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Imprensa Nacional, 1885"> + <meta http-equiv="content-type" content="text/html; charset=iso-8859-15"> + <style type="text/css"> + body{margin-left: 10%; + margin-right: 10%; + } + .pn { + text-indent: 0em; + position: absolute; + left: 93%; + font-size: small; + text-align: right; + color: silver; + } + #corpo p.centrado{text-align: center; text-indent: 0;} + #corpo p {text-align: justify; text-indent: 1em;} + #corpo blockquote {text-align: left; text-indent: 0; margin-left: 20%;} + h1,h2,h3 {text-align: center; margin-top: 3em; margin-bottom: 2em;} + hr.dotted {border: 0; border-bottom: dotted 2px #000;} + hr {border: 0; border-bottom: solid 2px;} + .rodape { + font-size: 0.8em; + margin: 2em; + } + .ntransc { + border: solid black 1px; + background-color: #FFFFCC; + font-size: 0.8em; + margin-left: 10%; + margin-right: 10%; + } + </style> +</head> + +<body> + + +<pre> + +The Project Gutenberg EBook of Relatorio de uma viagem ás terras dos +Landins, by Joaquim Carlos Paiva de Andrada + +This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with +almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or +re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included +with this eBook or online at www.gutenberg.org + + +Title: Relatorio de uma viagem ás terras dos Landins + +Author: Joaquim Carlos Paiva de Andrada + +Release Date: October 7, 2010 [EBook #34041] + +Language: Portuguese + +Character set encoding: ISO-8859-1 + +*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK RELATORIA DE UMA VIAGEM--LANDINS *** + + + + +Produced by Pedro Saborano + + + + + +</pre> + +<p> </p> +<div class="ntransc"> +<p><b>Notas de transcrição:</b></p> + +<p>O texto aqui transcrito, é uma cópia integral do livro impresso em 1885. Foi mantida a grafia usada nessa edição, tendo sido corrigidos apenas pequenos erros tipográficos que não alteram a interpretação do texto, e que por isso não foram assinalados.</p> + +<p>No livro há algumas referências a um "esboço do paiz ao sul do Zambeze", que acompanhava a edição original. Não foi possível localizar uma cópia desse mapa para acompanhar esta edição digital.</p> +</div> + +<p> </p> + +<div style="border: 8px double #000; padding: 1em; text-align: center;"> +<p style="font-size: 1.8em;">RELATORIO</p> + +<p style="font-size: 1.1em;">DE UMA</p> + +<p style="font-size: 2em;">VIAGEM ÁS TERRAS DOS LANDINS</p> + +<p>POR</p> + +<p style="font-size: 1.3em;">JOAQUIM CARLOS PAIVA DE ANDRADA</p> + +<p style="font-size: 1.1em;">CAPITÃO DE ARTILHERIA</p> +<p> </p> +<p> </p> +<p> </p> +<p> </p> + +<p style="font-size: 1.4em;">LISBOA<br> +<small>IMPRENSA NACIONAL<br> +1885</small></p> +</div> + +<p> </p> +<p> </p> +<p> </p> +<p> </p> + +<div style="text-align: center;"> +<p style="font-size: 1.8em;">RELATORIO</p> + +<p style="font-size: 1.1em;">DE UMA</p> + +<p style="font-size: 2em;">VIAGEM ÁS TERRAS DOS LANDINS</p> + +<p>POR</p> + +<p style="font-size: 1.3em;">JOAQUIM CARLOS PAIVA DE ANDRADA</p> + +<p style="font-size: 1.1em;">CAPITÃO DE ARTILHERIA</p> +<p> </p> +<p> </p> +<p> </p> +<p> </p> + +<p style="font-size: 1.4em;">LISBOA<br> +<small>IMPRENSA NACIONAL<br> +1885</small></p> +</div> + +<p> </p> +<p> </p> +<p> </p> +<p> </p> + +<p><span class="pn">{3}</span></p> + +<div style="text-align: center;"> +<p style="font-size: 1.4em;">RELATORIO</p> + +<p>DE UMA</p> + +<p style="font-size: 1.3em;">VIAGEM ÁS TERRAS DOS LANDINS</p> + +<p style="font-size: 0.8em;">FEITA NOS</p> + +<p style="font-size: 1.1em;">MEZES DE DEZEMBRO DE 1884 E JANEIRO E FEVEREIRO DE 1885</p> +</div> + +<div id="corpo"> + +<h2>Motivos da viagem</h2> + +<p>Pela portaria expedida pela secretaria d'estado dos negocios da marinha e +ultramar, com data de 30 de junho de 1884, incumbindo-me de auxiliar a +installação do governo de Manica, e por instrucções communicadas por s. ex.ª o +director geral do ultramar, relativas ao cumprimento da mencionada portaria, +fui tambem encarregado de visitar os regulos vizinhos e de procurar estreitar +com elles relações de commercio e amisade.</p> + +<p>Ao chegar ao Zambeze com o pessoal do novo governo constou-me que se achavam +nas povoações que o sr. Manuel Antonio de Sousa, capitão mór de Manica e +Quiteve, tem formado na serra da Gorongosa, dois grupos de landins; um d'elles +com o fim de visitar o mencionado capitão mór e o outro o capitão mór de Senna, +o sr. Anselmo Ferrão, unicas pessoas que para os landins representam a +auctoridade, e os brancos ou mosungos de Senna.</p> + +<p>Logo que o pessoal vindo de Lisboa, com destino ao districto de Manica, +chegou commigo a Magagade, povoação ou logar na margem do Zambeze pertencente +ao prazo Gorongosa e portanto ao referido districto, parti para o Chire, onde +se achava nas operações da guerra do Matacanha o capitão mór de Manica, para +combinar com elle na maneira como, com a menor demora possivel, se poderiam +fazer seguir das margens do Zambeze para a saluberrima serra da Gorongosa os +europeus recemchegados; e, referindo-me aos landins, lhe disse que, apesar do +improprio da estação, em que iria encontrar os rios em cheia, e muita palha no +mato, me parecia muito conveniente aproveitar a occasião de se acharem na +Gorongosa as duas embaixadas, para ir com ellas visitar o Musila e dar +cumprimento a uma parte da minha missão,<span class="pn">{4}</span> o que, a +não se dar esta circumstancia, só mais tarde tencionava realisar.</p> + +<p>Concordando Manuel Antonio de Sousa com a provavel importancia da minha +viagem n'esta occasião, obtive delle que sustasse a sua partida para +Moçambique, onde tencionava ir logo que terminasse a guerra do Chire, e fosse +com a sua presença e extraordinaria influencia sobre os indigenas apressar a +reunião dos machileiros e carregadores em Magagade, e me acompanhasse até aqui +para resolvermos com os landins ácerca da minha desejada viagem. Os landins +consentiram logo em voltar para traz e acompanhar-me até junto do Musila. +Antes, porém, de eu partir chegou á Gorongosa a noticia de que o Musila, que os +landins tinham deixado de boa saude, morrêra quasi de repente. Esta +circumstancia difficultava a viagem, por causa das guerras e estado de agitação +que quasi sempre seguem á morte de um grande potentado africano; mas pensei +tambem que por causa d'ella poderia vir a tornar-se mais util e a proposito a +visita, e confirmei-me na primeira resolução. Poucos dias depois de começada a +viagem soube que Mudungase, um dos filhos do Musila que os landins na Gorongosa +indicavam como provavel successor, tinha effectivamente como tal sido +reconhecido, e que elle, receiando que seu irmão Mafumana, o mais guerreiro e +mais para temer dos filhos do Musila, não se conformasse com a opinião geral e +conspirasse para subir ao poder, o mandára matar, com a mulher e todos os +filhos machos, e que, no mais, tudo e todos estavam e tinham estado no mais +completo socego.</p> + +<h2>Paiz percorrido; suas condições geographicas, politicas, economicas e +militares</h2> + +<p>Junto a este relatorio está um esboço do paiz ao sul do Zambeze, desenhado +pelo secretario do governo do districto, o sr. tenente Moraes Pinto, e +coordenado com o fim de mostrar a area que me parece dever desde já ser +destinada á acção do novo governo de Manica. Indica elle a direcção geral dos +grandes rios que cortam o paiz, e os pontos a que tenho que me referir n'este +relatorio, dando algumas informações que mais se approximam da verdade do que +as que se encontram em mappas já publicados. Com mais vagar tenciono coordenar +um mappa em maior escala, no qual introduzirei as informações que tenho dos +pequenos rios affluentes dos que vão marcados, montanhas, prazos e territorios +de differentes regulos e povoações.</p> + +<h2>Hydrographia</h2> + +<p>O referido esboço mostra que o Zambeze se acha em communicação fluvial, +talvez interrompida n'algum ponto, durante a estiagem, com a costa de Sofalla. +O rio Zangue, affluente do Zambeze e limite dos prazos Caia e Inhamunho, vem de +uma lagoa, que, por banhar o<span class="pn">{5}</span> prazo Absinta, tem este +mesmo nome, e que communica por meio da serie de lagoas ou canal chamado Mucua, +com uma grande depressão de terreno, mais ou menos cheia de agua, conforme a +estação, chamada Tandora Zungue. N'esta grande lagoa desembocam varios rios +vindos da serra da Gorongosa, os quaes, durante uma parte do anno, poderão ser +empregados como meios de communicação por pequenas embarcações até quasi á base +da serra; d'esta lagoa nasce o rio Urema, navegavel todo o anno, e que +juntando-se ao rio Pungue, ou antes ao seu novo braço Mudinquidinqui, causado +por uma cheia, vae lançar as suas aguas na costa de Sofalla. O rio Urema separa +o prazo Gorongosa do prazo Cheringoma, e por isso é hoje limite entre os +districtos de Quelimane e de Manica.</p> + +<p>No itinerario seguido, a partir da serra Gorongosa para as terras dos +landins, o primeiro rio de importancia que se encontra é o Vunduse, affluente +do rio Pungue; este affluente, que tem um leito de uns 100 metros de largo, mas +não é navegavel, é limite do prazo Gorongosa e do reino do Barue. Depois do rio +Vunduse encontra-se o rio Aruangua, que desde aqui até á foz é mais conhecido +com o nome de Pungue, representando os dois nomes o mesmo rio.</p> + +<p>Na altura em que o atravessei, na minha viagem a Manica em 1882, tem o rio +Pungue muita agua, mas corre sobre um leito irregular de grandes rochas, que o +torna inteiramente improprio para a navegação; no ponto onde agora o atravessei +por duas vezes, com uma vara de 14 pés, ou mais de 4 metros, não encontrei +fundo; mas ainda n'essa altura do rio ha grandes rochas, e a agua, dizem-me, +baixa na estiagem a ponto de permittir a passagem a vau entre ellas. Um pouco, +porém, mais abaixo, logo a jusante da foz do Vunduse, as rochas desapparecem e +o rio continua até á foz sobre leito só de areia e com uma altura de agua, que +o torna em toda esta extensão navegavel por qualquer vapor fluvial ou por +vapores costeiros, como o <i>Soutiene</i> e <i>Lion</i>, que ultimamente têem +frequentado alguns pontos da provincia. Todas as informações que tenho colhido +me fazem suppor que na foz do Pungue, e até em frente do logar chamado Bangue, +no prazo Cheringoma, ha um porto capaz de dar abrigo a navios de grande +tonelagem.</p> + +<p>Passado o Pungue é o Revue o primeiro rio importante que se encontra. É este +affluente do rio Busi, o rio que passa junto á antiga villa de Manica, a tiro +de pistola da arruinada fortaleza. No ponto em que o atravessei tem o leito do +rio uns 100 metros de largura, e, na viagem de ida, com uma vara de 12 pés, ou +mais que 3<sup>m</sup>,5, não encontrei fundo; ouvi, porém, pouco a jusante, o +ruido de uma grande quéda de agua em rocha, e sei que o rio não póde ser +navegavel até esta altura; mas disseram-me que o era em toda a epocha do anno, +pelo menos por pequenas embarcações, como as que se empregam no Zambeze, até +junto de umas rochas chamadas <i>Inharumirua</i>, que ficam a menos de duas +horas de caminho a jusante d'este ponto. Para baixo nem o Revue nem o Busi +apresentam embaraço algum á navegação, a partir da costa.</p> + +<p>Ao Revue seguem-se, na direcção que eu percorria, successivamente o Mussapa +e o Mufomose. Atravessei os dois rios seguidamente<span class="pn">{6}</span> +na altura da confluencia do primeiro no segundo. O Mussapa tem uns 30 metros de +largura de agua e o Mufomose uns 60 metros; quando os passei, na ida, tinha o +primeiro 5 pés de agua e o segundo 10 pés. Na viagem da volta a agua tinha +baixado, a ponto de poderem alguns dos carregadores atravessar a vau, embora +com difficuldade; mas disseram-me que conservam os dois rios normalmente a +altura de agua a que tinham chegado, sendo o Mufomose sempre navegavel por +almandias até um ponto a montante d'este, onde me disseram se encontra a +primeira obstrucção causada por umas rochas chamadas Papuquenchofo.