam sobre farrapos. <span +class="pn"><a name="pag_99">{99}</a></span></p> + +<p>Num pateo, entre muros de maceria, espontado de hervas sylvestres, mugiam +bois e homens bradavam.</p> + +<p>Corvos rondavam os ares attrahidos pelo cheiro do sangue.</p> + +<p>Quando passaram as muralhas, sahindo no campo do oleiro, o sol brilhava nas +pastagens humidas e passarinhos cruzavam o vôo cantando na alegria do sol.</p> + +<p>Maria caminhava d'olhos altos, como enlevada. Ineffavel sorriso +illuminava-lhe o rosto lindo, arrepios nervosos sacudiam-na de instante a +instante.</p> + +<p>—Lá está Bethleem! disse José estendendo o cajado na direcção dos +montes ainda enfaixados em nevoa.</p> + +<p>Maria empallideceu e, d'olhos fitos nos outeiros graciosos da terra de +David, rompeu, de repente, a cantar, sobre uma antiga melodia hebraica, +repetindo <span class="pn"><a name="pag_100">{100}</a></span> inspiradamente as +palavras que lhe sahiam d'alma:</p> + +<p> </p> + +<p>«Espirito Perfeito, ancia das almas miseras, se és Tu que em mim assistes, +bemdita seja a carne fragil em que te encerraste e de onde deves romper, germen +da Redempção, em Flor de Misericordia.</p> + +<p> </p> + +<p>Espirito Perfeito, lume que de mim fizeste a Tua lampada, que o Teu clarão +espalhe-se pela terra fazendo brotar a sementeira nos campos e o Amor no +coração dos homens.</p> + +<p> </p> + +<p>Espirito Perfeito, fonte de copiosas aguas bemfazejas, se é do meu seio que +vais jorrar, bemdita seja a Dôr que me lançou na vida, bemditas sejam as +lagrimas que já por Ti hei vertido. <span class="pn"><a +name="pag_101">{101}</a></span></p> + +<p> </p> + +<p>Espirito Perfeito, esperança dos desanimados, se eu sou o ramo verde que Te +hei de dar, bemdita seja a afflicção de minh'alma na hora atormentada em que, +innocente, me julguei culpada e, pura, vi a suspeita manchar a minha +virgindade.</p> + +<p> </p> + +<p>Espirito Perfeito, se És a Redempção annunciada, bemdigo a Tua vinda, sem +orgulho, por me haveres tomado por Teu trámite e prostro-me ante a Tua Graça e +exalto a Tua Beneficencia.</p> + +<p> </p> + +<p>Espirito Perfeito, Sêr dos sêres, não nado ainda, gloria a Ti e á Tua origem +celestial. Virgem, dar-te-ei ao mundo. Eu sou como o olhar que se não macula +por transmittir ao corpo a visão.</p> + +<p>Por mim entras no mundo como o sol, e tudo que elle alumia, entra, pelo +olhar, no cerebro. <span class="pn"><a name="pag_102">{102}</a></span></p> + +<p>Eu sou a pupilla que communica ao Universo a Claridade Magnifica.</p> + +<p> </p> + +<p>Espirito Perfeito, louvado sejas sempre pela Tua Virtude e pela Tua +Excellencia. Sahes da carne mortal sem trazeres peccados: passas por ella como +uma imagem que se reflecte nagua.</p> + +<p> </p> + +<p>Espirito Perfeito, Graça de Israel, Esperança das Gentes, Messias... Meu +coração alegra-se sentindo-Te e o meu coração é o captivo que almeja a +liberdade.</p> + +<p>Eu sou a Fraqueza humilde chamada Mulher. Sou a escrava que gera o seu +Libertador, a Sombra de onde sahe a Luz, o Peccado que floresce em +Perdão...»</p> + +<p> </p> + +<p>José ouvia-a com os olhos rasos d'agua. <span class="pn"><a +name="pag_103">{103}</a></span></p> + +<p>As cotovias cantavam na altura luminosa.</p> + +<p>Longe, sob a fulguração do sol, resplandeciam os muros de Bethleem, entre +outeiros. <span class="pn"><a name="pag_104">{104}</a></span></p> + +<p> <span class="pn"><a name="pag_105">{105}</a></span></p> +<hr width="30%"> + +<h1>O campo de Booz</h1> + +<p>Á hora cálida, abafada em que as folhas dormem e as ribeiras murmuram de +leve, vagarosas, remansando-se sob as quietas sombras, e toda aza encolhe-se +entre os ramos mais densos, e todo reptil encova-se na terra mais humida, deram +os dois num campo de farta seara onde alumiavam foices e moças juntavam +gavellas, cantando, emquanto os homens ceifavam assustando as cotovias que +tinham os seus ninhos rentes do chão, na raiz do trigal. <span class="pn"><a +name="pag_106">{106}</a></span></p> + +<p>Maria, com o manto sobre a cabeça, enlevada naquella messe de ouro e na +alegria ruidosa do trabalho, ouvia as vozes que se cruzavam subindo dos trigos +altos, onde os seareiros desappareciam, como se fôsse o proprio campo que +cantasse o louvor do sol.</p> + +<p>Ia tão entretida que não viu José adiantar-se, direito a uma palhoça onde um +velho jazia, sentado ante um monte de vergas, tecendo um alcofe e cantando.</p> + +<p>Aligeirou os passos e alcançou o esposo justamente quando elle saudava o +ancião.</p> + +<p>—Dizei-me a quem pertence este campo tão rico e cheio de tanta +alegria?</p> + +<p>—A Obed, segundo deste nome, descendente de Booz, o semeador.</p> + +<p>—Foi, então, nesta terra que a moabita achou agasalho junto do homem +bom, que a amou?</p> + +<p>—Sim, foi aqui. Esta é a leira de <span class="pn"><a +name="pag_107">{107}</a></span> Ephracta, a mais fertil entre as mais +abundantes e generosas. Este campo foi o leito nupcial onde se gerou a raça +robusta dos reis de Israel.</p> + +<p>Aqui nasceu David, tronco forte, estirpe augusta de que ha de sahir a +Immarcessivel Flor annunciada, cujo perfume encherá as almas de ineffavel +ventura. Este é o celleiro de Iaveh. E vós, vindes de longe?</p> + +<p>—De Nazareth, na Galiléa.</p> + +<p>—E ides?</p> + +<p>—A Bethleem. Urge que lá cheguemos antes do pôr do sol.</p> + +<p>—Tendes tempo. Sentai-vos um momento, é a hora da refeição. O que +tenho dá para repartir comvosco. A vossa companheira, esposa ou filha, vem +fatigada; que descance um instante á sombra, gosando a sesta. Entrareis na +cidade com a fresca da tarde.</p> + +<p>Aceitaram os peregrinos o convite <span class="pn"><a +name="pag_108">{108}</a></span> hospitaleiro: sentaram-se e comeram do pão +molhado em mel e beberam pelo mesmo tarro o leite cheiroso.</p> + +<p>Ficaram os dois velhos conversando e Maria, encostando-se aos feixes de +trigo, cobriu o rosto com o manto e adormeceu.</p> + +<p>As moças cantavam na eira levantando medas de ouro e, sob o sol escaldante, +no alto ceu azul, as cotovias voavam e os seus gritos abrandavam-se na +distancia, esmoreciam perdidamente. <span class="pn"><a +name="pag_109">{109}</a></span></p> +<hr width="30%"> + +<h1>Na estrada de Bethleem</h1> + +<p>Frio e pallido, esfumado em brumas, o crepusculo baixava na tristeza da +tarde silenciosa.</p> + +<p>No remonte dos cerros pedregosos, hirtas palmeiras immoveis pareciam +gravadas, em negro, no fundo dourado do occaso. Aves esvoaçavam caladas.</p> + +<p>Docemente, com um tremulo murmurio, fluiam pelos canaes de rega as aguas +levadias, e as vozes soturnas dos bois soltos, errando, de vagar, no campo +restolhado, soavam como gemidos. <span class="pn"><a +name="pag_110">{110}</a></span></p> + +<p>Os peregrinos seguiam uma vereda suave, entre debruns de anemonas.</p> + +<p>Maria parava de instante a instante, arfando.</p> + +<p>Amollecida, alquebrada, olhava com desanimo os outeiros ainda longinquos e +suspirava, sem atrever-se a dizer ao esposo o seu cançaço.</p> + +<p>José, porém, notou-lhe a lentidão dos passos e, amparando-a, animou-a +carinhoso:</p> + +<p>—Estamos a chegar. Lá apparecem as casas de Bethleem; as luzes brilham +por entre as arvores. Mais um momento e teremos repouso em alguma estalagem.</p> + +<p>Ella parou, ficou a olhar o ceu nublado como a implorar alento para chegar +ao termo da viagem.</p> + +<p>—É um peso que me curva, murmurou em voz sumida. Sinto-me tão fraca +que não sei se poderei acompanhar-vos até as collinas de além. Toda <span +class="pn"><a name="pag_111">{111}</a></span> eu esmoreço. O meu desejo é +deixar-me ficar no caminho, deitada nas hervas, e dormir um somno grande.</p> + +<p>Nunca me pesou tanto o corpo, o proprio espirito pesa-me, tão carregado está +de medo e de cuidados sombrios.</p> + +<p>Que será de mim e d'Elle ao nascer em tão desabrigados lugares, longe de +tudo, á friagem da noite, com este vento que retalha as carnes como um ferro +mortal?