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+The Project Gutenberg EBook of O Claro Riso Medieval, by João de Lebre e Lima
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+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.org
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+Title: O Claro Riso Medieval
+
+Author: João de Lebre e Lima
+
+Release Date: December 11, 2010 [EBook #34623]
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+Language: Portuguese
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+Character set encoding: ISO-8859-1
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+*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK O CLARO RISO MEDIEVAL ***
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+Produced by Mike Silva
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+ JOÃO DE LEBRE E LIMA
+
+ O claro riso
+ medieval
+
+ CONFERENCIA LIDA PELO AUTOR NO PRIMEIRO
+ SALÃO DOS HUMORISTAS E MODERNISTAS
+ REALISADO NA CIDADE DO PORTO 14-VI-915
+
+
+
+
+ LIVRARIA CHARDRON
+ DE LELO & IRMÃO, EDITORES
+ PORTO-1916
+
+
+
+
+Als ik kan
+
+ Sinal do pintor
+ Jehan de Eyck
+
+
+
+
+O CLARO RISO MEDIEVAL
+
+
+
+
+Do Autôr:
+
+ O LIVRO DO SILENCIO seguido dos POÊMAS DO CORAÇÃO E DA TERRA (1913)
+
+ A seguir:
+
+ DA PÊNA DE MORTE
+
+ PALAVRAS... PALAVRAS
+
+ O TEAR DE PENÉLOPE
+
+
+
+
+
+ JOÃO DE LEBRE E LIMA
+
+ O claro riso
+ medieval
+
+ CONFERENCIA LIDA PELO AUTOR NO PRIMEIRO
+ SALÃO DOS HUMORISTAS E MODERNISTAS
+ REALISADO NA CIDADE DO PORTO 14-VI-915
+
+
+
+
+ LIVRARIA CHARDRON
+ DE LELO & IRMÃO, EDITORES
+ PORTO
+
+
+
+
+ AOS EXPOSITORES E CONFERENTES
+ DO
+ PRIMEIRO
+ SALÃO DOS HUMORISTAS
+ ORGANISADO NO PORTO.
+ HOMENAGEM DE
+ ADMIRAÇÃO, RECONHECIMENTO E SIMPATIA.
+
+
+ J. de L. e L.
+
+
+
+
+ Quand une chose me plaira, je ne prétends pas qu'elle te plaise,
+ encore moins qu'elle plaise aux autres. Le ciel nous préserve des
+ legislateurs en matière de beauté, de plaisir et d'émotion! Ce que
+ chacun sent lui est propre et particulier comme sa nature; ce que
+ j'éprouverai dépendra de ce que je suis.
+
+ TAINE--_Voyage en Italie._
+
+
+
+
+ MINHAS SENHORAS
+ MEUS SENHORES
+
+Eu não sei de período histórico que mais malsinado tenha sido, por
+quanto arengadôr comicieiro se tem lembrado de evocal-o, que esse que
+pelo nome dá de Meia-Idade, fecundo e generoso período que a erudição
+moderna, ha uns lustros a esta data, com tão desvelado carinho vem
+reabilitando, para mór desespêro e atarantação dos que na «noite dos
+seculos», «treva da Humanidade» e «aviltamento do espírito humano»
+encontraram bordões cómodos a que apoiar a sua indolencia
+intelectual e o seu arripiante desdém pelos processos honestamente
+scientíficos de fazêr ou espalhar a História. E é com um regalo um
+tudo-nadinha perverso que eu esfrego as mãos a cada nova descoberta,
+visionando a desorientação sempre maior que vai por casa do Senhor
+Logar-Comum e de sua estimavel consorte, Mme. Frase-Feita.
+
+Popularisada pelo espírito sectarista da Renascença, ainda conserva
+raíses teimosas no cérebro contemporáneo a impressão de que a
+Idade-Média mais não foi do que uma deprimente crise, em que tudo quanto
+de nobre existe no homem correu sério risco de naufrágio.
+
+Porque, ao alvorecêr do cristianismo, das landes e florestas bravías,
+da Germánia, alguns milhares de teutões, brutais e fortes, como vaga
+assoladora descêram até aos países que se abrigavam sob a asa, já
+então desplumada, da águia romana e porque, esfacelado o Império que
+assombrára o mundo, essas rudes hordas batalhadoras durante alguns
+centos de anos rijamente se haviam disputado os pingues bocados da
+prêsa, logo para o critério racionalista, factício, estreito, dos
+humanistas do _Quattrocento_ os dez séculos que precederam a
+ressurreição da cultura greco-latina se tornaram num grosseiro e
+despresivel rosário de ladroagens, devassidões e carnificinas--assim
+como que uma jaula enorme em que um bando faminto de ursos se
+entredevorasse, enraivado e excitado pela sangueira.
+
+Por outro lado, as preocupações doentias do _au-delà_, os terrôres do
+inferno e o papel capital que a Egreja desempenhou em todas as grandes
+crises da época, criaram a lenda de que os tempos medievos haviam
+coalhado em todos os lábios os sorrisos e as palavras de alegria,
+tornando o mundo num gelado claustro de convento, aonde ninguem se
+atrevia a falar alto, com mêdo de perturbar o sussurro das litanias e
+dos _Kyries_.
+
+O mundo era demasiado estreito para nêle cabêrem à vontade outras
+figuras que a do frade e a do cavaleiro não fossem. E como por traz do
+burel monástico se ocultava o mistério da Divindade, isto é, a incertêsa
+do _além_--que tanto podia sêr o paraíso como as labarêdas implacaveis
+do inferno--e a cota de malha dos guerreiros apenas prometia mortes,
+pestes, assolações e fome, inferiu-se levianamente que, da queda de Roma
+á queda de Bisáncio, a alegria se exilára duma terra que a não
+compreendia, tão absorvidas andavam as almas pelo cuidado da própria
+salvação e os corpos pelo terrôr da morte sempre presente.
+
+A própria catedral gótica (que é o mais intenso himno de júbilo que
+conheço) foi erradamente encarada como um simbolo de tristêsa, de
+dolorosa anciedade, de cobardia até[1]!
+
+Essa arquitectura de sonho, tão fragil e amavel aos olhos como uma velha
+renda de Malines ao tacto, foi inventada, disse-se, para enternecer,
+para subornar manhosamente Jehovah, tão ríspido e intransigente como nos
+tempos remotos do Exodo e do Pentateuco.
+
+Não se amava Deus, como não se amava o rico-homem feudal. Mas pagava-se
+o tributo a um e a outro para arredar calamidades da beira da porta.
+
+Assim se figuraram a Idade-Média os contemporáneos de Lourenço de
+Médicis: aos pés do lirio mistico de Dante Alighieri a acha de
+armas, pingando sangue, de Gilles de Rais--o Barba-Azul da legenda.
+
+Assim tambem a imaginamos nós ainda, os melancólicos e scepticos
+contemporáneos de Mr. Anatole France e da politica parlamentar.
+
+
+Certo, muito de exacto se pode topar no fundo deste conceito.
+
+Efectivamente, ao desabrochar da era actual, o homem assistiu a um
+espectáculo de catástrofes e horrores capaz de desconcertar a imaginação
+do mais absurdo creadôr de _films_ cinematográficos ou do mais
+fantasioso _metteur-en-scène_ de grand-guignolescas tragedias. Durante
+cêrca de duzentos annos (que tanto durou a invasão ocidental dos
+bárbaros, ou, na xaroposa denominação tudesca, a migração dos povos) um
+ciclónico vento de agonia e desvairo sacudiu toda a Europa, de
+Bisancio--ultimo santuário do heleno-romanismo--ás praias fecundas do
+Atlantico.
+
+O imperio dos cesares, perdida a virtude antiga dos seus homens e
+relaxado o culto severo do exclusivismo da _civitas_, arquejava sôb a
+nuvem de extrangeiros, que, espontánea ou forçadamente, acorriam a Roma
+de todos os cantos do mundo, e morria, asfixiado, de beiços colados
+sofregamente aos seios morenos e lascivos das escravas asiáticas e ás
+gargantas firmes e frias das loiras mulheres do Norte--que tinham
+grandes pupilas azúes de creança e provocantes receios de gazela, que os
+halalis de caça desorientam.
+
+Os membrudos legionários, que desbarataram as coortes de Anibal e sob
+todos os sóes haviam passeado a águia de oiro da _Roma Victrix_, já não
+podiam com o rijo casco dos tempos heróicos e usavam agora um chapéo
+leve e nem couraça traziam. Dos campos desertava a população rural, que
+para as cidades enveredava, sequiosa de partilhar as inéditas volúpias
+dos triclinios em festa. E já não era sómente ao claro Apolo e a Venus
+Anadyómene que Roma erguia altares votivos e sacrificava as réses e os
+fructos do ritual litúrgico, mas a quantas misteriosas e tenebrosas
+divindades esquálidos profetas lhe traziam dos confins dum Oriente
+rutilante e exasperado e hirsutos druidas, cobertos de alvas túnicas de
+linho, importavam das florestas sombrias e metafisicas da Gália.
