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+ <title>O claro riso medieval, por João de Lebre e Lima</title>
+ <meta name="Author" content="João de Lebre e Lima">
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+ content="Porto: Livraria Chardron, 1916.">
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+<pre>
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+The Project Gutenberg EBook of O Claro Riso Medieval, by João de Lebre e Lima
+
+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.org
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+Title: O Claro Riso Medieval
+
+Author: João de Lebre e Lima
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+Release Date: December 11, 2010 [EBook #34623]
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+Language: Portuguese
+
+Character set encoding: ISO-8859-1
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+*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK O CLARO RISO MEDIEVAL ***
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+
+
+
+Produced by Mike Silva
+
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+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<div style="text-align: center; padding: 1em; border: solid 2px #000; background-color: #ffcc99; margin: 10%;">
+<p>&nbsp;</p>
+<p style="font-size: 1.4em;">JOÃO DE LEBRE E LIMA</p>
+
+<hr style="width: 15%;">
+
+<p style="font-size: 2.5em; color: red;">O claro riso<br>
+medieval</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p><small>CONFERENCIA LIDA PELO AUTOR NO PRIMEIRO<br>
+SALÃO DOS HUMORISTAS E MODERNISTAS<br>
+REALISADO NA CIDADE DO PORTO 14-VI-915</small></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>LIVRARIA CHARDRON<br>
+<small>DE</small> LELO &amp; IRMÃO, E<small>DITORES</small><br>
+PORTO-1916</p>
+</div>
+
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p><span class="pn">{1}</span></p>
+
+<p><big>Als ik kan</big></p>
+
+<p style="color: red; margin-left: 10%;">Sinal do pintor<br>
+Jehan de Eyck</p>
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p><span class="pn">{2}<br>
+{3}</span></p>
+
+<p style="text-align: center; font-size: 1.5em;">O <small>CLARO RISO MEDIEVAL</small></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p><span class="pn">{4}</span></p>
+
+<p style="font-size: 1.2em;">Do Autôr:</p>
+
+<div style="margin-left: 10%;">
+<p>O LIVRO DO SILENCIO seguido dos POÊMAS
+DO CORAÇÃO E DA TERRA (1913)</p>
+
+<p style="margin-left: 10em;">A seguir:</p>
+
+<p>DA PÊNA DE MORTE</p>
+
+<p>PALAVRAS... PALAVRAS</p>
+
+<p>O TEAR DE PENÉLOPE</p>
+</div>
+<p><span class="pn">{5}</span></p>
+
+<div style="text-align: center; padding: 1em;">
+<p>&nbsp;</p>
+<p style="font-size: 1.4em;">JOÃO DE LEBRE E LIMA</p>
+
+<hr style="width: 15%;">
+
+<p style="font-size: 2.5em; color: red;">O claro riso<br>
+medieval</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p><small>CONFERENCIA LIDA PELO AUTOR NO PRIMEIRO<br>
+SALÃO DOS HUMORISTAS E MODERNISTAS<br>
+REALISADO NA CIDADE DO PORTO 14-VI-915</small></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>LIVRARIA CHARDRON<br>
+<small>DE</small> LELO &amp; IRMÃO, E<small>DITORES</small><br>
+PORTO</p>
+</div>
+
+<p><span class="pn">{6}<br>
+{7}</span></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p class="centrado">A<small>OS EXPOSITORES E CONFERENTES</small><br>
+<small>DO<br>
+PRIMEIRO</small><br>
+SALÃO DOS HUMORISTAS<br>
+<small>ORGANISADO NO</small> P<small>ORTO</small>.<br>
+H<small>OMENAGEM DE<br>
+ADMIRAÇÃO, RECONHECIMENTO E SIMPATIA</small>.</p>
+
+<p class="centrado">J. de L. e L.</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+
+<div id="corpo">
+
+<p><span class="pn">{8}<br>
+{9}</span></p>
+
+<div style="margin-left: 30%; font-size: small; margin-right: 10%;">
+<p>Quand une chose me plaira, je ne prétends
+pas qu'elle te plaise, encore moins qu'elle plaise
+aux autres. Le ciel nous préserve des legislateurs
+en matière de beauté, de plaisir et d'émotion!
+Ce que chacun sent lui est propre et
+particulier comme sa nature; ce que j'éprouverai
+dépendra de ce que je suis.</p>
+
+<p class="assin">T<small>AINE</small>&mdash;<em>Voyage en Italie.</em></p>
+</div>
+
+<p><span class="pn">{10}<br>{11}</span></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p class="assin"><big>M<small>INHAS</small> S<small>ENHORAS</small></big></p>
+
+<p class="assin"><big>M<small>EUS</small> S<small>ENHORES</small></big></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>Eu não sei de período histórico que
+mais malsinado tenha sido, por quanto
+arengadôr comicieiro se tem lembrado de
+evocal-o, que esse que pelo nome dá
+de Meia-Idade, fecundo e generoso período
+que a erudição moderna, ha uns
+lustros a esta data, com tão desvelado
+carinho vem reabilitando, para mór desespêro
+e atarantação dos que na «noite dos
+seculos», «treva da Humanidade» e «aviltamento
+do espírito humano» encontraram<span class="pn">{12}</span>
+bordões cómodos a que apoiar a
+sua indolencia intelectual e o seu arripiante
+desdém pelos processos honestamente
+scientíficos de fazêr ou espalhar a
+História. E é com um regalo um tudo-nadinha
+perverso que eu esfrego as mãos
+a cada nova descoberta, visionando a
+desorientação sempre maior que vai por
+casa do Senhor Logar-Comum e de sua
+estimavel consorte, M<sup>me</sup>. Frase-Feita.</p>
+
+<p>Popularisada pelo espírito sectarista
+da Renascença, ainda conserva raíses teimosas
+no cérebro contemporáneo a impressão
+de que a Idade-Média mais não
+foi do que uma deprimente crise, em que
+tudo quanto de nobre existe no homem
+correu sério risco de naufrágio.</p>
+
+<p>Porque, ao alvorecêr do cristianismo,
+das landes e florestas bravías, da Germánia,
+alguns milhares de teutões, brutais
+e fortes, como vaga assoladora descêram<span class="pn">{13}</span>
+até aos países que se abrigavam sob
+a asa, já então desplumada, da águia romana
+e porque, esfacelado o Império
+que assombrára o mundo, essas rudes
+hordas batalhadoras durante alguns centos
+de anos rijamente se haviam disputado
+os pingues bocados da prêsa, logo
+para o critério racionalista, factício, estreito,
+dos humanistas do <em>Quattrocento</em>
+os dez séculos que precederam a ressurreição
+da cultura greco-latina se tornaram
+num grosseiro e despresivel rosário
+de ladroagens, devassidões e carnificinas&mdash;assim
+como que uma jaula enorme em
+que um bando faminto de ursos se entredevorasse,
+enraivado e excitado pela
+sangueira.</p>
+
+<p>Por outro lado, as preocupações doentias
+do <em>au-delà</em>, os terrôres do inferno e
+o papel capital que a Egreja desempenhou
+em todas as grandes crises da época,<span class="pn">{14}</span>
+criaram a lenda de que os tempos
+medievos haviam coalhado em todos os
+lábios os sorrisos e as palavras de alegria,
+tornando o mundo num gelado
+claustro de convento, aonde ninguem se
+atrevia a falar alto, com mêdo de perturbar
+o sussurro das litanias e dos <em>Kyries</em>.</p>
+
+<p>O mundo era demasiado estreito para
+nêle cabêrem à vontade outras figuras
+que a do frade e a do cavaleiro não
+fossem. E como por traz do burel monástico
+se ocultava o mistério da Divindade,
+isto é, a incertêsa do <em>além</em>&mdash;que
+tanto podia sêr o paraíso como as labarêdas
+implacaveis do inferno&mdash;e a cota
+de malha dos guerreiros apenas prometia
+mortes, pestes, assolações e fome, inferiu-se
+levianamente que, da queda de Roma
+á queda de Bisáncio, a alegria se exilára
+duma terra que a não compreendia, tão
+absorvidas andavam as almas pelo cuidado<span class="pn">{15}</span>
+da própria salvação e os corpos
+pelo terrôr da morte sempre presente.</p>
+
+<p>A própria catedral gótica (que é o
+mais intenso himno de júbilo que conheço)
+foi erradamente encarada como um
+simbolo de tristêsa, de dolorosa anciedade,
+de cobardia até<sup><a href="#nota1" name="m_nota1">[1]</a></sup>!</p>
+
+<p>Essa arquitectura de sonho, tão fragil
+e amavel aos olhos como uma velha
+renda de Malines ao tacto, foi inventada,
+disse-se, para enternecer, para subornar
+manhosamente Jehovah, tão ríspido e intransigente
+como nos tempos remotos do
+Exodo e do Pentateuco.</p>
+
+<p>Não se amava Deus, como não se
+amava o rico-homem feudal. Mas pagava-se
+o tributo a um e a outro para
+arredar calamidades da beira da porta.</p>
+
+<p>Assim se figuraram a Idade-Média os
+contemporáneos de Lourenço de Médicis:<span class="pn">{16}</span>
+aos pés do lirio mistico de Dante
+Alighieri a acha de armas, pingando sangue,
+de Gilles de Rais&mdash;o Barba-Azul
+da legenda.</p>
+
+<p>Assim tambem a imaginamos nós
+ainda, os melancólicos e scepticos contemporáneos
+de Mr. Anatole France e
+da politica parlamentar.</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>Certo, muito de exacto se pode topar
+no fundo deste conceito.</p>
+
+<p>Efectivamente, ao desabrochar da era
+actual, o homem assistiu a um espectáculo
+de catástrofes e horrores capaz
+de desconcertar a imaginação do mais
+absurdo creadôr de <em>films</em> cinematográficos
+ou do mais fantasioso <em>metteur-en-scène</em>
+de grand-guignolescas tragedias.