</p> + +<p>O chiar de um carro levou-lhes a attenção para o caminho deserto. Uma voz +cantava na tristeza da tarde moribunda:</p> + +<blockquote> + <p>Hervas do campo florido,<br> + Que aroma! Que trescalar!<br> + Bem se vê que o seu vestido<br> + Andou por vós a roçar.</p> + + <p>Outeiro em flor, o teu vello,<br> + Verde e fino, ao meu ciume<br> + Confessa que o seu cabello<br> + Deixou nelle o seu perfume. <span class="pn"><a + name="pag_112">{112}</a></span></p> +</blockquote> + +<p>O carro appareceu acogulado de trigo, rinchando, ao passo moroso dos bois +que traziam os cornos floridos de acacias.</p> + +<p>José dirigiu-se ao carreiro, robusto moço, e pediu-lhe passagem para Maria, +mostrando-a, prostrada e languida, entre o rosmaninho cheiroso.</p> + +<p>O moço accedeu e os dois ajudaram a Virgem a subir, fizeram-lhe lugar macio +sobre as paveias louras e os bois arrancaram.</p> + +<p>E caminhando, José ia enlevado na esposa e o carreiro, d'aguilhada ao +hombro, olhos fitos no ceu, insistia na egloga:</p> + +<blockquote> + <p>Hervas do campo florido,<br> + Que aroma! Que trescalar<br> + Bem se vê que o seu vestido<br> + Andou por vós a roçar. <span class="pn"><a name="pag_113">{113}</a></span></p> +</blockquote> +<hr width="30%"> + +<h1>Na caverna</h1> + +<p>Diante de uma trilha que se perdia no arvoredo deteve-se o carreiro e +disse:</p> + +<p>—Aqui me despeço, este é o meu rumo. A estrada em que estais, direita +e facil, guia-vos a Bethleem. Seja o Senhor comvosco.</p> + +<p>Sem esforço José tomou a Virgem nos braços, pousou-a na terra, agradecendo +ao moço a gentileza de a haver recebido no seu carro. E elle, galantemente, +respondeu:</p> + +<p>—Trouxe a flor viva no trigal ceifado, <span class="pn"><a +name="pag_114">{114}</a></span> e, com tão geitosa resposta, despediu-se e +foi-se, aguilhada ao hombro, de vagar, á frente dos bois, cantando, em voz +apaixonada, os louvores do seu amor mimoso.</p> + +<p>Os dois caminharam alguns passos, Maria amparada ao esposo, lenta, tolhida +de soffrimento; mas não poude ir além da caverna e deteve-se.</p> + +<p>O aspero interior do antro tingia-se de laivos rubros, ao tremulo flammejar +d'uma fogueira junto á qual um velho pastor, as mãos estendidas ao lume, +cantarolava baixinho.</p> + +<p>Ovelhas ondulavam na sombra.</p> + +<p>Logo á entrada, na anfractuosidade da rocha, havia uma mangedoura. Um +jumento dormitava e, junto delle, ruminando, jazia deitada uma vacca com o seu +novilho.</p> + +<p>Disse José a Maria: <span class="pn"><a name="pag_115">{115}</a></span></p> + +<p class="ilustracao"><img src="images/pag115.jpg" width="80%" border="0" +alt=""> <span class="pn"><a name="pag_116">{116}</a></span></p> + +<p>—Firma-te a mim e vamos devagarinho. Havemos de achar aposento em +alguma estalagem. Ella sorriu docemente, resignada, mas os seus olhos meigos +foram para a caverna.</p> + +<p>O patriarcha, apiedado, adiantou-se e falou ao pastor.</p> + +<p>—Seja o Senhor comvosco!</p> + +<p>—Seja bemvindo quem chega e assim annuncia-se ao humilde.</p> + +<p>—Hospede na terra venho de longe e commigo, em estado que não consente +esforço, trago a minha esposa, que aqui vedes. Se permittirdes que ella fique +um momento comvosco emquanto procuro hospedagem, sempre o meu coração vos ha de +louvar.</p> + +<p>O velho pastor, idoso, de fartas barbas amarellecidas, longos cabellos +espalhados pelos hombros, que um melóte cobria, soergueu-se e falou:</p> + +<p>—A caverna não tem porta, ainda é mais franca que os templos. Entrai +e <span class="pn"><a name="pag_117">{117}</a></span> abeirai-vos do lume, que a +noite começa a esfriar.</p> + +<p>—Ella fica, eu sigo pela pousada. Maria, timida, entrou. Logo o pastor +acamou as palhas, alargando um leito fofo e, vendo-a recostar-se, voltou ao seu +lume e ao canto com que se entretinha.</p> + +<p>E o patriarcha partiu.</p> + +<p>Ainda que não conhecesse a cidade, tanta era a gente que se movia nas ruas, +que não lhe foi difficil, perguntando, encaminhar-se a uma estalagem.</p> + +<p>Logo á entrada, sob o vasto alpendre, viu altas pilhas de fardos e, em +torno, estendidos em pelles, mercadores e recoveiros.</p> + +<p>O hospede, mostrando-lhe o transbordo da casa, disse:</p> + +<p>—São homens que se aboletam ao relento, por falta de commodos. +Difficilmente encontrareis quem vos receba, porque as festas attrahiram grande +mó <span class="pn"><a name="pag_118">{118}</a></span> de estrangeiros e as +feiras trazem das cercanias todos os lavradores. Guie-vos o Senhor. E José +proseguiu.</p> + +<p>Nas viellas e alfurjas havia turbas cantando e bailando em volta de +fogueiras.</p> + +<p>Debalde o ancião entrava nas estalagens; as proprias choupanas recebiam +hospedes e, pelas collinas, entre fogos, clareavam tendas. Errou até tarde sem +exito.</p> + +<p>Já o silencio annunciava hora alta quando, quebrado de fadiga, retrocedeu +pelas betesgas desertas, ao latido dos cães errantes, em rumo á caverna.</p> + +<p>Avistou-a de longe, alumiada por um clarão de luar, e, como levantasse os +olhos demandando o astro, deu com um anjo deslumbrante que, abrindo azas +largas, diaphanas, feitas como de nevoa e luz, ia e vinha no espaço, rondando a +noite. <span class="pn"><a name="pag_119">{119}</a></span></p> + +<p>Entrou. O velho pastor velava diante das brazas vividas e, entre ovelhas, +sobre a palha loura, a Virgem dormia serena. <span class="pn"><a +name="pag_120">{120}</a></span></p> + +<p> <span class="pn"><a name="pag_121">{121}</a></span></p> +<hr width="30%"> + +<h1>Natal</h1> + +<p>O esplendor é mais impenetravel que a treva e foi uma muralha fulgurante que +encobriu Maria quando se realisou a prophecia do Bem.</p> + +<p>Na hora em que os gallos cantaram a primeira vez subito clarão resplandeceu +no fundo da caverna. A luz foi tanta, tão intensa que atravessou o somno em que +jaziam o patriarcha e o pastor.</p> + +<p>José soergueu-se d'impeto, firmando-se nas mãos, offuscado pela claridade +vivida que irradiava em stalactites de <span class="pn"><a +name="pag_122">{122}</a></span> um brilho augusto, mudando em rutilos diamantes +todas as pedras brutas e fazendo do aspero sólo, eriçado em pedrouços, uma área +esplendida como se fosse embutida de gemmas lapidadas.</p> + +<p>O pastor, attonito, deslumbrado, arrastava-se tacteando e a caverna, a mais +e mais aclarada, parecia toda uma chamma alva como se um luar maravilhoso a +enchesse magnificamente.</p> + +<p>Os dois homens, atordoados, não falavam—estendiam as mãos e os seus +dedos chammejavam como raios d'astros e da luminosidade desprendia-se um +perfume, novo na terra, aroma celestial que enlevava como um encantamento.</p> + +<p>Além da caverna a noite negrejava calada e erma de estrellas. Poude o pastor +arrastar-se até o limiar e o seu corpo, esgueirando-se, refulgia como o de uma +salamandra. <span class="pn"><a name="pag_123">{123}</a></span></p> + +<p>Tremulo, chegou á entrada, respirando, a largos sorvos, o ar frio que vinha +dos outeiros. Levantou o olhar e recuou espavorido.</p> + +<p>Escada altissima, de scintillantes degraus, ligava o cimo do outeiro ao ceu +aberto em radiante pórtico e anjos desciam, tantos que pareciam uma catadupa +que se despenhava espumejando iriada de sol, com scintillações de pedrarias.</p> + +<p>Não poude olhar e, rojando-se, com a face na terra, ouvia o murmurio das +azas.</p> + +<p>Não disse palavra, immovel, tolhido de assombro, sentindo a transfiguração +da noite.</p> + +<p>José conseguiu levantar-se e caminhou lentamente atravez do esplendor.</p> + +<p>Maria appareceu-lhe entre as mansas ovelhas que, reunidas, bafejavam as +palhas onde um pequenino infante, as mãosinhas na boca, os olhos <span +class="pn"><a name="pag_124">{124}</a></span> candidos abertos, parecia +contemplar a Virgem que sobre Elle inclinava-se.</p> + +<p class="ilustracao"><img src="images/pag124.jpg" width="80%" border="0" +alt=""> <span class="pn"><a name="pag_125">{125}</a></span></p> + +<p>Olhou-a, fitou no tenro corpo os olhos e viu que o cercavam tres figuras de +incomparavel belleza.