summaryrefslogtreecommitdiff
path: root/34742-h
diff options
context:
space:
mode:
Diffstat (limited to '34742-h')
-rw-r--r--34742-h/34742-h.htm1698
-rw-r--r--34742-h/images/img1.jpgbin0 -> 137457 bytes
-rw-r--r--34742-h/images/img2.jpgbin0 -> 120696 bytes
-rw-r--r--34742-h/images/img3.jpgbin0 -> 109701 bytes
-rw-r--r--34742-h/images/img4.jpgbin0 -> 163270 bytes
-rw-r--r--34742-h/images/img5.jpgbin0 -> 152027 bytes
-rw-r--r--34742-h/images/img6.jpgbin0 -> 133226 bytes
-rw-r--r--34742-h/images/logo.pngbin0 -> 7359 bytes
8 files changed, 1698 insertions, 0 deletions
diff --git a/34742-h/34742-h.htm b/34742-h/34742-h.htm
new file mode 100644
index 0000000..8075e2f
--- /dev/null
+++ b/34742-h/34742-h.htm
@@ -0,0 +1,1698 @@
+<!DOCTYPE HTML PUBLIC "-//W3C//DTD HTML 4.01 Transitional//EN" "http://www.w3.org/TR/html4/loose.dtd">
+<html>
+<head>
+ <title>As cinzas de Camillo, por Visconde de Vila-Moura</title>
+ <meta name="Author" content="Visconde de Vila-Moura">
+ <meta name="Edition" content="Lisboa: «Renascença Portguesa», 1917.">
+ <meta http-equiv="content-type" content="text/html; charset=iso-8859-15">
+ <style type="text/css">
+ body{margin-left: 10%;
+ margin-right: 10%;
+ }
+ .pn {
+ text-indent: 0em;
+ text-decoration: none;
+ position: absolute;
+ left: 92%;
+ font-size: smaller;
+ text-align: right;
+ color: silver;
+ }
+ #corpo p{text-align: justify; text-indent: 1.5em;}
+ h1, h2, h3, h4 {text-align: center; margin-top: 2em;}
+ #corpo p.ni {text-indent: 0;}
+ #corpo p.centrado {text-indent: 0; text-align: center;}
+ #corpo p.assin {text-indent: 0; text-align: right; margin-right: 2em;}
+ hr {border: 0; border-bottom: solid 2px #000;}
+ hr.dotted {border: 0; border-bottom: dotted 2px #000;}
+ blockquote {margin-left: 10%; font-size: small;}
+ .ilustracao {border: dotted 2px GRAY;}
+ a {text-decoration: none;}
+ .rodape {
+ font-size: 0.8em;
+ margin: 2em;}
+ #corpo p.cap {text-indent: 0;}
+ p.cap:first-letter {font-size: 300%; line-height: .8em; width: auto;}
+ .dcap {text-transform: uppercase;}
+ </style>
+</head>
+
+<body>
+
+
+<pre>
+
+Project Gutenberg's As Cinzas de Camillo, by Visconde de Vila Moura
+
+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.org
+
+
+Title: As Cinzas de Camillo
+
+Author: Visconde de Vila Moura
+
+Release Date: December 24, 2010 [EBook #34742]
+
+Language: Portuguese
+
+Character set encoding: ISO-8859-1
+
+*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK AS CINZAS DE CAMILLO ***
+
+
+
+
+Produced by Mike Silva
+
+
+
+
+
+</pre>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<div style="text-align:center; padding: 1em; border: solid 1px #000;">
+<p style="font-size: 1.4em;"><u>V<small>ISCONDE DE</small> V<small>ILLA-</small>M<small>OURA</small></u></p>
+
+<p style="font-size: 2em;">As Cinzas de Camillo</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<blockquote style="margin-left: 4em;">
+ <p>«Da região escura vem bater-me<br>
+ na fronte uma aragem fria...»<br></p>
+
+<p style="margin-left: 5em;">C<small>AMILLO</small>.</p>
+</blockquote>
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p style="font-size: 1.2em;">EDIÇÃO DA «RENASCENÇA PORTUGUESA»</p>
+</div>
+
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p style="text-align:justify;">O PRODUCTO LIQUIDO DESTE OPUSCULO DESTINAR-SE-HÁ A ABRIR A SUBSCRIPÇÃO PUBLICA PARA UM MONUMENTO A CAMILLO NO PANTHEON.</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p style="text-align:center;">Direitos reservados</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p style="text-align:center; font-size: 1.4em;">AS CINZAS DE CAMILLO</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+
+<div style="margin: 10%; font-size: small;">
+<p style="margin-left: 5em;">DO AUTOR</p>
+
+<p>A Moral na Religião e na Arte, 1906.</p>
+
+<p>A Vida Mental Portugueza, 1909.</p>
+
+<p>Vida Litteraria e Politica, 1911.</p>
+
+<p>Camillo Inédito, 1913 (1.º milhar esgotado).</p>
+
+<p style="margin-left: 3em;"><small>CONTOS E NOVELLAS:</small></p>
+
+<p>Nova Sapho, 1912 (1.ª edição esgotada).</p>
+
+<p>Doentes da Belleza, 1913.</p>
+
+<p>Os Bohemios, 1914.</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>Antonio Nobre (1.ª edição esgotada) 1915.</p>
+
+<p>Grandes de Portugal (com Antonio Carneiro), 1916.</p>
+
+<p>Fialho d'Almeida, 1917.</p>
+
+<p>Fanny Owen e Camillo, 1917.</p>
+
+<p>As Cinzas de Camillo, 1917.</p>
+</div>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<div style="text-align:center;">
+<p style="font-size: 1.4em;"><u>V<small>ISCONDE DE</small> V<small>ILLA-</small>M<small>OURA</small></u></p>
+
+<p style="font-size: 2em;">As Cinzas de Camillo</p>
+
+<p style="font-size: 1.2em;">(NOTAS E DOCUMENTOS)</p>
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p><img src="images/logo.png" border="0" alt="Logotipo"></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>EDIÇÃO DA<br>
+«RENASCENÇA PORTUGUESA»<br>
+PORTO</p>
+</div>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p style="text-align:center;">A</p>
+
+<p style="text-align:center;">NUNO PLACIDO
+CASTELLO BRANCO</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<div id="corpo">
+
+<div class="ilustracao">
+<p class="centrado"><a name="img1"></a><img width="80%" border="0" src="images/img1.jpg"
+alt="CAMILLO CASTELLO BRANCO (Desenho de António Carneiro)."></p>
+
+<p class="centrado">CAMILLO CASTELLO BRANCO</p>
+
+<p class="assin"><small>(Desenho de António Carneiro).</small></p>
+
+<p style="font-variant: small-caps; font-size: small;">As Cinzas de Camillo.</p>
+</div>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<blockquote style="margin-left: 5em;">
+ <p>«Da região escura vem bater-me<br>
+ na fronte uma aragem fria...»</p>
+
+ <p style="margin-left: 4em; text-indent: 0;">C<small>AMILLO</small> C<small>ASTELLO</small> B<small>RANCO.</small><br>
+ &mdash;<em>No Bom Jesus do Monte.</em></p>
+</blockquote>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p> <span class="pn">{11}</span></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p class="cap"><span class="dcap">Porque</span> de novo volta a publico a idéa da trasladação de Camillo para o
+Pantheon, tambem de novo entendemos dever voltar ao assumpto, menos por
+discutir as razões daquelles que, contra a sua derradeira vontade, teimam em
+violar-lhe o jazigo, do que por esclarecer o que a tal respeito deixou
+escripto.</p>
+
+<p>Mas recordemos os factos. Elles são, de si, tão claros que quasi nos
+dispensam glossario.</p>
+
+<p>Camillo suicidou-se em 1 de junho de 1890, pelas trez horas e um quarto da
+tarde. No dia seguinte foi<span class="pn">{12}</span> o caso conhecido do
+publico pelos jornaes, bem como o destino que devia ter o seu cadaver.</p>
+
+<p>Diz o <em>Correio da Manhã</em>, de 4 de junho:</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p><small>PORTO, 2&mdash;«O grande escriptor disparou um tiro na cabeça ás 3 horas e
+um quarto da tarde. Caiu logo em estado comatoso, e ás 5 horas succumbiu. O
+medico Ferreira, de Santo Thirso, afirma que a bala fôra quasi até á
+extremidade do lado opposto.»</small></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>E em nota solta:</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>«Camillo pedira em tempo a Freitas Fortuna para ser enterrado no jazigo
+delle, chegando até a entregar-lhe um documento redigido neste sentido.»<a
+name="tex2html1" href="#foot244"><sup>[1]</sup></a><span
+class="pn">{13}</span></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>De facto, no comboio do Minho das 6 horas da tarde do dia 3, chegava ao
+Porto o cadaver do Romancista, acompanhado por Freitas Fortuna, desde
+Famalicão, esperando-o na gare, «quando muito cem pessoas», informa o
+<em>Correio da Manhã</em>, e entre ellas Alves Mendes, Sebastião Leite de
+Vasconcellos e o editor Costa Santos. De resto, o ataúde seguiu para a Lapa,
+mal coberto por cinco coroas de flores artificiaes e sempre acompanhado por
+Freitas Fortuna, por Espinho, pelo creado Manuel, mais a cauda de dezoito
+carruagens arrastando a praga dos reporteres.</p>
+
+<p>Alem de Alves Mendes, não comparecera mais um unico escriptor ou artista,
+informa ainda o mesmo jornal!<span class="pn">{14}</span></p>
+
+<p>É que mettera medo o baque da sua queda, senão o gesso que de si restava e a
+que a alludida folha se refere da maneira seguinte:</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p style="text-align:center;"><small>A
+CAMARA ARDENTE&mdash;O MORTO.</small></p>
+
+<p><small>«A vasta sala, despida de sanefas e de espelhos, com o cadaver sobre
+um panno, ao meio, tinha uma solemnidade lugubre que a assemelhava a um templo
+vasio: o choro da esposa e o crepitar das luzes eram os unicos sons que
+interrompiam a funebre quietação do aposento.</small></p>
+
+<p><small>No seu fato
+escuro&mdash;<em>pardessus</em> usado,
+<em>frak</em> e calça preta da mesma fazenda,
+costume que vestia quando se suicidou&mdash;tons roxeados a cercar-lhe as narinas e
+os olhos, o seu perfil macerado, fortemente vincado de rugas, o farto bigode
+cahindo-lhe lasso, na bocca esse extranho <em>rictus</em> que parece dar ao cadaver um riso de
+mofa,&mdash;o supremo<span class="pn">{15}</span> escarneo da morte á vida. Lá
+estava elle sereno como um adormecido, os pés salientes, a cabelleira negra e
