summaryrefslogtreecommitdiff
diff options
context:
space:
mode:
-rw-r--r--.gitattributes3
-rw-r--r--34039-8.txt4141
-rw-r--r--34039-8.zipbin0 -> 55236 bytes
-rw-r--r--34039-h.zipbin0 -> 60499 bytes
-rw-r--r--34039-h/34039-h.htm4364
-rw-r--r--LICENSE.txt11
-rw-r--r--README.md2
7 files changed, 8521 insertions, 0 deletions
diff --git a/.gitattributes b/.gitattributes
new file mode 100644
index 0000000..6833f05
--- /dev/null
+++ b/.gitattributes
@@ -0,0 +1,3 @@
+* text=auto
+*.txt text
+*.md text
diff --git a/34039-8.txt b/34039-8.txt
new file mode 100644
index 0000000..d666dfd
--- /dev/null
+++ b/34039-8.txt
@@ -0,0 +1,4141 @@
+The Project Gutenberg EBook of Aquela Família, by Ladislau Patrício
+
+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.org
+
+
+Title: Aquela Família
+ (Tipos, caricaturas e episódios provincianos)
+
+Author: Ladislau Patrício
+
+Release Date: October 7, 2010 [EBook #34039]
+
+Language: Portuguese
+
+Character set encoding: ISO-8859-1
+
+*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK AQUELA FAMÍLIA ***
+
+
+
+
+Produced by Mike Silva
+
+
+
+
+
+
+ Ladislau Patrício
+
+
+ Aquela família...
+
+
+ (Tipos, caricaturas e episódios provincianos)
+
+
+
+ 1914--COIMBRA
+ MOURA MARQUES
+ Livreiro editor
+ 19, Largo Miguel Bombarda, 25
+
+ * * * * *
+
+
+ Aquela família...
+
+
+
+ * * * * *
+
+ TIPOGRAFIA PROGRESSO
+ DE DOMINGOS AUGUSTO DA SILVA
+ Rua Dr. Souza Viterbo, 91
+ Porto--1914
+
+ * * * * *
+
+
+
+
+ Ladislau Patrício
+
+
+ Aquela família...
+
+
+ (Tipos, caricaturas e episódios provincianos)
+
+
+
+ 1914--COIMBRA
+ MOURA MARQUES
+ Livreiro editor
+ 19, Largo Miguel Bombarda, 25
+
+ * * * * *
+
+
+
+
+Aquela família...
+
+
+Aquela família...
+
+A princípio eu ia só, numa carruagem de _segunda_, o que me permitia
+desfrutar o panorama e gozar uma relativa comodidade. Mas mais adiante,
+numa estação qualquer, mal o comboio parou, a portinhola abriu-se e o
+meu compartimento foi invadido de assalto por uma família inteira que
+atravancava tudo: rêdes, bancos, o menor espaço disponível, com malas,
+embrulhos e cestinhos,--uma infinidade de volumes!
+
+O chefe do rancho era um homem nédio, sanguíneo, que rebocava uma
+senhora pesada (onde eu adivinhei a espôsa) e mais duas raparigas e um
+garoto, de marinheiro, magrinho, linfático e triste.
+
+Auxiliei-os. Fiz menção de ajudar as damas a subir. E quando a
+máquina apitou e o trem se pôs em marcha com um ranger de molas e de
+engates, ainda nós todos dispúnhamos a bagagem amontoada nas proporções
+dum Himalaia.
+
+Agradeceram, muito penhorados; e depois de instalados convenientemente,
+o dono de tudo aquilo, que limpava com um lenço enorme as bagas de suor,
+pediu-me licença para tirar o casaco e envergar o guarda-pó.
+
+--Parece que estamos no Congo! justificou. Este calor está mesmo a
+exigir tanga...
+
+Eu sorri, relanceando um olhar às donzelas, que sorriram tambêm,
+ruborizadas, daquela ideia africana do papá. E êste, farejando em mim
+uma índole comunicativa, inquiriu satisfeito:
+
+--O cavalheiro vem de Lisboa?
+
+--Não senhor. Eu sou da Beira.
+
+--Da Beira!... Então é de Vizeu?
+
+Sorri de novo, discretamente, respeitando as noções corográficas do
+viajante simplório, que o acaso colocára assim na minha presença.
+
+Apressei-me por isso a confirmar:
+
+--Sou de Vizeu...
+
+--Nesse caso conhece lá o Gastão?
+
+--O Gastão?!
+
+--Sim, o Gastão Vieira, dos Impostos.
+
+Achei divertido conhecer o Gastão. Recordei-me:
+
+--Ora se conheço! Estou doido! Conheço perfeitamente...
+
+Mas depressa caí em mim, reflecti que podia ser colhido na mentira. Foi,
+portanto, para eximir-me a perguntas que ferviam já nos lábios do
+companheiro que eu perguntei do meu lado:
+
+--E V. Ex.ª? V. Ex.ª é daqui dêstes sitios?
+
+--Sim senhor. Mas agora vamos para banhos. Isto que o sr. aqui vê (com
+um gesto circular indicava a família) pertence-me. O rapaz é fraquito,
+tem escrófulas (apontava o pescoço do fedelho) olhe!--Dizia-me o dr.
+Maia... Conhece?
+
+Declarei que não.
+
+--Pois admira... Espere, agora me lembro: deve conhecer. Êle até costuma
+ir muito a Vizeu. É irmão do padre Levi, Levi da Maia, duma
+família muito ilustre que tem uma irmã viscondessa. O sr. conhece com
+certeza...
+
+E como eu insistisse na negativa:
+
+--O padre Levi, homem! o que escreve no _Vouga_... Não conhece o senhor
+outra coisa!
+
+Tive de lhe dizer que sim.
+
+Havia-me insinuado já no ânimo duma das meninas com quem entretinha
+desde a última estação um namôro matreiro: e apontava-lhe como flechas
+os olhos amorudos, dardejando-me ela os seus, redondinhos, negros,
+sertanejos...
+
+--Pois o dr. Maia,--tornava o pai--dizia-me muita vez: «Alves, leve você
+o rapaz ao mar; leve você o rapaz ao mar que se cura.»--Mas ó doutor,
+veja lá, tenho agora tantos afazeres (e tinha) se o rapaz fôsse coisa
+que se pudesse aí endireitar, que demónio, tomando umas drogas...«--Não,
+não, sem banhos não se põe direito.»--Que havia eu de fazer? Que fazia o
+senhor nas minhas condições?
+
+Esperou resposta; e como lha não désse:
+
+--Saía, não é verdade?
+
+--Pois claro!
+
+--Foi o que eu fiz. Mando arranjar as malas, tranco a porta, meto toda
+esta tropa no comboio... e cá vamos!
+
+--Faz muito bem.
+
+--Acha?...--poisava a sua mão sapuda na minha côxa, todo familiar.--Acha
+então o cavalheiro que faço bem?...
+
+--Mas isso nem se pergunta! aplaudi sem reservas.---Mesmo que não
+houvesse precisão, que infelizmente há; bastava só a ideia de irem gozar!
+
+--Gozar! Mas olhe que se gasta um dinheirão!
+
+--Pois gasta. E isso que tem? A gente não vive só do que mete no
+estômago. É preciso ver, dar de comer aos olhos.
+
+--Dar de comer a quê?
+
+--Aos olhos...
+
+--Huum! mugiu.
+
+Não percebêra. Suava com o calor, nas fontes, nas bochechas, mórmente
+nos refêgos do cachaço, duma grande riquêsa de tecidos celulares...
+
+Entrou depois a divagar sôbre economias expondo-me numa franqueza saloia
+o orçamento da viagem; e tentou por último explicar pela hereditariedade
+a compleição mórbida do filho:
+
+--Isto é de familia! O avô dêle, meu pai, tambêm assim era: sempre
+doente, sempre com remédios. Mas a avó, é curioso! robusta, còrada,
+parecendo que vendia saúde... Eu, aonde me vê, nunca tive uma dôr de
+cabeça! Mas já um tio que nos morreu há três anos...--Voltou-se para uma
+das filhas:--O tio Aristides...
+
+--Ah!
+
+E relatou o que era êsse tio, com os seus achaques, suas mazelas, seus
+ungùentos e seus tumores supurativos, em salvo lugar...
+
+Alves dispunha-se em suma a fazer-me seguir todas as ramificações
+patológicas da sua ascendência! Passei a não lhe responder, dizendo-lhe
+a tudo _que sim_, com a cabeça.
+
+E a rapariga, de lá, muito meiga...
+
+No meio desta felicidade, porêm, a certa altura--na altura de
+Ovar--passou-se um episódio triste, de que fui vítima, o qual produziu
+profundo desgôsto em todos nós. Fôra o caso que, sobranceira ao meu
+lugar, ia uma cesta; senão quando, aí se põe ela a mijar sôbre mim, no
+meu chapéu mole, qualquer gorduroso líquido em fio... Ergo-me dum pulo.
+Houve um alvoroço no compartimento. Alves gritou: «oh, demónio! oh,
+demónio!»
+
+Entretanto alguêm explicava que tinha sido o môlho do peixe que se
+entornára...
+
+O môlho do peixe!
+
+Eu tinha então já tirado o meu chapéu e olhava desolado a nódoa negra,
+enorme, que alastrava, se embebia no feltro da aba, inutilizando-o sem
+remédio!
+
+Côro de lamentações e desculpas:
+
+--Ora esta!
+
+--Uma assim!
+
+--Só a nós é que acontece...
+
+E de coração alanceado, com ancias de espancar aquela gente bárbara, eu
+ainda ganhei fôrças para lhes dizer:
+
+--Não faz mal; não se incomodem. Até tem graça! Pelo amor de Deus!...
+
+Ocorreu todavia aqui uma coisa galante que me cativou: essa das duas
+meninas que me havia já endoidado o coração, num movimento impulsivo e no
+mais aceso da balbúrdia que se estabelecêra, tira do seio o lencinho de
+assoar e veio enxugar com êle a nódoa indelével.
+
+Esquivei-me desvanecido:
+
+--Oh, minha senhora...
+
+E com o lenço enrolado à laia de esponja, ela ia chupando, chupando...
+
+--Se calhar era novo...--disse-me, a meia-voz.
+
+Respondi:
+
+--Era novo.
+
+--E bom?
+
+Fiz um gesto de grandeza:
+
+--Dezoito tostoes!
+
+Alves voltou-se espantado para a espôsa, que segredou a importância a
+outra filha, a quem o irmãosito--que viera à janela do vagom a ver a
+máquina--pedia choramigando e arregalando um dos olhos que lhe
+tirasse um _algueiro_...
+
+Daí a momentos o comboio parava:
+
+--Espinho!
+
+Era a estação onde êles se apeavam. Alves foi o primeiro a levantar-se;
+tirou a carteira e entregando-me um bilhete ofereceu-me os seus «fracos
+préstimos», pedindo mais uma vez desculpa do desastre. As senhoras
+cumprimentaram igualmente e quizeram tambêm que eu as desculpasse. Eu
+desculpei-as. E a mãozinha da minha efêmera namorada, ao despedir-se,
+tremia como um passarinho, quando lha apertei numa pressão
+significativa. Segui-a com a vista até desaparecer pela porta da
+estação; e numa derradeira vez que ela se voltou a olhar-me, não sei,
+mas ia jurar que lhe vi lágrimas...
+
+Encostei-me então a um canto, sorumbático, a fumar. O meu espírito
+oscilava como um pêndulo entre a suave lembrança daquela trigueira (eu
+ainda lhes não disse que ela era trigueira) e a ideia negra do meu
+chapéu manchado. Ambos perdidos já agora para mim! ambos, pela
+fôrça do Destino! Pela distância que ia separar-me dela para não mais
+talvez a tornar a ver; pela mácula que dêle me apartava para nunca mais
+porventura o poder usar!
+
+Encarava eu filosoficamente a situação por êste lado, quando á janela do
+compartimento assomou de novo o focinho do Alves, a farejar-me, a dizer:
+
+--V. Ex.ª faz-me um obséquio? Não se esquece, quando regressar a Vizeu,
+de me recomendar muito ao meu amigo Gastão. Eu, tambêm, quando lhe
+escrever, hei-de falar muito de V. Ex.ª e da simpatia que nos inspirou a
+todos. Criado de V. Ex.ª...
+
+Ouviram-se os sinais da partida. Estendemos as mãos cordialmente; e ao
+pôr-se o comboio em andamento, Alves, com a minha dextra apertada, lembrou:
+
+--Ah! E que lá recebi as pêras... Diga-lhe tambêm isso, sim? Deliciosas!
+Deliciosas!
+
+Corria junto da carruagem, ao longo da _gare_, gritando ainda a plenos
+pulmões:
+
+--Deliciosas!
+
+ * * * * *
+
+
+
+
+A bôca do sapo
+
+
+A bôca do sapo
+
+ _Interior caseiro, modestamente mobilado. CARLOS e MARIA CELESTE
+ conversam sentados, junto duma mêsa. A voz dêle tem um timbre
+ imperativo e enérgico; a dela é aveludada, melodiosa, humilde._
+
+ _Tarde de novembro. Ameaça chover._
+
+CARLOS
+
+Compreendes que me seria muito desagradável que alguêm soubesse o que
+tem havido entre nós...
+
+MARIA CELESTE, _como se despertasse_:
+
+Ah!... o que tem havido...
+
+CARLOS
+
+Ou o que possa porventura haver ainda... Porque eu, apesar do que vai
+acontecer, não quero romper comtigo duma maneira absoluta. Não se
+vive impunemente três anos com uma mulher. És uma rapariga de
+coração--não to digo para que mo agradeças; e sinto que não devo
+abandonar-te...
+
+MARIA CELESTE
+
+Não, Carlos, enganas-te; eu nunca mais serei tua, haja o que houver.
+Nunca mais!
+
+CARLOS
+
+Endoidecêste?!
+
+MARIA CELESTE
+
+Creio que não endoideci. Vamos separar-nos, hoje, por toda a vida. Se
+alguma vez nos encontrarmos já não serás o mesmo homem... nem eu a mesma
+mulher. Não nos conheceremos.
+
+CARLOS
+
+Ora! ora!
+
+MARIA CELESTE
+
+Afirmo-to!
+
+CARLOS
+
+Terás essa coragem?!
+
+MARIA CELESTE
+
+Se terei essa coragem!...
+
+CARLOS, _após uns momentos de reflexão, conciliador_:
+
+Bem, não compliquemos as coisas: deixa-te de criancices.
+
+MARIA CELESTE
+
+Criancices?!
+
+CARLOS
+
+Decerto. Não consegues convencer-me que essa tua resolução seja inabalável.
+
+MARIA CELESTE
+
+Verás.
+
+CARLOS
+
+Ou nunca me tiveste amor.
+
+MARIA CELESTE
+
+Seja: nunca te tive amor...
+
+CARLOS, _apreensivo_:
+
+E talvez. Se fosses minha amiga não te resignavas facilmente a
+perder-me. Havia de custar-te a suportar um abandono, quanto mais...
+
+MARIA CELESTE
+
+Por isso mesmo,--porque sou tua amiga...
+
+CARLOS
+
+Palavras...
+
+MARIA CELESTE
+
+Não quero tornar-me um fardo para ti.
+
+CARLOS, _que principia a indignar-se_:
+
+Palavras! Palavras!
+
+ _Faz-se silêncio. Os dois ficam absortos, sem se olharem._
+
+CARLOS, _com uma serenidade forçada, momentos depois_:
+
+Não queres certamente atribuir-me a responsabilidade do que sucedeu...
+
+MARIA CELESTE
+
+Nem tenho êsse direito.
+
+CARLOS
+
+Sabes muito bem como as coisas se passaram.
+
+MARIA CELESTE
+
+Sei.
+
+CARLOS
+
+Não ignoravas que um dia eu havia de me casar.
+
+MARIA CELESTE
+
+Não ignorava.
+
+CARLOS
+
+Tive a franqueza, a lialdade de to confessar muito antes de me pertenceres.
+
+MARIA CELESTE
+
+Tiveste.
+
+CARLOS
+
+Tentei até por varios meios evitar a tua falta. Lembra-te que fôste
+minha por tua livre e espontânea vontade!
+
+MARIA CELESTE
+
+Lembro, lembro...
+
+CARLOS
+
+O teu acto foi, portanto, premeditado...
+
+MARIA CELESTE
+
+Pois foi.
+
+CARLOS
+
+Não representa o cego impulso dum momento de paixão que eu ateasse, com
+a mira numa conquista. Eu disse-te: «Maria Celeste, pensa,
+reflecte, olha o que te póde suceder... esquece-me». É isto verdade?
+
+MARIA CELESTE
+
+É.
+
+CARLOS
+
+Só tu fôste nêsse caso responsável. Fôste tu que assim o quiseste...
+
+MARIA CELESTE
+
+Fui eu que assim o quis.
+
+CARLOS
+
+Pois bem. E agora, quando podia abandonar-te sem remorsos, apenas com a
+amarga saùdade do que tens sido para mim; e que venho oferecer-te,
+desinteressadamente, a promessa de continuar a ser para ti um amigo, um
+protector... alguêm...
+
+MARIA CELESTE, _com tristeza_:
+
+Alguêm!...
+
+CARLOS
+
+Sim! E repeles-me, afastas-me como se eu fôsse o pior, o mais grosseiro,
+o mais indigno dos homens!
+
+MARIA CELESTE
+
+Carlos!
+
+CARLOS, _fóra de si_:
+
+Oh! a ingratidão!... A ingratidão!
+
+ _MARIA CELESTE cala-se, sucumbida. Os olhos arrasam-se-lhe de
+ lágrimas; e ficam assim os dois numa nervosa hostilidade, êle a
+ passear na sala, resmungando censuras, e ela chorando, muda e
+ convulsivamente, sôbre o lenço molhado._
+
+MARIA CELESTE, _dominando a comoção_:
+
+Não quero que me consideres uma despeitada. Justifico a tua cólera, as
+palavras severas que me diriges, tudo, emfim, porque te
+compreendo... porque te estimo. Ainda bem que reconheces que eu não fui
+para ti uma amante vulgar. E não fui. Amei-te com um amor verdadeiro,
+livre, sem condições. É certo que me aconselhaste, que me preveniste a
+tempo, mas... de que servia? Só quem não ama sabe interpretar conselhos
+e ouvir razões... Quantas vezes, comigo, no isolamento do meu quarto,
+calculei a profundidade do abismo em que cairia se me deixasse levar
+pelo coração. Pobre de mim! Mil vezes deliberei não te receber, mil
+vezes não te falar mais, nunca mais! Mas apenas subias aquelas escadas e
+ouvia o ruido dos teus passos... oh! então, o meu juizo turbava-se, as
+minhas mãos arrefeciam, a minha alma, o meu corpo, a minha vida inteira,
+fugiam para ti! E pensava: é o Destino...--Uma tarde, uma noite, sabes
+bem o que se passou... Era o céu, era a felicidade que se me deparava.
+Sabia que isto não podia durar sempre, que tudo acabaria depressa... que
+havias de te casar: tu disséras-mo!... Mas achava-me tão bem, tão
+contente de viver assim, que não pensava, não queria pensar que
+essa hora amarga chegaria breve! (_Comovida_:) O que me prendeu a ti,
+sobretudo, foi a tua franqueza, êsse mixto de compaixão e indiferença
+que por mim professavas, os melindres da tua consciência, a previsão do
+que poderia resultar, na certeza de lhe não dares remédio... Tudo isso
+me tentou, me seduziu como uma coisa terrível que se teme--e que
+irresistivelmente nos atrai...
+
+CARLOS, _condoído_:
+
+Fui para ti--pobre dòninha inconsciente e louca!--uma espécie de bôca do
+sapo, queres dizer...
+
+MARIA CELESTE
+
+Fôste o meu único, o meu exclusivo amor na vida! (_Fita-o nos olhos
+penetrantemente_). Anda, diz'-me lá se isto não é assim, se isto não é
+verdade?!...
+
+CARLOS, _impressionado_:
+
+Ouve-me, Maria Celeste, escuta...
+
+MARIA CELESTE
+
+Não, não! não posso... não teimes.
+
+CARLOS
+
+Sê razoável...
+
+MARIA CELESTE
+
+Não teimes. Quero conservar-me sempre digna de ti.
+
+ _Há um silêncio concentrado._
+
+CARLOS, _numa ideia repentina_:
+
+E se eu desistisse de casar? Ou antes, se te dissesse para casares
+comigo?...
+
+ _Olha-a com ansiedade._
+
+MARIA CELESTE, _resolutamente_:
+
+Não aceitaria.
+
+CARLOS
+
+Quê!?
+
+MARIA CELESTE
+
+Não aceitaria. Pelas cinzas de minha mãe, acredita!
+
+CARLOS, _abismado_:
+
+E porquê?!
+
+MARIA CELESTE
+
+Porquê?...
+
+CARLOS
+
+Sim.
+
+MARIA CELESTE
+
+Porque tens uma noiva, porque empenhaste a tua palavra. Depois...
+
+CARLOS
+
+Depois...
+
+MARIA CELESTE
+
+Porque me não amas, Carlos...
+
+CARLOS
+
+Mentes!
+
+MARIA CELESTE
+
+Como queiras... (_Pausa_) Eu fui para ti apenas isto: uma pobre rapariga
+que te interessou: uma curiosidade, uma aventura...
+
+CARLOS
+
+Uma aventura! Mas devo-te o que não devo a ninguêm!
+
+MARIA CELESTE
+
+?!
+
+CARLOS
+
+A tua honra. Déste-me a tua honra!
+
+MARIA CELESTE, _com simplicidade_:
+
+Pois nada mais tenho que te dar...
+
+CARLOS
+
+Como dizes isso!
+
+MARIA CELESTE
+
+Digo o que sinto.
+
+CARLOS, _depois duma longa pausa_:
+
+E que has-de fazer agora? Queres continuar a viver como vivias?
+
+MARIA CELESTE, _encolhendo os ombros_:
+
+Sei lá!...
+
+CARLOS
+
+Podias ter sido feliz com outro homem...
+
+MARIA CELESTE, _convictamente_:
+
+Não o podia ser com mais ninguêm.
+
+CARLOS
+
+Sacrifício inutil...
+
+MARIA CELESTE
+
+Não há sacrifícios inuteis nêste mundo, meu amigo... Demais, tu fôste
+para mim o que tinhas de ser... Não és culpado do meu infortúnio.
+Estou satisfeita, crê,--recompensada. (_Tentando convencê-lo_): Tu não
+fizeste mais do que aproveitar uma mulher que se te oferecia...
+
+CARLOS, _enternecido, toma-lhe as mãos, que beija_:
+
+És uma santa! (_Com uma infinita saùdade a transparecer-lhe na voz_) E
+lembrar-me que amanhã tenho de deixar-te!...
+
+MARIA CELESTE
+
+Paciência...
+
+CARLOS
+
+... que nunca mais tornarei a ver-te! que nunca mais porei aqui os pés
+em tua casa!
+
+MARIA CELESTE
+
+Nunca.
+
+CARLOS
+
+Nem que um dia precise de ti?
+
+MARIA CELESTE
+
+Nem que um dia precises de mim.
+
+CARLOS
+
+É o fim de tudo, visto isso?
+
+MARIA CELESTE
+
+De tudo.
+
+CARLOS, _num movimento impulsivo, de protesto_:
+
+Não, Maria Celeste, não é! Renuncia a êsses teus propositos. Eu não
+posso, não quero deixar-te.
+
+MARIA CELESTE, _incrédula_:
+
+Não queres...
+
+CARLOS
+
+Não quero. Duvidas?
+
+MARIA CELESTE
+
+Duvido. O que te impressiona agora é a minha presença. Quando saíres
+daqui tudo se desvanecerá como fumo...
+
+CARLOS, _sucumbido_:
+
+Tudo se desvanecerá!
+
+MARIA CELESTE
+
+Sim. Repara que eu fui para ti simplesmente--uma amante...
+
+CARLOS
+
+E então?
+
+MARIA CELESTE
+
+Acabou tudo nêste dia em que começo a tornar-me um embaraço para a tua
+felicidade...
+
+CARLOS
+
+Maria Celeste: juro-te!
+
+MARIA CELESTE
+
+Não jures. Tu no fundo sentes isto mesmo, mas não tens coragem de mo
+dizer... És bom, tens dó de mim. Mas nem todo o teu dó, nem toda a tua
+bondade conseguem dar-me a ilusão de que sou amada!...
+
+A que horas partes amanhã?...
+
+ * * * * *
+
+
+
+
+Sr. Anselmo
+
+
+(Perfil grotesco dum provinciano ilustre)
+
+
+(1906)
+
+
+I
+
+
+
+Sr. Anselmo
+
+
+(Perfil grotesco dum provinciano ilustre)
+
+
+(1906)
+
+
+I
+
+Nasci em 74--eu, Teotónio Mendes, de muito boa família.
+
+Tenho, portanto, actualmente (1906) trinta e dois anos.
+
+A minha vila fica entre serras, na vertente dum vale, e o calor ali
+aperta sempre muito.
+
+Naquele verão sobretudo (eu não sei se os senhores estão bem lembrados)
+no verão a que se referem êstes acontecimentos, mal se respirava. As
+fontes secaram; a vegetação, sequiosa, sufocava sob ardentes
+nuvens de poeira, e as pedras nos caminhos quase estalavam com o sol.
+
+Horrível!
+
+Ha quatro mêses que não chovia. Moviam-se préces ao Altíssimo,
+celebravam-se procissões, missas--_ad petendam pluviam_--mas do céu
+afogueado e sêco... nem pinga!
+
+_Cumulus_ de trovoada, no horisonte longínquo, relampejavam em noites
+caladas, logo desaparecendo varridos dum bafo môrno de canículas.
+
+Dizia-se, farejando as alturas:
+
+--Isto é que vai ser! isto é que vai ser!
+
+Os dias sucediam-se no emtanto ronceiros, bocejados, com um firmamento
+implacável, de bronze, e a aflição da terra calcinada e triste.
+
+O termómetro de Anselmo continuava a marcar muitos graus. Êste Anselmo,
+farmaceutico, grande influente político na localidade, era com efeito
+uma figura curiosa e típica. Inteligente, astuto, conhecido árbitro em
+questões de pêso, dava as leis e orientava a mentalidade sertanêja da
+vilota.
+
+Mesmo os mais orgulhosos e independentes, senhores do seu nariz,
+sofriam a sugestão infalível daquela poderosa vontade.
+
+--Ali, na Turquia...--dizia por exemplo êle.
+
+E tinha a gente a impressão de que a Turquia era ali mesmo, a dois
+passos, que podiamos lá chegar se quiséssemos,--a pé!
+
+Anselmo todavia nunca viajára. Perdão! foi uma vez a Lisboa por três
+dias, e viu a Galvâni no Coliseu.
+
+--Que tal? perguntaram-lhe, quando voltou.
+
+--Um rouxinol!
+
+Já essa noite no club, o fidalgo da Véla, homem na verdade muito
+entendido de música, recomendava:
+
+---É preciso ir a Lisboa... à Galvâni. Diz o Anselmo que é um rouxinol.
+
+Geradas nas bitesgas do seu cérebro e reveladas depois a um círculo de
+amigos no cantinho da farmácia, as suas ideias extravasavam cá por fóra,
+caudalosas, engrossando, impondo-se, fazendo opinião. Alvitre que
+trouxesse marca de tão abalisada procedência, dava sempre coisa
+que se visse, convertia-se logo em rialidade: fôsse uma árvore, um
+baile, o itenerário num cortejo, um espectáculo--um urinol.
+
+Casado, sem filhos (e sem esperanças já agora de os fabricar) Anselmo
+professava pela espôsa um amor e um respeito inconcebíveis. Se alguêm
+diante dêle referisse factos menos edificantes ou alarmasse a
+assistência com a nova dalgum moderno escandalo em supuração, comentava
+ruborisado e colérico:
+
+--Deboche! Indecência! Quem quer mulher arranja-a, mas casa-se, que é o
+que todo o homem limpo deve fazer.
+
+Ela, a D. Ermelinda, correspondia a essa louvável demonstração de bons
+sentimentos da parte do marido, com uma dedicação sem limites, a que a
+sua enorme fealdade--uma «fealdade específica», como diz
+Camilo--prestava fiança idónea.
+
+
+Além do termómetro havia tambêm na farmácia um barómetro. E todos os
+dias amigo Anselmo informava a vila e arredores com aquele rigor
+meticuloso, scientífico, aquela probidade verdadeiramente spartana, que
+era um dos ornamentos hereditários do seu caracter...
+
+Ninguêm saía da terra, ninguêm projectava uma viajem, um passeio, que
+não fôsse primeiro consultar o Anselmo:
+
+--Que diz você?
+
+E Anselmo, do alto da sua importância quase divina, resolvia:
+
+--Póde sair, homem; vá descançado que não chove.
+
+Ou então:
+
+--Deixe-se ficar; o barómetro desceu e temos água.
+
+Sei até de pessoas que atribuiam tamanha autoridade a Anselmo em
+assuntos meteorológicos, que havendo resposta negativa chegavam a
+observar-lhe:
+
+--Demónio! Faz-me tanta falta agora não poder sair... Se isso fôsse
+coisa que se pudesse arranjar, sr. Anselmo...
+
+Êle não se perturbava, não achava aquilo de mais, respondia:
+
+--Tenha paciência, homem, resigne-se; para outra vez será. Tenha paciência.
+
+Quem é que sentia frio ou se queixava de calor emquanto Anselmo não
+manifestasse que sim, que estava calor ou que havia frio?--Anselmo batia
+o dente? Venham os jaquetões, os agasalhos, os capotes... Anselmo
+transpirava? As janelas logo se abriam e largavam-se os cobertores, as
+brazeiras...
+
+Não era só respeito--era mêdo!
+
+Nessa altura, por exemplo, o boticário decretára que havia um calor
+excessivo. Toda a gente entrou a dizer que era de mais, que uma tal
+temperatura se não aturava, uff! que havia um calor excessivo...
+
+Certo dia Anselmo lembrou na farmácia que «talvez andando nu...». Pois
+surpreendi gente digna, disposta a seguir-lhe o conselho, quase a pôr-se
+como êle dizia...
+
+Pela uma hora Anselmo examinava o termómetro (chamava-lhe: _a coluna_)
+primeiro à sombra, metódicamente, em seguida aos raios directos do sol,
+na soleira da porta.
+
+Freguês que após esta operação penetrasse na farmácia era antes de
+mais nada avisado pelo Anselmo dos graus que atingira a temperatura
+ambiente:
+
+--Já sabe?... 30 à sombra e 50 ao sol!... É de rachar!
+
+Depois é que aviava a receita limpando o suor da pescoceira ao mesmo
+pano com que enxugava as garrafas dos remédios.
+
+A notícia circulava rápida. Perguntava-se por hábito:
+
+--Já viu o termómetro? Quantos marcará hoje o termómetro do Anselmo?
+
+E aí por volta das duas já se sabia, já constava cá por fóra:
+
+--Então hoje, hein? 30 à sombra e 50 ao sol no termómetro do Anselmo!
+
+Desapertavam-se os colêtes...
+
+De facto, desta vez tinham razão. Havia umas horas no dia em que as ruas
+ficavam desertas, só as moscas e as abelhas faziam o seu giro zumbidor.
+Dos canos e das valetas onde levedavam detritos, subiam no ar quente
+exalações pestíferas. Eu esperava o correio com ansiedade, por causa dos
+jornais, as janelas do quarto entre-abertas, o pavimento borrifado
+com água; ali me conservava naquela meia penumbra, estirado na cama, de
+papo para o ar... e nu, consoante o Anselmo preconisára.
+
+Saía só à noitinha, que refrescava um pouco, quando a vila se punha a
+respirar às portas das lojas, ou passeava em grupos pelas estradas, os
+homens de chapéu na mão e as senhoras de vestidos claros, muito
+lânguidas, com as blusas desbotadas nos sovacos--da transpiração diurna.
+
+
+Foi por essa época que eu recebi a carta do meu amigo
+Felizardo--Felizardo Antunes Vieira Leite, do Porto--convidando-me a ir
+passar com êle uma temporada numa quinta do Minho, para onde partia
+nêsse mesmo dia com a mãe, uma senhora respeitável que desejava muito
+conhecer-me.
+
+No verão iam sempre para lá, dois mêses, a regalarem os pulmões viciados
+do ar urbano e a vigiarem de perto as colheitas naquela quadra mais
+intensa da vida agricola.
+
+Adorável amigo!
+
+Acabei de ler a carta e ergui-me dum pulo. Abri as janelas de par em
+par, para que a luz entrasse amplamente. Depois puxei os gavetões e
+pus-me a atacar de roupa a minha maleta de viagem. Porque eu ia viajar,
+senhores! Eu ia emfim ver êsse Minho pitoresco de que ouvira sempre
+falar com tanto entusiasmo.
+
+Fui ao telégrafo e expedi para _dr. Vieira Leite_ o seguinte aviso:
+«Chego àmanha».
+
+As delícias do progresso!
+
+Jámais apreciára como nêsse jovial momento esta coisa cómoda e vulgar
+que se chama--o telegrama. E a descer as escadas dos correios eu ainda
+vinha a parafusar nas belezas da Civilisação,--contente, reconhecido...
+
+
+De passagem, porque me ficava a caminho, entrei na farmácia. Nunca me
+dobrára em contumélias aparatosas de adulador ante a figura severa do
+boticário. Nunca balançára com mão subserviente o turíbulo da Fama com
+que a vila usava incensá-lo. Digo isto sem a menor sombra de
+prosápia e sem querer censurar ninguêm,--apenas para estabelecer a verdade.
+
+Eu sou um apóstolo da Verdade!
+
+Mas que razões me déra Anselmo que justificassem, até à data, a minha
+frieza, o meu desdêm, quase? A valer, nenhumas! Ficar-me-ia mal,
+portanto, que eu tivesse desta vez uma atenção e pondo de parte
+caprichos, orgulhos, lhe perguntasse muito cortêsmente se queria alguma
+coisa «para êsse Minho»?
+
+Anselmo estava só, absorvido na laboriosa manipulação duma pomada. Um
+enxame de moscas poisava na gaze suja que revestia o candieiro de metal
+suspenso do teto fuliginoso; e atrás, sôbre o pano fundeiro, lia-se no
+vidro fosco duma porta interior esta palavra em letras gordas debaixo
+dum emblema galénico:
+
+ LABORATORIO
+
+Avancei, anunciei-lhe o objecto da minha visita. O boticário ergueu a
+fronte majestosa, reconheceu-me, e mergulhando de novo no trabalho,
+rosnou por entre dentes:
+
+--Boa viagem!...
+
+Aquilo vexou-me; não eram formas de corresponder a uma delicadeza. Vai
+não vai estive para lhe dizer das boas, das fortes,--das minhas...
+
+Mas não pude. Não sei porquê, mas não pude.
+
+Dei umas voltas fóra do balcão, meio acobardado, com um terror
+supersticioso que não me deixava falar, nem me permitia arredar pé.
+
+Coisa esquisita!
+
+Baralhavam-se-me as ideias e, na confusão mental em que me via, uma só
+coisa me preocupava impertinentemente: se aquele Anselmo, aquele pigmeu!
+teria rialmente alguma influência no destino das chuvas, do vento ou das
+trovoadas?
+
+Admitida a hipótese, podia muito bem, querendo, vingar-se de mim. Que
+mais não fôsse senão uma telha despenhada do alto dum prédio, no sopro
+duma rajada acintosa, sôbre a minha cabeça ímpia.
+
+Mas...--protestava uma voz do fundo de todo o meu ser
+angustiado--o Anselmo, que pisava linhaça, que eu via ali na minha
+humana presença a fazer pomada!? Insensata apreensão, pueril receio, que
+o falso, infundado prestígio de semelhante figurão, exercendo-se sôbre o
+meu espírito num inexplicável momento de fraqueza, havia logrado produzir!
+
+Ah! mas a desforra ia ser tremenda! Eu ia resgatar, num gesto nervoso e
+varonil, a liberdade de pensar e de procedor de toda uma pequena aldeia
+de fanáticos, mostrando na hora augusta da emancipação, à luz da
+evidência e da subtil análise, o que êsse insignificante valia por
+dentro--como homem e como divindade!
+
+Mas de novo uma dúvida, um vago temor se interpôs ao meu intento,
+quebrando-me as forças, jugulando-me,--nem que alguma poderosa mão
+invisível estivesse ali sôbre mim suspensa e pronta a estrangular-me à
+primeira voz.
+
+--Ora esta! murmurava eu mentalmente, ora esta!
+
+E passados instantes, tornando a olhar o boticário, que continuava
+indiferente e mudo a esmagar com a espátula, sôbre um pedaço de mármore
+polido, uma pasta esbranquiçada e fedorenta, perguntei-lhe com a mais
+cariciosa das maneiras:
+
+--E que me diz o meu amigo do tempo?...
+
+Ora! foi uma beleza: um milagre! Levantou de novo a cabeça, que me
+pareceu agora aureolada, e encarou-me. Tinha estampada no rosto a
+surpreza que a pergunta lhe causára. Vi-o sorrir; e mirando o barómetro
+(ou o termómetro: não sei...) veio até mim, afável, meigo, aliciador.
+Percebi que ia ter uma resposta, significando talvez o beijo tácito da
+reconciliação. Eu ia confraternizar com Anselmo, abraçá-lo, entrar-lhe
+na intimidade... Que bom! Que pechincha!
+
+Nessa altura porêm, um sujeito baixo, agitado, nervoso, investe porta a
+dentro com os braços no ar, exclamando:
+
+--Ó Anselmo! ó Anselmo! você já viu? você já sabe?
+
+Fitámo-lo surpresos.
+
+Era o Menezes, jornalista, que assim vinha estragar a doce situação.
+
+--Que é, homem, que é?!... Conte lá, desabafe! disse o boticário sem
+encobrir o seu mau humor.
+
+E o outro, com muitos gestos, esbaforido:
+
+--O ministério! caiu o ministério!
+
+E sentou-se por já não poder.
+
+Anselmo largou a espátula:
+
+--Que me diz?!
+
+--Olhe, veja!...--murmurou sufocado.
+
+E estendeu-lhe um papel, um telegrama, aonde vinha tudo explicadinho:
+«ministério em terra, chamado João Franco, parabens.» Não era preciso mais!
+
+Anselmo ficou sem ar. E o Menezes, outra vez muito excitado, ia e vinha
+da porta ao balcão, do balcão à porta, a rir-se, transtornado da cabeça,
+doido com a história.
+
+--Até que finalmente, dizia, ora até que finalmente: o João Franco! Ó
+Anselmo, ó menino, mas você já pensou bem no caso? O João Franco!
+
+E esfregava as mãos de contente.
+
+--Agora é que se vai ver o que é governar às direitas; agora sim, é que
+se vai ver o que é governar!
+
+O boticário quase não queria acreditá-lo. «Ficára banzado!» E o Menezes,
+vociferando:
+
+--Corja! Os outros por pouco que não põem o país a saque! Tudo a comer,
+tudo! E eu, e você, e os mais,--os que trabalhâmos--a pagarmos para
+aqueles piratas!
+
+Anselmo sorria benévolo às considerações acerbas do jornalista que
+prosseguia irado, numa linguagem perversa:
+
+--Súcia de gatunos! Pulhas! Pulhas!
+
+E já frenético, em altos gritos:
+
+--É bem feito, é bem feito: rua! É bem feito!
+
+Começou a juntar-se povo, garotada, a quem o Anselmo, vindo à porta,
+enxotava, explicando:
+
+--Que é? que é que vocês querem? Foi o ministério que caiu... Vão-se
+embora!
+
+Um dos garôtos porêm, mais curioso e atrevido, foi a espreitar para
+dentro, pelos vidros da outra porta,--a ver se via o ministério no
+chão...
+
+A Anselmo continuava no emtanto a afigurar-se-lhe aquilo um sonho. Assim
+tão de repente, sem se falar em nada, sem ameaças de crise... Não seria
+balela?
+
+O jornalista então pôs-se a raciocinar: Qual! era lógico; o Hintze
+fartára-se lá de fazer asneiras, e antes dêle toda a gente sabia que
+quem governava não era o Zé Luciano: era a mulher.
+
+Tomou fôlego, prosseguiu:
+
+--Quando aí veio o imperador da Alemanha, e a rainha Alexandra, e o
+outro... (fez um gesto com o polegar na direcção da raia) o de Espanha,
+nem sequer tínhamos um presidente do conselho em termos de se
+apresentar! Uma vergonha!
+
+Cuspinhou, bateu com a bengala, consultou o relógio. Era tarde.
+
+--Olha o Teotónio! Você aí!--disse, dando por mim.--Desculpe, não tinha
+reparado... Então que diz a isto?
+
+--Eu?...
+
+--Sim, que diz você a isto?
+
+Encolhi os ombros, sem responder, verdadeiramente embaraçado. E êle:
+
+--Nem de encomenda, meu caro, nem de encomenda! O João Franco nestas
+alturas foi a sorte grande para o país!
+
+Estendeu-me dois dedos a despedir-se; e quando se retirava:
+
+--É verdade, ó Anselmo, você agora volta outra vez lá para cima, para a
+câmara. Creio que agora...
+
+--Qual câmara nem qual carapuça, opôs o farmaceutico, modesto--o que eu
+quero é que me deixem. Teem aí muita gente...
+
+Menezes não via, não achava:
+
+--Muita gente! Aonde?...
+
+Foi então que eu, Teotónio, julguei oportuno intervir:
+
+--Se me dão licença, direi que sou tambêm do parecer do amigo Menezes...
+
+--Diga, diga! aprovou êste.
+
+--É impossivel na verdade encontrar por todo o concelho quem, como o sr.
+Anselmo, seja capaz de desempenhar com tanta capacidade e
+proficiência o papel de presidente do município.
+
+--Apoiado!
+
+--Haja em vista,--justifiquei, voltando-me para êle,--o que V. Ex.ª fez
+da outra vez por ocasião da gréve das leiteiras!
+
+--Ora, ora...--desdenhou Anselmo.
+
+--É a verdade, é a verdade! aplaudiu o Menezes.--Está na memoria de
+todos. De todos!--repetiu, aprumando-se, nos bicos dos pés.
+
+--Andava-se aterrado, continuei, como na véspera dos grandes
+acontecimentos. Dizia-se que ficaríamos sem leite na vila por uns poucos
+de dias!
+
+--Um alimento de primeira necessidade...--avolumou o jornalista.
+
+--Vai então o sr. Anselmo, num abrir e fechar de olhos, resolveu.
+Lembro-me como se fôsse hoje da memorável sessão a que assisti e em que
+V. Ex.ª sossegou a população, declarando que uma gréve dessa natureza
+seria para temer se em vez de ser feita pelas vendedeiras de leite,
+fôsse feita pelas próprias vacas...
+
+--Sim senhor...--confirmou o Menezes.--Lembro-me perfeitamente; eu
+tambêm lá estava. Por sinal que estreei um fato nêsse dia...
+
+--Emfim, rematei, e quantas coisas mais!? A quem se deve por exemplo o
+melhoramento entre nós do carro do lixo?
+
+Menezes coadjuvou-me, indicou o boticário:
+
+--A êle!
+
+--A quem se deve a construção do coreto na Praça Nova?
+
+--A êle!
+
+--A quem se deve a compra dum irrigador para o hospital civil?
+
+--A êle! a êle só!
+
+--Ó senhores, pelo amor de Deus! confundem-me!--bradou o boticário
+rialmente confundido, levando as mãos ao crâneo--Eu sou um humilde
+trabalhador, com desejos de acertar, de bem servir a minha terra e os
+amigos. Nada mais!
+
+--Êsse pouco...
+
+--Mas quanto a política, francamente, confesso--estou farto; estou farto
+dela até aos olhos!
+
+--Isso diz êle agora, isso diz êle agora, murmurou o Menezes,
+piscando-me o ôlho.--Olha quem, o régulo!
+
+Depois, despediu-se; chegou mesmo a descer o passeio; mas voltando atrás
+afogueado:
+
+--Ouça lá, Anselmo, e hoje? o termómetro?
+
+Anselmo foi verificar. Inclinando para o solo o dedo indicador, hirto,
+num gesto omnipotente, informou:
+
+--Desce!
+
+--Ah! Ótimo... Assim era duma pessoa morrer!
+
+E muito meneado, o jornalista lá se foi de vez a semear notícias.
