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authorRoger Frank <rfrank@pglaf.org>2025-10-14 20:00:43 -0700
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+ <title>Relatorio de uma viagem ás terras do Changamira, por Joaquim Carlos
+ Paiva de Andrada</title>
+ <meta name="Author" content="Joaquim Carlos Paiva de Andrada">
+ <meta name="Edition" content="Lisboa. Imprensa Nacional, 1886">
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+<body>
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+
+<pre>
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+The Project Gutenberg EBook of Relatorio de uma viagem ás terras do
+Changamira, by Joaquim Carlos Paiva de Andrada
+
+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.org
+
+
+Title: Relatorio de uma viagem ás terras do Changamira
+
+Author: Joaquim Carlos Paiva de Andrada
+
+Release Date: October 7, 2010 [EBook #34040]
+
+Language: Portuguese
+
+Character set encoding: ISO-8859-1
+
+*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK RELATORIA DE UMA VIAGEM--CHANGAMIRA ***
+
+
+
+
+Produced by Pedro Saborano
+
+
+
+
+
+</pre>
+
+<p>&nbsp;</p>
+<div class="ntransc">
+<p><b>Notas de transcrição:</b></p>
+
+<p>O texto aqui transcrito, é uma cópia integral do livro impresso em 1886. Foi mantida a grafia usada nessa edição, tendo sido corrigidos apenas pequenos erros tipográficos que não alteram a interpretação do texto, e que por isso não foram assinalados.</p>
+
+<p>No livro há algumas referências a um mapa, que acompanhava a edição original. Não foi possível localizar uma cópia desse mapa para acompanhar esta edição digital.</p>
+</div>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<div style="text-align: center; border: solid 1px #000; padding: 1em;">
+<p style="font-size: 1.8em;">RELATORIO</p>
+
+<p style="font-size: 1.1em;">DE UMA</p>
+
+<p style="font-size: 2em;">VIAGEM ÁS TERRAS DO CHANGAMIRA</p>
+
+<p>POR</p>
+
+<p style="font-size: 1.3em;">JOAQUIM CARLOS PAIVA DE ANDRADA</p>
+
+<p style="font-size: 1.1em;">CAPITÃO DE ARTILHERIA</p>
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p style="font-size: 1.4em;">LISBOA<br>
+<small>IMPRENSA NACIONAL<br>
+1886</small></p>
+</div>
+
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
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+<div style="text-align: center;">
+<p style="font-size: 1.8em;">RELATORIO</p>
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+<p style="font-size: 1.1em;">DE UMA</p>
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+<p style="font-size: 2em;">VIAGEM ÁS TERRAS DO CHANGAMIRA</p>
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+<p>POR</p>
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+<p style="font-size: 1.3em;">JOAQUIM CARLOS PAIVA DE ANDRADA</p>
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+<p style="font-size: 1.1em;">CAPITÃO DE ARTILHERIA</p>
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
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+<p style="font-size: 1.4em;">LISBOA<br>
+<small>IMPRENSA NACIONAL<br>
+1886</small></p>
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+
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+
+<div id="corpo">
+<h1>RELATORIO</h1>
+
+<p>Quando regressei a Gouveia, da viagem que fiz ás terras de Gungunhana,
+julguei conveniente não partir para Manica sem conferenciar com Manuel Antonio
+de Sousa que tinha ido a Moçambique, e que, demorado de semana para semana em
+Quelimane, só chegou a Gouveia no dia 17 de agosto.</p>
+
+<p>N'esse mesmo dia chegaram tambem ahi uns pretos vindos de Manica, dizendo
+que acabavam de apparecer em Macequece uns landins perguntando por fazendas
+minhas que deviam ali estar, e que só por se acharem bem guardadas e por ter a
+gente do paiz assegurado que taes fazendas não existiam, é que provavelmente os
+landins não roubaram algumas.</p>
+
+<p>Não vi n'esta noticia motivo que me impedisse a partida para Macequece, mas
+em attenção á opinião de Manuel Antonio e de um principe ou grande de Manica,
+meu antigo guia n'essa terra, que ha algum tempo esperava Manuel Antonio em
+Gouveia, resolvi não ir para Manica, sem ter conhecimento do resultado da
+missão que Gungunhana tinha enviado a Lisboa, e aproveitar o tempo da demora
+forçada para visitar um paiz a que me referi no relatorio da viagem ás terras
+dos landins, e onde de facto importava com mais urgencia chegar do que á antiga
+feira portugueza de Manica, objectivo principal da missão de que fui
+encarregado.</p>
+
+<hr class="dotted">
+
+<p>Por estes motivos, resolvi partir sem demora n'esta direcção.<span
+class="pn">{4}</span></p>
+
+
+<h2>I</h2>
+
+<h3>Viagem de Gouveia a Changamira e regresso a Gouveia</h3>
+
+<p><span class="margem">Fome no paiz.</span> Uma circumstancia tornava
+extremamente difficil a realisação d'esta viagem; a falta de chuvas tinha
+motivado a perda das colheitas de mantimento, milho, mapira, mechoeira e
+nachenin, e a fome era quasi geral em toda a Africa austral. Os homens na
+Gorongosa, no Barue, por toda a parte, andavam espalhados pelo mato a grandes
+distancias para apanhar fructos e raizes, que traziam ás povoações para matar a
+fome ás mulheres e ás creanças, o que muitas vezes não conseguiam, morrendo
+muita gente por falta de alimento. N'este relatorio só desejo tratar do que
+importa ser conhecido para basear trabalhos futuros; não fallarei portanto das
+miserias que fui presenceando, nem das extraordinarias difficuldades que
+encontrei em mover-me com umas oitenta cargas n'um paiz que se achava em tão
+desgraçadas condições.</p>
+
+<p><span class="margem">Relatorio e mapa de Mauch</span> De todos os nomes que
+me eram conhecidos pela leitura do relatorio de Mauch e do mappa
+que o acompanha, apenas o de Caterere me era tambem citado em Gouveia, e como
+ahi havia bastante gente que conhecia o paiz que eu queria visitar, logo suppuz
+que Mauch teria mal escripto os nomes que foi ouvindo, e esperei ir achando no
+progresso da viagem a equivalencia entre os nomes de Mauch e os que me
+indicavam em Gouveia. Foi portanto para as terras do regulo ou mambo Caterere
+que primeiro me dirigi.</p>
+
+<p><span class="margem">Viagem pelo Barue</span> Entre estas terras e Gouveia
+está apenas comprehendido o antigo reino do Barue. Como é já sabido, o rio
+Inhandue, que banha Gouveia, separa o Barue do praso Gorongosa, e como se vê no
+mappa junto, o rio Caurese, importante e caudaloso affluente do Aruenha, separa
+o Barue da terra de Caterere que se chama Guessa. O Barue, na parte exactamente
+comprehendida entre Gouveia e a povoação do Caterere, acha-se despovoado e não
+havia caminho aberto n'essa direcção; por isso, parti de Gouveia dirigindo-me
+mais para o norte até á aringa de Inhangona, e d'ahi voltando para sudoeste
+segui para a aringa de Tumbura indicada no mappa, quasi na fronteira do Barue e
+na latitude da povoação do Caterere. Tendo partido de Gouveia em 26 de agosto,
+só cheguei á aringa de Tumbura em 5 de setembro.</p>
+
+<p>Esta viagem por caminho que se abra directo, o que se obtem logo que tres ou
+quatro filas de carregadores ou cypaes por elle tenham passado, e em condições
+normaes, póde ser feita em tres dias.<span class="pn">{5}</span></p>
+
+<p><span class="margem">Do Tumbira á aringa do Bonga, capitão do
+Caterere.</span> Tinha combinado com Manuel Antonio que esperaria na aringa de
+Tumbura que um dos capitães d'elle Manuel Antonio fosse adiante
+com um presente da sua parte ao Caterere, avisando-o da minha
+visita de amisade, e que só depois da volta do emissario é que eu
+saíria do Barue para Guessa; mas como o mencionado capitão, que devia ter-se
+juntado a mim poucos dias depois da minha partida de Gouveia, não apparecesse;
+como por informações obtidas na localidade eu soubesse que podia passar do
+Barue directamente para a terra de Inhachiranga, atravessando o Aruenha a
+jusante da foz do Caurese, ponto onde termina a terra de Guessa, e me fosse
+assegurado por um homem de Inhachiranga que se achava em Tumbura, que a terra
+era curiosa de visitar pelas lavagens de oiro que ahi faziam e que encontraria
+n'ella o melhor acolhimento; como ainda mais eu quizesse quanto possivel
+evitar a perda de tempo, resolvi arranjar carregadores em Tumbura que me
+levassem a Inhachiranga, para ahi, aproveitando o tempo com o estudo do paiz,
+esperar o capitão de Manuel Antonio que devia ir ao Caterere annunciar a minha
+visita.</p>
+
+<p>Parti no dia 10 de setembro, mas os carregadores e guias, em logar de me
+levarem directamente ao Aruenha, ou, o que a isso teria equivalido, pelo
+caminho que trouxe na volta, indicado no mappa, o que apenas atravessa a ponta
+não habitada da terra de Guessa, comprehendida entre o Caurese e o Aruenha,
+talvez com a idea de encurtar duas ou tres horas de serviço, levaram-me por
+caminho um pouco mais ao sul, que me conduziu ao Caurese em altura tal que, ao
+atravessar o rio, me achei de surpreza junto á aringa de um capitão do Caterere
+chamado Bonga.</p>
+
+<p><span class="margem">Rio Caurese.</span> O Caurese tem aqui uns 50 metros de
+largo e excellente agua com approximadamente uma altura media de 1 metro em
+toda a largura do leito que é de areia. Tem porém de espaço a espaço grandes
+rochas, e o rio até á foz é absolutamento improprio para a navegação. Vi-o na
+estiagem e tendo havido grande secca. No tempo das chuvas engrossa muito, e
+mesmo em seguida a um só dia de grande chuva não dá passagem a vau.</p>
+
+<p>Foi no dia 11 de setembro que cheguei á aringa do Bonga. Os carregadores de
+Tumbura, a quem eu nada tinha que dar de comer, não podendo por preço algum
+comprar-lhes mantimento, voltaram para trás, ficando em um acampamento junto á
+aringa com os <em>motores</em> (cargas) e os meus muleques.</p>
+
+<p>Como era de esperar, o chefe da aringa, logo que eu passei por ella, e não
+me achava em condições de seguir com os carregadores que trouxe do Barue, não
+me facilitou a marcha, para diante, apesar de eu lhe dizer que ia só até
+Inhachiranga para ahi esperar o capitão que devia preceder-me na visita que eu
+desejava fazer ao Caterere, o instou muito para que não saisse de Guessa sem
+primeiro ir visitar o mambo. Vi-me assim moralmente obrigado a ir á povoação do
+Caterere, para onde parti no dia 12, seguindo o caminho indicado no mappa.</p>
+
+<p><span class="margem">Visita ao Caterere.</span> Tendo, ao chegar proximo da
+povoação na tarde do dia 13, feito avisar o mambo da minha visita, cheguei na
+madrugada do dia 14 á<span class="pn">{6}</span> aringa que se chama de
+Inharichinga. A primeira entrevista com o mambo Caterere ou Gutuqui, foi logo
+muito cordial. Dei-lhe alguns presentes de pouco volume e peso que commigo
+tinha levado, como colares de coral, espelhos, barretes, camisas, pannos ricos,
+explicando-lhe que só ali me achava para satisfazer aos desejos do seu capitão
+Bonga, pois desejava ter sido precedido por um capitão de Manuel Antonio, que
+trazia um bom presente de fazendas e um recado de amisade de seu amo. Por
+varias vezes Caterere me disse que Manuel Antonio lhe viria fazer guerra, e
+que o trataria como tratou ao Macombe, rei do Barue. Procurei fazer
+desapparecer esta idéa, repetindo-lhe que pelo contrario Manuel Antonio lhe
+mandava um presente de amisade, e explicando-lhe que o Rei de quem Manuel
+Antonio era subdito, não queria guerra, mas amisade, não só com Caterere, como
+com todos os regulos visinhos, e que para estreitar relações de amisade eu a
+todos tencionava visitar. Durante o dia fez-me Caterere repetidas visitas á
+palhota onde fiquei, e aconselhou-me a que, em logar de ir para Inhachiranga na
+margem esquerda do Aruenha, fosse para uma povoação de um Camunda, na margem
+direita e portanto ainda da terra de Caterere, podendo eu d'ahi ir ver os
+logares proximos onde gentes de Guessa e das terras vizinhas costumam lavar
+ouro.</p>
+
+<p>Levava commigo uma das armas <em>Winchester express</em> pertencentes ao
+districto de
+Manica. O mambo quando a viu pediu-me para lh'a explicar, e como estas armas
+são muito certeiras e permittem um tiro muito rapido, fiz da porta da aringa,
+em seguida e em differentes direcções, fogo contra delgados troncos de arvores
+a grandes distancias, ficando o mambo muito admirado quando foi junto ás
+arvores ver o resultado dos tiros. Cito esta circumstancia para acrescentar
+que, apesar de eu ter ido só com tres muleques e estar morando na aringa,
+vieram pouco depois dizer ao mambo que a gente das proximas povoações tinha
+fugido ao ouvir os tiros, suppondo que era guerra!</p>
+
+<p>A aringa do Caterere é pequena, e muito fracamente construida; tem proximo
+uns montes de rochas que a commandam completamente.</p>
+
+<p>Com as repetidas perguntas que a varios fiz a respeito da passagem de Mauch
+por estas terras, ha uns vinte annos, convenci-me que ninguem tem idéa d'este
+viajante.</p>
+
+<p>A latitude de 17° 30' 30", que achei para esta aringa, concorda com a
+posição em que Mauch a poz na sua carta.</p>
+
+<p>Não parece que o paiz tenha sido visitado por estrangeiros, e não conhece
+esta gente senão Tete, Sena e sobretudo o nome de Gouveia. Empregam varias
+palavras portuguezas. Estranhei ouvir-lhes dizer quando fallavam commigo:
+<em>senhor</em>, pois que os nossos pretos nas cidades, e os proprios brancos
+fallando
+de outro branco com os pretos, fazem uso da palavra <em>mosungo</em>.</p>
+
+<p>Não vi entrar preto algum na minha palhota ou na do mambo sem que primeiro
+dissesse: <em>licença</em>, palavra que parece de uso commum, não só em Guessa,
+como
+nas outras terras onde depois estive.</p>
+
+<p>Recebi do Caterere muitas informações ácerca dos mambos e campos de oiro que
+me ficavam para a frente; soube tambem que da aringa<span class="pn">{7}</span>
+a Manica são cinco dias de caminho, havendo apenas entre as duas terras a de
+Munhama, que se atravessa em dois dias. Não se passa pelo Aruangua, o que prova
+que este rio nasce a leste do caminho seguido.</p>
+
+<p>Não consentiu o mambo que eu partisse sem ser seu hospede durante uma noite.
