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+ <title>Relatorio de uma viagem ás terras dos Landins, por Joaquim Carlos
+ Paiva de Andrada</title>
+ <meta name="Author" content="Joaquim Carlos Paiva de Andrada">
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+<pre>
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+The Project Gutenberg EBook of Relatorio de uma viagem ás terras dos
+Landins, by Joaquim Carlos Paiva de Andrada
+
+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.org
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+Title: Relatorio de uma viagem ás terras dos Landins
+
+Author: Joaquim Carlos Paiva de Andrada
+
+Release Date: October 7, 2010 [EBook #34041]
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+Language: Portuguese
+
+Character set encoding: ISO-8859-1
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+*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK RELATORIA DE UMA VIAGEM--LANDINS ***
+
+
+
+
+Produced by Pedro Saborano
+
+
+
+
+
+</pre>
+
+<p>&nbsp;</p>
+<div class="ntransc">
+<p><b>Notas de transcrição:</b></p>
+
+<p>O texto aqui transcrito, é uma cópia integral do livro impresso em 1885. Foi mantida a grafia usada nessa edição, tendo sido corrigidos apenas pequenos erros tipográficos que não alteram a interpretação do texto, e que por isso não foram assinalados.</p>
+
+<p>No livro há algumas referências a um "esboço do paiz ao sul do Zambeze", que acompanhava a edição original. Não foi possível localizar uma cópia desse mapa para acompanhar esta edição digital.</p>
+</div>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<div style="border: 8px double #000; padding: 1em; text-align: center;">
+<p style="font-size: 1.8em;">RELATORIO</p>
+
+<p style="font-size: 1.1em;">DE UMA</p>
+
+<p style="font-size: 2em;">VIAGEM ÁS TERRAS DOS LANDINS</p>
+
+<p>POR</p>
+
+<p style="font-size: 1.3em;">JOAQUIM CARLOS PAIVA DE ANDRADA</p>
+
+<p style="font-size: 1.1em;">CAPITÃO DE ARTILHERIA</p>
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p style="font-size: 1.4em;">LISBOA<br>
+<small>IMPRENSA NACIONAL<br>
+1885</small></p>
+</div>
+
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+
+<div style="text-align: center;">
+<p style="font-size: 1.8em;">RELATORIO</p>
+
+<p style="font-size: 1.1em;">DE UMA</p>
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+<p style="font-size: 2em;">VIAGEM ÁS TERRAS DOS LANDINS</p>
+
+<p>POR</p>
+
+<p style="font-size: 1.3em;">JOAQUIM CARLOS PAIVA DE ANDRADA</p>
+
+<p style="font-size: 1.1em;">CAPITÃO DE ARTILHERIA</p>
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p style="font-size: 1.4em;">LISBOA<br>
+<small>IMPRENSA NACIONAL<br>
+1885</small></p>
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+
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
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+<p><span class="pn">{3}</span></p>
+
+<div style="text-align: center;">
+<p style="font-size: 1.4em;">RELATORIO</p>
+
+<p>DE UMA</p>
+
+<p style="font-size: 1.3em;">VIAGEM ÁS TERRAS DOS LANDINS</p>
+
+<p style="font-size: 0.8em;">FEITA NOS</p>
+
+<p style="font-size: 1.1em;">MEZES DE DEZEMBRO DE 1884 E JANEIRO E FEVEREIRO DE 1885</p>
+</div>
+
+<div id="corpo">
+
+<h2>Motivos da viagem</h2>
+
+<p>Pela portaria expedida pela secretaria d'estado dos negocios da marinha e
+ultramar, com data de 30 de junho de 1884, incumbindo-me de auxiliar a
+installação do governo de Manica, e por instrucções communicadas por s. ex.ª o
+director geral do ultramar, relativas ao cumprimento da mencionada portaria,
+fui tambem encarregado de visitar os regulos vizinhos e de procurar estreitar
+com elles relações de commercio e amisade.</p>
+
+<p>Ao chegar ao Zambeze com o pessoal do novo governo constou-me que se achavam
+nas povoações que o sr. Manuel Antonio de Sousa, capitão mór de Manica e
+Quiteve, tem formado na serra da Gorongosa, dois grupos de landins; um d'elles
+com o fim de visitar o mencionado capitão mór e o outro o capitão mór de Senna,
+o sr. Anselmo Ferrão, unicas pessoas que para os landins representam a
+auctoridade, e os brancos ou mosungos de Senna.</p>
+
+<p>Logo que o pessoal vindo de Lisboa, com destino ao districto de Manica,
+chegou commigo a Magagade, povoação ou logar na margem do Zambeze pertencente
+ao prazo Gorongosa e portanto ao referido districto, parti para o Chire, onde
+se achava nas operações da guerra do Matacanha o capitão mór de Manica, para
+combinar com elle na maneira como, com a menor demora possivel, se poderiam
+fazer seguir das margens do Zambeze para a saluberrima serra da Gorongosa os
+europeus recemchegados; e, referindo-me aos landins, lhe disse que, apesar do
+improprio da estação, em que iria encontrar os rios em cheia, e muita palha no
+mato, me parecia muito conveniente aproveitar a occasião de se acharem na
+Gorongosa as duas embaixadas, para ir com ellas visitar o Musila e dar
+cumprimento a uma parte da minha missão,<span class="pn">{4}</span> o que, a
+não se dar esta circumstancia, só mais tarde tencionava realisar.</p>
+
+<p>Concordando Manuel Antonio de Sousa com a provavel importancia da minha
+viagem n'esta occasião, obtive delle que sustasse a sua partida para
+Moçambique, onde tencionava ir logo que terminasse a guerra do Chire, e fosse
+com a sua presença e extraordinaria influencia sobre os indigenas apressar a
+reunião dos machileiros e carregadores em Magagade, e me acompanhasse até aqui
+para resolvermos com os landins ácerca da minha desejada viagem. Os landins
+consentiram logo em voltar para traz e acompanhar-me até junto do Musila.
+Antes, porém, de eu partir chegou á Gorongosa a noticia de que o Musila, que os
+landins tinham deixado de boa saude, morrêra quasi de repente. Esta
+circumstancia difficultava a viagem, por causa das guerras e estado de agitação
+que quasi sempre seguem á morte de um grande potentado africano; mas pensei
+tambem que por causa d'ella poderia vir a tornar-se mais util e a proposito a
+visita, e confirmei-me na primeira resolução. Poucos dias depois de começada a
+viagem soube que Mudungase, um dos filhos do Musila que os landins na Gorongosa
+indicavam como provavel successor, tinha effectivamente como tal sido
+reconhecido, e que elle, receiando que seu irmão Mafumana, o mais guerreiro e
+mais para temer dos filhos do Musila, não se conformasse com a opinião geral e
+conspirasse para subir ao poder, o mandára matar, com a mulher e todos os
+filhos machos, e que, no mais, tudo e todos estavam e tinham estado no mais
+completo socego.</p>
+
+<h2>Paiz percorrido; suas condições geographicas, politicas, economicas e
+militares</h2>
+
+<p>Junto a este relatorio está um esboço do paiz ao sul do Zambeze, desenhado
+pelo secretario do governo do districto, o sr. tenente Moraes Pinto, e
+coordenado com o fim de mostrar a area que me parece dever desde já ser
+destinada á acção do novo governo de Manica. Indica elle a direcção geral dos
+grandes rios que cortam o paiz, e os pontos a que tenho que me referir n'este
+relatorio, dando algumas informações que mais se approximam da verdade do que
+as que se encontram em mappas já publicados. Com mais vagar tenciono coordenar
+um mappa em maior escala, no qual introduzirei as informações que tenho dos
+pequenos rios affluentes dos que vão marcados, montanhas, prazos e territorios
+de differentes regulos e povoações.</p>
+
+<h2>Hydrographia</h2>
+
+<p>O referido esboço mostra que o Zambeze se acha em communicação fluvial,
+talvez interrompida n'algum ponto, durante a estiagem, com a costa de Sofalla.
+O rio Zangue, affluente do Zambeze e limite dos prazos Caia e Inhamunho, vem de
+uma lagoa, que, por banhar o<span class="pn">{5}</span> prazo Absinta, tem este
+mesmo nome, e que communica por meio da serie de lagoas ou canal chamado Mucua,
+com uma grande depressão de terreno, mais ou menos cheia de agua, conforme a
+estação, chamada Tandora Zungue. N'esta grande lagoa desembocam varios rios
+vindos da serra da Gorongosa, os quaes, durante uma parte do anno, poderão ser
+empregados como meios de communicação por pequenas embarcações até quasi á base
+da serra; d'esta lagoa nasce o rio Urema, navegavel todo o anno, e que
+juntando-se ao rio Pungue, ou antes ao seu novo braço Mudinquidinqui, causado
+por uma cheia, vae lançar as suas aguas na costa de Sofalla. O rio Urema separa
+o prazo Gorongosa do prazo Cheringoma, e por isso é hoje limite entre os
+districtos de Quelimane e de Manica.</p>
+
+<p>No itinerario seguido, a partir da serra Gorongosa para as terras dos
+landins, o primeiro rio de importancia que se encontra é o Vunduse, affluente
+do rio Pungue; este affluente, que tem um leito de uns 100 metros de largo, mas
+não é navegavel, é limite do prazo Gorongosa e do reino do Barue. Depois do rio
+Vunduse encontra-se o rio Aruangua, que desde aqui até á foz é mais conhecido
+com o nome de Pungue, representando os dois nomes o mesmo rio.</p>
+
+<p>Na altura em que o atravessei, na minha viagem a Manica em 1882, tem o rio
+Pungue muita agua, mas corre sobre um leito irregular de grandes rochas, que o
+torna inteiramente improprio para a navegação; no ponto onde agora o atravessei
+por duas vezes, com uma vara de 14 pés, ou mais de 4 metros, não encontrei
+fundo; mas ainda n'essa altura do rio ha grandes rochas, e a agua, dizem-me,
+baixa na estiagem a ponto de permittir a passagem a vau entre ellas. Um pouco,
+porém, mais abaixo, logo a jusante da foz do Vunduse, as rochas desapparecem e
+o rio continua até á foz sobre leito só de areia e com uma altura de agua, que
+o torna em toda esta extensão navegavel por qualquer vapor fluvial ou por
+vapores costeiros, como o <i>Soutiene</i> e <i>Lion</i>, que ultimamente têem
+frequentado alguns pontos da provincia. Todas as informações que tenho colhido
+me fazem suppor que na foz do Pungue, e até em frente do logar chamado Bangue,
+no prazo Cheringoma, ha um porto capaz de dar abrigo a navios de grande
+tonelagem.</p>
+
+<p>Passado o Pungue é o Revue o primeiro rio importante que se encontra. É este
+affluente do rio Busi, o rio que passa junto á antiga villa de Manica, a tiro
+de pistola da arruinada fortaleza. No ponto em que o atravessei tem o leito do
+rio uns 100 metros de largura, e, na viagem de ida, com uma vara de 12 pés, ou
+mais que 3<sup>m</sup>,5, não encontrei fundo; ouvi, porém, pouco a jusante, o
+ruido de uma grande quéda de agua em rocha, e sei que o rio não póde ser
+navegavel até esta altura; mas disseram-me que o era em toda a epocha do anno,
+pelo menos por pequenas embarcações, como as que se empregam no Zambeze, até
+junto de umas rochas chamadas <i>Inharumirua</i>, que ficam a menos de duas
+horas de caminho a jusante d'este ponto. Para baixo nem o Revue nem o Busi
+apresentam embaraço algum á navegação, a partir da costa.</p>
+
+<p>Ao Revue seguem-se, na direcção que eu percorria, successivamente o Mussapa
+e o Mufomose. Atravessei os dois rios seguidamente<span class="pn">{6}</span>
+na altura da confluencia do primeiro no segundo. O Mussapa tem uns 30 metros de
+largura de agua e o Mufomose uns 60 metros; quando os passei, na ida, tinha o
+primeiro 5 pés de agua e o segundo 10 pés. Na viagem da volta a agua tinha
+baixado, a ponto de poderem alguns dos carregadores atravessar a vau, embora
+com difficuldade; mas disseram-me que conservam os dois rios normalmente a
+altura de agua a que tinham chegado, sendo o Mufomose sempre navegavel por
+almandias até um ponto a montante d'este, onde me disseram se encontra a
+primeira obstrucção causada por umas rochas chamadas Papuquenchofo.</p>
+
+<p>O Mufomose é affluente do Lusite, rio que em seguida atravessei, com uns 50
+metros de largura e 10 pés de profundidade, na viagem de ida, reduzidos a 5
+pés, na viagem de volta. Este rio Lusite é navegavel até muito a montante do
+ponto em que eu o atravessei, e constitue, combinado com o Busi, uma importante
+via de communicação até uma grande distancia no interior. Infelizmente esta
+grande via fluvial Busi Lusite, está, como a via Busi (Lusite) Mufomose,
+interrompida em um ponto. O arco natural sobre o rio, marcado na carta do sr.