+
+
+Dispus-me então a comentar o caso a sós com o Anselmo. Do seu facundo e
+preclaro espírito viria até mim, triste mortal, o bom conselho, a
+opinião autorisada e justa...
+
+Ministério em terra, o João Franco inesperadamente no poder... Era com
+efeito um extravagante acontecimento.
+
+Eu nunca fôra, porêm, um político interessado. A dizer a verdade, não
+sabia mesmo se aquele facto, na aparência sensacional, representava uma
+vantagem ou um inconveniente para o país. Não me encontrára jámais
+inclinado para êstes ou para aqueles. A ser um franquista, um
+progressista ou um regenerador, preferia não ser coisa nenhuma--que é
+para o que eu me sinto rialmente com vocação...
+
+Naquele momento todavia achei o João Franco simpático. Decerto vinha
+animado de bons propósitos, decerto; e era um homem rico, o que--seja
+dito de passagem--significava uma grande segurança para a
+inviolabilidade do Tesouro... Menezes tinha razão.
+
+Todas estas considerações eu adusi a Anselmo, que me fitava e sorria
+satisfeito.
+
+--Mas porque caíria o Hintze? indaguei.
+
+Anselmo torneou o balcão, veio dizer-me ao ouvido:
+
+--O rei, entende? que tem um medo dos rèpublicanos que se fina (isto
+aqui para nós) e quer lá no poder um homem de envergadura, um homem que
+os tenha no seu lugar, ora entende o senhor? Para isso, ninguêm mais
+nas condições de que o João Franco. O João Franco é um valente! Se
+lhe constar, _verbi gratia_, estando aqui, que lá fóra a uma esquina há
+um homem com um cacete á espera dêle--acredite--é quando lá passa mais
+depressa. Olha quem!... Nem o Bismarck!
+
+Eu ia acompanhando com interjeições o caloroso panegírico do ministro. E
+quando Anselmo terminou:
+
+--Efectivamente, o João Franco...
+
+Anselmo benzeu-se:
+
+--Ah! meu amigo: é um colôsso!
+
+Fez-se silêncio. O boticário acondicionava numa caixinha a pomada
+preparada. Assoou-se. Escreveu um rótulo e colou-o na tampa, a assobiar
+o hino da carta.
+
+--Diga-me uma coisa, inquiri; o Menezes não era progressista?
+
+--Era; mas passou-se para os nossos há-de haver um mês. É um convicto.
+
+--Parece.
+
+--E brioso; um cavalheiro.
+
+--Parece.
+
+--Ali o Souto dos telégrafos mijou-lhe um dia fóra do têsto...
+
+--O Souto? Ah! sim... Mas êsse é um trampolineiro!
+
+--É. O sr. fala-lhe?
+
+--Ás vezes, por cortesia...
+
+--Pois uma ocasião teve o descaramento de afirmar, no club, diante de
+quem o quis ouvir, que um artigo que o Menezes publicára não era do
+Menezes e que era... sabe o senhor de quem? imagine!--do Navarro, do
+Emídio Navarro!
+
+--Patife!
+
+--... que tinha vindo nas _Novidades_ já não sei há quantos anos, e que
+o Menezes o fôra copiar, alterando apenas ligeiramente a forma.
+
+--Patife! patife!
+
+--O Menezes, mal aquilo lhe chega aos ouvidos--êle que é um
+esturrado!--agarra num vergalho e onde encontra o Souto prega-lhe uma
+destas coças...
+
+--Bem feito.
+
+--De manhã já o Menezes aqui me tinha dito a mim, furioso:
+«Juro-lhe, Anselmo, que onde encontro aquele tratante, quebro-lhe um
+côrno».--Se bem o disse melhor o fez: vai e quebrou-lho.
+
+--Anda-me.
+
+--No domingo imediato, quando tudo supunha a questão arrumada, zás: sai
+o jornal? Eu cheguei a saber aquilo tudo de cór, homem!
+
+Concentrou-se, os olhos fechados, a mão na testa, a ver se se lembrava.
+
+E com pesar:
+
+--Já não vai; paciência!
+
+--É pena.
+
+--Mas digo-lhe o final, descance, que êsse é daqui...--e beliscava o
+lóbulo da orelha. Então, o braço estendido, em atitude declamatória, o
+polegar e o índice aplicados num gesto precioso, recitou, com uma
+pontinha de malicia nos olhos: «Diz D. Bazílio que da calúnia alguma
+coisa fica. Não temêmos, porêm, etc., etc., etc....» Repare agora: «Os
+aleives resvalam na consciência dos justos como zagalotes no aço.»
+(Anselmo sublinhava: _como zagalotes no aço..._). «Todo o mundo sabe que
+só usamos o que nos pertence...» (_Piscadela de ôlho do Anselmo_)
+«Não costumamos botar figura com coisas alheias: o dinheiro dos amigos
+ou as joias das amantes: _Meneses dos Santos_».
+
+--Isso é medonho! comentei.
+
+Emquanto Anselmo repetia, vibrante de entusiasmo:
+
+--«O dinheiro dos amigos ou as joias das amantes»! Refere-se á mulher do
+notário... Genial! genial!
+
+Rimos depois muito, com aplausos efusivos ao jornalista e censuras ao
+procedimento do Souto, que fôra indecente.
+
+A conversa decaíu. Anselmo bocejava. Eu peguei num jornal, percorri-o
+com a vista, distraído.
+
+--Então sempre vai amanhã? perguntou-me.
+
+--Sempre vou amanhã.
+
+--Pois o tempo está firme. A _coluna_ desceu, mas descance que não há-de
+haver novidade. Isto conserva-se.
+
+Bateu-me no ombro palmadinhas amigáveis:
+
+--Pode ir descançado...
+
+--O sr. Anselmo não quer para lá nada?--perguntei.
+
+--Não; quero que tenha muita saúde.
+
+Fitou-me carinhosamente:
+
+--E veja se engorda, coma-lhe! Parece que anda magro, homem... Dê cá um
+abraço.
+
+Estreitá-mo-nos peito com peito. Éramos dois amigos velhos... Comovi-me;
+e visto que se faziam horas de jantar, segui rua abaixo.
+
+--Até à volta!
+
+--Até à volta!...
+
+O sol abrasava. Quando dobrei a esquina, olhei. O boticário tinha vindo
+à porta, dizia-me adeus de lá,--com a mão...
+
+ * * * * *
+
+
+
+
+Sr. Anselmo
+
+
+(Perfil grotesco dum provinciano ilustre)
+
+
+(1912)
+
+
+II
+
+
+
+
+Sr. Anselmo
+
+
+(Perfil grotesco dum provinciano ilustre)
+
+
+(1912)
+
+
+II
+
+Anselmo estava em Nagosa, fazendo a vindima, quando se declarou em
+Lisboa o movimento revolucionário de outubro.
+
+Tinha vindo nesse momento de baixo, do lagar, aonde meia dúzia de homens
+hercúleos, de calça arregaçada e pernas ao léu, rôxas como canelas de
+perdiz, pisavam a uva, dançando ao som de ferrinhos e de adufe uma dança
+bárbara, grotesca, entre uivos e assobios.
+
+O filho mais velho do caseiro fôra a Moimenta pelos jornais e por
+tabaco, e a encomendar a carne do dia imediato, que era dia de
+matança na vila.
+
+Não devia tardar.
+
+D. Ermelinda arranjára a ceia: uma ceia de caldo verde e sardinhas
+assadas, raras naquela região e muito frêscas,--nem que Nagosa fôsse um
+braço de mar e as houvessem ali pescado nêsse instante... No fim, para
+assentar, chá,--um cházinho de cidade, loiro e aromático, dando a nota
+apurada da civilização após aquele _menu_ de cavadores.
+
+
+
+Viera a criada erguer a mesa, dobrando a toalha cautelosamente para não
+espalhar as migalhas pelo chão, quando chegou o portador de Moimenta com
+a notícia de que estalára a revolução em Lisboa. A notícia era vaga e
+incerta, sem pormenores, porque não havia jornais nem o telegrafo
+funcionava; um caixeiro de amostras chegado de Lamego essa madrugada, em
+deligência, espalhára a novidade e disséra que Lisboa, a essa hora, era
+um mar de sangue!
+
+Desde o assassinato do rei que Anselmo sentia um forte desânimo por tudo
+isto... D. Carlos, tipo de sibarita sem escrúpulos, inteligente,
+mentiroso e gabarola, fôra a última trave que ruira do desmantelado
+edifício monárquico. A sua morte, cuja forma, êle, Anselmo--homem de
+processos sóbrios--veementemente reprovára, deixára o país em alvorôço,
+debatendo-se nas garras duma agonia cruciante, mal amparado por gente
+tímida, com um rei no trôno «que não era rei nem era rainha», figurita
+débil e epicena de maricas.
+
+--Havemos de ir longe! profetisava com melancolia.
+
+
+A nova da revolução na capital, trazida assim, de súbito, àquela hora da
+noite, por um labrego analfabeto, a um lugar sertanejo e ignorado, não
+o surpreendeu portanto, mas encheu-o de ansiedade e sobresalto.--Qual
+seria o resultado de tudo aquilo? Venceria o govêrno? Venceriam os
+insurrectos? E depois: a intervenção extrangeira?...
+
+Um calafrio de susto percorreu-lhe a espinha dorsal ao pensar nisso, nos
+horrores duma carnificina e dum saque. Viu-se desapossado dos seus bens,
+violentamente, à coronhada; viu-se escorraçado, prêso, fusilado a uma
+esquina! Êle estava dispôsto todavia a declarar, sob sua palavra de
+honra, que embora tivesse militado no partido franquista, não tinha a
+mínima sombra de responsabilidade no indigno decreto de 31 de Janeiro...
+
+--Com que então Lisboa é um mar de sangue? perguntou de novo ao seu
+rústico informador, como para certificar-se de que não delirava. E
+confirmada a notícia, comentou:--Pois bem... Nós cá não temos nada com
+isso; lá é com êles. Acima de tudo o que eu sou é patriota. Rèpública ou
+Monarquia tanto se me dá; o que é preciso é haver quem nos governe. Boa
+noite!
+
+
+Havia lua cheia.
+
+Anselmo antes de se ir deitar saíu para o terraço da casa a respirar um
+pouco, à vontade. Arrotou. As sardinhas vieram-lhe à bôca.
+Murmurou arreliado:--«A mania de comer a esta hora há de acabar.»
+
+O arzinho do campo, porêm, reanimou-o, fez-lhe bem, descongestionou-lhe
+o rosto afogueado.
+
+Sentou-se num banco, á fresca, de colête desabotoado e a fumar.
+
+De dentro, atraves duma janela aberta, a voz de D. Ermelinda vibrou
+esganiçada:
+
+--Ansèlminho, olha a bronquite!
+
+Não respondeu. A noite estava um encanto! Um luar muito claro punha em
+relevo as silhuetas da paisagem larga, beirôa, de vegetação sombria e de
+penedia hirsuta. Os cães ladravam na quinta. Milhões de estrelas
+scintilavam no céu opalino, levemente ofuscadas pela alvura do luar...
+
+Murmurou, regalado:
+
+--E é que já daqui não saio, emquanto a coisa se não decidir...
+
+
+A 5 de Outubro estava a Rèpública definitivamente proclamada em
+Portugal, sabendo-se da nova em Nagosa quando o vinho de Anselmo
+começava a ferver nas dornas.
+
+De tarde Anselmo foi à lagariça para calcular com a vista a importancia
+da colheita. Bem boa! Sabia-se que em Moimenta os rèpublicanos tinham já
+içado na casa da Câmara o pavilhão revolucionário; ia um delirio na
+população. E o brazileiro de Cabaços deitára meia dúzia de foguetes que
+se viram perfeitamente de Nagosa subir e estalar no ar, deixando uns
+novelos de fumo branco, por momentos, no azul do céu e no oiro vivo do
+sol outonal.
+
+Anselmo debruçou-se sôbre o lagar, farejou o môsto, teve um sorriso
+feliz de proprietário favorecido, e chamando o caseiro:
+
+--Ó Jose, o vinhito êste ano parece-me bom, hein?
+
+--Parece que sim, meu padrinho...
+
+Era afilhado.
+
+--A uvazita fundiu... dizias que não.
+
+--Houve mais que eu sei lá!
+
+--Pois sim, mas...
+
+Não concluiu, não explicou o que queria dizer na sua.
+
+Tirou do bôlso a tabaqueira, um livrete de mortalhas; ofereceu uma na
+ponta dos dedos ao afilhado; deitou-lhe na palma da mão calosa duas
+pitadas de tabaco francês; limpou depois êle próprio as mãos sujas do
+rebordo da dorna a que se agarrára, a umas palhas que ali topou a geito,
+e pôs-se a fazer um cigarro, trauteando a _Portuguesa_.
+
+
+O primeiro desgosto sério que êle sofreu depois da Rèpública, foi com a
+_lei da Separação_.
+
+A mudança de regimen, como Anselmo a entendia, resumir-se-ia a abolir a
+realeza, causa imediata e suficiente de quantos cataclismos e desgraças
+assoberbavam êste pobre país. O resto era pó, ou melhor, era ódio,
+vingança, perseguição, fanatismo. Impressionára-o bem, ao começo, o
+facto de serem os próprios miseráveis, os pobretanas, os maltrapilhos,
+quem guardára, nos dias da Revolução, os bancos e as casas da gente
+endinheirada. Mas a questão da bandeira, logo a seguir, a picuinha de
+substituirem as antigas côres constitucionais pelo vermelho e pelo
+verde (há quem diga que Anselmo sublinhava a palavra _verde_ com
+intenção maliciosa; talvez) começou a indispô-lo, a irritá-lo. De mais a
+mais havia gente insuspeita a condenar as novas tintas! E os olhos
+sinceramente se lhe arrasaram de lágrimas quando viu tremular no
+edificio da câmara municipal da sua vila (da sua vila!) o hediondo trapo
+republicano.
+
+
+Aos primeiros dias de harmonia e de entusiasmo começaram a suceder-se no
+país, pouco a pouco, outros, menos tranquilisadores e festivos.
+Tinham-se efectuado prisões, demissões; surgiam ali e aqui desacordos,
+antipatias, notas desafinadas no geral concerto; havia descontentes;
+principiava a falar-se vagamente de conspiradores. O capitão Paiva
+Couceiro saíra para Espanha, agressivo, no intuito de organisar um
+exército restaurador da monarquia. Os padres, dizia-se, tinham o povinho
+ignorante das aldeias na mão, e era só dizer-lhe:--«Vamos!» tudo
+marcharia à uma sôbre as cidades e daí sôbre Lisboa, engrossando,
+rolando, com a fôrça duma vaga e o barulho dum trovão!
+
+O Govêrno Provisório, sorrindo desdenhosamente, tomava no emtanto as
+suas medidas de defeza, ordenava prevenções rigorosas nos quarteis. As
+redacções dos jornais monárquicos eram assaltadas por magotes de homens
+armados e coléricos que partiam o mobiliário, empastelavam o tipo,
+espatifavam as maquinas de impressão, pondo tudo em fanicos, pelas
+janelas, no meio da rua.
+
+E foi numa altura destas, num estado assim de insubordinação e de
+efervescência, que o govêrno se lembra de perseguir os bispos!
+
+Anselmo indignava-se:
+
+--O país é católico, dizia, o país é católico e não pode permitir
+semelhante arbitrariedade! É um atentado contra a religião de cada um.
+
+Alguêm lhe ponderou que não, que o govêrno não pensava em perseguir
+ninguêm; que não era êsse o espírito da lei; que o Estado o que não
+devia era apadrinhar esta ou aquela religião. Eu mesmo, Teotónio
+Mendes, republicano hereditário, apoiei com certa autoridade e
+firmêsa estas sensatissimas explicações.
+
+--Cale-se! vociferava êle, exaltado, dirigindo-se-me; cale-se, que não
+diz se não asneiras. A Rèpública tem de ser tolerante se quizer viver!
+Os jacobinos, os carbonários como o senhor, não conseguirão por mais que
+se esforcem abafar os protestos da opinião pública; e a opinião pública
+está abertamente com a Igreja. Com a Igreja, fique-o sabendo!
+
+Todos nos calávamos. Anselmo limpava a fronte donde o suor porejava.
+
+--Pódem-me prender, se quizerem, que eu direi sempre a verdade. A
+verdade é só uma!
+
+E cheio de provas, revoltado:.
+
+--Admite-se lá que se tire assim o pão a tanta gente, que se lance na
+miséria tanto português, tanto padre com mulher e filhos... perdão
+(emendava): com família numerosa.
+
+Em volta houve um silêncio aprovativo.
+
+
+Tudo mudára, na verdade...
+
+Um dia, Anselmo andava passeando na farmácia, as mãos atrás das
+costas, a meditar no futuro do país. O barómetro marcava tempo sêco--e
+lá fora chovia! A _coluna_ indicava uma temperatura alta, e Anselmo
+tinha a certeza de que era falso. Aquilo queria dizer que andava tudo às
+avessas, que ninguêm se entendia neste país, que a indisciplina
+reinava--até no tempo!
+
+Não havia doentes: há 15 dias que o movimento farmacológico era
+insignificante. Assim, a própria ociosidade colaborava nos
+acontecimentos, gerando nos cérebros ideias insubmissas...
+
+--V. Ex.ª é que é o sr. Anselmo Nogueira?--perguntou a meia voz um
+desconhecido que entrou, descobrindo-se.
+
+--Eu mesmo em carne e osso. Ponha o seu chapéu. Que deseja?
+
+Mas logo, reconsiderando, medindo-o, fez pé atrás como quem desconfia do
+sujeito e se prepara para se pôr a salvo, no caso de perigo.
+
+--Não se assuste, disse-lhe o recem-chegado, observando aquele
+gesto,--eu não sou quem pensa... pelo contrário.
+
+--Ah!
+
+--Sou dos _fieis_. Trago-lhe aqui uma carta da Galisa...
+
+E levou a mão ao bôlso. Anselmo segurou-lhe no braço, palido:
+
+--Ó diabo, espere... espere lá, tome cautela.
+
+E foi à porta espreitar. Não havia ninguêm. Chovia.
+
+--Tem a bondade de entrar ali para dentro, indicou.
+
+E encostando a porta de vidro fôsco do laboratório:
+
+--Estou às suas ordens, pode falar... Estamos sós.
+
+Todo êle tremia.
+
+O outro entregou-lhe a carta em que lhe pediam dinheiro para uma próxima
+incursão e lhe perguntavam se poderia auxiliar, a coberto da sua
+seriedade insuspeita, um pequeno contrabando de armas: pistolas e
+munições. Assinava a carta, em nome de Paiva Couceiro, «um amigo da
+Religião e da Pátria.»
+
+Anselmo gaguejou:
+
+--Sim... sim... dinheiro, talvez, mais adiante... Agora as pistolas,
+desde já lhe digo, meu caro sr., que as pistolas não... Escusam de
+contar comigo para semelhantes aventuras. A minha casa é muito
+freqùentada, tudo meche e remeche... não há esconderijos...
+
+--Nesse caso...
+
+--Nesse caso, o melhor é ir bater a outra porta. Do meu lado podem
+contar apenas com o apoio moral.
+
+O desconhecido ia retirar-se desanimado. Anselmo deu-lhe uma esperança;
+
+--Ah! olhe: e estricnina e sal de azêdas, à descrição...
+
+O enviado sorriu, agradeceu, despediu-se.
+
+--Diga-me cá, inqueriu ainda Anselmo interessado, com a mão dêle
+apertada,--o nosso Paiva Couceiro como ficou?
+
+--Bem.
+
+--E o rei, tem-no visto?
+
+Não o tinha visto. Estava em Londres.
+
+--Coitado! aquele tambêm... Quando calhar, dê-lhe lá muitos recados
+meus, sim?
+
+O indivíduo misterioso prometeu, saíu da botica.
+
+--Oiça, oiça! A Ermelinda, minha mulher, tambêm se recomenda. E à D.
+Amélia. Diga-lhe que cá os esperamos a todos, muito brevemente.
+
+Fez-lhe uma mesura aparatosa:
+
+--Meu caro senhor...
+
+
+Uma vista de olhos, rápida, furtiva, pelas janelas dos prédios
+fronteiros, a ver se alguêm teria dado pela visita, e tornou ao
+laboratório, ruminando o caso, arreliado por se ter esquecido na
+perturbação que o invadira, de perguntar o nome do tipo. «E a gente às
+vezes a supôr que ninguêm nos conhece, que não consta, que se não sabe
+lá por fóra! Ai Anselmo, ai Anselmo!...»
+
+Tirou do bôlso a carta comprometedôra, levemente amarrotada; acendeu um
+fosforo e ali mesmo, antes de outra coisa, queimou-a, com prudência,
+reduzindo-a a cinzas.
+
+O documento!
+
+Nisto, uma mulherzinha entrou na farmácia, a correr, sem chaile, a
+pedir linhaça para o sr. administrador que estava a morrer com uma cólica.
+
+Anselmo estremeceu. Para o sr. administrador? Fingiu que ia servir a
+mulher, e de repente:
+
+--Oh co'a breca! esta agora! não tenho linhaça.
+
+--Não tem linhaça?!
+
+--Não tenho. Acabou-se-me.
+
+--E agora?
+
+--Agora... deve chegar amanhã.
+
+--Amanha! Amanha pode o homem estar no outro mundo!
+
+Anselmo sentiu que as pernas se lhe vergavam àquela ideia homicida; ia
+trair-se, não podia mais.
+
+--No outro mundo?!
+
+--Sim, no outro mundo; se o sr. o visse!
+
+Anselmo, porêm, num abrir e fechar de olhos, raciocinou: «mas se êste é
+dos tais que a monarquia não poupa quando voltar; se êle está fatalmente
+condenado pela revindicta... Deixá-lo ir já!»
+
+--Pois tenha paciência, santinha; onde não há el-rei o perde...
+
+--El-rei! exclamou a mulher, furiosa, voltando costas, de repelão,--o
+que o sr. precisava bem sei eu; não haver linhaça numa terra onde não há
+mais boticas!
+
+Anselmo ainda ouviu a mulher a distância, queixar-se para alguêm,
+fazendo escândalo:
+
+--É ali o boticário que não tem linhaça; anda só a pensar na monarquia,
+o talassa, e esquece-se das obrigações...
+
+O epíteto de talassa custou-lhe os olhos da cara; mas emfim, tudo eram
+sacrifícios pela Causa. Mais tarde havia de saber-se e os juros
+viriam--se viriam!--com larga usura e gratidão...
+
+--Talassa! Talassa!...--gritava a mulher.
+
+--Pois sim...
+
+
+A incursão falhou. Pela raia, em Vinhais, bandos de malfeitores
+assalariados tinham tentado um simulacro de luta contra a
+existência do novo regimen. Fugiram. A notícia do fracasso voou
+por todo o país com rapidez. Anselmo soube-a de manhã, na cama, pela
+criada, e já se não quis levantar. Adoecera. Queixou-se de arrepios,
+gemeu, disse à mulher que mandasse vir o médico.
+
+--E para a farmácia, quem vai?
+
+--Vai a senhora, rosnou, de mau humor.
+
+E abafou-se na roupa.
+
+O médico veio e receitou: era intestino. Como republicano, falou do
+caso. Anselmo, mordido de curiosidade, desejou conhecer toda a acção nos
+mínimos detalhes: quantos eram, quem vinha, quem comandava e por último,
+convencido da derrota, da inanidade daquele esfôrço ridículo, perguntou:
+
+--E dos _nossos_, quem foi?
+
+--Dos nossos?! interrogou o médico, sem perceber.
+
+--Sim, dos rèpublicanos: quem é que o govêrno mandou a correr aquela
+tropa fandanga a ponta-pé?
+
+O médico, que era um homem distraído, respondeu com indiferença:
+
+--Não sei; creio que ninguêm; nem se pensou em tal, ilustre
+correligionário...
+
+
+Á tarde, Anselmo poude sair. Não tinha febre. O intestino desatou a
+funcionar melhor e nem foi preciso medicar-se.
+
+--Mas que ideia aquela, dizia êle, no club, a uma roda de amigos
+embasbacados,--que ideia aquela da restauração! São doidos!... A
+Rèpública tem, não há dúvida, alguns defeitos, sou eu o primeiro a
+reconhecê-lo; mas tirem-se-lhe! O que todos devemos fazer é trabalhar
+para que as novas instituições sejam aquilo para que as creámos.--Não é
+isso, Teotónio? rematou, voltando-se para mim, que o escutava transido.
+
+E com descaramento:
+
+--Você tem-me ouvido muita vez dizer isto mesmo; você sabe que eu já no
+tempo da monarquia era tanto ou mais liberal do que você, que se tem por
+histórico.
+
+Eu, moita.
+
+--Você não fala? não diz nada?
+
+Afastei-me prudentemente. Notei que ia rebentar de indignação
+contra aquele farçante; mas ao mesmo tempo sentia--como sentíamos todos
+aliás, diante dêle--que nem que fizesse ou dissesse o dôbro do que dizia
+e fazia, algum de nós teria a coragem de o desmentir!
+
+
+Assim se consumou pois a adesão solene do sr. Anselmo a Rèpública. Tudo
+o que veio a seguir, gréves, intentonas, zaragatas, a incursão de
+julho... tudo, numa palavra, encontrou-o já pela frente, tão decidido e
+jacobino, ou mais ainda do que aqueles que se gabavam de o ser. Logo que
+se organizaram os partidos, Anselmo filiou-se nos _democráticos_. E o
+ódio ao padre, o horror ao padre, a fobia do padre obcecava-o de dia e
+de noite.
+
+Uma vez, um dos ministros foi a Vizeu: pespegou-se lá, com o Teotónio e
+o administrador (aquele administrador que êle quis matar) e o Menezes
+jornalista, que tambêm já era _democrático_. Assistiu ao jantar, fez um
+brinde condenando o Clero, «êsse Clero infame a que pertencêra, não se
+sabe porque caprichos da sorte, o célebre, o liberalíssimo bispo daquela
+terra!». Falou depois de Viriato, e terminou com um viva à Rèpública que
+atroou o vasto recinto do teatro onde o banquete se realizava.
+
+O ministro, sensibilisado, ergueu-se para agradecer. Discursou
+pausadamente durante 20 minutos, empunhou a taça por fim, e pediu a
+todos que o acompanhassem e bebessem à saúde de Anselmo Nogueira,
+«figura prestimosa da Rèpública, homem de bem às direitas, livre
+pensador e companheiro fiel dos tempos da propaganda.--Hip! hip! hip!
+Hurrah!».
+
+As taças tilintaram. Anselmo, carregado, chorou. E Teotónio, batendo com
+a mão no ombro do administrador de Moimenta, segredou-lhe:
+
+--Lá intrujou o ministro, o patife! Companheiro fiel dos tempos da
+propaganda, ouviste? Que desafôro!
+
+O administrador comentou:
+
+--E livre pensador, filho! Parece que o estou ainda a ver de lanterna e
+de opa na procissão do Senhor dos Paços! O que é o mundo!...
+
+Eu puz-me a considerar, palitando os dentes.
+
+--Então e nós? indaguei por fim, despeitado.
+
+--Nós? nós? Essa agora! Nós não saìremos nunca da cêpa torta, meu
+velho... Este Anselmo, êste farmaceutico, que ali vês recostado numa
+cadeira, é o modelo do político português. Maioral no tempo da
+monarquia, maioral se vai tornando dentro da Rèpública. Era de esperar!
+Pois se os monárquicos é que prepararam isto com os seus erros, se êles
+é que deitaram a monarquia a terra, não achas justo que quem plantou a
+vinha pense tambêm agora em comer os cachos?...
+
+ * * * * *
+
+
+
+
+Candidinha Cerdeira
+
+
+(Novela romântica)
+
+
+
+
+Candidinha Cerdeira
+
+
+(Novela romântica)
+
+ «Pasmei, como a gente pasma até certa idade, das maravilhas que se
+ fazem no coração das raparigas.»
+
+ CAMILO.
+
+Em casa da D. Leonor, viuva do juiz Cerdeira,--que era irmão do afamado
+cónego Amorim Cerdeira, vigário geral na diocese d'Angra--falou-se muito
+toda essas noite na vinda do novo professor do liceu.
+
+Chamava-se Hipólito e trouxera a irmã, Alzira, rapariga loira que usava
+uns chapeus enormes e punha beladona detrás das orelhas para fazer os
+olhos bonitos...
+
+Era uma excêntrica. A história da vida e obras de certa princezinha
+otomana, filha dum velho imperador de Constantinopla, extravagante
+até à loucura em matéria de garridice, lida num volume que o irmão lhe
+emprestára, pô-la em termos de aspirar a utopias: desejaria banhar-se
+num lago d'aguas perfumadas, ungir o corpo d'óleos aromáticos, ter um
+jardim suspenso e uma multidão de escravas que fossem todas as manhãs
+colher o orvalho das flôres... para ela refrescar o rosto.
+
+Custára-lhe imenso a deixar Lisboa e vir assim encafuar-se numa
+aldeia,--porque era positivamente uma aldeia aquele feio e triste burgo
+d'aspecto desolado e monótono, onde não conheciam ninguêm.
+
+Emfim, para quem trazia os nervos combalidos dos sobressaltos e
+incertezas das grandes horas da Revolução, aquilo até certo ponto
+convinha. Tinha amenidades de paraiso a paz pôdre, o sossêgo vegetativo
+e pacovio daquela terra pequena, com sua vida imutável, seus hábitos
+conservadores e sedentários, um modo bisbilhoteiro de vir às portas e às
+janelas espreitar, e certo _centro_ palreiro de maledicência e política,
+que logo lhes disseram ser ali a loja do _amigo Palma_.
+
+Quem pôs a cidade ao par de toda a biografia do professor e da irmã foi
+o Malafaia, o grande bacharel Malafaia, de quem o dr. Marim, médico do
+partido, dizia: «--Êste não se formou: formáram-no...»--Conhecia-os de
+lhe terem sido apresentados há anos na Figueira da Foz. Alzira
+confessou-lhe agora, quando os visitou, que gostava muito da cidade.
+
+--O quê! sério?
+
+Sério. Dava-se bem com os ares, que eram puros, saudáveis, e com a água,
+magnífica! Apenas uma única coisa a contrariava devéras: ter de viver
+num hotel..
+
+Malafaia reconheceu que havia em todas aquelas referências uma pontinha
+de malícia.
+
+--No hotel? disse.--E porque é que V. Ex.^as não arrendam uma casa?
+
+--Porquê? Ora essa; o doutor nem conhece a sua terra... Porque as não há!
+
+Rialmente não as havia. Que aborrecimento!
+
+--Eu não sei o que os senhores fazem ao dinheiro...--tornou Alzira,
+achando móle e carregando.
+
+--Tambêm o não há...--respondeu o bacharel.
+
+Todos riram com a resposta. O professor declarou no emtanto achar-se
+resignado, contente... Apesar dêsses pequenos defeitos--e qual era a
+terra que os não tinha?--aquele meio era delicioso.
+
+--Só esta pacatez!...
+
+E abeirou-se da janela, encheu os pulmões do ar puro que vinha das altas
+montanhas distantes.
+
+--Quer saber? murmurou,--minha irmã, a primeira noite que aqui ficámos,
+não conseguiu pregar ôlho...
+
+--Então? Porquê?
+
+--Por causa do silêncio!
+
+
+D. Leonor vivia com a filha, Maria Cândida,--a Candidinha--que andava
+agora nos dezoito anos e ainda engatinhava quando o pai morreu de
+congestão cerebral. Reunia aos sábados. Iam quase sempre o juiz da
+comarca e a mulher; o sr. Xavier--o _Xavier das massas_--solteirão
+abastado e artrítico; o dr. Marim e às vezes uma D. Josefina, tambêm
+viuva, que fôra operada por êle duma doença d'útero. Tudo gente de
+idade. Maria Cândida aborrecia-se daquela vida. A mãe andava sempre a
+dizer-lhe:
+
+--Que cara que tu trazes, rapariga! Nem parece que te lus o que comes.
+Endireita-te! Que há de dizer a outra gente.
+
+O dr. Marim tinha um facataz pela pequena. Achava-a esperta,
+interessante, em tudo revelando um carácter diferente da vulgaridade.
+Dedicára-se-lhe por isso com um entranhado amor de pai, em certas
+ocasiões surpreendendo-se a chamá-la, a acarinhá-la como se ela
+rialmente fôsse do seu sangue... Tambêm, a cachopinha, logo de tenra
+idade correspondia àquele amor; e quando o médico, a brincar, lhe
+perguntava se queria ir com êle, fugir da mãe para longe, a petiza
+saltava-lhe ao pescoço, a cobri-lo de beijos, sem dizer palavra,--lá no
+fundo a desejar que êle a levasse... D. Leonor sorria; intimamente
+porêm desgostava-se. Desenvolveu-se à pressa, espigou dum dia para o
+outro, Maria Cândida. Todos diziam:--«Está uma senhora!» E deu então em
+andar triste, murchita, nervosa, a ponto de a mãe se alarmar,
+perguntando ao médico o que seria. O médico ria-se, receitava:
+
+--Banhos... Água p'ra cima daqueles nervos! E deixe-a saír, não a prenda
+em casa, que estas idades querem sol...
+
+Maria Cândida tinha-lhe dito um dia:
+
+--A mamã quer-me para freira, não há dúvida. Tem medo que eu saia,
+proíbe-me que chegue a uma janela, não me deixa mecher se não nos livros
+do tio Cerdeira, que são todos em latim. É pior!
+
+O médico ficou a ruminar a gravidade daquele comentário; «é pior!»;
+distraindo o olhar pela variada, profusa, quase incongruente decoração
+da sala, onde D. Leonor recebia aos sábados. A rapariga tinha rasão:
+educar, pensava êle, é formar seres conscientes, livres, não é torcer
+aptidões e tendências naturais por forma a amoldá-las ao próprio
+interesse de quem educa. Dizer a alguêm: «has de ser isto ou has de ser
+aquilo, porque eu quero, porque convêm, porque é assim», e não admitir
+sequer que êsse alguêm raciocine, ou sinta, ou queira doutro modo,--é um
+absurdo. Tão grande como se uma pessoa que tivesse fome em dado momento,
+exigisse dos mais, no mesmo instante, a mesma vontade de comer...
+
+O médico, por fim, demorou os olhos sôbre um enorme quadro exposto numa
+das paredes do fundo, que representava um trecho de paisagem oriental:
+palmeiras, filas de camelos pensativos e gibosos; e um beduino
+barbinêgro, prosternado, osculando o solo poeirento, onde poisára o
+cajado de larga crossa e as babuchas de palha de arroz...
+
+O dr. juiz nunca via aquilo que não exclamasse:--Lindo!--e encavalava a
+luneta para ler o nome do autor, que lhe esquecia sempre.
+
+Maria Cândida sentou-se ao piano. Imprimia ao que tocava um movimento de
+embalo, vagaroso e triste, que tanto podia traduzir a influência
+duma vida pendular, claustral e monótona, reflectindo-se-lhe nos
+sentimentos, como a aspiração vaga e inquieta duma alma que procura no
+ritmo da música o ritmo do vôo...
+
+Conheceu Hipólito num domingo, à saída da missa, onde o professor fôra
+acompanhar a irmã. Malafaia, que aparecia em toda a parte por um
+maravilhoso dom de ubiqùidade, mal os avistou, fez as apresentações.
+
+D. Leonor não gostou. Aconselhára-a o sr. Xavier que não quisesse
+relações com semelhante gente: «gente de Lisboa, sabe? uma educação
+muito livre.» E torceu o nariz, fez o gesto vago de quem prevê calamidades.
+
+Durante a missa Maria Cândida notou que o professor a fitava com uma
+curiosidade insistente. Tinham ficado todos, casualmente, em cima, no
+côro. Através dos balaústres ela via o padre ao fundo, oficiando; e
+atrás, enchendo a comprida nave, o povinho das aldeias que vinha aos
+mercados semanais.
+
+Hipólito ficára junto de Alzira, que trazia como sempre um chapéu
+escandaloso, e observava os menores gestos de Maria Cândida. Viu-a abrir
+o livro, persinar-se, bater no peito devotamente quando o padre
+consagrou a hostia e ergueu o cálice e, no silêncio religioso da igreja,
+o som da campainha vibrou, duas vezes, com solenidade e cadência.
+
+Um raio de sol filtrou a sua luz pura por uma das altas janelas da nave
+e foi refractar-se nos pingentes dum lustre de cristal pendente da
+abóboda, incidindo por fim, já irisado, no cabelo, nas faces, no manto
+azul duma Senhora das Dôres, que chorava no altarzinho duma das capelas
+laterais... Maria Cândida resou-lhe uma oração fervorosa e a Virgem
+pareceu sorrir por entre as lágrimas, agradecer, no seu banho de luz--no
+que Maria Cândida viu um sinal de bom agoiro...
+
+
+Quando lhe apertou a mão, cá fora, e a poude observar à claridade crua
+do meio dia, perto de si, Hipólito ficou encantado. Era o tipo sonhado,
+inédito, da beleza inculta, da simplicidade provinciana. Tinha na fala
+o sotaque da pronúncia beirôa, autêntica, sibilante de _ss_; e
+nos olhos um ar assustadiço, implorativo e meigo, de herbívora.
+
+A caminho de casa, Alzira disse ao irmão:
+
+--Se um dia te desse para o casamento, gostava que casasses com uma
+rapariga assim...
+
+E êle:
+
+--Quem havia de dizer que numa terra destas!...
+
+
+D. Leonor guardava a filha como um dia santo. Não a votava decerto,
+estèrilmente, ao celibato, mas reservava-lhe um destino a seu gôsto. Não
+a tinha trazido no ventre? Não a tinha criado, educado, sofrendo por ela
+penas e reveses? Sabe Deus!
+
+--Quando se tem a tua idade, prègava-lhe, não se pensa, não se reflecte,
+deixa-se a gente levar pelas aparencias; mas depois... Teu pai, quando
+casámos, não tinha vintêm,--e diziam que era esperto... Ao princípio
+vi-o muita vez a chorar, a arrepelar-se, a pensar em morrer. De que lhe
+servia a esperteza? Serviu-lhe mas foi o irmão, que era um homem de tino
+e de fortuna, com amigos a valer que lhe arranjaram o despacho...
+
+Maria Cândida escutava sem retorquir. Percebêra que a mãe queria casá-la
+com o Xavier.--O Xavier! Um velho! um antipático que usava meias de lã
+ásperas como urtigas, que desabotoava o colete depois de jantar e,
+sobretudo, que podia ser avô dela! Metia-lhe horror e repugnância tal
+ideia. Nunca! Nem que tivesse de ficar solteira, como as tias de
+Freixinho...
+
+Uma amiga do colégio--a Matôso--tinha-lhe jurado que o professor andava
+com boas intenções; que aquilo não era um passatempo; que lhe afirmára o
+Malafaia--sabes? o Malafaia que agora me faz a côrte...--que o casamento
+era infalível.
+
+Ela punha-se com evasivas:
+
+--Pois sim... Eu então já ouvi dizer que era comtigo...
+
+
+Entretanto o namôro progredia. Não era segrêdo para ninguêm que se
+carteavam e que tinham entrevistas do mirante do jardim. Em toda
+a parte se comentava isto: a paixão do professor do liceu e da
+Candidinha Cerdeira.
+
+E amiudava-se o caso, referiam-se pormenores excitantes. Havia quem
+tivesse visto o professor, feito Romeu, trepar por uma escada de corda
+para o muro do quintal! Méra invenção, claro. Mas o Matos do govêrno
+civil tambêm vira--porque via sempre tudo e jurava ser verdade por duas
+filhas que lá tinha em casa.
+
+D. Leonor deu conta que Hipólito lhe passava repetidas vezes à porta,
+que se pespegava horas e horas no estabelecimento da esquina a olhar
+para as janelas. Estremeceu de angústia! Deu terminantes ordens à filha,
+que passou a habitar os aposentos interiores do prédio. O sr. Xavier
+tinha-lhe abertamente declarado, submetendo-se a tudo:
+
+--Arranje a sr.ª cá e chame-me quando fôr preciso...
+
+Era o momento!
+
+Mas, sendo mulher, fraca, portanto, e irresoluta, quis estribar-se na
+opinião do médico, pessoa tambêm da sua inteira confiança.
+
+--A minha opinião? disse-lhe êle.--Mas alguêm tem que dar para aí a sua
+opinião?
+
+Ela encarou-o com espanto, sem compreender.
+
+--Entendo que um casamento deve ser feito à vontade dos que se casam,
+explicou o médico.--Casam bem? casam mal? Lá é com êles...
+
+--Perdão, interrompeu a viuva.--Eu, que sou a mãe, tenho naturalmente
+que intervir dalgum modo na orientação, ou na escolha...
+
+--Conforme, minha sr.ª, conforme... Se se trata apenas de orientar, de
+dirigir a sua filha nêsse passo, está bem; mas propriamente a _escolha_,
+é a ela só que pertence. Os filhos não são--como muita gente póde ainda
+erradamente presumir,--uma legítima propriedade dos pais... Os filhos
+são pessoas independentes, com direitos, com atribuições...
+
+--De maneira que o doutor condena a minha atitude? Entende que eu devo
+desinteressar-me por completo do futuro da minha filha?...
+
+--Por completo!? Mas quem pensa nisso? Por completo, não, evidentemente...
+
+--Bonita doutrina, não haja duvida, murmurava D. Leonor sem o ouvir,
+fula, mordendo o beiço, batendo nervosamente com o leque no joelho,
+repetidas vezes.--«Casa-te, casa-te p'r'aí, rapariga, com o primeiro que
+te apareça...» Haviamos de vê-las bonitas, se assim fôsse!...
+
+O médico desistiu de discutir.
+
+--Bem! rematou, erguendo-se,--para terminar: quer V. Ex.ª um conselho,
+um conselho de amigo, de pessoa que conhece um bocado a vida e que tem
+levado muito ponta-pé e aprendido à sua custa o pouco que sabe? Quer?
+
+D. Leonor não respondeu.
+
+--Não obrigue sua filha a casar com semelhante homem.
+
+--Ora essa! Com quem quer o doutor então que ela case?
+
+--Sei lá! Mas naturalmente com quem ela quiser...
+
+E pôs termo.
+
+
+D. Leonor não desanimou. A manobra do casamento com o velho seguiu seus
+trâmites. Na cidade a indignação era geral. Para mais havia constado a
+scena da entrevista com o médico, as suas discordâncias, o ligeiro amuo
+subseqùente...
+
+--Víbora! víbora! dizia-se.--O dr. Marim bem a conhece...
+
+E formulavam-se as piores insídias: que o ilustre Xavier era amante da
+D. Leonor e que impunha agora o casamento com a filha sob pena dum
+escândalo.
+
+Havia quem gostasse disto, havia quem não gostasse; a maioria dizia:
+
+--É bem feito! aquilo não se faz...
+
+No cúmulo da revolta, Malafaia, em verdadeiros comícios nas lojas,
+lembrava que era preciso salvar aquela criança custasse o que
+custasse... E com teatral entono, instigava:
+
+--É preciso ir lá (fazia o gesto de quem aponta uma Bastilha) arrombar
+as portas e pôr a infeliz no ôlho da rua!
+
+A coisa estava neste pé.
+
+
+Certo dia o dr. Marim recolhia a casa, cedo, para almoçar. A criada, uma
+velha servente encarquilhada e sêca como uma casca de noz, a coxear da
+sciática, disse-lhe, mal êle se poz a desdobrar o guardanapo:
+
+--Então, já sabe? A menina Candidinha parece que já não casa com o sr.
+Xavier. Está desfeito.
+
+O médico teve um gesto de mau humor irreprimivel:
+
+--Lá esta você! Todos os dias novidades! Quando é que esta criatura se
+cansará de dar novidades?
+
+E desatou a rilhar o bife sem vontade. A velha rodou sôbre os
+calcanhares, saíu da sala.
+
+--Pois é tudo cheio cá na cidade, insistiu quando voltou.--A menina
+julgo que sempre confessou...
+
+--Confessou o quê, mulher?
+
+--Olha o quê! O que já corria: que é amante do professor...
+
+O médico ergueu-se de golpe, lívido, transfigurado, fazendo
+recuar até à porta a pobre velhota espavorida de o ver assim:
+
+--Crédo! santo nome de Deus! mas que tem? murmurou, supondo que o médico
+fôra acometido de loucura.