+Na madrugada do dia 15 voltei ao meu acampamento no Caurese, onde cheguei na
+manhã seguinte; vindo com um grande do mambo, que me acompanhou para
+communicar as ordens do Caterere e facilitar o transporte das cargas para a
+margem do Aruenha.</p>
+
+<p><span class="margem">Partida do Caurese para o Aruenha ou antes
+Quenha.</span> No dia 17 parti de junto da aringa do Bonga para a margem do
+Aruenha, onde cheguei, com duas horas de passeio junto á aringa de Camunda,
+pequena povoação rodeada de fraca estacaria, fazendo o acampamento a jusante
+d'esta aringa.</p>
+
+<p>O rio tem aqui uns 100 metros de largura, mas a agua corre por varios braços
+serpenteando na areia, não cobrindo todo o leito. Informaram-me de que o rio,
+bastante ainda para jusante da foz do Caurese, tem varias rochas que lhe
+atravessam o leito; penso porém, que será navegavel vindo do
+Zambeze até pelo menos á affluencia do rio Mazoc. <span
+class="margem">Rio Aruenha ou antes Luenha.</span> Já nas minhas viagens pelo
+Zambeze para Tete, tinha notado que os pretos chamam Luenha ao rio que em as
+nossas cartas chamamos Aruenha, e que afflue no Zambeze em Massangano, onde
+está construida a celebre e vergonhosa aringa do Inhaúde ou do Bonga. No mappa
+do Levingstone tambem este rio tem o nome de Luenya. É tambem Luenha o unico
+nome que agora lhe ouvi dar, e parece-me preferivel adoptar esta designação,
+não só por ser a verdadeira, mas porque melhor se distingue de Aruangua; e são
+dois nomes que como rios ou commandos militares do districto de Manica muitas
+vezes haverá a citar reunidos.</p>
+
+<p><span class="margem">Ouro no Luenha.</span> Nos dias 18 e 19 fui com gente
+da povoação de Camunda, ver os logares onde costumam lavar oiro
+no rio. Os terrenos em que n'esta altura corre o Luenha não são auriferos, e o
+oiro só se encontra, renovado todos os annos depois das cheias, nas pequenas
+porções de areia que fica retida entre as grandes rochas que atravessam o rio.
+Os pretos e pretas, que lavam admiravelmente com a batea, podem com utilidade
+extrahir o oiro que cada anno é retido nos mesmos logares, e assim o fazem ha
+seculos, mas o lavar estas areias, por causa da sua pequena quantidade, embora
+sejam relativamente ricas, nunca poderia pagar a uma companhia europêa. É muito
+provavel que no proprio leito, atraz d'estas <em>barras</em>, onde ha
+profundidade de
+agua e onde os pretos nunca lavam, haja accumulado de ha seculos oiro mais
+grosso, e quando o paiz esteja frequentado pelos brancos, é provavel que venha
+a proceder-se a trabalhos n'estes logares com bons resultados, mas é claro que a
+pesquiza do oiro para os que primeiro cheguem será muito mais interessante nos
+proprios terrenos d'onde o oiro é annualmente arrancado e arrastado pelas
+aguas.</p>
+
+<p><span class="margem">Rio Mupa.</span> Na visita que fiz á <em>Massanga</em>,
+ou foz do Caurese vi que o rio Mupa não é um affluente do Caurese como está
+marcado na carta de Mauch mas, um pouco mais abaixo, directamente affluente do
+Luenha.<span class="pn">{8}</span></p>
+
+<p><span class="margem">Mambo Schomali de Mauch.</span> Descobri, emquanto
+estava n'este acampamento do Luenha, quem era o mambo Schomali, que Mauch cita
+como sendo o chefe das terras que constituem a parte mais rica dos Campos do
+Imperador Guilherme.</p>
+
+<p>É um pequeno mambo da terra de Macaha, chamado Machamare.
+Já de ha muito tinha conhecimento do nome da terra e de outros nomes do mambo,
+que tambem se chama Chibinda e Inhaúbinda. Serviu-me de confirmação á
+equivalencia entre o nome de Machamare e o de Schomali o encontrar nos dois
+rios Inhamussice e Munhoque, dois rios auriferos da terra de Macaha, os
+equivalentes aos rios Iantsitsi e Noke da carta de Mauch. Achei interessante
+que os pretos que lavavam n'um logar ou <em>barra</em> do Luenha chamado
+Biriuide, me
+dissessem, que todo o oiro que até ali chegava era proveniente do rio
+Inhamussice, precisando a proveniencia do oiro, quando o Luenha no seu vasto
+curso drena um paiz muito extenso e recebe muitos outros affluentes. Por esta
+indicação é de suppôr que as areias do Luenha acima da affluencia do
+Inhamussice não tenham oiro algum, tornando evidente que é por este affluente
+que os <em>diggers</em> devem subir nas suas pesquizas.</p>
+
+<p>Pouco depois de chegar a este acampamento do Luenha, vi que nada me
+aconselhava a que ahi me demorasse e procurei arranjar carregadores para
+continuar na viagem.</p>
+
+<p><span class="margem">Chegada do capitão Bastião e de Gurupira.</span> No dia
+19 de setembro, com o capitão Bastião, de Manuel Antonio, encarregado dos
+presentes para o Caterere, chegou ao acampamento vindo de Gouveia, onde tinha
+ido visitar Manuel Antonio, o filho grande do mambo Motoco, chefe relativamente
+poderoso da terra da Builha, situada alem, a sudoeste, da região a que Mauch
+deu o nome do seu imperador. Como não via possibilidade de achar, no logar onde
+estava, carregadores, e me constasse que na terra de Motoco e terras proximas
+havia algum mantimento, pedi a este filho do Motoco, chamado Gurupira, que me
+mandasse os necessarios carregadores e que acompanhasse um dos meus muleques, a
+quem entreguei fazendas, na compra de mantimento que deveria ser mandado para a
+terra de Macaha. Gurupira disse-me que elle era justamente casado com uma filha
+do mambo Machamare, deu-me informações sobre a Macaha e indicou-me a povoação
+de Chibanda, filho do mambo, situada na ponta de terra entre o Inhamussice e o
+seu affluente Munhague, como bom logar para acampamento, e foi para ahi que
+combinamos eu partiria, e seria mandado o mantimento que fosse comprado.</p>
+
+<p>Na tarde do dia 22 apareceram-me no acampamento uns cem homens armados,
+seguidos por um pandoro ou leão.</p>
+
+<p><span class="margem">Pandoros.</span> Os pandoros, que eu já tinha visto nas
+terras do districto de Tete, que ha no Mazoe, que havia no reino do Barue e que
+ha nas terras de todos os pequenos mambos d'esta região, são uns homens, que se
+escondem de vez em quando dizendo que vão para o mato e se transformam em leões,
+que mesmo quando se acham na fórma de homens estão quasi sempre a rugir, e que
+vivem á custa dos mambos e dos povos impondo-se-lhes como entes sobrenaturaes.
+Os mambos nada fazem sem os consultar. A superstição com os pandoros em Tete
+communica-se aos musungos mulatos e mesmo á gente da India que n'elles<span
+class="pn">{9}</span> chegam a acreditar. O Inhaúde e o Bonga das nossas
+desgraçadas guerras, apesar de homens muito intelligentes em outras cousas,
+nada faziam sem consultar os pandoros. Ás vezes os pandoros são mulheres. Ha
+n'uma terra da margem esquerda do Mazoe, em logar onde já estive partindo de
+Tete, uma celebre Clara, pandoro de grande fama e julgo que conselheiro muito
+attendido pelo Bonga.</p>
+
+<p><span class="margem">Extorsões pelo pandoro e grandes do Caterere.</span> Os
+grandes do Caterere que vieram com o pandoro, nenhum dos quaes eu tinha visto
+na aringa do mambo, disseram que eu era amigo de Gouveia, que vinha para os
+enganar e fazer-lhes guerra, que devia voltar para trás e não tornar a
+esta terra. Mostrei-lhes admiração de que tal dissessem quando eu tinha ido
+visitar o seu mambo como amigo e como amigo tinha por elle sido recebido; que
+elles já sabiam que o que eu queria era seguir para diante, que elles estavam
+fechando os caminhos, o que lhes trazia difficuldades no futuro, e que se a
+gente que ali estava me quizesse levar as cargas para Macaha eu lhes pagaria
+como a carregadores e daria ao pandoro e aos grandes alguns presentes. Foi
+provavelmente para receber estes <em>presentes</em> que pandoro e grandes
+vieram, quando
+constou que desejava saír da terra d'elles. Acceitaram a proposta e começaram
+depois com successivos pedidos. Tendo eu dado alguma cousa ao pandoro, pediram
+para os grandes, depois para a outra gente, depois mais alguma cousa por eu ter
+feito barracas.</p>
+
+<p>Desejando eu sobretudo ir para diante e servir-me d'esta gente como
+carregadores, fui cedendo a todas as extorsões, cuja importancia total foi de
+facto insignificante, mas que pela maneira como foram feitas justificam a
+futura occupação da terra de Guerere. Toda a noite, uma esplendida noite de
+luar, tiveram batuque e adormeci ao som das cantigas, cujas phrases mais
+repetidas eram que haviam de cortar-me a cabeça, a de Manuel Antonio e a de um
+homem d'esta terra que tinha entrado ao meu serviço.</p>
+
+<p><span class="margem">Da povoação de Camunda ao Rupire.</span> Na madrugada
+do dia 23 paguei aos carregadores, dizendo-lhes que era para irem até á
+povoação de Chibanda na Macaha, mas pouco depois começaram a dizer que
+só iriam até ao Rupire, cousa commum de succeder em Africa com os carregadores,
+mesmo em outras circumstancias.</p>
+
+<p>Atravessei o Luenha e segui na direcção que mostra a carta pela terra de
+Inhachiranga sem passar por povoação alguma, até ao rio Inhamatoque, limite de
+Inhachiranga e do Rupire, onde os carregadores largaram as cargas, voltando
+logo para a sua terra.</p>
+
+<p>Logo que cheguei ao Inhamatoque mandei chamar gente do Rupire, mas só no dia
+26 é que tive os necessarios carregadores e parti para junto da povoação do
+mambo d'esta terra.</p>
+
+<p><span class="margem">Mambo Chiquiso.</span> Ao mambo do Rupire, chamado
+Chiquiso, disse que só para o visitar e lhe dar alguns presentes
+é que eu tinha vindo á povoação d'elle, em logar de seguir ao longo do Luenha
+até á Macaha, mas que era para a povoação de Chibanda n'esta terra que eu me
+dirigia. Por varias formalidades com o mambo, e com os pandoros que no Rupire
+são tres, e para fazer excursões a alguns rios onde lavam oiro, demorei-me no
+Rupire, e comquanto o meu projecto fosse seguir para Macaha, como esta terra é
+talvez a mais pequena e menos povoada de todas<span class="pn">{10}</span> as
+d'esta região, e como fui successivamente reconhecendo a importancia da posição
+do Rupire e quanto seria preferivel crear uma estação civilisadora portugueza
+n'esta terra, achei conveniente ceder aos pedidos que me faziam de não seguir
+para diante, até lançar bases de uma estação que mais tarde iria exercendo a
+sua acção sobre os mambos e povos das terras vizinhas. É no Rupire que
+antigamente acampavam negociantes brancos de Tete e mesmo de Quelimane, para
+compra de oiro e marfim que os pretos das terras vizinhas vinham trocar por
+fazendas, e effectivamente, durante os tempos que eu mesmo ali fiquei, todos os
+dias chegavam ao acampamento muitos pretos com canudos de pennas cheias de pó
