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| author | Roger Frank <rfrank@pglaf.org> | 2025-10-14 20:00:12 -0700 |
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You may copy it, give it away or +re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included +with this eBook or online at www.gutenberg.org + + +Title: Estrellas Propícias + +Author: Camilo Ferreira Botelho Castelo Branco + +Release Date: September 21, 2010 [EBook #33788] + +Language: Portuguese + +Character set encoding: ISO-8859-1 + +*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK ESTRELLAS PROPÍCIAS *** + + + + +Produced by Rita Farinha, Alberto Manuel Brandão Simões +and the Online Distributed Proofreading Team at +http://www.pgdp.net (This book was produced from scanned +images of public domain material from the Google Print +project.) + + + + + + *Nota de editor:* Devido à existência de erros tipográficos neste + texto, foram tomadas várias decisões quanto à versão final. Em caso + de dúvida, a grafia foi mantida de acordo com o original. No final + deste livro encontrará a lista de erros corrigidos. + + Rita Farinha (Setembro 2010) + + + + +ESTRELLAS PROPICIAS. + + + + +OBRAS DE CAMILLO CASTELLO BRANCO QUE SE ENCONTRAM Á VENDA NAS LIVRARIAS +DE VIUVA MORÉ + +PORTO E COIMBRA. + + +Abençoadas lagrimas, drama 240 +Amor de perdição 500 +Agostinho de Ceuta, drama 240 +Cabeça, coração e estomago 500 +Carlota Angela 400 +Coisas espantosas 500 +Doze casamentos felizes 500 +Duas epochas da vida 600 +Estrellas funestas 500 +Justiça, drama 200 +Livro negro 500 +Marquez de Torres Novas, drama 400 +Memorias do Carcere, 2 vol 800 +Morgado de Fafe, drama 200 +Romance d'um homem rico 500 +Scenas innocentes da comedia humana 500 +As tres irmans 500 +Um livro, poesias 360 + + + + +ESTRELLAS PROPICIAS. + +POR + +CAMILLO CASTELLO BRANCO. + + +V. M. + + + +PORTO, +EM CASA DE VIUVA MORÉ - EDITORA, +PRAÇA DE D. PEDRO. + +A mesma casa em Coimbra, | Casa de Commissões em Paris, + Rua da Calçada. | 2^{bis}, Rua d'Arcole. + + +1863. + + + + + +TYP. DE SEBASTIÃO JOSÉ PEREIRA, +Rua do Almada, 641. + + + + +ESTRELLAS PROPICIAS. + + + + +I. + + +Navegando contra a corrente do Lima--o rio das saudades e dos pavores da +mythologia--vereis, a meia legua distante de Vianna, na margem direita, +uma casa apalaçada, em parte cantaria que os seculos denegriram, em +parte edificação moderna, caiada, tingida, variegada, coisa sem graça, +sem poesia, que toda lhe tira a magestosa e veneranda avó, alli á beira, +com o seu toucado de ameias e collares de embrincadas laçarias. + +Da margem do rio ao edificio conduz uma vereda relvosa ladeada de +alamos, cilindras, hidranjas, e outras arvores e arbustos, que ensombram +a convidativa álea. Lá no tôpo entrevêdes um chafariz, rodeado de bancos +de pedra, e abobadado por um pavilhão de chorões, cujos troncos a mão do +tempo torneou e retorceu em caprichosos feitios. + +Se mandaes parar o barquinho diante d'esse obscuro alcáçar das +esquecidas musas do idyllio, d'esse manancial dos gratos devaneios, ao +abrir de uma manhan de agosto, ou ao entardecer de um dia da estação do +outomno--a mais amavel do Minho--ahi ficareis como arrobados, sentindo +sem saber o que, desejando sem dar limites ao desejo, aspirando a +enlevos que vos não parecem da terra, nem os sabereis dizer, se cuidaes +que vos transportam ao ceo. O que vêdes, se sabeis copiar a natureza na +tela, no verso, ou na prosa, podereis conseguir que nós tambem o vejamos +em sombra; o sentir, porém, que semelhante espectaculo, a tal hora, vos +suggere, sêde embora Raphael, Fénélon, ou Delille, que não lograreis +verter em nossas almas a poesia das vossas. Folheai o livrinho, todo +mimo e deleite, do poeta Bernardes, sentido e escripto alli n'aquellas +margens; cuidareis vêr n'elle as harmonias que vos soam ao coração em +descompassadas notas; e, melancolicamente, abrireis mão das maviosas +poesias, que dizem menos que o susurro da veia limpida na fluctuante +frança do salgueiro, ou o regorgeio do rouxinol, que vos fugiu da +margem, para de longe vos estar conversando com o espirito alheado. Nos +versos e nas poeticas prosas do mais canoro bardo do Minho[1], se vos +deparam relanços de delicado sentimento, doçuras campezinas, que todas +recendem os aromas d'aquelles relvados e arvoredos. No mavioso romance +d'outro cantor e prosador sentimental do jardim d'esta formosa terra[2], +lá inspirado, lá haurido no mel de tantas colmeias, nem ahi achaes senão +o bosquejo das visões que adentraram vosso animo, e de vós se apartam, +mal vos embaralhaes com homens vascolejados em negocios da vida real. +Não ha coração que sostenha em si poesia, quando cuidados o empegam no +commum esterquilinio, onde todos, uns mais que outros, nos rebalçamos, +embora á luz do sol das praças, e á luz das serpentinas das salas, as +immundicias brilhem como ouro, ou alvejem como arminhos. + +Não ha, pois, dizer o que sente cada um, ao abrir da manhan, ou descahir +da tarde, se alli parou e contemplou do seu barquinho a avenida +arborisada, o repuxo com seu docel de ramagem, e as cornijas +denticuladas da vetusta metade do edificio. + +Se por lá derivasseis, ao fim de uma tarde de agosto de 1844, e o +rumorejo da corrente vos não houvesse entorpecido a vida exterior, +verieis, ao cimo da avenida, n'um dos bancos circumpostos á fonte, uma +senhora reclinada com o descuido de quem se crê sósinha, sobre um +respaldo de massiço, que brandamente se amollentava, para, a prazer da +solitaria scismadora, se lhe modular ás fórmas gentis. + +A seu lado estava uma carta de muitas paginas, sobre a qual ella +assentava a mão descahida em langoroso quebranto. O que certamente não +verieis eram as lagrimas, que humedeciam a carta, e outras que desciam +nas faces, e paravam aos cantos dos labios, como se ahi esperassem que +um sorriso de esperança outra vez as embebesse no coração. + +De véras creio que o meu leitor ahi se ficaria em quanto o vestido +branco da formosa visão se estremasse da escuridade das arvores; quando, +porém, a noite lhe fechasse o encanto de olhos, o leitor ir-se-ia, +rio-abaixo, scismando um pouco na solitaria creatura, amante das noites +bellas; e, chegando a Vianna, escassamente se lembraria de têl-a visto, +e só, a muito proposito, perguntaria quem fosse a mulher da pittoresca +vivenda do Minho. + +Tivesse eu a honra de ser a pessoa interrogada, e responderia com o +seguinte capitulo, se o leitor me désse ares de sua complacencia em +ouvil-o. + + + + +II. + + +O romancista de mais perluxo gosto em nomes de personagens de novella, +se os procurar nos climas temperados, ahi os acha mais lindos, mais a +molde da strophe, do poema e do romance sentimental. Os nomes de mais +musica, e mais amoraveis, são os das mulheres gregas, se todos soam como +os das heroinas de Byron, de Hugo, e dos poetas affeiçoados ás coisas +orientaes. + +Desisto de ir á Grecia baptisar as minhas personagens femininas. Escrevo +de Portugal, onde ha nomes de mulheres a competirem de belleza com suas +donas; e, mais que em outra provincia, no coração de todas, no +Minho,--que bem podéra ser a flor da Europa--ahi, na familia de solar, e +na familia da choça, ha peregrinos nomes, que mais parecem ensinados +pela melopeia das aereas musicas, ou dos mui suaves murmurinhos das +florestas, dos rios, das aves e dos insectos. + +Corinna da Soledade era o nome da visão, que o meu leitor pudera ver +n'uma tarde de agosto de 1844. + +Em outra qualquer tarde poderiamos ver, não uma, mas um rancho de cinco +meninas, a competirem de formosura, todas trajadas de branco, soltos os +cabellos, ou ennastrados de flores, com que se andavam dando invejas ás +outras. Eram as cinco irmans d'aquelle ditoso ermo; as cinco Evas +d'aquelle terreal paraizo, por onde não rastejavam serpentes, estas +serpentes de casaca e luva branca, que são o proprio demonio civilisado +pelo alfaiate, e amoldado a estes tempos illustrados em que nenhuma Eva +de certo se deixaria embair por cobras, propriamente ditas. + +Tinha então vinte annos Corinna da Soledade. + +Sou avesso a descripções: muitas vezes o tenho dito. Sahem-me todas +muito pallidas e infieis por causa do esforço que faço a dar relevo aos +traços. Profusamente se dispendem os romancistas em mineralogia e +botanica para colherem o effeito das comparações. Flores e pedraria, a +alvura do lyrio, o escarlate do carmim, o niveo jaspe, o rubido coral, a +lustrosa pretidão do azeviche, a ágata para a cutis das mãos, a petala +de rosa para a das faces, o branco avelludado da magnolia para o collo, +o marfim para os dentes... que sei eu! + +Corinna da Soledade era de estatura mais que mean, refeita, robusta na +apparencia, mimosa de pelle, mas não alvissima; olhos mais singulares +pela brandura que pelo tamanho, reluzentes como chammas, ou amortecidos +como a luz tibia da lua empanada por transparente nuvem--alternativas +instantaneas, que denotavam as rapidas mutações da alma--; arcadas +negras e sedosas, travadas na base da escampada fronte--rara belleza em +mulher, n'aquellas mesmas, que se chamam Sapho, Staël, ou Sand--, breve +boca de finissimos labios, subtilmente assombrados d'um buço, +imperceptivel a curta distancia, mas de bello effeito na approximação. + +Tanto esta, como as outras quatro filhas de Gastão de Noronha, tinham +sido educadas em França, para onde os paes emigraram em 1829. O fidalgo +do Minho homisiara-se, sem conscienciosamente poder dizer que era menos +realista que seus avós; porém, odios velhos de covardes inimigos o +haviam denunciado á alçada, e o prudente sujeito antes quiz confirmar a +denuncia com a fuga, que provar d'entre ferros sua innocencia. + +Em 1833 recolheu a numerosa familia á patria. As meninas vinham +esmeradamente educadas em collegio de Paris, e saudosas dos comêços de +vida alegre que ainda experimentaram na capital do mundo. A transição de +Paris para as margens do Lima, as noites fugitivas dos bailes comparadas +com o silencio do palacio velho, em parte ruinas, e rodeado de arvoredos +e murmurios melancolicos, parece que ao mesmo tempo enluctaram o animo +das cinco meninas, que se contemplavam umas ás outras, como se as +lançassem nas praias ermas d'Africa. + +Gastara, nos cinco annos de emigração, o jactancioso Noronha, como +gastam em Paris os homens opulentos ou perdularios. Bem que a sua casa, +toda em propriedade rustica, fosse grandemente rendosa, e bastasse a +dar-lhe fama e brilho de rico na sua provincia, os redditos d'ella +escassamente dariam a um parisiense com que sustentar dez pessoas de +familia em recatada decencia. Gastão, recolhendo á patria, rareou a +pouco e pouco as nuvens da poeira olympica de Paris, que lhe empanavam +os olhos, e viu todos os seus haveres ameaçados, se não já feridos de +proxima ruina. Os caseiros e administradores tinham esbanjado e +desbaratado á porfia com elle; porém, tão engenhosamente o fizeram, que +o fidalgo achou-os a elles proprietarios, e legitimos possessores das +quintas que, por ordem do amo homisiado, tinham vendido. + +A velha casa solarenga d'onde o fidalgo sahira para o estrangeiro, nos +cinco annos de desamparo e descuido dos administradores, abriu pelo +tecto e fendeu-se pelas abaladas paredes. A familia, affeita a morar em +casas decoradas com graciosas alfaias, quando entrou ao palacete das +margens do Lima, confrangeu-se de pavor como se os vigamentos estivessem +estalando sobre suas cabeças. Fugiram as meninas do salão de espera, e +entraram na sala proxima, onde as mais velhas se recordavam de terem +visto tapetes encarnados, jarrões indianos, e espaldares de sêda. A sala +estava sendo uma eira, com espigas a monte, medas de palha painça, e +instrumentos agricolas, como enxadas, gadanhas, forcados e aguilhadas, +por sobre os jarrões esbotenados. + +D. Mafalda, mãe das meninas, quando tal viu rompeu a chorar, e o marido +a praguejar, e as meninas encolheram-se todas a um canto, tão tristes e +intanguidas, como se as tivessem descido por um alçapão ás lageas de +fria masmorra. + +Cuidou logo o fidalgo em mandar reconstruir aquella parte da casa, que +eu mostrei ao meu leitor, na margem direita do Lima. Como gizara obra +grande, a belprazer da sua desasizada fantasia, vendeu e hypothecou bens +urgentes á sua sustentação para convertel-os em salas, tapetes, +porcellanas, diwans, sophás, chaises-longues, jardineiras, consoles, e +que taes estrangeirices em que as meninas reconheciam um pedaço do seu +saudoso Paris. + +Soffreram maior quebra os rendimentos, sem que a conformidade, se não o +contentamento d'aquella familia, bem aposentada e servida do luxo da +civilisação, os indemnisasse do desfalque dos bens. Gastão de Noronha em +vez de aconselhar paciencia á esposa e ás filhas, era o primeiro a +lastimar-se da solidão em que viviam, do tedio das compridas noites de +inverno, do enfadonho palavrorio dos primos e primas, e dos pessimos +cosinheiros, que nunca tinham bem acertado com o segredo de loirejar á +parisiense umas _omelettes souflées_, ou um _vol-au-vent_. + +Enfadado de tudo, Gastão, incitado pelos gabos que a imprensa portuense +dispensava á sua companhia lyrica, pegou da familia, alvoroçada com a +boa nova, e foi para o Porto, onde passou um inverno, frequentando as +melhores casas, e convidando aos seus bailes a flor da mocidade +portuense. + +Imaginou elle que suas filhas, educadas a primor, bem fallantes, +bonitas, e graciosas em seu desembaraço, fariam epocha no Porto, como +costuma dizer-se, e seriam pretendidas dos negociantes ricos á conta de +sua fidalguia. Este plano é o unico signal que temos da intelligencia +domesticamente governamental de Gastão de Noronha. Não se recommenda o +systema aos paes dissipadores e aos fidalgos arruinados, porque, sobre +ser revelho e desautorisado, é seu tanto ou quanto immoral: abstenho-me +de fundar o dito em razões que não agradariam nem moralisariam. + +Não ha duvida que as meninas, educadas em França, e formosas como as que +mais o são em Portugal, impressionaram vivamente os moços abastados da +dinheirosa cidade; mas estas impressões redundaram todas em muita +poesia, em muito suspiro, em muitos olhares meigos, e em muita +contradança innocente, quando contradansas podem ser innocentes. + +Os mancebos apaixonados viam as meninas, e viam tudo que mais anhelavam; +mas os paes d'estes mancebos, posto que achassem lindas de se verem as +flores, iam de preferencia analysar o tronco da arvore florida, o qual +tronco, como sabem, era Gastão de Noronha. Estas analyses ao tronco +prejudicavam grandemente as flores, como é de ver; e todos os velhos +abastados diziam, á uma, que não queriam enxertias de sua obscura +linhagem em arvore podre. Não sei se o nobilissimo Gastão de Noronha +chegou a saber que lhe chamavam arvore podre! + +O sabido é que o fidalgo voltou ás margens do seu Lima, na primavera +seguinte, com as filhas solteiras, e tristes em dobro do que tinham +vindo de Paris. + +O Porto d'aquella epocha era muito para dar saudades a quem o trocava, +não direi só pelas solitarias margens d'um rio, mas ainda pelos ruidosos +esplendores da capital. + +Quem de lá sahiu ha dezoito annos, e hoje alli voltou, não reconheceu de +certo a sociedade portuense. Então primavam as principaes familias do +commercio, da industria e da jerarchia na magnificencia de seus bailes. +Rara semana corria sem que algum salão reverberasse os seus lustres nas +graças nativas e nos custosos artificios com que se sobre-doiravam +aquellas gentis meninas, que hoje se desvelam em ser mães, e todo seu +viver concentram na vida intima. Das duas ricas provincias, feudatarias +da cidade industrial por excellencia, confluiam, no fim do outomno, +quantidade de morgados e morgadas, que se dispendiam á larga, e +constituiam grande parte da sociedade brilhante, que os folhetins +cantavam, e as modistas vestiam... ou despiam, seria mais acertado +dizer-se. Nenhum festim nupcial dispensava um baile; cada pessoa da +familia opulenta, em seu dia natalicio, tinha um baile; o baile era o +cunho do progresso n'aquella sociedade desentorpecida do marasmo de +seculos, e devotada a competir em pompas com Lisboa, que a não valia +então, nem hoje me affoito a dizer que a vale. E quão diversa agora se +me afigura, quão outra te vi, ó rainha do norte, depois que os teus +próceres trocaram a convivencia dos salões pela commodidade das +equipagens! Foi a parelha que matou o baile indisputavelmente. Foi o +luxo esteril dos urcos e dos arreios, dos trens armorejados, e das +fantasiosas librés que desviou o fecundante capital do intento +civilisador a que o applicaram os patriarchas do progresso n'aquella boa +terra. Era um capital que a todos chegava, todas as classes sociaes +participavam da superabundancia do baile. + +Enriquecia a modista. + +Prosperava o cabelleireiro. + +As confeitarias rivalisavam em primores de bolinhos e pasteis. + +O mercador renovava os seus lotes em cada trimestre. + +As alfaias dos salões, no ultimo baile, faziam esquecer as pompas do +penultimo. + +E, por outro lado, visto pela face moral, o baile era o incentivo mais +energico do talento. Então se viram maravilhas de genio na secção das +locaes, que tão enfezadinha é agora! Então andavam ahi versos, a froixo, +por todos os jornaes; eramos todos poetas, todos tinhamos uma estrella +que cantar, e, pelo commum, aquella estrella luzia-nos da constellação +dos bailes. + +E agora, tudo fundido nas carruagens que trancaram as portas dos salões, +tudo, sem excepção das musas!--as proprias musas me quer parecer que +andam aos varaes das seges! + + + + +III. + + +Das meninas, a mais saudosa do Porto era Corinna da Soledade. Razão +tinha mais que as irmans, porque amara mais que todas, e amara sem +intenção nem calculo. + +N'um baile do conde do Casal fôra-lhe apresentado Antonio d'Azevedo +Barbosa, moço de vinte e dois annos, nem pallido nem córado, nem triste +nem alegre, um homem egual a todos os homens, como elles são fóra do +romance. + +Este Antonio d'Azevedo Barbosa era de Barcellos, filho d'um pequeno +proprietario, que tinha muitos filhos, e mandara o mais velho cursar +jurisprudencia em Coimbra, cuidando erguer um futuro esteio aos irmãos, +lesados em seu patrimonio por amor d'aquelle. + +O moço fôra muito novo para Coimbra; ninguem o admoestava a estudar; +viu-se em plena liberdade de suas acções; achou que era muito suave vida +gastar a mesada, e poupar os livros. Assim o fez, e fez mal, que ficou +reprovado em preparatorios. + +Os patricios seus contemporaneos na universidade foram contar a +Barcellos o desastre do estudante, não por lhe quererem mal, mas por se +quererem demasiado bem a si: disseram-n'o para que a villa de Barcellos +e o mundo soubessem que Coimbra não é para todos; e, a este proposito, +repetiam as memorandas palavras do senhor Ferrer, lente de direito +natural, aos seus discipulos: «meus senhores, quem não puder ser doutor, +seja sapateiro.» + +Manoel d'Azevedo, pae do academico reprovado, adoeceu de paixão, e, se o +não amparam os braços implorantes dos outros filhos, cahia na cova. + +Um abbade limitrophe de Barcellos, e tio materno do estudante, levou o +moço para sua casa, e castigou-o com uma tarefa diaria de duzentos +versos de Virgilio, e um thema de duas laudas da _Vida de Fr. +Bartholomeu dos Martyres_, e doze paginas do _Genuense_, e outras tantas +de rhetorica e geographia. Findou o prazo das ferias, e Antonio tornou a +Coimbra, á custa do abbade. Fez o seu exame de latim, logica, rhetorica +e geographia, com approvação e applausos de bom latinista. + +Matriculou-se no primeiro anno, e sobre-excedeu as esperanças do tio e +as ambições do pae: ganhou o segundo premio, e recolheu ao gremio de sua +familia. D'esta vez, o pae ia adoecendo de alegria. + +Não se morre de dor, nem de alegria; mas morre-se facilmente d'um +hydro-torax; foi o que n'esse mesmo anno succedeu a Manoel d'Azevedo. + +Eram nove os orphãos, e Antonio, o mais velho dos irmãos, tinha dezesete +annos. Fez-se inventario, pagaram-se as dividas do casal, e ficaram +dotados com cento e cincoenta mil reis cada um. O abbade levou as +sobrinhas para sua companhia, que eram quatro; arrumou no commercio os +pequenos, e disse ao segundo-annista da universidade, que se reduzisse a +viver com quatro mil e oitocentos reis de mesada, se queria formar-se. + +Antonio respondeu que viveria com menos, para que suas irmans vivessem +com mais. + +Foi o moço ao segundo anno, e começou logo a escrever umas cadernetas +que lá denominam «sebentas», as quaes os cuidadosos em reproduzir a +prelecção do lente vendem lithographadas. As sebentas de Antonio +d'Azevedo grangearam reputação de explicitas e bem coordenadas, e +produziram metade de sua subsistencia; a outra metade proveio-lhe da +versão de romances francezes, editados por assignatura. E assim vingou o +segundo anno, e os annos seguintes até completar sua carreira. + +O bacharel Antonio d'Azevedo recolheu ao presbyterio do tio com o seu +diploma enrolado n'um tubo de folha de Flandres. + +--E agora?--perguntou o abbade, tres mezes depois. + +--Agora, estou formado--respondeu o bacharel. + +--Bem sei; mas que fazes? quando começas o teu officio de doutor? + +--O meu officio de doutor?!--disse Antonio de Azevedo, como perguntando +a si mesmo a utilidade da formatura em direito. + +--Sim--tornou o padre--o sapateiro, o marceneiro, o artifice em todos os +mesteres, cumprido o tempo de aprendizagem, começa de ganhar sua vida. +Ha dez annos que tu estudas para isto que hoje és: estás doutor, meu +sobrinho; agora applica o que sabes. + +Antonio d'Azevedo achou discreta a admoestação delicada do tio. Recebeu +o seu patrimonio de cento e cincoenta mil reis, e foi a Lisboa requerer. + +Ajuntou o pretendente ao seu requerimento as certidões de seus premios +na faculdade, e de seu excellente comportamento, afóra a pathetica +narrativa de sua pobreza, e das quatro orphans dependentes d'elle. +Consta que o ministro da justiça se não commovera, porque não lera a +petição nem os documentos. + +O bacharel, ao cabo de seis mezes, pediu ao tio padre que lhe mandasse +alguns soccorros, com que pudesse deter-se mais algum mez em Lisboa, +esperando despacho. + +Não lhe respondeu o tio, porque já estava na presença de Deus. +Responderam as irmans, pedindo-lhe que fosse tomar conta d'ellas, visto +que o novo abbade as mandaria sahir da casa da residencia parochial. + +Triste nova para o pobre pretendente, que só tinha de seu o diploma, e +uma surrada casaca com que ia ás audiencias semanaes do ministro, o qual +nunca lhe deu fé da casaca, nem dos premios universitarios, nem das +lagrimas! + +Escreveu Antonio a um de seus quatro irmãos, que já era guarda-livros +n'uma casa commercial do Porto, pedindo-lhe meios para sahir de Lisboa, +e ir á provincia tomar conta das irmans. O guarda livros acudiu prestes +ao pedido, e partiu logo a segurar a subsistencia ás quatro meninas na +casa agricola em que tinham nascido. Deteve-se ainda alguns mezes o +bacharel em Lisboa, sustentado por seu irmão. A final, baldadas as +supplicas, o triste moço sahiu da capital com intenção de abrir +escriptorio de advogado na sua terra. + +Não desagrade ao leitor este familiar estylo com que lhe são contadas +coisas de si tão singelas, que, só á custa de muito florescêl-as, é que +poderiam ser agradaveis. Acceitem-me os successos verdadeiros sem +enfeites; quando eu estiver fantasiando, então lh'os darei ataviados de +modo que a poesia me dispense de ser um fiel copista do que a toda a +hora nos passa diante dos olhos. + +Chegou Antonio d'Azevedo ao Porto, e hospedou-se em casa de seu irmão +Joaquim. Acertara de ser o commerciante a cujo serviço estava Joaquim, +pae de dois condiscipulos de Antonio. Receberam-n'o cordialmente, +deram-lhe bom quarto, sentaram-no no melhor logar da sua mesa, e +instaram-o a demorar-se no Porto durante aquelle inverno. N'essa mesma +occasião fôra ao Porto Gastão de Noronha com suas filhas e mulher; e, +como Antonio d'Azevedo, obrigado pelos seus hospedeiros condiscipulos, +fosse aos bailes onde elles iam, ahi está a razão porque Corinna da +Soledade encontrou o bacharel de Barcellos no baile do conde do Casal. + +O infortunio abastarda os espiritos, desalenta-os, e de todo os +transfigura. Antonio d'Azevedo vergava debaixo da dependencia, sem +maldizel-a. Sentia-se alquebrado por sua mesma inercia, e esmagado pelo +quasi opprobrio de sua inutilidade. O futuro estava-lhe fechado, futuro +para onde o arremessavam esperanças, que todas vira morrer, durante +aquelle triste viver de supplicas e repulsões á porta de ministros, de +magnates, de influentes, homens que vestem o arnez do egoismo, logo que, +no dizer do senhor A. Herculano, «se recostam nos sophás para onde se +atiraram de cima do tamborete de couro ou da cadeira de pinho.» +Sentia-se o moço brutificado pela desgraça: tem ella de seu o fatal +condão de deslapidar o brilho das ideias, enredando-as, escurecendo-as, +falsificando-as; ha uma como nevoa que empana os objectos ou os +desfigura; o infeliz vê sempre errado; ora crê e confia-se em tudo que +ao commum dos homens é despresivel; ora esquiva-se a tomar pelos +caminhos direitos do bem-estar, que eventualmente se lhe offerecem. Póde +ser que uma linguagem energica lhe valesse uma transformação de vida; +mas o susto, o quasi pavor com que falla aos grandes, e a humildade +lagrimosa com que intenta commovel-os, é ainda um sestro mau da sua +desgraça. E em tudo assim, em tudo, até no amor, que devia estar forro +das cadeias com que a desfortuna peia e trava as demais faculdades. É ao +pé da mulher amada, amada sem confiança nem expansão, é ahi que mais a +olhos observadores se manifesta o infeliz. Nenhuma palavra diz que +lealmente lhe sirva o coração. O que diz é incongruente e absurdo, +quando não é disparate de desfranzir um riso. As agudezas triviaes, que +inculcam fina têmpera de alma, e que todo o homem, medianamente servido +de olhos e intellecto, sabe dizer, tomam no discurso do infeliz umas +entoações ridiculas e antipathicas. Se algum pensamento bem ordenado lhe +entreluz, esmorece ao proferil-o, afroixa-o como inconciliavel com sua +baixa posição, e prefere antes trocal-o por uma semsaboria. Esta é a +sorte de todos os desgraçados, que não são tolos; porém é coisa muito +rara encontrar-se um tolo desgraçado. + +Antonio d'Azevedo sondara-se, compulsara-se, e vira a lenta desfiguração +que se operara em sua alma. Impozera-se silencio, que os seus amigos +estranhavam. Negava-se a dar parecer nas mais insignificantes questões. +De si para si dizia elle que sentia uma depressão no cerebro, uma placa +de ferro premindo-lhe a bossa do entendimento. Onde concorresse com +senhoras, ninguem lhe ouvia palavra, senão as precisas para dar um +pretexto a ausentar-se. Muita gente o reputava malfadado; e outra optava +antes por que fosse estupido. + +Quando elle viu Corinna da Soledade, estava ao lado d'um sujeito, cuja +maxima gloria n'este globo era poder apresentar um conhecido a outro +conhecido. Assim que alguem lhe dizia: «Vossa senhoria conhece fulano?» +respondia logo: «Quer ser apresentado?» E se os apresentados lhe ficavam +á mão, era logo. + +Foi o que aconteceu com Antonio d'Azevedo. + +Apenas lhe elle perguntou quem era aquella menina vestida de +azul-celeste, o sujeito travou-lhe do braço, e disse: + +--Venha cá. + +O bacharel mal sabia onde era levado, quando se viu rosto a rosto de +Corinna, a quem o apresentante disse: + +--O meu amigo doutor Antonio d'Azevedo Barbosa, que eu +satisfactoriamente apresento á excellentissima senhora D. Corinna da +Soledade e Noronha, filha do nobilissimo Gastão de Noronha. Agora +deem-me licença, que tenho de fazer quatro apresentações ao conde do +Casal. + +Deus livre o leitor de ver-se alguma vez nos apertos do bacharel! +Corinna esperou o logar-commum que deriva da apresentação. Antonio +d'Azevedo não sabia o logar-commum. Foi ella quem o disse: + +--Está animadissimo o baile; mas abafa a gente de calor! + +--Sim, minha senhora--disse o nosso pobre amigo, puxando pelo colchete +da luva até arrancal-o com a pelica. + +Corinna esperou ainda que o moço fosse além da affirmativa do calor, em +que elle parecia estar mais abafado que toda a outra gente: tão copiosas +lhe borbulhavam na testa e faces as camarinhas do suor! + +Antonio d'Azevedo viu-se tal qual estava sendo aos olhos da filha de +Gastão de Noronha. Apiedou-se d'elle o seu bom anjo. Levantou-se aquelle +espirito com todo o peso da sua amargura, e disse abruptamente, mas de +compasso: + +--Eu não solicitei a honra de ser apresentado a vossa excellencia. Um +homem desgraçado não pede relações. Fui barbaro comigo mesmo entrando +aqui; mas a desventura tem mil rodeios por onde me encaminha a tudo que +me augmenta o desgosto da vida. Resta-me ainda uma sombra de vaidade... +Custa-me que vossa excellencia fique fazendo de mim uma ideia injusta. +Não sou absolutamente estupido: sou infeliz. Perdi o dom da palavra, e +só sei fallar em lagrimas, ou com a minha consciencia, na solidão. +Perdôe-me vossa excellencia este intempestivo desafogo. + +E retirou-se, sem dar tempo a um monossyllabo. + +Corinna da Soledade seguiu-o interdicta com os olhos, e estranhou +aquella novidade romanesca de que não encontrára exemplo mesmo em Paris. + +Antonio d'Azevedo sahiu do baile, que era na casa do quartel general, e +tomou pela rua do Sol a passo vagaroso, até receber a bafagem fria do +Douro, debruçando-se sobre o peitoril do passeio das Fontainhas. Pouco +depois desenrolou-se do mar um denso nevoeiro que se estendeu rio acima, +e logo despediu em nuvens a subir as fragosas ribas da margem direita, e +espraiou-se com taciturna presteza por sobre a cidade. A regélida +neblina arrefecera a cabeça do moço. O que elle estava soffrendo era um +d'aquelles phrenesis que, a longos espaços, atacam os misanthropos. + +As pessoas nunca apalpadas por esta penosa enfermidade, cuidam que ou +ella não existe, ou, se existe, em pouco está o combatel-a com os suaves +linimentos da sociabilidade, ou pouco se deve doer de a não gosar o +misanthropo que lhe foge. + +Pouco sabe de tamanha desventura quem tal diz! Os accessos de +vertiginosa raiva que padecem os feridos d'esta lepra moral são agonias +mortaes. O esquivarem-se á sociedade, o ouvirem-se unicamente a si +proprios nos monologos selvagens com que a si se amaldiçoam e amaldiçoam +a humanidade, dispara por vezes em enfurecimentos e raivas, que só bem +desafogam se o desgraçado, com as proprias unhas, se dilacera. O homem +sem irmãos, sem familia, sem amigos, sem um mundo que lhe absorva a sua +individualidade e n'elle se identifique, sáe tanto fóra das leis da +natureza, que a sua angustia ha de superar todas as angustias +inconsolaveis. D'estas horas tinha muitas Antonio d'Azevedo, e uma das +mais longas e convulsivas estava elle penando n'aquella noite. + +Havia de pensar a leitora que o infeliz ia para as Fontainhas scismar na +imagem de Corinna da Soledade, contar-lhe os seus infortunios sem pejo +d'ella nem das estrellas, consubstancial-a em sua alma pelo mais facil +dos processos que usam amantes imaginativos; em fim, haviam de pensar os +meus amigos que Antonio d'Azevedo era um poeta como nós todos os que +andamos de noite a namorar senhoras nos luzeiros do firmamento, como se +isso servisse d'alguma coisa para o amanho da vida de cada um e de cada +uma. Em minha boa e leal verdade hei de dizer-lhes que o bacharel de +Barcellos era bastante desgraçado para entender em coisas do coração, +que requerem contentamento e paz de espirito. Um homem que medita no +presente e futuro de quatro irmans, reconcentra toda a sua sensibilidade +no coração paternal. O coração dos amores conjugaes--alvo mais ou menos +remoto dos affectos enamorados--esse não se compadece com as tristezas, +que gelam e como que endurecem o espirito. + +Em quanto, porém, o moço engolfava os olhos e o pensamento na alvacenta +nuvem que mais e mais se condensava sobre a torrente, Corinna da +Soledade relanceava inquieta os olhos á procura do cavalheiro que lhe +tinha apresentado Antonio d'Azevedo. Ao vel-o, fez-lhe signal com +vehemente interesse, e perguntou-lhe quem era o sujeito que lhe elle +apresentara. + +--É um doutor de Barcellos, que eu encontrei, ha dias, hospedado em casa +dos Taveiras, riquissimos commerciantes. Estes meus amigos é que devem +conhecel-o cabalmente, e só elles podem informar vossa excellencia... +Dê-me licença... + +O cavalheiro vira de relance um dos dois bachareis, condiscipulos de +Antonio d'Azevedo, e apanhou pelos cabellos o ensejo d'uma apresentação. +Instantes depois voltava, e dizia ter a honra de apresentar á filha do +nobilissimo Gastão de Noronha o doutor Felisberto Taveira, e deixou-os, +segundo disse, para ir apresentar dois amigos da provincia á senhora +condessa do Casal. + +Este cavalheiro, alguns annos depois, á hora da morte, ainda apresentou +ao seu confessor as testemunhas do testamento. + + + + +IV. + + +Corinna e Felisberto Taveira conversaram largo espaço. Gastão de +Noronha, reparando no interesse e apparente intimidade com que sua +filha, estranha ás dansas e a tudo, se entretinha, cuidou em averiguar +quem fosse o cavalheiro. As informações deram em resultado que o fidalgo +ficou contente. Houve alli um sujeito que respondeu assim +arithmeticamente á pergunta do nobilissimo Gastão: + +--João Bernardo Taveira, quando casou, dotou-se com cento e cincoenta +contos; a mulher trouxe-lhe de dote cento e dez contos: somma duzentos e +sessenta contos. Depois, o Taveira herdou de sua cunhada cento e dez +contos: somma trezentos e setenta contos. O negocio d'esta casa tem ido +sempre em crescente prosperidade. Dou-lhe que, feitas as despezas +domesticas, o capital de trezentos e setenta contos, em trinta annos, +tenha rendido nove por cento. Ahi tem vossa excellencia que a casa de +João Bernardo Taveira deve hoje valer perto de setecentos contos, que +repartidos por dois filhos... + +--Trezentos e cincoenta contos--atalhou o fidalgo--é uma fortunasita +soffrivel em Portugal... + +--Eu não se me dava de a soffrer em Londres--disse o outro. + +Em vista do que, o condescendente pae estimou que sua filha gastasse o +tempo com gente d'aquella bitola. + +Ao abrir da manhan entrou Felisberto no quarto de Antonio d'Azevedo, e +encontrou-o emmalando a sua roupa. + +--Isso que é?--disse Taveira--onde vaes tu? + +--Vou para Barcellos--respondeu serenamente o hospede--Basta de vida +regalada: vamos ao trabalho, que é o unico regalo dos infelizes. Estou +aqui deslocado, meu amigo. Esta vida do teu galhardo Porto não se fez +para mim. Ha de ser-me mais consoladora a soledade e a tristeza de +minhas irmans. Desgraçados com desgraçados. + +--Mas--interrompeu Felisberto--que vaes fazer em Barcellos? + +--Abrir um escriptorio de requerimentos, e nos dias em que merecer um +tostão com o meu trabalho, dar a minhas irmans um banquete que valha um +tostão; e nos dias em que a minha sciencia das leis não tiver que fazer +com a paz em que vivem os homens, farei discursos a minhas irmans para +persuadil-as á resignação. De qualquer das maneiras carecem ellas de +mim, e eu d'ellas. + +--E porque não has de tu--atalhou o leal amigo--dizer ao teu Felisberto +que tuas irmans estão precisadas, e que os prazeres da vida te amarguram +em quanto ellas estão penando? Abre as minhas gavetas, e manda dinheiro +a tuas irmans. + +--Obrigado, meu bom irmão. Se a amizade te impõe o dever de ser +generoso, a estima de mim proprio obriga-me a ser homem. Aquelle que +vive de emprestimos, sem ter exhaurido as suas faculdades de aptidão +para o trabalho, póde hypothecar a sua palavra, mas a dignidade, não, +que a não tem. + +--Faz a tua vontade, Azevedo; mas vê lá que o teu catonismo de dignidade +te não leve até á ingratidão!...--disse com branda severidade o filho do +millionario. + +--Ingratidão!--acudiu o mancebo com sincera magoa. + +--É ingratidão esconderes tua vida de quem está com a alma aberta +convidando-te a dar-lhe o prazer de te ser util. É ingratidão +privares-me da alegria de te fazer bem a ti e aos teus. + +--Perdoa-me, pois...--interrompeu Azevedo, apertando-lhe +estremecidamente a mão. + +--Estás perdoado--tornou Felisberto abraçando-o; mas has de cumprir uma +pena. Ficarás mais algum tempo comnosco. Tuas irmans não são felizes; +mas necessidades creio que as não soffrem. Teu irmão Joaquim reparte com +ellas o seu ordenado, e bem sabes que quatrocentos mil reis abundam á +subsistencia d'uma familia em Barcellos... Vou ajudar-te a desfazer a +mala. + +Felisberto ia desdobrando o pouco fato do seu hospede, e fallando ao +mesmo tempo: + +--Porque sahiste tão cedo do baile, Azevedo? Ás onze horas já te não +vi... + +--Estava triste... + +--E que fizestes até ás seis horas e meia fóra de casa? + +--Andei a fazer a digestão da felicidade com que sahi de lá--respondeu +sorrindo amargamente Azevedo. + +--Que te pareceu aquella mulher com quem falaste? a Corinna? + +--Chama-se Corinna? + +--Da Soledade! Vê tu que nome, que poesia, e que romance! Quanto daria o +Eugenio Sue por um nome d'estes? Quando aquella menina fôr conhecida dos +poetas menores do Porto, todas as poesias se chamam «Corinnas da +Soledade.» Que te pareceu ella a ti, alma de gelo? + +Antonio d'Azevedo córou, lembrando-se de que o seu amigo ouvira d'ella +ou d'outra a singular sahida da sua apresentação, adornada comicamente +de motejos feminis, os mais pungentes de quantos ha. + +--Riram-se de mim?--perguntou elle--Tu de certo não ririas, meu Taveira! + +--Se riram! que desproposito! Que ha em ti provocador de riso? + +--Entre-lembro-me de ter dito não sei quê a essa senhora... O que foi +está-me fazendo a impressão de um mau sonho. + +--Disseste-lhe que eras infeliz. Tu crês que a infelicidade faça rir +alguem? Corinna ouviu-te, estranhou o infortunio que se confessa em +bailes; mas não sorriu, condoeu-se, lastimou-te, e pediu-me que te +levasse ámanhan ao baile da Torre da Marca. + +--É curiosidade de mulher ociosa? + +--Não: é sympathia... + +--Com a desgraça?--atalhou Azevedo. + +--E com o homem, creio eu; muito mais com o homem. Uma menina de vinte +annos, bella, nobre, e não sei se rica, só por milagre sympathisa com o +homem desgraçado. + +--Então...--disse Antonio d'Azevedo, e sosteve-se. + +--Então, ias tu perguntar-me se seria amor? + +--Não: o infortunio estraga as faculdades da razão, mas não as cega, meu +amigo. + +--O que me espanta é o sangue frio com que tu ouves esta revelação, que +faria endoidecer muitos felizes!--tornou Felisberto--Dar-se-ha caso que +tu sejas aleijado de coração! Ó Azevedo, tu já amaste? + +--Não tive ainda tempo. Quando a alma trabalha sempre, o coração nunca +está ocioso. Bem sabes que fiz a minha formatura á custa de muitas +vigilias. Acabei de formar-me, e fui para Lisboa requerer. Estive lá +nove mezes; e, n'este longo prazo de desgostos, o menor foi a fome, e o +maior foi a convicção da minha nullidade. Uma vida assim, nem por +descuido se acha illaqueada nas armadilhas do amor. + +--Mas deves ter sentido uma aspiração que é commum: deves ter sonhado +uma mulher. + +--Não, porque adormecia sempre com a barra de ferro da desgraça sobre o +peito. As mulheres que via nos meus sonhos eram minhas quatro irmans +lindas, desamparadas e pobres. Tinha o coração cheio d'ellas. A +Providencia divina tem-me feito a mercê de não ajuntar uma quinta imagem +ás quatro infelizes que sobejam á minha sensibilidade. + +--Ora vamos--tornou Felisberto Taveira--Corinna da Soledade não é mulher +que algum homem veja isentamente. Não te havia ser penoso amal-a, pois +não? + +--Tem graça a pergunta!--respondeu Azevedo com affavel sorriso--Creio +que me seria muito facil amal-a se eu fosse Felisberto Taveira, ou um +d'esses mil que recebem um raio d'este sol universal da esperança ou da +alegria. Como queres tu que a minha alma saia do seu abysmo escuro, e vá +como doida banhar-se na luz immensa, n'este mar de paixões deliciosas +que eu mal conheço dos romances que traduzi, como quem copía caracteres +hebraicos, sem os entender? Meu amigo, eu creio que o amor só resiste ás +lagrimas, que são suas: ha um chorar que vem d'outras angustias mais +severas e profundas; e, a meu ver, estas lagrimas vão ao coração, e +devoram o sentimento melindroso do amor. + +--É uma theoria, que estás compendiando para um futuro livro, meu +Azevedo; estimo que desbanques o Balzac, o Ovidio, o Sthendal, o +Castilho, e quantos escreveram do amor e da arte de amar; entretanto, +convem-te recolher experiencias. Começas ámanhan a experimentar no baile +da Torre da Marca. + +--Tu és tão bom que me deixas ficar em casa!--disse Azevedo. + +--Não posso: dei a minha palavra a Corinna, contando com a tua +condescendencia. + +--Iremos--acudiu Antonio d'Azevedo. + +N'este mesmo dia, Joaquim, guarda-livros dos Taveiras, foi ao quarto de +seu irmão, e disse-lhe: + +--Trago-te uma boa nova, Antonio. O senhor Taveira chamou-me ao seu +escriptorio, e augmentou o meu ordenado a um conto e duzentos, para que +eu continuasse a dispender na minha decencia e pequenas negociações que +faço a quantia que dava a nossas irmans. Beijei-lhe as mãos, e +agradeci-lhe em nome d'ellas, e em teu nome. Agora vê tu se precisas +d'alguma quantia para os teus arranjos, que eu tenho de sobra. Se queres +tornar para Lisboa, vai, Antonio, que te não hão de faltar meios. D'aqui +a meia duzia de annos as nossas irmans podem estar casadas com +lavradores remediados, se eu tiver vida e saude. Dois mil cruzados é um +bom dote para cada uma, e eu sinto-me com bastante aptidão e fortuna +para os grangear de dois em dois annos, sem lhes diminuir a ellas a +mesada. Quero ver se tu agora com esta boa noticia te não alegras, +Antonio! Andas ahi tão acabrunhado que pareces um velho! Quem te vir +assim abatido e descuidado do teu aceio, ha de pensar que algum remorso +te atormenta! Vive como toda a gente mais infeliz do que nós somos. Se +foste contrariado, se trabalhaste muito para te formar, agradece a Deus +a intelligencia com que venceste todos os obstaculos. Se não tens agora +emprego, tu serás empregado. Os senhores Taveiras morrem por ti, e tem +muitos amigos na capital. Já o pae me disse que, em cahindo este +ministerio has de ser delegado ou administrador d'um bairro aqui do +Porto. Depois, as nossas irmans se estiverem solteiras, veem para a +nossa companhia, e vão comnosco aos bailes e aos theatros... + +--Cala-te, criança!--interrompeu Antonio--Se as nossas irmans hão de ir +comnosco aos bailes e aos theatros, como queres tu que ellas casem com +lavradores, dotadas a dois mil cruzados! Vê se as dotas, Joaquim; e +dá-lhes os seus maridos lavradores, e não as chames á cidade. Não te +lembras d'aquelles choupos onde cantavam de madrugada e ao anoitecer os +pintasilgos, debaixo da janella do nosso quarto? + +--Lembra. + +--Pois olha que não ha musica mais suave a corações felizes! Deixa que +nossas irmans a gosem por muito tempo; que, se a esquecerem por outra, +em vão te cansarás em dar-lhes novas alegrias. Faz por que ellas não +tenham de vender o seu patrimonio, que está na pequena propriedade onde +os passarinhos cantam nos choupos, e onde o anjo da paz mora com ellas. +Em quanto ao offerecimento que me fazes do teu dinheiro, meu bom irmão, +póde ser que eu t'o acceite para uma longa viagem, visto que já não sou +aqui preciso para meditar no futuro esteio da nossa familia. + +--Pois onde queres tu ir?--atalhou Joaquim. + +--Penso em ir ao Brazil. Dizem-me que ha alli trabalho para os braços de +todas as nações, e particular amor e bem-querença para o portuguez que +trabalha. O cansaço do espirito enfraqueceu-me os braços, é verdade; +mas, ainda assim, quando eu puder acabar de todo com este incommodo +hospede chamado a sciencia--a minha estupida e inutil sciencia!--então +póde ser que os braços se revigorem, e eu restitua á minha propria +dignidade, em trabalho, o que perdi na inactividade de doze estereis +annos de lidas de pensamento e de vans ambições. Outras ambições me hão +de levar ao Brazil: é ajudar-te, Joaquim; é ser, como tu, digno da +estima dos nossos e da estima de estranhos. O homem inerte, aqui no +Porto, é desconsiderado: devia sel-o assim em toda a parte onde fosse um +e unico o padrão da honra. Não sei em que conta sou tido pelas raras +pessoas que me conhecem aqui; mas escuto o que se diz dos pouquissimos +que por ahi vagueiam de rua em rua, affectando com jactanciosa necedade +que o Porto póde imitar Lisboa no seu peculiar caracteristico da +vadiagem. Vexa-me a actividade d'esta boa gente, que parece trabalhar +incessantemente para dar nome de laborioso a este paiz! Ando como +humilhado ao par do commerciante, do artista, do escriptor e do ultimo +operario. Esta ancia de lavor e de fadiga chega a mortificar-me. É ver +que benefica influencia tem a labutação dos mais materiaes mesteres +sobre os espiritos exclusivamente dados ás funcções da intelligencia! +Parece que todo o homem anda em competencia com o outro na sua esphera +de trabalho. O commerciante agenceia grandes operações em poucas horas; +as forjas convertem em fórmas maravilhosas milhares de arrobas de ferro +em rapido tempo; o poeta, se outro fito o não descaminha, realça na +facundia e selecção de seus poemas; o romancista, com este mesmo mundo +de boas paixões e febril actividade, comporá livros sobre livros sem lhe +ser mister explorar as sinuosidades do vicio para ser bem-quisto e lido. +E que sou eu aqui, meu irmão? Que fiz eu do meu cabedal de +intelligencia? Deixei-o congelar-se sob a mão do infortunio, quando +devia rasgar umas cartas de bacharel affrontosas, e vestir a jaqueta do +operario, em cujas lapelas o respeito publico aprezilha muitas vezes a +condecoração, invisivel sim, mas venerada na consciencia dos que +nobilitam o trabalho.................................................. + +Eu tenho a sizudesa de poupar o leitor ao muito mais estirado discurso +do bacharel. Fallou muito, como fallam os misanthropos quando uma +luzinha de esperança lhes lampeja na sua escuridade. A sua esperança +sorria-lhe d'além-mar, do ceo hospedeiro do novo-mundo. + + + + +V. + + +Dizia Gastão de Noronha á filha Corinna: + +--Vi-te hontem á noite muito distrahida, menina, e gostei que te +inclinasses áquelle rapaz... + +--A qual, papá? + +--A qual ha de ser?!--tornou o pae com um gesto de intelligencia e +comprazimento--é o unico com quem te detiveste uma boa hora... + +--Ah! já sei... o Taveira? + +--Alli tens um excellente marido, Corinna! Trezentos e cincoenta +contos... Não sabias? + +--Não, meu pae--respondeu a menina, indecisa se devia desenganal-o, ou +evadir-se á continuação das perguntas. + +--É necessario--proseguiu Gastão em tom solemne--acabar com as +distincções de raças. A velha nobreza é um merito relativo que o +progresso acata, se outros meritos de natureza commum a sustentam na +altura d'onde procede. As altas linhagens predominavam, quando eram as +representantes dos illustres nomes e das grandes riquezas. Porém, depois +que as industrias abriram fontes de ouro, sem terem de o fazer á ponta +da espada e da lança, a fidalguia baixou muito do seu quilate, e teve de +associar-se com ellas para não ficar sósinha, estacionaria e +dessociavel. Tu viste como em França as netas dos grandes titulares de +Luiz XIV vão casando com os netos dos plebeus d'aquelle tempo. +Ennobrecer-se de veneras e titulos custa tão pouco, ou vale tão pouco no +bom juizo dos governos illustrados, que já hoje póde cada homem rico +abrir a sua burra, e fazer com que ao mesmo tempo se abra o cofre das +graças. Muita gente irreflectida diz que isto é um mal; e os atilados +acham que a depreciação dos fóros de fidalguia é coisa de incalculaveis +vantagens para o adiantamento da humanidade. Entendem elles avisadamente +que só assim, egualando os homens pela nobilitação, já que elles não +querem egualar-se pelo plebeismo, conseguiremos ser todos eguaes. Ora +nós, filha, que vivemos em França, onde as fitinhas são respeitadas, +porque todos as desejam e trabalham para ganhal-as, vencendo uma +batalha, apedrejando um rei, ou inventando uma machina de fazer +colchetes, devemos ter na devida conta de desprêso uma chimera que, +felizmente, em Portugal preoccupa todas as cabeças para, a final, as +nivelar todas na mesma linha... + +Corinna da Soledade estava ouvindo e recolhendo as sentenças do pae, com +o proposito de responder com ellas ao mesmo apostolo da egualdade, se +alguma vez carecesse d'isso. + +Gastão continuou no mesmo tom de circumspecta gravidade: + +--Accrescem razões d'outra ordem no caso especial em que estamos, +Corinna. A nossa casa está desfalcada a ponto de eu não poder remediar +com a mais apertada economia o mal que vem de avós, e eu continuei na +emigração, para vos dar decencia, educação e prazeres. Moços eguaes a ti +em nascimento muitos haverá; mas, pouco mais ou menos, empobrecidos como +nós, e retirados como realistas á obscuridade dos seus solares e da sua +inactividade. Uns por inercia, outros por ignorancia, todos se devem +considerar formando á parte uma phalange de estatuas d'algum devastado +jardim que não ha de mais florir. Já vês, Corinna, que ha difficuldade +em achar-se um marido como teus bisavós o desejariam; mas facil te ha de +ser encontral-o como teu pae t'o deseja. Felisberto Taveira, sobre ser +rico, é um gentil moço, é doutor, revela fina educação, e... não é +assim? + +--Parece-me excellente sujeito--disse Corinna. + +--Bem: eu não podia enganar-me--tornou com alegre semblante o pae--Já te +disse elle que... sim... manifestou-se-te? + +--Nada me disse com relação a casamento, papá. + +--Não admira: era a primeira vez que fallava comtigo; mas que te +amava... + +--Tambem não disse... + +--Pois sim; convenho em que o respeito e a delicadeza o contivessem; +porém tu deves conhecer, depois de uma hora de conversação... + +--Não fallamos a nosso respeito, papá--disse candidamente Corinna. + +--Pois então?! + +--Eu lhe digo: apresentaram-me um sujeito que me disse umas palavras +muito amarguradas, e sahiu do baile. Fiquei pasmada e curiosa de saber +quem era o tal sujeito. O Antão de Menezes, que m'o tinha apresentado, +trouxe-me o Taveira para me dar as informações que eu desejava. Ficamos +a fallar d'elle todo aquelle tempo que o papá viu. Ahi tem vossa +excellencia o que foi. + +--E quem era o sujeito? que te disse elle? e porque ficaste tu assim +curiosa de o conhecer?!--perguntou Gastão com demudado rosto. + +--Era um doutor Azevedo Barbosa, de Barcellos, hospede do Felisberto +Taveira... + +--E que mais?--atalhou o pae precipitadamente. + +--E que mais?! o papá que deseja que eu lhe diga mais? + +--Se é rapaz de fortuna... Em Barcellos não sei que haja... + +--É pobre, e vive muito penalisado, porque tem quatro irmans, e cuida +que o persegue uma má estrella. + +--Pois sim, não duvido que o persiga uma má estrella, e que seja pobre e +tenha quatro irmans; mas que tens tu que ver com isso? Em que se funda a +tua interessante curiosidade?! + +--Tive compaixão d'elle, papá. + +--E gastaste uma hora a colher informações!... O Taveira havia de +persuadir-se que tamanho interesse significava alguma coisa mais que +simples curiosidade. Se assim foi, como havia de elle dizer-te que te +amava?! Ora, minha filha, nunca faças praça d'essas tuas compaixões sem +utilidade. Se o Taveira te procurar nos bailes, agradece-lhe a +preferencia, e não lhe faças suspeitar que o escolhes por medianeiro: +isso não só desanima, mas offende o amor-proprio. Teu pae pede-te que +olhes com toda a seriedade ao teu futuro, que por em quanto se figura +triste. Com um bom casamento davas-te, e davas á tua familia a +felicidade. + +Corinna da Soledade, ausente o pae, scismou largo tempo com muita +tristeza, e meditou em fingir-se doente para não ir, na seguinte noite, +ao baile da Torre da Marca. + +O fingimento era facil; porém o bom ou mau anjo d'ella segredou-lhe +seducções, que a deliberaram a conservar-se no goso de sua perfeita +saude para ir ao baile dos condes de Terena. + +Antonio d'Azevedo, sinceramente violentado, entrou na sala em que estava +Corinna, e foi ao lado de Taveira cumprimental-a. Momentos depois, +Felisberto ia retirar-se, crendo que assim comprazia a Corinna. Chamou-o +ella, e disse-lhe a resguardo de Azevedo: + +--Desagrado a meu pae, que está aqui defronte, se ficar conversando com +o seu amigo. Peço-lhe que me não deixe só com elle, e, quando meu pae +estiver jogando, então... + +E de feito, Gastão de Noronha fitava os olhos na filha, e perguntava á +pessoa com quem fallava, se o sujeito que entrara com Taveira era um tal +Azevedo, de Barcellos. + +Dizia Taveira ao seu hospede: + +--Aposto mil contra um... aposto! + +--O que?--perguntou Azevedo. + +--Que Corinna te ama, e te ama de véras! A esconder-se do pae para te +fallar! ha nada mais persuasivo! Quando uma menina se confia n'um +confidente, e desconfia de seu pae, e se esconde d'um terceiro para +dizer ao medianeiro que volte com o outro quando o papá estiver jogando; +e quando esse _outro_... és tu!... + +Antonio d'Azevedo ergueu os hombros, e disse: + +--Valha-te Deus! Cuidas tu que eu tenho espirito bem folgado para entrar +n'estes brinquedos pueris, em que a tua seriedade corre perigo de +sahir-se mal!... Queres tu que eu me capacite de que estamos figurando +n'uma das graves comedias humanas? Pois sim, meu amigo: figuremos e +discutamos. Tu já disseste áquella senhora que eu sou um pobre bacharel +que consumiu sua sensibilidade, _fazendo a côrte_ aos ministros da +justiça? + +--Não lhe disse tudo isso, nem parte d'isso. Como ella me não perguntou +se eras rico, dispensei-me de ser o inventariante dos teus pares de +botas e dos teus camapheus. Perguntou-me se eras bom, e eu disse-lhe que +eras um moço honrado, e o coração d'um anjo. Tudo o mais que dissemos +foi commentar o que é ser-se honrado e ser-se anjo. Provavelmente +Corinna, que viu tudo em Paris, não achou lá a exquisitice do +anjo-coração, e está em ancias de saber em que tu te apartas do restante +do genero humano. Esta curiosidade é já uma escolha, e a escolha, se a +tua modestia m'o consente, é o amor com todos os seus recatos e +astucias. + +Proseguiram n'esta contenda, até que Taveira viu abancar ao jogo o pae +de Corinna; mas, momentos antes, observara elle que o fidalgo segredara +com sua mulher, olhando o bacharel de travéz com o sabido disfarce dos +que olham de travéz. D. Mafalda fizera um gesto, que vinha a dizer que +estava sciente. + +--Vejo que a familia está de sobre-rolda!--disse Taveira ao seu +amigo--mas ainda assim avisinhemo-nos cautelosamente da praça. + +Corinna acabara de dansar, e passeava pelo braço do parceiro, que por +fortuna era Antão de Menezes, o apresentante emérito. Este, que +adivinhava todas as subtilezas do coração dos seus apresentados, +approximou-se de Azevedo, e disse-lhe com mui galharda cortezania: + +--O thesouro não me pertence. Aqui o tem, que eu sou apenas o indicador +dos thesouros.... sou uma especie de S. Cyprianno, que descobre as +riquezas encantadas. + +Antonio d'Azevedo deu o braço a Corinna, e Felisberto Taveira retirou-se +com Antão. + +Agora é que havia de ser umas delicias ouvil-os, se D. Mafalda, +vigilante observadora da passagem innocente, não mandasse um cavalheiro +dizer a sua filha que fosse fallar-lhe. + +Corinna respondeu: + +--Queira dizer á maman que eu vou já. + +--Vá, minha senhora--disse Azevedo. Não seja eu causa de sua mãe a +desgostar. + +--Não importa.... Eu queria pedir-lhe que não fosse tão infeliz... + +--A mim?!--atalhou Azevedo suavemente enleado pela musica d'aquella voz, +em que o tom da supplica tinha o mavioso do carinho filial. + +--Sim... pois não me disse que era muito desgraçado?... + +--Sou.... era muito desgraçado; mas condoeu-se vossa excellencia a tal +ponto de mim que.... + +--Que lhe peço com instancia que se não deixe vencer do tedio da +sociedade; não fuja das pessoas que imagina felizes... Olhe que não +encontra seis que o sejam n'estes centenares de pessoas. Eu, se fosse +senhora das minhas acções, tambem aqui não vinha, e ficaria a soffrer +sem nada remediar... Não posso demorar-me, que minha mãe está +impaciente... Olhe que eu desejo a sua amizade... Conduza-me a minha +mãe... e não se esqueça... + +Este lance, que, a dar-se uma vez na vida do homem, nunca se repete, foi +uma especie de vertigem, que deixou o espirito de Azevedo na indecisão +de quem, a sonhar, a si mesmo se pergunta se está sonhando. + +Corinna sentou-se ao lado de sua mãe, e o bacharel com os braços +pendentes e a boca descerrada para tragar fôlego que lhe alargasse o +peito, ficou, tres passos distante, arrobado na contemplação da gentil +menina. + +Taveira, que não os perdera de vista, estava-se deliciando no +espectaculo que só elle via. Quando achou que era tempo de acordar o +amigo de um extasis desagradavel a D. Mafalda, tomou-o pelo braço, e +disse-lhe simulando seriedade: + +--Quando quizeres vamos embora. São duas horas da manhan. + +--Já!--murmurou Azevedo. + +--Vê lá.... se queres sonhar mais alguns minutos.... + +Azevedo comprehendeu a intenção de Taveira, e disse com uma voz que não +era a sua, e com um brilho d'olhos que nunca tivera: + +--Nasce o novo homem... Sinto o coração... Agora sei que ha uma +felicidade commum de todos os desgraçados. Se isto não é uma sensação +passageira, hei de beijar-te as mãos, que me arrancaram do meu abysmo. + +--A beijares as mãos de alguem--disse Taveira, sorrindo--é melhor que +beijes as mãos de Corinna. + +Antonio d'Azevedo deteve-se um pouco de tempo em recolhimento +silencioso, e disse de sobresalto: + +--Isto é uma nova desgraça! + +--O quê? uma desgraça beijares as mãos de Corinna? + +--Vê tu--proseguiu elle como se não ouvisse a pergunta galhofeira do +amigo--que engenhosa é a minha funesta estrella! Hontem tive um +pensamento que me deu vigor novo para crer e esperar. Projectei ir ao +Brazil, e logo os horisontes do meu futuro se rasgaram, e não sei a que +luz a esperança me mostrou dias ditosos. Sonhei com as alegrias do meu +plano, e acordei hoje com um alvoroço estranho. A desgraça viu que eu +tive algumas horas menos negras, e duvidou da sua omnipotencia. +Trouxe-me aqui para eu sentir que o apartar-me hoje do local onde ouvi +aquella mulher me ha de ser um tormento. + +--Melhor!--interrompeu Felisberto--Ella e os teus amigos não querem que +vás ao Brazil procurar a felicidade que deixas cá. Onde a procuramos é +que ella não está. + +--Entendes tu--disse o bacharel--que se é feliz, amando, na minha +posição, uma senhora na posição de Corinna de Noronha, filha do nobre +Gastão de Noronha... + +--Nobre e pobre, accrescenta. Se elle fosse rico como foi, dizia-te que, +a não quereres renunciar aos teus austeros principios de dignidade, +convinha-te esmagar o coração debaixo da barra d'oiro que ella valesse; +mas, segundo as informações que hoje me deram, a filha do fidalgo não +tem mais do que tu. Entre ti e ella está estabelecida a egualdade +humana, no maximo rigor da palavra. + +--Ainda não--atalhou Azevedo--Eu sou filho de um lavrador de Barcellos. + +--Vai tu perguntar aos lavradores de Barcellos se elles dão seus filhos +ás filhas dos fidalgos que não tem terras que lavrar. + +--Essa é outra questão, meu amigo. Não te esqueças que eu sou um homem +sem occupação. Tão reprehensivel seria eu disputal-a ao pae sendo ella +rica e eu pobre, como se quizesse associal-a á minha pobreza. Que faria +eu d'aquella menina se me fosse permittido casar com ella? + +--O que fazem das esposas os maridos que casam pobres. Amam-as como se +costumam amar os pobres; por amor d'ellas redobram de vigor para +luctarem com a adversidade; por amor dos filhos nunca esmorecem no +desalento em que tantas vezes se nos deparam os celibatarios, que apenas +luctaram um anno com as contrariedades. A familia é uma accumulação de +forças no braço do seu chefe. O pae nunca succumbe; o marido tem uma +força providencial que o ampara. + +Este dialogo, o primeiro que n'este genero talvez se travou n'um baile +entre dois rapazes menores de vinte e cinco annos, foi interrompido por +Gastão de Noronha, que quiz ser apresentado a Felisberto Taveira. + + + + +VI. + + +Quiz o fidalgo do Minho apalpar o coração do filho do millionario, +pessoalmente. A sua prosapia soffria-lhe que, ageitando-se o ensejo, +elle mesmo se offerecesse para sogro, e poupasse o timido moço aos +embaraços de pedir-lhe a filha, e aos receios de ser mal acolhido. + +Ouviu Felisberto Taveira uma longa e não falsa descripção das virtudes e +prendas de Corinna da Soledade. Aqui se dá um fragmento da paternal +exposição: + +--Minha filha, posto que vivesse na melhor roda de Paris, e a rodeassem +os mais graduados moços d'aquelle viveiro da elegancia, nunca se +captivou d'algum. Não lhe direi que ella se isentasse por soberba do seu +nascimento, bem que pudesse tel-a, porque meu quinto avô sahiu da casa +dos marquezes de Villa-Real, por onde somos Noronhas; todavia, não era +vaidade a frieza de Corinna. Bem póde saber vossa senhoria que o coração +é de essencia democrata, e ao coração se deve o triumpho da democracia, +em virtude de se irem a pouco e pouco amollecendo as durezas de que as +antigas educações callejavam o coração da mulher de linhagem. O que +minha filha tinha e tem, era um juizo prudencial á prova de todas as +velleidades e pompas, que seduzem o vulgar das meninas. Os seus gostos +foram sempre moderadissimos; riquezas nunca a deslumbraram; os bailes e +os banquetes era preciso obrigal-a a gosal-os; tudo lhe era pesado, +menos a solidão, a meditação e a obscuridade. Cuidei sempre que minha +filha seria insensivel ao prazer de se ver amada, e mais ainda ao de +receber satisfeita a côrte de algum moço. Em Portugal, principalmente, é +que não devia esperar vel-a possuida de sentimentos amorosos; porque, +sem desaire da nossa patria, devemos confessar que nós, os portuguezes, +temos em amor uma certa gravidade, que toca a extrema do aborrecimento. +Falta-nos um certo espirito _pétillant_, um não sei quê de que as +mulheres se deixam seduzir. Não acha? + +--Sim, senhor... nós temos isso...--respondeu Felisberto Taveira, +descobrindo um grande fundo de ridiculez através do aspeito encanecido +do fidalgo. + +--Sem duvida nenhuma... Pois, meu caro senhor Taveira, penso poder +affirmar-lhe que a minha filha está pagando o universal tributo. +Descobri que ama! Só o Porto podia fazer tal milagre! + +--É muita honra para o Porto, senhor Noronha! e muita mais ainda para o +homem escolhido. + +--Que vossa senhoria conhece perfeitamente... + +--Eu?...--balbuciou Taveira, quasi convencido de que o fidalgo alludia a +Antonio d'Azevedo. + +--Sim, senhor: conhece-o como ás suas mãos, porque vossa senhoria e elle +formam dois seres n'um só ser: são inseparaveis. + +Isto acabou de persuadir Taveira, que, na mais candida boa fé, +accrescentou: + +--E creia vossa excellencia que a pessoa preferida pela senhora D. +Corinna tem virtudes e coração dignos d'ella. + +--Creio, creio, e o meu maior prazer era vel-os unidos, em quanto eu +tenho vida e alegria para poder felicitar-me de tão boa união. + +--Agora me convenci--acudiu Felisberto--de que vossa excellencia ama +sinceramente sua filha, e viu com benignos olhos a inclinação desegual +que ella manifestou. + +--Inclinação desegual! Eu não sou parvo de fidalgas desegualdades, +senhor Taveira! Soberania ha uma só, que é a da virtude: o resto são +convenções humanas sem criterio nem fundamento real. O que eu quero é +ver minha filha feliz. Se os meus appellidos valem alguma coisa, meus +netos hão de chamar-se Noronhas, e a todo tempo que elles queiram +humilhar arrogancias d'outros nobres, poderão sempre abrir a historia, +na certeza de que encontram o nome d'um avô em cada pagina. Os tempos +são outros, senhor Taveira, porque são outros os corações. Violentar a +vontade de minha filha!... Deus me feche os olhos antes que eu tal faça! +Respeito-lhe a inclinação, que ella manifestou, porque sei que a sua +dignidade foi a primeira voz que lhe deu conselho. + +--Admiro a grandeza de sua alma!--tornou Taveira com mui sizuda e +admirativa satisfação--E mais me espanta que vossa excellencia, antes de +acceder á vontade de sua filha, não curasse de saber se o homem +escolhido é bastante rico a mantêl-a na decencia com que foi criada. + +--Não, senhor, não quiz saber se era rico: o que perguntei foi se era +bem comportado, se tinha grangeado a estima publica, se seria um bom +marido e um bom pae. Unanimemente me disseram que sim. + +--E disseram-lhe a verdade, senhor Gastão de Noronha--confirmou +Taveira--A riqueza de Antonio d'Azevedo só bem lh'a podem avaliar os que +mais perto vivem de sua nobre alma. + +--A riqueza de quem?--atalhou Gastão de Noronha com um gesto de +irrisorio espanto. + +--De Antonio d'Azevedo Barbosa--tartamudeou Taveira, corrido do engano +em que tinha estado. + +--Não nos temos entendido!... Pois vossa senhoria cuida que eu estou +fallando d'esse tal sujeito? + +--Cuidava... Pois não é elle a pessoa distinguida por sua filha?!... +Perdão! eu entendi mal. + +--Vejo que sim; e eu peço tambem perdão de entender mal, cuidando que +era outra a pessoa... Ora esta!... Pois não é o senhor Felisberto +Taveira? + +--Eu! + +--Sim, o senhor! + +--Não pensei tal... e creio que vossa excellencia entendeu mal a +propensão da senhora D. Corinna, posto que a escolha me daria muita +gloria. + +--Muito bem: façamos de conta que estivemos a fantasiar--tornou Gastão +simulando um desenfado risonho, que lá por dentro era accesso de zanga e +vergonha.--Pelo que diz respeito ao senhor Antonio de... como é? + +--Antonio d'Azevedo. + +--Ah! sim, d'Azevedo... filhote de Barcellos? + +--Justamente. + +--Não sei quem são os Azevedos de Barcellos... Sejam lá quem forem, meu +caro senhor Taveira... tenho a dizer-lhe... + +--Os Azevedos de Barcellos--interrompeu com louvavel desabrimento +Felisberto--são tão nobres como os Taveiras do Porto. Meu pae veio da +lavoira de Fafe para aqui; o pae do bacharel Antonio d'Azevedo morreu na +lavoira de Barcellos. + +--Sim, senhor: convenho em que tão nobres são uns como outros; mas a +minha filha não ha de, creio eu, illudir-me mais uma hora. Queira +desculpar um engano, em que vossa senhoria nada perdeu, e rogo-lhe que +diga ao senhor Antonio d'Azevedo que se preoccupe com aspirações mais +rasoaveis, se não interessa em dar graves desgostos a uma familia que +vive tranquilla. + +Quando as ultimas linhas d'este dialogo se trocavam entre os dois, qual +d'elles mais corrido do seu equivoco, outro dialogo terminava entre +Corinna e Antonio d'Azevedo por estas palavras d'ella: + +--Eu receio que meu pae se não demore no Porto, e Deus sabe se nos +veremos mais! Olhe: se tiver precisão de queixar-se da sua má estrella, +faça-o a mim, que sou, desde hontem, desde sempre, desde que nasci sua +amiga, e talvez sua irman por sympathia de dores. Escreva-me: eu lhe +direi de Vianna em que nome me ha de escrever. Vá visitar-me em espirito +á minha soledade: lá me verá sósinha por entre as arvores, em quanto +minhas irmans, quasi tão infelizes como eu, procuram ao menos +entreter-se umas com as outras em volta das suas saudades de Paris... Eu +nem isso trouxe de lá... Não se demore, que vejo meu pae... + +Felisberto chegou diante de Antonio d'Azevedo, e disse com forçado riso: + +--Estás outra vez somnambulo, Antonio? Eu estou peor, porque venho +estupido de spasmo! + +--Que é? + +--Querem casar-me com a tua Corinna! + +Azevedo ergueu a fronte avincada, e disse: + +--Pois é costume offerecerem-se assim as filhas n'um baile ao homem a +quem se é apresentado?! + +--Não é costume: é moda agora... O Gastão vai sahir com a +familia--ajuntou Felisberto--Podemos ir, e lá fóra conversaremos. + +Ouviu o bacharel o dialogo em resumo; contou ao seu amigo as ultimas +palavras de Corinna; e adorou a imagem da primeira mulher amada nos +alvores da aurora que repontava. O que elle então disse, em arrobos de +poesia, era o sublime represado n'aquelle coração em sua primeira +primavera. + +Perguntou-lhe Taveira se pensava ainda em ir ao Brazil. + +--Hoje mais que nunca--respondeu elle. + +--Como assim?! Aquella mulher não te prende á patria? + +--Prende-me sobre tudo a um sacratissimo dever. Até agora pensava em ir +ao Brazil para segurar o futuro de quatro irmans pobremente criadas e +boas de contentar com pouco; d'hora em diante hei de ver no horisonte +das minhas ambições, além de minhas irmans, Corinna da Soledade, educada +com as regalias da sua condição, e só digna do homem que a não obrigar a +descer de posição aos olhos da sua sociedade. + +--E quem te assevera--redarguiu Felisberto--que voltas rico a Portugal? +De que genero de trabalho fias tu a tua prosperidade? + +--De todos os generos honestos. Se não valer como advogado, valerei como +caixeiro; se não tiver aptidão para o negocio, ensinarei o que sei; se +tiver de descer, descerei sem vergonha; se descer tão baixo que nunca +possa erguer-me d'entre os ultimos operarios, ahi ficarei, e lá +morrerei: ninguem dirá, depois, que transigi com a minha inutilidade. + +--Quer-me parecer--retorquiu Taveira--que a linda Corinna está sendo +ainda pouquissima coisa na tua alma! Dar-se-ha caso que, em verdade, tu +sejas refractario ao amor, ou que a tua sensibilidade, como disseste, se +consumisse em galantear os ministros da justiça!? Qualquer homem, que +não fosse tu, forte do amor inspirado por um anjo como Corinna, e com as +tuas habilitações, cuidava desde já em agenciar na patria uma mediania, +que a doçura da vida intima convertesse em opulencia invejavel aos mais +opulentos. Suppondo que tu não pudesses, n'um ou dois annos, alcançar +emprego, ou clientela como advogado, é de crer que tivesses um amigo a +quem pedisses um, dois, ou mais contos de reis para te estabeleceres +aqui, em Lisboa, na tua terra, ou onde quizesses viver. Suppondo mais +que tu me tivesses na conta do teu primeiro amigo, era a mim que tu +pedias esse emprestimo, e eu com mil vontades te servia agora, e depois, +e sempre. + +Antonio d'Azevedo, após algum espaço de reflexão, respondeu: + +--Meu caro amigo, se o verdadeiro amor é uma desordem da razão, esse não +é o amor que eu sinto. Que a minha vida está passando por nova phase, é +certo: esta excitação d'alma, que eu não sei se deva chamar alegria da +juventude feliz, nunca a experimentei. Porém nenhuma das minhas +faculdades, que pensam, julgam, e antevêem os successos, se escureceu: +ouso até affirmar-te que o juizo se revigora, e a previdencia se aclara +mais. Depois d'isto, imaginemos que tu me emprestas o cabedal necessario +para eu ter uma casa, uma esposa, e a subsistencia certa de algum tempo. +A esposa devia ser necessariamente a filha de um homem que cahiu da sua +dignidade offerecendo-t'a porque és rico, e que se dignou recommendar-me +que não perturbasse o socego de uma familia, que vive tranquilla. Não +foi isto? + +--Pouco mais ou menos. + +--Bem: e não entendes tu que seria uma indignidade ir eu perturbar o +socego do pae de Corinna, casando-lhe com a filha, por meio d'um rapto +ou da intervenção da justiça? + +--Não entendo assim a dignidade. Se Corinna consentir em ser raptada +para o mais santo dos intentos a que o coração a pode impellir; e, se +ella rasoavelmente se não quizer sacrificar á ambição do pae, nem a tua +honra, nem a sua, nem a da familia illustre ou não illustre, soffrem +desaire. + +--Discordamos--replicou Azevedo--Gastão de Noronha quer que sua filha +case rica: entende elle que sua filha só póde ser feliz sendo rica. Será +absurdidade uma tal opinião? Vai tu perguntar a qualquer pessoa estranha +a Corinna, se a julga feliz na pobreza: ha de responder-te que a julga +mais feliz sendo rica. Pois se os estranhos pensam assim, que fará um +pae? + +--Convenho; mas sobejam exemplos de mulheres sacrificadas por esse erro +dos paes. + +--Deixal-os sobejar: ainda mesmo que todos os exemplos fossem contra os +paes, nem por isso a vontade bem intencionada d'elles deixava de ser +respeitavel; mas crê tu, meu amigo, que o maior numero de casos +justifica o arbitrio dos paes. Eu tenho vivido muito arredado d'estes +estudos da sociedade em que tu deves saber muito; assim mesmo, se tu +quizeres posso recordar-te de os ter ouvido a ti e aos outros, alguns +casamentos mal agourados por terem sido contra vontade das filhas, +arrancadas por força a affeições de moços pobres para serem adjudicadas +a homens odiados com toda a sua riqueza. Pois, com o rapido andar de +alguns mezes, se não dias, as esposas violentadas apparecem radiosas de +alegria nas suas carruagens, nos seus camarotes e nos seus salões; em +quanto os mocinhos pobres e amantissimos, ou porque emmagrecem, ou +porque engordam muito, chegam a passar por as noivas, que os poetas +denominam _martyres_, sem ellas os conhecerem. + +Felisberto riu-se do semblante grave com que o seu amigo proferiu as +ultimas palavras. + +Após breve pausa, Antonio d'Azevedo continuou: + +--Estamos aqui a fallar de casamento, como se Corinna me tivesse dito +que quer casar comigo!... O que ha entre nós é uma ligação das que se +desligam no intervallo de dois bailes, meu amigo. Lembra-te que eu não +sou de todo hospede n'estas materias: traduzi vinte ou mais volumes de +romances, e acredito nos romances, cujas passagens a minha razão +explica. Dado, porém, que a magîa é duradoura, e que este amor encerra +em si um drama, que ha de fechar pelo casamento, eu só poderei ser +marido de Corinna quando o pae me acolher, _sem equivoco_, como te +acolheu a ti ha poucas horas. É preciso que a justiça não interceda a +favor do meu coração. Quando eu puder dizer a Corinna que sou bom, e ao +pae de Corinna que sou rico, então verei se este presentimento da +felicidade era mais que um sonho dos que os grandes desgraçados +convertem logo em excruciante realidade da vida. Por ora, nem bom nem +rico. Para a bondade falta-me ter esgotado as forças que ainda sinto em +adquirir meios com que sustente uma grande porção do bem-estar, +impossivel de alcançar-se sem elles. Eu não sei que merecimentos póde +ter, no conceito d'uma mulher, o homem pobre que, em nome da sua +desvairada paixão, a convida a ser pobre com elle, e a receber da +sociedade as, talvez involuntarias, desattenções que necessariamente +avexam o pobre, se elle não está santificado pela paciencia. Ora, a +santificação n'estes nossos dias, meu amigo, nem o muito amor a póde dar +aos casados pobres. + +--Do teu arrazoado--disse Felisberto--concluo, e toda a gente ha de +concluir, que amas Corinna como um inglez, estabelecido nas Antilhas, +amaria a sua noiva, que elle nunca viu, estabelecida em Londres. Dentro +de quinze dias estás mudado, ou então ha ahi grande aleijão na tua alma! +Hei de dar-te um conselho, se não mudares. + +--Então dá-m'o já, que eu fico pela minha constancia. + +--Ordena-te, faz-te conego, bispo, patriarcha, cardeal, e não vás ao +Brazil. + + + + +VII. + + +Gastão de Noronha, poucos dias depois do baile da Torre da Marca, sahiu +do Porto apressadamente com a familia, por saber que chegara a Vianna um +seu parente de Lisboa, com o intento de passar a estação da primavera na +quinta das margens do Lima. + +Momentos antes da partida, Corinna da Soledade escreveu esta carta: + +«Vamos partir. Lembre-se d'esta sua outra irman para lhe contar os seus +dissabores. Póde parecer-lhe que este desejo das suas cartas é desejo de +quem vai viver na solidão da aldeia, e precisa distrahir-se seja com o +que fôr. Talvez a sua bondade me não recusasse tal distracção, ainda +mesmo tendo o meu amigo a certeza de ser tamanho e tão de gelo o meu +egoismo. Não, não é assim. Eu, sem pejo, lhe confessei que o estimava +quanto podia, e nenhum accidente da minha vida me fará mudar. Se vir o +caminho da felicidade, siga-o, meu irmão, e não volva a face lá para a +minha soledade, para aquelles arvoredos onde eu hei de esconder-me com +as suas cartas. Adeus.