+
+--Você ouviu isso?
+
+--Ouvi, sim senhor.
+
+--A quem? Aonde? Diga.
+
+--Por aí, diz-se em toda a parte; é tudo cheio...
+
+Êle levou ambas as mãos ao crânio. Esteve assim, sem se mover, sem dizer
+palavra, por espaço de alguns minutos. Depois arremessou o guardanapo,
+empurrou a cadeira, pediu o chapéu e a bengala para saír--e saíu,
+deixando a mulher boquiaberta, sem perceber coisa nenhuma.
+
+
+Quando, uma ou duas horas depois, subia as escadas da casa de Hipólito,
+o dr. Marim ia cabisbaixo, taciturno, como se uma grande dôr o tivesse
+trespassado mortalmente.
+
+Estivera com D. Leonor que lhe confirmou entre recriminações e prantos a
+tremenda nova da desonra da filha. Fôra ela, a dissimulada, quem
+se denunciára--com um descaramento, uma serenidade, um cinismo, calcule
+o doutor, que deixava a perder de vista as maiores desavergonhadas da
+terra! E era sua filha! D. Leonor não sabia dizer como se contivéra e
+porque a não estrangulára... Sua filha, tinha dito? Não! Maria Cândida
+morrêra! Essa que ainda ali conservava, a dentro do seu lar, por uns
+restos de comiseração, mas que nunca mais quereria ver, não era sua
+filha: era uma mulher perdida!
+
+E o sr. Xavier? Ah! êsse então, coitado, tinha ficado como morto.
+Compreende-se... Porque Maria Cândida levára a sua audácia até ao ponto
+de dizer tudo diante dêle, diante das criadas e dos convidados,--era um
+sábado--alto e bom som, para que não se perdesse pitada: «A mãe queria
+casa-lá com o Xavier das massas, por dinheiro; pois bem, ela afirmava
+ali terminantemente que não casaria: primeiro, porque o detestava;
+segundo, porque tinha um amante, o professor!»
+
+--Veja o meu amigo, agora, o que foi fazer! comentou o dr. Marim,
+voltando-se para Hipólito, a quem acabava de expor a situação com esta
+nitidez.--Que cabeça a sua! Que responsabilidades!
+
+Hipólito sorriu ligeiramente, murmurou:
+
+--Até que ponto nos podem levar os desvarios do amor, doutor, não é assim?
+
+--É assim mesmo, concordou o médico.--Mas um homem nunca tem nada a
+perder com estas coisas; agora uma rapariga!...
+
+--Perde tudo.
+
+--Sim, tudo!
+
+Houve um silêncio.
+
+--O sr. não andou bem, Hipólito, confesse, não andou bem...
+
+--Eu?...
+
+--É claro.
+
+--Na sua opinião, pelo menos, doutor... Já me cheguei a convencer de que
+sou rialmente um canalha... pois que como tal procedo...
+
+--Leviandades, leviandades...--atenuou o médico.--Eu habituei-me a ver
+em Maria Cândida uma espécie de filha, desde muito nova. Não
+admira. Tive-a nos braços quando nasceu, pequenina, vi-a depois medrar,
+crescer, fazer-se mulher à minha vista--afeiçoei-me. Que quer?
+Emfim...--limpou uma lágrima que lhe rolou ao comprido da face--coisas
+da vida!
+
+Depois, apreensivo:
+
+--O sr. o que pensa fazer agora?...
+
+Hipólito ficou sem responder, um bocado, com o espírito absorvido num
+pensamento cruel e longínquo, que o fazia empalidecer.
+
+--Vou confiar-lhe um segrêdo, disse, por fim, numa resolução
+firme.--Devo-lhe muitas atenções e custar-me-ia sinceramente que o
+doutor ficasse formando de mim um conceito menos lisongeiro...
+
+--Fale, meu amigo, fale, disse o médico ancioso por o
+ouvir.--Prestar-lhe-ei, creia, toda a atenção. Fale...
+
+Hipólito hesitou; aprumou-se, procurando dar às suas palavras um tom
+solene, de grande sinceridade.
+
+--Maria Cândida não está culpada; Maria Cândida não é, nem nunca foi
+minha amante!
+
+--Que me diz?!
+
+--A verdade! Maria Cândida é tão virtuosa, hoje, tão pura e imaculada
+como na hora em que pela primeira vez a encontrei. Não me acredita?
+Juro-lhe.
+
+O médico fitou-o, desconfiado, surprezo.
+
+--Conhece esta letra? disse Hipólito.
+
+E colocou-lhe diante dos olhos um papel cuidadosamente retirado da
+carteira.
+
+--Conheço. É a letra de Maria Cândida.
+
+--Pois é. Leia!
+
+O médico obedeceu. E quando terminou, os olhos arrasados de lágrimas,
+deixou-se caír sôbre uma cadeira, p'ra ali, varado de espanto.
+
+--É assombroso!
+
+Hipólito arrancou-lhe das mãos, trémulas pela comoção, a carta, cujo
+final releu em voz alta: «... Pois bem. Afirmarei, ou darei a perceber a
+todo o mundo que sou tua amante; dêste modo nenhum outro homem me
+quererá...»
+
+--É assombroso! repetia o médico estonteado.--E é uma criança! é uma
+criança que faz disto!...
+
+Emquanto Hipólito, a chorar, concluia:
+
+«Se me desmentes... mato-me. E tu bem sabes--sim, tu bem sabes!--como eu
+sou capaz de cumprir fielmente o que prometo...»
+
+ * * * * *
+
+
+
+
+Eureka!
+
+
+
+
+Eureka!
+
+ "--Je vous demande pardon: vous étes bien monsieur Boubouroche?"
+
+ COURTELINE.
+
+
+ACTO I
+
+ _No escritorio dum advogado._
+
+O CLIENTE
+
+Chamo-me Teodorico da Silva, negociante, com estabelecimento de bebidas...
+
+O ADVOGADO
+
+Sim senhor. Faz o obséquio de sentar-se.
+
+O CLIENTE
+
+O meu caso é simples, conta-se em breves palavras. Sou casado, e minha
+mulher... minha mulher engana-me, descaradamente, com o primeiro
+caixeiro da casa.
+
+O ADVOGADO
+
+É então uma acção de divorcio que o senhor deseja intentar?...
+
+O CLIENTE, _presuroso_:
+
+Perdão... Eu ainda não disse a V. Ex.ª o que desejo. (_Pausa_). Eu me
+explico: Sou um homem honrado, nunca roubei nada a ninguêm, mas sou
+tambêm um temperamento desgraçado, um sentimental, um fraco. Não posso,
+por exemplo, ver sangue. Para lhe falar com franqueza, nunca na minha
+vida--e já tenho cincoenta anos--peguei numa arma! Isto tudo vem para
+lhe explicar o motivo porque não matei minha mulher ontem à noite quando
+entrei em casa e a vi com _êle_, em doce colóquio amoroso, mais que
+amoroso! sôbre um canapé de estimação...
+
+O ADVOGADO, _interessado_:
+
+Sim senhor.
+
+O CLIENTE
+
+Ora porque sou um homem honrado, respeitador das leis e dos costumes,
+preciso evidentemente dar uma satisfação ao mundo, que seja, ao
+mesmo tempo, uma satisfação à minha consciência. Posta de parte, pois, a
+ideia duma solução violenta, resta-me, claro, essa a que V. Ex.ª se
+referiu há pouco, isto é--o divorcio.
+
+O ADVOGADO, _interessadíssimo_:
+
+Sim senhor...
+
+O CLIENTE
+
+Mas o senhor não sabe--porque não é casado--o que são vinte e tantos
+anos passados com uma mulher...
+
+O ADVOGADO, _impressionado_:
+
+Faço ideia...
+
+O CLIENTE
+
+Não. V. Ex.ª não póde fazer ideia. É tudo a prender-nos, sabe? É a
+companhia, as inclinações, o paladar... Emfim, em conclusão, o divorcio
+por coisa nenhuma deste mundo.
+
+O ADVOGADO, _cofia a barba e medita apreensivamente no caso_.
+
+O CLIENTE
+
+Pensei então noutra coisa...
+
+O ADVOGADO, _ancioso_:
+
+Diga!
+
+O CLIENTE
+
+Pensei então em despedir o caixeiro. (_Sinal de aprovação do advogado_).
+Mas aqui outro grave obstáculo se levanta! O caixeiro é um antigo
+empregado da casa, muito conhecedor do assunto; é êle, póde dizer-se, a
+alma do negócio! Despedi-lo seria ver fugir a freguezia, ver ir tudo por
+água abaixo... sem apelação!
+
+ _Ficam os dois calados. Ouve-se a respiração alta do cliente, como
+ um estertor._
+
+O ADVOGADO, _erguendo-se_:
+
+Pois meu caro amigo, visto isso, não sei; não sei o que deva
+dizer-lhe... (_Estende-lhe a mão pesaroso_). O melhor de tudo é ter
+paciência: a paciência é uma virtude...
+
+O CLIENTE, _desalentado_:
+
+E o mundo? E então o mundo o que dirá? o que dirá?
+
+O ADVOGADO
+
+O mundo dirá que o meu amigo é uma excelente pessoa, que sua mulher foi
+uma ingrata em lhe fazer o que lhe fez...
+
+O CLIENTE, _com uma lágrima a borbulhar ao canto do ôlho_:
+
+E foi. Palavra de honra que foi.
+
+ _Despede-se abatido._
+
+
+ACTO II
+
+ _Numa rua concorrida. Mêses depois. Ao dobrar a esquina encontram-se
+ o cliente e o advogado._
+
+OS DOIS, _ao mesmo tempo_:
+
+Oh!... oh!... Por aqui?
+
+O CLIENTE
+
+Ora ainda bem que o encontro.
+
+O ADVOGADO
+
+Muito folgo em o encontrar...
+
+O CLIENTE, _com o ar alegre, o semblante desanuviado e risonho; sem
+rodeios_:
+
+Sabe que achei uma saída admirável para aquilo?...
+
+O ADVOGADO, _surprêso_:
+
+Sim?
+
+O CLIENTE
+
+É verdade. Não matei minha mulher, não despedi o caixeiro, não me
+divorciei, não tive que ter paciência... e dei emfim uma satisfação ao
+mundo e a mim próprio.
+
+O ADVOGADO, _abismado_:
+
+Devéras?!
+
+O CLIENTE
+
+Devéras. Lembra-se de eu lhe ter contado como tudo se passou?
+
+O ADVOGADO
+
+Lembro.
+
+O CLIENTE
+
+Que os encontrei em cima dum canapé e tal?
+
+O ADVOGADO
+
+Lembro.
+
+O CLIENTE
+
+Pois bem: vendi o movel...
+
+O ADVOGADO
+
+O...?
+
+O CLIENTE
+
+Vendi o canapé!!
+
+
+CÁI O PANO... DAS NUVENS
+
+ * * * * *
+
+
+
+
+O crime...
+
+
+O crime...
+
+ "C'est ainsi qu'une faute est irreparable."
+
+ J. PAYOT.
+
+Helena fitou-o então nos olhos e inquiriu sem motivo:
+
+--Estás zangado?
+
+--Não. Porquê?
+
+Insensivelmente voltaram ainda a falar do crime. Êle manifestou-se
+contra aquele processo bárbaro, violento, de fazer justiça. Todo o homem
+que um dia descobre que sua mulher o atraiçoa, tem um só caminho
+racional a seguir: abandoná-la.
+
+Helena calou-se.
+
+--Depois, tudo se sabe, tudo, filha!... murmurou êle, à laia de
+vaticínio.--De que serve andar a encobrir, um dia e outro,
+semanas e mêses inteiros... se tudo se vem a saber afinal?
+
+Fitou-a demoradamente nos olhos, como a querer avaliar o efeito das suas
+palavras. E porque a fitava êle assim? Porque começava a sentir êsse
+desejo forte, essa terrivel necessidade de a observar, sondando os
+mínimos recantos da sua alma, onde pela primeira vez, desde que a
+conhecia, notava misteriosos e traiçoeiros abismos?...
+
+Chamou-a brandamente, disse-lhe:
+
+--Helena, que me ocultas tu? Tenho a impressão de que se passou aqui
+alguma coisa, na minha ausência, que desejas que eu ignore... Ah! não
+negues... leio-to nos olhos!
+
+Ela baixou instintivamente a cabeça.
+
+--Alguma coisa?!...--disse por fim, em voz pouco firme, esforçando-se
+por manifestar estranhesa e não conseguindo senão comprometer-se ainda
+mais, aumentando aquelas desconfianças.
+
+Êle tremia todo como varas verdes. Lançou mão da coragem que lhe
+restava, para lhe dizer com serenidade:
+
+--Vamos, tu não me tens na conta dum imbecil, não é verdade? Deves ter
+presumido portanto que os factos aqui ocorridos, desde que cheguei,
+tenham despertado o meu reparo.
+
+--Os factos?! Quais factos?!--dissimulou.
+
+--Tudo; o que se está passando...
+
+--Mas tu estás louco!... Eu é que devo estranhar-te. Nunca te vi assim
+desconfiado, acredita.
+
+--Desconfiado! Mas não vês os teus modos, os teus gestos, as tuas
+palavras... o teu rosto! Anda cá...
+
+Pegou-lhe numa das mãos e diante do espêlho da sala:
+
+--Vê aí o teu rosto!
+
+Ela esquivou-se, revoltada:
+
+--Deixa-me! É de mais!
+
+--Não te deixo, gritou exaltado, já sem se poder conter.--Vais-me dizer
+tudo, tudo. Nada de rodeios, de frases, apenas e cruamente a verdade: o
+que houve?
+
+--O que houve!?--exclamou aterrada.
+
+--Sim, o que houve!
+
+--Deixa-me! deixa-me!
+
+Não poude mais. Agarrou-lhe nos pulsos, arrastou-a para defronte da luz,
+intimou-a em voz alta, imperativa, onde havia inflexões de súplica e
+latejava ao mesmo tempo uma angústia horrível:
+
+--Fala! anda... diz-me tudo!
+
+Os seus olhos faíscavam, tinham relâmpagos de cólera.
+
+--Larga-me!--implorou Helena.--Não olhes para mim dessa maneira... Tenho
+medo!
+
+--E porque tens tu medo de mim?!
+
+Aquilo já não era uma altercação, uma scena de ciumes desagradável, uma
+simples desavença entre casados: era uma luta feroz, encarniçada, em que
+cada qual porfiava por levar o outro de vencida. Apertou-lhe as mãos com
+energia, de forma a fazê-la gritar:
+
+--Não, Alberto, não! Tu não estás em ti, deixa-me! Olha que me magôas,
+deixa-me!
+
+Mal a ouvia já. Os seus protestos, os seus rogos, as suas lágrimas, o
+desespero em que se debatia, mais o enfureciam: _quase_ lhe davam provas
+do que se passára!... Mas o que se passára?
+
+E baixinho, ao ouvido, como quem insinúa uma calúnia, disse-lhe tudo o
+que a sua mórbida fantasia arquitectára a êsse respeito, desde que a
+suspeita entrára no seu cérebro e aí gerára a mais tremenda acusação que
+podia pesar sôbre a honra duma mulher.
+
+Ergueu-se alucinada. Tinha no rosto o aspecto apavorado, trágico, de
+pessoa que se vê agarrada pelas costas numa encrusilhada deserta. Deu um
+grito, abriu os braços e caiu num sofá a estrebuchar.
+
+Alberto--nessa perfeita lassitude d'ânimo que sucede sempre a uma grande
+catástrofe,--pôs-se a presenciar tudo, naquele momento, com uma
+tranquilidade estupenda! Sentia-se por assim dizer mergulhado num grande
+banho morno de indiferença e de tédio...
+
+Helena, debelada a crise inicial, com a cabeça entre as mãos, chorava,
+arrepelava-se. E o marido sorria àquela dôr como se estivesse gosando as
+delícias dum drama de sensação em que sua mulher fôsse uma sublime
+artista e êle próprio, por desdobramento, um actor de mérito,
+representando o papel de marido ciumento com a mais pura e
+meticulosa arte!
+
+No fundo não aplaudia a peça, mas achava que os artistas iam bem...
+
+Deu uns passos ao acaso e, maquinalmente, dirigiu-se para o quarto.
+Voltou, logo em seguida: tinha envergado à pressa o sobretudo e trazia
+ainda na mão o chapéu e a bengala. Parecia-lhe ter ouvido gritar:
+«Bravo! Bravo!»; que uma multidão ruidosa de espectadores se levantava
+para saír da sala. Ouvia mesmo os comentários da ópera--porque era
+afinal uma ópera!--pessoas que passavam, suas conhecidas, que êle
+cumprimentava e lhe diziam:
+
+--«Gostou?
+
+--«Muito!»
+
+Helena atravessou-se-lhe no caminho:
+
+--Onde vais? Perdoa! Agora que te disse tudo porque é que me não
+perdoas?...
+
+Só então deu acôrdo de si. Um assômo atávico de ferocidade o dominou.
+Viu tudo negro! Agarrou Helena pelo pescoço e chegou a apertar.
+
+--Mata-me! mata-me!--gritou ela.
+
+Largou-a e fugiu. Desceu as escadas a correr. Helena tombára desmaiada
+sôbre o soalho. Quando se viu no páteo parou. Abriu a porta devagarinho
+e uma lufada do ar frio da noite entrou, e fez-lhe bem. Esteve uns
+instantes a respirar, a arquejar, até que lhe pareceu ouvir passos.
+Desceu então o último degrau e começou a caminhar ao longo da rua--sob a
+inclemência do vento e da chuva que caía.
+
+ * * * * *
+
+
+
+
+Casa maldita
+
+
+(Tragédia rústica)
+
+
+ FIGURAS:
+
+ TÓNIO...........}
+ MANOEL..........} _irmãos_.
+ MARIA JOANA.....}
+ FRANCISCO....... _noivo de Maria Joana._
+ O MÉDICO.
+
+ Beira-Baixa, época actual.
+
+
+Casa maldita[1]
+
+
+(Tragédia rústica)
+
+ _Cozinha com lareira numa casa de quinta. Noite d'inverno. Vento e
+ chuva desabridos._
+
+FRANCISCO, _da porta, chamando_:
+
+Maria Joana!
+
+MARIA JOANA, _que vem de dentro, do interior da casa, com uma candeia
+acêsa, voltando-se_:
+
+Crédo! Meteste-me um susto! (_Pendurando a candeia_). Entra!
+
+FRANCISCO, _entrando_:
+
+O pai? está melhor?
+
+MARIA JOANA, _abatida_:
+
+Na mesma...
+
+FRANCISCO
+
+Na mesma?!
+
+MARIA JOANA
+
+Ou pior... sei lá! A outra noite já o nem julgávamos. Um febrão!
+
+FRANCISCO
+
+Basta que sim.
+
+MARIA JOANA
+
+Sempre a variar... a dizer tolices... (_sente-se, dentro, gemer_).
+Ouves? Lá está...
+
+FRANCISCO
+
+É verdade! Diacho, mas ontem parecia melhor...
+
+MARIA JOANA
+
+Sim, tem disso.--«Alembras-te» da minha mãe?
+
+FRANCISCO
+
+«Alembro».
+
+MARIA JOANA
+
+Não me sái da «'maginação» que é o mesmo mal.
+
+FRANCISCO
+
+Ágora!
+
+MARIA JOANA
+
+Um dia melhor, outro pior, té que por fim... (_Comovida_) É o mesmo mal.
+
+FRANCISCO
+
+Ora!
+
+MARIA JOANA
+
+Verás. Já d'ali se não ergue.
+
+FRANCISCO
+
+Sabes lá bem...
+
+MARIA JOANA
+
+Diz-mo o coração. E olha que para adivinhar...
+
+FRANCISCO, _depois dum silêncio_:
+
+Porque não mandam vocês à cidade, chamar o médico?
+
+MARIA JOANA
+
+P'ra lá foi o Tónio à bocado. Não tardam aí.--Pois que horas são?
+
+FRANCISCO
+
+Oito. Déram agora...
+
+MARIA JOANA, _calculando_:
+
+É isso. Foi com de dia. Não tardam.
+
+FRANCISCO, _depois dum novo silêncio_:
+
+E que diz o mestre Lourenço?
+
+MARIA JOANA
+
+O barbeiro? Olha o que há-de dizer! Que já se não entende com o mal, é
+claro.
+
+FRANCISCO
+
+Sangrou-o?
+
+MARIA JOANA
+
+Sangrou.
+
+FRANCISCO
+
+E «óspois»?
+
+MARIA JOANA
+
+Cuidávamos que ficava. Fez-se muito branco, muito branco... os olhos a
+encovarem-se-lhe... (_Tápa o rosto com as mãos, horrorisada_). Se tu o
+visses!
+
+FRANCISCO
+
+Devia ter sido há mais tempo, talvez...
+
+MARIA JOANA, _desiludida, encolhendo os ombros_:
+
+Oh!
+
+FRANCISCO
+
+Há quantos dias adoeceu?
+
+MARIA JOANA
+
+Há treze.--É mau «númaro», não é?
+
+FRANCISCO
+
+Ora adeus! Fias-te nisso?
+
+MARIA JOANA
+
+Fio.
+
+FRANCISCO, _levemente trocista_:
+
+Esta bom.
+
+MARIA JOANA
+
+Quando a minha mãe morreu, um cão esteve a uivar aqui toda a santíssima
+noite...
+
+FRANCISCO
+
+Foi o acaso.
+
+MARIA JOANA
+
+A Tereza Bógas casou a filha a uma terça feira e dia treze...
+
+FRANCISCO
+
+Bem haja ela...
+
+MARIA JOANA
+
+Ao cabo dum ano o marido deu-lhe cinco facadas... e matou-a!
+
+FRANCISCO
+
+Milagre fôra se a deixásse com vida...
+
+MARIA JOANA
+
+Que mais queres?
+
+FRANCISCO
+
+Nada, co'os démos: estou «'stifeito». Tira-me essas manias da cabeça;
+dás em maluca.
+
+MARIA JOANA
+
+Se fôsse só isso!... E os palpites? Olha que tenho palpites tão certos,
+«Fracisco», tão certos! E sonhos?... Ha dois dias sonhei que antes do
+nosso casamento havia de se dar nesta casa uma grande fatalidade...
+
+FRANCISCO, _nervoso_:
+
+Bem; se continúas, vou-me.
+
+MARIA JOANA, _rindo_:
+
+Oh! «home»! julguei que eras mais forte do que isso!...
+
+FRANCISCO
+
+Não é; não gósto...
+
+MARIA JOANA
+
+Bem, bonda, não te zangues...--És meu amigo?
+
+FRANCISCO, _amuado_:
+
+Não sei...
+
+MARIA JOANA
+
+És, bem vejo.
+
+FRANCISCO
+
+P'ra que mo «prècúras», nesse caso?...
+
+ _O vento assobia nas frestas, sacode os troncos das árvores, ululando._
+
+MARIA JOANA, _num pressentimento_:
+
+E se eu morrêsse?... Casavas com outra?
+
+FRANCISCO
+
+Mau, mau, mau! bem digo eu... Faz favor de te calares, ou então...
+
+MARIA JOANA
+
+Esta dito. Eu hoje estou assim... Não é por mal.--Escuta!
+
+ _Poem-se os dois a escutar._
+
+FRANCISCO
+
+Parece que vem gente...
+
+MARIA JOANA
+
+Ná. É o vento.
+
+ _Abre-se a porta de repente, com um empurrão sêco, e MANOEL entra,
+ embuçado; traz uma velha arma caçadeira que coloca a um canto. MARIA
+ JOANA, assustada, expele um grito quando o vê. FRANCISCO ergue-se
+ tambêm assustado._
+
+MANOEL, _sorrindo, semblante mal encarado de facinora_:
+
+Meti-vos medo, p'los modos!?... Eu não sou o diabo, socegai!...
+
+MARIA JOANA, _mal refeita ainda do susto_:
+
+D'onde vens tu, «home», assim, a estas horas?
+
+MANOEL
+
+Que te importa? Mete-te lá com a tua vida! Ora o «estapor»! (_A
+Francisco_) Um cigarro!
+
+ _FRANCISCO oferece-lhe um cigarro._
+
+MANOEL
+
+Olá! Êste é dos de cu aberto! Bravo, rapaz, estás um «fedalgo»!
+
+FRANCISCO
+
+Déram-mos.
+
+MANOEL
+
+Só a mim ninguêm me dá raça de nada! Tudo me rouba. Aqui então, nesta
+casa... é tudo deles,--_dessa_ e do outro...
+
+MARIA JOANA
+
+Intrujão! Não no acredites, Francisco, é um intrujão.
+
+MANOEL, _crescendo para ela_:
+
+Intrujão? E tu, minha porca? E tu que és?
+
+FRANCISCO, _para o serenar_:
+
+Olha o pai, que ouve...
+
+MANOEL
+
+Quero cá saber do pai! Julgas que me consultaram agora para vir o
+médico? Bem te digo eu: isto é deles! Não vem cá por menos d'uma libra!
+Pois hão de êles pagá-la, se quiserem; nanja eu. (_Beija os dedos em
+cruz_). Juro!
+
+MARIA JOANA
+
+Ninguêm to pede...
+
+MANOEL
+
+Uma libra! Nem que ma arrancassem com uma enxó, do peito...
+
+FRANCISCO
+
+Deixa lá! Vão-se os aneis mas fiquem os dedos. P'ra mais, livra-se uma
+pessoa de remorsos.
+
+MANOEL
+
+Livra!... Livra-se mas é do dinheiro. Eu cá digo: quem tem de morrer,
+morre. Todos hemos d'ir, paciência... É a obrigação.
+
+MARIA JOANA
+
+Eu dava a camisa do corpo por ver o pai com saúde.
+
+FRANCISCO
+
+Ouves?
+
+MANOEL
+
+O corpo dava ela por menos disso...
+
+FRANCISCO
+
+«Manel»!
+
+MANOEL, _refilão_:
+
+Que há de novo?
+
+FRANCISCO
+
+É tua irmã, bem vês...
+
+MANOEL
+
+Parabêns. Olha a princesa!
+
+MARIA JOANA
+
+Desalmado! (_Ouve-se dentro a voz do pai a gemer_). Pai! pai! Aí vou!
+
+ _Sai correndo._
+
+ _FRANCISCO segue-a até a porta e fica a escutar. Pausa dalguns
+ instantes. A chuva bate com fôrca nas têlhas._
+
+FRANCISCO
+
+Que noite!
+
+MANOEL, _à lareira, põe-se a cantar_:
+
+_Não sei que quer a «desgrácia»
+Que atrás de mim corre tanto..._
+
+FRANCISCO, _interrompendo-o_:
+
+Parece mal, «home»; cala-te!
+
+MANOEL
+
+Pois sim...
+
+_... Que atrás de mim corre tanto...
+Hei de parar e mostrar-lhe
+Que de vê-la não m'espanto..._
+
+FRANCISCO
+
+Até é pecado.
+
+MANOEL
+
+Pecado e êles fazerem-me o que me fazem.
+
+FRANCISCO
+
+Estás doido. Que é que te fazem?
+
+MANOEL
+
+Desde muito novo eu tenho sido aqui um engeitado. Minha mãe quase me não
+criou como filho. Vedou-me antes dos seis meses; nem os peitos me quis
+dar!...--Já lá está, a pagá-las!
+
+FRANCISCO
+
+Ora! Vá a gente a ouvir-te. Tu és um doido.
+
+MANOEL
+
+Sou?--Porque dizes isso?...
+
+FRANCISCO
+
+Porque tenho rasões.
+
+MANOEL
+
+Talvez. Eu odeio-vos a todos!
+
+FRANCISCO
+
+A mim tambem?
+
+MANOEL
+
+A ti. Queres-me roubar...
+
+FRANCISCO, _pálido, recuando_:
+
+Eu?!
+
+ _Ouve-se fóra ruido de passos e vozes de gente que se aproxima._
+
+MARIA JOANA, _de dentro, a gritar_:
+
+Lá veem! lá veem! Abram a porta... (_vê Francisco arquejante, afogueado;
+pára diante dêle_). Que foi?
+
+TÓNIO, _de fora, ao mesmo tempo, chamando_:
+
+Maria Joana! ó Maria!... Abram lá isso! Abram! (_Batem com força_).
+
+ _Francisco corre a abrir a porta. Há confusão, reboliço._--«Santo
+ nome de Deus!» _diz Maria Joana. Entram o médico e Tónio._
+
+O MÉDICO
+
+Ora até que emfim!... Boa noite!
+
+VÓZES, _a um tempo_:
+
+--Bôa noite.
+
+--Viva!
+
+--Passe vossa senhoria bem...
+
+TÓNIO
+
+Chegue-se vossa senhoria ao lume que deve vir gelado. O frio é muito.
+
+O MÉDICO, _aquecendo-se_:
+
+Aceito. Venho gelado.
+
+ _Faz-se silêncio. O doente grita._
+
+O MÉDICO
+
+É o doente?
+
+MARIA JOANA
+
+Saberá vossa senhoria que sim. O que aquela alminha tem sofrido, santo
+nome de Deus! Se vossa senhoria o aliviasse daqueles tormentos,
+por amor da sua senhora e dos seus filhinhos, se os tem...
+
+MANOEL, _do lado, chasqueando_:
+
+Êle não e casado, mulher!
+
+O MÉDICO, _voltando-se, reparando em Manoel_:
+
+Sou, sim senhor... Quem lhe disse a vocemecêe que eu não sou casado?
+
+MANOEL, no mesmo tom:
+
+Digo eu...
+
+O MÉDICO, _para Maria Joana_:
+
+Quem é êste homem?
+
+MARIA JOANA
+
+É meu irmão (_segreda-lhe qualguer coisa ao ouvido_).
+
+O MÉDICO
+
+Bem.--Vamos ver o doente. (_Indicando uma porta_) É por ali?
+
+MARIA JOANA
+
+Por ali; tenha a bondade... Vossa senhoria há de desculpar, é uma casa
+de «probes»...
+
+ _Desaparecem os dois falando, no interior da casa. Fora ficam os
+ tres homens: TÓNIO, o irmão e FRANCISCO. Nenhum deles diz palavra.
+ Um cão põe-se a uivar, perto._
+
+FRANCISCO, _nervoso_:
+
+Olha o diabo do cão! É o vosso?
+
+TÓNIO
+
+É. Chama-o.
+
+FRANCISCO, _vai á porta a assobiar-lhe_:
+
+Eh! _Farrusco!_ Quieto! Venha cá! Quieto!
+
+ O cão cala-se, mas d'aí a pouco põe-se a uivar outra vez.
+
+FRANCISCO
+
+Não há meio! Se fôsse meu dava-o, ou vendia-o... Punha-o com dono.
+_Farrusco!_ (_assobia-lhe de novo_).
+
+MANOEL
+
+Deixa lá o animal! que mal te faz o animal? Tambem com êle te metes?
+Aquilo foi desde que entrou o médico: cheirou-lhe a defunto...
+
+TÓNIO
+
+Bruto!
+
+ _Os dois irmãos entreolham-se ferozmente. Passa entre êles uma
+ labareda d'ódio. Depois, MANOEL põe-se a cantarolar._
+
+TÓNIO, _a meia voz_:
+
+Farçola! o que tu merecias...
+
+MANOEL, _que ouviu bem_:
+
+Tanto sopras no fole, que o fole um dia estoira...
+
+TÓNIO
+
+O quê? que dizes?
+
+MANOEL
+
+É cá comigo...
+
+TÓNIO
+
+Escuta. Quem paga ao médico sou eu, do meu bôlso, ouviste?
+
+MANOEL
+
+Bom proveito.
+
+TÓNIO
+
+As vinte moedas que ali estão (_indica um arcaz_) são da Maria Joana.
+
+MANOEL, _erguendo-se, encandieirado_:
+
+De quem?
+
+TÓNIO, _enérgico_:
+
+Da Maria Joana, já disse! O pai assim o quer. Cumpra-se a sua vontade,
+mando eu!
+
+FRANCISCO, _intervindo_:
+
+Tónio, bem vês... A Maria Joana há de vir a ser minha mulher. Eu não
+queria que por via disso... de dinheiro...
+
+TÓNIO
+
+Tá, tá, tá... não tens que «agarcer»; são dela. Eu é que mando aqui: sou
+o mais velho.
+
+MANOEL
+
+Juro que te arrependes, Tónio! Cego seja eu de gôta serena.
+
+TÓNIO
+
+Pois cego sejas tu.
+
+FRANCISCO, _interpondo-se_:
+
+Olhem o médico! Tenham juizo, ó menos...
+
+O MÉDICO, _da porta, falando para dentro_:
+
+Sim senhor, tudo se há de arranjar, esteja socegadinho... isso pássa
+(_entrando_). Pobre homem!
+
+TÓNIO, _avançando para o médico_:
+
+Está pronto, não é verdade? Já d'ali não «arrinca»... Morre?
+
+O MÉDICO, _querendo animar_:
+
+Vamos a ver; emquanto há vida...
+
+FRANCISCO
+
+Sim, emquanto há vida, Tónio, há esperança! Tem por dizer...
+
+TÓNIO, _desiludido, ao médico, abanando a cabeça_:
+
+Na. Póde vossa senhoria desabafar; eu cá sei o que vai haver esta
+noite... Adivinho!
+
+FRANCISCO
+
+Ó «home», que genio! que fraqueza! Não vês êste senhor a dizer-te que
+não. Êle é que sabe, que estudou...
+
+TÓNIO
+
+Pois sim. Estâmos sem pai, «Fracisco»!
+
+MARIA JOANA, _que vinha entrando e que ouviu o irmão dizer aquilo_:
+
+O quê! Morre? (_Pausa. Ninguem responde; dirige-se ao médico_). Morre?
+meu pai morre? (_o médico cala-se_) Não me respondem! não me dizem nada!
+(_levando as mãos á cabeça num desespero_) Ah, meu pai! Ah, meu
+pai! Que não tenho outro...
+
+FRANCISCO, _confortando-a_:
+
+«Atão», Maria Joana, vem cá, vem cá. Olha que êle ouve.
+
+MARIA JOANA
+
+Deixa-me! Deixa-me!... Eu quero morrer tambem. Quero morrer, «Fracisco».
+
+FRANCISCO
+
+Nosso-Senhor ainda pode muito, cachopa!
+
+TÓNIO, _ao médico que está preparado para, saír_:
+
+Quanto ao trabalhinho de vossa senhoria, há de perdoar, nós lá iremos...
+
+O MÉDICO
+
+Descansem, quando puderem, não tenho pressa; arranjem cá a sua vida.
+Agora o que é preciso é ir embora... Faz-se tarde.
+
+TÓNIO
+
+Pronto! (_a Francisco_) Ó «Fracisco», tu agora vais aqui com o sr.
+«doitor», se te não custa, eu não posso... E trazes os remédios,
+pelas almas. É um favor.
+
+FRANCISCO
+
+Vou e ponho-me aí num foguete, verás. Dentro de duas horas estou de volta.
+
+MARIA JOANA, _num gemido_:
+
+Leva a arma!
+
+MANOEL, _que tem estado sempre calado até aqui_:
+
+Leva-a, se a quiseres... Empresto-ta.
+
+ _Todos se voltam, admirados da generosidade._
+
+FRANCISCO
+
+Não é preciso; levo antes esta (_mostra um marmeleiro ferrado_) é mais
+certeira... Bem hajas!
+
+ _Dão as boas noites. Sai êle e o médico. Uma lufada d'ar entra,
+ quando se abre a porta, apagando a luz._--«Fechem a porta!» _ouve-se
+ dizer no escuro. A porta fecha-se com mão misteriosa... Tinha sido o
+ vento. TÓNIO, dentro, ás apalpadelas, procura a candeia, que
+ acende ao fogo duma acha, no lume da lareira, soprando-lhe para a
+ atiçar. A scena é lugubre. MARIA JOANA é uma rodilha, a um canto, a
+ soluçar._
+
+TÓNIO
+
+Vá, rapariga! Cobra ânimo! Estas um engrimanço, uma dama...
+
+ _MARIA JOANA parece reanimar-se. Limpa as lágrimas ás pontas do
+ lenço da cabeça. Vai ao vasal, tira uma tijela, e enche-a de água.
+ MANOEL nem palavra: fuma._
+
+TÓNIO
+
+Para onde vai isso?
+
+MARIA JOANA
+
+É para o pai; não leva nada desde ontem... Pediu-me água, que dizes?
+(_Tónio encolhe os ombros_) Soube-lhe tão bem a outra... Tinha-me dito:
+«filha, dá-me de beber; tenho um fogo aqui dentro...». E eu dei-lhe de
+beber. Parece que aliviou. O médico disse-me que lhe désse o que êle
+pedisse. Dou?
+
+TÓNIO
+
+Se êle o disse...
+
+MANOEL, _de troça_:
+
+Dá-lhe vinho, dá-lhe vinho...
+
+TÓNIO, _furioso, agarra num banco e avança para o irmão_:
+
+Esmago-te como a um sapo, maldito, se te não calas! (_Os seus olhos
+chispam lume_).
+
+MANOEL, _erguendo-se_:
+
+Experimenta e verás o trôco... (_Diante dêle_): Sim! sim!
+
+MARIA JOANA, _suplicante, entre os dois_:
+
+Tónio! «Manel»! Nosso-Senhor castiga-vos!... Por Deus! Ai, Jesus!
+
+TÓNIO, _cedendo_:
+
+O que te vale...
+
+ _Sentam-se ambos, calados, tacitumos, a distância. MARIA JOANA fita
+ um momento o grupo. Respira profundamente, desolada. Entra depois no
+ quarto do doente, cabisbaixa, cambaliante._
+
+ _Grande silêncio!_
+
+ _Súbito, um grito, depois outro,--lancinantes, desesperados, dentro
+ do quarto. Os dois irmãos levantam-se apavorados._
+
+MARIA JOANA, _à porta, num paroxismo_:
+
+O pai! o pai!... Morto! (_volta como louca à cabeceira do cadaver_).
+
+ _TÓNIO precipita-se tambem desvairado no quarto do pai, atrás da
+ irmã. Continuam os gritos. MANOEL tem uns segundos de perplexidade,
+ olha em redor, hesita, vai, corre para o arcaz; abre-o, mergulha o
+ braço nervosamente no fundo; tira tudo,--roupas, farrapos, misérias,
+ remeche,--procura, encontra emfim o que ambiciona: a bolsa com as
+ vinte moedas!_
+
+TÓNIO, _que entra desgrenhado, percebe tudo, exclama_:
+
+Ah, tratante! ah, ladrão!... Agora é que tu queres roubar a tua irmã!
+
+ _Atira-se a êle. Trava-se uma luta entre os dois, encarniçada: qual
+ de baixo, qual de cima, com as garras, com os dentes--como dois liões!_
+
+MARIA JOANA, _sòzinha, brada, abrindo a porta, para a solidão dos campos
+ermos, na chuva e na ventania_:
+
+Acudam! aqui d'el-rei!... Acudam!
+
+ _Ninguem! Tudo se passa como num deserto, a milhões de léguas da
+ outra gente, no isolamento daquela casa maldita! MANOEL, rôto,
+ alucinado, escorrendo sangue, consegue erguer-se do chão, aonde por
+ duas veses o prostrára o pulso férreo de TÓNIO; apanha emfim a
+ espingarda e alveja-o._
+
+MARIA JOANA, _interpondo-se, num salto ágil_:
+
+Ai, que te desgraças! ai que te desgraças, «Manel»!
+
+MANOEL
+
+Larguêza! larguêza senão arrebento-te tambem...
+
+ _Ela resiste, debate-se, diante da arma. Esta, num repelão,
+ dispára-se, indo a carga alojar-se no peito da rapariga._
+
+TÓNIO, _vendo a irmã caída num lago de sangue_:
+
+Mataste-a!
+
+MANOEL, _poisando a espingarda e com um sorriso cínico_:
+
+Matei?... Pois tira-lhe a pele, que é d'estimação...
+
+ _Recomeçam a luta._
+
+
+ [1] O autor não quis nesta novela, a que deu indiferentemente a
+ forma dialogada, tentar um género de literatura dramática como
+ êsse que há tempos aí se exibiu em palcos Portugueses (não sabe
+ se com grande ou pequeno exito) com o titulo de _Grand-Guignol_,
+ importado directamente de França. Género macabro, terrorista,
+ insalubre, visando a provocar no público as fortes comoções nervosas
+ pelo espectáculo de scenas lúgubres, sanguinárias ou simplesmente
+ extravagantes.--Esta _tragédia rústica_ é um ligeiro estudo do
+ caracter supersticioso, bestial, por vêzes quase feroz, da pobre,
+ inculta, miserável gente das aldeias beirôas, em cujo seio os
+ instintos, bons ou maus, falam ainda a linguagem espontânea e
+ bárbara das primitivas idades.
+
+ * * * * *
+
+
+
+
+O pai da criança
+
+
+(Conto carnavalesco)
+
+
+
+
+O pai da criança
+
+
+(Canto carnavalesco)
+
+Êste padre Borregana, cónego da Sé, tem uma história.
+
+Toda a gente tem uma história, é claro; mas a do padre Borregana é uma
+história singular, digna de contar-se e de ser ouvida.
+
+Padre Borregana nasceu padre como outros nascem militares, ou poetas, ou
+oradores, ou assim... Nasceu padre. Desde muito novo revelou uma grande
+_queda_ para aquele mister. Compleição debil, espírito supersticioso e
+timorato, era êle quem acendia as velas do altar-mór nos dias de missa
+cantada; quem ajudava a dobrar o sino dos entêrros; quem levava a
+caldeirinha e o hissope entoando o _Bemdito_ com o Senhor; quem dizia
+_ora pro nobis_ atrás do pálio nas procissões; quem informava as beatas
+dos ataques hemorroidários do sr. arcebispo no tempo do arroz de tomate...
+
+--Podia ter nascido corcunda, podia ter nascido zanaga, dizia o pai, a
+justificá-lo; ninguêm se faz...
+
+E não.
+
+Velhos condiscipulos dêle no liceu e depois no seminário, ainda hoje
+diziam que o padre Borregana fôra a mais decidida vocação que tinham
+conhecido para o sacerdócio--para a castidade sobretudo,--o que aos seus
+olhos de peccadores inconfessáveis o tornára particularmente famoso,
+votado sem esfôrço ao sacrifício duma existência de renúncia, frouxo de
+vontade como era, e então com um apelido que lhe assentava como uma luva...
+
+
+Quando,--já depois de ordenado--desceu o estribo do comboio na estação
+do Rocio, uma tarde, padre Borregana ficou atarantado, hesitante,
+como uma criança que perde a ama, no meio da barafunda, do vozear
+confuso da multidão que se acotovelava a saír da _gare_.
+
+--Ó padre Borregana! ó padre Borregana!...
+
+Voltou-se. Quem o chamava? Que lhe queriam?... Diante dêle um sujeito
+alto, encorpado, abria-lhe uns grandes braços, oferecia-lhe o peito
+largo para o receber. Padre Borregana trepidou.
+
+--Não me reconheces, homem? Sou eu!... Olha bem p'ra mim: o Ataíde!
+
+O Ataíde! Quem havia dizer! Com aquelas barbas, aquele todo distinto,
+aquele ar de pessoa importante e abastada!...
+
+--Tu! Pois tu!...--murmurou o padre.
+
+E abraçaram-se enternecidamente.
+
+Emquanto iam saíndo da estação, o outro explicava-lhe: tinha subido,
+tinha trepado, formára-se... arranjára um casamento rico e uma boa
+colocação...
+
+--Sim?!
+
+--É verdade.
+
+Padre Borregana estacou, admirado.
+
+--Mas ouve cá, disse, como demónio conseguiste tudo isso? Tu, demais a
+mais,--desculpa que te diga--mas nem eras dos mais atilados...
+
+O outro sorriu, superiormente:
+
+--Dos mais atilados! Pobre rapaz! Consegui isto como se consegue tudo na
+vida... como se consegue ser homem, ser gente, ser alguêm neste mundo: á
+custa de muito ponta-pé!...
+
+E separaram-se.
+
+
+Mais adiante, Borregana, que caminhava apreensivo, scismático, no
+encalço do moço de fretes, em demanda dum albergue pacato, sentiu a
+ponta duma bengala tocar-lhe discretamente no ombro:
+
+--Psst!... Borregana!