+comprida, as mãos finas cruzadas sobre o peito, o morto, mal illuminado pelo
+clarão de duas velas, parecia seguir com os olhos mal cerrados a dôr da
+viscondessa que aos pés do seu ultimo leito, abysmada na oração, velava
+sósinha.»</small><a name="tex2html2" href="#foot53"><sup>[2]</sup></a></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>Entretanto, Freitas Fortuna, longe de enjeitar o legado dos seus restos,
+logo fez valer junto da familia de Camillo as declarações em seu poder, e sobre
+as quaes tambem, immediatamente, todos os interessados concordaram,
+soccorrendo-as com dois novos documentos, ou tenha sido com o <em>auto da sua
+doação, assignado<span class="pn">{16}</span> por D. Anna Augusta Placido e
+Visconde de S. Miguel de Seide</em>; e com a <em>declaração do legatario,
+acceitando aquelle deposito no seu jazigo da Lapa, com o encargo de ahi o
+conservar perpetuamente</em>.</p>
+
+<p>Mas reproduzamos, na integra, e, por sua ordem, os preciosos documentos.</p>
+
+<p>  </p>
+
+<p>A primeira carta de Camillo sobre o assumpto:</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p style="margin-left:8em"><small>«Exmo. Freitas Fortuna, meu querido
+amigo.</small></p>
+
+<p><small>Revalido, por esta carta, o que lhe propuz com referencia ao meu
+cadaver e ao seu jazigo no cemiterio da Lapa.<span
+class="pn">{17}</span></small></p>
+
+<div class="ilustracao">
+<p class="centrado"><a name="img2"></a><img width="80%" border="0" src="images/img2.jpg"
+alt="D. ANNA AUGUSTO PLACIDO"></p>
+
+<p class="centrado">D. ANNA AUGUSTO PLACIDO</p>
+
+<p style="font-variant: small-caps; font-size: small;">As Cinzas de Camillo.</p>
+</div>
+
+<p><small>Desejo ser ali sepultado e que nenhuma força ou consideração o demova
+de me conservar as cinzas perpetuamente na sua capella.</small></p>
+
+<p><small>É natural que ninguem lhe dispute a posse dessas cinzas; receio,
+porem, que seja ainda uma fatalidade posthuma que se compraza em impor a
+violencia até aos meus restos.</small></p>
+
+<p><small>Dê o meu amigo a estas linhas a validade de uma clausula
+testamentaria, e, sendo preciso, faça que ella valha em juizo.</small> </p>
+
+<p><small>Abraça-o com extremado affecto e inexprimivel gratidão o
+seu</small></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p
+style="text-align:center;"><small>C<small>AMILLO</small>
+C<small>ASTELLO</small> B<small>RANCO.</small></small></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p><small>Porto, 6 de abril de 1888.</small></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>Esta carta foi pela primeira vez patente ao publico no jornal <em>O
+Seculo</em>,<span class="pn">{18}</span> em 4 de julho de 1914, onde nós a
+publicamos para evitar que fosse por diante a trasladação dos restos do
+Escriptor para Belem, que um grupo de parlamentares, a que presidia o illustre
+professor sr. Carvalho Mourão, devotadissimo admirador de Camillo&mdash;tencionava,
+ainda contra a má vontade de uma parte da Camara, que, diga-se de passagem,
+vergonhosamente, e sem conhecimento deste e demais documentos, logo se deu a
+objectar <em>innocentes</em> escusas, á conta duma tal jornada.</p>
+
+<p>Muito antes, e incidentemente, nos veio á mão aquelle documento, quando
+também nós&mdash;(que, ao tempo não tinhamos sequer presente a segunda carta de
+Camillo a Freitas<span class="pn">{19}</span> Fortuna, sobre o assumpto, aliás
+desde muito publicada&mdash;)<a name="tex2html3" href="#foot84"><sup>[3]</sup></a>
+nos propunhamos insistir e collaborar com todos aquelles que, seriamente, e bem
+de alma, se dessem a promover ou dispor a trasladação, que já então, valha a
+verdade, consideravamos menos como homenagem necessaria á sua memoria, do que
+como solução de direito, que não de obsequio, ao repouso definitivo das suas
+cinzas.</p>
+
+<p>Aprestara-se-nos o ensejo de ver realisadas as nossas esperanças, de par das
+dos maiores admiradores de Camillo&mdash;Silva Pinto, Senna Freitas e Ricardo Jorge,
+no melhor numero&mdash;quando, a proposito da deliberação da Camara do Porto<span
+class="pn">{20}</span> e «Renascença Portuguesa» que, por si, e
+independentemente da discussão tragico-burlesca dos parlamentos, se propunham
+levar a cabo uma tal idéa,&mdash;nós fomos solicitado a ouvir dos representantes de
+Camillo a sua opinião a tal respeito, isto é, a consulta-los sobre se
+auctorizariam ou não o levantamento dos restos do Escriptor do seu jazigo na
+Lapa.</p>
+
+<p>É claro, que interferi no caso particularmente, e só por acquiescer ás
+solicitações dum illustre membro da Camara do Porto, tambem, ao tempo, do corpo
+dirigente da «Renascença Portuguesa», sociedade literaria com séde na mesma
+cidade<a name="tex2html4" href="#foot86"><sup>[4]</sup></a>, e que para aquelle
+effeito se<span class="pn">{21}</span> me dirigiu, bem por certo por mera razão
+da minha idoneidade como incondicional admirador do Romancista, mais pelo
+conhecimento que porventura tivera das minhas opiniões a tal respeito, desde
+muito, expressas. </p>
+
+<p>Ora foi a tal proposito que, conjunctamente com a resposta de Nuno Placido
+Castello Branco, eu recebi a copia daquella carta, pelo punho do Visconde de S.
+Miguel de Seide, com a ordem de a publicar opportunamente, e como instrucção do
+juizo que porventura seguissemos, no caso da consulta que, por sua vez, elle
+devolvia para que sobre ella as Corporações interessadas resolvessem.</p>
+
+<p>É claro que, á face de tão obrigante<span class="pn">{22}</span> documento,
+a sua opinião parece ter sido uma:&mdash;nunca mais aquellas corporações pensaram na
+trasladação. E dahi tambem o silencio, feito á volta do caso, até ao momento em
+que alguns deputados, aliás no melhor empenho,&mdash;o mesmo que a Camara do Porto e
+a «Renascença Portugueza» tinham tido&mdash;deliberaram voltar ao assumpto.</p>
+
+<p>Foi então, repetimos, que, pela primeira vez, entendemos de nosso dever
+publicar aquella carta, como elucidação aos promotores da inopportuna
+homenagem, e tão cabida ella foi que logo, avisadamente, aquelles desistiram do
+seu intento, transferindo as importancias destinadas á sua despeza para o
+levantamento<span class="pn">{23}</span> de um monumento, infelizmente já bem
+tardio, a Camillo.</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>Entretanto, pois que, desde que se tornou inopportuna, por não dizer
+impertinente, a trasladação, parece ter crescido o numero dos devotos de tal
+idéa&mdash;vamos nós, hoje, que estamos de posse de todos os documentos, ver o que,
+á face delles, aquella vale.</p>
+
+<p>Mas antes, e por melhor firmar opinião, sigamos no traslado dos documentos
+que ao assumpto se referem. Tornar-se-á mais facil de ver depois, e a melhor
+luz, até onde vae a teimosia dos sectarios duma idéa hoje indelicada, (e que
+maior crime pode cometter-se para com os mortos do que o da indelicadeza?&mdash;)
+que não<span class="pn">{24}</span> sectarios da melindrosa memoria do
+Escriptor.</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>Eis a segunda carta de Camillo a Freitas Fortuna:</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p style="margin-left:4em"><small>«Meu presado Freitas Fortuna.</small></p>
+
+<p><small>Começo a experimentar uma especie de affecto posthumo ao meu
+cadáver.</small></p>
+
+<p><small>Tão pouco me apreciei na vida, tão pouco cabedal fiz da minha saude,
+que já agora me quer parecer, que este amor ao que nada vale é retribuição
+devida a esta materia, que me ha-de sobreviver alguns annos aviventada pela
+engrenagem de putrefacção.</small></p>
+
+<p><small>Deste affecto extraordinario, mas não excepcional, resultou dizer-lhe
+eu, meu querido amigo, quer falando, quer escrevendo, que aspirava
+fervorosamente a ser sepultado no seu jazigo da Lapa.</small></p>
+
+<p><small>E bem certo que, para além da campa,<span class="pn">{25}</span> ha o
+que quer que seja que ainda nos prende ás coisas mortaes. Sei que no seu jazigo
+dormem o somno infinito seus extremosos progenitores.</small></p>
+
+<p><small>Ambos conheci na flor da vida, no esplendor da honra, nas luctas do
+trabalho e na pujança da alegria e da felicidade.</small></p>
+
+<p><small>Ambos morreram no vigor dos annos, se podem considerar-se
+mortas <em>duas imagens sagradas</em> que renascem
+na alma dum filho ao fogo da sua saudade, com o seu respeito filial, com as
+suas lagrimas represadas, e que os annos ainda não poderam crystallizar em
+glacial indifferença.</small></p>
+
+<p><small>Volvido um longo praso as cinzas do meu querido Freitas irão aos
+braços já cinzas tambem de seus <em>paes</em> estremecidos.</small></p>
+
+<p><small>Se a morte tivesse expressão que não fosse aquelle mudo terror de um
+gesto que ao mesmo tempo anniquilla e grava o eterno estigma do silencio nos
+labios gelidos, só ella poderia dar-nos a sombra horrida e que o seu esquife
+baixar á perpetua união<span class="pn">{26}</span> com os cinerarios de
+seus <em>paes</em> . E eu, a essa hora, estarei á
+beira delles como testemunha silenciosa das compungidas lagrimas que lhe vi na
+face quando o coração lhas dava repassadas duma santa saudade.</small></p>
+
+<p><small>Não sei se esta chimera, que vagueia na região tenebrosa e na crypta
+dos mortos amados e chorados, foi a despertadora vontade que me domina ha anno
