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diff --git a/.gitattributes b/.gitattributes new file mode 100644 index 0000000..6833f05 --- /dev/null +++ b/.gitattributes @@ -0,0 +1,3 @@ +* text=auto +*.txt text +*.md text diff --git a/34039-8.txt b/34039-8.txt new file mode 100644 index 0000000..d666dfd --- /dev/null +++ b/34039-8.txt @@ -0,0 +1,4141 @@ +The Project Gutenberg EBook of Aquela Família, by Ladislau Patrício + +This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with +almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or +re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included +with this eBook or online at www.gutenberg.org + + +Title: Aquela Família + (Tipos, caricaturas e episódios provincianos) + +Author: Ladislau Patrício + +Release Date: October 7, 2010 [EBook #34039] + +Language: Portuguese + +Character set encoding: ISO-8859-1 + +*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK AQUELA FAMÍLIA *** + + + + +Produced by Mike Silva + + + + + + + Ladislau Patrício + + + Aquela família... + + + (Tipos, caricaturas e episódios provincianos) + + + + 1914--COIMBRA + MOURA MARQUES + Livreiro editor + 19, Largo Miguel Bombarda, 25 + + * * * * * + + + Aquela família... + + + + * * * * * + + TIPOGRAFIA PROGRESSO + DE DOMINGOS AUGUSTO DA SILVA + Rua Dr. Souza Viterbo, 91 + Porto--1914 + + * * * * * + + + + + Ladislau Patrício + + + Aquela família... + + + (Tipos, caricaturas e episódios provincianos) + + + + 1914--COIMBRA + MOURA MARQUES + Livreiro editor + 19, Largo Miguel Bombarda, 25 + + * * * * * + + + + +Aquela família... + + +Aquela família... + +A princípio eu ia só, numa carruagem de _segunda_, o que me permitia +desfrutar o panorama e gozar uma relativa comodidade. Mas mais adiante, +numa estação qualquer, mal o comboio parou, a portinhola abriu-se e o +meu compartimento foi invadido de assalto por uma família inteira que +atravancava tudo: rêdes, bancos, o menor espaço disponível, com malas, +embrulhos e cestinhos,--uma infinidade de volumes! + +O chefe do rancho era um homem nédio, sanguíneo, que rebocava uma +senhora pesada (onde eu adivinhei a espôsa) e mais duas raparigas e um +garoto, de marinheiro, magrinho, linfático e triste. + +Auxiliei-os. Fiz menção de ajudar as damas a subir. E quando a +máquina apitou e o trem se pôs em marcha com um ranger de molas e de +engates, ainda nós todos dispúnhamos a bagagem amontoada nas proporções +dum Himalaia. + +Agradeceram, muito penhorados; e depois de instalados convenientemente, +o dono de tudo aquilo, que limpava com um lenço enorme as bagas de suor, +pediu-me licença para tirar o casaco e envergar o guarda-pó. + +--Parece que estamos no Congo! justificou. Este calor está mesmo a +exigir tanga... + +Eu sorri, relanceando um olhar às donzelas, que sorriram tambêm, +ruborizadas, daquela ideia africana do papá. E êste, farejando em mim +uma índole comunicativa, inquiriu satisfeito: + +--O cavalheiro vem de Lisboa? + +--Não senhor. Eu sou da Beira. + +--Da Beira!... Então é de Vizeu? + +Sorri de novo, discretamente, respeitando as noções corográficas do +viajante simplório, que o acaso colocára assim na minha presença. + +Apressei-me por isso a confirmar: + +--Sou de Vizeu... + +--Nesse caso conhece lá o Gastão? + +--O Gastão?! + +--Sim, o Gastão Vieira, dos Impostos. + +Achei divertido conhecer o Gastão. Recordei-me: + +--Ora se conheço! Estou doido! Conheço perfeitamente... + +Mas depressa caí em mim, reflecti que podia ser colhido na mentira. Foi, +portanto, para eximir-me a perguntas que ferviam já nos lábios do +companheiro que eu perguntei do meu lado: + +--E V. Ex.ª? V. Ex.ª é daqui dêstes sitios? + +--Sim senhor. Mas agora vamos para banhos. Isto que o sr. aqui vê (com +um gesto circular indicava a família) pertence-me. O rapaz é fraquito, +tem escrófulas (apontava o pescoço do fedelho) olhe!--Dizia-me o dr. +Maia... Conhece? + +Declarei que não. + +--Pois admira... Espere, agora me lembro: deve conhecer. Êle até costuma +ir muito a Vizeu. É irmão do padre Levi, Levi da Maia, duma +família muito ilustre que tem uma irmã viscondessa. O sr. conhece com +certeza... + +E como eu insistisse na negativa: + +--O padre Levi, homem! o que escreve no _Vouga_... Não conhece o senhor +outra coisa! + +Tive de lhe dizer que sim. + +Havia-me insinuado já no ânimo duma das meninas com quem entretinha +desde a última estação um namôro matreiro: e apontava-lhe como flechas +os olhos amorudos, dardejando-me ela os seus, redondinhos, negros, +sertanejos... + +--Pois o dr. Maia,--tornava o pai--dizia-me muita vez: «Alves, leve você +o rapaz ao mar; leve você o rapaz ao mar que se cura.»--Mas ó doutor, +veja lá, tenho agora tantos afazeres (e tinha) se o rapaz fôsse coisa +que se pudesse aí endireitar, que demónio, tomando umas drogas...«--Não, +não, sem banhos não se põe direito.»--Que havia eu de fazer? Que fazia o +senhor nas minhas condições? + +Esperou resposta; e como lha não désse: + +--Saía, não é verdade? + +--Pois claro! + +--Foi o que eu fiz. Mando arranjar as malas, tranco a porta, meto toda +esta tropa no comboio... e cá vamos! + +--Faz muito bem. + +--Acha?...--poisava a sua mão sapuda na minha côxa, todo familiar.--Acha +então o cavalheiro que faço bem?... + +--Mas isso nem se pergunta! aplaudi sem reservas.---Mesmo que não +houvesse precisão, que infelizmente há; bastava só a ideia de irem gozar! + +--Gozar! Mas olhe que se gasta um dinheirão! + +--Pois gasta. E isso que tem? A gente não vive só do que mete no +estômago. É preciso ver, dar de comer aos olhos. + +--Dar de comer a quê? + +--Aos olhos... + +--Huum! mugiu. + +Não percebêra. Suava com o calor, nas fontes, nas bochechas, mórmente +nos refêgos do cachaço, duma grande riquêsa de tecidos celulares... + +Entrou depois a divagar sôbre economias expondo-me numa franqueza saloia +o orçamento da viagem; e tentou por último explicar pela hereditariedade +a compleição mórbida do filho: + +--Isto é de familia! O avô dêle, meu pai, tambêm assim era: sempre +doente, sempre com remédios. Mas a avó, é curioso! robusta, còrada, +parecendo que vendia saúde... Eu, aonde me vê, nunca tive uma dôr de +cabeça! Mas já um tio que nos morreu há três anos...--Voltou-se para uma +das filhas:--O tio Aristides... + +--Ah! + +E relatou o que era êsse tio, com os seus achaques, suas mazelas, seus +ungùentos e seus tumores supurativos, em salvo lugar... + +Alves dispunha-se em suma a fazer-me seguir todas as ramificações +patológicas da sua ascendência! Passei a não lhe responder, dizendo-lhe +a tudo _que sim_, com a cabeça. + +E a rapariga, de lá, muito meiga... + +No meio desta felicidade, porêm, a certa altura--na altura de +Ovar--passou-se um episódio triste, de que fui vítima, o qual produziu +profundo desgôsto em todos nós. Fôra o caso que, sobranceira ao meu +lugar, ia uma cesta; senão quando, aí se põe ela a mijar sôbre mim, no +meu chapéu mole, qualquer gorduroso líquido em fio... Ergo-me dum pulo. +Houve um alvoroço no compartimento. Alves gritou: «oh, demónio! oh, +demónio!» + +Entretanto alguêm explicava que tinha sido o môlho do peixe que se +entornára... + +O môlho do peixe! + +Eu tinha então já tirado o meu chapéu e olhava desolado a nódoa negra, +enorme, que alastrava, se embebia no feltro da aba, inutilizando-o sem +remédio! + +Côro de lamentações e desculpas: + +--Ora esta! + +--Uma assim! + +--Só a nós é que acontece... + +E de coração alanceado, com ancias de espancar aquela gente bárbara, eu +ainda ganhei fôrças para lhes dizer: + +--Não faz mal; não se incomodem. Até tem graça! Pelo amor de Deus!... + +Ocorreu todavia aqui uma coisa galante que me cativou: essa das duas +meninas que me havia já endoidado o coração, num movimento impulsivo e no +mais aceso da balbúrdia que se estabelecêra, tira do seio o lencinho de +assoar e veio enxugar com êle a nódoa indelével. + +Esquivei-me desvanecido: + +--Oh, minha senhora... + +E com o lenço enrolado à laia de esponja, ela ia chupando, chupando... + +--Se calhar era novo...--disse-me, a meia-voz. + +Respondi: + +--Era novo. + +--E bom? + +Fiz um gesto de grandeza: + +--Dezoito tostoes! + +Alves voltou-se espantado para a espôsa, que segredou a importância a +outra filha, a quem o irmãosito--que viera à janela do vagom a ver a +máquina--pedia choramigando e arregalando um dos olhos que lhe +tirasse um _algueiro_... + +Daí a momentos o comboio parava: + +--Espinho! + +Era a estação onde êles se apeavam. Alves foi o primeiro a levantar-se; +tirou a carteira e entregando-me um bilhete ofereceu-me os seus «fracos +préstimos», pedindo mais uma vez desculpa do desastre. As senhoras +cumprimentaram igualmente e quizeram tambêm que eu as desculpasse. Eu +desculpei-as. E a mãozinha da minha efêmera namorada, ao despedir-se, +tremia como um passarinho, quando lha apertei numa pressão +significativa. Segui-a com a vista até desaparecer pela porta da +estação; e numa derradeira vez que ela se voltou a olhar-me, não sei, +mas ia jurar que lhe vi lágrimas... + +Encostei-me então a um canto, sorumbático, a fumar. O meu espírito +oscilava como um pêndulo entre a suave lembrança daquela trigueira (eu +ainda lhes não disse que ela era trigueira) e a ideia negra do meu +chapéu manchado. Ambos perdidos já agora para mim! ambos, pela +fôrça do Destino! Pela distância que ia separar-me dela para não mais +talvez a tornar a ver; pela mácula que dêle me apartava para nunca mais +porventura o poder usar! + +Encarava eu filosoficamente a situação por êste lado, quando á janela do +compartimento assomou de novo o focinho do Alves, a farejar-me, a dizer: + +--V. Ex.ª faz-me um obséquio? Não se esquece, quando regressar a Vizeu, +de me recomendar muito ao meu amigo Gastão. Eu, tambêm, quando lhe +escrever, hei-de falar muito de V. Ex.ª e da simpatia que nos inspirou a +todos. Criado de V. Ex.ª... + +Ouviram-se os sinais da partida. Estendemos as mãos cordialmente; e ao +pôr-se o comboio em andamento, Alves, com a minha dextra apertada, lembrou: + +--Ah! E que lá recebi as pêras... Diga-lhe tambêm isso, sim? Deliciosas! +Deliciosas! + +Corria junto da carruagem, ao longo da _gare_, gritando ainda a plenos +pulmões: + +--Deliciosas! + + * * * * * + + + + +A bôca do sapo + + +A bôca do sapo + + _Interior caseiro, modestamente mobilado. CARLOS e MARIA CELESTE + conversam sentados, junto duma mêsa. A voz dêle tem um timbre + imperativo e enérgico; a dela é aveludada, melodiosa, humilde._ + + _Tarde de novembro. Ameaça chover._ + +CARLOS + +Compreendes que me seria muito desagradável que alguêm soubesse o que +tem havido entre nós... + +MARIA CELESTE, _como se despertasse_: + +Ah!... o que tem havido... + +CARLOS + +Ou o que possa porventura haver ainda... Porque eu, apesar do que vai +acontecer, não quero romper comtigo duma maneira absoluta. Não se +vive impunemente três anos com uma mulher. És uma rapariga de +coração--não to digo para que mo agradeças; e sinto que não devo +abandonar-te... + +MARIA CELESTE + +Não, Carlos, enganas-te; eu nunca mais serei tua, haja o que houver. +Nunca mais! + +CARLOS + +Endoidecêste?! + +MARIA CELESTE + +Creio que não endoideci. Vamos separar-nos, hoje, por toda a vida. Se +alguma vez nos encontrarmos já não serás o mesmo homem... nem eu a mesma +mulher. Não nos conheceremos. + +CARLOS + +Ora! ora! + +MARIA CELESTE + +Afirmo-to! + +CARLOS + +Terás essa coragem?! + +MARIA CELESTE + +Se terei essa coragem!... + +CARLOS, _após uns momentos de reflexão, conciliador_: + +Bem, não compliquemos as coisas: deixa-te de criancices. + +MARIA CELESTE + +Criancices?! + +CARLOS + +Decerto. Não consegues convencer-me que essa tua resolução seja inabalável. + +MARIA CELESTE + +Verás. + +CARLOS + +Ou nunca me tiveste amor. + +MARIA CELESTE + +Seja: nunca te tive amor... + +CARLOS, _apreensivo_: + +E talvez. Se fosses minha amiga não te resignavas facilmente a +perder-me. Havia de custar-te a suportar um abandono, quanto mais... + +MARIA CELESTE + +Por isso mesmo,--porque sou tua amiga... + +CARLOS + +Palavras... + +MARIA CELESTE + +Não quero tornar-me um fardo para ti. + +CARLOS, _que principia a indignar-se_: + +Palavras! Palavras! + + _Faz-se silêncio. Os dois ficam absortos, sem se olharem._ + +CARLOS, _com uma serenidade forçada, momentos depois_: + +Não queres certamente atribuir-me a responsabilidade do que sucedeu... + +MARIA CELESTE + +Nem tenho êsse direito. + +CARLOS + +Sabes muito bem como as coisas se passaram. + +MARIA CELESTE + +Sei. + +CARLOS + +Não ignoravas que um dia eu havia de me casar. + +MARIA CELESTE + +Não ignorava. + +CARLOS + +Tive a franqueza, a lialdade de to confessar muito antes de me pertenceres. + +MARIA CELESTE + +Tiveste. + +CARLOS + +Tentei até por varios meios evitar a tua falta. Lembra-te que fôste +minha por tua livre e espontânea vontade! + +MARIA CELESTE + +Lembro, lembro... + +CARLOS + +O teu acto foi, portanto, premeditado... + +MARIA CELESTE + +Pois foi. + +CARLOS + +Não representa o cego impulso dum momento de paixão que eu ateasse, com +a mira numa conquista. Eu disse-te: «Maria Celeste, pensa, +reflecte, olha o que te póde suceder... esquece-me». É isto verdade? + +MARIA CELESTE + +É. + +CARLOS + +Só tu fôste nêsse caso responsável. Fôste tu que assim o quiseste... + +MARIA CELESTE + +Fui eu que assim o quis. + +CARLOS + +Pois bem. E agora, quando podia abandonar-te sem remorsos, apenas com a +amarga saùdade do que tens sido para mim; e que venho oferecer-te, +desinteressadamente, a promessa de continuar a ser para ti um amigo, um +protector... alguêm... + +MARIA CELESTE, _com tristeza_: + +Alguêm!... + +CARLOS + +Sim! E repeles-me, afastas-me como se eu fôsse o pior, o mais grosseiro, +o mais indigno dos homens! + +MARIA CELESTE + +Carlos! + +CARLOS, _fóra de si_: + +Oh! a ingratidão!... A ingratidão! + + _MARIA CELESTE cala-se, sucumbida. Os olhos arrasam-se-lhe de + lágrimas; e ficam assim os dois numa nervosa hostilidade, êle a + passear na sala, resmungando censuras, e ela chorando, muda e + convulsivamente, sôbre o lenço molhado._ + +MARIA CELESTE, _dominando a comoção_: + +Não quero que me consideres uma despeitada. Justifico a tua cólera, as +palavras severas que me diriges, tudo, emfim, porque te +compreendo... porque te estimo. Ainda bem que reconheces que eu não fui +para ti uma amante vulgar. E não fui. Amei-te com um amor verdadeiro, +livre, sem condições. É certo que me aconselhaste, que me preveniste a +tempo, mas... de que servia? Só quem não ama sabe interpretar conselhos +e ouvir razões... Quantas vezes, comigo, no isolamento do meu quarto, +calculei a profundidade do abismo em que cairia se me deixasse levar +pelo coração. Pobre de mim! Mil vezes deliberei não te receber, mil +vezes não te falar mais, nunca mais! Mas apenas subias aquelas escadas e +ouvia o ruido dos teus passos... oh! então, o meu juizo turbava-se, as +minhas mãos arrefeciam, a minha alma, o meu corpo, a minha vida inteira, +fugiam para ti! E pensava: é o Destino...--Uma tarde, uma noite, sabes +bem o que se passou... Era o céu, era a felicidade que se me deparava. +Sabia que isto não podia durar sempre, que tudo acabaria depressa... que +havias de te casar: tu disséras-mo!... Mas achava-me tão bem, tão +contente de viver assim, que não pensava, não queria pensar que +essa hora amarga chegaria breve! (_Comovida_:) O que me prendeu a ti, +sobretudo, foi a tua franqueza, êsse mixto de compaixão e indiferença +que por mim professavas, os melindres da tua consciência, a previsão do +que poderia resultar, na certeza de lhe não dares remédio... Tudo isso +me tentou, me seduziu como uma coisa terrível que se teme--e que +irresistivelmente nos atrai... + +CARLOS, _condoído_: + +Fui para ti--pobre dòninha inconsciente e louca!--uma espécie de bôca do +sapo, queres dizer... + +MARIA CELESTE + +Fôste o meu único, o meu exclusivo amor na vida! (_Fita-o nos olhos +penetrantemente_). Anda, diz'-me lá se isto não é assim, se isto não é +verdade?!... + +CARLOS, _impressionado_: + +Ouve-me, Maria Celeste, escuta... + +MARIA CELESTE + +Não, não! não posso... não teimes. + +CARLOS + +Sê razoável... + +MARIA CELESTE + +Não teimes. Quero conservar-me sempre digna de ti. + + _Há um silêncio concentrado._ + +CARLOS, _numa ideia repentina_: + +E se eu desistisse de casar? Ou antes, se te dissesse para casares +comigo?... + + _Olha-a com ansiedade._ + +MARIA CELESTE, _resolutamente_: + +Não aceitaria. + +CARLOS + +Quê!? + +MARIA CELESTE + +Não aceitaria. Pelas cinzas de minha mãe, acredita! + +CARLOS, _abismado_: + +E porquê?! + +MARIA CELESTE + +Porquê?... + +CARLOS + +Sim. + +MARIA CELESTE + +Porque tens uma noiva, porque empenhaste a tua palavra. Depois... + +CARLOS + +Depois... + +MARIA CELESTE + +Porque me não amas, Carlos... + +CARLOS + +Mentes! + +MARIA CELESTE + +Como queiras... (_Pausa_) Eu fui para ti apenas isto: uma pobre rapariga +que te interessou: uma curiosidade, uma aventura... + +CARLOS + +Uma aventura! Mas devo-te o que não devo a ninguêm! + +MARIA CELESTE + +?! + +CARLOS + +A tua honra. Déste-me a tua honra! + +MARIA CELESTE, _com simplicidade_: + +Pois nada mais tenho que te dar... + +CARLOS + +Como dizes isso! + +MARIA CELESTE + +Digo o que sinto. + +CARLOS, _depois duma longa pausa_: + +E que has-de fazer agora? Queres continuar a viver como vivias? + +MARIA CELESTE, _encolhendo os ombros_: + +Sei lá!... + +CARLOS + +Podias ter sido feliz com outro homem... + +MARIA CELESTE, _convictamente_: + +Não o podia ser com mais ninguêm. + +CARLOS + +Sacrifício inutil... + +MARIA CELESTE + +Não há sacrifícios inuteis nêste mundo, meu amigo... Demais, tu fôste +para mim o que tinhas de ser... Não és culpado do meu infortúnio. +Estou satisfeita, crê,--recompensada. (_Tentando convencê-lo_): Tu não +fizeste mais do que aproveitar uma mulher que se te oferecia... + +CARLOS, _enternecido, toma-lhe as mãos, que beija_: + +És uma santa! (_Com uma infinita saùdade a transparecer-lhe na voz_) E +lembrar-me que amanhã tenho de deixar-te!... + +MARIA CELESTE + +Paciência... + +CARLOS + +... que nunca mais tornarei a ver-te! que nunca mais porei aqui os pés +em tua casa! + +MARIA CELESTE + +Nunca. + +CARLOS + +Nem que um dia precise de ti? + +MARIA CELESTE + +Nem que um dia precises de mim. + +CARLOS + +É o fim de tudo, visto isso? + +MARIA CELESTE + +De tudo. + +CARLOS, _num movimento impulsivo, de protesto_: + +Não, Maria Celeste, não é! Renuncia a êsses teus propositos. Eu não +posso, não quero deixar-te. + +MARIA CELESTE, _incrédula_: + +Não queres... + +CARLOS + +Não quero. Duvidas? + +MARIA CELESTE + +Duvido. O que te impressiona agora é a minha presença. Quando saíres +daqui tudo se desvanecerá como fumo... + +CARLOS, _sucumbido_: + +Tudo se desvanecerá! + +MARIA CELESTE + +Sim. Repara que eu fui para ti simplesmente--uma amante... + +CARLOS + +E então? + +MARIA CELESTE + +Acabou tudo nêste dia em que começo a tornar-me um embaraço para a tua +felicidade... + +CARLOS + +Maria Celeste: juro-te! + +MARIA CELESTE + +Não jures. Tu no fundo sentes isto mesmo, mas não tens coragem de mo +dizer... És bom, tens dó de mim. Mas nem todo o teu dó, nem toda a tua +bondade conseguem dar-me a ilusão de que sou amada!... + +A que horas partes amanhã?... + + * * * * * + + + + +Sr. Anselmo + + +(Perfil grotesco dum provinciano ilustre) + + +(1906) + + +I + + + +Sr. Anselmo + + +(Perfil grotesco dum provinciano ilustre) + + +(1906) + + +I + +Nasci em 74--eu, Teotónio Mendes, de muito boa família. + +Tenho, portanto, actualmente (1906) trinta e dois anos. + +A minha vila fica entre serras, na vertente dum vale, e o calor ali +aperta sempre muito. + +Naquele verão sobretudo (eu não sei se os senhores estão bem lembrados) +no verão a que se referem êstes acontecimentos, mal se respirava. As +fontes secaram; a vegetação, sequiosa, sufocava sob ardentes +nuvens de poeira, e as pedras nos caminhos quase estalavam com o sol. + +Horrível! + +Ha quatro mêses que não chovia. Moviam-se préces ao Altíssimo, +celebravam-se procissões, missas--_ad petendam pluviam_--mas do céu +afogueado e sêco... nem pinga! + +_Cumulus_ de trovoada, no horisonte longínquo, relampejavam em noites +caladas, logo desaparecendo varridos dum bafo môrno de canículas. + +Dizia-se, farejando as alturas: + +--Isto é que vai ser! isto é que vai ser! + +Os dias sucediam-se no emtanto ronceiros, bocejados, com um firmamento +implacável, de bronze, e a aflição da terra calcinada e triste. + +O termómetro de Anselmo continuava a marcar muitos graus. Êste Anselmo, +farmaceutico, grande influente político na localidade, era com efeito +uma figura curiosa e típica. Inteligente, astuto, conhecido árbitro em +questões de pêso, dava as leis e orientava a mentalidade sertanêja da +vilota. + +Mesmo os mais orgulhosos e independentes, senhores do seu nariz, +sofriam a sugestão infalível daquela poderosa vontade. + +--Ali, na Turquia...--dizia por exemplo êle. + +E tinha a gente a impressão de que a Turquia era ali mesmo, a dois +passos, que podiamos lá chegar se quiséssemos,--a pé! + +Anselmo todavia nunca viajára. Perdão! foi uma vez a Lisboa por três +dias, e viu a Galvâni no Coliseu. + +--Que tal? perguntaram-lhe, quando voltou. + +--Um rouxinol! + +Já essa noite no club, o fidalgo da Véla, homem na verdade muito +entendido de música, recomendava: + +---É preciso ir a Lisboa... à Galvâni. Diz o Anselmo que é um rouxinol. + +Geradas nas bitesgas do seu cérebro e reveladas depois a um círculo de +amigos no cantinho da farmácia, as suas ideias extravasavam cá por fóra, +caudalosas, engrossando, impondo-se, fazendo opinião. Alvitre que +trouxesse marca de tão abalisada procedência, dava sempre coisa +que se visse, convertia-se logo em rialidade: fôsse uma árvore, um +baile, o itenerário num cortejo, um espectáculo--um urinol. + +Casado, sem filhos (e sem esperanças já agora de os fabricar) Anselmo +professava pela espôsa um amor e um respeito inconcebíveis. Se alguêm +diante dêle referisse factos menos edificantes ou alarmasse a +assistência com a nova dalgum moderno escandalo em supuração, comentava +ruborisado e colérico: + +--Deboche! Indecência! Quem quer mulher arranja-a, mas casa-se, que é o +que todo o homem limpo deve fazer. + +Ela, a D. Ermelinda, correspondia a essa louvável demonstração de bons +sentimentos da parte do marido, com uma dedicação sem limites, a que a +sua enorme fealdade--uma «fealdade específica», como diz +Camilo--prestava fiança idónea. + + +Além do termómetro havia tambêm na farmácia um barómetro. E todos os +dias amigo Anselmo informava a vila e arredores com aquele rigor +meticuloso, scientífico, aquela probidade verdadeiramente spartana, que +era um dos ornamentos hereditários do seu caracter... + +Ninguêm saía da terra, ninguêm projectava uma viajem, um passeio, que +não fôsse primeiro consultar o Anselmo: + +--Que diz você? + +E Anselmo, do alto da sua importância quase divina, resolvia: + +--Póde sair, homem; vá descançado que não chove. + +Ou então: + +--Deixe-se ficar; o barómetro desceu e temos água. + +Sei até de pessoas que atribuiam tamanha autoridade a Anselmo em +assuntos meteorológicos, que havendo resposta negativa chegavam a +observar-lhe: + +--Demónio! Faz-me tanta falta agora não poder sair... Se isso fôsse +coisa que se pudesse arranjar, sr. Anselmo... + +Êle não se perturbava, não achava aquilo de mais, respondia: + +--Tenha paciência, homem, resigne-se; para outra vez será. Tenha paciência. + +Quem é que sentia frio ou se queixava de calor emquanto Anselmo não +manifestasse que sim, que estava calor ou que havia frio?--Anselmo batia +o dente? Venham os jaquetões, os agasalhos, os capotes... Anselmo +transpirava? As janelas logo se abriam e largavam-se os cobertores, as +brazeiras... + +Não era só respeito--era mêdo! + +Nessa altura, por exemplo, o boticário decretára que havia um calor +excessivo. Toda a gente entrou a dizer que era de mais, que uma tal +temperatura se não aturava, uff! que havia um calor excessivo... + +Certo dia Anselmo lembrou na farmácia que «talvez andando nu...». Pois +surpreendi gente digna, disposta a seguir-lhe o conselho, quase a pôr-se +como êle dizia... + +Pela uma hora Anselmo examinava o termómetro (chamava-lhe: _a coluna_) +primeiro à sombra, metódicamente, em seguida aos raios directos do sol, +na soleira da porta. + +Freguês que após esta operação penetrasse na farmácia era antes de +mais nada avisado pelo Anselmo dos graus que atingira a temperatura +ambiente: + +--Já sabe?... 30 à sombra e 50 ao sol!... É de rachar! + +Depois é que aviava a receita limpando o suor da pescoceira ao mesmo +pano com que enxugava as garrafas dos remédios. + +A notícia circulava rápida. Perguntava-se por hábito: + +--Já viu o termómetro? Quantos marcará hoje o termómetro do Anselmo? + +E aí por volta das duas já se sabia, já constava cá por fóra: + +--Então hoje, hein? 30 à sombra e 50 ao sol no termómetro do Anselmo! + +Desapertavam-se os colêtes... + +De facto, desta vez tinham razão. Havia umas horas no dia em que as ruas +ficavam desertas, só as moscas e as abelhas faziam o seu giro zumbidor. +Dos canos e das valetas onde levedavam detritos, subiam no ar quente +exalações pestíferas. Eu esperava o correio com ansiedade, por causa dos +jornais, as janelas do quarto entre-abertas, o pavimento borrifado +com água; ali me conservava naquela meia penumbra, estirado na cama, de +papo para o ar... e nu, consoante o Anselmo preconisára. + +Saía só à noitinha, que refrescava um pouco, quando a vila se punha a +respirar às portas das lojas, ou passeava em grupos pelas estradas, os +homens de chapéu na mão e as senhoras de vestidos claros, muito +lânguidas, com as blusas desbotadas nos sovacos--da transpiração diurna. + + +Foi por essa época que eu recebi a carta do meu amigo +Felizardo--Felizardo Antunes Vieira Leite, do Porto--convidando-me a ir +passar com êle uma temporada numa quinta do Minho, para onde partia +nêsse mesmo dia com a mãe, uma senhora respeitável que desejava muito +conhecer-me. + +No verão iam sempre para lá, dois mêses, a regalarem os pulmões viciados +do ar urbano e a vigiarem de perto as colheitas naquela quadra mais +intensa da vida agricola. + +Adorável amigo! + +Acabei de ler a carta e ergui-me dum pulo. Abri as janelas de par em +par, para que a luz entrasse amplamente. Depois puxei os gavetões e +pus-me a atacar de roupa a minha maleta de viagem. Porque eu ia viajar, +senhores! Eu ia emfim ver êsse Minho pitoresco de que ouvira sempre +falar com tanto entusiasmo. + +Fui ao telégrafo e expedi para _dr. Vieira Leite_ o seguinte aviso: +«Chego àmanha». + +As delícias do progresso! + +Jámais apreciára como nêsse jovial momento esta coisa cómoda e vulgar +que se chama--o telegrama. E a descer as escadas dos correios eu ainda +vinha a parafusar nas belezas da Civilisação,--contente, reconhecido... + + +De passagem, porque me ficava a caminho, entrei na farmácia. Nunca me +dobrára em contumélias aparatosas de adulador ante a figura severa do +boticário. Nunca balançára com mão subserviente o turíbulo da Fama com +que a vila usava incensá-lo. Digo isto sem a menor sombra de +prosápia e sem querer censurar ninguêm,--apenas para estabelecer a verdade. + +Eu sou um apóstolo da Verdade! + +Mas que razões me déra Anselmo que justificassem, até à data, a minha +frieza, o meu desdêm, quase? A valer, nenhumas! Ficar-me-ia mal, +portanto, que eu tivesse desta vez uma atenção e pondo de parte +caprichos, orgulhos, lhe perguntasse muito cortêsmente se queria alguma +coisa «para êsse Minho»? + +Anselmo estava só, absorvido na laboriosa manipulação duma pomada. Um +enxame de moscas poisava na gaze suja que revestia o candieiro de metal +suspenso do teto fuliginoso; e atrás, sôbre o pano fundeiro, lia-se no +vidro fosco duma porta interior esta palavra em letras gordas debaixo +dum emblema galénico: + + LABORATORIO + +Avancei, anunciei-lhe o objecto da minha visita. O boticário ergueu a +fronte majestosa, reconheceu-me, e mergulhando de novo no trabalho, +rosnou por entre dentes: + +--Boa viagem!... + +Aquilo vexou-me; não eram formas de corresponder a uma delicadeza. Vai +não vai estive para lhe dizer das boas, das fortes,--das minhas... + +Mas não pude. Não sei porquê, mas não pude. + +Dei umas voltas fóra do balcão, meio acobardado, com um terror +supersticioso que não me deixava falar, nem me permitia arredar pé. + +Coisa esquisita! + +Baralhavam-se-me as ideias e, na confusão mental em que me via, uma só +coisa me preocupava impertinentemente: se aquele Anselmo, aquele pigmeu! +teria rialmente alguma influência no destino das chuvas, do vento ou das +trovoadas? + +Admitida a hipótese, podia muito bem, querendo, vingar-se de mim. Que +mais não fôsse senão uma telha despenhada do alto dum prédio, no sopro +duma rajada acintosa, sôbre a minha cabeça ímpia. + +Mas...--protestava uma voz do fundo de todo o meu ser +angustiado--o Anselmo, que pisava linhaça, que eu via ali na minha +humana presença a fazer pomada!? Insensata apreensão, pueril receio, que +o falso, infundado prestígio de semelhante figurão, exercendo-se sôbre o +meu espírito num inexplicável momento de fraqueza, havia logrado produzir! + +Ah! mas a desforra ia ser tremenda! Eu ia resgatar, num gesto nervoso e +varonil, a liberdade de pensar e de procedor de toda uma pequena aldeia +de fanáticos, mostrando na hora augusta da emancipação, à luz da +evidência e da subtil análise, o que êsse insignificante valia por +dentro--como homem e como divindade! + +Mas de novo uma dúvida, um vago temor se interpôs ao meu intento, +quebrando-me as forças, jugulando-me,--nem que alguma poderosa mão +invisível estivesse ali sôbre mim suspensa e pronta a estrangular-me à +primeira voz. + +--Ora esta! murmurava eu mentalmente, ora esta! + +E passados instantes, tornando a olhar o boticário, que continuava +indiferente e mudo a esmagar com a espátula, sôbre um pedaço de mármore +polido, uma pasta esbranquiçada e fedorenta, perguntei-lhe com a mais +cariciosa das maneiras: + +--E que me diz o meu amigo do tempo?... + +Ora! foi uma beleza: um milagre! Levantou de novo a cabeça, que me +pareceu agora aureolada, e encarou-me. Tinha estampada no rosto a +surpreza que a pergunta lhe causára. Vi-o sorrir; e mirando o barómetro +(ou o termómetro: não sei...) veio até mim, afável, meigo, aliciador. +Percebi que ia ter uma resposta, significando talvez o beijo tácito da +reconciliação. Eu ia confraternizar com Anselmo, abraçá-lo, entrar-lhe +na intimidade... Que bom! Que pechincha! + +Nessa altura porêm, um sujeito baixo, agitado, nervoso, investe porta a +dentro com os braços no ar, exclamando: + +--Ó Anselmo! ó Anselmo! você já viu? você já sabe? + +Fitámo-lo surpresos. + +Era o Menezes, jornalista, que assim vinha estragar a doce situação. + +--Que é, homem, que é?!... Conte lá, desabafe! disse o boticário sem +encobrir o seu mau humor. + +E o outro, com muitos gestos, esbaforido: + +--O ministério! caiu o ministério! + +E sentou-se por já não poder. + +Anselmo largou a espátula: + +--Que me diz?! + +--Olhe, veja!...--murmurou sufocado. + +E estendeu-lhe um papel, um telegrama, aonde vinha tudo explicadinho: +«ministério em terra, chamado João Franco, parabens.» Não era preciso mais! + +Anselmo ficou sem ar. E o Menezes, outra vez muito excitado, ia e vinha +da porta ao balcão, do balcão à porta, a rir-se, transtornado da cabeça, +doido com a história. + +--Até que finalmente, dizia, ora até que finalmente: o João Franco! Ó +Anselmo, ó menino, mas você já pensou bem no caso? O João Franco! + +E esfregava as mãos de contente. + +--Agora é que se vai ver o que é governar às direitas; agora sim, é que +se vai ver o que é governar! + +O boticário quase não queria acreditá-lo. «Ficára banzado!» E o Menezes, +vociferando: + +--Corja! Os outros por pouco que não põem o país a saque! Tudo a comer, +tudo! E eu, e você, e os mais,--os que trabalhâmos--a pagarmos para +aqueles piratas! + +Anselmo sorria benévolo às considerações acerbas do jornalista que +prosseguia irado, numa linguagem perversa: + +--Súcia de gatunos! Pulhas! Pulhas! + +E já frenético, em altos gritos: + +--É bem feito, é bem feito: rua! É bem feito! + +Começou a juntar-se povo, garotada, a quem o Anselmo, vindo à porta, +enxotava, explicando: + +--Que é? que é que vocês querem? Foi o ministério que caiu... Vão-se +embora! + +Um dos garôtos porêm, mais curioso e atrevido, foi a espreitar para +dentro, pelos vidros da outra porta,--a ver se via o ministério no +chão... + +A Anselmo continuava no emtanto a afigurar-se-lhe aquilo um sonho. Assim +tão de repente, sem se falar em nada, sem ameaças de crise... Não seria +balela? + +O jornalista então pôs-se a raciocinar: Qual! era lógico; o Hintze +fartára-se lá de fazer asneiras, e antes dêle toda a gente sabia que +quem governava não era o Zé Luciano: era a mulher. + +Tomou fôlego, prosseguiu: + +--Quando aí veio o imperador da Alemanha, e a rainha Alexandra, e o +outro... (fez um gesto com o polegar na direcção da raia) o de Espanha, +nem sequer tínhamos um presidente do conselho em termos de se +apresentar! Uma vergonha! + +Cuspinhou, bateu com a bengala, consultou o relógio. Era tarde. + +--Olha o Teotónio! Você aí!