summaryrefslogtreecommitdiff
path: root/3333-8.txt
diff options
context:
space:
mode:
Diffstat (limited to '3333-8.txt')
-rw-r--r--3333-8.txt11451
1 files changed, 11451 insertions, 0 deletions
diff --git a/3333-8.txt b/3333-8.txt
new file mode 100644
index 0000000..162c84e
--- /dev/null
+++ b/3333-8.txt
@@ -0,0 +1,11451 @@
+The Project Gutenberg EBook of Os Lusíadas, by Luís Vaz de Camões
+
+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.org
+
+
+Title: Os Lusíadas
+
+Author: Luís Vaz de Camões
+
+Release Date: February 4, 2007 [EBook #3333]
+[File first posted on March 28, 2001]
+
+Language: Portuguese
+
+Character set encoding: ISO-8859-1
+
+*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK OS LUSÍADAS ***
+
+
+
+
+Produced by Maria Helena Moreira Rodriques and Victor Calha
+
+
+
+
+
+Luís Vaz de Camões
+Os Lusíadas
+
+Canto Primeiro
+
+1
+As armas e os barões assinalados,
+Que da ocidental praia Lusitana,
+Por mares nunca de antes navegados,
+Passaram ainda além da Taprobana,
+Em perigos e guerras esforçados,
+Mais do que prometia a força humana,
+E entre gente remota edificaram
+Novo Reino, que tanto sublimaram;
+
+2
+E também as memórias gloriosas
+Daqueles Reis, que foram dilatando
+A Fé, o Império, e as terras viciosas
+De África e de Ásia andaram devastando;
+E aqueles, que por obras valerosas
+Se vão da lei da morte libertando;
+Cantando espalharei por toda parte,
+Se a tanto me ajudar o engenho e arte.
+
+3
+Cessem do sábio Grego e do Troiano
+As navegações grandes que fizeram;
+Cale-se de Alexandro e de Trajano
+A fama das vitórias que tiveram;
+Que eu canto o peito ilustre Lusitano,
+A quem Neptuno e Marte obedeceram:
+Cesse tudo o que a Musa antígua canta,
+Que outro valor mais alto se alevanta.
+
+4
+E vós, Tágides minhas, pois criado
+Tendes em mim um novo engenho ardente,
+Se sempre em verso humilde celebrado
+Foi de mim vosso rio alegremente,
+Dai-me agora um som alto e sublimado,
+Um estilo grandíloquo e corrente,
+Porque de vossas águas, Febo ordene
+Que não tenham inveja às de Hipoerene.
+
+5
+Dai-me uma fúria grande e sonorosa,
+E não de agreste avena ou frauta ruda,
+Mas de tuba canora e belicosa,
+Que o peito acende e a cor ao gesto muda;
+Dai-me igual canto aos feitos da famosa
+Gente vossa, que a Marte tanto ajuda;
+Que se espalhe e se cante no universo,
+Se tão sublime preço cabe em verso.
+
+6
+E vós, ó bem nascida segurança
+Da Lusitana antígua liberdade,
+E não menos certíssima esperança
+De aumento da pequena Cristandade;
+Vós, ó novo temor da Maura lança,
+Maravilha fatal da nossa idade,
+Dada ao mundo por Deus, que todo o mande,
+Para do mundo a Deus dar parte grande;
+
+7
+Vós, tenro e novo ramo florescente
+De uma árvore de Cristo mais amada
+Que nenhuma nascida no Ocidente,
+Cesárea ou Cristianíssima chamada;
+(Vede-o no vosso escudo, que presente
+Vos amostra a vitória já passada,
+Na qual vos deu por armas, e deixou
+As que Ele para si na Cruz tomou)
+
+8
+Vós, poderoso Rei, cujo alto Império
+O Sol, logo em nascendo, vê primeiro;
+Vê-o também no meio do Hemisfério,
+E quando desce o deixa derradeiro;
+Vós, que esperamos jugo e vitupério
+Do torpe Ismaelita cavaleiro,
+Do Turco oriental, e do Gentio,
+Que inda bebe o licor do santo rio;
+
+9
+Inclinai por um pouco a majestade,
+Que nesse tenro gesto vos contemplo,
+Que já se mostra qual na inteira idade,
+Quando subindo ireis ao eterno templo;
+Os olhos da real benignidade
+Ponde no chão: vereis um novo exemplo
+De amor dos pátrios feitos valerosos,
+Em versos divulgado numerosos.
+
+10
+Vereis amor da pátria, não movido
+De prémio vil, mas alto e quase eterno:
+Que não é prémio vil ser conhecido
+Por um pregão do ninho meu paterno.
+Ouvi: vereis o nome engrandecido
+Daqueles de quem sois senhor superno,
+E julgareis qual é mais excelente,
+Se ser do mundo Rei, se de til gente.
+
+11
+Ouvi, que não vereis com vãs façanhas,
+Fantásticas, fingidas, mentirosas,
+Louvar os vossos, como nas estranhas
+Musas, de engrandecer-se desejosas:
+As verdadeiras vossas são tamanhas,
+Que excedem as sonhadas, fabulosas;
+Que excedem Rodamonte, e o vão Rugeiro,
+E Orlando, inda que fora verdadeiro,
+
+12
+Por estes vos darei um Nuno fero,
+Que fez ao Rei o ao Reino tal serviço,
+Um Egas, e um D. Fuas, que de Homero
+A cítara para eles só cobiço.
+Pois pelos doze Pares dar-vos quero
+Os doze de Inglaterra, e o seu Magriço;
+Dou-vos também aquele ilustre Gama,
+Que para si de Eneias toma a fama.
+
+13
+Pois se a troco de Carlos, Rei de França,
+Ou de César, quereis igual memória,
+Vede o primeiro Afonso, cuja lança
+Escura faz qualquer estranha glória;
+E aquele que a seu Reino a segurança
+Deixou com a grande e próspera vitória;
+Outro Joane, invicto cavaleiro,
+O quarto e quinto Afonsos, e o terceiro.
+
+14
+Nem deixarão meus versos esquecidos
+Aqueles que nos Reinos lá da Aurora
+Fizeram, só por armas tão subidos,
+Vossa bandeira sempre vencedora:
+Um Pacheco fortíssimo, e os temidos
+Almeidas, por quem sempre o Tejo chora;
+Albuquerque terríbil, Castro forte,
+E outros em quem poder não teve a morte.
+
+15
+E enquanto eu estes canto, e a vós não posso,
+Sublime Rei, que não me atrevo a tanto,
+Tomai as rédeas vós do Reino vosso:
+Dareis matéria a nunca ouvido canto.
+Comecem a sentir o peso grosso
+(Que pelo mundo todo faça espanto)
+De exércitos e feitos singulares,
+De África as terras, e do Oriente os marços,
+
+16
+Em vós os olhos tem o Mouro frio,
+Em quem vê seu exício afigurado;
+Só com vos ver o bárbaro Gentio
+Mostra o pescoço ao jugo já inclinado;
+Tethys todo o cerúleo senhorio
+Tem para vós por dote aparelhado;
+Que afeiçoada ao gesto belo e tenro,
+Deseja de comprar-vos para genro.
+
+17
+Em vós se vêm da olímpica morada
+Dos dois avós as almas cá famosas,
+Uma na paz angélica dourada,
+Outra pelas batalhas sanguinosas;
+Em vós esperam ver-se renovada
+Sua memória e obras valerosas;
+E lá vos tem lugar, no fim da idade,
+No templo da suprema Eternidade.
+
+18
+Mas enquanto este tempo passa lento
+De regerdes os povos, que o desejam,
+Dai vós favor ao novo atrevimento,
+Para que estes meus versos vossos sejam;
+E vereis ir cortando o salso argento
+Os vossos Argonautas, por que vejam
+Que são vistos de vós no mar irado,
+E costumai-vos já a ser invocado.
+
+19
+Já no largo Oceano navegavam,
+As inquietas ondas apartando;
+Os ventos brandamente respiravam,
+Das naus as velas côncavas inchando;
+Da branca escuma os mares se mostravam
+Cobertos, onde as proas vão cortando
+As marítimas águas consagradas,
+Que do gado de Próteo são cortadas
+
+20
+Quando os Deuses no Olimpo luminoso,
+Onde o governo está da humana gente,
+Se ajuntam em concílio glorioso
+Sobre as cousas futuras do Oriente.
+Pisando o cristalino Céu formoso,
+Vêm pela Via-Láctea juntamente,
+Convocados da parte do Tonante,
+Pelo neto gentil do velho Atlante.
+
+21
+Deixam dos sete Céus o regimento,
+Que do poder mais alto lhe foi dado,
+Alto poder, que só co'o pensamento
+Governa o Céu, a Terra, e o Mar irado.
+Ali se acharam juntos num momento
+Os que habitam o Arcturo congelado,
+E os que o Austro tem, e as partes onde
+A Aurora nasce, e o claro Sol se esconde.
+
+22
+Estava o Padre ali sublime e dino,
+Que vibra os feros raios de Vulcano,
+Num assento de estrelas cristalino,
+Com gesto alto, severo e soberano.
+Do rosto respirava um ar divino,
+Que divino tornara um corpo humano;
+Com uma coroa e ceptro rutilante,
+De outra pedra mais clara que diamante.
+
+23
+Em luzentes assentos, marchetados
+De ouro e de perlas, mais abaixo estavam
+Os outros Deuses todos assentados,
+Como a razão e a ordem concertavam:
+Precedem os antíguos mais honrados;
+Mais abaixo os menores se assentavam;
+Quando Júpiter alto, assim dizendo,
+C'um tom de voz começa, grave e horrendo:
+
+24
+"Eternos moradores do luzente
+Estelífero pólo, e claro assento,
+Se do grande valor da forte gente
+De Luso não perdeis o pensamento,
+Deveis de ter sabido claramente,
+Como é dos fados grandes certo intento,
+Que por ela se esqueçam os humanos
+De Assírios, Persas, Gregos e Romanos.
+
+25
+"Já lhe foi (bem o vistes) concedido
+C'um poder tão singelo e tão pequeno,
+Tomar ao Mouro forte e guarnecido
+Toda a terra, que rega o Tejo ameno:
+Pois contra o Castelhano tão temido,
+Sempre alcançou favor do Céu sereno.
+Assim que sempre, enfim, com fama e glória,
+Teve os troféus pendentes da vitória.
+
+26
+"Deixo, Deuses, atrás a fama antiga,
+Que coa gente de Rómulo alcançaram,
+Quando com Viriato, na inimiga
+Guerra romana tanto se afamaram;
+Também deixo a memória, que os obriga
+A grande nome, quando alevantaram
+Um por seu capitão, que peregrino
+Fingiu na cerva espírito divino.
+
+27
+"Agora vedes bem que, cometendo
+O duvidoso mar num lenho leve,
+Por vias nunca usadas, não temendo
+De Áf rico e Noto a força, a mais se atreve:
+Que havendo tanto já que as partes vendo
+Onde o dia é comprido e onde breve,
+Inclinam seu propósito e porfia
+A ver os berços onde nasce o dia.
+
+28
+"Prometido lhe está do Fado eterno,
+Cuja alta Lei não pode ser quebrada,
+Que tenham longos tempos o governo
+Do mar, que vê do Sol a roxa entrada.
+Nas águas têm passado o duro inverno;
+A gente vem perdida e trabalhada;
+Já parece bem feito que lhe seja
+Mostrada a nova terra, que deseja.
+
+29
+"E porque, como vistes, têm passados
+Na viagem tão ásperos perigos,
+Tantos climas e céus experimentados,
+Tanto furor de ventos inimigos,
+Que sejam, determino, agasalhados
+Nesta costa africana, como amigos.
+E tendo guarnecida a lassa frota,
+Tornarão a seguir sua longa rota."
+
+30
+Estas palavras Júpiter dizia,
+Quando os Deuses por ordem respondendo,
+Na sentença um do outro diferia,
+Razões diversas dando e recebendo.
+O padre Baco ali não consentia
+No que Júpiter disse, conhecendo
+Que esquecerão seus feitos no Oriente,
+Se lá passar a Lusitana gente.
+
+31
+Ouvido tinha aos Fados que viria
+Uma gente fortíssima de Espanha
+Pelo mar alto, a qual sujeitaria
+Da índia tudo quanto Dóris banha,
+E com novas vitórias venceria
+A fama antiga, ou sua, ou fosse estranha.
+Altamente lhe dói perder a glória,
+De que Nisa celebra inda a memória.
+
+32
+Vê que já teve o Indo sojugado,
+E nunca lhe tirou Fortuna, ou caso,
+Por vencedor da Índia ser cantado
+De quantos bebem a água de Parnaso.
+Teme agora que seja sepultado
+Seu tão célebre nome em negro vaso
+D'água do esquecimento, se lá chegam
+Os fortes Portugueses, que navegam.
+
+33
+Sustentava contra ele Vénus bela,
+Afeiçoada à gente Lusitana,
+Por quantas qualidades via nela
+Da antiga tão amada sua Romana;
+Nos fortes corações, na grande estrela,
+Que mostraram na terra Tingitana,
+E na língua, na qual quando imagina,
+Com pouca corrupção crê que é a Latina.
+
+34
+Estas causas moviam Citereia,
+E mais, porque das Parcas claro entende
+Que há de ser celebrada a clara Deia,
+Onde a gente belígera se estende.
+Assim que, um pela infâmia, que arreceia,
+E o outro pelas honras, que pretende,
+Debatem, e na porfia permanecem;
+A qualquer seus amigos favorecem.
+
+35
+Qual Austro fero, ou Bóreas na espessura
+De silvestre arvoredo abastecida,
+Rompendo os ramos vão da mata escura,
+Com ímpeto e braveza desmedida;
+Brama toda a montanha, o som murmura,
+Rompem-se as folhas, ferve a serra erguida:
+Tal andava o tumulto levantado,
+Entre os Deuses, no Olimpo consagrado.
+
+36
+Mas Marte, que da Deusa sustentava
+Entre todos as partes em porfia,
+Ou porque o amor antigo o obrigava,
+Ou porque a gente forte o merecia,
+De entre os Deuses em pé se levantava:
+Merencório no gesto parecia;
+O forte escudo ao colo pendurado
+Deitando para trás, medonho e irado,
+
+37
+A viseira do elmo de diamante
+Alevantando um pouco, mui seguro,
+Por dar seu parecer, se pôs diante
+De Júpiter, armado, forte e duro:
+E dando uma pancada penetrante,
+Com o conto do bastão no sólio puro,
+O Céu tremeu, e Apolo, de torvado,
+Um pouco a luz perdeu, como enfiado.
+
+38
+E disse assim: "Ó Padre, a cujo império
+Tudo aquilo obedece, que criaste,
+Se esta gente, que busca outro hemisfério,
+Cuja valia, e obras tanto amaste,
+Não queres que padeçam vitupério,
+Como há já tanto tempo que ordenaste,
+Não onças mais, pois és juiz direito,
+Razões de quem parece que é suspeito.
+
+39
+"Que, se aqui a razão se não mostrasse
+Vencida do temor demasiado,
+Bem fora que aqui Baco os sustentasse,
+Pois que de Luso vem, seu tão privado;
+Mas esta tenção sua agora passe,
+Porque enfim vem de estâmago danado;
+Que nunca tirará alheia inveja
+O bem, que outrem merece, e o Céu deseja.
+
+40
+"E tu, Padre de grande fortaleza,
+Da determinação, que tens tomada,
+Não tornes por detrás, pois é fraqueza
+Desistir-se da cousa começada.
+Mercúrio, pois excede em ligeireza
+Ao vento leve, e à seta bem talhada,
+Lhe vá mostrar a terra, onde se informe
+Da índia, e onde a gente se reforme."
+
+41
+Como isto disse, o Padre poderoso,
+A cabeça inclinando, consentiu
+No que disse Mavorte valeroso,
+E néctar sobre todos esparziu.
+Pelo caminho Lácteo glorioso
+Logo cada um dos Deuses se partiu,
+Fazendo seus reais acatamentos,
+Para os determinados aposentos.
+
+42
+Enquanto isto se passa na formosa
+Casa etérea do Olimpo onipotente,
+Cortava o mar a gente belicosa,
+Já lá da banda do Austro e do Oriente,
+Entre a costa Etiópica e a famosa
+Ilha de São Lourenço; e o Sol ardente
+Queimava então os Deuses, que Tifeu
+Com o temor grande em peixes converteu.
+
+
+43
+Tão brandamente os ventos os levavam,
+Como quem o céu tinha por amigo:
+Sereno o ar, e os tempos se mostravam
+Sem nuvens, sem receio de perigo.
+O promontório Prasso já passavam,
+Na costa de Etiópia, nome antigo,
+Quando o mar descobrindo lhe mostrava
+Novas ilhas, que em torno cerca e lava.
+
+44
+Vasco da Gama, o forte capitão,
+Que a tamanhas empresas se oferece,
+De soberbo e de altivo coração,
+A quem Fortuna sempre favorece,
+Para se aqui deter não vê razão,
+Que inabitada a terra lhe parece:
+Por diante passar determinava;
+Mas não lhe sucedeu como cuidava.
+
+45
+Eis aparecem logo em companhia
+Uns pequenos batéis, que vêm daquela
+Que mais chegada à terra parecia,
+Cortando o longo mar com larga vela.
+A gente se alvoroça, e de alegria
+Não sabe mais que olhar a causa dela.
+Que gente será esta, em si diziam,
+Que costumes, que Lei, que Rei teriam?
+
+46
+As embarcações eram, na maneira,
+Mui veloces, estreitas e compridas:
+As velas, com que, vêm, eram de esteira
+Dumas folhas de palma, bem tecidas;
+A gente da cor era verdadeira,
+Que Faeton, nas terras acendidas,
+Ao mundo deu, de ousado, o não prudente:
+O Pado o sabe, o Lampetusa o sente.
+
+47
+De panos de algodão vinham vestidos,
+De várias cores, brancos e listrados:
+Uns trazem derredor de si cingidos,
+Outros em modo airoso sobraçados:
+Da cinta para cima vêm despidos;
+Por armas têm adargas o terçados;
+Com toucas na cabeça; e navegando,
+Anafis sonoros vão tocando.
+
+48
+Co'os panos e co'os braços acenavam
+As gentes Lusitanas, que esperassem;
+Mas já as proas ligeiras se inclinavam
+Para que junto às ilhas amainassem.
+A gente e marinheiros trabalhavam,
+Como se aqui os trabalhos se acabassem;
+Tomam velas; amaina-se a verga alta;
+Da âncora, o mar ferido, em cima salta.
+
+49
+Não eram ancorados, quando a gente
+Estranha pelas cordas já subia.
+No gesto ledos vêm, e humanamente
+O Capitão sublime os recebia:
+As mesas manda pôr em continente;
+Do licor que Lieo prantado havia
+Enchem vasos de vidro, e do que deitam,
+Os de Faeton queimados nada enjeitam.
+
+50
+Comendo alegremente perguntavam,
+Pela Arábica língua, donde vinham,
+Quem eram, de que terra, que buscavam,
+Ou que partes do mar corrido tinham?
+Os fortes Lusitanos lhe tornavam
+As discretas respostas, que convinham:
+"Os Portugueses somos do Ocidente,
+Imos buscando as terras do Oriente.
+
+51
+"Do mar temos corrido e navegado
+Toda a parte do Antártico e Calisto,
+Toda a costa Africana rodeado,
+Diversos céus e terras temos visto;
+Dum Rei potente somos, tão amado,
+Tão querido de todos, e benquisto,
+Que não no largo mar, com leda fronte,
+Mas no lago entraremos de Aqueronte.
+
+52
+"E por mandado seu, buscando andamos
+A terra Oriental que o Indo rega;
+Por ele, o mar remoto navegamos,
+Que só dos feios focas se navega.
+Mas já razão parece que saibamos,
+Se entre vós a verdade não se nega,
+Quem sois, que terra é esta que habitais,
+Ou se tendes da Índia alguns sinais?"
+
+53
+"Somos, um dos das ilhas lhe tornou,
+Estrangeiros na terra, Lei e nação;
+Que os próprios são aqueles, que criou
+A natura sem Lei e sem razão.
+Nós temos a Lei certa, que ensinou
+O claro descendente de Abraão
+Que agora tem do mundo o senhorio,
+A mãe Hebréia teve, e o pai Gentio.
+Informações. A Ilha de Moçambique.
+
+54
+"Esta ilha pequena, que habitamos,
+em toda esta terra certa escala
+De todos os que as ondas navegamos
+De Quíloa, de Mombaça e de Sofala;
+E, por ser necessária, procuramos,
+Como próprios da terra, de habitá-la;
+E por que tudo enfim vos notifique,
+Chama-se a pequena ilha Moçambique.
+
+55
+"E já que de tão longe navegais,
+Buscando o Indo Idaspe e terra ardente,
+Piloto aqui tereis, por quem sejais
+Guiados pelas ondas sabiamente.
+Também será bem feito que tenhais
+Da terra algum refresco, e que o Regente
+Que esta terra governa, que vos veja,
+E do mais necessário vos proveja."
+
+56
+Isto dizendo, o Mouro se tornou
+A seus batéis com toda a companhia;
+Do Capitão e gente se apartou
+Com mostras de devida cortesia.
+Nisto Febo nas águas encerrou,
+Co'o carro de cristal, o claro dia,
+Dando cargo à irmã, que alumiasse
+O largo mundo, enquanto repousasse.
+
+57
+A noite se passou na lassa frota
+Com estranha alegria, e não cuidada,
+Por acharem da terra tão remota
+Nova de tanto tempo desejada.
+Qualquer então consigo cuida e nota
+Na gente e na maneira desusada,
+E como os que na errada Seita creram,
+Tanto por todo o mundo se estenderam,
+
+58
+Da Lua os claros raios rutilavam
+Pelas argênteas ondas Neptuninas,
+As estrelas os Céus acompanhavam,
+Qual campo revestido de boninas;
+Os furiosos ventos repousavam
+Pelas covas escuras peregrinas;
+Porém da armada a gente vigiava,
+Como por longo tempo costumava.
+
+59
+Mas assim como a Aurora marchetada
+Os formosos cabelos espalhou
+No Céu sereno, abrindo a roxa entrada
+Ao claro Hiperiónio, que acordou,
+Começa a embandeirar-se toda a armada,
+E de toldos alegres se adornou,
+Por receber com festas e alegria
+O Regedor das ilhas, que partia.
+
+60
+Partia alegremente navegando,
+A ver as naus ligeiras Lusitanas,
+Com refresco da terra, em si cuidando
+Que são aquelas gentes inumanas,
+Que, os aposentos cáspios habitando,
+A conquistar as terras Asianas
+Vieram; e por ordem do Destino,
+O Império tomaram a Constantino.
+
+61
+Recebe o Capitão alegremente
+O Mouro, e toda a sua companhia;
+Dá-lhe de ricas peças um presente,
+Que só para este efeito já trazia;
+Dá-lhe conserva doce, e dá-lhe o ardente
+Não usado licor, que dá alegria.
+Tudo o Mouro contente bem recebe;
+E muito mais contente come e bebe.
+
+62
+Está a gente marítima de Luso
+Subida pela enxárcia, de admirada,
+Notando o estrangeiro modo e uso,
+E a linguagem tão bárbara e enleada.
+Também o Mouro astuto está confuso,
+Olhando a cor, o trajo, e a forte armada;
+E perguntando tudo, lhe dizia
+"Se por ventura vinham de Turquia?"
+
+63
+E mais lhe diz também, que ver deseja
+Os livros de sua Lei, preceito eu fé,
+Para ver se conforme à sua seja,
+Ou se são dos de Cristo, como Crê.
+E porque tudo note e tudo veja,
+Ao Capitão pedia que lhe dê
+Mostra das fortes armas de que usavam,
+Quando co'os inimigos pelejavam.
+
+64
+Responde o valeroso Capitão
+Por um, que a língua escura bem sabia:
+"Dar-te-ei, Senhor ilustre, relação
+De mim, da Lei, das armas que trazia.
+Nem sou da terra, nem da geração
+Das gentes enojosas de Turquia:
+Mas sou da forte Europa belicosa,
+Busco as terras da índia tão famosa.
+
+65
+A lei tenho daquele, a cujo império
+Obedece o visíbil e ínvisíbil
+Aquele que criou todo o Hemisfério,
+Tudo o que sente, o todo o insensíbil;
+Que padeceu desonra e vitupério,
+Sofrendo morte injusta e insofríbil,
+E que do Céu à Terra, enfim desceu,
+Por subir os mortais da Terra ao Céu.
+
+66
+Deste Deus-Homem, alto e infinito,
+Os livros, que tu pedes não trazia,
+Que bem posso escusar trazer escrito
+Em papel o que na alma andar devia.
+Se as armas queres ver, como tens dito,
+Cumprido esse desejo te seria;
+Como amigo as verás; porque eu me obrigo,
+Que nunca as queiras ver como inimigo."
+
+67
+Isto dizendo, manda os diligentes
+Ministros amostrar as armaduras:
+Vêm arneses, e peitos reluzentes,
+Malhas finas, e lâminas seguras,
+Escudos de pinturas diferentes,
+Pelouros, espingardas de aço puras,
+Arcos, e sagitíferas aljavas,
+Partazanas agudas, chuças bravas:
+
+68
+As bombas vêm de fogo, e juntamente
+As panelas sulfúreas, tão danosas;
+Porém aos de Vulcano não consente
+Que dêem fogo às bombardas temerosas;
+Porque o generoso ânimo e valente,
+Entre gentes tão poucas e medrosas,
+Não mostra quanto pode, e com razão,
+Que é fraqueza entre ovelhas ser leão.
+
+69
+Porém disto, que o Mouro aqui notou,
+E de tudo o que viu com olho atento
+Um ódio certo na alma lhe ficou,
+Uma vontade má de pensamento.
+Nas mostras e no gesto o não mostrou;
+Mas com risonho e ledo fingimento
+Tratá-los brandamente determina,
+Até que mostrar possa o que imagina.
+
+70
+Pilotos lhe pedia o Capitão,
+Por quem pudesse à Índia ser levado;
+Diz-lhe que o largo prémio levarão
+Do trabalho que nisso for tomado.
+Promete-lhos o Mouro, com tenção
+De peito venenoso, e tão danado,
+Que a morte, se pudesse, neste dia,
+Em lugar de pilotos lhe daria.
+
+
+71
+Tamanho o ódio foi, e a má vontade,
+Que aos estrangeiros súbito tomou,
+Sabendo ser sequazes da verdade,
+Que o Filho de David nos ensinou.
+ó segredos daquela Eternidade,
+A quem juízo algum nunca alcançou!
+Que nunca falte um pérfido inimigo
+Aqueles de quem foste tanto amigo!
+
+72
+Partiu-se Disto enfim coa companhia,
+Das naus o falso Mouro despedido,
+Com enganosa e grande cortesia,
+Com gesto ledo a todos, e fingido.
+Cortaram os batéis a curta via
+Das águas de Neptuno, e recebido
+Na terra do obsequente ajuntamento
+Se foi o Mouro ao cógnito aposento.
+
+73
+Do claro assento etóreo o grão Tebano,
+Que da paternal coxa foi nascido,
+Olhando o ajuntamento Lusitano
+Ao Mouro ser molesto e avorrecido,
+No pensamento cuida um falso engano,
+Com que seja de todo destruído.
+E enquanto isto só na alma imaginava,
+Consigo estas palavras praticava:
+
+74
+"Está do fado já determinado,
+Que tamanhas vitórias, tão famosas,
+Hajam os Portugueses alcançado
+Das Indianas gentes belicosas.
+E eu só, filho do Padre sublimado,
+Com tantas qualidades generosas,
+Hei de sofrer que o fado favoreça
+Outrem, por quem meu nome se escureça?
+
+75
+"Já quiseram os Deuses que tivesse
+O filho de Filipo nesta parte
+Tanto poder, que tudo submetesse
+Debaixo de seu jugo o fero Marte.
+Mas há-se de sofrer que o fado desse
+A tão poucos tamanho esforço e arte,
+Que eu co'o grão Macedónio, e o Romano,
+Demos lugar ao nome Lusitano?
+
+76
+"Não será assim, porque antes que chegado
+Seja este Capitão, astutamente
+Lhe será tanto engano fabricados
+Que nunca veja as partes do Oriente.
+Eu descerei à Terra, e o indignado
+Peito revolverei da Maura gente;
+Porque sempre por via irá direita
+Quem do oportuno tempo se aproveita."
+
+77
+Isto dizendo, irado e quase insano,
+Sobre a terra africana descendeu,
+Onde vestindo a forma e gesto humano,
+Para o Prasso sabido se moveu.
+E por melhor tecer o astuto engano,
+No gesto natural se converteu
+Dum Mouro, em Moçambique conhecido
+Velho, sábio, e co'o Xeque mui valido.
+
+78
+E entrando assim a falar-lhe a tempo e horas
+A sua falsidade acomodadas,
+Lhe diz como eram gentes roubadoras,
+Estas que ora de novo são chegadas;
+Que das nações na costa moradoras
+Correndo a fama veio que roubadas
+Foram por estes homens que passavam,
+Que com pactos de paz sempre ancoravam.
+
+79
+E sabe mais, lhe diz, como entendido
+Tenho destes cristãos sanguinolentos,
+Que quase todo o mar têm destruído
+Com roubos, com incêndios violentos;
+E trazem já de longe engano urdido
+Contra nós; e que todos seus intentos
+São para nos matarem e roubarem,
+E mulheres e filhos cativarem.
+
+80
+"E também sei que tem determinado
+De vir por água a terra muito cedo
+O Capitão dos seus acompanhado,
+Que da tensão danada nasce o medo.
+Tu deves de ir também co'os teus armado
+Esperá-lo em cilada, oculto e quedo;
+Porque, saindo a gente descuidada,
+Cairão facilmente na cilada.
+
+81
+"E se inda não ficarem deste jeito
+Destruídos, ou mortos totalmente
+Eu tenho imaginado no conceito
+Outra manha e ardil, que te contente:
+Manda-lhe dar piloto, que de jeito
+Seja astuto no engano, e tão prudente,
+Que os leve aonde sejam destruídos,
+Desbaratados, mortos, ou perdidos."
+
+82
+Tanto que estas palavras acabou,
+O Mouro, nos tais casos sábio e velho,
+Os braços pelo colo lhe lançou,
+Agradecendo muito o tal conselho;
+E logo nesse instante concertou
+Para a guerra o belígero aparelho,
+Para que ao Português se lhe tornasse
+Em roxo sangue a água, que buscasse.
+
+83
+E busca mais, para o cuidado engano,
+Mouro, que por piloto à nau lhe mande,
+Sagaz, astuto, e sábio em todo o dano,
+De quem fiar-se possa um feito grande.
+Diz-lhe que acompanhando o Lusitano,
+Por tais costas e mares com ele ande,
+Que, se daqui escapar, que lá diante
+Vá cair onde nunca se alevante.
+
+84
+Já o raio Apolíneo visitava
+Os montes Nabatêos acendido,
+Quando o Gama, colos seus determinava
+De vir por água a terra apercebido.
+A gente nos batéis se concertava,
+Como se fosse o engano já sabido:
+Mas pode suspeitar-se facilmente,
+Que o coração pressago nunca mente.
+
+85
+E mais também mandado tinha a terra,
+De antes, pelo piloto necessário,
+E foi-lhe respondido em som de guerra,
+Caso do que cuidava mui contrário;
+Por isto, e porque sabe quanto erra
+Quem se crê de seu pérfido adversário,
+Apercebido vai como podia,
+Em três batéis somente que trazia.
+
+86
+Mas os Mouros que andavam pela praia,
+Por lhe defender a água desejada,
+Um de escudo embraçado e de azagaia,
+Outro de arco encurvado e seta ervada,
+Esperam que a guerreira gente saia,
+Outros muitos já postos em cilada.
+E, porque o caso leve se lhe faça,
+Põem uns poucos diante por negaça,
+
+87
+Andam pela ribeira alva, arenosa,
+Os belicosos Mouros acenando
+Com a adarga e co'a hástia perigosa,
+Os fortes Portugueses incitando.
+Não sofre muito a gente generosa
+Andar-lhe os cães os dentes amostrando.
+Qualquer em terra salta tão ligeiro,
+Que nenhum dizer pode que é primeiro.
+
+88
+Qual no corro sanguino o ledo amante,
+Vendo a formosa dama desejada,
+O touro busca, e pondo-se diante,
+Salta, corre, sibila, acena, e brada,
+Mas o animal atroce, nesse instante,
+Com a fronte cornígera inclinada,
+Bramando duro corre, e os olhos cerra,
+Derriba, fere e mata, e põe por terra:
+
+89
+Eis nos batéis o fogo se levanta
+Na furiosa e dura artilharia,
+A plúmbea péla mata, o brado espanta,
+Ferido o ar retumba e assovia:
+O coração dos Mouros se quebranta,
+O temor grande o sangue lhe resfria.
+Já foge o escondido de medroso,
+E morre o descoberto aventuroso.
+
+90
+Não se contenta a gente Portuguesa,
+Mas seguindo a vitória estrui e mata;
+A povoação, sem muro e sem defesa,
+Esbombardeia, acende e desbarata.
+Da cavalgada ao Mouro já lhe pesa,
+Que bem cuidou comprá-la mais barata;
+Já blasfema da guerra, e maldizia,
+O velho inerte, e a mãe que o filho cria.
+
+91
+Fugindo, a seta o Mouro vai tirando
+Sem força, de covarde e de apressado,
+A pedra, o pau, e o canto arremessando;
+Dá-lhe armas o furor desatinado.
+Já a ilha e todo o mais desemparando,
+A terra firme foge amedrontado;
+Passa e corta do mar o estreito braço,
+Que a ilha em torno cerca, em pouco espaço
+
+92
+Uns vão nas almadias carregadas,
+Um corta o mar a nado diligente,
+Quem se afoga nas ondas encurvadas,
+Quem bebe o mar, e o deita juntamente.
+Arrombam as miúdas bombardadas
+Os pangaios subtis da bruta gente:
+Desta arte o Português enfim castiga
+A vil malícia, pérfida, inimiga.
+
+93
+Tornam vitoriosos para a armada,
+Co'o despojo da guerra e rica presa,
+E vão a seu prazer fazer aguada,
+Sem achar resistência, nem defesa.
+Ficava a Maura gente magoada,
+No ódio antigo mais que nunca acesa;
+E vendo sem vingança tanto dano,
+Somente estriba no segundo engano.
+
+94
+Pazes cometer manda arrependido
+O Regedor daquela iníqua terra,
+Sem ser dos Lusitanos entendido,
+Que em figura de paz lhe manda guerra;
+Porque o piloto falso prometido,
+Que toda a má tenção no peito encerra,
+Para os guiar à morte lhe mandava,
+Como em sinal das pazes que tratava.
+
+95
+O Capitão, que já lhe então convinha
+Tornar a seu caminho acostumado,
+Que tempo concertado e ventos tinha
+Para ir buscar o Indo desejado,
+Recebendo o piloto, que lhe vinha,
+Foi dele alegremente agasalhado;
+E respondendo ao mensageiro a tento,
+As velas manda dar ao largo vento.
+
+96
+Desta arte despedida a forte armada,
+As ondas de Anfitrite dividia,
+Das filhas de Nereu acompanhada,
+Fiel, alegre e doce companhia.
+O Capitão, que não caía em nada
+Do enganoso ardil, que o Mouro urdia,
+Dele mui largamente se informava
+Da Índia toda, e costas que passava.
+
+97
+Mas o Mouro, instruído nos enganos
+Que o malévolo Baco lhe ensinara,
+De morte ou cativeiro novos danos,
+Antes que à Índia chegue, lhe prepara:
+Dando razões dos portos Indianos,
+Também tudo o que pede lhe declara,
+Que, havendo por verdade o que dizia,
+De nada a forte gente se temia.
+
+98
+E diz-lhe mais, com o falso pensamento
+Com que Sinon os Frígios enganou:
+Que perto está uma ilha, cujo assento
+Povo antigo cristão sempre habitou.
+O Capitão, que a tudo estava a tento,
+Tanto com estas novas se alegrou,
+Que com dádivas grandes lhe rogava,
+Que o leve à terra onde esta gente estava.
+
+99
+O mesmo o falso Mouro determina,
+Que o seguro Cristão lhe manda e pede;
+Que a ilha é possuída da malina
+Gente que segue o torpe Mahamede.
+Aqui o engano e morte lhe imagina,
+Porque em poder e forças muito excede
+A Moçambique esta ilha, que se chama
+Quíloa, mui conhecida pela fama.
+
+100
+Para lá se inclinava a leda frota;
+Mas a Deusa em Citere celebrada,
+Vendo como deixava a certa rota
+Por ir buscar a morte não cuidada,
+Não consente que em terra tão remota
+Se perca a gente dela tanto amada.
+E com ventos contrários a desvia
+Donde o piloto falso a leva e guia.
+
+101
+Mas o malvado Mouro, não podendo
+Tal determinação levar avante,
+Outra maldade iníqua cometendo,
+Ainda em seu propósito constante,
+Lhe diz que, pois as águas discorrendo
+Os levaram por força por diante,
+Que outra ilha tem perto, cuja gente
+Eram Cristãos com Mouros juntamente.
+
+102
+Também nestas palavras lhe mentia,
+Como por regimento enfim levava,
+Que aqui gente de Cristo não havia,
+Mas a que a Mahamede celebrava.
+O Capitão, que em tudo o Mouro cria,
+Virando as velas, a ilha demandava;
+Mas, não querendo a Deusa guardadora,
+Não entra pela barra, e surge fora.
+
+103
+Estava a ilha à terra tão chegada,
+Que um estreito pequeno a dividia;
+Uma cidade nela situada,
+Que na fronte do mar aparecia,
+De nobres edifícios fabricada,
+Como por fora ao longe descobria,
+Regida por um Rei de antiga idade:
+Mombaça é o nome da ilha e da cidade.
+
+104
+E sendo a ela o Capitão chegado,
+Estranhamente ledo, porque espera
+De poder ver o povo batizado,
+Como o falso piloto lhe dissera,
+Eis vêm batéis da terra com recado
+Do Rei, que já sabia a gente que era:
+Que Baco muito de antes o avisara,
+Na forma doutro Mouro, que tomara.
+
+105
+O recado que trazem é de amigos,
+Mas debaixo o veneno vem coberto;
+Que os pensamentos eram de inimigos,
+Segundo foi o engano descoberto.
+Ó grandes e gravíssimos perigos!
+Ó caminho de vida nunca certo:
+Que aonde a gente põe sua esperança,
+Tenha a vida tão pouca segurança!
+
+106
+No mar tanta tormenta, e tanto dano,
+Tantas vezes a morte apercebida!
+Na terra tanta guerra, tanto engano,
+Tanta necessidade avorrecida!
+Onde pode acolher-se um fraco humano,
+Onde terá segura a curta vida,
+Que não se arme, e se indigne o Céu sereno
+Contra um bicho da terra tão pequeno?
+
+
+Canto Segundo
+
+1
+Já neste tempo o lúcido Planeta,
+Que as horas vai do dia distinguindo,
+Chegava à desejada e lenta meta,
+A luz celeste às gentes encobrindo,
+E da casa marítima secreta
+Lhe estava o Deus Noturno a porta abrindo,
+Quando as infidas gentes se chegaram
+As naus, que pouco havia que ancoraram.
+
+2
+Dentre eles um, que traz encomendado
+O mortífero engano, assim dizia:
+"Capitão valeroso, que cortado
+Tens de Neptuno o reino e salsa via,
+O Rei que manda esta ilha, alvoroçado
+Da vinda tua, tem tanta alegria,
+Que não deseja mais que agasalhar-te,
+Ver-te, e do necessário reformar-te.
+
+3
+"E porque está em extremo desejoso
+De te ver, como cousa nomeada,
+Te roga que, de nada receoso,
+Entres a barra, tu com toda armada:
+E porque do caminho trabalhoso
+Trarás a gente débil e cansada,
+Diz que na terra podes reformá-la,
+Que a natureza obriga a desejá-la.
+
+4
+"E se buscando vás mercadoria
+Que produze o aurífero Levante,
+Canela, cravo, ardente especiaria,
+Ou droga salutífera e prestante;
+Ou se queres luzente pedraria,
+O rubi fino, o rígido diamante,
+Daqui levarás tudo tão sobejo
+Com que faças o fim a teu desejo."
+
+5
+Ao mensageiro o Capitão responde
+As palavras do Rei agradecendo:
+E diz que, porque o Sol no mar se esconde,
+Não entra para dentro, obedecendo;
+Porém que, como a luz mostrar por onde
+Vá sem perigo a frota, não temendo,
+Cumprirá sem receio seu mandado,
+Que a mais por tal senhor está obrigado.
+
+6
+Pergunta-lhe depois, se estão na terra
+Cristãos, como o piloto lhe dizia;
+O mensageiro astuto, que não erra,
+Lhe diz, que a mais da gente em Cristo cria.
+Desta sorte do peito lhe desterra
+Toda a suspeita e cauta fantasia;
+Por onde o Capitão seguramente
+Se fia da infiel e falsa gente.
+
+7
+E de alguns que trazia condenados
+Por culpas e por feitos vergonhosos,
+Por que pudessem ser aventurados
+Em casos desta sorte duvidosos,
+Manda dous mais sagazes, ensaiados,
+Por que notem dos Mouros enganosos
+A cidade e poder, e por que vejam
+Os Cristãos, que só tanto ver desejam.
+
+8
+E por estes ao Rei presentes manda,
+Por que a boa vontade, que mostrava,
+Tenha firme, segura, limpa e branda;
+A qual bem ao contrário em tudo estava.
+Já a companhia pérfida e nefanda
+Das naus se despedia e o mar cortava:
+Foram com gestos ledos e fingidos,
+Os dous da frota em terra recebidos.
+
+9
+E depois que ao Rei apresentaram,
+Co'o recado, os presentes que traziam,
+A cidade correram, e notaram
+Muito menos daquilo que queriam;
+Que os Mouros cautelosos se guardaras
+De lhes mostrarem tudo o que pediam:
+Que onde reina a malícia, está o receio,
+Que a faz imaginar no peito alheio.
+
+10
+Mas aquele que sempre a mocidade
+Tem no rosto perpétua, e foi nascido
+De duas mães, que urdia a falsidade
+Por ver o navegante destruído,
+Estava numa casa da cidade,
+Com rosto humano e hábito fingido,
+Mostrando-se Cristão, e fabricava
+Um altar sumptuoso, que adorava.
+
+11
+Ali tinha em retrato afigurada
+Do alto e Santo Espírito a pintura:
+A cândida pombinha debuxada
+Sobre a única Fénix, Virgem pura;
+A companhia santa está pintada
+Dos doze, tão torvados na figura,
+Como os que, só das línguas que caíram,
+De fogo, várias línguas referiram.
+
+12
+Aqui os dous companheiros conduzidos
+Onde com este engano Baco estava,
+Põem em terra os giolhos, e os sentidos
+Naquele Deus que o mundo governava.
+Os cheiros excelentes, produzidos
+Na Pancaia odorífera, queimava
+O Tioneu, e assim por derradeiro
+O falso Deus adora o verdadeiro.
+
+13
+Aqui foram de noite agasalhados,
+Com todo o bom e honesto tratamento,
+Os dous Cristãos, não vendo que enganados
+Os tinha o falso e santo fingimento.
+Mas assim como os raios espalhados
+Do Sol foram no mundo, e num momento
+Apareceu no rúbido horizonte
+Da moça de Titão a roxa fronte,
+
+14
+Tornam da terra os Mouros co'o recado
+Do Rei, para que entrassem, e consigo
+Os dous que o Capitão tinha mandado,
+A quem se o Rei mostrou sincero amigo;
+E sendo o Português certificado
+De não haver receio de perigo,
+E que gente de Cristo em terra havia,
+Dentro no salso rio entrar queria.
+
+15
+Dizem-lhe os que mandou, que em terra
+Sacras aras e sacerdote sinto; viram
+Que ali se agasalharam o dormiram,
+Enquanto a luz cobriu o escuro manto;
+E que no Rei e gentes não sentiram
+Senão contentamento e gosto tanto,
+Que não podia certo haver suspeita
+Numa mostra tão clara e tão perfeita.
+
+16
+Com isto o nobre Gama recebia
+Alegremente os Mouros que subiam;
+Que levemente um ânimo se fia
+De mostras, que tão certas pareciam.
+A nau da gente pérfida se enchia,
+Deixando a bordo os barcos que traziam.
+Alegres vinham todos, porque crêm
+Que a presa desejada certa têm.
+
+17
+Na terra, cautamente aparelhavam
+Armas e munições que, como vissem
+Que no rio os navios ancoravam,
+Neles ousadamente se subissem;
+E, nesta treição determinavam
+Que os de Luso de todo destruíssem,
+E que incautos pagassem deste jeito
+O mal que em Moçambique tinham feito.
+
+18
+As âncoras tenaces vão levando
+Com a náutica grita costumada;
+Da proa as velas sós ao vento dando
+Inclinam para a barra abalizada.
+Mas a linda Ericina, que guardando
+Andava sempre a gente assinalada,
+Vendo a cilada grande, e tão secreta,
+Voa do Céu ao mar como uma seta.
+
+19
+Convoca as alvas filhas de Nereu,
+Com toda a mais cerúlea companhia,
+Que, porque no salgado mar nasceu,
+Das águas o poder lhe obedecia.
+E propondo-lhe a causa a que desceu,
+Com todas juntamente se partia,
+Para estorvar que a armada não chegasse
+Aonde para sempre se acabasse.
+
+20
+Já na água erguendo vão, com grande pressa,
+Com as argênteas caudas branca escuma;
+Cloto eo'o peito corta e atravessa
+Com mais furor o mar do que costuma.
+Salta Nise, Nerine se arremessa
+Por cima da água crespa, em força suma.
+Abrem caminho as ondas encurvadas
+De temor das Nereidas apressadas.
+
+21
+Nos ombros de um Tritão, com gesto aceso,
+Vai a linda Dione furiosa;
+Não sente quem a leva o doce peso,
+De soberbo com carga tão formosa.
+Já chegam perto donde o vento teso
+Enche as velas da frota belicosa;
+Repartem-se e rodeiam nesse instante
+As naus ligeiras, que iam por diante.
+
+22
+Põe-se a Deusa com outras em direito
+Da proa capitaina, e ali fechando
+O caminho da barra, estão de jeito,
+Que em vão assopra o vento, a vela inchando.
+Põem no madeiro duro o brando peito,
+Para detrás a forte nau forçando;
+Outras em derredor levando-a estavam,
+E da barra inimiga a desviavam.
+
+23
+Quais para a cova as próvidas formigas,
+Levando o peso grande acomodado,
+As forças exercitam, de inimigas
+Do inimigo inverno congelado;
+Ali são seus trabalhos e fadigas,
+Ali mostram vigor nunca esperado:
+Tais andavam as Ninfas estorvando
+A gente Portuguesa o fim nefando.
+
+24
+Torna para detrás a nau forçada,
+Apesar dos que leva, que gritando
+Mareiam velas; ferve a gente irada,
+O leme a um bordo e a outro atravessando;
+O mestre astuto em vão da popa brada,
+Vendo como diante ameaçando
+Os estava um marítimo penedo,
+Que de quebrar-lhe a nau lhe mete medo.
+
+25
+A celeuma medonha se alevanta
+No rudo marinheiro que trabalha;
+O grande estrondo a Maura gente espanta,
+Como se vissem hórrida batalha;
+Não sabem a razão de fúria tanta,
+Não sabem nesta pressa quem lhe valha;
+Cuidam que seus enganos são sabidos,
+E que hão de ser por isso aqui punidos.
+
+26
+Ei-los subitamente se lançavam
+A seus batéis velozes que traziam;
+Outros em cima o mar alevantavam,
+Saltando n'água, a nado se acolhiam;
+De um bordo e doutro súbito saltavam,
+Que o medo os compelia do que viam;
+Que antes querem ao mar aventurar-se
+Que nas mãos inimigas entregar-se.
+
+27
+Assim como em selvática alagoa
+As rãs, no tempo antigo Lícia gente,
+Se sentem por ventura vir pessoa,
+Estando fora da água incautamente,
+Daqui e dali saltando, o charco soa,
+Por fugir do perigo que se sente,
+E acolhendo-se ao couto que conhecem,
+Sós as cabeças na água lhe aparecem:
+
+28
+Assim fogem os Mouros; e o piloto,
+Que ao perigo grande as naus guiara,
+Crendo que seu engano estava noto,
+Também foge, saltando na água amara.
+Mas, por não darem no penedo imoto,
+Onde percam a vida doce e cara,
+A âncora solta logo a capitaina,
+Qualquer das outras junto dela amaina.
+
+29
+Vendo o Gama, atentado, a estranheza
+Dos Mouros, não cuidada, e juntamente
+O piloto fugir-lhe com presteza,
+Entende o que ordenava a bruta gente;
+E vendo, sem contraste e sem braveza
+Dos ventos, ou das águas sem corrente,
+Que a nau passar avante não podia,
+Havendo-o por milagre, assim dizia:
+
+30
+"Ó caso grande, estranho e não cuidado,
+Ó milagre claríssimo e evidente,
+Ó descoberto engano inopinado,
+Ó pérfida, inimiga e falsa gente!
+Quem poderá do mal aparelhado
+Livrar-se sem perigo sabiamente,
+Se lá de cima a Guarda soberana
+Não acudir à fraca força humana?
+
+31
+"Bem nos mostra a divina Providência
+Destes portos a pouca segurança;
+Bem claro temos visto na aparência,
+Que era enganada a nossa confiança.
+Mas pois saber humano nem prudência
+Enganos tão fingidos não alcança,
+Ó tu, Guarda Divina, tem cuidado
+De quem sem ti não pode ser guardado!
+
+32
+"E se te move tanto a piedade
+Desta mísera gente peregrina,
+Que só por tua altíssima bondade,
+Da gente a salvas pérfida e malina,
+Nalgum porto seguro de verdade
+Conduzir-nos já agora determina,
+Ou nos amostra a terra que buscamos,
+Pois só por teu serviço navegamos."
+
+33
+Ouviu-lhe essas palavras piedosas
+A formosa Dione, e comovida,
+Dentre as Ninfas se vai, que saudosas
+Ficaram desta súbita partida.
+Já penetra as Estrelas luminosas,
+Já na terceira Esfera recebida
+Avante passa, e lá no sexto Céu,
+Para onde estava o Padre, se moveu.
+
+34
+E como ia afrontada do caminho,
+Tão formosa no gesto se mostrava,
+Que as Estrelas e o Céu e o Ar vizinho,
+E tudo quanto a via namorava.
+Dos olhos, onde faz seu filho o ninho,
+Uns espíritos vivos inspirava,
+Com que os Pólos gelados acendia,
+E tornava do Fogo a esfera fria.
+
+35
+E por mais namorar o soberano
+Padre, de quem foi sempre amada e eriça,
+Se lhe apresenta assim como ao Troiano,
+Na selva Idea, já se apresentara.
+Se a vira o caçador, que o vulto humano
+Perdeu, vendo Diana na água clara,
+Nunca os famintos galgos o mataram,
+Que primeiro desejos o acabaram.
+
+36
+Os crespos fios d'ouro se esparziam
+Pelo colo, que a neve escurecia;
+Andando, as lácteas tetas lhe tremiam,
+Com quem Amor brincava, e não se via;
+Da alva petrina flamas lhe saíam,
+Onde o Menino as almas acendia;
+Pelas lisas colunas lhe trepavam
+Desejos, que como hera se enrolavam.