</p> + +<p>Uma, as mãos diaphanas cruzadas sobre o peito, os olhos baixos, concentrada, +rezava. Outra, d'olhos enlevados, com uma palma verde na mão debil, sorria. A +terceira, de joelhos, aquecia com o halito, envolvendo-o nos seus longos +cabellos louros, o corpo recem-nado.</p> + +<p>Por onde teriam entrado os tres seres? Que anjos seriam? Não os poude +reconhecer o patriarcha, mas chegando-se á Virgem tomou-lhe a mão e +beijou-a.</p> + +<p>Ella mostrou-lhe o Filho com uma ternura tão meiga que o sorriso não poude +por si só exprimil-a e lagrimas correram.</p> + +<p>Assim deram os olhos, d'uma só vez, todos os seus thesouros: o brilho do +olhar e os diamantes da meiguice, essa humildade do amor. <span class="pn"><a +name="pag_126">{126}</a></span></p> + +<p>Pouco a pouco foi-se a luz extinguindo, a sombra retomou a caverna.</p> + +<p>As Virgens desappareceram e Maria, acolhendo o pequenino nos braços, +chegou-o ao collo, aqueceu-o, afagou-o.</p> + +<p>Foi mãi antes de ser serva. Só depois de o beijar estremecidamente ouviu as +vozes que atroavam a noite:</p> + +<p>«Gloria a Deus nas Alturas, Paz aos homens na terra de bôa vontade.»</p> + +<p>Occorreram-lhe as palavras do anjo. Lembrou-se, então, que o Sêr nascido do +seu seio era o Deus da Promessa.</p> + +<p>Deitou-o delicadamente nas palhas e ajoelhou-se adorando-o.</p> + +<p>José, afastado do grupo, prestava culto á Virgem e ao Infante e o ceu, pela +voz dos Espiritos eleitos, saudava o Natal messianico, apregoando a vinda do +Filho do Homem, portador da Piedade.</p> + +<p>Ergueu-se o pastor, olhou o ceu e, <span class="pn"><a +name="pag_127">{127}</a></span> ouvindo os anjos, sahiu a correr bradando +inspiradamente a Bôa Nova.</p> + +<p>E os gallos puzeram-se a cantar annunciando a maior e a mais bella madrugada +do mundo. <span class="pn"><a name="pag_128">{128}</a></span></p> + +<p> <span class="pn"><a name="pag_129">{129}</a></span></p> +<hr width="30%"> + +<h1>As tres virgens</h1> + +<p>Quando o Menino adormeceu José, aproximando-se de Maria, perguntou-lhe +baixinho: «Se vira as tres virgens que cercavam o Infante ungindo-o de luz?» A +Immaculada respondeu no mesmo tom discreto:</p> + +<p>—Logo que sahiu do somno, ainda antes de vêr meu filho, dei com ellas, +immoveis, aclarando toda a caverna, de joelhos em torno do Recem-nascido.</p> + +<p>Não falavam. Não sei quem são. <span class="pn"><a +name="pag_130">{130}</a></span></p> + +<p>Desappareceram de repente como as estrellas desapparecem.</p> + +<p>—Seriam anjos? Uma serena voz, sahindo das pedras, falou no +silencio:</p> + +<p>—A primeira é toda a Crença do Homem: é a Virtude que leva a Alma á +presença do Altissimo.</p> + +<p>Antes da vinda do Messias era a nevoa indecisa que resplandecia e +obumbrava-se; agora é a Luz pura e perenne, a luz viva que guia ao Paraiso +atravez de todos os abrolhos, por meio dos mais árduos soffrimentos, vencendo +as mais perversas tentações, sempre direita, inflexivel e segura. É a Fé.</p> + +<p>O seu olhar não se desvia, a sua linguagem é a prece, a sua confiança é +Deus. É a mais forte das tres. A segunda é uma consoladora. Parece um reflexo +da primeira: É a Esperança.</p> + +<p>Veste-se de illusões, recama-se de sonhos para distrahir a Alma, +livrando-a <span class="pn"><a name="pag_131">{131}</a></span> do desespero. É +como o ramo verde que se inclina á borda dos abysmos. É a divina miragem que, +atravez das agruras da vida, reanima o coração combalido, creando perspectivas +venturosas.</p> + +<p>Só, é uma encantadora que vive a inventar maravilhas, ligada á Fé é a +precursora que desbrava o caminho para a travessia da alma.</p> + +<p>Sem ella a miseria seria um flagello, a dôr seria intoleravel. É uma força +feita de sonho. Isolada é a fantasia.</p> + +<p>A terceira é o Amor, é a lagrima que se converte em misericordia, é a +bondade omnipotente, a meiguice que salva, a resignação que remitte, a +paciencia que conforta, a lan que agasalha, o linho que estanca o sangue, o +lume que aquece.</p> + +<p>É o conjuncto amoroso de todas as beneficencias—a Caridade.</p> + +<p>São as tres irmans que acompanham o Messias. <span class="pn"><a +name="pag_132">{132}</a></span></p> + +<p>Elle tomou-as ao paganismo e converteu-as transmittindo-lhes a sua +essencia.</p> + +<p>Eram as Karites, são as Virtudes. Fôram as Graças, são as beneficiadoras.</p> + +<p>Com ellas Jesus fará a redempção do Homem.</p> + +<p>Para combater o mal, podendo trazer as legiões adamantinas, trouxe as +humildades.</p> + +<p>Calou-se a voz e os dois olharam-se maravilhados.</p> + +<p>—Não ouviste falar?</p> + +<p>—Sim, meu senhor, falaram. As ovelhas estavam de pé e olhavam, como se +tambem procurassem o mysterioso, interlocutor.</p> + +<p>Mas o Menino agitou-se no leito palhiço, estendeu os bracinhos e chorou.</p> + +<p>Presto, Maria tomou-o ao collo, aconchegou-o cobrindo-o com o manto. <span +class="pn"><a name="pag_133">{133}</a></span></p> + +<p>—Deve ser frio, disse José.</p> + +<p>—Fome, talvez, disse Maria, anciosa por dar o peito farto ao pequenino +Filho. <span class="pn"><a name="pag_134">{134}</a></span></p> + +<p> <span class="pn"><a name="pag_135">{135}</a></span></p> +<hr width="30%"> + +<h1>O primeiro leite</h1> + +<p>Á primeira sucção da boca da criança Maria estremeceu, sentindo uma dôr +aguda, como se um punhal lhe houvesse atravessado o seio. Longe, porém, de +fugir com o peito dolorido, inclinou o busto, dando-se toda ao sublime +martyrio, com a alma a brilhar nos olhos que a dôr orvalhara de lagrimas.</p> + +<p>Ávido, o infante sugava, cavando as bochechas e o leite, afluindo, rasgava +passagens como a torrente que se despenha <span class="pn"><a +name="pag_136">{136}</a></span> da altura vincando a terra e arrastando o que +se lhe antolha á levada.</p> + +<p class="ilustracao"><img src="images/pag136.jpg" width="80%" border="0" +alt=""></p> + +<p>O Divino alimentava-se do soffrimento humano e naquellas opalinas gottas de +leite—sangue e agua fundidos <span class="pn"><a +name="pag_137">{137}</a></span> em candura—o ceu commungava na terra.</p> + +<p>A Carne mortal nutria o Espirito Perenne, o ephemero transfundia-se no +Eterno: as duas collinas alvas tocavam o Infinito, que era a boca de Jesus, de +onde deviam jorrar, em caudaes, as leis santas, os sabios julgamentos, a benção +e o perdão.</p> + +<p>A Virgem sorria e o seu collo turgido ondulava de ventura, em quanto o +patriarcha, ajoelhado, contemplava o grupo, aureolado pelo clarão da fogueira, +cuja chamma resurgira ao sopro da brisa nocturna.</p> + +<p>Fóra resoavam canticos; vozes, sons de harpas enchiam o espaço.</p> + +<p>Por vezes um clarão relampejava diante da gruta á esplendida passagem rapida +de um anjo.</p> + +<p>Maria, inclinada sobre o Filho, só a elle sentia, ouvindo apenas o lento +gorgulhar <span class="pn"><a name="pag_138">{138}</a></span> do leite que elle +sugava soffrego.</p> + +<p>Todo o mundo ali estava nos seus braços: a terra com os seus vergeis +floridos, o ceu com as suas estrellas fulgidas.</p> + +<p>Que lhe importava a aurora se na pennugem loura que seus dedos afagavam na +cabecinha do filho, ella via o esplendor maior que podem contemplar olhos de +mãi!</p> + +<p>Que lhe importavam os anjos se, no fundo luminoso das pupillas da criança, +via dois pequeninos seraphins alegres?</p> + +<p>Que lhe importava a immensa alegria universal, se o seu coração transbordava +de felicidade com aquelle amor!</p> + +<p>Levantou-se um alarido fóra, na estrada obscura. José sahiu ao limiar.</p> + +<p>Um bando de homens corria em tropel em direcção ao abrigo agreste. Á frente +delles, voando e alumiando-lhes <span class="pn"><a +name="pag_139">{139}</a></span> o caminho com o esplendor das azas, um anjo +estendia o braço mostrando a caverna. Outros cruzavam longe, em enxames +claros.</p> + +<p>No cimo dos cerros grupos resplandeciam.</p> + +<p>Subito uma grita atroou o silencio:</p> + +<blockquote> + <p>«Hosannah! Hosannah!»