+e meio de ser enterrado no seu jazigo.</small></p>
+
+<p><small>O meu querido Freitas Fortuna acceitou com ternura a offerta do meu
+cadaver, e d'essa arte, permittindo que eu fizesse parte da sua familia
+extincta, quiz continuar alem da vida a tarefa sacratissima da sua dedicação
+incomparavel. Bem haja, e adeus.</small></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p style="margin-left:2em;"><small>Bemfica, 15 de julho de 1889.»</small></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p class="centrado"><small>Seu do coração,</small></p>
+
+<p class="centrado"><small>C<small>AMILLO</small> C<small>ASTELLO</small>
+B<small>RANCO.</small></small><a name="tex2html5"
+href="#foot123"><sup>[5]</sup></a><span class="pn">{27}</span></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>Esta carta foi a primeira que sobre o assumpto veio a publico, tendo sido
+impressa no <em>Jornal da Manhã</em>, de 3 de junho de 1890, ou tenha sido na
+vespera do dia da entrada do cadaver de Camillo no mausoléo-Fortuna.</p>
+
+<p>Comprehende-se que, a despeito do seu texto, os admiradores do Romancista
+pretendessem ainda o seu ingresso no Pantheon, porquanto não é aquella bem
+frisante e incondicional, como a primeira a que se refere, e que, durante
+tantos annos, foi geralmente ignorada.</p>
+
+<p>Entretanto, que de ambas as cartas os interessados mais proximos,
+(referimo-nos á Familia-Fortuna e á de Camillo) tinham pleno conhecimento,
+prova-o não só a circumstancia<span class="pn">{28}</span> de immediatamente
+fazerem seguir para o cemiterio da Lapa o cadaver do Romancista, mas, ainda
+mais, o facto de quasi logo as duas partes interessadas se mutuarem as mais
+claras obrigações não só para garantirem, como por tornarem effectivo,
+perpetuamente, aquelle deposito. </p>
+
+<p>É do teor seguinte o auto de doação do cadaver de Camillo:</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p><small>«Os abaixo assignados, D. Anna Augusta Placido (Viscondessa de
+Correia Botelho) viuva, e Nuno Castello Branco (Visconde de S. Miguel de Seide)
+vimos na qualidade de esposa e filho do falecido sr. Camillo Castello Branco
+(Visconde de Correia Botelho), ambos residentes na freguesia de S. Miguel de
+Seide, do concelho de Villa Nova de Famalicão, no districto de<span
+class="pn">{29}</span> Braga, querendo cumprir as determinações de seu amado
+esposo e pai, que manifestou a expressa vontade de ser sepultado no cemiterio
+da Real Irmandade de N. Senhora da Lapa (na cidade do Porto), no jazigo da
+familia do seu dedicado amigo João Antonio de Freitas Fortuna, a quem por
+escripto estipulou, «que nenhuma força ou consideração o demova de
+conservar-lhe as cinzas, perpetuamente na sua capella»&mdash;; os abaixo assignados
+revalidam por este acto a entrega e doação que fizeram do cadaver do seu
+querido esposo e pae ao referido João Antonio de Freitas Fortuna, residente na
+rua de Cedofeita n.º 986, da cidade do Porto, que o recebeu e acceitou com o
+encargo de o conservar perpetuamente na sepultura numero um do referido jazigo
+de sua familia, onde está, e onde deve estar <em>ad
+perpetuam</em> . E por isto conferem ao indicado João Antonio de
+Freitas Fortuna, e aos seus representantes, que atravez dos tempos possam vir,
+e forem os legitimos possuidores<span class="pn">{30}</span> da referida
+capella, todos os poderes em direito necessarios, sem exclusão alguma, e com a
+faculdade de substabelecerem, para que nunca, e sob qualquer pretexto que seja,
+possa ser retirado da indicada sepultura perpetua em que jaz o cadaver do sr.
+Camillo Castello Branco, porque tal foi a sua expressa vontade dele, assim como
+é a dos abaixo assignados, que a fazem boa e querem que seja sempre cumprida
+como disposição testamentaria para o que por este titulo de doação onerosa
+desistem de todos os seus direitos ao referido cadaver e outorgam sem reserva
+alguma a João Antonio de Freitas Fortuna e a seus legitimos representantes na
+posse do referido jazigo, a fim de que possam cumprir as condições estipuladas
+aqui, e para realizarem todos os actos indispensaveis ao integral cumprimento
+da expressa vontade de seu amado esposo e pae, que respeitam e cumprem, como
+querem que os seus successores ou futuros representantes a cumpram<span
+class="pn">{31}</span> e respeitem. E por esta ser verdade, passam este acto de
+doação, que eu, Nuno Castello Branco, escrevo e que assignam com as testemunhas
+Francisco Correia de Carvalho, casado, proprietario da freguezia de S. Paio de
+Seide e Antonio Vaz Vieira de Napoles, solteiro da cidade de Guimarães. S.
+Miguel de Seide, 10 de Junho de 1890, e noventa.&mdash;(Ass.) <em>Anna Augusta Placido, Viscondessa de Correia Botelho; Nuno
+Castello Branco, Visconde de S. Miguel de Seide; Francisco Correia de Carvalho
+e Antonio Vaz Vieira de Napoles.</em></small></p>
+
+<p><small>(Segue-se o reconhecimento das assignaturas por João Bernardo Correia
+do Amaral, em 10 de junho de 1890).</small></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>Acceitação da doação anterior, averbada por Freitas Fortuna naquelle
+documento:</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p><small>Eu, João Antonio de Freitas Fortuna, abaixo assignado, casado e
+residente na rua<span class="pn">{32}</span> de Cedofeita, n.º 986 da cidade do
+Porto, cumprindo o disposto no art. 1466 do Codigo Civil portuguez, averbo
+neste documento a acceitação do cadaver do meu presado amigo o sr. Camillo
+Castello Branco (Visconde de Correia Botelho) e que me foi doado e entregue, e
+que eu aceitei com o encargo de o conservar perpetuamente na sepultura numero
+um do jazigo de minha familia, onde jaz, no cemiterio da Real Irmandade de N.
+Senhora da Lapa, e sob a condição de que nunca, e sob qualquer pretexto que
+seja, os descendentes de meu bom pai ou usufructuarios do indicado jazigo o
+tirem da referida sepultura ou consintam que o retirem, como se expoz no auto
+de doação supra que fez a Exma. Sra. Viscondessa de Correia Botelho e Exmo. Sr.
+Visconde de S. Miguel de Seide, esposa e filho do meu falecido amigo. E por ser
+verdade o referido aqui, escrevo nesta doação a respectiva acceitação, que
+assigno perante o tabellião e as testemunhas, o sr. Domingos<span
+class="pn">{33}</span> Joaquim Machado, casado, negociante e morador na rua de
+Oliveira Monteiro e o sr. Albino Pinto dos Santos, solteiro, caixeiro e
+residente na rua Chã, ambos n'esta cidade do Porto.</small></p>
+
+<p><small>Porto, 16 de junho de 1890 e noventa. (Ass.)
+<em>J. A.
+de Freitas Fortuna, Domingos Joaquim Machado e Albino Pinto dos
+Santos</em></small><a name="tex2html6"
+href="#foot259"><sup>[6]</sup></a>.</p>
+
+<p><small>(Reconhecimento feito pelo tabellião Edmundo Maia Campos
+Silva).</small></p>
+
+<div class="ilustracao">
+<p class="centrado"><a name="img3"></a><img width="80%" border="0" src="images/img3.jpg"
+alt="ULTIMO RETRATO DE CAMILLO FEITO NA «UNIÃO»"></p>
+
+<p class="centrado">ULTIMO RETRATO DE CAMILLO FEITO NA «UNIÃO»</p>
+
+<p style="font-variant: small-caps; font-size: small;">As Cinzas de Camillo.</p>
+</div>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>Eis os documentos. Vejamos, em seguida, o mais dos imaginaveis
+argumentos<span class="pn">{34}</span> a oppor-lhes, por concluir, de vez, pelo
+seu nenhum valor.</p>
+
+<p>Em primeiro logar, tem-se affirmado que ao Estado pertence escolher a forma
+e o logar destinados a melhor consagrar os mortos.</p>
+
+<p>O que vale dizer que os restos dum homem illustre são para o Estado, como
+para os que assim pensam, menos do que os da gente humilde que, alem daquelle,
+tem por si o direito de escolher o logar do seu definitivo repouso.</p>
+
+<p>Ora eu não sei até que ponto se<span class="pn">{35}</span> tem avançado em
+materia de regalias publicas, a ponto de chegarmos, pelo <em>controle</em> do
+Estado&mdash;a possuir tudo, caminhando da liberdade do homem á escravidão dos seus
+restos!</p>
+
+<p>O que se conclue é que a doutrina corrente é, mais ou menos, a seguinte:&mdash;ha
+um Pantheon, e é preciso colleccionar ali todos os notaveis, ainda que, como no
+caso de Camillo, elle tenha repugnado aos escolhidos.</p>
+
+<p>Dest'arte, se volve afinal o Pantheon num forçado museu de ossos, por não
+dizer num extravagante collegio de memorias, para onde os mais notaveis
+esqueletos terão fatalmente de ser conduzidos, e, se preciso for, expropriados,
+em razão da propria utilidade da sua gloria!<span class="pn">{36}</span></p>
+
+<p>Ainda mais:&mdash;para os que de tal maneira pensam, os grandes homens não
+ficariam devidamente venerados fóra do recinto que o Estado lhes confere!</p>
+
+<p>Nisto, a nosso ver, o erro.</p>
+
+<p>É uma scisma quasi grosseira, embora vulgar, suppor que os outros têem valor
+sómente quando lho concedamos, ou, melhor, quando, ostensivamente, lho
+memoremos!</p>
+
+<p>Quando, pelo contrario, o seu valor está unicamente com elles e com a sua
+obra, para alem de todas as honras e premios officiaes que se lhes decrete.</p>
+
+<p>E, assim, quem curará ámanhã de saber, por aferir do valor de Camillo, se
+elle pertenceu ou não ás Academias da sua terra?<span class="pn">{37}</span></p>
+
+<p>De egual arte, tambem os seus ossos não crescem pelo facto de de lhos
+semearmos nos Jeronymos, ou no casarão de Santa Engracia, embora natural fosse
