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You may copy it, give it away or +re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included +with this eBook or online at www.gutenberg.org + + +Title: Sustos da Vida nos Perigos da Cura + +Author: Bento Morganti + +Release Date: December 11, 2010 [EBook #34626] + +Language: Portuguese + +Character set encoding: ISO-8859-1 + +*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK SUSTOS DA VIDA NOS PERIGOS DA CURA *** + + + + +Produced by Mike Silva + + + + + + SUSTOS + DA VIDA + NOS PERIGOS DA CURA, + OU + CARTA, + + Que hum amigo escreveo a outro, estando convalescendo, + depois de huma enfermidade. + + + + + LISBOA: + Na Offic. de ANTONIO VICENTE DA SILVA. + Anno de MDCCLVIII. + _Com todas as licenças necessarias._ + + + + +Meu Amigo, e Senhor. Graças a Deos, que depois de huma enfermidade +dilatada me acho restituido a estado de poder escrever a V. m. e naõ foi +pequeno milagre escapar da cura, em que tive mayor perigo, do que +aquelle, que me causava a molestia; pois por muito pouco que a natureza +se descuidasse em me soccorrer, sem duvida entre a má applicaçaõ dos +remedios perderia irremediavelmente a vida. Agora que me acho livre do +susto nesta convalescença, ja que naõ posso fazer outra cousa, quero-me +divertir ao menos em dizer a V. m. o de que escapei pelos enganos da +Medicina, e pela ignorancia de alguns de seus professores, que +ordinariamente se reputa por hum grande bem, e excellente soccorro para +a conservaçaõ da vida; mas eu entendo que neste caso podemos exclamar +com Seneca: _Oh fallax bonum, quantum malorum fronte, quàm blanda +tegis._ E eu naõ sei se conseguiriamos huma melhor utilidade sem o +suffragio deste chamado bem, do que com a introducçaõ deste honesto, e +louvavel engano. + +Todos sabemos a correspondencia, que o homem, mundo abbreviado, tem com +a grande extensaõ do mundo, porque assim como este subsiste pela uniaõ +dos quatro elementos, assim tambem o corpo se conserva pela mistura dos +seus quatro humores; e pervertido o bom equilibrio de algum delles, se +conhece logo aquella ruina, que fica debaixo da sua jurisdicçaõ. Como +naõ podemos conhecer estas causas occultas, recorremos ao soccorro dos +Medicos, relatando-lhes os effeitos, que sentimos, para que elles, +segundo os preceitos da sua arte, cheguem ao verdadeiro conhecimento das +causas, e applicando-nos o remedio, restituaõ a natureza ao seu +verdadeiro tom. Este he o fim da Medicina, e o para que buscamos os +seus professores. Mas _hoc opus, hic labor est_. + +Ninguem póde duvidar ser a Medicina huma arte Divina, e para credito da +sua excellencia basta ser exercitada pelo mesmo Christo, de que o novo +Testamento, nos offerece repetidos exemplos; e Deos pela boca do +Espirito Santo nos manda honrar muito os bons, e verdadeiros professores +desta sciencia: como tal tem seus principios certos para dirigir os seus +professores, de sorte que a exercitem em utilidade dos homens, e em +bebeficio das Republicas; porém os que se naõ applicaõ como devem no +conhecimento desses principios, destroem sem duvida a excellencia da +arte, e invertem o fim, para que ella se introduzio, de sorte que a +enchem de imposturas, e defeitos; e enganando o mundo com a sua pessima +pratica, fazem conceber a huma arte taõ nobre, e taõ necessaria hum odio +entranhavel, hum susto continuo, e hum desprezo universal, de que se +segue conceberem todos, que sem duvida andaõ enganados, e nunca +desenganados destes falsos Medicos. Por este receyo entendo que naõ +deixará de ser mil vezes melhor na presença de alguma queixa viver antes +com ella, do que entregar-se nas mãos de qualquer Medico, pela +difficuldade, que temos em distinguir o máo do bom; porque será muito +melhor viver mais tempo, ainda que sujeito ao discommodo de huma saudade +arruinada, do que abbrevir a vida com o pretexto de recuperar a saude. + +A enfermidade presente me acabou de desenganar, porque por muitos +principios comprendi o pouco conhecimento, que alguns professores tem +dos principios das queixas, e o muito, que confundem os effeitos com as +causas; e o que he mais sensivel, o grande descuido, que tem em +exercitar o officio de coadjutores da natureza, porque principiando a +molestia por huma indigestaõ, quizeraõ tirar-me pelas veyas o mal, que +tinha no estomago; e concebendo a febre por causa, sendo na verdade +effeito, arrastràraõ para a massa do sangue o que estava nas primeiras +vias, e sem outra alguma evacuaçaõ me puzeraõ a morrer, quando com pouco +trabalho me podiaõ ter curado; mas por naõ passarem da tarifa, para cuja +observancia me parace que tem dado entre si juramento, sobre indigestaõ +vieraõ leites, vieraõ tizanas, vieraõ frangos, e o que veyo de mais +especial foraõ humas pitadas de nitro, e com a simples repetiçaõ destas +drogas pertendiaõ livrar-me das garras da morte. + +Este facto proprio me fez lembrar huma especie, de que sem duvida naõ +passaõ as enfermidades de tres classes, ou saõ de sua natureza curaveis, +ou incuraveis, ou indifferentes. Nas curaveis póde a natureza supprir +todos os erros da arte: nas incuraveis nem toda a arte póde emendar a +ruina da natureza, e por força lhe hade ceder: nas indifferentes he que +he todo o trabalho, todo o susto, e todo o perigo. + +Ora diga-me V. m. Quem com huma doença indifferente se ha de metter sem +susto nas maõs de hum Medico, que poderá naõ conhecer os principios da +sua queixa, e suppondo que he huma, curalla como outra, com o que póde +vir a ser maligna huma leve fermentaçaõ febril, com que a natureza se +pertende muitas vezes aliviar? Quem naõ terá susto de ver á sua +cabeceira hum homem, de quem, como de causa segunda, está dependente a +sua vida? Quem deixará finalmente de estar a cada hora esperando que lhe +cortem os fios da vida simplesmente com dous rasgos de huma penna, ou +com hum, ou dous leves borrões de tinta? O certo he, que tudo isto se +póde temer, vendo-se a pouca diligencia, que a mayor parte dos Medicos +fazem para curar bem, e a negligencia, que se pratica, para que sómente +curem os bons Medicos. Bem conheço que dos homens he o errar, e que +só as intelligencias estaõ izentas deste defeito; mas como a Medicina +tem preceitos certos, como he possivel que deixem de errar todos +aquelles, que ignoraõ os principios, ou se os sabem, naõ passaõ de huma +pura materialidade, sem que o discurso se adiante a fazer com que elles +tenhaõ todo aquelle bom exito, a que se terminaõ? Eu assento em que +deixada a certeza dos principios, e certas leis, a que está sujeita esta +sciencia, toda a Medicina se funda em hum bom discurso, e raciocinio; e +quem melhor o fizer, esse poderemos ter por melhor Medico: sendo certo +que em huma casa ás escuras tanto vê quem tem dous olhos, como quem naõ +tem nenhum, e que mais acertará quem melhor tino tiver. Mas como póde +atinar quem naõ tem bom tacto? E como acertará ás apalpadellas quem naõ +tiver hum bom discurso? + +A este respeito quero referir a V. m. hum successo moderno, para +confirmar que antes me hey de curar com hum Cirurgiaõ de experiencia, a +quem assista hum raciocinio claro, do que com hum Medico máo, que naõ +tenha outro discurso mais, que para entender muito ao pé da letra huma +infiada de afforismos de