+
+Voltou-se de novo, e deu de cara com outro velho conhecimento, a quem a
+sua presença inesperada causou igualmente grande surpresa e alegria.
+Repetiu-se, _mutatis mutandis_, a mesma scena: tambêm êste
+trepára, tambêm êste vencera, tambêm tinha uma linda posição...
+
+--É boa! E tudo isso...--balbuciou.
+
+--Á custa de muito ponta-pé!
+
+--!!
+
+
+Ao desandar da rua do Carmo para o Chiado maior espanto o aguardava.
+Desta vez o velho amigo era um ministro--e ministro da Justiça!--que lhe
+abriu os braços como os outros (o que fez juntar gente...) e como os
+outros lhe confessou que tinha subido, trepado--á custa de muito
+ponta-pé!...
+
+
+Dias passaram. Padre Borregana regressou a penates. Um domingo, logo
+depois da missa, chamando de parte o sacristão, lial companheiro e
+confidente, segredou-lhe:
+
+--Cristóvam! vais-me aqui prestar hoje um grande serviço...
+
+O sacristão, um diab'alma alentado e grosso, bruto como umas casas,
+muito respeitador das qualidades e ornamentos do cura, murmurou,
+comovido e modesto:
+
+--Um serviço? Oh! sr. prior!... Queira vossa reverendissima ordenar...
+Cá por mim só se não pudér...
+
+--Um grande serviço, Cristóvam, um grande serviço...
+
+Botou uma olhadela á igreja, outra ao S. Jerónimo do altar, outra a
+bandeira das almas, e erguendo por fim as abas da batina ensebada,
+revirou-lhe o nédio cêsso, exclamando:
+
+--Férras-me aí um ponta-pé!...
+
+--Quem, eu?
+
+--Já disse, Cristóvam: um ponta-pé.
+
+O sacristão presumiu-o doido. Hesitou, mas por último, vendo o ar
+decidido do presbítero, para o não irritar, fez-lhe a vontade,
+encostando-lhe a biqueira ferrada ao hemisfério sul, devagarinho...
+
+--Força, homem! isso não é nada, suplicou o padre, cuja estranha
+flagelação parecia dever enchê-lo de infinito gôso--isso não é nada!
+
+--Ó sr. prior, mas eu...--tartamudiou o Cristóvam, condoído.
+
+E o padre Borregana, num palpite, de mãos postas:
+
+--Depressa! depressa!... Pelas cinco chagas! pelas cinco chagas, Cristóvam!
+
+--Êle é isso?, rosnou o sacristão com os seus botões; e despresando
+escrúpulos, atirou-lhe um coice, com tal violência, que o fez baquear e
+gemer:
+
+--Ui!
+
+--Ah, já?...--e atirou-lhe segundo.
+
+Nisto um matraquear de tamancos no lagedo da igreja.
+
+--Quem é? quem vem aí?, bradou o padre aflito, cheio de dôres,
+estorcendo-se.
+
+--É para o sr. prior, esta carta...
+
+--Para mim?!
+
+Era um telegrama.
+
+O prior precipitou-se, rasgou todo trémulo a obreia do sobrescrito: «Por
+ordem de S. Ex.ª...» (turvou-se-lhe a vista)... «nomeado cónego.»
+
+Caiu sôbre um banco que para ali estava a um canto, aniquilado, morto de
+comoção. Quando despertou daquela espécie de síncope o prior
+estava triste... Em volta houve um alarido, um espanto, mal constou o
+milagre... Porque fôra um milagre! Tudo quis ver e visitar o sr. padre
+Borregana, feito cónego--a ponta-pé. Não recebia? Porquê?... Talvez
+dorido, coitadinho, talvez de ferido no poisadoiro com a brutalidade da
+operação. E invectivava-se o Cristóvam--bruto! verdugo!--que se
+desculpava, dizendo:
+
+--Pois sim, pois sim, mas se não fôsse eu...
+
+Tinha rasão.
+
+A roda das beatas da terra toda se desfazia em favores e conselhos de
+arnica, de unto de cobra e semi-cúpios de malvas, para aliviar as dores
+e a tristeza do prior, cujos nadegueiros--já agora uns nadegueiros de
+cónego--entumesciam e grelavam...
+
+Dizia-lhe a criada:
+
+--Parece que ficou a modos triste, sr. cónego?...
+
+--E fiquei, pudéra, se não tenho de quê, cachopa!--queixava-se.
+
+--De quê?! Hom'essa! Depois duma nova assim!...
+
+--Depois duma nova assim; admiras-te? Com dois ponta-pés arranjei a ser
+cónego, mas se aquele alarve se não demora e me préga logo uma dúzia
+deles, quando eu dizia, estava a estas horas bispo! Bispo, imagina!...
+Se não hei-de estar aborrecido...
+
+
+O milagre não obstante ficou de pé, íntegro, documental, palpável, a
+atestar o dedo da Providência na ferradura do Cristóvam. A religião,
+vigilante, viu logo na pessoa do padre virtudes canonisáveis...
+
+Apenas o Sequeira, funcionário de finanças, livre pensador e ateu--um
+doido!--zombava, fazia menos daquilo, afirmando em toda a parte que o
+padre Borregana tinha tido um cónego pelo traseiro, e que o pai da
+criança era o sacristão!
+
+ * * * * *
+
+
+
+
+Índice
+
+
+Índice
+
+Aquela família 5
+
+A bôca do sapo 17
+
+Sr. Anselmo (Perfil grotesco dum provinciano ilustre)--(1906)--I 37
+
+Sr. Anselmo (Perfil grotesco dum provinciano ilustre)--(1912)--II 85
+
+Candidinha Cerdeira (Novela romantica) 89
+
+Eureka! 113
+
+O crime 123
+
+Casa maldita (Tragedia rústica) 133
+
+O pai da criança (Conto carnavalesco) 165
+
+
+
+
+
+
+End of the Project Gutenberg EBook of Aquela Família, by Ladislau Patrício
+
+*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK AQUELA FAMÍLIA ***
+
+***** This file should be named 34039-8.txt or 34039-8.zip *****
+This and all associated files of various formats will be found in:
+ https://www.gutenberg.org/3/4/0/3/34039/
+
+Produced by Mike Silva
+
+Updated editions will replace the previous one--the old editions
+will be renamed.
+
+Creating the works from public domain print editions means that no
+one owns a United States copyright in these works, so the Foundation
+(and you!) can copy and distribute it in the United States without
+permission and without paying copyright royalties. Special rules,
+set forth in the General Terms of Use part of this license, apply to
+copying and distributing Project Gutenberg-tm electronic works to
+protect the PROJECT GUTENBERG-tm concept and trademark. Project
+Gutenberg is a registered trademark, and may not be used if you
+charge for the eBooks, unless you receive specific permission. If you
+do not charge anything for copies of this eBook, complying with the
+rules is very easy. You may use this eBook for nearly any purpose
+such as creation of derivative works, reports, performances and
+research. They may be modified and printed and given away--you may do
+practically ANYTHING with public domain eBooks. Redistribution is
+subject to the trademark license, especially commercial
+redistribution.
+
+
+
+*** START: FULL LICENSE ***
+
+THE FULL PROJECT GUTENBERG LICENSE
+PLEASE READ THIS BEFORE YOU DISTRIBUTE OR USE THIS WORK
+
+To protect the Project Gutenberg-tm mission of promoting the free
+distribution of electronic works, by using or distributing this work
+(or any other work associated in any way with the phrase "Project
+Gutenberg"), you agree to comply with all the terms of the Full Project
+Gutenberg-tm License (available with this file or online at
+https://gutenberg.org/license).
+
+
+Section 1. General Terms of Use and Redistributing Project Gutenberg-tm
+electronic works
+
+1.A. By reading or using any part of this Project Gutenberg-tm
+electronic work, you indicate that you have read, understand, agree to
+and accept all the terms of this license and intellectual property
+(trademark/copyright) agreement. If you do not agree to abide by all
+the terms of this agreement, you must cease using and return or destroy
+all copies of Project Gutenberg-tm electronic works in your possession.
+If you paid a fee for obtaining a copy of or access to a Project
+Gutenberg-tm electronic work and you do not agree to be bound by the
+terms of this agreement, you may obtain a refund from the person or
+entity to whom you paid the fee as set forth in paragraph 1.E.8.
+
+1.B. "Project Gutenberg" is a registered trademark. It may only be
+used on or associated in any way with an electronic work by people who
+agree to be bound by the terms of this agreement. There are a few
+things that you can do with most Project Gutenberg-tm electronic works
+even without complying with the full terms of this agreement. See
+paragraph 1.C below. There are a lot of things you can do with Project
+Gutenberg-tm electronic works if you follow the terms of this agreement
+and help preserve free future access to Project Gutenberg-tm electronic
+works. See paragraph 1.E below.
+
+1.C. The Project Gutenberg Literary Archive Foundation ("the Foundation"
+or PGLAF), owns a compilation copyright in the collection of Project
+Gutenberg-tm electronic works. Nearly all the individual works in the
+collection are in the public domain in the United States. If an
+individual work is in the public domain in the United States and you are
+located in the United States, we do not claim a right to prevent you from
+copying, distributing, performing, displaying or creating derivative
+works based on the work as long as all references to Project Gutenberg
+are removed. Of course, we hope that you will support the Project
+Gutenberg-tm mission of promoting free access to electronic works by
+freely sharing Project Gutenberg-tm works in compliance with the terms of
+this agreement for keeping the Project Gutenberg-tm name associated with
+the work. You can easily comply with the terms of this agreement by
+keeping this work in the same format with its attached full Project
+Gutenberg-tm License when you share it without charge with others.
+
+1.D. The copyright laws of the place where you are located also govern
+what you can do with this work. Copyright laws in most countries are in
+a constant state of change. If you are outside the United States, check
+the laws of your country in addition to the terms of this agreement
+before downloading, copying, displaying, performing, distributing or
+creating derivative works based on this work or any other Project
+Gutenberg-tm work. The Foundation makes no representations concerning
+the copyright status of any work in any country outside the United
+States.
+
+1.E. Unless you have removed all references to Project Gutenberg:
+
+1.E.1. The following sentence, with active links to, or other immediate
+access to, the full Project Gutenberg-tm License must appear prominently
+whenever any copy of a Project Gutenberg-tm work (any work on which the
+phrase "Project Gutenberg" appears, or with which the phrase "Project
+Gutenberg" is associated) is accessed, displayed, performed, viewed,
+copied or distributed:
+
+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.org
+
+1.E.2. If an individual Project Gutenberg-tm electronic work is derived
+from the public domain (does not contain a notice indicating that it is
+posted with permission of the copyright holder), the work can be copied
+and distributed to anyone in the United States without paying any fees
+or charges. If you are redistributing or providing access to a work
+with the phrase "Project Gutenberg" associated with or appearing on the
+work, you must comply either with the requirements of paragraphs 1.E.1
+through 1.E.7 or obtain permission for the use of the work and the
+Project Gutenberg-tm trademark as set forth in paragraphs 1.E.8 or
+1.E.9.
+
+1.E.3. If an individual Project Gutenberg-tm electronic work is posted
+with the permission of the copyright holder, your use and distribution
+must comply with both paragraphs 1.E.1 through 1.E.7 and any additional
+terms imposed by the copyright holder. Additional terms will be linked
+to the Project Gutenberg-tm License for all works posted with the
+permission of the copyright holder found at the beginning of this work.
+
+1.E.4. Do not unlink or detach or remove the full Project Gutenberg-tm
+License terms from this work, or any files containing a part of this
+work or any other work associated with Project Gutenberg-tm.
+
+1.E.5. Do not copy, display, perform, distribute or redistribute this
+electronic work, or any part of this electronic work, without
+prominently displaying the sentence set forth in paragraph 1.E.1 with
+active links or immediate access to the full terms of the Project
+Gutenberg-tm License.
+
+1.E.6. You may convert to and distribute this work in any binary,
+compressed, marked up, nonproprietary or proprietary form, including any
+word processing or hypertext form. However, if you provide access to or
+distribute copies of a Project Gutenberg-tm work in a format other than
+"Plain Vanilla ASCII" or other format used in the official version
+posted on the official Project Gutenberg-tm web site (www.gutenberg.org),
+you must, at no additional cost, fee or expense to the user, provide a
+copy, a means of exporting a copy, or a means of obtaining a copy upon
+request, of the work in its original "Plain Vanilla ASCII" or other
+form. Any alternate format must include the full Project Gutenberg-tm
+License as specified in paragraph 1.E.1.
+
+1.E.7. Do not charge a fee for access to, viewing, displaying,
+performing, copying or distributing any Project Gutenberg-tm works
+unless you comply with paragraph 1.E.8 or 1.E.9.
+
+1.E.8. You may charge a reasonable fee for copies of or providing
+access to or distributing Project Gutenberg-tm electronic works provided
+that
+
+- You pay a royalty fee of 20% of the gross profits you derive from
+ the use of Project Gutenberg-tm works calculated using the method
+ you already use to calculate your applicable taxes. The fee is
+ owed to the owner of the Project Gutenberg-tm trademark, but he
+ has agreed to donate royalties under this paragraph to the
+ Project Gutenberg Literary Archive Foundation. Royalty payments
+ must be paid within 60 days following each date on which you
+ prepare (or are legally required to prepare) your periodic tax
+ returns. Royalty payments should be clearly marked as such and
+ sent to the Project Gutenberg Literary Archive Foundation at the
+ address specified in Section 4, "Information about donations to
+ the Project Gutenberg Literary Archive Foundation."
+
+- You provide a full refund of any money paid by a user who notifies
+ you in writing (or by e-mail) within 30 days of receipt that s/he
+ does not agree to the terms of the full Project Gutenberg-tm
+ License. You must require such a user to return or
+ destroy all copies of the works possessed in a physical medium
+ and discontinue all use of and all access to other copies of
+ Project Gutenberg-tm works.
+
+- You provide, in accordance with paragraph 1.F.3, a full refund of any
+ money paid for a work or a replacement copy, if a defect in the
+ electronic work is discovered and reported to you within 90 days
+ of receipt of the work.
+
+- You comply with all other terms of this agreement for free
+ distribution of Project Gutenberg-tm works.
+
+1.E.9. If you wish to charge a fee or distribute a Project Gutenberg-tm
+electronic work or group of works on different terms than are set
+forth in this agreement, you must obtain permission in writing from
+both the Project Gutenberg Literary Archive Foundation and Michael
+Hart, the owner of the Project Gutenberg-tm trademark. Contact the
+Foundation as set forth in Section 3 below.
+
+1.F.
+
+1.F.1. Project Gutenberg volunteers and employees expend considerable
+effort to identify, do copyright research on, transcribe and proofread
+public domain works in creating the Project Gutenberg-tm
+collection. Despite these efforts, Project Gutenberg-tm electronic
+works, and the medium on which they may be stored, may contain
+"Defects," such as, but not limited to, incomplete, inaccurate or
+corrupt data, transcription errors, a copyright or other intellectual
+property infringement, a defective or damaged disk or other medium, a
+computer virus, or computer codes that damage or cannot be read by
+your equipment.
+
+1.F.2. LIMITED WARRANTY, DISCLAIMER OF DAMAGES - Except for the "Right
+of Replacement or Refund" described in paragraph 1.F.3, the Project
+Gutenberg Literary Archive Foundation, the owner of the Project
+Gutenberg-tm trademark, and any other party distributing a Project
+Gutenberg-tm electronic work under this agreement, disclaim all
+liability to you for damages, costs and expenses, including legal
+fees. YOU AGREE THAT YOU HAVE NO REMEDIES FOR NEGLIGENCE, STRICT
+LIABILITY, BREACH OF WARRANTY OR BREACH OF CONTRACT EXCEPT THOSE
+PROVIDED IN PARAGRAPH 1.F.3. YOU AGREE THAT THE FOUNDATION, THE
+TRADEMARK OWNER, AND ANY DISTRIBUTOR UNDER THIS AGREEMENT WILL NOT BE
+LIABLE TO YOU FOR ACTUAL, DIRECT, INDIRECT, CONSEQUENTIAL, PUNITIVE OR
+INCIDENTAL DAMAGES EVEN IF YOU GIVE NOTICE OF THE POSSIBILITY OF SUCH
+DAMAGE.
+
+1.F.3. LIMITED RIGHT OF REPLACEMENT OR REFUND - If you discover a
+defect in this electronic work within 90 days of receiving it, you can
+receive a refund of the money (if any) you paid for it by sending a
+written explanation to the person you received the work from. If you
+received the work on a physical medium, you must return the medium with
+your written explanation. The person or entity that provided you with
+the defective work may elect to provide a replacement copy in lieu of a
+refund. If you received the work electronically, the person or entity
+providing it to you may choose to give you a second opportunity to
+receive the work electronically in lieu of a refund. If the second copy
+is also defective, you may demand a refund in writing without further
+opportunities to fix the problem.
+
+1.F.4. Except for the limited right of replacement or refund set forth
+in paragraph 1.F.3, this work is provided to you 'AS-IS' WITH NO OTHER
+WARRANTIES OF ANY KIND, EXPRESS OR IMPLIED, INCLUDING BUT NOT LIMITED TO
+WARRANTIES OF MERCHANTIBILITY OR FITNESS FOR ANY PURPOSE.
+
+1.F.5. Some states do not allow disclaimers of certain implied
+warranties or the exclusion or limitation of certain types of damages.
+If any disclaimer or limitation set forth in this agreement violates the
+law of the state applicable to this agreement, the agreement shall be
+interpreted to make the maximum disclaimer or limitation permitted by
+the applicable state law. The invalidity or unenforceability of any
+provision of this agreement shall not void the remaining provisions.
+
+1.F.6. INDEMNITY - You agree to indemnify and hold the Foundation, the
+trademark owner, any agent or employee of the Foundation, anyone
+providing copies of Project Gutenberg-tm electronic works in accordance
+with this agreement, and any volunteers associated with the production,
+promotion and distribution of Project Gutenberg-tm electronic works,
+harmless from all liability, costs and expenses, including legal fees,
+that arise directly or indirectly from any of the following which you do
+or cause to occur: (a) distribution of this or any Project Gutenberg-tm
+work, (b) alteration, modification, or additions or deletions to any
+Project Gutenberg-tm work, and (c) any Defect you cause.
+
+
+Section 2. Information about the Mission of Project Gutenberg-tm
+
+Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
+electronic works in formats readable by the widest variety of computers
+including obsolete, old, middle-aged and new computers. It exists
+because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
+people in all walks of life.
+
+Volunteers and financial support to provide volunteers with the
+assistance they need are critical to reaching Project Gutenberg-tm's
+goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
+remain freely available for generations to come. In 2001, the Project
+Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
+and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
+To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
+and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
+and the Foundation web page at https://www.pglaf.org.
+
+
+Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive
+Foundation
+
+The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
+501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
+state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
+Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification
+number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at
+https://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
+permitted by U.S. federal laws and your state's laws.
+
+The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
+Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
+throughout numerous locations. Its business office is located at
+809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
+business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact
+information can be found at the Foundation's web site and official
+page at https://pglaf.org
+
+For additional contact information:
+ Dr. Gregory B. Newby
+ Chief Executive and Director
+ gbnewby@pglaf.org
+
+
+Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation
+
+Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
+spread public support and donations to carry out its mission of
+increasing the number of public domain and licensed works that can be
+freely distributed in machine readable form accessible by the widest
+array of equipment including outdated equipment. Many small donations
+($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
+status with the IRS.
+
+The Foundation is committed to complying with the laws regulating
+charities and charitable donations in all 50 states of the United
+States. Compliance requirements are not uniform and it takes a
+considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
+with these requirements. We do not solicit donations in locations
+where we have not received written confirmation of compliance. To
+SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
+particular state visit https://pglaf.org
+
+While we cannot and do not solicit contributions from states where we
+have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
+against accepting unsolicited donations from donors in such states who
+approach us with offers to donate.
+
+International donations are gratefully accepted, but we cannot make
+any statements concerning tax treatment of donations received from
+outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff.
+
+Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
+methods and addresses. Donations are accepted in a number of other
+ways including including checks, online payments and credit card
+donations. To donate, please visit: https://pglaf.org/donate
+
+
+Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic
+works.
+
+Professor Michael S. Hart was the originator of the Project Gutenberg-tm
+concept of a library of electronic works that could be freely shared
+with anyone. For thirty years, he produced and distributed Project
+Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.
+
+
+Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
+editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
+unless a copyright notice is included. Thus, we do not necessarily
+keep eBooks in compliance with any particular paper edition.
+
+
+Most people start at our Web site which has the main PG search facility:
+
+ https://www.gutenberg.org
+
+This Web site includes information about Project Gutenberg-tm,
+including how to make donations to the Project Gutenberg Literary
+Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to
+subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks.
diff --git a/34039-8.zip b/34039-8.zip
new file mode 100644
index 0000000..c1915ad
--- /dev/null
+++ b/34039-8.zip
Binary files differ
diff --git a/34039-h.zip b/34039-h.zip
new file mode 100644
index 0000000..f7fa82a
--- /dev/null
+++ b/34039-h.zip
Binary files differ
diff --git a/34039-h/34039-h.htm b/34039-h/34039-h.htm
new file mode 100644
index 0000000..9effaef
--- /dev/null
+++ b/34039-h/34039-h.htm
@@ -0,0 +1,4364 @@
+<!DOCTYPE HTML PUBLIC "-//W3C//DTD HTML 4.01 Transitional//EN" "http://www.w3.org/TR/html4/loose.dtd">
+<html>
+<head>
+ <title>Aquela Família, por Ladislau Patrício</title>
+ <meta name="Author" content="Ladislau Patrício">
+ <meta name="Edition" content="Coimbra: Moura Marques, 1914.">
+ <meta http-equiv="content-type" content="text/html; charset=iso-8859-15">
+ <style type="text/css">
+ body{margin-left: 10%;
+ margin-right: 10%;
+ }
+ .pn {
+ text-indent: 0em;
+ text-decoration: none;
+ position: absolute;
+ left: 92%;
+ font-size: smaller;
+ text-align: right;
+ color: silver;
+ }
+ #corpo p{text-align: justify; text-indent: 1.5em;}
+ h1, h2, h3, h4 {text-align: center; margin-top: 2em;}
+ h2 {text-align: center; margin-bottom: 2em;}
+ #corpo p.sinopse {margin: 2em; font-size: small; text-indent: -2em;}
+ #corpo p.ni {text-indent: 0;}
+ #corpo p.centrado {text-indent: 0; text-align: center;}
+ #corpo blockquote p {text-indent: 0;}
+ #corpo p.assin {text-indent: 0; text-align: right; margin-right: 2em;}
+ p.centrado {text-indent: 0; text-align: center;}
+ hr.dotted {border: 0; border-bottom: dotted 2px #000;}
+ hr {border: 0; border-bottom: solid 2px #000;}
+ blockquote {margin-left: 10%; font-size: small;}
+ #corpo .ilustracao p {text-align: center; font-size: small;}
+ a {text-decoration: none;}
+ .rodape {
+ font-size: 0.7em;
+ color: gray;
+ margin-left: 2em;
+ margin-right: 2em;
+ }
+ #corpo .rodape p {text-indent: 0;}
+ .errata {border-bottom: dotted 2px #aaaaaa;}
+ .typo {border-bottom: dotted 2px #77dd77;}
+ .fbox {border: solid black 1px; background-color: #FFFFCC; font-size: 0.8em;
+ margin-left: 10%; margin-right: 10%;}
+ .cap:first-letter {float: left; clear: left; margin: -0.2em 0.1em 0 0; margin-top: 0%;
+ padding: 0; line-height: .75em; font-size: 300%; text-align: justify;}
+ .cap {text-align: justify;}
+ .sc {text-transform: uppercase;}
+ </style>
+</head>
+
+<body>
+
+
+<pre>
+
+The Project Gutenberg EBook of Aquela Família, by Ladislau Patrício
+
+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.org
+
+
+Title: Aquela Família
+ (Tipos, caricaturas e episódios provincianos)
+
+Author: Ladislau Patrício
+
+Release Date: October 7, 2010 [EBook #34039]
+
+Language: Portuguese
+
+Character set encoding: ISO-8859-1
+
+*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK AQUELA FAMÍLIA ***
+
+
+
+
+Produced by Mike Silva
+
+
+
+
+
+</pre>
+
+
+<p> </p>
+<div style="border: solid 2px #000; padding: 1em;">
+<p style="text-align:center; font-size: 1.6em;">Ladislau
+Patrício</p>
+
+<p
+style="text-align:center; font-size: 3em;">Aquela        </p>
+
+<p
+style="text-align:center; font-size: 3em;">        família...</p>
+
+<p style="text-align:center; font-size: 1.2em;">(Tipos,
+caricaturas e episódios provincianos)</p>
+
+<p> </p>
+<p> </p>
+<p> </p>
+<p> </p>
+
+
+<p style="font-size: 1.2em;"><u>1914&mdash;COIMBRA<br>
+MOURA MARQUES<br>
+<small>Livreiro editor<br>
+19, Largo Miguel Bombarda, 25</small></u></p>
+</div>
+<p> </p>
+<p> </p>
+<p> </p>
+<p> </p>
+
+<p><span class="pn"><a name="pag_1">{1}</a></span></p>
+
+<p style="text-align:center; font-size: 1.8em;">Aquela família...</p>
+
+<p> </p>
+<p> </p>
+<p> </p>
+<p> </p>
+
+<p><span class="pn"><a name="pag_2">{2}</a></span></p>
+<hr>
+
+<p style="text-align:center; font-size: 0.8em;">TIPOGRAFIA
+PROGRESSO<br>
+<small>DE</small> D<small>OMINGOS</small> A<small>UGUSTO DA</small>
+S<small>ILVA</small><br>
+Rua Dr. Souza Viterbo, 91<br>
+Porto&mdash;1914</p>
+<hr>
+
+
+<p> </p>
+<p> </p>
+<p> </p>
+<p> </p>
+
+<p><span class="pn"><a name="pag_3">{3}</a></span></p>
+
+<p style="text-align:center; font-size: 1.6em;">Ladislau
+Patrício</p>
+
+<p
+style="text-align:center; font-size: 3em;">Aquela        </p>
+
+<p
+style="text-align:center; font-size: 3em;">        família...</p>
+
+<p style="text-align:center; font-size: 1.2em;">(Tipos,
+caricaturas e episódios provincianos)</p>
+
+<p> </p>
+<p> </p>
+<p> </p>
+<p> </p>
+
+
+<p style="font-size: 1.2em;"><u>1914&mdash;COIMBRA<br>
+MOURA MARQUES<br>
+<small>Livreiro editor<br>
+19, Largo Miguel Bombarda, 25</small></u></p>
+
+<div id="corpo">
+<p><span class="pn"><a name="pag_4">{4}</a><br><a name="pag_5">{5}</a></span></p>
+
+<h1>Aquela família...</h1>
+
+<p><span class="pn"><a name="pag_6">{6}</a><br><a name="pag_7">{7}</a></span></p>
+
+<h2>Aquela família...</h2>
+
+<div class="cap">
+A <span class="sc">princípio</span> eu ia só, numa carruagem de
+<em>segunda</em>, o que me permitia desfrutar o panorama e gozar uma relativa
+comodidade. Mas mais adiante, numa estação qualquer, mal o comboio parou, a
+portinhola abriu-se e o meu compartimento foi invadido de assalto por uma
+família inteira que atravancava tudo: rêdes, bancos, o menor espaço disponível,
+com malas, embrulhos e cestinhos,&mdash;uma infinidade de volumes!</div>
+
+<p>O chefe do rancho era um homem nédio, sanguíneo, que rebocava uma senhora
+pesada (onde eu adivinhei a espôsa) e mais duas raparigas e um garoto, de
+marinheiro, magrinho, linfático e triste.</p>
+
+<p>Auxiliei-os. Fiz menção de ajudar as damas<span class="pn"><a
+name="pag_8">{8}</a></span> a subir. E quando a máquina apitou e o trem se pôs
+em marcha com um ranger de molas e de engates, ainda nós todos dispúnhamos a
+bagagem amontoada nas proporções dum Himalaia.</p>
+
+<p>Agradeceram, muito penhorados; e depois de instalados convenientemente, o
+dono de tudo aquilo, que limpava com um lenço enorme as bagas de suor, pediu-me
+licença para tirar o casaco e envergar o guarda-pó.</p>
+
+<p>&mdash;Parece que estamos no Congo! justificou. Este calor está mesmo a exigir
+tanga...</p>
+
+<p>Eu sorri, relanceando um olhar às donzelas, que sorriram tambêm,
+ruborizadas, daquela ideia africana do papá. E êste, farejando em mim uma
+índole comunicativa, inquiriu satisfeito:</p>
+
+<p>&mdash;O cavalheiro vem de Lisboa?</p>
+
+<p>&mdash;Não senhor. Eu sou da Beira.</p>
+
+<p>&mdash;Da Beira!... Então é de Vizeu?</p>
+
+<p>Sorri de novo, discretamente, respeitando as noções corográficas do viajante
+simplório, que o acaso colocára assim na minha presença.<span class="pn"><a
+name="pag_9">{9}</a></span></p>
+
+<p>Apressei-me por isso a confirmar:</p>
+
+<p>&mdash;Sou de Vizeu...</p>
+
+<p>&mdash;Nesse caso conhece lá o Gastão?</p>
+
+<p>&mdash;O Gastão?!</p>
+
+<p>&mdash;Sim, o Gastão Vieira, dos Impostos.</p>
+
+<p>Achei divertido conhecer o Gastão. Recordei-me:</p>
+
+<p>&mdash;Ora se conheço! Estou doido! Conheço perfeitamente...</p>
+
+<p>Mas depressa caí em mim, reflecti que podia ser colhido na mentira. Foi,
+portanto, para eximir-me a perguntas que ferviam já nos lábios do companheiro
+que eu perguntei do meu lado:</p>
+
+<p>&mdash;E V. Ex.ª? V. Ex.ª é daqui dêstes sitios?</p>
+
+<p>&mdash;Sim senhor. Mas agora vamos para banhos. Isto que o sr. aqui vê (com um
+gesto circular indicava a família) pertence-me. O rapaz é fraquito, tem
+escrófulas (apontava o pescoço do fedelho) olhe!&mdash;Dizia-me o dr. Maia...
+Conhece?</p>
+
+<p>Declarei que não.</p>
+
+<p>&mdash;Pois admira... Espere, agora me lembro: deve conhecer. Êle até costuma ir
+muito<span class="pn"><a name="pag_10">{10}</a></span> a Vizeu. É irmão do
+padre Levi, Levi da Maia, duma família muito ilustre que tem uma irmã
+viscondessa. O sr. conhece com certeza...</p>
+
+<p>E como eu insistisse na negativa:</p>
+
+<p>&mdash;O padre Levi, homem! o que escreve no <em>Vouga</em>... Não conhece o
+senhor outra coisa!</p>
+
+<p>Tive de lhe dizer que sim.</p>
+
+<p>Havia-me insinuado já no ânimo duma das meninas com quem entretinha desde a
+última estação um namôro matreiro: e apontava-lhe como flechas os olhos
+amorudos, dardejando-me ela os seus, redondinhos, negros, sertanejos...</p>
+
+<p>&mdash;Pois o dr. Maia,&mdash;tornava o pai&mdash;dizia-me muita vez: «Alves, leve você o
+rapaz ao mar; leve você o rapaz ao mar que se cura.»&mdash;Mas ó doutor, veja lá,
+tenho agora tantos afazeres (e tinha) se o rapaz fôsse coisa que se pudesse aí
+endireitar, que demónio, tomando umas drogas...«&mdash;Não, não, sem banhos não se
+põe direito.»&mdash;Que havia eu de fazer? Que fazia o senhor nas minhas
+condições?<span class="pn"><a name="pag_11">{11}</a></span></p>
+
+<p>Esperou resposta; e como lha não désse:</p>
+
+<p>&mdash;Saía, não é verdade?</p>
+
+<p>&mdash;Pois claro!</p>
+
+<p>&mdash;Foi o que eu fiz. Mando arranjar as malas, tranco a porta, meto toda esta
+tropa no comboio... e cá vamos!</p>
+
+<p>&mdash;Faz muito bem.</p>
+
+<p>&mdash;Acha?...&mdash;poisava a sua mão sapuda na minha côxa, todo familiar.&mdash;Acha
+então o cavalheiro que faço bem?...</p>
+
+<p>&mdash;Mas isso nem se pergunta! aplaudi sem reservas.&mdash;-Mesmo que não houvesse
+precisão, que infelizmente há; bastava só a ideia de irem gozar!</p>
+
+<p>&mdash;Gozar! Mas olhe que se gasta um dinheirão!</p>
+
+<p>&mdash;Pois gasta. E isso que tem? A gente não vive só do que mete no estômago. É
+preciso ver, dar de comer aos olhos.</p>
+
+<p>&mdash;Dar de comer a quê?</p>
+
+<p>&mdash;Aos olhos...</p>
+
+<p>&mdash;Huum! mugiu.</p>
+
+<p>Não percebêra. Suava com o calor, nas fontes, nas bochechas, mórmente nos
+refêgos<span class="pn"><a name="pag_12">{12}</a></span> do cachaço, duma
+grande riquêsa de tecidos celulares...</p>
+
+<p>Entrou depois a divagar sôbre economias expondo-me numa franqueza saloia o
+orçamento da viagem; e tentou por último explicar pela hereditariedade a
+compleição mórbida do filho:</p>
+
+<p>&mdash;Isto é de familia! O avô dêle, meu pai, tambêm assim era: sempre doente,
+sempre com remédios. Mas a avó, é curioso! robusta, còrada, parecendo que
+vendia saúde... Eu, aonde me vê, nunca tive uma dôr de cabeça! Mas já um tio
+que nos morreu há três anos...&mdash;Voltou-se para uma das filhas:&mdash;O tio
+Aristides...</p>
+
+<p>&mdash;Ah!</p>
+
+<p>E relatou o que era êsse tio, com os seus achaques, suas mazelas, seus
+ungùentos e seus tumores supurativos, em salvo lugar...</p>
+
+<p>Alves dispunha-se em suma a fazer-me seguir todas as ramificações
+patológicas da sua ascendência! Passei a não lhe responder, dizendo-lhe a tudo
+<em>que sim</em>, com a cabeça.</p>
+
+<p>E a rapariga, de lá, muito meiga...<span class="pn"><a
+name="pag_13">{13}</a></span></p>
+
+<p>No meio desta felicidade, porêm, a certa altura&mdash;na altura de
+Ovar&mdash;passou-se um episódio triste, de que fui vítima, o qual produziu profundo
+desgôsto em todos nós. Fôra o caso que, sobranceira ao meu lugar, ia uma cesta;
+senão quando, aí se põe ela a mijar sôbre mim, no meu chapéu mole, qualquer
+gorduroso líquido em fio... Ergo-me dum pulo. Houve um alvoroço no
+compartimento. Alves gritou: «oh, demónio! oh, demónio!»</p>
+
+<p>Entretanto alguêm explicava que tinha sido o môlho do peixe que se
+entornára...</p>
+
+<p>O môlho do peixe!</p>
+
+<p>Eu tinha então já tirado o meu chapéu e olhava desolado a nódoa negra,
+enorme, que alastrava, se embebia no feltro da aba, inutilizando-o sem
+remédio!</p>
+
+<p>Côro de lamentações e desculpas:</p>
+
+<p>&mdash;Ora esta!</p>
+
+<p>&mdash;Uma assim!</p>
+
+<p>&mdash;Só a nós é que acontece...</p>
+
+<p>E de coração alanceado, com ancias de espancar aquela gente bárbara, eu
+ainda ganhei fôrças para lhes dizer:<span class="pn"><a
+name="pag_14">{14}</a></span></p>
+
+<p>&mdash;Não faz mal; não se incomodem. Até tem graça! Pelo amor de Deus!...</p>
+
+<p>Ocorreu todavia aqui uma coisa galante que me cativou: essa das duas meninas
+que me havia já endoidado o coração, num movimento impulsivo e no mais aceso da
+balbúrdia que se estabelecêra, tira do seio o lencinho de assoar e veio enxugar
+com êle a nódoa indelével.</p>
+
+<p>Esquivei-me desvanecido:</p>
+
+<p>&mdash;Oh, minha senhora...</p>
+
+<p>E com o lenço enrolado à laia de esponja, ela ia chupando, chupando...</p>
+
+<p>&mdash;Se calhar era novo...&mdash;disse-me, a meia-voz.</p>
+
+<p>Respondi:</p>
+
+<p>&mdash;Era novo.</p>
+
+<p>&mdash;E bom?</p>
+
+<p>Fiz um gesto de grandeza:</p>
+
+<p>&mdash;Dezoito tostoes!</p>
+
+<p>Alves voltou-se espantado para a espôsa, que segredou a importância a outra
+filha, a quem o irmãosito&mdash;que viera à janela do vagom a ver a máquina&mdash;pedia
+choramigando<span class="pn"><a name="pag_15">{15}</a></span> e arregalando um
+dos olhos que lhe tirasse um <em>algueiro</em>...</p>
+
+<p>Daí a momentos o comboio parava:</p>
+
+<p>&mdash;Espinho!</p>
+
+<p>Era a estação onde êles se apeavam. Alves foi o primeiro a levantar-se;
+tirou a carteira e entregando-me um bilhete ofereceu-me os seus «fracos
+préstimos», pedindo mais uma vez desculpa do desastre. As senhoras
+cumprimentaram igualmente e quizeram tambêm que eu as desculpasse. Eu
+desculpei-as. E a mãozinha da minha efêmera namorada, ao despedir-se, tremia
+como um passarinho, quando lha apertei numa pressão significativa. Segui-a com
+a vista até desaparecer pela porta da estação; e numa derradeira vez que ela se
+voltou a olhar-me, não sei, mas ia jurar que lhe vi lágrimas...</p>
+
+<p>Encostei-me então a um canto, sorumbático, a fumar. O meu espírito oscilava
+como um pêndulo entre a suave lembrança daquela trigueira (eu ainda lhes não
+disse que ela era trigueira) e a ideia negra do meu chapéu manchado. Ambos
+perdidos já agora para mim!<span class="pn"><a name="pag_16">{16}</a></span>
+ambos, pela fôrça do Destino! Pela distância que ia separar-me dela para não
+mais talvez a tornar a ver; pela mácula que dêle me apartava para nunca mais
+porventura o poder usar!</p>
+
+<p>Encarava eu filosoficamente a situação por êste lado, quando á janela do
+compartimento assomou de novo o focinho do Alves, a farejar-me, a dizer:</p>
+
+<p>&mdash;V. Ex.ª faz-me um obséquio? Não se esquece, quando regressar a Vizeu, de
+me recomendar muito ao meu amigo Gastão. Eu, tambêm, quando lhe escrever,
+hei-de falar muito de V. Ex.ª e da simpatia que nos inspirou a todos. Criado de
+V. Ex.ª...</p>
+
+<p>Ouviram-se os sinais da partida. Estendemos as mãos cordialmente; e ao
+pôr-se o comboio em andamento, Alves, com a minha dextra apertada, lembrou:</p>
+
+<p>&mdash;Ah! E que lá recebi as pêras... Diga-lhe tambêm isso, sim? Deliciosas!
+Deliciosas!</p>
+
+<p>Corria junto da carruagem, ao longo da <em>gare</em>, gritando ainda a
+plenos pulmões:</p>
+
+<p>&mdash;Deliciosas!<span class="pn"><a name="pag_17">{17}</a></span></p>
+
+<h1>A bôca do sapo</h1>
+
+<p><span class="pn"><a name="pag_18">{18}</a><br><a name="pag_19">{19}</a></span></p>
+
+<h2>A bôca do sapo</h2>
+
+<blockquote>
+ <p><em>Interior caseiro, modestamente mobilado. CARLOS e MARIA CELESTE
+ conversam sentados, junto duma mêsa. A voz dêle tem um timbre imperativo e
+ enérgico; a dela é aveludada, melodiosa, humilde.</em></p>
+
+ <p><em>Tarde de novembro. Ameaça chover.</em></p>
+</blockquote>
+
+<p class="centrado">CARLOS</p>
+
+<div class="cap">
+C<span class="sc">ompreendes</span> que me seria muito desagradável que alguêm
+soubesse o que tem havido entre nós...</div>
+
+<p class="centrado">MARIA CELESTE, <em>como se despertasse</em>:</p>
+
+<p>Ah!... o que tem havido...</p>
+
+<p class="centrado">CARLOS</p>
+
+<p>Ou o que possa porventura haver ainda... Porque eu, apesar do que vai
+acontecer, não<span class="pn"><a name="pag_20">{20}</a></span> quero romper
+comtigo duma maneira absoluta. Não se vive impunemente três anos com uma
+mulher. És uma rapariga de coração&mdash;não to digo para que mo agradeças; e sinto
+que não devo abandonar-te...</p>
+
+<p class="centrado">MARIA CELESTE</p>
+
+<p>Não, Carlos, enganas-te; eu nunca mais serei tua, haja o que houver. Nunca
+mais!</p>
+
+<p class="centrado">CARLOS</p>
+
+<p>Endoidecêste?!</p>
+
+<p class="centrado">MARIA CELESTE</p>
+
+<p>Creio que não endoideci. Vamos separar-nos, hoje, por toda a vida. Se alguma
+vez nos encontrarmos já não serás o mesmo homem... nem eu a mesma mulher. Não
+nos conheceremos.</p>
+
+<p class="centrado">CARLOS</p>
+
+<p>Ora! ora!</p>
+
+<p class="centrado">MARIA CELESTE</p>
+
+<p>Afirmo-to!<span class="pn"><a name="pag_21">{21}</a></span></p>
+
+<p class="centrado">CARLOS</p>
+
+<p>Terás essa coragem?!</p>
+
+<p class="centrado">MARIA CELESTE</p>
+
+<p>Se terei essa coragem!...</p>
+
+<p class="centrado">CARLOS, <em>após uns momentos de reflexão,
+conciliador</em>:</p>
+
+<p>Bem, não compliquemos as coisas: deixa-te de criancices.</p>
+
+<p class="centrado">MARIA CELESTE</p>
+
+<p>Criancices?!</p>
+
+<p class="centrado">CARLOS</p>
+
+<p>Decerto. Não consegues convencer-me que essa tua resolução seja
+inabalável.</p>
+
+<p class="centrado">MARIA CELESTE</p>
+
+<p>Verás.</p>
+
+<p class="centrado">CARLOS</p>
+
+<p>Ou nunca me tiveste amor.<span class="pn"><a
+name="pag_22">{22}</a></span></p>
+
+<p class="centrado">MARIA CELESTE</p>
+
+<p>Seja: nunca te tive amor...</p>
+
+<p class="centrado">CARLOS, <em>apreensivo</em>:</p>
+
+<p>E talvez. Se fosses minha amiga não te resignavas facilmente a perder-me.
+Havia de custar-te a suportar um abandono, quanto mais...</p>
+
+<p class="centrado">MARIA CELESTE</p>
+
+<p>Por isso mesmo,&mdash;porque sou tua amiga...</p>
+
+<p class="centrado">CARLOS</p>
+
+<p>Palavras...</p>
+
+<p class="centrado">MARIA CELESTE</p>
+
+<p>Não quero tornar-me um fardo para ti.</p>
+
+<p class="centrado">CARLOS, <em>que principia a indignar-se</em>:</p>
+
+<p>Palavras! Palavras!<span class="pn"><a name="pag_23">{23}</a></span></p>
+
+<blockquote>
+ <p><em>Faz-se silêncio. Os dois ficam absortos, sem se olharem.</em></p>
+</blockquote>
+
+<p class="centrado">CARLOS, <em>com uma serenidade forçada, momentos
+depois</em>:</p>
+
+<p>Não queres certamente atribuir-me a responsabilidade do que sucedeu...</p>
+
+<p class="centrado">MARIA CELESTE</p>
+
+<p>Nem tenho êsse direito.</p>
+
+<p class="centrado">CARLOS</p>
+
+<p>Sabes muito bem como as coisas se passaram.</p>
+
+<p class="centrado">MARIA CELESTE</p>
+
+<p>Sei.</p>
+
+<p class="centrado">CARLOS</p>
+
+<p>Não ignoravas que um dia eu havia de me casar.</p>
+
+<p class="centrado">MARIA CELESTE</p>
+
+<p>Não ignorava.<span class="pn"><a name="pag_24">{24}</a></span></p>
+
+<p class="centrado">CARLOS</p>
+
+<p>Tive a franqueza, a lialdade de to confessar muito antes de me
+pertenceres.</p>
+
+<p class="centrado">MARIA CELESTE</p>
+
+<p>Tiveste.</p>
+
+<p class="centrado">CARLOS</p>
+
+<p>Tentei até por varios meios evitar a tua falta. Lembra-te que fôste minha
+por tua livre e espontânea vontade!</p>
+
+<p class="centrado">MARIA CELESTE</p>
+
+<p>Lembro, lembro...</p>
+
+<p class="centrado">CARLOS</p>
+
+<p>O teu acto foi, portanto, premeditado...</p>
+
+<p class="centrado">MARIA CELESTE</p>
+
+<p>Pois foi.</p>
+
+<p class="centrado">CARLOS</p>
+
+<p>Não representa o cego impulso dum momento de paixão que eu ateasse, com a
+mira<span class="pn"><a name="pag_25">{25}</a></span> numa conquista. Eu
+disse-te: «Maria Celeste, pensa, reflecte, olha o que te póde suceder...