+
+37
+C'um delgado sendal as partes cobre,
+De quem vergonha é natural reparo,
+Porém nem tudo esconde, nem descobre,
+O véu, dos roxos lírios pouco avaro;
+Mas, para que o desejo acenda o dobre,
+Lhe põe diante aquele objeto raro.
+Já se sentem no Céu, por toda a parte,
+Ciúmes em Vulcano, amor em Marte.
+
+38
+E mostrando no angélico semblante
+Co'o riso uma tristeza misturada,
+Como dama que foi do incauto amante
+Em brincos amorosos mal tratada,
+Que se aqueixa e se ri num mesmo instante,
+E se torna entre alegre magoada,
+Desta arte a Deusa, a quem nenhuma iguala,
+Mais mimosa que triste ao Padre fala:
+
+39
+"Sempre eu cuidei, ó Padre poderoso,
+Que, para as cousas que eu do peito amasse,
+Te achasse brando, afábil e amoroso,
+Posto que a algum contrário lhe pesasse;
+Mas, pois que contra mim te vejo iroso,
+Sem que to merecesse, nem te errasse,
+Faça-se como Baco determina;
+Assentarei enfim que fui mofina.
+
+40
+"Este povo que é meu, por quem derramo
+As lágrimas que em vão caídas vejo,
+Que assaz de mal lhe quero, pois que o amo,
+Sendo tu tanto contra meu desejo!
+Por ele a ti rogando choro e bramo,
+E contra minha dita enfim pelejo.
+Ora pois, porque o amo é mal tratado,
+Quero-lhe querer mal, será guardado.
+
+41
+"Mas moura enfim nas mãos das brutas gentes,
+Que pois eu fui..." E nisto, de mimosa,
+O rosto banha em lágrimas ardentes,
+Como co'o orvalho fica a fresca rosa.
+Calada um pouco, como se entre os dentes
+Se lhe impedira a fala piedosa,
+Torna a segui-la; e indo por diante,
+Lhe atalha o poderoso e grão Tonante.
+
+42
+E destas brandas mostras comovido,
+Que moveram de um tigre o peito duro,
+Co'o vulto alegre, qual do Céu subido,
+Torna sereno e claro o ar escuro,
+As lágrimas lhe alimpa, e acendido
+Na face a beija, e abraça o colo puro;
+De modo que dali, se só se achara,
+Outro novo Cupido se gerara.
+
+43
+E co'o seu apertando o rosto amado,
+Que os soluços e lágrimas aumenta,
+Como menino da ama castigado,
+Que quem no afaga o choro lhe acrescente,
+Por lhe pôr em sossego o peito irado,
+Muitos casos futuros lhe apresenta.
+Dos fados as entranhas revolvendo,
+Desta maneira enfim lhe está dizendo:
+
+44
+"Formosa filha minha, não temais
+Perigo algum nos vossos Lusitanos,
+Nem que ninguém comigo possa mais,
+Que esses chorosos olhos soberanos;
+Que eu vos prometo, filha, que vejais
+Esquecerem-se Gregos e Romanos,
+Pelos ilustres feitos que esta gente
+Há-de fazer nas partes do Oriente.
+
+45
+"Que se o facundo Ulisses escapou
+De ser na Ogígia ilha eterno escravo,
+E se Antenor os seios penetrou
+Ilíricos e a fonte de Timavo;
+E se o piedoso Eneias navegou
+De Cila e de Caríbdis o mar bravo,
+Os vossos, mores cousas atentando,
+Novos mundos ao mundo irão mostrando.
+
+46
+"Fortalezas, cidades e altos muros,
+Por eles vereis, filha, edificados;
+Os Turcos belacíssimos e duros,
+Deles sempre vereis desbaratados.
+Os Reis da índia, livres e seguros,
+Vereis ao Rei potente sojugados;
+E por eles, de tudo enfim senhores,
+Serão dadas na terra leis melhores.
+
+47
+"Vereis este, que agora pressuroso
+Por tantos medos o Indo vai buscando,
+Tremer dele Neptuno, de medroso
+Sem vento suas águas encrespando.
+Ó caso nunca visto e milagroso,
+Que trema e ferva o mar, em calma estando!
+Ó gente forte e de altos pensamentos,
+Que também dela hão medo os Elementos!
+
+48
+"Vereis a terra, que a água lhe tolhia,
+Que inda há-de ser um porto mui decente,
+Em que vão descansar da longa via
+As naus que navegarem do Ocidente.
+Toda esta costa enfim, que agora urdia
+O mortífero engano, obediente
+Lhe pagará tributos, conhecendo
+Não poder resistir ao Luso horrendo.
+
+49
+"E vereis o mar Roxo, tão famoso,
+Tornar-se-lhe amarelo, de enfiado;
+Vereis de Ormuz o Reino poderoso
+Duas vezes tomado e sojugado.
+Ali vereis o Mouro furioso
+De suas mesmas setas traspassado:
+Que quem vai contra os vossos, claro veja
+Que, se resiste, contra si peleja.
+
+50
+"Vereis a inexpugnábil Dio forte,
+Que dous cercos terá, dos vossos sendo.
+Ali se mostrará seu preço e sorte,
+Feitos de armas grandíssimos fazendo.
+Invejoso vereis o grão Mavorte
+Do peito Lusitano fero e horrendo:
+Do Mouro ali verão que a voz extrema
+Do falso Mahamede ao Céu blasfema.
+
+51
+"Goa vereis aos Mouros ser tomada,
+A qual virá depois a ser senhora
+De todo o Oriente, e sublimada
+Co'os triunfos da gente vencedora.
+Ali soberba, altiva, e exalçada,
+Ao Gentio, que os ídolos adora,
+Duro freio porá, e a toda a terra
+Que cuidar de fazer aos vossos guerra.
+
+52
+"Vereis a fortaleza sustentar-se
+De Cananor, com pouca força e gente;
+E vereis Calecu desbaratar-se,
+Cidade populosa e tão potente:
+E vereis em Cochim assinalar-se
+Tanto um peito soberbo e insolente,
+Que cítara jamais cantou vitória,
+Que assim mereça eterno nome e glória.
+
+53
+"Nunca com Marte instructo e furioso,
+Se viu ferver Leucate, quando Augusto
+Nas civis Actias guerras animoso,
+O Capitão venceu Romano injusto,
+Que dos povos da Aurora, e do famoso
+Nilo, e do Bactra Cítico e robusto
+A vitória trazia, e presa rica,
+Preso na Egípcia linda e nego pudica.
+
+54
+Como vereis o mar fervendo aceso
+Colos incêndios dos vossos pelejando,
+Levando o Idololatra, e o Mouro preso,
+De nações diferentes triunfando.
+E sujeita a rica Áurea Quersoneso,
+Até ao longínquo China navegando,
+E as ilhas mais remotas do Oriente,
+Ser-lhe-á todo o Oceano obediente.
+
+55
+"De modo, filha minha, que de jeito
+Amostrarão esforço mais que humano,
+Que nunca se verá tão forte peito,
+Do Gangético mar ao Gaditano,
+Nem das Boreais ondas ao Estreito,
+Que mostrou o agravado Lusitano,
+Posto que em todo o mundo, de afrontados,
+Ressuscitassem todos os passados."
+
+56
+Como isto disse, manda o consagrado
+Filho de Maia à Terra, por que tenha
+Um pacífico porto o sossegado,
+Para onde sem receio a frota venha;
+F, para que em Mombaça, aventurado,
+O forte Capitão se não detenha,
+Lhe manda mais, que em sonhos lhe mostra
+A terra, onde quieto repousasse.
+
+57
+Já pelo ar o Cileneu voava;
+Com as asas nos pés à Terra desce;
+Sua vara fatal na mão levava,
+Com que os olhos cansados adormece:
+Com esta, as tristes almas revocava
+Do Inferno, e o vento lhe obedece.
+Na cabeça o galero costumado.
+E desta arte a Melinde foi chegado.
+
+58
+Consigo a Fama leva, por que diga
+Do Lusitano o preço grande e raro,
+Que o nome ilustre a um certo amor obriga
+E faz, a quem o tem, amado e caro.
+Desta arte vai fazendo a gente amiga,
+Co rumor famosíssimo, e perclaro.
+Já Melinde em desejos arde todo
+De ver da gente forte o gesto e modo.
+
+59
+Dali para Mombaça logo parte,
+Aonde as naus estavam temerosas,
+Para que à gente mande que se aparte
+Da barra amiga e terras suspeitosas:
+Porque mui pouco val esforço e arte,
+Contra infernais vontades enganosas;
+Pouco val coração, astúcia e siso,
+Se lá dos Céus não vem celeste aviso.
+
+60
+No feio caminho a noite tinha anelado,
+E, as estrelas no Céu, coa luz alhea,
+Tinham o largo Mundo alumiado;
+E só co'o sono a gente se recreia.
+O Capitão ilustre, já cansado
+De vigiar a noite que arreceia,
+Breve repouso então aos olhos dava,
+A outra gente a quartos vigiava;
+
+61
+Quando Mercúrio em sonhos lhe aparece,
+Dizendo: "Fuge, fuge, Lusitano,
+Da cilada que o Rei malvado tece,
+Por te trazer ao fim, e extremo dano;
+Fuge, que o vento, e o Céu te favorece;
+Sereno o tempo tens e o Oceano,
+E outro Rei mais amigo, noutra parte,
+Onde podes seguro agasalhar-te.
+
+62
+"Não tens aqui senão aparelhado
+O hospício que o cru Diomedes dava,
+Fazendo ser manjar acostumado
+De cavalos a gente que hospedava;
+As aras de Busíris infamado,
+Onde os hóspedes tristes imolava,
+Terás certas aqui, se muito esperas.
+Fuge das gentes pérfidas e feras.
+
+63
+"Vai-te ao longo da costa discorrendo,
+E outra terra acharás de mais verdade,
+Lá quase junto donde o Sol ardendo
+Iguala o dia e noite em quantidade;
+Ali tua frota alegre recebendo
+Um Rei, com muitas obras de amizade,
+Gasalhado seguro te daria,
+E, para a índia, certa e sábia guia."
+
+64
+Isto Mercúrio disse, e o sono leva
+Ao Capitão, que com mui grande espanto
+Acorda, e vê ferida a escura treva
+De uma súbita luz e raio santo.
+E vendo claro quanto lhe releva
+Não se deter na terra iníqua tanto,
+Com novo espírito ao mestre seu mandava
+Que as velas desse ao vento que assopravam.
+
+65
+"Dai velas, disse, dai ao largo vento,
+Que o Céu nos favorece e Deus o manda;
+Que um mensageiro vi do claro assento
+Que só em favor de nossos passos anda."
+Alevanta-se nisto o movimento
+Dos marinheiros, de uma e de outra banda;
+Levam gritando as âncoras acima,
+Mostrando a ruda força, que se estima.
+
+66
+Neste tempo, que as âncoras levavam,
+Na sombra escura os Mouros escondidos
+Mansamente as amarras lhe cortavam,
+Por serem, dando à costa, destruídos;
+Mas com vista de linces vigiavam
+Os Portugueses, sempre apercebidos.
+Eles, como acordados os sentiram,
+Voando, e não remando, lhe fugiram.
+
+67
+Mas já as agudas proas apartando
+Iam as vias húmidas de argento;
+Assopra-lhe galerno o vento, e brando,
+Com suave e seguro movimento.
+Nos perigos passados vão falando,
+Que mal se perderão do pensamento
+Os casos grandes, donde em tanto aperto
+A vida em salvo escapa por acerto.
+
+68
+Tinha uma volta dado o Sol ardente
+E noutro começava, quando viram
+Ao longe deus navios, brandamente
+Co'os ventos navegando, que respiram:
+Porque haviam de ser da Maura gente,
+Para eles arribando, as velas viram:
+Um, de temor do mal que arreceava,
+Por se salvar a gente à costa dava.
+
+69
+Não é o outro que fica tão manhoso;
+Mas nas mãos vai cair do Lusitano,
+Sem o rigor de Marte furioso,
+E sem a fúria horrenda de Vulcano;
+Que como fosse débil e medroso
+Da pouca gente o fraco peito humano,
+Não teve resistência; e se a tivera,
+Mais dano resistindo recebera.
+
+70
+E como o Gama muito desejasse
+Piloto para a Índia que buscava,
+Cuidou que entre estes Mouros o tomasse;
+Mas não lhe sucedeu como cuidava,
+Que nenhum deles há que lhe ensinasse
+A que parte dos céus a Índia estava;
+Porém dizem-lhe todos, que tem perto
+Melinde, onde achará piloto certo.
+
+71
+Louvam do Rei os Mouros a bondade,
+Condição liberal, sincero peito,
+Magnificência grande e humanidade,
+Com partes de grandíssimo respeito.
+O Capitão o assela por verdade,
+Porque já lhe dissera, deste jeito,
+Cileneu em sonhos; e partia
+Para onde o sonho e o Mouro lhe dizia.
+
+72
+Era no tempo alegre, quando entrava
+No roubador de Europa a luz Febeia,
+Quando um e outro corno lhe aquentava,
+E Flora derramava o de Amalteia:
+A memória do dia renovava
+O pressuroso Sol, que o Céu rodeia,
+Em que Aquele, a quem tudo está sujeito,
+O selo pôs a quanto tinha feito;
+
+73
+Quando chegava a frota àquela parte,
+Onde o Reino Melinde já se via,
+De toldos adornada, e leda de arte
+Que bem mostra estimar o santo dia.
+Treme a bandeira, voa o estandarte,
+A cor purpúrea ao longe aparecia;
+Soam os atambores o pandeiros,
+E assim entravam ledos e guerreiros.
+
+74
+Enche-se toda a praia Melindana
+Da gente que vem ver a leda armada,
+Gente mais verdadeira, e mais humana,
+Que toda a doutra terra atrás deixada.
+Surge diante a frota Lusitana,
+Pega no fundo a âncora pesada;
+Mandam fora um dos Mouros que tomaram,
+Por quem sua vinda ao Rei manifestaram.
+
+75
+O Rei, que já sabia da nobreza
+Que tanto os Portugueses engrandece,
+Tomarem o seu porto tanto preza,
+Quanto a gente fortíssima merece:
+E com verdadeiro ânimo e pureza,
+Que os peitos generosos enobrece,
+Lhe manda rogar muito que saíssem,
+Para que de seus reinos se servissem.
+
+76
+São oferecimentos verdadeiros,
+E palavras sinceras, não dobradas,
+As que o Rei manda aos nobres cavaleiros,
+Que tanto mar e terras tem passadas.
+Manda-lhe mais lanígeros carneiros,
+E galinhas domésticas cevadas,
+Com as frutas, que então na terra havia;
+E a vontade à dádiva excedia.
+
+77
+Recebe o Capitão alegremente
+O mensageiro ledo e seu recado;
+E logo manda ao Rei outro presente,
+Que de longe trazia aparelhado:
+Escarlata purpúrea, cor ardente,
+O ramoso coral, fino e prezado,
+Que debaixo das águas mole cresce,
+E como é fora delas se endurece.
+
+78
+Manda mais um, na prática elegante,
+Que co'o Rei nobre as pazes concertasse,
+E que de não sair naquele instante
+De suas naus em terra o desculpasse.
+Partido assim o embaixador prestante,
+Como na terra ao Rei se apresentasse,
+Com estilo que Palas lhe ensinava,
+Estas palavras tais falando orava:
+
+79
+"Sublime Rei, a quem do Olimpo puro
+Foi da suma Justiça concedido
+Refrear o soberbo povo duro,
+Não menos dele amado, que temido:
+Como porto mui forte e mui seguro,
+De todo o Oriente conhecido,
+Te vimos a buscar, para que achemos
+Em ti o remédio certo que queremos.
+
+80
+"Não somos roubadores, que passando
+Pelas fracas cidades descuidadas,
+A ferro e a fogo as gentes vão matando,
+Por roubar-lhe as fazendas cobiçadas;
+Mas da soberba Europa navegando,
+Imos buscando as terras apartadas
+Da Índia grande e rica, por mandado
+De um Rei que temos, alto e sublimado.
+
+81
+"Que geração tão dura há hi de gente,
+Que bárbaro costume e usança feia,
+Que não vedem os portos tão somente,
+Mas inda o hospício da deserta areia?
+Que má tenção, que peito em nós se sente,
+Que de tão pouca gente se arreceia?
+Que com laços armados, tão fingidos,
+Nos ordenassem ver-nos destruídos?
+
+82
+"Mas tu, e quem mui certo confiamos
+Achar-se mais verdade, ó Rei benigno,
+E aquela certa ajuda em ti esperamos,
+Que teve o perdido Ítaco em Alcino,
+A teu porto seguro navegamos,
+Conduzidos do intérprete divino;
+Que, pois a ti nos manda, está mui claro,
+Que és de peito sincero, humano e raro.
+
+83
+"E não cuides, ó Rei, que não saísse
+O nosso Capitão esclarecido
+A ver-te, ou a servir-te, porque visse
+Ou suspeitasse em ti peito fingido:
+Mas saberás que o fez, porque cumprisse
+O regimento, em tudo obedecido,
+De seu Rei, que lhe manda que não saia,
+Deixando a frota, em nenhum porto ou praia.
+
+84
+"E porque é, de vassalos o exercício,
+Que os membros tem regidos da cabeça,
+Não quererás, pois tens de Rei o ofício,
+Que ninguém a seu Rei desobedeça;
+Mas as mercês e o grande benefício,
+Que ora acha em ti, promete que conheça
+Em tudo aquilo que ele e os seus puderem,
+Enquanto os rios para o mar correrem."
+
+85
+Assim dizia; e todos juntamente,
+Uns com outros em prática falando,
+Louvavam muito o estâmago da gente,
+Que tantos céus e mares vai passando.
+E o Rei ilustre, o peito obediente
+Dos Portugueses na alma imaginando,
+Tinha por valor grande e mui subido
+O do Rei que é tão longe obedecido.
+
+86
+E com risonha vista e ledo aspeito,
+Responde ao embaixador, que tanto estima:
+"Toda a suspeita má tirai do peito,
+Nenhum frio temor em vós se imprima;
+Que vosso preço e obras são de jeito
+Para vos ter o mundo em muita estima;
+E quem vos fez molesto tratamento,
+Não pode ter subido pensamento.
+
+87
+"De não sair em terra toda a gente,
+Por observar a usada preminência,
+Ainda que me pese estranhamente,
+Em muito tenho a muita obediência;
+Mas, se lho o regimento não consente,
+Nem eu consentirei que a excelência
+De peitos tão leais em si desfaça,
+Só porque a meu desejo satisfaça.
+
+88
+"Porém, como a luz crástina chegada
+Ao mundo for, em minhas almadias
+Eu irei visitar a forte armada,
+Que ver tanto desejo, há tantos dias;
+E se vier do mar desbaratada,
+Do furioso vento e longas vias,
+Aqui terá, de limpos pensamentos,
+Piloto, munições e mantimentos."
+
+89
+Isto disse; e nas águas se escondia
+O filho de Latona; e o mensageiro
+Coa embaixada alegre se partia
+Para a frota, no seu batel ligeiro.
+Enchem-se os peitos todos de alegria.
+Por terem o remédio verdadeiro
+Para acharem a terra que buscavam;
+E assim ledos a noite festejavam.
+
+90
+Não faltam ali os raios de artifício,
+Os trêmulos cometas imitando;
+Fazem os bombardeiros seu ofício,
+O céu, a terra e as ondas atroando.
+Mostra-se dos Ciclopas o exercício
+Nas bombas que de fogo estão queimando;
+Outros com vozes, com que o céu feriam,
+Instrumentos altíssonos tangiam.
+
+91
+Respondem-lhe da terra juntamente,
+Co'o raio volteando, com zunido;
+Anda em giros no ar a roda ardente,
+Estoura o pó sulfúreo escondido.
+A grita se alevanta ao céu, da gente;
+O mar se via em fogos acendido,
+E não menos a terra; e assim festeja
+Um ao outro, a maneira de peleja.
+
+92
+Mas já o Céu inquieto revolvendo,
+As gentes incitava a seu trabalho,
+E já a mãe de Menon a luz trazendo,
+Ao sono longo punha certo atalho;
+Iam-se as sombras lentas desfazendo,
+Sobre as flores da terra em frio orvalho,
+Quando o Rei Melindano se embarcava
+A ver a frota, que no mar estava.
+
+93
+Viam-se em derredor ferver as praias
+Da gente, que a ver só concorre leda;
+Luzem da fina púrpura as cabaias,
+Lustram os panos da tecida seda;
+Em lugar das guerreiras azagaias
+E do arco, que os cornos arremeda
+Da Lua, trazem ramos de palmeira,
+Dos que vencem, coroa verdadeira.
+
+94
+Um batel grande e largo, que toldado
+Vinha de sedas de diversas cores,
+Traz o Rei de Melinde, acompanhado
+De nobres e seu Reino e de senhores:
+Vem de ricos vestidos adornado,
+Segundo seus costumes e primores;
+Na cabeça uma fota guarnecida
+De ouro, e de seda e de algodão tecida.
+
+95
+Cabaia de Damasco rico e dino,
+Da Tíria cor, entre eles estimada,
+Um colar ao pescoço, de ouro fino,
+Onde a matéria da obra é superada,
+C'um resplendor reluze adamantino;
+Na cinta, a rica bem lavrada;
+Nas alparcas dos pés, em fim de tudo,
+Cobrem ouro e aljôfar ao veludo.
+
+96
+Com um redondo emparo alto de seda,
+Numa alta e dourada hástia enxerido,
+Um ministro à solar quentura veda.
+Que não ofenda e queime o Rei subido.
+Música traz na proa, estranha e leda,
+De áspero som, horríssono ao ouvido,
+De trombetas arcadas em redondo,
+Que, sem concerto, fazem rudo estrondo.
+
+97
+Não menos guarnecido o Lusitano
+Nos seus batéis, da frota se partia
+A receber no mar o Melindano,
+Com lustrosa e lograda companhia.
+Vestido o Gama vem ao modo Hispano,
+Mas Francesa era a roupa que vestia,
+De cetim da Adriática Veneza
+Carmesi, cor que a gente tanto preza:
+
+98
+De botões douro as mangas vêm tomadas,
+Onde o Sol reluzindo a vista cega;
+As calças soldadescas recamadas
+Do metal, que Fortuna a tantos nega,
+E com pontas do mesmo delicadas
+Os golpes do gibão ajunta e achega;
+Ao Itálico modo a áurea espada;
+Pluma na gorra, um pouco declinada.
+
+99
+Nos de sua companhia se mostrava
+Da tinta, que dá o múrice excelente,
+A vária cor, que os olhos alegrava,
+E a maneira do trajo diferente.
+Tal o formoso esmalte se notava
+Dos vestidos, olhados juntamente,
+Qual aparece o arco rutilante
+Da bela Ninfa, filha de Taumante.
+
+100
+Sonorosas trombetas incitavam
+Os ânimos alegres, ressoando;
+Dos Mouros os batéis, o mar coalhavam,
+Os toldos pelas águas arrojando;
+As bombardas horríssonas bramavam,
+Com as nuvens de fumo o Sol tomando;
+Amiúdam-se os brados acendidos,
+Tapam com as mãos os Mouros os ouvidos.
+
+101
+Já no batel entrou do Capitão
+O Rei, que nos seus braços o levava;
+Ele coa cortesia, que a razão
+(Por ser Rei) requeria, lhe falava.
+C'umas mostras de espanto e admiração,
+O Mouro o gesto e o modo lhe notava,
+Como quem em mui grande estima tinha
+Gente que de tão longe à índia vinha.
+
+102
+E com grandes palavras lhe oferece
+Tudo o que de seus Reinos lhe cumprisse,
+E que, se mantimento lhe falece,
+Como se próprio fosse, lho pedisse.
+Diz-lhe mais, que por fama bem conhece
+A gente Lusitana, sem que a visse;
+Que já ouviu dizer, que noutra terra
+Com gente de sua Lei tivesse guerra.
+
+103
+E como por toda África se soa,
+Lhe diz, os grandes feitos que fizeram,
+Quando nela ganharam a coroa
+Do Reino, onde as Hespéridas viveram;
+E com muitas palavras apregoa
+O menos que os de Luso mereceram,
+E o mais que pela fama o Rei sabia.
+Mas desta sorte o Gama respondia:
+
+104
+"Ó tu, que só tiveste piedade,
+Rei benigno, da gente Lusitana,
+Que com tanta miséria e adversidade
+Dos mares experimenta a fúria insana;
+Aquela alta e divina Eternidade,
+Que o Céu revolve e rege a gente humana,
+Pois que de ti tais obras recebemos,
+Te pague o que nós outros não podemos.
+
+105
+"Tu só, de todos quantos queima Apolo,
+Nos recebes em paz, cio mar profundo;
+Em ti dos ventos hórridos de Eolo
+Refúgio achamos bom, fido e jocundo.
+Enquanto apascentar o largo Pólo
+As Estrelas, e o Sol der lume ao Mundo,
+Onde quer que eu viver, com fama e glória
+Viverão teus louvores em memória."
+
+106
+Isto dizendo, os barcos vão remando
+Para a frota, que o Mouro ver deseja;
+Vão as naus uma e uma rodeando,
+Porque de todas tudo note e veja.
+Mas para o céu Vulcano fuzilando,
+A frota coas bombardas o festeja,
+E as trombetas canoras lhe tangiam;
+Co'os anafis os Mouros respondiam.
+
+107
+Mas depois de ser tudo já notado
+Do generoso Mouro, que pasmava
+Ouvindo o instrumento inusitado,
+Que tamanho terror em si mostrava,
+Mandava estar quieto e ancorado
+N'água o batel ligeiro que os levava,
+Por falar de vagar co'o forte Gama,
+Nas cousas de que tem notícia e faina.
+
+108
+Em práticas o Mouro diferentes
+Se deleitava, perguntando agora
+Pelas guerras famosas e excelentes
+Co'o povo havidas, que a Mafoma adora;
+Agora lhe pergunta pelas gentes
+De toda a Hespéria última, onde mora;
+Agora pelos povos seus vizinhos,
+Agora pelos úmidos caminhos.
+
+109
+"Mas antes, valeroso Capitão,
+Nos conta, lhe dizia, diligente,
+Da terra tua o clima, e região
+Do mundo onde morais distintamente;
+E assim de vossa antiga geração,
+E o princípio do Reino tão potente,
+Co'os sucessos das guerras do começo,
+Que, sem sabê-las, sei que são de preço.
+
+110
+"E assim também nos conta dos rodeios
+Longos, em que te traz o mar irado,
+Vendo os costumes bárbaros alheios.
+Que a nossa África ruda tem criado.
+Conta: que agora vêm co'os áureos freios
+Os cavalos que o carro marchetado
+Do novo Sol, da fria Aurora trazem,
+O vento dorme, o mar e as ondas jazem.
+
+111
+"E não menos co'o tempo se parece
+O desejo de ouvir-te o que contares;
+Que quem há, que por fama não conhece
+As obras Portuguesas singulares?
+Não tanto desviado resplandece
+De nós o claro Sol, para julgares
+Que os Melindanos têm tão rudo peito,
+Que não estimem muito um grande feito.
+
+112
+"Cometeram soberbos os Gigantes,
+Com guerra vã, o Olimpo claro e puro;
+Tentou Pirítoo e Teseu, de ignorantes,
+O Reino de Plutão horrendo e escuro.
+Se houve feitos no mundo tão possantes,
+Não menos é trabalho ilustre e duro,
+Quanto foi cometer Inferno o Céu,
+Que outrem cometa a fúria de Nereu.
+
+113
+"Queimou o sagrado templo de Diana,
+Do subtil Tesifónio fabricado,
+Heróstrato, por ser da gente humana
+Conhecido no mundo e nomeado:
+Se também com tais obras nos engana
+O desejo de um nome avantajado,
+Mais razão há que queira eterna glória
+Quem faz obras tão dignas de memória."
+
+Canto Terceiro
+
+1
+Agora tu, Calíope, me ensina
+O que contou ao Rei o ilustre Gama:
+Inspira imortal canto e voz divina
+Neste peito mortal, que tanto te ama.
+Assim o claro inventor da Medicina,
+De quem Orfeu pariste, ó linda Dama,
+Nunca por Dafne, Clície ou Leucotoe,
+Te negue o amor devido, como soe.
+
+2
+Põe tu, Ninfa, em efeito meu desejo,
+Como merece a gente Lusitana;
+Que veja e saiba o mundo que do Tejo
+O licor de Aganipe corre e mana.
+Deixa as flores de Pindo, que já vejo
+Banhar-me Apolo na água soberana;
+Senão direi que tens algum receio,
+Que se escureça o teu querido Orfeio.
+
+3
+Prontos estavam todos escutando
+O que o sublime Gama contaria,
+Quando, depois de um pouco estar cuidando,
+Alevantando o rosto, assim dizia:
+"Mandas-me, ó Rei, que conte declarando
+De minha gente a grão genealogia:
+Não me mandas contar estranha história,
+Mas mandas-me louvar dos meus a glória.
+
+4
+"Que outrem possa louvar esforço alheio,
+Cousa é que se costuma e se deseja;
+Mas louvar os meus próprios, arreceio
+Que louvor tão suspeito mal me esteja;
+E para dizer tudo, temo e creio,
+Que qualquer longo tempo curto seja:
+Mas, pois o mandas, tudo se te deve,
+Irei contra o que devo, e serei breve.
+
+5
+"Além disso, o que a tudo enfim me obriga,
+É não poder mentir no que disser,
+Porque de feitos tais, por mais que diga,
+Mais me há-de ficar inda por dizer.
+Mas, porque nisto a ordens leve e siga,
+Segundo o que desejas de saber,
+Primeiro tratarei da larga terra,
+Depois direi da sanguinosa guerra.
+
+6
+"Entre a Zona que o Cancro senhoreia,
+Meta setentrional do Sol luzente,
+E aquela que por f ria se arreceia
+Tanto, como a do meio por ardente,
+Jaz a soberba Europa, a quem rodeia,
+Pela parte do Areturo, e do Ocidente,
+Com suas salsas ondas o Oceano,
+E pela Austral o mar Mediterrano.
+
+7
+"Da parte donde o dia vem nascendo,
+Com Ásia se avizinha; mas o rio
+Que dos montes Rifeios vai correndo,
+Na alagoa Meotis, curvo o frio,
+As divide: e o mar que, fero e horrendo,
+Viu dos Gregos o irado senhorio,
+Onde agora de Tróia triunfante
+Não vê mais que a memória o navegante.
+
+8
+"Lá onde mais debaixo está do Pólo,
+Os montes Hiperbóreos aparecem,
+E aqueles onde sempre sopra Eolo,
+E co'o nome, dos sopros se enobrecem.
+Aqui tão pouca força tem de Apolo
+Os raios que no mundo resplandecem,
+Que a neve está contido pelos montes,
+Gelado o mar, geladas sempre as fontes.
+
+9
+"Aqui dos Citas grande quantidade
+Vivem, que antigamente grande guerra
+Tiveram, sobre a humana antiguidade,
+Co'os que tinham então a Egípcia terra;
+Mas quem tão fora estava da verdade,
+(Já que o juízo humano tanto erra)
+Para que do mais certo se informara,
+Ao campo Damasceno o perguntara.
+
+10
+"Agora nestas partes se nomeia
+A Lápia fria, a inculta Noruega,
+Escandinávia Ilha, que se arreia
+Das vitórias que Itália não lhe nega.
+Aqui, enquanto as águas não refreia
+O congelado inverno, se navega
+Um braço do Sarmático Oceano
+Pelo Brúsio, Suécio e frio Dano.
+
+11
+"Entre este mar e o Tánais vive estranha
+Gente: Rutenos, Moseos e Livónios,
+Sármatas outro tempo; e na montanha
+Hircínia os Marcomanos são Polónios.
+Sujeitos ao Império de Alemanha
+São Saxones, Boêmios e Panónios,
+E outras várias nações, que o Reno frio
+Lava, e o Danúbio, Amasis e Albis rio.
+
+12
+"Entre o remoto Istro e o claro Estreito,
+Aonde Hele deixou co'o nome a vida,
+Estão os Traces de robusto peito,
+Do fero Marte pátria tão querida,
+Onde, colo Hemo, o Ródope sujeito
+Ao Otomano está, que submetida
+Bizâncio tem a seu serviço indino:
+Boa injúria do grande Constantino!
+
+13
+"Logo de Macedónia estão as gentes,
+A quem lava do Axio a água fria;
+E vós também, ó terras excelentes
+Nos costumes, engenhos e ousadia,
+Que criastes os peitos eloquentes
+E os juízos de alta fantasia,
+Com quem tu, clara Grécia, o Céu penetras,
+E não menos por armas, que por letras.
+
+14
+"Logo os Dálmatas vivem; e no seio,
+Onde Antenor já muros levantou,
+A soberba Veneza está no meio
+Das águas, que tão baixa começou.
+Da terra um braço vem ao mar, que cheio
+De esforço, nações várias sujeitou,
+Braço forte, de gente sublimada,
+Não menos nos engenhos, que na espada.
+
+15
+"Em torno o cerca o Reino Neptunino,
+Co'os muros naturais por outra parte;
+Pelo meio o divide o Apenino,
+Que tão ilustre fez o pátrio Marte;
+Mas depois que o Porteiro tem divino,
+Perdendo o esforço veio, e bélica arte;
+Pobre está já de antiga potestade:
+Tanto Deus se contenta de humildade!
+
+16
+"Gália ali se verá que nomeada
+Co'os Cesáreos triunfos foi no mundo,
+Que do Séquana e Ródano é regada,
+E do Giruna frio e Reno fundo.
+Logo os montes da Ninfa sepultada
+Pirene se alevantam, que segundo
+Antiguidades contam, quando arderam,
+Rios de ouro e de prata então correram.
+
+17
+"Eis aqui se descobre a nobre Espanha,
+Como cabeça ali de Europa toda,
+Em cujo senhorio o glória estranha
+Muitas voltas tem dado a fatal roda;
+Mas nunca poderá, com força ou manha,
+A fortuna inquieta pôr-lhe noda,
+Que lhe não tire o esforço e ousadia
+Dos belicosos peitos que em si cria.
+
+18
+"Com Tingitânia entesta, e ali parece
+Que quer fechar o mar Mediterrano,
+Onde o sabido Estreito se enobrece
+Co'o extremo trabalhado Tebano.
+Com nações diferentes se engrandece,
+Cercadas com as ondas do Oceano;
+Todas de tal nobreza e tal valor,
+Que qualquer delas cuida que é melhor.
+
+19
+"Tem o Tarragonês, que se fez claro
+Sujeitando Parténope inquieta;
+O Navarro, as Astúrias, que reparo
+Já foram contra a gente Mahometa;
+Tem o Galego cauto, e o grande e raro
+Castelhano, a quem fez o seu Planeta
+Restituidor de Espanha e senhor dela,
+Bétis, Lião, Granada, com Castela.
+
+20
+"Eis aqui, quase cume da cabeça
+De Europa toda, o Reino Lusitano,
+Onde a terra se acaba e o mar começa,
+E onde Febo repousa no Oceano.
+Este quis o Céu justo que floresça
+Nas armas contra o torpe Mauritano,
+Deitando-o de si fora, e lá na ardente
+África estar quieto o não consente.
+
+22
+"Esta é a ditosa pátria minha amada,
+A qual se o Céu me dá que eu sem perigo
+Torne, com esta empresa já acabada,
+Acabe-se esta luz ali comigo.
+Esta foi Lusitânia, derivada
+De Luso, ou Lisa, que de Baco antigo
+Filhos foram, parece, ou companheiros,
+E nela então os Íncolas primeiros.
+
+22
+"Desta o pastor nasceu, que no seu nome
+Se vê que de homem forte os feitos teve;
+Cuja fama ninguém virá que dome,
+Pois a grande de Roma não se atreve.
+Esta, o velho que os filhos próprios come
+Por decreto do Céu, ligeiro e leve,
+Veio a fazer no mundo tanta parte,
+Criando-a Reino ilustre; e foi desta arte:
+
+23
+"Um Rei, por nome Afonso, foi na Espanha,
+Que fez aos Sarracenos tanta guerra,
+Que por armas sanguinas, força e manha,
+A muitos fez perder a vida o a terra;
+Voando deste Rei a fama estranha
+Do Herculano Calpe à Cáspia serra,
+Muitos, para na guerra esclarecer-se,
+Vinham a ele e à morte oferecer-se.
+
+24
+"E com um amor intrínseco acendidos
+Da Fé, mais que das honras populares,
+Eram de várias terras conduzidos,
+Deixando a pátria amada e próprios lares.
+Depois que em feitos altos e subidos
+Se mostraram nas armas singulares,
+Quis o famoso Afonso que obras tais
+Levassem prémio digno e dons iguais.
+
+25
+"Destes Anrique, dizem que segundo
+Filho de um Rei de Ungria exprimentado,
+Portugal houve em sorte, que no mundo
+Então não era ilustre nem prezado;
+E, para mais sinal d'amor profundo,
+Quis o Rei Castelhano, que casado
+Com Teresa, sua filha, o Conde fosse;
+E com ela das terras tornou posse.
+
+26
+"Este, depois que contra os descendentes
+Da escrava Agar vitórias grandes teve,
+Ganhando muitas terras adjacentes,
+Fazendo o que a seu forte peito deve,
+Em prémio destes feitos excelentes,
+Deu-lhe o supremo Deus, em tempo breve,
+Um filho, que ilustrasse o nome ufano
+Do belicoso Reino Lusitano.
+
+27
+"Já tinha vindo Anrique da conquista
+Da cidade Hierosólima sagrada,
+E do Jordão a areia tinha vista,
+Que viu de Deus a carne em si lavada;
+Que não tendo Gotfredo a quem resista,
+Depois de ter Judeia sojugada,
+Muitos, que nestas guerras o ajudaram,
+Para seus senhorios se tornaram;
+
+28
+"Quando chegado ao fim de sua idade,
+O forte e famoso Úngaro estremado,
+Forçado da fatal necessidade,
+O espírito deu a quem lhe tinha dado,
+Ficava o filho em tenra mocidade,
+Em quem o pai deixava seu traslado,
+Que do mundo os mais fortes igualava;
+Que de tal pai tal filho se esperava.
+
+29
+"Mas o velho rumor, não sei se errado,
+Que em tanta antiguidade não há certeza,
+Conta que a mãe, tomando todo o estado,
+Do segundo himeneu não se despreza.
+O filho órfão deixava deserdado,
+Dizendo que nas terras a grandeza
+Do senhorio todo só sua era,
+Porque, para casar, seu pai lhes dera.
+
+30
+"Mas o Príncipe Afonso, que desta arte
+Se chamava, do avô tomando o nome,
+Vendo-se em suas terras não ter parte,
+Que a mãe, com seu marido, as manda e come,
+Fervendo-lhe no peito o duro Marte,
+Imagina consigo como as tome.
+Revolvidas as causas no conceito,
+Ao propósito firme segue o efeito.
+
+31
+"De Guimarães o campo se tingia
+Co'o sangue próprio da intestina guerra,
+Onde a mãe, que tão pouco o parecia,
+A seu filho negava o amor e a terra.
+Com ele posta em campo já se via;
+E não vê a soberba o muito que erra
+Contra Deus, contra o maternal amor;
+Mas nela o sensual era maior.
+
+32
+"Ó Progne crua! ó mágica Medeia!
+Se em vossos próprios filhos vos vingais
+Da maldade dos pais, da culpa alheia,
+Olhai que inda Teresa peca mais:
+Incontinência má, cobiça feia,
+São as causas deste erro principais:
+Cila, por uma, mata o velho pai,
+Esta, por ambas, contra o filho vai.
+
+33
+"Mas já o Príncipe claro o vencimento
+Do padrasto e da iníqua mãe levava;
+Já lhe obedece a terra num momento,
+Que primeiro contra ele pelejava.
+Porém, vencido de ira o entendimento,
+A mãe em ferros ásperos atava;
+Mas de Deus foi vingada em tempo breve:
+Tanta veneração aos pais se deve!
+
+34
+"Eis se ajunta o soberbo Castelhano,
+Para vingar a injúria de Teresa,
+Contra o tão raro em gente Lusitano,
+A quem nenhum trabalho agrava ou pesa.
+Em batalha cruel o peito humano,
+Ajudado da angélica defesa,
+Não só contra tal fúria se sustenta,
+Mas o inimigo aspérrimo afugenta.
+
+35
+"Não passa muito tempo, quando o forte
+Príncipe em Guimarães está cercado
+De infinito poder; que desta sorte
+Foi refazer-se o inimigo magoado;
+Mas, com se oferecer à dura morte
+O fiel Egas amo, foi livrado;
+Que de outra arte pudera ser perdido,
+Segundo estava mal apercebido.
+
+36
+"lulas o leal vassalo, conhecendo
+Que seu senhor não tinha resistência,
+Se vai ao Castelhano, prometendo
+Que ele faria dar-lhe obediência.
+Levanta o inimigo o cerco horrendo,
+Fiado na promessa e consciência
+De Egas Moniz; mas não consente o peito
+Do moço ilustre a outrem ser sujeito.
+
+37
+"Chegado tinha o prazo prometido,
+Em que o Rei Castelhano já aguardava
+Que o Príncipe, a seu mando sometido,
+Lhe desse a obediência que esperava.
+Vendo Egas que ficava fementido,
+O que dele Castela não cuidava,
+Determina de dar a doce vida
+A troco da palavra mal cumprida.
+
+38
+"E com seus filhos e mulher se parte
+A alevantar com eles a fiança,
+Descalços e despidos, de tal arte,
+Que mais move a piedade que a vingança.
+--"Se pretendes, Rei alto, de vingar-te
+De minha temerária confiança,
+Dizia, eis aqui venho oferecido
+A te pagar, coa vida, o prometido.
+
+39
+"Vês aqui trago as vidas inocentes
+Dos filhos sem pecado e da consorte;
+Se a peitos generosos e excelentes,
+Dos fracos satisfaz a fera morte.
+Vês aqui as mãos e a língua delinquentes:
+Nelas sós exprimenta toda a sorte
+De tormentos, de mortes, pelo estilo
+De Cínis e do touro de Perilo"!--
+
+40
+"Qual diante do algoz o condenado,
+Que já na vida a morte tem bebido,
+Põe no cepo a garganta, e já entregado
+Espera pelo golpe tão temido:
+Tal diante do Príncipe indinado,
+Egas estava a tudo oferecido.
+Mas o Rei, vendo a estranha lealdade,
+Mais pôde, enfim, que a ira a piedade.
+
+41
+"Ó grão fidelidade Portuguesa,
+De vassalo, que a tanto se obrigava!
+Que mais o Persa fez naquela empresa,
+Onde rosto e narizes se cortava?
+Do que ao grande Dario tanto pesa,
+Que mil vezes dizendo suspirava,
+Que mais o seu Zopiro são prezara,
+Que vinte Babilónias que tomara.
+
+42
+Mas já o Príncipe Afonso aparelhava
+O Lusitano exército ditoso,
+Contra o Mouro que as terras habitava
+D'além do claro Tejo deleitoso;
+Já no campo de Ourique se assentava
+O arraial soberbo e belicoso,
+Defronte do inimigo Sarraceno,
+Posto que em força e gente tão pequeno.
+
+43
+"Em nenhuma outra cousa confiado,
+Senão no sumo Deus, que o Céu regia,
+Que tão pouco era o povo batizado,
+Que para um só cem Mouros haveria.
+Julga qualquer juízo sossegado
+Por mais temeridade que ousadia,
+Cometer um tamanho ajuntamento,
+Que para um cavaleiro houvesse cento.
+
+44
+"Cinco Reis Mouros são os inimigos,
+Dos quais o principal Ismar se chama;
+Todos exprimentados nos perigos
+Da guerra, onde se alcança a ilustre fama.
+Seguem guerreiras damas seus amigos,
+Imitando a formosa e forte Dama,
+De quem tanto os Troianos se ajudaram,
+E as que o Termodonte já gostaram.
+
+45
+"A matutina luz serena e fria,
+As estrelas do Pólo já apartava,
+Quando na Cruz o Filho de Maria,
+Amostrando-se a Afonso, o animava.
+Ele, adorando quem lhe aparecia,
+Na Fé todo inflamado assim gritava:
+--"Aos infiéis, Senhor, aos infiéis,
+E não a mim, que creio o que podeis!"
+
+46
+"Com tal milagre os ânimos da gente
+Portuguesa inflamados, levantavam
+Por seu Rei natural este excelente
+Príncipe, que do peito tanto amavam;
+E diante do exército potente
+Dos imigos, gritando o céu tocavam,
+Dizendo em alta voz:--"Real, real,
+Por Afonso alto Rei de Portugal."
+
+47
+"Qual co'os gritos e vozes incitado,
+Pela montanha o rábido Moloso,
+Contra o touro remete, que fiado
+Na força está do corno temeroso:
+Ora pega na orelha, ora no lado,
+Latindo mais ligeiro que forçoso,
+Até que enfim, rompendo-lhe a garganta,
+Do bravo a força horrenda se quebranta:
+
+48
+"Tal do Rei novo o estâmago acendido
+Por Deus e pelo povo juntamente,
+O Bárbaro comete apercebido,
+Co'o animoso exército rompente.
+Levantam nisto os perros o alarido
+Dos gritos, tocam a arma, ferve a gente,
+As lanças e arcos tomam, tubas soam,
+Instrumentos de guerra tudo atroam.
+
+49
+"Bem como quando a flama, que ateada
+Foi nos áridos campos (assoprando
+O sibilante Bóreas) animada
+Co'o vento, o seco mato vai queimando;
+A pastoral companha, que deitada
+Co'o doce sono estava, despertando
+Ao estridor do fogo que se ateia,
+Recolhe o fato, e foge para a aldeia:
+
+50
+"Desta arte o Mouro atónito e torvado,
+Toma sem tento as armas mui depressa;
+Não foge; mas espera confiado,
+E o ginete belígero arremessa.
+O Português o encontra denodado,
+Pelos peitos as lanças lhe atravessa:
+Uns caem meios mortos, e outros vão
+A ajuda convocando do Alcorão.
+
+51
+"Ali se vêem encontros temerosos,
+Para se desfazer uma alta serra,
+E os animais correndo furiosos
+Que Neptuno amostrou ferindo a terra.
+Golpes se dão medonhos e forçosos;
+Por toda a parte andava acesa a guerra:
+Mas o de Luso arnês, couraça e malha
+Rompe, corta, desfaz, abola e talha.
+
+52
+"Cabeças pelo campo vão saltando
+Braços, pernas, sem dono e sem sentido;
+E doutros as entranhas palpitando,
+Pálida a cor, o gesto amortecido.
+Já perde o campo o exército nefando;
+Correm rios de sangue desparzido,
+Com que também do campo a cor se perde,
+Tornado carmesi de branco e verde.
+
+53
+"Já fica vencedor o Lusitano,
+Recolhendo os troféus e presa rica;
+Desbaratado e roto o Mauro Hispano,
+Três dias o grão Rei no campo fiei.
+Aqui pinta no branco escudo ufano,
+Que agora esta vitória certifica,
+Cinco escudos azuis esclarecidos,
+Em sinal destes cinco Reis vencidos,
+
+54
+"E nestes cinco escudos pinta os trinta
+Dinheiros por que Deus fora vendido,
+Escrevendo a memória em vária tinta,
+Daquele de quem foi favorecido.
+Em cada uni dos cinco, cinco pinta,
+Porque assim fica o número cumprido,
+Contando duas vezes o do meio,
+Dos cinco azuis, que em cruz pintando veio.
+
+55
+"Passado já algum tempo que passada
+Era esta grão vitória, o Rei subido
+A tomar vai Leiria, que tomada
+Fora, mui pouco havia, do vencido.
+Com esta a forte Arronches sojugada
+Foi juntamente, e o sempre enobrecido
+Scalabicastro, cujo campo ameno,
+Tu, claro Tejo, regas tão sereno.
+
+56
+"A estas nobres vilas sometidas,
+Ajunta também Mafra, em pouco espaço,
+E nas serras da Lua conhecidas,
+Sojuga a fria Sintra o duro braço;
+Sintra, onde as Naiades, escondidas
+Nas fontes, vão fugindo ao doce laço,
+Onde Amor as enreda brandamente,
+Nas águas acendendo fogo ardente.
+
+57
+"E tu, nobre Lisboa, que no Mundo
+Facilmente das outras és princesa,
+Que edificada foste do facundo,
+Por cujo engano foi Dardânia acesa;
+Tu, a quem obedece o mar profundo,
+Obedeceste à força Portuguesa,
+Ajudada também da forte armada,
+Que das Boreais partes foi mandada.
+
+58
+"Lá do Germânico Albis, e do Rene,
+E da fria Bretanha conduzidos,
+A destruir o povo Sarraceno,
+Muitos com tensão santa eram partidos.
+Entrando a boca já do Tejo ameno,
+Co'o arraial do grande Afonso unidos,
+Cuja alta fama então subia aos Céus,
+Foi posto cerco tos muros Ulisseus.
+
+59
+"Cinco vezes a Lua se escondera,
+E outras tantas mostrara cheio o rosto,
+Quando a cidade entrada se rendera
+Ao duro cerco, que lhe estava posto.
+Foi a batalha tão sanguina e fera,
+Quanto obrigava o firme pressuposto
+De vencedores ásperos e ousados,
+E de vencidos já desesperados.
+
+60
+"Desta arte enfim tomada se rendeu
+Aquela que, nos tempos já passados,
+A grande força nunca obedeceu
+Dos frios povos Cíticos ousados,
+Cujo poder a tanto se estendeu
+Que o Ibero o viu e o Tejo amedrontados;
+E enfim co'o Bétis tanto alguns puderam
+Que à terra de Vandália nome deram.
+
+61
+"Que cidade tão forte por ventura
+Haverá que resista, se Lisboa
+Não pôde resistir à força dura
+Da gente, cuja fama tanto voa?
+Já lhe obedece toda a Estremadura,
+Óbidos, Alenquer, por onde soa
+O tom das frescas águas, entre as pedras,
+Que murmurando lava, e Torres Vedras.
+
+62
+"E vós também, ó terras Transtaganas,
+Afamadas co'o dom da flava Ceres,
+Obedeceis às forças mais que humanas,
+Entregando-lhe os muros e os poderes.
+E tu, lavrador Mouro, que te enganas,
+Se sustentar a fértil terra queres;
+Que Elvas, e Moura, e Serpa conhecidas,
+E Alcácere-do-Sal estão rendidas.
+
+63
+"Eis a nobre Cidade, certo assento
+Do rebelde Sertório antigamente,
+Onde ora as águas nítidas de argento
+Vem sustentar de longo a terra e a gente,
+Pelos arcos reais, que cento e cento
+Nos ares se alevantam nobremente,
+Obedeceu por meio e ousadia
+De Giraldo, que medos não temia.
+
+64
+"Já na cidade Beja vai tomar
+Vingança de Trancoso destruída
+Afonso, que não sabe sossegar,
+Por estender coa fama a curta vida.
+Não se lhe pode muito sustentar
+A cidade; mas sendo já rendida,
+Em toda a cousa viva a gente irada
+Provando os fios vai da dura espada.
+
+65
+"Com estas sojugada foi Palmela,
+E a piscosa Cezimbra, e juntamente,
+Sendo ajudado mais de sua estrela,
+Desbarata um exército potente:
+Sentiu-o a vila, e viu-o a serra dela,
+Que a socorrê-la vinha diligente
+Pela fralda da serra, descuidado
+Do temeroso encontro inopinado.
+
+66
+"O Rei de Badajoz era alto Mouro,
+Com quatro mil cavalos furiosos,
+Inúmeros peões, d'armas e de ouro
+Guarnecidos, guerreiros e lustrosos.