==«_C. da S._» + +Na carta ia incluido um bilhete com um nome de homem, a quem deviam ser +subscriptadas as cartas de Antonio d'Azevedo. + +Agora sabe a sensivel leitora se Corinna da Soledade tinha razão de +estar triste mais que suas irmans, quando, idas do tumultuoso Porto, se +viram outra vez no ermo, quando as arvores mal sacudido tinham os gelos +do inverno, e começavam a abrolhar os gomos da sua nova folhagem. + +O parente, que esperava em Vianna, Gastão, era um fidalgo sexagenario, +filho de Lisboa, grande morgado no Alemtejo, e muito amigo de +divertir-se, do que dera cabal prova no decurso de sua vida celibataria. +Chamava-se D. João de Mattos e Noronha, e vinha a ser segundo primo de +Gastão, ou coisa assim parecida. O ir elle ao Minho, na primavera +d'aquelle anno, posso asseverar-lhes que não era movido por desejo de +vêr florido o jardim de Portugal, nem se lhe a elle dava que as claras +aguas do Lima corressem para baixo ou para cima. O caso era todo +medicinal. Como sentisse as pernas fracas, e o estomago preguiçoso, +consultou varios medicos, e todos lhe disseram que fizesse exercicio, e +bebesse bons ares, especialmente os do Minho. Occorreu logo a D. João de +Mattos que tinha um parente nos suburbios de Vianna; e, posto que nunca +se vissem nem correspondessem, entendeu elle que, a toda a hora, um +Noronha seria bem recebido no solar do fidalgo minhoto. Outra razão vem +condizendo para explicar a escolha da provincia, e era que o velho +fidalgo de Lisboa, na ultima decada da vida, se fizera tão economico e +aváro, quanto fôra prodigo e dissipado até aos cincoenta annos: d'onde +resultava que o seu grande prazer seria achar bom gasalhado gratuito em +casa de parentes, que se dariam por bem pagos com a honra de o terem +hospede. + +Cresceu de ponto a satisfação do velho, quando se viu alegremente +acolhido nos braços de seu primo, dando a beijar a mão ás cinco formosas +meninas, que lhe chamavam tio D. João. + +A medicina teve um triumpho. O estomago de D. João activou +admiravelmente suas digestões; as pernas pareciam recaldeadas de aço; +movia-se o remoçado velho com a flexibilidade dos seus quarenta annos. A +natureza brindou-o com as suas urnas aromaticas: eram tudo tapetes e +doceis de flores a festejal-o; as calhandras e os rouxinoes +desgarravam-se em cantilenas quando o velho passava com as sobrinhas +pelos braços; até o Lima, recobrando a primitiva magîa de dar o +esquecimento a quem o transpunha, parecia ter matado no sexagenario +saudades, e renascido esperanças em novo começar de vida. + +Esperanças! ora, esperanças aos sessenta annos, (diz o leitor) em que, a +não ser na salvação de sua alma? + +Verão o que d'alli sáe. Hão de maravilhar-se do influxo d'aquelles ares +e aguas do Minho, nas fibras revelhas de um peito ido de Lisboa, onde as +cachexias do coração vem muito mais temporans--o que, a meu ver, se deve +ao mau ar e á pessima agua, elementos importantissimos do sangue. + +D. João de Mattos, conversando, uma vez, a sós com seu primo Gastão, +disse ao correr do dialogo: + +--Olha, primo, o celibato dá aos moços vantagens, que, no velho, são +amargamente descontadas. Mil vezes, nos ultimos vinte annos, me tenho +arrependido de não haver casado. Desprezei grandes fortunas, porque era +rico, e formosas mulheres, porque era um estroina de pessimos costumes: +parecia-me que a belleza é uma flor boa para se aspirar e deixal-a ainda +viçosa para que nol-a invejem e furtem; em quanto que a obrigação de +conservar em casa a flor murcha é um pesadelo. Isto é que eu pensava com +a minha libertina philosophia dos vinte, dos trinta e dos quarenta +annos. Quando orcei pelos cincoenta, lembrou-me que, aos sessenta, +precisaria de uma familia, de uma esposa, de filhos, de carinhos e das +doces illusões da velhice. Pensei em casar-me. Procurei as mulheres que +amara aos trinta, e achei-as mães e avós; algumas que se conservavam +solteiras estavam feias e velhas. Veja o primo o poder dos maus +habitos!--quando assim as vi, ainda cá disse de mim para mim: «olha se +eu tenho casado, que bonitas creaturas estas para me ajudarem a +bem-morrer!» Muito custa a purgar a peçonha dos maus principios, primo +Gastão! Aqui tem, pois, vossa excellencia que por um triz não cedi á +tentação de casar com uma menina de vinte e cinco annos, filha segunda +da casa da Trofa em Evora, a qual os paes me davam com a melhor vontade, +e ella tambem não mostrava sombra de constrangimento; mas um dia, não +sei como, vou a casa d'um tenente de cavallaria, ainda nosso parente, e +vejo-lhe sobre uma mesa um ramo de flores velhas atadas com uma fita de +setim verde que eu mandara á minha futura, atando outro ramilhete, em +dia dos seus annos. Pensei no que vi sem dizer nada. Faz lá ideia do +castigo dos meus erros começados n'aquella hora de ciume! Ninguem +imagina a dor de um velho ludibriado, se elle ainda conserva coração com +bastante memoria para lembrar relances reprehensiveis de sua +mocidade!... Fui para Lisboa sem me despedir da noiva, e de lá escrevi +ao pae, dizendo-lhe que seria grande acerto casar sua filha com o +tenente de cavallaria. Como de facto acertaram casando, e lá estão +felizes com muitos filhos. O que eu nunca pude acabar de entender é como +podia aquella menina acceitar-me, e com que vistas o faria? Dispunha-se +a ser feliz comigo, e vai depois ser feliz com o outro! Entendam lá as +mulheres d'agora tão differentes das do meu tempo! De maneira, meu caro +primo, que a minha decrepitude será triste a mais não poder. Á hora da +morte hei de ver-me rodeado dos successores do morgadio, sobrinhos que +aborreço, porque os vejo sempre a contarem-me as rugas novas da cara, e +sei que tem o lisongeiro cuidado de perguntarem por mim, todos os dias, +aos medicos. Tenho accumulado os rendimentos por não saber em que +dispendel-os; e tudo isto ha de ir dar áquellas mãos ávidas de meus +sobrinhos, e depois elles é que hão de saber gosar o que eu já não +posso.... Triste, tristissima coisa, primo Gastão! + +--Isso é assim, primo D. João....--murmurou com doloroso tregeito de +beiços e olhos o pae das cinco meninas solteiras; e proseguiu--O primo, +ainda assim, por causa de uma é injusto com as outras mulheres. As de +hoje são como as de todos os tempos: ha bom e mau. Ora assim como D. +João deu com uma das más, podia ter encontrado uma das muitas que ha +boas, e estar a esta hora muito satisfeito, e ter já um herdeiro dos +seus vinculos. + +--Palavra de cavalheiro!--exclamou com alvoroço D. João--quando penso +que podia ter um herdeiro dos meus vinculos, e arrancar a minha casa das +garras famintas de meus sobrinhos, morro de desesperação por me não ter +casado! Que contentamento seria o meu, ó primo! um filho! um herdeiro! + +--Pois ainda está em tempo--atalhou Gastão--case-se; não hão de +faltar-lhe noivas, sem sahir da sua qualidade. Ha de achal-as mesmo na +sua parentella, dignas, formosas, capazes de lhe honrarem a velhice, e +encherem de alegria e mocidade os seus ultimos annos. + +D. João fitou os olhos descorados e franzidos no rosto do primo, +estendeu-lhe a mão cortada de cordoveias, e tartamudeou: + +--Se eu tivesse vinte annos menos, pedia-lhe uma de minhas sobrinhas, +primo Gastão. + +--Escolha, primo--disse o pae de Corinna apertando-lhe affectuosamente a +mão. + +--Não escolho nem peço nenhuma--tornou o velho--Veja se me tira vinte +annos das costas, e depois pedirei a nossa Corinna, que é um anjinho, +mas não para mim, que posso ser avô d'ella. Nada, primo, nada: para +desgraçado basto eu. + +--Façamos um contracto. Eu tracto de sondar a vontade de minhas filhas, +e especialmente de Corinna. Se esta, ou alguma das outras se mostrar bem +disposta a ser sua esposa, o primo D. João não se nega. + +--Palavra de D. João de Mattos e Noronha, que não me nego; pelo +contrario, morrerei de felicidade, porque, além da esposa e da sobrinha, +levo comigo a mulher, cujos costumes tenho apreciado em mez e meio de +convivencia a todas as horas. + +Fechou-se o dialogo com poucas mais palavras de reciproca satisfação dos +dois fidalgos. Em quanto elles praticavam, lia Corinna da Soledade a +decima carta de Antonio d'Azevedo, que dizia assim: + +«Esta é a ultima carta que lhe escrevo em Portugal, minha amiga. O navio +parte depois de ámanhan de tarde. Agora vou a Barcellos abraçar minhas +irmans, e despedir-me das memorias da minha infancia. Sinto um prazer +amargo em me ir approximando do seu ermo. Cinco leguas apenas nos hão de +separar quando ler esta carta. Dê-me uma lagrima como retribuição da +angustia com que eu hei de lançar a derradeira vista ao ceo que cobre os +seus arvoredos. Quando eu era criança, ia tantas vezes d'um alto, onde +ha ruinas d'um castello, olhar para esses sitios! Que visão seria +aquella da minha alma, então magoada como se presentisse a saudade de +hoje! + +«Mande-me ter coragem, minha querida amiga: diga-me antes, como tantas +vezes me tem dito, que a dignidade excessiva me tem dado ao coração liga +de bronze. Ai! quanto se engana, Corinna! quanto se enganam os mesmos +amigos de quem não escondo um pensamento! + +«Levo alegres esperanças. Os bons Taveiras tem-me dado cartas de summo +valor de pessoas muito importantes d'aqui para outras do Rio de Janeiro. +A mim não me ha de custar a merecer a bem-querença de todos: levo comigo +a segurança no firme proposito que fiz de não sahir do caminho dos meus +deveres. O que fui comsigo, minha amiga, hei de sêl-o em todas as +situações da minha vida. Se esta estrada me não guiar á felicidade sem +remorsos, é que não ha nenhuma. + +«Vou no intento de advogar. Em poucos annos, com o auxilio de amigos e +fervor de trabalho, posso ganhar a mediania que basta aos nossos +moderados desejos. Poucos annos, Corinna, que rapidos hão de ir como vão +os annos dos felizes. Verá que a esperança lhe aligeira o tempo, e as +minhas cartas lhe hão de acudir nas más horas da desanimação. Temos Deus +por nós. Deus, minha Corinna! Escrevo-lhe estas quatro lettras com +quanta uncção póde dar a fé ardente d'um homem sem culpa. O premio que +Deus me dá é a consciencia de poder assim fallar de mim; e chego a crer +que este dom me basta para valer muito em seu conceito. Se me não +sentisse puro de vergonhas e remorsos, Corinna, julgar-me-ia indigno de +si. + +«Eu quizera poder dizer a todo o mundo, e a todos os desventurosos +escravos de suas paixões, que nenhum amor, por mais desmedido que seja, +carece de provar que o é com destinos e excessos censuraveis. É a +primeira vez que amo, Corinna, e amo-a muito: pois, por sua vida lhe +juro, que ainda leve sombra de intenção culposa me não nubelou a limpida +esperança de a ver minha esposa. Estou chorando e estas lagrimas não sei +se qualquer amante as verte. Sei que muitos as fariam chorar de sangue a +outrem, para se esquivarem ao trance que me está fundamente doendo no +coração. E eu, por mim, antes quero padecer agora, porque sei que hei de +ser consolado. Os dias prosperos não vem do acaso: são grangeados, como +as searas, a muita fadiga e com muitos intervallos de desalento: a final +a colheita de fructos e de bençãos; o coração ainda novo para saborear +os fructos, e o espirito cheio de santa vaidade por ter merecido as +bençãos. + +«Espere-me, minha doce amiga; seja o meu anjo animador; mostre-me de cá +sempre a patria á luz da sua alma allumiada de graça divina. + +«Escreva-me, e mande as suas cartas ao nosso bom amigo Taveira; as +minhas, por mediação d'elle, todas receberá, e muito longas, para lhe +encurtar as horas, e dar alguma alegria ás minhas noites. + +«Corinna, minha querida esposa, não posso continuar. Sejamos dignos um +do outro. Offereço a Deus as lagrimas que hei de chorar, pedindo-lhe que +enxugue as suas com as consolações da esperança. Tenha muito animo. A +religião ha de dar-lhe o que o meu amor não puder. Estarei sempre com a +sua alma, e Deus será sempre entre nós, porque muito do intimo creio que +entre dois infelizes sem culpa está sempre um bom anjo. Adeus.» + + + + +VIII. + + +O jubilo de Gastão de Noronha, causado pela proposta de D. João de +Mattos, foi, n'aquelle mesmo dia, aguado por extraordinaria e imprevista +angustia. + +Os vinculos que administrava o descendente dos marquezes de Villa Real, +trouxera-os sua mulher, D. Mafalda de Athaide, natural de Ponte do Lima, +havidos de um tio, que morrera sem descendencia directa. + +Em quanto Gastão estivera no estrangeiro appareceu um filho natural do +antecessor dos vinculos administrados por D. Mafalda, allegando o seu +direito á successão dos bens de Fernão d'Athaide. O fidalgo não deu pezo +ás consideraveis provas de habilitação do contendor. De mais a mais, +como o seu nome de liberal valesse muito a favor do pretendente, o +pleito decidiu-se contra Gastão em primeira instancia. Seguiu o processo +os termos de appellação para as superiores instancias. Gastão tinha +parentes nos altos cargos da judicatura, liberaes rebuçados, que +protegeram o réo ausente, contra o favorecido author. O pleito ficou +alguns annos trancado no desembargo do paço, até que o emigrado voltou. +Os primeiros annos, que seguiram a restauração, foram tumultuosos e +favoraveis em todo o sentido para os que, mais ou menos prestantes, se +diziam restauradores. Como em tudo assim era desleixado e imprevisto, o +fidalgo não curou de rematar o litigio, destruindo as provas do filho +natural, nem mesmo quiz averiguar a sua plausibilidade, ou fazer que o +processo se perdesse. + +Em 1840 requereu novamente o filho natural, documentando o seu arrasoado +com uma carta de perfilhação concedida por D. João VI no Rio de Janeiro, +para onde Fernão de Athaide, pae do habilitando, fôra com o rei em 1807. +Ajuntava este aos autos reconstruidos cartas escriptas por seu pae, +tanto a elle, como a sua mãe, portugueza de origem, que fallecera no Rio +de Janeiro, casada e dotada pelo fidalgo de Ponte do Lima. Accrescia a +isto o depoimento de doze testemunhas de ouvirem dizer ao moribundo +Athaide que tinha no imperio do Brazil um filho natural, chamado +Fernando de Athaide, ao qual testava todos os seus bens livres e +vinculados. + +Este legado, com quanto em principio devesse tornar duvidosa a successão +de D. Mafalda aos vinculos de seu tio, foi pouco no conceito dos +principaes lettrados, quando Gastão de Noronha os consultou: diziam que +os bens vinculados não podiam ir ao filho natural, nem a declaração do +velho á ultima hora da vida podia esbulhar da successão a legitima +descendencia. + +Em 1829 viera Fernando de Athaide a Portugal a tomar conta da herança: +achou sua prima empossada n'ella, e a favor d'elle os jurisconsultos que +tinham dado por boa e legitima a espoliação. + +Em 1832, enfadado das delongas da decisão e do patronato que sua prima +tinha em Lisboa, voltou para o Brazil onde tinha o seu florente +commercio de café, herdado de sua mãe, que morrera abastada, e universal +herdeira de seu marido. + +Voltara novamente Fernando á patria de seu pae, depois de visitar as +capitaes da Europa, e mais por brio do seu appellido, que por +necessidade de duas duzias de contos de reis, instaurou segunda vez o +pleito, confiou-o a habeis advogados e procuradores, e seguiu viagem +para o Rio de Janeiro. + +Esta noticia, com os accessorios funestos de um presumivel perdimento da +causa, foi surprender Gastão de Noronha, quando elle cogitava no melhor +modo de fallar a Corinna em casamento com o tio D. João. Sahiu o fidalgo +para Vianna a ouvir o parecer de advogados, que lhe foram desfavoraveis. +Voltou a casa mais firme na resolução de segurar a futura subsistencia +da familia, casando uma das filhas com o provecto primo, cuja abastança +daria para viverem todos largamente. + +Chamou Corinna a mui secreta prática, e contou-lhe em miudos a historia +do filho natural, as probabilidades da perda da demanda, a irremediavel +pobreza da familia e a precisão de ella se sacrificar á decencia de seus +paes e suas irmans, casando com o tio D. João, por ser das cinco a +menina que elle preferia, posto que se não despedisse de casar com uma +das outras. + +--E nenhuma de minhas manas quer casar com o tio D. João?--perguntou +Corinna. + +--Ainda as não consultei; eu é que desejo que sejas tu. + +--As boas intenções de meu pae são providenciar ao futuro de nossa +familia por meio d'este casamento? + +--Sim, minha filha. + +--Eu com lagrimas lhe digo que não posso servir a esse bom intento. + +--Porque?--atalhou o pae entre pasmado e colerico. + +--Porque morro, porque hei de morrer antes de ser mulher do tio D. João. +Não me recuso, meu pae: faça vossa excellencia o que quizer. + +--Ora!--tornou o pae modificado em sua ira--Não morres, não, filha. Isso +é o que te parece agora; tu verás que todos te ajudaremos a levar a +cruz. E, depois, cuidas que teu tio ha de viver muito? Está alli e está +na cova. As escripturas hão de ser feitas de modo que, ainda mesmo que +tu fiques viuva sem filhos, has de ficar riquissima. + +--O pae não quer acreditar-me...--atalhou, soluçante, Corinna. + +--Acreditar o quê? + +--Que me mato, se Deus me não levar para si. + +--Sei o que é isso...--tornou Gastão escarlate de ira--É o homemzinho de +Barcellos que te ha de fazer perder de todo a minha estima. Não tem +duvida: tu te arrependerás!... Cuidas que, por ser a mais velha, tens os +vinculos? Já te disse que não tens nada. Quando quizeres um vestido, e +não haja em casa um objecto que se venda para t'o comprar, veremos como +te vestes com o amor do valdevinos de Barcellos. + +Disse, e sahiu enfurecido. + +A irman de Corinna, sua immediata em idade e formosura, era Emma. Esta +menina parecia a mais meiga, docil e resignada. Devia estas virtudes á +brandura de sua indole fleugmatica e um tanto fria. O seu prazer era a +quietação, que parecia uma invencivel preguiça. Bem que estranhasse +tanto como as outras a mudança de Paris para a quinta do Lima, foi a +primeira a conformar-se, e achar certa suavidade no socego e silencio, +que affligia as irmans. Era esta tambem a que dava mais trela ao +palavriado do tio D. João, e por vezes se ria a bom rir das baforadas de +juventude que ainda, a tempos, sahiam mornas lá das cinzas do coração do +velhusco. Como amiga de estar em casa, sentada ao piano, ou amezendrada +n'um tapete, D. João tinha sempre certa a palestra com aquella +pachorrenta sobrinha. + +Gastão foi ter com Emma, e encontrou-a aparando as unhas a D. João, e a +rir-se muito das caretas, que o velho fazia, receando que a tesoura lhe +entrasse pelo sabugo. Gastão tomou como de bom agoiro a scena intima das +unhas. Compoz o semblante de risos, avisinhou-se do grupo, e achou +tambem graça aos chistes da filha e aos esgares do primo. + +--Ahi está o nosso D. João--disse elle--gosando um dos milhares de +prazeres da vida domestica. Quando era moço, e requestava damas, sentiu +alguns d'esses innocentes jubilos, primo D. João? + +--Já estive a pensar n'isso, primo Gastão; mas o diacho da Emma não me +deixa pensar em nada se não em guardar os dedos da implacavel tesoura +d'esta linda parca... Olhe que já me quiz cortar a ponta do nariz, a +traquina, que só não tem preguiça para cortar narizes... e corações. + +Accrescentou D. João ao galanteio um regougo de riso, com o que a menina +desatou uma gargalhada tão pachorrenta, que acudiram as irmans, salvo +Corinna, a rir sem saber de quê. D. João cuidou que ella se desmanchava +assim, á conta da ultima e novissima careta que elle fizera. + +Logo que o ensejo se proporcionou, Gastão de Noronha perguntou ao primo +se Emma seria uma digna esposa d'elle. O velho acudiu logo, dizendo: + +--Estava eu para lhe dizer, primo, que, a não ser Corinna, de boa +vontade casaria com Emma. Acho-a mais dada que as outras; mais socegada +e amiga da casa. A creatura passa horas e horas sentada no tapete, em +quanto as outras me estão sempre a convidar a passeios, e querem que eu +salte portellos e vallados como ellas, senão fazem-me apupadas as +doidinhas! Corinna agradou-me pelo seu juizo; mas, a dizer-lhe a +verdade, acho-a triste de mais; e esposa triste não serve para velho, +que bem lhe basta a rabugice e pezo dos annos. Em fim, primo, se Emma me +quizer, aqui estou. + +Poucas horas depois, Gastão encerrado com Emma, perguntava-lhe se ella +quereria segurar uma enorme fortuna, casando com seu tio D. João. + +--O papá está a mangar comigo!--disse ella rindo. + +Com poucas palavras a convenceu da seriedade da proposta. Emma ouviu +tudo com desusada seriedade. Viu no rosto do pae signaes não fingidos de +atribulado, fallando da imminente ruina de seus haveres, e da recusação +de Corinna. O tom com que elle pedia a Emma o sacrificio era já +supplicante. A menina respondeu primeiro com lagrimas e depois com a +promessa de satisfazer os desejos de seu pae. + +Nunca pae algum beijou sua filha com tamanho transporte de ternura! + +Foi logo avisado D. João da resposta de Emma. O velho desenvolveu de +repente um pudor senil de muita graça! Estava, como noiva que se peja de +apparecer ao noivo, na sala onde o papá a manda chamar, a fim de, em +presença de ambos, confirmar vocalmente os anhelos de todos tres. +Esquivava-se D. João de encontrar a sobrinha; e, quando lhe ouvia a voz, +córava! Era a segunda infancia a fazer milagres de remoçar corações +mumificados! + +Desde este incidente, Corinna da Soledade nunca mais viu um sorriso, nem +ouviu palavra carinhosa de seu pae. As caricias, repetidas até ao +extremo da ridiculez, eram todas para Emma, a quem elle chamava a +salvadora da familia. Pensava já Gastão no processo de defraudar a filha +mais velha dos vinculos, como esquecido da demanda em que os vinculos +estavam tão arriscados, que nem o seu proprio advogado lhe dava +esperanças de vencimento. + +Cuidaram desde logo os fidalgos em requerer dispensa, que o Nuncio +apostolico residente em Lisboa concedeu. + +Em seguida usou o pae da noiva de ardilosos rodeios para levar o futuro +genro a dotar a filha com os bens livres, que valiam muito, e grandes +arrhas. D. João de Mattos, ao principio irresoluto, porque o animo +sovina lhe inspirava duvidas, deu-se a final por vencido, e dotou a +noiva com avultado cabedal em dinheiro depositado em bancos de +Inglaterra, e estabeleceu-lhe arrhas mais que sobejas para uma viuva se +não lembrar mais dos sessenta annos do seu defuncto marido, ao ver-se +sósinha n'este valle de lagrimas. + +Estava resolvido que as nupcias seriam celebradas em Lisboa, para onde +iria toda a familia, excepto Corinna, que pedira licença ao pae, e +facilmente a obtivera, de ficar n'um mosteiro de Vianna, em companhia de +uma prima de sua mãe. + +A noiva encarava o futuro com a salutar pachorra de sua compleição, e +continuava a aparar as unhas do noivo e a rir-se das muito engenhosas +visagens com que o bom do velho julgava bem merecer da estimação da +menina. As outras tres meninas, a cuidarem nos arranjos da partida para +Lisboa, andavam alvoroçadas e felicissimas. Corinna esperava a vespera +da partida, com não menos alvoroço, para entrar no mosteiro de Santa +Anna. + +Sorriam-lhe lá da sua cella as tristezas e a soledade em que o +desafogado coração se gosaria livre, livre para ir-se além-mar, nas +longas cartas, escriptas sem medo de ser surprendida, pedir ao digno +moço que lhe acceitasse a reclusão, tão voluntaria, como prova de seu +esperançado amor. + +Estava marcado o dia da partida, tomadas as liteiras, as cavalgaduras, e +convidado o prestito dos parentes, que desceriam do alto-Minho para +acompanharem os noivos até ao Porto. Quatro dias antes do designado, D. +João de Mattos e Noronha, assignadas as escripturas, foi para a mesa, +que n'esse dia era lauta e muito concorrida. + +Um dos pratos mais de cobiça, e ingratos a estomagos fatigados, era o +salmão, o salmão de Vianna, famoso em toda a parte onde a gastronomia +tem sacerdotes e martyres. + +Entrou o noivo pelo salmão com a voracidade dos vinte e cinco annos, não +obstante o cauteloso primo lhe haver dito que se abstivesse de competir +com a sua Emma em materia tão indigesta. Parece que Emma gostava muito +do appetitoso pescado, e devemos suppor que o velho, por comprazer com o +paladar da noiva, quiz fazer heroismos de deglutição. Perdoavel excesso +para quem sabe o que é amar! + +Declarou-se a indigestão, quando ainda se estava á sobremesa. D. João +pediu genebra, bebeu em proporção com o volume do bolo indigesto, e, +dando-se alta na incipiente molestia, comeu ovos mexidos em grande +porção, e correspondeu a todos os brindes com absorvente enthusiasmo. + +Estavam todos admirados do vigor digestivo do sexagenario, e do rubor +juvenil que lhe ressumava nas faces, quando o velho se sentiu anciado, e +pediu um vomitorio prompto. Cada pessoa de familia lhe ministrava um +remedio, e Gastão, mais que todos, mostrava sua inquietação, mandando +chamar medico a Vianna. Foram logo sensiveis os symptomas de apoplexia. +D. João tinha os olhos injectados de sangue, e a cabeça em brazas vivas. +Votaram todos pela sangria; mas não havia sangrador, nem sequer lanceta. +O abbade da freguezia estava presente, e, como bom pastor, foi de +parecer que seria muito util ministrar os sacramentos ao enfermo, visto +que as apoplexias eram summarias n'aquellas idades e por taes causas. + +Redobraram os sustos de Gastão de Noronha. A morte, anticipando-se +quinze dias, dava um golpe terrivel em toda aquella familia. O menos +damnificado seria de certo o morto. Quem mais soffria as angustias do +moribundo era Gastão! Perguntou elle ao abbade se seria acertado dizer a +D. João que recebesse as bençãos nupciaes. + +O clerigo encarregou-se de lh'o propor. O enfermo, já quasi +desaccordado, ouviu a pergunta e estorceu-se em desesperada afflicção. +Foi então que elle viu a morte na pessoa do inoffensivo abbade. Á +segunda instancia, D. João fez um esgar repellente, e sacudiu +vertiginosamente os braços e as pernas. Gastão disse a Emma que se +approximasse do leito, e lhe dissesse algumas palavras confortadoras. +Emma foi com semblante de medo. As feições do velho, já lassas e +lividas, para assim o dizermos, cheiravam a cadaver. A pallida menina +foi tremendo. + +--Dá-lhe a mão--disse-lhe o pae ao ouvido. + +Tocou ella na mão tepida e insensivel do agonisante com repugnancia. + +O abbade, instado por Gastão, disse: + +--Senhor D. João de Mattos, vossa excellencia recebe como sua legitima +esposa a senhora D.... + +O velho deu um sacão, e esgazeou os olhos espavoridos. + +Emma retrahiu-se aterrada, e o abbade sahiu a ir buscar os santos oleos. + +--Vai-se embora, abbade?!--perguntou o fidalgo furioso de sua afflicção. + +--Não ha que fazer aqui, senão cuidar-lhe da alma--disse o padre--O +homem já não dá accordo de si: o casamento n'este estado ficaria +canonicamente nullo, fidalgo! + +Sahiu o abbade da egreja com o viatico, e recolheu logo, por lhe dizerem +que D. João tinha expirado. + + + + +IX. + +UMA CARTA DE CORINNA DA SOLEDADE A ANTONIO D'AZEVEDO BARBOSA. + + +«Na minha segunda carta lhe contei o que se passou até á morte do tio D. +João. Agora é que eu bem comprehendo o desespero em que vive meu pobre +pae. Quando elle me disse que iamos empobrecer, cuidei que se inventava +um engano para eu consentir em ser a victima voluntaria da pobreza da +nossa familia. Soube que a Emma fôra instada com as mesmas razões da +pobreza: não a dissuadi; mas, em minha consciencia, julguei que era +sacrificada ás ambições de continuar-se em Lisboa o fausto que tiveramos +em Paris. + +«É verdade o que meu pae me dizia. Os bens do vinculo, unicos que +possuimos, estão em risco de se perderem. Imagine o meu querido amigo +como será a nossa vida, ouvindo a cada hora o pae lastimar-se, +enfurecer-se e lançar-nos injustamente em rosto que fomos nós a causa da +sua ruina, porque dissipara os bens livres para nos dar em Paris uma +vida brilhante com esmerada educação! Minha mãe, que não tem culpa de +ter sido herdeira do dote que lhe tiram, faz-me muita compaixão, quando +o pae lhe diz que foi atrozmente enganado para casar com ella. + +«Que será de nós, passados alguns mezes? Para onde iremos quando nos +expulsarem d'esta casa? Minha mãe já pediu a parentas, que tem em +differentes conventos, que nos recebam. Eu creio que irei para Vianna e +mais a mana Felismina; outra irá para Vairão; e as outras duas para S. +Bento do Porto. O pae diz que vai a Lisboa requerer um emprego, com que +possa sustentar-se a si e á mãe. De maneira que estamos em vesperas de +nos dispersarmos para nunca mais nos reunirmos! E eu, entre todas as +minhas irmans, sou a menos infeliz, porque ha muito suspiro pela solidão +do claustro, e sei que lá terei comigo a imagem compassiva do meu +querido irmão; porém, eu queria ir para o convento, deixando a minha +familia contente e feliz, e não assim a braços com a dependencia, e Deus +sabe com quantas desventuras peores que a dependencia! + +«Aqui me tem, pois, bem digna do seu amor por minha pobreza. Já me +lembrou se Deus me deu esta virtude para merecer aos seus olhos, meu +amigo. Tenho momentos em que o futuro se me allumia; sou eu a unica +pessoa da minha familia que vê a felicidade através d'esta escuridade. +Todos se lastimam, e eu só me lastimo de os ver tão desanimados. +Falta-lhes o amparo do amor, e talvez da fé na providencia divina. Eu +rezo muito, e desafógo em consoladoras lagrimas; minhas irmans e meus +paes abafam sem linitivo. Ás vezes quero consolar meu pae: o infeliz +repelle-me, como se eu désse causa a seus desgostos, e não fosse capaz, +para o salvar da queda, de me deixar esmagar no coração e na vida! + +«Não estranhe que eu lhe diga tudo o que o coração me fôr dictando. +Agora que eu estou assim pobre, e d'aqui a pouco obscura e esquecida +n'um convento, haveria alguem que me quizesse para esposa? Poderia +alguem invejar a sorte do homem que me acceitasse? Pois, é n'esta +situação que eu mais confio do seu amor; é assim que eu me affoito a +pedir-lhe que venha, que renuncie ao desejo de ser rico, e que... A +riqueza para que a procurava? não era para poder ostentar o seu +valimento aos olhos de meu pae? Era de certo; que, se fosse para valer +em meu conceito, grande injustiça me fazia, meu caro amigo. Pois então +faça de conta que estão cahidas as barreiras que só o ouro poderia +arrazar. Ninguem me impedirá que eu seja sua mulher. Sejamos ambos +pobres: não teremos que medir a desegualdade das nossas posições. A +nossa fortuna principiará com a primeira moeda de cobre que empregarmos +no primeiro pão. Depois eu lhe darei horas de alegria com a minha ditosa +conformidade a tudo que os descontentes chamam infortunio. + +«Não cuide que a vida de convento me assusta, e que eu procuro aligeirar +o tempo do supplicio. Não, meu amigo. O convento é o unico estado que me +quadra, e a mais proxima ventura que se offerece á minha sêde de +solidão. Se voltar cedo, lá me encontrará; se, passados muitos annos +tornar para Portugal, no convento me encontrará ou desfigurada pela +velhice, ou confundida nas cinzas das bemaventuradas, que alli acabaram +contentes e amantes de mais seguras esperanças que as minhas. + +«Póde ser que o meu irmão, n'essa outra sociedade, com outras relações, +e com a mudança que fazem os annos, contra vontade mesmo de quem se +transfigura, sinta diminuir-se a boa impressão que de mim levou. Não +creio que me esqueça; mas póde ser que a distancia me vá descolorindo +aos olhos da sua alma. Se tal acontecer, nem assim deixarei de esperar +que em algum momento, entre as fugazes venturas d'este mundo, o seu +espirito vá ver-me, no meu asylo, esperando-o ainda, e esperando sempre. + +«Mas o meu coração lhe pede que não me esqueça, e que acceite as +alegrias que elle lhe promette. Adeus, meu amigo, meu consolador. Sua +_C. da Soledade_.» + + +A PRIMEIRA CARTA DE ANTONIO D'AZEVEDO A CORINNA, ESCRIPTA NO BRAZIL. + + + «_21 de junho de 1843, onze horas da manhan._ + + +«Aqui estou, minha querida Corinna. Cheguei ha meia hora. A minha +tristeza tem uma negrura inexplicavel. Abafa-me mortalmente este ar. +Estou como o desterrado que atiraram a uma praia onde não houvessem +olhos humanos que me vissem chorar. Ó meu Deus, que atroz supplicio é a +saudade! Que desolação em roda de mim, que terror me incute tudo isto +que me vê com uma indifferença dolorosa como o escarneo! Sahirei eu +d'esta febre que me está arrancando pedaços de vida a cada momento! Ó +Corinna, eu não a vejo mais! Aqui é que sossobram as mais robustas +almas... Eu não previra isto... É impossivel que haja piedade n'esta +gente! A quem escrevo eu, meu Deus! Está a milhares de leguas distante, +ó minha amiga! E esta carta só, passados quinze dias, sahirá +d'aqui!............................................................... +...................................................................... + + + «_Quatro horas da tarde._ + + +«Sahi no afôgo de uma afflicção sem nome. Levei a minha carteira, e +entreguei uma carta do Taveira a um negociante, que, apenas leu a carta, +me disse que eu seria hospede na sua chacara, para onde vou ámanhan. +Acolheu-me com muito bom rosto, e, apertando-me a mão, disse: «O senhor +vem muito recommendado: ha de ter muitos amigos, e eu o mais dedicado de +todos.» + +«Fizeram-me grande bem estas palavras. A maior oppressão vai +desapparecendo. Já a vejo a outra luz, minha Corinna. Já a torno a ver +ao meu lado com a missão de anjo do alento e da paciencia. Os +desamparados são unicamente aquelles que não tem nenhum amor puro na +terra, nem confiança na graça divina. Ha de tudo em minha alma, bemdito +seja Deus! Eis-me outra vez forte para a lucta, e envergonhado da minha +fraqueza. Não rasgo a primeira pagina d'esta carta porque a minha alma +ha de mostrar-se-lhe sempre nas suas intercadencias de força e +desanimação. Assim lh'o prometti, e tenho necessidade de cumprir. Toda a +gente ha de ignorar os meus desfallecimentos, menos a minha Corinna para +me dizer: «Levanta-te, fraco, se queres ser digno de mim!» Vou sahir +para entregar outras cartas, antes da minha ida para o campo. + + + «_Nove horas da noite._ + + +«Todos os portuguezes me recebem nos braços. Suppunha eu que os +negociantes me acolheriam com a frieza da sua distancia d'um homem de +tão diversa profissão. O que ahi se diz d'esta boa gente é uma calumnia. +Os opulentos commerciantes a quem me apresentei parece que me estavam +vendo nos olhos espelhadas as saudades da patria; e elles, tambem +saudosos, sympathisavam mais com a minha dor, e queriam ouvir-me fallar +das menores coisas de Portugal. Aqui é que se sabe o que é esse torrão +de flores e alegrias. Em parte nenhuma a palavra «patria» tem tão doce, +tão querida e esperançosa significação. Muitos ahi dizem que tem +vergonha de serem portuguezes; aqui sente-se orgulho de ter lá nascido, +e encontrar tão longe irmãos assim saudosos da mãe commum. Abençoados +sejam estes homens que tem olhado compadecidos para mim! Devo-lhes esta +serenidade com que lhe vou escrevendo... Mas o cansaço prostra-me, minha +amiga. Até ámanhan. + + + «_22 de junho, oito horas da manhan._ + + +«O meu despertar foi afflictivo. Com os sonhos renasceram as saudades, e +o descorçoamento. Assaltou-me a pusillanime ideia de voltar já para +Portugal. Seduzia-me o receio de adoecer n'este clima, o terror das +febres, a difficuldade de ser rico, onde nem todos são ricos, ainda os +mais laboriosos. Adormecera pensando no caminho que devia encetar: todos +se me afiguravam difficeis e escabrosos. Que fraqueza! que inconstancia +miseravel a do homem mais fervoroso no trabalho! Eu tinha perguntado ao +dono do hotel se os advogados enriqueciam depressa; e elle, enumerando +todas as profissões que enriqueciam, não mencionou a minha. Instei +encarecendo as vantagens que se offerecem a um bom e honrado advogado: +ouviu-m'as encolhendo os hombros, e disse que os caminhos direitos eram +os mais tortos para quem procurava enriquecer-se. Isto desconsolou-me, +amargurou-me os sonhos, e deu-me a hora má que precedeu estas linhas. +Deixar fallar o descrente da honra. Se é forçoso, renunciarei á riqueza; +contento-me que as muitas fadigas e vigilias me dêem honesta +independencia, e o respeito de mim proprio. + + + «_Cinco horas da tarde._ + + +«Espera-me o amigo de quem vou ser hospede. Brevemente voltarei a dar +começo á minha tarefa. Já me estão pezando as horas que vou passar de +ocio sem prazer: parece-me que são horas que roubo á sua felicidade e á +minha. A vontade energica é uma esperança meio realisada. Ha aqui n'este +ar, n'este ceo, n'esta incessante labutação, um rumor mysterioso que eu +escuto como o cantico victorioso dos que luctaram e venceram. Porque não +hei de eu, a final, vencer tambem com esta ancia e força d'alma, com +este amor e saudade, com esta voz prophetica promettedora de honrosos +triumphos?... + + + «_23 de junho, nove horas da manhan._ + + +«A casa em que vivo, minha amiga, faz-me lembrar uma finissima e polida +concha entre fofos de verdura e caules de gentis florinhas! As palmas, +as tamarindeiras, os coqueiros, e muita especie de arvores do paraizo +com sua explendida e agigantada folhagem, absorvem os raios abrazadores +d'este sol, e elaboram-no em si, expedindo-o em frescura, que faz +lembrar a da nossa terra, as auras das margens dos nossos rios, os +salgueiraes do seu Lima, e os choupaes do meu Cávado! Mas que falta aqui +da alegria dos nossos arvoredos, minha Corinna? Não sei: parecem-me +tristes estas arvores; não me viram na infancia; não me conhecem; não me +fallam. Que bello deve ser este diamante do mundo para os que nasceram +aqui! Que abrasadas fantasias serão as dos poetas aquecidos a este vapor +aromatisado por tantas urnas de florescencia peregrina! Que ar de +primitiva magnificencia da creação tem isto tudo? Afigura-se-me que, á +sahida do eden, este pedaço de mundo se desdobrou, com as entranhas +arquejantes de riqueza, concitando o homem condemnado a trabalhar, a +tressuar e a limpar mil vezes o rosto, calcinado sob os ardores do sol, +á sombra d'estas arvores, que significam a misericordia divina ao lado +da justiça inexoravel. É um como fantastico explendor que me está +arrobando os sentidos; mas a minha alma está triste porque esta verdura +macilenta não é a da minha patria; estas folhas hirtas, apontadas ao ceo +como flexas, ou largas, immoveis e enormes, não me dão o murmurio +tremente das nossas selvas. Não oiço o rumorejo dos regatos, nem o gemer +dos carros, nem a cadencia melancolica dos pegureiros das nossas serras. +Ai! a patria, Corinna! como é linda a nossa tão rica e tão pobre terra! +Que copiosas bençãos verte Deus sobre a cabana do pobre jornaleiro que +achou a felicidade sem a procurar, formando d'um rochedo e da sebe +d'alguns arbustos o seu palaciosinho ás abas da serra da Tranqueira, +onde eu, em criança, tantas vezes subi para contemplar as boleadas +serras do seu paraizo, minha filha. Tudo agora me lembra quanto é +pequeno e pueril ao pé d'estes gigantes de verdura, que me assoberbam +com a sua magestade! Ainda vos verei, ó opulentas pobrezas da minha +mocidade! Ainda lá recordarei, a sós com o anjo da minha alegria, estas +melancolicas horas, este deslumbrante espectaculo, que parece estar-me +dizendo que para gosal-o é preciso ter aqui gosado os brinquedos de +irmãos, os carinhos de mãe; e, sobre tudo, ter aqui sentido o coração a +formar-se, e a desentranhar-se em amor e esperanças................... +...................................................................... + + + «_25 de junho._ + + +«Brevemente, ámanhan talvez, volto para o Rio. Vou praticar com um +advogado portuguez de grandes creditos e fortuna, homem de muita idade, +que reparte comigo os interesses, e me trespassa as obrigações muito +lucrativas de defensor, em que está contractado com corporações +commerciaes. Devo esta promettedora estreia ás cartas do pae de +Felisberto Taveira, que d'aqui foi ha muitos annos, e deixou respeitado +nome, e ainda grosso cabedal. Estou contente quanto, em minha situação, +é possivel estar. Esta familia que me hospedou já me parece minha. A +intimidade aqui é uma religião, como se um punhado de portuguezes, e não +cincoenta mil almas, se encontrassem em torrão estrangeiro. Aqui é onde +nós aprendemos o amor de conterraneos: lá, no seio da mãe, somos-lhe +ingratos a ella, e maus uns com os outros; aqui suspiramos todos por +ella, abençoamol-a, e religamos os corações de todos com vinculos da +reciproca saudade. + +«Espere, espere, minha querida Corinna, que havemos de ser felizes! +...................................................................... + + + «_27 de junho._ + + +«O lettrado a quem vou associar-me é um ancião de semblante apostolico, +viuvo, sem filhos, rico, muito esmoler e doente. Fallamos muito de +Portugal, d'onde elle veio com D. João VI ha muitos annos. É filho de +Lisboa, e está ha vinte annos com o projecto feito de ir morrer á +patria; porém os medicos aconselham-o a gosar-se do clima a que está +affeito. É que toda esta gente o venera, e carece além d'isso da sua +muita sciencia, e probidade na sciencia. Já aqui teve comsigo dous +sobrinhos, que elle amava como seus unicos herdeiros. Morreram ambos por +causa da irregularidade da sua vida, e o ancião chorava fallando-me +d'elles. Ámanhan começo a praticar e a estudar o direito brazileiro: +ser-me-ha preciso naturalisar-me; que importa? Eu serei voluntariamente +natural de toda a parte onde encontro irmãos que fallam a minha lingua, +com tanto que me deixem o coração, lá, onde tenho tudo que é d'elle. +.....................................................................» + +A carta é extensa de mais, e o leitor contenta-se com as paginas +transcriptas. + + + + +X. + + +Gastão de Noronha valia ainda muito com homens de alta graduação, seus +companheiros de exilio. + +O litigio, perdido em primeira instancia, foi appellado para o Porto; e +com quanto uma espantosa actividade, esporeada pelo ouro do brazileiro, +instasse com os juizes de segunda instancia, os padrinhos do fidalgo +valeram mais para que o processo paralisasse na mão do relator. Este, +porém, com maravilhosa consciencia fez saber ao réo que a sua perda era +inevitavel, cedo ou tarde, e que parte da imprensa estava a favor da +prompta decisão do pleito. + +Decorridos quatro mezes, os tres jornaes portuenses d'aquelle tempo, e +alguns de Lisboa, depois d'um prefacio de dez e mais artigos ácerca da +corrupção da magistratura, fulminaram o juiz relator, já alcunhando-o de +vendido, já de subornado pelas fidalgas influencias que ladeavam Gastão +de Noronha. Não houve remedio senão confirmar a sentença. + +Recorreu de revista para o supremo tribunal o réo, acompanhando o +processo, e cumulando embargos sobre embargos. Em Lisboa a presença de +Gastão e a solicitude dos amigos promettiam um anno ou mais de +esquecimento dos autos; mas as gazetas, ainda antes de tempo, já se +mostravam espantadas da demora, e, por conta de seu espanto, lavraram +logo alvará de corruptos a todos os juizes, pedindo ás leis, ao governo +e ao universo que os esfollassem, como o tyranno de Siracusa fizera a um +juiz venal. + +Aproveitou Gastão o ensejo de requerer emprego em Lisboa, já mais que +certo do resultado do pleito. Os seus amigos, que o julgavam rico, +pasmavam de o verem com aquelle aspeito typico, immutavel, e unico de +pretendente. Pedia elle a directoria d'uma alfandega de primeira ordem, +posto que nenhuma estivesse vaga. O ministro achou absurdo o +requerimento, e os amigos acharam importuno o requerente. Desceu Gastão +de suas pretenções, e pedia um governo civil em Vianna, Braga ou Porto. +Os funccionarios que exerciam taes commissões na provincia eram sujeitos +affectos ao governo, e bons fabricantes de Fabricios e Codros +sertanejos. O fidalgo foi esclarecido a este respeito, e azoou. Pediu +ainda um logar de escrivão da mesa grande da alfandega de Lisboa; mas o +ministro mostrou-se muito sentido de que o serventuario existente não +tivesse dado causa a ser demittido. + +Ora Gastão de Noronha algumas vezes, em Paris, dera a um dos ministros +pares de botas, e muitos jantares a outro. Assim lh'o lançou em rosto, e +elles, pelos modos, ouviram a injuria com muito receio de que o fidalgo +minhoto fizesse uso dos pulsos não menos rijos que as phrases. Era homem +para isso o atribulado pae de cinco meninas, em vesperas de não ter +sombra de arvore sua que o cobrisse! + +Desanimado, e com o pensamento do suicidio a empeçonhar-lhe a alma, +desamparou o processo, e foi para os seus. + +Que ia elle fazer alli? que destino ia dar ás filhas? que remedio +esperava elle haurir das lagrimas da pobre Mafalda, que em seis mezes +envelhecera vinte annos? + +A sua entrada em casa denunciou, sem palavras, a desesperança e suprema +desgraça que o trazia. As meninas cuidaram logo nos preparos para se +recolherem ao claustro, e D. Mafalda, sem consultar o marido, resolvera +entrar com Corinna no mosteiro de Vianna. No tocante a si, dizia Gastão +de Noronha que as suas tenções estavam deliberadas. + +As tenções do fidalgo eram incendiar o palacete no dia em que chegasse +de Lisboa a noticia do ultimo arranco da sua fortuna. O que elle faria +de si depois era segredo que não deixou transpirar dos seus furores +recalcados no peito. + +A noticia que o seu procurador lhe deu passados dias foi consolativa. O +supremo tribunal annullara o processo desde a appellação por falta de +intimação ao réo. Queria isto dizer que a demanda ia recomeçar desde a +sentença de primeira instancia. + +Recobrou-se Gastão; as meninas descontinuaram os preparativos de +convento; aquietou-se o animo de todos, e volveram á casa das margens do +Lima alguns parentes, que fugiam _para não presenciarem as angustias +d'aquella nobilissima familia_. Boas almas, não tem duvida nenhuma! + +De pouco tempo foi este repousar para maiores angustias. Os zelosos +procuradores de Fernando de Athaide obtiveram despacho para embargo dos +fructos pendentes, fundamentando sua justiça em artigos que o leitor +curioso póde ver de seu vagar no codigo. + +Foi, para este effeito, citado Gastão de Noronha. Era de mais: foi uma +faisca que atiraram áquella alma cheia de rancor, que ameaçava explosão! +O fidalgo chamou os criados, armou-os, postou-os ao portão da quinta, e +sentou-se no muro para capitanear a defeza. + +Os officiaes de justiça, idos de Vianna, quando avistaram os homens +armados, retrocederam. Os criados, vencedores sem consumo de polvora, +deram-lhes uma bateria de apupos e assovios, que nunca a justiça d'estes +reinos foi tão ridiculamente escorraçada. + +Gastão preparou-se para mais pugnaz arremettida. Chamou os caseiros em +grande numero, armados de foices, enxadas e escopetas vesadas a matar +uma andorinha no ar. + +Sahiram de Vianna os mesmos esbirros e outros mais afoitos, com doze +soldados e um sargento. As inculcas do fidalgo anticiparam-se com a +noticia. Gastão fechou toda a sua familia n'uma sala interior da casa +nova, e postou-se com trinta homens nas janellas do edificio solarengo. + +A diligencia viu aberto o portão, e receou cilada. Os aguazis incitaram +o exercito a ir na dianteira. O bravo sargento, direito como um +Giraldo-sem-pavor, entrou com o dedo no gatilho, bradando: «preparar!» +com voz tão marcial, que fazia lembrar os bons tempos de Nuno Alvares e +João de Castro. Os soldados compassaram-se em atiradores ao longo das +alas de cilindras e acacias. + +As avesinhas, que se aninhavam calorosas por entre a folhagem, +crepitavam em bandos, e fugiam para o lado da casa, como a pedirem +abrigo ás cinco meninas, suas unicas visitas áquelles pacificos +caramancheis. + +Parou a tropa no terraço fronteiro á casa. O sargento viu uma cabeça +entre as duas columnatas mosarabes d'uma janella, e disse: + +--Cuidado! que lá está um! + +--É o fidalgo!--disse o escrivão, aventurando uma espreitadella por +entre as franças de uma olaia--Está sósinho? + +--Está, pelo menos não vejo mais ninguem--disse o sargento. + +Animou-se o executor a sahir em claro, e cortejou de baixo Gastão. + +--Que quer vossê?--perguntou o fidalgo. + +O escrivão tartamudeou palavras inaudiveis. Sahiu á frente um official +de chibança, e disse stentorosamente: + +--Vimos a fazer embargos nos fructos a requerimento de Fernando +d'Athaide, e com mandado do senhor doutor juiz de direito. Está vossa +excellencia citado na presença de todas estas testemunhas. Agora vamos +cumprir a diligencia: somos mandados. Vossa excellencia, se quizer, +ponha embargos ao embargo. + +--Eu não lhe tolero conselhos, _su_ miseravel!--bradou Gastão--Já, e sem +perda de tempo, meia volta á direita, e fóra da minha quinta, quando não +vão debaixo de fogo! + +--Auto de resistencia!--exclamou o escrivão, desentarrachando um +tinteiro de osso negro, e examinando na unha do pollegar esquerdo os +bicos da penna. + +Mal o scriba proferira a bombastica exclamação, o fidalgo deixou ver o +cano de um bacamarte, e vinte se não mais bocas de fogo romperam das +differentes janellas. O escrivão escoou-se ao longo d'um massiço de +murtas e acocorou-se. Os esbirros tomaram a retaguarda do exercito, e o +sargento, em vez de arengar á tropa enfiada de pavor, sahiu do seu posto +de honra e foi perguntar ao agachado escrivão se devia dar voz de fogo. + +O escrivão ouviu a sibylla do medo, e disse que o melhor seria não haver +sangue, e retirarem-se a lavrar o auto de resistencia. + +--Meia volta á direita, rodar!--bradou o sargento. Os soldados voltaram +costas ao inimigo, e obedeceram ás vozes «braço-arma!» e «marcha!» + +A victoria, posto que incruenta, seria uma ridicula derrota para as +armas e para as lettras juridicas, se alguns dos caseiros de mais rópia +e chulice, como lá dizem, não sahissem por portas travessas contra +vontade do amo, e não cortassem por atalhos a retirada á corrida +justiça. Mal precatada ia esta, quando o tiroteio lhe rompeu á frente e +pelo flanco direito, com grande algazarra de gritos, e de balas, cujo +assovio encrespava de horriveis titilações as orelhas do escrivão. Os +soldados viam, a intervallos, surgirem umas cabeças por detraz das +moitas, ou deslizarem rapidos os vultos sobre uma clareira de dois +troncos seculares do escuro arvoredo. Um soldado mais afoito rompeu ao +bosque, e voltou de lá a manquejar com um raspão de bala n'um artelho. O +esbirro chibante, que queria dar o exemplo da bravura, viu-se de repente +na boca d'uma clavina, e metteu a coragem debaixo dos joelhos, que poz +em terra, pedindo misericordia. + +Gastão, logo que ouvira o tiroteio, mandou chamar os seus bravos, mas +não a tempo de aggravar a resistencia com o ferimento do soldado. Cessou +o fogo. Os escaramuceiros recolheram á cidadella com um chapeo de +aguazil arvorado no gancho d'uma foice, e o escrivão com os seus +chegaram a Vianna com aspecto livido como aquelle soldado unico dos +trezentos de Leonidas que foi annunciar a Sparta a morte de todos os +seus camaradas nas Thermopylas. + +O regimento de infanteria aquartelado em Vianna, quando viu o soldado +ferido, quiz sahir em pezo a vingar a affronta. Conteve o commandante a +soldadesca, promettendo em nome da justiça mais legal e solemne +vingança. + +Póde dizer-se, sem injuria ao fidalgo, que a pobre cabeça d'elle estava +perdida. Era aquillo tudo um cavar abismos em abismos. De hora a hora +mandava atalaiar a estrada, em quanto recolhia gente armada das aldeias +proximas, munições de guerra e vitualhas. Aquella casa, tão quieta dias +antes, a remirar-se no crystal do Lima, estava sendo um castello de +antigo barão em guerra com rei, ou senhor feudal inimigo de velhos odios +de raça. As pallidas meninas e sua mãe aconchegavam-se umas das outras, +e tremiam a cada estrondo de cronha d'armas no sobrado ou tinnir de +varetas no cano das espingardas. + +Mafalda ia supplicar ao marido que fugisse e as deixasse a ellas +recolher aos conventos para se pouparem á desgraça de o verem a elle +morto ou preso. + +Gastão enfurecia-se contra as lagrimas; e, no auge de sua demencia, +chegava a bradar que elle e sua familia morreriam no incendio da casa +para não sobreviverem ao opprobrio da indigencia. + +Os espias, ao terceiro dia de providencias para formal assedio, foram +avisar o fidalgo de que vinham na estrada tres cavalheiros com um +lacaio. + +Momentos depois apearam no pateo os pacificos invasores da fortaleza, +passando por entre fileiras de homens armados. + +Gastão da sua janella-guarita reconheceu um parente de Vianna e +Felisberto Taveira, já então visconde da Cruz, cujo era o lacaio. + +Felisberto abraçou effusamente o pae de Corinna, maravilhando-se do +aspeito bellicoso do castello, e pedindo licença para cumprimentar as +damas castellans. + +Appareceram as meninas com sua mãe. Corinna não se teve que não +abraçasse expansiva e lagrimosa o amigo de Antonio d'Azevedo. + +Ditos os logares communs, que eram para pouco em lances tão +extraordinarios, o visconde da Cruz disse que lêra no _Periodico dos +Pobres do Porto_ uma correspondencia contando com negras cores a +primeira resistencia que o fidalgo fizera á acção judiciaria, e os +motivos que promoviam o embargo. Ajuntou que resolvera desde logo sahir +caminho de Vianna para, como bom amigo de tão sympathica familia, +offerecer o seu valimento. Accrescentou que chegara a Vianna quando se +tomavam violentas medidas para vingar o aggravo feito á justiça e á +força armada; e então, de accordo com o cavalheiro parente da casa, e +advogado d'um tal Fernando de Athaide, conseguira, mediante um deposito +equivalente ao rendimento dos bens litigados, cancellar os processos +crimes instaurados e mandados de prisão. + +Não ficou assim mesmo Gastão de Noronha extremamente satisfeito de tal +serviço; mas agradeceu-o com um sorriso, e as meninas com lagrimas. + +A parecer do visconde, os caseiros depozeram as armas e os criados +voltaram ao seu trabalho. O chapeo do aguazil, em testemunho de alegria, +foi arcabusado e sacudido em farrapos aos quatro ventos do ceo. + +O restante do dia e noite correu tranquillo e alegre. Corinna recebeu +furtivamente a segunda carta de Antonio d'Azevedo, e sentiu ancias de +oscular a mão do visconde, que lh'a entregou com estas palavras: + +--O nosso Antonio está n'um largo caminho de venturas. Ha de vel-o em +Portugal dentro em pouco, e rico. Tenha orgulho de ser amada por tal +homem. + +--Tenho! Deus sabe que tenho!--murmurou ella. + + + + +XI. + + +O incansavel estudo, auxiliado pelo muito saber e prática do doutor +Valentim da Costa, habilitou Antonio d'Azevedo a grangear renome em +poucos mezes de exercicio. + +O velho presava o praticante com mais que a vulgar estima captada pela +probidade. Quantos ganhos podia declinar em lavor do laborioso moço +todos lhe dava, não exceptuando mesmo os resultantes de seu proprio e +exclusivo trabalho. Os clientes não distinguiam entre os dois, e alguns +iam mais contentes da linguagem e escripta concisa e vigorosa do doutor +novo. + +--Já póde o senhor Azevedo, quando quizer, estabelecer-se sobre si--lhe +disse o velho um dia--Ha de sobejar-lhe clientela, e está na carreira +que leva á consideração e á fortuna. De mim é que já não precisa, meu +caro amigo. + +--E vossa senhoria assim me dispensa da sua companhia?--atalhou +Azevedo--Fiz sempre quanto pude por que esta sociedade lhe não fosse +onerosa. + +--Ora ahi está! Eu a cuidar que o senhor desejava estar sósinho em seu +escriptorio, como todos desejam, e vai agora sae-me o Azevedo o +contrario de toda a gente! Pois, em sua boa verdade, o senhor quer ficar +na minha companhia? + +--Desejo-o; e nunca me lembrou que havia de sahir. + +--Pois fique, Azevedo, fique, se o não move o interesse de mais algum +punhado de oiro no fim de cada anno. Bem vê como este meu trabalho é +interrompido pela gota, pelo rheumatismo e por outros achaques, contra +os quaes não tenho que allegar nos nossos reinicolas. Isto está acabado, +e acabada estava ha muito a minha tarefa, se não fossem velhos amigos +que me tiram da cama para a cadeira, e ás vezes conseguem arrastar-me, +em holocausto á amizade, aos tribunaes. Agora os novos que trabalhem, e +cá se avenham com o seculo, com o qual eu já me não entendo. Tome o +Azevedo conta das minhas procurações, dos meus livros, dos meus amigos, +e, se quizer, do meu rheumatismo e da minha gota. + +O velho doutor era mui faceto, e mettia sempre a riso a sua gota e o seu +rheumatismo. + +Estavam elles n'uma d'estas feriadas praticas, quando entrou um cliente +de Valentim da Costa. + +--Muito bem apparecido seja--disse este--o senhor Fernando de Athaide, +fidalgo em Portugal e fazendeiro no Brazil. Vem-me dizer que está de +posse dos seus vinculos de S. Torquato, de Alvites e de Ameixoal? +Parabens! + +--Quaes parabens, meu caro senhor doutor!--disse Fernando de +Athaide--Aquillo tem dente de coelho! Tenho gasto o valor dos bens; +tenho cinco sentenças a favor, e ainda pelo ultimo barco recebi uma +carta do advogado e outra do procurador. Veja lá vossa senhoria o que +por lá vai! + +Leu o doutor mentalmente, e interrompeu-se em meio com esta exclamação: + +--Magnifico bruto é o seu advogado, e o seu procurador outro bruto +magnifico! Pois não deixam de intimar ao réo a primeira sentença! Esta, +esta é das que desbancam a propria estupidez!... + +--Pois olhe que tenho pago a rios de oiro essas brutalidades--disse +Fernando. + +--Não que ellas valem-no pela raridade!--disse o doutor limpando os +oculos e proseguindo na leitura mental. + +--Isto agora é que tem graça!--exclamou o velho, arfando em +risadas--Está-se lá em Portugal na edade media. Recebem a justiça a fogo +e ferro! Ó Azevedo, oiça lá isto, que é perdido em pouca gente. + +E leu: + +«A diligencia que sahiu de Vianna, retirou apupada e não fez o embargo; +a outra que foi com a tropa, retirou debaixo de fogo, e recolheu com um +soldado ferido. Á hora que lhe escrevo consta-me que mais de cem homens +armados fazem sentinella ao palacio artilhado de Gastão de Noronha....» + +--Como? de quem?--exclamou Azevedo. + +--De Gastão de Noronha--disse o velho--Conhece-o? + +--Conheço!--disse mui alvoroçado e pallido Antonio d'Azevedo--Mas que +tiros são esses? + +--É muito simples--respondeu Fernando d'Athaide, eu sou o directo +successor dos vinculos que retem D. Mafalda de Athaide, mulher de Gastão +de Noronha e minha prima. Ha muitos annos que tracto de senhorear-me do +que é legitimamente meu. Tenho vencido em todas as instancias; obtive +despacho para embargo nos fructos até á final decisão do pleito, +annullado por um estupido descuido; e quando os officiaes de justiça vão +cumprir a lei, o senhor Gastão dá-lhe fogo, e diz que a casa é sua. Ora +vejam o que é Portugal! que civilisação aquella! Com que então o senhor +doutor conhece meu primo Gastão de Noronha? + +Azevedo, de abstrahido que ficou, não ouviu a pergunta. Fernando encarou +em Valentim, como perguntando-lhe se era surdo o praticante. + +--Diz o senhor Fernando se o meu amigo conhece Gastão de Noronha--tornou +o velho. + +--Conheço, creio que já disse. + +Esta resposta foi dada com enfadado franzimento de sobr'olho, estranho +ao velho. + +Azevedo, vencido insolitamente de sua nobre paixão, fitou em cheio o +rosto de Fernando, e perguntou: + +--O senhor é pobre? + +--Graças a Deus, não. + +--É rico? + +--Assim, assim. + +--É muito rico--accrescentou o doutor Valentim. + +--E não carece dos bens de sua prima D. Mafalda para ser feliz?--tornou +Azevedo. + +--Os bens são meus; não são de minha prima Mafalda--redarguiu Fernando +com desabrimento. + +--Convenho que são seus. Os bens que legitimamente possue sua prima são +cinco filhas. Se o senhor tirar áquella familia as terras de que viviam, +sua prima e seu primo e cinco meninas terão fome; ao passo que o senhor +Fernando de Athaide não saberá que fazer d'essa parcella, que +accrescenta á sua abundancia. + +--Pode ser que assim seja--disse Fernando descommovido--mas a pobreza +não é orgulhosa. Eu escrevi duas cartas a Gastão de Noronha, quando elle +estava em Paris, propondo-lhe uma conciliação, e elle nem sequer desceu +do seu orgulho a responder ao filho natural de Fernão de Athaide. Ora o +filho natural quer desforçar-se como seu pae se desforçaria lançando +fóra de sua casa os miseraveis que o não reconhecem como dono, nem +sequer como parente. Colloque-se lá na minha posição, e diga-me o que +faria? + +--Tinha commiseração--respondeu Azevedo, e fingiu-se occupado a folhear +uns autos. + +--Commiseração com o senhor castellão que manda despejar balas sobre os +executores do meu direito!--volveu Fernando--Olha em que postas eu era +talhado se vivesse lá n'aquellas serras, em que os ladrões fidalgos se +acastellam! + +Antonio d'Azevedo pegou do chapeo, e disse que ia jantar e voltaria +depois. Ao sahir cortejou urbanamente Fernando, como a pedir-lhe +desculpa no sorriso. + +--Este homem é exquisito!--disse Fernando ao doutor. + +--É um modêlo de honra e virtude--tornou o velho--Não imagina que puro +oiro é o d'aquella alma! Foi a commiseração que o excitou a tal +estranheza de phrases. Desculpe-o, que o pobre moço, no fim de tudo, +disse-lhe uma augusta verdade. Olhe que é triste coisa um homem que +educou cinco filhas com todo o mimo e regalias de fidalgas, vel-as +privadas de pão e de respeitos sociaes. + +--Então que quer o senhor doutor?--atalhou Fernando. + +--Eu de mim não quero senão absolver a compaixão de Antonio d'Azevedo, e +lembrar ao senhor Fernando, que a caridade e o perdão são as virtudes +fundamentaes do doutrinamento de Jesus Christo. + +--E achava vossa senhoria acertado--acudiu Fernando--que eu perdesse +contos de reis, que tenho gastado n'este capricho, e deixasse os meus +vinculos na posse e direitos de minha prima? + +--Eu não aconselho, senhor Fernando. Isto de bem fazer não se lê nem se +ensina: está dentro do coração, é foro intimo, é materia de tractar com +Deus. Faça o que bem quizer; mas de modo se haja que nunca venha a +sentir-se mal comsigo proprio. + +--A minha consciencia está tranquillissima--retorquiu Fernando. + +--Quantas vezes a consciencia está quieta, e o coração inquieto? A +consciencia é a inspiradora dos deveres; e o coração da piedade, da +humanidade, e d'outras virtudes menos pautadas que os meros deveres e +obrigações de uma recta razão. Faça o que quizer, senhor Fernando... + +--Como eu me enganei!--atalhou Athaide. + +--Enganou-se!? Com quê e com quem? + +--Com o seu socio de escriptorio. + +--Ora essa! pois... + +--Eu lhe digo, senhor doutor. Disseram-me que este Antonio d'Azevedo era +um advogado esperto. + +--Não lhe mentiram. + +--Será; não duvido. Ora, como eu queria acabar com isto á custa de mais +alguns contos de reis, vinha com o fito posto em offerecer tres ou +quatro contos ao doutor Azevedo para elle ir a Portugal tomar posse dos +vinculos em meu nome, removendo todos os embaraços com a sua esperteza. +Vinha n'esta ideia, e, quando menos o cuido, acho um prégador de +caridade... + +--Gratuito...--accrescentou, sorrindo, o velho. + +--O que faltava era ter de lhe pagar o sermão que não lhe encommendei! + +--Pois olhe que valeu dinheiro! Vossa senhoria, se for scismar no que +ouviu, ámanhan está melhor de coração que hoje. Acha que não vale +dinheiro um melhoramento moral? Oh! se vale! Até eu lhe devo, a elle mui +salutares conselhos para a caduquez, e quando o escuto estou como +pezaroso de não ter sido o que elle é. Pois que lhe disse o meu Antonio +d'Azevedo? Cifra n'isto: «O senhor é muito rico: deixe essas migalhas +que está disputando á familia, que não tem mais nada: faça de conta que +pegou de sete pessoas pobres de sua familia, e deu a cada uma sua +subsistencia.» Não lhe sôa bem isto ao animo desassombrado, senhor +Fernando de Athaide? O seu bom sangue de fidalgo não se azedaria nas +veias, se lhe cá viessem dizer que uma porção tão chegada de seus +parentes andava lá por Portugal arrastada sobre os espinhos da pobreza, +da miseria, e talvez da deshonra? Tem o senhor em Portugal cinco primas. +Onde cuida vossa senhoria que as póde levar a indigencia?... + +Valentim, fallando d'este theor, tinha os olhos embaciados de lagrimas. +Fernando olhava-o em certa estupefacção, que umas vezes é dureza de +sentimento, e muitas encendimento de renascida sensibilidade. O velho +calou-se, e o primo de D. Mafalda, tomando o chapeo, sahiu sem proferir +palavra, cortejando o doutor com um aceno. + +--Adeus, meu amigo--disse o velho--Pense no fim da vida. Lembre-se que, +no inverno d'ella, costumam os velhos lembrar-se das flores d'alma, que +esmagaram na primavera. + +Fernando ouviu, no patamar da escada, as ultimas palavras, e sahiu tanto +ou quanto abalado. + +Pouco depois entrou Antonio d'Azevedo. Viam-se-lhe nos olhos os residuos +das lagrimas. É que elle acabava de escrever a seguinte lauda d'uma +carta a Corinna: + +«..................................................................... + + + «_2 d'Abril de 1844--quatro horas da tarde._ + + +«Acabo de saber as desventuras que vão em tua casa. Ouvi-as da boca do +mesmo homem que vos quer privar d'essas arvores e do berço onde te +embalaste, minha querida Corinna. Eu alcanço a profundeza das vossas +amarguras, pobres meninas e pobre mãe! Que tremenda afflicção hallucinou +teu pae ao ponto de resistir á justiça impiedosa, que não entende de +infortunios, nem de lagrimas! Quantas vezes te voaria ao coração +angustiado a imagem invalida do teu amigo! Tardias exclamações, filha! +Deixa-me ver o que posso conseguir a bem de teu pae, cujas mãos eu +espero beijar ainda. Talvez que á hora em que receberes esta carta, +começada com tanta alegria, e tão atormentada agora, tudo esteja sanado, +e teu pae olhe como suas para sempre essas reliquias de uma grande +fortuna mal desbaratada. Tenho um presentimento de que hei de merecer a +intervenção da providencia nas minhas intenções. Talvez que, a estas +horas, estejas orando, e o anjo do nosso amor me segrede os dons que +Deus te concede. Vou sahir, minha Corinna. Vou ouvir o santo varão a +quem devo tudo. É tempo de eu lhe mostrar que anjo tu és para o fazer +teu amigo, e bemfeitor de ambos. Até logo.» + +Valentim observou o ar magoado do seu estremecido amigo, e quiz ver uma +extraordinaria causa áquelle compungir-se pela familia portugueza. + +--Olhe que eu cá fiquei prégando com o homem--disse o velho--As suas +palavras foram o thema do sermão; mas, a fallar-lhe a verdade, não vejo +lura d'onde saia coelho. Este Fernando de Athaide, cujo pae e mãe +conheci, se não fosse a balda da fidalguia, havia de ser um homem muito +estimavel. Está muito rico, e acha-se pobre quando veste a casaca sem o +habito de cavalleiro ou official da Roza. Ha pouco arranjou em Portugal +não sei que fitinha, que ellas por lá são tantas e tão bastas que não ha +saber estremar os fidalgos pelas fitas. Mas o pobre homem não se +contenta com ser condecorado pelo que faz (que eu, a bem dizer, não sei +o que elle faz ou fez) quer tambem que a sua fidalguia lhe proceda em +linha direita dos godos. Para isso precisa justificar-se tomando posse +das quintas vinculadas e dos pardieiros que, pelos modos, tem ameias, +adarves, barbacans e brazões com corôas e mitras. Isto é o que explica a +crua insensibilidade de Fernando com os seus parentes. Ora diga lá, +Azevedo, vossê conhece pessoalmente o tal Gastão de Noronha? + +--Conheço-o de vista apenas; mas Gastão de Noronha está tão identificado +á minha vida, que por causa d'elle estou hoje no Brazil. O senhor doutor +Valentim já sabe que o meu coração tem lagrimas de saudade. Eu era na +patria o que ainda sou aqui: um rapaz sem bens e sem futuro; e Gastão de +Noronha era o fidalgo não rico, mas de sobra ambicioso e soberbo para me +não dar sua filha. A mulher que eu amo e choro é filha de Gastão de +Noronha. + +--É notavel a coincidencia!--disse Valentim--Agora é que a sua mágoa me +parece racional, e digna me pareceria de todo o modo. Entretanto, meu +Azevedo, na sua mão está salvar essa menina, e desde já, das +contingencias da pobreza. O senhor já sabe que tem bastos recursos no +Brazil. Vá a Portugal, que a soberba do fidalgo deve estar amollecida. +Case com a sua dama, e volte, que os seus amigos cá o ficam esperando. + +Riram os olhos de Antonio d'Azevedo; mas este clarão de alegria foi +instantaneo. + +--Seria a felicidade perfeita para mim, mas não para ella--disse o +bacharel, após instantes de reflexão. + +--Como assim?--perguntou o velho--que mais póde ella desejar?! + +--Que seus paes e irmans não soffram as horriveis privações tanto mais +amargas, quanto a vida lhes correu abundante e respeitada. Calcule o +senhor doutor que desgosto não seria o d'ella ao lembrar-se que suas +quatro irmans ficaram encerradas em conventos, e dependentes da esmola +de parentas! e que sua mãe, privada d'ellas, e talvez do marido... como +poderia eu ser assim feliz, meu amigo?!... + +Antonio d'Azevedo deixava cahir as lagrimas para que o velho não lh'as +visse enxugar! Ha lagrimas que tem um como pudor, e recato que é talvez +o medo de serem mal avaliadas. O chorar do homem ha de ser assim, ou +ficará sendo miseravel alardo de sua feminil fraqueza. + + + + +XII. + + +--Valha-me Deus!