+Durante cêrca de duzentos annos (que<span class="pn">{17}</span>
+tanto durou a invasão ocidental dos
+bárbaros, ou, na xaroposa denominação
+tudesca, a migração dos povos) um ciclónico
+vento de agonia e desvairo sacudiu
+toda a Europa, de Bisancio&mdash;ultimo
+santuário do heleno-romanismo&mdash;ás praias
+fecundas do Atlantico.</p>
+
+<p>O imperio dos cesares, perdida a
+virtude antiga dos seus homens e relaxado
+o culto severo do exclusivismo da
+<em>civitas</em>, arquejava sôb a nuvem de extrangeiros,
+que, espontánea ou forçadamente,
+acorriam a Roma de todos os
+cantos do mundo, e morria, asfixiado, de
+beiços colados sofregamente aos seios morenos
+e lascivos das escravas asiáticas e
+ás gargantas firmes e frias das loiras
+mulheres do Norte&mdash;que tinham grandes
+pupilas azúes de creança e provocantes
+receios de gazela, que os halalis
+de caça desorientam.<span class="pn">{18}</span></p>
+
+<p>Os membrudos legionários, que desbarataram
+as coortes de Anibal e sob
+todos os sóes haviam passeado a águia
+de oiro da <em>Roma Victrix</em>, já não podiam
+com o rijo casco dos tempos heróicos e
+usavam agora um chapéo leve e nem
+couraça traziam. Dos campos desertava
+a população rural, que para as cidades
+enveredava, sequiosa de partilhar as inéditas
+volúpias dos triclinios em festa. E
+já não era sómente ao claro Apolo e a
+Venus Anadyómene que Roma erguia
+altares votivos e sacrificava as réses e os
+fructos do ritual litúrgico, mas a quantas
+misteriosas e tenebrosas divindades esquálidos
+profetas lhe traziam dos confins
+dum Oriente rutilante e exasperado e
+hirsutos druidas, cobertos de alvas túnicas
+de linho, importavam das florestas
+sombrias e metafisicas da Gália.</p>
+
+<p>Foi então que os Bárbaros apetecêram<span class="pn">{19}</span>
+a cortesan romana, que, nos átrios
+de mármore e sôb o olhar vasio das estatuas,
+uivava de luxúria monstruosa, entre
+cacos de taças estilhaçadas e sob um
+chuveiro continuo, embriagante, exaustivo,
+de pétalas de rosa.</p>
+
+<p>E a epopeia do Fim principiou...</p>
+
+<p>De norte a sul e de oriente a ocidente,
+um frémito de terrôr galvanisou a
+carne entorpecida do heroi, que ia morrer&mdash;que
+inexoravelmente ia morrer.</p>
+
+<p>Num derradeiro lampejo de coragem,
+dessa coragem sublimada e excelsa que lhe
+déra mundos e a sua quadriga de triunfo
+acorrentara cem raças, êle ergueu-se, então,
+cambaleante, meio tonto da ultima
+bacanal, e, sacando do pesado gladio de
+Rómulo e Remo, tentou ainda uma desesperada
+resistencia á investida dos que lhe
+cobiçavam as pedrarias das arcas e a carne
+voluptuosa e dôce das mulheres requintadissimas.<span class="pn">{20}</span></p>
+
+<p>Mas, ai! aos músculos do seu braço
+não acudiu o vigor de outros tempos&mdash;e dos
+seus dedos afusados, femininos,
+cobertos de joias, o gladio das victorias
+desprendeu-se e, ao bater no mosaico do
+chão, partiu-se em mil bocados, com
+um ruido sinistro de bronze que se lamenta...</p>
+
+<p>E os Bárbaros entraram.</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>E os Bárbaros entraram, de roldão,
+como um <em>sirocco</em> de inferno, talando
+campos, incendiando cidades, semeando
+a morte e o horror por onde passavam.
+Á sua aproximação burgos inteiros se
+despejavam de habitantes e as legiões,
+que o desuso da guerra amolentára, fugiam
+tambem, mordidas de terrôr pânico.</p>
+
+<p>Foi um êxodo trágico, que nenhum
+Rochegrosse poderá ressuscitar!<span class="pn">{21}</span></p>
+
+<p>Sobre as terras do Império agonisante
+a morte desdobrára as azas rígidas
+e o Império acabava, afogado em tristêsa
+pela brutal profanação...</p>
+
+<p>Mas, mais alto ainda que o desespêro
+estridente das mulheres e o clamor
+ululante dos vencidos, subia a gargalhada
+satisfeita, a imensa gargalhada das
+hordas victoriosas. Riso de embriaguês,
+riso de insania, que importa? era um riso
+que fazia estremecer a terra inteira e sob
+a abóbada do céo écoava como um himno
+triunfal!</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>Depois...</p>
+
+<p>A Historia aqui balbucia.</p>
+
+<p>Pouco a pouco a tempestade amainou.
+Das inúmeras tribus, lançadas como
+irresistiveis arietes contra a muralha latina,
+umas, levadas pela vertigem de epopeia<span class="pn">{22}</span>
+que os seus chuços de guerra andavam
+escrevendo, desabaram caudalosamente
+sôbre a Iberia e, atravessando o
+mar, fôram perder-se nas areias de Africa,
+como regatinhos míseros, que o deserto
+facilmente engole; outras&mdash;a maioria&mdash;menos
+ambiciosas, ou mais extenuadas
+de tanto pelejar, cravaram no chão
+as suas tendas de pele de cabra e a
+primeira noite dormida em sólo romano
+foi a primeira de uma Historia nova, de
+um mundo novo.</p>
+
+<p>Para traz de elas e ao seu redor
+nada restava da luminosa sociedade que
+sabia de cór hexámetros de Horacio e
+com Petronio aprendêra a arte subtil de
+enrugar uma toga. Palacios, termas, sumptuosos
+pórticos e até humildes cabanas
+de tijolo jaziam por terra, desfeitas em
+cinzas, que fumegavam ainda. E as estatuas
+mutiladas pela primeira vez sentiram<span class="pn">{23}</span>
+aflorar aos seus olhos de marmore, divinamente
+impassiveis, uma lagrima de
+humana piedade...</p>
+
+<p>A Belêsa antiga morrêra!</p>
+
+<p>Debalde os invasores, num supersticioso
+temor de <em>parvenus</em> selvagens, tentaram
+ressuscital-a e com ela o mecanismo
+complicado e sabio da administração
+romana.</p>
+
+<p>«Começou-se a restauração dos aqueductos,
+banhos e teatros; chegou-se
+mesmo a edificar monumentos novos,
+como o palacio de Verona e a basilica
+de Ravêna. Os espectaculos recomeçaram,
+reabriram as escolas de retórica.
+Mas os Godos não toleraram por muito
+tempo similhante regimen. Após a morte
+de Teodorico, como a rainha Amalasonte
+tivesse confiado a educação do
+filho a preceptores romanos, os principais
+guerreiros exigiram-lhe que a creança<span class="pn">{24}</span>
+fosse educada com os seus camaradas,
+para com êles aprender a caça e o manejo
+das armas, conforme era de uso
+entre bárbaros<sup><a href="#nota2" name="m_nota2">[2]</a></sup>».</p>
+
+<p>Este episódio melhor que nenhum
+outro revela a fisionomia moral da
+Idade Média dos primeiros séculos.</p>
+
+<p>O vinho novo não se acomodava
+nos ôdres velhos. O pesado estatismo
+latino embaraçava, sufocava os movimentos
+de aqueles homens que traziam,
+de longe, um zeloso culto pela dignidade
+e liberdade do individuo.</p>
+
+<p>Tudo, na civilisação que o Lacio cultivara
+ao longo das duas Europas, meridional
+e central, se opunha e resistia á
+absorpção. Roma era um estado enorme,
+disciplinado, culto e homogéneo, a despeito<span class="pn">{25}</span>
+da infinidade de povos diferentes
+que pela sua Lei se regiam. As suas
+condições de estabilidade e a manifesta
+superioridade do seu talento governativo
+davam-lhe um prestigio tão grande que
+muitos bárbaros, como os francos, burgondos
+e wisigodos, não hesitavam em
+desertar em massa as suas terras, para
+se colocarem sob a protecção do césar,
+que nove decimas partes da população
+do imperio nunca vira e, talvez por isso
+mesmo, temia e respeitava como a um
+deus.</p>
+
+<p>Outras e muito diversas eram as
+condições da sociedade que para lá do
+Reno e do Danubio ficava. O territorio
+da Alemanha actual encontrava-se parcelado,
+dividido por um sem-número de
+tríbus, que se não estimavam entre si e
+que, quando não guerreavam o Império,
+matavam o tempo batalhando umas com<span class="pn">{26}</span>
+as outras. Chefe supremo que coordenasse
+todas aquelas energias dispersas
+não havia. Quando muito suportavam,
+momentaneamente, qualquer <em>condottiere</em>,
+que a fortuna das armas em certo minuto
+bafejara e cujo prestigio findava
+com o primeiro revés ou com a morte,
+não chegando a criar tradição.</p>
+
+<p>Este permanente estado de briga impedia
+o desenvolvimento de uma superior
+cultura do espirito, permitindo unicamente
+as profissões que podemos
+alcunhar de instinctivas: a pastoricia, a
+agricultura e a guerra. Só esta ultima
+seria capaz de fixar unidade, se fôsse
+servida por um plano politico nitidamente
+estabelecido, como sucedeu com
+a conquista romana. Ora esse plano não
+existia. A guerra entre os Germanos,
+porque era motivada por impulsos passionais
+e sofreguidão de pilhagem, apenas<span class="pn">{27}</span>
+logrou robustecer a barbarie e
+fomentar a dissociação.</p>
+
+<p>Raça juvenil, fremente de acção e
+de paixões violentas, afeiçoando o ar
+livre e os scenarios naturais, que melhor
+falavam á espontaneidade do seu instincto,
+não podia intender as serenas discussões
+do <em>Forum</em>, entre alabastros plácidos
+e inertes. Para estes homens, que
+dormiam a cavalo e amavam com a simplesa
+de animais magnificos, só o que a
+vida lhes revelava directamente seduzia
+as suas irraciocinadas preferencias.</p>
+
+<p>Quando se assembleiavam, escolhiam
+um recanto ao acaso sob a copa de um
+carvalho tutelar. E, ahi, sentados em calháus
+asperos, ouvindo o gorgolejar das
+fontes e o balir dos rebanhos, tumultuosamente
+deliberavam sôbre uma guerra
+a fazer ou um crime a julgar.</p>
+
+<p>Além da natural distincção entre fortes<span class="pn">{28}</span>
+e fracos não havia outras hierarquias.
