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| author | Roger Frank <rfrank@pglaf.org> | 2025-10-14 20:00:43 -0700 |
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Imprensa Nacional, 1886"> + <meta http-equiv="content-type" content="text/html; charset=iso-8859-15"> + <style type="text/css"> + body{margin-left: 10%; + margin-right: 30%; + } + .pn { + text-indent: 0em; + position: absolute; + left: 3%; + font-size: small; + text-align: right; + color: silver; + } + .margem { + text-indent: 0em; + position: absolute; + left: 72%; + width: 20%; + font-size: smaller; + text-align: left;} + #corpo p.centrado{text-align: center; text-indent: 0;} + #corpo p {text-align: justify; text-indent: 1em;} + #corpo blockquote {text-align: left; text-indent: 0; margin-left: 20%; } + h1,h2,h3 {text-align: center; margin-top: 3em; margin-bottom: 2em;} + hr.dotted {border: 0; border-bottom: dotted 2px #000;} + hr {border: 0; border-bottom: solid 2px;} + .rodape { + font-size: 0.8em; + margin: 2em; + } + .imagem {width: 40%; float: right; text-align: center;} + .ntransc {border: solid black 1px; background-color: #FFFFCC; font-size: 0.8em; + margin-left: 10%; margin-right: 10%;} + </style> +</head> + +<body> + + +<pre> + +The Project Gutenberg EBook of Relatorio de uma viagem ás terras do +Changamira, by Joaquim Carlos Paiva de Andrada + +This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with +almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or +re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included +with this eBook or online at www.gutenberg.org + + +Title: Relatorio de uma viagem ás terras do Changamira + +Author: Joaquim Carlos Paiva de Andrada + +Release Date: October 7, 2010 [EBook #34040] + +Language: Portuguese + +Character set encoding: ISO-8859-1 + +*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK RELATORIA DE UMA VIAGEM--CHANGAMIRA *** + + + + +Produced by Pedro Saborano + + + + + +</pre> + +<p> </p> +<div class="ntransc"> +<p><b>Notas de transcrição:</b></p> + +<p>O texto aqui transcrito, é uma cópia integral do livro impresso em 1886. Foi mantida a grafia usada nessa edição, tendo sido corrigidos apenas pequenos erros tipográficos que não alteram a interpretação do texto, e que por isso não foram assinalados.</p> + +<p>No livro há algumas referências a um mapa, que acompanhava a edição original. Não foi possível localizar uma cópia desse mapa para acompanhar esta edição digital.</p> +</div> + +<p> </p> + +<div style="text-align: center; border: solid 1px #000; padding: 1em;"> +<p style="font-size: 1.8em;">RELATORIO</p> + +<p style="font-size: 1.1em;">DE UMA</p> + +<p style="font-size: 2em;">VIAGEM ÁS TERRAS DO CHANGAMIRA</p> + +<p>POR</p> + +<p style="font-size: 1.3em;">JOAQUIM CARLOS PAIVA DE ANDRADA</p> + +<p style="font-size: 1.1em;">CAPITÃO DE ARTILHERIA</p> +<p> </p> +<p> </p> +<p> </p> +<p> </p> + +<p style="font-size: 1.4em;">LISBOA<br> +<small>IMPRENSA NACIONAL<br> +1886</small></p> +</div> + +<p> </p> +<p> </p> +<p> </p> +<p> </p> + +<div style="text-align: center;"> +<p style="font-size: 1.8em;">RELATORIO</p> + +<p style="font-size: 1.1em;">DE UMA</p> + +<p style="font-size: 2em;">VIAGEM ÁS TERRAS DO CHANGAMIRA</p> + +<p>POR</p> + +<p style="font-size: 1.3em;">JOAQUIM CARLOS PAIVA DE ANDRADA</p> + +<p style="font-size: 1.1em;">CAPITÃO DE ARTILHERIA</p> +<p> </p> +<p> </p> +<p> </p> +<p> </p> + +<p style="font-size: 1.4em;">LISBOA<br> +<small>IMPRENSA NACIONAL<br> +1886</small></p> +</div> + +<p> </p> +<p> </p> +<p> </p> +<p> </p> + +<div id="corpo"> +<h1>RELATORIO</h1> + +<p>Quando regressei a Gouveia, da viagem que fiz ás terras de Gungunhana, +julguei conveniente não partir para Manica sem conferenciar com Manuel Antonio +de Sousa que tinha ido a Moçambique, e que, demorado de semana para semana em +Quelimane, só chegou a Gouveia no dia 17 de agosto.</p> + +<p>N'esse mesmo dia chegaram tambem ahi uns pretos vindos de Manica, dizendo +que acabavam de apparecer em Macequece uns landins perguntando por fazendas +minhas que deviam ali estar, e que só por se acharem bem guardadas e por ter a +gente do paiz assegurado que taes fazendas não existiam, é que provavelmente os +landins não roubaram algumas.</p> + +<p>Não vi n'esta noticia motivo que me impedisse a partida para Macequece, mas +em attenção á opinião de Manuel Antonio e de um principe ou grande de Manica, +meu antigo guia n'essa terra, que ha algum tempo esperava Manuel Antonio em +Gouveia, resolvi não ir para Manica, sem ter conhecimento do resultado da +missão que Gungunhana tinha enviado a Lisboa, e aproveitar o tempo da demora +forçada para visitar um paiz a que me referi no relatorio da viagem ás terras +dos landins, e onde de facto importava com mais urgencia chegar do que á antiga +feira portugueza de Manica, objectivo principal da missão de que fui +encarregado.</p> + +<hr class="dotted"> + +<p>Por estes motivos, resolvi partir sem demora n'esta direcção.<span +class="pn">{4}</span></p> + + +<h2>I</h2> + +<h3>Viagem de Gouveia a Changamira e regresso a Gouveia</h3> + +<p><span class="margem">Fome no paiz.</span> Uma circumstancia tornava +extremamente difficil a realisação d'esta viagem; a falta de chuvas tinha +motivado a perda das colheitas de mantimento, milho, mapira, mechoeira e +nachenin, e a fome era quasi geral em toda a Africa austral. Os homens na +Gorongosa, no Barue, por toda a parte, andavam espalhados pelo mato a grandes +distancias para apanhar fructos e raizes, que traziam ás povoações para matar a +fome ás mulheres e ás creanças, o que muitas vezes não conseguiam, morrendo +muita gente por falta de alimento. N'este relatorio só desejo tratar do que +importa ser conhecido para basear trabalhos futuros; não fallarei portanto das +miserias que fui presenceando, nem das extraordinarias difficuldades que +encontrei em mover-me com umas oitenta cargas n'um paiz que se achava em tão +desgraçadas condições.</p> + +<p><span class="margem">Relatorio e mapa de Mauch</span> De todos os nomes que +me eram conhecidos pela leitura do relatorio de Mauch e do mappa +que o acompanha, apenas o de Caterere me era tambem citado em Gouveia, e como +ahi havia bastante gente que conhecia o paiz que eu queria visitar, logo suppuz +que Mauch teria mal escripto os nomes que foi ouvindo, e esperei ir achando no +progresso da viagem a equivalencia entre os nomes de Mauch e os que me +indicavam em Gouveia. Foi portanto para as terras do regulo ou mambo Caterere +que primeiro me dirigi.</p> + +<p><span class="margem">Viagem pelo Barue</span> Entre estas terras e Gouveia +está apenas comprehendido o antigo reino do Barue. Como é já sabido, o rio +Inhandue, que banha Gouveia, separa o Barue do praso Gorongosa, e como se vê no +mappa junto, o rio Caurese, importante e caudaloso affluente do Aruenha, separa +o Barue da terra de Caterere que se chama Guessa. O Barue, na parte exactamente +comprehendida entre Gouveia e a povoação do Caterere, acha-se despovoado e não +havia caminho aberto n'essa direcção; por isso, parti de Gouveia dirigindo-me +mais para o norte até á aringa de Inhangona, e d'ahi voltando para sudoeste +segui para a aringa de Tumbura indicada no mappa, quasi na fronteira do Barue e +na latitude da povoação do Caterere. Tendo partido de Gouveia em 26 de agosto, +só cheguei á aringa de Tumbura em 5 de setembro.</p> + +<p>Esta viagem por caminho que se abra directo, o que se obtem logo que tres ou +quatro filas de carregadores ou cypaes por elle tenham passado, e em condições +normaes, póde ser feita em tres dias.<span class="pn">{5}</span></p> + +<p><span class="margem">Do Tumbira á aringa do Bonga, capitão do +Caterere.</span> Tinha combinado com Manuel Antonio que esperaria na aringa de +Tumbura que um dos capitães d'elle Manuel Antonio fosse adiante +com um presente da sua parte ao Caterere, avisando-o da minha +visita de amisade, e que só depois da volta do emissario é que eu +saíria do Barue para Guessa; mas como o mencionado capitão, que devia ter-se +juntado a mim poucos dias depois da minha partida de Gouveia, não apparecesse; +como por informações obtidas na localidade eu soubesse que podia passar do +Barue directamente para a terra de Inhachiranga, atravessando o Aruenha a +jusante da foz do Caurese, ponto onde termina a terra de Guessa, e me fosse +assegurado por um homem de Inhachiranga que se achava em Tumbura, que a terra +era curiosa de visitar pelas lavagens de oiro que ahi faziam e que encontraria +n'ella o melhor acolhimento; como ainda mais eu quizesse quanto possivel +evitar a perda de tempo, resolvi arranjar carregadores em Tumbura que me +levassem a Inhachiranga, para ahi, aproveitando o tempo com o estudo do paiz, +esperar o capitão de Manuel Antonio que devia ir ao Caterere annunciar a minha +visita.</p> + +<p>Parti no dia 10 de setembro, mas os carregadores e guias, em logar de me +levarem directamente ao Aruenha, ou, o que a isso teria equivalido, pelo +caminho que trouxe na volta, indicado no mappa, o que apenas atravessa a ponta +não habitada da terra de Guessa, comprehendida entre o Caurese e o Aruenha, +talvez com a idea de encurtar duas ou tres horas de serviço, levaram-me por +caminho um pouco mais ao sul, que me conduziu ao Caurese em altura tal que, ao +atravessar o rio, me achei de surpreza junto á aringa de um capitão do Caterere +chamado Bonga.</p> + +<p><span class="margem">Rio Caurese.</span> O Caurese tem aqui uns 50 metros de +largo e excellente agua com approximadamente uma altura media de 1 metro em +toda a largura do leito que é de areia. Tem porém de espaço a espaço grandes +rochas, e o rio até á foz é absolutamento improprio para a navegação. Vi-o na +estiagem e tendo havido grande secca. No tempo das chuvas engrossa muito, e +mesmo em seguida a um só dia de grande chuva não dá passagem a vau.</p> + +<p>Foi no dia 11 de setembro que cheguei á aringa do Bonga. Os carregadores de +Tumbura, a quem eu nada tinha que dar de comer, não podendo por preço algum +comprar-lhes mantimento, voltaram para trás, ficando em um acampamento junto á +aringa com os <em>motores</em> (cargas) e os meus muleques.</p> + +<p>Como era de esperar, o chefe da aringa, logo que eu passei por ella, e não +me achava em condições de seguir com os carregadores que trouxe do Barue, não +me facilitou a marcha, para diante, apesar de eu lhe dizer que ia só até +Inhachiranga para ahi esperar o capitão que devia preceder-me na visita que eu +desejava fazer ao Caterere, o instou muito para que não saisse de Guessa sem +primeiro ir visitar o mambo. Vi-me assim moralmente obrigado a ir á povoação do +Caterere, para onde parti no dia 12, seguindo o caminho indicado no mappa.</p> + +<p><span class="margem">Visita ao Caterere.</span> Tendo, ao chegar proximo da +povoação na tarde do dia 13, feito avisar o mambo da minha visita, cheguei na +madrugada do dia 14 á<span class="pn">{6}</span> aringa que se chama de +Inharichinga. A primeira entrevista com o mambo Caterere ou Gutuqui, foi logo +muito cordial. Dei-lhe alguns presentes de pouco volume e peso que commigo +tinha levado, como colares de coral, espelhos, barretes, camisas, pannos ricos, +explicando-lhe que só ali me achava para satisfazer aos desejos do seu capitão +Bonga, pois desejava ter sido precedido por um capitão de Manuel Antonio, que +trazia um bom presente de fazendas e um recado de amisade de seu amo. Por +varias vezes Caterere me disse que Manuel Antonio lhe viria fazer guerra, e +que o trataria como tratou ao Macombe, rei do Barue. Procurei fazer +desapparecer esta idéa, repetindo-lhe que pelo contrario Manuel Antonio lhe +mandava um presente de amisade, e explicando-lhe que o Rei de quem Manuel +Antonio era subdito, não queria guerra, mas amisade, não só com Caterere, como +com todos os regulos visinhos, e que para estreitar relações de amisade eu a +todos tencionava visitar. Durante o dia fez-me Caterere repetidas visitas á +palhota onde fiquei, e aconselhou-me a que, em logar de ir para Inhachiranga na +margem esquerda do Aruenha, fosse para uma povoação de um Camunda, na margem +direita e portanto ainda da terra de Caterere, podendo eu d'ahi ir ver os +logares proximos onde gentes de Guessa e das terras vizinhas costumam lavar +ouro.