+
+Foi então que os Bárbaros apetecêram a cortesan romana, que, nos
+átrios de mármore e sôb o olhar vasio das estatuas, uivava de luxúria
+monstruosa, entre cacos de taças estilhaçadas e sob um chuveiro
+continuo, embriagante, exaustivo, de pétalas de rosa.
+
+E a epopeia do Fim principiou...
+
+De norte a sul e de oriente a ocidente, um frémito de terrôr galvanisou
+a carne entorpecida do heroi, que ia morrer--que inexoravelmente ia morrer.
+
+Num derradeiro lampejo de coragem, dessa coragem sublimada e excelsa que
+lhe déra mundos e a sua quadriga de triunfo acorrentara cem raças, êle
+ergueu-se, então, cambaleante, meio tonto da ultima bacanal, e, sacando
+do pesado gladio de Rómulo e Remo, tentou ainda uma desesperada
+resistencia á investida dos que lhe cobiçavam as pedrarias das arcas e a
+carne voluptuosa e dôce das mulheres requintadissimas.
+
+Mas, ai! aos músculos do seu braço não acudiu o vigor de outros
+tempos--e dos seus dedos afusados, femininos, cobertos de joias, o
+gladio das victorias desprendeu-se e, ao bater no mosaico do chão,
+partiu-se em mil bocados, com um ruido sinistro de bronze que se lamenta...
+
+E os Bárbaros entraram.
+
+
+E os Bárbaros entraram, de roldão, como um _sirocco_ de inferno, talando
+campos, incendiando cidades, semeando a morte e o horror por onde
+passavam. Á sua aproximação burgos inteiros se despejavam de habitantes
+e as legiões, que o desuso da guerra amolentára, fugiam tambem, mordidas
+de terrôr pânico.
+
+Foi um êxodo trágico, que nenhum Rochegrosse poderá ressuscitar!
+
+Sobre as terras do Império agonisante a morte desdobrára as azas rígidas
+e o Império acabava, afogado em tristêsa pela brutal profanação...
+
+Mas, mais alto ainda que o desespêro estridente das mulheres e o clamor
+ululante dos vencidos, subia a gargalhada satisfeita, a imensa
+gargalhada das hordas victoriosas. Riso de embriaguês, riso de insania,
+que importa? era um riso que fazia estremecer a terra inteira e sob a
+abóbada do céo écoava como um himno triunfal!
+
+
+Depois...
+
+A Historia aqui balbucia.
+
+Pouco a pouco a tempestade amainou. Das inúmeras tribus, lançadas como
+irresistiveis arietes contra a muralha latina, umas, levadas pela
+vertigem de epopeia que os seus chuços de guerra andavam escrevendo,
+desabaram caudalosamente sôbre a Iberia e, atravessando o mar, fôram
+perder-se nas areias de Africa, como regatinhos míseros, que o deserto
+facilmente engole; outras--a maioria--menos ambiciosas, ou mais
+extenuadas de tanto pelejar, cravaram no chão as suas tendas de pele de
+cabra e a primeira noite dormida em sólo romano foi a primeira de uma
+Historia nova, de um mundo novo.
+
+Para traz de elas e ao seu redor nada restava da luminosa sociedade que
+sabia de cór hexámetros de Horacio e com Petronio aprendêra a arte
+subtil de enrugar uma toga. Palacios, termas, sumptuosos pórticos e até
+humildes cabanas de tijolo jaziam por terra, desfeitas em cinzas, que
+fumegavam ainda. E as estatuas mutiladas pela primeira vez sentiram
+aflorar aos seus olhos de marmore, divinamente impassiveis, uma lagrima
+de humana piedade...
+
+A Belêsa antiga morrêra!
+
+Debalde os invasores, num supersticioso temor de _parvenus_ selvagens,
+tentaram ressuscital-a e com ela o mecanismo complicado e sabio da
+administração romana.
+
+«Começou-se a restauração dos aqueductos, banhos e teatros; chegou-se
+mesmo a edificar monumentos novos, como o palacio de Verona e a basilica
+de Ravêna. Os espectaculos recomeçaram, reabriram as escolas de
+retórica. Mas os Godos não toleraram por muito tempo similhante regimen.
+Após a morte de Teodorico, como a rainha Amalasonte tivesse confiado a
+educação do filho a preceptores romanos, os principais guerreiros
+exigiram-lhe que a creança fosse educada com os seus camaradas, para
+com êles aprender a caça e o manejo das armas, conforme era de uso entre
+bárbaros[2]».
+
+Este episódio melhor que nenhum outro revela a fisionomia moral da Idade
+Média dos primeiros séculos.
+
+O vinho novo não se acomodava nos ôdres velhos. O pesado estatismo
+latino embaraçava, sufocava os movimentos de aqueles homens que traziam,
+de longe, um zeloso culto pela dignidade e liberdade do individuo.
+
+Tudo, na civilisação que o Lacio cultivara ao longo das duas Europas,
+meridional e central, se opunha e resistia á absorpção. Roma era um
+estado enorme, disciplinado, culto e homogéneo, a despeito da
+infinidade de povos diferentes que pela sua Lei se regiam. As suas
+condições de estabilidade e a manifesta superioridade do seu talento
+governativo davam-lhe um prestigio tão grande que muitos bárbaros, como
+os francos, burgondos e wisigodos, não hesitavam em desertar em massa as
+suas terras, para se colocarem sob a protecção do césar, que nove
+decimas partes da população do imperio nunca vira e, talvez por isso
+mesmo, temia e respeitava como a um deus.
+
+Outras e muito diversas eram as condições da sociedade que para lá do
+Reno e do Danubio ficava. O territorio da Alemanha actual encontrava-se
+parcelado, dividido por um sem-número de tríbus, que se não estimavam
+entre si e que, quando não guerreavam o Império, matavam o tempo
+batalhando umas com as outras. Chefe supremo que coordenasse todas
+aquelas energias dispersas não havia. Quando muito suportavam,
+momentaneamente, qualquer _condottiere_, que a fortuna das armas em
+certo minuto bafejara e cujo prestigio findava com o primeiro revés ou
+com a morte, não chegando a criar tradição.
+
+Este permanente estado de briga impedia o desenvolvimento de uma
+superior cultura do espirito, permitindo unicamente as profissões que
+podemos alcunhar de instinctivas: a pastoricia, a agricultura e a
+guerra. Só esta ultima seria capaz de fixar unidade, se fôsse servida
+por um plano politico nitidamente estabelecido, como sucedeu com a
+conquista romana. Ora esse plano não existia. A guerra entre os
+Germanos, porque era motivada por impulsos passionais e sofreguidão de
+pilhagem, apenas logrou robustecer a barbarie e fomentar a dissociação.
+
+Raça juvenil, fremente de acção e de paixões violentas, afeiçoando o ar
+livre e os scenarios naturais, que melhor falavam á espontaneidade do
+seu instincto, não podia intender as serenas discussões do _Forum_,
+entre alabastros plácidos e inertes. Para estes homens, que dormiam a
+cavalo e amavam com a simplesa de animais magnificos, só o que a vida
+lhes revelava directamente seduzia as suas irraciocinadas preferencias.
+
+Quando se assembleiavam, escolhiam um recanto ao acaso sob a copa de um
+carvalho tutelar. E, ahi, sentados em calháus asperos, ouvindo o
+gorgolejar das fontes e o balir dos rebanhos, tumultuosamente
+deliberavam sôbre uma guerra a fazer ou um crime a julgar.
+
+Além da natural distincção entre fortes e fracos não havia outras
+hierarquias. Quem não podia brandir a massa de armas, que laborasse a
+terra. Os guerreiros eram os pares do seu chefe. Cada tribu formava um
+estado e todos se conheciam dentro de cada tribu.
+
+Era o ensaio fruste da comuna medieval futura e das modernas
+democracracias.
+
+
+Deste conflicto se entretece a historia dos primeiros séculos de
+barbarie, após a queda do Baixo-Imperio.
+
+Se meu intuito fôra massacrar abusivamente a benévola atenção de Vossas
+Excelências, eu poderia ainda--sem modestia e sem custo--longamente
+dissertar sôbre o assunto. Mas, porque ele vos é familiar e eu careço
+absolutamente de abreviar-vos, tanto quanto possivel, a fastidiosa
+obrigação de me escutardes, deixarei em paz este confuso e tumultuado
+desenrolar de guerras, brutalidades e catástrofes de toda a
+sorte--tenebrosa retorta de alquimista maluco em que o mundo de agora já
+se sente obscuramente fermentar.