+esquece-me». É isto verdade?</p>
+
+<p class="centrado">MARIA CELESTE</p>
+
+<p>É.</p>
+
+<p class="centrado">CARLOS</p>
+
+<p>Só tu fôste nêsse caso responsável. Fôste tu que assim o quiseste...</p>
+
+<p class="centrado">MARIA CELESTE</p>
+
+<p>Fui eu que assim o quis.</p>
+
+<p class="centrado">CARLOS</p>
+
+<p>Pois bem. E agora, quando podia abandonar-te sem remorsos, apenas com a
+amarga saùdade do que tens sido para mim; e que venho oferecer-te,
+desinteressadamente, a promessa de continuar a ser para ti um amigo, um
+protector... alguêm...<span class="pn"><a name="pag_26">{26}</a></span></p>
+
+<p class="centrado">MARIA CELESTE, <em>com tristeza</em>:</p>
+
+<p>Alguêm!...</p>
+
+<p class="centrado">CARLOS</p>
+
+<p>Sim! E repeles-me, afastas-me como se eu fôsse o pior, o mais grosseiro, o
+mais indigno dos homens!</p>
+
+<p class="centrado">MARIA CELESTE</p>
+
+<p>Carlos!</p>
+
+<p class="centrado">CARLOS, <em>fóra de si</em>:</p>
+
+<p>Oh! a ingratidão!... A ingratidão!</p>
+
+<blockquote>
+ <p><em>MARIA CELESTE cala-se, sucumbida. Os olhos arrasam-se-lhe de lágrimas;
+ e ficam assim os dois numa nervosa hostilidade, êle a passear na sala,
+ resmungando censuras, e ela chorando, muda e convulsivamente, sôbre o lenço
+ molhado.</em></p>
+</blockquote>
+
+<p class="centrado">MARIA CELESTE, <em>dominando a comoção</em>:</p>
+
+<p>Não quero que me consideres uma despeitada. Justifico a tua cólera, as
+palavras severas<span class="pn"><a name="pag_27">{27}</a></span> que me
+diriges, tudo, emfim, porque te compreendo... porque te estimo. Ainda bem que
+reconheces que eu não fui para ti uma amante vulgar. E não fui. Amei-te com um
+amor verdadeiro, livre, sem condições. É certo que me aconselhaste, que me
+preveniste a tempo, mas... de que servia? Só quem não ama sabe interpretar
+conselhos e ouvir razões... Quantas vezes, comigo, no isolamento do meu quarto,
+calculei a profundidade do abismo em que cairia se me deixasse levar pelo
+coração. Pobre de mim! Mil vezes deliberei não te receber, mil vezes não te
+falar mais, nunca mais! Mas apenas subias aquelas escadas e ouvia o ruido dos
+teus passos... oh! então, o meu juizo turbava-se, as minhas mãos arrefeciam, a
+minha alma, o meu corpo, a minha vida inteira, fugiam para ti! E pensava: é o
+Destino...&mdash;Uma tarde, uma noite, sabes bem o que se passou... Era o céu, era a
+felicidade que se me deparava. Sabia que isto não podia durar sempre, que tudo
+acabaria depressa... que havias de te casar: tu disséras-mo!... Mas achava-me
+tão bem, tão contente de viver<span class="pn"><a name="pag_28">{28}</a></span>
+assim, que não pensava, não queria pensar que essa hora amarga chegaria breve!
+(<em>Comovida</em>:) O que me prendeu a ti, sobretudo, foi a tua franqueza,
+êsse mixto de compaixão e indiferença que por mim professavas, os melindres da
+tua consciência, a previsão do que poderia resultar, na certeza de lhe não
+dares remédio... Tudo isso me tentou, me seduziu como uma coisa terrível que se
+teme&mdash;e que irresistivelmente nos atrai...</p>
+
+<p class="centrado">CARLOS, <em>condoído</em>:</p>
+
+<p>Fui para ti&mdash;pobre dòninha inconsciente e louca!&mdash;uma espécie de bôca do
+sapo, queres dizer...</p>
+
+<p class="centrado">MARIA CELESTE</p>
+
+<p>Fôste o meu único, o meu exclusivo amor na vida! (<em>Fita-o nos olhos
+penetrantemente</em>). Anda, diz'-me lá se isto não é assim, se isto não é
+verdade?!...</p>
+
+<p class="centrado">CARLOS, <em>impressionado</em>:</p>
+
+<p>Ouve-me, Maria Celeste, escuta...<span class="pn"><a
+name="pag_29">{29}</a></span></p>
+
+<p class="centrado">MARIA CELESTE</p>
+
+<p>Não, não! não posso... não teimes.</p>
+
+<p class="centrado">CARLOS</p>
+
+<p>Sê razoável...</p>
+
+<p class="centrado">MARIA CELESTE</p>
+
+<p>Não teimes. Quero conservar-me sempre digna de ti.</p>
+
+<blockquote>
+ <p><em>Há um silêncio concentrado.</em></p>
+</blockquote>
+
+<p class="centrado">CARLOS, <em>numa ideia repentina</em>:</p>
+
+<p>E se eu desistisse de casar? Ou antes, se te dissesse para casares
+comigo?...</p>
+
+<blockquote>
+ <p><em>Olha-a com ansiedade.</em></p>
+</blockquote>
+
+<p class="centrado">MARIA CELESTE, <em>resolutamente</em>:</p>
+
+<p>Não aceitaria.</p>
+
+<p class="centrado">CARLOS</p>
+
+<p>Quê!?<span class="pn"><a name="pag_30">{30}</a></span></p>
+
+<p class="centrado">MARIA CELESTE</p>
+
+<p>Não aceitaria. Pelas cinzas de minha mãe, acredita!</p>
+
+<p class="centrado">CARLOS, <em>abismado</em>:</p>
+
+<p>E porquê?!</p>
+
+<p class="centrado">MARIA CELESTE</p>
+
+<p>Porquê?...</p>
+
+<p class="centrado">CARLOS</p>
+
+<p>Sim.</p>
+
+<p class="centrado">MARIA CELESTE</p>
+
+<p>Porque tens uma noiva, porque empenhaste a tua palavra. Depois...</p>
+
+<p class="centrado">CARLOS</p>
+
+<p>Depois...</p>
+
+<p class="centrado">MARIA CELESTE</p>
+
+<p>Porque me não amas, Carlos...<span class="pn"><a
+name="pag_31">{31}</a></span></p>
+
+<p class="centrado">CARLOS</p>
+
+<p>Mentes!</p>
+
+<p class="centrado">MARIA CELESTE</p>
+
+<p>Como queiras... (<em>Pausa</em>) Eu fui para ti apenas isto: uma pobre
+rapariga que te interessou: uma curiosidade, uma aventura...</p>
+
+<p class="centrado">CARLOS</p>
+
+<p>Uma aventura! Mas devo-te o que não devo a ninguêm!</p>
+
+<p class="centrado">MARIA CELESTE</p>
+
+<p>?!</p>
+
+<p class="centrado">CARLOS</p>
+
+<p>A tua honra. Déste-me a tua honra!</p>
+
+<p class="centrado">MARIA CELESTE, <em>com simplicidade</em>:</p>
+
+<p>Pois nada mais tenho que te dar...</p>
+
+<p class="centrado">CARLOS</p>
+
+<p>Como dizes isso!<span class="pn"><a name="pag_32">{32}</a></span></p>
+
+<p class="centrado">MARIA CELESTE</p>
+
+<p>Digo o que sinto.</p>
+
+<p class="centrado">CARLOS, <em>depois duma longa pausa</em>:</p>
+
+<p>E que has-de fazer agora? Queres continuar a viver como vivias?</p>
+
+<p class="centrado">MARIA CELESTE, <em>encolhendo os ombros</em>:</p>
+
+<p>Sei lá!...</p>
+
+<p class="centrado">CARLOS</p>
+
+<p>Podias ter sido feliz com outro homem...</p>
+
+<p class="centrado">MARIA CELESTE, <em>convictamente</em>:</p>
+
+<p>Não o podia ser com mais ninguêm.</p>
+
+<p class="centrado">CARLOS</p>
+
+<p>Sacrifício inutil...</p>
+
+<p class="centrado">MARIA CELESTE</p>
+
+<p>Não há sacrifícios inuteis nêste mundo, meu amigo... Demais, tu fôste para
+mim o<span class="pn"><a name="pag_33">{33}</a></span> que tinhas de ser... Não
+és culpado do meu infortúnio. Estou satisfeita, crê,&mdash;recompensada.
+(<em>Tentando convencê-lo</em>): Tu não fizeste mais do que aproveitar uma
+mulher que se te oferecia...</p>
+
+<p class="centrado">CARLOS, <em>enternecido, toma-lhe as mãos, que
+beija</em>:</p>
+
+<p>És uma santa! (<em>Com uma infinita saùdade a transparecer-lhe na voz</em>)
+E lembrar-me que amanhã tenho de deixar-te!...</p>
+
+<p class="centrado">MARIA CELESTE</p>
+
+<p>Paciência...</p>
+
+<p class="centrado">CARLOS</p>
+
+<p>... que nunca mais tornarei a ver-te! que nunca mais porei aqui os pés em
+tua casa!</p>
+
+<p class="centrado">MARIA CELESTE</p>
+
+<p>Nunca.</p>
+
+<p class="centrado">CARLOS</p>
+
+<p>Nem que um dia precise de ti?<span class="pn"><a
+name="pag_34">{34}</a></span></p>
+
+<p class="centrado">MARIA CELESTE</p>
+
+<p>Nem que um dia precises de mim.</p>
+
+<p class="centrado">CARLOS</p>
+
+<p>É o fim de tudo, visto isso?</p>
+
+<p class="centrado">MARIA CELESTE</p>
+
+<p>De tudo.</p>
+
+<p class="centrado">CARLOS, <em>num movimento impulsivo, de protesto:</em></p>
+
+<p>Não, Maria Celeste, não é! Renuncia a êsses teus propositos. Eu não posso,
+não quero deixar-te.</p>
+
+<p class="centrado">MARIA CELESTE, <em>incrédula</em>:</p>
+
+<p>Não queres...</p>
+
+<p class="centrado">CARLOS</p>
+
+<p>Não quero. Duvidas?<span class="pn"><a name="pag_35">{35}</a></span></p>
+
+<p class="centrado">MARIA CELESTE</p>
+
+<p>Duvido. O que te impressiona agora é a minha presença. Quando saíres daqui
+tudo se desvanecerá como fumo...</p>
+
+<p class="centrado">CARLOS, <em>sucumbido</em>:</p>
+
+<p>Tudo se desvanecerá!</p>
+
+<p class="centrado">MARIA CELESTE</p>
+
+<p>Sim. Repara que eu fui para ti simplesmente&mdash;uma amante...</p>
+
+<p class="centrado">CARLOS</p>
+
+<p>E então?</p>
+
+<p class="centrado">MARIA CELESTE</p>
+
+<p>Acabou tudo nêste dia em que começo a tornar-me um embaraço para a tua
+felicidade...</p>
+
+<p class="centrado">CARLOS</p>
+
+<p>Maria Celeste: juro-te!<span class="pn"><a name="pag_36">{36}</a></span></p>
+
+<p class="centrado">MARIA CELESTE</p>
+
+<p>Não jures. Tu no fundo sentes isto mesmo, mas não tens coragem de mo
+dizer... És bom, tens dó de mim. Mas nem todo o teu dó, nem toda a tua bondade
+conseguem dar-me a ilusão de que sou amada!...</p>
+
+<p>A que horas partes amanhã?...<span class="pn"><a
+name="pag_37">{37}</a></span></p>
+
+<h1>Sr. Anselmo</h1>
+
+<h4>(Perfil grotesco dum provinciano ilustre)</h4>
+
+<h3>(1906)</h3>
+
+<h3>I</h3>
+
+<p><span class="pn"><a name="pag_38">{38}</a><br><a name="pag_39">{39}</a></span></p>
+
+<h2>Sr. Anselmo</h2>
+
+<h4>(Perfil grotesco dum provinciano ilustre)</h4>
+
+<h3>(1906)</h3>
+<hr style="width: 30%;">
+
+<h2>I</h2>
+
+<div class="cap">
+N<span class="sc">asci</span> em 74&mdash;eu, Teotónio Mendes, de muito boa
+família.</div>
+
+<p>Tenho, portanto, actualmente (1906) trinta e dois anos.</p>
+
+<p>A minha vila fica entre serras, na vertente dum vale, e o calor ali aperta
+sempre muito.</p>
+
+<p>Naquele verão sobretudo (eu não sei se os senhores estão bem lembrados) no
+verão a que se referem êstes acontecimentos, mal se respirava. As fontes
+secaram; a vegetação, sequiosa, sufocava sob ardentes nuvens<span class="pn"><a
+name="pag_40">{40}</a></span> de poeira, e as pedras nos caminhos quase
+estalavam com o sol.</p>
+
+<p>Horrível!</p>
+
+<p>Ha quatro mêses que não chovia. Moviam-se préces ao Altíssimo, celebravam-se
+procissões, missas&mdash;<em>ad petendam pluviam</em>&mdash;mas do céu afogueado e
+sêco... nem pinga!</p>
+
+<p><em>Cumulus</em> de trovoada, no horisonte longínquo, relampejavam em noites
+caladas, logo desaparecendo varridos dum bafo môrno de canículas.</p>
+
+<p>Dizia-se, farejando as alturas:</p>
+
+<p>&mdash;Isto é que vai ser! isto é que vai ser!</p>
+
+<p>Os dias sucediam-se no emtanto ronceiros, bocejados, com um firmamento
+implacável, de bronze, e a aflição da terra calcinada e triste.</p>
+
+<p>O termómetro de Anselmo continuava a marcar muitos graus. Êste Anselmo,
+farmaceutico, grande influente político na localidade, era com efeito uma
+figura curiosa e típica. Inteligente, astuto, conhecido árbitro em questões de
+pêso, dava as leis e orientava a mentalidade sertanêja da vilota.</p>
+
+<p>Mesmo os mais orgulhosos e independentes,<span class="pn"><a
+name="pag_41">{41}</a></span> senhores do seu nariz, sofriam a sugestão
+infalível daquela poderosa vontade.</p>
+
+<p>&mdash;Ali, na Turquia...&mdash;dizia por exemplo êle.</p>
+
+<p>E tinha a gente a impressão de que a Turquia era ali mesmo, a dois passos,
+que podiamos lá chegar se quiséssemos,&mdash;a pé!</p>
+
+<p>Anselmo todavia nunca viajára. Perdão! foi uma vez a Lisboa por três dias, e
+viu a Galvâni no Coliseu.</p>
+
+<p>&mdash;Que tal? perguntaram-lhe, quando voltou.</p>
+
+<p>&mdash;Um rouxinol!</p>
+
+<p>Já essa noite no club, o fidalgo da Véla, homem na verdade muito entendido
+de música, recomendava:</p>
+
+<p>&mdash;-É preciso ir a Lisboa... à Galvâni. Diz o Anselmo que é um rouxinol.</p>
+
+<p>Geradas nas bitesgas do seu cérebro e reveladas depois a um círculo de
+amigos no cantinho da farmácia, as suas ideias extravasavam cá por fóra,
+caudalosas, engrossando, impondo-se, fazendo opinião. Alvitre que trouxesse
+marca de tão abalisada procedência, dava sempre<span class="pn"><a
+name="pag_42">{42}</a></span> coisa que se visse, convertia-se logo em
+rialidade: fôsse uma árvore, um baile, o itenerário num cortejo, um
+espectáculo&mdash;um urinol.</p>
+
+<p>Casado, sem filhos (e sem esperanças já agora de os fabricar) Anselmo
+professava pela espôsa um amor e um respeito inconcebíveis. Se alguêm diante
+dêle referisse factos menos edificantes ou alarmasse a assistência com a nova
+dalgum moderno escandalo em supuração, comentava ruborisado e colérico:</p>
+
+<p>&mdash;Deboche! Indecência! Quem quer mulher arranja-a, mas casa-se, que é o que
+todo o homem limpo deve fazer.</p>
+
+<p>Ela, a D. Ermelinda, correspondia a essa louvável demonstração de bons
+sentimentos da parte do marido, com uma dedicação sem limites, a que a sua
+enorme fealdade&mdash;uma «fealdade específica», como diz Camilo&mdash;prestava fiança
+idónea.</p>
+
+<p> </p>
+
+<p>Além do termómetro havia tambêm na farmácia um barómetro. E todos os dias
+amigo<span class="pn"><a name="pag_43">{43}</a></span> Anselmo informava a vila
+e arredores com aquele rigor meticuloso, scientífico, aquela probidade
+verdadeiramente spartana, que era um dos ornamentos hereditários do seu
+caracter...</p>
+
+<p>Ninguêm saía da terra, ninguêm projectava uma viajem, um passeio, que não
+fôsse primeiro consultar o Anselmo:</p>
+
+<p>&mdash;Que diz você?</p>
+
+<p>E Anselmo, do alto da sua importância quase divina, resolvia:</p>
+
+<p>&mdash;Póde sair, homem; vá descançado que não chove.</p>
+
+<p>Ou então:</p>
+
+<p>&mdash;Deixe-se ficar; o barómetro desceu e temos água.</p>
+
+<p>Sei até de pessoas que atribuiam tamanha autoridade a Anselmo em assuntos
+meteorológicos, que havendo resposta negativa chegavam a observar-lhe:</p>
+
+<p>&mdash;Demónio! Faz-me tanta falta agora não poder sair... Se isso fôsse coisa
+que se pudesse arranjar, sr. Anselmo...</p>
+
+<p>Êle não se perturbava, não achava aquilo de mais, respondia:<span
+class="pn"><a name="pag_44">{44}</a></span></p>
+
+<p>&mdash;Tenha paciência, homem, resigne-se; para outra vez será. Tenha
+paciência.</p>
+
+<p>Quem é que sentia frio ou se queixava de calor emquanto Anselmo não
+manifestasse que sim, que estava calor ou que havia frio?&mdash;Anselmo batia o
+dente? Venham os jaquetões, os agasalhos, os capotes... Anselmo transpirava? As
+janelas logo se abriam e largavam-se os cobertores, as brazeiras...</p>
+
+<p>Não era só respeito&mdash;era mêdo!</p>
+
+<p>Nessa altura, por exemplo, o boticário decretára que havia um calor
+excessivo. Toda a gente entrou a dizer que era de mais, que uma tal temperatura
+se não aturava, uff! que havia um calor excessivo...</p>
+
+<p>Certo dia Anselmo lembrou na farmácia que «talvez andando nu...». Pois
+surpreendi gente digna, disposta a seguir-lhe o conselho, quase a pôr-se como
+êle dizia...</p>
+
+<p>Pela uma hora Anselmo examinava o termómetro (chamava-lhe: <em>a
+coluna</em>) primeiro à sombra, metódicamente, em seguida aos raios directos do
+sol, na soleira da porta.</p>
+
+<p>Freguês que após esta operação penetrasse<span class="pn"><a
+name="pag_45">{45}</a></span> na farmácia era antes de mais nada avisado pelo
+Anselmo dos graus que atingira a temperatura ambiente:</p>
+
+<p>&mdash;Já sabe?... 30 à sombra e 50 ao sol!... É de rachar!</p>
+
+<p>Depois é que aviava a receita limpando o suor da pescoceira ao mesmo pano
+com que enxugava as garrafas dos remédios.</p>
+
+<p>A notícia circulava rápida. Perguntava-se por hábito:</p>
+
+<p>&mdash;Já viu o termómetro? Quantos marcará hoje o termómetro do Anselmo?</p>
+
+<p>E aí por volta das duas já se sabia, já constava cá por fóra:</p>
+
+<p>&mdash;Então hoje, hein? 30 à sombra e 50 ao sol no termómetro do Anselmo!</p>
+
+<p>Desapertavam-se os colêtes...</p>
+
+<p>De facto, desta vez tinham razão. Havia umas horas no dia em que as ruas
+ficavam desertas, só as moscas e as abelhas faziam o seu giro zumbidor. Dos
+canos e das valetas onde levedavam detritos, subiam no ar quente exalações
+pestíferas. Eu esperava o correio com ansiedade, por causa dos jornais, as
+janelas<span class="pn"><a name="pag_46">{46}</a></span> do quarto
+entre-abertas, o pavimento borrifado com água; ali me conservava naquela meia
+penumbra, estirado na cama, de papo para o ar... e nu, consoante o Anselmo
+preconisára.</p>
+
+<p>Saía só à noitinha, que refrescava um pouco, quando a vila se punha a
+respirar às portas das lojas, ou passeava em grupos pelas estradas, os homens
+de chapéu na mão e as senhoras de vestidos claros, muito lânguidas, com as
+blusas desbotadas nos sovacos&mdash;da transpiração diurna.</p>
+
+<p> </p>
+
+<p>Foi por essa época que eu recebi a carta do meu amigo Felizardo&mdash;Felizardo
+Antunes Vieira Leite, do Porto&mdash;convidando-me a ir passar com êle uma temporada
+numa quinta do Minho, para onde partia nêsse mesmo dia com a mãe, uma senhora
+respeitável que desejava muito conhecer-me.</p>
+
+<p>No verão iam sempre para lá, dois mêses, a regalarem os pulmões viciados do
+ar urbano e a vigiarem de perto as colheitas naquela quadra mais intensa da
+vida agricola.<span class="pn"><a name="pag_47">{47}</a></span></p>
+
+<p>Adorável amigo!</p>
+
+<p>Acabei de ler a carta e ergui-me dum pulo. Abri as janelas de par em par,
+para que a luz entrasse amplamente. Depois puxei os gavetões e pus-me a atacar
+de roupa a minha maleta de viagem. Porque eu ia viajar, senhores! Eu ia emfim
+ver êsse Minho pitoresco de que ouvira sempre falar com tanto entusiasmo.</p>
+
+<p>Fui ao telégrafo e expedi para <em>dr. Vieira Leite</em> o seguinte aviso:
+«Chego àmanha».</p>
+
+<p>As delícias do progresso!</p>
+
+<p>Jámais apreciára como nêsse jovial momento esta coisa cómoda e vulgar que se
+chama&mdash;o telegrama. E a descer as escadas dos correios eu ainda vinha a
+parafusar nas belezas da Civilisação,&mdash;contente, reconhecido...</p>
+
+<p> </p>
+
+<p>De passagem, porque me ficava a caminho, entrei na farmácia. Nunca me
+dobrára em contumélias aparatosas de adulador ante a figura severa do
+boticário. Nunca balançára com mão subserviente o turíbulo da Fama com que a
+vila usava incensá-lo. Digo isto sem a menor<span class="pn"><a
+name="pag_48">{48}</a></span> sombra de prosápia e sem querer censurar
+ninguêm,&mdash;apenas para estabelecer a verdade.</p>
+
+<p>Eu sou um apóstolo da Verdade!</p>
+
+<p>Mas que razões me déra Anselmo que justificassem, até à data, a minha
+frieza, o meu desdêm, quase? A valer, nenhumas! Ficar-me-ia mal, portanto, que
+eu tivesse desta vez uma atenção e pondo de parte caprichos, orgulhos, lhe
+perguntasse muito cortêsmente se queria alguma coisa «para êsse Minho»?</p>
+
+<p>Anselmo estava só, absorvido na laboriosa manipulação duma pomada. Um enxame
+de moscas poisava na gaze suja que revestia o candieiro de metal suspenso do
+teto fuliginoso; e atrás, sôbre o pano fundeiro, lia-se no vidro fosco duma
+porta interior esta palavra em letras gordas debaixo dum emblema galénico:</p>
+
+<h3>LABORATORIO</h3>
+
+<p>Avancei, anunciei-lhe o objecto da minha visita. O boticário ergueu a fronte
+majestosa, reconheceu-me, e mergulhando de novo no trabalho, rosnou por entre
+dentes:<span class="pn"><a name="pag_49">{49}</a></span></p>
+
+<p>&mdash;Boa viagem!...</p>
+
+<p>Aquilo vexou-me; não eram formas de corresponder a uma delicadeza. Vai não
+vai estive para lhe dizer das boas, das fortes,&mdash;das minhas...</p>
+
+<p>Mas não pude. Não sei porquê, mas não pude.</p>
+
+<p>Dei umas voltas fóra do balcão, meio acobardado, com um terror supersticioso
+que não me deixava falar, nem me permitia arredar pé.</p>
+
+<p>Coisa esquisita!</p>
+
+<p>Baralhavam-se-me as ideias e, na confusão mental em que me via, uma só coisa
+me preocupava impertinentemente: se aquele Anselmo, aquele pigmeu! teria
+rialmente alguma influência no destino das chuvas, do vento ou das
+trovoadas?</p>
+
+<p>Admitida a hipótese, podia muito bem, querendo, vingar-se de mim. Que mais
+não fôsse senão uma telha despenhada do alto dum prédio, no sopro duma rajada
+acintosa, sôbre a minha cabeça ímpia.</p>
+
+<p>Mas...&mdash;protestava uma voz do fundo<span class="pn"><a
+name="pag_50">{50}</a></span> de todo o meu ser angustiado&mdash;o Anselmo, que
+pisava linhaça, que eu via ali na minha humana presença a fazer pomada!?
+Insensata apreensão, pueril receio, que o falso, infundado prestígio de
+semelhante figurão, exercendo-se sôbre o meu espírito num inexplicável momento
+de fraqueza, havia logrado produzir!</p>
+
+<p>Ah! mas a desforra ia ser tremenda! Eu ia resgatar, num gesto nervoso e
+varonil, a liberdade de pensar e de procedor de toda uma pequena aldeia de
+fanáticos, mostrando na hora augusta da emancipação, à luz da evidência e da
+subtil análise, o que êsse insignificante valia por dentro&mdash;como homem e como
+divindade!</p>
+
+<p>Mas de novo uma dúvida, um vago temor se interpôs ao meu intento,
+quebrando-me as forças, jugulando-me,&mdash;nem que alguma poderosa mão invisível
+estivesse ali sôbre mim suspensa e pronta a estrangular-me à primeira voz.</p>
+
+<p>&mdash;Ora esta! murmurava eu mentalmente, ora esta!<span class="pn"><a
+name="pag_51">{51}</a></span></p>
+
+<p>E passados instantes, tornando a olhar o boticário, que continuava
+indiferente e mudo a esmagar com a espátula, sôbre um pedaço de mármore polido,
+uma pasta esbranquiçada e fedorenta, perguntei-lhe com a mais cariciosa das
+maneiras:</p>
+
+<p>&mdash;E que me diz o meu amigo do tempo?...</p>
+
+<p>Ora! foi uma beleza: um milagre! Levantou de novo a cabeça, que me pareceu
+agora aureolada, e encarou-me. Tinha estampada no rosto a surpreza que a
+pergunta lhe causára. Vi-o sorrir; e mirando o barómetro (ou o termómetro: não
+sei...) veio até mim, afável, meigo, aliciador. Percebi que ia ter uma
+resposta, significando talvez o beijo tácito da reconciliação. Eu ia
+confraternizar com Anselmo, abraçá-lo, entrar-lhe na intimidade... Que bom! Que
+pechincha!</p>
+
+<p>Nessa altura porêm, um sujeito baixo, agitado, nervoso, investe porta a
+dentro com os braços no ar, exclamando:</p>
+
+<p>&mdash;Ó Anselmo! ó Anselmo! você já viu? você já sabe?</p>
+
+<p>Fitámo-lo surpresos.<span class="pn"><a name="pag_52">{52}</a></span></p>
+
+<p>Era o Menezes, jornalista, que assim vinha estragar a doce situação.</p>
+
+<p>&mdash;Que é, homem, que é?!... Conte lá, desabafe! disse o boticário sem
+encobrir o seu mau humor.</p>
+
+<p>E o outro, com muitos gestos, esbaforido:</p>
+
+<p>&mdash;O ministério! caiu o ministério!</p>
+
+<p>E sentou-se por já não poder.</p>
+
+<p>Anselmo largou a espátula:</p>
+
+<p>&mdash;Que me diz?!</p>
+
+<p>&mdash;Olhe, veja!...&mdash;murmurou sufocado.</p>
+
+<p>E estendeu-lhe um papel, um telegrama, aonde vinha tudo explicadinho:
+«ministério em terra, chamado João Franco, parabens.» Não era preciso mais!</p>
+
+<p>Anselmo ficou sem ar. E o Menezes, outra vez muito excitado, ia e vinha da
+porta ao balcão, do balcão à porta, a rir-se, transtornado da cabeça, doido com
+a história.</p>
+
+<p>&mdash;Até que finalmente, dizia, ora até que finalmente: o João Franco! Ó
+Anselmo, ó menino, mas você já pensou bem no caso? O João Franco!<span
+class="pn"><a name="pag_53">{53}</a></span></p>
+
+<p>E esfregava as mãos de contente.</p>
+
+<p>&mdash;Agora é que se vai ver o que é governar às direitas; agora sim, é que se
+vai ver o que é governar!</p>
+
+<p>O boticário quase não queria acreditá-lo. «Ficára banzado!» E o Menezes,
+vociferando:</p>
+
+<p>&mdash;Corja! Os outros por pouco que não põem o país a saque! Tudo a comer,
+tudo! E eu, e você, e os mais,&mdash;os que trabalhâmos&mdash;a pagarmos para aqueles
+piratas!</p>
+
+<p>Anselmo sorria benévolo às considerações acerbas do jornalista que
+prosseguia irado, numa linguagem perversa:</p>
+
+<p>&mdash;Súcia de gatunos! Pulhas! Pulhas!</p>
+
+<p>E já frenético, em altos gritos:</p>
+
+<p>&mdash;É bem feito, é bem feito: rua! É bem feito!</p>
+
+<p>Começou a juntar-se povo, garotada, a quem o Anselmo, vindo à porta,
+enxotava, explicando:</p>
+
+<p>&mdash;Que é? que é que vocês querem? Foi o ministério que caiu... Vão-se
+embora!</p>
+
+<p>Um dos garôtos porêm, mais curioso e atrevido, foi a espreitar para dentro,
+pelos vidros<span class="pn"><a name="pag_54">{54}</a></span> da outra
+porta,&mdash;a ver se via o ministério no chão...</p>
+
+<p>A Anselmo continuava no emtanto a afigurar-se-lhe aquilo um sonho. Assim tão
+de repente, sem se falar em nada, sem ameaças de crise... Não seria balela?</p>
+
+<p>O jornalista então pôs-se a raciocinar: Qual! era lógico; o Hintze
+fartára-se lá de fazer asneiras, e antes dêle toda a gente sabia que quem
+governava não era o Zé Luciano: era a mulher.</p>
+
+<p>Tomou fôlego, prosseguiu:</p>
+
+<p>&mdash;Quando aí veio o imperador da Alemanha, e a rainha Alexandra, e o outro...
+(fez um gesto com o polegar na direcção da raia) o de Espanha, nem sequer
+tínhamos um presidente do conselho em termos de se apresentar! Uma vergonha!</p>
+
+<p>Cuspinhou, bateu com a bengala, consultou o relógio. Era tarde.</p>
+
+<p>&mdash;Olha o Teotónio! Você aí!&mdash;disse, dando por mim.&mdash;Desculpe, não tinha
+reparado... Então que diz a isto?</p>
+
+<p>&mdash;Eu?...<span class="pn"><a name="pag_55">{55}</a></span></p>
+
+<p>&mdash;Sim, que diz você a isto?</p>
+
+<p>Encolhi os ombros, sem responder, verdadeiramente embaraçado. E êle:</p>
+
+<p>&mdash;Nem de encomenda, meu caro, nem de encomenda! O João Franco nestas alturas
+foi a sorte grande para o país!</p>
+
+<p>Estendeu-me dois dedos a despedir-se; e quando se retirava:</p>
+
+<p>&mdash;É verdade, ó Anselmo, você agora volta outra vez lá para cima, para a
+câmara. Creio que agora...</p>
+
+<p>&mdash;Qual câmara nem qual carapuça, opôs o farmaceutico, modesto&mdash;o que eu
+quero é que me deixem. Teem aí muita gente...</p>
+
+<p>Menezes não via, não achava:</p>
+
+<p>&mdash;Muita gente! Aonde?...</p>
+
+<p>Foi então que eu, Teotónio, julguei oportuno intervir:</p>
+
+<p>&mdash;Se me dão licença, direi que sou tambêm do parecer do amigo Menezes...</p>
+
+<p>&mdash;Diga, diga! aprovou êste.</p>
+
+<p>&mdash;É impossivel na verdade encontrar por todo o concelho quem, como o sr.
+Anselmo, seja capaz de desempenhar com tanta capacidade<span class="pn"><a
+name="pag_56">{56}</a></span> e proficiência o papel de presidente do
+município.</p>
+
+<p>&mdash;Apoiado!</p>
+
+<p>&mdash;Haja em vista,&mdash;justifiquei, voltando-me para êle,&mdash;o que V. Ex.ª fez da
+outra vez por ocasião da gréve das leiteiras!</p>
+
+<p>&mdash;Ora, ora...&mdash;desdenhou Anselmo.</p>
+
+<p>&mdash;É a verdade, é a verdade! aplaudiu o Menezes.&mdash;Está na memoria de todos.
+De todos!&mdash;repetiu, aprumando-se, nos bicos dos pés.</p>
+
+<p>&mdash;Andava-se aterrado, continuei, como na véspera dos grandes acontecimentos.
+Dizia-se que ficaríamos sem leite na vila por uns poucos de dias!</p>
+
+<p>&mdash;Um alimento de primeira necessidade...&mdash;avolumou o jornalista.</p>
+
+<p>&mdash;Vai então o sr. Anselmo, num abrir e fechar de olhos, resolveu. Lembro-me
+como se fôsse hoje da memorável sessão a que assisti e em que V. Ex.ª sossegou
+a população, declarando que uma gréve dessa natureza seria para temer se em vez
+de ser feita pelas vendedeiras de leite, fôsse feita pelas próprias
+vacas...<span class="pn"><a name="pag_57">{57}</a></span></p>
+
+<p>&mdash;Sim senhor...&mdash;confirmou o Menezes.&mdash;Lembro-me perfeitamente; eu tambêm lá
+estava. Por sinal que estreei um fato nêsse dia...</p>
+
+<p>&mdash;Emfim, rematei, e quantas coisas mais!? A quem se deve por exemplo o
+melhoramento entre nós do carro do lixo?</p>
+
+<p>Menezes coadjuvou-me, indicou o boticário:</p>
+
+<p>&mdash;A êle!</p>
+
+<p>&mdash;A quem se deve a construção do coreto na Praça Nova?</p>
+
+<p>&mdash;A êle!</p>
+
+<p>&mdash;A quem se deve a compra dum irrigador para o hospital civil?</p>
+
+<p>&mdash;A êle! a êle só!</p>
+
+<p>&mdash;Ó senhores, pelo amor de Deus! confundem-me!&mdash;bradou o boticário rialmente
+confundido, levando as mãos ao crâneo&mdash;Eu sou um humilde trabalhador, com
+desejos de acertar, de bem servir a minha terra e os amigos. Nada mais!</p>
+
+<p>&mdash;Êsse pouco...</p>
+
+<p>&mdash;Mas quanto a política, francamente, confesso&mdash;estou farto; estou farto
+dela até aos olhos!<span class="pn"><a name="pag_58">{58}</a></span></p>
+
+<p>&mdash;Isso diz êle agora, isso diz êle agora, murmurou o Menezes, piscando-me o
+ôlho.&mdash;Olha quem, o régulo!</p>
+
+<p>Depois, despediu-se; chegou mesmo a descer o passeio; mas voltando atrás
+afogueado:</p>
+
+<p>&mdash;Ouça lá, Anselmo, e hoje? o termómetro?</p>
+
+<p>Anselmo foi verificar. Inclinando para o solo o dedo indicador, hirto, num
+gesto omnipotente, informou:</p>
+
+<p>&mdash;Desce!</p>
+
+<p>&mdash;Ah! Ótimo... Assim era duma pessoa morrer!</p>
+
+<p>E muito meneado, o jornalista lá se foi de vez a semear notícias.</p>
+
+<p> </p>
+
+<p>Dispus-me então a comentar o caso a sós com o Anselmo. Do seu facundo e
+preclaro espírito viria até mim, triste mortal, o bom conselho, a opinião
+autorisada e justa...</p>
+
+<p>Ministério em terra, o João Franco inesperadamente no poder... Era com
+efeito um extravagante acontecimento.</p>
+
+<p>Eu nunca fôra, porêm, um político interessado. A dizer a verdade, não sabia
+mesmo<span class="pn"><a name="pag_59">{59}</a></span> se aquele facto, na
+aparência sensacional, representava uma vantagem ou um inconveniente para o
+país. Não me encontrára jámais inclinado para êstes ou para aqueles. A ser um
+franquista, um progressista ou um regenerador, preferia não ser coisa
+nenhuma&mdash;que é para o que eu me sinto rialmente com vocação...</p>
+
+<p>Naquele momento todavia achei o João Franco simpático. Decerto vinha animado
+de bons propósitos, decerto; e era um homem rico, o que&mdash;seja dito de
+passagem&mdash;significava uma grande segurança para a inviolabilidade do Tesouro...
+Menezes tinha razão.</p>
+
+<p>Todas estas considerações eu adusi a Anselmo, que me fitava e sorria
+satisfeito.</p>
+
+<p>&mdash;Mas porque caíria o Hintze? indaguei.</p>
+
+<p>Anselmo torneou o balcão, veio dizer-me ao ouvido:</p>
+
+<p>&mdash;O rei, entende? que tem um medo dos rèpublicanos que se fina (isto aqui
+para nós) e quer lá no poder um homem de envergadura, um homem que os tenha no
+seu lugar, ora entende o senhor? Para isso, ninguêm mais nas<span class="pn"><a
+name="pag_60">{60}</a></span> condições de que o João Franco. O João Franco é
+um valente! Se lhe constar, <em>verbi gratia</em>, estando aqui, que lá fóra a
+uma esquina há um homem com um cacete á espera dêle&mdash;acredite&mdash;é quando lá
+passa mais depressa. Olha quem!... Nem o Bismarck!</p>
+
+<p>Eu ia acompanhando com interjeições o caloroso panegírico do ministro. E
+quando Anselmo terminou:</p>
+
+<p>&mdash;Efectivamente, o João Franco...</p>
+
+<p>Anselmo benzeu-se:</p>
+
+<p>&mdash;Ah! meu amigo: é um colôsso!</p>
+
+<p>Fez-se silêncio. O boticário acondicionava numa caixinha a pomada preparada.
+Assoou-se. Escreveu um rótulo e colou-o na tampa, a assobiar o hino da
+carta.</p>
+
+<p>&mdash;Diga-me uma coisa, inquiri; o Menezes não era progressista?</p>
+
+<p>&mdash;Era; mas passou-se para os nossos há-de haver um mês. É um convicto.</p>
+
+<p>&mdash;Parece.</p>
+
+<p>&mdash;E brioso; um cavalheiro.</p>
+
+<p>&mdash;Parece.<span class="pn"><a name="pag_61">{61}</a></span></p>
+
+<p>&mdash;Ali o Souto dos telégrafos mijou-lhe um dia fóra do têsto...</p>
+
+<p>&mdash;O Souto? Ah! sim... Mas êsse é um trampolineiro!</p>
+
+<p>&mdash;É. O sr. fala-lhe?</p>
+
+<p>&mdash;Ás vezes, por cortesia...</p>
+
+<p>&mdash;Pois uma ocasião teve o descaramento de afirmar, no club, diante de quem o
+quis ouvir, que um artigo que o Menezes publicára não era do Menezes e que
+era... sabe o senhor de quem? imagine!&mdash;do Navarro, do Emídio Navarro!</p>
+
+<p>&mdash;Patife!</p>
+
+<p>&mdash;... que tinha vindo nas <em>Novidades</em> já não sei há quantos anos, e
+que o Menezes o fôra copiar, alterando apenas ligeiramente a forma.</p>
+
+<p>&mdash;Patife! patife!</p>
+
+<p>&mdash;O Menezes, mal aquilo lhe chega aos ouvidos&mdash;êle que é um
+esturrado!&mdash;agarra num vergalho e onde encontra o Souto prega-lhe uma destas
+coças...</p>
+
+<p>&mdash;Bem feito.</p>
+
+<p>&mdash;De manhã já o Menezes aqui me tinha<span class="pn"><a
+name="pag_62">{62}</a></span> dito a mim, furioso: «Juro-lhe, Anselmo, que onde
+encontro aquele tratante, quebro-lhe um côrno».&mdash;Se bem o disse melhor o fez:
+vai e quebrou-lho.</p>
+
+<p>&mdash;Anda-me.</p>
+
+<p>&mdash;No domingo imediato, quando tudo supunha a questão arrumada, zás: sai o
+jornal? Eu cheguei a saber aquilo tudo de cór, homem!</p>
+
+<p>Concentrou-se, os olhos fechados, a mão na testa, a ver se se lembrava.</p>
+
+<p>E com pesar:</p>
+
+<p>&mdash;Já não vai; paciência!</p>
+
+<p>&mdash;É pena.</p>
+
+<p>&mdash;Mas digo-lhe o final, descance, que êsse é daqui...&mdash;e beliscava o lóbulo
+da orelha. Então, o braço estendido, em atitude declamatória, o polegar e o
+índice aplicados num gesto precioso, recitou, com uma pontinha de malicia nos
+olhos: «Diz D. Bazílio que da calúnia alguma coisa fica. Não temêmos, porêm,
+etc., etc., etc....» Repare agora: «Os aleives resvalam na consciência dos
+justos como zagalotes no aço.» (Anselmo sublinhava: <em>como zagalotes no
+aço...</em>). «Todo o mundo sabe que só<span class="pn"><a
+name="pag_63">{63}</a></span> usamos o que nos pertence...» (<em>Piscadela de
+ôlho do Anselmo</em>) «Não costumamos botar figura com coisas alheias: o
+dinheiro dos amigos ou as joias das amantes: <em>Meneses dos Santos</em>».</p>
+
+<p>&mdash;Isso é medonho! comentei.</p>
+
+<p>Emquanto Anselmo repetia, vibrante de entusiasmo:</p>
+
+<p>&mdash;«O dinheiro dos amigos ou as joias das amantes»! Refere-se á mulher do
+notário... Genial! genial!</p>
+
+<p>Rimos depois muito, com aplausos efusivos ao jornalista e censuras ao
+procedimento do Souto, que fôra indecente.</p>
+
+<p>A conversa decaíu. Anselmo bocejava. Eu peguei num jornal, percorri-o com a
+vista, distraído.</p>
+
+<p>&mdash;Então sempre vai amanhã? perguntou-me.</p>
+
+<p>&mdash;Sempre vou amanhã.</p>
+
+<p>&mdash;Pois o tempo está firme. A <em>coluna</em> desceu, mas descance que não
+há-de haver novidade. Isto conserva-se.</p>
+
+<p>Bateu-me no ombro palmadinhas amigáveis:<span class="pn"><a
+name="pag_64">{64}</a></span></p>
+
+<p>&mdash;Pode ir descançado...</p>
+
+<p>&mdash;O sr. Anselmo não quer para lá nada?&mdash;perguntei.</p>
+
+<p>&mdash;Não; quero que tenha muita saúde.</p>
+
+<p>Fitou-me carinhosamente:</p>
+
+<p>&mdash;E veja se engorda, coma-lhe! Parece que anda magro, homem... Dê cá um
+abraço.</p>
+
+<p>Estreitá-mo-nos peito com peito. Éramos dois amigos velhos... Comovi-me; e
+visto que se faziam horas de jantar, segui rua abaixo.</p>
+
+<p>&mdash;Até à volta!</p>
+
+<p>&mdash;Até à volta!...</p>
+
+<p>O sol abrasava. Quando dobrei a esquina, olhei. O boticário tinha vindo à
+porta, dizia-me adeus de lá,&mdash;com a mão...<span class="pn"><a
+name="pag_65">{65}</a></span></p>
+
+<h1>Sr. Anselmo</h1>
+
+<h4>(Perfil grotesco dum provinciano ilustre)</h4>
+
+<h3>(1912)</h3>
+
+<h3>II</h3>
+
+<p><span class="pn"><a name="pag_66">{66}</a><br><a name="pag_67">{67}</a></span></p>
+
+<h2>Sr. Anselmo</h2>
+
+<h4>(Perfil grotesco dum provinciano ilustre)</h4>
+
+<h3>(1912)</h3>
+<hr style="width: 30%;">
+
+<h2>II</h2>
+
+<div class="cap">
+A<span class="sc">nselmo</span> estava em Nagosa, fazendo a vindima, quando se
+declarou em Lisboa o movimento revolucionário de outubro.</div>
+
+<p>Tinha vindo nesse momento de baixo, do lagar, aonde meia dúzia de homens
+hercúleos, de calça arregaçada e pernas ao léu, rôxas como canelas de perdiz,
+pisavam a uva, dançando ao som de ferrinhos e de adufe uma dança bárbara,
+grotesca, entre uivos e assobios.</p>
+
+<p>O filho mais velho do caseiro fôra a Moimenta pelos jornais e por tabaco, e
+a encomendar<span class="pn"><a name="pag_68">{68}</a></span> a carne do dia
+imediato, que era dia de matança na vila.</p>
+
+<p>Não devia tardar.</p>
+
+<p>D. Ermelinda arranjára a ceia: uma ceia de caldo verde e sardinhas assadas,
+raras naquela região e muito frêscas,&mdash;nem que Nagosa fôsse um braço de mar e
+as houvessem ali pescado nêsse instante... No fim, para assentar, chá,&mdash;um
+cházinho de cidade, loiro e aromático, dando a nota apurada da civilização após
+aquele <em>menu</em> de cavadores.</p>
+
+<p> </p>
+
+<p>Viera a criada erguer a mesa, dobrando a toalha cautelosamente para não
+espalhar as migalhas pelo chão, quando chegou o portador de Moimenta com a
+notícia de que estalára a revolução em Lisboa. A notícia era vaga e incerta,
+sem pormenores, porque não havia jornais nem o telegrafo funcionava; um
+caixeiro de amostras chegado de Lamego essa madrugada, em deligência, espalhára
+a novidade e disséra que Lisboa, a essa hora, era um mar de sangue!<span
+class="pn"><a name="pag_69">{69}</a></span></p>
+
+<p>Desde o assassinato do rei que Anselmo sentia um forte desânimo por tudo
+isto... D. Carlos, tipo de sibarita sem escrúpulos, inteligente, mentiroso e
+gabarola, fôra a última trave que ruira do desmantelado edifício monárquico. A
+sua morte, cuja forma, êle, Anselmo&mdash;homem de processos sóbrios&mdash;veementemente
+reprovára, deixára o país em alvorôço, debatendo-se nas garras duma agonia
+cruciante, mal amparado por gente tímida, com um rei no trôno «que não era rei
+nem era rainha», figurita débil e epicena de maricas.</p>
+
+<p>&mdash;Havemos de ir longe! profetisava com melancolia.</p>
+
+<p> </p>
+
+<p>A nova da revolução na capital, trazida assim, de súbito, àquela hora da
+noite, por um labrego analfabeto, a um lugar sertanejo e ignorado, não o
+surpreendeu portanto, mas encheu-o de ansiedade e sobresalto.&mdash;Qual seria o
+resultado de tudo aquilo? Venceria o govêrno? Venceriam os insurrectos? E
+depois: a intervenção extrangeira?...<span class="pn"><a
+name="pag_70">{70}</a></span></p>
+
+<p>Um calafrio de susto percorreu-lhe a espinha dorsal ao pensar nisso, nos
+horrores duma carnificina e dum saque. Viu-se desapossado dos seus bens,
+violentamente, à coronhada; viu-se escorraçado, prêso, fusilado a uma esquina!