+de oiro para trocar por fazendas. Tinha eu combinado com o mambo que seria
+junto á foz do Inhamussice que eu faria o meu acampamento e as primeiras
+construcções, base da futura estação civilisadora e commercial, mas as
+povoações do Rupire estão todas nas proximidades e em torno da aringa do mambo,
+e as margens do Inhamussice não estão actualmente habitadas. Vendo que muitos
+dos grandes se mostravam desconfiados por eu querer ir fazer o acampamento n'um
+sitio isolado, tive que abandonar a idéa de ir para o Inhamussice e que me
+decidir a escolher um terreno n'uma elevação nas proximidades da aringa do
+mambo.</p>
+
+<p>Pela prolongada falta de chuvas, a agua nos differentes riachos que cortam o
+paiz tinha deixado de correr, e a melhor que encontrei, extrahida de uma poça,
+era leitosa e de muito mau sabor. Foi o uso d'esta repugnante agua de certo a
+causa dos soffrimentos de baço que depois tive, mas a tudo me sujeitava para
+realisar a fundação da estação do Rupire, que, embora me propozesse fazer
+varias excursões na Macaha e outros paizes proximos, não mais tencionava
+abandonar senão quando de Portugal fosse mandado alguem para tomar conta d'esta
+estação.</p>
+
+<p>Paguei ao mambo e aos pandoros tudo o que elles quizeram pelo direito de
+chamar minha uma porção do terreno, e dei começo a algumas construcções.</p>
+
+<p><span class="margem">Desconfiança da gente do Rupire.</span> Apesar das boas
+relações que logo de principio fiquei tendo com o mambo, o enorme
+ciume que estes pequenos chefes têem uns dos outros, e sobretudo a desconfiança
+que no Rupire como em Guessa tinham das más inteuções de Manuel Antonio contra
+estas terras davam quasi diariamente motivo a alvoroço e á reunião em conselho
+dos pandoros e grandes na aringa.</p>
+
+<p>Se eu tivesse chegado ao Rupire vindo de Tete achariam muito natural a minha
+visita. Reconhecendo pela lição que tive no Caterere que as minhas relações com
+Manuel Antonio não eram uma recommendação para estes vizinhos do Barue, desejei
+quanto possivel occultar estas relações e que me considerassem como vindo de
+Quelimane, Senna e só de passagem pelas terras de Manuel Antonio, mas cada
+circumstancia que lhes mostrava a minha maior intimidade com este capitão mór
+era motivo de novas desconfianças. Assim a chegada de um correio, a chegada de
+dois muleques que eu tinha mandado a um ponto do Barue, onde me constou haver
+algum mantimento, o desejo de eu expedir o meu correlo, tudo foi motivo de
+desconfiança e de embaraços. Sujeitava-me com paciencia a todos estes
+aborrecimentos, pois<span class="pn">{11}</span> suppunha que successivamente
+elles iriam diminuindo de intensidade mostrava bem ao mambo que se eu quizesse
+fazer guerra não estava com todas as minhas cargas a installar-me ao pé da
+aringa, e que a minha presença junto a elles era a melhor garantia que
+poderiam ter de que nenhum branco os atacaria. Pareciam convencer-se, mostravam
+a maior cordialidade, mas tornavam pouco depois a espantar-se pelos motivos
+mais futeis.</p>
+
+<p><span class="margem">Visita de Gurupira; mau tratamento que soffreu.</span>
+Disse que quando Gurupira, o filho grande do mambo Motoco, passou pelo meu
+acampamento do Luenha, lhe pedi que me mandasse carregadores para me levarem
+d'ahi para Macaha, e me comprasse mantimentos para tambem para lá mandar.</p>
+
+<p>Na tarde do dia 8 de outubro, quando eu estava a conversar amigavelmente com
+o mambo Chiquiso, sentado sobre um panno no chão junto á minha cadeira,
+appareceu Gurupira com outro homem e o meu muleque que eu tinha mandado com a
+fazenda para a compra de mantimentos. Quasi ao mesmo tempo um preto veiu dizer
+baixo ao mambo que, alem d'estes tres homens, havia outros escondidos no mato.
+Eram simplesmente os carregadores que eu tinha pedido, que o Gurupira trazia com
+elle da terra do pae, e que tinha deixado proximo dos limites da terra do Rupire
+para me vir perguntar se eu ainda precisava d'elles. O mambo correu rapidamente
+para a aringa, e momentos depois elle e uns sessenta homens armados de zagaias,
+machados, arcos e flechas ameaçavam os dois homens que por motivo tão natural e
+tão facil de explicar me vinham ver, não se lembrando aquelles cobardes que
+n'aquelle instante só pensavam que eram sessenta contra dois, de que um d'estes
+dois homens era filho de um chefe que facilmente poderia arrasar todo o Rupire.
+Corri a defender de morte certa os dois homens, cobrindo-os com o meu corpo, mas
+quando deixei Gurupira para attender ao companheiro que meia duzia de homens
+arrastavam pelo chão, levando-o pelas pernas, e emquanto eu rolava tambem pelo
+chão, por me ter o desgraçado lançado os braços ao grosso da perna, foi o filho
+do Motoco violentamente espancado. Consegui apaziguar tudo e foram os dois
+homens para a aringa com a promessa formal do mambo de que lhe não fariam mal
+algum. Effectivamente, no dia seguinte partiu Gurupira para a sua terra tendo,
+antes que o deixassem saír da aringa, mandado os pandoros pedir-me fazendas para
+lhe dar, a fim de que a gente do Motoco lhes não viesse fazer guerra.</p>
+
+<p><span class="margem">Partida do Rupire.</span> Desde então não tornei mais a
+ver o mambo até que no dia 11 me vieram dizer que toda a gente do Rupire se
+tinha reunido na aringa para pedir ao mambo e aos pandoros para me não deixar
+ficar na sua terra.</p>
+
+<p>Soube mais tarde que a maior parte da actual população do Rupire é
+constituida por gente do Barue, que de lá fugiu quando este reino foi tomado por
+Manuel Antonio, e penso que o pedido que acabo de mencionar seria motivado por
+ter Gurupira, em a noite que passou na aringa, fallado das estreitas relações
+que havia entre mim e o capitão mór de Manica. Em vista d'esta declaração e do
+que a gente do Rupire, a quem eu acabava de comprar terrenos, já me tinha dado
+noticias sufficientes para a occupação, pela força, da sua terra, onde<span
+class="pn">{12}</span> não consentiam que estivesse como amigo, resolvi, em
+logar de continuar para Macaha e outras terras, apenas com alguns muleques, em
+condições tão desfavoraveis como as da epocha e circumstancias em que eu me
+achava, regressar para Gouveia para propor o necessario para transformação do
+Rupire em terra ou prazo da corôa; e mandei dizer ao mambo que mandasse reunir
+carregadores para a minha partida.</p>
+
+<p>Na manhã do dia 12 apresentaram-se os carregadores no acampamento e receberam
+todos pagamento para levarem as cargas até á povoação de Gossi, na terra de
+Sangano. Foi indicada esta povoação pela gente do Rupire, apesar de não se achar
+ella na direcção do Barue, por dizerem ser a mais proxima e aquella onde
+facilmente encontraria gente que quizesse ir até á aringa de Tumbura.</p>
+
+<p>Estes homens, quasi todos já meus conhecidos, pelo mal que se comportaram
+como carregadores desde o acampamento do Inhamatoque até ao do Rupire, e depois
+nos varios serviços, como construcção de palhotas, de que eu os encarreguei,
+levantaram as cargas e pozeram-se a caminho em tão boa ordem e assim foram
+seguindo, que eu suppuz que teriam recebido especiaes recommendações para irem
+convenientemente até ao seu destino.</p>
+
+<p>Tendo andado uma hora, atravessei o rio Inhamessansára, rio que eu já tinha
+visitado dias antes, em que os pretos lavam oiro e que nasce no mesmo centro, de
+onde, correndo em outra direcção, nasce o Inhamussice. O Inhamessansára é aqui
+limite do Rupire e de Massáoa, terra que tinha a atravessar n'uma parte que não
+é habitada, para chegar á terra de Sangano e povoação de Gossi, filho grande do
+mambo d'esta terra.</p>
+
+<p>Pouco depois de atravessar o rio, eu, que nunca tinha soffrido do baço,
+comecei a sentir do lado esquerdo uma pontada que, augmentando rapidamente, me
+impediu de continuar a andar e me fez entrar em machila. Momentos depois um dos
+machileiros de traz largou a canna da machila para apanhar o chapéu que lhe
+tinha caído, e o outro que era muito fraco deixou-me cair bruscamente no chão. O
+choque d'esta queda aggravou muito o mal que poucos instantes antes pela
+primeira vez se tinha manifestado, e fiquei por mais de uma hora debaixo de uma
+arvore revolvendo-me no chão com dores e afflicções horriveis, e suppondo por
+vezes que não mais me tornaria a levantar. Os carregadores passaram para diante,
+na mesma extraordinaria boa ordem a que me referi, sem que eu lhes dissesse o
+que me tinha succedido.</p>
+
+<p>Quando me foi possivel entrar na machila e pôr-me a caminho, estranhei
+encontrar pouco depois, descansando todos juntos os carregadores que suppunha
+muito adiante. Continuei no caminho avançando pouco porque os machileiros erão
+só os meus muleques, e nos esforços que fazia para me arrastar a pé quasi nada
+adiantava, quando um dos filhos do mambo chegou correndo para me avisar que os
+carregadores não queriam andar mais e pedir que mandasse algum muleque para
+tomar conta das cargas que elles queriam abandonar. Eu não estava em estado de
+voltar para traz e tambem suppuz preferivel não mandar<span
+class="pn">{13}</span> para junto das cargas um só moleque, mas sim dizer que as
+cargas tinham sido entregues ao mambo do Rupire e á sua gente, que por ellas
+eram responsaveis até as pôrem na povoação de Gossi; propondo-me, porém, logo
+que chegasse a esta povoação, mandar buscar as cargas abandonadas, por modo
+analogo ao que já por vezes, até no Barue, tinha tido que fazer, mesmo por falta
+de forças dos esfomeados carregadores.</p>
+
+<p>Continuei, portanto, na minha vagarosa marcha até que, tendo anoitecido, me
+deitei na beira do caminho sem ter noticia da povoação de Gossi nem encontrado
+uma gota de agua com que matar a sêde, que mesmo aos pobres muleques
+devorava.</p>
+
+<p>Pondo-me a caminho antes de amanhecer, na madrugada seguinte cheguei a uma
+pequena povoação da terra de Sangano, de um preto chamado Chirombre; soube ali
+em que direcção ficava a povoação de Gossi e que na vespera tinha passado
+deixando á esquerda o caminho que lá me teria levado. Expedi immediatamente um
+homem da povoação de Chirombre para ir pedir a Gossi que me mandasse homens seus
+buscar as cargas que a gente do Rupire me tinha deixado no caminho.</p>
+
+<p>Pelas dez horas da manhã chegou á povoação de Chirombre um dos filhos do
+mambo do Rupire que tinha estado sempre ao meu serviço, dizendo que passára a
+noite ao pé das cargas, que o mambo tinha vindo da aringa e não tinha conseguido
+que os carregadores seguissem para diante, e que elle vinha pedir carregadores.
