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+<title>The Project Gutenberg eBook of Chronicas de Viagem, by Alberto Pimentel</title>
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+<h1 class="pg">The Project Gutenberg eBook, Chronicas de Viagem, by Alberto Pimentel</h1>
+<pre>
+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at <a href = "http://www.gutenberg.org">www.gutenberg.org</a></pre>
+<p>Title: Chronicas de Viagem</p>
+<p>Author: Alberto Pimentel</p>
+<p>Release Date: July 3, 2010 [eBook #33067]</p>
+<p>Language: Portuguese</p>
+<p>Character set encoding: ISO-8859-1</p>
+<p>***START OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK CHRONICAS DE VIAGEM***</p>
+<br><br><center><h3>E-text prepared by Pedro Saborano</h3></center><br><br>
+<p>&nbsp;</p>
+<hr class="full" noshade>
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+
+<div style="text-align:center; border: solid 5px #000;">
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>A<small>LBERTO </small>P<small>IMENTEL</small></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p style="font-size: 3em;">CHRONICAS DE VIAGEM</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>PORTO</p>
+
+<p><small>OFF. DE MOTTA RIBEIRO<br>
+215, RUA DE S. LAZARO, 215</small></p>
+</div>
+
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+<h1>CHRONICAS DE VIAGEM</h1>
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+
+<div style="text-align:center;">
+<p style="font-size: 1.6em;">A<small>LBERTO </small>P<small>IMENTEL</small></p>
+
+<hr style="width: 60%; height: 1px;">
+<hr style="width: 80%; height: 1px;">
+<hr style="width: 60%; height: 1px;">
+
+<p style="font-size: 3em;">CHRONICAS</p>
+
+<p style="font-size: 1.4em;">DE</p>
+
+<p style="font-size: 3em;">VIAGEM</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p><b>PORTO</b><br>
+
+<small>TYP. E LYT. A VAPOR DE EDUARDO DA MOTTA RIBEIRO<br>
+
+215&mdash;RUA DE S. LAZARO&mdash;215</small></p>
+
+<p>1888</p>
+</div>
+
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+
+
+<div style="text-align:center;">
+<p style="font-size: 1em;">Ao conselheiro</p>
+
+<p style="font-size: 1.2em;">Antonio Maria Pereira Carrilho</p>
+
+<p style="font-size: 0.8em;">MEU ANTIGO E DEDICADO AMIGO</p>
+
+<p style="font-size: 1.4em;">COMO RECORDAÇÃO DAS AGRADAVEIS EXCURSÕES</p>
+
+<p style="font-size: 0.9em;">QUE JUNTOS FIZEMOS</p>
+
+<p style="font-size: 1.6em;">NO VERÃO DE 1888</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p style="text-align:right; margin-right: 3em;">Offereço.</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p style="text-align:right; font-size: 1.2em;"><i>Alberto Pimentel.</i></p>
+</div>
+
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p><a class="pn" name="pag_7">{7}</a></p>
+
+<div id="corpo">
+<h1>CHRONICAS DE VIAGEM</h1>
+
+<h2>I</h2>
+
+<h3>Nas Caldas da Rainha</h3>
+
+<p>Na quarta feira de manhã, o comboio em que eu vim para as Caldas da Rainha
+regorgitava de viajantes.</p>
+
+<p>E desde quarta feira não tenho visto senão chegar ás Caldas gente, gente,
+gente!</p>
+
+<p>Os hespanhoes vão mandando os seus primeiros contingentes, e d'aqui a poucos
+dias chegará o grosso do exercito.</p>
+
+<p>Principia a ouvir-se já esse infatigavel chalrar das hespanholas, que ao
+longo da alameda vão agitando a ventarola e... os quadris, passando como um
+bando de cigarras palreiras, seguidas de grande numero de cigarrinhas não menos
+garrulas do que as suas mamãs de olhos pretos e os seus papás de
+<i>patillas</i>.<a class="pn" name="pag_8">{8}</a></p>
+
+<p>Muitas caras de Lisboa: pessoas da alta finança... com dyspepsia; e da
+grande roda... com rheumatismo.</p>
+
+<p>Algumas pessoas da provincia, com ar de principes que viajam sob
+incognito.</p>
+
+<p>Toda esta humanidade, mais ou menos espectaculosa, que passeia no Olympo da
+alameda, de tridente na mão, desce do alto da sua importancia ao razo da
+fragilidade do barro commum, logo que entra as portas da Copa.</p>
+
+<p>Ahi, perante as aguas, são todos eguaes.</p>
+
+<p>Portuguezas de chapeus de palha, hespanholas de mantilha, janotas do Chiado,
+anciãos venerandos, sentados em torno da casa das pulverisações, voltados
+contra a parede, de bocca escancarada, n'uma immobilidade paciente, deixam
+penetrar na garganta, em pequenissimas gottas de agua do tamanho de missangas,
+a aspersão d'esse hyssope therapeutico, que os ha de benzer... para o
+inverno.</p>
+
+<p>Vêl-os alli e imaginal-os devotos romeiros que estão collando os seus labios
+a uma nascente milagrosa de agua de Lourdes, é tudo uma e a mesma coisa.
+Reverentes deante da torneira, de <i>bibe</i> de borracha em volta do pescoço e
+toalha de algodão sobre os joelhos, parece entoarem mentalmente um hymno védico
+em honra e louvor da agua das Caldas: «Gloria a ti nas torneiras, ó milagrosa
+agua, que borrifas<a class="pn" name="pag_9">{9}</a> a minha garganta, desces
+pelo meu esophago, penetras no meu corpo! Abençoada sejas tu e mais os sagrados
+Pintos Coelhos da medicina, que mandam que a gente te sorva em pequenas doses,
+tal qual como em Lisboa!»</p>
+
+<p>Mas, feita esta oração naturalistica, as damas, os janotas, os anciãos
+arremessam com desdem o seu <i>bibe</i> de borracha, sacodem a toalha de
+algodão, e readquirem, á sahida da Copa, o seu bello ar mundano, parecendo
+dizer aos platanos da Alameda: «No reino animal, a que temos a honra de
+pertencer, não somos nada inferiores a vós outros, senhores ornamentos do reino
+vegetal!»</p>
+
+<p>E as andorinhas, que nas Caldas são em numero prodigioso, esvoaçando de
+platano para platano parece dizerem lá de cima: «Como v. ex.ª está fresco com
+as aguas! Viva v. ex.ª, e não falte cá para o anno!»</p>
+
+<p>Deante do Sebastião, que ministra os copinhos de agua das Caldas com a mesma
+gravidade com que Ganimedes devia servir Jupiter á mesa dos deuses, toda a
+gente tem um vago estremecimento do espirito, seja porque o Sebastião
+represente a saude ou a diplomacia, pois que realmente a saude é a diplomacia
+com que a gente quer tratar o corpo, e a diplomacia é a saude com que as nações
+pretendem curar as suas mazellas.<a class="pn" name="pag_10">{10}</a></p>
+
+<p>É talvez por esta dupla representação que o Sebastião da Copa tem um certo
+ar solemne, ao mesmo tempo de medico e de diplomata, não sendo elle nada
+d'isso.</p>
+
+<p>Sebastião, antes de pegar no copo, do o lavar e de o encher, relanceia a sua
+pupilla verde, n'uma observação rapida mas profunda, pela pessoa que está
+deante de si.</p>
+
+<p>Estuda-a n'esse relance de olhos e, silenciosamente, como um soberano que
+dispensa mercês, dispensa elle copos d'agua, servindo-se do seu gesto grave
+como se fosse um decreto.</p>
+
+<p>Sim! a gente, tambem n'um relance, parece lêr isto nos seus olhinhos verdes:
+«Eu Sebastião, copeiro por graça de Deus, sou servido servir este copinho
+d'agua a este cavalheiro que o requer, com a circumstancia tacita de o julgar
+tolo, porque principia por tomar cincoenta grammas quando devia limitar-se a
+tomar apenas trinta. Mas eu, Sebastião, copeiro por graça de Deus, que estou
+sempre ao pé da agua, lavo d'ahi as minhas mãos,&mdash;silenciosamente.&mdash;Dada de
+bico callado aos tantos de tal, nas Caldas da Rainha e de copo na mão».</p>
+
+<p>A gente lê este decreto, toma o seu copinho, e sáe a porta. Respira-se então
+melhor,&mdash;como quando se sáe da Ajuda. Até ir repetir a dose ninguem<a
+class="pn" name="pag_11">{11}</a> pensa mais no Sebastião, porque é tambem esse
+um ruim sestro da natureza humana: depois de recebida a graça, ninguem pensa
+mais em quem lh'a concedeu.</p>
+
+<p>E os que receberam a agua no copo procedem similhantemente aos que receberam
+a agua em pulverisação, isto é, desoppremidos, <i>dessebastianados</i>,
+espanejam-se ao longo da Alameda rindo, conversando, como se gosassem a melhor
+das saudes e não tivessem tomado remedio algum ha muitos annos.</p>
+
+<p>A saude, que todos de manhã julgam perdida, reapparece á noite, florescente
+e agil, na valsa e mesmo no chá, entregando-se resolutamente aos compassos de
+Strauss e ás bolachas do Club.</p>
+
+<p>Ora este Club das Caldas,&mdash;pois que fallei n'elle,&mdash;parece-se um pouco com
+as praças de guerra: é dos primeiros que o occupam. Isto seria inteiramente
+justo, por direito de conquista, se os primeiros que chegam se limitassem a
+occupal-o,&mdash;mas fazem mais alguma coisa: entrincheiram-se em grupos.</p>
+
+<p>O grupo A arvóra bandeira, fortifica-se, e resiste.</p>
+
+<p>O grupo B hasteia egualmente a sua bandeira, fortifica-se, e... resiste.</p>
+
+<p>Os outros grupos fazem a mesma coisa.</p>
+
+<p>É um entrincheiramento geral.</p>
+
+<p>O melhor que ha a fazer, para tomar posse do Club das Caldas, é vir para cá
+no S. João.<a class="pn" name="pag_12">{12}</a></p>
+
+<p>De resto é preciso escalar, fazer de Affonso Henriques deante de Santarem,
+trepar de gatas pela muralha, pendurar-se das ameias. A alguns pobres rapazes
+de dezoito annos, que ultimamente chegaram, temos visto realisar prodigios de
+acrobatismo caldense para treparem á muralha e arrancarem uma valsa.</p>
+
+<p>E, porque n'essa edade tudo esquece facilmente, depois de tão trabalhosa
+escalada sentem-se felizes girando em torno do salão, levando presa pela
+cintura uma dama que lhes custou tanto a conquistar como a formosa Rachel a seu
+primo Jacob.</p>
+
+<p>N'este caso, e sobretudo n'esta metaphora biblica, o tio Labão é
+representado pelo entrincheiramento dos grupos entre si.</p>
+
+<p>Ás vezes os Jacobs do Club não dançam precisamente com a prima Rachel, isto
+é, com aquella dama que elles prefeririam, porque essa tem-n'a o tio Labão
+fechada a sete chaves n'um grupo. Mas, para não perderem de todo o tempo, vão
+dançando com a Lia que por muito favor lhes concederam.</p>
+
+<p>A Matta é este anno um pouco abandonada. Não resiste á concorrencia que lhe
+fazem o Ceu do Vidro e a Alameda, onde agora mesmo, tres horas da tarde de
+domingo, ha numerosos grupos, conversando, jogando, observando. O amor, como um
+macaco na floresta, vae saltando de arvore em arvore, e, escondido<a class="pn"
+name="pag_13">{13}</a> entre as ramarias, despede settas certeiras, ficando a
+rir e a baloiçar-se nos ramos...</p>
+
+<p>Com a sua ligeireza simiana ora aponta a um seio turgido, afofado entre
+cambraias; ora, como que por ironia, dispara contra um peito já sabiamente
+abroquelado para estes combates.</p>
+
+<p>No primeiro caso, a setta crava-se no alvo, que fica ferido, gottejando
+sangue ardente.</p>
+
+<p>No segundo caso, resvala no broquel de aço e a dama, vendo cahir no chão a
+setta, fica dizendo mentalmente: «Para cá vens tu de carrinho!...»</p>
+
+<p>Em duas horas observa-se toda a vida das Caldas; por isso, inteirado da
+situação, tenho feito pequenas excursões fóra do mundo galante da Alameda.</p>
+
+<p>Fui á Lagôa de Obidos, que eu só conhecia nominalmente dos compendios de
+chorographia.</p>
+
+<p>Passeio delicioso, por uma bella estrada marginalmente povoada de
+pinheiros.</p>
+
+<p>Cheguei á Foz do Arelho ao cahir da tarde. A lagôa principiava a esbater-se
+na penumbra, n'uma doce tranquillidade. Os pescadores recolhiam nas bateiras,
+que singravam mansamente. Mulheres e creanças esperavam-n'os sentados na areia,
+mas as creanças, logo que viram aproximar-se um trem, fizeram-lhe um verdadeiro
+assalto, chegando a engalfinhar-se nas portinholas.<a class="pn"
+name="pag_14">{14}</a> </p>
+
+<p>E na grande paz da lagôa a primeira treva da noite ia cahindo como um véo de
+crepe, lentamente.</p>
+
+<p>Hontem fui de corrida á Nazareth.</p>
+
+<p>Ah! meu Deus! que desillusão!</p>
+
+<p>Caldas da Rainha, 5 de agosto de 1888.</p>
+
+<p><a class="pn" name="pag_15">{15}</a></p>
+
+<h1>CHRONICAS DE VIAGEM</h1>
+
+<h2>II</h2>
+
+<h3>A Nazareth</h3>
+
+<p>Acabam de contar os jornaes que ha poucos dias, em Cautterets, os cavallos
+que puxavam o <i>break</i> de Sarah Bernhardt, assustando-se, na ponte de
+Renquez, com o estrondo da agua, estiveram empinados sobre o abysmo, prestes a
+despenharem-se na corrente.</p>
+
+<p>É pouco mais ou menos a historia do conhecido milagre de Nossa Senhora da
+Nazareth.</p>
+
+<p>E digo pouco mais ou menos porque, sobre o rochedo da Nazareth, foi
+miraculosamente suspenso á beira do abysmo um cavalleiro, que se chamava Fuas
+Roupinho, e não um <i>break</i>, que conduzisse Sarah Bernhardt.</p>
+
+<p>A razão é simples: No tempo de Fuas Roupinho não havia ainda nem
+<i>break</i> nem Sarah Bernhardt. O<a class="pn" name="pag_15">{15}</a> leitor
+deve ficar convencido da verdade d'esta asseveração historica.</p>
+
+<p>Ora, no milagre da Nazareth, se o cavallo ficou empinado sobre o rochedo,
+foi porque Nossa Senhora appareceu a soccorrer o cavalleiro, que a invocára.</p>
+
+<p>No caso de Sarah Bernhardt, quem acudiu á portentosa actriz não foi Nossa
+Senhora da Nazareth, mas a propria Sarah Bernhardt.</p>
+
+<p>No momento do perigo, Sarah, que guiava o <i>break</i>, saltou da almofada,
+poz-se á frente dos cavallos, segurou-os pelos freios, e... suspendeu-os no
+azul, sobre a torrente...</p>
+
+<p>É tragico!</p>
+
+<p>Póde muita gente lançar este caso á conta das numerosas <i>blagues</i> que o
+noticiario francez borda todos os dias phantasiosamente em torno do nome de
+Sarah Bernhardt.</p>
+
+<p>Mas, por muito grande que seja a incredulidade d'essa gente, o caso da ponte
+de Renquez não me quer parecer menos verosimil do que se me affigurou outro dia
+a historia do milagre da Nazareth.</p>
+
+<p>Eu, como toda a gente, fui educado a ouvir fallar do milagre da Nazareth, e
+a vel-o memorado em estampas coloridas, embora grosseiras, que figuram D. Fuas
+Roupinho, de capinha de tenor e bonnet de penna de gallo, montando um cavallo
+branco, que,<a class="pn" name="pag_17">{17}</a> de mãos no ar, se empinava
+sobre um rochedo imminente ao oceano, o qual oceano fremia em vagalhões, hyante
+e profundo.</p>
+
+<p>Um veado, de larga armação ramosa, saltava pelo ar, prestes a afundar-se, o
+qual veado era nem mais nem menos que o diabo.</p>
+
+<p>Nossa Senhora da Nazareth, envolta em resplendores celestes, apparecia no
+espaço, acudindo solicita á invocação do cavalleiro, o qual cavalleiro era,
+como já dissemos, D. Fuas Roupinho.</p>
+
+<p>Pessoas que leram os <i>Quadros historicos</i> de Castilho, e n'elle o
+rimance da Nazareth, sabiam, além d'aquillo, que este caso milagroso occorrera
+n'uma fresca manhã de setembro, e que o rochedo do milagre estava pendurado
+sobre o oceano na altura de duzentas braças.</p>
+
+<blockquote>
+ Rompeu-se com o sol a nevoa, <br>
+ E ao resplendor que luziu, <br>
+ Sobre penha, que duzentas <br>
+ Braças pende ao mar se viu <br>
+   <br>
+ Co'as mãos em vão sobre o abysmo, <br>
+ Trepidar e descair, <br>
+ Ennovelar-se erriçado. <br>
+ Pular atraz, refugir<a class="pn" name="pag_18">{18}</a> <br>
+   <br>
+ Um cavallo! e o bom Dom Fuas, <br>
+ Que o remessára até ali, <br>
+ Saltar por terra, clamando: <br>
+ &mdash;«Por ti, Senhora, é por ti!» <br>
+</blockquote>
+
+<p>O milagre da Nazareth fôra posto em oratoria no theatro.</p>
+
+<p>Um rochedo de papelão, suspenso sobre uma torrente de lona azul, apparecia
+recortando-se ao longe sobre o panno do fundo, que representava a vastidão
+infinita do ceu.</p>
+
+<p>Um cavalleiro, tambem de papelão, galopava sobre um cavallo da mesma materia
+prima, em perseguição de um veado que não era mais consistente.</p>
+
+<p>Cavallo e cavalleiro ficavam suspensos sobre o abysmo, e o veado
+despenhava-se no mar com grande applauso dos espectadores, que jubilavam
+catholicamente por vêr assim justamente castigado o diabo.</p>
+
+<p>Quando outro dia fui das Caldas da Rainha á Nazareth, evoquei na minha
+memoria, que ainda não é das peiores, todo o apparato sobrenatural d'essa
+tradição piedosa, com que na infancia tantas vezes fui acalentado pela velha
+criada Joanna.</p>
+
+<p>Não sabia eu então onde ficava a Nazareth do milagre, nem me era preciso
+sabel-o para o crêr.</p>
+
+<p>O que eu a preceito sabia, e não precisava saber mais nada, era que o
+milagre acontecera, e que lá<a class="pn" name="pag_19">{19}</a> estava ainda,
+onde quer que fosse, o rochedo pendente ao mar; e o vestigio sempre vivo de uma
+pata do cavallo.</p>
+
+<p>Mais tarde a poesia de Castilho revestiu de prestigio, na minha imaginação,
+a tradição do milagre, e, finalmente, mais de um livro de Julio Cesar Machado,
+fallando das grandes festas dos cyrios da Nazareth, aguçara-me o apetite de ir
+um dia, quando podesse ser, ao local do milagre.</p>
+
+<p>Fui. Não era pelo tempo dos cyrios, não havia portanto nem festas, nem
+romeiros, nem lôas, nem offerendas. Nada d'isso. Mas o que eu esperava que
+houvesse, n'aquelle dia de agosto em que fui á Nazareth, era o rochedo em cima
+e o mar em baixo. Isso me bastaria para que eu, encontrando todos os pormenores
+da tradição em inteira conformidade com as minhas recordações, continuasse a
+acreditar no milagre com o mesmo prestigio e com a mesma fé.</p>
+
+<p>Fui, com estimaveis companheiros de viagem, que n'esse dia eram tres.</p>
+
+<p>E, não devo occultal-o por vergonha, á medida que da estação do Vallado
+avançava para a Nazareth, o meu coração não trotava menos do que as miseras
+pilecas que iam arrastando o <i>char-á-bancs</i>.</p>
+
+<p>Não desgostei de vêr de perto a Pederneira, que eu ha annos escolhera para
+localisar ahi um pequeno<a class="pn" name="pag_20">{20}</a> conto que, se me
+não engano, anda impresso no livro <i>Homens e datas</i>.</p>
+
+<p>Alexandre Dumas pae diz algures que não podia descrever os logares sem que
+primeiro os visse. Creio que é n'um dos volumes das <i>Causeries</i>. Eu, para
+em nada me parecer, infelizmente, com Alexandre Dumas, affoutava-me a escolher
+logares de que algumas pessoas me haviam fallado com certo agrado, motivo por
+que me não ficavam desagradando tambem a mim.</p>
+
+<p>Ora um d'esses logares fôra a Pederneira.</p>
+
+<p>E a Pederneira lá estava com a sua egreja e com as suas casas, um pouco
+conforme ao que eu havia imaginado a seu respeito.</p>
+
+<p>Mas já então se via no horisonte o planalto da Nazareth, a que chamam o
+<i>Sitio</i>, e nenhum rochedo avultava tanto, que eu pudesse desde logo gritar
+aos meus companheiros de viagem: «É aquelle!»</p>
+
+<p>Havia effectivamente alguns rochedos alcandorados á borda do planalto, mas
+nenhum d'elles destacava por imminente ao mar, como nas estampas coloridas, que
+tantas vezes eu tinha, quando pequeno, contemplado em credula camaradagem com a
+velha criada Joanna, a minha velha e querida Joanna.</p>
+
+<p>O que havia em baixo, mesmo por baixo dos rochedos, era a praia,&mdash;areia e
+casas.</p>
+
+<p>Póde a praia ser muito boa para banhos, mas não<a class="pn"
+name="pag_21">{21}</a> é para isso que eu quero as praias. Mais uma vez
+declararei que o meu ideal balnear não vae além da tina e da esponja. Gosto
+simplesmente das praias para vêr o mar; mas quero vel-o d'alto, que é a unica
+maneira que a gente tem de contemplar o oceano sem tamanho vexame para a
+pequenez humana...</p>
+
+<p>É certo que na Nazareth poderia, para vêr o mar a meu modo, subir ao
+planalto, ao <i>Sitio</i>, como lá se diz.</p>
+
+<p>Mas custa tanto subir na Nazareth da praia para o <i>Sitio</i>, emquanto o
+ascensor mechanico não estiver prompto, que é esse um prazer que mal se póde
+ter todos os dias, pelo incommodo que importa.</p>
+
+<p>Assim, os banhistas da Nazareth teem que contentar-se de vêr o oceano como
+naufragos que estivessem mettidos dentro d'elle. Parece, pelo menos, que está a
+gente tomando banho dentro de uma tina, e que dentro d'essa tina está o mar.