+Mas, qual no mês de Maio o bravo touro,
+Co'os ciúmes da vaca, arreceosos,
+Sentindo gente o bruto e cego amante
+Salteia o descuidado caminhante:
+
+67
+"Desta arte Afonso súbito mostrado
+Na gente dá, que passa bem segura,
+Fere, mata, derriba denodado;
+Foge o Rei Mouro, e só da vida cura.
+Dum pânico terror todo assombrado,
+Só de segui-lo o exército procura;
+Sendo estes que fizeram tanto abalo
+Não mais que só sessenta de cavalo.
+
+68
+"Logo segue a vitória sem tardança
+O grão Rei incansábil, ajuntando
+Gentes de todo o Reino, cuja usança
+Era andar sempre terras conquistando.
+Cercar vai Badajoz, e logo alcança
+O fim de seu desejo, pelejando
+Com tanto esforço, e arte, e valentia,
+Que a fez fazer às outras companhia.
+
+69
+"Mas o alto Deus, que para longe guarda
+O castigo daquele que o merece,
+Ou, para que se emende, às vezes tarda,
+Ou por segredos que homem não conhece,
+Se até que sempre o forte Rei resguarda
+Dos perigos a que ele se oferece;
+Agora lhe não deixa ter defesa
+Da maldição da mãe que estava presa.
+
+70
+"Que estando na cidade, que cercara,
+Cercado nela foi dos Lioneses,
+Porque a conquista dela lhe tomara,
+De Lião sendo, e não dos Portugueses.
+A pertinácia aqui lhe custa cara,
+Assim como acontece muitas vezes,
+Que em ferros quebra as pernas, indo aceso
+A batalha, onde foi vencido e preso.
+
+71
+"Ó famoso Pompeio, não te pene
+De teus feitos ilustres a ruína,
+Nem ver que a justa Némesis ordene
+Ter teu sogro de ti vitória dina,
+Posto que o frio Fásis, ou Siene,
+Que para nenhum cabo a sombra inclina,
+O Bootes gelado e a linha ardente,
+Temessem o teu nome geralmente.
+
+72
+"Posto que a rica Arábia e que os ferozes
+Eníocos e Colcos, cuja fama
+O Véu dourado estende, e os Capadoces,
+E Judeia, que um Deus adora e ama,
+E que os moles Sofenos, e os atroces
+Cilícios, com a Arménia, que derrama
+As águas dos dous rios, cuja fonte
+Está noutro mais alto e santo monte;
+
+73
+"E posto enfim que desde o mar de Atlante
+Até o Cítico Tauro monte erguido,
+Já vencedor te vissem, não te espanto
+Se o campo Emátio só te viu vencido,
+Porque Afonso verás, soberbo e ovante,
+Tudo render-se ser depois rendido.
+Assim o quis o conselho alto e celeste,
+Que vença o sogro a ti, e o genro a este.
+
+74
+"Tornado o Rei sublime finalmente,
+Do divino Juízo castigado,
+Depois que em Santarém soberbamente
+Em vão dos Sarracenos foi cercado,
+E depois que do mártire Vicente
+O santíssimo corpo venerado
+Do Sacro Promontório conhecido
+A cidade Ulisseia foi trazido;
+
+75
+"Porque levasse avante seu desejo,
+Ao forte filho manda o lasso velho
+Que às terras se passasse d'Alentejo,
+Com gente e co'o belígero aparelho.
+Sancho, d'esforço o d'ânimo sobejo,
+Avante passa, e faz correr vermelho
+O rio que Sevilha vai regando,
+Co'o sangue Mauro, bárbaro e nefando.
+
+76
+"E com esta vitória cobiçoso,
+Já não descansa o moço até que veja
+Outro estrago como este, temeroso,
+No Bárbaro que tem cercado Beja.
+Não tarda muito o Príncipe ditoso
+Sem ver o fim daquilo que deseja.
+Assim estragado o Mouro, na vingança
+De tantas perdas põe sua esperança.
+
+77
+"Já se ajuntam do monte a quem Medusa
+O corpo fez perder, que teve o Céu;
+Já vem do promontório de Ampelusa
+E do Tinge, que assento foi de Anteu.
+O morador de Abila não se escusa,
+Que também com suas armas se moveu,
+Ao som da Mauritana e ronca tuba,
+Todo o Reino que foi do nobre Juba.
+
+78
+"Entrava com toda esta companhia
+O Miralmomini em Portugal;
+Treze Reis mouros leva de valia,
+Entre os quais tem o ceptro imperial;
+E assim fazendo quanto mal podia,
+O que em partes podia fazer mal,
+Dom Sancho vai cercar em Santarém;
+Porém não lhe sucede muito bem.
+
+79
+"Dá-lhe combates ásperos, fazendo
+Ardis de guerra mil o Mouro iroso;
+Não lhe aproveita já trabuco horrendo,
+Mina secreta, aríete forçoso:
+Porque o filho de Afonso não perdendo
+Nada do esforço e acordo generoso,
+Tudo provê com ânimo e prudência;
+Que em toda a parte há esforço e resistência.
+
+80
+"Mas o velho, a quem tinham já obrigado
+Os trabalhosos anos ao sossego,
+Estando na cidade, cujo prado
+Enverdecem as águas do Mondego,
+Sabendo como o filho está cercado
+Em Santarém do Mauro povo cego,
+Se parte diligente da cidade;
+Que não perde a presteza coa idade.
+
+81
+"E coa famosa gente à guerra usada
+Vai socorrer o filho; e assim ajuntados,
+A Portuguesa fúria costumada
+Em breve os Mouros tem desbaratados.
+A campina, que toda está coalhada
+De marlotas, capuzes variados,
+De cavalos, jaezes, presa rica,
+De seus senhores mortos cheia fica.
+
+82
+"Logo todo o restante se partiu
+De Lusitânia, postos em fugida;
+O Miralmomini só não fugiu,
+Porque, antes de fugir, lhe foge a vida.
+A quem lhe esta vitória permitiu
+Dão louvores e graças sem medida:
+Que em casos tão estranhos claramente
+Mais peleja o favor de Deus que a gente.
+
+83
+"De tamanhas vitórias triunfava
+O velho Afonso, Príncipe subido,
+Quando, quem tudo enfim vencendo andava,
+Da larga e muita idade foi vencido.
+A pálida doença lhe tocava
+Com fria mão o corpo enfraquecido;
+E pagaram seus anos deste jeito
+A triste Libitina seu direito.
+
+84
+"Os altos promontórios o choraram,
+E dos rios as águas saudosas
+Os semeados campos alagaram
+Com lágrimas correndo piedosas.
+Mas tanto pelo mundo se alargaram
+Com faina suas obras valerosas,
+Que sempre no seu Reino chamarão
+"Afonso, Afonso" os ecos, mas em vão.
+
+85
+"Sancho, forte mancebo, que ficara
+Imitando seu pai na valentia,
+E que em sua vida já se exprimentara,
+Quando o Bétis de sangue se tingia,
+E o bárbaro poder desbaratara
+Do Ismaelita Rei de Andaluzia;
+E mais quando os que Beja em vão cercaram,
+Os golpes de seu braço em si provaram;
+
+86
+"Depois que foi por Rei alevantado,
+Havendo poucos anos que reinava,
+A cidade de Silves tem cercado,
+Cujos campos o bárbaro lavrava.
+Foi das valentes gentes ajudado
+Da Germânica armada que passava,
+De armas fortes e gente apercebida,
+A recobrar Judeia já perdida.
+
+87
+"Passavam a ajudar na santa empresa
+O roxo Federico, que moveu
+O poderoso exército em defesa
+Da cidade onde Cristo padeceu,
+Quando Guido, coa gente em sede acesa,
+Ao grande Saladino se rendeu,
+No lugar onde aos Mouros sobejavam
+As águas que os de Guido desejavam.
+
+88
+"Mas a formosa armada, que viera
+Por contraste de vento àquela parte,
+Sancho quis ajudar na guerra fera,
+Já que em serviço vai do santo Marte.
+Assim como a seu pai acontecera
+Quando tomou Lisboa, da mesma arte
+Do Germano ajudado Silves toma,
+E o bravo morador destrue e doma.
+
+89
+"E se tantos troféus do Mahometa
+Alevantando vai, também do forte
+Lionês não consente estar quieta
+A terra, usada aos casos de Mavorte,
+Até que na cerviz seu jugo meta
+Da soberba Tui, que a mesma sorte
+Viu ter a muitas vilas suas vizinhas,
+Que, por armas, tu, Sancho, humildes tinhas.
+
+90
+"Mas entre tantas palmas salteado
+Da temerosa morte, fica herdeiro
+Um filho seu, de todos estimado,
+Que foi segundo Afonso, e Rei terceiro.
+No tempo deste, aos Mouros foi tomado
+Alcácere-do-Sal por derradeiro;
+Porque dantes os Mouros o tomaram,
+Mas agora estruídos o pagaram.
+
+91
+"Morto depois Afonso, lhe sucede
+Sancho segundo, manso e descuidado,
+Que tanto em seus descuidos se desmede,
+Que de outrem, quem mandava, era mandado.
+De governar o Reino, que outro pede,
+Por causa dos privados foi privado,
+Porque, como por eles se regia,
+Em todos os seus vícios consentia.
+
+92
+"Não era Sancho, não, tão desonesto
+Como Nero, que um moço recebia
+Por mulher, e depois horrendo incesto
+Com a mãe Agripina cometia;
+Nem tão cruel às gentes e molesto,
+Que a cidade queimasse onde vivia,
+Nem tão mau como foi Heliogabalo,
+Nem como o mole Rei Sardanapalo.
+
+93
+"Nem era o povo seu tiranizado,
+Como Sicília foi de seus tiranos;
+Nem tinha como Fálaris achado
+Gênero de tormentos inumanos;
+Mas o Reino, de altivo e costumado
+A senhores em tudo soberanos,
+A Rei não obedece, nem consente,
+Que não for mais que todos excelente.
+
+94
+"Por esta causa o Reino governou
+O Conde Bolonhês, depois alçado
+Por Rei, quando da vida se apartou
+Seu irmão Sancho, sempre ao ócio dado.
+Este, que Afonso o bravo, se chamou,
+Depois de ter o Reino segurado,
+Em dilatá-lo cuida, que em terreno
+Não cabe o altivo peito, tão pequeno.
+
+95
+"Da terra dos Algarves, que lhe fora
+Em casamento dada, grande parte
+Recupera co'o braço, e deita fora
+O Mouro, mal querido já de Marte.
+Este de todo fez livre e senhora
+Lusitânia, com força e bélica arte;
+E acabou de oprimir a nação forte,
+Na terra que aos de Luso coube em sorte.
+
+96
+"Eis depois vem Dinis, que bem parece
+Do bravo Afonso estirpe nobre e dina,
+Com quem a fama grande se escurece
+Da liberalidade Alexandrina.
+Com este o Reino próspero florece
+(Alcançada já a paz áurea divina)
+Em constituições, leis e costumes,
+Na terra já tranquila claros lumes.
+
+97
+"Fez primeiro em Coimbra exercitar-se
+O valeroso ofício de Minerva;
+E de Helicona as Musas fez passar-se
+A pisar do Monde-o a fértil erva.
+Quanto pode de Atenas desejar-se,
+Tudo o soberbo Apolo aqui reserva.
+Aqui as capelas dá tecidas de ouro,
+Do bácaro e do sempre verde louro.
+
+98
+"Nobres vilas de novo edificou
+Fortalezas, castelos mui seguros,
+E quase o Reino todo reformou
+Com edifícios grandes, e altos muros.
+Mas depois que a dura Átropos cortou
+O fio de seus dias já maduros,
+Ficou-lhe o filho pouco obediente,
+Quarto Afonso, mas forte e excelente.
+
+99
+"Este sempre as soberbas Castelhanas
+Co'o peito desprezou firme e sereno,
+Porque não é das forças Lusitanas,
+Temer poder maior, por mais pequeno.
+Mas porém, quando as gentes Mauritanas,
+A possuir o Hespérico terreno
+Entraram pelas terras de Castela,
+Foi o soberbo Afonso a socorrê-la.
+
+100
+"Nunca com Semirâmis gente tanta
+Veio os campos idáspicos enchendo,
+Nem Atila, que Itália toda espanta,
+Chamando-se de Deus açoute horrendo,
+Gótica gente trouxe tanta, quanta
+Do Sarraceno bárbaro estupendo,
+Co'o poder excessivo de Granada,
+Foi nos campos Tartésios ajuntada.
+
+101
+"E vendo o Rei sublime Castelhano
+A força inexpugnábil, grande e forte,
+Temendo mais o fim do povo hispano,
+Já perdido uma vez, que a própria morte,
+Pedindo ajuda ao forte Lusitano,
+Lhe mandava a caríssima consorte,
+Mulher de quem a manda, e filha amada
+Daquele a cujo Reino foi mandada.
+
+102
+"Entrava a formosíssima Maria
+Pelos paternais paços sublimados,
+Lindo o gesto, mas fora de alegria,
+E seus olhos em lágrimas banhados;
+Os cabelos angélicos trazia
+Pelos ebúrneos ombros espalhados:
+Diante do pai ledo, que a agasalha,
+Estas palavras tais, chorando, espalha:
+
+103
+--"Quantos povos a terra produziu
+De África toda, gente fera e estranha,
+O grão Rei de Marrocos conduziu
+Para vir possuir a nobre Espanha:
+Poder tamanho junto não se viu,
+Depois que o salso mar a terra banha.
+Trazem ferocidade, e furor tanto,
+Que a vivos medo, e a mortos faz espanto.
+
+104
+--"Aquele que me deste por marido,
+Por defender sua terra amedrontada,
+Co'o pequeno poder, oferecido
+Ao duro golpe está da Maura espada;
+E se não for contigo socorrido,
+Ver-me-ás dele e do Reino ser privada,
+Viúva e triste, e posta em vida escura,
+Sem marido, sem Reino, e sem ventura.
+
+105
+"Portanto, ó Rei, de quem com puro medo
+O corrente Muluca se congela,
+Rompe toda a tardança, acude cedo
+A miseranda gente de Castela.
+Se esse gesto, que mostras claro e ledo,
+De pai o verdadeiro amor assela,
+Acude e corre, pai, que se não corres,
+Pode ser que não aches quem socorres."--
+
+106
+"Não de outra sorte a tímida Maria
+Falando está, que a triste Vénus, quando
+A Júpiter, seu pai, favor pedia
+Para Eneias, seu filho, navegando;
+Que a tanta piedade o comovia
+Que, caído das mãos o raio infando,
+Tudo o clemente Padre lhe concede,
+Pesando-lhe do pouco que lhe pede.
+
+107
+"Mas já co'os esquadrões da gente armada
+Os Eborenses campos vão coalhados:
+Lustra co'o Sol o arnês, a lança, a espada;
+Vão rinchando os cavalos jaezados.
+A canora trombeta embandeirada,
+Os corações à paz acostumados
+Vai às fulgentes armas incitando,
+Pelas concavidades retumbando.
+
+108
+"Entre todos no meio se sublima,
+Das insígnias Reais acompanhado,
+O valeroso Afonso, que por cima
+De todos leva o colo alevantado;
+E somente co'o gesto esforça e anima
+A qualquer coração amedrontado.
+Assim entra nas terras de Castela
+Com a filha gentil, Rainha dela.
+
+109
+"Juntos os dous Afonsos finalmente
+Nos campos de Tarifa estão defronte
+Da grande multidão da cega gente,
+Para quem são pequenos campo e monte.
+Não há peito tão alto e tão potente,
+Que de desconfiança não se afronte,
+Enquanto não conheça e claro veja
+Que co'o braço dos seus Cristo peleja.
+
+110
+"Estão de Agar os netos quase rindo
+Do poder dos Cristãos fraco e pequeno,
+As terras como suas repartindo
+Antemão, entre o exército Agareno,
+Que com título falso possuindo
+Está o famoso nome Sarraceno.
+Assim também com falsa conta e nua,
+À nobre terra alheia chamam sua.
+
+111
+"Qual o membrudo e bárbaro Gigante,
+Do rei Saul, com causa, tão temido,
+Vendo o pastor inerme estar diante,
+Só de pedras e esforço apercebido,
+Com palavras soberbas o arrogante
+Despreza o fraco moço mal vestido,
+Que, rodeando a funda, o desengana
+Quanto mais pode a Fé que a força humana:
+
+112
+"Desta arte o Mouro pérfido despreza
+O poder dos Cristãos, e não entende
+Que está ajudado da Alta Fortaleza,
+A quem o inferno horrífico se rende.
+Co ela o Castelhano, e com destreza
+De Marrocos o Rei comete e ofende.
+O Português, que tudo estima em nada,
+Se faz temer ao Reino de Granada.
+
+113
+"Eis as lanças e espadas retiniam
+Por cima dos arneses: bravo estrago!
+Chamam (segundo as leis que ali seguiam)
+Uns Mafamede, e os outros Santiago.
+Os feridos com grita o Céu feriam,
+Fazendo de seu sangue bruto lago,
+Onde outros meios mortos se afogavam,
+Quando do ferro as vidas escapavam.
+
+114
+"Com esforço tamanho estrui e mata
+O Luso ao Granadil, que, em pouco espaço,
+Totalmente o poder lhe desbarata,
+Sem lhe valer defesa ou peito de aço.
+De alcançar tal vitória tão barata
+Inda não bem contente o forte braço,
+Vai ajudar ao bravo Castelhano,
+Que pelejando está co'o Mauritano.
+
+115
+"Já se ia o Sol ardente recolhendo
+Para a casa de Tethys, e inclinado
+Para o Ponente, o Véspero trazendo,
+Estava o claro dia memorado,
+Quando o poder do Mauro grande e horrendo
+Foi pelos fortes Reis desbaratado,
+Com tanta mortandade, que a memória
+Nunca no mundo viu tão grã vitória.
+
+116
+"Não matou a quarta parte o forte Mário
+Dos que morreram neste vencimento,
+Quando as águas co'o sangue do adversário
+Fez beber ao exército sedento;
+Nem o Peno asperíssimo contrário
+Do Romano poder, de nascimento,
+Quando tantos matou da ilustro Roma,
+Que alqueires três de anéis dos mortos toma.
+
+117
+"E se tu tantas almas só pudeste
+Mandar ao Reino escuro de Cocito,
+Quando a santa Cidade desfizeste
+Do povo pertinaz no antigo rito:
+Permissão e vingança foi celeste,
+E não força de braço, ó nobre Tito,
+Que assim dos Vates foi profetizado,
+E depois por Jesu certificado.
+
+118
+"Passada esta tão próspera vitória,
+Tornando Afonso à Lusitana terra,
+A se lograr da paz com tanta glória
+Quanta soube ganhar na dura guerra,
+O caso triste, e dino da memória,
+Que do sepulcro os homens desenterra,
+Aconteceu da mísera e mesquinha
+Que depois de ser morta foi Rainha.
+
+119
+"Tu só, tu, puro Amor, com força crua,
+Que os corações humanos tanto obriga,
+Deste causa à molesta morte sua,
+Como se fora pérfida inimiga.
+Se dizem, fero Amor, que a sede tua
+Nem com lágrimas tristes se mitiga,
+É porque queres, áspero e tirano,
+Tuas aras banhar em sangue humano.
+
+120
+"Estavas, linda Inês, posta em sossego,
+De teus anos colhendo doce fruto,
+Naquele engano da alma, ledo e cego,
+Que a fortuna não deixa durar muito,
+Nos saudosos campos do Mondego,
+De teus fermosos olhos nunca enxuto,
+Aos montes ensinando e às ervinhas
+O nome que no peito escrito tinhas.
+
+121
+"Do teu Príncipe ali te respondiam
+As lembranças que na alma lhe moravam,
+Que sempre ante seus olhos te traziam,
+Quando dos teus fermosos se apartavam:
+De noite em doces sonhos, que mentiam,
+De dia em pensamentos, que voavam.
+E quanto enfim cuidava, e quanto via,
+Eram tudo memórias de alegria.
+
+122
+"De outras belas senhoras e Princesas
+Os desejados tálamos enjeita,
+Que tudo enfim, tu, puro amor, despreza,
+Quando um gesto suave te sujeita.
+Vendo estas namoradas estranhezas
+O velho pai sesudo, que respeita
+O murmurar do povo, e a fantasia
+Do filho, que casar-se não queria,
+
+123
+"Tirar Inês ao mundo determina,
+Por lhe tirar o filho que tem preso,
+Crendo co'o sangue só da morte indina
+Matar do firme amor o fogo aceso.
+Que furor consentiu que a espada fina,
+Que pôde sustentar o grande peso
+Do furor Mauro, fosse alevantada
+Contra uma fraca dama delicada?
+
+124
+"Traziam-na os horríficos algozes
+Ante o Rei, já movido a piedade:
+Mas o povo, com falsas e ferozes
+Razões, à morte crua o persuade.
+Ela com tristes o piedosas vozes,
+Saídas só da mágoa, e saudade
+Do seu Príncipe, e filhos que deixava,
+Que mais que a própria morte a magoava,
+
+125
+"Para o Céu cristalino alevantando
+Com lágrimas os olhos piedosos,
+Os olhos, porque as mãos lhe estava atando
+Um dos duros ministros rigorosos;
+E depois nos meninos atentando,
+Que tão queridos tinha, e tão mimosos,
+Cuja orfandade como mãe temia,
+Para o avô cruel assim dizia:
+
+126
+--"Se já nas brutas feras, cuja mente
+Natura fez cruel de nascimento,
+E nas aves agrestes, que somente
+Nas rapinas aéreas têm o intento,
+Com pequenas crianças viu a gente
+Terem tão piedoso sentimento,
+Como coa mãe de Nino já mostraram,
+E colos irmãos que Roma edificaram;
+
+127
+--"Ó tu, que tens de humano o gesto e o peito
+(Se de humano é matar uma donzela
+Fraca e sem força, só por ter sujeito
+O coração a quem soube vencê-la)
+A estas criancinhas tem respeito,
+Pois o não tens à morte escura dela;
+Mova-te a piedade sua e minha,
+Pois te não move a culpa que não tinha.
+
+128
+--"E se, vencendo a Maura resistência,
+A morte sabes dar com fogo e ferro,
+Sabe também dar vicia com clemência
+A quem para perdê-la não fez erro.
+Mas se to assim merece esta inocência,
+Põe-me em perpétuo e mísero desterro,
+Na Cítia f ria, ou lá na Líbia ardente,
+Onde em lágrimas viva eternamente.
+
+129
+"Põe-me onde se use toda a feridade,
+Entre leões e tigres, e verei
+Se neles achar posso a piedade
+Que entre peitos humanos não achei:
+Ali com o amor intrínseco e vontade
+Naquele por quem morro, criarei
+Estas relíquias suas que aqui viste,
+Que refrigério sejam da mãe triste."--
+
+130
+--Morte de Inês de Castro
+"Queria perdoar-lhe o Rei benino,
+Movido das palavras que o magoam;
+Mas o pertinaz povo, e seu destino
+(Que desta sorte o quis) lhe não perdoam.
+Arrancam das espadas de aço fino
+Os que por bom tal feito ali apregoam.
+Contra uma dama, ó peitos carniceiros,
+Feros vos amostrais, e cavaleiros?
+
+131
+"Qual contra a linda moça Policena,
+Consolação extrema da mãe velha,
+Porque a sombra de Aquiles a condena,
+Co'o ferro o duro Pirro se aparelha;
+Mas ela os olhos com que o ar serena
+(Bem como paciente e mansa ovelha)
+Na mísera mãe postos, que endoudece,
+Ao duro sacrifício se oferece:
+
+132
+"Tais contra Inês os brutos matadores
+No colo de alabastro, que sustinha
+As obras com que Amor matou de amores
+Aquele que depois a fez Rainha;
+As espadas banhando, e as brancas flores,
+Que ela dos olhos seus regadas tinha,
+Se encarniçavam, férvidos e irosos,
+No futuro castigo não cuidosos.
+
+133
+"Bem puderas, ó Sol, da vista destes
+Teus raios apartar aquele dia,
+Como da seva mesa de Tiestes,
+Quando os filhos por mão de Atreu comia.
+Vós, ó côncavos vales, que pudestes
+A voz extrema ouvir da boca fria,
+O nome do seu Pedro, que lhe ouvistes,
+Por muito grande espaço repetisses!
+
+134
+"Assim como a bonina, que cortada
+Antes do tempo foi, cândida e bela,
+Sendo das mãos lascivas maltratada
+Da menina que a trouxe na capela,
+O cheiro traz perdido e a cor murchada:
+Tal está morta a pálida donzela,
+Secas do rosto as rosas, e perdida
+A branca e viva cor, coa doce vida.
+
+135
+"As filhas do Mondego a morte escura
+Longo tempo chorando memoraram,
+E, por memória eterna, em fonte pura
+As lágrimas choradas transformaram;
+O nome lhe puseram, que inda dura,
+Dos amores de Inês que ali passaram.
+Vede que fresca fonte rega as flores,
+Que lágrimas são a água, e o nome amores.
+
+136
+"Não correu muito tempo que a vingança
+Não visse Pedro das mortais feridas,
+Que, em tomando do Reino a governança,
+A tomou dos fugidos homicidas.
+Do outro Pedro cruíssimo os alcança,
+Que ambos, imigos das humanas vidas,
+O concerto fizeram, duro e injusto,
+Que com Lépido e António fez Augusto.
+
+137
+"Este, castigador foi rigoroso
+De latrocínios, mortes e adultérios:
+Fazer nos maus cruezas, fero e iroso,
+Eram os seus mais certos refrigérios.
+As cidades guardando justiçoso
+De todos os soberbos vitupérios,
+Mais ladrões castigando à morte deu,
+Que o vagabundo Aleides ou Teseu.
+
+138
+"Do justo e duro Pedro nasce o brando,
+(Vede da natureza o desconcerto!)
+Remisso, e sem cuidado algum, Fernando,
+Que todo o Reino pôs em muito aperto:
+Que, vindo o Castelhano devastando
+As terras sem defesa, esteve perto
+De destruir-se o Reino totalmente;
+Que um fraco Rei f az fraca a forte gente.
+
+139
+"Ou foi castigo claro do pecado
+De tirar Lianor a seu marido,
+E casar-se com ela, de enlevado
+Num falso parecer mal entendido;
+Ou foi que o coração sujeito e dado
+Ao vício vil, de quem se viu rendido,
+Mole se fez e fraco; e bem parece,
+Que um baixo amor os fortes enfraquece.
+
+140
+"Do pecado tiveram sempre a pena
+Muitos, que Deus o quis, e permitiu:
+Os que foram roubar a bela Helena,
+E com Apio também Tarquilio o viu.
+Pois por quem David Santo se condena?
+Ou quem o Tribo ilustre destruiu
+De Benjamim? Bem claro no-lo ensina
+Por Sara Faraó, Siquém por Dina.
+
+141
+"E pois se os peitos fortes enfraquece
+Um inconcesso amor desatinado,
+Bem no filho de Alcmena se parece,
+Quando em Ônfale andava transformado.
+De Marco António a faina se escurece
+Com ser tanto a Cleopatra afeiçoado.
+Tu também, Peno próspero, o sentiste
+Depois que uma moça vil na Apúlia viste.
+
+142
+"Mas quem pode livrar-se por ventura
+Dos laços que Amor arma brandamente
+Entre as rosas e a neve humana pura,
+O ouro e o alabastro transparente?
+Quem de uma peregrina formosura,
+De um vulto de Medusa propriamente,
+Que o coração converte, que tem preso,
+Em pedra não, mas em desejo aceso?
+
+143
+"Quem viu um olhar seguro, um gesto brando,
+Uma suave e angélica excelência,
+Que em si está sempre as almas transformando,
+Que tivesse contra ela resistência?
+Desculpado por certo está Fernando,
+Para quem tem de amor experiência;
+Mas antes, tendo livre a fantasia,
+Por muito mais culpado o julgaria.
+
+Canto Quarto
+
+1
+"Depois de procelosa tempestade,
+Noturna sombra e sibilante vento,
+Traz a manhã serena claridade,
+Esperança de porto e salvamento;
+Aparta o sol a negra escuridade,
+Removendo o temor do pensamento:
+Assim no Reino forte aconteceu,
+Depois que o Rei Fernando faleceu.
+
+2
+"Porque, se muito os nossos desejaram
+Quem os danos e ofensas vá vingando
+Naqueles que tão bem se aproveitaram
+Do descuido remisso de Fernando,
+Depois de pouco tempo o alcançaram,
+Joane, sempre ilustre, alevantando
+Por Rei, como de Pedro único herdeiro,
+(Ainda que bastardo) verdadeiro.
+
+3
+"Ser isto ordenação dos céus divina,
+Por sinais muito claros se mostrou,
+Quando em Évora a voz de uma menina,
+Ante tempo falando o nomeou;
+E como cousa enfim que o Céu destina,
+No berço o corpo e a voz alevantou:
+--"Portugal! Portugal!" alçando a mão
+Disse "pelo Rei novo, Dom João."--
+
+4
+"Alteradas então do Reino as gentes
+Co'o ódio, que ocupado os peitos tinha,
+Absolutas cruezas e evidentes
+Faz do povo o furor por onde vinha;
+Matando vão amigos e parentes
+Do adúltero Conde e da Rainha,
+Com quem sua incontinência desonesta
+Mais (depois de viúva) manifesta.
+
+5
+"Mas ele enfim, com causa desonrado,
+Diante dela a ferro frio morre,
+De outros muitos na morte acompanhado,
+Que tudo o fogo erguido queima e corre:
+Quem, como Astianás, precipitado,
+(Sem lhe valerem ordens) de alta torre,
+A quem ordens, nem aras, nem respeito;
+Quem nu por ruas, e em pedaços feito.
+
+6
+"Podem-se pôr em longo esquecimento
+As cruezas mortais que Roma viu
+Feitas do feroz Mário e do cruento
+Sila, quando o contrário lhe fugiu.
+Por isso Lianor, que o sentimento
+Do morto Conde ao mundo descobriu,
+Faz contra Lusitânia vir Castela,
+Dizendo ser sua filha herdeira dela.
+
+7
+"Beatriz era a filha, que casada
+Co'o Castelhano está, que o Reino pede,
+Por filha de Fernando reputada,
+Se a corrompida fama lhe concede.
+Com esta voz Castela alevantada,
+Dizendo que esta filha ao pai sucede,
+Suas forças ajunta para as guerras
+De várias regiões e várias terras.
+
+8
+Vem de toda a província que de um Brigo
+(Se foi) já teve o nome derivado;
+Das terras que Fernando e que Rodrigo
+Ganharam do tirano e Mauro estado.
+Não estimam das armas o perigo
+Os que cortando vão co'o duro arado
+Os campos Lioneses, cuja gente
+C'os Mouros foi nas armas excelente.
+
+9
+"Os Vândalos, na antiga valentia
+Ainda confiados, se ajuntavam
+Da cabeça de toda Andaluzia,
+Que do Guadalquibir as águas lavam.
+A nobre Ilha também se apercebia,
+Que antigamente os Tírios habitavam,
+Trazendo por insígnias verdadeiras
+As Hercúleas colunas nas bandeiras.
+
+10
+"Também vem lá do Reino de Toledo,
+Cidade nobre e antiga, a quem cercando
+O Tejo em torno vai suave e ledo
+Que das serras de Conca vem manando.
+A vós outros também não tolhe o medo,
+Ó sórdidos Galegos, duro bando,
+Que para resistirdes vos armastes,
+Aqueles, cujos golpes já provasses.
+
+11
+"Também movem da guerra as negras fúrias
+A gente Biscainha, que carece
+De polidas razões, e que as injúrias
+Muito mal dos estranhos compadece.
+A terra de Guipúscua e das Astúrias,
+Que com minas de ferro se enobrece,
+Armou dele os soberbos moradores,
+Para ajudar na guerra a seus senhores.
+
+12
+"Joane, a quem do peito o esforço cresce,
+Como a Sansão Hebréio da guedelha,
+Posto que tudo pouco lhe parece,
+Co'os poucos de seu Reino se aparelha;
+E não porque conselho lhe falece,
+Co'os principais senhores se aconselha,
+Mas só por ver das gentes as sentenças:
+Que sempre houve entre muitos diferenças.
+
+13
+"Não falta com razões quem desconcerte
+Da opinião de todos, na vontade,
+Em quem o esforço antigo se converte
+Em desusada e má deslealdade;
+Podendo o temor mais, gelado, inerte,
+Que a própria e natural fidelidade:
+Negam o Rei e a pátria, e, se convém,
+Negarão (como Pedro) o Deus que têm.
+
+14
+"Mas nunca foi que este erro se sentisse
+No forte Dom Nuno Alvares; mas antes,
+Posto que em seus irmãos tão claro o visse,
+Reprovando as vontades inconstantes,
+Aquelas duvidosas gentes disse,
+Com palavras mais duras que elegantes,
+A mão na espada, irado, e não facundo,
+Ameaçando a terra, o mar e o mundo:
+
+15
+--"Como! Da gente ilustre Portuguesa
+Há-de haver quem refuse o pátrio Marte?,
+Como! Desta província, que princesa
+Foi das gentes na guerra em toda a parte,
+Há-de sair quem negue ter defesa?
+Quem negue a Fé, o amor, o esforço e arte
+De Português, e por nenhum respeito
+O próprio Reino queira ver sujeito?
+
+16
+--"Como! Não seis vós inda os descendentes
+Daqueles, que debaixo da bandeira
+Do grande Henriques, feros e valentes,
+Vencestes esta gente tão guerreira?
+Quando tantas bandeiras, tantas gentes
+Puseram em fugida, de maneira
+Que sete ilustres Condes lhe trouxeram
+Presos, afora a presa que tiveram?
+
+17
+--"Com quem foram contino sopeados
+Estes, de quem o estais agora vós,
+Por Dinis e seu filho, sublimados,
+Senão co'os vossos fortes pais, e avôs?
+Pois se com seus descuidos, ou pecados,
+Fernando em tal fraqueza assim vos pôs,
+Torne-vos vossas forças o Rei novo:
+Se é certo que co'o Rei se muda o povo.
+
+18
+--"Rei tendes tal, que se o valor tiverdes
+Igual ao Rei que agora alevantastes,
+Desbaratareis tudo o que quiserdes,
+Quanto mais a quem já desbaratasses.
+E se com isto enfim vos não moverdes
+Do penetrante medo que tomastes,
+Atai as mãos a vosso vão receio,
+Que eu só resistirei ao jugo alheio.
+
+19
+--"Eu só com meus vassalos, e com esta
+(E dizendo isto arranca meia espada)
+Defenderei da força dura e infesta
+A terra nunca de outrem sojugada.
+Em virtude do Rei, da pátria mesta,
+Da lealdade já por vós negada,
+Vencerei (não só estes adversários)
+Mas quantos a meu Rei forem contrários."--
+
+20
+Bem como entre os mancebos recolhidos
+Em Canúsio, relíquias sós de Canas,
+Já para se entregar quase movidos
+A fortuna das forças Africanas,
+Cornélio moço os faz que, compelidos
+Da sua espada, jurem que as Romanas
+Armas não deixarão, enquanto a vida
+Os não deixar, ou nelas for perdida:
+
+21
+"Destarte a gente força e esforça Nuno,
+Que, com lhe ouvir as últimas razões,
+Removem o temor frio, importuno,
+Que gelados lhe tinha os corações.
+Nos animais cavalgam de Neptuno,
+Brandindo e volteando arremessões;
+Vão correndo e gritando a boca aberta:
+--"Viva o famoso Rei que nos liberta!"--
+
+22
+"Das gentes populares, uns aprovam
+A guerra com que a pátria se sustinha;
+Uns as armas alimpam e renovam,
+Que a ferrugem da paz gastadas tinha;
+Capacetes estofam, peitos provam,
+Arma-se cada um como convinha;
+Outros fazem vestidos de mil cores,
+Com letras e tenções de seus amores.
+
+23
+"Com toda esta lustrosa companhia
+Joane forte sai da fresca Abrantes,
+Abrantes, que também da fonte fria
+Do Tejo logra as águas abundantes.
+Os primeiros armígeros regia
+Quem para reger era os mui possantes
+Orientais exércitos, sem conto,
+Com que passava Xerxes o Helesponto.
+
+24
+"Dom Nuno Alvares digo, verdadeiro
+Açoute de soberbos Castelhanos
+Como já o fero Huno o foi primeiro
+Para Franceses, para Italianos.
+Outro também famoso cavaleiro,
+Que a ala direita tem dos Lusitanos,
+Apto para mandá-los, e regê-los,
+Mem Rodrigues se diz de Vasconcelos.
+
+25
+"E da outra ala, que a esta corresponde,
+Antão Vasques de Almada é capitão,
+Que depois foi de Abranches nobre Conde,
+Das gentes vai regendo a sestra mão.
+Logo na retaguarda não se esconde
+Das quinas e castelos o pendão,
+Com Joane, Rei forte em toda parte,
+Que escurecendo o preço vai de Alarte.
+
+26
+"Estavam pelos muros, temerosas,
+E de um alegre medo quase frias,
+Rezando as mães, irmãs, damas e esposas,
+Prometendo jejuns e romarias.
+Já chegam as esquadras belicosas
+Defronte das amigas companhias,
+Que com grita grandíssima os recebem,
+E todas grande dúvida concebem.
+
+27
+"Respondem as trombetas mensageiras,
+Pífaros sibilantes e atambores;
+Alférezes volteam as bandeiras,
+Que variadas são de muitas cores.
+Era no seco tempo, que nas eiras
+Ceres o fruto deixa aos lavradores,
+Entra em Astreia o Sol, no mês de Agosto,
+Baco das uvas tira o doce mosto.
+
+28
+"Deu sinal a trombeta Castelhana,
+Horrendo, fero, ingente e temeroso;
+Ouviu-o o monte Artabro, e Guadiana
+Atrás tornou as ondas de medroso;
+Ouviu-o o Douro e a terra Transtagana;
+Correu ao mar o Tejo duvidoso;
+E as mães, que o som terríbil escutaram,
+Aos peitos os filhinhos apertaram.
+
+29
+"Quantos rostos ali se vêem sem cor,
+Que ao coração acode o sangue amigo!
+Que, nos perigos grandes, o temor
+É maior muitas vezes que o perigo;
+E se o não é, parece-o; que o furor
+De ofender ou vencer o duro amigo
+Faz não sentir que é perda grande e rara,
+Dos membros corporais, da vida cara.
+
+30
+"Começa-se a travar a incerta guerra;
+De ambas partes se move a primeira ala;
+Uns leva a defensão da própria terra,
+Outros as esperanças de ganhá-la;
+Logo o grande Pereira, em quem se encerra
+Todo o valor, primeiro se assinala:
+Derriba, e encontra, e a terra enfim semeia
+Dos que a tanto desejam, sendo alheia.
+
+31
+"Já pelo espesso ar os estridentes
+Farpões, setas e vários tiros voam;
+Debaixo dos pés duros dos ardentes
+Cavalos treme a terra, os vales soam;
+Espedaçam-se as lanças; e as frequentes
+Quedas coas duras armas, tudo atroam;
+Recrescem os amigos sobre a pouca
+Gente do fero Nuno, que os apouca.
+
+32
+"Eis ali seus irmãos contra ele vão,
+(Caso feio e cruel!) mas não se espanta,
+Que menos é querer matar o irmão,
+Quem contra o Rei e a Pátria se alevanta:
+Destes arrenegados muitos são
+No primeiro esquadrão, que se adianta
+Contra irmãos e parentes (caso estranho!)
+Quais nas guerras civis de Júlio e Magno.
+
+33
+"Ó tu, Sertório, ó nobre Coriolano,
+Catilina, e vós outros dos antigos,
+Que contra vossas pátrias, com profano
+Coração, vos fizestes inimigos,
+Se lá no reino escuro de Sumano
+Receberdes gravíssimos castigos,
+Dizei-lhe que também dos Portugueses
+Alguns tredores houve algumas vezes.
+
+34
+"Rompem-se aqui dos nossos os primeiros,
+Tantos dos inimigos a eles vão!
+Está ali Nuno, qual pelos outeiros
+De Ceita está o fortíssimo leão,
+Que cercado se vê dos cavaleiros
+Que os campos vão correr de Tetuão:
+Perseguem-no com as lanças, e ele iroso,
+Torvado um pouco está, mas não medroso.
+
+35
+"Com torva vista os vê, mas a natura
+Ferina e a ira não lhe compadecem
+Que as costas dê, mas antes na espessura
+Das lanças se arremessa, que recrescem.
+Tal está o cavaleiro, que a verdura
+Tinge co'o sangue alheio; ali perecem
+Alguns dos seus, que o ânimo valente
+Perde a virtude contra tanta gente.
+
+36
+"Sentiu Joane a afronta que passava
+Nuno, que, como sábio capitão,
+Tudo corria e via, e a todos dava,
+Com presença e palavras, coração.
+Qual parida leoa, fera e brava,
+Que os filhos que no ninho sós estão,
+Sentiu que, enquanto pasto lhe buscara,
+O pastor de Massília lhos furtara;
+
+37
+"Corre raivosa, e freme, e com bramidos
+Os montes Sete Irmãos atroa e abala:
+Tal Joane, com outros escolhidos
+Dos seus, correndo acode à primeira ala:
+-"Ó fortes companheiros, ó subidos
+Cavaleiros, a quem nenhum se iguala,
+Defendei vossas terras, que a esperança
+Da liberdade está na vossa lança.
+
+38
+-"Vedes-me aqui, Rei vosso, e companheiro,
+Que entre as lanças, e setas, e os arneses
+Dos inimigos corro e vou primeiro:
+Pelejai, verdadeiros Portugueses!"--
+Isto disse o magnânimo guerreiro,
+E, sopesando a lança quatro vezes,
+Com força tira; e, deste único tiro,
+Muitos lançaram o último suspiro.
+
+39
+"Porque eis os seus acesos novamente
+Duma nobre vergonha e honroso fogo,
+Sobre qual mais com ânimo valente
+Perigos vencerá do Márcio jogo,
+Porfiam: tinge o ferro o sangue ardente;
+Rompem malhas primeiro, e peitos logo:
+Assim recebem junto e dão feridas,
+Como a quem já não dói perder as vidas.
+
+40
+"A muitos mandam ver o Estígio lago,
+Em cujo corpo a morte e o ferro entrava:
+O Mestre morre ali de Santiago,
+Que fortíssimamente pelejava;
+Morre também, fazendo grande estrago,
+Outro Mestre cruel de Calatrava;
+Os Pereiras também arrenegados
+Morrem, arrenegando o Céu e os fados.
+
+41
+"Muitos também do vulgo vil sem nome
+Vão, e também dos nobres, ao profundo,
+Onde o trifauce Cão perpétua fome
+Tem das almas que passam deste mundo.
+E porque mais aqui se amanse e dome
+A soberba do amigo furibundo,
+A sublime bandeira Castelhana
+Foi derribada aos pés da Lusitana.
+
+42
+"Aqui a fera batalha se encruece
+Com mortes, gritos, sangue e cutiladas;
+A multidão da gente que perece
+Tem as flores da própria cor mudadas;
+Já as costas dão e as vidas; já falece
+O furor e sobejam as lançadas;
+Já de Castela o Rei desbaratado
+Se vê, e de seu propósito mudado.
+
+43
+"O campo vai deixando ao vencedor,
+Contente de lhe não deixar a vida.
+Seguem-no os que ficaram, e o temor
+Lhe dá, não pés, mas asas à fugida.
+Encobrem no profundo peito a dor
+Da morte, da fazenda despendida,
+Da mágoa, da desonra, e triste nojo
+De ver outrem triunfar de seu despojo.
+
+44
+"Alguns vão maldizendo e blasfemando
+Do primeiro que guerra fez no mundo;
+Outros a sede dura vão culpando
+Do peito cobiçoso e sitibundo,
+Que, por tomar o alheio, o miserando
+Povo aventura às penas do profundo,
+Deixando tantas mães, tantas esposas
+Sem filhos, sem maridos, desditosas.
+
+45
+"O vencedor Joane esteve os dias
+Costumados no campo, em grande glória;
+Com ofertas depois, e romarias,
+As graças deu a quem lhe deu vitória.
+Mas Nuno, que não quer por outras vias
+Entre as gentes deixar de si memória
+Senão por armas sempre soberanas,
+Para as terras se passa Transtaganas.
+
+46
+"Ajuda-o seu destino de maneira
+Que fez igual o efeito ao pensamento,
+Porque a terra dos Vândalos fronteira
+Lhe concede o despojo e o vencimento.
+Já de Sevilha a Bética bandeira
+E de vários senhores num momento
+Se lhe derriba aos pés, sem ter defesa
+Obrigados da força Portuguesa.
+
+47
+"Destas e outras vitórias longamente
+Eram os Castelhanos oprimidos,
+Quando a paz, desejada já da gente,
+Deram os vencedores aos vencidos,
+Depois que quis o Padre onipotente
+Dar os Reis inimigos por maridos
+As duas ilustríssimas Inglesas,
+Gentis, formosas, ínclitas princesas.
+
+48
+"Não sofre o peito forte, usado à guerra,
+Não ter amigo já a quem faça dano;
+E assim não tendo a quem vencer na terra,
+Vai cometer as ondas do Oceano.
+Este é o primeiro Rei que se desterra
+Da Pátria, por fazer que o Africano
+Conheça, pelas armas, quanto excede
+A lei de Cristo à lei de Mafamede.
+
+49
+"Eis mil nadantes aves pelo argento
+Da furiosa Tethys inquieta
+Abrindo as pandas asas vão ao vento,
+Para onde Alcides pôs a extrema meta.
+O monte Abila e o nobre fundamento
+De Ceita toma, e o torpe Mahometa
+Deita fora, e segura toda Espanha
+Da Juliana, má, e desleal manha.
+
+50
+"Não consentiu a morte tantos anos
+Que de Herói tão ditoso se lograsse
+Portugal, mas os coros soberanos
+Do Céu supremo quis que povoasse.
+Mas para defensão dos Lusitanos
+Deixou, quem o levou quem governasse,
+E aumentasse a terra mais que dantes,
+Inclita geração, altos Infantes.
+
+51
+"Não foi do Rei Duarte tão ditoso
+O tempo que ficou na suma alteza,
+Que assim vai alternando o tempo iroso
+O bem co'o mal, o gosto coa tristeza.
+Quem viu sempre um estado deleitoso?
+Ou quem viu em fortuna haver firmeza?
+Pois inda neste Reino e neste Rei
+Não ousou ela tanto desta lei.
+
+52
+"Viu ser cativo o santo irmão Fernando,
+Que a tão altas empresas aspirava,
+Que, por salvar o povo miserando
+Cercado, ao Sarraceno se entregava.
+Só por amor da pátria está passando
+A vida de senhora feita escrava,
+Por não se dar por ele a forte Ceita:
+Mais o público bem que o seu respeita.
+
+53
+"Codro, porque o inimigo não vencesse,
+Deixou antes vencer da morte a vida;
+Régulo, porque a pátria não perdesse,
+Quis mais a liberdade ver perdida.
+Este, porque se Espanha não temesse,
+Ao cativeiro eterno se convida:
+Codro, nem Cúrcio, ouvido por espanto,
+Nem os Décios leais fizeram tanto.
+
+54
+"Mas Afonso, do Reino único herdeiro,
+Nome em armas ditoso em nossa Hespéria,
+Que a soberba do bárbaro fronteira
+Tornou em baixa e humílima miséria,
+Fora por certo invicto cavaleiro,
+Se não quisera ir ver a terra Ibéria.
+Mas África dirá ser impossíbil
+Poder ninguém vencer o Rei terríbil.
+
+55
+"Este pôde colher as maçãs de ouro,
+Que somente o Tiríntio colher pôde:
+Do jugo que lhe pôs, o bravo Mouro
+A cerviz inda agora não sacode.
+Na fronte a palma leva e o verde louro
+Das vitórias do Bárbaro, que acode
+A defender Alcácer, forte vila,
+Tângere populoso e a dura Arzila.
+
+56
+"Porém elas enfim por força entradas,
+Os muros abaixaram de diamante
+As Portuguesas forças, costumadas
+A derribarem quanto acham diante.
+Maravilhas em armas estremadas,
+E de escritura dinas elegante,
+Fizeram cavaleiros nesta empresa,
+Mais afinando a fama Portuguesa.
+
+57
+"Porém depois, tocado de ambição
+E glória de mandar, amara e bela,
+Vai cometer Fernando de Aragão,
+Sobre o potente Reino de Castela.
+Ajunta-se a inimiga multidão
+Das soberbas e várias gentes dela,
+Desde Cádis ao alto Pireneu,
+Que tudo ao Rei Fernando obedeceu.
+
+58
+"Não quis ficar nos Reinos ocioso
+O mancebo Joane, e logo ordena
+De ir ajudar o pai ambicioso,
+Que então lhe foi ajuda não pequena.
+Saiu-se enfim do trance perigoso
+Com fronte não torvada, mas serena,
+Desbaratado o pai sanguinolento
+Mas ficou duvidoso o vencimento.
+
+59
+"Porque o filho sublime e soberano,
+Gentil, forte, animoso cavaleiro,
+Nos contrários fazendo imenso dano,
+Todo um dia ficou no campo inteiro.
+Desta arte foi vencido Octaviano,
+E António vencedor, sem companheiro,
+Quando daqueles que César mataram
+Nos Filípicos campos se vingaram.
+
+60
+"Porém depois que a escura noite eterna
+Afonso aposentou no Céu sereno,
+O Príncipe, que o Reino então governa,
+Foi Joane segundo e Rei trezeno.
+Este, por haver fama sempiterna,
+Mais do que tentar pode homem terreno
+Tentou, que foi buscar da roxa Aurora
+Os términos, que eu vou buscando agora.
+
+61
+"Manda seus mensageiros, que passaram
+Espanha, França, Itália celebrada,
+E lá no ilustre porto se embarcaram
+Onde já foi Parténope enterra:
+Nápoles, onde os Xados se mostraram,
+Fazendo-a a várias gentes subjugada,
+Pola ilustrar no fim de tantos anos
+Co'o senhorio de ínclitos Hispanos.
+
+62
+"Pelo mar alto Sículo navegam;
+Vão-se às praias de Rodes arenosas;
+E dali às ribeiras altas chegam,
+Que com morte de Magno são famosas;
+Vão a Mênfis e às terras, que se regam
+Das enchentes Nilóticas undosas;
+Sobem à Etiópia, sobre Egito,
+Que de Cristo lá guarda o santo rito.
+
+63
+"Passam também as ondas Eritreias,
+Que o povo de Israel sem nau passou;
+Ficam-lhe atrás as serras Nabateias,
+Que o filho de Ismael co'o nome ornou.
+As costas odoríferas Sabeias,
+Que a mãe do belo Adónis tanto honrou,
+Cercam, com toda a Arábia descoberta
+Feliz, deixando a Pétrea e a Deserta.
+
+64
+"Entram no estreito Pérsico, onde dura
+Da confusa Babel inda a memória;
+Ali co'o Tigre o Eufrates se mistura,
+Que as fontes onde nascem tem por glória.
+Dali vão em demanda da água pura,
+Que causa inda será de larga história,
+Do Indo, pelas ondas do Oceano,
+Onde não se atreveu passar Trajano.
+
+65
+"Viram gentes incógnitas e estranhas
+Da Índia, da Carmânia e Gedrosia,
+Vendo vários costumes, várias manhas,
+Que cada região produze e cria.
+Mas de vias tão ásperas, tamanhas,
+Tornar-se facilmente não podia:
+Lá morreram enfim, e lá ficaram,
+Que à desejada pátria não tornaram.