Hypocrates, e sentenças de outros membros +graves, restauradores da antiga Medicina, a quem como oraculos recorrem, +e de que tem feito na memoria hum bom deposito para comprarem a +credulidade do vulgo ignorante. Ainda naõ ha quinze dias, que achando-se +certo Cirurgiaõ dos de melhor credito na quinta de hum Fidalgo nas +vizinhanças de Lisboa, se ouvíraõ de repente humas vozes chamar por +Confissaõ. Acudíraõ a estes clamores varias pessoas, e logo hum +Sacerdote douto, levado do pio zelo, inseparavel do seu instituto, +acudio com o Sacramento da Penitencia a hum pobre homem, que por elle +estava suspirando. A este tempo acudio tambem o bom Cirurgiaõ, e +achando hum pulso alguma cousa opprimido, e a vista indicando huma +especie de frenezim, para cuja suspeita concorria tambem a incerteza das +palavras, se lembrou de que os preceitos da arte determinavaõ neste caso +a sangria, e outros remedios violentos, e quasi se vio convencido a +fazellos; mas discorrendo sobre os mesmos preceitos, lembrando-lhe +algumas das suas limitaçoens, suspendeo este meyo, e recorreo a outro, +formando juizo de que pelas informaçoens, que tomou do estado, em que +antecedentemente se achava o enfermo, naõ passava aquelle accidente de +poder ser huma mania accidental, que com pouco trabalho, e prejuizo do +enfermo teria facil cura. Assentando nisto, pedio huma palmatoria, e +convertendo as sangrias, e purgas em duas duzias de palmatoadas, com +promessa de lhe aggravar as penas, na manhãa seguinte o achou bom, e +livre de cuidado; e se naõ fora doerem-lhe as mãos, trabalharia logo no +seu officio, que era de alfayate. Seguro a V. m. que muitos dos que +vissem curar huma oppressaõ de pulso, acompanhada de hum icterismo á +cabeça, com o pouco custo de duas duzias de palmatoadas, teriaõ, que rir +por muito tempo, e fariaõ pessimo conceito do operante; mas quem +considerar que a força do raciocinio, e bom discurso o guiou para este +remedio, conhecerá que na Medicina mais, e melhor acerta quem melhor +discorre, porque neste caso julgou serem aquellas vozes effeito de huma +mania accidental, que muitas vezes com remedios exasperantes, e temores +propostos se dissipaõ as nevoas, que occasiona a força, e violencia de +huma hypocondria exaltada. + +Finalmente, para que V. m. acabe de conhecer o perigoso estado, em que +se acha a nossa vida, pela difficuldade, que temos em saber quaes saõ os +Medicos bons, para recorrermos a elles em beneficio da conservaçaõ da +saude, e os máos para evitarmos cahir nas suas maõs, bastará contar +tambem a V. m. o que se passou naõ ha muito tempo com hum homem servente +de certa Communidade, o qual adoecendo gravemente, se lhe chamou hum +destes Medicos embandeirado na classe dos bons. Principiou logo a sua +cura na fórma do estylo, de cujos remedios naõ experimentou o enfermo +alivio algum. Aggravou-se a doença de sorte, que o mandou sacramentar +por Viatico. Lembrou-lhe por ultimo dar-lhe as sarjas, por naõ faltar ao +costume, que he applicar-se este remedio, como a Santa-Unçaõ no extremo +da vida, quando de ordinario naõ aproveita aos enfermos; mas o doente, +que ouvio quasi proferida a sentença de morte, appellou do Medico para o +mesmo Medico, dizendo que tinha que lhe communicar em segredo, antes que +nelle se executasse o ultimo supplicio. Ouvio com bom animo o Doutor o +segredo, e este consistio em lhe dizer o réo, que elle por occasiaõ do +Terremoto fugira para a sua terra, mas a tempo que ja estava prevenida a +reconduçaõ dos desertores; que sendo prezo por hum Ajudante, tivera +meyos de lhe escapar, e se recolhera ao sitio, em que se achava; e que +vindo casualmente a elle o mesmo Ajudante, o conhecêra, e o ameaçára com +a proxima monçaõ da India, e que elle para escapar deste desterro se +fingira doente, e mostrára aggravar-se-lhe a enfermidade, e assim que +estava com grande escrupulo na sua consciencia em se ter sacramentado +por Viatico, naõ tendo na verdade cousa alguma. Ficou suspenso o Medico, +e dando mais credito ás palavras do enfermo do que ao pulso, a huma +informaçaõ delirante, que ás vozes da natureza, entrou a contristar-se +de ter concorrido para aquelle escrupulo e escrupulizando muito mais de +ter curado hum homem de maligna, sem ter na realidade cousa alguma. +Vendo a enfermeira que lhe suspendia as sarjas, perguntou o motivo; +ao que o Medico respondeo, que o homem era hum embusteiro, e que naõ +tinha cousa alguma, referindo-lhe o successo, e que assim só cuidava em +lhe remediar o damno, que lhe tinha feito por conta do seu embuste. A +esta confissaõ da sua ignorancia, que cuido seria sincera, acudio a +enfermeira, dizendo, que se admirava muito de ver que depois de cahir na +primeira cahisse tambem na segunda; porque tanto se tinha enganado, +quando principiou a curar, visto dar tanto credito ás palavras do +enfermo, como agora, quando o doente o enganára no que lhe dissera, pois +elle nunca sahio daquelle sitio, nem fugira, nem tal Ajudante o +ameaçára, porque tudo eraõ effeitos de hum grande delirio, em que o +tinha posto a maligna, e que logo logo o sarjasse. Conveyo com a +instancia, applicou-se o remedio, e se acha inteiramente saõ como hum +pero. Agora veja V. m. a quem aquelle homem deveo a sua vida, se foi +mais ao conhecimento de huma mulher, que lhe assistia, do que a num +Medico, que lhe tomava o pulso? e o juizo, que este faria no principio, +no estado, e no progresso da enfermidade, quando julgando por erro os +primeiros acertos, lhe pezava de ter acertado, só porque o enfermo lhe +dizia, que naõ tinha cousa alguma; e se na verdade assim fosse, +achava-se o miseravel homem precisado a curar-se de huma enfermidade, +que lhe introduzio a impericia de hum Medico. + +Isto he impossivel deixar de succeder todos os dias, porque a respeito +dos Medicos, assim como a respeito do mais, suppre de ordinario o favor, +e o patrocinio á falta de sufficiencia, pois em havendo qualquer empenho +todos curaõ. E se naõ, lembre-se V. m. daquelle nosso amigo, e +companheiro, que depois de naõ poder capacitar-se de hum unico ponto da +postilla do nosso Mestre o Senhor Manoel Tavares Coutinho, Lente de +Vespera de Canones, foi para o Brazil, onde sem mais estudos quiz +exercitar o officio de Advogado; e adquirindo muito má fama por esta +occupaçaõ, voltou para a Corte, sem mais cabedal que aquelle, com que +foi. Passados alguns annos, nos disse no adro da Trindade, que tornava a +ir para o mesmo Estado, ainda que com diverso emprego, em que esperava +adquirir melhor fortuna, pois teve quem o patrocinou para levar o cargo +de Fysico Mór das Minas Geraes; e perguntando-lhe V. m. que tinha mais +confiança com elle, como havia de ser isso de curar? elle lhe respondeo, +que levava bom provimento de receitas para malignas, para cezoens, para +hydropezias, e para todo o genero de enfermidades, que lhe adquiriraõ +varios amigos, e que na occurrencia de alguma enfermidade pegava na +primeira, e se esta falhasse, applicava a segunda, assim a terceira, até +acertar com alguma. Elle foi, e alguns annos depois, que ainda naõ ha +quatro, ou cinco, o encontrei em certo sitio curando, supponho como nas +minas, com o partido de Medico de certa Communidade Religiosa, e do +mesmo lugar, em que se achava. Quando vi semelhante caso, me lembrou +logo o que succedeo entre hum Fidalgo, e o seu cozinheiro. Era o Fidalgo +Védor da Fasenda, a quem tocava a repartiçaõ da Casa da India. Chegou-se +a monçaõ, e o cozinheiro em premio do bom serviço, que tinha feito ao +Fidalgo no decurso de muitos annos, lhe pedio a praça de Piloto da náo +de viagem. Admirou-se o Fidalgo da petiçaõ, e lhe disse como era +possivel que elle soubesse marcar huma náo em huma viagem taõ dilatada, +quando nunca tinha sahido de sua cozinha? Ao que constantemente +respondeo o cozinheiro: _Senhor, isso he historia, nomee-me V. Senhoria +para piloto, que o mais fica por conta da fortuna, porque as náos, que +vaõ para a India, Deos as leva, e Deos as traz, que o mais de pouco +importa._ Com que, meu amigo, applico el cuento, com semelhantes +Medicos tudo fica por conta de Deos, e se escapamos das suas maõs, he +grande milagre, e se algum sabe mais alguma cousa, he pelo estudo, que +faz nos vivos, a quem tira a vida, e nenhum pelos mortos, que he onde +poderiaõ achar methodo, e doutrinas para curar com menos detrimento dos +miseraveis enfermos. + +Mas que ha de ser, se alguns, a quem assiste mais huma pouca de +curiosidade, quizessem fazer mayor estudo, nem para isso tem tempo, e +apenas pódem, como os Siganos, tomar de cór aquella certa giria para +fazerem as suas curas, segundo o systema presente, para o que pouco +trabalho basta, e sobeja. He taõ precioso o tempo, que para os +professores desta arte todo se converte em dinheiro, e assim mais +encarregados do que carregados de visitas, passaõ o dia inteiro em +correr as ruas, subir, e descer escadas, praticar com os Cirurgioens, e +Boticarios, que saõ as adelas do seu conceito; e chegando a casa, ou ao +meyo dia, ou á noite, como vem fatigados, naõ olhaõ para livro, nem lhes +lembraõ os doentes; porque, como saõ muitos, por huns esquecem os +outros; e como as visitas estaõ feitas em numero, está vencida a paga, +pois tirando o tempo para estudar, do numero dos enfermos vem a perder o +que com elle poderiaõ adquirir, e já hoje naõ está o tempo para ninguem +se perder. Bem reconheceo esta falta de tempo certa pessoa grave, quando +encontrando-se na rua dos Douradores, que antigamente era muito +estreita, com tres Medicos, que estavaõ conversando, gritou aos criados, +que parassem, porque naõ era justo pertubar os Senhores Doutores +naquelle pouco tempo de estudo, que talvez estivessem conferindo sobre +alguma enfermidade. Meu amigo, sem estudo ninguem sabe, e saber sem +estudar só o conseguio Salomaõ; mas a sua incomprehensivel sabedoria +se lhe communicou dormindo, e foy o unico, a quem Deos fez essa mercê, +para que se conhecesse que dormindo, ou sem diligencia só por milagre se +póde ser sabio. Quem estuda, muitas vezes sabe pouco, e ordinariamente +confessaõ os doutos, que a utilidade, que tiraõ dos seus estudos, he +conhecerem o pouco que sabem, e o muito que lhes falta por saber. E que +fará quem naõ estuda cousa alguma? O certo he que o estudo ordinario +destes professores se termina ao methodo, que hum Medico, reputado por +grande, deo a outro, que o consultou, estando elle huma manhãa passeando +nos claustros do Convento de S. Francisco da Cidade. Pedio o Medico +moderno ao antigo, que lhe désse huma norma, e direcçaõ para estudar, e +saber o que fosse necessario para adquirir tambem o conceito de bom +Medico, como elle tinha na Corte. Respondeo-lhe o antigo: Senhor Doutor, +assente em que para ser tal, qual V. m. deseja, basta que chegue a +enterrar nestes claustros tantos miseraveis enfermos, quantos eu tenho +mandado para elles, e para outros desta Cidade, e naõ se canse com mais +estudo, porque o vulgo ignorante crê como no Evangelho a maxima de que +Medicos velhos, e Cirurgioes moços saõ os melhores. + +Naõ deixo de reconhecer alguma razaõ, em que se funde esta maxima, mas +quando ella se estabeleceo foy naquelle tempo, em que se observava huma +experiencia continua unida a hum estudo continuado, e huma especulaçaõ +exacta a huma pratica cheya de observações; e como esta se naõ adquire, +senaõ com o curso dos annos, he certo que o bom Medico, que for velho, +sendo deste genero, será o mais excellente. Mas que importará o numero +de annos, se faltar o estudo, e a exacçaõ nas observações da pratica? +Serve de tanto, como se vio praticado neste nosso Hospital de Lisboa com +hum dos seus primeiros Medicos, o qual eu ainda conheci muito bem. +Foi este acompanhado dos seus praticantes, e enfermeiro fazer a visita +de manhãa aos enfermos, e discorrendo pelas camas, foy ordenando o que +lhe pareceo. Chegou a huma, tomou o pulso ao vulto, que estava nella, e +voltou para o enfermeiro, dizendo: _A este mais duas sangrias._ +Replicou-lhe o enfermeiro: _Senhor Doutor, este morreo esta noite._ Fez +taõ pouca impressaõ no senhor Medico esta modesta reprehensaõ, que com o +mesmo socego de animo, com que determinou as sangrias a hum cadaver, com +o mesmo respondeo: _Pois enterrem-no, que he o que se segue. Vamos +adiante._ Deos me livre de que hum destes me tome o pulso; porque ainda +estando eu com boa saude, vendo que as arterias tem pulsaçaõ, logo me +manda sarjar, quando elle achou a hum defunto pulso para lhe mandar +continuar com as sangrias. De que se manifesta, que os annos sem estudo +sim fazem hum homem velho, mas naõ faraõ hum homem sabio. Naõ faltou +quem discretamente atribuisse a morte repentina de hum amigo seu a ter +visto em sonhos certo Medico máo, que havia no seu tempo, e bastou ver +em sonhos aquelle objecto para perder a vida. Se só a imagem na fantezia +produzio hum tal effeito, como podemos esperar melhores successos, +andando a nossa vida manipulada pela realidade do figurado? Se hum +destes só visto em sonhos matou hum homem, como naõ faraõ peyor estrago +tantos daquelle mesmo lote, que vivem realmente entre nós, e de que nos +vemos cercados, como de inimigos da nossa saude? O certo he, que devemos +dar muitas graças a Deos de estar vivos, achando-nos no meyo de tantos +coadjutores da morte, que para serem mais expeditos, quasi todos andaõ a +cavallo, conhecendo muito bem que sempre a Cavallaria fez mayor estrago, +do que a Infantaria, e tambem para imitarem em tudo a figura, que +substituem, porque assim a vio S. Joaõ: _Et in quarto equo palidi ibat +mors._ Com o que me parece que naõ podemos achar seguro lugar, onde nos +naõ alcance a influencia deste contagio, e ainda nos lugares mais sadios +podemos experimentar este damno. + +He muito para ver, e muito mais para recear o modo como hum destes +sentencea camerariamente a nossa vida, sem haver outro delicto mais, que +entregarmo-nos sem reflexao nas suas maõs. Para hum réo, que commetteo +talvez hum delicto grave, naõ basta a sentença de hum Juiz inferior, +porque nem elle tem authoridade para condemnar, e só remette as culpas +ao Tribunal superior. Nomeaõ-se Ministros, faz o Relator o extracto do +processo, votaõ cinco, sette, ou mais Ministros, segundo pede a +gravidade da causa, ou a igualdade dos votos, e quando se profere a +sentença de morte he depois de se vencer pelo mayor numero. E sendo para +hum delinquente necessaria tanta circumspecçaõ, para se tirar a vida a +hum homem, que está innocente, basta o juizo inferior de hum destes +Medicos, que sentenceando de morte com effusaõ de