+Não gosto. É um capricho, uma idyosincrasia, mas não gosto. Prefiro a Ericeira
+á Nazareth, porque na Ericeira a gente vê sempre o mar do alto das <i>ribas</i>
+ou das <i>arribas</i>, como diz a gente da terra, e assim, visto do alto, o mar
+parece que não deprime, que não esmaga tanto a pequenez do homem.</p>
+
+<p>Mas na Nazareth é possivel que o solo tenha passado por alguma grande
+commoção, que alguma revoluçcão<a class="pn" name="pag_22">{22}</a> geologica
+haja feito recuar o oceano para além da perpendicular do rochedo.</p>
+
+<p>O scenario do milagre póde ter mudado muito desde os tempos da fundação da
+monarchia até hoje.</p>
+
+<p>Como porém já não encontrei o mar vagalhando debaixo do rochedo, e como o
+rochedo, visto de longe, não me deu a impressão do milagre, peguei a descrer do
+milagre por causa do rochedo, Deus me perdôe!</p>
+
+<p>Bem sei que era muito audaz a minha exigencia de querer encontrar tudo como
+no tempo de D. Fuas Roupinho e na hora do prodigio. Mas assim mesmo é que eu
+queria ter encontrado ainda as coisas... E quer-me bem parecer que só me
+haveria contentado inteiramente toda a <i>mise-en-scene</i> do milagre: o
+cavallo empinado sobre o rochedo, o veado descrevendo na queda uma larga curva,
+e o mar em baixo, espumoso e vasto. Tal qual como nas estampas.</p>
+
+<p>Fui acima, ao <i>Sitio</i>, em trem, para vêr se podia reconstruir,
+deixem-me dizer assim, o meu ideal da Nazareth mais do seu caso milagroso.</p>
+
+<p>O <i>Sitio</i> é, fóra do tempo dos cyrios, de uma tristeza morta, de uma
+solidão sepulchral.</p>
+
+<p>Que mau senso teve o diabo! Comprehendia-se que tivesse querido attrahir D.
+Fuas Roupinho a um sitio deleitoso, infernalmente bello e convidativo. Mas
+áquelle logar! áquella solidão! Ali não ia ninguem,<a class="pn"
+name="pag_23">{23}</a> ali ninguem cahiria na tolice de se deixar attrahir pelo
+diabo, de mais a mais disfarçado em veado! Ainda se fosse em mulher!...</p>
+
+<p>Eu conheço varias partidas do diabo, que mostram que elle não tem tão mau
+senso como isso! O diabo é sempre artista nos logros que arma, tão bem armados
+que os proprios logrados costumam dizer: «Esta só pelo diabo!»</p>
+
+<p>Isto é: só armada por elle.</p>
+
+<p>Desconfiado, parti logo do principio de que Fuas Roupinho se não tinha
+deixado engodar tão tolamente pelo diabo, n'aquelle sitio, como a lenda
+dizia.</p>
+
+<p>O rochedo, visto de cima como visto de baixo, continuou a não me dar a
+impressão do milagre. Vi um signal na pedra, e um rapazito disse-me que era o
+vestigio de uma das patas do cavallo.</p>
+
+<p>Confesso que me fizera maior impressão,&mdash;muito maior!&mdash;a cruz de pedra que
+Santo Antonio, tambem segundo a lenda, riscára com a unha na sé de Lisboa,
+quando era menino do côro, e o diabo lhe appareceu feito mulher.</p>
+
+<p>&mdash;Sim&mdash;disse eu quando vi a cruz na sé&mdash;devia ser isso... para um santo que
+quizesse resistir!</p>
+
+<p>Mas na Nazareth, espreitando para o rochedo por cima de um muro que me dava
+pelos hombros, nenhuma voz disse dentro em mim:<a class="pn"
+name="pag_24">{24}</a></p>
+
+<p>&mdash;Sim... é o signal da pata do cavallo. Devia ser assim para um cavallo...
+que não quizesse cahir!</p>
+
+<p>E a historia do milagre galopava no meu espirito para o abysmo da
+incredulidade, como o cavallo de D. Fuas Roupinho, na lenda, para o abysmo do
+oceano.</p>
+
+<p>Mas entrei na egreja, doirada de bella obra de talha, vi a imagem de Nossa
+Senhora no throno, fixei por alguns momentos a sua rude esculptura, e
+pareceu-me que bem podia ter sido tudo como a lenda contava...</p>
+
+<p>Quando o homem está de joelhos, sente-se sempre menos propenso á
+duvida...</p>
+
+<p>Quando voltei ás Caldas, disse a Julio Cesar Machado, que estava lá:</p>
+
+<p>&mdash;Olha que tu, com os teus livros, tiveste muita culpa n'esta passeiata que
+eu fiz hoje á Nazareth. Não gostei...</p>
+
+<p>E elle respondeu-me:</p>
+
+<p>&mdash;Aquillo é muito bom quando é pelo tempo dos cyrios e pelo tempo... dos
+dezoito annos, que foi quando eu vi bem os cyrios...<a class="pn"
+name="pag_25">{25}</a> </p>
+
+<h1>CHRONICAS DE VIAGEM </h1>
+
+<h2>III</h2>
+
+<h3>Alcobaça</h3>
+
+<p>Quando eu escrevi a <i>Porta do Paraiso</i>, que tão boa fortuna alcançou,
+como prova o facto de estar hoje em terceira edição, foi na villa de Alcobaça,
+á sombra do vetusto mosteiro cisterciense, que localisei o principio da
+novella, a qual depois se desdobra em Lisboa.</p>
+
+<p>Clarinha era d'ali, d'Alcobaça, de cujos vergeis floridos eu fallei sem os
+ter visto. Foi em Alcobaça que lhe desabrochou no coração o primeiro amor,
+primeiro e unico de toda a sua vida, o que já então era raro e hoje é
+rarissimo. Eu não tinha visto os coutos pittorescos de Alcobaça, abundantes de
+fructas e aguas, de sombras e frescura, mas conhecia-os pela <i>Alcobaça
+illustrada</i> de Frei Manuel dos Anjos e pela descripção<a class="pn"
+name="pag_26">{26}</a> oral, muitas vezes repetida, sempre calorosamente, de um
+rapaz que era d'ali natural e estava desempenhando no Porto o cargo de
+guarda-livros da Companhia Viação, a Entre-Paredes.</p>
+
+<p>Ha quinze annos eu conhecia pouco o paiz: um bocado do Minho, outro bocado
+do Douro, e mais nada. O scenario de que podia dispôr era, pois, muito
+resumido, acanhado. Depois d'isso é que me pude dar o prazer de
+<i>touriste</i>, e hoje, com excepção do Algarve, conheço menos mal o paiz. A
+paizagem agreste do Douro abundava já nos meus primeiros livros, de modo que,
+posto curasse por informações, foi por amor da variedade que eu desferi vôo
+para Alcobaça a fim de pendurar nos seus arvoredos a minha novella, como um
+ninho de tristezas brandas, que a minha imaginação, timida andorinha, se
+propunha fabricar...</p>
+
+<p>Quando se abre o livro, está-se em Alcobaça; assiste-se a um serão de
+Clarinha: o tio a um lado, a outro lado o primo revolvendo livros.</p>
+
+<p>Não me demorei em pormenores de paizagem; descrevi-a em dois traços, de
+fugida, porque o que eu queria era achar um sitio de eleição, que fosse ameno e
+formoso, e cujo nome bastasse ser indicado para que se comprehendesse que
+n'esse meio geographico não podiam gerar-se caracteres abominaveis.</p>
+
+<p>Eu sempre detestei... o abominavel, então e agora.<a class="pn"
+name="pag_27">{27}</a> </p>
+
+<p>Rodaram annos, estive de passagem n'outras localidades, bem menos agradaveis
+por certo, e sempre me ficava no fundo da alma, como uma violeta antiga,
+perdida entre as paginas d'um livro, o desejo saudoso (deixem-me dizer
+saudoso...) d'essa villa opulentamente fradesca, onde eu só mentalmente havia
+estado alguns dias, com Clarinha, com seu tio e com seu primo, assistindo em
+espirito a esses doces serões de provincia.</p>
+
+<p>Foi só agora que pude apagar a saudade d'esse desejo.</p>
+
+<p>Quando nas Caldas o revelei ao meu velho amigo Carrilho, elle, que tinha
+estado poucos dias antes em Alcobaça, disse-me com a sua habitual energia:</p>
+
+<p>&mdash;Homem, amanhã, no comboio do meio dia, partimos ambos para Alcobaça.</p>
+
+<p>&mdash;Mas lá perdemos nós uma tarde de aguas, e foi para tomar as aguas que eu
+vim ás Caldas.</p>
+
+<p>Elle replicou:</p>
+
+<p>&mdash;Tomaremos as aguas de manhã; de tarde tomaremos Alcobaça. Á noite
+estaremos a jantar nas Caldas, de regresso. Um passeio que se faz por gosto,
+vale por um bom remedio.</p>
+
+<p>Fomos. Já tinhamos ido á Nazareth, o que quer dizer que já conheciamos a
+linha da Figueira até á<a class="pn" name="pag_28">{28}</a> estação do Vallado.
+A surpreza, para mim, começava d'ahi por deante.</p>
+
+<p>A planicie verdejante do Vallado, essa immensa campina plana como a palma da
+mão,&mdash;propriedade do snr. Manuel Iglesias,&mdash;era para mim o bello prologo da
+viagem a Alcobaça pela linha da Figueira.</p>
+
+<p>O Vallado é realmente um sitio delicioso, vasto, lavado de um puro ar
+saudavelmente temperado com o oxygenio dos campos e o iodo do mar, que não fica
+longe. Principia ahi o grande pinhal de Leiria; uma guarda avançada de bastos
+pinheiros faz sentinella ao <i>chalet</i> encarnado onde reside um fiscal da
+matta. Ao longe, dominando a estrada da Nazareth, o morro de S. Bartholomeu,
+phantasiosamente recortado, com a sua ermidinha entalada entre rochedos, parece
+olhar desdenhosamente para a planicie infinita que se lhe desenrola aos pés,
+timidamente, longamente...</p>
+
+<p>Do Vallado para Alcobaça ha diligencias, a tostão por pessoa. É preciso
+deixar passar o comboio para podermos atravessar a linha. Esperam-se cinco
+minutos, o comboio parte, e a diligencia do Gallinha parte logo depois do
+comboio.</p>
+
+<p>A estrada é graciosa, alegre como um sorriso luminoso da natureza, feito de
+claridade e de verdura. A breve trecho estamos na Fervença, cujo nome provém<a
+class="pn" name="pag_10">{29}</a> das suas aguas sulphurosas, e onde um velho
+portico de propriedade nobre me enleiaria o olhar, se não tivesse de voltar-me
+logo para vêr o edificio da fabrica de fiação e tecidos, estabelecida alli em
+1874.</p>
+
+<p>Sombras, frescura, agua, a flux,&mdash;uma estrada que mais parece uma avenida de
+recreio cortada atravez de uma floresta banhada por nascentes abundantes.</p>
+
+<p>Avista-se Maiorga, avistam-se casaes alvejantes, frescos e claros, brilhando
+na palpitação suave da verdura, levemente batida por uma pontinha de ar
+refrigerante. A agua corre nos campos, em ondas de abundancia, entornando
+diamantes ao saltar de pedra em pedra, como uma princeza louca, que vae
+estragando thesouros. E o arvoredo põe no solo branco e crú grandes manchas de
+sombra, que parecem ligar-se caprichosamente pelos seus contornos irregulares,
+phantasticos.</p>
+
+<p>Surge-nos á margem da estrada outra fabrica, de louça, dando-nos a conhecer
+que vamos entrando n'um concelho vitalisado pela industria, laborioso e rico.
+Depois as primeiras casas da povoação, brancas e baixas, enfileiram-se em
+linha, correndo a par da diligencia, e um palacio, dominador e vasto, abre á
+luz sobre a estrada as suas janellas em longas series parallelamente
+dispostas.</p>
+
+<p>Vejo, de relance, sobre um cunhal de muro o letreiro<a class="pn"
+name="pag_30">{30}</a> que diz: <i>Rua de Frei Fortunato</i>. E penso n'este
+nome. Emquanto a diligencia roda, lembro-me que aquella rua memorará frei
+Fortunato de S. Boaventura, alcobacense, miguelista acerrimo, polygrapho
+fecundo, author da <i>Historia chronologica e critica da real abbadia de
+Alcobaça</i>. E d'ahi talvez não seja; mas aposto que será esse mesmo, o de S.
+Boaventura.</p>
+
+<p>A diligencia entra n'um triumpho de estrondo e poeira&mdash;egual a todos os
+outros triumphos&mdash;no Rocio de Alcobaça, e á nossa esquerda, como um leviathan
+de pedra, ferido pelo arpéo do vandalismo, o mosteiro avulta na sua vastidão
+enorme, fria e dura, remendado, propinado, cuspido na face vetusta pela
+antiguidade e pelo progresso.</p>
+
+<p>A egreja, encravada no mosteiro, exhibe n'uma confusão chaotica os seus
+numerosos estylos architetonicos, especie de <i>bric-á-brac</i> de todas as
+grandezas de um passado extincto, e por entre as pedras e as imagens que
+negrejam como carvões contrastam remendos de cartão branco, farrapos de pedra
+nova, fazendo lembrar uma capa de pedinte pendurada do alto das torres, e
+aberta ao sol.</p>
+
+<p>Imaginem que visitando um dia a feira da ladra se recordaram subitamente de
+D. Affonso Henriques ao vêr um capacete de armadura posto sobre uma farda de
+soldado da guarda municipal.<a class="pn" name="pag_31">{31}</a></p>
+
+<p>Foi o que me aconteceu.</p>
+
+<p>D. Affonso Henriques passou por ali, e plantou um mosteiro. Mas veio depois
+a invasão de Miramolim, e derrubou-o. Poz-se uma estaca á arvore partida, e a
+arvore renasceu. Vieram ainda depois os caprichos realengos, os accrescentos
+anachronicos, os terremotos, os raios, e D. Affonso Henriques, se voltasse a
+este mundo, não conheceria a sua bella arvore de pedra, plantada em honra de
+Nossa Senhora, por memoria do feito de Santarem.</p>
+
+<p>Aberta a porta do templo, talhada em arcos ogivaes, as suas vastas tres
+naves alongam-se n'uma fria extensão silenciosa, e ao fundo a capella mór, em
+semi-circulo como todas as charolas das grandes basilicas, esfuma-se n'um como
+nevoeiro, que duvidosamente deixa entrever columnas e imagens.</p>
+
+<p>Á esquerda, uma porta abre sobre a chamada <i>casa dos reis</i>, que se nos
+patentêa com os seus altos azulejos allegoricos, o seu caldeirão bojudo de
+Aljubarrota e as suas estatuas grotescas, de reis antigos, presididas por
+Affonso Henriques, recebendo a corôa, curvado aos pés de S. Bernardo, essa
+<i>montanha de santidade</i>, como lhe chamou frei Luiz de Souza.</p>
+
+<p>Á ilharga de Affonso Henriques, n'uma prateleira, um pequeno busto, em
+gesso, de D. Pedro V, põe n'essa galeria de antigas estatuas de reis,
+modeladas<a class="pn" name="pag_32">{32}</a> ao natural, uma nota acre do
+contraste moderno, mostrando como os reis teem ido perdendo na grandeza da sua
+exhibição...</p>
+
+<p>Tudo o que em Alcobaça é moderno, é atroz: especialmente o vandalismo.</p>
+
+<p>É verdade que os francezes roubaram todas as alfaias valiosas do mosteiro;
+que abriram sacrilegamente os tumulos de D. Pedro e de D. Ignez, para arrancar
+aos cadaveres as suas ricas vestes reaes; mas, em nome da liberdade, os
+indigenas foram depois roubando, a exemplo dos francezes, as reliquias e as
+pedras, indifferentemente, os santos e as cantarias; a verdade é que os
+governos do fim do seculo não são menos vandalos do que os francezes do
+principio d'elle, porque não tardará muito, talvez, que toda a abobada do
+templo, já fendida, desabe.</p>
+
+<p>Aquelles dois tumulos que, entre outros, se encontram n'uma capella do
+cruzeiro, estão immensamente divulgados pela photographia, pela gravura, pela
+poesia, mas hão de ser eternamente o assombro de quem visitar Alcobaça, porque
+tudo n'elles é grandioso e sublime, desde o mais subtil pormenor dos arabescos
+até ao doce perfume de amor que parece exhalar-se desses dois sarcophagos, como
+do calix de dois lyrios brancos sempre frescos...<a class="pn"
+name="pag_33">{33}</a></p>
+
+<h1>CHRONICAS DE VIAGEM</h1>
+
+<h2>IV</h2>
+
+<h3>Os tumulos de Ignez de Castro e D. Pedro</h3>
+
+<p>Aqui temos pois deante de nós, como dois lyrios brancos de marmore, os
+sarcophagos de que parece exhalar-se, como um perfume fugitivo, a lenda
+medieval d'essa grande catastrophe amorosa.</p>
+
+<p>Da historia d'esses tragicos amores pouco se sabe ao certo, mas a lenda
+embala a nossa imaginação desde os primeiros annos da infancia; todos a
+conhecemos, e todos a acreditamos.</p>
+
+<p>Sabemos o que nos disse Camões, que copiou a tradição legada por Garcia de
+Rezende, servindo-se ás vezes das mesmas phrases. E, verdade verdade, n'este
+moribundo seculo de reconstrucções historicas, nenhum documento que fizesse luz
+e que fizesse fé<a class="pn" name="pag_34">{34}</a> veio a lume para
+esclarecer a tradição dos amores de Ignez de Castro.</p>
+
+<p>Camillo Castello Branco tem na sua pasta, recolhidos e colleccionados,
+materiaes importantes, que farão revelações de alto valor sobre esta nublosa
+questão historica; mas, infelizmente, não poude ainda dispôl-os, ligal-os,
+conglobal-os n'um livro, que deverá causar sensação quando apparecer.</p>
+
+<p>Todos temos caminhado até hoje ao capricho das incertezas da lenda, que ora
+faz de Ignez de Castro um caracter perfido, ora um caracter angelico, segundo a
+lenda é recolhida n'esta ou n'aquella provincia.</p>
+
+<p>Nem a propria individualidade de Ignez de Castro está fixada ainda
+historicamente; e os pormenores dos seus amores com o infante D. Pedro, depois
+rei de Portugal, envolvem-se n'uma especie de via-láctea romantica, de veu
+poetico atravez do qual não foi possivel ainda descortinar com segurança a
+verdade.</p>
+
+<p>Mas seja qual for a historia d'esses pormenores, qualquer que venha a ser a
+liquidação definitiva d'esse acontecimento historico, o que não póde pôr-se em
+duvida, deante dos dois sarcophagos de Alcobaça, é que houve n'esses amores
+todo um idyllio de sublime poesia do coração, todo um drama vibrante de
+sentimento, poetico e grandioso.<a class="pn" name="pag_35">{35}</a></p>
+
+<p>Seria preciso que no animo duro de um tal homem como D. Pedro
+<small>I</small> houvessem cantado e raivado todas as doçuras e todos os
+desesperos do amor para que elle phantasiasse a fabrica delicadissima d'esses
+dois tumulos tão similhantes nos traços geraes da sua tonalidade artistica, e
+tão irmãos na homogeneidade da expressão sentimental que a pedra conserva ainda
+atravez dos tempos.</p>
+
+<p>Foi elle que planeou a construcção d'esses dois sarcophagos, diz a tradição,
+e que para um d'elles ordenou fosse removido desde Coimbra o cadaver de Ignez,
+ficando o outro vazio, á espera que soasse a hora de o ir povoar na solidão
+eterna da morte...</p>
+
+<p>Assim devia ter sido; assim foi decerto. Dil-o a pedra dos sarcophagos mais
+eloquentemente do que as chronicas. Só o amor poderia ter inspirado a concepção
+d'esses dois tumulos monumentaes; só um fino amante, como se diz fôra D. Pedro,
+poderia ter mandado fabricar esses dois leitos de marmore para um noivado
+infinito, insaciavel.</p>
+
+<p>Houve no espirito de D. Pedro uma preoccupação dominante, que elle fez
+comprehender ao esculptor: que a posteridade visse bem n'essa figura de mulher,
+lavrada a vulto sobre o sarcophago, uma rainha posthuma, e um anjo torturado. A
+corôa, o manto, as armas reaes de Portugal testemunham claramente<a class="pn"
+name="pag_36">{36}</a> que jaz ali uma princeza em toda a pompa funebre da
+magestade real. Os anjos, ronflando as azas, de joelhos, e sustentando as
+almofadas de marmore sobre as quaes a cabeça de Ignez repousa, deixam
+comprehender que essas duas creanças aladas estão alli acarinhando uma irmã que
+passou pelo mundo soffrendo, e que partiu sorrindo...</p>
+
+<p>Aos pés de Ignez, enroscado n'uma indolencia amortecida, um lebreu, symbolo
+da lealdade, representa como que a firmeza d'esse amor inconsolavel, a
+constancia d'essa dedicação heroica, parecendo chorar em silencio, na tristeza
+de uma grande dôr, como se fosse o proprio coração de D. Pedro.</p>
+
+<p>Nenhum outro symbolo teria ali logar mais proprio nem mais exacta
+representação. O que esse pensativo lebreu exprime não o poderia dizer nenhum
+poema, nenhum epitaphio. É por isso que o symbolo se repete no tumulo de D.