+
+66
+"Parece que guardava o claro Céu
+A Manuel, e seus merecimentos,
+Esta empresa tão árdua, que o moveu
+A subidos e ilustres movimentos:
+Manuel, que a Joane sucedeu
+No Reino e nos altivos pensamentos,
+Logo, corno tornou do Reino o cargo,
+Tomou mais a conquista do mar largo.
+
+67
+"O qual, como do nobre pensamento
+Daquela obrigação, que lhe ficara
+De seus antepassados, (cujo intento
+Foi sempre acrescentar a terra cara)
+Não deixasse de ser um só momento
+Conquistado: no tempo que a luz clara
+Foge, e as estrelas nítidas, que saem,
+A repouso convidam quando caem,
+
+68
+"Estando já deitado no áureo leito,
+Onde imaginações mais certas são?
+Revolvendo contino no conceito
+Seu ofício e sangue a obrigação,
+Os olhos lhe ocupou o sono aceito,
+Sem lhe desocupar o coração;
+Porque, tanto que lasso se adormece,
+Morfeu em várias formas lhe aparece.
+
+69
+"Aqui se lhe apresenta que subia
+Tão alto, que tocava a prima Esfera,
+Donde diante vários mundos via,
+Nações de muita gente estranha e fera;
+E lá bem junto donde nasce o dia,
+Depois que os olhos longos estendera,
+Viu de antigos, longínquos e altos montes
+Nascerem duas claras e altas fontes.
+
+70
+"Aves agrestes, feras e alimárias,
+Pelo monte selvático habitavam;
+Mil árvores silvestres e ervas várias
+O passo e o tracto às gentes atalhavam.
+Estas duras montanhas, adversárias
+De mais conversação, por si mostravam
+Que, desque Adão pecou aos nossos anos,
+Não as romperam nunca pés humanos.
+
+71
+"Das águas se lhe antolha que saíam,
+Para ele os largos passos inclinando,
+Dois homens, que mui velhos pareciam,
+De aspecto, inda que agreste, venerando:
+Das pontas dos cabelos lhe caíam
+Gotas, que o corpo vão banhando;
+A cor da pele baça e denegrida,
+A barba hirsuta, intonsa, mas comprida.
+
+72
+"Dambos de dois a fronte coroada
+Ramos não conhecidos e ervas tinha;
+Um deles a presença traz cansada,
+Como quem de mais longe ali caminha.
+E assim a água, com ímpeto alterada,
+Parecia que doutra parte vinha,
+Bem como Alfeu de Arcádia em Siracusa
+Vai buscar os abraços de Aretusa.
+
+73
+"Este, que era o mais grave na pessoa,
+Destarte para o Rei de longe brada:
+--"Ó tu, a cujos reinos e coroa
+Grande parte do mundo está guardada,
+Nós outros, cuja fama tanto voa,
+Cuja cerviz bem nunca foi domada,
+Te avisamos que é tempo que já mandes
+A receber de nós tributos grandes.
+
+74
+--"Eu sou o ilustre Ganges, que na terra
+Celeste tenho o berço verdadeiro;
+Estoutro é o Indo Rei que, nesta serra
+Que vês, seu nascimento tem primeiro.
+Custar-te-emos contudo dura guerra;
+Mas insistindo tu, por derradeiro,
+Com não vistas vitórias, sem receio,
+A quantas gentes vês, porás o freio."--
+
+75
+"Não disse mais o rio ilustre e santo,
+Mas ambos desaparecem num momento.
+Acorda Emanuel c'um novo espanto
+E grande alteração de pensamento.
+Estendeu nisto Febo o claro manto
+Pelo escuro Hemisfério sonolento;
+Veio a manhã no céu pintando as cores
+De pudibunda rosa e roxas flores.
+
+76
+"Chama o Rei os senhores a conselho,
+E propõe-lhe as figuras da visão;
+As palavras lhe diz do santo velho,
+Que a todos foram grande admiração.
+Determinam o náutico aparelho,
+Para que com sublime coração
+Vá a gente que mandar cortando os mares
+A buscar novos climas, novos ares.
+
+77
+"Eu, que bem mal cuidava que em efeito
+Se pusesse o que o peito me pedia,
+Que sempre grandes cousas deste jeito
+Pressago o coração me prometia,
+Não sei por que razão, por que respeito,
+Ou por que bom sinal que em mi se via,
+Me põe o ínclito Rei nas mãos a chave
+Deste cometimento grande e grave.
+
+78
+"E com rogo o palavras amorosas,
+Que é um mando nos Reis, que a mais obriga,
+Me disse:--"As cousas árduas e lustrosas
+Se alcançam com trabalho e com fadiga;
+Faz as pessoas altas e famosas
+A vida que se perde e que periga;
+Que, quando ao medo infame não se rende,
+Então, se menos dura, mais se estende.
+
+79
+--"Eu vos tenho entre todos escolhido
+Para uma empresa, qual a vós se deve,
+Trabalho ilustre, duro e esclarecido,
+O que eu sei que por mi vos será leve."--
+Não sofri mais, mas logo:--"Ó Rei subido,
+Aventurar-me a ferro, a fogo, a neve,
+É tão pouco por vós, que mais me pena
+Ser esta vida cousa tão pequena.
+
+80
+--"Imaginai tamanhas aventuras,
+Quais Euristeu a Alcides inventava,
+O leão Cleoneu, Harpias duras,
+O porco de Erimanto, a Hidra brava,
+Descer enfim às sombras vãs e escuras
+Onde os campos de Dite a Estige lava;
+Porque a maior perigo, a mor afronta,
+Por vós, ó Rei, o espírito e a carne é pronta."
+
+81
+"Com mercês sumptuosas me agradece
+E com razões me louva esta vontade;
+Que a virtude louvada vive e cresce,
+E o louvor altos casos persuade.
+A acompanhar-me logo se oferece,
+Obrigado d'amor e d'amizade,
+Não menos cobiçoso de honra e fama,
+O caro meu irmão Paulo da Gama.
+
+82
+"Mais se me ajunta Nicolau Coelho,
+De trabalhos mui grande sofredor;
+Ambos são de valia e de conselho,
+De experiência em armas e furor.
+Já de manceba gente me aparelho,
+Em que cresce o desejo do valor;
+Todos de grande esforço; e assim parece
+Quem a tamanhas cousas se oferece.
+
+83
+"Foram de Emanuel remunerados,
+Porque com mais amor se apercebessem,
+E com palavras altas animados
+Para quantos trabalhos sucedessem.
+Assim foram os Mínias ajuntados,
+Para que o Véu dourado combatessem,
+Na fatídica Nau, que ousou primeira
+Tentar o mar Euxínio, aventureira.
+
+84
+"E já no porto da ínclita Ulisseia
+C'um alvoroço nobre, e é um desejo,
+(Onde o licor mistura e branca areia
+Co'o salgado Neptuno o doce Tejo)
+As naus prestes estão; e não refreia
+Temor nenhum o juvenil despejo,
+Porque a gente marítima e a de Marte
+Estão para seguir-me a toda parte.
+
+85
+"Pelas praias vestidos os soldados
+De várias cores vêm e várias artes,
+E não menos de esforço aparelhados
+Para buscar do inundo novas partes.
+Nas fortes naus os ventos sossegados
+Ondeam os aéreos estandartes;
+Elas prometem, vendo os mares largos,
+De ser no Olimpo estrelas como a de Argos.
+
+86
+"Depois de aparelhados desta sorte
+De quanto tal viagem pede e manda,
+Aparelhamos a alma para a morte,
+Que sempre aos nautas ante os olhos anda.
+Para o sumo Poder que a etérea corte
+Sustenta só coa vista veneranda,
+Imploramos favor que nos guiasse,
+E que nossos começos aspirasse.
+
+87
+"Partimo-nos assim do santo templo
+Que nas praias do mar está assentado,
+Que o nome tem da terra, para exemplo,
+Donde Deus foi em carne ao mundo dado.
+Certifico-te, ó Rei, que se contemplo
+Como fui destas praias apartado,
+Cheio dentro de dúvida e receio,
+Que apenas nos meus olhos ponho o freio.
+
+88
+"A gente da cidade aquele dia,
+(Uns por amigos, outros por parentes,
+Outros por ver somente) concorria,
+Saudosos na vista e descontentes.
+E nós coa virtuosa companhia
+De mil Religiosos diligentes,
+Em procissão solene a Deus orando,
+Para os batéis viemos caminhando.
+
+89
+"Em tão longo caminho e duvidoso
+Por perdidos as gentes nos julgavam;
+As mulheres c'um choro piedoso,
+Os homens com suspiros que arrancavam;
+Mães, esposas, irmãs, que o temeroso
+Amor mais desconfia, acrescentavam
+A desesperarão, e frio medo
+De já nos não tornar a ver tão cedo.
+
+90
+"Qual vai dizendo:--"Ó filho, a quem eu tinha
+Só para refrigério, e doce amparo
+Desta cansada já velhice minha,
+Que em choro acabará, penoso e amaro,
+Por que me deixas, mísera e mesquinha?
+Por que de mim te vás, ó filho caro,
+A fazer o funéreo enterramento,
+Onde sejas de peixes mantimento!"--
+
+91
+"Qual em cabelo:--"Ó doce e amado esposo,
+Sem quem não quis Amor que viver possa,
+Por que is aventurar ao mar iroso
+Essa vida que é minha, e não é vossa?
+Como por um caminho duvidoso
+Vos esquece a afeição tão doce nossa?
+Nosso amor, nosso vão contentamento
+Quereis que com as velas leve o vento?"--
+
+92
+"Nestas e outras palavras que diziam
+De amor e de piedosa humanidade,
+Os velhos e os meninos os seguiam,
+Em quem menos esforço põe a idade.
+Os montes de mais perto respondiam,
+Quase movidos de alta piedade;
+A branca areia as lágrimas banhavam,
+Que em multidão com elas se igualavam.
+
+93
+"Nós outros sem a vista alevantarmos
+Nem a mãe, nem a esposa, neste estado,
+Por nos não magoarmos, ou mudarmos
+Do propósito firme começado,
+Determinei de assim nos embarcarmos
+Sem o despedimento costumado,
+Que, posto que é de amor usança boa,
+A quem se aparta, ou fica, mais magoa.
+
+94
+"Mas um velho d'aspeito venerando,
+Que ficava nas praias, entre a gente,
+Postos em nós os olhos, meneando
+Três vezes a cabeça, descontente,
+A voz pesada um pouco alevantando,
+Que nós no mar ouvimos claramente,
+C'um saber só de experiências feito,
+Tais palavras tirou do experto peito:
+
+95
+--"Ó glória de mandar! Ó vã cobiça
+Desta vaidade, a quem chamamos Fama!
+Ó fraudulento gosto, que se atiça
+C'uma aura popular, que honra se chama!
+Que castigo tamanho e que justiça
+Fazes no peito vão que muito te ama!
+Que mortes, que perigos, que tormentas,
+Que crueldades neles experimentas!
+
+96
+--"Dura inquietação d'alma e da vida,
+Fonte de desamparos e adultérios,
+Sagaz consumidora conhecida
+De fazendas, de reinos e de impérios:
+Chamam-te ilustre, chamam-te subida,
+Sendo dina de infames vitupérios;
+Chamam-te Fama e Glória soberana,
+Nomes com quem se o povo néscio engana!
+
+97
+--"A que novos desastres determinas
+De levar estes reinos e esta gente?
+Que perigos, que mortes lhe destinas
+Debaixo dalgum nome preminente?
+Que promessas de reinos, e de minas
+D'ouro, que lhe farás tão facilmente?
+Que famas lhe prometerás? que histórias?
+Que triunfos, que palmas, que vitórias?
+
+98
+--"Mas ó tu, geração daquele insano,
+Cujo pecado e desobediência,
+Não somente do reino soberano
+Te pôs neste desterro e triste ausência,
+Mas inda doutro estado mais que humano
+Da quieta e da simples inocência,
+Idade d'ouro, tanto te privou,
+Que na de ferro e d'armas te deitou:
+
+99
+--"Já que nesta gostosa vaidade
+Tanto enlevas a leve fantasia,
+Já que à bruta crueza e feridade
+Puseste nome esforço e valentia,
+Já que prezas em tanta quantidades
+O desprezo da vida, que devia
+De ser sempre estimada, pois que já
+Temeu tanto perdê-la quem a dá:
+
+100
+--"Não tens junto contigo o Ismaelita,
+Com quem sempre terás guerras sobejas?
+Não segue ele do Arábio a lei maldita,
+Se tu pela de Cristo só pelejas?
+Não tem cidades mil, terra infinita,
+Se terras e riqueza mais desejas?
+Não é ele por armas esforçado,
+Se queres por vitórias ser louvado?
+
+101
+--"Deixas criar às portas o inimigo,
+Por ires buscar outro de tão longe,
+Por quem se despovoe o Reino antigo,
+Se enfraqueça e se vá deitando a longe?
+Buscas o incerto e incógnito perigo
+Por que a fama te exalte e te lisonge,
+Chamando-te senhor, com larga cópia,
+Da Índia, Pérsia, Arábia e de Etiópia?
+
+102
+--"Ó maldito o primeiro que no mundo
+Nas ondas velas pôs em seco lenho,
+Dino da eterna pena do profundo,
+Se é justa a justa lei, que sigo e tenho!
+Nunca juízo algum alto e profundo,
+Nem cítara sonora, ou vivo engenho,
+Te dê por isso fama nem memória,
+Mas contigo se acabe o nome e glória.
+
+103
+--"Trouxe o filho de Jápeto do Céu
+O fogo que ajuntou ao peito humano,
+Fogo que o mundo em armas acendeu
+Em mortes, em desonras (grande engano).
+Quanto melhor nos fora, Prometeu,
+E quanto para o mundo menos dano,
+Que a tua estátua ilustre não tivera
+Fogo de altos desejos, que a movera!
+
+104
+--"Não cometera o moço miserando
+O carro alto do pai, nem o ar vazio
+O grande Arquiteto co'o filho, dando
+Um, nome ao mar, e o outro, fama ao rio.
+Nenhum cometimento alto e nefando,
+Por fogo, ferro, água, calma e frio,
+Deixa intentado a humana geração.
+Mísera sorte, estranha condição!"--
+
+Canto Quinto
+
+1
+"Estas sentenças tais o velho honrado
+Vociferando estava, quando abrimos
+As asas ao sereno e sossegado
+Vento, e do porto amado nos partimos.
+E, como é já no mar costume usado,
+A vela desfraldando, o céu ferimos,
+Dizendo: "Boa viagem", logo o vento
+Nos troncos fez o usado movimento.
+
+2
+"Entrava neste tempo o eterno lume
+No animal Nemeio truculento,
+E o mundo, que com tempo se consume,
+Na sexta idade andava enfermo e lento:
+Nela vê, como tinha por costume,
+Cursos do sol quatorze vezes cento,
+Com mais noventa e sete, em que corria,
+Quando no mar a armada se estendia.
+
+3
+"Já a vista pouco e pouco se desterra
+Daqueles pátrios montes que ficavam;
+Ficava o caro Tejo, e a fresca serra
+De Sintra, e nela os olhos se alongavam.
+Ficava-nos também na amada terra
+O coração, que as mágoas lá deixavam;
+E já depois que toda se escondeu,
+Não vimos mais enfim que mar e céu.
+
+4
+"Assim fomos abrindo aqueles mares,
+Que geração alguma não abriu,
+As novas ilhas vendo e os novos ares,
+Que o generoso Henrique descobriu;
+De Mauritânia os montes e lugares,
+Terra que Anteu num tempo possuiu,
+Deixando à mão esquerda; que à direita
+Não há certeza doutra, mas suspeita.
+
+5
+"Passamos a grande Ilha da Madeira,
+Que do muito arvoredo assim se chama,
+Das que nós povoamos, a primeira,
+Mais célebre por nome que por fama:
+Mas nem por ser do mundo a derradeira
+Se lhe aventajam quantas Vénus ama,
+Antes, sendo esta sua, se esquecera
+De Cipro, Gnido, Pafos e Citera.
+
+6
+"Deixamos de Massília a estéril costa,
+Onde seu gado os Azenegues pastam,
+Gente que as frescas águas nunca gosta
+Nem as ervas do campo bem lhe abastam:
+A terra a nenhum fruto enfim disposta,
+Onde as aves no ventre o ferro gastam,
+Padecendo de tudo extrema inópia,
+Que aparta a Barbaria de Etiópia.
+
+7
+"Passamos o limite aonde chega
+O Sol, que para o Norte os carros guia,
+Onde jazem os povos a quem nega
+O filho de Climene a cor do dia.
+Aqui gentes estranhas lava e rega
+Do negro Sanagá a corrente fria,
+Onde o Cabo Arsinário o nome perde,
+Chamando-se dos nossos Cabo Verde.
+
+8
+"Passadas tendo já as Canárias ilhas,
+Que tiveram por nome Fortunadas,
+Entramos, navegando, pelas filhas
+Do velho Hespério, Hespérides chamadas;
+Terras por onde novas maravilhas
+Andaram vendo já nossas armadas.
+Ali tomamos porto com bom vento,
+Por tomarmos da terra mantimento.
+
+9
+"Aquela ilha apartamos, que tomou
+O nome do guerreiro Santiago,
+Santo que os Espanhóis tanto ajudou
+A fazerem nos Mouros bravo estrago.
+Daqui, tanto que Bóreas nos ventou,
+Tornamos a cortar o imenso lago
+Do salgado Oceano, e assim deixamos
+A terra onde o refresco doce achamos.
+
+10
+"Por aqui rodeando a larga parte
+De África, que ficava ao Oriente,
+A província Jalofo, que reparte
+Por diversas nações a negra gente;
+A mui grande Mandinga, por cuja arte
+Logramos o metal rico e luzente,
+Que do curvo Gambeia as águas bebe,
+As quais o largo Atlântico recebe.
+
+11
+"As Dórcadas passamos, povoadas
+Das Irmãs, que outro tempo ali viviam,
+Que de vista total sendo privadas,
+Todas três dum só olho se serviam.
+Tu só, tu, cujas tranças encrespadas
+Netuno lá nas águas acendiam,
+Tornada já de todas a mais feia,
+De bívoras encheste a ardente areia.
+
+12
+"Sempre enfim para o Austro a aguda proa
+No grandíssimo gólfão nos metemos,
+Deixando a serra aspérrima Leoa,
+Co'o cabo a quem das Palmas nome demos.
+O grande rio, onde batendo soa
+O mar nas praias notas que ali temos,
+Ficou, com a Ilha ilustre que tomou
+O nome dum que o lado a Deus tocou.
+
+13
+"Ali o mui grande reino está de Congo,
+Por nós já convertido à fé de Cristo,
+Por onde o Zaire passa, claro e longo,
+Rio pelos antigos nunca visto.
+Por este largo mar enfim me alongo
+Do conhecido pólo de Calisto,
+Tendo o término ardente já passado,
+Onde o meio do mundo é limitado.
+
+14
+"Já descoberto tínhamos diante,
+Lá no novo Hemisfério, nova estrela,
+Não vista de outra gente, que ignorante
+Alguns tempos esteve incerta dela.
+Vimos a parte menos rutilante,
+E, por falta de estrelas, menos bela,
+Do Pólo fixo, onde ainda se não sabe
+Que outra terra comece, ou mar acabe.
+
+15
+"Assim passando aquelas regiões
+Por onde duas vezes passa Apolo,
+Dois invernos fazendo e dois verões,
+Enquanto corre dum ao outro Pólo,
+Por calmas, por tormentas e opressões,
+Que sempre f az no mar o irado Eolo,
+Vimos as Ursas, apesar de Juno,
+Banharem-se nas águas de Netuno.
+
+16
+"Contar-te longamente as perigosas
+Coisas do mar, que os homens não entendem:
+Súbitas trovoadas temerosas,
+Relâmpados que o ar em fogo acendem,
+Negros chuveiros, noites tenebrosas,
+Bramidos de trovões que o mundo fendem,
+Não menos é trabalho, que grande erro,
+Ainda que tivesse a voz de ferro.
+
+17
+"Os casos vi que os rudos marinheiros,
+Que têm por mestra a longa experiência,
+Contam por certos sempre e verdadeiros,
+Julgando as cousas só pela aparência,
+E que os que têm juízos mais inteiros,
+Que só por puro engenho e por ciência,
+Vêem do mundo os segredos escondidos,
+Julgam por falsos, ou mal entendidos.
+
+18
+"Vi, claramente visto, o lume vivo
+Que a marítima gente tem por santo
+Em tempo de tormenta e vento esquivo,
+De tempestade escura e triste pranto.
+Não menos foi a todos excessivo
+Milagre, e coisa certo de alto espanto,
+Ver as nuvens do mar com largo cano
+Sorver as altas águas do Oceano.
+
+19
+"Eu o vi certamente (e não presumo
+Que a vista me enganava) levantar-se
+No ar um vaporzinho e subtil fumo,
+E, do vento trazido, rodear-se:
+Daqui levado um cano ao pólo sumo
+Se via, tão delgado, que enxergar-se
+Dos olhos facilmente não podia:
+Da matéria das nuvens parecia.
+
+20
+"Ia-se pouco e pouco acrescentando
+E mais que um largo masto se engrossava;
+Aqui se estreita, aqui se alarga, quando
+Os golpes grandes de água em si chupava;
+Estava-se coas ondas ondeando:
+Em cima dele uma nuvem se espessava,
+Fazendo-se maior, mais carregada
+Co'o cargo grande d'água em si tomada.
+
+21
+"Qual roxa sanguessuga se veria
+Nos beiços da alimária (que imprudente,
+Bebendo a recolheu na fonte fria)
+Fartar co'o sangue alheio a sede ardente;
+Chupando mais e mais se engrossa e cria,
+Ali se enche e se alarga grandemente:
+Tal a grande coluna, enchendo, aumenta
+A si, e a nuvem negra que sustenta.
+
+22
+"Mas depois que de todo se fartou,
+O pó que tem no mar a si recolhe,
+E pelo céu chovendo enfim voou,
+Porque coa água a jacente água molhe:
+As ondas torna as ondas que tomou,
+Mas o sabor do sal lhe tira e tolhe.
+Vejam agora os sábios na escritura,
+Que segredos são estes de Natura.
+
+23
+"Se os antigos filósofos, que andaram
+Tantas terras, por ver segredos delas,
+As maravilhas que eu passei, passaram,
+A tão diversos ventos dando as velas,
+Que grandes escrituras que deixaram!
+Que influição de signos e de estrelas!
+Que estranhezas, que grandes qualidades!
+E tudo sem mentir, puras verdades.
+
+24
+"Mas já o Planeta que no céu primeiro
+Habita, cinco vezes apressada,
+Agora meio rosto, agora inteiro
+Mostrara, enquanto o mar cortava a armada,
+Quando da etérea gávea um marinheiro,
+Pronto coa vista, "Terra! Terra!" brada.
+Salta no bordo alvoroçada a gente
+Co'os olhos no horizonte do Oriente.
+
+25
+"A maneira de nuvens se começam
+A descobrir os montes que enxergamos;
+As âncoras pesadas se adereçam;
+As velas, já chegados, amainamos.
+E para que mais certas se conheçam
+As partes tão remotas onde estamos,
+Pelo novo instrumento do Astrolábio,
+Invenção de subtil juízo e sábio,
+
+26
+"Desembarcamos logo na espaçosa,
+Parte, por onde a gente se espalhou,
+De ver eousas estranhas desejosa
+Da terra que outro povo não pisou;
+Porém eu co'os pilotos na arenosa
+Praia, por vermos em que parte estou,
+Me detenho em tomar do Sol a altura
+E compassar a universal pintura.
+
+27
+"Achamos ter de todo já passado
+Do Semicapro peixe a grande meta,
+Estando entre ele e o círculo gelado
+Austral, parte do mundo mais secreta.
+Eis, de meus companheiros rodeado,
+Vejo um estranho vir de pele preta,
+Que tomaram por força, enquanto apanha
+De mel os doces favos na montanha.
+
+28
+"Torvado vem na vista, como aquele
+Que não se vira nunca em tal extremo;
+Nem ele entende a nós, nem nós a ele,
+Selvagem mais que o bruto Polifemo.
+Começo-lhe a mostrar da rica pelo
+De Colcos o gentil metal supremo,
+A prata fina, a quente especiaria:
+A nada disto o bruto se movia.
+
+29
+"Mando mostrar-lhe peças mais somenos:
+Contas de cristalino transparente,
+Alguns soantes cascavéis pequenos,
+Um barrete vermelho, cor contente.
+Vi logo, por sinais e por acenos,
+Que com isto se alegra grandemente.
+Mando-o soltar com tudo, e assim caminha
+Para a povoação que perto tinha.
+
+30
+"Mas logo ao outro dia, seus parceiros,
+Todos nus, e da cor da escura treva,
+Descendo pelos ásperos outeiros,
+As peças vêm buscar que estoutro leva:
+Domésticos já tanto e companheiros
+Se nos mostram, que fazem que se atreva
+Fernão Veloso a ir ver da terra o trato
+E partir-se com eles pelo mato.
+
+31
+"É Veloso no braço confiado,
+E de arrogante crê que vai seguro;
+Mas, sendo um grande espaço já passado,
+Em que algum bom sinal saber procuro,
+Estando, a vista alçada, co'o cuidado
+No aventureiro, eis pelo monto duro
+Aparece, e, segundo ao mar caminha,
+Mais apressado do que fora, vinha.
+
+32
+"O batel de Coelho foi depressa
+Pelo tomar; mas, antes que chegasse,
+Um Etíope ousado se arremessa
+A ele, por que não se lhe escapasse;
+Outro e outro lhe saem; vê-se em pressa
+Veloso, sem que alguém lhe ali ajudasse;
+Acudo eu logo, e enquanto o remo aperto,
+Se mostra um bando negro descoberto.
+
+33
+"Da espessa nuvem setas e pedradas
+Chovem sobre nós outros sem medida;
+E não foram ao vento em vão deitadas,
+Que esta perna trouxe eu dali ferida;
+Mas nós, como pessoas magoadas,
+A resposta lhe demos tão tecida,
+Que, em mais que nos barretes, se suspeita
+Que a cor vermelha levam desta feita.
+
+34
+"E sendo já, Veloso em salvamento,
+Logo nos recolhemos para a armada,
+Vendo a malícia feia e rudo intento
+Da gente bestial, bruta e malvada,
+De quem nenhum melhor conhecimento
+Pudemos ter da índia desejada
+Que estarmos ainda muito longe dela;
+E assim tornei a dar ao vento a vela.
+
+35
+"Disse então a Veloso um companheiro
+(Começando-se todos a sorrir)
+-"Ó lá, Veloso amigo, aquele outeiro
+É melhor de descer que de subir."
+--"Sim, é, (responde o ousado aventureiro)
+Mas quando eu para cá vi tantos vir
+Daqueles cães, depressa um pouco vim,
+Por me lembrar que estáveis cá sem
+
+36
+"Contou então que, tanto que passaram
+Aquele monte, os negros de quem falo,
+Avante mais passar o não deixaram,
+Querendo, se não torna, ali matá-lo;
+E tornando-se, logo se emboscaram,
+Por que, saindo nós para tomá-lo,
+Nos pudessem mandar ao reino escuro,
+Por nos roubarem mais a seu seguro.
+
+37
+"Porém já cinco Sóis eram passados
+Que dali nos partíramos, cortando
+Os mares nunca doutrem navegados,
+Prósperamente os ventos assoprando,
+Quando uma noite estando descuidados,
+Na cortadora proa vigiando,
+Uma nuvem que os ares escurece
+Sobre nossas cabeças aparece.
+
+38
+"Tão temerosa vinha e carregada,
+Que pôs nos corações um grande medo;
+Bramindo o negro mar, de longe brada
+Como se desse em vão nalgum rochedo.
+--"Ó Potestade, disse, sublimada!
+Que ameaço divino, ou que segredo
+Este clima e este mar nos apresenta,
+Que mor cousa parece que tormenta?"--
+
+39
+"Não acabava, quando uma figura
+Se nos mostra no ar, robusta e válida,
+De disforme e grandíssima estatura,
+O rosto carregado, a barba esquálida,
+Os olhos encovados, e a postura
+Medonha e má, e a cor terrena e pálida,
+Cheios de terra e crespos os cabelos,
+A boca negra, os dentes amarelos.
+
+40
+"Tão grande era de membros, que bem posso
+Certificar-te, que este era o segundo
+De Rodes estranhíssimo Colosso,
+Que um dos sete milagres foi do mundo:
+Com um tom de voz nos fala horrendo e grosso,
+Que pareceu sair do mar profundo:
+Arrepiam-se as carnes e o cabelo
+A mi e a todos, só de ouvi-lo e vê-lo.
+
+41
+"E disse:--"Ó gente ousada, mais que quantas
+No mundo cometeram grandes cousas,
+Tu, que por guerras cruas, tais e tantas,
+E por trabalhos vãos nunca repousas,
+Pois os vedados términos quebrantas,
+E navegar meus longos mares ousas,
+Que eu tanto tempo há já que guardo e tenho,
+Nunca arados d'estranho ou próprio lenho:
+
+42
+--"Pois vens ver os segredos escondidos
+Da natureza e do úmido elemento,
+A nenhum grande humano concedidos
+De nobre ou de imortal merecimento,
+Ouve os danos de mim, que apercebidos
+Estão a teu sobejo atrevimento,
+Por todo o largo mar e pela terra,
+Que ainda hás de sojugar com dura guerra.
+
+43
+--"Sabe que quantas naus esta viagem
+Que tu fazes, fizerem de atrevidas,
+Inimiga terão esta paragem
+Com ventos e tormentas desmedidas.
+E da primeira armada que passagem
+Fizer por estas ondas insofridas,
+Eu farei d'improviso tal castigo,
+Que seja mor o dano que o perigo.
+
+44
+--"Aqui espero tomar, se não me engano,
+De quem me descobriu, suma vingança.
+E não se acabará só nisto o dano
+Da vossa pertinace confiança;
+Antes em vossas naus vereis cada ano,
+Se é verdade o que meu juízo alcança,
+Naufrágios, perdições de toda sorte,
+Que o menor mal de todos seja a morte.
+
+45
+--"É do primeiro Ilustre, que a ventura
+Com fama alta fizer tocar os Céus,
+Serei eterna e nova sepultura,
+Por juízos incógnitos de Deus.
+Aqui porá da Turca armada dura
+Os soberbos e prósperos troféus;
+Comigo de seus danos o ameaça
+A destruída Quíloa com Mombaça.
+
+46
+--"Outro também virá de honrada fama,
+Liberal, cavaleiro, enamorado,
+E consigo trará a formosa dama
+Que Amor por grã mercê lhe terá dado.
+Triste ventura e negro fado os chama
+Neste terreno meu, que duro e irado
+Os deixará dum cru naufrágio vivos
+Para verem trabalhos excessivos.
+
+47
+--"Verão morrer com fome os filhos caros,
+Em tanto amor gerados e nascidos;
+Verão os Cafres ásperos e avaros
+Tirar à linda dama seus vestidos;
+Os cristalinos membros e perclaros
+A calma, ao frio, ao ar verão despidos,
+Depois de ter pisada longamente
+Co'os delicados pés a areia ardente.
+
+48
+--"E verão mais os olhos que escaparem
+De tanto mal, de tanta desventura,
+Os dois amantes míseros ficarem
+Na férvida e implacável espessura.
+Ali, depois que as pedras abrandarem
+Com lágrimas de dor, de mágoa pura,
+Abraçados as almas soltarão
+Da formosa e misérrima prisão."--
+
+49
+"Mais ia por diante o monstro horrendo
+Dizendo nossos fados, quando alçado
+Lhe disse eu:--Quem és tu? que esse estupendo
+Corpo certo me tem maravilhado.--
+A boca e os olhos negros retorcendo,
+E dando um espantoso e grande brado,
+Me respondeu, com voz pesada e amara,
+Como quem da pergunta lhe pesara:
+
+50
+--"Eu sou aquele oculto e grande Cabo,
+A quem chamais vós outros Tormentório,
+Que nunca a Ptolomeu, Pompónio, Estrabo,
+Plínio, e quantos passaram, fui notório.
+Aqui toda a Africana costa acabo
+Neste meu nunca visto Promontório,
+Que para o Pólo Antarctico se estende,
+A quem vossa ousadia tanto ofende.
+
+51
+--"Fui dos filhos aspérrimos da Terra,
+Qual Encélado, Egeu e o Centimano;
+Chamei-me Adamastor, e fui na guerra
+Contra o que vibra os raios de Vulcano;
+Não que pusesse serra sobre serra,
+Mas conquistando as ondas do Oceano,
+Fui capitão do mar, por onde andava
+A armada de Netuno, que eu buscava.
+
+52
+--"Amores da alta esposa de Peleu
+Me fizeram tomar tamanha empresa.
+Todas as Deusas desprezei do céu,
+Só por amar das águas a princesa.
+Um dia a vi coas filhas de Nereu
+Sair nua na praia, e logo presa
+A vontade senti de tal maneira
+Que ainda não sinto coisa que mais queira.
+
+53
+--"Como fosse impossível alcançá-la
+Pela grandeza feia de meu gesto,
+Determinei por armas de tomá-la,
+E a Doris este caso manifesto.
+De medo a Deusa então por mim lhe fala;
+Mas ela, com um formoso riso honesto,
+Respondeu:--"Qual será o amor bastante
+De Ninfa que sustente o dum Gigante?
+
+54
+--"Contudo, por livrarmos o Oceano
+De tanta guerra, eu buscarei maneira,
+Com que, com minha honra, escuse o dano."
+Tal resposta me torna a mensageira.
+Eu, que cair não pude neste engano,
+(Que é grande dos amantes a cegueira)
+Encheram-me com grandes abondanças
+O peito de desejos e esperanças.
+
+55
+--"Já néscio, já da guerra desistindo,
+Uma noite de Dóris prometida,
+Me aparece de longe o gesto lindo
+Da branca Tétis única despida:
+Como doido corri de longe, abrindo
+Os braços, para aquela que era vida
+Deste corpo, e começo os olhos belos
+A lhe beijar, as faces e os cabelos.
+
+56
+--"Ó que não sei de nojo como o conte!
+Que, crendo ter nos braços quem amava,
+Abraçado me achei com um duro monte
+De áspero mato e de espessura brava.
+Estando com um penedo fronte a fronte,
+Que eu pelo rosto angélico apertava
+Não fiquei homem não, mas mudo e quedo,
+E junto dum penedo outro penedo.
+
+57
+--"Ó Ninfa, a mais formosa do Oceano,
+Já que minha presença não te agrada,
+Que te custava ter-me neste engano,
+Ou fosse monte, nuvem, sonho, ou nada?
+Daqui me parto irado, e quase insano
+Da mágoa e da desonra ali passada,
+A buscar outro inundo, onde não visse
+Quem de meu pranto e de meu mal se risse,
+
+58
+--"Eram já neste tempo meus irmãos
+Vencidos e em miséria extrema postos;
+E por mais segurar-se os Deuses vãos,
+Alguns a vários montes sotopostos:
+E como contra o Céu não valem mãos,
+Eu, que chorando andava meus desgostos,
+Comecei a sentir do fado inimigo
+Por meus atrevimentos o castigo.
+
+59
+--"Converte-se-me a carne em terra dura,
+Em penedos os ossos sefizeram,
+Estes membros que vês e esta figura
+Por estas longas águas se estenderam;
+Enfim, minha grandíssima estatura
+Neste remoto cabo converteram
+Os Deuses, e por mais dobradas mágoas,
+Me anda Tétis cercando destas águas."--
+
+60
+"Assim contava, e com um medonho choro
+Súbito diante os olhos se apartou;
+Desfez-se a nuvem negra, e com um sonoro
+Bramido muito longe o mar soou.
+Eu, levantando as mãos ao santo coro
+Dos anjos, que tão longe nos guiou,
+A Deus pedi que removesse os duros
+Casos, que Adamastor contou futuros.
+
+61
+"Já Flegon e Piróis vinham tirando
+Com os outros dois o carro radiante,
+Quando a terra alta se nos foi mostrando,
+Em que foi convertido o grão Gigante.
+Ao longo desta costa, começando
+Já de cortar as ondas do Levante,
+Por ela abaixo um pouco navegamos,
+Onde segunda vez terra tomamos.
+
+62
+"A gente que esta terra possuía,
+Posto que todos Etíopes eram,
+Mais humana no trato parecia
+Que os outros, que tão mal nos receberam.
+Com bailos e com festas de alegria
+Pela praia arenosa a nós vieram,
+As mulheres consigo e o manso gado
+Que apascentavam, gordo e bem criado.
+
+63
+"As mulheres queimadas vêm em cima
+Dos vagarosos bois, ali sentadas,
+Animais que eles têm em mais estima
+Que todo o outro gado das manadas.
+Cantigas pastoris, ou prosa ou rima,
+Na sua língua cantam concertadas
+Com o doce som das rústicas avenas,
+Imitando de Títiro as Camenas.
+
+64
+"Estes, como na vista prazenteiros
+Fossem, humanamente nos trataram,
+Trazendo-nos galinhas e carneiros,
+A troco doutras peças, que levaram.
+Mas como nunca enfim meus companheiros
+Palavra sua alguma lhe alcançaram
+Que desse algum sinal do que buscamos,
+As velas dando, as âncoras levamos.
+
+65
+"Já aqui tínhamos dado um grã rodeio
+A costa negra de África, e tornava
+A proa a demandar o ardente meio
+Do Céu, e o pólo Antarctico ficava:
+Aquele ilhéu deixamos, onde veio
+Outra armada primeira, que buscava
+O Tormentório cabo, e descoberto,
+Naquele ilhéu fez seu limite certo.
+
+66
+Daqui fomos cortando muitos dias
+Entre tormentas tristes e bonanças,
+No largo mar fazendo novas vias,
+Só conduzidos de árduas esperanças.
+Colo mar um tempo andamos em porfias,
+Que, como tudo nele são mudanças.
+Corrente nele achamos tão possante
+Que passar não deixava por diante.
+
+67
+"Era maior a força em demasia,
+Segundo para trás nos obrigava,
+Do mar, que contra nós ali corria,
+Que por nós a do vento que assoprava.
+Injuriado Noto da porfia
+Em que colo mar (parece) tanto estava,
+Os assopros esforça iradamente,
+Com que nos fez vencer a grão corrente.
+
+68
+"Trazia o Sol o dia celebrado,
+Em que três Reis das partes do Oriento
+Foram buscar um Rei de pouco nado,
+No qual Rei outros três há juntamente.
+Neste dia outro porto foi tomado
+Por nós, da mesma já contada gente,
+Num largo rio, ao qual o no e demos
+Do dia, em que por ele nos metemos.
+
+69
+"Desta gente refresco algum tomamos,
+E do rio fresca água; mas contudo
+Nenhum sinal aqui da Índia achamos
+No Povo, com nós outros quase mudo.
+Ora vê, Rei, que tamanha terra andamos,
+Sem sair nunca deste povo rudo,
+Sem vermos nunca nova nem sinal
+Da desejada parte Oriental.
+
+70
+"Ora imagina agora coitados
+Andaríamos todos, perdidos,
+De fomes, de tormentas quebrantados,
+Por climas e por mares não sabidos,
+E do esperar comprido tão cansados,
+Quanto a desesperar já compelidos,
+Por céus não naturais, de qualidade
+Inimiga de nossa humanidade.
+
+71
+"Corrupto já e danado o mantimento,
+Danoso e mau ao fraco corpo humano,
+E além disso nenhum contentamento,
+Que sequer da esperança fosse engano.
+Crês tu que, se este nosso ajuntamento
+De soldados não fora Lusitano,
+Que durara ele tanto obediente
+Por ventura a seu Rei e a seu regente?
+
+72
+"Crês tu que já não foram levantados
+Contra seu Capitão, se os resistira,
+Fazendo-se piratas, obrigados
+De desesperação, de fome, de ira?
+Grandemente, por certo, estão provados,
+Pois que nenhum trabalho grande os tira
+Daquela Portuguesa alta excelência
+De lealdade firme, e obediência.
+
+73
+"Deixando o porto enfim do doce rio
+E tornando a cortar a água salgada,
+Fizemos desta costa algum desvio,
+Deitando para o pego toda a armada;
+Porque, ventando Noto manso e frio,
+Não nos apanhasse a água da enseada,
+Que a costa faz ali daquela banda
+Donde a rica Sofala o ouro manda.
+
+74
+"Esta passada, logo o leve leme
+Encomendado ao sacro Nicolau,
+Para onde o mar na costa brada e geme,
+A proa inclina duma e doutra nau;
+Quando indo o coração que espera e teme
+E que tanto fiou dum fraco pau
+Do que esperava já desesperado,
+Foi duma novidade alvoroçado
+
+75
+"E foi que, estando já da costa perto,
+Onde as praias e vales bem se viam,
+Num rio, que ali sai ao mar aberto,
+Batéis à vela entravam e saíam.
+Alegria muito grande foi por certo
+Acharmos já pessoas que sabiam
+Navegar, porque entre elas esperamos
+De achar novas algumas, como achamos.
+
+76
+"Etíopes são todos, mas parece
+Que com gente melhor comunicavam;
+Palavra alguma Arábia se conhece
+Entre a linguagem sua que falavam;
+E com pano delgado, que se tece
+De algodão, as cabeças apertavam;
+Com outro, que de tinta azul se tinge,
+Cada um as vergonhosas partes cinge.
+
+77
+"Pela Arábica língua, que mal falam,
+E que Fernão Martins muito bem entende,
+Dizem que por naus, que em grandeza igualam
+As nossas, o seu mar se corta e fende;
+Mas que lá donde sai o Sol, se abalam
+Para onde a costa ao Sul se alarga e estende,
+E do Sul para o Sol, terra onde havia
+Gente, assim como nós, da cor do dia.
+
+78
+"Muito grandemente aqui nos alegramos
+Com a gente, e com as novas muito mais:
+Pelos sinais que neste rio achamos
+O nome lhe ficou dos Bons Sinais.
+Um padrão nesta terra alevantamos,
+Que, para assinalar lugares tais,
+Trazia alguns; o nome tem do belo
+Guiador de Tobias a Gabelo.
+
+79
+"Aqui de limos, cascas e d'ostrinhos,
+Nojosa criação das águas fundas,
+Alimpamos as naus, que dos caminhos
+Longos do mar, vêm sórdidas e imundas.
+Dos hóspedes que tínhamos vizinhos,
+Com mostras aprazíveis e jocundas,
+louvemos sempre o usado mantimento,
+Limpos de todo o falso pensamento.
+
+80
+"Mas não foi, da esperança grande e imensa
+Que nesta terra houvemos, limpa e pura
+A alegria; mas logo a recompensa
+A Ramnúsia com nova desventura.
+Assim no céu sereno se dispensa:
+Com esta condição pesada e dura
+Nascemos: o pesar terá firmeza,
+Mas o bem logo muda a natureza.
+
+81
+"E foi que de doença crua e feia,
+A mais que eu nunca vi, desampararam
+Muitos a vida, e em terra estranha e alheia
+Os ossos para sempre sepultaram.
+Quem haverá que, sem o ver, o creia?
+Que tão disformemente ali lhe incharam
+As gengivas na boca, que crescia
+A carne, e juntamente apodrecia.
+
+82
+"--Apodrecia com um fétido e bruto
+Cheiro, que o ar vizinho inficionava;
+Não tínhamos ali médico astuto,
+Cirurgião subtil menos se achava;
+Mas qualquer, neste ofício pouco instructo,
+Pela carne já podre assim cortava
+Como se fora morta, e bem convinha,
+Pois que morto ficava quem a tinha.
+
+83
+"Enfim que nesta incógnita espessura
+Deixamos para sempre os companheiros,
+Que em tal caminho e em tanta desventura
+Foram sempre conosco aventureiros.
+Quão fácil é ao corpo a sepultura!
+Quaisquer ondas do mar, quaisquer outeiros
+Estranhos, assim mesmo como aos nossos,
+Receberão de todo o Ilustre os ossos.
+
+84
+"Assim que, deste porto nos partirmos
+Com maior esperança e maior tristeza,
+E pela costa abaixo o mar abrirmos
+Buscando algum sinal de mais firmeza.
+Na dura Moçambique enfim surgimos,
+De cuja falsidade e má vileza
+Já serás sabedor, e dos enganos
+Dos povos de Mombaça pouco humanos.
+
+85
+"Até que aqui no teu seguro porto,
+Cuja brandura e doce tratamento
+Dará saúde a um vivo, e vida a um morto,
+Nos trouxe a piedade do alto assento.
+Aqui repouso, aqui doce conforto,
+Nova quietação do pensamento
+Nos deste: e vês aqui, se atento ouviste,
+Te contei tudo quanto me pediste.
+
+86
+"Julgas agora, Rei, se houve no mundo
+Gentes que tais caminhos cometessem?
+Crês tu que tanto Eneias e o facundo
+Ulisses pelo inundo se estendessem?
+Ousou algum a ver do mar profundo,
+Por mais versos que dele se escrevessem,
+Do que eu vi, a poder de esforço e de arte,
+E do que ainda hei de ver, a oitava parte?
+
+87
+"Esse que bebeu tanto da água Aónia,
+Sobre quem tem contenda peregrina,
+Entre si, Rodes, Smirna e Colofónia,
+Atenas, Ios, Argo e Salamina:
+Esse outro que esclarece toda Ausónía,
+A cuja voz altíssona e divina
+Ouvindo, o pátrio Míncio se adormece,
+Mas o Tibre, com o som se ensoberbece;
+
+88
+Cantem, louvem e escrevam sempre extremos
+Desses seus Semideuses, e encareçam,
+Fingindo Magis Circes, Polifemos,
+Sirenas que com o canto os adormeçam;
+Dêem-lhe mais navegar à vela e remos
+Os Cicones, e a torra onde se esqueçam
+Os companheiros, em gostando o Loto;
+Dêem-lhe perder nas águas o piloto;
+
+89
+"Ventos soltos lhe finjam, e imaginem
+Dos odres e Calipsos namoradas;
+Harpias que o manjar lhe contaminem;
+Descer às sombras nuas já passadas:
+Que por muito e por muito que se afinem
+Nestas fábulas vãs, tão bem sonhadas,
+A verdade que eu conto nua e pura
+Vence toda grandíloqua escritura."
+
+90
+Da boca do facundo Capitão
+Pendendo estavam todos embebidos,
+Quando deu fim à longa narração
+Dos altos feitos grandes e subidos.
+Louva o Rei o sublime coração
+Dos Reis em tantas guerras conhecidos;
+Da gente louva a antiga fortaleza,
+A lealdade de ânimo e nobreza.
+
+91
+Vai recontando o povo, que se admira,
+O caso cada qual que mais notou;
+Nenhum deles da gente os olhos tira,
+Que tão longos caminhos rodeou.
+Mas já o mancebo Délio as rédeas vira
+Que o irmão de Lampécia mal guiou,
+Por vir a descansar nos Tétios braços;
+E el-Rei se vai do mar aos nobres paços.
+
+92
+Quão doce é o louvor e a justa glória
+Dos próprios feitos, quando são soados!
+Qualquer nobre trabalha que em memória
+Vença ou iguale os grandes já passados.
+As invejas da ilustre e alheia história
+Fazem mil vezes feitos sublimados.
+Quem valerosas obras exercita,
+Louvor alheio muito o esperta e incita.
+
+93
+Não tinha em tanto os feitos gloriosos
+De Aquiles, Alexandro na peleja,
+Quanto de quem o canta, os numerosos
+Versos; isso só louva, isso deseja.
+Os troféus de Melcíades famosos
+Temístoeles despertam só de inveja,
+E diz que nada tanto o deleitava
+Como a voz que seus feitos celebrava.
+
+94
+Trabalha por mostrar Vasco da Gama
+Que essas navegações que o mundo canta
+Não merecem tamanha glória e fama
+Como a sua, que o céu e a terra espanta.
+Si; mas aquele Herói, que estima e ama
+Com dons, mercês, favores e honra tanta
+A lira Mantuana, faz que soe
+Eneias, e a Romana glória voe.
+
+95
+Dá a terra lusitana Cipiões,
+Césares, Alexandros, e dá Augustos;
+Mas não lhe dá contudo aqueles dois
+Cuja falta os faz duros e robustos.
+Octávio, entre as maiores opressões,
+Compunha versos doutos e venustos.
+Não dirá Fúlvia certo que é mentira,
+Quando a deixava António por Glafira,
+
+96
+Vai César, sojugando toda França,
+E as armas não lhe impedem a ciência;
+Mas, numa mão a pena e noutra a lança,
+Igualava de Cícero a eloquência.
+O que de Cipião se sabe e alcança,
+É nas comédias grande experiência.
+Lia Alexandro a Homero de maneira
+Que sempre se lhe sabe à cabeceira.
+
+97
+Enfim, não houve forte capitão,
+Que não fosse também douto e ciente,
+Da Lácia, Grega, ou Bárbara nação,
+Senão da Portuguesa tão somente.
+Sem vergonha o não digo, que a razão
+De algum não ser por versos excelente,
+É não se ver prezado o verso e rima,
+Porque, quem não sabe arte, não na estima.
+
+98
+Por isso, e não por falta de natura,
+Não há também Virgílios nem Homeros;
+Nem haverá, se este costume dura,
+Pios Eneias, nem Aquiles feros.
+Mas o pior de tudo é que a ventura
+Tão ásperos os fez, e tão austeros,
+Tão rudos, e de engenho tão remisso,
+Que a muitos lhe dá pouco, ou nada disso.
+
+99
+As Musas agradeça o nosso Gama
+o Muito amor da Pátria, que as obriga
+A dar aos seus na lira nome e fama
+De toda a ilustro e bélica fadiga:
+Que ele, nem quem na estirpe seu se chama,
+Calíope não tem por tão amiga,
+Nem as filhas do Tejo, que deixassem
+As telas douro fino, e que o cantassem.
+
+100
+Porque o amor fraterno e puro gosto
+De dar a todo o Lusitano feito
+Seu louvor, é somente o pressuposto
+Das Tágides gentis, e seu respeito.
+Porém não deixe enfim de ter disposto
+Ninguém a grandes obras sempre o peito,
+Que por esta, ou por outra qualquer via,
+Não perderá seu preço, e sua valia.
+
+Canto Sexto
+
+1
+Não sabia em que modo festejasse
+O Rei Pagão os fortes navegantes,
+Para que as amizades alcançasse
+Do Rei Cristão, das gentes tão possantes;
+Pesa-lhe que tão longe o aposentasse
+Das Européias terras abundantes
+A ventura, que não no fez vizinho
+Donde Hércules ao mar abriu caminho.
+
+2
+Com jogos, danças e outras alegrias,
+A segundo a polícia Melindana,
+Com usadas e ledas pescarias,
+Com que a Lageia António alegra e engana
+Este famoso Rei, todos os dias,
+Festeja a companhia Lusitana,
+Com banquetes, manjares desusados,
+Com frutas, aves, carnes e pescados.
+
+3
+Mas vendo o Capitão que se detinha
+Já mais do que devia, e o fresco vento
+O convida que parta e tome asinha
+Os pilotos da terra e mantimento,
+Não se quer mais deter, que ainda tinha
+Muito para cortar do salso argento;
+Já do Pagão benigno se despede,
+Que a todos amizade longa pede.
+
+4
+Pede-lhe mais que aquele porto seja
+Sempre com suas frotas visitado,
+Que nenhum outro bem maior deseja,
+Que dar a tais barões seu reino e estado;
+E que enquanto seu corpo o espírito reja,
+Estará de contino aparelhado
+A pôr a vida e reino totalmente
+Por tão bom Rei, por tão sublime gente.