+marquez de Sá sobre o Busi, e que tem o nome de Inhambimbe, está situado
+exactamente na confluencia do Lusite com o Busi, atravez dos dois rios,
+cortando a continuidade das communicações. Actualmente, na pouca navegação
+local entre as povoações que estão a montante e a jusante d'este ponto,
+procede-se como se faz no Quaqua, na altura de Mopeia, para todo o movimento do
+Zambeze; cargas e embarcações são passadas por terra até vencer o obstaculo. So
+o arco fosse isolado, visto como ha effectivamente um arco, debaixo do qual
+corre a agua, mas que não dá passagem a embarcações, alguma dynamite remediaria
+logo tudo; mas é provavel que haja mais algumas rochas no proprio leito dos
+dois rios. Como porém, em todo o caso, é um phenomeno isolado e pouco extenso
+no centro de uma planicie, sem pedras em que os dois rios por ali correm, muito
+facil seria abrir um ou dois pequenos canaes lateraes na altura d'esta
+obstrucção. Não se tratará de certo por algum tempo de resolver esta
+questão.</p>
+
+<p>O que me parece importante que fique bem sabido é que o primeiro obstaculo á
+navegação no Busi só se encontra no arco Inhandimbe; que a foz do Revue fica a
+jusante d'este ponto e que os dois rios são navegaveis até ás rochas ou rapidos
+de Inharumirue, que se encontram no segundo, e que distam apenas, como direi,
+um dia de viagem do territorio e minas do Bandire, onde, pela via a que me
+estou referindo, poderá chegar com facilidade todo o material pesado necessario
+para a sua lavra.</p>
+
+<p>Passado o Lusite atravessei o proprio Busi, mas n'uma altura em que elle
+nunca será empregado como via de communicação. Não tenho a mencionar n'este
+trabalho os mais rios que atravessei, valiosissimos para irrigação, mas inuteis
+como meios de communicação.<span class="pn">{7}</span></p>
+
+<h2>Condições geraes do paiz</h2>
+
+<h3>Entre o Zambeze e o Aruangua ou Pungue</h3>
+
+<p>Esta região contém antigos prazos da corôa e o reino do Barue.</p>
+
+<p>Durante muito tempo os prazos da corôa da margem direita do Zambeze, a
+jusante da serra da Lupata, todos sujeitos á jurisdicção de Senna, eram
+invadidos annualmente pelos landins. Estes levantavam pesados tributos, não só
+nos prazos, mas na propria villa de Senna, onde ao principio, se não havia
+coragem e meios sufficientes para resistir ao pagamento d'estes tributos, havia
+a riqueza necessaria para a elles satisfazer. Os landins, com que agora viajei,
+disseram-me que um antigo modo de os tributar consistia em abrir um furo no
+alto da cobertura conica de palhotas circulares, e obrigar a deitar por esta
+abertura fazendas até que a palhota se recusasse a receber mais. Custa a
+comprehender como tal exagero podia realisar-se. Por estes motivos os prazos
+invadidos foram successivamente abandonados e a villa de Senna chegou ao
+miseravel estado de que não mais se levantará.</p>
+
+<p>Cabe ao sr. major Braga, actual governador do districto de Tete, o merecido
+elogio de, entre muitos serviços que fez como commandante militar de Senna, ter
+sido levado pelo seu caracter valente e decidido a auxiliar quanto podia os
+intentos do cidadão Manuel Antonio de Sousa, natural de Goa, negociante
+sertanejo, sobrinho de um antigo residente no districto, que pretendia repellir
+pela força as correrias dos landins aos prazos de Senna. Manuel Antonio de
+Sousa, chamado pelos cafres <i>Gouveia</i>, foi nomeado capitão mór de Manica e
+Quiteve, e veiu assentar a sua casa na serra da Gorongosa, em uma posição
+naturalmente fortificada por tal modo, que um homem resolvido a defender-se não
+tinha mais a temer n'esta base de operações os ataques dos landins. A serra da
+Gorongosa estava absolutamente deserta quando Manuel Antonio aqui chegou com os
+pretos que reuniu a si; nas mesmas condições quasi se achava todo o prazo
+d'este nome. Foram duros os primeiros tempos em que toda esta gente tinha que
+ir buscar, com os meios que Manuel Antonio tinha obtido e ia obtendo com o seu
+commercio, mantimento aos prazos limitrophes, todos muito afastados d'este
+ponto, ao reino do Barue e ainda á Maganja, no outro lado do Zambeze, quando
+houve fome em toda a margem direita do rio. Hoje muitos milhares de pessoas
+habitam em centenas de povoações a serra e os territorios que a rodeiam, tanto
+na Gorongosa como no reino do Barue. Desde que Manuel Antonio para aqui veiu
+como barreira, todos os prazos cobertos pelo da Gorongosa começaram a gosar de
+não interrompido socego e a verem desenvolver-se n'elles a cultura dos generos
+de exportação, com proveito dos indigenas, até ao presente os unicos
+agricultores, bem como dos que com elle negoceiam e em geral do paiz.</p>
+
+<p>Se a villa de Senna se não resentiu da mudança de circumstancias, a não ser
+pelo descanso dos que n'ella continuam a vegetar, é porque se acha em situação
+e condições taes, que a obrigam forçosamente<span class="pn">{8}</span> a
+desapparecer. De ha muito que pela variação do leito do rio deixou Senna de ser
+um bom porto de abordagem para os que navegam no Zambeze, qualidade que
+antigamente motivára a creação e grandeza d'esta villa, apesar da bem merecida
+fama de insalubridade que sempre teve.</p>
+
+<p>O actual talweg do rio correrá a mais do 2 kilometros da villa, e na
+estiagem é necessario atravessar a descoberto um ardente areal d'esta largura
+para chegar da margem acostavel ás primeiras casas. O areal porém não é plano,
+e quando não está todo descoberto na estiagem ou coberto pelas grandes cheias,
+periodo em que as aguas do rio voltam a correr junto ás muralhas da velha praça
+de S. Marçal, formam-se n'esta zona de 2 kilometros varios <i>mucurros</i>,
+cujas aguas deixam muitas vezes de correr, e que não só augmentam a
+insalubridade da villa pelas suas emanações, mas tornam na maior parte do anno
+a villa do Senna um dos pontos da margem do Zambeze de mais difficil
+accesso.</p>
+
+<p>N'este trabalho só desejo dizer que sou de opinião que a villa de Senna,
+como tem sido proposto, deve sair da margem direita do rio, passando com todo o
+commando militar d'este nome para a outra margem; pois não devo demorar-me a
+mostrar as grandes vantagens que este commando militar, pertencente ao
+districto de Quelimane, quando tiver a sua séde em ponto escolhido, ou nas
+alturas em frente de Senna, onde as casas Regís e Hollandeza têem já grandes
+edificios, ou um pouco mais sobre o Zioé Zioé, ha de ter no desenvolvimento da
+nossa acção na valiosissima região limitada pela margem direita do Chire, pelo
+Zioé Zioé e pela margem esquerda do Zambeze até á Lupata no ponto onde vier a
+terminar o districto de Tete.</p>
+
+<p>Comquanto o prazo Gorongosa siga ao longo do Aruangua até avistar o mar, não
+chega elle até á costa, porque a confluencia do Urema na bacia que supponho ser
+um bom porto de mar, traz com a margem esquerda d'este rio uma porção do grande
+prazo Cheringoma a interpôr-se entre a Gorongosa e o Oceano. É nesta altura que
+os landins que se desacostumaram de pisar como conquistadores o prazo
+Gorongosa, passam hoje para os terrenos ao norte do Pungue atravessando o
+deserto prazo Cheringoma (onde julgo que tambem deixam algum destacamento)
+para, graças ao terror que inspira o seu nome e o apparecimento de <i>um só</i>
+de entre elles entre os pontos da foz do Zambeze, irem sugar alguns d'estes
+pretos e mesmo mosungos que estejam nos prazos marginaes a jusante do
+Gorongosa, isto é, os prazos Caia, Inhamunho, Chupanga, Luabo e Melambe.</p>
+
+<p>Quando em 1881 vim pela segunda vez á Zambezia e fiz o conhecimento do
+Manuel Antonio de Sousa, disse-me elle que se o governo do districto de
+Quelimane lhe desse de arrendamento os prazos de Chupanga e Cheringoma, pelo
+preço rasoavel que então quizesse marcar, mas com a condição de que os não
+poria em praça durante nove annos, tempo por que andavam arrendados os prazos
+do districto de Tete, a fim de evitar que passados tres ou quatro annos de
+despezas, trabalhos e perigos, outros viessem concorrer em igualdade de
+condições para o goso dos resultados obtidos, elle, assim como tinha fechado
+aos landins a villa de Senna e os prazos envolvidos pelo da Gorongosa, se<span
+class="pn">{9}</span> compromettia a pôr no prazo Cheringoma uma barreira que
+evitasse para sempre a passagem dos landins para os prazos Caia, Inhamunho,
+Luabo e Melambe: disse-me mais que já tinha proposto ao arrendatario do
+Cheringoma que se oppozesse aos landins, mas que este apenas se contentava em
+aproveitar o prazo para mandar caçar alguns elephantes ou apanhar borracha que
+n'elle abunda, pagando successivamente ao Musila os tributos de fazenda que a
+este fossem contentando. Não apreciei então devidamente o grande poder que a
+rara intelligencia ou perspicácia especial, a actividade, a coragem, o amor do
+trabalho, a generosidade e a acção absoluta que estas qualidades exerciam sobre
+milhares de indigenas davam a Manuel Antonio, nem o grande valor que para o
+paiz tinha a sua proposta, e não a communiquei a pessoa alguma.</p>
+
+<p>No meu diario, 20 de dezembro de 1884, encontro umas palavras que escrevi ao
+chegar á margem do rio Pungue, quando me via em frente de um poderoso obstaculo
+que exercitos munidos com bons trens de pontes não deixariam de respeitar.
+Espero fazer bem transcrevendo-os: «O terreno na ultima parte percorrida é
+<i>park-like</i> como todo o que precede, mas ainda tem melhores pastagens e
+melhores terras para agricultura,&mdash;terras soltas que serviriam para
+mendobim&mdash;grés e muitos filões de quartzo, nas margens granito. Póde-se
+considerar verdadeiramente sujeita á soberania portugueza, ou a Manuel Antonio,
+com relação ao Barue, toda a vasta area comprehendida entre o Zambeze e o
+Aruangua. Vejo que todos os que me rodeiam assim o reconhecem; assim como
+consideram como terras de landins as dos regulos da margem direita do rio. É
+necessario e urgente occupar aqui um ponto na margem esquerda do Aruangua.