--disse, dando por mim.--Desculpe, não tinha +reparado... Então que diz a isto? + +--Eu?... + +--Sim, que diz você a isto? + +Encolhi os ombros, sem responder, verdadeiramente embaraçado. E êle: + +--Nem de encomenda, meu caro, nem de encomenda! O João Franco nestas +alturas foi a sorte grande para o país! + +Estendeu-me dois dedos a despedir-se; e quando se retirava: + +--É verdade, ó Anselmo, você agora volta outra vez lá para cima, para a +câmara. Creio que agora... + +--Qual câmara nem qual carapuça, opôs o farmaceutico, modesto--o que eu +quero é que me deixem. Teem aí muita gente... + +Menezes não via, não achava: + +--Muita gente! Aonde?... + +Foi então que eu, Teotónio, julguei oportuno intervir: + +--Se me dão licença, direi que sou tambêm do parecer do amigo Menezes... + +--Diga, diga! aprovou êste. + +--É impossivel na verdade encontrar por todo o concelho quem, como o sr. +Anselmo, seja capaz de desempenhar com tanta capacidade e +proficiência o papel de presidente do município. + +--Apoiado! + +--Haja em vista,--justifiquei, voltando-me para êle,--o que V. Ex.ª fez +da outra vez por ocasião da gréve das leiteiras! + +--Ora, ora...--desdenhou Anselmo. + +--É a verdade, é a verdade! aplaudiu o Menezes.--Está na memoria de +todos. De todos!--repetiu, aprumando-se, nos bicos dos pés. + +--Andava-se aterrado, continuei, como na véspera dos grandes +acontecimentos. Dizia-se que ficaríamos sem leite na vila por uns poucos +de dias! + +--Um alimento de primeira necessidade...--avolumou o jornalista. + +--Vai então o sr. Anselmo, num abrir e fechar de olhos, resolveu. +Lembro-me como se fôsse hoje da memorável sessão a que assisti e em que +V. Ex.ª sossegou a população, declarando que uma gréve dessa natureza +seria para temer se em vez de ser feita pelas vendedeiras de leite, +fôsse feita pelas próprias vacas... + +--Sim senhor...--confirmou o Menezes.--Lembro-me perfeitamente; eu +tambêm lá estava. Por sinal que estreei um fato nêsse dia... + +--Emfim, rematei, e quantas coisas mais!? A quem se deve por exemplo o +melhoramento entre nós do carro do lixo? + +Menezes coadjuvou-me, indicou o boticário: + +--A êle! + +--A quem se deve a construção do coreto na Praça Nova? + +--A êle! + +--A quem se deve a compra dum irrigador para o hospital civil? + +--A êle! a êle só! + +--Ó senhores, pelo amor de Deus! confundem-me!--bradou o boticário +rialmente confundido, levando as mãos ao crâneo--Eu sou um humilde +trabalhador, com desejos de acertar, de bem servir a minha terra e os +amigos. Nada mais! + +--Êsse pouco... + +--Mas quanto a política, francamente, confesso--estou farto; estou farto +dela até aos olhos! + +--Isso diz êle agora, isso diz êle agora, murmurou o Menezes, +piscando-me o ôlho.--Olha quem, o régulo! + +Depois, despediu-se; chegou mesmo a descer o passeio; mas voltando atrás +afogueado: + +--Ouça lá, Anselmo, e hoje? o termómetro? + +Anselmo foi verificar. Inclinando para o solo o dedo indicador, hirto, +num gesto omnipotente, informou: + +--Desce! + +--Ah! Ótimo... Assim era duma pessoa morrer! + +E muito meneado, o jornalista lá se foi de vez a semear notícias. + + +Dispus-me então a comentar o caso a sós com o Anselmo. Do seu facundo e +preclaro espírito viria até mim, triste mortal, o bom conselho, a +opinião autorisada e justa... + +Ministério em terra, o João Franco inesperadamente no poder... Era com +efeito um extravagante acontecimento. + +Eu nunca fôra, porêm, um político interessado. A dizer a verdade, não +sabia mesmo se aquele facto, na aparência sensacional, representava uma +vantagem ou um inconveniente para o país. Não me encontrára jámais +inclinado para êstes ou para aqueles. A ser um franquista, um +progressista ou um regenerador, preferia não ser coisa nenhuma--que é +para o que eu me sinto rialmente com vocação... + +Naquele momento todavia achei o João Franco simpático. Decerto vinha +animado de bons propósitos, decerto; e era um homem rico, o que--seja +dito de passagem--significava uma grande segurança para a +inviolabilidade do Tesouro... Menezes tinha razão. + +Todas estas considerações eu adusi a Anselmo, que me fitava e sorria +satisfeito. + +--Mas porque caíria o Hintze? indaguei. + +Anselmo torneou o balcão, veio dizer-me ao ouvido: + +--O rei, entende? que tem um medo dos rèpublicanos que se fina (isto +aqui para nós) e quer lá no poder um homem de envergadura, um homem que +os tenha no seu lugar, ora entende o senhor? Para isso, ninguêm mais +nas condições de que o João Franco. O João Franco é um valente! Se +lhe constar, _verbi gratia_, estando aqui, que lá fóra a uma esquina há +um homem com um cacete á espera dêle--acredite--é quando lá passa mais +depressa. Olha quem!... Nem o Bismarck! + +Eu ia acompanhando com interjeições o caloroso panegírico do ministro. E +quando Anselmo terminou: + +--Efectivamente, o João Franco... + +Anselmo benzeu-se: + +--Ah! meu amigo: é um colôsso! + +Fez-se silêncio. O boticário acondicionava numa caixinha a pomada +preparada. Assoou-se. Escreveu um rótulo e colou-o na tampa, a assobiar +o hino da carta. + +--Diga-me uma coisa, inquiri; o Menezes não era progressista? + +--Era; mas passou-se para os nossos há-de haver um mês. É um convicto. + +--Parece. + +--E brioso; um cavalheiro. + +--Parece. + +--Ali o Souto dos telégrafos mijou-lhe um dia fóra do têsto... + +--O Souto? Ah! sim... Mas êsse é um trampolineiro! + +--É. O sr. fala-lhe? + +--Ás vezes, por cortesia... + +--Pois uma ocasião teve o descaramento de afirmar, no club, diante de +quem o quis ouvir, que um artigo que o Menezes publicára não era do +Menezes e que era... sabe o senhor de quem? imagine!--do Navarro, do +Emídio Navarro! + +--Patife! + +--... que tinha vindo nas _Novidades_ já não sei há quantos anos, e que +o Menezes o fôra copiar, alterando apenas ligeiramente a forma. + +--Patife! patife! + +--O Menezes, mal aquilo lhe chega aos ouvidos--êle que é um +esturrado!--agarra num vergalho e onde encontra o Souto prega-lhe uma +destas coças... + +--Bem feito. + +--De manhã já o Menezes aqui me tinha dito a mim, furioso: +«Juro-lhe, Anselmo, que onde encontro aquele tratante, quebro-lhe um +côrno».--Se bem o disse melhor o fez: vai e quebrou-lho. + +--Anda-me. + +--No domingo imediato, quando tudo supunha a questão arrumada, zás: sai +o jornal? Eu cheguei a saber aquilo tudo de cór, homem! + +Concentrou-se, os olhos fechados, a mão na testa, a ver se se lembrava. + +E com pesar: + +--Já não vai; paciência! + +--É pena. + +--Mas digo-lhe o final, descance, que êsse é daqui...--e beliscava o +lóbulo da orelha. Então, o braço estendido, em atitude declamatória, o +polegar e o índice aplicados num gesto precioso, recitou, com uma +pontinha de malicia nos olhos: «Diz D. Bazílio que da calúnia alguma +coisa fica. Não temêmos, porêm, etc., etc., etc....» Repare agora: «Os +aleives resvalam na consciência dos justos como zagalotes no aço.» +(Anselmo sublinhava: _como zagalotes no aço..._). «Todo o mundo sabe que +só usamos o que nos pertence...» (_Piscadela de ôlho do Anselmo_) +«Não costumamos botar figura com coisas alheias: o dinheiro dos amigos +ou as joias das amantes: _Meneses dos Santos_». + +--Isso é medonho! comentei. + +Emquanto Anselmo repetia, vibrante de entusiasmo: + +--«O dinheiro dos amigos ou as joias das amantes»! Refere-se á mulher do +notário... Genial! genial! + +Rimos depois muito, com aplausos efusivos ao jornalista e censuras ao +procedimento do Souto, que fôra indecente. + +A conversa decaíu. Anselmo bocejava. Eu peguei num jornal, percorri-o +com a vista, distraído. + +--Então sempre vai amanhã? perguntou-me. + +--Sempre vou amanhã. + +--Pois o tempo está firme. A _coluna_ desceu, mas descance que não há-de +haver novidade. Isto conserva-se. + +Bateu-me no ombro palmadinhas amigáveis: + +--Pode ir descançado... + +--O sr. Anselmo não quer para lá nada?--perguntei. + +--Não; quero que tenha muita saúde. + +Fitou-me carinhosamente: + +--E veja se engorda, coma-lhe! Parece que anda magro, homem... Dê cá um +abraço. + +Estreitá-mo-nos peito com peito. Éramos dois amigos velhos... Comovi-me; +e visto que se faziam horas de jantar, segui rua abaixo. + +--Até à volta! + +--Até à volta!... + +O sol abrasava. Quando dobrei a esquina, olhei. O boticário tinha vindo +à porta, dizia-me adeus de lá,--com a mão... + + * * * * * + + + + +Sr. Anselmo + + +(Perfil grotesco dum provinciano ilustre) + + +(1912) + + +II + + + + +Sr. Anselmo + + +(Perfil grotesco dum provinciano ilustre) + + +(1912) + + +II + +Anselmo estava em Nagosa, fazendo a vindima, quando se declarou em +Lisboa o movimento revolucionário de outubro. + +Tinha vindo nesse momento de baixo, do lagar, aonde meia dúzia de homens +hercúleos, de calça arregaçada e pernas ao léu, rôxas como canelas de +perdiz, pisavam a uva, dançando ao som de ferrinhos e de adufe uma dança +bárbara, grotesca, entre uivos e assobios. + +O filho mais velho do caseiro fôra a Moimenta pelos jornais e por +tabaco, e a encomendar a carne do dia imediato, que era dia de +matança na vila. + +Não devia tardar. + +D. Ermelinda arranjára a ceia: uma ceia de caldo verde e sardinhas +assadas, raras naquela região e muito frêscas,--nem que Nagosa fôsse um +braço de mar e as houvessem ali pescado nêsse instante... No fim, para +assentar, chá,--um cházinho de cidade, loiro e aromático, dando a nota +apurada da civilização após aquele _menu_ de cavadores. + + + +Viera a criada erguer a mesa, dobrando a toalha cautelosamente para não +espalhar as migalhas pelo chão, quando chegou o portador de Moimenta com +a notícia de que estalára a revolução em Lisboa. A notícia era vaga e +incerta, sem pormenores, porque não havia jornais nem o telegrafo +funcionava; um caixeiro de amostras chegado de Lamego essa madrugada, em +deligência, espalhára a novidade e disséra que Lisboa, a essa hora, era +um mar de sangue! + +Desde o assassinato do rei que Anselmo sentia um forte desânimo por tudo +isto... D. Carlos, tipo de sibarita sem escrúpulos, inteligente, +mentiroso e gabarola, fôra a última trave que ruira do desmantelado +edifício monárquico. A sua morte, cuja forma, êle, Anselmo--homem de +processos sóbrios--veementemente reprovára, deixára o país em alvorôço, +debatendo-se nas garras duma agonia cruciante, mal amparado por gente +tímida, com um rei no trôno «que não era rei nem era rainha», figurita +débil e epicena de maricas. + +--Havemos de ir longe! profetisava com melancolia. + + +A nova da revolução na capital, trazida assim, de súbito, àquela hora da +noite, por um labrego analfabeto, a um lugar sertanejo e ignorado, não +o surpreendeu portanto, mas encheu-o de ansiedade e sobresalto.--Qual +seria o resultado de tudo aquilo? Venceria o govêrno? Venceriam os +insurrectos? E depois: a intervenção extrangeira?... + +Um calafrio de susto percorreu-lhe a espinha dorsal ao pensar nisso, nos +horrores duma carnificina e dum saque. Viu-se desapossado dos seus bens, +violentamente, à coronhada; viu-se escorraçado, prêso, fusilado a uma +esquina! Êle estava dispôsto todavia a declarar, sob sua palavra de +honra, que embora tivesse militado no partido franquista, não tinha a +mínima sombra de responsabilidade no indigno decreto de 31 de Janeiro... + +--Com que então Lisboa é um mar de sangue? perguntou de novo ao seu +rústico informador, como para certificar-se de que não delirava. E +confirmada a notícia, comentou:--Pois bem... Nós cá não temos nada com +isso; lá é com êles. Acima de tudo o que eu sou é patriota. Rèpública ou +Monarquia tanto se me dá; o que é preciso é haver quem nos governe. Boa +noite! + + +Havia lua cheia. + +Anselmo antes de se ir deitar saíu para o terraço da casa a respirar um +pouco, à vontade. Arrotou. As sardinhas vieram-lhe à bôca. +Murmurou arreliado:--«A mania de comer a esta hora há de acabar.» + +O arzinho do campo, porêm, reanimou-o, fez-lhe bem, descongestionou-lhe +o rosto afogueado. + +Sentou-se num banco, á fresca, de colête desabotoado e a fumar. + +De dentro, atraves duma janela aberta, a voz de D. Ermelinda vibrou +esganiçada: + +--Ansèlminho, olha a bronquite! + +Não respondeu. A noite estava um encanto! Um luar muito claro punha em +relevo as silhuetas da paisagem larga, beirôa, de vegetação sombria e de +penedia hirsuta. Os cães ladravam na quinta. Milhões de estrelas +scintilavam no céu opalino, levemente ofuscadas pela alvura do luar... + +Murmurou, regalado: + +--E é que já daqui não saio, emquanto a coisa se não decidir... + + +A 5 de Outubro estava a Rèpública definitivamente proclamada em +Portugal, sabendo-se da nova em Nagosa quando o vinho de Anselmo +começava a ferver nas dornas. + +De tarde Anselmo foi à lagariça para calcular com a vista a importancia +da colheita. Bem boa! Sabia-se que em Moimenta os rèpublicanos tinham já +içado na casa da Câmara o pavilhão revolucionário; ia um delirio na +população. E o brazileiro de Cabaços deitára meia dúzia de foguetes que +se viram perfeitamente de Nagosa subir e estalar no ar, deixando uns +novelos de fumo branco, por momentos, no azul do céu e no oiro vivo do +sol outonal. + +Anselmo debruçou-se sôbre o lagar, farejou o môsto, teve um sorriso +feliz de proprietário favorecido, e chamando o caseiro: + +--Ó Jose, o vinhito êste ano parece-me bom, hein? + +--Parece que sim, meu padrinho... + +Era afilhado. + +--A uvazita fundiu... dizias que não. + +--Houve mais que eu sei lá! + +--Pois sim, mas... + +Não concluiu, não explicou o que queria dizer na sua. + +Tirou do bôlso a tabaqueira, um livrete de mortalhas; ofereceu uma na +ponta dos dedos ao afilhado; deitou-lhe na palma da mão calosa duas +pitadas de tabaco francês; limpou depois êle próprio as mãos sujas do +rebordo da dorna a que se agarrára, a umas palhas que ali topou a geito, +e pôs-se a fazer um cigarro, trauteando a _Portuguesa_. + + +O primeiro desgosto sério que êle sofreu depois da Rèpública, foi com a +_lei da Separação_. + +A mudança de regimen, como Anselmo a entendia, resumir-se-ia a abolir a +realeza, causa imediata e suficiente de quantos cataclismos e desgraças +assoberbavam êste pobre país. O resto era pó, ou melhor, era ódio, +vingança, perseguição, fanatismo. Impressionára-o bem, ao começo, o +facto de serem os próprios miseráveis, os pobretanas, os maltrapilhos, +quem guardára, nos dias da Revolução, os bancos e as casas da gente +endinheirada. Mas a questão da bandeira, logo a seguir, a picuinha de +substituirem as antigas côres constitucionais pelo vermelho e pelo +verde (há quem diga que Anselmo sublinhava a palavra _verde_ com +intenção maliciosa; talvez) começou a indispô-lo, a irritá-lo. De mais a +mais havia gente insuspeita a condenar as novas tintas! E os olhos +sinceramente se lhe arrasaram de lágrimas quando viu tremular no +edificio da câmara municipal da sua vila (da sua vila!) o hediondo trapo +republicano. + + +Aos primeiros dias de harmonia e de entusiasmo começaram a suceder-se no +país, pouco a pouco, outros, menos tranquilisadores e festivos. +Tinham-se efectuado prisões, demissões; surgiam ali e aqui desacordos, +antipatias, notas desafinadas no geral concerto; havia descontentes; +principiava a falar-se vagamente de conspiradores. O capitão Paiva +Couceiro saíra para Espanha, agressivo, no intuito de organisar um +exército restaurador da monarquia. Os padres, dizia-se, tinham o povinho +ignorante das aldeias na mão, e era só dizer-lhe:--«Vamos!» tudo +marcharia à uma sôbre as cidades e daí sôbre Lisboa, engrossando, +rolando, com a fôrça duma vaga e o barulho dum trovão! + +O Govêrno Provisório, sorrindo desdenhosamente, tomava no emtanto as +suas medidas de defeza, ordenava prevenções rigorosas nos quarteis. As +redacções dos jornais monárquicos eram assaltadas por magotes de homens +armados e coléricos que partiam o mobiliário, empastelavam o tipo, +espatifavam as maquinas de impressão, pondo tudo em fanicos, pelas +janelas, no meio da rua. + +E foi numa altura destas, num estado assim de insubordinação e de +efervescência, que o govêrno se lembra de perseguir os bispos! + +Anselmo indignava-se: + +--O país é católico, dizia, o país é católico e não pode permitir +semelhante arbitrariedade! É um atentado contra a religião de cada um. + +Alguêm lhe ponderou que não, que o govêrno não pensava em perseguir +ninguêm; que não era êsse o espírito da lei; que o Estado o que não +devia era apadrinhar esta ou aquela religião. Eu mesmo, Teotónio +Mendes, republicano hereditário, apoiei com certa autoridade e +firmêsa estas sensatissimas explicações. + +--Cale-se! vociferava êle, exaltado, dirigindo-se-me; cale-se, que não +diz se não asneiras. A Rèpública tem de ser tolerante se quizer viver! +Os jacobinos, os carbonários como o senhor, não conseguirão por mais que +se esforcem abafar os protestos da opinião pública; e a opinião pública +está abertamente com a Igreja. Com a Igreja, fique-o sabendo! + +Todos nos calávamos. Anselmo limpava a fronte donde o suor porejava. + +--Pódem-me prender, se quizerem, que eu direi sempre a verdade. A +verdade é só uma! + +E cheio de provas, revoltado:. + +--Admite-se lá que se tire assim o pão a tanta gente, que se lance na +miséria tanto português, tanto padre com mulher e filhos... perdão +(emendava): com família numerosa. + +Em volta houve um silêncio aprovativo. + + +Tudo mudára, na verdade... + +Um dia, Anselmo andava passeando na farmácia, as mãos atrás das +costas, a meditar no futuro do país. O barómetro marcava tempo sêco--e +lá fora chovia! A _coluna_ indicava uma temperatura alta, e Anselmo +tinha a certeza de que era falso. Aquilo queria dizer que andava tudo às +avessas, que ninguêm se entendia neste país, que a indisciplina +reinava--até no tempo! + +Não havia doentes: há 15 dias que o movimento farmacológico era +insignificante. Assim, a própria ociosidade colaborava nos +acontecimentos, gerando nos cérebros ideias insubmissas... + +--V. Ex.ª é que é o sr. Anselmo Nogueira?--perguntou a meia voz um +desconhecido que entrou, descobrindo-se. + +--Eu mesmo em carne e osso. Ponha o seu chapéu. Que deseja? + +Mas logo, reconsiderando, medindo-o, fez pé atrás como quem desconfia do +sujeito e se prepara para se pôr a salvo, no caso de perigo. + +--Não se assuste, disse-lhe o recem-chegado, observando aquele +gesto,--eu não sou quem pensa... pelo contrário. + +--Ah! + +--Sou dos _fieis_. Trago-lhe aqui uma carta da Galisa... + +E levou a mão ao bôlso. Anselmo segurou-lhe no braço, palido: + +--Ó diabo, espere... espere lá, tome cautela. + +E foi à porta espreitar. Não havia ninguêm. Chovia. + +--Tem a bondade de entrar ali para dentro, indicou. + +E encostando a porta de vidro fôsco do laboratório: + +--Estou às suas ordens, pode falar... Estamos sós. + +Todo êle tremia. + +O outro entregou-lhe a carta em que lhe pediam dinheiro para uma próxima +incursão e lhe perguntavam se poderia auxiliar, a coberto da sua +seriedade insuspeita, um pequeno contrabando de armas: pistolas e +munições. Assinava a carta, em nome de Paiva Couceiro, «um amigo da +Religião e da Pátria.» + +Anselmo gaguejou: + +--Sim... sim... dinheiro, talvez, mais adiante... Agora as pistolas, +desde já lhe digo, meu caro sr., que as pistolas não... Escusam de +contar comigo para semelhantes aventuras. A minha casa é muito +freqùentada, tudo meche e remeche... não há esconderijos... + +--Nesse caso... + +--Nesse caso, o melhor é ir bater a outra porta. Do meu lado podem +contar apenas com o apoio moral. + +O desconhecido ia retirar-se desanimado. Anselmo deu-lhe uma esperança; + +--Ah! olhe: e estricnina e sal de azêdas, à descrição... + +O enviado sorriu, agradeceu, despediu-se. + +--Diga-me cá, inqueriu ainda Anselmo interessado, com a mão dêle +apertada,--o nosso Paiva Couceiro como ficou? + +--Bem. + +--E o rei, tem-no visto? + +Não o tinha visto. Estava em Londres. + +--Coitado! aquele tambêm... Quando calhar, dê-lhe lá muitos recados +meus, sim? + +O indivíduo misterioso prometeu, saíu da botica. + +--Oiça, oiça! A Ermelinda, minha mulher, tambêm se recomenda. E à D. +Amélia. Diga-lhe que cá os esperamos a todos, muito brevemente. + +Fez-lhe uma mesura aparatosa: + +--Meu caro senhor... + + +Uma vista de olhos, rápida, furtiva, pelas janelas dos prédios +fronteiros, a ver se alguêm teria dado pela visita, e tornou ao +laboratório, ruminando o caso, arreliado por se ter esquecido na +perturbação que o invadira, de perguntar o nome do tipo. «E a gente às +vezes a supôr que ninguêm nos conhece, que não consta, que se não sabe +lá por fóra! Ai Anselmo, ai Anselmo!...» + +Tirou do bôlso a carta comprometedôra, levemente amarrotada; acendeu um +fosforo e ali mesmo, antes de outra coisa, queimou-a, com prudência, +reduzindo-a a cinzas. + +O documento! + +Nisto, uma mulherzinha entrou na farmácia, a correr, sem chaile, a +pedir linhaça para o sr. administrador que estava a morrer com uma cólica. + +Anselmo estremeceu. Para o sr. administrador? Fingiu que ia servir a +mulher, e de repente: + +--Oh co'a breca! esta agora! não tenho linhaça. + +--Não tem linhaça?! + +--Não tenho. Acabou-se-me. + +--E agora? + +--Agora... deve chegar amanhã. + +--Amanha! Amanha pode o homem estar no outro mundo! + +Anselmo sentiu que as pernas se lhe vergavam àquela ideia homicida; ia +trair-se, não podia mais. + +--No outro mundo?! + +--Sim, no outro mundo; se o sr. o visse! + +Anselmo, porêm, num abrir e fechar de olhos, raciocinou: «mas se êste é +dos tais que a monarquia não poupa quando voltar; se êle está fatalmente +condenado pela revindicta... Deixá-lo ir já!» + +--Pois tenha paciência, santinha; onde não há el-rei o perde... + +--El-rei! exclamou a mulher, furiosa, voltando costas, de repelão,--o +que o sr. precisava bem sei eu; não haver linhaça numa terra onde não há +mais boticas! + +Anselmo ainda ouviu a mulher a distância, queixar-se para alguêm, +fazendo escândalo: + +--É ali o boticário que não tem linhaça; anda só a pensar na monarquia, +o talassa, e esquece-se das obrigações... + +O epíteto de talassa custou-lhe os olhos da cara; mas emfim, tudo eram +sacrifícios pela Causa. Mais tarde havia de saber-se e os juros +viriam--se viriam!--com larga usura e gratidão... + +--Talassa! Talassa!...--gritava a mulher. + +--Pois sim... + + +A incursão falhou. Pela raia, em Vinhais, bandos de malfeitores +assalariados tinham tentado um simulacro de luta contra a +existência do novo regimen. Fugiram. A notícia do fracasso voou +por todo o país com rapidez. Anselmo soube-a de manhã, na cama, pela +criada, e já se não quis levantar. Adoecera. Queixou-se de arrepios, +gemeu, disse à mulher que mandasse vir o médico. + +--E para a farmácia, quem vai? + +--Vai a senhora, rosnou, de mau humor. + +E abafou-se na roupa. + +O médico veio e receitou: era intestino. Como republicano, falou do +caso. Anselmo, mordido de curiosidade, desejou conhecer toda a acção nos +mínimos detalhes: quantos eram, quem vinha, quem comandava e por último, +convencido da derrota, da inanidade daquele esfôrço ridículo, perguntou: + +--E dos _nossos_, quem foi? + +--Dos nossos?! interrogou o médico, sem perceber. + +--Sim, dos rèpublicanos: quem é que o govêrno mandou a correr aquela +tropa fandanga a ponta-pé? + +O médico, que era um homem distraído, respondeu com indiferença: + +--Não sei; creio que ninguêm; nem se pensou em tal, ilustre +correligionário... + + +Á tarde, Anselmo poude sair. Não tinha febre. O intestino desatou a +funcionar melhor e nem foi preciso medicar-se. + +--Mas que ideia aquela, dizia êle, no club, a uma roda de amigos +embasbacados,--que ideia aquela da restauração! São doidos!... A +Rèpública tem, não há dúvida, alguns defeitos, sou eu o primeiro a +reconhecê-lo; mas tirem-se-lhe! O que todos devemos fazer é trabalhar +para que as novas instituições sejam aquilo para que as creámos.--Não é +isso, Teotónio? rematou, voltando-se para mim, que o escutava transido. + +E com descaramento: + +--Você tem-me ouvido muita vez dizer isto mesmo; você sabe que eu já no +tempo da monarquia era tanto ou mais liberal do que você, que se tem por +histórico. + +Eu, moita. + +--Você não fala? não diz nada? + +Afastei-me prudentemente. Notei que ia rebentar de indignação +contra aquele farçante; mas ao mesmo tempo sentia--como sentíamos todos +aliás, diante dêle--que nem que fizesse ou dissesse o dôbro do que dizia +e fazia, algum de nós teria a coragem de o desmentir! + + +Assim se consumou pois a adesão solene do sr. Anselmo a Rèpública. Tudo +o que veio a seguir, gréves, intentonas, zaragatas, a incursão de +julho... tudo, numa palavra, encontrou-o já pela frente, tão decidido e +jacobino, ou mais ainda do que aqueles que se gabavam de o ser. Logo que +se organizaram os partidos, Anselmo filiou-se nos _democráticos_. E o +ódio ao padre, o horror ao padre, a fobia do padre obcecava-o de dia e +de noite. + +Uma vez, um dos ministros foi a Vizeu: pespegou-se lá, com o Teotónio e +o administrador (aquele administrador que êle quis matar) e o Menezes +jornalista, que tambêm já era _democrático_. Assistiu ao jantar, fez um +brinde condenando o Clero, «êsse Clero infame a que pertencêra, não se +sabe porque caprichos da sorte, o célebre, o liberalíssimo bispo daquela +terra!». Falou depois de Viriato, e terminou com um viva à Rèpública que +atroou o vasto recinto do teatro onde o banquete se realizava. + +O ministro, sensibilisado, ergueu-se para agradecer. Discursou +pausadamente durante 20 minutos, empunhou a taça por fim, e pediu a +todos que o acompanhassem e bebessem à saúde de Anselmo Nogueira, +«figura prestimosa da Rèpública, homem de bem às direitas, livre +pensador e companheiro fiel dos tempos da propaganda.--Hip! hip! hip! +Hurrah!». + +As taças tilintaram. Anselmo, carregado, chorou. E Teotónio, batendo com +a mão no ombro do administrador de Moimenta, segredou-lhe: + +--Lá intrujou o ministro, o patife! Companheiro fiel dos tempos da +propaganda, ouviste? Que desafôro! + +O administrador comentou: + +--E livre pensador, filho! Parece que o estou ainda a ver de lanterna e +de opa na procissão do Senhor dos Paços! O que é o mundo!... + +Eu puz-me a considerar, palitando os dentes. + +--Então e nós? indaguei por fim, despeitado. + +--Nós? nós? Essa agora! Nós não saìremos nunca da cêpa torta, meu +velho... Este Anselmo, êste farmaceutico, que ali vês recostado numa +cadeira, é o modelo do político português. Maioral no tempo da +monarquia, maioral se vai tornando dentro da Rèpública. Era de esperar! +Pois se os monárquicos é que prepararam isto com os seus erros, se êles +é que deitaram a monarquia a terra, não achas justo que quem plantou a +vinha pense tambêm agora em comer os cachos?... + + * * * * * + + + + +Candidinha Cerdeira + + +(Novela romântica) + + + + +Candidinha Cerdeira + + +(Novela romântica) + + «Pasmei, como a gente pasma até certa idade, das maravilhas que se + fazem no coração das raparigas.» + + CAMILO. + +Em casa da D. Leonor, viuva do juiz Cerdeira,--que era irmão do afamado +cónego Amorim Cerdeira, vigário geral na diocese d'Angra--falou-se muito +toda essas noite na vinda do novo professor do liceu. + +Chamava-se Hipólito e trouxera a irmã, Alzira, rapariga loira que usava +uns chapeus enormes e punha beladona detrás das orelhas para fazer os +olhos bonitos... + +Era uma excêntrica. A história da vida e obras de certa princezinha +otomana, filha dum velho imperador de Constantinopla, extravagante +até à loucura em matéria de garridice, lida num volume que o irmão lhe +emprestára, pô-la em termos de aspirar a utopias: desejaria banhar-se +num lago d'aguas perfumadas, ungir o corpo d'óleos aromáticos, ter um +jardim suspenso e uma multidão de escravas que fossem todas as manhãs +colher o orvalho das flôres... para ela refrescar o rosto. + +Custára-lhe imenso a deixar Lisboa e vir assim encafuar-se numa +aldeia,--porque era positivamente uma aldeia aquele feio e triste burgo +d'aspecto desolado e monótono, onde não conheciam ninguêm. + +Emfim, para quem trazia os nervos combalidos dos sobressaltos e +incertezas das grandes horas da Revolução, aquilo até certo ponto +convinha. Tinha amenidades de paraiso a paz pôdre, o sossêgo vegetativo +e pacovio daquela terra pequena, com sua vida imutável, seus hábitos +conservadores e sedentários, um modo bisbilhoteiro de vir às portas e às +janelas espreitar, e certo _centro_ palreiro de maledicência e política, +que logo lhes disseram ser ali a loja do _amigo Palma_. + +Quem pôs a cidade ao par de toda a biografia do professor e da irmã foi +o Malafaia, o grande bacharel Malafaia, de quem o dr. Marim, médico do +partido, dizia: «--Êste não se formou: formáram-no...»--Conhecia-os de +lhe terem sido apresentados há anos na Figueira da Foz. Alzira +confessou-lhe agora, quando os visitou, que gostava muito da cidade. + +--O quê! sério? + +Sério. Dava-se bem com os ares, que eram puros, saudáveis, e com a água, +magnífica! Apenas uma única coisa a contrariava devéras: ter de viver +num hotel.. + +Malafaia reconheceu que havia em todas aquelas referências uma pontinha +de malícia. + +--No hotel? disse.--E porque é que V. Ex.^as não arrendam uma casa? + +--Porquê? Ora essa; o doutor nem conhece a sua terra... Porque as não há! + +Rialmente não as havia. Que aborrecimento! + +--Eu não sei o que os senhores fazem ao dinheiro...--tornou Alzira, +achando móle e carregando. + +--Tambêm o não há...--respondeu o bacharel. + +Todos riram com a resposta. O professor declarou no emtanto achar-se +resignado, contente... Apesar dêsses pequenos defeitos--e qual era a +terra que os não tinha?--aquele meio era delicioso. + +--Só esta pacatez!... + +E abeirou-se da janela, encheu os pulmões do ar puro que vinha das altas +montanhas distantes. + +--Quer saber? murmurou,--minha irmã, a primeira noite que aqui ficámos, +não conseguiu pregar ôlho... + +--Então? Porquê? + +--Por causa do silêncio! + + +D. Leonor vivia com a filha, Maria Cândida,--a Candidinha--que andava +agora nos dezoito anos e ainda engatinhava quando o pai morreu de +congestão cerebral. Reunia aos sábados. Iam quase sempre o juiz da +comarca e a mulher; o sr. Xavier--o _Xavier das massas_--solteirão +abastado e artrítico; o dr. Marim e às vezes uma D. Josefina, tambêm +viuva, que fôra operada por êle duma doença d'útero. Tudo gente de +idade. Maria Cândida aborrecia-se daquela vida. A mãe andava sempre a +dizer-lhe: + +--Que cara que tu trazes, rapariga! Nem parece que te lus o que comes. +Endireita-te! Que há de dizer a outra gente. + +O dr. Marim tinha um facataz pela pequena. Achava-a esperta, +interessante, em tudo revelando um carácter diferente da vulgaridade. +Dedicára-se-lhe por isso com um entranhado amor de pai, em certas +ocasiões surpreendendo-se a chamá-la, a acarinhá-la como se ela +rialmente fôsse do seu sangue... Tambêm, a cachopinha, logo de tenra +idade correspondia àquele amor; e quando o médico, a brincar, lhe +perguntava se queria ir com êle, fugir da mãe para longe, a petiza +saltava-lhe ao pescoço, a cobri-lo de beijos, sem dizer palavra,--lá no +fundo a desejar que êle a levasse... D. Leonor sorria; intimamente +porêm desgostava-se. Desenvolveu-se à pressa, espigou dum dia para o +outro, Maria Cândida. Todos diziam:--«Está uma senhora!» E deu então em +andar triste, murchita, nervosa, a ponto de a mãe se alarmar, +perguntando ao médico o que seria. O médico ria-se, receitava: + +--Banhos... Água p'ra cima daqueles nervos! E deixe-a saír, não a prenda +em casa, que estas idades querem sol... + +Maria Cândida tinha-lhe dito um dia: + +--A mamã quer-me para freira, não há dúvida. Tem medo que eu saia, +proíbe-me que chegue a uma janela, não me deixa mecher se não nos livros +do tio Cerdeira, que são todos em latim. É pior! + +O médico ficou a ruminar a gravidade daquele comentário; «é pior!»; +distraindo o olhar pela variada, profusa, quase incongruente decoração +da sala, onde D. Leonor recebia aos sábados. A rapariga tinha rasão: +educar, pensava êle, é formar seres conscientes, livres, não é torcer +aptidões e tendências naturais por forma a amoldá-las ao próprio +interesse de quem educa. Dizer a alguêm: «has de ser isto ou has de ser +aquilo, porque eu quero, porque convêm, porque é assim», e não admitir +sequer que êsse alguêm raciocine, ou sinta, ou queira doutro modo,--é um +absurdo. Tão grande como se uma pessoa que tivesse fome em dado momento, +exigisse dos mais, no mesmo instante, a mesma vontade de comer... + +O médico, por fim, demorou os olhos sôbre um enorme quadro exposto numa +das paredes do fundo, que representava um trecho de paisagem oriental: +palmeiras, filas de camelos pensativos e gibosos; e um beduino +barbinêgro, prosternado, osculando o solo poeirento, onde poisára o +cajado de larga crossa e as babuchas de palha de arroz... + +O dr. juiz nunca via aquilo que não exclamasse:--Lindo!