</p> + +<p>O Mufomose é affluente do Lusite, rio que em seguida atravessei, com uns 50 +metros de largura e 10 pés de profundidade, na viagem de ida, reduzidos a 5 +pés, na viagem de volta. Este rio Lusite é navegavel até muito a montante do +ponto em que eu o atravessei, e constitue, combinado com o Busi, uma importante +via de communicação até uma grande distancia no interior. Infelizmente esta +grande via fluvial Busi Lusite, está, como a via Busi (Lusite) Mufomose, +interrompida em um ponto. O arco natural sobre o rio, marcado na carta do sr. +marquez de Sá sobre o Busi, e que tem o nome de Inhambimbe, está situado +exactamente na confluencia do Lusite com o Busi, atravez dos dois rios, +cortando a continuidade das communicações. Actualmente, na pouca navegação +local entre as povoações que estão a montante e a jusante d'este ponto, +procede-se como se faz no Quaqua, na altura de Mopeia, para todo o movimento do +Zambeze; cargas e embarcações são passadas por terra até vencer o obstaculo. So +o arco fosse isolado, visto como ha effectivamente um arco, debaixo do qual +corre a agua, mas que não dá passagem a embarcações, alguma dynamite remediaria +logo tudo; mas é provavel que haja mais algumas rochas no proprio leito dos +dois rios. Como porém, em todo o caso, é um phenomeno isolado e pouco extenso +no centro de uma planicie, sem pedras em que os dois rios por ali correm, muito +facil seria abrir um ou dois pequenos canaes lateraes na altura d'esta +obstrucção. Não se tratará de certo por algum tempo de resolver esta +questão.</p> + +<p>O que me parece importante que fique bem sabido é que o primeiro obstaculo á +navegação no Busi só se encontra no arco Inhandimbe; que a foz do Revue fica a +jusante d'este ponto e que os dois rios são navegaveis até ás rochas ou rapidos +de Inharumirue, que se encontram no segundo, e que distam apenas, como direi, +um dia de viagem do territorio e minas do Bandire, onde, pela via a que me +estou referindo, poderá chegar com facilidade todo o material pesado necessario +para a sua lavra.</p> + +<p>Passado o Lusite atravessei o proprio Busi, mas n'uma altura em que elle +nunca será empregado como via de communicação. Não tenho a mencionar n'este +trabalho os mais rios que atravessei, valiosissimos para irrigação, mas inuteis +como meios de communicação.<span class="pn">{7}</span></p> + +<h2>Condições geraes do paiz</h2> + +<h3>Entre o Zambeze e o Aruangua ou Pungue</h3> + +<p>Esta região contém antigos prazos da corôa e o reino do Barue.</p> + +<p>Durante muito tempo os prazos da corôa da margem direita do Zambeze, a +jusante da serra da Lupata, todos sujeitos á jurisdicção de Senna, eram +invadidos annualmente pelos landins. Estes levantavam pesados tributos, não só +nos prazos, mas na propria villa de Senna, onde ao principio, se não havia +coragem e meios sufficientes para resistir ao pagamento d'estes tributos, havia +a riqueza necessaria para a elles satisfazer. Os landins, com que agora viajei, +disseram-me que um antigo modo de os tributar consistia em abrir um furo no +alto da cobertura conica de palhotas circulares, e obrigar a deitar por esta +abertura fazendas até que a palhota se recusasse a receber mais. Custa a +comprehender como tal exagero podia realisar-se. Por estes motivos os prazos +invadidos foram successivamente abandonados e a villa de Senna chegou ao +miseravel estado de que não mais se levantará.</p> + +<p>Cabe ao sr. major Braga, actual governador do districto de Tete, o merecido +elogio de, entre muitos serviços que fez como commandante militar de Senna, ter +sido levado pelo seu caracter valente e decidido a auxiliar quanto podia os +intentos do cidadão Manuel Antonio de Sousa, natural de Goa, negociante +sertanejo, sobrinho de um antigo residente no districto, que pretendia repellir +pela força as correrias dos landins aos prazos de Senna. Manuel Antonio de +Sousa, chamado pelos cafres <i>Gouveia</i>, foi nomeado capitão mór de Manica e +Quiteve, e veiu assentar a sua casa na serra da Gorongosa, em uma posição +naturalmente fortificada por tal modo, que um homem resolvido a defender-se não +tinha mais a temer n'esta base de operações os ataques dos landins. A serra da +Gorongosa estava absolutamente deserta quando Manuel Antonio aqui chegou com os +pretos que reuniu a si; nas mesmas condições quasi se achava todo o prazo +d'este nome. Foram duros os primeiros tempos em que toda esta gente tinha que +ir buscar, com os meios que Manuel Antonio tinha obtido e ia obtendo com o seu +commercio, mantimento aos prazos limitrophes, todos muito afastados d'este +ponto, ao reino do Barue e ainda á Maganja, no outro lado do Zambeze, quando +houve fome em toda a margem direita do rio. Hoje muitos milhares de pessoas +habitam em centenas de povoações a serra e os territorios que a rodeiam, tanto +na Gorongosa como no reino do Barue. Desde que Manuel Antonio para aqui veiu +como barreira, todos os prazos cobertos pelo da Gorongosa começaram a gosar de +não interrompido socego e a verem desenvolver-se n'elles a cultura dos generos +de exportação, com proveito dos indigenas, até ao presente os unicos +agricultores, bem como dos que com elle negoceiam e em geral do paiz.</p> + +<p>Se a villa de Senna se não resentiu da mudança de circumstancias, a não ser +pelo descanso dos que n'ella continuam a vegetar, é porque se acha em situação +e condições taes, que a obrigam forçosamente<span class="pn">{8}</span> a +desapparecer. De ha muito que pela variação do leito do rio deixou Senna de ser +um bom porto de abordagem para os que navegam no Zambeze, qualidade que +antigamente motivára a creação e grandeza d'esta villa, apesar da bem merecida +fama de insalubridade que sempre teve.</p> + +<p>O actual talweg do rio correrá a mais do 2 kilometros da villa, e na +estiagem é necessario atravessar a descoberto um ardente areal d'esta largura +para chegar da margem acostavel ás primeiras casas. O areal porém não é plano, +e quando não está todo descoberto na estiagem ou coberto pelas grandes cheias, +periodo em que as aguas do rio voltam a correr junto ás muralhas da velha praça +de S. Marçal, formam-se n'esta zona de 2 kilometros varios <i>mucurros</i>, +cujas aguas deixam muitas vezes de correr, e que não só augmentam a +insalubridade da villa pelas suas emanações, mas tornam na maior parte do anno +a villa do Senna um dos pontos da margem do Zambeze de mais difficil +accesso.</p> + +<p>N'este trabalho só desejo dizer que sou de opinião que a villa de Senna, +como tem sido proposto, deve sair da margem direita do rio, passando com todo o +commando militar d'este nome para a outra margem; pois não devo demorar-me a +mostrar as grandes vantagens que este commando militar, pertencente ao +districto de Quelimane, quando tiver a sua séde em ponto escolhido, ou nas +alturas em frente de Senna, onde as casas Regís e Hollandeza têem já grandes +edificios, ou um pouco mais sobre o Zioé Zioé, ha de ter no desenvolvimento da +nossa acção na valiosissima região limitada pela margem direita do Chire, pelo +Zioé Zioé e pela margem esquerda do Zambeze até á Lupata no ponto onde vier a +terminar o districto de Tete.</p> + +<p>Comquanto o prazo Gorongosa siga ao longo do Aruangua até avistar o mar, não +chega elle até á costa, porque a confluencia do Urema na bacia que supponho ser +um bom porto de mar, traz com a margem esquerda d'este rio uma porção do grande +prazo Cheringoma a interpôr-se entre a Gorongosa e o Oceano. É nesta altura que +os landins que se desacostumaram de pisar como conquistadores o prazo +Gorongosa, passam hoje para os terrenos ao norte do Pungue atravessando o +deserto prazo Cheringoma (onde julgo que tambem deixam algum destacamento) +para, graças ao terror que inspira o seu nome e o apparecimento de <i>um só</i> +de entre elles entre os pontos da foz do Zambeze, irem sugar alguns d'estes +pretos e mesmo mosungos que estejam nos prazos marginaes a jusante do +Gorongosa, isto é, os prazos Caia, Inhamunho, Chupanga, Luabo e Melambe.</p> + +<p>Quando em 1881 vim pela segunda vez á Zambezia e fiz o conhecimento do +Manuel Antonio de Sousa, disse-me elle que se o governo do districto de +Quelimane lhe desse de arrendamento os prazos de Chupanga e Cheringoma, pelo +preço rasoavel que então quizesse marcar, mas com a condição de que os não +poria em praça durante nove annos, tempo por que andavam arrendados os prazos +do districto de Tete, a fim de evitar que passados tres ou quatro annos de +despezas, trabalhos e perigos, outros viessem concorrer em igualdade de +condições para o goso dos resultados obtidos, elle, assim como tinha fechado +aos landins a villa de Senna e os prazos envolvidos pelo da Gorongosa, se<span +class="pn">{9}</span> compromettia a pôr no prazo Cheringoma uma barreira que +evitasse para sempre a passagem dos landins para os prazos Caia, Inhamunho, +Luabo e Melambe: disse-me mais que já tinha proposto ao arrendatario do +Cheringoma que se oppozesse aos landins, mas que este apenas se contentava em +aproveitar o prazo para mandar caçar alguns elephantes ou apanhar borracha que +n'elle abunda, pagando successivamente ao Musila os tributos de fazenda que a +este fossem contentando. Não apreciei então devidamente o grande poder que a +rara intelligencia ou perspicácia especial, a actividade, a coragem, o amor do +trabalho, a generosidade e a acção absoluta que estas qualidades exerciam sobre +milhares de indigenas davam a Manuel Antonio, nem o grande valor que para o +paiz tinha a sua proposta, e não a communiquei a pessoa alguma.</p> + +<p>No meu diario, 20 de dezembro de 1884, encontro umas palavras que escrevi ao +chegar á margem do rio Pungue, quando me via em frente de um poderoso obstaculo +que exercitos munidos com bons trens de pontes não deixariam de respeitar. +Espero fazer bem transcrevendo-os: «O terreno na ultima parte percorrida é +<i>park-like</i> como todo o que precede, mas ainda tem melhores pastagens e +melhores terras para agricultura,—terras soltas que serviriam para +mendobim—grés e muitos filões de quartzo, nas margens granito. Póde-se +considerar verdadeiramente sujeita á soberania portugueza, ou a Manuel Antonio, +com relação ao Barue, toda a vasta area comprehendida entre o Zambeze e o +Aruangua. Vejo que todos os que me rodeiam assim o reconhecem; assim como +consideram como terras de landins as dos regulos da margem direita do rio. É +necessario e urgente occupar aqui um ponto na margem esquerda do Aruangua. +Estou certo, agora, que as nossas relações com os landins vão ser muito boas, e +espero alcançar alguma cousa para o sul do Aruangua; só um acto de hostilidade +declarada é que os poderia trazer em massa ao que elles consideram nossas +terras, apesar de costumados a fazer com meia duzia de homens o que n'ellas +fazem; mas a este acto <i>nas circumstancias em que estamos</i> podiamos bem +resistir. Assim, por um modo ou por outro, Cheringoma, Luabo<sup><a href="#nota1" name="m_nota1">[1]</a></sup>, +Melambe, Chupanga, Inhamunho e Caia ficarão de futuro abertos com segurança aos +nossos pretos e em breve se acharão habitados.»</p> + +<p>Esta riquissima região proximo da costa, que por si só, quando aproveitada, +póde render bem mais do que toda a actual provincia de Moçambique, acha-se +deserta e de todo desaproveitada, só pelo terror que causa o nome dos landins e +a chegada annual de uns vinte ou trinta pretos adornados com pelles e pennas, e +armados com um escudo e duas pequenas zagaias. Em dias, que é de esperar não +estarão longe, custará a acreditar que um tão aviltante estado de cousas se +possa ter continuado por tantos annos n'uma tal localidade.</p> + +<p>Alem dos prazos da corôa de que tenho fallado, ha mais, entre o rio<span +class="pn">{10}</span> Zambeze e o Quelimane para leste do Aruenha, uns muito +pequenos prazos juntos ao prazo Gorongosa ou mesmo n'elle encravados, +arrendados por Manuel Antonio; alguns pequenos prazos nas proximidades de Senna +arrendados por diversos, o muito povoado prazo Chemba, arrendado por Manuel +Antonio e d'onde elle tirou mais de dois mil cypaes que levou á guerra do +Matacanha (pois para esta guerra não teve que tocar na gente da Gorongosa); o +prazo Amoesa, o prazo Chiramba marginal, como o Chemba o é, do Zambeze, tambem +arrendado por Manuel Antonio, mas parte invadido por gentes do Bonga, o grande +prazo Tambára, de ha muito sertão abandonado, e os prazos todos occupados pela +gente do Bonga, incluindo o prazo Masangano.