+Estou certo, agora, que as nossas relações com os landins vão ser muito boas, e
+espero alcançar alguma cousa para o sul do Aruangua; só um acto de hostilidade
+declarada é que os poderia trazer em massa ao que elles consideram nossas
+terras, apesar de costumados a fazer com meia duzia de homens o que n'ellas
+fazem; mas a este acto <i>nas circumstancias em que estamos</i> podiamos bem
+resistir. Assim, por um modo ou por outro, Cheringoma, Luabo<sup><a href="#nota1" name="m_nota1">[1]</a></sup>,
+Melambe, Chupanga, Inhamunho e Caia ficarão de futuro abertos com segurança aos
+nossos pretos e em breve se acharão habitados.»</p>
+
+<p>Esta riquissima região proximo da costa, que por si só, quando aproveitada,
+póde render bem mais do que toda a actual provincia de Moçambique, acha-se
+deserta e de todo desaproveitada, só pelo terror que causa o nome dos landins e
+a chegada annual de uns vinte ou trinta pretos adornados com pelles e pennas, e
+armados com um escudo e duas pequenas zagaias. Em dias, que é de esperar não
+estarão longe, custará a acreditar que um tão aviltante estado de cousas se
+possa ter continuado por tantos annos n'uma tal localidade.</p>
+
+<p>Alem dos prazos da corôa de que tenho fallado, ha mais, entre o rio<span
+class="pn">{10}</span> Zambeze e o Quelimane para leste do Aruenha, uns muito
+pequenos prazos juntos ao prazo Gorongosa ou mesmo n'elle encravados,
+arrendados por Manuel Antonio; alguns pequenos prazos nas proximidades de Senna
+arrendados por diversos, o muito povoado prazo Chemba, arrendado por Manuel
+Antonio e d'onde elle tirou mais de dois mil cypaes que levou á guerra do
+Matacanha (pois para esta guerra não teve que tocar na gente da Gorongosa); o
+prazo Amoesa, o prazo Chiramba marginal, como o Chemba o é, do Zambeze, tambem
+arrendado por Manuel Antonio, mas parte invadido por gentes do Bonga, o grande
+prazo Tambára, de ha muito sertão abandonado, e os prazos todos occupados pela
+gente do Bonga, incluindo o prazo Masangano.</p>
+
+<p>Em toda a valiosa região de que estou fallando, comprehendida entre o
+Zambeze e o Aruangua encoutrâmos apenas dois obstaculos ao seguro
+desenvolvimento dos seus grandes recursos naturaes. O primeiro, pouco
+importante, é o Bonga; o segundo são os landins. Ha dois unicos homens,
+dedicados ao paiz, que têem poder sobre os indigenas que habitam a maior parte
+das terras da antiga capitania dos Rios de Senna. São os dois homens que com
+toda a probabilidade salvaram ha poucos mezes a soberania portugueza na
+Zambezia. São Manuel Antonio de Sousa e Anselmo Ferrão. Este, comquanto capitão
+mór de Senna, habita hoje a margem esquerda do Zambeze e tem d'este lado um
+vasto campo onde empregar utilmente a sua acção. Fica Manuel Antonio de Sousa
+<i>e é só</i> contando com o auxilio d'este capitão mór que praticamente se
+poderão remover, <i>dentro da area</i> de que trato, estes dois obstaculos. O
+centro de acção, a base de operação de Manuel Antonio de Sousa, é a serra da
+Gorongosa, e é na serra da Gorongosa que se acha provisoriamente a séde do
+governo de Manica; por este motivo e pelo mais que fica dito parece natural e
+conveniente que os territorios desde o ponto de resistencia á passagem dos
+landins no prazo Cheringoma, até á aringa do Bonga na foz do Aruenha façam
+parte do districto de Manica.</p>
+
+<p>Assim, parece que o limite norte a recommendar para o districto seria toda a
+margem esquerda do Zambeze desde a costa até á foz do rio Aruenha.</p>
+
+<p>O conhecimento porém, que hoje temos da importancia do porto do
+Inhamissengo, os resultados que se prevêem da fundação da villa Mesquita,
+proposta pelo sr. capitão-tenente Augusto de Castilho, fazem esperar um tal
+desenvolvimento á importação e exportação directas de todo o commercio da
+Zambezia, a realisar de futuro por esta via e porto, que dar toda a margem
+direita do Zambeze, dar a villa Mesquita e o porto do Inhamissengo ao districto
+de Manica causaria um grande abalo no systema financeiro de Quelimane. Evita-se
+de todo este inconveniente, conservando no districto de Quelimane os dois
+prazos Luabo e Melambe, que têem parte dos seus terrenos no delta do rio,
+passando agora para Manica por inteiro os restantes prazos, ficando para mais
+tarde a rectificação da fronteira dos dois districtos desde a margem do Zambeze
+até á costa, se se encontrar uma linha de separação mais natural do que o
+poderão ser as para nós desconhecidas confrontações dos prazos Luabo e Melambe
+com os prazos Chupanga e Cheringoma.<span class="pn">{11}</span></p>
+
+<p>D'aqui resulta que o commando militar já creado na Chupanga ficaria
+pertencendo ao governo de Manica, o que teria a vantagem de fazer abrir caminho
+da séde de commando, ou forte que se fez ou está fazendo no antigo Luane do
+Prazo (a mais solida casa da Zambezia) para villa Gouveia, devassando e
+rasgando um paiz compacto, cheio de recursos, hoje deserto, e que não tardaria
+a ir sendo habitado ao longo da linha de communicação.</p>
+
+<p>O commandante militar de Chupanga, dependendo do governo de Manica, havia de
+vir á séde do seu governo e atravessar a area do seu commando; dependendo de
+Quelimane, fará geralmente, como geralmente fazem os commandantes militares de
+Senna, que chegam ao seu commando vindo de Quelimane, navegando pelo Zambeze
+acima, desembarcando proximo de casa, e não saíndo mais da villa de Senna senão
+para voltar a Quelimane.</p>
+
+<p>A adopção dos limites, que proponho, imporia a realisação previa ou
+simultanea da, tantas vezes proposta, mudança do commando militar de Senna, e
+da villa d'este nome para a margem fronteira; pois seria absolutamente
+impossivel, a querer trabalhar-se para resultados praticos, o introduzir desde
+já no nascente districto de Manica, a aperfeiçoada legislação, mais perfeita
+que a de qualquer colonia de qualquer outro paiz, que vigora nos restantes
+districtos da provincia, e portanto na actual villa de Senna.</p>
+
+<p>Provisoriamente a praça, e só a praça de S. Marçal, deveria ficar sob as
+ordens do commandante militar de Senna, que n'ella poria um fiel e os homens
+necessarios para a arrecadação do material que n'ella se quizesse guardar.</p>
+
+<p>Não é possivel, porém, conservar como occupadas enormes areas com um numero
+de auctoridades como o que até ao presente temos tido na provincia de
+Moçambique; e por isso o commando militar de Senna, passando para a margem
+esquerda do rio para ficar no districto de Quelimane, não deve deixar de ser
+substituido por um outro, com a séde não longe da actual villa de Senna, mas em
+logar mais recommendavel pela sua salubridade e facil acostamento. Parece-me
+que facilmente satisfará a estas condições algum ponto escolhido no muito
+povoado prazo Chemba, pouco a montante da foz do rio Musingase.</p>
+
+<p>O terreno, que eu bem conheço, é elevado e saudavel. Ha n'elle formosissimas
+arvores de grande sombra, nas quaes se deveria pensar ao escolher o logar para
+as habitações e limitar os jardins que as rodeiem.</p>
+
+<p>O novo commando militar poderia receber o nome de commando militar de
+Chemba.</p>
+
+<p>Chemba seria uma excellente testa de estrada para o centro do Barue e para
+os importantissimos campos de oiro do Alto Aruenha e dos seus affluentes,
+estrada que podia ser para nós muito util, quer nós mesmos vamos occupar estes
+campos, quer deixemos tranquillamente os estrangeiros d'elles se apoderarem,
+pois uma das soluções em breve terá logar.</p>
+
+<p>Os campos de oiro a que me refiro, e que ficam ao sul de Tete, estão mais
+proximos desta villa que de Senna, mas o caminho para elles partindo de Tete
+passa por serras muito cansosas de atravessar,<span class="pn">{12}</span>
+parte das quaes eu conheço desde que fui ao Rio Mazoe; e por isso quando os
+<i>Campos de Oiro do Imperador Guilherme</i> e outras minas vizinhas eram
+trabalhadas pelos nossos antepassados, era de Senna que elles partiam para
+ellas.</p>
+
+<p>O caminho de Chemba torneará a serra da Lupata e todas as que rodeiam Tete,
+seguindo como o de Senna por terrenos planos até ás origens dos rios, e tem
+sobre este decidida vantagem por causa das condições relativas em que se acham
+as duas testas de estrada, e que eu indiquei.</p>
+
+<h3>Reino do Barue</h3>
+
+<p>Com os prasos da corôa da antiga capitania de Rios de Senna, e ainda nos
+terrenos ao norte do Aruangua, de que me estou occupando, confinam os
+extensissimos territorios do reino do Barue, seguindo-se-lhes para sudoeste e
+oeste, e ao sul do districto de Tete, territorios de outros regulos, que se
+consideravam vassallos do Macombe, o fallecido rei do Barue; territorios
+valiosissimos pelas incontestaveis riquezas em minas de oiro, que em si
+contêem.</p>
+
+<p>Não me é possivel indicar os contornos do reino do Barue; só direi que a
+villa Gouveia está na margem direita do rio Inhandue, e que as colinas
+fronteiras na margem esquerda pertencem ao Barue; que para vir de Senna ou de
+Chemba pelo caminho mais curto para este ponto se atravessa o Inhandue quasi em
+frente da villa, e portanto se passa pelo Barue; e que nos dois itinerarios,
+que tenho seguido para ir ha tres annos a Manica e agora ao Gunguneana, passei
+o rio Vunduse, que sei ser, até á sua confluencia no Aruangua, limite do praso
+Gorongosa e do reino do Barue.</p>
+
+<p>Os reis do Barue eram antigamente coroados por uma auctoridade portugueza,
+mas nunca auctoridade portugueza exerceu jurisdicção sobre este reino. Mesmo
+durante a grande prosperidade da nossa feira e villa de Manica, os negociantes
+que transitavam entre esta villa e a de Senna, e eram obrigados a atravessar o
+reino do Barue, soffriam vexames dos baruistas, aos quaes tinham sempre que
+pagar algum tributo.</p>
+
+<p>Nos tempos do fallecido Macombe, Senna recebeu muitas embaixadas insolentes,
+foi muitas vezes obrigada vergonhosamente a responder a ellas, mandando grandes
+tributos em fazenda, e, satisfazendo favoravelmente á exigencia de que mandasse
+um certo numero de pretos, com suas familias, para escravos do Macombe.</p>
+
+<p>Manuel Antonio do Sousa, a quem a villa de Senna deve o ter cessado de pagar
+tributo aos landins, depois de ter antigamente negociado no Barue e trazido de
+lá uma das filhas do rei, com quem teve relações, das quaes resultaram os dois
+rapazes, que por conta do governo estão sendo educados em Lisboa na escola
+academica, tendo sido victima de varios roubos e vexames, que a elle e a outros
+negociantes faziam os baruistas, começou, como particular, só por si e com
+despeza unicamente sua, uma lucta com o Macombe, que durou muitos annos, e
+terminou ha pouco mais de um anno com o tomar elle<span class="pn">{13}</span>
+posse do reino do Barue e ser reconhecido como seu chefe ou rei, e seu filho,
+neto do Macombe, como seu successor.</p>
+
+<hr style="width: 15%;">
+
+<p>A região entre o Zambeze e o Aruangua, comprehendendo os antigos prasos e o
+reino do Barue, constitue só por si uma importantissima colonia, com todos os
+elementos necessarios para ter um rapido desenvolvimento.</p>
+
+<p>Os prazos Cheringoma e Chupanga são riquissimos em madeira e borracha, e
+tanto estes prasos como as terras marginaes do Zambeze se prestam a toda a
+cultura tropical.</p>
+
+<p>A serra da Gorongosa, onde a vinha brava rebenta por toda a parte, pede o
+immediato ensaio da cultura da vinha. Se os resultados forem, como parece
+deverem ser, ter-se-ha introduzido, só por este ramo, uma grande fonte de
+conforto, de commercio e de riqueza na provincia.</p>
+
+<p>No Barue e na Gorongosa, onde ha uma quantidade prodigiosa de excellente
+agua, facilmente se encontram terrenos, onde o milho cresce e produz por modo
+que na Europa não poderá facilmente acreditar-se, onde a cultura de todos os
+cereaes deveria ser ensaiada e a do trigo provavelmente poderia ser
+emprehendida em larga escala.</p>
+
+<p>Finalmente é nas terras de um pequeno regulo, que sempre se considerou
+vassallo do Barue, terras que, occupado este reino, viriam a constituir novos
+commandos militares do oeste do districto de Manica, que se encontram visiveis
+provas dos extensos trabalhos mineiros feitos pelos antigos portuguezes nos
+campos de oiro, que Mauch visitou e achou tão importantes, que os designou com
+o nome de Campos de Oiro do Imperador Guilherme, chamando Bismarck e Moltke ás
+duas serras entre as quaes elles se acham situados. Dahi para o norte e para o
+oeste até ao Zambeze continua a extensa região aurifera, a que o proprio Mauch
+se refere, e que os nossos trabalharam em varios pontos nas minas de Tete e do
+Zumbo.</p>
+
+<p>Para sueste, diz Mauch, <i>a serra Moltke
+commanda o jazigo aurifero de Manica, conhecido já de ha seculos, e certo é que
+os tres jazigos auriferos</i> (do Mogoe, dos Campos do Imperador Guilherme e
+da Manica) <i>vão rivalisar</i>. </p>
+
+<p>Os Campos de Oiro do Imperador Guilherme estão comprehendidos na area da
+concessão, que me foi feita em 1878. Nunca os poude visitar.</p>
+
+<p>Portugal está ainda hoje em condições de se apoderar de grandes centros de
+riqueza, de prosperidade, de força, de prestigio, empregando limitadissimos
+esforços; d'estes centros poderá depois expandir-se do que é seu para o que não
+é seu, sem que estrangeiros tenham a intervir.</p>
+
+<p>Deixar porém attingir esses centros de vida e pretender depois fechar-lhe as
+communicações é cousa que hoje se tornou absolutamente impossivel.</p>
+
+<p>Direi ainda que n'esta admiravel provincia, comprehendida entre o Zambeze e
+o Aruangua, onde milhões de homens poderiam empregar-se em trabalhos de
+agricultura, trabalhos de minas e em todos os ramos da actividade humana, onde
+ha regiões tão sadias e proprias<span class="pn">{14}</span> para o
+desenvolvimento da raça branca, como as mais sadias da Europa, onde temos a
+assegurar e desenvolver a nossa occupação, não haverá alem dos empregados do
+governo umas seis pessoas brancas!</p>
+
+<p>Tudo convida a colonisar, com portuguezes e portuguezas misturados com
+hespanhoes, este paiz. Em parte alguma das nossas possessões poderão colonos
+encontrar mais auxilio para a sua installação, maior numero de braços indigenas
+promptos a empregar em seu serviço por uma modestissima remuneração. Com
+segurança poder-se-ia mandar já da Europa uns dez ou vinte colonos nas
+condições em que até ao presente o governo tem mandado colonos para a Africa,
+porque com os poucos recursos disponiveis do governo do districto e outros
+recursos locaes, estes homens poderão receber o necessario amparo até que o
+producto do seu trabalho os possa sustentar e lhe dê a independencia. Com não
+menos segurança de resultado favoravel poderia o governo mandar em viagens
+successivas, e com sufficiente aviso previo, alguns centenares de colonos, se,
+por meio de uma combinação qualquer, lhes assegurasse, ou por intervenção de
+uma empreza particular, por adiantamentos a serem mais tarde reembolsados pelos
+colonos, meios efficazes de trabalho, em terrenos, ferramentas e braços dos
+indigenas e sustentação durante pelo menos o espaço de dois annos.</p>
+
+<p>Não é porém nas margens do Zambeze que convem colonisar com gente branca, e
+o trazer colonos de Quelimane até á serra da Gorongosa, pelo Zambeze, emquanto
+não houver estradas e meios de transportes convenientes tanto fluviaes como
+terrestres, é despendioso e não póde deixar de offerecer perigo. Assim, se não
+houver a possibilidade, ou empregando o pequeno vapor que a empreza de
+navegação é obrigada a ter sempre em serviço na provincia, ou por qualquer
+outro meio, de fazer desembarcar os colonos na margem do Aruangua ou do Urema,
+para onde desde já o governo do districto trata de abrir bons caminhos, a
+partir da villa Gouveia, será preferivel não mandar colono algum.</p>
+
+
+<h3>Entre o Aruangua e o Revue</h3>
+
+<p>Passando o Aruangua ou Pungue para a margem direita entra-se no Quiteve ou
+Utévé, como se diz ahi. O paiz que do Aruangua ao Revue percorri é encantador;
+não é plano, nem muito montanhoso; geralmente com arvores nem muito grandes,
+nem muitos densas, tem de espaço a espaço pequenos bosques muito fechados ao
+lado dos quaes se passa. Por toda a parte campinas admiraveis para a creação de
+gado, e excellentes terrenos para agricultura.</p>
+
+<p>Está o Quiteve dividido por differentes regulos todos sujeitos aos landins.