--e encavalava a +luneta para ler o nome do autor, que lhe esquecia sempre. + +Maria Cândida sentou-se ao piano. Imprimia ao que tocava um movimento de +embalo, vagaroso e triste, que tanto podia traduzir a influência +duma vida pendular, claustral e monótona, reflectindo-se-lhe nos +sentimentos, como a aspiração vaga e inquieta duma alma que procura no +ritmo da música o ritmo do vôo... + +Conheceu Hipólito num domingo, à saída da missa, onde o professor fôra +acompanhar a irmã. Malafaia, que aparecia em toda a parte por um +maravilhoso dom de ubiqùidade, mal os avistou, fez as apresentações. + +D. Leonor não gostou. Aconselhára-a o sr. Xavier que não quisesse +relações com semelhante gente: «gente de Lisboa, sabe? uma educação +muito livre.» E torceu o nariz, fez o gesto vago de quem prevê calamidades. + +Durante a missa Maria Cândida notou que o professor a fitava com uma +curiosidade insistente. Tinham ficado todos, casualmente, em cima, no +côro. Através dos balaústres ela via o padre ao fundo, oficiando; e +atrás, enchendo a comprida nave, o povinho das aldeias que vinha aos +mercados semanais. + +Hipólito ficára junto de Alzira, que trazia como sempre um chapéu +escandaloso, e observava os menores gestos de Maria Cândida. Viu-a abrir +o livro, persinar-se, bater no peito devotamente quando o padre +consagrou a hostia e ergueu o cálice e, no silêncio religioso da igreja, +o som da campainha vibrou, duas vezes, com solenidade e cadência. + +Um raio de sol filtrou a sua luz pura por uma das altas janelas da nave +e foi refractar-se nos pingentes dum lustre de cristal pendente da +abóboda, incidindo por fim, já irisado, no cabelo, nas faces, no manto +azul duma Senhora das Dôres, que chorava no altarzinho duma das capelas +laterais... Maria Cândida resou-lhe uma oração fervorosa e a Virgem +pareceu sorrir por entre as lágrimas, agradecer, no seu banho de luz--no +que Maria Cândida viu um sinal de bom agoiro... + + +Quando lhe apertou a mão, cá fora, e a poude observar à claridade crua +do meio dia, perto de si, Hipólito ficou encantado. Era o tipo sonhado, +inédito, da beleza inculta, da simplicidade provinciana. Tinha na fala +o sotaque da pronúncia beirôa, autêntica, sibilante de _ss_; e +nos olhos um ar assustadiço, implorativo e meigo, de herbívora. + +A caminho de casa, Alzira disse ao irmão: + +--Se um dia te desse para o casamento, gostava que casasses com uma +rapariga assim... + +E êle: + +--Quem havia de dizer que numa terra destas!... + + +D. Leonor guardava a filha como um dia santo. Não a votava decerto, +estèrilmente, ao celibato, mas reservava-lhe um destino a seu gôsto. Não +a tinha trazido no ventre? Não a tinha criado, educado, sofrendo por ela +penas e reveses? Sabe Deus! + +--Quando se tem a tua idade, prègava-lhe, não se pensa, não se reflecte, +deixa-se a gente levar pelas aparencias; mas depois... Teu pai, quando +casámos, não tinha vintêm,--e diziam que era esperto... Ao princípio +vi-o muita vez a chorar, a arrepelar-se, a pensar em morrer. De que lhe +servia a esperteza? Serviu-lhe mas foi o irmão, que era um homem de tino +e de fortuna, com amigos a valer que lhe arranjaram o despacho... + +Maria Cândida escutava sem retorquir. Percebêra que a mãe queria casá-la +com o Xavier.--O Xavier! Um velho! um antipático que usava meias de lã +ásperas como urtigas, que desabotoava o colete depois de jantar e, +sobretudo, que podia ser avô dela! Metia-lhe horror e repugnância tal +ideia. Nunca! Nem que tivesse de ficar solteira, como as tias de +Freixinho... + +Uma amiga do colégio--a Matôso--tinha-lhe jurado que o professor andava +com boas intenções; que aquilo não era um passatempo; que lhe afirmára o +Malafaia--sabes? o Malafaia que agora me faz a côrte...--que o casamento +era infalível. + +Ela punha-se com evasivas: + +--Pois sim... Eu então já ouvi dizer que era comtigo... + + +Entretanto o namôro progredia. Não era segrêdo para ninguêm que se +carteavam e que tinham entrevistas do mirante do jardim. Em toda +a parte se comentava isto: a paixão do professor do liceu e da +Candidinha Cerdeira. + +E amiudava-se o caso, referiam-se pormenores excitantes. Havia quem +tivesse visto o professor, feito Romeu, trepar por uma escada de corda +para o muro do quintal! Méra invenção, claro. Mas o Matos do govêrno +civil tambêm vira--porque via sempre tudo e jurava ser verdade por duas +filhas que lá tinha em casa. + +D. Leonor deu conta que Hipólito lhe passava repetidas vezes à porta, +que se pespegava horas e horas no estabelecimento da esquina a olhar +para as janelas. Estremeceu de angústia! Deu terminantes ordens à filha, +que passou a habitar os aposentos interiores do prédio. O sr. Xavier +tinha-lhe abertamente declarado, submetendo-se a tudo: + +--Arranje a sr.ª cá e chame-me quando fôr preciso... + +Era o momento! + +Mas, sendo mulher, fraca, portanto, e irresoluta, quis estribar-se na +opinião do médico, pessoa tambêm da sua inteira confiança. + +--A minha opinião? disse-lhe êle.--Mas alguêm tem que dar para aí a sua +opinião? + +Ela encarou-o com espanto, sem compreender. + +--Entendo que um casamento deve ser feito à vontade dos que se casam, +explicou o médico.--Casam bem? casam mal? Lá é com êles... + +--Perdão, interrompeu a viuva.--Eu, que sou a mãe, tenho naturalmente +que intervir dalgum modo na orientação, ou na escolha... + +--Conforme, minha sr.ª, conforme... Se se trata apenas de orientar, de +dirigir a sua filha nêsse passo, está bem; mas propriamente a _escolha_, +é a ela só que pertence. Os filhos não são--como muita gente póde ainda +erradamente presumir,--uma legítima propriedade dos pais... Os filhos +são pessoas independentes, com direitos, com atribuições... + +--De maneira que o doutor condena a minha atitude? Entende que eu devo +desinteressar-me por completo do futuro da minha filha?... + +--Por completo!? Mas quem pensa nisso? Por completo, não, evidentemente... + +--Bonita doutrina, não haja duvida, murmurava D. Leonor sem o ouvir, +fula, mordendo o beiço, batendo nervosamente com o leque no joelho, +repetidas vezes.--«Casa-te, casa-te p'r'aí, rapariga, com o primeiro que +te apareça...» Haviamos de vê-las bonitas, se assim fôsse!... + +O médico desistiu de discutir. + +--Bem! rematou, erguendo-se,--para terminar: quer V. Ex.ª um conselho, +um conselho de amigo, de pessoa que conhece um bocado a vida e que tem +levado muito ponta-pé e aprendido à sua custa o pouco que sabe? Quer? + +D. Leonor não respondeu. + +--Não obrigue sua filha a casar com semelhante homem. + +--Ora essa! Com quem quer o doutor então que ela case? + +--Sei lá! Mas naturalmente com quem ela quiser... + +E pôs termo. + + +D. Leonor não desanimou. A manobra do casamento com o velho seguiu seus +trâmites. Na cidade a indignação era geral. Para mais havia constado a +scena da entrevista com o médico, as suas discordâncias, o ligeiro amuo +subseqùente... + +--Víbora! víbora! dizia-se.--O dr. Marim bem a conhece... + +E formulavam-se as piores insídias: que o ilustre Xavier era amante da +D. Leonor e que impunha agora o casamento com a filha sob pena dum +escândalo. + +Havia quem gostasse disto, havia quem não gostasse; a maioria dizia: + +--É bem feito! aquilo não se faz... + +No cúmulo da revolta, Malafaia, em verdadeiros comícios nas lojas, +lembrava que era preciso salvar aquela criança custasse o que +custasse... E com teatral entono, instigava: + +--É preciso ir lá (fazia o gesto de quem aponta uma Bastilha) arrombar +as portas e pôr a infeliz no ôlho da rua! + +A coisa estava neste pé. + + +Certo dia o dr. Marim recolhia a casa, cedo, para almoçar. A criada, uma +velha servente encarquilhada e sêca como uma casca de noz, a coxear da +sciática, disse-lhe, mal êle se poz a desdobrar o guardanapo: + +--Então, já sabe? A menina Candidinha parece que já não casa com o sr. +Xavier. Está desfeito. + +O médico teve um gesto de mau humor irreprimivel: + +--Lá esta você! Todos os dias novidades! Quando é que esta criatura se +cansará de dar novidades? + +E desatou a rilhar o bife sem vontade. A velha rodou sôbre os +calcanhares, saíu da sala. + +--Pois é tudo cheio cá na cidade, insistiu quando voltou.--A menina +julgo que sempre confessou... + +--Confessou o quê, mulher? + +--Olha o quê! O que já corria: que é amante do professor... + +O médico ergueu-se de golpe, lívido, transfigurado, fazendo +recuar até à porta a pobre velhota espavorida de o ver assim: + +--Crédo! santo nome de Deus! mas que tem? murmurou, supondo que o médico +fôra acometido de loucura. + +--Você ouviu isso? + +--Ouvi, sim senhor. + +--A quem? Aonde? Diga. + +--Por aí, diz-se em toda a parte; é tudo cheio... + +Êle levou ambas as mãos ao crânio. Esteve assim, sem se mover, sem dizer +palavra, por espaço de alguns minutos. Depois arremessou o guardanapo, +empurrou a cadeira, pediu o chapéu e a bengala para saír--e saíu, +deixando a mulher boquiaberta, sem perceber coisa nenhuma. + + +Quando, uma ou duas horas depois, subia as escadas da casa de Hipólito, +o dr. Marim ia cabisbaixo, taciturno, como se uma grande dôr o tivesse +trespassado mortalmente. + +Estivera com D. Leonor que lhe confirmou entre recriminações e prantos a +tremenda nova da desonra da filha. Fôra ela, a dissimulada, quem +se denunciára--com um descaramento, uma serenidade, um cinismo, calcule +o doutor, que deixava a perder de vista as maiores desavergonhadas da +terra! E era sua filha! D. Leonor não sabia dizer como se contivéra e +porque a não estrangulára... Sua filha, tinha dito? Não! Maria Cândida +morrêra! Essa que ainda ali conservava, a dentro do seu lar, por uns +restos de comiseração, mas que nunca mais quereria ver, não era sua +filha: era uma mulher perdida! + +E o sr. Xavier? Ah! êsse então, coitado, tinha ficado como morto. +Compreende-se... Porque Maria Cândida levára a sua audácia até ao ponto +de dizer tudo diante dêle, diante das criadas e dos convidados,--era um +sábado--alto e bom som, para que não se perdesse pitada: «A mãe queria +casa-lá com o Xavier das massas, por dinheiro; pois bem, ela afirmava +ali terminantemente que não casaria: primeiro, porque o detestava; +segundo, porque tinha um amante, o professor!» + +--Veja o meu amigo, agora, o que foi fazer! comentou o dr. Marim, +voltando-se para Hipólito, a quem acabava de expor a situação com esta +nitidez.--Que cabeça a sua! Que responsabilidades! + +Hipólito sorriu ligeiramente, murmurou: + +--Até que ponto nos podem levar os desvarios do amor, doutor, não é assim? + +--É assim mesmo, concordou o médico.--Mas um homem nunca tem nada a +perder com estas coisas; agora uma rapariga!... + +--Perde tudo. + +--Sim, tudo! + +Houve um silêncio. + +--O sr. não andou bem, Hipólito, confesse, não andou bem... + +--Eu?... + +--É claro. + +--Na sua opinião, pelo menos, doutor... Já me cheguei a convencer de que +sou rialmente um canalha... pois que como tal procedo... + +--Leviandades, leviandades...--atenuou o médico.--Eu habituei-me a ver +em Maria Cândida uma espécie de filha, desde muito nova. Não +admira. Tive-a nos braços quando nasceu, pequenina, vi-a depois medrar, +crescer, fazer-se mulher à minha vista--afeiçoei-me. Que quer? +Emfim...--limpou uma lágrima que lhe rolou ao comprido da face--coisas +da vida! + +Depois, apreensivo: + +--O sr. o que pensa fazer agora?... + +Hipólito ficou sem responder, um bocado, com o espírito absorvido num +pensamento cruel e longínquo, que o fazia empalidecer. + +--Vou confiar-lhe um segrêdo, disse, por fim, numa resolução +firme.--Devo-lhe muitas atenções e custar-me-ia sinceramente que o +doutor ficasse formando de mim um conceito menos lisongeiro... + +--Fale, meu amigo, fale, disse o médico ancioso por o +ouvir.--Prestar-lhe-ei, creia, toda a atenção. Fale... + +Hipólito hesitou; aprumou-se, procurando dar às suas palavras um tom +solene, de grande sinceridade. + +--Maria Cândida não está culpada; Maria Cândida não é, nem nunca foi +minha amante! + +--Que me diz?! + +--A verdade! Maria Cândida é tão virtuosa, hoje, tão pura e imaculada +como na hora em que pela primeira vez a encontrei. Não me acredita? +Juro-lhe. + +O médico fitou-o, desconfiado, surprezo. + +--Conhece esta letra? disse Hipólito. + +E colocou-lhe diante dos olhos um papel cuidadosamente retirado da +carteira. + +--Conheço. É a letra de Maria Cândida. + +--Pois é. Leia! + +O médico obedeceu. E quando terminou, os olhos arrasados de lágrimas, +deixou-se caír sôbre uma cadeira, p'ra ali, varado de espanto. + +--É assombroso! + +Hipólito arrancou-lhe das mãos, trémulas pela comoção, a carta, cujo +final releu em voz alta: «... Pois bem. Afirmarei, ou darei a perceber a +todo o mundo que sou tua amante; dêste modo nenhum outro homem me +quererá...» + +--É assombroso! repetia o médico estonteado.--E é uma criança! é uma +criança que faz disto!... + +Emquanto Hipólito, a chorar, concluia: + +«Se me desmentes... mato-me. E tu bem sabes--sim, tu bem sabes!--como eu +sou capaz de cumprir fielmente o que prometo...» + + * * * * * + + + + +Eureka! + + + + +Eureka! + + "--Je vous demande pardon: vous étes bien monsieur Boubouroche?" + + COURTELINE. + + +ACTO I + + _No escritorio dum advogado._ + +O CLIENTE + +Chamo-me Teodorico da Silva, negociante, com estabelecimento de bebidas... + +O ADVOGADO + +Sim senhor. Faz o obséquio de sentar-se. + +O CLIENTE + +O meu caso é simples, conta-se em breves palavras. Sou casado, e minha +mulher... minha mulher engana-me, descaradamente, com o primeiro +caixeiro da casa. + +O ADVOGADO + +É então uma acção de divorcio que o senhor deseja intentar?... + +O CLIENTE, _presuroso_: + +Perdão... Eu ainda não disse a V. Ex.ª o que desejo. (_Pausa_). Eu me +explico: Sou um homem honrado, nunca roubei nada a ninguêm, mas sou +tambêm um temperamento desgraçado, um sentimental, um fraco. Não posso, +por exemplo, ver sangue. Para lhe falar com franqueza, nunca na minha +vida--e já tenho cincoenta anos--peguei numa arma! Isto tudo vem para +lhe explicar o motivo porque não matei minha mulher ontem à noite quando +entrei em casa e a vi com _êle_, em doce colóquio amoroso, mais que +amoroso! sôbre um canapé de estimação... + +O ADVOGADO, _interessado_: + +Sim senhor. + +O CLIENTE + +Ora porque sou um homem honrado, respeitador das leis e dos costumes, +preciso evidentemente dar uma satisfação ao mundo, que seja, ao +mesmo tempo, uma satisfação à minha consciência. Posta de parte, pois, a +ideia duma solução violenta, resta-me, claro, essa a que V. Ex.ª se +referiu há pouco, isto é--o divorcio. + +O ADVOGADO, _interessadíssimo_: + +Sim senhor... + +O CLIENTE + +Mas o senhor não sabe--porque não é casado--o que são vinte e tantos +anos passados com uma mulher... + +O ADVOGADO, _impressionado_: + +Faço ideia... + +O CLIENTE + +Não. V. Ex.ª não póde fazer ideia. É tudo a prender-nos, sabe? É a +companhia, as inclinações, o paladar... Emfim, em conclusão, o divorcio +por coisa nenhuma deste mundo. + +O ADVOGADO, _cofia a barba e medita apreensivamente no caso_. + +O CLIENTE + +Pensei então noutra coisa... + +O ADVOGADO, _ancioso_: + +Diga! + +O CLIENTE + +Pensei então em despedir o caixeiro. (_Sinal de aprovação do advogado_). +Mas aqui outro grave obstáculo se levanta! O caixeiro é um antigo +empregado da casa, muito conhecedor do assunto; é êle, póde dizer-se, a +alma do negócio! Despedi-lo seria ver fugir a freguezia, ver ir tudo por +água abaixo... sem apelação! + + _Ficam os dois calados. Ouve-se a respiração alta do cliente, como + um estertor._ + +O ADVOGADO, _erguendo-se_: + +Pois meu caro amigo, visto isso, não sei; não sei o que deva +dizer-lhe... (_Estende-lhe a mão pesaroso_). O melhor de tudo é ter +paciência: a paciência é uma virtude... + +O CLIENTE, _desalentado_: + +E o mundo? E então o mundo o que dirá? o que dirá? + +O ADVOGADO + +O mundo dirá que o meu amigo é uma excelente pessoa, que sua mulher foi +uma ingrata em lhe fazer o que lhe fez... + +O CLIENTE, _com uma lágrima a borbulhar ao canto do ôlho_: + +E foi. Palavra de honra que foi. + + _Despede-se abatido._ + + +ACTO II + + _Numa rua concorrida. Mêses depois. Ao dobrar a esquina encontram-se + o cliente e o advogado._ + +OS DOIS, _ao mesmo tempo_: + +Oh!... oh!... Por aqui? + +O CLIENTE + +Ora ainda bem que o encontro. + +O ADVOGADO + +Muito folgo em o encontrar... + +O CLIENTE, _com o ar alegre, o semblante desanuviado e risonho; sem +rodeios_: + +Sabe que achei uma saída admirável para aquilo?... + +O ADVOGADO, _surprêso_: + +Sim? + +O CLIENTE + +É verdade. Não matei minha mulher, não despedi o caixeiro, não me +divorciei, não tive que ter paciência... e dei emfim uma satisfação ao +mundo e a mim próprio. + +O ADVOGADO, _abismado_: + +Devéras?! + +O CLIENTE + +Devéras. Lembra-se de eu lhe ter contado como tudo se passou? + +O ADVOGADO + +Lembro. + +O CLIENTE + +Que os encontrei em cima dum canapé e tal? + +O ADVOGADO + +Lembro. + +O CLIENTE + +Pois bem: vendi o movel... + +O ADVOGADO + +O...? + +O CLIENTE + +Vendi o canapé!! + + +CÁI O PANO... DAS NUVENS + + * * * * * + + + + +O crime... + + +O crime... + + "C'est ainsi qu'une faute est irreparable." + + J. PAYOT. + +Helena fitou-o então nos olhos e inquiriu sem motivo: + +--Estás zangado? + +--Não. Porquê? + +Insensivelmente voltaram ainda a falar do crime. Êle manifestou-se +contra aquele processo bárbaro, violento, de fazer justiça. Todo o homem +que um dia descobre que sua mulher o atraiçoa, tem um só caminho +racional a seguir: abandoná-la. + +Helena calou-se. + +--Depois, tudo se sabe, tudo, filha!... murmurou êle, à laia de +vaticínio.--De que serve andar a encobrir, um dia e outro, +semanas e mêses inteiros... se tudo se vem a saber afinal? + +Fitou-a demoradamente nos olhos, como a querer avaliar o efeito das suas +palavras. E porque a fitava êle assim? Porque começava a sentir êsse +desejo forte, essa terrivel necessidade de a observar, sondando os +mínimos recantos da sua alma, onde pela primeira vez, desde que a +conhecia, notava misteriosos e traiçoeiros abismos?... + +Chamou-a brandamente, disse-lhe: + +--Helena, que me ocultas tu? Tenho a impressão de que se passou aqui +alguma coisa, na minha ausência, que desejas que eu ignore... Ah! não +negues... leio-to nos olhos! + +Ela baixou instintivamente a cabeça. + +--Alguma coisa?!...--disse por fim, em voz pouco firme, esforçando-se +por manifestar estranhesa e não conseguindo senão comprometer-se ainda +mais, aumentando aquelas desconfianças. + +Êle tremia todo como varas verdes. Lançou mão da coragem que lhe +restava, para lhe dizer com serenidade: + +--Vamos, tu não me tens na conta dum imbecil, não é verdade? Deves ter +presumido portanto que os factos aqui ocorridos, desde que cheguei, +tenham despertado o meu reparo. + +--Os factos?! Quais factos?!--dissimulou. + +--Tudo; o que se está passando... + +--Mas tu estás louco!... Eu é que devo estranhar-te. Nunca te vi assim +desconfiado, acredita. + +--Desconfiado! Mas não vês os teus modos, os teus gestos, as tuas +palavras... o teu rosto! Anda cá... + +Pegou-lhe numa das mãos e diante do espêlho da sala: + +--Vê aí o teu rosto! + +Ela esquivou-se, revoltada: + +--Deixa-me! É de mais! + +--Não te deixo, gritou exaltado, já sem se poder conter.--Vais-me dizer +tudo, tudo. Nada de rodeios, de frases, apenas e cruamente a verdade: o +que houve? + +--O que houve!?--exclamou aterrada. + +--Sim, o que houve! + +--Deixa-me! deixa-me! + +Não poude mais. Agarrou-lhe nos pulsos, arrastou-a para defronte da luz, +intimou-a em voz alta, imperativa, onde havia inflexões de súplica e +latejava ao mesmo tempo uma angústia horrível: + +--Fala! anda... diz-me tudo! + +Os seus olhos faíscavam, tinham relâmpagos de cólera. + +--Larga-me!--implorou Helena.--Não olhes para mim dessa maneira... Tenho +medo! + +--E porque tens tu medo de mim?! + +Aquilo já não era uma altercação, uma scena de ciumes desagradável, uma +simples desavença entre casados: era uma luta feroz, encarniçada, em que +cada qual porfiava por levar o outro de vencida. Apertou-lhe as mãos com +energia, de forma a fazê-la gritar: + +--Não, Alberto, não! Tu não estás em ti, deixa-me! Olha que me magôas, +deixa-me! + +Mal a ouvia já. Os seus protestos, os seus rogos, as suas lágrimas, o +desespero em que se debatia, mais o enfureciam: _quase_ lhe davam provas +do que se passára!... Mas o que se passára? + +E baixinho, ao ouvido, como quem insinúa uma calúnia, disse-lhe tudo o +que a sua mórbida fantasia arquitectára a êsse respeito, desde que a +suspeita entrára no seu cérebro e aí gerára a mais tremenda acusação que +podia pesar sôbre a honra duma mulher. + +Ergueu-se alucinada. Tinha no rosto o aspecto apavorado, trágico, de +pessoa que se vê agarrada pelas costas numa encrusilhada deserta. Deu um +grito, abriu os braços e caiu num sofá a estrebuchar. + +Alberto--nessa perfeita lassitude d'ânimo que sucede sempre a uma grande +catástrofe,--pôs-se a presenciar tudo, naquele momento, com uma +tranquilidade estupenda! Sentia-se por assim dizer mergulhado num grande +banho morno de indiferença e de tédio... + +Helena, debelada a crise inicial, com a cabeça entre as mãos, chorava, +arrepelava-se. E o marido sorria àquela dôr como se estivesse gosando as +delícias dum drama de sensação em que sua mulher fôsse uma sublime +artista e êle próprio, por desdobramento, um actor de mérito, +representando o papel de marido ciumento com a mais pura e +meticulosa arte! + +No fundo não aplaudia a peça, mas achava que os artistas iam bem... + +Deu uns passos ao acaso e, maquinalmente, dirigiu-se para o quarto. +Voltou, logo em seguida: tinha envergado à pressa o sobretudo e trazia +ainda na mão o chapéu e a bengala. Parecia-lhe ter ouvido gritar: +«Bravo! Bravo!»; que uma multidão ruidosa de espectadores se levantava +para saír da sala. Ouvia mesmo os comentários da ópera--porque era +afinal uma ópera!--pessoas que passavam, suas conhecidas, que êle +cumprimentava e lhe diziam: + +--«Gostou? + +--«Muito!» + +Helena atravessou-se-lhe no caminho: + +--Onde vais? Perdoa! Agora que te disse tudo porque é que me não +perdoas?... + +Só então deu acôrdo de si. Um assômo atávico de ferocidade o dominou. +Viu tudo negro! Agarrou Helena pelo pescoço e chegou a apertar. + +--Mata-me! mata-me!--gritou ela. + +Largou-a e fugiu. Desceu as escadas a correr. Helena tombára desmaiada +sôbre o soalho. Quando se viu no páteo parou. Abriu a porta devagarinho +e uma lufada do ar frio da noite entrou, e fez-lhe bem. Esteve uns +instantes a respirar, a arquejar, até que lhe pareceu ouvir passos. +Desceu então o último degrau e começou a caminhar ao longo da rua--sob a +inclemência do vento e da chuva que caía. + + * * * * * + + + + +Casa maldita + + +(Tragédia rústica) + + + FIGURAS: + + TÓNIO...........} + MANOEL..........} _irmãos_. + MARIA JOANA.....} + FRANCISCO....... _noivo de Maria Joana._ + O MÉDICO. + + Beira-Baixa, época actual. + + +Casa maldita[1] + + +(Tragédia rústica) + + _Cozinha com lareira numa casa de quinta. Noite d'inverno. Vento e + chuva desabridos._ + +FRANCISCO, _da porta, chamando_: + +Maria Joana! + +MARIA JOANA, _que vem de dentro, do interior da casa, com uma candeia +acêsa, voltando-se_: + +Crédo! Meteste-me um susto! (_Pendurando a candeia_). Entra! + +FRANCISCO, _entrando_: + +O pai? está melhor? + +MARIA JOANA, _abatida_: + +Na mesma... + +FRANCISCO + +Na mesma?! + +MARIA JOANA + +Ou pior... sei lá! A outra noite já o nem julgávamos. Um febrão! + +FRANCISCO + +Basta que sim. + +MARIA JOANA + +Sempre a variar... a dizer tolices... (_sente-se, dentro, gemer_). +Ouves? Lá está... + +FRANCISCO + +É verdade! Diacho, mas ontem parecia melhor... + +MARIA JOANA + +Sim, tem disso.--«Alembras-te» da minha mãe? + +FRANCISCO + +«Alembro». + +MARIA JOANA + +Não me sái da «'maginação» que é o mesmo mal. + +FRANCISCO + +Ágora! + +MARIA JOANA + +Um dia melhor, outro pior, té que por fim... (_Comovida_) É o mesmo mal. + +FRANCISCO + +Ora! + +MARIA JOANA + +Verás. Já d'ali se não ergue. + +FRANCISCO + +Sabes lá bem... + +MARIA JOANA + +Diz-mo o coração. E olha que para adivinhar... + +FRANCISCO, _depois dum silêncio_: + +Porque não mandam vocês à cidade, chamar o médico? + +MARIA JOANA + +P'ra lá foi o Tónio à bocado. Não tardam aí.--Pois que horas são? + +FRANCISCO + +Oito. Déram agora... + +MARIA JOANA, _calculando_: + +É isso. Foi com de dia. Não tardam. + +FRANCISCO, _depois dum novo silêncio_: + +E que diz o mestre Lourenço? + +MARIA JOANA + +O barbeiro? Olha o que há-de dizer! Que já se não entende com o mal, é +claro. + +FRANCISCO + +Sangrou-o? + +MARIA JOANA + +Sangrou. + +FRANCISCO + +E «óspois»? + +MARIA JOANA + +Cuidávamos que ficava. Fez-se muito branco, muito branco... os olhos a +encovarem-se-lhe... (_Tápa o rosto com as mãos, horrorisada_). Se tu o +visses! + +FRANCISCO + +Devia ter sido há mais tempo, talvez... + +MARIA JOANA, _desiludida, encolhendo os ombros_: + +Oh! + +FRANCISCO + +Há quantos dias adoeceu? + +MARIA JOANA + +Há treze.--É mau «númaro», não é? + +FRANCISCO + +Ora adeus! Fias-te nisso? + +MARIA JOANA + +Fio. + +FRANCISCO, _levemente trocista_: + +Esta bom. + +MARIA JOANA + +Quando a minha mãe morreu, um cão esteve a uivar aqui toda a santíssima +noite... + +FRANCISCO + +Foi o acaso. + +MARIA JOANA + +A Tereza Bógas casou a filha a uma terça feira e dia treze... + +FRANCISCO + +Bem haja ela... + +MARIA JOANA + +Ao cabo dum ano o marido deu-lhe cinco facadas... e matou-a! + +FRANCISCO + +Milagre fôra se a deixásse com vida... + +MARIA JOANA + +Que mais queres? + +FRANCISCO + +Nada, co'os démos: estou «'stifeito». Tira-me essas manias da cabeça; +dás em maluca. + +MARIA JOANA + +Se fôsse só isso!... E os palpites? Olha que tenho palpites tão certos, +«Fracisco», tão certos! E sonhos?... Ha dois dias sonhei que antes do +nosso casamento havia de se dar nesta casa uma grande fatalidade... + +FRANCISCO, _nervoso_: + +Bem; se continúas, vou-me. + +MARIA JOANA, _rindo_: + +Oh! «home»! julguei que eras mais forte do que isso!... + +FRANCISCO + +Não é; não gósto... + +MARIA JOANA + +Bem, bonda, não te zangues...--És meu amigo? + +FRANCISCO, _amuado_: + +Não sei... + +MARIA JOANA + +És, bem vejo. + +FRANCISCO + +P'ra que mo «prècúras», nesse caso?... + + _O vento assobia nas frestas, sacode os troncos das árvores, ululando._ + +MARIA JOANA, _num pressentimento_: + +E se eu morrêsse?... Casavas com outra? + +FRANCISCO + +Mau, mau, mau! bem digo eu... Faz favor de te calares, ou então... + +MARIA JOANA + +Esta dito. Eu hoje estou assim... Não é por mal.--Escuta! + + _Poem-se os dois a escutar._ + +FRANCISCO + +Parece que vem gente... + +MARIA JOANA + +Ná. É o vento. + + _Abre-se a porta de repente, com um empurrão sêco, e MANOEL entra, + embuçado; traz uma velha arma caçadeira que coloca a um canto. MARIA + JOANA, assustada, expele um grito quando o vê. FRANCISCO ergue-se + tambêm assustado._ + +MANOEL, _sorrindo, semblante mal encarado de facinora_: + +Meti-vos medo, p'los modos!?... Eu não sou o diabo, socegai!... + +MARIA JOANA, _mal refeita ainda do susto_: + +D'onde vens tu, «home», assim, a estas horas? + +MANOEL + +Que te importa? Mete-te lá com a tua vida! Ora o «estapor»! (_A +Francisco_) Um cigarro! + + _FRANCISCO oferece-lhe um cigarro._ + +MANOEL + +Olá! Êste é dos de cu aberto! Bravo, rapaz, estás um «fedalgo»! + +FRANCISCO + +Déram-mos. + +MANOEL + +Só a mim ninguêm me dá raça de nada! Tudo me rouba. Aqui então, nesta +casa... é tudo deles,--_dessa_ e do outro... + +MARIA JOANA + +Intrujão! Não no acredites, Francisco, é um intrujão. + +MANOEL, _crescendo para ela_: + +Intrujão? E tu, minha porca? E tu que és? + +FRANCISCO, _para o serenar_: + +Olha o pai, que ouve... + +MANOEL + +Quero cá saber do pai! Julgas que me consultaram agora para vir o +médico? Bem te digo eu: isto é deles! Não vem cá por menos d'uma libra! +Pois hão de êles pagá-la, se quiserem; nanja eu. (_Beija os dedos em +cruz_). Juro! + +MARIA JOANA + +Ninguêm to pede... + +MANOEL + +Uma libra! Nem que ma arrancassem com uma enxó, do peito... + +FRANCISCO + +Deixa lá! Vão-se os aneis mas fiquem os dedos. P'ra mais, livra-se uma +pessoa de remorsos. + +MANOEL + +Livra!... Livra-se mas é do dinheiro. Eu cá digo: quem tem de morrer, +morre. Todos hemos d'ir, paciência... É a obrigação. + +MARIA JOANA + +Eu dava a camisa do corpo por ver o pai com saúde. + +FRANCISCO + +Ouves? + +MANOEL + +O corpo dava ela por menos disso... + +FRANCISCO + +«Manel»! + +MANOEL, _refilão_: + +Que há de novo? + +FRANCISCO + +É tua irmã, bem vês... + +MANOEL + +Parabêns. Olha a princesa! + +MARIA JOANA + +Desalmado! (_Ouve-se dentro a voz do pai a gemer_). Pai! pai! Aí vou! + + _Sai correndo._ + + _FRANCISCO segue-a até a porta e fica a escutar. Pausa dalguns + instantes. A chuva bate com fôrca nas têlhas._ + +FRANCISCO + +Que noite! + +MANOEL, _à lareira, põe-se a cantar_: + +_Não sei que quer a «desgrácia» +Que atrás de mim corre tanto..._ + +FRANCISCO, _interrompendo-o_: + +Parece mal, «home»; cala-te! + +MANOEL + +Pois sim... + +_... Que atrás de mim corre tanto... +Hei de parar e mostrar-lhe +Que de vê-la não m'espanto..._ + +FRANCISCO + +Até é pecado. + +MANOEL + +Pecado e êles fazerem-me o que me fazem. + +FRANCISCO + +Estás doido. Que é que te fazem? + +MANOEL + +Desde muito novo eu tenho sido aqui um engeitado. Minha mãe quase me não +criou como filho. Vedou-me antes dos seis meses; nem os peitos me quis +dar!...--Já lá está, a pagá-las! + +FRANCISCO + +Ora! Vá a gente a ouvir-te. Tu és um doido. + +MANOEL + +Sou?--Porque dizes isso?... + +FRANCISCO + +Porque tenho rasões. + +MANOEL + +Talvez. Eu odeio-vos a todos! + +FRANCISCO + +A mim tambem? + +MANOEL + +A ti. Queres-me roubar... + +FRANCISCO, _pálido, recuando_: + +Eu?! + + _Ouve-se fóra ruido de passos e vozes de gente que se aproxima._ + +MARIA JOANA, _de dentro, a gritar_: + +Lá veem! lá veem! Abram a porta... (_vê Francisco arquejante, afogueado; +pára diante dêle_). Que foi? + +TÓNIO, _de fora, ao mesmo tempo, chamando_: + +Maria Joana! ó Maria!... Abram lá isso! Abram! (_Batem com força_). + + _Francisco corre a abrir a porta. Há confusão, reboliço._--«Santo + nome de Deus!» _diz Maria Joana. Entram o médico e Tónio._ + +O MÉDICO + +Ora até que emfim!... Boa noite! + +VÓZES, _a um tempo_: + +--Bôa noite. + +--Viva! + +--Passe vossa senhoria bem... + +TÓNIO + +Chegue-se vossa senhoria ao lume que deve vir gelado. O frio é muito. + +O MÉDICO, _aquecendo-se_: + +Aceito. Venho gelado. + + _Faz-se silêncio. O doente grita._ + +O MÉDICO + +É o doente? + +MARIA JOANA + +Saberá vossa senhoria que sim. O que aquela alminha tem sofrido, santo +nome de Deus! Se vossa senhoria o aliviasse daqueles tormentos, +por amor da sua senhora e dos seus filhinhos, se os tem... + +MANOEL, _do lado, chasqueando_: + +Êle não e casado, mulher! + +O MÉDICO, _voltando-se, reparando em Manoel_: + +Sou, sim senhor... Quem lhe disse a vocemecêe que eu não sou casado? + +MANOEL, no mesmo tom: + +Digo eu... + +O MÉDICO, _para Maria Joana_: + +Quem é êste homem? + +MARIA JOANA + +É meu irmão (_segreda-lhe qualguer coisa ao ouvido_). + +O MÉDICO + +Bem.