+Não havendo n'esta povoação um unico para lhe dar, voltou logo para traz com a
+promessa de que se poria a caminho com uns trinta homens que ainda estavam junto
+ás cargas. Até este momento, portanto, não tinha eu rasão para pensar que
+succederia differentemente do que por muitas vezes me tinha acontecido,
+principalmente nas minhas antigas viagens, partindo de Tete mesmo com o
+governador do districto, com o abandono das cargas e fuga dos carregadores.</p>
+
+<p><span class="margem">Roubo das cargas.</span> Na tarde, porém, d'este mesmo
+dia appareceu-me n'um misero estado o preto que de madrugada tinha mandado á
+povoação de Gossi, dizendo que tinha ali reunido alguns carregadores para ir
+buscar as cargas abandonadas, e que ao chegar proximo d'ellas tinha encontrado
+grande agrupamento de gentes do Rupire e de Massáoa; este ultimo é, como disse,
+o nome da terra onde as cargas estavam; que uns e outros se tinham apoderado das
+cargas, quebrando e rasgando os motores para distribuir entre si tudo o que
+elles continham; e que tanto elle como os homens de Gossi que o acompanhavam
+tinham sido espancados.</p>
+
+<p>Por peior opinião que forme do caracter da gente do Rupire não penso que este
+roubo fosse premeditado. Estou convencido que quando os carregadores levantaram
+do acampamento tinham recommendações para seguir em boa ordem até á povoação de
+Gossi; e que se o mambo veiu da aringa até ao logar em que os carregadores
+pararam é que alguem bem intencionado o foi avisar; e creio tambem que o mambo
+os exhortaria a que continuassem. Mas eu por vezes tive occasião<span
+class="pn">{14}</span> de notar o pouco caso que em geral a gente do Rupire faz
+da auctoridade do mambo. Provavelmente estes carregadores, homens sem palavra e
+sem respeito pelos compromissos que tomavam em troca da fazenda que recebiam,
+pararam quando se sentiram cansados com as para elles, geralmente muito fracos,
+pesadas cargas, e só se teriam posto a caminho se eu me achasse junto a elles e
+se, analogamente ao que já com elles tinha succedido, os induzisse a continuar
+com algum novo pequeno pagamento.</p>
+
+<p>Penso que estavam hesitantes no que fariam, quando gentes das povoações de
+Massáoa, avisadas por qualquer modo do que se passava na sua terra, correram a
+ver o que podiam com isso aproveitar.</p>
+
+<p>Basta só poder explicar que nas discussões que entre uns e outros podessem
+ter tido logar um primeiro motor fosse aberto e o seu conteúdo espalhado,
+porque, em vista das fazendas soltas, excitados uns pelos outros, concebe-se que
+perdessem a idéa de toda a responsabilidade e, na febre de se apoderarem do que
+para elles eram tão grandes riquezas, não parassem sem terminar a sua
+repartição, destruindo tudo que para elles não tinha utilidade.</p>
+
+<p>De nada servia voltar atrás só com os meus muleques e como me achava apenas
+com o que tinha sobre o corpo e sem cousa alguma para comer, n'uma miseravel
+povoação de quatro ou cinco palhotas, onde nada havia, procurei dirigir-me logo
+para a povoação do mambo da terra em que me achava.</p>
+
+<p>É inutil fallar das privações que passei n'este e nos dias seguintes e, por
+infeliz coincidencia, quando me achava victima dos maiores soffrimentos que
+tinha tido em toda a vida.</p>
+
+<p><span class="margem">Da povoação de Chirombre á de Chideu.</span> No dia 14
+parto da povoação Chirombre para a do mambo d'esta terra de Songano, chamado
+Chideu, ou tambem Inhamande.</p>
+
+<p>Chideu é extremamente velho e quasi cego. A terra de Sangano tem pouca gente,
+mas o velho mambo é pessoalmente de grande auctoridade pelo poder sobrenatural
+de ler no futuro que lhe attribuem.</p>
+
+<p>Recebeu-me muito bem, mas com um ceremonial de feiticeiro que em trabalho de
+outra natureza seria interessante descrever.</p>
+
+<p><span class="margem">Possibilidade de tomar posse do Rupire antes de
+regressar a Gouveia.</span> É, porém, importante notar que esta grande
+auctoridade na opinião do seu povo e na dos povos vizinhos, disse que o
+tratamento que eu tinha recebido, que o roubo que me tinha sido feito, quando
+ninguem, tinha a queixar-se do meu procedimento nem do da minha pouca gente
+quando eu tinha dado todos os presentes do costume ao mambo e aos pandoros,
+quando tinha comprado uma terra para construir casas e ter as minhas culturas,
+tudo justificava um severo castigo e que as terras do Rupire fossem tomadas
+pelos brancos; offerecendo-se o mambo a coadjuvar-me para esse fim com a sua
+gente.</p>
+
+<p>É facil comprehender quanto eu desejaria, em logar de me declarar n'este
+relatorio uma victima de um roubo no paiz que fui visitar, de o assignar como
+commandante provisorio do Rupire. Por tres modos poderia ter chegado a este
+resultado:</p>
+
+<p>1.º Pelo emprego da gente de Motoco. Achava-me, porém, principalmente pelo
+meu estado de saude, em condições demasiadamente miseraveis para, em relação a
+um povo estranho poder por mim só<span class="pn">{15}</span> representar a
+acção official portugueza, e não desejei correr o risco de que a conquista do
+Rupire, em logar de ser absolutamente a nosso favor, fosse quasi apenas em
+vantagem da relativamente poderosa gente do Motoco.</p>
+
+<p>2.º Pelo emprego de gente de Tete. São conhecidos os relevantes serviços que
+ultimamente tem prestado ao paiz o governador d'este districto, e como a nossa
+occupação effectiva de vastos territorios ao sul do Zambeze entre Tete e Zumbo
+se tem realisado com o auxilio do capitão mór do Zumbo, Araujo Lobo e do capitão
+mór de Chicoa, o mosungo Ignacio. Este Ignacio tem com a sua gente ido occupando
+territorios para o sul de Tete até quasi á margem esquerda do Mazoe e vive de
+ordinario n'uma aringa que fica a menos de tres dias de caminho do Rupire.
+Recorrer ao governador de Tete e ao capitão mór de Chicoa era de certo resolver
+a questão com a maior brevidade. O proprio mambo Chideu me disse que bastava que
+a gente do Rupire soubesse que o mosungo Ignacio marchava para essa terra com os
+seus cypaes para que toda logo fugisse ou se submettesse. Em uma carta que duas
+ou tres semanas depois vim a receber em Gouveia do governador de Tete, informado
+embora com muitas alterações e exageros do que succedia, espontaneamente me
+pedia elle mais algumas informações a fim de immediatamente mandar avançar a
+necessaria gente de Tete para effectuar a posse do Rupire. Tinha porém eu
+partido de Gouveia com gente e conselhos do Manuel Antonio; o nome d'estes
+mambos vizinhos do Luenha, principalmente o do Caterere, está muito ligado no
+espirito de Manuel Antonio ao do Macombe, antigo rei do Barue, de quem elles
+eram como vassallos e suppuz que recorrendo eu ao capitão mór de Chicoa para a
+occupação do Rupire, não seria isso agradavel a Manuel Antonio; vindo mais tarde
+a reconhecer que, se assim tivesse procedido, o teria extraordinariamente
+offendido e talvez motivado acontecimentos desagradaveis.</p>
+
+<p>O terceiro alvitre, visto que eu suppunha Manuel Antonio muito distante,
+occupando-se da construcção das aringas do Pungue, consistia em recorrer á
+aringa de Tumbura, cujo capitão é o principal chefe de guerra de Manuel Antonio,
+e fazer com elle, juntamente com gente do seu districto e dos districtos
+proximos, que todos lhe obedecem, um agrupamento de uns trezentos ou
+quatrocentos homens, o que me parecia ser mais do que o necessario para realisar
+satisfactoriamente a occupação do Rupire e de Massáoa.</p>
+
+<p>Alguns caçadores matariam os bufalos e outra caça grossa, em quantidade
+necessaria para dois, tres ou quatro dias, e chegada a gente ao paiz, os
+recursos em cabras e em algum mantimento escondido, que eu sabia ali havia,
+serviriam por algum tempo. Um cypae de Tumbura, que me tinha trazido o correio e
+ainda se achava commigo, dizia-me ser facil, para cousa tão pouco importante,
+que o capitão Macarimgomba, chefe de Timbura, e reconhecido como capitão mór dos
+cypaes, reunisse a necessaria gente e fizesse a expedição, sem ordem de Manuel
+Antonio, e só por minha requisição. Foi este terceiro alvitre que sem ir adiante
+da povoação de Chideu, eu procurei realisar. Para isso mandei a Tumbura o citado
+cypae e muleques meus, e tambem para<span class="pn">{16}</span> que de Tumbura
+me trouxessem algumas das fazendas que eu ahi tinha em deposito, pois os meus
+amigos da terra de Sangano, apesar da consideração e sympathia que me
+dispensavam e de estarem sempre em torno de mim, pouco me davam de presente,
+quasi nada queriam vender de fiado, e para eu e os muleques termos a pouca e
+miseravel comida, que nos ia permittindo viver, tinha sido necessario que elles
+fossem successivamente vendendo os seus pannos até ficarem completamente nús.
+Parece-me que o mais precioso presente que recebi do mambo Chideu foi uma véla
+de cebo, que eu já tinha visto entre o seu material de feiticeiro, e que
+provavelmente guardava ha muitos annos; veiu o velhinho, que muito lhe custava
+dar alguns passos, trazer-ma á minha palhota n'uma tarde em que n'ella me achava
+com bastantes dores e bastante fome.</p>
+
+<p>Infelizmente para a execução do meu projecto, um movimento que n'essa mesma
+occasião se tinha dado nas aringas fronteiras do Bonga e de Massangano e do
+Barue tinha obrigado a partir para lá com a gente da sua aringa o capitão
+Macaringomba, e os meus emissarios encontraram em Tumbura quasi que unicamente
+as mulheres e as creanças.</p>
+
+<p><span class="margem">Partida de Sangano para Tumbura.</span> Na
+impossibilidade de effectuar a occupação do Rupire antes de deixar estas terras,
+parti no dia 25 de outubro para Tumbura, seguindo da povoação de Chideu pelo
+itinerario marcado no mappa, com machileiros que Chideu mandou reunir, pagos com
+fazendas, que me tinham chegado de Tumbura. Um dos filhos do mambo, por ordem do
+pae, acompanhou-me até esta aringa. O filho mais velho, Gossi, de que tenho
+varias vezes citado o nome, veiu para a povoação do pae logo depois de eu ahi
+chegar, e ficou ahi até eu partir. Morto o velho mambo, este rapaz facilmente
+reconhecerá a soberania de Portugal, ou fará a entrega das suas terras.</p>
+
+<p>Como se vê na carta entre a terra de Sangano e o rio Luenha, está a terra de
+Inhachiranga que eu já disse ter atravessado na ida para o Rupire sem passar por
+povoação alguma. Na volta passei pela aringa de Cariua, filho do mambo da terra,
+e ahi tive occasião de ver que a opinião a respeito do Rupire era a mesma que em
+Sangano, e que ficam esperando que em breve passem pela sua terra, como amigos,
+cypaes de Gouveia, com destino ás terras que fizeram por ser castigadas,</p>
+
+<p><span class="margem">Partida de Tumbura para Gouveia.</span> No dia 26 de
+outubro, dia seguinte ao da minha partida da povoação de Chideu, cheguei a
+Tumbura. Ahi soube que Manuel Antonio não se achava no Pungue, mas tinha corrido
+de Gouveia para pôr fim ao movimento parcial, que contra desejos d'elle, se
+tinha dado na fronteira das terras do Bonga. Puz-me em communicação com elle;
+encontrámo-nos no dia 3 de novembro na aringa de Inhangona e d'ahi partimos
+juntos para Gouveia ao encontro do sr. governador geral da provincia, que n'esse
+mesmo dia ahi devia ter chegado.</p>
+
+<p><span class="margem">Ordem para a occupação do Rupire.</span> Exposta a
+situação ao sr. governador geral, resolveu elle que o districto de Manica e o
+capitulo mór de Manica e Quiteve dirigissem uma expedição ás terras de Rupire e
+de Massáoa.</p>
+
+<p>Devo acrescentar que antes da minha chegada a Gouveia, constando ahi
+vagamente o que tinha succedido, já o governador do districto<span
+class="pn">{17}</span> de Manica tinha solicitado do general da provincia ordem
+para que fosse mandado pessoalmente ao Rupire.</p>
+
+<p>N'estas condições a minha presença de nada serviria para o bom resultado da
+expedição; como tambem parecesse melhor nada emprehender do lado de Manica até
+que fosse conhecido o resultado da missão do Gungunhana, junto do governo de Sua
+Magestade; achei conveniente, tanto por causa de minha saude, como por outros
+motivos, aproveitar o intervallo para vir á Europa, onde verbalmente ou em
+qualquer trabalho especial poderei fornecer importantes informações, em vista do
+desenvolvimento dos auspiciosos trabalhos encetados pela creação do districto de
+Manica.</p>
+
+<p><span class="margem">Despezas da expedição.</span> As despezas da expedição
+foram fazendas gastas com os carregadores e machileiros, com os presentes
+voluntarios ou espontaneos aos differentes mambos, com as exigencias de alguns
+d'estes mambos e dos seus pandoros, a compra de terras e de palhotas no Rupire,
+e as cargas roubadas pela gente do Rupire e de Massáoa, n'esta ultima terra,
+sendo parte d'ella artigos geralmente de acampamento, pertencentes ao districto
+de Manica, outra, fazendas da companhia de Ophir, que fez todos os adiantamentos
+para esta expedição, e finalmente motores de propriedade; pessoal, avalio em
+1:500$000 réis a importancia das fazendas da companhia de Ophir, com que foram
+feitos todos os pagamentos e do resto d'estas fazendas roubado em Massáoa.</p>
+
+<p><span class="margem">Resultados da expedição.</span> Parece-me poder citar os
+seguintes: ter feito melhor conhecimento do que é o Barue, e das condições em
+que actualmente se acha este antigo reino; ter-me certificado que nos chamados
+Campos de Oiro do Imperador Guilherme ainda não havia vestigios de qualquer
+acção estrangeira, e que estavamos ainda bem a tempo de em toda esta região
+exercermos a nossa occupação ou protecção; ter, pelo que vi, e pelo oiro dos
+rios Inhamessansára, Muse, Inhamussice, Munhoque, e outros, que os pretos todos
+os dias traziam ao meu acampamento para trocarem por fazendas, e por saber que
+ha seculos elles lavam sempre nos mesmos logares, adquirido a convicção de que o
+centro, de pequena area, d'onde em todas as direcções partem estes differentes
+rios, deve ser um importante campo aurifero como Mauch o suppoz; ter obtido
+informar-nos ácerca de um outro centro a que adiante me referirei, ainda mais
+interessante pela maior quantidade de oiro que hoje d'elle extrahem, pela
+abundancia de agua corrente, pelas grandes manadas de bois, que n'elle ha, e
+pela sua salubridade; finalmente, não tendo conseguido fixar pacificamente no
+Rupire as bases de uma estação civilisadora e commercial portuguesa, ter
+recebido das gentes d'esta terra, de Guessa e de Massáoa pretextos, que na
+opinião dos mambos vizinhos nos justificam a tomar posse d'estas terras; e
+alcançado a nomeação de uma expedição official do districto de Manica para este
+fim, e para a fundação de um nucleo, que não póde deixar, por pouco que façâmos,
+de trazer ao dominio portuguez todos os vizinhos povos d'esta interessantissima
+região.<span class="pn">{18}</span></p>
+
+
+<h2>II</h2>
+
+<h3>Algumas considerações relativas á politica interna dos districtos de Manica
+e de Tete</h3>
+
+<p>Na primeira parte descrevi rapidamente a minha viagem a uma parte da região
+denominada por Mauch Campos de Oiro do Imperador Guilherme, e indiquei alguns
+dos resultados directos d'esta viagem.</p>
+
+<p>N'esta segunda parte reunirei algumas informações relativas aos paizes
+percorridos, e outros que devemos considerar em breve como parte integrante da
+provincia de Moçambique.</p>
+
+<p><span class="margem">Barue.</span> No relatorio da viagem de Mauch falla este
+explorador do successor de Musilicatze, do Musila e do Macombe, rei do Barue.