+Quem não podia brandir a massa de armas,
+que laborasse a terra. Os guerreiros
+eram os pares do seu chefe. Cada
+tribu formava um estado e todos se conheciam
+dentro de cada tribu.</p>
+
+<p>Era o ensaio fruste da comuna medieval
+futura e das modernas democracracias.</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>Deste conflicto se entretece a historia
+dos primeiros séculos de barbarie,
+após a queda do Baixo-Imperio.</p>
+
+<p>Se meu intuito fôra massacrar abusivamente
+a benévola atenção de Vossas
+Excelências, eu poderia ainda&mdash;sem modestia
+e sem custo&mdash;longamente dissertar
+sôbre o assunto. Mas, porque ele vos é
+familiar e eu careço absolutamente de
+abreviar-vos, tanto quanto possivel, a<span class="pn">{29}</span>
+fastidiosa obrigação de me escutardes,
+deixarei em paz este confuso e tumultuado
+desenrolar de guerras, brutalidades e
+catástrofes de toda a sorte&mdash;tenebrosa
+retorta de alquimista maluco em que o
+mundo de agora já se sente obscuramente
+fermentar.</p>
+
+<p>Não o abandonarei, comtudo, sem
+primeiro ter salientado a minha persuasão
+de que o riso não se sumiu da face
+da terra, mesmo neste cataclísmico período
+em que horrorosas pestes aniquilavam
+provincias inteiras e por cada espaço
+de setenta anos havia quarenta de
+fome e se chegara a comêr carne humana.</p>
+
+<p>Riso brutal, decerto, gargalhar selvagem
+de mandibulas desconjunctadas, riso
+que faria desmaiar de espanto e de terrôr
+as <em>preciosas</em> do palacio Rambouillet
+e as marquesinhas liricas do Trianon&mdash;mas<span class="pn">{30}</span>
+riso verdadeiro, espontáneo, irreprimivel,
+riso de creanças e de heróes, riso
+sem adjectivos nem <em>parti-pris</em>, riso simplesmente
+e nuamente riso!</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>Eis, porém, que o ano mil se avisinha.</p>
+
+<p>Por toda a cristandade supersticiosa
+vôa celeremente a crença de que o mundo
+vai acabar e todas as bôcas se contracturam
+num rictus de agonia, que enlividece
+e espectralisa as máscaras.</p>
+
+<p>Inutilmente alguns doutores da Igreja
+procuram destruir o credo absurdo. Ninguem
+os ouve, ninguem acredita neles.
+O sortilégio do número embruxa todos
+os cérebros e o contágio do mêdo
+acaba por ganhar aqueles mesmo que a
+principio descriam.</p>
+
+<p>Então viu-se esta coisa de tragédia<span class="pn">{31}</span>
+esquiliana: multidões rouquejando de aflição
+aos pés dos frades lívidos, dementadas
+procissões de fanáticos azorragando-se
+até ao sangue, corais sinistras de
+miseraveis erguendo para o céo parado
+mãos súplices e crispadas, como, por
+certo crepúsculo da Hélade, as mãos
+convulsas das carpideiras, aos gritos junto
+de Patroclo morto...</p>
+
+<p>Ah! que supremo Artista, que semi-deus
+d'Annunzio cantará a angustia dessa
+noite de epopeia!</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>Senhoras e Senhores, perdoai a quem,
+tendo-se proposto ocupar-vos do riso na
+Meia-Idade mais não fêz ainda que passar-vos
+ante os olhos quintos-actos de
+dramalhão histórico. É que, para a minha
+sensibilidade e para o meu espírito,
+esta profunda crise da velha civilisação<span class="pn">{32}</span>
+ocidental tem captivancias de côr, <em>sorcelleries</em>
+de mistério, de vida intensa e
+magnífica, que em nenhuma outra encontro
+e que nenhumas palavras sabem
+dar. Rasão por que...</p>
+
+<p>Eu procurarei, no emtanto, absolvêr-me
+do venial pecado.</p>
+
+<p>Ia dizendo que, ao aproximar do ano
+1000, entre os cristãos se espalhara a
+crença de que o mundo ia acabar e que
+o terrôr do Fim exilára das bôcas pálidas
+o riso claro e sonóro de outras eras.</p>
+
+<p>Breve, porém, se desfez o cauchemarêsco
+bruxedo. Ao clarear da primeira
+madrugada do século <small>XI</small>, o homem, que&mdash;como
+escreve certo historiador de arte<sup><a href="#nota3" name="m_nota3">[3]</a></sup>&mdash;se
+deitára para morrer, ergueu-se
+do seu catre, atónito e deslumbrado, e a
+cristandade toda respirou fundo, desopressa
+da lúgubre ameaça.<span class="pn">{33}</span></p>
+
+<p>Era o remoto milagre de Lázaro redivivo
+que em plena Meia-Idade se repetia.</p>
+
+<p>Então foi pelo mundo adiante uma
+alegria desordenada, febril, quase dolorosa,
+como o casquinar das histéricas em
+face dum perigo que inesperadamente se
+desfaz. Libertas do cruciante pesadelo,
+as almas, reconhecidas, volveram-se para
+Deus, para esse Deus de misericordia e
+de piedade que conjurára a apocalíptica
+ameaça. E as bôcas, que ainda hontem
+soluçavam <em>requiems</em> de desespêro, abriram-se
+num <em>te-Deum</em> imenso, que iluminava
+a terra como um sol de gloria e
+para o céo subia como o perfume de um
+roseiral sem limites.</p>
+
+<p>A estas rudes creaturas, porém, não
+bastava o platonismo da oração. O seu
+ingénuo e sincero reconhecimento anceiava
+por encontrar uma forma de exteriorisar-se
+mais duradoira e efectiva que a<span class="pn">{34}</span>
+das palavras, que logo morrem mal nascem.</p>
+
+<p>E encontraram a igreja románica.</p>
+
+<p>Durante muito tempo o deus dos
+cristãos não tivera santuário próprio. O
+credo galileu, mesmo depois de perfilhado
+pelo Imperio, era prégado em casa
+de pagãos. E quando os recem-convertidos,
+no zêlo da sua fé, pretenderam repudiar
+os templos, que a idolatria dos antepassados
+para sempre havia maculado, e
+em seus espíritos nasceu o desejo de
+erguêr á Divindade nova um altar novo,
+foi ainda á <em>basílica</em> dos romanos que
+êles fôram pedir o plano arquitectonico
+de que tanto careciam<sup><a href="#nota4" name="m_nota4">[4]</a></sup>.</p>
+
+<p>Logo, porém, que as invasões cessaram
+e uma paz relativa trouxe um pouco
+de socêgo ao velho mundo <em>bouleversé</em>,
+começou-se a notar que o recinto escolhido<span class="pn">{35}</span>
+não satisfazia as exigencias de sensibilidade
+que o Verbo nazarêno acordára
+em todas as almas.</p>
+
+<p>Aquela grande sala nua, rectangular,
+monótona, de tecto horisontal e escassamente
+alumiada, em nada correspondia,
+ou antes, nada traduzia da aspiração
+ardente dos cristãos. Contra as pesadas
+traves de aquele tecto raso, baixo, opressivo,
+as azas brancas da oração esbarravam
+e, ensanguentadas, tombavam sôbre
+o lagêdo da nave, como pombas alvíssimas
+feridas.</p>
+
+<p>A par desta objecção de ordem estetico-sentimental,
+outra, de naturêsa puramente
+material, mas não menos importante,
+havia a considerar: é que tal processo
+de construir oferecia inconvenientes
+serios, dos quais o menor certamente não
+era a cobertura dos templos, feita, em
+geral, com enormes pedras horisontais,<span class="pn">{36}</span>
+dificeis de obtêr, de trabalhar e de colocar.
+Para iludir este grave embaraço
+várias vezes se tentou substituir o granito
+por compridos pranchões de madeira.
+Mas a inovação fracassou, pois as
+inclemencias do tempo e os incendios
+muito frequentes em breve demonstraram
+a fragilidade do subterfúgio.</p>
+
+<p>Foi então que o sistema das construcções
+abobadadas se apresentou ao espirito
+de não se sabe que obscuro arquitecto de
+génio, que, um dia, talvez em frente de
+uma arcada romana, as imaginou.</p>
+
+<p>«Esta inovação acarretava uma série
+de modificações. Contrafortes exteriores,
+mas ainda pouco salientes, encostaram-se
+ás parêdes, exactamente nos pontos sobre
+os quais a abóbada fazia maior pressão.
+Pilares macissos, com columnas encravadas
+em cada uma das quatro faces,
+alternaram com columnas isoladas. Rasgaram-se<span class="pn">{37}</span>
+as janelas em cintro e, quando
+eram geminadas, uma claraboia as sobrepujava<sup><a href="#nota5" name="m_nota5">[5]</a></sup>».</p>
+
+<p>Interiormente, a longa nave da basilica
+romana foi cortada, a dois terços do seu
+comprimento, por uma nave perpendicular,
+de menores dimensões, de sorte que
+o edificio ficou com a forma de uma cruz
+latina. Exteriormente, além das modificações
+já apontadas, outra se verifica, muito
+importante: o aparecimento do campanario
+ou campanarios, torreões macissos,
+aderentes ao corpo da igreja e servindo
+não só para instalar os sinos como tambem
+para vigiar os terrenos em volta,
+precaução naturalíssima n'aqueles tempos
+de guerrilhas quotidianas.</p>
+
+<p>«Quanto á decoração, não se fêz
+caso algum da simetria romana. A forma
+e a ornamentação dos capiteis fôram<span class="pn">{38}</span>
+completamente abandonadas á fantasia
+dos esculptôres. Ha igrejas románicas
+em que não é possivel encontrar dois
+capiteis similhantes<sup><a href="#nota6" name="m_nota6">[6]</a></sup>.</p>
+
+<p>Reparem agora Vossas Excelencias
+nesta gravura. É um <em>croquis</em> da linda
+igreja de Poitiers, <em>Nôtre-Dame-la-Grande</em>,
+um dos mais belos monumentos religiosos
+da época que estamos analisando<sup><a href="#nota7" name="m_nota7">[7]</a></sup>.
+
+<p>Frequente é encontrar nas historias
+de arte a afirmação de que esta arquitectura
+é triste, pesada, conventual, acompanhada
+da inevitavel explicação de que
+sómente á torturada, á sombria fisionomia<span class="pn">{39}</span>
+moral da Idade-Média se póde e
+deve atribuir a feição particular de similhante
+arte. É nesta altura que é de
+uso sacar dos tropos retumbantes, a que
+já tive ocasião de aludir nos umbrais de
+esta palestra, e dar cabo da pobre Idade-Média,
+carregando-a de nomes feios,
+mutilando-a ferinamente, enxovalhando-a
+e humilhando-a sem piedade.</p>
+
+<p>Eu peço vénia para não juntar a
+minha debil voz ao côro dos apostrofadôres,
+sem que a minha renúncia, comtudo,
+signifique pretenção de afirmar
+que a êles não assiste o mais fugidio
+vislumbre de razão. Sim, a arquitectura
+románica, á primeira vista, é melancolica,
+soturna. Estas grandes paredes nuas
+e cegas, de uma espessura esmagadora,
+são rebarbativas, duras, quasi hostís. O
+interior da igreja tambem não nos dispõe
+melhor: a luz é coada por frestas<span class="pn">{40}</span>
+tuberculosas, abertas aqui e acolá, medrosamente,
+na mole compacta de granito.