sangue, acha logo +Ministro de justiça prompto com o ferro, e com o fogo para summariamente +remetter o enfermo para o outro mundo; e muitas vezes nem tanto he +necessario, porque basta o Medico só com accrescentar na receita hum +ponto com a penna, assinando quatro em lugar de tres, e com isto fica +tudo concluido. Eu bem sei que aquelle, que quer parecer mais +circumspecto, tambem convoca a sua especie de relaçaõ, a que chamaõ +junta, para que no caso de algum máo successo, ter escudo para conservar +o seu conceito; porém isto para mim he cousa de rizo, pois o que eu +tenho muitas vezes observado he conversar nestas juntas sobre a bondade +das suas mulas, do bom serviço de seus criados, e com isto misturaõ +algumas leves reflexoens do estado da doença, e no fim remataõ a +Conferencia com approvarem tudo o que o senhor Doutor assistente tem +determinado, e quando muito, para mostrar que de alguma Cousa servio +esta despeza, mandaõ ajuntar dous grãos de sevada da terra, ou na agoa +de escorcioneira, ou em alguma tizana, e vaõ saffando com a esmóla, e +fazendo rancho, constituem entre si huma especie de sociedade, ajustando +chamarem para as juntas huns aos outros, e assim vaõ vivendo muito bem, +ainda que os enfermos vaõ passando muito mal. O certo he, meu amigo, que +pelo muito que tenho visto a este respeito, assento que se as potencias +beligerantes pudessem introduzir nos exercitos oppostos hum pequeno +pelotaõ de Medicos deste genero, (salvando sempre o bom conceito, que se +deve fazer dos bons) conseguiriaõ as suas batalhas sem despeza de +polvora, e bala, poupando os soldos excessivos dos Generaes, e mais +despezas, que traz comsigo a guerra, porque elles sem mais armas que hum +tinteiro, e hum pouco de papel para fazerem os seus recipes, +acompanhados dos seus subalternos, que saõ os Cirirgiões, armados com os +seus estojos, e patronas com quatro lancetas, e huns poucos de ferros +ferrugentos, e os Boticarios com o seu livro do _quid pro quo_ em +bandoleira, fariaõ sem duvida em oito dias mais destroço, do que o +exercito poderia experimentar em seis mezes de campanha. + +Finalmente, por nao cansar mais a V. m. e eu estar tambem já cansado de +escrever, naõ digo o muito, que me occorre a este respeito, e só peço a +V. m. que tenha muito cuidado em conservar sem desordens a vida, para +lograr hum estado de perfeita saude, e naõ chegar a ter necessidade de +cahir no erro commum de chamar Medico, que naõ seja Medico, que lha +destrua de todo; e esta diligencia de chamar Medico bastará que V. m. a +reserve para a ultima enfermidade, para mostrar que naõ deixa de morrer +à moda; ou tambem, quando por muito velho, e achacado se enfastiar de +viver, quizer livrar-se desse embaraço por meyos competentes, que fique +salva a sua consciencia, porque elles teraõ todo o cuidado de lhe dar a +morte embrulhada em alguma emulsaõ, ou dentro de hum frango, +lembrando-se que obraõ nisto huma especie de caridade, verificando que a +respeito de huma vida cheya de padecimentos naõ he pena a morte, mas sim +o fim, e complemento de todas as penas, como escreveo hum discreto: +_Mors non poena, sed ultima poenarum est._ Mas se por acaso, ou +fatalidade lhe succeder o contrario, que antes disto lhe seja preciso +recorrer a elles pelo costume, encolha os hombros, e console-se com +Ouvidio, dizendo: _Me quoque fata ligant._ Ainda que lhe recommendo +muito, e me cuide em fugir, quanto lhe for possivel, destes tres +inimigos do corpo, assim como Christaõ deve fugir dos da alma, pois se +os da alma, que saõ mundo, diabo, e carne, a arruinaõ por natureza, +assim o Medico, Cirurgiaõ, e Boticario tem por officio destruir a saude, +e arruinar o corpo. Eu terei grande gosto de saber que V. m. passa livre +de necessitar valer-se de semelhantes inimigos, que eu, graças a Deos, +por agora escapei por occulta providencia dos ordinarios effeitos das +suas obras, e fico muito prompto para me empregar no serviço de V. m. +que Deos guarde muitos annos. Lisboa, 20. de Abril de 1756. + + De V. m. + + Muito amigo, e criado + + _Jozé Acursio de Tavares._ + + + + + +End of the Project Gutenberg EBook of Sustos da Vida nos Perigos da Cura, by +Bento Morganti + +*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK SUSTOS DA VIDA NOS PERIGOS DA CURA *** + +***** This file should be named 34626-8.txt or 34626-8.zip ***** +This and all associated files of various formats will be found in: + https://www.gutenberg.org/3/4/6/2/34626/ + +Produced by Mike Silva + +Updated editions will replace the previous one--the old editions +will be renamed. + +Creating the works from public domain print editions means that no +one owns a United States copyright in these works, so the Foundation +(and you!) can copy and distribute it in the United States without +permission and without paying copyright royalties. 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Thus, we do not necessarily +keep eBooks in compliance with any particular paper edition. + + +Most people start at our Web site which has the main PG search facility: + + https://www.gutenberg.org + +This Web site includes information about Project Gutenberg-tm, +including how to make donations to the Project Gutenberg Literary +Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to +subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks. diff --git a/34626-8.zip b/34626-8.zip Binary files differnew file mode 100644 index 0000000..4fb6e24 --- /dev/null +++ b/34626-8.zip diff --git a/34626-h.zip b/34626-h.zip Binary files differnew file mode 100644 index 0000000..022bd8f --- /dev/null +++ b/34626-h.zip diff --git a/34626-h/34626-h.htm b/34626-h/34626-h.htm new file mode 100644 index 0000000..9d9cccc --- /dev/null +++ b/34626-h/34626-h.htm @@ -0,0 +1,842 @@ +<!DOCTYPE HTML PUBLIC "-//W3C//DTD HTML 4.01 Transitional//EN" "http://www.w3.org/TR/html4/loose.dtd"> +<html> +<head> + <title>Sustos da Vida nos perigos da Cura, por Bento Morganti</title> + <meta name="Author" content="Bento Morganti"> + <meta name="Edition" content="Lisboa: Off. de Antonio Vicente da Silva, 1758."> + <meta http-equiv="content-type" content="text/html; charset=iso-8859-15"> + <style type="text/css"> + body{margin-left: 10%; + margin-right: 10%; + } + .pn { + text-indent: 0em; + text-decoration: none; + position: absolute; + left: 92%; + font-size: smaller; + text-align: right; + color: silver; + } + #corpo p{text-align: justify; text-indent: 1.5em;} + #corpo p.centrado {text-indent: 0; text-align: center;} + #corpo p.assin {text-indent: 0; text-align: right; margin-right: 2em;} + #corpo p.ni {text-indent: 0;} + p.centrado {text-indent: 0; text-align: center;} + hr.dotted {border: 0; border-bottom: dotted 2px #000;} + hr {border: 0; border-bottom: solid 2px #000;} + div p {margin: 0;} + a {text-decoration: none;} + .rodape { + font-size: small; + margin-left: 4em; + margin-right: 4em; + } + </style> +</head> + +<body> + + +<pre> + +Project Gutenberg's Sustos da Vida nos Perigos da Cura, by Bento Morganti + +This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with +almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or +re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included +with this eBook or online at www.gutenberg.org + + +Title: Sustos da Vida nos Perigos da Cura + +Author: Bento Morganti + +Release Date: December 11, 2010 [EBook #34626] + +Language: Portuguese + +Character set encoding: ISO-8859-1 + +*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK SUSTOS DA VIDA NOS PERIGOS DA CURA *** + + + + +Produced by Mike Silva + + + + + +</pre> + + +<div style="text-align:center;"> +<p style="font-size: 2em;">SUSTOS</p> + +<p style="font-size: 2.5em;">DA VIDA</p> + +<p style="font-size: 1.2em;">NOS PERIGOS DA CURA,</p> + +<p>OU</p> + +<p style="font-size: 2em;">CARTA,</p> + +<p>Que hum amigo escreveo a outro, estando convalescendo, depois de huma +enfermidade.