+Êle estava dispôsto todavia a declarar, sob sua palavra de honra, que embora
+tivesse militado no partido franquista, não tinha a mínima sombra de
+responsabilidade no indigno decreto de 31 de Janeiro...</p>
+
+<p>&mdash;Com que então Lisboa é um mar de sangue? perguntou de novo ao seu rústico
+informador, como para certificar-se de que não delirava. E confirmada a
+notícia, comentou:&mdash;Pois bem... Nós cá não temos nada com isso; lá é com êles.
+Acima de tudo o que eu sou é patriota. Rèpública ou Monarquia tanto se me dá; o
+que é preciso é haver quem nos governe. Boa noite!</p>
+
+<p> </p>
+
+<p>Havia lua cheia.</p>
+
+<p>Anselmo antes de se ir deitar saíu para o terraço da casa a respirar um
+pouco, à vontade. Arrotou. As sardinhas vieram-lhe à bôca.<span class="pn"><a
+name="pag_71">{71}</a></span> Murmurou arreliado:&mdash;«A mania de comer a esta
+hora há de acabar.»</p>
+
+<p>O arzinho do campo, porêm, reanimou-o, fez-lhe bem, descongestionou-lhe o
+rosto afogueado.</p>
+
+<p>Sentou-se num banco, á fresca, de colête desabotoado e a fumar.</p>
+
+<p>De dentro, atraves duma janela aberta, a voz de D. Ermelinda vibrou
+esganiçada:</p>
+
+<p>&mdash;Ansèlminho, olha a bronquite!</p>
+
+<p>Não respondeu. A noite estava um encanto! Um luar muito claro punha em
+relevo as silhuetas da paisagem larga, beirôa, de vegetação sombria e de
+penedia hirsuta. Os cães ladravam na quinta. Milhões de estrelas scintilavam no
+céu opalino, levemente ofuscadas pela alvura do luar...</p>
+
+<p>Murmurou, regalado:</p>
+
+<p>&mdash;E é que já daqui não saio, emquanto a coisa se não decidir...</p>
+
+<p> </p>
+
+<p>A 5 de Outubro estava a Rèpública definitivamente proclamada em Portugal,
+sabendo-se da nova em Nagosa quando o vinho<span class="pn"><a
+name="pag_72">{72}</a></span> de Anselmo começava a ferver nas dornas.</p>
+
+<p>De tarde Anselmo foi à lagariça para calcular com a vista a importancia da
+colheita. Bem boa! Sabia-se que em Moimenta os rèpublicanos tinham já içado na
+casa da Câmara o pavilhão revolucionário; ia um delirio na população. E o
+brazileiro de Cabaços deitára meia dúzia de foguetes que se viram perfeitamente
+de Nagosa subir e estalar no ar, deixando uns novelos de fumo branco, por
+momentos, no azul do céu e no oiro vivo do sol outonal.</p>
+
+<p>Anselmo debruçou-se sôbre o lagar, farejou o môsto, teve um sorriso feliz de
+proprietário favorecido, e chamando o caseiro:</p>
+
+<p>&mdash;Ó Jose, o vinhito êste ano parece-me bom, hein?</p>
+
+<p>&mdash;Parece que sim, meu padrinho...</p>
+
+<p>Era afilhado.</p>
+
+<p>&mdash;A uvazita fundiu... dizias que não.</p>
+
+<p>&mdash;Houve mais que eu sei lá!</p>
+
+<p>&mdash;Pois sim, mas...</p>
+
+<p>Não concluiu, não explicou o que queria dizer na sua.<span class="pn"><a
+name="pag_73">{73}</a></span></p>
+
+<p>Tirou do bôlso a tabaqueira, um livrete de mortalhas; ofereceu uma na ponta
+dos dedos ao afilhado; deitou-lhe na palma da mão calosa duas pitadas de tabaco
+francês; limpou depois êle próprio as mãos sujas do rebordo da dorna a que se
+agarrára, a umas palhas que ali topou a geito, e pôs-se a fazer um cigarro,
+trauteando a <em>Portuguesa</em>.</p>
+
+<p> </p>
+
+<p>O primeiro desgosto sério que êle sofreu depois da Rèpública, foi com a
+<em>lei da Separação</em>.</p>
+
+<p>A mudança de regimen, como Anselmo a entendia, resumir-se-ia a abolir a
+realeza, causa imediata e suficiente de quantos cataclismos e desgraças
+assoberbavam êste pobre país. O resto era pó, ou melhor, era ódio, vingança,
+perseguição, fanatismo. Impressionára-o bem, ao começo, o facto de serem os
+próprios miseráveis, os pobretanas, os maltrapilhos, quem guardára, nos dias da
+Revolução, os bancos e as casas da gente endinheirada. Mas a questão da
+bandeira, logo a seguir, a picuinha de substituirem as antigas<span
+class="pn"><a name="pag_74">{74}</a></span> côres constitucionais pelo vermelho
+e pelo verde (há quem diga que Anselmo sublinhava a palavra <em>verde</em> com
+intenção maliciosa; talvez) começou a indispô-lo, a irritá-lo. De mais a mais
+havia gente insuspeita a condenar as novas tintas! E os olhos sinceramente se
+lhe arrasaram de lágrimas quando viu tremular no edificio da câmara municipal
+da sua vila (da sua vila!) o hediondo trapo republicano.</p>
+
+<p> </p>
+
+<p>Aos primeiros dias de harmonia e de entusiasmo começaram a suceder-se no
+país, pouco a pouco, outros, menos tranquilisadores e festivos. Tinham-se
+efectuado prisões, demissões; surgiam ali e aqui desacordos, antipatias, notas
+desafinadas no geral concerto; havia descontentes; principiava a falar-se
+vagamente de conspiradores. O capitão Paiva Couceiro saíra para Espanha,
+agressivo, no intuito de organisar um exército restaurador da monarquia. Os
+padres, dizia-se, tinham o povinho ignorante das aldeias na mão, e era só
+dizer-lhe:&mdash;«Vamos!» tudo marcharia à uma sôbre as<span class="pn"><a
+name="pag_75">{75}</a></span> cidades e daí sôbre Lisboa, engrossando, rolando,
+com a fôrça duma vaga e o barulho dum trovão!</p>
+
+<p>O Govêrno Provisório, sorrindo desdenhosamente, tomava no emtanto as suas
+medidas de defeza, ordenava prevenções rigorosas nos quarteis. As redacções dos
+jornais monárquicos eram assaltadas por magotes de homens armados e coléricos
+que partiam o mobiliário, empastelavam o tipo, espatifavam as maquinas de
+impressão, pondo tudo em fanicos, pelas janelas, no meio da rua.</p>
+
+<p>E foi numa altura destas, num estado assim de insubordinação e de
+efervescência, que o govêrno se lembra de perseguir os bispos!</p>
+
+<p>Anselmo indignava-se:</p>
+
+<p>&mdash;O país é católico, dizia, o país é católico e não pode permitir semelhante
+arbitrariedade! É um atentado contra a religião de cada um.</p>
+
+<p>Alguêm lhe ponderou que não, que o govêrno não pensava em perseguir ninguêm;
+que não era êsse o espírito da lei; que o Estado o que não devia era apadrinhar
+esta ou aquela religião. Eu mesmo, Teotónio Mendes,<span class="pn"><a
+name="pag_76">{76}</a></span> republicano hereditário, apoiei com certa
+autoridade e firmêsa estas sensatissimas explicações.</p>
+
+<p>&mdash;Cale-se! vociferava êle, exaltado, dirigindo-se-me; cale-se, que não diz
+se não asneiras. A Rèpública tem de ser tolerante se quizer viver! Os
+jacobinos, os carbonários como o senhor, não conseguirão por mais que se
+esforcem abafar os protestos da opinião pública; e a opinião pública está
+abertamente com a Igreja. Com a Igreja, fique-o sabendo!</p>
+
+<p>Todos nos calávamos. Anselmo limpava a fronte donde o suor porejava.</p>
+
+<p>&mdash;Pódem-me prender, se quizerem, que eu direi sempre a verdade. A verdade é
+só uma!</p>
+
+<p>E cheio de provas, revoltado:.</p>
+
+<p>&mdash;Admite-se lá que se tire assim o pão a tanta gente, que se lance na
+miséria tanto português, tanto padre com mulher e filhos... perdão (emendava):
+com família numerosa.</p>
+
+<p>Em volta houve um silêncio aprovativo.</p>
+
+<p> </p>
+
+<p>Tudo mudára, na verdade...</p>
+
+<p>Um dia, Anselmo andava passeando na farmácia,<span class="pn"><a
+name="pag_77">{77}</a></span> as mãos atrás das costas, a meditar no futuro do
+país. O barómetro marcava tempo sêco&mdash;e lá fora chovia! A <em>coluna</em>
+indicava uma temperatura alta, e Anselmo tinha a certeza de que era falso.
+Aquilo queria dizer que andava tudo às avessas, que ninguêm se entendia neste
+país, que a indisciplina reinava&mdash;até no tempo!</p>
+
+<p>Não havia doentes: há 15 dias que o movimento farmacológico era
+insignificante. Assim, a própria ociosidade colaborava nos acontecimentos,
+gerando nos cérebros ideias insubmissas...</p>
+
+<p>&mdash;V. Ex.ª é que é o sr. Anselmo Nogueira?&mdash;perguntou a meia voz um
+desconhecido que entrou, descobrindo-se.</p>
+
+<p>&mdash;Eu mesmo em carne e osso. Ponha o seu chapéu. Que deseja?</p>
+
+<p>Mas logo, reconsiderando, medindo-o, fez pé atrás como quem desconfia do
+sujeito e se prepara para se pôr a salvo, no caso de perigo.</p>
+
+<p>&mdash;Não se assuste, disse-lhe o recem-chegado, observando aquele gesto,&mdash;eu
+não sou quem pensa... pelo contrário.<span class="pn"><a
+name="pag_78">{78}</a></span></p>
+
+<p>&mdash;Ah!</p>
+
+<p>&mdash;Sou dos <em>fieis</em>. Trago-lhe aqui uma carta da Galisa...</p>
+
+<p>E levou a mão ao bôlso. Anselmo segurou-lhe no braço, palido:</p>
+
+<p>&mdash;Ó diabo, espere... espere lá, tome cautela.</p>
+
+<p>E foi à porta espreitar. Não havia ninguêm. Chovia.</p>
+
+<p>&mdash;Tem a bondade de entrar ali para dentro, indicou.</p>
+
+<p>E encostando a porta de vidro fôsco do laboratório:</p>
+
+<p>&mdash;Estou às suas ordens, pode falar... Estamos sós.</p>
+
+<p>Todo êle tremia.</p>
+
+<p>O outro entregou-lhe a carta em que lhe pediam dinheiro para uma próxima
+incursão e lhe perguntavam se poderia auxiliar, a coberto da sua seriedade
+insuspeita, um pequeno contrabando de armas: pistolas e munições. Assinava a
+carta, em nome de Paiva Couceiro, «um amigo da Religião e da Pátria.»<span
+class="pn"><a name="pag_79">{79}</a></span></p>
+
+<p>Anselmo gaguejou:</p>
+
+<p>&mdash;Sim... sim... dinheiro, talvez, mais adiante... Agora as pistolas, desde
+já lhe digo, meu caro sr., que as pistolas não... Escusam de contar comigo para
+semelhantes aventuras. A minha casa é muito freqùentada, tudo meche e
+remeche... não há esconderijos...</p>
+
+<p>&mdash;Nesse caso...</p>
+
+<p>&mdash;Nesse caso, o melhor é ir bater a outra porta. Do meu lado podem contar
+apenas com o apoio moral.</p>
+
+<p>O desconhecido ia retirar-se desanimado. Anselmo deu-lhe uma esperança;</p>
+
+<p>&mdash;Ah! olhe: e estricnina e sal de azêdas, à descrição...</p>
+
+<p>O enviado sorriu, agradeceu, despediu-se.</p>
+
+<p>&mdash;Diga-me cá, inqueriu ainda Anselmo interessado, com a mão dêle
+apertada,&mdash;o nosso Paiva Couceiro como ficou?</p>
+
+<p>&mdash;Bem.</p>
+
+<p>&mdash;E o rei, tem-no visto?</p>
+
+<p>Não o tinha visto. Estava em Londres.</p>
+
+<p>&mdash;Coitado! aquele tambêm... Quando calhar, dê-lhe lá muitos recados meus,
+sim?<span class="pn"><a name="pag_80">{80}</a></span></p>
+
+<p>O indivíduo misterioso prometeu, saíu da botica.</p>
+
+<p>&mdash;Oiça, oiça! A Ermelinda, minha mulher, tambêm se recomenda. E à D. Amélia.
+Diga-lhe que cá os esperamos a todos, muito brevemente.</p>
+
+<p>Fez-lhe uma mesura aparatosa:</p>
+
+<p>&mdash;Meu caro senhor...</p>
+
+<p> </p>
+
+<p>Uma vista de olhos, rápida, furtiva, pelas janelas dos prédios fronteiros, a
+ver se alguêm teria dado pela visita, e tornou ao laboratório, ruminando o
+caso, arreliado por se ter esquecido na perturbação que o invadira, de
+perguntar o nome do tipo. «E a gente às vezes a supôr que ninguêm nos conhece,
+que não consta, que se não sabe lá por fóra! Ai Anselmo, ai Anselmo!...»</p>
+
+<p>Tirou do bôlso a carta comprometedôra, levemente amarrotada; acendeu um
+fosforo e ali mesmo, antes de outra coisa, queimou-a, com prudência,
+reduzindo-a a cinzas.</p>
+
+<p>O documento!</p>
+
+<p>Nisto, uma mulherzinha entrou na farmácia,<span class="pn"><a
+name="pag_81">{81}</a></span> a correr, sem chaile, a pedir linhaça para o sr.
+administrador que estava a morrer com uma cólica.</p>
+
+<p>Anselmo estremeceu. Para o sr. administrador? Fingiu que ia servir a mulher,
+e de repente:</p>
+
+<p>&mdash;Oh co'a breca! esta agora! não tenho linhaça.</p>
+
+<p>&mdash;Não tem linhaça?!</p>
+
+<p>&mdash;Não tenho. Acabou-se-me.</p>
+
+<p>&mdash;E agora?</p>
+
+<p>&mdash;Agora... deve chegar amanhã.</p>
+
+<p>&mdash;Amanha! Amanha pode o homem estar no outro mundo!</p>
+
+<p>Anselmo sentiu que as pernas se lhe vergavam àquela ideia homicida; ia
+trair-se, não podia mais.</p>
+
+<p>&mdash;No outro mundo?!</p>
+
+<p>&mdash;Sim, no outro mundo; se o sr. o visse!</p>
+
+<p>Anselmo, porêm, num abrir e fechar de olhos, raciocinou: «mas se êste é dos
+tais que a monarquia não poupa quando voltar; se êle está fatalmente condenado
+pela revindicta... Deixá-lo ir já!»<span class="pn"><a
+name="pag_82">{82}</a></span></p>
+
+<p>&mdash;Pois tenha paciência, santinha; onde não há el-rei o perde...</p>
+
+<p>&mdash;El-rei! exclamou a mulher, furiosa, voltando costas, de repelão,&mdash;o que o
+sr. precisava bem sei eu; não haver linhaça numa terra onde não há mais
+boticas!</p>
+
+<p>Anselmo ainda ouviu a mulher a distância, queixar-se para alguêm, fazendo
+escândalo:</p>
+
+<p>&mdash;É ali o boticário que não tem linhaça; anda só a pensar na monarquia, o
+talassa, e esquece-se das obrigações...</p>
+
+<p>O epíteto de talassa custou-lhe os olhos da cara; mas emfim, tudo eram
+sacrifícios pela Causa. Mais tarde havia de saber-se e os juros viriam&mdash;se
+viriam!&mdash;com larga usura e gratidão...</p>
+
+<p>&mdash;Talassa! Talassa!...&mdash;gritava a mulher.</p>
+
+<p>&mdash;Pois sim...</p>
+
+<p> </p>
+
+<p>A incursão falhou. Pela raia, em Vinhais, bandos de malfeitores assalariados
+tinham tentado um simulacro de luta contra a existência<span class="pn"><a
+name="pag_83">{83}</a></span> do novo regimen. Fugiram. A notícia do fracasso
+voou por todo o país com rapidez. Anselmo soube-a de manhã, na cama, pela
+criada, e já se não quis levantar. Adoecera. Queixou-se de arrepios, gemeu,
+disse à mulher que mandasse vir o médico.</p>
+
+<p>&mdash;E para a farmácia, quem vai?</p>
+
+<p>&mdash;Vai a senhora, rosnou, de mau humor.</p>
+
+<p>E abafou-se na roupa.</p>
+
+<p>O médico veio e receitou: era intestino. Como republicano, falou do caso.
+Anselmo, mordido de curiosidade, desejou conhecer toda a acção nos mínimos
+detalhes: quantos eram, quem vinha, quem comandava e por último, convencido da
+derrota, da inanidade daquele esfôrço ridículo, perguntou:</p>
+
+<p>&mdash;E dos <em>nossos</em>, quem foi?</p>
+
+<p>&mdash;Dos nossos?! interrogou o médico, sem perceber.</p>
+
+<p>&mdash;Sim, dos rèpublicanos: quem é que o govêrno mandou a correr aquela tropa
+fandanga a ponta-pé?</p>
+
+<p>O médico, que era um homem distraído, respondeu com indiferença:<span
+class="pn"><a name="pag_84">{84}</a></span></p>
+
+<p>&mdash;Não sei; creio que ninguêm; nem se pensou em tal, ilustre
+correligionário...</p>
+
+<p> </p>
+
+<p>Á tarde, Anselmo poude sair. Não tinha febre. O intestino desatou a
+funcionar melhor e nem foi preciso medicar-se.</p>
+
+<p>&mdash;Mas que ideia aquela, dizia êle, no club, a uma roda de amigos
+embasbacados,&mdash;que ideia aquela da restauração! São doidos!... A Rèpública tem,
+não há dúvida, alguns defeitos, sou eu o primeiro a reconhecê-lo; mas
+tirem-se-lhe! O que todos devemos fazer é trabalhar para que as novas
+instituições sejam aquilo para que as creámos.&mdash;Não é isso, Teotónio? rematou,
+voltando-se para mim, que o escutava transido.</p>
+
+<p>E com descaramento:</p>
+
+<p>&mdash;Você tem-me ouvido muita vez dizer isto mesmo; você sabe que eu já no
+tempo da monarquia era tanto ou mais liberal do que você, que se tem por
+histórico.</p>
+
+<p>Eu, moita.</p>
+
+<p>&mdash;Você não fala? não diz nada?</p>
+
+<p>Afastei-me prudentemente. Notei que ia rebentar<span class="pn"><a
+name="pag_85">{85}</a></span> de indignação contra aquele farçante; mas ao
+mesmo tempo sentia&mdash;como sentíamos todos aliás, diante dêle&mdash;que nem que
+fizesse ou dissesse o dôbro do que dizia e fazia, algum de nós teria a coragem
+de o desmentir!</p>
+
+<p> </p>
+
+<p>Assim se consumou pois a adesão solene do sr. Anselmo a Rèpública. Tudo o
+que veio a seguir, gréves, intentonas, zaragatas, a incursão de julho... tudo,
+numa palavra, encontrou-o já pela frente, tão decidido e jacobino, ou mais
+ainda do que aqueles que se gabavam de o ser. Logo que se organizaram os
+partidos, Anselmo filiou-se nos <em>democráticos</em>. E o ódio ao padre, o
+horror ao padre, a fobia do padre obcecava-o de dia e de noite.</p>
+
+<p>Uma vez, um dos ministros foi a Vizeu: pespegou-se lá, com o Teotónio e o
+administrador (aquele administrador que êle quis matar) e o Menezes jornalista,
+que tambêm já era <em>democrático</em>. Assistiu ao jantar, fez um brinde
+condenando o Clero, «êsse Clero infame a que pertencêra, não se sabe porque
+caprichos da sorte, o célebre, o liberalíssimo<span class="pn"><a
+name="pag_86">{86}</a></span> bispo daquela terra!». Falou depois de Viriato, e
+terminou com um viva à Rèpública que atroou o vasto recinto do teatro onde o
+banquete se realizava.</p>
+
+<p>O ministro, sensibilisado, ergueu-se para agradecer. Discursou pausadamente
+durante 20 minutos, empunhou a taça por fim, e pediu a todos que o
+acompanhassem e bebessem à saúde de Anselmo Nogueira, «figura prestimosa da
+Rèpública, homem de bem às direitas, livre pensador e companheiro fiel dos
+tempos da propaganda.&mdash;Hip! hip! hip! Hurrah!».</p>
+
+<p>As taças tilintaram. Anselmo, carregado, chorou. E Teotónio, batendo com a
+mão no ombro do administrador de Moimenta, segredou-lhe:</p>
+
+<p>&mdash;Lá intrujou o ministro, o patife! Companheiro fiel dos tempos da
+propaganda, ouviste? Que desafôro!</p>
+
+<p>O administrador comentou:</p>
+
+<p>&mdash;E livre pensador, filho! Parece que o estou ainda a ver de lanterna e de
+opa na procissão do Senhor dos Paços! O que é o mundo!...<span class="pn"><a
+name="pag_87">{87}</a></span></p>
+
+<p>Eu puz-me a considerar, palitando os dentes.</p>
+
+<p>&mdash;Então e nós? indaguei por fim, despeitado.</p>
+
+<p>&mdash;Nós? nós? Essa agora! Nós não saìremos nunca da cêpa torta, meu velho...
+Este Anselmo, êste farmaceutico, que ali vês recostado numa cadeira, é o modelo
+do político português. Maioral no tempo da monarquia, maioral se vai tornando
+dentro da Rèpública. Era de esperar! Pois se os monárquicos é que prepararam
+isto com os seus erros, se êles é que deitaram a monarquia a terra, não achas
+justo que quem plantou a vinha pense tambêm agora em comer os cachos?...<span
+class="pn"><a name="pag_88">{88}</a><br><a name="pag_89">{89}</a></span></p>
+
+<h1>Candidinha Cerdeira</h1>
+
+<h3>(Novela romântica)</h3>
+
+<p> <span class="pn"><a name="pag_90">{90}</a><br><a name="pag_91">{91}</a></span></p>
+
+<h2>Candidinha Cerdeira</h2>
+
+<h3>(Novela romântica)</h3>
+
+<blockquote>
+ <p>«Pasmei, como a gente pasma até certa idade, das maravilhas que se fazem
+ no coração das raparigas.»</p>
+
+ <p class="assin">C<small>AMILO</small>.</p>
+</blockquote>
+
+<div class="cap">
+E<span class="sc">m</span> casa da D. Leonor, viuva do juiz Cerdeira,&mdash;que era
+irmão do afamado cónego Amorim Cerdeira, vigário geral na diocese
+d'Angra&mdash;falou-se muito toda essas noite na vinda do novo professor do
+liceu.</div>
+
+<p>Chamava-se Hipólito e trouxera a irmã, Alzira, rapariga loira que usava uns
+chapeus enormes e punha beladona detrás das orelhas para fazer os olhos
+bonitos...</p>
+
+<p>Era uma excêntrica. A história da vida e obras de certa princezinha otomana,
+filha dum velho imperador de Constantinopla, extravagante<span class="pn"><a
+name="pag_92">{92}</a></span> até à loucura em matéria de garridice, lida num
+volume que o irmão lhe emprestára, pô-la em termos de aspirar a utopias:
+desejaria banhar-se num lago d'aguas perfumadas, ungir o corpo d'óleos
+aromáticos, ter um jardim suspenso e uma multidão de escravas que fossem todas
+as manhãs colher o orvalho das flôres... para ela refrescar o rosto.</p>
+
+<p>Custára-lhe imenso a deixar Lisboa e vir assim encafuar-se numa
+aldeia,&mdash;porque era positivamente uma aldeia aquele feio e triste burgo
+d'aspecto desolado e monótono, onde não conheciam ninguêm.</p>
+
+<p>Emfim, para quem trazia os nervos combalidos dos sobressaltos e incertezas
+das grandes horas da Revolução, aquilo até certo ponto convinha. Tinha
+amenidades de paraiso a paz pôdre, o sossêgo vegetativo e pacovio daquela terra
+pequena, com sua vida imutável, seus hábitos conservadores e sedentários, um
+modo bisbilhoteiro de vir às portas e às janelas espreitar, e certo
+<em>centro</em> palreiro de maledicência e política, que logo lhes disseram ser
+ali a loja do <em>amigo Palma</em>.<span class="pn"><a
+name="pag_93">{93}</a></span></p>
+
+<p>Quem pôs a cidade ao par de toda a biografia do professor e da irmã foi o
+Malafaia, o grande bacharel Malafaia, de quem o dr. Marim, médico do partido,
+dizia: «&mdash;Êste não se formou: formáram-no...»&mdash;Conhecia-os de lhe terem sido
+apresentados há anos na Figueira da Foz. Alzira confessou-lhe agora, quando os
+visitou, que gostava muito da cidade.</p>
+
+<p>&mdash;O quê! sério?</p>
+
+<p>Sério. Dava-se bem com os ares, que eram puros, saudáveis, e com a água,
+magnífica! Apenas uma única coisa a contrariava devéras: ter de viver num
+hotel..</p>
+
+<p>Malafaia reconheceu que havia em todas aquelas referências uma pontinha de
+malícia.</p>
+
+<p>&mdash;No hotel? disse.&mdash;E porque é que V. Ex.<sup>as</sup> não arrendam uma
+casa?</p>
+
+<p>&mdash;Porquê? Ora essa; o doutor nem conhece a sua terra... Porque as não há!</p>
+
+<p>Rialmente não as havia. Que aborrecimento!<span class="pn"><a
+name="pag_94">{94}</a></span></p>
+
+<p>&mdash;Eu não sei o que os senhores fazem ao dinheiro...&mdash;tornou Alzira, achando
+móle e carregando.</p>
+
+<p>&mdash;Tambêm o não há...&mdash;respondeu o bacharel.</p>
+
+<p>Todos riram com a resposta. O professor declarou no emtanto achar-se
+resignado, contente... Apesar dêsses pequenos defeitos&mdash;e qual era a terra que
+os não tinha?&mdash;aquele meio era delicioso.</p>
+
+<p>&mdash;Só esta pacatez!...</p>
+
+<p>E abeirou-se da janela, encheu os pulmões do ar puro que vinha das altas
+montanhas distantes.</p>
+
+<p>&mdash;Quer saber? murmurou,&mdash;minha irmã, a primeira noite que aqui ficámos, não
+conseguiu pregar ôlho...</p>
+
+<p>&mdash;Então? Porquê?</p>
+
+<p>&mdash;Por causa do silêncio!</p>
+
+<p> </p>
+
+<p>D. Leonor vivia com a filha, Maria Cândida,&mdash;a Candidinha&mdash;que andava agora
+nos dezoito anos e ainda engatinhava quando o pai morreu de congestão cerebral.
+Reunia aos<span class="pn"><a name="pag_95">{95}</a></span> sábados. Iam quase
+sempre o juiz da comarca e a mulher; o sr. Xavier&mdash;o <em>Xavier das
+massas</em>&mdash;solteirão abastado e artrítico; o dr. Marim e às vezes uma D.
+Josefina, tambêm viuva, que fôra operada por êle duma doença d'útero. Tudo
+gente de idade. Maria Cândida aborrecia-se daquela vida. A mãe andava sempre a
+dizer-lhe:</p>
+
+<p>&mdash;Que cara que tu trazes, rapariga! Nem parece que te lus o que comes.
+Endireita-te! Que há de dizer a outra gente. </p>
+
+<p>O dr. Marim tinha um facataz pela pequena. Achava-a esperta, interessante,
+em tudo revelando um carácter diferente da vulgaridade. Dedicára-se-lhe por
+isso com um entranhado amor de pai, em certas ocasiões surpreendendo-se a
+chamá-la, a acarinhá-la como se ela rialmente fôsse do seu sangue... Tambêm, a
+cachopinha, logo de tenra idade correspondia àquele amor; e quando o médico, a
+brincar, lhe perguntava se queria ir com êle, fugir da mãe para longe, a petiza
+saltava-lhe ao pescoço, a cobri-lo de beijos, sem dizer palavra,&mdash;lá no fundo a
+desejar que êle a<span class="pn"><a name="pag_96">{96}</a></span> levasse...
+D. Leonor sorria; intimamente porêm desgostava-se. Desenvolveu-se à pressa,
+espigou dum dia para o outro, Maria Cândida. Todos diziam:&mdash;«Está uma senhora!»
+E deu então em andar triste, murchita, nervosa, a ponto de a mãe se alarmar,
+perguntando ao médico o que seria. O médico ria-se, receitava:</p>
+
+<p>&mdash;Banhos... Água p'ra cima daqueles nervos! E deixe-a saír, não a prenda em
+casa, que estas idades querem sol...</p>
+
+<p>Maria Cândida tinha-lhe dito um dia:</p>
+
+<p>&mdash;A mamã quer-me para freira, não há dúvida. Tem medo que eu saia, proíbe-me
+que chegue a uma janela, não me deixa mecher se não nos livros do tio Cerdeira,
+que são todos em latim. É pior!</p>
+
+<p>O médico ficou a ruminar a gravidade daquele comentário; «é pior!»;
+distraindo o olhar pela variada, profusa, quase incongruente decoração da sala,
+onde D. Leonor recebia aos sábados. A rapariga tinha rasão: educar, pensava
+êle, é formar seres conscientes, livres, não é torcer aptidões e
+tendências<span class="pn"><a name="pag_97">{97}</a></span> naturais por forma
+a amoldá-las ao próprio interesse de quem educa. Dizer a alguêm: «has de ser
+isto ou has de ser aquilo, porque eu quero, porque convêm, porque é assim», e
+não admitir sequer que êsse alguêm raciocine, ou sinta, ou queira doutro
+modo,&mdash;é um absurdo. Tão grande como se uma pessoa que tivesse fome em dado
+momento, exigisse dos mais, no mesmo instante, a mesma vontade de comer...</p>
+
+<p>O médico, por fim, demorou os olhos sôbre um enorme quadro exposto numa das
+paredes do fundo, que representava um trecho de paisagem oriental: palmeiras,
+filas de camelos pensativos e gibosos; e um beduino barbinêgro, prosternado,
+osculando o solo poeirento, onde poisára o cajado de larga crossa e as babuchas
+de palha de arroz...</p>
+
+<p>O dr. juiz nunca via aquilo que não exclamasse:&mdash;Lindo!&mdash;e encavalava a
+luneta para ler o nome do autor, que lhe esquecia sempre.</p>
+
+<p>Maria Cândida sentou-se ao piano. Imprimia ao que tocava um movimento de
+embalo, vagaroso e triste, que tanto podia traduzir a<span class="pn"><a
+name="pag_98">{98}</a></span> influência duma vida pendular, claustral e
+monótona, reflectindo-se-lhe nos sentimentos, como a aspiração vaga e inquieta
+duma alma que procura no ritmo da música o ritmo do vôo...</p>
+
+<p>Conheceu Hipólito num domingo, à saída da missa, onde o professor fôra
+acompanhar a irmã. Malafaia, que aparecia em toda a parte por um maravilhoso
+dom de ubiqùidade, mal os avistou, fez as apresentações.</p>
+
+<p>D. Leonor não gostou. Aconselhára-a o sr. Xavier que não quisesse relações
+com semelhante gente: «gente de Lisboa, sabe? uma educação muito livre.» E
+torceu o nariz, fez o gesto vago de quem prevê calamidades.</p>
+
+<p>Durante a missa Maria Cândida notou que o professor a fitava com uma
+curiosidade insistente. Tinham ficado todos, casualmente, em cima, no côro.
+Através dos balaústres ela via o padre ao fundo, oficiando; e atrás, enchendo a
+comprida nave, o povinho das aldeias que vinha aos mercados semanais.</p>
+
+<p>Hipólito ficára junto de Alzira, que trazia<span class="pn"><a
+name="pag_99">{99}</a></span> como sempre um chapéu escandaloso, e observava os
+menores gestos de Maria Cândida. Viu-a abrir o livro, persinar-se, bater no
+peito devotamente quando o padre consagrou a hostia e ergueu o cálice e, no
+silêncio religioso da igreja, o som da campainha vibrou, duas vezes, com
+solenidade e cadência.</p>
+
+<p>Um raio de sol filtrou a sua luz pura por uma das altas janelas da nave e
+foi refractar-se nos pingentes dum lustre de cristal pendente da abóboda,
+incidindo por fim, já irisado, no cabelo, nas faces, no manto azul duma Senhora
+das Dôres, que chorava no altarzinho duma das capelas laterais... Maria Cândida
+resou-lhe uma oração fervorosa e a Virgem pareceu sorrir por entre as lágrimas,
+agradecer, no seu banho de luz&mdash;no que Maria Cândida viu um sinal de bom
+agoiro...</p>
+
+<p> </p>
+
+<p>Quando lhe apertou a mão, cá fora, e a poude observar à claridade crua do
+meio dia, perto de si, Hipólito ficou encantado. Era o tipo sonhado, inédito,
+da beleza inculta, da simplicidade provinciana. Tinha na fala o<span
+class="pn"><a name="pag_100">{100}</a></span> sotaque da pronúncia beirôa,
+autêntica, sibilante de <em>ss</em>; e nos olhos um ar assustadiço, implorativo
+e meigo, de herbívora.</p>
+
+<p>A caminho de casa, Alzira disse ao irmão:</p>
+
+<p>&mdash;Se um dia te desse para o casamento, gostava que casasses com uma rapariga
+assim...</p>
+
+<p>E êle:</p>
+
+<p>&mdash;Quem havia de dizer que numa terra destas!...</p>
+
+<p> </p>
+
+<p>D. Leonor guardava a filha como um dia santo. Não a votava decerto,
+estèrilmente, ao celibato, mas reservava-lhe um destino a seu gôsto. Não a
+tinha trazido no ventre? Não a tinha criado, educado, sofrendo por ela penas e
+reveses? Sabe Deus!</p>
+
+<p>&mdash;Quando se tem a tua idade, prègava-lhe, não se pensa, não se reflecte,
+deixa-se a gente levar pelas aparencias; mas depois... Teu pai, quando casámos,
+não tinha vintêm,&mdash;e diziam que era esperto... Ao princípio vi-o muita vez a
+chorar, a arrepelar-se, a pensar em morrer. De que lhe servia a esperteza?
+Serviu-lhe mas foi o irmão, que era um homem de tino e de<span class="pn"><a
+name="pag_101">{101}</a></span> fortuna, com amigos a valer que lhe arranjaram
+o despacho...</p>
+
+<p>Maria Cândida escutava sem retorquir. Percebêra que a mãe queria casá-la com
+o Xavier.&mdash;O Xavier! Um velho! um antipático que usava meias de lã ásperas como
+urtigas, que desabotoava o colete depois de jantar e, sobretudo, que podia ser
+avô dela! Metia-lhe horror e repugnância tal ideia. Nunca! Nem que tivesse de
+ficar solteira, como as tias de Freixinho...</p>
+
+<p>Uma amiga do colégio&mdash;a Matôso&mdash;tinha-lhe jurado que o professor andava com
+boas intenções; que aquilo não era um passatempo; que lhe afirmára o
+Malafaia&mdash;sabes? o Malafaia que agora me faz a côrte...&mdash;que o casamento era
+infalível.</p>
+
+<p>Ela punha-se com evasivas:</p>
+
+<p>&mdash;Pois sim... Eu então já ouvi dizer que era comtigo...</p>
+
+<p> </p>
+
+<p>Entretanto o namôro progredia. Não era segrêdo para ninguêm que se carteavam
+e que tinham entrevistas do mirante do jardim. Em<span class="pn"><a
+name="pag_102">{102}</a></span> toda a parte se comentava isto: a paixão do
+professor do liceu e da Candidinha Cerdeira.</p>
+
+<p>E amiudava-se o caso, referiam-se pormenores excitantes. Havia quem tivesse
+visto o professor, feito Romeu, trepar por uma escada de corda para o muro do
+quintal! Méra invenção, claro. Mas o Matos do govêrno civil tambêm vira&mdash;porque
+via sempre tudo e jurava ser verdade por duas filhas que lá tinha em casa.</p>
+
+<p>D. Leonor deu conta que Hipólito lhe passava repetidas vezes à porta, que se
+pespegava horas e horas no estabelecimento da esquina a olhar para as janelas.
+Estremeceu de angústia! Deu terminantes ordens à filha, que passou a habitar os
+aposentos interiores do prédio. O sr. Xavier tinha-lhe abertamente declarado,
+submetendo-se a tudo:</p>
+
+<p>&mdash;Arranje a sr.ª cá e chame-me quando fôr preciso...</p>
+
+<p>Era o momento!</p>
+
+<p>Mas, sendo mulher, fraca, portanto, e irresoluta, quis estribar-se na
+opinião do médico, pessoa tambêm da sua inteira confiança.<span class="pn"><a
+name="pag_103">{103}</a></span></p>
+
+<p>&mdash;A minha opinião? disse-lhe êle.&mdash;Mas alguêm tem que dar para aí a sua
+opinião?</p>
+
+<p>Ela encarou-o com espanto, sem compreender.</p>
+
+<p>&mdash;Entendo que um casamento deve ser feito à vontade dos que se casam,
+explicou o médico.&mdash;Casam bem? casam mal? Lá é com êles...</p>
+
+<p>&mdash;Perdão, interrompeu a viuva.&mdash;Eu, que sou a mãe, tenho naturalmente que
+intervir dalgum modo na orientação, ou na escolha...</p>
+
+<p>&mdash;Conforme, minha sr.ª, conforme... Se se trata apenas de orientar, de
+dirigir a sua filha nêsse passo, está bem; mas propriamente a <em>escolha</em>,
+é a ela só que pertence. Os filhos não são&mdash;como muita gente póde ainda
+erradamente presumir,&mdash;uma legítima propriedade dos pais... Os filhos são
+pessoas independentes, com direitos, com atribuições...</p>
+
+<p>&mdash;De maneira que o doutor condena a minha atitude? Entende que eu devo
+desinteressar-me por completo do futuro da minha filha?...<span class="pn"><a
+name="pag_104">{104}</a></span></p>
+
+<p>&mdash;Por completo!? Mas quem pensa nisso? Por completo, não,
+evidentemente...</p>
+
+<p>&mdash;Bonita doutrina, não haja duvida, murmurava D. Leonor sem o ouvir, fula,
+mordendo o beiço, batendo nervosamente com o leque no joelho, repetidas
+vezes.&mdash;«Casa-te, casa-te p'r'aí, rapariga, com o primeiro que te apareça...»
+Haviamos de vê-las bonitas, se assim fôsse!...</p>
+
+<p>O médico desistiu de discutir.</p>
+
+<p>&mdash;Bem! rematou, erguendo-se,&mdash;para terminar: quer V. Ex.ª um conselho, um
+conselho de amigo, de pessoa que conhece um bocado a vida e que tem levado
+muito ponta-pé e aprendido à sua custa o pouco que sabe? Quer?</p>
+
+<p>D. Leonor não respondeu.</p>
+
+<p>&mdash;Não obrigue sua filha a casar com semelhante homem.</p>
+
+<p>&mdash;Ora essa! Com quem quer o doutor então que ela case?</p>
+
+<p>&mdash;Sei lá! Mas naturalmente com quem ela quiser...</p>
+
+<p>E pôs termo.<span class="pn"><a name="pag_105">{105}</a></span></p>
+
+<p> </p>
+
+<p>D. Leonor não desanimou. A manobra do casamento com o velho seguiu seus
+trâmites. Na cidade a indignação era geral. Para mais havia constado a scena da
+entrevista com o médico, as suas discordâncias, o ligeiro amuo
+subseqùente...</p>
+
+<p>&mdash;Víbora! víbora! dizia-se.&mdash;O dr. Marim bem a conhece...</p>
+
+<p>E formulavam-se as piores insídias: que o ilustre Xavier era amante da D.