</p> + +<p>Em toda a valiosa região de que estou fallando, comprehendida entre o +Zambeze e o Aruangua encoutrâmos apenas dois obstaculos ao seguro +desenvolvimento dos seus grandes recursos naturaes. O primeiro, pouco +importante, é o Bonga; o segundo são os landins. Ha dois unicos homens, +dedicados ao paiz, que têem poder sobre os indigenas que habitam a maior parte +das terras da antiga capitania dos Rios de Senna. São os dois homens que com +toda a probabilidade salvaram ha poucos mezes a soberania portugueza na +Zambezia. São Manuel Antonio de Sousa e Anselmo Ferrão. Este, comquanto capitão +mór de Senna, habita hoje a margem esquerda do Zambeze e tem d'este lado um +vasto campo onde empregar utilmente a sua acção. Fica Manuel Antonio de Sousa +<i>e é só</i> contando com o auxilio d'este capitão mór que praticamente se +poderão remover, <i>dentro da area</i> de que trato, estes dois obstaculos. O +centro de acção, a base de operação de Manuel Antonio de Sousa, é a serra da +Gorongosa, e é na serra da Gorongosa que se acha provisoriamente a séde do +governo de Manica; por este motivo e pelo mais que fica dito parece natural e +conveniente que os territorios desde o ponto de resistencia á passagem dos +landins no prazo Cheringoma, até á aringa do Bonga na foz do Aruenha façam +parte do districto de Manica.</p> + +<p>Assim, parece que o limite norte a recommendar para o districto seria toda a +margem esquerda do Zambeze desde a costa até á foz do rio Aruenha.</p> + +<p>O conhecimento porém, que hoje temos da importancia do porto do +Inhamissengo, os resultados que se prevêem da fundação da villa Mesquita, +proposta pelo sr. capitão-tenente Augusto de Castilho, fazem esperar um tal +desenvolvimento á importação e exportação directas de todo o commercio da +Zambezia, a realisar de futuro por esta via e porto, que dar toda a margem +direita do Zambeze, dar a villa Mesquita e o porto do Inhamissengo ao districto +de Manica causaria um grande abalo no systema financeiro de Quelimane. Evita-se +de todo este inconveniente, conservando no districto de Quelimane os dois +prazos Luabo e Melambe, que têem parte dos seus terrenos no delta do rio, +passando agora para Manica por inteiro os restantes prazos, ficando para mais +tarde a rectificação da fronteira dos dois districtos desde a margem do Zambeze +até á costa, se se encontrar uma linha de separação mais natural do que o +poderão ser as para nós desconhecidas confrontações dos prazos Luabo e Melambe +com os prazos Chupanga e Cheringoma.<span class="pn">{11}</span></p> + +<p>D'aqui resulta que o commando militar já creado na Chupanga ficaria +pertencendo ao governo de Manica, o que teria a vantagem de fazer abrir caminho +da séde de commando, ou forte que se fez ou está fazendo no antigo Luane do +Prazo (a mais solida casa da Zambezia) para villa Gouveia, devassando e +rasgando um paiz compacto, cheio de recursos, hoje deserto, e que não tardaria +a ir sendo habitado ao longo da linha de communicação.</p> + +<p>O commandante militar de Chupanga, dependendo do governo de Manica, havia de +vir á séde do seu governo e atravessar a area do seu commando; dependendo de +Quelimane, fará geralmente, como geralmente fazem os commandantes militares de +Senna, que chegam ao seu commando vindo de Quelimane, navegando pelo Zambeze +acima, desembarcando proximo de casa, e não saíndo mais da villa de Senna senão +para voltar a Quelimane.</p> + +<p>A adopção dos limites, que proponho, imporia a realisação previa ou +simultanea da, tantas vezes proposta, mudança do commando militar de Senna, e +da villa d'este nome para a margem fronteira; pois seria absolutamente +impossivel, a querer trabalhar-se para resultados praticos, o introduzir desde +já no nascente districto de Manica, a aperfeiçoada legislação, mais perfeita +que a de qualquer colonia de qualquer outro paiz, que vigora nos restantes +districtos da provincia, e portanto na actual villa de Senna.</p> + +<p>Provisoriamente a praça, e só a praça de S. Marçal, deveria ficar sob as +ordens do commandante militar de Senna, que n'ella poria um fiel e os homens +necessarios para a arrecadação do material que n'ella se quizesse guardar.</p> + +<p>Não é possivel, porém, conservar como occupadas enormes areas com um numero +de auctoridades como o que até ao presente temos tido na provincia de +Moçambique; e por isso o commando militar de Senna, passando para a margem +esquerda do rio para ficar no districto de Quelimane, não deve deixar de ser +substituido por um outro, com a séde não longe da actual villa de Senna, mas em +logar mais recommendavel pela sua salubridade e facil acostamento. Parece-me +que facilmente satisfará a estas condições algum ponto escolhido no muito +povoado prazo Chemba, pouco a montante da foz do rio Musingase.</p> + +<p>O terreno, que eu bem conheço, é elevado e saudavel. Ha n'elle formosissimas +arvores de grande sombra, nas quaes se deveria pensar ao escolher o logar para +as habitações e limitar os jardins que as rodeiem.</p> + +<p>O novo commando militar poderia receber o nome de commando militar de +Chemba.</p> + +<p>Chemba seria uma excellente testa de estrada para o centro do Barue e para +os importantissimos campos de oiro do Alto Aruenha e dos seus affluentes, +estrada que podia ser para nós muito util, quer nós mesmos vamos occupar estes +campos, quer deixemos tranquillamente os estrangeiros d'elles se apoderarem, +pois uma das soluções em breve terá logar.</p> + +<p>Os campos de oiro a que me refiro, e que ficam ao sul de Tete, estão mais +proximos desta villa que de Senna, mas o caminho para elles partindo de Tete +passa por serras muito cansosas de atravessar,<span class="pn">{12}</span> +parte das quaes eu conheço desde que fui ao Rio Mazoe; e por isso quando os +<i>Campos de Oiro do Imperador Guilherme</i> e outras minas vizinhas eram +trabalhadas pelos nossos antepassados, era de Senna que elles partiam para +ellas.</p> + +<p>O caminho de Chemba torneará a serra da Lupata e todas as que rodeiam Tete, +seguindo como o de Senna por terrenos planos até ás origens dos rios, e tem +sobre este decidida vantagem por causa das condições relativas em que se acham +as duas testas de estrada, e que eu indiquei.</p> + +<h3>Reino do Barue</h3> + +<p>Com os prasos da corôa da antiga capitania de Rios de Senna, e ainda nos +terrenos ao norte do Aruangua, de que me estou occupando, confinam os +extensissimos territorios do reino do Barue, seguindo-se-lhes para sudoeste e +oeste, e ao sul do districto de Tete, territorios de outros regulos, que se +consideravam vassallos do Macombe, o fallecido rei do Barue; territorios +valiosissimos pelas incontestaveis riquezas em minas de oiro, que em si +contêem.</p> + +<p>Não me é possivel indicar os contornos do reino do Barue; só direi que a +villa Gouveia está na margem direita do rio Inhandue, e que as colinas +fronteiras na margem esquerda pertencem ao Barue; que para vir de Senna ou de +Chemba pelo caminho mais curto para este ponto se atravessa o Inhandue quasi em +frente da villa, e portanto se passa pelo Barue; e que nos dois itinerarios, +que tenho seguido para ir ha tres annos a Manica e agora ao Gunguneana, passei +o rio Vunduse, que sei ser, até á sua confluencia no Aruangua, limite do praso +Gorongosa e do reino do Barue.</p> + +<p>Os reis do Barue eram antigamente coroados por uma auctoridade portugueza, +mas nunca auctoridade portugueza exerceu jurisdicção sobre este reino. Mesmo +durante a grande prosperidade da nossa feira e villa de Manica, os negociantes +que transitavam entre esta villa e a de Senna, e eram obrigados a atravessar o +reino do Barue, soffriam vexames dos baruistas, aos quaes tinham sempre que +pagar algum tributo.</p> + +<p>Nos tempos do fallecido Macombe, Senna recebeu muitas embaixadas insolentes, +foi muitas vezes obrigada vergonhosamente a responder a ellas, mandando grandes +tributos em fazenda, e, satisfazendo favoravelmente á exigencia de que mandasse +um certo numero de pretos, com suas familias, para escravos do Macombe.</p> + +<p>Manuel Antonio do Sousa, a quem a villa de Senna deve o ter cessado de pagar +tributo aos landins, depois de ter antigamente negociado no Barue e trazido de +lá uma das filhas do rei, com quem teve relações, das quaes resultaram os dois +rapazes, que por conta do governo estão sendo educados em Lisboa na escola +academica, tendo sido victima de varios roubos e vexames, que a elle e a outros +negociantes faziam os baruistas, começou, como particular, só por si e com +despeza unicamente sua, uma lucta com o Macombe, que durou muitos annos, e +terminou ha pouco mais de um anno com o tomar elle<span class="pn">{13}</span> +posse do reino do Barue e ser reconhecido como seu chefe ou rei, e seu filho, +neto do Macombe, como seu successor.</p> + +<hr style="width: 15%;"> + +<p>A região entre o Zambeze e o Aruangua, comprehendendo os antigos prasos e o +reino do Barue, constitue só por si uma importantissima colonia, com todos os +elementos necessarios para ter um rapido desenvolvimento.</p> + +<p>Os prazos Cheringoma e Chupanga são riquissimos em madeira e borracha, e +tanto estes prasos como as terras marginaes do Zambeze se prestam a toda a +cultura tropical.</p> + +<p>A serra da Gorongosa, onde a vinha brava rebenta por toda a parte, pede o +immediato ensaio da cultura da vinha. Se os resultados forem, como parece +deverem ser, ter-se-ha introduzido, só por este ramo, uma grande fonte de +conforto, de commercio e de riqueza na provincia.</p> + +<p>No Barue e na Gorongosa, onde ha uma quantidade prodigiosa de excellente +agua, facilmente se encontram terrenos, onde o milho cresce e produz por modo +que na Europa não poderá facilmente acreditar-se, onde a cultura de todos os +cereaes deveria ser ensaiada e a do trigo provavelmente poderia ser +emprehendida em larga escala.</p> + +<p>Finalmente é nas terras de um pequeno regulo, que sempre se considerou +vassallo do Barue, terras que, occupado este reino, viriam a constituir novos +commandos militares do oeste do districto de Manica, que se encontram visiveis +provas dos extensos trabalhos mineiros feitos pelos antigos portuguezes nos +campos de oiro, que Mauch visitou e achou tão importantes, que os designou com +o nome de Campos de Oiro do Imperador Guilherme, chamando Bismarck e Moltke ás +duas serras entre as quaes elles se acham situados. Dahi para o norte e para o +oeste até ao Zambeze continua a extensa região aurifera, a que o proprio Mauch +se refere, e que os nossos trabalharam em varios pontos nas minas de Tete e do +Zumbo.</p> + +<p>Para sueste, diz Mauch, <i>a serra Moltke +commanda o jazigo aurifero de Manica, conhecido já de ha seculos, e certo é que +os tres jazigos auriferos</i> (do Mogoe, dos Campos do Imperador Guilherme e +da Manica) <i>vão rivalisar</i>. </p> + +<p>Os Campos de Oiro do Imperador Guilherme estão comprehendidos na area da +concessão, que me foi feita em 1878. Nunca os poude visitar.</p> + +<p>Portugal está ainda hoje em condições de se apoderar de grandes centros de +riqueza, de prosperidade, de força, de prestigio, empregando limitadissimos +esforços; d'estes centros poderá depois expandir-se do que é seu para o que não +é seu, sem que estrangeiros tenham a intervir.</p> + +<p>Deixar porém attingir esses centros de vida e pretender depois fechar-lhe as +communicações é cousa que hoje se tornou absolutamente impossivel.</p> + +<p>Direi ainda que n'esta admiravel provincia, comprehendida entre o Zambeze e +o Aruangua, onde milhões de homens poderiam empregar-se em trabalhos de +agricultura, trabalhos de minas e em todos os ramos da actividade humana, onde +ha regiões tão sadias e proprias<span class="pn">{14}</span> para o +desenvolvimento da raça branca, como as mais sadias da Europa, onde temos a +assegurar e desenvolver a nossa occupação, não haverá alem dos empregados do +governo umas seis pessoas brancas!</p> + +<p>Tudo convida a colonisar, com portuguezes e portuguezas misturados com +hespanhoes, este paiz. Em parte alguma das nossas possessões poderão colonos +encontrar mais auxilio para a sua installação, maior numero de braços indigenas +promptos a empregar em seu serviço por uma modestissima remuneração. Com +segurança poder-se-ia mandar já da Europa uns dez ou vinte colonos nas +condições em que até ao presente o governo tem mandado colonos para a Africa, +porque com os poucos recursos disponiveis do governo do districto e outros +recursos locaes, estes homens poderão receber o necessario amparo até que o +producto do seu trabalho os possa sustentar e lhe dê a independencia. Com não +menos segurança de resultado favoravel poderia o governo mandar em viagens +successivas, e com sufficiente aviso previo, alguns centenares de colonos, se, +por meio de uma combinação qualquer, lhes assegurasse, ou por intervenção de +uma empreza particular, por adiantamentos a serem mais tarde reembolsados pelos +colonos, meios efficazes de trabalho, em terrenos, ferramentas e braços dos +indigenas e sustentação durante pelo menos o espaço de dois annos.