</p> +</blockquote> + +<p>O pequeno adormeceu docemente com a boca collada ao peito materno. Maria +beijou-o e, inclinada, quedou em enlevo.</p> + +<blockquote> + <p>«Hosannah! Hosannah!»</p> +</blockquote> + +<p class="ni">bradavam fora. Ella sobresaltou-se e, chamando o esposo, +perguntou:</p> + +<p>—Quem clama assim, meu senhor?</p> + +<p>—Pastores. Guia-os um anjo. Vêm adorar o Infante. E ella, +cuidadosa:</p> + +<p>—Comtanto que o não despertem... E aconchegou-o ao collo agasalhando-o +junto do coração. <span class="pn"><a name="pag_140">{140}</a></span></p> + +<p> <span class="pn"><a name="pag_141">{141}</a></span></p> +<hr width="30%"> + +<h1>Adoração dos pastores</h1> + +<p>Tumultuosamente os pastores chegaram á caverna e o velho, dono do rebanho, +que acolhera o casal no seu tugurio, adiantou-se ao grupo e falou ao +patriarcha:</p> + +<p>—Deixai-nos vêr e adorar o Deus vivo. Já o tinha por tal e quando sahi +para a noite, com os olhos offuscados, fui bradando no silencio a Bôa Nova.</p> + +<p>Os homens que dormiam nas choças, as ovelhas que se apertavam nos apriscos, +as mesmas arvores sem folhas, as <span class="pn"><a +name="pag_142">{142}</a></span> mesmas pedras sem vida estremeceram á minha voz +pregoeira.</p> + +<p>Eu levava na boca uma palavra que estrondava. O que eu dizia aos que me +ficavam perto retumbava como o som da buzina que vai de quebrada em quebrada ou +como o trovão tempestuoso que se ouve em todos os pontos: na planicie e no +valle, na montanha e na furna.</p> + +<p>De mim sahia a annunciação e, certo, a minha palavra ainda vai pelos ares +viva, levando ás póvoas mais remotas a venturosa noticia.</p> + +<p>O que eu dizia na terra anjos repetiam nos ares. Os espiritos celestiaes +fizeram-se meus echos e ainda clamam batendo as azas, tangendo lyras que sôam +docemente.</p> + +<p>Não havia uma estrella e todas agora reluzem; astros nunca vistos brilham no +fundo ceu.</p> + +<p>Não havia folha em ramo e as arvores <span class="pn"><a +name="pag_143">{143}</a></span> estão todas cobertas e cantam festivamente +passarinhos nas montas.</p> + +<p>O outono vestiu-se com as galas da Primavera.</p> + +<p>Só um Deus faria prodigios taes.</p> + +<p>Deixai-nos vêr e adorar o Deus vivo.</p> + +<p>Os pastores brandiram os cajados bradando, de novo:</p> + +<blockquote> + <p>«Hosannah! Hosannah!»</p> +</blockquote> + +<p>E, como José se afastasse dando-lhes passagem, precipitaram-se +tumultuosamente e, ajoelhando-se, adoraram o Divino Infante.</p> + +<p>Todos levavam dádivas campestres: este um anho, de vello fino, a boca +rescendendo a leite; outro um casal de rolas; esse, um favo de mel, aquelle uma +lan sedosa e, cada qual, offertando o seu presente, pedia, em oração intima, a +graça do Menino Deus. <span class="pn"><a name="pag_144">{144}</a></span></p> + +<p>Maria olhava receiosa aquelles homens rudes que cercavam seu Filho. Como +eram muitos os mais velhos levantavam nos braços os pequenos para que vissem o +Recem-nado e diziam-lhes: «Pede!»</p> + +<p>As crianças, sorrindo, pediam pelo gado e pelas fontes: que ovelha alguma +morresse, que nunca as aguas seccassem.</p> + +<p>Um pequenito, sentado no hombro de um agigantado pegureiro, olhava pensativo +e calado.</p> + +<p>«Pede!» disse-lhe o homem.</p> + +<p>—Se Elle fosse Deus... murmurou a criança, e uma lagrima rolou dos +lindos olhos infantis. Os outros adoravam e, no silencio, ouvia-se apenas, de +quando em quando, um timido balido.</p> + +<p>Repentina, triumphante, uma voz bradou á entrada da caverna:</p> + +<p>—Gloria a Deus Salvador! O pastorinho estremeceu no hombro do +pegureiro, <span class="pn"><a name="pag_145">{145}</a></span> voltou a cabeça e +viu uma andrajosa mulher livida, macilenta, que estendia os braços magros +procurando abrir passagem na multidão reverente.</p> + +<p>Reconheceu-a e, desprendendo-se dos braços que o mantinham, correu ao seu +encontro e, lançando-lhe os braços á cinta, disse commovido:</p> + +<p>—Fui eu, mãi, que Lhe pedi. É Deus! Entra e adora-o. Dorme nas +palhas.</p> + +<p>Os pastores, reconhecendo a entrevada que vivia a gemer, encolhida num +estrame, recuaram pasmados e ella, tremendo como se estivesse de pé sobre uma +lapide de neve, perguntou ao filho que a contemplava:</p> + +<p>—E tu, tão pobresinho! que lhe deste, meu filho?</p> + +<p>—Uma lagrima, minha mãi... e foi tudo que lhe pude dar. <span +class="pn"><a name="pag_146">{146}</a></span></p> + +<p> <span class="pn"><a name="pag_147">{147}</a></span></p> +<hr width="30%"> + +<h1>Dôr</h1> + +<p>Tomando a urna, ao clarear d'alva, quando o velho pastor sahia com o +rebanho, José acompanhou-o para que elle o guiasse á fonte.</p> + +<p>Logo que os dois homens desappareceram as hervas que ourelavam a caverna +cresceram prodigiosamente, emmaranhando-se em tapigo que encobriu a entrada.</p> + +<p>A Virgem, de instante a instante, abria os olhos e, soerguendo-se, ficava em +extase contemplando o Filho, <span class="pn"><a name="pag_148">{148}</a></span> +cujo halito débil cheirava docemente a leite.</p> + +<p>Posto que apenas tivesse horas já ella lhe havia descoberto todos os +encantos e se lh'o arrebatassem dos braços, confundindo-o com mil crianças, +reconhecel-o-ia sem trabalho, tanto o tinha nos olhos e no coração gravado.</p> + +<p>Olhava-o quando o sentiu mover-se, contorcendo-se. Num tremor de sobresalto +enrijou os bracinhos, bateu as palhas com os pés rosados e rompeu num choro +forte que repercutia no interior como se as pedras chorassem com elle, +commovidas.</p> + +<p>Tomou-o Maria ao collo, acalentando-o ao calor do seio. Falava-lhe com +ternura, interrogava-o, chamava-o e, sem poder allivial-o, poz-se a chorar +afflicta e, sobre a divina face as suas lagrimas cahiam gotta a gotta como o +orvalho cahe das folhas sacudidas pelo vento. <span class="pn"><a +name="pag_149">{149}</a></span></p> + +<p>Ai! d'ella, como se julgava culpada e infeliz vendo soffrer o pequenino +amor, tão novo, tão innocente, tão sem culpa e já supportando as torturas +herdadas da carne.</p> + +<p>Começava a Divindade a visitar o soffrimento: a peregrinação de Deus atravez +da Agonia annunciava-se pelo primeiro choro.</p> + +<p>Elle havia de conhecer todas as Dôres, todas as Angustias para poder +julgal-as alliviando o Homem, cuja redempção trazia.</p> + +<p>Tenro, mal pousado na vida, já estrebuchava doridamente. E começava +apenas—era a iniciação.</p> + +<p>Outros maiores tormentos formavam a phalange suppliciante, a alameda tragica +da existencia, onde a alegria é como o nimbo solar que passa difficilmente por +entre as frondes compactas.</p> + +<p>Que fazer? Deu-lhe o peito. Poz-se <span class="pn"><a +name="pag_150">{150}</a></span> o Infante a mamar vagindo, estremecendo e ella, +relanceando em torno os olhos humidos e afflictos, implorava o mysterio.</p> + +<p>Tudo era silencio em volta, ninguem que a soccorresse. E os anjos? Já haviam +regressado ao ceu.</p> + +<p>O Infante ficara entregue ao seu piedoso voto. Deus entrava desacompanhado +no mundo, ser como os demais seres, homem como os outros homens, integrando-se +na Humanidade.</p> + +<p>Só lhe valeram os carinhos de Maria: o calor do collo, o enlace amoroso dos +braços, os beijos repetidos foram, pouco a pouco, alliviando-o e, de novo, +adormeceu tranquillo, não mais sobre a palha loura, mas aconchegado ao seio, +ninado pelas palpitações do coração materno. <span class="pn"><a +name="pag_151">{151}</a></span></p> +<hr width="30%"> + +<h1>Receio</h1> + +<p>Fino raio de sol insinuando-se na caverna pousou na palha abrindo um aro de +ouro em torno da cabeça do Infante adormecido.</p> + +<p>Todas as aves chilreavam, garrulas moças passavam na estrada; ás vezes eram +récuas de dromedarios desfilando em ruidoso atropello.</p> + +<p>Maria prestava attenção ao rumor, receiando pelo Filho. Tomou-o muito ao +seio e, quasi de rastos, aprofundou-se na sombra escondendo o seu thesouro com +amorosa avareza. <span class="pn"><a name="pag_152">{152}</a></span></p> + +<p>Tão lindo! quem o não desejaria! E se um d'aquelles homens, descobrindo-o, +investisse para arrebatal-o, quem o defenderia?