</p> + +<p>Levava commigo uma das armas <em>Winchester express</em> pertencentes ao +districto de +Manica. O mambo quando a viu pediu-me para lh'a explicar, e como estas armas +são muito certeiras e permittem um tiro muito rapido, fiz da porta da aringa, +em seguida e em differentes direcções, fogo contra delgados troncos de arvores +a grandes distancias, ficando o mambo muito admirado quando foi junto ás +arvores ver o resultado dos tiros. Cito esta circumstancia para acrescentar +que, apesar de eu ter ido só com tres muleques e estar morando na aringa, +vieram pouco depois dizer ao mambo que a gente das proximas povoações tinha +fugido ao ouvir os tiros, suppondo que era guerra!</p> + +<p>A aringa do Caterere é pequena, e muito fracamente construida; tem proximo +uns montes de rochas que a commandam completamente.</p> + +<p>Com as repetidas perguntas que a varios fiz a respeito da passagem de Mauch +por estas terras, ha uns vinte annos, convenci-me que ninguem tem idéa d'este +viajante.</p> + +<p>A latitude de 17° 30' 30", que achei para esta aringa, concorda com a +posição em que Mauch a poz na sua carta.</p> + +<p>Não parece que o paiz tenha sido visitado por estrangeiros, e não conhece +esta gente senão Tete, Sena e sobretudo o nome de Gouveia. Empregam varias +palavras portuguezas. Estranhei ouvir-lhes dizer quando fallavam commigo: +<em>senhor</em>, pois que os nossos pretos nas cidades, e os proprios brancos +fallando +de outro branco com os pretos, fazem uso da palavra <em>mosungo</em>.</p> + +<p>Não vi entrar preto algum na minha palhota ou na do mambo sem que primeiro +dissesse: <em>licença</em>, palavra que parece de uso commum, não só em Guessa, +como +nas outras terras onde depois estive.</p> + +<p>Recebi do Caterere muitas informações ácerca dos mambos e campos de oiro que +me ficavam para a frente; soube tambem que da aringa<span class="pn">{7}</span> +a Manica são cinco dias de caminho, havendo apenas entre as duas terras a de +Munhama, que se atravessa em dois dias. Não se passa pelo Aruangua, o que prova +que este rio nasce a leste do caminho seguido.</p> + +<p>Não consentiu o mambo que eu partisse sem ser seu hospede durante uma noite. +Na madrugada do dia 15 voltei ao meu acampamento no Caurese, onde cheguei na +manhã seguinte; vindo com um grande do mambo, que me acompanhou para +communicar as ordens do Caterere e facilitar o transporte das cargas para a +margem do Aruenha.</p> + +<p><span class="margem">Partida do Caurese para o Aruenha ou antes +Quenha.</span> No dia 17 parti de junto da aringa do Bonga para a margem do +Aruenha, onde cheguei, com duas horas de passeio junto á aringa de Camunda, +pequena povoação rodeada de fraca estacaria, fazendo o acampamento a jusante +d'esta aringa.</p> + +<p>O rio tem aqui uns 100 metros de largura, mas a agua corre por varios braços +serpenteando na areia, não cobrindo todo o leito. Informaram-me de que o rio, +bastante ainda para jusante da foz do Caurese, tem varias rochas que lhe +atravessam o leito; penso porém, que será navegavel vindo do +Zambeze até pelo menos á affluencia do rio Mazoc. <span +class="margem">Rio Aruenha ou antes Luenha.</span> Já nas minhas viagens pelo +Zambeze para Tete, tinha notado que os pretos chamam Luenha ao rio que em as +nossas cartas chamamos Aruenha, e que afflue no Zambeze em Massangano, onde +está construida a celebre e vergonhosa aringa do Inhaúde ou do Bonga. No mappa +do Levingstone tambem este rio tem o nome de Luenya. É tambem Luenha o unico +nome que agora lhe ouvi dar, e parece-me preferivel adoptar esta designação, +não só por ser a verdadeira, mas porque melhor se distingue de Aruangua; e são +dois nomes que como rios ou commandos militares do districto de Manica muitas +vezes haverá a citar reunidos.</p> + +<p><span class="margem">Ouro no Luenha.</span> Nos dias 18 e 19 fui com gente +da povoação de Camunda, ver os logares onde costumam lavar oiro +no rio. Os terrenos em que n'esta altura corre o Luenha não são auriferos, e o +oiro só se encontra, renovado todos os annos depois das cheias, nas pequenas +porções de areia que fica retida entre as grandes rochas que atravessam o rio. +Os pretos e pretas, que lavam admiravelmente com a batea, podem com utilidade +extrahir o oiro que cada anno é retido nos mesmos logares, e assim o fazem ha +seculos, mas o lavar estas areias, por causa da sua pequena quantidade, embora +sejam relativamente ricas, nunca poderia pagar a uma companhia europêa. É muito +provavel que no proprio leito, atraz d'estas <em>barras</em>, onde ha +profundidade de +agua e onde os pretos nunca lavam, haja accumulado de ha seculos oiro mais +grosso, e quando o paiz esteja frequentado pelos brancos, é provavel que venha +a proceder-se a trabalhos n'estes logares com bons resultados, mas é claro que a +pesquiza do oiro para os que primeiro cheguem será muito mais interessante nos +proprios terrenos d'onde o oiro é annualmente arrancado e arrastado pelas +aguas.</p> + +<p><span class="margem">Rio Mupa.</span> Na visita que fiz á <em>Massanga</em>, +ou foz do Caurese vi que o rio Mupa não é um affluente do Caurese como está +marcado na carta de Mauch mas, um pouco mais abaixo, directamente affluente do +Luenha.<span class="pn">{8}</span></p> + +<p><span class="margem">Mambo Schomali de Mauch.</span> Descobri, emquanto +estava n'este acampamento do Luenha, quem era o mambo Schomali, que Mauch cita +como sendo o chefe das terras que constituem a parte mais rica dos Campos do +Imperador Guilherme.</p> + +<p>É um pequeno mambo da terra de Macaha, chamado Machamare. +Já de ha muito tinha conhecimento do nome da terra e de outros nomes do mambo, +que tambem se chama Chibinda e Inhaúbinda. Serviu-me de confirmação á +equivalencia entre o nome de Machamare e o de Schomali o encontrar nos dois +rios Inhamussice e Munhoque, dois rios auriferos da terra de Macaha, os +equivalentes aos rios Iantsitsi e Noke da carta de Mauch. Achei interessante +que os pretos que lavavam n'um logar ou <em>barra</em> do Luenha chamado +Biriuide, me +dissessem, que todo o oiro que até ali chegava era proveniente do rio +Inhamussice, precisando a proveniencia do oiro, quando o Luenha no seu vasto +curso drena um paiz muito extenso e recebe muitos outros affluentes. Por esta +indicação é de suppôr que as areias do Luenha acima da affluencia do +Inhamussice não tenham oiro algum, tornando evidente que é por este affluente +que os <em>diggers</em> devem subir nas suas pesquizas.</p> + +<p>Pouco depois de chegar a este acampamento do Luenha, vi que nada me +aconselhava a que ahi me demorasse e procurei arranjar carregadores para +continuar na viagem.</p> + +<p><span class="margem">Chegada do capitão Bastião e de Gurupira.</span> No dia +19 de setembro, com o capitão Bastião, de Manuel Antonio, encarregado dos +presentes para o Caterere, chegou ao acampamento vindo de Gouveia, onde tinha +ido visitar Manuel Antonio, o filho grande do mambo Motoco, chefe relativamente +poderoso da terra da Builha, situada alem, a sudoeste, da região a que Mauch +deu o nome do seu imperador. Como não via possibilidade de achar, no logar onde +estava, carregadores, e me constasse que na terra de Motoco e terras proximas +havia algum mantimento, pedi a este filho do Motoco, chamado Gurupira, que me +mandasse os necessarios carregadores e que acompanhasse um dos meus muleques, a +quem entreguei fazendas, na compra de mantimento que deveria ser mandado para a +terra de Macaha. Gurupira disse-me que elle era justamente casado com uma filha +do mambo Machamare, deu-me informações sobre a Macaha e indicou-me a povoação +de Chibanda, filho do mambo, situada na ponta de terra entre o Inhamussice e o +seu affluente Munhague, como bom logar para acampamento, e foi para ahi que +combinamos eu partiria, e seria mandado o mantimento que fosse comprado.</p> + +<p>Na tarde do dia 22 apareceram-me no acampamento uns cem homens armados, +seguidos por um pandoro ou leão.</p> + +<p><span class="margem">Pandoros.</span> Os pandoros, que eu já tinha visto nas +terras do districto de Tete, que ha no Mazoe, que havia no reino do Barue e que +ha nas terras de todos os pequenos mambos d'esta região, são uns homens, que se +escondem de vez em quando dizendo que vão para o mato e se transformam em leões, +que mesmo quando se acham na fórma de homens estão quasi sempre a rugir, e que +vivem á custa dos mambos e dos povos impondo-se-lhes como entes sobrenaturaes. +Os mambos nada fazem sem os consultar. A superstição com os pandoros em Tete +communica-se aos musungos mulatos e mesmo á gente da India que n'elles<span +class="pn">{9}</span> chegam a acreditar. O Inhaúde e o Bonga das nossas +desgraçadas guerras, apesar de homens muito intelligentes em outras cousas, +nada faziam sem consultar os pandoros. Ás vezes os pandoros são mulheres. Ha +n'uma terra da margem esquerda do Mazoe, em logar onde já estive partindo de +Tete, uma celebre Clara, pandoro de grande fama e julgo que conselheiro muito +attendido pelo Bonga.</p> + +<p><span class="margem">Extorsões pelo pandoro e grandes do Caterere.</span> Os +grandes do Caterere que vieram com o pandoro, nenhum dos quaes eu tinha visto +na aringa do mambo, disseram que eu era amigo de Gouveia, que vinha para os +enganar e fazer-lhes guerra, que devia voltar para trás e não tornar a +esta terra. Mostrei-lhes admiração de que tal dissessem quando eu tinha ido +visitar o seu mambo como amigo e como amigo tinha por elle sido recebido; que +elles já sabiam que o que eu queria era seguir para diante, que elles estavam +fechando os caminhos, o que lhes trazia difficuldades no futuro, e que se a +gente que ali estava me quizesse levar as cargas para Macaha eu lhes pagaria +como a carregadores e daria ao pandoro e aos grandes alguns presentes. Foi +provavelmente para receber estes <em>presentes</em> que pandoro e grandes +vieram, quando +constou que desejava saír da terra d'elles. Acceitaram a proposta e começaram +depois com successivos pedidos. Tendo eu dado alguma cousa ao pandoro, pediram +para os grandes, depois para a outra gente, depois mais alguma cousa por eu ter +feito barracas.</p> + +<p>Desejando eu sobretudo ir para diante e servir-me d'esta gente como +carregadores, fui cedendo a todas as extorsões, cuja importancia total foi de +facto insignificante, mas que pela maneira como foram feitas justificam a +futura occupação da terra de Guerere. Toda a noite, uma esplendida noite de +luar, tiveram batuque e adormeci ao som das cantigas, cujas phrases mais +repetidas eram que haviam de cortar-me a cabeça, a de Manuel Antonio e a de um +homem d'esta terra que tinha entrado ao meu serviço.</p> + +<p><span class="margem">Da povoação de Camunda ao Rupire.</span> Na madrugada +do dia 23 paguei aos carregadores, dizendo-lhes que era para irem até á +povoação de Chibanda na Macaha, mas pouco depois começaram a dizer que +só iriam até ao Rupire, cousa commum de succeder em Africa com os carregadores, +mesmo em outras circumstancias.</p> + +<p>Atravessei o Luenha e segui na direcção que mostra a carta pela terra de +Inhachiranga sem passar por povoação alguma, até ao rio Inhamatoque, limite de +Inhachiranga e do Rupire, onde os carregadores largaram as cargas, voltando +logo para a sua terra.