</p> +<p> </p> +<p> </p> +<p> </p> +<p> </p> + +<p style="font-size: 2em;">LISBOA:</p> + +<p style="font-size: 1.2em;">Na Offic. de ANTONIO VICENTE DA SILVA.</p> + +<p style="font-size: 0.8em;">Anno de MDCCLVIII.</p> + +<p><em>Com todas as licenças necessarias.</em></p> +</div> + +<p> </p> +<p> </p> +<p> </p> +<p> </p> + +<div id="corpo"> + +<p><span class="pn">{3}</span></p> + +<p class="ni"><big>M</big>eu Amigo, e Senhor. Graças a Deos, que depois de huma enfermidade dilatada +me acho restituido a estado de poder escrever a V. m. e naõ foi pequeno milagre +escapar da cura, em que tive mayor perigo, do que aquelle, que me causava a +molestia; pois por muito pouco que a natureza se descuidasse em me soccorrer, +sem duvida entre a má applicaçaõ dos remedios perderia irremediavelmente a +vida. Agora que me acho livre do susto nesta convalescença, ja que naõ posso +fazer outra cousa, quero-me divertir ao menos em dizer a V. m. o de que escapei +pelos enganos da Medicina, e pela ignorancia de alguns de seus professores, que +ordinariamente se reputa por hum grande bem, e excellente soccorro para a +conservaçaõ da vida; mas eu entendo que neste caso podemos exclamar com Seneca: +<em>Oh fallax bonum, quantum malorum fronte, quàm blanda tegis.</em> E eu naõ +sei se conseguiriamos huma melhor utilidade sem o suffragio deste chamado bem, +do que com a introducçaõ deste honesto, e louvavel engano.</p> + +<p>Todos sabemos a correspondencia, que o homem, mundo abbreviado, tem com a +grande extensaõ do mundo, porque assim como este subsiste pela uniaõ dos quatro +elementos, assim tambem o corpo se conserva pela mistura dos seus quatro +humores; e pervertido o bom equilibrio de algum delles, se conhece logo aquella +ruina, que fica debaixo da sua jurisdicçaõ. Como naõ podemos conhecer estas +causas occultas, recorremos ao soccorro dos Medicos, relatando-lhes os +effeitos, que sentimos, para que elles, segundo os preceitos da sua arte, +cheguem ao verdadeiro conhecimento das causas, e applicando-nos o remedio, +restituaõ a natureza ao seu verdadeiro tom. Este he o fim da Medicina, e o para +que<span class="pn">{4}</span> buscamos os seus professores. Mas <em>hoc opus, hic labor est</em>.</p> + +<p>Ninguem póde duvidar ser a Medicina huma arte Divina, e para credito da sua +excellencia basta ser exercitada pelo mesmo Christo, de que o novo Testamento, +nos offerece repetidos exemplos; e Deos pela boca do Espirito Santo nos manda +honrar muito os bons, e verdadeiros professores desta sciencia: como tal tem +seus principios certos para dirigir os seus professores, de sorte que a +exercitem em utilidade dos homens, e em bebeficio das Republicas; porém os que +se naõ applicaõ como devem no conhecimento desses principios, destroem sem +duvida a excellencia da arte, e invertem o fim, para que ella se introduzio, de +sorte que a enchem de imposturas, e defeitos; e enganando o mundo com a sua +pessima pratica, fazem conceber a huma arte taõ nobre, e taõ necessaria hum +odio entranhavel, hum susto continuo, e hum desprezo universal, de que se segue +conceberem todos, que sem duvida andaõ enganados, e nunca desenganados destes +falsos Medicos. Por este receyo entendo que naõ deixará de ser mil vezes melhor +na presença de alguma queixa viver antes com ella, do que entregar-se nas mãos +de qualquer Medico, pela difficuldade, que temos em distinguir o máo do bom; +porque será muito melhor viver mais tempo, ainda que sujeito ao discommodo de +huma saudade arruinada, do que abbrevir a vida com o pretexto de recuperar a +saude.</p> + +<p>A enfermidade presente me acabou de desenganar, porque por muitos principios +comprendi o pouco conhecimento, que alguns professores tem dos principios das +queixas, e o muito, que confundem os effeitos com as causas; e o que he mais +sensivel, o grande descuido, que tem em exercitar o officio de coadjutores da +natureza, porque principiando a molestia por huma indigestaõ, quizeraõ tirar-me +pelas veyas o mal, que tinha no<span class="pn">{5}</span> estomago; e concebendo a febre por causa, +sendo na verdade effeito, arrastràraõ para a massa do sangue o que estava nas +primeiras vias, e sem outra alguma evacuaçaõ me puzeraõ a morrer, quando com +pouco trabalho me podiaõ ter curado; mas por naõ passarem da tarifa, para cuja +observancia me parace que tem dado entre si juramento, sobre indigestaõ vieraõ +leites, vieraõ tizanas, vieraõ frangos, e o que veyo de mais especial foraõ +humas pitadas de nitro, e com a simples repetiçaõ destas drogas pertendiaõ +livrar-me das garras da morte.</p> + +<p>Este facto proprio me fez lembrar huma especie, de que sem duvida naõ passaõ +as enfermidades de tres classes, ou saõ de sua natureza curaveis, ou +incuraveis, ou indifferentes. Nas curaveis póde a natureza supprir todos os +erros da arte: nas incuraveis nem toda a arte póde emendar a ruina da natureza, +e por força lhe hade ceder: nas indifferentes he que he todo o trabalho, todo o +susto, e todo o perigo.</p> + +<p>Ora diga-me V. m. Quem com huma doença indifferente se ha de metter sem +susto nas maõs de hum Medico, que poderá naõ conhecer os principios da sua +queixa, e suppondo que he huma, curalla como outra, com o que póde vir a ser +maligna huma leve fermentaçaõ febril, com que a natureza se pertende muitas +vezes aliviar? Quem naõ terá susto de ver á sua cabeceira hum homem, de quem, +como de causa segunda, está dependente a sua vida? Quem deixará finalmente de +estar a cada hora esperando que lhe cortem os fios da vida simplesmente com +dous rasgos de huma penna, ou com hum, ou dous leves borrões de tinta? O certo +he, que tudo isto se póde temer, vendo-se a pouca diligencia, que a mayor parte +dos Medicos fazem para curar bem, e a negligencia, que se pratica, para que +sómente curem os bons Medicos. Bem conheço que dos homens he o errar,<span class="pn">{6}</span> e +que só as intelligencias estaõ izentas deste defeito; mas como a Medicina tem +preceitos certos, como he possivel que deixem de errar todos aquelles, que +ignoraõ os principios, ou se os sabem, naõ passaõ de huma pura materialidade, +sem que o discurso se adiante a fazer com que elles tenhaõ todo aquelle bom +exito, a que se terminaõ? Eu assento em que deixada a certeza dos principios, e +certas leis, a que está sujeita esta sciencia, toda a Medicina se funda em hum +bom discurso, e raciocinio; e quem melhor o fizer, esse poderemos ter por +melhor Medico: sendo certo que em huma casa ás escuras tanto vê quem tem dous +olhos, como quem naõ tem nenhum, e que mais acertará quem melhor tino tiver. +Mas como póde atinar quem naõ tem bom tacto? E como acertará ás apalpadellas +quem naõ tiver hum bom discurso?