+
+5
+Outras palavras tais lhe respondia
+O Capitão, o logo as velas dando,
+Para as terras da Aurora se partia,
+Que tanto tempo há já que vai buscando.
+No piloto que leva não havia
+Falsidade, mas antes vai mostrando
+A navegação certa, e assim caminha
+Já mais seguro do que dantes vinha.
+
+6
+As ondas navegavam do Oriente
+Já nos mares da Índia, e enxergavam
+Os tálamos do Sol, que nasce ardente;
+Já quase seus desejos se acabavam.
+Mas o mau de Tioneu, que na alma sente
+As venturas, que então se aparelhavam
+A gente Lusitana, delas dina,
+Arde, morre, blasfema e desatina.
+
+7
+Via estar todo o Céu determinado
+De fazer de Lisboa nova Roma;
+Não no pode estorvar, que destinado
+Está doutro poder que tudo doma.
+Do Olimpo desce enfim desesperado;
+Novo remédio em terra busca e toma:
+Entra no úmido reino, e vai-se à corte
+Daquele a quem o mar caiu em sorte.
+
+8
+No mais interno fundo das profundas
+Cavernas altas, onde o mar se esconde,
+Lá donde as ondas saem furibundas,
+Quando às iras do vento o mar responde,
+Netuno mora, e moram as jocundas
+Nereidas, e outros Deuses do mar, onde
+As águas campo deixam às cidades,
+Que habitam estas úmidas deidades.
+
+9
+Descobre o fundo nunca descoberto
+Das areias ali de prata fina;
+Torres altas se vêem no campo aberto
+Da transparente massa cristalina:
+Quanto se chegam mais os olhos perto,
+Tanto menos a vista determina
+Se é cristal o que vê, se diamante,
+Que assim se mostra claro e radiante.
+
+10
+As portas douro fino, e marchetadas
+Do rico aljôfar que nas conchas nasce,
+De escultura formosa estão lavradas,
+Na qual o irado Baco a vista pasce;
+E vê primeiro em cores variadas
+Do velho Caos a tão confusa face;
+Vêem-se os quatro elementos trasladados
+Em diversos ofícios ocupados.
+
+11
+Ali sublime o Fogo estava em cima,
+Que em nenhuma matéria se sustinha;
+Daqui as coisas vivas sempre anima,
+Depois que Prometeu furtado o tinha.
+Logo após ele leve se sublima
+O invisível Ar, que mais asinha
+Tomou lugar, e nem por quente ou f rio,
+Algum deixa no mundo estar vazio.
+
+12
+Estava a terra em montes revestida
+De verdes ervas, e árvores floridas,
+Dando pasto diverso e dando vida
+As alimárias nela produzidas.
+A clara forma ali estava esculpida
+Das águas entre a terra desparzidas,
+De pescados criando vários modos,
+Com seu humor mantendo os corpos todos.
+
+13
+Noutra parte esculpida estava a guerra,
+Que tiveram os Deuses com os Gigantes;
+Está Tifeu debaixo da alta serra
+De Etna, que as flamas lança crepitantes;
+Esculpido se vê ferindo a terra
+Netuno, quando as gentes ignorantes
+Dele o cavalo houveram, e a primeira
+De Minerva pacífica oliveira.
+
+14
+Pouca tardança faz Lieu irado
+Na vista destas coisas, mas entrando
+Nos paços de Netuno, que avisado
+Da vinda sua, o estava já aguardando,
+As portas o recebe, acompanhado
+Das Ninfas, que se estão maravilhando
+De ver que, cometendo tal caminho,
+Entre no reino d'água o Rei do vinho.
+
+15
+"Ó Netuno, lhe disse, não te espantes
+De Baco nos teus reinos receberes,
+Porque também com os grandes e possantes
+Mostra a Fortuna injusta seus poderes.
+Manda chamar os Deuses do mar, antes
+Que fale mais, se ouvir-me o mais quiseres;
+Verão da desventura grandes modos:
+Ouçam todos o mal, que toca a todos."
+
+16
+Julgando já Netuno que seria
+Estranho caso aquele, logo manda
+Tritão, que chame os Deuses da água fria,
+Que o mar habitam duma e doutra banda.
+Tritão, que de ser filho se gloria
+Do Rei e de Salácia veneranda,
+Era mancebo grande, negro e feio,
+Trombeta de seu pai, e seu correio.
+
+17
+Os cabelos da barba, e os que descem
+Da cabeça nos ombros, todos eram
+Uns limos prenhes d'água, e bem parecem
+Que nunca brando pentem conheceram;
+Nas pontas pendurados não falecem
+Os negros misilhões, que ali se geram,
+Na cabeça por gorra tinha posta
+Uma muito grande casca de lagosta.
+
+18
+O corpo nu, e os membros genitais,
+Por não ter ao nadar impedimento,
+Mas porém de pequenos animais
+Do mar todos cobertos cento e cento:
+Camarões e cangrejos, e outros mais
+Que recebem de Febe crescimento,
+Ostras, e camarões do musgo sujos,
+As costas com a casca os caramujos.
+
+19
+Na mão a grande concha retorcida
+Que trazia, com força, já tocava;
+A voz grande canora foi ouvida
+Por todo o mar, que longe retumbava.
+Já toda a companhia apercebida
+Dos Deuses para os paços caminhava
+Do Deus, que fez os muros de Dardânia,
+Destruídos depois da Grega insânia.
+
+20
+Vinha o padre Oceano acompanhado
+Dos filhos e das filhas que gerara;
+Vem Nereu, que com Dóris foi casado,
+Que todo o mar de Ninfas povoara;
+O profeta Proteu, deixando o gado
+Marítimo pascer pela água amara,
+Ali veio também, mas já sabia
+O que o padre Lieu no mar queria.
+
+21
+Vinha por outra parte a linda esposa
+De Netuno, de Celo e Vesta filha,
+Grave e Ieda no gesto, e tão formosa
+Que se amansava o mar de maravilha.
+Vestida uma camisa preciosa
+Trazia de delgada beatilha,
+Que o corpo cristalino deixa ver-se,
+Que tanto bem não é para esconder-se.
+
+22
+Anfitrite, formosa como as flores,
+Neste caso não quis que falecesse;
+O Delfim traz consigo, que aos amores
+Do Rei lhe aconselhou que obedecesse.
+Com os olhos, que de tudo são senhores,
+Qualquer parecerá que o Sol vencesse:
+Ambas vêm pela mão, igual partido,
+Pois ambas são esposas dum marido.
+
+23
+Aquela que das fúrias de Atamante
+Fugindo, veio a ter divino estado,
+Consigo traz o filho, belo Infante,
+No número dos Deuses relatado.
+Pela praia brincando vem diante
+Com as lindas conchinhas, que o salgado
+Mar sempre cria, e às vezes pela areia
+No colo o to a a bela Panopeia.
+
+24
+E o Deus que foi num tempo corpo humano,
+E por virtude da erva poderosa
+Foi convertido em peixe, e deste dano
+Lhe resultou deidade gloriosa,
+Inda vinha chorando o feio engano
+Que Circe tinha usado com a formosa
+Cila, que ele ama, desta sendo amado,
+Que a mais obriga amor mal empregado.
+
+25
+Já finalmente todos assentados
+Na grande sala, nobre e divinal;
+As Deusas em riquíssimos estrados,
+Os Deuses em cadeiras de cristal,
+Foram todos do Padre agasalhados,
+Que com o Tebano tinha assento igual.
+De fumos enche a casa a rica massa
+Que no mar nasce, e Arábia em cheiro passa.
+
+26
+Estando sossegado já o tumulto
+Dos Deuses, e de seus recebimentos,
+Começa a descobrir do peito oculto
+A causa o Tioneu de seus tormentos:
+Um pouco carregando-se no vulto,
+Dando mostra de grandes sentimentos,
+Só por dar aos de Luso triste morte
+Com o ferro alheio, fala desta sorte:
+
+27
+"Príncipe, que de juro senhoreias
+Dum Pólo ao outro Pólo o mar irado,
+Tu, que as gentes da terra toda enfreias,
+Que não passem o termo limitado;
+E tu, padre Oceano, que rodeias
+O inundo universal, e o tens cercado,
+E com justo decreto assim permites
+Que dentro vivam só de seus limites;
+
+28
+"E vós, Deuses do mar, que não sofreis
+Injúria alguma em vosso reino grande,
+Que com castigo igual vos não vingueis
+De quem quer que por ele corra e ande:
+Que descuido foi este em que viveis?
+Quem pode ser que tanto vos abrande
+Os peitos, com razão endurecidos
+Contra os humanos fracos e atrevidos?
+
+29
+"Vistes que com grandíssima ousadia
+Foram já cometer o Céu supremo;
+Vistes aquela insana fantasia
+De tentarem o mar com vela e reino;
+Vistes, e ainda vemos cada dia,
+Soberbas e insolências tais, que temo
+Que do mar e do Céu em poucos anos
+Venham Deuses a ser, e nós humanos.
+
+30
+"Vedes agora a fraca geração
+Que dum vassalo meu o nome toma,
+Com soberbo e altivo coração,
+A vós, e a mi, e o mundo todo doma;
+Vedes, o vosso mar cortando vão,
+Mais do que fez a gente alta de Roma;
+Vedes, o vosso reino devassando,
+Os vossos estatutos vão quebrando.
+
+31
+"Eu vi que contra os Mínias, que primeiro
+No vosso reino este caminho abriram,
+Bóreas injuriado, e o companheiro
+Aquilo, e os outros todos resistiram.
+Pois se do ajuntamento aventureiro
+Os ventos esta injúria assim sentiram,
+Vós, a quem mais compete esta vingança,
+Que esperais? Porque a pondes em tardança?
+
+32
+"E não consinto, Deuses, que cuideis
+Que por amor de vós do céu desci,
+Nem da mágoa da injúria que sofreis,
+Mas da que se me faz também a mi;
+Que aquelas grandes honras, que sabeis
+Que no mundo ganhei, quando venci
+As terras Indianas do Oriente,
+Todas vejo abatidas desta gente.
+
+33
+"Que o grã Senhor e Fados que destinam,
+Como lhe bem parece, o baixo mundo,
+Famas mores que nunca determinam
+De dar a estes barões no mar profundo.
+Aqui vereis, ó Deuses, como ensinam
+O mal também a Deuses: que, a segundo
+Se vê, ninguém já tem menos valia,
+Que quem com mais razão valer devia.
+
+34
+"E por isso do Olimpo já fugi,
+Buscando algum remédio a meus pesares,
+Por ver o preço que no Céu perdi,
+Se por dita acharei nos vossos mares."
+Mais quis dizer, e não passou daqui,
+Porque as lágrimas já correndo a pares
+Lhe saltaram dos olhos, com que logo
+Se acendem as Deidades d'água em fogo.
+
+35
+A ira com que súbito alterado
+O coração dos Deuses foi num ponto,
+Não sofreu mais conselho bem cuidado,
+Nem dilação, nem outro algum desconto.
+Ao grande Eolo mandam já recado
+Da parte de Netuno, que sem conto
+Solte as fúrias dos ventos repugnantes,
+Que não haja no mar mais navegantes.
+
+36
+Bem quisera primeiro ali Proteu
+Dizer neste negócio o que sentia,
+E segundo o que a todos pareceu,
+Era alguma profunda profecia.
+Porém tanto o tumulto se moveu
+Súbito na divina companhia,
+Que Tethys indignada lhe bradou:
+"Netuno sabe bem o que mandou".
+
+37
+Já lá o soberbo Hipótades soltava
+Do cárcere fechado os furiosos
+Ventos, que com palavras animava
+Contra os varões audazes e animosos.
+Súbito o céu sereno se obumbrava,
+Que os ventos, mais que nunca impetuosos,
+Começam novas forças a ir tomando,
+Torres, montes e casas derribando.
+
+38
+Enquanto este conselho se fazia
+No fundo aquoso, a leda lassa frota
+Com vento sossegado prosseguia,
+Pelo tranquilo mar, a longa rota.
+Era no tempo quando a luz do dia
+Do Eôo Hemisfério está remota;
+Os do quarto da prima se deitavam,
+Para o segundo os outros despertavam.
+
+39
+Vencidos vêm do sono, e mal despertos;
+Bocejando a miúdo se encostavam
+Pelas antenas, todos mal cobertos
+Contra os agudos ares, que assopravam;
+Os olhos contra seu querer abertos,
+Alas estregando, os membros estiravam;
+Remédios contra o sono buscar querem,
+Histórias contam, casos mil referem.
+
+40
+"Com que melhor podemos, um dizia,
+Este tempo passar, que é tão pesado,
+Senão com algum conto de alegria,
+Com que nos deixe o sono carregado?"
+Responde Leonardo, que trazia
+Pensamentos de firme namorado:
+"Que contos poderemos ter melhores,
+Para passar o tempo, que de amores?"
+
+41
+"Não é, disse Veloso, coisa justa
+Tratar branduras em tanta aspereza;
+Que o trabalho do mar, que tanto custa,
+Não sofre amores, nem delicadeza;
+Antes de guerra férvida e robusta
+A nossa história seja, pois dureza
+Nossa vida há de ser, segundo entendo,
+Que o trabalho por vir me está dizendo."
+
+42
+Consentem nisto todos, e encomendam
+A Veloso que conte isto que aprova.
+"Contarei, disse, sem que me repreendam
+De contar cousa fabulosa ou nova;
+E porque os que me ouvirem daqui aprendam
+A fazer feitos grandes de alta prova,
+Dos nascidos direi na nossa terra,
+E estes sejam os doze de Inglaterra.
+
+43
+"No tempo que do Reino a rédea leve
+João, filho de Pedro, moderava,
+Depois que sossegado e livre o teve
+Do vizinho poder, que o molestava,
+Lá na grande Inglaterra, que da neve
+Boreal sempre abunda, semeava
+A fera Erínis dura e má cizânia,
+Que lustre fosse a nossa Lusitânia.
+
+44
+"Entre as damas gentis da corte Inglesa
+E nobres cortesãos, acaso um dia
+Se levantou discórdia em ira acesa,
+Ou foi opinião, ou foi porfia.
+Os cortesãos, a quem tão pouco pesa
+Soltar palavras graves de ousadia,
+Dizem que provarão, que honras e famas
+Em tais damas não há para ser damas;
+
+45
+"E que se houver alguém, com lança e espada,
+Que queira sustentar a parte sua,
+Que eles, em campo raso ou estacada,
+Lhe darão feia infâmia, ou morte crua.
+A feminil fraqueza Pouco usada,
+Ou nunca, a opróbrios tais, vendo-se nua
+De forças naturais convenientes,
+Socorro pede a amigos e parentes.
+
+46
+"Mas como fossem grandes e possantes
+No reino os inimigos, não se atrevem
+Nem parentes, nem férvidos amantes,
+A sustentar as damas, como devem.
+Com lágrimas formosas e bastantes
+A fazer que em socorro os Deuses levem
+De todo o Céu, por rostos de alabastro,
+Se vão todas ao duque de Alencastro.
+
+47
+"Era este Inglês potente, e militara
+Com os Portugueses já contra Castela,
+Onde as forças magnânimas provara
+Dos companheiros, e benigna estrela:
+Não menos nesta terra experimentara
+Namorados afeitos, quando nela
+A filha viu, que tinto o peito doma
+Do forte Rei, que por mulher a toma.
+
+48
+"Este, que socorrer-lhe não queria,
+Por não causar discórdias intestinas,
+Lhe diz:--"Quando o direito pretendia
+Do reino lá das terras Iberinas,
+Nos Lusitanos vi tanta ousadia,
+Tanto primor, e partes tão divinas,
+Que eles sós poderiam, se não erro,
+Sustentar vossa parte a fogo e ferro.
+
+49
+"E se, agravadas damas, sois servidas,
+Por vós lhe mandarei embaixadores,
+Que, por cartas discretas e polidas,
+De vosso agravo os façam sabedores.
+Também por vossa parto encarecidas
+Com palavras de afagos e de amores
+Lhe sejam vossas lágrimas, que eu creio
+Que ali tereis socorro e forte esteio."--
+
+50
+"Destarte as aconselha o Duque experto,
+E logo lhe nomeia doze fortes;
+E por que cada dama um tenha certo,
+Lhe manda que sobre eles lancem sortes,
+Que elas só doze são; e descoberto
+Qual a qual tem caído das consertes,
+Cada uma escreve ao seu por vários modos,
+E todas a seu Rei, e o Duque a todos.
+
+51
+"Já chega a Portugal o mensageiro;
+Toda a corte alvoroça a novidade;
+Quisera o Rei sublime ser primeiro,
+Mas não lhe sofre a Régia Majestade.
+Qualquer dos cortesãos aventureiro
+Deseja ser, com férvida vontade,
+F, só fica por bem-aventurado
+Quem já vem pelo Duque nomeado.
+
+52
+"Lá na leal Cidade, donde teve
+Origem (como é fama) o nome eterno
+De Portugal, armar madeiro leve
+Manda o que tem o leme do governo.
+Apercebem-se os doze, em tempo breve,
+De armas, e roupas de uso mais moderno,
+De elmos, cimeiras, letras, e primores,
+Cavalos, e concertos de mil cores.
+
+53
+"Já do seu Rei tomado têm licença
+Para partir do Douro celebrado
+Aqueles, que escolhidos por sentença
+Foram do Duque Inglês experimentado.
+Não há na companhia diferença
+De cavaleiro destro ou esforçado;
+Mas um só, que Magriço se dizia,
+Destarte fala à forte companhia:
+
+54
+--"Fortíssimos consócios, eu desejo
+Há muito já de andar terras estranhas,
+Por ver mais águas que as do Douro o Tejo,
+Várias gentes, e leis, e várias manhas.
+Agora, que aparelho certo vejo,
+(Pois que do mundo as coisas são tamanhas)
+Quero, se me deixais, ir só por terra,
+Porque eu serei convosco em Inglaterra.
+
+55
+--"E quando caso for que eu impedido
+Por quem das cousas é última linha,
+Não for convosco ao prazo instituído,
+Pouca falta vos faz a falta minha:
+Todos por mim fareis o que é devido;
+Mas, se a verdade o espírito me adivinha,
+Rios, montes, fortuna, ou sua inveja,
+Não farão que eu convosco lá não seja."
+
+56
+"Assim diz, e abraçados os amigos,
+E tomada licença, enfim se parte:
+Passa Lião, Castela, vendo antigos
+Lugares, que ganhara o pátrio Marte;
+Navarra, com os altíssimos perigos
+Do Perineu, que Espanha e Gália parte;
+Vistas enfim de França as coisas grandes,
+No grande empório foi parar de Frandes.
+
+57
+"Ali chegado, ou fosse caso ou manha,
+Sem passar se deteve muitos dias:
+Mas dos onze a ilustríssima companha
+Cortam do mar do Norte as ondas frias.
+Chegados de Inglaterra à costa estranha,
+Para Londres já fazem todos vias.
+Do Duque são com festa agasalhados,
+E das damas servidos e amimados.
+
+58
+"Chega-se o prazo e dia assinalado
+De entrar em campo já com os doze Ingleses,
+Que pelo Rei já tinham segurado:
+Armam-se de elmos, grevas e de arneses:
+Já as damas têm por si, fulgente e armado,
+O Mavorte feroz dos Portugueses;
+Vestem-se elas de cores e de sedas,
+De ouro e de jóias mil, ricas e ledas.
+
+59
+"Mas aquela, a quem fora em sorte dado
+Magriço, que não vinha, com tristeza
+Se veste, por não ter quem nomeado
+Seja seu cavaleiro nesta empresa;
+Bem que os onze apregoam, que acabado
+Será o negócio assim na corte Inglesa,
+Que as damas vencedoras se conheçam,
+Posto que dois e três dos seus faleçam.
+
+60
+"Já num sublime e público teatro
+Se assenta o Rei Inglês com toda a corte:
+Estavam três e três, e quatro e quatro,
+Bem como a cada qual coubera em sorte.
+Não são vistos do Sol, do Tejo ao Batro,
+De força, esforço e de ânimo mais forte
+Outros doze sair, como os Ingleses,
+No campo, contra os onze Portugueses.
+
+61
+"Mastigam os cavalos, escumando,
+Os áureos freios com feroz semblante;
+Estava o Sol nas armas rutilando
+Como em cristal ou rígido diamante;
+Mas enxerga-se num e noutro bando
+Partido desigual e dissonante
+Dos onze contra os doze: quando a gente
+Começa a alvoroçar-se geralmente.
+
+62
+"Viram todos o rosto aonde havia
+A causa principal do reboliço:
+Eis entra um cavaleiro, que trazia
+Armas, cavalo, ao bélico serviço.
+Ao Rei e às damas fala, e logo se ia
+Para os onze, que este era o grã Magriço;
+Abraça os companheiros como amigos,
+A quem não falta certo nos perigos.
+
+63
+"A dama, como ouviu que este era aquele
+Que vinha a defender seu nome e fama,
+Se alegra, e veste ali do animal de Hele,
+Que a gente bruta mais que virtude ama.
+Já dão sinal, e o som da tuba impele
+Os belicosos ânimos, que inflama:
+Picam de esporas, largam rédeas logo,
+Abaixam lanças, fere a terra fogo.
+
+64
+"Dos cavalos o estrépito parece
+Que faz que o chão debaixo todo treme;
+O coração no peito, que estremece
+De quem os olha, se alvoroça e teme:
+Qual do cavalo voa, que não desce;
+Qual, com o cavalo em terra dando, geme;
+Qual vermelhas as armas faz de brancas;
+Qual com os penachos do elmo açouta as ancas.
+
+65
+"Algum dali tomou perpétuo sono
+E fez da vida ao fim breve intervalo;
+Correndo algum cavalo vai sem dono
+E noutra parte o dono sem cavalo.
+Cai a soberba Inglesa de seu trono,
+Que dois ou três já fora vão do vale;
+Os que de espada vêm fazer batalha,
+Mais acham já que arnês, escudo e malha.
+
+66
+"Gastar palavras em contar extremos
+De golpes feros, cruas estocadas,
+É desses gastadores, que sabemos,
+Maus do tempo, com fábulas sonhadas.
+Basta, por fim do caso, que entendemos
+Que com finezas altas e afamadas,
+Com os nossos fica a palma da vitória,
+E as damas vencedoras, e com glória.
+
+67
+"Recolhe o Duque os doze vencedores
+Nos seus paços, com festas e alegria;
+Cozinheiros ocupa e caçadores
+Das damas a formosa companhia,
+Que querem dar aos seus libertadores
+Banquetes mil cada hora e cada dia,
+Enquanto se detêm em Inglaterra,
+Até tornar à doce e cara terra.
+
+68
+"Mas dizem que, contudo, o grã Magriço,
+Desejoso de ver as coisas grandes,
+Lá se deixou ficar, onde um serviço
+Notável à condessa fez de Frandes;
+E como quem não era já noviço
+Em todo trance, onde tu, Marte, mandes,
+Um Francês mata em campo, que o destino
+Lá teve de Torcato e de Corvino.
+
+69
+"Outro também dos doze em Alemanha
+Se lança, e teve um fero desafio
+Com um Germano enganoso, que com manha
+Não devida o quis pôr no extremo fio."
+Contando assim Veloso, já a companha
+Lhe pede que não f aça tal desvio
+Do caso de Magriço, e vencimento,
+Nem deixe o de Alemanha em esquecimento.
+
+70
+Mas, neste passo, assim prontos estando
+Eis o mestre, que olhando os ares anda,
+O apito toca; acordam despertando
+Os marinheiros duma e doutra banda;
+E porque o vento vinha refrescando,
+Os traquetes das gáveas tomar manda:
+"Alerta, disse, estai, que o vento cresce
+Daquela nuvem negra que aparece."
+
+71
+Não eram os traquetes bem tomados,
+Quando dá a grande e súbita procela:
+"Amaina, disse o mestre a grandes brados,
+Amaina, disse, amaina a grande vela!"
+Não esperam os ventos indinados
+Que amainassem; mas juntos dando nela,
+Em pedaços a fazem, com um ruído
+Que o mundo pareceu ser destruído.
+
+72
+O céu fere com gritos nisto a gente,
+Com súbito temor e desacordo,
+Que, no romper da vela, a nau pendente
+Toma grã suma d'água pelo bordo:
+"Alija, disse o mestre rijamente,
+Alija tudo ao mar; não falte acordo.
+Vão outros dar à bomba, não cessando;
+A bomba, que nos imos alagando!"
+
+73
+Correm logo os soldados animosos
+A dar à bomba; e, tanto que chegaram,
+Os balanços que os mares temerosos
+Deram à nau, num bordo os derribaram.
+Três marinheiros, duros e forçosos,
+A menear o leme não bastaram;
+Talhas lhe punham duma e doutra parte,
+Sem aproveitar dos homens força e arte.
+
+74
+Os ventos eram tais, que não puderam
+Mostrar mais força do ímpeto cruel,
+Se para derribar então vieram
+A fortíssima torre de Babel.
+Nos altíssimos mares, que cresceram,
+A pequena grandura dum batel
+Mostra a possante nau, que move espanto,
+Vendo que se sustém nas ondas tanto.
+
+75
+A nau grande, em que vai Paulo da Gama,
+Quebrado leva o masto pelo meio.
+Quase toda alagada: a gente chama
+Aquele que a salvar o mundo veio.
+Não menos gritos vãos ao ar derrama
+Toda a nau de Coelho, com receio,
+Conquanto teve o mestre tanto tento,
+Que primeiro amainou, que desse o vento.
+
+76
+Agora sobre as nuvens os subiam
+As ondas de Netuno furibundo;
+Agora a ver parece que desciam
+As íntimas entranhas do Profundo.
+Noto, Austro, Bóreas, Aquilo queriam
+Arruinar a máquina do mundo:
+A noite negra e feia se alumia
+Com os raios, em que o Pólo todo ardia.
+
+77
+As Alcióneas aves triste canto
+Junto da costa brava levantaram,
+Lembrando-se do seu passado pranto,
+Que as furiosas águas lhe causaram.
+Os delfins namorados entretanto
+Lá nas covas marítimas entraram,
+Fugindo à tempestade e ventos duros,
+Que nem no fundo os deixa estar segui-os.
+
+78
+Nunca tão vivos raios fabricou
+Contra a fera soberba dos Gigantes
+O grã ferreiro sórdido, que obrou
+Do enteado as armas radiantes;
+Nem tanto o grã Tonante arremessou
+Relâmpagos ao mundo fulminantes,
+No grã dilúvio, donde sós viveram
+Os dois que em gente as pedras converteram.
+
+79
+Quantos montes, então, que derribaram
+As ondas que batiam denodadas!
+Quantas árvores velhas arrancaram
+Do vento bravo as fúrias indinadas!
+As forçosas raízes não cuidaram
+Que nunca para o céu fossem viradas,
+Nem as fundas areias que pudessem
+Tanto os mares que em cima as revolvessem.
+
+80
+Vendo Vasco da Gama que tão perto
+Do fim de seu desejo se perdia;
+Vendo ora o mar até o inferno aberto,
+Ora com nova fúria ao céu subia,
+Confuso de temor, da vida incerto,
+Onde nenhum remédio lhe valia,
+Chama aquele remédio santo é forte,
+Que o impossível pode, desta sorte:
+
+81
+"Divina Guarda, angélica, celeste,
+Que os céus, o mar e terra senhoreias;
+Tu, que a todo Israel refúgio deste
+Por metade das águas Eritreias;
+Tu, que livraste Paulo e o defendeste
+Das Sirtes arenosas e ondas feias,
+E guardaste com os filhos o segundo
+Povoador do alagado e vácuo mundo;
+
+82
+"Se tenho novos modos perigosos
+Doutra Cila e Caríbdis já passados,
+Outras Sirtes e baixos arenosos,
+Outros Acroceráunios infamados,
+No fim de tantos casos trabalhosos,
+Por que somos de ti desamparados,
+Se este nosso trabalho não te ofende,
+Mas antes teu serviço só pretende?
+
+83
+"Ó ditosos aqueles que puderam
+Entre as agudas lanças Africanas
+Morrer, enquanto fortes sostiveram
+A santa Fé nas terras Mauritanas!
+De quem feitos ilustres se souberam,
+De quem ficam memórias soberanas,
+De quem se ganha a vida com perdê-la,
+Doce fazendo a morte as honras dela!"
+
+84
+Assim dizendo, os ventos que lutavam
+Como touros indómitos bramando,
+Mais e mais a tormenta acrescentavam
+Pela miúda enxárcia assoviando.
+Relâmpados medonhos não cessavam,
+Feros trovões, que vêm representando
+Cair o céu dos eixos sobre a terra,
+Consigo os elementos terem guerra.
+
+85
+Mas já a amorosa estrela cintilava
+Diante do Sol claro, no Horizonte,
+Mensageira do dia, e visitava
+A terra e o largo mar, com leda fronte.
+A densa que nos céus a governava,
+De quem foge o ensífero Orionte,
+Tanto que o mar e a cara armada vira,
+Tocada junto foi de medo e de ira.
+
+86
+"Estas obras de Baco são, por certo,
+Disse; mas não será que avante leve
+Tão danada tenção, que descoberto
+Me será sempre o mil a que se atreve."
+Isto dizendo, desce ao mar aberto,
+No caminho gastando espaço breve,
+Enquanto manda as Ninfas amorosas
+Grinaldas nas cabeças pôr de rosas.
+
+87
+Grinaldas manda pôr de várias cores
+Sobre cabelo; louros à porfia.
+Quem não dirá que nascem roxas flores
+Sobre ouro natural, que Amor enfia?
+Abrandar determina, por amores,
+Dos ventos a nojosa companhia,
+Mostrando-lhe as amadas Ninfas belas,
+Que mais formosas vinham que as estrelas.
+
+88
+Assim foi; porque, tanto que chegaram
+A vista delas, logo lhe falecem
+As forças com que dantes pelejaram,
+E já como rendidos lhe obedecem.
+Os pés e mãos parece que lhe ataram
+Os cabelos que os raios escurecem.
+A Bóreas, que do peito mais queria,
+Assim disse a belíssima Oritia:
+
+89
+"Não creias, fero Bóreas, que te creio
+Que me tiveste nunca amor constante,
+Que brandura é de amor mais certo arreio,
+E não convém furor a firme amante.
+Se já não pões a tanta insânia freio,
+Não esperes de mi, daqui em diante,
+Que possa mais amar-te, mas temer-te;
+Que amor contigo em medo se converte."
+
+90
+Assim mesmo a formosa Galateia
+Dizia ao fero Noto, que bem sabe
+Que dias há que em vê-la se recreia,
+E bem crê que com ele tudo acabe.
+Não sabe o bravo tanto bem se o creia,
+Que o coração no peito lhe não cabe,
+De contente de ver que a dama o manda,
+Pouco cuida que faz, se logo abranda.
+
+91
+Desta maneira as outras amansavam
+Subitamente os outros amadores;
+E logo à linda Vénus se entregavam,
+Amansadas as iras e os furores.
+Ela lhe prometeu, vendo que amavam,
+Sempiterno favor em seus amores,
+Nas belas mãos tomando-lhe homenagem
+De lhe serem leais esta viagem.
+
+92
+Já a manhã clara dava nos outeiros
+Por onde o Ganges murmurando soa,
+Quando da celsa gávea os marinheiros
+Enxergaram terra alta pela proa.
+Já fora de tormenta, e dos primeiros
+Mares, o temor vão do peito voa.
+Disse alegre o piloto Melindano:
+"Terra é de Calecu, se não me engano.
+
+93
+"Esta é por certo a terra que buscais
+Da verdadeira Índia, que aparece;
+E se do mundo mais não desejais,
+Vosso trabalho longo aqui fenece."
+Sofrer aqui não pode o Gama mais,
+De ledo em ver que a terra se conhece:
+Os geolhos no chão, as mãos ao céu,
+A mercê grande a Deus agradeceu.
+
+94
+As graças a Deus dava, e razão tinha,
+Que não somente a terra lhe mostrava,
+Que com tanto temor buscando vinha,
+Por quem tanto trabalho experimentava;
+Mas via-se livrado tão asinha
+Da morte, que no mar lhe aparelhava
+O vento duro, fervido e medonho,
+Como quem despertou de horrendo sonho.
+
+95
+Por meio destes hórridos perigos,
+Destes trabalhos graves e temores,
+Alcançam os que são de fama amigos
+As honras imortais e graus maiores:
+Não encostados sempre nos antigos
+Troncos nobres de seus antecessores;
+Não nos leitos dourados, entre os finos
+Animais de Moscóvia zebelinos;
+
+96
+Não com os manjares novos e esquisitos,
+Não com os passeios moles e ociosos,
+Não com os vários deleites e infinitos,
+Que afeminam os peitos generosos,
+Não com os nunca vencidos apetitos
+Que a Fortuna tem sempre tão mimosos,
+Que não sofre a nenhum que o passo mude
+Para alguma obra heróica de virtude;
+
+97
+Mas com buscar com o seu forçoso braço
+As honras, que ele chame próprias suas;
+Vigiando, e vestindo o forjado aço,
+Sofrendo tempestades e ondas cruas;
+Vencendo os torpes frios no regaço
+Do Sul e regiões de abrigo nuas;
+Engolindo o corrupto mantimento,
+Temperado com um árduo sofrimento;
+
+98
+E com forçar o rosto, que se enfia,
+A parecer seguro, ledo, inteiro,
+Para o pelouro ardente, que assovia
+E leva a perna ou braço ao companheiro.
+Destarte, o peito um calo honroso cria,
+Desprezador das honras e dinheiro,
+Das honras e dinheiro, que a ventura
+Forjou, e não virtude justa e dura.
+
+99
+Destarte se esclarece o entendimento,
+Que experiências fazem repousado,
+E fica vendo, corno de alto assento,
+O baixo trato humano embaraçado.
+Este, onde tiver força o regimento
+Direito, e não de afeitos ocupado,
+Subirá (como deve) a ilustre mando,
+Contra vontade sua, e não rogando.
+
+Canto Sétimo
+
+1
+Já se viam chegados junto à terra,
+Que desejada já de tantos fora,
+Que entre as correntes Indicas se encerra,
+E o Ganges, que no céu terreno mora.
+Ora, sus, gente forte, que na guerra
+Quereis levar a palma vencedora,
+Já sois chegados, já tendes diante
+A terra de riquezas abundante.
+
+2
+A vós, ó geração de Luso, digo,
+Que tão pequena parte sois no inundo;
+Não digo ainda no mundo, mas no amigo
+Curral de quem governa o céu rotundo;
+Vós, a quem não somente algum perigo
+Estorva conquistar o povo imundo,
+Mas nem cobiça, ou pouca obediência
+Da Madre, que nos céus está em essência;
+
+3
+Vós, Portugueses, poucos quanto fortes,
+Que o fraco poder vosso não pesais;
+Vós, que à custa de vossas várias mortes
+A lei da vida eterna dilatais:
+Assim do céu deitadas são as sortes,
+Que vós, por muito poucos que sejais,
+Muito façais na santa Cristandade:
+Que tanto, ó Cristo, exaltas a humildade!
+
+4
+Vede-los Alemães, soberbo gado,
+Que por tão largos campos se apascenta,
+Do sucessor de Pedro, rebelado,
+Novo pastor, e nova seita inventa:
+Vede-lo em feias guerras ocupado,
+Que ainda com o cego error se não contenta,
+Não contra o soberbíssimo Otomano,
+Mas por sair do jugo soberano.
+
+5
+Vede-lo duro Inglês, que se nomeia
+Rei da velha e santíssima cidade,
+Que o torpe Ismaelita senhoreia,
+(Quem viu honra tão longe da verdade?)
+Entre as Boreais neves se recreia,
+Nova maneira faz de Cristandade:
+Para os de Cristo tem a espada nua,
+Não por tomar a terra que era sua.
+
+6
+Guarda-lhe por entanto um falso Rei
+A cidade Hierosólima terrestre,
+Enquanto ele não guarda a santa lei
+Da cidade Hierosólima celeste.
+Pois de ti, Galo indigno, que direi?
+Que o nome Cristianíssimo quiseste,
+Não para defendê-lo, nem guardá-lo,
+Mas para ser contra ele, e derrubá-lo!
+
+7
+Achas que tens direito em senhorios
+De Cristãos, sendo o teu tão largo e tanto,
+E não contra o Cinífio e Nilo, rios
+Inimigos do antigo nome santo?
+Ali se hão de provar da espada os fios
+Em quem quer reprovar da Igreja o canto.
+De Carlos, de Luís, o nome e a terra
+Herdaste, e as causas não da justa guerra?
+
+8
+Pois que direi daqueles que em delícias,
+Que o vil ócio no mundo traz consigo,
+Gastam as vidas, logram as divícias,
+Esquecidos de seu valor antigo?
+Nascem da tirania inimicícias,
+Que o povo forte tem de si inimigo:
+Contigo, Itália, falo, já submersa
+Em Vícios mil, e de ti mesma adversa.
+
+9
+Ó míseros Cristãos, pela ventura,
+Sois os dentes de Cadmo desparzidos,
+Que uns aos outros se dão a morte dura,
+Sendo todos de um ventre produzidos?
+Não vedes a divina sepultura
+Possuída de cães, que sempre unidos
+Vos vêm tomar a vossa antiga terra,
+Fazendo-se famosos pela guerra?
+
+10
+Vedes que têm por uso e por decreto,
+Do qual são tão inteiros observantes,
+Ajuntarem o exército inquieto
+Contra os povos que são de Cristo amantes;
+Entre vós nunca deixa a fera Aleto
+De semear cizânias repugnantes:
+Olhai se estais seguros de perigos,
+Que eles e vós sois vossos inimigos.
+
+11
+Se cobiça de grandes senhorios
+Vos faz ir conquistar terras alheias,
+Não vedes que Pactolo e Hermo, rios,
+Ambos volvem auríferas areias?
+Em Lídia, Assíria, lavram de ouro os fios;
+África esconde em si luzentes veias;
+Mova-vos já sequer riqueza tanta,
+Pois mover-vos não pode a Casa Santa.
+
+12
+Aquelas invenções feras e novas
+De instrumentos mortais da artilharia,
+Já devem de fazer as duras provas
+Nos muros de Bizâncio e de Turquia.
+Fazei que torne lá às silvestres covas
+Dos Cáspios montes, e da Cítia fria
+A Turca geração, que multiplica
+Na polícia da vossa Europa rica.
+
+13
+Gregos, Traces, Arménios, Georgianos,
+Bradando-vos estão que o povo bruto
+Lhe obriga os caros filhos aos profanos
+Preceptos do Alcorão (duro tributo!)
+Em castigar os feitos inumanos
+Vos gloriai de peito forte e astuto,
+E não queirais louvores arrogantes
+De serdes contra os vossos muito possantes.
+
+14
+Mas entanto que cegos o sedentos
+Andais de vosso sangue, ó gente insana!
+Não faltarão Cristãos atrevimentos
+Nesta pequena casa Lusitana:
+De África tem marítimos assentos,
+É na Ásia mais que todas soberana,
+Na quarta parte nova os campos ara,
+E se mais mundo houvera, lá chegara.
+
+15
+E vejamos entanto que acontece
+Aqueles tão famosos navegantes,
+Depois que a branda Vénus enfraquece
+O furor vão dos ventos repugnantes:
+Depois que a larga terra lhe aparece,
+Fim de suas porfias tão constantes,
+E dar novo costume e novo Rei.
+
+16
+Tanto que à nova terra se chegaram,
+Leves embarcações de pescadores
+Acharam, que o caminho lhe mostraram
+De Calecu, onde eram moradores.
+Para lá logo as proas se inclinaram,
+Porque esta era a cidade das melhores
+Do Malabar melhor, onde vivia
+O Rei que a terra toda possuía.
+
+17
+Além do Indo jaz, e aquém do Gange,
+Um terreno muito grande e assaz famoso,
+Que pela parte Austral o mar abrange,
+E para o Norte o Emódio cavernoso.
+Jugo de Reis diversos o constrange
+A várias leis: alguns o vicioso
+Mahoma, alguns os ídolos adoram,
+Alguns os animais, que entre eles morri.
+
+18
+Lá bem no grande monte, que cortando
+Tão larga terra, toda Ásia discorre,
+Que nomes tão diversos vai tomando,
+Segundo as regiões por onde corre,
+As fontes saem, donde vêm manando
+Os rios, cuja grã corrente morre
+No mar Índico, e cercam todo o peso
+Do terreno, fazendo-o Quersoneso.
+
+19
+Entro um e outro rio, em grande espaço,
+Sai da larga terra uma loira ponta
+Quase piramidal, que no regaço
+Do mar com Ceilão ínsula confronta;
+E junto donde nasce o largo braço
+Gangético, o rumor antigo conta
+Que os vizinhos, da terra moradores,
+Do cheiro se mantêm das finas flores.
+
+20
+Mas agora de nomes e de usança
+Novos e vários são os habitantes:
+Os Delis, os Patanes, que em possança
+De terra e gente, são mais abundantes;
+Decanis, Oriás, que a esperança
+Têm de sua salvação nas ressonantes
+Águas do Gange, e a terra de Bengala
+Fértil de sorte que outra não lhe iguala.
+
+21
+O Reino de Cambaia belicoso
+(Dizem que foi de Poro, Rei potente)
+O Reino de Narsinga, poderoso
+Mais de ouro e pedras que de forte gente.
+Aqui se enxerga lá do mar undoso
+Um monte alto, que corre longamente,
+Servindo ao Malabar de forte muro,
+Com que do Canará vive seguro.
+
+22
+Da terra os naturais lhe chamam Gate,
+Do pé do qual pequena quantidade
+Se estende uma fralda estreita, que combate
+Do mar a natural ferocidade.
+Aqui de outras cidades, sem debate,
+Calecu tem a ilustre dignidade
+De cabeça de Império rica e bela:
+Samorim se intitula o senhor dela.
+
+23
+Chegada a frota ao rico senhorio,
+Um Português mandado logo parte
+ A fazer sabedor o Rei gentio
+Da vinda sua a tão remota parte.
+Entrando o mensageiro pelo rio,
+Que ali nas ondas entra, a não vista arte,
+A cor, o gesto estranho, o trajo novo
+Fez concorrer a vê-lo todo o povo.
+
+24
+Entre a gente que a vê-lo concorria,
+Se chega um Mahometa, que nascido
+Fora na região da Berberia,
+Lá onde fora Anteu obedecido:
+Ou pela vizinhança já teria
+O Reino Lusitano conhecido,
+Ou foi já assinalado de seu ferro:
+Fortuna o trouxe a tão loiro desterro.
+
+25
+Em vendo o mensageiro, com jocundo
+Rosto, como quem sabe a língua Hispana,
+Lhe disse: "Quem te trouxe a estoutro mundo,
+Tão longe da tua pátria Lusitana?"
+--"Abrindo, lhe responde, o mar profundo,
+Por onde nunca veio gente humana,
+Vimos buscar do Indo a grão corrente,
+Por onde a Lei divina se acrescente."
+
+26
+Espantado ficou da grã viagem
+O Mouro, que Monçaide se chamava,
+Ouvindo as opressões que na passagem
+Do mar, o Lusitano lhe contava:
+Mas vendo enfim que a f orça da mensagem
+Só para o Rei da terra relevava,
+Lhe diz que estava f ora da cidade,
+Mas de caminho pouca quantidade.
+
+27
+E que, entanto que a nova lhe chegasse
+De sua estranha vinda, se queria,
+Na sua pobre casa repousasse,
+E do manjar da terra comeria,
+E depois que se um pouco recreasse,
+Com ele para a armada tornaria,
+Que alegria não pode ser tamanha,
+Que achar gente vizinha em terra estranha.
+
+28
+O Português aceita de vontade
+O que o ledo Monçaide lhe oferece;
+Como se longa fora já a amizade,
+Com ele come, e bebe, e lhe obedece.
+Ambos se tornam logo da cidade
+Para a frota, que o Mouro bem conhece;
+Sobem à capitania; e toda a gente
+Monçaide recebeu benignamente.
+
+29
+O Capitão o abraça em cabo ledo,
+Ouvindo clara a língua de Castela;
+Junto de si o assenta, e pronto e quedo,
+Pela terra pergunta, e cousas dela.
+Qual se ajuntava em Ródope o arvoredo,
+Só por ouvir o amante da donzela
+Eurídice, tocando a lira de ouro,
+Tal a gente se ajunta a ouvir o Mouro.
+
+30
+Ele começa: "Ó gente, que a natura
+Vizinha fez de meu paterno ninho,
+Que destino tão grande ou que ventura
+Vos trouxe a cometerdes tal caminho?
+Não é sem causa, não, oculta e escura,
+Vir do longínquo Tejo e ignoto Minho,
+Por mares nunca doutro lenho arados,
+A Reinos tão remotos e apartados.
+
+31
+"Deus por certo vos traz, porque pretende
+Algum serviço seu por vós obrado;
+Por isso só vos guia, e vos defende
+Dos inimigos, do mar, do vento irado.
+Sabei que estais na Índia, onde se estende
+Diverso povo, rico e prosperado
+De ouro luzente e fina pedraria,
+Cheiro suave, ardente especiaria.
+
+32
+"Esta província, cujo porto agora
+Tomado tendes, Malabar se chama:
+Do culto antigo os ídolos adora,
+Que cá por estas partes se derrama:
+De diversos Reis é, mas dum só
+Noutro tempo, segundo a antiga fama;
+Saramá Perimal foi derradeiro
+Rei, que este Reino teve unido e inteiro.
+
+33
+"Porém, como a esta terra então viessem
+De lá do seio Arábico outras gentes,
+Que o culto Mahomético trouxessem,
+No qual me instituíram meus parentes,
+Sucedeu que pregando convertessem
+O Perimal: de sábios e eloquentes,
+Fazem-lhe a lei tomar com fervor tanto,
+Que pressupôs de nela morrer santo.
+
+34
+"Naus arma, e nelas mete curioso
+Mercadoria, que ofereça rica,
+Para ir nelas a ser religioso,
+Onde o profeta jaz, que a Lei publica;
+Antes que parta, o Reino poderoso
+Com os seus reparte, porque não lhe fica
+Herdeiro próprio, faz os mais aceitos
+Ricos de pobres, livres de sujeitos.
+
+35
+"A um Cochim, e a outro Cananor,
+A qual Chalé, a qual a ilha da Pimenta,
+A qual Coulão, a qual dá Cranganor,
+E os mais, a quem o mais serve e contenta,
+Um só moço, a quem tinha muito amor,
+Depois que tudo deu, se lhe apresenta:
+Para este Calecu somente fica,
+Cidade já por trato nobre e rica.
+
+36
+"Esta lhe dá com o título excelente
+De Imperador, que sobre os outros mande.
+Isto feito, se parte diligente
+Para onde em santa vida acabe, e ande.
+E daqui fica o nome de potente
+Samori, mais que todos digno e grande,
+Ao moço e descendentes; donde vem
+Este, que agora o Império manda e tem.
+
+37
+"A Lei da gente toda, rica e pobre,
+De fábulas composta se imagina:
+Andam nus, e somente um pano cobre
+As partes, que a cobrir natura ensina.
+Dois modos há de gente, porque a nobre
+Naires chamados são, e a menos digna
+Poleás tem por nome, a quem obriga
+A Lei não misturar a casta antiga.
+
+38
+"Porque os que usaram sempre um mesmo ofício,
+De outro não podem receber consorte,
+Nem os filhos terão outro exercício,
+Senão o de seus passados, até morte.
+Para os Naires é certo grande vício
+Destes serem tocados; de tal sorte,
+Que quando algum se toca, por ventura,
+Com cerimónias mil se alimpa e apura.
+
+39
+"Desta sorte o Judaico povo antigo
+Não tocava na gente de Samária.
+Mais estranhezas ainda das que digo
+Nesta terra vereis de usança vária.
+Os Naires sós são dados ao perigo
+Das armas; sós defendem da contrária
+Banda o seu Rei, trazendo sempre usada
+Na esquerda a adarga e na direita a espada.
+
+40
+"Brâmenes são os seus religiosos,
+Nome antigo e de grande proeminência:
+Observam os preceitos tão famosos
+Dum que primeiro pôs nome à ciência:
+Não matam coisa viva, e, temerosos,
+Das carnes têm grandíssima abstinência;
+Somente no venéreo ajuntamento
+Têm mais licença e menos regimento.
+
+41
+"Gerais são as mulheres, mas somente
+Para os da geração de seus maridos:
+Ditosa condição, ditosa gente,
+Que não são de ciúmes ofendidos!
+Estes e outros costumes variamente
+São pelos Malabares admitidos.
+A terra é grossa em trato, em tudo aquilo
+Que as ondas podem dar da China ao Nilo."
+
+42
+Assim contava o Mouro; mas vagando
+Andava a fama já pela cidade
+Da vinda desta gente estranha, quando
+O Rei saber mandava da verdade.
+Já vinham pelas ruas caminhando,
+Rodeados de todo sexo e idade,
+Os principais, que o Rei buscar mandara
+O Capitão da armada, que chegara.
+
+43
+Mas ele, que do Rei já tem licença
+Para desembarcar, acompanhado
+Dos nobres Portugueses, sem detença
+Parte, de ricos panos adornado.
+Das cores a formosa diferença
+A vista alegra ao povo alvoroçado.
+O remo compassado fere frio
+Agora o mar, depois o fresco rio.
+
+44
+Na praia um regedor do Reino estava,
+Que na sua língua Catual se chama,
+Rodeado de Naires, que esperava
+Com desusada festa o nobre Gama.
+Já na terra, nos braços o levava,
+E num portátil leito uma rica cama
+Lhe oferece, em que vá, costume usado,
+Que nos ombros dos homens é levado.
+
+45
+Desta arte o Malabar, destarte o Luso
+Caminham, lá para onde o Rei o espera:
+Os outros Portugueses vão ao uso
+Que infantaria segue, esquadra fera.
+O povo que concorre vai confuso
+De ver a gente estranha, e bem quisera
+Perguntar: mas no tempo já passado
+Na torre de Babel lhe foi vedado.
+
+46
+O Gama e o Catual iam falando
+Nas coisas, que lhe o tempo oferecia;
+Monçaide entre eles vai interpretando
+As palavras que de ambos entendia.
+Assim pela cidade caminhando,
+Onde uma rica fábrica se erguia
+De um sumptuoso templo, já chegavam,
+Pelas portas do qual juntos entravam.
+
+47
+Ali estão das deidades as figuras
+Esculpidas em pau e em pedra fria;
+Vários de gestos, vários de pinturas,
+A segundo o Demónio lhe fingia:
+Vêem-se as abomináveis esculturas,
+Qual a Quimera em membros se varia:
+Os Cristãos olhos, a ver Deus usados
+Em forma humana, estão maravilhados.
+
+48
+Um na cabeça cornos esculpidos,
+Qual Júpiter Amon em Líbia estava;
+Outro num corpo rostos tinha unidos,
+Bem como o antigo Jano se pintava;
+Outro com muitos braços divididos
+A Briareu parece que imitava;
+Outro fronte canina tem de fora,
+Qual Anúbis Menfítico se adora.
+
+49
+Aqui feita do bárbaro gentio
+A supersticiosa adoração,
+Direitos vão, sem outro algum desvio,
+Para onde estava o Rei do povo vão.
+Engrossando-se vai da gente o fio,
+Com os que vêm ver o estranho Capitão;
+Estão pelos telhados e janelas
+Velhos e moços, donas e donzelas.
+
+50
+Já chegam perto, e não com passos lentos,
+Dos jardins odoríferos formosos,
+Que em si escondem os régios aposentos,
+Altos de torres não, mas sumptuosos.
+Edificam-se os nobres seus assentos
+Por entre os arvoredos deleitosos:
+Assim vivem os Reis daquela gente,
+No campo e na cidade juntamente.