</p> + +<p>Não é porém nas margens do Zambeze que convem colonisar com gente branca, e +o trazer colonos de Quelimane até á serra da Gorongosa, pelo Zambeze, emquanto +não houver estradas e meios de transportes convenientes tanto fluviaes como +terrestres, é despendioso e não póde deixar de offerecer perigo. Assim, se não +houver a possibilidade, ou empregando o pequeno vapor que a empreza de +navegação é obrigada a ter sempre em serviço na provincia, ou por qualquer +outro meio, de fazer desembarcar os colonos na margem do Aruangua ou do Urema, +para onde desde já o governo do districto trata de abrir bons caminhos, a +partir da villa Gouveia, será preferivel não mandar colono algum.</p> + + +<h3>Entre o Aruangua e o Revue</h3> + +<p>Passando o Aruangua ou Pungue para a margem direita entra-se no Quiteve ou +Utévé, como se diz ahi. O paiz que do Aruangua ao Revue percorri é encantador; +não é plano, nem muito montanhoso; geralmente com arvores nem muito grandes, +nem muitos densas, tem de espaço a espaço pequenos bosques muito fechados ao +lado dos quaes se passa. Por toda a parte campinas admiraveis para a creação de +gado, e excellentes terrenos para agricultura.</p> + +<p>Está o Quiteve dividido por differentes regulos todos sujeitos aos landins. +Estes não habitam parmanentemente o paiz, não têem ahi povoações suas, mas por +um ou outro motivo percorrem-o constantemente, sustentando-se á custa das +povoações indigenas. Qualquer que seja o numero de landins que chegue a uma +povoação ou grupo de povoações, por mais miseraveis e pequenas que ellas sejam, +é necessario que appareça farinha para fazer massa e cabritos ou gallinhas para +<i>quissâo</i> para todos. Isto sempre e sempre. Mais ainda, se os landins têem +cargas,<span class="pn">{15}</span> ao chegar ao Quiteve nunca mais pegam +n'ellas, e são os habitantes que as levam de uma para outra povoação.</p> + +<p>Qualquer preto landim, por mais baixa que seja a sua categoria entre os +seus, procede assim com os povos de Quiteve. Se o indigena por troca ou por +presente possue um panno ou um lenço, o landim que passa junto a elle não deixa +de lh'o levar. Todas as raparigas de regular apparencia são obrigadas a viajar +para o sul para serem lá mães de landins nas suas terras.</p> + +<p>Comprehende-se assim como a degeneração da raça dos quitevistas progride +rapidamente e o estado de infelicidade e de miseria de todas as povoações, +apesar dos verdejantes campos e das extraordinariamente bellas varzeas de milho +e outros cereaes de que as vi rodeadas.</p> + +<p>Alem d'estas rapinas individuaes feitas pelos landins que acontece passarem, +ha-as feitas por outros que vem, como os dos destacamentos que tributam os +nossos prazos da margem do Zambeze, encarregados de receber dos regulos +tributos de fazenda, que apesar de pequenos não sei como ainda possam continuar +a ser pagos.</p> + +<p>Os regulos não se distinguem facilmente dos seus subditos. Em certas terras +é praxe antiga que o regulo seja mulher, que se diz não ser casada. Muitos +d'estes regulos só conservam o nome por tradição; não penso que tenham a menor +acção sobre as povoações que se acham espalhadas nas vastas areas que dizem +pertencer-lhes.</p> + +<p>Assim o regulo mulher Mahongo, cujo nome se vê nas antigas cartas, e deve +ter tido grande prestigio, possue ainda nominalmente extensas terras. Passei +por muitas povoações relativamente consideraveis, de grandes de Mahongo. A +povoação da propria Mahongo ficava-me no caminho; naturalmente suppunha +encontrar centro mais importante do que as povoações que tinha visto, e foi com +grande estranheza que um dia, chegando a uma meia duzia de miseraveis palhotas +espalhadas n'um vasto campo soube que a palhota isolada junto á qual, por +acaso, eu me achava era a do regulo, e que a velhinha quasi nua que estava +sentada á porta era a propria Mahongo.</p> + +<p>O regulo mais importante do Quiteve, entre o Pungue e o Revue é a rainha +Gomani. Comquanto passasse por muitas povoações dos seus grandes e não longe da +sua propria povoação e lhe mandasse alguns presentes, não me desviei do caminho +que seguia para a ir ver, e não a posso comparar com a Mahongo.</p> + +<p>Os regulos do Quiteve que limitam com o Aruangua a partir da foz do rio, +são: o regulo Pica, nas terras do qual estão as minas de oiro que dizem muito +ricas, de Inhaoxo.</p> + +<p>A região das minas está hoje abandonada e é de muito facil accesso, +podendo-se chegar ás minas com pequena marcha por terra, se se aproveita o rio +Pungue e o seu affluente rio Muda.</p> + +<p>Todo o baixo Quiteve, ou região do Quiteve junto á costa é uma perfeita +planicie á excepção do logar onde se levanta a serra isolada da Chiruvo, onde +estão as minas de Inhaoxo e de onde sáe o rio Muda, que dizem navegavel até +quasi á base da serra.</p> + +<p>Por informações mais recentes parece que Inhaoxo é uma pequena serra +contigua á de Chiruvo, mas d'ella separada justamente pelo rio Muda que vem de +mais longe no Quiteve.<span class="pn">{16}</span></p> + +<p>N'estas condições comprehende-se quanto nos seria facil a occupação da +serra Chirua e o dar absoluta segurança a um sitio que dizem conter riquezas +importantes, que é elevado e deve ser sadio, e onde se estaria tão proximo da +costa, e com ella em tão facil communicação. A occupação de Inhaoxo teria +ainda uma grande importancia para a execução de qualquer projecto tendente á +reoccupação de algumas terras, ou antigos prazos para o districto de +Sofalla.</p> + +<p>A montante do regulo Pica, seguo-se o regulo Guenjere, a montante de +Guenjere o regulo Chaurumba, a montante do Chaurumba o regulo Ganda. As terras +d'este confinam, junto ao Aruangua, com as do do reino de Manica.</p> + +<p>Foi com grande surpreza que fui vendo que o extraordinario poder de Manuel +Antonio se estende ao Quiteve. O regulo Pica propõe-lhe fazer entrega de todas +as suas terras que vão do Aruangua até ao Busi, e, por pouco que o governo +podesse fazer, a occupação da Chiruvo e terras vizinhas em breve estaria +realisada.</p> + +<p>O regulo Guenjere abandonou ha pouco as suas terras, e passou com a sua +gente para a Gorongosa.</p> + +<p>O regulo Chaurumba, rapaz forte e de aspecto valente, parece ser um homem +inteiramente dedicado a Manuel Antonio, e ás escondidas dos landins tem muitas +armas por este fornecidas. O regulo Ganda actual é que não está bem com Manuel +Antonio. Ha não sei bem que desavenças de familias n'estas terras; o que sei é +que Manuel Antonio já o bateu e que Ganda, cujas terras muito extensas se +estendem até ao Revue, abandonou as proximidades do Aruangua e acha-se no alto +das grandes montanhas que n'essa longitude já existem entre os dois rios. Dois +filhos ou sobrinhos de Ganda estão em Gorongosa, talvez sendo preparados para +mais tarde substituir o pae ou o tio.</p> + +<p>Os landins servem-se da gente do Quiteve como de cousa sua, e é claro que no +caso, pouco provavel, de um ataque feito por elles ás terras da margem esquerda +do Aruangua, elles mandariam na sua frente com a zagaia nos rins, como +primeiras tropas landinas toda a gente que encontrassem no Quiteve e não +tivesse tido tempo de fugir como amiga para este lado.</p> + +<p>Todas estas circumstancias, e as relações que em substituição de Manuel +Antonio, convem que as auctoridades do governo de Manica tenham com os regulos +do Quiteve, mostram a necessidade de fazer comprehender legal, embora +theoricamente, no districto de Manica todo o territorio comprehendido entre o +Pungue e o Revue.</p> + +<p>Disse que o reino de Manica limita com as terras do regulo Ganda, junto ás +margens do Aruangua. Junto ao Aruangua o reino de Manica póde considerar-se +como deserto, e facil será chegar com o rei a um accordo para nos ceder esta +porção do seu territorio que elle não occupa.</p> + +<p>O reino de Manica estende-se muito para o sul e é para o sul do Revue e já +na margem de um afluente do rio Save que está a aringa do Mutaça, rei de +Manica.</p> + +<p>O antigo territorio portuguez de Manica está no valle do Revue, e a velha +villa, junto á margem esquerda d'este rio, e portanto comprehendido entre elle +e o Aruangua.<span class="pn">{17}</span></p> + +<p>Na viagem que ha tres annos fiz a esta villa segui o itinerario marcado no +esboço junto, atravessando da bacia do Aruangua para a do Revue, n'uma +longitude onde o terreno é muito accidentado e a divisoria das duas bacias +hydrographicas de cota muito elevada.</p> + +<p>Desde então a occupação da serra Humbe por Manuel Antonio fez d'este ponto +do Barue, ponto forçado do caminho entre a Gorongosa e Manica; e comquanto +menos directo, poderá ser preferivel ao que eu segui, se alem do Aruangua +houver a subir e a descer serras menos altas e menos asperas.</p> + +<p>Não é porém pela Gorongosa o caminho natural entre Manica e a costa. A +viagem que acabo de fazer permittiu-me tomar conhecimento de um caminho +direito, que convenientemente limpo e rectificado permittirá chegar, vindo da +costa a Manica com uns quatro dias de facil viagem a pé. Com melhor estrada, +havendo cavallos, poderia vir a ser vencido em menos de dois dias. O ponto de +partida para a viagem de terra seria a margem direita do rio Pungue na altura +das terras de Guenjere, em ponto onde sempre poderá chegar o vapor que fizer o +serviço do rio.</p> + +<p>Não inscrevo aqui o itinerario detalhado. No terceiro dia de viagem por este +caminho é cortado o que eu segui indo ás terras dos landins. No quinto dia +ficam os pretos na margem do rio Musa, affluente do rio Chimesa, que é +affluente do rio Revue.</p> + +<p>N'este ponto da margem do Musa disseram-me, que havia ainda hoje ruinas de +um antigo forte, muralhas de altura de homem e vestigios de importantes +trabalhos de minas. A antiga villa e feira de Manica fica a poucas horas de +caminho do rio Musa.</p> + + + +<h3>Entre o Revue e o rio Mussapa</h3> + +<p>Terreno muito elevado e accidentado, coberto de um a outro rio por continua +e densa floresta. Passei a garganta da divisoria, que fica muito mais proxima +do Mussapa que do Revue, n'uma altitude de 2:230 pés, mas no seguimento do +caminho, subindo e descendo sempre, attingi varias vezes altitudes não muito +inferiores a este maximo.</p> + +<p>Em parte da floresta encontra-se uma grande quantidade das trepadeiras de +que tiram a borracha e que dão um fructo que, embora bastante acido; é muito +agradavel ao paladar. Cultivar n'uma grande area da floresta esta trepadeira +constituiria sem duvida uma industria consideravelmente remuneradora. Cruzando +o caminho, e sem necessidade de menor pesquiza vêem-se duzias de grandes filões +de quartzo, havendo probabilidades de que muitos d'elles sejam auriferos. Toda +esta região entre o Revue e o Mussapa fazia parte do alto Quiteve. O paiz que +fica junto á margem do Revue no ponto onde atravessei este rio é o Zauve, e é +n'elle, um pouco a oeste do meu itinerario, que está encravado o antigo +territorio portuguez do Bandire, hoje abandonado, e que contém as valiosas +minas d'este nome.</p> + +<p>O chefe do Zauve é o regulo Murinane, que foi antigamente de grande +importancia; apesar de se vestir como os outros pretos, de como elles se sentar +no chão, ainda se apresenta com uma certa grandeza comparado com todos os mais +chefes que eu vi. D'este regulo<span class="pn">{18}</span> recebi muitas +informações ácerca das minas, que estão situadas nas montanhas do Bandire, +tanto na vertente do Revue como na do Mussapa.</p> + +<p>Não me parece haver ahi um placer aurifero como incontestavelmente o ha em +Manica; o trabalho das minas é todo em rocha, e é por isso que penso que dos +numerosos filões que encontrei entre o Revue e o Mussapa alguns pelo menos têem +probabilidade de ser auriferos. Comquanto Murinane, que é um preto de +cincoenta annos, de bello aspecto, me dissesse tanto como todos os outros +regulos do Quiteve com quem primeiro estive, que muito desejaria ver-se livre +dos vexames dos landins, e escondesse d'aquelles que me acompanhavam os +presentes que lhe dei, notei grande differença entre o que vi na grande +povoação d'este regulo e a miseria das gentes de áquem Revue.