--disse o doutor, esfregando as palmas das mãos +tremulas--como ha de a gente remediar isto? O que o meu Antonio queria é +que todos vivessem contentes. Christan utopia, que ha de realisar-se no +ceo! + +--Eu vinha animado d'um pensamento quando aqui entrei--tornou +Azevedo--porém desanimei logo que o senhor me disse que Fernando de +Athaide queria os vinculos para mostrar a sua fidalga genealogia. + +--É o que é; e se não fosse, que ideia era a sua? Vamos discutil-a. + +--A minha ideia era contrahir eu um emprestimo aqui: sei que o obtinha. + +--Tambem eu sei que o meu amigo obtem o emprestimo. E depois? + +--Avaliavam-se os bens vinculados e as despezas feitas para os liquidar: +eu dava o valor de tudo a Fernando de Athaide, e elle desistia do +direito por conciliação. + +--E o Antonio ficava pobre e a trabalhar toda a sua vida para remir a +divida? + +--Necessariamente. + +--Com effeito!--exclamou o doutor--e dizem lá que já não ha santos! Sabe +vossê, Azevedo, como é que o mundo, desde que perdeu a fé nos milagres, +chama aos santos da sua virtude? Chama-lhes mentecaptos. Assim devia de +ser, porque a philosophia inscreveu tambem como demencia o amor divino +dos crucificados por sua lealdade a Deus, e d'estes vejo que ainda os ha +devotados á _sublime loucura da cruz_. Queria então vossê adjudicar o +trabalho de toda a vida ao pagamento do dinheiro com que pretende +restabelecer o bem-estar da familia da sua futura senhora?... Vamos +meditar. Este Fernando de Athaide, como já lhe disse, o que quer é +provar _urbi et orbi_ que é fidalgo de raça por seu pae. A herança não +lhe importa. Poderemos conseguir que elle convença o universo da sua +fidalguia, sem se apossar dos vinculos de D. Mafalda? Aqui é que bate o +ponto. E poderemos conseguil-o sem que o meu amigo hypotheque o seu +trabalho á solvencia da divida? Invoquemos as musas das entalações, e +vejamos o que ellas nos decretam em coisa tão prosaica, já que os +praxistas nos tapam todas as sahidas. Poderemos pensar no modo de +approximar Fernando de Athaide de uma das primas, casando-os? Este +expediente bem se vê que é inspiração de musas, porque é de todo em todo +poetico. Que diz a isto, meu rapaz? + +--Creio que por parte de Gastão de Noronha seria um negocio concluido, +ainda mesmo que Fernando de Athaide fosse do mais baixo plebeismo--disse +Azevedo. + +--Feliz genio de homem para os nossos fins! Mas vossê sabe que a +renuncia d'um direito transmissivel, como é o dos vinculos, é nulla; e +que os descendentes do renunciante estão sempre ao abrigo da lei. É +preciso que Fernando de Athaide case com a menina successora dos +vinculos, na hypothese de serem elles legitimamente de sua mãe... + +--Essa é Corinna!--interrompeu Azevedo--Corinna é a que eu amo! + +--Ah! sim? então muda de figura o negocio.... Deixe-me pensar... E se +nós conseguissemos que Fernando casasse com uma das outras senhoras? +Leval-o-iamos a deixar aos sogros a administração dos vinculos, +melhorados e desembaraçados de dividas com liberalisado capital pelo +ricasso, e sobre tudo pelo fidalgo, orgulhoso de reedificar os +pardieiros de seus avoengos. Que lhe parece? + +--Gastão de Noronha não acceitaria a humilde posição de mordomo de seu +genro--disse Azevedo--Por parte d'este a reconciliação seria impossivel. +Só vejo um meio. + +--Diga lá. + +--Fernando obteria uma filha de Gastão, se, antes de pedir-lh'a, +rasgasse as provas com que se diz successor dos vinculos. + +--Não se rasgam assim facilmente as provas. A perfilhação está +archivada, e as cartas e testamento que o legitimam filho de Fernão de +Athaide estão em notas de tabelliães de Portugal e do Brazil. + +--A desistencia, portanto, é invalida?--tornou Azevedo. + +--É, a menos que o senhor me não assevere que a descendencia directa de +Fernão de Athaide acaba em seu filho. + +Proseguiram largo tempo dialogando juridicamente, e ultimaram indecisos +no que deviam fazer. + +Antonio d'Azevedo desvelou aquella noite em hypotheses que se combatiam +e destruiam. Amanheceu-lhe o dia seguinte para incessante inquietação e +dolorosa perplexidade. Voltou ás onze horas ao escriptorio de Valentim +da Costa, e encontrou-o encerrado com Fernando de Athaide. + +--Já se demorava--disse-lhe o doutor--Sente-se aqui. + +O velho, voltado a Fernando, proseguiu: + +--Dá-se o caso, amigo e senhor Athaide, que este Antonio d'Azevedo veio +ao Brazil ganhar alguns punhados de oiro para poder voltar a Portugal e +casar com uma das cinco primas de vossa senhoria, filhas de Gastão de +Noronha. + +--Pois conhece minhas primas?!--atalhou Fernando. + +--Especialmente a mais velha, a senhora D. Corinna--disse Azevedo. + +--Alguem me disse que é muito galante essa--tornou o millionario. + +--São todas galantes: são cinco anjos, que fariam o orgulho d'um pae +menos infeliz que o senhor Gastão, e teriam sido felizes se nascessem em +menos elevada condição. + +--Alguem as viu em Paris--tornou Fernando--e achou-as educadas muito á +franceza. + +--Por força devia achal-as assim educadas: as mais novas lá nasceram. + +--Mas desenvoltas... é o que eu quero dizer. + +--Não senhor: enganaram-o: vi-as em alguns bailes do Porto com quanta +gravidade e compostura se póde desejar na mulher que se ama para nos +felicitar e honrar a vida. + +--Agora fallo eu--atalhou o velho--O senhor Azevedo affligiu-se quando +vossa senhoria nos contou a situação em que ficou seu tio; é natural; +porque a senhora que elle ama, até ao sacrificio de vir grangear-lhe +aqui o pão futuro, está lá n'essa casa, d'onde vossa senhoria vai +expulsar toda a familia. + +--Minhas primas devem odiar-me de morte!--interrompeu Fernando em tom de +desagradavel ironia. + +--Fazem ellas muito bem--disse o velho, sorrindo. + +--Que lhe diz de mim a prima Corinna?--tornou Athaide com prasenteiro +semblante. + +--A carta que ella me escreveu n'este ultimo navio contém uma pagina com +referencia a vossa senhoria. Queira lêl-a, que ella de certo me perdoa a +confidencia. + +Fernando de Athaide leu a penultima lauda da carta, dobrou-a +vagarosamente, e restituiu-a sem fitar os olhos no bacharel. + +--Aqui não ha odio de morte n'estas palavras, senhor Fernando de +Athaide--disse Azevedo. + +--Então isso é segredo cá para o velho, heim?--disse o doutor. + +--Ha meia hora que recebi a carta--respondeu o moço, entregando-lh'a. + +--Sempre quero ver o juizo que ella faz do priminho. Mostre lá o sitio +onde vem a catillinaria. + +--Antonio indicou-lhe a pagina, e o velho leu alto: + +«Ouvi dizer ao nosso amigo Felisberto que o primo de minha mãe é muito +rico, e não precisa d'estes poucos bens. Que triste gloria reduzir á +ultima pobreza uma familia tão numerosa! Ha corações muito duros, meu +querido Antonio! Ás vezes penso com tristeza e ao mesmo tempo +consolação, no differente modo de pensar que Deus dá ás suas creaturas +tão semelhantes no exterior. Não se lembrar esse homem das afflicções +que nos dá sem proveito nenhum para si mesmo! Não saberá elle que a +subsistencia de sete pessoas, creadas na opulencia, era só isto que nos +tira!? Se um dia lhe disserem que meu pae morre de desgosto e miseria, a +voz do sangue não lhe gritará como um remorso ao coração? Ai! como os +felizes gosam, ó meu pobre Antonio!................................... +.....................................................................» + +--Estas palavras, senhor Fernando--continuou o veneravel doutor--podem +mais que tudo quanto eu lhe dissesse, se as lagrimas que eu vejo nos +seus olhos não são uma illusão dos meus. Olhe fito cá para mim, Athaide! +Não se envergonhe de ser bom: tenha só pezar de o não ter sido. Vamos! +deixe lá fallar esse coração! Sente-se disposto a salvar esta familia? + +--Responderei--disse Fernando de Athaide, erguendo-se de golpe. + +--Uma resposta, n'este caso, não é operação diplomatica que demande +vigilias e subtilezas de engenho. Sente-se!--disse com gracioso imperio +o velho. + +--Mas que quer de mim o doutor? + +--Quero que se meça em bizarria d'alma com este cavalheiro que aqui +está. Antonio d'Azevedo quiz contrahir um emprestimo de trinta contos, +ou mais, caucionados com a sua honra e trabalho. Estes trinta excedem em +doze, segundo vossa senhoria me tem dito, o valor dos vinculos. O +restante será o que Fernando de Athaide tem gasto no costeio da demanda. +Antonio d'Azevedo queria offerecer a vossa senhoria esta quantia como +gratificação pela desistencia da demanda. + +Sorriu Fernando, e atalhou: + +--O doutor não disse a este senhor que eu dou trinta contos pelo menor +dos meus caprichos, e que ainda fico bastantemente rico para dar de +esmola o valor dos vinculos ao soberbo Gastão de Noronha? + +--Esmola que elle não acceitará--disse com altivez o amado de Corinna. + +--Nem eu estou pedindo esmola para o marido de sua tia--accrescentou o +doutor. + +--Então que pede?!--tornou Fernando com philaucioso sobrecenho. + +--Peço ao fidalgo que tenha uma alma fidalga; que, se a não tiver, que +importam os seus brazões em confronto da caridade com que o escravo nu +levanta da rua o seu irmão prostrado de fome?! Quer saber o que lhe fica +bem? O cavalheiro manda suspender a execução, sem desistencia dos seus +direitos, que as leis e todos lhe reconhecem. O seu vencimento foi +completo: agora é preciso coroal-o com a generosidade, se quer o +triumpho. Está vencida a questão: está reconhecido Fernando de Athaide o +successor dos vinculos de seu pae. São seus os vinculos, e é sua a honra +de os deixar administrar por sua prima. Isto é que é nobreza! De resto, +as armas dos portões das suas quintas são pedaços de pedra lavrada, onde +as aranhas fazem seus ninhos como entre a palhiça que colma a cabana do +jornaleiro! Que diz? + +--Responderei!--repetiu Fernando--tenho de dar satisfação á minha +dignidade. Entre coração e pundonor vai larga distancia: preciso de +explicar o despreso com que foram recebidas as minhas cartas por Gastão +de Noronha. É preciso que o mundo não pense que os meus direitos se +atemorisaram diante do arcabuz do valentão. + +--É preciso, primeiro que tudo, respeitar o infortunio!--disse +brandamente Antonio d'Azevedo. + +--Digno de respeito--accrescentou o neto dos Athaides sahindo de má +sombra. + + + + +XIII. + + +Lembra-se o leitor de eu lhe ter dito, no primeiro capitulo, que, por +uma tarde de Agosto, estava Corinna da Soledade, nas margens do Lima, +reclinada n'um dos bancos circumpostos á fonte do tôpo da sombria +avenida? + +Agora é que o romance prende com aquella tarde! Vejam que desconcerto +este! Chega uma novella ao meio, e torna a começar. Parece que é isto um +abuso da indulgencia com que o leitor costuma indultar-me os desarranjos +do meu engenho. Ora queira perdoar mais este, attendendo a que as +coisas, na vida como ella é, tambem assim vão desordenadas, e começam +não só pelo meio, mas até pelo fim. + +A carta, que Corinna lia e regava de lagrimas, era de Antonio d'Azevedo. +A pagina que mais a enternecia a prantos dizia assim: + +«..................................................................... +Eu não sei que deva esperar de Fernando de Athaide. Pareceu-me bom quando +lhe vi lagrimas, e mau quando se despediu. Será tudo, ou não será nada +do que me pareceu: os individuos vulgares são os menos intelligiveis. O +melhor, Corinna, é nada esperar que bom seja. + +«Entretanto, eu posso mandar á tua familia o bom coração que tu fizeste, +e não póde ser teu sem ser dos teus. Prézo teu pae e tua mãe, quero ás +tuas irmans como ás minhas. Tenho-vos a todos no mais sagrado dos meus +affectos e ardentes desejos de ser util. + +«Os meus haveres, por em quanto, não merecem tal nome; porém a minha +palavra vale muito com os amigos que me deram os Taveiras. É-me facil +possuir alguns contos de reis, e mandal-os a teu pae para ter uma casa e +segura subsistencia de sua familia, até que a minha posição seja mais +solida. Mas como hei de eu, e com que pretexto, remetter-lhe este +dinheiro? Como ha de elle acceital-o? Pensei n'isto muitos dias; e, a +final de desanimados arbitrios, tomei um expediente que tu, minha +Corinna, applaudirás, porque, sobre tudo, és a minha irman. Remetti seis +contos de reis ao nosso Felisberto Taveira, pedindo-lhe que fosse elle +offerecel-os a teu pae como coisa sua. Contrariou-me logo a conjectura +de que teu pae os não acceitaria, por não poder dar abonação; mas tão +cansado estava eu já de ser contrariado, que fechei os olhos, e deixei +ao meu bom amigo o desapressar-se das difficuldades. Aqui tens o que +fiz: Deus fará o resto. + +«Pedi ao Taveira que aconselhasse a sahida de teu pae para o Porto ou +Lisboa. A especial situação em que elle se collocou é muito violenta. +Digam-lhe todos que abandone as terras que já não são suas. Em toda a +parte ha sol e arvores e paz. Todas as flores te hão de festejar, minha +filha, e o meu coração te será companhia onde quer que vás............ +.....................................................................» + +Era bem para lagrimas este singelo dizer e extremo amar do pobre +ausente! + +Expiravam nas cristas das serras fronteiras os ultimos raios de sol, que +Corinna contemplava, coroando de escarlate os pinhaes, quando um +barquinho abicou á margem relvada, mesmo no ancoradoiro pertencente á +quinta de Gastão de Noronha. + +Corinna viu saltar e subir por entre as aleas das ramosas arvores um +homem, seguido d'um criado com uma mala. Como a fuga, sem ser vista, +seria extemporanea, a menina, escondendo a carta, esperou que o +adventicio chegasse. + +A certa distancia descobriu-se o sujeito, e perguntou se estava em casa +o senhor Gastão de Noronha. + +--Meu pae está para Vianna--disse Corinna--mas deve chegar ao escurecer: +não tardará. + +--Poderei esperar que elle chegue para lhe apresentar uma carta do +senhor visconde da Cruz? + +--Sim, senhor: queira subir, que eu dou parte a minha mãe, posto que +ella está recolhida no seu quarto por doença. + +Chamou Corinna um criado que encaminhou o hospede á sala. + +Pouco depois entrou a menina na sala, desculpando sua mãe em não poder +ir receber um amigo do senhor visconde, e pedindo ao cavalheiro o favor +de esperar seu marido, que voltaria breve. + +Corinna retirou-se, ouvidos os termos cortezãos com que o hospede +agradecia a delicadeza da senhora D. Mafalda. + +Não se demorou Gastão. Foi logo á sala, e recebeu a seguinte carta: + +«Illustrissimo e excellentissimo senhor, e meu respeitavel amigo de +minha maior consideração e respeito. Amigos de meu pae, e muito da nossa +estima, nos recommendam o cavalheiro portador d'esta carta, brazileiro +nato, que anda visitando a Europa, e quer ver o nosso Minho, e mais +ainda o Minho de vossa excellencia, symbolisado na sua formosa quinta. +Confiados na amizade de vossa excellencia, ousamos pedir-lhe o favor de +recebel-o, e indicar-lhe as principaes bellezas que enfeitam as margens +do Minho e Lima. Digne-se vossa excellencia acolhel-o com a sua +costumada delicadeza, e dar-nos a honra de lhe devermos esta nova +consideração. De vossa excellencia etc.==_Visconde da Cruz._ + +«_P. S._ Passados dias terei o prazer de visitar vossa excellencia e sua +amavel familia, para quem peço respeitos e saudades.» + +--Offereço-lhe esta casa como a offereceria ao senhor visconde--disse o +fidalgo com palaciana graça--Queira sentar-se. Temos alguns locaes +bonitos na nossa provincia; mas se vossa senhoria viu a Suissa, a Italia +e alguns departamentos de França, de certo achará encarecida a pintura +que lhe fizeram do Minho. Eu viajei muito com a minha familia antes de +estabelecer casa em Paris, no tempo das nossas guerras intestinas! +Sinceramente lhe digo que lá fóra vi a natureza mais adornada, e por +isso mesmo mais bella: tudo assim é. O artista quer achar a nudez para +enfeital-a com a poesia do pincel ou do buril; mas o mero curioso sente +melhor o bello onde elle realmente é. + +Proseguiram em conversação sobre viagens, até horas do chá. Já o +hospede, a esse tempo, sabia que o seu quarto de dormir era contiguo á +sala, e que o seu criado dormia na alcova inferior correspondente ao +pavimento do quarto. + +Antes de servir-se o chá, mandou Gastão chamar as cinco meninas, e +apresentou-as a Carlos Zuzarte, que assim disse chamar-se o hospede. +Felismina tocou piano para acompanhar Emma; seguiu-se Elisa a cantar, +acompanhada por Leonor: Corinna estava no quarto de sua mãe. Carlos +sentia-se como encantado entre aquellas meninas, que fallavam um +portuguez feiticeiro em suas incorrecções, como fallariam anjos, se +descessem a tractar com portuguezes, circumstancia de idioma que os +poetas nunca observaram, que me lembre. Em quanto a ellas, o dizer do +hospede, puro brazileiro, era coisa de muita graça, com o que ellas +francamente riam, e de modo o faziam, que o viajante folgava de lhes dar +motivo a rirem. É onde póde chegar a condescendencia com meninas +galantes! + +A noite correu ligeira para todos. Ao dia seguinte madrugou Zuzarte, e +desceu ao jardim. Argentava o sol a serra d'Arga, e lá em cima os +montados d'aquella mystica selva dos franciscanos, onde ainda rumorejam +os psalmos das singelas almas que d'alli, tão visinhas do ceo, se alaram +para Deus. Com que pena, leitor, eu acho o meu frei Luiz de Sousa +estranhamente trivial e despoetico na descripção d'aquelle ermo e dos +seus moradores! Elle, o dulcissimo panegyrista das solidões de Bemfica, +passou por entre os cenobitas de mais ignorada vida, nas chronicas +monasticas, e apenas disse: «É convento de religiosos entregues mais á +vida contemplativa, que aos cuidados e trabalhos da activa.» E mais nada +d'aquellas brenhas, e grutas e lageas sem nome que... + +Se eu me deixava ir agora á vontade da penna, lá me ficava o romance +enredado nos silveiraes da mata de S. Francisco de Vianna, por onde já +passei um dia, lá muito no alto, d'onde eu avistava a casa acastellada +de Gastão de Noronha, em quanto outro anachoreta me ia contando o +romance d'aquella familia. + +O hospede estacou surprezo á entrada d'um pavilhão de olaias. Estava lá +dentro uma como estatua de alabastro, que poderia chamar-se o anjo da +meditação. A estatua, porém, se o era, dos jardins do ceo devia de ser, +porque tinha luz nos olhos e celestial graça no sorriso, quando Zuzarte +a viu. Era Corinna da Soledade. + +Cortejou-a o sujeito com certa turvação, e retirou-se. A menina +correspondeu ao cumprimento, e sahiu do jardim logo que o hospede se +distanceou da gruta. + +Por alli se deteve contemplativo o brazileiro até horas de almoço. Lá +veio procural-o Gastão de Noronha, e se andaram ambos conversando ainda +sobre coisas que tendiam todas, por parte do fidalgo, a averiguar se o +hospede era rico. + +--Tenho trinta e oito annos--disse o brazileiro--e principío agora ainda +a pensar nas delicias que tem o mundo. Até agora cuidei em fazer-me +rico, pensando que bastava sel-o para ser feliz. Como me enganei, cuido +d'hoje ávante em dar nova applicação á fortuna. + +--Na sua idade--atalhou Gastão--quando se é rico, acham-se abertas as +portas do mundo para todos os gosos. + +--Não é tanto assim--replicou o hospede--A riqueza é muitas vezes um +estorvo á felicidade do coração; e o coração, aos trinta e oito annos, é +quasi sempre enganado pela juventude que o reflexo do oiro lhe dá. +Quando me proponho um programma de vida nova, o meu primeiro pensamento +é casar. A felicidade do celibatario, se elle não fôr monge ou santo, ou +temperamento excepcional, é uma concatenação de deleites viciosos com +muito desconto de amarguras. Para além d'este difficil passo do +casamento rasgam-se-me novos horisontes, encantam-me as alegrias da vida +domestica, vejo os bens que Deus concede na velhice aos que dignamente +consumiram suas forças nos annos em que as forças carecem de ser +subordinadas ao dever... + +--Pensa muito acertadamente, senhor Zuzarte--interrompeu o fidalgo. + +--O quadro delicioso que vim achar em sua casa, senhor Gastão de +Noronha, redobrou-me o encanto, porque é elle a mais sublime realidade +das minhas imaginações. Que ditosa velhice a do pae que vê em volta de +si cinco filhas, cinco amores de filha a florescerem-lhe a alma com as +suas primaveras! Assim não se deve sentir o pezo dos annos, nem o temor +da morte. O caminho final, a ultima jornada deve ser suave entre os +anjos. Não é muito feliz, senhor Gastão de Noronha? + +--Sou infeliz--disse, em boa consciencia, o fidalgo. + +--Infeliz?! Com familia tão querida e extremosa, n'este paraizo, é +infeliz!? Então lá se vão as minhas chimeras!... + +--Fui ditoso até ao momento em que uma inesperada desventura me bateu á +porta para me dizer que esta casa não era minha, e que as minhas filhas +teriam um futuro de dependencia, obscuridade, e... Deus sabe que +futuro!... + +--Pois não é de vossa excellencia esta casa?--perguntou o hospede com um +ar de espanto, que denotava artificio por demasia de naturalidade. + +--A herança de minha mulher foi-me disputada por um parente; são +vinculos que as leis concederam a um filho natural do antecessor de +minha mulher. Passados alguns mezes terei de sahir com minha familia. Um +descendente dos marquezes de Villa Real não terá choupana onde se +abrigue com suas filhas e mulher. Aqui tem o senhor Zuzarte a razão da +minha amargura. As filhas, que eram minhas delicias, estão sendo um +constante incentivo de soffrimento. Eduquei-as em França, dei-lhes uma +infancia de rainhas, premeditava casal-as nas primeiras familias d'esta +provincia: muito fidalgas, muito prendadas e muito pobres, quem as quer, +a não serem maridos de quem eu de certo as não fiava assim mesmo +pobres?... + +Carlos ouvia Gastão com semblante mais assombrado que compungido: +dir-se-ia que aquelle homem, conscio da indole soberba do fidalgo, +pasmava de ouvil-o abrir-se em palavras tão brandas, francas e humildes. +De si para si dizia Gastão, vendo o aspecto indefinivel do seu hospede, +que, depois da revelação da pobreza, o rico o estava olhando com menos +prestigio, e talvez reflectindo no modo de esquivar-se a alguma petição +de dinheiro. Esta hypothese, beliscando o orgulho do fidalgo, fel-o +proromper n'estas palavras destoantes das ultimas que proferira: + +--Ainda assim, as pessoas que se hospedam em casa de Gastão de Noronha, +por em quanto, são recebidas como em todo o tempo. A revelação que lhe +fiz, senhor Zuzarte, não é lastimas de quem acaba pedindo um favor. +Tenha vossa senhoria muita confiança na minha independencia, que eu hei +de morrer Gastão de Noronha. Ha mezes que o nosso amigo visconde da Cruz +depositou um capital de dois contos de reis para evitar um embargo nos +fructos pendentes d'estes bens: quando eu tal sube, vendi as joias de +minhas filhas para embolsar o senhor visconde do seu deposito. + +--Vossa excellencia está-me fazendo revelações que me confundem--atalhou +o hospede--e ao mesmo tempo fere-me com suspeitas que eu não mereço! Por +ventura crê-me capaz de o julgar abatido e desmerecido em seu +infortunio? Que disse eu para vossa excellencia passar de uma tão nobre +confissão dos seus desgostos a prevenir-me de que os hospedes em sua +casa são recebidos como nos tempos prosperos?! + +--Desculpe-me--acudiu Gastão--é que eu não nasci para estas queixas, e +cuido sempre que a pobreza me abate aos olhos dos estranhos, desde que +me vi desconsiderado dos parentes. + +Entraram na casa do almoço, e encontraram D. Mafalda, que os esperava +com as cinco meninas. Carlos foi apresentado á fidalga, e deteve-se +conversando especialmente com ella durante o almoço. A polidez assim o +mandava ao hospede: mas o familiar affecto com que elle a tratava era +por demais. Notaram as meninas que elle não desfitava os olhos de sua +mãe senão quando encontrava os d'ella, já tambem admirada da fixidez +attenta do brazileiro. + +Da casa do almoço passaram á sala do piano. Felismina foi cantar +modinhas brazileiras com o requebro e mimo das ardentes e languidas +filhas do Brazil. Felismina era uma formosa morena, com olhos negros, +cabellos curtos e annelados como spiraes de ebano, esbelta de corpo, +alta mais que todas, muito agil e inquieta, relanceando sempre a vista a +todos e a tudo, a mais diserta e chistosa de todas, e a menos dada ás +flores, á poesia, e ás bellezas campezinas que suas irmans encareciam +umas mais que outras, e Emma, a pachorrenta Emma, esta mais que nenhuma. + +Felismina estava gracejando com Zuzarte a respeito das damas +brazileiras, cujas graças o hospede, sem favor, elogiava, quando um +criado entrou á sala onde estavam todos, e entregou uma carta ida de +Lisboa para Gastão de Noronha. Era a carta do procurador. + +--Teremos golpe?--disse o fidalgo a D. Mafalda. + +--Não sei qual possa ser!--respondeu a senhora--As dores mais de temer +estão todas passadas. + +Leu Gastão a carta, e disse com alvoroço: + +--O Fernando manda suspender a execução, e retirar o processo de +julgamento com desistencia! Que significa isto? + +--O quê, papá?--exclamou Felismina, que mal ouvira, de entretida que +estava com o brazileiro. + +--É o primo Fernando que desiste da demanda--disse Mafalda. + +--Foi elle!--exclamou Corinna. + +Voltaram-se todos para a menina que soltara o brado, e viram-a muito +escarlate. + +--Elle! quem?--perguntou o pae. + +Corinna balbuciou confusas palavras, e não soube como explicar aquelle +disparate, que parecia o despertar subito d'um arrobamento semelhante a +somnambulismo! + +Se não existissem os pronomes _este_ e _elle_, Corinna teria exclamado: + +--Foi Antonio d'Azevedo! + +E, se ella tal dissesse, ninguem a entenderia, excepto o leitor. + + + + +XIV. + + +Pediu Zuzarte licença para compartir do contentamento da familia. Em +breves e alegres termos, D. Mafalda disse que seu primo Fernando de +Athaide desistia da acção que tinha vencida, quando menos se esperava. +Sem rebuço de vão orgulho, a fidalga enumerou quantas desventuras +estavam eminentes á sua familia, e a ella, pobre mãe e esposa, que, ao +mesmo tempo, se havia de separar de marido e filhas para ir quinhoar o +pão da caridade de parentes, que, muitas vezes, lh'o atirariam á cara +com a cruel censura aos desperdicios da emigração. + +O brazileiro mostrava-se jubiloso do successo; e, cada vez que as +meninas bem-diziam seu primo Fernando, era muito de notar-se que o +hospede guardava um silencio indelicado. + +Instado por Felismina a dar explicação do seu silencio, e mais ainda +d'um certo tregeito de fria admiração, disse o brazileiro, como +surprendido em mysterioso sentimento, qualquer que fosse: + +--Eu não sei de que hei de louvar esse senhor Fernando de Athaide, posto +que o respeito muito por ser tão proximo parente de vossas excellencias. + +--Não sabe?!--disse Mafalda com vehemencia. + +--Não, minha senhora. + +--Pois a desistencia d'uma fortuna, que era já sua...--tornou a fidalga. + +--Minha senhora--replicou Zuzarte--eu conheço o primo de vossa +excellencia. + +--Conhece!--exclamaram todos. + +--Fernando de Athaide desistindo de algumas dezenas de contos, obedeceu +talvez a um sentimento de vaidade, o mais barato de quantos lhe tenho +conhecido. Seu primo, minhas senhoras, é hoje um millionario. A balança +do seu oiro não ergueu duas linhas com o desfalque do valor d'estes +vinculos. Não ha virtude que deva espantar-nos na desistencia d'um +objecto inutil. + +--Não quero pensar assim, nem consinto que minhas filhas assim +pensem--tornou Mafalda. + +--Pois bem--retorquiu o brazileiro--convenho que em vossas excellencias +a superabundancia de sensibilidade reverta em gratidão; aposto, porém, +que o senhor Gastão de Noronha não pensa assim. + +--Penso como minha mulher--disse o fidalgo--Penso que lhe devemos muito +ao generoso Fernando, porque eu fui mau para com elle. Quando estavamos +em Paris, recebi duas cartas suas, muito attenciosas, ás quaes não +respondi. Chamava-me primo, e eu tive a estupida arrogancia de rejeitar +o parentesco de um homem que, por delicados termos, me convidava a +entrar com elle em negociações ácerca dos vinculos, que eu illegalmente +administrava. Depois d'isso, tenho rejeitado todas as conciliações +propostas, e, no arrasoado de minha defeza, fiz que os lettrados +empregassem termos injuriosos contra a sua pretendida filiação de nosso +tio Fernão de Athaide. Era de crer que fosse implacavel o odio do +vencedor, depois que eu, á força d'armas, lhe resisti ainda em ultimo +lance. Ora, senhor Zuzarte, seja embora millionario Fernando, força nos +é confessar que ha sangue muito fidalgo n'aquellas veias! Se eu pudesse +apertal-o ao coração n'este momento, exultaria do nobre orgulho com tal +parente! + +Carlos Zuzarte fez um signal de assentimento ás calorosas razões de +Gastão, e derivou a prática a outro assumpto. Felismina, porém, teimou +em fallar de seu primo Fernando, pedindo ao brazileiro que lhe contasse +o que sabia d'elle. + +--Que interesse, minha senhora!--disse Zuzarte com ar de maravilhado--O +primo de vossa excellencia é um homem de bigode grisalho, olhos pretos, +alto, debil, muito trigueiro, alegre ás vezes, outras muito triste, com +muitos amigos e muitos inimigos... + +--É solteiro?--atalhou Felismina. + +--É solteiro, e já agora assim morrerá, porque, se me não engano, deve +ter trinta e oito annos. + +--Justamente--disse Mafalda--Meu tio Fernão morreu ha vinte e dois, e +lembra-me elle dizer-me que Fernando teria dezoito. Queria meu tio que +eu casasse com o primo; mas como falleceu quasi repentinamente, não +chegou a mandal-o chamar. + +--Se vossa excellencia tem casado com elle--disse Zuzarte--esta scena, +em que todos figuramos, estava na massa dos impossiveis! Ora vejam +vossas excellencias que em bem pouco está o não virem á luz da vida +magnificos espectaculos! Que quer vossa excellencia saber mais de seu +primo, senhora D. Felismina? + +--Diga tudo o que souber--respondeu a menina. + +--Eu não sei mais nada, minha senhora. A ultima vez que o vi no Rio de +Janeiro foi no escriptorio de um velho jurisconsulto, onde tinha banca +de advogado um moço portuguez chamado Antonio d'Azevedo Barbosa. + +Corinna da Soledade estremeceu expansivamente, como se ninguem a visse, +e como por influição magnetica, a cadeira per si mesma se arrastou +algumas pollegadas para mais perto do brazileiro. A leitora de certo não +acredita n'este magnetismo da cadeira. + +Gastão de Noronha relanceou os olhos a Corinna, e as irmans tambem. + +--Eu não sei que influencia teve este nome no meu auditorio!--disse o +brazileiro, sorrindo. + +--Em que consiste a fortuna de Fernando?--interrompeu Gastão com mal +disfarçada zanga. + +--Em terras, dinheiro, escravos, navios e predios--respondeu +Zuzarte--Esta grande labutação demanda um bom zelador, que o primo de +vossas excellencias, por natural preguiça, não póde ser. Ouvi-lhe então +dizer, que tendo de sahir para demorada viagem na Europa, deixava seu +advogado no Brazil o honrado Antonio d'Azevedo, com um ordenado bastante +ás suas despezas. Bem escolhido patrono! Em poucos mezes, o doutor +conquistou, no Brazil, um nome que vale muito grande fortuna, +conservando-se lá seis annos. Alguem me disse que Antonio d'Azevedo +amara em Portugal uma menina nobre, e fôra ao Brazil enriquecer-se para +voltar a casar-se com ella. Se isto é verdade, devem dar-se os parabens +á noiva, que o laborioso moço tinha lá uma boa fada á sua espera. + +Gastão de Noronha ergueu-se, e disse com impetuosa acrimonia: + +--O senhor sabe que está em casa do pae d'essa senhora, que Antonio +d'Azevedo cuida comprar com o dinheiro ganhado no Brazil? + +--Como?!--exclamou Carlos com a mais magistral naturalidade--Vossa +excellencia assombra-me! Dar-se-ha caso que seja alguma d'estas senhoras +a menina que... Com effeito! Parece que estamos compondo um romance! + +--Romances d'uma minha filha...--tornou o fidalgo--Não fallemos mais +d'isso... que a ferida ainda sangra... + +--Eu peço perdão se avivei dores e saudades, sem a menor intenção, nem +suspeita de....--disse Carlos. + +--Pois está claro que vossa senhoria ignorava tudo...--replicou o +fidalgo. + +E voltando-se a Corinna, soltou um frouxo de mau riso, riso de repreza +cólera, porque lhe vira as lagrimas correrem nas faces a fio. + +Carlos não pôde conter esta exclamação: + +--Que grande e digno amor! + +Gastão fitou-o com certo espanto e azedume, e disse, em occasião +opportuna, ao ouvido de sua mulher: + +--Não sei o que hei de pensar d'este homem! O acaso não faz d'estas +coincidencias senão nas novellas... + +O incidente passara. O brazileiro encostara-se ao peitoril d'uma janella +com Felismina, e ahi conversaram largo tempo ácerca dos amores de +Corinna e Antonio d'Azevedo. Parece que o apologista do bacharel se +saboreava muito em discorrer de amores alheios, e não perdia azo de +invocar o coração da menina a decidir em theses amorosas, que elle muito +de industria estabelecia. A direcção que levou o dialogo, não a sei eu +cabalmente dizer; é certo, porém, que Felismina, conversando n'aquelle +dia com sua mãe muito á puridade, lhe disse que o brazileiro lhe +perguntara se ella poderia amal-o. N'essa mesma noite Mafalda revelou ao +marido a pergunta. O marido pensou na resposta, e disse que tinha razões +para suppor que Carlos Zuzarte era homem muito rico. A senhora entendeu +as clausulas de tal resposta, e disse a Felismina que o pae ouvira a +noticia com agrado. + +--E tu, filha--accrescentou D. Mafalda--gostas do Carlos? + +--Não desgosto, maman. + +--E querias casar com elle? + +--Se o papá quizesse... Mas olhe que elle não me disse que queria casar +comigo, maman! + +--Bem sei, filha, bem sei; mas assim é que se principiam os casamentos. +Como o visconde da Cruz cá vem, elle nos dirá quem é o brazileiro, e +depois, se o partido fôr de vantagem e tu quizeres, o que ha de fazer-se +ao tarde, faça-se ao cedo. + +Em quanto esta scena, nem edificante, nem rara, se passava no quarto de +Mafalda, Corinna fôra sentar-se na varanda mais solitaria do palacete, e +o proposito levara alli Carlos Zuzarte, acompanhado de Emma e Leonor, +que lhe andavam mostrando a porção antiga do edificio. O brazileiro +approximou-se de Corinna em quanto as duas meninas desceram ao jardim a +colher agua em pequenas bilhas, e disse-lhe: + +--Minha senhora! alegre-se que ha de ser feliz! Antonio d'Azevedo ha de +ser seu marido, porque Deus é justo com os corações corajosos sem +deshonra. Espere, e vencerá. Faça de conta que esta revelação lhe vem do +ceo! + +--Bem haja!--disse Corinna apertando-lhe a mão. + +No dia seguinte chegou o visconde da Cruz, o bem-vindo para todos, e +particularmente para Corinna. Carlos Zuzarte, ao apertar-lhe a mão, +murmurou estas palavras: + +--Seja discreto, quanto lhe pedi! + +--Pois duvída?!--respondeu o visconde. + +Gastão, logo que pôde, apartou-se com o visconde, e teve com elle o +seguinte dialogo: + +--Será censuravel pedir eu a vossa excellencia algumas informações +ácerca d'este meu hospede? + +--Não é, senhor Gastão--disse o visconde--Direi o que souber. + +--Este sujeito parece-me excellente creatura. + +--Não sei: recommendaram-m'o como pessoa muito rica. Em materia de +costumes nada me disseram. + +--Mas muito rico, sim? + +--Já tive a honra de dizer a vossa excellencia que é muito. Viaja em +navio proprio, e podia viajar com estado de quatro navios... + +--Oh! é muito!--interrompeu Gastão abrindo os olhos ao tamanho da boca. + +--Estou quasi a adivinhar que vossa excellencia observou que elle amava +alguma de suas filhas!... + +--Quem lh'o disse?--acudiu alegremente o fidalgo. + +--Ninguem m'o disse, meu nobre amigo, nem eu me orgulho de adivinhal-o: +quem quer o faria. Qual é a menina predilecta? Naturalmente a senhora D. +Corinna. + +--Ora... Corinna! não sei que distincção é a de minha filha Corinna! Não +são tão formosas como ella as outras? + +--São formosissimas todas--respondeu o visconde--mas aquella tem mais +que as outras um cunho de melancolia... + +--De tolice, meu amigo, o cunho é de tolice... Não é ella; ainda bem que +não é... Corinna tem de dar má sahida com os taes amores... Deus perdoe +a quem contribuiu para aquella demencia... + +--Fui eu?... + +--Bem sabe que foi, senhor visconde... + +--Pois Deus ha de não só perdoar-me, mas glorificar-me com a satisfação +de ter approximado dois anjos... + +--Não sei para quê... + +--Para se amarem e darem um exemplo de sacrificio raro, sublime e +invejavel... Não vim a enfadal-o, senhor Gastão... Começa vossa +excellencia a enrugar a testa, e tão bom hospedeiro merece melhor +recompensa. Como estão os seus negocios? + +--Acabou a questão com meu primo. + +--Sim?! e como acabou? + +--Desistiu. + +--Bello! mil parabens! Não tem, pois, vossa excellencia nada que o +penalise? + +--Estou contentissimo. A minha casa volta a ser, se não invejavel pela +ostentação, ao menos pacifica e bastante ás minhas despezas em agradavel +mediania. + +--Precisa vossa excellencia de dinheiro para remir-se de algumas +dividas? + +--Mil graças; ainda tenho algum do producto das joias. + +--Mas quer vossa excellencia resgatar as joias de suas filhas? Abro-lhe +com franqueza o coração e a bolsa. + +--Dispenso o seu obsequio. Minhas filhas enfeitam-se com flores: cá +n'estas montanhas o melhor joalheiro é a natureza. Cada primavera é um +milhar de cofres de pedrarias preciosas abertos por esses montes e +veigas. + +--Santa e bella poesia!--disse o visconde--Queria vel-o coherente +comsigo mesmo, meu amigo! Se a natureza lhe dá tantas riquezas em +flores, porque não ha de querer acceitar das mãos d'ella um genro dotado +com quantas virtudes podem adornar o rei da creação? + +--Um genro! de quem me falla?--acudiu enleado o fidalgo. + +--Fallo-lhe d'um Antonio de Azevedo Barbosa, que sabedor dos infortunios +de vossa excellencia... + +O visconde reteve a exuberancia do coração, talvez indignado, e doeu-se +de levar tão longe seu zelo. + +Gastão ia pedir-lhe explicações, quando o visconde, turbado de sua +irreflexão, recorreu, ao avisinharem-se duas meninas, a ir ter com +ellas, pedindo-lhes flores dos seus canteiros. + +Emma e Leonor desceram ao jardim, e o visconde seguiu-as. Carlos Zuzarte +passeava n'uma rua abobadada de arvoredo, com Felismina; no tôpo d'esta +rua estava Corinna da Soledade corrigindo umas trepadeiras que descahiam +da direcção que a sua cultora lhes dera. + +O visconde estugou o passo; quando a viu, approximou-se, e disse-lhe: + +--A sua felicidade está a chegar. Exulte, minha amiga. São mais alguns +mezes: doire-os com a esperança, que é um bem quasi egual á mais querida +realidade, quando se tem a certeza. + +--A certeza!--exclamou ella. + +--Sim, a certeza. + +--Ó senhor visconde, meu bom amigo, diz-me uma coisa? Como sabe este +brazileiro que eu vou ser feliz?... + +--Sabe-o: tem a quasi certeza, e eu tenho a certeza completa. Deus não +ha de querer desmentir-nos. + +Appareceu Gastão ao fundo da rua, e logo o visconde dirigiu em voz alta +perguntas ás meninas que cortavam perto as flores. + +Gastão, ao vêl-o perto de Corinna, disse a Mafalda: + +--Estes populares são uns pelos outros! Parece que andam conjurados a +darem cabo dos titulos e das raças distinctas! + +--Porque dizes isso, Gastão?--perguntou Mafalda. + +--Porque o digo?! Pois não vês o interesse que este visconde tem em que +a nossa Corinna case com o homem de Barcellos! É teima que me ha de +fazer chegar a mostarda ao nariz! + +Chegaram á curva da rua onde estavam Felismina e Carlos. + +Gastão sorriu-se e passou ávante, dizendo a Mafalda: + +--Tenho a certeza de que é riquissimo o brazileiro. + +--Mas plebeu, não é? + +--Não averiguei: ha de ser naturalmente. Mas que pensas tu? Do modo como +por cá está isto, o homem, se quizer, é conde ámanhan. Tem cinco navios! +cinco navios, Mafalda!... Que te parece? as intenções d'elle serão boas? + +--Creio que sim. A pequena sympathisa verdadeiramente com elle. Pareciam +dois tolos a brincar á róda do tanque, e assim que o Carlos lhe pede que +cante modinhas brasileiras, ella ahi vai logo ao piano, e elle morre por +ouvil-a. Quando isto é de quatro dias, que fará se elle se demorar? + +--Era uma felicidade, Mafalda! Fortuna de milhões! Então é que diziamos +um adeus á aldeia e a estes parvos cá do Minho, que fazem consistir a +sua grandeza nobliarchica em terem dois cyprestes á porta, quatro patos +reaes n'um tanque, e um lacaio com grandes botas... Ainda tenho +esperanças de voltarmos a Paris! Aquillo é que é viver! + +--Ai! Paris!--suspirou Mafalda, reclinando a cabeça sobre o hombro do +marido--ai! Paris! + + + + +XV. + + +Decorreram alguns dias de excursões pelo Minho e Lima. O visconde +acompanhou o festivo rancho. As meninas iam felizes: a propria Corinna, +com as suas esperanças, egualava as irmans em contentamento. A espaços, +Zuzarte ou o visconde lhe diziam uma palavra confortadora, de modo que o +desconfiado Gastão não désse fé. No que elle muito reparava era nas +repetidas conversações dos dois hospedes, que se apartavam da caravana +para fallarem com certos visos de mysterio. + +--Em quanto a mim--dizia o fidalgo a D.Mafalda--o brazileiro consulta o +visconde a respeito de Felismina. Seria bom prevenil-o. + +Chegaram a Ponte do Lima. D. Mafalda quiz visitar o carneiro de seu tio +Fernão de Athaide. Ajoelharam todos a orar por alma do fidalgo. Carlos +Zuzarte com tal devoção o fez, que deu nos olhos de todos. + +--Parece que é bom christão!--disse Mafalda a Felismina--Vê tu que o +homem tinha lagrimas nos olhos, e veio perguntar-me se eu ajoelhara por +formalidade, se por sincero sentimento de respeito ás cinzas de meu tio! +Que pergunta!... + +Alojaram-se n'um velho palacio das margens do Minho, onde tinham nascido +os avoengos de Mafalda: era a casa onde expirara Fernão. As meninas +riram muito, e andavam a reboque umas das outras nos vastos salões +esburacados. No quarto onde morreu o camarista de D. João VI estava um +retrato d'elle, roido de traça e pó, com as feições quasi apagadas. O +brazileiro disse a Gastão de Noronha que Fernando d'Athaide havia de +apreciar grandemente o mimo d'aquella carunchosa lona. Prometteu Noronha +mandar retocar o retrato, e presentear-lh'o. + +Nem Mafalda, nem alguma das meninas quiz pernoitar no quarto, onde +morrera o tio, e estivera inhabitado desde então. Dormiram n'elle o +visconde e o brazileiro. + +Dois dias depois proseguiram o passeio desandando para o palacete das +margens do Lima. O visconde recolheu-se ao Porto, e Carlos Zuzarte ficou +ainda sem designar destino. + +Abriu-se o theatro lyrico no Porto. O brazileiro convidou a hospedeira +familia a visitarem a galera que elle tinha fundeada no Douro, e a +gosarem-se de algumas noites de theatro. As quatro meninas iam +endoidecendo de alegria com o convite, e mais ainda com a +condescendencia do pae. Corinna entristeceu-se. A felicidade adoçava-lhe +a solidão agora mais que nunca. Os sitios onde nos afizemos a scismar e +soffrer com a nossa saudade dão-nos a sombra do ausente que choramos +sempre que a mágoa lá se vai carpir. Se depois nos afastamos d'aquelles +sitios, a saudade já é dupla: parece que os novos logares, onde imos, +nos não conhecem, nem sabem porque choramos. A nossa dor dera-nos além +um clima nosso; aqui tudo estranhamos, tudo nos parece em dobro +apartado. Esta sensação amarga adivinhava Corinna da Soledade, quando +pediu a sua mãe licença para ficar com o governo da casa. Gastão deu a +licença sem constrangimento; mas Carlos Zuzarte não prescindiu da +companhia de Corinna, e de modo lh'o disse a ella, que a menina não +hesitou. + +Esperava-os no Porto uma casa nobre mobilada com riqueza. Pasmou Gastão +das rapidas providencias do seu hospede: este disse que, tencionando +residir alguns mezes no Porto, incumbira o seu amigo visconde da +decoração da casa. + +Pediu o brazileiro a D. Mafalda se convidava as suas relações no Porto +para lhe honrarem as salas por occasião d'um baile, que elle queria dar +ao visconde da Cruz. Deu-se um baile explendido, como o fidalgo +portuguez os dava em Paris. + +Concorreram as senhoras de primeira sociedade e formosura. + +Carlos Zuzarte afigurou-se a muitas meninas um bom marido; todas, porém, +excepto uma, se abstiveram de revelar o seu parecer n'um sorriso ao +brazileiro, por verem que eram cinco, e todas bellas, as filhas do +fidalgo commensal do ricasso; ora a exceptuada não deu pêso a isso, e +distinguiu-se em branduras e cortezias que deram na vista. + +Felismina foi quem primeiro as viu. Podera não! O seu amor era +verdadeiro, porque disparatou em ciumes. Sahiu das salas, recolheu-se ao +seu quarto, e, nem com ordem do pae, sahiu de lá. O brazileiro soube +isto, e sorriu-se como a vaidade do coração sorri. Foi elle, em pessoa, +pedir a Felismina que voltasse á sala: estava fechada por dentro, e +disse pela fechadura da porta que não ia servir de escarneo á sua rival. +Carlos sustentou o dialogo á fechadura, foi eloquente quanto se póde ser +por um tal systema de embocadura de suspiros, e conseguiu que Felismina +promettesse voltar á sala. + +O brazileiro levou á evidencia de todos que amava a filha de Gastão, +desde que o seu perdoavel orgulho se inflou com os ciumes, acintemente +provocados. + +No dia immediato jantaram a bordo da galera, que se chamara _Aurora_, e +n'aquelle dia appareceu chrismada em _Felismina_. Este successo para +Gastão de Noronha teve o valor do terceiro proclame lido á missa +conventual. + +Á noite não sahiram de casa, nem receberam visitas, excepto o visconde +da Cruz, e seu irmão Luiz Taveira, que, desde o baile, scismava muito +com Leonor, filha de Gastão, a mais mimosa de todas em structura, coisa +assim como sonho, sylpho, ou quer que era de imponderavel, que parecia +nas walsas uma borboleta de azas iriadas. + +Que esperto era aquelle Gastão de Noronha! Deu logo pela ternura dos +olhares de Luiz, e de si para si disse: «Mudam os ventos, mudam os +tempos!» + +Estava, pois, reunida a familia, o dono do palacete, e os dois Taveiras +convidados ao desembarque. + +Ao retirarem os taboleiros do chá, o brazileiro convidou Felismina a +jogar o xadrez, sob condição de ficar sujeita á vontade do vencedor a +liberdade do vencido. Felismina annuiu. Todos cercaram os jogadores com +anciosa curiosidade. + +--Gósto de ver a attenção que nos prestam--disse Zuzarte--porque não é +brincadeira isto. Esquecia-me, porém, ouvir o senhor Gastão de Noronha, +antes de acceitar a annuencia de sua filha. Vossa excellencia não vem +com embargos, se a sorte fôr funesta á senhora D. Felismina? + +--Quaes embargos!--exclamou Gastão rindo estrondosamente--E se ella +vencer? haverá embargos por parte do cavalheiro Zuzarte? + +--Ninguem se importa com o meu destino. + +--Quem sabe!...--disse Felismina--Tenho medo.... + +--Que teme, minha senhora?--perguntou Zuzarte com meiguice. + +Felismina sorriu e córou. + +Jogaram. Os peões, os delfins, o castello, o rei e rainha do brazileiro, +foram todos derrotados e assoprados miseravelmente. Felismina venceu. + +--Estou á sua disposição, minha senhora!--disse Zuzarte. + +--Está?--acudiu ella com as morenas faces retinctas de escarlate. + +--Estou: que determina? + +--Que fique sendo o nosso amigo sempre; que não torne para o Brazil. + +--Ficarei. Quer-me então como um parente, sim? Irmão, tio, primo... veja +lá: qual parentesco lhe quadra mais? + +--Seja primo--disse Felismina. + +--Pois, sim, seja primo--disseram todas as meninas. + +--Pois então venham dar todas um abraço em seu primo--tornou o +brazileiro erguendo-se--O primeiro abraço ha de ser o de minha prima +Mafalda, sobrinha de meu pae Fernão de Athaide. + +Houve um spasmo em todas as senhoras, que pareciam, ao encarar-se +mutuamente, perguntarem umas ás outras se tinham entendido o dizer do +brazileiro. + +--Então, prima Mafalda!--tornou Fernando de Athaide--se não acceita o +parentesco que sua filha nos dá, acceite o que nos deu a natureza. Aqui +tem o mau, o perseguidor, o implacavel Fernando de Athaide! Vingue-se +agora, dando-lhe um abraço de abafar-lhe o ruim coração que trasborda de +felicidade! + +Mafalda correu aos braços de Fernando; Corinna, Emma, Felismina, Elisa, +Leonor, todas a um tempo, pareciam contentar-se com apertar-lhe os +braços. O proprio Gastão abrindo os seus queria abraçar o grupo d'um +amplexo. + +Fernando de Athaide, beijado e abraçado por todas, sentou-se extenuado, +e murmurou: + +--Devo esta felicidade a Corinna. Dê-me um outro abraço, minha prima +Corinna: a si devo o que sou agora; a si é que toda esta familia deve a +felicidade que eu posso dar-lhe. + +--A mim?!--disse Corinna. + +--Como assim, primo Fernando?--acudiu Mafalda--a gente não sabe como é +que Corinna deu causa a isto!... + +--Eu lhe digo, prima: se Antonio d'Azevedo não tivesse amado Corinna, +nunca o eu conheceria no Rio de Janeiro; e, se eu não viesse a encontrar +o amigo, o anjo, o honrado amante de Corinna, creia vossa excellencia +que seria hoje o perseguidor d'estas pobres meninas. Foi elle quem me +ensinou, com duas palavras, como o Christo as dizia aos maus, a ser bom, +compassivo e misericordioso. Vi-lhe lagrimas mal abafadas no coração; e +quiz Deus que ellas me cahissem no meu. D'ellas se gerou a felicidade de +todos nós, de todos, menos a d'elle... Adiante... Elle está debaixo da +mão de Deus... A sua hora de premio ha de tambem chegar... Meu primo +Gastão, eu perdi o jogo com minha prima: perdi o direito de me revoltar +contra as suas decisões; mas, ainda assim, o coração põe embargos, e +vossa excellencia será o juiz, e minha prima Mafalda tambem. Eu peço-lhe +para minha esposa sua filha Felismina: antes quero ser irmão que primo +d'estas meninas; hei de sentir alguma vez o prazer de chamar a vossa +excellencia pae. Dá-me sua filha? + +--Com orgulho, com soberba, como a não daria ao primeiro sangue de +Portugal!--exclamou Gastão, conduzindo Felismina aos braços de Fernando. + +O visconde da Cruz felicitou Gastão, e discorreu com enthusiasmo sobre o +pathetico lance, a respeito do qual tambem eu faria aqui de vontade um +discurso, se o leitor quizesse medir sua paciencia com o meu fôlego +oratorio. A chave de oiro com que o visconde fechou a parlanda foi +apresentar todas as licenças necessarias para os noivos se receberem na +egreja parochial de Cedofeita, com dispensa de proclames e attestados +canonicos do imperio do Brazil. Isto deu realces de alegria á +sobre-excitação em que todos estavam. Mafalda queria manter-se em sua +gravidade dos quarenta annos; mas parecia irman de suas filhas. Gastão +andava a querer levantar toda a gente nos braços, e, a fallar a verdade, +não só levantava, mas apertava as costellas franzinas do noivo com todo +o amor dos seus musculos d'aço, musculos que desmentiam a fidalga +placidez, que é condição das finas raças. N'estas idas e voltas, Luiz +Taveira não perdia Leonor de olho, e a espiritual menina, com quanto mui +angelica, d'esta vez dava semelhanças d'aquelles anjos despenhados por +crime de inveja. O deliquio com que ella o fitava parecia dizer: «A mim +não se me dava de me parecer com os mortaes n'estas alegrias da mana +Felismina!» A pachorrenta Emma é que se movia menos n'aquella geral +vertigem. Sentou-se a conversar com o visconde, e teve o descôco de +dizer que já se não podia ter em pé, e que estava saudosa das suas +almofadas de relva nas margens do Lima. + +Seguiu-se, dias depois, o casamento. Não foi fallado, nem estrondoso. +Até os jornaes o ignoraram, ou, se o souberam, vingaram-se da sovinice +dos noivos, deferindo para mais galhardas bodas as quatro phrazes +ramalhudas do costume. + +Ao jantar concorreram unicamente o visconde, seu irmão, e o velho pae +dos Taveiras, ancião de muita gravidade e respeito, um dos velhos +modelos do commerciante portuense, coberto de honradas cans, com muita +consciencia em logar de sciencia, e poucas palavras, mas pesadas a oiro, +e authorisadas como se fossem maximas que encerrassem a experiencia +d'uma longa vida. + +Terminado o jantar, apagado o afôgo dos brindes, e travada serena +pratica ácerca dos verdadeiros bens da vida, Bernardo Taveira fallou +assim: + +--Eu, se tivesse uma filha, havia de procurar-lhe marido dotado com os +verdadeiros bens da vida: que vem a ser saude, honra, trabalho e +religião; religião bastaria dizer, porque ella encerra tudo. No meu +tempo achavam-se moços bons, que não tinham outro dote; e o homem que +acertava com um, dava-se por feliz, se tinha filha a casar, ou grandes +cabedaes a administrar. Eu não sei se ha muitos d'estes moços n'estes +ruins tempos; o que de véras sei é que os poucos que ha, batem ás portas +dos ricos, e estes não lh'as abrem, sem que elles mandem adiante a +certeza de que o seu honrado trabalho está já em bom fructo de acções +bancarias; e, se elles mostram o fructo, sem dar ideia da arvore boa ou +má que os deu, isso tambem não importa... Senhor Gastão de Noronha, eu +hospedei em minha casa um moço chamado Antonio d'Azevedo Barbosa. Era +pobre, e sem occupação. Tinha a sua formatura, a sua habilidade; mas, +apesar de amigos protectores, não tinha que fazer. Muitas vezes eu disse +em mim: «Se eu tivesse uma filha, dava-a a este moço pobre.» O meu +hospede teve razões para sahir de Portugal e ir ao Brazil: dei-lhe lá as +relações dos meus amigos, e a alguns disse eu que o recebessem como +receberiam meu filho. Ia recommendado por sua honra: foi o que mais lhe +valeu lá. Azevedo principiou a trabalhar e logo a ser conhecido como +lettrado. Advoga, e ha de ser rico; e, se não fôr rico, ha de ser sempre +mais do que isso: ha de ser um thesouro de virtudes. Peza-me realmente +não ter uma filha; mas quando vejo que vossa excellencia tem quatro +solteiras, não resisto á vontade de lhe pedir uma em nome de Antonio de +Azevedo. + +Gastão de Noronha ficou estupefacto. Fernando de Athaide avisinhou-se +d'elle, e disse-lhe: + +--O homem veneravel que lhe falla, tem inspiração do ceo, meu primo. +Acceite a felicidade da nossa Corinna. + +--Demora-se a responder, senhor Gastão!--disse o velho com ar triste--Eu +não queria que os rogos dos moços valessem mais com vossa excellencia, +que as minhas singelas palavras. Se alguem aqui pedir mais do que eu, ha +de ser a noiva. Senhora D. Corinna, venha comigo: ha de ajoelhar aos pés +de seu pae. + +Ergueu-se o tremulo ancião, e tomou a mão de Corinna, que era toda +purpura e lagrimas. + +Gastão, sem balbuciar um monosyllabo, fez signal affirmativo, recebeu a +filha nos braços, e osculou-a na testa. + +--Bravo!--exclamou o brazileiro, apertando convulsamente ao peito o +velho Taveira. A esposada e as outras meninas, salvo Emma, foram beijar +soffregamente a irman; Emma, porém, lá da sua cadeira de espaldas, disse +lentamente: + +--Ó Corinna, vem cá abraçar-me, que eu não posso bolir comigo de +cansada! + +Este milagre de inercia fez rir a todos, e desfranziu o semblante de +Gastão. Voltaram á mesa do _toast_ a brindar Antonio de Azevedo. O +fidalgo concordou sem repugnancia nas saudes propostas, e agradeceu a +ultima do negociante, em nome de sua filha, futura esposa de Antonio +d'Azevedo. + +Quando Gastão proferiu estas palavras com enthusiasmo, Corinna da +Soledade descahiu sobre o hombro de sua mãe, e desmaiou. Era um deliquio +de felicidade, um arrobamento de bemaventurança como as santas os sentem +em seus extasis de amor divino. + + + + +XVI. + + +Antonio de Azevedo recebeu, ao mesmo tempo, tres cartas, afinadas todas +pelo mesmo tom de felicidade. + +Abriu primeiro a de Corinna da Soledade: era uma surpreza desde o +principio. Noticiava o casamento de Felismina com Fernando de Athaide, e +os miudos successos decorridos até ás palavras proferidas por seu pae na +occasião do brinde. + +A ultima pagina continha o seguinte: + +«Ainda estamos do Porto; mas brevemente vamos para Lisboa. O primo +Fernando quer que te esperemos lá, onde se hão de realisar os nossos +sonhos, mais cedo do que eu e tu suppúnhamos, ó meu querido Antonio! +Vem, vem no primeiro navio que sahir Ás vezes receio morrer antes da tua +chegada. Temo que me acordem d'este sonho. As pessoas infelizes não +podem familiarisar-se com a ideia de já o não serem! Imaginas tu que +terrores me atormentam, agora, que tão ditosa me sinto, e tão grata +levanto as mãos ao Senhor! Lembra-me que já podes amar-me com menos +ardor; lembra-me que estás embevecido na ambição das riquezas... Ó meu +amigo, até me lembra se terás morrido! Vê tu se ha mais cruel +imaginação! Nem agora me deixa o mau destino! Parece que se está assim +vingando por não poder aniquilar-me! Acode aos meus receios, vem sem +demora, sim? Fernando é um anjo de bondade; sobra-lhe riqueza para dar +abundancia e alegria a muita gente. Não será vergonha recebermos tudo de +sua mão. Que lhe diria o visconde a teu respeito, que elle ficou +pensativo?! Perguntei-lhe o que tinha, e respondeu-me que o teu +caracter, por demasia de austeridade, talvez se não dobrasse á vontade +d'elle. Comprehendo estas palavras: suspeitam que tu recusarás favores +de posição, devida a influencia estranha. É porque não sabem quanto me +amas, meu querido amigo! Eu disse a meu primo que ficava pela tua +docilidade: não me deixes ficar mal, não? +....................................................................» + +A carta de Fernando de Athaide rezava assim: + +«O meu amigo espera que eu de Londres lhe escreva, explicando a surpreza +de uma procuração que lhe deixei, a fim de tomar conta na direcção dos +meus haveres ahi, no caso de eu me demorar na Europa. Escrevo-lhe de +Portugal, onde estou casado com minha prima Felismina. Ja vê que me +compuz com Gastão de Noronha o mais amigavelmente que vossa senhoria +podia desejar. Antonio de Azevedo com duas palavras decidiu do meu +destino; e, se não me engano, abriu uma época de muita ventura para esta +familia, que é hoje a minha, e que deve ser a sua tão brevemente, quanto +depende da sua vinda para Portugal. + +«Eu não lhe peço, apenas lhe digo que venha. Se necessario fosse pedir, +Corinna e eu duvidariamos do seu amor. Bem sei que ha uma certa +dignidade humana, que tem a ferrea inflexibilidade dos corações duros. +Essa, Deus permittirá que não seja a sua: se o fosse, a minha gloria +seria imperfeita, e essa nuvem bastaria a toldar esta festiva luz que me +alegra a alma. + +«Não discutamos tal ponto. Venha, meu irmão. Os meus negocios deixe-os +entregues ao senhor Valentim da Costa, a quem escrevo. + +«Minha mulher offerece uma prenda de noivado a sua futura esposa: quiz, +porém, (caprichos feminis!) que vossa senhoria fosse o portador da +prenda, que ahi lhe ha de ser dada. + +«Na proxima semana partimos para Lisboa. Na sua chegada alli +encontrar-me-ha logo. + +«Corinna tem as tristezas da duvida. Venha dar-lhe a ventura que a mais +ridente esperança não póde dar-lhe...................................» + +A carta do visconde da Cruz incluia a ordem devolvida dos seis contos de +reis, e a historia minudenciosa que Antonio lêra na carta de Corinna. +Como avaliador profundo do caracter do seu amigo, o visconde combatia de +antemão os argumentos de independencia com que esperava ser contrariado; +rematava, porém, a carta censurando-se a si proprio por ter julgado tão +frio amante o homem que, por amor d'um anjo, se expatriara alanceado de +desgostos...... + +Entendam lá o coração humano! + +Antonio de Azevedo lêra as tres cartas surprendido, mas não alegre! Que +nuvem negra lhe cobria o quadro bello a que o chamavam as tres cartas! +Que presagio d'alma lhe antepunha ás delicias convidativas da patria uma +visão triste em que elle parecia cravar os olhos espavoridos! + +Valentim da Costa, que raro sahia de casa, entrou n'este momento. + +--A alegria dá forças!--exclamou elle--aqui está o velho a dar os +emboras ao mancebo, que foi mais cedo compensado do que ordinariamente +costumam sêl-o os bons!... Que é isso?! vossê está triste, Antonio?! As +suas cartas que lhe dizem? + +--Que Fernando de Athaide casara com uma de suas primas. + +--E que mais?... Não é chamado para ir casar com a sua Corinna? + +--Sou. + +--E então? vossê não está ainda louco de alegria? Não cuida em +preparar-se para a ida? + +--Não, senhor; cuido em ganhar a minha independencia. Corinna é a filha +de Gastão de Noronha, e eu sou quem era, quando sahi de Portugal. Estou +pobre como vim. A patria para mim é meramente a terra onde nasci; não é +independencia. Quando aqui vim, foi a legitima vaidade de homem +pundonoroso que me aconselhou; o pundonor aconselha-me agora que não vá +acceitar de mãos estranhas a subsistencia de minha mulher e de meus +filhos. A maior alma é sempre insignificante ao pé da pequenissima alma +em cuja dependencia está. Eu não quero dizer a Corinna que lisonjeie seu +cunhado pelos favores que lhe devemos. Ser-me-ia um permanente +infortunio recebel-os de Gastão ou Fernando. Sou homem: devo-me a mim +proprio. E os homens que não podem viver com muito, vão ás inferiores +escaleiras sociaes procurar a mulher que quadra á sua mediania, e não +devem pensar que o amor os desculpa de irem ás altas classes convidar +uma senhora a descer onde elles estão. Não caso pobre com Corinna, e +tambem não a faço quinhoeira da minha dependencia. Quando eu tiver +ganhado pollegada a pollegada o torrão que me sustente na patria, então +irei. Agora, meu bom amigo, vou dar-lhe conta da minha amargura, que é +mais que tristeza. Corinna, ao receber esta resposta, dirá que eu a não +amo. Fernando dirá que sou indigno d'ella. O fidalgo arrancará do +orgulho ferido injurias contra o meu plebeismo. As irmans hão de +dizer-lhe que eu a sacrifico á bruteza das minhas ambições. A final só +terei por mim a minha consciencia pura, se é que me não ha de pungir a +mágoa de ser assim organisado. Aqui tem, senhor Valentim, que a minha +estrella é má! + +--Má!?--exclamou o velho--É uma estrella de santificação a sua, meu +Azevedo! Sabe o que eu podia fazer? era argumentar comsigo, e leval-o a +convencer-se de que a dependencia só é vergonhosa quando o dependente +abdica de sua dignidade á força de fazer-se inutil; dir-lhe-ia que vossê +com o seu trabalho de jurisconsulto, embora mal remunerado, havia de +adquirir na patria o torrão mais que abundante á sua subsistencia, e que +sua senhora e seus filhos viveriam todos felizes á sombra da mesma +arvore; mas... + +Antonio de Azevedo interrompeu: + +--Os seus argumentos não me moveriam: perdôe á minha rebeldia, meu caro +amigo. A mediocridade, e ainda mesmo a pobreza, podem parecer delicias á +mulher que ama contrariada por obstaculos de nascimento ou de fortuna: o +amor faz milagres taes, desfigurando tudo o que está feito e refeito +pelos seculos, e pelo consenso universal. Quando, porém, o amor cede ao +tempo, á intimidade, aos mais serios deveres da maternidade, e aos +preceitos e preconceitos inexoraveis da sociedade--que acham sempre +traça de se insinuarem mesmo através do colmado do trabalhador de +enxada--a mãe, que se vê pobre, é já mulher muito diversa da noiva que +almejava a pobreza do homem amado. As flores da poesia fructificaram já +em filhos que pedem alimento, educação e futuro. As amigas de infancia, +que pareceram baixas almas por se terem victimado voluntariamente ao +oiro d'um velho e aos epigrammas da mocidade, lá estão ricas, +respeitadas e vaidosas de seus filhos; e com quanto já não conheçam a +amiga pobre que se deu de coração ao coração, culpam-na e condemnam-na +do alto da sua severa abundancia. Ora a mulher, na posição de Corinna, +quando se vê pobre, dois annos depois de casada, e vê ricas suas irmans, +lembra ao marido que peça o amparo d'ellas; e se esse marido é Antonio +de Azevedo, a verdadeira desgraça domestica principia para ambos desde +esse momento. Aqui tem o que sou e o que penso. Julgue-me e condemne-me +o mundo como puder e quizer. O meu pensamento era salvar a dignidade de +Gastão sem lhe dar riqueza, por me ser impossivel adquiril-a; depois eu +levaria o meu pouco á familia que vivia de pouco, e seriamos felizes +todos. Não póde já ser assim. Estão ricos, ou vivem á sombra do homem +rico. Não serei eu quem vá pedir um logar entre pessoas que se haviam de +acotovellar com o plebeu. Que levaria eu que me recommendasse? Se eu +fosse nobre, daria como merito a minha inutil e inerte nobreza; assim, +filho do povo e pobre, todos, menos a generosa Corinna, a seu tempo +perguntariam uns aos outros: «De que serve este homem?» Ora um homem +sabe pontualmente quando os outros perguntam o para que elle serve... Em +summa, cá estou no começo da minha tarefa: Deus dá-me este pensar para +que eu o leve a cabo. Outra cousa, meu amigo. O visconde da Cruz +devolve-me a lettra dos seis contos: aqui a tem vossa senhoria para +rehaver os quatro que benignamente me emprestou. Beijo-lhe segunda vez +as mãos. + +Valentim ia replicar com razões de muita força, que lhe suggeriu o +talvez injusto juizo que Azevedo expendera a respeito das mulheres +devotadas á pobreza dos maridos, quando o bacharel foi procurado por um +negociante. + +Disse o negociante que recebera ordem de entregar trinta contos de reis +fracos a Antonio d'Azevedo, por mandado de Fernando de Athaide, +accrescentando que era tal quantia a prenda de noivado que a senhora D. +Felismina offerecia a sua irman. + +O bacharel disse ao negociante que conservasse em sua mão a quantia, até +lhe ser pedida. + +Sahiu o depositario dos trinta contos, e o doutor exaltou a bizarria de +Fernando de Athaide, aconselhando Antonio d'Azevedo a não dar á sua +dignidade umas parecenças de soberba. + +--É o dote de Corinna, que seu primo lhe dá--disse Azevedo--Quando eu +tiver egual quantia, não me pejarei de ir levantar o deposito. Em +verdade, é grande a alma de Fernando, e por isso mesmo se faz digno de +lidar com almas eguaes á sua. + +O velho sahiu captivo do moço; mais extremoso que captivo; sentia-se +amar como pae; ser-lhe-ia doloroso apartar-se d'elle desde aquella hora. +No termo da vida, longa vida em contacto com as pustulas sociaes, +aquella paragem, áquem da eternidade, era-lhe uma como prelibação das +alegrias dos justos. Pensava o ancião em dar um adeus á existencia, +contente d'ella, e de si: parecia-lhe que as palavras do consolador lhe +suavisariam o trance. Era já egoista da amizade do seu Azevedo: +disputal-o-ia á mesma Corinna, se o visse em preparativos de viagem. + +--Se eu pudesse dar-lhe desde já a independencia!--dizia entre si o +velho--Oh! se podia!... Mas, a dar-lh'a, eil-o ahi está dependente de +mim, e a rejeitar-m'a, e a fugir-me as instancias, e a ser menos meu +amigo! É preciso respeital-o muito para o prender á minha affeição. + +Aqui está a resposta de Antonio d'Azevedo a Corinna: + +«Folgo com as venturas de teu pae, e louvo a Deus por me ter dado uma +casual influencia no melhor remedio de seus males. Tudo me faz crer que +tendes em Fernando um bom irmão. Dá um abraço, por mim, na tua +Felismina, e agradece-lhe o valioso deposito que confiou de mim. Em vez +das joias, que vale este dinheiro, pedir-te-ia, minha Corinna, se +estivesses no Lima, que te adornasses de flores; mas, como vives em +Lisboa, os enfeites das flores valem nada ahi, porque o clima as +requeima logo. Esse sol quer reverberar nas facetas dos brilhantes, +senão ninguem dá por elle. + +«Não tens amor aos teus campos e ao teu rio? Ó minha amiga, ainda me +doem saudades das minhas arvores, ainda peço a minhas irmans que m'as +guardem e cultivem com amor! Não me culpes, se a minha saudade ainda vai +por esse formoso Portugal fóra, para além do ponto onde estás, em busca +d'outros amores. Amores são, que eram já muito em minha alma, antes que +tu m'a reformasses para olhar a futuros. Tinha de meu, quando te vi, um +passado de innocentes alegrias. A idade, cortada de penas, pôde tudo, +menos despojar-me do que lá está, e está para sempre, nas relvas, nas +arvores, nas serras, e no meu Cávado! Vê tu como a criança ainda se gosa +das lagrimas do homem! + +«Que estou eu a devanear, se tu já tens pressa de saber porque vai esta +carta, e não vou eu! + +«Não vou, Corinna, porque é cedo para ser feliz. O puro e duradouro +contentamento custa a merecer, e leva tempo. As alegrias improvisadas +vão como vem. Sobre que bases assentam as nossas convenções de coração, +minha amiga? Voltar eu a Portugal com o necessario para a decencia da +posição em que te conheci. Se eu fosse, faltava-te: tu perdoavas-m'o; eu +é que não podia perdoal-o a mim proprio. A decencia da tua posição não a +tenho ainda. Sei que anjo és, que doce conformidade seria a tua: mas o +mau, o intractavel, e irreconciliavel com os _tremendos nadas_ da vida +positiva, sou eu. Venho da desgraça, e conheço-a: as minhas relações em +Lisboa foram os desgraçados, e estudei-os. Deus confiou-te de mim como +d'um encaminhador e guarda. É forçoso dizer-te que o bom rosto da +fortuna só está sorrindo aos teus olhos, porque és innocente. Se comigo +não tem sido boa, tambem já se abstem de querer enganar-me. A nossa +riqueza, Corinna, é a esperança: esta, juro-te eu, que vale mais que os +milhões de tua irman. Felismina tem tudo que desejava: Deus sabe o que +ella agora deseja!... + +«O que tu queres de mim não é muito amor, e uma casinha além no nosso +Minho, e as serenas alegrias, promettedoras d'um fim de vida socegada? +Lá me tens o coração, e eu cá o espirito a grangear o mais. Não o tenho +ainda: poucos annos bastarão a esta opulencia, que tão pouco vale aqui e +lá. Então, sim, então verás que vai aqui n'este peito a ufania d'um +principe, o santo orgulho d'um operario, que não inveja principes. Hei +de ir procurar-te, não aos bailes de Lisboa, mas sim aos arvoredos do +Lima. De lá irás comigo, sem atravessares pompas de cidades, nem +magnificencias onde te fique prêso um desejo. Lá temos ainda á margem do +meu rio a casa de meus paes: que pobre e formosa vivenda! +Augmental-a-hemos para vivermos todos: plantarás novas arvores, e irás +tomar o teu quinhão das flores de nossas irmans. As tuas arvores virão a +tempo com suas sombras para nossos filhos; e estes, creados nas +asperezas dos montados, e nas asperezas da religião, ir-se-hão fazendo e +formando entre as duas sublimes e unicas poesias: a da fé e a da +natureza. + +«A vida, que me tu pedes, é mui diversa, Corinna. Teu cunhado é um +grande em Portugal, quando o quizer ser. Teu pae e tua mãe anhelam muita +luz para serem vistos, e embriagam-se nos perfumes da lisonja. Esse ar a +mim empeçonhava-me a vida, e não sei se o coração. Ahi amava-te menos, +porque perderia o amor de mim proprio, o amor que me extrema do vulgo, o +illustre vulgo, que é o derradeiro plebeismo, sem individualidade, sem +classe, sem mais religião que a das sensações. + +«Corinna, não te aviltes em te julgares menos amada. Adoro-te +respeitosamente; porque sei que rejeitas o sacrificio da minha +dignidade. + +«Estamos no ponto onde ha quatro mezes estavamos: a mulher corajosa +espera; e o homem, nobilitado por teu amor, quer ennobrecer-se para a +tua mão. Nada mudou, salvo a posição de tua familia. Mas que temos nós +que entender com a riqueza de Fernando de Athaide? A riqueza é d'elle. A +mim era-me egual depender de teu cunhado, ou do visconde da Cruz, ou do +primeiro encontradiço que me offerecesse um obulo. Quando sahi de +Portugal, Felisberto Taveira emprestava-me alguns contos de reis para eu +me estabelecer e casar comtigo. Se então rejeitei um emprestimo sem +desaire, como hei de ir hoje acceitar uma delicada esmola d'um sugeito +que escassamente conheço? + +«Isto será amar-me demasiadamente a mim; e não é menos amar a mulher que +está identificada em minha vida e honra. + +«Adeus, Corinna. A tua alma ha de conservar-se immaculada ahi em Lisboa, +como lá na solidão das nossas terras. Se o mundo te não respeitar, tu +saberás respeitar-te a ti mesma. Ahi e em toda a parte encontrarei +sempre a minha Corinna, cuja animadora imagem eu vejo em tudo que é +adoravel e santo. Adeus.» + + + + +XVII. + + +As cartas de Antonio de Azevedo a Corinna e Fernando produziram o que +elle até certo ponto vaticinara, fallando com Valentim. + +Corinna duvidou do amor, que se desafogava em dissertações mysticas, e +bucolicas saudades d'arvores e de rios. + +As irmans de Corinna, com o louvavel intento de a consolarem, abundavam +no parecer d'ella. + +Fernando de Athaide dizia a sua mulher que não podia caber amor em +coração tão cheio de orgulho. + +D. Mafalda dizia ao marido que era moda a gente baixa fingir philaucia +de fidalgos. + +Gastão, acidulado pelo dito da esposa, deu para baixo na peonagem, e +declarou que sempre esperava que sua filha levasse uma boa lição. + +Acontecera estar n'este ensejo em Lisboa, e hospede de Fernando, o +visconde da Cruz e seu irmão Luiz. A declamação do fidalgo ferira +acremente a dedicada alma do visconde. Tambem este havia de ter uma +carta explicativa do proceder de Antonio d'Azevedo: esperava-a do Porto, +e, sem a ter lido, não queria arvorar-se defensor do ausente. Tanto, +porém, subiu Gastão em sarcasmos contra o _homem de Barcellos_, que o +visconde ergueu-se irado, e exclamou: + +--Senhor Gastão de Noronha! o _homem de Barcellos_, quando vossa +excellencia estava em risco de extrema pobreza... + +Corinna correu contra o visconde, e poz-lhe a mão na boca, supplicando +silencio. A prevista menina sabia que duro vexame o pae ia soffrer com +tal revelação. Calou-se o visconde, e o fidalgo insistiu na continuação +da phrase, com tregeitos iracundos. O visconde ia pegar do chapeo, +quando Emma lhe disse: + +--Não saia assim irritado, visconde. Sou eu que lh'o rogo. + +Parece que Emma podia muito no animo do visconde. + +Fernando travou do braço do cavalheiro, e passou á sala immediata. + +--Vossê--disse elle--ha de dizer-me o resto da phrase. Que fez Antonio +d'Azevedo, quando meu primo estava em risco de extrema pobreza? + +--Mandou-me seis contos de reis para eu lhe valer, sem declarar a seu +primo que os mandava elle. No mesmo paquete em que recebi tal ordem, +veio vossê. Logo que me revelou quem era e o intento com que vinha, +entendi que a posição de seu primo estava mudada. Ainda assim, fui a +Vianna, e offereci dinheiro a Gastão. Como não precisava, devolvi a +ordem a Antonio d'Azevedo. + +--Bem--disse Fernando--é forçoso o segredo? + +--É. Corinna valeu-me n'um impeto de cólera; agora confio de vossê que a +minha palavra, dada ao Azevedo, se não quebrante. + +--Confia bem, visconde. Que admiraveis virtudes as d'este moço! Sabe +vossê que um homem, conhecedor de taes exemplos de honra, nunca está bem +com a sua consciencia!? Eu não sei o que já hei de fazer a favor de +Antonio d'Azevedo!... Aqui me diz o meu correspondente que elle deixou +ficar o dinheiro em deposito até nova ordem. Está claro que o não +acceita... + +--Clarissimo. Se elle não vem, como iria levantar a prenda da +noiva?!