</p> + +<p>Logo que cheguei ao Inhamatoque mandei chamar gente do Rupire, mas só no dia +26 é que tive os necessarios carregadores e parti para junto da povoação do +mambo d'esta terra.</p> + +<p><span class="margem">Mambo Chiquiso.</span> Ao mambo do Rupire, chamado +Chiquiso, disse que só para o visitar e lhe dar alguns presentes +é que eu tinha vindo á povoação d'elle, em logar de seguir ao longo do Luenha +até á Macaha, mas que era para a povoação de Chibanda n'esta terra que eu me +dirigia. Por varias formalidades com o mambo, e com os pandoros que no Rupire +são tres, e para fazer excursões a alguns rios onde lavam oiro, demorei-me no +Rupire, e comquanto o meu projecto fosse seguir para Macaha, como esta terra é +talvez a mais pequena e menos povoada de todas<span class="pn">{10}</span> as +d'esta região, e como fui successivamente reconhecendo a importancia da posição +do Rupire e quanto seria preferivel crear uma estação civilisadora portugueza +n'esta terra, achei conveniente ceder aos pedidos que me faziam de não seguir +para diante, até lançar bases de uma estação que mais tarde iria exercendo a +sua acção sobre os mambos e povos das terras vizinhas. É no Rupire que +antigamente acampavam negociantes brancos de Tete e mesmo de Quelimane, para +compra de oiro e marfim que os pretos das terras vizinhas vinham trocar por +fazendas, e effectivamente, durante os tempos que eu mesmo ali fiquei, todos os +dias chegavam ao acampamento muitos pretos com canudos de pennas cheias de pó +de oiro para trocar por fazendas. Tinha eu combinado com o mambo que seria +junto á foz do Inhamussice que eu faria o meu acampamento e as primeiras +construcções, base da futura estação civilisadora e commercial, mas as +povoações do Rupire estão todas nas proximidades e em torno da aringa do mambo, +e as margens do Inhamussice não estão actualmente habitadas. Vendo que muitos +dos grandes se mostravam desconfiados por eu querer ir fazer o acampamento n'um +sitio isolado, tive que abandonar a idéa de ir para o Inhamussice e que me +decidir a escolher um terreno n'uma elevação nas proximidades da aringa do +mambo.</p> + +<p>Pela prolongada falta de chuvas, a agua nos differentes riachos que cortam o +paiz tinha deixado de correr, e a melhor que encontrei, extrahida de uma poça, +era leitosa e de muito mau sabor. Foi o uso d'esta repugnante agua de certo a +causa dos soffrimentos de baço que depois tive, mas a tudo me sujeitava para +realisar a fundação da estação do Rupire, que, embora me propozesse fazer +varias excursões na Macaha e outros paizes proximos, não mais tencionava +abandonar senão quando de Portugal fosse mandado alguem para tomar conta d'esta +estação.</p> + +<p>Paguei ao mambo e aos pandoros tudo o que elles quizeram pelo direito de +chamar minha uma porção do terreno, e dei começo a algumas construcções.</p> + +<p><span class="margem">Desconfiança da gente do Rupire.</span> Apesar das boas +relações que logo de principio fiquei tendo com o mambo, o enorme +ciume que estes pequenos chefes têem uns dos outros, e sobretudo a desconfiança +que no Rupire como em Guessa tinham das más inteuções de Manuel Antonio contra +estas terras davam quasi diariamente motivo a alvoroço e á reunião em conselho +dos pandoros e grandes na aringa.</p> + +<p>Se eu tivesse chegado ao Rupire vindo de Tete achariam muito natural a minha +visita. Reconhecendo pela lição que tive no Caterere que as minhas relações com +Manuel Antonio não eram uma recommendação para estes vizinhos do Barue, desejei +quanto possivel occultar estas relações e que me considerassem como vindo de +Quelimane, Senna e só de passagem pelas terras de Manuel Antonio, mas cada +circumstancia que lhes mostrava a minha maior intimidade com este capitão mór +era motivo de novas desconfianças. Assim a chegada de um correio, a chegada de +dois muleques que eu tinha mandado a um ponto do Barue, onde me constou haver +algum mantimento, o desejo de eu expedir o meu correlo, tudo foi motivo de +desconfiança e de embaraços. Sujeitava-me com paciencia a todos estes +aborrecimentos, pois<span class="pn">{11}</span> suppunha que successivamente +elles iriam diminuindo de intensidade mostrava bem ao mambo que se eu quizesse +fazer guerra não estava com todas as minhas cargas a installar-me ao pé da +aringa, e que a minha presença junto a elles era a melhor garantia que +poderiam ter de que nenhum branco os atacaria. Pareciam convencer-se, mostravam +a maior cordialidade, mas tornavam pouco depois a espantar-se pelos motivos +mais futeis.</p> + +<p><span class="margem">Visita de Gurupira; mau tratamento que soffreu.</span> +Disse que quando Gurupira, o filho grande do mambo Motoco, passou pelo meu +acampamento do Luenha, lhe pedi que me mandasse carregadores para me levarem +d'ahi para Macaha, e me comprasse mantimentos para tambem para lá mandar.</p> + +<p>Na tarde do dia 8 de outubro, quando eu estava a conversar amigavelmente com +o mambo Chiquiso, sentado sobre um panno no chão junto á minha cadeira, +appareceu Gurupira com outro homem e o meu muleque que eu tinha mandado com a +fazenda para a compra de mantimentos. Quasi ao mesmo tempo um preto veiu dizer +baixo ao mambo que, alem d'estes tres homens, havia outros escondidos no mato. +Eram simplesmente os carregadores que eu tinha pedido, que o Gurupira trazia com +elle da terra do pae, e que tinha deixado proximo dos limites da terra do Rupire +para me vir perguntar se eu ainda precisava d'elles. O mambo correu rapidamente +para a aringa, e momentos depois elle e uns sessenta homens armados de zagaias, +machados, arcos e flechas ameaçavam os dois homens que por motivo tão natural e +tão facil de explicar me vinham ver, não se lembrando aquelles cobardes que +n'aquelle instante só pensavam que eram sessenta contra dois, de que um d'estes +dois homens era filho de um chefe que facilmente poderia arrasar todo o Rupire. +Corri a defender de morte certa os dois homens, cobrindo-os com o meu corpo, mas +quando deixei Gurupira para attender ao companheiro que meia duzia de homens +arrastavam pelo chão, levando-o pelas pernas, e emquanto eu rolava tambem pelo +chão, por me ter o desgraçado lançado os braços ao grosso da perna, foi o filho +do Motoco violentamente espancado. Consegui apaziguar tudo e foram os dois +homens para a aringa com a promessa formal do mambo de que lhe não fariam mal +algum. Effectivamente, no dia seguinte partiu Gurupira para a sua terra tendo, +antes que o deixassem saír da aringa, mandado os pandoros pedir-me fazendas para +lhe dar, a fim de que a gente do Motoco lhes não viesse fazer guerra.</p> + +<p><span class="margem">Partida do Rupire.</span> Desde então não tornei mais a +ver o mambo até que no dia 11 me vieram dizer que toda a gente do Rupire se +tinha reunido na aringa para pedir ao mambo e aos pandoros para me não deixar +ficar na sua terra.</p> + +<p>Soube mais tarde que a maior parte da actual população do Rupire é +constituida por gente do Barue, que de lá fugiu quando este reino foi tomado por +Manuel Antonio, e penso que o pedido que acabo de mencionar seria motivado por +ter Gurupira, em a noite que passou na aringa, fallado das estreitas relações +que havia entre mim e o capitão mór de Manica. Em vista d'esta declaração e do +que a gente do Rupire, a quem eu acabava de comprar terrenos, já me tinha dado +noticias sufficientes para a occupação, pela força, da sua terra, onde<span +class="pn">{12}</span> não consentiam que estivesse como amigo, resolvi, em +logar de continuar para Macaha e outras terras, apenas com alguns muleques, em +condições tão desfavoraveis como as da epocha e circumstancias em que eu me +achava, regressar para Gouveia para propor o necessario para transformação do +Rupire em terra ou prazo da corôa; e mandei dizer ao mambo que mandasse reunir +carregadores para a minha partida.</p> + +<p>Na manhã do dia 12 apresentaram-se os carregadores no acampamento e receberam +todos pagamento para levarem as cargas até á povoação de Gossi, na terra de +Sangano. Foi indicada esta povoação pela gente do Rupire, apesar de não se achar +ella na direcção do Barue, por dizerem ser a mais proxima e aquella onde +facilmente encontraria gente que quizesse ir até á aringa de Tumbura.</p> + +<p>Estes homens, quasi todos já meus conhecidos, pelo mal que se comportaram +como carregadores desde o acampamento do Inhamatoque até ao do Rupire, e depois +nos varios serviços, como construcção de palhotas, de que eu os encarreguei, +levantaram as cargas e pozeram-se a caminho em tão boa ordem e assim foram +seguindo, que eu suppuz que teriam recebido especiaes recommendações para irem +convenientemente até ao seu destino.</p> + +<p>Tendo andado uma hora, atravessei o rio Inhamessansára, rio que eu já tinha +visitado dias antes, em que os pretos lavam oiro e que nasce no mesmo centro, de +onde, correndo em outra direcção, nasce o Inhamussice. O Inhamessansára é aqui +limite do Rupire e de Massáoa, terra que tinha a atravessar n'uma parte que não +é habitada, para chegar á terra de Sangano e povoação de Gossi, filho grande do +mambo d'esta terra.</p> + +<p>Pouco depois de atravessar o rio, eu, que nunca tinha soffrido do baço, +comecei a sentir do lado esquerdo uma pontada que, augmentando rapidamente, me +impediu de continuar a andar e me fez entrar em machila. Momentos depois um dos +machileiros de traz largou a canna da machila para apanhar o chapéu que lhe +tinha caído, e o outro que era muito fraco deixou-me cair bruscamente no chão. O +choque d'esta queda aggravou muito o mal que poucos instantes antes pela +primeira vez se tinha manifestado, e fiquei por mais de uma hora debaixo de uma +arvore revolvendo-me no chão com dores e afflicções horriveis, e suppondo por +vezes que não mais me tornaria a levantar. Os carregadores passaram para diante, +na mesma extraordinaria boa ordem a que me referi, sem que eu lhes dissesse o +que me tinha succedido.</p> + +<p>Quando me foi possivel entrar na machila e pôr-me a caminho, estranhei +encontrar pouco depois, descansando todos juntos os carregadores que suppunha +muito adiante. Continuei no caminho avançando pouco porque os machileiros erão +só os meus muleques, e nos esforços que fazia para me arrastar a pé quasi nada +adiantava, quando um dos filhos do mambo chegou correndo para me avisar que os +carregadores não queriam andar mais e pedir que mandasse algum muleque para +tomar conta das cargas que elles queriam abandonar. Eu não estava em estado de +voltar para traz e tambem suppuz preferivel não mandar<span +class="pn">{13}</span> para junto das cargas um só moleque, mas sim dizer que as +cargas tinham sido entregues ao mambo do Rupire e á sua gente, que por ellas +eram responsaveis até as pôrem na povoação de Gossi; propondo-me, porém, logo +que chegasse a esta povoação, mandar buscar as cargas abandonadas, por modo +analogo ao que já por vezes, até no Barue, tinha tido que fazer, mesmo por falta +de forças dos esfomeados carregadores.</p> + +<p>Continuei, portanto, na minha vagarosa marcha até que, tendo anoitecido, me +deitei na beira do caminho sem ter noticia da povoação de Gossi nem encontrado +uma gota de agua com que matar a sêde, que mesmo aos pobres muleques +devorava.</p> + +<p>Pondo-me a caminho antes de amanhecer, na madrugada seguinte cheguei a uma +pequena povoação da terra de Sangano, de um preto chamado Chirombre; soube ali +em que direcção ficava a povoação de Gossi e que na vespera tinha passado +deixando á esquerda o caminho que lá me teria levado. Expedi immediatamente um +homem da povoação de Chirombre para ir pedir a Gossi que me mandasse homens seus +buscar as cargas que a gente do Rupire me tinha deixado no caminho.