--Vamos ver o doente. (_Indicando uma porta_) É por ali? + +MARIA JOANA + +Por ali; tenha a bondade... Vossa senhoria há de desculpar, é uma casa +de «probes»... + + _Desaparecem os dois falando, no interior da casa. Fora ficam os + tres homens: TÓNIO, o irmão e FRANCISCO. Nenhum deles diz palavra. + Um cão põe-se a uivar, perto._ + +FRANCISCO, _nervoso_: + +Olha o diabo do cão! É o vosso? + +TÓNIO + +É. Chama-o. + +FRANCISCO, _vai á porta a assobiar-lhe_: + +Eh! _Farrusco!_ Quieto! Venha cá! Quieto! + + O cão cala-se, mas d'aí a pouco põe-se a uivar outra vez. + +FRANCISCO + +Não há meio! Se fôsse meu dava-o, ou vendia-o... Punha-o com dono. +_Farrusco!_ (_assobia-lhe de novo_). + +MANOEL + +Deixa lá o animal! que mal te faz o animal? Tambem com êle te metes? +Aquilo foi desde que entrou o médico: cheirou-lhe a defunto... + +TÓNIO + +Bruto! + + _Os dois irmãos entreolham-se ferozmente. Passa entre êles uma + labareda d'ódio. Depois, MANOEL põe-se a cantarolar._ + +TÓNIO, _a meia voz_: + +Farçola! o que tu merecias... + +MANOEL, _que ouviu bem_: + +Tanto sopras no fole, que o fole um dia estoira... + +TÓNIO + +O quê? que dizes? + +MANOEL + +É cá comigo... + +TÓNIO + +Escuta. Quem paga ao médico sou eu, do meu bôlso, ouviste? + +MANOEL + +Bom proveito. + +TÓNIO + +As vinte moedas que ali estão (_indica um arcaz_) são da Maria Joana. + +MANOEL, _erguendo-se, encandieirado_: + +De quem? + +TÓNIO, _enérgico_: + +Da Maria Joana, já disse! O pai assim o quer. Cumpra-se a sua vontade, +mando eu! + +FRANCISCO, _intervindo_: + +Tónio, bem vês... A Maria Joana há de vir a ser minha mulher. Eu não +queria que por via disso... de dinheiro... + +TÓNIO + +Tá, tá, tá... não tens que «agarcer»; são dela. Eu é que mando aqui: sou +o mais velho. + +MANOEL + +Juro que te arrependes, Tónio! Cego seja eu de gôta serena. + +TÓNIO + +Pois cego sejas tu. + +FRANCISCO, _interpondo-se_: + +Olhem o médico! Tenham juizo, ó menos... + +O MÉDICO, _da porta, falando para dentro_: + +Sim senhor, tudo se há de arranjar, esteja socegadinho... isso pássa +(_entrando_). Pobre homem! + +TÓNIO, _avançando para o médico_: + +Está pronto, não é verdade? Já d'ali não «arrinca»... Morre? + +O MÉDICO, _querendo animar_: + +Vamos a ver; emquanto há vida... + +FRANCISCO + +Sim, emquanto há vida, Tónio, há esperança! Tem por dizer... + +TÓNIO, _desiludido, ao médico, abanando a cabeça_: + +Na. Póde vossa senhoria desabafar; eu cá sei o que vai haver esta +noite... Adivinho! + +FRANCISCO + +Ó «home», que genio! que fraqueza! Não vês êste senhor a dizer-te que +não. Êle é que sabe, que estudou... + +TÓNIO + +Pois sim. Estâmos sem pai, «Fracisco»! + +MARIA JOANA, _que vinha entrando e que ouviu o irmão dizer aquilo_: + +O quê! Morre? (_Pausa. Ninguem responde; dirige-se ao médico_). Morre? +meu pai morre? (_o médico cala-se_) Não me respondem! não me dizem nada! +(_levando as mãos á cabeça num desespero_) Ah, meu pai! Ah, meu +pai! Que não tenho outro... + +FRANCISCO, _confortando-a_: + +«Atão», Maria Joana, vem cá, vem cá. Olha que êle ouve. + +MARIA JOANA + +Deixa-me! Deixa-me!... Eu quero morrer tambem. Quero morrer, «Fracisco». + +FRANCISCO + +Nosso-Senhor ainda pode muito, cachopa! + +TÓNIO, _ao médico que está preparado para, saír_: + +Quanto ao trabalhinho de vossa senhoria, há de perdoar, nós lá iremos... + +O MÉDICO + +Descansem, quando puderem, não tenho pressa; arranjem cá a sua vida. +Agora o que é preciso é ir embora... Faz-se tarde. + +TÓNIO + +Pronto! (_a Francisco_) Ó «Fracisco», tu agora vais aqui com o sr. +«doitor», se te não custa, eu não posso... E trazes os remédios, +pelas almas. É um favor. + +FRANCISCO + +Vou e ponho-me aí num foguete, verás. Dentro de duas horas estou de volta. + +MARIA JOANA, _num gemido_: + +Leva a arma! + +MANOEL, _que tem estado sempre calado até aqui_: + +Leva-a, se a quiseres... Empresto-ta. + + _Todos se voltam, admirados da generosidade._ + +FRANCISCO + +Não é preciso; levo antes esta (_mostra um marmeleiro ferrado_) é mais +certeira... Bem hajas! + + _Dão as boas noites. Sai êle e o médico. Uma lufada d'ar entra, + quando se abre a porta, apagando a luz._--«Fechem a porta!» _ouve-se + dizer no escuro. A porta fecha-se com mão misteriosa... Tinha sido o + vento. TÓNIO, dentro, ás apalpadelas, procura a candeia, que + acende ao fogo duma acha, no lume da lareira, soprando-lhe para a + atiçar. A scena é lugubre. MARIA JOANA é uma rodilha, a um canto, a + soluçar._ + +TÓNIO + +Vá, rapariga! Cobra ânimo! Estas um engrimanço, uma dama... + + _MARIA JOANA parece reanimar-se. Limpa as lágrimas ás pontas do + lenço da cabeça. Vai ao vasal, tira uma tijela, e enche-a de água. + MANOEL nem palavra: fuma._ + +TÓNIO + +Para onde vai isso? + +MARIA JOANA + +É para o pai; não leva nada desde ontem... Pediu-me água, que dizes? +(_Tónio encolhe os ombros_) Soube-lhe tão bem a outra... Tinha-me dito: +«filha, dá-me de beber; tenho um fogo aqui dentro...». E eu dei-lhe de +beber. Parece que aliviou. O médico disse-me que lhe désse o que êle +pedisse. Dou? + +TÓNIO + +Se êle o disse... + +MANOEL, _de troça_: + +Dá-lhe vinho, dá-lhe vinho... + +TÓNIO, _furioso, agarra num banco e avança para o irmão_: + +Esmago-te como a um sapo, maldito, se te não calas! (_Os seus olhos +chispam lume_). + +MANOEL, _erguendo-se_: + +Experimenta e verás o trôco... (_Diante dêle_): Sim! sim! + +MARIA JOANA, _suplicante, entre os dois_: + +Tónio! «Manel»! Nosso-Senhor castiga-vos!... Por Deus! Ai, Jesus! + +TÓNIO, _cedendo_: + +O que te vale... + + _Sentam-se ambos, calados, tacitumos, a distância. MARIA JOANA fita + um momento o grupo. Respira profundamente, desolada. Entra depois no + quarto do doente, cabisbaixa, cambaliante._ + + _Grande silêncio!_ + + _Súbito, um grito, depois outro,--lancinantes, desesperados, dentro + do quarto. Os dois irmãos levantam-se apavorados._ + +MARIA JOANA, _à porta, num paroxismo_: + +O pai! o pai!... Morto! (_volta como louca à cabeceira do cadaver_). + + _TÓNIO precipita-se tambem desvairado no quarto do pai, atrás da + irmã. Continuam os gritos. MANOEL tem uns segundos de perplexidade, + olha em redor, hesita, vai, corre para o arcaz; abre-o, mergulha o + braço nervosamente no fundo; tira tudo,--roupas, farrapos, misérias, + remeche,--procura, encontra emfim o que ambiciona: a bolsa com as + vinte moedas!_ + +TÓNIO, _que entra desgrenhado, percebe tudo, exclama_: + +Ah, tratante! ah, ladrão!... Agora é que tu queres roubar a tua irmã! + + _Atira-se a êle. Trava-se uma luta entre os dois, encarniçada: qual + de baixo, qual de cima, com as garras, com os dentes--como dois liões!_ + +MARIA JOANA, _sòzinha, brada, abrindo a porta, para a solidão dos campos +ermos, na chuva e na ventania_: + +Acudam! aqui d'el-rei!... Acudam! + + _Ninguem! Tudo se passa como num deserto, a milhões de léguas da + outra gente, no isolamento daquela casa maldita! MANOEL, rôto, + alucinado, escorrendo sangue, consegue erguer-se do chão, aonde por + duas veses o prostrára o pulso férreo de TÓNIO; apanha emfim a + espingarda e alveja-o._ + +MARIA JOANA, _interpondo-se, num salto ágil_: + +Ai, que te desgraças! ai que te desgraças, «Manel»! + +MANOEL + +Larguêza! larguêza senão arrebento-te tambem... + + _Ela resiste, debate-se, diante da arma. Esta, num repelão, + dispára-se, indo a carga alojar-se no peito da rapariga._ + +TÓNIO, _vendo a irmã caída num lago de sangue_: + +Mataste-a! + +MANOEL, _poisando a espingarda e com um sorriso cínico_: + +Matei?... Pois tira-lhe a pele, que é d'estimação... + + _Recomeçam a luta._ + + + [1] O autor não quis nesta novela, a que deu indiferentemente a + forma dialogada, tentar um género de literatura dramática como + êsse que há tempos aí se exibiu em palcos Portugueses (não sabe + se com grande ou pequeno exito) com o titulo de _Grand-Guignol_, + importado directamente de França. Género macabro, terrorista, + insalubre, visando a provocar no público as fortes comoções nervosas + pelo espectáculo de scenas lúgubres, sanguinárias ou simplesmente + extravagantes.--Esta _tragédia rústica_ é um ligeiro estudo do + caracter supersticioso, bestial, por vêzes quase feroz, da pobre, + inculta, miserável gente das aldeias beirôas, em cujo seio os + instintos, bons ou maus, falam ainda a linguagem espontânea e + bárbara das primitivas idades. + + * * * * * + + + + +O pai da criança + + +(Conto carnavalesco) + + + + +O pai da criança + + +(Canto carnavalesco) + +Êste padre Borregana, cónego da Sé, tem uma história. + +Toda a gente tem uma história, é claro; mas a do padre Borregana é uma +história singular, digna de contar-se e de ser ouvida. + +Padre Borregana nasceu padre como outros nascem militares, ou poetas, ou +oradores, ou assim... Nasceu padre. Desde muito novo revelou uma grande +_queda_ para aquele mister. Compleição debil, espírito supersticioso e +timorato, era êle quem acendia as velas do altar-mór nos dias de missa +cantada; quem ajudava a dobrar o sino dos entêrros; quem levava a +caldeirinha e o hissope entoando o _Bemdito_ com o Senhor; quem dizia +_ora pro nobis_ atrás do pálio nas procissões; quem informava as beatas +dos ataques hemorroidários do sr. arcebispo no tempo do arroz de tomate... + +--Podia ter nascido corcunda, podia ter nascido zanaga, dizia o pai, a +justificá-lo; ninguêm se faz... + +E não. + +Velhos condiscipulos dêle no liceu e depois no seminário, ainda hoje +diziam que o padre Borregana fôra a mais decidida vocação que tinham +conhecido para o sacerdócio--para a castidade sobretudo,--o que aos seus +olhos de peccadores inconfessáveis o tornára particularmente famoso, +votado sem esfôrço ao sacrifício duma existência de renúncia, frouxo de +vontade como era, e então com um apelido que lhe assentava como uma luva... + + +Quando,--já depois de ordenado--desceu o estribo do comboio na estação +do Rocio, uma tarde, padre Borregana ficou atarantado, hesitante, +como uma criança que perde a ama, no meio da barafunda, do vozear +confuso da multidão que se acotovelava a saír da _gare_. + +--Ó padre Borregana! ó padre Borregana!... + +Voltou-se. Quem o chamava? Que lhe queriam?... Diante dêle um sujeito +alto, encorpado, abria-lhe uns grandes braços, oferecia-lhe o peito +largo para o receber. Padre Borregana trepidou. + +--Não me reconheces, homem? Sou eu!... Olha bem p'ra mim: o Ataíde! + +O Ataíde! Quem havia dizer! Com aquelas barbas, aquele todo distinto, +aquele ar de pessoa importante e abastada!... + +--Tu! Pois tu!...--murmurou o padre. + +E abraçaram-se enternecidamente. + +Emquanto iam saíndo da estação, o outro explicava-lhe: tinha subido, +tinha trepado, formára-se... arranjára um casamento rico e uma boa +colocação... + +--Sim?! + +--É verdade. + +Padre Borregana estacou, admirado. + +--Mas ouve cá, disse, como demónio conseguiste tudo isso? Tu, demais a +mais,--desculpa que te diga--mas nem eras dos mais atilados... + +O outro sorriu, superiormente: + +--Dos mais atilados! Pobre rapaz! Consegui isto como se consegue tudo na +vida... como se consegue ser homem, ser gente, ser alguêm neste mundo: á +custa de muito ponta-pé!... + +E separaram-se. + + +Mais adiante, Borregana, que caminhava apreensivo, scismático, no +encalço do moço de fretes, em demanda dum albergue pacato, sentiu a +ponta duma bengala tocar-lhe discretamente no ombro: + +--Psst!... Borregana! + +Voltou-se de novo, e deu de cara com outro velho conhecimento, a quem a +sua presença inesperada causou igualmente grande surpresa e alegria. +Repetiu-se, _mutatis mutandis_, a mesma scena: tambêm êste +trepára, tambêm êste vencera, tambêm tinha uma linda posição... + +--É boa! E tudo isso...--balbuciou. + +--Á custa de muito ponta-pé! + +--!! + + +Ao desandar da rua do Carmo para o Chiado maior espanto o aguardava. +Desta vez o velho amigo era um ministro--e ministro da Justiça!--que lhe +abriu os braços como os outros (o que fez juntar gente...) e como os +outros lhe confessou que tinha subido, trepado--á custa de muito +ponta-pé!... + + +Dias passaram. Padre Borregana regressou a penates. Um domingo, logo +depois da missa, chamando de parte o sacristão, lial companheiro e +confidente, segredou-lhe: + +--Cristóvam! vais-me aqui prestar hoje um grande serviço... + +O sacristão, um diab'alma alentado e grosso, bruto como umas casas, +muito respeitador das qualidades e ornamentos do cura, murmurou, +comovido e modesto: + +--Um serviço? Oh! sr. prior!... Queira vossa reverendissima ordenar... +Cá por mim só se não pudér... + +--Um grande serviço, Cristóvam, um grande serviço... + +Botou uma olhadela á igreja, outra ao S. Jerónimo do altar, outra a +bandeira das almas, e erguendo por fim as abas da batina ensebada, +revirou-lhe o nédio cêsso, exclamando: + +--Férras-me aí um ponta-pé!... + +--Quem, eu? + +--Já disse, Cristóvam: um ponta-pé. + +O sacristão presumiu-o doido. Hesitou, mas por último, vendo o ar +decidido do presbítero, para o não irritar, fez-lhe a vontade, +encostando-lhe a biqueira ferrada ao hemisfério sul, devagarinho... + +--Força, homem! isso não é nada, suplicou o padre, cuja estranha +flagelação parecia dever enchê-lo de infinito gôso--isso não é nada! + +--Ó sr. prior, mas eu...--tartamudiou o Cristóvam, condoído. + +E o padre Borregana, num palpite, de mãos postas: + +--Depressa! depressa!... Pelas cinco chagas! pelas cinco chagas, Cristóvam! + +--Êle é isso?, rosnou o sacristão com os seus botões; e despresando +escrúpulos, atirou-lhe um coice, com tal violência, que o fez baquear e +gemer: + +--Ui! + +--Ah, já?...--e atirou-lhe segundo. + +Nisto um matraquear de tamancos no lagedo da igreja. + +--Quem é? quem vem aí?, bradou o padre aflito, cheio de dôres, +estorcendo-se. + +--É para o sr. prior, esta carta... + +--Para mim?! + +Era um telegrama. + +O prior precipitou-se, rasgou todo trémulo a obreia do sobrescrito: «Por +ordem de S. Ex.ª...» (turvou-se-lhe a vista)... «nomeado cónego.» + +Caiu sôbre um banco que para ali estava a um canto, aniquilado, morto de +comoção. Quando despertou daquela espécie de síncope o prior +estava triste... Em volta houve um alarido, um espanto, mal constou o +milagre... Porque fôra um milagre! Tudo quis ver e visitar o sr. padre +Borregana, feito cónego--a ponta-pé. Não recebia? Porquê?... Talvez +dorido, coitadinho, talvez de ferido no poisadoiro com a brutalidade da +operação. E invectivava-se o Cristóvam--bruto! verdugo!--que se +desculpava, dizendo: + +--Pois sim, pois sim, mas se não fôsse eu... + +Tinha rasão. + +A roda das beatas da terra toda se desfazia em favores e conselhos de +arnica, de unto de cobra e semi-cúpios de malvas, para aliviar as dores +e a tristeza do prior, cujos nadegueiros--já agora uns nadegueiros de +cónego--entumesciam e grelavam... + +Dizia-lhe a criada: + +--Parece que ficou a modos triste, sr. cónego?... + +--E fiquei, pudéra, se não tenho de quê, cachopa!--queixava-se. + +--De quê?! Hom'essa! Depois duma nova assim!... + +--Depois duma nova assim; admiras-te? Com dois ponta-pés arranjei a ser +cónego, mas se aquele alarve se não demora e me préga logo uma dúzia +deles, quando eu dizia, estava a estas horas bispo! Bispo, imagina!... +Se não hei-de estar aborrecido... + + +O milagre não obstante ficou de pé, íntegro, documental, palpável, a +atestar o dedo da Providência na ferradura do Cristóvam. A religião, +vigilante, viu logo na pessoa do padre virtudes canonisáveis... + +Apenas o Sequeira, funcionário de finanças, livre pensador e ateu--um +doido!--zombava, fazia menos daquilo, afirmando em toda a parte que o +padre Borregana tinha tido um cónego pelo traseiro, e que o pai da +criança era o sacristão! + + * * * * * + + + + +Índice + + +Índice + +Aquela família 5 + +A bôca do sapo 17 + +Sr. Anselmo (Perfil grotesco dum provinciano ilustre)--(1906)--I 37 + +Sr. Anselmo (Perfil grotesco dum provinciano ilustre)--(1912)--II 85 + +Candidinha Cerdeira (Novela romantica) 89 + +Eureka! 113 + +O crime 123 + +Casa maldita (Tragedia rústica) 133 + +O pai da criança (Conto carnavalesco) 165 + + + + + + +End of the Project Gutenberg EBook of Aquela Família, by Ladislau Patrício + +*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK AQUELA FAMÍLIA *** + +***** This file should be named 34039-8.txt or 34039-8.zip ***** +This and all associated files of various formats will be found in: + https://www.gutenberg.org/3/4/0/3/34039/ + +Produced by Mike Silva + +Updated editions will replace the previous one--the old editions +will be renamed. + +Creating the works from public domain print editions means that no +one owns a United States copyright in these works, so the Foundation +(and you!) can copy and distribute it in the United States without +permission and without paying copyright royalties. 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You may copy it, give it away or +re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included +with this eBook or online at www.gutenberg.org + + +Title: Aquela Família + (Tipos, caricaturas e episódios provincianos) + +Author: Ladislau Patrício + +Release Date: October 7, 2010 [EBook #34039] + +Language: Portuguese + +Character set encoding: ISO-8859-1 + +*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK AQUELA FAMÍLIA *** + + + + +Produced by Mike Silva + + + + + +</pre> + + +<p> </p> +<div style="border: solid 2px #000; padding: 1em;"> +<p style="text-align:center; font-size: 1.6em;">Ladislau +Patrício</p> + +<p +style="text-align:center; font-size: 3em;">Aquela </p> + +<p +style="text-align:center; font-size: 3em;"> família...</p> + +<p style="text-align:center; font-size: 1.2em;">(Tipos, +caricaturas e episódios provincianos)</p> + +<p> </p> +<p> </p> +<p> </p> +<p> </p> + + +<p style="font-size: 1.2em;"><u>1914—COIMBRA<br> +MOURA MARQUES<br> +<small>Livreiro editor<br> +19, Largo Miguel Bombarda, 25</small></u></p> +</div> +<p> </p> +<p> </p> +<p> </p> +<p> </p> + +<p><span class="pn"><a name="pag_1">{1}</a></span></p> + +<p style="text-align:center; font-size: 1.8em;">Aquela família...</p> + +<p> </p> +<p> </p> +<p> </p> +<p> </p> + +<p><span class="pn"><a name="pag_2">{2}</a></span></p> +<hr> + +<p style="text-align:center; font-size: 0.8em;">TIPOGRAFIA +PROGRESSO<br> +<small>DE</small> D<small>OMINGOS</small> A<small>UGUSTO DA</small> +S<small>ILVA</small><br> +Rua Dr. Souza Viterbo, 91<br> +Porto—1914</p> +<hr> + + +<p> </p> +<p> </p> +<p> </p> +<p> </p> + +<p><span class="pn"><a name="pag_3">{3}</a></span></p> + +<p style="text-align:center; font-size: 1.6em;">Ladislau +Patrício</p> + +<p +style="text-align:center; font-size: 3em;">Aquela </p> + +<p +style="text-align:center; font-size: 3em;"> família...</p> + +<p style="text-align:center; font-size: 1.2em;">(Tipos, +caricaturas e episódios provincianos)</p> + +<p> </p> +<p> </p> +<p> </p> +<p> </p> + + +<p style="font-size: 1.2em;"><u>1914—COIMBRA<br> +MOURA MARQUES<br> +<small>Livreiro editor<br> +19, Largo Miguel Bombarda, 25</small></u></p> + +<div id="corpo"> +<p><span class="pn"><a name="pag_4">{4}</a><br><a name="pag_5">{5}</a></span></p> + +<h1>Aquela família...</h1> + +<p><span class="pn"><a name="pag_6">{6}</a><br><a name="pag_7">{7}</a></span></p> + +<h2>Aquela família...</h2> + +<div class="cap"> +A <span class="sc">princípio</span> eu ia só, numa carruagem de +<em>segunda</em>, o que me permitia desfrutar o panorama e gozar uma relativa +comodidade. Mas mais adiante, numa estação qualquer, mal o comboio parou, a +portinhola abriu-se e o meu compartimento foi invadido de assalto por uma +família inteira que atravancava tudo: rêdes, bancos, o menor espaço disponível, +com malas, embrulhos e cestinhos,—uma infinidade de volumes!</div> + +<p>O chefe do rancho era um homem nédio, sanguíneo, que rebocava uma senhora +pesada (onde eu adivinhei a espôsa) e mais duas raparigas e um garoto, de +marinheiro, magrinho, linfático e triste.</p> + +<p>Auxiliei-os. Fiz menção de ajudar as damas<span class="pn"><a +name="pag_8">{8}</a></span> a subir. E quando a máquina apitou e o trem se pôs +em marcha com um ranger de molas e de engates, ainda nós todos dispúnhamos a +bagagem amontoada nas proporções dum Himalaia.</p> + +<p>Agradeceram, muito penhorados; e depois de instalados convenientemente, o +dono de tudo aquilo, que limpava com um lenço enorme as bagas de suor, pediu-me +licença para tirar o casaco e envergar o guarda-pó.</p> + +<p>—Parece que estamos no Congo! justificou. Este calor está mesmo a exigir +tanga...</p> + +<p>Eu sorri, relanceando um olhar às donzelas, que sorriram tambêm, +ruborizadas, daquela ideia africana do papá. E êste, farejando em mim uma +índole comunicativa, inquiriu satisfeito:</p> + +<p>—O cavalheiro vem de Lisboa?</p> + +<p>—Não senhor. Eu sou da Beira.</p> + +<p>—Da Beira!... Então é de Vizeu?</p> + +<p>Sorri de novo, discretamente, respeitando as noções corográficas do viajante +simplório, que o acaso colocára assim na minha presença.<span class="pn"><a +name="pag_9">{9}</a></span></p> + +<p>Apressei-me por isso a confirmar:</p> + +<p>—Sou de Vizeu...</p> + +<p>—Nesse caso conhece lá o Gastão?</p> + +<p>—O Gastão?!</p> + +<p>—Sim, o Gastão Vieira, dos Impostos.</p> + +<p>Achei divertido conhecer o Gastão. Recordei-me:</p> + +<p>—Ora se conheço! Estou doido! Conheço perfeitamente...</p> + +<p>Mas depressa caí em mim, reflecti que podia ser colhido na mentira. Foi, +portanto, para eximir-me a perguntas que ferviam já nos lábios do companheiro +que eu perguntei do meu lado:</p> + +<p>—E V. Ex.ª? V. Ex.ª é daqui dêstes sitios?</p> + +<p>—Sim senhor. Mas agora vamos para banhos. Isto que o sr. aqui vê (com um +gesto circular indicava a família) pertence-me. O rapaz é fraquito, tem +escrófulas (apontava o pescoço do fedelho) olhe!—Dizia-me o dr. Maia... +Conhece?</p> + +<p>Declarei que não.</p> + +<p>—Pois admira... Espere, agora me lembro: deve conhecer. Êle até costuma ir +muito<span class="pn"><a name="pag_10">{10}</a></span> a Vizeu. É irmão do +padre Levi, Levi da Maia, duma família muito ilustre que tem uma irmã +viscondessa. O sr. conhece com certeza...</p> + +<p>E como eu insistisse na negativa:</p> + +<p>—O padre Levi, homem! o que escreve no <em>Vouga</em>... Não conhece o +senhor outra coisa!</p> + +<p>Tive de lhe dizer que sim.</p> + +<p>Havia-me insinuado já no ânimo duma das meninas com quem entretinha desde a +última estação um namôro matreiro: e apontava-lhe como flechas os olhos +amorudos, dardejando-me ela os seus, redondinhos, negros, sertanejos...</p> + +<p>—Pois o dr. Maia,—tornava o pai—dizia-me muita vez: «Alves, leve você o +rapaz ao mar; leve você o rapaz ao mar que se cura.»—Mas ó doutor, veja lá, +tenho agora tantos afazeres (e tinha) se o rapaz fôsse coisa que se pudesse aí +endireitar, que demónio, tomando umas drogas...«—Não, não, sem banhos não se +põe direito.»—Que havia eu de fazer? Que fazia o senhor nas minhas +condições?<span class="pn"><a name="pag_11">{11}</a></span></p> + +<p>Esperou resposta; e como lha não désse:</p> + +<p>—Saía, não é verdade?</p> + +<p>—Pois claro!</p> + +<p>—Foi o que eu fiz. Mando arranjar as malas, tranco a porta, meto toda esta +tropa no comboio... e cá vamos!</p> + +<p>—Faz muito bem.</p> + +<p>—Acha?...—poisava a sua mão sapuda na minha côxa, todo familiar.—Acha +então o cavalheiro que faço bem?...</p> + +<p>—Mas isso nem se pergunta! aplaudi sem reservas.—-Mesmo que não houvesse +precisão, que infelizmente há; bastava só a ideia de irem gozar!</p> + +<p>—Gozar! Mas olhe que se gasta um dinheirão!</p> + +<p>—Pois gasta. E isso que tem? A gente não vive só do que mete no estômago. É +preciso ver, dar de comer aos olhos.</p> + +<p>—Dar de comer a quê?</p> + +<p>—Aos olhos...</p> + +<p>—Huum! mugiu.</p> + +<p>Não percebêra. Suava com o calor, nas fontes, nas bochechas, mórmente nos +refêgos<span class="pn"><a name="pag_12">{12}</a></span> do cachaço, duma +grande riquêsa de tecidos celulares...</p> + +<p>Entrou depois a divagar sôbre economias expondo-me numa franqueza saloia o +orçamento da viagem; e tentou por último explicar pela hereditariedade a +compleição mórbida do filho:</p> + +<p>—Isto é de familia! O avô dêle, meu pai, tambêm assim era: sempre doente, +sempre com remédios. Mas a avó, é curioso! robusta, còrada, parecendo que +vendia saúde... Eu, aonde me vê, nunca tive uma dôr de cabeça! Mas já um tio +que nos morreu há três anos...—Voltou-se para uma das filhas:—O tio +Aristides...</p> + +<p>—Ah!</p> + +<p>E relatou o que era êsse tio, com os seus achaques, suas mazelas, seus +ungùentos e seus tumores supurativos, em salvo lugar...</p> + +<p>Alves dispunha-se em suma a fazer-me seguir todas as ramificações +patológicas da sua ascendência! Passei a não lhe responder, dizendo-lhe a tudo +<em>que sim</em>, com a cabeça.</p> + +<p>E a rapariga, de lá, muito meiga...<span class="pn"><a +name="pag_13">{13}</a></span></p> + +<p>No meio desta felicidade, porêm, a certa altura—na altura de +Ovar—passou-se um episódio triste, de que fui vítima, o qual produziu profundo +desgôsto em todos nós. Fôra o caso que, sobranceira ao meu lugar, ia uma cesta; +senão quando, aí se põe ela a mijar sôbre mim, no meu chapéu mole, qualquer +gorduroso líquido em fio... Ergo-me dum pulo. Houve um alvoroço no +compartimento. Alves gritou: «oh, demónio! oh, demónio!»</p> + +<p>Entretanto alguêm explicava que tinha sido o môlho do peixe que se +entornára...</p> + +<p>O môlho do peixe!</p> + +<p>Eu tinha então já tirado o meu chapéu e olhava desolado a nódoa negra, +enorme, que alastrava, se embebia no feltro da aba, inutilizando-o sem +remédio!</p> + +<p>Côro de lamentações e desculpas:</p> + +<p>—Ora esta!</p> + +<p>—Uma assim!</p> + +<p>—Só a nós é que acontece...</p> + +<p>E de coração alanceado, com ancias de espancar aquela gente bárbara, eu +ainda ganhei fôrças para lhes dizer:<span class="pn"><a +name="pag_14">{14}</a></span></p> + +<p>—Não faz mal; não se incomodem. Até tem graça! Pelo amor de Deus!...</p> + +<p>Ocorreu todavia aqui uma coisa galante que me cativou: essa das duas meninas +que me havia já endoidado o coração, num movimento impulsivo e no mais aceso da +balbúrdia que se estabelecêra, tira do seio o lencinho de assoar e veio enxugar +com êle a nódoa indelével.</p> + +<p>Esquivei-me desvanecido:</p> + +<p>—Oh, minha senhora...</p> + +<p>E com o lenço enrolado à laia de esponja, ela ia chupando, chupando...</p> + +<p>—Se calhar era novo...—disse-me, a meia-voz.</p> + +<p>Respondi:</p> + +<p>—Era novo.</p> + +<p>—E bom?</p> + +<p>Fiz um gesto de grandeza:</p> + +<p>—Dezoito tostoes!</p> + +<p>Alves voltou-se espantado para a espôsa, que segredou a importância a outra +filha, a quem o irmãosito—que viera à janela do vagom a ver a máquina—pedia +choramigando<span class="pn"><a name="pag_15">{15}</a></span> e arregalando um +dos olhos que lhe tirasse um <em>algueiro</em>...</p> + +<p>Daí a momentos o comboio parava:</p> + +<p>—Espinho!</p> + +<p>Era a estação onde êles se apeavam. Alves foi o primeiro a levantar-se; +tirou a carteira e entregando-me um bilhete ofereceu-me os seus «fracos +préstimos», pedindo mais uma vez desculpa do desastre. As senhoras +cumprimentaram igualmente e quizeram tambêm que eu as desculpasse. Eu +desculpei-as. E a mãozinha da minha efêmera namorada, ao despedir-se, tremia +como um passarinho, quando lha apertei numa pressão significativa. Segui-a com +a vista até desaparecer pela porta da estação; e numa derradeira vez que ela se +voltou a olhar-me, não sei, mas ia jurar que lhe vi lágrimas...</p> + +<p>Encostei-me então a um canto, sorumbático, a fumar. O meu espírito oscilava +como um pêndulo entre a suave lembrança daquela trigueira (eu ainda lhes não +disse que ela era trigueira) e a ideia negra do meu chapéu manchado. Ambos +perdidos já agora para mim!<span class="pn"><a name="pag_16">{16}</a></span> +ambos, pela fôrça do Destino! Pela distância que ia separar-me dela para não +mais talvez a tornar a ver; pela mácula que dêle me apartava para nunca mais +porventura o poder usar!</p> + +<p>Encarava eu filosoficamente a situação por êste lado, quando á janela do +compartimento assomou de novo o focinho do Alves, a farejar-me, a dizer:</p> + +<p>—V. Ex.ª faz-me um obséquio? Não se esquece, quando regressar a Vizeu, de +me recomendar muito ao meu amigo Gastão. Eu, tambêm, quando lhe escrever, +hei-de falar muito de V. Ex.ª e da simpatia que nos inspirou a todos. Criado de +V. Ex.ª...</p> + +<p>Ouviram-se os sinais da partida. Estendemos as mãos cordialmente; e ao +pôr-se o comboio em andamento, Alves, com a minha dextra apertada, lembrou:</p> + +<p>—Ah! E que lá recebi as pêras... Diga-lhe tambêm isso, sim? Deliciosas! +Deliciosas!</p> + +<p>Corria junto da carruagem, ao longo da <em>gare</em>, gritando ainda a +plenos pulmões:</p> + +<p>—Deliciosas!<span class="pn"><a name="pag_17">{17}</a></span></p> + +<h1>A bôca do sapo</h1> + +<p><span class="pn"><a name="pag_18">{18}</a><br><a name="pag_19">{19}</a></span></p> + +<h2>A bôca do sapo</h2> + +<blockquote> + <p><em>Interior caseiro, modestamente mobilado. CARLOS e MARIA CELESTE + conversam sentados, junto duma mêsa. A voz dêle tem um timbre imperativo e + enérgico; a dela é aveludada, melodiosa, humilde.</em></p> + + <p><em>Tarde de novembro. Ameaça chover.</em></p> +</blockquote> + +<p class="centrado">CARLOS</p> + +<div class="cap"> +C<span class="sc">ompreendes</span> que me seria muito desagradável que alguêm +soubesse o que tem havido entre nós...</div> + +<p class="centrado">MARIA CELESTE, <em>como se despertasse</em>:</p> + +<p>Ah!... o que tem havido...</p> + +<p class="centrado">CARLOS</p> + +<p>Ou o que possa porventura haver ainda... Porque eu, apesar do que vai +acontecer, não<span class="pn"><a name="pag_20">{20}</a></span> quero romper +comtigo duma maneira absoluta. Não se vive impunemente três anos com uma +mulher. És uma rapariga de coração—não to digo para que mo agradeças; e sinto +que não devo abandonar-te...</p> + +<p class="centrado">MARIA CELESTE</p> + +<p>Não, Carlos, enganas-te; eu nunca mais serei tua, haja o que houver. Nunca +mais!</p> + +<p class="centrado">CARLOS</p> + +<p>Endoidecêste?!</p> + +<p class="centrado">MARIA CELESTE</p> + +<p>Creio que não endoideci. Vamos separar-nos, hoje, por toda a vida. Se alguma +vez nos encontrarmos já não serás o mesmo homem... nem eu a mesma mulher. Não +nos conheceremos.</p> + +<p class="centrado">CARLOS</p> + +<p>Ora! ora!</p> + +<p class="centrado">MARIA CELESTE</p> + +<p>Afirmo-to!<span class="pn"><a name="pag_21">{21}</a></span></p> + +<p class="centrado">CARLOS</p> + +<p>Terás essa coragem?!</p> + +<p class="centrado">MARIA CELESTE</p> + +<p>Se terei essa coragem!...</p> + +<p class="centrado">CARLOS, <em>após uns momentos de reflexão, +conciliador</em>:</p> + +<p>Bem, não compliquemos as coisas: deixa-te de criancices.</p> + +<p class="centrado">MARIA CELESTE</p> + +<p>Criancices?!</p> + +<p class="centrado">CARLOS</p> + +<p>Decerto. Não consegues convencer-me que essa tua resolução seja +inabalável.</p> + +<p class="centrado">MARIA CELESTE</p> + +<p>Verás.</p> + +<p class="centrado">CARLOS</p> + +<p>Ou nunca me tiveste amor.<span class="pn"><a +name="pag_22">{22}</a></span></p> + +<p class="centrado">MARIA CELESTE</p> + +<p>Seja: nunca te tive amor...</p> + +<p class="centrado">CARLOS, <em>apreensivo</em>:</p> + +<p>E talvez. Se fosses minha amiga não te resignavas facilmente a perder-me. +Havia de custar-te a suportar um abandono, quanto mais...</p> + +<p class="centrado">MARIA CELESTE</p> + +<p>Por isso mesmo,—porque sou tua amiga...</p> + +<p class="centrado">CARLOS</p> + +<p>Palavras...</p> + +<p class="centrado">MARIA CELESTE</p> + +<p>Não quero tornar-me um fardo para ti.</p> + +<p class="centrado">CARLOS, <em>que principia a indignar-se</em>:</p> + +<p>Palavras! Palavras!