</p> + +<p>A este respeito quero referir a V. m. hum successo moderno, para confirmar +que antes me hey de curar com hum Cirurgiaõ de experiencia, a quem assista hum +raciocinio claro, do que com hum Medico máo, que naõ tenha outro discurso mais, +que para entender muito ao pé da letra huma infiada de afforismos de +Hypocrates, e sentenças de outros membros graves, restauradores da antiga +Medicina, a quem como oraculos recorrem, e de que tem feito na memoria hum bom +deposito para comprarem a credulidade do vulgo ignorante. Ainda naõ ha quinze +dias, que achando-se certo Cirurgiaõ dos de melhor credito na quinta de hum +Fidalgo nas vizinhanças de Lisboa, se ouvíraõ de repente humas vozes chamar por +Confissaõ. Acudíraõ a estes clamores varias pessoas, e logo hum Sacerdote +douto, levado do pio zelo, inseparavel do seu instituto, acudio com o +Sacramento da Penitencia a hum pobre homem, que por elle estava suspirando. A +este tempo acudio tambem o bom Cirurgiaõ,<span class="pn">{7}</span> e achando hum pulso alguma cousa +opprimido, e a vista indicando huma especie de frenezim, para cuja suspeita +concorria tambem a incerteza das palavras, se lembrou de que os preceitos da +arte determinavaõ neste caso a sangria, e outros remedios violentos, e quasi se +vio convencido a fazellos; mas discorrendo sobre os mesmos preceitos, +lembrando-lhe algumas das suas limitaçoens, suspendeo este meyo, e recorreo a +outro, formando juizo de que pelas informaçoens, que tomou do estado, em que +antecedentemente se achava o enfermo, naõ passava aquelle accidente de poder +ser huma mania accidental, que com pouco trabalho, e prejuizo do enfermo teria +facil cura. Assentando nisto, pedio huma palmatoria, e convertendo as sangrias, +e purgas em duas duzias de palmatoadas, com promessa de lhe aggravar as penas, +na manhãa seguinte o achou bom, e livre de cuidado; e se naõ fora doerem-lhe as +mãos, trabalharia logo no seu officio, que era de alfayate. Seguro a V. m. que +muitos dos que vissem curar huma oppressaõ de pulso, acompanhada de hum +icterismo á cabeça, com o pouco custo de duas duzias de palmatoadas, teriaõ, +que rir por muito tempo, e fariaõ pessimo conceito do operante; mas quem +considerar que a força do raciocinio, e bom discurso o guiou para este remedio, +conhecerá que na Medicina mais, e melhor acerta quem melhor discorre, porque +neste caso julgou serem aquellas vozes effeito de huma mania accidental, que +muitas vezes com remedios exasperantes, e temores propostos se dissipaõ as +nevoas, que occasiona a força, e violencia de huma hypocondria exaltada.</p> + +<p>Finalmente, para que V. m. acabe de conhecer o perigoso estado, em que se +acha a nossa vida, pela difficuldade, que temos em saber quaes saõ os Medicos +bons, para recorrermos a elles em beneficio da conservaçaõ<span class="pn">{8}</span> da saude, e os +máos para evitarmos cahir nas suas maõs, bastará contar tambem a V. m. o que se +passou naõ ha muito tempo com hum homem servente de certa Communidade, o qual +adoecendo gravemente, se lhe chamou hum destes Medicos embandeirado na classe +dos bons. Principiou logo a sua cura na fórma do estylo, de cujos remedios naõ +experimentou o enfermo alivio algum. Aggravou-se a doença de sorte, que o +mandou sacramentar por Viatico. Lembrou-lhe por ultimo dar-lhe as sarjas, por +naõ faltar ao costume, que he applicar-se este remedio, como a Santa-Unçaõ no +extremo da vida, quando de ordinario naõ aproveita aos enfermos; mas o doente, +que ouvio quasi proferida a sentença de morte, appellou do Medico para o mesmo +Medico, dizendo que tinha que lhe communicar em segredo, antes que nelle se +executasse o ultimo supplicio. Ouvio com bom animo o Doutor o segredo, e este +consistio em lhe dizer o réo, que elle por occasiaõ do Terremoto fugira para a +sua terra, mas a tempo que ja estava prevenida a reconduçaõ dos desertores; que +sendo prezo por hum Ajudante, tivera meyos de lhe escapar, e se recolhera ao +sitio, em que se achava; e que vindo casualmente a elle o mesmo Ajudante, o +conhecêra, e o ameaçára com a proxima monçaõ da India, e que elle para escapar +deste desterro se fingira doente, e mostrára aggravar-se-lhe a enfermidade, e +assim que estava com grande escrupulo na sua consciencia em se ter sacramentado +por Viatico, naõ tendo na verdade cousa alguma. Ficou suspenso o Medico, e +dando mais credito ás palavras do enfermo do que ao pulso, a huma informaçaõ +delirante, que ás vozes da natureza, entrou a contristar-se de ter concorrido +para aquelle escrupulo e escrupulizando muito mais de ter curado hum homem de +maligna, sem ter na realidade cousa alguma. Vendo a enfermeira que lhe +suspendia as<span class="pn">{9}</span> sarjas, perguntou o motivo; ao que o Medico respondeo, que o +homem era hum embusteiro, e que naõ tinha cousa alguma, referindo-lhe o +successo, e que assim só cuidava em lhe remediar o damno, que lhe tinha feito +por conta do seu embuste. A esta confissaõ da sua ignorancia, que cuido seria +sincera, acudio a enfermeira, dizendo, que se admirava muito de ver que depois +de cahir na primeira cahisse tambem na segunda; porque tanto se tinha enganado, +quando principiou a curar, visto dar tanto credito ás palavras do enfermo, como +agora, quando o doente o enganára no que lhe dissera, pois elle nunca sahio +daquelle sitio, nem fugira, nem tal Ajudante o ameaçára, porque tudo eraõ +effeitos de hum grande delirio, em que o tinha posto a maligna, e que logo logo +o sarjasse. Conveyo com a instancia, applicou-se o remedio, e se acha +inteiramente saõ como hum pero. Agora veja V. m. a quem aquelle homem deveo a +sua vida, se foi mais ao conhecimento de huma mulher, que lhe assistia, do que +a num Medico, que lhe tomava o pulso? e o juizo, que este faria no principio, +no estado, e no progresso da enfermidade, quando julgando por erro os primeiros +acertos, lhe pezava de ter acertado, só porque o enfermo lhe dizia, que naõ +tinha cousa alguma; e se na verdade assim fosse, achava-se o miseravel homem +precisado a curar-se de huma enfermidade, que lhe introduzio a impericia de hum +Medico.</p> + +<p>Isto he impossivel deixar de succeder todos os dias, porque a respeito dos +Medicos, assim como a respeito do mais, suppre de ordinario o favor, e o +patrocinio á falta de sufficiencia, pois em havendo qualquer empenho todos +curaõ. E se naõ, lembre-se V. m. daquelle nosso amigo, e companheiro, que +depois de naõ poder capacitar-se de hum unico ponto da postilla do nosso Mestre +o Senhor Manoel Tavares Coutinho, Lente de Vespera<span class="pn">{10}</span> de Canones, foi para o +Brazil, onde sem mais estudos quiz exercitar o officio de Advogado; e +adquirindo muito má fama por esta occupaçaõ, voltou para a Corte, sem mais +cabedal que aquelle, com que foi. Passados alguns annos, nos disse no adro da +Trindade, que tornava a ir para o mesmo Estado, ainda que com diverso emprego, +em que esperava adquirir melhor fortuna, pois teve quem o patrocinou para levar +o cargo de Fysico Mór das Minas Geraes; e perguntando-lhe V. m. que tinha mais +confiança com elle, como havia de ser isso de curar? elle lhe respondeo, que +levava bom provimento de receitas para malignas, para cezoens, para +hydropezias, e para