</p> + +<p>Na povoação do Murinane nota-se maior independencia; já ahi todos têem as +orelhas rachadas, quasi caracteristicas dos landins; todos, a começar pelo +regulo, fallam bem o vatua, ou a outra lingua dos landins.</p> + +<p>As rochas Inharumirua, que offerecem o primeiro obstaculo á navegação no +Revue, desde a costa pelo Busi, ficam a menos de duas horas a jusante da +povoação de Murinane; conversando pela manhã, pelas oito horas com o regulo a +respeito d'esta obstrucção e da distancia ao ponto onde estavamos, mostrou elle +entre os homens que estavam sentados no chão ao redor do nós, um que me disse +ser o chefe de uma povoação mesmo junto a estas rochas e que n'aquella mesma +manhã de lá tinha partido. Para irem da povoação de Murinane ás minas do +Bandire dormem um dia no caminho, chegando no seguinte de manhã; vê-se portanto +a que curta distancia estas minas estão de uma via fluvial; quando mesmo ella +não seja bem navegavel em todo o tempo, para transporte de pesos muito +consideraveis, e que não ha a remover constantemente, póde-se bem escolher a +estação propria.</p> + +<p>O elevado macisso de montanhas que ha entre o Revue e o Mussapa desce +rapidamente do lado d'este ultimo rio, cujo valle é uma larga planicie +verdejante, sem quasi arvore alguma, na qual serpenteia de um e outro lado o +leito do rio.</p> + +<p>N'este valle muito cultivado ha já algumas povoações de landins com o +caracteristico <em>bode</em> ou rodella de cêra preta na cabeça. O contraste é +bem notavel entre estas povoações landinas, onde cada um se sente seguro em sua +casa e gosa tranquillamente do que é seu, onde as mulheres e creanças sabem que +não podem ser levadas pelos primeiros que passem, e as infelizes povoações do +Quiteve principalmente as que se acham entre o Aruangua e o Revue. As povoações +landinas da margem esquerda do Mussapa são muito poucas e só formam, como +testas de ponte para as densas povoações da outra margem; o territorio de +Bandire é nosso, e o regulo Murinane e outros da margem direita do Revue, +apesar de obedecerem hoje aos landins e de deverem marchar contra nós, se a +isso forem forçados, muito prefeririam estar sujeitos directamente e só á +soberania portuguesa. Não vi se, para jusante da foz do Mussapa, na pouca +extensão da margem esquerda do Mufomose e do Lusito que ainda segue até ao +Busi, e em toda<span class="pn">{19}</span> a margem esquerda d'este rio, desde +a foz do Lusite até á costa, ha ou não muitas povoações de landins. Os limites +do districto de Manica, se bem que theoricos, não devem ser só fixados com as +terras do Gunguneana, mas, proximo da costa, tambem com o districto de Sofalla. +Pelo que tenho dito parece-me haver decidida vantagem em considerar a margem +esquerda do rio Mussapa e a continuação d'essa margem na altura do Mufomose, +Lusite e Busi até ao mar, como limite sul do districto de Manica. O districto +de Sofalla confinaria ao norte, de leste a oeste, com o de Manica, e a oeste, +de norte a sul, com as terras do rei de Gasa, com limites a determinar e que +restituissem a Sofalla todos os seus antigos prasos ao sul do Busi, e mais +terras hoje invadidas pelos landins.</p> + +<p>Ao sul do districto de Manica e a oeste do de Sofalla haveria um grande +potentado, vassallo portuguez, que teria toda a liberdade da dictar a lei no +governo das suas terras e do seu povo, afastaria a dominação estrangeira e +poderia, sendo bem aconselhado, e recebendo bem os conselhos, desenvolver no +seu paiz varias industrias agricolas, como a da creação de gado, a que o +terreno se presta admiravelmente, e producção de lã e mohair, que dariam uma +grande prosperidade ao porto de Chiloane, ou a outro porto vizinho que parece +existir em melhores condições o dever vir a substitui-lo para o serviço dos +paquetes.</p> + +<p>Disse que o valle do Mussapa é uma planicie bastante larga; pareceu-me, pelo +exame que fui fazendo de varios pontos do meu itinerario, que em parte seguindo +este valle e ao sul do macisso de montanhas que separa o Mussapa do Revue, ha +uma facha de terreno plano que sobe gradualmente para o interior, que passa não +muito longe da povoação de Murinane, que passará junto á base das montanhas do +Bandire e continua na direcção de Manica, cujas serras eu distinctamente via +n'esta direcção.</p> + +<p>Assim, haverá, a partir da costa, dois caminhos naturaes para a região de +Manica.</p> + +<p>O primeiro, é o que indiquei, pelo rio Pungue, e depois da margem d'este +rio, seguindo obliquamente para a bacia do Revue. É o unico caminho da costa +que por muito tempo nos poderá interessar.</p> + +<p>O segundo, que parece proprio para o assentamento de uma linha ferrea, e que +só agora indico como nota que possa vir a ser util para algum trabalho futuro, +seria o que partisse do fundo do que dizem ser o excellente porto a que ha +pouco me referia, formado por traz da ilha Boene, ou da margem esquerda do rio +ou braço de mar denominado Mutizane, seguisse pelos terrenos planos do baixo +Quiteve, atravessasse o Busi, talvez nas proximidades do arco Inhambimbe, ou +foz do Lusite, e seguisse pelos valles e margens esquerdas dos rios Mufomose e +Mussapa, passando junto ao Bandire até Manica.</p> + + +<h3>Terrenos ao sul do Mussapa</h3> + +<p>Pouco me resta a dizer a respeito de terrenos, que nos interessem +directamente, pois devemos considerar os territórios ao sul de Mussapa,<span +class="pn">{20}</span> como pertencendo ao rei de Gasa; isto até que em +epochas futuras todas as terras dos landins venham a passar ao dominio directo +da nação.</p> + +<p>Atravessei, como disse, o Mussapa na sua confluencia com o Mufomose; depois +de uma hora de caminho em planicie, e suppondo que estava sempre no valle do +Mufomose achei-me nas margens do Lusite, e passado este rio, continuei, sempre +em paiz plano, até á base da serra Citatonga contra a qual me levaram, e sobre +a qual tive que passar; á esquerda do meu caminho a planicie continua até á +costa; á direita as montanhas elevadissimas de onde nascem o Mussapa, o +Mufomose, o Lusite, o Busi, e outros affluentes d'estes rios, montanhas que +separam o systema hydrographico do rio Busi do da bacia do rio Save. Este +ultimo rio vem muito mais do norte, tendo as suas origens proximo da divisoria +das aguas para o Zambeze, e origem do affluente do rio Aruenha, affluente do +Zambeze em Masangano; corre do norte ao sul recebendo do lado do oeste as aguas +de affluentes que vem das terras do Muzilicatze, do lado de leste as que nascem +nas vertentes de oeste das serras de que acabo de fallar, e é junto á margem de +um d'estes affluentes que está a aringa do rei Mutaça; depois, em maior +latitude, volta rapidamente para leste para desaguar no oceano Indico por +muitos braços formando um extenso delta a que Chiloane pertence. Os rios Busi o +Save junto á costa correm portanto quasi como parallelos entre si. A villa de +Sofalla fica approximadamente a meia distancia entre a foz dos dois rios.</p> + +<p>Como se vê no esboço junto e como eu vi do alto da serra Citatonga, o rio +Busi, depois de passada esta serra, corre para o norte a ir receber não muito +longe, e em terreno perfeitamente plano, as aguas do Lusite; o que prova que +desviando um pouco o itinerario para leste, poderia ter contornado a serra +Citatonga em logar de ter passado duas vezes pela sua cumiada, o que, +principalmente pela garganta por que passei na volta, é bastante custoso.</p> + +<p>Passada a serra Citatonga, o caminho segue em terreno plano, apenas com +ligeiras ondulações em alguns pontos, ficando proximo, á direita, as montanhas +onde nascem o Busi e um importante affluente d'este rio, pela agua que leva, +por entre rocha, o rio Muzirisi, junto á margem esquerda do qual, na pequena +povoação de Cuzova, terras do grande Mugomugomo, terminou a minha viagem. +Proximo da margem direita d'este rio, um pouco a montante do logar onde eu +estava, e a umas cinco ou seis horas de caminho, é que está a povoação do +Gunguneana.</p> + +<p>Do valle do Muzirisi, diz o explorador inglez Mr. Erskine o seguinte: «O +valle do Muzirizi (que elle chama Umswelisi) está destinado a ser um dia uma +das mais productivas regiões d'este lado do continente. Assucar e café +dar-se-íam ahi admiravelmente; e por causa da sua elevação supponho que será +perfeitamente sadio».</p> + +<p>Mais longe diz: «A agua transparente d'este rio é abundante e seria +sufficiente para irrigar este extenso e fertil valle, e ainda para mover +moinhos, para o que a sua rapida quéda o torna muito proprio».</p> + +<p>Do Aruangua, do Revue e de todos os menores rios, affluentes d'estes, se +póde em geral dizer outro tanto.<span class="pn">{21}</span></p> + +<p>A parte das terras do valle do Muzirisi que não está cultivada com milho, +mapira, feijão, etc., é destinada á pastagem das numerosas cabeças de gado que +o Muzila tinha, e o Gunguneana conserva e trata de augmentar, e que se acham +divididas por manadas entregues aos chefes das differentes povoações. A manada +na povoação de Cuzova tinha a especialidade de ser exclusivamente composta de +gado muito novo, ou vitellos que iam sendo separados das mães nas manadas +vizinhas.</p> + + +<h2>Minha missão, seu resultado</h2> + +<p>Foi, como disse, a presença das duas embaixadas dos landins na Gorongosa, +que me aconselhou a escolher esta occasião para fazer a primeira visita ao rei +de Gasa. Tudo o mais nos era contrario: chuvas, cheias dos rios, caminhos +fechados com palha de altura de dois homens. Não tinha tambem na Gorongosa quem +soubesse portuguez e vatua, nem mesmo pessoa que me podesse acompanhar e +servisse de bom interprete; de portuguez para as linguas da Gorongosa ou do +Quiteve, muito similhantes, e que muitos dos landins fallam.</p> + +<p>Um dos meus moleques era o interprete com que mais poderia contar, mas fui +successivamente descobrindo a impossibilidade de lhe fazer comprehender qual +era a missão do interprete, e de lhe fazer traduzir cousa que elle não pensasse +entender, e sobre a qual elle depois livremente discursasse na lingua para que +traduzia.</p> + +<p>O que não fosse de accordo com a sua opinião não traduzia, e não foi +possivel fazel-o referir a povos de que elle nunca tinha ouvido fallar.</p> + +<p>Prevendo isso, logo que cheguei ao Quiteve escrevi ao capitão mór de +Sofalla, um mouro chamado Amade Sene Abdalá, filho de um Gricar Abdalá, que +vemos figurar como lingua do estado nos termos da reivindicação do territorio +do Bandire em 1835, e de uma princeza murinane, irmã da actual rainha Gomoni e +do actual regulo Murinane, preta ou princeza com que elle Gricar travou +relações, e que levou para Sofalla, onde ella passou o resto da vida. Sabia eu +portanto que o capitão mór de Sofalla era sobrinho dos dois mais importantes +regulos do Quiteve; sabia mais, que elle, como antigo negociante, era +conhecedor dos sertões, que fallava a lingua do Quiteve e a lingua vatua e que +era valente; e por isso lhe escrevi, pedindo-lhe que me viesse servir de +interpretre.</p> + +<p>Da mesma povoação em que escrevi a Amade Sene, partiram rapidamente para a +frente tres landins com o fim de annunciarem a Gunguneana da minha viagem. +Encontrei-os de volta a uns tres dias da povoação do rei, dizendo-me da parte +d'elle que seguisse e que seria bem recebido.</p> + +<p>Na manhã de 23 de janeiro, quando suppunha que nesse dia chegaria á povoação +do Gunguneana, pararam os meus conductores na povoação de Cuzova, que já tenho +citado, para que fossem alguns d'elles dar parte ao rei de que eu me +approximava. Só na manhã do dia 1 de fevereiro chegaram quatro grandes, que, +acompanhados de muita gente, me vinham comprimentar da parte do Gunguneana, +trazendo-me um<span class="pn">{22}</span> boi, e pedindo-me que expozesse o +motivo da minha visita. Apenas consegui poder dizer-lhes que vinha para +confirmar e estreitar as relações de amisade com o novo regulo portuguez, e +para lhe dizer que o rei resolvêra mandar reoccupar as suas terras de Manica e +avisar d'isso o Gunguneana para que se alguns landins fossem para aquelle lado +recebessem do Gunguneana ordem para ter bom trato com os mosungos. Fallei +apenas de Manica, e é claro que não podia pedir licença qualquer para irmos +para lá, visto que as terras da região da antiga feira de Manica são +portuguezas e como taes reconhecidas pelo rei de Manica e por todos os povos +que habitam os paizes vizinhos. Como porém os grandes das duas embaixadas me +tinham sempre acompanhado, e, depois da sua viagem e ausencia de muitos mezes +não tinham ainda estado em relação com os que cercam o Gunguneana começaram em +landim discursos que duraram horas, e em que notei que, de certo com as +melhores intenções, porque todos os landins com que estive em contacto me deram +sempre provas do sympathia, repetidas vezes fallavam em Ferrão, Gouveia, +Gorongosa, Manica, Bandire e Inhaoxo, e em que provavelmente disseram que eu +vinha para tomar conta de todo o Quiteve, como varias vezes o haviam +dito pelo caminho, sem que palavra ou acto algum da minha parte motivasse tal +asserção.