+Estes não habitam parmanentemente o paiz, não têem ahi povoações suas, mas por
+um ou outro motivo percorrem-o constantemente, sustentando-se á custa das
+povoações indigenas. Qualquer que seja o numero de landins que chegue a uma
+povoação ou grupo de povoações, por mais miseraveis e pequenas que ellas sejam,
+é necessario que appareça farinha para fazer massa e cabritos ou gallinhas para
+<i>quissâo</i> para todos. Isto sempre e sempre. Mais ainda, se os landins têem
+cargas,<span class="pn">{15}</span> ao chegar ao Quiteve nunca mais pegam
+n'ellas, e são os habitantes que as levam de uma para outra povoação.</p>
+
+<p>Qualquer preto landim, por mais baixa que seja a sua categoria entre os
+seus, procede assim com os povos de Quiteve. Se o indigena por troca ou por
+presente possue um panno ou um lenço, o landim que passa junto a elle não deixa
+de lh'o levar. Todas as raparigas de regular apparencia são obrigadas a viajar
+para o sul para serem lá mães de landins nas suas terras.</p>
+
+<p>Comprehende-se assim como a degeneração da raça dos quitevistas progride
+rapidamente e o estado de infelicidade e de miseria de todas as povoações,
+apesar dos verdejantes campos e das extraordinariamente bellas varzeas de milho
+e outros cereaes de que as vi rodeadas.</p>
+
+<p>Alem d'estas rapinas individuaes feitas pelos landins que acontece passarem,
+ha-as feitas por outros que vem, como os dos destacamentos que tributam os
+nossos prazos da margem do Zambeze, encarregados de receber dos regulos
+tributos de fazenda, que apesar de pequenos não sei como ainda possam continuar
+a ser pagos.</p>
+
+<p>Os regulos não se distinguem facilmente dos seus subditos. Em certas terras
+é praxe antiga que o regulo seja mulher, que se diz não ser casada. Muitos
+d'estes regulos só conservam o nome por tradição; não penso que tenham a menor
+acção sobre as povoações que se acham espalhadas nas vastas areas que dizem
+pertencer-lhes.</p>
+
+<p>Assim o regulo mulher Mahongo, cujo nome se vê nas antigas cartas, e deve
+ter tido grande prestigio, possue ainda nominalmente extensas terras. Passei
+por muitas povoações relativamente consideraveis, de grandes de Mahongo. A
+povoação da propria Mahongo ficava-me no caminho; naturalmente suppunha
+encontrar centro mais importante do que as povoações que tinha visto, e foi com
+grande estranheza que um dia, chegando a uma meia duzia de miseraveis palhotas
+espalhadas n'um vasto campo soube que a palhota isolada junto á qual, por
+acaso, eu me achava era a do regulo, e que a velhinha quasi nua que estava
+sentada á porta era a propria Mahongo.</p>
+
+<p>O regulo mais importante do Quiteve, entre o Pungue e o Revue é a rainha
+Gomani. Comquanto passasse por muitas povoações dos seus grandes e não longe da
+sua propria povoação e lhe mandasse alguns presentes, não me desviei do caminho
+que seguia para a ir ver, e não a posso comparar com a Mahongo.</p>
+
+<p>Os regulos do Quiteve que limitam com o Aruangua a partir da foz do rio,
+são: o regulo Pica, nas terras do qual estão as minas de oiro que dizem muito
+ricas, de Inhaoxo.</p>
+
+<p>A região das minas está hoje abandonada e é de muito facil accesso,
+podendo-se chegar ás minas com pequena marcha por terra, se se aproveita o rio
+Pungue e o seu affluente rio Muda.</p>
+
+<p>Todo o baixo Quiteve, ou região do Quiteve junto á costa é uma perfeita
+planicie á excepção do logar onde se levanta a serra isolada da Chiruvo, onde
+estão as minas de Inhaoxo e de onde sáe o rio Muda, que dizem navegavel até
+quasi á base da serra.</p>
+
+<p>Por informações mais recentes parece que Inhaoxo é uma pequena serra
+contigua á de Chiruvo, mas d'ella separada justamente pelo rio Muda que vem de
+mais longe no Quiteve.<span class="pn">{16}</span></p>
+
+<p>N'estas condições comprehende-se quanto nos seria facil a occupação da
+serra Chirua e o dar absoluta segurança a um sitio que dizem conter riquezas
+importantes, que é elevado e deve ser sadio, e onde se estaria tão proximo da
+costa, e com ella em tão facil communicação. A occupação de Inhaoxo teria
+ainda uma grande importancia para a execução de qualquer projecto tendente á
+reoccupação de algumas terras, ou antigos prazos para o districto de
+Sofalla.</p>
+
+<p>A montante do regulo Pica, seguo-se o regulo Guenjere, a montante de
+Guenjere o regulo Chaurumba, a montante do Chaurumba o regulo Ganda. As terras
+d'este confinam, junto ao Aruangua, com as do do reino de Manica.</p>
+
+<p>Foi com grande surpreza que fui vendo que o extraordinario poder de Manuel
+Antonio se estende ao Quiteve. O regulo Pica propõe-lhe fazer entrega de todas
+as suas terras que vão do Aruangua até ao Busi, e, por pouco que o governo
+podesse fazer, a occupação da Chiruvo e terras vizinhas em breve estaria
+realisada.</p>
+
+<p>O regulo Guenjere abandonou ha pouco as suas terras, e passou com a sua
+gente para a Gorongosa.</p>
+
+<p>O regulo Chaurumba, rapaz forte e de aspecto valente, parece ser um homem
+inteiramente dedicado a Manuel Antonio, e ás escondidas dos landins tem muitas
+armas por este fornecidas. O regulo Ganda actual é que não está bem com Manuel
+Antonio. Ha não sei bem que desavenças de familias n'estas terras; o que sei é
+que Manuel Antonio já o bateu e que Ganda, cujas terras muito extensas se
+estendem até ao Revue, abandonou as proximidades do Aruangua e acha-se no alto
+das grandes montanhas que n'essa longitude já existem entre os dois rios. Dois
+filhos ou sobrinhos de Ganda estão em Gorongosa, talvez sendo preparados para
+mais tarde substituir o pae ou o tio.</p>
+
+<p>Os landins servem-se da gente do Quiteve como de cousa sua, e é claro que no
+caso, pouco provavel, de um ataque feito por elles ás terras da margem esquerda
+do Aruangua, elles mandariam na sua frente com a zagaia nos rins, como
+primeiras tropas landinas toda a gente que encontrassem no Quiteve e não
+tivesse tido tempo de fugir como amiga para este lado.</p>
+
+<p>Todas estas circumstancias, e as relações que em substituição de Manuel
+Antonio, convem que as auctoridades do governo de Manica tenham com os regulos
+do Quiteve, mostram a necessidade de fazer comprehender legal, embora
+theoricamente, no districto de Manica todo o territorio comprehendido entre o
+Pungue e o Revue.</p>
+
+<p>Disse que o reino de Manica limita com as terras do regulo Ganda, junto ás
+margens do Aruangua. Junto ao Aruangua o reino de Manica póde considerar-se
+como deserto, e facil será chegar com o rei a um accordo para nos ceder esta
+porção do seu territorio que elle não occupa.</p>
+
+<p>O reino de Manica estende-se muito para o sul e é para o sul do Revue e já
+na margem de um afluente do rio Save que está a aringa do Mutaça, rei de
+Manica.</p>
+
+<p>O antigo territorio portuguez de Manica está no valle do Revue, e a velha
+villa, junto á margem esquerda d'este rio, e portanto comprehendido entre elle
+e o Aruangua.<span class="pn">{17}</span></p>
+
+<p>Na viagem que ha tres annos fiz a esta villa segui o itinerario marcado no
+esboço junto, atravessando da bacia do Aruangua para a do Revue, n'uma
+longitude onde o terreno é muito accidentado e a divisoria das duas bacias
+hydrographicas de cota muito elevada.</p>
+
+<p>Desde então a occupação da serra Humbe por Manuel Antonio fez d'este ponto
+do Barue, ponto forçado do caminho entre a Gorongosa e Manica; e comquanto
+menos directo, poderá ser preferivel ao que eu segui, se alem do Aruangua
+houver a subir e a descer serras menos altas e menos asperas.</p>
+
+<p>Não é porém pela Gorongosa o caminho natural entre Manica e a costa. A
+viagem que acabo de fazer permittiu-me tomar conhecimento de um caminho
+direito, que convenientemente limpo e rectificado permittirá chegar, vindo da
+costa a Manica com uns quatro dias de facil viagem a pé. Com melhor estrada,
+havendo cavallos, poderia vir a ser vencido em menos de dois dias. O ponto de
+partida para a viagem de terra seria a margem direita do rio Pungue na altura
+das terras de Guenjere, em ponto onde sempre poderá chegar o vapor que fizer o
+serviço do rio.</p>
+
+<p>Não inscrevo aqui o itinerario detalhado. No terceiro dia de viagem por este
+caminho é cortado o que eu segui indo ás terras dos landins. No quinto dia
+ficam os pretos na margem do rio Musa, affluente do rio Chimesa, que é
+affluente do rio Revue.</p>
+
+<p>N'este ponto da margem do Musa disseram-me, que havia ainda hoje ruinas de
+um antigo forte, muralhas de altura de homem e vestigios de importantes
+trabalhos de minas. A antiga villa e feira de Manica fica a poucas horas de
+caminho do rio Musa.</p>
+
+
+
+<h3>Entre o Revue e o rio Mussapa</h3>
+
+<p>Terreno muito elevado e accidentado, coberto de um a outro rio por continua
+e densa floresta. Passei a garganta da divisoria, que fica muito mais proxima
+do Mussapa que do Revue, n'uma altitude de 2:230 pés, mas no seguimento do
+caminho, subindo e descendo sempre, attingi varias vezes altitudes não muito
+inferiores a este maximo.</p>
+
+<p>Em parte da floresta encontra-se uma grande quantidade das trepadeiras de
+que tiram a borracha e que dão um fructo que, embora bastante acido; é muito
+agradavel ao paladar. Cultivar n'uma grande area da floresta esta trepadeira
+constituiria sem duvida uma industria consideravelmente remuneradora. Cruzando
+o caminho, e sem necessidade de menor pesquiza vêem-se duzias de grandes filões
+de quartzo, havendo probabilidades de que muitos d'elles sejam auriferos. Toda
+esta região entre o Revue e o Mussapa fazia parte do alto Quiteve. O paiz que
+fica junto á margem do Revue no ponto onde atravessei este rio é o Zauve, e é
+n'elle, um pouco a oeste do meu itinerario, que está encravado o antigo
+territorio portuguez do Bandire, hoje abandonado, e que contém as valiosas
+minas d'este nome.</p>
+
+<p>O chefe do Zauve é o regulo Murinane, que foi antigamente de grande
+importancia; apesar de se vestir como os outros pretos, de como elles se sentar
+no chão, ainda se apresenta com uma certa grandeza comparado com todos os mais
+chefes que eu vi. D'este regulo<span class="pn">{18}</span> recebi muitas
+informações ácerca das minas, que estão situadas nas montanhas do Bandire,
+tanto na vertente do Revue como na do Mussapa.</p>
+
+<p>Não me parece haver ahi um placer aurifero como incontestavelmente o ha em
+Manica; o trabalho das minas é todo em rocha, e é por isso que penso que dos
+numerosos filões que encontrei entre o Revue e o Mussapa alguns pelo menos têem
+probabilidade de ser auriferos. Comquanto Murinane, que é um preto de
+cincoenta annos, de bello aspecto, me dissesse tanto como todos os outros
+regulos do Quiteve com quem primeiro estive, que muito desejaria ver-se livre
+dos vexames dos landins, e escondesse d'aquelles que me acompanhavam os
+presentes que lhe dei, notei grande differença entre o que vi na grande
+povoação d'este regulo e a miseria das gentes de áquem Revue.</p>
+
+<p>Na povoação do Murinane nota-se maior independencia; já ahi todos têem as
+orelhas rachadas, quasi caracteristicas dos landins; todos, a começar pelo
+regulo, fallam bem o vatua, ou a outra lingua dos landins.</p>
+
+<p>As rochas Inharumirua, que offerecem o primeiro obstaculo á navegação no
+Revue, desde a costa pelo Busi, ficam a menos de duas horas a jusante da
+povoação de Murinane; conversando pela manhã, pelas oito horas com o regulo a
+respeito d'esta obstrucção e da distancia ao ponto onde estavamos, mostrou elle
+entre os homens que estavam sentados no chão ao redor do nós, um que me disse
+ser o chefe de uma povoação mesmo junto a estas rochas e que n'aquella mesma
+manhã de lá tinha partido. Para irem da povoação de Murinane ás minas do
+Bandire dormem um dia no caminho, chegando no seguinte de manhã; vê-se portanto
+a que curta distancia estas minas estão de uma via fluvial; quando mesmo ella
+não seja bem navegavel em todo o tempo, para transporte de pesos muito
+consideraveis, e que não ha a remover constantemente, póde-se bem escolher a
+estação propria.</p>
+
+<p>O elevado macisso de montanhas que ha entre o Revue e o Mussapa desce
+rapidamente do lado d'este ultimo rio, cujo valle é uma larga planicie
+verdejante, sem quasi arvore alguma, na qual serpenteia de um e outro lado o
+leito do rio.</p>
+
+<p>N'este valle muito cultivado ha já algumas povoações de landins com o
+caracteristico <em>bode</em> ou rodella de cêra preta na cabeça. O contraste é
+bem notavel entre estas povoações landinas, onde cada um se sente seguro em sua
+casa e gosa tranquillamente do que é seu, onde as mulheres e creanças sabem que
+não podem ser levadas pelos primeiros que passem, e as infelizes povoações do
+Quiteve principalmente as que se acham entre o Aruangua e o Revue. As povoações
+landinas da margem esquerda do Mussapa são muito poucas e só formam, como
+testas de ponte para as densas povoações da outra margem; o territorio de
+Bandire é nosso, e o regulo Murinane e outros da margem direita do Revue,
+apesar de obedecerem hoje aos landins e de deverem marchar contra nós, se a
+isso forem forçados, muito prefeririam estar sujeitos directamente e só á
+soberania portuguesa. Não vi se, para jusante da foz do Mussapa, na pouca
+extensão da margem esquerda do Mufomose e do Lusito que ainda segue até ao
+Busi, e em toda<span class="pn">{19}</span> a margem esquerda d'este rio, desde
+a foz do Lusite até á costa, ha ou não muitas povoações de landins. Os limites
+do districto de Manica, se bem que theoricos, não devem ser só fixados com as
+terras do Gunguneana, mas, proximo da costa, tambem com o districto de Sofalla.