</p> + +<p>Pelas dez horas da manhã chegou á povoação de Chirombre um dos filhos do +mambo do Rupire que tinha estado sempre ao meu serviço, dizendo que passára a +noite ao pé das cargas, que o mambo tinha vindo da aringa e não tinha conseguido +que os carregadores seguissem para diante, e que elle vinha pedir carregadores. +Não havendo n'esta povoação um unico para lhe dar, voltou logo para traz com a +promessa de que se poria a caminho com uns trinta homens que ainda estavam junto +ás cargas. Até este momento, portanto, não tinha eu rasão para pensar que +succederia differentemente do que por muitas vezes me tinha acontecido, +principalmente nas minhas antigas viagens, partindo de Tete mesmo com o +governador do districto, com o abandono das cargas e fuga dos carregadores.</p> + +<p><span class="margem">Roubo das cargas.</span> Na tarde, porém, d'este mesmo +dia appareceu-me n'um misero estado o preto que de madrugada tinha mandado á +povoação de Gossi, dizendo que tinha ali reunido alguns carregadores para ir +buscar as cargas abandonadas, e que ao chegar proximo d'ellas tinha encontrado +grande agrupamento de gentes do Rupire e de Massáoa; este ultimo é, como disse, +o nome da terra onde as cargas estavam; que uns e outros se tinham apoderado das +cargas, quebrando e rasgando os motores para distribuir entre si tudo o que +elles continham; e que tanto elle como os homens de Gossi que o acompanhavam +tinham sido espancados.</p> + +<p>Por peior opinião que forme do caracter da gente do Rupire não penso que este +roubo fosse premeditado. Estou convencido que quando os carregadores levantaram +do acampamento tinham recommendações para seguir em boa ordem até á povoação de +Gossi; e que se o mambo veiu da aringa até ao logar em que os carregadores +pararam é que alguem bem intencionado o foi avisar; e creio tambem que o mambo +os exhortaria a que continuassem. Mas eu por vezes tive occasião<span +class="pn">{14}</span> de notar o pouco caso que em geral a gente do Rupire faz +da auctoridade do mambo. Provavelmente estes carregadores, homens sem palavra e +sem respeito pelos compromissos que tomavam em troca da fazenda que recebiam, +pararam quando se sentiram cansados com as para elles, geralmente muito fracos, +pesadas cargas, e só se teriam posto a caminho se eu me achasse junto a elles e +se, analogamente ao que já com elles tinha succedido, os induzisse a continuar +com algum novo pequeno pagamento.</p> + +<p>Penso que estavam hesitantes no que fariam, quando gentes das povoações de +Massáoa, avisadas por qualquer modo do que se passava na sua terra, correram a +ver o que podiam com isso aproveitar.</p> + +<p>Basta só poder explicar que nas discussões que entre uns e outros podessem +ter tido logar um primeiro motor fosse aberto e o seu conteúdo espalhado, +porque, em vista das fazendas soltas, excitados uns pelos outros, concebe-se que +perdessem a idéa de toda a responsabilidade e, na febre de se apoderarem do que +para elles eram tão grandes riquezas, não parassem sem terminar a sua +repartição, destruindo tudo que para elles não tinha utilidade.</p> + +<p>De nada servia voltar atrás só com os meus muleques e como me achava apenas +com o que tinha sobre o corpo e sem cousa alguma para comer, n'uma miseravel +povoação de quatro ou cinco palhotas, onde nada havia, procurei dirigir-me logo +para a povoação do mambo da terra em que me achava.</p> + +<p>É inutil fallar das privações que passei n'este e nos dias seguintes e, por +infeliz coincidencia, quando me achava victima dos maiores soffrimentos que +tinha tido em toda a vida.</p> + +<p><span class="margem">Da povoação de Chirombre á de Chideu.</span> No dia 14 +parto da povoação Chirombre para a do mambo d'esta terra de Songano, chamado +Chideu, ou tambem Inhamande.</p> + +<p>Chideu é extremamente velho e quasi cego. A terra de Sangano tem pouca gente, +mas o velho mambo é pessoalmente de grande auctoridade pelo poder sobrenatural +de ler no futuro que lhe attribuem.</p> + +<p>Recebeu-me muito bem, mas com um ceremonial de feiticeiro que em trabalho de +outra natureza seria interessante descrever.</p> + +<p><span class="margem">Possibilidade de tomar posse do Rupire antes de +regressar a Gouveia.</span> É, porém, importante notar que esta grande +auctoridade na opinião do seu povo e na dos povos vizinhos, disse que o +tratamento que eu tinha recebido, que o roubo que me tinha sido feito, quando +ninguem, tinha a queixar-se do meu procedimento nem do da minha pouca gente +quando eu tinha dado todos os presentes do costume ao mambo e aos pandoros, +quando tinha comprado uma terra para construir casas e ter as minhas culturas, +tudo justificava um severo castigo e que as terras do Rupire fossem tomadas +pelos brancos; offerecendo-se o mambo a coadjuvar-me para esse fim com a sua +gente.</p> + +<p>É facil comprehender quanto eu desejaria, em logar de me declarar n'este +relatorio uma victima de um roubo no paiz que fui visitar, de o assignar como +commandante provisorio do Rupire. Por tres modos poderia ter chegado a este +resultado:</p> + +<p>1.º Pelo emprego da gente de Motoco. Achava-me, porém, principalmente pelo +meu estado de saude, em condições demasiadamente miseraveis para, em relação a +um povo estranho poder por mim só<span class="pn">{15}</span> representar a +acção official portugueza, e não desejei correr o risco de que a conquista do +Rupire, em logar de ser absolutamente a nosso favor, fosse quasi apenas em +vantagem da relativamente poderosa gente do Motoco.</p> + +<p>2.º Pelo emprego de gente de Tete. São conhecidos os relevantes serviços que +ultimamente tem prestado ao paiz o governador d'este districto, e como a nossa +occupação effectiva de vastos territorios ao sul do Zambeze entre Tete e Zumbo +se tem realisado com o auxilio do capitão mór do Zumbo, Araujo Lobo e do capitão +mór de Chicoa, o mosungo Ignacio. Este Ignacio tem com a sua gente ido occupando +territorios para o sul de Tete até quasi á margem esquerda do Mazoe e vive de +ordinario n'uma aringa que fica a menos de tres dias de caminho do Rupire. +Recorrer ao governador de Tete e ao capitão mór de Chicoa era de certo resolver +a questão com a maior brevidade. O proprio mambo Chideu me disse que bastava que +a gente do Rupire soubesse que o mosungo Ignacio marchava para essa terra com os +seus cypaes para que toda logo fugisse ou se submettesse. Em uma carta que duas +ou tres semanas depois vim a receber em Gouveia do governador de Tete, informado +embora com muitas alterações e exageros do que succedia, espontaneamente me +pedia elle mais algumas informações a fim de immediatamente mandar avançar a +necessaria gente de Tete para effectuar a posse do Rupire. Tinha porém eu +partido de Gouveia com gente e conselhos do Manuel Antonio; o nome d'estes +mambos vizinhos do Luenha, principalmente o do Caterere, está muito ligado no +espirito de Manuel Antonio ao do Macombe, antigo rei do Barue, de quem elles +eram como vassallos e suppuz que recorrendo eu ao capitão mór de Chicoa para a +occupação do Rupire, não seria isso agradavel a Manuel Antonio; vindo mais tarde +a reconhecer que, se assim tivesse procedido, o teria extraordinariamente +offendido e talvez motivado acontecimentos desagradaveis.</p> + +<p>O terceiro alvitre, visto que eu suppunha Manuel Antonio muito distante, +occupando-se da construcção das aringas do Pungue, consistia em recorrer á +aringa de Tumbura, cujo capitão é o principal chefe de guerra de Manuel Antonio, +e fazer com elle, juntamente com gente do seu districto e dos districtos +proximos, que todos lhe obedecem, um agrupamento de uns trezentos ou +quatrocentos homens, o que me parecia ser mais do que o necessario para realisar +satisfactoriamente a occupação do Rupire e de Massáoa.</p> + +<p>Alguns caçadores matariam os bufalos e outra caça grossa, em quantidade +necessaria para dois, tres ou quatro dias, e chegada a gente ao paiz, os +recursos em cabras e em algum mantimento escondido, que eu sabia ali havia, +serviriam por algum tempo. Um cypae de Tumbura, que me tinha trazido o correio e +ainda se achava commigo, dizia-me ser facil, para cousa tão pouco importante, +que o capitão Macarimgomba, chefe de Timbura, e reconhecido como capitão mór dos +cypaes, reunisse a necessaria gente e fizesse a expedição, sem ordem de Manuel +Antonio, e só por minha requisição. Foi este terceiro alvitre que sem ir adiante +da povoação de Chideu, eu procurei realisar. Para isso mandei a Tumbura o citado +cypae e muleques meus, e tambem para<span class="pn">{16}</span> que de Tumbura +me trouxessem algumas das fazendas que eu ahi tinha em deposito, pois os meus +amigos da terra de Sangano, apesar da consideração e sympathia que me +dispensavam e de estarem sempre em torno de mim, pouco me davam de presente, +quasi nada queriam vender de fiado, e para eu e os muleques termos a pouca e +miseravel comida, que nos ia permittindo viver, tinha sido necessario que elles +fossem successivamente vendendo os seus pannos até ficarem completamente nús. +Parece-me que o mais precioso presente que recebi do mambo Chideu foi uma véla +de cebo, que eu já tinha visto entre o seu material de feiticeiro, e que +provavelmente guardava ha muitos annos; veiu o velhinho, que muito lhe custava +dar alguns passos, trazer-ma á minha palhota n'uma tarde em que n'ella me achava +com bastantes dores e bastante fome.</p> + +<p>Infelizmente para a execução do meu projecto, um movimento que n'essa mesma +occasião se tinha dado nas aringas fronteiras do Bonga e de Massangano e do +Barue tinha obrigado a partir para lá com a gente da sua aringa o capitão +Macaringomba, e os meus emissarios encontraram em Tumbura quasi que unicamente +as mulheres e as creanças.</p> + +<p><span class="margem">Partida de Sangano para Tumbura.</span> Na +impossibilidade de effectuar a occupação do Rupire antes de deixar estas terras, +parti no dia 25 de outubro para Tumbura, seguindo da povoação de Chideu pelo +itinerario marcado no mappa, com machileiros que Chideu mandou reunir, pagos com +fazendas, que me tinham chegado de Tumbura. Um dos filhos do mambo, por ordem do +pae, acompanhou-me até esta aringa. O filho mais velho, Gossi, de que tenho +varias vezes citado o nome, veiu para a povoação do pae logo depois de eu ahi +chegar, e ficou ahi até eu partir. Morto o velho mambo, este rapaz facilmente +reconhecerá a soberania de Portugal, ou fará a entrega das suas terras.</p> + +<p>Como se vê na carta entre a terra de Sangano e o rio Luenha, está a terra de +Inhachiranga que eu já disse ter atravessado na ida para o Rupire sem passar por +povoação alguma. Na volta passei pela aringa de Cariua, filho do mambo da terra, +e ahi tive occasião de ver que a opinião a respeito do Rupire era a mesma que em +Sangano, e que ficam esperando que em breve passem pela sua terra, como amigos, +cypaes de Gouveia, com destino ás terras que fizeram por ser castigadas,</p> + +<p><span class="margem">Partida de Tumbura para Gouveia.</span> No dia 26 de +outubro, dia seguinte ao da minha partida da povoação de Chideu, cheguei a +Tumbura. Ahi soube que Manuel Antonio não se achava no Pungue, mas tinha corrido +de Gouveia para pôr fim ao movimento parcial, que contra desejos d'elle, se +tinha dado na fronteira das terras do Bonga. Puz-me em communicação com elle; +encontrámo-nos no dia 3 de novembro na aringa de Inhangona e d'ahi partimos +juntos para Gouveia ao encontro do sr. governador geral da provincia, que n'esse +mesmo dia ahi devia ter chegado.</p> + +<p><span class="margem">Ordem para a occupação do Rupire.</span> Exposta a +situação ao sr. governador geral, resolveu elle que o districto de Manica e o +capitulo mór de Manica e Quiteve dirigissem uma expedição ás terras de Rupire e +de Massáoa.