</p> + +<p>Partiram os grandes parecendo muito satisfeitos commigo e dando-o a entender +que no dia seguinte ou no dia depois d'este alguem me viria buscar da parte do +Gunguneana.</p> + +<p>No dia 3 de fevereiro, quando eu já de ha muito suppunha que o capitão mór +de Sofalla não podia ou não queria vir até tão longe, appareceu-me elle, +motivando a sua demora pela do portador da minha carta, que fiou muitos dias em +uma das povoações do caminho, dando as chuvas como pretexto da paragem.</p> + +<p>Em outras communicações fallarei de Sofalla e do seu capitão mór, homem que +me parece muito util. Elle veiu com bastante gente de Sofalla, e durante os +dias que estivemos juntos, apesar da impaciencia da espera, não podia deixar de +ter muito prazer, vendo fraternisar e <em>amossossar</em> juntos gente de Senna +com a gente de Sofalla, reunião que ha muitas dezenas de annos julgo não tinha +tido logar.</p> + +<p>Esperavamos de dia para dia o aviso de Gunguneana para marcharmos; quasi +todos os dias vinha de lá alguem que por varios motivos ia justificando a +demora passada, annunciando que breve seguiriamos.</p> + +<p>Indicarei alguns d'esses motivos:</p> + +<p><em>a</em>) Entrega dos <em>Nhunhe muchopes</em> (passaros brancos) aos seus +commandantes.</p> + +<p>Com este nome acaba Gunguneana de crear um novo corpo do exercito, recrutado +em todas as suas terras e constituido com rapazes que deverão servir por um +determinado numero de annos n'este corpo, e que emquanto não passarem para +outro ficam prohibidos, sob pena de morte, de casar ou ter relações com +mulheres. O nome é devido a que os escudos são feitos com pelles de bois +brancos, e que todo o vestuario dos homens será da mesma côr; pelles ou pennas +brancas. Como muitos landins vão trabalhar no Transvaal, na republica de Orange +e<span class="pn">{23}</span> nos Campos de Diamantes, trazem d'esses paizes +quantidades de pelles de carneiros de comprida lã branca, de que cortam +estreitas tiras, com que adornam o grosso dos braços e as pernas, logo abaixo +dos joelhos.</p> + +<p>Quando cheguei á povoação de Cuzova tratava-se effectivamente de reunir na +do Rei todos os <em>Nhunhe muchopes</em>, e vi passar nos primeiros dias que +ali estive, muitos centos de rapazes, que de todos os lados convergiam para o +ponto de reunião.</p> + +<p><em>b</em>) Reunião de outra gente de guerra, que tambem vi passar em grande +quantidade, por causa de um importante acampamento, manifestado por uma +extensissima linha de fogos ao longo da margem direita do rio Save, e +constituido por gente do Muzilicatze, sem que ainda se soubesse se vinham para +cumprimentar o novo rei, se para lhe fazer guerra.</p> + +<p>Mais tarde, quando regressava pelo Quiteve, disseram-me que dez brancos a +cavallo, vindos do lado do Muzilicatze, tinham com muita gente atravessado o +Save, para visitar o Gunguneana. Não sei se estes brancos têem ou não relação +com o acampamento a que me acabo de referir.</p> + +<p><em>c</em>) Reunião dos grandes, chegados de povoações muito afastadas para +que Gunguneana conversasse com elles a respeito da minha visita.</p> + +<p>No dia 11 de fevereiro chegaram finalmente á povoação de Cuzova todos os +grandes que primeiro me tinham vindo ver, acompanhados de alguns outros; depois +de muitos comprimentos e de conversarem sobre assumptos estranhos ao objecto da +minha presença ali, o maior de entre elles, um bello e sympathico homem, por +nome Magumeana, chamou do grupo de pretos, que estavam sentados atrás dos +grandes, um que veiu pôr junto a mim uma pequena ponta de marfim, sobre a qual +Magumeana poz duas libras sterlinas<sup><a href="#nota2" name="m_nota2">[2]</a></sup>, dizendo que era a +<em>bôca</em> do Gunguneana, para dizer que não podia consentir em que os +brancos viessem trabalhar nas minas, nem estabelecer-se nas suas terras, +<em>porque se o fizessem, viriam depois tantos, que em breve lhe tirariam o +poder</em>; que elle Gunguneana era portuguez, que elle, mas elle só, era +mulher do rei de Portugal, que assim o dizia a todos os estrangeiros, que +desejava amisade com os brancos; que tem dado d'isso muitas provas, e ainda +muito recentemente, quando na Chupanga lhe assassinaram traiçoeiramente, quando +elles dormiam, todos os landins que lá estavam, não tendo feito guerra por esta +causa; que os mosungos podem livremente vir negociar, com segurança, a todas as +suas terras, mas que não quer que n'ellas explorem as minas; que os brancos +nunca fizeram esse pedido a seu pae, e que notava que se tinham reservado para +o fazer quando elle acabava de subir ao poder.</p> + +<p>Fiz notar que eu já me achava em caminho quando se soube do fallecimento do +Musila, e que o rei de Portugal não tinha que receber licença de pessoa alguma +para mandar mosungos para as suas terras do Manica, que todos na localidade +reconhecem pertencer-lhe.<span class="pn">{24}</span></p> + +<p>Era inutil qualquer discussão com estes homens isolados, visto que a +resposta do Gunguneana tinha sido dada em conselho de todos os grandes, que já +se achavam espalhados, e que evidentemente eu não podia ter por agora +modificação ás resoluções tomadas. Tratei, só, portanto, de aproveitar a +presença de um homem intelligente como é o capitão mór de Sofalla, bom +conhecedor do portuguez e do landim, para dizer o que desejaria ter dito na +minha primeira entrevista com os grandes, embora o mau resultado da minha +viagem tornasse impossivel o tratar de muitos pontos, como o da construcção de +um telegrapho com excellente directriz, passando pela povoação de Gunguneana, o +transporte maritimo por Chiloane dos landis, que com viagens de mezes vão +servir no Natal.</p> + +<p>N'esse mesmo dia 11 de fevereiro comecei a viagem de volta para a Gorongosa, +onde cheguei no dia 1 do corrente. Não indico n'este trabalho, destinado a +fornecer infirmações a s. ex.ª o ministro da marinha, os promenores da viagem, +que só podem interessar e muito aos que tiverem de percorrer o paiz.</p> + +<p>Gunguneana disse aos grandes, quando elles vieram ver-me com a resposta, que +não me pedissem fazendas, para que eu não <em>podesse voltar dizendo que tinha +comprado as minas</em>; caso sem exemplo, com landins em frente de +<em>motores</em> de fazendas, e que bem mostra que é receio o que elles todos +têem. Dei, porém, aos grandes, tanto na primeira como na segunda visita, e +mandei pelas duas occasiões ao Gunguneana alguns presentes; porque achei +conveniente deixar boa impressão e separar-me dos grandes com agradaveis +relações.</p> + +<p>Os grandes nomearam tres landins para nos acompanharem, receiosos de que o +estranho facto, de voltarem do lado da casa do seu chefe mosungos com motores +de fazenda completos não fosse attribuido a alguma fuga ou desavença, e nos +causasse embaraços no caminho.</p> + +<p>Junto a este relatorio vae um resumo da conta de todas as despezas da +viagem, incluindo as do transporte do capitão mór de Sofalla, e todos os +presentes dados ao Gunguneana, seus grandes, regulos do Quiteve, e todos os +chefes da povoação onde passámos, na importancia de 624$800 réis, despezas +pagas pelo governo do districto de Manica.</p> + + +<!— —> + +<h2>Comparações com a colonia ingleza do Natal; algumas apreciações dos nossos +vizinhos ácerca do paiz que visitei; da nossa administração e modos de proceder</h2> + +<p>O cônsul O'Neill em um dos relatorios que, como consul de Sua Magestade +Britannica na provincia de Moçambique, é obrigado a fazer annualmente, diz o +seguinte: «Situada entre o territorio do sultão de Zanzibar e a colonia do +Natal, está a provincia de Moçambique, que em nada é inferior a qualquer +d'estes dois paizes e lhes é muito superior pelos seus numerosos portos, pelas +vias naturaes de communicação,<span class="pn">{25}</span> que permittem +attingir facil e economicamente grandes distancias no interior; e comquanto a +colonia de Natal muito pequena, de recente creação veja elevar os seus +rendimentos a X (não cito cifra por não ter o documento presente), comquanto +Zanzibar com todos os contras da civilisação arabe renda Y, a provincia de +Moçambique rende apenas Z (uma pequena fracção de Y, já muito inferior a X).</p> + +<p>O motivo da differença, tão contraria nos resultados, quando as condições +naturaes são todas a favor da provincia de Moçambique, só póde ser devido á +differença dos processos empregados.</p> + +<p>Os rendimentos da provincia do Natal foram em 1882 de £657:737, e o valor +das exportações feitas por cima da barra quasi inaccessivel do porto de Durban +foram de £731:309. Dados muitos recentes mostram que o valor das exportações +pelo mesmo porto subiu em 1884 á respeitavel somma de £957:918 ou mais de +4.300:000$000 réis; sendo £523:377, ou mais de 2.300:000$000 réis, do valor de +lã (a maior parte da qual, devo dizer, vem de fóra da colonia, do Transvaal e +da republica de Orange); £185:131, ou 832:000$000 réis, de assucar, e mais de +360:000$000 de réis de pelles de animaes. O seguinte artigo, cortado do jornal +que mais aversão nos tem, o <em>Natal Mercury</em> de 18 de novembro de 1884 na +geralmente intrigante e invejosa colonia de que estou tratando, mostra quaes +foram os rendimentos do porto de Lourenço Marques quando subitamente elevados +por uma causa que então foi passageira, e as observações que sobre esta +circunstancia fazem.</p> + +<p>A construcção do caminho de ferro que com felicidade consta vae finalmente +realisar-se por uma empreza portugueza, bem depressa mudará o <em>présent +régime</em> n'este porto, e lhe affirmará a superioridade que este mesmo jornal +diz que elle terá logo que se verifique a expulsão dos portuguezes pelos +allemães em toda a costa oriental de Africa, como elle tão inconsequentemente +mostra desejar.</p> + +<p>Junto dois pequenos artigos n'este sentido.</p> + +<p>«Better far have one small German settlement near us than any number of +miserable and wretched Portuguese colonies which never have and never can +benefit either settlers or aborigines, but which are simply a curse wherever +they have taken root on African soil.»</p> + +<p>«We colonists might well hail with delight the proclamation of German rule +over the territories stretching from shore to shore north of the Limpopo and +its parallel, and south of the Congo. A German empire in those regions would +form a magnificent background to an Anglo-African Dominion on this side.»