--disse o visconde. + +--Que se ha de fazer, meu amigo? + +--Não sei: é esperar que elle tenha o que julga necessario á sua +independencia. + +--Vou dar um passo decisivo!--tornou Fernando, depois de breve +meditação. + +--Qual? + +--Vossê verá. Vamos á sala. Receio que meu primo diga alguma grosseria a +Corinna. + +Quando entraram, a pobre menina estava chorando, e Felismina, +lançando-lhe os braços sobre os hombros, segredava-lhe consolações. + +Fernando approximou-se de ambos, e disse a Corinna: + +--Está tudo remediado. É questão de alguns dias. + +E, voltado a Gastão, disse jovialmente: + +--Olé, primo! o incidente passou: torna tudo ao seu curso regular. Aqui +não se falla bem nem mal de Antonio d'Azevedo. Defendel-o seria +ultrajal-o. Accusal-o seria um vilipendio. Ninguem ficou mais nem menos +do que era. + +Na noite d'esse dia estava Corinna no seu quarto com Felismina, quando +entrou Gastão de affavel semblante. Sentou-se entre ambas, e disse com +mellica entoação: + +--Tu és minha filha, és o meu sangue, tens pundonor de raça, e deves +estar curada, Corinna. Ha muito quem te pretenda; e teu cunhado deixa-te +a administração dos vinculos para tu poderes escolher marido. Tens tres +bons partidos a escolher. O morgado de Villar da Rocha está aqui em +Lisboa, viu-te, e perguntou-me se não estavas promettida. Um filho +segundo do marquez de Travassos, familia mais antiga que a Lusitania, +fez-me egual pergunta. O barão da Teixeira, vindo ha pouco da Bahia, com +mais de quinhentos contos, fallou em ti ao Fernando. Escolhe. + +--Não escolho ninguem--disse resolutamente Corinna--O que eu escolhia +era a morte. + +--Antes isso que a vergonha da familia!--replicou o pae. + +--Que vergonhas dá ella á familia?--perguntou Felismina com os geitos +especiaes de quem tem dois milhões. + +Gastão involuntariamente respeitou a interpellação da filha millionaria. +A bem dizer, a pergunta era irrespondivel. + +D'ahi a pouco estava febril Corinna, e as ancias e soluços tão +frequentes a opprimiram, que a familia houve medo d'algum accesso de +loucura. + +Fernando de Athaide, conscio da brevidade do insulto nervoso, disse ao +primo: + +--Não volte a injuriar a pobre menina, que a mata a ella, e perde a +minha estima. Eu hei de necessariamente fazel-a feliz. Se o não +conseguir, maldigo a hora em que a conheci. + +Dias depois, Corinna sahira do seu quarto, pallida, desolhada e triste. +O sangue mal lhe acudia ao pulso. As palavras sahiam á força de +caricias. Era preciso fazel-a chorar para que as lastimas subissem do +coração aos labios. Fallavam-lhe em Antonio de Azevedo, e as faces +retingiam-se-lhe; mostravam-lhe o anjo da esperança a voejar para ella, +e o sorriso volitava-lhe em toda a face até se confundir com as lagrimas +de jubilo. Mas este mesmo jubilo era um accesso de febre. Os medicos +tinham-se enganado: aquelle quebranto de forças e feições eram +prenuncios de morte. A gente experimentada facilmente diagnostíca estas +insaneaveis doenças: os medicos é que, do cocuruto da sciencia, o que +ordinariamente palpam n'estes symptomas é uma doença que entende com o +estomago ou com o figado. De coração só conhecem lezões, turgecencias, +hypertrophias, aneurismas, &c. Tem assim, e por conta da sciencia, +morrido muita gente, que se curava com um raio de alegria e um pouco de +compaixão do mundo. + +Fernando encerrou-se com Gastão, e disse-lhe: + +--Vou liquidar a minha casa ao Rio de Janeiro. Mandei crenar a galera. +Parto na proxima semana. Minha mulher vai comigo; e Corinna irá tambem, +se o primo a ama e me estima a mim. Se ficar, morre; e se morrer, +Felismina não quer voltar a Portugal. + +--Vai procurar o noivo minha filha?--disse Gastão ironicamente. + +--Vai procurar a vida; e se Antonio d'Azevedo lh'a dér, bem haja o +salvador da nossa Corinna! + +--Pois que vá: nós partiremos para o Minho. + +--Pedia-lhes que ficassem em Lisboa, e não alterassem os costumes de +minha casa. Tenho relações que desejo conservar. Meu primo honrará os +nossos amigos, recebendo-os. Em seu poder fica a porção da fortuna que +tenho em Portugal. A sua estima por mim ha de chegar ao sacrificio de +esperar em Lisboa a nossa volta do Brazil. + +Não se fez rogar o fidalgo. Sujeitou-se plenamente á vontade do genro. + +Recebeu Corinna da Soledade a nova da viagem. Alvoroçou-se até recahir +na febre; mas a crise foi leve, e rapida a convalescença. + +A galera de Fernando, construida em Inglaterra, era garbosa, linda e +leveira como um cysne. A tolda era um camaranchel de sedas, como o das +antigas gondolas de Veneza. O chrisma para «Felismina» fadou-lhe mais +ricos destinos. O amor lhe inventara os adornos, os perfumes, as graças +e garridices que só o amor desentranha de suas fantasias. A sala de ré +era uma ante-camara de sultana. Ia por esses mares fóra aquella concha +de perolas, namorada das auras que ciciavam no velame, imitando as +branduras de suas irmans derramadas pelas moitas dos gestaes. Que +vontade fazia aquella gentil galera de ir ter um mundo na vastidão do +oceano, e não vêr mais que ella e ceo, e um ente amado, debaixo das +estrellas a espelharem-se nos paramos azues das aguas! Como alli o +coração, golpeado na terra, se iria contente, se cá d'estes abysmos +levasse ainda a salvo o condão da poesia que faz sahir mundos sobre +mundos dos abysmos do mar! + +A galharda galera, como ovante da gentil alma que levava, sahiu barra +fóra com todo o panno e prospera monção. A festival menina, por esses +mares fóra, sobre a tolda, a scismar, com os olhos lá no infinito +horisonte, d'onde a chamava o esposo, e os favonios a enfunarem-lhe as +roupas alvissimas... que linda ia! julgareis ver a pomba sobre a arca +fluctuante nas aguas já serenas do diluvio! + +Ao vigesimo nono dia de viagem avistaram pharoes das terras de Santa +Cruz. + +Corinna, ao repontar da alva, subiu ao tombadilho, e viu a cidade +d'oiro, a rainha do novo mundo, espreguiçando-se do ultimo somno entre +os ceruleos coxins do seu immenso leito com pavilhão de mil flammulas e +bandeiras. Parecia-lhe ver caminhar a terra, mar dentro, a recebel-a; +mas tardio era o avançar da galera a encontral-a. + +--D'aqui a meia hora?--disse ella a Fernando. + +--Sim, d'aqui a meia hora, minha egoista!--respondeu o primo, e +continuou sorrindo--D'aqui a meia hora já não tens patria, nem irman, +nem cunhado! O Antoninho, que, a estas horas está escrevendo uns +_provarás_, com o supremo tedio de que é susceptivel a creatura humana, +vai receber um golpe d'alegria mortal!... Haverá no genero humano um +segundo homem a ponto de experimentar prazer egual?! É impossivel que +elle te não adivinhe, mana Corinna! salvo se o coração de um +jurisconsulto é tapado a toda a casta de inspiração divina!........... +...................................................................... + +A este tempo, chegava Antonio d'Azevedo Barbosa, ao caes. + +Adivinhou, com effeito?--pergunta o leitor. + +Nem sombra de presentimento, meu amigo! O que trazia ao caes, e a bordo +de um navio, Antonio d'Azevedo, é successo infausto que tem uma historia +concisa, mas necessaria. + +Um dos irmãos do bacharel, Francisco d'Azevedo, era caixeiro, em Lisboa, +n'uma casa de cambio da rua dos Capellistas. Merecera um bom nome, e +cahira em tentação depois de o ter merecido. As desordens da vida, as +demasias de luxo, a ancia de mostrar-se rico aos olhos d'uma mulher que +distinguia os moços ricos, induziram-no a subtrahir, com intenção de os +repor, capitaes, que excediam os seus ordenados de dois annos. Francisco +jogou na esperança de resgatar-se, e cavou mais no abysmo de sua +perdição. Quasi a ponto de ser descoberto, quando o patrão dava o +balanço, o caixeiro desappareceu, e fugiu caminho do Brazil, confiado na +reforma de seus costumes, e na possibilidade de ganhar depressa com que +restituir o furto. + +Chegou ao Rio, e procurou o irmão. Deu explicações inventadas da sua +ida, e conseguiu logo, mediante Antonio d'Azevedo, boa casa, bom +ordenado e muita estimação dos patrões. + +O bacharel estava contente do expediente de seu irmão. Lembrava-se que +assim mais cedo as irmans teriam bom amparo. + +Lia, passados trinta dias, Antonio d'Azevedo o _Commercio do Rio de +Janeiro_, e casualmente parou os olhos sobre esta correspondencia, +intitulada: _Cautela com os ladrões._ + +E seguia d'este theor: + +«_Fugiu de Lisboa, com direcção ao Brazil, um caixeiro do cambista F***. +Chama-se Francisco de Azevedo, natural de Barcellos. Desfalcou o patrão +em dois contos de reis. Para que o ladrão não logre o bom resultado das +suas manhas, avisa-se o commercio do Brazil._» + +Antonio d'Azevedo viu entre si e o jornal um redemoinho de scintillas de +lume, e, ao levar as mãos aos olhos, tinha perdido os sentidos. Este +lance passára-se no escriptorio de Valentim da Costa. + +Entrara o velho, e ouvira o soluçar cortante do seu amigo. Interrogou-o +com paternal carinho. Azevedo ergueu-se como atordoado, e, ao sahir, +murmurou estas palavras: + +--A infamia está ahi escripta n'esse jornal. + +Foi ao armazem onde Francisco era guarda-livros; entrou no gabinete +particular do negociante, e encontrou-o lendo o jornal. + +O negociante estava correndo a primeira pagina, e a noticia vinha na +segunda. + +--Por cá, doutor!--disse alegremente o patrão de Francisco--Vem saber +como vai o nosso homem? Optimamente. Estou contentissimo. É seu irmão, e +basta! + +Eram frechas que varavam o peito de Antonio de Azevedo! A dor rompeu-lhe +em lagrimas. O negociante viu-as, e exclamou: + +--Que tem o doutor?! Alguma desgraça de familia lá na terra? Morreu-lhe +algum de seus irmãos? + +--Morreu Francisco--balbuciou o bacharel. + +--O quê? morreu Francisco! O doutor está a sonhar! Pois não o viu quando +entrou?! + +--Morreu para a honra--tornou já serenamente Antonio--Ahi está na +segunda pagina d'esse jornal o ignominioso epitaphio do desgraçado. + +--O quê? que diz o doutor de epitaphio? + +Azevedo collocou o dedo indicador sobre a correspondencia. O +commerciante leu, e fez-se amarello. Depoz o jornal, levou as mãos aos +raros cabellos brancos, e disse: + +--Tem razão, doutor! seu desgraçado irmão está morto! + +--Vim para o levar comigo. Queira o senhor dar-lhe ordem de sahir. +Rogo-lhe a generosidade de não lhe dizer a causa por que o despede. + +Deteve-se a scismar o negociante, e disse com energia de boa alma: + +--Vamos ver se o salvamos. + +--Salval-o como? + +--Vai com outro nome para o Pará. + +--O nome não é o infamado; é elle. Creia o meu amigo que eu não vim +pedir-lhe a sua protecção para salvar o homem indigno d'ella. Vim buscar +meu irmão. + +Foi chamado Francisco. + +--Dá contas ao senhor Silva, que vaes sahir de sua casa. + +O guarda-livros fez-se roixo. + +--Não ha explicações previas--tornou Antonio--Apresenta os livros a teu +cargo ao senhor Silva. + +--Os livros estão vistos--disse o negociante--Não tenho a menor suspeita +da probidade do senhor Francisco. + +--Suspeita?--atalhou este. + +--Silencio!--disse imperiosamente Antonio--Vamos. + +O commerciante apertou a mão do bacharel, e lançou ao irmão um olhar +compassivo. + +Francisco hospedou-se com Antonio. Dois dias depois, recebeu de repente +a noticia da sua volta a Portugal, accrescentada d'estas palavras: + +--Entrega esta carta em Lisboa. A pessoa a quem a entregas irá comtigo a +casa do cambista F***, teu patrão que foi. Darás ao cambista o dinheiro +em que elle se disser roubado por ti. Cobrarás recibo, que me enviarás. +Feito isto, recolhe-te a Barcellos, e pede a tuas irmans que te dêem um +quinhão da sua subsistencia. + +Francisco, lavado em lagrimas, quiz ajoelhar aos pés de seu irmão, e +contar a historia dos seus desatinos. + +--Não ha historia que absolva um roubo--disse o bacharel. + +E no dia seguinte, quando elle acompanhava ao navio o irmão, é que a +vistosa galera _Felismina_ se baloiçava, como odalisca, sobre a camilha +azul das aguas que reverberavam o sol nascente, e se cobriam de +scintillante lhama de oiro. + +Olhem a felicidade de Corinna e a felicidade de Antonio de Azevedo! + + + + +XVIII. + + +Antonio de Azevedo foi abrir a reprêsa de lagrimas no seio do ancião que +o esperava com as suas, unico balsamo das supremas afflicções. + +--Veja a minha vida!--disse entre soluços o bacharel--Pensar eu que o +muito trabalhar me daria um quieto contentamento, e que, além dos +dissabores do coração, nunca teria outros!... E agora estes! os da +ultima deshonra! uma vergonha irremediavel que me priva de olhar de +frente para os homens que estimaram meu irmão por amor de mim! + +O velho, combatendo os escrupulos do moço, teve a admiravel e inspirada +eloquencia da verdade. Declinou a deshonra sobre quem a praticara, e +provou ser aquella desgraça mais uma prova para aquilatar as virtudes do +bacharel. Verdadeiros, mas, ainda assim, inconsolativos argumentos! + +Fallaram longo tempo. Valentim não deixara sahir o amigo n'aquella +manhan, receoso de que a solidão lhe amargurasse a mais as apprehensões. + +Quando o moço se impunha a si mesmo o preceito da força para o trabalho, +e o velho insistia nos seus dictames insinuativos de coragem, entrou no +escriptorio Fernando de Athaide. + +Antonio de Azevedo, como a desentorpecer-se de um glacial spasmo, +estendeu-lhe machinalmente a mão e deixou-se abraçar. Valentim fazia um +alarido de exclamações de espanto, que não deixavam ouvir o adventicio. + +--Vejo-o triste e demudado, senhor Azevedo!--disse o primo de Corinna. + +--É oiro que está ainda ardendo da ultima prova!--respondeu o velho--A +desgraça cuidou que o fulminava; mas a honra venceu. + +Antonio d'Azevedo fez um gesto supplicante de silencio ao doutor, e +disse a Fernando: + +--Ninguem o esperava no Rio, senhor Athaide. + +--Foi uma partida repentina. Assim é que se fazem as coisas! + +--Como ficou Corinna?--perguntou Azevedo; e logo as lagrimas lhe +saltaram a quatro, e uma ancia lhe ressumou á face em suor frio. + +Sentou-se quebrantado, e murmurou: + +--Desculpem-me: estou-me fazendo mulher... Estas lagrimas, se as não +chorasse, matavam-me. + +--São de saudade?--disse Fernando. + +--São de desesperança, cuido eu--respondeu Azevedo, escondendo os olhos +com as mãos. + +--Anime-se!--exclamou Athaide--Que descorçoamento é esse, improprio +d'uma alma de bronze! Azevedo, saia d'essa lethargia! Olhe que Corinna +ama-o como sempre, e espera-o com a anciedade d'um anjo consolador de +todas as suas mágoas. + +--Tardia virá a consolação!--balbuciou o moço--Deus me livre de a +condemnar a soffrer debaixo da minha estrella... Escreveu-me ella? + +--Que pergunta! Tenho em casa uma carta sem fim, que o meu amigo ha de +lêr como se ella mesma a estivesse fallando! Venha comigo, e cuidará que +tem entre mãos, não uma carta, mas o proprio coração da sua Corinna! + +--Agora consinto que vá!--disse o velho. + +--E o doutor vem tambem--acudiu Fernando. + +--Vamos lá!--voltou o velho--Vossês os rapazes andam comigo d'aqui +p'r'ali, como se esta gotta não merecesse respeito nenhum á geração +nova! Ora esperem ahi, que eu vou vestir a dalmacia, a casaca +circumspecta! Sua senhora veio? + +--Veio, sim. + +--Ah!--disse Azevedo--está cá a senhora D. Felismina?! + +--Pois eu havia de deixar lá a alma! Então vossê não sabe que marido eu +sou! Minha mulher sou eu--disse com festivo semblante o millionario. + +Sahiram. + +--Isto veio do ceo!--disse Valentim--Quem distrahiria o meu pobre +Antonio, se lhe não chegassem os bons amigos da patria! Vai ter um dia +cheio, meu amigo! Quem lhe fallaria com mais ternura da sua Corinna que +a irman querida! Felismina se chama ella: hoje é que é _feliz mina_ de +consolações para o meu desterrado! + +Assim, com estes dizeres affectuosos do alegre ancião, chegaram ao +grandioso predio, que Fernando habitava. + +Na primeira sala esperava-os Felismina. O doutor, que subia na +dianteira, ao vêl-a, exclamou: + +--Sim, senhores! É muito linda! Ha muito que não vi d'estes fructos da +minha terra! Quero e gosto que as senhoras brazileiras vejam o que lá ha +por Portugal! + +Felismina sorriu-se ao galanteio do velho, e abraçou Antonio d'Azevedo. + +--Como está abatido!--disse ella. + +--Abatido no rosto, mas Sansão na alma!--acudiu Valentim. + +--Acha-me velho?--disse Azevedo--N'este paiz acaba-se depressa o homem +que se não exercita muito, e endurece ao fogo do sol. A sua familia, +minha senhora, ficou boa? A senhora D. Corinna? + +--Como faz essa pergunta, senhor Azevedo!...--disse Felismina--Que +frialdade! Dar-se-ha caso que vossa senhoria não ame já minha irman? + +--Por Deus, minha senhora!--respondeu o moço--Todos os infortunios podem +menos sobre mim que uma injustiça, que deixa de ser injuria por ser dita +por vossa excellencia. + +--Se elle ama sua irman!--atalhou o velho--Ó minha senhora, se os meus +cabellos brancos inspiram confiança, creia vossa excellencia que o meu +Azevedo ama tanto sua irman que, por amor d'ella, excede-se a si proprio +na prática das virtudes. Grande e distincto deve ser o amor que faz o +virtuoso! Vicios e crimes é o que eu tenho visto resultar dos amores +vulgares... + +--Está o senhor Azevedo ancioso por que lhe entreguem a carta de +Corinna--disse Fernando--Vai tu buscal-a, Felismina. + +Abriu-se uma porta, e appareceu Corinna, exclamando: + +--Não preciso que me tragam! + +E cuidam que ella impallideceu, desmaiou, ou, pelo menos, expediu um ai +de procedencia dramatica? + +Não, senhores. Corinna entrou de corrida, leve como um gnomo, a rir e a +chorar, purpureada, com os olhos a saltar-lhe fóra da face, os braços +abertos e convulsos, a respiração como tomada, e os labios crispando +nervosamente, sem poderem proferir o quer que era de que só os +dramaturgos acham sempre uma expressão insipida, incolor e inverosimil. + +Antonio de Azevedo é que (sem desaire seja dito) deu uns ares de +idiotismo, que, na scena, seriam lastimaveis! Abraçou Corinna, como a +medo: era a primeira vez que a sentia nos braços. Fitou-a como quem +duvída; remirou-a, como quem teme um engano dos sentidos; estava-se +acordando do sonho; invocava a sua razão; e, quando a razão lhe mostrou +em volta d'elle todas as faces orvalhadas de lagrimas, é que Azevedo +pôde exclamar: + +--Bem hajas, anjo de Deus!... + +Imagine agora a minha leitora os successos indescriptiveis d'este lance. +Por pouco imaginativa que seja, vossa excellencia ha de avultal-o melhor +em sua fantasia do que eu poderia dar-lh'o n'esta pagina. Uma só poesia +creou a natureza para taes quadros: é a poesia da pintura. + +Foram cinco minutos de febre, de delirio, de silencio, de ouvir-se o +bater forte e descompassado de cinco corações. Ora pintem lá isto, a não +ser em expressão de olhos, de labios, de feições que só, em casos +d'estes, se vos deparam em pinturas christans, onde os enlevos são ceo, +bemaventurança e alegria de santos. E haveis de notar que o proprio +pincel profano antes se quer a pintar expressões angustiosas, porque as +visagens da afflicção mais se prestam ao relevo, como em Niobe, em +Laocoonte, em Ugolino. Quer tudo isto dizer que tenho diante dos olhos +aquelle espectaculo de jubilos, e desisto de descrevel-o para de todo em +todo me não capacitar de minha inhabilidade. + +Porque hei de eu dizer tão affoitamente «espectaculo de jubilos», se +Antonio d'Azevedo, momentos depois, se deixava senhorear da lembrança do +irmão, banido do numero dos honrados! A candida Corinna encarava n'elle +com olhos aguados, e no lacerante silencio de sua alma perguntava a si +mesma, que fizera ella para ser menos amada! De que outro modo se +explicaria a tristeza do moço n'aquella primeira hora! + +Não pôde ter-se que o não chamasse a um ponto mais afastado da sala onde +se tinham ficado Valentim e Fernando, em quanto Felismina sahira a dar +ordens. + +--Tu estás melancolico, Antonio!--disse ella, tomando-lhe a mão com +estremecida ternura--Viria eu contrariar a tua vontade? Estaria eu +enganada comtigo?... + +--Vejo-me indigno de ti...--respondeu Azevedo. + +--Indigno de mim!--tornou ella crescendo no afago da expressão convulsa +de lagrimas--Pois tu não tens sido mais que nobre para seres digno da +mais nobre e pura mulher! Quererás que eu te recorde as tuas virtudes, +meu querido amigo!? + +--As minhas virtudes--replicou o moço--tão frageis eram, que talvez a +esta hora tenham sido reputadas hypocrisia. + +--Ó filho!--exclamou ella--desconfio da tua razão! Muito deves ter +padecido para te considerares assim, quando em volta de mim os teus +merecimentos são louvados com admiração de todos!... + +--Escuta-me para me consolares, Corinna. Deus quiz que tu viesses á hora +em que toda a esperança me ia fugindo... + +Antonio d'Azevedo contou a Corinna a ignominia de seu irmão, e levantou +a voz de modo que Valentim, no angulo opposto da sala, ouviu tudo. +Ergueu-se o velho, caminhou para elles, e interrompeu a exposição do +bacharel. + +--Senhor Antonio d'Azevedo, antes do infortunio de seu irmão, vossê, no +Rio de Janeiro, gosava nome de intelligente, laborioso e honesto; depois +do infortunio de seu irmão, o nome de Antonio d'Azevedo é proferido com +o acatamento de que homem nenhum de sua idade se tem gosado. Os velhos +honrados da sociedade brazileira querem conhecel-o: os portuguezes citam +o seu glorioso procedimento com orgulho. O facto é de ha tres dias, e +tem corrido de bôca em bôca como raras vezes acontece a uma boa acção. +Ora pois! Eu sei bem o que é dignidade; achei que a sua se manteve +sempre na altura dos mais dignos homens d'outros tempos; admirei-o e +louvei-o pelo que outros chamariam demasias de orgulho sob capa de +independencia; agora, porém, é chegada a hora de eu lhe dizer que, assim +como a suave religião se descaminha até ao fanatismo execravel, assim a +briosa dignidade, se perde o rumo do bom juizo, vai dar comsigo n'uns +excessos rudes, insociaveis e repellentes. A sociedade applaude os +virtuosos, mas desadora os que fazem de sua virtude uma tribuna para lhe +censurar as fraquezas. O excesso do bem é um mal que não me aproveita a +mim, nem a outrem. Eu quero que Antonio d'Azevedo se mostre alegre para +que o mundo não diga que a honra tem uns pavores interiores refractarios +ao contentamento. A boa consciencia é alegre, senhor. E o melhor +beneficio que vossê póde fazer aos homens é convencel-os de que vai indo +seu caminho, arrancando os espinhos dos pés, e sorrindo ás novas +desventuras que o impecem. Fallou o velho. Diga agora o anjo, a nossa +Corinna, o que será preciso fazer-se a esta criança decrepita para a +levantarmos do seu abatimento? + +--Se eu pudesse...--balbuciou Corinna. + +Antonio d'Azevedo levou aos labios a mão de Corinna, e murmurou: + +--Emenda tu os defeitos da minha desgraçada indole... Dá-me paz, +Corinna; dá-me a uncção do teu amor, e eu me salvarei de mim proprio... + +--Primeiro passo a dar!--exclamou Valentim da Costa--O primeiro passo a +dar é casarem-se, meus filhos! + +N'este momento entrou Felismina, e disse: + +--Está o almoço na mesa. + +Valentim continuou: + +--Visto que está o almoço na mesa, o primeiro passo a dar, meus filhos, +é... almoçar! + +No decurso da conversação durante o almoço, disse Fernando de Athaide: + +--Ahi vão novidades, meu caro Azevedo. O visconde da Cruz casa +brevemente com Emma, e Luiz Taveira com Leonor. Eliza tem doze annos, e +já é pretendida. Quem de certo nos fica solteira é a nossa Corinna! que +pena! + +Riram todos, e Valentim exclamou: + +--Solteira! essa é boa! Não consentirei eu que a belleza assim seja +ultrajada! Aqui está a minha mão, senhora D. Corinna! É um sacrificio +que faço da minha isempção; mas faço-o para que suas manas se não riam +de vossa excellencia. + + + + +XIX. + + +Tres mezes depois dos grandes successos froixamente descriptos no +anterior capitulo, Fernando de Athaide e sua mulher vinham caminho de +Portugal; e Corinna da Soledade e seu marido Antonio d'Azevedo +habitavam, nos arrabaldes do Rio de Janeiro, uma chacara de modestas +regalias. + +O bacharel era ainda o mesmo laborioso jurisconsulto, associado no +escriptorio de Valentim da Costa. Corinna, simplesmente ajudada d'uma +negra, cuidava do lavor domestico, singelo lavor, que isso mesmo tem de +bom a mediania. + +Quizera Fernando que seus cunhados ficassem habitando a casa onde se +hospedaram, e Azevedo, já receoso de desagradar com suas isempções, mal +se atrevia a rejeitar os offerecimentos; porém Corinna, avaliadora dos +secretos desejos de seu marido, simulou vontade de viver no campo, e +assim o desembaraçou do desgosto de acceitar a magnifica vivenda na +melhor praça da capital. Valentim, aconselhando Athaide no melhor modo +de haver-se com seu cunhado, repetia o que no livro divino de frei Luiz +de Sousa se lê, que o cardeal de Lorena dizia, ao embaixador de +Portugal, com referencia ao santo arcebispo bracharense: «.....se o +quereis ter contente, não lhe deis a comer mais que dois ovos duros.» + +Corinna recebêra de Felismina a prenda dos trinta contos depositados +ainda em poder do commerciante. Foi-lhe, porém, mister guardal-os como +cofre de joias, sem lhe dar destino conducente a alliviar os encargos do +marido. Era um dinheiro que não existia para o bacharel, nem Corinna +buscava occasião de fallar d'elle. + +No tocante a felicidade, alguns periodos de uma carta de Azevedo ao +visconde da Cruz dizem o que basta a convencer-nos de que a possuiam, +quanto ella, n'este desterro, se deixa gosar. + +«............................................................. + +«Ás seis horas da tarde, quando vou do escriptorio, encontro sempre a +minha Corinna sentada n'um pequenino ressaio, como se lá diz no meu +Barcellos, que tenho á porta da chacara. Alli é a minha primeira +paragem, em que o espirito se desfadiga do pesadello das leis: o coração +toma absoluto imperio sobre as minhas outras faculdades, e todo me deixo +adormecer na quietação d'um bem-estar, que só podem conhecer os +operarios d'um dia inteiro, quando ao cahir da noite, se repousam ao +lado da companheira, por amor da qual se cansam e recobram. Os nossos +frugaes jantares são rapidos, e assazoados dos infantis gracejos da +minha Corinna, que os tem sempre novos para encarecer a profusão das +iguarias. Depois vamos por esses caminhos fóra, admirando tudo que nos +vem ao encontro a sorrir: são as arvores e flores de todas as ricas +vivendas d'este luxoso torrão: tudo é nosso, porque, meu amigo, nada +ambicionamos do que vamos vendo. + +«Corinna está-me sempre repetindo a historia dos nossos amores, que eu +acho sempre nova. Os dois bailes do Porto em que a vi; as primeiras +palavras que eu lhe disse, com destemperada lamuria; os seus pensamentos +lá no Lima, dia por dia, e hora por hora. Sinto-me duplicadamente viver +na sua vida passada; parece-me que estou tomando posse d'uma existencia +que devia ser minha desde então. + +«Deito-me cedo para me levantar com a aurora. Corinna lê até tarde: lê +alto em quanto vê que eu a escuto; depois, vai diminuindo gradualmente a +voz até me ver adormecido. Rirás tu d'esta miudeza de traços no quadro +da felicidade domestica? Se ris, visconde, mal de ti, que os não has de +saber gosar. Uma coisa magnifica, estrondosa, e apparatosa, que vai pelo +mundo, chamada Felicidade, feitas as contas, sabes o que é? É isto, são +os singellos prazeres, que não valem nada descriptos, e são a +bemaventurança sentidos. E não valem nada, porque a gente que os lê, +pensa que pouco vai de desejal-os a tel-os. Que engano! A mais facil +felicidade é a que requer mais grande coração e pura consciencia. Se +estes bens fossem communs, todos eramos felizes. Nós antes queremos ser +todos ricos......................................» + +Valentim da Costa foi, um domingo, jantar com os _seus filhos_, termo de +muita amizade com que elle os acarinhava. N'esse dia se completavam os +setenta e nove annos do ancião. Depois do jantar, desceram a sentarem-se +debaixo das quatro palmeiras, que davam o usurpado titulo de chacara á +casinha dos venturosos. Ahi fallou sempre o velho, com a perdoavel +vaidade de quem sabe tudo do passado, e possue a chave dos futuros. Ora! +por onde elle andou! Foi cavar na raiz da revolução franceza, contou a +vida de Napoleão, a fuga de D. João VI, as anecdotas da côrte, a +infancia e juventude do senhor D. Pedro IV, a mocidade estudiosa e as +virtudes civicas do actual imperador do Brazil, e tudo isto para +concluir que o presente era melhor que o passado, e que o futuro será +melhor que o presente. E a tal proposito ajuntou: + +--Vossês não façam caso do que eu disser, quando elogiar as coisas e +pessoas do meu tempo. O _seu tempo_ é a balda dos velhos, que, ao +verem-se carregados de tempo, não só querem que seja _seu_--o que +ninguem lhes contesta--; mas até querem que o tempo d'elles fosse a +melhor quadra dos dezenove seculos que já lá vão. Ora eu, que sou velho +e ao mesmo passo rasoavel, se duvidasse das virtudes d'este tempo, +duvidaria das vossas, meus filhos. Dizem que a velhice é egoista, e +morre devorada de odientos ciumes da geração nova, não só porque é boa +de indole, que tambem por ser inventora das regalias que vieram tarde +para ella. Deus me livre de ir á eternidade com este trambolho agarrado +ás pernas: bem me basta a gotta! Eu cá de mim até folgo de acabar, +quando começa uma transfiguração na face da terra, coisa nem sequer +sonhada ha quarenta annos, quando eu e os meus contemporaneos +motejavamos o desconfortavel viver de nossos paes. Não me dirão o que +nós tinhamos mais do que elles, ha quarenta annos?! Vossês é que podem +rir-se de mim e dos meus; mas nem por isso lhes quero mal de inveja. O +meu amor á gente nova chega a ponto de eu me desejar morrer no meio +d'ella. Querem-me os meus filhos trazer para sua casa? Eu estou por alli +sósinho n'aquella rua do Ouvidor, muito rica, e muito bulhenta. Tenho lá +tres pretos e tres pretas a quem quero dar a liberdade, e os diachos não +a querem! Olhem que é forte mania a dos que dizem que a escravidão é o +antagonismo permanente com a ideia de Jesus! Se os meus pretos fossem +novos, e eu lhes désse liberdade, os pobresinhos, em vez de irem aos +seus sertões respirar ar livre, assoldadavam-se a senhor que os +carregava de trabalho; ora, como os meus escravos são velhos, os +coitados não querem a liberdade, que para os de sua especie é uma +palavra van. Pois se eu me não posso, nem devo desfazer d'elles, +peço-vos que m'os deixeis trazer comigo para a vossa companhia. Verdade +é que esta casa é mui estreita para tanta negraria, e commodidades d'um +hospede octogenario. Aqui é que o meu Azevedo ha de mostrar-se amigo do +seu velho. Está alli abaixo uma boa casa, com muito arvoredo em roda. +Vai o meu filho arrendar aquella casa, e recolher-se a ella com o seu +mestre de leis. Faça de conta que eu sou um pulvereo praxista que vossê +tem na sua livraria... O ingrato não me responde. Vou voltar-me para a +minha filha Corinna. Faz-se o que eu peço? + +--Faz--disse Corinna, sorrindo ao esposo. + +--Pois então--tornou o velho--já d'aqui não saio. Onde me dais agasalho +esta noite? Quero já saber onde está o meu quarto. + +No dia seguinte, Azevedo arrendou a chacara magnifica, mudou para ella +com o ancião, e com os seis velhos escravos e amigos de Valentim. Logo +ao segundo dia, o hospede chamou Azevedo, e disse-lhe: + +--Eu tambem tenho a minha dignidade, a minha vaidade e o meu orgulho. +Quero entrar com a minha quota parte para as despezas da casa, minhas e +da minha pretaria. Arrendamento da chacara, a meias; o importante da +cozinha, isso é cá com o anjo dos lares, com a nossa Corinna. + +Antonio d'Azevedo ia contrariar o velho, e reteve-se ante um gesto de +desagrado, e logo esta risonha exclamação: + +--Vossê cuida que tem mais pundonor que eu! + +Este viver continuou assim seis mezes. Corinna tinha ouvinte certo ás +suas leituras em quanto o marido dormia. Valentim repousava tres horas +em cada noite, e velava as outras, folheando papeis, e dando expediente +a negocios attinentes aos seus haveres. Algumas vezes ia á cidade em +carruagem que comprara n'este ultimo praso da vida, não tanto para elle, +como para os passeios de Corinna. Valera-lhe a gotta para colorir o +presente aos seus queridos commensaes. + +N'este tempo as cartas vindas de Portugal davam a noticia confirmada dos +casamentos de Emma e Leonor. As duas noivas tinham ido para o Porto com +seus maridos, e Felismina com seu marido e o primogenito estavam nas +margens do Lima, ou no palacio reconstruido de Fernão de Athaide, onde o +filho natural mandara acastellar os telhados. Fernando era já visconde +do Ameixial, e estava pasmado da barateza da coisa, em comparação do +muito que dera por uma commenda cinco annos antes. Tinha sido logrado +pelo procurador. + +Gastão de Noronha, D. Mafalda e a menina mais nova tinham ido a Paris +comprar mobilia para renovar a decoração do palacio de Lisboa. Esta era +a razão ostensiva que o publico deve acceitar por ser melhor, se não a +mais ajuizada; mas os indiscretos portuguezes que então estavam em +França, disseram que o ainda robusto Gastão de Noronha fôra espairecer +saudades de uma duqueza, ou duas duquezas, ou mais seriam, que, pelos +modos, em Paris, isto de amar quatro duquezas é coisa mais que frequente +a quantos portuguezes lá vão, como eu tenho visto nos apontamentos de +pessoas que lá estiveram quinze dias. D. Mafalda é que ha de saber a +verdade de tudo. + +Com estas noticias chegou outra concernente a Francisco d'Azevedo. O +caixeiro chegou a Lisboa, pagou a sua divida, mandou o recibo ao irmão, +foi a Barcellos, vendeu a pequena legitima, abraçou suas irmans, e +tornou a Lisboa, d'onde partiu para a Africa. + +As quatro meninas das margens do Cávado viviam abundantemente. Seu irmão +Joaquim, já estabelecido e coadjuvado pelos Taveiras, occorria-lhes a +todas as necessidades, dava-lhes tudo, menos o prazer de leval-as ao +Porto, porque o irmão do Brazil, em todas as cartas recommendava +instantemente, que as deixasse estar em Barcellos com as arvores e +flores da casa paterna. Outros dois irmãos de Azevedo, sem importancia +n'esta chronica de familia, exerciam probamente a profissão do +commercio. + +--Todos felizes!--exclamou o velho, que ouvira attentamente lêr as +cartas, como se fossem de familia sua--Todos felizes! Só o meu pobre +Azevedo ainda a trafegar para o pão de cada dia! Os dois contos de reis, +ganhados nos primeiros mezes, lá se foram na restituição do Francisco. +Desde então para cá as economias são impossiveis! Esta Corinna é uma +grande avára! Tem alli na gaveta trinta contos, que ella chama os seus +alfinetes de noiva, e não os quer arriscar nas despezas da cozinha! Ora +deixa-te estar, minha sovina, que te não hei de deixar em testamento as +minhas tres pretas velhas! + +--O Antoninho não quer o dinheiro...--disse ella, afagando o cabello do +marido, que ria muito do sainete comico do velho--Ha que +tempos--continuou ella--eu não vi o meu thesouro! Vou-lhe desafiar a +inveja, doutor, a mostrar-lhe as minhas notas! ora espere... + +Foi Corinna a uma gaveta de sua commoda, e voltou pallida, exclamando: + +--Ó Antoninho! mudaste o dinheiro da gavetinha do meio? + +--Eu nunca soube onde tinhas o teu dinheiro--respondeu placidamente o +marido. + +--Não está lá... roubaram-m'o--bradou ella. + +Dias antes tinha fugido uma negra, alugada para a cozinha. + +--Seria a preta?--perguntou tranquillamente o bacharel--Póde +proclamar-se rainha nas suas senzalas a negrinha! + +Corinna mostrava-se afflicta. O marido chamou-a a si, encostou-a ao +seio, e disse-lhe com muita meiguice: + +--A tua grande alma, minha filha? Então! ha ahi dinheiro que valha uma +lagrima tua, Corinna? Imagina que Deus te experimentava, privando teu +marido da saude de tres dias! Que farias então, minha amada?... Quantas +vezes darias os teus trinta contos por uma tisana que me restaurasse?! +Quero só ver-te lagrimas, quando eu as chorar. + +--Tens razão!--exclamou ella--Estou alegre! perdoa á minha fraqueza de +mulher, sim? Quem me visse chorar, julgaria que eu amava aquelle +dinheiro inutil! + +--Pois sim; tudo isso é muito admiravel--exclamou o velho--mas é +necessario annunciar a fuga da ladra, agarral-a e despedaçal-a com o +azorrague! + +Antonio de Azevedo ergueu os hombros e sorriu. Corinna fitou os seus +humidos e negros olhos em Valentim, e murmurou: + +--Despedaçal-a! Coitada da infeliz! + +--Essa agora é que não é piedade irreprehensivel, menina!--redarguiu o +velho--Chama _coitada infeliz_ á negra que lhe rouba uma quantia que em +Portugal se chama _uma fortuna_!... Eu tomo a negra á minha conta! Ha de +ser cortada pelo azorrague! + +--Não deixes, Antoninho!--clamou Corinna, tomando-lhe o rosto entre as +mãos. + +--Não deixo, não, filha. O doutor está feroz; mas aquillo passa-lhe. + +--Ora, senhores--tornou o velho tregeitando espanto--O nome, que isso +tem em boa hermeneutica, é _fomentar o crime_! A sociedade não se serve +assim! É preciso que cada qual contribua com o cauterio para lhe +extirpar os cancros que a corroem. + +--Parece que está no tribunal, doutor!--disse Azevedo--A velha +eloquencia é ainda brilhante; mas a lei nova, a lei do justo que os +fariseus azorragaram, manda cahir o azorrague das mãos do offendido, e +castigar moralmente o culpado. + +--Moralmente!--retorquiu o doutor--Com que então vossê crê no moral dos +negros?! + +--Creio na alma dos negros. + +--Isso é uma impiedade! + +Azevedo riu-se, e, por momentos, duvidou do concerto intellectual do +velho. + +Mas, a esta injuriosa duvida, ergueu-se o velho, e caminhando para +elles, com os braços abertos, exclamou: + +--Não calumniemos a negra, meus filhos! Abraçai-me, anjos! Eu quiz +experimentar a vossa caridade! Abraçai-me, santos da honra e da +misericordia, que os vossos trinta contos quem os furtou fui eu! + + + + +XX. + + +Em uma tarde de maio de 1849, ao oitavo mez de ceo sem nuvens n'aquella +chacara, onde á competencia os tres ditosos moradores se davam alegrias, +chegou o anjo pallido da morte, e sentou-se no limiar d'aquelle éden, +como para vedar o accesso ao anjo do contentamento. + +A um lado do leito de Valentim da Costa estava Corinna da Soledade, com +o cotovello apoiado no travesseiro e a face na palma da mão esquerda, +orvalhada de lagrimas. + +Do outro lado Antonio de Azevedo, com as mãos entrelaçadas debaixo do +rosto que encostava á borda do leito, erguia a espaços os olhos +lagrimosos, e cravava-os nas faces emaciadas e lividas do ancião. + +Aos pés do leito estavam sentadas duas velhas negras soluçantes, com os +rostos escondidos entre os joelhos. + +Na ante-camara moviam-se pé ante pé os restantes dos antigos servos de +Valentim, e cada um por sua vez, de instante em instante, vinha, por +entre os cortinados de cassa, espreitar o enfermo, e retirava com as +mãos postas e o coração em ancias e suspiros. + +Valentim da Costa tinha sido confessado e ungido n'aquella tarde. A +sciencia retirara ante a irremediavel decomposição dos oitenta annos. + +Mas Corinna e Azevedo não podiam convencer-se de que o seu amigo havia +de morrer assim, quando, a intervallos, o ouviam discorrer com o socego +e energia moral dos mais saudaveis dias. Era a alma imperecedoira +allumiada já pela claridade do empyreo: era a prova suprema que ella +estava dando de sua immortalidade. A cryzalida desfazia-se, e a +borboleta do ceo, n'aquelles assomos de intelligencia, ensaiava seu +voejar para o alto. + +O moribundo descerrara as palpebras, e dissera: + +--Não devia eu esperar tão suave morrer. Homem que viveu sósinho os +annos da juventude e força, morrera sósinho. Não quiz o Altissimo que eu +pagasse amargosamente a minha incuria. Eis-me com filhos e amigos em +volta do meu leito. Bemdito seja o Senhor! + +Falleceram-lhe forças, e descahiram as palpebras transparentes, flacidas +e azulejadas. + +D'ahi a pouco reabriu os olhos, fez signal a Antonio d'Azevedo, e +indicou-lhe o travesseiro, que forcejou por levantar. + +Azevedo correu a mão por debaixo do travesseiro e tirou papeis, que +offereceu ao ancião. Este não pôde erguer os braços quebrantados, e +disse: + +--Um é o meu testamento; o outro papel é a minha despedida de vós. Está +escripto ha quinze dias: escrevi-o quando conheci o fim. Lêde-o vós, +filhos; quero ouvil-o; o coração quer ainda o goso de se escutar. + +Antonio d'Azevedo abriu vagarosamente a folha dobrada em oitavo, e leu +com tremor de suspiros: + +«Um secreto aviso me manda preparar. Não posso dizer como o santo:--O +meu coração está prompto--; mas vejo o termo da viagem sem susto. A face +do Juiz transluz misericordia. O meu Creador foi para si que me creou. + +«É dôr deixar-vos, filhos; porém saudades haverá mais pungentes entre os +vivos que se apartam. A providencia divina permitte que o aspeito da +morte seja menos afflictivo, quando em verdade ella está comnosco. Ai de +nós, se este desapego da terra, onde se é feliz ou se espera sel-o, não +existisse! O morrer custa ruins quebrantos da materia; mas a alma como +que se está despenando e alegrando para ir ao seu destino. + +«Vou deixar-vos, meus amigos. Chorai-me, porque vos quiz muito, e vos +fui grato ás doces horas que me déstes. Chorai-me, porque ao moribundo é +consolador o pranto dos que lhe deram os risos da ventura. + +«Ficaes novos e ricos. Pela vida além haveis de encontrar muita gente +affligida: sêde valedores de todos, e associai sempre o meu nome á vossa +beneficencia. Assim viverá comvosco uma faisca d'esta chamma, que não +póde ser toda vossa, por ser de Deus. + +«Dai-me sepultura, e ide depois para a patria e para os vossos. Empregai +lá a vossa actividade menos em accumular, que em repartir a sobejidão de +vossa riqueza. Quando houverdes filhos não lhes ensineis a honra do +rico, que essa é facil: ensinai-lhes a honra do pobre, a honra de +Antonio d'Azevedo e a abnegação de Corinna. Vivei de modo que a vossa +descendencia se glorifique do exemplo, quando vossos nomes estiverem já +esquecidos. + +«Estou a dar-vos conselhos, como se carecesseis d'elles: desculpai ao +velho este fraco da muita idade. É uma missão paternal que cumpro. Se eu +tivesse dois filhos, exemplares em virtudes, havia de fallar-lhes assim. +Deixai-me acabar n'esta abençoada illusão. Admoesto-vos, meu Antonio +d'Azevedo, a que deis de mão ao grande pezo do trabalho. O que hontem +era precisão, será ámanhan sêde sobre sêde de riquezas inuteis. O +bastante é muito pouco. Da riqueza de vossa alma é que deveis ser grande +dissipador: derramai-a em preceitos, conselhos, allivios e censuras. O +solitario virtuoso é um egoista do ceo. Ide ao meio do povo e fallai. O +homem sósinho póde ter muito de que alegrar-se; mas não alegra os +milhares de infelizes que gemem, e a gemer se vão despedaçando. + +«Sabei que eu, á custa de sessenta annos de trabalho, cheguei a esta +hora podendo dizer que não tenho um ceitil. Tudo dei a uns, e perdoei a +outros. Os bens de fortuna, que vos lego, deu-m'os uma herança, no +ultimo quartel da vida. Ahi vol-a transmitto. Foi sempre meu intento +deixal-a a pobres: sei que fica sendo vossa e d'elles. + +«Agora abraçai-me, e dai-me o vosso adeus.» + +Antonio d'Azevedo fôra algumas vezes embargado pelas lagrimas, e +Corinna, com os labios postos na mão do moribundo, soluçava mui anciada. +No final da leitura, Valentim fez um vão esforço de levantar os braços +para receber os dois filhos que se achegaram ao seio d'elle. Os escravos +tinham entrado todos de roldão, e beijavam-lhe os pés por cima da +coberta. O agonisante relanceou os olhos de sobre elles para a face +d'Azevedo, e murmurou: + +--Serão vossos amigos tambem... Levai-os... Os pobrezinhos morreriam de +saudade... e miseria. + +Os negros ajoelharam de mãos postas, e oraram. Corinna insensivelmente +ajoelhou tambem, conservando entre as suas a mão do moribundo. + + + + +CONCLUSÃO. + + +Passados seis mezes, á porta do quinteiro de uma pequena granja, visinha +de Barcellos, parou uma liteira, d'onde apearam Antonio d'Azevedo e +Corinna da Soledade. Logo em seguida, chegaram algumas cargas, +acompanhadas por negros, em volta dos quaes o rapazio de Barcellinhos +fizera grande alarido de apupos e espirros. Das tres escravas, uma só +resistira á saudade do senhor; os pretos viviam todos, amparados pelo +bom tracto dos novos amos. + +As irmans do bacharel vestiam as suas mais vistosas e secias galas. Eram +quatro frescas moças, robustas, côr escarlate de quem vende saude, +alegria a desbordar do coração aos olhos, e um rir franco e aberto de +innocencia, e felicidade expansiva. + +Corinna abraçou-se n'ellas, que a levaram em andor para o primeiro +sobrado. N'este sobrado, algum tanto escuro, rescendia um acre de +rosmaninho e alecrim, como em festividade de presbyterio. Por cima de +mesas, commodas, e banzos das janellas, tudo eram jarras de louça +ordinaria com grandes feixes de dhalias, rozas e folhudos gira-soes. O +oratorio estava aberto, e allumiado o crucifixo com a lampada usual, e +mais duas vellas de cera de meio arratel, voto da mais nova das meninas. +Os frizos do sanctuario eram grinaldas de flores, atadas pelas hastes +umas n'outras, enfeite de menos engenho que apparato. + +Antonio d'Azevedo entrou depois de sua mulher; sentou-se em um tamborete +de coiro; descobriu-se, quando deu pela imagem do Christo, e murmurou: + +--Finalmente! + +Corinna da Soledade sentou-se á sua beira, e disse-lhe: + +--Que celestial graça tem isto tudo, ó filho! + +--Aqui tens a pobre casa onde nasci. Corinna!...--disse Azevedo, +relanceando em redor os olhos humidos--Isto póde explicar a estreiteza +das minhas ambições. Moldou-se-me a alma nas dimensões acanhadas d'esta +casinha. Olha as flores de que eu tinha tantas saudades! Alli tens a +minha banca de estudo... Lá estão ao lado do oratorio os meus primeiros +livros... Mas como isto é pequeno! Como caberemos aqui! + +--Perfeitamente, Antoninho!--disse Corinna. + +Entrou, n'este ensejo, Joaquim d'Azevedo, o negociante do Porto, que +ficara arrumando n'outro sobrado os bahus. + +--Não sei, não sei como hão de caber aqui, meus irmãos--disse elle, +rindo--Tu já sabes, Antonio, que, além d'esta saleta, e dois quartos, +segue-se um casarão velho, e umas oito alcovas, de que os ratos estão de +posse immemorial. Ora vem ver! Estou certo que a nossa Corinna vai ficar +espavorida! + +Abriu Joaquim de Azevedo a porta que abria para o casarão. Antonio fez +pé atraz de maravilhado. Tinha diante de si uma sala luxuosamente +trastejada, com janellas lateraes rasgadas em arco, e envidraçadas a +cores. A jardineira central estava cogulada de flores raras, e ricas +encadernações de albuns. A um lado o piano. A outro a othomana e as +cadeiras de respaldo em setim amarello. No centro, o lustre pendente do +estuque primorosamente lavrado da mais engenhosa filagrana. Ao fundo +d'esta sala estava um quarto com recamara, espaçoso, alegre, com alfaias +de muito valor e gosto. + +--É o vosso quarto, meus irmãos--disse Joaquim--Ao lado tendes outro: +será o do vosso primeiro filho. Quando os filhos augmentarem, iremos +rompendo com o edificio pelo campo, ou daremos á casa a largura que +precisa para corresponder ao comprimento. O defeito não foi do mestre +architecto: foi meu por tua causa. Era preciso, cá para o meu plano um +pouco de peça magica, que tu visses a frontaria da velha casa, e não +podesses ver o fundo. O que era de nossos paes, está em pé; tens que +farte onde ver o teu passado; tudo se conservou por amor de ti, que tens +lá essa poesia das casas velhas. Mas has de perdoar que eu tenha +destruido o casarão, antes que os ratos devorassem as nossas irmans. + +Antonio abraçou Joaquim de Azevedo com fervorosa alegria, e este, com o +outro braço, apertou Corinna ao peito. + +Seguiu-se um dia e muitos dias de contentamento incessante. A cada hora +em que se encontravam juntos, á mesa, no jardim, nos campos, ou á margem +do Cávado, era uma festa, uma alegria de crianças! + +Gastão de Noronha estava já em Lisboa, de volta de França, onde se +deteve um anno a comprar a mobilia. Aquellas duquezas eram os seus +peccados! + +Fernando de Athaide desceu do alto-Minho a receber seus cunhados na +quinta do Lima. Tambem Corinna queria ir reconhecer os arvoredos de sua +infancia, e mostrar ao marido os logares onde chorara mais lagrimas de +saudade. N'esta quinta se reuniram as quatro irmans casadas. + +Emma, viscondessa da Cruz, tinha nutrido muito; e, com quanto o jubilo +lhe désse azas, não cessava de queixar-se dos incommodos de tamanha +viagem, desde o Porto alli! Leonor, casada com Luiz Taveira, ria muito +da irman gorda, chamava-lhe o ideal da preguiça, e saltava muito, +pendurada no braço do marido, que era doido por ella. O velho Bernardo +Taveira seguiu os filhos, e fazia discursos, que ninguem lhe ouvia, +excepto Antonio d'Azevedo, que via n'elle um dos classicos velhos +talhados a molde das virtudes de Valentim da Costa. Dias depois, chegou +Gastão de Noronha, Mafalda e Elisa, a mais nova, e ainda solteira das +meninas. Gastão, com todo o aprumo de sua fidalga altivez, approximou-se +do genro Azevedo, abraçou-o cordialmente, e disse-lhe: + +--Meu caro commendador! + +--Vossa excellencia está enganado!--disse o attonito Azevedo--Eu sou, +salvo a pequena differença de alguns cabellos brancos, o Antonio de +Azevedo de 1844. + +Gastão tirou da algibeira uma chapa refulgente da ordem de Christo, e +disse: + +--Aqui tem! É o meu presente de noivado. + +--Muito agradecido a vossa excellencia--disse Antonio +d'Azevedo--Qualquer dadiva de vossa excellencia me alegra; e esta, que +tanto luz, deve ser muito agradavel entre os brinquedos de meu primeiro +filho. + +--Mas eu quero que a use--tornou o sogro. + +--Na minha aldeia?--perguntou o genro. + +--Em Lisboa, para onde eu quero que o senhor vá gosar a vida e a riqueza +que tem. A minha Corinna não se fez para o mato de Barcellos. Não é +assim menina? + +--Respeito muito a vontade de meu pae--disse Corinna com submissão--mas +a nossa casa é em Barcellos, e as minhas flores estão lá por aquelles +matos. Tenho lá uma segunda familia que me chama, e á qual eu tenho +escrupulos de roubar por mais dias o seu irmão querido. Ámanhan +partiremos. + +Antonio de Azevedo, sem temer reparos, cedeu á alma reconhecida, e deu +um beijo na face de sua mulher. + + + + +EPILOGO. + + +Lá vão quatorze annos. + +Não me consta que tenha morrido algum dos personagens que ha instantes +vimos tão alegres nas margens do Lima. + +Conhecem romance em que tenha morrido tão pouca gente? Eu não! Se +aquelle santo do Rio de Janeiro não vergasse debaixo dos oitenta annos, +ainda agora podia estar no seio da patriarchal familia de Barcellos, +onde elle tencionava acabar seus dias. + +As irmans de Antonio de Azevedo estão todas casadas, e senhoras de boas +casas de lavoira e numerosa descendencia. + +Está ainda solteira Eliza, a irman mais nova de Corinna. Tem hoje trinta +e um annos. É ainda formosa. Se o leitor é solteiro e rico... (não será +mau que seja rico, para maior segurança) póde dar a este romance um +supplemento, casando com aquella senhora, que está aqui em Lisboa. Eu de +muito boa vontade, na segunda edição d'este romance, darei a possivel +immortalidade ao acto. + +Pude tambem saber que o menino mais velho de Antonio d'Azevedo amolgou a +commenda na borda de um tanque, e acabou por atirar com ella a um poço. +Que grande democrata se está alli criando! + + +FIM. + + + + + +Notas: + +[1] O _Snr. Antonio Pereira da Cunha_. + +[2] O _Snr. José Barbosa e Silva_, author do romance==Viver para +soffrer. + + + + +Lista de erros corrigidos + + +Aqui encontram-se listados todos os erros encontrados e corrigidos: + + + +----------+-------------------------+----------------------+ + | | Original | Correcção | + +----------+-------------------------+----------------------+ + |#pág. 65| Ningnem | Ninguem | + |#pág. 164| pimas | primas | + |#pág. 178| ao labios | aos labios | + |#pág. 184| nogociante | negociante | + +----------+-------------------------+----------------------+ + +Foram mantidas as variações de nomes próprios. + + + + + +End of the Project Gutenberg EBook of Estrellas Propícias, by +Camilo Ferreira Botelho Castelo Branco + +*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK ESTRELLAS PROPÍCIAS *** + +***** This file should be named 33788-8.txt or 33788-8.zip ***** +This and all associated files of various formats will be found in: + http://www.gutenberg.org/3/3/7/8/33788/ + +Produced by Rita Farinha, Alberto Manuel Brandão Simões +and the Online Distributed Proofreading Team at +http://www.pgdp.net (This book was produced from scanned +images of public domain material from the Google Print +project.) + + +Updated editions will replace the previous one--the old editions +will be renamed. + +Creating the works from public domain print editions means that no +one owns a United States copyright in these works, so the Foundation +(and you!) can copy and distribute it in the United States without +permission and without paying copyright royalties. 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You may copy it, give it away or +re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included +with this eBook or online at www.gutenberg.org + + +Title: Estrellas Propícias + +Author: Camilo Ferreira Botelho Castelo Branco + +Release Date: September 21, 2010 [EBook #33788] + +Language: Portuguese + +Character set encoding: ISO-8859-1 + +*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK ESTRELLAS PROPÍCIAS *** + + + + +Produced by Rita Farinha, Alberto Manuel Brandão Simões +and the Online Distributed Proofreading Team at +http://www.pgdp.net (This book was produced from scanned +images of public domain material from the Google Print +project.) + + + + + + +</pre> + + +<div> +<div class="fbox"><b>Nota de editor:</b> +Devido à +quantidade de erros tipográficos existentes neste texto, +foram tomadas várias decisões quanto à +versão final. Em caso de dúvida, a grafia foi +mantida de acordo com o original. No final deste livro +encontrará a lista de erros corrigidos.<br /> + +<br /> + +<div style="text-align: right; font-style: italic;">Rita +Farinha (Setembro 2010) +</div> + +</div> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h1>ESTRELLAS PROPICIAS.</h1> + +<br /> + +<h4><br /> + +</h4> + +<h4>OBRAS DE CAMILLO CASTELLO BRANCO<br /> + +QUE SE ENCONTRAM Á VENDA<br /> + +NAS<br /> + +LIVRARIAS DE VIUVA MORÉ</h4> + +<br /> + +<h4>PORTO E COIMBRA.</h4> + +<br /> + +<div class="sbreak"> +<hr /></div> + +<br /> + +<br /> + +<table style="text-align: left; width: 100%;" border="0" cellpadding="2" cellspacing="2"> + + <tbody> + + <tr> + + <td>Abençoadas lagrimas, +drama</td> + + <td style="text-align: right;">240</td> + + </tr> + + <tr> + + <td>Amor de +perdição</td> + + <td style="text-align: right;">500</td> + + </tr> + + <tr> + + <td>Agostinho de Ceuta, +drama</td> + + <td style="text-align: right;">240</td> + + </tr> + + <tr> + + <td>Cabeça, coração e +estomago</td> + + <td style="text-align: right;">500</td> + + </tr> + + <tr> + + <td>Carlota +Angela</td> + + <td style="text-align: right;">400</td> + + </tr> + + <tr> + + <td>Coisas +espantosas</td> + + <td style="text-align: right;">500</td> + + </tr> + + <tr> + + <td>Doze casamentos +felizes</td> + + <td style="text-align: right;">500</td> + + </tr> + + <tr> + + <td>Duas +epochas da vida</td> + + <td style="text-align: right;">600</td> + + </tr> + + <tr> + + <td>Estrellas +funestas</td> + + <td style="text-align: right;">500</td> + + </tr> + + <tr> + + <td>Justiça, +drama</td> + + <td style="text-align: right;">200</td> + + </tr> + + <tr> + + <td>Livro +negro</td> + + <td style="text-align: right;">500</td> + + </tr> + + <tr> + + <td>Marquez de +Torres Novas, +drama</td> + + <td style="text-align: right;">400</td> + + </tr> + + <tr> + + <td>Memorias do +Carcere, 2 +vol</td> + + <td style="text-align: right;">800</td> + + </tr> + + <tr> + + <td>Morgado de +Fafe, +drama</td> + + <td style="text-align: right;">200</td> + + </tr> + + <tr> + + <td>Romance +d'um homem +rico</td> + + <td style="text-align: right;">500</td> + + </tr> + + <tr> + + <td>Scenas +innocentes da comedia +humana</td> + + <td style="text-align: right;">500</td> + + </tr> + + <tr> + + <td>As tres +irmans</td> + + <td style="text-align: right;">500</td> + + </tr> + + <tr> + + <td>Um livro, +poesias</td> + + <td style="text-align: right;">360</td> + + </tr> + + </tbody> +</table> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="bbox"><br /> + +<h2>ESTRELLAS PROPICIAS. </h2> + +<h4> +POR <br /> + +</h4> + +<h3> +CAMILLO CASTELLO BRANCO.</h3> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div style="text-align: center;"><img style="width: 150px; height: 70px;" alt="" src="images/fig001.png" /><br /> + +</div> + +<br /> + +<br /> + +<h4>PORTO,<br /> + +EM CASA DE VIUVA MORÉ - EDITORA,<br /> + +PRAÇA +DE D. PEDRO. </h4> + +<br /> + +<table style="text-align: left; width: 100%; font-size: 90%; font-weight: bold;" border="0" cellpadding="2" cellspacing="2"> + + <tbody> + + <tr> + + <td style="text-align: center; width: 48%;">A mesma +casa em Coimbra,</td> + + <td colspan="1" rowspan="2"><big><big><big>|</big></big></big></td> + + <td style="text-align: center;">Casa de +Commissões em Paris,</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: center;">Rua da +Calçada.</td> + + <td style="text-align: center;">2<sup>bis</sup>, +Rua +d'Arcole.</td> + + </tr> + + </tbody> +</table> + +<h4>1863.</h4> + +</div> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<hr /> +<div style="text-align: center;"><b>TYP. +DE SEBASTIÃO JOSÉ PEREIRA,<br /> + +Rua do Almada, +641.</b> +</div> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h2>ESTRELLAS PROPICIAS. </h2> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h3>I. </h3> + +<br /> + +<br /> + +Navegando contra a corrente do Lima—o rio das saudades e dos +pavores +da mythologia—vereis, a meia legua distante de Vianna, na +margem +direita, uma casa apalaçada, em parte cantaria que os +seculos denegriram, em parte edificação moderna, +caiada, tingida, variegada, coisa sem graça, sem poesia, que +toda lhe tira a magestosa e veneranda avó, alli á +beira, +com o seu toucado de ameias e collares de embrincadas +laçarias. <br /> + +<br /> + +Da margem do rio ao edificio conduz uma vereda relvosa ladeada de +alamos, cilindras, hidranjas, e outras arvores e arbustos, que +ensombram a convidativa álea. Lá no +tôpo entrevêdes +um chafariz, rodeado de bancos de pedra, e abobadado por um +pavilhão de chorões, +<span class="pagenum">[6]</span> +cujos troncos a mão do tempo torneou e +retorceu em caprichosos feitios. <br /> + +<br /> + +Se mandaes parar o barquinho diante d'esse obscuro +alcáçar das esquecidas musas do idyllio, d'esse +manancial dos gratos devaneios, ao abrir de uma manhan de agosto, ou ao +entardecer de um dia da estação +do outomno—a mais amavel do Minho—ahi ficareis como +arrobados, +sentindo sem saber o que, desejando sem dar limites ao desejo, +aspirando a enlevos que vos não parecem da terra, nem os +sabereis dizer, se cuidaes que vos transportam ao ceo. O que +vêdes, se sabeis copiar a natureza na tela, no verso, ou na +prosa, podereis conseguir que nós tambem o vejamos em +sombra; o sentir, porém, que semelhante espectaculo, a tal +hora, vos suggere, sêde embora Raphael, +Fénélon, ou Delille, que não lograreis +verter em nossas almas a poesia das vossas. Folheai o livrinho, todo +mimo e deleite, do poeta Bernardes, sentido e escripto alli n'aquellas +margens; cuidareis vêr n'elle as harmonias que vos soam ao +coração em descompassadas notas; +e, melancolicamente, abrireis mão das maviosas poesias, que +dizem menos que o susurro da veia limpida na fluctuante +frança do salgueiro, ou o regorgeio do rouxinol, que vos +fugiu da margem, para de longe vos estar conversando com o espirito +alheado. Nos versos e nas poeticas prosas do mais canoro bardo do +Minho<sup><a href="#n1">[1]</a></sup>, +se vos deparam relanços de delicado sentimento, +doçuras +<span class="pagenum">[7]</span> +campezinas, que todas recendem os aromas d'aquelles relvados e +arvoredos. No mavioso romance d'outro cantor e prosador sentimental do +jardim d'esta formosa terra<sup><a href="#n2">[2]</a></sup>, +lá inspirado, lá +haurido no mel de +tantas colmeias, nem ahi achaes senão o bosquejo das +visões que adentraram vosso animo, e de vós se +apartam, mal vos embaralhaes com homens vascolejados em negocios da +vida real. Não ha coração que sostenha +em si poesia, quando cuidados o empegam no commum esterquilinio, onde +todos, uns mais que outros, nos rebalçamos, embora +á luz do sol das praças, e á +luz das serpentinas das salas, as immundicias brilhem como ouro, ou +alvejem como arminhos. <br /> + +<br /> + +Não ha, pois, dizer o que sente cada um, ao abrir da manhan, +ou descahir da tarde, se alli parou e contemplou do seu barquinho a +avenida arborisada, o repuxo com seu docel de ramagem, e as cornijas +denticuladas da vetusta metade do edificio. <br /> + +<br /> + +Se por lá derivasseis, ao fim de uma tarde de agosto de +1844, e o rumorejo da corrente vos não houvesse entorpecido +a vida exterior, verieis, ao cimo da avenida, n'um dos bancos +circumpostos á fonte, uma senhora reclinada com o descuido +de quem se crê sósinha, sobre um respaldo de +massiço, que brandamente se amollentava, para, a prazer da +solitaria scismadora, se lhe modular ás fórmas +gentis.<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[8]</span> +A seu lado estava uma carta de muitas paginas, sobre a qual ella +assentava a mão descahida em langoroso quebranto. O que +certamente não verieis eram as lagrimas, que humedeciam a +carta, e outras que desciam nas faces, e paravam aos cantos dos labios, +como se ahi esperassem que um sorriso de esperança outra vez +as embebesse no coração. <br /> + +<br /> + +De véras creio que o meu leitor ahi se ficaria em quanto o +vestido branco da formosa visão se estremasse da escuridade +das arvores; quando, porém, a noite lhe fechasse o encanto +de olhos, o leitor ir-se-ia, rio-abaixo, scismando um pouco na +solitaria creatura, amante das noites bellas; e, chegando a Vianna, +escassamente se lembraria de têl-a visto, e só, a +muito +proposito, perguntaria quem fosse a mulher da pittoresca vivenda do +Minho. <br /> + +<br /> + +Tivesse eu a honra de ser a pessoa interrogada, e responderia com o +seguinte capitulo, se o leitor me désse ares de sua +complacencia em ouvil-o. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[9]</span> +<h3>II. </h3> + +<br /> + +<br /> + +O romancista de mais perluxo gosto em nomes de personagens de novella, +se os procurar nos climas temperados, ahi os acha mais lindos, mais a +molde da strophe, do poema e do romance sentimental. Os nomes de mais +musica, e mais amoraveis, são os das mulheres gregas, se +todos soam como os das heroinas de Byron, de Hugo, e dos poetas +affeiçoados ás +coisas orientaes. <br /> + +<br /> + +Desisto de ir á Grecia baptisar as minhas personagens +femininas. Escrevo de Portugal, onde ha nomes de mulheres a competirem +de belleza com suas donas; e, mais que em outra provincia, no +coração de +todas, no Minho,—que bem podéra ser a flor da +Europa—ahi, +na familia de solar, e na familia da choça, ha peregrinos +nomes, que mais parecem ensinados pela melopeia das aereas musicas, ou +dos mui suaves murmurinhos das florestas, dos rios, das aves e dos +insectos. <br /> + +<br /> + +Corinna da Soledade era o nome da visão, que o meu leitor +pudera ver n'uma tarde de agosto de 1844. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[10]</span> +Em outra qualquer tarde poderiamos ver, não uma, mas um +rancho de cinco meninas, a competirem de formosura, todas trajadas de +branco, soltos os cabellos, ou ennastrados de flores, com que se +andavam dando invejas ás outras. Eram as cinco irmans +d'aquelle ditoso ermo; as cinco Evas d'aquelle terreal paraizo, por +onde não rastejavam serpentes, estas serpentes de casaca e +luva branca, que são o proprio demonio civilisado pelo +alfaiate, e amoldado a estes tempos illustrados em que nenhuma Eva de +certo se deixaria embair por cobras, propriamente ditas. <br /> + +<br /> + +Tinha então vinte annos Corinna da Soledade. <br /> + +<br /> + +Sou avesso a descripções: muitas vezes o tenho +dito. Sahem-me todas muito pallidas e infieis por causa do +esforço que faço a dar relevo aos +traços. Profusamente se dispendem os romancistas em +mineralogia e botanica para colherem o effeito das +comparações. Flores e pedraria, a alvura do +lyrio, o escarlate do carmim, o niveo jaspe, o rubido coral, a lustrosa +pretidão do azeviche, a ágata para a cutis das +mãos, a +petala de rosa para a das faces, o branco avelludado da magnolia para o +collo, o marfim para os dentes... que sei eu! <br /> + +<br /> + +Corinna da Soledade era de estatura mais que mean, refeita, robusta na +apparencia, mimosa de pelle, mas não alvissima; olhos mais +singulares pela brandura que pelo tamanho, reluzentes como chammas, ou +amortecidos como a luz tibia da lua empanada por transparente +nuvem—alternativas instantaneas, que denotavam as rapidas +mutações da alma—; arcadas negras +<span class="pagenum">[11]</span> +e sedosas, travadas na base da escampada +fronte—rara belleza em mulher, n'aquellas mesmas, que se +chamam Sapho, +Staël, ou Sand—, breve boca de finissimos labios, +subtilmente +assombrados d'um buço, imperceptivel a curta distancia, mas +de bello effeito na approximação. <br /> + +<br /> + +Tanto esta, como as outras quatro filhas de Gastão de +Noronha, tinham sido educadas em França, para onde os paes +emigraram em 1829. O fidalgo do Minho homisiara-se, sem +conscienciosamente poder dizer que era menos realista que seus +avós; porém, odios +velhos de covardes inimigos o haviam denunciado á +alçada, e o prudente sujeito antes quiz confirmar a denuncia +com a fuga, que provar d'entre ferros sua innocencia. <br /> + +<br /> + +Em 1833 recolheu a numerosa familia á patria. As meninas +vinham esmeradamente educadas em collegio de Paris, e saudosas dos +comêços de vida alegre que ainda experimentaram na +capital do mundo. A transição de Paris para as +margens do Lima, as +noites fugitivas dos bailes comparadas com o silencio do palacio velho, +em parte ruinas, e rodeado de arvoredos e murmurios melancolicos, +parece que ao mesmo tempo enluctaram o animo das cinco meninas, que se +contemplavam umas ás outras, como se as lançassem +nas praias ermas d'Africa. <br /> + +<br /> + +Gastara, nos cinco annos de emigração, o +jactancioso Noronha, como gastam em Paris os homens opulentos ou +perdularios. Bem que a sua casa, toda em propriedade rustica, fosse +grandemente rendosa, e bastasse +<span class="pagenum">[12]</span> +a dar-lhe fama e brilho de rico na sua provincia, os redditos +d'ella escassamente dariam a um parisiense com que sustentar dez +pessoas de familia em recatada decencia. Gastão, recolhendo +á patria, rareou a +pouco e pouco as nuvens da poeira olympica de Paris, que lhe empanavam +os olhos, e viu todos os seus haveres ameaçados, se +não já feridos de +proxima ruina. Os caseiros e administradores tinham esbanjado e +desbaratado á porfia com elle; porém, +tão +engenhosamente o fizeram, que o fidalgo achou-os a elles proprietarios, +e legitimos possessores das quintas que, por ordem do amo homisiado, +tinham vendido. <br /> + +<br /> + +A velha casa solarenga d'onde o fidalgo sahira para o +estrangeiro, nos cinco annos de desamparo e descuido dos +administradores, abriu pelo tecto e fendeu-se pelas abaladas paredes. A +familia, affeita a morar em casas decoradas com graciosas alfaias, +quando entrou ao palacete das margens do Lima, confrangeu-se de pavor +como se os vigamentos estivessem estalando sobre suas +cabeças. Fugiram as meninas do salão de espera, e +entraram na sala proxima, onde as mais velhas se recordavam de terem +visto tapetes encarnados, jarrões indianos, e espaldares de +sêda. A sala estava sendo uma eira, com espigas a monte, +medas de palha painça, e instrumentos agricolas, como +enxadas, gadanhas, forcados e aguilhadas, por sobre os +jarrões esbotenados. <br /> + +<br /> + +D. Mafalda, mãe das meninas, quando tal viu rompeu a chorar, +e o marido a praguejar, e as meninas encolheram-se +<span class="pagenum">[13]</span> +todas a um canto, +tão tristes e intanguidas, como se as tivessem descido por +um alçapão +ás lageas de fria masmorra. <br /> + +<br /> + +Cuidou logo o fidalgo em mandar reconstruir aquella parte da casa, que +eu mostrei ao meu leitor, na margem direita do Lima. Como gizara obra +grande, a belprazer da sua desasizada fantasia, vendeu e hypothecou +bens urgentes á sua sustentação para +convertel-os em salas, tapetes, porcellanas, diwans, sophás, +chaises-longues, jardineiras, consoles, e que taes estrangeirices em +que as meninas reconheciam um pedaço do seu saudoso Paris. <br /> + +<br /> + +Soffreram maior quebra os rendimentos, sem que a conformidade, se +não o contentamento d'aquella familia, bem aposentada e +servida do luxo da civilisação, os indemnisasse +do desfalque dos bens. Gastão de Noronha em vez de +aconselhar paciencia á esposa e ás +filhas, era o primeiro a lastimar-se da solidão em que +viviam, do tedio das compridas noites de inverno, do enfadonho +palavrorio dos primos e primas, e dos pessimos cosinheiros, que nunca +tinham bem acertado com o segredo de loirejar á parisiense +umas +<em>omelettes souflées</em>, ou um +<em>vol-au-vent</em>. <br /> + +<br /> + +Enfadado de tudo, Gastão, incitado pelos gabos que a +imprensa portuense dispensava á sua companhia lyrica, pegou +da familia, alvoroçada com a boa nova, e foi para o Porto, +onde passou um inverno, frequentando as melhores casas, e convidando +aos seus bailes a flor da mocidade portuense. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[14]</span> +Imaginou elle que suas filhas, educadas a primor, bem fallantes, +bonitas, e graciosas em seu desembaraço, fariam epocha no +Porto, como costuma dizer-se, e seriam pretendidas dos negociantes +ricos á conta de sua fidalguia. Este plano é o +unico signal que temos da intelligencia domesticamente governamental de +Gastão de Noronha. Não se recommenda o systema +aos paes dissipadores e aos fidalgos arruinados, porque, sobre ser +revelho e desautorisado, é seu tanto ou quanto immoral: +abstenho-me de fundar o dito em razões que não +agradariam nem moralisariam. <br /> + +<br /> + +Não ha duvida que as meninas, educadas em França, +e formosas como as que mais o são em Portugal, +impressionaram vivamente os moços abastados da dinheirosa +cidade; mas estas impressões redundaram todas em muita +poesia, em muito suspiro, em muitos olhares meigos, e em muita +contradança innocente, quando contradansas podem ser +innocentes. <br /> + +<br /> + +Os mancebos apaixonados viam as meninas, e viam tudo que mais +anhelavam; mas os paes d'estes mancebos, posto que achassem lindas de +se verem as flores, iam de preferencia analysar o tronco da arvore +florida, o qual tronco, como sabem, era Gastão de Noronha. +Estas analyses ao tronco prejudicavam grandemente as flores, como +é de ver; e todos os velhos abastados diziam, á +uma, que não queriam enxertias de sua obscura linhagem em +arvore podre. Não sei se o nobilissimo Gastão de +Noronha chegou a saber que lhe chamavam arvore podre! +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[15]</span> +O sabido é que o fidalgo voltou ás margens do seu +Lima, na primavera seguinte, com as filhas solteiras, e tristes em +dobro do que tinham vindo de Paris. <br /> + +<br /> + +O Porto d'aquella epocha era muito para dar saudades a quem o trocava, +não direi só pelas solitarias margens d'um rio, +mas ainda pelos ruidosos esplendores da capital. <br /> + +<br /> + +Quem de lá sahiu ha dezoito annos, e hoje alli voltou, +não reconheceu de certo a sociedade portuense. +Então primavam as principaes familias do commercio, da +industria e da jerarchia na magnificencia de seus bailes. Rara semana +corria sem que algum salão reverberasse os seus lustres nas +graças nativas e nos custosos artificios com que se +sobre-doiravam aquellas gentis meninas, que hoje se desvelam em ser +mães, e todo seu viver concentram na vida intima. Das duas +ricas provincias, feudatarias da cidade industrial por excellencia, +confluiam, no fim do outomno, quantidade de morgados e morgadas, que se +dispendiam á larga, e constituiam grande parte da sociedade +brilhante, que os folhetins cantavam, e as modistas vestiam... ou +despiam, seria mais acertado dizer-se. Nenhum festim nupcial dispensava +um baile; cada pessoa da familia opulenta, em seu dia natalicio, tinha +um baile; o baile era o cunho do progresso n'aquella sociedade +desentorpecida do marasmo de seculos, e devotada a competir em pompas +com Lisboa, que a não valia então, nem +hoje me affoito a dizer que a vale. E quão diversa agora se +me afigura, quão outra te vi, ó rainha do norte, +depois<span class="pagenum">[16]</span>que os teus +próceres trocaram a convivencia dos +salões pela commodidade das equipagens! Foi a parelha que +matou o baile indisputavelmente. Foi o luxo esteril dos urcos e dos +arreios, dos trens armorejados, e das fantasiosas librés que +desviou o fecundante capital do intento civilisador a que o applicaram +os patriarchas do progresso n'aquella boa terra. Era um capital que a +todos chegava, todas as classes sociaes participavam da superabundancia +do baile. <br /> + +<br /> + +Enriquecia a modista. <br /> + +<br /> + +Prosperava o cabelleireiro. <br /> + +<br /> + +As confeitarias rivalisavam em primores de bolinhos e pasteis. <br /> + +<br /> + +O mercador renovava os seus lotes em cada trimestre. <br /> + +<br /> + +As alfaias dos salões, no ultimo baile, faziam esquecer as +pompas do penultimo. <br /> + +<br /> + +E, por outro lado, visto pela face moral, o baile era o incentivo mais +energico do talento. Então se viram maravilhas de genio na +secção das locaes, que +tão enfezadinha é agora! Então andavam +ahi versos, a froixo, por todos os jornaes; eramos todos poetas, todos +tinhamos uma estrella que cantar, e, pelo commum, aquella estrella +luzia-nos da constellação dos bailes. <br /> + +<br /> + +E agora, tudo fundido nas carruagens que trancaram as portas dos +salões, tudo, sem +excepção das musas!—as proprias musas +me quer +parecer que andam aos varaes das seges! +E agora, tudo fundido nas carruagens que trancaram as portas dos +salões, tudo, sem +excepção das musas!—as proprias musas +me quer +parecer que andam aos varaes das seges!<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[17]</span> +<h3>III. </h3> + +<br /> + +<br /> + +Das meninas, a mais saudosa do Porto era Corinna da Soledade. +Razão tinha mais que as irmans, porque amara mais que todas, +e amara sem intenção nem +calculo. <br /> + +<br /> + +N'um baile do conde do Casal fôra-lhe apresentado Antonio +d'Azevedo Barbosa, moço de vinte e dois annos, nem pallido +nem córado, nem triste nem alegre, um homem egual a todos os +homens, como elles são fóra do romance. <br /> + +<br /> + +Este Antonio d'Azevedo Barbosa era de Barcellos, filho d'um pequeno +proprietario, que tinha muitos filhos, e mandara o mais velho cursar +jurisprudencia em Coimbra, cuidando erguer um futuro esteio aos +irmãos, lesados em seu patrimonio por amor d'aquelle. <br /> + +<br /> + +O moço fôra muito novo para Coimbra; ninguem o +admoestava a estudar; viu-se em plena liberdade de suas +acções; achou que era muito suave vida +gastar a +<span class="pagenum">[18]</span> +mesada, e poupar os +livros. Assim o fez, e fez mal, que ficou reprovado em preparatorios. <br /> + +<br /> + +Os patricios seus contemporaneos na universidade foram contar a +Barcellos o desastre do estudante, não por lhe quererem mal, +mas por se quererem demasiado bem a si: disseram-n'o para que a villa +de Barcellos e o mundo soubessem que Coimbra não +é para todos; +e, a este proposito, repetiam as memorandas palavras do senhor Ferrer, +lente de direito natural, aos seus discipulos: «meus +senhores, quem não puder ser doutor, seja +sapateiro.» <br /> + +<br /> + +Manoel d'Azevedo, pae do academico reprovado, adoeceu de +paixão, e, se o não amparam os +braços implorantes dos outros filhos, cahia na cova. <br /> + +<br /> + +Um abbade limitrophe de Barcellos, e tio materno do estudante, levou o +moço para sua casa, e castigou-o com uma tarefa diaria de +duzentos versos de Virgilio, e um thema de duas laudas da +<em>Vida de Fr. Bartholomeu dos +Martyres</em>, e doze paginas do +<em>Genuense</em>, e outras tantas de +rhetorica e geographia. Findou o prazo das ferias, e Antonio tornou a +Coimbra, á custa do abbade. Fez o seu exame de latim, +logica, rhetorica e geographia, com approvação e +applausos de bom +latinista. <br /> + +<br /> + +Matriculou-se no primeiro anno, e sobre-excedeu as +esperanças do tio e as ambições do +pae: ganhou o segundo premio, e recolheu ao gremio de sua familia. +D'esta vez, o pae ia adoecendo de alegria. <br /> + +<br /> + +Não se morre de dor, nem de alegria; mas morre-se +<span class="pagenum">[19]</span> +facilmente d'um hydro-torax; foi o que +n'esse mesmo anno succedeu a Manoel d'Azevedo. <br /> + +<br /> + +Eram nove os orphãos, e Antonio, o mais velho dos +irmãos, tinha dezesete annos. Fez-se inventario, pagaram-se +as dividas do casal, e ficaram dotados com cento e cincoenta mil reis +cada um. O abbade levou as sobrinhas para sua companhia, que eram +quatro; arrumou no commercio os pequenos, e disse ao segundo-annista da +universidade, que se reduzisse a viver com quatro mil e oitocentos reis +de mesada, se queria formar-se. <br /> + +<br /> + +Antonio respondeu que viveria com menos, para que suas irmans vivessem +com mais. <br /> + +<br /> + +Foi o moço ao segundo anno, e começou logo a +escrever umas cadernetas que lá denominam +«sebentas», as quaes os cuidadosos em reproduzir a +prelecção +do lente vendem lithographadas. As sebentas de Antonio d'Azevedo +grangearam reputação de explicitas e +bem coordenadas, e produziram metade de sua subsistencia; a outra +metade proveio-lhe da versão de romances francezes, editados +por assignatura. E assim vingou o segundo anno, e os annos seguintes +até completar sua carreira. <br /> + +<br /> + +O bacharel Antonio d'Azevedo recolheu ao presbyterio do tio com o seu +diploma enrolado n'um tubo de folha de Flandres. <br /> + +<br /> + +—E agora?—perguntou o abbade, tres mezes depois. <br /> + +<br /> + +—Agora, estou formado—respondeu o bacharel. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[20]</span> +—Bem sei; mas que fazes? quando começas o teu +officio de +doutor? <br /> + +<br /> + +—O meu officio de doutor?!—disse Antonio de +Azevedo, como perguntando +a si mesmo a utilidade da formatura em direito. <br /> + +<br /> + +—Sim—tornou o padre—o sapateiro, o +marceneiro, o artifice em todos +os mesteres, cumprido o tempo de aprendizagem, começa de +ganhar sua vida. Ha dez annos que tu estudas para isto que hoje +és: +estás doutor, meu sobrinho; agora applica o que sabes. <br /> + +<br /> + +Antonio d'Azevedo achou discreta a admoestação +delicada do tio. Recebeu o seu patrimonio de cento e cincoenta mil +reis, e foi a Lisboa requerer. <br /> + +<br /> + +Ajuntou o pretendente ao seu requerimento as certidões de +seus premios na faculdade, e de seu excellente comportamento, +afóra a pathetica narrativa de sua pobreza, e das quatro +orphans dependentes d'elle. Consta que o ministro da justiça +se não commovera, +porque não lera a petição nem os +documentos. <br /> + +<br /> + +O bacharel, ao cabo de seis mezes, pediu ao tio padre que lhe mandasse +alguns soccorros, com que pudesse deter-se mais algum mez em Lisboa, +esperando despacho. <br /> + +<br /> + +Não lhe respondeu o tio, porque já estava na +presença de Deus. Responderam as irmans, pedindo-lhe que +fosse tomar conta d'ellas, visto que o novo abbade as mandaria sahir da +casa da residencia parochial. <br /> + +<br /> + +Triste nova para o pobre pretendente, que só tinha de seu o +diploma, e uma surrada casaca com que +<span class="pagenum">[21]</span> +ia +ás audiencias semanaes do ministro, o qual nunca lhe deu +fé da casaca, nem dos premios universitarios, nem das +lagrimas! <br /> + +<br /> + +Escreveu Antonio a um de seus quatro irmãos, que +já era guarda-livros n'uma casa commercial do Porto, +pedindo-lhe meios para sahir de Lisboa, e ir á provincia +tomar conta das irmans. O guarda livros +acudiu prestes ao pedido, e partiu logo a segurar a subsistencia +ás quatro meninas na casa agricola em que tinham nascido. +Deteve-se ainda alguns mezes o bacharel em Lisboa, sustentado por seu +irmão. A final, baldadas as supplicas, o triste +moço sahiu da capital com +intenção de abrir escriptorio de advogado na sua +terra. <br /> + +<br /> + +Não desagrade ao leitor este familiar estylo com que lhe +são contadas coisas de si tão singelas, +que, só á custa de muito florescêl-as, +é que +poderiam ser agradaveis. Acceitem-me os successos verdadeiros sem +enfeites; quando eu estiver fantasiando, então lh'os darei +ataviados de modo que a poesia me dispense de ser um fiel copista do +que a toda a hora nos passa diante dos olhos. <br /> + +<br /> + +Chegou Antonio d'Azevedo ao Porto, e hospedou-se em casa de seu +irmão Joaquim. Acertara de ser o commerciante a cujo +serviço estava Joaquim, pae de dois condiscipulos de +Antonio. Receberam-n'o cordialmente, deram-lhe bom quarto, sentaram-no +no melhor logar da sua mesa, e instaram-o a demorar-se no Porto durante +aquelle inverno. N'essa mesma occasião +fôra ao Porto Gastão de Noronha com suas filhas e +mulher;<span class="pagenum">[22]</span>e, como +Antonio d'Azevedo, +obrigado pelos seus hospedeiros condiscipulos, fosse aos bailes onde +elles iam, ahi está a razão porque Corinna da +Soledade +encontrou o bacharel de Barcellos no baile do conde do Casal. <br /> + +<br /> + +O infortunio abastarda os espiritos, desalenta-os, e de todo os +transfigura. Antonio d'Azevedo vergava debaixo da dependencia, sem +maldizel-a. Sentia-se alquebrado por sua mesma inercia, e esmagado pelo +quasi opprobrio de sua inutilidade. O futuro estava-lhe fechado, futuro +para onde o arremessavam esperanças, que todas vira morrer, +durante aquelle triste viver de supplicas e repulsões +á porta de +ministros, de magnates, de influentes, homens que vestem o arnez do +egoismo, logo que, no dizer do senhor A. Herculano, «se +recostam nos sophás para onde se atiraram de cima do +tamborete de couro ou da cadeira de pinho.» Sentia-se o +moço brutificado pela desgraça: tem +ella de seu o fatal condão de deslapidar o brilho das +ideias, enredando-as, escurecendo-as, falsificando-as; ha uma como +nevoa que empana os objectos ou os desfigura; o infeliz vê +sempre errado; ora crê e confia-se em +tudo que ao commum dos homens é despresivel; ora esquiva-se +a tomar pelos caminhos direitos do bem-estar, que eventualmente se lhe +offerecem. Póde ser que uma linguagem energica lhe valesse +uma +transformação de vida; mas o susto, o quasi pavor +com que falla aos grandes, e a humildade lagrimosa com que intenta +commovel-os, é ainda um sestro mau da sua +desgraça. E em tudo assim, em tudo, até no amor, +que devia estar +<span class="pagenum">[23]</span> +forro das cadeias +com que a desfortuna peia e trava as demais faculdades. É ao +pé da mulher amada, +amada sem confiança nem expansão, é +ahi que +mais a olhos observadores se manifesta o infeliz. Nenhuma palavra diz +que lealmente lhe sirva o coração. O que diz +é incongruente e absurdo, quando não é +disparate de desfranzir um riso. As agudezas triviaes, que inculcam +fina têmpera de alma, e que todo o homem, medianamente +servido de olhos e intellecto, sabe dizer, tomam no discurso do infeliz +umas entoações ridiculas e +antipathicas. Se algum pensamento bem ordenado lhe entreluz, esmorece +ao proferil-o, afroixa-o como inconciliavel com sua baixa +posição, e prefere antes trocal-o por uma +semsaboria. Esta é a sorte de todos os +desgraçados, que não são tolos; +porém é +coisa muito rara encontrar-se um tolo desgraçado. <br /> + +<br /> + +Antonio d'Azevedo sondara-se, compulsara-se, e vira a lenta +desfiguração que se operara em sua +alma. Impozera-se silencio, que os seus amigos estranhavam. Negava-se a +dar parecer nas mais insignificantes questões. De si para si +dizia elle que sentia uma depressão no cerebro, uma placa de +ferro premindo-lhe a bossa do entendimento. Onde concorresse com +senhoras, ninguem lhe ouvia palavra, senão as precisas para +dar um pretexto a ausentar-se. Muita gente o reputava malfadado; e +outra optava antes por que fosse estupido. <br /> + +<br /> + +Quando elle viu Corinna da Soledade, estava ao lado d'um sujeito, cuja +maxima gloria n'este globo era +<span class="pagenum">[24]</span> +poder +apresentar um conhecido a outro conhecido. Assim que alguem lhe dizia: +«Vossa senhoria conhece fulano?» respondia logo: +«Quer ser +apresentado?» E se os apresentados lhe ficavam á +mão, era logo. <br /> + +<br /> + +Foi o que aconteceu com Antonio d'Azevedo. <br /> + +<br /> + +Apenas lhe elle perguntou quem era aquella menina vestida de +azul-celeste, o sujeito travou-lhe do braço, e disse: <br /> + +<br /> + +—Venha cá. <br /> + +<br /> + +O bacharel mal sabia onde era levado, quando se viu rosto a rosto de +Corinna, a quem o apresentante disse: <br /> + +<br /> + +—O meu amigo doutor Antonio d'Azevedo Barbosa, que eu +satisfactoriamente apresento á excellentissima senhora D. +Corinna da Soledade e Noronha, filha do nobilissimo Gastão +de Noronha. Agora deem-me licença, que tenho de fazer quatro +apresentações ao conde do Casal. <br /> + +<br /> + +Deus livre o leitor de ver-se alguma vez nos apertos do bacharel! +Corinna esperou o logar-commum que deriva da +apresentação. Antonio d'Azevedo +não sabia o logar-commum. Foi ella quem o disse: <br /> + +<br /> + +—Está animadissimo o baile; mas abafa a gente de +calor! <br /> + +<br /> + +—Sim, minha senhora—disse o nosso pobre amigo, +puxando pelo colchete +da luva até arrancal-o com a pelica. <br /> + +<br /> + +Corinna esperou ainda que o moço fosse além da +affirmativa do calor, em que elle parecia estar mais +<span class="pagenum">[25]</span> +abafado que toda a outra gente: tão +copiosas lhe borbulhavam +na testa e faces as camarinhas do suor! <br /> + +<br /> + +Antonio d'Azevedo viu-se tal qual estava sendo aos olhos da filha de +Gastão de Noronha. Apiedou-se d'elle o seu bom anjo. +Levantou-se aquelle espirito com todo o peso da sua amargura, e disse +abruptamente, mas de compasso: <br /> + +<br /> + +—Eu não solicitei a honra de ser apresentado a +vossa +excellencia. Um homem desgraçado não pede +relações. Fui barbaro comigo mesmo entrando aqui; +mas a desventura tem mil rodeios por onde me encaminha a tudo que me +augmenta o desgosto da vida. Resta-me ainda uma sombra de vaidade... +Custa-me que vossa excellencia fique fazendo de mim uma ideia injusta. +Não sou absolutamente estupido: sou infeliz. Perdi o dom da +palavra, e só sei fallar em lagrimas, ou com a minha +consciencia, na solidão. Perdôe-me vossa +excellencia este intempestivo desafogo. <br /> + +<br /> + +E retirou-se, sem dar tempo a um monossyllabo. <br /> + +<br /> + +Corinna da Soledade seguiu-o interdicta com os olhos, e estranhou +aquella novidade romanesca de que não encontrára +exemplo mesmo em Paris. <br /> + +<br /> + +Antonio d'Azevedo sahiu do baile, que era na casa do quartel general, e +tomou pela rua do Sol a passo vagaroso, até receber a +bafagem fria do Douro, +debruçando-se sobre o peitoril do passeio das Fontainhas. +Pouco depois desenrolou-se do mar um denso nevoeiro que se estendeu rio +acima, e logo despediu em nuvens a subir as fragosas ribas da margem +direita, e espraiou-se +<span class="pagenum">[26]</span> +com taciturna +presteza por sobre a cidade. A regélida neblina arrefecera a +cabeça do moço. O que elle estava soffrendo era +um d'aquelles phrenesis que, a longos espaços, atacam os +misanthropos. <br /> + +<br /> + +As pessoas nunca apalpadas por esta penosa enfermidade, cuidam que ou +ella não existe, ou, se existe, em pouco está o +combatel-a com os suaves linimentos da sociabilidade, ou pouco se deve +doer de a não gosar o misanthropo que lhe foge. <br /> + +<br /> + +Pouco sabe de tamanha desventura quem tal diz! Os accessos de +vertiginosa raiva que padecem os feridos d'esta lepra moral +são agonias mortaes. O esquivarem-se á sociedade, +o ouvirem-se unicamente a si proprios nos monologos selvagens com que a +si se amaldiçoam e amaldiçoam a humanidade, +dispara por +vezes em enfurecimentos e raivas, que só bem desafogam se o +desgraçado, com as proprias unhas, se dilacera. O homem sem +irmãos, sem familia, sem amigos, sem um mundo que lhe +absorva a sua individualidade e n'elle se identifique, sáe +tanto fóra das leis +da natureza, que a sua angustia ha de superar todas as angustias +inconsolaveis. D'estas horas tinha muitas Antonio d'Azevedo, e uma das +mais longas e convulsivas estava elle penando n'aquella noite. <br /> + +<br /> + +Havia de pensar a leitora que o infeliz ia para as Fontainhas scismar +na imagem de Corinna da Soledade, contar-lhe os seus infortunios sem +pejo d'ella nem das estrellas, consubstancial-a em sua alma pelo mais +facil dos processos que usam amantes imaginativos; +<span class="pagenum">[27]</span> +em fim, haviam de pensar os meus amigos que Antonio +d'Azevedo era um poeta como nós todos os que andamos de +noite a namorar senhoras nos luzeiros do firmamento, como se isso +servisse d'alguma coisa para o amanho da vida de cada um e de cada uma. +Em minha boa e leal verdade hei de dizer-lhes que o bacharel de +Barcellos era bastante desgraçado para entender em coisas do +coração, que requerem contentamento e +paz de espirito. Um homem que medita no presente e futuro de quatro +irmans, reconcentra toda a sua sensibilidade no +coração paternal. O +coração dos amores conjugaes—alvo mais +ou menos +remoto dos affectos enamorados—esse não se +compadece com as +tristezas, que gelam e como que endurecem o espirito. <br /> + +<br /> + +Em quanto, porém, o moço engolfava os olhos e o +pensamento na alvacenta nuvem que mais e mais se condensava sobre a +torrente, Corinna da Soledade relanceava inquieta os olhos á +procura do cavalheiro que lhe tinha apresentado Antonio d'Azevedo. Ao +vel-o, fez-lhe signal com vehemente interesse, e perguntou-lhe quem era +o sujeito que lhe elle apresentara. <br /> + +<br /> + +—É um doutor de Barcellos, que eu encontrei, ha +dias, +hospedado em casa dos Taveiras, riquissimos commerciantes. Estes meus +amigos é que devem conhecel-o cabalmente, e só +elles podem informar vossa excellencia... Dê-me +licença... <br /> + +<br /> + +O cavalheiro vira de relance um dos dois bachareis, condiscipulos de +Antonio d'Azevedo, e apanhou pelos cabellos o ensejo d'uma +apresentação. Instantes +depois +<span class="pagenum">[28]</span> +voltava, e dizia ter a honra de +apresentar á filha do +nobilissimo Gastão de Noronha o doutor Felisberto Taveira, e +deixou-os, segundo disse, para ir apresentar dois amigos da provincia +á senhora condessa do Casal. <br /> + +<br /> + +Este cavalheiro, alguns annos depois, á hora da morte, ainda +apresentou ao seu confessor as testemunhas do testamento.<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[29]</span> +<h3>IV. </h3> + +<br /> + +<br /> + +Corinna e Felisberto Taveira conversaram largo espaço. +Gastão de Noronha, reparando no interesse +e apparente intimidade com que sua filha, estranha ás dansas +e a tudo, se entretinha, cuidou em averiguar quem fosse o cavalheiro. +As informações deram em resultado que o fidalgo +ficou contente. Houve alli um sujeito que respondeu assim +arithmeticamente á pergunta do nobilissimo +Gastão: <br /> + +<br /> + +—João Bernardo Taveira, quando casou, dotou-se com +cento e +cincoenta contos; a mulher trouxe-lhe de dote cento e dez contos: somma +duzentos e sessenta contos. Depois, o Taveira herdou de sua cunhada +cento e dez contos: somma trezentos e setenta contos. O negocio d'esta +casa tem ido sempre em crescente prosperidade. Dou-lhe que, feitas as +despezas domesticas, o capital de trezentos e setenta contos, em trinta +annos, tenha rendido nove por cento. Ahi tem vossa excellencia +<span class="pagenum">[30]</span> +que a casa de João +Bernardo Taveira deve hoje valer perto de setecentos contos, que +repartidos por dois filhos... <br /> + +<br /> + +—Trezentos e cincoenta contos—atalhou o +fidalgo—é uma +fortunasita soffrivel em Portugal... <br /> + +<br /> + +—Eu não se me dava de a soffrer em +Londres—disse o outro. <br /> + +<br /> + +Em vista do que, o condescendente pae estimou que sua filha gastasse o +tempo com gente d'aquella bitola. <br /> + +<br /> + +Ao abrir da manhan entrou Felisberto no quarto de Antonio d'Azevedo, e +encontrou-o emmalando a sua roupa. <br /> + +<br /> + +—Isso que é?—disse +Taveira—onde vaes tu? <br /> + +<br /> + +—Vou para Barcellos—respondeu serenamente o +hospede—Basta de vida +regalada: vamos ao trabalho, que é o unico regalo dos +infelizes. Estou aqui deslocado, meu amigo. Esta vida do teu galhardo +Porto não se fez para mim. Ha de ser-me mais consoladora a +soledade e a tristeza de minhas irmans. Desgraçados com +desgraçados. <br /> + +<br /> + +—Mas—interrompeu Felisberto—que vaes +fazer em Barcellos? <br /> + +<br /> + +—Abrir um escriptorio de requerimentos, e nos dias em que +merecer um +tostão com o meu trabalho, dar a minhas irmans um banquete +que valha um tostão; e nos dias em que a minha sciencia das +leis não tiver que fazer com a paz em que vivem os homens, +farei discursos a minhas irmans para persuadil-as á +resignação. +<span class="pagenum">[31]</span> +De qualquer +das maneiras carecem ellas +de mim, e eu d'ellas. <br /> + +<br /> + +—E porque não has de tu—atalhou o leal +amigo—dizer ao teu +Felisberto que tuas irmans estão precisadas, e que os +prazeres da vida te amarguram em quanto ellas estão penando? +Abre as minhas gavetas, e manda dinheiro a tuas irmans. <br /> + +<br /> + +—Obrigado, meu bom irmão. Se a amizade te +impõe +o dever de ser generoso, a estima de mim proprio obriga-me a ser homem. +Aquelle que vive de emprestimos, sem ter exhaurido as suas faculdades +de aptidão para o trabalho, póde hypothecar a sua +palavra, mas a dignidade, não, que a não tem. <br /> + +<br /> + +—Faz a tua vontade, Azevedo; mas vê lá +que o teu +catonismo de dignidade te não leve até +á ingratidão!...—disse com branda +severidade o +filho do millionario. <br /> + +<br /> + +—Ingratidão!—acudiu o mancebo com +sincera magoa. <br /> + +<br /> + +—É ingratidão esconderes tua vida de +quem +está com a alma aberta convidando-te a dar-lhe o prazer de +te ser util. É ingratidão privares-me da alegria +de te fazer bem a ti e aos teus. <br /> + +<br /> + +—Perdoa-me, pois...—interrompeu Azevedo, +apertando-lhe +estremecidamente a mão. <br /> + +<br /> + +—Estás perdoado—tornou Felisberto +abraçando-o; +mas has de cumprir uma pena. Ficarás mais algum tempo +comnosco. Tuas irmans não são felizes; mas +necessidades creio que as não soffrem. Teu +irmão +<span class="pagenum">[32]</span> +Joaquim reparte com ellas o +seu ordenado, e bem sabes que quatrocentos mil reis abundam +á subsistencia d'uma familia em Barcellos... Vou ajudar-te a +desfazer a mala. <br /> + +<br /> + +Felisberto ia desdobrando o pouco fato do seu hospede, e fallando ao +mesmo tempo: <br /> + +<br /> + +—Porque sahiste tão cedo do baile, Azevedo? +Ás +onze horas já te não vi... <br /> + +<br /> + +—Estava triste... <br /> + +<br /> + +—E que fizestes até ás seis horas e +meia +fóra de casa? <br /> + +<br /> + +—Andei a fazer a digestão da felicidade com que +sahi de +lá—respondeu sorrindo amargamente Azevedo. <br /> + +<br /> + +—Que te pareceu aquella mulher com quem falaste? a Corinna? <br /> + +<br /> + +—Chama-se Corinna? <br /> + +<br /> + +—Da Soledade! Vê tu que nome, que poesia, e que +romance! +Quanto daria o Eugenio Sue por um nome d'estes? Quando aquella menina +fôr conhecida dos poetas menores do Porto, todas as poesias +se chamam «Corinnas da Soledade.» Que te pareceu +ella a ti, alma de gelo? <br /> + +<br /> + +Antonio d'Azevedo córou, lembrando-se de que o seu amigo +ouvira d'ella ou d'outra a singular sahida da sua +apresentação, adornada comicamente de +motejos feminis, os mais pungentes de quantos ha. <br /> + +<br /> + +—Riram-se de mim?—perguntou elle—Tu de +certo não ririas, +meu Taveira! +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[33]</span> +—Se riram! que desproposito! Que ha em ti provocador de riso? +<br /> + +<br /> + +—Entre-lembro-me de ter dito não sei quê +a essa +senhora... O que foi está-me fazendo a impressão +de um mau sonho. <br /> + +<br /> + +—Disseste-lhe que eras infeliz. Tu crês que a +infelicidade +faça rir alguem? Corinna ouviu-te, estranhou o infortunio +que se confessa em bailes; mas não sorriu, condoeu-se, +lastimou-te, e pediu-me que te levasse ámanhan ao baile da +Torre da Marca. <br /> + +<br /> + +—É curiosidade de mulher ociosa? <br /> + +<br /> + +—Não: é sympathia... <br /> + +<br /> + +—Com a desgraça?—atalhou Azevedo. <br /> + +<br /> + +—E com o homem, creio eu; muito mais com o homem. Uma menina +de vinte +annos, bella, nobre, e não sei se rica, só por +milagre sympathisa com o +homem desgraçado. <br /> + +<br /> + +—Então...—disse Antonio d'Azevedo, e +sosteve-se. <br /> + +<br /> + +—Então, ias tu perguntar-me se seria amor? <br /> + +<br /> + +—Não: o infortunio estraga as faculdades da +razão, mas não as cega, meu amigo. <br /> + +<br /> + +—O que me espanta é o sangue frio com que tu ouves +esta +revelação, que faria endoidecer muitos +felizes!—tornou Felisberto—Dar-se-ha caso que tu +sejas aleijado de +coração! Ó Azevedo, tu +já amaste? <br /> + +<br /> + +—Não tive ainda tempo. Quando a alma trabalha +sempre, o +coração nunca está ocioso. +Bem sabes que fiz a minha formatura á custa de muitas +vigilias. Acabei +<span class="pagenum">[34]</span> +de formar-me, e fui +para Lisboa requerer. Estive lá nove mezes; e, n'este longo +prazo de desgostos, o menor foi a fome, e o maior foi a +convicção da +minha nullidade. Uma vida assim, nem por descuido se acha illaqueada +nas armadilhas do amor. <br /> + +<br /> + +—Mas deves ter sentido uma aspiração +que +é commum: deves ter sonhado uma mulher. <br /> + +<br /> + +—Não, porque adormecia sempre com a barra de ferro +da +desgraça sobre o peito. As mulheres que via nos meus sonhos +eram minhas quatro irmans lindas, desamparadas e pobres. Tinha o +coração cheio +d'ellas. A Providencia divina tem-me feito a mercê de +não ajuntar uma quinta imagem ás quatro infelizes +que sobejam á minha sensibilidade. <br /> + +<br /> + +—Ora vamos—tornou Felisberto +Taveira—Corinna da Soledade +não é mulher que algum homem veja isentamente. +Não te havia ser penoso amal-a, pois +não? <br /> + +<br /> + +—Tem graça a pergunta!—respondeu Azevedo +com affavel +sorriso—Creio que me seria muito facil amal-a se eu fosse +Felisberto +Taveira, ou um d'esses mil que recebem um raio d'este sol universal da +esperança ou da alegria. Como queres tu que a minha alma +saia do seu abysmo escuro, e vá como doida banhar-se na luz +immensa, n'este mar de paixões deliciosas que eu mal +conheço dos romances que traduzi, como quem copía +caracteres hebraicos, sem os entender? Meu amigo, eu creio que o amor +só resiste ás lagrimas, que +são suas: ha um chorar que vem d'outras angustias mais +severas e profundas; e, a meu ver, estas lagrimas vão ao +<span class="pagenum">[35]</span> +coração, e devoram o +sentimento melindroso do +amor. <br /> + +<br /> + +—É uma theoria, que estás compendiando +para um +futuro livro, meu Azevedo; estimo que desbanques o Balzac, o Ovidio, o +Sthendal, o Castilho, e +quantos escreveram do amor e da arte de amar; entretanto, convem-te +recolher experiencias. Começas ámanhan +a experimentar no baile da Torre da Marca. <br /> + +<br /> + +—Tu és tão bom que me deixas ficar em +casa!—disse Azevedo. <br /> + +<br /> + +—Não posso: dei a minha palavra a Corinna, +contando com a +tua condescendencia. <br /> + +<br /> + +—Iremos—acudiu Antonio d'Azevedo. <br /> + +<br /> + +N'este mesmo dia, Joaquim, guarda-livros dos Taveiras, foi ao quarto de +seu irmão, e disse-lhe: <br /> + +<br /> + +—Trago-te uma boa nova, Antonio. O senhor Taveira chamou-me +ao seu +escriptorio, e augmentou o meu ordenado a um conto e duzentos, para que +eu continuasse a dispender na minha decencia e pequenas +negociações que faço a quantia que +dava a nossas irmans. Beijei-lhe as mãos, e agradeci-lhe em +nome d'ellas, e em teu nome. Agora vê tu se precisas d'alguma +quantia para os teus arranjos, que eu tenho de sobra. Se queres tornar +para Lisboa, vai, Antonio, que te não hão de +faltar meios. D'aqui a meia +duzia de annos as nossas irmans podem estar casadas com lavradores +remediados, se eu tiver vida e saude. Dois mil cruzados é um +bom dote para cada uma, e eu sinto-me com bastante aptidão e +fortuna para os grangear de dois em dois annos, sem lhes diminuir a +ellas a mesada. +<span class="pagenum">[36]</span> +Quero ver se tu agora +com esta boa noticia te não alegras, Antonio! Andas ahi +tão acabrunhado +que pareces um velho! Quem te vir assim abatido e descuidado do teu +aceio, ha de pensar que algum remorso te atormenta! Vive como toda a +gente mais infeliz do que nós somos. Se foste contrariado, +se trabalhaste muito para te formar, agradece a Deus a intelligencia +com que venceste todos os obstaculos. Se não tens agora +emprego, tu serás empregado. Os senhores Taveiras morrem por +ti, e tem muitos amigos na capital. Já o pae me disse que, +em cahindo este ministerio has de ser delegado ou administrador d'um +bairro aqui do Porto. Depois, as nossas irmans se estiverem solteiras, +veem para a nossa companhia, e vão comnosco aos bailes e aos +theatros... <br /> + +<br /> + +—Cala-te, criança!—interrompeu +Antonio—Se as nossas +irmans hão de ir comnosco aos bailes e aos theatros, como +queres tu que ellas casem com lavradores, dotadas a dois mil cruzados! +Vê se as dotas, Joaquim; e dá-lhes os seus maridos +lavradores, e não as chames á cidade. +Não te lembras d'aquelles +choupos onde cantavam de madrugada e ao anoitecer os pintasilgos, +debaixo da janella do nosso quarto? <br /> + +<br /> + +—Lembra. <br /> + +<br /> + +—Pois olha que não ha musica mais suave a +corações felizes! Deixa que nossas irmans a gosem +por muito tempo; que, se a esquecerem por outra, em vão te +cansarás em dar-lhes novas alegrias. Faz por que ellas +não tenham de vender o seu patrimonio, que +está<span class="pagenum">[37]</span>na +pequena propriedade onde +os passarinhos cantam nos choupos, e onde o anjo da paz mora com ellas. +Em quanto ao offerecimento que me fazes do teu dinheiro, meu bom +irmão, póde ser que eu t'o acceite para uma longa +viagem, visto que já não sou aqui +preciso para meditar no futuro esteio da nossa familia. <br /> + +<br /> + +—Pois onde queres tu ir?—atalhou Joaquim. <br /> + +<br /> + +—Penso em ir ao Brazil. Dizem-me que ha alli trabalho para os +braços de todas as +nações, e particular amor e +bem-querença para o portuguez que trabalha. O +cansaço do espirito enfraqueceu-me os braços, +é verdade; mas, ainda assim, quando eu puder acabar de todo +com este incommodo hospede chamado a sciencia—a minha +estupida e +inutil sciencia!—então póde ser que os +braços se revigorem, e eu restitua á +minha propria dignidade, em trabalho, o que perdi na inactividade de +doze estereis annos de lidas de pensamento e de vans +ambições. Outras +ambições me hão de levar ao Brazil: +é ajudar-te, Joaquim; é ser, como tu, +digno da estima dos nossos e da estima de estranhos. O homem inerte, +aqui no Porto, é desconsiderado: devia sel-o assim em toda a +parte onde fosse um e unico o padrão da honra. +Não sei em que conta sou tido +pelas raras pessoas que me conhecem aqui; mas escuto o que se diz dos +pouquissimos que por ahi vagueiam de rua em rua, affectando com +jactanciosa necedade que o Porto póde imitar Lisboa no seu +peculiar caracteristico da vadiagem. Vexa-me a actividade d'esta boa +gente, que parece trabalhar incessantemente para dar +<span class="pagenum">[38]</span> +nome de laborioso a este paiz! Ando como humilhado +ao par do commerciante, do artista, do escriptor e do ultimo operario. +Esta ancia de lavor e de fadiga chega a mortificar-me. É ver +que benefica influencia tem a labutação dos mais +materiaes mesteres sobre os +espiritos exclusivamente dados ás +funcções da +intelligencia! Parece que todo o homem anda em competencia com o outro +na sua esphera de trabalho. O commerciante agenceia grandes +operações em poucas horas; as +forjas convertem em fórmas maravilhosas milhares de arrobas +de ferro em rapido tempo; o poeta, se outro fito o não +descaminha, realça na facundia e +selecção de seus poemas; o romancista, com este +mesmo mundo de boas paixões e febril actividade, +comporá livros sobre +livros sem lhe ser mister explorar as sinuosidades do vicio para ser +bem-quisto e lido. E que sou eu aqui, meu irmão? Que fiz eu +do meu cabedal de intelligencia? Deixei-o congelar-se sob a +mão do infortunio, quando devia rasgar umas cartas de +bacharel affrontosas, e vestir a jaqueta do operario, em cujas lapelas +o respeito publico aprezilha muitas vezes a +condecoração, +invisivel sim, mas venerada na consciencia dos que nobilitam o +trabalho.<br /> + +<br /> + +<div class="dots"></div> + +<br /> + +<br /> + +Eu tenho a sizudesa de poupar o leitor ao muito mais estirado discurso +do bacharel. Fallou muito, como fallam os misanthropos quando uma +luzinha de esperança lhes lampeja na sua escuridade. A sua +esperança sorria-lhe d'além-mar, do ceo +hospedeiro do novo-mundo.<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[39]</span> +<h3>V. </h3> + +<br /> + +<br /> + +Dizia Gastão de Noronha á filha Corinna: <br /> + +<br /> + +—Vi-te hontem á noite muito distrahida, menina, e +gostei +que te inclinasses áquelle rapaz... <br /> + +<br /> + +—A qual, papá? <br /> + +<br /> + +—A qual ha de ser?!—tornou o pae com um gesto de +intelligencia e +comprazimento—é o unico com quem te detiveste uma +boa +hora... <br /> + +<br /> + +—Ah! já sei... o Taveira? <br /> + +<br /> + +—Alli tens um excellente marido, Corinna! Trezentos e +cincoenta +contos... Não sabias? <br /> + +<br /> + +—Não, meu pae—respondeu a menina, +indecisa se devia +desenganal-o, ou evadir-se á +continuação das perguntas. <br /> + +<br /> + +—É necessario—proseguiu +Gastão em tom +solemne—acabar com as distincções de +raças. A velha nobreza é um merito relativo que o +progresso acata, se outros meritos de natureza commum a sustentam +<span class="pagenum">[40]</span> +na altura d'onde procede. As altas +linhagens predominavam, quando eram as representantes dos illustres +nomes e das grandes riquezas. Porém, depois que as +industrias abriram fontes de ouro, sem terem de o fazer á +ponta da espada e da lança, a fidalguia baixou muito do seu +quilate, e teve de associar-se com ellas para não ficar +sósinha, estacionaria e +dessociavel. Tu viste como em França as netas dos grandes +titulares de Luiz XIV vão casando com os netos dos plebeus +d'aquelle tempo. Ennobrecer-se de veneras e titulos custa +tão pouco, ou vale tão pouco no bom juizo +dos governos illustrados, que já hoje póde cada +homem +rico abrir a sua burra, e fazer com que ao mesmo tempo se abra o cofre +das graças. Muita gente irreflectida diz que isto +é um mal; e os atilados acham que a +depreciação dos fóros de fidalguia +é coisa de incalculaveis vantagens para o adiantamento da +humanidade. Entendem elles avisadamente que só assim, +egualando os homens pela nobilitação, +já que +elles não querem egualar-se pelo plebeismo, conseguiremos +ser todos eguaes. Ora nós, filha, que vivemos em +França, +onde as fitinhas são respeitadas, porque todos as desejam e +trabalham para ganhal-as, vencendo uma batalha, apedrejando um rei, ou +inventando uma machina de fazer colchetes, devemos ter na devida conta +de desprêso uma chimera que, felizmente, em Portugal +preoccupa todas as cabeças para, a final, as nivelar todas +na mesma linha... <br /> + +<br /> + +Corinna da Soledade estava ouvindo e recolhendo +<span class="pagenum">[41]</span> +as sentenças do pae, com o proposito de responder com ellas +ao mesmo apostolo da egualdade, se alguma vez carecesse d'isso. <br /> + +<br /> + +Gastão continuou no mesmo tom de circumspecta gravidade: <br /> + +<br /> + +—Accrescem razões d'outra ordem no caso especial +em que +estamos, Corinna. A nossa casa está desfalcada a ponto de eu +não poder remediar com a mais apertada economia o mal que +vem de avós, e eu continuei na +emigração, para vos dar decencia, +educação e prazeres. Moços eguaes a ti +em nascimento muitos +haverá; mas, pouco mais ou menos, empobrecidos como +nós, e retirados como realistas á obscuridade dos +seus solares e da sua inactividade. Uns por inercia, outros por +ignorancia, todos se devem considerar formando á parte uma +phalange de estatuas d'algum devastado jardim que não ha de +mais florir. Já vês, +Corinna, que ha difficuldade em achar-se um marido como teus +bisavós o desejariam; mas facil te ha de ser encontral-o +como teu pae t'o deseja. Felisberto Taveira, sobre ser rico, +é um gentil moço, é doutor, +revela fina educação, e... não +é assim? <br /> + +<br /> + +—Parece-me excellente sujeito—disse Corinna. <br /> + +<br /> + +—Bem: eu não podia enganar-me—tornou com +alegre semblante +o pae—Já te disse elle que... sim... +manifestou-se-te? <br /> + +<br /> + +—Nada me disse com relação a casamento, +papá. <br /> + +<br /> + +—Não admira: era a primeira vez que fallava +comtigo; mas +que te amava... +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[42]</span> +—Tambem não disse... <br /> + +<br /> + +—Pois sim; convenho em que o respeito e a delicadeza o +contivessem; +porém tu deves conhecer, depois de uma hora de +conversação... <br /> + +<br /> + +—Não fallamos a nosso respeito, +papá—disse +candidamente Corinna. <br /> + +<br /> + +—Pois então?! <br /> + +<br /> + +—Eu lhe digo: apresentaram-me um sujeito que me disse umas +palavras +muito amarguradas, e sahiu do baile. Fiquei pasmada e curiosa de saber +quem era o tal sujeito. O Antão de Menezes, que m'o tinha +apresentado, trouxe-me o Taveira para me dar as +informações que eu desejava. Ficamos a fallar +d'elle todo aquelle tempo que o papá viu. Ahi tem vossa +excellencia o que foi. <br /> + +<br /> + +—E quem era o sujeito? que te disse elle? e porque ficaste tu +assim +curiosa de o conhecer?!—perguntou Gastão com +demudado +rosto. <br /> + +<br /> + +—Era um doutor Azevedo Barbosa, de Barcellos, hospede do +Felisberto +Taveira... <br /> + +<br /> + +—E que mais?—atalhou o pae precipitadamente. <br /> + +<br /> + +—E que mais?! o papá que deseja que eu lhe diga +mais? <br /> + +<br /> + +—Se é rapaz de fortuna... Em Barcellos +não sei +que haja... <br /> + +<br /> + +—É pobre, e vive muito penalisado, porque tem +quatro +irmans, e cuida que o persegue uma má estrella. <br /> + +<br /> + +—Pois sim, não duvido que o persiga uma +má +estrella, e que seja pobre e tenha quatro irmans; mas +<span class="pagenum">[43]</span> +que tens tu que ver com isso? Em que se funda a tua +interessante curiosidade?! <br /> + +<br /> + +—Tive compaixão d'elle, papá. <br /> + +<br /> + +—E gastaste uma hora a colher +informações!... O +Taveira havia de persuadir-se que tamanho interesse significava alguma +coisa mais que simples curiosidade. Se assim foi, como havia de elle +dizer-te que te amava?! Ora, minha filha, nunca faças +praça +d'essas tuas compaixões sem utilidade. Se o Taveira te +procurar nos bailes, agradece-lhe a preferencia, e não lhe +faças suspeitar que o escolhes por medianeiro: isso +não só desanima, mas offende o amor-proprio. Teu +pae pede-te que olhes com toda a seriedade ao teu futuro, que por em +quanto se figura triste. Com um bom casamento davas-te, e davas +á tua familia a felicidade. <br /> + +<br /> + +Corinna da Soledade, ausente o pae, scismou largo tempo com muita +tristeza, e meditou em fingir-se doente para não ir, na +seguinte noite, ao baile da Torre da Marca. <br /> + +<br /> + +O fingimento era facil; porém o bom ou mau anjo d'ella +segredou-lhe seducções, que a deliberaram +a conservar-se no goso de sua perfeita saude para ir ao baile dos +condes de Terena. <br /> + +<br /> + +Antonio d'Azevedo, sinceramente violentado, entrou na sala em que +estava Corinna, e foi ao lado de Taveira cumprimental-a. Momentos +depois, Felisberto ia retirar-se, crendo que assim comprazia a Corinna. +Chamou-o ella, e disse-lhe a resguardo de Azevedo: <br /> + +<br /> + +—Desagrado a meu pae, que está aqui defronte, +<span class="pagenum">[44]</span> +se ficar conversando com o seu amigo. +Peço-lhe que me não deixe só com elle, +e, quando meu pae +estiver jogando, então... <br /> + +<br /> + +E de feito, Gastão de Noronha fitava os olhos na filha, e +perguntava á pessoa com quem fallava, se o sujeito que +entrara com Taveira era um tal Azevedo, de Barcellos. <br /> + +<br /> + +Dizia Taveira ao seu hospede: <br /> + +<br /> + +—Aposto mil contra um... aposto! <br /> + +<br /> + +—O que?—perguntou Azevedo. <br /> + +<br /> + +—Que Corinna te ama, e te ama de véras! A +esconder-se do +pae para te fallar! ha nada mais persuasivo! Quando uma menina se +confia n'um confidente, e desconfia de seu pae, e se esconde d'um +terceiro para dizer ao medianeiro que volte com o outro quando o +papá estiver jogando; e quando esse +<em>outro</em>... és tu!... <br /> + +<br /> + +Antonio d'Azevedo ergueu os hombros, e disse: <br /> + +<br /> + +—Valha-te Deus! Cuidas tu que eu tenho espirito bem folgado +para +entrar n'estes brinquedos pueris, em que a tua seriedade corre perigo +de sahir-se mal!... Queres tu que eu me capacite de que estamos +figurando n'uma das graves comedias humanas? Pois sim, meu amigo: +figuremos e discutamos. Tu já disseste áquella +senhora que eu sou um pobre bacharel que consumiu sua sensibilidade, +<em>fazendo a +côrte</em> aos ministros da justiça? <br /> + +<br /> + +—Não lhe disse tudo isso, nem parte d'isso. Como +ella me +não perguntou se eras rico, dispensei-me de ser o +inventariante dos teus pares de botas e dos teus +<span class="pagenum">[45]</span> +camapheus. Perguntou-me se eras bom, e eu disse-lhe que +eras um moço honrado, e o coração +d'um anjo. Tudo o mais que dissemos foi commentar o que é +ser-se honrado e ser-se anjo. Provavelmente Corinna, que viu tudo em +Paris, não achou lá a exquisitice do +anjo-coração, e está em ancias de +saber em que tu te apartas do restante do genero humano. Esta +curiosidade é já uma escolha, e a escolha, se a +tua modestia m'o consente, é o amor com todos os seus +recatos e astucias. <br /> + +<br /> + +Proseguiram n'esta contenda, até que Taveira viu abancar ao +jogo o pae de Corinna; mas, momentos antes, observara elle que o +fidalgo segredara com sua mulher, olhando o bacharel de +travéz com o sabido disfarce dos que olham de +travéz. D. Mafalda fizera um gesto, que vinha a dizer que +estava sciente. <br /> + +<br /> + +—Vejo que a familia está de +sobre-rolda!—disse Taveira ao +seu amigo—mas ainda assim avisinhemo-nos cautelosamente da +praça. <br /> + +<br /> + +Corinna acabara de dansar, e passeava pelo braço do +parceiro, que por fortuna era Antão de Menezes, o +apresentante emérito. Este, que adivinhava todas as +subtilezas do coração dos seus apresentados, +approximou-se de Azevedo, e disse-lhe com mui galharda cortezania: <br /> + +<br /> + +—O thesouro não me pertence. Aqui o tem, que eu +sou apenas +o indicador dos thesouros.... sou uma especie de S. Cyprianno, que +descobre as riquezas encantadas. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[46]</span> +Antonio d'Azevedo deu o braço a Corinna, e Felisberto +Taveira retirou-se com Antão. <br /> + +<br /> + +Agora é que havia de ser umas delicias ouvil-os, se D. +Mafalda, vigilante observadora da passagem innocente, não +mandasse um cavalheiro dizer a sua filha que fosse fallar-lhe. <br /> + +<br /> + +Corinna respondeu: <br /> + +<br /> + +—Queira dizer á maman que eu vou já. <br /> + +<br /> + +—Vá, minha senhora—disse Azevedo. +Não seja eu +causa de sua mãe a desgostar. <br /> + +<br /> + +—Não importa.... Eu queria pedir-lhe que +não +fosse tão infeliz... <br /> + +<br /> + +—A mim?!—atalhou Azevedo suavemente enleado pela +musica d'aquella +voz, em que o tom da supplica tinha o mavioso do carinho filial. <br /> + +<br /> + +—Sim... pois não me disse que era muito +desgraçado?... <br /> + +<br /> + +—Sou.... era muito desgraçado; mas condoeu-se +vossa +excellencia a tal ponto de mim que.... <br /> + +<br /> + +—Que lhe peço com instancia que se não +deixe +vencer do tedio da sociedade; não fuja das pessoas que +imagina felizes... Olhe que não encontra seis que o sejam +n'estes centenares de pessoas. Eu, se fosse senhora das minhas +acções, tambem aqui não +vinha, e ficaria a soffrer sem nada remediar... Não posso +demorar-me, +que minha mãe está impaciente... Olhe que eu +desejo a sua amizade... Conduza-me a minha mãe... e +não se esqueça... <br /> + +<br /> + +Este lance, que, a dar-se uma vez na vida do homem, +<span class="pagenum">[47]</span> +nunca se repete, foi uma especie de vertigem, que +deixou o espirito de Azevedo na indecisão de quem, a sonhar, +a si mesmo se pergunta se está sonhando. <br /> + +<br /> + +Corinna sentou-se ao lado de sua mãe, e o bacharel com os +braços pendentes e a boca descerrada para tragar +fôlego que lhe alargasse o peito, ficou, tres passos +distante, arrobado na contemplação da gentil +menina. <br /> + +<br /> + +Taveira, que não os perdera de vista, estava-se deliciando +no espectaculo que só elle via. Quando achou que era tempo +de acordar o amigo de um extasis desagradavel a D. Mafalda, tomou-o +pelo braço, e disse-lhe simulando seriedade: <br /> + +<br /> + +—Quando quizeres vamos embora. São duas horas da +manhan. <br /> + +<br /> + +—Já!—murmurou Azevedo. <br /> + +<br /> + +—Vê lá.... se queres sonhar mais alguns +minutos.... <br /> + +<br /> + +Azevedo comprehendeu a intenção de Taveira, e +disse com uma voz que não era a sua, e com um brilho d'olhos +que nunca tivera: <br /> + +<br /> + +—Nasce o novo homem... Sinto o +coração... Agora +sei que ha uma felicidade commum de todos os desgraçados. Se +isto não é uma sensação +passageira, hei de beijar-te as mãos, que me arrancaram do +meu abysmo. <br /> + +<br /> + +—A beijares as mãos de alguem—disse +Taveira, +sorrindo—é melhor que beijes as mãos de +Corinna. +<br /> + +<br /> + +Antonio d'Azevedo deteve-se um pouco de tempo em recolhimento +silencioso, e disse de sobresalto: +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[48]</span> +—Isto é uma nova desgraça! <br /> + +<br /> + +—O quê? uma desgraça beijares as +mãos +de Corinna? <br /> + +<br /> + +—Vê tu—proseguiu elle como se +não ouvisse a +pergunta galhofeira do amigo—que engenhosa é a +minha +funesta estrella! Hontem tive um pensamento que me deu vigor novo para +crer e esperar. Projectei ir ao Brazil, e logo os horisontes do meu +futuro se rasgaram, e não sei a que luz a +esperança me mostrou dias +ditosos. Sonhei com as alegrias do meu plano, e acordei hoje com um +alvoroço estranho. A desgraça viu que +eu tive algumas horas menos negras, e duvidou da sua omnipotencia. +Trouxe-me aqui para eu sentir que o apartar-me hoje do local onde ouvi +aquella mulher me ha de ser um tormento. <br /> + +<br /> + +—Melhor!—interrompeu Felisberto—Ella e os +teus amigos não +querem que vás ao Brazil procurar +a felicidade que deixas cá. Onde a procuramos é +que +ella não está. <br /> + +<br /> + +—Entendes tu—disse o bacharel—que se +é feliz, amando, na +minha posição, uma senhora na +posição de Corinna de Noronha, filha do nobre +Gastão de Noronha... <br /> + +<br /> + +—Nobre e pobre, accrescenta. Se elle fosse rico como foi, +dizia-te +que, a não quereres renunciar aos teus austeros principios +de dignidade, convinha-te esmagar o coração +debaixo da barra d'oiro que ella +valesse; mas, segundo as informações que hoje me +deram, a filha do fidalgo não tem mais do que tu. Entre +<span class="pagenum">[49]</span> +ti e ella está estabelecida a +egualdade humana, no maximo rigor da palavra. <br /> + +<br /> + +—Ainda não—atalhou Azevedo—Eu +sou filho de um lavrador de +Barcellos. <br /> + +<br /> + +—Vai tu perguntar aos lavradores de Barcellos se elles +dão +seus filhos ás filhas dos fidalgos que +não tem terras que lavrar. <br /> + +<br /> + +—Essa é outra questão, meu amigo. +Não +te esqueças que eu sou um homem sem +occupação. Tão +reprehensivel seria eu disputal-a ao pae sendo ella rica e eu pobre, +como se quizesse associal-a á minha pobreza. Que faria eu +d'aquella menina se me fosse permittido casar com ella? <br /> + +<br /> + +—O que fazem das esposas os maridos que casam pobres. Amam-as +como se +costumam amar os pobres; por amor d'ellas redobram de vigor para +luctarem com a adversidade; por amor dos filhos nunca esmorecem no +desalento em que tantas vezes se nos deparam os celibatarios, que +apenas luctaram um anno com as contrariedades. A familia é +uma +accumulação de forças no +braço do seu chefe. O pae nunca succumbe; o marido tem uma +força providencial que o ampara. <br /> + +<br /> + +Este dialogo, o primeiro que n'este genero talvez se travou n'um baile +entre dois rapazes menores de vinte e cinco annos, foi interrompido por +Gastão de Noronha, que quiz ser apresentado a Felisberto +Taveira.<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[50]</span> +<h3>VI. </h3> + +<br /> + +<br /> + +Quiz o fidalgo do Minho apalpar o coração do +filho do millionario, pessoalmente. A sua prosapia soffria-lhe que, +ageitando-se o ensejo, elle mesmo se offerecesse para sogro, e poupasse +o timido moço aos +embaraços de pedir-lhe a filha, e aos receios de ser mal +acolhido. <br /> + +<br /> + +Ouviu Felisberto Taveira uma longa e não falsa +descripção das virtudes e prendas de Corinna da +Soledade. Aqui se dá um fragmento da paternal +exposição: <br /> + +<br /> + +—Minha filha, posto que vivesse na melhor roda de Paris, e a +rodeassem +os mais graduados moços d'aquelle viveiro da elegancia, +nunca se captivou d'algum. Não lhe direi que ella se +isentasse por soberba do seu nascimento, bem que pudesse tel-a, porque +meu quinto avô sahiu da casa dos marquezes de Villa-Real, por +onde somos Noronhas; todavia, não era vaidade a frieza de +Corinna. Bem póde saber vossa senhoria que +<span class="pagenum">[51]</span> +o coração é de essencia +democrata, e +ao coração se deve o triumpho da democracia, em +virtude de se irem a pouco e pouco amollecendo as durezas de que as +antigas educações callejavam o +coração da mulher de linhagem. O que minha filha +tinha e tem, era um juizo prudencial á prova de todas as +velleidades e pompas, que seduzem o vulgar das meninas. Os seus gostos +foram sempre moderadissimos; riquezas nunca a deslumbraram; os bailes e +os banquetes era preciso obrigal-a a gosal-os; tudo lhe era pesado, +menos a solidão, a meditação e a +obscuridade. Cuidei sempre que +minha filha seria insensivel ao prazer de se ver amada, e mais ainda ao +de receber satisfeita a côrte de algum moço. Em +Portugal, principalmente, é que +não devia esperar vel-a possuida de sentimentos amorosos; +porque, sem desaire da nossa patria, devemos confessar que +nós, os portuguezes, temos em amor uma certa gravidade, que +toca a extrema do aborrecimento. Falta-nos um certo espirito +<em>pétillant</em>, um +não sei quê de que as mulheres se deixam seduzir. +Não acha? <br /> + +<br /> + +—Sim, senhor... nós temos +isso...—respondeu Felisberto +Taveira, descobrindo um grande fundo de ridiculez através do +aspeito encanecido do fidalgo. <br /> + +<br /> + +—Sem duvida nenhuma... Pois, meu caro senhor Taveira, penso +poder +affirmar-lhe que a minha filha está pagando o universal +tributo. Descobri que ama! Só o Porto podia fazer tal +milagre! <br /> + +<br /> + +—É muita honra para o Porto, senhor Noronha! e +muita mais +ainda para o homem escolhido. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[52]</span> +—Que vossa senhoria conhece perfeitamente... <br /> + +<br /> + +—Eu?...—balbuciou Taveira, quasi convencido de que +o fidalgo alludia +a Antonio d'Azevedo. <br /> + +<br /> + +—Sim, senhor: conhece-o como ás suas +mãos, +porque vossa senhoria e elle formam dois seres n'um só ser: +são inseparaveis. <br /> + +<br /> + +Isto acabou de persuadir Taveira, que, na mais candida boa +fé, accrescentou: <br /> + +<br /> + +—E creia vossa excellencia que a pessoa preferida pela +senhora D. +Corinna tem virtudes e coração +dignos d'ella. <br /> + +<br /> + +—Creio, creio, e o meu maior prazer era vel-os unidos, em +quanto eu +tenho vida e alegria para poder felicitar-me de tão boa +união. <br /> + +<br /> + +—Agora me convenci—acudiu Felisberto—de +que vossa excellencia ama +sinceramente sua filha, e viu com benignos olhos a +inclinação desegual que ella +manifestou. <br /> + +<br /> + +—Inclinação desegual! Eu não +sou +parvo de fidalgas desegualdades, senhor Taveira! Soberania ha uma +só, que é a da virtude: o resto +são convenções humanas sem criterio +nem fundamento real. O que eu quero é ver minha filha feliz. +Se os meus appellidos valem alguma coisa, meus netos hão de +chamar-se Noronhas, e a todo tempo que elles queiram humilhar +arrogancias d'outros nobres, poderão sempre abrir a +historia, na certeza de que encontram o nome d'um avô em cada +pagina. Os tempos são outros, senhor Taveira, porque +são outros os corações. +Violentar a vontade +<span class="pagenum">[53]</span> +de minha filha!... Deus me +feche os olhos antes que eu tal faça! Respeito-lhe a +inclinação, que ella manifestou, porque sei que a +sua dignidade foi a primeira voz que lhe deu conselho. <br /> + +<br /> + +—Admiro a grandeza de sua alma!—tornou Taveira com +mui sizuda e +admirativa satisfação—E mais me espanta +que +vossa excellencia, antes de acceder á vontade de sua filha, +não curasse de saber se o homem escolhido é +bastante rico a mantêl-a na decencia +com que foi criada. <br /> + +<br /> + +—Não, senhor, não quiz saber se era +rico: o que +perguntei foi se era bem comportado, se tinha grangeado a estima +publica, se seria um bom marido e um bom pae. Unanimemente me disseram +que sim. <br /> + +<br /> + +—E disseram-lhe a verdade, senhor Gastão de +Noronha—confirmou Taveira—A riqueza de Antonio +d'Azevedo +só bem lh'a podem avaliar os que mais perto vivem de sua +nobre alma. <br /> + +<br /> + +—A riqueza de quem?—atalhou Gastão de +Noronha com um gesto +de irrisorio espanto. <br /> + +<br /> + +—De Antonio d'Azevedo Barbosa—tartamudeou Taveira, +corrido do engano +em que tinha estado. <br /> + +<br /> + +—Não nos temos entendido!... Pois vossa senhoria +cuida que +eu estou fallando d'esse tal sujeito? <br /> + +<br /> + +—Cuidava... Pois não é elle a pessoa +distinguida +por sua filha?!... Perdão! eu entendi mal. <br /> + +<br /> + +—Vejo que sim; e eu peço tambem perdão +de +entender mal, cuidando que era outra a pessoa... Ora esta!... Pois +não é o senhor Felisberto Taveira? +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[54]</span> +—Eu! <br /> + +<br /> + +—Sim, o senhor! <br /> + +<br /> + +—Não pensei tal... e creio que vossa excellencia +entendeu +mal a propensão da senhora D. Corinna, posto que a escolha +me daria muita gloria. <br /> + +<br /> + +—Muito bem: façamos de conta que estivemos a +fantasiar—tornou Gastão simulando um desenfado +risonho, que +lá por dentro era accesso de zanga e +vergonha.—Pelo que diz +respeito ao senhor Antonio de... como é? <br /> + +<br /> + +—Antonio d'Azevedo. <br /> + +<br /> + +—Ah! sim, d'Azevedo... filhote de Barcellos? <br /> + +<br /> + +—Justamente. <br /> + +<br /> + +—Não sei quem são os Azevedos de +Barcellos... +Sejam lá quem forem, meu caro senhor Taveira... tenho a +dizer-lhe... <br /> + +<br /> + +—Os Azevedos de Barcellos—interrompeu com louvavel +desabrimento +Felisberto—são tão nobres +como os Taveiras do Porto. Meu pae veio da lavoira de Fafe para aqui; o +pae do bacharel Antonio d'Azevedo morreu na lavoira de Barcellos. <br /> + +<br /> + +—Sim, senhor: convenho em que tão nobres +são uns +como outros; mas a minha filha não ha de, creio eu, +illudir-me mais uma hora. Queira desculpar um engano, em que vossa +senhoria nada perdeu, e rogo-lhe que diga ao senhor Antonio d'Azevedo +que se preoccupe com aspirações mais rasoaveis, +se não +interessa em dar graves desgostos a uma familia que vive tranquilla. <br /> + +<br /> + +Quando as ultimas linhas d'este dialogo se trocavam +<span class="pagenum">[55]</span> +entre os dois, qual d'elles mais corrido do seu +equivoco, outro dialogo terminava entre Corinna e Antonio d'Azevedo por +estas palavras d'ella: <br /> + +<br /> + +—Eu receio que meu pae se não demore no Porto, e +Deus sabe +se nos veremos mais! Olhe: se tiver precisão de queixar-se +da sua má estrella, faça-o a mim, que sou, desde +hontem, desde sempre, desde que nasci sua amiga, e talvez sua irman por +sympathia de dores. Escreva-me: eu lhe direi de Vianna em que nome me +ha de escrever. Vá visitar-me em espirito á minha +soledade: lá me verá sósinha por entre +as +arvores, em quanto minhas irmans, quasi tão infelizes como +eu, procuram ao menos entreter-se umas com as outras em volta das suas +saudades de Paris... Eu nem isso trouxe de lá... +Não se demore, que vejo meu pae... <br /> + +<br /> + +Felisberto chegou diante de Antonio d'Azevedo, e disse com +forçado riso: <br /> + +<br /> + +—Estás outra vez somnambulo, Antonio? Eu estou +peor, porque +venho estupido de spasmo! <br /> + +<br /> + +—Que é? <br /> + +<br /> + +—Querem casar-me com a tua Corinna! <br /> + +<br /> + +Azevedo ergueu a fronte avincada, e disse: <br /> + +<br /> + +—Pois é costume offerecerem-se assim as filhas +n'um baile +ao homem a quem se é apresentado?! <br /> + +<br /> + +—Não é costume: é moda +agora... O +Gastão vai sahir com a familia—ajuntou +Felisberto—Podemos +ir, e lá fóra conversaremos. <br /> + +<br /> + +Ouviu o bacharel o dialogo em resumo; contou ao seu amigo as ultimas +palavras de Corinna; e adorou a +<span class="pagenum">[56]</span> +imagem da +primeira mulher amada nos alvores da aurora que repontava. O que elle +então disse, em arrobos de poesia, era o sublime represado +n'aquelle +coração em sua primeira primavera. <br /> + +<br /> + +Perguntou-lhe Taveira se pensava ainda em ir ao Brazil. <br /> + +<br /> + +—Hoje mais que nunca—respondeu elle. <br /> + +<br /> + +—Como assim?! Aquella mulher não te prende +á +patria? <br /> + +<br /> + +—Prende-me sobre tudo a um sacratissimo dever. Até +agora +pensava em ir ao Brazil para segurar o futuro de quatro irmans +pobremente criadas e boas de contentar com pouco; d'hora em diante hei +de ver no horisonte das minhas ambições, +além de +minhas irmans, Corinna da Soledade, educada com as regalias da sua +condição, e só digna do homem +que a não obrigar a descer de posição +aos olhos da sua sociedade. <br /> + +<br /> + +—E quem te assevera—redarguiu +Felisberto—que voltas rico a Portugal? +De que genero de trabalho fias tu a tua prosperidade? <br /> + +<br /> + +—De todos os generos honestos. Se não valer como +advogado, +valerei como caixeiro; se não tiver aptidão para +o negocio, ensinarei o que sei; se tiver de descer, descerei sem +vergonha; se descer tão baixo que nunca possa erguer-me +d'entre os ultimos operarios, ahi ficarei, e lá morrerei: +ninguem dirá, depois, +que transigi com a minha inutilidade. <br /> + +<br /> + +—Quer-me parecer—retorquiu Taveira—que a +linda Corinna +está sendo ainda pouquissima coisa na<span class="pagenum">[57]</span> +tua alma! Dar-se-ha caso que, em verdade, tu sejas refractario ao amor, +ou que a tua sensibilidade, como disseste, se consumisse em galantear +os ministros da justiça!? Qualquer homem, que não +fosse tu, forte +do amor inspirado por um anjo como Corinna, e com as tuas +habilitações, cuidava desde já em +agenciar na patria uma mediania, que a doçura da vida intima +convertesse em opulencia invejavel aos mais opulentos. Suppondo que tu +não pudesses, n'um ou dois annos, alcançar +emprego, ou clientela como advogado, é +de crer que tivesses um amigo a quem pedisses um, dois, ou mais contos +de reis para te estabeleceres aqui, em Lisboa, na tua terra, ou onde +quizesses viver. Suppondo mais que tu me tivesses na conta do teu +primeiro amigo, era a mim que tu pedias esse emprestimo, e eu com mil +vontades te servia agora, e depois, e sempre. <br /> + +<br /> + +Antonio d'Azevedo, após algum espaço de +reflexão, respondeu: <br /> + +<br /> + +—Meu caro amigo, se o verdadeiro amor é uma +desordem da +razão, esse não é o amor +que eu sinto. Que a minha vida está passando por nova phase, +é +certo: esta excitação d'alma, que eu +não sei +se deva chamar alegria da juventude feliz, nunca a experimentei. +Porém nenhuma das minhas faculdades, que pensam, julgam, e +antevêem os successos, se escureceu: ouso até +affirmar-te que o juizo se revigora, e a previdencia se aclara mais. +Depois d'isto, imaginemos que tu me emprestas o cabedal necessario para +eu ter uma casa, +<span class="pagenum">[58]</span> +uma esposa, e a subsistencia +certa de algum tempo. A esposa devia ser necessariamente a filha de um +homem que cahiu da sua dignidade offerecendo-t'a porque és +rico, e que se dignou recommendar-me que não perturbasse o +socego de uma familia, que vive tranquilla. Não foi isto? <br /> + +<br /> + +—Pouco mais ou menos. <br /> + +<br /> + +—Bem: e não entendes tu que seria uma indignidade +ir eu +perturbar o socego do pae de Corinna, casando-lhe com a filha, por meio +d'um rapto ou da +intervenção da justiça? <br /> + +<br /> + +—Não entendo assim a dignidade. Se Corinna +consentir em ser +raptada para o mais santo dos intentos a que o +coração a pode impellir; e, se ella +rasoavelmente se não quizer sacrificar á +ambição do pae, nem a tua honra, nem a sua, nem a +da familia illustre ou não illustre, soffrem desaire. <br /> + +<br /> + +—Discordamos—replicou +Azevedo—Gastão de Noronha quer que +sua filha case rica: entende elle que sua filha só +póde ser feliz sendo rica. +Será absurdidade uma tal opinião? Vai tu +perguntar a qualquer pessoa estranha a Corinna, se a julga feliz na +pobreza: ha de responder-te que a julga mais feliz sendo rica. Pois se +os estranhos pensam assim, que fará um pae? <br /> + +<br /> + +—Convenho; mas sobejam exemplos de mulheres sacrificadas por +esse erro +dos paes. <br /> + +<br /> + +—Deixal-os sobejar: ainda mesmo que todos os exemplos fossem +contra os +paes, nem por isso a vontade bem intencionada d'elles deixava de ser +respeitavel; +<span class="pagenum">[59]</span> +mas crê tu, meu +amigo, que o maior numero de casos justifica o arbitrio dos paes. Eu +tenho vivido muito arredado d'estes estudos da sociedade em que tu +deves saber muito; assim mesmo, se tu quizeres posso recordar-te de os +ter ouvido a ti e aos outros, alguns casamentos mal agourados por terem +sido contra vontade das filhas, arrancadas por força a +affeições de moços pobres para serem +adjudicadas a homens odiados com toda a sua riqueza. Pois, com o rapido +andar de alguns mezes, se não dias, as esposas violentadas +apparecem radiosas de alegria nas suas carruagens, nos seus camarotes e +nos seus salões; em quanto os mocinhos pobres e +amantissimos, ou porque emmagrecem, ou porque engordam muito, chegam a +passar por as noivas, que os poetas denominam +<em>martyres</em>, sem ellas os conhecerem. <br /> + +<br /> + +Felisberto riu-se do semblante grave com que o seu amigo proferiu as +ultimas palavras. <br /> + +<br /> + +Após breve pausa, Antonio d'Azevedo continuou: <br /> + +<br /> + +—Estamos aqui a fallar de casamento, como se Corinna me +tivesse dito +que quer casar comigo!... O que ha entre nós é +uma +ligação das que se desligam no intervallo de dois +bailes, meu amigo. Lembra-te que eu não sou de todo hospede +n'estas materias: traduzi vinte ou mais volumes de romances, e acredito +nos romances, cujas passagens a minha razão explica. Dado, +porém, que a magîa é duradoura, e que +este amor encerra +em si um drama, que ha de fechar pelo casamento, eu só +poderei ser marido de Corinna quando o<span class="pagenum">[60]</span>pae +me +acolher, <em>sem equivoco</em>, como +te acolheu a ti ha poucas horas. É preciso que a +justiça +não interceda a favor do meu coração. +Quando eu puder dizer a +Corinna que sou bom, e ao pae de Corinna que sou rico, então +verei se este presentimento da felicidade era mais que um sonho dos que +os grandes desgraçados convertem logo em excruciante +realidade da vida. Por ora, nem bom nem rico. Para a bondade falta-me +ter esgotado as forças que ainda sinto em adquirir meios com +que sustente uma grande porção do bem-estar, +impossivel de alcançar-se sem elles. Eu não sei +que +merecimentos póde ter, no conceito d'uma mulher, o homem +pobre que, em nome da sua desvairada paixão, a convida a ser +pobre com elle, e a receber da sociedade as, talvez involuntarias, +desattenções que +necessariamente avexam o pobre, se elle não está +santificado pela +paciencia. Ora, a santificação n'estes nossos +dias, meu +amigo, nem o muito amor a póde dar aos casados pobres. <br /> + +<br /> + +—Do teu arrazoado—disse +Felisberto—concluo, e toda a gente ha de +concluir, que amas Corinna como um inglez, estabelecido nas Antilhas, +amaria a sua noiva, que elle nunca viu, estabelecida em Londres. Dentro +de quinze dias estás mudado, ou então ha +ahi grande aleijão na tua alma! Hei de dar-te um conselho, +se não mudares. <br /> + +<br /> + +—Então dá-m'o já, que eu +fico pela +minha constancia. <br /> + +<br /> + +—Ordena-te, faz-te conego, bispo, patriarcha, cardeal, e +não vás ao Brazil. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[61]</span> +<h3>VII. </h3> + +<br /> + +<br /> + +Gastão de Noronha, poucos dias depois do baile da Torre da +Marca, sahiu do Porto apressadamente com a familia, por saber que +chegara a Vianna um seu parente de Lisboa, com o intento de passar a +estação da primavera na quinta das margens do +Lima. <br /> + +<br /> + +Momentos antes da partida, Corinna da Soledade escreveu esta carta: <br /> + +<br /> + +«Vamos partir. Lembre-se d'esta sua outra irman para lhe +contar os seus dissabores. Póde parecer-lhe que este desejo +das suas cartas é desejo de quem vai viver na +solidão da aldeia, e precisa distrahir-se seja com o que +fôr. Talvez a sua bondade me não +recusasse tal distracção, ainda mesmo tendo o meu +amigo a certeza de ser tamanho e tão de gelo o meu egoismo. +Não, não é assim. Eu, sem pejo, lhe +confessei que o estimava quanto podia, e nenhum accidente da minha vida +me fará mudar. Se vir o caminho da felicidade, +<span class="pagenum">[62]</span> +siga-o, meu irmão, e não volva +a face +lá para a minha soledade, para aquelles arvoredos onde eu +hei de esconder-me com as suas cartas. +Adeus.==«<em>C. da +S.</em>» <br /> + +<br /> + +Na carta ia incluido um bilhete com um nome de homem, a quem deviam ser +subscriptadas as cartas de Antonio d'Azevedo. <br /> + +<br /> + +Agora sabe a sensivel leitora se Corinna da Soledade tinha +razão de estar triste mais que suas irmans, quando, idas do +tumultuoso Porto, se viram outra vez no ermo, quando as arvores mal +sacudido tinham os gelos do inverno, e começavam a abrolhar +os gomos da sua nova folhagem. <br /> + +<br /> + +O parente, que esperava em Vianna, Gastão, era um fidalgo +sexagenario, filho de Lisboa, grande morgado no Alemtejo, e muito amigo +de divertir-se, do que dera cabal prova no decurso de sua vida +celibataria. Chamava-se D. João de Mattos e Noronha, e vinha +a ser segundo primo de Gastão, ou coisa assim parecida. O ir +elle ao Minho, na primavera d'aquelle anno, posso asseverar-lhes que +não era movido por desejo de vêr florido o jardim +de Portugal, nem se lhe a elle dava que as claras aguas do Lima +corressem para baixo ou para cima. O caso era todo medicinal. Como +sentisse as pernas fracas, e o estomago preguiçoso, +consultou varios medicos, e todos lhe disseram que fizesse exercicio, e +bebesse bons ares, especialmente os do Minho. Occorreu logo a D. +João de Mattos que tinha um parente nos suburbios de Vianna; +e, posto que<span class="pagenum">[63]</span>nunca +se vissem nem +correspondessem, entendeu elle que, a toda a hora, um Noronha seria bem +recebido no solar do fidalgo minhoto. Outra razão vem +condizendo para explicar a escolha da provincia, e era que o velho +fidalgo de Lisboa, na ultima decada da vida, se fizera tão +economico e aváro, quanto fôra +prodigo e dissipado até aos cincoenta annos: d'onde +resultava que o seu grande prazer seria achar bom gasalhado gratuito em +casa de parentes, que se dariam por bem pagos com a honra de o terem +hospede. <br /> + +<br /> + +Cresceu de ponto a satisfação do velho, quando se +viu alegremente acolhido nos braços de seu primo, dando a +beijar a mão ás cinco formosas meninas, +que lhe chamavam tio D. João. <br /> + +<br /> + +A medicina teve um triumpho. O estomago de D. João activou +admiravelmente suas digestões; as +pernas pareciam recaldeadas de aço; movia-se o +remoçado velho com a flexibilidade dos seus quarenta annos. +A natureza brindou-o com as suas urnas aromaticas: eram tudo tapetes e +doceis de flores a festejal-o; as calhandras e os rouxinoes +desgarravam-se em cantilenas quando o velho passava com as sobrinhas +pelos braços; até o Lima, recobrando a primitiva +magîa de dar o esquecimento a +quem o transpunha, parecia ter matado no sexagenario saudades, e +renascido esperanças em novo começar de vida. <br /> + +<br /> + +Esperanças! ora, esperanças aos sessenta annos, +(diz o leitor) em que, a não ser na +salvação de sua alma? +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[64]</span> +Verão o que d'alli sáe. Hão de +maravilhar-se do influxo d'aquelles ares e aguas do Minho, nas fibras +revelhas de um peito ido de Lisboa, onde as cachexias do +coração vem muito mais temporans—o que, +a meu +ver, se deve ao mau ar e á pessima agua, elementos +importantissimos do sangue. <br /> + +<br /> + +D. João de Mattos, conversando, uma vez, a sós +com seu primo Gastão, disse ao correr do dialogo: <br /> + +<br /> + +—Olha, primo, o celibato dá aos moços +vantagens, +que, no velho, são amargamente descontadas. Mil vezes, nos +ultimos vinte annos, me tenho arrependido de não haver +casado. Desprezei grandes fortunas, porque era rico, e formosas +mulheres, porque era um estroina de pessimos costumes: parecia-me que a +belleza é uma flor boa para se aspirar e deixal-a ainda +viçosa para que nol-a invejem e furtem; em quanto que a +obrigação de conservar em casa a flor murcha +é um pesadelo. Isto é que eu pensava com a minha +libertina philosophia dos vinte, dos trinta e dos quarenta annos. +Quando orcei pelos cincoenta, lembrou-me que, aos sessenta, precisaria +de uma familia, de uma esposa, de filhos, de carinhos e das doces +illusões da velhice. Pensei em casar-me. Procurei as +mulheres que amara aos trinta, e achei-as mães e +avós; algumas que se +conservavam solteiras estavam feias e velhas. Veja o primo o poder dos +maus habitos!