</p> + +<p>Devo acrescentar que antes da minha chegada a Gouveia, constando ahi +vagamente o que tinha succedido, já o governador do districto<span +class="pn">{17}</span> de Manica tinha solicitado do general da provincia ordem +para que fosse mandado pessoalmente ao Rupire.</p> + +<p>N'estas condições a minha presença de nada serviria para o bom resultado da +expedição; como tambem parecesse melhor nada emprehender do lado de Manica até +que fosse conhecido o resultado da missão do Gungunhana, junto do governo de Sua +Magestade; achei conveniente, tanto por causa de minha saude, como por outros +motivos, aproveitar o intervallo para vir á Europa, onde verbalmente ou em +qualquer trabalho especial poderei fornecer importantes informações, em vista do +desenvolvimento dos auspiciosos trabalhos encetados pela creação do districto de +Manica.</p> + +<p><span class="margem">Despezas da expedição.</span> As despezas da expedição +foram fazendas gastas com os carregadores e machileiros, com os presentes +voluntarios ou espontaneos aos differentes mambos, com as exigencias de alguns +d'estes mambos e dos seus pandoros, a compra de terras e de palhotas no Rupire, +e as cargas roubadas pela gente do Rupire e de Massáoa, n'esta ultima terra, +sendo parte d'ella artigos geralmente de acampamento, pertencentes ao districto +de Manica, outra, fazendas da companhia de Ophir, que fez todos os adiantamentos +para esta expedição, e finalmente motores de propriedade; pessoal, avalio em +1:500$000 réis a importancia das fazendas da companhia de Ophir, com que foram +feitos todos os pagamentos e do resto d'estas fazendas roubado em Massáoa.</p> + +<p><span class="margem">Resultados da expedição.</span> Parece-me poder citar os +seguintes: ter feito melhor conhecimento do que é o Barue, e das condições em +que actualmente se acha este antigo reino; ter-me certificado que nos chamados +Campos de Oiro do Imperador Guilherme ainda não havia vestigios de qualquer +acção estrangeira, e que estavamos ainda bem a tempo de em toda esta região +exercermos a nossa occupação ou protecção; ter, pelo que vi, e pelo oiro dos +rios Inhamessansára, Muse, Inhamussice, Munhoque, e outros, que os pretos todos +os dias traziam ao meu acampamento para trocarem por fazendas, e por saber que +ha seculos elles lavam sempre nos mesmos logares, adquirido a convicção de que o +centro, de pequena area, d'onde em todas as direcções partem estes differentes +rios, deve ser um importante campo aurifero como Mauch o suppoz; ter obtido +informar-nos ácerca de um outro centro a que adiante me referirei, ainda mais +interessante pela maior quantidade de oiro que hoje d'elle extrahem, pela +abundancia de agua corrente, pelas grandes manadas de bois, que n'elle ha, e +pela sua salubridade; finalmente, não tendo conseguido fixar pacificamente no +Rupire as bases de uma estação civilisadora e commercial portuguesa, ter +recebido das gentes d'esta terra, de Guessa e de Massáoa pretextos, que na +opinião dos mambos vizinhos nos justificam a tomar posse d'estas terras; e +alcançado a nomeação de uma expedição official do districto de Manica para este +fim, e para a fundação de um nucleo, que não póde deixar, por pouco que façâmos, +de trazer ao dominio portuguez todos os vizinhos povos d'esta interessantissima +região.<span class="pn">{18}</span></p> + + +<h2>II</h2> + +<h3>Algumas considerações relativas á politica interna dos districtos de Manica +e de Tete</h3> + +<p>Na primeira parte descrevi rapidamente a minha viagem a uma parte da região +denominada por Mauch Campos de Oiro do Imperador Guilherme, e indiquei alguns +dos resultados directos d'esta viagem.</p> + +<p>N'esta segunda parte reunirei algumas informações relativas aos paizes +percorridos, e outros que devemos considerar em breve como parte integrante da +provincia de Moçambique.</p> + +<p><span class="margem">Barue.</span> No relatorio da viagem de Mauch falla este +explorador do successor de Musilicatze, do Musila e do Macombe, rei do Barue. +Alem d'estes tres grandes potentados só encontrava entre o Limpopo e o Zambeze +chefes minusculos dos quaes apenas cita o nome de Schomare (que já sabemos ser +Machamare), a proposito da mais notavel riqueza dos seus terrenos auriferos.</p> + +<p>O grande reino de Barue, que já tinha atravessado ha annos, quando fui a +Manica, e ha pouco quando fui ás terras dos landins, foi agora percorrido por +mim em toda a sua extensão, de leste até ao seu limite oeste, formado pelo +Caurese e depois mais para o norte pelo Luenha.</p> + +<p>Como é sabido, o rio Inhandue, que banha Gouveia, separa n'esta altura o +Barue das terras da soberania portugueza. Este rio póde-se considerar como +origem do rio Urema, affluente do Pungue. Entrando no Barue os rios principaes, +pela extensão do percurso e largura do leito, que encontrei foram +successivamente os seguintes: o largo rio Morose, affluente do Inhamapase, que +desaguando no canal Mucua se póde considerar ou affluente do Pungue pelo Urema, +ou do Zambeze pelo Sangue; o tortuoso Misangase que desemboca no Zambeze, logo +abaixo do luane do Prazo Chemba, e cujo leito se atravessa ou segue quasi umas +vinte vezes no caminho entre Chemba e Gouveia; o Pompue, affluente do Zambeze a +meia altura da linha da praia do praso Chiramba, e o Muira, affluente do +Zambeze, no Bandar, isto é, um pouco a jusante da entrada da Lupata. Poderei +ainda citar o Mupa, affluente do Luenha, um pouco a jusante da foz do Caurese. +Se estes rios ainda tivessem agua corrente em toda a epocha do anno, seria o +Barue, no geral da sua area, um dos mais bellos campos que a provincia de +Moçambique podesse offerecer á colonisação agricola europea. Infelizmente porém +todos os vastos leitos arenosos d'estes grandes rios se acham seccos durante +grande parte do anno, podendo-se apenas, e não em todos, obter d'elles agua para +beber por meio de covas abertas no seu leito.</p> + +<p>Como meios de communicação ou como fontes de irrigação são absolutamente +inuteis; encontrando-se, em toda a vasta area a que me refiro, mais facilmente +agua em pequenos regatos ou affluentes de affluentes, indo ella sendo absorvida +á proporção que se approxima dos largos<span class="pn">{19}</span> leitos +arenosos. Se o centro do Barue não é em geral cortado por abundantes cursos de +agua, os seus limites são quasi todos determinados por caudalosos rios, cujas +margens me parecem excellentes campos para colonisação.</p> + +<p>N'este caso estão as margens do Inhandue, principalmente as do Vunduse (do +Barue), do Pungue ou Aruangua, e ainda apesar da mosca pépsé as do Caurese e +Luenha.</p> + +<p>Não deve deixar de ser citado o Inhasonha, o importante affluente do Pungue, +que esse não limita o Barue, mas corre todo dentro d'este reino, que tem +excellente e abundantissima agua e margens adaptadissimas para colonisação +branca.</p> + +<p>A ultima viagem através do Barue fez-me melhor apreciar a importancia dos +serviços feitos por Manuel Antonio, causando-me cada vez mais admiração o ver +como um unico homem, pela sua actividade e energia póde, não só resistir ao +ataque que o poderoso e sanguinario Macombe fez á Gorongosa, mas depois +perseguir este potentado, vencel-o e dictar absolutamente a lei em todo este +vasto territorio.</p> + +<p>Tenho nota do nome e localidade approximada de mais de trinta aringas, +algumas das quaes, como a de Pangara, me dizem ser vastissimas, construidas +depois que Manuel Antonio se apoderou do Barue, tendo todos os seus capitães (de +que tambem tenho o nome, e a maior parte dos quaes conheço pessoalmente), cypaes +que n'ellas vivem ou n'ellas se agrupam e os necessarios elementos para a +defeza.</p> + +<p>É muito interessante e para ser adoptado em territorios novamente apossados, +o systema administrativo, ou antes policial, introduzido por Manuel Antonio no +Barue. A gente que habitava este reino, ou foi morta durante a guerra, ou fugiu +para outras terras ou ficou no Barue, submettendo-se a Manuel Antonio. Toda a +que ficou foi nos differentes districtos dividida em grupos, sendo-lhes dada +como Inhacuavas, chefes ou representantes para advogarem os seus interesses, +homens escolhidos de entre os grandes do Barue, que mais confiança mereciam a +Manuel Antonio.</p> + +<p>Alguns milhares de homens dos nossos prasos da Corôa ou Quitevistas, que +tinham vindo para a Gorongosa foram introduzidos no Barue como cypaes, agrupados +em ensacas, commandadas superiormente pelos capitães. Em quasi cada uma das +talvez quarenta ou mais aringas do Barue ha para um lado da aringa o recinto +reservado do capitão chefe da aringa e sua familia, e proximo as palhotas dos +cypaes e suas familias, e para o outro lado o recinto reservado do Inhacuava e +sua familia e proximo as palhotas de colonos do Barue. O capitão é sempre homem +absolutamente dedicado a Manuel Antonio e o Inhacuava foi por elle +escolhido.</p> + +<p>Vi sempre, nas differentes aringas onde estive, a melhor harmonia entre os +inhacuavas e os capitães da aringa. Por accordo entre as duas auctoridades, os +territorios em torno das aringas são divididos para as culturas ou +<em>colimas</em> das familias dos cypaes e dos colonos. Manuel Antonio ainda não +começou a receber tributo ou mussôco no Barue, mas comprehende-se como é facil +fazel-o logo que a isso se resolva.<span class="pn">{20}</span></p> + +<p>No Barue ha muita quantidade de cera; cypaes e colonos apanham esta cera que +fica sua propriedade e que elles vendem nas aringas, onde Manuel Antonio tem +fazendas em troca d'estas fazendas.</p> + +<hr class="dotted"> + +<p>Como tenho dito, e como o mappa junto o mostra, o limite oeste do Barue é o +rio Caurese que o separa da terra Guessa, e depois mais para o norte o rio +Luenha que o separa do Inhachiranga, Inhabaco e Marembe.</p> + +<p><span class="margem">Terras do Changamira.</span> A terra Guessa do mambo +Caterere fica comprehendida entre o Caurese e o Luenha, e vae estreitando até ao +ponto de affluencia d'aquelle rio com o rio principal. A ponta norte d'esta +terra é pouco accidentada, e quer no meu itinerario da volta, quer no da ida, ao +sul d'aquelle, o caminho é facil e quasi horisontal.</p> + +<p>Para o sul, porém, da aringa do Bonga, em todo o terreno que percorri desde +ahi até á aringa do Catarere, o terreno eleva-se successivamente e torna-se +bastante accidentado. Comquanto não tenha podido reconhecer os montes a que +Mauch chamou Bismack e Moltke, é de certo ás serras em Guessa que ficam ainda +para o sul da aringa do Caterere que elle se referiu quando disse que as serras +a leste dos campos de Oiro formavam uma barreira invencivel aos que a elles +pretendessem chegar vindos d'esse lado. Talvez o dissesse para tirar a vontade +aos exploradores portuguezes.</p> + +<p>Pela carta, porém, se vé o pouco que ha a tornear para ir da aringa de Taua +ou da de Tumbura no Barue, até á terra de Macaha, centro dos campos de oiro de +Mauch; e penso que ainda se poderá achar caminho mais directo, embora +ligeiramente mais accidentado, de Tumbura para Macaha, cortando em altura +conveniente o caminho que segue da aringa do Bonga á do Caterere.</p> + +<p>Quando me achava no acampamento do Rupire, vendo tão vizinhas as serras da +margem direita do Mazoe, sabendo que este rio corre apenas uns dois ou tres dias +ao sul da villa do Tete, notando que as relações commerciaes do Rupire e terras +proximas teem quasi exclusivamente tido logar desde ha seculos com os +negociantes d'esta villa, pareceu-me por algum tempo preferivel que as futuras +relações officiaes com o Rupire tivessem logar pelo districto de Tete.