</p> + +<p>Na treva ficava a coberto de todos os olhares.</p> + +<p>No fundo da caverna lentejava tristemente uma mina e a cada gotta do +estellicidio respondia um som lacrimoso.</p> + +<p>O ar era frio e humido, as paredes luziam lutulentas e, fóra, o sol +brilhava, alegre e tepido, em fitas, em nimbos de ouro, lampejando nas arestas +agudas da abobada escabrosa.</p> + +<p>Quando José reappareceu—a herva da entrada subitamente +esmarriu—vendo deserta a palha, estacou, olhando espantado, com +apprehensões de desgraça.</p> + +<p>Que seria feito delles? Caminhou alguns passos. O coração batia-lhe, +tremia-lhe a urna ao hombro. Maria, reconhecendo-o, falou do seu +esconderijo: <span class="pn"><a name="pag_153">{153}</a></span></p> + +<p>—Aqui, meu senhor. O patriarcha adiantou-se e, sentindo a friagem do +sitio, ouvindo o triste gottejar na lage, perguntou:</p> + +<p class="ilustracao"><img src="images/pag153.jpg" width="80%" border="0" +alt=""></p> + +<p>—Porque buscaste tão obscura jazida onde o ar regela e a luz não +chega? Lá fóra ha um calor macio e sente-se o aroma das hervas vivas, ouvem-se +as vozes alegres. Aqui ha o silencio e a melancolica espessidão dos tumulos.</p> + +<p>—Eu estava só, meu senhor e o coração, <span class="pn"><a +name="pag_154">{154}</a></span> dantes tão animoso, é agora tão timido que eu +viveria, de boa mente, num subterraneo só para que olhos maus não fitassem meu +filho nem o invejassem adoentando-o.</p> + +<p>Não sei que voz me fala dentro do coração pedindo-me que o defenda. Ouço-a a +todo instante.</p> + +<p>Dizem-me os anjos que Elle é Deus... Não me passaram despercebidos os +prodigios da noite: tudo vi, tudo ouvi, mas minh'alma ordena-me que o +resguarde, que o não perca de vista, que sempre o traga acautelado, talvez +porque é pequenino e fraco.</p> + +<p>Não sei se pecco com a presumpção de defender quem é omnipotente, mas como +hei de lutar contra mim?</p> + +<p>—Mas se o ceu nos diz e prova que Elle é o Filho de Deus porque has de +receiar os homens?</p> + +<p>—É o coração que receia. <span class="pn"><a +name="pag_155">{155}</a></span></p> + +<p>—E entre o que diz o coração e o que affirmam os anjos hesitas, +Maria?</p> + +<p>—Senhor, os anjos falam pelo Ceu, o coração fala pelo meu amor. Se +Deus acha-me rebelde, curvo-me ao seu castigo.</p> + +<p>E, humildemente, ajoelhou-se ante o berço.</p> + +<p>Jesus, abrindo os olhos claros, profundos, fitou-os nella e, como se lhe +quizesse responder, sorriu. <span class="pn"><a +name="pag_156">{156}</a></span></p> + +<p> <span class="pn"><a name="pag_157">{157}</a></span></p> +<hr width="30%"> + +<h1>O somno</h1> + +<p>Maria mal humedeceu os labios á borda do tarro de leite de ovelha que o +pastor ordenhara antes de partir. Cuidados traziam-na apprehensiva. Se o filho +estremecia sobresaltava-se-lhe o coração, se o via immovel, dormindo, temia que +houvesse morrido e logo, anciosamente, afagando-o, chamando-o, despertava-o.</p> + +<p>—Deixa-o dormir, disse-lhe o patriarcha, o somno é necessario á vida, +é a sombra em que a alma repousa. <span class="pn"><a +name="pag_158">{158}</a></span></p> + +<p>O espirito das crianças refugia-se no somno como o dos velhinhos—o +primeiro porque d'elle sahiu e ainda o tem por ninho; o segundo porque o +procura como abrigo. Não o despertes, deixa-o dormir.</p> + +<p>—É que me parece estar morto. Não faz o mais leve movimento e, quando +elle assim fica, meu coração pára retransido.</p> + +<p>—É a serenidade. Só o somno dos maus transmitte ao corpo a convulsão +do pesadello.</p> + +<p>O somno é uma visita á morte: os innocentes fazem-na sorrindo, os peccadores +fazem-na espavoridos.</p> + +<p>Não receies que Elle passe tão cedo á Eternidade de onde veiu. Ainda que não +trouxesse a missão que o fez baixar ao mundo, fosse Elle tão da terra como o +filho da zagala dos montes, não o deverias tirar do repouso.</p> + +<p>Não desenterras a semente por não <span class="pn"><a +name="pag_159">{159}</a></span> a veres á flor do solo, deixas que ella venha a +flux e rebente, abra o renovo e cresça.</p> + +<p>O somno é uma incubação. Porque não sonha? porque não tem impressões. O +sonho é como um reflexo em que ha echo, é a reproducção confusa da vida com a +repercução indistincta das vozes e dos ruidos.</p> + +<p>Ha quem veja presagios no sonho como o nómade vê realidades na miragem.</p> + +<p>Com que ha de sonhar quem não tem consciencia da vida? Deixa-o dormir.</p> + +<p>É á noite que a floresta cresce e a criança é como a arvore.</p> + +<p>O luar é manso, é uma luz silenciosa de vigilia, uma tunica diaphana sobre a +treva—não desperta. As estrellas são meigas porque a noite deve ser +tranquilla para que a Natureza descance. Peixa-o dormir. <span class="pn"><a +name="pag_160">{160}</a></span></p> + +<p>Conserva-te immovel e calada, não perturbes a vida mysteriosa. Demais, Elle +é o Eterno. A Morte passa por Elle como a lamina de uma espada por um raio de +sol. Deixa-o dormir.</p> + +<p>Bem sei que o egoismo das mãis chega a insurgir-se contra as leis de Deus; +não te insurjas tu, que O geraste. Elle precisa rever a Humanidade entrando na +Vida e gozando, sahindo, talvez, pela Morte com soffrimento.</p> + +<p>—Meu senhor! exclamou a Virgem estendendo as mãos, commovida.</p> + +<p>—São palavras, Maria. Ai! de mim, quem sou eu para pronunciar oraculos +sobre Aquelle que tem o destino da Vida na sua mão direita!</p> + +<p>São palavras que digo. Deixa-o dormir. <span class="pn"><a +name="pag_161">{161}</a></span></p> +<hr width="30%"> + +<h1>Palavras de Maria</h1> + +<p>Como eu agora comprehendo que se viva escravisada a um sorriso!</p> + +<p>Quando tenho meu filho ao collo, nutrindo-se do meu sangue, que deixa a côr +da purpura e veste-se de branco para não macular os labios innocentes, toda a +minha vida nelle se concentra.</p> + +<p>A Felicidade e a Desgraça sentam-se junto de mim, sinto-as no contentamento +que me alvoroça e nos presagios estranhos que me occorrem. <span class="pn"><a +name="pag_162">{162}</a></span></p> + +<p>É preciso ser mãi, ter gerado para conhecer o verdadeiro amor.</p> + +<p>A alma sahe-me do corpo e fica junto do Infante. Se me arredo um momento +sinto-me logo attrahida como por uma pesada corrente que se me prende ao +coração. E tanto o contemplo, tanto! que fico com elle dentro dos olhos como +quem fita um objecto ao sol e depois o vê em toda parte, ainda na treva mais +densa.</p> + +<p>Dantes, quando as mãis falavam-me de seus filhos, sempre eu as achava +exaggeradas nos louvores. Que diriam de mim as que agora me ouvissem!</p> + +<p>O meu desejo era não ter na boca outras palavras senão estas: «Meu filho!» +São as que o coração inspira-me, são as que me agradam ouvir.</p> + +<p>Ellas fazem um gyro alegre como um casal de passarinhos brincando. Sahem-me +dos labios, entram-me pelos ouvidos <span class="pn"><a +name="pag_163">{163}</a></span> cantando, circulam o meu coração e tornam á +boca.</p> + +<p>Meu filho! E não ha todo um mundo de amor dentro d'ellas? Que mais é preciso +para a ventura?</p> + +<p>Quando as suas palpebras descerram-se inclino-me e busco vêr nas suas +pupillas—que são agora os meus espelhos—o que ellas contêm.</p> + +<p>Fico tão perto que ellas só a mim reproduzem.</p> + +<p>Do mais tenho ciume, nem quero que seus olhos tenham outros habitantes.</p> + +<p>Quando Elle estremece, tremo. Quando Elle sorri é tão grande a minha alegria +que fico num atordoamento desvairado, sem saber que faça, e choro e rio.</p> + +<p>Ai! de mim quando Elle chora.</p> + +<p>Não tendes notado que sou agora como uma faminta perdida que não se sacia de +alimento? <span class="pn"><a name="pag_164">{164}</a></span></p> + +<p>Não é que tenha fome, não; mas penso n'Elle e, como é preciso que Elle +encontre sempre farto o peito em que se nutre, transformo-me em celleiro.