—quando assim as vi, ainda cá disse +de mim +para mim: «olha se eu tenho +casado, que bonitas creaturas estas para me ajudarem a +bem-morrer!» Muito custa a purgar a peçonha dos +maus<span class="pagenum"><a name="p65" id="p65">[65]</a></span>principios, +primo Gastão! Aqui +tem, pois, vossa excellencia que por um triz não cedi +á +tentação de casar com uma menina de vinte e cinco +annos, filha segunda da casa da Trofa em Evora, a qual os paes me davam +com a melhor vontade, e ella tambem não mostrava sombra de +constrangimento; mas um dia, não sei como, vou a casa d'um +tenente de cavallaria, ainda nosso parente, e vejo-lhe sobre uma mesa +um ramo de flores velhas atadas com uma fita de setim verde que eu +mandara á minha futura, atando outro ramilhete, em dia dos +seus annos. Pensei no que vi sem dizer nada. Faz lá ideia do +castigo dos meus erros começados n'aquella hora de ciume! +<a href="#e1">Ninguem</a> imagina a dor de um velho +ludibriado, se elle +ainda conserva coração com bastante +memoria para lembrar relances reprehensiveis de sua mocidade!... Fui +para Lisboa sem me despedir da noiva, e de lá escrevi ao +pae, dizendo-lhe que seria grande acerto casar sua filha com o tenente +de cavallaria. Como de facto acertaram casando, e lá +estão felizes +com muitos filhos. O que eu nunca pude acabar de entender é +como podia aquella menina acceitar-me, e com que vistas o faria? +Dispunha-se a ser feliz comigo, e vai depois ser feliz com o outro! +Entendam lá as mulheres d'agora tão differentes +das do meu tempo! De maneira, meu caro primo, que a minha decrepitude +será triste a mais não poder. Á hora +da morte hei de +ver-me rodeado dos successores do morgadio, sobrinhos que +aborreço, porque os vejo sempre a contarem-me as rugas novas +da cara, e sei que tem o lisongeiro cuidado +<span class="pagenum">[66]</span> +de +perguntarem por mim, todos os dias, aos medicos. Tenho accumulado os +rendimentos por não saber em que dispendel-os; e tudo isto +ha de ir dar áquellas mãos ávidas de +meus sobrinhos, e depois elles +é que hão de saber gosar o que eu já +não +posso.... Triste, tristissima coisa, primo Gastão! <br /> + +<br /> + +—Isso é assim, primo D. +João....—murmurou com +doloroso tregeito de beiços e olhos o pae das cinco meninas +solteiras; e proseguiu—O primo, ainda assim, por causa de uma +é injusto com as outras mulheres. As de hoje são +como as de todos os tempos: ha bom e mau. Ora assim como D. +João deu com uma das más, podia ter encontrado +uma das muitas que ha boas, e estar a esta hora muito satisfeito, e ter +já um herdeiro dos seus vinculos. <br /> + +<br /> + +—Palavra de cavalheiro!—exclamou com +alvoroço D. +João—quando penso que podia ter um herdeiro dos +meus +vinculos, e arrancar a minha casa das garras famintas de meus +sobrinhos, morro de +desesperação por me não ter casado! +Que contentamento seria o meu, ó primo! um filho! um +herdeiro! <br /> + +<br /> + +—Pois ainda está em tempo—atalhou +Gastão—case-se; não hão de +faltar-lhe +noivas, sem sahir da sua qualidade. Ha de achal-as mesmo na sua +parentella, dignas, formosas, capazes de lhe honrarem a velhice, e +encherem de alegria e mocidade os seus ultimos annos. <br /> + +<br /> + +D. João fitou os olhos descorados e franzidos no rosto do +primo, estendeu-lhe a mão cortada de cordoveias, e +tartamudeou: +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[67]</span> +—Se eu tivesse vinte annos menos, pedia-lhe uma de minhas +sobrinhas, +primo Gastão. <br /> + +<br /> + +—Escolha, primo—disse o pae de Corinna +apertando-lhe affectuosamente +a mão. <br /> + +<br /> + +—Não escolho nem peço +nenhuma—tornou o +velho—Veja se me tira vinte annos das costas, e depois +pedirei a nossa +Corinna, que é um anjinho, mas +não para mim, que posso ser avô d'ella. Nada, +primo, nada: para desgraçado basto eu. <br /> + +<br /> + +—Façamos um contracto. Eu tracto de sondar a +vontade de +minhas filhas, e especialmente de Corinna. Se esta, ou alguma das +outras se mostrar bem disposta a ser sua esposa, o primo D. +João não se nega. <br /> + +<br /> + +—Palavra de D. João de Mattos e Noronha, que +não +me nego; pelo contrario, morrerei de felicidade, porque, +além da esposa e da sobrinha, levo comigo a mulher, cujos +costumes tenho apreciado em mez e meio de convivencia a todas as horas. +<br /> + +<br /> + +Fechou-se o dialogo com poucas mais palavras de reciproca +satisfação dos dois fidalgos. Em quanto +elles praticavam, lia Corinna da Soledade a decima carta de Antonio +d'Azevedo, que dizia assim: <br /> + +<br /> + +«Esta é a ultima carta que lhe escrevo em +Portugal, minha amiga. O navio parte depois de ámanhan de +tarde. Agora vou a Barcellos abraçar minhas irmans, e +despedir-me das memorias da minha infancia. Sinto um prazer amargo em +me ir approximando do seu ermo. Cinco leguas apenas nos hão +de separar quando ler esta carta. Dê-me uma lagrima +<span class="pagenum">[68]</span> +como retribuição da +angustia com que eu hei de +lançar a derradeira vista ao ceo que cobre os seus +arvoredos. Quando eu era criança, ia tantas vezes d'um alto, +onde ha ruinas d'um castello, olhar para esses sitios! Que +visão seria aquella da minha alma, +então magoada como se presentisse a saudade de hoje! <br /> + +<br /> + +«Mande-me ter coragem, minha querida amiga: diga-me antes, +como tantas vezes me tem dito, que a dignidade excessiva me tem dado ao +coração liga +de bronze. Ai! quanto se engana, Corinna! quanto se enganam os mesmos +amigos de quem não escondo um pensamento! <br /> + +<br /> + +«Levo alegres esperanças. Os bons Taveiras tem-me +dado cartas de summo valor de pessoas muito importantes d'aqui para +outras do Rio de Janeiro. A mim não me ha de custar a +merecer a bem-querença de todos: levo comigo a +segurança no firme proposito que fiz de não sahir +do caminho dos meus deveres. O que fui comsigo, minha amiga, hei de +sêl-o em todas as situações da minha +vida. Se esta +estrada me não guiar á felicidade sem remorsos, +é que não ha nenhuma. <br /> + +<br /> + +«Vou no intento de advogar. Em poucos annos, com o auxilio de +amigos e fervor de trabalho, posso ganhar a mediania que basta aos +nossos moderados desejos. Poucos annos, Corinna, que rapidos +hão de ir como vão os annos dos felizes. +Verá que a +esperança lhe aligeira o tempo, e as minhas cartas lhe +hão de acudir nas más horas da +desanimação. Temos<span class="pagenum">[69]</span>Deus +por nós. <span class="smallcaps">Deus</span>, +minha Corinna! Escrevo-lhe estas quatro lettras com quanta +uncção +póde dar a fé ardente d'um homem sem culpa. O +premio que Deus me dá é a consciencia de poder +assim fallar +de mim; e chego a crer que este dom me basta para valer muito em seu +conceito. Se me não sentisse puro de vergonhas e remorsos, +Corinna, julgar-me-ia indigno de si. <br /> + +<br /> + +«Eu quizera poder dizer a todo o mundo, e a todos os +desventurosos escravos de suas paixões, que nenhum amor, por +mais desmedido que seja, carece de provar que o é com +destinos e excessos censuraveis. É a primeira vez que amo, +Corinna, e amo-a muito: pois, por sua vida lhe juro, que ainda leve +sombra de intenção culposa me não +nubelou a limpida esperança de a ver minha esposa. Estou +chorando e estas lagrimas não sei se qualquer amante as +verte. Sei que muitos as fariam chorar de sangue a outrem, para se +esquivarem ao trance que me está fundamente doendo no +coração. E eu, por mim, +antes quero padecer agora, porque sei que hei de ser consolado. Os dias +prosperos não vem do acaso: +são grangeados, como as searas, a muita fadiga e com muitos +intervallos de desalento: a final a colheita de fructos e de +bençãos; o +coração ainda novo para saborear os fructos, e o +espirito cheio de santa vaidade por ter merecido as +bençãos. <br /> + +<br /> + +«Espere-me, minha doce amiga; seja o meu anjo +<span class="pagenum">[70]</span> +animador; mostre-me de cá sempre a patria +á luz +da sua alma allumiada de graça divina. <br /> + +<br /> + +«Escreva-me, e mande as suas cartas ao nosso bom amigo +Taveira; as minhas, por mediação d'elle, +todas receberá, e muito longas, para lhe encurtar as horas, +e dar alguma alegria ás minhas noites. <br /> + +<br /> + +«Corinna, minha querida esposa, não posso +continuar. Sejamos dignos um do outro. Offereço a Deus as +lagrimas que hei de chorar, pedindo-lhe que enxugue as suas com as +consolações da +esperança. Tenha muito animo. A religião ha de +dar-lhe o que o meu amor não puder. Estarei sempre com a sua +alma, e Deus será sempre entre nós, porque muito +do intimo creio que entre dois infelizes sem culpa está +sempre um bom anjo. Adeus.»<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[71]</span> +<h3>VIII. </h3> + +<br /> + +<br /> + +O jubilo de Gastão de Noronha, causado pela proposta de D. +João de Mattos, foi, n'aquelle mesmo dia, aguado por +extraordinaria e imprevista angustia. <br /> + +<br /> + +Os vinculos que administrava o descendente dos marquezes de Villa Real, +trouxera-os sua mulher, D. Mafalda de Athaide, natural de Ponte do +Lima, havidos de um tio, que morrera sem descendencia directa. <br /> + +<br /> + +Em quanto Gastão estivera no estrangeiro appareceu um filho +natural do antecessor dos vinculos administrados por D. Mafalda, +allegando o seu direito á +successão dos bens de Fernão d'Athaide. O fidalgo +não deu pezo ás consideraveis provas de +habilitação do contendor. De mais a mais, como o +seu nome de liberal valesse muito a favor do pretendente, o pleito +decidiu-se contra Gastão em primeira instancia. Seguiu o +processo os termos de appellação para as +superiores instancias. Gastão tinha parentes nos altos +cargos da +<span class="pagenum">[72]</span> +judicatura, liberaes +rebuçados, que protegeram o +réo ausente, contra o favorecido author. O pleito ficou +alguns annos trancado no desembargo do paço, até +que o emigrado voltou. Os primeiros annos, que seguiram a +restauração, foram tumultuosos e favoraveis em +todo o sentido para os que, mais ou menos prestantes, se diziam +restauradores. Como em tudo assim era desleixado e imprevisto, o +fidalgo não curou de rematar o litigio, destruindo as provas +do filho natural, nem mesmo quiz averiguar a sua plausibilidade, ou +fazer que o processo se perdesse. <br /> + +<br /> + +Em 1840 requereu novamente o filho natural, documentando o seu +arrasoado com uma carta de perfilhação concedida +por D. João VI no Rio de Janeiro, para onde +Fernão de Athaide, pae do habilitando, +fôra com o rei em 1807. Ajuntava este aos autos reconstruidos +cartas escriptas por seu pae, tanto a elle, como a sua mãe, +portugueza de origem, que fallecera no Rio de Janeiro, casada e dotada +pelo fidalgo de Ponte do Lima. Accrescia a isto o depoimento de doze +testemunhas de ouvirem dizer ao moribundo Athaide que tinha no imperio +do Brazil um filho natural, chamado Fernando de Athaide, ao qual +testava todos os seus bens livres e vinculados. <br /> + +<br /> + +Este legado, com quanto em principio devesse tornar duvidosa a +successão de D. Mafalda aos vinculos de seu tio, foi pouco +no conceito dos principaes lettrados, quando Gastão de +Noronha os consultou: diziam que os bens vinculados não +podiam ir ao filho natural, nem<span class="pagenum">[73]</span>a +declaração do velho á ultima hora da +vida podia esbulhar da successão a legitima descendencia. <br /> + +<br /> + +Em 1829 viera Fernando de Athaide a Portugal a tomar conta da +herança: achou sua prima empossada n'ella, e a favor d'elle +os jurisconsultos que tinham dado por boa e legitima a +espoliação. <br /> + +<br /> + +Em 1832, enfadado das delongas da decisão e do patronato que +sua prima tinha em Lisboa, voltou para o Brazil onde tinha o seu +florente commercio de café, herdado de sua mãe, +que morrera abastada, e universal herdeira de seu marido. <br /> + +<br /> + +Voltara novamente Fernando á patria de seu pae, depois de +visitar as capitaes da Europa, e mais por brio do seu appellido, que +por necessidade de duas duzias de contos de reis, instaurou segunda vez +o pleito, confiou-o a habeis advogados e procuradores, e seguiu viagem +para o Rio de Janeiro. <br /> + +<br /> + +Esta noticia, com os accessorios funestos de um presumivel perdimento +da causa, foi surprender Gastão de Noronha, quando elle +cogitava no melhor modo de fallar a Corinna em casamento com o tio D. +João. Sahiu o fidalgo para Vianna a ouvir o parecer de +advogados, que lhe foram desfavoraveis. Voltou a casa mais firme na +resolução de segurar a futura +subsistencia da familia, casando uma das filhas com o provecto primo, +cuja abastança daria para viverem todos largamente. <br /> + +<br /> + +Chamou Corinna a mui secreta prática, e contou-lhe em miudos +a historia do filho natural, as probabilidades +<span class="pagenum">[74]</span> +da perda da demanda, a irremediavel pobreza da familia e a +precisão de ella se sacrificar á +decencia de seus paes e suas irmans, casando com o tio D. +João, por ser das cinco a menina que elle preferia, posto +que se não despedisse de casar com uma das outras. <br /> + +<br /> + +—E nenhuma de minhas manas quer casar com o tio D. +João?—perguntou Corinna. <br /> + +<br /> + +—Ainda as não consultei; eu é que +desejo que +sejas tu. <br /> + +<br /> + +—As boas intenções de meu pae +são +providenciar ao futuro de nossa familia por meio d'este casamento? <br /> + +<br /> + +—Sim, minha filha. <br /> + +<br /> + +—Eu com lagrimas lhe digo que não posso servir a +esse bom +intento. <br /> + +<br /> + +—Porque?—atalhou o pae entre pasmado e colerico. <br /> + +<br /> + +—Porque morro, porque hei de morrer antes de ser mulher do +tio D. +João. Não me recuso, meu +pae: faça vossa excellencia o que quizer. <br /> + +<br /> + +—Ora!—tornou o pae modificado em sua +ira—Não morres, +não, filha. Isso é o que te parece agora; +tu verás que todos te ajudaremos a levar a cruz. E, depois, +cuidas que teu tio ha de viver muito? Está alli e +está na cova. As escripturas hão de ser +feitas de modo que, ainda mesmo que tu fiques viuva sem filhos, has de +ficar riquissima. <br /> + +<br /> + +—O pae não quer acreditar-me...—atalhou, +soluçante, Corinna. <br /> + +<br /> + +—Acreditar o quê? +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[75]</span> +—Que me mato, se Deus me não levar para si. <br /> + +<br /> + +—Sei o que é isso...—tornou +Gastão escarlate de +ira—É o homemzinho de Barcellos que te ha de fazer +perder +de todo a minha estima. Não tem duvida: tu te +arrependerás!... Cuidas que, por ser a mais velha, tens os +vinculos? Já te disse que não tens nada. Quando +quizeres um vestido, e não haja em casa um objecto que se +venda para t'o comprar, veremos como te vestes com o amor do valdevinos +de Barcellos. <br /> + +<br /> + +Disse, e sahiu enfurecido. <br /> + +<br /> + +A irman de Corinna, sua immediata em idade e formosura, era Emma. Esta +menina parecia a mais meiga, docil e resignada. Devia estas virtudes +á brandura de sua indole fleugmatica e um tanto fria. O seu +prazer era a quietação, que parecia uma +invencivel preguiça. Bem que estranhasse tanto como as +outras a mudança de Paris para a quinta do Lima, foi a +primeira a conformar-se, e achar certa suavidade no socego e silencio, +que affligia as irmans. Era esta tambem a que dava mais trela ao +palavriado do tio D. João, e por vezes se ria a bom rir das +baforadas de juventude que ainda, a tempos, sahiam mornas lá +das cinzas do coração do velhusco. Como amiga de +estar em casa, +sentada ao piano, ou amezendrada n'um tapete, D. João tinha +sempre certa a palestra com aquella pachorrenta sobrinha. <br /> + +<br /> + +Gastão foi ter com Emma, e encontrou-a aparando as unhas a +D. João, e a rir-se muito das caretas, que o velho fazia, +receando que a tesoura lhe entrasse pelo +<span class="pagenum">[76]</span> +sabugo. +Gastão tomou como de bom agoiro a scena intima das unhas. +Compoz o semblante de risos, avisinhou-se do grupo, e achou tambem +graça aos chistes da filha e aos esgares do primo. <br /> + +<br /> + +—Ahi está o nosso D. +João—disse elle—gosando +um dos milhares de prazeres da vida domestica. Quando era +moço, e requestava damas, sentiu alguns d'esses innocentes +jubilos, primo D. João? <br /> + +<br /> + +—Já estive a pensar n'isso, primo +Gastão; mas o +diacho da Emma não me deixa pensar em nada se não +em guardar os dedos da implacavel tesoura d'esta linda parca... Olhe +que já me quiz cortar a ponta do nariz, a traquina, que +só não tem preguiça +para cortar narizes... e corações. <br /> + +<br /> + +Accrescentou D. João ao galanteio um regougo de riso, com o +que a menina desatou uma gargalhada tão pachorrenta, que +acudiram as irmans, salvo Corinna, a rir sem saber de quê. D. +João cuidou que ella se +desmanchava assim, á conta da ultima e novissima careta que +elle fizera. <br /> + +<br /> + +Logo que o ensejo se proporcionou, Gastão de Noronha +perguntou ao primo se Emma seria uma digna esposa d'elle. O velho +acudiu logo, dizendo: <br /> + +<br /> + +—Estava eu para lhe dizer, primo, que, a não ser +Corinna, +de boa vontade casaria com Emma. Acho-a mais dada que as outras; mais +socegada e amiga da casa. A creatura passa horas e horas sentada no +tapete, em quanto as outras me estão sempre a convidar a +passeios, e querem que eu salte portellos e vallados como +<span class="pagenum">[77]</span> +ellas, senão fazem-me apupadas as doidinhas! +Corinna agradou-me pelo seu juizo; mas, a dizer-lhe a verdade, acho-a +triste de mais; e esposa triste não serve para velho, que +bem lhe basta a rabugice e pezo dos annos. Em fim, primo, se Emma me +quizer, aqui estou. <br /> + +<br /> + +Poucas horas depois, Gastão encerrado com Emma, +perguntava-lhe se ella quereria segurar uma enorme fortuna, casando com +seu tio D. João. <br /> + +<br /> + +—O papá está a mangar +comigo!—disse ella rindo. +<br /> + +<br /> + +Com poucas palavras a convenceu da seriedade da proposta. Emma ouviu +tudo com desusada seriedade. Viu no rosto do pae signaes não +fingidos de atribulado, fallando da imminente ruina de seus haveres, e +da +recusação de Corinna. O tom com que elle pedia a +Emma o sacrificio era já supplicante. A menina respondeu +primeiro com lagrimas e depois com a promessa de satisfazer os desejos +de seu pae. <br /> + +<br /> + +Nunca pae algum beijou sua filha com tamanho transporte de ternura! <br /> + +<br /> + +Foi logo avisado D. João da resposta de Emma. O velho +desenvolveu de repente um pudor senil de muita graça! +Estava, como noiva que se peja de apparecer ao noivo, na sala onde o +papá a manda chamar, a fim de, em presença de +ambos, confirmar vocalmente os anhelos de todos tres. Esquivava-se D. +João de encontrar a sobrinha; e, quando lhe ouvia a voz, +córava! Era a segunda infancia a fazer milagres de +remoçar +corações mumificados! <br /> + +<br /> + +Desde este incidente, Corinna da Soledade nunca +<span class="pagenum">[78]</span> +mais viu um sorriso, nem ouviu palavra carinhosa de seu pae. As +caricias, repetidas até ao extremo da ridiculez, +eram todas para Emma, a quem elle chamava a salvadora da familia. +Pensava já Gastão no +processo de defraudar a filha mais velha dos vinculos, como esquecido +da demanda em que os vinculos estavam tão arriscados, que +nem o seu proprio advogado lhe dava esperanças de +vencimento. <br /> + +<br /> + +Cuidaram desde logo os fidalgos em requerer dispensa, que o Nuncio +apostolico residente em Lisboa concedeu. <br /> + +<br /> + +Em seguida usou o pae da noiva de ardilosos rodeios para levar o futuro +genro a dotar a filha com os bens livres, que valiam muito, e grandes +arrhas. D. João de Mattos, ao principio irresoluto, porque o +animo sovina lhe inspirava duvidas, deu-se a final por vencido, e dotou +a noiva com avultado cabedal em dinheiro depositado em bancos de +Inglaterra, e estabeleceu-lhe arrhas mais que sobejas para uma viuva se +não lembrar mais dos sessenta annos do seu defuncto marido, +ao ver-se sósinha n'este valle de lagrimas. <br /> + +<br /> + +Estava resolvido que as nupcias seriam celebradas em Lisboa, para onde +iria toda a familia, excepto Corinna, que pedira licença ao +pae, e facilmente a obtivera, de ficar n'um mosteiro de Vianna, em +companhia de uma prima de sua mãe. <br /> + +<br /> + +A noiva encarava o futuro com a salutar pachorra de sua +compleição, e continuava a aparar as unhas +do noivo e a rir-se das muito engenhosas visagens com +<span class="pagenum">[79]</span> +que o bom do velho julgava bem merecer da +estimação da menina. As outras tres meninas, a +cuidarem nos arranjos da partida para Lisboa, andavam +alvoroçadas e felicissimas. Corinna esperava a vespera da +partida, com não menos alvoroço, para entrar no +mosteiro +de Santa Anna. <br /> + +<br /> + +Sorriam-lhe lá da sua cella as tristezas e a soledade em que +o desafogado coração se gosaria livre, +livre para ir-se além-mar, nas longas cartas, escriptas sem +medo de ser surprendida, pedir ao digno moço que lhe +acceitasse a reclusão, tão voluntaria, como prova +de seu +esperançado amor. <br /> + +<br /> + +Estava marcado o dia da partida, tomadas as liteiras, as cavalgaduras, +e convidado o prestito dos parentes, que desceriam do alto-Minho para +acompanharem os noivos até ao Porto. Quatro dias antes do +designado, D. João de Mattos e Noronha, assignadas as +escripturas, foi para a mesa, que n'esse dia era lauta e muito +concorrida. <br /> + +<br /> + +Um dos pratos mais de cobiça, e ingratos a estomagos +fatigados, era o salmão, o salmão de Vianna, +famoso em toda a parte onde a gastronomia tem sacerdotes e martyres. <br /> + +<br /> + +Entrou o noivo pelo salmão com a voracidade dos vinte e +cinco annos, não obstante o cauteloso primo lhe haver dito +que se abstivesse de competir com a sua Emma em materia tão +indigesta. Parece que Emma gostava muito do appetitoso pescado, e +devemos suppor que o velho, por comprazer com o paladar da noiva, +<span class="pagenum">[80]</span> +quiz fazer heroismos de +deglutição. +Perdoavel excesso para quem sabe o que é amar! <br /> + +<br /> + +Declarou-se a indigestão, quando ainda se estava +á sobremesa. D. João pediu genebra, bebeu em +proporção com o volume do bolo indigesto, e, +dando-se alta na incipiente molestia, comeu ovos mexidos em grande +porção, e correspondeu a todos os brindes +com absorvente enthusiasmo. <br /> + +<br /> + +Estavam todos admirados do vigor digestivo do sexagenario, e do rubor +juvenil que lhe ressumava nas faces, quando o velho se sentiu anciado, +e pediu um vomitorio prompto. Cada pessoa de familia lhe ministrava um +remedio, e Gastão, mais que todos, mostrava sua +inquietação, mandando chamar medico a Vianna. +Foram logo sensiveis os symptomas de apoplexia. D. João +tinha os olhos injectados de sangue, e a +cabeça em brazas vivas. Votaram todos pela sangria; mas +não havia sangrador, nem sequer lanceta. O abbade da +freguezia estava presente, e, como bom pastor, foi de parecer que seria +muito util ministrar os sacramentos ao enfermo, visto que as apoplexias +eram summarias n'aquellas idades e por taes causas. <br /> + +<br /> + +Redobraram os sustos de Gastão de Noronha. A morte, +anticipando-se quinze dias, dava um golpe terrivel em toda aquella +familia. O menos damnificado seria de certo o morto. Quem mais soffria +as angustias do moribundo era Gastão! Perguntou elle ao +abbade se seria acertado dizer a D. João que recebesse as +bençãos nupciaes. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[81]</span> +O clerigo encarregou-se de lh'o propor. O enfermo, já quasi +desaccordado, ouviu a pergunta e estorceu-se em desesperada +afflicção. Foi então +que elle viu a morte na pessoa do inoffensivo abbade. Á +segunda instancia, D. João fez um esgar repellente, e +sacudiu vertiginosamente os braços e as pernas. +Gastão disse a Emma que se approximasse do leito, e lhe +dissesse algumas palavras confortadoras. Emma foi com semblante de +medo. As feições do velho, já +lassas e lividas, para assim o dizermos, cheiravam a cadaver. A pallida +menina foi tremendo. <br /> + +<br /> + +—Dá-lhe a mão—disse-lhe o pae +ao ouvido. <br /> + +<br /> + +Tocou ella na mão tepida e insensivel do agonisante com +repugnancia. <br /> + +<br /> + +O abbade, instado por Gastão, disse: <br /> + +<br /> + +—Senhor D. João de Mattos, vossa excellencia +recebe como +sua legitima esposa a senhora D.... <br /> + +<br /> + +O velho deu um sacão, e esgazeou os olhos espavoridos. <br /> + +<br /> + +Emma retrahiu-se aterrada, e o abbade sahiu a ir buscar os santos +oleos. <br /> + +<br /> + +—Vai-se embora, abbade?!—perguntou o fidalgo +furioso de sua +afflicção. <br /> + +<br /> + +—Não ha que fazer aqui, senão +cuidar-lhe da +alma—disse o padre—O homem já +não dá +accordo de +si: o casamento n'este estado ficaria canonicamente nullo, fidalgo! <br /> + +<br /> + +Sahiu o abbade da egreja com o viatico, e recolheu logo, por lhe +dizerem que D. João tinha expirado. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[82]</span> +<h3>IX. </h3> + +<h5> +UMA CARTA DE CORINNA DA SOLEDADE A ANTONIO D'AZEVEDO BARBOSA. </h5> + +<br /> + +<br /> + +«Na minha segunda carta lhe contei o que se passou +até á morte do tio D. João. Agora +é que eu bem comprehendo o desespero em que vive meu pobre +pae. Quando elle me disse que iamos empobrecer, cuidei que se inventava +um engano para eu consentir em ser a victima voluntaria da pobreza da +nossa familia. Soube que a Emma fôra instada com as mesmas +razões da pobreza: não a dissuadi; mas, em minha +consciencia, julguei que era sacrificada ás +ambições de continuar-se em Lisboa o fausto que +tiveramos em Paris. <br /> + +<br /> + +«É verdade o que meu pae me dizia. Os bens do +vinculo, unicos que possuimos, estão em risco de se +perderem. Imagine o meu querido amigo como será a nossa +vida, ouvindo a cada hora o pae lastimar-se, enfurecer-se e +lançar-nos injustamente em rosto que +<span class="pagenum">[83]</span> +fomos nós a causa da sua ruina, porque dissipara os bens +livres para nos dar em Paris uma vida brilhante com esmerada +educação! Minha mãe, que +não tem culpa de ter sido herdeira do dote que lhe tiram, +faz-me muita compaixão, quando o pae lhe diz que foi +atrozmente enganado para casar com ella. <br /> + +<br /> + +«Que será de nós, passados alguns +mezes? Para onde iremos quando nos expulsarem d'esta casa? Minha +mãe já pediu a parentas, que tem em differentes +conventos, que nos recebam. Eu creio que irei para Vianna e mais a mana +Felismina; outra irá para +Vairão; e as outras duas para S. Bento do Porto. O pae diz +que vai a Lisboa requerer um emprego, com que possa sustentar-se a si e +á mãe. De maneira que +estamos em vesperas de nos dispersarmos para nunca mais nos reunirmos! +E eu, entre todas as minhas irmans, sou a menos infeliz, porque ha +muito suspiro pela solidão do claustro, e sei que +lá terei +comigo a imagem compassiva do meu querido irmão; +porém, eu queria ir para o convento, deixando a minha +familia contente e feliz, e não assim a braços +com a dependencia, e Deus sabe com quantas desventuras peores que a +dependencia! <br /> + +<br /> + +«Aqui me tem, pois, bem digna do seu amor por minha pobreza. +Já me lembrou se Deus me deu esta virtude para merecer aos +seus olhos, meu amigo. Tenho momentos em que o futuro se me allumia; +sou eu a unica pessoa da minha familia que vê a felicidade +através d'esta escuridade. Todos se lastimam, +<span class="pagenum">[84]</span> +e eu só me lastimo de os ver tão +desanimados. +Falta-lhes o amparo do amor, e talvez da fé na providencia +divina. Eu rezo muito, e desafógo em consoladoras lagrimas; +minhas irmans e meus paes abafam sem linitivo. Ás vezes +quero consolar meu pae: o infeliz repelle-me, como se eu +désse causa a seus desgostos, e não fosse capaz, +para o salvar da queda, de me deixar esmagar no +coração e na vida! <br /> + +<br /> + +«Não estranhe que eu lhe diga tudo o que o +coração me fôr dictando. Agora que eu +estou assim pobre, e d'aqui a pouco obscura e esquecida n'um convento, +haveria alguem que me quizesse para esposa? Poderia alguem invejar a +sorte do homem que me acceitasse? Pois, é n'esta +situação +que eu mais confio do seu amor; é assim que eu me affoito a +pedir-lhe que venha, que renuncie ao desejo de ser rico, e que... A +riqueza para que a procurava? não era para poder ostentar o +seu valimento aos olhos de meu pae? Era de certo; que, se fosse para +valer em meu conceito, grande injustiça me fazia, meu caro +amigo. Pois então faça de conta que +estão +cahidas as barreiras que só o ouro poderia arrazar. Ninguem +me impedirá que eu seja sua mulher. Sejamos ambos pobres: +não teremos que medir a desegualdade das nossas +posições. A nossa fortuna +principiará com a primeira moeda de cobre que empregarmos no +primeiro pão. Depois eu lhe darei horas de alegria com a +minha ditosa conformidade a tudo que os descontentes chamam infortunio. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[85]</span> +«Não cuide que a vida de convento me assusta, e +que eu procuro aligeirar o tempo do supplicio. Não, meu +amigo. O convento é o unico estado que me quadra, e a mais +proxima ventura que se offerece á minha sêde de +solidão. Se voltar cedo, +lá me encontrará; se, passados muitos annos +tornar para Portugal, no convento me encontrará ou +desfigurada pela velhice, ou confundida nas cinzas das bemaventuradas, +que alli acabaram contentes e amantes de mais seguras +esperanças que as minhas. <br /> + +<br /> + +«Póde ser que o meu irmão, n'essa outra +sociedade, com outras relações, e com a +mudança +que fazem os annos, contra vontade mesmo de quem se transfigura, sinta +diminuir-se a boa impressão que de mim levou. Não +creio que me esqueça; mas +póde ser que a distancia me vá descolorindo aos +olhos da sua alma. Se tal acontecer, nem assim deixarei de esperar que +em algum momento, entre as fugazes venturas d'este mundo, o seu +espirito vá ver-me, no meu asylo, esperando-o ainda, e +esperando sempre. <br /> + +<br /> + +«Mas o meu coração lhe pede que +não me esqueça, e que acceite as alegrias que +elle lhe promette. Adeus, meu amigo, meu consolador. Sua +<em>C. da +Soledade</em>.»<br /> + +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[86]</span> +<h5>A PRIMEIRA CARTA DE ANTONIO D'AZEVEDO A CORINNA, ESCRIPTA NO +BRAZIL.</h5> + +<br /> + +<br /> + +<div class="center">«21 de junho de +1843, onze horas da +manhan.</div> + +<br /> + +<br /> + +«Aqui estou, minha querida Corinna. Cheguei ha meia hora. A +minha tristeza tem uma negrura inexplicavel. Abafa-me mortalmente este +ar. Estou como o desterrado que atiraram a uma praia onde +não houvessem olhos humanos que me vissem chorar. +Ó meu Deus, que atroz supplicio é a saudade! Que +desolação em roda de mim, que terror me incute +tudo isto que me vê com uma indifferença dolorosa +como o escarneo! Sahirei eu d'esta febre que me está +arrancando pedaços de vida a cada momento! Ó +Corinna, eu não a vejo mais! Aqui é que sossobram +as mais robustas almas... Eu não previra isto... +É +impossivel que haja piedade n'esta gente! A quem escrevo eu, meu Deus! +Está a milhares de leguas distante, ó minha +amiga! E esta carta só, passados quinze dias, +sahirá d'aqui!<br /> + +<br /> + +<div class="dots"></div> + +<br /> + +<div class="dots"></div> + +<br /> + +<br /> + +<div class="center">«Quatro horas da +tarde.</div> + +<br /> + +<br /> + +«Sahi no afôgo de uma +afflicção sem nome. Levei +<span class="pagenum">[87]</span> +a minha carteira, e entreguei uma carta do Taveira a um negociante, +que, apenas leu a carta, me disse que eu seria hospede na sua chacara, +para onde vou ámanhan. Acolheu-me com muito bom rosto, e, +apertando-me a mão, disse: «O senhor vem muito +recommendado: ha de ter muitos amigos, e eu o mais dedicado de +todos.» <br /> + +<br /> + +«Fizeram-me grande bem estas palavras. A maior +oppressão vai desapparecendo. Já a vejo a outra +luz, minha Corinna. Já a torno a ver ao meu lado com a +missão de anjo do alento e da paciencia. Os desamparados +são unicamente aquelles que não tem nenhum amor +puro na terra, nem confiança na graça divina. Ha +de tudo em minha alma, bemdito seja Deus! Eis-me outra vez forte para a +lucta, e envergonhado da minha fraqueza. Não rasgo a +primeira pagina d'esta carta porque a minha alma ha de mostrar-se-lhe +sempre nas suas intercadencias de força e +desanimação. Assim lh'o prometti, e tenho +necessidade de cumprir. Toda a gente ha de ignorar os meus +desfallecimentos, menos a minha Corinna para me dizer: +«Levanta-te, fraco, se queres ser digno de mim!» +Vou sahir para entregar outras cartas, antes da minha ida para o campo. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="center">«Nove horas da noite.</div> + +<br /> + +<br /> + +«Todos os portuguezes me recebem nos braços. +Suppunha eu que os negociantes me acolheriam com +<span class="pagenum">[88]</span> +a frieza da sua distancia d'um homem de tão diversa +profissão. O que ahi se diz d'esta boa gente é +uma calumnia. Os opulentos commerciantes a quem me apresentei parece +que me estavam vendo nos olhos espelhadas as saudades da patria; e +elles, tambem saudosos, sympathisavam mais com a minha dor, e queriam +ouvir-me fallar das menores coisas de Portugal. Aqui é que +se sabe o que é esse torrão +de flores e alegrias. Em parte nenhuma a palavra +«patria» tem tão doce, tão +querida e +esperançosa significação. Muitos ahi +dizem que tem vergonha de serem portuguezes; aqui sente-se orgulho de +ter lá nascido, e encontrar tão longe +irmãos assim +saudosos da mãe commum. Abençoados sejam estes +homens que tem olhado compadecidos para mim! Devo-lhes esta serenidade +com que lhe vou escrevendo... Mas o cansaço prostra-me, +minha amiga. Até ámanhan. <br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="center">«<em>22 de junho, oito +horas da +manhan.</em></div> + +<br /> + +<br /> + +«O meu despertar foi afflictivo. Com os sonhos renasceram as +saudades, e o descorçoamento. Assaltou-me a pusillanime +ideia de voltar já para Portugal. Seduzia-me o receio de +adoecer n'este clima, o terror das febres, a difficuldade de ser rico, +onde nem todos são ricos, ainda os mais laboriosos. +Adormecera pensando no caminho que devia encetar: todos se me +afiguravam difficeis e escabrosos. Que fraqueza! +<span class="pagenum">[89]</span> +que inconstancia miseravel a do homem mais fervoroso no trabalho! +Eu tinha perguntado ao dono do hotel se os advogados enriqueciam +depressa; e elle, enumerando todas as profissões que +enriqueciam, não mencionou a minha. Instei encarecendo as +vantagens que se offerecem a um bom e honrado advogado: ouviu-m'as +encolhendo os hombros, e disse que os caminhos direitos eram os mais +tortos para quem procurava enriquecer-se. Isto desconsolou-me, +amargurou-me os sonhos, e deu-me a hora má que precedeu +estas linhas. Deixar fallar o descrente da honra. Se é +forçoso, renunciarei á +riqueza; contento-me que as muitas fadigas e vigilias me dêem +honesta independencia, e o respeito de mim proprio. <br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="center">«<em>Cinco horas da +tarde.</em></div> + +<br /> + +<br /> + +«Espera-me o amigo de quem vou ser hospede. Brevemente +voltarei a dar começo á minha tarefa. +Já me estão pezando as horas que vou passar de +ocio sem prazer: parece-me que são horas que roubo +á sua felicidade e á minha. A vontade energica +é +uma esperança meio realisada. Ha aqui n'este ar, n'este ceo, +n'esta incessante labutação, um rumor +mysterioso que eu escuto como o cantico victorioso dos que luctaram e +venceram. Porque não hei de eu, a final, vencer tambem com +esta ancia e força d'alma, com este amor e saudade, com esta +voz prophetica promettedora de honrosos triumphos?...<br /> + +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[90]</span> +<div class="center">«<em>23 de junho, nove +horas da +manhan.</em></div> + +<br /> + +<br /> + +«A casa em que vivo, minha amiga, faz-me lembrar uma +finissima e polida concha entre fofos de verdura e caules de gentis +florinhas! As palmas, as tamarindeiras, os coqueiros, e muita especie +de arvores do paraizo com sua explendida e agigantada folhagem, +absorvem os raios abrazadores d'este sol, e elaboram-no em si, +expedindo-o em frescura, que faz lembrar a da nossa terra, as auras das +margens dos nossos rios, os salgueiraes do seu Lima, e os choupaes do +meu Cávado! Mas que falta aqui da alegria dos nossos +arvoredos, minha Corinna? Não sei: parecem-me tristes estas +arvores; não me viram na infancia; não me +conhecem; não me fallam. Que bello deve +ser este diamante do mundo para os que nasceram aqui! Que abrasadas +fantasias serão as dos poetas aquecidos a este vapor +aromatisado por tantas urnas de florescencia peregrina! Que ar de +primitiva magnificencia da creação tem isto tudo? +Afigura-se-me que, á sahida do eden, este pedaço +de mundo se +desdobrou, com as entranhas arquejantes de riqueza, concitando o homem +condemnado a trabalhar, a tressuar e a limpar mil vezes o rosto, +calcinado sob os ardores do sol, á sombra d'estas arvores, +que significam a misericordia divina ao lado da justiça +inexoravel. É um como fantastico explendor que me +está arrobando os sentidos; mas a minha alma está +triste +<span class="pagenum">[91]</span> +porque esta verdura macilenta +não é a da minha +patria; estas folhas hirtas, apontadas ao ceo como flexas, ou largas, +immoveis e enormes, não me dão o murmurio +tremente das nossas selvas. Não oiço o rumorejo +dos regatos, nem o gemer dos carros, nem a cadencia melancolica dos +pegureiros das nossas serras. Ai! a patria, Corinna! como é +linda a nossa tão rica e tão pobre terra! Que +copiosas +bençãos verte Deus sobre a cabana do pobre +jornaleiro que achou a felicidade sem a procurar, formando d'um rochedo +e da sebe d'alguns arbustos o seu palaciosinho ás abas da +serra da Tranqueira, onde eu, em criança, tantas vezes subi +para contemplar as boleadas serras do seu paraizo, minha filha. Tudo +agora me lembra quanto é pequeno e pueril ao pé +d'estes gigantes de +verdura, que me assoberbam com a sua magestade! Ainda vos verei, +ó opulentas pobrezas da minha mocidade! Ainda lá +recordarei, a sós com o anjo da minha +alegria, estas melancolicas horas, este deslumbrante espectaculo, que +parece estar-me dizendo que para gosal-o é preciso ter aqui +gosado os brinquedos de +irmãos, os carinhos de mãe; e, sobre tudo, ter +aqui sentido o coração a formar-se, e a +desentranhar-se em amor e +esperanças<br /> + +<br /> + +<div class="dots"></div> + +<br /> + +<div class="dots"></div> + +<br /> + +<br /> + +<div class="center">«<em>25 de junho.</em></div> + +<br /> + +<br /> + +«Brevemente, ámanhan talvez, volto para o Rio. +<span class="pagenum">[92]</span> +Vou praticar com um advogado portuguez de +grandes creditos e fortuna, homem de muita idade, que reparte comigo os +interesses, e me trespassa as +obrigações muito lucrativas de defensor, em que +está contractado com corporações +commerciaes. Devo esta promettedora estreia ás cartas do pae +de Felisberto Taveira, que d'aqui foi ha muitos annos, e deixou +respeitado nome, e ainda grosso cabedal. Estou contente quanto, em +minha situação, é possivel +estar. Esta familia que me hospedou já me parece minha. A +intimidade aqui é uma religião, como se um +punhado de portuguezes, e não cincoenta mil almas, se +encontrassem em torrão estrangeiro. Aqui é onde +nós aprendemos o amor de conterraneos: lá, no +seio da mãe, somos-lhe ingratos a ella, e maus uns com os +outros; aqui suspiramos todos por ella, abençoamol-a, e +religamos os corações de todos com vinculos da +reciproca saudade. <br /> + +<br /> + +«Espere, espere, minha querida Corinna, que havemos de ser +felizes!<br /> + +<br /> + +<div class="dots"></div> + +<br /> + +<br /> + +<div class="center">«<em>27 de junho.</em></div> + +<br /> + +<br /> + +«O lettrado a quem vou associar-me é um +ancião de semblante apostolico, viuvo, sem filhos, rico, +muito esmoler e doente. Fallamos muito de Portugal, d'onde elle veio +com D. João VI ha muitos annos. É filho de +Lisboa, e está ha vinte annos com o +<span class="pagenum">[93]</span> +projecto feito de ir morrer á patria; porém os +medicos aconselham-o a gosar-se do clima a que está affeito. +É que toda esta gente o venera, e carece além +d'isso da sua muita sciencia, e probidade na sciencia. Já +aqui teve comsigo dous sobrinhos, que elle amava como seus unicos +herdeiros. Morreram ambos por causa da irregularidade da sua vida, e o +ancião chorava fallando-me d'elles. Ámanhan +começo a praticar e a estudar o direito brazileiro: +ser-me-ha preciso naturalisar-me; que importa? Eu serei voluntariamente +natural de toda a parte onde encontro irmãos que fallam a +minha lingua, com tanto que me deixem o coração, +lá, onde +tenho tudo que é d'elle. +<br /> + +<br /> + +<div class="dots" style="text-align: right;"> +» +</div> + +<br /> + +<br /> + +A carta é extensa de mais, e o leitor contenta-se com as +paginas transcriptas.<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[94]</span> +<h3>X. </h3> + +<br /> + +<br /> + +Gastão de Noronha valia ainda muito com homens de alta +graduação, seus companheiros de exilio. <br /> + +<br /> + +O litigio, perdido em primeira instancia, foi appellado para o Porto; e +com quanto uma espantosa actividade, esporeada pelo ouro do brazileiro, +instasse com os juizes de segunda instancia, os padrinhos do fidalgo +valeram mais para que o processo paralisasse na mão do +relator. Este, porém, com maravilhosa consciencia fez saber +ao réo que a sua perda era inevitavel, cedo ou tarde, e que +parte da imprensa estava a favor da prompta decisão do +pleito. <br /> + +<br /> + +Decorridos quatro mezes, os tres jornaes portuenses d'aquelle tempo, e +alguns de Lisboa, depois d'um prefacio de dez e mais artigos +ácerca da +corrupção da magistratura, fulminaram o juiz +relator, já alcunhando-o de vendido, já de +subornado pelas fidalgas influencias +<span class="pagenum">[95]</span> +que +ladeavam Gastão de Noronha. Não houve +remedio senão confirmar a sentença. <br /> + +<br /> + +Recorreu de revista para o supremo tribunal o réo, +acompanhando o processo, e cumulando embargos sobre embargos. Em Lisboa +a presença de Gastão e a +solicitude dos amigos promettiam um anno ou mais de esquecimento dos +autos; mas as gazetas, ainda antes de tempo, já se mostravam +espantadas da demora, e, por conta de seu espanto, lavraram logo +alvará de corruptos a todos os juizes, pedindo ás +leis, ao governo e ao universo que os esfollassem, como o tyranno de +Siracusa fizera a um juiz venal. <br /> + +<br /> + +Aproveitou Gastão o ensejo de requerer emprego em Lisboa, +já mais que certo do resultado do pleito. Os seus amigos, +que o julgavam rico, pasmavam de o verem com aquelle aspeito typico, +immutavel, e unico de pretendente. Pedia elle a directoria d'uma +alfandega de primeira ordem, posto que nenhuma estivesse vaga. O +ministro achou absurdo o requerimento, e os amigos acharam importuno o +requerente. Desceu Gastão de suas +pretenções, e pedia um governo civil em Vianna, +Braga ou Porto. Os funccionarios que exerciam taes +commissões na provincia eram sujeitos affectos ao governo, e +bons fabricantes de Fabricios e Codros sertanejos. O fidalgo foi +esclarecido a este respeito, e azoou. Pediu ainda um logar de +escrivão da mesa grande da alfandega de Lisboa; mas o +ministro mostrou-se muito sentido de que o serventuario existente +não tivesse dado causa a ser demittido.<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[96]</span> +Ora Gastão de Noronha algumas vezes, em Paris, dera a um dos +ministros pares de botas, e muitos jantares a outro. Assim lh'o +lançou em rosto, e elles, pelos modos, ouviram a injuria com +muito receio de que o fidalgo minhoto fizesse uso dos pulsos +não menos rijos que as phrases. Era homem para isso o +atribulado pae de cinco meninas, em vesperas de não ter +sombra de arvore sua que o cobrisse! <br /> + +<br /> + +Desanimado, e com o pensamento do suicidio a empeçonhar-lhe +a alma, desamparou o processo, e foi para os seus. <br /> + +<br /> + +Que ia elle fazer alli? que destino ia dar ás filhas? que +remedio esperava elle haurir das lagrimas da pobre Mafalda, que em seis +mezes envelhecera vinte annos? <br /> + +<br /> + +A sua entrada em casa denunciou, sem palavras, a +desesperança e suprema desgraça que o trazia. As +meninas cuidaram logo nos preparos para se recolherem ao claustro, e D. +Mafalda, sem consultar o marido, resolvera entrar com Corinna no +mosteiro de Vianna. No tocante a si, dizia Gastão de Noronha +que as suas tenções estavam deliberadas. <br /> + +<br /> + +As tenções do fidalgo eram incendiar o palacete +no dia em que chegasse de Lisboa a noticia do ultimo arranco da sua +fortuna. O que elle faria de si depois era segredo que não +deixou transpirar dos seus furores +recalcados no peito. <br /> + +<br /> + +A noticia que o seu procurador lhe deu passados dias foi consolativa. O +supremo tribunal annullara o<span class="pagenum">[97]</span>processo +desde a appellação por falta de +intimação ao réo. Queria isto dizer +que a demanda ia recomeçar +desde a sentença de primeira instancia. <br /> + +<br /> + +Recobrou-se Gastão; as meninas descontinuaram os +preparativos de convento; aquietou-se o animo de todos, e volveram +á casa das margens do Lima alguns parentes, que fugiam +<em>para não presenciarem +as angustias d'aquella nobilissima familia</em>. Boas +almas, +não tem duvida nenhuma! <br /> + +<br /> + +De pouco tempo foi este repousar para maiores angustias. Os zelosos +procuradores de Fernando de Athaide obtiveram despacho para embargo dos +fructos pendentes, fundamentando sua justiça em artigos que +o leitor curioso póde ver de seu vagar no codigo. <br /> + +<br /> + +Foi, para este effeito, citado Gastão de Noronha. Era de +mais: foi uma faisca que atiraram áquella alma cheia de +rancor, que ameaçava explosão! O fidalgo +chamou os criados, armou-os, postou-os ao portão da quinta, +e sentou-se no muro para capitanear a defeza. <br /> + +<br /> + +Os officiaes de justiça, idos de Vianna, quando avistaram os +homens armados, retrocederam. Os criados, vencedores sem consumo de +polvora, deram-lhes uma bateria de apupos e assovios, que nunca a +justiça d'estes reinos foi tão ridiculamente +escorraçada. +<br /> + +<br /> + +Gastão preparou-se para mais pugnaz arremettida. Chamou os +caseiros em grande numero, armados de foices, enxadas e escopetas +vesadas a matar uma andorinha no ar. <br /> + +<br /> + +Sahiram de Vianna os mesmos esbirros e outros +<span class="pagenum">[98]</span> +mais afoitos, com doze soldados e um sargento. As +inculcas do fidalgo anticiparam-se com a noticia. Gastão +fechou toda a sua familia n'uma sala interior da casa nova, e postou-se +com trinta homens nas janellas do edificio solarengo. <br /> + +<br /> + +A diligencia viu aberto o portão, e receou cilada. Os +aguazis incitaram o exercito a ir na dianteira. O bravo sargento, +direito como um Giraldo-sem-pavor, entrou com o dedo no gatilho, +bradando: «preparar!» +com voz tão marcial, que fazia lembrar os bons tempos de +Nuno Alvares e João de Castro. Os soldados compassaram-se +em atiradores ao longo das alas de cilindras e acacias. <br /> + +<br /> + +As avesinhas, que se aninhavam calorosas por entre a folhagem, +crepitavam em bandos, e fugiam para o lado da casa, como a pedirem +abrigo ás cinco meninas, suas unicas visitas +áquelles pacificos caramancheis. <br /> + +<br /> + +Parou a tropa no terraço fronteiro á casa. O +sargento viu uma cabeça entre as duas columnatas mosarabes +d'uma janella, e disse: <br /> + +<br /> + +—Cuidado! que lá está um! <br /> + +<br /> + +—É o fidalgo!—disse o +escrivão, aventurando uma +espreitadella por entre as franças de uma +olaia—Está sósinho? <br /> + +<br /> + +—Está, pelo menos não vejo mais +ninguem—disse o +sargento. <br /> + +<br /> + +Animou-se o executor a sahir em claro, e cortejou de baixo +Gastão. <br /> + +<br /> + +—Que quer vossê?—perguntou o fidalgo. <br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[99]</span> +O escrivão tartamudeou palavras inaudiveis. Sahiu +á frente um official de chibança, e disse +stentorosamente: <br /> + +<br /> + +—Vimos a fazer embargos nos fructos a requerimento de +Fernando +d'Athaide, e com mandado do senhor doutor juiz de direito. +Está vossa excellencia citado na presença de +todas estas testemunhas. Agora vamos cumprir a diligencia: somos +mandados. Vossa excellencia, se quizer, ponha embargos ao embargo. <br /> + +<br /> + +—Eu não lhe tolero conselhos, +<em>su</em> miseravel!—bradou +Gastão—Já, e sem perda de tempo, meia +volta +á direita, e fóra da minha quinta, quando +não vão debaixo de fogo! <br /> + +<br /> + +—Auto de resistencia!—exclamou o +escrivão, +desentarrachando um tinteiro de osso negro, e examinando na unha do +pollegar esquerdo os bicos da penna. <br /> + +<br /> + +Mal o scriba proferira a bombastica exclamação, o +fidalgo deixou ver o cano de um bacamarte, e vinte se não +mais bocas de fogo romperam das differentes janellas. O +escrivão escoou-se ao longo d'um massiço de +murtas e acocorou-se. Os esbirros tomaram a retaguarda do exercito, e o +sargento, em vez de arengar á tropa enfiada de pavor, sahiu +do seu posto de honra e foi perguntar ao agachado escrivão +se devia dar voz de fogo. <br /> + +<br /> + +O escrivão ouviu a sibylla do medo, e disse que o melhor +seria não haver sangue, e retirarem-se a lavrar o auto de +resistencia. <br /> + +<br /> + +—Meia volta á direita, rodar!—bradou o +sargento. +<span class="pagenum">[100]</span> +Os soldados voltaram +costas ao inimigo, e +obedeceram ás vozes +«braço-arma!» e +«marcha!» <br /> + +<br /> + +A victoria, posto que incruenta, seria uma ridicula derrota para as +armas e para as lettras juridicas, se alguns dos caseiros de mais +rópia e chulice, como lá +dizem, não sahissem por portas travessas contra vontade do +amo, e não cortassem por atalhos a retirada á +corrida justiça. Mal precatada ia esta, quando o tiroteio +lhe rompeu á frente e pelo flanco direito, com grande +algazarra de gritos, e de balas, cujo assovio encrespava de horriveis +titilações as orelhas do +escrivão. Os soldados viam, a intervallos, surgirem umas +cabeças por detraz das moitas, ou deslizarem rapidos os +vultos sobre uma clareira de dois troncos seculares do escuro arvoredo. +Um soldado mais afoito rompeu ao bosque, e voltou de lá a +manquejar com um +raspão de bala n'um artelho. O esbirro chibante, que queria +dar o exemplo da bravura, viu-se de repente na boca d'uma clavina, e +metteu a coragem debaixo dos joelhos, que poz em terra, pedindo +misericordia. <br /> + +<br /> + +Gastão, logo que ouvira o tiroteio, mandou chamar os seus +bravos, mas não a tempo de aggravar a resistencia com o +ferimento do soldado. Cessou o fogo. Os escaramuceiros recolheram +á cidadella com um chapeo de aguazil arvorado no gancho +d'uma foice, e o escrivão com os seus chegaram a Vianna com +aspecto livido como aquelle soldado unico dos trezentos de Leonidas que +foi annunciar a Sparta a morte de todos os seus camaradas nas +Thermopylas. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[101]</span> +O regimento de infanteria aquartelado em Vianna, quando viu o soldado +ferido, quiz sahir em pezo a vingar a affronta. Conteve o commandante a +soldadesca, promettendo em nome da justiça mais legal e +solemne vingança. <br /> + +<br /> + +Póde dizer-se, sem injuria ao fidalgo, que a pobre +cabeça d'elle estava perdida. Era aquillo tudo um cavar +abismos em abismos. De hora a hora mandava atalaiar a estrada, em +quanto recolhia gente armada das aldeias proximas, +munições de guerra e vitualhas. +Aquella casa, tão quieta dias antes, a remirar-se no crystal +do Lima, estava sendo um castello de antigo barão em guerra +com rei, ou senhor feudal inimigo de velhos odios de raça. +As pallidas meninas e sua +mãe aconchegavam-se umas das outras, e tremiam a cada +estrondo de cronha d'armas no sobrado ou tinnir de varetas no cano das +espingardas. <br /> + +<br /> + +Mafalda ia supplicar ao marido que fugisse e as deixasse a ellas +recolher aos conventos para se pouparem á +desgraça de o verem a elle morto ou preso. <br /> + +<br /> + +Gastão enfurecia-se contra as lagrimas; e, no auge de sua +demencia, chegava a bradar que elle e sua familia morreriam no incendio +da casa para não sobreviverem ao opprobrio da indigencia. <br /> + +<br /> + +Os espias, ao terceiro dia de providencias para formal assedio, foram +avisar o fidalgo de que vinham na estrada tres cavalheiros com um +lacaio. <br /> + +<br /> + +Momentos depois apearam no pateo os pacificos invasores +<span class="pagenum">[102]</span> +da fortaleza, passando por entre +fileiras de homens armados. <br /> + +<br /> + +Gastão da sua janella-guarita reconheceu um parente de +Vianna e Felisberto Taveira, já então visconde +da Cruz, cujo era o lacaio. <br /> + +<br /> + +Felisberto abraçou effusamente o pae de Corinna, +maravilhando-se do aspeito bellicoso do castello, e pedindo +licença para cumprimentar as damas castellans. <br /> + +<br /> + +Appareceram as meninas com sua mãe. Corinna não +se teve que não abraçasse +expansiva e lagrimosa o amigo de Antonio d'Azevedo. <br /> + +<br /> + +Ditos os logares communs, que eram para pouco em lances tão +extraordinarios, o visconde da Cruz disse que lêra no +<em>Periodico dos Pobres do +Porto</em> uma correspondencia contando com negras cores a +primeira resistencia que o fidalgo fizera á +acção +judiciaria, e os motivos que promoviam o embargo. Ajuntou que resolvera +desde logo sahir caminho de Vianna para, como bom amigo de +tão sympathica familia, offerecer o seu valimento. +Accrescentou que chegara a Vianna quando se tomavam violentas medidas +para vingar o aggravo feito á justiça e +á força armada; +e então, de accordo com o cavalheiro parente da casa, e +advogado d'um tal Fernando de Athaide, conseguira, mediante um deposito +equivalente ao rendimento dos bens litigados, cancellar os processos +crimes instaurados e mandados de prisão. <br /> + +<br /> + +Não ficou assim mesmo Gastão de Noronha +extremamente satisfeito de tal serviço; mas agradeceu-o com +um sorriso, e as meninas com lagrimas. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[103]</span> +A parecer do visconde, os caseiros depozeram as armas e os criados +voltaram ao seu trabalho. O chapeo do aguazil, em testemunho de +alegria, foi arcabusado e sacudido em farrapos aos quatro ventos do +ceo. <br /> + +<br /> + +O restante do dia e noite correu tranquillo e alegre. Corinna recebeu +furtivamente a segunda carta de Antonio d'Azevedo, e sentiu ancias de +oscular a mão do visconde, que lh'a entregou com estas +palavras: <br /> + +<br /> + +—O nosso Antonio está n'um largo caminho de +venturas. Ha de +vel-o em Portugal dentro em pouco, e rico. Tenha orgulho de ser amada +por tal homem. <br /> + +<br /> + +—Tenho! Deus sabe que tenho!—murmurou ella.<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[104]</span> +<h3>XI. </h3> + +<br /> + +<br /> + +O incansavel estudo, auxiliado pelo muito saber e prática do +doutor Valentim da Costa, habilitou Antonio d'Azevedo a grangear renome +em poucos mezes de exercicio. <br /> + +<br /> + +O velho presava o praticante com mais que a vulgar estima captada pela +probidade. Quantos ganhos podia declinar em lavor do laborioso +moço todos lhe dava, não exceptuando mesmo os +resultantes de seu proprio e exclusivo trabalho. Os clientes +não distinguiam entre os dois, e alguns iam mais contentes +da linguagem e escripta concisa e vigorosa do doutor novo. <br /> + +<br /> + +—Já póde o senhor Azevedo, quando +quizer, +estabelecer-se sobre si—lhe disse o velho um dia—Ha +de sobejar-lhe +clientela, e está na carreira que leva +á consideração e á fortuna. +De mim +é que já não precisa, meu caro amigo. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[105]</span> +—E vossa senhoria assim me dispensa da sua +companhia?—atalhou +Azevedo—Fiz sempre quanto pude por que esta sociedade lhe +não fosse onerosa. <br /> + +<br /> + +—Ora ahi está! Eu a cuidar que o senhor desejava +estar +sósinho em seu escriptorio, como todos desejam, e vai agora +sae-me o Azevedo o contrario de toda a gente! Pois, em sua boa verdade, +o senhor quer ficar na minha companhia? <br /> + +<br /> + +—Desejo-o; e nunca me lembrou que havia de sahir. <br /> + +<br /> + +—Pois fique, Azevedo, fique, se o não move o +interesse de +mais algum punhado de oiro no fim de cada anno. Bem vê como +este meu trabalho é interrompido +pela gota, pelo rheumatismo e por outros achaques, contra os quaes +não tenho que allegar nos nossos reinicolas. +Isto está acabado, e acabada estava ha muito a minha tarefa, +se não fossem velhos amigos que me tiram da cama para a +cadeira, e ás vezes conseguem arrastar-me, em holocausto +á amizade, aos tribunaes. Agora os novos que trabalhem, e +cá se avenham com o seculo, com o qual eu já me +não entendo. Tome o +Azevedo conta das minhas procurações, dos meus +livros, dos meus amigos, e, se quizer, do meu rheumatismo e da minha +gota. <br /> + +<br /> + +O velho doutor era mui faceto, e mettia sempre a riso a sua gota e o +seu rheumatismo. <br /> + +<br /> + +Estavam elles n'uma d'estas feriadas praticas, quando entrou um cliente +de Valentim da Costa. <br /> + +<br /> + +—Muito bem apparecido seja—disse este—o +senhor +<span class="pagenum">[106]</span> +Fernando de Athaide, fidalgo em Portugal e +fazendeiro no Brazil. Vem-me dizer que está de posse dos +seus vinculos de S. Torquato, de Alvites e de Ameixoal? Parabens! <br /> + +<br /> + +—Quaes parabens, meu caro senhor doutor!—disse +Fernando de +Athaide—Aquillo tem dente de coelho! Tenho gasto o valor dos +bens; +tenho cinco sentenças a favor, e ainda pelo ultimo barco +recebi uma carta do advogado e outra do procurador. Veja lá +vossa senhoria o que por lá vai! <br /> + +<br /> + +Leu o doutor mentalmente, e interrompeu-se em meio com esta +exclamação: <br /> + +<br /> + +—Magnifico bruto é o seu advogado, e o seu +procurador outro +bruto magnifico! Pois não deixam de intimar ao +réo a primeira sentença! Esta, esta +é das que desbancam a propria estupidez!... <br /> + +<br /> + +—Pois olhe que tenho pago a rios de oiro essas +brutalidades—disse +Fernando. <br /> + +<br /> + +—Não que ellas valem-no pela +raridade!—disse o doutor +limpando os oculos e proseguindo na leitura mental. <br /> + +<br /> + +—Isto agora é que tem +graça!—exclamou o velho, +arfando em risadas—Está-se lá em +Portugal na +edade media. Recebem a justiça a fogo e ferro! Ó +Azevedo, oiça lá isto, que é perdido +em pouca +gente. <br /> + +<br /> + +E leu: <br /> + +<br /> + +«A diligencia que sahiu de Vianna, retirou apupada e +não fez o embargo; a outra que foi com a tropa, retirou +debaixo de fogo, e recolheu com um soldado +<span class="pagenum">[107]</span> +ferido. Á hora que lhe escrevo +consta-me que mais de cem homens armados fazem sentinella ao palacio +artilhado de Gastão de Noronha....» <br /> + +<br /> + +—Como? de quem?—exclamou Azevedo. <br /> + +<br /> + +—De Gastão de Noronha—disse o +velho—Conhece-o? <br /> + +<br /> + +—Conheço!—disse mui +alvoroçado e pallido +Antonio d'Azevedo—Mas que tiros são esses? <br /> + +<br /> + +—É muito simples—respondeu Fernando +d'Athaide, eu sou o +directo successor dos vinculos que retem D. Mafalda de Athaide, mulher +de Gastão de Noronha e minha prima. Ha muitos annos que +tracto de senhorear-me do que é legitimamente meu. Tenho +vencido em todas as instancias; obtive despacho para embargo nos +fructos até á final decisão do +pleito, annullado por um estupido descuido; e quando os officiaes de +justiça vão cumprir a lei, o senhor +Gastão +dá-lhe fogo, e diz que a casa é sua. Ora vejam o +que é Portugal! que +civilisação aquella! Com que então o +senhor doutor conhece meu primo Gastão de Noronha? <br /> + +<br /> + +Azevedo, de abstrahido que ficou, não ouviu a pergunta. +Fernando encarou em Valentim, como perguntando-lhe se era surdo o +praticante. <br /> + +<br /> + +—Diz o senhor Fernando se o meu amigo conhece +Gastão de +Noronha—tornou o velho. <br /> + +<br /> + +—Conheço, creio que já disse. <br /> + +<br /> + +Esta resposta foi dada com enfadado franzimento de sobr'olho, estranho +ao velho. <br /> + +<br /> + +Azevedo, vencido insolitamente de sua nobre paixão, +<span class="pagenum">[108]</span> +fitou em cheio o rosto de Fernando, e +perguntou: <br /> + +<br /> + +—O senhor é pobre? <br /> + +<br /> + +—Graças a Deus, não. <br /> + +<br /> + +—É rico? <br /> + +<br /> + +—Assim, assim. <br /> + +<br /> + +—É muito rico—accrescentou o doutor +Valentim. <br /> + +<br /> + +—E não carece dos bens de sua prima D. Mafalda +para ser +feliz?—tornou Azevedo. <br /> + +<br /> + +—Os bens são meus; não são +de minha +prima Mafalda—redarguiu Fernando com desabrimento. <br /> + +<br /> + +—Convenho que são seus. Os bens que legitimamente +possue +sua prima são cinco filhas. Se o senhor tirar +áquella familia as terras de que viviam, sua prima e seu +primo e cinco meninas terão fome; ao passo que o senhor +Fernando de Athaide não saberá que fazer +d'essa parcella, que accrescenta á sua abundancia. <br /> + +<br /> + +—Pode ser que assim seja—disse Fernando +descommovido—mas a pobreza +não é orgulhosa. Eu escrevi duas cartas a +Gastão de Noronha, quando elle estava em Paris, propondo-lhe +uma conciliação, e elle nem sequer desceu do seu +orgulho a responder ao filho natural de Fernão de Athaide. +Ora o filho natural quer desforçar-se como seu pae se +desforçaria +lançando fóra de sua casa os miseraveis que o +não reconhecem como dono, nem sequer como parente. +Colloque-se lá na minha posição, e +diga-me o que faria? <br /> + +<br /> + +—Tinha commiseração—respondeu +Azevedo, e +fingiu-se occupado a folhear uns autos. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[109]</span> +—Commiseração com o senhor +castellão +que manda despejar balas sobre os executores do meu +direito!—volveu +Fernando—Olha em que postas eu era talhado se vivesse +lá +n'aquellas serras, em que os +ladrões fidalgos se acastellam! <br /> + +<br /> + +Antonio d'Azevedo pegou do chapeo, e disse que ia jantar e voltaria +depois. Ao sahir cortejou urbanamente Fernando, como a pedir-lhe +desculpa no sorriso. <br /> + +<br /> + +—Este homem é exquisito!—disse Fernando +ao doutor. <br /> + +<br /> + +—É um modêlo de honra e +virtude—tornou o +velho—Não imagina que puro oiro é o +d'aquella +alma! Foi a commiseração que o excitou a tal +estranheza +de phrases. Desculpe-o, que o pobre moço, no fim de tudo, +disse-lhe uma augusta verdade. Olhe que é triste coisa um +homem que educou cinco filhas com todo o mimo e regalias de fidalgas, +vel-as privadas de pão e de respeitos sociaes. <br /> + +<br /> + +—Então que quer o senhor doutor?—atalhou +Fernando. <br /> + +<br /> + +—Eu de mim não quero senão absolver a +compaixão de Antonio d'Azevedo, e lembrar ao senhor +Fernando, que a caridade e o perdão são as +virtudes +fundamentaes do doutrinamento de Jesus Christo. <br /> + +<br /> + +—E achava vossa senhoria acertado—acudiu +Fernando—que eu perdesse +contos de reis, que tenho gastado n'este capricho, e deixasse os meus +vinculos na posse e direitos de minha prima? <br /> + +<br /> + +—Eu não aconselho, senhor Fernando. Isto de +<span class="pagenum">[110]</span> +bem fazer não se lê nem se ensina: +está +dentro do coração, é foro intimo, +é materia de tractar com Deus. Faça o que bem +quizer; mas de modo se haja que nunca venha a sentir-se mal comsigo +proprio. <br /> + +<br /> + +—A minha consciencia está +tranquillissima—retorquiu +Fernando. <br /> + +<br /> + +—Quantas vezes a consciencia está quieta, e o +coração inquieto? A consciencia é a +inspiradora dos deveres; e o coração da piedade, +da humanidade, e d'outras +virtudes menos pautadas que os meros deveres e +obrigações de uma recta razão. +Faça o que quizer, senhor Fernando... <br /> + +<br /> + +—Como eu me enganei!—atalhou Athaide. <br /> + +<br /> + +—Enganou-se!? Com quê e com quem? <br /> + +<br /> + +—Com o seu socio de escriptorio. <br /> + +<br /> + +—Ora essa! pois... <br /> + +<br /> + +—Eu lhe digo, senhor doutor. Disseram-me que este Antonio +d'Azevedo +era um advogado esperto. <br /> + +<br /> + +—Não lhe mentiram. <br /> + +<br /> + +—Será; não duvido. Ora, como eu queria +acabar +com isto á custa de mais alguns contos de reis, vinha com o +fito posto em offerecer tres ou quatro contos ao doutor Azevedo para +elle ir a Portugal tomar posse dos vinculos em meu nome, removendo +todos os embaraços com a sua esperteza. Vinha n'esta ideia, +e, quando menos o cuido, acho um prégador de caridade... <br /> + +<br /> + +—Gratuito...—accrescentou, sorrindo, o velho. <br /> + +<br /> + +—O que faltava era ter de lhe pagar o sermão que +não lhe encommendei! +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[111]</span> +—Pois olhe que valeu dinheiro! Vossa senhoria, se for scismar +no que +ouviu, ámanhan está melhor +de coração que hoje. Acha que não vale +dinheiro um melhoramento moral? Oh! se vale! Até eu lhe +devo, a elle mui salutares conselhos para a caduquez, e quando o escuto +estou como pezaroso de não ter sido o que elle é. +Pois que lhe disse o meu Antonio d'Azevedo? Cifra n'isto: «O +senhor é muito rico: deixe essas +migalhas que está disputando á familia, que +não +tem mais nada: faça de conta que pegou de sete pessoas +pobres de sua familia, e deu a cada uma sua subsistencia.» +Não +lhe sôa bem isto ao animo desassombrado, senhor Fernando de +Athaide? O seu bom sangue de fidalgo não se azedaria nas +veias, se lhe cá viessem dizer que uma +porção tão chegada de seus parentes +andava lá por Portugal arrastada sobre os espinhos da +pobreza, da miseria, e talvez da deshonra? Tem o senhor em Portugal +cinco primas. Onde cuida vossa senhoria que as póde levar a +indigencia?... <br /> + +<br /> + +Valentim, fallando d'este theor, tinha os olhos embaciados de lagrimas. +Fernando olhava-o em certa +estupefacção, que umas vezes é dureza +de sentimento, e muitas encendimento de renascida sensibilidade. O +velho calou-se, e o primo de D. Mafalda, tomando o chapeo, sahiu sem +proferir palavra, cortejando o doutor com um aceno. <br /> + +<br /> + +—Adeus, meu amigo—disse o velho—Pense no +fim da vida. Lembre-se que, +no inverno d'ella, costumam +<span class="pagenum">[112]</span> +os velhos +lembrar-se das flores d'alma, que esmagaram na primavera. <br /> + +<br /> + +Fernando ouviu, no patamar da escada, as ultimas palavras, e sahiu +tanto ou quanto abalado. <br /> + +<br /> + +Pouco depois entrou Antonio d'Azevedo. Viam-se-lhe nos olhos os +residuos das lagrimas. É que elle acabava de escrever a +seguinte lauda d'uma carta a Corinna: <br /> + +<br /> + +<div class="dots">«</div> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="center">«<em>2 d'Abril de +1844—quatro horas da +tarde.</em></div> + +<br /> + +<br /> + +«Acabo de saber as desventuras que vão em tua +casa. Ouvi-as da boca do mesmo homem que vos quer privar d'essas +arvores e do berço onde te embalaste, minha querida Corinna. +Eu alcanço a profundeza das vossas amarguras, pobres meninas +e pobre mãe! Que tremenda afflicção +hallucinou +teu pae ao ponto de resistir á justiça impiedosa, +que +não entende de infortunios, nem de lagrimas! Quantas vezes +te voaria ao coração angustiado a imagem invalida +do +teu amigo! Tardias exclamações, filha! Deixa-me +ver o que posso conseguir a bem de teu pae, cujas mãos eu +espero beijar ainda. Talvez que á hora em +que receberes esta carta, começada com tanta alegria, e +tão atormentada agora, tudo esteja sanado, e teu pae olhe +como suas para sempre essas reliquias de uma grande fortuna mal +desbaratada. Tenho um presentimento de que hei de merecer a +intervenção +da providencia nas minhas intenções. Talvez que, +a +<span class="pagenum">[113]</span> +estas horas, estejas orando, e o +anjo do nosso amor me segrede os dons que Deus te concede. Vou sahir, +minha Corinna. Vou ouvir o santo varão a quem devo tudo. +É tempo de eu lhe mostrar que anjo tu és para o +fazer teu amigo, e bemfeitor de ambos. +Até logo.» <br /> + +<br /> + +Valentim observou o ar magoado do seu estremecido amigo, e quiz ver uma +extraordinaria causa áquelle compungir-se pela familia +portugueza. <br /> + +<br /> + +—Olhe que eu cá fiquei prégando com o +homem—disse o velho—As suas palavras foram o thema +do +sermão; mas, a fallar-lhe a verdade, não vejo +lura d'onde saia coelho. Este Fernando de Athaide, cujo pae e +mãe conheci, se não fosse a balda da +fidalguia, havia de ser um homem muito estimavel. Está muito +rico, e acha-se pobre quando veste a casaca sem o habito de cavalleiro +ou official da Roza. Ha pouco arranjou em Portugal não sei +que fitinha, que ellas por lá +são tantas e tão bastas que não ha +saber estremar os fidalgos pelas fitas. Mas o pobre homem +não se contenta com ser condecorado pelo que faz (que eu, a +bem dizer, não sei o que elle faz ou fez) quer tambem que a +sua fidalguia lhe proceda em linha direita dos godos. Para isso precisa +justificar-se tomando posse das quintas vinculadas e dos pardieiros +que, pelos modos, tem ameias, adarves, barbacans e brazões +com corôas e mitras. Isto é o que explica a crua +insensibilidade de Fernando com os seus parentes. Ora diga +lá, Azevedo, vossê conhece pessoalmente o tal +Gastão de +Noronha? +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[114]</span> +—Conheço-o de vista apenas; mas Gastão +de +Noronha está tão identificado á minha +vida, +que por causa d'elle estou hoje no Brazil. O senhor doutor Valentim +já sabe que o meu coração tem lagrimas +de saudade. Eu era na patria o que ainda sou aqui: um rapaz sem bens e +sem futuro; e Gastão de Noronha era o fidalgo não +rico, mas de sobra ambicioso e soberbo para me não dar sua +filha. A mulher que eu amo e choro é +filha de Gastão de Noronha. <br /> + +<br /> + +—É notavel a coincidencia!—disse +Valentim—Agora +é que a sua mágoa me parece racional, e digna me +pareceria de todo o modo. Entretanto, meu Azevedo, na sua +mão está salvar essa menina, e desde +já, das contingencias da pobreza. O senhor já +sabe que tem bastos recursos no Brazil. Vá a Portugal, que a +soberba do fidalgo deve estar amollecida. Case com a sua dama, e volte, +que os seus amigos cá o ficam esperando. <br /> + +<br /> + +Riram os olhos de Antonio d'Azevedo; mas este clarão de +alegria foi instantaneo. <br /> + +<br /> + +—Seria a felicidade perfeita para mim, mas não +para +ella—disse o bacharel, após instantes de +reflexão. <br /> + +<br /> + +—Como assim?—perguntou o velho—que mais +póde ella +desejar?! <br /> + +<br /> + +—Que seus paes e irmans não soffram as horriveis +privações tanto mais amargas, quanto a vida lhes +correu abundante e respeitada. Calcule o senhor doutor que desgosto +não seria o d'ella ao lembrar-se que suas +<span class="pagenum">[115]</span> +quatro irmans ficaram encerradas em conventos, e +dependentes da esmola de parentas! e que sua mãe, privada +d'ellas, e talvez do marido... como poderia eu ser assim feliz, meu +amigo?!... <br /> + +<br /> + +Antonio d'Azevedo deixava cahir as lagrimas para que o velho +não lh'as visse enxugar! Ha lagrimas que tem um como pudor, +e recato que é talvez o medo de serem mal avaliadas. O +chorar do homem ha de ser assim, ou ficará sendo miseravel +alardo de sua feminil fraqueza.<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[116]</span> +<h3>XII. </h3> + +<br /> + +<br /> + +—Valha-me Deus!