+Pedro: bellamente esculpturado, um grande cão de marmore vigia atravez da
+eternidade aos pés do rei amante, como para significar que o seu amor
+sobreviveria ao aniquilamento do coração, quando o cadaver do rei baixasse a
+descançar n'aquelle seu ultimo leito.</p>
+
+<p>A luz triste, coada atravez da verdura das arvores, que entra na capella,
+põe uma nota de doce e delicada melancholia no ar silencioso; e em torno dos<a
+class="pn" name="pag_37">{37}</a> dois sarcophagos alguns tumulos de reis e
+infantes affiguram-se nos mesquinhos, e como que perdidos na irradiação
+absorvente d'aquelle poema de amor, feito de dois blocos de marmore, que o
+espaço separa, mas que o pensamento une.</p>
+
+<p>Depois da visita aos tumulos de Ignez de Castro e D. Pedro sente a gente que
+nenhuma outra commoção poderá brotar dentro das paredes do templo ou do
+mosteiro. A casa das reliquias, que aliás brilham pela sua ausencia, o
+claustro, a farrapagem hybrida de remendos architectonicos que no edificio se
+atropellam e baralham, a vastidão glacial dos pavimentos e das paredes, o latim
+barbaro dos epitaphios, as largas fendas que por toda a parte ameaçam ruina
+imminente, todo esse espectaculo ao mesmo passo apparatoso e maltrapido de um
+monumento que se desconjunta, não consegue apagar no nosso espirito a impressão
+dolente que nos deixaram os dois tumulos de Ignez de Castro e D. Pedro e que
+continúa soluçando no nosso coração como o murmurio de uma fonte ou o rythmo de
+uma elegia.</p>
+
+<p>O que está em volta de nós é já uma coisa muito differente, é a devastação
+do antigo pela invasão do moderno, é o mosteiro convertido em quartel, em
+tribunal, em escola, em habitação particular, é o vaso<a class="pn"
+name="pag_38">{38}</a> de barro, aqui fendido, ali modernisado, mas todo elle
+profanado, que contém ainda dentro em si dois lyrios brancos de marmore, que
+guardam nos seus calices rendilhados o aroma subtil de uma grande paixão
+antiga.</p>
+
+<p>Tirassem de Alcobaça esses dois sarcophagos, e não valeria a pena lá ir.</p>
+
+<p>O que falta n'esse colosso de pedra que se chama o convento de Mafra, para
+de algum modo o vitalisar na sua inutilidade monumental, para lhe dar uma
+pulsação, um toque de vida, uma scentelha de espiritualidade, é um poema de
+amor como aquelle que se perpetua sob as abobadas rôtas do templo de Alcobaça,
+salvando-o do esquecimento.</p>
+
+<p>Nenhuma brisa refrigerante de sentimento, de poesia, de nobreza immaterial
+passa por aquella aridez pesada de Mafra para suavisal-a um pouco. Tudo ali é
+frio como o coração de D. João <small>V</small>, resistente como a sua
+voluptuosidade nunca farta, dispendioso como a enormidade dos seus caprichos
+egoistas, pessoaes...</p>
+
+<p>A Alcobaça aconteceria a mesma coisa, porque o edificio é no tom geral da
+sua architetura tão carregado e monótono como o de Mafra, se não tivesse a
+espiritualizal-o esse romance cavalheiresco que se encerra nos dois tumulos da
+capella de S. Vicente, e<a class="pn" name="pag_39">{39}</a> que atravessa o
+nosso espirito como uma onda de éther, elevando-se para as alturas.</p>
+
+<p>Do mais que eu vi em Alcobaça, na egreja e no mosteiro, não vale a pena
+fallar.</p>
+
+<p>Ha muita gente que se encanta vendo a cozinha, onde bois inteiros podiam ser
+assados, sem que os cozinheiros corressem o risco de acotovellar-se, e onde a
+agua corria de numerosas torneiras cahindo sobre bellos tanques de marmore
+n'uma abundancia torrencial, diluviosa.</p>
+
+<p>Francamente, só de alongar os olhos pela cosinha de Alcobaça me senti
+enjoado, indigesto, como se estivesse a olhar para uma grande escudella de
+orelheira com feijão branco.</p>
+
+<p>Todas as materialidades fradescas do mosteiro passaram sem relevo pelo meu
+espirito, perdendo-se na vulgar noção de egoismo e opulencia que caracterisavam
+por toda a parte certas ordens monasticas.</p>
+
+<p>Sahindo do mosteiro, onde o cheiro a bolôr é acre e irritante, banhei os
+pulmões com delicia na frescura oxigenada que se exhala do arvoredo dos antigos
+coutos, onde a agua canta pagãmente o velho poema mythologico da Mãe-Terra,
+<i>Alma-Mater</i>, fonte perenne de abundancia, rasgando eternamente o seio
+fecundo para alimentar os filhos ephemeros.<a class="pn"
+name="pag_40">{40}</a></p>
+
+<p>E uma hora depois, dentro da diligencia do Gallinha, que rodava para a
+estação do Vallado, vinha eu dizendo ao meu bom amigo Carrilho:</p>
+
+<p>&mdash;Mas que diabo de auctoridade temos nós para queixarmo-nos do vandalismo
+dos francezes, se ainda somos mais vandalos do que elles?!...<a class="pn"
+name="pag_41">{41}</a></p>
+
+<h1>CHRONICAS DE VIAGEM</h1>
+
+<h2>V</h2>
+
+<h3>Em Obidos</h3>
+
+<p>Ha muitos annos que eu conhecia de nomeada o Padre Antonio das Caldas.</p>
+
+<p>Ouvia dizer que, sem menospresar os seus deveres sacerdotaes, era um homem
+de sociedade, amavel e jovial, intelligente e insinuante.</p>
+
+<p>As senhoras que voltavam das Caldas da Rainha vinham contar agradabilissimas
+impressões d'esse homem estimadissimo, cujo talento se repartia por multiplices
+aptidões:</p>
+
+<p>Padre Antonio orador sagrado;</p>
+
+<p>Padre Antonio valsista;</p>
+
+<p>Padre Antonio cantor;</p>
+
+<p>Padre Antonio poeta.</p>
+
+<p>Eu fui este anno para as Caldas com um grande<a class="pn"
+name="pag_42">{42}</a> desejo de conhecer este bom Padre Protheu, que se fazia
+estimar de toda a gente pelas variadas modalidades do seu talento.</p>
+
+<p>Quarenta e oito horas depois de eu ter chegado ás Caldas da Rainha, um amigo
+meu, acompanhado por outro cavalheiro, ia a balbuciar algumas palavras de
+apresentação, quando esse outro cavalheiro, para mim desconhecido, o
+interrompeu dizendo:</p>
+
+<p>&mdash;Nós somos amigos desde creanças: Eu sou o Padre Antonio das Caldas.
+Teriamos nós dez para onze annos quando nos encontrámos pela primeira vez, na
+Foz do Douro, em casa de Joaquim Corrêa de Oliveira, de S. Pedro do Sul.
+Lembra-se? Nunca mais me esqueceu a sua physionomia. Vi-o uma vez em Lisboa, em
+S. Bento, e você acabava de sahir justamente no momento em que eu o ia
+procurar. Dê cá os seus ossos.</p>
+
+<p>Encantado com a surpreza, dei-lhe os meus ossos, e a minha amisade. Uma hora
+depois, estávamos de pedra e cal,&mdash;para a vida e para a morte.</p>
+
+<p>Padre Antonio, com ser das Caldas, vive em Obidos, onde tem capellania.</p>
+
+<p>Sabendo isto, fallei-lhe logo de Obidos e dos quadros da celebre Josepha de
+Ayalla, que eu desejaria vêr.</p>
+
+<p>Padre Antonio respondeu:<a class="pn" name="pag_43">{43}</a></p>
+
+<p>&mdash;Isso arranja-se. Você vae almoçar comigo um dia d'estes, e eu mostro-lhe
+Obidos de <i>fond en comble</i>.</p>
+
+<p>E como eu hesitasse, acrescentou:</p>
+
+<p>&mdash;Sim, snr. Você vae almoçar comigo e eu dar-lhe-hei para almoçar a vacca e
+riso de frei Bartholomeu dos Martyres. Serve-lhe?</p>
+
+<p>&mdash;Serve-me que apenas me mande servir a supradita vacca e o sobredito riso
+do sobredito arcebispo. N'essas condições, acceito.</p>
+
+<p>&mdash;Está tratado.</p>
+
+<p>Padre Antonio quiz dar-me para esse almoço um excellente companheiro: o meu
+velho amigo Pereira Carrilho, com quem em menos de quinze dias fiz uma larga
+serie de passeios: á Nazareth, a Alcobaça, á Figueira, á Foz do Arelho e a
+Obidos.</p>
+
+<p>E, note-se, não perdemos um dia de aguas. Digo isto aqui para que o meu
+medico, e tambem velho amigo, dr. Ferrer Farol, não ralhe comigo na volta a
+Lisboa. Não, snr. Eu tomei sempre a minha agua, eu tomei sempre o meu banho, e
+não perdi occasião de passeiar,&mdash;para de algum modo coroar a obra therapeutica
+do dr. Farol.</p>
+
+<p>Se fosse n'outro tempo, ter-me-ia custado ter que abandonar á noite o club
+das Caldas, onde a valsa era adorada com idolatria.</p>
+
+<p>Mas com trinta e oito annos ás costas&mdash;o peso<a class="pn"
+name="pag_44">{44}</a> de uma cruz!&mdash;a valsa seria para mim um <i>tour de
+force</i> incomportavel, um calix de agonia.</p>
+
+<p>Nada d'isso. Nas Caldas da Rainha não provei d'esse calix, nem do chá do
+club. Não ingeri lá outros liquidos além da agua da Copa e do vinho das
+Gaeiras.</p>
+
+<p>Quanto a solidos, já não posso dizer outro tanto, pois que prestei, como
+devia, gastronomica homenagem ás cavacas das Caldas.</p>
+
+<p>E, ao comel-as, reconheci que ainda vale muito, n'este mundo, ter uma
+lenda.</p>
+
+<p>É que as cavacas das Caldas teem mais lenda do que assucar.</p>
+
+<p>Nós, os dois convidados para o almoço de Obidos, recebemos da mão do
+<i>honorable</i> Sebastião da Copa o nosso copinho de agua das Caldas, e,
+entrando para um trem, partimos caminho d'Obidos.</p>
+
+<p>A manhã estava serena, como se dizia nos romances antigos. A neblina matinal
+levantava vôo do alto dos montes, como se fosse um bando de aves transparentes,
+de grandes azas abertas. E dos campos vinha esse cheiro sadio a ervas verdes e
+viçosas, que faz a delicia dos pulmões. A estrada é excellente, se bem que nem
+sempre plana. Obidos fica muito elevada, dentro das ruinas do seu famoso
+castello: a estrada sóbe colleando como uma serpente.<a class="pn"
+name="pag_45">{45}</a> </p>
+
+<p>Avistava-se já a muralha do castello, que era enorme, rota em muitos lanços,
+alguns dos quaes escancaravam para o azul da manhã a sua hyante goella de
+pedra.</p>
+
+<p>Horisontalmente, desenhavam-se, ao longe, os arcos do extenso aqueducto de
+Obidos, atravez dos quaes a luz passava como n'uma vista de scenographia.</p>
+
+<p>E em baixo, á beira da estrada que iamos seguindo, cada vez se avisinhava
+mais de nós a egreja do Senhor da Pedra, denunciando logo na sua construcção a
+mão dadivosa de D. João <small>V</small>.</p>
+
+<p>E o nosso apetite, espicaçado pela agua das Caldas, ia cantando gloria
+antecipada em honra do almoço de Padre Antonio.</p>
+
+<p>Não era assim, Carrilho?</p>
+
+<p>Entrámos a velha porta do castello, que conserva o seu feitio antigo.</p>
+
+<p>E logo o estrondo do trem attrahiu ás janellas dos predios, arrimados contra
+a muralha ou encravados n'ella, caras curiosas, petrificadas de surpreza,
+justificada surpresa n'aquella solidão montanhosa, que raros <i>touristes</i>
+visitam, áquella hora, especialmente.</p>
+
+<p>O nosso trem parou um pouco ao acaso. E nós dissemos ás caras das janellas e
+ás caras das portas que iamos alli sobrescriptados para o snr. Padre Antonio.<a
+class="pn" name="pag_46">{46}</a></p>
+
+<p>Então uma voz, cahindo do alto de uma janella, disse:</p>
+
+<p>&mdash;O snr. Padre Antonio foi caçar perdizes para os senhores almoçarem.</p>
+
+<p>A minha consciencia bradou mentalmente:</p>
+
+<p>&mdash;Maroto! O que elle nos tinha promettido era a vacca e riso de frei
+Bartholomeu dos Martyres; nunca as perdizes de Padre Antonio d'Almeida!</p>
+
+<p>E o meu apetite, que tem bom ouvido, replicou do lado:</p>
+
+<p>&mdash;Deixa lá! Não ha, para almoçar, como uma perdizinha fresca. O Padre sabe
+disto...</p>
+
+<p>Apeiámo-nos, e entramos na primeira egreja que se nos deparou aberta. Em
+Obidos ha, principalmente, egrejas e ruinas. Além d'isto, ha tambem bellas
+perdizes, que Padre Antonio caça. Mas isso fica para logo...</p>
+
+<p>Ora n'essa egreja havia muitos e grandes quadros.</p>
+
+<p>&mdash;Cá estão elles, dissemos nós, os quadros da Josepha!</p>
+
+<p>E eram. Estavamos, sem o saber, na egreja de Santa Maria Maior.</p>
+
+<p>Assumptos sacros, que foram os que mereceram a predilecção de Josepha
+d'Ayalla. As suas duas <i>maneiras</i>, antes e depois da viagem a Italia,
+estão<a class="pn" name="pag_47">{47}</a> bem accentuadas n'esses quadros. A
+segunda <i>maneira</i>,&mdash;depois da viagem,&mdash;accusa um sensivel progresso pela
+imitação dos pintores italianos da Renascença. Pelo menos, pareceu-nos isto.</p>
+
+<p>Josepha de Obidos tem decerto defeitos como artista. Mas as cabeças das
+figuras dos seus quadros estão, por via de regra, excellentemente tratadas. Era
+uma habil retratista, que sabia tocar as physionomias com grande verdade e
+expressão.</p>
+
+<p>Áquella hora, a luz não nos ajudava muito; a melhor hora, disse-nos depois
+Padre Antonio, seria o meio dia. Ainda assim, estudamos os quadros durante
+longo tempo.</p>
+
+<p>Uma mulher que estava rezando, levantou-se para dizer-nos:</p>
+
+<p>&mdash;Quem sabe explicar tudo isto é o snr. Padre Antonio, mas elle foi caçar
+perdizes para uns hospedes, que talvez sejam os senhores.</p>
+
+<p>Que sim, que eramos nós; e que as perdizes e Padre Antonio já iam
+tardando... todos.</p>
+
+<p>&mdash;E aquelle tumulo? De quem será aquelle bello tumulo, de tão primorosos
+ornatos, que alli está mettido na parede?</p>
+
+<p>A beata:</p>
+
+<p>&mdash;Que o snr. Padre Antonio, quando viesse com as perdizes, explicaria tudo
+cabalmente.<a class="pn" name="pag_48">{48}</a></p>
+
+<p>E então, n'um reccanto do templo, dentro de um caixãosinho de madeira,
+deposto sobre um banco, vi o cadaver de uma creança, os braços magrinhos
+encruzados, um lenço branco sobre o rosto, flores aos pés e no vestido.</p>
+
+<p>O cadaver do uma creança! Pois póde haver nada mais triste do que o
+espectaculo d'uma creança morta?! Que se morra cançado da vida, vá. Mas fazer
+palpitar tres corações, os dos paes e o do filho, para ferir todos tres de um
+só golpe, chegaria a ser cruel, se Deus não fosse infinitamente bom!...</p>
+
+<p>N'isto sentimos passos; voltámos-nos. Era Padre Antonio que chegava, em fato
+de caçador, com dois cães que o farejavam.</p>
+
+<p>&mdash;Que as perdizes já estavam a cosinhar-se, tenras e gordas. Era o melhor
+almoço que um caçador podia dar. Tinha promettido, confessava, a vacca e o riso
+do frei Bartholomeu dos Martyres. Da vacca tinha mandado fazer <i>beefs</i>. O
+riso trazia-o alli, nos labios, e era patriarchal de hospitalidade sincera,
+como no Oriente... Mas as perdizes quizera-as ir caçar n'aquella manhã o seu
+amigo caçador Antonio de Almeida, para mandal-as ao Padre, que esperava
+hospedes para o almoço. Elle não tinha culpa de que o seu amigo caçador, apesar
+de lhe estar dentro da propria pelle, se lembrasse de lhe fazer um presente
+de<a class="pn" name="pag_49">{49}</a> perdizes para o almoço e como Padre
+Antonio, que fôra quem as recebera, tinha gente de fóra para almoçar, pedia
+licença para mandal-as pôr na mesa com molho de <i>villão</i>. E que depois
+lambessem os beiços... Estava certo d'isso.</p>
+
+<p>Padre Antonio explicou tudo: os quadros, o tumulo, a historia d'aquella
+egreja, tudo.</p>
+
+<p>E a mulher:</p>
+
+<p>&mdash;Que ella bem nos tinha dito que não havia para explicar Obidos inteira
+como o snr. Padre Antonio!</p>
+
+<p>E Padre Antonio:</p>
+
+<p>&mdash;Que ficasse com Deus, que nós iamos ao castello.</p>
+
+<p>Fomos ao castello, subimos á torre de menagem.</p>
+
+<p>Padre Antonio explicava todas as ruinas, a lettra de todas as inscripções
+apagadas, a historia de todas as pedras cahidas.</p>
+
+<p>E, no alto da torre de menagem, estendendo o braço direito no ar:</p>
+
+<p>&mdash;Aquelle logar chama-se assim; aquelle monte chama-se assado. Acolá era a
+Quinta das Flores, para regalo das rainhas. Aqui, n'este mesmo sitio, esteve a
+Senhora D. Maria Pia de Saboya. Eu vinha da caça tambem com o meu fato de
+caçador, ainda a pensar nas perdizes. E chamaram-me cá de cima: era o Pindella.
+Que sua magestade queria fallar-me. Tudo menos<a class="pn"
+name="pag_50">{50}</a> isso: estou em fato do caçador. Que assim mesmo havia de
+ser. E foi... Olhe lá: Vê aquelle azul, além? É a lagôa. Você já foi á Foz do
+Arelho? Pois eu vou ámanhã para lá. Morro por aquillo; gosto de estar só na
+Foz. Faço-me pescador, e gosto! Nem já me lembro das Caldas. A Foz é melhor,
+por que eu na Foz sou selvagem: vivo na natureza. Ora, com a breca! as perdizes
+já devem estar promptas... Vamos lá almoçar... Ó Pimentel, tome cuidado; veja
+que não caia. A rainha subiu e desceu intrepidamente; não cahiu... Com molho de
+<i>villão</i> as perdizes não devem estar más.. Vão sendo horas. Até já os cães
+querem almoçar!...</p>
+
+<p>Padre Antonio vive na unica hospedaria que ha em Obidos, e foi ahi que nos
+offereceu, não o promettido almoço de frei Bartholomeu dos Martyres, mas um
+banquete de Lucullo.</p>
+
+<p>A cada prato que ia chegando, eu e Carrilho protestavamos. O medico da
+villa, que tambem estava á mesa, ria-se. Padre Antonio procurava atabafar os
+nossos protestos fallando insistentemente de coisas d'Obidos:</p>
+
+<p>&mdash;Na Misericordia, aonde logo havemos de ir, tambem ha quadros da Josepha...