todo o genero de enfermidades, que lhe adquiriraõ varios +amigos, e que na occurrencia de alguma enfermidade pegava na primeira, e se +esta falhasse, applicava a segunda, assim a terceira, até acertar com alguma. +Elle foi, e alguns annos depois, que ainda naõ ha quatro, ou cinco, o encontrei +em certo sitio curando, supponho como nas minas, com o partido de Medico de +certa Communidade Religiosa, e do mesmo lugar, em que se achava. Quando vi +semelhante caso, me lembrou logo o que succedeo entre hum Fidalgo, e o seu +cozinheiro. Era o Fidalgo Védor da Fasenda, a quem tocava a repartiçaõ da Casa +da India. Chegou-se a monçaõ, e o cozinheiro em premio do bom serviço, que +tinha feito ao Fidalgo no decurso de muitos annos, lhe pedio a praça de Piloto +da náo de viagem. Admirou-se o Fidalgo da petiçaõ, e lhe disse como era +possivel que elle soubesse marcar huma náo em huma viagem taõ dilatada, quando +nunca tinha sahido de sua cozinha? Ao que constantemente respondeo o +cozinheiro: <em>Senhor, isso he historia, nomee-me V. Senhoria para piloto, que +o mais fica por conta da fortuna, porque as náos, que vaõ para a India, Deos as +leva, e Deos as traz, que o mais de pouco importa.</em><span class="pn">{11}</span> Com que, meu +amigo, applico el cuento, com semelhantes Medicos tudo fica por conta de Deos, +e se escapamos das suas maõs, he grande milagre, e se algum sabe mais alguma +cousa, he pelo estudo, que faz nos vivos, a quem tira a vida, e nenhum pelos +mortos, que he onde poderiaõ achar methodo, e doutrinas para curar com menos +detrimento dos miseraveis enfermos.</p> + +<p>Mas que ha de ser, se alguns, a quem assiste mais huma pouca de curiosidade, +quizessem fazer mayor estudo, nem para isso tem tempo, e apenas pódem, como os +Siganos, tomar de cór aquella certa giria para fazerem as suas curas, segundo o +systema presente, para o que pouco trabalho basta, e sobeja. He taõ precioso o +tempo, que para os professores desta arte todo se converte em dinheiro, e assim +mais encarregados do que carregados de visitas, passaõ o dia inteiro em correr +as ruas, subir, e descer escadas, praticar com os Cirurgioens, e Boticarios, +que saõ as adelas do seu conceito; e chegando a casa, ou ao meyo dia, ou á +noite, como vem fatigados, naõ olhaõ para livro, nem lhes lembraõ os doentes; +porque, como saõ muitos, por huns esquecem os outros; e como as visitas estaõ +feitas em numero, está vencida a paga, pois tirando o tempo para estudar, do +numero dos enfermos vem a perder o que com elle poderiaõ adquirir, e já hoje +naõ está o tempo para ninguem se perder. Bem reconheceo esta falta de tempo +certa pessoa grave, quando encontrando-se na rua dos Douradores, que +antigamente era muito estreita, com tres Medicos, que estavaõ conversando, +gritou aos criados, que parassem, porque naõ era justo pertubar os Senhores +Doutores naquelle pouco tempo de estudo, que talvez estivessem conferindo sobre +alguma enfermidade. Meu amigo, sem estudo ninguem sabe, e saber sem estudar só +o conseguio Salomaõ; mas a sua incomprehensivel<span class="pn">{12}</span> sabedoria se lhe +communicou dormindo, e foy o unico, a quem Deos fez essa mercê, para que se +conhecesse que dormindo, ou sem diligencia só por milagre se póde ser sabio. +Quem estuda, muitas vezes sabe pouco, e ordinariamente confessaõ os doutos, que +a utilidade, que tiraõ dos seus estudos, he conhecerem o pouco que sabem, e o +muito que lhes falta por saber. E que fará quem naõ estuda cousa alguma? O +certo he que o estudo ordinario destes professores se termina ao methodo, que +hum Medico, reputado por grande, deo a outro, que o consultou, estando elle +huma manhãa passeando nos claustros do Convento de S. Francisco da Cidade. +Pedio o Medico moderno ao antigo, que lhe désse huma norma, e direcçaõ para +estudar, e saber o que fosse necessario para adquirir tambem o conceito de bom +Medico, como elle tinha na Corte. Respondeo-lhe o antigo: Senhor Doutor, +assente em que para ser tal, qual V. m. deseja, basta que chegue a enterrar +nestes claustros tantos miseraveis enfermos, quantos eu tenho mandado para +elles, e para outros desta Cidade, e naõ se canse com mais estudo, porque o +vulgo ignorante crê como no Evangelho a maxima de que Medicos velhos, e +Cirurgioes moços saõ os melhores.</p> + +<p>Naõ deixo de reconhecer alguma razaõ, em que se funde esta maxima, mas +quando ella se estabeleceo foy naquelle tempo, em que se observava huma +experiencia continua unida a hum estudo continuado, e huma especulaçaõ exacta a +huma pratica cheya de observações; e como esta se naõ adquire, senaõ com o +curso dos annos, he certo que o bom Medico, que for velho, sendo deste genero, +será o mais excellente. Mas que importará o numero de annos, se faltar o +estudo, e a exacçaõ nas observações da pratica? Serve de tanto, como se vio +praticado neste nosso Hospital de Lisboa com hum dos seus<span class="pn">{13}</span> primeiros +Medicos, o qual eu ainda conheci muito bem. Foi este acompanhado dos seus +praticantes, e enfermeiro fazer a visita de manhãa aos enfermos, e discorrendo +pelas camas, foy ordenando o que lhe pareceo. Chegou a huma, tomou o pulso ao +vulto, que estava nella, e voltou para o enfermeiro, dizendo: <em>A este mais +duas sangrias.</em> Replicou-lhe o enfermeiro: <em>Senhor Doutor, este morreo +esta noite.</em> Fez taõ pouca impressaõ no senhor Medico esta modesta +reprehensaõ, que com o mesmo socego de animo, com que determinou as sangrias a +hum cadaver, com o mesmo respondeo: <em>Pois enterrem-no, que he o que se +segue. Vamos adiante.</em> Deos me livre de que hum destes me tome o pulso; +porque ainda estando eu com boa saude, vendo que as arterias tem pulsaçaõ, logo +me manda sarjar, quando elle achou a hum defunto pulso para lhe mandar +continuar com as sangrias. De que se manifesta, que os annos sem estudo sim +fazem hum homem velho, mas naõ faraõ hum homem sabio. Naõ faltou quem +discretamente atribuisse a morte repentina de hum amigo seu a ter visto em +sonhos certo Medico máo, que havia no seu tempo, e bastou ver em sonhos aquelle +objecto para perder a vida. Se só a imagem na fantezia produzio hum tal +effeito, como podemos esperar melhores successos, andando a nossa vida +manipulada pela realidade do figurado? Se hum destes só visto em sonhos matou +hum homem, como naõ faraõ peyor estrago tantos daquelle mesmo lote, que vivem +realmente entre nós, e de que nos vemos cercados, como de inimigos da nossa +saude? O certo he, que devemos dar muitas graças a Deos de estar vivos, +achando-nos no meyo de tantos coadjutores da morte, que para serem mais +expeditos, quasi todos andaõ a cavallo, conhecendo muito bem que sempre a +Cavallaria fez mayor estrago, do que a Infantaria, e tambem para imitarem<span class="pn">{14}</span> +em tudo a figura, que substituem, porque assim a vio S. Joaõ: <em>Et in quarto +equo palidi ibat mors.</em> Com o que me parece que naõ podemos achar seguro +lugar, onde nos naõ alcance a influencia deste contagio, e ainda nos lugares +mais sadios podemos experimentar este damno.