+
+Não o abandonarei, comtudo, sem primeiro ter salientado a minha
+persuasão de que o riso não se sumiu da face da terra, mesmo neste
+cataclísmico período em que horrorosas pestes aniquilavam provincias
+inteiras e por cada espaço de setenta anos havia quarenta de fome e se
+chegara a comêr carne humana.
+
+Riso brutal, decerto, gargalhar selvagem de mandibulas desconjunctadas,
+riso que faria desmaiar de espanto e de terrôr as _preciosas_ do palacio
+Rambouillet e as marquesinhas liricas do Trianon--mas riso
+verdadeiro, espontáneo, irreprimivel, riso de creanças e de heróes, riso
+sem adjectivos nem _parti-pris_, riso simplesmente e nuamente riso!
+
+
+Eis, porém, que o ano mil se avisinha.
+
+Por toda a cristandade supersticiosa vôa celeremente a crença de que o
+mundo vai acabar e todas as bôcas se contracturam num rictus de agonia,
+que enlividece e espectralisa as máscaras.
+
+Inutilmente alguns doutores da Igreja procuram destruir o credo absurdo.
+Ninguem os ouve, ninguem acredita neles. O sortilégio do número embruxa
+todos os cérebros e o contágio do mêdo acaba por ganhar aqueles mesmo
+que a principio descriam.
+
+Então viu-se esta coisa de tragédia esquiliana: multidões
+rouquejando de aflição aos pés dos frades lívidos, dementadas procissões
+de fanáticos azorragando-se até ao sangue, corais sinistras de
+miseraveis erguendo para o céo parado mãos súplices e crispadas, como,
+por certo crepúsculo da Hélade, as mãos convulsas das carpideiras, aos
+gritos junto de Patroclo morto...
+
+Ah! que supremo Artista, que semi-deus d'Annunzio cantará a angustia
+dessa noite de epopeia!
+
+
+Senhoras e Senhores, perdoai a quem, tendo-se proposto ocupar-vos do
+riso na Meia-Idade mais não fêz ainda que passar-vos ante os olhos
+quintos-actos de dramalhão histórico. É que, para a minha sensibilidade
+e para o meu espírito, esta profunda crise da velha civilisação
+ocidental tem captivancias de côr, _sorcelleries_ de mistério, de vida
+intensa e magnífica, que em nenhuma outra encontro e que nenhumas
+palavras sabem dar. Rasão por que...
+
+Eu procurarei, no emtanto, absolvêr-me do venial pecado.
+
+Ia dizendo que, ao aproximar do ano 1000, entre os cristãos se espalhara
+a crença de que o mundo ia acabar e que o terrôr do Fim exilára das
+bôcas pálidas o riso claro e sonóro de outras eras.
+
+Breve, porém, se desfez o cauchemarêsco bruxedo. Ao clarear da primeira
+madrugada do século XI, o homem, que--como escreve certo historiador de
+arte[3]--se deitára para morrer, ergueu-se do seu catre,
+atónito e deslumbrado, e a cristandade toda respirou fundo, desopressa
+da lúgubre ameaça.
+
+Era o remoto milagre de Lázaro redivivo que em plena Meia-Idade se repetia.
+
+Então foi pelo mundo adiante uma alegria desordenada, febril, quase
+dolorosa, como o casquinar das histéricas em face dum perigo que
+inesperadamente se desfaz. Libertas do cruciante pesadelo, as almas,
+reconhecidas, volveram-se para Deus, para esse Deus de misericordia e de
+piedade que conjurára a apocalíptica ameaça. E as bôcas, que ainda
+hontem soluçavam _requiems_ de desespêro, abriram-se num _te-Deum_
+imenso, que iluminava a terra como um sol de gloria e para o céo subia
+como o perfume de um roseiral sem limites.
+
+A estas rudes creaturas, porém, não bastava o platonismo da oração. O
+seu ingénuo e sincero reconhecimento anceiava por encontrar uma forma de
+exteriorisar-se mais duradoira e efectiva que a das palavras, que
+logo morrem mal nascem.
+
+E encontraram a igreja románica.
+
+Durante muito tempo o deus dos cristãos não tivera santuário próprio. O
+credo galileu, mesmo depois de perfilhado pelo Imperio, era prégado em
+casa de pagãos. E quando os recem-convertidos, no zêlo da sua fé,
+pretenderam repudiar os templos, que a idolatria dos antepassados para
+sempre havia maculado, e em seus espíritos nasceu o desejo de erguêr á
+Divindade nova um altar novo, foi ainda á _basílica_ dos romanos que
+êles fôram pedir o plano arquitectonico de que tanto careciam[4].
+
+Logo, porém, que as invasões cessaram e uma paz relativa trouxe um pouco
+de socêgo ao velho mundo _bouleversé_, começou-se a notar que o recinto
+escolhido não satisfazia as exigencias de sensibilidade que o Verbo
+nazarêno acordára em todas as almas.
+
+Aquela grande sala nua, rectangular, monótona, de tecto horisontal e
+escassamente alumiada, em nada correspondia, ou antes, nada traduzia da
+aspiração ardente dos cristãos. Contra as pesadas traves de aquele tecto
+raso, baixo, opressivo, as azas brancas da oração esbarravam e,
+ensanguentadas, tombavam sôbre o lagêdo da nave, como pombas alvíssimas
+feridas.
+
+A par desta objecção de ordem estetico-sentimental, outra, de naturêsa
+puramente material, mas não menos importante, havia a considerar: é que
+tal processo de construir oferecia inconvenientes serios, dos quais o
+menor certamente não era a cobertura dos templos, feita, em geral, com
+enormes pedras horisontais, dificeis de obtêr, de trabalhar e de
+colocar. Para iludir este grave embaraço várias vezes se tentou
+substituir o granito por compridos pranchões de madeira. Mas a inovação
+fracassou, pois as inclemencias do tempo e os incendios muito frequentes
+em breve demonstraram a fragilidade do subterfúgio.
+
+Foi então que o sistema das construcções abobadadas se apresentou ao
+espirito de não se sabe que obscuro arquitecto de génio, que, um dia,
+talvez em frente de uma arcada romana, as imaginou.
+
+«Esta inovação acarretava uma série de modificações. Contrafortes
+exteriores, mas ainda pouco salientes, encostaram-se ás parêdes,
+exactamente nos pontos sobre os quais a abóbada fazia maior pressão.
+Pilares macissos, com columnas encravadas em cada uma das quatro faces,
+alternaram com columnas isoladas. Rasgaram-se as janelas em cintro
+e, quando eram geminadas, uma claraboia as sobrepujava[5]».
+
+Interiormente, a longa nave da basilica romana foi cortada, a dois
+terços do seu comprimento, por uma nave perpendicular, de menores
+dimensões, de sorte que o edificio ficou com a forma de uma cruz latina.
+Exteriormente, além das modificações já apontadas, outra se verifica,
+muito importante: o aparecimento do campanario ou campanarios, torreões
+macissos, aderentes ao corpo da igreja e servindo não só para instalar
+os sinos como tambem para vigiar os terrenos em volta, precaução
+naturalíssima n'aqueles tempos de guerrilhas quotidianas.
+
+«Quanto á decoração, não se fêz caso algum da simetria romana. A forma e
+a ornamentação dos capiteis fôram completamente abandonadas á
+fantasia dos esculptôres. Ha igrejas románicas em que não é possivel
+encontrar dois capiteis similhantes[6].
+
+Reparem agora Vossas Excelencias nesta gravura. É um _croquis_ da linda
+igreja de Poitiers, _Nôtre-Dame-la-Grande_, um dos mais belos monumentos
+religiosos da época que estamos analisando[7].
+
+Frequente é encontrar nas historias de arte a afirmação de que esta
+arquitectura é triste, pesada, conventual, acompanhada da inevitavel
+explicação de que sómente á torturada, á sombria fisionomia moral da
+Idade-Média se póde e deve atribuir a feição particular de similhante
+arte. É nesta altura que é de uso sacar dos tropos retumbantes, a que já
+tive ocasião de aludir nos umbrais de esta palestra, e dar cabo da pobre
+Idade-Média, carregando-a de nomes feios, mutilando-a ferinamente,
+enxovalhando-a e humilhando-a sem piedade.
+
+Eu peço vénia para não juntar a minha debil voz ao côro dos
+apostrofadôres, sem que a minha renúncia, comtudo, signifique pretenção
+de afirmar que a êles não assiste o mais fugidio vislumbre de razão.
+Sim, a arquitectura románica, á primeira vista, é melancolica, soturna.