+Alem d'estes tres grandes potentados só encontrava entre o Limpopo e o Zambeze
+chefes minusculos dos quaes apenas cita o nome de Schomare (que já sabemos ser
+Machamare), a proposito da mais notavel riqueza dos seus terrenos auriferos.</p>
+
+<p>O grande reino de Barue, que já tinha atravessado ha annos, quando fui a
+Manica, e ha pouco quando fui ás terras dos landins, foi agora percorrido por
+mim em toda a sua extensão, de leste até ao seu limite oeste, formado pelo
+Caurese e depois mais para o norte pelo Luenha.</p>
+
+<p>Como é sabido, o rio Inhandue, que banha Gouveia, separa n'esta altura o
+Barue das terras da soberania portugueza. Este rio póde-se considerar como
+origem do rio Urema, affluente do Pungue. Entrando no Barue os rios principaes,
+pela extensão do percurso e largura do leito, que encontrei foram
+successivamente os seguintes: o largo rio Morose, affluente do Inhamapase, que
+desaguando no canal Mucua se póde considerar ou affluente do Pungue pelo Urema,
+ou do Zambeze pelo Sangue; o tortuoso Misangase que desemboca no Zambeze, logo
+abaixo do luane do Prazo Chemba, e cujo leito se atravessa ou segue quasi umas
+vinte vezes no caminho entre Chemba e Gouveia; o Pompue, affluente do Zambeze a
+meia altura da linha da praia do praso Chiramba, e o Muira, affluente do
+Zambeze, no Bandar, isto é, um pouco a jusante da entrada da Lupata. Poderei
+ainda citar o Mupa, affluente do Luenha, um pouco a jusante da foz do Caurese.
+Se estes rios ainda tivessem agua corrente em toda a epocha do anno, seria o
+Barue, no geral da sua area, um dos mais bellos campos que a provincia de
+Moçambique podesse offerecer á colonisação agricola europea. Infelizmente porém
+todos os vastos leitos arenosos d'estes grandes rios se acham seccos durante
+grande parte do anno, podendo-se apenas, e não em todos, obter d'elles agua para
+beber por meio de covas abertas no seu leito.</p>
+
+<p>Como meios de communicação ou como fontes de irrigação são absolutamente
+inuteis; encontrando-se, em toda a vasta area a que me refiro, mais facilmente
+agua em pequenos regatos ou affluentes de affluentes, indo ella sendo absorvida
+á proporção que se approxima dos largos<span class="pn">{19}</span> leitos
+arenosos. Se o centro do Barue não é em geral cortado por abundantes cursos de
+agua, os seus limites são quasi todos determinados por caudalosos rios, cujas
+margens me parecem excellentes campos para colonisação.</p>
+
+<p>N'este caso estão as margens do Inhandue, principalmente as do Vunduse (do
+Barue), do Pungue ou Aruangua, e ainda apesar da mosca pépsé as do Caurese e
+Luenha.</p>
+
+<p>Não deve deixar de ser citado o Inhasonha, o importante affluente do Pungue,
+que esse não limita o Barue, mas corre todo dentro d'este reino, que tem
+excellente e abundantissima agua e margens adaptadissimas para colonisação
+branca.</p>
+
+<p>A ultima viagem através do Barue fez-me melhor apreciar a importancia dos
+serviços feitos por Manuel Antonio, causando-me cada vez mais admiração o ver
+como um unico homem, pela sua actividade e energia póde, não só resistir ao
+ataque que o poderoso e sanguinario Macombe fez á Gorongosa, mas depois
+perseguir este potentado, vencel-o e dictar absolutamente a lei em todo este
+vasto territorio.</p>
+
+<p>Tenho nota do nome e localidade approximada de mais de trinta aringas,
+algumas das quaes, como a de Pangara, me dizem ser vastissimas, construidas
+depois que Manuel Antonio se apoderou do Barue, tendo todos os seus capitães (de
+que tambem tenho o nome, e a maior parte dos quaes conheço pessoalmente), cypaes
+que n'ellas vivem ou n'ellas se agrupam e os necessarios elementos para a
+defeza.</p>
+
+<p>É muito interessante e para ser adoptado em territorios novamente apossados,
+o systema administrativo, ou antes policial, introduzido por Manuel Antonio no
+Barue. A gente que habitava este reino, ou foi morta durante a guerra, ou fugiu
+para outras terras ou ficou no Barue, submettendo-se a Manuel Antonio. Toda a
+que ficou foi nos differentes districtos dividida em grupos, sendo-lhes dada
+como Inhacuavas, chefes ou representantes para advogarem os seus interesses,
+homens escolhidos de entre os grandes do Barue, que mais confiança mereciam a
+Manuel Antonio.</p>
+
+<p>Alguns milhares de homens dos nossos prasos da Corôa ou Quitevistas, que
+tinham vindo para a Gorongosa foram introduzidos no Barue como cypaes, agrupados
+em ensacas, commandadas superiormente pelos capitães. Em quasi cada uma das
+talvez quarenta ou mais aringas do Barue ha para um lado da aringa o recinto
+reservado do capitão chefe da aringa e sua familia, e proximo as palhotas dos
+cypaes e suas familias, e para o outro lado o recinto reservado do Inhacuava e
+sua familia e proximo as palhotas de colonos do Barue. O capitão é sempre homem
+absolutamente dedicado a Manuel Antonio e o Inhacuava foi por elle
+escolhido.</p>
+
+<p>Vi sempre, nas differentes aringas onde estive, a melhor harmonia entre os
+inhacuavas e os capitães da aringa. Por accordo entre as duas auctoridades, os
+territorios em torno das aringas são divididos para as culturas ou
+<em>colimas</em> das familias dos cypaes e dos colonos. Manuel Antonio ainda não
+começou a receber tributo ou mussôco no Barue, mas comprehende-se como é facil
+fazel-o logo que a isso se resolva.<span class="pn">{20}</span></p>
+
+<p>No Barue ha muita quantidade de cera; cypaes e colonos apanham esta cera que
+fica sua propriedade e que elles vendem nas aringas, onde Manuel Antonio tem
+fazendas em troca d'estas fazendas.</p>
+
+<hr class="dotted">
+
+<p>Como tenho dito, e como o mappa junto o mostra, o limite oeste do Barue é o
+rio Caurese que o separa da terra Guessa, e depois mais para o norte o rio
+Luenha que o separa do Inhachiranga, Inhabaco e Marembe.</p>
+
+<p><span class="margem">Terras do Changamira.</span> A terra Guessa do mambo
+Caterere fica comprehendida entre o Caurese e o Luenha, e vae estreitando até ao
+ponto de affluencia d'aquelle rio com o rio principal. A ponta norte d'esta
+terra é pouco accidentada, e quer no meu itinerario da volta, quer no da ida, ao
+sul d'aquelle, o caminho é facil e quasi horisontal.</p>
+
+<p>Para o sul, porém, da aringa do Bonga, em todo o terreno que percorri desde
+ahi até á aringa do Catarere, o terreno eleva-se successivamente e torna-se
+bastante accidentado. Comquanto não tenha podido reconhecer os montes a que
+Mauch chamou Bismack e Moltke, é de certo ás serras em Guessa que ficam ainda
+para o sul da aringa do Caterere que elle se referiu quando disse que as serras
+a leste dos campos de Oiro formavam uma barreira invencivel aos que a elles
+pretendessem chegar vindos d'esse lado. Talvez o dissesse para tirar a vontade
+aos exploradores portuguezes.</p>
+
+<p>Pela carta, porém, se vé o pouco que ha a tornear para ir da aringa de Taua
+ou da de Tumbura no Barue, até á terra de Macaha, centro dos campos de oiro de
+Mauch; e penso que ainda se poderá achar caminho mais directo, embora
+ligeiramente mais accidentado, de Tumbura para Macaha, cortando em altura
+conveniente o caminho que segue da aringa do Bonga á do Caterere.</p>
+
+<p>Quando me achava no acampamento do Rupire, vendo tão vizinhas as serras da
+margem direita do Mazoe, sabendo que este rio corre apenas uns dois ou tres dias
+ao sul da villa do Tete, notando que as relações commerciaes do Rupire e terras
+proximas teem quasi exclusivamente tido logar desde ha seculos com os
+negociantes d'esta villa, pareceu-me por algum tempo preferivel que as futuras
+relações officiaes com o Rupire tivessem logar pelo districto de Tete.</p>
+
+<p>O que depois se passou, e o que deve ter tido logar depois da minha partida
+para a Europa, leva-me a abandonar esta idéa para voltar á expressa no meu
+precedente relatorio, confirmando a proposta de que os limites dos dois
+districtos, Manica e Tete, sejam determinados pelo Luenha, desde a sua foz no
+Zambeze até á altura da confluencia do rio Mazoe, e depois pelo curso d'este
+rio; com a differença de que, o que então indicava como <em>limite da area de
+acção</em> dos dois districtos, parece agora dever em breve transformar-se,
+graças ao que tem sido feito do lado de Tete, e á occupação do Rupire, em limite
+<em>do territorio effectivo</em> dos mesmos districtos.</p>
+
+<p>Não posso resistir a fazer uma comparação que me occorre ao espirito sempre
+que penso no resultado do contacto das areas effectivamente occupadas de dois
+districtos em colonias nossas, contacto que julgo nunca teve logar, nem mesmo na
+provincia de Angola.<span class="pn">{21}</span></p>
+
+<p>Um inventor qualquer descobriu que dois bicos de gaz, collocados proximo um
+do outro, combinando as duas chammas, produzem luz mais intensa do que a da
+somma das mesmas chammas separadas; um pequeno apparelho movido por um
+machinismo de relogio, que se acha n'um mostrador de uma loja em Londres,
+apresenta primeiro as duas chammas separadas e parallelas, e depois,
+approximando um bico do outro, mostra o extraordinario augmento da intensidade
+da luz logo que as chammas chegam ao contacto, para voltar á simples intensidade
+das duas luzes simples logo que ellas se separam. É uma experiencia de gabinete
+mostrando a verdado da divisa do escudo belga.</p>
+<hr class="dotted">
+
+<p>No dia em que, tendo desapparecido a infamante aringa de Massangano, a acção
+directa do districto de Manica chegar á margem directa do Luenha e do Mazoe, e a
+do districto de Tete á margem esquerda dos dois rios, estou convencido que um
+phenomeno analogo ao que se dá com o contacto das duas chammas ha de ter logar
+com grande intensidade.</p>
+
+<p>O imposto do mussôco cobrado em tão vasta area dará em poucos annos um
+excesso de rendimento que poderá servir de garantia para levantar capitaes, que
+a seu turno empregados em melhoramentos reproductivos forçosamente farão entrar
+a Zambezia n'uma progressão de prosperidade para a qual ninguem se atreverá a
+dizer que lhe faltam as bases ou os recursos necessarios.</p>
+
+<p>Toda a margem esquerda do Luenha, que ficaria pertencendo ao districto de
+Tete, isto é, desde a foz do rio até á confluencia do Mazoe está hoje em poder
+das gentes do Bonga.</p>
+
+<p>Pela margem esquerda do Mazoe acima está o paiz occupado por pequenos mambos,
+mas tanto até ao Luenha como até ao Mazoe, pelo menos, por emquanto, até á
+latitude 17° ou 17°,30, muito facil será prolongar a acção directa do districto
+de Tete por meio de recursos de que o governador do districto e o capitão mór de
+Chicoa dispõem, sobretudo quando procederem de accordo com as auctoridades do
+districto de Manica.</p>
+
+<p>Logo na minha primeira intervista com Chiquiso, mambo do Rupire, fiquei
+surprehendido de lhe ouvir chamar Changamira, e suppuz que n'este paiz, agora
+dividido em tão pequenas terras, este mambo seria o herdeiro do antigo
+imperador; mas mais tarde soube que este nome era tambem como titulo honorifico
+dado a outros mambos.</p>
+
+<p>Toda a região de que me tenho occupado, e que comprehende os Campos de Oiro
+do Imperador Guilherme, corresponde approximadamente com a que no mappa do sr.