+Pelo que tenho dito parece-me haver decidida vantagem em considerar a margem
+esquerda do rio Mussapa e a continuação d'essa margem na altura do Mufomose,
+Lusite e Busi até ao mar, como limite sul do districto de Manica. O districto
+de Sofalla confinaria ao norte, de leste a oeste, com o de Manica, e a oeste,
+de norte a sul, com as terras do rei de Gasa, com limites a determinar e que
+restituissem a Sofalla todos os seus antigos prasos ao sul do Busi, e mais
+terras hoje invadidas pelos landins.</p>
+
+<p>Ao sul do districto de Manica e a oeste do de Sofalla haveria um grande
+potentado, vassallo portuguez, que teria toda a liberdade da dictar a lei no
+governo das suas terras e do seu povo, afastaria a dominação estrangeira e
+poderia, sendo bem aconselhado, e recebendo bem os conselhos, desenvolver no
+seu paiz varias industrias agricolas, como a da creação de gado, a que o
+terreno se presta admiravelmente, e producção de lã e mohair, que dariam uma
+grande prosperidade ao porto de Chiloane, ou a outro porto vizinho que parece
+existir em melhores condições o dever vir a substitui-lo para o serviço dos
+paquetes.</p>
+
+<p>Disse que o valle do Mussapa é uma planicie bastante larga; pareceu-me, pelo
+exame que fui fazendo de varios pontos do meu itinerario, que em parte seguindo
+este valle e ao sul do macisso de montanhas que separa o Mussapa do Revue, ha
+uma facha de terreno plano que sobe gradualmente para o interior, que passa não
+muito longe da povoação de Murinane, que passará junto á base das montanhas do
+Bandire e continua na direcção de Manica, cujas serras eu distinctamente via
+n'esta direcção.</p>
+
+<p>Assim, haverá, a partir da costa, dois caminhos naturaes para a região de
+Manica.</p>
+
+<p>O primeiro, é o que indiquei, pelo rio Pungue, e depois da margem d'este
+rio, seguindo obliquamente para a bacia do Revue. É o unico caminho da costa
+que por muito tempo nos poderá interessar.</p>
+
+<p>O segundo, que parece proprio para o assentamento de uma linha ferrea, e que
+só agora indico como nota que possa vir a ser util para algum trabalho futuro,
+seria o que partisse do fundo do que dizem ser o excellente porto a que ha
+pouco me referia, formado por traz da ilha Boene, ou da margem esquerda do rio
+ou braço de mar denominado Mutizane, seguisse pelos terrenos planos do baixo
+Quiteve, atravessasse o Busi, talvez nas proximidades do arco Inhambimbe, ou
+foz do Lusite, e seguisse pelos valles e margens esquerdas dos rios Mufomose e
+Mussapa, passando junto ao Bandire até Manica.</p>
+
+
+<h3>Terrenos ao sul do Mussapa</h3>
+
+<p>Pouco me resta a dizer a respeito de terrenos, que nos interessem
+directamente, pois devemos considerar os territórios ao sul de Mussapa,<span
+class="pn">{20}</span> como pertencendo ao rei de Gasa; isto até que em
+epochas futuras todas as terras dos landins venham a passar ao dominio directo
+da nação.</p>
+
+<p>Atravessei, como disse, o Mussapa na sua confluencia com o Mufomose; depois
+de uma hora de caminho em planicie, e suppondo que estava sempre no valle do
+Mufomose achei-me nas margens do Lusite, e passado este rio, continuei, sempre
+em paiz plano, até á base da serra Citatonga contra a qual me levaram, e sobre
+a qual tive que passar; á esquerda do meu caminho a planicie continua até á
+costa; á direita as montanhas elevadissimas de onde nascem o Mussapa, o
+Mufomose, o Lusite, o Busi, e outros affluentes d'estes rios, montanhas que
+separam o systema hydrographico do rio Busi do da bacia do rio Save. Este
+ultimo rio vem muito mais do norte, tendo as suas origens proximo da divisoria
+das aguas para o Zambeze, e origem do affluente do rio Aruenha, affluente do
+Zambeze em Masangano; corre do norte ao sul recebendo do lado do oeste as aguas
+de affluentes que vem das terras do Muzilicatze, do lado de leste as que nascem
+nas vertentes de oeste das serras de que acabo de fallar, e é junto á margem de
+um d'estes affluentes que está a aringa do rei Mutaça; depois, em maior
+latitude, volta rapidamente para leste para desaguar no oceano Indico por
+muitos braços formando um extenso delta a que Chiloane pertence. Os rios Busi o
+Save junto á costa correm portanto quasi como parallelos entre si. A villa de
+Sofalla fica approximadamente a meia distancia entre a foz dos dois rios.</p>
+
+<p>Como se vê no esboço junto e como eu vi do alto da serra Citatonga, o rio
+Busi, depois de passada esta serra, corre para o norte a ir receber não muito
+longe, e em terreno perfeitamente plano, as aguas do Lusite; o que prova que
+desviando um pouco o itinerario para leste, poderia ter contornado a serra
+Citatonga em logar de ter passado duas vezes pela sua cumiada, o que,
+principalmente pela garganta por que passei na volta, é bastante custoso.</p>
+
+<p>Passada a serra Citatonga, o caminho segue em terreno plano, apenas com
+ligeiras ondulações em alguns pontos, ficando proximo, á direita, as montanhas
+onde nascem o Busi e um importante affluente d'este rio, pela agua que leva,
+por entre rocha, o rio Muzirisi, junto á margem esquerda do qual, na pequena
+povoação de Cuzova, terras do grande Mugomugomo, terminou a minha viagem.
+Proximo da margem direita d'este rio, um pouco a montante do logar onde eu
+estava, e a umas cinco ou seis horas de caminho, é que está a povoação do
+Gunguneana.</p>
+
+<p>Do valle do Muzirisi, diz o explorador inglez Mr. Erskine o seguinte: «O
+valle do Muzirizi (que elle chama Umswelisi) está destinado a ser um dia uma
+das mais productivas regiões d'este lado do continente. Assucar e café
+dar-se-íam ahi admiravelmente; e por causa da sua elevação supponho que será
+perfeitamente sadio».</p>
+
+<p>Mais longe diz: «A agua transparente d'este rio é abundante e seria
+sufficiente para irrigar este extenso e fertil valle, e ainda para mover
+moinhos, para o que a sua rapida quéda o torna muito proprio».</p>
+
+<p>Do Aruangua, do Revue e de todos os menores rios, affluentes d'estes, se
+póde em geral dizer outro tanto.<span class="pn">{21}</span></p>
+
+<p>A parte das terras do valle do Muzirisi que não está cultivada com milho,
+mapira, feijão, etc., é destinada á pastagem das numerosas cabeças de gado que
+o Muzila tinha, e o Gunguneana conserva e trata de augmentar, e que se acham
+divididas por manadas entregues aos chefes das differentes povoações. A manada
+na povoação de Cuzova tinha a especialidade de ser exclusivamente composta de
+gado muito novo, ou vitellos que iam sendo separados das mães nas manadas
+vizinhas.</p>
+
+
+<h2>Minha missão, seu resultado</h2>
+
+<p>Foi, como disse, a presença das duas embaixadas dos landins na Gorongosa,
+que me aconselhou a escolher esta occasião para fazer a primeira visita ao rei
+de Gasa. Tudo o mais nos era contrario: chuvas, cheias dos rios, caminhos
+fechados com palha de altura de dois homens. Não tinha tambem na Gorongosa quem
+soubesse portuguez e vatua, nem mesmo pessoa que me podesse acompanhar e
+servisse de bom interprete; de portuguez para as linguas da Gorongosa ou do
+Quiteve, muito similhantes, e que muitos dos landins fallam.</p>
+
+<p>Um dos meus moleques era o interprete com que mais poderia contar, mas fui
+successivamente descobrindo a impossibilidade de lhe fazer comprehender qual
+era a missão do interprete, e de lhe fazer traduzir cousa que elle não pensasse
+entender, e sobre a qual elle depois livremente discursasse na lingua para que
+traduzia.</p>
+
+<p>O que não fosse de accordo com a sua opinião não traduzia, e não foi
+possivel fazel-o referir a povos de que elle nunca tinha ouvido fallar.</p>
+
+<p>Prevendo isso, logo que cheguei ao Quiteve escrevi ao capitão mór de
+Sofalla, um mouro chamado Amade Sene Abdalá, filho de um Gricar Abdalá, que
+vemos figurar como lingua do estado nos termos da reivindicação do territorio
+do Bandire em 1835, e de uma princeza murinane, irmã da actual rainha Gomoni e
+do actual regulo Murinane, preta ou princeza com que elle Gricar travou
+relações, e que levou para Sofalla, onde ella passou o resto da vida. Sabia eu
+portanto que o capitão mór de Sofalla era sobrinho dos dois mais importantes
+regulos do Quiteve; sabia mais, que elle, como antigo negociante, era
+conhecedor dos sertões, que fallava a lingua do Quiteve e a lingua vatua e que
+era valente; e por isso lhe escrevi, pedindo-lhe que me viesse servir de
+interpretre.</p>
+
+<p>Da mesma povoação em que escrevi a Amade Sene, partiram rapidamente para a
+frente tres landins com o fim de annunciarem a Gunguneana da minha viagem.