</p> + +<p>Dormir, nem sei se durmo, porque ao mais leve movimento que Elle faça +surprehendo-me a mim mesma achando-me a seu lado, agasalhando-o, afagando-o, +procurando readormecel-o ou acalentando-o, se chora.</p> + +<p>Eu não era assim amorosa, meu senhor. Agora que o tenho não parece que vivo +no mundo, só d'Elle me lembro. Onde Elle está ahi é que me apraz viver.</p> + +<p>O seu berço é um oasis em immenso deserto.</p> + +<p>Dizeis, ás vezes, que me distraio porque não vos respondo de prompto. Não é +distracção, é que a alma está junto d'Elle—o corpo fica vasio como uma +casa fechada cujo dono trabalha na seara. <span class="pn"><a +name="pag_165">{165}</a></span></p> + +<p>Dissestes uma vez: «As mãis adivinham.» Como conheceis o coração materno!</p> + +<p>E ha mãis que ficam no mundo quando lhes morre o filho. Como se podem guiar +na vida? Como podem caminhar sem arrimo? Como podem vêr sem luz? Como não +sossobram no pranto? Eu...</p> + +<p>—Porque choras, Maria?</p> + +<p>—Porque sou feliz, meu senhor... <span class="pn"><a +name="pag_166">{166}</a></span></p> + +<p> <span class="pn"><a name="pag_167">{167}</a></span></p> +<hr width="30%"> + +<h1>As duas mãis</h1> + +<p>Junto a uma velha figueira, que ficava a dois passos da caverna, onde a +estrada, bifurcando-se, dava uma sinuosa trilha para os montes e um caminho +direito para os campos, sentara-se Maria com Jesus ao collo, gozando o frescor +da manhan serena e vendo os pombos revoarem, com rumoroso ruflo d'azas, +passando, repassando em torno.</p> + +<p>José descera á fonte.</p> + +<p>Zagalejos passavam soprando frautas e o sol, accendendo as camarinhas <span +class="pn"><a name="pag_168">{168}</a></span> do orvalho, fazia da paizagem uma +extensa scintillação.</p> + +<p class="ilustracao"><img src="images/pag168.jpg" width="80%" border="0" +alt=""></p> + +<p>A Virgem entretinha-se, enlevada no pequenito que acompanhava a ronda <span +class="pn"><a name="pag_169">{169}</a></span> aligera das aves, quando uma +pallida mulher, andrajosa e descalça, os cabellos desgrenhados, os olhos +fundos, a caveira estalando a pelle secca, appareceu no caminho, tão lenta e +com tão alto e angustioso arquejo que foi por elle que Maria sentiu a +aproximação da infeliz.</p> + +<p>Era ainda moça, conservava na miseria um resto de emmurchecida belleza.</p> + +<p>Os olhos negros ardiam febris como dois carvões em que faiscassem fagulhas; +as rosas das faces haviam amarellecido, os labios, reseccados e lividos, +estalavam em fendas como golpes.</p> + +<p>Trazia nos braços, envolta em grosseiras faixas, uma criança que vagia.</p> + +<p>Diante da Virgem deteve-se. Arrasaram-se-lhe os olhos d'agua e, parada, +tremendo, estendeu a mão magra, a pedir. <span class="pn"><a +name="pag_170">{170}</a></span></p> + +<p>Maria encarou-a compadecida e, como não possuisse moeda, não respondeu á +infeliz, alanceada de pena. E a mulher soluçou:</p> + +<p>—Não é por mim que peço, é por elle. Tenho-o, desde hontem, ao seio, +bebendo sangue—não é um peito que lhe dou, mas uma ferida. A boca do +pobresinho está da côr da anemona.</p> + +<p>Não lamentaria a dôr com que a sua fome me apunhala se o visse saciado, mas +o sangue não farta e, ainda que eu lhe não recuse o que me resta de vida, +sinto-o enfraquecer a mais e mais.</p> + +<p>Já não chóra, nem abre os olhos, começa a agonisar, como a planta que o sol +mirra na terra adusta.</p> + +<p>Dai-me o bastante para que elle viva um dia, só emquanto eu viva. Que elle +morra depois de mim para que eu o receba na morte. <span class="pn"><a +name="pag_171">{171}</a></span></p> + +<p>Maria fez lugar junto á figueira para a enferma e, entregando-lhe Jesus, +tomou o pequenino moribundo. Poz-lhe na boca o peito turgido e logo o sentiu +sugar avidamente.</p> + +<p>A misera mulher embalava o divino Infante, apertava-O ao collo com medo de +que chorasse e interrompesse a esmola que seu filho recebia.</p> + +<p>Tão enlevada estava vendo o seu penhor mamar que nem sentiu que os seus +peitos, junto aos quaes Jesus agasalhava-se, enchiam-se, apojavam-se. E toda +ella refazia-se: a carne renovava-se-lhe robusta, voltava-lhe a côr ao +rosto.</p> + +<p>Satisfeita, a criança adormeceu ao collo de Maria e da boquinha entreaberta +escorreu, rolou na terra uma gotta de leite, cahindo, como uma pérola, na raiz +da figueira.</p> + +<p>As duas mãis olharam-se caladas por <span class="pn"><a +name="pag_172">{172}</a></span> que as crianças dormiam. Trocaram-nas tomando, +cada qual, a que lhe pertencia e a miseravel, agradecendo a esmola, foi-se por +entre as margaridas do caminho.</p> + +<p>Perdeu-se no meio das arvores, reappareceu no lançante do cerro.</p> + +<p>De repente, já no cimo, envolta em luz, estacou derreando a cabeça como para +olhar o ceu em pleno e subito, lançando os braços, tombou sobre os joelhos.</p> + +<p>Dera, sem duvida, pelos peitos cheios.</p> + +<p>Maria, para seguil-a com o olhar, levantou-se e, como se apoiasse á +figueira, uma folha cahiu. Sentindo os dedos humidos mirou-os—estavam +molhados de leite.</p> + +<p>D'onde proviria? da fina haste da figueira de onde se destacara a folha.</p> + +<p>A arvore sorvera a gotta de leite que rolara da boca do pobresinho e +sempre <span class="pn"><a name="pag_173">{173}</a></span> a verte mostrando-a +aos incredulos, mal se lhe arranca uma folha ou se lhe golpeia um galho, como +uma prova da misericordia suave. <span class="pn"><a +name="pag_174">{174}</a></span></p> + +<p> <span class="pn"><a name="pag_175">{175}</a></span></p> +<hr width="30%"> + +<h1>A estrella</h1> + +<p>Ao declinar do sol, quando cessava toda a alegria rural e, quietos, em +magotes brancos, os rebanhos desciam das pasturas e o canto das aves morria em +estrebilhos tristes, José, á entrada da caverna, as mãos cruzadas sobre o +cajado, contemplava o ceu macio, barrado de ouro no occidente, onde os outeiros +pareciam arder como altas pyras sobre as quaes flammejasse um lume votivo.</p> + +<p>Um molle, languido quebranto prostrava a natureza. <span class="pn"><a +name="pag_176">{176}</a></span></p> + +<p>As arvores espreguiçavam-se em movimentos morosos; raros passaros +aligeiravam o vôo atravessando a luz vesperal.</p> + +<p>Nas quebradas sombrias crescia a voz das aguas borbulhantes, saltando, +escachoando de pedra em pedra até fluirem mansas sob as pendidas ramas que +pareciam tremer de frio.</p> + +<p>Longe, na cidade, resoava o tumulto humano.</p> + +<p>Grossos rolos de fumo negro subiam aos ares, fundiam-se, dissipavam-se e, á +medida que a noite conquistava a paizagem, apontavam pequeninas estrellas +esmaltando o ceu.</p> + +<p>A voz de Maria no fundo da caverna entoava suavemente. Era o encantamento +maternal, a mimosa cantilena com que Jesus adormecia.</p> + +<p>O patriarcha, recolhido em pensamento, olhava, e, como se voltasse para <span +class="pn"><a name="pag_177">{177}</a></span> o lado do oriente obscuro, viu um +como fulgido alfange chammejando na treva.</p> + +<p class="ilustracao"><img src="images/pag177.jpg" width="80%" border="0" +alt=""></p> + +<p>Tremeu e, fitando o olhar na estranha apparição, notou que avançava no ceu +vagarosamente. <span class="pn"><a name="pag_178">{178}</a></span></p> + +<p>Era uma estrella enorme, de brilho coruscante, que parecia haver +atravessasado a teia da Via Lactea, tendo della trazido um rutilo farrapo que a +seguia atravez do espaço.</p> + +<p>O astro subia em marcha grave e as demais estrellas esmoreciam á sua +passagem como se se retrahissem timidas.</p> + +<p>Pelos caminhos, pelos outeiros homens, mulheres paravam attonitos olhando o +prodigio.</p> + +<p>Alguns, atemorisados, invocavam deuses, rojando-se por terra; outros fugiam +aterrados; crianças choravam espavoridas.</p> + +<p>E quando a noite negrejou fechada, o astro, com a flammejante cauda aberta, +pairou no ceu, sobre a caverna, como uma palma de luz que assignalasse o berço +do Messias. <span class="pn"><a name="pag_179">{179}</a></span></p> +<hr width="30%"> + +<h1>Epiphania</h1> + +<p>Pastores, que faziam a vigilia no campo, contemplavam embevecidamente a +estrella maravilhosa, quando ouviram cantares e rumorosa estropeada como se +festiva e densa turba viesse pela encosta do cerro mais alto.