+marquez de Sá é denominada terras do Changamira, e era proprio que fosse dado a
+esta divisão do districto de Manica o nome de <em>Changamira</em>, limitando-a a
+E. pelo Caurese e Luenha com o Barue, e ao N. e O. pelo Mazoe com o districto de
+Tete, e ao S. talvez approximadamente na latitude de 17°,30' ou 17°,40' com
+outra futura divisão do districto de Manica, de que adiante vou fallar.</p>
+
+<p>Aos Campos de Oiro do Imperador Guilherme chamariamos de futuro: minas de
+Changamira.<span class="pn">{22}</span></p>
+
+<p>A divisão Changamira, limitada, como disse, comprehende a terra Guessa, do
+mambo Caterere, Inhachiranga do mambo Zinto, Inhabaco do mambo Mezumbauocra,
+Marembe do mambo Chitumbe, Sirge (do Mazoe) do mambo Cajue, Manáva do mambo
+Ziráve, Doro do mambo Inhacoare, Garue do mambo Rundo, Fungue do mambo
+Chissungue, Chissergue do mambo Inhaiuo, Macaha do mambo Machamare, Sangano do
+mambo Chideu, Rupire do mambo Chiquiso, e outros mais a oeste até ao Mazoe, de
+que eu não terei tido informação. Builha, terra do mambo Motoco, poderá ainda
+ser comprehendida na divisão de Changamira.</p>
+
+<p><span class="margem">Local da primeira povoação de brancos em
+Changamira.</span> A primeira parte d'este relatorio dá noticia de como, apesar
+das diligencias que fiz para ir entrando em amigaveis relações com as gentes
+d'estas terras, o procedimento das gentes de Guessa, Rupire e Massáua para
+commigo obrigará á deposição dos tres mambos, e á passagem das tres terras á
+administração directa da nação.</p>
+
+<p>Occupadas estas tres terras, que se acham em não interrompido seguimento com
+o Barue, occupado pelo districto de Tete todo o paiz até á margem esquerda do
+Mazoe, facil será por um ou outro modo vir em breve a exercer a nossa acção, tão
+pacificamente quanto possivel, sobre todas as terras de Changamira, que deixei
+mencionadas.</p>
+
+<p>A primeira estação ou povoação europêa a fazer em Changamira parece-me que
+deve ser situada no Rupire, junto á margem esquerda no rio Inhamussice em ponto
+a escolher desde a affluencia do rio Caruse no Inhamussice, até á affluencia
+d'este rio no Luenha. Este ponto ficaria apenas a dois dias da aringa de
+Tumbura, a um dia da actual aringa de Caterere, a dois ou tres do ponto em que o
+Luenha, vindo do Zambeze, deixará de ser navegavel, a dia e meio do ponto mais
+proximo do Mazoe, e a cinco dias de Tete. Fica muito perto do centro das minas
+de Changamira, e em excellente situação como testa de linha para a exploração do
+paiz dos mususuros de que já vou fallar. </p>
+
+<p><span class="margem">Administração do Changamira.</span> Para a policia e
+defeza das terras de Changamira, que agora forem occupadas, não vejo
+necessidade, em caso algum, de empregar uma força de europeus, ou qualquer
+destacamento de um corpo da provincia.</p>
+
+<p>O processo mais economico e efficaz é o empregado por Manuel Antonio no
+Barue. Construir ou aproveitar umas tres aringas, escolher para ellas bons
+capitães com as suas ensacas de cypaes, aos quaes se darão as terras necessarias
+para o sustento de suas familias, e nomear os inhacuavas de Guessa, do Rupire e
+de Massaua, escolhidos entre os grandes d'estas terras, que vivam nas aringas,
+respondam pelos colonos e lhes advoguem os interesses.</p>
+
+<p>A aringa do Rupire poderia ser a do actual mambo, mas seria preferivel
+arrasar esta e construir uma nova, em ponto escolhido nas proximidades da
+povoação branca.</p>
+
+<p>Para a administração superior e provisoria da Changamira apresentam-se-me
+dois modos de proceder.</p>
+
+<p>O primeiro consiste em nomear-se um commandante militar de Changamira, que
+tratará do arrolamento dos colonos nas terras occupadas, de cobrar o mussôco,
+que poderá todo ser pago com oiro em<span class="pn">{23}</span> pó, e procurará
+ir occupando successivamente todo o Changamira, transformando em Inhacuavas os
+mambos ou parentes d'elles em que haja mais confiança.</p>
+
+<p>O commandante militar, nomeado como tal, não póde nem por conta do governo,
+nem por sua propria conta, comprar oiro aos indigenas, nem realisar com elles
+qualquer outra permutação mercantil. Como, porém, nada se póde fazer sem
+attender a estas operações, e é absolutamente necessario que ellas tenham logar
+no local escolhido para a povoação branca, para a ella chamar amigavelmente e
+pelo seu interesse, as gentes das terras vizinhas, torna-se essencial a
+installação de uma ou mais firmas commerciaes simultaneamente com a do commando
+militar.</p>
+
+<p>É evidente que um commandante militar isolado, sem meios de entrar em
+relações de troca com os indigenas, nada poderia fazer.</p>
+
+<p>O segundo modo de proceder consistiria, no caso de que á companhia de Ophir
+fosse dado um caracter semi-official, era fundar esta companhia uma estação
+civilisadora e commercial no Rupire, encarregada de vir a receber os impostos
+com os arrendatarios dos prazos da corôa, de effectuar as permutações com os
+indigenas e de com elles ir estreitando relações de confiança e amisade. Ao
+chefe superior d'esta estação civilisadora, que poderia ser um escolhido
+official do exercito de Portugal, poderiam ser dados durante este primeiro
+periodo de occupação os poderes e attributos de commandante militar ou de
+capitão mór.</p>
+
+<p>Qualquer que seja a solução adoptada, o que parece muito util é que o
+commando militar ou a estação civilisadora no Rupire seja constituida por fórma
+tal que possa destacar para a frente elementos de exploração tendo por fim a
+creação no mais breve tempo possivel de uma estação portugueza na região
+indicada no mappa do sr. marquez de Sá com o nome de mususuros, e que com este
+nome é effectivamente conhecida no paiz.</p>
+
+<p><span class="margem">Itinerarios para Changamira.</span> Por caminho directo,
+que hoje já se achará aberto, a viagem de Gouveia á aringa de Tumbura poderá
+fazer-se em dois dias, e portanto a viagem de Gouveia ao Rupire em quatro dias.
+Fazendo-se uso do magnifico porto do Bangue, e havendo faceis communicações do
+Pungue com Gouveia, a principal estrada da costa para Changamira poderá ser a do
+Bangue, Gouveia e Tumbura. Será esta sempre a mais rapida e a que deve ser
+seguida pelas malas e pelos passageiros.</p>
+
+<p>Mas para o transporte das fazendas de importação ordinaria e o da cera, lã,
+pelles, couros e outros productos relativamente pobres de exportação, são
+preferiveis aos meios de communicação rapida os meios de communicação economica,
+e para este fim a via do Zambeze e Luenha poderá com vantagem ser empregada
+quando n'estes rios haja carreiras a vapor. Os vapores poderão ir por este
+ultimo rio até a distancia de dois ou tres dias da estação de Rupire.</p>
+
+<p>Infelizmente o paiz aqui é extraordinariamente infestado pela mosca pepse, e
+não permitte por emquanto o uso dos carros de bois; mas facil será fazer uma boa
+estrada e ensaiar para esta curta viagem<span class="pn">{24}</span> de dois
+dias o emprego de carros puxados por burros ou muares.</p>
+
+<p>Emquanto se não podér aproveitar uma parte do curso do Luenha, e emquanto se
+não crearem faceis communicações pelo porto do Bangue com Gouveia, como não
+convem ir do Zambeze a Gouveia, para de lá ir a Changamira, a estrada commercial
+para esta terra deverá seguir, ou de Chemba, como já disse em outro relatorio,
+ou antes, subindo embarcado mais um pouco o Zambeze, por um caminho, que se abra
+pelo valle do Muira em direcção á aringa de Inhacassengo e d'ahi, atravessando o
+Luenha, por Inhabaco e Inhachiranga até ao Rupire.</p>
+
+<p><span class="margem">Musururos.</span> Durante a minha estada no Rupire
+obtive muito interessantes informações ácerca do paiz dos mususuros, bususuros
+ou ainda susuros, que tem sobre o de Changamira a vantagem de não estar sujeito
+ao flagello da mosca pepse, e por isso a de ter abundantissimas manadas de bois,
+a de ser mais elevado e apparentemente mais salubre, e ainda a de ser retalhado
+com pequenos rios de excellente agua corrente. Fizeram-me do paiz dos mususuros
+a descripção que eu poderia fazer de Manica. Como paiz aurifero, pelo que ouvi e
+pelo oiro que effectivamente hoje de lá tiram, parece-me ser tambem superior a
+Changamira.</p>
+
+<p>A compra do oiro tem ahi ás vezes logar por um modo curioso. Todos os pretos
+dos mususuros desejam comer carne de vacca, mas nem se sabem agremiar para a
+distribuição nem desejam matar os seus bois para os comerem em familia.</p>
+
+<p>Os pretos mercadores, mesmo pretos do Rupire, que ali vão comprar oiro,
+começam por comprar um boi por um algodão pegado de 6 libras, que custa em
+Quelimane 1$600 réis, e depois vendem a retalho a carne em troca de oiro.</p>
+
+<p>A indole do povo parece ser boa; a todos os pretos que ahi chegam como
+compradores tratam <em>como se fossem mosungos</em>. O paiz tem, ou ao paiz vem
+ainda muito marfim. Builha, a terra do mambo Motoco, não é ainda considerada
+como mususuros, mas parece que o são já as terras que ao S. e SO. com ella
+confinam.</p>
+
+<p>Pelo leste confina Builha com Manica, havendo porém bastante distancia entre
+as povoações mais proximas das duas terras por haver n'esta direcção uma larga
+faxa não habitada. Da povoação do Motoco á do Mutaça, rei de Manica, são quatro
+dias de caminho; á do Macone, mambo que fica a O. de Manica, são tres dias.
+Manguende é o nome de um mambo dos mususuros, que fica a dois dias da povoação
+de Motoco e que tem muito marfim.</p>
+
+<p>A terra dos mususuros, considerada pelos pretos mais rica em oiro, é
+<em>Goa</em>, que tem por mambo a Mussanae; fica a tres dias de caminho da
+povoação de Motoco, atravessando-se pela terra Zumba do mambo Gaha, pela do
+Sotoco do mambo Chunni, e pela de Chiguagua, que tem o mambo com o mesmo nome.