+Que o Malhão, o grande prégador, era d'alli. Na familia Malhão havia, além do
+pregador, outro homem de letras.<a class="pn" name="pag_51">{51}</a></p>
+
+<p>E levantou-se, foi buscar um livro: <i>Vida e feitos de Francisco Manuel
+Gomes da Silveira Malhão, Lisboa, 1794</i>.</p>
+
+<p>Serviam-nos n'esse momento magnificos linguados fritos.</p>
+
+<p>&mdash;Se eu sabia a lenda romantica da capellinha da Porta de Nossa Senhora da
+Graça? Historia de uns amores infelizes.</p>
+
+<p>Serviam-nos vitella de fricassé.</p>
+
+<p>&mdash;Que no dia seguinte tinha que prégar nas Caldas...</p>
+
+<p>E o medico:</p>
+
+<p>&mdash;Você tambem vae cantar ámanhã á <i>mátinée</i> promovida pela marqueza de
+Monfalim?</p>
+
+<p>&mdash;É verdade, tambem vou cantar. Mas de tarde metto-me na Foz, no seio da
+natureza, como um selvagem primitivo...</p>
+
+<p>Chegámos ás duas horas da tarde ás Caldas.</p>
+
+<p>&mdash;Porque se demoraram tanto? O que estiveram os snrs. a fazer tanto tempo em
+Obidos?!<a class="pn" name="pag_52">{52}</a></p>
+
+<p><a class="pn" name="pag_53">{53}</a></p>
+
+<h1>CHRONICAS DE VIAGEM</h1>
+
+<h2>VI</h2>
+
+<h3>Uma festa de charidade</h3>
+
+<p>Organisara-se nas Caldas da Rainha uma festa de charidade, no Salão da
+Convalescença, em beneficio da Associação Promotora do Ensino dos Cegos.</p>
+
+<p>Luiz Gama, este endiabrado rapaz que toda Lisboa conhece e estima, rapaz que
+parece um velho quando joga o <i>whist</i>, posto andasse muito azoinado com os
+<i>callixtos</i> que lhe rodeiavam a mesa do jogo, fosse em plena Alameda, nas
+horas de calma, ou sob o Ceu de Vidro, nos intervallos da valsa, que elle raras
+vezes perdia, não poude resistir ao convite que lhe fizeram algumas senhoras
+para tomar parte na <i>matinée</i>.</p>
+
+<p>Comprometteu-se, e comprometteu-me pedindo-me com instancia que lhe
+escrevesse uns versos, consentaneos<a class="pn" name="pag_54">{54}</a> ao seu
+genio alegre, para dizer no Salão da Convalescença. Eu não chegava então para
+os largos passeios que todas as semanas fazia com o meu amigo Carrilho. Luiz
+Gama insistia, porém, e não tive outro remedio senão procurar um assumpto entre
+um copo d'agua das Caldas e a partida d'um comboio.</p>
+
+<p>Não estava Luiz Gama sendo, segundo elle mesmo caramunhava, uma victima dos
+<i>callixtos</i>? Toda a gente o sabia. Pois bem. Lembrei-me de proporcionar á
+victima uma excellente occasião para vingar-se publicamente dos seus algozes, e
+mandei-lhe isto, que elle teve a paciencia de decorar e dizer:</p>
+
+<blockquote>
+       OS CALIXTOS <br>
+   <br>
+ Se os ha?! Que os ha, é de fé. <br>
+ Até suppõe muita gente <br>
+ Que Adão e Eva tiveram <br>
+ N'um joguinho que fizeram <br>
+ Por callixto uma serpente. <br>
+   <br>
+ Eva perdeu... quanto tinha. <br>
+ O proprio Adão foi no <i>prégo</i> <br>
+ Pôr a caixa do rapé! <br>
+ Só os não vê quem fôr cego... <br>
+ Se os ha?! Que os ha, é de fé.<a class="pn" name="pag_55">{55}</a> <br>
+   <br>
+ Ha-os de varios feitios. <br>
+ Um, gallinha nunca farta, <br>
+ Cobrindo co'a aza o filho, <br>
+ Vai vendo carta por carta <br>
+ Como a comer grãos de milho. <br>
+   <br>
+ Um outro a penca intromette <br>
+ Entre as cartas e o sujeito, <br>
+ Como se fosse um petiz <br>
+ Que a gente tivesse ao peito, <br>
+ Sendo a ama d'um nariz. <br>
+   <br>
+ Até se diz que um parceiro <br>
+ Do <i>mirone</i> a penca assuou <br>
+ No Ceu de Vidro, domingo, <br>
+ Porque em boa fé pensou <br>
+ Que era o seu que tinha pingo. <br>
+   <br>
+ Já encontrei um callixto <br>
+ Gordo, obeso, uma balêa, <br>
+ Que me poz o barrigaço <br>
+ &mdash;Façam vossencias ideia!&mdash; <br>
+ Em peso sobre este braço! <br>
+   <br>
+ O general é medonho! <br>
+ Não ha callixto peior <br>
+ Entre os maus que tenho visto. <br>
+ Vejam lá! é meu callixto <br>
+ Desde que elle era major!<a class="pn" name="pag_56">{56}</a> <br>
+   <br>
+ No Gremio um desconhecido <br>
+ Foi-se sentar a meu lado: <br>
+ Perdi a trena e o leme, <br>
+ Apanhei logo um xeleme <br>
+ E outro d'ahi a bocado. <br>
+ <br>
+ Perguntei-lhe: Em seu juizo <br>
+ Qual animal é maior? <br>
+ Hesitou. D'ahi a um instante <br>
+ Disse que era o elephante. <br>
+ &mdash;«Pois então faça favor <br>
+   <br>
+ «D'ouvir isto que lhe digo, <br>
+ (Repliquei, de mim já fóra, <br>
+ Ameaçador, fulminante) <br>
+ «Olhe, snr. elephante, <br>
+ «Não posso mais!... vá-se embora.» <br>
+   <br>
+ Em sendo calvo o callixto, <br>
+ Tremo logo só de vel-o. <br>
+ É tão callixto o diabo, <br>
+ Que até do proprio cabello <br>
+ Por callixtice deu cabo! <br>
+   <br>
+ Ha outros que têm madeixas <br>
+ Como cachos de banana, <br>
+ E que escorrem sobre a gente <br>
+ Algum óleo impertinente <br>
+ Ou agua circassiana.<a class="pn" name="pag_57">{57}</a> <br>
+   <br>
+ Tambem os ha femininos, <br>
+ Que põem o pé na cadeira, <br>
+ Mostrando a botina... Eu acho <br>
+ Que, sendo d'esta maneira, <br>
+ Só encallixtam por baixo... <br>
+   <br>
+ Mas a peior das callixtas... <br>
+ Não me lembra agora isto! <br>
+ A coisa... não vae ao fim! <br>
+ Pois se um senhor que é callixto <br>
+ Está d'além a olhar p'ra mim! </blockquote>
+
+<p>Cahiu em boa Luiz Gama! No dia seguinte os <i>callixtos</i> resolveram
+vingar-se d'elle por sua vez: apanhou uma grande sova ao <i>whist</i>.<a
+class="pn" name="pag_58">{58}</a></p>
+
+<p><a class="pn" name="pag_59">{59}</a></p>
+
+<h1>CHRONICAS DE VIAGEM</h1>
+
+<h2>VII</h2>
+
+<h3>Figueira da Foz</h3>
+
+<p>Desde S. Martinho do Porto até á Marinha Grande a linha ferrea da Figueira é
+a mesma que fazia antigamente o serviço especial entre a fabrica da Marinha
+Grande e o porto de S. Martinho.</p>
+
+<p>O pinhal abunda no trajecto d'esta linha, logo que se passa a estação de
+Vallado: o famoso pinhal de Leiria, filho querido d'el-rei D. Diniz.</p>
+
+<p>Em toda esta região, que vamos atravessando, houve outr'ora porém um senhor
+ainda mais poderoso do que D. Diniz: era o mar.</p>
+
+<p>Alfeizerão, que deixamos ha muito, terra dentro, fôra até ao seculo
+<small>XVI</small> um bello porto de mar, que podia abrigar mais de oitenta
+embarcações.</p>
+
+<p>D. Diniz, que tinha em Monte Real a sua habitação<a class="pn"
+name="pag_60">{60}</a> predilecta, quiz fazer na villa de Paredes um porto de
+mar. Sobre as ruinas de Paredes assenta a actual Pederneira.</p>
+
+<p>Fez-se effectivamente o porto, porque, como diz o proverbio, <i>El-rei Diniz
+fez quanto quiz</i>, mas grandes alluviões de areia foram obstruindo o porto.
+D. Diniz pretendeu pôr um obstaculo a essas enormes alluviões mandando semear o
+pinhal de Leiria e adoptando outras providencias conducentes ao mesmo fim.</p>
+
+<p>Uma d'essas providencias consistiu em ordenar aos foreiros da casa da
+Nazareth que lançassem, contra o mar, um certo numero de carradas de areia, que
+o vento fosse accumulando no largo da egreja e nas ruas do Sitio.</p>
+
+<p>Da povoação de Paredes, que devia ser importante, graças ao movimento do seu
+porto, existe apenas... a Pederneira.</p>
+
+<p>O mar espraiou-se pois por toda esta região, que vamos atravessando, até que
+as alluviões de areia lhe disputaram o dominio.</p>
+
+<p>E hoje a locomotiva assobia o hymno do progresso atravez do pinhal de D.
+Diniz, deixando ao largo o mar, que perdemos de vista para só tornar a
+enxergal-o nas proximidades da Figueira da Foz.</p>
+
+<p>A estação que se segue á da Marinha Grande é a de Leiria.<a class="pn"
+name="pag_61">{61}</a></p>
+
+<p>No alto do monte escarpado, o castello de Leiria, com a sua torre de menagem
+menos mal conservada, desenha-se no azul, immovel e sereno.</p>
+
+<p>Ha muitos annos que eu não tinha visto este vetusto castello, que me deixára
+uma impressão desagradavel quando então passei em Leiria caminho da Batalha.
+Nas ruas de Leiria o castello, esmagando-me com o peso dos seus muros e da sua
+torre, parecia seguir-me por toda a parte, como um fardo que me dobrava os
+hombros. Era asphyxiante, visto da cidade, aquelle castello. Mas, visto de
+longe, como agora, affigurou-se-me um dos mais bonitos castellos que sobrevivem
+ainda, gostei de vêl-o altivo na sua decadencia, magestoso ainda na sua
+inutilidade, esperando impassivel a hora em que a tempestade derrube os seus
+muros com um feixe de raios...</p>
+
+<p>Passado o apeadeiro dos Milagres, é Monte-Real, o sitio predilecto de D.
+Diniz, a primeira estação que se encontra.</p>
+
+<p>Apezar da ardencia d'esse dia, extremamente calmoso, apezar de ser
+oppressiva a temperatura, abafadiço o ar, passou pelo meu espirito um relampago
+de historia patria, vi de relance D. Diniz, trovador aventuroso, rei galante,
+envolvido nas suas proezas tunantescas de Leiria, frequentando de noite,
+enamorado de uma camponeza, a aldeia de Amor...<a class="pn"
+name="pag_62">{62}</a></p>
+
+<blockquote>
+ El-rei Diniz <br>
+ Fez quanto quiz, <br>
+ Até no amor... <br>
+ Graças ao sceptro, <br>
+ Graças ao plectro, <br>
+ Rei-trovador. </blockquote>
+
+<p>Depois, quiz-me parecer tolice de marca maior estar a remexer no rescaldo da
+historia amorosa de D. Diniz em dia de tão intensa calma, fechei de subito o
+livro da memoria, forcejei por lembrar-me de que eu tinha escolhido aquelle dia
+precisamente para não pensar em nada que me desse cuidado, e puz-me a olhar
+para a paizagem que ia apparecendo e fugindo como no fundo de um
+kaleidoscopo.</p>
+
+<p>A Amieira, que é o ponto de bifurcação do ramal de Alfarellos, possue, como
+se sabe, uma nascente de aguas medicinaes, que está sendo explorada com bons
+creditos.</p>
+
+<p>Ahi, encostadas á grade da estação, vimos as primeiras camponezas do valle
+do Mondego, com o seu trajo caracteristico,&mdash;bellos exemplares de opulencia
+plastica, e saudamos n'essas tres camponezas, sadias e robustas, a mulher do
+norte.</p>
+
+<p>E as tres camponezas, ouvindo ou não ouvindo as nossas saudações
+enthusiasticas, comiam maçãs, rilhando-as<a class="pn" name="pag_63">{63}</a>
+um pouco suinamente, ó prosa da realidade, terrivel prosa!</p>
+
+<p>Não se póde já ser um pouco artista, nem mesmo em viagem!</p>
+
+<p>O valle do Mondego principiou a desenrolar-se deante dos nossos olhos, com
+os seus esteiros, a sua linha recta coberta de verdura e scintillante de
+agua.</p>
+
+<p>Entre a Amieira e a Figueira medeiam apenas dois apeadeiros, o de Lares e o
+de Santo Aleixo: as primeiras casas da Figueira não tardaram a apparecer-nos
+como guarda avançada d'essa bonita cidade maritima, já então tão concorrida de
+banhistas.</p>
+
+<p>Na estação da Figueira entramos no <i>americano</i> porque o meu amigo
+Carrilho propoz, e eu approvei, que fossemos antes de jantar a Buarcos.</p>
+
+<p>O <i>americano</i> deslisa ao longo da praia. Deslisa é um modo de dizer,
+porque, justamente quando passavamos em frente do Bairro Novo, o
+<i>americano</i> emperrou pela primeira vez, saltou fóra das calhas, um muar
+cahiu estatelado. Quando isto aconteceu pela segunda vez, no meio das pragas de
+varios hespanhoes que enchiam o carro, o meu amigo Carrilho propoz que
+fizéssemos a pé o passeio de Buarcos.</p>
+
+<p>E assim mesmo é que foi: largamos a andar por alli fóra intrepidamente.</p>
+
+<p>Buarcos é uma especie de retiro de banhistas<a class="pn"
+name="pag_64">{64}</a> pacatos, que fogem do bulicio da Figueira. Bom ar, bom
+mar, mas pouca gente. Pacato de mais. Quasi ao mesmo tempo que chegavamos a
+Buarcos, tendo feito o caminho a pé, chegava o <i>americano</i>, com os muares
+escalavrados das successivas quedas que tinham dado.</p>
+
+<p>O conductor perguntou-nos se queriamos ir vêr a mina do Cabo Mondego ou se
+faziamos tenção de ir vêr a fabrica. Dissemos-lhe que faziamos apenas tenção de
+ir jantar á Figueira. Então o conductor disse-nos que, visto termos ido a pé,
+tendo pago os nossos logares, queria de algum modo indemnisar-nos, fazendo-nos
+transportar immediatamente á Figueira.</p>
+
+<p>Pasmamos d'aquillo, d'aquelle original <i>americano</i>, tão caprichoso no
+seu serviço irregular!</p>
+
+<p>O carro partiu, e foi-se enchendo pelo caminho. Só então reconhecemos que
+tinhamos feito um grande passeio a pé, quasi sem dar por isso.</p>
+
+<p>Anoitecia. O céu e o mar estavam serenos. Um vaporzinho rebocava um navio,
+porque a barra da Figueira, apesar dos melhoramentos que se lhe têm feito, é
+simplesmente detestavel. No alto, o Bairro Novo alvejava com as suas
+construcções recentes, elegantes, e, ao trote dos muares, entramos de novo na
+Figueira, parando era frente do <i>Hotel Universal</i>.</p>
+
+<p>Esperámos, á janella do hotel, que nos servissem<a class="pn"
+name="pag_65">{65}</a> o jantar, e pudemos surprehender d'ahi a physionomia um
+pouco hybrida mas pittoresca da Figueira: o mar batia contra a muralha, o navio
+entrava rebocado, uns pescadores passavam altercando, e dois homens de chapeu
+alto e sobrecasaca passeiavam, conversando. Bastava effectivamente isto para
+caracterisar a Figueira com todo o seu ar pretencioso de cidade e o seu aspecto
+de praia de banhos, sendo que os da terra andam de chapéu alto, no grave
+exercicio das suas funcções judiciaes, administrativas, commerciaes, e os de
+fóra, os banhistas, em plena praia, exhibem fato de flanella branca e chapeu de
+côco.</p>
+
+<p>No <i>Hotel Universal</i> jantaram apenas comnosco á mesa mais dois
+hospedes, ambos brazileiros, que estiraram desde a sopa até ao café uma
+conversa merencoria como elles, que ambos estavam doentes.</p>
+
+<p>Um dos dois, o mais sorumbatico de ambos, fallou da morte,&mdash;assumpto
+divertidissimo! Disse-nos que todas as noites, a bordo do paquete, quando se
+fazia silencio, a idéa da morte, passando pelo seu espirito, o atormentava.</p>
+
+<p>Eu perguntei ao meu amigo Carrilho o que tinhamos nós com aquillo?</p>
+
+<p>Concordámos em que não tinhamos nada, absolutamente nada, com os pavores
+phantasticos do brazileiro.<a class="pn" name="pag_66">{66}</a> Levantámo-nos
+da mesa; vimos um predio illuminado, ouvimos musica.</p>
+
+<p>Perguntamos ao criado que predio era aquelle.</p>
+
+<p>&mdash;É o theatro do Principe D. Carlos, e ha hoje espectaculo.</p>
+
+<p>Muito bem. Iriamos dar um passeio pela cidade, e cahiriamos depois no
+theatro.</p>
+
+<p>Todo o aspecto commercial da cidade estava então em evidencia: as lojas
+illuminadas, bellas lojas, devendo citar-se uma ourivesaria, que fazia lembrar
+um estabelecimento do Chiado.</p>
+
+<p>Na Praça Nova a colonia balnear, composta principalmente de hespanhoes,
+espanejava-se garrulamente, e em torno da praça as lojas de negocio, havendo ás
+portas grupos de homens, uns a pé, outros sentados, denunciavam o movimento
+commercial da cidade.</p>
+
+<p>Na Praça Nova encontrámos o deputado Pereira dos Santos e o visconde de
+Miranda do Corvo, que tiveram a amabilidade do nos ir mostrar os magnificos
+clubs da Figueira e de nos acompanhar ao theatro.</p>
+
+<p>No theatro havia pouca gente. Um prestidigitador, cujo nome me esqueceu,
+fazia umas <i>sortes</i> sediças, com pouca limpeza. Mas o theatro fôra para
+nós um salvaterio, porque nos permittiu esperarmos ahi pela hora da partida do
+comboio, meia noite e vinte.<a class="pn" name="pag_67">{67}</a></p>
+
+<p>E, n'um dos intervallos, entre muitos episodios da chronica balnear da
+Figueira, ouvi contar um, que me divertiu hilariantemente, e que no capitulo
+seguinte tentarei reproduzir.</p>
+
+<p>Á meia noite, quando sahimos do theatro, havia ainda luz nos clubs e nos
+cafés. As janellas das roletas e das batotas brilhavam com o clarão interior
+dos candieiros de petroleo, porque a cidade da Figueira só agora vae ser
+illuminada a gaz.</p>
+
+<p>Despedindo-nos dos nossos amigos visconde de Miranda do Corvo e Pereira dos
+Santos, dirigimo-nos para a estação do caminho de ferro, atravez de uma
+escuridade profunda, sem saber onde punhamos os pés, tropeçando a cada
+passo.</p>
+
+<p>Que reles economia a da Companhia, que fazendo um comboio depois da meia
+noite, não manda illuminar o caminho da estação!</p>
+
+<p>Ás tres horas e 46 minutos da manhã chegavamos ás Caldas da Rainha, frescos,
+apesar da caminhada a Buarcos, da estopada funebre do brazileiro, de duas horas
+de prestidigitação no theatro do Principe D. Carlos e dos trambolhões que démos
+em caminho da estação,&mdash;sem vermos um palmo adeante do nariz.<a class="pn"
+name="pag_68">{68}</a></p>
+
+<p><a class="pn" name="pag_69">{69}</a></p>
+
+<h1>CHRONICAS DE VIAGEM</h1>
+
+<h2>VIII</h2>
+
+<h3>Uma victima da dança</h3>
+
+<p>Durante oito annos consecutivos, a D. Serafina Barros, da Mealhada, foi com
+o marido tomar banhos do mar em Espinho.</p>
+
+<p>Aquillo era já sabido: no dia 15 de agosto partiam; a 15 de outubro
+recolhiam á Mealhada.</p>
+
+<p>D. Serafina pensava durante o resto do anno n'esse gaudio balnear,
+esperava-o com uma certa anciedade, porque a Mealhada era, a respeito de
+<i>salsifrés</i>, uma terra morta, e D. Serafina tinha pela dança uma paixão
+feroz.</p>
+
+<p>Agora, que já orçava pelos quarenta e dois annos, era preciso que D.