+que para qualquer dos dois monumentos a Nação os conduzisse, se, melhor e mais
+correctamente, lhe não pertencesse zelar a sua derradeira vontade.</p>
+
+<p>Mais. Entre nós, nem sequer ha ainda senão uma indicação de Pantheon. Os
+Jeronymos são abrigo casual dos grandes, poucos, que ali repousam. De resto o
+futuro Pantheon de Portugal será o sempre novo e já lendario templo de Santa
+Engracia!</p>
+
+<p>Porque foi para ahi que a primeira assembléa do regimen mandou que a Nação
+os fizesse conduzir, de<span class="pn">{38}</span> par de outros que o tempo
+fosse glorificando<a name="tex2html7" href="#foot260"><sup>[7]</sup></a>.</p>
+
+<p>O Pantheon de S. Vicente, privilegio da Casa de Bragança, está cheio a tal
+ponto, que do exame das suas arcas, a esmo ahi postas, mais dá ao visitante a
+idéa dum casual deposito de mortos desarrumados, do que dum templo de sua
+sagração.<span class="pn">{39}</span></p>
+
+<p>Sob a nave, cheia de sombras do intimo podredoiro, entre velludos, mais um
+montão de corôas e galões velhos, descansam os reis assassinados, cujas figuras
+começam de desapparecer na nevoa que lhes tolda o crystal dos caixões,
+cerrando-os, providencialmente, ao espectaculo da sua decomposição em
+publico.<span class="pn">{40}</span></p>
+
+<p>Tem um ar de pateo lugubre a extranha galeria, cujos silencios são para o
+espectador como que compassos do grande carnaval historico a seguir, e que as
+duas sombras-phantasmas dos ultimos reis parecem ainda reflectir do gesso
+mysterioso das suas torturadas mascaras emblematicas.</p>
+
+<p>A um canto repousa D. Pedro II, tão impresso da sua urna que esta se lhe
+ajusta como um caixilho, donde, distante e bolorenta, surde, agora, serena, a
+sua face larga, formando o todo como que uma reproducção daguerreotypica dos
+seus derradeiros e infelizes annos de exilado!</p>
+
+<p>Ali espera, desde muito, a guia de marcha para o Brazil, onde, de facto,
+sempre lhe quedou a alma.<span class="pn">{41}</span></p>
+
+<div class="ilustracao">
+<p class="centrado"><a name="img4"></a><img width="80%" border="0" src="images/img4.jpg"
+alt="BUSTO DE CAMILLO"></p>
+
+<p class="centrado">BUSTO DE CAMILLO</p>
+
+<p class="assin"><small>Por Diogo de Macedo.</small></p>
+
+<p style="font-variant: small-caps; font-size: small;">As Cinzas de Camillo.</p>
+</div>
+
+<p>De resto, mais nada ha que sirva a marcar verdadeira piedade, ou grandeza;
+tudo ahi inculca o entrudo lugubre das ultimas cerimonias e honras officiaes,
+hoje tambem, no geral, negadas ou podres, como o mais das flores e presentes
+funerarios que, ao acaso, ahi restam.</p>
+
+<p>Afinal um lixo caro, tudo o que para ali juntaram á volta das urnas do
+mesquinho Pantheon real!</p>
+
+<p>E, entretanto,&mdash;ver-se-há mais tarde, e á razão duma melhor verdade&mdash;ahi
+velam algumas das maiores memorias que Portugal tem tido, mau grado a herança
+que as assombra.</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>Effectivamente, ha entre nós alguns monumentos funerarios de
+indiscutivel<span class="pn">{42}</span> valor, mas esses não estão em S.
+Vicente.</p>
+
+<p>Estão em Santa Cruz de Coimbra, nos Jeronymos, em Alcobaça, na
+Batalha,&mdash;emfim espalhados por toda a parte onde uma disposição de ultima
+vontade, senão a propria devoção dos povos, os fez erigir, nunca pela idéa dum
+publico dormitorio de mortos, adrede obrigado a officiosas memorias.</p>
+
+<p>É ver o que se passou com Garrett que, apesar de ter acautelado o seu
+natural e carinhoso desejo de repousar no cemiterio de S. João, ao lado de seus
+filhos, foi primeiramente sepultado nos <em>Prazeres</em> e, depois, dahi,
+transferido para Belem!</p>
+
+<p>O que significa, a nosso ver,<span class="pn">{43}</span> nunca um
+precedente a seguir, mas, pelo contrario, uma lamentavel indelicadeza da parte
+da Nação que para ali o trasladou, sem que ao menos reflectisse na maneira por
+que seria não só justo, mas até naturalissimo faze-lo!</p>
+
+<p>Porque, no presente caso, era bem facil conciliar o desejo dos admiradores
+do dramaturgo com a vontade por elle expressa.</p>
+
+<p>Bastava ver do seu intento, no documento a que alludimos e donde resulta,
+bem patente, a unica razão daquelle seu desejo.</p>
+
+<p>De facto, o que se vê da carta de Garrett a D. Jeronyma Deville, publicada
+por Francisco Gomes de Amorim, e em que se exprime a indicação do seu jazigo no
+cemiterio de<span class="pn">{44}</span> S. João&mdash;é sobretudo o proposito, ali
+bem declarado, de repousar junto de seus filhos.</p>
+
+<p>Ora, se a Nação tinha de sua vontade transferi-lo para os Jeronymos&mdash;de seu
+dever tinha tambem faze-lo acompanhar dos restos daquelles; e, desta forma, o
+seu preito seria, bem de certo, maior; e, alem de tudo, não revestiria a
+indelicadeza que assim foi.</p>
+
+<p>Mais: visto que são necessarios exemplos, sirva-nos ainda, de norma o que de
+justo se tem resolvido, lá fóra, em casos semelhantes, e sobretudo em França,
+que de seu brio tem quasi sempre casar ao proposito do seu agradecimento
+publico para com os grandes vultos nacionaes a maior attenção, e, mais
+ainda,<span class="pn">{45}</span> o maior melindre de delicadeza para com os
+seus designios, quando não com os seus caprichos.</p>
+
+<p>Por uma razão equivalente áquella que consta da carta de Garrett está no
+Pantheon madame Zola, junto de Zola; e madame Berthelot, junto de Berthelot,
+mortos no mesmo dia.</p>
+
+<p>Isto, sim; é simples e é delicado. E, comtudo, não consta que por tal motivo
+tenha havido desavença entre os grandes ali memorados.</p>
+
+<p>Pelo contrario, Balzac, talvez por negligencia, senão por odio da mesma
+burguezia que tão desapiedadamente elle escalpellou,&mdash;está na Père-Lachaise!
+</p>
+
+<p>E, no entanto, quem o julga menor por isso?</p>
+
+<p>Onde quer que seja, dalgum modo<span class="pn">{46}</span> continuará a
+rir; e, se nesse mundo que fica para alem do que elle foi, ha logar para
+reflexões á sua Obra, o mais que lhe acudirá é, decerto, a sua mesma approvação
+plena por tudo quanto escreveu, ou seja a consciencia do acerto com que traçou
+o perfil moral dos que, de momento, lhe são obstaculo á porta do Pantheon!</p>
+
+<p>E dahi, quem sabe? Talvez que ainda um motivo de valor explique a sua estada
+no Père-Lachaise, que, effectivamente, para o caso, não significa menos que o
+templo de Santa Genoveva!</p>
+
+<p>Porque, repetimos, é inferior aferir da grandeza dum artista, pela estima do
+logar onde elle repousa.</p>
+
+<p>Em França, ha casos de escrupulo,<span class="pn">{47}</span> no genero, por
+vezes, extraordinarios! Assim, em 1885, foi profanada a Egreja de Santa
+Genoveva, unicamente para que nella entrasse Victor Hugo!<a name="tex2html8"
+href="#foot173"><sup>[8]</sup></a></p>
+
+<p>E, contrariamente, por motivo da confissão catolica de Pasteur, não foi este
+para aquelle templo, mas para o seu proprio Instituto, onde jaz guardado em
+capella propria.</p>
+
+<p>Ahi está a maneira correcta de proceder para com um dos maiores da raça
+latina, e a quem, a França dispensou da <em>prova</em> do Pantheon!</p>
+
+<p>Também, quando da morte de John Ruskin, um dos grandes artistas<span
+class="pn">{48}</span> inglezes do seculo XIX, estylista tão singularmente
+notavel, como um dos mais eloquentes escriptores da Natureza, a Inglaterra
+offereceu a sua familia o logar que, para elle, a Nação tinha reservado em
+Westminster. Pois a familia, recusando um tal offerecimento, bem decerto em
+attenção á ultima vontade do Artista, preferiu sepulta-lo na aldeia de
+Coniston, perto da escola das creanças do povoado, para quem tambem elle, no
+dizer de Robert de la Sizeranne, havia composto os seus canticos.</p>
+
+<p>«A sua morte, informa este publicista, que teve logar a 20 de janeiro de
+1900, entre os rochedos e os bosques de Brantwood, á beira dum dos mais bellos
+lagos da Inglaterra,<span class="pn">{49}</span> foi o fim proprio da sua vida:
+em perfeita simplicidade e em discreta belleza. Elle não teve junto de si mais
+do que dois ou tres de seus discipulos e alguns camponezes. O offerecimento de
+um tumulo em Westminster, a maior honra que a nação ingleza pode tributar a um
+seu filho, foi recusada por sua familia; e, na celebre Abbadia real, coisa
+alguma recorda Ruskin, a não ser o seu medalhão, em bronze, collocado no
+<em>Pantheon dos Poetas</em>, ao lado do busto de Walter Scott.»</p>
+
+<div class="ilustracao">
+<p class="centrado"><a name="img5"></a><img width="80%" border="0" src="images/img5.jpg"
+alt="PROJECTO DE MONUMENTO A CAMILLO"></p>
+
+<p class="centrado">PROJECTO DE MONUMENTO A CAMILLO</p>
+
+<p class="assin"><small>Por Teixeira Lopes.</small></p>
+
+<p style="font-variant: small-caps; font-size: small;">As Cinzas de Camillo.</p>
+</div>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>Finalmente, acaso Shakespeare, está em Westminster?</p>
+
+<p>Não está; ahi figura elle, simplesmente, em monumento, cercado doutros<span
+class="pn">{50}</span> marmores, porventura espalhados á sua roda, como que a
+marcar-lhe o Tempo.</p>
+
+<p>Elle? quem sabe! talvez, unicamente, a sombra falsa do seu nome, mais o
+resto da sua lenda<a name="tex2html9" href="#foot261"><sup>[9]</sup></a>.</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>Presumivelmente jaz em Stratford, no côro de uma velha Egreja gothica, perto