+Encontrei-os de volta a uns tres dias da povoação do rei, dizendo-me da parte
+d'elle que seguisse e que seria bem recebido.</p>
+
+<p>Na manhã de 23 de janeiro, quando suppunha que nesse dia chegaria á povoação
+do Gunguneana, pararam os meus conductores na povoação de Cuzova, que já tenho
+citado, para que fossem alguns d'elles dar parte ao rei de que eu me
+approximava. Só na manhã do dia 1 de fevereiro chegaram quatro grandes, que,
+acompanhados de muita gente, me vinham comprimentar da parte do Gunguneana,
+trazendo-me um<span class="pn">{22}</span> boi, e pedindo-me que expozesse o
+motivo da minha visita. Apenas consegui poder dizer-lhes que vinha para
+confirmar e estreitar as relações de amisade com o novo regulo portuguez, e
+para lhe dizer que o rei resolvêra mandar reoccupar as suas terras de Manica e
+avisar d'isso o Gunguneana para que se alguns landins fossem para aquelle lado
+recebessem do Gunguneana ordem para ter bom trato com os mosungos. Fallei
+apenas de Manica, e é claro que não podia pedir licença qualquer para irmos
+para lá, visto que as terras da região da antiga feira de Manica são
+portuguezas e como taes reconhecidas pelo rei de Manica e por todos os povos
+que habitam os paizes vizinhos. Como porém os grandes das duas embaixadas me
+tinham sempre acompanhado, e, depois da sua viagem e ausencia de muitos mezes
+não tinham ainda estado em relação com os que cercam o Gunguneana começaram em
+landim discursos que duraram horas, e em que notei que, de certo com as
+melhores intenções, porque todos os landins com que estive em contacto me deram
+sempre provas do sympathia, repetidas vezes fallavam em Ferrão, Gouveia,
+Gorongosa, Manica, Bandire e Inhaoxo, e em que provavelmente disseram que eu
+vinha para tomar conta de todo o Quiteve, como varias vezes o haviam
+dito pelo caminho, sem que palavra ou acto algum da minha parte motivasse tal
+asserção.</p>
+
+<p>Partiram os grandes parecendo muito satisfeitos commigo e dando-o a entender
+que no dia seguinte ou no dia depois d'este alguem me viria buscar da parte do
+Gunguneana.</p>
+
+<p>No dia 3 de fevereiro, quando eu já de ha muito suppunha que o capitão mór
+de Sofalla não podia ou não queria vir até tão longe, appareceu-me elle,
+motivando a sua demora pela do portador da minha carta, que fiou muitos dias em
+uma das povoações do caminho, dando as chuvas como pretexto da paragem.</p>
+
+<p>Em outras communicações fallarei de Sofalla e do seu capitão mór, homem que
+me parece muito util. Elle veiu com bastante gente de Sofalla, e durante os
+dias que estivemos juntos, apesar da impaciencia da espera, não podia deixar de
+ter muito prazer, vendo fraternisar e <em>amossossar</em> juntos gente de Senna
+com a gente de Sofalla, reunião que ha muitas dezenas de annos julgo não tinha
+tido logar.</p>
+
+<p>Esperavamos de dia para dia o aviso de Gunguneana para marcharmos; quasi
+todos os dias vinha de lá alguem que por varios motivos ia justificando a
+demora passada, annunciando que breve seguiriamos.</p>
+
+<p>Indicarei alguns d'esses motivos:</p>
+
+<p><em>a</em>) Entrega dos <em>Nhunhe muchopes</em> (passaros brancos) aos seus
+commandantes.</p>
+
+<p>Com este nome acaba Gunguneana de crear um novo corpo do exercito, recrutado
+em todas as suas terras e constituido com rapazes que deverão servir por um
+determinado numero de annos n'este corpo, e que emquanto não passarem para
+outro ficam prohibidos, sob pena de morte, de casar ou ter relações com
+mulheres. O nome é devido a que os escudos são feitos com pelles de bois
+brancos, e que todo o vestuario dos homens será da mesma côr; pelles ou pennas
+brancas. Como muitos landins vão trabalhar no Transvaal, na republica de Orange
+e<span class="pn">{23}</span> nos Campos de Diamantes, trazem d'esses paizes
+quantidades de pelles de carneiros de comprida lã branca, de que cortam
+estreitas tiras, com que adornam o grosso dos braços e as pernas, logo abaixo
+dos joelhos.</p>
+
+<p>Quando cheguei á povoação de Cuzova tratava-se effectivamente de reunir na
+do Rei todos os <em>Nhunhe muchopes</em>, e vi passar nos primeiros dias que
+ali estive, muitos centos de rapazes, que de todos os lados convergiam para o
+ponto de reunião.</p>
+
+<p><em>b</em>) Reunião de outra gente de guerra, que tambem vi passar em grande
+quantidade, por causa de um importante acampamento, manifestado por uma
+extensissima linha de fogos ao longo da margem direita do rio Save, e
+constituido por gente do Muzilicatze, sem que ainda se soubesse se vinham para
+cumprimentar o novo rei, se para lhe fazer guerra.</p>
+
+<p>Mais tarde, quando regressava pelo Quiteve, disseram-me que dez brancos a
+cavallo, vindos do lado do Muzilicatze, tinham com muita gente atravessado o
+Save, para visitar o Gunguneana. Não sei se estes brancos têem ou não relação
+com o acampamento a que me acabo de referir.</p>
+
+<p><em>c</em>) Reunião dos grandes, chegados de povoações muito afastadas para
+que Gunguneana conversasse com elles a respeito da minha visita.</p>
+
+<p>No dia 11 de fevereiro chegaram finalmente á povoação de Cuzova todos os
+grandes que primeiro me tinham vindo ver, acompanhados de alguns outros; depois
+de muitos comprimentos e de conversarem sobre assumptos estranhos ao objecto da
+minha presença ali, o maior de entre elles, um bello e sympathico homem, por
+nome Magumeana, chamou do grupo de pretos, que estavam sentados atrás dos
+grandes, um que veiu pôr junto a mim uma pequena ponta de marfim, sobre a qual
+Magumeana poz duas libras sterlinas<sup><a href="#nota2" name="m_nota2">[2]</a></sup>, dizendo que era a
+<em>bôca</em> do Gunguneana, para dizer que não podia consentir em que os
+brancos viessem trabalhar nas minas, nem estabelecer-se nas suas terras,
+<em>porque se o fizessem, viriam depois tantos, que em breve lhe tirariam o
+poder</em>; que elle Gunguneana era portuguez, que elle, mas elle só, era
+mulher do rei de Portugal, que assim o dizia a todos os estrangeiros, que
+desejava amisade com os brancos; que tem dado d'isso muitas provas, e ainda
+muito recentemente, quando na Chupanga lhe assassinaram traiçoeiramente, quando
+elles dormiam, todos os landins que lá estavam, não tendo feito guerra por esta
+causa; que os mosungos podem livremente vir negociar, com segurança, a todas as
+suas terras, mas que não quer que n'ellas explorem as minas; que os brancos
+nunca fizeram esse pedido a seu pae, e que notava que se tinham reservado para
+o fazer quando elle acabava de subir ao poder.</p>
+
+<p>Fiz notar que eu já me achava em caminho quando se soube do fallecimento do
+Musila, e que o rei de Portugal não tinha que receber licença de pessoa alguma
+para mandar mosungos para as suas terras do Manica, que todos na localidade
+reconhecem pertencer-lhe.<span class="pn">{24}</span></p>
+
+<p>Era inutil qualquer discussão com estes homens isolados, visto que a
+resposta do Gunguneana tinha sido dada em conselho de todos os grandes, que já
+se achavam espalhados, e que evidentemente eu não podia ter por agora
+modificação ás resoluções tomadas. Tratei, só, portanto, de aproveitar a
+presença de um homem intelligente como é o capitão mór de Sofalla, bom
+conhecedor do portuguez e do landim, para dizer o que desejaria ter dito na
+minha primeira entrevista com os grandes, embora o mau resultado da minha
+viagem tornasse impossivel o tratar de muitos pontos, como o da construcção de
+um telegrapho com excellente directriz, passando pela povoação de Gunguneana, o
+transporte maritimo por Chiloane dos landis, que com viagens de mezes vão
+servir no Natal.</p>
+
+<p>N'esse mesmo dia 11 de fevereiro comecei a viagem de volta para a Gorongosa,
+onde cheguei no dia 1 do corrente. Não indico n'este trabalho, destinado a
+fornecer infirmações a s. ex.ª o ministro da marinha, os promenores da viagem,
+que só podem interessar e muito aos que tiverem de percorrer o paiz.</p>
+
+<p>Gunguneana disse aos grandes, quando elles vieram ver-me com a resposta, que
+não me pedissem fazendas, para que eu não <em>podesse voltar dizendo que tinha
+comprado as minas</em>; caso sem exemplo, com landins em frente de
+<em>motores</em> de fazendas, e que bem mostra que é receio o que elles todos
+têem. Dei, porém, aos grandes, tanto na primeira como na segunda visita, e
+mandei pelas duas occasiões ao Gunguneana alguns presentes; porque achei
+conveniente deixar boa impressão e separar-me dos grandes com agradaveis
+relações.</p>
+
+<p>Os grandes nomearam tres landins para nos acompanharem, receiosos de que o
+estranho facto, de voltarem do lado da casa do seu chefe mosungos com motores
+de fazenda completos não fosse attribuido a alguma fuga ou desavença, e nos
+causasse embaraços no caminho.</p>
+
+<p>Junto a este relatorio vae um resumo da conta de todas as despezas da
+viagem, incluindo as do transporte do capitão mór de Sofalla, e todos os
+presentes dados ao Gunguneana, seus grandes, regulos do Quiteve, e todos os
+chefes da povoação onde passámos, na importancia de 624$800 réis, despezas
+pagas pelo governo do districto de Manica.</p>
+
+
+<!&mdash; &mdash;>
+
+<h2>Comparações com a colonia ingleza do Natal; algumas apreciações dos nossos
+vizinhos ácerca do paiz que visitei; da nossa administração e modos de proceder</h2>
+
+<p>O cônsul O'Neill em um dos relatorios que, como consul de Sua Magestade
+Britannica na provincia de Moçambique, é obrigado a fazer annualmente, diz o
+seguinte: «Situada entre o territorio do sultão de Zanzibar e a colonia do
+Natal, está a provincia de Moçambique, que em nada é inferior a qualquer
+d'estes dois paizes e lhes é muito superior pelos seus numerosos portos, pelas
+vias naturaes de communicação,<span class="pn">{25}</span> que permittem
+attingir facil e economicamente grandes distancias no interior; e comquanto a
+colonia de Natal muito pequena, de recente creação veja elevar os seus
+rendimentos a X (não cito cifra por não ter o documento presente), comquanto
+Zanzibar com todos os contras da civilisação arabe renda Y, a provincia de
+Moçambique rende apenas Z (uma pequena fracção de Y, já muito inferior a X).</p>
+
+<p>O motivo da differença, tão contraria nos resultados, quando as condições
+naturaes são todas a favor da provincia de Moçambique, só póde ser devido á
+differença dos processos empregados.</p>
+
+<p>Os rendimentos da provincia do Natal foram em 1882 de £657:737, e o valor
+das exportações feitas por cima da barra quasi inaccessivel do porto de Durban
+foram de £731:309. Dados muitos recentes mostram que o valor das exportações
+pelo mesmo porto subiu em 1884 á respeitavel somma de £957:918 ou mais de
+4.300:000$000 réis; sendo £523:377, ou mais de 2.300:000$000 réis, do valor de
+lã (a maior parte da qual, devo dizer, vem de fóra da colonia, do Transvaal e
+da republica de Orange); £185:131, ou 832:000$000 réis, de assucar, e mais de
+360:000$000 de réis de pelles de animaes. O seguinte artigo, cortado do jornal
+que mais aversão nos tem, o <em>Natal Mercury</em> de 18 de novembro de 1884 na
+geralmente intrigante e invejosa colonia de que estou tratando, mostra quaes
+foram os rendimentos do porto de Lourenço Marques quando subitamente elevados
+por uma causa que então foi passageira, e as observações que sobre esta
+circunstancia fazem.</p>
+
+<p>A construcção do caminho de ferro que com felicidade consta vae finalmente
+realisar-se por uma empreza portugueza, bem depressa mudará o <em>présent
+régime</em> n'este porto, e lhe affirmará a superioridade que este mesmo jornal
+diz que elle terá logo que se verifique a expulsão dos portuguezes pelos
+allemães em toda a costa oriental de Africa, como elle tão inconsequentemente
+mostra desejar.</p>
+
+<p>Junto dois pequenos artigos n'este sentido.</p>
+
+<p>«Better far have one small German settlement near us than any number of
+miserable and wretched Portuguese colonies which never have and never can
+benefit either settlers or aborigines, but which are simply a curse wherever
+they have taken root on African soil.»</p>
+
+<p>«We colonists might well hail with delight the proclamation of German rule
+over the territories stretching from shore to shore north of the Limpopo and
+its parallel, and south of the Congo. A German empire in those regions would
+form a magnificent background to an Anglo-African Dominion on this side.»</p>
+
+<h3>The trade of Lourenço Marques</h3>
+
+<p>«Accustomed as we are to regard Delagoa Bay as a formidable competing port
+in its relation towards the trade of the Transvaal, we are apt to exaggerate
+the real proportions of the trade done there. Through the courtesy of Mr. de
+Costa we are able to give the following summary of the monthly returns of trade
+at Lourenço Marques for the present year:<span class="pn">{26}</span></p>
+
+<table align="center" cellspacing="4" border="0" summary="Actividade do porto de Lourenço Marques">
+ <col>
+ <col>
+ <col>
+ <tbody>
+ <tr>
+ <td><br>
+ </td>
+ <td
+ style="text-align: center; margin-left: auto; margin-right: auto;">Importation<br>
+ £</td>
+ <td
+ style="text-align: center; margin-left: auto; margin-right: auto;">Exportation<br>
+ £</td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td>January</td>
+ <td
+ style="text-align: right; margin-left: auto; margin-right: 0pt;">3:211
+ 7 0</td>
+ <td style="text-align: right; margin-left: auto; margin-right: 0pt;">705
+ 12 0</td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td>February</td>
+ <td
+ style="text-align: right; margin-left: auto; margin-right: 0pt;">2:482
+ 3 0</td>
+ <td
+ style="text-align: right; margin-left: auto; margin-right: 0pt;">2:826  1
+ 0</td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td>March</td>
+ <td
+ style="text-align: right; margin-left: auto; margin-right: 0pt;">6:982
+ 7 0</td>
+ <td
+ style="text-align: right; margin-left: auto; margin-right: 0pt;">1:727
+ 15 0</td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td>April</td>
+ <td
+ style="text-align: right; margin-left: auto; margin-right: 0pt;">7:521
+ 8 0</td>
+ <td
+ style="text-align: right; margin-left: auto; margin-right: 0pt;">2:147  5
+ 0</td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td>May</td>
+ <td
+ style="text-align: right; margin-left: auto; margin-right: 0pt;">10:924
+ 0 0</td>
+ <td
+ style="text-align: right; margin-left: auto; margin-right: 0pt;">1:651
+ 18 0</td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td>June</td>