—disse o doutor, esfregando as +palmas das +mãos tremulas—como ha de a gente remediar isto? O +que o meu +Antonio queria é que todos vivessem contentes. Christan +utopia, que ha de realisar-se no ceo! <br /> + +<br /> + +—Eu vinha animado d'um pensamento quando aqui +entrei—tornou +Azevedo—porém desanimei logo que o senhor me disse +que +Fernando de Athaide queria os vinculos para mostrar a sua fidalga +genealogia. <br /> + +<br /> + +—É o que é; e se não fosse, +que ideia +era a sua? Vamos discutil-a. <br /> + +<br /> + +—A minha ideia era contrahir eu um emprestimo aqui: sei que o +obtinha. +<br /> + +<br /> + +—Tambem eu sei que o meu amigo obtem o emprestimo. E depois? <br /> + +<br /> + +—Avaliavam-se os bens vinculados e as despezas +<span class="pagenum">[117]</span> +feitas para os liquidar: eu dava o valor de tudo a Fernando de Athaide, +e elle desistia do direito por +conciliação. <br /> + +<br /> + +—E o Antonio ficava pobre e a trabalhar toda a sua vida para +remir a +divida? <br /> + +<br /> + +—Necessariamente. <br /> + +<br /> + +—Com effeito!—exclamou o doutor—e dizem +lá que +já não ha santos! Sabe +vossê, Azevedo, como é que o mundo, desde que +perdeu a fé nos milagres, chama aos santos da sua virtude? +Chama-lhes mentecaptos. Assim devia de ser, porque a philosophia +inscreveu tambem como demencia o amor divino dos crucificados por sua +lealdade a Deus, e d'estes vejo que ainda os ha devotados á +<em>sublime loucura da +cruz</em>. Queria então vossê +adjudicar o trabalho de toda a vida ao pagamento do dinheiro com que +pretende restabelecer o bem-estar da familia da sua futura senhora?... +Vamos meditar. Este Fernando de Athaide, como já lhe disse, +o que quer é provar <em>urbi et +orbi</em> que é fidalgo de raça por +seu pae. A herança não lhe importa. Poderemos +conseguir que elle convença o universo da sua fidalguia, sem +se apossar dos vinculos de D. Mafalda? Aqui é que bate o +ponto. E poderemos conseguil-o sem que o meu amigo hypotheque o seu +trabalho á solvencia da divida? Invoquemos as musas das +entalações, e +vejamos o que ellas nos decretam em coisa tão prosaica, +já que os praxistas nos tapam todas as sahidas. Poderemos +pensar no modo de approximar Fernando de Athaide de uma das primas, +casando-os? Este expediente +<span class="pagenum">[118]</span> +bem se vê +que é inspiração +de musas, porque é de todo em todo poetico. Que diz a isto, +meu rapaz? <br /> + +<br /> + +—Creio que por parte de Gastão de Noronha seria um +negocio +concluido, ainda mesmo que Fernando de Athaide fosse do mais baixo +plebeismo—disse Azevedo. <br /> + +<br /> + +—Feliz genio de homem para os nossos fins! Mas +vossê sabe +que a renuncia d'um direito transmissivel, como é o dos +vinculos, é nulla; e que os +descendentes do renunciante estão sempre ao abrigo da lei. +É +preciso que Fernando de Athaide case com a menina successora dos +vinculos, na hypothese de serem elles legitimamente de sua +mãe... <br /> + +<br /> + +—Essa é Corinna!—interrompeu +Azevedo—Corinna é +a que eu amo! <br /> + +<br /> + +—Ah! sim? então muda de figura o negocio.... +Deixe-me +pensar... E se nós conseguissemos que Fernando casasse com +uma das outras senhoras? Leval-o-iamos a deixar aos sogros a +administração dos vinculos, +melhorados e desembaraçados de dividas com liberalisado +capital pelo ricasso, e sobre tudo pelo fidalgo, orgulhoso de +reedificar os pardieiros de seus avoengos. Que lhe parece? <br /> + +<br /> + +—Gastão de Noronha não acceitaria a +humilde +posição de mordomo de seu genro—disse +Azevedo—Por parte d'este a +reconciliação seria +impossivel. +Só vejo um meio. <br /> + +<br /> + +—Diga lá. <br /> + +<br /> + +—Fernando obteria uma filha de Gastão, se, antes +<span class="pagenum">[119]</span> +de pedir-lh'a, rasgasse as provas com que se diz successor +dos vinculos. <br /> + +<br /> + +—Não se rasgam assim facilmente as provas. A +perfilhação está archivada, e as +cartas e testamento que o legitimam filho de Fernão de +Athaide estão em +notas de tabelliães de Portugal e do Brazil. <br /> + +<br /> + +—A desistencia, portanto, é +invalida?—tornou Azevedo. <br /> + +<br /> + +—É, a menos que o senhor me não +assevere que a +descendencia directa de Fernão de Athaide acaba em seu +filho. <br /> + +<br /> + +Proseguiram largo tempo dialogando juridicamente, e ultimaram indecisos +no que deviam fazer. <br /> + +<br /> + +Antonio d'Azevedo desvelou aquella noite em hypotheses que se combatiam +e destruiam. Amanheceu-lhe o dia seguinte para incessante +inquietação e +dolorosa perplexidade. Voltou ás onze horas ao escriptorio +de Valentim da Costa, e encontrou-o encerrado com Fernando de Athaide. <br /> + +<br /> + +—Já se demorava—disse-lhe o +doutor—Sente-se aqui. <br /> + +<br /> + +O velho, voltado a Fernando, proseguiu: <br /> + +<br /> + +—Dá-se o caso, amigo e senhor Athaide, que este +Antonio +d'Azevedo veio ao Brazil ganhar alguns punhados de oiro para poder +voltar a Portugal e casar com uma das cinco primas de vossa senhoria, +filhas de Gastão de Noronha. <br /> + +<br /> + +—Pois conhece minhas primas?!—atalhou Fernando. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[120]</span> +—Especialmente a mais velha, a senhora D. +Corinna—disse Azevedo. <br /> + +<br /> + +—Alguem me disse que é muito galante +essa—tornou o +millionario. <br /> + +<br /> + +—São todas galantes: são cinco anjos, +que fariam +o orgulho d'um pae menos infeliz que o senhor Gastão, e +teriam sido felizes se nascessem em menos elevada +condição. <br /> + +<br /> + +—Alguem as viu em Paris—tornou Fernando—e +achou-as educadas muito +á franceza. <br /> + +<br /> + +—Por força devia achal-as assim educadas: as mais +novas +lá nasceram. <br /> + +<br /> + +—Mas desenvoltas... é o que eu quero dizer. <br /> + +<br /> + +—Não senhor: enganaram-o: vi-as em alguns bailes +do Porto +com quanta gravidade e compostura se póde desejar na mulher +que se ama para nos felicitar e honrar a vida. <br /> + +<br /> + +—Agora fallo eu—atalhou o velho—O senhor +Azevedo affligiu-se quando +vossa senhoria nos contou a situação em que ficou +seu tio; é +natural; porque a senhora que elle ama, até ao sacrificio de +vir grangear-lhe aqui o pão futuro, está +lá n'essa +casa, d'onde vossa senhoria vai expulsar toda a familia. <br /> + +<br /> + +—Minhas primas devem odiar-me de morte!—interrompeu +Fernando em tom +de desagradavel ironia. <br /> + +<br /> + +—Fazem ellas muito bem—disse o velho, sorrindo. <br /> + +<br /> + +—Que lhe diz de mim a prima Corinna?—tornou Athaide +com prasenteiro +semblante. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[121]</span> +—A carta que ella me escreveu n'este ultimo navio +contém +uma pagina com referencia a vossa senhoria. Queira lêl-a, que +ella de certo me perdoa a confidencia. <br /> + +<br /> + +Fernando de Athaide leu a penultima lauda da carta, dobrou-a +vagarosamente, e restituiu-a sem fitar os olhos no bacharel. <br /> + +<br /> + +—Aqui não ha odio de morte n'estas palavras, +senhor +Fernando de Athaide—disse Azevedo. <br /> + +<br /> + +—Então isso é segredo cá +para o +velho, heim?—disse o doutor. <br /> + +<br /> + +—Ha meia hora que recebi a carta—respondeu o +moço, +entregando-lh'a. <br /> + +<br /> + +—Sempre quero ver o juizo que ella faz do priminho. Mostre +lá o sitio onde vem a catillinaria. <br /> + +<br /> + +—Antonio indicou-lhe a pagina, e o velho leu alto: <br /> + +<br /> + +«Ouvi dizer ao nosso amigo Felisberto que o primo de minha +mãe é muito rico, e não +precisa d'estes poucos bens. Que triste gloria reduzir á +ultima pobreza uma familia tão numerosa! Ha +corações muito duros, meu querido Antonio! +Ás vezes penso com tristeza e ao mesmo tempo +consolação, no +differente modo de pensar que Deus dá ás suas +creaturas tão semelhantes no exterior. Não se +lembrar esse homem das afflicções que nos +dá sem +proveito nenhum para si mesmo! Não saberá elle +que a subsistencia +de sete pessoas, creadas na opulencia, era só isto que nos +tira!? Se um dia lhe disserem que meu +<span class="pagenum">[122]</span> +pae morre +de desgosto e miseria, a voz do sangue não lhe +gritará como um remorso ao +coração? Ai! como os felizes gosam, ó +meu pobre Antonio!<br /> + +<br /> + +<div class="dots"></div> + +<div class="dots" style="text-align: right;"> +» +</div> + +<br /> + +<br /> + +—Estas palavras, senhor Fernando—continuou o +veneravel doutor—podem +mais que tudo quanto eu lhe dissesse, se as lagrimas que eu vejo nos +seus olhos não são uma illusão dos +meus. Olhe +fito cá para mim, Athaide! Não se envergonhe de +ser bom: tenha só +pezar de o não ter sido. Vamos! deixe lá fallar +esse +coração! Sente-se disposto a salvar esta familia? +<br /> + +<br /> + +—Responderei—disse Fernando de Athaide, erguendo-se +de golpe. <br /> + +<br /> + +—Uma resposta, n'este caso, não é +operação diplomatica que demande vigilias e +subtilezas de engenho. Sente-se!—disse com gracioso imperio o +velho. <br /> + +<br /> + +—Mas que quer de mim o doutor? <br /> + +<br /> + +—Quero que se meça em bizarria d'alma com este +cavalheiro +que aqui está. Antonio d'Azevedo quiz contrahir um +emprestimo de trinta contos, ou mais, caucionados com a sua honra e +trabalho. Estes trinta excedem em doze, segundo vossa senhoria me tem +dito, o valor dos vinculos. O restante será o que Fernando +de Athaide tem gasto no costeio da demanda. Antonio d'Azevedo queria +offerecer a vossa senhoria esta quantia como +gratificação pela desistencia da demanda. <br /> + +<br /> + +Sorriu Fernando, e atalhou: <br /> + +<br /> + +—O doutor não disse a este senhor que eu dou +trinta contos +pelo menor dos meus caprichos, e que +<span class="pagenum">[123]</span> +ainda fico +bastantemente rico para dar de esmola o valor dos vinculos ao soberbo +Gastão de Noronha? <br /> + +<br /> + +—Esmola que elle não +acceitará—disse com +altivez o amado de Corinna. <br /> + +<br /> + +—Nem eu estou pedindo esmola para o marido de sua +tia—accrescentou o +doutor. <br /> + +<br /> + +—Então que pede?!—tornou Fernando com +philaucioso +sobrecenho. <br /> + +<br /> + +—Peço ao fidalgo que tenha uma alma fidalga; que, +se a +não tiver, que importam os seus brazões +em confronto da caridade com que o escravo nu levanta da rua o seu +irmão prostrado de fome?! Quer saber o que lhe fica bem? O +cavalheiro manda suspender a +execução, sem desistencia dos seus direitos, que +as leis e todos lhe reconhecem. O seu vencimento foi completo: agora +é preciso coroal-o com a generosidade, se quer o triumpho. +Está vencida a questão: +está reconhecido Fernando de Athaide o successor dos +vinculos de seu pae. São seus os vinculos, e é +sua a honra de os +deixar administrar por sua prima. Isto é que é +nobreza! De resto, as armas dos portões das suas quintas +são pedaços de pedra lavrada, onde as aranhas +fazem seus ninhos como entre a palhiça que colma a cabana do +jornaleiro! Que diz? <br /> + +<br /> + +—Responderei!—repetiu Fernando—tenho de +dar +satisfação á minha dignidade. +Entre coração e pundonor vai larga distancia: +preciso de explicar o despreso com que foram recebidas as minhas cartas +por Gastão de Noronha. É preciso que o mundo +não pense +<span class="pagenum">[124]</span> +que os meus direitos se +atemorisaram diante do arcabuz do valentão. <br /> + +<br /> + +—É preciso, primeiro que tudo, respeitar o +infortunio!—disse brandamente Antonio d'Azevedo. <br /> + +<br /> + +—Digno de respeito—accrescentou o neto dos Athaides +sahindo de +má sombra.<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[125]</span> +<h3>XIII. </h3> + +<br /> + +<br /> + +Lembra-se o leitor de eu lhe ter dito, no primeiro capitulo, que, por +uma tarde de Agosto, estava Corinna da Soledade, nas margens do Lima, +reclinada n'um dos bancos circumpostos á fonte do +tôpo da sombria +avenida? <br /> + +<br /> + +Agora é que o romance prende com aquella tarde! Vejam que +desconcerto este! Chega uma novella ao meio, e torna a +começar. Parece que é isto um +abuso da indulgencia com que o leitor costuma indultar-me os +desarranjos do meu engenho. Ora queira perdoar mais este, attendendo a +que as coisas, na vida como ella é, tambem assim +vão desordenadas, e +começam não só pelo meio, mas +até pelo fim. <br /> + +<br /> + +A carta, que Corinna lia e regava de lagrimas, era de Antonio +d'Azevedo. A pagina que mais a enternecia a prantos dizia assim: +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[126]</span> +<div class="dots">«</div> + +<br /> + +Eu +não sei que deva esperar de Fernando de Athaide. Pareceu-me +bom quando lhe vi lagrimas, e mau quando se despediu. Será +tudo, ou não +será nada do que me pareceu: os individuos vulgares +são os menos intelligiveis. O melhor, Corinna, é +nada esperar que bom seja. <br /> + +<br /> + +«Entretanto, eu posso mandar á tua familia o bom +coração que tu fizeste, e não +póde ser teu sem ser dos teus. Prézo teu pae e +tua mãe, quero +ás tuas irmans como ás minhas. Tenho-vos a todos +no mais sagrado dos meus affectos e ardentes desejos de ser util. <br /> + +<br /> + +«Os meus haveres, por em quanto, não merecem tal +nome; porém a minha palavra vale muito com os amigos que me +deram os Taveiras. É-me facil possuir alguns contos de reis, +e mandal-os a teu pae para ter uma casa e segura subsistencia de sua +familia, até que a minha posição seja +mais +solida. Mas como hei de eu, e com que pretexto, remetter-lhe este +dinheiro? Como ha de elle acceital-o? Pensei n'isto muitos dias; e, a +final de desanimados arbitrios, tomei um expediente que tu, minha +Corinna, applaudirás, porque, sobre tudo, és a +minha irman. Remetti seis contos de reis ao nosso Felisberto Taveira, +pedindo-lhe que fosse elle offerecel-os a teu pae como coisa sua. +Contrariou-me logo a conjectura de que teu pae os não +acceitaria, por não poder dar +abona +«Os meus haveres, por em quanto, não merecem tal +nome; porém a minha palavra vale muito com os amigos que me +deram os Taveiras. É-me facil possuir alguns contos de reis, +e mandal-os a teu pae para ter uma casa e segura subsistencia de sua +familia, até que a minha posição seja +mais +solida. Mas como hei de eu, e com que pretexto, remetter-lhe este +dinheiro? Como ha de elle acceital-o? Pensei n'isto muitos dias; e, a +final de desanimados arbitrios, tomei um expediente que tu, minha +Corinna, applaudirás, porque, sobre tudo, és a +minha irman. Remetti seis contos de reis ao nosso Felisberto Taveira, +pedindo-lhe que fosse elle offerecel-os a teu pae como coisa sua. +Contrariou-me logo a conjectura de que teu pae os não +acceitaria, por não poder dar +abonação; mas tão cansado estava eu +já de ser contrariado, +<span class="pagenum">[127]</span> +que +fechei os olhos, e deixei ao meu bom amigo o desapressar-se das +difficuldades. Aqui tens o que fiz: Deus fará o resto. <br /> + +<br /> + +«Pedi ao Taveira que aconselhasse a sahida de teu pae para o +Porto ou Lisboa. A especial situação +em que elle se collocou é muito violenta. Digam-lhe todos +que abandone as terras que já não são +suas. Em toda a parte ha sol e arvores e paz. Todas as flores te +hão de festejar, minha filha, e o meu +coração te será companhia onde quer +que vás.<br /> + +<br /> + +<div class="dots"></div> + +<div class="dots" style="text-align: right;"> +» +</div> + +<br /> + +<br /> + +Era bem para lagrimas este singelo dizer e extremo amar do pobre +ausente! <br /> + +<br /> + +Expiravam nas cristas das serras fronteiras os ultimos raios de sol, +que Corinna contemplava, coroando de escarlate os pinhaes, quando um +barquinho abicou á margem relvada, mesmo no ancoradoiro +pertencente á quinta de Gastão de Noronha. <br /> + +<br /> + +Corinna viu saltar e subir por entre as aleas das ramosas arvores um +homem, seguido d'um criado com uma mala. Como a fuga, sem ser vista, +seria extemporanea, a menina, escondendo a carta, esperou que o +adventicio chegasse. <br /> + +<br /> + +A certa distancia descobriu-se o sujeito, e perguntou se estava em casa +o senhor Gastão de Noronha. <br /> + +<br /> + +—Meu pae está para Vianna—disse +Corinna—mas deve chegar +ao escurecer: não tardará. <br /> + +<br /> + +—Poderei esperar que elle chegue para lhe apresentar uma +carta do +senhor visconde da Cruz? +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[128]</span> +—Sim, senhor: queira subir, que eu dou parte a minha +mãe, +posto que ella está recolhida no seu +quarto por doença. <br /> + +<br /> + +Chamou Corinna um criado que encaminhou o hospede á sala. <br /> + +<br /> + +Pouco depois entrou a menina na sala, desculpando sua mãe em +não poder ir receber um amigo do +senhor visconde, e pedindo ao cavalheiro o favor de esperar seu marido, +que voltaria breve. <br /> + +<br /> + +Corinna retirou-se, ouvidos os termos cortezãos com que o +hospede agradecia a delicadeza da senhora D. Mafalda. <br /> + +<br /> + +Não se demorou Gastão. Foi logo á +sala, e recebeu a seguinte carta: <br /> + +<br /> + +«Illustrissimo e excellentissimo senhor, e meu respeitavel +amigo de minha maior consideração e respeito. +Amigos de meu pae, e muito da nossa estima, nos recommendam o +cavalheiro portador d'esta carta, brazileiro nato, que anda visitando a +Europa, e quer ver o nosso Minho, e mais ainda o Minho de vossa +excellencia, symbolisado na sua formosa quinta. Confiados na amizade de +vossa excellencia, ousamos pedir-lhe o favor de recebel-o, e +indicar-lhe as principaes bellezas que enfeitam as margens do Minho e +Lima. Digne-se vossa excellencia acolhel-o com a sua costumada +delicadeza, e dar-nos a honra de lhe devermos esta nova +consideração. De vossa excellencia +etc.==<em>Visconde da Cruz.</em> <br /> + +<br /> + +«<em>P. S.</em> Passados dias terei +o prazer de visitar vossa +<span class="pagenum">[129]</span> +excellencia e +sua amavel familia, para quem peço respeitos e +saudades.» <br /> + +<br /> + +—Offereço-lhe esta casa como a offereceria ao +senhor +visconde—disse o fidalgo com palaciana +graça—Queira +sentar-se. Temos alguns locaes bonitos na nossa provincia; mas se vossa +senhoria viu a Suissa, a Italia e alguns departamentos de +França, de certo achará +encarecida a pintura que lhe fizeram do Minho. Eu viajei muito com a +minha familia antes de estabelecer casa em Paris, no tempo das nossas +guerras intestinas! Sinceramente lhe digo que lá +fóra vi a natureza mais adornada, e por isso mesmo mais +bella: tudo assim é. O artista quer achar a nudez para +enfeital-a com a poesia do pincel ou do buril; mas o mero curioso sente +melhor o bello onde elle realmente é. <br /> + +<br /> + +Proseguiram em conversação sobre viagens, +até horas do chá. Já o hospede, a esse +tempo, sabia que o seu quarto de dormir era contiguo á sala, +e que o seu criado dormia na alcova inferior correspondente ao +pavimento do quarto. <br /> + +<br /> + +Antes de servir-se o chá, mandou Gastão chamar as +cinco meninas, e apresentou-as a Carlos Zuzarte, que assim disse +chamar-se o hospede. Felismina tocou piano para acompanhar Emma; +seguiu-se Elisa a cantar, acompanhada por Leonor: Corinna estava no +quarto de sua mãe. Carlos sentia-se como encantado entre +aquellas meninas, que fallavam um portuguez feiticeiro em suas +incorrecções, como fallariam +anjos, se descessem a tractar com portuguezes, circumstancia +<span class="pagenum">[130]</span> +de idioma que os poetas nunca observaram, que +me lembre. Em quanto a ellas, o dizer do hospede, puro brazileiro, era +coisa de muita graça, com o que ellas francamente riam, e de +modo o faziam, que o viajante folgava de lhes dar motivo a rirem. +É onde póde +chegar a condescendencia com meninas galantes! <br /> + +<br /> + +A noite correu ligeira para todos. Ao dia seguinte madrugou Zuzarte, e +desceu ao jardim. Argentava o sol a serra d'Arga, e lá em +cima os montados d'aquella mystica selva dos franciscanos, onde ainda +rumorejam os psalmos das singelas almas que d'alli, tão +visinhas do ceo, se alaram para Deus. Com que pena, leitor, eu acho o +meu frei Luiz de Sousa estranhamente trivial e despoetico na +descripção d'aquelle ermo e dos +seus moradores! Elle, o dulcissimo panegyrista das solidões +de Bemfica, passou por entre os cenobitas de mais ignorada vida, nas +chronicas monasticas, e apenas disse: «É convento +de religiosos entregues mais +á vida contemplativa, que aos cuidados e trabalhos da +activa.» E mais nada d'aquellas brenhas, e grutas e lageas +sem nome que... <br /> + +<br /> + +Se eu me deixava ir agora á vontade da penna, lá +me ficava o romance enredado nos silveiraes da mata de S. Francisco de +Vianna, por onde já passei um dia, lá muito no +alto, d'onde eu avistava a casa acastellada de Gastão de +Noronha, em quanto outro anachoreta me ia contando o romance d'aquella +familia. <br /> + +<br /> + +O hospede estacou surprezo á entrada d'um +pavilhão de olaias. Estava lá dentro uma como +estatua de<span class="pagenum">[131]</span>alabastro, +que poderia chamar-se o +anjo da +meditação. A estatua, porém, se o era, +dos jardins do ceo devia de ser, porque tinha luz nos olhos e celestial +graça no +sorriso, quando Zuzarte a viu. Era Corinna da Soledade. <br /> + +<br /> + +Cortejou-a o sujeito com certa turvação, e +retirou-se. A menina correspondeu ao cumprimento, e sahiu do jardim +logo que o hospede se distanceou da gruta. <br /> + +<br /> + +Por alli se deteve contemplativo o brazileiro até horas de +almoço. Lá veio procural-o +Gastão de Noronha, e se andaram ambos conversando ainda +sobre coisas que tendiam todas, por parte do fidalgo, a averiguar se o +hospede era rico. <br /> + +<br /> + +—Tenho trinta e oito annos—disse o +brazileiro—e principío +agora ainda a pensar nas delicias que tem o mundo. Até agora +cuidei em fazer-me rico, pensando que bastava sel-o para ser feliz. +Como me enganei, cuido d'hoje ávante em dar nova +applicação á fortuna. <br /> + +<br /> + +—Na sua idade—atalhou +Gastão—quando se é rico, +acham-se abertas as portas do mundo para todos os gosos. <br /> + +<br /> + +—Não é tanto assim—replicou o +hospede—A +riqueza é muitas vezes um estorvo á felicidade do +coração; e o coração, aos +trinta e oito annos, +é quasi sempre enganado pela juventude que o reflexo do oiro +lhe dá. Quando me proponho um programma de vida nova, o meu +primeiro pensamento é casar. A felicidade do celibatario, se +elle não fôr monge ou santo, ou +<span class="pagenum">[132]</span> +temperamento excepcional, é uma +concatenação de deleites viciosos com muito +desconto de amarguras. Para além d'este difficil passo do +casamento rasgam-se-me novos horisontes, encantam-me as alegrias da +vida domestica, vejo os bens que Deus concede na velhice aos que +dignamente consumiram suas forças nos annos em que as +forças carecem de ser subordinadas ao dever... <br /> + +<br /> + +—Pensa muito acertadamente, senhor +Zuzarte—interrompeu o fidalgo. <br /> + +<br /> + +—O quadro delicioso que vim achar em sua casa, senhor +Gastão de Noronha, redobrou-me o encanto, porque +é elle a mais sublime realidade das minhas +imaginações. Que ditosa velhice a do pae que +vê em volta de si cinco filhas, cinco amores de filha a +florescerem-lhe a alma com as suas primaveras! Assim não se +deve sentir o pezo dos annos, nem o temor da morte. O caminho final, a +ultima jornada deve ser suave entre os anjos. Não +é muito feliz, senhor +Gastão de Noronha? <br /> + +<br /> + +—Sou infeliz—disse, em boa consciencia, o fidalgo. <br /> + +<br /> + +—Infeliz?! Com familia tão querida e extremosa, +n'este +paraizo, é infeliz!? Então lá +se vão as minhas chimeras!... <br /> + +<br /> + +—Fui ditoso até ao momento em que uma inesperada +desventura +me bateu á porta para me dizer que esta casa não +era minha, e que as minhas filhas teriam um futuro de dependencia, +obscuridade, e... Deus sabe que futuro!... <br /> + +<br /> + +—Pois não é de vossa excellencia esta +casa?—perguntou +<span class="pagenum">[133]</span> +o hospede com um ar de espanto, que +denotava artificio por demasia de naturalidade. <br /> + +<br /> + +—A herança de minha mulher foi-me disputada por um +parente; +são vinculos que as leis concederam a um filho natural do +antecessor de minha mulher. Passados alguns mezes terei de sahir com +minha familia. Um descendente dos marquezes de Villa Real +não +terá choupana onde se abrigue com suas filhas e mulher. Aqui +tem o senhor Zuzarte a razão da minha amargura. As filhas, +que eram minhas delicias, estão sendo um constante incentivo +de soffrimento. Eduquei-as em França, dei-lhes uma infancia +de rainhas, premeditava casal-as nas primeiras familias d'esta +provincia: muito fidalgas, muito prendadas e muito pobres, quem as +quer, a não serem maridos de quem eu de certo as +não fiava assim mesmo pobres?... <br /> + +<br /> + +Carlos ouvia Gastão com semblante mais assombrado que +compungido: dir-se-ia que aquelle homem, conscio da indole soberba do +fidalgo, pasmava de ouvil-o abrir-se em palavras tão +brandas, francas e humildes. De si para si dizia Gastão, +vendo o aspecto indefinivel do seu hospede, que, depois da +revelação da pobreza, o rico o estava olhando com +menos prestigio, e talvez reflectindo no modo de esquivar-se a alguma +petição de dinheiro. Esta hypothese, beliscando o +orgulho do fidalgo, fel-o proromper n'estas palavras destoantes das +ultimas que proferira: <br /> + +<br /> + +—Ainda assim, as pessoas que se hospedam em casa de +Gastão +de Noronha, por em quanto, são +recebidas +<span class="pagenum">[134]</span> +como em todo o tempo. A +revelação que lhe +fiz, senhor Zuzarte, não é lastimas de quem acaba +pedindo um favor. Tenha vossa senhoria muita confiança na +minha independencia, que eu hei de morrer Gastão de Noronha. +Ha mezes que o nosso amigo visconde da Cruz depositou um capital de +dois contos de reis para evitar um embargo nos fructos pendentes +d'estes bens: quando eu tal sube, vendi as joias de minhas filhas para +embolsar o senhor visconde do seu deposito. <br /> + +<br /> + +—Vossa excellencia está-me fazendo +revelações que me confundem—atalhou o +hospede—e +ao mesmo tempo fere-me com suspeitas que eu não +mereço! +Por ventura crê-me capaz de o julgar abatido e desmerecido em +seu infortunio? Que disse eu para vossa excellencia passar de uma +tão nobre confissão dos seus +desgostos a prevenir-me de que os hospedes em sua casa são +recebidos como nos tempos prosperos?! <br /> + +<br /> + +—Desculpe-me—acudiu +Gastão—é que eu +não nasci para estas queixas, e cuido sempre que a pobreza +me abate aos olhos dos estranhos, desde que me vi desconsiderado dos +parentes. <br /> + +<br /> + +Entraram na casa do almoço, e encontraram D. Mafalda, que os +esperava com as cinco meninas. Carlos foi apresentado á +fidalga, e deteve-se conversando +especialmente com ella durante o almoço. A polidez assim o +mandava ao hospede: mas o familiar affecto com que elle a tratava era +por demais. Notaram as meninas que elle não desfitava os +olhos de sua mãe +senão +<span class="pagenum">[135]</span> +quando encontrava os d'ella, +já tambem admirada da fixidez attenta do brazileiro. <br /> + +<br /> + +Da casa do almoço passaram á sala do piano. +Felismina foi cantar modinhas brazileiras com o requebro e mimo das +ardentes e languidas filhas do Brazil. Felismina era uma formosa +morena, com olhos negros, cabellos curtos e annelados como spiraes de +ebano, esbelta de corpo, alta mais que todas, muito agil e inquieta, +relanceando sempre a vista a todos e a tudo, a mais diserta e chistosa +de todas, e a menos dada ás flores, á poesia, e +ás bellezas campezinas que suas +irmans encareciam umas mais que outras, e Emma, a pachorrenta Emma, +esta mais que nenhuma. <br /> + +<br /> + +Felismina estava gracejando com Zuzarte a respeito das damas +brazileiras, cujas graças o hospede, sem favor, elogiava, +quando um criado entrou á sala onde estavam todos, e +entregou uma carta ida de Lisboa para Gastão de Noronha. Era +a carta do procurador. <br /> + +<br /> + +—Teremos golpe?—disse o fidalgo a D. Mafalda. <br /> + +<br /> + +—Não sei qual possa ser!—respondeu a +senhora—As dores +mais de temer estão todas passadas. <br /> + +<br /> + +Leu Gastão a carta, e disse com alvoroço: <br /> + +<br /> + +—O Fernando manda suspender a execução, +e +retirar o processo de julgamento com desistencia! Que significa isto? <br /> + +<br /> + +—O quê, papá?—exclamou +Felismina, que mal +ouvira, de entretida que estava com o brazileiro. <br /> + +<br /> + +—É o primo Fernando que desiste da +demanda—disse Mafalda. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[136]</span> +—Foi elle!—exclamou Corinna. <br /> + +<br /> + +Voltaram-se todos para a menina que soltara o brado, e viram-a muito +escarlate. <br /> + +<br /> + +—Elle! quem?—perguntou o pae. <br /> + +<br /> + +Corinna balbuciou confusas palavras, e não soube como +explicar aquelle disparate, que parecia o despertar subito d'um +arrobamento semelhante a somnambulismo! <br /> + +<br /> + +Se não existissem os pronomes +<em>este</em> e +<em>elle</em>, Corinna teria exclamado: <br /> + +<br /> + +—Foi Antonio d'Azevedo! <br /> + +<br /> + +E, se ella tal dissesse, ninguem a entenderia, excepto o leitor. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[137]</span> +<h3>XIV. </h3> + +<br /> + +<br /> + +Pediu Zuzarte licença para compartir do contentamento da +familia. Em breves e alegres termos, D. Mafalda disse que seu primo +Fernando de Athaide desistia da acção que tinha +vencida, quando menos se +esperava. Sem rebuço de vão orgulho, a fidalga +enumerou quantas desventuras estavam eminentes á sua +familia, e a ella, pobre mãe e esposa, que, ao mesmo tempo, +se havia de separar de marido e filhas para ir quinhoar o +pão da caridade de parentes, que, muitas vezes, lh'o +atirariam á cara com a cruel censura aos desperdicios da +emigração. <br /> + +<br /> + +O brazileiro mostrava-se jubiloso do successo; e, cada vez que as +meninas bem-diziam seu primo Fernando, era muito de notar-se que o +hospede guardava um silencio indelicado. <br /> + +<br /> + +Instado por Felismina a dar explicação do seu +silencio, e mais ainda d'um certo tregeito de fria +admiração, +<span class="pagenum">[138]</span> +disse o brazileiro, como +surprendido em +mysterioso sentimento, qualquer que fosse: <br /> + +<br /> + +—Eu não sei de que hei de louvar esse senhor +Fernando de +Athaide, posto que o respeito muito por ser tão proximo +parente de vossas excellencias. <br /> + +<br /> + +—Não sabe?!—disse Mafalda com +vehemencia. <br /> + +<br /> + +—Não, minha senhora. <br /> + +<br /> + +—Pois a desistencia d'uma fortuna, que era já +sua...—tornou a fidalga. <br /> + +<br /> + +—Minha senhora—replicou Zuzarte—eu +conheço o primo de +vossa excellencia. <br /> + +<br /> + +—Conhece!—exclamaram todos. <br /> + +<br /> + +—Fernando de Athaide desistindo de algumas dezenas de contos, +obedeceu +talvez a um sentimento de vaidade, o mais barato de quantos lhe tenho +conhecido. Seu primo, minhas senhoras, é hoje um +millionario. A balança do seu oiro não ergueu +duas linhas com o desfalque do valor d'estes vinculos. Não +ha virtude que deva espantar-nos na desistencia d'um objecto inutil. <br /> + +<br /> + +—Não quero pensar assim, nem consinto que minhas +filhas +assim pensem—tornou Mafalda. <br /> + +<br /> + +—Pois bem—retorquiu o brazileiro—convenho +que em vossas excellencias +a superabundancia de sensibilidade reverta em gratidão; +aposto, porém, que o senhor Gastão de Noronha +não pensa assim. <br /> + +<br /> + +—Penso como minha mulher—disse o +fidalgo—Penso que lhe devemos muito +ao generoso Fernando, porque eu fui mau para com elle. Quando estavamos +<span class="pagenum">[139]</span> +em Paris, recebi duas cartas suas, muito +attenciosas, ás quaes não respondi. Chamava-me +primo, e eu +tive a estupida arrogancia de rejeitar o parentesco de um homem que, +por delicados termos, me convidava a entrar com elle em +negociações ácerca dos +vinculos, que eu illegalmente administrava. Depois d'isso, tenho +rejeitado todas as conciliações propostas, e, no +arrasoado de minha defeza, fiz que os lettrados empregassem termos +injuriosos contra a sua pretendida filiação de +nosso tio Fernão de Athaide. Era de crer que fosse +implacavel o odio do vencedor, depois que eu, á +força +d'armas, lhe resisti ainda em ultimo lance. Ora, senhor Zuzarte, seja +embora millionario Fernando, força nos é +confessar que ha sangue muito fidalgo n'aquellas veias! Se eu pudesse +apertal-o ao coração n'este +momento, exultaria do nobre orgulho com tal parente! <br /> + +<br /> + +Carlos Zuzarte fez um signal de assentimento ás calorosas +razões de Gastão, e derivou a +prática a outro assumpto. Felismina, porém, +teimou em fallar de seu primo Fernando, pedindo ao brazileiro que lhe +contasse o que sabia d'elle. <br /> + +<br /> + +—Que interesse, minha senhora!—disse Zuzarte com ar +de maravilhado—O +primo de vossa excellencia é um homem de bigode grisalho, +olhos pretos, alto, debil, muito trigueiro, alegre ás vezes, +outras muito triste, com muitos amigos e muitos inimigos... <br /> + +<br /> + +—É solteiro?—atalhou Felismina. <br /> + +<br /> + +—É solteiro, e já agora assim +morrerá, porque, se me não engano, deve ter +trinta e oito annos. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[140]</span> +—Justamente—disse Mafalda—Meu tio +Fernão morreu ha vinte +e dois, e lembra-me elle dizer-me que Fernando teria dezoito. Queria +meu tio que eu casasse com o primo; mas como falleceu quasi +repentinamente, não chegou a mandal-o chamar. <br /> + +<br /> + +—Se vossa excellencia tem casado com elle—disse +Zuzarte—esta scena, +em que todos figuramos, estava na massa dos impossiveis! Ora vejam +vossas excellencias que em bem pouco está o não +virem +á luz da vida magnificos espectaculos! Que quer vossa +excellencia saber mais de seu primo, senhora D. Felismina? <br /> + +<br /> + +—Diga tudo o que souber—respondeu a menina. <br /> + +<br /> + +—Eu não sei mais nada, minha senhora. A ultima vez +que o vi +no Rio de Janeiro foi no escriptorio de um velho jurisconsulto, onde +tinha banca de advogado um moço portuguez chamado Antonio +d'Azevedo Barbosa. <br /> + +<br /> + +Corinna da Soledade estremeceu expansivamente, como se ninguem a visse, +e como por influição +magnetica, a cadeira per si mesma se arrastou algumas pollegadas para +mais perto do brazileiro. A leitora de certo não acredita +n'este magnetismo da cadeira. <br /> + +<br /> + +Gastão de Noronha relanceou os olhos a Corinna, e as irmans +tambem. <br /> + +<br /> + +—Eu não sei que influencia teve este nome no meu +auditorio!—disse o brazileiro, sorrindo. <br /> + +<br /> + +—Em que consiste a fortuna de Fernando?—interrompeu +Gastão +com mal disfarçada zanga. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[141]</span> +—Em terras, dinheiro, escravos, navios e +predios—respondeu +Zuzarte—Esta grande labutação demanda +um bom +zelador, que o primo de vossas excellencias, por natural +preguiça, não póde ser. +Ouvi-lhe então dizer, que tendo de sahir para demorada +viagem na Europa, deixava seu advogado no Brazil o honrado Antonio +d'Azevedo, com um ordenado bastante ás suas despezas. Bem +escolhido patrono! Em poucos mezes, o doutor conquistou, no Brazil, um +nome que vale muito grande fortuna, conservando-se lá seis +annos. Alguem me disse que Antonio d'Azevedo amara em Portugal uma +menina nobre, e fôra ao Brazil enriquecer-se para voltar a +casar-se com ella. Se isto é verdade, devem dar-se os +parabens á noiva, que o laborioso moço tinha +lá uma boa fada á sua +espera. <br /> + +<br /> + +Gastão de Noronha ergueu-se, e disse com impetuosa +acrimonia: <br /> + +<br /> + +—O senhor sabe que está em casa do pae d'essa +senhora, que +Antonio d'Azevedo cuida comprar com o dinheiro ganhado no Brazil? <br /> + +<br /> + +—Como?!—exclamou Carlos com a mais magistral +naturalidade—Vossa +excellencia assombra-me! Dar-se-ha caso que seja alguma d'estas +senhoras a menina que... Com effeito! Parece que estamos compondo um +romance! <br /> + +<br /> + +—Romances d'uma minha filha...—tornou o +fidalgo—Não +fallemos mais d'isso... que a ferida ainda sangra... <br /> + +<br /> + +—Eu peço perdão se avivei dores e +saudades, sem +<span class="pagenum">[142]</span> +a menor intenção, nem +suspeita de....—disse +Carlos. <br /> + +<br /> + +—Pois está claro que vossa senhoria ignorava +tudo...—replicou o fidalgo. <br /> + +<br /> + +E voltando-se a Corinna, soltou um frouxo de mau riso, riso de repreza +cólera, porque lhe vira as lagrimas correrem nas faces a +fio. <br /> + +<br /> + +Carlos não pôde conter esta +exclamação: <br /> + +<br /> + +—Que grande e digno amor! <br /> + +<br /> + +Gastão fitou-o com certo espanto e azedume, e disse, em +occasião opportuna, ao ouvido de sua mulher: <br /> + +<br /> + +—Não sei o que hei de pensar d'este homem! O acaso +não faz d'estas coincidencias senão nas +novellas... <br /> + +<br /> + +O incidente passara. O brazileiro encostara-se ao peitoril d'uma +janella com Felismina, e ahi conversaram largo tempo ácerca +dos amores de Corinna e Antonio d'Azevedo. Parece que o apologista do +bacharel se saboreava muito em discorrer de amores alheios, e +não perdia azo de invocar o coração da +menina a +decidir em theses amorosas, que elle muito de industria estabelecia. A +direcção que levou o dialogo, não a +sei eu cabalmente dizer; é certo, porém, que +Felismina, +conversando n'aquelle dia com sua mãe muito á +puridade, lhe disse que o brazileiro lhe perguntara se ella poderia +amal-o. N'essa mesma noite Mafalda revelou ao marido a pergunta. O +marido pensou na resposta, e disse que tinha razões para +suppor que Carlos Zuzarte era homem muito rico. A senhora entendeu as +clausulas +<span class="pagenum">[143]</span> +de tal resposta, e disse a +Felismina que o pae ouvira a noticia com agrado. <br /> + +<br /> + +—E tu, filha—accrescentou D. +Mafalda—gostas do Carlos? <br /> + +<br /> + +—Não desgosto, maman. <br /> + +<br /> + +—E querias casar com elle? <br /> + +<br /> + +—Se o papá quizesse... Mas olhe que elle +não me +disse que queria casar comigo, maman! <br /> + +<br /> + +—Bem sei, filha, bem sei; mas assim é que se +principiam os +casamentos. Como o visconde da Cruz cá vem, elle nos +dirá quem é o +brazileiro, e depois, se o partido fôr de vantagem e tu +quizeres, o que ha de fazer-se ao tarde, faça-se ao cedo. <br /> + +<br /> + +Em quanto esta scena, nem edificante, nem rara, se passava no quarto de +Mafalda, Corinna fôra sentar-se na varanda mais solitaria do +palacete, e o proposito levara alli Carlos Zuzarte, acompanhado de Emma +e Leonor, que lhe andavam mostrando a porção +antiga +do edificio. O brazileiro approximou-se de Corinna em quanto as duas +meninas desceram ao jardim a colher agua em pequenas bilhas, e +disse-lhe: <br /> + +<br /> + +—Minha senhora! alegre-se que ha de ser feliz! Antonio +d'Azevedo ha de +ser seu marido, porque Deus é justo com os +corações corajosos sem +deshonra. Espere, e vencerá. Faça de conta que +esta +revelação lhe vem do ceo! <br /> + +<br /> + +—Bem haja!—disse Corinna apertando-lhe a +mão. <br /> + +<br /> + +No dia seguinte chegou o visconde da Cruz, o bem-vindo +<span class="pagenum">[144]</span> +para todos, e particularmente para Corinna. Carlos +Zuzarte, ao apertar-lhe a mão, murmurou estas palavras: <br /> + +<br /> + +—Seja discreto, quanto lhe pedi! <br /> + +<br /> + +—Pois duvída?!—respondeu o visconde. <br /> + +<br /> + +Gastão, logo que pôde, apartou-se com o visconde, +e teve com elle o seguinte dialogo: <br /> + +<br /> + +—Será censuravel pedir eu a vossa excellencia +algumas +informações ácerca d'este meu hospede? +<br /> + +<br /> + +—Não é, senhor +Gastão—disse o +visconde—Direi o que souber. <br /> + +<br /> + +—Este sujeito parece-me excellente creatura. <br /> + +<br /> + +—Não sei: recommendaram-m'o como pessoa muito +rica. Em +materia de costumes nada me disseram. <br /> + +<br /> + +—Mas muito rico, sim? <br /> + +<br /> + +—Já tive a honra de dizer a vossa excellencia que +é muito. Viaja em navio proprio, e podia viajar com estado +de quatro navios... <br /> + +<br /> + +—Oh! é muito!—interrompeu +Gastão abrindo os +olhos ao tamanho da boca. <br /> + +<br /> + +—Estou quasi a adivinhar que vossa excellencia observou que +elle amava +alguma de suas filhas!... <br /> + +<br /> + +—Quem lh'o disse?—acudiu alegremente o fidalgo. <br /> + +<br /> + +—Ninguem m'o disse, meu nobre amigo, nem eu me orgulho de +adivinhal-o: +quem quer o faria. Qual é a menina predilecta? Naturalmente +a senhora D. Corinna. <br /> + +<br /> + +—Ora... Corinna! não sei que +distincção é a de +<span class="pagenum">[145]</span> +minha filha Corinna! Não são +tão +formosas como ella as outras? <br /> + +<br /> + +—São formosissimas todas—respondeu o +visconde—mas aquella +tem mais que as outras um cunho de melancolia... <br /> + +<br /> + +—De tolice, meu amigo, o cunho é de tolice... +Não é ella; ainda bem que não +é... Corinna tem de dar má sahida com os taes +amores... Deus perdoe a quem contribuiu para aquella demencia... <br /> + +<br /> + +—Fui eu?... <br /> + +<br /> + +—Bem sabe que foi, senhor visconde... <br /> + +<br /> + +—Pois Deus ha de não só perdoar-me, mas +glorificar-me com a satisfação de ter approximado +dois anjos... +<br /> + +<br /> + +—Não sei para quê... <br /> + +<br /> + +—Para se amarem e darem um exemplo de sacrificio raro, +sublime e +invejavel... Não vim a enfadal-o, senhor +Gastão... Começa vossa excellencia a +enrugar a testa, e tão bom hospedeiro merece melhor +recompensa. Como estão os seus negocios? <br /> + +<br /> + +—Acabou a questão com meu primo. <br /> + +<br /> + +—Sim?! e como acabou? <br /> + +<br /> + +—Desistiu. <br /> + +<br /> + +—Bello! mil parabens! Não tem, pois, vossa +excellencia nada +que o penalise? <br /> + +<br /> + +—Estou contentissimo. A minha casa volta a ser, se +não +invejavel pela ostentação, ao +menos pacifica e bastante ás minhas despezas em agradavel +mediania. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[146]</span> +—Precisa vossa excellencia de dinheiro para remir-se de +algumas +dividas? <br /> + +<br /> + +—Mil graças; ainda tenho algum do producto das +joias. <br /> + +<br /> + +—Mas quer vossa excellencia resgatar as joias de suas filhas? +Abro-lhe +com franqueza o coração e a +bolsa. <br /> + +<br /> + +—Dispenso o seu obsequio. Minhas filhas enfeitam-se com +flores: +cá n'estas montanhas o melhor joalheiro é a +natureza. Cada primavera é um milhar de cofres de pedrarias +preciosas abertos por esses montes e veigas. <br /> + +<br /> + +—Santa e bella poesia!—disse o +visconde—Queria vel-o coherente +comsigo mesmo, meu amigo! Se a natureza lhe dá tantas +riquezas em flores, porque +não ha de querer acceitar das mãos d'ella um +genro dotado com quantas virtudes podem adornar o rei da +creação? <br /> + +<br /> + +—Um genro! de quem me falla?—acudiu enleado o +fidalgo. <br /> + +<br /> + +—Fallo-lhe d'um Antonio de Azevedo Barbosa, que sabedor dos +infortunios de vossa excellencia... <br /> + +<br /> + +O visconde reteve a exuberancia do coração, +talvez indignado, e doeu-se de levar tão longe seu zelo. <br /> + +<br /> + +Gastão ia pedir-lhe explicações, +quando o visconde, turbado de sua irreflexão, recorreu, ao +avisinharem-se duas meninas, a ir ter com ellas, pedindo-lhes flores +dos seus canteiros. <br /> + +<br /> + +Emma e Leonor desceram ao jardim, e o visconde seguiu-as. Carlos +Zuzarte passeava n'uma rua abobadada +<span class="pagenum">[147]</span> +de +arvoredo, com Felismina; no tôpo d'esta rua estava Corinna da +Soledade corrigindo umas trepadeiras que descahiam da +direcção que a sua cultora lhes dera. <br /> + +<br /> + +O visconde estugou o passo; quando a viu, approximou-se, e disse-lhe: <br /> + +<br /> + +—A sua felicidade está a chegar. Exulte, minha +amiga. +São mais alguns mezes: doire-os com a +esperança, que é um bem quasi egual á +mais querida +realidade, quando se tem a certeza. <br /> + +<br /> + +—A certeza!—exclamou ella. <br /> + +<br /> + +—Sim, a certeza. <br /> + +<br /> + +—Ó senhor visconde, meu bom amigo, diz-me uma +coisa? Como +sabe este brazileiro que eu vou ser feliz?... <br /> + +<br /> + +—Sabe-o: tem a quasi certeza, e eu tenho a certeza completa. +Deus +não ha de querer desmentir-nos. <br /> + +<br /> + +Appareceu Gastão ao fundo da rua, e logo o visconde dirigiu +em voz alta perguntas ás meninas que cortavam perto as +flores. <br /> + +<br /> + +Gastão, ao vêl-o perto de Corinna, disse a +Mafalda: <br /> + +<br /> + +—Estes populares são uns pelos outros! Parece que +andam +conjurados a darem cabo dos titulos e das raças distinctas! <br /> + +<br /> + +—Porque dizes isso, Gastão?—perguntou +Mafalda. <br /> + +<br /> + +—Porque o digo?! Pois não vês o +interesse que +este visconde tem em que a nossa Corinna case com o +<span class="pagenum">[148]</span> +homem de Barcellos! É teima que me ha de fazer +chegar a mostarda ao nariz! <br /> + +<br /> + +Chegaram á curva da rua onde estavam Felismina e Carlos. <br /> + +<br /> + +Gastão sorriu-se e passou ávante, dizendo a +Mafalda: <br /> + +<br /> + +—Tenho a certeza de que é riquissimo o brazileiro. +<br /> + +<br /> + +—Mas plebeu, não é? <br /> + +<br /> + +—Não averiguei: ha de ser naturalmente. Mas que +pensas tu? +Do modo como por cá está isto, o +homem, se quizer, é conde ámanhan. Tem cinco +navios! cinco navios, Mafalda!... Que te parece? as +intenções d'elle serão boas? <br /> + +<br /> + +—Creio que sim. A pequena sympathisa verdadeiramente com +elle. +Pareciam dois tolos a brincar á róda do tanque, e +assim que o Carlos lhe pede que cante modinhas brasileiras, ella ahi +vai logo ao piano, e elle morre por ouvil-a. Quando isto é +de quatro dias, que fará se elle se demorar? <br /> + +<br /> + +—Era uma felicidade, Mafalda! Fortuna de milhões! +Então é que diziamos um adeus á aldeia +e a estes parvos cá do Minho, que fazem consistir a sua +grandeza nobliarchica em terem dois cyprestes á porta, +quatro patos reaes n'um tanque, e um lacaio com grandes botas... Ainda +tenho esperanças de voltarmos a Paris! Aquillo é +que é viver! <br /> + +<br /> + +—Ai! Paris!—suspirou Mafalda, reclinando a +cabeça sobre o +hombro do marido—ai! Paris! +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[149]</span> +<h3>XV. </h3> + +<br /> + +<br /> + +Decorreram alguns dias de excursões pelo Minho e Lima. O +visconde acompanhou o festivo rancho. As meninas iam felizes: a propria +Corinna, com as suas esperanças, egualava as irmans em +contentamento. A espaços, Zuzarte ou o visconde lhe diziam +uma palavra confortadora, de modo que o desconfiado Gastão +não désse fé. No que elle muito +reparava era nas repetidas conversações dos dois +hospedes, que se apartavam da caravana para fallarem com certos visos +de mysterio. <br /> + +<br /> + +—Em quanto a mim—dizia o fidalgo a +D.Mafalda—o brazileiro consulta o +visconde a respeito de Felismina. Seria bom prevenil-o. <br /> + +<br /> + +Chegaram a Ponte do Lima. D. Mafalda quiz visitar o carneiro de seu tio +Fernão de Athaide. Ajoelharam todos a orar por alma do +fidalgo. Carlos Zuzarte com tal devoção o fez, +que deu nos olhos de +todos. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[150]</span> +—Parece que é bom +christão!—disse Mafalda a +Felismina—Vê tu que o homem tinha lagrimas nos +olhos, e veio +perguntar-me se eu ajoelhara por formalidade, se por sincero sentimento +de respeito ás cinzas de meu tio! Que pergunta!... <br /> + +<br /> + +Alojaram-se n'um velho palacio das margens do Minho, onde tinham +nascido os avoengos de Mafalda: era a casa onde expirara +Fernão. As meninas riram muito, e andavam a reboque umas das +outras nos vastos salões esburacados. No quarto onde morreu +o camarista de D. João VI estava um retrato d'elle, roido de +traça e pó, com as +feições quasi apagadas. O brazileiro disse a +Gastão de Noronha que Fernando d'Athaide havia de apreciar +grandemente o mimo d'aquella carunchosa lona. Prometteu Noronha mandar +retocar o retrato, e presentear-lh'o. <br /> + +<br /> + +Nem Mafalda, nem alguma das meninas quiz pernoitar no quarto, onde +morrera o tio, e estivera inhabitado desde então. Dormiram +n'elle o visconde e o brazileiro. <br /> + +<br /> + +Dois dias depois proseguiram o passeio desandando para o palacete das +margens do Lima. O visconde recolheu-se ao Porto, e Carlos Zuzarte +ficou ainda sem designar destino. <br /> + +<br /> + +Abriu-se o theatro lyrico no Porto. O brazileiro convidou a hospedeira +familia a visitarem a galera que elle tinha fundeada no Douro, e a +gosarem-se de algumas noites de theatro. As quatro meninas iam +endoidecendo de alegria com o convite, e mais ainda com a +<span class="pagenum">[151]</span> +condescendencia do pae. Corinna entristeceu-se. A +felicidade adoçava-lhe a solidão agora mais que +nunca. Os sitios onde nos afizemos a scismar e soffrer com a nossa +saudade dão-nos a sombra do ausente que choramos sempre que +a mágoa lá se vai carpir. Se depois nos afastamos +d'aquelles sitios, a saudade já é +dupla: parece que os novos logares, onde imos, nos não +conhecem, nem sabem porque choramos. A nossa dor dera-nos +além um clima nosso; aqui tudo estranhamos, tudo nos parece +em dobro apartado. Esta sensação amarga +adivinhava Corinna da Soledade, quando pediu a sua mãe +licença para ficar com o governo +da casa. Gastão deu a licença sem +constrangimento; +mas Carlos Zuzarte não prescindiu da companhia de Corinna, e +de modo lh'o disse a ella, que a menina não hesitou. <br /> + +<br /> + +Esperava-os no Porto uma casa nobre mobilada com riqueza. Pasmou +Gastão das rapidas providencias do seu hospede: este disse +que, tencionando residir alguns mezes no Porto, incumbira o seu amigo +visconde da decoração da casa. <br /> + +<br /> + +Pediu o brazileiro a D. Mafalda se convidava as suas +relações no Porto para lhe honrarem as salas +por occasião d'um baile, que elle queria dar ao visconde da +Cruz. Deu-se um baile explendido, como o fidalgo portuguez os dava em +Paris. <br /> + +<br /> + +Concorreram as senhoras de primeira sociedade e formosura. <br /> + +<br /> + +Carlos Zuzarte afigurou-se a muitas meninas um +<span class="pagenum">[152]</span> +bom marido; todas, porém, excepto uma, se abstiveram de +revelar o seu parecer n'um sorriso ao brazileiro, por verem que eram +cinco, e todas bellas, as filhas do fidalgo commensal do ricasso; ora a +exceptuada não deu pêso a isso, e distinguiu-se em +branduras e cortezias que deram na vista. <br /> + +<br /> + +Felismina foi quem primeiro as viu. Podera não! O seu amor +era verdadeiro, porque disparatou em ciumes. Sahiu das salas, +recolheu-se ao seu quarto, e, nem com ordem do pae, sahiu de +lá. O brazileiro soube isto, e sorriu-se como a vaidade do +coração +sorri. Foi elle, em pessoa, pedir a Felismina que voltasse á +sala: estava fechada por dentro, e disse pela fechadura da porta que +não ia servir de escarneo á sua +rival. Carlos sustentou o dialogo á fechadura, foi eloquente +quanto se póde ser por um tal systema de embocadura de +suspiros, e conseguiu que Felismina promettesse voltar á +sala. <br /> + +<br /> + +O brazileiro levou á evidencia de todos que amava a filha de +Gastão, desde que o seu perdoavel orgulho se inflou com os +ciumes, acintemente provocados. <br /> + +<br /> + +No dia immediato jantaram a bordo da galera, que se chamara +<em>Aurora</em>, e n'aquelle dia +appareceu chrismada em <em>Felismina</em>. +Este successo para +Gastão de Noronha teve o valor do terceiro proclame lido +á missa conventual. <br /> + +<br /> + +Á noite não sahiram de casa, nem receberam +visitas, excepto o visconde da Cruz, e seu irmão Luiz +Taveira, que, desde o baile, scismava muito com Leonor, +<span class="pagenum">[153]</span> +filha de Gastão, a mais mimosa de todas em +structura, coisa assim como sonho, sylpho, ou quer que era de +imponderavel, que parecia nas walsas uma borboleta de azas iriadas. <br /> + +<br /> + +Que esperto era aquelle Gastão de Noronha! Deu logo pela +ternura dos olhares de Luiz, e de si para si disse: «Mudam os +ventos, mudam os tempos!» <br /> + +<br /> + +Estava, pois, reunida a familia, o dono do palacete, e os dois Taveiras +convidados ao desembarque. <br /> + +<br /> + +Ao retirarem os taboleiros do chá, o brazileiro convidou +Felismina a jogar o xadrez, sob condição de ficar +sujeita á vontade do vencedor a liberdade do vencido. +Felismina annuiu. Todos cercaram os jogadores com anciosa curiosidade. <br /> + +<br /> + +—Gósto de ver a attenção que +nos +prestam—disse Zuzarte—porque não +é brincadeira +isto. +Esquecia-me, porém, ouvir o senhor Gastão de +Noronha, antes de acceitar a annuencia de sua filha. Vossa excellencia +não vem com embargos, se a sorte fôr funesta +á senhora D. Felismina? <br /> + +<br /> + +—Quaes embargos!—exclamou Gastão rindo +estrondosamente—E +se ella vencer? haverá embargos por parte do cavalheiro +Zuzarte? <br /> + +<br /> + +—Ninguem se importa com o meu destino. <br /> + +<br /> + +—Quem sabe!...—disse Felismina—Tenho +medo.... <br /> + +<br /> + +—Que teme, minha senhora?—perguntou Zuzarte com +meiguice. <br /> + +<br /> + +Felismina sorriu e córou. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[154]</span> +Jogaram. Os peões, os delfins, o castello, o rei e rainha do +brazileiro, foram todos derrotados e assoprados miseravelmente. +Felismina venceu. <br /> + +<br /> + +—Estou á sua disposição, +minha +senhora!—disse Zuzarte. <br /> + +<br /> + +—Está?—acudiu ella com as morenas faces +retinctas de +escarlate. <br /> + +<br /> + +—Estou: que determina? <br /> + +<br /> + +—Que fique sendo o nosso amigo sempre; que não +torne para o +Brazil. <br /> + +<br /> + +—Ficarei. Quer-me então como um parente, sim? +Irmão, tio, primo... veja lá: qual parentesco lhe +quadra mais? <br /> + +<br /> + +—Seja primo—disse Felismina. <br /> + +<br /> + +—Pois, sim, seja primo—disseram todas as meninas. <br /> + +<br /> + +—Pois então venham dar todas um abraço +em seu +primo—tornou o brazileiro erguendo-se—O primeiro +abraço ha +de ser o de minha prima Mafalda, sobrinha de meu pae Fernão +de Athaide. <br /> + +<br /> + +Houve um spasmo em todas as senhoras, que pareciam, ao encarar-se +mutuamente, perguntarem umas ás outras se tinham entendido o +dizer do brazileiro. <br /> + +<br /> + +—Então, prima Mafalda!—tornou Fernando +de Athaide—se +não acceita o parentesco que sua filha nos dá, +acceite o que nos deu a natureza. Aqui tem o mau, o perseguidor, o +implacavel Fernando de Athaide! Vingue-se agora, dando-lhe um +abraço de abafar-lhe o ruim coração +que trasborda de felicidade! +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[155]</span> +Mafalda correu aos braços de Fernando; Corinna, Emma, +Felismina, Elisa, Leonor, todas a um tempo, pareciam contentar-se com +apertar-lhe os braços. O proprio Gastão abrindo +os seus queria abraçar o +grupo d'um amplexo. <br /> + +<br /> + +Fernando de Athaide, beijado e abraçado por todas, sentou-se +extenuado, e murmurou: <br /> + +<br /> + +—Devo esta felicidade a Corinna. Dê-me um outro +abraço, minha prima Corinna: a si devo o que sou agora; a si +é que toda esta familia deve a felicidade que eu posso +dar-lhe. <br /> + +<br /> + +—A mim?!—disse Corinna. <br /> + +<br /> + +—Como assim, primo Fernando?—acudiu +Mafalda—a gente não +sabe como é que Corinna deu causa a isto!... <br /> + +<br /> + +—Eu lhe digo, prima: se Antonio d'Azevedo não +tivesse amado +Corinna, nunca o eu conheceria no Rio de Janeiro; e, se eu +não viesse a encontrar o amigo, o anjo, o honrado amante de +Corinna, creia vossa excellencia que seria hoje o perseguidor d'estas +pobres meninas. Foi elle quem me ensinou, com duas palavras, como o +Christo as dizia aos maus, a ser bom, compassivo e misericordioso. +Vi-lhe lagrimas mal abafadas no coração; e quiz +Deus que ellas me cahissem no meu. D'ellas se gerou a felicidade de +todos nós, de todos, menos a d'elle... Adiante... Elle +está debaixo da mão de Deus... A sua hora de +premio ha de tambem chegar... Meu primo Gastão, eu perdi o +jogo com minha prima: perdi o direito de me revoltar contra as +<span class="pagenum">[156]</span> +suas decisões; mas, ainda assim, +o +coração põe embargos, e vossa +excellencia será o juiz, e minha prima Mafalda tambem. Eu +peço-lhe para minha esposa sua filha Felismina: antes quero +ser irmão que primo d'estas meninas; hei de sentir alguma +vez o prazer de chamar a vossa excellencia pae. Dá-me sua +filha? <br /> + +<br /> + +—Com orgulho, com soberba, como a não daria ao +primeiro +sangue de Portugal!—exclamou Gastão, conduzindo +Felismina +aos braços de Fernando. <br /> + +<br /> + +O visconde da Cruz felicitou Gastão, e discorreu com +enthusiasmo sobre o pathetico lance, a respeito do qual tambem eu faria +aqui de vontade um discurso, se o leitor quizesse medir sua paciencia +com o meu fôlego oratorio. A chave de oiro com que o visconde +fechou a parlanda foi apresentar todas as licenças +necessarias para os noivos se receberem na egreja parochial de +Cedofeita, com dispensa de proclames e attestados canonicos do imperio +do Brazil. Isto deu realces de alegria á +sobre-excitação em que todos +estavam. Mafalda queria manter-se em sua gravidade dos quarenta annos; +mas parecia irman de suas filhas. Gastão andava a querer +levantar toda a gente nos braços, e, a fallar a verdade, +não só levantava, mas apertava +as costellas franzinas do noivo com todo o amor dos seus musculos +d'aço, musculos que desmentiam a fidalga placidez, que +é condição das finas +raças. N'estas idas e voltas, Luiz Taveira não +perdia Leonor de olho, e a espiritual menina, com quanto mui angelica, +d'esta vez dava semelhanças d'aquelles anjos despenhados por +crime +<span class="pagenum">[157]</span> +de inveja. O deliquio com que ella +o fitava parecia dizer: «A mim não se me dava de +me parecer com os mortaes n'estas alegrias da mana +Felismina!» A pachorrenta Emma é que se movia +menos n'aquella geral vertigem. Sentou-se a conversar com o visconde, e +teve o descôco de dizer que já se não +podia ter em pé, e que estava saudosa das suas almofadas de +relva nas margens do Lima. <br /> + +<br /> + +Seguiu-se, dias depois, o casamento. Não foi fallado, nem +estrondoso. Até os jornaes o ignoraram, ou, se o souberam, +vingaram-se da sovinice dos noivos, deferindo para mais galhardas bodas +as quatro phrazes ramalhudas do costume. <br /> + +<br /> + +Ao jantar concorreram unicamente o visconde, seu irmão, e o +velho pae dos Taveiras, ancião de +muita gravidade e respeito, um dos velhos modelos do commerciante +portuense, coberto de honradas cans, com muita consciencia em logar de +sciencia, e poucas palavras, mas pesadas a oiro, e authorisadas como se +fossem maximas que encerrassem a experiencia d'uma longa vida. <br /> + +<br /> + +Terminado o jantar, apagado o afôgo dos brindes, e travada +serena pratica ácerca dos verdadeiros bens da vida, Bernardo +Taveira fallou assim: <br /> + +<br /> + +—Eu, se tivesse uma filha, havia de procurar-lhe marido +dotado com os +verdadeiros bens da vida: que vem a ser saude, honra, trabalho e +religião; +religião bastaria dizer, porque ella encerra tudo. No meu +tempo achavam-se moços bons, que não tinham outro +dote; +<span class="pagenum">[158]</span> +e o homem que acertava com um, dava-se por +feliz, se tinha filha a casar, ou grandes cabedaes a administrar. Eu +não sei se ha muitos d'estes moços n'estes +ruins tempos; o que de véras sei é que os poucos +que +ha, batem ás portas dos ricos, e estes não lh'as +abrem, sem +que elles mandem adiante a certeza de que o seu honrado trabalho +está já em bom fructo de +acções bancarias; e, se elles mostram o fructo, +sem dar ideia da arvore boa ou má que os deu, isso tambem +não importa... Senhor Gastão de Noronha, eu +hospedei em minha casa um moço chamado Antonio d'Azevedo +Barbosa. Era pobre, e sem occupação. Tinha a sua +formatura, a sua habilidade; mas, apesar de amigos protectores, +não tinha que fazer. Muitas vezes eu disse em mim: +«Se eu tivesse uma filha, dava-a a este +moço pobre.» O meu hospede teve razões +para sahir de +Portugal e ir ao Brazil: dei-lhe lá as +relações +dos meus amigos, e a alguns disse eu que o recebessem como receberiam +meu filho. Ia recommendado por sua honra: foi o que mais lhe valeu +lá. Azevedo principiou a trabalhar e logo a ser conhecido +como lettrado. Advoga, e ha de ser rico; e, se não +fôr rico, ha de ser +sempre mais do que isso: ha de ser um thesouro de virtudes. Peza-me +realmente não ter uma filha; mas quando vejo que vossa +excellencia tem quatro solteiras, não resisto á +vontade de lhe pedir uma em nome de Antonio de Azevedo. <br /> + +<br /> + +Gastão de Noronha ficou estupefacto. Fernando de Athaide +avisinhou-se d'elle, e disse-lhe: +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[159]</span> +—O homem veneravel que lhe falla, tem +inspiração +do ceo, meu primo. Acceite a felicidade da nossa Corinna. <br /> + +<br /> + +—Demora-se a responder, senhor +Gastão!—disse o velho com +ar triste—Eu não queria que os rogos dos +moços +valessem mais com vossa excellencia, que as minhas singelas palavras. +Se alguem aqui pedir mais do que eu, ha de ser a noiva. Senhora D. +Corinna, venha comigo: ha de ajoelhar aos pés de seu pae. <br /> + +<br /> + +Ergueu-se o tremulo ancião, e tomou a mão de +Corinna, que era toda purpura e lagrimas. <br /> + +<br /> + +Gastão, sem balbuciar um monosyllabo, fez signal +affirmativo, recebeu a filha nos braços, e osculou-a na +testa. <br /> + +<br /> + +—Bravo!—exclamou o brazileiro, apertando +convulsamente ao peito o +velho Taveira. A esposada e as outras meninas, salvo Emma, foram beijar +soffregamente a irman; Emma, porém, lá da sua +cadeira de espaldas, disse lentamente: <br /> + +<br /> + +—Ó Corinna, vem cá +abraçar-me, que eu +não posso bolir comigo de cansada! <br /> + +<br /> + +Este milagre de inercia fez rir a todos, e desfranziu o semblante de +Gastão. Voltaram á mesa do +<em>toast</em> a brindar Antonio de Azevedo. +O fidalgo concordou sem repugnancia nas saudes propostas, e agradeceu a +ultima do negociante, em nome de sua filha, futura esposa de Antonio +d'Azevedo. <br /> + +<br /> + +Quando Gastão proferiu estas palavras com enthusiasmo, +<span class="pagenum">[160]</span> +Corinna da Soledade descahiu sobre o hombro de sua +mãe, e desmaiou. Era um deliquio de felicidade, um +arrobamento de bemaventurança como as santas os sentem em +seus extasis de amor divino.<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[161]</span> +<h3>XVI. </h3> + +<br /> + +<br /> + +Antonio de Azevedo recebeu, ao mesmo tempo, tres cartas, afinadas todas +pelo mesmo tom de felicidade. <br /> + +<br /> + +Abriu primeiro a de Corinna da Soledade: era uma surpreza desde o +principio. Noticiava o casamento de Felismina com Fernando de Athaide, +e os miudos successos decorridos até ás palavras +proferidas por seu pae +na occasião do brinde. <br /> + +<br /> + +A ultima pagina continha o seguinte: <br /> + +<br /> + +«Ainda estamos do Porto; mas brevemente vamos para Lisboa. O +primo Fernando quer que te esperemos lá, onde se +hão de realisar os nossos sonhos, mais cedo do que eu e tu +suppúnhamos, ó meu +querido Antonio! Vem, vem no primeiro navio que sahir Ás +vezes receio morrer antes da tua chegada. Temo que me acordem d'este +sonho. As pessoas infelizes +<span class="pagenum">[162]</span> +não +podem familiarisar-se com a ideia de +já o não serem! Imaginas tu que terrores me +atormentam, agora, que tão ditosa me sinto, e tão +grata +levanto as mãos ao Senhor! Lembra-me que já podes +amar-me com menos ardor; lembra-me que estás embevecido na +ambição das riquezas... +Ó meu amigo, até me lembra se terás +morrido! Vê tu +se ha mais cruel imaginação! Nem agora me deixa o +mau destino! Parece que se está assim vingando por +não poder aniquilar-me! Acode aos meus receios, vem sem +demora, sim? Fernando é um anjo de bondade; sobra-lhe +riqueza para dar abundancia e alegria a muita gente. Não +será vergonha recebermos tudo de +sua mão. Que lhe diria o visconde a teu respeito, que elle +ficou pensativo?! Perguntei-lhe o que tinha, e respondeu-me que o teu +caracter, por demasia de austeridade, talvez se não dobrasse +á vontade +d'elle. Comprehendo estas palavras: suspeitam que tu +recusarás favores de posição, devida a +influencia estranha. +É porque não sabem quanto me amas, meu querido +amigo! Eu disse a meu primo que ficava pela tua docilidade: +não me deixes ficar mal, +não?<br /> + +<div class="dots" style="text-align: right;">»</div> + +<br /> + +<br /> + +A carta de Fernando de Athaide rezava assim: <br /> + +<br /> + +«O meu amigo espera que eu de Londres lhe escreva, explicando +a surpreza de uma procuração que lhe deixei, a +fim de tomar conta na direcção +dos meus haveres ahi, no caso de eu me demorar na Europa. Escrevo-lhe +de Portugal, onde estou casado +<span class="pagenum">[163]</span> +com minha prima +Felismina. Ja vê que me compuz com Gastão de +Noronha o mais amigavelmente que vossa senhoria podia desejar. Antonio +de Azevedo com duas palavras decidiu do meu destino; e, se +não me engano, abriu uma época de muita +ventura para esta familia, que é hoje a minha, e que deve +ser a sua tão brevemente, quanto depende da sua vinda para +Portugal. <br /> + +<br /> + +«Eu não lhe peço, apenas lhe digo que +venha. Se necessario fosse pedir, Corinna e eu duvidariamos do seu +amor. Bem sei que ha uma certa dignidade humana, que tem a ferrea +inflexibilidade dos corações duros. Essa, Deus +permittirá que não seja a sua: +se o fosse, a minha gloria seria imperfeita, e essa nuvem bastaria a +toldar esta festiva luz que me alegra a alma. <br /> + +<br /> + +«Não discutamos tal ponto. Venha, meu +irmão. Os meus negocios deixe-os entregues ao senhor +Valentim da Costa, a quem escrevo. <br /> + +<br /> + +«Minha mulher offerece uma prenda de noivado a sua futura +esposa: quiz, porém, (caprichos feminis!) que vossa senhoria +fosse o portador da prenda, que ahi lhe ha de ser dada. <br /> + +<br /> + +«Na proxima semana partimos para Lisboa. Na sua chegada alli +encontrar-me-ha logo. <br /> + +<br /> + +«Corinna tem as tristezas da duvida. Venha dar-lhe a ventura +que a mais ridente esperança não +póde +dar-lhe<br /> + +<div class="dots" style="text-align: right;">»</div> + +<br /> + +<br /> + +A carta do visconde da Cruz incluia a ordem devolvida +<span class="pagenum"><a name="p164" id="p164">[164]</a></span> +dos seis contos de reis, e a historia minudenciosa que Antonio +lêra na carta de Corinna. Como avaliador profundo do caracter +do seu amigo, o visconde combatia de antemão os argumentos +de independencia com que esperava ser contrariado; rematava, +porém, a carta censurando-se a si proprio por ter julgado +tão frio amante o homem que, por amor d'um anjo, se +expatriara alanceado de desgostos...... <br /> + +<br /> + +Entendam lá o coração humano! <br /> + +<br /> + +Antonio de Azevedo lêra as tres cartas surprendido, mas +não alegre! Que nuvem negra lhe cobria o quadro bello a que +o chamavam as tres cartas! Que presagio d'alma lhe antepunha +ás delicias convidativas da patria uma visão +triste em que elle parecia cravar os olhos espavoridos! <br /> + +<br /> + +Valentim da Costa, que raro sahia de casa, entrou n'este momento. <br /> + +<br /> + +—A alegria dá +forças!—exclamou elle—aqui +está o velho a dar os emboras ao mancebo, que foi mais cedo +compensado do que ordinariamente costumam sêl-o os bons!... +Que é isso?! vossê +está triste, Antonio?! As suas cartas que lhe dizem? <br /> + +<br /> + +—Que Fernando de Athaide casara com uma de suas <a href="#e2">primas</a>. +<br /> + +<br /> + +—E que mais?... Não é chamado para ir +casar com +a sua Corinna? <br /> + +<br /> + +—Sou. <br /> + +<br /> + +—E então? vossê não +está +ainda louco de alegria? Não cuida em preparar-se para a ida? +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[165]</span> +—Não, senhor; cuido em ganhar a minha +independencia. +Corinna é a filha de Gastão de Noronha, e eu sou +quem era, quando sahi de Portugal. Estou pobre como vim. A patria para +mim é meramente a terra onde nasci; não +é independencia. Quando aqui vim, +foi a legitima vaidade de homem pundonoroso que me aconselhou; o +pundonor aconselha-me agora que não vá acceitar +de mãos estranhas a subsistencia de +minha mulher e de meus filhos. A maior alma é sempre +insignificante ao pé da pequenissima alma em cuja +dependencia está. Eu não quero dizer a Corinna +que lisonjeie seu cunhado pelos favores que lhe devemos. Ser-me-ia um +permanente infortunio recebel-os de Gastão ou Fernando. Sou +homem: devo-me a mim proprio. E os homens que não podem +viver com muito, vão +ás inferiores escaleiras sociaes procurar a mulher que +quadra á sua mediania, e não devem pensar que o +amor os desculpa de irem ás altas classes convidar uma +senhora a descer onde elles estão. Não caso pobre +com Corinna, e tambem não a faço quinhoeira da +minha dependencia. Quando eu tiver ganhado pollegada a pollegada o +torrão que me sustente na patria, então irei. +Agora, meu bom amigo, vou dar-lhe conta da minha amargura, que +é mais que tristeza. Corinna, ao receber esta resposta, +dirá que eu a não amo. Fernando dirá +que sou indigno d'ella. O fidalgo arrancará +do orgulho ferido injurias contra o meu plebeismo. As irmans +hão de dizer-lhe que eu a sacrifico á bruteza das +minhas ambições. A final só terei por +mim a minha +<span class="pagenum">[166]</span> +consciencia pura, se é +que me não ha de pungir a +mágoa de ser assim organisado. Aqui tem, senhor Valentim, +que a minha estrella é má! <br /> + +<br /> + +—Má!?—exclamou o +velho—É uma estrella de +santificação a sua, meu Azevedo! Sabe o que eu +podia fazer? era argumentar comsigo, e leval-o a convencer-se de que a +dependencia só é vergonhosa quando o dependente +abdica de sua dignidade á força de +fazer-se inutil; dir-lhe-ia que vossê com o seu trabalho de +jurisconsulto, embora mal remunerado, havia de adquirir na patria o +torrão mais que abundante á sua +subsistencia, e que sua senhora e seus filhos viveriam todos felizes +á sombra da mesma arvore; mas... <br /> + +<br /> + +Antonio de Azevedo interrompeu: <br /> + +<br /> + +—Os seus argumentos não me moveriam: +perdôe +á minha rebeldia, meu caro amigo. A mediocridade, e ainda +mesmo a pobreza, podem parecer delicias á mulher que ama +contrariada por obstaculos de nascimento ou de fortuna: o amor faz +milagres taes, desfigurando tudo o que está feito e refeito +pelos seculos, e pelo +consenso universal. Quando, porém, o amor cede ao tempo, +á intimidade, aos mais serios deveres da maternidade, e aos +preceitos e preconceitos inexoraveis da sociedade—que acham +sempre +traça de se insinuarem mesmo através do colmado +do trabalhador de enxada—a mãe, que se +vê pobre, +é já +mulher muito diversa da noiva que almejava a pobreza do homem amado. As +flores da poesia fructificaram já em filhos que pedem +alimento, educação e futuro. As amigas de +infancia, +<span class="pagenum">[167]</span> +que pareceram baixas almas por se +terem victimado voluntariamente ao oiro d'um velho e aos epigrammas da +mocidade, lá estão ricas, respeitadas e +vaidosas de seus filhos; e com quanto já não +conheçam a amiga pobre que se deu de +coração ao +coração, culpam-na e condemnam-na do alto da sua +severa abundancia. Ora a mulher, na posição de +Corinna, quando se +vê pobre, dois annos depois de casada, e vê ricas +suas irmans, lembra ao marido que peça o amparo d'ellas; e +se esse marido é Antonio de Azevedo, a verdadeira +desgraça domestica principia para ambos desde esse momento. +Aqui tem o que sou e o que penso. Julgue-me e condemne-me o mundo como +puder e quizer. O meu pensamento era salvar a dignidade de +Gastão sem lhe dar riqueza, por me ser impossivel +adquiril-a; depois eu levaria o meu pouco á familia que +vivia de pouco, e seriamos +felizes todos. Não póde já ser assim. +Estão ricos, ou vivem á sombra do homem rico. +Não serei eu quem vá pedir um logar entre pessoas +que se haviam de acotovellar com o plebeu. Que levaria eu que me +recommendasse? Se eu fosse nobre, daria como merito a minha inutil e +inerte nobreza; assim, filho do povo e pobre, todos, menos a generosa +Corinna, a seu tempo perguntariam uns aos outros: «De que +serve este +homem?» Ora um homem sabe pontualmente quando os outros +perguntam o para que elle serve... Em summa, cá estou no +começo da minha tarefa: Deus +dá-me este pensar para que eu o leve a cabo. Outra cousa, +meu amigo. O visconde da Cruz devolve-me a lettra dos +<span class="pagenum">[168]</span> +seis contos: aqui a tem vossa senhoria para rehaver os +quatro que benignamente me emprestou. Beijo-lhe segunda vez as +mãos. <br /> + +<br /> + +Valentim ia replicar com razões de muita força, +que lhe suggeriu o talvez injusto juizo que Azevedo expendera a +respeito das mulheres devotadas á pobreza dos maridos, +quando o bacharel foi procurado por um negociante. <br /> + +<br /> + +Disse o negociante que recebera ordem de entregar trinta contos de reis +fracos a Antonio d'Azevedo, por mandado de Fernando de Athaide, +accrescentando que era tal quantia a prenda de noivado que a senhora D. +Felismina offerecia a sua irman. <br /> + +<br /> + +O bacharel disse ao negociante que conservasse em sua mão a +quantia, até lhe ser pedida. <br /> + +<br /> + +Sahiu o depositario dos trinta contos, e o doutor exaltou a bizarria de +Fernando de Athaide, aconselhando Antonio d'Azevedo a não +dar á sua dignidade umas parecenças de soberba. <br /> + +<br /> + +—É o dote de Corinna, que seu primo lhe +dá—disse Azevedo—Quando eu tiver egual +quantia, +não me pejarei de ir levantar o deposito. Em verdade, +é grande a alma de Fernando, e por isso mesmo se faz digno +de lidar com almas eguaes á sua. <br /> + +<br /> + +O velho sahiu captivo do moço; mais extremoso que captivo; +sentia-se amar como pae; ser-lhe-ia doloroso apartar-se d'elle desde +aquella hora. No termo da vida, longa vida em contacto com as pustulas +sociaes, aquella paragem, áquem da eternidade, era-lhe uma +<span class="pagenum">[169]</span> +como prelibação das +alegrias dos justos. Pensava +o ancião em dar um adeus á existencia, contente +d'ella, e de si: parecia-lhe que as palavras do consolador lhe +suavisariam o trance. Era já egoista da amizade do seu +Azevedo: disputal-o-ia á mesma Corinna, se o visse em +preparativos de viagem. <br /> + +<br /> + +—Se eu pudesse dar-lhe desde já a +independencia!