</p> + +<p>He muito para ver, e muito mais para recear o modo como hum destes sentencea +camerariamente a nossa vida, sem haver outro delicto mais, que entregarmo-nos +sem reflexao nas suas maõs. Para hum réo, que commetteo talvez hum delicto +grave, naõ basta a sentença de hum Juiz inferior, porque nem elle tem +authoridade para condemnar, e só remette as culpas ao Tribunal superior. +Nomeaõ-se Ministros, faz o Relator o extracto do processo, votaõ cinco, sette, +ou mais Ministros, segundo pede a gravidade da causa, ou a igualdade dos votos, +e quando se profere a sentença de morte he depois de se vencer pelo mayor +numero. E sendo para hum delinquente necessaria tanta circumspecçaõ, para se +tirar a vida a hum homem, que está innocente, basta o juizo inferior de hum +destes Medicos, que sentenceando de morte com effusaõ de sangue, acha logo +Ministro de justiça prompto com o ferro, e com o fogo para summariamente +remetter o enfermo para o outro mundo; e muitas vezes nem tanto he necessario, +porque basta o Medico só com accrescentar na receita hum ponto com a penna, +assinando quatro em lugar de tres, e com isto fica tudo concluido. Eu bem sei +que aquelle, que quer parecer mais circumspecto, tambem convoca a sua especie +de relaçaõ, a que chamaõ junta, para que no caso de algum máo successo, ter +escudo para conservar o seu conceito; porém isto para mim he cousa de rizo, +pois o que eu tenho muitas vezes observado he conversar nestas juntas sobre a +bondade das suas mulas, do<span class="pn">{15}</span> bom serviço de seus criados, e com isto +misturaõ algumas leves reflexoens do estado da doença, e no fim remataõ a +Conferencia com approvarem tudo o que o senhor Doutor assistente tem +determinado, e quando muito, para mostrar que de alguma Cousa servio esta +despeza, mandaõ ajuntar dous grãos de sevada da terra, ou na agoa de +escorcioneira, ou em alguma tizana, e vaõ saffando com a esmóla, e fazendo +rancho, constituem entre si huma especie de sociedade, ajustando chamarem para +as juntas huns aos outros, e assim vaõ vivendo muito bem, ainda que os enfermos +vaõ passando muito mal. O certo he, meu amigo, que pelo muito que tenho visto a +este respeito, assento que se as potencias beligerantes pudessem introduzir nos +exercitos oppostos hum pequeno pelotaõ de Medicos deste genero, (salvando +sempre o bom conceito, que se deve fazer dos bons) conseguiriaõ as suas +batalhas sem despeza de polvora, e bala, poupando os soldos excessivos dos +Generaes, e mais despezas, que traz comsigo a guerra, porque elles sem mais +armas que hum tinteiro, e hum pouco de papel para fazerem os seus recipes, +acompanhados dos seus subalternos, que saõ os Cirirgiões, armados com os seus +estojos, e patronas com quatro lancetas, e huns poucos de ferros ferrugentos, e +os Boticarios com o seu livro do <em>quid pro quo</em> em bandoleira, fariaõ +sem duvida em oito dias mais destroço, do que o exercito poderia experimentar +em seis mezes de campanha.</p> + +<p>Finalmente, por nao cansar mais a V. m. e eu estar tambem já cansado de +escrever, naõ digo o muito, que me occorre a este respeito, e só peço a V. m. +que tenha muito cuidado em conservar sem desordens a vida, para lograr hum +estado de perfeita saude, e naõ chegar a ter necessidade de cahir no erro +commum de chamar Medico,<span class="pn">{16}</span> que naõ seja Medico, que lha destrua de todo; e +esta diligencia de chamar Medico bastará que V. m. a reserve para a ultima +enfermidade, para mostrar que naõ deixa de morrer à moda; ou tambem, quando por +muito velho, e achacado se enfastiar de viver, quizer livrar-se desse embaraço +por meyos competentes, que fique salva a sua consciencia, porque elles teraõ +todo o cuidado de lhe dar a morte embrulhada em alguma emulsaõ, ou dentro de +hum frango, lembrando-se que obraõ nisto huma especie de caridade, verificando +que a respeito de huma vida cheya de padecimentos naõ he pena a morte, mas sim +o fim, e complemento de todas as penas, como escreveo hum discreto: <em>Mors +non poena, sed ultima poenarum est.</em> Mas se por acaso, ou fatalidade lhe +succeder o contrario, que antes disto lhe seja preciso recorrer a elles pelo +costume, encolha os hombros, e console-se com Ouvidio, dizendo: <em>Me quoque +fata ligant.</em> Ainda que lhe recommendo muito, e me cuide em fugir, quanto +lhe for possivel, destes tres inimigos do corpo, assim como Christaõ deve fugir +dos da alma, pois se os da alma, que saõ mundo, diabo, e carne, a arruinaõ por +natureza, assim o Medico, Cirurgiaõ, e Boticario tem por officio destruir a +saude, e arruinar o corpo. Eu terei grande gosto de saber que V. m. passa livre +de necessitar valer-se de semelhantes inimigos, que eu, graças a Deos, por +agora escapei por occulta providencia dos ordinarios effeitos das suas obras, e +fico muito prompto para me empregar no serviço de V. m. que Deos guarde muitos +annos. Lisboa, 20. de Abril de 1756.</p> + +<p class="assin">De V. m.</p> + +<p class="assin">Muito amigo, e criado</p> + +<p class="assin"><em>Jozé Acursio de Tavares.</em></p> + +</div> + + + + + + + + +<pre> + + + + + +End of the Project Gutenberg EBook of Sustos da Vida nos Perigos da Cura, by +Bento Morganti + +*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK SUSTOS DA VIDA NOS PERIGOS DA CURA *** + +***** This file should be named 34626-h.htm or 34626-h.zip ***** +This and all associated files of various formats will be found in: + https://www.gutenberg.org/3/4/6/2/34626/ + +Produced by Mike Silva + +Updated editions will replace the previous one--the old editions +will be renamed. + +Creating the works from public domain print editions means that no +one owns a United States copyright in these works, so the Foundation +(and you!) can copy and distribute it in the United States without +permission and without paying copyright royalties. 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It exists +because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from +people in all walks of life. + +Volunteers and financial support to provide volunteers with the +assistance they need are critical to reaching Project Gutenberg-tm's +goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will +remain freely available for generations to come. In 2001, the Project +Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure +and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations. +To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation +and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4 +and the Foundation web page at https://www.pglaf.org. + + +Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive +Foundation + +The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit +501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the +state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal +Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification +number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at +https://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg +Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent +permitted by U.S. federal laws and your state's laws. + +The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S. +Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered +throughout numerous locations. Its business office is located at +809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email +business@pglaf.org. 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