</p> + +<h3>The trade of Lourenço Marques</h3> + +<p>«Accustomed as we are to regard Delagoa Bay as a formidable competing port +in its relation towards the trade of the Transvaal, we are apt to exaggerate +the real proportions of the trade done there. Through the courtesy of Mr. de +Costa we are able to give the following summary of the monthly returns of trade +at Lourenço Marques for the present year:<span class="pn">{26}</span></p> + +<table align="center" cellspacing="4" border="0" summary="Actividade do porto de Lourenço Marques"> + <col> + <col> + <col> + <tbody> + <tr> + <td><br> + </td> + <td + style="text-align: center; margin-left: auto; margin-right: auto;">Importation<br> + £</td> + <td + style="text-align: center; margin-left: auto; margin-right: auto;">Exportation<br> + £</td> + </tr> + <tr> + <td>January</td> + <td + style="text-align: right; margin-left: auto; margin-right: 0pt;">3:211 + 7 0</td> + <td style="text-align: right; margin-left: auto; margin-right: 0pt;">705 + 12 0</td> + </tr> + <tr> + <td>February</td> + <td + style="text-align: right; margin-left: auto; margin-right: 0pt;">2:482 + 3 0</td> + <td + style="text-align: right; margin-left: auto; margin-right: 0pt;">2:826 1 + 0</td> + </tr> + <tr> + <td>March</td> + <td + style="text-align: right; margin-left: auto; margin-right: 0pt;">6:982 + 7 0</td> + <td + style="text-align: right; margin-left: auto; margin-right: 0pt;">1:727 + 15 0</td> + </tr> + <tr> + <td>April</td> + <td + style="text-align: right; margin-left: auto; margin-right: 0pt;">7:521 + 8 0</td> + <td + style="text-align: right; margin-left: auto; margin-right: 0pt;">2:147 5 + 0</td> + </tr> + <tr> + <td>May</td> + <td + style="text-align: right; margin-left: auto; margin-right: 0pt;">10:924 + 0 0</td> + <td + style="text-align: right; margin-left: auto; margin-right: 0pt;">1:651 + 18 0</td> + </tr> + <tr> + <td>June</td> + <td + style="text-align: right; margin-left: auto; margin-right: 0pt;">1:434 + 2 0</td> + <td + style="text-align: right; margin-left: auto; margin-right: 0pt;">3:759 9 + 0</td> + </tr> + <tr> + <td>July</td> + <td + style="text-align: right; margin-left: auto; margin-right: 0pt;">9:184 + 7 0</td> + <td + style="text-align: right; margin-left: auto; margin-right: 0pt;">1:846 1 + 0</td> + </tr> + <tr> + <td>August</td> + <td + style="text-align: right; margin-left: auto; margin-right: 0pt;">10:051 + 1 0</td> + <td style="text-align: right; margin-left: auto; margin-right: 0pt;">133 + 11 0</td> + </tr> + <tr> + <td>September</td> + <td + style="text-align: right; margin-left: auto; margin-right: 0pt;">5:472 + 5 0</td> + <td + style="text-align: right; margin-left: auto; margin-right: 0pt;">4:284 + 11 0</td> + </tr> + </tbody> +</table> + +<p>«These figures differ from those of preceding years in this respect—that +they cover the period of temporary inflation caused by «Moodie's Rush» and the +Lydenburg Gold Fields generally. Yet what are the facts? For the nine months +of this year all the imports through Delagoa Bay only reached a value of £56:263, while the exports only reached a total £19:082 being a monthly average +of £6:251 in the one case and of £2:120 in the other. Thus, carrying on the +average, the entire import trade of the rival port represents, so far, a yearly +value £75:014 only. There is not much in these figures to cause dismay. No +abnormal diversion of trade has yet taken place, and in the absence of a line +of railway we are not likely under existing circumstances to see much +improvement in these figures. Were any power other than Portugal to establish +itself at Delagoa Bay the case might be different; but so long as the +<em>present regime</em> abides at the northern port we can afford to go on our +way steadily, seeking to conserve and to retain whatever trade we at present +command.»</p> + +<p>E outro mais grave publicado em o numero de 20 de janeiro ultimo.</p> + +<h3>The powers in Africa, January, 16</h3> + +<p>«Should recent and pending negotiations lead to a definitive understanding +between England and Germany as to the future relations of the two powers in +Central and Southern Africa, the future of this continent will all at once have +passed into a phase which will be, when compared with the past, as light is +from darkness. The determination of that future, under the altered +circumstances of the moment, may be said to depend upon three postulates. The +one is that England is prepared and resolved to hold her own throughout all the +regions that have been directly, or nominally or relatively, under her +influence or sway. The second is that England beyond certain lines has neither +the desire nor the intention to extend the limits of her dominion in Africa. +The last is that Germany means, without any reservation or vacillation, to +establish herself in Africa as a colonising power, wherever the way may be open +to her. As regards the first two of these premisses, it may, we think, be taken +for granted that England means to go thus<span class="pn">{27}</span> far, but +no further. The power that has impelled the Imperial Ministry to make the +present demonstration of its authority in South Africa is the same power that +has prevented mr. Gladstone from going as far hitherto. It is the power of +public opinion in the mother country, and it is the power of that democracy +which practically shapes that opinion. The world has suddenly discovered that +the English democracy is not ready—as yet, whatever may be its disposition in +the future—to part with an inch of its territory or a stone of its fortresses. +This has been somewhat of a revelation to English colonists, no less than to +foreign nationalities; but it is a fact. That fact is no doubt fully recognised +by the German Government, and it is a fact which will be respected. Had it been +made manifest a little earlier much misunderstanding, and possibly certain vain +aspirations and illusions might have been saved. It is simply absurd to suppose +that Germany has not cherished designs more or less ambitious, based upon the +apparent desire of England to get rid of its responsibilities in South Africa. +To deny, or even to doubt the existence of these designs—contingent always +upon a policy of abdication and retirement on England's part—is simply to +ignore the abounding evidence of experience and of fact. Prince Bismarck's last +speech to the Reichstag puts all doubt on that point at rest. England, however, +having proclaimed her resolve, the course likely to be pursued by Germany is +the course of shrewdness and common sense, two qualities that never fail to +distinguish the Teutonic mind. Germany will elect to confine her colonising +policy within legitimate and accessible limits. There is a field of action open +to her in South Africa which only a slight political barrier interposes to shut +her out from. We refer, of course, to the area of Portuguese rule. This, it is +true, at present is an undefinable area. Portugal has been a colonising power +only in name. To speak of Portuguese colonies in East Africa is to speak of a +mere fiction—a fiction colourably sustained by a few scattered seaboard +settlements, beyond whose narrow littoral and local limits colonisation and +government have no existence. Had Portuguese rule in East Africa shown any sort +of vitality or reality no one cherishing any regard for international amity +could have any fair plea to desire its displacement. By the ordinary rules of +conquest and occupation Portugal has a title to possession sanctioned by three +centuries of existence. But the very fact that for 300 years the flag of +Portugal has waved along the East Coast involves the condemnation of Portuguese +rule. For what is there to show for it? What use has Portugal made of her +acquisitions or opportunities? What effect has she produced upon the destinies +of the Continent? What part has she played? What contribution has she made to +the sum of the world's progress, to the cause of civilisation to the well-being +of mankind? The answer to these questions is writ in characters of miserable +failure. In no other part of the world has the European left so futile and so +fruitless a trace of his presence as the Lusitanian has left upon the eastern +shores of this Continent. This is a fact that will assuredly have ere long to +be submitted to the judgment of Europe, and to the guidance of fast developing +events. It is not necessary just now to consider how or when this question will +come to be determined;<span class="pn">{28}</span> but the moment of settlement +must come, and it will be strange should a power like Portugal succeed in +resisting whatever pressure may be brought to bear by circumstances that may +and that must arise. Should Germany hereafter be found the active occupant of +some part at least of the lifeless heritage of Portugal we, in South Africa, +shall have no cause of repining. Were the southern half of the Continent +represented by England, Germany, and the internationalised region of Congonia +respectively, the hopes and prospects of civilisation, of commercial progress, +and of industrial activity, would be as bright and reassuring as lately they +have seemed gloomy, and depressing. These three Powers, acting in concert and +in good faith, would soon malte Africa an efficient rival to South America. +Saxon energy, and Saxon enterprise would co-operate to rescue the Dark +Continent from the sleep of ages, and to open out an era of vigorous +dovelopment and social advancement that, but yesterday was a mere dream».</p> + +<hr style="width: 15%;"> + +<p>Natal tem apenas uma area de 21:000 milhas quadradas, area menor que só a +dos prazos Gorongosa, Cheringoma o Chupanga. A provincia de Moçambique é +portugueza ha quasi quatro seculos; comquanto Natal tenha sido recommendado ao +governo inglez pelo Lieut. Farewell em 1823, como um posto que devia ser +occupado, póde-se dizer que é só desde 1843 que a colonia de Natal foi +formalmente declarada colonia ingleza.</p> + +<p>Natal está dividida em quatorze condados e <em>divisions</em> com varias +auctoridades distinctas para brancos e para pretos (porque em parte alguma, a +não ser nas nossas colonias, são os pretos julgados pelo mesmo processo que são +julgados os brancos, e punidos igualmente); até ha pouco havia para toda a +região ao sul do Zambeze, que é de esperar virá a constituir o districto de +Manica, e ainda para os prazos Luabo e Melambe, só o commando militar de +Senna.</p> + +<p>Natal tem cerca de 40:000 brancos, em parte introduzidos pelos auxilios que +têem sido dados á emigração; na provincia de Moçambique, que contém em quasi +todos os seus districtos areas proprias para a colonisação branca, mais +extensas que a de toda a colonia do Natal, contando mesmo com os empregados das +tres grandes casas commerciaes estrangeiras, não haverá de certo, alem dos +empregados do governo, 200 pessoas brancas.</p> + +<p>Portugal recebe os mais urgentes pedidos de todas as colonias, deseja, +quanto possivel, satisfazer a elles, sangra-se e arruina-se com esse fim, e +manda-lhes annualmente sommas, que repartidas por todas ellas ficam por tal +modo diluidas que só servem para as continuar a fazer vegetar no estado que +todos bem conhecem. Os grandes sacrificios da metropole são perdidos, e +continúa de anno para anno, por exemplo, a sua mais populosa e mais importante +cidade africana, debaixo de um sol abrazador, a soffrer os horrores da sêde.</p> + +<p>A Inglaterra não gasta um penny com o Natal. É a pequena colonia que tem +recorrido ao credito. Os typos dos seus emprestimos são sempre de divida +remissivel em praso fixo.<span class="pn">{29}</span></p> + +<p>Julgo que presentemente tem as seguintes dividas, que vão designadas segundo +a ordem da sua emissão:</p> + +<p>Um emprestimo de £ 165:000, realisado a 6 por cento de juro e 3 por cento +para amortisação em curto praso.</p> + +<p>Um emprestimo de £ 100:000, a 6 por cento de juro e 2 por cento para +amortisação.</p> + +<p>Um emprestimo de £ 350:000, a 5 por cento e 1 por cento de amortisação em +quarenta annos.</p> + +<p>Um emprestimo de £ 200:000, a 4 1/2 de juro e 1 por cento para amortisação +em quarenta annos.</p> + +<p>Um emprestimo de £ 50:000, a 4 1/2 de juro e 1 por cento para +amortisação.</p> + +<p>Um emprestimo de £ 50:000, a 4 1/2 de juro e 1 por cento para +amortisação.</p> + +<p>E, finalmente, o ultimo emprestimo para continuação dos caminhos de ferro de +£ 469:800, a 4 por cento de juro e 1 por cento para amortisação.</p> + +<p>A pequena colonia do Natal recorreu ao emprestimo, pediu primeiro a 6 por +cento e 3 por cento; progrediu com a divida que fez, e ha pouco realisou um +emprestimo a 4 por cento de juro e 1 por cento para amortisação; e isto quando +uma parte sensivel das sommas emprestadas tem sido empregada nos improductivos +trabalhos para melhorar uma barra sobre a qual se passa muitas vezes em perigo +(quando não está mesmo do todo fechada) n'um vaporsinho que eu muito desejaria +ver na carreira do rio Pungue, e na qual nunca entrarão navios como os que +podem entrar em mais de vinte portos da provincia de Moçambique.</p> + +<p>As grandes e poderosas nações da Europa recorreram largamente ao credito +para a realisação dos espantosos melhoramentos materiaes que se têem effectuado +no presente seculo; com mais forte rasão as colonias dos differentes paizes +recorrem ao credito com mais ou menos dependencia das respectivas metropoles, +conforme as leis que as regem, e o credito que merece cada colonia. Só as +colonias portuguezas fazem excepção.