+ <td
+ style="text-align: right; margin-left: auto; margin-right: 0pt;">1:434
+ 2 0</td>
+ <td
+ style="text-align: right; margin-left: auto; margin-right: 0pt;">3:759  9
+ 0</td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td>July</td>
+ <td
+ style="text-align: right; margin-left: auto; margin-right: 0pt;">9:184
+ 7 0</td>
+ <td
+ style="text-align: right; margin-left: auto; margin-right: 0pt;">1:846  1
+ 0</td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td>August</td>
+ <td
+ style="text-align: right; margin-left: auto; margin-right: 0pt;">10:051
+ 1 0</td>
+ <td style="text-align: right; margin-left: auto; margin-right: 0pt;">133
+ 11 0</td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td>September</td>
+ <td
+ style="text-align: right; margin-left: auto; margin-right: 0pt;">5:472
+ 5 0</td>
+ <td
+ style="text-align: right; margin-left: auto; margin-right: 0pt;">4:284
+ 11 0</td>
+ </tr>
+ </tbody>
+</table>
+
+<p>«These figures differ from those of preceding years in this respect&mdash;that
+they cover the period of temporary inflation caused by «Moodie's Rush» and the
+Lydenburg Gold Fields generally. Yet what are the facts? For the nine months
+of this year all the imports through Delagoa Bay only reached a value of £56:263, while the exports only reached a total £19:082 being a monthly average
+of £6:251 in the one case and of £2:120 in the other. Thus, carrying on the
+average, the entire import trade of the rival port represents, so far, a yearly
+value £75:014 only. There is not much in these figures to cause dismay. No
+abnormal diversion of trade has yet taken place, and in the absence of a line
+of railway we are not likely under existing circumstances to see much
+improvement in these figures. Were any power other than Portugal to establish
+itself at Delagoa Bay the case might be different; but so long as the
+<em>present regime</em> abides at the northern port we can afford to go on our
+way steadily, seeking to conserve and to retain whatever trade we at present
+command.»</p>
+
+<p>E outro mais grave publicado em o numero de 20 de janeiro ultimo.</p>
+
+<h3>The powers in Africa, January, 16</h3>
+
+<p>«Should recent and pending negotiations lead to a definitive understanding
+between England and Germany as to the future relations of the two powers in
+Central and Southern Africa, the future of this continent will all at once have
+passed into a phase which will be, when compared with the past, as light is
+from darkness. The determination of that future, under the altered
+circumstances of the moment, may be said to depend upon three postulates. The
+one is that England is prepared and resolved to hold her own throughout all the
+regions that have been directly, or nominally or relatively, under her
+influence or sway. The second is that England beyond certain lines has neither
+the desire nor the intention to extend the limits of her dominion in Africa.
+The last is that Germany means, without any reservation or vacillation, to
+establish herself in Africa as a colonising power, wherever the way may be open
+to her. As regards the first two of these premisses, it may, we think, be taken
+for granted that England means to go thus<span class="pn">{27}</span> far, but
+no further. The power that has impelled the Imperial Ministry to make the
+present demonstration of its authority in South Africa is the same power that
+has prevented mr. Gladstone from going as far hitherto. It is the power of
+public opinion in the mother country, and it is the power of that democracy
+which practically shapes that opinion. The world has suddenly discovered that
+the English democracy is not ready&mdash;as yet, whatever may be its disposition in
+the future&mdash;to part with an inch of its territory or a stone of its fortresses.
+This has been somewhat of a revelation to English colonists, no less than to
+foreign nationalities; but it is a fact. That fact is no doubt fully recognised
+by the German Government, and it is a fact which will be respected. Had it been
+made manifest a little earlier much misunderstanding, and possibly certain vain
+aspirations and illusions might have been saved. It is simply absurd to suppose
+that Germany has not cherished designs more or less ambitious, based upon the
+apparent desire of England to get rid of its responsibilities in South Africa.
+To deny, or even to doubt the existence of these designs&mdash;contingent always
+upon a policy of abdication and retirement on England's part&mdash;is simply to
+ignore the abounding evidence of experience and of fact. Prince Bismarck's last
+speech to the Reichstag puts all doubt on that point at rest. England, however,
+having proclaimed her resolve, the course likely to be pursued by Germany is
+the course of shrewdness and common sense, two qualities that never fail to
+distinguish the Teutonic mind. Germany will elect to confine her colonising
+policy within legitimate and accessible limits. There is a field of action open
+to her in South Africa which only a slight political barrier interposes to shut
+her out from. We refer, of course, to the area of Portuguese rule. This, it is
+true, at present is an undefinable area. Portugal has been a colonising power
+only in name. To speak of Portuguese colonies in East Africa is to speak of a
+mere fiction&mdash;a fiction colourably sustained by a few scattered seaboard
+settlements, beyond whose narrow littoral and local limits colonisation and
+government have no existence. Had Portuguese rule in East Africa shown any sort
+of vitality or reality no one cherishing any regard for international amity
+could have any fair plea to desire its displacement. By the ordinary rules of
+conquest and occupation Portugal has a title to possession sanctioned by three
+centuries of existence. But the very fact that for 300 years the flag of
+Portugal has waved along the East Coast involves the condemnation of Portuguese
+rule. For what is there to show for it? What use has Portugal made of her
+acquisitions or opportunities? What effect has she produced upon the destinies
+of the Continent? What part has she played? What contribution has she made to
+the sum of the world's progress, to the cause of civilisation to the well-being
+of mankind? The answer to these questions is writ in characters of miserable
+failure. In no other part of the world has the European left so futile and so
+fruitless a trace of his presence as the Lusitanian has left upon the eastern
+shores of this Continent. This is a fact that will assuredly have ere long to
+be submitted to the judgment of Europe, and to the guidance of fast developing
+events. It is not necessary just now to consider how or when this question will
+come to be determined;<span class="pn">{28}</span> but the moment of settlement
+must come, and it will be strange should a power like Portugal succeed in
+resisting whatever pressure may be brought to bear by circumstances that may
+and that must arise. Should Germany hereafter be found the active occupant of
+some part at least of the lifeless heritage of Portugal we, in South Africa,
+shall have no cause of repining. Were the southern half of the Continent
+represented by England, Germany, and the internationalised region of Congonia
+respectively, the hopes and prospects of civilisation, of commercial progress,
+and of industrial activity, would be as bright and reassuring as lately they
+have seemed gloomy, and depressing. These three Powers, acting in concert and
+in good faith, would soon malte Africa an efficient rival to South America.
+Saxon energy, and Saxon enterprise would co-operate to rescue the Dark
+Continent from the sleep of ages, and to open out an era of vigorous
+dovelopment and social advancement that, but yesterday was a mere dream».</p>
+
+<hr style="width: 15%;">
+
+<p>Natal tem apenas uma area de 21:000 milhas quadradas, area menor que só a
+dos prazos Gorongosa, Cheringoma o Chupanga. A provincia de Moçambique é
+portugueza ha quasi quatro seculos; comquanto Natal tenha sido recommendado ao
+governo inglez pelo Lieut. Farewell em 1823, como um posto que devia ser
+occupado, póde-se dizer que é só desde 1843 que a colonia de Natal foi
+formalmente declarada colonia ingleza.</p>
+
+<p>Natal está dividida em quatorze condados e <em>divisions</em> com varias
+auctoridades distinctas para brancos e para pretos (porque em parte alguma, a
+não ser nas nossas colonias, são os pretos julgados pelo mesmo processo que são
+julgados os brancos, e punidos igualmente); até ha pouco havia para toda a
+região ao sul do Zambeze, que é de esperar virá a constituir o districto de
+Manica, e ainda para os prazos Luabo e Melambe, só o commando militar de
+Senna.</p>
+
+<p>Natal tem cerca de 40:000 brancos, em parte introduzidos pelos auxilios que
+têem sido dados á emigração; na provincia de Moçambique, que contém em quasi
+todos os seus districtos areas proprias para a colonisação branca, mais
+extensas que a de toda a colonia do Natal, contando mesmo com os empregados das
+tres grandes casas commerciaes estrangeiras, não haverá de certo, alem dos
+empregados do governo, 200 pessoas brancas.</p>
+
+<p>Portugal recebe os mais urgentes pedidos de todas as colonias, deseja,
+quanto possivel, satisfazer a elles, sangra-se e arruina-se com esse fim, e
+manda-lhes annualmente sommas, que repartidas por todas ellas ficam por tal
+modo diluidas que só servem para as continuar a fazer vegetar no estado que
+todos bem conhecem. Os grandes sacrificios da metropole são perdidos, e
+continúa de anno para anno, por exemplo, a sua mais populosa e mais importante
+cidade africana, debaixo de um sol abrazador, a soffrer os horrores da sêde.</p>
+
+<p>A Inglaterra não gasta um penny com o Natal. É a pequena colonia que tem
+recorrido ao credito. Os typos dos seus emprestimos são sempre de divida
+remissivel em praso fixo.<span class="pn">{29}</span></p>
+
+<p>Julgo que presentemente tem as seguintes dividas, que vão designadas segundo
+a ordem da sua emissão:</p>
+
+<p>Um emprestimo de £ 165:000, realisado a 6 por cento de juro e 3 por cento
+para amortisação em curto praso.</p>
+
+<p>Um emprestimo de £ 100:000, a 6 por cento de juro e 2 por cento para
+amortisação.</p>
+
+<p>Um emprestimo de £ 350:000, a 5 por cento e 1 por cento de amortisação em
+quarenta annos.</p>
+
+<p>Um emprestimo de £ 200:000, a 4 1/2 de juro e 1 por cento para amortisação
+em quarenta annos.</p>
+
+<p>Um emprestimo de £ 50:000, a 4 1/2 de juro e 1 por cento para
+amortisação.</p>
+
+<p>Um emprestimo de £ 50:000, a 4 1/2 de juro e 1 por cento para
+amortisação.</p>
+
+<p>E, finalmente, o ultimo emprestimo para continuação dos caminhos de ferro de
+£ 469:800, a 4 por cento de juro e 1 por cento para amortisação.</p>
+
+<p>A pequena colonia do Natal recorreu ao emprestimo, pediu primeiro a 6 por
+cento e 3 por cento; progrediu com a divida que fez, e ha pouco realisou um
+emprestimo a 4 por cento de juro e 1 por cento para amortisação; e isto quando
+uma parte sensivel das sommas emprestadas tem sido empregada nos improductivos
+trabalhos para melhorar uma barra sobre a qual se passa muitas vezes em perigo
+(quando não está mesmo do todo fechada) n'um vaporsinho que eu muito desejaria
+ver na carreira do rio Pungue, e na qual nunca entrarão navios como os que
+podem entrar em mais de vinte portos da provincia de Moçambique.</p>
+
+<p>As grandes e poderosas nações da Europa recorreram largamente ao credito
+para a realisação dos espantosos melhoramentos materiaes que se têem effectuado
+no presente seculo; com mais forte rasão as colonias dos differentes paizes
+recorrem ao credito com mais ou menos dependencia das respectivas metropoles,
+conforme as leis que as regem, e o credito que merece cada colonia. Só as
+colonias portuguezas fazem excepção.</p>
+
+<p>Terminarei este artigo fazendo algumas citações de uma das communicações
+apresentadas pelo sr. V. Erskine á Royal Geographic Society de Londres, que se
+acha publicada no jornal da sociedade, vol. <small>XLV</small>, 1875, unico dos
+volumes que tenho commigo. Uma das citações seria bem desnecessario fazel-a,
+porque deverá ter ultimamente sido lida por todos os portuguezes que se occupam
+de colonias, no livro de s. ex.ª o sr. Andrade Corvo:</p>
+
+<p>«O futuro de Lourenço Marques nas mãos dos portuguezes só póde ser ruina e
+morte, mas debaixo de uma raça <em>teutonica</em> será o mais glorioso. Que a
+dominação por uma d'estas raças terá logar, por força ou por diplomacia, não
+póde haver duvida alguma.» (É extraordinario que estas palavras fossem
+escriptas ha mais de dez annos.)</p>
+
+<p>«Os portuguezes parecem estar pegados atraz das suas muralhas nos fortes da
+costa, e não fazem idéa alguma do paiz elevado que lhes fica para o
+interior.</p>
+
+<p>«Desde a invasão dos zulus os portuguezes nem
+são temidos, nem<span class="pn">{30}</span> respeitados. Tendo apenas soldados pretos, são absolutamente
+desprezados pelas tribus que os rodeiam.</p>
+
+<p>«Considero este grupo de montanhas onde nasce o Busi como um dos mais
+interessantes problemas da geographia moderna; pela sua conveniente exploração
+conhecer-se-iam vastas regiões de paizes sadios, proximos do porto de Sofalla,
+e se fossem tomados em mão por Portugal e offerecidos a emigrantes por algum
+modo liberal fazia elle cessar immediatamente todas as difficuldades com os
+indigenas, e crearia uma origem de riqueza e prosperidade como nunca viu desde
+o tempo d'aquelles heroes que lhe fundaram o seu imperio colonial, do qual hoje
+apenas alguns fragmentos lhe restam.»</p>
+
+<p>É assim que pensam os estrangeiros que visitam o paiz; é provavelmente assim
+que pensam o Gunguneana e os seus grandes; no dia em que sufficiente numero de
+portuguezes pensar do mesmo modo, a não ser que esse dia chegue demasiadamente
+tarde, ver-se-ha bem depressa por experiencia como os primeiros que fallaram
+pensaram bem.</p>
+
+<p>Tendo indicado a distancia de differentes cidades e portos da Africa austral
+á capital do Musila, diz:</p>
+
+<p>«Os portos mais proximos, Sofalla e Chiloane, são tambem testas das estradas
+que offerecem menores difficuldades physicas para uma marcha. A planicie que
+ellas seguem é sadia durante os mezes de julho, agosto, setembro e outubro, de
+maneira que forças europêas facilmente as podem atravessar n'essa epocha.