+
+51
+Pelos portais da cerca a sutileza
+Se enxerga da Dedálea facultade,
+Em figuras mostrando, por nobreza,
+Da Índia a mais remota antiguidade.
+Afiguradas vão com tal viveza
+As histórias daquela antiga idade,
+Que quem delas tiver notícia inteira,
+Pela sombra conhece a verdadeira.
+
+52
+Estava um grande exército que pisa
+A terra Oriental, que o Idaspe lava;
+Rege-o um capitão de fronte lisa,
+Que com frondentes tirsos pelejava;
+Por ele edificada estiva Nisa
+Nas ribeiras do rio, que manava,
+Tão próprio, que se ali estiver Semele,
+Dirá, por certo, que é seu filho aquele.
+
+53
+Mais avante bebendo seca o rio
+Mui grande multidão da Assíria gente,
+Sujeita a feminino senhorio
+De uma tão bela como incontinente.
+Ali tem junto ao lado nunca frio,
+Esculpido o feroz ginete ardente,
+Com quem teria o filho competência:
+Amor nefando, bruta incontinência!
+
+54
+Daqui mais apartadas tremulavam
+As bandeiras de Grécia gloriosas,
+Terceira Monarquia, e sojugavam
+Até as águas Gangéticas undosas.
+Dum capitão mancebo se guiavam,
+De palmas rodeado valerosas,
+Que já, não de Filipo, mas sem falta
+De progénie de Júpiter se exalta.
+
+55
+Os Portugueses vendo estas memórias,
+Dizia o Catual ao Capitão:
+"Tempo cedo virá que outras vitórias
+Estas, que agora olhais, abaterão;
+Aqui se escreverão novas histórias
+Por gentes estrangeiras que virão;
+Que os nossos sábios magos o alcançaram
+Quando o tempo futuro especularam.
+
+56
+"E diz-lhe mais a mágica ciência
+Que, para se evitar força tamanha,
+Não valerá dos homens resistência,
+Que contra o Céu não val da gente manha;
+Mas também diz que a bélica excelência,
+Nas armas e na paz, da gente estranha
+Será tal, que será no mundo ouvido
+O vencedor, por glória do vencido,"
+
+57
+Assim falando entravam já na sala,
+Onde aquele potente Imperador
+Numa camilha jaz, que não se iguala
+De outra alguma no preço e no lavor.
+No recostado gesto se assinala
+Um venerando e próspero senhor;
+Um pano de ouro cinge, e na cabeça
+De preciosas gemas se adereça.
+
+58
+Bem junto dele um velho reverente,
+Com os giolhos no chão, de quando em quando
+Lhe dava a verde folha da erva ardente,
+Que a seu costume estava ruminando.
+Um Brâmene, pessoa proeminente,
+Para o Gama vem com passo brando,
+Para que ao grande Príncipe o apresente,
+Que diante lhe acena que se assente.
+
+59
+Sentado o Gama junto ao rico leito,
+Os seus mais afastados, pronto em vista
+Estava o Samori no trajo e jeito
+Da gente, nunca de antes dele vista.
+Lançando a grave voz do sábio peito,
+Que grande autoridade logo aquista
+Na opinião do Rei e do povo todo,
+O Capitão lhe fala deste modo:
+
+60
+"Um grande Rei, de lá das partes Onde
+O céu volúvel, com perpétua roda,
+Da terra a luz solar com a terra esconde,
+Tingindo a que deixou de escura noda,
+Ouvindo do rumor que lá responde
+O eco, como em ti da Índia toda
+O principado está, e a majestade,
+Vínculo quer contigo de amizade.
+
+61
+"E por longos rodeios a ti manda,
+Por te fazer saber que tudo aquilo
+Que sobre o mar, que sobre as terras anda
+De riquezas, de lá do Tejo ao Nilo,
+E desde a fria plaga de Gelanda
+Até bem donde o Sol não muda o estilo
+Nos dias, sobre a gente de Etiópia,
+Tudo tem no seu Reino em grande cópia.
+
+62
+"E se queres com pactos e alianças
+De paz e de amizade sacra e nua
+Comércio consentir das abastanças
+Das fazendas da terra sua e tua,
+Por que cresçam as rendas e abastanças,
+Por quem a gente mais trabalha e sua,
+De vossos Reinos, será certamente
+De ti proveito, o dele glória ingente.
+
+63
+"E sendo assim, que o nó desta amizade
+Entre vós firmemente permaneça,
+Estará pronto a toda adversidade,
+Que por guerra a teu Reino se ofereça,
+Com gente, armas e naus, de qualidade
+Que por irmão te tenha e te conheça;
+E da vontade em ti sobre isto posta
+Me dês a mim certíssima resposta."
+
+64
+Tal embaixada dava o Capitão,
+A quem o Rei gentio respondia
+Que, em ver embaixadores de nação
+Tão remota, grã glória recebia;
+Mas neste caso a última tenção
+Com os de seu conselho tomaria,
+Informando-se certo de quem era
+O Rei, e a gente, e terra que dissera..
+
+65
+E que entanto podia do trabalho
+Passado ir repousar, e em tempo breve
+Daria a seu despacho um justo talho,
+Com que a seu Rei resposta alegre leve.
+Já nisto punha a noite o usado atalho
+As humanas canseiras, por que ceve
+De doce sono os membros trabalhados,
+Os olhos ocupando ao ócio dados.
+
+66
+Agasalhados foram juntamente
+O Gama e Portugueses no aposento
+Do nobre Regedor da Índica gente,
+Com festas e geral contentamento.
+O Catual, no cargo diligente
+De seu Rei, tinha já por regimento
+Saber da gente estranha donde vinha,
+Que costumes, que lei, que terra tinha.
+
+67
+Tanto que os ígneos carros do formoso
+Mancebo Délio viu, que a luz renova,
+Manda chamar Monçaide, desejoso
+De poder-se informar da gente nova.
+Já lhe pergunta pronto e curioso,
+Se tem notícia inteira e certa prova
+Dos estranhos, quem são; que ouvido tinha
+Que é gente de sua pátria muito vizinha;
+
+68
+Que particularmente ali lhe desse
+Informação mui larga, pois faria
+Nisso serviço ao Rei, por que soubesse
+O que neste negócio se faria.
+Monçaide torna:--"Posto que eu quisesse
+Dizer-te disto mais, não saberia;
+Somente sei que é gente lá de Espanha,
+Onde o meu ninho e o Sol no mar se banha.
+
+69
+"Têm a lei dum Profeta, que gerado
+Foi sem fazer na carne detrimento
+Da mãe, tal que por bafo está aprovado
+Do Deus, que tem do mundo o regimento,
+O que entre meus antigos é vulgado
+Deles, é que o valor sanguinolento
+Das armas no seu braço resplandece,
+O que em nossos passados se parece.
+
+70
+"Porque eles, com virtude sobre-humana,
+Os deitaram dos campos abundosos
+Do rico Tejo e fresco Goadiana,
+Com feitos memoráveis e famosos:
+E não contentes ainda, e na Africana
+Parte, cortando os mares procelosos,
+Nos não querem deixar viver seguros,
+Tomando-nos cidades e altos muros.
+
+71
+"Não menos têm mostrado esforço e manha
+Em quaisquer outras guerras que aconteças,
+Ou das gentes belígeras de Espanha,
+Ou lá dalguns que do Pírene desçam.
+Assim que nunca enfim com lança estranha
+Se tem, que por vencidos se conheçam,
+Nem se sabe ainda, não, te afirmo e asselo,
+Para estes Anibais nenhum Marcelo.
+
+72
+"E se esta informação não for inteira
+Tanto quanto convém, deles pretende
+Informar-te, que é gente verdadeira,
+A quem mais falsidade enoja e ofende:
+Vai ver-lhe a f rota, as armas e a maneira
+Do fundido metal, que tudo rende,
+E folgarás de veres a polícia
+Portuguesa na paz e na milícia."
+
+73
+Já com desejos o Idolatra ardia
+De ver isto, que o Mouro lhe contava.
+Manda esquipar batéis que ir ver queria
+Os lenhos em que o Gama navegava.
+Ambos partem da praia, a quem seguia
+A Naira geração, que o mar coalhava.
+A capitania sobem forte e bela,
+Onde Paulo os recebe a bordo dela.
+
+74
+Purpúreos são os toldos, e as bandeiras
+Do rico fio são que o bicho gera;
+Nelas estão pintadas as guerreiras
+Obras, que o forte braço já fizera:
+Batalhas tem campais, aventureiras,
+Desafios cruéis, pintura fera,
+Que, tanto que ao Gentio se apresenta,
+A tento nela os olhos apascenta.
+
+75
+Pelo que vê pergunta; mas o Gama
+Lhe pedia primeiro que se assente,
+E que aquele deleite, que tanto ama
+A seita Epicureia, experimente.
+Dos espumantes vasos se derrama
+O licor que Noé mostrara à gente:
+Mas comer o Gentio não pretende,
+Que a seita que seguia lho defende.
+
+76
+A trombeta que, em paz, no pensamento
+Imagem faz de guerra, rompe os ares;
+Com o fogo o diabólico instrumento
+Se faz ouvir no fundo lá dos mares.
+Tudo o Gentio nota; mas o intento
+Mostrava sempre ter nos singulares
+Feitos dos homens, que em retrato breve
+A muda poesia ali descreve
+
+77
+Alça-se em pé, com ele o Gama junto,
+Coelho de outra parti, e o Mauritano;
+Os olhos põe no bélico transunto
+De um velho branco, aspecto venerando
+Cujo nome não pode ser defunto
+Enquanto houver no mundo trato humano:
+No trajo a Grega usança está perfeita,
+Um ramo por insígnia na direita.
+
+78
+Um ramo na mão tinha... Mas, ó cego!
+Eu, que cometo insano e temerário,
+Sem vós, Ninfas do Tejo e do Mondego,
+Por caminho tão árduo, longo e vário!
+Vosso favor invoco, que navego
+Por alto mar, com vento tão contrário,
+Que, se não me ajudais, hei grande medo
+Que o meu fraco batel se alague cedo.
+
+79
+Olhai que há tanto tempo que, cantando
+O vosso Tejo e os vossos Lusitanos,
+A fortuna mo traz peregrinando,
+Novos trabalhos vendo, e novos danos:
+Agora o mar, agora experimentando
+Os perigos Mavórcios inumanos,
+Qual Canace, que à morte se condena,
+Numa mão sempre a espada, e noutra a pena.
+
+80
+Agora, com pobreza avorrecida,
+Por hospícios alheios degradado;
+Agora, da esperança já adquirida,
+De novo, mais que nunca, derribado;
+Agora às costas escapando a vida,
+Que dum fio pendia tão delgado
+Que não menos milagre foi salvar-se
+Que para o Rei Judaico acrescentar-se.
+
+81
+E ainda, Ninfas minhas, não bastava
+Que tamanhas misérias me cercassem,
+Senão que aqueles, que eu cantando andava
+Tal prémio de meus versos me tornassem:
+A troco dos descansos que esperava,
+Das capelas de louro que me honrassem,
+Trabalhos nunca usados me inventaram,
+Com que em tão duro estado me deitaram.
+
+82
+Vede, Ninfas, que engenhos de senhores
+O vosso Tejo cria valorosos,
+Que assim sabem prezar com tais favores
+A quem os faz, cantando, gloriosos!
+Que exemplos a futuros escritores,
+Para espertar engenhos curiosos,
+Para porem as coisas em memória,
+Que merecerem ter eterna glória!
+
+83
+Pois logo em tantos males é forçado,
+Que só vosso favor me não faleça,
+Principalmente aqui, que sou chegado
+Onde feitos diversos engrandeça:
+Dai-mo vós sós, que eu tenho já jurado
+Que não o empregue em quem o não mereça,
+Nem por lisonja louve algum subido,
+Sob pena de não ser agradecido.
+
+84
+Nem creiais, Ninfas, não, que a fama desse
+A quem ao bem comum e do seu Rei
+Antepuser seu próprio interesse,
+Inimigo da divina e humana Lei.
+Nenhum ambicioso, que quisesse
+Subir a grandes cargos, cantarei,
+Só por poder com torpes exercícios
+Usar mais largamente de seus vícios;
+
+85
+Nenhum que use de seu poder bastante,
+Para servir a seu desejo feio,
+E que, por comprazer ao vulgo errante,
+Se muda em mais figuras que Proteio.
+Nem, Camenas, também cuideis que canto
+Quem, com hábito honesto e grave, veio,
+Por contentar ao Rei no ofício novo,
+A despir e roubar o pobre povo.
+
+86
+Nem quem acha que é justo e que é direito
+Guardar-se a lei do Rei severamente,
+E não acha que é justo e bom respeito,
+Que se pague o suor da servil gente;
+Nem quem sempre, com pouco experto peito,
+Razões aprende, e cuida que é prudente,
+Para taxar, com mão rapace e escassa,
+Os trabalhos alheios, que não passa.
+
+87
+Aqueles sós direi, que aventuraram
+Por seu Deus, por seu Rei, a amada vida,
+Onde, perdendo-a, em fama a dilataram,
+Tão bem de suas obras merecida.
+Apolo, e as Musas que me acompanharam,
+Me dobrarão a fúria concedida,
+Enquanto eu tomo alento descansado,
+Por tornar ao trabalho, mais folgado.
+
+Canto Oitavo
+
+1
+Na primeira figura se detinha
+O Catual que vira estar pintada,
+Que por divisa um ramo na mão tinha,
+A barba branca, longa e penteada:
+"Quem era, e por que causa lhe convinha
+A divisa, que tem na mão tomada?"
+Paulo responde, cuja voz discreta
+O Mauritano sábio lhe interpreta.
+
+2
+"Estas figuras todas que aparecem,
+Bravos em vista e feros nos aspectos,
+Mais bravos e mais feros se conhecem,
+Pela fama, nas obras e nos feitos:
+Antigos são, mas ainda resplandecem
+Colo nome, entre os engenhos mais perfeito
+Este que vês é Luso, donde a fama
+O nosso Reino Lusitânia chama.
+
+3
+"Foi filho e companheiro do Tebano,
+Que tão diversas partes conquistou;
+Parece vindo ter ao ninho Hispano
+Seguindo as armas, que contino usou;
+Do Douro o Guadiana o campo ufano,
+Já dito Elísio, tanto o contentou,
+Que ali quis dar aos já cansados ossos
+Eterna sepultura, e nome aos nossos.
+
+4
+"O ramo que lhe vês para divisa,
+O verde tirso foi de Baco usado;
+O qual à nossa idade amostra e avisa
+Que foi seu companheiro e filho amido.
+Vês outro, que do Tejo a terra pisa,
+Depois de ter tão longo mar arado,
+Onde muros perpétuos edifica,
+E templo a Palas, que em memória fica?
+
+5
+"Ulisses é o que faz a santa casa
+A Deusa, que lhe dá língua facunda;
+Que, se lá na Ásia Tróia insigne abrasa,
+Cá na Europa Lisboa ingente funda."
+--"Quem será estoutro cá, que o campo arrasa
+De mortos, com presença furibunda?
+Grandes batalhas tem desbaratadas,
+Que as águias nas bandeiras tem pintadas."
+
+6
+Assim o Gentio diz. Responde o Gama:
+--"Este que vês, pastor já foi de gado;
+Viriato sabemos que se chama,
+Destro na lança mais que no cajado;
+Injuriada tem de Roma a f ama,
+Vencedor invencível afamado;
+Não tem com ele, não, nem ter puderam
+O primor que com Pirro já tiveram.
+
+7
+"Com força, não; com manha vergonhosa,
+A vida lhe tiraram que os espanta:
+Que o grande aperto, em gente ainda que honrosa,
+As vezes leis magnânimas quebranta.
+Outro está aqui que, contra a pátria irosa,
+Degradado, conosco se alevanta:
+Escolheu bem com quem se alevantasse,
+Para que eternamente se ilustrasse.
+
+8
+"Vês? conosco também vence as bandeiras
+Dessas aves de Júpiter validas;
+Que já naquele tempo as mais Guerreiras
+Gentes de nós souberam ser vencidas.
+Olha tão subtis artes e maneiras,
+Para adquirir os povos, tão fingidas,
+A fatídica Cerva que o avisa:
+Ele é Sertório, e ela a sua divisa.
+
+9
+"Olha estoutra bandeira, e vê pintado
+O grã progenitor dos Reis primeiros.
+Nós Úngaro o fazemos, porém nado
+Crêem ser em Lotaríngia os estrangeiros.
+Depois de ter com os Mouros superado,
+Galegos e Leoneses cavaleiros,
+A casa Santa passa o santo Henrique,
+Por que o tronco dos Reis se santifique."
+
+10
+"Quem é, me diz, este outro que me espanta,
+(Pergunta o Malabar maravilhado)
+Que tantos esquadrões, que gente tanta,
+Com tão pouca, tem roto e destroçado?
+Tantos muros aspérrimos quebranta,
+Tantas batalhas dá, nunca cansado,
+Tantas coroas tem por tantas partes
+A seus pés derribadas, e estandartes!"
+
+11
+--"Este é o primeiro Afonso, disse o Gama,
+Que todo Portugal aos Mouros toma;
+Por quem, no Estígio lago, jura a Fama
+De mais não celebrar nenhum de Roma.
+Este é aquele zeloso a quem Deus ama,
+Com cujo braço o Mouro inimigo doma,
+Para quem de seu Reino abaixa os muros,
+Nada deixando já para os futuros,
+
+12
+"Se César, se Alexandre Rei, tiveram
+Tão pequeno poder, tão pouca gente,
+Contra tantos inimigos quantos eram
+Os que desbaratava este excelente,
+Não creias que seus nomes se estendera
+Com glórias imortais tão largamente;
+Mas deixa os feitos seus inexplicáveis,
+Vê que os de seus vassalos são notáveis.
+
+13
+"Este que vês olhar com gesto irado
+Para o rompido aluno mal sofrido,
+Dizendo-lhe que o exército espalhado
+Recolha, e torne ao campo defendido;
+Torna o moço do velho acompanhado,
+Que vencedor o torna de vencido:
+Egas Moniz se chama o forte velho,
+Para leais vassalos claro espelho.
+
+14
+"Vê-lo cá vai com os filhos a entregar-se,
+A corda ao colo, nu de seda e pano,
+Porque não quis o moço sujeitar-se,
+Como ele prometera, ao Castelhano.
+Fez com siso e promessas levantar-se
+O cerco, que já estava soberano;
+Os filhos e mulher obriga à pena:
+Para que o senhor salve, a si condena.
+
+15
+"Não fez o Cônsul tanto, que cercado
+Foi nas forças Caudinas, de ignorante,
+Quando a passar por baixo foi forçado
+Do Samnítico jugo triunfante.
+Este, pelo seu povo injuriado,
+A si se entrega só, firme e constante;
+Estoutro a si, e os filhos naturais,
+E a consorte sem culpa, que dói mais.
+
+16
+"Vês este que, saindo da cilada,
+Dá sobre o Rei que cerca a vila forte?
+Já o Rei tem preso e a vila descercada:
+Ilustre feito, digno de Mavorte!
+Vê-lo cá vai pintado nesta armada,
+No mar também aos Mouros dando a morto,
+Tomando-lhe as galés, levando a glória
+Da primeira marítima vitória.
+
+17
+"É, Dom Fuas Roupinho, que na terra
+E no mar resplandece juntamente,
+Com o fogo que acendeu junto da serra
+De Abila, nas galés da Maura gente.
+Olha como, em tão justa e santa guerra,
+De acabar pelejando está contente:
+Das mãos dos Mouros entra a feliz alma,
+Triunfando, nos céus, com justa palma.
+
+18
+"Não vês um ajuntamento, de estrangeiro
+Trajo, sair da grande armada nova,
+Que ajuda a combater o Rei primeiro
+Lisboa, de si dando santa prova?
+Olha Henrique, famoso cavaleiro,
+A palma que lhe nasce junto à cova.
+Por eles mostra Deus milagre visto:
+Germanos são os mártires de Cristo.
+
+19
+"Um Sacerdote vê brandindo a espada
+Contra Arronches, que toma, por vingança
+De Leiria, que de antes foi tomada
+Por quem por Mafamede enresta a lança:
+É Teotónio, Prior. Mas vê cercada
+Santarém, e verás a segurança
+Da figura nos muros, que primeira
+Subindo, ergueu das Quinis a bandeira.
+
+20
+"Vê-lo cá, donde Sancho desbarata
+Os Mouros de Vandália em fera guerra;
+Os inimigos rompendo, o alferes mata
+E o Hispálico pendão derriba em terra:
+Mem Moniz é, que em si o valor retrata,
+Que o sepulcro do pai com os ossos cerra,
+Digno destas bandeiras, pois sem falta
+A contrária derriba e a sua exalta.
+
+21
+"Olha aquele que desce pela lança?
+Com as duas cabeças dos vigias,
+Onde a cilada esconde, com que alcança
+A cidade por manhas e ousadias.
+Ela por armas toma a semelhança
+Do cavaleiro, que as cabeças frias
+Na mão levava (feito nunca feito!)
+Giraldo Sem-pavor é o forte peito.
+
+22
+"Não vês um Castelhano, que agravado
+De Afonso nono rei, pelo ódio antigo
+Dos de Lara, com os Mouros é deitado,
+De Portugal fazendo-se inimigo?
+Abrantes vila toma, acompanhado
+Dos duros infiéis que traz consigo.
+Mas vê que um Português com pouca gente
+O desbarata e o prende ousadamente.
+
+23
+"Martim Lopes se chama o cavaleiro,
+Que destes levar pode a palma e o louro.
+Mas olha um Eclesiástico guerreiro,
+Que em lança de aço torna o Bago de ouro.
+Vê-lo entre os duvidosos tão inteiro
+Em não negar batalha ao bravo Mouro;
+Olha o sinal no céu que lhe aparece,
+Com que nos poucos seus o esforço cresce.
+
+24
+"Vós? vão os Reis de Córdova e Sevilha
+Rotos, com os outros dois, e não de espaço.
+Rotos? mas antes mortos, maravilha
+Feita de Deus, que não de humano braço.
+Vês? já a vila de Alcáçare se humilha,
+Sem lhe valer defesa, ou muro de aço,
+A Dom Mateus, o Bispo de Lisboa,
+Que a coroa da palma ali coroa.
+
+25
+"Olha um Mestre que desce de Castela,
+Português de nação, como conquista
+A terra dos Algarves, e já nela
+Não acha quem por armas lhe resista;
+Com manha, esforço, e com benigna estrela,
+Vilas, castelos toma à escala vista.
+Vês Tavila tomada aos moradores,
+Em vingança dos sete caçadores!
+
+26
+"Vês? com bélica astúcia ao Mouro ganha
+Silves, que ele ganhou com força ingente:
+É Dom Paio Correia, cuja manha
+E grande esforço faz inveja à gente.
+Mas não passes os três que em França e Espanha
+Se fazem conhecer perpetuamente
+Em desafios, justas e torneios,
+Nelas deixando públicos troféus.
+
+27
+"Vê-los, com o nome vêm de aventureiros
+A Castela, onde o preço sós levaram
+Dos jogos de Belona verdadeiros,
+Que com dano de alguns se exercitaram.
+Vê mortos os soberbos cavaleiros,
+Que o principal dos três desafiaram,
+Que Gonçalo Ribeiro se nomeia,
+Que pode não temer a lei Leteia.
+
+28
+"Atenta num, que a fama tanto estende,
+Que de nenhum passado se contenta;
+Que a pátria, que de um fraco fio pende,
+Sobre seus duros ombros a sustenta.
+Não no vês tinto de ira, que reprende
+A vil desconfiança inerte e lenta
+Do povo, e faz que tome o doce freio
+De Rei seu natural, e não de alheio?
+
+29
+"Olha: por seu conselho e ousadia
+De Deus guiada só, e de santa estrela,
+Só pode o que impossível parecia:
+Vencer o povo ingente de Castela.
+Vês, por indústria, esforço e valentia,
+Outro estrago e vitória clara e bela,
+Na gente, assim feroz como infinita,
+Que entre o Tarteso e Goadiana habita?
+
+30
+"Mas não vês quase já desbaratado
+O poder Lusitano, pela ausência
+Do Capitão devoto, que, apartado
+Orando invoca a suma e trina Essência?
+Vê-lo com pressa já dos seus achado,
+Que lhe dizem que falta resistência
+Contra poder tamanho, e que viesse,
+Por que consigo esforço aos fracos desse?
+
+31
+"Mas olha com que santa confiança,
+--Que inda não era tempo,--respondia,
+Como quem tinha em Deus a seguraria
+Da vitória que logo lhe daria.
+Assim Pompílio, ouvindo que a possança
+Dos inimigos a terra lhe corria,
+A quem lhe a dura nova estava dando,
+-"Pois eu, responde, estou sacrificando."--
+
+32
+"Se quem com tanto esforço em Deus se atreve,
+Ouvir quiseres como se nomeia,
+Português Cipião chamar-se deve;
+Mas mais de Dom Nuno Alvares se arreia:
+Ditosa pátria que tal filho teve!
+Mas antes pai, que enquanto o Sol rodeia
+Este globo de Ceres e Netuno,
+Sempre suspirará por tal aluno.
+
+33
+"Na mesma guerra vê que presas ganha
+Estoutro Capitão de pouca gente;
+Comendadores vence e o gado apanha,
+Que levavam roubado ousadamente.
+Outra vez vê que a lança em sangue banha
+Destes, só por livrar com o amor ardente
+O preso amigo, preso por leal:
+Pêro Rodrigues é do Landroal.
+
+34
+"Olha este desleal o como paga
+O perjúrio que fez e vil engano:
+Gil Fernandes é de Elvas quem o estraga,
+E faz vir a passar o último dano:
+De Xerez rouba o campo, e quase alaga
+Com o sangue de seus donos Castelhano.
+Mas olha Rui Pereira, que com o rosto
+Faz escudo às galés, diante posto.
+
+35
+"Olha que dezessete Lusitanos,
+Neste outeiro subidos se defendem,
+Fortes, de quatrocentos Castelhanos,
+Que em derredor, pelos tomar, se estendem;
+Porém logo sentiram, com seus danos,
+Que não só se defendem, mas ofendem:
+Digno feito de ser no mundo eterno,
+Grande no tempo antigo e no moderno.
+
+36
+"Sabe-se antigamente que trezentos
+Já contra mil Romanos pelejaram,
+No tempo que os viris atrevimentos
+De Viriato tanto se ilustraram,
+E deles alcançando vencimentos
+Memoráveis, de herança nos deixaram
+Que os muitos, por ser poucos, não temamos:
+O que depois mil vezes amestramos.
+
+37
+"Olha cá dois infantes, Pedro e Henrique,
+Progénie generosa de Joane:
+Aquele faz que fama ilustre fique
+Dele em Germânia, com que a morte engane;
+Este, que ela nos mares o publique
+Por seu descobridor, e desengane
+De Ceita a Maura túmida vaidade,
+Primeiro entrando as portas da cidade.
+
+38
+"Vês o conde Dom Pedro, que sustenta
+Dois cercos contra toda a Barbaria?
+Vês, outro Conde está, que representa
+Em terra Marte, em forças e ousadia;
+De poder defender se não contenta
+Alcácere da ingente companhia;
+Mas do seu Rei defende a cara vida,
+Pondo por muro a sua, ali perdida.
+
+39
+"Outros muitos verias, que os pintores
+Aqui também por certo pintariam;
+Mas falta-lhe pincel, faltam-lhe cores,
+Honra, prémio, favor, que as artes criam:
+Culpa dos viciosos sucessores,
+Que degeneram, certo, e se desviam
+Do lustre e do valor dos seus passados,
+Em gostos e vaidades atolados.
+
+40
+"Aqueles pais ilustres que já deram
+Princípio à geração que deles pende,
+Pela virtude muito então fizeram,
+E por deixar a casa, que descende.
+Cegos, que dos trabalhos que tiveram,
+Se alta fama e rumor deles se estende,
+Escuros deixam sempre seus menores,
+Com lhe deixar descansos corruptores.
+
+41
+"Outros também há grandes e abastados,
+Sem nenhum tronco ilustre donde venham;
+Culpa de Reis, que às vezes a privados
+Dão mais que a mil, que esforço e saber tenham.
+Estes os seus não querem ver pintados,
+Crendo que cores vãs lhe não convenham,
+E, como a seu contrairo natural,
+A pintura, que fala, querem mal.
+
+42
+"Não nego que há contudo descendentes
+Do generoso tronco, e casa rica,
+Que com costumes altos e excelentes,
+Sustentam a nobreza que lhe fica;
+E se a luz dos antigos seus parentes
+Neles mais o valor não clarifica,
+Não falta ao menos, nem se faz escura.
+Mas destes acha poucos a pintura."
+
+43
+Assim está declarando os grandes feitos
+O Gama, que ali mostra a vária tinta,
+Que a douta mão tão claros, tão perfeitos,
+Do singular artífice ali pinta.
+Os olhos tinha prontos e direitos
+O Catual na história bem distinta;
+Mil vezes perguntava e mil ouvia
+As gostosas batalhas que ali via.
+
+44
+Mas já a luz se mostrava duvidosa,
+Porque a a lâmpada grande se escondia
+Debaixo do Horizonte e luminosa
+Levava aos Antípodas o dia,
+Quando o Gentio e a gente generosa
+Dos Naires da nau forte se partia
+A buscar o repouso que descansa
+Os lassos animais, na noite mansa.
+
+45
+Entretanto os Arúspices famosos
+Na falsa opinião, que em sacrifícios
+Antevêem sempre os casos duvidosos,
+Por sinais diabólicos e indícios,
+Mandados do Rei próprio, estudiosos
+Exercitavam a arte e seus ofícios
+Sobre esta vinda desta gente estranha,
+Que às suas terras vem da ignota Espanha.
+
+46
+Sinal lhe mostra o Demo verdadeiro,
+De como a nova gente lhe seria
+Jugo perpétuo, eterno cativeiro,
+Destruição de gente, e de valia.
+Vai-se espantado o atónito agoureiro
+Dizer ao Rei (segundo o que entendia)
+Os sinais temerosos que alcançara
+Nas entranhas das vítimas que olhara.
+
+47
+A isto mais se ajunta que um devoto
+Sacerdote da lei de Mafamede,
+Dos ódios concebidos não remoto
+Contra a divina Fé, que tudo excede,
+Em forma do Profeta falso e noto,
+Que do filho da escrava Agar procede,
+Baco odioso em sonhos lhe aparece,
+Que de seus ódios ainda se não desse.
+
+48
+E diz-lhe assim: "Guardai-vos, gente minha,
+Do mal que se aparelha pelo inimigo
+Que pelas águas úmidas caminha,
+Antes que esteis mais perto do perigo."
+Isto dizendo, acorda o Mouro asinha,
+Espantado do sonho; mas consigo
+Cuida que não é mais que sonho usado:
+Torna a dormir quieto e sossegado.
+
+49
+Torna Baco, dizendo: "Não conheces
+O grã legislador que a teus passados
+Tem mostrado o preceito a que obedeces,
+Sem o qual fôreis muitos batizados?
+Eu por ti, rudo, velo; e tu adormeces!
+Pois saberás que aqueles, que chegados
+De novo são, serão muito grande dano
+Da lei que eu dei ao néscio povo humano.
+
+50
+"Enquanto é fraca a força desta gente,
+Ordena como em tudo se resista,
+Porque, quando o Sol sai, facilmente
+Se pode nele pôr a aguda vista;
+Porém, depois que sobe claro e ardente,
+Se agudeza dos olhos o conquista,
+Tão cega fica, quanto ficareis,
+Se raízes criar lhe não tolheis."
+
+51
+Isto dito, ele e o sono se despede.
+Tremendo fica o atónito Agareno:
+Salta da cama, lume ao servos pede,
+Lavrando nele o fervido veneno.
+Tanto que a nova luz que ao Sol precede
+Mostrara rosto angélico e sereno,
+Convoca os principais da torpe seita,
+Aos quais do que sonhou dá conta estreita.
+
+52
+Diversos pareceres e contrários
+Ali se dão, segundo o que entendiam;
+Astutas traições, enganos vários,
+Perfídias inventavam e teciam.
+Mas, deixando conselhos temerários,
+Destruição da gente pretendiam,
+Por manhas mais subtis e ardis melhores,
+Com peitas adquirindo os regedores;
+
+53
+Com peitas, ouro, e dádivas secretas
+Conciliam da terra os principais,
+E com razões notáveis e discretas
+Mostram ser perdição dos naturais,
+Dizendo que são gentes inquietas,
+Que, os mares discorrendo ocidentais,
+Vivem só de piráticas rapinas,
+Sem Rei, sem leis humanas ou divinas
+
+54
+Ó quanto deve o Rei que bem governa,
+De olhar que os conselheiros, ou privados,
+De consciência e de virtude interna
+E de sincero amor sejam dotados!
+Porque, como este posto na suprema
+Cadeira, pode mal dos apartados
+Negócios ter notícia mais inteira,
+Do que lhe der a língua conselheira.
+
+55
+Nem tão pouco direi que tome tanto
+Em grosso a consciência limpa e certa,
+Que se enleve num pobre e humilde manto,
+Onde ambição acaso ande encoberta.
+E quando um bom em tudo é justo e santo,
+Em negócios do mundo pouco acerta,
+Que mal com eles poderá ter conta
+A quieta inocência, em só Deus pronta.
+
+56
+Mas aqueles avaros Catuais,
+Que o Gentílico povo governavam,
+Induzidos das gentes infernais,
+O Português despacho dilatavam.
+Mas o Gama, que não pretende mais,
+De tudo quanto os Mouros ordenavam,
+Que levar a seu Rei um sinal certo
+Do mundo, que deixava descoberto.
+
+57
+Nisto trabalha só; que bem sabia
+Que depois que levasse esta certeza,
+Armas, o naus, e gente mandaria
+Manuel, que exercita a suma alteza,
+Com que a seu jugo e lei someteria
+Das terras e do mar a redondeza;
+Que ele não era mais que um diligente
+Descobridor das terras do Oriente.
+
+58
+Falar ao Rei gentio determina,
+Por que com seu despacho se tornasse,
+Que já sentia em tudo da malina
+Gente impedir-se quanto desejasse.
+O Rei, que da notícia falsa e indina
+Não era de espantar se se espantasse,
+Que tão crédulo era em seus agouros,
+E mais sendo afirmados pelos Mouros,
+
+59
+Este temor lhe esfria o baixo peito.
+Por outra parte a força da cobiça,
+A quem por natureza está sujeito,
+Um desejo imortal lhe acende e atiça:
+Que bem vê que grandíssimo proveito
+Fará, se com verdade e com justiça
+O contrato fizer por longos anos,
+Que lhe comete o Rei dos Lusitanos.
+
+60
+Sobre isto, nos conselhos que tomava,
+Achava muito contrários pareceres;
+Que naqueles com quem se aconselhava
+Executa o dinheiro seus poderes.
+O grande Capitão chamar mandava,
+A quem chegado disse:--"Se quiseres
+Confessar-me a verdade limpa e nua,
+Perdão alcançarás da culpa tua.
+
+61
+Fala do Samorim ao Gama
+"Eu sou bem informado que a embaixada
+Que de teu Rei me deste, que é fingida;
+Porque nem tu tens Rei, nem pátria amada,
+Mas vagabundo vás passando a vida;
+Que quem da Hespéria última alongada,
+Rei ou senhor de insânia desmedida,
+Há de vir cometer com naus e frotas
+Tão incertas viagens e remotas?
+
+62
+"E se de grandes Reinos poderosos
+O teu Rei tem a régia majestade,
+Que presentes me trazes valerosos,
+Sinais de tua incógnita verdade?
+Com peças e dons altos, sumptuosos,
+Se lia dos Reis altos a amizade;
+Que sinal nem penhor não é bastante
+As palavras dum vago navegante.
+
+63
+"Se porventura vindes desterrados,
+Como já foram homens de alta sorte,
+Em meu Reino sereis agasalhados,
+Que toda a terra é pátria para o forte;
+Ou se piratas sois ao mar usados,
+Dizei-mo sem temor de infâmia ou morte,
+Que por se sustentar em toda idade,
+Tudo faz a vital necessidade."
+
+64
+Isto assim dito, o Gama, que já tinha
+Suspeitas das insídias que ordenava
+O Mallomético ódio, donde vinha
+Aquilo que tão mal o Rei cuidava,
+Com uma alta confiança, que convinha,
+Com que seguro crédito alcançava,
+Que Vénus Acidália lhe influía,
+Tais palavras do sábio peito abria:
+
+65
+"Se os antigos delitos, que a malícia
+Humana cometeu na prisca idade,
+Não causaram que o vaso da niquícia,
+Açoute tão cruel da Cristandade,
+Viera pôr perpétua inimicícia
+Na geração de Adão, coa falsidade,
+Ó poderoso Rei da torpe seita,
+Não conceberas tu tão má suspeita.
+
+66
+"Mas porque nenhum grande bem se alcança
+Sem grandes opressões, e em todo o feito
+Segue o temor os passos da esperança,
+Que em suor vive sempre de seu peito,
+Me mostras tu tão pouca confiança
+Desta minha verdade, sem respeito
+Das razões em contrário que acharias
+Se não cresses a quem não crer devias.
+
+67
+"Porque, se eu de rapinas só vivesse,
+Undívago, ou da pátria desterrado,
+Como crês que tão longe me viesse
+Buscar assento incógnito e apartado?
+Por que esperanças, ou por que interesse
+Viria experimentando o mar irado,
+Os Antarcticos frios, e os ardores
+Que sofrem do Carneiro os moradores?
+
+68
+"Se com grandes presentes de alta estima
+O crédito me pedes do que digo,
+Eu não vim mais que a achar o estranho clima
+Onde a natura pôs teu Reino antigo.
+Mas, se a Fortuna tanto me sublima
+Que eu torne à minha pátria e Reino amigo,
+Então verás o dom soberbo e rico,
+Com que minha tornada certifico.
+
+69
+"Se te parece inopinado feito,
+Que Rei da última Hespéria a ti me mande,
+O coração sublime, o régio peito,
+Nenhum caso possível tem por grande.
+Bem parece que o nobre e grã conceito
+Do Lusitano espírito demande
+Maior crédito, e fé de mais alteza,
+Que creia dele tanta fortaleza.
+
+70
+"Sabe que há muitos anos que os antigos
+Reis nossos firmemente propuseram
+De vencer os trabalhos e perigos,
+Que sempre às grandes coisas se opuseram;
+E, descobrindo os mares inimigos
+Do quieto descanso, pretenderam
+De saber que fim tinham, e onde estavam
+As derradeiras praias que lavavam.
+
+71
+"Conceito digno foi do ramo claro
+Do venturoso Rei, que arou primeiro
+O mar, por ir deitar do ninho caro
+O morador de Abila derradeiro.
+Este, por sua indústria e engenho raro,
+Num madeiro ajuntando outro madeiro,
+Descobrir pôde a parte, que faz clara
+De Argos, da Hidra a luz, da Lebre e da Ara.
+
+72
+"Crescendo com os sucessos bons primeiros
+No peito as ousadias, descobriram
+Pouco e pouco caminhos estrangeiros,
+Que uns, sucedendo aos outros, prosseguiram.
+De África os moradores derradeiros
+Austrais, que nunca as sete flamas viram,
+Foram vistos de nós, atrás deixando
+Quantos estão os Trópicos queimando.
+
+73
+"Assim com firme peito, e com tamanho
+Propósito, vencemos a Fortuna,
+Até que nós no teu terreno estranho
+Viemos pôr a última coluna.
+Rompendo a força do líquido estanho,
+Da tempestade horrífica e importuna,
+A ti chegamos, de quem só queremos
+Sinal, que ao nosso Rei de ti levemos.
+
+74
+"Esta é a verdade, Rei; que não faria
+Por tão incerto bem, tão fraco prémio,
+Qual, não sendo isto assim, esperar podia,
+Tão longo, tão fingido e vão proêmio;
+Mas antes descansar me deixaria
+No nunca descansado e fero grêmio
+Da madre Tethys, qual pirata inico,
+Dos trabalhos alheios feito rico.
+
+75
+"Assim que, ó Rei, se minha grã verdade
+Tens por qual é, sincera e não dobrada,
+Ajunta-me ao despacho brevidade,
+Não me impeças o gosto da tornada.
+E, se ainda te parece falsidade,
+Cuida bem na razão que está provada,
+Que com claro juízo pode ver-se,
+Que fácil é a verdade de entender-se."
+
+76
+A tento estava o Rei na segurança
+Com que provava o Gama o que dizia;
+Concebe dele certa confiança,
+Crédito firme em quanto proferia.
+Pondera das palavras a abastança,
+Julga na autoridade grão valia,
+Começa de julgar por enganados
+Os Catuais corruptos, mal julgados.
+
+77
+Juntamente a cobiça do proveito,
+Que espera do contrato Lusitano,
+O faz obedecer e ter respeito
+Com o Capitão, e não com o Mauro engano.
+Enfim ao Gama manda que direito
+As naus se vá, e, seguro de algum dano,
+Possa a terra mandar qualquer fazenda,
+Que pela especiaria troque e venda.
+
+78
+Que mande da fazenda, enfim, lhe manda,
+Que nos Reinos Gangéticos faleça;
+Se alguma traz idónea lá da banda
+Donde a terra se acaba e o mar começa.
+Já da real presença veneranda
+Se parte o Capitão, para onde peça
+Ao Catual, que dele tinha cargo,
+Embarcação, que a sua está de largo.
+
+79
+Embarcação que o leve às naus lhe pede;
+Mas o mau Regedor, que novos laços
+Lhe maquinava, nada lhe concede,
+Interpondo tardanças e embaraços.
+Com ele parte ao cais, por que o arrede
+Longe quanto puder dos régios paços,
+Onde, sem que seu Rei tenha notícia,
+Faça o que lhe ensinar sua malícia.
+
+80
+Lá bem longe lhe diz que lhe daria
+Embarcação bastante em que partisse,
+Ou que para a luz crástina do dia
+Futuro sua partida diferisse.
+Já com tantas tardanças entendia
+O Gama, que o Gentio consentisse
+Na má tenção dos Mouros, torpe e fera,
+O que dele atéli não entendera.
+
+81
+Era este Catual um dos que estavam
+Corruptos pela Maumetana gente,
+O principal por quem se governavam
+As cidades do Samorim potente.
+Dele somente os Mouros esperavam
+Efeito a seus enganos torpemente.
+Ele, que no conceito vil conspira,
+De suas esperanças não delira.
+
+82
+O Gama com instância lhe requere
+Que o mande pôr nas naus, e não lhe vai;
+E que assim lhe mandara, lhe refere,
+O nobre sucessor de Perimal.
+Por que razão lhe impede e lhe difere
+A fazenda trazer de Portugal?
+Pois aquilo que os Reis já têm mandado
+Não pode ser por outrem derrogado.
+
+83
+Pouco obedece o Catual corrupto
+A tais palavras; antes revolvendo
+Na fantasia algum subtil e astuto
+Engano diabólico e estupendo,
+Ou como banhar possa o ferro bruto
+No sangue avorrecido, estava vendo;
+Ou como as naus em fogo lhe abrasasse,
+Por que nenhuma à pátria mais tornasse.
+
+84
+Que nenhum torne à pátria só pretende
+O conselho infernal dos Maumetanos,
+Por que não saiba nunca onde se estende
+A terra Eoa o Rei dos Lusitanos.
+Não parte o Gama enfim, que lho defende
+O Regedor dos bárbaros profanos;
+Nem sem licença sua ir-se podia,
+Que as almadias todas lhe tolhia.
+
+85
+Aos brados o razões do Capitão
+Responde o Idolatra que mandasse--
+Chegar à terra as naus, que longo estão,
+Por que melhor dali fosse e tornasse.
+"Sinal é de inimigo e de ladrão,
+Que lá tão longe a frota se alargasse,
+Lhe diz, porque do certo e fido amigo
+É não temer do seu nenhum perigo."
+
+86
+Nestas palavras o discreto Gama
+Enxerga bem que as naus deseja perto
+O Catual, por que com f erro e flama,
+Lhas assalte, por ódio descoberto.
+Em vários pensamentos se derrama;
+Fantasiando está remédio certo,
+Que desse a quanto mal se lhe ordenava;
+Tudo temia, tudo enfim cuidava.
+
+87
+Qual o reflexo lume do polido
+Espelho de aço, ou de cristal formoso,
+Que, do raio solar sendo ferido,
+Vai ferir noutra parte luminoso,
+E, sendo da ociosa mão movido
+Pela casa do moço curioso,
+Anda pelas paredes é telhado
+Trêmulo, aqui e ali, e dessossegado:
+
+88
+Tal o vago juízo flutuava
+Do Gama preso, quando lhe lembrara
+Coelho, se por caso o esperava
+Na praia com os batéis, como ordenara.
+Logo secretamente lhe mandava,
+"Que se tornasse à frota, que deixara;
+Não fosse salteado dos enganos,
+Que esperava dos feros Maumetanos."
+
+89
+Tal há de ser quem quer, com o dom de Marte,
+Imitar os ilustres e igualá-los:
+Voar com o pensamento a toda parte,
+Adivinhar perigos, e evitá-los:
+Com militar engenho e subtil arte
+Entender os inimigos, e enganá-los;
+Crer tudo, enfim, que nunca louvarei
+O Capitão que diga: "Não cuidei".
+
+90
+Insiste o Malabar em tê-lo preso,
+Se não manda chegar a terra a armada;
+Ele constante, e de ira nobre aceso,
+Os ameaços seus não teme nada;
+Que antes quer sobre si tomar o peso
+De quanto mal a vil malícia ousada
+Lhe andar armando, que pôr em ventura
+A frota de seu Rei, que tem segura.
+
+91
+Aquela noite esteve ali detido,
+E parte do outro dia, quando ordena
+De se tornar ao Rei; mas impedido
+Foi da guarda que tinha, não pequena.
+Comete-lhe o Gentio outro partido,
+Temendo de seu Rei castigo ou pena,
+Se sabe esta malícia, a qual asinha
+Saberá, se mais tempo ali o detinha.
+
+92
+Diz-lhe "que mande vir toda a fazenda
+Vendível, que trazia, para a terra,
+Para que de vagar se troque e venda:
+Que quem não quer comércio, busca guerra.
+Posto que os maus propósitos entenda
+O Gama, que o danado peito encerra,
+Consente, porque sabe por verdade,
+Que compra com a fazenda a liberdade.
+
+93
+Concertam-se que o negro mande dar
+Embarcações idóneas com que venha;
+Que os seus batéis não quer aventurar
+Onde lhos tome o inimigo, ou lhos detenha.
+Partem as almadias a buscar
+Mercadoria Hispana, que convenha.
+Escreve a seu irmão que lhe mandasse
+A fazenda com que se resgatasse.
+
+94
+Vem a fazenda a terra, aonde logo
+A agasalhou o infame Catual;
+Com ela ficam Álvaro e Diogo,
+Que a pudessem vender pelo que val.
+Se mais que obrigação, que mando e rogo
+No peito vil o prémio pode e val,
+Bem o mostra o Gentio a quem o entenda,
+Pois o Gama soltou pela fazenda.
+
+95
+Por ela o solta, crendo que ali tinha
+Penhor bastante, donde recebesse
+Interesse maior do que lhe vinha,
+Se o Capitão mais tempo detivesse.
+Ele, vendo que já lhe não convinha
+Tornar a terra, por que não pudesse
+Ser mais retido, sendo às naus chegado
+Nelas estar se deixa descansado.
+
+96
+Nas naus estar se deixa vagaroso,
+Até ver o que o tempo lhe descobre:
+Que não se fia já do cobiçoso
+Regedor corrompido e pouco nobre.
+Veja agora o juízo curioso
+Quanto no rico, assim como no pobre,
+Pode o vil interesse e sede inimiga
+Do dinheiro, que a tudo nos obriga.
+
+97
+A Polidoro mata o Ptei Treício,
+Só por ficar senhor do grão tesouro;
+Entra, pelo fortíssimo edifício,
+Com a filha de Acriso a chuva d'ouro;
+Pode tanto em Tarpeia avaro vício,
+Que, a troco do metal luzente e louro,
+Entrega aos inimigos a alta torre,
+Do qual quase afogada em pago morre.
+
+98
+Este rende munidas fortalezas,
+Faz tredores e falsos os amigos:
+Este a mais nobres faz fazer vilezas,
+E entrega Capitães aos inimigos;
+Este corrompe virginais purezas,
+Sem temer de honra ou fama alguns perigos:
+Este deprava às vezes as ciências,
+Os juízos cegando e as consciências;
+
+99
+Este interpreta mais que sutilmente.
+Os textos; este faz e desfaz leis;
+Este causa os perjúrios entre a gente,
+E mil vezes tiranos torna os Reis.
+Até os que só a Deus Onipotente
+Se dedicam, mil vezes ouvireis
+Que corrompe este encantador, e ilude;
+Mas não sem cor, contudo, de virtude.
+
+Canto Nono
+
+1
+Tiveram longamente na cidade,
+Sem vender-se, a fazenda os dois feitores
+Que os infiéis, por manha e falsidade,
+Fazem que não lha comprem mercadores;
+Que todo seu propósito e vontade
+Era deter ali os descobridores
+Da Índia tanto tempo, que viessem
+De Meca as naus, que as suas desfizessem.
+
+2
+Lá no seio Eritreu, onde fundada
+Arsínoe foi do Egípcio Ptolomeu,
+Do nome da irmã sua assim chamada,
+Que depois em Suez se converteu,
+Não longe o porto jaz da nomeada
+Cidade Meca, que se engrandeceu
+Com a superstição falsa e profana
+Da religiosa água Maumetana.
+
+3
+Gidá se chama o porto, aonde o trato
+De todo o Roxo mar mais florescia,
+De que tinha proveito grande e grato
+O Soldão que esse Reino possuía.
+Daqui aos Malabares, por contrato
+Dos infiéis, formosa companhia
+De grandes naus, pelo Índico Oceano,
+Especiaria vem buscar cada ano.
+
+4
+Por estas naus os Mouros esperavam,
+Que, como fossem grandes e possantes,
+Aquelas, que o comércio lhe tomavam,
+Com flamas abrasassem crepitantes.
+Neste socorro tanto confiavam,
+Que já não querem mais dos navegantes,
+Senão que tanto tempo ali tardassem,
+Que da famosa Meca as naus chegassem.
+
+5
+Mas o Governador dos céus e gentes,
+Que, para quanto tem determinado,
+De longe os meios dá convenientes,
+Por onde vem a ef eito o fim fadado,
+Influiu piedosos acidentes
+De afeição em Monçaide, que guardado
+Estava para dar ao Gama aviso,
+E merecer por isso o Paraíso.
+
+6
+Este, de quem se os Mouros não guardavam,
+Por ser Mouro como eles, antes era
+Participante em quanto maquinavam,
+A tenção lhe descobre torpe e fera.
+Muitas vezes as naus que longe estavam
+Visita, o com piedade considera
+O dano, sem razão, que se lhe ordena
+Pela maligna gente Sarracena.
+
+7
+Informa o cauto Gama das armadas
+Que de Arábica Meca vêm cada ano,
+Que agora são dos seus tão desejadas,
+Para ser instrumento deste dano.
+Diz-lhe que vêm de gente carregadas,
+E dos trovões horrendos de Vulcano,
+E que pode ser delas oprimido,
+Segundo estava mal apercebido.
+
+8
+O Gama, que também considerava
+O tempo, que para a partida o chama,
+E que despacho já não esperava
+Melhor do Rei, que os Maumetanos ama,
+Aos feitores, que em terra estão, mandava
+Que se tornem às naus; e por que a fama
+Desta súbita vinda os não impeça,
+Lhe manda que a fizessem escondida.