<span class="pn"><a name="pag_23">{23}</a></span></p> + +<blockquote> + <p><em>Faz-se silêncio. Os dois ficam absortos, sem se olharem.</em></p> +</blockquote> + +<p class="centrado">CARLOS, <em>com uma serenidade forçada, momentos +depois</em>:</p> + +<p>Não queres certamente atribuir-me a responsabilidade do que sucedeu...</p> + +<p class="centrado">MARIA CELESTE</p> + +<p>Nem tenho êsse direito.</p> + +<p class="centrado">CARLOS</p> + +<p>Sabes muito bem como as coisas se passaram.</p> + +<p class="centrado">MARIA CELESTE</p> + +<p>Sei.</p> + +<p class="centrado">CARLOS</p> + +<p>Não ignoravas que um dia eu havia de me casar.</p> + +<p class="centrado">MARIA CELESTE</p> + +<p>Não ignorava.<span class="pn"><a name="pag_24">{24}</a></span></p> + +<p class="centrado">CARLOS</p> + +<p>Tive a franqueza, a lialdade de to confessar muito antes de me +pertenceres.</p> + +<p class="centrado">MARIA CELESTE</p> + +<p>Tiveste.</p> + +<p class="centrado">CARLOS</p> + +<p>Tentei até por varios meios evitar a tua falta. Lembra-te que fôste minha +por tua livre e espontânea vontade!</p> + +<p class="centrado">MARIA CELESTE</p> + +<p>Lembro, lembro...</p> + +<p class="centrado">CARLOS</p> + +<p>O teu acto foi, portanto, premeditado...</p> + +<p class="centrado">MARIA CELESTE</p> + +<p>Pois foi.</p> + +<p class="centrado">CARLOS</p> + +<p>Não representa o cego impulso dum momento de paixão que eu ateasse, com a +mira<span class="pn"><a name="pag_25">{25}</a></span> numa conquista. Eu +disse-te: «Maria Celeste, pensa, reflecte, olha o que te póde suceder... +esquece-me». É isto verdade?</p> + +<p class="centrado">MARIA CELESTE</p> + +<p>É.</p> + +<p class="centrado">CARLOS</p> + +<p>Só tu fôste nêsse caso responsável. Fôste tu que assim o quiseste...</p> + +<p class="centrado">MARIA CELESTE</p> + +<p>Fui eu que assim o quis.</p> + +<p class="centrado">CARLOS</p> + +<p>Pois bem. E agora, quando podia abandonar-te sem remorsos, apenas com a +amarga saùdade do que tens sido para mim; e que venho oferecer-te, +desinteressadamente, a promessa de continuar a ser para ti um amigo, um +protector... alguêm...<span class="pn"><a name="pag_26">{26}</a></span></p> + +<p class="centrado">MARIA CELESTE, <em>com tristeza</em>:</p> + +<p>Alguêm!...</p> + +<p class="centrado">CARLOS</p> + +<p>Sim! E repeles-me, afastas-me como se eu fôsse o pior, o mais grosseiro, o +mais indigno dos homens!</p> + +<p class="centrado">MARIA CELESTE</p> + +<p>Carlos!</p> + +<p class="centrado">CARLOS, <em>fóra de si</em>:</p> + +<p>Oh! a ingratidão!... A ingratidão!</p> + +<blockquote> + <p><em>MARIA CELESTE cala-se, sucumbida. Os olhos arrasam-se-lhe de lágrimas; + e ficam assim os dois numa nervosa hostilidade, êle a passear na sala, + resmungando censuras, e ela chorando, muda e convulsivamente, sôbre o lenço + molhado.</em></p> +</blockquote> + +<p class="centrado">MARIA CELESTE, <em>dominando a comoção</em>:</p> + +<p>Não quero que me consideres uma despeitada. Justifico a tua cólera, as +palavras severas<span class="pn"><a name="pag_27">{27}</a></span> que me +diriges, tudo, emfim, porque te compreendo... porque te estimo. Ainda bem que +reconheces que eu não fui para ti uma amante vulgar. E não fui. Amei-te com um +amor verdadeiro, livre, sem condições. É certo que me aconselhaste, que me +preveniste a tempo, mas... de que servia? Só quem não ama sabe interpretar +conselhos e ouvir razões... Quantas vezes, comigo, no isolamento do meu quarto, +calculei a profundidade do abismo em que cairia se me deixasse levar pelo +coração. Pobre de mim! Mil vezes deliberei não te receber, mil vezes não te +falar mais, nunca mais! Mas apenas subias aquelas escadas e ouvia o ruido dos +teus passos... oh! então, o meu juizo turbava-se, as minhas mãos arrefeciam, a +minha alma, o meu corpo, a minha vida inteira, fugiam para ti! E pensava: é o +Destino...—Uma tarde, uma noite, sabes bem o que se passou... Era o céu, era a +felicidade que se me deparava. Sabia que isto não podia durar sempre, que tudo +acabaria depressa... que havias de te casar: tu disséras-mo!... Mas achava-me +tão bem, tão contente de viver<span class="pn"><a name="pag_28">{28}</a></span> +assim, que não pensava, não queria pensar que essa hora amarga chegaria breve! +(<em>Comovida</em>:) O que me prendeu a ti, sobretudo, foi a tua franqueza, +êsse mixto de compaixão e indiferença que por mim professavas, os melindres da +tua consciência, a previsão do que poderia resultar, na certeza de lhe não +dares remédio... Tudo isso me tentou, me seduziu como uma coisa terrível que se +teme—e que irresistivelmente nos atrai...</p> + +<p class="centrado">CARLOS, <em>condoído</em>:</p> + +<p>Fui para ti—pobre dòninha inconsciente e louca!—uma espécie de bôca do +sapo, queres dizer...</p> + +<p class="centrado">MARIA CELESTE</p> + +<p>Fôste o meu único, o meu exclusivo amor na vida! (<em>Fita-o nos olhos +penetrantemente</em>). Anda, diz'-me lá se isto não é assim, se isto não é +verdade?!...</p> + +<p class="centrado">CARLOS, <em>impressionado</em>:</p> + +<p>Ouve-me, Maria Celeste, escuta...<span class="pn"><a +name="pag_29">{29}</a></span></p> + +<p class="centrado">MARIA CELESTE</p> + +<p>Não, não! não posso... não teimes.</p> + +<p class="centrado">CARLOS</p> + +<p>Sê razoável...</p> + +<p class="centrado">MARIA CELESTE</p> + +<p>Não teimes. Quero conservar-me sempre digna de ti.</p> + +<blockquote> + <p><em>Há um silêncio concentrado.</em></p> +</blockquote> + +<p class="centrado">CARLOS, <em>numa ideia repentina</em>:</p> + +<p>E se eu desistisse de casar? Ou antes, se te dissesse para casares +comigo?...</p> + +<blockquote> + <p><em>Olha-a com ansiedade.</em></p> +</blockquote> + +<p class="centrado">MARIA CELESTE, <em>resolutamente</em>:</p> + +<p>Não aceitaria.</p> + +<p class="centrado">CARLOS</p> + +<p>Quê!?<span class="pn"><a name="pag_30">{30}</a></span></p> + +<p class="centrado">MARIA CELESTE</p> + +<p>Não aceitaria. Pelas cinzas de minha mãe, acredita!</p> + +<p class="centrado">CARLOS, <em>abismado</em>:</p> + +<p>E porquê?!</p> + +<p class="centrado">MARIA CELESTE</p> + +<p>Porquê?...</p> + +<p class="centrado">CARLOS</p> + +<p>Sim.</p> + +<p class="centrado">MARIA CELESTE</p> + +<p>Porque tens uma noiva, porque empenhaste a tua palavra. Depois...</p> + +<p class="centrado">CARLOS</p> + +<p>Depois...</p> + +<p class="centrado">MARIA CELESTE</p> + +<p>Porque me não amas, Carlos...<span class="pn"><a +name="pag_31">{31}</a></span></p> + +<p class="centrado">CARLOS</p> + +<p>Mentes!</p> + +<p class="centrado">MARIA CELESTE</p> + +<p>Como queiras... (<em>Pausa</em>) Eu fui para ti apenas isto: uma pobre +rapariga que te interessou: uma curiosidade, uma aventura...</p> + +<p class="centrado">CARLOS</p> + +<p>Uma aventura! Mas devo-te o que não devo a ninguêm!</p> + +<p class="centrado">MARIA CELESTE</p> + +<p>?!</p> + +<p class="centrado">CARLOS</p> + +<p>A tua honra. Déste-me a tua honra!</p> + +<p class="centrado">MARIA CELESTE, <em>com simplicidade</em>:</p> + +<p>Pois nada mais tenho que te dar...</p> + +<p class="centrado">CARLOS</p> + +<p>Como dizes isso!<span class="pn"><a name="pag_32">{32}</a></span></p> + +<p class="centrado">MARIA CELESTE</p> + +<p>Digo o que sinto.</p> + +<p class="centrado">CARLOS, <em>depois duma longa pausa</em>:</p> + +<p>E que has-de fazer agora? Queres continuar a viver como vivias?</p> + +<p class="centrado">MARIA CELESTE, <em>encolhendo os ombros</em>:</p> + +<p>Sei lá!...</p> + +<p class="centrado">CARLOS</p> + +<p>Podias ter sido feliz com outro homem...</p> + +<p class="centrado">MARIA CELESTE, <em>convictamente</em>:</p> + +<p>Não o podia ser com mais ninguêm.</p> + +<p class="centrado">CARLOS</p> + +<p>Sacrifício inutil...</p> + +<p class="centrado">MARIA CELESTE</p> + +<p>Não há sacrifícios inuteis nêste mundo, meu amigo... Demais, tu fôste para +mim o<span class="pn"><a name="pag_33">{33}</a></span> que tinhas de ser... Não +és culpado do meu infortúnio. Estou satisfeita, crê,—recompensada. +(<em>Tentando convencê-lo</em>): Tu não fizeste mais do que aproveitar uma +mulher que se te oferecia...</p> + +<p class="centrado">CARLOS, <em>enternecido, toma-lhe as mãos, que +beija</em>:</p> + +<p>És uma santa! (<em>Com uma infinita saùdade a transparecer-lhe na voz</em>) +E lembrar-me que amanhã tenho de deixar-te!...</p> + +<p class="centrado">MARIA CELESTE</p> + +<p>Paciência...</p> + +<p class="centrado">CARLOS</p> + +<p>... que nunca mais tornarei a ver-te! que nunca mais porei aqui os pés em +tua casa!</p> + +<p class="centrado">MARIA CELESTE</p> + +<p>Nunca.</p> + +<p class="centrado">CARLOS</p> + +<p>Nem que um dia precise de ti?<span class="pn"><a +name="pag_34">{34}</a></span></p> + +<p class="centrado">MARIA CELESTE</p> + +<p>Nem que um dia precises de mim.</p> + +<p class="centrado">CARLOS</p> + +<p>É o fim de tudo, visto isso?</p> + +<p class="centrado">MARIA CELESTE</p> + +<p>De tudo.</p> + +<p class="centrado">CARLOS, <em>num movimento impulsivo, de protesto:</em></p> + +<p>Não, Maria Celeste, não é! Renuncia a êsses teus propositos. Eu não posso, +não quero deixar-te.</p> + +<p class="centrado">MARIA CELESTE, <em>incrédula</em>:</p> + +<p>Não queres...</p> + +<p class="centrado">CARLOS</p> + +<p>Não quero. Duvidas?<span class="pn"><a name="pag_35">{35}</a></span></p> + +<p class="centrado">MARIA CELESTE</p> + +<p>Duvido. O que te impressiona agora é a minha presença. Quando saíres daqui +tudo se desvanecerá como fumo...</p> + +<p class="centrado">CARLOS, <em>sucumbido</em>:</p> + +<p>Tudo se desvanecerá!</p> + +<p class="centrado">MARIA CELESTE</p> + +<p>Sim. Repara que eu fui para ti simplesmente—uma amante...</p> + +<p class="centrado">CARLOS</p> + +<p>E então?</p> + +<p class="centrado">MARIA CELESTE</p> + +<p>Acabou tudo nêste dia em que começo a tornar-me um embaraço para a tua +felicidade...</p> + +<p class="centrado">CARLOS</p> + +<p>Maria Celeste: juro-te!<span class="pn"><a name="pag_36">{36}</a></span></p> + +<p class="centrado">MARIA CELESTE</p> + +<p>Não jures. Tu no fundo sentes isto mesmo, mas não tens coragem de mo +dizer... És bom, tens dó de mim. Mas nem todo o teu dó, nem toda a tua bondade +conseguem dar-me a ilusão de que sou amada!...</p> + +<p>A que horas partes amanhã?...<span class="pn"><a +name="pag_37">{37}</a></span></p> + +<h1>Sr. Anselmo</h1> + +<h4>(Perfil grotesco dum provinciano ilustre)</h4> + +<h3>(1906)</h3> + +<h3>I</h3> + +<p><span class="pn"><a name="pag_38">{38}</a><br><a name="pag_39">{39}</a></span></p> + +<h2>Sr. Anselmo</h2> + +<h4>(Perfil grotesco dum provinciano ilustre)</h4> + +<h3>(1906)</h3> +<hr style="width: 30%;"> + +<h2>I</h2> + +<div class="cap"> +N<span class="sc">asci</span> em 74—eu, Teotónio Mendes, de muito boa +família.</div> + +<p>Tenho, portanto, actualmente (1906) trinta e dois anos.</p> + +<p>A minha vila fica entre serras, na vertente dum vale, e o calor ali aperta +sempre muito.</p> + +<p>Naquele verão sobretudo (eu não sei se os senhores estão bem lembrados) no +verão a que se referem êstes acontecimentos, mal se respirava. As fontes +secaram; a vegetação, sequiosa, sufocava sob ardentes nuvens<span class="pn"><a +name="pag_40">{40}</a></span> de poeira, e as pedras nos caminhos quase +estalavam com o sol.</p> + +<p>Horrível!</p> + +<p>Ha quatro mêses que não chovia. Moviam-se préces ao Altíssimo, celebravam-se +procissões, missas—<em>ad petendam pluviam</em>—mas do céu afogueado e +sêco... nem pinga!</p> + +<p><em>Cumulus</em> de trovoada, no horisonte longínquo, relampejavam em noites +caladas, logo desaparecendo varridos dum bafo môrno de canículas.</p> + +<p>Dizia-se, farejando as alturas:</p> + +<p>—Isto é que vai ser! isto é que vai ser!</p> + +<p>Os dias sucediam-se no emtanto ronceiros, bocejados, com um firmamento +implacável, de bronze, e a aflição da terra calcinada e triste.</p> + +<p>O termómetro de Anselmo continuava a marcar muitos graus. Êste Anselmo, +farmaceutico, grande influente político na localidade, era com efeito uma +figura curiosa e típica. Inteligente, astuto, conhecido árbitro em questões de +pêso, dava as leis e orientava a mentalidade sertanêja da vilota.</p> + +<p>Mesmo os mais orgulhosos e independentes,<span class="pn"><a +name="pag_41">{41}</a></span> senhores do seu nariz, sofriam a sugestão +infalível daquela poderosa vontade.</p> + +<p>—Ali, na Turquia...—dizia por exemplo êle.</p> + +<p>E tinha a gente a impressão de que a Turquia era ali mesmo, a dois passos, +que podiamos lá chegar se quiséssemos,—a pé!</p> + +<p>Anselmo todavia nunca viajára. Perdão! foi uma vez a Lisboa por três dias, e +viu a Galvâni no Coliseu.</p> + +<p>—Que tal? perguntaram-lhe, quando voltou.</p> + +<p>—Um rouxinol!</p> + +<p>Já essa noite no club, o fidalgo da Véla, homem na verdade muito entendido +de música, recomendava:</p> + +<p>—-É preciso ir a Lisboa... à Galvâni. Diz o Anselmo que é um rouxinol.</p> + +<p>Geradas nas bitesgas do seu cérebro e reveladas depois a um círculo de +amigos no cantinho da farmácia, as suas ideias extravasavam cá por fóra, +caudalosas, engrossando, impondo-se, fazendo opinião. Alvitre que trouxesse +marca de tão abalisada procedência, dava sempre<span class="pn"><a +name="pag_42">{42}</a></span> coisa que se visse, convertia-se logo em +rialidade: fôsse uma árvore, um baile, o itenerário num cortejo, um +espectáculo—um urinol.</p> + +<p>Casado, sem filhos (e sem esperanças já agora de os fabricar) Anselmo +professava pela espôsa um amor e um respeito inconcebíveis. Se alguêm diante +dêle referisse factos menos edificantes ou alarmasse a assistência com a nova +dalgum moderno escandalo em supuração, comentava ruborisado e colérico:</p> + +<p>—Deboche! Indecência! Quem quer mulher arranja-a, mas casa-se, que é o que +todo o homem limpo deve fazer.</p> + +<p>Ela, a D. Ermelinda, correspondia a essa louvável demonstração de bons +sentimentos da parte do marido, com uma dedicação sem limites, a que a sua +enorme fealdade—uma «fealdade específica», como diz Camilo—prestava fiança +idónea.</p> + +<p> </p> + +<p>Além do termómetro havia tambêm na farmácia um barómetro. E todos os dias +amigo<span class="pn"><a name="pag_43">{43}</a></span> Anselmo informava a vila +e arredores com aquele rigor meticuloso, scientífico, aquela probidade +verdadeiramente spartana, que era um dos ornamentos hereditários do seu +caracter...</p> + +<p>Ninguêm saía da terra, ninguêm projectava uma viajem, um passeio, que não +fôsse primeiro consultar o Anselmo:</p> + +<p>—Que diz você?</p> + +<p>E Anselmo, do alto da sua importância quase divina, resolvia:</p> + +<p>—Póde sair, homem; vá descançado que não chove.</p> + +<p>Ou então:</p> + +<p>—Deixe-se ficar; o barómetro desceu e temos água.</p> + +<p>Sei até de pessoas que atribuiam tamanha autoridade a Anselmo em assuntos +meteorológicos, que havendo resposta negativa chegavam a observar-lhe:</p> + +<p>—Demónio! Faz-me tanta falta agora não poder sair... Se isso fôsse coisa +que se pudesse arranjar, sr. Anselmo...</p> + +<p>Êle não se perturbava, não achava aquilo de mais, respondia:<span +class="pn"><a name="pag_44">{44}</a></span></p> + +<p>—Tenha paciência, homem, resigne-se; para outra vez será. Tenha +paciência.</p> + +<p>Quem é que sentia frio ou se queixava de calor emquanto Anselmo não +manifestasse que sim, que estava calor ou que havia frio?—Anselmo batia o +dente? Venham os jaquetões, os agasalhos, os capotes... Anselmo transpirava? As +janelas logo se abriam e largavam-se os cobertores, as brazeiras...</p> + +<p>Não era só respeito—era mêdo!</p> + +<p>Nessa altura, por exemplo, o boticário decretára que havia um calor +excessivo. Toda a gente entrou a dizer que era de mais, que uma tal temperatura +se não aturava, uff! que havia um calor excessivo...</p> + +<p>Certo dia Anselmo lembrou na farmácia que «talvez andando nu...». Pois +surpreendi gente digna, disposta a seguir-lhe o conselho, quase a pôr-se como +êle dizia...</p> + +<p>Pela uma hora Anselmo examinava o termómetro (chamava-lhe: <em>a +coluna</em>) primeiro à sombra, metódicamente, em seguida aos raios directos do +sol, na soleira da porta.</p> + +<p>Freguês que após esta operação penetrasse<span class="pn"><a +name="pag_45">{45}</a></span> na farmácia era antes de mais nada avisado pelo +Anselmo dos graus que atingira a temperatura ambiente:</p> + +<p>—Já sabe?... 30 à sombra e 50 ao sol!... É de rachar!</p> + +<p>Depois é que aviava a receita limpando o suor da pescoceira ao mesmo pano +com que enxugava as garrafas dos remédios.</p> + +<p>A notícia circulava rápida. Perguntava-se por hábito:</p> + +<p>—Já viu o termómetro? Quantos marcará hoje o termómetro do Anselmo?</p> + +<p>E aí por volta das duas já se sabia, já constava cá por fóra:</p> + +<p>—Então hoje, hein? 30 à sombra e 50 ao sol no termómetro do Anselmo!</p> + +<p>Desapertavam-se os colêtes...</p> + +<p>De facto, desta vez tinham razão. Havia umas horas no dia em que as ruas +ficavam desertas, só as moscas e as abelhas faziam o seu giro zumbidor. Dos +canos e das valetas onde levedavam detritos, subiam no ar quente exalações +pestíferas. Eu esperava o correio com ansiedade, por causa dos jornais, as +janelas<span class="pn"><a name="pag_46">{46}</a></span> do quarto +entre-abertas, o pavimento borrifado com água; ali me conservava naquela meia +penumbra, estirado na cama, de papo para o ar... e nu, consoante o Anselmo +preconisára.</p> + +<p>Saía só à noitinha, que refrescava um pouco, quando a vila se punha a +respirar às portas das lojas, ou passeava em grupos pelas estradas, os homens +de chapéu na mão e as senhoras de vestidos claros, muito lânguidas, com as +blusas desbotadas nos sovacos—da transpiração diurna.</p> + +<p> </p> + +<p>Foi por essa época que eu recebi a carta do meu amigo Felizardo—Felizardo +Antunes Vieira Leite, do Porto—convidando-me a ir passar com êle uma temporada +numa quinta do Minho, para onde partia nêsse mesmo dia com a mãe, uma senhora +respeitável que desejava muito conhecer-me.</p> + +<p>No verão iam sempre para lá, dois mêses, a regalarem os pulmões viciados do +ar urbano e a vigiarem de perto as colheitas naquela quadra mais intensa da +vida agricola.<span class="pn"><a name="pag_47">{47}</a></span></p> + +<p>Adorável amigo!</p> + +<p>Acabei de ler a carta e ergui-me dum pulo. Abri as janelas de par em par, +para que a luz entrasse amplamente. Depois puxei os gavetões e pus-me a atacar +de roupa a minha maleta de viagem. Porque eu ia viajar, senhores! Eu ia emfim +ver êsse Minho pitoresco de que ouvira sempre falar com tanto entusiasmo.</p> + +<p>Fui ao telégrafo e expedi para <em>dr. Vieira Leite</em> o seguinte aviso: +«Chego àmanha».</p> + +<p>As delícias do progresso!</p> + +<p>Jámais apreciára como nêsse jovial momento esta coisa cómoda e vulgar que se +chama—o telegrama. E a descer as escadas dos correios eu ainda vinha a +parafusar nas belezas da Civilisação,—contente, reconhecido...</p> + +<p> </p> + +<p>De passagem, porque me ficava a caminho, entrei na farmácia. Nunca me +dobrára em contumélias aparatosas de adulador ante a figura severa do +boticário. Nunca balançára com mão subserviente o turíbulo da Fama com que a +vila usava incensá-lo. Digo isto sem a menor<span class="pn"><a +name="pag_48">{48}</a></span> sombra de prosápia e sem querer censurar +ninguêm,—apenas para estabelecer a verdade.</p> + +<p>Eu sou um apóstolo da Verdade!</p> + +<p>Mas que razões me déra Anselmo que justificassem, até à data, a minha +frieza, o meu desdêm, quase? A valer, nenhumas! Ficar-me-ia mal, portanto, que +eu tivesse desta vez uma atenção e pondo de parte caprichos, orgulhos, lhe +perguntasse muito cortêsmente se queria alguma coisa «para êsse Minho»?</p> + +<p>Anselmo estava só, absorvido na laboriosa manipulação duma pomada. Um enxame +de moscas poisava na gaze suja que revestia o candieiro de metal suspenso do +teto fuliginoso; e atrás, sôbre o pano fundeiro, lia-se no vidro fosco duma +porta interior esta palavra em letras gordas debaixo dum emblema galénico:</p> + +<h3>LABORATORIO</h3> + +<p>Avancei, anunciei-lhe o objecto da minha visita. O boticário ergueu a fronte +majestosa, reconheceu-me, e mergulhando de novo no trabalho, rosnou por entre +dentes:<span class="pn"><a name="pag_49">{49}</a></span></p> + +<p>—Boa viagem!...</p> + +<p>Aquilo vexou-me; não eram formas de corresponder a uma delicadeza. Vai não +vai estive para lhe dizer das boas, das fortes,—das minhas...</p> + +<p>Mas não pude. Não sei porquê, mas não pude.</p> + +<p>Dei umas voltas fóra do balcão, meio acobardado, com um terror supersticioso +que não me deixava falar, nem me permitia arredar pé.</p> + +<p>Coisa esquisita!</p> + +<p>Baralhavam-se-me as ideias e, na confusão mental em que me via, uma só coisa +me preocupava impertinentemente: se aquele Anselmo, aquele pigmeu! teria +rialmente alguma influência no destino das chuvas, do vento ou das +trovoadas?</p> + +<p>Admitida a hipótese, podia muito bem, querendo, vingar-se de mim. Que mais +não fôsse senão uma telha despenhada do alto dum prédio, no sopro duma rajada +acintosa, sôbre a minha cabeça ímpia.</p> + +<p>Mas...—protestava uma voz do fundo<span class="pn"><a +name="pag_50">{50}</a></span> de todo o meu ser angustiado—o Anselmo, que +pisava linhaça, que eu via ali na minha humana presença a fazer pomada!? +Insensata apreensão, pueril receio, que o falso, infundado prestígio de +semelhante figurão, exercendo-se sôbre o meu espírito num inexplicável momento +de fraqueza, havia logrado produzir!</p> + +<p>Ah! mas a desforra ia ser tremenda! Eu ia resgatar, num gesto nervoso e +varonil, a liberdade de pensar e de procedor de toda uma pequena aldeia de +fanáticos, mostrando na hora augusta da emancipação, à luz da evidência e da +subtil análise, o que êsse insignificante valia por dentro—como homem e como +divindade!</p> + +<p>Mas de novo uma dúvida, um vago temor se interpôs ao meu intento, +quebrando-me as forças, jugulando-me,—nem que alguma poderosa mão invisível +estivesse ali sôbre mim suspensa e pronta a estrangular-me à primeira voz.</p> + +<p>—Ora esta! murmurava eu mentalmente, ora esta!<span class="pn"><a +name="pag_51">{51}</a></span></p> + +<p>E passados instantes, tornando a olhar o boticário, que continuava +indiferente e mudo a esmagar com a espátula, sôbre um pedaço de mármore polido, +uma pasta esbranquiçada e fedorenta, perguntei-lhe com a mais cariciosa das +maneiras:</p> + +<p>—E que me diz o meu amigo do tempo?...</p> + +<p>Ora! foi uma beleza: um milagre! Levantou de novo a cabeça, que me pareceu +agora aureolada, e encarou-me. Tinha estampada no rosto a surpreza que a +pergunta lhe causára. Vi-o sorrir; e mirando o barómetro (ou o termómetro: não +sei...) veio até mim, afável, meigo, aliciador. Percebi que ia ter uma +resposta, significando talvez o beijo tácito da reconciliação. Eu ia +confraternizar com Anselmo, abraçá-lo, entrar-lhe na intimidade... Que bom! Que +pechincha!</p> + +<p>Nessa altura porêm, um sujeito baixo, agitado, nervoso, investe porta a +dentro com os braços no ar, exclamando:</p> + +<p>—Ó Anselmo! ó Anselmo! você já viu? você já sabe?</p> + +<p>Fitámo-lo surpresos.<span class="pn"><a name="pag_52">{52}</a></span></p> + +<p>Era o Menezes, jornalista, que assim vinha estragar a doce situação.</p> + +<p>—Que é, homem, que é?!... Conte lá, desabafe! disse o boticário sem +encobrir o seu mau humor.</p> + +<p>E o outro, com muitos gestos, esbaforido:</p> + +<p>—O ministério! caiu o ministério!</p> + +<p>E sentou-se por já não poder.</p> + +<p>Anselmo largou a espátula:</p> + +<p>—Que me diz?!</p> + +<p>—Olhe, veja!...—murmurou sufocado.</p> + +<p>E estendeu-lhe um papel, um telegrama, aonde vinha tudo explicadinho: +«ministério em terra, chamado João Franco, parabens.» Não era preciso mais!</p> + +<p>Anselmo ficou sem ar. E o Menezes, outra vez muito excitado, ia e vinha da +porta ao balcão, do balcão à porta, a rir-se, transtornado da cabeça, doido com +a história.</p> + +<p>—Até que finalmente, dizia, ora até que finalmente: o João Franco! Ó +Anselmo, ó menino, mas você já pensou bem no caso? O João Franco!<span +class="pn"><a name="pag_53">{53}</a></span></p> + +<p>E esfregava as mãos de contente.</p> + +<p>—Agora é que se vai ver o que é governar às direitas; agora sim, é que se +vai ver o que é governar!</p> + +<p>O boticário quase não queria acreditá-lo. «Ficára banzado!» E o Menezes, +vociferando:</p> + +<p>—Corja! Os outros por pouco que não põem o país a saque! Tudo a comer, +tudo! E eu, e você, e os mais,—os que trabalhâmos—a pagarmos para aqueles +piratas!</p> + +<p>Anselmo sorria benévolo às considerações acerbas do jornalista que +prosseguia irado, numa linguagem perversa:</p> + +<p>—Súcia de gatunos! Pulhas! Pulhas!</p> + +<p>E já frenético, em altos gritos:</p> + +<p>—É bem feito, é bem feito: rua! É bem feito!</p> + +<p>Começou a juntar-se povo, garotada, a quem o Anselmo, vindo à porta, +enxotava, explicando:</p> + +<p>—Que é? que é que vocês querem? Foi o ministério que caiu... Vão-se +embora!</p> + +<p>Um dos garôtos porêm, mais curioso e atrevido, foi a espreitar para dentro, +pelos vidros<span class="pn"><a name="pag_54">{54}</a></span> da outra +porta,—a ver se via o ministério no chão...</p> + +<p>A Anselmo continuava no emtanto a afigurar-se-lhe aquilo um sonho. Assim tão +de repente, sem se falar em nada, sem ameaças de crise... Não seria balela?</p> + +<p>O jornalista então pôs-se a raciocinar: Qual! era lógico; o Hintze +fartára-se lá de fazer asneiras, e antes dêle toda a gente sabia que quem +governava não era o Zé Luciano: era a mulher.</p> + +<p>Tomou fôlego, prosseguiu:</p> + +<p>—Quando aí veio o imperador da Alemanha, e a rainha Alexandra, e o outro... +(fez um gesto com o polegar na direcção da raia) o de Espanha, nem sequer +tínhamos um presidente do conselho em termos de se apresentar! Uma vergonha!</p> + +<p>Cuspinhou, bateu com a bengala, consultou o relógio. Era tarde.</p> + +<p>—Olha o Teotónio! Você aí!—disse, dando por mim.—Desculpe, não tinha +reparado... Então que diz a isto?</p> + +<p>—Eu?...<span class="pn"><a name="pag_55">{55}</a></span></p> + +<p>—Sim, que diz você a isto?</p> + +<p>Encolhi os ombros, sem responder, verdadeiramente embaraçado. E êle:</p> + +<p>—Nem de encomenda, meu caro, nem de encomenda! O João Franco nestas alturas +foi a sorte grande para o país!</p> + +<p>Estendeu-me dois dedos a despedir-se; e quando se retirava:</p> + +<p>—É verdade, ó Anselmo, você agora volta outra vez lá para cima, para a +câmara. Creio que agora...</p> + +<p>—Qual câmara nem qual carapuça, opôs o farmaceutico, modesto—o que eu +quero é que me deixem. Teem aí muita gente...</p> + +<p>Menezes não via, não achava:</p> + +<p>—Muita gente! Aonde?...</p> + +<p>Foi então que eu, Teotónio, julguei oportuno intervir:</p> + +<p>—Se me dão licença, direi que sou tambêm do parecer do amigo Menezes...</p> + +<p>—Diga, diga! aprovou êste.</p> + +<p>—É impossivel na verdade encontrar por todo o concelho quem, como o sr. +Anselmo, seja capaz de desempenhar com tanta capacidade<span class="pn"><a +name="pag_56">{56}</a></span> e proficiência o papel de presidente do +município.</p> + +<p>—Apoiado!</p> + +<p>—Haja em vista,—justifiquei, voltando-me para êle,—o que V. Ex.ª fez da +outra vez por ocasião da gréve das leiteiras!</p> + +<p>—Ora, ora...—desdenhou Anselmo.</p> + +<p>—É a verdade, é a verdade! aplaudiu o Menezes.—Está na memoria de todos. +De todos!—repetiu, aprumando-se, nos bicos dos pés.</p> + +<p>—Andava-se aterrado, continuei, como na véspera dos grandes acontecimentos. +Dizia-se que ficaríamos sem leite na vila por uns poucos de dias!</p> + +<p>—Um alimento de primeira necessidade...—avolumou o jornalista.</p> + +<p>—Vai então o sr. Anselmo, num abrir e fechar de olhos, resolveu. Lembro-me +como se fôsse hoje da memorável sessão a que assisti e em que V. Ex.ª sossegou +a população, declarando que uma gréve dessa natureza seria para temer se em vez +de ser feita pelas vendedeiras de leite, fôsse feita pelas próprias +vacas...<span class="pn"><a name="pag_57">{57}</a></span></p> + +<p>—Sim senhor...—confirmou o Menezes.—Lembro-me perfeitamente; eu tambêm lá +estava. Por sinal que estreei um fato nêsse dia...</p> + +<p>—Emfim, rematei, e quantas coisas mais!? A quem se deve por exemplo o +melhoramento entre nós do carro do lixo?</p> + +<p>Menezes coadjuvou-me, indicou o boticário:</p> + +<p>—A êle!</p> + +<p>—A quem se deve a construção do coreto na Praça Nova?</p> + +<p>—A êle!</p> + +<p>—A quem se deve a compra dum irrigador para o hospital civil?</p> + +<p>—A êle! a êle só!</p> + +<p>—Ó senhores, pelo amor de Deus! confundem-me!—bradou o boticário rialmente +confundido, levando as mãos ao crâneo—Eu sou um humilde trabalhador, com +desejos de acertar, de bem servir a minha terra e os amigos. Nada mais!</p> + +<p>—Êsse pouco...</p> + +<p>—Mas quanto a política, francamente, confesso—estou farto; estou farto +dela até aos olhos!<span class="pn"><a name="pag_58">{58}</a></span></p> + +<p>—Isso diz êle agora, isso diz êle agora, murmurou o Menezes, piscando-me o +ôlho.—Olha quem, o régulo!</p> + +<p>Depois, despediu-se; chegou mesmo a descer o passeio; mas voltando atrás +afogueado:</p> + +<p>—Ouça lá, Anselmo, e hoje? o termómetro?</p> + +<p>Anselmo foi verificar. Inclinando para o solo o dedo indicador, hirto, num +gesto omnipotente, informou:</p> + +<p>—Desce!</p> + +<p>—Ah! Ótimo... Assim era duma pessoa morrer!</p> + +<p>E muito meneado, o jornalista lá se foi de vez a semear notícias.</p> + +<p> </p> + +<p>Dispus-me então a comentar o caso a sós com o Anselmo. Do seu facundo e +preclaro espírito viria até mim, triste mortal, o bom conselho, a opinião +autorisada e justa...</p> + +<p>Ministério em terra, o João Franco inesperadamente no poder... Era com +efeito um extravagante acontecimento.</p> + +<p>Eu nunca fôra, porêm, um político interessado. A dizer a verdade, não sabia +mesmo<span class="pn"><a name="pag_59">{59}</a></span> se aquele facto, na +aparência sensacional, representava uma vantagem ou um inconveniente para o +país. Não me encontrára jámais inclinado para êstes ou para aqueles. A ser um +franquista, um progressista ou um regenerador, preferia não ser coisa +nenhuma—que é para o que eu me sinto rialmente com vocação...</p> + +<p>Naquele momento todavia achei o João Franco simpático. Decerto vinha animado +de bons propósitos, decerto; e era um homem rico, o que—seja dito de +passagem—significava uma grande segurança para a inviolabilidade do Tesouro... +Menezes tinha razão.</p> + +<p>Todas estas considerações eu adusi a Anselmo, que me fitava e sorria +satisfeito.</p> + +<p>—Mas porque caíria o Hintze? indaguei.</p> + +<p>Anselmo torneou o balcão, veio dizer-me ao ouvido:</p> + +<p>—O rei, entende? que tem um medo dos rèpublicanos que se fina (isto aqui +para nós) e quer lá no poder um homem de envergadura, um homem que os tenha no +seu lugar, ora entende o senhor? Para isso, ninguêm mais nas<span class="pn"><a +name="pag_60">{60}</a></span> condições de que o João Franco. O João Franco é +um valente! Se lhe constar, <em>verbi gratia</em>, estando aqui, que lá fóra a +uma esquina há um homem com um cacete á espera dêle—acredite—é quando lá +passa mais depressa. Olha quem!... Nem o Bismarck!</p> + +<p>Eu ia acompanhando com interjeições o caloroso panegírico do ministro. E +quando Anselmo terminou:</p> + +<p>—Efectivamente, o João Franco...</p> + +<p>Anselmo benzeu-se:</p> + +<p>—Ah! meu amigo: é um colôsso!</p> + +<p>Fez-se silêncio. O boticário acondicionava numa caixinha a pomada preparada. +Assoou-se. Escreveu um rótulo e colou-o na tampa, a assobiar o hino da +carta.</p> + +<p>—Diga-me uma coisa, inquiri; o Menezes não era progressista?</p> + +<p>—Era; mas passou-se para os nossos há-de haver um mês. É um convicto.</p> + +<p>—Parece.</p> + +<p>—E brioso; um cavalheiro.</p> + +<p>—Parece.<span class="pn"><a name="pag_61">{61}</a></span></p> + +<p>—Ali o Souto dos telégrafos mijou-lhe um dia fóra do têsto...</p> + +<p>—O Souto? Ah! sim... Mas êsse é um trampolineiro!</p> + +<p>—É. O sr. fala-lhe?</p> + +<p>—Ás vezes, por cortesia...