+Estas grandes paredes nuas e cegas, de uma espessura esmagadora, são
+rebarbativas, duras, quasi hostís. O interior da igreja tambem não nos
+dispõe melhor: a luz é coada por frestas tuberculosas, abertas aqui
+e acolá, medrosamente, na mole compacta de granito. Sufoca-se lá dentro
+com tanta penumbra e tanta frialdade. Dir-se-hia que de aquelas pedras,
+de aquelas enormes pedras de castelo medievo, eternamente escorre um
+suor frio de terror.
+
+Terão razão, portanto, os que no templo do século XI se obstinam em
+encontrar a mais fiel traducção do espírito supersticioso, coalhado de
+angustias e pavores, que é para êles, o espírito do nosso antepassado
+feudal?
+
+Todas as ideias, por mais absurdas, são defensaveis--e esta é-o mais que
+nenhuma. Todavia, parece-me que ainda aqui se toma um pouco a nuvem por
+Juno...
+
+O ano 1000 passára e, com êle, um dos maiores pánicos da cristandade.
+Como é possivel que fossem tristes os homens que ergueram tais
+edificios, se esses homens como que haviam renascido uma segunda vêz?
+
+As próprias condições históricas da sociedade, que produziu a arte que
+estudamos neste momento, parecem auxiliar a minha conjectura. O mundo
+feudal ganhára uma certa estabilidade. As exacções e violencias dos
+barões eram menos frequentes, porque o aparecimento das cruzadas
+afastára da Europa um grande número de esses senhores brigões e
+aventureiros. O camponez principiava a respirar. O fructo do seu
+penosissimo labôr já lhe não era, como em tempos idos, insolentemente
+surripiado pelos vílicos do castelo. O direito era ainda a força, mas os
+costumes ganhavam cada vêz mais prestigio e o trabalho dos _glossadôres_
+começava a sêr encarado como uma tarefa util e necessária. Com a paz
+veio um esboço de prosperidade e o oiro afluiu ao velho continente,
+arruinado e miseravel. O homem não era ainda feliz, decerto. Mas que
+diferença entre o passado próximo e aquele presente, escancarado para um
+futuro de que havia tudo a esperar e nada a temêr, por as almas e os
+corpos estarem ha muito couraçados para todas as miserias!
+
+Examinai de perto, agora, uma igreja de esta época. Vereis quão
+facilmente se dissolve a vossa primeira impressão, ante as surprêsas que
+vos reserva um exame mediocremente atento!
+
+Arsène Alexandre, o historiadôr amavel da caricatura, afirma algures que
+os constructores do templo medieval quizeram «aterrar por meio das
+grandes linhas, alegrar e distrair pelo detalhe.»[8]
+
+Eu não saberia dizer-vos melhor nem mais completamente a minha ideia.
+
+Com efeito, a igreja románica é pesada, austera, no seu conjuncto
+arquitectural--jocosa e satírica, frequentes vezes, em sua decoração.
+
+Como interpretar esta contradicção?
+
+Creio que facilmente, desde que saibamos que aos frades da época se deve
+o plano da referida igreja. Os monges eram, ao tempo, os unicos homens
+cultos da Europa meridional, que foi aonde a arte románica nasceu e
+produziu os seus mais belos fructos. Refugiados nos mosteiros da
+montanha ou perdidos na solidão das florestas despovoadas, êles
+entregavam-se, nos intervalos dos oficios sacros, á piedosa tarefa de
+recolher os fragamentos da velha náu latina desmantelada, pondo, na lide
+ingrata, aquela amorosa e inabalavel tenacidade que mais tarde possuirá
+os tres precursores da renascença medicénica: Dante, Petrarca e
+Bocácio. Que admira, pois, que, ao planearem a nova casa de Deus, êles
+se deixassem inconscientemente influenciar pela arte dos pagãos, cuja
+nobre simplicidade de algum modo era afim do austero evangelismo de então?
+
+Uma força tenaz e obscura, porém, se opunha á realisação integral da
+concepção benedictina, erudita e grave: a imaginação popular. Mais puros
+de sugestões alheias, ignorando por completo a arte antiga e a teologia
+contemporánea, os pedreiros humildes, a quem a tarefa coubéra de erguer
+o templo, desforravam-se da _contrainte_ monacal, dando largas á sua
+fantasia exuberante e um pouco desordenada, quando chamados a decorar os
+nichos, tímpanos, capiteis, portais.
+
+Tudo quanto os interessava, todas as ideias que os preocupavam, uma
+diabrura que os fizéra rir ou um vicio que pretendiam stigmatisar,
+tudo nessas pedras ficou modelado pelo cinzel ainda ingénuo e
+balbuciante, mas já irreverente e malicioso, dos mestres canteiros da
+época.
+
+É certo que, por vezes, no meio de essas lavranterias do granito, uma
+cabeça monstruosa surge, relembrando antigos pavores. Simples capricho
+de esculptôr-contista, historiando o inferno á mingua de outro assumpto.
+O diabo era ainda temido, sem duvida, mas ao respeito de outrora
+começava a misturar-se não sei que vago halito de mordacidade jovial,
+que singularmente o apoucava...
+
+Depois, por aquele principio que os psicólogos baptisaram de «lei do
+esquecimento activo»--o qual nos ensina que a memoria do homem tem
+repugnancia pelas recordações dolorosas e se esforça por libertar-se
+de elas--, não me parece muito atrevida a afirmação que venho fazendo.
+Sobre aquelas almas primitivas a lembrança da recente agonia pairava
+ainda sinistramente. Que é, pois, de admirar que eles, libertos do
+perigo buscassem atordoar-se, por um natural instincto de reacção,
+entregando-se francamente a uma alegria, que não souberam exprimir?
+
+E é, talvez, porque não souberam exprimir-se porque não tiveram a
+ajuda-los um tecnica perfeita, que, ainda hoje, muitos afirmam, iludidos
+pelas aparencias, que a esculptura decorativa da igreja románica, é na
+maioria dos casos, recatada, austera e cheia de melindrosos
+pudores--quando a verdade é que ela não passa de um riso que foi mal
+rido.
+
+
+Esta inconsciente revolta da imaginação espontánea e caprichosa dos
+artistas contra o dogmatismo árido de uma reduzida _élite_ de eruditos
+foi lentamente preparando as almas e os olhos para o milagre ogival.
+
+A Europa, mesmo durante as invasões, nunca deixára de estar em contacto
+com o Oriente. Com o advento das cruzadas as relações estreitam-se entre
+os dois continentes. Os bárbaros guerreiros, que do velho mundo abalavam
+á caça do infiel, voltavam de lá maravilhados com o explendôr de uma
+civilisação que não intendiam, mas que os perturbava como o perfume de
+uma flôr de estufa. E, nas desabridas noites de invernia, entre as
+paredes fuliginosas dos donjons, ouvindo crepitar os grossos tóros de
+carvalho na lareira, tudo era arregalar os olhos deslumbrados para o
+rude homem de armas, que falava de êsses países longínquos como de um
+paraíso inegualavel, em que tudo fossem preciosíssimos brocados, joias
+scintilantes e palácios de mil côres, irreais como filigranas de cibórios!
+
+Das altas salas do castelo a maravilhosa legenda descia até ao povo,
+trazida pela bôca de algum menestrel tagarela, que a recontava,
+prodigalisando tintas.
+
+E sempre no auditorio havia um artista que a escutava, embebido, e se
+ficava sonhando, mesmo depois da historia concluída e a multidão
+dispersa...
+
+
+Por uma gradual evolução, que não vem a pêlo detalhar, o gótico, filho
+espúrio do románico, aparta-se de êste e, ahi por fins do século
+XII, adquire fóros de arquitectura original. O plenocintro, acanhado,
+frio, incómodo como uma grilheta, cede o logar á ogiva esbeltissima, que
+se ergue para o céo com a mesma graça alada de duas mãos que resam e o
+mesmo indefinido anceio de liberdade que faz estremecer de entusiasmo as
+lanças compridas das comunas, luctando pela sua independencia
+politico-económica.
+
+A insurreição lavra por toda a parte e em todos os campos. Já de ha
+muito o homem se rebelára contra a secura doutrinal dos teólogos, que
+prégavam o horrôr pela carne e só das almas curavam, minando-as de
+terror e desesperança[9]. «O cristão Abeillard nega o pecado original,
+reabilita a dignidade dos sentidos e procura estabelecer, pelo estudo
+imparcial da filosofia antiga e da doutrina dos Padres, a unidade do
+espirito humano, desde a antiguidade até á Idade-Media. Quatro anos
+depois da sua morte, Arnaldo de Brescia, seu discipulo, proclama a
+republica em Roma[10]».