+Sufoca-se lá dentro com tanta penumbra
+e tanta frialdade. Dir-se-hia que de aquelas
+pedras, de aquelas enormes pedras
+de castelo medievo, eternamente escorre
+um suor frio de terror.</p>
+
+<p>Terão razão, portanto, os que no
+templo do século <small>XI</small> se obstinam em encontrar
+a mais fiel traducção do espírito
+supersticioso, coalhado de angustias
+e pavores, que é para êles, o espírito do
+nosso antepassado feudal?</p>
+
+<p>Todas as ideias, por mais absurdas,
+são defensaveis&mdash;e esta é-o mais que nenhuma.
+Todavia, parece-me que ainda
+aqui se toma um pouco a nuvem por
+Juno...</p>
+
+<p>O ano 1000 passára e, com êle, um
+dos maiores pánicos da cristandade. Como
+é possivel que fossem tristes os homens<span class="pn">{41}</span>
+que ergueram tais edificios, se
+esses homens como que haviam renascido
+uma segunda vêz?</p>
+
+<p>As próprias condições históricas da
+sociedade, que produziu a arte que estudamos
+neste momento, parecem auxiliar
+a minha conjectura. O mundo feudal ganhára
+uma certa estabilidade. As exacções
+e violencias dos barões eram menos frequentes,
+porque o aparecimento das cruzadas
+afastára da Europa um grande
+número de esses senhores brigões e
+aventureiros. O camponez principiava a
+respirar. O fructo do seu penosissimo
+labôr já lhe não era, como em tempos
+idos, insolentemente surripiado pelos vílicos
+do castelo. O direito era ainda a
+força, mas os costumes ganhavam cada
+vêz mais prestigio e o trabalho dos
+<em>glossadôres</em> começava a sêr encarado
+como uma tarefa util e necessária. Com<span class="pn">{42}</span>
+a paz veio um esboço de prosperidade e
+o oiro afluiu ao velho continente, arruinado
+e miseravel. O homem não era
+ainda feliz, decerto. Mas que diferença
+entre o passado próximo e aquele presente,
+escancarado para um futuro de
+que havia tudo a esperar e nada a temêr,
+por as almas e os corpos estarem ha
+muito couraçados para todas as miserias!</p>
+
+<p>Examinai de perto, agora, uma igreja
+de esta época. Vereis quão facilmente se
+dissolve a vossa primeira impressão, ante
+as surprêsas que vos reserva um exame
+mediocremente atento!</p>
+
+<p>Arsène Alexandre, o historiadôr amavel
+da caricatura, afirma algures que os
+constructores do templo medieval quizeram
+«aterrar por meio das grandes linhas,
+alegrar e distrair pelo detalhe.»<sup><a href="#nota8" name="m_nota8">[8]</a></sup></p>
+
+<p>Eu não saberia dizer-vos melhor nem<span class="pn">{43}</span>
+mais completamente a minha ideia.</p>
+
+<p>Com efeito, a igreja románica é pesada,
+austera, no seu conjuncto arquitectural&mdash;jocosa
+e satírica, frequentes vezes,
+em sua decoração.</p>
+
+<p>Como interpretar esta contradicção?</p>
+
+<p>Creio que facilmente, desde que saibamos
+que aos frades da época se deve
+o plano da referida igreja. Os monges
+eram, ao tempo, os unicos homens cultos
+da Europa meridional, que foi aonde
+a arte románica nasceu e produziu os
+seus mais belos fructos. Refugiados nos
+mosteiros da montanha ou perdidos na
+solidão das florestas despovoadas, êles
+entregavam-se, nos intervalos dos oficios
+sacros, á piedosa tarefa de recolher os
+fragamentos da velha náu latina desmantelada,
+pondo, na lide ingrata, aquela
+amorosa e inabalavel tenacidade que mais
+tarde possuirá os tres precursores da<span class="pn">{44}</span>
+renascença medicénica: Dante, Petrarca
+e Bocácio. Que admira, pois, que, ao
+planearem a nova casa de Deus, êles se
+deixassem inconscientemente influenciar
+pela arte dos pagãos, cuja nobre simplicidade
+de algum modo era afim do austero
+evangelismo de então?</p>
+
+<p>Uma força tenaz e obscura, porém,
+se opunha á realisação integral da concepção
+benedictina, erudita e grave: a
+imaginação popular. Mais puros de sugestões
+alheias, ignorando por completo a
+arte antiga e a teologia contemporánea,
+os pedreiros humildes, a quem a tarefa
+coubéra de erguer o templo, desforravam-se
+da <em>contrainte</em> monacal, dando largas
+á sua fantasia exuberante e um pouco
+desordenada, quando chamados a decorar
+os nichos, tímpanos, capiteis, portais.</p>
+
+<p>Tudo quanto os interessava, todas
+as ideias que os preocupavam, uma diabrura<span class="pn">{45}</span>
+que os fizéra rir ou um vicio que
+pretendiam stigmatisar, tudo nessas pedras
+ficou modelado pelo cinzel ainda
+ingénuo e balbuciante, mas já irreverente
+e malicioso, dos mestres canteiros da
+época.</p>
+
+<p>É certo que, por vezes, no meio de
+essas lavranterias do granito, uma cabeça
+monstruosa surge, relembrando antigos
+pavores. Simples capricho de esculptôr-contista,
+historiando o inferno á mingua
+de outro assumpto. O diabo era ainda
+temido, sem duvida, mas ao respeito
+de outrora começava a misturar-se não
+sei que vago halito de mordacidade jovial,
+que singularmente o apoucava...</p>
+
+<p>Depois, por aquele principio que os
+psicólogos baptisaram de «lei do esquecimento
+activo»&mdash;o qual nos ensina que
+a memoria do homem tem repugnancia
+pelas recordações dolorosas e se esforça<span class="pn">{46}</span>
+por libertar-se de elas&mdash;, não me parece
+muito atrevida a afirmação que venho
+fazendo. Sobre aquelas almas primitivas
+a lembrança da recente agonia pairava
+ainda sinistramente. Que é, pois, de
+admirar que eles, libertos do perigo buscassem
+atordoar-se, por um natural instincto
+de reacção, entregando-se francamente
+a uma alegria, que não souberam
+exprimir?</p>
+
+<p>E é, talvez, porque não souberam
+exprimir-se porque não tiveram a ajuda-los
+um tecnica perfeita, que, ainda hoje,
+muitos afirmam, iludidos pelas aparencias,
+que a esculptura decorativa da igreja
+románica, é na maioria dos casos, recatada,
+austera e cheia de melindrosos
+pudores&mdash;quando a verdade é que ela
+não passa de um riso que foi mal rido.<span class="pn">{47}</span></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>Esta inconsciente revolta da imaginação
+espontánea e caprichosa dos artistas
+contra o dogmatismo árido de uma
+reduzida <em>élite</em> de eruditos foi lentamente
+preparando as almas e os olhos para o
+milagre ogival.</p>
+
+<p>A Europa, mesmo durante as invasões,
+nunca deixára de estar em contacto
+com o Oriente. Com o advento
+das cruzadas as relações estreitam-se entre
+os dois continentes. Os bárbaros
+guerreiros, que do velho mundo abalavam
+á caça do infiel, voltavam de lá
+maravilhados com o explendôr de uma
+civilisação que não intendiam, mas que
+os perturbava como o perfume de uma
+flôr de estufa. E, nas desabridas noites
+de invernia, entre as paredes fuliginosas
+dos donjons, ouvindo crepitar os grossos
+tóros de carvalho na lareira, tudo<span class="pn">{48}</span>
+era arregalar os olhos deslumbrados para
+o rude homem de armas, que falava de
+êsses países longínquos como de um
+paraíso inegualavel, em que tudo fossem
+preciosíssimos brocados, joias scintilantes
+e palácios de mil côres, irreais como
+filigranas de cibórios!</p>
+
+<p>Das altas salas do castelo a maravilhosa
+legenda descia até ao povo, trazida
+pela bôca de algum menestrel tagarela,
+que a recontava, prodigalisando
+tintas.</p>
+
+<p>E sempre no auditorio havia um artista
+que a escutava, embebido, e se
+ficava sonhando, mesmo depois da historia
+concluída e a multidão dispersa...</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>Por uma gradual evolução, que não
+vem a pêlo detalhar, o gótico, filho
+espúrio do románico, aparta-se de êste<span class="pn">{49}</span>
+e, ahi por fins do século <small>XII</small>, adquire
+fóros de arquitectura original. O plenocintro,
+acanhado, frio, incómodo como
+uma grilheta, cede o logar á ogiva
+esbeltissima, que se ergue para o céo
+com a mesma graça alada de duas
+mãos que resam e o mesmo indefinido
+anceio de liberdade que faz estremecer
+de entusiasmo as lanças compridas das
+comunas, luctando pela sua independencia
+politico-económica.</p>
+
+<p>A insurreição lavra por toda a parte
+e em todos os campos. Já de ha muito
+o homem se rebelára contra a secura
+doutrinal dos teólogos, que prégavam o
+horrôr pela carne e só das almas curavam,
+minando-as de terror e desesperança<sup><a href="#nota9" name="m_nota9">[9]</a></sup>.