</p> + +<p>O que depois se passou, e o que deve ter tido logar depois da minha partida +para a Europa, leva-me a abandonar esta idéa para voltar á expressa no meu +precedente relatorio, confirmando a proposta de que os limites dos dois +districtos, Manica e Tete, sejam determinados pelo Luenha, desde a sua foz no +Zambeze até á altura da confluencia do rio Mazoe, e depois pelo curso d'este +rio; com a differença de que, o que então indicava como <em>limite da area de +acção</em> dos dois districtos, parece agora dever em breve transformar-se, +graças ao que tem sido feito do lado de Tete, e á occupação do Rupire, em limite +<em>do territorio effectivo</em> dos mesmos districtos.</p> + +<p>Não posso resistir a fazer uma comparação que me occorre ao espirito sempre +que penso no resultado do contacto das areas effectivamente occupadas de dois +districtos em colonias nossas, contacto que julgo nunca teve logar, nem mesmo na +provincia de Angola.<span class="pn">{21}</span></p> + +<p>Um inventor qualquer descobriu que dois bicos de gaz, collocados proximo um +do outro, combinando as duas chammas, produzem luz mais intensa do que a da +somma das mesmas chammas separadas; um pequeno apparelho movido por um +machinismo de relogio, que se acha n'um mostrador de uma loja em Londres, +apresenta primeiro as duas chammas separadas e parallelas, e depois, +approximando um bico do outro, mostra o extraordinario augmento da intensidade +da luz logo que as chammas chegam ao contacto, para voltar á simples intensidade +das duas luzes simples logo que ellas se separam. É uma experiencia de gabinete +mostrando a verdado da divisa do escudo belga.</p> +<hr class="dotted"> + +<p>No dia em que, tendo desapparecido a infamante aringa de Massangano, a acção +directa do districto de Manica chegar á margem directa do Luenha e do Mazoe, e a +do districto de Tete á margem esquerda dos dois rios, estou convencido que um +phenomeno analogo ao que se dá com o contacto das duas chammas ha de ter logar +com grande intensidade.</p> + +<p>O imposto do mussôco cobrado em tão vasta area dará em poucos annos um +excesso de rendimento que poderá servir de garantia para levantar capitaes, que +a seu turno empregados em melhoramentos reproductivos forçosamente farão entrar +a Zambezia n'uma progressão de prosperidade para a qual ninguem se atreverá a +dizer que lhe faltam as bases ou os recursos necessarios.</p> + +<p>Toda a margem esquerda do Luenha, que ficaria pertencendo ao districto de +Tete, isto é, desde a foz do rio até á confluencia do Mazoe está hoje em poder +das gentes do Bonga.</p> + +<p>Pela margem esquerda do Mazoe acima está o paiz occupado por pequenos mambos, +mas tanto até ao Luenha como até ao Mazoe, pelo menos, por emquanto, até á +latitude 17° ou 17°,30, muito facil será prolongar a acção directa do districto +de Tete por meio de recursos de que o governador do districto e o capitão mór de +Chicoa dispõem, sobretudo quando procederem de accordo com as auctoridades do +districto de Manica.</p> + +<p>Logo na minha primeira intervista com Chiquiso, mambo do Rupire, fiquei +surprehendido de lhe ouvir chamar Changamira, e suppuz que n'este paiz, agora +dividido em tão pequenas terras, este mambo seria o herdeiro do antigo +imperador; mas mais tarde soube que este nome era tambem como titulo honorifico +dado a outros mambos.</p> + +<p>Toda a região de que me tenho occupado, e que comprehende os Campos de Oiro +do Imperador Guilherme, corresponde approximadamente com a que no mappa do sr. +marquez de Sá é denominada terras do Changamira, e era proprio que fosse dado a +esta divisão do districto de Manica o nome de <em>Changamira</em>, limitando-a a +E. pelo Caurese e Luenha com o Barue, e ao N. e O. pelo Mazoe com o districto de +Tete, e ao S. talvez approximadamente na latitude de 17°,30' ou 17°,40' com +outra futura divisão do districto de Manica, de que adiante vou fallar.</p> + +<p>Aos Campos de Oiro do Imperador Guilherme chamariamos de futuro: minas de +Changamira.<span class="pn">{22}</span></p> + +<p>A divisão Changamira, limitada, como disse, comprehende a terra Guessa, do +mambo Caterere, Inhachiranga do mambo Zinto, Inhabaco do mambo Mezumbauocra, +Marembe do mambo Chitumbe, Sirge (do Mazoe) do mambo Cajue, Manáva do mambo +Ziráve, Doro do mambo Inhacoare, Garue do mambo Rundo, Fungue do mambo +Chissungue, Chissergue do mambo Inhaiuo, Macaha do mambo Machamare, Sangano do +mambo Chideu, Rupire do mambo Chiquiso, e outros mais a oeste até ao Mazoe, de +que eu não terei tido informação. Builha, terra do mambo Motoco, poderá ainda +ser comprehendida na divisão de Changamira.</p> + +<p><span class="margem">Local da primeira povoação de brancos em +Changamira.</span> A primeira parte d'este relatorio dá noticia de como, apesar +das diligencias que fiz para ir entrando em amigaveis relações com as gentes +d'estas terras, o procedimento das gentes de Guessa, Rupire e Massáua para +commigo obrigará á deposição dos tres mambos, e á passagem das tres terras á +administração directa da nação.</p> + +<p>Occupadas estas tres terras, que se acham em não interrompido seguimento com +o Barue, occupado pelo districto de Tete todo o paiz até á margem esquerda do +Mazoe, facil será por um ou outro modo vir em breve a exercer a nossa acção, tão +pacificamente quanto possivel, sobre todas as terras de Changamira, que deixei +mencionadas.</p> + +<p>A primeira estação ou povoação europêa a fazer em Changamira parece-me que +deve ser situada no Rupire, junto á margem esquerda no rio Inhamussice em ponto +a escolher desde a affluencia do rio Caruse no Inhamussice, até á affluencia +d'este rio no Luenha. Este ponto ficaria apenas a dois dias da aringa de +Tumbura, a um dia da actual aringa de Caterere, a dois ou tres do ponto em que o +Luenha, vindo do Zambeze, deixará de ser navegavel, a dia e meio do ponto mais +proximo do Mazoe, e a cinco dias de Tete. Fica muito perto do centro das minas +de Changamira, e em excellente situação como testa de linha para a exploração do +paiz dos mususuros de que já vou fallar. </p> + +<p><span class="margem">Administração do Changamira.</span> Para a policia e +defeza das terras de Changamira, que agora forem occupadas, não vejo +necessidade, em caso algum, de empregar uma força de europeus, ou qualquer +destacamento de um corpo da provincia.</p> + +<p>O processo mais economico e efficaz é o empregado por Manuel Antonio no +Barue. Construir ou aproveitar umas tres aringas, escolher para ellas bons +capitães com as suas ensacas de cypaes, aos quaes se darão as terras necessarias +para o sustento de suas familias, e nomear os inhacuavas de Guessa, do Rupire e +de Massaua, escolhidos entre os grandes d'estas terras, que vivam nas aringas, +respondam pelos colonos e lhes advoguem os interesses.</p> + +<p>A aringa do Rupire poderia ser a do actual mambo, mas seria preferivel +arrasar esta e construir uma nova, em ponto escolhido nas proximidades da +povoação branca.</p> + +<p>Para a administração superior e provisoria da Changamira apresentam-se-me +dois modos de proceder.</p> + +<p>O primeiro consiste em nomear-se um commandante militar de Changamira, que +tratará do arrolamento dos colonos nas terras occupadas, de cobrar o mussôco, +que poderá todo ser pago com oiro em<span class="pn">{23}</span> pó, e procurará +ir occupando successivamente todo o Changamira, transformando em Inhacuavas os +mambos ou parentes d'elles em que haja mais confiança.</p> + +<p>O commandante militar, nomeado como tal, não póde nem por conta do governo, +nem por sua propria conta, comprar oiro aos indigenas, nem realisar com elles +qualquer outra permutação mercantil. Como, porém, nada se póde fazer sem +attender a estas operações, e é absolutamente necessario que ellas tenham logar +no local escolhido para a povoação branca, para a ella chamar amigavelmente e +pelo seu interesse, as gentes das terras vizinhas, torna-se essencial a +installação de uma ou mais firmas commerciaes simultaneamente com a do commando +militar.</p> + +<p>É evidente que um commandante militar isolado, sem meios de entrar em +relações de troca com os indigenas, nada poderia fazer.</p> + +<p>O segundo modo de proceder consistiria, no caso de que á companhia de Ophir +fosse dado um caracter semi-official, era fundar esta companhia uma estação +civilisadora e commercial no Rupire, encarregada de vir a receber os impostos +com os arrendatarios dos prazos da corôa, de effectuar as permutações com os +indigenas e de com elles ir estreitando relações de confiança e amisade. Ao +chefe superior d'esta estação civilisadora, que poderia ser um escolhido +official do exercito de Portugal, poderiam ser dados durante este primeiro +periodo de occupação os poderes e attributos de commandante militar ou de +capitão mór.</p> + +<p>Qualquer que seja a solução adoptada, o que parece muito util é que o +commando militar ou a estação civilisadora no Rupire seja constituida por fórma +tal que possa destacar para a frente elementos de exploração tendo por fim a +creação no mais breve tempo possivel de uma estação portugueza na região +indicada no mappa do sr. marquez de Sá com o nome de mususuros, e que com este +nome é effectivamente conhecida no paiz.</p> + +<p><span class="margem">Itinerarios para Changamira.</span> Por caminho directo, +que hoje já se achará aberto, a viagem de Gouveia á aringa de Tumbura poderá +fazer-se em dois dias, e portanto a viagem de Gouveia ao Rupire em quatro dias. +Fazendo-se uso do magnifico porto do Bangue, e havendo faceis communicações do +Pungue com Gouveia, a principal estrada da costa para Changamira poderá ser a do +Bangue, Gouveia e Tumbura. Será esta sempre a mais rapida e a que deve ser +seguida pelas malas e pelos passageiros.</p> + +<p>Mas para o transporte das fazendas de importação ordinaria e o da cera, lã, +pelles, couros e outros productos relativamente pobres de exportação, são +preferiveis aos meios de communicação rapida os meios de communicação economica, +e para este fim a via do Zambeze e Luenha poderá com vantagem ser empregada +quando n'estes rios haja carreiras a vapor. Os vapores poderão ir por este +ultimo rio até a distancia de dois ou tres dias da estação de Rupire.</p> + +<p>Infelizmente o paiz aqui é extraordinariamente infestado pela mosca pepse, e +não permitte por emquanto o uso dos carros de bois; mas facil será fazer uma boa +estrada e ensaiar para esta curta viagem<span class="pn">{24}</span> de dois +dias o emprego de carros puxados por burros ou muares.</p> + +<p>Emquanto se não podér aproveitar uma parte do curso do Luenha, e emquanto se +não crearem faceis communicações pelo porto do Bangue com Gouveia, como não +convem ir do Zambeze a Gouveia, para de lá ir a Changamira, a estrada commercial +para esta terra deverá seguir, ou de Chemba, como já disse em outro relatorio, +ou antes, subindo embarcado mais um pouco o Zambeze, por um caminho, que se abra +pelo valle do Muira em direcção á aringa de Inhacassengo e d'ahi, atravessando o +Luenha, por Inhabaco e Inhachiranga até ao Rupire.</p> + +<p><span class="margem">Musururos.</span> Durante a minha estada no Rupire +obtive muito interessantes informações ácerca do paiz dos mususuros, bususuros +ou ainda susuros, que tem sobre o de Changamira a vantagem de não estar sujeito +ao flagello da mosca pepse, e por isso a de ter abundantissimas manadas de bois, +a de ser mais elevado e apparentemente mais salubre, e ainda a de ser retalhado +com pequenos rios de excellente agua corrente. Fizeram-me do paiz dos mususuros +a descripção que eu poderia fazer de Manica. Como paiz aurifero, pelo que ouvi e +pelo oiro que effectivamente hoje de lá tiram, parece-me ser tambem superior a +Changamira.</p> + +<p>A compra do oiro tem ahi ás vezes logar por um modo curioso. Todos os pretos +dos mususuros desejam comer carne de vacca, mas nem se sabem agremiar para a +distribuição nem desejam matar os seus bois para os comerem em familia.