+Leonor e que impunha agora o casamento com a filha sob pena dum escândalo.</p>
+
+<p>Havia quem gostasse disto, havia quem não gostasse; a maioria dizia:</p>
+
+<p>&mdash;É bem feito! aquilo não se faz...</p>
+
+<p>No cúmulo da revolta, Malafaia, em verdadeiros comícios nas lojas, lembrava
+que era preciso salvar aquela criança custasse o que custasse... E com teatral
+entono, instigava:</p>
+
+<p>&mdash;É preciso ir lá (fazia o gesto de quem aponta uma Bastilha) arrombar as
+portas e pôr a infeliz no ôlho da rua!</p>
+
+<p>A coisa estava neste pé.<span class="pn"><a
+name="pag_106">{106}</a></span></p>
+
+<p> </p>
+
+<p>Certo dia o dr. Marim recolhia a casa, cedo, para almoçar. A criada, uma
+velha servente encarquilhada e sêca como uma casca de noz, a coxear da
+sciática, disse-lhe, mal êle se poz a desdobrar o guardanapo:</p>
+
+<p>&mdash;Então, já sabe? A menina Candidinha parece que já não casa com o sr.
+Xavier. Está desfeito.</p>
+
+<p>O médico teve um gesto de mau humor irreprimivel:</p>
+
+<p>&mdash;Lá esta você! Todos os dias novidades! Quando é que esta criatura se
+cansará de dar novidades?</p>
+
+<p>E desatou a rilhar o bife sem vontade. A velha rodou sôbre os calcanhares,
+saíu da sala.</p>
+
+<p>&mdash;Pois é tudo cheio cá na cidade, insistiu quando voltou.&mdash;A menina julgo
+que sempre confessou...</p>
+
+<p>&mdash;Confessou o quê, mulher?</p>
+
+<p>&mdash;Olha o quê! O que já corria: que é amante do professor...</p>
+
+<p>O médico ergueu-se de golpe, lívido, transfigurado,<span class="pn"><a
+name="pag_107">{107}</a></span> fazendo recuar até à porta a pobre velhota
+espavorida de o ver assim:</p>
+
+<p>&mdash;Crédo! santo nome de Deus! mas que tem? murmurou, supondo que o médico
+fôra acometido de loucura.</p>
+
+<p>&mdash;Você ouviu isso?</p>
+
+<p>&mdash;Ouvi, sim senhor.</p>
+
+<p>&mdash;A quem? Aonde? Diga.</p>
+
+<p>&mdash;Por aí, diz-se em toda a parte; é tudo cheio...</p>
+
+<p>Êle levou ambas as mãos ao crânio. Esteve assim, sem se mover, sem dizer
+palavra, por espaço de alguns minutos. Depois arremessou o guardanapo, empurrou
+a cadeira, pediu o chapéu e a bengala para saír&mdash;e saíu, deixando a mulher
+boquiaberta, sem perceber coisa nenhuma.</p>
+
+<p> </p>
+
+<p>Quando, uma ou duas horas depois, subia as escadas da casa de Hipólito, o
+dr. Marim ia cabisbaixo, taciturno, como se uma grande dôr o tivesse
+trespassado mortalmente.</p>
+
+<p>Estivera com D. Leonor que lhe confirmou entre recriminações e prantos a
+tremenda<span class="pn"><a name="pag_108">{108}</a></span> nova da desonra da
+filha. Fôra ela, a dissimulada, quem se denunciára&mdash;com um descaramento, uma
+serenidade, um cinismo, calcule o doutor, que deixava a perder de vista as
+maiores desavergonhadas da terra! E era sua filha! D. Leonor não sabia dizer
+como se contivéra e porque a não estrangulára... Sua filha, tinha dito? Não!
+Maria Cândida morrêra! Essa que ainda ali conservava, a dentro do seu lar, por
+uns restos de comiseração, mas que nunca mais quereria ver, não era sua filha:
+era uma mulher perdida!</p>
+
+<p>E o sr. Xavier? Ah! êsse então, coitado, tinha ficado como morto.
+Compreende-se... Porque Maria Cândida levára a sua audácia até ao ponto de
+dizer tudo diante dêle, diante das criadas e dos convidados,&mdash;era um
+sábado&mdash;alto e bom som, para que não se perdesse pitada: «A mãe queria casa-lá
+com o Xavier das massas, por dinheiro; pois bem, ela afirmava ali
+terminantemente que não casaria: primeiro, porque o detestava; segundo, porque
+tinha um amante, o professor!»</p>
+
+<p>&mdash;Veja o meu amigo, agora, o que foi fazer!<span class="pn"><a
+name="pag_109">{109}</a></span> comentou o dr. Marim, voltando-se para
+Hipólito, a quem acabava de expor a situação com esta nitidez.&mdash;Que cabeça a
+sua! Que responsabilidades!</p>
+
+<p>Hipólito sorriu ligeiramente, murmurou:</p>
+
+<p>&mdash;Até que ponto nos podem levar os desvarios do amor, doutor, não é
+assim?</p>
+
+<p>&mdash;É assim mesmo, concordou o médico.&mdash;Mas um homem nunca tem nada a perder
+com estas coisas; agora uma rapariga!...</p>
+
+<p>&mdash;Perde tudo.</p>
+
+<p>&mdash;Sim, tudo!</p>
+
+<p>Houve um silêncio.</p>
+
+<p>&mdash;O sr. não andou bem, Hipólito, confesse, não andou bem...</p>
+
+<p>&mdash;Eu?...</p>
+
+<p>&mdash;É claro.</p>
+
+<p>&mdash;Na sua opinião, pelo menos, doutor... Já me cheguei a convencer de que sou
+rialmente um canalha... pois que como tal procedo...</p>
+
+<p>&mdash;Leviandades, leviandades...&mdash;atenuou o médico.&mdash;Eu habituei-me a ver em
+Maria Cândida uma espécie de filha, desde muito<span class="pn"><a
+name="pag_110">{110}</a></span> nova. Não admira. Tive-a nos braços quando
+nasceu, pequenina, vi-a depois medrar, crescer, fazer-se mulher à minha
+vista&mdash;afeiçoei-me. Que quer? Emfim...&mdash;limpou uma lágrima que lhe rolou ao
+comprido da face&mdash;coisas da vida!</p>
+
+<p>Depois, apreensivo:</p>
+
+<p>&mdash;O sr. o que pensa fazer agora?...</p>
+
+<p>Hipólito ficou sem responder, um bocado, com o espírito absorvido num
+pensamento cruel e longínquo, que o fazia empalidecer.</p>
+
+<p>&mdash;Vou confiar-lhe um segrêdo, disse, por fim, numa resolução
+firme.&mdash;Devo-lhe muitas atenções e custar-me-ia sinceramente que o doutor
+ficasse formando de mim um conceito menos lisongeiro...</p>
+
+<p>&mdash;Fale, meu amigo, fale, disse o médico ancioso por o
+ouvir.&mdash;Prestar-lhe-ei, creia, toda a atenção. Fale...</p>
+
+<p>Hipólito hesitou; aprumou-se, procurando dar às suas palavras um tom solene,
+de grande sinceridade.</p>
+
+<p>&mdash;Maria Cândida não está culpada; Maria Cândida não é, nem nunca foi minha
+amante!<span class="pn"><a name="pag_111">{111}</a></span></p>
+
+<p>&mdash;Que me diz?!</p>
+
+<p>&mdash;A verdade! Maria Cândida é tão virtuosa, hoje, tão pura e imaculada como
+na hora em que pela primeira vez a encontrei. Não me acredita? Juro-lhe.</p>
+
+<p>O médico fitou-o, desconfiado, surprezo.</p>
+
+<p>&mdash;Conhece esta letra? disse Hipólito.</p>
+
+<p>E colocou-lhe diante dos olhos um papel cuidadosamente retirado da
+carteira.</p>
+
+<p>&mdash;Conheço. É a letra de Maria Cândida.</p>
+
+<p>&mdash;Pois é. Leia!</p>
+
+<p>O médico obedeceu. E quando terminou, os olhos arrasados de lágrimas,
+deixou-se caír sôbre uma cadeira, p'ra ali, varado de espanto.</p>
+
+<p>&mdash;É assombroso!</p>
+
+<p>Hipólito arrancou-lhe das mãos, trémulas pela comoção, a carta, cujo final
+releu em voz alta: «... Pois bem. Afirmarei, ou darei a perceber a todo o mundo
+que sou tua amante; dêste modo nenhum outro homem me quererá...»</p>
+
+<p>&mdash;É assombroso! repetia o médico estonteado.&mdash;E é uma criança! é uma criança
+que faz disto!...<span class="pn"><a name="pag_112">{112}</a></span></p>
+
+<p>Emquanto Hipólito, a chorar, concluia:</p>
+
+<p>«Se me desmentes... mato-me. E tu bem sabes&mdash;sim, tu bem sabes!&mdash;como eu sou
+capaz de cumprir fielmente o que prometo...»<span class="pn"><a
+name="pag_113">{113}</a></span></p>
+
+<h1>Eureka!</h1>
+
+<p> <span class="pn"><a name="pag_114">{114}</a><br><a name="pag_115">{115}</a></span></p>
+
+<h2>Eureka!</h2>
+
+<blockquote>
+ <p>"&mdash;Je vous demande pardon: vous étes bien monsieur Boubouroche?"</p>
+
+ <p class="assin">C<small>OURTELINE</small>.</p>
+</blockquote>
+
+<h4>ACTO I</h4>
+
+<blockquote>
+ <p><em>No escritorio dum advogado.</em></p>
+</blockquote>
+
+<p class="centrado">O CLIENTE</p>
+
+<div class="cap">
+C<span class="sc">hamo-me</span> Teodorico da Silva, negociante, com
+estabelecimento de bebidas...</div>
+
+<p class="centrado">O ADVOGADO</p>
+
+<p>Sim senhor. Faz o obséquio de sentar-se.</p>
+
+<p class="centrado">O CLIENTE</p>
+
+<p>O meu caso é simples, conta-se em breves palavras. Sou casado, e minha
+mulher... minha mulher engana-me, descaradamente, com o primeiro caixeiro da
+casa.<span class="pn"><a name="pag_116">{116}</a></span></p>
+
+<p class="centrado">O ADVOGADO</p>
+
+<p>É então uma acção de divorcio que o senhor deseja intentar?...</p>
+
+<p class="centrado">O CLIENTE, <em>presuroso</em>:</p>
+
+<p>Perdão... Eu ainda não disse a V. Ex.ª o que desejo. (<em>Pausa</em>). Eu me
+explico: Sou um homem honrado, nunca roubei nada a ninguêm, mas sou tambêm um
+temperamento desgraçado, um sentimental, um fraco. Não posso, por exemplo, ver
+sangue. Para lhe falar com franqueza, nunca na minha vida&mdash;e já tenho cincoenta
+anos&mdash;peguei numa arma! Isto tudo vem para lhe explicar o motivo porque não
+matei minha mulher ontem à noite quando entrei em casa e a vi com <em>êle</em>,
+em doce colóquio amoroso, mais que amoroso! sôbre um canapé de estimação...</p>
+
+<p class="centrado">O ADVOGADO, <em>interessado</em>:</p>
+
+<p>Sim senhor.</p>
+
+<p class="centrado">O CLIENTE</p>
+
+<p>Ora porque sou um homem honrado, respeitador das leis e dos costumes,
+preciso evidentemente<span class="pn"><a name="pag_117">{117}</a></span> dar
+uma satisfação ao mundo, que seja, ao mesmo tempo, uma satisfação à minha
+consciência. Posta de parte, pois, a ideia duma solução violenta, resta-me,
+claro, essa a que V. Ex.ª se referiu há pouco, isto é&mdash;o divorcio.</p>
+
+<p class="centrado">O ADVOGADO, <em>interessadíssimo</em>:</p>
+
+<p>Sim senhor...</p>
+
+<p class="centrado">O CLIENTE</p>
+
+<p>Mas o senhor não sabe&mdash;porque não é casado&mdash;o que são vinte e tantos anos
+passados com uma mulher...</p>
+
+<p class="centrado">O ADVOGADO, <em>impressionado</em>:</p>
+
+<p>Faço ideia...</p>
+
+<p class="centrado">O CLIENTE</p>
+
+<p>Não. V. Ex.ª não póde fazer ideia. É tudo a prender-nos, sabe? É a
+companhia, as inclinações, o paladar... Emfim, em conclusão, o divorcio por
+coisa nenhuma deste mundo.</p>
+
+<p class="centrado">O ADVOGADO, <em>cofia a barba e medita apreensivamente no
+caso</em>.<span class="pn"><a name="pag_118">{118}</a></span></p>
+
+<p class="centrado">O CLIENTE</p>
+
+<p>Pensei então noutra coisa...</p>
+
+<p class="centrado">O ADVOGADO, <em>ancioso</em>:</p>
+
+<p>Diga!</p>
+
+<p class="centrado">O CLIENTE</p>
+
+<p>Pensei então em despedir o caixeiro. (<em>Sinal de aprovação do
+advogado</em>). Mas aqui outro grave obstáculo se levanta! O caixeiro é um
+antigo empregado da casa, muito conhecedor do assunto; é êle, póde dizer-se, a
+alma do negócio! Despedi-lo seria ver fugir a freguezia, ver ir tudo por água
+abaixo... sem apelação!</p>
+
+<blockquote>
+ <p><em>Ficam os dois calados. Ouve-se a respiração alta do cliente, como um
+ estertor.</em></p>
+</blockquote>
+
+<p class="centrado">O ADVOGADO, <em>erguendo-se</em>:</p>
+
+<p>Pois meu caro amigo, visto isso, não sei; não sei o que deva dizer-lhe...
+(<em>Estende-lhe a mão pesaroso</em>). O melhor de tudo é ter paciência: a
+paciência é uma virtude...<span class="pn"><a
+name="pag_119">{119}</a></span></p>
+
+<p class="centrado">O CLIENTE, <em>desalentado</em>:</p>
+
+<p>E o mundo? E então o mundo o que dirá? o que dirá?</p>
+
+<p class="centrado">O ADVOGADO</p>
+
+<p>O mundo dirá que o meu amigo é uma excelente pessoa, que sua mulher foi uma
+ingrata em lhe fazer o que lhe fez...</p>
+
+<p class="centrado">O CLIENTE, <em>com uma lágrima a borbulhar ao canto do
+ôlho</em>:</p>
+
+<p>E foi. Palavra de honra que foi.</p>
+
+<blockquote>
+ <p><em>Despede-se abatido.</em></p>
+</blockquote>
+
+<h4>ACTO II</h4>
+
+<blockquote>
+ <p><em>Numa rua concorrida. Mêses depois. Ao dobrar a esquina encontram-se o
+ cliente e o advogado.</em></p>
+</blockquote>
+
+<p class="centrado">OS DOIS, <em>ao mesmo tempo</em>:</p>
+
+<p>Oh!... oh!... Por aqui?</p>
+
+<p class="centrado">O CLIENTE</p>
+
+<p>Ora ainda bem que o encontro.<span class="pn"><a
+name="pag_120">{120}</a></span></p>
+
+<p class="centrado">O ADVOGADO</p>
+
+<p>Muito folgo em o encontrar...</p>
+
+<p class="centrado">O CLIENTE, <em>com o ar alegre, o semblante desanuviado e
+risonho; sem rodeios</em>:</p>
+
+<p>Sabe que achei uma saída admirável para aquilo?...</p>
+
+<p class="centrado">O ADVOGADO, <em>surprêso</em>:</p>
+
+<p>Sim?</p>
+
+<p class="centrado">O CLIENTE</p>
+
+<p>É verdade. Não matei minha mulher, não despedi o caixeiro, não me divorciei,
+não tive que ter paciência... e dei emfim uma satisfação ao mundo e a mim
+próprio.</p>
+
+<p class="centrado">O ADVOGADO, <em>abismado</em>:</p>
+
+<p>Devéras?!</p>
+
+<p class="centrado">O CLIENTE</p>
+
+<p>Devéras. Lembra-se de eu lhe ter contado como tudo se passou?</p>
+
+<p class="centrado">O ADVOGADO</p>
+
+<p>Lembro.<span class="pn"><a name="pag_121">{121}</a></span></p>
+
+<p class="centrado">O CLIENTE</p>
+
+<p>Que os encontrei em cima dum canapé e tal?</p>
+
+<p class="centrado">O ADVOGADO</p>
+
+<p>Lembro.</p>
+
+<p class="centrado">O CLIENTE</p>
+
+<p>Pois bem: vendi o movel...</p>
+
+<p class="centrado">O ADVOGADO</p>
+
+<p>O...?</p>
+
+<p class="centrado">O CLIENTE</p>
+
+<p>Vendi o canapé!!</p>
+
+<p class="centrado">C<small>ÁI O PANO... DAS NUVENS</small><span class="pn"><a
+name="pag_122">{122}</a><br><a name="pag_123">{123}</a></span></p>
+
+<h1>O crime...</h1>
+
+<p> <span class="pn"><a name="pag_124">{124}</a><br><a name="pag_125">{125}</a></span></p>
+
+<h2>O crime...</h2>
+
+<blockquote style="font-size: x-small; margin-left: 50%;">
+ <p>"C'est ainsi qu'une faute est irreparable."</p>
+
+ <p class="assin">J. P<small>AYOT</small>.</p>
+</blockquote>
+
+<div class="cap">
+H<span class="sc">elena</span> fitou-o então nos olhos e inquiriu sem
+motivo:</div>
+
+<p>&mdash;Estás zangado?</p>
+
+<p>&mdash;Não. Porquê?</p>
+
+<p>Insensivelmente voltaram ainda a falar do crime. Êle manifestou-se contra
+aquele processo bárbaro, violento, de fazer justiça. Todo o homem que um dia
+descobre que sua mulher o atraiçoa, tem um só caminho racional a seguir:
+abandoná-la.</p>
+
+<p>Helena calou-se.</p>
+
+<p>&mdash;Depois, tudo se sabe, tudo, filha!... murmurou êle, à laia de
+vaticínio.&mdash;De que serve andar a encobrir, um dia e outro, semanas<span
+class="pn"><a name="pag_126">{126}</a></span> e mêses inteiros... se tudo se
+vem a saber afinal?</p>
+
+<p>Fitou-a demoradamente nos olhos, como a querer avaliar o efeito das suas
+palavras. E porque a fitava êle assim? Porque começava a sentir êsse desejo
+forte, essa terrivel necessidade de a observar, sondando os mínimos recantos da
+sua alma, onde pela primeira vez, desde que a conhecia, notava misteriosos e
+traiçoeiros abismos?...</p>
+
+<p>Chamou-a brandamente, disse-lhe:</p>
+
+<p>&mdash;Helena, que me ocultas tu? Tenho a impressão de que se passou aqui alguma
+coisa, na minha ausência, que desejas que eu ignore... Ah! não negues...
+leio-to nos olhos!</p>
+
+<p>Ela baixou instintivamente a cabeça.</p>
+
+<p>&mdash;Alguma coisa?!...&mdash;disse por fim, em voz pouco firme, esforçando-se por
+manifestar estranhesa e não conseguindo senão comprometer-se ainda mais,
+aumentando aquelas desconfianças.</p>
+
+<p>Êle tremia todo como varas verdes. Lançou mão da coragem que lhe restava,
+para lhe dizer com serenidade:<span class="pn"><a
+name="pag_127">{127}</a></span></p>
+
+<p>&mdash;Vamos, tu não me tens na conta dum imbecil, não é verdade? Deves ter
+presumido portanto que os factos aqui ocorridos, desde que cheguei, tenham
+despertado o meu reparo.</p>
+
+<p>&mdash;Os factos?! Quais factos?!&mdash;dissimulou.</p>
+
+<p>&mdash;Tudo; o que se está passando...</p>
+
+<p>&mdash;Mas tu estás louco!... Eu é que devo estranhar-te. Nunca te vi assim
+desconfiado, acredita.</p>
+
+<p>&mdash;Desconfiado! Mas não vês os teus modos, os teus gestos, as tuas
+palavras... o teu rosto! Anda cá...</p>
+
+<p>Pegou-lhe numa das mãos e diante do espêlho da sala:</p>
+
+<p>&mdash;Vê aí o teu rosto!</p>
+
+<p>Ela esquivou-se, revoltada:</p>
+
+<p>&mdash;Deixa-me! É de mais!</p>
+
+<p>&mdash;Não te deixo, gritou exaltado, já sem se poder conter.&mdash;Vais-me dizer
+tudo, tudo. Nada de rodeios, de frases, apenas e cruamente a verdade: o que
+houve?</p>
+
+<p>&mdash;O que houve!?&mdash;exclamou aterrada.</p>
+
+<p>&mdash;Sim, o que houve!</p>
+
+<p>&mdash;Deixa-me! deixa-me!<span class="pn"><a name="pag_128">{128}</a></span></p>
+
+<p>Não poude mais. Agarrou-lhe nos pulsos, arrastou-a para defronte da luz,
+intimou-a em voz alta, imperativa, onde havia inflexões de súplica e latejava
+ao mesmo tempo uma angústia horrível:</p>
+
+<p>&mdash;Fala! anda... diz-me tudo!</p>
+
+<p>Os seus olhos faíscavam, tinham relâmpagos de cólera.</p>
+
+<p>&mdash;Larga-me!&mdash;implorou Helena.&mdash;Não olhes para mim dessa maneira... Tenho
+medo!</p>
+
+<p>&mdash;E porque tens tu medo de mim?!</p>
+
+<p>Aquilo já não era uma altercação, uma scena de ciumes desagradável, uma
+simples desavença entre casados: era uma luta feroz, encarniçada, em que cada
+qual porfiava por levar o outro de vencida. Apertou-lhe as mãos com energia, de
+forma a fazê-la gritar:</p>
+
+<p>&mdash;Não, Alberto, não! Tu não estás em ti, deixa-me! Olha que me magôas,
+deixa-me!</p>
+
+<p>Mal a ouvia já. Os seus protestos, os seus rogos, as suas lágrimas, o
+desespero em que se debatia, mais o enfureciam: <em>quase</em> lhe davam provas
+do que se passára!... Mas o que se passára?<span class="pn"><a
+name="pag_129">{129}</a></span></p>
+
+<p>E baixinho, ao ouvido, como quem insinúa uma calúnia, disse-lhe tudo o que a
+sua mórbida fantasia arquitectára a êsse respeito, desde que a suspeita entrára
+no seu cérebro e aí gerára a mais tremenda acusação que podia pesar sôbre a
+honra duma mulher.</p>
+
+<p>Ergueu-se alucinada. Tinha no rosto o aspecto apavorado, trágico, de pessoa
+que se vê agarrada pelas costas numa encrusilhada deserta. Deu um grito, abriu
+os braços e caiu num sofá a estrebuchar.</p>
+
+<p>Alberto&mdash;nessa perfeita lassitude d'ânimo que sucede sempre a uma grande
+catástrofe,&mdash;pôs-se a presenciar tudo, naquele momento, com uma tranquilidade
+estupenda! Sentia-se por assim dizer mergulhado num grande banho morno de
+indiferença e de tédio...</p>
+
+<p>Helena, debelada a crise inicial, com a cabeça entre as mãos, chorava,
+arrepelava-se. E o marido sorria àquela dôr como se estivesse gosando as
+delícias dum drama de sensação em que sua mulher fôsse uma sublime artista e
+êle próprio, por desdobramento, um actor de mérito, representando o papel
+de<span class="pn"><a name="pag_130">{130}</a></span> marido ciumento com a
+mais pura e meticulosa arte!</p>
+
+<p>No fundo não aplaudia a peça, mas achava que os artistas iam bem...</p>
+
+<p>Deu uns passos ao acaso e, maquinalmente, dirigiu-se para o quarto. Voltou,
+logo em seguida: tinha envergado à pressa o sobretudo e trazia ainda na mão o
+chapéu e a bengala. Parecia-lhe ter ouvido gritar: «Bravo! Bravo!»; que uma
+multidão ruidosa de espectadores se levantava para saír da sala. Ouvia mesmo os
+comentários da ópera&mdash;porque era afinal uma ópera!&mdash;pessoas que passavam, suas
+conhecidas, que êle cumprimentava e lhe diziam:</p>
+
+<p>&mdash;«Gostou?</p>
+
+<p>&mdash;«Muito!»</p>
+
+<p>Helena atravessou-se-lhe no caminho:</p>
+
+<p>&mdash;Onde vais? Perdoa! Agora que te disse tudo porque é que me não
+perdoas?...</p>
+
+<p>Só então deu acôrdo de si. Um assômo atávico de ferocidade o dominou. Viu
+tudo negro! Agarrou Helena pelo pescoço e chegou a apertar.<span class="pn"><a
+name="pag_131">{131}</a></span></p>
+
+<p>&mdash;Mata-me! mata-me!&mdash;gritou ela.</p>
+
+<p>Largou-a e fugiu. Desceu as escadas a correr. Helena tombára desmaiada sôbre
+o soalho. Quando se viu no páteo parou. Abriu a porta devagarinho e uma lufada
+do ar frio da noite entrou, e fez-lhe bem. Esteve uns instantes a respirar, a
+arquejar, até que lhe pareceu ouvir passos. Desceu então o último degrau e
+começou a caminhar ao longo da rua&mdash;sob a inclemência do vento e da chuva que
+caía.<span class="pn"><a name="pag_132">{132}</a><br><a name="pag_133">{133}</a></span></p>
+
+<h1>Casa maldita</h1>
+
+<h3>(Tragédia rústica)</h3>
+
+<p> <span class="pn"><a name="pag_134">{134}</a></span></p>
+
+<h2>FIGURAS:</h2>
+
+<p>T<small>ÓNIO</small>....}</p>
+
+<p>M<small>ANOEL</small>....} <em>irmãos</em>.</p>
+
+<p>M<small>ARIA</small> J<small>OANA</small>....}</p>
+
+<p>F<small>RANCISCO</small>.... <em>noivo de Maria Joana.</em></p>
+
+<p>O <small>MÉDICO</small>.</p>
+
+<p class="centrado">Beira-Baixa, época actual.</p>
+
+<p> <span class="pn"><a name="pag_135">{135}</a></span></p>
+
+<h2>Casa maldita<sup><a name="m_nota1" href="#nota1">[1]</a></sup></h2>
+
+<h4>(Tragédia rústica)</h4>
+
+<blockquote>
+ <p><em>Cozinha com lareira numa casa de quinta. Noite d'inverno. Vento e
+ chuva desabridos.</em></p>
+</blockquote>
+
+<p class="centrado">FRANCISCO, <em>da porta, chamando</em>:</p>
+
+<div class="cap">
+M<span class="sc">aria</span> Joana!</div>
+
+<p class="centrado">MARIA JOANA, <em>que vem de dentro, do interior da casa,
+com uma candeia acêsa, voltando-se</em>:</p>
+
+<p>Crédo! Meteste-me um susto! (<em>Pendurando a candeia</em>). Entra!<span
+class="pn"><a name="pag_136">{136}</a></span></p>
+
+<p class="centrado">FRANCISCO, <em>entrando</em>:</p>
+
+<p>O pai? está melhor?</p>
+
+<p class="centrado">MARIA JOANA, <em>abatida</em>:</p>
+
+<p>Na mesma...</p>
+
+<p class="centrado">FRANCISCO</p>
+
+<p>Na mesma?!</p>
+
+<p class="centrado">MARIA JOANA</p>
+
+<p>Ou pior... sei lá! A outra noite já o nem julgávamos. Um febrão!</p>
+
+<p class="centrado">FRANCISCO</p>
+
+<p>Basta que sim.</p>
+
+<p class="centrado">MARIA JOANA</p>
+
+<p>Sempre a variar... a dizer tolices... (<em>sente-se, dentro, gemer</em>).
+Ouves? Lá está...</p>
+
+<p class="centrado">FRANCISCO</p>
+
+<p>É verdade! Diacho, mas ontem parecia melhor...<span class="pn"><a
+name="pag_137">{137}</a></span></p>
+
+<p class="centrado">MARIA JOANA</p>
+
+<p>Sim, tem disso.&mdash;«Alembras-te» da minha mãe?</p>
+
+<p class="centrado">FRANCISCO</p>
+
+<p>«Alembro».</p>
+
+<p class="centrado">MARIA JOANA</p>
+
+<p>Não me sái da «'maginação» que é o mesmo mal.</p>
+
+<p class="centrado">FRANCISCO</p>
+
+<p>Ágora!</p>
+
+<p class="centrado">MARIA JOANA</p>
+
+<p>Um dia melhor, outro pior, té que por fim... (<em>Comovida</em>) É o mesmo
+mal.</p>
+
+<p class="centrado">FRANCISCO</p>
+
+<p>Ora!</p>
+
+<p class="centrado">MARIA JOANA</p>
+
+<p>Verás. Já d'ali se não ergue.</p>
+
+<p class="centrado">FRANCISCO</p>
+
+<p>Sabes lá bem...<span class="pn"><a name="pag_138">{138}</a></span></p>
+
+<p class="centrado">MARIA JOANA</p>
+
+<p>Diz-mo o coração. E olha que para adivinhar...</p>
+
+<p class="centrado">FRANCISCO, <em>depois dum silêncio</em>:</p>
+
+<p>Porque não mandam vocês à cidade, chamar o médico?</p>
+
+<p class="centrado">MARIA JOANA</p>
+
+<p>P'ra lá foi o Tónio à bocado. Não tardam aí.&mdash;Pois que horas são?</p>
+
+<p class="centrado">FRANCISCO</p>
+
+<p>Oito. Déram agora...</p>
+
+<p class="centrado">MARIA JOANA, <em>calculando</em>:</p>
+
+<p>É isso. Foi com de dia. Não tardam.</p>
+
+<p class="centrado">FRANCISCO, <em>depois dum novo silêncio</em>:</p>
+
+<p>E que diz o mestre Lourenço?</p>
+
+<p class="centrado">MARIA JOANA</p>
+
+<p>O barbeiro? Olha o que há-de dizer! Que já se não entende com o mal, é
+claro.<span class="pn"><a name="pag_139">{139}</a></span></p>
+
+<p class="centrado">FRANCISCO</p>
+
+<p>Sangrou-o?</p>
+
+<p class="centrado">MARIA JOANA</p>
+
+<p>Sangrou.</p>
+
+<p class="centrado">FRANCISCO</p>
+
+<p>E «óspois»?</p>
+
+<p class="centrado">MARIA JOANA</p>
+
+<p>Cuidávamos que ficava. Fez-se muito branco, muito branco... os olhos a
+encovarem-se-lhe... (<em>Tápa o rosto com as mãos, horrorisada</em>). Se tu o
+visses!</p>
+
+<p class="centrado">FRANCISCO</p>
+
+<p>Devia ter sido há mais tempo, talvez...</p>
+
+<p class="centrado">MARIA JOANA, <em>desiludida, encolhendo os ombros</em>:</p>
+
+<p>Oh!</p>
+
+<p class="centrado">FRANCISCO</p>
+
+<p>Há quantos dias adoeceu?</p>
+
+<p class="centrado">MARIA JOANA</p>
+
+<p>Há treze.&mdash;É mau «númaro», não é?<span class="pn"><a
+name="pag_140">{140}</a></span></p>
+
+<p class="centrado">FRANCISCO</p>
+
+<p>Ora adeus! Fias-te nisso?</p>
+
+<p class="centrado">MARIA JOANA</p>
+
+<p>Fio.</p>
+
+<p class="centrado">FRANCISCO, <em>levemente trocista</em>:</p>
+
+<p>Esta bom.</p>
+
+<p class="centrado">MARIA JOANA</p>
+
+<p>Quando a minha mãe morreu, um cão esteve a uivar aqui toda a santíssima
+noite...</p>
+
+<p class="centrado">FRANCISCO</p>
+
+<p>Foi o acaso.</p>
+
+<p class="centrado">MARIA JOANA</p>
+
+<p>A Tereza Bógas casou a filha a uma terça feira e dia treze...</p>
+
+<p class="centrado">FRANCISCO</p>
+
+<p>Bem haja ela...</p>
+
+<p class="centrado">MARIA JOANA</p>
+
+<p>Ao cabo dum ano o marido deu-lhe cinco facadas... e matou-a!<span
+class="pn"><a name="pag_141">{141}</a></span></p>
+
+<p class="centrado">FRANCISCO</p>
+
+<p>Milagre fôra se a deixásse com vida...</p>
+
+<p class="centrado">MARIA JOANA</p>
+
+<p>Que mais queres?</p>
+
+<p class="centrado">FRANCISCO</p>
+
+<p>Nada, co'os démos: estou «'stifeito». Tira-me essas manias da cabeça; dás em
+maluca.</p>
+
+<p class="centrado">MARIA JOANA</p>
+
+<p>Se fôsse só isso!... E os palpites? Olha que tenho palpites tão certos,
+«Fracisco», tão certos! E sonhos?... Ha dois dias sonhei que antes do nosso
+casamento havia de se dar nesta casa uma grande fatalidade...</p>
+
+<p class="centrado">FRANCISCO, <em>nervoso</em>:</p>
+
+<p>Bem; se continúas, vou-me.</p>
+
+<p class="centrado">MARIA JOANA, <em>rindo</em>:</p>
+
+<p>Oh! «home»! julguei que eras mais forte do que isso!...<span class="pn"><a
+name="pag_142">{142}</a></span></p>
+
+<p class="centrado">FRANCISCO</p>
+
+<p>Não é; não gósto...</p>
+
+<p class="centrado">MARIA JOANA</p>
+
+<p>Bem, bonda, não te zangues...&mdash;És meu amigo?</p>
+
+<p class="centrado">FRANCISCO, <em>amuado</em>:</p>
+
+<p>Não sei...</p>
+
+<p class="centrado">MARIA JOANA</p>
+
+<p>És, bem vejo.</p>
+
+<p class="centrado">FRANCISCO</p>
+
+<p>P'ra que mo «prècúras», nesse caso?...</p>
+
+<blockquote>
+ <p><em>O vento assobia nas frestas, sacode os troncos das árvores,
+ ululando.</em></p>
+</blockquote>
+
+<p class="centrado">MARIA JOANA, <em>num pressentimento</em>:</p>
+
+<p>E se eu morrêsse?... Casavas com outra?</p>
+
+<p class="centrado">FRANCISCO</p>
+
+<p>Mau, mau, mau! bem digo eu... Faz favor de te calares, ou então...<span
+class="pn"><a name="pag_143">{143}</a></span></p>
+
+<p class="centrado">MARIA JOANA</p>
+
+<p>Esta dito. Eu hoje estou assim... Não é por mal.&mdash;Escuta!</p>
+
+<blockquote>
+ <p><em>Poem-se os dois a escutar.</em></p>
+</blockquote>
+
+<p class="centrado">FRANCISCO</p>
+
+<p>Parece que vem gente...</p>
+
+<p class="centrado">MARIA JOANA</p>
+
+<p>Ná. É o vento.</p>
+
+<blockquote>
+ <p><em>Abre-se a porta de repente, com um empurrão sêco, e MANOEL entra,
+ embuçado; traz uma velha arma caçadeira que coloca a um canto. MARIA JOANA,
+ assustada, expele um grito quando o vê. FRANCISCO ergue-se tambêm
+ assustado.</em></p>
+</blockquote>
+
+<p class="centrado">MANOEL, <em>sorrindo, semblante mal encarado de
+facinora</em>:</p>
+
+<p>Meti-vos medo, p'los modos!?... Eu não sou o diabo, socegai!...</p>
+
+<p class="centrado">MARIA JOANA, <em>mal refeita ainda do susto</em>:</p>
+
+<p>D'onde vens tu, «home», assim, a estas horas?<span class="pn"><a
+name="pag_144">{144}</a></span></p>
+
+<p class="centrado">MANOEL</p>
+
+<p>Que te importa? Mete-te lá com a tua vida! Ora o «estapor»! (<em>A
+Francisco</em>) Um cigarro!</p>
+
+<blockquote>
+ <p><em>FRANCISCO oferece-lhe um cigarro.</em></p>
+</blockquote>
+
+<p class="centrado">MANOEL</p>
+
+<p>Olá! Êste é dos de cu aberto! Bravo, rapaz, estás um «fedalgo»!</p>
+
+<p class="centrado">FRANCISCO</p>
+
+<p>Déram-mos.</p>
+
+<p class="centrado">MANOEL</p>
+
+<p>Só a mim ninguêm me dá raça de nada! Tudo me rouba. Aqui então, nesta
+casa... é tudo deles,&mdash;<em>dessa</em> e do outro...</p>
+
+<p class="centrado">MARIA JOANA</p>
+
+<p>Intrujão! Não no acredites, Francisco, é um intrujão.</p>
+
+<p class="centrado">MANOEL, <em>crescendo para ela</em>:</p>
+
+<p>Intrujão? E tu, minha porca? E tu que és?<span class="pn"><a
+name="pag_145">{145}</a></span></p>
+
+<p class="centrado">FRANCISCO, <em>para o serenar</em>:</p>
+
+<p>Olha o pai, que ouve...</p>
+
+<p class="centrado">MANOEL</p>
+
+<p>Quero cá saber do pai! Julgas que me consultaram agora para vir o médico?
+Bem te digo eu: isto é deles! Não vem cá por menos d'uma libra! Pois hão de
+êles pagá-la, se quiserem; nanja eu. (<em>Beija os dedos em cruz</em>).
+Juro!</p>
+
+<p class="centrado">MARIA JOANA</p>
+
+<p>Ninguêm to pede...</p>
+
+<p class="centrado">MANOEL</p>
+
+<p>Uma libra! Nem que ma arrancassem com uma enxó, do peito...</p>
+
+<p class="centrado">FRANCISCO</p>
+
+<p>Deixa lá! Vão-se os aneis mas fiquem os dedos. P'ra mais, livra-se uma
+pessoa de remorsos.</p>
+
+<p class="centrado">MANOEL</p>
+
+<p>Livra!... Livra-se mas é do dinheiro. Eu cá digo: quem tem de morrer, morre.
+Todos hemos d'ir, paciência... É a obrigação.<span class="pn"><a
+name="pag_146">{146}</a></span></p>
+
+<p class="centrado">MARIA JOANA</p>
+
+<p>Eu dava a camisa do corpo por ver o pai com saúde.</p>
+
+<p class="centrado">FRANCISCO</p>
+
+<p>Ouves?</p>
+
+<p class="centrado">MANOEL</p>
+
+<p>O corpo dava ela por menos disso...</p>
+
+<p class="centrado">FRANCISCO</p>
+
+<p>«Manel»!</p>
+
+<p class="centrado">MANOEL, <em>refilão</em>:</p>
+
+<p>Que há de novo?</p>
+
+<p class="centrado">FRANCISCO</p>
+
+<p>É tua irmã, bem vês...</p>
+
+<p class="centrado">MANOEL</p>
+
+<p>Parabêns. Olha a princesa!</p>
+
+<p class="centrado">MARIA JOANA</p>
+
+<p>Desalmado! (<em>Ouve-se dentro a voz do pai a gemer</em>). Pai! pai! Aí
+vou!</p>
+
+<blockquote>
+ <p><em>Sai correndo.</em><span class="pn"><a
+ name="pag_147">{147}</a></span></p>
+
+ <p><em>FRANCISCO segue-a até a porta e fica a escutar. Pausa dalguns
+ instantes. A chuva bate com fôrca nas têlhas.</em></p>
+</blockquote>
+
+<p class="centrado">FRANCISCO</p>
+
+<p>Que noite!</p>
+
+<p class="centrado">MANOEL, <em>à lareira, põe-se a cantar</em>:</p>
+
+<p class="ni"><em>Não sei que quer a «desgrácia»<br>
+Que atrás de mim corre tanto...</em></p>
+
+<p class="centrado">FRANCISCO, <em>interrompendo-o</em>:</p>
+
+<p>Parece mal, «home»; cala-te!</p>
+
+<p class="centrado">MANOEL</p>
+
+<p>Pois sim...</p>
+
+<p class="ni"><em>... Que atrás de mim corre tanto...<br>
+Hei de parar e mostrar-lhe<br>
+Que de vê-la não m'espanto...</em></p>
+
+<p class="centrado">FRANCISCO</p>
+
+<p>Até é pecado.<span class="pn"><a name="pag_148">{148}</a></span></p>
+
+<p class="centrado">MANOEL</p>
+
+<p>Pecado e êles fazerem-me o que me fazem.</p>
+
+<p class="centrado">FRANCISCO</p>
+
+<p>Estás doido. Que é que te fazem?</p>
+
+<p class="centrado">MANOEL</p>
+
+<p>Desde muito novo eu tenho sido aqui um engeitado. Minha mãe quase me não
+criou como filho. Vedou-me antes dos seis meses; nem os peitos me quis
+dar!...&mdash;Já lá está, a pagá-las!</p>
+
+<p class="centrado">FRANCISCO</p>
+
+<p>Ora! Vá a gente a ouvir-te. Tu és um doido.</p>
+
+<p class="centrado">MANOEL</p>
+
+<p>Sou?&mdash;Porque dizes isso?...</p>
+
+<p class="centrado">FRANCISCO</p>
+
+<p>Porque tenho rasões.</p>
+
+<p class="centrado">MANOEL</p>
+
+<p>Talvez. Eu odeio-vos a todos!<span class="pn"><a
+name="pag_149">{149}</a></span></p>
+
+<p class="centrado">FRANCISCO</p>
+
+<p>A mim tambem?</p>
+
+<p class="centrado">MANOEL</p>
+
+<p>A ti. Queres-me roubar...</p>
+
+<p class="centrado">FRANCISCO, <em>pálido, recuando</em>:</p>
+
+<p>Eu?!</p>
+
+<blockquote>
+ <p><em>Ouve-se fóra ruido de passos e vozes de gente que se aproxima.</em></p>
+</blockquote>
+
+<p class="centrado">MARIA JOANA, <em>de dentro, a gritar</em>:</p>
+
+<p>Lá veem! lá veem! Abram a porta... (<em>vê Francisco arquejante, afogueado;
+pára diante dêle</em>). Que foi?</p>
+
+<p class="centrado">TÓNIO, <em>de fora, ao mesmo tempo, chamando</em>:</p>
+
+<p>Maria Joana! ó Maria!... Abram lá isso! Abram! (<em>Batem com
+força</em>).</p>
+
+<blockquote>
+ <p><em>Francisco corre a abrir a porta. Há confusão, reboliço.</em>&mdash;«Santo
+ nome de Deus!» <em>diz Maria Joana. Entram o médico e Tónio.</em><span
+ class="pn"><a name="pag_150">{150}</a></span></p>
+</blockquote>
+
+<p class="centrado">O MÉDICO</p>
+
+<p>Ora até que emfim!... Boa noite!</p>
+
+<p class="centrado">VÓZES, <em>a um tempo</em>:</p>
+
+<p>&mdash;Bôa noite.</p>
+
+<p>&mdash;Viva!</p>
+
+<p>&mdash;Passe vossa senhoria bem...</p>
+
+<p class="centrado">TÓNIO</p>
+
+<p>Chegue-se vossa senhoria ao lume que deve vir gelado. O frio é muito.</p>
+
+<p class="centrado">O MÉDICO, <em>aquecendo-se</em>:</p>
+
+<p>Aceito. Venho gelado.</p>
+
+<blockquote>
+ <p><em>Faz-se silêncio. O doente grita.</em></p>
+</blockquote>
+
+<p class="centrado">O MÉDICO</p>
+
+<p>É o doente?</p>
+
+<p class="centrado">MARIA JOANA</p>
+
+<p>Saberá vossa senhoria que sim. O que aquela alminha tem sofrido, santo nome
+de<span class="pn"><a name="pag_151">{151}</a></span> Deus! Se vossa senhoria o
+aliviasse daqueles tormentos, por amor da sua senhora e dos seus filhinhos, se
+os tem...</p>
+
+<p class="centrado">MANOEL, <em>do lado, chasqueando</em>:</p>
+
+<p>Êle não e casado, mulher!</p>
+
+<p class="centrado">O MÉDICO, <em>voltando-se, reparando em Manoel</em>:</p>
+
+<p>Sou, sim senhor... Quem lhe disse a vocemecêe que eu não sou casado?</p>
+
+<p class="centrado">MANOEL, no mesmo tom:</p>
+
+<p>Digo eu...</p>
+
+<p class="centrado">O MÉDICO, <em>para Maria Joana</em>:</p>
+
+<p>Quem é êste homem?</p>
+
+<p class="centrado">MARIA JOANA</p>
+
+<p>É meu irmão (<em>segreda-lhe qualguer coisa ao ouvido</em>).</p>
+
+<p class="centrado">O MÉDICO</p>
+
+<p>Bem.&mdash;Vamos ver o doente. (<em>Indicando uma porta</em>) É por ali?<span
+class="pn"><a name="pag_152">{152}</a></span></p>
+
+<p class="centrado">MARIA JOANA</p>
+
+<p>Por ali; tenha a bondade... Vossa senhoria há de desculpar, é uma casa de
+«probes»...</p>
+
+<blockquote>
+ <p><em>Desaparecem os dois falando, no interior da casa. Fora ficam os tres
+ homens: TÓNIO, o irmão e FRANCISCO. Nenhum deles diz palavra. Um cão põe-se
+ a uivar, perto.</em></p>
+</blockquote>
+
+<p class="centrado">FRANCISCO, <em>nervoso</em>:</p>
+
+<p>Olha o diabo do cão! É o vosso?</p>
+
+<p class="centrado">TÓNIO</p>
+
+<p>É. Chama-o.</p>
+
+<p class="centrado">FRANCISCO, <em>vai á porta a assobiar-lhe</em>:</p>
+
+<p>Eh! <em>Farrusco!</em> Quieto! Venha cá! Quieto!</p>
+
+<blockquote>
+ <p>O cão cala-se, mas d'aí a pouco põe-se a uivar outra vez.</p>
+</blockquote>
+
+<p class="centrado">FRANCISCO</p>
+
+<p>Não há meio! Se fôsse meu dava-o, ou vendia-o... Punha-o com dono.