+Serafina fosse procurar a dança aonde quer que a houvesse, visto que
+espontaneamente<a class="pn" name="pag_70">{70}</a> a dança já não vinha
+procural-a a ella. E, para encontrar parceiro na assembléa de Espinho,
+tornava-se ainda assim indispensavel uzar de uma tal ou qual diplomacia, fazer
+com que o Barros dissesse aos sujeitos, por elle apresentados á mulher, que
+ella gostava muito de dançar, forçando ás vezes a situação a ponto de dizer:
+«Como prova do agrado com que recebeste a apresentação d'este cavalheiro, deves
+dançar a primeira quadrilha com sua ex.ª»</p>
+
+<p>O cavalheiro, fulminado por esta perfidia amavel, inclinava a cabeça ao
+sacrificio, offerecia o braço a D. Serafina, e ia dançar com ella.</p>
+
+<p>O Barros ficava contentissimo com o bom resultado da sua diplomacia, porque
+não podia aturar a mulher quando ella não conseguia dançar.</p>
+
+<p>Se o cavalheiro respondia que <i>já estava compromettido</i>, como então se
+dizia, para as tres primeiras quadrilhas, se nenhum pequeno de treze annos
+havia convidado D. Serafina para dançar, o Barros, tendo lido um jornal ou dado
+uma volta pela sala da roleta, vinha espreitar da porta a mulher dizendo com os
+seus botões:</p>
+
+<p>&mdash;Está como uma <i>bicha</i>!</p>
+
+<p>E estava. Em casa elle o pagaria ouvindo-a sarrasinar n'uma cegarrega de
+lamurias, accusando-o de não ter a consideração social de que dispunha o
+Lemos<a class="pn" name="pag_71">{71}</a> de Formoselha e o Barradas de
+Esmoriz, cujas mulheres, não sendo mais novas nem mais bonitas do que ella,
+estavam sempre no meio da casa.</p>
+
+<p>O Barros desculpava-se: que o Lemos era um trunfo politico, por ter em
+Lisboa um genro que fôra ministro tres vezes, e que se lhe dançavam com a
+mulher era para fazer a bôca doce a elle e a ella, por causa do genro; quanto á
+mulher do Barradas, «bem sabes tu, Fininha, o motivo porque ella dança
+sempre... á custa da reputação do marido.»</p>
+
+<p>D. Serafina não se dava por convencida. Influencia politica tambem o Barros
+tinha na Mealhada: que se lembrasse elle das cartas que o bispo de Vizeu lhe
+escrevia sempre que havia eleições, tratando-o mano a mano quando lhe pedia
+votos: meu Barros lá, meu Barros cá. Fosse o Barros mais esperto e soubesse
+explorar em proveito da mulher a sua importancia politica. Mas era um asno. O
+snr. D. Antonio ia todos os annos tomar banhos para Espinho; sempre que o
+Barros chegava, o snr. D. Antonio ia-o visitar de varapau na mão. Ora
+dissesse-lhe o Barros que só lhe tornaria a dar os votos se lhe arranjasse par
+para a mulher dançar na assembléa, e o snr. D. Antonio faria com que todo o
+partido reformista, que estivesse em Espinho, fosse dançar com ella.</p>
+
+<p>&mdash;Ó mulher! replicava o Barros. Isso póde lá<a class="pn"
+name="pag_72">{72}</a> fazer-se! Isso é lá coisa que se faça! Tu não sabes o
+que estás a dizer!</p>
+
+<p>&mdash;Sei muito bem o que digo; sempre soube. Isto de eleições é um negocio para
+aquelles que não são tolos como tu. Tanto faz pedir uma commenda como uma
+quadrilha. Acaso será maior vergonha pedir para arranjar um par do que um
+emprego? Só elle, um pedaço d'asno, dava os seus votos de graça! Nem
+commendador era ainda!</p>
+
+<p>O Barros procurava acalmal-a:</p>
+
+<p>&mdash;Que o snr. D. Antonio não era homem a quem se pedissem commendas. Ria-se
+d'isso.</p>
+
+<p>Mas Serafina não se calava nunca por falta de argumentos:</p>
+
+<p>&mdash;Ah! o snr. D. Antonio ria-se d'isso! mas elle proprio quizera ser bispo,
+que era uma especie de commendador da egreja ou mais ainda!</p>
+
+<p>N'estas discussões domesticas sobre a eterna questão da dança, era sempre
+Serafina que ficava victoriosa. O Barros reconhecia n'ella superioridade de
+raciocinio, força de logica. Cada pessoa, pensava elle, tem pelo menos um
+defeito. Ora as mulheres, quando são espertas, ainda que tenham o seu defeito,
+sabem sempre desculpal-o. O homem tem a força do pulso; a mulher tem a força do
+argumento. O homem póde bater na mulher, mas acaba por ser batido por
+ella,&mdash;logicamente.<a class="pn" name="pag_73">{73}</a> E o defeito da Fininha,
+o seu gosto pela dança, não era d'aquelles defeitos que compromettem a honra
+dos maridos. A mulher do Barradas d'Esmoriz, essa sim, servia-se da dança para
+chegar a certos fins illegitimos. Mas a Fininha gostava da dança pela
+dança,&mdash;sem segundas vistas.</p>
+
+<p>E a Fininha, a respeito da mulher do Barradas, dizia-lhe muitas vezes:</p>
+
+<p>&mdash;O que eu vejo é que as que se portam peior não ficam nunca sentadas!</p>
+
+<p>&mdash;Por isso mesmo... respondia o Barros.</p>
+
+<p>&mdash;Por isso mesmo!? Então na sociedade todas as distincções devem ser para
+quem menos as merece!? Que premio destinam então os homens ás mulheres
+honestas?!</p>
+
+<p>O Barros embuchava.</p>
+
+<p>&mdash;Lá está o raio da logica!... pensava elle.</p>
+
+<p>&mdash;Sim, que visse, que reparasse, continuava Serafina. Ao passo que ella
+passava noites inteiras sem dançar, tendo a consciencia de ser uma esposa
+virtuosa, a Barradas andava sempre n'uma roda viva, e a filha do Saraiva de
+Mogofores, que fugira com um quintanista de direito para o Bussaco, e estivera
+lá dois dias com elle, não chegava para as encommendas na assembléa de Espinho.
+Elle Barros bem sabia que a sua Fina, quando casou, tanto podia ir para o<a
+class="pn" name="pag_74">{74}</a> ceu como para o leito conjugal, porque não se
+podia ser mais donzella; e depois que casou, nunca ninguem se atrevera com
+ella, nem mesmo o escrivão de fazenda, que era baboso por mulheres.</p>
+
+<p>E isto era exacto. A honradez de Serafina tinha duas muralhas que a
+defendiam: a virtude e a fealdade. Trigueira, ossuda, com as sobrancelhas
+espêssas e um buço de adolescente, fazia lembrar uma cigana. Como as ciganas,
+gostava das côres vivas, <i>tapageuses</i>. Dançando, saracoteava os quadris,
+rebolia-se, peneirando sobre o pavimento uns passinhos curtos, miudos e
+travados. As outras riam-se d'aquella quarentona amulatada, toda perliquiteta,
+que na dança tirava a vez ás meninas solteiras. O proprio Barros algumas vezes
+ouvia estes remoques, e em casa, timidamente, com um grande medo da Serafina e
+da logica, dizia-lh'o.</p>
+
+<p>Ella replicava:</p>
+
+<p>&mdash;Deixa-as rir: é inveja. Muitas vezes me disse o papá que eu, se não fosse
+tão alta, era tal e qual a snr.ª D. Carlota Joaquina.</p>
+
+<p>&mdash;Salvo seja!... acudia o Barros.</p>
+
+<p>&mdash;Nas feições, homem de Deus. E no meio da casa não me troco por nenhuma
+d'essas lambisgoias de vinte annos, que não foram ainda capazes de aprender as
+marcas dos <i>Lanceiros</i>!</p>
+
+<p>Mas um anno, em Espinho, fez-se uma terrivel<a class="pn"
+name="pag_75">{75}</a> conspiração contra D. Serafina: meninas e meninos de
+vinte annos combinaram entre si empregar esforços para que a cigana da Mealhada
+não tornasse a dançar; um rapaz do Porto, a quem ella disse uma vez&mdash;<i>Sempre
+mostra que é tripeiro!</i>&mdash;foi o chefe da conspiração.</p>
+
+<p>A coisa chegou a ponto de que n'uma noite de menor concorrencia, n'uma
+quadrilha franceza, dançaram com <i>perna de pau</i>, indo o par marcante fazer
+<i>coté</i>, tendo Serafina ficado sentada e estando disponivel um caloiro de
+Coimbra.</p>
+
+<p>Serafina jurou aos seus deuses não voltar mais a Espinho; e no anno seguinte
+o Barros levou-a á Figueira da Foz.</p>
+
+<p>Mas na Figueira havia grande numero de hespanholas e de portuguezas novas,
+que dançavam sempre. Serafina estava fula, e um dia fez com que o marido se
+entendesse com um dos directores do Club, o Peres, de Leiria.</p>
+
+<p>&mdash;V. ex.ª, disse-lhe o Barros, na sua qualidade do director deve zelar
+igualmente os direitos de todos os socios. Ora a verdade é que minha mulher,
+que gosta de dançar, não tem dançado nunca, ao passo que outras senhoras, que
+pagaram quota igual, andam n'um sarilho continuo. Peço, em nome da justiça,
+providencias a v. ex.ª<a class="pn" name="pag_76">{76}</a></p>
+
+<p>O Peres era reformista, sabia que o Barros pesava na eleição da Mealhada;
+não o quiz desgostar.</p>
+
+<p>&mdash;Que sim. Que elle não dançava, mas que havia de fallar aos rapazes, e de
+os apresentar á snr.ª D. Serafina.</p>
+
+<p>Mas o Peres nada poude conseguir dos rapazes: que não, que lá esse
+sacrificio não faziam elles. Que a D. Serafina era um monstro indançavel.</p>
+
+<p>Muito entalado, o Peres já estava resolvido a perpetrar rheumaticamente uma
+quadrilha, quando passou na Figueira um destacamento, cujo capitão fôra antigo
+condiscipulo do Peres.</p>
+
+<p>O capitão Lamprêa, de botas empoeiradas e barretina no braço, disse ao Peres
+que ia <i>reinar</i> um bocado, porque tinha bebido bem ao jantar; que o
+apresentasse a uma dama.</p>
+
+<p>O Peres teve um pensamento machiavelico: impingir-lhe D. Serafina.</p>
+
+<p>Estava-se já organisando uma quadrilha. De pé, alguns pares esperavam. Um
+amador de <i>salsifrés</i>, Justino Soares, por vocação, andarilhava,
+combinando <i>vis-á-vis</i>. O Peres, poisando o braço direito sobre os hombros
+do capitão Lamprêa, avançou na sala, e aproximando-se de Serafina solicitou
+para o seu velho amigo e condiscipulo a honra de uma quadrilha.</p>
+
+<p>O capitão Lamprêa recuou instinctivamente. Mas<a class="pn"
+name="pag_77">{77}</a> o Peres, ao ouvido, dizia-lhe com um sorriso de
+malicia.</p>
+
+<p>&mdash;O que?! Um militar portuguez não recua nunca!</p>
+
+<p>Serafina acceitára com muito gosto: que sim, que tinha muita honra.</p>
+
+<p>O Peres disse ao capitão Lamprêa que lhe ia arranjar <i>vis-á-vis</i>.</p>
+
+<p>Mas n'isto ouviu-se tocar uma corneta, e o capitão Lamprêa, voltando-se
+rapidamente para D. Serafina:</p>
+
+<p>&mdash;Ora esta! exclamou. Chama-me o dever. Já não tenho tempo de dançar! Que
+contrariedade! Mas á volta, minha senhora, terei a honra e o prazer de dançar
+com v. ex.ª</p>
+
+<p>Fôra providencial aquella corneta tocando a recolher.</p>
+
+<p>E D. Serafina, durante quinze dias, perguntava com um sorriso de
+agradecimento ao Peres de Leiria:</p>
+
+<p>&mdash;Quando volta o seu amigo capitão?<a class="pn" name="pag_78">{78}</a></p>
+
+<p><a class="pn" name="pag_79">{79}</a></p>
+
+<h1>CHRONICAS DE VIAGEM</h1>
+
+<h2>IX</h2>
+
+<h3>Na Ericeira</h3>
+
+<p>N'esta bella Ericeira, á beira mar plantada, faltam principalmente duas
+cousas... além de outras muitas: não ha flores nem passeios.</p>
+
+<p>Um namorado, se tem imaginação botanica, não encontrará facilmente, para
+offerecer á sua dama, nada melhor do que uma <i>perninha de manjarico</i>, como
+dizem os saloios.</p>
+
+<p>Quanto aos passeios, são pouquissimos: a estrada de Cintra, incompleta; a de
+Mafra que, á sahida da Ericeira, é muito ingreme. Restam S. Sebastião e as
+Furnas, que são o pão nosso de cada dia, pela simples razão de não haver por
+onde variar.</p>
+
+<p>Acontece que, sendo poucos os passeios, toda a gente se encontra marchando
+sobre o mesmo terreno,&mdash;como se estivesse fazendo sentinella.</p>
+
+<p>Por isso, a cada momento esbarramos com os<a class="pn"
+name="pag_80">{80}</a> mesmos adultos e com as mesmas creanças, sempre muitas
+creanças,&mdash;principalmente este anno.</p>
+
+<p>Tenho, é certo, uma natural affeição pelas creanças, mas não posso deixar de
+dizer que ellas chegam ás vezes, quando são tão numerosas como aqui, a
+embaraçar a marcha governativa das praias.</p>
+
+<p>As creanças são sempre opposição, sophysmam e conspiram.</p>
+
+<p>Havia outr'ora uma arma para vencel-as: a dictadura paterna. Mas as
+dictaduras são sempre violentas, ainda mesmo quando exercidas paternalmente. De
+modo que, graças á brandura dos nossos costumes, como se diz em S. Bento, se as
+creanças de agora teimam, o governo cede sem querer sahir da constituição, e a
+opposição triumpha sem que a Carta seja desacatada... mais uma vez.</p>
+
+<p>Ora a civilisação tem evolucionado profundamente a maneira de pensar das
+creanças.</p>
+
+<p>Quasi se póde affirmar que já não ha creanças, pois que essas pequeninas
+creaturas, que eu por ahi vejo a toda a hora em tão grande numero, são antes
+espiritos adultos que povôam os corpos de verdadeiros cidadãos de Lilliput.</p>
+
+<p>Na minha infancia, havia ainda creanças, moralmente fallando, e eu tambem o
+fui.</p>
+
+<p>Até aos doze annos, divertia-se a gente em casa<a class="pn"
+name="pag_81">{81}</a> fazendo theatros e egrejas. Eu fui actor e sachristão em
+minha casa; ou antes, eu só, no <i>meu theatro</i>, valia por uma companhia
+inteira, desde o emprezario até ao contra-regra, e, na <i>minha egreja</i>,
+cheguei ás vezes a ser uma collegiada inteira, incluindo o Dom Prior.</p>
+
+<p>Muitas pessoas da familia imaginaram que eu teria vocação ecclesiastica, tal
+era o meu enthusiasmo pelos officios divinos e pela vida de sachristia.</p>
+
+<p>Completa illusão!</p>
+
+<p>Aquillo não era de mim; era do tempo. Todas as creanças foram então
+assim.</p>
+
+<p>Quando uma vez por outra nos era concedido ir passar o serão n'uma casa
+amiga, o que nós faziamos, as creanças d'esse tempo, era entretermo-nos em
+adivinhações e joguinhos de prendas, a um canto do salão ou em qualquer outra
+sala onde os adultos não estavam.</p>
+
+<p>As pessoas crescidas, como nós lhes chamavamos, dançavam, jogavam o
+<i>whist</i>, o voltarete ou conversavam simplesmente.</p>
+
+<p>Os homens fallavam de politica: fallava-se muito n'aquelle tempo do marechal
+Saldanha, o heroe da Regeneração; principiava a fallar-se de Fontes Pereira de
+Mello, o ministro novo,&mdash;o ministro janota.</p>
+
+<p>As senhoras fallavam de criadas e modas, como agora, como sempre.<a
+class="pn" name="pag_82">{82}</a></p>
+
+<p>Não foram os adultos que mudaram moralmente, porque o thema de suas
+conversações continua a ser o mesmo,&mdash;para os homens a politica, para as
+senhoras as modas e as criadas: quem mudou foram as creanças.</p>
+
+<p>Lembro-me muito bem de algumas adivinhações que então nos entretinham, pela
+maior parte difficilimas,&mdash;exemplo:</p>
+
+<blockquote>
+ Serra na cabeça, <br>
+ Foucinha no rabo. <br>
+ Adivinha, tolo, <br>
+ Que é gallo. </blockquote>
+
+<p>E esta, egualmente difficil:</p>
+
+<blockquote>
+ Uma velhinha, <br>
+ Muito encorrilhadinha, <br>
+ Encostadinha <br>
+ A uma tranquilha. <br>
+ Passa, asno, <br>
+ Passa é. <br>
+ Adivinha o que isto é. </blockquote>
+
+<p>E ainda outras mais, todas do mesmo theor.</p>
+
+<p>Que grande surriada quando qualquer de nós, pesar as palavras da
+adivinhação, mas attendendo<a class="pn" name="pag_83">{83}</a> apenas ao seu
+conjuncto, bem merecia os epithetos de <i>tolo</i> e <i>asno</i>, não atinando
+com o conceito do enygma!</p>
+
+<p>Então, os paes e as mães, interrompendo a sua conversação, recommendavam
+menos barulho.</p>
+
+<p>E os pequenos obedeciam, porque, n'aquelle tempo, não eram ainda opposição,
+como agora.</p>
+
+<p>Apesar da revolução ter derrubado os Cabraes, o regimen paterno pautava-se
+ainda pela tradição cabralina, que era por sua vez uma revivescencia do regimen
+miguelista: o pau decidia todas as questões em ultima instancia; era a suprema
+razão.</p>
+
+<p>Perante o pau, o pau que era palmatoria ou bengala, o que para o effeito
+valia o mesmo, as creanças cediam, os paes triumphavam.</p>
+
+<p>Os pequenos de hoje em dia já se não divertem do mesmo modo, mas, em
+desproporção com a sua altura, divertem-se um pouco... á grande.</p>
+
+<p>São os adultos que lhes fornecem pretexto para divertir-se; mas são as
+creanças que realmente se divertem.</p>
+
+<p>Lembra-me a este respeito uma anecdota authentica.</p>
+
+<p>Na Ericeira ha dois cemiterios: um que está cheio, e por isso condemnado; o
+outro, de construcção recente.</p>
+
+<p>Como seja preciso pagar a despeza feita com o<a class="pn"
+name="pag_84">{84}</a> novo cemiterio, a contribuição parochial augmentou este
+anno.</p>
+
+<p>Ha dias, uma mulher, indo pagar a sua contribuição, queixou-se, achou que
+era muito pesada.</p>
+
+<p>Explicaram-lhe o caso: que era preciso pagar a construcção do cemiterio.</p>
+
+<p>E vae ella respondeu;</p>
+
+<p>&mdash;Uns são que pagam, e os outros que gosam.</p>
+
+<p>Authentico, repito.</p>
+
+<p>Póde applicar-se esta anecdota ás creanças da colonia balnear da
+Ericeira.</p>
+
+<p>Quem paga para se divertir são os adultos; mas são realmente as creanças que
+se divertem.</p>
+
+<p>No Club, os primeiros a tirar par e a collocarem-se no meio da casa, são os
+pequenos.</p>
+
+<p>Mas como os pequenos sejam muitos, a direcção do Club viu-se forçada a
+recorrer a uma medida severa, e mandou affixar na porta do salão o seguinte
+aviso:</p>
+
+<p>«As creanças que concorrerem ás <i>soirées</i> do Club apenas poderão dançar
+na sala de entrada, a fim de não prejudicarem a boa ordem das danças no
+salão».</p>
+
+<p>Os pequenos leram o aviso, e não gostaram. Houve amuos, piadas, protestos. A
+direcção, severa como Catão o Censor, manteve a sua resolução. Tudo foi pelo
+melhor durante duas ou tres noites, mas as<a class="pn" name="pag_85">{85}</a>
+creanças lá tinham a sua fisgada,&mdash;sem que se soubesse o que, na sua qualidade
+de opposição, haviam resolvido.</p>
+
+<p>Aconteceu que um valsista foi escolher para parceira de valsa uma menina de
+treze ou quatorze annos.</p>
+
+<p>Os pequenos, reunidos em grupo, cochicharam entre si.</p>
+
+<p>Conspiravam; não havia duvida. Mas qual seria o seu plano? Mysterio!</p>
+
+<p>Pouco depois toca-se uma quadrilha, e os chefes da opposição conseguem que
+algumas senhoras vão dançar com elles.</p>
+
+<p>Então os supracitados chefes argumentam do seguinte modo, revolucionaria e
+logicamente:</p>
+
+<p>&mdash;Se um socio do Club póde dançar com uma pequena, uma socia do mesmo Club
+póde dançar com um pequeno. O direito e a quota são eguaes perante os sexos.</p>
+
+<p>A quadrilha dançou-se, os pequenos dançaram, e a revolta triumphou.</p>
+
+<p>Foi uma especie de <i>janeirinha</i>, de revolução pacifica, feita sem
+sangue, apenas com as portas fechadas.</p>
+
+<p>Os directores de sala pensaram gravemente na sua embaraçosa situação.<a
+class="pn" name="pag_86">{86}</a></p>
+
+<p>Entregar o poder? Mas, segundo a logica das indicações constitucionaes,
+deveriam entregal-o aos vencedores. Teriamos pois um ministerio, quero dizer
+uma direcção de creanças.</p>
+
+<p>Fugir á vergonha que os cobria? Mas os directores precisavam tomar banhos de
+mar, e não tinham ainda a sua conta.</p>
+
+<p>Ficar, permanecer? Sim... talvez. Houve quem lembrasse que governar era
+transigir.</p>
+
+<p>Para ganhar tempo, transigiu-se.</p>
+
+<p>Um dos directores tomou para si o papel de duque de Avilla:</p>
+
+<p>&mdash;Fiquemos, e conversaremos depois.</p>
+
+<p>Entretanto, a revolta victoriosa campeava em pleno salão. Passavam
+rapidamente, nas voltas da valsa, por deante dos dois arcos da porta, meninas
+de dez annos bailando com meninos de doze. E os pares adultos passaram a ser
+n'essa noite verdadeiros pares de <i>galão branco</i>, tendo apenas as honras
+de valsistas, porque na realidade não pudéram dançar.</p>
+
+<p>O boato da victoria dos pequenos correu rapidamente por todas as casas.</p>
+
+<p>Creanças de dois annos fizeram perrice, choramigaram, gritaram que as
+levassem ao Club,&mdash;para valsar.</p>
+
+<p>&mdash;Pelo amor de Deus! supplicavam os directores.<a class="pn"
+name="pag_87">{87}</a> Que não venham mais creançcas! Isto é uma inundação de
+pequenos!</p>
+
+<p>A sala da entrada do Club, que havia sido destinada ás creanças, estava
+deserta. E os revoltosos, embriagados com a victoria, continuavam a valsar no
+salão.</p>
+
+<p>A direcção, como todos os vencidos, azoinava. Queria dar uma satisfação
+publica á sociedade, e a si mesma. Exercer represalias para com as creanças
+seria uma cobardia revoltante. Em todo caso, á sombra dos pequenos, já os
+grandes começavam a rir-se.</p>
+
+<p>Era preciso uma idéa salvadora, uma sahida qualquer.</p>
+
+<p>O pianista, sempre por ordem dos pequenos, principiava a tocar uma
+quadrilha. Então, por uma d'estas lembranças que passam rapidamente pelo
+espirito, illuminando como os meteoros, resolveu-se organisar uma quadrilha só
+composta dos paes, que foram dançar na sala de entrada, ao mesmo tempo que os
+filhos dançavam no salão, que era destinado aos paes. Esta inversão do papeis
+produziu geral hilaridade; salvara-se a situação com um epigramma, que é o
+unico desforço possivel nas situações perdidas...</p>
+
+<p>Mas os heroesinhos vencedores tomaram gosto a essa especie de junta
+revolucionaria que haviam constituido e, não contentes com a posse do salão,
+principiaram<a class="pn" name="pag_88">{88}</a> a inventar divertimentos por
+sua conta e risco.</p>
+
+<p>Imaginaram uma toirada... platonica, isto é, uma toirada sem toiros, mas em
+tudo o mais a caracter.</p>
+
+<p><i>Monteras</i>, jalecas, capas, bandarilhas, tudo segundo o rigor
+tauromachico.</p>
+
+<p>Mas, quanto aos toiros, esses, por intervenção de pessoas prudentes, foram
+substituidos por alguns garotos da beiramar, que se constituiram em curro para
+ir ganhar 100 réis por cabeça.</p>
+
+<p>Eu encontrei na Praça do Jogo da Bola, conversando um com o outro, um toiro
+e um toireiro.</p>
+
+<p>Andavam combinando as sortes a que um se prestaria e que o outro
+aproveitaria.</p>
+
+<p>&mdash;Mas olhe lá, menino&mdash;dizia o toiro&mdash;olhe que se me chegar á pelle, eu
+marro-lhe a valer.</p>
+
+<p>E o toireiro, fallando muito á mão, dizia ao toiro:</p>
+
+<p>&mdash;Não tenhas medo, que eu só te ponho os ferros no fato.</p>
+
+<p>Como se vê, são as creanças que estão dando as cartas e as toiradas, este
+anno, na Ericeira.</p>
+
+<p>Decididamente, indubitavelmente: já não ha creança!<a class="pn"
+name="pag_89">{89}</a> </p>
+
+<h1>CHRONICAS DE VIAGEM</h1>
+
+<h2>X</h2>
+
+<h3>Um pic-nic</h3>
+
+<p>Ha oito dias, um grupo de familias, a banhos na Ericeira, realisou na Foz um
+<i>pic-nic</i>.</p>
+
+<p>Fallou-se muito da festa nos dias que medeiaram entre o projectal-a e o
+realisal-a. Pendo hoje a crêr que o que principalmente diverte em todas as
+festas é o antegostal-as. Fazer projectos... fóra de S. Bento, torna-se sempre
+agradavel. Só acho comparavel ao prazer de antegostal-as, o de recordal-as...