</p> + +<p>Os pretos mercadores, mesmo pretos do Rupire, que ali vão comprar oiro, +começam por comprar um boi por um algodão pegado de 6 libras, que custa em +Quelimane 1$600 réis, e depois vendem a retalho a carne em troca de oiro.</p> + +<p>A indole do povo parece ser boa; a todos os pretos que ahi chegam como +compradores tratam <em>como se fossem mosungos</em>. O paiz tem, ou ao paiz vem +ainda muito marfim. Builha, a terra do mambo Motoco, não é ainda considerada +como mususuros, mas parece que o são já as terras que ao S. e SO. com ella +confinam.</p> + +<p>Pelo leste confina Builha com Manica, havendo porém bastante distancia entre +as povoações mais proximas das duas terras por haver n'esta direcção uma larga +faxa não habitada. Da povoação do Motoco á do Mutaça, rei de Manica, são quatro +dias de caminho; á do Macone, mambo que fica a O. de Manica, são tres dias. +Manguende é o nome de um mambo dos mususuros, que fica a dois dias da povoação +de Motoco e que tem muito marfim.</p> + +<p>A terra dos mususuros, considerada pelos pretos mais rica em oiro, é +<em>Goa</em>, que tem por mambo a Mussanae; fica a tres dias de caminho da +povoação de Motoco, atravessando-se pela terra Zumba do mambo Gaha, pela do +Sotoco do mambo Chunni, e pela de Chiguagua, que tem o mambo com o mesmo nome. +Chiguagua é terra considerada tambem como tendo muito oiro. Outra terra ainda +citada como muito aurifera é a do mambo Massumbura, que ainda fica dois dias +adiante de Goa.<span class="pn">{25}</span></p> + +<p>Todas estas terras parece que se acham na bacia hydrographica do Mazoe.</p> + +<p><em>A priori</em> parece que a melhor situação para fundar a estação +civilisadora e commercial de mususuros seria pela latitude 18° junto ás +cabeceiras do Mazoe e do Save. Esta estação ficaria quasi na latitude de Gouveia +e poderia communicar directamente com a capital do districto, se se encontrasse +bom caminho atrás do paiz montanhoso que ha a atravessar; achar-se-ia talvez a +dois dias de caminho de Macequece e d'ahi poderia seguir pelo bom caminho que já +sabemos haver para o Pungue, ou ainda poderia vir a communicar directamente com +o porto de Bangue e povoações intermedias que venham a fundar-se, procurando +logo a direcção do valle do Pungue, deixando Gouveia ao N. e Macequece ao S.</p> + +<p>Este paiz elevado onde nascem o Save e o Mazoe e outros afluentes do Zambeze, +cuja occupação é da maior importancia politica, parece ser o mais adaptado para +a colonisação europea na Africa austral. A pagina 285 dos <em>Proceedings of the +Royal Geographical Society</em>, de maio 1884, vê-se que a respeito d'esta +região mr. Selous, o celebre explorador e caçador africano, que tão bem conhece +o Transvaal, diz: «As melhores partes do Transvaal não lhe podem ser +comparadas».</p> + +<hr class="dotted"> + + +<h2>III</h2> + +<h3>Considerações relativas á politica a seguir com alguns paizes que envolvem +a provincia de Moçambique</h3> + +<p>É desnecessario dizer o que era de facto ha pouco tempo a provincia de +Moçambique ao S. do Zambeze. O que se passa ainda no proprio districto de +Moçambique dá idéa de quanto se estendiam os nossos direitos effectivos em toda +a provincia.</p> + +<p>Hoje, ou em breve, podemos dizer que os limites legaes da soberania +portugueza ao sul do Zambeze são, começando do S., os que nos fixam a +arbitragem do marechal de Mac-Mahon e o tratado de 1869 com o Transvaal até á +altura da confluencia do Paphoris no Limpopo; depois a linha limite O. das +terras do Gungunhana, que, partindo approximadamente da altura da foz do +Paphoris segue até ao ponto em que o Save muda de direcção para O.; depois o +curso d'este rio emquanto elle desde a sua origem corre de N. para o S.; +finalmente, uma linha que vá das cabeceiras do Save, abrace os mususuros e +Changamira, siga em parte o curso do Mazoe e depois inclinando mais para O., e +abraçando os territorios da Chidima, que ultimamente têem sido conquistados +pelo districto de Tete, se prolongue até ao Zambeze, não sei quanto, a montante +da villa de Zumbo.</p> + +<p>A epocha dos soberanos indigenas independentes na Africa do S. está proxima +a acabar, e é só aos ingleses, allemães e boers do Transvaal<span +class="pn">{26}</span> que teremos a attender como unicos elementos que se +poderão oppor, pelos direitos que elles por sua parte adquiram, á expansão da +area da provincia de Moçambique, ou a que a linha de limites que indiquei se +afaste para O., abraçando novos territorios.</p> +<hr class="dotted"> + +<p><span class="margem">Estradas commerciaes.</span> O que é evidente é que +estes territorios, abundantes em riquezas para explorar, existem onde estão; +que ninguem os poderá deslocar da situação geographica em que elles se acham; +e que esta situação os obriga a serem directa ou indirectamente nossos +tributarios e a concorrerem para a prosperidade da provincia de Moçambique pelo +uso que farão das suas estradas e dos seus portos.</p> +<hr class="dotted"> + +<p>As grandes estradas commerciaes do interior da parte central da provincia de +Moçambique para a costa, serão as que vierem encontrar os rios que desembocam +na bahia de Manzanzane ou conduzam ao porto do Bangue, e o Zambeze.</p> + +<p>A creação do districto e governo de Manica, a viagem que por este motivo +fiz ás terras dos landins, e o ter sido um dos primeiros actos do novo +governador geral da provincia o tomar em consideração as informações que no meu +relatorio expuz relativamente ao rio Pungue, mandando a canhoneira +<em>Quanza</em> +explorar a foz d'este rio, levaram á descoberta de um porto de mar superior aos +de Quelimane e Inhambane, situado approximadamente a meio da distancia entre +estes dois portos, e na embocadura de rios navegaveis por grande extensão. A +não ser que o estado do paiz, que é desconhecido, revele alguma circumstancia +muito desfavoravel, como a de não haver nos terrenos marginaes do porto local +conveniente para a construcção d uma cidade, a descoberta d'este porto terá em +breve uma extraordinaria influencia no desenvolvimento da mais valiosa porção +da provincia de Moçambique.</p> + +<p>Basta citar as estradas que a este porto devem convergir.</p> + +<p>Disse em outro trabalho que o Quiteve, desde as costas da provincia até +proximo da povoação de Gungunhana, era um paiz plano e horisontal. Em todo elle +vivem bem os bois e podem ser empregados carros como os que percorrem toda a +Africa austral, á excepção dos paizes onde ha a mosca ou aquelles em que ha só +portuguezes.</p> + +<p>Uma estrada carreteira, partindo da povoação de Gungunhana, deve vir +procurar o rio Busi em altura conveniente. Barcos fluviaes a vapor ligarão este +porto ao ponto do Bangue. Á estrada de Gungunhana prolongada será a estrada de +Duma e de toda a parte S. do paiz dos matebeles até Gubulavaio.</p> + +<p>Já tambem em outro relatorio disse que de um ponto da margem direita do +Pungue, onde se possa chegar em embarcações adequadas partindo do porto do +Bangue, até Manica ha já caminho de preto facil, que se póde percorrer a pé em +quatro dias.</p> + +<p>É desnecessario lembrar que o sitio das minas de Inhaoxe, entre o Busi e o +Pungue, fica a menos de um dia do ponto de desembarque em qualquer d'estes rios +e portanto do mais facil accesso pelo porto do Bangue.<span +class="pn">{27}</span></p> + +<p>N'este mesmo relatorio já disse que o valle de Pungue, para montante da foz +do Vundusi, é um excellente campo para colonisação e que <em>a priori</em> se +poderia +esperar que ao longo d'este valle se possa abrir uma estrada para servir +directamente o paiz dos mususuros.</p> + +<p>É a que já seguiu o governador geral da provincia na sua visita á capital do +districto. Já atrás notei como o prolongamento d'esta estrada para Changamira +será a via de communicação mais rapida d'esta divisão do districto de Manica +com a costa.</p> + +<p>O major Serpa Pinto, no seu livro, <em>Como atravessei a Africa</em>, mostra +como, +aproveitando o alto Zambeze, o Cafuque e o baixo Zambeze, se póde facilmente +pôr em communicação mais de dois terços de largura do continente africano +n'estas latitudes com o oceano indico.</p> + +<p>Antigamente as communicações entre Tete ou Senna e Quelimane tinham logar +por embarcações que desciam o grande rio até ao sitio do Mazaro, entravam ahi +no rio Muto, que seguiam com mais ou menos difficuldade de navegação, pela +pouca agua que em certos pontos o rio tinha durante a estiagem, e depois pelo +rio dos Bons Signaes ou de Quelimane até á villa d'este nome. Mais tarde a bôca +do Muto ou Mazaro fechou-se completamente com areia e vegetação, e a navegação +pelo rio Muto cessou de todo; começando-se a fazer uso do Barabuanda ou Quaqua, +outro canal da communicação entre o Zambeze e o rio de Quelimane, com agua em +parte fornecida por alguns pequenos rios que a elle vem dar. Durante alguns +dias do anno, quando a cheia no Zambeze é muito grande, as embarcações que vem +do Zambeze podem entrar no Quaqua, ou mesmo navegar pelos campos, fóra do leito +do canal, e seguir sem interrupção até Quelimane; mas durante quasi a +totalidade do anno a navegação não póde ser continua entre Quelimane e o +Zambeze. Todas as mercadorias importadas por Quelimane com destino ao Zambeze, +ao Chire, ao lago Nyassa, sobem o rio de Quelimane e o Quaqua em pequenas +embarcações até onde a agua lhe permitte que cheguem, geralmente até proximo +das construcções da companhia do opio onde, o Quaqua faz uma curva que mais do +que em qualquer outro ponto, a não ser muito acima quando junto ao extremo do +canal, se approxima do Zambeze. Tudo é descarregado ahi e transportado á cabeça +dos carregadores até ao Zambeze, na altura da povoação do Vicente, que fica um +pouco acima do Mazaro. Com relação ás embarcações, procede-se por dois modos: +ou as embarcações que vieram de Quelimane ficam no Quaqua e as cargas são +postas em novas embarcações no Zambeze, ou as proprias embarcações do Quaqua +são passadas para o Zambeze. Os coxes e almandias feitos de um só tronco de +arvore cavado, não têem perigo de se desconjuntarem e são arrastados sobre o +solo desde um rio até ao outro; os escaleres são voltados de quilha para o ar e +transportados sobre os hombros de trinta ou quarenta pretos. É por este modo +que se têem feito nas ultimas dezenas de annos os transportes do commercio do +Zambeze. Procedeu-se a estudos para projectar pelo canal do Quaqua, +convenientemente rectificado e aprofundado, uma communicação permanente entre o +Zambeze e o rio de Quelimane; tem-se tambem indicado como conveniente a +construcção de uma linha ferrea partindo da<span class="pn">{28}</span> villa +de Quelimane ou de outro ponto da margem do rio de Quelimane para o Zambeze e +mesmo para o Chire.</p> + +<p>Mas as aguas do Zambeze que, como acabo de dizer, só durante as grandes +cheias passam pelo Quaqua, pelo Muto e por terrenos inundados para o rio +Quelimane, continuam na maior parte do anno, correndo todas pelo grande leito +do rio até que este se divide nos differentes braços que as levam ao oceano. +Pensa-se hoje que de todas as bôcas do Zambeze, só uma, a do Inhamissengo, +permitta a passagem de embarcações por cima da barra.