+<em>Farrusco!</em> (<em>assobia-lhe de novo</em>).<span class="pn"><a
+name="pag_153">{153}</a></span></p>
+
+<p class="centrado">MANOEL</p>
+
+<p>Deixa lá o animal! que mal te faz o animal? Tambem com êle te metes? Aquilo
+foi desde que entrou o médico: cheirou-lhe a defunto...</p>
+
+<p class="centrado">TÓNIO</p>
+
+<p>Bruto!</p>
+
+<blockquote>
+ <p><em>Os dois irmãos entreolham-se ferozmente. Passa entre êles uma labareda
+ d'ódio. Depois, MANOEL põe-se a cantarolar.</em></p>
+</blockquote>
+
+<p class="centrado">TÓNIO, <em>a meia voz</em>:</p>
+
+<p>Farçola! o que tu merecias...</p>
+
+<p class="centrado">MANOEL, <em>que ouviu bem</em>:</p>
+
+<p>Tanto sopras no fole, que o fole um dia estoira...</p>
+
+<p class="centrado">TÓNIO</p>
+
+<p>O quê? que dizes?</p>
+
+<p class="centrado">MANOEL</p>
+
+<p>É cá comigo...<span class="pn"><a name="pag_154">{154}</a></span></p>
+
+<p class="centrado">TÓNIO</p>
+
+<p>Escuta. Quem paga ao médico sou eu, do meu bôlso, ouviste?</p>
+
+<p class="centrado">MANOEL</p>
+
+<p>Bom proveito.</p>
+
+<p class="centrado">TÓNIO</p>
+
+<p>As vinte moedas que ali estão (<em>indica um arcaz</em>) são da Maria
+Joana.</p>
+
+<p class="centrado">MANOEL, <em>erguendo-se, encandieirado</em>:</p>
+
+<p>De quem?</p>
+
+<p class="centrado">TÓNIO, <em>enérgico</em>:</p>
+
+<p>Da Maria Joana, já disse! O pai assim o quer. Cumpra-se a sua vontade, mando
+eu!</p>
+
+<p class="centrado">FRANCISCO, <em>intervindo</em>:</p>
+
+<p>Tónio, bem vês... A Maria Joana há de vir a ser minha mulher. Eu não queria
+que por via disso... de dinheiro...</p>
+
+<p class="centrado">TÓNIO</p>
+
+<p>Tá, tá, tá... não tens que «agarcer»; são dela. Eu é que mando aqui: sou o
+mais velho.<span class="pn"><a name="pag_155">{155}</a></span></p>
+
+<p class="centrado">MANOEL</p>
+
+<p>Juro que te arrependes, Tónio! Cego seja eu de gôta serena.</p>
+
+<p class="centrado">TÓNIO</p>
+
+<p>Pois cego sejas tu.</p>
+
+<p class="centrado">FRANCISCO, <em>interpondo-se</em>:</p>
+
+<p>Olhem o médico! Tenham juizo, ó menos...</p>
+
+<p class="centrado">O MÉDICO, <em>da porta, falando para dentro</em>:</p>
+
+<p>Sim senhor, tudo se há de arranjar, esteja socegadinho... isso pássa
+(<em>entrando</em>). Pobre homem!</p>
+
+<p class="centrado">TÓNIO, <em>avançando para o médico</em>:</p>
+
+<p>Está pronto, não é verdade? Já d'ali não «arrinca»... Morre?</p>
+
+<p class="centrado">O MÉDICO, <em>querendo animar</em>:</p>
+
+<p>Vamos a ver; emquanto há vida...<span class="pn"><a
+name="pag_156">{156}</a></span></p>
+
+<p class="centrado">FRANCISCO</p>
+
+<p>Sim, emquanto há vida, Tónio, há esperança! Tem por dizer...</p>
+
+<p class="centrado">TÓNIO, <em>desiludido, ao médico, abanando a
+cabeça</em>:</p>
+
+<p>Na. Póde vossa senhoria desabafar; eu cá sei o que vai haver esta noite...
+Adivinho!</p>
+
+<p class="centrado">FRANCISCO</p>
+
+<p>Ó «home», que genio! que fraqueza! Não vês êste senhor a dizer-te que não.
+Êle é que sabe, que estudou...</p>
+
+<p class="centrado">TÓNIO</p>
+
+<p>Pois sim. Estâmos sem pai, «Fracisco»!</p>
+
+<p class="centrado">MARIA JOANA, <em>que vinha entrando e que ouviu o irmão
+dizer aquilo</em>:</p>
+
+<p>O quê! Morre? (<em>Pausa. Ninguem responde; dirige-se ao médico</em>).
+Morre? meu pai morre? (<em>o médico cala-se</em>) Não me respondem! não me
+dizem nada! (<em>levando as mãos á cabeça num desespero</em>)<span
+class="pn"><a name="pag_157">{157}</a></span> Ah, meu pai! Ah, meu pai! Que não
+tenho outro...</p>
+
+<p class="centrado">FRANCISCO, <em>confortando-a</em>:</p>
+
+<p>«Atão», Maria Joana, vem cá, vem cá. Olha que êle ouve.</p>
+
+<p class="centrado">MARIA JOANA</p>
+
+<p>Deixa-me! Deixa-me!... Eu quero morrer tambem. Quero morrer, «Fracisco».</p>
+
+<p class="centrado">FRANCISCO</p>
+
+<p>Nosso-Senhor ainda pode muito, cachopa!</p>
+
+<p class="centrado">TÓNIO, <em>ao médico que está preparado para, saír</em>:</p>
+
+<p>Quanto ao trabalhinho de vossa senhoria, há de perdoar, nós lá iremos...</p>
+
+<p class="centrado">O MÉDICO</p>
+
+<p>Descansem, quando puderem, não tenho pressa; arranjem cá a sua vida. Agora o
+que é preciso é ir embora... Faz-se tarde.</p>
+
+<p class="centrado">TÓNIO</p>
+
+<p>Pronto! (<em>a Francisco</em>) Ó «Fracisco», tu agora vais aqui com o sr.
+«doitor», se te não custa, eu<span class="pn"><a
+name="pag_158">{158}</a></span> não posso... E trazes os remédios, pelas almas.
+É um favor.</p>
+
+<p class="centrado">FRANCISCO</p>
+
+<p>Vou e ponho-me aí num foguete, verás. Dentro de duas horas estou de
+volta.</p>
+
+<p class="centrado">MARIA JOANA, <em>num gemido</em>:</p>
+
+<p>Leva a arma!</p>
+
+<p class="centrado">MANOEL, <em>que tem estado sempre calado até aqui</em>:</p>
+
+<p>Leva-a, se a quiseres... Empresto-ta.</p>
+
+<blockquote>
+ <p><em>Todos se voltam, admirados da generosidade.</em></p>
+</blockquote>
+
+<p class="centrado">FRANCISCO</p>
+
+<p>Não é preciso; levo antes esta (<em>mostra um marmeleiro ferrado</em>) é
+mais certeira... Bem hajas!</p>
+
+<blockquote>
+ <p><em>Dão as boas noites. Sai êle e o médico. Uma lufada d'ar entra, quando
+ se abre a porta, apagando a luz.</em>&mdash;«Fechem a porta!» <em>ouve-se dizer no
+ escuro. A porta fecha-se com mão misteriosa... Tinha sido o vento. TÓNIO,
+ dentro, ás apalpadelas, procura a candeia,<span class="pn"><a
+ name="pag_159">{159}</a></span> que acende ao fogo duma acha, no lume da
+ lareira, soprando-lhe para a atiçar. A scena é lugubre. MARIA JOANA é uma
+ rodilha, a um canto, a soluçar.</em></p>
+</blockquote>
+
+<p class="centrado">TÓNIO</p>
+
+<p>Vá, rapariga! Cobra ânimo! Estas um engrimanço, uma dama...</p>
+
+<blockquote>
+ <p><em>MARIA JOANA parece reanimar-se. Limpa as lágrimas ás pontas do lenço
+ da cabeça. Vai ao vasal, tira uma tijela, e enche-a de água. MANOEL nem
+ palavra: fuma.</em></p>
+</blockquote>
+
+<p class="centrado">TÓNIO</p>
+
+<p>Para onde vai isso?</p>
+
+<p class="centrado">MARIA JOANA</p>
+
+<p>É para o pai; não leva nada desde ontem... Pediu-me água, que dizes?
+(<em>Tónio encolhe os ombros</em>) Soube-lhe tão bem a outra... Tinha-me dito:
+«filha, dá-me de beber; tenho um fogo aqui dentro...». E eu dei-lhe de beber.
+Parece que aliviou. O médico disse-me que lhe désse o que êle pedisse.
+Dou?<span class="pn"><a name="pag_160">{160}</a></span></p>
+
+<p class="centrado">TÓNIO</p>
+
+<p>Se êle o disse...</p>
+
+<p class="centrado">MANOEL, <em>de troça</em>:</p>
+
+<p>Dá-lhe vinho, dá-lhe vinho...</p>
+
+<p class="centrado">TÓNIO, <em>furioso, agarra num banco e avança para o
+irmão</em>:</p>
+
+<p>Esmago-te como a um sapo, maldito, se te não calas! (<em>Os seus olhos
+chispam lume</em>).</p>
+
+<p class="centrado">MANOEL, <em>erguendo-se</em>:</p>
+
+<p>Experimenta e verás o trôco... (<em>Diante dêle</em>): Sim! sim!</p>
+
+<p class="centrado">MARIA JOANA, <em>suplicante, entre os dois</em>:</p>
+
+<p>Tónio! «Manel»! Nosso-Senhor castiga-vos!... Por Deus! Ai, Jesus!</p>
+
+<p class="centrado">TÓNIO, <em>cedendo</em>:</p>
+
+<p>O que te vale...<span class="pn"><a name="pag_161">{161}</a></span></p>
+
+<blockquote>
+ <p><em>Sentam-se ambos, calados, tacitumos, a distância. MARIA JOANA fita um
+ momento o grupo. Respira profundamente, desolada. Entra depois no quarto do
+ doente, cabisbaixa, cambaliante.</em></p>
+
+ <p><em>Grande silêncio!</em></p>
+
+ <p><em>Súbito, um grito, depois outro,&mdash;lancinantes, desesperados, dentro do
+ quarto. Os dois irmãos levantam-se apavorados.</em></p>
+</blockquote>
+
+<p class="centrado">MARIA JOANA, <em>à porta, num paroxismo</em>:</p>
+
+<p>O pai! o pai!... Morto! (<em>volta como louca à cabeceira do
+cadaver</em>).</p>
+
+<blockquote>
+ <p><em>TÓNIO precipita-se tambem desvairado no quarto do pai, atrás da irmã.
+ Continuam os gritos. MANOEL tem uns segundos de perplexidade, olha em redor,
+ hesita, vai, corre para o arcaz; abre-o, mergulha o braço nervosamente no
+ fundo; tira tudo,&mdash;roupas, farrapos, misérias, remeche,&mdash;procura, encontra
+ emfim o que ambiciona: a bolsa com as vinte moedas!</em></p>
+</blockquote>
+
+<p class="centrado">TÓNIO, <em>que entra desgrenhado, percebe tudo,
+exclama</em>:</p>
+
+<p>Ah, tratante! ah, ladrão!... Agora é que tu queres roubar a tua irmã!<span
+class="pn"><a name="pag_162">{162}</a></span></p>
+
+<blockquote>
+ <p><em>Atira-se a êle. Trava-se uma luta entre os dois, encarniçada: qual de
+ baixo, qual de cima, com as garras, com os dentes&mdash;como dois liões!</em></p>
+</blockquote>
+
+<p class="centrado">MARIA JOANA, <em>sòzinha, brada, abrindo a porta, para a
+solidão dos campos ermos, na chuva e na ventania</em>:</p>
+
+<p>Acudam! aqui d'el-rei!... Acudam!</p>
+
+<blockquote>
+ <p><em>Ninguem! Tudo se passa como num deserto, a milhões de léguas da outra
+ gente, no isolamento daquela casa maldita! MANOEL, rôto, alucinado,
+ escorrendo sangue, consegue erguer-se do chão, aonde por duas veses o
+ prostrára o pulso férreo de TÓNIO; apanha emfim a espingarda e
+ alveja-o.</em></p>
+</blockquote>
+
+<p class="centrado">MARIA JOANA, <em>interpondo-se, num salto ágil</em>:</p>
+
+<p>Ai, que te desgraças! ai que te desgraças, «Manel»!</p>
+
+<p class="centrado">MANOEL</p>
+
+<p>Larguêza! larguêza senão arrebento-te tambem...</p>
+
+<blockquote>
+ <p><em>Ela resiste, debate-se, diante da arma. Esta, num repelão, dispára-se,
+ indo a carga alojar-se no peito da rapariga.</em><span class="pn"><a
+ name="pag_163">{163}</a></span></p>
+</blockquote>
+
+<p class="centrado">TÓNIO, <em>vendo a irmã caída num lago de sangue</em>:</p>
+
+<p>Mataste-a!</p>
+
+<p class="centrado">MANOEL, <em>poisando a espingarda e com um sorriso
+cínico</em>:</p>
+
+<p>Matei?... Pois tira-lhe a pele, que é d'estimação...</p>
+
+<blockquote>
+ <p><em>Recomeçam a luta.</em></p>
+</blockquote>
+
+<p> <span class="pn"><a name="pag_164">{164}</a></span></p>
+
+<div class="rodape">
+<p><sup><a name="nota1" href="#m_nota1">[1]</a></sup> O autor não quis nesta
+novela, a que deu indiferentemente a forma dialogada, tentar um género de
+literatura dramática como êsse que há tempos aí se exibiu em palcos Portugueses
+(não sabe se com grande ou pequeno exito) com o titulo de
+<em>Grand-Guignol</em>, importado directamente de França. Género macabro,
+terrorista, insalubre, visando a provocar no público as fortes comoções
+nervosas pelo espectáculo de scenas lúgubres, sanguinárias ou simplesmente
+extravagantes.&mdash;Esta <em>tragédia rústica</em> é um ligeiro estudo do caracter
+supersticioso, bestial, por vêzes quase feroz, da pobre, inculta, miserável
+gente das aldeias beirôas, em cujo seio os instintos, bons ou maus, falam ainda
+a linguagem espontânea e bárbara das primitivas idades.</p>
+</div>
+
+<p><span class="pn"><a name="pag_165">{165}</a></span></p>
+
+<h1>O pai da criança</h1>
+
+<h3>(Conto carnavalesco)</h3>
+
+<p><span class="pn"><a name="pag_166">{166}</a><br><a name="pag_167">{167}</a></span></p>
+
+<h2>O pai da criança</h2>
+
+<h4>(Canto carnavalesco)</h4>
+
+<div class="cap">
+Ê<span class="sc">ste</span> padre Borregana, cónego da Sé, tem uma
+história.</div>
+
+<p>Toda a gente tem uma história, é claro; mas a do padre Borregana é uma
+história singular, digna de contar-se e de ser ouvida.</p>
+
+<p>Padre Borregana nasceu padre como outros nascem militares, ou poetas, ou
+oradores, ou assim... Nasceu padre. Desde muito novo revelou uma grande
+<em>queda</em> para aquele mister. Compleição debil, espírito supersticioso e
+timorato, era êle quem acendia as velas do altar-mór nos dias de missa cantada;
+quem ajudava a dobrar o sino dos entêrros; quem<span class="pn"><a
+name="pag_168">{168}</a></span> levava a caldeirinha e o hissope entoando o
+<em>Bemdito</em> com o Senhor; quem dizia <em>ora pro nobis</em> atrás do pálio
+nas procissões; quem informava as beatas dos ataques hemorroidários do sr.
+arcebispo no tempo do arroz de tomate...</p>
+
+<p>&mdash;Podia ter nascido corcunda, podia ter nascido zanaga, dizia o pai, a
+justificá-lo; ninguêm se faz...</p>
+
+<p>E não.</p>
+
+<p>Velhos condiscipulos dêle no liceu e depois no seminário, ainda hoje diziam
+que o padre Borregana fôra a mais decidida vocação que tinham conhecido para o
+sacerdócio&mdash;para a castidade sobretudo,&mdash;o que aos seus olhos de peccadores
+inconfessáveis o tornára particularmente famoso, votado sem esfôrço ao
+sacrifício duma existência de renúncia, frouxo de vontade como era, e então com
+um apelido que lhe assentava como uma luva...</p>
+
+<p> </p>
+
+<p>Quando,&mdash;já depois de ordenado&mdash;desceu o estribo do comboio na estação do
+Rocio, uma tarde, padre Borregana ficou atarantado,<span class="pn"><a
+name="pag_169">{169}</a></span> hesitante, como uma criança que perde a ama, no
+meio da barafunda, do vozear confuso da multidão que se acotovelava a saír da
+<em>gare</em>.</p>
+
+<p>&mdash;Ó padre Borregana! ó padre Borregana!...</p>
+
+<p>Voltou-se. Quem o chamava? Que lhe queriam?... Diante dêle um sujeito alto,
+encorpado, abria-lhe uns grandes braços, oferecia-lhe o peito largo para o
+receber. Padre Borregana trepidou.</p>
+
+<p>&mdash;Não me reconheces, homem? Sou eu!... Olha bem p'ra mim: o Ataíde!</p>
+
+<p>O Ataíde! Quem havia dizer! Com aquelas barbas, aquele todo distinto, aquele
+ar de pessoa importante e abastada!...</p>
+
+<p>&mdash;Tu! Pois tu!...&mdash;murmurou o padre.</p>
+
+<p>E abraçaram-se enternecidamente.</p>
+
+<p>Emquanto iam saíndo da estação, o outro explicava-lhe: tinha subido, tinha
+trepado, formára-se... arranjára um casamento rico e uma boa colocação...</p>
+
+<p>&mdash;Sim?!</p>
+
+<p>&mdash;É verdade.<span class="pn"><a name="pag_170">{170}</a></span></p>
+
+<p>Padre Borregana estacou, admirado.</p>
+
+<p>&mdash;Mas ouve cá, disse, como demónio conseguiste tudo isso? Tu, demais a
+mais,&mdash;desculpa que te diga&mdash;mas nem eras dos mais atilados...</p>
+
+<p>O outro sorriu, superiormente:</p>
+
+<p>&mdash;Dos mais atilados! Pobre rapaz! Consegui isto como se consegue tudo na
+vida... como se consegue ser homem, ser gente, ser alguêm neste mundo: á custa
+de muito ponta-pé!...</p>
+
+<p>E separaram-se.</p>
+
+<p> </p>
+
+<p>Mais adiante, Borregana, que caminhava apreensivo, scismático, no encalço do
+moço de fretes, em demanda dum albergue pacato, sentiu a ponta duma bengala
+tocar-lhe discretamente no ombro:</p>
+
+<p>&mdash;Psst!... Borregana!</p>
+
+<p>Voltou-se de novo, e deu de cara com outro velho conhecimento, a quem a sua
+presença inesperada causou igualmente grande surpresa e alegria. Repetiu-se,
+<em>mutatis mutandis</em>, a mesma scena: tambêm êste trepára,<span
+class="pn"><a name="pag_171">{171}</a></span> tambêm êste vencera, tambêm tinha
+uma linda posição...</p>
+
+<p>&mdash;É boa! E tudo isso...&mdash;balbuciou.</p>
+
+<p>&mdash;Á custa de muito ponta-pé!</p>
+
+<p>&mdash;!!</p>
+
+<p> </p>
+
+<p>Ao desandar da rua do Carmo para o Chiado maior espanto o aguardava. Desta
+vez o velho amigo era um ministro&mdash;e ministro da Justiça!&mdash;que lhe abriu os
+braços como os outros (o que fez juntar gente...) e como os outros lhe
+confessou que tinha subido, trepado&mdash;á custa de muito ponta-pé!...</p>
+
+<p> </p>
+
+<p>Dias passaram. Padre Borregana regressou a penates. Um domingo, logo depois
+da missa, chamando de parte o sacristão, lial companheiro e confidente,
+segredou-lhe:</p>
+
+<p>&mdash;Cristóvam! vais-me aqui prestar hoje um grande serviço...</p>
+
+<p>O sacristão, um diab'alma alentado e grosso, bruto como umas casas, muito
+respeitador das qualidades e ornamentos do cura, murmurou, comovido e
+modesto:<span class="pn"><a name="pag_172">{172}</a></span></p>
+
+<p>&mdash;Um serviço? Oh! sr. prior!... Queira vossa reverendissima ordenar... Cá
+por mim só se não pudér...</p>
+
+<p>&mdash;Um grande serviço, Cristóvam, um grande serviço...</p>
+
+<p>Botou uma olhadela á igreja, outra ao S. Jerónimo do altar, outra a bandeira
+das almas, e erguendo por fim as abas da batina ensebada, revirou-lhe o nédio
+cêsso, exclamando:</p>
+
+<p>&mdash;Férras-me aí um ponta-pé!...</p>
+
+<p>&mdash;Quem, eu?</p>
+
+<p>&mdash;Já disse, Cristóvam: um ponta-pé.</p>
+
+<p>O sacristão presumiu-o doido. Hesitou, mas por último, vendo o ar decidido
+do presbítero, para o não irritar, fez-lhe a vontade, encostando-lhe a biqueira
+ferrada ao hemisfério sul, devagarinho...</p>
+
+<p>&mdash;Força, homem! isso não é nada, suplicou o padre, cuja estranha flagelação
+parecia dever enchê-lo de infinito gôso&mdash;isso não é nada!</p>
+
+<p>&mdash;Ó sr. prior, mas eu...&mdash;tartamudiou o Cristóvam, condoído.<span
+class="pn"><a name="pag_173">{173}</a></span></p>
+
+<p>E o padre Borregana, num palpite, de mãos postas:</p>
+
+<p>&mdash;Depressa! depressa!... Pelas cinco chagas! pelas cinco chagas,
+Cristóvam!</p>
+
+<p>&mdash;Êle é isso?, rosnou o sacristão com os seus botões; e despresando
+escrúpulos, atirou-lhe um coice, com tal violência, que o fez baquear e
+gemer:</p>
+
+<p>&mdash;Ui!</p>
+
+<p>&mdash;Ah, já?...&mdash;e atirou-lhe segundo.</p>
+
+<p>Nisto um matraquear de tamancos no lagedo da igreja.</p>
+
+<p>&mdash;Quem é? quem vem aí?, bradou o padre aflito, cheio de dôres,
+estorcendo-se.</p>
+
+<p>&mdash;É para o sr. prior, esta carta...</p>
+
+<p>&mdash;Para mim?!</p>
+
+<p>Era um telegrama.</p>
+
+<p>O prior precipitou-se, rasgou todo trémulo a obreia do sobrescrito: «Por
+ordem de S. Ex.ª...» (turvou-se-lhe a vista)... «nomeado cónego.»</p>
+
+<p>Caiu sôbre um banco que para ali estava a um canto, aniquilado, morto de
+comoção. Quando despertou daquela espécie de síncope<span class="pn"><a
+name="pag_174">{174}</a></span> o prior estava triste... Em volta houve um
+alarido, um espanto, mal constou o milagre... Porque fôra um milagre! Tudo quis
+ver e visitar o sr. padre Borregana, feito cónego&mdash;a ponta-pé. Não recebia?
+Porquê?... Talvez dorido, coitadinho, talvez de ferido no poisadoiro com a
+brutalidade da operação. E invectivava-se o Cristóvam&mdash;bruto! verdugo!&mdash;que se
+desculpava, dizendo:</p>
+
+<p>&mdash;Pois sim, pois sim, mas se não fôsse eu...</p>
+
+<p>Tinha rasão.</p>
+
+<p>A roda das beatas da terra toda se desfazia em favores e conselhos de
+arnica, de unto de cobra e semi-cúpios de malvas, para aliviar as dores e a
+tristeza do prior, cujos nadegueiros&mdash;já agora uns nadegueiros de
+cónego&mdash;entumesciam e grelavam...</p>
+
+<p>Dizia-lhe a criada:</p>
+
+<p>&mdash;Parece que ficou a modos triste, sr. cónego?...</p>
+
+<p>&mdash;E fiquei, pudéra, se não tenho de quê, cachopa!&mdash;queixava-se.</p>
+
+<p>&mdash;De quê?! Hom'essa! Depois duma nova assim!...<span class="pn"><a
+name="pag_175">{175}</a></span></p>
+
+<p>&mdash;Depois duma nova assim; admiras-te? Com dois ponta-pés arranjei a ser
+cónego, mas se aquele alarve se não demora e me préga logo uma dúzia deles,
+quando eu dizia, estava a estas horas bispo! Bispo, imagina!... Se não hei-de
+estar aborrecido...</p>
+
+<p> </p>
+
+<p>O milagre não obstante ficou de pé, íntegro, documental, palpável, a atestar
+o dedo da Providência na ferradura do Cristóvam. A religião, vigilante, viu
+logo na pessoa do padre virtudes canonisáveis...</p>
+
+<p>Apenas o Sequeira, funcionário de finanças, livre pensador e ateu&mdash;um
+doido!&mdash;zombava, fazia menos daquilo, afirmando em toda a parte que o padre
+Borregana tinha tido um cónego pelo traseiro, e que o pai da criança era o
+sacristão!<span class="pn"><a name="pag_176">{176}</a><br><a name="pag_177">{177}</a></span></p>
+</div>
+
+<h1>Índice</h1>
+
+<p><span class="pn"><a name="pag_178">{178}</a><br><a name="pag_179">{179}</a></span></p>
+
+<h2>Índice</h2>
+
+<table cellspacing="2" border="0" summary="Índice" align="center">
+
+<tr><td>Aquela família</td><td><a href="#pag_5">5</a></td></tr>
+
+<tr><td>A bôca do sapo</td><td><a href="#pag_17">17</a></td></tr>
+
+<tr><td>Sr. Anselmo (Perfil grotesco dum provinciano ilustre)&mdash;(1906)&mdash;I</td><td><a href="#pag_37">37</a></td></tr>
+
+<tr><td>Sr. Anselmo (Perfil grotesco dum provinciano ilustre)&mdash;(1912)&mdash;II</td><td><a href="#pag_85">85</a></td></tr>
+
+<tr><td>Candidinha Cerdeira (Novela romantica)</td><td><a href="#pag_89">89</a></td></tr>
+
+<tr><td>Eureka!</td><td><a href="#pag_113">113</a></td></tr>
+
+<tr><td>O crime</td><td><a href="#pag_123">123</a></td></tr>
+
+<tr><td>Casa maldita (Tragedia rústica)</td><td><a href="#pag_133">133</a></td></tr>
+
+<tr><td>O pai da criança (Conto carnavalesco)</td><td><a href="#pag_165">165</a></td></tr>
+</table>
+
+
+
+
+
+
+
+<pre>
+
+
+
+
+
+End of the Project Gutenberg EBook of Aquela Família, by Ladislau Patrício
+
+*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK AQUELA FAMÍLIA ***
+
+***** This file should be named 34039-h.htm or 34039-h.zip *****
+This and all associated files of various formats will be found in:
+ https://www.gutenberg.org/3/4/0/3/34039/
+
+Produced by Mike Silva
+
+Updated editions will replace the previous one--the old editions
+will be renamed.
+
+Creating the works from public domain print editions means that no
+one owns a United States copyright in these works, so the Foundation
+(and you!) can copy and distribute it in the United States without
+permission and without paying copyright royalties. Special rules,
+set forth in the General Terms of Use part of this license, apply to
+copying and distributing Project Gutenberg-tm electronic works to
+protect the PROJECT GUTENBERG-tm concept and trademark. Project
+Gutenberg is a registered trademark, and may not be used if you
+charge for the eBooks, unless you receive specific permission. If you
+do not charge anything for copies of this eBook, complying with the
+rules is very easy. You may use this eBook for nearly any purpose
+such as creation of derivative works, reports, performances and
+research. They may be modified and printed and given away--you may do
+practically ANYTHING with public domain eBooks. Redistribution is
+subject to the trademark license, especially commercial
+redistribution.
+
+
+
+*** START: FULL LICENSE ***
+
+THE FULL PROJECT GUTENBERG LICENSE
+PLEASE READ THIS BEFORE YOU DISTRIBUTE OR USE THIS WORK
+
+To protect the Project Gutenberg-tm mission of promoting the free
+distribution of electronic works, by using or distributing this work
+(or any other work associated in any way with the phrase "Project
+Gutenberg"), you agree to comply with all the terms of the Full Project
+Gutenberg-tm License (available with this file or online at
+https://gutenberg.org/license).
+
+
+Section 1. General Terms of Use and Redistributing Project Gutenberg-tm
+electronic works
+
+1.A. By reading or using any part of this Project Gutenberg-tm
+electronic work, you indicate that you have read, understand, agree to
+and accept all the terms of this license and intellectual property
+(trademark/copyright) agreement. If you do not agree to abide by all
+the terms of this agreement, you must cease using and return or destroy
+all copies of Project Gutenberg-tm electronic works in your possession.
+If you paid a fee for obtaining a copy of or access to a Project
+Gutenberg-tm electronic work and you do not agree to be bound by the
+terms of this agreement, you may obtain a refund from the person or
+entity to whom you paid the fee as set forth in paragraph 1.E.8.
+
+1.B. "Project Gutenberg" is a registered trademark. It may only be
+used on or associated in any way with an electronic work by people who
+agree to be bound by the terms of this agreement. There are a few
+things that you can do with most Project Gutenberg-tm electronic works
+even without complying with the full terms of this agreement. See
+paragraph 1.C below. There are a lot of things you can do with Project
+Gutenberg-tm electronic works if you follow the terms of this agreement
+and help preserve free future access to Project Gutenberg-tm electronic
+works. See paragraph 1.E below.
+
+1.C. The Project Gutenberg Literary Archive Foundation ("the Foundation"
+or PGLAF), owns a compilation copyright in the collection of Project
+Gutenberg-tm electronic works. Nearly all the individual works in the
+collection are in the public domain in the United States. If an
+individual work is in the public domain in the United States and you are
+located in the United States, we do not claim a right to prevent you from
+copying, distributing, performing, displaying or creating derivative
+works based on the work as long as all references to Project Gutenberg
+are removed. Of course, we hope that you will support the Project
+Gutenberg-tm mission of promoting free access to electronic works by
+freely sharing Project Gutenberg-tm works in compliance with the terms of
+this agreement for keeping the Project Gutenberg-tm name associated with
+the work. You can easily comply with the terms of this agreement by
+keeping this work in the same format with its attached full Project
+Gutenberg-tm License when you share it without charge with others.
+
+1.D. The copyright laws of the place where you are located also govern
+what you can do with this work. Copyright laws in most countries are in
+a constant state of change. If you are outside the United States, check
+the laws of your country in addition to the terms of this agreement
+before downloading, copying, displaying, performing, distributing or
+creating derivative works based on this work or any other Project
+Gutenberg-tm work. The Foundation makes no representations concerning
+the copyright status of any work in any country outside the United
+States.
+
+1.E. Unless you have removed all references to Project Gutenberg:
+
+1.E.1. The following sentence, with active links to, or other immediate
+access to, the full Project Gutenberg-tm License must appear prominently
+whenever any copy of a Project Gutenberg-tm work (any work on which the
+phrase "Project Gutenberg" appears, or with which the phrase "Project
+Gutenberg" is associated) is accessed, displayed, performed, viewed,
+copied or distributed:
+
+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.org
+
+1.E.2. If an individual Project Gutenberg-tm electronic work is derived
+from the public domain (does not contain a notice indicating that it is
+posted with permission of the copyright holder), the work can be copied
+and distributed to anyone in the United States without paying any fees
+or charges. If you are redistributing or providing access to a work
+with the phrase "Project Gutenberg" associated with or appearing on the
+work, you must comply either with the requirements of paragraphs 1.E.1
+through 1.E.7 or obtain permission for the use of the work and the
+Project Gutenberg-tm trademark as set forth in paragraphs 1.E.8 or
+1.E.9.
+
+1.E.3. If an individual Project Gutenberg-tm electronic work is posted
+with the permission of the copyright holder, your use and distribution
+must comply with both paragraphs 1.E.1 through 1.E.7 and any additional
+terms imposed by the copyright holder. Additional terms will be linked
+to the Project Gutenberg-tm License for all works posted with the
+permission of the copyright holder found at the beginning of this work.
+
+1.E.4. Do not unlink or detach or remove the full Project Gutenberg-tm
+License terms from this work, or any files containing a part of this
+work or any other work associated with Project Gutenberg-tm.
+
+1.E.5. Do not copy, display, perform, distribute or redistribute this
+electronic work, or any part of this electronic work, without
+prominently displaying the sentence set forth in paragraph 1.E.1 with
+active links or immediate access to the full terms of the Project
+Gutenberg-tm License.
+
+1.E.6. You may convert to and distribute this work in any binary,
+compressed, marked up, nonproprietary or proprietary form, including any
+word processing or hypertext form. However, if you provide access to or
+distribute copies of a Project Gutenberg-tm work in a format other than
+"Plain Vanilla ASCII" or other format used in the official version
+posted on the official Project Gutenberg-tm web site (www.gutenberg.org),
+you must, at no additional cost, fee or expense to the user, provide a
+copy, a means of exporting a copy, or a means of obtaining a copy upon
+request, of the work in its original "Plain Vanilla ASCII" or other
+form. Any alternate format must include the full Project Gutenberg-tm
+License as specified in paragraph 1.E.1.
+
+1.E.7. Do not charge a fee for access to, viewing, displaying,
+performing, copying or distributing any Project Gutenberg-tm works
+unless you comply with paragraph 1.E.8 or 1.E.9.
+
+1.E.8. You may charge a reasonable fee for copies of or providing
+access to or distributing Project Gutenberg-tm electronic works provided
+that
+
+- You pay a royalty fee of 20% of the gross profits you derive from
+ the use of Project Gutenberg-tm works calculated using the method
+ you already use to calculate your applicable taxes. The fee is
+ owed to the owner of the Project Gutenberg-tm trademark, but he
+ has agreed to donate royalties under this paragraph to the
+ Project Gutenberg Literary Archive Foundation. Royalty payments
+ must be paid within 60 days following each date on which you
+ prepare (or are legally required to prepare) your periodic tax
+ returns. Royalty payments should be clearly marked as such and
+ sent to the Project Gutenberg Literary Archive Foundation at the
+ address specified in Section 4, "Information about donations to
+ the Project Gutenberg Literary Archive Foundation."
+
+- You provide a full refund of any money paid by a user who notifies
+ you in writing (or by e-mail) within 30 days of receipt that s/he
+ does not agree to the terms of the full Project Gutenberg-tm
+ License. You must require such a user to return or
+ destroy all copies of the works possessed in a physical medium
+ and discontinue all use of and all access to other copies of
+ Project Gutenberg-tm works.
+
+- You provide, in accordance with paragraph 1.F.3, a full refund of any
+ money paid for a work or a replacement copy, if a defect in the
+ electronic work is discovered and reported to you within 90 days
+ of receipt of the work.
+
+- You comply with all other terms of this agreement for free
+ distribution of Project Gutenberg-tm works.
+
+1.E.9. If you wish to charge a fee or distribute a Project Gutenberg-tm
+electronic work or group of works on different terms than are set
+forth in this agreement, you must obtain permission in writing from
+both the Project Gutenberg Literary Archive Foundation and Michael
+Hart, the owner of the Project Gutenberg-tm trademark. Contact the
+Foundation as set forth in Section 3 below.
+
+1.F.
+
+1.F.1. Project Gutenberg volunteers and employees expend considerable
+effort to identify, do copyright research on, transcribe and proofread
+public domain works in creating the Project Gutenberg-tm
+collection. Despite these efforts, Project Gutenberg-tm electronic
+works, and the medium on which they may be stored, may contain
+"Defects," such as, but not limited to, incomplete, inaccurate or
+corrupt data, transcription errors, a copyright or other intellectual
+property infringement, a defective or damaged disk or other medium, a
+computer virus, or computer codes that damage or cannot be read by
+your equipment.
+
+1.F.2. LIMITED WARRANTY, DISCLAIMER OF DAMAGES - Except for the "Right
+of Replacement or Refund" described in paragraph 1.F.3, the Project
+Gutenberg Literary Archive Foundation, the owner of the Project
+Gutenberg-tm trademark, and any other party distributing a Project
+Gutenberg-tm electronic work under this agreement, disclaim all
+liability to you for damages, costs and expenses, including legal
+fees. YOU AGREE THAT YOU HAVE NO REMEDIES FOR NEGLIGENCE, STRICT
+LIABILITY, BREACH OF WARRANTY OR BREACH OF CONTRACT EXCEPT THOSE
+PROVIDED IN PARAGRAPH 1.F.3. YOU AGREE THAT THE FOUNDATION, THE
+TRADEMARK OWNER, AND ANY DISTRIBUTOR UNDER THIS AGREEMENT WILL NOT BE
+LIABLE TO YOU FOR ACTUAL, DIRECT, INDIRECT, CONSEQUENTIAL, PUNITIVE OR
+INCIDENTAL DAMAGES EVEN IF YOU GIVE NOTICE OF THE POSSIBILITY OF SUCH
+DAMAGE.
+
+1.F.3. LIMITED RIGHT OF REPLACEMENT OR REFUND - If you discover a
+defect in this electronic work within 90 days of receiving it, you can
+receive a refund of the money (if any) you paid for it by sending a
+written explanation to the person you received the work from. If you
+received the work on a physical medium, you must return the medium with
+your written explanation. The person or entity that provided you with
+the defective work may elect to provide a replacement copy in lieu of a
+refund. If you received the work electronically, the person or entity
+providing it to you may choose to give you a second opportunity to
+receive the work electronically in lieu of a refund. If the second copy
+is also defective, you may demand a refund in writing without further
+opportunities to fix the problem.
+
+1.F.4. Except for the limited right of replacement or refund set forth
+in paragraph 1.F.3, this work is provided to you 'AS-IS' WITH NO OTHER
+WARRANTIES OF ANY KIND, EXPRESS OR IMPLIED, INCLUDING BUT NOT LIMITED TO
+WARRANTIES OF MERCHANTIBILITY OR FITNESS FOR ANY PURPOSE.
+
+1.F.5. Some states do not allow disclaimers of certain implied
+warranties or the exclusion or limitation of certain types of damages.
+If any disclaimer or limitation set forth in this agreement violates the
+law of the state applicable to this agreement, the agreement shall be
+interpreted to make the maximum disclaimer or limitation permitted by
+the applicable state law. The invalidity or unenforceability of any
+provision of this agreement shall not void the remaining provisions.
+
+1.F.6. INDEMNITY - You agree to indemnify and hold the Foundation, the
+trademark owner, any agent or employee of the Foundation, anyone
+providing copies of Project Gutenberg-tm electronic works in accordance
+with this agreement, and any volunteers associated with the production,
+promotion and distribution of Project Gutenberg-tm electronic works,
+harmless from all liability, costs and expenses, including legal fees,
+that arise directly or indirectly from any of the following which you do
+or cause to occur: (a) distribution of this or any Project Gutenberg-tm
+work, (b) alteration, modification, or additions or deletions to any
+Project Gutenberg-tm work, and (c) any Defect you cause.
+
+
+Section 2. Information about the Mission of Project Gutenberg-tm
+
+Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
+electronic works in formats readable by the widest variety of computers
+including obsolete, old, middle-aged and new computers. It exists
+because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
+people in all walks of life.
+
+Volunteers and financial support to provide volunteers with the
+assistance they need are critical to reaching Project Gutenberg-tm's
+goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
+remain freely available for generations to come. In 2001, the Project
+Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
+and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
+To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
+and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
+and the Foundation web page at https://www.pglaf.org.
+
+
+Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive
+Foundation
+
+The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
+501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
+state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
+Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification
+number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at
+https://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
+permitted by U.S. federal laws and your state's laws.
+
+The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
+Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
+throughout numerous locations. Its business office is located at
+809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
+business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact
+information can be found at the Foundation's web site and official
+page at https://pglaf.org
+
+For additional contact information:
+ Dr. Gregory B. Newby
+ Chief Executive and Director
+ gbnewby@pglaf.org
+
+
+Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation
+
+Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
+spread public support and donations to carry out its mission of
+increasing the number of public domain and licensed works that can be
+freely distributed in machine readable form accessible by the widest
+array of equipment including outdated equipment. Many small donations
+($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
+status with the IRS.
+
+The Foundation is committed to complying with the laws regulating
+charities and charitable donations in all 50 states of the United
+States. Compliance requirements are not uniform and it takes a
+considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
+with these requirements. We do not solicit donations in locations
+where we have not received written confirmation of compliance. To
+SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
+particular state visit https://pglaf.org
+
+While we cannot and do not solicit contributions from states where we
+have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
+against accepting unsolicited donations from donors in such states who
+approach us with offers to donate.
+
+International donations are gratefully accepted, but we cannot make
+any statements concerning tax treatment of donations received from
+outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff.
+
+Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
+methods and addresses. Donations are accepted in a number of other
+ways including including checks, online payments and credit card
+donations. To donate, please visit: https://pglaf.org/donate
+
+
+Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic
+works.
+
+Professor Michael S. Hart was the originator of the Project Gutenberg-tm
+concept of a library of electronic works that could be freely shared
+with anyone. For thirty years, he produced and distributed Project
+Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.
+
+
+Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
+editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
+unless a copyright notice is included. Thus, we do not necessarily
+keep eBooks in compliance with any particular paper edition.
+
+
+Most people start at our Web site which has the main PG search facility:
+
+ https://www.gutenberg.org
+
+This Web site includes information about Project Gutenberg-tm,
+including how to make donations to the Project Gutenberg Literary
+Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to
+subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks.
+
+
+</pre>
+
+</body>
+</html>
diff --git a/LICENSE.txt b/LICENSE.txt
new file mode 100644
index 0000000..6312041
--- /dev/null
+++ b/LICENSE.txt
@@ -0,0 +1,11 @@
+This eBook, including all associated images, markup, improvements,
+metadata, and any other content or labor, has been confirmed to be
+in the PUBLIC DOMAIN IN THE UNITED STATES.
+
+Procedures for determining public domain status are described in
+the "Copyright How-To" at https://www.gutenberg.org.
+
+No investigation has been made concerning possible copyrights in
+jurisdictions other than the United States. Anyone seeking to utilize
+this eBook outside of the United States should confirm copyright
+status under the laws that apply to them.
diff --git a/README.md b/README.md
new file mode 100644
index 0000000..0194367
--- /dev/null
+++ b/README.md
@@ -0,0 +1,2 @@
+Project Gutenberg (https://www.gutenberg.org) public repository for
+eBook #34039 (https://www.gutenberg.org/ebooks/34039)