</p> + +<p>—Pois uma ocasião teve o descaramento de afirmar, no club, diante de quem o +quis ouvir, que um artigo que o Menezes publicára não era do Menezes e que +era... sabe o senhor de quem? imagine!—do Navarro, do Emídio Navarro!</p> + +<p>—Patife!</p> + +<p>—... que tinha vindo nas <em>Novidades</em> já não sei há quantos anos, e +que o Menezes o fôra copiar, alterando apenas ligeiramente a forma.</p> + +<p>—Patife! patife!</p> + +<p>—O Menezes, mal aquilo lhe chega aos ouvidos—êle que é um +esturrado!—agarra num vergalho e onde encontra o Souto prega-lhe uma destas +coças...</p> + +<p>—Bem feito.</p> + +<p>—De manhã já o Menezes aqui me tinha<span class="pn"><a +name="pag_62">{62}</a></span> dito a mim, furioso: «Juro-lhe, Anselmo, que onde +encontro aquele tratante, quebro-lhe um côrno».—Se bem o disse melhor o fez: +vai e quebrou-lho.</p> + +<p>—Anda-me.</p> + +<p>—No domingo imediato, quando tudo supunha a questão arrumada, zás: sai o +jornal? Eu cheguei a saber aquilo tudo de cór, homem!</p> + +<p>Concentrou-se, os olhos fechados, a mão na testa, a ver se se lembrava.</p> + +<p>E com pesar:</p> + +<p>—Já não vai; paciência!</p> + +<p>—É pena.</p> + +<p>—Mas digo-lhe o final, descance, que êsse é daqui...—e beliscava o lóbulo +da orelha. Então, o braço estendido, em atitude declamatória, o polegar e o +índice aplicados num gesto precioso, recitou, com uma pontinha de malicia nos +olhos: «Diz D. Bazílio que da calúnia alguma coisa fica. Não temêmos, porêm, +etc., etc., etc....» Repare agora: «Os aleives resvalam na consciência dos +justos como zagalotes no aço.» (Anselmo sublinhava: <em>como zagalotes no +aço...</em>). «Todo o mundo sabe que só<span class="pn"><a +name="pag_63">{63}</a></span> usamos o que nos pertence...» (<em>Piscadela de +ôlho do Anselmo</em>) «Não costumamos botar figura com coisas alheias: o +dinheiro dos amigos ou as joias das amantes: <em>Meneses dos Santos</em>».</p> + +<p>—Isso é medonho! comentei.</p> + +<p>Emquanto Anselmo repetia, vibrante de entusiasmo:</p> + +<p>—«O dinheiro dos amigos ou as joias das amantes»! Refere-se á mulher do +notário... Genial! genial!</p> + +<p>Rimos depois muito, com aplausos efusivos ao jornalista e censuras ao +procedimento do Souto, que fôra indecente.</p> + +<p>A conversa decaíu. Anselmo bocejava. Eu peguei num jornal, percorri-o com a +vista, distraído.</p> + +<p>—Então sempre vai amanhã? perguntou-me.</p> + +<p>—Sempre vou amanhã.</p> + +<p>—Pois o tempo está firme. A <em>coluna</em> desceu, mas descance que não +há-de haver novidade. Isto conserva-se.</p> + +<p>Bateu-me no ombro palmadinhas amigáveis:<span class="pn"><a +name="pag_64">{64}</a></span></p> + +<p>—Pode ir descançado...</p> + +<p>—O sr. Anselmo não quer para lá nada?—perguntei.</p> + +<p>—Não; quero que tenha muita saúde.</p> + +<p>Fitou-me carinhosamente:</p> + +<p>—E veja se engorda, coma-lhe! Parece que anda magro, homem... Dê cá um +abraço.</p> + +<p>Estreitá-mo-nos peito com peito. Éramos dois amigos velhos... Comovi-me; e +visto que se faziam horas de jantar, segui rua abaixo.</p> + +<p>—Até à volta!</p> + +<p>—Até à volta!...</p> + +<p>O sol abrasava. Quando dobrei a esquina, olhei. O boticário tinha vindo à +porta, dizia-me adeus de lá,—com a mão...<span class="pn"><a +name="pag_65">{65}</a></span></p> + +<h1>Sr. Anselmo</h1> + +<h4>(Perfil grotesco dum provinciano ilustre)</h4> + +<h3>(1912)</h3> + +<h3>II</h3> + +<p><span class="pn"><a name="pag_66">{66}</a><br><a name="pag_67">{67}</a></span></p> + +<h2>Sr. Anselmo</h2> + +<h4>(Perfil grotesco dum provinciano ilustre)</h4> + +<h3>(1912)</h3> +<hr style="width: 30%;"> + +<h2>II</h2> + +<div class="cap"> +A<span class="sc">nselmo</span> estava em Nagosa, fazendo a vindima, quando se +declarou em Lisboa o movimento revolucionário de outubro.</div> + +<p>Tinha vindo nesse momento de baixo, do lagar, aonde meia dúzia de homens +hercúleos, de calça arregaçada e pernas ao léu, rôxas como canelas de perdiz, +pisavam a uva, dançando ao som de ferrinhos e de adufe uma dança bárbara, +grotesca, entre uivos e assobios.</p> + +<p>O filho mais velho do caseiro fôra a Moimenta pelos jornais e por tabaco, e +a encomendar<span class="pn"><a name="pag_68">{68}</a></span> a carne do dia +imediato, que era dia de matança na vila.</p> + +<p>Não devia tardar.</p> + +<p>D. Ermelinda arranjára a ceia: uma ceia de caldo verde e sardinhas assadas, +raras naquela região e muito frêscas,—nem que Nagosa fôsse um braço de mar e +as houvessem ali pescado nêsse instante... No fim, para assentar, chá,—um +cházinho de cidade, loiro e aromático, dando a nota apurada da civilização após +aquele <em>menu</em> de cavadores.</p> + +<p> </p> + +<p>Viera a criada erguer a mesa, dobrando a toalha cautelosamente para não +espalhar as migalhas pelo chão, quando chegou o portador de Moimenta com a +notícia de que estalára a revolução em Lisboa. A notícia era vaga e incerta, +sem pormenores, porque não havia jornais nem o telegrafo funcionava; um +caixeiro de amostras chegado de Lamego essa madrugada, em deligência, espalhára +a novidade e disséra que Lisboa, a essa hora, era um mar de sangue!<span +class="pn"><a name="pag_69">{69}</a></span></p> + +<p>Desde o assassinato do rei que Anselmo sentia um forte desânimo por tudo +isto... D. Carlos, tipo de sibarita sem escrúpulos, inteligente, mentiroso e +gabarola, fôra a última trave que ruira do desmantelado edifício monárquico. A +sua morte, cuja forma, êle, Anselmo—homem de processos sóbrios—veementemente +reprovára, deixára o país em alvorôço, debatendo-se nas garras duma agonia +cruciante, mal amparado por gente tímida, com um rei no trôno «que não era rei +nem era rainha», figurita débil e epicena de maricas.</p> + +<p>—Havemos de ir longe! profetisava com melancolia.</p> + +<p> </p> + +<p>A nova da revolução na capital, trazida assim, de súbito, àquela hora da +noite, por um labrego analfabeto, a um lugar sertanejo e ignorado, não o +surpreendeu portanto, mas encheu-o de ansiedade e sobresalto.—Qual seria o +resultado de tudo aquilo? Venceria o govêrno? Venceriam os insurrectos? E +depois: a intervenção extrangeira?...<span class="pn"><a +name="pag_70">{70}</a></span></p> + +<p>Um calafrio de susto percorreu-lhe a espinha dorsal ao pensar nisso, nos +horrores duma carnificina e dum saque. Viu-se desapossado dos seus bens, +violentamente, à coronhada; viu-se escorraçado, prêso, fusilado a uma esquina! +Êle estava dispôsto todavia a declarar, sob sua palavra de honra, que embora +tivesse militado no partido franquista, não tinha a mínima sombra de +responsabilidade no indigno decreto de 31 de Janeiro...</p> + +<p>—Com que então Lisboa é um mar de sangue? perguntou de novo ao seu rústico +informador, como para certificar-se de que não delirava. E confirmada a +notícia, comentou:—Pois bem... Nós cá não temos nada com isso; lá é com êles. +Acima de tudo o que eu sou é patriota. Rèpública ou Monarquia tanto se me dá; o +que é preciso é haver quem nos governe. Boa noite!</p> + +<p> </p> + +<p>Havia lua cheia.</p> + +<p>Anselmo antes de se ir deitar saíu para o terraço da casa a respirar um +pouco, à vontade. Arrotou. As sardinhas vieram-lhe à bôca.<span class="pn"><a +name="pag_71">{71}</a></span> Murmurou arreliado:—«A mania de comer a esta +hora há de acabar.»</p> + +<p>O arzinho do campo, porêm, reanimou-o, fez-lhe bem, descongestionou-lhe o +rosto afogueado.</p> + +<p>Sentou-se num banco, á fresca, de colête desabotoado e a fumar.</p> + +<p>De dentro, atraves duma janela aberta, a voz de D. Ermelinda vibrou +esganiçada:</p> + +<p>—Ansèlminho, olha a bronquite!</p> + +<p>Não respondeu. A noite estava um encanto! Um luar muito claro punha em +relevo as silhuetas da paisagem larga, beirôa, de vegetação sombria e de +penedia hirsuta. Os cães ladravam na quinta. Milhões de estrelas scintilavam no +céu opalino, levemente ofuscadas pela alvura do luar...</p> + +<p>Murmurou, regalado:</p> + +<p>—E é que já daqui não saio, emquanto a coisa se não decidir...</p> + +<p> </p> + +<p>A 5 de Outubro estava a Rèpública definitivamente proclamada em Portugal, +sabendo-se da nova em Nagosa quando o vinho<span class="pn"><a +name="pag_72">{72}</a></span> de Anselmo começava a ferver nas dornas.</p> + +<p>De tarde Anselmo foi à lagariça para calcular com a vista a importancia da +colheita. Bem boa! Sabia-se que em Moimenta os rèpublicanos tinham já içado na +casa da Câmara o pavilhão revolucionário; ia um delirio na população. E o +brazileiro de Cabaços deitára meia dúzia de foguetes que se viram perfeitamente +de Nagosa subir e estalar no ar, deixando uns novelos de fumo branco, por +momentos, no azul do céu e no oiro vivo do sol outonal.</p> + +<p>Anselmo debruçou-se sôbre o lagar, farejou o môsto, teve um sorriso feliz de +proprietário favorecido, e chamando o caseiro:</p> + +<p>—Ó Jose, o vinhito êste ano parece-me bom, hein?</p> + +<p>—Parece que sim, meu padrinho...</p> + +<p>Era afilhado.</p> + +<p>—A uvazita fundiu... dizias que não.</p> + +<p>—Houve mais que eu sei lá!</p> + +<p>—Pois sim, mas...</p> + +<p>Não concluiu, não explicou o que queria dizer na sua.<span class="pn"><a +name="pag_73">{73}</a></span></p> + +<p>Tirou do bôlso a tabaqueira, um livrete de mortalhas; ofereceu uma na ponta +dos dedos ao afilhado; deitou-lhe na palma da mão calosa duas pitadas de tabaco +francês; limpou depois êle próprio as mãos sujas do rebordo da dorna a que se +agarrára, a umas palhas que ali topou a geito, e pôs-se a fazer um cigarro, +trauteando a <em>Portuguesa</em>.</p> + +<p> </p> + +<p>O primeiro desgosto sério que êle sofreu depois da Rèpública, foi com a +<em>lei da Separação</em>.</p> + +<p>A mudança de regimen, como Anselmo a entendia, resumir-se-ia a abolir a +realeza, causa imediata e suficiente de quantos cataclismos e desgraças +assoberbavam êste pobre país. O resto era pó, ou melhor, era ódio, vingança, +perseguição, fanatismo. Impressionára-o bem, ao começo, o facto de serem os +próprios miseráveis, os pobretanas, os maltrapilhos, quem guardára, nos dias da +Revolução, os bancos e as casas da gente endinheirada. Mas a questão da +bandeira, logo a seguir, a picuinha de substituirem as antigas<span +class="pn"><a name="pag_74">{74}</a></span> côres constitucionais pelo vermelho +e pelo verde (há quem diga que Anselmo sublinhava a palavra <em>verde</em> com +intenção maliciosa; talvez) começou a indispô-lo, a irritá-lo. De mais a mais +havia gente insuspeita a condenar as novas tintas! E os olhos sinceramente se +lhe arrasaram de lágrimas quando viu tremular no edificio da câmara municipal +da sua vila (da sua vila!) o hediondo trapo republicano.</p> + +<p> </p> + +<p>Aos primeiros dias de harmonia e de entusiasmo começaram a suceder-se no +país, pouco a pouco, outros, menos tranquilisadores e festivos. Tinham-se +efectuado prisões, demissões; surgiam ali e aqui desacordos, antipatias, notas +desafinadas no geral concerto; havia descontentes; principiava a falar-se +vagamente de conspiradores. O capitão Paiva Couceiro saíra para Espanha, +agressivo, no intuito de organisar um exército restaurador da monarquia. Os +padres, dizia-se, tinham o povinho ignorante das aldeias na mão, e era só +dizer-lhe:—«Vamos!» tudo marcharia à uma sôbre as<span class="pn"><a +name="pag_75">{75}</a></span> cidades e daí sôbre Lisboa, engrossando, rolando, +com a fôrça duma vaga e o barulho dum trovão!</p> + +<p>O Govêrno Provisório, sorrindo desdenhosamente, tomava no emtanto as suas +medidas de defeza, ordenava prevenções rigorosas nos quarteis. As redacções dos +jornais monárquicos eram assaltadas por magotes de homens armados e coléricos +que partiam o mobiliário, empastelavam o tipo, espatifavam as maquinas de +impressão, pondo tudo em fanicos, pelas janelas, no meio da rua.</p> + +<p>E foi numa altura destas, num estado assim de insubordinação e de +efervescência, que o govêrno se lembra de perseguir os bispos!</p> + +<p>Anselmo indignava-se:</p> + +<p>—O país é católico, dizia, o país é católico e não pode permitir semelhante +arbitrariedade! É um atentado contra a religião de cada um.</p> + +<p>Alguêm lhe ponderou que não, que o govêrno não pensava em perseguir ninguêm; +que não era êsse o espírito da lei; que o Estado o que não devia era apadrinhar +esta ou aquela religião. Eu mesmo, Teotónio Mendes,<span class="pn"><a +name="pag_76">{76}</a></span> republicano hereditário, apoiei com certa +autoridade e firmêsa estas sensatissimas explicações.</p> + +<p>—Cale-se! vociferava êle, exaltado, dirigindo-se-me; cale-se, que não diz +se não asneiras. A Rèpública tem de ser tolerante se quizer viver! Os +jacobinos, os carbonários como o senhor, não conseguirão por mais que se +esforcem abafar os protestos da opinião pública; e a opinião pública está +abertamente com a Igreja. Com a Igreja, fique-o sabendo!</p> + +<p>Todos nos calávamos. Anselmo limpava a fronte donde o suor porejava.</p> + +<p>—Pódem-me prender, se quizerem, que eu direi sempre a verdade. A verdade é +só uma!</p> + +<p>E cheio de provas, revoltado:.</p> + +<p>—Admite-se lá que se tire assim o pão a tanta gente, que se lance na +miséria tanto português, tanto padre com mulher e filhos... perdão (emendava): +com família numerosa.</p> + +<p>Em volta houve um silêncio aprovativo.</p> + +<p> </p> + +<p>Tudo mudára, na verdade...</p> + +<p>Um dia, Anselmo andava passeando na farmácia,<span class="pn"><a +name="pag_77">{77}</a></span> as mãos atrás das costas, a meditar no futuro do +país. O barómetro marcava tempo sêco—e lá fora chovia! A <em>coluna</em> +indicava uma temperatura alta, e Anselmo tinha a certeza de que era falso. +Aquilo queria dizer que andava tudo às avessas, que ninguêm se entendia neste +país, que a indisciplina reinava—até no tempo!</p> + +<p>Não havia doentes: há 15 dias que o movimento farmacológico era +insignificante. Assim, a própria ociosidade colaborava nos acontecimentos, +gerando nos cérebros ideias insubmissas...</p> + +<p>—V. Ex.ª é que é o sr. Anselmo Nogueira?—perguntou a meia voz um +desconhecido que entrou, descobrindo-se.</p> + +<p>—Eu mesmo em carne e osso. Ponha o seu chapéu. Que deseja?</p> + +<p>Mas logo, reconsiderando, medindo-o, fez pé atrás como quem desconfia do +sujeito e se prepara para se pôr a salvo, no caso de perigo.</p> + +<p>—Não se assuste, disse-lhe o recem-chegado, observando aquele gesto,—eu +não sou quem pensa... pelo contrário.<span class="pn"><a +name="pag_78">{78}</a></span></p> + +<p>—Ah!</p> + +<p>—Sou dos <em>fieis</em>. Trago-lhe aqui uma carta da Galisa...</p> + +<p>E levou a mão ao bôlso. Anselmo segurou-lhe no braço, palido:</p> + +<p>—Ó diabo, espere... espere lá, tome cautela.</p> + +<p>E foi à porta espreitar. Não havia ninguêm. Chovia.</p> + +<p>—Tem a bondade de entrar ali para dentro, indicou.</p> + +<p>E encostando a porta de vidro fôsco do laboratório:</p> + +<p>—Estou às suas ordens, pode falar... Estamos sós.</p> + +<p>Todo êle tremia.</p> + +<p>O outro entregou-lhe a carta em que lhe pediam dinheiro para uma próxima +incursão e lhe perguntavam se poderia auxiliar, a coberto da sua seriedade +insuspeita, um pequeno contrabando de armas: pistolas e munições. Assinava a +carta, em nome de Paiva Couceiro, «um amigo da Religião e da Pátria.»<span +class="pn"><a name="pag_79">{79}</a></span></p> + +<p>Anselmo gaguejou:</p> + +<p>—Sim... sim... dinheiro, talvez, mais adiante... Agora as pistolas, desde +já lhe digo, meu caro sr., que as pistolas não... Escusam de contar comigo para +semelhantes aventuras. A minha casa é muito freqùentada, tudo meche e +remeche... não há esconderijos...</p> + +<p>—Nesse caso...</p> + +<p>—Nesse caso, o melhor é ir bater a outra porta. Do meu lado podem contar +apenas com o apoio moral.</p> + +<p>O desconhecido ia retirar-se desanimado. Anselmo deu-lhe uma esperança;</p> + +<p>—Ah! olhe: e estricnina e sal de azêdas, à descrição...</p> + +<p>O enviado sorriu, agradeceu, despediu-se.</p> + +<p>—Diga-me cá, inqueriu ainda Anselmo interessado, com a mão dêle +apertada,—o nosso Paiva Couceiro como ficou?</p> + +<p>—Bem.</p> + +<p>—E o rei, tem-no visto?</p> + +<p>Não o tinha visto. Estava em Londres.</p> + +<p>—Coitado! aquele tambêm... Quando calhar, dê-lhe lá muitos recados meus, +sim?<span class="pn"><a name="pag_80">{80}</a></span></p> + +<p>O indivíduo misterioso prometeu, saíu da botica.</p> + +<p>—Oiça, oiça! A Ermelinda, minha mulher, tambêm se recomenda. E à D. Amélia. +Diga-lhe que cá os esperamos a todos, muito brevemente.</p> + +<p>Fez-lhe uma mesura aparatosa:</p> + +<p>—Meu caro senhor...</p> + +<p> </p> + +<p>Uma vista de olhos, rápida, furtiva, pelas janelas dos prédios fronteiros, a +ver se alguêm teria dado pela visita, e tornou ao laboratório, ruminando o +caso, arreliado por se ter esquecido na perturbação que o invadira, de +perguntar o nome do tipo. «E a gente às vezes a supôr que ninguêm nos conhece, +que não consta, que se não sabe lá por fóra! Ai Anselmo, ai Anselmo!...»</p> + +<p>Tirou do bôlso a carta comprometedôra, levemente amarrotada; acendeu um +fosforo e ali mesmo, antes de outra coisa, queimou-a, com prudência, +reduzindo-a a cinzas.</p> + +<p>O documento!</p> + +<p>Nisto, uma mulherzinha entrou na farmácia,<span class="pn"><a +name="pag_81">{81}</a></span> a correr, sem chaile, a pedir linhaça para o sr. +administrador que estava a morrer com uma cólica.</p> + +<p>Anselmo estremeceu. Para o sr. administrador? Fingiu que ia servir a mulher, +e de repente:</p> + +<p>—Oh co'a breca! esta agora! não tenho linhaça.</p> + +<p>—Não tem linhaça?!</p> + +<p>—Não tenho. Acabou-se-me.</p> + +<p>—E agora?</p> + +<p>—Agora... deve chegar amanhã.</p> + +<p>—Amanha! Amanha pode o homem estar no outro mundo!</p> + +<p>Anselmo sentiu que as pernas se lhe vergavam àquela ideia homicida; ia +trair-se, não podia mais.</p> + +<p>—No outro mundo?!</p> + +<p>—Sim, no outro mundo; se o sr. o visse!</p> + +<p>Anselmo, porêm, num abrir e fechar de olhos, raciocinou: «mas se êste é dos +tais que a monarquia não poupa quando voltar; se êle está fatalmente condenado +pela revindicta... Deixá-lo ir já!»<span class="pn"><a +name="pag_82">{82}</a></span></p> + +<p>—Pois tenha paciência, santinha; onde não há el-rei o perde...</p> + +<p>—El-rei! exclamou a mulher, furiosa, voltando costas, de repelão,—o que o +sr. precisava bem sei eu; não haver linhaça numa terra onde não há mais +boticas!</p> + +<p>Anselmo ainda ouviu a mulher a distância, queixar-se para alguêm, fazendo +escândalo:</p> + +<p>—É ali o boticário que não tem linhaça; anda só a pensar na monarquia, o +talassa, e esquece-se das obrigações...</p> + +<p>O epíteto de talassa custou-lhe os olhos da cara; mas emfim, tudo eram +sacrifícios pela Causa. Mais tarde havia de saber-se e os juros viriam—se +viriam!—com larga usura e gratidão...</p> + +<p>—Talassa! Talassa!...—gritava a mulher.</p> + +<p>—Pois sim...</p> + +<p> </p> + +<p>A incursão falhou. Pela raia, em Vinhais, bandos de malfeitores assalariados +tinham tentado um simulacro de luta contra a existência<span class="pn"><a +name="pag_83">{83}</a></span> do novo regimen. Fugiram. A notícia do fracasso +voou por todo o país com rapidez. Anselmo soube-a de manhã, na cama, pela +criada, e já se não quis levantar. Adoecera. Queixou-se de arrepios, gemeu, +disse à mulher que mandasse vir o médico.</p> + +<p>—E para a farmácia, quem vai?</p> + +<p>—Vai a senhora, rosnou, de mau humor.</p> + +<p>E abafou-se na roupa.</p> + +<p>O médico veio e receitou: era intestino. Como republicano, falou do caso. +Anselmo, mordido de curiosidade, desejou conhecer toda a acção nos mínimos +detalhes: quantos eram, quem vinha, quem comandava e por último, convencido da +derrota, da inanidade daquele esfôrço ridículo, perguntou:</p> + +<p>—E dos <em>nossos</em>, quem foi?</p> + +<p>—Dos nossos?! interrogou o médico, sem perceber.</p> + +<p>—Sim, dos rèpublicanos: quem é que o govêrno mandou a correr aquela tropa +fandanga a ponta-pé?</p> + +<p>O médico, que era um homem distraído, respondeu com indiferença:<span +class="pn"><a name="pag_84">{84}</a></span></p> + +<p>—Não sei; creio que ninguêm; nem se pensou em tal, ilustre +correligionário...</p> + +<p> </p> + +<p>Á tarde, Anselmo poude sair. Não tinha febre. O intestino desatou a +funcionar melhor e nem foi preciso medicar-se.</p> + +<p>—Mas que ideia aquela, dizia êle, no club, a uma roda de amigos +embasbacados,—que ideia aquela da restauração! São doidos!... A Rèpública tem, +não há dúvida, alguns defeitos, sou eu o primeiro a reconhecê-lo; mas +tirem-se-lhe! O que todos devemos fazer é trabalhar para que as novas +instituições sejam aquilo para que as creámos.—Não é isso, Teotónio? rematou, +voltando-se para mim, que o escutava transido.</p> + +<p>E com descaramento:</p> + +<p>—Você tem-me ouvido muita vez dizer isto mesmo; você sabe que eu já no +tempo da monarquia era tanto ou mais liberal do que você, que se tem por +histórico.</p> + +<p>Eu, moita.</p> + +<p>—Você não fala? não diz nada?</p> + +<p>Afastei-me prudentemente. Notei que ia rebentar<span class="pn"><a +name="pag_85">{85}</a></span> de indignação contra aquele farçante; mas ao +mesmo tempo sentia—como sentíamos todos aliás, diante dêle—que nem que +fizesse ou dissesse o dôbro do que dizia e fazia, algum de nós teria a coragem +de o desmentir!</p> + +<p> </p> + +<p>Assim se consumou pois a adesão solene do sr. Anselmo a Rèpública. Tudo o +que veio a seguir, gréves, intentonas, zaragatas, a incursão de julho... tudo, +numa palavra, encontrou-o já pela frente, tão decidido e jacobino, ou mais +ainda do que aqueles que se gabavam de o ser. Logo que se organizaram os +partidos, Anselmo filiou-se nos <em>democráticos</em>. E o ódio ao padre, o +horror ao padre, a fobia do padre obcecava-o de dia e de noite.</p> + +<p>Uma vez, um dos ministros foi a Vizeu: pespegou-se lá, com o Teotónio e o +administrador (aquele administrador que êle quis matar) e o Menezes jornalista, +que tambêm já era <em>democrático</em>. Assistiu ao jantar, fez um brinde +condenando o Clero, «êsse Clero infame a que pertencêra, não se sabe porque +caprichos da sorte, o célebre, o liberalíssimo<span class="pn"><a +name="pag_86">{86}</a></span> bispo daquela terra!». Falou depois de Viriato, e +terminou com um viva à Rèpública que atroou o vasto recinto do teatro onde o +banquete se realizava.</p> + +<p>O ministro, sensibilisado, ergueu-se para agradecer. Discursou pausadamente +durante 20 minutos, empunhou a taça por fim, e pediu a todos que o +acompanhassem e bebessem à saúde de Anselmo Nogueira, «figura prestimosa da +Rèpública, homem de bem às direitas, livre pensador e companheiro fiel dos +tempos da propaganda.—Hip! hip! hip! Hurrah!».</p> + +<p>As taças tilintaram. Anselmo, carregado, chorou. E Teotónio, batendo com a +mão no ombro do administrador de Moimenta, segredou-lhe:</p> + +<p>—Lá intrujou o ministro, o patife! Companheiro fiel dos tempos da +propaganda, ouviste? Que desafôro!</p> + +<p>O administrador comentou:</p> + +<p>—E livre pensador, filho! Parece que o estou ainda a ver de lanterna e de +opa na procissão do Senhor dos Paços! O que é o mundo!...<span class="pn"><a +name="pag_87">{87}</a></span></p> + +<p>Eu puz-me a considerar, palitando os dentes.</p> + +<p>—Então e nós? indaguei por fim, despeitado.</p> + +<p>—Nós? nós? Essa agora! Nós não saìremos nunca da cêpa torta, meu velho... +Este Anselmo, êste farmaceutico, que ali vês recostado numa cadeira, é o modelo +do político português. Maioral no tempo da monarquia, maioral se vai tornando +dentro da Rèpública. Era de esperar! Pois se os monárquicos é que prepararam +isto com os seus erros, se êles é que deitaram a monarquia a terra, não achas +justo que quem plantou a vinha pense tambêm agora em comer os cachos?...<span +class="pn"><a name="pag_88">{88}</a><br><a name="pag_89">{89}</a></span></p> + +<h1>Candidinha Cerdeira</h1> + +<h3>(Novela romântica)</h3> + +<p> <span class="pn"><a name="pag_90">{90}</a><br><a name="pag_91">{91}</a></span></p> + +<h2>Candidinha Cerdeira</h2> + +<h3>(Novela romântica)</h3> + +<blockquote> + <p>«Pasmei, como a gente pasma até certa idade, das maravilhas que se fazem + no coração das raparigas.»</p> + + <p class="assin">C<small>AMILO</small>.</p> +</blockquote> + +<div class="cap"> +E<span class="sc">m</span> casa da D. Leonor, viuva do juiz Cerdeira,—que era +irmão do afamado cónego Amorim Cerdeira, vigário geral na diocese +d'Angra—falou-se muito toda essas noite na vinda do novo professor do +liceu.</div> + +<p>Chamava-se Hipólito e trouxera a irmã, Alzira, rapariga loira que usava uns +chapeus enormes e punha beladona detrás das orelhas para fazer os olhos +bonitos...</p> + +<p>Era uma excêntrica. A história da vida e obras de certa princezinha otomana, +filha dum velho imperador de Constantinopla, extravagante<span class="pn"><a +name="pag_92">{92}</a></span> até à loucura em matéria de garridice, lida num +volume que o irmão lhe emprestára, pô-la em termos de aspirar a utopias: +desejaria banhar-se num lago d'aguas perfumadas, ungir o corpo d'óleos +aromáticos, ter um jardim suspenso e uma multidão de escravas que fossem todas +as manhãs colher o orvalho das flôres... para ela refrescar o rosto.</p> + +<p>Custára-lhe imenso a deixar Lisboa e vir assim encafuar-se numa +aldeia,—porque era positivamente uma aldeia aquele feio e triste burgo +d'aspecto desolado e monótono, onde não conheciam ninguêm.</p> + +<p>Emfim, para quem trazia os nervos combalidos dos sobressaltos e incertezas +das grandes horas da Revolução, aquilo até certo ponto convinha. Tinha +amenidades de paraiso a paz pôdre, o sossêgo vegetativo e pacovio daquela terra +pequena, com sua vida imutável, seus hábitos conservadores e sedentários, um +modo bisbilhoteiro de vir às portas e às janelas espreitar, e certo +<em>centro</em> palreiro de maledicência e política, que logo lhes disseram ser +ali a loja do <em>amigo Palma</em>.<span class="pn"><a +name="pag_93">{93}</a></span></p> + +<p>Quem pôs a cidade ao par de toda a biografia do professor e da irmã foi o +Malafaia, o grande bacharel Malafaia, de quem o dr. Marim, médico do partido, +dizia: «—Êste não se formou: formáram-no...»—Conhecia-os de lhe terem sido +apresentados há anos na Figueira da Foz. Alzira confessou-lhe agora, quando os +visitou, que gostava muito da cidade.</p> + +<p>—O quê! sério?</p> + +<p>Sério. Dava-se bem com os ares, que eram puros, saudáveis, e com a água, +magnífica! Apenas uma única coisa a contrariava devéras: ter de viver num +hotel..</p> + +<p>Malafaia reconheceu que havia em todas aquelas referências uma pontinha de +malícia.</p> + +<p>—No hotel? disse.—E porque é que V. Ex.<sup>as</sup> não arrendam uma +casa?</p> + +<p>—Porquê? Ora essa; o doutor nem conhece a sua terra... Porque as não há!</p> + +<p>Rialmente não as havia. Que aborrecimento!<span class="pn"><a +name="pag_94">{94}</a></span></p> + +<p>—Eu não sei o que os senhores fazem ao dinheiro...—tornou Alzira, achando +móle e carregando.</p> + +<p>—Tambêm o não há...—respondeu o bacharel.</p> + +<p>Todos riram com a resposta. O professor declarou no emtanto achar-se +resignado, contente... Apesar dêsses pequenos defeitos—e qual era a terra que +os não tinha?—aquele meio era delicioso.</p> + +<p>—Só esta pacatez!...</p> + +<p>E abeirou-se da janela, encheu os pulmões do ar puro que vinha das altas +montanhas distantes.</p> + +<p>—Quer saber? murmurou,—minha irmã, a primeira noite que aqui ficámos, não +conseguiu pregar ôlho...</p> + +<p>—Então? Porquê?</p> + +<p>—Por causa do silêncio!</p> + +<p> </p> + +<p>D. Leonor vivia com a filha, Maria Cândida,—a Candidinha—que andava agora +nos dezoito anos e ainda engatinhava quando o pai morreu de congestão cerebral. +Reunia aos<span class="pn"><a name="pag_95">{95}</a></span> sábados. Iam quase +sempre o juiz da comarca e a mulher; o sr. Xavier—o <em>Xavier das +massas</em>—solteirão abastado e artrítico; o dr. Marim e às vezes uma D. +Josefina, tambêm viuva, que fôra operada por êle duma doença d'útero. Tudo +gente de idade. Maria Cândida aborrecia-se daquela vida. A mãe andava sempre a +dizer-lhe:</p> + +<p>—Que cara que tu trazes, rapariga! Nem parece que te lus o que comes. +Endireita-te! Que há de dizer a outra gente. </p> + +<p>O dr. Marim tinha um facataz pela pequena. Achava-a esperta, interessante, +em tudo revelando um carácter diferente da vulgaridade. Dedicára-se-lhe por +isso com um entranhado amor de pai, em certas ocasiões surpreendendo-se a +chamá-la, a acarinhá-la como se ela rialmente fôsse do seu sangue... Tambêm, a +cachopinha, logo de tenra idade correspondia àquele amor; e quando o médico, a +brincar, lhe perguntava se queria ir com êle, fugir da mãe para longe, a petiza +saltava-lhe ao pescoço, a cobri-lo de beijos, sem dizer palavra,—lá no fundo a +desejar que êle a<span class="pn"><a name="pag_96">{96}</a></span> levasse... +D. Leonor sorria; intimamente porêm desgostava-se. Desenvolveu-se à pressa, +espigou dum dia para o outro, Maria Cândida. Todos diziam:—«Está uma senhora!» +E deu então em andar triste, murchita, nervosa, a ponto de a mãe se alarmar, +perguntando ao médico o que seria. O médico ria-se, receitava:</p> + +<p>—Banhos... Água p'ra cima daqueles nervos! E deixe-a saír, não a prenda em +casa, que estas idades querem sol...</p> + +<p>Maria Cândida tinha-lhe dito um dia:</p> + +<p>—A mamã quer-me para freira, não há dúvida. Tem medo que eu saia, proíbe-me +que chegue a uma janela, não me deixa mecher se não nos livros do tio Cerdeira, +que são todos em latim. É pior!</p> + +<p>O médico ficou a ruminar a gravidade daquele comentário; «é pior!»; +distraindo o olhar pela variada, profusa, quase incongruente decoração da sala, +onde D. Leonor recebia aos sábados. A rapariga tinha rasão: educar, pensava +êle, é formar seres conscientes, livres, não é torcer aptidões e +tendências<span class="pn"><a name="pag_97">{97}</a></span> naturais por forma +a amoldá-las ao próprio interesse de quem educa. Dizer a alguêm: «has de ser +isto ou has de ser aquilo, porque eu quero, porque convêm, porque é assim», e +não admitir sequer que êsse alguêm raciocine, ou sinta, ou queira doutro +modo,—é um absurdo. Tão grande como se uma pessoa que tivesse fome em dado +momento, exigisse dos mais, no mesmo instante, a mesma vontade de comer...</p> + +<p>O médico, por fim, demorou os olhos sôbre um enorme quadro exposto numa das +paredes do fundo, que representava um trecho de paisagem oriental: palmeiras, +filas de camelos pensativos e gibosos; e um beduino barbinêgro, prosternado, +osculando o solo poeirento, onde poisára o cajado de larga crossa e as babuchas +de palha de arroz...</p> + +<p>O dr. juiz nunca via aquilo que não exclamasse:—Lindo!—e encavalava a +luneta para ler o nome do autor, que lhe esquecia sempre.</p> + +<p>Maria Cândida sentou-se ao piano. Imprimia ao que tocava um movimento de +embalo, vagaroso e triste, que tanto podia traduzir a<span class="pn"><a +name="pag_98">{98}</a></span> influência duma vida pendular, claustral e +monótona, reflectindo-se-lhe nos sentimentos, como a aspiração vaga e inquieta +duma alma que procura no ritmo da música o ritmo do vôo...</p> + +<p>Conheceu Hipólito num domingo, à saída da missa, onde o professor fôra +acompanhar a irmã. Malafaia, que aparecia em toda a parte por um maravilhoso +dom de ubiqùidade, mal os avistou, fez as apresentações.</p> + +<p>D. Leonor não gostou. Aconselhára-a o sr. Xavier que não quisesse relações +com semelhante gente: «gente de Lisboa, sabe? uma educação muito livre.» E +torceu o nariz, fez o gesto vago de quem prevê calamidades.</p> + +<p>Durante a missa Maria Cândida notou que o professor a fitava com uma +curiosidade insistente. Tinham ficado todos, casualmente, em cima, no côro. +Através dos balaústres ela via o padre ao fundo, oficiando; e atrás, enchendo a +comprida nave, o povinho das aldeias que vinha aos mercados semanais.</p> + +<p>Hipólito ficára junto de Alzira, que trazia<span class="pn"><a +name="pag_99">{99}</a></span> como sempre um chapéu escandaloso, e observava os +menores gestos de Maria Cândida. Viu-a abrir o livro, persinar-se, bater no +peito devotamente quando o padre consagrou a hostia e ergueu o cálice e, no +silêncio religioso da igreja, o som da campainha vibrou, duas vezes, com +solenidade e cadência.