</p> + +<p>Quando em 1879 pela primeira vez cheguei ao Zambeze, o porto de +Inhamissengo, apesar de que ha seculos tinha sido considerado como podendo dar +entrada aos mesmos navios que entram em Quelimane, apesar das viagens de +Livingstone, dos trabalhos do sr. Augusto de Castilho e de ter sido o porto por +onde os vapores <em>Senna</em> e <em>Tete</em> entraram no Zambeze, achava-se +quasi de todo +esquecido e inteiramente abandonado pelas nossas auctoridades. A casa +hollandeza tinha estabelecido uma feitoria na ilha de Inhamissengo, collocado +uma grande bandeira hollandeza na entrada do rio e considerava-se quasi em +terreno tão seu como a casa hollandeza em Banana, e Porto da Lenha dizia estar +nos seus territorios do Zaire. Algum tempo depois o governador do districto de +Quilimane, o sr. José de Almeida de Avila, creou o commando militar do +Inhamissengo e nomeou para esse cargo um official que em breve transformou a +ilha, em que primeiro se achava só a casa hollandeza, n'uma pequena povoação +constituida pela residencia do commandante, construcções do posto fiscal, +feitorias das duas grandes casas francezas que negoceiam em toda a costa de +Moçambique e algumas outras casas. A creação d'esta povoação não teve no +desenvolvimento do commercio da Zambezia a influencia que á primeira vista +parecia deveria ter, por tres motivos, sendo um d'elles a falta de +communicações entre Inhamissengo e Quilimane, o segundo a falta de um rebocador +para facilitar a entrada e a saída dos navios de véla que começavam a ir ao +porto de Inhamissengo e o terceiro a situação da povoação. A povoação foi +construida junto á primeira casa edificada na ilha, a casa ou feitoria +hollandeza; a praia da povoação era tão proxima do mar que a agua muitas vezes +estava quasi tão agitada como na costa e muitas das embarcações do Zambeze, que +desceram até ao Inhamissengo, foram voltadas pelas ondas, perdendo-se tudo o +que n'ellas vinha. Ora, o rio Inhamissengo tem com o de Quilimane por uma +grande extensão agua mais profunda do que a altura da agua na barra, e todas as +embarcações que podem passar sobre a barra podem com mais facilidade subir pelo +rio acima. O sr. capitão Augusto de Castilho, antes de ser governador geral, já +tinha feito esta observação e escolhido na terra firme da margem direita do +Zambeze local para uma povoação até onde podessem chegar todos os navios que +passassem sobre a barra do Inhamissengo e que se achasse em tão faceis +condições de accesso para as pequenas embarcações que venham de Tete, Senna e +do Chire, como está a povoação do Vicente, onde hoje se fazem todas as +baldeações. Um dos primeiros actos do novo governador geral foi o determinar a +formação da nova povoação, a que deu o nome de Conceição,<span +class="pn">{29}</span> e que deve vir a ter um desenvolvimento, como o sr. +marquez de Sá, no seu livro o <em>Trabalho rural africano</em>, previa, para a +povoação +que elle dizia dever fundar-se um pouco mais acima, na Chupanga. A falta de +rebocador especial para o porto de Inhamissengo deixa-se de fazer sentir logo +que haja um bom rebocador em Quelimane, que por emquanto poderá servir para os +dois portos, visto que o numero de barcos de véla que os frequentam é muito +reduzido e hoje devem já os dois portos estar ligados por uma linha +telegraphica que se achava em construcção quando parti de Quelimane. Quanto ás +communicações regulares entre Inhamissengo e Quelimane por vapores, poderiam +ellas em rigor ser effectuadas pelo rebocador do governo a que me acabo de +referir, mas é de esperar que o sejam por modo mais conveniente, sendo +executada a excellente idéa do sr. governador geral, que consiste em dispensar +os paquetes da carreira subsidiada de tocar em Chiloane, fazendo-os logo +seguir de Inhambane para Quelimane e vice-versa na viagem da volta, o que é +vantajoso para o serviço dos portos importantes da provincia, e fazer com que a +empreza de navegação com o pequeno vapor que ella tem obrigação de ter em +serviço na costa, organise um serviço regular, em combinação com a passagem dos +paquetes em Quelimane, d'este porto para o Inhamissengo até á povoação da +Conceição, para o Bangue ou foz do Pungue, para Sofalla e para Chiloane. As +condições em que assim ficará a povoação da Conceição já por si concorrerão +muito para o desenvolvimento do commercio da Zambezia, pois que qualquer +pequeno negociante ou agricultor das margens do Zambeze ou do Chire poderá +desde já mandar com toda a facilidade uma ou mais almandias tripuladas por +pretos de seu serviço portadores de um simples bilhete até Conceição para fazer +entrega dos generos, ou ás grandes casas commerciaes de exportação, ou +directamente á agencia que n'esta povoação deve ter a empreza de navegação, o +que nunca poderia succeder com as complicadas baldeações do Zambeze para o rio +de Quelimane.</p> + +<p>Mas o grande desenvolvimento do commercio do Zambeze só se manifestará quando +aos melhoramentos que tenho indicado e que se podem considerar como realisados, +se juntar o da creação de um serviço de navegação a vapor no Zambeze até Tete ou +até ao pé das cataratas de Coruabassa, no Chire e no Luenha. Esta navegação não +é isenta de difficuldades, mas com a pratica do serviço poderão ir sendo +vencidas ou torneadas. O que é urgente é começar. Possuir o Zambeze e não +procurar ter n'elle um serviço de navegação a vapor, é como se n'um paiz +abundantissimo em productos que precisam ser economicamente transportados, +houvesse construida uma extensa linha ferrea que se deixasse desaproveitada só +para evitar a compra de uma locomotiva e de alguns wagons. Poucas despezas se +poderão fazer na provincia de Moçambique que dêem resultados mais immediatamente +remunerativos para a provincia; é incontestavel que com urgencia ao governo +convem, ou adquirir algum material de navegação bem escolhido, e organisar por +sua conta um serviço de correio de Conceição a Tete, tomando os vapores de +escala cargas dos particulares, ou promover a formação de uma empreza, ou dar a +qualquer empreza<span class="pn">{30}</span> já creada o necessario auxilio para +a organisação d'este serviço.</p> + +<p>A navegação do Zambeze acima do Tete é interrompida pelas cataratas de +Caruabassa. Desde a altura do logar de Cachombe, a montante das cataratas até +Zumbo, foz do Cafuque, e por este rio acima a navegação é mais facil do que em +muitos pontos do rio abaixo de Tete. Nas publicações que fizerem os dois +exploradores Capello e Ivens, que parecem ter vindo enthusiasmados com a regiao +do Zumbo, não deixarão elles de confirmar a idéa do major Serpa Pinto e de +pugnar pelo aproveitamento da magnifica estrada que a natureza poz ahi á nossa +disposição; e eu penso que ao tratar-se da navegação do Zambeze deveria +immediatamente fazer-se transportar até Tete o material de uma ou duas lanchas a +vapor para serem armadas no Cachombe e ahi lançadas ao rio. Se porém é provavel +que uma empreza particular podesse com mais vantagem de que o governo organisar +um serviço a vapor desde Conceição até Tete e no Chire, não julgo que, salvo o +caso da organisação de uma vasta companhia com um largo plano de trabalhos, o +que não será facil por emquanto realisar, o serviço de Cafuque e do Zambeze +acima de Cachombe, podesse com utilidade ser feito por uma empreza, e julgo que +toda a vantagem n'este caso seria a do emprego de duas embarcações pertencentes +ao governo.</p> + +<p>Sem entrar em desenvolvimentos, parece-me que a creação de um districto e +governo do Cafuque seria hoje um utilissimo serviço prestado á provincia de +Moçambique. Apesar das excellentes condições que se dão no actual governador do +districto de Tete, não póde elle, como o padre que foi nomeado para Tete com a +obrigação de ir dizer missa aos domingos no Zumbo, attender a todas as +interessantes questões que agora ha a resolver para o lado do Mazoe, com o Bonga +e na Macanga, e ao mesmo tempo occupar-se da expansão dos novos dominios na +região do Zumbo e na exploração e occupação da estrada do Cafuque. O districto +do Cafuque deveria começar junto ao rio Zambeze na altura do Cachombe, isto é, +acima das cataratas da Caruabassa e prolongar-se por emquanto indefinidamente +para O. O governador do Cafuque teria dois fins principaes em vista. O primeiro +crear relações com os matebeles, se isso fosse julgado conveniente, ou pelo +menos assegurar para a soberania portugueza uma facha de terrenos ao longo da +margem direita do Zambeze desde o Zumbo até ás cataratas de Cariba ou talvez +mesmo até ao rio Guai. O segundo occupar-se da estrada do Cafuque, de estudar +bem as circumstancias locaes e propor a necessaria creação de estações +portuguezas em pontos adequados. O governo do Cafuque só poderia ser dado a um +official prudente e de toda a confiança. Se se encontrasse um official com +desejos de cumprir esta missão, mas de patente ou posição tal que não estivesse +em harmonia com a de um governador de districto, poderia executar essa missão +com o caracter provisorio ou de organisação e com o titulo de commissario do +governo, desligando-se em todo o caso do districto de Tete toda a area da sua +acção.</p> + +<p>Para que tão util medida produza os resultados consideraveis que ella póde e +deve produzir, é absolutamente necessario que todos se<span +class="pn">{31}</span> convençam de que é aos capitães móres de influencia +pessoal, contra os quaes tantos fallam por ignorancia, que devemos quasi todos +os territorios que possuimos na Zambezia, que a obra d'estes capitães móres foi +o primeiro passo dado, e em que seria perigoso ficar; que devemos agradecer-lhes +e recompensa-los, e trabalharmos de accordo com elles em ir transferindo a sua +influencia pessoal para agentes mais regulares da Magestade, como agora dizem +todos os pretos da Gorongosa, que já hoje bem comprehendem que a Magestade, e +que o governador, mandado pela Magestade são auctoridades de ordem muito +superior á de Manuel Antonio; e isto porque Manuel Antonio, na melhor harmonia +com o governador de Manica, não faz senão repetir aos grandes e aos mais pretos +que elle é escravo do Rei, e que todos devem absoluta +obediencia ao governador que elle mandou para ali.</p> + +<p>Não conheço o capitão mór Araujo Lobo, mas sim os muitos serviços que elle +tem prestado ao paiz, e estou convencido que se apparecer no Zumbo um governador +do Cafuque, ou um commissario regio que proceda com tanto tacto, como na +Gorongosa está procedendo o governador de Manica, teremos adquirido em breve e +consolidado para a nação portuguesa, e poderemos muito desenvolver elementos, já +hoje adquiridos por portuguezes benemeritos, mas elementos que nas condições que +hoje se dão podem de um momento para o outro desconjuntar-se e inutilisar-se, +quando não seja senão pela morte, possivel sempre, de um ou poucos individuos. A +um negociante da Zambezia, muito pratico nas viagens para Tete e para o Zumbo, +ouvi eu dizer que o capitão mór do Zumbo, Araujo Lobo, podia com os recursos de +que dispõe assegurar communicações permanentes desde esta villa até ao Bihé. Não +aproveitar meios de acção d'esta ordem seria falta para lastimar.</p> + +<p>Bordo do <em>Drumond Castle</em>, 23 de Janeiro de 1886.=<em>Joaquim Carlos +Paiva de Andrada</em>, capitão de artilheria em commissão.</p> + +<p> </p> +</div> + + + + + + + +<pre> + + + + + +End of the Project Gutenberg EBook of Relatorio de uma viagem ás terras do +Changamira, by Joaquim Carlos Paiva de Andrada + +*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK RELATORIA DE UMA VIAGEM--CHANGAMIRA *** + +***** This file should be named 34040-h.htm or 34040-h.zip ***** +This and all associated files of various formats will be found in: + https://www.gutenberg.org/3/4/0/4/34040/ + +Produced by Pedro Saborano + +Updated editions will replace the previous one--the old editions +will be renamed. + +Creating the works from public domain print editions means that no +one owns a United States copyright in these works, so the Foundation +(and you!) can copy and distribute it in the United States without +permission and without paying copyright royalties. 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