</p> + +<p>Ergueram-se estranhando a caravana e viram romper, á luz de archotes, cujo +clarão tingia sanguineamente a noite, um cortejo brilhante e desusado.</p> + +<p>Os animaes pareciam ajaezados de ouro, com recamos de pedrarias, +tamanho <span class="pn"><a name="pag_180">{180}</a></span> era o fulgor que +irradiavam nos cabeios ardegos em que vinham.</p> + +<p>Onagros, tangidos por negros, trotavam sacolejando fardos e tres dromedarios +enxairelados caminhavam entre lanças garbosamente empunhadas por cavalleiros +robustos.</p> + +<p>Tamborinos e anafis soavam em concerto, regulando o rythmo da marcha; vozes +bradavam e a turba descia assustando as ovelhas e os grandes bois que +trasmalhavam mettendo-se pelos mattos.</p> + +<p>Os cães de guarda, attentos, d'orelhas fitas, conservavam-se silenciosos +como se reconhecessem os chegadiços.</p> + +<p>Por vezes as lanças chocavam-se, tinindo, e cerrada, na claridade fulva dos +archotes, a caravana aproximava-se.</p> + +<p>Na planicie, ao rouco estrugir de uma buzina, estacou em ordem.</p> + +<p>Ligeiramente, destros e açodados negros desfizeram grandes rolos, +fincaram <span class="pn"><a name="pag_181">{181}</a></span> cepos e, em pouco, +tendas retesaram-se.</p> + +<p>Os animaes, alliviados da carga, deitavam-se na herva fresca, espojavam-se +contentes e, em volta das tendas, como uma sebe de guerra, os cavalleiros +cravaram as lanças pelos cantos ficando os ferros luzindo como estrellas.</p> + +<p>Os pastores, esgueirando-se na sombra, procuravam chegar ao acampamento para +vêr de perto os chefes da hoste que com tanta grandeza se movia.</p> + +<p>Um d'elles, mais ousado, foi descoberto por um grande negro que trazia ás +costas, suspenso d'uma corrente, um dardo de ferro.</p> + +<p>Sem tempo de fugir cahiu em poder do vigia que logo o conduziu á tenda mais +sumptuosa, toda alfaiada de seda e purpura e nublada de aromatas.</p> + +<p>Lampadarios de ouro illuminavam-na. A herva desapparecia sob tapetes <span +class="pn"><a name="pag_182">{182}</a></span> altos, escudos lampejavam e, como +o negro o impellisse, viu-se o pastor na presença de tres homens ricamente +paramentados, com fotas na cabeça rutilantes de gemmas.</p> + +<p>Eram magos das terras remotas.</p> + +<p>Um alvo, a barba negra e farta espalhada no peito scintillante de pedrarias; +outro da côr amarellada dos filhos das extremas da Asia; o terceiro negro, com +immensas camandulas de ouro em volta do pescoço, braceletes nos punhos, argolas +nas orelhas e na fronte alta, preso por um nastro, um diamante que +coruscava.</p> + +<p>O pastor ajoelhou-se e, medroso, esperava ouvir palavras severas, quando um +dos homens tranquillisadoramente perguntou:</p> + +<p>—Se sabia em que paço, por ali perto, nascera o rei dos judeus. O +rustico, sem entender a pergunta, ficou arvoado, <span class="pn"><a +name="pag_183">{183}</a></span> imaginando-se victima de uma zombaria. +Lembrando-se, porém, dos anjos e de todos os prodigios da noite messianica, +respondeu vagamente:</p> + +<p class="ilustracao"><img src="images/pag183.jpg" width="80%" border="0" +alt=""> <span class="pn"><a name="pag_184">{184}</a></span></p> + +<p>—Perto d'aqui nasceu—e os ceus festejaram o seu natal—um +menino, filho de pobres, vindos de terras longinquas. Ainda lá está no mesmo +tugurio, ao collo da mãi, que é uma linda moça, sob a guarda de um ancião +veneravel. É bem perto d'aqui, na caverna do outeiro sobre o qual paira e +brilha a estrella alada que appareceu no ceu.</p> + +<p>Levantaram-se os tres homens—o pastor sahiu da tenda e, estendendo o +braço na direcção do outeiro, disse:</p> + +<p>—É ali, sob a estrella.</p> + +<p>—Deve ser, disse o negro. E os dois outros concordaram. E, despedindo +o pastor com uma bolsa de moedas de ouro, ficaram de pé, em silencio, +contemplando adorativamente a estrella que resplandecia. <span class="pn"><a +name="pag_185">{185}</a></span></p> +<hr width="30%"> + +<h1>Adoração dos magos</h1> + +<p>Ao dealbar tronaram as buzinas e a caravana moveu-se em direcção á +caverna.</p> + +<p>A grande estrella ainda luzia no ceu.</p> + +<p>Os magos seguiam á frente nos dromedarios e, em torno delles, nitriam, +caracolavam os ginetes dos cavalleiros com os seus telizes dourados, os seus +caparações de purpura.</p> + +<p>Quando a turba defrontou com a caverna todos os homens apearam e, +respeitosamente, com humildade de servos, <span class="pn"><a +name="pag_186">{186}</a></span> deixando no limiar os papuzes marchetados, os +magos penetraram zumbridos, como se fossem de rastos, levando nas mãos, +devotamente, as pareas significativas.</p> + +<p class="ilustracao"><img src="images/pag186.jpg" width="80%" border="0" +alt=""> <span class="pn"><a name="pag_187">{187}</a></span></p> + +<p>Recebeu-os o patriarcha e, como a Virgem se levantasse, com Jesus ao collo, +os tres homens prostraram-se de joelhos, descobrindo-se, depondo os turbantes, +e, inclinando a cabeça, ficaram um momento em veneração silenciosa.</p> + +<p>O primeiro falou offerecendo a myrrha.</p> + +<p>—Homem, Filho de Deus, a arvore do deserto deu do seu tronco a resina +que te offereço. O seu perfume é uma força que se oppõe á destruição da carne: +eternisa o corpo como a Virtude eternisa o espirito.</p> + +<p>O segundo inclinou-se com um escrinio cheio de ouro:</p> + +<p>—Rei, as minas, onde rebrilham os veios rutilantes, deram a poeira que +te offereço: ouro, symbolo do poder, chamma fria da terra. Tudo elle vence: a +miseria e a propria Virtude. Desopprime e escravisa, redime e perverte, é +o <span class="pn"><a name="pag_188">{188}</a></span> bem e é o mal. Nas mãos +munificas é luz que aclara e salva; nas mãos crueis é chamma que consome.</p> + +<p>O negro falou por ultimo com uma patena de incenso:</p> + +<p>—A arvore instilla a lagrima que rescende, lagrima que, ao lume, +converte-se em fumo e evola, demandando o ceu, como homenagem da terra.</p> + +<p>Como lagrima, é uma concentração; como aroma, é uma oblata. É o incenso com +que se glorificam os deuses. É a offerenda das terras negras ao Deus que +redime.</p> + +<p>Gente, que afluira á caverna, pastores e seareiros, mesteiraes, velhos, +mulheres e crianças das arribanas proximas entraram e, diante da palha humilde, +toda a grandeza e toda a humildade confraternisaram e tambem o sol, como +enviado do ceu, adorando o Infante da Misericordia que baixara para +cumprir <span class="pn"><a name="pag_189">{189}</a></span> as prophecias +trazendo aos homens a religião do Amor.</p> + +<p>E Maria, deslumbrada, sem ouvir as vozes glorificadoras, olhava, +contemplava, adorava o pequenino Filho.</p> + +<p>O sol cercou-os de esplendor e a Virgem, de pé no meio da turba, com Jesus +ao collo, era o purissimo altar sobre o qual se mostrara ás gentes o Divino +Perdão. <span class="pn"><a name="pag_190">{190}</a></span></p> + +<p> <span class="pn"><a name="pag_191">{191}</a></span></p> + +<table cellspacing="2" border="0" summary="Indice" align="center" width="80%"> + <tbody> + <tr> + <th colspan="2">INDICE</th> + </tr> + <tr> + <td> </td> + <td>Pag.