+
+9
+Porém não tardou muito que, voando,
+Um rumor não soasse com verdade:
+Que foram presos os feitores, quando
+Foram sentidos vir-se da cidade.
+Esta fama as orelhas penetrando
+Do sábio Capitão, com brevidade
+Faz represaria nuns, que às naus vieram
+A vender a pedraria que trouxeram.
+
+10
+Eram estes antigos mercadores
+Ricos em Calecu, e conhecidos;
+Da falta deles, logo entre os melhores
+Sentido foi que estão no mar retidos.
+Mas já nas naus os bons trabalhadores
+Volvem o cabrestante, e repartidos
+Pelo trabalho, uns puxam pela amarra,
+Outros quebram com o peito duro a barra;
+
+11
+Outros pendem da verga, e já desatam
+A vela, que com grita se soltava,
+Quando com maior grita ao Rei relatam
+A pressa com que a armada se levava.
+As mulheres e filhos que se matam
+Daqueles que vão presos, onde estava
+O Samorim, se queixam que perdidos
+Uns têm os pais, as outras os maridos.
+
+12
+Manda logo os feitores Lusitanos
+Com toda sua fazenda livremente
+Apesar dos inimigos Maumetanos,
+Por que lhe torne a sua presa gente.
+Desculpas manda o Rei de seus enganos;
+Recebe o Capitão de melhor mente
+Os presos que as desculpas, e tornando
+Alguns negros, se parte as velas dando.
+
+13
+Parte-se costa abaixo, porque entende
+Que em vão com o Rei gentio trabalhava
+Em querer dele paz, a qual pretende
+Por firmar o comércio que tratava.
+Mas como aquela terra, que se estende
+Pela Aurora, sabida já deixava,
+Com estas novas torna à pátria cara,
+Certos sinais levando do que achara.
+
+14
+Leva alguns Malabares, que tomou
+Por força, dos que o Samorim mandara
+Quando os presos feitores lhe tornou;
+Leva pimenta ardente, que comprara;
+A seca flor de Banda não ficou,
+A noz, e o negro cravo, que faz clara
+A nova ilha Maluco, com a canela,
+Com que Ceilão é rica, ilustre e bela.
+
+15
+Isto tudo lhe houvera a diligência
+De Monçaide fiel, que também leva,
+Que, inspirado de angélica influência,
+Quer no livro de Cristo que se escreva.
+Ó ditoso Africano, que a clemência
+Divina assim tirou de escura treva,
+E tão longe da pátria achou maneira
+Para subir à pátria verdadeira!
+
+16
+Apartadas assim da ardente costa
+As venturosas naus, levando a proa
+Para onde a Natureza tinha posta
+A meta Austrina da esperança boa,
+Levando alegres novas e resposta
+Da parte Oriental para Lisboa,
+Outra vez cometendo os duros medos
+Do mar incerto, tímidos e ledos;
+
+17
+O prazer de chegar à pátria cara,
+A seus penates caros e parentes,
+Para contar a peregrina e rara
+Navegação, os vários céus e gentes;
+Vir a lograr o prémio, que ganhara
+Por tão longos trabalhos e acidentes,
+Cada um tem por gosto tão perfeito,
+Que o coração para ele é vaso estreito.
+
+18
+Porém a deusa Cípria, que ordenada
+Era para favor dos Lusitanos
+Do Padre eterno, e por bom génio dada,
+Que sempre os guia já de longos anos;
+A glória por trabalhos alcançada,
+Satisfação de bem sofridos danos,
+Lhe andava já ordenando, e pretendia
+Dar-lhe nos mares tristes alegria.
+
+19
+Depois de ter um pouco revolvido
+Na mente o largo mar que navegaram,
+Os trabalhos, que pelo Deus nascido
+Nas Anfióneas Tebas se causaram;
+Já trazia de longe no sentido,
+Para prémio de quanto mal passaram,
+Buscar-lhe algum deleite, algum descanso
+No Reino de cristal líquido e manso;
+
+20
+Algum repouso, enfim, com que pudesse
+Refocilar a lassa humanidade
+Dos navegantes seus, como interesse
+Do trabalho que encurta a breve idade.
+Parece-lhe razão que conta desse
+A seu filho, por cuja potestade
+Os Deuses faz descer ao vil terreno
+E os humanos subir ao céu sereno.
+
+21
+Isto bem revolvido, determina
+De ter-lhe aparelhada, lá no meio
+Das águas, alguma ínsula divina,
+Ornada de esmaltado e verde arreio;
+Que muitas tem no reino, que confina
+Da mãe primeira com o terreno seio,
+Afora as que possui soberanas
+Para dentro das portas Herculanas.
+
+22
+Ali quer que as aquáticas donzelas
+Esperem os fortíssimos barões,
+Todas as que têm título de belas,
+Glória dos olhos, dor dos corações,
+Com danças e coreias, porque nelas
+Influirá secretas afeições,
+Para com mais vontade trabalharem
+De contentar, a quem se afeiçoaram.
+
+23
+Tal manha buscou já, para que aquele
+Que de Anquises pariu, bem recebido
+Fosse no campo que a bovina pele
+Tomou de espaço, por subtil partido.
+Seu filho vai buscar, porque só nele
+Tem todo seu poder, fero Cupido,
+Que assim como naquela empresa antiga
+Ajudou já, nestoutra a ajude e siga.
+
+24
+No carro ajunta as aves que na vida
+Vão da morte as exéquias celebrando,
+E aquelas em que já foi convertida
+Perístera, as boninas apanhando.
+Em derredor da Deusa já partida,
+No ar lascivos beijos se vão dando.
+Ela, por onde passa, o ar e o vento
+Sereno faz, com brando movimento.
+
+25
+Já sobre os Idálios montes pende,
+Onde o filho frecheiro estava então
+Ajuntando outros muitos, que pretende
+Fazer uma famosa expedição
+Contra o mundo rebelde, por que emende
+Erros grandes, que há dias nele estão,
+Amando coisas que nos foram dadas,
+Não para ser amadas, mas usadas.
+
+26
+Via Acteon na caça tão austero,
+De cego na alegria bruta, insana,
+Que por seguir um feio animal fero,
+Foge da gente e bela forma humana;
+E por castigo quer, doce e severo,
+Mostrar-lhe a formosura de Diana;
+E guarde-se não seja ainda comido
+Desses cães que agora ama, e consumido.
+
+27
+E vê do mundo todo os principais,
+Que nenhum no bem público imagina;
+Vê neles que não têm amor a mais
+Que a si somente, e a quem Filáucia ensina.
+Vê que esses que frequentam os reais
+Paços, por verdadeira e sã doutrina
+Vendem adulação, que mal consente
+Mondar-se o novo trigo florescente.
+
+28
+Vê que aqueles que devem à pobreza
+Amor divino e ao povo caridade,
+Amam somente mandos e riqueza,
+Simulando justiça e integridade.
+Da feia tirania e de aspereza
+Fazem direito e vã severidade:
+Leis em favor do Rei se estabelecem,
+As em favor do povo só perecem.
+
+29
+Vê, enfim, que ninguém ama o que deve,
+Senão o que somente mal deseja;
+Não quer que tanto tempo se releve
+O castigo, que duro e justo seja.
+Seus ministros ajunta, por que leve
+Exércitos conformes à peleja,
+Que espera ter com a mal regida gente,
+Que lhe não for agora obediente.
+
+30
+Muitos destes meninos voadores
+Estão em várias obras trabalhando:
+Uns amolando ferros passadores,
+Outros ásteas de setas delgaçando;
+Trabalhando, cantando estão de amores,
+Vários casos em verso modulando,
+Melodia sonora e concertada,
+Suave a letra, angélica a soada.
+
+31
+Nas frágoas imortais, onde forjavam
+Para as setas as pontas penetrantes,
+Por lenha corações ardendo estavam,
+Vivas entranhas ainda palpitantes.
+As águas onde os ferros temperavam,
+Lágrimas são de míseros amantes;
+A viva f lama, o nunca morto lume,
+Desejo é só que queima, e não consume.
+
+32
+Alguns exercitando a mão andavam
+Nos duros corações da plebe rude;
+Crebros suspiros pelo ir soavam
+Dos que feridos vão da seta aguda.
+Formosas Ninfas são as que curavam
+As chagas recebidas cuja ajuda
+Não somente dá vida aos mal feridos,
+Mas põe em vida os ainda não nascidos.
+
+33
+Formosas são algumas e outras feias,
+Segundo a qualidade for das chagas;
+Que o veneno espalhado pelas veias
+Curam-no às vezes ásperas triagas.
+Alguns ficam ligados em cadeias,
+Por palavras subtis de sábias magas:
+Isto acontece às vezes, quando as setas
+Acertam de levar ervas secretas.
+
+34
+Destes tiros assim desordenados,
+Que estes moços mal destros vão tirando,
+Nascem amores mil desconcertados
+Entre o povo ferido miserando;
+E tamboril nos heróis de altos estados
+Exemplos mil se vêem de amor nefando,
+Qual o das moças Bíbli e Cinireia,
+Um mancebo de Assíria, um de Judeia.
+
+35
+E vós, ó poderosos, por pastoras
+Muitas vezes ferido o peito vedes;
+E por baixos e rudos, vós, senhoras,
+Também vos tomam nas Vulcâneas redes.
+Uns esperando andais noturnas horas,
+Outros subis telhados e paredes:
+Mas eu creio que deste amor indino
+É mais culpa a da mãe que a do menino.
+
+36
+Mas já no verde prado o carro leve
+Punham os brancos cisnes mansamente,
+E Dione, que as rosas entro a neve
+No rosto traz, descia diligente.
+O frecheiro, que contra o céu se atreve,
+A recebê-la vem, ledo e contente;
+Vêm todos os Cupidos servidores
+Beijar a mão à Deusa dos amores.
+
+37
+Ela, por que não gaste o tempo em vão,
+Nos braços tendo o filho, confiada
+Lhe diz: "Amado filho, em cuja mão
+Toda minha potência está fundada;
+Filho, em quem minhas forças sempre estão;
+Tu, que as armas Tifeias tens em nada,
+A socorrer-me a tua potestade
+Me triz especial necessidade.
+
+38
+"Bem vês as Lusitânicas fadigas,
+Que eu já de muito longe favoreço,
+Porque das Parcas sei, minhas amigas,
+Que me hão de venerar e ter em preço.
+E, porque tanto imitam as antigas
+Obras de meus Romanos, me ofereço
+A lhe dar tanta ajuda, em quanto posso,
+A quanto se estender o poder nosso.
+
+39
+"E porque das insídias do odioso
+Baco foram na Índia molestados,
+E das injúrias sós do mar undoso
+Puderam mais ser mortos que cansados,
+No mesmo mar, que sempre temeroso
+Lhe foi, quero que sejam repousados,
+Tomando aquele prémio e doce glória
+Do trabalho, que faz clara a memória.
+
+40
+"E para isso queria que, feridas
+As filhas de Nereu, no ponto fundo,
+De amor dos Lusitanos incendidas,
+Que vêm de descobrir o novo mundo,
+Todas numa ilha juntas e subidas,
+Ilha, que nas entranhas do profundo
+Oceano terei aparelhada,
+De dons de Flora e Zéfiro adornada;
+
+41
+"Ali, com mil refrescos e manjares,
+Com vinhos odoríferos e rosas,
+Em cristalinos paços singulares
+Formosos leitos, e elas mais formosas;
+Enfim, com mil deleites não vulgares,
+Os esperem as Ninfas amorosas,
+De amor feridas, para lhes entregarem
+Quanto delas os olhos cobiçarem.
+
+42
+"Quero que haja no reino Netunino,
+Onde eu nasci, progénie forte e bela,
+E tome exemplo o mundo vil, malino,
+Que contra tua potência se rebela,
+Por que entendam que muro adamantino,
+Nem triste hipocrisia val contra ela:
+Mal haverá na terra quem se guarde,
+Se teu fogo imortal nas águas arde."
+
+43
+Assim Vénus propôs, e o filho inieo,
+Para lhe obedecer, já se apercebe:
+Manda trazer o arco ebúrneo rico,
+Onde as setas de ponta de ouro embebe.
+Com gesto ledo a Cípria, e impudico,
+Dentro no carro o filho seu recebe;
+A rédea larga às aves, cujo canto
+A Factôntea morte chorou tanto.
+
+44
+Mas diz Cupido, que era necessária
+Uma famosa e célebre terceira,
+Que, posto que mil vezes lhe é contrária,
+Outras muitas a tem por companheira:
+A Deusa Giganteia, temerária,
+Jactante, mentirosa, e verdadeira,
+Que com cem olhos vê, e por onde voa,
+O que vê, com mil bocas apregoa.
+
+45
+Vão-a buscar, e mandam adiante,
+Que celebrando vá com tuba clara
+Os louvores da gente navegante,
+Mais do que nunca os d'outrem celebrara.
+Já murmurando a Fama penetrante
+Pelas fundas cavernas se espalhara:
+Fala verdade, havida por verdade,
+Que junto a Deusa traz Credulidade.
+
+46
+O louvor grande, o rumor excelente
+No coração dos Deuses, que indignados
+Foram por Baco contra a ilustre gente,
+Mudando, os fez um pouco afeiçoados.
+O peito feminil, que levemente
+Muda quaisquer propósitos tomados,
+Já julga por mau zelo e por crueza
+Desejar mal a tanta fortaleza.
+
+47
+Despede nisto o fero moço as setas
+Uma após outra: geme o mar com os tiros;
+Direitas pelas ondas inquietas
+Algumas vão, e algumas fazem giros;
+Caem as Ninfas, lançam das secretas
+Entranhas ardentíssimos suspiros;
+Cai qualquer, sem ver o vulto que ama:
+Que tanto, como a vista, pode a fama.
+
+48
+Os cornos ajuntou da ebúrnea lua
+Com força o moço indómito excessiva,
+Que Tethys quer ferir mais que nenhuma,
+Porque mais que nenhuma lhe era esquiva.
+Já não fica na aljava seta alguma,
+Nem nos equóreos campos Ninfa viva;
+E se feridas ainda estão vivendo,
+Será para sentir que vão morrendo.
+
+49
+Dai lugar, altas e cerúleas ondas,
+Que, vedes, Vénus traz a medicina,
+Mostrando as brancas velas e redondas,
+Que vêm por cima da água Netunina.
+Para que tu recíproco respondas,
+Ardente Amor, à flama feminina,
+É, forçado que a pudicícia honesta
+Faça quanto lhe Vénus amoesta.
+
+50
+Já todo o belo coro se aparelha
+Das Nereidas, e junto caminhava
+Em coreias gentis, usança velha,
+Para a ilha, a que Vénus as guiava.
+Ali a formosa Deusa lhe aconselha
+O que ela fez mil vezes, quando amava.
+Elas, que vão do doce amor vencidas,
+Estão a seu conselho oferecidas.
+
+51
+Cortando vão as naus a larga via
+Do mar ingente para a pátria amada,
+Desejando prover-se de água fria,
+Para a grande viagem prolongada,
+Quando juntas, com súbita alegria,
+Houveram vista da ilha namorada,
+Rompendo pelo céu a mãe formosa
+De Menónio, suave e deleitosa.
+
+52
+De longe a Ilha viram fresca e bela,
+Que Vénus pelas ondas lha levava
+(Bem como o vento leva branca vela)
+Para onde a forte armada se enxergava;
+Que, por que não passassem, sem que nela
+Tomassem porto, como desejava,
+Para onde as naus navegam a movia
+A Acidália, que tudo enfim podia.
+
+53
+Mas firme a fez e imóvel, como viu
+Que era dos Nautas vista e demandada;
+Qual ficou Delos, tanto que pariu
+Latona Febo e a Deusa à caça usada.
+Para lá logo a proa o mar abriu,
+Onde a costa fazia uma enseada
+Curva e quieta, cuja branca areia,
+Pintou de ruivas conchas Citereia.
+
+54
+Três formosos outeiros se mostravam
+Erguidos com soberba graciosa,
+Que de gramíneo esmalte se adornavam..
+Na formosa ilha alegre e deleitosa;
+Claras fontes o límpidas manavam
+Do cume, que a verdura tem viçosa;
+Por entre pedras alvas se deriva
+A sonorosa Ninfa fugitiva.
+
+55
+Num vale ameno, que os outeiros fende,
+Vinham as claras águas ajuntar-se,
+Onde uma mesa fazem, que se estende
+Tão bela quanto pode imaginar-se;
+Arvoredo gentil sobre ela pende,
+Como que pronto está para afeitar-se,
+Vendo-se no cristal resplandecente,
+Que em si o está pintando propriamente.
+
+56
+Mil árvores estão ao céu subindo,
+Com pomos odoríferos e belos:
+A laranjeira tem no fruto lindo
+A cor que tinha Dafne nos cabelos;
+Encosta-se no chão, que está caindo,
+A cidreira com os pesos amarelos;
+Os formosos limões ali, cheirando,
+Estão virgíneas tetas imitando.
+
+57
+As árvores agrestes que os outeiros
+Têm com frondente coma enobrecidos,
+Alemos são de Alcides, e os loureiros
+Do louro Deus amados e queridos;
+Mirtos de Citereia, com os pinheiros
+De Cibele, por outro amor vencidos;
+Está apontando o agudo cipariso
+Para onde é posto o etéreo paraíso.
+
+58
+Os dons que dá Pomona, ali Natura
+Produz diferentes nos sabores,
+Sem ter necessidade de cultura,
+Que sem ela se dão muito melhores:
+As cerejas purpúreas na pintura,
+As amoras, que o nome têm de amores,
+O pomo que da pátria Pérsia veio,
+Melhor tornado no terreno alheio.
+
+59
+Abre a romã, mostrando a rubicunda
+Cor, com que tu, rubi, teu preço perdes;
+Entre os braços do ulmeiro está a jocunda
+Vide, com uns cachos roxos e outros verdes;
+E vós, se na vossa árvore fecunda,
+Peras piramidais, viver quiserdes,
+Entregai-vos ao dano, que, com os bicos,
+Em vós fazem os pássaros inicos.
+
+60
+Pois a tapeçaria bela e fina,
+Com que se cobre o rústico terreno,
+Faz ser a de Aqueménia menos diria,
+Mas o sombrio vale mais ameno.
+Ali a cabeça a flor Cifísia inclina
+Sôbolo tanque lúcido e sereno;
+Floresce o filho e neto de Ciniras,
+Por quem tu, Deusa Páfia, inda suspiras.
+
+61
+Para julgar, difícil coisa fora,
+No céu vendo e na terra as mesmas cores,
+Se dava às flores cor a bela Aurora,
+Ou se lha dão a ela as belas flores.
+Pintando estava ali Zéfiro e Flora
+As violas da cor dos amadores;
+O lírio roxo, a fresca rosa bela,
+Qual reluz nas faces da donzela;
+
+62
+A cândida cecém, das matutinas
+Lágrimas rociada, e a manjarona.
+Vêem-se as letras nas flores Hiacintinas,
+Tão queridas do filho de Latona.
+Bem se enxerga nos pomos e boninas
+Que competia Cloris com Pomona.
+Pois se as aves no ar cantando voam,
+Alegres animais o chão povoam.
+
+63
+Ao longo da água o níveo cisne canta,
+Responde-lhe do ramo filomela;
+Da sombra de seus cornos não se espanta
+Acteon, n'água cristalina e bela;
+Aqui a fugace lebre se levanta
+Da espessa mata, ou tímida gazela;
+Ali no bico traz ao caro ninho
+O mantimento o leve passarinho.
+
+64
+Nesta frescura tal desembarcavam
+Já das naus os segundos Argonautas,
+Onde pela floresta se deixavam
+Andar as belas Deusas, como incautas.
+Algumas doces cítaras tocavam,
+Algumas harpas e sonoras flautas,
+Outras com os arcos de ouro se fingiam
+Seguir os animais, que não seguiam.
+
+65
+Assim lhe aconselhara a mestra experta;
+Que andassem pelos campos espalhadas;
+Que, vista dos barões a presa incerta,
+Se fizessem primeiro desejadas.
+Algumas, que na forma descoberta
+Do belo corpo estavam confiadas,
+Posta a artificiosa formosura,
+Nuas lavar-se deixam na água pura,
+
+66
+Mas os fortes mancebos, que na praia
+Punham os pés, de terra cobiçosos,
+Que não há nenhum deles que não saia
+De acharem caça agreste desejosos,
+Não cuidam que, sem laço ou redes, caia
+Caça naqueles montes deleitosos,
+Tão suave, doméstica e benigna,
+Qual ferida lha tinha já Ericina.
+
+67
+Alguns, que em espingardas e nas bestas,
+Para ferir os cervos se fiavam,
+Pelos sombrios matos e florestas
+Determinadamente se lançavam:
+Outros, nas sombras, que de as altas sestas
+Defendem a verdura, passeavam
+Ao longo da água que, suave e queda,
+Por alvas pedras corre à praia leda.
+
+68
+Começam de enxergar subitamente
+Por entre verdes ramos várias cores,
+Cores de quem a vista julga e sente
+Que não eram das rosas ou das flores,
+Mas da lã fina e seda diferente,
+Que mais incita a força dos amores,
+De que se vestem as humanas rosas,
+Fazendo-se por arte mais formosas.
+
+69
+Dá Veloso espantado um grande grito:
+"Senhores, caça estranha, disse, é esta!
+Se ainda dura o Gentio antigo rito,
+A Deusas é sagrada esta floresta.
+Mais descobrimos do que humano espírito
+Desejou nunca; e bem se manifesta
+Que são grandes as coisas e excelentes,
+Que o mundo encobre aos homens imprudentes.
+
+70
+"Sigamos estas Deusas, e vejamos
+Se fantásticas são, se verdadeiras."
+Isto dito, velozes mais que gamos,
+Se lançam a correr pelas ribeiras.
+Fugindo as Ninfas vão por entre os ramos,
+Mas, mais industriosas que ligeiras,
+Pouco e pouco sorrindo e gritos dando,
+Se deixam ir dos galgos alcançando.
+
+71
+De uma os cabelos de ouro o vento leva
+Correndo, e de outra as fraldas delicadas;
+Acende-se o desejo, que se ceva
+Nas alvas carnes súbito mostradas;
+Uma de indústria cai, e já releva,
+Com mostras mais macias que indignadas,
+Que sobre ela, empecendo, também caia
+Quem a seguiu pela arenosa praia.
+
+72
+Outros, por outra parte, vão topar
+Com as Deusas despidas, que se lavam:
+Elas começam súbito a gritar,
+Como que assalto tal não esperavam.
+Umas, fingindo menos estimar
+A vergonha que a força, se lançavam
+Nuas por entre o mato, aos olhos dando
+O que às mãos cobiçosas vão negando.
+
+73
+Outra, como acudindo mais depressa
+A vergonha da Deusa caçadora,
+Esconde o corpo n'água; outra se apressa
+Por tomar os vestidos, que tem fora.
+Tal dos mancebos há, que se arremessa,
+Vestido assim e calçado (que, coa mora
+De se despir, há medo que ainda tarde)
+A matar na água o fogo que nele arde.
+
+74
+Qual cão de caçador, sagaz e ardido,
+Usado a tomar na água a ave ferida,
+Vendo no rosto o férreo cano erguido
+Para a garcenha ou pata conhecida,
+Antes que soe o estouro, mal sofrido
+Salta n'água, e da presa não duvida,
+Nadando vai e latindo: assim o mancebo
+Remete à que não era irmã de Febo.
+
+75
+Leonardo, soldado bem disposto,
+Manhoso, cavaleiro e namorado,
+A quem amor não dera um só desgosto,
+Mas sempre fora dele maltratado,
+E tinha já por firme pressuposto
+Ser com amores mal afortunado,
+Porém não que perdesse a esperança
+De ainda poder seu fado ter mudança,
+
+76
+Quis aqui sua ventura, que corria
+Após Efire, exemplo de beleza,
+Que mais caro que as outras dar queria
+O que deu para dar-se a natureza.
+Já cansado correndo lhe dizia:
+"Ó formosura indigna de aspereza,
+Pois desta vida te concedo a palma,
+Espera um corpo de quem levas a alma.
+
+77
+"Todas de correr cansam, Ninfa pura,
+Rendendo-se à vontade do inimigo,
+Tu só de mi só foges na espessura?
+Quem te disse que eu era o que te sigo?
+Se to tem dito já aquela ventura,
+Que em toda a parte sempre anda comigo,
+Ó não na creias, porque eu, quando a cria,
+Mil vezes cada hora me mentia.
+
+78
+"Não canses, que me cansas: e se queres
+Fugir-me, por que não possa tocar-te,
+Minha ventura é tal que, ainda que esperes,
+Ela fará que não possa alcançar-te.
+Espora; quero ver, se tu quiseres,
+Que subtil modo busca de escapar-te,
+E notarás, no fim deste sucesso,
+Tra la spica e la man, qual muro è messo.
+
+79
+"Ó não me fujas! Assim nunca o breve
+Tempo fuja de tua formosura!
+Que, só com refrear o passo leve,
+Vencerás da fortuna a força dura.
+Que Imperador, que exército se atreve
+A quebrantar a fúria da ventura,
+Que, em quanto desejei, me vai seguindo,
+O que tu só farás não me fugindo!
+
+80
+"Pões-te da parte da desdita minha?
+Fraqueza é dar ajuda ao mais potente.
+Levas-me um coração, que livre tinha?
+Solta-me, e correrás mais levemente.
+Não te carrega essa alma tão mesquinha,
+Que nesses fios de ouro reluzente
+Atada levas? Ou, depois de presa,
+Lhe mudaste a ventura, e menos pesa?
+
+81
+"Nesta esperança só te vou seguindo:
+Que, ou tu não sofrerás o peso dela,
+Ou na virtude de teu gesto lindo
+Lhe mudarás a triste e dura estrela:
+E se se lhe mudar, não vás fugindo,
+Que Amor te ferirá, gentil donzela,
+E tu me esperarás, se Amor te fere:
+E se me esperas, não há mais que espere."
+
+82
+Já não fugia a bela Ninfa, tanto
+Por se dar cara ao triste que a seguia,
+Como por ir ouvindo o doce canto,
+As namoradas mágoas que dizia.
+Volvendo o rosto já sereno e santo,
+Toda banhada em riso e alegria,
+Cair se deixa aos pés do vencedor,
+Que todo se desfaz em puro amor.
+
+83
+Ó que famintos beijos na floresta,
+E que mimoso choro que soava!
+Que afagos tão suaves, que ira honesta,
+Que em risinhos alegres se tornava!
+O que mais passam na manhã, e na sesta,
+Que Vénus com prazeres inflamava,
+Melhor é experimentá-lo que julgá-lo,
+Mas julgue-o quem não pode experimentá-lo.
+
+84
+Desta arte enfim conformes já as formosas
+Ninfas com os seus amados navegantes,
+Os ornam de capelas deleitosas
+De louro, e de ouro, e flores abundantes.
+As mãos alvas lhes davam como esposas;
+Com palavras formais e estipulantes
+Se prometem eterna companhia
+Em vida e morte, de honra e alegria.
+
+85
+Uma delas maior, a quem se humilha
+Todo o coro das Ninfas, e obedece,
+Que dizem ser de Celo e Vesta filha,
+O que no gesto belo se parece,
+Enchendo a terra e o mar de maravilha,
+O Capitão ilustre, que o merece,
+Recebe ali com pompa honesta e régia,
+Mostrando-se senhora grande e egrégia.
+
+86
+Que, depois de lhe ter dito quem era,
+Com um alto exórdio, de alta graça ornado,
+Dando-lhe a entender que ali viera
+Por alta influição do imóvel fado,
+Para lhe descobrir da unida esfera
+Da terra imensa, e mar não navegado,
+Os segredos, por alta profecia,
+O que esta sua nação só merecia,
+
+87
+Tomando-o pela mão, o leva e guia
+Para o cume dum monte alto e divino,
+No qual uma rica fábrica se erguia
+De cristal toda, e de ouro puro e fino.
+A maior parte aqui passam do dia
+Em doces jogos e em prazer contino:
+Ela nos paços logra seus amores,
+As outras pelas sombras entre as flores.
+
+88
+Assim a formosa e a forte companhia
+O dia quase todo estão passando,
+Numa alma, doce, incógnita alegria,
+Os trabalhos tão longos compensando.
+Porque dos feitos grandes, da ousadia
+Forte e famosa, o mundo está guardando
+O prémio lá no fim, bem merecido,
+Com fama grande e nome alto e subido.
+
+89
+Que as Ninfas do Oceano tão formosas,
+Tethys, e a ilha angélica pintada,
+Outra coisa não é que as deleitosas
+Honras que a vida fazem sublimada.
+Aquelas proeminências gloriosas,
+Os triunfos, a fronte coroada
+De palma e louro, a glória e maravilha:
+Estes são os deleites desta ilha.
+
+90
+Que as imortalidades que fingia
+A antiguidade, que os ilustres ama,
+Lá no estelante Olimpo, a quem subia
+Sobre as asas ínclitas da Fama,
+Por obras valorosas que fazia,
+Pelo trabalho imenso que se chama
+Caminho da virtude alto e fragoso,
+Mas no fim doce, alegre e deleitoso:
+
+91
+Não eram senão prémios que reparte
+Por feitos imortais e soberanos
+O mundo com os varões, que esforço e arte
+Divinos os fizeram, sendo humanos.
+Que Júpiter, Mercúrio, Febo e Marte,
+Eneias e Quirino, e os dois Tebanos,
+Ceres, Palas e Juno, com Diana,
+Todos foram de fraca carne humana.
+
+92
+Mas a Fama, trombeta de obras tais,
+Lhe deu no mundo nomes tão estranhos
+De Deuses, Semideuses imortais,
+Indígetes, Heróicos e de Magnos.
+Por isso, ó vós que as famas estimais,
+Se quiserdes no mundo ser tamanhos,
+Despertai já do sono do ócio ignavo,
+Que o ânimo de livre faz escravo.
+
+93
+E ponde na cobiça um freio duro,
+E na ambição também, que indignamente
+Tomais mil vezes, e no torpe e escuro
+Vício da tirania infame e urgente;
+Porque essas honras vãs, esse ouro puro
+Verdadeiro valor não dão à gente:
+Melhor é, merecê-los sem os ter,
+Que possuí-los sem os merecer.
+
+94
+Ou dai na paz as leis iguais, constantes,
+Que aos grandes não dêem o dos pequenos;
+Ou vos vesti nas armas rutilantes,
+Contra a lei dos inimigos Sarracenos:
+Fareis os Reinos grandes e possantes,
+E todos tereis mais, o nenhum menos;
+Possuireis riquezas merecidas,
+Com as honras, que ilustram tanto as vidas.
+
+95
+E fareis claro o Rei, que tanto amais,
+Agora com os conselhos bem cuidados,
+Agora com as espadas, que imortais
+Vos farão, como os vossos já passados;
+Impossibilidades não façais,
+Que quem quis sempre pôde; e numerados
+Sereis entre os Heróis esclarecidos,
+E nesta Ilha de Vénus recebidos.
+
+Canto Décimo
+
+1
+Mas já o claro amador da Larisséia
+Adúltera inclinava os animais
+Lá pera o grande lago que rodeia
+Temistitão, nos fins Ocidentais;
+O grande ardor do Sol Favónio enfreia
+Co sopro que nos tanques naturais
+Encrespa a água serena e despertava
+Os lírios e jasmins, que a calma agrava,
+
+2
+Quando as fermosas Ninfas, cos amantes
+Pela mão, já conformes e contentes,
+Subiam pera os paços radiantes
+E de metais ornados reluzentes,
+Mandados da Rainha, que abundantes
+Mesas d'altos manjares excelentes
+Lhe tinha aparelhados, que a fraqueza
+Restaurem da cansada natureza.
+
+3
+Ali, em cadeiras ricas, cristalinas,
+Se assentam dous e dous, amante e dama;
+Noutras, à cabeceira, d'ouro finas,
+Está co a bela Deusa o claro Gama.
+De iguarias suaves e divinas,
+A quem não chega a Egípcia antiga fama,
+Se acumulam os pratos de fulvo ouro,
+Trazidos lá do Atlântico tesouro.
+
+4
+Os vinhos odoríferos, que acima
+Estão não só do Itálico Falerno
+Mas da Ambrósia, que Jove tanto estima
+Com todo o ajuntamento sempiterno,
+Nos vasos, onde em vão trabalha a lima,
+Crespas escumas erguem, que no interno
+Coração movem súbita alegria,
+Saltando co a mistura d'água fria.
+
+5
+Mil práticas alegres se tocavam;
+Risos doces, sutis e argutos ditos,
+Que entre um e outro manjar se ale vantavam,
+Despertando os alegres apetitos;
+Músicos instrumentos não faltavam
+(Quais, no profundo Reino, os nus espritos
+Fizeram descansar da eterna pena)
+Cüa voz düa angélica Sirena.
+
+6
+Cantava a bela Ninfa, e cos acentos,
+Que pelos altos paços vão soando,
+Em consonância igual, os instumentos
+Suaves vêm a um tempo conformando.
+Um súbito silêncio enfreia os ventos
+E faz ir docemente murmurando
+As águas, e nas casas naturais
+Adormecer os brutos animais.
+
+7
+Com doce voz está subindo ao Céu
+Altos varões que estão por vir ao mundo,
+Cujas claras Ideias viu Proteu
+Num globo vão, diáfano, rotundo,
+Que Júpiter em dom lho concedeu
+Em sonhos, e despois no Reino fundo,
+Vaticinando, o disse, e na memória
+Recolheu logo a Ninfa a clara história.
+
+8
+Matéria é de coturno, e não de soco,
+A que a Ninfa aprendeu no imenso lago;
+Qual Iopas não soube, ou Demodoco,
+Entre os Feaces um, outro em Cartago.
+Aqui, minha Calíope, te invoco
+Neste trabalho extremo, por que em pago
+Me tornes do que escrevo, e em vão pretendo,
+O gosto de escrever, que vou perdendo.
+
+9
+Vão os anos descendo, e já do Estio
+Há pouco que passar até o Outono;
+A Fortuna me faz o engenho frio,
+Do qual já não me jacto nem me abono;
+Os desgostos me vão levando ao rio
+Do negro esquecimento e eterno sono.
+Mas tu me dá que cumpra, ó grão rainha
+Das Musas, co que quero à nação minha!
+
+10
+Cantava a bela Deusa que viriam
+Do Tejo, pelo mar que o Gama abrira,
+Armadas que as ribeiras venceriam
+Por onde o Oceano Índico suspira;
+E que os Gentios Reis que não dariam
+A cerviz sua ao jugo, o ferro e ira
+Provariam do braço duro e forte,
+Até render-se a ele ou logo à morte.
+
+11
+Cantava dum que tem nos Malabares
+Do sumo sacerdócio a dignidade,
+Que, só por não quebrar cos singulares
+Barões os nós que dera d'amizade,
+Sofrerá suas cidades e lugares,
+Com ferro, incêndios, ira e crueldade,
+Ver destruir do Samorim potente,
+Que tais ódios terá co a nova gente.
+
+12
+E canta como lá se embarcaria
+Em Belém o remédio deste dano,
+Sem saber o que em si ao mar traria,
+O grão Pacheco, Aquiles Lusitano.
+O peso sentirão, quando entraria,
+O curvo lenho e o férvido Oceano,
+Quando mais n'água os troncos que gemerem
+Contra sua natureza se meterem.
+
+13
+Mas, já chegado aos fins Orientais
+E deixado em ajuda do gentio Rei de
+Cochim, com poucos naturais,
+Nos braços do salgado e curvo rio
+Desbaratará os Naires infernais
+No passo Cambalão, tornando frio
+D'espanto o ardor imenso do Oriente,
+Que verá tanto obrar tão pouca gente.
+
+14
+Chamará o Samorim mais gente nova;
+Virão Reis [de] Bipur e de Tanor,
+Das serras de Narsinga, que alta prova
+Estarão prometendo a seu senhor;
+Fará que todo o Naire, enfim, se mova
+Que entre Calecu jaz e Cananor,
+D'ambas as Leis imigas pera a guerra:
+Mouros por mar, Gentios pola terra.
+
+15
+E todos outra vez desbaratando,
+Por terra e mar, o grão Pacheco ousado,
+A grande multidão que irá matando
+A todo o Malabar terá admirado.
+Cometerá outra vez, não dilatando,
+O Gentio os combates, apressado,
+Injuriando os seus, fazendo votos
+Em vão aos Deuses vãos, surdos e imotos.
+
+16
+Já não defenderá somente os passos,
+Mas queimar-lhe-á lugares, templos, casas;
+Aceso de ira, o Cão, não vendo lassos
+Aqueles que as cidades fazem rasas,
+Fará que os seus, de vida pouco escassos,
+Cometam o Pacheco, que tem asas,
+Por dous passos num tempo; mas voando
+Dum noutro, tudo irá desbaratando.
+
+17
+Virá ali o Samorim, por que em pessoa
+Veja a batalha e os seus esforce e anime;
+Mas um tiro, que com zunido voa,
+De sangue o tingirá no andor sublime.
+Já não verá remédio ou manha boa
+Nem força que o Pacheco muito estime;
+Inventará traições e vãos venenos,
+Mas sempre (o Céu querendo) fará menos.
+
+18
+Que tornará a vez sétima (cantava)
+Pelejar co invicto e forte Luso,
+A quem nenhum trabalho pesa e agrava;
+Mas, contudo, este só o fará confuso.
+Trará pera a batalha, horrenda e brava,
+Máquinas de madeiros fora de uso,
+Pera lhe abalroar as caravelas,
+Que até'li vão lhe fora cometê-las.
+
+19
+Pela água levará serras de fogo
+Pera abrasar-lhe quanta armada tenha;
+Mas a militar arte e engenho logo
+Fará ser vã a braveza com que venha.
+--"Nenhum claro barão no Márcio jogo,
+Que nas asas da Fama se sustenha,
+Chega a este, que a palma a todos toma.
+E perdoe-me a ilustre Grécia ou Roma.
+
+20
+"Porque tantas batalhas, sustentadas
+Com muito pouco mais de cem soldados,
+Com tantas manhas e artes inventadas,
+Tantos Cães não imbeles profligados,
+Ou parecerão fábulas sonhadas,
+Ou que os celestes Coros, invocados,
+Decerão a ajudá-lo e lhe darão
+Esforço, força, ardil e coração.
+
+21
+"Aquele que nos campos Maratónios
+O grão poder de Dário estrui e rende,
+Ou quem, com quatro mil Lacedemónios,
+O passo de Termópilas defende,
+Nem o mancebo Cocles dos Ausónios,
+Que com todo o poder Tusco contende
+Em defensa da ponte, ou Quinto Fábio,
+Foi como este na guerra forte e sábio."
+
+22
+Mas neste passo a Ninfa, o som canoro
+Abaxando, fez ronco e entristecido,
+Cantando em baxa voz, envolta em choro,
+O grande esforço mal agardecido.
+--"Ó Belisário (disse) que no coro
+Das Musas serás sempre engrandecido,
+Se em ti viste abatido o bravo Marte,
+Aqui tens com quem podes consolar-te!
+
+23
+"Aqui tens companheiro, assi nos feitos
+Como no galardão injusto e duro;
+Em ti e nele veremos altos peitos
+A baxo estado vir, humilde e escuro.
+Morrer nos hospitais, em pobres leitos,
+Os que ao Rei e à Lei servem de muro!
+Isto fazem os Reis cuja vontade
+Manda mais que a justiça e que a verdade.
+
+24
+"Isto fazem os Reis quando embebidos
+Nüa aparência branda que os contenta
+Dão os prémios, de Aiace merecidos,
+À língua vã de Ulisses, fraudulenta.
+Mas vingo-me: que os bens mal repartidos
+Por quem só doces sombras apresenta,
+Se não os dão a sábios cavaleiros,
+Dão-os logo a avarentos lisonjeiros.
+
+25
+"Mas tu, de quem ficou tão mal pagado
+Um tal vassalo, ó Rei, só nisto inico,
+Se não és pera dar-lhe honroso estado,
+É ele pera dar-te um Reino rico.
+Enquanto for o mundo rodeado
+Dos Apolíneos raios, eu te fico
+Que ele seja entre a gente ilustre e claro,
+E tu nisto culpado por avaro.
+
+26
+"Mas eis outro (cantava) intitulado
+Vem com nome real e traz consigo
+O filho, que no mar será ilustrado,
+Tanto como qualquer Romano antigo.
+Ambos darão com braço forte, armado,
+A Quíloa fértil, áspero castigo,
+Fazendo nela Rei leal e humano,
+Deitado fora o pérfido tirano.
+
+27
+"Também farão Mombaça, que se arreia
+De casas sumptuosas e edifícios,
+Co ferro e fogo seu queimada e feia,
+Em pago dos passados malefícios.
+Despois, na costa da Índia, andando cheia
+De lenhos inimigos e artifícios
+Contra os Lusos, com velas e com remos
+O mancebo Lourenço fará extremos.
+
+28
+"Das grandes naus do Samorim potente,
+Que encherão todo o mar, co a férrea pela,
+Que sai com trovão do cobre ardente,
+Fará pedaços leme, masto, vela.
+Despois, lançando arpéus ousadamente
+Na capitaina imiga, dentro nela
+Saltando o fará só com lança e espada
+De quatrocentos Mouros despejada.
+
+29
+"Mas de Deus a escondida providência
+(Que ela só sabe o bem de que se serve)
+O porá onde esforço nem prudência
+Poderá haver que a vida lhe reserve.
+Em Chaúl, onde em sangue e resistência
+O mar todo com fogo e ferro ferve,
+Lhe farão que com vida se não saia
+As armadas de Egipto e de Cambaia.
+
+30
+"Ali o poder de muitos inimigos
+(Que o grande esforço só com força rende),
+Os ventos que faltaram, e os perigos
+Do mar, que sobejaram, tudo o ofende.
+Aqui ressurjam todos os Antigos,
+A ver o nobre ardor que aqui se aprende:
+Outro Ceva verão, que, espedaçado,
+Não sabe ser rendido nem domado.
+
+31
+"Com toda üa coxa fora, que em pedaços
+Lhe leva um cego tiro que passara,
+Se serve inda dos animosos braços
+E do grão coração que lhe ficara.
+Até que outro pelouro quebra os laços
+Com que co alma o corpo se liara:
+Ela, solta, voou da prisão fora
+Onde súbito se acha vencedora.
+
+32
+"Vai-te, alma, em paz, da guerra turbulenta,
+Na qual tu mereceste paz serena!
+Que o corpo, que em pedaços se apresenta,
+Quem o gerou, vingança já lhe ordena:
+Que eu ouço retumbar a grão tormenta,
+Que vem já dar a dura e eterna pena,
+De esperas, basiliscos e trabucos,
+A Cambaicos cruéis e Mamelucos.
+
+33
+"Eis vem o pai, com ânimo estupendo,
+Trazendo fúria e mágoa por antolhos,
+Com que o paterno amor lhe está movendo
+Fogo no coração, água nos olhos.
+A nobre ira lhe vinha prometendo
+Que o sangue fará dar pelos giolhos
+Nas inimigas naus; senti-lo-á o Nilo,
+Podê-lo-á o Indo ver e o Gange ouvi-lo.
+
+34
+"Qual o touro cioso, que se ensaia
+Pera a crua peleja, os cornos tenta
+No tronco dum carvalho ou alta faia
+E, o ar ferindo, as forças experimenta:
+Tal, antes que no seio de Cambaia
+Entre Francisco irado, na opulenta
+Cidade de Dabul a espada afia,
+Abaxando-lhe a túmida ousadia.
+
+35
+"E logo, entrando fero na enseada
+De Dio, ilustre em cercos e batalhas,
+Fará espalhar a fraca e grande armada
+De Calecu, que remos tem por malhas.
+A de Melique Iaz, acautelada,
+Cos pelouros que tu, Vulcano, espalhas,
+Fará ir ver o frio e fundo assento,
+Secreto leito do húmido elemento.
+
+36
+"Mas a de Mir Hocém, que, abalroando,
+A fúria esperará dos vingadores,
+Verá braços e pernas ir nadando
+Sem corpos, pelo mar, de seus senhores.
+Raios de fogo irão representando,
+No cego ardor, os bravos domadores.
+Quanto ali sentirão olhos e ouvidos
+É fumo, ferro, flamas e alaridos.
+
+37
+"Mas ah, que desta próspera vitória,
+Com que despois virá ao pátrio Tejo,
+Quási lhe roubará a famosa glória
+Um sucesso, que triste e negro vejo!
+O Cabo Tormentório, que a memória
+Cos ossos guardará, não terá pejo
+De tirar deste mundo aquele esprito,
+Que não tiraram toda a Índia e Egipto.
+
+38
+"Ali, Cafres selvagens poderão
+O que destros imigos não puderam;
+E rudos paus tostados sós farão
+O que arcos e pelouros não fizeram.
+Ocultos os juízos de Deus são;
+As gentes vãs, que não nos entenderam,
+Chamam-lhe fado mau, fortuna escura,
+Sendo só providência de Deus pura.
+
+39
+"Mas oh, que luz tamanha que abrir sinto
+(Dizia a Ninfa, e a voz alevantava)
+Lá no mar de Melinde, em sangue tinto
+Das cidades de Lamo, de Oja e Brava,
+Pelo Cunha também, que nunca extinto
+Será seu nome em todo o mar que lava
+As ilhas do Austro, e praias que se chamam
+De São Lourenço, e em todo o Sul se afamam!
+
+40
+"Esta luz é do fogo e das luzentes
+Armas com que Albuquerque irá amansando
+De Ormuz os Párseos, por seu mal valentes,
+Que refusam o jugo honroso e brando.
+Ali verão as setas estridentes
+Reciprocar-se, a ponta no ar virando
+Contra quem as tirou; que Deus peleja
+Por quem estende a fé da Madre Igreja.
+
+41
+"Ali do sal os montes não defendem
+De corrupção os corpos no combate,
+Que mortos pela praia e mar se estendem
+De Gerum, de Mazcate e Calaiate;
+Até que à força só de braço aprendem
+A abaxar a cerviz, onde se lhe ate
+Obrigação de dar o reino inico
+Das perlas de Barém tributo rico.
+
+42
+"Que gloriosas palmas tecer vejo
+Com que Vitória a fronte lhe coroa,
+Quando, sem sombra vã de medo ou pejo,
+Toma a ilha ilustríssima de Goa!
+Despois, obedecendo ao duro ensejo,
+A deixa, e ocasião espera boa
+Com que a torne a tomar, que esforço e arte
+Vencerão a Fortuna e o próprio Marte.
+
+43
+"Eis já sobr'ela torna e vai rompendo
+Por muros, fogo, lanças e pelouros,
+Abrindo com a espada o espesso e horrendo
+Esquadrão de Gentios e de Mouros.
+Irão soldados ínclitos fazendo
+Mais que liões famélicos e touros,
+Na luz que sempre celebrada e dina
+Será da Egípcia Santa Caterina.
+
+44
+"Nem tu menos fugir poderás deste,
+Posto que rica e posto que assentada
+Lá no grémio da Aurora, onde naceste,
+Opulenta Malaca nomeada.
+As setas venenosas que fizeste,
+Os crises com que já te vejo armada,
+Malaios namorados, Jaus valentes,
+Todos farás ao Luso obedientes."
+
+45
+Mais estanças cantara esta Sirena
+Em louvor do ilustríssimo Albuquerque,
+Mas alembrou-lhe üa ira que o condena,
+Posto que a fama sua o mundo cerque.
+O grande Capitão, que o fado ordena
+Que com trabalhos glória eterna merque,
+Mais há-de ser um brando companheiro
+Pera os seus, que juiz cruel e inteiro.
+
+46
+Mas em tempo que fomes e asperezas,
+Doenças, frechas e trovões ardentes,
+A sazão e o lugar, fazem cruezas
+Nos soldados a tudo obedientes,
+Parece de selváticas brutezas,
+De peitos inumanos e insolentes,
+Dar extremo suplício pela culpa
+Que a fraca humanidade e Amor desculpa.
+
+47
+Não será a culpa abominoso incesto
+Nem violento estupro em virgem pura,
+Nem menos adultério desonesto,
+Mas cüa escrava vil, lasciva e escura.
+Se o peito, ou de cioso, ou de modesto,
+Ou de usado a crueza fera e dura,
+Cos seus üa ira insana não refreia,
+Põe na fama alva noda negra e feia.
+
+48
+Viu Alexandre Apeles namorado
+Da sua Campaspe, e deu-lha alegremente,
+Não sendo seu soldado exprimentado,
+Nem vendo-se num cerco duro e urgente.
+Sentiu Ciro que andava já abrasado
+Araspas, de Panteia, em fogo ardente,
+Que ele tomara em guarda, e prometia
+Que nenhum mau desejo o venceria;
+
+49
+Mas, vendo o ilustre Persa que vencido
+Fora de Amor, que, enfim, não tem defensa,
+Levemente o perdoa, e foi servido
+Dele num caso grande, em recompensa.
+Per força, de Judita foi marido
+O férreo Balduíno; mas dispensa
+Carlos, pai dela, posto em causas grandes,
+Que viva e povoador seja de Frandes.
+
+50
+Mas, prosseguindo a Ninfa o longo canto,
+De Soares cantava, que as bandeiras
+Faria tremular e pôr espanto
+Pelas roxas Arábicas ribeiras:
+--"Medina abominábil teme tanto,
+Quanto Meca e Gidá, co as derradeiras
+Praias de Abássia; Barborá se teme
+Do mal de que o empório Zeila geme.
+
+51
+"A nobre ilha também de Taprobana,
+Já pelo nome antigo tão famosa
+Quanto agora soberba e soberana
+Pela cortiça cálida, cheirosa,
+Dela dará tributo à Lusitana
+Bandeira, quando, excelsa e gloriosa,
+Vencendo se erguerá na torre erguida,
+Em Columbo, dos próprios tão temida.
+
+52
+"Também Sequeira, as ondas Eritreias
+Dividindo, abrirá novo caminho
+Pera ti, grande Império, que te arreias
+De seres de Candace e Sabá ninho.
+Maçuá, com cisternas de água cheias
+Verá, e o porto Arquico, ali vizinho;
+E fará descobir remotas Ilhas,
+Que dão ao mundo novas maravilhas.
+
+53
+"Virá despois Meneses, cujo ferro
+Mais na Africa, que cá, terá provado;
+Castigará de Ormuz soberba o erro,
+Com lhe fazer tributo dar dobrado.
+Também tu, Gama, em pago do desterro
+Em que estás e serás inda tornado,
+Cos títulos de Conde e d'honras nobres
+Virás mandar a terra que descobres.
+
+54
+"Mas aquela fatal necessidade
+De quem ninguém se exime dos humanos,
+Ilustrado co a Régia dignidade,
+Te tirará do mundo e seus enganos.
+Outro Meneses logo, cuja idade
+É maior na prudência que nos anos,
+Governará; e fará o ditoso Henrique
+Que perpétua memória dele fique.
+
+55
+"Não vencerá somente os Malabares,
+Destruindo Panane com Coulete,
+Cometendo as bombardas, que, nos ares,
+Se vingam só do peito que as comete;
+Mas com virtudes, certo, singulares,
+Vence os imigos d'alma todos sete;
+De cobiça triunfa e incontinência,
+Que em tal idade é suma de excelência.
+
+56
+"Mas, despois que as Estrelas o chamarem,
+Sucederás, ó forte Mascarenhas;
+E, se injustos o mando te tomarem,
+Prometo-te que fama eterna tenhas.