</p> + +<p>Terminarei este artigo fazendo algumas citações de uma das communicações +apresentadas pelo sr. V. Erskine á Royal Geographic Society de Londres, que se +acha publicada no jornal da sociedade, vol. <small>XLV</small>, 1875, unico dos +volumes que tenho commigo. Uma das citações seria bem desnecessario fazel-a, +porque deverá ter ultimamente sido lida por todos os portuguezes que se occupam +de colonias, no livro de s. ex.ª o sr. Andrade Corvo:</p> + +<p>«O futuro de Lourenço Marques nas mãos dos portuguezes só póde ser ruina e +morte, mas debaixo de uma raça <em>teutonica</em> será o mais glorioso. Que a +dominação por uma d'estas raças terá logar, por força ou por diplomacia, não +póde haver duvida alguma.» (É extraordinario que estas palavras fossem +escriptas ha mais de dez annos.)</p> + +<p>«Os portuguezes parecem estar pegados atraz das suas muralhas nos fortes da +costa, e não fazem idéa alguma do paiz elevado que lhes fica para o +interior.</p> + +<p>«Desde a invasão dos zulus os portuguezes nem +são temidos, nem<span class="pn">{30}</span> respeitados. Tendo apenas soldados pretos, são absolutamente +desprezados pelas tribus que os rodeiam.</p> + +<p>«Considero este grupo de montanhas onde nasce o Busi como um dos mais +interessantes problemas da geographia moderna; pela sua conveniente exploração +conhecer-se-iam vastas regiões de paizes sadios, proximos do porto de Sofalla, +e se fossem tomados em mão por Portugal e offerecidos a emigrantes por algum +modo liberal fazia elle cessar immediatamente todas as difficuldades com os +indigenas, e crearia uma origem de riqueza e prosperidade como nunca viu desde +o tempo d'aquelles heroes que lhe fundaram o seu imperio colonial, do qual hoje +apenas alguns fragmentos lhe restam.»</p> + +<p>É assim que pensam os estrangeiros que visitam o paiz; é provavelmente assim +que pensam o Gunguneana e os seus grandes; no dia em que sufficiente numero de +portuguezes pensar do mesmo modo, a não ser que esse dia chegue demasiadamente +tarde, ver-se-ha bem depressa por experiencia como os primeiros que fallaram +pensaram bem.</p> + +<p>Tendo indicado a distancia de differentes cidades e portos da Africa austral +á capital do Musila, diz:</p> + +<p>«Os portos mais proximos, Sofalla e Chiloane, são tambem testas das estradas +que offerecem menores difficuldades physicas para uma marcha. A planicie que +ellas seguem é sadia durante os mezes de julho, agosto, setembro e outubro, de +maneira que forças europêas facilmente as podem atravessar n'essa epocha. +Grandes rios podem ser seguidos até ás bases das montanhas. De espaço a espaço +ha densos bosques, mas podem elles ser evitados, e o caminho seguir sempre como +por um parque. Ha pastagens por toda a parte, de maneira que não seria +necessario levar sustento para gado.</p> + +<p>«Na verdade difficilmente se poderia encontrar um paiz que melhores +condições offereça para ser conquistado por europeus; e note-se que, quando se +chega ao plateau elevado, tem-se attingido uma região cujo clima é superior ao +da Europa.»</p> + + +<h2>Conclusões</h2> + +<p>Motivado no que tenho exposto, direi que é minha opinião o seguinte:</p> + +<p>1.º Convem limitar a area de acção do governo do districto de Manica, do +seguinte modo: ao norte, pela margem direita do Zambeze desde a foz do Aruenha +até ao limite dos prazos Chupanga e Luabo; a leste, pelas confrontações dos +prazos Chupanga e Cheringoma com os prazos Luabo e Melambe até a costa e de ahi +pela linha da costa até á foz do rio Busi; ao sul pela linha, seguida, dos +thalwegs do rio Busi e dos affluentes Lusite, Mufomose e Mussapa, continuando +por modo que comprehenda todo o reino de Manica; e a oeste, na parte mais do +sul, prolongando-se quanto possivel para o Zambeze e região em que este rio +corre do sul para o norte, e na parte mais do norte pelos thalwegs dos rios +Mazoe e Aruenha, em que confinaria com o districto de Tete.<span +class="pn">{31}</span></p> + +<p>2.º Convem passar o commando militar e villa de Senna para a margem esquerda +do Zambeze.</p> + +<p>3.º Transferido o commando militar de Senna para a margem opposta, +é necessario crear desde já o commando militar de Chemba.</p> + +<p>4.º É necessario e facil resolver a questão do Bonga.</p> + +<p>5.º Logo que esteja resolvida a questão do Bonga, é necessario crear o +commando militar do Aruenha.</p> + +<p>6.º É necessario resolver a questão do reino do Barue.</p> + +<p>7.º Effectuada a transferencia do Barue, é necessario crear um commando +militar com a séde na aringa de Manuel Antonio, de Inhangona, proximo do +Caurese, ou um pouco mais a oeste e mais proximo dos Campos de Oiro do +Imperador Guilherme.</p> + +<p>8.º É necessario crear desde já o importante commando militar de Massará e +nomear o seu commandante, que poderá fazer serviço como commandante militar em +Manica, emquanto convenha que a séde do governo do districto fique em villa +Gouveia.</p> + +<p>9.º É necessario, como uma das bases mais essenciaes para o desenvolvimento +de um prospero districto de Manica, organisar por qualquer modo um serviço de +transportes a vapor, mensal, ou, para começar, bi-mensal ou ainda trimestral, +<i>mas regular</i>, entre os portos do Quelimane ou Chiloane e o rio Pungue até ao +ponto onde este rio for navegavel pelo vapor empregado<sup><a href="#nota3" name="m_nota3">[3]</a></sup>.</p> + +<p>10.º É necessario, e facil de realisar com os recursos que já tem o +districto de Manica, logo que lhe for dada acção sobre todo o valle do Aruangua +até á costa, evitar que os landins continuem a passar este rio, como +actualmente fazem, para ir levantar tributos nos prasos Cheringoma, Inhamunbo, +Chupanga, Luabo e Melambe, e assegurar a tranquilidade na região que fica ao +norte do mesmo rio.</p> + +<p>11.º É necessario ligar telegraphica ou telephonicamente a séde do commando +militar da Chupanga, com a do commando militar de Chemba, esta com villa +Gouveia e esta com a séde do commando militar do Aruangua<sup><a href="#nota4" name="m_nota4">[4]</a></sup>.</p> + +<p>12.º Se fosse exequivel, seria muito para recommendar, e teria de certo o +maior alcance, a immediata guarnição da região da antiga feira de Manica com +uma força de quinhentos homens de um regimento de infanteria do exercito de +Portugal.</p> + +<p>13.º Como não é possivel fazer-se a proposta indicada em o numero +antecedente, o governo do districto de Manica fará de certo quanto podér, +lançando mão dos recursos de que aqui dispõe para occupar a região de Manica, +assegurar as communicações com o ponto occupado;<span class="pn">{32}</span> e +occupar mais um ponto convenientemente situado entre os rios Pungue e Busi, +proximo da costa.</p> + +<p>14.º É urgente e essencialmente necessario proceder por qualquer modo para +augmentar de uma maneira sensivel a actual população branca da provincia de +Moçambique; e muito para desejar que ainda na boa estação que vae entrar comece +a pôr-se em pratica algum programma de colonisação do districto de Manica.</p> + +<p>15.º Dentro de cada districto da provincia de Moçambique ha em grande +excesso o necessario para que a provincia possa garantir os encargos que tenha +a contrahir por causa de qualquer d'esses districtos.</p> + +<p>O emprego dos meios necessarios para garantir a segurança, para realisar a +colonisação e as grandes obras publicas, exigem rapido desembolso de capitaes +que só podem ser obtidos por emprestimos. Estes emprestimos, no caso da +provincia de Moçambique, poderão ser de duas ordens; ou geraes da provincia, +com a garantia da provincia e garantia do governo, ou especiaes para +determinados fins, a executar por emprezas constructoras de colonisação e +outras, emprestimos que devem ser feitos por emissões de obrigações d'essas +emprezas de utilidade colonial com primeira garantia da empreza da colonia +para com o governo, e com a garantia do governo para com o publico. Logo que a +habilitem a dar os primeiros passos, a provincia de Moçambique facilmente +encontrará credito em todas as praças do mundo pelos inexhauriveis recursos que +em si contém.</p> + +<p>Villa Gouveia, 16 de março de 1885. = <em>Joaquim Carlos Paiva de +Andrada</em>, capitão de artilheria em commissão.</p> + +<div class="rodape"> + +<p><sup><a href="#m_nota1" name="nota1">[1]</a></sup> Refiro-me sempre ao escrever este nome ás +terras firmes do prazo Luabo, na margem direita do Zambeze, que se acham, salvo +em raros pontos mesmo junto ao rio, desertas. É nas ilhas do delta que estão +hoje condensados todos os colonos, almejando por voltar a occupar as terras que +seus paes e elles proprios occuparam na terra firme.</p> + +<p><sup><a href="#m_nota2" name="nota2">[2]</a></sup> A ponta de marfim foi entregue no governo do +districto. Queria recusar as duas libras, mas como não comprehendiam o motivo +da recusa e se melindravam, entreguei-as na presença dos grandes ao mouro +capitão mór, que as acceitou</p> + +<p><sup><a href="#m_nota3" name="nota3">[3]</a></sup> Saber-se desde já com certeza que um vapor +viria ao Punque de hoje a quatro ou seis mezes, <i>mas em dia fixo</i>, faria um +grande bem. Viagens sem sufficiente annuncio previo na Europa e aqui serão +relativamente de pouco proveito.</p> + +<p><sup><a href="#m_nota4" name="nota4">[4]</a></sup> Ligado mais tarde o commando de Chemba com o +Aruenha ficará construida a maior parte da linha que porá Tete em communicação +com a costa. Da Chupanga em breve mandaria o districto de Quelimane prolongar a +linha para villa Mesquita e de certo que não deixaria este districto de +empregar o material telegraphico, que de ha tantos annos dispõe, para ligar a +linha da Zambezia com Quelimane. Ficariam assim logo ligados os tres pontos de +Quelimane, Inhamissengo e Pungue.</p> +</div> +</div> + + + + + + + +<pre> + + + + + +End of the Project Gutenberg EBook of Relatorio de uma viagem ás terras dos +Landins, by Joaquim Carlos Paiva de Andrada + +*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK RELATORIA DE UMA VIAGEM--LANDINS *** + +***** This file should be named 34041-h.htm or 34041-h.zip ***** +This and all associated files of various formats will be found in: + https://www.gutenberg.org/3/4/0/4/34041/ + +Produced by Pedro Saborano + +Updated editions will replace the previous one--the old editions +will be renamed. + +Creating the works from public domain print editions means that no +one owns a United States copyright in these works, so the Foundation +(and you!) can copy and distribute it in the United States without +permission and without paying copyright royalties. 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Information about the Project Gutenberg Literary Archive +Foundation + +The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit +501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the +state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal +Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification +number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at +https://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg +Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent +permitted by U.S. federal laws and your state's laws. + +The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S. +Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered +throughout numerous locations. Its business office is located at +809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email +business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact +information can be found at the Foundation's web site and official +page at https://pglaf.org + +For additional contact information: + Dr. Gregory B. Newby + Chief Executive and Director + gbnewby@pglaf.org + + +Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg +Literary Archive Foundation + +Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide +spread public support and donations to carry out its mission of +increasing the number of public domain and licensed works that can be +freely distributed in machine readable form accessible by the widest +array of equipment including outdated equipment. Many small donations +($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt +status with the IRS. + +The Foundation is committed to complying with the laws regulating +charities and charitable donations in all 50 states of the United +States. 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