+annos depois.</p>
+
+<p>Como n'este mundo não haja felicidade sem o contrapeso de contrariedades,
+acontece que a melhor maneira da gente gosar consiste em imaginar o goso que
+vae ter e que ás vezes, na realidade das coisas, sáe muito inferior ao que se
+esperava. Ás vezes ou... sempre;&mdash;sempre é que é. Passados annos, se a gente<a
+class="pn" name="pag_90">{90}</a> se lembra de uma festa em que esteve, de uma
+hora de alegria que passou, dá apenas importancia ao que ella teve de bom, e já
+não deita conta ao que ella teve de menos agradavel.</p>
+
+<p>A saudade é uma feição predominante do meu espirito: por isso eu saboreio as
+minhas recordações com prazer muito mais doce do que aquelle que as realidades
+me déram...</p>
+
+<p>Um <i>pic-nic</i> é, certamente, uma festa muito convidativa... no
+programma, quando se trata de fazer a distribuição dos encargos que tocam a
+cada um: as aves a este, as fructas áquelle, os vinhos a aquell'outro.</p>
+
+<p>Entre pessoas que se estimam, e que vivem na melhor intimidade, todas essas
+combinações culinarias servem de pretexto para matar o tempo agradavelmente.</p>
+
+<p>A espectativa de um dia bem passado, em plena natureza, seja no campo ou á
+beira mar, é o ante-gosto de uma diversão nos nossos habitos de todos os dias,
+um córte excepcional, e como tal attrahente, no ramerrão da nossa vida
+ordinaria.</p>
+
+<p>&mdash;Nem sempre rainha nem sempre gallinha... dizia um rei portuguez.</p>
+
+<p>Pois bem! um <i>pic-nic</i> é uma variante á gallinha do nosso espirito, é
+uma especie de sardinha salgada que nos vae saber muito bem... como
+distracção.<a class="pn" name="pag_91">{91}</a></p>
+
+<p>Surgem, na discussão do projecto, idéas extravagantes, caprichos exoticos:
+ha tal que não dispensa nunca os foguetes n'um <i>pic-nic</i> e que portanto
+faz questão ministerial dos foguetes...</p>
+
+<p>&mdash;Ó homem de Deus! mas se você não ha de comer os foguetes, porque é que os
+não dispensa?</p>
+
+<p>&mdash;É porque eu, em Lisboa, não janto nunca com foguetes e, como se trata de
+uma diversão aos nossos habitos, quero que até nos foguetes seja completa a
+diversão.</p>
+
+<p>&mdash;Muito bem. Haverá pois foguetes. Ó thesoureiro, escreva ahi, por baixo da
+verba das uvas, a verba dos foguetes. Ponha lá duas duzias.</p>
+
+<p>&mdash;Pouco! Pouquissimo! Duas duzias de foguetes não é coisa que se oiça bem.
+Você sabe que D. Pedro <small>I</small>, quando tinha insomnias, sahia a bailar
+pelas ruas com grande arruido? Pois eu pareço-me um pouco com elle... Quando
+espero divertir-me, desejo que todos fiquem sabendo que eu me estou divertindo
+á larga.</p>
+
+<p>&mdash;N'esse caso, thesoureiro, seis duzias de foguetes.</p>
+
+<p>Depois, um outro lembra que é preciso escrever a verba dos palitos, porque o
+palito como que prolonga a impressão de um bom jantar, e, como espera comer
+bem, quer prolongar esse prazer pelo maior tempo possivel.<a class="pn"
+name="pag_92">{92}</a></p>
+
+<p>&mdash;Pois sim! Thesoureiro, seis massos de palitos...</p>
+
+<p>Isto é alegre, divertido, desopilante.</p>
+
+<p>Chega porém o dia do <i>pic-nic</i> e as contrariedades levantam-se debaixo
+dos pés.</p>
+
+<p>Madame *** amanheceu com a sua enxaqueca,&mdash;a terrivel enxaqueca que a
+persegue desde o seu ultimo parto.</p>
+
+<p>O snr. Fulano espera a cada momento um telegramma importante de Lisboa e vae
+subresaltado.</p>
+
+<p>Finalmente, o menino Arthur, ao subir para o <i>char-à-bancs</i>, entalou um
+dedo, e a mãe quasi que perdeu os sentidos com a dôr do filho...</p>
+
+<p>Confessem francamente se isto não costuma ser assim? Ora aqui está porque eu
+disse ha pouco que todas as festas trazem o seu cortejo de contrariedades.</p>
+
+<p>D'esta vez, na Ericeira, todos os adultos se comprometteram a não ter
+enxaquecas nem telegrammas. E todas as creanças prestaram juramento solemne de
+não entalar os dedos na portinhola do <i>char-à-bancs</i>.</p>
+
+<p>Partimos alegremente, cerca de quarenta pessoas, para o <i>pic-nic</i>, para
+a Foz, que fica a pequena distancia da Ericeira, e que se chama assim porque
+alli entra no mar, depois de haver descripto varios torcicollos, a ribeira de
+Porto.</p>
+
+<p>O sitio todos nos o conheciamos.</p>
+
+<p>Pittoresco, em verdade. O rio contorce-se dentro<a class="pn"
+name="pag_92">{92}</a> do areal e interna-se pela terra passando por entre
+margens onde a vinha parece sorrir verduras ao abrigo das fragas.</p>
+
+<p>Alli a dois passos, o mar, o mar franjado de espumas rebentando na areia.</p>
+
+<p>Sitio delicioso! De mais a mais, nada nos havia esquecido. Fôra n'um carro
+de bois o barco em que deviamos deitar as redes; foram as redes; foram os
+bellos pitéos que cada um se encarregou de levar. Não havia esquecido nada;
+n'uma palavra, nada!</p>
+
+<p>Mas, chegámos lá, e vimos que faltava uma coisa, que aliás a ninguem havia
+lembrado! E essa coisa era realmente indispensavel, imprescindivel. Essa coisa
+era... a sombra!</p>
+
+<p>Sim! Havia o barco, as redes, o jantar, boa disposição, mas faltava
+unicamente a sombra.</p>
+
+<p>Então, sobre a praia batida pelo sol, principiamos a procurar
+impacientemente, avidamente aquillo que nos faltava e de que todos se haviam
+esquecido: a sombra!</p>
+
+<p>Dispersámo-nos em grupos, em pequenas caravanas: procura d'aqui, procura
+d'alli; todos procuravam sombra.</p>
+
+<p>De repente ouviu-se um grito...</p>
+
+<p>O que foi?! Appareceu a sombra?</p>
+
+<p>Era o snr. Fulano que tinha escorregado de uma lage, e estava estatelado na
+areia.<a class="pn" name="pag_94">{94}</a></p>
+
+<p>Outro grito, d'ahi a nada...</p>
+
+<p>Agora sim! é a sombra?</p>
+
+<p>Qual sombra nem qual diabo?! Foi o menino Arnaldo que se deixou morder por
+uma vespa.</p>
+
+<p>O sujeito dos foguetes estava contrariadissimo.</p>
+
+<p>&mdash;Não ha foguetes completos n'este mundo! dizia elle. A gente, ao sol, nem
+póde vêr bem a direcção que um foguete toma no ar! Esta só a mim acontece!</p>
+
+<p>O dos palitos exclamava:</p>
+
+<p>&mdash;Com uma torreira d'estas nem dá gosto jantar,&mdash;quanto mais palitar os
+dentes! Acreditem os snrs. que para palitar os dentes é preciso estar sentado á
+sombra, serenamente, sem que as moscas nos persigam. Eu não tenho geito nenhum
+de palitar os dentes com um raio de sol...</p>
+
+<p>E os grupos dispersos continuavam procurando a sombra por toda a parte, no
+rio e na areia.</p>
+
+<p>Mas a sombra, com ser uma coisa tão vulgar, não apparecia!</p>
+
+<p>Um trocista affiançou que esperassemos pela noite para jantar, porque ao
+menos á noite haveria sombra.</p>
+
+<p>Esta idéa sorriu ao sujeito dos foguetes, porque é justamente á noite que os
+foguetes podem fazer melhor vista.</p>
+
+<p>Mas o dos palitos protestou, por que de noite não lhe seria facil verificar
+a qualidade dos palitos.<a class="pn" name="pag_95">{95}</a></p>
+
+<p>Finalmente, depois de muitos trabalhos, uma estreita faixa de sombra
+appareceu, projectada por um rochedo.</p>
+
+<p>&mdash;Isso não é sombra que chegue para todos, disseram alguns.</p>
+
+<p>Mas não havia melhor: resolvemos portanto anichar-nos dentro da unica sombra
+que a praia nos offerecia.</p>
+
+<p>E, sobre a sombra, as pernas encruzadas á oriental, o prato na areia,
+jantámos.</p>
+
+<p>Chegava o farnel para o dobro da gente, e assim, para evitarmos uma grande
+bagagem de retorno, resolvemos comer o que poderia ter chegado á farta para nós
+e... outros tantos.</p>
+
+<p>Emquanto jantavamos, uma machina photographica reproduziu o grupo
+pittoresco. D'este modo ficaremos por largos annos saboreando o nosso
+<i>pic-nic</i> da Foz, ainda muito mais agradavelmente do que no momento em que
+o fizemos, porque ao menos na photographia não nos falta sombra.</p>
+
+<p>Vejam se eu tenho ou não razão para gostar do passado!</p>
+
+<p>Depois do jantar dançou-se, ao som de uma caixa de musica, no areial.</p>
+
+<p>Se as caixas de musica servem para alguma coisa é para se dançar n'um
+<i>pic-nic</i>, porque, á volta, confundem-se<a class="pn"
+name="pag_96">{96}</a> com a outra bagagem, e ninguem se torna a lembrar mais
+d'ellas.</p>
+
+<p>E é preciso que seja assim, porque eu não conheço nada tão ridiculo como
+lembrar-se uma pessoa de que já se divertiu ao som de uma caixa de musica!</p>
+
+<p>Mas, no regresso, as carruagens e os cavallos esperavam em cima na estrada,
+e o areial era immenso.</p>
+
+<p>Lembramo-nos então que nos tinhamos esquecido dos burros!</p>
+
+<p>Como tudo n'este mundo tem compensações, houve quem dissesse que, a haver
+burros, os foguetes tel-os-hiam espantado.</p>
+
+<p>Que sim; que seria um incommodo para... os burros.</p>
+
+<p>E o sujeito dos foguetes, satisfeito por não ter que contrariar ninguem, nem
+mesmo os burros, pois que tinham esquecido, mandou para o ar o seu ultimo
+foguete.</p>
+
+<p>E o outro, o dos palitos, muito bem sentado no <i>char-à-bancs</i>,
+affirmava que palitar os dentes era o mesmo que tornar a comer... em sêcco.</p>
+
+<p>Mas, sobre tudo, quando este <i>pic-nic</i> ha de ser bom, é daqui a vinte
+annos... quando o recordarmos saudosamente.<a class="pn"
+name="pag_97">{97}</a></p>
+
+<h1>CHRONICAS DE VIAGEM</h1>
+
+<h2>XI</h2>
+
+<h3>Aventuras de um aeronauta portuguez</h3>
+
+<p>Está aqui a banhos, na Ericeira, um estimabilissimo rapaz, de fino trato
+social, excellente cavaqueador, sympathico, gentil e de mais a mais...
+lendario.</p>
+
+<p>Não ha duvida nenhuma: lendario!</p>
+
+<p>Na Europa, na Africa, na America tem uma lenda, a lenda de um homem que vôa,
+um filho do ar, que ás vezes, ao descer para a terra, como que recebe da terra
+mostras de justo resentimento pelo muito que parece desdenhal-a.</p>
+
+<p>Ainda ultimamente, em S. Luiz, nos Estados-Unidos, esteve, ao descer do ar,
+para ser victima de uma grande catastrophe, que o telegrapho noticiou, e que
+causou dolorosa impressão em toda Lisboa.<a class="pn"
+name="pag_98">{98}</a></p>
+
+<p>Refiro-me a Antonio Infante, aeronauta portuguez... unico!</p>
+
+<p>Foi em 1883 que elle fez em Lisboa, na explanada do antigo Colyseu, a sua
+primeira ascensão, com o Beudet, lembram-se?</p>
+
+<p>Toda a gente ficou admirada de que um rapaz bem nascido, que apenas conhecia
+a região do Chiado, se affoutasse a ir devassar os mysterios da região do
+éther, porque nós os portuguezes, como sempre nos tem acontecido em tudo,
+lançamos ao ar o primeiro balão, ensinamos os outros a serem aeronautas e nunca
+mais o quizemos ser.</p>
+
+<p>Parece que no ar, como na terra, tudo está em dar o primeiro passo...
+perdão, o primeiro vôo.</p>
+
+<p>Antonio Infante fez em Lisboa segunda ascensão, e depois, como o socio do
+Beudet se desligasse da empreza, Antonio Infante continuou a sociedade e foi-se
+para Hespanha com o antigo socio do Beudet.</p>
+
+<p>Em Madrid realisou uma ascensão tendo por companheiro um homem conhecido,
+Ducascal, actualmente deputado e, passando a Italia, subiu em Napoles com o
+director do Observatorio á altura do seis mil e quinhentos metros, por tal
+signal que o sabio do Observatorio, tendo lá em cima a vertigem do infinito,
+encolheu-se no fundo da barquinha, e mandou ao diabo a sciencia e as
+observações.<a class="pn" name="pag_99">{99}</a></p>
+
+<p>Eu faria o mesmo, se tivesse perpetrado uma tal aventura.</p>
+
+<p>Mas em Napoles esteve Antonio Infante para representar involuntariamente
+n'uma tragedia aerea, porque elle não conhece outras.</p>
+
+<p>Procurou-o um desconhecido e propoz-lhe que, a troco d'uma certa quantia, o
+levasse no balão. O aeronauta acceitou, e, no dia aprasado, estava já o balão
+quasi cheio de gaz, quando a policia appareceu e prendeu o desconhecido.</p>
+
+<p>Seria um salteador&mdash;os salteadores são tão vulgares em Napoles!&mdash;que
+recorresse a esse meio de escapula?</p>
+
+<p>Nada d'isso.</p>
+
+<p>Era apenas um suicida, que já por mais vezes havia attentado contra a
+existencia, e que d'aquella vez sonhára despenhar-se no infinito...</p>
+
+<p>Se a policia não acode tanto a tempo, Infante teria tido que luctar com o
+homem dentro da barquinha ou, se elle houvesse podido suicidar-se, teria que
+livrar-se da suspeita de um crime.</p>
+
+<p>Da Italia passou a Constantinopla, onde o governo do sultão lhe não
+consentiu que fizesse ascensão alguma. Todos os esforços que empregou, durante
+muito tempo, foram baldados. Não podendo elle proprio fazer um espectaculo,
+contentou-se com vêr em Constantinopla<a class="pn" name="pag_100">{100}</a> os
+espectaculos dos outros. Assistiu, no pateo do palacio imperial, a uma
+representação dada por arabes. O sultão estava na tribuna com seus filhos, e no
+andar superior, atravez dos crivos das janellas, os olhares das odaliscas
+espreitavam avidamente...</p>
+
+<p>Eu já disse que Antonio Infante é um rapaz elegante, bem posto...</p>
+
+<p>Passou ao Cairo, a Alexandria, e foi dar comsigo a Marrocos, onde o sultão o
+recebeu de boa sombra.</p>
+
+<p>Os marroquinos, incluindo o proprio sultão, viram n'elle um feiticeiro, um
+homem sobrenatural e, quando o encontravam na rua, diziam uns para os outros
+supersticiosamente:</p>
+
+<p>&mdash;<i>Ua!</i> (Elle!)</p>
+
+<p>Por muito tempo imaginaram que os mystificava, e que, mandando o balão para
+o ar, não ia dentro d'elle. Mas os mais crentes philosophavam:</p>
+
+<p>&mdash;Se o passaro voa, o homem, querendo Deus, póde voar.</p>
+
+<p>Chamavam-lhe <i>Serani kai-tir</i>, o <i>christão que vôa</i>, e ao balão,
+<i>Quesana kai-tir</i>, com quem diz, <i>barraca aerea</i>.</p>
+
+<p>Considerando-o feiticeiro, procuravam-n'o para tudo,&mdash;até para compôr
+desavenças domesticas, tempestades de ciumes, amúos de namorados.<a class="pn"
+name="pag_101">{101}</a></p>
+
+<p>Os marroquinos alimentavam a superstição de que ninguem seria capaz de
+matal-o com bala de chumbo.</p>
+
+<p>&mdash;É como o <i>homem do cavallo branco</i>, diziam elles. Só com bala de
+prata...</p>
+
+<p>O <i>homem do cavallo branco</i> era o general Prim, que pelos seus actos de
+bravura ficára tido no norte de Africa como invulneravel ás balas de chumbo.</p>
+
+<p>Foi ás quatro horas da manhã que Antonio Infante fez uma ascensão para o
+sultão de Marrocos vêr, e a guarda do sultão seguiu o aeróstato, em marcha
+forçada, até que desceu, para sua magestade se desenganar de que o aeronauta
+subia tambem no balão.</p>
+
+<p>Da Africa septemtrional traz Antonio Infante muitas recordações agradaveis.