+de um rio escuro, o<span class="pn">{52}</span> Avon, e, como que, ao acaso,
+guardado pela esguia escolta das suas arvores.<span class="pn">{53}</span></p>
+
+<p>Indica-o ao viajante, mais do que o monumento, ultimamente ali levantado,
+uma pedra que mal sobresai<span class="pn">{54}</span> da parede, com uma
+quadra-aviso, que geralmente lhe é attribuida.<span class="pn">{55}</span></p>
+
+<p>É uma quadra curiosa, que vale a pena ler e, por desventura, esqueceu lavrar
+na sepultura de Camillo,<span class="pn">{56}</span> onde, já agora, se torna
+necessario esculpir a clausula testamentaria do Romancista ácerca da sua
+sepultura.</p>
+
+<p>Eis a quadra:</p>
+
+<blockquote>
+ «Good friend, for Jesus'sake, forbear,<br>
+ To dig the dust enclosed here.<br>
+ Blessed be he that spares these stones,<br>
+ And curst be he that moves my bones.» </blockquote>
+
+<p> <span class="pn">{57}</span>«<em>E amaldiçoado seja o que revolver os meus
+ossos</em>»! gritou Shakespeare, ou a tradição por si.</p>
+
+<p>E tal defeza bastou a que jámais se destampasse o mysterioso jazigo!</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>Emfim, pois que eram precisos exemplos, ahi ficam os maiores, a<span
+class="pn">{58}</span> que poderiamos juntar outros, da regeição de
+Pantheons&mdash;sem que os paizes a que aquelles notaveis pertenceram, descessem,
+algum dia, a obrigar as suas memorias a um pariato de cinzas que, por clausula
+testamentaria, ou circumstancias casuaes, podesse tomar-se como violencia.</p>
+
+<p>E, entretanto, jámais a França ou a Inglaterra renegaram do culto quasi
+fanatico em que têem os seus <em>immortaes</em>; e, sobretudo, aquelles que por
+si bastariam a affirmar, mais do que o prestigio dos seus paizes&mdash;o valor das
+respectivas raças.</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>Derivando daquelles casos, ou antes apprendendo da attitude de<span
+class="pn">{59}</span> taes nacionalidades,&mdash;se assim é preciso!&mdash;ahi temos,
+naturalmente, indicado o que ao Estado, ou melhor ao povo portuguez,&mdash;pertence
+resolver, ácerca de Camillo, e sempre de accordo com a sua memoria.</p>
+
+<p>Levante o Povo portuguez, (ponhamos sempre de parte, em questão de preito a
+artistas, os <em>representativos</em>!)&mdash;uma estatua a marcar, de direito, nos
+Jeronymos, o logar que, de facto, elle não quiz occupar, á maneira do que se
+fez em Westminster para o grande tragico de Stratford, e deixemos que os seus
+restos descansem na Lapa!</p>
+
+<p>Tambem nós, repetimos, emquanto nos foi desconhecido o mais da documentação
+acima expressa, pugnámos pelo seu ingresso nos Jeronymos.<span
+class="pn">{60}</span></p>
+
+<p>Como de egual arte,&mdash;lembrando a pagina, por certo, mais dolorosa da vida
+litteraria de Camillo&mdash;uma das que abrem a <em>Correspondencia epistolar</em>
+entre o Romancista e Vieira de Castro, e onde aquelle allude a D. Anna Placido,
+contrahindo para com ella, publicamente, o voto das suas inhumações em commum
+jazigo&mdash;eu me recordára de quanto seria natural e proprio á memoria das suas
+conjunctas tragedias a approximação da que lhe fôra companheira e suave
+cumplice!</p>
+
+<p>Esta pagina é a mesma em que responde a Vieira de Castro, quando este, numa
+explosão de amizade, lhe denunciou o que os seus inimigos, ao tempo, propalavam
+para melhor o ferirem.<span class="pn">{61}</span></p>
+
+<p>Formára-se uma atmosphera de malquerença contra Camillo, e, como sempre em
+taes casos, a má vontade dos seus inimigos deu-se a jogar com um abjecto
+romance, adrede disposto a pôr de seu lado a chamada moral burgueza&mdash;ou seja o
+estalão mais infame que ainda se inventou para avaliar sensibilidades!</p>
+
+<p>Então, a tal proposito lhe contou Vieira de Castro o que, a seu respeito, se
+espalhára pelas praças, e, por sua vez, elle reproduz da maneira seguinte:</p>
+
+<p>&mdash;«Que eu, confidente e depositario das cartas que uma senhora casada
+escrevera a um homem ausente, ameaçára essa senhora de revelar ao marido a
+culpa indicada nas cartas, se ella continuasse a repellir-me;<span
+class="pn">{62}</span> e que a senhora ameaçada, aceitando metade da minha
+infamia transigira com a proposta». </p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>Ora a tal ensejo escreveu Camillo aquella pagina, que, já agora,
+reproduziremos, na parte final, aliás menos como seu desaggravo&mdash;por
+desnecessario, do que por ver o que, ao tempo, pensava do natural destino das
+suas cinzas:</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>«Meus amigos e meus inimigos! se, por violencias de uma paixão brutal,
+exacerbada pela embriaguez, eu resvalasse á infamia de forçar a resistencia da
+derradeira mulher na escala das perdidas&mdash;Deus sabe quem são as perdidas!&mdash;; ao
+despertar desse infernal aturdimento com a<span class="pn">{63}</span>
+consciencia do meu crime, matar-me-hia com asco de mim proprio.</p>
+
+<p>No regaço dessa senhora, tão cruelmente aviltada, tenho dous filhos. É para
+meus filhos que eu escrevo esta pagina que me pareceu até hoje impossivel.</p>
+
+<p>Receio que elles ainda tenham de ver a serpente da calumnia a rojar-se na
+sepultura de seu pae. Sinto-me no cabo da vida; e tenho maior pejo da
+posteridade que dos meus contemporaneos. Quero que estas crianças saibam deste
+livro que o pregão affrontoso aos calumniadores foi escripto quando ainda
+viviam as pessoas que podiam desmentir-m'o.</p>
+
+<p><em>No punhado de minhas cinzas hão de estar as de sua mãe</em>&mdash;esta
+levantada alma que ainda não verteu uma<span class="pn">{64}</span> lagrima na
+voragem que lhe devorou os respeitos do mundo, e a perfida riqueza com que seus
+perdoaveis paes a violentaram sem dó de sua innocencia e formosura dos dezoito
+annos».</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p><em>No punhado de minhas cinzas hão de estar as de sua mãe!</em></p>
+
+<p>Ahi está o que me seduzia a pugnar pela approximação das duas urnas.</p>
+
+<p>Afinal, parece que a mesma fatalidade que os reuniu, os dispersou!</p>
+
+<p>Nas cartas finaes de Camillo a Freitas Fortuna, ácerca das suas cinzas, ha
+uma allusão unica a D. Anna Placido.</p>
+
+<div class="ilustracao">
+<p class="centrado"><a name="img6"></a><img width="80%" border="0" src="images/img6.jpg"
+alt="O JAZIGO DE CAMILLO NA LAPA"></p>
+
+<p class="centrado">O JAZIGO DE CAMILLO NA LAPA</p>
+
+<p style="font-variant: small-caps; font-size: small;">As Cinzas de Camillo.</p>
+</div>
+
+<p>E, ainda na sua declaração de 22 de novembro de 1886, prevenindo o<span
+class="pn">{65}</span> suicidio, a recorda, pensando afflictivamente no mau
+acaso de que ella o antecipe na morte!</p>
+<hr class="dotted">
+
+<p><small>«<em>A mãe destes dois
+desgraçados,</em> escreve elle, <em>não promette
+longa vida; e, se eu pudesse arrastar a minha existencia até ver Anna Placido
+morta infallivelmente me suicidaria. Não deixarei cahir sobre mim essa enorme
+desventura, a maior, a incomprehensivel á minha grande comprehensão de
+Desgraça.</em>»</small><a name="tex2html10"
+href="#foot263"><sup>[10]</sup></a></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>Assentemos, pois, para lá de todo o raciocinio, e perto, unicamente, da
+vontade de Camillo, no que a seu respeito, e a proposito do destino dos seus
+restos, elle, deliberadamente,<span class="pn">{66}</span> dispoz, e importa
+que, em bem da sua memoria, nós todos acatemos.</p>
+
+<p>Eu creio que dos documentos transcriptos resulta bem expressa a violencia da
+trasladação!</p>
+
+<p>A sua extraordinaria figura está acima do fetichismo publico que, por
+capricho, intentasse a macabra canseira de lhe remexer ou espreitar a ossada.
+</p>
+
+<p>Alem de que aos poderes publicos impende guarda-la. Isto sim, é de seu
+cargo!</p>
+
+<p>E se, effectivamente, á consciencia nacional,&mdash;para lá do susto romantico do
+enrêdo dos seus livros e do odio herdado da geração anterior contra elle, já
+chegou o culto devido pelo sacrificio dos quarenta annos da sua escravidão
+litteraria, aliás nelle<span class="pn">{67}</span> tão extranhamente batida de
+desgraça,&mdash;não se exasperem os seus devotos que não têem pouco em que empregar
+a admiração, por exprimirem todo o reconhecimento que lhe devem!</p>
+
+<p>Assim, por exemplo, não falando já nos monumentos a erigir-lhe&mdash;que esforço
+não lhes será necessario para apartarem das escolas esses manuaes de mentira
+que por lá correm&mdash;e substitui-los por livros de excerptos seus, para que
+delles resulte no coração dos futuros homens o documento vivo da sua grande
+alma!</p>
+
+<p>Esta seria, de facto, a primeira, a grande tarefa.</p>
+
+<p>Mas não vale a pena forçar o Tempo. Demais que o Tempo chega sempre na
+altura devida!<span class="pn">{68}</span></p>
+
+<p>Nós, é que ás vezes, por nos darmos a impressão de que tambem governamos
+fóra delle, pretendemos deslocar a sua justiça. Afinal, erro de humanos; mais
+nada!</p>
+
+<p>Emfim, Camillo poude sempre dizer como Liszt:&mdash;tenho tempo, esperarei...</p>
+
+<p>Que importa, pois, que sejamos nós ou outros os que definitivamente o
+sagremos?</p>
+
+<p>O que importa é termos a certeza de que a sua memoria venceu ha muito. De
+resto, tambem o facto da sua capella, na Lapa, ser modesta, nada representa.