+«O cristão Abeillard nega o<span class="pn">{50}</span>
+pecado original, reabilita a dignidade
+dos sentidos e procura estabelecer, pelo
+estudo imparcial da filosofia antiga e da
+doutrina dos Padres, a unidade do espirito
+humano, desde a antiguidade até á
+Idade-Media. Quatro anos depois da sua
+morte, Arnaldo de Brescia, seu discipulo,
+proclama a republica em Roma<sup><a href="#nota10" name="m_nota10">[10]</a></sup>».</p>
+
+<p>Entre a creatura e o Creadôr de
+novo se intromete a vida natural, terrena,
+humaníssima, que, em vez de ser
+um contacto de infamia e damnação, se
+torna no mais comovido meio de comunicar
+com Deus.</p>
+
+<p>Certa manhan de chuva torrencial,
+Joaquim de Flora, numa qualquer humilde
+capela de aldeia, prégava sobre o
+pecado. Súbito, a borrasca serena e um
+raio de sol penetra alegremente na igreja,<span class="pn">{51}</span>
+vestindo de oiro os ombros vergados
+dos ouvintes. Comovido, o bom do
+frade cala-se um instante e fica a olhar,
+extasiadamente, a nesga de luz... Mas
+logo recobra os sentidos e, entoando o
+<em>Veni-Creator</em>, sái com a multidão para o
+campo, a saudar o grande sol amigo<sup><a href="#nota11" name="m_nota11">[11]</a></sup>!
+
+Cem anos mais tarde, á hora da sua
+morte, o maravilhoso pobresinho de Assis
+havia de renegar o ascetismo, pedindo
+perdão ao irmão corpo de o haver
+maltratado tanto. E, com o derradeiro
+suspiro, dos seus lábios exangues voariam
+para o céo os versos imortais do
+«Cantico ao Sol»:</p>
+
+<blockquote>
+<p>Laudato sia, Dio mio signore,<br>
+con tutte le tue creature!<sup><a href="#nota12" name="m_nota12">[12]</a></sup><span class="pn">{52}</span></p>
+</blockquote>
+
+<p>A insurreição contra os moldes asfixiantes
+do Passado invade todos os
+campos, desperta em todos os corações
+o anceio do libertamento. Interpretes
+inconscientes do sonho comum, os trovadôres
+levam, de terra em terra, com o
+embalo das liricas de amôr e o vinho
+acre e forte das <em>canções de gesta</em>, o seu
+reportorio sempre aclamado de <em>fabliaux</em><span class="pn">{53}</span>
+mordazes e sirventes implacaveis<sup><a href="#nota13" name="m_nota13">[13]</a></sup>.</p>
+
+<p>Por toda a parte um ritmo surdo,
+mas grandioso e indomavel, anima a
+vida colectiva, conjugando energias dispersas,
+elaborando o sônho de deslumbramento
+que nas catedrais góticas se
+perpetuará. Muito fraco ainda para derrubar
+o barão feudal, o vilão procura
+neutralisar um poderio que o insurge,
+vinculando-se fortemente á comuna, isto
+é, á confraria dos seus pares. Assim<span class="pn">{54}</span>
+fortalecido o seu esforço individual pela
+coordenação de mil esforços, sedentos
+de liberdade, êle poderá orgulhosamente
+solicitar do senhor os forais que o deixarão
+trabalhar em paz e erguêr, mesmo
+em face do castelo da senhoria, o seu
+<em>beffroi</em>, tão rendilhado e opulento como
+um templo ogival.</p>
+
+<p>Para estas almas, cachoantes de revolta,
+um podêr ha, comtudo, que lhes
+não pésa, nem excita ódios: o poder de
+Deus. É tambem o único que aceitam
+sem murmúrio&mdash;mais, é o único que
+amam. E amam-no com um ardor tanto
+maior quanto mais funda é a miseria
+em que se debatem. Porque, para elas,
+amar a Deus é ainda de algum modo
+robustecer a febre de insurreição que as
+abrasa, pois é tomar contacto com um
+<em>além</em> radioso em que não ha cavaleiros
+arrogantes nem servos espesinhados,<span class="pn">{55}</span>
+abençoado mundo em que todos são iguais
+e se não odeiam, jardim de maravilha eternamente
+florido por onde nunca passaram
+fomes, nem pestes, nem guerras incruentas.</p>
+
+<p>Então as almas voltam-se para a casa
+de Deus na terra, para a igreja acolhedora
+e apasiguadora, na anciosa esperança de
+ahi vivêrem mais plenamente o sonho de
+universal fraternidade que as devora.</p>
+
+<p>Em breve a estreita nave románica se
+torna insuficiente para contêr a multidão,
+que ao assalto da felicidade confiada e alegremente
+avança.</p>
+
+<p>A maré sobe, engrossa, faz pressão
+contra as muralhas do velho templo, cujas
+pedras vão cedêr ante a irresistivel força de
+expansão da vaga rumorosa e formidavel.
+E quando, por fim, as broncas paredes desabam
+e sôbre a terra alastra o entusiasmo
+novo, das águas vivas da inundação emerge,
+feminina, irreal, levíssima, a catedral<span class="pn">{56}</span>
+nova, como um lirio de milagre abrindo ao
+sol as suas pétalas de mármore!</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>Johannes Joergenson, o nobilissimo
+poeta dinamarquês, cuja recente conversão
+ao catolicismo fez de êle o mais enternecido
+dos historiadores de S. Francisco
+de Assis, conta, no seu «<em>Le Livre de la
+Route</em>», o seguinte delicado episódio.</p>
+
+<p>Um dia, certo anonimo pesquisador de
+belas coisas, encontrando-se de passagem
+em não me recorda que medievesco burgo
+do Norte, lembrou-se de visitar-lhe a catedral&mdash;notavel
+reliquia de arte gótica, ao
+que parece.</p>
+
+<p>Depois de a havêr miudamente esquadrinhado,
+quiz rematar o seu exame por
+uma ascenção ao mais elevado ponto da
+flecha, tão afusada e alta que os maiores
+edificios da cidade pareciam de joelhos aos<span class="pn">{57}</span>
+pés de ela. Ora sucedeu que, ao chegar
+lá acima, áquela imensa altura, o
+nosso curioso visitante inesperadamente
+esbarrou com um velho canteiro de
+longas barbas de prata, que, de cinzel
+e de martelo em punho, minuciosamente
+abria, num pedaço de granito desornado,
+um sem-número de minusculas flôres e
+outros <em>motivos</em> frageis...</p>
+
+<p>Um instante interdicto, o turista acabou
+por interpelal-o, com um sorriso
+de piedosa ironia:</p>
+
+<p>&mdash;Eh! meu amigo, esse trabalho
+bem inutil me parece! Pois para que
+servirão tantos cuidados, se, lá de baixo,
+ninguem, absolutamente ninguem,
+poderá vêr e admirar a sua obra?!</p>
+
+<p>Então, o pedreiro, volvendo para o
+indiscreto uns olhos plácidos e ingenuos,
+retorquiu brevemente:</p>
+
+<p>&mdash;E que não vejam?! <em>Deus vê</em>&mdash;é<span class="pn">{58}</span>
+quanto basta.</p>
+
+<p>E, de novo, o cinzel cantou sôbre o
+granito frio...</p>
+
+<p>Á medida que o meu estudo mais
+intimamente me relaciona com a Meia-Idade,
+mais no meu espírito se radica
+a impressão de que pela bôca dêste
+velho obscuro lucidamente falam alguns
+séculos de Historia&mdash;quiçá os mais intensos,
+senão os mais belos, de quantos
+o homem até ao presente viveu.</p>
+
+<p>«Deus vê!»</p>
+
+<p>Pois não é verdade que nesta frase
+rápida, de uma singelêsa e de uma precisão
+de legenda latina, nêstes dois monosilabos
+breves, que facilmente cabem
+num hálito de creança, toda a Idade-Média
+se resume e como se justifica
+amplamente?</p>
+
+<p>«Deus vê!»</p>
+
+<p>Sim, Deus vê. E porque Deus vê,<span class="pn">{59}</span>
+e para que Deus veja, é que os homens
+esventram montanhas e lhes roubam
+os mármores sem preço, vão ao
+fundo da terra cavar os finos metais e
+as pedras rutilantes, jogam a vida sôbre
+os mares traiçoeiros em demanda dos
+brocados e sêdas nunca vistas&mdash;e de
+todos êsses tesoiros confusamente amontoados
+arrancam, por fim, a mais audaciosa
+e deslumbrante maravilha do humano
+engenho: o templo gótico!</p>
+
+<p>Sim, é porque Deus vê que os Van
+Eyck põem todo o seu génio enorme
+no retábulo de Gand e Memling toda
+a sua indizivel candura nas telas do
+Hospital de Bruges; é porque Deus vê
+que Jehan Pucele, Pol de Limbourg,
+Jehan Fouquet e outros gastam uma
+vida inteira iluminando insonhaveis, preciosissimos
+missais, livros de Horas e
+psalterios; é porque Deus vê que Fra<span class="pn">{60}</span>
+Angelico, o divino, ergue as mãos em
+résa antes de começar o seu labôr e
+nunca altera o que pintou, «<em>porque foi
+Ele quem guiou o seu pincel</em>»; é porque
+Deus vê que um formigueiro de
+arquitectos e maçãos levanta as catedrais
+de Amiens, Reims, Paris, Chartres,
+Bruxelas, Lincoln, Colonia, Strasburgo,
+e pintores as decoram, e esculptores as
+vestem de milhares de estátuas<sup><a href="#nota14" name="m_nota14">[14]</a></sup>, e
+marceneiros as enriquecem com madeiras
+prodigiosamente lavradas, e vitralistas-poetas,
+perdulários de sonho e de emoção,
+lhes encastoam nas esguias ventanas
+ogivadas todos os milagres da <em>Legenda
+Sanctorum</em> feitos linha e côres
+inimitaveis. E é ainda porque Deus vê
+que a quasi totalidade dos artistas dêsses<span class="pn">{61}</span>
+fecundos e gloriosos séculos de crença,
+de esperança, de legitimas revoltas, deixa
+por assignar as obras que das mãos palpitantes
+lhes saem! Para quê assignal-as?!
+Assoldadados embora, êles trabalham com
+elevado ardôr, menos para agradar ao
+principe que os remunera, que ao Senhor
+<em>que os vê</em>. Os homens poderão
+esquecer-lhes os serviços e até os nomes;
+Deus é que sempre os recordará,
+pois por amôr de Ele labutaram.</p>
+
+<p>A arquitectura religiosa da Baixa
+Meia-Idade é a creação suprema dêstes
+anónimos Homeros. Todos êles, possuidos
+de uma fé igual, trazem à obra
+comum o melhor do seu esforço: os
+artistas a sua arte, os sábios a sua
+sciencia, os rudes o seu braço e até
+os mendigos o seu óbolo. «Graças a
+êstes admiraveis trabalhadores, a catedral
+é um sêr vivo, uma árvore gigantesca<span class="pn">{62}</span>
+cheia de aves e flores. Mais parece
+uma obra da natureza que dos
+homens... A igreja é a casa de todos,
+a arte traduz o pensamento de todos...