+Ahi vae uma, que elle conta com orgulho patriotico. Nas portas da Arzilla
+conservam-se ainda as armas reaes portuguezas, e, sempre que um <i>cicerone</i>
+explica em Arzilla a historia de algumas ruinas, diz aos viajantes:</p>
+
+<p>&mdash;Isto é do tempo do portuguez...</p>
+
+<p>De Marrocos passou a Gibraltar, onde o governador da praça lhe prohibiu que
+realisasse qualquer ascensão, mas subiu em La Linea, que fica apenas separada
+de Gibraltar por uma pequena lingua de terra. O balão caiu no mar, em aguas
+hespanholas, e os carabineiros apprehenderam-lh'o como tomadia.<a class="pn"
+name="pag_102">{102}</a></p>
+
+<p>Mez e meio gastou Infante para rehavel-o. A final foi a legação portugueza
+de Madrid que resolveu o negocio.</p>
+
+<p>Nas Canarias caiu tambem no mar, a uma milha de Teneriffe. Duas horas esteve
+dentro d'agua á espera que um barco de pescadores o fosse buscar. E em Las
+Palmas, ao subir, feriu-se de tal modo, que perdeu os sentidos dentro da
+barquinha.</p>
+
+<p>Foi principalmente na America que a odyssea aerea de Antonio Infante
+principiou a ter mais vivo interesse.</p>
+
+<p>Em Montevideo, ao descer, deslocou o pé direito, e na Havana caiu na bahia,
+que os tubarões frequentam.</p>
+
+<p>Seria ignominioso para um filho do ar morrer na, guela de um filho do mar,
+ainda que esse filho do mar fosse um monstro tão respeitavel como o tubarão.
+Emquanto esperava por socorro, esta ideia atormentava-o. Nadou sempre, porque o
+tubarão, para atacar, precisa voltar-se e, nadando, não lhe daria tempo para
+isso. Além de que, ia vestido de preto, porque o tubarão não ataca o preto.
+Mas, por cautella, Antonio Infante ia nadando sempre. Finalmente, chegou um
+escaler de guerra que o levou, e o filho do ar zombou dos tubarões.</p>
+
+<p>No Panamá partiu a perna direita, para que a<a class="pn"
+name="pag_103">{103}</a> perna não tivesse que rir-se do pé, o qual já tinha
+sido deslocado em Montevideu.</p>
+
+<p>Em New-York Antonio Infante foi escripturado pelo celebre empresario Barnum,
+que já gastou este anno em annuncios cicoenta mil dollars. Barnum dava-lhe
+500$000 réis por semana, pagando-lhe os <i>hoteis</i> e as viagens. Queria-o
+apenas como reclame, para fazer uma ascensão á porta do seu gigande circo de
+lona, que comporta vinte e cinco mil espectadores, e que Barnum vae armando e
+desarmando de terra em terra, acompanhado de uma grande comitiva de vendedores,
+que lhe pagam para que os deixe seguil-o. Os <i>pikpockets</i> dão cem e
+duzentos dollars a Barnum para que lhes permitta venderem bilhetes á porta do
+circo, tal é a ganancia que elles pódem auferir das suas escamoteações.</p>
+
+<p>Em S. Luiz trabalhou tambem como <i>reclame</i> á porta do theatro onde se
+representava a colossal magica <i>Os ultimos dias de Pompeia</i>, que mettia
+quinhentos comparsas e duzentos musicos. A erupção do Vezuvio era um prodigio
+de pyrotechnia, realisado pelo celebre fogueteiro Pain, que esteve em Lisboa
+por occasião da visita do principe de Galles.</p>
+
+<p>Uma vez, em Virginia, onde se debatiam eleitoralmente dois candidatos, um
+republicano, outro democrata, o republicano contratou com Infante uma ascensão
+para attrair gente ao local do comicio.<a class="pn"
+name="pag_104">{104}</a></p>
+
+<p>O candidato faria o seu discurso e, ao dar meio dia, Infante deveria subir.
+Reconhecendo que estava no paiz da pontualidade, ao meio dia em ponto, Infante
+subiu. Mas, ao descer, o candidato só quiz pagar metade da quantia ajustada.</p>
+
+<p>&mdash;Porque? perguntou o aeronauta.</p>
+
+<p>&mdash;Porque quando o snr. subiu, estava eu em meio do meu discurso, e o povo,
+logo que viu o balão cheio, já não quiz ouvir o resto, que era o melhor...</p>
+
+<p>Foi ainda nos Estados-Unidos, em S. Luiz, que Antonio Infante esteve para
+ser victima da grande catastrophe, que o telegrapho noticiára.</p>
+
+<p>O balão, ao subir, bateu de encontro a um dos postes da luz electrica,
+rasgou-se no ar, e abriu-se de alto a baixo no momento em que descia
+rapidamente.</p>
+
+<p>Póde imaginar-se o que seria esse vertiginoso despenhar-se de um homem no
+espaço, atravez da escuridão da noite, indo dentro de um balão que
+phantasticamente se illuminava de fogos de artificio!</p>
+
+<p>Um enorme prego, cravado no fundo da barquinha, segurava exteriormente uma
+peça de fogo, e, quando a barquinha chofrou com grande estampido no solo, como
+se fôra uma pedra, foi esse prego que feriu de um modo calamitoso o infeliz
+aeronauta.</p>
+
+<p>O serviço das ambulancias medicas está organisado maravilhosamente nos
+Estados-Unidos. Ha communicação<a class="pn" name="pag_105">{105}</a>
+telephonica entre todos os postos de policia, de modo que a ambulancia, com o
+respectivo medico, acode de prompto para fazer-se o primeiro curativo, e os
+carros d'este serviço, que se annunciam por um forte timbre sempre em vibração,
+tomam a deanteira a todos os outros vehiculos.</p>
+
+<p>Ligeiramente pensado no proprio logar do sinistro, Antonio Infante foi
+conduzido ao hospital, onde o medico assistente, examinando a gravidade dos
+ferimentos, o avisou de que a sua vida corria imminente perigo e de que não
+tinha tempo a perder para o caso de, na sua qualidade de estrangeiro, querer
+fazer qualquer recommendação.</p>
+
+<p>&mdash;Em Portugal, diz Antonio Infante, eu teria sido um homem morto. Nem a
+minha familia consentiria que eu fosse para um hospital, nem o medico haveria
+decerto empregado as ultimas violencias da sciencia como <i>in anima vili</i>.
+Foi isso o que me salvou...</p>
+
+<p>Ora além da dilaceração dos tecidos, Infante havia deslocado o pé
+direito&mdash;sempre o pé direito, que parece ser ainda mais esquerdo do que o
+outro!&mdash;e fôra atacado de uma pneumonia.</p>
+
+<p>Quatro mezes esteve no catre do hospital, sendo visitado por todos os
+professores e por todos os estudantes de medicina que pasmavam da cura. O
+medico<a class="pn" name="pag_106">{106}</a> assistente fez grandes
+<i>reclames</i>, á americana, e durante o mez, que a convalescença durou, uma
+verdadeira procissão de curiosos correu ao hospital a visitar o aeronauta
+resuscitado.</p>
+
+<p>Salvo finalmente, Infante deu-se pressa em vir tranquillisar os cuidados da
+sua familia, e embarcou em New-York por Bordeos para Lisboa.</p>
+
+<p>Agora está na Ericeira, um pouco nostalgico das regiões ethereas, como um
+passaro na gaiola.</p>
+
+<p>Nas ultimas noites de luar, vi-o sempre sentado n'algum banco do Jogo da
+Bola a olhar saudoso para o ceu azul, como se estivesse dizendo mentalmente:</p>
+
+<p>&mdash;Aquillo, lá em cima, é meu... e de Deus.<a class="pn"
+name="pag_107">{107}</a></p>
+
+<h1>CHRONICAS DE VIAGEM</h1>
+
+<h2>XII</h2>
+
+<h3>O Varatojo</h3>
+
+<p>No dia 23 de setembro, ás cinco horas da manhã em ponto, estava eu no Jogo
+da Bola, da Ericeira, á espera dos meus companheiros de viagem.</p>
+
+<p>A lua cheia principiava a empallidecer no ceu, e o sol dormia ainda o ultimo
+somno na sua camara celeste.</p>
+
+<p>Naturalmente o criado de quarto havia-o chamado já mais de uma vez, se é que
+o sol não usa despertador á cabeceira da cama, a fim de poder exercer, com a
+pontualidade que lhe é habitual, as suas funcções de astro rei.</p>
+
+<p>Mas n'esse dia parece que o loiro principe sol estava tão tonto de somno
+como aquelle sujeito da anecdota, que acordando ao estrondo do despertador,<a
+class="pn" name="pag_108">{108}</a> o atirou pela janella fóra muito zangado,
+tornando a ir deitar-se.</p>
+
+<p>Eu proprio, para que tudo fosse excepcional n'aquella madrugada, fiz de
+guarda-nocturno e andei a bater á porta de um e outro.</p>
+
+<p>&mdash;Que eram horas. Que já o <i>char-à-bancs</i> estava á nossa espera na
+Praça.</p>
+
+<p>E todos elles, uns e outros:</p>
+
+<p>&mdash;Já lá vou. Estou a lavar a cara. Estou a vestir o casaco.</p>
+
+<p>Pois o sol tambem n'aquella manhã levou muito tempo a lavar a cara e a
+vestir o casaco.</p>
+
+<p>Reuniu-se a <i>troupe</i>,&mdash;dez ou doze amigos&mdash;, subia o
+<i>char-à-bancs</i> a passo a Calçada Real, e ainda o sol não se tinha dignado
+apparecer.</p>
+
+<p>Em dez minutos apenas, foram-se encastellando grossas nuvens, carregadas de
+electricidade, ao longe, sobre as montanhas de Cintra, e trovões distantes
+ribombavam surdamente.</p>
+
+<p>&mdash;Mau! Temos um dia estragado!</p>
+
+<p>O calor começava a ser asphyxiante.</p>
+
+<p>&mdash;Que fossem acreditar em poetas! Pois não disséra Castilho que as manhãs de
+setembro eram frescas?!</p>
+
+<p>Sahi em defeza do querido mestre Castilho.</p>
+
+<p>&mdash;Que aquella manhã de setembro tinha, por causa da trovoada, um feitio
+excepcional. Mas que eu<a class="pn" name="pag_109">{109}</a> me compromettia a
+dar-lhes no dia seguinte, caso não houvesse trovoada, uma fresca manhã de
+Castilho.</p>
+
+<p>Então, o sol, com cara de ter passado mal a noite, o que era uma
+justificação, espreitou atravez de uma nuvem menos espessa.</p>
+
+<p>O <i>char-à-bancs</i>, tendo sahido da estrada de Mafra, principiava a
+descer para o Gradil, torneando a Tapada, onde, passado o Celebredo, pacatos
+veados appareciam aqui e alli pastando tranquillamente.</p>
+
+<p>Os caçadores ralavam-se de pena:</p>
+
+<p>&mdash;Não poder a gente matal-os! Aqui na tapada a caça brava é abundantissima.
+No primeiro dia de caçada, os veados quasi vem comer á mão. No segundo dia, já
+um pouco assustados, mostram-se hesitantes. Só no terceiro dia, comprehendendo
+a cousa, é que tratam de se alapardar.</p>
+
+<p>&mdash;Lá está outro!</p>
+
+<p>Estavam, sim, muitos, á boa vida, porque, como se sabe, na Tapada de Mafra
+só caça a familia real, e essa vae alli poucas vezes.</p>
+
+<p>Apenas o marquez de Oldoini obtivera ha annos auctorização para poder caçar
+na Tapada.</p>
+
+<p>Não se sita outra excepção.</p>
+
+<p>Durante longo tempo o <i>char-à-bancs</i> foi torneando a Tapada, que é
+vastissima, e quando o Gradil nos appareceu lá em baixo, com as suas chaminés
+fumegantes<a class="pn" name="pag_110">{110}</a> e os seus predios caiados, já
+estavamos anciosos de avistal-o.</p>
+
+<p>Então as vinhas atacadas de phylloxera principiaram a mostrar-se-nos com
+grandes nodoas amarellas, indicando uma devastação terrivel na primeira cultura
+de Portugal.</p>
+
+<p>Quanto mais avançavamos na região de Torres Vedras, mais a devastação
+alastrava. Videiras doentes, dessoradas, pendiam languidamente com meia duzia
+de cachos. E ás vezes, no meio de largas manchas amarellas, um pequeno jardim
+de vinhas, não contaminadas ainda, verdejava sádiamente.</p>
+
+<p>Acontece que, em certos sitios, de um lado da estrada as vinhas estão
+indemnes, e do outro lado inteiramente perdidas.</p>
+
+<p>No Gradil, como fosse domingo, havia um grupo de homens á porta da taverna.
+Iam ou vinham da missa, isso é indifferente, mas tinham bebido já. Alguns
+limpavam ainda a bocca com o dorso da mão.</p>
+
+<p>Estrada fóra, avistamos a povoação do Livramento, depois o Turcifal.</p>
+
+<p>&mdash;Aquella casa é de fulano. Aquella outra é de sicrano.</p>
+
+<p>As nuvens negras tinham-se dissipado, o sol, completamente restabelecido,
+resplandecia, e um calor surdo, abafadiço, cahia obliquamente.<a class="pn"
+name="pag_111">{111}</a></p>
+
+<p>Todos mais ou menos iamos fallando do almoço, como da Terra Promettida.</p>
+
+<p>Ora, n'aquelle dia, a Terra Promettida era para nós a casa de Antonio
+Batalha Reis, a sua quinta do Carvalhal.</p>
+
+<p>Batalha Reis, sendo um grande amador de culinaria, faz petiscos excellentes,
+unicos.</p>
+
+<p>Já durante uns dias que estivera na Ericeira nos havia offerecido um
+delicioso bacalhau preparado por elle. Mas, n'aquelle dia, sabiamol-o na
+cosinha, de barrete branco, caprichoso em offerecer-nos um almoço
+principesco.</p>
+
+<p>Ao cabo de tres horas e meia de jornada, chegamos ao Carvalhal. Meia hora
+depois, o almoço estava na mesa, e cada um dos convivas tinha deante de si um
+prato de sopa de cebola, composição de Batalha Reis. Era a chave de prata que
+ia abrir esse bello soneto gastronomico. Batalha Reis disse-nos que a chave de
+ouro a reservava para o jantar,&mdash;ás cinco horas da tarde. Mas um coelho
+guisado, que nos deu ao almoço, valia ouro. Estava divino.</p>
+
+<p>Quando nos levantamos da mesa, todo eu era pressa de partir para o Varatojo,
+por causa... por causa de um livro: ora ahi está o grande segredo!<a
+name="tex2html1" href="#foot362"><sup>[1]</sup></a> Mas<a class="pn"
+name="pag_112">{112}</a> como tivessemos levado uma machina photographica,
+fez-se primeiro um grupo, uma scena de duellistas, que crusavam floretes,
+sabres e lanças.</p>
+
+<p>A machina reproduziu instantaneamente toda esta batalha incruenta, que sahiu
+bem boa.</p>
+
+<p>Depois, finalmente, partimos para o Varatojo, e Antonio Batalha Reis, que
+tinha sido um dos duellistas, poz o barrete branco e foi para a cosinha do
+Carvalhal fazer o jantar.</p>
+
+<p>Atravessamos, de caminho, a villa de Torres Vedras, que se engrandece ainda
+de uns restos da sua antiga prosperidade vinicula. Boas casas, grandes adegas,
+homens rolando pelas ruas cascos de pipa. Uma praça com coreto: o rocio
+elegante. Um magnifico chafariz gothico, denominado dos <i>Canos</i>. Uma
+egreja com uma bella porta de lavores. Sobre o outeiro, as ruinas do famoso
+castello. O Passeio da Varzea com o seu sombrio arvoredo de choupos e faias.</p>
+
+<p>Mas nós passamos por tudo isso a correr, rodando para o Varatojo.</p>
+
+<p>Finalmente, á esquerda, na encosta, surgiu um grupo de casas e logo ao pé o
+telhado do convento e a matta.</p>
+
+<p>Apoiamo-nos no principio da encosta, porque não havia caminho para trem.</p>
+
+<p>E, subindo, chegamos ao largo do convento, de<a class="pn"
+name="pag_113">{113}</a> humilde apparencia, enterrado ao fundo de alguns
+lanços de escada.</p>
+
+<p>Uma cruz de pedra e um velho cypreste dão ao sitio essa phisionomia de
+tristeza que caracterisa os eremiterios pobres.</p>
+
+<p>Descemos os poucos degraus que dão ingresso para o convento, e entramos no
+atrio.</p>
+
+<p>Á esquerda uma capella com o Senhor dos Passos. Em frente, o postigo da
+roda, em cujo bordo havia tres escudellas vasias com colheres de páu; sobre o
+postigo esta legenda: <i>De paupertate nostra frangamus Jesu esurienti
+panem.</i> Á direita uma porta em ogiva com esta simples palavra no topo:
+<i>Silencio.</i></p>
+
+<p>Pedimos licença para entrar, e foi-nos concedida. Recebeu-nos o sacristão em
+habito de franciscano. Mostrou-nos a egreja, em cujo altar-mór ha a notar a
+obra de talha, o retabulo, os quadros, os azulejos. No corpo da egreja torna-se
+digno de menção o altar de marmore, excellentemente trabalhado, de uma capella
+lateral. É obra recente, executada por um conventual.</p>
+
+<p>Como houvessemos mandado entregar uma carta de apresentação, veio
+acompanhar-nos um padre franciscano, de habito com capuz, cordão, rosario e
+sandalias.</p>
+
+<p>Boa physionomia, alegre e rosada. Fallava sem<a class="pn"
+name="pag_114">{114}</a> biôcos. Quando nos tornou a mostrar o altar de
+marmore, disse para mim:</p>
+
+<p>&mdash;Isto é obra feita no convento. Cá trabalha-se.</p>
+
+<p>Foi depois mostrar-nos o presepio, e chamou a nossa attenção para a figura
+que representava um cégo tocador de gaita de folles, com borracha de vinho a
+tiracollo, fazendo-nos notar a circumstancia de que o moço do cégo estava
+bebendo subrepticiamente o vinho da borracha.</p>
+
+<p>Levou-nos depois á casa dos retratos, onde, eu precisava vêr um, e á casa do
+capitulo, onde copiei a inscripção de uma sepultura.</p>
+
+<p>Offereceu-nos na casa dos retratos vinho doce, e bolos. Quizemos deixar uma
+esmola para o convento: recusou-a. Perguntamos-lhe se vendiam bentinhos, porque
+os desejavamos adquirir como recordação. Sorriu-se.</p>
+
+<p>&mdash;Que os bentinhos que tinham, eram os que pessoas de fóra davam aos
+frades.</p>
+
+<p>Na cêrca offereceu-nos flores, e conduziu-nos até á entrada da matta.</p>
+
+<p>De caminho respondia com boa sombra ás perguntas que lhe faziamos.</p>
+
+<p>Disse-nos que havia uma escóla para o sexo masculino, annexa ao convento,
+mas com entrada independente.<a class="pn" name="pag_115">{115}</a></p>
+
+<p>Disse-nos mais que, actualmente, eram uns vinte os frades, e que o resto do
+pessoal orçava por quinze homens. Que no convento não entravam mulheres, mas
+que na povoação havia um recolhimento de irmãs hospitaleiras de S. José com
+escóla para meninas. Accrescentou que viviam pobremente, mas que do seu pouco
+repartiam com os pobres.</p>
+
+<p>Mostrou-nos a sachristia, em cujos azulejos, que revestem as paredes, se
+lêem disticos metreficados em castelhano. Por exemplo:</p>
+
+<blockquote>
+ Mi coraçon como cera <br>
+ Se derrite en dulce ardor <br>
+ Con tu fuego, ay Dios d'Amor <br>
+ Si hasta aqui de marmol era. </blockquote>
+
+<p>Estes disticos devem ser composição de Frei Antonio das Chagas, que versejou
+gongoricamente em lingua hespanhola, e que no seculo XVII reformou o instituto
+do Varatojo, depois de ter vivido uma vida mundana de militar aventuroso.</p>
+
+<p>N'aquella simples quadra, que de industria preferimos, está todo o drama da
+conversão de Frei Antonio das Chagas.</p>
+
+<p>Na egreja, no claustro e cêrca encontramos alguns camponezes, uns imberbes,
+outros velhos, orando<a class="pn" name="pag_116">{116}</a> como em extasi ou
+lendo livros mysticos. Um d'esses livros; cujo titulo podemos lêr,
+denominava-se&mdash;<i>Devoção das Chagas de Christo.</i></p>
+
+<p>E ao cabo de uma visita de hora e meia sahimos do convento do Varatojo com a
+estranha impressão com que o poderiamos fazer ha duzentos annos.</p>
+
+<p>Parecia que o tempo se havia immobilisado no passado!...<a class="pn"
+name="pag_117">{117}</a></p>
+
+<p class="rodape"><a name="foot362" href="#tex2html1"><sup>[1]</sup></a> O
+livro, que já entrou no prelo, intitula-se <i>Vida mundana d'um frade
+virtuoso.</i></p>
+
+
+<h1>CHRONICAS DE VIAGEM</h1>
+
+<h2>XIII</h2>
+
+<h3>O regresso</h3>
+
+<p>Com as chuvas dos primeiros dias da semana, começaram as praias a
+despovoar-se um pouco tumultuariamente.</p>
+
+<p>Ás portas da cidade, segundo me informa um visinho meu que é guarda
+barreira, chegavam a toda a hora carros e carretas com pessoas e malas.</p>
+
+<p>Toda a familia, segundo me observou philosophicamente o supracitado guarda
+fiscal, tem a sua praia.</p>
+
+<p>Uns atiram-se ao bulicio da Figueira, outros á aristocracia de Cascaes;
+estes preferem a Nazareth, talvez por causa dos cyrios, que dão muitos dias de
+festa; aquell'outros, mais pacatos, isolam-se em S. Martinho do Porto, e
+contentam-se com ir de vez em<a class="pn" name="pag_118">{118}</a> quando, no
+caminho de ferro, vêr gente ás Caldas da Rainha, etc.</p>
+
+<p>Eu reflecti maduramente na phrase philosophica do guarda-fiical.