+Chiguagua é terra considerada tambem como tendo muito oiro. Outra terra ainda
+citada como muito aurifera é a do mambo Massumbura, que ainda fica dois dias
+adiante de Goa.<span class="pn">{25}</span></p>
+
+<p>Todas estas terras parece que se acham na bacia hydrographica do Mazoe.</p>
+
+<p><em>A priori</em> parece que a melhor situação para fundar a estação
+civilisadora e commercial de mususuros seria pela latitude 18° junto ás
+cabeceiras do Mazoe e do Save. Esta estação ficaria quasi na latitude de Gouveia
+e poderia communicar directamente com a capital do districto, se se encontrasse
+bom caminho atrás do paiz montanhoso que ha a atravessar; achar-se-ia talvez a
+dois dias de caminho de Macequece e d'ahi poderia seguir pelo bom caminho que já
+sabemos haver para o Pungue, ou ainda poderia vir a communicar directamente com
+o porto de Bangue e povoações intermedias que venham a fundar-se, procurando
+logo a direcção do valle do Pungue, deixando Gouveia ao N. e Macequece ao S.</p>
+
+<p>Este paiz elevado onde nascem o Save e o Mazoe e outros afluentes do Zambeze,
+cuja occupação é da maior importancia politica, parece ser o mais adaptado para
+a colonisação europea na Africa austral. A pagina 285 dos <em>Proceedings of the
+Royal Geographical Society</em>, de maio 1884, vê-se que a respeito d'esta
+região mr. Selous, o celebre explorador e caçador africano, que tão bem conhece
+o Transvaal, diz: «As melhores partes do Transvaal não lhe podem ser
+comparadas».</p>
+
+<hr class="dotted">
+
+
+<h2>III</h2>
+
+<h3>Considerações relativas á politica a seguir com alguns paizes que envolvem
+a provincia de Moçambique</h3>
+
+<p>É desnecessario dizer o que era de facto ha pouco tempo a provincia de
+Moçambique ao S. do Zambeze. O que se passa ainda no proprio districto de
+Moçambique dá idéa de quanto se estendiam os nossos direitos effectivos em toda
+a provincia.</p>
+
+<p>Hoje, ou em breve, podemos dizer que os limites legaes da soberania
+portugueza ao sul do Zambeze são, começando do S., os que nos fixam a
+arbitragem do marechal de Mac-Mahon e o tratado de 1869 com o Transvaal até á
+altura da confluencia do Paphoris no Limpopo; depois a linha limite O. das
+terras do Gungunhana, que, partindo approximadamente da altura da foz do
+Paphoris segue até ao ponto em que o Save muda de direcção para O.; depois o
+curso d'este rio emquanto elle desde a sua origem corre de N. para o S.;
+finalmente, uma linha que vá das cabeceiras do Save, abrace os mususuros e
+Changamira, siga em parte o curso do Mazoe e depois inclinando mais para O., e
+abraçando os territorios da Chidima, que ultimamente têem sido conquistados
+pelo districto de Tete, se prolongue até ao Zambeze, não sei quanto, a montante
+da villa de Zumbo.</p>
+
+<p>A epocha dos soberanos indigenas independentes na Africa do S. está proxima
+a acabar, e é só aos ingleses, allemães e boers do Transvaal<span
+class="pn">{26}</span> que teremos a attender como unicos elementos que se
+poderão oppor, pelos direitos que elles por sua parte adquiram, á expansão da
+area da provincia de Moçambique, ou a que a linha de limites que indiquei se
+afaste para O., abraçando novos territorios.</p>
+<hr class="dotted">
+
+<p><span class="margem">Estradas commerciaes.</span> O que é evidente é que
+estes territorios, abundantes em riquezas para explorar, existem onde estão;
+que ninguem os poderá deslocar da situação geographica em que elles se acham;
+e que esta situação os obriga a serem directa ou indirectamente nossos
+tributarios e a concorrerem para a prosperidade da provincia de Moçambique pelo
+uso que farão das suas estradas e dos seus portos.</p>
+<hr class="dotted">
+
+<p>As grandes estradas commerciaes do interior da parte central da provincia de
+Moçambique para a costa, serão as que vierem encontrar os rios que desembocam
+na bahia de Manzanzane ou conduzam ao porto do Bangue, e o Zambeze.</p>
+
+<p>A creação do districto e governo de Manica, a viagem que por este motivo
+fiz ás terras dos landins, e o ter sido um dos primeiros actos do novo
+governador geral da provincia o tomar em consideração as informações que no meu
+relatorio expuz relativamente ao rio Pungue, mandando a canhoneira
+<em>Quanza</em>
+explorar a foz d'este rio, levaram á descoberta de um porto de mar superior aos
+de Quelimane e Inhambane, situado approximadamente a meio da distancia entre
+estes dois portos, e na embocadura de rios navegaveis por grande extensão. A
+não ser que o estado do paiz, que é desconhecido, revele alguma circumstancia
+muito desfavoravel, como a de não haver nos terrenos marginaes do porto local
+conveniente para a construcção d uma cidade, a descoberta d'este porto terá em
+breve uma extraordinaria influencia no desenvolvimento da mais valiosa porção
+da provincia de Moçambique.</p>
+
+<p>Basta citar as estradas que a este porto devem convergir.</p>
+
+<p>Disse em outro trabalho que o Quiteve, desde as costas da provincia até
+proximo da povoação de Gungunhana, era um paiz plano e horisontal. Em todo elle
+vivem bem os bois e podem ser empregados carros como os que percorrem toda a
+Africa austral, á excepção dos paizes onde ha a mosca ou aquelles em que ha só
+portuguezes.</p>
+
+<p>Uma estrada carreteira, partindo da povoação de Gungunhana, deve vir
+procurar o rio Busi em altura conveniente. Barcos fluviaes a vapor ligarão este
+porto ao ponto do Bangue. Á estrada de Gungunhana prolongada será a estrada de
+Duma e de toda a parte S. do paiz dos matebeles até Gubulavaio.</p>
+
+<p>Já tambem em outro relatorio disse que de um ponto da margem direita do
+Pungue, onde se possa chegar em embarcações adequadas partindo do porto do
+Bangue, até Manica ha já caminho de preto facil, que se póde percorrer a pé em
+quatro dias.</p>
+
+<p>É desnecessario lembrar que o sitio das minas de Inhaoxe, entre o Busi e o
+Pungue, fica a menos de um dia do ponto de desembarque em qualquer d'estes rios
+e portanto do mais facil accesso pelo porto do Bangue.<span
+class="pn">{27}</span></p>
+
+<p>N'este mesmo relatorio já disse que o valle de Pungue, para montante da foz
+do Vundusi, é um excellente campo para colonisação e que <em>a priori</em> se
+poderia
+esperar que ao longo d'este valle se possa abrir uma estrada para servir
+directamente o paiz dos mususuros.</p>
+
+<p>É a que já seguiu o governador geral da provincia na sua visita á capital do
+districto. Já atrás notei como o prolongamento d'esta estrada para Changamira
+será a via de communicação mais rapida d'esta divisão do districto de Manica
+com a costa.</p>
+
+<p>O major Serpa Pinto, no seu livro, <em>Como atravessei a Africa</em>, mostra
+como,
+aproveitando o alto Zambeze, o Cafuque e o baixo Zambeze, se póde facilmente
+pôr em communicação mais de dois terços de largura do continente africano
+n'estas latitudes com o oceano indico.</p>
+
+<p>Antigamente as communicações entre Tete ou Senna e Quelimane tinham logar
+por embarcações que desciam o grande rio até ao sitio do Mazaro, entravam ahi
+no rio Muto, que seguiam com mais ou menos difficuldade de navegação, pela
+pouca agua que em certos pontos o rio tinha durante a estiagem, e depois pelo
+rio dos Bons Signaes ou de Quelimane até á villa d'este nome. Mais tarde a bôca
+do Muto ou Mazaro fechou-se completamente com areia e vegetação, e a navegação
+pelo rio Muto cessou de todo; começando-se a fazer uso do Barabuanda ou Quaqua,
+outro canal da communicação entre o Zambeze e o rio de Quelimane, com agua em
+parte fornecida por alguns pequenos rios que a elle vem dar. Durante alguns
+dias do anno, quando a cheia no Zambeze é muito grande, as embarcações que vem
+do Zambeze podem entrar no Quaqua, ou mesmo navegar pelos campos, fóra do leito
+do canal, e seguir sem interrupção até Quelimane; mas durante quasi a
+totalidade do anno a navegação não póde ser continua entre Quelimane e o
+Zambeze. Todas as mercadorias importadas por Quelimane com destino ao Zambeze,
+ao Chire, ao lago Nyassa, sobem o rio de Quelimane e o Quaqua em pequenas
+embarcações até onde a agua lhe permitte que cheguem, geralmente até proximo
+das construcções da companhia do opio onde, o Quaqua faz uma curva que mais do
+que em qualquer outro ponto, a não ser muito acima quando junto ao extremo do
+canal, se approxima do Zambeze. Tudo é descarregado ahi e transportado á cabeça
+dos carregadores até ao Zambeze, na altura da povoação do Vicente, que fica um
+pouco acima do Mazaro. Com relação ás embarcações, procede-se por dois modos:
+ou as embarcações que vieram de Quelimane ficam no Quaqua e as cargas são
+postas em novas embarcações no Zambeze, ou as proprias embarcações do Quaqua
+são passadas para o Zambeze. Os coxes e almandias feitos de um só tronco de
+arvore cavado, não têem perigo de se desconjuntarem e são arrastados sobre o
+solo desde um rio até ao outro; os escaleres são voltados de quilha para o ar e
+transportados sobre os hombros de trinta ou quarenta pretos. É por este modo
+que se têem feito nas ultimas dezenas de annos os transportes do commercio do
+Zambeze. Procedeu-se a estudos para projectar pelo canal do Quaqua,
+convenientemente rectificado e aprofundado, uma communicação permanente entre o
+Zambeze e o rio de Quelimane; tem-se tambem indicado como conveniente a
+construcção de uma linha ferrea partindo da<span class="pn">{28}</span> villa
+de Quelimane ou de outro ponto da margem do rio de Quelimane para o Zambeze e
+mesmo para o Chire.</p>
+
+<p>Mas as aguas do Zambeze que, como acabo de dizer, só durante as grandes
+cheias passam pelo Quaqua, pelo Muto e por terrenos inundados para o rio
+Quelimane, continuam na maior parte do anno, correndo todas pelo grande leito
+do rio até que este se divide nos differentes braços que as levam ao oceano.
+Pensa-se hoje que de todas as bôcas do Zambeze, só uma, a do Inhamissengo,
+permitta a passagem de embarcações por cima da barra.</p>
+
+<p>Quando em 1879 pela primeira vez cheguei ao Zambeze, o porto de
+Inhamissengo, apesar de que ha seculos tinha sido considerado como podendo dar
+entrada aos mesmos navios que entram em Quelimane, apesar das viagens de
+Livingstone, dos trabalhos do sr. Augusto de Castilho e de ter sido o porto por
+onde os vapores <em>Senna</em> e <em>Tete</em> entraram no Zambeze, achava-se
+quasi de todo
+esquecido e inteiramente abandonado pelas nossas auctoridades. A casa
+hollandeza tinha estabelecido uma feitoria na ilha de Inhamissengo, collocado
+uma grande bandeira hollandeza na entrada do rio e considerava-se quasi em
+terreno tão seu como a casa hollandeza em Banana, e Porto da Lenha dizia estar
+nos seus territorios do Zaire. Algum tempo depois o governador do districto de
+Quilimane, o sr. José de Almeida de Avila, creou o commando militar do
+Inhamissengo e nomeou para esse cargo um official que em breve transformou a
+ilha, em que primeiro se achava só a casa hollandeza, n'uma pequena povoação
+constituida pela residencia do commandante, construcções do posto fiscal,
+feitorias das duas grandes casas francezas que negoceiam em toda a costa de
+Moçambique e algumas outras casas. A creação d'esta povoação não teve no
+desenvolvimento do commercio da Zambezia a influencia que á primeira vista
+parecia deveria ter, por tres motivos, sendo um d'elles a falta de
+communicações entre Inhamissengo e Quilimane, o segundo a falta de um rebocador
+para facilitar a entrada e a saída dos navios de véla que começavam a ir ao
+porto de Inhamissengo e o terceiro a situação da povoação. A povoação foi
+construida junto á primeira casa edificada na ilha, a casa ou feitoria
+hollandeza; a praia da povoação era tão proxima do mar que a agua muitas vezes
+estava quasi tão agitada como na costa e muitas das embarcações do Zambeze, que
+desceram até ao Inhamissengo, foram voltadas pelas ondas, perdendo-se tudo o
+que n'ellas vinha. Ora, o rio Inhamissengo tem com o de Quilimane por uma
+grande extensão agua mais profunda do que a altura da agua na barra, e todas as
+embarcações que podem passar sobre a barra podem com mais facilidade subir pelo
+rio acima. O sr. capitão Augusto de Castilho, antes de ser governador geral, já
+tinha feito esta observação e escolhido na terra firme da margem direita do
+Zambeze local para uma povoação até onde podessem chegar todos os navios que
+passassem sobre a barra do Inhamissengo e que se achasse em tão faceis
+condições de accesso para as pequenas embarcações que venham de Tete, Senna e
+do Chire, como está a povoação do Vicente, onde hoje se fazem todas as
+baldeações. Um dos primeiros actos do novo governador geral foi o determinar a
+formação da nova povoação, a que deu o nome de Conceição,<span
+class="pn">{29}</span> e que deve vir a ter um desenvolvimento, como o sr.