+Deixemos os grandes mausoleos para os <em>seus brazileiros</em>; estes sim,
+precisam delles.</p>
+
+<p>Camillo não, pois que é já tão<span class="pn">{69}</span> grande,&mdash;embora o
+vejamos ainda crescer, dia a dia, na consciencia publica, que elle, mais a sua
+memoria surgem bem dali, como da mais exigua brochura da sua obra.</p>
+
+<p>É que é de seu privilegio, como, em geral, de todos os grandes artistas, a
+mesma ubiquidade milagrosa dos grandes santos.</p>
+
+<p>Tanto maiores são, melhor cabem em toda a parte&mdash;ainda nos mais humildes
+templos...</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p><small>Ancêde, 1 de outubro de 1917.</small></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+
+
+<div class="rodape">
+<p><a name="foot244" href="#tex2html1"><sup>[1]</sup></a> Vid. «<em>O Romance
+do Romancista</em>» por Alberto Pimentel.</p>
+
+<p><a name="foot53" href="#tex2html2"><sup>[2]</sup></a>
+Vid. ob. cit.</p>
+
+<p><a name="foot84" href="#tex2html3"><sup>[3]</sup></a> Obr. cit.</p>
+
+<p><a name="foot86" href="#tex2html4"><sup>[4]</sup></a> O distincto poeta snr.
+Jaime Cortesão.</p>
+
+<p><a name="foot123" href="#tex2html5"><sup>[5]</sup></a> «O Romance do
+Romancista» por Alberto Pimentel.</p>
+
+<p><a name="foot259" href="#tex2html6"><sup>[6]</sup></a> <small>Esta doação,
+com o respectivo averbamento de acquiescencia ás suas clausulas por parte do
+donatario, hoje na posse da viuva de Freitas Fortuna,&mdash;a Sra. D. Isabel Maria
+da Conceição Ribeiro da Silva Santos (a quem tambem pertence o jazigo da Lapa,
+onde estão os restos de Camillo)&mdash;foi pela</small> primeira vez presente a
+publico, pelo jornal a <em>Republica</em>, de 29 de setembro de 1916. </p>
+
+<p>Por este novo documento, de par dos restantes que apresentamos, se confirma
+a razão que nos assistia, quando, mezes antes, acudimos pelas cinzas de
+Camillo, publicando o principal documento, agora juntamente com aquelle
+reimpresso, na <em>Republica</em>.</p>
+
+<p><a name="foot260" href="#tex2html7"><sup>[7]</sup></a> A tal proposito
+insere o <em>Diario de Noticias</em> de 8 de março do corrente anno, a seguinte
+noticia: </p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p class="centrado">«PANTHEON NACIONAL»</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>«O snr., ministro da guerra vae dar as ordens necessarias para se
+concluirem, com a maior brevidade, as obras no edificio do antigo deposito de
+fardamentos, para ser para ali transferida a oficina de manufactura de calçado
+que foi provisoriamente instalada no edificio de Santa Engrancia, que por lei
+foi destinado a Pantheon Nacional.</p>
+
+<p>«É de crer que dentro de tres mezes o snr. architecto Adães Bermudes possa
+proseguir nos trabalhos de adaptação daquelle grandioso edificio ao Fim que por
+lei lhe foi destinado.»</p>
+
+<p>Donde se prova que successivos governos, depois de decretado o afeiçoamento
+do edificio de Santa Engracia a Pantheon Nacional, para ali ordenaram que fosse
+installada uma industria de calçado, embora, em seu dizer, provisoriamente,
+porventura até que a multidão de immortaes que se lhe destina, deixe de
+precisar da installação!</p>
+
+<p>O que não consta, contra as previsões do <em>Diario de Noticias</em>, e
+lettra do decreto, é que o snr. Adães Bermudes tenha proseguido nos tão
+esperados «trabalhos de adaptação do grandioso edificio ao fim que, por lei,
+lhe foi destinado...»</p>
+
+<p><a name="foot173" href="#tex2html8"><sup>[8]</sup></a> Em 1830 foi
+transformada a Egreja de Santa Genoveva em Pantheon Nacional. Depois, em 1851,
+voltou a ser egreja, até que, com a entrada de Hugo, foi, de novo
+secularizada.</p>
+
+<p><a name="foot261" href="#tex2html9"><sup>[9]</sup></a> Effectivamente, não é
+facil averiguar, com precisão, o mais da trajectoria da vida de Shakespeare, e,
+sobretudo, os episodios finaes da sua morte e inhumação,&mdash;ainda pelo estudo dos
+quatro mil volumes que, a seu respeito, a curiosidade dos eruditos de todas as
+nacionalidades accumulou. </p>
+
+<p>«Tentar falar ou escrever ácerca de Shakespeare, diz Lewis Theobald, é
+entrar num espaçoso e magnifico edificio, por um corredor estreito e
+tenebroso».</p>
+
+<p>O que mais delle se apura é que colheu obscuramente a sua obra da mesma
+razão anonyma que o prendeu á Terra.</p>
+
+<p>Como, de egual arte, é assente que o homem mais querido e admirado que ainda
+houve, foi tambem, até ha pouco, um dos mais maltratados:&mdash;<em>O poeta
+maldito</em>&mdash;eis a maneira por que J. Richepin com a maior justeza, o indica!
+(Vid. A T<small>RAVERS</small> S<small>HAKESPEARE</small>, conferences faites à
+<em>l'Université des Annales</em>.)</p>
+
+<p>Pope, no prefacio definitivo da sexta edição do <em>in-folio</em> de 1623,
+considera-o um mero cortezão da plebe.</p>
+
+<p>Voltaire chamou-lhe grosseiro e barbaro, «impossivel de se fazer ouvir pela
+mais desprezivel gente da França ou de Italia»&mdash;em derradeira analyse, um
+<em>selvagem bebado</em>!</p>
+
+<p>O reconhecimento publico do genio do grande tragico iniciou-o o romantismo
+allemão, sobretudo pelos estudos de Lessing, Goethe, Schiller, Herder e
+Schlegel. Em França, apparece pela primeira vez bem tratado nos trabalhos de
+Staël e Chateaubriand.</p>
+
+<p>Revelado o seu genio, começaram os criticos a hesitar sobre a idoneidade do
+Auctor.</p>
+
+<p>A muitos pareceu, de momento, pouco conforme com tão prodigiosa obra, o mais
+intimo da sua historia.</p>
+
+<p>Sigamos nós, comtudo, este fio biographico,&mdash;tambem o mais geralmente
+acceito como verdadeiro.</p>
+
+<p>Shakespeare nasceu em Stratford-on-Avon, em 1564, e era filho de um
+negociante de lans, homem de medianos recursos e grande familia.</p>
+
+<p>Estudou primeiras lettras numa escola publica (<em>Grammar School</em>,
+escola secundaria) da terra da sua naturalidade, onde casou, aos dezoito annos,
+com Anna Hathaway, de quem teve três filhos.</p>
+
+<p>Foi depois para Londres, onde, successivamente, parece ter sido moço de
+theatro, ponto, comediante, e mais tarde empresario, liquidando, finalmente, em
+burguez, na sua terra, onde morreu em 1616, no dia em que completou 52
+annos.</p>
+
+<p>Eis a mais vulgar das suas biographias.</p>
+
+<p>Ha outras mais complicadas, e, comtudo, acceites por alguns dos devotos do
+mytho shakespeariano.</p>
+
+<p>Segundo uns, o verdadeiro Shakespeare, teria sido lord Rutland; como, para
+outros, elle foi lord Southampton, tambem havido, no consenso do maior numero,
+como aquelle a quem o Poeta deveu a apresentação que o introduziu na complicada
+e brutal côrte de Elisabeth.</p>
+
+<p>Ainda, segundo alguns, elle foi lord Pembroke; como, finalmente, para o
+maior numero dos que teimaram em lhe dar uma proveniencia notavel, o proprio
+chanceller Francisco Bacon!</p>
+
+<p>É de menos interesse e improprio ás medidas duma nota a reproducção dos
+argumentos em que se firmam as differentes hypotheses; assentemos, porem, em
+que nenhuma dellas vae alem de conjectura</p>
+
+<p>O auctor do <em>Lord Rutland est Shakespeare</em>, M. Célestin Demblon,
+conclue as mais extraordinarias observações ácerca do falso Shakespeare.</p>
+
+<p>Assim, segundo este auctor, elle começou por seduzir a noiva, a quem só
+desposou, ameaçado de morte pela familia della, e a quem empobreceu,
+gastando-lhe o dote; depois foi vagabundo e engajador de soldados; fôra
+salteador de estrada; e, mais tarde, protegido por lord Rutland e Southampthon,
+chefe de cavalhariça, contra regra do theatro, etc.</p>
+
+<p>De resto, affirma ainda, elle não sabia sequer assignar o seu nome, que
+emprestára a Rutland, e este fazia escrever no final das peças, e que, por
+punhos diversos, apparece tambem differentemente orthographado (Shaxpere,
+Shagsbere, etc.).</p>
+
+<p>Quer dizer, o ordinario e baixo <em>Shagsbere</em> é nem mais, nem menos do
+que um personagem dos dramas de Rutland&mdash;o seu Falstaff, cynico e crapuloso,
+bebado e usurario, de quem o lord usava o nome por firmar as peças, que
+considerava abaixo da sua notoria prosapia!</p>
+
+<p>Ah! com que opportunidade, lidos estes phantasticos passos do genial «poeta
+maldito», nos veem á memoria as palavras que, da sua alma, elle passou para a
+bocca de Macbeth:</p>
+
+<p>«A vida! mas se a vida não é mais do que uma historia, contada por um tolo
+furioso e que não significa coisa alguma...»</p>
+
+<p style="text-align:center;">*</p>
+
+<p>Emfim, sahimos a custo dos multiplices enredos da sua vida, pela unica porta
+aberta ao mais dos criticos&mdash;a da sua Arte, instruida da sua primeira tradição,
+tambem a unica verosimil.</p>
+
+<p>Quanto ás extravagancias possiveis e até provaveis, antes da ida definitiva
+para Stratford,&mdash;mais do que o conhecimento das suas ficcionarias biographias,
+nos esclarece a historia da côrte de Elisabeth, com todo o seu enredo extranho.