+
+Entre a creatura e o Creadôr de novo se intromete a vida natural,
+terrena, humaníssima, que, em vez de ser um contacto de infamia e
+damnação, se torna no mais comovido meio de comunicar com Deus.
+
+Certa manhan de chuva torrencial, Joaquim de Flora, numa qualquer
+humilde capela de aldeia, prégava sobre o pecado. Súbito, a borrasca
+serena e um raio de sol penetra alegremente na igreja, vestindo de
+oiro os ombros vergados dos ouvintes. Comovido, o bom do frade cala-se
+um instante e fica a olhar, extasiadamente, a nesga de luz... Mas logo
+recobra os sentidos e, entoando o _Veni-Creator_, sái com a multidão
+para o campo, a saudar o grande sol amigo[11]! Cem anos mais
+tarde, á hora da sua morte, o maravilhoso pobresinho de Assis havia de
+renegar o ascetismo, pedindo perdão ao irmão corpo de o haver maltratado
+tanto. E, com o derradeiro suspiro, dos seus lábios exangues voariam
+para o céo os versos imortais do «Cantico ao Sol»:
+
+ Laudato sia, Dio mio signore,
+ con tutte le tue creature![12]
+
+A insurreição contra os moldes asfixiantes do Passado invade todos os
+campos, desperta em todos os corações o anceio do libertamento.
+Interpretes inconscientes do sonho comum, os trovadôres levam, de terra
+em terra, com o embalo das liricas de amôr e o vinho acre e forte das
+_canções de gesta_, o seu reportorio sempre aclamado de _fabliaux_
+mordazes e sirventes implacaveis[13].
+
+Por toda a parte um ritmo surdo, mas grandioso e indomavel, anima a vida
+colectiva, conjugando energias dispersas, elaborando o sônho de
+deslumbramento que nas catedrais góticas se perpetuará. Muito fraco
+ainda para derrubar o barão feudal, o vilão procura neutralisar um
+poderio que o insurge, vinculando-se fortemente á comuna, isto é, á
+confraria dos seus pares. Assim fortalecido o seu esforço individual
+pela coordenação de mil esforços, sedentos de liberdade, êle poderá
+orgulhosamente solicitar do senhor os forais que o deixarão trabalhar em
+paz e erguêr, mesmo em face do castelo da senhoria, o seu _beffroi_, tão
+rendilhado e opulento como um templo ogival.
+
+Para estas almas, cachoantes de revolta, um podêr ha, comtudo, que lhes
+não pésa, nem excita ódios: o poder de Deus. É tambem o único que
+aceitam sem murmúrio--mais, é o único que amam. E amam-no com um ardor
+tanto maior quanto mais funda é a miseria em que se debatem. Porque,
+para elas, amar a Deus é ainda de algum modo robustecer a febre de
+insurreição que as abrasa, pois é tomar contacto com um _além_ radioso
+em que não ha cavaleiros arrogantes nem servos espesinhados,
+abençoado mundo em que todos são iguais e se não odeiam, jardim de
+maravilha eternamente florido por onde nunca passaram fomes, nem pestes,
+nem guerras incruentas.
+
+Então as almas voltam-se para a casa de Deus na terra, para a igreja
+acolhedora e apasiguadora, na anciosa esperança de ahi vivêrem mais
+plenamente o sonho de universal fraternidade que as devora.
+
+Em breve a estreita nave románica se torna insuficiente para contêr a
+multidão, que ao assalto da felicidade confiada e alegremente avança.
+
+A maré sobe, engrossa, faz pressão contra as muralhas do velho templo,
+cujas pedras vão cedêr ante a irresistivel força de expansão da vaga
+rumorosa e formidavel. E quando, por fim, as broncas paredes desabam e
+sôbre a terra alastra o entusiasmo novo, das águas vivas da inundação
+emerge, feminina, irreal, levíssima, a catedral nova, como um lirio
+de milagre abrindo ao sol as suas pétalas de mármore!
+
+
+Johannes Joergenson, o nobilissimo poeta dinamarquês, cuja recente
+conversão ao catolicismo fez de êle o mais enternecido dos historiadores
+de S. Francisco de Assis, conta, no seu «_Le Livre de la Route_», o
+seguinte delicado episódio.
+
+Um dia, certo anonimo pesquisador de belas coisas, encontrando-se de
+passagem em não me recorda que medievesco burgo do Norte, lembrou-se de
+visitar-lhe a catedral--notavel reliquia de arte gótica, ao que parece.
+
+Depois de a havêr miudamente esquadrinhado, quiz rematar o seu exame por
+uma ascenção ao mais elevado ponto da flecha, tão afusada e alta que os
+maiores edificios da cidade pareciam de joelhos aos pés de ela. Ora
+sucedeu que, ao chegar lá acima, áquela imensa altura, o nosso curioso
+visitante inesperadamente esbarrou com um velho canteiro de longas
+barbas de prata, que, de cinzel e de martelo em punho, minuciosamente
+abria, num pedaço de granito desornado, um sem-número de minusculas
+flôres e outros _motivos_ frageis...
+
+Um instante interdicto, o turista acabou por interpelal-o, com um
+sorriso de piedosa ironia:
+
+--Eh! meu amigo, esse trabalho bem inutil me parece! Pois para que
+servirão tantos cuidados, se, lá de baixo, ninguem, absolutamente
+ninguem, poderá vêr e admirar a sua obra?!
+
+Então, o pedreiro, volvendo para o indiscreto uns olhos plácidos e
+ingenuos, retorquiu brevemente:
+
+--E que não vejam?! _Deus vê_--é quanto basta.
+
+E, de novo, o cinzel cantou sôbre o granito frio...
+
+Á medida que o meu estudo mais intimamente me relaciona com a
+Meia-Idade, mais no meu espírito se radica a impressão de que pela bôca
+dêste velho obscuro lucidamente falam alguns séculos de Historia--quiçá
+os mais intensos, senão os mais belos, de quantos o homem até ao
+presente viveu.
+
+«Deus vê!»
+
+Pois não é verdade que nesta frase rápida, de uma singelêsa e de uma
+precisão de legenda latina, nêstes dois monosilabos breves, que
+facilmente cabem num hálito de creança, toda a Idade-Média se resume e
+como se justifica amplamente?
+
+«Deus vê!»
+
+Sim, Deus vê. E porque Deus vê, e para que Deus veja, é que os
+homens esventram montanhas e lhes roubam os mármores sem preço, vão ao
+fundo da terra cavar os finos metais e as pedras rutilantes, jogam a
+vida sôbre os mares traiçoeiros em demanda dos brocados e sêdas nunca
+vistas--e de todos êsses tesoiros confusamente amontoados arrancam, por
+fim, a mais audaciosa e deslumbrante maravilha do humano engenho: o
+templo gótico!
+
+Sim, é porque Deus vê que os Van Eyck põem todo o seu génio enorme no
+retábulo de Gand e Memling toda a sua indizivel candura nas telas do
+Hospital de Bruges; é porque Deus vê que Jehan Pucele, Pol de Limbourg,
+Jehan Fouquet e outros gastam uma vida inteira iluminando insonhaveis,
+preciosissimos missais, livros de Horas e psalterios; é porque Deus vê
+que Fra Angelico, o divino, ergue as mãos em résa antes de começar o seu
+labôr e nunca altera o que pintou, «_porque foi Ele quem guiou o seu
+pincel_»; é porque Deus vê que um formigueiro de arquitectos e maçãos
+levanta as catedrais de Amiens, Reims, Paris, Chartres, Bruxelas,
+Lincoln, Colonia, Strasburgo, e pintores as decoram, e esculptores as
+vestem de milhares de estátuas[14], e marceneiros as enriquecem com
+madeiras prodigiosamente lavradas, e vitralistas-poetas, perdulários de
+sonho e de emoção, lhes encastoam nas esguias ventanas ogivadas todos os
+milagres da _Legenda Sanctorum_ feitos linha e côres inimitaveis. E é
+ainda porque Deus vê que a quasi totalidade dos artistas dêsses fecundos
+e gloriosos séculos de crença, de esperança, de legitimas revoltas,
+deixa por assignar as obras que das mãos palpitantes lhes saem! Para quê
+assignal-as?! Assoldadados embora, êles trabalham com elevado ardôr,
+menos para agradar ao principe que os remunera, que ao Senhor _que os
+vê_. Os homens poderão esquecer-lhes os serviços e até os nomes; Deus é
+que sempre os recordará, pois por amôr de Ele labutaram.