</p> + +<p>Um raio de sol filtrou a sua luz pura por uma das altas janelas da nave e +foi refractar-se nos pingentes dum lustre de cristal pendente da abóboda, +incidindo por fim, já irisado, no cabelo, nas faces, no manto azul duma Senhora +das Dôres, que chorava no altarzinho duma das capelas laterais... Maria Cândida +resou-lhe uma oração fervorosa e a Virgem pareceu sorrir por entre as lágrimas, +agradecer, no seu banho de luz—no que Maria Cândida viu um sinal de bom +agoiro...</p> + +<p> </p> + +<p>Quando lhe apertou a mão, cá fora, e a poude observar à claridade crua do +meio dia, perto de si, Hipólito ficou encantado. Era o tipo sonhado, inédito, +da beleza inculta, da simplicidade provinciana. Tinha na fala o<span +class="pn"><a name="pag_100">{100}</a></span> sotaque da pronúncia beirôa, +autêntica, sibilante de <em>ss</em>; e nos olhos um ar assustadiço, implorativo +e meigo, de herbívora.</p> + +<p>A caminho de casa, Alzira disse ao irmão:</p> + +<p>—Se um dia te desse para o casamento, gostava que casasses com uma rapariga +assim...</p> + +<p>E êle:</p> + +<p>—Quem havia de dizer que numa terra destas!...</p> + +<p> </p> + +<p>D. Leonor guardava a filha como um dia santo. Não a votava decerto, +estèrilmente, ao celibato, mas reservava-lhe um destino a seu gôsto. Não a +tinha trazido no ventre? Não a tinha criado, educado, sofrendo por ela penas e +reveses? Sabe Deus!</p> + +<p>—Quando se tem a tua idade, prègava-lhe, não se pensa, não se reflecte, +deixa-se a gente levar pelas aparencias; mas depois... Teu pai, quando casámos, +não tinha vintêm,—e diziam que era esperto... Ao princípio vi-o muita vez a +chorar, a arrepelar-se, a pensar em morrer. De que lhe servia a esperteza? +Serviu-lhe mas foi o irmão, que era um homem de tino e de<span class="pn"><a +name="pag_101">{101}</a></span> fortuna, com amigos a valer que lhe arranjaram +o despacho...</p> + +<p>Maria Cândida escutava sem retorquir. Percebêra que a mãe queria casá-la com +o Xavier.—O Xavier! Um velho! um antipático que usava meias de lã ásperas como +urtigas, que desabotoava o colete depois de jantar e, sobretudo, que podia ser +avô dela! Metia-lhe horror e repugnância tal ideia. Nunca! Nem que tivesse de +ficar solteira, como as tias de Freixinho...</p> + +<p>Uma amiga do colégio—a Matôso—tinha-lhe jurado que o professor andava com +boas intenções; que aquilo não era um passatempo; que lhe afirmára o +Malafaia—sabes? o Malafaia que agora me faz a côrte...—que o casamento era +infalível.</p> + +<p>Ela punha-se com evasivas:</p> + +<p>—Pois sim... Eu então já ouvi dizer que era comtigo...</p> + +<p> </p> + +<p>Entretanto o namôro progredia. Não era segrêdo para ninguêm que se carteavam +e que tinham entrevistas do mirante do jardim. Em<span class="pn"><a +name="pag_102">{102}</a></span> toda a parte se comentava isto: a paixão do +professor do liceu e da Candidinha Cerdeira.</p> + +<p>E amiudava-se o caso, referiam-se pormenores excitantes. Havia quem tivesse +visto o professor, feito Romeu, trepar por uma escada de corda para o muro do +quintal! Méra invenção, claro. Mas o Matos do govêrno civil tambêm vira—porque +via sempre tudo e jurava ser verdade por duas filhas que lá tinha em casa.</p> + +<p>D. Leonor deu conta que Hipólito lhe passava repetidas vezes à porta, que se +pespegava horas e horas no estabelecimento da esquina a olhar para as janelas. +Estremeceu de angústia! Deu terminantes ordens à filha, que passou a habitar os +aposentos interiores do prédio. O sr. Xavier tinha-lhe abertamente declarado, +submetendo-se a tudo:</p> + +<p>—Arranje a sr.ª cá e chame-me quando fôr preciso...</p> + +<p>Era o momento!</p> + +<p>Mas, sendo mulher, fraca, portanto, e irresoluta, quis estribar-se na +opinião do médico, pessoa tambêm da sua inteira confiança.<span class="pn"><a +name="pag_103">{103}</a></span></p> + +<p>—A minha opinião? disse-lhe êle.—Mas alguêm tem que dar para aí a sua +opinião?</p> + +<p>Ela encarou-o com espanto, sem compreender.</p> + +<p>—Entendo que um casamento deve ser feito à vontade dos que se casam, +explicou o médico.—Casam bem? casam mal? Lá é com êles...</p> + +<p>—Perdão, interrompeu a viuva.—Eu, que sou a mãe, tenho naturalmente que +intervir dalgum modo na orientação, ou na escolha...</p> + +<p>—Conforme, minha sr.ª, conforme... Se se trata apenas de orientar, de +dirigir a sua filha nêsse passo, está bem; mas propriamente a <em>escolha</em>, +é a ela só que pertence. Os filhos não são—como muita gente póde ainda +erradamente presumir,—uma legítima propriedade dos pais... Os filhos são +pessoas independentes, com direitos, com atribuições...</p> + +<p>—De maneira que o doutor condena a minha atitude? Entende que eu devo +desinteressar-me por completo do futuro da minha filha?...<span class="pn"><a +name="pag_104">{104}</a></span></p> + +<p>—Por completo!? Mas quem pensa nisso? Por completo, não, +evidentemente...</p> + +<p>—Bonita doutrina, não haja duvida, murmurava D. Leonor sem o ouvir, fula, +mordendo o beiço, batendo nervosamente com o leque no joelho, repetidas +vezes.—«Casa-te, casa-te p'r'aí, rapariga, com o primeiro que te apareça...» +Haviamos de vê-las bonitas, se assim fôsse!...</p> + +<p>O médico desistiu de discutir.</p> + +<p>—Bem! rematou, erguendo-se,—para terminar: quer V. Ex.ª um conselho, um +conselho de amigo, de pessoa que conhece um bocado a vida e que tem levado +muito ponta-pé e aprendido à sua custa o pouco que sabe? Quer?</p> + +<p>D. Leonor não respondeu.</p> + +<p>—Não obrigue sua filha a casar com semelhante homem.</p> + +<p>—Ora essa! Com quem quer o doutor então que ela case?</p> + +<p>—Sei lá! Mas naturalmente com quem ela quiser...</p> + +<p>E pôs termo.<span class="pn"><a name="pag_105">{105}</a></span></p> + +<p> </p> + +<p>D. Leonor não desanimou. A manobra do casamento com o velho seguiu seus +trâmites. Na cidade a indignação era geral. Para mais havia constado a scena da +entrevista com o médico, as suas discordâncias, o ligeiro amuo +subseqùente...</p> + +<p>—Víbora! víbora! dizia-se.—O dr. Marim bem a conhece...</p> + +<p>E formulavam-se as piores insídias: que o ilustre Xavier era amante da D. +Leonor e que impunha agora o casamento com a filha sob pena dum escândalo.</p> + +<p>Havia quem gostasse disto, havia quem não gostasse; a maioria dizia:</p> + +<p>—É bem feito! aquilo não se faz...</p> + +<p>No cúmulo da revolta, Malafaia, em verdadeiros comícios nas lojas, lembrava +que era preciso salvar aquela criança custasse o que custasse... E com teatral +entono, instigava:</p> + +<p>—É preciso ir lá (fazia o gesto de quem aponta uma Bastilha) arrombar as +portas e pôr a infeliz no ôlho da rua!</p> + +<p>A coisa estava neste pé.<span class="pn"><a +name="pag_106">{106}</a></span></p> + +<p> </p> + +<p>Certo dia o dr. Marim recolhia a casa, cedo, para almoçar. A criada, uma +velha servente encarquilhada e sêca como uma casca de noz, a coxear da +sciática, disse-lhe, mal êle se poz a desdobrar o guardanapo:</p> + +<p>—Então, já sabe? A menina Candidinha parece que já não casa com o sr. +Xavier. Está desfeito.</p> + +<p>O médico teve um gesto de mau humor irreprimivel:</p> + +<p>—Lá esta você! Todos os dias novidades! Quando é que esta criatura se +cansará de dar novidades?</p> + +<p>E desatou a rilhar o bife sem vontade. A velha rodou sôbre os calcanhares, +saíu da sala.</p> + +<p>—Pois é tudo cheio cá na cidade, insistiu quando voltou.—A menina julgo +que sempre confessou...</p> + +<p>—Confessou o quê, mulher?</p> + +<p>—Olha o quê! O que já corria: que é amante do professor...</p> + +<p>O médico ergueu-se de golpe, lívido, transfigurado,<span class="pn"><a +name="pag_107">{107}</a></span> fazendo recuar até à porta a pobre velhota +espavorida de o ver assim:</p> + +<p>—Crédo! santo nome de Deus! mas que tem? murmurou, supondo que o médico +fôra acometido de loucura.</p> + +<p>—Você ouviu isso?</p> + +<p>—Ouvi, sim senhor.</p> + +<p>—A quem? Aonde? Diga.</p> + +<p>—Por aí, diz-se em toda a parte; é tudo cheio...</p> + +<p>Êle levou ambas as mãos ao crânio. Esteve assim, sem se mover, sem dizer +palavra, por espaço de alguns minutos. Depois arremessou o guardanapo, empurrou +a cadeira, pediu o chapéu e a bengala para saír—e saíu, deixando a mulher +boquiaberta, sem perceber coisa nenhuma.</p> + +<p> </p> + +<p>Quando, uma ou duas horas depois, subia as escadas da casa de Hipólito, o +dr. Marim ia cabisbaixo, taciturno, como se uma grande dôr o tivesse +trespassado mortalmente.</p> + +<p>Estivera com D. Leonor que lhe confirmou entre recriminações e prantos a +tremenda<span class="pn"><a name="pag_108">{108}</a></span> nova da desonra da +filha. Fôra ela, a dissimulada, quem se denunciára—com um descaramento, uma +serenidade, um cinismo, calcule o doutor, que deixava a perder de vista as +maiores desavergonhadas da terra! E era sua filha! D. Leonor não sabia dizer +como se contivéra e porque a não estrangulára... Sua filha, tinha dito? Não! +Maria Cândida morrêra! Essa que ainda ali conservava, a dentro do seu lar, por +uns restos de comiseração, mas que nunca mais quereria ver, não era sua filha: +era uma mulher perdida!</p> + +<p>E o sr. Xavier? Ah! êsse então, coitado, tinha ficado como morto. +Compreende-se... Porque Maria Cândida levára a sua audácia até ao ponto de +dizer tudo diante dêle, diante das criadas e dos convidados,—era um +sábado—alto e bom som, para que não se perdesse pitada: «A mãe queria casa-lá +com o Xavier das massas, por dinheiro; pois bem, ela afirmava ali +terminantemente que não casaria: primeiro, porque o detestava; segundo, porque +tinha um amante, o professor!»</p> + +<p>—Veja o meu amigo, agora, o que foi fazer!<span class="pn"><a +name="pag_109">{109}</a></span> comentou o dr. Marim, voltando-se para +Hipólito, a quem acabava de expor a situação com esta nitidez.—Que cabeça a +sua! Que responsabilidades!</p> + +<p>Hipólito sorriu ligeiramente, murmurou:</p> + +<p>—Até que ponto nos podem levar os desvarios do amor, doutor, não é +assim?</p> + +<p>—É assim mesmo, concordou o médico.—Mas um homem nunca tem nada a perder +com estas coisas; agora uma rapariga!...</p> + +<p>—Perde tudo.</p> + +<p>—Sim, tudo!</p> + +<p>Houve um silêncio.</p> + +<p>—O sr. não andou bem, Hipólito, confesse, não andou bem...</p> + +<p>—Eu?...</p> + +<p>—É claro.</p> + +<p>—Na sua opinião, pelo menos, doutor... Já me cheguei a convencer de que sou +rialmente um canalha... pois que como tal procedo...</p> + +<p>—Leviandades, leviandades...—atenuou o médico.—Eu habituei-me a ver em +Maria Cândida uma espécie de filha, desde muito<span class="pn"><a +name="pag_110">{110}</a></span> nova. Não admira. Tive-a nos braços quando +nasceu, pequenina, vi-a depois medrar, crescer, fazer-se mulher à minha +vista—afeiçoei-me. Que quer? Emfim...—limpou uma lágrima que lhe rolou ao +comprido da face—coisas da vida!</p> + +<p>Depois, apreensivo:</p> + +<p>—O sr. o que pensa fazer agora?...</p> + +<p>Hipólito ficou sem responder, um bocado, com o espírito absorvido num +pensamento cruel e longínquo, que o fazia empalidecer.</p> + +<p>—Vou confiar-lhe um segrêdo, disse, por fim, numa resolução +firme.—Devo-lhe muitas atenções e custar-me-ia sinceramente que o doutor +ficasse formando de mim um conceito menos lisongeiro...</p> + +<p>—Fale, meu amigo, fale, disse o médico ancioso por o +ouvir.—Prestar-lhe-ei, creia, toda a atenção. Fale...</p> + +<p>Hipólito hesitou; aprumou-se, procurando dar às suas palavras um tom solene, +de grande sinceridade.</p> + +<p>—Maria Cândida não está culpada; Maria Cândida não é, nem nunca foi minha +amante!<span class="pn"><a name="pag_111">{111}</a></span></p> + +<p>—Que me diz?!</p> + +<p>—A verdade! Maria Cândida é tão virtuosa, hoje, tão pura e imaculada como +na hora em que pela primeira vez a encontrei. Não me acredita? Juro-lhe.</p> + +<p>O médico fitou-o, desconfiado, surprezo.</p> + +<p>—Conhece esta letra? disse Hipólito.</p> + +<p>E colocou-lhe diante dos olhos um papel cuidadosamente retirado da +carteira.</p> + +<p>—Conheço. É a letra de Maria Cândida.</p> + +<p>—Pois é. Leia!</p> + +<p>O médico obedeceu. E quando terminou, os olhos arrasados de lágrimas, +deixou-se caír sôbre uma cadeira, p'ra ali, varado de espanto.</p> + +<p>—É assombroso!</p> + +<p>Hipólito arrancou-lhe das mãos, trémulas pela comoção, a carta, cujo final +releu em voz alta: «... Pois bem. Afirmarei, ou darei a perceber a todo o mundo +que sou tua amante; dêste modo nenhum outro homem me quererá...»</p> + +<p>—É assombroso! repetia o médico estonteado.—E é uma criança! é uma criança +que faz disto!...<span class="pn"><a name="pag_112">{112}</a></span></p> + +<p>Emquanto Hipólito, a chorar, concluia:</p> + +<p>«Se me desmentes... mato-me. E tu bem sabes—sim, tu bem sabes!—como eu sou +capaz de cumprir fielmente o que prometo...»<span class="pn"><a +name="pag_113">{113}</a></span></p> + +<h1>Eureka!</h1> + +<p> <span class="pn"><a name="pag_114">{114}</a><br><a name="pag_115">{115}</a></span></p> + +<h2>Eureka!</h2> + +<blockquote> + <p>"—Je vous demande pardon: vous étes bien monsieur Boubouroche?"</p> + + <p class="assin">C<small>OURTELINE</small>.</p> +</blockquote> + +<h4>ACTO I</h4> + +<blockquote> + <p><em>No escritorio dum advogado.</em></p> +</blockquote> + +<p class="centrado">O CLIENTE</p> + +<div class="cap"> +C<span class="sc">hamo-me</span> Teodorico da Silva, negociante, com +estabelecimento de bebidas...</div> + +<p class="centrado">O ADVOGADO</p> + +<p>Sim senhor. Faz o obséquio de sentar-se.</p> + +<p class="centrado">O CLIENTE</p> + +<p>O meu caso é simples, conta-se em breves palavras. Sou casado, e minha +mulher... minha mulher engana-me, descaradamente, com o primeiro caixeiro da +casa.<span class="pn"><a name="pag_116">{116}</a></span></p> + +<p class="centrado">O ADVOGADO</p> + +<p>É então uma acção de divorcio que o senhor deseja intentar?...</p> + +<p class="centrado">O CLIENTE, <em>presuroso</em>:</p> + +<p>Perdão... Eu ainda não disse a V. Ex.ª o que desejo. (<em>Pausa</em>). Eu me +explico: Sou um homem honrado, nunca roubei nada a ninguêm, mas sou tambêm um +temperamento desgraçado, um sentimental, um fraco. Não posso, por exemplo, ver +sangue. Para lhe falar com franqueza, nunca na minha vida—e já tenho cincoenta +anos—peguei numa arma! Isto tudo vem para lhe explicar o motivo porque não +matei minha mulher ontem à noite quando entrei em casa e a vi com <em>êle</em>, +em doce colóquio amoroso, mais que amoroso! sôbre um canapé de estimação...</p> + +<p class="centrado">O ADVOGADO, <em>interessado</em>:</p> + +<p>Sim senhor.</p> + +<p class="centrado">O CLIENTE</p> + +<p>Ora porque sou um homem honrado, respeitador das leis e dos costumes, +preciso evidentemente<span class="pn"><a name="pag_117">{117}</a></span> dar +uma satisfação ao mundo, que seja, ao mesmo tempo, uma satisfação à minha +consciência. Posta de parte, pois, a ideia duma solução violenta, resta-me, +claro, essa a que V. Ex.ª se referiu há pouco, isto é—o divorcio.</p> + +<p class="centrado">O ADVOGADO, <em>interessadíssimo</em>:</p> + +<p>Sim senhor...</p> + +<p class="centrado">O CLIENTE</p> + +<p>Mas o senhor não sabe—porque não é casado—o que são vinte e tantos anos +passados com uma mulher...</p> + +<p class="centrado">O ADVOGADO, <em>impressionado</em>:</p> + +<p>Faço ideia...</p> + +<p class="centrado">O CLIENTE</p> + +<p>Não. V. Ex.ª não póde fazer ideia. É tudo a prender-nos, sabe? É a +companhia, as inclinações, o paladar... Emfim, em conclusão, o divorcio por +coisa nenhuma deste mundo.</p> + +<p class="centrado">O ADVOGADO, <em>cofia a barba e medita apreensivamente no +caso</em>.<span class="pn"><a name="pag_118">{118}</a></span></p> + +<p class="centrado">O CLIENTE</p> + +<p>Pensei então noutra coisa...</p> + +<p class="centrado">O ADVOGADO, <em>ancioso</em>:</p> + +<p>Diga!</p> + +<p class="centrado">O CLIENTE</p> + +<p>Pensei então em despedir o caixeiro. (<em>Sinal de aprovação do +advogado</em>). Mas aqui outro grave obstáculo se levanta! O caixeiro é um +antigo empregado da casa, muito conhecedor do assunto; é êle, póde dizer-se, a +alma do negócio! Despedi-lo seria ver fugir a freguezia, ver ir tudo por água +abaixo... sem apelação!</p> + +<blockquote> + <p><em>Ficam os dois calados. Ouve-se a respiração alta do cliente, como um + estertor.</em></p> +</blockquote> + +<p class="centrado">O ADVOGADO, <em>erguendo-se</em>:</p> + +<p>Pois meu caro amigo, visto isso, não sei; não sei o que deva dizer-lhe... +(<em>Estende-lhe a mão pesaroso</em>). O melhor de tudo é ter paciência: a +paciência é uma virtude...<span class="pn"><a +name="pag_119">{119}</a></span></p> + +<p class="centrado">O CLIENTE, <em>desalentado</em>:</p> + +<p>E o mundo? E então o mundo o que dirá? o que dirá?</p> + +<p class="centrado">O ADVOGADO</p> + +<p>O mundo dirá que o meu amigo é uma excelente pessoa, que sua mulher foi uma +ingrata em lhe fazer o que lhe fez...</p> + +<p class="centrado">O CLIENTE, <em>com uma lágrima a borbulhar ao canto do +ôlho</em>:</p> + +<p>E foi. Palavra de honra que foi.</p> + +<blockquote> + <p><em>Despede-se abatido.</em></p> +</blockquote> + +<h4>ACTO II</h4> + +<blockquote> + <p><em>Numa rua concorrida. Mêses depois. Ao dobrar a esquina encontram-se o + cliente e o advogado.</em></p> +</blockquote> + +<p class="centrado">OS DOIS, <em>ao mesmo tempo</em>:</p> + +<p>Oh!... oh!... Por aqui?</p> + +<p class="centrado">O CLIENTE</p> + +<p>Ora ainda bem que o encontro.<span class="pn"><a +name="pag_120">{120}</a></span></p> + +<p class="centrado">O ADVOGADO</p> + +<p>Muito folgo em o encontrar...</p> + +<p class="centrado">O CLIENTE, <em>com o ar alegre, o semblante desanuviado e +risonho; sem rodeios</em>:</p> + +<p>Sabe que achei uma saída admirável para aquilo?...</p> + +<p class="centrado">O ADVOGADO, <em>surprêso</em>:</p> + +<p>Sim?</p> + +<p class="centrado">O CLIENTE</p> + +<p>É verdade. Não matei minha mulher, não despedi o caixeiro, não me divorciei, +não tive que ter paciência... e dei emfim uma satisfação ao mundo e a mim +próprio.</p> + +<p class="centrado">O ADVOGADO, <em>abismado</em>:</p> + +<p>Devéras?!</p> + +<p class="centrado">O CLIENTE</p> + +<p>Devéras. Lembra-se de eu lhe ter contado como tudo se passou?</p> + +<p class="centrado">O ADVOGADO</p> + +<p>Lembro.<span class="pn"><a name="pag_121">{121}</a></span></p> + +<p class="centrado">O CLIENTE</p> + +<p>Que os encontrei em cima dum canapé e tal?</p> + +<p class="centrado">O ADVOGADO</p> + +<p>Lembro.</p> + +<p class="centrado">O CLIENTE</p> + +<p>Pois bem: vendi o movel...</p> + +<p class="centrado">O ADVOGADO</p> + +<p>O...?</p> + +<p class="centrado">O CLIENTE</p> + +<p>Vendi o canapé!!</p> + +<p class="centrado">C<small>ÁI O PANO... DAS NUVENS</small><span class="pn"><a +name="pag_122">{122}</a><br><a name="pag_123">{123}</a></span></p> + +<h1>O crime...</h1> + +<p> <span class="pn"><a name="pag_124">{124}</a><br><a name="pag_125">{125}</a></span></p> + +<h2>O crime...</h2> + +<blockquote style="font-size: x-small; margin-left: 50%;"> + <p>"C'est ainsi qu'une faute est irreparable."</p> + + <p class="assin">J. P<small>AYOT</small>.</p> +</blockquote> + +<div class="cap"> +H<span class="sc">elena</span> fitou-o então nos olhos e inquiriu sem +motivo:</div> + +<p>—Estás zangado?</p> + +<p>—Não. Porquê?</p> + +<p>Insensivelmente voltaram ainda a falar do crime. Êle manifestou-se contra +aquele processo bárbaro, violento, de fazer justiça. Todo o homem que um dia +descobre que sua mulher o atraiçoa, tem um só caminho racional a seguir: +abandoná-la.</p> + +<p>Helena calou-se.</p> + +<p>—Depois, tudo se sabe, tudo, filha!... murmurou êle, à laia de +vaticínio.—De que serve andar a encobrir, um dia e outro, semanas<span +class="pn"><a name="pag_126">{126}</a></span> e mêses inteiros... se tudo se +vem a saber afinal?</p> + +<p>Fitou-a demoradamente nos olhos, como a querer avaliar o efeito das suas +palavras. E porque a fitava êle assim? Porque começava a sentir êsse desejo +forte, essa terrivel necessidade de a observar, sondando os mínimos recantos da +sua alma, onde pela primeira vez, desde que a conhecia, notava misteriosos e +traiçoeiros abismos?...</p> + +<p>Chamou-a brandamente, disse-lhe:</p> + +<p>—Helena, que me ocultas tu? Tenho a impressão de que se passou aqui alguma +coisa, na minha ausência, que desejas que eu ignore... Ah! não negues... +leio-to nos olhos!</p> + +<p>Ela baixou instintivamente a cabeça.</p> + +<p>—Alguma coisa?!...—disse por fim, em voz pouco firme, esforçando-se por +manifestar estranhesa e não conseguindo senão comprometer-se ainda mais, +aumentando aquelas desconfianças.</p> + +<p>Êle tremia todo como varas verdes. Lançou mão da coragem que lhe restava, +para lhe dizer com serenidade:<span class="pn"><a +name="pag_127">{127}</a></span></p> + +<p>—Vamos, tu não me tens na conta dum imbecil, não é verdade? Deves ter +presumido portanto que os factos aqui ocorridos, desde que cheguei, tenham +despertado o meu reparo.</p> + +<p>—Os factos?! Quais factos?!—dissimulou.</p> + +<p>—Tudo; o que se está passando...</p> + +<p>—Mas tu estás louco!... Eu é que devo estranhar-te. Nunca te vi assim +desconfiado, acredita.</p> + +<p>—Desconfiado! Mas não vês os teus modos, os teus gestos, as tuas +palavras... o teu rosto! Anda cá...</p> + +<p>Pegou-lhe numa das mãos e diante do espêlho da sala:</p> + +<p>—Vê aí o teu rosto!</p> + +<p>Ela esquivou-se, revoltada:</p> + +<p>—Deixa-me! É de mais!</p> + +<p>—Não te deixo, gritou exaltado, já sem se poder conter.—Vais-me dizer +tudo, tudo. Nada de rodeios, de frases, apenas e cruamente a verdade: o que +houve?</p> + +<p>—O que houve!?—exclamou aterrada.</p> + +<p>—Sim, o que houve!</p> + +<p>—Deixa-me! deixa-me!<span class="pn"><a name="pag_128">{128}</a></span></p> + +<p>Não poude mais. Agarrou-lhe nos pulsos, arrastou-a para defronte da luz, +intimou-a em voz alta, imperativa, onde havia inflexões de súplica e latejava +ao mesmo tempo uma angústia horrível:</p> + +<p>—Fala! anda... diz-me tudo!</p> + +<p>Os seus olhos faíscavam, tinham relâmpagos de cólera.</p> + +<p>—Larga-me!—implorou Helena.—Não olhes para mim dessa maneira... Tenho +medo!</p> + +<p>—E porque tens tu medo de mim?!</p> + +<p>Aquilo já não era uma altercação, uma scena de ciumes desagradável, uma +simples desavença entre casados: era uma luta feroz, encarniçada, em que cada +qual porfiava por levar o outro de vencida. Apertou-lhe as mãos com energia, de +forma a fazê-la gritar:</p> + +<p>—Não, Alberto, não! Tu não estás em ti, deixa-me! Olha que me magôas, +deixa-me!</p> + +<p>Mal a ouvia já. Os seus protestos, os seus rogos, as suas lágrimas, o +desespero em que se debatia, mais o enfureciam: <em>quase</em> lhe davam provas +do que se passára!... Mas o que se passára?<span class="pn"><a +name="pag_129">{129}</a></span></p> + +<p>E baixinho, ao ouvido, como quem insinúa uma calúnia, disse-lhe tudo o que a +sua mórbida fantasia arquitectára a êsse respeito, desde que a suspeita entrára +no seu cérebro e aí gerára a mais tremenda acusação que podia pesar sôbre a +honra duma mulher.</p> + +<p>Ergueu-se alucinada. Tinha no rosto o aspecto apavorado, trágico, de pessoa +que se vê agarrada pelas costas numa encrusilhada deserta. Deu um grito, abriu +os braços e caiu num sofá a estrebuchar.</p> + +<p>Alberto—nessa perfeita lassitude d'ânimo que sucede sempre a uma grande +catástrofe,—pôs-se a presenciar tudo, naquele momento, com uma tranquilidade +estupenda! Sentia-se por assim dizer mergulhado num grande banho morno de +indiferença e de tédio...</p> + +<p>Helena, debelada a crise inicial, com a cabeça entre as mãos, chorava, +arrepelava-se. E o marido sorria àquela dôr como se estivesse gosando as +delícias dum drama de sensação em que sua mulher fôsse uma sublime artista e +êle próprio, por desdobramento, um actor de mérito, representando o papel +de<span class="pn"><a name="pag_130">{130}</a></span> marido ciumento com a +mais pura e meticulosa arte!</p> + +<p>No fundo não aplaudia a peça, mas achava que os artistas iam bem...</p> + +<p>Deu uns passos ao acaso e, maquinalmente, dirigiu-se para o quarto. Voltou, +logo em seguida: tinha envergado à pressa o sobretudo e trazia ainda na mão o +chapéu e a bengala. Parecia-lhe ter ouvido gritar: «Bravo! Bravo!»; que uma +multidão ruidosa de espectadores se levantava para saír da sala. Ouvia mesmo os +comentários da ópera—porque era afinal uma ópera!—pessoas que passavam, suas +conhecidas, que êle cumprimentava e lhe diziam:</p> + +<p>—«Gostou?</p> + +<p>—«Muito!»</p> + +<p>Helena atravessou-se-lhe no caminho:</p> + +<p>—Onde vais? Perdoa! Agora que te disse tudo porque é que me não +perdoas?...</p> + +<p>Só então deu acôrdo de si. Um assômo atávico de ferocidade o dominou. Viu +tudo negro! Agarrou Helena pelo pescoço e chegou a apertar.<span class="pn"><a +name="pag_131">{131}</a></span></p> + +<p>—Mata-me! mata-me!—gritou ela.</p> + +<p>Largou-a e fugiu. Desceu as escadas a correr. Helena tombára desmaiada sôbre +o soalho. Quando se viu no páteo parou. Abriu a porta devagarinho e uma lufada +do ar frio da noite entrou, e fez-lhe bem. Esteve uns instantes a respirar, a +arquejar, até que lhe pareceu ouvir passos. Desceu então o último degrau e +começou a caminhar ao longo da rua—sob a inclemência do vento e da chuva que +caía.<span class="pn"><a name="pag_132">{132}</a><br><a name="pag_133">{133}</a></span></p> + +<h1>Casa maldita</h1> + +<h3>(Tragédia rústica)</h3> + +<p> <span class="pn"><a name="pag_134">{134}</a></span></p> + +<h2>FIGURAS:</h2> + +<p>T<small>ÓNIO</small>....}</p> + +<p>M<small>ANOEL</small>....} <em>irmãos</em>.</p> + +<p>M<small>ARIA</small> J<small>OANA</small>....}</p> + +<p>F<small>RANCISCO</small>.... <em>noivo de Maria Joana.</em></p> + +<p>O <small>MÉDICO</small>.</p> + +<p class="centrado">Beira-Baixa, época actual.</p> + +<p> <span class="pn"><a name="pag_135">{135}</a></span></p> + +<h2>Casa maldita<sup><a name="m_nota1" href="#nota1">[1]</a></sup></h2> + +<h4>(Tragédia rústica)</h4> + +<blockquote> + <p><em>Cozinha com lareira numa casa de quinta. Noite d'inverno. Vento e + chuva desabridos.</em></p> +</blockquote> + +<p class="centrado">FRANCISCO, <em>da porta, chamando</em>:</p> + +<div class="cap"> +M<span class="sc">aria</span> Joana!</div> + +<p class="centrado">MARIA JOANA, <em>que vem de dentro, do interior da casa, +com uma candeia acêsa, voltando-se</em>:</p> + +<p>Crédo! Meteste-me um susto! (<em>Pendurando a candeia</em>). Entra!<span +class="pn"><a name="pag_136">{136}</a></span></p> + +<p class="centrado">FRANCISCO, <em>entrando</em>:</p> + +<p>O pai? está melhor?</p> + +<p class="centrado">MARIA JOANA, <em>abatida</em>:</p> + +<p>Na mesma...</p> + +<p class="centrado">FRANCISCO</p> + +<p>Na mesma?!</p> + +<p class="centrado">MARIA JOANA</p> + +<p>Ou pior... sei lá! A outra noite já o nem julgávamos. Um febrão!</p> + +<p class="centrado">FRANCISCO</p> + +<p>Basta que sim.</p> + +<p class="centrado">MARIA JOANA</p> + +<p>Sempre a variar... a dizer tolices... (<em>sente-se, dentro, gemer</em>). +Ouves? Lá está...</p> + +<p class="centrado">FRANCISCO</p> + +<p>É verdade! Diacho, mas ontem parecia melhor...<span class="pn"><a +name="pag_137">{137}</a></span></p> + +<p class="centrado">MARIA JOANA</p> + +<p>Sim, tem disso.—«Alembras-te» da minha mãe?</p> + +<p class="centrado">FRANCISCO</p> + +<p>«Alembro».</p> + +<p class="centrado">MARIA JOANA</p> + +<p>Não me sái da «'maginação» que é o mesmo mal.</p> + +<p class="centrado">FRANCISCO</p> + +<p>Ágora!</p> + +<p class="centrado">MARIA JOANA</p> + +<p>Um dia melhor, outro pior, té que por fim... (<em>Comovida</em>) É o mesmo +mal.</p> + +<p class="centrado">FRANCISCO</p> + +<p>Ora!</p> + +<p class="centrado">MARIA JOANA</p> + +<p>Verás. Já d'ali se não ergue.</p> + +<p class="centrado">FRANCISCO</p> + +<p>Sabes lá bem...<span class="pn"><a name="pag_138">{138}</a></span></p> + +<p class="centrado">MARIA JOANA</p> + +<p>Diz-mo o coração. E olha que para adivinhar...</p> + +<p class="centrado">FRANCISCO, <em>depois dum silêncio</em>:</p> + +<p>Porque não mandam vocês à cidade, chamar o médico?</p> + +<p class="centrado">MARIA JOANA</p> + +<p>P'ra lá foi o Tónio à bocado. Não tardam aí.—Pois que horas são?</p> + +<p class="centrado">FRANCISCO</p> + +<p>Oito. Déram agora...</p> + +<p class="centrado">MARIA JOANA, <em>calculando</em>:</p> + +<p>É isso. Foi com de dia. Não tardam.</p> + +<p class="centrado">FRANCISCO, <em>depois dum novo silêncio</em>:</p> + +<p>E que diz o mestre Lourenço?</p> + +<p class="centrado">MARIA JOANA</p> + +<p>O barbeiro? Olha o que há-de dizer! Que já se não entende com o mal, é +claro.<span class="pn"><a name="pag_139">{139}</a></span></p> + +<p class="centrado">FRANCISCO</p> + +<p>Sangrou-o?</p> + +<p class="centrado">MARIA JOANA</p> + +<p>Sangrou.</p> + +<p class="centrado">FRANCISCO</p> + +<p>E «óspois»?</p> + +<p class="centrado">MARIA JOANA</p> + +<p>Cuidávamos que ficava. Fez-se muito branco, muito branco... os olhos a +encovarem-se-lhe... (<em>Tápa o rosto com as mãos, horrorisada</em>). Se tu o +visses!</p> + +<p class="centrado">FRANCISCO</p> + +<p>Devia ter sido há mais tempo, talvez...</p> + +<p class="centrado">MARIA JOANA, <em>desiludida, encolhendo os ombros</em>:</p> + +<p>Oh!</p> + +<p class="centrado">FRANCISCO</p> + +<p>Há quantos dias adoeceu?</p> + +<p class="centrado">MARIA JOANA</p> + +<p>Há treze.—É mau «númaro», não é?<span class="pn"><a +name="pag_140">{140}</a></span></p> + +<p class="centrado">FRANCISCO</p> + +<p>Ora adeus! Fias-te nisso?</p> + +<p class="centrado">MARIA JOANA</p> + +<p>Fio.</p> + +<p class="centrado">FRANCISCO, <em>levemente trocista</em>:</p> + +<p>Esta bom.</p> + +<p class="centrado">MARIA JOANA</p> + +<p>Quando a minha mãe morreu, um cão esteve a uivar aqui toda a santíssima +noite...</p> + +<p class="centrado">FRANCISCO</p> + +<p>Foi o acaso.</p> + +<p class="centrado">MARIA JOANA</p> + +<p>A Tereza Bógas casou a filha a uma terça feira e dia treze...</p> + +<p class="centrado">FRANCISCO</p> + +<p>Bem haja ela...</p> + +<p class="centrado">MARIA JOANA</p> + +<p>Ao cabo dum ano o marido deu-lhe cinco facadas... e matou-a!<span +class="pn"><a name="pag_141">{141}</a></span></p> + +<p class="centrado">FRANCISCO</p> + +<p>Milagre fôra se a deixásse com vida...</p> + +<p class="centrado">MARIA JOANA</p> + +<p>Que mais queres?</p> + +<p class="centrado">FRANCISCO</p> + +<p>Nada, co'os démos: estou «'stifeito». Tira-me essas manias da cabeça; dás em +maluca.</p> + +<p class="centrado">MARIA JOANA</p> + +<p>Se fôsse só isso!... E os palpites? Olha que tenho palpites tão certos, +«Fracisco», tão certos! E sonhos?... Ha dois dias sonhei que antes do nosso +casamento havia de se dar nesta casa uma grande fatalidade...</p> + +<p class="centrado">FRANCISCO, <em>nervoso</em>:</p> + +<p>Bem; se continúas, vou-me.</p> + +<p class="centrado">MARIA JOANA, <em>rindo</em>:</p> + +<p>Oh! «home»! julguei que eras mais forte do que isso!...<span class="pn"><a +name="pag_142">{142}</a></span></p> + +<p class="centrado">FRANCISCO</p> + +<p>Não é; não gósto...</p> + +<p class="centrado">MARIA JOANA</p> + +<p>Bem, bonda, não te zangues...—És meu amigo?</p> + +<p class="centrado">FRANCISCO, <em>amuado</em>:</p> + +<p>Não sei...</p> + +<p class="centrado">MARIA JOANA</p> + +<p>És, bem vejo.</p> + +<p class="centrado">FRANCISCO</p> + +<p>P'ra que mo «prècúras», nesse caso?...</p> + +<blockquote> + <p><em>O vento assobia nas frestas, sacode os troncos das árvores, + ululando.</em></p> +</blockquote> + +<p class="centrado">MARIA JOANA, <em>num pressentimento</em>:</p> + +<p>E se eu morrêsse?... Casavas com outra?</p> + +<p class="centrado">FRANCISCO</p> + +<p>Mau, mau, mau! bem digo eu... Faz favor de te calares, ou então...<span +class="pn"><a name="pag_143">{143}</a></span></p> + +<p class="centrado">MARIA JOANA</p> + +<p>Esta dito. Eu hoje estou assim... Não é por mal.—Escuta!</p> + +<blockquote> + <p><em>Poem-se os dois a escutar.</em></p> +</blockquote> + +<p class="centrado">FRANCISCO</p> + +<p>Parece que vem gente...