+Jean Richepin, cujos estudos em parte resumimos, no desenvolvimento da presente
+nota, não só frisa a influencia daquella côrte, na obra do Poeta, como conclue,
+a proposito do seu caracter e Arte o seguinte:</p>
+
+<p>&mdash;«A Arte e a moralidade estão sobre dois planos differentes, dois planos
+que se não confundem, em boa verdade. Que de tempos a tempos estejam de
+accordo, simulando juntar-se sobre um plano unico,&mdash;eis o que pode succeder e
+encantar-nos.</p>
+<hr class="dotted">
+
+<p>Mas se os dois planos se mantêm separados que fazer? Eu desejaria, de certo,
+que elle (Shakespeare) tivesse sido, ao mesmo tempo, um homem honesto, o grande
+artista, um bom pae, bom marido; mas, nem por isso, deixo de preferir que elle
+tenha sido o contrario de tudo aquillo e nos tenha dado uma bella obra.»</p>
+
+<p>O que vale concluir pela necessidade de admittir Shakespeare, tal como nos
+surge á primeira luz, liquidando a sua aventura dramatica pelo regresso a
+Stratford, onde parece ter vivido os ultimos cinco annos, longe do theatro das
+suas maiores façanhas pessoaes, como dos seus dramas&mdash;porventura viciento e
+avaro, como no-lo pintam, distrahido no seu novo papel de rico, e, no entanto,
+sempre, de alguma forma, lembrado das suas antigas relações e vida de scena,
+como é positivo e se vê ainda do proprio testamento, em que contemplou dois
+camaradas.</p>
+
+<p>Assim chegamos, naturalmente, e ainda guiado pela lenda, até á morte do
+Poeta, na sua terra de origem, afinal tambem a mesma onde, porventura, a seu
+desejo, foi inhumado e, de direito, é que descanse.</p>
+
+<p>Isto, mau grado as lamentações de Irving, quando, ao visitar o seu tumulo,
+entre os velhos monumentos da nobreza, que o rodeiam, notava, com mágoa, o seu
+desenho mais do que modesto!</p>
+
+<p>(Confrontem-se J. Richepin, ob. cit.; Oeuvres dramatiques de William
+Shakespeare, traduction par Georges Duval; W. Irving; e Garrick.).</p>
+
+<p><a name="foot263" href="#tex2html10"><sup>[10]</sup></a> Vid. <em>Camillo
+Inédito</em> annotado.</p>
+</div>
+
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p class="centrado">INDICE DAS ILLUSTRAÇÕES</p>
+
+<p><a href="#img1">Retrato de Camillo por Antonio Carneiro</a></p>
+
+<p><a href="#img2">Retrato de D. Anna Augusta Placido</a></p>
+
+<p><a href="#img3">Ultimo retrato de Camillo feito na «União»</a></p>
+
+<p><a href="#img4">Busto de Camillo por Diogo de Macedo</a></p>
+
+<p><a href="#img5">Projecto de monumento a Camillo por Teixeira Lopes</a></p>
+
+<p><a href="#img6">O Jazigo de Camillo na Lapa</a></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p style="margin: 15%; text-indent: 0;"><em>DESTA EDIÇÃO FEZ-SE UMA TIRAGEM ESPECIAL DE QUATRO EXEMPLARES
+EM PAPEL WHATMAN, NUMERADOS E RUBRICADOS PELO AUCTOR.</em></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p style="margin: 20%; text-indent: 0;">ACABOU DE SE IMPRIMIR ESTE OPUSCULO AOS DOZE DIAS DO MEZ DE
+NOVEMBRO DE MIL NOVECENTOS E DEZESETE, NA TYPOGRAPHIA DA «RENASCENÇA
+PORTUGUESA», SITA Á RUA DOS MARTYRES DA LIBERDADE NA CIDADE DO PORTO.</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p class="centrado">NO PRELO:</p>
+
+<p><em>Camillo Inédito</em> annotado, 2.º milhar.</p>
+
+<p><em>Fanny Owen e Camillo</em>, 2.ª edição.</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+</div>
+
+
+
+
+
+
+
+<pre>
+
+
+
+
+
+End of Project Gutenberg's As Cinzas de Camillo, by Visconde de Vila Moura
+
+*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK AS CINZAS DE CAMILLO ***
+
+***** This file should be named 34742-h.htm or 34742-h.zip *****
+This and all associated files of various formats will be found in:
+ https://www.gutenberg.org/3/4/7/4/34742/
+
+Produced by Mike Silva
+
+Updated editions will replace the previous one--the old editions
+will be renamed.
+
+Creating the works from public domain print editions means that no
+one owns a United States copyright in these works, so the Foundation
+(and you!) can copy and distribute it in the United States without
+permission and without paying copyright royalties. Special rules,
+set forth in the General Terms of Use part of this license, apply to
+copying and distributing Project Gutenberg-tm electronic works to
+protect the PROJECT GUTENBERG-tm concept and trademark. Project
+Gutenberg is a registered trademark, and may not be used if you
+charge for the eBooks, unless you receive specific permission. If you
+do not charge anything for copies of this eBook, complying with the
+rules is very easy. You may use this eBook for nearly any purpose
+such as creation of derivative works, reports, performances and
+research. They may be modified and printed and given away--you may do
+practically ANYTHING with public domain eBooks. Redistribution is
+subject to the trademark license, especially commercial
+redistribution.
+
+
+
+*** START: FULL LICENSE ***
+
+THE FULL PROJECT GUTENBERG LICENSE
+PLEASE READ THIS BEFORE YOU DISTRIBUTE OR USE THIS WORK
+
+To protect the Project Gutenberg-tm mission of promoting the free
+distribution of electronic works, by using or distributing this work
+(or any other work associated in any way with the phrase "Project
+Gutenberg"), you agree to comply with all the terms of the Full Project
+Gutenberg-tm License (available with this file or online at
+https://gutenberg.org/license).
+
+
+Section 1. General Terms of Use and Redistributing Project Gutenberg-tm
+electronic works
+
+1.A. By reading or using any part of this Project Gutenberg-tm
+electronic work, you indicate that you have read, understand, agree to
+and accept all the terms of this license and intellectual property
+(trademark/copyright) agreement. If you do not agree to abide by all
+the terms of this agreement, you must cease using and return or destroy
+all copies of Project Gutenberg-tm electronic works in your possession.
+If you paid a fee for obtaining a copy of or access to a Project
+Gutenberg-tm electronic work and you do not agree to be bound by the
+terms of this agreement, you may obtain a refund from the person or
+entity to whom you paid the fee as set forth in paragraph 1.E.8.
+
+1.B. "Project Gutenberg" is a registered trademark. It may only be
+used on or associated in any way with an electronic work by people who
+agree to be bound by the terms of this agreement. There are a few
+things that you can do with most Project Gutenberg-tm electronic works
+even without complying with the full terms of this agreement. See
+paragraph 1.C below. There are a lot of things you can do with Project
+Gutenberg-tm electronic works if you follow the terms of this agreement
+and help preserve free future access to Project Gutenberg-tm electronic
+works. See paragraph 1.E below.
+
+1.C. The Project Gutenberg Literary Archive Foundation ("the Foundation"
+or PGLAF), owns a compilation copyright in the collection of Project
+Gutenberg-tm electronic works. Nearly all the individual works in the
+collection are in the public domain in the United States. If an
+individual work is in the public domain in the United States and you are
+located in the United States, we do not claim a right to prevent you from
+copying, distributing, performing, displaying or creating derivative
+works based on the work as long as all references to Project Gutenberg
+are removed. Of course, we hope that you will support the Project
+Gutenberg-tm mission of promoting free access to electronic works by
+freely sharing Project Gutenberg-tm works in compliance with the terms of
+this agreement for keeping the Project Gutenberg-tm name associated with
+the work. You can easily comply with the terms of this agreement by
+keeping this work in the same format with its attached full Project
+Gutenberg-tm License when you share it without charge with others.
+
+1.D. The copyright laws of the place where you are located also govern
+what you can do with this work. Copyright laws in most countries are in
+a constant state of change. If you are outside the United States, check
+the laws of your country in addition to the terms of this agreement
+before downloading, copying, displaying, performing, distributing or
+creating derivative works based on this work or any other Project
+Gutenberg-tm work. The Foundation makes no representations concerning
+the copyright status of any work in any country outside the United
+States.
+
+1.E. Unless you have removed all references to Project Gutenberg:
+
+1.E.1. The following sentence, with active links to, or other immediate
+access to, the full Project Gutenberg-tm License must appear prominently
+whenever any copy of a Project Gutenberg-tm work (any work on which the
+phrase "Project Gutenberg" appears, or with which the phrase "Project
+Gutenberg" is associated) is accessed, displayed, performed, viewed,
+copied or distributed:
+
+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.org
+
+1.E.2. If an individual Project Gutenberg-tm electronic work is derived
+from the public domain (does not contain a notice indicating that it is
+posted with permission of the copyright holder), the work can be copied
+and distributed to anyone in the United States without paying any fees
+or charges. If you are redistributing or providing access to a work
+with the phrase "Project Gutenberg" associated with or appearing on the
+work, you must comply either with the requirements of paragraphs 1.E.1
+through 1.E.7 or obtain permission for the use of the work and the
+Project Gutenberg-tm trademark as set forth in paragraphs 1.E.8 or
+1.E.9.
+
+1.E.3. If an individual Project Gutenberg-tm electronic work is posted
+with the permission of the copyright holder, your use and distribution
+must comply with both paragraphs 1.E.1 through 1.E.7 and any additional
+terms imposed by the copyright holder. Additional terms will be linked
+to the Project Gutenberg-tm License for all works posted with the
+permission of the copyright holder found at the beginning of this work.
+
+1.E.4. Do not unlink or detach or remove the full Project Gutenberg-tm
+License terms from this work, or any files containing a part of this
+work or any other work associated with Project Gutenberg-tm.
+
+1.E.5. Do not copy, display, perform, distribute or redistribute this
+electronic work, or any part of this electronic work, without
+prominently displaying the sentence set forth in paragraph 1.E.1 with
+active links or immediate access to the full terms of the Project
+Gutenberg-tm License.