+
+A arquitectura religiosa da Baixa Meia-Idade é a creação suprema dêstes
+anónimos Homeros. Todos êles, possuidos de uma fé igual, trazem à obra
+comum o melhor do seu esforço: os artistas a sua arte, os sábios a sua
+sciencia, os rudes o seu braço e até os mendigos o seu óbolo. «Graças a
+êstes admiraveis trabalhadores, a catedral é um sêr vivo, uma árvore
+gigantesca cheia de aves e flores. Mais parece uma obra da natureza
+que dos homens... A igreja é a casa de todos, a arte traduz o pensamento
+de todos... A catedral pode substituir não importa que livros. Só a
+França soube fazer da catedral uma imagem do mundo, um resumo da
+história, um espelho da vida moral[15]».
+
+Nunca o preceito d'anunziano: «_crear com alegria_» foi tão
+escrupulosamente observado como nêste periodo. De aquelas pedras,
+amorosamente acasteladas até ao céo, num tão vertiginoso impeto que
+chega a causar arripios, irradia uma tal satisfação, um tal
+contentamento, que eu não sei de alma bronca que, em frente de elas, não
+entreadivinhe, um instante, as delicias da Terra Prometida!
+
+Do sombrio templo románico já nada ou pouca resta. O hieratismo e o
+convencionalismo decorativos do anterior periodo cedem o passo ao franco
+naturalismo do periodo que começa. Os grandes panos de muralha cega e
+quasi nua vestem-se, de alto a baixo, de prodigiosos lavores e
+surgem-nos agora tão recortados de altissimas janelas, enormes rosáceas
+e frestas sem conto que a gente chega a ter a impressão de que a
+catedral está suspensa no ar!
+
+Deixai o grande Taine dizer que o interior do edificio é lúgubre e
+frio[16] e escutai-o antes quando ele vos descrever, na sua
+prosa sumptuosissima, tão luminosa e forte como um alabastro da
+Acropole, as catedrais de Assis e de Milão.[17]
+
+Não, meus senhores, a arte ogival não odiou a luz, antes a fêz a sua
+mais assidua colaboradôra e até por amôr de ela se perdeu. «A
+arquitectura gótica repudiou a obscuridade... Quando a catedral é
+obscura é porque o mestre de obras calculou mal o seu esforço, quiz
+obrigal-a a dar mais do que ela podia, ou pretendeu acumular nos seus
+flancos multidões sôbre multidões, como em Paris, aonde as quatro naves
+laterais aparecem esmagadas por galerias inúmeras. Se vestem as largas
+aberturas de vitrais, não é para entenebrecer a nave, mas para
+glorificar a luz............. O vitral oferecia a sua matriz inflamada
+aos dias pálidos do Norte, para que o afago de êstes fosse mais quente
+á pedra que de todos os lados subia. Os seus azues liquidos, os seus
+azues carregados, os seus amarelos de açafrão e de oiro, os seus
+alaranjados, os seus vermelhos vinosos ou púrpureos, os seus verdes
+densos, arrastavam ao longo da nave o sangue de Cristo e a safira
+celeste, o rubro das folhas de vinha que o outono crestou, a esmeralda
+dos longinquos oceanos e dos prados de em redor. Em verdade êle apenas
+atenuava as suas rutilantes policromias no fundo das capelas absidiais,
+aonde a mancha dos cirios fazia tremular a noite. Era um pretexto para
+acumular á roda do santuario a imprecisão angustiosa e a volúpia do
+misterio. Mas desde que o céo se descobre, a grande nave estremece de
+alegria e o cántico triunfal da luz espalha-se por toda ela em grandes
+lençois de oiro[18]».
+
+ * * * * *
+
+Eu termino.
+
+«_Lunga fu la gioniata_» como diz o Poeta--longa e fastidiosa, ai de
+vós, ai de mim! Pilôto inhabil, atarantadamente guiei os vossos passos
+atravéz de regiões cuja extranha beleza a minha palavra dura e a minha
+sciencia minguada vos não souberam salientar. Adivinho os vossos
+reproches e curvo, em silencio, a pecadôra cabêça...
+
+Mas se, para não agravar as muitas culpas de que me acuso, vos poupo
+miudas justificações, outrotanto não posso fazer com respeito a certa
+falta, que absolutamente careço de explicar.
+
+Prometi eu falar-vos do riso na Meia-Idade e, afinal, apenas vos
+contei--e quão pobremente o fiz!--da clara alegria medieval.
+
+Certo, o riso e alegria são irmãos. Ás vezes, porém, tão arredados andam
+um do outro, que mais se diriam extranhos que gerados no mesmo ventre.
+Nas máscaras dos que nos rodeiam quantos risos sem timbre! quanta
+alegria tambem que desconhece o esgar hilariante! É que os primeiros, à
+similhança de certas bizarras plantas que não carecem da terra para
+viver, podem florir sem ter raizes na alma. Mas a segunda é o próprio
+humus que palpita sob o profundo beijo de Anteu, a própria alma exaltada
+e transfigurada. Joana de Arc, sagrando Carlos VII após a sua marcha
+heroica e miraculosa sôbre Reims, não sorriu; mas o seu coração batia as
+azas, festivamente, como uma pomba em maio... Sôbre o glorioso Monte
+Alverne, na manhan dos Stigmas, o divino filho de Bernardone não
+sorriu tambem; mas os seus olhos brilhavam, como se toda a luz do sol
+lhe cantasse dentro do peito.
+
+Foi de uma alegria assim que eu vos falei, de uma prodigiosa alegria
+que, durante séculos, fêz bater mais depressa o coração de um mundo
+adolescente--e não do riso que os homens dessas eras tão espontanea e
+clamorosamente riram. Porque, atravéz de todas as miserias, de todas as
+vexações, de todos os dramas, essas ásperas creaturas souberam rir o
+mais puro e claro riso que a velha Europa viu rir depois que os herois
+de Homero se calaram. Simplesmente--e com isto penso absolver-me da
+voluntária culpa--êsse belo riso não é para aqui, para um auditorio que
+tantas e tão gentilíssimas senhoras aformoseiam.
+
+As catedrais medievas são verdadeiros museus de inconveniencias lavradas
+em granito. Nenhum acto, por mais intimo, da vida de cada um se exime a
+figurar nelas com um realismo só familiar aos compendios de
+fisiologia[19].
+
+De uma velha inglesa solteirona sei eu que, em frente de um capitel em
+que duas nudezes se enroscavam mais vivamente, ia rebentando de
+apoplexia. E, comtudo, lá na pensão belga em que a conheci, rosnava-se
+com bonhomia que Vesta talvez não fizesse boa cara às oferendas desta
+encortiçada pucela...
+
+De facto, a chalaça dos nossos avós frequentemente descamba no
+escabroso. E as suas melhores _boutades_ ainda são aquelas que só
+podemos contar aos amigos em noites de tertulia ruidosa ou, pelo
+telefone... às madamas curiosas.
+
+Ingenuos, simples, duma franqueza de crianças terriveis, amando rir e
+nunca perdoando a quem os arreliava, os maçãos obscuros que conceberam e
+realizaram a suprema obra de arte da Meia Idade jámais souberam calar o
+que lhes ia nas almas, quer se tratasse dum sonho, quer duma farçada.
+
+Um companheiro fôra surpreendido numa atitude grotesca? Dias depois uma
+gárgula travêssa, suspensa no ar, faria rir toda a colonia de pedreiros
+e os fieis que entravam para a missa. Um juiz prevaricára, deixára-se
+subornar? O artista imortalisar-lhe-hia a façanha, pintando-o com
+orelhas de burro, pernas de pato e compridas garras de ave de prêsa.
+
+A ninguem perdoavam, nem aos senhores que tudo podiam sôbre os corpos,
+nem aos clerigos, que tudo podiam sôbre as almas.
+
+Mas, eu nunca mais terminaria se começasse a desfiar o rosário de
+anecdotas que as velhas catedrais sabem de cór!...
+
+Para V. Exas. fazerem uma ideia mais precisa desta crua franqueza,
+passo a ler um fragmento de uma carta que Bocacio escreve a Mainardo de
+Cavalcanti, apreciando o «Décameron» e censurando este seu amigo por
+haver deixado ler tal livro às mulheres do seu _entourage_:
+
+«Eu nunca poderei louvar-te por haveres deixado que as mulheres que te
+rodeiam lessem os meus carapetões. Rogo-te, por isso, que nunca mais
+consintas semelhante coisa. Bem sabes quanto desafôro e ofensas á
+decencia, quantas excitações aos amores impudicos, quantas passagens
+capazes de arrastar à prática de más acções os corações mais
+experimentados nesse livro se encontram. Se as mulheres honradas, em
+cujas frontes brilha ainda o santo pudôr, se não deixam induzir ao
+adultério, tal leitura, no entanto, pode tornar as suas almas impudicas
+e vicial-as pela tara obscena da concupiscencia. No caso em que a honra
+destas mulheres não baste para te conter, então pensa na minha, pois
+aqueles que me lerem hãode imaginar que eu não passo de um desprezivel
+alcoviteiro e de um velho debochado, divulgador das patifarias de
+outrem»[20].