+Grandes rios podem ser seguidos até ás bases das montanhas. De espaço a espaço
+ha densos bosques, mas podem elles ser evitados, e o caminho seguir sempre como
+por um parque. Ha pastagens por toda a parte, de maneira que não seria
+necessario levar sustento para gado.</p>
+
+<p>«Na verdade difficilmente se poderia encontrar um paiz que melhores
+condições offereça para ser conquistado por europeus; e note-se que, quando se
+chega ao plateau elevado, tem-se attingido uma região cujo clima é superior ao
+da Europa.»</p>
+
+
+<h2>Conclusões</h2>
+
+<p>Motivado no que tenho exposto, direi que é minha opinião o seguinte:</p>
+
+<p>1.º Convem limitar a area de acção do governo do districto de Manica, do
+seguinte modo: ao norte, pela margem direita do Zambeze desde a foz do Aruenha
+até ao limite dos prazos Chupanga e Luabo; a leste, pelas confrontações dos
+prazos Chupanga e Cheringoma com os prazos Luabo e Melambe até a costa e de ahi
+pela linha da costa até á foz do rio Busi; ao sul pela linha, seguida, dos
+thalwegs do rio Busi e dos affluentes Lusite, Mufomose e Mussapa, continuando
+por modo que comprehenda todo o reino de Manica; e a oeste, na parte mais do
+sul, prolongando-se quanto possivel para o Zambeze e região em que este rio
+corre do sul para o norte, e na parte mais do norte pelos thalwegs dos rios
+Mazoe e Aruenha, em que confinaria com o districto de Tete.<span
+class="pn">{31}</span></p>
+
+<p>2.º Convem passar o commando militar e villa de Senna para a margem esquerda
+do Zambeze.</p>
+
+<p>3.º Transferido o commando militar de Senna para a margem opposta,
+é necessario crear desde já o commando militar de Chemba.</p>
+
+<p>4.º É necessario e facil resolver a questão do Bonga.</p>
+
+<p>5.º Logo que esteja resolvida a questão do Bonga, é necessario crear o
+commando militar do Aruenha.</p>
+
+<p>6.º É necessario resolver a questão do reino do Barue.</p>
+
+<p>7.º Effectuada a transferencia do Barue, é necessario crear um commando
+militar com a séde na aringa de Manuel Antonio, de Inhangona, proximo do
+Caurese, ou um pouco mais a oeste e mais proximo dos Campos de Oiro do
+Imperador Guilherme.</p>
+
+<p>8.º É necessario crear desde já o importante commando militar de Massará e
+nomear o seu commandante, que poderá fazer serviço como commandante militar em
+Manica, emquanto convenha que a séde do governo do districto fique em villa
+Gouveia.</p>
+
+<p>9.º É necessario, como uma das bases mais essenciaes para o desenvolvimento
+de um prospero districto de Manica, organisar por qualquer modo um serviço de
+transportes a vapor, mensal, ou, para começar, bi-mensal ou ainda trimestral,
+<i>mas regular</i>, entre os portos do Quelimane ou Chiloane e o rio Pungue até ao
+ponto onde este rio for navegavel pelo vapor empregado<sup><a href="#nota3" name="m_nota3">[3]</a></sup>.</p>
+
+<p>10.º É necessario, e facil de realisar com os recursos que já tem o
+districto de Manica, logo que lhe for dada acção sobre todo o valle do Aruangua
+até á costa, evitar que os landins continuem a passar este rio, como
+actualmente fazem, para ir levantar tributos nos prasos Cheringoma, Inhamunbo,
+Chupanga, Luabo e Melambe, e assegurar a tranquilidade na região que fica ao
+norte do mesmo rio.</p>
+
+<p>11.º É necessario ligar telegraphica ou telephonicamente a séde do commando
+militar da Chupanga, com a do commando militar de Chemba, esta com villa
+Gouveia e esta com a séde do commando militar do Aruangua<sup><a href="#nota4" name="m_nota4">[4]</a></sup>.</p>
+
+<p>12.º Se fosse exequivel, seria muito para recommendar, e teria de certo o
+maior alcance, a immediata guarnição da região da antiga feira de Manica com
+uma força de quinhentos homens de um regimento de infanteria do exercito de
+Portugal.</p>
+
+<p>13.º Como não é possivel fazer-se a proposta indicada em o numero
+antecedente, o governo do districto de Manica fará de certo quanto podér,
+lançando mão dos recursos de que aqui dispõe para occupar a região de Manica,
+assegurar as communicações com o ponto occupado;<span class="pn">{32}</span> e
+occupar mais um ponto convenientemente situado entre os rios Pungue e Busi,
+proximo da costa.</p>
+
+<p>14.º É urgente e essencialmente necessario proceder por qualquer modo para
+augmentar de uma maneira sensivel a actual população branca da provincia de
+Moçambique; e muito para desejar que ainda na boa estação que vae entrar comece
+a pôr-se em pratica algum programma de colonisação do districto de Manica.</p>
+
+<p>15.º Dentro de cada districto da provincia de Moçambique ha em grande
+excesso o necessario para que a provincia possa garantir os encargos que tenha
+a contrahir por causa de qualquer d'esses districtos.</p>
+
+<p>O emprego dos meios necessarios para garantir a segurança, para realisar a
+colonisação e as grandes obras publicas, exigem rapido desembolso de capitaes
+que só podem ser obtidos por emprestimos. Estes emprestimos, no caso da
+provincia de Moçambique, poderão ser de duas ordens; ou geraes da provincia,
+com a garantia da provincia e garantia do governo, ou especiaes para
+determinados fins, a executar por emprezas constructoras de colonisação e
+outras, emprestimos que devem ser feitos por emissões de obrigações d'essas
+emprezas de utilidade colonial com primeira garantia da empreza da colonia
+para com o governo, e com a garantia do governo para com o publico. Logo que a
+habilitem a dar os primeiros passos, a provincia de Moçambique facilmente
+encontrará credito em todas as praças do mundo pelos inexhauriveis recursos que
+em si contém.</p>
+
+<p>Villa Gouveia, 16 de março de 1885. = <em>Joaquim Carlos Paiva de
+Andrada</em>, capitão de artilheria em commissão.</p>
+
+<div class="rodape">
+
+<p><sup><a href="#m_nota1" name="nota1">[1]</a></sup> Refiro-me sempre ao escrever este nome ás
+terras firmes do prazo Luabo, na margem direita do Zambeze, que se acham, salvo
+em raros pontos mesmo junto ao rio, desertas. É nas ilhas do delta que estão
+hoje condensados todos os colonos, almejando por voltar a occupar as terras que
+seus paes e elles proprios occuparam na terra firme.</p>
+
+<p><sup><a href="#m_nota2" name="nota2">[2]</a></sup> A ponta de marfim foi entregue no governo do
+districto. Queria recusar as duas libras, mas como não comprehendiam o motivo
+da recusa e se melindravam, entreguei-as na presença dos grandes ao mouro
+capitão mór, que as acceitou</p>
+
+<p><sup><a href="#m_nota3" name="nota3">[3]</a></sup> Saber-se desde já com certeza que um vapor
+viria ao Punque de hoje a quatro ou seis mezes, <i>mas em dia fixo</i>, faria um
+grande bem. Viagens sem sufficiente annuncio previo na Europa e aqui serão
+relativamente de pouco proveito.</p>
+
+<p><sup><a href="#m_nota4" name="nota4">[4]</a></sup> Ligado mais tarde o commando de Chemba com o
+Aruenha ficará construida a maior parte da linha que porá Tete em communicação
+com a costa. Da Chupanga em breve mandaria o districto de Quelimane prolongar a
+linha para villa Mesquita e de certo que não deixaria este districto de
+empregar o material telegraphico, que de ha tantos annos dispõe, para ligar a
+linha da Zambezia com Quelimane. Ficariam assim logo ligados os tres pontos de
+Quelimane, Inhamissengo e Pungue.</p>
+</div>
+</div>
+
+
+
+
+
+
+
+<pre>
+
+
+
+
+
+End of the Project Gutenberg EBook of Relatorio de uma viagem ás terras dos
+Landins, by Joaquim Carlos Paiva de Andrada
+
+*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK RELATORIA DE UMA VIAGEM--LANDINS ***
+
+***** This file should be named 34041-h.htm or 34041-h.zip *****
+This and all associated files of various formats will be found in:
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+Produced by Pedro Saborano
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+and help preserve free future access to Project Gutenberg-tm electronic
+works. See paragraph 1.E below.
+
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+
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+
+Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
+electronic works in formats readable by the widest variety of computers
+including obsolete, old, middle-aged and new computers. It exists
+because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
+people in all walks of life.
+
+Volunteers and financial support to provide volunteers with the
+assistance they need are critical to reaching Project Gutenberg-tm's
+goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
+remain freely available for generations to come. In 2001, the Project
+Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
+and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
+To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
+and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
+and the Foundation web page at https://www.pglaf.org.
+
+
+Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive
+Foundation
+
+The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
+501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
+state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
+Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification
+number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at
+https://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
+permitted by U.S. federal laws and your state's laws.
+
+The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
+Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
+throughout numerous locations. Its business office is located at
+809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
+business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact
+information can be found at the Foundation's web site and official
+page at https://pglaf.org
+
+For additional contact information:
+ Dr. Gregory B. Newby
+ Chief Executive and Director
+ gbnewby@pglaf.org
+
+
+Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation
+
+Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
+spread public support and donations to carry out its mission of
+increasing the number of public domain and licensed works that can be
+freely distributed in machine readable form accessible by the widest
+array of equipment including outdated equipment. Many small donations
+($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
+status with the IRS.
+
+The Foundation is committed to complying with the laws regulating
+charities and charitable donations in all 50 states of the United
+States. Compliance requirements are not uniform and it takes a
+considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
+with these requirements. We do not solicit donations in locations
+where we have not received written confirmation of compliance. To
+SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
+particular state visit https://pglaf.org
+
+While we cannot and do not solicit contributions from states where we
+have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
+against accepting unsolicited donations from donors in such states who
+approach us with offers to donate.
+
+International donations are gratefully accepted, but we cannot make
+any statements concerning tax treatment of donations received from
+outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff.
+
+Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
+methods and addresses. Donations are accepted in a number of other
+ways including including checks, online payments and credit card
+donations. To donate, please visit: https://pglaf.org/donate
+
+
+Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic
+works.
+
+Professor Michael S. Hart was the originator of the Project Gutenberg-tm
+concept of a library of electronic works that could be freely shared
+with anyone. For thirty years, he produced and distributed Project
+Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.
+
+
+Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
+editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
+unless a copyright notice is included. Thus, we do not necessarily
+keep eBooks in compliance with any particular paper edition.
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+
+Most people start at our Web site which has the main PG search facility:
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