</p> + +<p class="centrado">MARIA JOANA</p> + +<p>Ná. É o vento.</p> + +<blockquote> + <p><em>Abre-se a porta de repente, com um empurrão sêco, e MANOEL entra, + embuçado; traz uma velha arma caçadeira que coloca a um canto. MARIA JOANA, + assustada, expele um grito quando o vê. FRANCISCO ergue-se tambêm + assustado.</em></p> +</blockquote> + +<p class="centrado">MANOEL, <em>sorrindo, semblante mal encarado de +facinora</em>:</p> + +<p>Meti-vos medo, p'los modos!?... Eu não sou o diabo, socegai!...</p> + +<p class="centrado">MARIA JOANA, <em>mal refeita ainda do susto</em>:</p> + +<p>D'onde vens tu, «home», assim, a estas horas?<span class="pn"><a +name="pag_144">{144}</a></span></p> + +<p class="centrado">MANOEL</p> + +<p>Que te importa? Mete-te lá com a tua vida! Ora o «estapor»! (<em>A +Francisco</em>) Um cigarro!</p> + +<blockquote> + <p><em>FRANCISCO oferece-lhe um cigarro.</em></p> +</blockquote> + +<p class="centrado">MANOEL</p> + +<p>Olá! Êste é dos de cu aberto! Bravo, rapaz, estás um «fedalgo»!</p> + +<p class="centrado">FRANCISCO</p> + +<p>Déram-mos.</p> + +<p class="centrado">MANOEL</p> + +<p>Só a mim ninguêm me dá raça de nada! Tudo me rouba. Aqui então, nesta +casa... é tudo deles,—<em>dessa</em> e do outro...</p> + +<p class="centrado">MARIA JOANA</p> + +<p>Intrujão! Não no acredites, Francisco, é um intrujão.</p> + +<p class="centrado">MANOEL, <em>crescendo para ela</em>:</p> + +<p>Intrujão? E tu, minha porca? E tu que és?<span class="pn"><a +name="pag_145">{145}</a></span></p> + +<p class="centrado">FRANCISCO, <em>para o serenar</em>:</p> + +<p>Olha o pai, que ouve...</p> + +<p class="centrado">MANOEL</p> + +<p>Quero cá saber do pai! Julgas que me consultaram agora para vir o médico? +Bem te digo eu: isto é deles! Não vem cá por menos d'uma libra! Pois hão de +êles pagá-la, se quiserem; nanja eu. (<em>Beija os dedos em cruz</em>). +Juro!</p> + +<p class="centrado">MARIA JOANA</p> + +<p>Ninguêm to pede...</p> + +<p class="centrado">MANOEL</p> + +<p>Uma libra! Nem que ma arrancassem com uma enxó, do peito...</p> + +<p class="centrado">FRANCISCO</p> + +<p>Deixa lá! Vão-se os aneis mas fiquem os dedos. P'ra mais, livra-se uma +pessoa de remorsos.</p> + +<p class="centrado">MANOEL</p> + +<p>Livra!... Livra-se mas é do dinheiro. Eu cá digo: quem tem de morrer, morre. +Todos hemos d'ir, paciência... É a obrigação.<span class="pn"><a +name="pag_146">{146}</a></span></p> + +<p class="centrado">MARIA JOANA</p> + +<p>Eu dava a camisa do corpo por ver o pai com saúde.</p> + +<p class="centrado">FRANCISCO</p> + +<p>Ouves?</p> + +<p class="centrado">MANOEL</p> + +<p>O corpo dava ela por menos disso...</p> + +<p class="centrado">FRANCISCO</p> + +<p>«Manel»!</p> + +<p class="centrado">MANOEL, <em>refilão</em>:</p> + +<p>Que há de novo?</p> + +<p class="centrado">FRANCISCO</p> + +<p>É tua irmã, bem vês...</p> + +<p class="centrado">MANOEL</p> + +<p>Parabêns. Olha a princesa!</p> + +<p class="centrado">MARIA JOANA</p> + +<p>Desalmado! (<em>Ouve-se dentro a voz do pai a gemer</em>). Pai! pai! Aí +vou!</p> + +<blockquote> + <p><em>Sai correndo.</em><span class="pn"><a + name="pag_147">{147}</a></span></p> + + <p><em>FRANCISCO segue-a até a porta e fica a escutar. Pausa dalguns + instantes. A chuva bate com fôrca nas têlhas.</em></p> +</blockquote> + +<p class="centrado">FRANCISCO</p> + +<p>Que noite!</p> + +<p class="centrado">MANOEL, <em>à lareira, põe-se a cantar</em>:</p> + +<p class="ni"><em>Não sei que quer a «desgrácia»<br> +Que atrás de mim corre tanto...</em></p> + +<p class="centrado">FRANCISCO, <em>interrompendo-o</em>:</p> + +<p>Parece mal, «home»; cala-te!</p> + +<p class="centrado">MANOEL</p> + +<p>Pois sim...</p> + +<p class="ni"><em>... Que atrás de mim corre tanto...<br> +Hei de parar e mostrar-lhe<br> +Que de vê-la não m'espanto...</em></p> + +<p class="centrado">FRANCISCO</p> + +<p>Até é pecado.<span class="pn"><a name="pag_148">{148}</a></span></p> + +<p class="centrado">MANOEL</p> + +<p>Pecado e êles fazerem-me o que me fazem.</p> + +<p class="centrado">FRANCISCO</p> + +<p>Estás doido. Que é que te fazem?</p> + +<p class="centrado">MANOEL</p> + +<p>Desde muito novo eu tenho sido aqui um engeitado. Minha mãe quase me não +criou como filho. Vedou-me antes dos seis meses; nem os peitos me quis +dar!...—Já lá está, a pagá-las!</p> + +<p class="centrado">FRANCISCO</p> + +<p>Ora! Vá a gente a ouvir-te. Tu és um doido.</p> + +<p class="centrado">MANOEL</p> + +<p>Sou?—Porque dizes isso?...</p> + +<p class="centrado">FRANCISCO</p> + +<p>Porque tenho rasões.</p> + +<p class="centrado">MANOEL</p> + +<p>Talvez. Eu odeio-vos a todos!<span class="pn"><a +name="pag_149">{149}</a></span></p> + +<p class="centrado">FRANCISCO</p> + +<p>A mim tambem?</p> + +<p class="centrado">MANOEL</p> + +<p>A ti. Queres-me roubar...</p> + +<p class="centrado">FRANCISCO, <em>pálido, recuando</em>:</p> + +<p>Eu?!</p> + +<blockquote> + <p><em>Ouve-se fóra ruido de passos e vozes de gente que se aproxima.</em></p> +</blockquote> + +<p class="centrado">MARIA JOANA, <em>de dentro, a gritar</em>:</p> + +<p>Lá veem! lá veem! Abram a porta... (<em>vê Francisco arquejante, afogueado; +pára diante dêle</em>). Que foi?</p> + +<p class="centrado">TÓNIO, <em>de fora, ao mesmo tempo, chamando</em>:</p> + +<p>Maria Joana! ó Maria!... Abram lá isso! Abram! (<em>Batem com +força</em>).</p> + +<blockquote> + <p><em>Francisco corre a abrir a porta. Há confusão, reboliço.</em>—«Santo + nome de Deus!» <em>diz Maria Joana. Entram o médico e Tónio.</em><span + class="pn"><a name="pag_150">{150}</a></span></p> +</blockquote> + +<p class="centrado">O MÉDICO</p> + +<p>Ora até que emfim!... Boa noite!</p> + +<p class="centrado">VÓZES, <em>a um tempo</em>:</p> + +<p>—Bôa noite.</p> + +<p>—Viva!</p> + +<p>—Passe vossa senhoria bem...</p> + +<p class="centrado">TÓNIO</p> + +<p>Chegue-se vossa senhoria ao lume que deve vir gelado. O frio é muito.</p> + +<p class="centrado">O MÉDICO, <em>aquecendo-se</em>:</p> + +<p>Aceito. Venho gelado.</p> + +<blockquote> + <p><em>Faz-se silêncio. O doente grita.</em></p> +</blockquote> + +<p class="centrado">O MÉDICO</p> + +<p>É o doente?</p> + +<p class="centrado">MARIA JOANA</p> + +<p>Saberá vossa senhoria que sim. O que aquela alminha tem sofrido, santo nome +de<span class="pn"><a name="pag_151">{151}</a></span> Deus! Se vossa senhoria o +aliviasse daqueles tormentos, por amor da sua senhora e dos seus filhinhos, se +os tem...</p> + +<p class="centrado">MANOEL, <em>do lado, chasqueando</em>:</p> + +<p>Êle não e casado, mulher!</p> + +<p class="centrado">O MÉDICO, <em>voltando-se, reparando em Manoel</em>:</p> + +<p>Sou, sim senhor... Quem lhe disse a vocemecêe que eu não sou casado?</p> + +<p class="centrado">MANOEL, no mesmo tom:</p> + +<p>Digo eu...</p> + +<p class="centrado">O MÉDICO, <em>para Maria Joana</em>:</p> + +<p>Quem é êste homem?</p> + +<p class="centrado">MARIA JOANA</p> + +<p>É meu irmão (<em>segreda-lhe qualguer coisa ao ouvido</em>).</p> + +<p class="centrado">O MÉDICO</p> + +<p>Bem.—Vamos ver o doente. (<em>Indicando uma porta</em>) É por ali?<span +class="pn"><a name="pag_152">{152}</a></span></p> + +<p class="centrado">MARIA JOANA</p> + +<p>Por ali; tenha a bondade... Vossa senhoria há de desculpar, é uma casa de +«probes»...</p> + +<blockquote> + <p><em>Desaparecem os dois falando, no interior da casa. Fora ficam os tres + homens: TÓNIO, o irmão e FRANCISCO. Nenhum deles diz palavra. Um cão põe-se + a uivar, perto.</em></p> +</blockquote> + +<p class="centrado">FRANCISCO, <em>nervoso</em>:</p> + +<p>Olha o diabo do cão! É o vosso?</p> + +<p class="centrado">TÓNIO</p> + +<p>É. Chama-o.</p> + +<p class="centrado">FRANCISCO, <em>vai á porta a assobiar-lhe</em>:</p> + +<p>Eh! <em>Farrusco!</em> Quieto! Venha cá! Quieto!</p> + +<blockquote> + <p>O cão cala-se, mas d'aí a pouco põe-se a uivar outra vez.</p> +</blockquote> + +<p class="centrado">FRANCISCO</p> + +<p>Não há meio! Se fôsse meu dava-o, ou vendia-o... Punha-o com dono. +<em>Farrusco!</em> (<em>assobia-lhe de novo</em>).<span class="pn"><a +name="pag_153">{153}</a></span></p> + +<p class="centrado">MANOEL</p> + +<p>Deixa lá o animal! que mal te faz o animal? Tambem com êle te metes? Aquilo +foi desde que entrou o médico: cheirou-lhe a defunto...</p> + +<p class="centrado">TÓNIO</p> + +<p>Bruto!</p> + +<blockquote> + <p><em>Os dois irmãos entreolham-se ferozmente. Passa entre êles uma labareda + d'ódio. Depois, MANOEL põe-se a cantarolar.</em></p> +</blockquote> + +<p class="centrado">TÓNIO, <em>a meia voz</em>:</p> + +<p>Farçola! o que tu merecias...</p> + +<p class="centrado">MANOEL, <em>que ouviu bem</em>:</p> + +<p>Tanto sopras no fole, que o fole um dia estoira...</p> + +<p class="centrado">TÓNIO</p> + +<p>O quê? que dizes?</p> + +<p class="centrado">MANOEL</p> + +<p>É cá comigo...<span class="pn"><a name="pag_154">{154}</a></span></p> + +<p class="centrado">TÓNIO</p> + +<p>Escuta. Quem paga ao médico sou eu, do meu bôlso, ouviste?</p> + +<p class="centrado">MANOEL</p> + +<p>Bom proveito.</p> + +<p class="centrado">TÓNIO</p> + +<p>As vinte moedas que ali estão (<em>indica um arcaz</em>) são da Maria +Joana.</p> + +<p class="centrado">MANOEL, <em>erguendo-se, encandieirado</em>:</p> + +<p>De quem?</p> + +<p class="centrado">TÓNIO, <em>enérgico</em>:</p> + +<p>Da Maria Joana, já disse! O pai assim o quer. Cumpra-se a sua vontade, mando +eu!</p> + +<p class="centrado">FRANCISCO, <em>intervindo</em>:</p> + +<p>Tónio, bem vês... A Maria Joana há de vir a ser minha mulher. Eu não queria +que por via disso... de dinheiro...</p> + +<p class="centrado">TÓNIO</p> + +<p>Tá, tá, tá... não tens que «agarcer»; são dela. Eu é que mando aqui: sou o +mais velho.<span class="pn"><a name="pag_155">{155}</a></span></p> + +<p class="centrado">MANOEL</p> + +<p>Juro que te arrependes, Tónio! Cego seja eu de gôta serena.</p> + +<p class="centrado">TÓNIO</p> + +<p>Pois cego sejas tu.</p> + +<p class="centrado">FRANCISCO, <em>interpondo-se</em>:</p> + +<p>Olhem o médico! Tenham juizo, ó menos...</p> + +<p class="centrado">O MÉDICO, <em>da porta, falando para dentro</em>:</p> + +<p>Sim senhor, tudo se há de arranjar, esteja socegadinho... isso pássa +(<em>entrando</em>). Pobre homem!</p> + +<p class="centrado">TÓNIO, <em>avançando para o médico</em>:</p> + +<p>Está pronto, não é verdade? Já d'ali não «arrinca»... Morre?</p> + +<p class="centrado">O MÉDICO, <em>querendo animar</em>:</p> + +<p>Vamos a ver; emquanto há vida...<span class="pn"><a +name="pag_156">{156}</a></span></p> + +<p class="centrado">FRANCISCO</p> + +<p>Sim, emquanto há vida, Tónio, há esperança! Tem por dizer...</p> + +<p class="centrado">TÓNIO, <em>desiludido, ao médico, abanando a +cabeça</em>:</p> + +<p>Na. Póde vossa senhoria desabafar; eu cá sei o que vai haver esta noite... +Adivinho!</p> + +<p class="centrado">FRANCISCO</p> + +<p>Ó «home», que genio! que fraqueza! Não vês êste senhor a dizer-te que não. +Êle é que sabe, que estudou...</p> + +<p class="centrado">TÓNIO</p> + +<p>Pois sim. Estâmos sem pai, «Fracisco»!</p> + +<p class="centrado">MARIA JOANA, <em>que vinha entrando e que ouviu o irmão +dizer aquilo</em>:</p> + +<p>O quê! Morre? (<em>Pausa. Ninguem responde; dirige-se ao médico</em>). +Morre? meu pai morre? (<em>o médico cala-se</em>) Não me respondem! não me +dizem nada! (<em>levando as mãos á cabeça num desespero</em>)<span +class="pn"><a name="pag_157">{157}</a></span> Ah, meu pai! Ah, meu pai! Que não +tenho outro...</p> + +<p class="centrado">FRANCISCO, <em>confortando-a</em>:</p> + +<p>«Atão», Maria Joana, vem cá, vem cá. Olha que êle ouve.</p> + +<p class="centrado">MARIA JOANA</p> + +<p>Deixa-me! Deixa-me!... Eu quero morrer tambem. Quero morrer, «Fracisco».</p> + +<p class="centrado">FRANCISCO</p> + +<p>Nosso-Senhor ainda pode muito, cachopa!</p> + +<p class="centrado">TÓNIO, <em>ao médico que está preparado para, saír</em>:</p> + +<p>Quanto ao trabalhinho de vossa senhoria, há de perdoar, nós lá iremos...</p> + +<p class="centrado">O MÉDICO</p> + +<p>Descansem, quando puderem, não tenho pressa; arranjem cá a sua vida. Agora o +que é preciso é ir embora... Faz-se tarde.</p> + +<p class="centrado">TÓNIO</p> + +<p>Pronto! (<em>a Francisco</em>) Ó «Fracisco», tu agora vais aqui com o sr. +«doitor», se te não custa, eu<span class="pn"><a +name="pag_158">{158}</a></span> não posso... E trazes os remédios, pelas almas. +É um favor.</p> + +<p class="centrado">FRANCISCO</p> + +<p>Vou e ponho-me aí num foguete, verás. Dentro de duas horas estou de +volta.</p> + +<p class="centrado">MARIA JOANA, <em>num gemido</em>:</p> + +<p>Leva a arma!</p> + +<p class="centrado">MANOEL, <em>que tem estado sempre calado até aqui</em>:</p> + +<p>Leva-a, se a quiseres... Empresto-ta.</p> + +<blockquote> + <p><em>Todos se voltam, admirados da generosidade.</em></p> +</blockquote> + +<p class="centrado">FRANCISCO</p> + +<p>Não é preciso; levo antes esta (<em>mostra um marmeleiro ferrado</em>) é +mais certeira... Bem hajas!</p> + +<blockquote> + <p><em>Dão as boas noites. Sai êle e o médico. Uma lufada d'ar entra, quando + se abre a porta, apagando a luz.</em>—«Fechem a porta!» <em>ouve-se dizer no + escuro. A porta fecha-se com mão misteriosa... Tinha sido o vento. TÓNIO, + dentro, ás apalpadelas, procura a candeia,<span class="pn"><a + name="pag_159">{159}</a></span> que acende ao fogo duma acha, no lume da + lareira, soprando-lhe para a atiçar. A scena é lugubre. MARIA JOANA é uma + rodilha, a um canto, a soluçar.</em></p> +</blockquote> + +<p class="centrado">TÓNIO</p> + +<p>Vá, rapariga! Cobra ânimo! Estas um engrimanço, uma dama...</p> + +<blockquote> + <p><em>MARIA JOANA parece reanimar-se. Limpa as lágrimas ás pontas do lenço + da cabeça. Vai ao vasal, tira uma tijela, e enche-a de água. MANOEL nem + palavra: fuma.</em></p> +</blockquote> + +<p class="centrado">TÓNIO</p> + +<p>Para onde vai isso?</p> + +<p class="centrado">MARIA JOANA</p> + +<p>É para o pai; não leva nada desde ontem... Pediu-me água, que dizes? +(<em>Tónio encolhe os ombros</em>) Soube-lhe tão bem a outra... Tinha-me dito: +«filha, dá-me de beber; tenho um fogo aqui dentro...». E eu dei-lhe de beber. +Parece que aliviou. O médico disse-me que lhe désse o que êle pedisse. +Dou?<span class="pn"><a name="pag_160">{160}</a></span></p> + +<p class="centrado">TÓNIO</p> + +<p>Se êle o disse...</p> + +<p class="centrado">MANOEL, <em>de troça</em>:</p> + +<p>Dá-lhe vinho, dá-lhe vinho...</p> + +<p class="centrado">TÓNIO, <em>furioso, agarra num banco e avança para o +irmão</em>:</p> + +<p>Esmago-te como a um sapo, maldito, se te não calas! (<em>Os seus olhos +chispam lume</em>).</p> + +<p class="centrado">MANOEL, <em>erguendo-se</em>:</p> + +<p>Experimenta e verás o trôco... (<em>Diante dêle</em>): Sim! sim!</p> + +<p class="centrado">MARIA JOANA, <em>suplicante, entre os dois</em>:</p> + +<p>Tónio! «Manel»! Nosso-Senhor castiga-vos!... Por Deus! Ai, Jesus!</p> + +<p class="centrado">TÓNIO, <em>cedendo</em>:</p> + +<p>O que te vale...<span class="pn"><a name="pag_161">{161}</a></span></p> + +<blockquote> + <p><em>Sentam-se ambos, calados, tacitumos, a distância. MARIA JOANA fita um + momento o grupo. Respira profundamente, desolada. Entra depois no quarto do + doente, cabisbaixa, cambaliante.</em></p> + + <p><em>Grande silêncio!</em></p> + + <p><em>Súbito, um grito, depois outro,—lancinantes, desesperados, dentro do + quarto. Os dois irmãos levantam-se apavorados.</em></p> +</blockquote> + +<p class="centrado">MARIA JOANA, <em>à porta, num paroxismo</em>:</p> + +<p>O pai! o pai!... Morto! (<em>volta como louca à cabeceira do +cadaver</em>).</p> + +<blockquote> + <p><em>TÓNIO precipita-se tambem desvairado no quarto do pai, atrás da irmã. + Continuam os gritos. MANOEL tem uns segundos de perplexidade, olha em redor, + hesita, vai, corre para o arcaz; abre-o, mergulha o braço nervosamente no + fundo; tira tudo,—roupas, farrapos, misérias, remeche,—procura, encontra + emfim o que ambiciona: a bolsa com as vinte moedas!</em></p> +</blockquote> + +<p class="centrado">TÓNIO, <em>que entra desgrenhado, percebe tudo, +exclama</em>:</p> + +<p>Ah, tratante! ah, ladrão!... Agora é que tu queres roubar a tua irmã!<span +class="pn"><a name="pag_162">{162}</a></span></p> + +<blockquote> + <p><em>Atira-se a êle. Trava-se uma luta entre os dois, encarniçada: qual de + baixo, qual de cima, com as garras, com os dentes—como dois liões!</em></p> +</blockquote> + +<p class="centrado">MARIA JOANA, <em>sòzinha, brada, abrindo a porta, para a +solidão dos campos ermos, na chuva e na ventania</em>:</p> + +<p>Acudam! aqui d'el-rei!... Acudam!</p> + +<blockquote> + <p><em>Ninguem! Tudo se passa como num deserto, a milhões de léguas da outra + gente, no isolamento daquela casa maldita! MANOEL, rôto, alucinado, + escorrendo sangue, consegue erguer-se do chão, aonde por duas veses o + prostrára o pulso férreo de TÓNIO; apanha emfim a espingarda e + alveja-o.</em></p> +</blockquote> + +<p class="centrado">MARIA JOANA, <em>interpondo-se, num salto ágil</em>:</p> + +<p>Ai, que te desgraças! ai que te desgraças, «Manel»!</p> + +<p class="centrado">MANOEL</p> + +<p>Larguêza! larguêza senão arrebento-te tambem...</p> + +<blockquote> + <p><em>Ela resiste, debate-se, diante da arma. Esta, num repelão, dispára-se, + indo a carga alojar-se no peito da rapariga.</em><span class="pn"><a + name="pag_163">{163}</a></span></p> +</blockquote> + +<p class="centrado">TÓNIO, <em>vendo a irmã caída num lago de sangue</em>:</p> + +<p>Mataste-a!</p> + +<p class="centrado">MANOEL, <em>poisando a espingarda e com um sorriso +cínico</em>:</p> + +<p>Matei?... Pois tira-lhe a pele, que é d'estimação...</p> + +<blockquote> + <p><em>Recomeçam a luta.</em></p> +</blockquote> + +<p> <span class="pn"><a name="pag_164">{164}</a></span></p> + +<div class="rodape"> +<p><sup><a name="nota1" href="#m_nota1">[1]</a></sup> O autor não quis nesta +novela, a que deu indiferentemente a forma dialogada, tentar um género de +literatura dramática como êsse que há tempos aí se exibiu em palcos Portugueses +(não sabe se com grande ou pequeno exito) com o titulo de +<em>Grand-Guignol</em>, importado directamente de França. Género macabro, +terrorista, insalubre, visando a provocar no público as fortes comoções +nervosas pelo espectáculo de scenas lúgubres, sanguinárias ou simplesmente +extravagantes.—Esta <em>tragédia rústica</em> é um ligeiro estudo do caracter +supersticioso, bestial, por vêzes quase feroz, da pobre, inculta, miserável +gente das aldeias beirôas, em cujo seio os instintos, bons ou maus, falam ainda +a linguagem espontânea e bárbara das primitivas idades.</p> +</div> + +<p><span class="pn"><a name="pag_165">{165}</a></span></p> + +<h1>O pai da criança</h1> + +<h3>(Conto carnavalesco)</h3> + +<p><span class="pn"><a name="pag_166">{166}</a><br><a name="pag_167">{167}</a></span></p> + +<h2>O pai da criança</h2> + +<h4>(Canto carnavalesco)</h4> + +<div class="cap"> +Ê<span class="sc">ste</span> padre Borregana, cónego da Sé, tem uma +história.</div> + +<p>Toda a gente tem uma história, é claro; mas a do padre Borregana é uma +história singular, digna de contar-se e de ser ouvida.</p> + +<p>Padre Borregana nasceu padre como outros nascem militares, ou poetas, ou +oradores, ou assim... Nasceu padre. Desde muito novo revelou uma grande +<em>queda</em> para aquele mister. Compleição debil, espírito supersticioso e +timorato, era êle quem acendia as velas do altar-mór nos dias de missa cantada; +quem ajudava a dobrar o sino dos entêrros; quem<span class="pn"><a +name="pag_168">{168}</a></span> levava a caldeirinha e o hissope entoando o +<em>Bemdito</em> com o Senhor; quem dizia <em>ora pro nobis</em> atrás do pálio +nas procissões; quem informava as beatas dos ataques hemorroidários do sr. +arcebispo no tempo do arroz de tomate...</p> + +<p>—Podia ter nascido corcunda, podia ter nascido zanaga, dizia o pai, a +justificá-lo; ninguêm se faz...</p> + +<p>E não.</p> + +<p>Velhos condiscipulos dêle no liceu e depois no seminário, ainda hoje diziam +que o padre Borregana fôra a mais decidida vocação que tinham conhecido para o +sacerdócio—para a castidade sobretudo,—o que aos seus olhos de peccadores +inconfessáveis o tornára particularmente famoso, votado sem esfôrço ao +sacrifício duma existência de renúncia, frouxo de vontade como era, e então com +um apelido que lhe assentava como uma luva...</p> + +<p> </p> + +<p>Quando,—já depois de ordenado—desceu o estribo do comboio na estação do +Rocio, uma tarde, padre Borregana ficou atarantado,<span class="pn"><a +name="pag_169">{169}</a></span> hesitante, como uma criança que perde a ama, no +meio da barafunda, do vozear confuso da multidão que se acotovelava a saír da +<em>gare</em>.</p> + +<p>—Ó padre Borregana! ó padre Borregana!...</p> + +<p>Voltou-se. Quem o chamava? Que lhe queriam?... Diante dêle um sujeito alto, +encorpado, abria-lhe uns grandes braços, oferecia-lhe o peito largo para o +receber. Padre Borregana trepidou.</p> + +<p>—Não me reconheces, homem? Sou eu!... Olha bem p'ra mim: o Ataíde!</p> + +<p>O Ataíde! Quem havia dizer! Com aquelas barbas, aquele todo distinto, aquele +ar de pessoa importante e abastada!...</p> + +<p>—Tu! Pois tu!...—murmurou o padre.</p> + +<p>E abraçaram-se enternecidamente.</p> + +<p>Emquanto iam saíndo da estação, o outro explicava-lhe: tinha subido, tinha +trepado, formára-se... arranjára um casamento rico e uma boa colocação...</p> + +<p>—Sim?!</p> + +<p>—É verdade.<span class="pn"><a name="pag_170">{170}</a></span></p> + +<p>Padre Borregana estacou, admirado.</p> + +<p>—Mas ouve cá, disse, como demónio conseguiste tudo isso? Tu, demais a +mais,—desculpa que te diga—mas nem eras dos mais atilados...</p> + +<p>O outro sorriu, superiormente:</p> + +<p>—Dos mais atilados! Pobre rapaz! Consegui isto como se consegue tudo na +vida... como se consegue ser homem, ser gente, ser alguêm neste mundo: á custa +de muito ponta-pé!...</p> + +<p>E separaram-se.</p> + +<p> </p> + +<p>Mais adiante, Borregana, que caminhava apreensivo, scismático, no encalço do +moço de fretes, em demanda dum albergue pacato, sentiu a ponta duma bengala +tocar-lhe discretamente no ombro:</p> + +<p>—Psst!... Borregana!</p> + +<p>Voltou-se de novo, e deu de cara com outro velho conhecimento, a quem a sua +presença inesperada causou igualmente grande surpresa e alegria. Repetiu-se, +<em>mutatis mutandis</em>, a mesma scena: tambêm êste trepára,<span +class="pn"><a name="pag_171">{171}</a></span> tambêm êste vencera, tambêm tinha +uma linda posição...</p> + +<p>—É boa! E tudo isso...—balbuciou.</p> + +<p>—Á custa de muito ponta-pé!</p> + +<p>—!!</p> + +<p> </p> + +<p>Ao desandar da rua do Carmo para o Chiado maior espanto o aguardava. Desta +vez o velho amigo era um ministro—e ministro da Justiça!—que lhe abriu os +braços como os outros (o que fez juntar gente...) e como os outros lhe +confessou que tinha subido, trepado—á custa de muito ponta-pé!...</p> + +<p> </p> + +<p>Dias passaram. Padre Borregana regressou a penates. Um domingo, logo depois +da missa, chamando de parte o sacristão, lial companheiro e confidente, +segredou-lhe:</p> + +<p>—Cristóvam! vais-me aqui prestar hoje um grande serviço...</p> + +<p>O sacristão, um diab'alma alentado e grosso, bruto como umas casas, muito +respeitador das qualidades e ornamentos do cura, murmurou, comovido e +modesto:<span class="pn"><a name="pag_172">{172}</a></span></p> + +<p>—Um serviço? Oh! sr. prior!... Queira vossa reverendissima ordenar... Cá +por mim só se não pudér...</p> + +<p>—Um grande serviço, Cristóvam, um grande serviço...</p> + +<p>Botou uma olhadela á igreja, outra ao S. Jerónimo do altar, outra a bandeira +das almas, e erguendo por fim as abas da batina ensebada, revirou-lhe o nédio +cêsso, exclamando:</p> + +<p>—Férras-me aí um ponta-pé!...</p> + +<p>—Quem, eu?</p> + +<p>—Já disse, Cristóvam: um ponta-pé.</p> + +<p>O sacristão presumiu-o doido. Hesitou, mas por último, vendo o ar decidido +do presbítero, para o não irritar, fez-lhe a vontade, encostando-lhe a biqueira +ferrada ao hemisfério sul, devagarinho...</p> + +<p>—Força, homem! isso não é nada, suplicou o padre, cuja estranha flagelação +parecia dever enchê-lo de infinito gôso—isso não é nada!</p> + +<p>—Ó sr. prior, mas eu...—tartamudiou o Cristóvam, condoído.<span +class="pn"><a name="pag_173">{173}</a></span></p> + +<p>E o padre Borregana, num palpite, de mãos postas:</p> + +<p>—Depressa! depressa!... Pelas cinco chagas! pelas cinco chagas, +Cristóvam!</p> + +<p>—Êle é isso?, rosnou o sacristão com os seus botões; e despresando +escrúpulos, atirou-lhe um coice, com tal violência, que o fez baquear e +gemer:</p> + +<p>—Ui!</p> + +<p>—Ah, já?...—e atirou-lhe segundo.</p> + +<p>Nisto um matraquear de tamancos no lagedo da igreja.</p> + +<p>—Quem é? quem vem aí?, bradou o padre aflito, cheio de dôres, +estorcendo-se.</p> + +<p>—É para o sr. prior, esta carta...</p> + +<p>—Para mim?!</p> + +<p>Era um telegrama.</p> + +<p>O prior precipitou-se, rasgou todo trémulo a obreia do sobrescrito: «Por +ordem de S. Ex.ª...» (turvou-se-lhe a vista)... «nomeado cónego.»</p> + +<p>Caiu sôbre um banco que para ali estava a um canto, aniquilado, morto de +comoção. Quando despertou daquela espécie de síncope<span class="pn"><a +name="pag_174">{174}</a></span> o prior estava triste... Em volta houve um +alarido, um espanto, mal constou o milagre... Porque fôra um milagre! Tudo quis +ver e visitar o sr. padre Borregana, feito cónego—a ponta-pé. Não recebia? +Porquê?... Talvez dorido, coitadinho, talvez de ferido no poisadoiro com a +brutalidade da operação. E invectivava-se o Cristóvam—bruto! verdugo!—que se +desculpava, dizendo:</p> + +<p>—Pois sim, pois sim, mas se não fôsse eu...</p> + +<p>Tinha rasão.</p> + +<p>A roda das beatas da terra toda se desfazia em favores e conselhos de +arnica, de unto de cobra e semi-cúpios de malvas, para aliviar as dores e a +tristeza do prior, cujos nadegueiros—já agora uns nadegueiros de +cónego—entumesciam e grelavam...</p> + +<p>Dizia-lhe a criada:</p> + +<p>—Parece que ficou a modos triste, sr. cónego?...</p> + +<p>—E fiquei, pudéra, se não tenho de quê, cachopa!—queixava-se.</p> + +<p>—De quê?! Hom'essa! Depois duma nova assim!...<span class="pn"><a +name="pag_175">{175}</a></span></p> + +<p>—Depois duma nova assim; admiras-te? Com dois ponta-pés arranjei a ser +cónego, mas se aquele alarve se não demora e me préga logo uma dúzia deles, +quando eu dizia, estava a estas horas bispo! Bispo, imagina!... Se não hei-de +estar aborrecido...</p> + +<p> </p> + +<p>O milagre não obstante ficou de pé, íntegro, documental, palpável, a atestar +o dedo da Providência na ferradura do Cristóvam. A religião, vigilante, viu +logo na pessoa do padre virtudes canonisáveis...</p> + +<p>Apenas o Sequeira, funcionário de finanças, livre pensador e ateu—um +doido!—zombava, fazia menos daquilo, afirmando em toda a parte que o padre +Borregana tinha tido um cónego pelo traseiro, e que o pai da criança era o +sacristão!<span class="pn"><a name="pag_176">{176}</a><br><a name="pag_177">{177}</a></span></p> +</div> + +<h1>Índice</h1> + +<p><span class="pn"><a name="pag_178">{178}</a><br><a name="pag_179">{179}</a></span></p> + +<h2>Índice</h2> + +<table cellspacing="2" border="0" summary="Índice" align="center"> + +<tr><td>Aquela família</td><td><a href="#pag_5">5</a></td></tr> + +<tr><td>A bôca do sapo</td><td><a href="#pag_17">17</a></td></tr> + +<tr><td>Sr. Anselmo (Perfil grotesco dum provinciano ilustre)—(1906)—I</td><td><a href="#pag_37">37</a></td></tr> + +<tr><td>Sr. Anselmo (Perfil grotesco dum provinciano ilustre)—(1912)—II</td><td><a href="#pag_85">85</a></td></tr> + +<tr><td>Candidinha Cerdeira (Novela romantica)</td><td><a href="#pag_89">89</a></td></tr> + +<tr><td>Eureka!</td><td><a href="#pag_113">113</a></td></tr> + +<tr><td>O crime</td><td><a href="#pag_123">123</a></td></tr> + +<tr><td>Casa maldita (Tragedia rústica)</td><td><a href="#pag_133">133</a></td></tr> + +<tr><td>O pai da criança (Conto carnavalesco)</td><td><a href="#pag_165">165</a></td></tr> +</table> + + + + + + + +<pre> + + + + + +End of the Project Gutenberg EBook of Aquela Família, by Ladislau Patrício + +*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK AQUELA FAMÍLIA *** + +***** This file should be named 34039-h.htm or 34039-h.zip ***** +This and all associated files of various formats will be found in: + https://www.gutenberg.org/3/4/0/3/34039/ + +Produced by Mike Silva + +Updated editions will replace the previous one--the old editions +will be renamed. + +Creating the works from public domain print editions means that no +one owns a United States copyright in these works, so the Foundation +(and you!) can copy and distribute it in the United States without +permission and without paying copyright royalties. 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It exists +because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from +people in all walks of life. + +Volunteers and financial support to provide volunteers with the +assistance they need are critical to reaching Project Gutenberg-tm's +goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will +remain freely available for generations to come. In 2001, the Project +Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure +and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations. +To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation +and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4 +and the Foundation web page at https://www.pglaf.org. + + +Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive +Foundation + +The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit +501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the +state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal +Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification +number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at +https://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg +Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent +permitted by U.S. federal laws and your state's laws. + +The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S. +Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered +throughout numerous locations. Its business office is located at +809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email +business@pglaf.org. 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Donations are accepted in a number of other +ways including including checks, online payments and credit card +donations. To donate, please visit: https://pglaf.org/donate + + +Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic +works. + +Professor Michael S. Hart was the originator of the Project Gutenberg-tm +concept of a library of electronic works that could be freely shared +with anyone. For thirty years, he produced and distributed Project +Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support. + + +Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed +editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S. +unless a copyright notice is included. Thus, we do not necessarily +keep eBooks in compliance with any particular paper edition. + + +Most people start at our Web site which has the main PG search facility: + + https://www.gutenberg.org + +This Web site includes information about Project Gutenberg-tm, +including how to make donations to the Project Gutenberg Literary +Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to +subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks. + + +</pre> + +</body> +</html> diff --git a/LICENSE.txt b/LICENSE.txt new file mode 100644 index 0000000..6312041 --- /dev/null +++ b/LICENSE.txt @@ -0,0 +1,11 @@ +This eBook, including all associated images, markup, improvements, +metadata, and any other content or labor, has been confirmed to be +in the PUBLIC DOMAIN IN THE UNITED STATES. + +Procedures for determining public domain status are described in +the "Copyright How-To" at https://www.gutenberg.org. + +No investigation has been made concerning possible copyrights in +jurisdictions other than the United States. 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