+
+Que artista de hoje subscreveria tão desassombrado libelo contra a
+própria obra?
+
+E já que evoquei a interessante figura do pitoresco filho de Certaldo,
+não a deixarei sem contar-vos uma anecdota que vos dirá, melhor que
+todos os meus comentários, como os nossos avós se desforravam dos
+remoques das donas que se burlavam de amorios.
+
+Bocácio, já velho, tendo encontrado no seu caminho uma formosissima
+viuva florentina, apaixonou-se violentamente por ela. A dama, astuciosa
+e galhofeira, fingiu não desdenhar as homenagens do poeta, que,
+entusiasmado, lhe mandou cartas sôbre cartas, todas palpitantes dum amor
+vulcanico. A certa altura, a ironica deusa, sentindo a necessidade de
+pôr um dique forte áquela tumultuosa verbosidade e desejando imenso
+folgar de gôrra com as amigas, reuniu todas as cartas e publicou-as. O
+escandalo foi enorme em Florença. Então, para vingar os seus ultrajados
+brios de Lovelace serodio, o nosso amoroso escreveu uma tremenda
+verrina contra as mulheres, a que pôs o nome de _Corbaccio_ ou _O
+Labirinto do Amor_, por nela se tratar das angustias dum namorado
+perdido na floresta do Amor e que dela é tirado por um Espirito tutelar.
+O namorado, bem de ver, é o próprio Boccacio e o Espirito a sombra do
+marido morto, que vem do inferno à terra para desencantar o mísero
+transviado, a quem revela, complacentemente, toda a miseria fisica e
+moral do conjuge ironista.
+
+Oiçamos a fala rancorosa:
+
+«Quem a visse, como eu a via todas as manhans, com o seu barrete enfiado
+na cabeça, o manto de noite sôbre os ombros, ir acocorar-se à beira do
+fogão, e lhe tivesse contemplado os olhos ramelentos, encovados e baços,
+tossindo e cuspinhando sempre, teria esquecido cem mil amores».
+
+E por este diapasão afina o resto da tirada! Num dado momento abandona o
+seu caso particular e generalisa:
+
+«As mulheres apenas se ocupam de parecerem belas e serem admiradas.
+Nenhuma ha que seja ajuizada e capaz de agir criteriosamente. Todas elas
+são inconstantes, levianas, frívolas, querem e não querem uma coisa ao
+mesmo tempo, excepto se ela se relaciona com os seus desregrados
+apetites..... Fingem-se medrosas e tímidas; se estão num logar elevado,
+queixam-se de vertigens; se é necessário entrar num barco, aqui-del-rei
+que o seu delicado estomago não o suporta; se se trata de caminhar de
+noite, receiam encontrar espiritos, duendes e até mesmo ratos; se o
+vento sacode uma janela ou da parede se despega uma pedrinha, todas
+se cobrem de suores frios.
+
+Deus sabe, no entanto, como elas são atrevidas, quando se trata do que
+lhes apraz! Não há rudeza de logar, precipicios de montanha, altura de
+palacio, obscuridade de noite, que sejam capazes de as deter!»[21]
+
+Não se agastem Vossas Excelencias, Minhas Senhoras, com as desamaveis
+reflexões do poeta, nem comigo tampouco, que apenas as reproduzo pelo
+saboroso pitoresco que encontro nelas. Tais desabridos queixumes, no fim
+de contas, só em favor da mulher redundam. De ela tudo se tem dito desde
+que o mundo é mundo--todo o bem e todo o mal. As mulheres fazem-me
+lembrar as obras de arte, que só são inteiramente más quando ninguem
+fala de elas. E a verdade, a grande verdade é que as mulheres são
+obras de arte de que nós, homens, constantemente e regaladamente nos
+ocupamos.
+
+Mas se, para merecer o vosso perdão, isto não basta ainda,
+recordar-vos-hei que, enquanto Bocácio dava largas à sua misogenia de
+despeitado, o seu amigo Petrarca continuava a exalçar Laura e na memória
+de todos os corações persistia a saudade amorosissima da mulher de
+excepção que o Dante imortalisou!
+
+ * * * * *
+
+Com a Renascença o grande riso puro, vibrante, terra-a-terra, desaparece
+de todos os labios para dar logar à casquinada erudita e petulante do
+«humanismo». Os humoristas da transição--Ariosto, Rabelais, o nosso
+mestre Gil e, mais tarde, Molière, Cervantes, o pintor Brueghel-o-Velho
+e até o próprio Brantôme--são a gargalhada suprema, embora um pouco
+dolorosa, dum mundo na agonia.
+
+Oh! o _De profundis_ inegualavel!
+
+De então para cá a alegria torna-se uma palavra quasi sem sentido,
+vocábulo inerte que os dicionarios.--que são museus de palavras--guardam
+sómente para satisfação de arqueologos amadores de inutilidades. No dia
+em que o homem descobriu o sorriso e a ironia, da sua boca desertou para
+sempre o grande riso de outrora.
+
+Hoje, esbofado por cinco duros seculos de marchas forçadas para a
+Civilisação, nem mesmo esse sorriso e essa ironia lhe restam! Quando
+tenta rir, os musculos do _facies_ resistem ao desejo, cavando-lhe
+mais fundo a sua tisica _grimace_ de neurastenico arqui-civilisado; e,
+se procura ironisar, as palavras saem-lhe pela garganta com um rangido
+seco, gritante, agudissimo, de porta com gonzos pêrros.
+
+
+ [1] H. Taine, _Philosophie de l'art_, 1.º vol.
+
+ [2] CH. SEIGNOBOS--_Histoire de la Civilisation: Moyen âge et temps
+ modernes_, 5ième éd. Sôbre os monumentos de Ravêna, a Bisancio
+ italiana, consulte-se o interessante volume de Charles Diehl,
+ _Ravenne_, ed. Laurens--Paris, 1907.
+
+ [3] E. PÊCAUT E CHARLES BAUDE--_L'art_, 10ième éd.
+
+ [4] SALOMON REINACH--_Apollo_, 5ième éd.
+
+ [5] EUGÉNE VÉRON--_L'esthétique_, 1878.
+
+ [6] E. VÉRON--_Op. cit._
+
+ [7] Na impossibidade de reproduzir o _croquis_ em referencia,
+ indicamos ao leitor, que pelo assumpto se interesse, o livro já
+ citado de E. PÉCAUT e CH. BAUDE e o valioso trabalho de ELIE FAURE,
+ «_Histoire de l'art: L'art medieval_». Em qualquer de êles, bem como
+ em qualquer antologia desenvolvida de artes plásticas, o curioso
+ encontrará não só a reproducção do aludido monumento como a de
+ outros, que o ajudarão a completar a sua visão estética dêste
+ periodo.
+
+ [8] _Histoire du rire et de la caricature._
+
+ [9] ÉMILE GEBHART, no seu curioso romance _Autour d'une tiare_,
+ revive o duelo formidavel, através das predicas antagónicas do
+ asceta Egidius e do tolerante bispo Joaquim, curiosa figura de
+ pre-franciscano, que o auctor esboçou sugestionado pelo grande vulto
+ do Santo que a Idade-Media com mais fervente e duradoiro culto
+ venerou.
+
+ [10] ÉLIE FAURE, _Op. cit._
+
+ [11] ÉMILE GEBHART--_L'Italie mystique._
+
+ [12] S. Francisco de Assis é o poeta máxinio da Alegria--uma suprema
+ figura de assombro. Na aurea legenda do cristianismo não ha vulto
+ que o exceda em belêsa moral, nem lábios que tenham rido um riso
+ mais comovido e pacificador que o seu. O Snr. JAIME DE MAGALHÃES
+ LIMA resume assim um dos pontos mais salientes da clara doutrina do
+ _Poverello_: «A mágoa será pecado de rebeldia; não ha dôr que não se
+ torne benéfica, para exaltação da carne ou do espirito; a desgraça é
+ uma ilusão; a toda a sorte havemos de sorrir; porque sempre,
+ qualquer que seja, é caminho do bem. Todo o estado conduz à
+ perfeição; em todo o momento trabalhamos na construcção de um
+ edifício infindo de infinita belesa. A tristêsa será uma
+ infidelidade religiosa; quem a admitiu no coração esqueceu o Senhor
+ e os seus desígnios.» Cf. _apud «S. Francisco de Assis»_ pag. 150.