+
+1.E.6. You may convert to and distribute this work in any binary,
+compressed, marked up, nonproprietary or proprietary form, including any
+word processing or hypertext form. However, if you provide access to or
+distribute copies of a Project Gutenberg-tm work in a format other than
+"Plain Vanilla ASCII" or other format used in the official version
+posted on the official Project Gutenberg-tm web site (www.gutenberg.org),
+you must, at no additional cost, fee or expense to the user, provide a
+copy, a means of exporting a copy, or a means of obtaining a copy upon
+request, of the work in its original "Plain Vanilla ASCII" or other
+form. Any alternate format must include the full Project Gutenberg-tm
+License as specified in paragraph 1.E.1.
+
+1.E.7. Do not charge a fee for access to, viewing, displaying,
+performing, copying or distributing any Project Gutenberg-tm works
+unless you comply with paragraph 1.E.8 or 1.E.9.
+
+1.E.8. You may charge a reasonable fee for copies of or providing
+access to or distributing Project Gutenberg-tm electronic works provided
+that
+
+- You pay a royalty fee of 20% of the gross profits you derive from
+ the use of Project Gutenberg-tm works calculated using the method
+ you already use to calculate your applicable taxes. The fee is
+ owed to the owner of the Project Gutenberg-tm trademark, but he
+ has agreed to donate royalties under this paragraph to the
+ Project Gutenberg Literary Archive Foundation. Royalty payments
+ must be paid within 60 days following each date on which you
+ prepare (or are legally required to prepare) your periodic tax
+ returns. Royalty payments should be clearly marked as such and
+ sent to the Project Gutenberg Literary Archive Foundation at the
+ address specified in Section 4, "Information about donations to
+ the Project Gutenberg Literary Archive Foundation."
+
+- You provide a full refund of any money paid by a user who notifies
+ you in writing (or by e-mail) within 30 days of receipt that s/he
+ does not agree to the terms of the full Project Gutenberg-tm
+ License. You must require such a user to return or
+ destroy all copies of the works possessed in a physical medium
+ and discontinue all use of and all access to other copies of
+ Project Gutenberg-tm works.
+
+- You provide, in accordance with paragraph 1.F.3, a full refund of any
+ money paid for a work or a replacement copy, if a defect in the
+ electronic work is discovered and reported to you within 90 days
+ of receipt of the work.
+
+- You comply with all other terms of this agreement for free
+ distribution of Project Gutenberg-tm works.
+
+1.E.9. If you wish to charge a fee or distribute a Project Gutenberg-tm
+electronic work or group of works on different terms than are set
+forth in this agreement, you must obtain permission in writing from
+both the Project Gutenberg Literary Archive Foundation and Michael
+Hart, the owner of the Project Gutenberg-tm trademark. Contact the
+Foundation as set forth in Section 3 below.
+
+1.F.
+
+1.F.1. Project Gutenberg volunteers and employees expend considerable
+effort to identify, do copyright research on, transcribe and proofread
+public domain works in creating the Project Gutenberg-tm
+collection. Despite these efforts, Project Gutenberg-tm electronic
+works, and the medium on which they may be stored, may contain
+"Defects," such as, but not limited to, incomplete, inaccurate or
+corrupt data, transcription errors, a copyright or other intellectual
+property infringement, a defective or damaged disk or other medium, a
+computer virus, or computer codes that damage or cannot be read by
+your equipment.
+
+1.F.2. LIMITED WARRANTY, DISCLAIMER OF DAMAGES - Except for the "Right
+of Replacement or Refund" described in paragraph 1.F.3, the Project
+Gutenberg Literary Archive Foundation, the owner of the Project
+Gutenberg-tm trademark, and any other party distributing a Project
+Gutenberg-tm electronic work under this agreement, disclaim all
+liability to you for damages, costs and expenses, including legal
+fees. YOU AGREE THAT YOU HAVE NO REMEDIES FOR NEGLIGENCE, STRICT
+LIABILITY, BREACH OF WARRANTY OR BREACH OF CONTRACT EXCEPT THOSE
+PROVIDED IN PARAGRAPH 1.F.3. YOU AGREE THAT THE FOUNDATION, THE
+TRADEMARK OWNER, AND ANY DISTRIBUTOR UNDER THIS AGREEMENT WILL NOT BE
+LIABLE TO YOU FOR ACTUAL, DIRECT, INDIRECT, CONSEQUENTIAL, PUNITIVE OR
+INCIDENTAL DAMAGES EVEN IF YOU GIVE NOTICE OF THE POSSIBILITY OF SUCH
+DAMAGE.
+
+1.F.3. LIMITED RIGHT OF REPLACEMENT OR REFUND - If you discover a
+defect in this electronic work within 90 days of receiving it, you can
+receive a refund of the money (if any) you paid for it by sending a
+written explanation to the person you received the work from. If you
+received the work on a physical medium, you must return the medium with
+your written explanation. The person or entity that provided you with
+the defective work may elect to provide a replacement copy in lieu of a
+refund. If you received the work electronically, the person or entity
+providing it to you may choose to give you a second opportunity to
+receive the work electronically in lieu of a refund. If the second copy
+is also defective, you may demand a refund in writing without further
+opportunities to fix the problem.
+
+1.F.4. Except for the limited right of replacement or refund set forth
+in paragraph 1.F.3, this work is provided to you 'AS-IS' WITH NO OTHER
+WARRANTIES OF ANY KIND, EXPRESS OR IMPLIED, INCLUDING BUT NOT LIMITED TO
+WARRANTIES OF MERCHANTIBILITY OR FITNESS FOR ANY PURPOSE.
+
+1.F.5. Some states do not allow disclaimers of certain implied
+warranties or the exclusion or limitation of certain types of damages.
+If any disclaimer or limitation set forth in this agreement violates the
+law of the state applicable to this agreement, the agreement shall be
+interpreted to make the maximum disclaimer or limitation permitted by
+the applicable state law. The invalidity or unenforceability of any
+provision of this agreement shall not void the remaining provisions.
+
+1.F.6. INDEMNITY - You agree to indemnify and hold the Foundation, the
+trademark owner, any agent or employee of the Foundation, anyone
+providing copies of Project Gutenberg-tm electronic works in accordance
+with this agreement, and any volunteers associated with the production,
+promotion and distribution of Project Gutenberg-tm electronic works,
+harmless from all liability, costs and expenses, including legal fees,
+that arise directly or indirectly from any of the following which you do
+or cause to occur: (a) distribution of this or any Project Gutenberg-tm
+work, (b) alteration, modification, or additions or deletions to any
+Project Gutenberg-tm work, and (c) any Defect you cause.
+
+
+Section 2. Information about the Mission of Project Gutenberg-tm
+
+Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
+electronic works in formats readable by the widest variety of computers
+including obsolete, old, middle-aged and new computers. It exists
+because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
+people in all walks of life.
+
+Volunteers and financial support to provide volunteers with the
+assistance they need are critical to reaching Project Gutenberg-tm's
+goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
+remain freely available for generations to come. In 2001, the Project
+Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
+and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
+To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
+and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
+and the Foundation web page at https://www.pglaf.org.
+
+
+Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive
+Foundation
+
+The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
+501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
+state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
+Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification
+number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at
+https://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
+permitted by U.S. federal laws and your state's laws.
+
+The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
+Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
+throughout numerous locations. Its business office is located at
+809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
+business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact
+information can be found at the Foundation's web site and official
+page at https://pglaf.org
+
+For additional contact information:
+ Dr. Gregory B. Newby
+ Chief Executive and Director
+ gbnewby@pglaf.org
+
+
+Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation
+
+Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
+spread public support and donations to carry out its mission of
+increasing the number of public domain and licensed works that can be
+freely distributed in machine readable form accessible by the widest
+array of equipment including outdated equipment. Many small donations
+($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
+status with the IRS.
+
+The Foundation is committed to complying with the laws regulating
+charities and charitable donations in all 50 states of the United
+States. Compliance requirements are not uniform and it takes a
+considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
+with these requirements. We do not solicit donations in locations
+where we have not received written confirmation of compliance. To
+SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
+particular state visit https://pglaf.org
+
+While we cannot and do not solicit contributions from states where we
+have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
+against accepting unsolicited donations from donors in such states who
+approach us with offers to donate.
+
+International donations are gratefully accepted, but we cannot make
+any statements concerning tax treatment of donations received from
+outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff.
+
+Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
+methods and addresses. Donations are accepted in a number of other
+ways including including checks, online payments and credit card
+donations. To donate, please visit: https://pglaf.org/donate
+
+
+Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic
+works.
+
+Professor Michael S. Hart was the originator of the Project Gutenberg-tm
+concept of a library of electronic works that could be freely shared
+with anyone. For thirty years, he produced and distributed Project
+Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.
+
+
+Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
+editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
+unless a copyright notice is included. Thus, we do not necessarily
+keep eBooks in compliance with any particular paper edition.
+
+
+Most people start at our Web site which has the main PG search facility:
+
+ https://www.gutenberg.org
+
+This Web site includes information about Project Gutenberg-tm,
+including how to make donations to the Project Gutenberg Literary
+Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to
+subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks.
+
+
+</pre>
+
+</body>
+</html>
diff --git a/34742-h/images/img1.jpg b/34742-h/images/img1.jpg
new file mode 100644
index 0000000..a24309b
--- /dev/null
+++ b/34742-h/images/img1.jpg
Binary files differ
diff --git a/34742-h/images/img2.jpg b/34742-h/images/img2.jpg
new file mode 100644
index 0000000..34a7230
--- /dev/null
+++ b/34742-h/images/img2.jpg
Binary files differ
diff --git a/34742-h/images/img3.jpg b/34742-h/images/img3.jpg
new file mode 100644
index 0000000..95a3741
--- /dev/null
+++ b/34742-h/images/img3.jpg
Binary files differ
diff --git a/34742-h/images/img4.jpg b/34742-h/images/img4.jpg
new file mode 100644
index 0000000..0e0ad4c
--- /dev/null
+++ b/34742-h/images/img4.jpg
Binary files differ
diff --git a/34742-h/images/img5.jpg b/34742-h/images/img5.jpg
new file mode 100644
index 0000000..ebcd927
--- /dev/null
+++ b/34742-h/images/img5.jpg
Binary files differ
diff --git a/34742-h/images/img6.jpg b/34742-h/images/img6.jpg
new file mode 100644
index 0000000..0a12803
--- /dev/null
+++ b/34742-h/images/img6.jpg
Binary files differ
diff --git a/34742-h/images/logo.png b/34742-h/images/logo.png
new file mode 100644
index 0000000..4657314
--- /dev/null
+++ b/34742-h/images/logo.png
Binary files differ