+marquez de Sá, no seu livro o <em>Trabalho rural africano</em>, previa, para a
+povoação
+que elle dizia dever fundar-se um pouco mais acima, na Chupanga. A falta de
+rebocador especial para o porto de Inhamissengo deixa-se de fazer sentir logo
+que haja um bom rebocador em Quelimane, que por emquanto poderá servir para os
+dois portos, visto que o numero de barcos de véla que os frequentam é muito
+reduzido e hoje devem já os dois portos estar ligados por uma linha
+telegraphica que se achava em construcção quando parti de Quelimane. Quanto ás
+communicações regulares entre Inhamissengo e Quelimane por vapores, poderiam
+ellas em rigor ser effectuadas pelo rebocador do governo a que me acabo de
+referir, mas é de esperar que o sejam por modo mais conveniente, sendo
+executada a excellente idéa do sr. governador geral, que consiste em dispensar
+os paquetes da carreira subsidiada de tocar em Chiloane, fazendo-os logo
+seguir de Inhambane para Quelimane e vice-versa na viagem da volta, o que é
+vantajoso para o serviço dos portos importantes da provincia, e fazer com que a
+empreza de navegação com o pequeno vapor que ella tem obrigação de ter em
+serviço na costa, organise um serviço regular, em combinação com a passagem dos
+paquetes em Quelimane, d'este porto para o Inhamissengo até á povoação da
+Conceição, para o Bangue ou foz do Pungue, para Sofalla e para Chiloane. As
+condições em que assim ficará a povoação da Conceição já por si concorrerão
+muito para o desenvolvimento do commercio da Zambezia, pois que qualquer
+pequeno negociante ou agricultor das margens do Zambeze ou do Chire poderá
+desde já mandar com toda a facilidade uma ou mais almandias tripuladas por
+pretos de seu serviço portadores de um simples bilhete até Conceição para fazer
+entrega dos generos, ou ás grandes casas commerciaes de exportação, ou
+directamente á agencia que n'esta povoação deve ter a empreza de navegação, o
+que nunca poderia succeder com as complicadas baldeações do Zambeze para o rio
+de Quelimane.</p>
+
+<p>Mas o grande desenvolvimento do commercio do Zambeze só se manifestará quando
+aos melhoramentos que tenho indicado e que se podem considerar como realisados,
+se juntar o da creação de um serviço de navegação a vapor no Zambeze até Tete ou
+até ao pé das cataratas de Coruabassa, no Chire e no Luenha. Esta navegação não
+é isenta de difficuldades, mas com a pratica do serviço poderão ir sendo
+vencidas ou torneadas. O que é urgente é começar. Possuir o Zambeze e não
+procurar ter n'elle um serviço de navegação a vapor, é como se n'um paiz
+abundantissimo em productos que precisam ser economicamente transportados,
+houvesse construida uma extensa linha ferrea que se deixasse desaproveitada só
+para evitar a compra de uma locomotiva e de alguns wagons. Poucas despezas se
+poderão fazer na provincia de Moçambique que dêem resultados mais immediatamente
+remunerativos para a provincia; é incontestavel que com urgencia ao governo
+convem, ou adquirir algum material de navegação bem escolhido, e organisar por
+sua conta um serviço de correio de Conceição a Tete, tomando os vapores de
+escala cargas dos particulares, ou promover a formação de uma empreza, ou dar a
+qualquer empreza<span class="pn">{30}</span> já creada o necessario auxilio para
+a organisação d'este serviço.</p>
+
+<p>A navegação do Zambeze acima do Tete é interrompida pelas cataratas de
+Caruabassa. Desde a altura do logar de Cachombe, a montante das cataratas até
+Zumbo, foz do Cafuque, e por este rio acima a navegação é mais facil do que em
+muitos pontos do rio abaixo de Tete. Nas publicações que fizerem os dois
+exploradores Capello e Ivens, que parecem ter vindo enthusiasmados com a regiao
+do Zumbo, não deixarão elles de confirmar a idéa do major Serpa Pinto e de
+pugnar pelo aproveitamento da magnifica estrada que a natureza poz ahi á nossa
+disposição; e eu penso que ao tratar-se da navegação do Zambeze deveria
+immediatamente fazer-se transportar até Tete o material de uma ou duas lanchas a
+vapor para serem armadas no Cachombe e ahi lançadas ao rio. Se porém é provavel
+que uma empreza particular podesse com mais vantagem de que o governo organisar
+um serviço a vapor desde Conceição até Tete e no Chire, não julgo que, salvo o
+caso da organisação de uma vasta companhia com um largo plano de trabalhos, o
+que não será facil por emquanto realisar, o serviço de Cafuque e do Zambeze
+acima de Cachombe, podesse com utilidade ser feito por uma empreza, e julgo que
+toda a vantagem n'este caso seria a do emprego de duas embarcações pertencentes
+ao governo.</p>
+
+<p>Sem entrar em desenvolvimentos, parece-me que a creação de um districto e
+governo do Cafuque seria hoje um utilissimo serviço prestado á provincia de
+Moçambique. Apesar das excellentes condições que se dão no actual governador do
+districto de Tete, não póde elle, como o padre que foi nomeado para Tete com a
+obrigação de ir dizer missa aos domingos no Zumbo, attender a todas as
+interessantes questões que agora ha a resolver para o lado do Mazoe, com o Bonga
+e na Macanga, e ao mesmo tempo occupar-se da expansão dos novos dominios na
+região do Zumbo e na exploração e occupação da estrada do Cafuque. O districto
+do Cafuque deveria começar junto ao rio Zambeze na altura do Cachombe, isto é,
+acima das cataratas da Caruabassa e prolongar-se por emquanto indefinidamente
+para O. O governador do Cafuque teria dois fins principaes em vista. O primeiro
+crear relações com os matebeles, se isso fosse julgado conveniente, ou pelo
+menos assegurar para a soberania portugueza uma facha de terrenos ao longo da
+margem direita do Zambeze desde o Zumbo até ás cataratas de Cariba ou talvez
+mesmo até ao rio Guai. O segundo occupar-se da estrada do Cafuque, de estudar
+bem as circumstancias locaes e propor a necessaria creação de estações
+portuguezas em pontos adequados. O governo do Cafuque só poderia ser dado a um
+official prudente e de toda a confiança. Se se encontrasse um official com
+desejos de cumprir esta missão, mas de patente ou posição tal que não estivesse
+em harmonia com a de um governador de districto, poderia executar essa missão
+com o caracter provisorio ou de organisação e com o titulo de commissario do
+governo, desligando-se em todo o caso do districto de Tete toda a area da sua
+acção.</p>
+
+<p>Para que tão util medida produza os resultados consideraveis que ella póde e
+deve produzir, é absolutamente necessario que todos se<span
+class="pn">{31}</span> convençam de que é aos capitães móres de influencia
+pessoal, contra os quaes tantos fallam por ignorancia, que devemos quasi todos
+os territorios que possuimos na Zambezia, que a obra d'estes capitães móres foi
+o primeiro passo dado, e em que seria perigoso ficar; que devemos agradecer-lhes
+e recompensa-los, e trabalharmos de accordo com elles em ir transferindo a sua
+influencia pessoal para agentes mais regulares da Magestade, como agora dizem
+todos os pretos da Gorongosa, que já hoje bem comprehendem que a Magestade, e
+que o governador, mandado pela Magestade são auctoridades de ordem muito
+superior á de Manuel Antonio; e isto porque Manuel Antonio, na melhor harmonia
+com o governador de Manica, não faz senão repetir aos grandes e aos mais pretos
+que elle é escravo do Rei, e que todos devem absoluta
+obediencia ao governador que elle mandou para ali.</p>
+
+<p>Não conheço o capitão mór Araujo Lobo, mas sim os muitos serviços que elle
+tem prestado ao paiz, e estou convencido que se apparecer no Zumbo um governador
+do Cafuque, ou um commissario regio que proceda com tanto tacto, como na
+Gorongosa está procedendo o governador de Manica, teremos adquirido em breve e
+consolidado para a nação portuguesa, e poderemos muito desenvolver elementos, já
+hoje adquiridos por portuguezes benemeritos, mas elementos que nas condições que
+hoje se dão podem de um momento para o outro desconjuntar-se e inutilisar-se,
+quando não seja senão pela morte, possivel sempre, de um ou poucos individuos. A
+um negociante da Zambezia, muito pratico nas viagens para Tete e para o Zumbo,
+ouvi eu dizer que o capitão mór do Zumbo, Araujo Lobo, podia com os recursos de
+que dispõe assegurar communicações permanentes desde esta villa até ao Bihé. Não
+aproveitar meios de acção d'esta ordem seria falta para lastimar.</p>
+
+<p>Bordo do <em>Drumond Castle</em>, 23 de Janeiro de 1886.=<em>Joaquim Carlos
+Paiva de Andrada</em>, capitão de artilheria em commissão.</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+</div>
+
+
+
+
+
+
+
+<pre>
+
+
+
+
+
+End of the Project Gutenberg EBook of Relatorio de uma viagem ás terras do
+Changamira, by Joaquim Carlos Paiva de Andrada
+
+*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK RELATORIA DE UMA VIAGEM--CHANGAMIRA ***
+
+***** This file should be named 34040-h.htm or 34040-h.zip *****
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+
+Produced by Pedro Saborano
+
+Updated editions will replace the previous one--the old editions
+will be renamed.
+
+Creating the works from public domain print editions means that no
+one owns a United States copyright in these works, so the Foundation
+(and you!) can copy and distribute it in the United States without
+permission and without paying copyright royalties. Special rules,
+set forth in the General Terms of Use part of this license, apply to
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+Gutenberg is a registered trademark, and may not be used if you
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+such as creation of derivative works, reports, performances and
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+subject to the trademark license, especially commercial
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+
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+things that you can do with most Project Gutenberg-tm electronic works
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+Gutenberg-tm electronic works if you follow the terms of this agreement
+and help preserve free future access to Project Gutenberg-tm electronic
+works. See paragraph 1.E below.
+
+1.C. The Project Gutenberg Literary Archive Foundation ("the Foundation"
+or PGLAF), owns a compilation copyright in the collection of Project
+Gutenberg-tm electronic works. Nearly all the individual works in the
+collection are in the public domain in the United States. If an
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+1.F.5. Some states do not allow disclaimers of certain implied
+warranties or the exclusion or limitation of certain types of damages.
+If any disclaimer or limitation set forth in this agreement violates the
+law of the state applicable to this agreement, the agreement shall be
+interpreted to make the maximum disclaimer or limitation permitted by
+the applicable state law. The invalidity or unenforceability of any
+provision of this agreement shall not void the remaining provisions.
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+1.F.6. INDEMNITY - You agree to indemnify and hold the Foundation, the
+trademark owner, any agent or employee of the Foundation, anyone
+providing copies of Project Gutenberg-tm electronic works in accordance
+with this agreement, and any volunteers associated with the production,
+promotion and distribution of Project Gutenberg-tm electronic works,
+harmless from all liability, costs and expenses, including legal fees,
+that arise directly or indirectly from any of the following which you do
+or cause to occur: (a) distribution of this or any Project Gutenberg-tm
+work, (b) alteration, modification, or additions or deletions to any
+Project Gutenberg-tm work, and (c) any Defect you cause.
+
+
+Section 2. Information about the Mission of Project Gutenberg-tm
+
+Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
+electronic works in formats readable by the widest variety of computers
+including obsolete, old, middle-aged and new computers. It exists
+because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
+people in all walks of life.
+
+Volunteers and financial support to provide volunteers with the
+assistance they need are critical to reaching Project Gutenberg-tm's
+goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
+remain freely available for generations to come. In 2001, the Project
+Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
+and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
+To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
+and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
+and the Foundation web page at https://www.pglaf.org.
+
+
+Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive
+Foundation
+
+The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
+501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
+state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
+Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification
+number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at
+https://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
+permitted by U.S. federal laws and your state's laws.
+
+The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
+Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
+throughout numerous locations. Its business office is located at
+809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
+business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact
+information can be found at the Foundation's web site and official
+page at https://pglaf.org
+
+For additional contact information:
+ Dr. Gregory B. Newby
+ Chief Executive and Director
+ gbnewby@pglaf.org
+
+
+Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation
+
+Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
+spread public support and donations to carry out its mission of
+increasing the number of public domain and licensed works that can be
+freely distributed in machine readable form accessible by the widest
+array of equipment including outdated equipment. Many small donations
+($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
+status with the IRS.
+
+The Foundation is committed to complying with the laws regulating
+charities and charitable donations in all 50 states of the United
+States. Compliance requirements are not uniform and it takes a
+considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
+with these requirements. We do not solicit donations in locations
+where we have not received written confirmation of compliance. To
+SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
+particular state visit https://pglaf.org
+
+While we cannot and do not solicit contributions from states where we
+have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
+against accepting unsolicited donations from donors in such states who
+approach us with offers to donate.
+
+International donations are gratefully accepted, but we cannot make
+any statements concerning tax treatment of donations received from
+outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff.
+
+Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
+methods and addresses. Donations are accepted in a number of other
+ways including including checks, online payments and credit card
+donations. To donate, please visit: https://pglaf.org/donate
+
+
+Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic
+works.
+
+Professor Michael S. Hart was the originator of the Project Gutenberg-tm
+concept of a library of electronic works that could be freely shared
+with anyone. For thirty years, he produced and distributed Project
+Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.
+
+
+Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
+editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
+unless a copyright notice is included. Thus, we do not necessarily
+keep eBooks in compliance with any particular paper edition.
+
+
+Most people start at our Web site which has the main PG search facility:
+
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