+A catedral pode substituir não importa
+que livros. Só a França soube fazer
+da catedral uma imagem do mundo,
+um resumo da história, um espelho da
+vida moral<sup><a href="#nota15" name="m_nota15">[15]</a></sup>».</p>
+
+<p>Nunca o preceito d'anunziano: «<em>crear
+com alegria</em>» foi tão escrupulosamente
+observado como nêste periodo. De aquelas
+pedras, amorosamente acasteladas até
+ao céo, num tão vertiginoso impeto que
+chega a causar arripios, irradia uma
+tal satisfação, um tal contentamento, que
+eu não sei de alma bronca que, em
+frente de elas, não entreadivinhe, um
+instante, as delicias da Terra Prometida!</p>
+
+<p>Do sombrio templo románico já nada<span class="pn">{63}</span>
+ou pouca resta. O hieratismo e o
+convencionalismo decorativos do anterior
+periodo cedem o passo ao franco naturalismo
+do periodo que começa. Os
+grandes panos de muralha cega e quasi
+nua vestem-se, de alto a baixo, de prodigiosos
+lavores e surgem-nos agora tão
+recortados de altissimas janelas, enormes
+rosáceas e frestas sem conto que
+a gente chega a ter a impressão de
+que a catedral está suspensa no ar!</p>
+
+<p>Deixai o grande Taine dizer que o
+interior do edificio é lúgubre e frio<sup><a href="#nota16" name="m_nota16">[16]</a></sup>
+e escutai-o antes quando ele vos descrever,
+na sua prosa sumptuosissima, tão
+luminosa e forte como um alabastro
+da Acropole, as catedrais de Assis e de
+Milão.<sup><a href="#nota17" name="m_nota17">[17]</a></sup></p>
+
+<p>Não, meus senhores, a arte ogival
+não odiou a luz, antes a fêz a sua mais<span class="pn">{64}</span>
+assidua colaboradôra e até por amôr de
+ela se perdeu. «A arquitectura gótica
+repudiou a obscuridade... Quando a
+catedral é obscura é porque o mestre
+de obras calculou mal o seu esforço,
+quiz obrigal-a a dar mais do que ela
+podia, ou pretendeu acumular nos seus
+flancos multidões sôbre multidões, como
+em Paris, aonde as quatro naves laterais
+aparecem esmagadas por galerias
+inúmeras. Se vestem as largas aberturas
+de vitrais, não é para entenebrecer
+a nave, mas para glorificar a luz......
+....... O vitral oferecia a sua matriz inflamada
+aos dias pálidos do Norte, para
+que o afago de êstes fosse mais quente
+á pedra que de todos os lados subia.
+Os seus azues liquidos, os seus
+azues carregados, os seus amarelos de
+açafrão e de oiro, os seus alaranjados,
+os seus vermelhos vinosos ou púrpureos,<span class="pn">{65}</span>
+os seus verdes densos, arrastavam
+ao longo da nave o sangue de
+Cristo e a safira celeste, o rubro
+das folhas de vinha que o outono
+crestou, a esmeralda dos longinquos
+oceanos e dos prados de em redor. Em
+verdade êle apenas atenuava as suas
+rutilantes policromias no fundo das capelas
+absidiais, aonde a mancha dos
+cirios fazia tremular a noite. Era um
+pretexto para acumular á roda do santuario
+a imprecisão angustiosa e a volúpia
+do misterio. Mas desde que o
+céo se descobre, a grande nave estremece
+de alegria e o cántico triunfal da luz
+espalha-se por toda ela em grandes lençois
+de oiro<sup><a href="#nota18" name="m_nota18">[18]</a></sup>».</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p class="centrado">*<br>*&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;*<span class="pn">{66}</span></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>Eu termino.</p>
+
+<p>«<em>Lunga fu la gioniata</em>» como diz o
+Poeta&mdash;longa e fastidiosa, ai de vós,
+ai de mim! Pilôto inhabil, atarantadamente
+guiei os vossos passos atravéz
+de regiões cuja extranha beleza a minha
+palavra dura e a minha sciencia
+minguada vos não souberam salientar.
+Adivinho os vossos reproches e curvo,
+em silencio, a pecadôra cabêça...</p>
+
+<p>Mas se, para não agravar as muitas
+culpas de que me acuso, vos poupo
+miudas justificações, outrotanto não posso
+fazer com respeito a certa falta, que
+absolutamente careço de explicar.</p>
+
+<p>Prometi eu falar-vos do riso na Meia-Idade
+e, afinal, apenas vos contei&mdash;e
+quão pobremente o fiz!&mdash;da clara alegria<span class="pn">{67}</span>
+medieval.</p>
+
+<p>Certo, o riso e alegria são irmãos. Ás
+vezes, porém, tão arredados andam um
+do outro, que mais se diriam extranhos
+que gerados no mesmo ventre. Nas
+máscaras dos que nos rodeiam quantos
+risos sem timbre! quanta alegria tambem
+que desconhece o esgar hilariante!
+É que os primeiros, à similhança de
+certas bizarras plantas que não carecem
+da terra para viver, podem florir sem
+ter raizes na alma. Mas a segunda é
+o próprio humus que palpita sob o
+profundo beijo de Anteu, a própria
+alma exaltada e transfigurada. Joana de
+Arc, sagrando Carlos <small>VII</small> após a sua marcha
+heroica e miraculosa sôbre Reims,
+não sorriu; mas o seu coração batia
+as azas, festivamente, como uma pomba
+em maio... Sôbre o glorioso Monte
+Alverne, na manhan dos Stigmas, o<span class="pn">{68}</span>
+divino filho de Bernardone não sorriu
+tambem; mas os seus olhos brilhavam,
+como se toda a luz do sol lhe cantasse
+dentro do peito.</p>
+
+<p>Foi de uma alegria assim que eu
+vos falei, de uma prodigiosa alegria que,
+durante séculos, fêz bater mais depressa
+o coração de um mundo adolescente&mdash;e não
+do riso que os homens dessas
+eras tão espontanea e clamorosamente riram.
+Porque, atravéz de todas as miserias,
+de todas as vexações, de todos os
+dramas, essas ásperas creaturas souberam
+rir o mais puro e claro riso que
+a velha Europa viu rir depois que os
+herois de Homero se calaram. Simplesmente&mdash;e
+com isto penso absolver-me
+da voluntária culpa&mdash;êsse belo riso não
+é para aqui, para um auditorio que
+tantas e tão gentilíssimas senhoras aformoseiam.<span class="pn">{69}</span></p>
+
+<p>As catedrais medievas são verdadeiros
+museus de inconveniencias lavradas
+em granito. Nenhum acto, por mais intimo,
+da vida de cada um se exime a
+figurar nelas com um realismo só familiar
+aos compendios de fisiologia<sup><a href="#nota19" name="m_nota19">[19]</a></sup>.</p>
+
+<p>De uma velha inglesa solteirona sei
+eu que, em frente de um capitel em
+que duas nudezes se enroscavam mais
+vivamente, ia rebentando de apoplexia.
+E, comtudo, lá na pensão belga em que
+a conheci, rosnava-se com bonhomia
+que Vesta talvez não fizesse boa cara
+às oferendas desta encortiçada pucela...</p>
+
+<p>De facto, a chalaça dos nossos avós
+frequentemente descamba no escabroso.
+E as suas melhores <em>boutades</em> ainda são
+aquelas que só podemos contar aos
+amigos em noites de tertulia ruidosa
+ou, pelo telefone... às madamas curiosas.<span class="pn">{70}</span></p>
+
+<p>Ingenuos, simples, duma franqueza
+de crianças terriveis, amando rir e nunca
+perdoando a quem os arreliava, os maçãos
+obscuros que conceberam e realizaram a
+suprema obra de arte da Meia Idade jámais
+souberam calar o que lhes ia nas
+almas, quer se tratasse dum sonho, quer
+duma farçada.</p>
+
+<p>Um companheiro fôra surpreendido
+numa atitude grotesca? Dias depois uma
+gárgula travêssa, suspensa no ar, faria rir
+toda a colonia de pedreiros e os fieis que
+entravam para a missa. Um juiz prevaricára,
+deixára-se subornar? O artista imortalisar-lhe-hia
+a façanha, pintando-o com
+orelhas de burro, pernas de pato e compridas
+garras de ave de prêsa.</p>
+
+<p>A ninguem perdoavam, nem aos senhores
+que tudo podiam sôbre os corpos,
+nem aos clerigos, que tudo podiam<span class="pn">{71}</span>
+sôbre as almas.</p>
+
+<p>Mas, eu nunca mais terminaria se
+começasse a desfiar o rosário de anecdotas
+que as velhas catedrais sabem de
+cór!...</p>
+
+<p>Para V. Ex.<sup>as</sup> fazerem uma ideia mais
+precisa desta crua franqueza, passo a
+ler um fragmento de uma carta que
+Bocacio escreve a Mainardo de Cavalcanti,
+apreciando o «Décameron» e
+censurando este seu amigo por haver
+deixado ler tal livro às mulheres do
+seu <em>entourage</em>:</p>
+
+<p>«Eu nunca poderei louvar-te por haveres
+deixado que as mulheres que te
+rodeiam lessem os meus carapetões. Rogo-te,
+por isso, que nunca mais consintas
+semelhante coisa. Bem sabes quanto
+desafôro e ofensas á decencia, quantas
+excitações aos amores impudicos,
+quantas passagens capazes de arrastar<span class="pn">{72}</span>
+à prática de más acções os corações
+mais experimentados nesse livro se encontram.
+Se as mulheres honradas, em
+cujas frontes brilha ainda o santo pudôr,
+se não deixam induzir ao adultério,
+tal leitura, no entanto, pode tornar
+as suas almas impudicas e vicial-as pela
+tara obscena da concupiscencia. No caso
+em que a honra destas mulheres não
+baste para te conter, então pensa na
+minha, pois aqueles que me lerem hãode
+imaginar que eu não passo de um
+desprezivel alcoviteiro e de um velho debochado,
+divulgador das patifarias de
+outrem»<sup><a href="#nota20" name="m_nota20">[20]</a></sup>.</p>
+
+<p>Que artista de hoje subscreveria tão
+desassombrado libelo contra a própria
+obra?</p>
+
+<p>E já que evoquei a interessante figura
+do pitoresco filho de Certaldo, não<span class="pn">{73}</span>
+a deixarei sem contar-vos uma anecdota
+que vos dirá, melhor que todos os
+meus comentários, como os nossos avós
+se desforravam dos remoques das donas
+que se burlavam de amorios.</p>
+
+<p>Bocácio, já velho, tendo encontrado
+no seu caminho uma formosissima
+viuva florentina, apaixonou-se violentamente
+por ela. A dama, astuciosa e
+galhofeira, fingiu não desdenhar as homenagens
+do poeta, que, entusiasmado,
+lhe mandou cartas sôbre cartas,
+todas palpitantes dum amor vulcanico.