+ Com o doce amigo do cardeal Hugolino (mais tarde Gregório IX) o
+ catolicismo atinge o seu mais belo significado e um dos pontos mais
+ culminantes da sua história--só comparavel ao periodo heroico do
+ Apostolado. A quem o assumpto desperte interesse aconselho a leitura
+ dos três belos trabalhos do dinamarquês JOHANNES JOERGENSON, de uma
+ rigorosa probidade scientifica e de um encantador relevo literário:
+ _Saint François d'Assise, Pélerinages franciscains_ e _Le livre de
+ la route_ (trad. de Teodor de Wyzewa,) Perrin & Cie., Paris.
+
+ [13] «_Les Fableaux_ sont sur tons sujets: y paraissent Dieu, les
+ anges, les diables, les saints, les chevaliers, les trouvères, les
+ jongleurs (trouvères de second ordre), les bourgeois, les
+ moines--très souvent--les paysans. Les hommes de toutes classes de
+ la societé y sont moqués, quelquefois avec une extrême finesse,
+ quelquefois avec une verdeur gauloise un peu rude..... Les Fableaux
+ peuvent être considerés comme la grande oeuvre de sagesse
+ bourgeoise, de bon sens un peu sec et dur et de gauloiserie
+ divertissante du moyen àge. Les romans de renart sont du même genre,
+ mais avec plus d'ingeniosité.» _Cf._ E. FAGUET. _Petite histoire de
+ la littérature française_, pag. 6 e 7. «Papas, reis e senhores, se
+ nas canções recebiam a vassalagem da adulação, encontravam nas
+ _cantigas de mal disêr_ o mais desassombrado castigo e a mais dura
+ vingança. A avaliar pelo que dos cancioneiros nos resta, o
+ comentario político e religioso teriam assumido uma extensão
+ incrivelmente audaciosa» _Cf._ HIPPOLYTO RAPOSO, _Sentido do
+ Humanismo_, pag. 14.
+
+ [14] «A fachada de Nossa Senhora de Paris, que está longe de ser a
+ mais rica, tem sessenta e oito estátuas muito maiores que o natural
+ e a maioria de elas executadas com rara perfeição; ha mais de cem em
+ cada um dos pórticos de Nossa Senhora de Chartres e de Amiens». ED.
+ CORROVER, «_L'architecture gothique_» pag. 157.
+
+ [15] MALE, cit. pelo DR. CABANÈS, _Moeurs intimes du Passé_, 3.ième
+ série Paris.
+
+ [16] «_Philosophie de l'art_» cit., pag. 81 e seg.
+
+ [17] «_Voyage en Italie_» tômo II.
+
+ [18] E. FAURE, _op. cit._, pag. 229 e segg.
+
+ [19] CANANÉS _op. cit._
+
+ [20] E. RODOCANACHI, _Boccace: poète, conteur, moraliste, homme
+ politique_, Hachette, Paris, 1908.
+
+ [21] RODOCANACHI, _op. cit._
+
+
+
+
+PEQUENO MEMENTO
+BIBLIOGRÀFICO
+
+A. KRAFT, _Petit manuel d'architecture_, Georg & C.º, Bâle et Genève, 1899.
+
+ALFRED LENOIR, _Anthologie d'art; sculpture et peinture_, Armand Colin,
+Paris, sem data.
+
+ANDRÉ MICHEL, _Reims, Soissons, Senlis, Arras_--Mgr. BAUDRILLART,
+_Louvain_, Plon-Nourrit, Paris, 1915.
+
+ARSÈNE ALEXANDRE, _L'art du rire et de la caricature_,
+Librairies-Imprimeries réunies, Paris, sem data.
+
+A. RAGUENET, _Petits édifices historiques_, Librairies-Imprimeries
+reunis, 6 vols. Paris, várias datas.
+
+CABANÈS (DR.) _Moeurs intimes du Passé_, 3 séries (especialmente a 3.ª)
+A. Michel, Paris, sem data.
+
+CH. DIEHL, _Ravenne_, H. Laurens, Paris, sem data.
+
+CH. SEIGNOBOS, _Histoire de la Civilisation_, (2.º vol.: _Moyen âge et
+temps modernes_), 5.ª ed., Masson & Cie., Paris, 1905.
+
+EÇA DE QUEIROZ, _Notas Contemporaneas_, Lelo & Irmão, Porto, 1905.
+
+EDME ARCAMBEAU, _Les cathédrales de France_, 3 vols., A. Perche, Paris,
+1912.
+
+ED. CORROVER, _L'architecture gothique_, nova edição A. Picard & Kaan,
+Paris, sem data.
+
+ÉLIE FAURE, _Histoire de l'art_ (2.º vol.: _L'art médieval_), H. Floury.
+Paris, 1912.
+
+E. PÉCAUT ET CH. BALDE, _L'art_, 10.ª ed., Larousse, Paris, sem data.
+
+ÉMILE BAYARD, _L'art de reconnaître les styles_, Garnier Frères, Paris,
+sem data.
+
+IDEM, _Les grands Maitres de l'art_. Garnier Frères, Paris, 1909.
+
+ÉMILE FAGUET, _Petite histoire de la littérature française_, Georges
+Crès & Cie., Paris, sem data.
+
+ÉMILE GEBHART, _L'Italie mystique_, 10.ª ed., Hachette, Paris, 1906.
+
+IDEM, _Autour d' une tiare_, Georges Crès & Ce., Paris, sem data.
+
+F. RODOCANACHI, _Boccace: poète, conteur, moraliste, homme politique_,
+Hachette, Paris, 1908.
+
+EUGÈNE VÉRON, _L'esthetique_, C. Reinwald & Cie., Paris, 1878.
+
+GEORGE LAFENESTRE, _Saint François d'Assise et Savonarole, inspirateurs
+de l'art italien_, Hachette, Paris, 1911.
+
+HENRI HYMANS, _Bruxelles_, Laurens, Paris, 1910.
+
+HENRY MARTIN, _Les peintres de manuscripts et la miniature en France_,
+Laurens, Paris, sem data.
+
+H. ROUJON, _Breughel-le-vieux_, Lafitte, Paris, sem data.
+
+HYPPOLITE TAINE, _Philosophie de l'art_, 2 vols. 13.ª ed., Hachette,
+Paris, 1909.
+
+IDEM, _Voyage en Italie_, 2 vols., nova edição, Hachette, Paris, 1910.
+
+HYPPOLITO RAPOSO, _Sentido do Humanismo_, França Amado, Coimbra 1914.
+
+JACQUES DE VORAGINE, _La légende dorée_, Perrin & Cie., Paris.
+
+JAYME DE MAGALHÃES LIMA, _S. Francisco de Assis_, França Amado, Coimbra,
+1908.
+
+JOHANNES JOERGENSON, _Saint François d'Assise, sa vie et son oeuvre_,
+13.ª ed., Perrin & Cie., Paris, 1910.
+
+IDEM, _Pélerinages franciscains_, 9.ª ed., Perrin & Cie., Paris, 1912.
+
+IDEM, _Le livre de la route_, 3.ª ed., Perrin & Cie., Paris, 1912.
+
+SALOMON REINACH, _Apollo, histoire générale des arts plastiques_, 5.ª
+ed., Hachette, Paris.
+
+Enciclopedia universal ilustrada europea-americana. (Tomo XI art.:
+_Caricatura_) José Espasa é Hijos, Barcelona, sem data.
+
+Nouveau Larousse illustré. (Tomo II, art.: _Caricatura_) Larousse,
+Paris, sem data.
+
+Le vieux Paris (Guide historique, pittoresque & anecdotique) Impresso
+_chez_ Ménard et Chaufour, Paris. (Exposição Universal de 1900).
+
+
+
+
+ ACABOU DE IMPRIMIR-SE
+ ESTA BROCHURA AOS 21
+ DE DEZEMBRO DE 1915
+ NA TIPOGRAFIA DO
+ PORTO-GRÁFICO.
+
+
+
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+While we cannot and do not solicit contributions from states where we
+have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
+against accepting unsolicited donations from donors in such states who
+approach us with offers to donate.
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+International donations are gratefully accepted, but we cannot make
+any statements concerning tax treatment of donations received from
+outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff.
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+Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
+methods and addresses. Donations are accepted in a number of other
+ways including including checks, online payments and credit card
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+Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic
+works.
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+Professor Michael S. Hart was the originator of the Project Gutenberg-tm
+concept of a library of electronic works that could be freely shared
+with anyone. For thirty years, he produced and distributed Project
+Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.
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+Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
+editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
+unless a copyright notice is included. Thus, we do not necessarily
+keep eBooks in compliance with any particular paper edition.
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+Most people start at our Web site which has the main PG search facility:
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+ https://www.gutenberg.org
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+This Web site includes information about Project Gutenberg-tm,
+including how to make donations to the Project Gutenberg Literary
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