</td> + </tr> + <tr> + <td><a href="#pag_5">A partida</a></td> + <td><a href="#pag_5">5</a></td> + </tr> + <tr> + <td><a href="#pag_13">O anjo</a></td> + <td><a href="#pag_13">13</a></td> + </tr> + <tr> + <td><a href="#pag_19">Lyrios</a></td> + <td><a href="#pag_19">19</a></td> + </tr> + <tr> + <td><a href="#pag_25">A refeição</a></td> + <td><a href="#pag_25">25</a></td> + </tr> + <tr> + <td><a href="#pag_31">A nuvem</a></td> + <td><a href="#pag_31">31</a></td> + </tr> + <tr> + <td><a href="#pag_39">Ao pôr do sol</a></td> + <td><a href="#pag_39">39</a></td> + </tr> + <tr> + <td><a href="#pag_45">A tentação</a></td> + <td><a href="#pag_45">45</a></td> + </tr> + <tr> + <td><a href="#pag_55">O milagre das lagrimas</a></td> + <td><a href="#pag_55">55</a></td> + </tr> + <tr> + <td><a href="#pag_65">Caminhando</a></td> + <td><a href="#pag_65">65</a></td> + </tr> + <tr> + <td><a href="#pag_71">O cégo</a></td> + <td><a href="#pag_71">71</a></td> + </tr> + <tr> + <td><a href="#pag_77">Dentro da noite</a></td> + <td><a href="#pag_77">77</a></td> + </tr> + <tr> + <td><a href="#pag_83">Presagio</a></td> + <td><a href="#pag_83">83</a></td> + </tr> + <tr> + <td><a href="#pag_91">Piedade</a></td> + <td><a href="#pag_91">91</a></td> + </tr> + <tr> + <td><a href="#pag_97">Cantico messianico</a></td> + <td><a href="#pag_97">97</a></td> + </tr> + <tr> + <td><a href="#pag_105">O campo de Booz</a></td> + <td><a href="#pag_105">105</a></td> + </tr> + <tr> + <td><a href="#pag_109">Na estrada de Bethleem</a></td> + <td><a href="#pag_109">109</a></td> + </tr> + <tr> + <td><a href="#pag_113">Na caverna</a></td> + <td><a href="#pag_113">113</a></td> + </tr> + <tr> + <td><a href="#pag_121">Natal</a></td> + <td><a href="#pag_121">121</a></td> + </tr> + <tr> + <td><a href="#pag_129">As tres virgens</a></td> + <td><a href="#pag_129">129</a></td> + </tr> + <tr> + <td><a href="#pag_135">O primeiro leite</a></td> + <td><a href="#pag_135">135</a></td> + </tr> + <tr> + <td><a href="#pag_141">Adoração dos pastores</a></td> + <td><a href="#pag_141">141</a></td> + </tr> + <tr> + <td><a href="#pag_147">Dôr</a></td> + <td><a href="#pag_147">147</a></td> + </tr> + <tr> + <td><a href="#pag_151">Receio</a></td> + <td><a href="#pag_151">151</a></td> + </tr> + <tr> + <td><a href="#pag_157">O somno</a></td> + <td><a href="#pag_157">157</a></td> + </tr> + <tr> + <td><a href="#pag_161">Palavras de Maria</a></td> + <td><a href="#pag_161">161</a></td> + </tr> + <tr> + <td><a href="#pag_167">As duas mãis</a></td> + <td><a href="#pag_167">167</a></td> + </tr> + <tr> + <td><a href="#pag_175">A estrella</a></td> + <td><a href="#pag_175">175</a></td> + </tr> + <tr> + <td><a href="#pag_179">Epiphania</a></td> + <td><a href="#pag_179">179</a></td> + </tr> + <tr> + <td><a href="#pag_185">Adoração dos magos</a></td> + <td><a href="#pag_185">185</a></td> + </tr> + </tbody> +</table> +</div> + + + + + + + +<pre> + + + + + +End of Project Gutenberg's Mysterio do Natal, by Henrique Coelho Neto + +*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK MYSTERIO DO NATAL *** + +***** This file should be named 34750-h.htm or 34750-h.zip ***** +This and all associated files of various formats will be found in: + http://www.gutenberg.org/3/4/7/5/34750/ + +Produced by Pedro Saborano + +Updated editions will replace the previous one--the old editions +will be renamed. + +Creating the works from public domain print editions means that no +one owns a United States copyright in these works, so the Foundation +(and you!) can copy and distribute it in the United States without +permission and without paying copyright royalties. Special rules, +set forth in the General Terms of Use part of this license, apply to +copying and distributing Project Gutenberg-tm electronic works to +protect the PROJECT GUTENBERG-tm concept and trademark. Project +Gutenberg is a registered trademark, and may not be used if you +charge for the eBooks, unless you receive specific permission. If you +do not charge anything for copies of this eBook, complying with the +rules is very easy. You may use this eBook for nearly any purpose +such as creation of derivative works, reports, performances and +research. They may be modified and printed and given away--you may do +practically ANYTHING with public domain eBooks. Redistribution is +subject to the trademark license, especially commercial +redistribution. + + + +*** START: FULL LICENSE *** + +THE FULL PROJECT GUTENBERG LICENSE +PLEASE READ THIS BEFORE YOU DISTRIBUTE OR USE THIS WORK + +To protect the Project Gutenberg-tm mission of promoting the free +distribution of electronic works, by using or distributing this work +(or any other work associated in any way with the phrase "Project +Gutenberg"), you agree to comply with all the terms of the Full Project +Gutenberg-tm License (available with this file or online at +http://gutenberg.org/license). + + +Section 1. General Terms of Use and Redistributing Project Gutenberg-tm +electronic works + +1.A. By reading or using any part of this Project Gutenberg-tm +electronic work, you indicate that you have read, understand, agree to +and accept all the terms of this license and intellectual property +(trademark/copyright) agreement. 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It exists +because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from +people in all walks of life. + +Volunteers and financial support to provide volunteers with the +assistance they need, are critical to reaching Project Gutenberg-tm's +goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will +remain freely available for generations to come. In 2001, the Project +Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure +and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations. +To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation +and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4 +and the Foundation web page at http://www.pglaf.org. + + +Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive +Foundation + +The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit +501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the +state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal +Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification +number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at +http://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg +Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent +permitted by U.S. federal laws and your state's laws. + +The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S. +Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered +throughout numerous locations. Its business office is located at +809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email +business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact +information can be found at the Foundation's web site and official +page at http://pglaf.org + +For additional contact information: + Dr. Gregory B. Newby + Chief Executive and Director + gbnewby@pglaf.org + + +Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg +Literary Archive Foundation + +Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide +spread public support and donations to carry out its mission of +increasing the number of public domain and licensed works that can be +freely distributed in machine readable form accessible by the widest +array of equipment including outdated equipment. Many small donations +($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt +status with the IRS. + +The Foundation is committed to complying with the laws regulating +charities and charitable donations in all 50 states of the United +States. 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Thus, we do not necessarily +keep eBooks in compliance with any particular paper edition. + + +Most people start at our Web site which has the main PG search facility: + + http://www.gutenberg.org + +This Web site includes information about Project Gutenberg-tm, +including how to make donations to the Project Gutenberg Literary +Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to +subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks. + + +</pre> + +</body> +</html> diff --git a/34750-h/images/cneto.jpg b/34750-h/images/cneto.jpg Binary files differnew file mode 100644 index 0000000..e7c66a2 --- /dev/null +++ b/34750-h/images/cneto.jpg diff --git a/34750-h/images/lello.jpg b/34750-h/images/lello.jpg Binary files differnew file mode 100644 index 0000000..615bc49 --- /dev/null +++ b/34750-h/images/lello.jpg diff --git a/34750-h/images/pag006.jpg b/34750-h/images/pag006.jpg Binary files differnew file mode 100644 index 0000000..614281f --- /dev/null +++ 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