+A certa altura, a ironica deusa, sentindo
+a necessidade de pôr um dique forte
+áquela tumultuosa verbosidade e desejando
+imenso folgar de gôrra com as
+amigas, reuniu todas as cartas e publicou-as.
+O escandalo foi enorme em Florença.
+Então, para vingar os seus ultrajados
+brios de Lovelace serodio, o nosso<span class="pn">{74}</span>
+amoroso escreveu uma tremenda verrina
+contra as mulheres, a que pôs o nome
+de <em>Corbaccio</em> ou <em>O Labirinto do Amor</em>,
+por nela se tratar das angustias dum namorado
+perdido na floresta do Amor e
+que dela é tirado por um Espirito tutelar.
+O namorado, bem de ver, é o próprio
+Boccacio e o Espirito a sombra do
+marido morto, que vem do inferno à
+terra para desencantar o mísero transviado,
+a quem revela, complacentemente,
+toda a miseria fisica e moral do conjuge
+ironista.</p>
+
+<p>Oiçamos a fala rancorosa:</p>
+
+<p>«Quem a visse, como eu a via
+todas as manhans, com o seu barrete
+enfiado na cabeça, o manto de noite
+sôbre os ombros, ir acocorar-se à
+beira do fogão, e lhe tivesse contemplado
+os olhos ramelentos, encovados
+e baços, tossindo e cuspinhando sempre,<span class="pn">{75}</span>
+teria esquecido cem mil amores».</p>
+
+<p>E por este diapasão afina o resto
+da tirada! Num dado momento abandona
+o seu caso particular e generalisa:</p>
+
+<p>«As mulheres apenas se ocupam de
+parecerem belas e serem admiradas.
+Nenhuma ha que seja ajuizada e capaz
+de agir criteriosamente. Todas elas
+são inconstantes, levianas, frívolas, querem
+e não querem uma coisa ao mesmo
+tempo, excepto se ela se relaciona
+com os seus desregrados apetites.....
+Fingem-se medrosas e tímidas; se estão
+num logar elevado, queixam-se de vertigens;
+se é necessário entrar num barco,
+aqui-del-rei que o seu delicado estomago
+não o suporta; se se trata de
+caminhar de noite, receiam encontrar
+espiritos, duendes e até mesmo ratos;
+se o vento sacode uma janela ou da<span class="pn">{76}</span>
+parede se despega uma pedrinha, todas
+se cobrem de suores frios.</p>
+
+<p>Deus sabe, no entanto, como elas
+são atrevidas, quando se trata do que
+lhes apraz! Não há rudeza de logar,
+precipicios de montanha, altura de palacio,
+obscuridade de noite, que sejam
+capazes de as deter!»<sup><a href="#nota21" name="m_nota21">[21]</a></sup></p>
+
+<p>Não se agastem Vossas Excelencias,
+Minhas Senhoras, com as desamaveis
+reflexões do poeta, nem comigo tampouco,
+que apenas as reproduzo pelo
+saboroso pitoresco que encontro nelas.
+Tais desabridos queixumes, no fim de
+contas, só em favor da mulher redundam.
+De ela tudo se tem dito desde
+que o mundo é mundo&mdash;todo o bem
+e todo o mal. As mulheres fazem-me
+lembrar as obras de arte, que só são
+inteiramente más quando ninguem fala<span class="pn">{77}</span>
+de elas. E a verdade, a grande verdade
+é que as mulheres são obras de arte
+de que nós, homens, constantemente e
+regaladamente nos ocupamos.</p>
+
+<p>Mas se, para merecer o vosso perdão,
+isto não basta ainda, recordar-vos-hei
+que, enquanto Bocácio dava largas à
+sua misogenia de despeitado, o seu amigo
+Petrarca continuava a exalçar Laura
+e na memória de todos os corações persistia
+a saudade amorosissima da mulher
+de excepção que o Dante imortalisou!</p>
+
+<p class="centrado">*<br>*&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;*</p>
+
+<p>Com a Renascença o grande riso puro,
+vibrante, terra-a-terra, desaparece de todos
+os labios para dar logar à casquinada
+erudita e petulante do «humanismo».<span class="pn">{78}</span>
+Os humoristas da transição&mdash;Ariosto,
+Rabelais, o nosso mestre Gil e,
+mais tarde, Molière, Cervantes, o pintor
+Brueghel-o-Velho e até o próprio Brantôme&mdash;são
+a gargalhada suprema, embora
+um pouco dolorosa, dum mundo
+na agonia.</p>
+
+<p>Oh! o <em>De profundis</em> inegualavel!</p>
+
+<p>De então para cá a alegria torna-se
+uma palavra quasi sem sentido, vocábulo
+inerte que os dicionarios.&mdash;que são
+museus de palavras&mdash;guardam sómente
+para satisfação de arqueologos amadores
+de inutilidades. No dia em que o homem
+descobriu o sorriso e a ironia, da
+sua boca desertou para sempre o grande
+riso de outrora.</p>
+
+<p>Hoje, esbofado por cinco duros seculos
+de marchas forçadas para a Civilisação,
+nem mesmo esse sorriso e essa
+ironia lhe restam! Quando tenta rir, os<span class="pn">{79}</span>
+musculos do <em>facies</em> resistem ao desejo,
+cavando-lhe mais fundo a sua tisica <em>grimace</em>
+de neurastenico arqui-civilisado;
+e, se procura ironisar, as palavras saem-lhe
+pela garganta com um rangido seco,
+gritante, agudissimo, de porta com gonzos
+pêrros.<span class="pn">{80}</span></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+
+<div class="rodape">
+<p><sup><a href="#m_nota1" name="nota1">[1]</a></sup>
+H. Taine, <em>Philosophie de l'art</em>, 1.º vol.</p>
+
+<p><sup><a href="#m_nota2" name="nota2">[2]</a></sup> C<small>H</small>. S<small>EIGNOBOS</small>&mdash;<em>Histoire de la Civilisation: Moyen âge et temps modernes</em>, 5<sup>ième</sup> éd. Sôbre os monumentos de Ravêna, a Bisancio italiana, consulte-se o interessante volume de Charles Diehl, <em>Ravenne</em>, ed. Laurens&mdash;Paris, 1907.</p>
+
+<p><sup><a href="#m_nota3" name="nota3">[3]</a></sup> E. P<small>ÊCAUT E</small> C<small>HARLES BAUDE</small>&mdash;<em>L'art</em>, 10<sup>ième</sup> éd.</p>
+
+<p><sup><a href="#m_nota4" name="nota4">[4]</a></sup> S<small>ALOMON</small> R<small>EINACH</small>&mdash;<em>Apollo</em>, 5<sup>ième</sup> éd.</p>
+
+<p><sup><a href="#m_nota5" name="nota5">[5]</a></sup> E<small>UGÉNE</small> V<small>ÉRON</small>&mdash;<em>L'esthétique</em>, 1878.</p>
+
+<p><sup><a href="#m_nota6" name="nota6">[6]</a></sup>
+E. V<small>ÉRON</small>&mdash;<em>Op. cit.</em></p>
+
+
+<p><sup><a href="#m_nota7" name="nota7">[7]</a></sup> Na impossibidade de reproduzir o <em>croquis</em> em referencia, indicamos ao leitor, que pelo assumpto se interesse, o livro já citado de E. P<small>ÉCAUT</small> e C<small>H</small>. B<small>AUDE</small> e o valioso trabalho de E<small>LIE</small> F<small>AURE</small>, «<em>Histoire de l'art: L'art medieval</em>». Em qualquer de êles, bem como em qualquer antologia desenvolvida de artes plásticas, o curioso encontrará não só a reproducção do aludido monumento como a de outros, que o ajudarão a completar a sua visão estética dêste periodo.</p>
+
+<p><sup><a href="#m_nota8" name="nota8">[8]</a></sup> <em>Histoire du rire et de la caricature.</em></p>
+
+<p><sup><a href="#m_nota9" name="nota9">[9]</a></sup> É<small>MILE</small> G<small>EBHART</small>, no seu curioso romance <em>Autour d'une tiare</em>, revive o duelo formidavel, através das predicas antagónicas do asceta Egidius e do tolerante bispo Joaquim, curiosa figura de pre-franciscano, que o auctor esboçou sugestionado pelo grande vulto do Santo que a Idade-Media com mais fervente e duradoiro culto venerou.</p>
+
+<p><sup><a href="#m_nota10" name="nota10">[10]</a></sup> É<small>LIE</small> F<small>AURE</small>, <em>Op. cit.</em></p>
+
+<p><sup><a href="#m_nota11" name="nota11">[11]</a></sup> É<small>MILE</small> G<small>EBHART</small>&mdash;<em>L'Italie mystique.</em></p>
+
+<p><sup><a href="#m_nota12" name="nota12">[12]</a></sup>
+S. Francisco de Assis é o poeta máxinio da Alegria&mdash;uma suprema figura de assombro. Na aurea legenda do cristianismo não ha vulto que o exceda em belêsa moral, nem lábios que tenham rido um riso mais comovido e pacificador que o seu. O Snr. J<small>AIME DE</small> M<small>AGALHÃES</small> L<small>IMA</small> resume assim um dos pontos mais salientes da clara doutrina do <em>Poverello</em>: «A mágoa será pecado de rebeldia; não ha dôr que não se torne benéfica, para exaltação da carne ou do espirito; a desgraça é uma ilusão; a toda a sorte havemos de sorrir; porque sempre, qualquer que seja, é caminho do bem. Todo o estado conduz à perfeição; em todo o momento trabalhamos na construcção de um edifício infindo de infinita belesa. A tristêsa será uma infidelidade religiosa; quem a admitiu no coração esqueceu o Senhor e os seus desígnios.» Cf. <em>apud «S. Francisco de Assis»</em> pag. 150. Com o doce amigo do cardeal Hugolino (mais tarde Gregório <small>IX</small>) o catolicismo atinge o seu mais belo significado e um dos pontos mais culminantes da sua história&mdash;só comparavel ao periodo heroico do Apostolado. A quem o assumpto desperte interesse aconselho a leitura dos três belos trabalhos do dinamarquês J<small>OHANNES</small> J<small>OERGENSON</small>, de uma rigorosa probidade scientifica e de um encantador relevo literário: <em>Saint François d'Assise, Pélerinages franciscains</em> e <em>Le livre de la route</em> (trad. de Teodor de Wyzewa,) Perrin &amp; C.<sup>ie</sup>, Paris.</p>
+
+<p><sup><a href="#m_nota13" name="nota13">[13]</a></sup>
+«<em>Les Fableaux</em> sont sur tons sujets: y paraissent Dieu, les anges, les diables, les saints, les chevaliers, les trouvères, les jongleurs (trouvères de second ordre), les bourgeois, les moines&mdash;très souvent&mdash;les paysans. Les hommes de toutes classes de la societé y sont moqués, quelquefois avec une extrême finesse, quelquefois avec une verdeur gauloise un peu rude..... Les Fableaux peuvent être considerés comme la grande oeuvre de sagesse bourgeoise, de bon sens un peu sec et dur et de gauloiserie divertissante du moyen àge. Les romans de renart sont du même genre, mais avec plus d'ingeniosité.» <em>Cf.</em> E. F<small>AGUET</small>. <em>Petite histoire de la littérature française</em>, pag. 6 e 7. «Papas, reis e senhores, se nas canções recebiam a vassalagem da adulação, encontravam nas <em>cantigas de mal disêr</em> o mais desassombrado castigo e a mais dura vingança. A avaliar pelo que dos cancioneiros nos resta, o comentario político e religioso teriam assumido uma extensão incrivelmente audaciosa» <em>Cf.</em> H<small>IPPOLYTO</small> R<small>APOSO</small>, <em>Sentido do Humanismo</em>, pag. 14.</p>
+
+<p><sup><a href="#m_nota14" name="nota14">[14]</a></sup> «A fachada de Nossa Senhora de Paris, que está longe de ser a mais rica, tem sessenta e oito estátuas muito maiores que o natural e a maioria de elas executadas com rara perfeição; ha mais de cem em cada um dos pórticos de Nossa Senhora de Chartres e de Amiens». E<small>D</small>. C<small>ORROVER</small>, «<em>L'architecture gothique</em>» pag. 157.</p>
+
+<p><sup><a href="#m_nota15" name="nota15">[15]</a></sup> M<small>ALE</small>, cit. pelo D<small>R</small>. C<small>ABANÈS</small>, <em>Moeurs intimes du Passé</em>, 3.<sup>ième</sup> série Paris.</p>
+
+<p><sup><a href="#m_nota16" name="nota16">[16]</a></sup> «<em>Philosophie de l'art</em>» cit., pag. 81 e seg.</p>
+
+<p><sup><a href="#m_nota17" name="nota17">[17]</a></sup>
+«<em>Voyage en Italie</em>» tômo <small>II</small>.</p>
+
+<p><sup><a href="#m_nota18" name="nota18">[18]</a></sup>
+E. F<small>AURE</small>, <em>op. cit.</em>, pag. 229 e segg.</p>
+
+<p><sup><a href="#m_nota19" name="nota19">[19]</a></sup>
+C<small>ANANÉS</small> <em>op. cit.</em></p>
+
+<p><sup><a href="#m_nota20" name="nota20">[20]</a></sup>
+E. R<small>ODOCANACHI</small>, <em>Boccace: poète, conteur, moraliste,
+homme politique</em>, Hachette, Paris, 1908.</p>
+
+<p><sup><a href="#m_nota21" name="nota21">[21]</a></sup>
+R<small>ODOCANACHI</small>, <em>op. cit.</em></p>
+</div>
+
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+
+
+<h2>PEQUENO MEMENTO<br>
+BIBLIOGRÀFICO</h2>
+
+<div style="font-size: small;">
+<p>A. K<small>RAFT</small>, <em>Petit manuel d'architecture</em>, Georg &amp; C.º, Bâle et Genève, 1899.</p>
+
+<p>A<small>LFRED</small> L<small>ENOIR</small>, <em>Anthologie d'art; sculpture et peinture</em>, Armand
+Colin, Paris, sem data.</p>
+
+<p><small>ANDRÉ</small> M<small>ICHEL</small>, <em>Reims, Soissons, Senlis, Arras</em>&mdash;Mgr. B<small>AUDRILLART</small>,
+<em>Louvain</em>, Plon-Nourrit, Paris, 1915.</p>
+
+<p>A<small>RSÈNE</small> A<small>LEXANDRE</small>, <em>L'art du rire et de la caricature</em>, Librairies-Imprimeries
+réunies, Paris, sem data.</p>
+
+<p>A. R<small>AGUENET</small>, <em>Petits édifices historiques</em>, Librairies-Imprimeries
+reunis, 6 vols. Paris, várias datas.</p>
+
+<p>C<small>ABANÈS</small> (D<small>R</small>.) <em>Moeurs intimes du Passé</em>, 3 séries (especialmente a
+3.ª) A. Michel, Paris, sem data.</p>
+
+<p>C<small>H</small>. D<small>IEHL</small>, <em>Ravenne</em>, H. Laurens, Paris, sem data.</p>
+
+<p>C<small>H</small>. S<small>EIGNOBOS</small>, <em>Histoire de la Civilisation</em>, (2.º vol.: <em>Moyen âge et
+temps modernes</em>), 5.ª ed., Masson &amp; C.ie, Paris, 1905.</p>
+
+<p>E<small>ÇA DE</small> Q<small>UEIROZ</small>, <em>Notas Contemporaneas</em>, Lelo &amp; Irmão, Porto, 1905.</p>
+
+<p>E<small>DME</small> A<small>RCAMBEAU</small>, <em>Les cathédrales de France</em>, 3 vols., A. Perche, Paris, 1912.</p>
+
+<p>E<small>D</small>. C<small>ORROVER</small>, <em>L'architecture gothique</em>, nova edição A. Picard &amp;
+Kaan, Paris, sem data.</p>
+
+<p>É<small>LIE</small> F<small>AURE</small>, <em>Histoire de l'art</em> (2.º vol.: <em>L'art médieval</em>), H. Floury.
+Paris, 1912.</p>
+
+<p>E. P<small>ÉCAUT ET</small> C<small>H</small>. B<small>ALDE</small>, <em>L'art</em>, 10.ª ed., Larousse, Paris, sem data.</p>
+
+<p>É<small>MILE</small> B<small>AYARD</small>, <em>L'art de reconnaître les styles</em>, Garnier Frères, Paris,
+sem data.</p>
+
+<p>I<small>DEM</small>, <em>Les grands Maitres de l'art</em>. Garnier Frères, Paris, 1909.</p>
+
+<p>É<small>MILE</small> F<small>AGUET</SMALL>, <em>Petite histoire de la littérature française</em>,
+Georges Crès &amp; C.ie, Paris, sem data.</p>
+
+<p>É<small>MILE</small> G<small>EBHART</SMALL>, <em>L'Italie mystique</em>, 10.ª ed., Hachette,
+Paris, 1906.</p>
+
+<p>I<small>DEM</SMALL>, <em>Autour d' une tiare</em>, Georges Crès &amp; C.e, Paris,
+sem data.</p>
+
+<p>F. R<small>ODOCANACHI</SMALL>, <em>Boccace: poète, conteur, moraliste, homme
+politique</em>, Hachette, Paris, 1908.</p>
+
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+<p>H<small>YPPOLITE</small> T<small>AINE</SMALL>, <em>Philosophie de l'art</em>, 2 vols. 13.ª
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+
+<p>I<small>DEM</SMALL>, <em>Voyage en Italie</em>, 2 vols., nova edição, Hachette,
+Paris, 1910.</p>
+
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+
+<p>J<small>ACQUES DE</small> V<small>ORAGINE</SMALL>, <em>La légende dorée</em>, Perrin &amp; C.ie,
+Paris.</p>
+
+<p>J<small>AYME DE</small> M<small>AGALHÃES</small> L<small>IMA</SMALL>, <em>S. Francisco de Assis</em>, França
+Amado, Coimbra, 1908.</p>
+
+<p>J<small>OHANNES</small> J<small>OERGENSON</SMALL>, <em>Saint François d'Assise, sa vie
+et son oeuvre</em>, 13.ª ed., Perrin &amp; C.ie, Paris, 1910.</p>
+
+<p>I<small>DEM</SMALL>, <em>Pélerinages franciscains</em>, 9.ª ed., Perrin &amp; C.ie,
+Paris, 1912.</p>
+
+<p>I<small>DEM</SMALL>, <em>Le livre de la route</em>, 3.ª ed., Perrin &amp; C.ie,
+Paris, 1912.</p>
+
+<p>S<small>ALOMON</small> R<small>EINACH</SMALL>, <em>Apollo, histoire générale des arts plastiques</em>,
+5.ª ed., Hachette, Paris.</p>
+
+<p>E<small>nciclopedia universal ilustrada europea-americana</small>. (Tomo <small>XI</SMALL>
+art.: <em>Caricatura</em>) José Espasa é Hijos, Barcelona, sem data.</p>
+
+<p>N<small>ouveau</small> L<small>arousse illustré</small>. (Tomo <small>II</SMALL>, art.: <em>Caricatura</em>)
+Larousse, Paris, sem data.</p>
+
+<p>L<small>e vieux</small> P<small>aris</small> (G<small>uide historique, pittoresque &amp; anecdotique</small>) Impresso <em>chez</em> Ménard et Chaufour, Paris. (Exposição Universal de 1900).</p>
+</div>
+</div>
+
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p class="centrado">A<small>CABOU DE IMPRIMIR-SE</small><br>
+<small>ESTA BROCHURA AOS</small> 21<br>
+<small>DE DEZEMBRO DE</small> 1915<br>
+<small>NA TIPOGRAFIA DO</small><br>
+P<small>ORTO</small>-G<small>RÁFICO</small>.</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
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+
+<pre>
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+
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+
+Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
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+Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
+and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
+To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
+and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
+and the Foundation web page at https://www.pglaf.org.
+
+
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+Foundation
+
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+state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
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+throughout numerous locations. Its business office is located at
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+
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+Literary Archive Foundation
+
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+
+Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic
+works.
+
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+concept of a library of electronic works that could be freely shared
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+
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+
+
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+
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+
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+Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to
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+
+
+</pre>
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