—dizia +entre si o velho—Oh! se podia!... Mas, a dar-lh'a, eil-o ahi +está dependente de mim, e a +rejeitar-m'a, e a fugir-me as instancias, e a ser menos meu amigo! +É preciso respeital-o muito para o prender +á minha affeição. <br /> + +<br /> + +Aqui está a resposta de Antonio d'Azevedo a Corinna: <br /> + +<br /> + +«Folgo com as venturas de teu pae, e louvo a Deus por me ter +dado uma casual influencia no melhor remedio de seus males. Tudo me faz +crer que tendes em Fernando um bom irmão. Dá um +abraço, por mim, na tua Felismina, e agradece-lhe o valioso +deposito que confiou de mim. Em vez das joias, que vale este dinheiro, +pedir-te-ia, minha Corinna, se estivesses no Lima, que te adornasses de +flores; mas, como vives em Lisboa, os enfeites das flores valem nada +ahi, porque o clima as requeima logo. Esse sol quer reverberar nas +facetas dos brilhantes, senão ninguem dá por +elle. <br /> + +<br /> + +«Não tens amor aos teus campos e ao teu rio? +Ó minha amiga, ainda me doem saudades das minhas arvores, +ainda peço a minhas irmans que m'as guardem +<span class="pagenum">[170]</span> +e cultivem com amor! Não me culpes, se a +minha saudade ainda vai por esse formoso Portugal fóra, para +além do ponto onde estás, +em busca d'outros amores. Amores são, que eram já +muito em minha alma, antes que tu m'a reformasses para olhar a futuros. +Tinha de meu, quando te vi, um passado de innocentes alegrias. A idade, +cortada de penas, pôde tudo, menos despojar-me do que +lá +está, e está para sempre, nas relvas, nas +arvores, nas serras, e no meu Cávado! Vê tu como a +criança +ainda se gosa das lagrimas do homem! <br /> + +<br /> + +«Que estou eu a devanear, se tu já tens pressa de +saber porque vai esta carta, e não vou eu! <br /> + +<br /> + +«Não vou, Corinna, porque é cedo para +ser feliz. O puro e duradouro contentamento custa a merecer, e leva +tempo. As alegrias improvisadas vão como vem. Sobre que +bases assentam as nossas +convenções de coração, +minha amiga? Voltar eu a Portugal com o necessario para a decencia da +posição em que te conheci. Se eu fosse, +faltava-te: tu perdoavas-m'o; eu é que não podia +perdoal-o a mim proprio. A decencia da tua +posição não +a tenho ainda. Sei que anjo és, que doce conformidade seria +a tua: mas o mau, o intractavel, e irreconciliavel com os +<em>tremendos nadas</em> da vida +positiva, sou eu. Venho da desgraça, e conheço-a: +as minhas +relações em Lisboa foram os +desgraçados, e estudei-os. Deus confiou-te de mim como d'um +encaminhador e guarda. É forçoso dizer-te que o +bom rosto da fortuna +só +<span class="pagenum">[171]</span> +está sorrindo aos teus +olhos, porque és +innocente. Se comigo não tem sido boa, tambem já +se abstem de querer enganar-me. A nossa riqueza, Corinna, é +a esperança: esta, juro-te eu, que vale mais que os +milhões de tua irman. Felismina tem tudo que desejava: Deus +sabe o que ella agora deseja!... <br /> + +<br /> + +«O que tu queres de mim não é muito +amor, e uma casinha além no nosso Minho, e as serenas +alegrias, promettedoras d'um fim de vida socegada? Lá me +tens o coração, e eu cá o espirito +a grangear o mais. Não o tenho ainda: poucos annos +bastarão a esta opulencia, que tão pouco vale +aqui e lá. +Então, sim, então verás que vai aqui +n'este peito a +ufania d'um principe, o santo orgulho d'um operario, que não +inveja principes. Hei de ir procurar-te, não +aos bailes de Lisboa, mas sim aos arvoredos do Lima. De lá +irás comigo, sem atravessares pompas de +cidades, nem magnificencias onde te fique prêso um desejo. +Lá temos ainda á margem do meu rio a casa de meus +paes: que pobre e formosa vivenda! Augmental-a-hemos para vivermos +todos: plantarás novas arvores, e irás tomar o +teu quinhão das flores de +nossas irmans. As tuas arvores virão a tempo com suas +sombras para nossos filhos; e estes, creados nas asperezas dos +montados, e nas asperezas da religião, ir-se-hão +fazendo e formando entre as duas sublimes e unicas poesias: a da +fé e a da natureza. <br /> + +<br /> + +«A vida, que me tu pedes, é mui diversa, Corinna. +Teu cunhado é um grande em Portugal, quando +<span class="pagenum">[172]</span> +o quizer ser. Teu pae e tua mãe anhelam muita +luz para serem vistos, e embriagam-se nos perfumes da lisonja. Esse ar +a mim empeçonhava-me a vida, e não sei se o +coração. Ahi amava-te +menos, porque perderia o amor de mim proprio, o amor que me extrema do +vulgo, o illustre vulgo, que é o derradeiro plebeismo, sem +individualidade, sem classe, sem mais religião que a das +sensações. <br /> + +<br /> + +«Corinna, não te aviltes em te julgares menos +amada. Adoro-te respeitosamente; porque sei que rejeitas o sacrificio +da minha dignidade. <br /> + +<br /> + +«Estamos no ponto onde ha quatro mezes estavamos: a mulher +corajosa espera; e o homem, nobilitado por teu amor, quer ennobrecer-se +para a tua mão. Nada mudou, salvo a +posição de +tua familia. Mas que temos nós que entender com a riqueza de +Fernando de Athaide? A riqueza é d'elle. A mim era-me egual +depender de teu cunhado, ou do visconde da Cruz, ou do primeiro +encontradiço que me offerecesse um obulo. Quando sahi de +Portugal, Felisberto Taveira emprestava-me alguns contos de reis para +eu me estabelecer e casar comtigo. Se então rejeitei um +emprestimo sem desaire, como hei de ir hoje acceitar uma delicada +esmola d'um sugeito que escassamente conheço? <br /> + +<br /> + +«Isto será amar-me demasiadamente a mim; e +não é menos amar a mulher que está +identificada em +minha vida e honra. <br /> + +<br /> + +«Adeus, Corinna. A tua alma ha de conservar-se +<span class="pagenum">[173]</span> +immaculada ahi em Lisboa, como lá na +solidão das nossas terras. Se o mundo te não +respeitar, tu +saberás respeitar-te a ti mesma. Ahi e em toda a parte +encontrarei sempre a minha Corinna, cuja animadora imagem eu vejo em +tudo que é adoravel e santo. Adeus.»<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[174]</span> +<h3>XVII. </h3> + +<br /> + +<br /> + +As cartas de Antonio de Azevedo a Corinna e Fernando produziram o que +elle até certo ponto vaticinara, fallando com Valentim. <br /> + +<br /> + +Corinna duvidou do amor, que se desafogava em +dissertações mysticas, e bucolicas saudades +d'arvores e de rios. <br /> + +<br /> + +As irmans de Corinna, com o louvavel intento de a consolarem, abundavam +no parecer d'ella. <br /> + +<br /> + +Fernando de Athaide dizia a sua mulher que não podia caber +amor em coração tão cheio +de orgulho. <br /> + +<br /> + +D. Mafalda dizia ao marido que era moda a gente baixa fingir philaucia +de fidalgos. <br /> + +<br /> + +Gastão, acidulado pelo dito da esposa, deu para baixo na +peonagem, e declarou que sempre esperava que sua filha levasse uma boa +lição. <br /> + +<br /> + +Acontecera estar n'este ensejo em Lisboa, e hospede +<span class="pagenum">[175]</span> +de Fernando, o visconde da Cruz e seu +irmão Luiz. A declamação do fidalgo +ferira acremente a +dedicada alma do visconde. Tambem este havia de ter uma carta +explicativa do proceder de Antonio d'Azevedo: esperava-a do Porto, e, +sem a ter lido, não queria arvorar-se defensor do ausente. +Tanto, porém, subiu Gastão em sarcasmos contra o +<em>homem de +Barcellos</em>, que o visconde ergueu-se irado, e +exclamou: <br /> + +<br /> + +—Senhor Gastão de Noronha! o <em>homem de +Barcellos</em>, quando vossa excellencia estava em risco +de extrema pobreza... <br /> + +<br /> + +Corinna correu contra o visconde, e poz-lhe a mão na boca, +supplicando silencio. A prevista menina sabia que duro vexame o pae ia +soffrer com tal +revelação. Calou-se o visconde, e o fidalgo +insistiu na +continuação da phrase, com tregeitos iracundos. O +visconde ia pegar do chapeo, quando Emma lhe disse: <br /> + +<br /> + +—Não saia assim irritado, visconde. Sou eu que +lh'o rogo. <br /> + +<br /> + +Parece que Emma podia muito no animo do visconde. <br /> + +<br /> + +Fernando travou do braço do cavalheiro, e passou +á sala immediata. <br /> + +<br /> + +—Vossê—disse elle—ha de +dizer-me o resto da phrase. Que +fez Antonio d'Azevedo, quando meu primo estava em risco de extrema +pobreza? <br /> + +<br /> + +—Mandou-me seis contos de reis para —Mandou-me seis +contos de reis +para eu lhe valer, sem declarar a seu +primo que os mandava elle. No mesmo paquete em que recebi tal ordem, +veio vossê. +<span class="pagenum">[176]</span> +Logo que me revelou +quem era e o intento com que vinha, entendi que a +posição de seu primo estava mudada. +Ainda assim, fui a Vianna, e offereci dinheiro a Gastão. +Como não precisava, devolvi a ordem a +Antonio d'Azevedo. <br /> + +<br /> + +—Bem—disse Fernando—é +forçoso o segredo? <br /> + +<br /> + +—É. Corinna valeu-me n'um impeto de +cólera; +agora confio de vossê que a minha palavra, dada ao Azevedo, +se não quebrante. <br /> + +<br /> + +—Confia bem, visconde. Que admiraveis virtudes as d'este +moço! Sabe vossê que um homem, +conhecedor de taes exemplos de honra, nunca está bem com a +sua consciencia!? Eu não sei o que já hei de +fazer a favor de Antonio d'Azevedo!... Aqui me diz o meu correspondente +que elle deixou ficar o dinheiro em deposito até nova ordem. +Está claro que o não +acceita... <br /> + +<br /> + +—Clarissimo. Se elle não vem, como iria levantar a +prenda +da noiva?!—disse o visconde. <br /> + +<br /> + +—Que se ha de fazer, meu amigo? <br /> + +<br /> + +—Não sei: é esperar que elle tenha o +que julga +necessario á sua independencia. <br /> + +<br /> + +—Vou dar um passo decisivo!—tornou Fernando, depois +de breve +meditação. <br /> + +<br /> + +—Qual? <br /> + +<br /> + +—Vossê verá. Vamos á sala. +Receio que +meu primo diga alguma grosseria a Corinna. <br /> + +<br /> + +Quando entraram, a pobre menina estava chorando, e Felismina, +lançando-lhe os braços sobre os +hombros, segredava-lhe consolações. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[177]</span> +Fernando approximou-se de ambos, e disse a +Corinna: <br /> + +<br /> + +—Está tudo remediado. É +questão de +alguns dias. <br /> + +<br /> + +E, voltado a Gastão, disse jovialmente: <br /> + +<br /> + +—Olé, primo! o incidente passou: torna tudo ao seu +curso +regular. Aqui não se falla bem nem mal de Antonio d'Azevedo. +Defendel-o seria ultrajal-o. Accusal-o seria um vilipendio. Ninguem +ficou mais nem menos do que era. <br /> + +<br /> + +Na noite d'esse dia estava Corinna no seu quarto com Felismina, quando +entrou Gastão de affavel semblante. Sentou-se entre ambas, e +disse com mellica entoação: <br /> + +<br /> + +—Tu és minha filha, és o meu sangue, +tens +pundonor de raça, e deves estar curada, Corinna. Ha muito +quem te pretenda; e teu cunhado deixa-te a +administração dos vinculos para tu poderes +escolher marido. Tens tres bons partidos a escolher. O morgado de +Villar da Rocha está aqui em Lisboa, viu-te, e +perguntou-me se não estavas promettida. Um filho segundo do +marquez de Travassos, familia mais antiga que a Lusitania, fez-me egual +pergunta. O barão da Teixeira, vindo ha pouco da Bahia, com +mais de quinhentos contos, fallou em ti ao Fernando. Escolhe. <br /> + +<br /> + +—Não escolho ninguem—disse resolutamente +Corinna—O que eu +escolhia era a morte. <br /> + +<br /> + +—Antes isso que a vergonha da familia!—replicou o +pae. <br /> + +<br /> + +—Que vergonhas dá ella á +familia?—perguntou +<span class="pagenum"><a name="p178" id="p178">[178]</a></span> +Felismina com os geitos especiaes de quem tem +dois milhões. <br /> + +<br /> + +Gastão involuntariamente respeitou a +interpellação da filha millionaria. A bem dizer, +a pergunta era irrespondivel. <br /> + +<br /> + +D'ahi a pouco estava febril Corinna, e as ancias e soluços +tão frequentes a opprimiram, que a +familia houve medo d'algum accesso de loucura. <br /> + +<br /> + +Fernando de Athaide, conscio da brevidade do insulto nervoso, disse ao +primo: <br /> + +<br /> + +—Não volte a injuriar a pobre menina, que a mata a +ella, e +perde a minha estima. Eu hei de necessariamente fazel-a feliz. Se o +não conseguir, maldigo a hora em que a conheci. <br /> + +<br /> + +Dias depois, Corinna sahira do seu quarto, pallida, desolhada e triste. +O sangue mal lhe acudia ao pulso. As palavras sahiam á +força de caricias. Era +preciso fazel-a chorar para que as lastimas subissem do +coração <a href="#e3">aos labios</a>. +Fallavam-lhe em Antonio de Azevedo, e as faces retingiam-se-lhe; +mostravam-lhe o anjo da esperança +a voejar para ella, e o sorriso volitava-lhe em toda a face +até se confundir com as lagrimas de jubilo. Mas este mesmo +jubilo era um accesso de febre. Os medicos tinham-se enganado: aquelle +quebranto de forças e feições eram +prenuncios de +morte. A gente experimentada facilmente diagnostíca +estas insaneaveis doenças: os medicos é que, do +cocuruto da +sciencia, o que ordinariamente palpam n'estes symptomas é +uma doença que entende com o estomago ou com o figado. +<span class="pagenum">[179]</span> +De coração +só conhecem +lezões, turgecencias, hypertrophias, aneurismas, +&c. Tem assim, e por conta da sciencia, morrido muita +gente, que se curava com um raio de alegria e um pouco de +compaixão do mundo. <br /> + +<br /> + +Fernando encerrou-se com Gastão, e disse-lhe: <br /> + +<br /> + +—Vou liquidar a minha casa ao Rio de Janeiro. Mandei crenar a +galera. +Parto na proxima semana. Minha mulher vai comigo; e Corinna +irá tambem, se o primo a ama e me estima a mim. Se ficar, +morre; e se morrer, Felismina não quer voltar a Portugal. <br /> + +<br /> + +—Vai procurar o noivo minha filha?—disse +Gastão +ironicamente. <br /> + +<br /> + +—Vai procurar a vida; e se Antonio d'Azevedo lh'a +dér, bem +haja o salvador da nossa Corinna! <br /> + +<br /> + +—Pois que vá: nós partiremos para o +Minho. <br /> + +<br /> + +—Pedia-lhes que ficassem em Lisboa, e não +alterassem os +costumes de minha casa. Tenho relações que desejo +conservar. Meu primo honrará os nossos amigos, recebendo-os. +Em seu poder fica a porção +da fortuna que tenho em Portugal. A sua estima por mim ha de chegar ao +sacrificio de esperar em Lisboa a nossa volta do Brazil. <br /> + +<br /> + +Não se fez rogar o fidalgo. Sujeitou-se plenamente +á vontade do genro. <br /> + +<br /> + +Recebeu Corinna da Soledade a nova da viagem. Alvoroçou-se +até recahir na febre; mas a crise +foi leve, e rapida a convalescença. <br /> + +<br /> + +A galera de Fernando, construida em Inglaterra, era garbosa, linda e +leveira como um cysne. A tolda +<span class="pagenum">[180]</span> +era um +camaranchel de sedas, como o das antigas gondolas de Veneza. O chrisma +para «Felismina» fadou-lhe mais ricos destinos. O +amor lhe inventara os adornos, os perfumes, as graças e +garridices que só o amor +desentranha de suas fantasias. A sala de ré era uma +ante-camara de sultana. Ia por esses mares fóra aquella +concha de perolas, namorada das auras que ciciavam no velame, imitando +as branduras de suas irmans derramadas pelas moitas dos gestaes. Que +vontade fazia aquella gentil galera de ir ter um mundo na +vastidão do oceano, e não vêr mais que +ella e ceo, e um +ente amado, debaixo das estrellas a espelharem-se nos paramos azues das +aguas! Como alli o coração, golpeado na terra, se +iria contente, se cá d'estes abysmos levasse ainda a salvo o +condão da poesia que faz sahir mundos sobre mundos dos +abysmos do mar! <br /> + +<br /> + +A galharda galera, como ovante da gentil alma que levava, sahiu barra +fóra com todo o panno e prospera +monção. A festival menina, por esses mares +fóra, sobre a tolda, a scismar, com os olhos lá +no infinito horisonte, d'onde a chamava o esposo, e os favonios a +enfunarem-lhe as roupas alvissimas... que linda ia! julgareis ver a +pomba sobre a arca fluctuante nas aguas já serenas do +diluvio! <br /> + +<br /> + +Ao vigesimo nono dia de viagem avistaram pharoes das terras de Santa +Cruz. <br /> + +<br /> + +Corinna, ao repontar da alva, subiu ao tombadilho, e viu a cidade +d'oiro, a rainha do novo mundo, espreguiçando-se do ultimo +somno entre os ceruleos +<span class="pagenum">[181]</span> +coxins do seu immenso +leito com pavilhão de mil flammulas e bandeiras. Parecia-lhe +ver caminhar a terra, mar dentro, a recebel-a; mas tardio era o +avançar da galera a encontral-a. <br /> + +<br /> + +—D'aqui a meia hora?—disse ella a Fernando. <br /> + +<br /> + +—Sim, d'aqui a meia hora, minha egoista!—respondeu +o primo, e +continuou sorrindo—D'aqui a meia hora já +não +tens patria, nem irman, nem +cunhado! O Antoninho, que, a estas horas está escrevendo uns +<em>provarás</em>, com o +supremo tedio de que é susceptivel a creatura humana, vai +receber um golpe d'alegria mortal!... Haverá no genero +humano um segundo homem a ponto de experimentar prazer egual?! +É impossivel que elle te não adivinhe, mana +Corinna! salvo se o coração de um jurisconsulto +é tapado a toda a casta de inspiração +divina!<br /> + +<br /> + +<div class="dots"></div> + +<br /> + +<div class="dots"></div> + +<br /> + +<br /> + +A este tempo, chegava Antonio d'Azevedo Barbosa, ao caes. <br /> + +<br /> + +Adivinhou, com effeito?—pergunta o leitor. <br /> + +<br /> + +Nem sombra de presentimento, meu amigo! O que trazia ao caes, e a bordo +de um navio, Antonio d'Azevedo, é successo infausto que tem +uma historia concisa, mas necessaria. <br /> + +<br /> + +Um dos irmãos do bacharel, Francisco d'Azevedo, era +caixeiro, em Lisboa, n'uma casa de cambio da rua dos Capellistas. +Merecera um bom nome, e cahira em tentação depois +de o ter merecido. As desordens +da vida, as demasias de luxo, a ancia de mostrar-se rico +<span class="pagenum">[182]</span> +aos olhos d'uma mulher que distinguia os moços +ricos, induziram-no a subtrahir, com intenção de +os +repor, capitaes, que excediam os seus ordenados de dois annos. +Francisco jogou na esperança de resgatar-se, e cavou mais no +abysmo de sua perdição. Quasi a +ponto de ser descoberto, quando o patrão dava o +balanço, o caixeiro desappareceu, e fugiu caminho do Brazil, +confiado na reforma de seus costumes, e na possibilidade de ganhar +depressa com que restituir o furto. <br /> + +<br /> + +Chegou ao Rio, e procurou o irmão. Deu +explicações inventadas da sua ida, e conseguiu +logo, mediante Antonio d'Azevedo, boa casa, bom ordenado e muita +estimação dos patrões. <br /> + +<br /> + +O bacharel estava contente do expediente de seu irmão. +Lembrava-se que assim mais cedo as irmans teriam bom amparo. <br /> + +<br /> + +Lia, passados trinta dias, Antonio d'Azevedo o +<em>Commercio do Rio de Janeiro</em>, e +casualmente parou os olhos sobre esta correspondencia, intitulada: +<em>Cautela com os ladrões.</em> <br /> + +<br /> + +E seguia d'este theor: <br /> + +<br /> + +«<em>Fugiu de Lisboa, com +direcção ao Brazil, um caixeiro do cambista F***. +Chama-se Francisco de Azevedo, natural de Barcellos. Desfalcou o +patrão em dois contos de reis. Para que o ladrão +não +logre o bom resultado das suas manhas, avisa-se o commercio do +Brazil.</em>» <br /> + +<br /> + +Antonio d'Azevedo viu entre si e o jornal um redemoinho de scintillas +de lume, e, ao levar as mãos<span class="pagenum">[183]</span>aos +olhos, tinha perdido os sentidos. Este lance passára-se no +escriptorio de Valentim da Costa. <br /> + +<br /> + +Entrara o velho, e ouvira o soluçar cortante do seu amigo. +Interrogou-o com paternal carinho. Azevedo ergueu-se como atordoado, e, +ao sahir, murmurou estas palavras: <br /> + +<br /> + +—A infamia está ahi escripta n'esse jornal. <br /> + +<br /> + +Foi ao armazem onde Francisco era guarda-livros; entrou no gabinete +particular do negociante, e encontrou-o lendo o jornal. <br /> + +<br /> + +O negociante estava correndo a primeira pagina, e a noticia vinha na +segunda. <br /> + +<br /> + +—Por cá, doutor!—disse alegremente o +patrão de +Francisco—Vem saber como vai o nosso homem? Optimamente. +Estou +contentissimo. É seu irmão, e basta! <br /> + +<br /> + +Eram frechas que varavam o peito de Antonio de Azevedo! A dor +rompeu-lhe em lagrimas. O negociante viu-as, e exclamou: <br /> + +<br /> + +—Que tem o doutor?! Alguma desgraça de familia +lá na terra? Morreu-lhe algum de seus irmãos? <br /> + +<br /> + +—Morreu Francisco—balbuciou o bacharel. <br /> + +<br /> + +—O quê? morreu Francisco! O doutor está +a sonhar! +Pois não o viu quando entrou?! <br /> + +<br /> + +—Morreu para a honra—tornou já +serenamente Antonio—Ahi +está na segunda pagina d'esse jornal o ignominioso epitaphio +do desgraçado. <br /> + +<br /> + +—O quê? que diz o doutor de epitaphio? <br /> + +<br /> + +Azevedo collocou o dedo indicador sobre a correspondencia. +<span class="pagenum"><a name="p184" id="p184">[184]</a></span> +O commerciante leu, e fez-se amarello. Depoz o +jornal, levou as mãos aos raros cabellos brancos, e disse: <br /> + +<br /> + +—Tem razão, doutor! seu desgraçado +irmão está morto! <br /> + +<br /> + +—Vim para o levar comigo. Queira o senhor dar-lhe ordem de +sahir. +Rogo-lhe a generosidade de não lhe dizer a causa por que o +despede. <br /> + +<br /> + +Deteve-se a scismar o <a href="#e4">negociante</a>, +e disse com energia +de boa alma: <br /> + +<br /> + +—Vamos ver se o salvamos. <br /> + +<br /> + +—Salval-o como? <br /> + +<br /> + +—Vai com outro nome para o Pará. <br /> + +<br /> + +—O nome não é o infamado; é +elle. +Creia o meu amigo que eu não vim pedir-lhe a sua +protecção para salvar o homem indigno d'ella. Vim +buscar meu irmão. <br /> + +<br /> + +Foi chamado Francisco. <br /> + +<br /> + +—Dá contas ao senhor Silva, que vaes sahir de sua +casa. <br /> + +<br /> + +O guarda-livros fez-se roixo. <br /> + +<br /> + +—Não ha explicações +previas—tornou +Antonio—Apresenta os livros a teu cargo ao senhor Silva. <br /> + +<br /> + +—Os livros estão vistos—disse o +negociante—Não +tenho a menor suspeita da probidade do senhor Francisco. <br /> + +<br /> + +—Suspeita?—atalhou este. <br /> + +<br /> + +—Silencio!—disse imperiosamente +Antonio—Vamos. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[185]</span> +O commerciante apertou a mão do bacharel, e +lançou ao irmão um olhar compassivo. <br /> + +<br /> + +Francisco hospedou-se com Antonio. Dois dias depois, recebeu de repente +a noticia da sua volta a Portugal, accrescentada d'estas palavras: <br /> + +<br /> + +—Entrega esta carta em Lisboa. A pessoa a quem a entregas +irá comtigo a casa do cambista F***, teu patrão +que foi. Darás ao cambista o dinheiro em +que elle se disser roubado por ti. Cobrarás recibo, que me +enviarás. Feito isto, recolhe-te a Barcellos, e pede a tuas +irmans que te dêem um quinhão da sua +subsistencia. <br /> + +<br /> + +Francisco, lavado em lagrimas, quiz ajoelhar aos pés de seu +irmão, e contar a historia dos seus +desatinos. <br /> + +<br /> + +—Não ha historia que absolva um +roubo—disse o bacharel. <br /> + +<br /> + +E no dia seguinte, quando elle acompanhava ao navio o irmão, +é que a vistosa galera +<em>Felismina</em> se baloiçava, +como odalisca, sobre a camilha azul das aguas que reverberavam o sol +nascente, e se cobriam de scintillante lhama de oiro. <br /> + +<br /> + +Olhem a felicidade de Corinna e a felicidade de Antonio de Azevedo! +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[186]</span> +<h3>XVIII. </h3> + +<br /> + +<br /> + +Antonio de Azevedo foi abrir a reprêsa de lagrimas no seio do +ancião que o esperava com as suas, unico balsamo das +supremas afflicções. <br /> + +<br /> + +—Veja a minha vida!—disse entre soluços +o bacharel—Pensar +eu que o muito trabalhar me daria um quieto contentamento, e que, +além dos dissabores do coração, nunca +teria outros!... E agora estes! +os da ultima deshonra! uma vergonha irremediavel que me priva de olhar +de frente para os homens que estimaram meu irmão por amor de +mim! <br /> + +<br /> + +O velho, combatendo os escrupulos do moço, teve a admiravel +e inspirada eloquencia da verdade. Declinou a deshonra sobre quem a +praticara, e provou ser aquella desgraça mais uma prova para +aquilatar as virtudes do bacharel. Verdadeiros, mas, ainda assim, +inconsolativos argumentos! <br /> + +<br /> + +Fallaram longo tempo. Valentim não deixara sahir +<span class="pagenum">[187]</span> +o amigo n'aquella manhan, receoso de que a +solidão lhe amargurasse a mais as apprehensões. <br /> + +<br /> + +Quando o moço se impunha a si mesmo o preceito da +força para o trabalho, e o velho insistia nos seus +dictames insinuativos de coragem, entrou no escriptorio Fernando de +Athaide. <br /> + +<br /> + +Antonio de Azevedo, como a desentorpecer-se de um glacial spasmo, +estendeu-lhe machinalmente a mão e deixou-se +abraçar. Valentim fazia um alarido de +exclamações de espanto, que não +deixavam ouvir o adventicio. <br /> + +<br /> + +—Vejo-o triste e demudado, senhor Azevedo!—disse o +primo de Corinna. <br /> + +<br /> + +—É oiro que está ainda ardendo da +ultima +prova!—respondeu o velho—A desgraça +cuidou que o +fulminava; mas a honra venceu. <br /> + +<br /> + +Antonio d'Azevedo fez um gesto supplicante de silencio ao doutor, e +disse a Fernando: <br /> + +<br /> + +—Ninguem o esperava no Rio, senhor Athaide. <br /> + +<br /> + +—Foi uma partida repentina. Assim é que se fazem +as coisas! +<br /> + +<br /> + +—Como ficou Corinna?—perguntou Azevedo; e logo as +lagrimas lhe +saltaram a quatro, e uma ancia lhe ressumou á face em suor +frio. <br /> + +<br /> + +Sentou-se quebrantado, e murmurou: <br /> + +<br /> + +—Desculpem-me: estou-me fazendo mulher... Estas lagrimas, se +as +não chorasse, matavam-me. <br /> + +<br /> + +—São de saudade?—disse Fernando. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[188]</span> +—São de desesperança, cuido +eu—respondeu +Azevedo, escondendo os olhos com as mãos. <br /> + +<br /> + +—Anime-se!—exclamou Athaide—Que +descorçoamento +é esse, improprio d'uma alma de bronze! Azevedo, saia d'essa +lethargia! Olhe que Corinna ama-o como sempre, e espera-o com a +anciedade d'um anjo consolador de todas as suas mágoas. <br /> + +<br /> + +—Tardia virá a +consolação!—balbuciou +o moço—Deus me livre de a condemnar a soffrer +debaixo da +minha estrella... Escreveu-me ella? <br /> + +<br /> + +—Que pergunta! Tenho em casa uma carta sem fim, que o meu +amigo ha de +lêr como se ella mesma a estivesse fallando! Venha comigo, e +cuidará que tem entre mãos, não uma +carta, mas o proprio +coração da sua Corinna! <br /> + +<br /> + +—Agora consinto que vá!—disse o velho. <br /> + +<br /> + +—E o doutor vem tambem—acudiu Fernando. <br /> + +<br /> + +—Vamos lá!—voltou o +velho—Vossês os rapazes +andam comigo d'aqui p'r'ali, como se esta gotta não +merecesse respeito nenhum á +geração nova! Ora esperem ahi, que eu vou vestir +a dalmacia, a casaca circumspecta! Sua senhora veio? <br /> + +<br /> + +—Veio, sim. <br /> + +<br /> + +—Ah!—disse Azevedo—está +cá a senhora D. +Felismina?! <br /> + +<br /> + +—Pois eu havia de deixar lá a alma! +Então +vossê não sabe que marido eu sou! Minha mulher sou +eu—disse com festivo semblante o millionario. <br /> + +<br /> + +Sahiram. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[189]</span> +—Isto veio do ceo!—disse Valentim—Quem +distrahiria o meu pobre +Antonio, se lhe não chegassem os bons amigos da patria! Vai +ter um dia cheio, meu amigo! Quem lhe fallaria com mais ternura da sua +Corinna que a irman querida! Felismina se chama ella: hoje é +que é <em>feliz +mina</em> de consolações para o meu +desterrado! <br /> + +<br /> + +Assim, com estes dizeres affectuosos do alegre ancião, +chegaram ao grandioso predio, que Fernando habitava. <br /> + +<br /> + +Na primeira sala esperava-os Felismina. O doutor, que subia na +dianteira, ao vêl-a, exclamou: <br /> + +<br /> + +—Sim, senhores! É muito linda! Ha muito que +não +vi d'estes fructos da minha terra! Quero e gosto que as senhoras +brazileiras vejam o que lá ha por Portugal! <br /> + +<br /> + +Felismina sorriu-se ao galanteio do velho, e abraçou Antonio +d'Azevedo. <br /> + +<br /> + +—Como está abatido!—disse ella. <br /> + +<br /> + +—Abatido no rosto, mas Sansão na +alma!—acudiu Valentim. <br /> + +<br /> + +—Acha-me velho?—disse Azevedo—N'este paiz +acaba-se depressa o homem +que se não exercita muito, e endurece ao fogo do sol. A sua +familia, minha senhora, ficou boa? A senhora D. Corinna? <br /> + +<br /> + +—Como faz essa pergunta, senhor Azevedo!...—disse +Felismina—Que +frialdade! Dar-se-ha caso que vossa senhoria não ame +já minha irman? <br /> + +<br /> + +—Por Deus, minha senhora!—respondeu o +moço—Todos +<span class="pagenum">[190]</span> +os infortunios podem menos sobre mim que +uma injustiça, que deixa de ser injuria por ser dita por +vossa excellencia. <br /> + +<br /> + +—Se elle ama sua irman!—atalhou o +velho—Ó minha senhora, +se os meus cabellos brancos inspiram confiança, creia vossa +excellencia que o meu Azevedo ama tanto sua irman que, por amor d'ella, +excede-se a si proprio na prática das virtudes. Grande e +distincto deve ser o amor que faz o virtuoso! Vicios e crimes +é o que eu tenho visto resultar dos amores vulgares... <br /> + +<br /> + +—Está o senhor Azevedo ancioso por que lhe +entreguem a +carta de Corinna—disse Fernando—Vai tu buscal-a, +Felismina. <br /> + +<br /> + +Abriu-se uma porta, e appareceu Corinna, exclamando: <br /> + +<br /> + +—Não preciso que me tragam! <br /> + +<br /> + +E cuidam que ella impallideceu, desmaiou, ou, pelo menos, expediu um ai +de procedencia dramatica? <br /> + +<br /> + +Não, senhores. Corinna entrou de corrida, leve como um +gnomo, a rir e a chorar, purpureada, com os olhos a saltar-lhe +fóra da face, os braços +abertos e convulsos, a respiração como tomada, e +os labios crispando nervosamente, sem poderem proferir o quer que era +de que só os dramaturgos acham sempre uma +expressão insipida, incolor e inverosimil. <br /> + +<br /> + +Antonio de Azevedo é que (sem desaire seja dito) deu uns +ares de idiotismo, que, na scena, seriam lastimaveis! +Abraçou Corinna, como a medo: era a primeira vez que a +sentia nos braços. Fitou-a como quem duvída; +<span class="pagenum">[191]</span> +remirou-a, como quem teme um +engano dos sentidos; estava-se acordando do sonho; invocava a sua +razão; e, quando a razão lhe mostrou em volta +d'elle todas as faces orvalhadas de lagrimas, é que Azevedo +pôde exclamar: <br /> + +<br /> + +—Bem hajas, anjo de Deus!... <br /> + +<br /> + +Imagine agora a minha leitora os successos indescriptiveis d'este +lance. Por pouco imaginativa que seja, vossa excellencia ha de +avultal-o melhor em sua fantasia do que eu poderia dar-lh'o n'esta +pagina. Uma só poesia creou a natureza para taes quadros: +é a +poesia da pintura. <br /> + +<br /> + +Foram cinco minutos de febre, de delirio, de silencio, de ouvir-se o +bater forte e descompassado de cinco corações. +Ora pintem lá isto, a +não ser em expressão de olhos, de labios, de +feições que +só, em casos d'estes, se vos deparam em pinturas christans, +onde os enlevos são ceo, bemaventurança e alegria +de santos. E +haveis de notar que o proprio pincel profano antes se quer a pintar +expressões angustiosas, porque as visagens da +afflicção mais se prestam ao relevo, como em +Niobe, em Laocoonte, em Ugolino. Quer tudo isto dizer que tenho diante +dos olhos aquelle espectaculo de jubilos, e desisto de descrevel-o para +de todo em todo me não capacitar de minha inhabilidade. <br /> + +<br /> + +Porque hei de eu dizer tão affoitamente +«espectaculo de jubilos», se Antonio d'Azevedo, +momentos depois, se deixava senhorear da lembrança do +irmão, +banido do numero dos honrados! A candida Corinna encarava +<span class="pagenum">[192]</span> +n'elle com olhos aguados, e no lacerante +silencio de sua alma perguntava a si mesma, que fizera ella para ser +menos amada! De que outro modo se explicaria a tristeza do +moço n'aquella primeira hora! <br /> + +<br /> + +Não pôde ter-se que o não chamasse a um +ponto mais afastado da sala onde se tinham ficado Valentim e Fernando, +em quanto Felismina sahira a dar ordens. <br /> + +<br /> + +—Tu estás melancolico, Antonio!—disse +ella, tomando-lhe a +mão com estremecida ternura—Viria eu contrariar a +tua +vontade? Estaria eu enganada comtigo?... <br /> + +<br /> + +—Vejo-me indigno de ti...—respondeu Azevedo. <br /> + +<br /> + +—Indigno de mim!—tornou ella crescendo no afago da +expressão convulsa de lagrimas—Pois tu +não tens sido mais que nobre para seres digno da mais nobre +e pura mulher! Quererás que eu te recorde as tuas virtudes, +meu querido amigo!? <br /> + +<br /> + +—As minhas virtudes—replicou o +moço—tão +frageis eram, que talvez a esta hora tenham sido reputadas hypocrisia. <br /> + +<br /> + +—Ó filho!—exclamou +ella—desconfio da tua +razão! Muito deves ter padecido para te considerares assim, +quando em volta de mim os teus merecimentos são louvados com +admiração de +todos!... <br /> + +<br /> + +—Escuta-me para me consolares, Corinna. Deus quiz que tu +viesses +á hora em que toda a +esperança me ia fugindo... <br /> + +<br /> + +Antonio d'Azevedo contou a Corinna a ignominia de seu irmão, +e levantou a voz de modo que Valentim, +<span class="pagenum">[193]</span> +no angulo opposto da sala, ouviu tudo. Ergueu-se o velho, caminhou para +elles, e interrompeu a +exposição do bacharel. <br /> + +<br /> + +—Senhor Antonio d'Azevedo, antes do infortunio de seu +irmão, vossê, no Rio de Janeiro, gosava +nome de intelligente, laborioso e honesto; depois do infortunio de seu +irmão, o nome de Antonio d'Azevedo é +proferido com o acatamento de que homem nenhum de sua idade se tem +gosado. Os velhos honrados da sociedade brazileira querem conhecel-o: +os portuguezes citam o seu glorioso procedimento com orgulho. O facto +é de ha tres dias, e tem corrido de bôca em +bôca como raras vezes acontece a uma boa +acção. Ora pois! +Eu sei bem o que é dignidade; achei que a sua se manteve +sempre na altura dos mais dignos homens d'outros tempos; admirei-o e +louvei-o pelo que outros chamariam demasias de orgulho sob capa de +independencia; agora, porém, é chegada a hora de +eu lhe dizer +que, assim como a suave religião se descaminha +até ao +fanatismo execravel, assim a briosa dignidade, se perde o rumo do bom +juizo, vai dar comsigo n'uns excessos rudes, insociaveis e repellentes. +A sociedade applaude os virtuosos, mas desadora os que fazem de sua +virtude uma tribuna para lhe censurar as fraquezas. O excesso do bem +é um mal que não me aproveita a mim, nem a +outrem. Eu quero que Antonio d'Azevedo se mostre alegre para que o +mundo não diga que a honra tem uns pavores interiores +refractarios ao contentamento. A +<span class="pagenum">[194]</span> +boa +consciencia é alegre, senhor. E o melhor beneficio que +vossê póde fazer aos homens é +convencel-os de que vai indo seu caminho, arrancando os espinhos dos +pés, e sorrindo ás novas desventuras que o +impecem. Fallou o velho. Diga agora o anjo, a nossa Corinna, o que +será preciso fazer-se a esta criança +decrepita para a levantarmos do seu abatimento? <br /> + +<br /> + +—Se eu pudesse...—balbuciou Corinna. <br /> + +<br /> + +Antonio d'Azevedo levou aos labios a mão de Corinna, e +murmurou: <br /> + +<br /> + +—Emenda tu os defeitos da minha desgraçada +indole... +Dá-me paz, Corinna; dá-me a +uncção do teu amor, e eu me salvarei de mim +proprio... <br /> + +<br /> + +—Primeiro passo a dar!—exclamou Valentim da +Costa—O primeiro passo a +dar é casarem-se, meus filhos! <br /> + +<br /> + +N'este momento entrou Felismina, e disse: <br /> + +<br /> + +—Está o almoço na mesa. <br /> + +<br /> + +Valentim continuou: <br /> + +<br /> + +—Visto que está o almoço na mesa, o +primeiro +passo a dar, meus filhos, é... almoçar! <br /> + +<br /> + +No decurso da conversação durante o +almoço, disse Fernando de Athaide: <br /> + +<br /> + +—Ahi vão novidades, meu caro Azevedo. O visconde +da Cruz +casa brevemente com Emma, e Luiz Taveira com Leonor. Eliza tem doze +annos, e já é +pretendida. Quem de certo nos fica solteira é a nossa +Corinna! que pena! <br /> + +<br /> + +Riram todos, e Valentim exclamou: +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[195]</span> +—Solteira! essa é boa! Não consentirei +eu que a +belleza assim seja ultrajada! Aqui está a minha +mão, senhora D. Corinna! É um sacrificio que +faço da +minha isempção; mas faço-o para que +suas +manas se não riam de vossa excellencia. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[196]</span> +<h3>XIX. </h3> + +<br /> + +<br /> + +Tres mezes depois dos grandes successos froixamente descriptos no +anterior capitulo, Fernando de Athaide e sua mulher vinham caminho de +Portugal; e Corinna da Soledade e seu marido Antonio d'Azevedo +habitavam, nos arrabaldes do Rio de Janeiro, uma chacara de modestas +regalias. <br /> + +<br /> + +O bacharel era ainda o mesmo laborioso jurisconsulto, associado no +escriptorio de Valentim da Costa. Corinna, simplesmente ajudada d'uma +negra, cuidava do lavor domestico, singelo lavor, que isso mesmo tem de +bom a mediania. <br /> + +<br /> + +Quizera Fernando que seus cunhados ficassem habitando a casa onde se +hospedaram, e Azevedo, já receoso de desagradar com suas +isempções, mal se atrevia a rejeitar os +offerecimentos; porém Corinna, avaliadora dos secretos +desejos de seu marido, simulou vontade de viver no campo, e assim o +desembaraçou +<span class="pagenum">[197]</span> +do desgosto de +acceitar a magnifica vivenda na melhor praça da capital. +Valentim, aconselhando Athaide no melhor modo de haver-se com seu +cunhado, repetia o que no livro divino de frei Luiz de Sousa se +lê, que o cardeal de Lorena dizia, ao embaixador de Portugal, +com referencia ao santo arcebispo bracharense: «.....se o +quereis ter contente, não lhe deis a comer mais que dois +ovos duros.» <br /> + +<br /> + +Corinna recebêra de Felismina a prenda dos trinta contos +depositados ainda em poder do commerciante. Foi-lhe, porém, +mister guardal-os como cofre de joias, sem lhe dar destino conducente a +alliviar os encargos do marido. Era um dinheiro que não +existia para o bacharel, nem Corinna buscava occasião de +fallar d'elle. <br /> + +<br /> + +No tocante a felicidade, alguns periodos de uma carta de Azevedo ao +visconde da Cruz dizem o que basta a convencer-nos de que a possuiam, +quanto ella, n'este desterro, se deixa gosar. <br /> + +<br /> + +<div class="dots">«</div> + +<br /> + +<br /> + +«Ás seis horas da tarde, quando vou do +escriptorio, encontro sempre a minha Corinna sentada n'um pequenino +ressaio, como se lá diz no meu Barcellos, que tenho +á porta da chacara. Alli é a minha +primeira paragem, em que o espirito se desfadiga do pesadello das leis: +o coração toma absoluto +imperio sobre as minhas outras faculdades, e todo me deixo adormecer na +quietação d'um bem-estar, que +só podem conhecer os operarios d'um dia inteiro, quando ao +cahir da noite, se repousam ao lado da companheira, +<span class="pagenum">[198]</span> +por amor da qual se cansam e recobram. +Os nossos frugaes jantares são rapidos, e assazoados dos +infantis gracejos da minha Corinna, que os tem sempre novos para +encarecer a profusão das iguarias. Depois vamos por esses +caminhos fóra, admirando tudo que nos vem ao encontro a +sorrir: são as arvores e flores de todas as ricas vivendas +d'este luxoso torrão: tudo é nosso, porque, meu +amigo, nada +ambicionamos do que vamos vendo. <br /> + +<br /> + +«Corinna está-me sempre repetindo a historia dos +nossos amores, que eu acho sempre nova. Os dois bailes do Porto em que +a vi; as primeiras palavras que eu lhe disse, com destemperada lamuria; +os seus pensamentos lá no Lima, dia por dia, e hora por +hora. Sinto-me duplicadamente viver na sua vida passada; parece-me que +estou tomando posse d'uma existencia que devia ser minha desde +então. <br /> + +<br /> + +«Deito-me cedo para me levantar com a aurora. Corinna +lê até tarde: lê alto em quanto +vê que eu a escuto; depois, vai diminuindo gradualmente a voz +até me ver adormecido. Rirás tu d'esta miudeza de +traços no quadro da felicidade domestica? Se ris, visconde, +mal de ti, que os não has de saber gosar. Uma coisa +magnifica, estrondosa, e apparatosa, que vai pelo mundo, chamada +<span class="smallcaps">Felicidade</span>, feitas as +contas, +sabes o que é? É isto, são os +singellos prazeres, que não valem nada descriptos, e +são a +bemaventurança sentidos. E não valem nada, porque +a gente que os lê, pensa que pouco vai de desejal-os a +tel-os. +<span class="pagenum">[199]</span> +Que engano! A mais facil +felicidade é a que requer mais grande +coração e pura consciencia. Se estes bens fossem +communs, todos eramos felizes. Nós antes queremos ser todos +ricos.<br /> + +<div class="dots" style="text-align: right;">»</div> + +<br /> + +<br /> + +Valentim da Costa foi, um domingo, jantar com os <em>seus +filhos</em>, termo de muita amizade +com que elle os acarinhava. N'esse dia se completavam os setenta e nove +annos do ancião. Depois do jantar, desceram a sentarem-se +debaixo das quatro palmeiras, que davam o usurpado titulo de chacara +á casinha dos venturosos. Ahi fallou sempre o velho, com a +perdoavel vaidade de quem sabe tudo do passado, e possue a chave dos +futuros. Ora! por onde elle andou! Foi cavar na raiz da +revolução franceza, contou a vida de +Napoleão, a fuga de D. João VI, as anecdotas da +côrte, a infancia e +juventude do senhor D. Pedro IV, a mocidade estudiosa e as virtudes +civicas do actual imperador do Brazil, e tudo isto para concluir que o +presente era melhor que o passado, e que o futuro será +melhor que o presente. E a tal proposito ajuntou: <br /> + +<br /> + +—Vossês não façam caso do que +eu +disser, quando elogiar as coisas e pessoas do meu tempo. O +<em>seu +tempo</em> é a balda dos velhos, que, ao +verem-se carregados de tempo, não só querem que +seja +<em>seu</em>—o que ninguem lhes +contesta—; +mas até querem que o tempo d'elles fosse a melhor quadra dos +dezenove seculos que já +lá vão. Ora eu, que sou velho e ao mesmo passo +rasoavel, se duvidasse das virtudes d'este tempo, duvidaria das vossas, +meus filhos. Dizem que a velhice é egoista, +<span class="pagenum">[200]</span> +e morre devorada de odientos ciumes da +geração nova, não só porque +é boa de indole, +que tambem por ser inventora das regalias que vieram tarde para ella. +Deus me livre de ir á eternidade com este trambolho agarrado +ás pernas: bem me basta a gotta! Eu cá +de mim até folgo de acabar, quando começa uma +transfiguração na face da terra, coisa nem sequer +sonhada ha quarenta annos, quando eu e os meus contemporaneos +motejavamos o desconfortavel viver de nossos paes. Não me +dirão o que nós tinhamos mais +do que elles, ha quarenta annos?! Vossês é que +podem rir-se de +mim e dos meus; mas nem por isso lhes quero mal de inveja. O meu amor +á gente nova chega a ponto de eu me desejar morrer no meio +d'ella. Querem-me os meus filhos trazer para sua casa? Eu +estou por alli +sósinho n'aquella rua do Ouvidor, muito rica, e muito +bulhenta. Tenho lá tres pretos e tres pretas a quem quero +dar a liberdade, e os diachos não a querem! Olhem que +é forte mania a dos que dizem que a +escravidão é o antagonismo permanente com a ideia +de Jesus! Se os meus pretos fossem novos, e eu lhes désse +liberdade, os pobresinhos, em vez de irem aos seus sertões +respirar ar livre, assoldadavam-se a senhor que os carregava de +trabalho; ora, como os meus escravos são velhos, os coitados +não querem a liberdade, que para os de sua especie +é uma palavra van. Pois se eu me não posso, nem +devo desfazer d'elles, peço-vos +que m'os deixeis trazer comigo para a vossa companhia. Verdade +é que esta casa é mui estreita para tanta +negraria, +<span class="pagenum">[201]</span> +e commodidades d'um hospede +octogenario. Aqui é que o meu Azevedo ha de mostrar-se amigo +do seu velho. Está alli abaixo uma boa casa, com muito +arvoredo em roda. Vai o meu filho arrendar aquella casa, e recolher-se +a ella com o seu mestre de leis. Faça de conta que eu sou um +pulvereo praxista que vossê tem na sua livraria... O ingrato +não me +responde. Vou voltar-me para a minha filha Corinna. Faz-se o que eu +peço? <br /> + +<br /> + +—Faz—disse Corinna, sorrindo ao esposo. <br /> + +<br /> + +—Pois então—tornou o +velho—já d'aqui +não saio. Onde me dais agasalho esta noite? Quero +já saber onde está o meu quarto. <br /> + +<br /> + +No dia seguinte, Azevedo arrendou a chacara magnifica, mudou para ella +com o ancião, e com os seis velhos escravos e amigos de +Valentim. Logo ao segundo dia, o hospede chamou Azevedo, e disse-lhe: <br /> + +<br /> + +—Eu tambem tenho a minha dignidade, a minha vaidade e o meu +orgulho. +Quero entrar com a minha quota parte para as despezas da casa, minhas e +da minha pretaria. Arrendamento da chacara, a meias; o importante da +cozinha, isso é cá com o anjo dos +lares, com a nossa Corinna. <br /> + +<br /> + +Antonio d'Azevedo ia contrariar o velho, e reteve-se ante um gesto de +desagrado, e logo esta risonha exclamação: <br /> + +<br /> + +—Vossê cuida que tem mais pundonor que eu! <br /> + +<br /> + +Este viver continuou assim seis mezes. Corinna tinha ouvinte certo +ás suas leituras em quanto o marido +<span class="pagenum">[202]</span> +dormia. Valentim repousava tres horas em cada +noite, e velava as outras, folheando papeis, e dando expediente a +negocios attinentes aos seus haveres. Algumas vezes ia á +cidade em carruagem que comprara n'este ultimo praso da vida, +não tanto para elle, como para os passeios de Corinna. +Valera-lhe a gotta para colorir o presente aos seus queridos +commensaes. <br /> + +<br /> + +N'este tempo as cartas vindas de Portugal davam a noticia confirmada +dos casamentos de Emma e Leonor. As duas noivas tinham ido para o Porto +com seus maridos, e Felismina com seu marido e o primogenito estavam +nas margens do Lima, ou no palacio reconstruido de Fernão de +Athaide, onde o filho natural mandara acastellar os telhados. Fernando +era já visconde do Ameixial, e estava pasmado da barateza da +coisa, em comparação do muito que dera por uma +commenda cinco annos antes. Tinha sido logrado pelo procurador. <br /> + +<br /> + +Gastão de Noronha, D. Mafalda e a menina mais nova tinham +ido a Paris comprar mobilia para renovar a +decoração do palacio de Lisboa. Esta era a +razão ostensiva que o publico deve acceitar por ser melhor, +se não a mais ajuizada; mas os indiscretos portuguezes que +então estavam em França, disseram que o ainda +robusto Gastão de Noronha fôra espairecer saudades +de uma duqueza, ou duas duquezas, ou mais seriam, que, pelos modos, em +Paris, isto de amar quatro duquezas é coisa mais que +frequente a quantos portuguezes +lá vão, como eu tenho visto nos apontamentos de +pessoas +<span class="pagenum">[203]</span> +que lá estiveram quinze +dias. D. Mafalda é que ha +de saber a verdade de tudo. <br /> + +<br /> + +Com estas noticias chegou outra concernente a Francisco d'Azevedo. O +caixeiro chegou a Lisboa, pagou a sua divida, mandou o recibo ao +irmão, foi a Barcellos, vendeu a pequena legitima, +abraçou suas irmans, e tornou a Lisboa, d'onde partiu para a +Africa. <br /> + +<br /> + +As quatro meninas das margens do Cávado viviam +abundantemente. Seu irmão Joaquim, já +estabelecido e coadjuvado pelos Taveiras, occorria-lhes a todas as +necessidades, dava-lhes tudo, menos o prazer de leval-as ao Porto, +porque o irmão do Brazil, em todas as cartas recommendava +instantemente, que as deixasse estar em Barcellos com as arvores e +flores da casa paterna. Outros dois irmãos de Azevedo, sem +importancia n'esta chronica de familia, exerciam probamente a +profissão do commercio. <br /> + +<br /> + +—Todos felizes!—exclamou o velho, que ouvira +attentamente +lêr as cartas, como se fossem de familia sua—Todos +felizes! +Só o meu pobre Azevedo ainda a trafegar para o +pão de cada dia! Os dois contos de reis, ganhados nos +primeiros mezes, lá se foram na +restituição do Francisco. Desde então +para cá as economias são impossiveis! Esta +Corinna é uma grande +avára! Tem alli na gaveta trinta contos, que ella chama os +seus alfinetes de noiva, e não os quer arriscar nas despezas +da cozinha! Ora deixa-te estar, minha sovina, que te não hei +de deixar em testamento as minhas tres pretas velhas! +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[204]</span> +—O Antoninho não quer o +dinheiro...—disse ella, afagando o +cabello do marido, que ria muito do sainete comico do +velho—Ha que +tempos—continuou ella—eu não vi o meu +thesouro! Vou-lhe +desafiar a inveja, doutor, a mostrar-lhe as minhas notas! ora espere... +<br /> + +<br /> + +Foi Corinna a uma gaveta de sua commoda, e voltou pallida, exclamando: <br /> + +<br /> + +—Ó Antoninho! mudaste o dinheiro da gavetinha do +meio? <br /> + +<br /> + +—Eu nunca soube onde tinhas o teu +dinheiro—respondeu placidamente o +marido. <br /> + +<br /> + +—Não está lá... +roubaram-m'o—bradou +ella. <br /> + +<br /> + +Dias antes tinha fugido uma negra, alugada para a cozinha. <br /> + +<br /> + +—Seria a preta?—perguntou tranquillamente o +bacharel—Póde +proclamar-se rainha nas suas senzalas a negrinha! <br /> + +<br /> + +Corinna mostrava-se afflicta. O marido chamou-a a si, encostou-a ao +seio, e disse-lhe com muita meiguice: <br /> + +<br /> + +—A tua grande alma, minha filha? Então! ha ahi +dinheiro que +valha uma lagrima tua, Corinna? Imagina que Deus te experimentava, +privando teu marido da saude de tres dias! Que farias então, +minha amada?... Quantas vezes darias os teus trinta contos por uma +tisana que me restaurasse?! Quero só ver-te lagrimas, quando +eu as chorar. <br /> + +<br /> + +—Tens razão!—exclamou +ella—Estou alegre! +<span class="pagenum">[205]</span> +perdoa á minha fraqueza de mulher, sim? +Quem me visse chorar, julgaria que eu amava aquelle dinheiro inutil! <br /> + +<br /> + +—Pois sim; tudo isso é muito +admiravel—exclamou o +velho—mas é necessario annunciar a fuga da ladra, +agarral-a +e despedaçal-a com o azorrague! <br /> + +<br /> + +Antonio de Azevedo ergueu os hombros e sorriu. Corinna fitou os seus +humidos e negros olhos em Valentim, e murmurou: <br /> + +<br /> + +—Despedaçal-a! Coitada da infeliz! <br /> + +<br /> + +—Essa agora é que não é +piedade +irreprehensivel, menina!—redarguiu o velho—Chama +<em>coitada +infeliz</em> á negra que lhe rouba uma quantia +que em Portugal se chama <em>uma +fortuna</em>!... Eu tomo a +negra á minha conta! Ha de ser cortada pelo azorrague! <br /> + +<br /> + +—Não deixes, Antoninho!—clamou Corinna, +tomando-lhe o +rosto entre as mãos. <br /> + +<br /> + +—Não deixo, não, filha. O doutor +está +feroz; mas aquillo passa-lhe. <br /> + +<br /> + +—Ora, senhores—tornou o velho tregeitando +espanto—O nome, que isso +tem em boa hermeneutica, é <em>fomentar o +crime</em>! A +sociedade não se serve assim! É preciso que cada +qual contribua com o cauterio para lhe extirpar os cancros que a +corroem. <br /> + +<br /> + +—Parece que está no tribunal, +doutor!—disse Azevedo—A +velha eloquencia é ainda brilhante; mas a lei nova, a lei do +justo que os fariseus azorragaram, manda cahir o azorrague das +mãos do offendido, e castigar moralmente o culpado. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[206]</span> +—Moralmente!—retorquiu o doutor—Com que +então +vossê crê no moral dos negros?! <br /> + +<br /> + +—Creio na alma dos negros. <br /> + +<br /> + +—Isso é uma impiedade! <br /> + +<br /> + +Azevedo riu-se, e, por momentos, duvidou do concerto intellectual do +velho. <br /> + +<br /> + +Mas, a esta injuriosa duvida, ergueu-se o velho, e caminhando para +elles, com os braços abertos, exclamou: <br /> + +<br /> + +—Não calumniemos a negra, meus filhos! +Abraçai-me, anjos! Eu quiz experimentar a vossa caridade! +Abraçai-me, —Não calumniemos a negra, +meus +filhos! +Abraçai-me, anjos! Eu quiz experimentar a vossa caridade! +Abraçai-me, santos da honra e da misericordia, que os vossos +trinta contos quem os furtou fui eu!<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[207]</span> +<h3>XX. </h3> + +<br /> + +<br /> + +Em uma tarde de maio de 1849, ao oitavo mez de ceo sem nuvens n'aquella +chacara, onde á competencia os tres ditosos moradores se +davam alegrias, chegou o anjo pallido da morte, e sentou-se no limiar +d'aquelle éden, como para vedar o accesso ao anjo do +contentamento. <br /> + +<br /> + +A um lado do leito de Valentim da Costa estava Corinna da Soledade, com +o cotovello apoiado no travesseiro e a face na palma da mão +esquerda, orvalhada de lagrimas. <br /> + +<br /> + +Do outro lado Antonio de Azevedo, com as mãos +entrelaçadas debaixo do rosto que encostava á +borda do leito, erguia a espaços os olhos lagrimosos, e +cravava-os +nas faces emaciadas e lividas do ancião. <br /> + +<br /> + +Aos pés do leito estavam sentadas duas velhas negras +soluçantes, com os rostos escondidos entre os joelhos. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[208]</span> +Na ante-camara moviam-se pé ante pé os restantes +dos antigos servos de Valentim, e cada um por sua vez, de instante em +instante, vinha, por entre os cortinados de cassa, espreitar o enfermo, +e retirava com as mãos postas e o +coração em ancias e +suspiros. <br /> + +<br /> + +Valentim da Costa tinha sido confessado e ungido n'aquella tarde. A +sciencia retirara ante a irremediavel +decomposição dos oitenta annos. <br /> + +<br /> + +Mas Corinna e Azevedo não podiam convencer-se de que o seu +amigo havia de morrer assim, quando, a intervallos, o ouviam discorrer +com o socego e energia moral dos mais saudaveis dias. Era a alma +imperecedoira allumiada já pela claridade do empyreo: era a +prova suprema que ella estava dando de sua immortalidade. A cryzalida +desfazia-se, e a borboleta do ceo, n'aquelles assomos de intelligencia, +ensaiava seu voejar para o alto. <br /> + +<br /> + +O moribundo descerrara as palpebras, e dissera: <br /> + +<br /> + +—Não devia eu esperar tão suave morrer. +Homem +que viveu sósinho os annos da juventude e força, +morrera sósinho. Não quiz o Altissimo que eu +pagasse amargosamente a minha incuria. Eis-me com filhos e amigos em +volta do meu leito. Bemdito seja o Senhor! <br /> + +<br /> + +Falleceram-lhe forças, e descahiram as palpebras +transparentes, flacidas e azulejadas. <br /> + +<br /> + +D'ahi a pouco reabriu os olhos, fez signal a Antonio d'Azevedo, e +indicou-lhe o travesseiro, que forcejou por levantar. <br /> + +<br /> + +Azevedo correu a mão por debaixo do travesseiro +<span class="pagenum">[209]</span> +e tirou papeis, que offereceu ao ancião. Este +não +pôde erguer os braços quebrantados, e disse: <br /> + +<br /> + +—Um é o meu testamento; o outro papel é +a minha +despedida de vós. Está escripto ha quinze dias: +escrevi-o quando conheci o fim. Lêde-o vós, +filhos; quero ouvil-o; o coração quer ainda o +goso de se +escutar. <br /> + +<br /> + +Antonio d'Azevedo abriu vagarosamente a folha dobrada em oitavo, e leu +com tremor de suspiros: <br /> + +<br /> + +«Um secreto aviso me manda preparar. Não posso +dizer como o santo:—O meu coração +está prompto—; mas vejo o termo da viagem sem +susto. A face +do Juiz transluz misericordia. O meu Creador foi para si que me creou. <br /> + +<br /> + +«É dôr deixar-vos, filhos; +porém saudades haverá mais pungentes entre os +vivos que se apartam. A providencia divina permitte que o aspeito da +morte seja menos afflictivo, quando em verdade ella está +comnosco. Ai de nós, se este desapego da terra, onde se +é feliz ou se espera sel-o, não existisse! O +morrer custa ruins quebrantos da materia; mas a alma como que se +está despenando e alegrando para ir ao seu destino. <br /> + +<br /> + +«Vou deixar-vos, meus amigos. Chorai-me, porque vos quiz +muito, e vos fui grato ás doces horas que me +déstes. Chorai-me, porque ao moribundo é +consolador o pranto dos que lhe deram os risos da ventura. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[210]</span> +«Ficaes novos e ricos. Pela vida além haveis de +encontrar muita gente affligida: sêde valedores de todos, e +associai sempre o meu nome á vossa beneficencia. Assim +viverá comvosco uma faisca d'esta chamma, que não +póde ser toda vossa, por ser de Deus. <br /> + +<br /> + +«Dai-me sepultura, e ide depois para a patria e para os +vossos. Empregai lá a vossa actividade menos em accumular, +que em repartir a sobejidão de vossa riqueza. Quando +houverdes filhos não lhes ensineis a honra do rico, que essa +é facil: ensinai-lhes a honra do pobre, a honra de Antonio +d'Azevedo e a abnegação de Corinna. Vivei de modo +que a vossa descendencia se glorifique do exemplo, quando vossos nomes +estiverem já esquecidos. <br /> + +<br /> + +«Estou a dar-vos conselhos, como se carecesseis d'elles: +desculpai ao velho este fraco da muita idade. É uma +missão paternal que cumpro. Se eu tivesse dois filhos, +exemplares em virtudes, havia de fallar-lhes assim. Deixai-me acabar +n'esta abençoada illusão. +Admoesto-vos, meu Antonio d'Azevedo, a que deis de mão ao +grande pezo do trabalho. O que hontem era precisão, +será ámanhan +sêde sobre sêde de riquezas inuteis. O bastante +é muito pouco. Da riqueza de vossa alma é que +deveis ser grande dissipador: derramai-a em preceitos, conselhos, +allivios e censuras. O solitario virtuoso é um egoista do +ceo. Ide ao meio do povo e fallai. O homem sósinho +póde ter muito de que alegrar-se; mas não alegra +os milhares +<span class="pagenum">[211]</span> +de infelizes que gemem, e a +gemer se vão +despedaçando. <br /> + +<br /> + +«Sabei que eu, á custa de sessenta annos de +trabalho, cheguei a esta hora podendo dizer que não tenho um +ceitil. Tudo dei a uns, e perdoei a outros. Os bens de fortuna, que vos +lego, deu-m'os uma herança, no ultimo quartel da vida. Ahi +vol-a transmitto. Foi sempre meu intento deixal-a a pobres: sei que +fica sendo vossa e d'elles. <br /> + +<br /> + +«Agora abraçai-me, e dai-me o vosso +adeus.» <br /> + +<br /> + +Antonio d'Azevedo fôra algumas vezes embargado pelas +lagrimas, e Corinna, com os labios postos na mão do +moribundo, soluçava mui anciada. No final da leitura, +Valentim fez um vão esforço de levantar os +braços para receber os dois filhos que se achegaram ao seio +d'elle. Os escravos tinham entrado todos de roldão, e +beijavam-lhe os pés por cima da coberta. O agonisante +relanceou os olhos de sobre elles para a face d'Azevedo, e murmurou: <br /> + +<br /> + +—Serão vossos amigos tambem... Levai-os... Os +pobrezinhos +morreriam de saudade... e miseria. <br /> + +<br /> + +Os negros ajoelharam de mãos postas, e oraram. Corinna +insensivelmente ajoelhou tambem, conservando entre as su +Os negros ajoelharam de mãos postas, e oraram. Corinna +insensivelmente ajoelhou tambem, conservando entre as suas a +mão do moribundo. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[212]</span> +<h3>CONCLUSÃO. </h3> + +<br /> + +<br /> + +Passados seis mezes, á porta do quinteiro de uma pequena +granja, visinha de Barcellos, parou uma liteira, d'onde apearam Antonio +d'Azevedo e Corinna da Soledade. Logo em seguida, chegaram algumas +cargas, acompanhadas por negros, em volta dos quaes o rapazio de +Barcellinhos fizera grande alarido de apupos e espirros. Das tres +escravas, uma só resistira á +saudade do senhor; os pretos viviam todos, amparados pelo bom tracto +dos novos amos. <br /> + +<br /> + +As irmans do bacharel vestiam as suas mais vistosas e secias galas. +Eram quatro frescas moças, robustas, côr escarlate +de quem vende saude, alegria a desbordar do +coração aos olhos, e um rir franco e aberto de +innocencia, e felicidade expansiva. <br /> + +<br /> + +Corinna abraçou-se n'ellas, que a levaram em andor para o +primeiro sobrado. N'este sobrado, algum +<span class="pagenum">[213]</span> +tanto escuro, rescendia um acre de rosmaninho e alecrim, como em +festividade de presbyterio. Por cima de mesas, commodas, e banzos das +janellas, tudo eram jarras de louça ordinaria com grandes +feixes de dhalias, rozas e folhudos gira-soes. O oratorio estava +aberto, e allumiado o crucifixo com a lampada usual, e mais duas vellas +de cera de meio arratel, voto da mais nova das meninas. Os frizos do +sanctuario eram grinaldas de flores, atadas pelas hastes umas n'outras, +enfeite de menos engenho que apparato. <br /> + +<br /> + +Antonio d'Azevedo entrou depois de sua mulher; sentou-se em um +tamborete de coiro; descobriu-se, quando deu pela imagem do Christo, e +murmurou: <br /> + +<br /> + +—Finalmente! <br /> + +<br /> + +Corinna da Soledade sentou-se á sua beira, e disse-lhe: <br /> + +<br /> + +—Que celestial graça tem isto tudo, ó +filho! <br /> + +<br /> + +—Aqui tens a pobre casa onde nasci. +Corinna!...—disse Azevedo, +relanceando em redor os olhos humidos—Isto póde +explicar a +estreiteza das minhas ambições. Moldou-se-me a +alma nas +dimensões acanhadas d'esta casinha. Olha as flores de que eu +tinha tantas saudades! Alli tens a minha banca de estudo... +Lá estão ao lado do oratorio os meus primeiros +livros... Mas como isto é pequeno! Como caberemos aqui! <br /> + +<br /> + +—Perfeitamente, Antoninho!—disse Corinna. <br /> + +<br /> + +Entrou, n'este ensejo, Joaquim d'Azevedo, o negociante +<span class="pagenum">[214]</span> +do Porto, que ficara arrumando n'outro sobrado os +bahus. <br /> + +<br /> + +—Não sei, não sei como hão +de caber +aqui, meus irmãos—disse elle, rindo—Tu +já +sabes, Antonio, que, além d'esta saleta, e dois quartos, +segue-se um casarão velho, e umas oito alcovas, de que os +ratos +estão de posse immemorial. Ora vem ver! Estou certo que a +nossa Corinna vai ficar espavorida! <br /> + +<br /> + +Abriu Joaquim de Azevedo a porta que abria para o casarão. +Antonio fez pé atraz de maravilhado. +Tinha diante de si uma sala luxuosamente trastejada, com janellas +lateraes rasgadas em arco, e envidraçadas a cores. A +jardineira central estava cogulada de flores raras, e ricas +encadernações de albuns. A um lado +o piano. A outro a othomana e as cadeiras de respaldo em setim +amarello. No centro, o lustre pendente do estuque primorosamente +lavrado da mais engenhosa filagrana. Ao fundo d'esta sala estava um +quarto com recamara, espaçoso, alegre, com alfaias de muito +valor e gosto. <br /> + +<br /> + +—É o vosso quarto, meus +irmãos—disse +Joaquim—Ao lado tendes outro: será o do vosso +primeiro +filho. Quando os filhos augmentarem, iremos rompendo com o edificio +pelo campo, ou daremos á casa a largura que precisa para +corresponder ao comprimento. O defeito não foi do mestre +architecto: foi meu por tua causa. Era preciso, cá para o +meu plano um pouco de peça magica, que tu visses a frontaria +da velha casa, e não podesses ver o fundo. O que era de +nossos paes, +<span class="pagenum">[215]</span> +está em +pé; tens que farte onde ver o teu +passado; tudo se conservou por amor de ti, que tens lá essa +poesia das casas velhas. Mas has de perdoar que eu tenha destruido o +casarão, antes que os ratos devorassem as nossas irmans. <br /> + +<br /> + +Antonio abraçou Joaquim de Azevedo com fervorosa alegria, e +este, com o outro braço, apertou Corinna ao peito. <br /> + +<br /> + +Seguiu-se um dia e muitos dias de contentamento incessante. A cada hora +em que se encontravam juntos, á mesa, no jardim, nos campos, +ou á margem do Cávado, era uma festa, uma alegria +de crianças! <br /> + +<br /> + +Gastão de Noronha estava já em Lisboa, de volta +de França, onde se deteve um anno a comprar a mobilia. +Aquellas duquezas eram os seus peccados! <br /> + +<br /> + +Fernando de Athaide desceu do alto-Minho a receber seus cunhados na +quinta do Lima. Tambem Corinna queria ir reconhecer os arvoredos de sua +infancia, e mostrar ao marido os logares onde chorara mais lagrimas de +saudade. N'esta quinta se reuniram as quatro irmans casadas. <br /> + +<br /> + +Emma, viscondessa da Cruz, tinha nutrido muito; e, com quanto o jubilo +lhe désse azas, não +cessava de queixar-se dos incommodos de tamanha viagem, desde o Porto +alli! Leonor, casada com Luiz Taveira, ria muito da irman gorda, +chamava-lhe o ideal da preguiça, e saltava muito, pendurada +no braço do marido, que era doido por ella. O velho Bernardo +Taveira seguiu os filhos, e fazia discursos, que ninguem lhe ouvia, +<span class="pagenum">[216]</span> +excepto Antonio d'Azevedo, que via +n'elle um dos classicos velhos talhados a molde das virtudes de +Valentim da Costa. Dias depois, chegou Gastão de Noronha, +Mafalda e Elisa, a mais nova, e ainda solteira das meninas. +Gastão, com todo o aprumo de sua fidalga altivez, +approximou-se do genro Azevedo, abraçou-o cordialmente, e +disse-lhe: <br /> + +<br /> + +—Meu caro commendador! <br /> + +<br /> + +—Vossa excellencia está enganado!—disse +o attonito +Azevedo—Eu sou, salvo a pequena differença de +alguns +cabellos brancos, o Antonio de Azevedo de 1844. <br /> + +<br /> + +Gastão tirou da algibeira uma chapa refulgente da ordem de +Christo, e disse: <br /> + +<br /> + +—Aqui tem! É o meu presente de noivado. <br /> + +<br /> + +—Muito agradecido a vossa excellencia—disse Antonio +d'Azevedo—Qualquer dadiva de vossa excellencia me alegra; e +esta, que +tanto luz, deve ser muito agradavel entre os brinquedos de meu primeiro +filho. <br /> + +<br /> + +—Mas eu quero que a use—tornou o sogro. <br /> + +<br /> + +—Na minha aldeia?—perguntou o genro. <br /> + +<br /> + +—Em Lisboa, para onde eu quero que o senhor vá +gosar a vida +e a riqueza que tem. A minha Corinna não se fez para o mato +de Barcellos. Não +é assim menina? <br /> + +<br /> + +—Respeito muito a vontade de meu pae—disse Corinna +com +submissão—mas a nossa casa é em +Barcellos, e as minhas flores estão lá por +aquelles matos. Tenho lá uma segunda familia que me chama, e +á +<span class="pagenum">[217]</span> +qual eu tenho escrupulos de +roubar por mais dias o seu irmão querido. Ámanhan +partiremos. <br /> + +<br /> + +Antonio de Azevedo, sem temer reparos, cedeu á alma +reconhecida, e deu um beijo na face de sua mulher.<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[218]</span> +<h3>EPILOGO. </h3> + +<br /> + +<br /> + +Lá vão quatorze annos. <br /> + +<br /> + +Não me consta que tenha morrido algum dos personagens que ha +instantes vimos tão alegres nas margens do Lima. <br /> + +<br /> + +Conhecem romance em que tenha morrido tão pouca gente? Eu +não! Se aquelle santo do Rio de Janeiro não +vergasse debaixo dos oitenta annos, ainda agora podia estar no seio da +patriarchal familia de Barcellos, onde elle tencionava acabar seus +dias. <br /> + +<br /> + +As irmans de Antonio de Azevedo estão todas casadas, e +senhoras de boas casas de lavoira e numerosa descendencia. <br /> + +<br /> + +Está ainda solteira Eliza, a irman mais nova de Corinna. Tem +hoje trinta e um annos. É ainda formosa. Se o leitor +é solteiro e rico... (não +será mau que seja rico, para maior segurança) +póde dar a este +romance um supplemento, casando com aquella senhora, +<span class="pagenum">[219]</span> +que está aqui em Lisboa. Eu de muito boa +vontade, na segunda edição d'este romance, darei +a possivel +immortalidade ao acto. <br /> + +<br /> + +Pude tambem saber que o menino mais velho de Antonio d'Azevedo amolgou +a commenda na borda de um tanque, e acabou por atirar com ella a um +poço. Que grande democrata se está alli criando! <br /> + +<br /> + +<h4>FIM.</h4> + +<br /> + +<br /> + +<b>Notas:</b><br /> + +<br /> + +<a name="n1" id="n1"></a><sup>[1]</sup> +O <em>Snr. Antonio Pereira da +Cunha</em>.<br /> + +<br /> + +<a name="n2" id="n2"></a><sup>[2]</sup> +O <em>Snr. José Barbosa e +Silva</em>, author do romance==<span class="smallcaps">Viver +para soffrer</span>.<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="fbox"> +<h2>Lista de erros corrigidos</h2> + +<div style="text-align: center;">Aqui encontram-se +listados todos os erros encontrados e corrigidos:</div> + +<br /> + +<br /> + +<table style="width: 80%; text-align: left; margin-left: auto; margin-right: auto;" border="0" cellpadding="4" cellspacing="4"> + + <tbody> + + <tr align="right"> + + <td style="width: 75px;"></td> + + <td style="font-weight: bold; text-align: center; width: 121px;">Original</td> + + <td style="text-align: center; width: 5px;"></td> + + <td style="font-weight: bold; text-align: center; width: 135px;">Correcção</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right; width: 61px;"><a name="e1" id="e1"></a><a href="#p65">#pág. +65</a></td> + + <td style="text-align: center;">Ningnem</td> + + <td style="text-align: center;">...</td> + + <td style="text-align: center;">Ninguem</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;"><a name="e2" id="e2"></a><a href="#p164">#pág. +164</a> </td> + + <td style="text-align: center;">pimas</td> + + <td style="text-align: center;">...</td> + + <td style="text-align: center;">primas</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;"><a name="e3" id="e3"></a><a href="#p178">#pág. +178</a> </td> + + <td style="text-align: center;">ao labios</td> + + <td style="text-align: center;">...</td> + + <td style="text-align: center;">aos labios</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;"><a name="e4" id="e4"></a><a href="#p184">#pág. +184</a> </td> + + <td style="text-align: center;">nogociante</td> + + <td style="text-align: center;">...</td> + + <td style="text-align: center;">negociante</td> + + </tr> + + </tbody> +</table> + +<br /> + +<div style="text-align: center;"><br /> + +Foram mantidas as +variações de nomes +próprios. +<br /> + +</div> + +<br /> + +</div> + +<br /> + +<br /> + +</div> + + + + + + + + +<pre> + + + + + +End of the Project Gutenberg EBook of Estrellas Propícias, by +Camilo Ferreira Botelho Castelo Branco + +*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK ESTRELLAS PROPÍCIAS *** + +***** This file should be named 33788-h.htm or 33788-h.zip ***** +This and all associated files of various formats will be found in: + http://www.gutenberg.org/3/3/7/8/33788/ + +Produced by Rita Farinha, Alberto Manuel Brandão Simões +and the Online Distributed Proofreading Team at +http://www.pgdp.net (This book was produced from scanned +images of public domain material from the Google Print +project.) + + +Updated editions will replace the previous one--the old editions +will be renamed. + +Creating the works from public domain print editions means that no +one owns a United States copyright in these works, so the Foundation +(and you!) can copy and distribute it in the United States without +permission and without paying copyright royalties. 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