+Effectivamente, cada familia tem a sua praia.</p>
+
+<p>Uma vez, certa dama <i>vieille roche</i>, recebendo á sua mesa dois primos e
+um companheiro dos primos, lembrou-se de corrigir a falta que elles haviam
+perpetrado não lhe explicando genealogicamente a procedencia do companheiro. Á
+sobremesa, a grande dama, que se tinha desfeito em attenções com o
+desconhecido, fez estalar o quinau.</p>
+
+<p>&mdash;V. ex.ª, disse ella dirigindo-se ao desconhecido, ainda não teve a bondade
+de nos dizer de que casa era!</p>
+
+<p>O amigo dos primos estava descascando tranquillamente uma pêra. Ouviu a
+pergunta, levantou a cabeça, fitou por momentos a grande dama, e respondeu:</p>
+
+<p>&mdash;Eu, minha senhora, sou da casa... da Supplicação.</p>
+
+<p>Arranjou a ter uma casa, a primeira que lhe lembrou, mas livrou-se do apuro,
+que era a grande questão.</p>
+
+<p>A respeito de praias, o que é preciso, em chegando o verão, é ter uma, seja
+qual fôr, boa ou má, alegre ou triste.<a class="pn" name="pag_119">{119}</a></p>
+
+<p>Ter uma praia! eis o problema. E cada familia trata de partir, ás vezes um
+pouco mesmo ao acaso, porque, entrando o mez de agosto, presume-se que só ficam
+em Lisboa os corpos da guarnição e o D. José do Terreiro do Paço.</p>
+
+<p>Tudo o mais abala.</p>
+
+<p>Se eu fosse guarda barreira, havia de aproveitar a occasião do regresso dos
+banhistas para completar os meus estudos sobre os diversos typos da galeria das
+praias.</p>
+
+<p>Em Lisboa todas as pessoas parecem vestir e pensar do mesmo modo. A
+sobrecasaca e o chapeu alto uniformisam a <i>toilette</i> e o espirito de cada
+um. Mas, nas praias, em plena liberdade de acção, cada banhista veste a
+<i>toilette</i> que quer, e exhibe com certa semceremonia as suas predilecções,
+as suas manias, as suas excentricidades de caracter.</p>
+
+<p>Este revela-se jogador. Atira-se á roleta, á batota ou ao <i>baccarat</i>.
+Senta-se á mesa verde de lapis em punho, faz calculos mathematicos para saber
+quando o <i>rei</i> deve tornar a sahir ou quando o 36 deve voltar.</p>
+
+<p>Aquelle é pescador de anzol. Passa o dia de canna na mão, sentado nas fragas
+por horas esquecidas, esperando, com uma paciencia que ninguem lhe suppunha,
+que o peixe venha picar na isca.</p>
+
+<p>Est'outro, tão pachorrento e pouseiro, como todos<a class="pn"
+name="pag_120">{120}</a> o conheciamos no Chiado, joga na praia o
+<i>croquet</i> todo o dia e dança a Valsa toda a noite no club.</p>
+
+<p>Aquell'outro, que em Lisboa faz parte da sociedade protectora dos animaes,
+manifesta-se um caçador acerrimo, enthusiasta pelas perdizes, doido pelos
+coelhos, e loquaz chronista de anecdotas cynegeticas.</p>
+
+<p>Conta historias dos seus cães, cousa que ninguem cá lhe conhecia,&mdash;nem mesmo
+os credores.</p>
+
+<p>De todos estes typos da collecção balnear o mais tagarella e o mais
+imaginoso é por certo o caçador.</p>
+
+<p>Elle tem sempre uma cousa extraordinaria, que lhe aconteceu, para contar.</p>
+
+<p>E no cenaculo da praia, seja n'um estanco, n'uma botica ou n'uma loja de
+capella, é elle o <i>habitué</i> que tem corda para mais tempo, o caso é
+dar-lhe a gente a cheirar á imaginação môlho de perdiz ou deixar-lhe vêr por um
+oculo, n'uma referencia fugitiva, um coelho que elle logo fila para nos
+impingir a sua illyada venatoria.</p>
+
+<p>Então, enthusiasmado, o chapeu atirado para a nuca, os olhos brilhantes, um
+riso de satisfação nos labios, elle falla de si, dos seus cães, da sua
+espingarda, das suas caçadas maravilhosas.</p>
+
+<p>Ou parte logo da mentira para fazer romance ou chega lá a breve trecho. O
+caçador entra facilmente no paiz da fabula, o caso é haver quem ao de leve o
+empurre para os intermundios de Diana.<a class="pn" name="pag_121">{121}</a></p>
+
+<p>&mdash;Eu tinha um cão, principia elle.</p>
+
+<p>Até aqui póde ser verdade, posto que ninguem lh'o conhecesse, porque nada ha
+tão natural como ter a gente um cão... ou mesmo dois.</p>
+
+<p>Mas, por via de regra, o caçador, que tem sempre a imaginação prompta, não
+se demora muito no prologo.</p>
+
+<p>&mdash;Eu tinha um cão, continúa elle, que era... um assombro!</p>
+
+<p>Aqui é que principia o maravilhoso do conto.</p>
+
+<p>&mdash;Cão mais intelligente não n'o podia haver. Nem mais dedicado ao dono e á
+sua familia. Pobre Epaminondas!</p>
+
+<p>Ao soltar esta exclamação, o caçador faz beicinho para chorar. Uma explosão
+de ternura envinagra os seus olhos, até ahi brilhantes e, fingindo pensar no
+seu Epaminondas, demora-se algum tempo soluçante, convulso.</p>
+
+<p>&mdash;Mas que diabo de mania, pergunta do lado um dos ouvintes, foi essa que
+você teve de chamar Epaminondas ao seu cão?</p>
+
+<p>O caçador, querendo dominar a sua commoção:</p>
+
+<p>&mdash;O que?! Que diabo de mania foi essa?! É facil de explicar. O cão era
+superiormente intelligente; era, no seu genero, um heroe, uma celebridade,
+direi mesmo uma gloria. De modo que eu quiz dar-lhe um<a class="pn"
+name="pag_122">{122}</a> nome glorioso, que elle bem merecia. E não fiz nada
+de mais. Meu pobre... meu rico Epaminondas! Senti mais a sua morte do que a de
+meu avô, que eu nunca conheci, por ter vivido sempre no Brazil. Os senhores vão
+dar-me rasão, vocês vão concordar comigo em lhes eu contando o que aquelle cão
+era!</p>
+
+<p>A fim de recobrar toda a sua tranquilidade, o caçador faz um intervallo,
+accende o charuto que tinha deixado apagar, e continúa:</p>
+
+<p>&mdash;Vocês sabem que meu pae, tendo recolhido a Portugal, viveu sempre
+comigo...</p>
+
+<p>Neste momento entra no estanco, se o cenaculo é um estanco, um garoto a
+comprar dez réis de cigarros fortes.</p>
+
+<p>O caçador interrompe-se, mostrando-se contrariado de que um intruso venha
+esfriar o interesse que a sua narração estava produzindo no auditorio.</p>
+
+<p>O rapaz recebe os cigarros, e demora-se accendendo um.</p>
+
+<p>Sempre suspenso, o orador espera que o garoto sahia.</p>
+
+<p>Finalmente, continúa:</p>
+
+<p>&mdash;Casei, e meu pae ficou vivendo sempre comigo. Tambem era o que valia, para
+fazer companhia a minha mulher, porque eu, volta e meia, dizia-lhe adeus e ia
+para a caça com o Epaminondas.<a class="pn" name="pag_123">{123}</a></p>
+
+<p>&mdash;Santa Justa, fracos, diz um freguez conhecido entrando no estanco.</p>
+
+<p>O orador torna a interromper-se. Apertos de mão; as perguntas banaes do
+estylo. O freguez de Santa Justa demora-se cerca de cinco minutos.</p>
+
+<p>Quando elle sahe com os cigarros da sua devoção, o caçador, tomando uma
+attitude erecta:</p>
+
+<p>&mdash;Mas onde é que eu fiquei?</p>
+
+<p>Do lado ha sempre um apontador espirituoso:</p>
+
+<p>&mdash;Sahia você para a caça com Epaminondas quando o homem entrou.</p>
+
+<p>&mdash;É verdade! Volta e meia, eu dizia adeus a meu pae e a minha mulher e ia
+para a caça com o Epaminondas. Pelo caminho, parecia que iamos conversando,
+porque o diabo do cão fallava.</p>
+
+<p>&mdash;Fallava?!</p>
+
+<p>&mdash;É um modo de dizer, tão bem se entendia tudo o que elle pensava!</p>
+
+<p>&mdash;Homem! diz do lado o espirituoso, isso faz-me lembrar o caso da <i>pateada
+tacita</i>!</p>
+
+<p>&mdash;Vocês não acreditam&mdash;prosegue o caçador fingindo-se um pouco
+indignado&mdash;mas eu garanto com a minha palavra de honra a exactidão de tudo
+quanto digo a respeito do meu Epaminondas. Pelo caminho iamo-nos entendendo
+como dois bons amigos. «Que te parece hoje o dia?» perguntava eu. E o
+Epaminondas<a class="pn" name="pag_124">{124}</a> respondia: «Boa caçada; o dia
+está magnifico para as perdizes.» Ou então torcia o nariz, como a dizer: «Isto
+hoje não dá nada que se veja.» E depois parecia accrescentar: «Mas em todo o
+caso eu hei-de fazer-lhe a diligencia.» Se o cão tinha concordado comigo em que
+era dia de boa caçada, acontecia assim, por força. D'alli a nada não tardavam a
+apparecer bandos de perdizes, ás vezes até a pequena distancia de casa.</p>
+
+<p>N'este comenos assoma ao limiar do estanco o boletineiro do telegrapho.</p>
+
+<p>&mdash;Os snrs. não saberão dizer-me quem é o snr. Antonio do Espirito Santo
+Soares?</p>
+
+<p>Que não: que não é conhecido.</p>
+
+<p>O boletineiro vae-se embora, e o caçador prosegue:</p>
+
+<p>&mdash;Se alguma das perdizes era mais gorda, eu aproveitava a occasião para
+fazer uma galanteria a meu pae ou a minha mulher, e mandava o cão a casa com a
+perdiz.</p>
+
+<p>&mdash;Olha lá, dizia-lhe eu entregando-lh'a, tu vaes n'um instante a casa levar
+esta perdiz a meu pae. Mas toma cuidado, Epaminondas, olha que esta é para meu
+pae. Nada de tolices, Epaminondas!</p>
+
+<p>O cão partia por alli fóra como um relampago, com a perdiz nos dentes.</p>
+
+<p>Chegava a casa mais depressa do que eu o estou<a class="pn"
+name="pag_125">{125}</a> dizendo, e ás vezes a primeira pessoa que encontrava
+não era meu pae mas minha mulher.</p>
+
+<p>Como era natural, minha mulher, até para experimentar a intelligencia do
+cão, queria tirar-lhe a perdiz.</p>
+
+<p>E o Epaminondas, como se não fosse realmente um cão, mas uma pessoa,
+dizia-lhe:</p>
+
+<p>&mdash;Nada, não. Esta mandou-a o senhor para o pae. Logo virá outra para a
+senhora.</p>
+
+<p>&mdash;O que?! Pois o cão dizia isso?!</p>
+
+<p>&mdash;Está claro que não dizia como a gente o diz. Mas fazia-se entender de tal
+modo, que minha mulher deixava-o passar, e era meu pae que recebia a perdiz.
+Depois o Epaminondas voltava logo.</p>
+
+<p>&mdash;E dizia alguma cousa?</p>
+
+<p>&mdash;Dizia, sim; pelo menos eu entendia-o. «Seu pae diz que muito obrigado; mas
+a senhora tambem quer.» «Está bem, Epaminondas, respondia eu; logo irá para a
+senhora.» Ora acontecia que eu algumas vezes me esquecia do compromisso que
+havia tomado; mas quem não se esquecia era o cão. Em cahindo alguma perdiz mais
+geitosa, o Epaminondas estava-me logo a dizer: «E a perdiz da senhora?» «Pois
+bem, leva lá a perdiz, e não te demores.»</p>
+
+<p>&mdash;Mas qual era o processo de eloquencia a que o Epaminondas recorria para se
+fazer comprehender tão explicitamente?<a class="pn" name="pag_126">{126}</a></p>
+
+<p>&mdash;Eu sei lá! Era tudo: os olhos, o focinho, o rabo. Era tudo!</p>
+
+<p>&mdash;Diga antes você que estava tão habituado com o cão, que já o entendia,
+como a gente, á força de habito, chega a entender um surdo-mudo...</p>
+
+<p>&mdash;Qual historia! De uma vez morreu a mulher do regedor de Loures, que morava
+a dois passos da quinta em que eu estava. O cão ouviu, e percebeu o que o
+criado tinha contado. E, sem que lhe tivessemos dito nada, sahe por alli fóra,
+e vae a casa do regedor dar-lhe os pesames!</p>
+
+<p>Quando a imaginação do caçador tem aquecido até á temperatura do
+maravilhoso, já não ha ninguem que seja capaz de detel-o. É como um
+<i>rapido</i> que passa. Parece ás vezes, o que é phenomenal, que chega a
+acreditar o que diz, e que adquire a convicção de que os outros o estão
+acreditando.</p>
+
+<p>Pois em cada praia ha sempre um caçador... pelo menos!</p>
+
+<p>O guarda fiscal confirmou plenamente esta minha observação.</p>
+
+<p>&mdash;Sim, senhor, disse-me elle. Eu conheço-os: ás vezes, fico até admirado de
+que não tragam espingarda na bagagem!</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>Lisboa, 8 de outubro de 1888.<a class="pn" name="pag_127"
+id="pag_127">{127}</a></p>
+</div>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p style="text-align:center;"><big>300
+RS.</big></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+<hr class="full" noshade>
+<p>***END OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK CHRONICAS DE VIAGEM***</p>
+<p>******* This file should be named 33067-h.txt or 33067-h.zip *******</p>
+<p>This and all associated files of various formats will be found in:<br>
+<a href="http://www.gutenberg.org/dirs/3/3/0/6/33067">http://www.gutenberg.org/3/3/0/6/33067</a></p>
+<p>Updated editions will replace the previous one--the old editions
+will be renamed.</p>
+
+<p>Creating the works from public domain print editions means that no
+one owns a United States copyright in these works, so the Foundation
+(and you!) can copy and distribute it in the United States without
+permission and without paying copyright royalties. Special rules,
+set forth in the General Terms of Use part of this license, apply to
+copying and distributing Project Gutenberg-tm electronic works to
+protect the PROJECT GUTENBERG-tm concept and trademark. Project
+Gutenberg is a registered trademark, and may not be used if you
+charge for the eBooks, unless you receive specific permission. If you
+do not charge anything for copies of this eBook, complying with the
+rules is very easy. You may use this eBook for nearly any purpose
+such as creation of derivative works, reports, performances and
+research. They may be modified and printed and given away--you may do
+practically ANYTHING with public domain eBooks. Redistribution is
+subject to the trademark license, especially commercial
+redistribution.</p>
+
+
+
+<pre>
+*** START: FULL LICENSE ***
+
+THE FULL PROJECT GUTENBERG LICENSE
+PLEASE READ THIS BEFORE YOU DISTRIBUTE OR USE THIS WORK
+
+To protect the Project Gutenberg-tm mission of promoting the free
+distribution of electronic works, by using or distributing this work
+(or any other work associated in any way with the phrase "Project
+Gutenberg"), you agree to comply with all the terms of the Full Project
+Gutenberg-tm License (available with this file or online at
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+electronic works
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+1.A. By reading or using any part of this Project Gutenberg-tm
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+If you paid a fee for obtaining a copy of or access to a Project
+Gutenberg-tm electronic work and you do not agree to be bound by the
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+
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+things that you can do with most Project Gutenberg-tm electronic works
+even without complying with the full terms of this agreement. See
+paragraph 1.C below. There are a lot of things you can do with Project
+Gutenberg-tm electronic works if you follow the terms of this agreement
+and help preserve free future access to Project Gutenberg-tm electronic
+works. See paragraph 1.E below.
+
+1.C. The Project Gutenberg Literary Archive Foundation ("the Foundation"
+or PGLAF), owns a compilation copyright in the collection of Project
+Gutenberg-tm electronic works. Nearly all the individual works in the
+collection are in the public domain in the United States. If an
+individual work is in the public domain in the United States and you are
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+in paragraph 1.F.3, this work is provided to you 'AS-IS,' WITH NO OTHER
+WARRANTIES OF ANY KIND, EXPRESS OR IMPLIED, INCLUDING BUT NOT LIMITED TO
+WARRANTIES OF MERCHANTIBILITY OR FITNESS FOR ANY PURPOSE.
+
+1.F.5. Some states do not allow disclaimers of certain implied
+warranties or the exclusion or limitation of certain types of damages.
+If any disclaimer or limitation set forth in this agreement violates the
+law of the state applicable to this agreement, the agreement shall be
+interpreted to make the maximum disclaimer or limitation permitted by
+the applicable state law. The invalidity or unenforceability of any
+provision of this agreement shall not void the remaining provisions.
+
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+harmless from all liability, costs and expenses, including legal fees,
+that arise directly or indirectly from any of the following which you do
+or cause to occur: (a) distribution of this or any Project Gutenberg-tm
+work, (b) alteration, modification, or additions or deletions to any
+Project Gutenberg-tm work, and (c) any Defect you cause.
+
+
+Section 2. Information about the Mission of Project Gutenberg-tm
+
+Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
+electronic works in formats readable by the widest variety of computers
+including obsolete, old, middle-aged and new computers. It exists
+because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
+people in all walks of life.
+
+Volunteers and financial support to provide volunteers with the
+assistance they need are critical to reaching Project Gutenberg-tm's
+goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
+remain freely available for generations to come. In 2001, the Project
+Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
+and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
+To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
+and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
+and the Foundation web page at http://www.gutenberg.org/fundraising/pglaf.
+
+
+Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive
+Foundation
+
+The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
+501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
+state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
+Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification
+number is 64-6221541. Contributions to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
+permitted by U.S. federal laws and your state's laws.
+
+The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
+Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
+throughout numerous locations. Its business office is located at
+809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
+business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact
+information can be found at the Foundation's web site and official
+page at http://www.gutenberg.org/about/contact
+
+For additional contact information:
+ Dr. Gregory B. Newby
+ Chief Executive and Director
+ gbnewby@pglaf.org
+
+Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation
+
+Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
+spread public support and donations to carry out its mission of
+increasing the number of public domain and licensed works that can be
+freely distributed in machine readable form accessible by the widest
+array of equipment including outdated equipment. Many small donations
+($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
+status with the IRS.
+
+The Foundation is committed to complying with the laws regulating
+charities and charitable donations in all 50 states of the United
+States. Compliance requirements are not uniform and it takes a
+considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
+with these requirements. We do not solicit donations in locations
+where we have not received written confirmation of compliance. To
+SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
+particular state visit http://www.gutenberg.org/fundraising/pglaf
+
+While we cannot and do not solicit contributions from states where we
+have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
+against accepting unsolicited donations from donors in such states who
+approach us with offers to donate.
+
+International donations are gratefully accepted, but we cannot make
+any statements concerning tax treatment of donations received from
+outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff.
+
+Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
+methods and addresses. Donations are accepted in a number of other
+ways including checks, online payments and credit card donations.
+To donate, please visit: http://www.gutenberg.org/fundraising/donate
+
+
+Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic
+works.
+
+Professor Michael S. Hart is the originator of the Project Gutenberg-tm
+concept of a library of electronic works that could be freely shared
+with anyone. For thirty years, he produced and distributed Project
+Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.
+
+Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
+editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
+unless a copyright notice is included. Thus, we do not necessarily
+keep eBooks in compliance with any particular paper edition.
+
+Each eBook is in a subdirectory of the same number as the eBook's
+eBook number, often in several formats including plain vanilla ASCII,
+compressed (zipped), HTML and others.
+
+Corrected EDITIONS of our eBooks replace the old file and take over
+the old filename and etext number. The replaced older file is renamed.
+VERSIONS based on separate sources are treated as new eBooks receiving
+new filenames and etext numbers.
+
+Most people start at our Web site which has the main PG search facility:
+
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+
+This Web site includes information about Project Gutenberg-tm,
+including how to make donations to the Project Gutenberg Literary
+Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to
+subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks.
+
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+are filed in directories based on their release date. If you want to
+download any of these eBooks directly, rather than using the regular
+search system you may utilize the following addresses and just
+download by the etext year.
+
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+
+ (Or /etext 05, 04, 03, 02, 01, 00, 99,
+ 98, 97, 96, 95, 94, 93, 92, 92, 91 or 90)
+
+EBooks posted since November 2003, with etext numbers OVER #10000, are
+filed in a different way. The year of a release date is no longer part
+of the directory path. The path is based on the etext number (which is
+identical to the filename). The path to the file is made up of single
+digits corresponding to all but the last digit in the filename. For
+example an eBook of filename 10234 would be found at:
+
+http://www.gutenberg.org/dirs/1/0/2/3/10234
+
+or filename 24689 would be found at:
+http://www.gutenberg.org/dirs/2/4/6/8/24689
+
+An alternative method of locating eBooks:
+<a href="http://www.gutenberg.org/dirs/GUTINDEX.ALL">http://www.gutenberg.org/dirs/GUTINDEX.ALL</a>
+
+*** END: FULL LICENSE ***
+</pre>
+</body>
+</html>