+Pera teus inimigos confessarem
+Teu valor alto, o fado quer que venhas
+A mandar, mais de palmas coroado,
+Que de fortuna justa acompanhado.
+
+57
+"No reino de Bintão, que tantos danos
+Terá a Malaca muito tempo feitos,
+Num só dia as injúrias de mil anos
+Vingarás, co valor de ilustres peitos.
+Trabalhos e perigos inumanos,
+Abrolhos férreos mil, passos estreitos,
+Tranqueiras, baluartes, lanças, setas:
+Tudo fico que rompas e sometas.
+
+58
+"Mas na Índia, cobiça e ambição,
+Que claramente põem aberto o rosto
+Contra Deus e Justiça, te farão
+Vitupério nenhum, mas só desgosto.
+Quem faz injúria vil e sem razão,
+Com forças e poder em que está posto,
+Não vence; que a vitória verdadeira
+É saber ter justiça nua e inteira.
+
+59
+"Mas, contudo, não nego que Sampaio
+Será, no esforço, ilustre e assinalado,
+Mostrando-se no mar um fero raio,
+Que de inimigos mil verá coalhado.
+Em Bacanor fará cruel ensaio
+No Malabar, pera que, amedrontado,
+Despois a ser vencido dele venha
+Cutiale, com quanta armada tenha.
+
+60
+"E não menos de Dio a fera frota,
+Que Chaúl temerá, de grande e ousada,
+Fará, co a vista só, perdida e rota,
+Por Heitor da Silveira e destroçada;
+Por Heitor Português, de quem se nota
+Que na costa Cambaica, sempre armada,
+Será aos Guzarates tanto dano,
+Quanto já foi aos Gregos o Troiano.
+
+61
+"A Sampaio feroz sucederá
+Cunha, que longo tempo tem o leme:
+De Chale as torres altas erguerá,
+Enquanto Dio ilustre dele treme;
+O forte Baçaim se lhe dará,
+Não sem sangue, porém, que nele geme
+Melique, porque à força só de espada
+A tranqueira soberba vê tomada.
+
+62
+"Trás este vem Noronha, cujo auspício
+De Dio os Rumes feros afugenta;
+Dio, que o peito e bélico exercício
+De António da Silveira bem sustenta.
+Fará em Noronha a morte o usado ofício,
+Quando um teu ramo, ó Gama, se exprimenta
+No governo do Império, cujo zelo
+Com medo o Roxo Mar fará amarelo.
+
+63
+"Das mãos do teu Estêvão vem tomar
+As rédeas um, que já será ilustrado
+No Brasil, com vencer e castigar
+O pirata Francês, ao mar usado.
+Despois, Capitão-mor do Índico mar,
+O muro de Damão, soberbo e armado,
+Escala e primeiro entra a porta aberta,
+Que fogo e frechas mil terão coberta.
+
+64
+"A este o Rei Cambaico soberbíssimo
+Fortaleza dará na rica Dio,
+Por que contra o Mogor poderosíssimo
+Lhe ajude a defender o senhorio.
+Despois irá com peito esforçadíssimo
+A tolher que não passe o Rei gentio
+De Calecu, que assi com quantos veio
+O fará retirar, de sangue cheio.
+
+65
+"Destruirá a cidade Repelim,
+Pondo o seu Rei, com muitos, em fugida;
+E despois, junto ao Cabo Comorim,
+üa façanha faz esclarecida:
+A frota principal do Samorim,
+Que destruir o mundo não duvida,
+Vencerá co furor do ferro e fogo;
+Em si verá Beadala o Márcio jogo.
+
+66
+"Tendo assi limpa a Índia dos imigos,
+Virá despois com ceptro a governá-Ia
+Sem que ache resistência nem perigos,
+Que todos tremem dele e nenhum fala.
+Só quis provar os ásperos castigos
+Baticalá, que vira já Beadala.
+De sangue e corpos mortos ficou cheia
+E de fogo e trovões desfeita e feia.
+
+67
+"Este será Martinho, que de Marte
+O nome tem co as obras derivado;
+Tanto em armas ilustre em toda parte,
+Quanto, em conselho, sábio e bem cuidado.
+Suceder-lhe-á ali Castro, que o estandarte
+Português terá sempre levantado,
+Conforme sucessor ao sucedido,
+Que um ergue Dio, outro o defende erguido.
+
+68
+"Persas feroces, Abassis e Rumes,
+Que trazido de Roma o nome têm,
+Vários de gestos, vários de costumes
+(Que mil nações ao cerco feras vêm),
+Farão dos Céus ao mundo vãos queixumes
+Porque uns poucos a terra lhe detêm.
+Em sangue Português, juram, descridos,
+De banhar os bigodes retorcidos.
+
+69
+"Basiliscos medonhos e liões,
+Trabucos feros, minas encobertas,
+Sustenta Mascarenhas cos barões
+Que tão ledos as mortes têm por certas;
+Até que, nas maiores opressões,
+Castro libertador, fazendo ofertas
+Das vidas de seus filhos, quer que fiquem
+Com fama eterna e a Deus se sacrifiquem.
+
+70
+"Fernando, um deles, ramo da alta pranta,
+Onde o violento fogo, com ruido,
+Em pedaços os muros no ar levanta,
+Será ali arrebatado e ao Céu subido.
+Álvaro, quando o Inverno o mundo espanta
+E tem o caminho húmido impedido,
+Abrindo-o, vence as ondas e os perigos,
+Os ventos e despois os inimigos.
+
+71
+"Eis vem despois o pai, que as ondas corta
+Co restante da gente Lusitana,
+E com força e saber, que mais importa,
+Batalha dá felice e soberana.
+Uns, paredes subindo, escusam porta;
+Outros a abrem na fera esquadra insana.
+Feitos farão tão dinos de memória
+Que não caibam em verso ou larga história.
+
+72
+"Este, despois, em campo se apresenta,
+Vencedor forte e intrépido, ao possante
+Rei de Cambaia e a vista lhe amedrenta
+Da fera multidão quadrupedante.
+Não menos suas terras mal sustenta
+O Hidalcão, do braço triunfante
+Que castigando vai Dabul na costa;
+Nem lhe escapou Pondá, no sertão posta.
+
+73
+"Estes e outros Barões, por várias partes,
+Dinos todos de fama e maravilha,
+Fazendo-se na terra bravos Martes,
+Virão lograr os gostos desta Ilha,
+Varrendo triunfantes estandartes
+Pelas ondas que corta a aguda quilha;
+E acharão estas Ninfas e estas mesas,
+Que glórias e honras são de árduas empresas."
+
+74
+Assi cantava a Ninfa; e as outras todas,
+Com sonoroso aplauso, vozes davam,
+Com que festejam as alegres vodas
+Que com tanto prazer se celebravam.
+--"Por mais que da Fortuna andem as rodas
+(Nüa cônsona voz todas soavam),
+Não vos hão-de faltar, gente famosa,
+Honra, valor e fama gloriosa."
+
+75
+Despois que a corporal necessidade
+Se satisfez do mantimento nobre,
+E na harmonia e doce suavidade
+Viram os altos feitos que descobre,
+Tétis, de graça ornada e gravidade,
+Pera que com mais alta glória dobre
+As festas deste alegre e claro dia,
+Pera o felice Gama assi dizia:
+
+76
+--"Faz-te mercê, barão, a Sapiência
+Suprema de, cos olhos corporais,
+Veres o que não pode a vã ciência
+Dos errados e míseros mortais.
+Sigue-me firme e forte, com prudência,
+Por este monte espesso, tu cos mais."
+Assi lhe diz e o guia por um mato
+Árduo, difícil, duro a humano trato.
+
+77
+Não andam muito que no erguido cume
+Se acharam, onde um campo se esmaltava
+De esmeraldas, rubis, tais que presume
+A vista que divino chão pisava.
+Aqui um globo vêm no ar, que o lume
+Claríssimo por ele penetrava,
+De modo que o seu centro está evidente,
+Como a sua superfícia, claramente.
+
+78
+Qual a matéria seja não se enxerga,
+Mas enxerga-se bem que está composto
+De vários orbes, que a Divina verga
+Compôs, e um centro a todos só tem posto.
+Volvendo, ora se abaxe, agora se erga,
+Nunca s'ergue ou se abaxa, e um mesmo rosto
+Por toda a parte tem; e em toda a parte
+Começa e acaba, enfim, por divina arte,
+
+79
+Uniforme, perfeito, em si sustido,
+Qual, enfim, o Arquetipo que o criou.
+Vendo o Gama este globo, comovido
+De espanto e de desejo ali ficou.
+Diz-lhe a Deusa:--"O transunto, reduzido
+Em pequeno volume, aqui te dou
+Do Mundo aos olhos teus, pera que vejas
+Por onde vás e irás e o que desejas.
+
+80
+"Vês aqui a grande máquina do Mundo,
+Etérea e elemental, que fabricada
+Assi foi do Saber, alto e profundo,
+Que é sem princípio e meta limitada.
+Quem cerca em derredor este rotundo
+Globo e sua superfícia tão limada,
+É Deus: mas o que é Deus, ninguém o entende,
+Que a tanto o engenho humano não se estende.
+
+81
+"Este orbe que, primeiro, vai cercando
+Os outros mais pequenos que em si tem,
+Que está com luz tão clara radiando
+Que a vista cega e a mente vil também,
+Empíreo se nomeia, onde logrando
+Puras almas estão daquele Bem
+Tamanho, que ele só se entende e alcança,
+De quem não há no mundo semelhança.
+
+82
+"Aqui, só verdadeiros, gloriosos
+Divos estão, porque eu, Saturno e Jano,
+Júpiter, Juno, fomos fabulosos,
+Fingidos de mortal e cego engano.
+Só pera fazer versos deleitosos
+Servimos; e, se mais o trato humano
+Nos pode dar, é só que o nome nosso
+Nestas estrelas pôs o engenho vosso.
+
+83
+"E também, porque a santa Providência,
+Que em Júpiter aqui se representa,
+Por espíritos mil que têm prudência
+Governa o Mundo todo que sustenta
+(Ensina-lo a profética ciência,
+Em muitos dos exemplos que apresenta);
+Os que são bons, guiando, favorecem,
+Os maus, em quanto podem, nos empecem;
+
+84
+"Quer logo aqui a pintura que varia
+Agora deleitando, ora ensinando,
+Dar-lhe nomes que a antiga Poesia
+A seus Deuses já dera, fabulando;
+Que os Anjos de celeste companhia
+Deuses o sacro verso está chamando,
+Nem nega que esse nome preminente
+Também aos maus se dá, mas falsamente.
+
+85
+"Enfim que o Sumo Deus, que por segundas
+Causas obra no Mundo, tudo manda.
+E tornando a contar-te das profundas
+Obras da Mão Divina veneranda,
+Debaxo deste círculo onde as mundas
+Almas divinas gozam, que não anda,
+Outro corre, tão leve e tão ligeiro
+Que não se enxerga: é o Móbile primeiro.
+
+86
+"Com este rapto e grande movimento
+Vão todos os que dentro tem no seio;
+Por obra deste, o Sol, andando a tento,
+O dia e noite faz, com curso alheio.
+Debaxo deste leve, anda outro lento,
+Tão lento e sojugado a duro freio,
+Que enquanto Febo, de luz nunca escasso,
+Duzentos cursos faz, dá ele um passo.
+
+87
+"Olha estoutro debaxo, que esmaltado
+De corpos lisos anda e radiantes,
+Que também nele tem curso ordenado
+E nos seus axes correm cintilantes.
+Bem vês como se veste e faz ornado
+Co largo Cinto d, ouro, que estelantes
+Animais doze traz afigurados,
+Apousentos de Febo limitados.
+
+88
+"Olha por outras partes a pintura
+Que as Estrelas fulgentes vão fazendo:
+Olha a Carreta, atenta a Cinosura,
+Andrómeda e seu pai, e o Drago horrendo;
+Vê de Cassiopeia a fermosura
+E do Orionte o gesto turbulento;
+Olha o Cisne morrendo que suspira,
+A Lebre e os Cães, a Nau e a doce Lira.
+
+89
+"Debaxo deste grande Firmamento,
+Vês o céu de Saturno, Deus antigo;
+Júpiter logo faz o movimento,
+E Marte abaxo, bélico inimigo;
+O claro Olho do céu, no quarto assento,
+E Vénus, que os amores traz consigo;
+Mercúrio, de eloquência soberana;
+Com três rostos, debaxo vai Diana.
+
+90
+"Em todos estes orbes, diferente
+Curso verás, nuns grave e noutros leve;
+Ora fogem do Centro longamente,
+Ora da Terra estão caminho breve,
+Bem como quis o Padre omnipotente,
+Que o fogo fez e o ar, o vento e neve,
+Os quais verás que jazem mais a dentro
+E tem co Mar a Terra por seu centro.
+
+91
+"Neste centro, pousada dos humanos,
+Que não somente, ousados, se contentam
+De sofrerem da terra firme os danos,
+Mas inda o mar instábil exprimentam,
+Verás as várias partes, que os insanos
+Mares dividem, onde se apousentam
+Várias nações que mandam vários Reis,
+Vários costumes seus e várias leis.
+
+92
+"Vês Europa Cristã, mais alta e clara
+Que as outras em polícia e fortaleza.
+Vês África, dos bens do mundo avara,
+Inculta e toda cheia de bruteza;
+Co Cabo que até'aqui se vos negara,
+Que assentou pera o Austro a Natureza.
+Olha essa terra toda, que se habita
+Dessa gente sem Lei, quási infinita.
+
+93
+"Vê do Benomotapa o grande império,
+De selvática gente, negra e nua,
+Onde Gonçalo morte e vitupério
+Padecerá, pola Fé santa sua.
+Nace por este incógnito Hemispério
+O metal por que mais a gente sua.
+Vê que do lago donde se derrama
+O Nilo, também vindo está Cuama.
+
+94
+"Olha as casas dos negros, como estão
+Sem portas, confiados, em seus ninhos,
+Na justiça real e defensão
+E na fidelidade dos vizinhos;
+Olha deles a bruta multidão,
+Qual bando espesso e negro de estorninhos,
+Combaterá em Sofala a fortaleza, Que
+defenderá Nhaia com destreza.
+
+95
+"Olha lá as alagoas donde o Nilo
+Nace, que não souberam os antigos;
+Vê-lo rega, gerando o crocodilo,
+Os povos Abassis, de Crista amigos;
+Olha como sem muros (novo estilo)
+Se defendem milhor dos inimigos;
+Vê Méroe, que ilha foi de antiga fama,
+Que ora dos naturais Nobá se chama.
+
+96
+"Nesta remota terra um filho teu
+Nas armas contra os Turcos será claro;
+Há-de ser Dom Cristóvão o nome seu;
+Mas contra o fim fatal não há reparo.
+Vê cá a costa do mar, onde te deu
+Melinde hospício gasalhoso e caro;
+O Rapto rio nota, que o romance
+Da terra chama Obi; entra em Quilmance.
+
+97
+"O Cabo vê já Arómata chamado,
+E agora Guardafú, dos moradores,
+Onde começa a boca do afamado
+Mar Roxo, que do fundo toma as cores;
+Este como limite está lançado
+Que divide Asia de Africa; e as milhores
+Povoações que a parte Africa tem
+Maçuá são, Arquico e Suaquém.
+
+98
+"Vês o extremo Suez, que antigamente
+Dizem que foi dos Héroas a cidade
+(Outros dizem que Arsínoe), e ao presente
+Tem das frotas do Egipto a potestade.
+Olha as águas nas quais abriu patente
+Estrada o grão Mousés na antiga idade.
+Ásia começa aqui, que se apresenta
+Em terras grande, em reinos opulenta.
+
+99
+"Olha o monte Sinai, que se ennobrece
+Co sepulcro de Santa Caterina;
+Olha Toro e Gidá, que lhe falece
+Água das fontes, doce e cristalina;
+Olha as portas do Estreito, que fenece
+No reino da seca Ádem, que confina
+Com a serra d'Arzira, pedra viva,
+Onde chuva dos céus se não deriva.
+
+100
+"Olha as Arábias três, que tanta terra
+Tomam, todas da gente vaga e baça,
+Donde vêm os cavalos pera a guerra,
+Ligeiros e feroces, de alta raça;
+Olha a costa que corrre, até que cera
+Outro Estreito de Pérsia, e faz a traça
+O Cabo que co nome se apelida
+Da cidade Fartaque, ali sabida.
+
+101
+"Olha Dófar, insigne porque manda
+O mais cheiroso incenso pera as aras;
+Mas atenta: já cá destoutra banda
+De Roçalgate, e praias sempre avaras,
+Começa o reino Ormuz, que todo se anda
+Pelas ribeiras que inda serão claras
+Quando as galés do Turco e fera armada
+Virem de Castelbranco nua a espada.
+
+102
+"Olha o Cabo Asaboro, que chamado
+Agora é Moçandão, dos navegantes;
+Por aqui entra o lago que é fechado
+De Arábia e Pérsias terras abundantes.
+Atenta a ilha Barém, que o fundo ornado
+Tem das suas perlas ricas, e imitantes
+A cor da Aurora; e vê na água salgada
+Ter o Tígris e Eufrates üa entrada.
+
+103
+"Olha da grande Pérsia o império nobre,
+Sempre posto no campo e nos cavalos,
+Que se injuria de usar fundido cobre
+E de não ter das armas sempre os calos.
+Mas vê a ilha Gerum, como descobre
+O que fazem do tempo os intervalos,
+Que da cidade Armuza, que ali esteve,
+Ela o nome despois e a glória teve.
+
+104
+"Aqui de Dom Filipe de Meneses
+Se mostrará a virtude, em armas clara,
+Quando, com muito poucos Portugueses,
+Os muitos Párseos vencerá de Lara.
+Virão provar os golpes e reveses
+De Dom Pedro de Sousa, que provara
+Já seu braço em Ampaza, que deixada
+Terá por terra, à força só de espada.
+
+105
+"Mas deixemos o Estreito e o conhecido
+Cabo de Jasque, dito já Carpela,
+Com todo o seu terreno mal querido
+Da Natura e dos dões usados dela;
+Carmânia teve já por apelido.
+Mas vês o fermoso Indo, que daquela
+Altura nace, junto à qual, também
+Doutra altura correndo o Gange vem?
+
+106
+"Olha a terra de Ulcinde, fertilíssima,
+E de Jáquete a íntima enseada;
+Do mar a enchente súbita, grandíssima,
+E a vazante, que foge apressurada.
+A terra de Cambaia vê, riquíssima,
+Onde do mar o seio faz entrada;
+Cidades outras mil, que vou passando,
+A vós outros aqui se estão guardando.
+
+107
+"Vês corre a costa célebre Indiana
+Pera o Sul, até o Cabo Comori,
+Já chamado Cori, que Taprobana
+(Que ora é Ceilão) defronte tem de si.
+Por este mar a gente Lusitana,
+Que com armas virá despois de ti,
+Terá vitórias, terras e cidades,
+Nas quais hão-de viver muitas idades.
+
+108
+"As províncias que entre um e o outro rio
+Vês, com várias nações, são infinitas:
+Um reino Mahometa, outro Gentio,
+A quem tem o Demónio leis escritas.
+Olha que de Narsinga o senhorio
+Tem as relíquias santas e benditas
+Do corpo de Tomé, barão sagrado,
+Que a Jesu Cristo teve a mão no lado.
+
+109
+"Aqui a cidade foi que se chamava
+Meliapor, fermosa, grande e rica;
+Os Ídolos antigos adorava
+Como inda agora faz a gente inica.
+Longe do mar naquele tempo estava,
+Quando a Fé, que no mundo se pubrica,
+Tomé vinha prègando, e já passara
+Províncias mil do mundo, que ensinara.
+
+110
+"Chegado aqui, pregando e junto dando
+A doentes saúde, a mortos vida,
+Acaso traz um dia o mar, vagando,
+Um lenho de grandeza desmedida.
+Deseja o Rei, que andava edificando,
+Fazer dele madeira; e não duvida
+Poder tirá-lo a terra, com possantes
+Forças d' homens, de engenhos, de alifantes.
+
+111
+"Era tão grande o peso do madeiro
+Que, só pera abalar-se, nada abasta;
+Mas o núncio de Cristo verdadeiro
+Menos trabalho em tal negócio gasta:
+Ata o cordão que traz, por derradeiro,
+No tronco, e fàcilmente o leva e arrasta
+Pera onde faça um sumptuoso templo
+Que ficasse aos futuros por exemplo.
+
+112
+"Sabia bem que se com fé formada
+Mandar a um monte surdo que se mova,
+Que obedecerá logo à voz sagrada,
+Que assi lho ensinou Cristo, e ele o prova.
+A gente ficou disto alvoraçada;
+Os Brâmenes o têm por cousa nova;
+Vendo os milagres, vendo a santidade,
+Hão medo de perder autoridade.
+
+113
+"São estes sacerdotes dos Gentios
+Em quem mais penetrado tinha enveja;
+Buscam maneiras mil, buscam desvios,
+Com que Tomé não se ouça, ou morto seja.
+O principal, que ao peito traz os fios,
+Um caso horrendo faz, que o mundo veja
+Que inimiga não há, tão dura e fera,
+Como a virtude falsa, da sincera.
+
+114
+"Um filho próprio mata, e logo acusa
+De homicídio Tomé, que era inocente;
+Dá falsas testemunhas, como se usa;
+Condenaram-no a morte brevemente.
+O Santo, que não vê milhor escusa
+Que apelar pera o Padre omnipotente,
+Quer, diante do Rei e dos senhores,
+Que se faça um milagre dos maiores.
+
+115
+"O corpo morto manda ser trazido,
+Que res[s]ucite e seja perguntado
+Quem foi seu matador, e será crido
+Por testemunho, o seu, mais aprovado.
+Viram todos o moço vivo, erguido,
+Em nome de Jesu crucificado:
+Dá graças a Tomé, que lhe deu vida,
+E descobre seu pai ser homicida.
+
+116
+"Este milagre fez tamanho espanto
+Que o Rei se banha logo na água santa,
+E muitos após ele; um beija o manto,
+Outro louvor do Deus de Tomé canta.
+Os Brâmenes se encheram de ódio tanto,
+Com seu veneno os morde enveja tanta,
+Que, persuadindo a isso o povo rudo,
+Determinam matá-lo, em fim de tudo.
+
+117
+"Um dia que pregando ao povo estava,
+Fingiram entre a gente um arruído.
+(Já Cristo neste tempo lhe ordenava
+Que, padecendo, fosse ao Céu subido);
+A multidão das pedras que voava
+No Santo dá, já a tudo oferecido;
+Um dos maus, por fartar-se mais depressa,
+Com crua lança o peito lhe atravessa.
+
+118
+"Choraram-te, Tomé, o Gange e o Indo;
+Chorou-te toda a terra que pisaste;
+Mais te choram as almas que vestindo
+Se iam da santa Fé que lhe ensinaste.
+Mas os Anjos do Céu, cantando e rindo,
+Te recebem na glória que ganhaste.
+Pedimos-te que a Deus ajuda peças
+Com que os teus Lusitanos favoreças.
+
+119
+"E vós outros que os nomes usurpais
+De mandados de Deus, como Tomé,
+Dizei: se sois mandados, como estais
+Sem irdes a pregar a santa Fé?
+Olhai que, se sois Sal e vos danais
+Na pátria, onde profeta ninguém é,
+Com que se salgarão em nossos dias
+(Infiéis deixo) tantas heresias?
+
+120
+"Mas passo esta matéria perigosa
+E tornemos à costa debuxada.
+Já com esta cidade tão famosa
+Se faz curva a Gangética enseada;
+Corre Narsinga, rica e poderosa;
+Corre Orixa, de roupas abastada;
+No fundo da enseada, o ilustre rio
+Ganges vem ao salgado senhorio;
+
+121
+"Ganges, no qual os seus habitadores
+Morrem banhados, tendo por certeza
+Que, inda que sejam grandes pecadores,
+Esta água santa os lava e dá pureza.
+Vê Catigão, cidade das milhores
+De Bengala província, que se preza
+De abundante. Mas olha que está posta
+Pera o Austro, daqui virada, a costa.
+
+122
+"Olha o reino Arracão; olha o assento
+De Pegu, que já monstros povoaram,
+Monstros filhos do feio ajuntamento
+Düa mulher e um cão, que sós se acharam.
+Aqui soante arame no instrumento
+Da geração costumam, o que usaram
+Por manha da Rainha que, inventando
+Tal uso, deitou fora o error nefando.
+
+123
+"Olha Tavai cidade, onde começa
+De Sião largo o império tão comprido;
+Tenassari, Quedá, que é só cabeça
+Das que pimenta ali têm produzido.
+Mais avante fareis que se conheça
+Malaca por empório ennobrecido,
+Onde toda a província do mar grande
+Suas mercadorias ricas mande.
+
+124
+"Dizem que desta terra co as possantes
+Ondas o mar, entrando, dividiu
+A nobre ilha Samatra, que já d'antes
+Juntas ambas a gente antiga viu.
+Quersoneso foi dita; e das prestantes
+Veias d'ouro que a terra produziu,
+'Aurea', por epitéto lhe ajuntaram;
+Alguns que fosse Ofir imaginaram.
+
+125
+"Mas, na ponta da terra, Cingapura
+Verás, onde o caminho às naus se estreita;
+Daqui tornando a costa à Cinosura,
+Se encurva e pera a Aurora se endireita.
+Vês Pam, Patane, reinos, e a longura
+De Sião, que estes e outros mais sujeita;
+Olha o rio Menão, que se derrama
+Do grande lago que Chiamai se chama.
+
+126
+Vês neste grão terreno os diferentes
+Nomes de mil nações, nunca sabidas:
+Os Laos, em terra e número potentes;
+Avás, Bramás, por serras tão compridas;
+Vê nos remotos montes outras gentes,
+Que Gueos se chamam, de selvages vidas;
+Humana carne comem, mas a sua
+Pintam com ferro ardente, usança crua.
+
+127
+"Vês, passa por Camboja Mecom rio,
+Que capitão das águas se interpreta;
+Tantas recebe d' outro só no Estio,
+Que alaga os campos largos e inquieta;
+Tem as enchentes quais o Nilo frio;
+A gente dele crê, como indiscreta,
+Que pena e glória têm, despois de morte,
+Os brutos animais de toda sorte.
+
+128
+"Este receberá, plácido e brando,
+No seu regaço os Cantos que molhados
+Vêm do naufrágio triste e miserando,
+Dos procelosos baxos escapados,
+Das fomes, dos perigos grandes, quando
+Será o injusto mando executado
+Naquele cuja Lira sonorosa
+Será mais afamada que ditosa.
+
+129
+"Vês, corre a costa que Champá se chama,
+Cuja mata é do pau cheiroso ornada;
+Vês Cauchichina está, de escura fama,
+E de Ainão vê a incógnita enseada;
+Aqui o soberbo Império, que se afama
+Com terras e riqueza não cuidada,
+Da China corre, e ocupa o senhorio
+Desde o Trópico ardente ao Cinto frio.
+
+130
+"Olha o muro e edifício nunca crido,
+Que entre um império e o outro se edifica,
+Certíssimo sinal, e conhecido,
+Da potência real, soberba e rica.
+Estes, o Rei que têm, não foi nacido
+Príncipe, nem dos pais aos filhos fica,
+Mas elegem aquele que é famoso
+Por cavaleiro, sábio e virtuoso.
+
+131
+"Inda outra muita terra se te esconde
+Até que venha o tempo de mostrar-se;
+Mas não deixes no mar as Ilhas onde
+A Natureza quis mais afamar-se:
+Esta, meia escondida, que responde
+De longe à China, donde vem buscar-se,
+É Japão, onde nace a prata fina,
+Que ilustrada será co a Lei divina.
+
+132
+"Olha cá pelos mares do Oriente
+Ás infinitas Ilhas espalhadas:
+Vê Tidore e Ternate, co fervente
+Cume, que lança as flamas ondeadas.
+As árvores verás do cravo ardente,
+Co sangue Português inda compradas.
+Aqui há as áureas aves, que não decem
+Nunca à terra e só mortas aparecem.
+
+133
+"Olha de Banda as Ilhas, que se esmaltam
+Da vária cor que pinta o roxo fruto;
+Às aves variadas, que ali saltam,
+Da verde noz tomando seu tributo.
+Olha também Bornéu, onde não faltam
+Lágrimas no licor coalhado e enxuto
+Das árvores, que cânfora é chamado,
+Com que da Ilha o nome é celebrado.
+
+134
+"Ali também Timor, que o lenho manda
+Sândalo, salutífero e cheiroso;
+Olha a Sunda, tão larga que üa banda
+Esconde pera o Sul dificultoso;
+A gente do Sertão, que as terras anda,
+Um rio diz que tem miraculoso,
+Que, por onde ele só, sem outro, vai,
+Converte em pedra o pau que nele cai.
+
+135
+"Vê naquela que o tempo tornou Ilha,
+Que também flamas trémulas vapora,
+A fonte que óleo mana, e a maravilha
+Do cheiroso licor que o tronco chora,
+--Cheiroso, mais que quanto estila a filha
+De Ciniras na Arábia, onde ela mora;
+E vê que, tendo quanto as outras têm,
+Branda seda e fino ouro dá também.
+
+136
+"Olha, em Ceilão, que o monte se alevanta
+Tanto que as nuvens passa ou a vista engana;
+Os naturais o têm por cousa santa,
+Pola pedra onde está a pegada humana.
+Nas ilhas de Maldiva nace a pranta
+No profundo das águas, soberana,
+Cujo pomo contra o veneno urgente
+É tido por antídoto excelente.
+
+137
+"Verás defronte estar do Roxo Estreito
+Socotorá, co amaro aloé famosa;
+Outras ilhas, no mar também sujeito
+A vós, na costa de África arenosa,
+Onde sai do cheiro mais perfeito
+A massa, ao mundo oculta e preciosa.
+De São Lourenço vê a Ilha afamada,
+Que Madagáscar é dalguns chamada.
+
+138
+"Eis aqui as novas partes do Oriente
+Que vós outros agora ao mundo dais,
+Abrindo a porta ao vasto mar patente,
+Que com tão forte peito navegais.
+Mas é também razão que, no Ponente,
+Dum Lusitano um feito inda vejais,
+Que, de seu Rei mostrando-se agravado,
+Caminho há-de fazer nunca cuidado.
+
+139
+"Vedes a grande terra que contina
+Vai de Calisto ao seu contrário Pólo,
+Que soberba a fará a luzente mina
+Do metal que a cor tem do louro Apolo.
+Castela, vossa amiga, será dina
+De lançar-lhe o colar ao rudo colo.
+Varias províncias tem de várias gentes,
+Em ritos e costumes, diferentes.
+
+140
+"Mas cá onde mais se alarga, ali tereis
+Parte também, co pau vermelho nota;
+De Santa Cruz o nome lhe poreis;
+Descobri-la-á a primeira vossa frota.
+Ao longo desta costa, que tereis,
+Irá buscando a parte mais remota
+O Magalhães, no feito, com verdade,
+Português, porém não na lealdade.
+
+141
+"Dês que passar a via mais que meia
+Que ao Antártico Pólo vai da Linha,
+Düa estatura quási giganteia
+Homens verá, da terra ali vizinha;
+E mais avante o Estreito que se arreia
+Co nome dele agora, o qual caminha
+Pera outro mar e terra que fica onde
+Com suas frias asas o Austro a esconde.
+
+142
+"Até'aqui Portugueses concedido
+Vos é saberdes os futuros feitos
+Que, pelo mar que já deixais sabido,
+Virão fazer barões de fortes peitos.
+Agora, pois que tendes aprendido
+Trabalhos que vos façam ser aceitos
+As eternas esposas e fermosas,
+Que coroas vos tecem gloriosas,
+
+143
+"Podeis-vos embarcar, que tendes vento
+E mar tranquilo, pera a pátria amada."
+Assi lhe disse; e logo movimento
+Fazem da Ilha alegre e namorada.
+Levam refresco e nobre mantimento;
+Levam a companhia desejada
+Das Ninfas, que hão-de ter eternamente,
+Por mais tempo que o Sol o mundo aquente.
+
+144
+Assi foram cortando o mar sereno,
+Com vento sempre manso e nunca irado,
+Até que houveram vista do terreno
+Em que naceram, sempre desejado.
+Entraram pela foz do Tejo ameno,
+E à sua pátria e Rei temido e amado
+O prémio e glória dão por que mandou,
+E com títulos novos se ilustrou.
+
+145
+Nô mais, Musa, nô mais, que a Lira tenho
+Destemperada e a voz enrouquecida,
+E não do canto, mas de ver que venho
+Cantar a gente surda e endurecida.
+O favor com que mais se acende o engenho
+Não no dá a pátria, não, que está metida
+No gosto da cobiça e na rudeza
+Düa austera, apagada e vil tristeza.
+
+146
+E não sei por que influxo de Destino
+Não tem um ledo orgulho e geral gosto,
+Que os ânimos levanta de contino
+A ter pera trabalhos ledo o rosto.
+Por isso vós, ó Rei, que por divino
+Conselho estais no régio sólio posto,
+Olhai que sois (e vede as outras gentes)
+Senhor só de vassalos excelentes.
+
+147
+Olhai que ledos vão, por várias vias,
+Quais rompentes liões e bravos touros,
+Dando os corpos a fomes e vigias,
+A ferro, a fogo, a setas e pelouros,
+A quentes regiões, a plagas frias,
+A golpes de Idolátras e de Mouros,
+A perigos incógnitos do mundo,
+A naufrágios, a pexes, ao profundo.
+
+148
+Por vos servir, a tudo aparelhados;
+De vós tão longe, sempre obedientes;
+A quaisquer vossos ásperos mandados,
+Sem dar reposta, prontos e contentes.
+Só com saber que são de vós olhados,
+Demónios infernais, negros e ardentes,
+Cometerão convosco, e não duvido
+Que vencedor vos façam, não vencido.
+
+149
+Favorecei-os logo, e alegrai-os
+Com a presença e leda humanidade;
+De rigorosas leis desalivai-os,
+Que assi se abre o caminho à santidade.
+Os mais exprimentados levantai-os,
+Se, com a experiência, têm bondade
+Pera vosso conselho, pois que sabem
+O como, o quando, e onde as cousas cabem.
+
+150
+Todos favorecei em seus ofícios,
+Segundo têm das vidas o talento;
+Tenham Religiosos exercícios
+De rogarem, por vosso regimento,
+Com jejuns, disciplina, pelos vícios
+Comuns; toda ambição terão por vento,
+Que o bom Religioso verdadeiro
+Glória vã não pretende nem dinheiro.
+
+151
+Os Cavaleiros tende em muita estima,
+Pois com seu sangue intrépido e fervente
+Estendem não sòmente a Lei de cima,
+Mas inda vosso Império preminente.
+Pois aqueles que a tão remoto clima
+Vos vão servir, com passo diligente,
+Dous inimigos vencem: uns, os vivos,
+E (o que é mais) os trabalhos excessivos.
+
+152
+Fazei, Senhor, que nunca os admirados
+Alemães, Galos, Ítalos e Ingleses,
+Possam dizer que são pera mandados,
+Mais que pera mandar, os Portugueses.
+Tomai conselho só d'exprimentados
+Que viram largos anos, largos meses,
+Que, posto que em cientes muito cabe.
+Mais em particular o experto sabe.
+
+153
+De Formião, filósofo elegante,
+Vereis como Anibal escarnecia,
+Quando das artes bélicas, diante
+Dele, com larga voz tratava e lia.
+A disciplina militar prestante
+Não se aprende, Senhor, na fantasia,
+Sonhando, imaginando ou estudando,
+Senão vendo, tratando e pelejando.
+
+154
+Mas eu que falo, humilde, baxo e rudo,
+De vós não conhecido nem sonhado?
+Da boca dos pequenos sei, contudo,
+Que o louvor sai às vezes acabado.
+Tem me falta na vida honesto estudo,
+Com longa experiência misturado,
+Nem engenho, que aqui vereis presente,
+Cousas que juntas se acham raramente.
+
+155
+Pera servir-vos, braço às armas feito,
+Pera cantar-vos, mente às Musas dada;
+Só me falece ser a vós aceito,
+De quem virtude deve ser prezada.
+Se me isto o Céu concede, e o vosso peito
+Dina empresa tomar de ser cantada,
+Como a pres[s]aga mente vaticina
+Olhando a vossa inclinação divina,
+
+156
+Ou fazendo que, mais que a de Medusa,
+A vista vossa tema o monte Atlante,
+Ou rompendo nos campos de Ampelusa
+Os muros de Marrocos e Trudante,
+A minha já estimada e leda Musa
+Fico que em todo o mundo de vós cante,
+De sorte que Alexandro em vós se veja,
+Sem à dita de Aquiles ter enveja.
+
+---------------------oOo---------------------
+
+Final de Os Lusíadas
+
+
+
+
+
+
+
+
+
+End of the Project Gutenberg EBook of Os Lusíadas, by Luís Vaz de Camões
+
+*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK OS LUSÍADAS ***
+
+***** This file should be named 3333-8.txt or 3333-8.zip *****
+This and all associated files of various formats will be found in:
+ http://www.gutenberg.org/3/3/3/3333/
+
+Produced by Maria Helena Moreira Rodriques and Victor Calha
+
+Updated editions will replace the previous one--the old editions
+will be renamed.
+
+Creating the works from public domain print editions means that no
+one owns a United States copyright in these works, so the Foundation
+(and you!) can copy and distribute it in the United States without
+permission and without paying copyright royalties. Special rules,
+set forth in the General Terms of Use part of this license, apply to
+copying and distributing Project Gutenberg-tm electronic works to
+protect the PROJECT GUTENBERG-tm concept and trademark. Project
+Gutenberg is a registered trademark, and may not be used if you
+charge for the eBooks, unless you receive specific permission. If you
+do not charge anything for copies of this eBook, complying with the
+rules is very easy. You may use this eBook for nearly any purpose
+such as creation of derivative works, reports, performances and
+research. They may be modified and printed and given away--you may do
+practically ANYTHING with public domain eBooks. Redistribution is
+subject to the trademark license, especially commercial
+redistribution.
+
+
+
+*** START: FULL LICENSE ***
+
+THE FULL PROJECT GUTENBERG LICENSE
+PLEASE READ THIS BEFORE YOU DISTRIBUTE OR USE THIS WORK
+
+To protect the Project Gutenberg-tm mission of promoting the free
+distribution of electronic works, by using or distributing this work
+(or any other work associated in any way with the phrase "Project
+Gutenberg"), you agree to comply with all the terms of the Full Project
+Gutenberg-tm License (available with this file or online at
+http://gutenberg.org/license).
+
+
+Section 1. General Terms of Use and Redistributing Project Gutenberg-tm
+electronic works
+
+1.A. By reading or using any part of this Project Gutenberg-tm
+electronic work, you indicate that you have read, understand, agree to
+and accept all the terms of this license and intellectual property
+(trademark/copyright) agreement. If you do not agree to abide by all
+the terms of this agreement, you must cease using and return or destroy
+all copies of Project Gutenberg-tm electronic works in your possession.
+If you paid a fee for obtaining a copy of or access to a Project
+Gutenberg-tm electronic work and you do not agree to be bound by the
+terms of this agreement, you may obtain a refund from the person or
+entity to whom you paid the fee as set forth in paragraph 1.E.8.
+
+1.B. "Project Gutenberg" is a registered trademark. It may only be
+used on or associated in any way with an electronic work by people who
+agree to be bound by the terms of this agreement. There are a few
+things that you can do with most Project Gutenberg-tm electronic works
+even without complying with the full terms of this agreement. See
+paragraph 1.C below. There are a lot of things you can do with Project
+Gutenberg-tm electronic works if you follow the terms of this agreement
+and help preserve free future access to Project Gutenberg-tm electronic
+works. See paragraph 1.E below.
+
+1.C. The Project Gutenberg Literary Archive Foundation ("the Foundation"
+or PGLAF), owns a compilation copyright in the collection of Project
+Gutenberg-tm electronic works. Nearly all the individual works in the
+collection are in the public domain in the United States. If an
+individual work is in the public domain in the United States and you are
+located in the United States, we do not claim a right to prevent you from
+copying, distributing, performing, displaying or creating derivative
+works based on the work as long as all references to Project Gutenberg
+are removed. Of course, we hope that you will support the Project
+Gutenberg-tm mission of promoting free access to electronic works by
+freely sharing Project Gutenberg-tm works in compliance with the terms of
+this agreement for keeping the Project Gutenberg-tm name associated with
+the work. You can easily comply with the terms of this agreement by
+keeping this work in the same format with its attached full Project
+Gutenberg-tm License when you share it without charge with others.
+
+1.D. The copyright laws of the place where you are located also govern
+what you can do with this work. Copyright laws in most countries are in
+a constant state of change. If you are outside the United States, check
+the laws of your country in addition to the terms of this agreement
+before downloading, copying, displaying, performing, distributing or
+creating derivative works based on this work or any other Project
+Gutenberg-tm work. The Foundation makes no representations concerning
+the copyright status of any work in any country outside the United
+States.
+
+1.E. Unless you have removed all references to Project Gutenberg:
+
+1.E.1. The following sentence, with active links to, or other immediate
+access to, the full Project Gutenberg-tm License must appear prominently
+whenever any copy of a Project Gutenberg-tm work (any work on which the
+phrase "Project Gutenberg" appears, or with which the phrase "Project
+Gutenberg" is associated) is accessed, displayed, performed, viewed,
+copied or distributed:
+
+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.org
+
+1.E.2. If an individual Project Gutenberg-tm electronic work is derived
+from the public domain (does not contain a notice indicating that it is
+posted with permission of the copyright holder), the work can be copied
+and distributed to anyone in the United States without paying any fees
+or charges. If you are redistributing or providing access to a work
+with the phrase "Project Gutenberg" associated with or appearing on the
+work, you must comply either with the requirements of paragraphs 1.E.1
+through 1.E.7 or obtain permission for the use of the work and the
+Project Gutenberg-tm trademark as set forth in paragraphs 1.E.8 or
+1.E.9.
+
+1.E.3. If an individual Project Gutenberg-tm electronic work is posted
+with the permission of the copyright holder, your use and distribution
+must comply with both paragraphs 1.E.1 through 1.E.7 and any additional
+terms imposed by the copyright holder. Additional terms will be linked
+to the Project Gutenberg-tm License for all works posted with the
+permission of the copyright holder found at the beginning of this work.
+
+1.E.4. Do not unlink or detach or remove the full Project Gutenberg-tm
+License terms from this work, or any files containing a part of this
+work or any other work associated with Project Gutenberg-tm.
+
+1.E.5. Do not copy, display, perform, distribute or redistribute this
+electronic work, or any part of this electronic work, without
+prominently displaying the sentence set forth in paragraph 1.E.1 with
+active links or immediate access to the full terms of the Project
+Gutenberg-tm License.
+
+1.E.6. You may convert to and distribute this work in any binary,
+compressed, marked up, nonproprietary or proprietary form, including any
+word processing or hypertext form. However, if you provide access to or
+distribute copies of a Project Gutenberg-tm work in a format other than
+"Plain Vanilla ASCII" or other format used in the official version
+posted on the official Project Gutenberg-tm web site (www.gutenberg.org),
+you must, at no additional cost, fee or expense to the user, provide a
+copy, a means of exporting a copy, or a means of obtaining a copy upon
+request, of the work in its original "Plain Vanilla ASCII" or other
+form. Any alternate format must include the full Project Gutenberg-tm
+License as specified in paragraph 1.E.1.
+
+1.E.7. Do not charge a fee for access to, viewing, displaying,
+performing, copying or distributing any Project Gutenberg-tm works
+unless you comply with paragraph 1.E.8 or 1.E.9.
+
+1.E.8. You may charge a reasonable fee for copies of or providing
+access to or distributing Project Gutenberg-tm electronic works provided
+that
+
+- You pay a royalty fee of 20% of the gross profits you derive from
+ the use of Project Gutenberg-tm works calculated using the method
+ you already use to calculate your applicable taxes. The fee is
+ owed to the owner of the Project Gutenberg-tm trademark, but he
+ has agreed to donate royalties under this paragraph to the
+ Project Gutenberg Literary Archive Foundation. Royalty payments
+ must be paid within 60 days following each date on which you
+ prepare (or are legally required to prepare) your periodic tax
+ returns. Royalty payments should be clearly marked as such and
+ sent to the Project Gutenberg Literary Archive Foundation at the
+ address specified in Section 4, "Information about donations to
+ the Project Gutenberg Literary Archive Foundation."
+
+- You provide a full refund of any money paid by a user who notifies
+ you in writing (or by e-mail) within 30 days of receipt that s/he
+ does not agree to the terms of the full Project Gutenberg-tm
+ License. You must require such a user to return or
+ destroy all copies of the works possessed in a physical medium
+ and discontinue all use of and all access to other copies of
+ Project Gutenberg-tm works.
+
+- You provide, in accordance with paragraph 1.F.3, a full refund of any
+ money paid for a work or a replacement copy, if a defect in the
+ electronic work is discovered and reported to you within 90 days
+ of receipt of the work.
+
+- You comply with all other terms of this agreement for free
+ distribution of Project Gutenberg-tm works.
+
+1.E.9. If you wish to charge a fee or distribute a Project Gutenberg-tm
+electronic work or group of works on different terms than are set
+forth in this agreement, you must obtain permission in writing from
+both the Project Gutenberg Literary Archive Foundation and Michael
+Hart, the owner of the Project Gutenberg-tm trademark. Contact the
+Foundation as set forth in Section 3 below.
+
+1.F.
+
+1.F.1. Project Gutenberg volunteers and employees expend considerable
+effort to identify, do copyright research on, transcribe and proofread
+public domain works in creating the Project Gutenberg-tm
+collection. Despite these efforts, Project Gutenberg-tm electronic
+works, and the medium on which they may be stored, may contain
+"Defects," such as, but not limited to, incomplete, inaccurate or
+corrupt data, transcription errors, a copyright or other intellectual
+property infringement, a defective or damaged disk or other medium, a
+computer virus, or computer codes that damage or cannot be read by
+your equipment.
+
+1.F.2. LIMITED WARRANTY, DISCLAIMER OF DAMAGES - Except for the "Right
+of Replacement or Refund" described in paragraph 1.F.3, the Project
+Gutenberg Literary Archive Foundation, the owner of the Project
+Gutenberg-tm trademark, and any other party distributing a Project
+Gutenberg-tm electronic work under this agreement, disclaim all
+liability to you for damages, costs and expenses, including legal
+fees. YOU AGREE THAT YOU HAVE NO REMEDIES FOR NEGLIGENCE, STRICT
+LIABILITY, BREACH OF WARRANTY OR BREACH OF CONTRACT EXCEPT THOSE
+PROVIDED IN PARAGRAPH F3. YOU AGREE THAT THE FOUNDATION, THE
+TRADEMARK OWNER, AND ANY DISTRIBUTOR UNDER THIS AGREEMENT WILL NOT BE
+LIABLE TO YOU FOR ACTUAL, DIRECT, INDIRECT, CONSEQUENTIAL, PUNITIVE OR
+INCIDENTAL DAMAGES EVEN IF YOU GIVE NOTICE OF THE POSSIBILITY OF SUCH
+DAMAGE.
+
+1.F.3. LIMITED RIGHT OF REPLACEMENT OR REFUND - If you discover a
+defect in this electronic work within 90 days of receiving it, you can
+receive a refund of the money (if any) you paid for it by sending a
+written explanation to the person you received the work from. If you
+received the work on a physical medium, you must return the medium with
+your written explanation. The person or entity that provided you with
+the defective work may elect to provide a replacement copy in lieu of a
+refund. If you received the work electronically, the person or entity
+providing it to you may choose to give you a second opportunity to
+receive the work electronically in lieu of a refund. If the second copy
+is also defective, you may demand a refund in writing without further
+opportunities to fix the problem.
+
+1.F.4. Except for the limited right of replacement or refund set forth
+in paragraph 1.F.3, this work is provided to you 'AS-IS' WITH NO OTHER
+WARRANTIES OF ANY KIND, EXPRESS OR IMPLIED, INCLUDING BUT NOT LIMITED TO
+WARRANTIES OF MERCHANTIBILITY OR FITNESS FOR ANY PURPOSE.
+
+1.F.5. Some states do not allow disclaimers of certain implied
+warranties or the exclusion or limitation of certain types of damages.
+If any disclaimer or limitation set forth in this agreement violates the
+law of the state applicable to this agreement, the agreement shall be
+interpreted to make the maximum disclaimer or limitation permitted by
+the applicable state law. The invalidity or unenforceability of any
+provision of this agreement shall not void the remaining provisions.
+
+1.F.6. INDEMNITY - You agree to indemnify and hold the Foundation, the
+trademark owner, any agent or employee of the Foundation, anyone
+providing copies of Project Gutenberg-tm electronic works in accordance
+with this agreement, and any volunteers associated with the production,
+promotion and distribution of Project Gutenberg-tm electronic works,
+harmless from all liability, costs and expenses, including legal fees,
+that arise directly or indirectly from any of the following which you do
+or cause to occur: (a) distribution of this or any Project Gutenberg-tm
+work, (b) alteration, modification, or additions or deletions to any
+Project Gutenberg-tm work, and (c) any Defect you cause.
+
+
+Section 2. Information about the Mission of Project Gutenberg-tm
+
+Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
+electronic works in formats readable by the widest variety of computers
+including obsolete, old, middle-aged and new computers. It exists
+because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
+people in all walks of life.
+
+Volunteers and financial support to provide volunteers with the
+assistance they need, is critical to reaching Project Gutenberg-tm's
+goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
+remain freely available for generations to come. In 2001, the Project
+Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
+and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
+To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
+and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
+and the Foundation web page at http://www.pglaf.org.
+
+
+Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive
+Foundation
+
+The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
+501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
+state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
+Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification
+number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at
+http://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
+permitted by U.S. federal laws and your state's laws.
+
+The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
+Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
+throughout numerous locations. Its business office is located at
+809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
+business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact
+information can be found at the Foundation's web site and official
+page at http://pglaf.org
+
+For additional contact information:
+ Dr. Gregory B. Newby
+ Chief Executive and Director
+ gbnewby@pglaf.org
+
+
+Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation
+
+Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
+spread public support and donations to carry out its mission of
+increasing the number of public domain and licensed works that can be
+freely distributed in machine readable form accessible by the widest
+array of equipment including outdated equipment. Many small donations
+($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
+status with the IRS.
+
+The Foundation is committed to complying with the laws regulating
+charities and charitable donations in all 50 states of the United
+States. Compliance requirements are not uniform and it takes a
+considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
+with these requirements. We do not solicit donations in locations
+where we have not received written confirmation of compliance. To
+SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
+particular state visit http://pglaf.org
+
+While we cannot and do not solicit contributions from states where we
+have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
+against accepting unsolicited donations from donors in such states who
+approach us with offers to donate.
+
+International donations are gratefully accepted, but we cannot make
+any statements concerning tax treatment of donations received from
+outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff.
+
+Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
+methods and addresses. Donations are accepted in a number of other
+ways including checks, online payments and credit card donations.
+To donate, please visit: http://pglaf.org/donate
+
+
+Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic
+works.
+
+Professor Michael S. Hart is the originator of the Project Gutenberg-tm
+concept of a library of electronic works that could be freely shared
+with anyone. For thirty years, he produced and distributed Project
+Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.
+
+
+Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
+editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
+unless a copyright notice is included. Thus, we do not necessarily
+keep eBooks in compliance with any particular paper edition.
+
+
+Most people start at our Web site which has the main PG search facility:
+
+ http://www.gutenberg.org
+
+This Web site includes information about Project Gutenberg-tm,
+including how to make donations to the Project Gutenberg Literary
+Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to
+subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks.