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diff --git a/33067-h/33067-h.htm b/33067-h/33067-h.htm new file mode 100644 index 0000000..61cec1a --- /dev/null +++ b/33067-h/33067-h.htm @@ -0,0 +1,3426 @@ +<!DOCTYPE HTML PUBLIC "-//W3C//DTD HTML 4.01 Transitional//EN" "http://www.w3.org/TR/html4/loose.dtd"> +<html> +<head> +<meta http-equiv="Content-Type" content="text/html; charset=ISO-8859-1"> +<title>The Project Gutenberg eBook of Chronicas de Viagem, by Alberto Pimentel</title> + <style type="text/css"> + body{margin-left: 10%; + margin-right: 10%; + } + .pn { + text-indent: 0em; + position: absolute; + left: 92%; + font-size: smaller; + text-align: right; + color: silver; + } + #corpo p{text-align: justify; text-indent: 1em;} + #corpo p.ni {text-indent: 0;} + h1, h2, h3 {text-align: center; margin-top: 2em; margin-bottom: 1em;} + h1 {border: dotted 2px #000;} + hr.dotted {border: 0; border-bottom: dotted 2px #000;} + hr {border: 0; border-bottom: solid 2px;} + blockquote {margin-left: 10%; font-size: small;} + .citacao {font-size: small;} + a {text-decoration: none;} + .rodape { + font-size: 0.8em; + margin: 2em; + } + .direita {position: absolute; right: 10%;} + .errata {border-bottom: dotted 2px #aaaaaa;} + .typo {border-bottom: dotted 2px #77dd77;} + .fbox {border: solid black 1px; background-color: #FFFFCC; font-size: 0.8em; + margin-left: 10%; margin-right: 10%;} + + h1.pg {text-align: center; margin-top: 0em; margin-bottom: 0em; border: none;} + hr.full { width: 100%; + margin-top: 3em; + margin-bottom: 0em; + margin-left: auto; + margin-right: auto; + height: 4px; + border-width: 4px 0 0 0; /* remove all borders except the top one */ + border-style: solid; + border-color: #000000; + clear: both; } + pre {font-size: 85%;} + </style> +</head> +<body> +<h1 class="pg">The Project Gutenberg eBook, Chronicas de Viagem, by Alberto Pimentel</h1> +<pre> +This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with +almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or +re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included +with this eBook or online at <a href = "http://www.gutenberg.org">www.gutenberg.org</a></pre> +<p>Title: Chronicas de Viagem</p> +<p>Author: Alberto Pimentel</p> +<p>Release Date: July 3, 2010 [eBook #33067]</p> +<p>Language: Portuguese</p> +<p>Character set encoding: ISO-8859-1</p> +<p>***START OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK CHRONICAS DE VIAGEM***</p> +<br><br><center><h3>E-text prepared by Pedro Saborano</h3></center><br><br> +<p> </p> +<hr class="full" noshade> +<p> </p> +<p> </p> + +<div style="text-align:center; border: solid 5px #000;"> + +<p> </p> + +<p>A<small>LBERTO </small>P<small>IMENTEL</small></p> + +<p> </p> +<p> </p> + +<p style="font-size: 3em;">CHRONICAS DE VIAGEM</p> + +<p> </p> +<p> </p> + +<p>PORTO</p> + +<p><small>OFF. DE MOTTA RIBEIRO<br> +215, RUA DE S. LAZARO, 215</small></p> +</div> + +<p> </p> +<p> </p> +<p> </p> +<p> </p> +<h1>CHRONICAS DE VIAGEM</h1> +<p> </p> +<p> </p> +<p> </p> +<p> </p> + +<div style="text-align:center;"> +<p style="font-size: 1.6em;">A<small>LBERTO </small>P<small>IMENTEL</small></p> + +<hr style="width: 60%; height: 1px;"> +<hr style="width: 80%; height: 1px;"> +<hr style="width: 60%; height: 1px;"> + +<p style="font-size: 3em;">CHRONICAS</p> + +<p style="font-size: 1.4em;">DE</p> + +<p style="font-size: 3em;">VIAGEM</p> + +<p> </p> +<p> </p> + +<p><b>PORTO</b><br> + +<small>TYP. E LYT. A VAPOR DE EDUARDO DA MOTTA RIBEIRO<br> + +215—RUA DE S. LAZARO—215</small></p> + +<p>1888</p> +</div> + +<p> </p> +<p> </p> + + +<div style="text-align:center;"> +<p style="font-size: 1em;">Ao conselheiro</p> + +<p style="font-size: 1.2em;">Antonio Maria Pereira Carrilho</p> + +<p style="font-size: 0.8em;">MEU ANTIGO E DEDICADO AMIGO</p> + +<p style="font-size: 1.4em;">COMO RECORDAÇÃO DAS AGRADAVEIS EXCURSÕES</p> + +<p style="font-size: 0.9em;">QUE JUNTOS FIZEMOS</p> + +<p style="font-size: 1.6em;">NO VERÃO DE 1888</p> + +<p> </p> +<p> </p> + +<p style="text-align:right; margin-right: 3em;">Offereço.</p> + +<p> </p> + +<p style="text-align:right; font-size: 1.2em;"><i>Alberto Pimentel.</i></p> +</div> + +<p> </p> +<p> </p> + +<p><a class="pn" name="pag_7">{7}</a></p> + +<div id="corpo"> +<h1>CHRONICAS DE VIAGEM</h1> + +<h2>I</h2> + +<h3>Nas Caldas da Rainha</h3> + +<p>Na quarta feira de manhã, o comboio em que eu vim para as Caldas da Rainha +regorgitava de viajantes.</p> + +<p>E desde quarta feira não tenho visto senão chegar ás Caldas gente, gente, +gente!</p> + +<p>Os hespanhoes vão mandando os seus primeiros contingentes, e d'aqui a poucos +dias chegará o grosso do exercito.</p> + +<p>Principia a ouvir-se já esse infatigavel chalrar das hespanholas, que ao +longo da alameda vão agitando a ventarola e... os quadris, passando como um +bando de cigarras palreiras, seguidas de grande numero de cigarrinhas não menos +garrulas do que as suas mamãs de olhos pretos e os seus papás de +<i>patillas</i>.<a class="pn" name="pag_8">{8}</a></p> + +<p>Muitas caras de Lisboa: pessoas da alta finança... com dyspepsia; e da +grande roda... com rheumatismo.</p> + +<p>Algumas pessoas da provincia, com ar de principes que viajam sob +incognito.</p> + +<p>Toda esta humanidade, mais ou menos espectaculosa, que passeia no Olympo da +alameda, de tridente na mão, desce do alto da sua importancia ao razo da +fragilidade do barro commum, logo que entra as portas da Copa.</p> + +<p>Ahi, perante as aguas, são todos eguaes.</p> + +<p>Portuguezas de chapeus de palha, hespanholas de mantilha, janotas do Chiado, +anciãos venerandos, sentados em torno da casa das pulverisações, voltados +contra a parede, de bocca escancarada, n'uma immobilidade paciente, deixam +penetrar na garganta, em pequenissimas gottas de agua do tamanho de missangas, +a aspersão d'esse hyssope therapeutico, que os ha de benzer... para o +inverno.</p> + +<p>Vêl-os alli e imaginal-os devotos romeiros que estão collando os seus labios +a uma nascente milagrosa de agua de Lourdes, é tudo uma e a mesma coisa. +Reverentes deante da torneira, de <i>bibe</i> de borracha em volta do pescoço e +toalha de algodão sobre os joelhos, parece entoarem mentalmente um hymno védico +em honra e louvor da agua das Caldas: «Gloria a ti nas torneiras, ó milagrosa +agua, que borrifas<a class="pn" name="pag_9">{9}</a> a minha garganta, desces +pelo meu esophago, penetras no meu corpo! Abençoada sejas tu e mais os sagrados +Pintos Coelhos da medicina, que mandam que a gente te sorva em pequenas doses, +tal qual como em Lisboa!»</p> + +<p>Mas, feita esta oração naturalistica, as damas, os janotas, os anciãos +arremessam com desdem o seu <i>bibe</i> de borracha, sacodem a toalha de +algodão, e readquirem, á sahida da Copa, o seu bello ar mundano, parecendo +dizer aos platanos da Alameda: «No reino animal, a que temos a honra de +pertencer, não somos nada inferiores a vós outros, senhores ornamentos do reino +vegetal!»</p> + +<p>E as andorinhas, que nas Caldas são em numero prodigioso, esvoaçando de +platano para platano parece dizerem lá de cima: «Como v. ex.ª está fresco com +as aguas! Viva v. ex.ª, e não falte cá para o anno!»</p> + +<p>Deante do Sebastião, que ministra os copinhos de agua das Caldas com a mesma +gravidade com que Ganimedes devia servir Jupiter á mesa dos deuses, toda a +gente tem um vago estremecimento do espirito, seja porque o Sebastião +represente a saude ou a diplomacia, pois que realmente a saude é a diplomacia +com que a gente quer tratar o corpo, e a diplomacia é a saude com que as nações +pretendem curar as suas mazellas.<a class="pn" name="pag_10">{10}</a></p> + +<p>É talvez por esta dupla representação que o Sebastião da Copa tem um certo +ar solemne, ao mesmo tempo de medico e de diplomata, não sendo elle nada +d'isso.</p> + +<p>Sebastião, antes de pegar no copo, do o lavar e de o encher, relanceia a sua +pupilla verde, n'uma observação rapida mas profunda, pela pessoa que está +deante de si.</p> + +<p>Estuda-a n'esse relance de olhos e, silenciosamente, como um soberano que +dispensa mercês, dispensa elle copos d'agua, servindo-se do seu gesto grave +como se fosse um decreto.</p> + +<p>Sim! a gente, tambem n'um relance, parece lêr isto nos seus olhinhos verdes: +«Eu Sebastião, copeiro por graça de Deus, sou servido servir este copinho +d'agua a este cavalheiro que o requer, com a circumstancia tacita de o julgar +tolo, porque principia por tomar cincoenta grammas quando devia limitar-se a +tomar apenas trinta. Mas eu, Sebastião, copeiro por graça de Deus, que estou +sempre ao pé da agua, lavo d'ahi as minhas mãos,—silenciosamente.—Dada de +bico callado aos tantos de tal, nas Caldas da Rainha e de copo na mão».</p> + +<p>A gente lê este decreto, toma o seu copinho, e sáe a porta. Respira-se então +melhor,—como quando se sáe da Ajuda. Até ir repetir a dose ninguem<a +class="pn" name="pag_11">{11}</a> pensa mais no Sebastião, porque é tambem esse +um ruim sestro da natureza humana: depois de recebida a graça, ninguem pensa +mais em quem lh'a concedeu.</p> + +<p>E os que receberam a agua no copo procedem similhantemente aos que receberam +a agua em pulverisação, isto é, desoppremidos, <i>dessebastianados</i>, +espanejam-se ao longo da Alameda rindo, conversando, como se gosassem a melhor +das saudes e não tivessem tomado remedio algum ha muitos annos.</p> + +<p>A saude, que todos de manhã julgam perdida, reapparece á noite, florescente +e agil, na valsa e mesmo no chá, entregando-se resolutamente aos compassos de +Strauss e ás bolachas do Club.</p> + +<p>Ora este Club das Caldas,—pois que fallei n'elle,—parece-se um pouco com +as praças de guerra: é dos primeiros que o occupam. Isto seria inteiramente +justo, por direito de conquista, se os primeiros que chegam se limitassem a +occupal-o,—mas fazem mais alguma coisa: entrincheiram-se em grupos.</p> + +<p>O grupo A arvóra bandeira, fortifica-se, e resiste.</p> + +<p>O grupo B hasteia egualmente a sua bandeira, fortifica-se, e... resiste.</p> + +<p>Os outros grupos fazem a mesma coisa.</p> + +<p>É um entrincheiramento geral.</p> + +<p>O melhor que ha a fazer, para tomar posse do Club das Caldas, é vir para cá +no S. João.<a class="pn" name="pag_12">{12}</a></p> + +<p>De resto é preciso escalar, fazer de Affonso Henriques deante de Santarem, +trepar de gatas pela muralha, pendurar-se das ameias. A alguns pobres rapazes +de dezoito annos, que ultimamente chegaram, temos visto realisar prodigios de +acrobatismo caldense para treparem á muralha e arrancarem uma valsa.</p> + +<p>E, porque n'essa edade tudo esquece facilmente, depois de tão trabalhosa +escalada sentem-se felizes girando em torno do salão, levando presa pela +cintura uma dama que lhes custou tanto a conquistar como a formosa Rachel a seu +primo Jacob.</p> + +<p>N'este caso, e sobretudo n'esta metaphora biblica, o tio Labão é +representado pelo entrincheiramento dos grupos entre si.</p> + +<p>Ás vezes os Jacobs do Club não dançam precisamente com a prima Rachel, isto +é, com aquella dama que elles prefeririam, porque essa tem-n'a o tio Labão +fechada a sete chaves n'um grupo. Mas, para não perderem de todo o tempo, vão +dançando com a Lia que por muito favor lhes concederam.</p> + +<p>A Matta é este anno um pouco abandonada. Não resiste á concorrencia que lhe +fazem o Ceu do Vidro e a Alameda, onde agora mesmo, tres horas da tarde de +domingo, ha numerosos grupos, conversando, jogando, observando. O amor, como um +macaco na floresta, vae saltando de arvore em arvore, e, escondido<a class="pn" +name="pag_13">{13}</a> entre as ramarias, despede settas certeiras, ficando a +rir e a baloiçar-se nos ramos...</p> + +<p>Com a sua ligeireza simiana ora aponta a um seio turgido, afofado entre +cambraias; ora, como que por ironia, dispara contra um peito já sabiamente +abroquelado para estes combates.</p> + +<p>No primeiro caso, a setta crava-se no alvo, que fica ferido, gottejando +sangue ardente.</p> + +<p>No segundo caso, resvala no broquel de aço e a dama, vendo cahir no chão a +setta, fica dizendo mentalmente: «Para cá vens tu de carrinho!...»</p> + +<p>Em duas horas observa-se toda a vida das Caldas; por isso, inteirado da +situação, tenho feito pequenas excursões fóra do mundo galante da Alameda.</p> + +<p>Fui á Lagôa de Obidos, que eu só conhecia nominalmente dos compendios de +chorographia.</p> + +<p>Passeio delicioso, por uma bella estrada marginalmente povoada de +pinheiros.</p> + +<p>Cheguei á Foz do Arelho ao cahir da tarde. A lagôa principiava a esbater-se +na penumbra, n'uma doce tranquillidade. Os pescadores recolhiam nas bateiras, +que singravam mansamente. Mulheres e creanças esperavam-n'os sentados na areia, +mas as creanças, logo que viram aproximar-se um trem, fizeram-lhe um verdadeiro +assalto, chegando a engalfinhar-se nas portinholas.<a class="pn" +name="pag_14">{14}</a> </p> + +<p>E na grande paz da lagôa a primeira treva da noite ia cahindo como um véo de +crepe, lentamente.</p> + +<p>Hontem fui de corrida á Nazareth.</p> + +<p>Ah! meu Deus! que desillusão!</p> + +<p>Caldas da Rainha, 5 de agosto de 1888.</p> + +<p><a class="pn" name="pag_15">{15}</a></p> + +<h1>CHRONICAS DE VIAGEM</h1> + +<h2>II</h2> + +<h3>A Nazareth</h3> + +<p>Acabam de contar os jornaes que ha poucos dias, em Cautterets, os cavallos +que puxavam o <i>break</i> de Sarah Bernhardt, assustando-se, na ponte de +Renquez, com o estrondo da agua, estiveram empinados sobre o abysmo, prestes a +despenharem-se na corrente.</p> + +<p>É pouco mais ou menos a historia do conhecido milagre de Nossa Senhora da +Nazareth.</p> + +<p>E digo pouco mais ou menos porque, sobre o rochedo da Nazareth, foi +miraculosamente suspenso á beira do abysmo um cavalleiro, que se chamava Fuas +Roupinho, e não um <i>break</i>, que conduzisse Sarah Bernhardt.</p> + +<p>A razão é simples: No tempo de Fuas Roupinho não havia ainda nem +<i>break</i> nem Sarah Bernhardt. O<a class="pn" name="pag_15">{15}</a> leitor +deve ficar convencido da verdade d'esta asseveração historica.</p> + +<p>Ora, no milagre da Nazareth, se o cavallo ficou empinado sobre o rochedo, +foi porque Nossa Senhora appareceu a soccorrer o cavalleiro, que a invocára.</p> + +<p>No caso de Sarah Bernhardt, quem acudiu á portentosa actriz não foi Nossa +Senhora da Nazareth, mas a propria Sarah Bernhardt.</p> + +<p>No momento do perigo, Sarah, que guiava o <i>break</i>, saltou da almofada, +poz-se á frente dos cavallos, segurou-os pelos freios, e... suspendeu-os no +azul, sobre a torrente...</p> + +<p>É tragico!</p> + +<p>Póde muita gente lançar este caso á conta das numerosas <i>blagues</i> que o +noticiario francez borda todos os dias phantasiosamente em torno do nome de +Sarah Bernhardt.</p> + +<p>Mas, por muito grande que seja a incredulidade d'essa gente, o caso da ponte +de Renquez não me quer parecer menos verosimil do que se me affigurou outro dia +a historia do milagre da Nazareth.</p> + +<p>Eu, como toda a gente, fui educado a ouvir fallar do milagre da Nazareth, e +a vel-o memorado em estampas coloridas, embora grosseiras, que figuram D. Fuas +Roupinho, de capinha de tenor e bonnet de penna de gallo, montando um cavallo +branco, que,<a class="pn" name="pag_17">{17}</a> de mãos no ar, se empinava +sobre um rochedo imminente ao oceano, o qual oceano fremia em vagalhões, hyante +e profundo.</p> + +<p>Um veado, de larga armação ramosa, saltava pelo ar, prestes a afundar-se, o +qual veado era nem mais nem menos que o diabo.</p> + +<p>Nossa Senhora da Nazareth, envolta em resplendores celestes, apparecia no +espaço, acudindo solicita á invocação do cavalleiro, o qual cavalleiro era, +como já dissemos, D. Fuas Roupinho.</p> + +<p>Pessoas que leram os <i>Quadros historicos</i> de Castilho, e n'elle o +rimance da Nazareth, sabiam, além d'aquillo, que este caso milagroso occorrera +n'uma fresca manhã de setembro, e que o rochedo do milagre estava pendurado +sobre o oceano na altura de duzentas braças.</p> + +<blockquote> + Rompeu-se com o sol a nevoa, <br> + E ao resplendor que luziu, <br> + Sobre penha, que duzentas <br> + Braças pende ao mar se viu <br> + <br> + Co'as mãos em vão sobre o abysmo, <br> + Trepidar e descair, <br> + Ennovelar-se erriçado. <br> + Pular atraz, refugir<a class="pn" name="pag_18">{18}</a> <br> + <br> + Um cavallo! e o bom Dom Fuas, <br> + Que o remessára até ali, <br> + Saltar por terra, clamando: <br> + —«Por ti, Senhora, é por ti!» <br> +</blockquote> + +<p>O milagre da Nazareth fôra posto em oratoria no theatro.</p> + +<p>Um rochedo de papelão, suspenso sobre uma torrente de lona azul, apparecia +recortando-se ao longe sobre o panno do fundo, que representava a vastidão +infinita do ceu.</p> + +<p>Um cavalleiro, tambem de papelão, galopava sobre um cavallo da mesma materia +prima, em perseguição de um veado que não era mais consistente.</p> + +<p>Cavallo e cavalleiro ficavam suspensos sobre o abysmo, e o veado +despenhava-se no mar com grande applauso dos espectadores, que jubilavam +catholicamente por vêr assim justamente castigado o diabo.</p> + +<p>Quando outro dia fui das Caldas da Rainha á Nazareth, evoquei na minha +memoria, que ainda não é das peiores, todo o apparato sobrenatural d'essa +tradição piedosa, com que na infancia tantas vezes fui acalentado pela velha +criada Joanna.</p> + +<p>Não sabia eu então onde ficava a Nazareth do milagre, nem me era preciso +sabel-o para o crêr.</p> + +<p>O que eu a preceito sabia, e não precisava saber mais nada, era que o +milagre acontecera, e que lá<a class="pn" name="pag_19">{19}</a> estava ainda, +onde quer que fosse, o rochedo pendente ao mar; e o vestigio sempre vivo de uma +pata do cavallo.</p> + +<p>Mais tarde a poesia de Castilho revestiu de prestigio, na minha imaginação, +a tradição do milagre, e, finalmente, mais de um livro de Julio Cesar Machado, +fallando das grandes festas dos cyrios da Nazareth, aguçara-me o apetite de ir +um dia, quando podesse ser, ao local do milagre.</p> + +<p>Fui. Não era pelo tempo dos cyrios, não havia portanto nem festas, nem +romeiros, nem lôas, nem offerendas. Nada d'isso. Mas o que eu esperava que +houvesse, n'aquelle dia de agosto em que fui á Nazareth, era o rochedo em cima +e o mar em baixo. Isso me bastaria para que eu, encontrando todos os pormenores +da tradição em inteira conformidade com as minhas recordações, continuasse a +acreditar no milagre com o mesmo prestigio e com a mesma fé.</p> + +<p>Fui, com estimaveis companheiros de viagem, que n'esse dia eram tres.</p> + +<p>E, não devo occultal-o por vergonha, á medida que da estação do Vallado +avançava para a Nazareth, o meu coração não trotava menos do que as miseras +pilecas que iam arrastando o <i>char-á-bancs</i>.</p> + +<p>Não desgostei de vêr de perto a Pederneira, que eu ha annos escolhera para +localisar ahi um pequeno<a class="pn" name="pag_20">{20}</a> conto que, se me +não engano, anda impresso no livro <i>Homens e datas</i>.</p> + +<p>Alexandre Dumas pae diz algures que não podia descrever os logares sem que +primeiro os visse. Creio que é n'um dos volumes das <i>Causeries</i>. Eu, para +em nada me parecer, infelizmente, com Alexandre Dumas, affoutava-me a escolher +logares de que algumas pessoas me haviam fallado com certo agrado, motivo por +que me não ficavam desagradando tambem a mim.</p> + +<p>Ora um d'esses logares fôra a Pederneira.</p> + +<p>E a Pederneira lá estava com a sua egreja e com as suas casas, um pouco +conforme ao que eu havia imaginado a seu respeito.</p> + +<p>Mas já então se via no horisonte o planalto da Nazareth, a que chamam o +<i>Sitio</i>, e nenhum rochedo avultava tanto, que eu pudesse desde logo gritar +aos meus companheiros de viagem: «É aquelle!»</p> + +<p>Havia effectivamente alguns rochedos alcandorados á borda do planalto, mas +nenhum d'elles destacava por imminente ao mar, como nas estampas coloridas, que +tantas vezes eu tinha, quando pequeno, contemplado em credula camaradagem com a +velha criada Joanna, a minha velha e querida Joanna.</p> + +<p>O que havia em baixo, mesmo por baixo dos rochedos, era a praia,—areia e +casas.</p> + +<p>Póde a praia ser muito boa para banhos, mas não<a class="pn" +name="pag_21">{21}</a> é para isso que eu quero as praias. Mais uma vez +declararei que o meu ideal balnear não vae além da tina e da esponja. Gosto +simplesmente das praias para vêr o mar; mas quero vel-o d'alto, que é a unica +maneira que a gente tem de contemplar o oceano sem tamanho vexame para a +pequenez humana...</p> + +<p>É certo que na Nazareth poderia, para vêr o mar a meu modo, subir ao +planalto, ao <i>Sitio</i>, como lá se diz.</p> + +<p>Mas custa tanto subir na Nazareth da praia para o <i>Sitio</i>, emquanto o +ascensor mechanico não estiver prompto, que é esse um prazer que mal se póde +ter todos os dias, pelo incommodo que importa.</p> + +<p>Assim, os banhistas da Nazareth teem que contentar-se de vêr o oceano como +naufragos que estivessem mettidos dentro d'elle. Parece, pelo menos, que está a +gente tomando banho dentro de uma tina, e que dentro d'essa tina está o mar. +Não gosto. É um capricho, uma idyosincrasia, mas não gosto. Prefiro a Ericeira +á Nazareth, porque na Ericeira a gente vê sempre o mar do alto das <i>ribas</i> +ou das <i>arribas</i>, como diz a gente da terra, e assim, visto do alto, o mar +parece que não deprime, que não esmaga tanto a pequenez do homem.</p> + +<p>Mas na Nazareth é possivel que o solo tenha passado por alguma grande +commoção, que alguma revoluçcão<a class="pn" name="pag_22">{22}</a> geologica +haja feito recuar o oceano para além da perpendicular do rochedo.</p> + +<p>O scenario do milagre póde ter mudado muito desde os tempos da fundação da +monarchia até hoje.</p> + +<p>Como porém já não encontrei o mar vagalhando debaixo do rochedo, e como o +rochedo, visto de longe, não me deu a impressão do milagre, peguei a descrer do +milagre por causa do rochedo, Deus me perdôe!</p> + +<p>Bem sei que era muito audaz a minha exigencia de querer encontrar tudo como +no tempo de D. Fuas Roupinho e na hora do prodigio. Mas assim mesmo é que eu +queria ter encontrado ainda as coisas... E quer-me bem parecer que só me +haveria contentado inteiramente toda a <i>mise-en-scene</i> do milagre: o +cavallo empinado sobre o rochedo, o veado descrevendo na queda uma larga curva, +e o mar em baixo, espumoso e vasto. Tal qual como nas estampas.</p> + +<p>Fui acima, ao <i>Sitio</i>, em trem, para vêr se podia reconstruir, +deixem-me dizer assim, o meu ideal da Nazareth mais do seu caso milagroso.</p> + +<p>O <i>Sitio</i> é, fóra do tempo dos cyrios, de uma tristeza morta, de uma +solidão sepulchral.</p> + +<p>Que mau senso teve o diabo! Comprehendia-se que tivesse querido attrahir D. +Fuas Roupinho a um sitio deleitoso, infernalmente bello e convidativo. Mas +áquelle logar! áquella solidão! Ali não ia ninguem,<a class="pn" +name="pag_23">{23}</a> ali ninguem cahiria na tolice de se deixar attrahir pelo +diabo, de mais a mais disfarçado em veado! Ainda se fosse em mulher!...</p> + +<p>Eu conheço varias partidas do diabo, que mostram que elle não tem tão mau +senso como isso! O diabo é sempre artista nos logros que arma, tão bem armados +que os proprios logrados costumam dizer: «Esta só pelo diabo!»</p> + +<p>Isto é: só armada por elle.</p> + +<p>Desconfiado, parti logo do principio de que Fuas Roupinho se não tinha +deixado engodar tão tolamente pelo diabo, n'aquelle sitio, como a lenda +dizia.</p> + +<p>O rochedo, visto de cima como visto de baixo, continuou a não me dar a +impressão do milagre. Vi um signal na pedra, e um rapazito disse-me que era o +vestigio de uma das patas do cavallo.</p> + +<p>Confesso que me fizera maior impressão,—muito maior!—a cruz de pedra que +Santo Antonio, tambem segundo a lenda, riscára com a unha na sé de Lisboa, +quando era menino do côro, e o diabo lhe appareceu feito mulher.</p> + +<p>—Sim—disse eu quando vi a cruz na sé—devia ser isso... para um santo que +quizesse resistir!</p> + +<p>Mas na Nazareth, espreitando para o rochedo por cima de um muro que me dava +pelos hombros, nenhuma voz disse dentro em mim:<a class="pn" +name="pag_24">{24}</a></p> + +<p>—Sim... é o signal da pata do cavallo. Devia ser assim para um cavallo... +que não quizesse cahir!</p> + +<p>E a historia do milagre galopava no meu espirito para o abysmo da +incredulidade, como o cavallo de D. Fuas Roupinho, na lenda, para o abysmo do +oceano.</p> + +<p>Mas entrei na egreja, doirada de bella obra de talha, vi a imagem de Nossa +Senhora no throno, fixei por alguns momentos a sua rude esculptura, e +pareceu-me que bem podia ter sido tudo como a lenda contava...</p> + +<p>Quando o homem está de joelhos, sente-se sempre menos propenso á +duvida...</p> + +<p>Quando voltei ás Caldas, disse a Julio Cesar Machado, que estava lá:</p> + +<p>—Olha que tu, com os teus livros, tiveste muita culpa n'esta passeiata que +eu fiz hoje á Nazareth. Não gostei...</p> + +<p>E elle respondeu-me:</p> + +<p>—Aquillo é muito bom quando é pelo tempo dos cyrios e pelo tempo... dos +dezoito annos, que foi quando eu vi bem os cyrios...<a class="pn" +name="pag_25">{25}</a> </p> + +<h1>CHRONICAS DE VIAGEM </h1> + +<h2>III</h2> + +<h3>Alcobaça</h3> + +<p>Quando eu escrevi a <i>Porta do Paraiso</i>, que tão boa fortuna alcançou, +como prova o facto de estar hoje em terceira edição, foi na villa de Alcobaça, +á sombra do vetusto mosteiro cisterciense, que localisei o principio da +novella, a qual depois se desdobra em Lisboa.</p> + +<p>Clarinha era d'ali, d'Alcobaça, de cujos vergeis floridos eu fallei sem os +ter visto. Foi em Alcobaça que lhe desabrochou no coração o primeiro amor, +primeiro e unico de toda a sua vida, o que já então era raro e hoje é +rarissimo. Eu não tinha visto os coutos pittorescos de Alcobaça, abundantes de +fructas e aguas, de sombras e frescura, mas conhecia-os pela <i>Alcobaça +illustrada</i> de Frei Manuel dos Anjos e pela descripção<a class="pn" +name="pag_26">{26}</a> oral, muitas vezes repetida, sempre calorosamente, de um +rapaz que era d'ali natural e estava desempenhando no Porto o cargo de +guarda-livros da Companhia Viação, a Entre-Paredes.</p> + +<p>Ha quinze annos eu conhecia pouco o paiz: um bocado do Minho, outro bocado +do Douro, e mais nada. O scenario de que podia dispôr era, pois, muito +resumido, acanhado. Depois d'isso é que me pude dar o prazer de +<i>touriste</i>, e hoje, com excepção do Algarve, conheço menos mal o paiz. A +paizagem agreste do Douro abundava já nos meus primeiros livros, de modo que, +posto curasse por informações, foi por amor da variedade que eu desferi vôo +para Alcobaça a fim de pendurar nos seus arvoredos a minha novella, como um +ninho de tristezas brandas, que a minha imaginação, timida andorinha, se +propunha fabricar...</p> + +<p>Quando se abre o livro, está-se em Alcobaça; assiste-se a um serão de +Clarinha: o tio a um lado, a outro lado o primo revolvendo livros.</p> + +<p>Não me demorei em pormenores de paizagem; descrevi-a em dois traços, de +fugida, porque o que eu queria era achar um sitio de eleição, que fosse ameno e +formoso, e cujo nome bastasse ser indicado para que se comprehendesse que +n'esse meio geographico não podiam gerar-se caracteres abominaveis.</p> + +<p>Eu sempre detestei... o abominavel, então e agora.<a class="pn" +name="pag_27">{27}</a> </p> + +<p>Rodaram annos, estive de passagem n'outras localidades, bem menos agradaveis +por certo, e sempre me ficava no fundo da alma, como uma violeta antiga, +perdida entre as paginas d'um livro, o desejo saudoso (deixem-me dizer +saudoso...) d'essa villa opulentamente fradesca, onde eu só mentalmente havia +estado alguns dias, com Clarinha, com seu tio e com seu primo, assistindo em +espirito a esses doces serões de provincia.</p> + +<p>Foi só agora que pude apagar a saudade d'esse desejo.</p> + +<p>Quando nas Caldas o revelei ao meu velho amigo Carrilho, elle, que tinha +estado poucos dias antes em Alcobaça, disse-me com a sua habitual energia:</p> + +<p>—Homem, amanhã, no comboio do meio dia, partimos ambos para Alcobaça.</p> + +<p>—Mas lá perdemos nós uma tarde de aguas, e foi para tomar as aguas que eu +vim ás Caldas.</p> + +<p>Elle replicou:</p> + +<p>—Tomaremos as aguas de manhã; de tarde tomaremos Alcobaça. Á noite +estaremos a jantar nas Caldas, de regresso. Um passeio que se faz por gosto, +vale por um bom remedio.</p> + +<p>Fomos. Já tinhamos ido á Nazareth, o que quer dizer que já conheciamos a +linha da Figueira até á<a class="pn" name="pag_28">{28}</a> estação do Vallado. +A surpreza, para mim, começava d'ahi por deante.</p> + +<p>A planicie verdejante do Vallado, essa immensa campina plana como a palma da +mão,—propriedade do snr. Manuel Iglesias,—era para mim o bello prologo da +viagem a Alcobaça pela linha da Figueira.</p> + +<p>O Vallado é realmente um sitio delicioso, vasto, lavado de um puro ar +saudavelmente temperado com o oxygenio dos campos e o iodo do mar, que não fica +longe. Principia ahi o grande pinhal de Leiria; uma guarda avançada de bastos +pinheiros faz sentinella ao <i>chalet</i> encarnado onde reside um fiscal da +matta. Ao longe, dominando a estrada da Nazareth, o morro de S. Bartholomeu, +phantasiosamente recortado, com a sua ermidinha entalada entre rochedos, parece +olhar desdenhosamente para a planicie infinita que se lhe desenrola aos pés, +timidamente, longamente...</p> + +<p>Do Vallado para Alcobaça ha diligencias, a tostão por pessoa. É preciso +deixar passar o comboio para podermos atravessar a linha. Esperam-se cinco +minutos, o comboio parte, e a diligencia do Gallinha parte logo depois do +comboio.</p> + +<p>A estrada é graciosa, alegre como um sorriso luminoso da natureza, feito de +claridade e de verdura. A breve trecho estamos na Fervença, cujo nome provém<a +class="pn" name="pag_10">{29}</a> das suas aguas sulphurosas, e onde um velho +portico de propriedade nobre me enleiaria o olhar, se não tivesse de voltar-me +logo para vêr o edificio da fabrica de fiação e tecidos, estabelecida alli em +1874.</p> + +<p>Sombras, frescura, agua, a flux,—uma estrada que mais parece uma avenida de +recreio cortada atravez de uma floresta banhada por nascentes abundantes.</p> + +<p>Avista-se Maiorga, avistam-se casaes alvejantes, frescos e claros, brilhando +na palpitação suave da verdura, levemente batida por uma pontinha de ar +refrigerante. A agua corre nos campos, em ondas de abundancia, entornando +diamantes ao saltar de pedra em pedra, como uma princeza louca, que vae +estragando thesouros. E o arvoredo põe no solo branco e crú grandes manchas de +sombra, que parecem ligar-se caprichosamente pelos seus contornos irregulares, +phantasticos.</p> + +<p>Surge-nos á margem da estrada outra fabrica, de louça, dando-nos a conhecer +que vamos entrando n'um concelho vitalisado pela industria, laborioso e rico. +Depois as primeiras casas da povoação, brancas e baixas, enfileiram-se em +linha, correndo a par da diligencia, e um palacio, dominador e vasto, abre á +luz sobre a estrada as suas janellas em longas series parallelamente +dispostas.</p> + +<p>Vejo, de relance, sobre um cunhal de muro o letreiro<a class="pn" +name="pag_30">{30}</a> que diz: <i>Rua de Frei Fortunato</i>. E penso n'este +nome. Emquanto a diligencia roda, lembro-me que aquella rua memorará frei +Fortunato de S. Boaventura, alcobacense, miguelista acerrimo, polygrapho +fecundo, author da <i>Historia chronologica e critica da real abbadia de +Alcobaça</i>. E d'ahi talvez não seja; mas aposto que será esse mesmo, o de S. +Boaventura.</p> + +<p>A diligencia entra n'um triumpho de estrondo e poeira—egual a todos os +outros triumphos—no Rocio de Alcobaça, e á nossa esquerda, como um leviathan +de pedra, ferido pelo arpéo do vandalismo, o mosteiro avulta na sua vastidão +enorme, fria e dura, remendado, propinado, cuspido na face vetusta pela +antiguidade e pelo progresso.</p> + +<p>A egreja, encravada no mosteiro, exhibe n'uma confusão chaotica os seus +numerosos estylos architetonicos, especie de <i>bric-á-brac</i> de todas as +grandezas de um passado extincto, e por entre as pedras e as imagens que +negrejam como carvões contrastam remendos de cartão branco, farrapos de pedra +nova, fazendo lembrar uma capa de pedinte pendurada do alto das torres, e +aberta ao sol.</p> + +<p>Imaginem que visitando um dia a feira da ladra se recordaram subitamente de +D. Affonso Henriques ao vêr um capacete de armadura posto sobre uma farda de +soldado da guarda municipal.<a class="pn" name="pag_31">{31}</a></p> + +<p>Foi o que me aconteceu.</p> + +<p>D. Affonso Henriques passou por ali, e plantou um mosteiro. Mas veio depois +a invasão de Miramolim, e derrubou-o. Poz-se uma estaca á arvore partida, e a +arvore renasceu. Vieram ainda depois os caprichos realengos, os accrescentos +anachronicos, os terremotos, os raios, e D. Affonso Henriques, se voltasse a +este mundo, não conheceria a sua bella arvore de pedra, plantada em honra de +Nossa Senhora, por memoria do feito de Santarem.</p> + +<p>Aberta a porta do templo, talhada em arcos ogivaes, as suas vastas tres +naves alongam-se n'uma fria extensão silenciosa, e ao fundo a capella mór, em +semi-circulo como todas as charolas das grandes basilicas, esfuma-se n'um como +nevoeiro, que duvidosamente deixa entrever columnas e imagens.</p> + +<p>Á esquerda, uma porta abre sobre a chamada <i>casa dos reis</i>, que se nos +patentêa com os seus altos azulejos allegoricos, o seu caldeirão bojudo de +Aljubarrota e as suas estatuas grotescas, de reis antigos, presididas por +Affonso Henriques, recebendo a corôa, curvado aos pés de S. Bernardo, essa +<i>montanha de santidade</i>, como lhe chamou frei Luiz de Souza.</p> + +<p>Á ilharga de Affonso Henriques, n'uma prateleira, um pequeno busto, em +gesso, de D. Pedro V, põe n'essa galeria de antigas estatuas de reis, +modeladas<a class="pn" name="pag_32">{32}</a> ao natural, uma nota acre do +contraste moderno, mostrando como os reis teem ido perdendo na grandeza da sua +exhibição...</p> + +<p>Tudo o que em Alcobaça é moderno, é atroz: especialmente o vandalismo.</p> + +<p>É verdade que os francezes roubaram todas as alfaias valiosas do mosteiro; +que abriram sacrilegamente os tumulos de D. Pedro e de D. Ignez, para arrancar +aos cadaveres as suas ricas vestes reaes; mas, em nome da liberdade, os +indigenas foram depois roubando, a exemplo dos francezes, as reliquias e as +pedras, indifferentemente, os santos e as cantarias; a verdade é que os +governos do fim do seculo não são menos vandalos do que os francezes do +principio d'elle, porque não tardará muito, talvez, que toda a abobada do +templo, já fendida, desabe.</p> + +<p>Aquelles dois tumulos que, entre outros, se encontram n'uma capella do +cruzeiro, estão immensamente divulgados pela photographia, pela gravura, pela +poesia, mas hão de ser eternamente o assombro de quem visitar Alcobaça, porque +tudo n'elles é grandioso e sublime, desde o mais subtil pormenor dos arabescos +até ao doce perfume de amor que parece exhalar-se desses dois sarcophagos, como +do calix de dois lyrios brancos sempre frescos...<a class="pn" +name="pag_33">{33}</a></p> + +<h1>CHRONICAS DE VIAGEM</h1> + +<h2>IV</h2> + +<h3>Os tumulos de Ignez de Castro e D. Pedro</h3> + +<p>Aqui temos pois deante de nós, como dois lyrios brancos de marmore, os +sarcophagos de que parece exhalar-se, como um perfume fugitivo, a lenda +medieval d'essa grande catastrophe amorosa.</p> + +<p>Da historia d'esses tragicos amores pouco se sabe ao certo, mas a lenda +embala a nossa imaginação desde os primeiros annos da infancia; todos a +conhecemos, e todos a acreditamos.</p> + +<p>Sabemos o que nos disse Camões, que copiou a tradição legada por Garcia de +Rezende, servindo-se ás vezes das mesmas phrases. E, verdade verdade, n'este +moribundo seculo de reconstrucções historicas, nenhum documento que fizesse luz +e que fizesse fé<a class="pn" name="pag_34">{34}</a> veio a lume para +esclarecer a tradição dos amores de Ignez de Castro.</p> + +<p>Camillo Castello Branco tem na sua pasta, recolhidos e colleccionados, +materiaes importantes, que farão revelações de alto valor sobre esta nublosa +questão historica; mas, infelizmente, não poude ainda dispôl-os, ligal-os, +conglobal-os n'um livro, que deverá causar sensação quando apparecer.</p> + +<p>Todos temos caminhado até hoje ao capricho das incertezas da lenda, que ora +faz de Ignez de Castro um caracter perfido, ora um caracter angelico, segundo a +lenda é recolhida n'esta ou n'aquella provincia.</p> + +<p>Nem a propria individualidade de Ignez de Castro está fixada ainda +historicamente; e os pormenores dos seus amores com o infante D. Pedro, depois +rei de Portugal, envolvem-se n'uma especie de via-láctea romantica, de veu +poetico atravez do qual não foi possivel ainda descortinar com segurança a +verdade.</p> + +<p>Mas seja qual for a historia d'esses pormenores, qualquer que venha a ser a +liquidação definitiva d'esse acontecimento historico, o que não póde pôr-se em +duvida, deante dos dois sarcophagos de Alcobaça, é que houve n'esses amores +todo um idyllio de sublime poesia do coração, todo um drama vibrante de +sentimento, poetico e grandioso.<a class="pn" name="pag_35">{35}</a></p> + +<p>Seria preciso que no animo duro de um tal homem como D. Pedro +<small>I</small> houvessem cantado e raivado todas as doçuras e todos os +desesperos do amor para que elle phantasiasse a fabrica delicadissima d'esses +dois tumulos tão similhantes nos traços geraes da sua tonalidade artistica, e +tão irmãos na homogeneidade da expressão sentimental que a pedra conserva ainda +atravez dos tempos.</p> + +<p>Foi elle que planeou a construcção d'esses dois sarcophagos, diz a tradição, +e que para um d'elles ordenou fosse removido desde Coimbra o cadaver de Ignez, +ficando o outro vazio, á espera que soasse a hora de o ir povoar na solidão +eterna da morte...</p> + +<p>Assim devia ter sido; assim foi decerto. Dil-o a pedra dos sarcophagos mais +eloquentemente do que as chronicas. Só o amor poderia ter inspirado a concepção +d'esses dois tumulos monumentaes; só um fino amante, como se diz fôra D. Pedro, +poderia ter mandado fabricar esses dois leitos de marmore para um noivado +infinito, insaciavel.</p> + +<p>Houve no espirito de D. Pedro uma preoccupação dominante, que elle fez +comprehender ao esculptor: que a posteridade visse bem n'essa figura de mulher, +lavrada a vulto sobre o sarcophago, uma rainha posthuma, e um anjo torturado. A +corôa, o manto, as armas reaes de Portugal testemunham claramente<a class="pn" +name="pag_36">{36}</a> que jaz ali uma princeza em toda a pompa funebre da +magestade real. Os anjos, ronflando as azas, de joelhos, e sustentando as +almofadas de marmore sobre as quaes a cabeça de Ignez repousa, deixam +comprehender que essas duas creanças aladas estão alli acarinhando uma irmã que +passou pelo mundo soffrendo, e que partiu sorrindo...</p> + +<p>Aos pés de Ignez, enroscado n'uma indolencia amortecida, um lebreu, symbolo +da lealdade, representa como que a firmeza d'esse amor inconsolavel, a +constancia d'essa dedicação heroica, parecendo chorar em silencio, na tristeza +de uma grande dôr, como se fosse o proprio coração de D. Pedro.</p> + +<p>Nenhum outro symbolo teria ali logar mais proprio nem mais exacta +representação. O que esse pensativo lebreu exprime não o poderia dizer nenhum +poema, nenhum epitaphio. É por isso que o symbolo se repete no tumulo de D. +Pedro: bellamente esculpturado, um grande cão de marmore vigia atravez da +eternidade aos pés do rei amante, como para significar que o seu amor +sobreviveria ao aniquilamento do coração, quando o cadaver do rei baixasse a +descançar n'aquelle seu ultimo leito.</p> + +<p>A luz triste, coada atravez da verdura das arvores, que entra na capella, +põe uma nota de doce e delicada melancholia no ar silencioso; e em torno dos<a +class="pn" name="pag_37">{37}</a> dois sarcophagos alguns tumulos de reis e +infantes affiguram-se nos mesquinhos, e como que perdidos na irradiação +absorvente d'aquelle poema de amor, feito de dois blocos de marmore, que o +espaço separa, mas que o pensamento une.</p> + +<p>Depois da visita aos tumulos de Ignez de Castro e D. Pedro sente a gente que +nenhuma outra commoção poderá brotar dentro das paredes do templo ou do +mosteiro. A casa das reliquias, que aliás brilham pela sua ausencia, o +claustro, a farrapagem hybrida de remendos architectonicos que no edificio se +atropellam e baralham, a vastidão glacial dos pavimentos e das paredes, o latim +barbaro dos epitaphios, as largas fendas que por toda a parte ameaçam ruina +imminente, todo esse espectaculo ao mesmo passo apparatoso e maltrapido de um +monumento que se desconjunta, não consegue apagar no nosso espirito a impressão +dolente que nos deixaram os dois tumulos de Ignez de Castro e D. Pedro e que +continúa soluçando no nosso coração como o murmurio de uma fonte ou o rythmo de +uma elegia.</p> + +<p>O que está em volta de nós é já uma coisa muito differente, é a devastação +do antigo pela invasão do moderno, é o mosteiro convertido em quartel, em +tribunal, em escola, em habitação particular, é o vaso<a class="pn" +name="pag_38">{38}</a> de barro, aqui fendido, ali modernisado, mas todo elle +profanado, que contém ainda dentro em si dois lyrios brancos de marmore, que +guardam nos seus calices rendilhados o aroma subtil de uma grande paixão +antiga.</p> + +<p>Tirassem de Alcobaça esses dois sarcophagos, e não valeria a pena lá ir.</p> + +<p>O que falta n'esse colosso de pedra que se chama o convento de Mafra, para +de algum modo o vitalisar na sua inutilidade monumental, para lhe dar uma +pulsação, um toque de vida, uma scentelha de espiritualidade, é um poema de +amor como aquelle que se perpetua sob as abobadas rôtas do templo de Alcobaça, +salvando-o do esquecimento.</p> + +<p>Nenhuma brisa refrigerante de sentimento, de poesia, de nobreza immaterial +passa por aquella aridez pesada de Mafra para suavisal-a um pouco. Tudo ali é +frio como o coração de D. João <small>V</small>, resistente como a sua +voluptuosidade nunca farta, dispendioso como a enormidade dos seus caprichos +egoistas, pessoaes...</p> + +<p>A Alcobaça aconteceria a mesma coisa, porque o edificio é no tom geral da +sua architetura tão carregado e monótono como o de Mafra, se não tivesse a +espiritualizal-o esse romance cavalheiresco que se encerra nos dois tumulos da +capella de S. Vicente, e<a class="pn" name="pag_39">{39}</a> que atravessa o +nosso espirito como uma onda de éther, elevando-se para as alturas.</p> + +<p>Do mais que eu vi em Alcobaça, na egreja e no mosteiro, não vale a pena +fallar.</p> + +<p>Ha muita gente que se encanta vendo a cozinha, onde bois inteiros podiam ser +assados, sem que os cozinheiros corressem o risco de acotovellar-se, e onde a +agua corria de numerosas torneiras cahindo sobre bellos tanques de marmore +n'uma abundancia torrencial, diluviosa.</p> + +<p>Francamente, só de alongar os olhos pela cosinha de Alcobaça me senti +enjoado, indigesto, como se estivesse a olhar para uma grande escudella de +orelheira com feijão branco.</p> + +<p>Todas as materialidades fradescas do mosteiro passaram sem relevo pelo meu +espirito, perdendo-se na vulgar noção de egoismo e opulencia que caracterisavam +por toda a parte certas ordens monasticas.</p> + +<p>Sahindo do mosteiro, onde o cheiro a bolôr é acre e irritante, banhei os +pulmões com delicia na frescura oxigenada que se exhala do arvoredo dos antigos +coutos, onde a agua canta pagãmente o velho poema mythologico da Mãe-Terra, +<i>Alma-Mater</i>, fonte perenne de abundancia, rasgando eternamente o seio +fecundo para alimentar os filhos ephemeros.<a class="pn" +name="pag_40">{40}</a></p> + +<p>E uma hora depois, dentro da diligencia do Gallinha, que rodava para a +estação do Vallado, vinha eu dizendo ao meu bom amigo Carrilho:</p> + +<p>—Mas que diabo de auctoridade temos nós para queixarmo-nos do vandalismo +dos francezes, se ainda somos mais vandalos do que elles?!...<a class="pn" +name="pag_41">{41}</a></p> + +<h1>CHRONICAS DE VIAGEM</h1> + +<h2>V</h2> + +<h3>Em Obidos</h3> + +<p>Ha muitos annos que eu conhecia de nomeada o Padre Antonio das Caldas.</p> + +<p>Ouvia dizer que, sem menospresar os seus deveres sacerdotaes, era um homem +de sociedade, amavel e jovial, intelligente e insinuante.</p> + +<p>As senhoras que voltavam das Caldas da Rainha vinham contar agradabilissimas +impressões d'esse homem estimadissimo, cujo talento se repartia por multiplices +aptidões:</p> + +<p>Padre Antonio orador sagrado;</p> + +<p>Padre Antonio valsista;</p> + +<p>Padre Antonio cantor;</p> + +<p>Padre Antonio poeta.</p> + +<p>Eu fui este anno para as Caldas com um grande<a class="pn" +name="pag_42">{42}</a> desejo de conhecer este bom Padre Protheu, que se fazia +estimar de toda a gente pelas variadas modalidades do seu talento.</p> + +<p>Quarenta e oito horas depois de eu ter chegado ás Caldas da Rainha, um amigo +meu, acompanhado por outro cavalheiro, ia a balbuciar algumas palavras de +apresentação, quando esse outro cavalheiro, para mim desconhecido, o +interrompeu dizendo:</p> + +<p>—Nós somos amigos desde creanças: Eu sou o Padre Antonio das Caldas. +Teriamos nós dez para onze annos quando nos encontrámos pela primeira vez, na +Foz do Douro, em casa de Joaquim Corrêa de Oliveira, de S. Pedro do Sul. +Lembra-se? Nunca mais me esqueceu a sua physionomia. Vi-o uma vez em Lisboa, em +S. Bento, e você acabava de sahir justamente no momento em que eu o ia +procurar. Dê cá os seus ossos.</p> + +<p>Encantado com a surpreza, dei-lhe os meus ossos, e a minha amisade. Uma hora +depois, estávamos de pedra e cal,—para a vida e para a morte.</p> + +<p>Padre Antonio, com ser das Caldas, vive em Obidos, onde tem capellania.</p> + +<p>Sabendo isto, fallei-lhe logo de Obidos e dos quadros da celebre Josepha de +Ayalla, que eu desejaria vêr.</p> + +<p>Padre Antonio respondeu:<a class="pn" name="pag_43">{43}</a></p> + +<p>—Isso arranja-se. Você vae almoçar comigo um dia d'estes, e eu mostro-lhe +Obidos de <i>fond en comble</i>.</p> + +<p>E como eu hesitasse, acrescentou:</p> + +<p>—Sim, snr. Você vae almoçar comigo e eu dar-lhe-hei para almoçar a vacca e +riso de frei Bartholomeu dos Martyres. Serve-lhe?</p> + +<p>—Serve-me que apenas me mande servir a supradita vacca e o sobredito riso +do sobredito arcebispo. N'essas condições, acceito.</p> + +<p>—Está tratado.</p> + +<p>Padre Antonio quiz dar-me para esse almoço um excellente companheiro: o meu +velho amigo Pereira Carrilho, com quem em menos de quinze dias fiz uma larga +serie de passeios: á Nazareth, a Alcobaça, á Figueira, á Foz do Arelho e a +Obidos.</p> + +<p>E, note-se, não perdemos um dia de aguas. Digo isto aqui para que o meu +medico, e tambem velho amigo, dr. Ferrer Farol, não ralhe comigo na volta a +Lisboa. Não, snr. Eu tomei sempre a minha agua, eu tomei sempre o meu banho, e +não perdi occasião de passeiar,—para de algum modo coroar a obra therapeutica +do dr. Farol.</p> + +<p>Se fosse n'outro tempo, ter-me-ia custado ter que abandonar á noite o club +das Caldas, onde a valsa era adorada com idolatria.</p> + +<p>Mas com trinta e oito annos ás costas—o peso<a class="pn" +name="pag_44">{44}</a> de uma cruz!—a valsa seria para mim um <i>tour de +force</i> incomportavel, um calix de agonia.</p> + +<p>Nada d'isso. Nas Caldas da Rainha não provei d'esse calix, nem do chá do +club. Não ingeri lá outros liquidos além da agua da Copa e do vinho das +Gaeiras.</p> + +<p>Quanto a solidos, já não posso dizer outro tanto, pois que prestei, como +devia, gastronomica homenagem ás cavacas das Caldas.</p> + +<p>E, ao comel-as, reconheci que ainda vale muito, n'este mundo, ter uma +lenda.</p> + +<p>É que as cavacas das Caldas teem mais lenda do que assucar.</p> + +<p>Nós, os dois convidados para o almoço de Obidos, recebemos da mão do +<i>honorable</i> Sebastião da Copa o nosso copinho de agua das Caldas, e, +entrando para um trem, partimos caminho d'Obidos.</p> + +<p>A manhã estava serena, como se dizia nos romances antigos. A neblina matinal +levantava vôo do alto dos montes, como se fosse um bando de aves transparentes, +de grandes azas abertas. E dos campos vinha esse cheiro sadio a ervas verdes e +viçosas, que faz a delicia dos pulmões. A estrada é excellente, se bem que nem +sempre plana. Obidos fica muito elevada, dentro das ruinas do seu famoso +castello: a estrada sóbe colleando como uma serpente.<a class="pn" +name="pag_45">{45}</a> </p> + +<p>Avistava-se já a muralha do castello, que era enorme, rota em muitos lanços, +alguns dos quaes escancaravam para o azul da manhã a sua hyante goella de +pedra.</p> + +<p>Horisontalmente, desenhavam-se, ao longe, os arcos do extenso aqueducto de +Obidos, atravez dos quaes a luz passava como n'uma vista de scenographia.</p> + +<p>E em baixo, á beira da estrada que iamos seguindo, cada vez se avisinhava +mais de nós a egreja do Senhor da Pedra, denunciando logo na sua construcção a +mão dadivosa de D. João <small>V</small>.</p> + +<p>E o nosso apetite, espicaçado pela agua das Caldas, ia cantando gloria +antecipada em honra do almoço de Padre Antonio.</p> + +<p>Não era assim, Carrilho?</p> + +<p>Entrámos a velha porta do castello, que conserva o seu feitio antigo.</p> + +<p>E logo o estrondo do trem attrahiu ás janellas dos predios, arrimados contra +a muralha ou encravados n'ella, caras curiosas, petrificadas de surpreza, +justificada surpresa n'aquella solidão montanhosa, que raros <i>touristes</i> +visitam, áquella hora, especialmente.</p> + +<p>O nosso trem parou um pouco ao acaso. E nós dissemos ás caras das janellas e +ás caras das portas que iamos alli sobrescriptados para o snr. Padre Antonio.<a +class="pn" name="pag_46">{46}</a></p> + +<p>Então uma voz, cahindo do alto de uma janella, disse:</p> + +<p>—O snr. Padre Antonio foi caçar perdizes para os senhores almoçarem.</p> + +<p>A minha consciencia bradou mentalmente:</p> + +<p>—Maroto! O que elle nos tinha promettido era a vacca e riso de frei +Bartholomeu dos Martyres; nunca as perdizes de Padre Antonio d'Almeida!</p> + +<p>E o meu apetite, que tem bom ouvido, replicou do lado:</p> + +<p>—Deixa lá! Não ha, para almoçar, como uma perdizinha fresca. O Padre sabe +disto...</p> + +<p>Apeiámo-nos, e entramos na primeira egreja que se nos deparou aberta. Em +Obidos ha, principalmente, egrejas e ruinas. Além d'isto, ha tambem bellas +perdizes, que Padre Antonio caça. Mas isso fica para logo...</p> + +<p>Ora n'essa egreja havia muitos e grandes quadros.</p> + +<p>—Cá estão elles, dissemos nós, os quadros da Josepha!</p> + +<p>E eram. Estavamos, sem o saber, na egreja de Santa Maria Maior.</p> + +<p>Assumptos sacros, que foram os que mereceram a predilecção de Josepha +d'Ayalla. As suas duas <i>maneiras</i>, antes e depois da viagem a Italia, +estão<a class="pn" name="pag_47">{47}</a> bem accentuadas n'esses quadros. A +segunda <i>maneira</i>,—depois da viagem,—accusa um sensivel progresso pela +imitação dos pintores italianos da Renascença. Pelo menos, pareceu-nos isto.</p> + +<p>Josepha de Obidos tem decerto defeitos como artista. Mas as cabeças das +figuras dos seus quadros estão, por via de regra, excellentemente tratadas. Era +uma habil retratista, que sabia tocar as physionomias com grande verdade e +expressão.</p> + +<p>Áquella hora, a luz não nos ajudava muito; a melhor hora, disse-nos depois +Padre Antonio, seria o meio dia. Ainda assim, estudamos os quadros durante +longo tempo.</p> + +<p>Uma mulher que estava rezando, levantou-se para dizer-nos:</p> + +<p>—Quem sabe explicar tudo isto é o snr. Padre Antonio, mas elle foi caçar +perdizes para uns hospedes, que talvez sejam os senhores.</p> + +<p>Que sim, que eramos nós; e que as perdizes e Padre Antonio já iam +tardando... todos.</p> + +<p>—E aquelle tumulo? De quem será aquelle bello tumulo, de tão primorosos +ornatos, que alli está mettido na parede?</p> + +<p>A beata:</p> + +<p>—Que o snr. Padre Antonio, quando viesse com as perdizes, explicaria tudo +cabalmente.<a class="pn" name="pag_48">{48}</a></p> + +<p>E então, n'um reccanto do templo, dentro de um caixãosinho de madeira, +deposto sobre um banco, vi o cadaver de uma creança, os braços magrinhos +encruzados, um lenço branco sobre o rosto, flores aos pés e no vestido.</p> + +<p>O cadaver do uma creança! Pois póde haver nada mais triste do que o +espectaculo d'uma creança morta?! Que se morra cançado da vida, vá. Mas fazer +palpitar tres corações, os dos paes e o do filho, para ferir todos tres de um +só golpe, chegaria a ser cruel, se Deus não fosse infinitamente bom!...</p> + +<p>N'isto sentimos passos; voltámos-nos. Era Padre Antonio que chegava, em fato +de caçador, com dois cães que o farejavam.</p> + +<p>—Que as perdizes já estavam a cosinhar-se, tenras e gordas. Era o melhor +almoço que um caçador podia dar. Tinha promettido, confessava, a vacca e o riso +do frei Bartholomeu dos Martyres. Da vacca tinha mandado fazer <i>beefs</i>. O +riso trazia-o alli, nos labios, e era patriarchal de hospitalidade sincera, +como no Oriente... Mas as perdizes quizera-as ir caçar n'aquella manhã o seu +amigo caçador Antonio de Almeida, para mandal-as ao Padre, que esperava +hospedes para o almoço. Elle não tinha culpa de que o seu amigo caçador, apesar +de lhe estar dentro da propria pelle, se lembrasse de lhe fazer um presente +de<a class="pn" name="pag_49">{49}</a> perdizes para o almoço e como Padre +Antonio, que fôra quem as recebera, tinha gente de fóra para almoçar, pedia +licença para mandal-as pôr na mesa com molho de <i>villão</i>. E que depois +lambessem os beiços... Estava certo d'isso.</p> + +<p>Padre Antonio explicou tudo: os quadros, o tumulo, a historia d'aquella +egreja, tudo.</p> + +<p>E a mulher:</p> + +<p>—Que ella bem nos tinha dito que não havia para explicar Obidos inteira +como o snr. Padre Antonio!</p> + +<p>E Padre Antonio:</p> + +<p>—Que ficasse com Deus, que nós iamos ao castello.</p> + +<p>Fomos ao castello, subimos á torre de menagem.</p> + +<p>Padre Antonio explicava todas as ruinas, a lettra de todas as inscripções +apagadas, a historia de todas as pedras cahidas.</p> + +<p>E, no alto da torre de menagem, estendendo o braço direito no ar:</p> + +<p>—Aquelle logar chama-se assim; aquelle monte chama-se assado. Acolá era a +Quinta das Flores, para regalo das rainhas. Aqui, n'este mesmo sitio, esteve a +Senhora D. Maria Pia de Saboya. Eu vinha da caça tambem com o meu fato de +caçador, ainda a pensar nas perdizes. E chamaram-me cá de cima: era o Pindella. +Que sua magestade queria fallar-me. Tudo menos<a class="pn" +name="pag_50">{50}</a> isso: estou em fato do caçador. Que assim mesmo havia de +ser. E foi... Olhe lá: Vê aquelle azul, além? É a lagôa. Você já foi á Foz do +Arelho? Pois eu vou ámanhã para lá. Morro por aquillo; gosto de estar só na +Foz. Faço-me pescador, e gosto! Nem já me lembro das Caldas. A Foz é melhor, +por que eu na Foz sou selvagem: vivo na natureza. Ora, com a breca! as perdizes +já devem estar promptas... Vamos lá almoçar... Ó Pimentel, tome cuidado; veja +que não caia. A rainha subiu e desceu intrepidamente; não cahiu... Com molho de +<i>villão</i> as perdizes não devem estar más.. Vão sendo horas. Até já os cães +querem almoçar!...</p> + +<p>Padre Antonio vive na unica hospedaria que ha em Obidos, e foi ahi que nos +offereceu, não o promettido almoço de frei Bartholomeu dos Martyres, mas um +banquete de Lucullo.</p> + +<p>A cada prato que ia chegando, eu e Carrilho protestavamos. O medico da +villa, que tambem estava á mesa, ria-se. Padre Antonio procurava atabafar os +nossos protestos fallando insistentemente de coisas d'Obidos:</p> + +<p>—Na Misericordia, aonde logo havemos de ir, tambem ha quadros da Josepha... +Que o Malhão, o grande prégador, era d'alli. Na familia Malhão havia, além do +pregador, outro homem de letras.<a class="pn" name="pag_51">{51}</a></p> + +<p>E levantou-se, foi buscar um livro: <i>Vida e feitos de Francisco Manuel +Gomes da Silveira Malhão, Lisboa, 1794</i>.</p> + +<p>Serviam-nos n'esse momento magnificos linguados fritos.</p> + +<p>—Se eu sabia a lenda romantica da capellinha da Porta de Nossa Senhora da +Graça? Historia de uns amores infelizes.</p> + +<p>Serviam-nos vitella de fricassé.</p> + +<p>—Que no dia seguinte tinha que prégar nas Caldas...</p> + +<p>E o medico:</p> + +<p>—Você tambem vae cantar ámanhã á <i>mátinée</i> promovida pela marqueza de +Monfalim?</p> + +<p>—É verdade, tambem vou cantar. Mas de tarde metto-me na Foz, no seio da +natureza, como um selvagem primitivo...</p> + +<p>Chegámos ás duas horas da tarde ás Caldas.</p> + +<p>—Porque se demoraram tanto? O que estiveram os snrs. a fazer tanto tempo em +Obidos?!<a class="pn" name="pag_52">{52}</a></p> + +<p><a class="pn" name="pag_53">{53}</a></p> + +<h1>CHRONICAS DE VIAGEM</h1> + +<h2>VI</h2> + +<h3>Uma festa de charidade</h3> + +<p>Organisara-se nas Caldas da Rainha uma festa de charidade, no Salão da +Convalescença, em beneficio da Associação Promotora do Ensino dos Cegos.</p> + +<p>Luiz Gama, este endiabrado rapaz que toda Lisboa conhece e estima, rapaz que +parece um velho quando joga o <i>whist</i>, posto andasse muito azoinado com os +<i>callixtos</i> que lhe rodeiavam a mesa do jogo, fosse em plena Alameda, nas +horas de calma, ou sob o Ceu de Vidro, nos intervallos da valsa, que elle raras +vezes perdia, não poude resistir ao convite que lhe fizeram algumas senhoras +para tomar parte na <i>matinée</i>.</p> + +<p>Comprometteu-se, e comprometteu-me pedindo-me com instancia que lhe +escrevesse uns versos, consentaneos<a class="pn" name="pag_54">{54}</a> ao seu +genio alegre, para dizer no Salão da Convalescença. Eu não chegava então para +os largos passeios que todas as semanas fazia com o meu amigo Carrilho. Luiz +Gama insistia, porém, e não tive outro remedio senão procurar um assumpto entre +um copo d'agua das Caldas e a partida d'um comboio.</p> + +<p>Não estava Luiz Gama sendo, segundo elle mesmo caramunhava, uma victima dos +<i>callixtos</i>? Toda a gente o sabia. Pois bem. Lembrei-me de proporcionar á +victima uma excellente occasião para vingar-se publicamente dos seus algozes, e +mandei-lhe isto, que elle teve a paciencia de decorar e dizer:</p> + +<blockquote> + OS CALIXTOS <br> + <br> + Se os ha?! Que os ha, é de fé. <br> + Até suppõe muita gente <br> + Que Adão e Eva tiveram <br> + N'um joguinho que fizeram <br> + Por callixto uma serpente. <br> + <br> + Eva perdeu... quanto tinha. <br> + O proprio Adão foi no <i>prégo</i> <br> + Pôr a caixa do rapé! <br> + Só os não vê quem fôr cego... <br> + Se os ha?! Que os ha, é de fé.<a class="pn" name="pag_55">{55}</a> <br> + <br> + Ha-os de varios feitios. <br> + Um, gallinha nunca farta, <br> + Cobrindo co'a aza o filho, <br> + Vai vendo carta por carta <br> + Como a comer grãos de milho. <br> + <br> + Um outro a penca intromette <br> + Entre as cartas e o sujeito, <br> + Como se fosse um petiz <br> + Que a gente tivesse ao peito, <br> + Sendo a ama d'um nariz. <br> + <br> + Até se diz que um parceiro <br> + Do <i>mirone</i> a penca assuou <br> + No Ceu de Vidro, domingo, <br> + Porque em boa fé pensou <br> + Que era o seu que tinha pingo. <br> + <br> + Já encontrei um callixto <br> + Gordo, obeso, uma balêa, <br> + Que me poz o barrigaço <br> + —Façam vossencias ideia!— <br> + Em peso sobre este braço! <br> + <br> + O general é medonho! <br> + Não ha callixto peior <br> + Entre os maus que tenho visto. <br> + Vejam lá! é meu callixto <br> + Desde que elle era major!<a class="pn" name="pag_56">{56}</a> <br> + <br> + No Gremio um desconhecido <br> + Foi-se sentar a meu lado: <br> + Perdi a trena e o leme, <br> + Apanhei logo um xeleme <br> + E outro d'ahi a bocado. <br> + <br> + Perguntei-lhe: Em seu juizo <br> + Qual animal é maior? <br> + Hesitou. D'ahi a um instante <br> + Disse que era o elephante. <br> + —«Pois então faça favor <br> + <br> + «D'ouvir isto que lhe digo, <br> + (Repliquei, de mim já fóra, <br> + Ameaçador, fulminante) <br> + «Olhe, snr. elephante, <br> + «Não posso mais!... vá-se embora.» <br> + <br> + Em sendo calvo o callixto, <br> + Tremo logo só de vel-o. <br> + É tão callixto o diabo, <br> + Que até do proprio cabello <br> + Por callixtice deu cabo! <br> + <br> + Ha outros que têm madeixas <br> + Como cachos de banana, <br> + E que escorrem sobre a gente <br> + Algum óleo impertinente <br> + Ou agua circassiana.<a class="pn" name="pag_57">{57}</a> <br> + <br> + Tambem os ha femininos, <br> + Que põem o pé na cadeira, <br> + Mostrando a botina... Eu acho <br> + Que, sendo d'esta maneira, <br> + Só encallixtam por baixo... <br> + <br> + Mas a peior das callixtas... <br> + Não me lembra agora isto! <br> + A coisa... não vae ao fim! <br> + Pois se um senhor que é callixto <br> + Está d'além a olhar p'ra mim! </blockquote> + +<p>Cahiu em boa Luiz Gama! No dia seguinte os <i>callixtos</i> resolveram +vingar-se d'elle por sua vez: apanhou uma grande sova ao <i>whist</i>.<a +class="pn" name="pag_58">{58}</a></p> + +<p><a class="pn" name="pag_59">{59}</a></p> + +<h1>CHRONICAS DE VIAGEM</h1> + +<h2>VII</h2> + +<h3>Figueira da Foz</h3> + +<p>Desde S. Martinho do Porto até á Marinha Grande a linha ferrea da Figueira é +a mesma que fazia antigamente o serviço especial entre a fabrica da Marinha +Grande e o porto de S. Martinho.</p> + +<p>O pinhal abunda no trajecto d'esta linha, logo que se passa a estação de +Vallado: o famoso pinhal de Leiria, filho querido d'el-rei D. Diniz.</p> + +<p>Em toda esta região, que vamos atravessando, houve outr'ora porém um senhor +ainda mais poderoso do que D. Diniz: era o mar.</p> + +<p>Alfeizerão, que deixamos ha muito, terra dentro, fôra até ao seculo +<small>XVI</small> um bello porto de mar, que podia abrigar mais de oitenta +embarcações.</p> + +<p>D. Diniz, que tinha em Monte Real a sua habitação<a class="pn" +name="pag_60">{60}</a> predilecta, quiz fazer na villa de Paredes um porto de +mar. Sobre as ruinas de Paredes assenta a actual Pederneira.</p> + +<p>Fez-se effectivamente o porto, porque, como diz o proverbio, <i>El-rei Diniz +fez quanto quiz</i>, mas grandes alluviões de areia foram obstruindo o porto. +D. Diniz pretendeu pôr um obstaculo a essas enormes alluviões mandando semear o +pinhal de Leiria e adoptando outras providencias conducentes ao mesmo fim.</p> + +<p>Uma d'essas providencias consistiu em ordenar aos foreiros da casa da +Nazareth que lançassem, contra o mar, um certo numero de carradas de areia, que +o vento fosse accumulando no largo da egreja e nas ruas do Sitio.</p> + +<p>Da povoação de Paredes, que devia ser importante, graças ao movimento do seu +porto, existe apenas... a Pederneira.</p> + +<p>O mar espraiou-se pois por toda esta região, que vamos atravessando, até que +as alluviões de areia lhe disputaram o dominio.</p> + +<p>E hoje a locomotiva assobia o hymno do progresso atravez do pinhal de D. +Diniz, deixando ao largo o mar, que perdemos de vista para só tornar a +enxergal-o nas proximidades da Figueira da Foz.</p> + +<p>A estação que se segue á da Marinha Grande é a de Leiria.<a class="pn" +name="pag_61">{61}</a></p> + +<p>No alto do monte escarpado, o castello de Leiria, com a sua torre de menagem +menos mal conservada, desenha-se no azul, immovel e sereno.</p> + +<p>Ha muitos annos que eu não tinha visto este vetusto castello, que me deixára +uma impressão desagradavel quando então passei em Leiria caminho da Batalha. +Nas ruas de Leiria o castello, esmagando-me com o peso dos seus muros e da sua +torre, parecia seguir-me por toda a parte, como um fardo que me dobrava os +hombros. Era asphyxiante, visto da cidade, aquelle castello. Mas, visto de +longe, como agora, affigurou-se-me um dos mais bonitos castellos que sobrevivem +ainda, gostei de vêl-o altivo na sua decadencia, magestoso ainda na sua +inutilidade, esperando impassivel a hora em que a tempestade derrube os seus +muros com um feixe de raios...</p> + +<p>Passado o apeadeiro dos Milagres, é Monte-Real, o sitio predilecto de D. +Diniz, a primeira estação que se encontra.</p> + +<p>Apezar da ardencia d'esse dia, extremamente calmoso, apezar de ser +oppressiva a temperatura, abafadiço o ar, passou pelo meu espirito um relampago +de historia patria, vi de relance D. Diniz, trovador aventuroso, rei galante, +envolvido nas suas proezas tunantescas de Leiria, frequentando de noite, +enamorado de uma camponeza, a aldeia de Amor...<a class="pn" +name="pag_62">{62}</a></p> + +<blockquote> + El-rei Diniz <br> + Fez quanto quiz, <br> + Até no amor... <br> + Graças ao sceptro, <br> + Graças ao plectro, <br> + Rei-trovador. </blockquote> + +<p>Depois, quiz-me parecer tolice de marca maior estar a remexer no rescaldo da +historia amorosa de D. Diniz em dia de tão intensa calma, fechei de subito o +livro da memoria, forcejei por lembrar-me de que eu tinha escolhido aquelle dia +precisamente para não pensar em nada que me desse cuidado, e puz-me a olhar +para a paizagem que ia apparecendo e fugindo como no fundo de um +kaleidoscopo.</p> + +<p>A Amieira, que é o ponto de bifurcação do ramal de Alfarellos, possue, como +se sabe, uma nascente de aguas medicinaes, que está sendo explorada com bons +creditos.</p> + +<p>Ahi, encostadas á grade da estação, vimos as primeiras camponezas do valle +do Mondego, com o seu trajo caracteristico,—bellos exemplares de opulencia +plastica, e saudamos n'essas tres camponezas, sadias e robustas, a mulher do +norte.</p> + +<p>E as tres camponezas, ouvindo ou não ouvindo as nossas saudações +enthusiasticas, comiam maçãs, rilhando-as<a class="pn" name="pag_63">{63}</a> +um pouco suinamente, ó prosa da realidade, terrivel prosa!</p> + +<p>Não se póde já ser um pouco artista, nem mesmo em viagem!</p> + +<p>O valle do Mondego principiou a desenrolar-se deante dos nossos olhos, com +os seus esteiros, a sua linha recta coberta de verdura e scintillante de +agua.</p> + +<p>Entre a Amieira e a Figueira medeiam apenas dois apeadeiros, o de Lares e o +de Santo Aleixo: as primeiras casas da Figueira não tardaram a apparecer-nos +como guarda avançada d'essa bonita cidade maritima, já então tão concorrida de +banhistas.</p> + +<p>Na estação da Figueira entramos no <i>americano</i> porque o meu amigo +Carrilho propoz, e eu approvei, que fossemos antes de jantar a Buarcos.</p> + +<p>O <i>americano</i> deslisa ao longo da praia. Deslisa é um modo de dizer, +porque, justamente quando passavamos em frente do Bairro Novo, o +<i>americano</i> emperrou pela primeira vez, saltou fóra das calhas, um muar +cahiu estatelado. Quando isto aconteceu pela segunda vez, no meio das pragas de +varios hespanhoes que enchiam o carro, o meu amigo Carrilho propoz que +fizéssemos a pé o passeio de Buarcos.</p> + +<p>E assim mesmo é que foi: largamos a andar por alli fóra intrepidamente.</p> + +<p>Buarcos é uma especie de retiro de banhistas<a class="pn" +name="pag_64">{64}</a> pacatos, que fogem do bulicio da Figueira. Bom ar, bom +mar, mas pouca gente. Pacato de mais. Quasi ao mesmo tempo que chegavamos a +Buarcos, tendo feito o caminho a pé, chegava o <i>americano</i>, com os muares +escalavrados das successivas quedas que tinham dado.</p> + +<p>O conductor perguntou-nos se queriamos ir vêr a mina do Cabo Mondego ou se +faziamos tenção de ir vêr a fabrica. Dissemos-lhe que faziamos apenas tenção de +ir jantar á Figueira. Então o conductor disse-nos que, visto termos ido a pé, +tendo pago os nossos logares, queria de algum modo indemnisar-nos, fazendo-nos +transportar immediatamente á Figueira.</p> + +<p>Pasmamos d'aquillo, d'aquelle original <i>americano</i>, tão caprichoso no +seu serviço irregular!</p> + +<p>O carro partiu, e foi-se enchendo pelo caminho. Só então reconhecemos que +tinhamos feito um grande passeio a pé, quasi sem dar por isso.</p> + +<p>Anoitecia. O céu e o mar estavam serenos. Um vaporzinho rebocava um navio, +porque a barra da Figueira, apesar dos melhoramentos que se lhe têm feito, é +simplesmente detestavel. No alto, o Bairro Novo alvejava com as suas +construcções recentes, elegantes, e, ao trote dos muares, entramos de novo na +Figueira, parando era frente do <i>Hotel Universal</i>.</p> + +<p>Esperámos, á janella do hotel, que nos servissem<a class="pn" +name="pag_65">{65}</a> o jantar, e pudemos surprehender d'ahi a physionomia um +pouco hybrida mas pittoresca da Figueira: o mar batia contra a muralha, o navio +entrava rebocado, uns pescadores passavam altercando, e dois homens de chapeu +alto e sobrecasaca passeiavam, conversando. Bastava effectivamente isto para +caracterisar a Figueira com todo o seu ar pretencioso de cidade e o seu aspecto +de praia de banhos, sendo que os da terra andam de chapéu alto, no grave +exercicio das suas funcções judiciaes, administrativas, commerciaes, e os de +fóra, os banhistas, em plena praia, exhibem fato de flanella branca e chapeu de +côco.</p> + +<p>No <i>Hotel Universal</i> jantaram apenas comnosco á mesa mais dois +hospedes, ambos brazileiros, que estiraram desde a sopa até ao café uma +conversa merencoria como elles, que ambos estavam doentes.</p> + +<p>Um dos dois, o mais sorumbatico de ambos, fallou da morte,—assumpto +divertidissimo! Disse-nos que todas as noites, a bordo do paquete, quando se +fazia silencio, a idéa da morte, passando pelo seu espirito, o atormentava.</p> + +<p>Eu perguntei ao meu amigo Carrilho o que tinhamos nós com aquillo?</p> + +<p>Concordámos em que não tinhamos nada, absolutamente nada, com os pavores +phantasticos do brazileiro.<a class="pn" name="pag_66">{66}</a> Levantámo-nos +da mesa; vimos um predio illuminado, ouvimos musica.</p> + +<p>Perguntamos ao criado que predio era aquelle.</p> + +<p>—É o theatro do Principe D. Carlos, e ha hoje espectaculo.</p> + +<p>Muito bem. Iriamos dar um passeio pela cidade, e cahiriamos depois no +theatro.</p> + +<p>Todo o aspecto commercial da cidade estava então em evidencia: as lojas +illuminadas, bellas lojas, devendo citar-se uma ourivesaria, que fazia lembrar +um estabelecimento do Chiado.</p> + +<p>Na Praça Nova a colonia balnear, composta principalmente de hespanhoes, +espanejava-se garrulamente, e em torno da praça as lojas de negocio, havendo ás +portas grupos de homens, uns a pé, outros sentados, denunciavam o movimento +commercial da cidade.</p> + +<p>Na Praça Nova encontrámos o deputado Pereira dos Santos e o visconde de +Miranda do Corvo, que tiveram a amabilidade do nos ir mostrar os magnificos +clubs da Figueira e de nos acompanhar ao theatro.</p> + +<p>No theatro havia pouca gente. Um prestidigitador, cujo nome me esqueceu, +fazia umas <i>sortes</i> sediças, com pouca limpeza. Mas o theatro fôra para +nós um salvaterio, porque nos permittiu esperarmos ahi pela hora da partida do +comboio, meia noite e vinte.<a class="pn" name="pag_67">{67}</a></p> + +<p>E, n'um dos intervallos, entre muitos episodios da chronica balnear da +Figueira, ouvi contar um, que me divertiu hilariantemente, e que no capitulo +seguinte tentarei reproduzir.</p> + +<p>Á meia noite, quando sahimos do theatro, havia ainda luz nos clubs e nos +cafés. As janellas das roletas e das batotas brilhavam com o clarão interior +dos candieiros de petroleo, porque a cidade da Figueira só agora vae ser +illuminada a gaz.</p> + +<p>Despedindo-nos dos nossos amigos visconde de Miranda do Corvo e Pereira dos +Santos, dirigimo-nos para a estação do caminho de ferro, atravez de uma +escuridade profunda, sem saber onde punhamos os pés, tropeçando a cada +passo.</p> + +<p>Que reles economia a da Companhia, que fazendo um comboio depois da meia +noite, não manda illuminar o caminho da estação!</p> + +<p>Ás tres horas e 46 minutos da manhã chegavamos ás Caldas da Rainha, frescos, +apesar da caminhada a Buarcos, da estopada funebre do brazileiro, de duas horas +de prestidigitação no theatro do Principe D. Carlos e dos trambolhões que démos +em caminho da estação,—sem vermos um palmo adeante do nariz.<a class="pn" +name="pag_68">{68}</a></p> + +<p><a class="pn" name="pag_69">{69}</a></p> + +<h1>CHRONICAS DE VIAGEM</h1> + +<h2>VIII</h2> + +<h3>Uma victima da dança</h3> + +<p>Durante oito annos consecutivos, a D. Serafina Barros, da Mealhada, foi com +o marido tomar banhos do mar em Espinho.</p> + +<p>Aquillo era já sabido: no dia 15 de agosto partiam; a 15 de outubro +recolhiam á Mealhada.</p> + +<p>D. Serafina pensava durante o resto do anno n'esse gaudio balnear, +esperava-o com uma certa anciedade, porque a Mealhada era, a respeito de +<i>salsifrés</i>, uma terra morta, e D. Serafina tinha pela dança uma paixão +feroz.</p> + +<p>Agora, que já orçava pelos quarenta e dois annos, era preciso que D. +Serafina fosse procurar a dança aonde quer que a houvesse, visto que +espontaneamente<a class="pn" name="pag_70">{70}</a> a dança já não vinha +procural-a a ella. E, para encontrar parceiro na assembléa de Espinho, +tornava-se ainda assim indispensavel uzar de uma tal ou qual diplomacia, fazer +com que o Barros dissesse aos sujeitos, por elle apresentados á mulher, que +ella gostava muito de dançar, forçando ás vezes a situação a ponto de dizer: +«Como prova do agrado com que recebeste a apresentação d'este cavalheiro, deves +dançar a primeira quadrilha com sua ex.ª»</p> + +<p>O cavalheiro, fulminado por esta perfidia amavel, inclinava a cabeça ao +sacrificio, offerecia o braço a D. Serafina, e ia dançar com ella.</p> + +<p>O Barros ficava contentissimo com o bom resultado da sua diplomacia, porque +não podia aturar a mulher quando ella não conseguia dançar.</p> + +<p>Se o cavalheiro respondia que <i>já estava compromettido</i>, como então se +dizia, para as tres primeiras quadrilhas, se nenhum pequeno de treze annos +havia convidado D. Serafina para dançar, o Barros, tendo lido um jornal ou dado +uma volta pela sala da roleta, vinha espreitar da porta a mulher dizendo com os +seus botões:</p> + +<p>—Está como uma <i>bicha</i>!</p> + +<p>E estava. Em casa elle o pagaria ouvindo-a sarrasinar n'uma cegarrega de +lamurias, accusando-o de não ter a consideração social de que dispunha o +Lemos<a class="pn" name="pag_71">{71}</a> de Formoselha e o Barradas de +Esmoriz, cujas mulheres, não sendo mais novas nem mais bonitas do que ella, +estavam sempre no meio da casa.</p> + +<p>O Barros desculpava-se: que o Lemos era um trunfo politico, por ter em +Lisboa um genro que fôra ministro tres vezes, e que se lhe dançavam com a +mulher era para fazer a bôca doce a elle e a ella, por causa do genro; quanto á +mulher do Barradas, «bem sabes tu, Fininha, o motivo porque ella dança +sempre... á custa da reputação do marido.»</p> + +<p>D. Serafina não se dava por convencida. Influencia politica tambem o Barros +tinha na Mealhada: que se lembrasse elle das cartas que o bispo de Vizeu lhe +escrevia sempre que havia eleições, tratando-o mano a mano quando lhe pedia +votos: meu Barros lá, meu Barros cá. Fosse o Barros mais esperto e soubesse +explorar em proveito da mulher a sua importancia politica. Mas era um asno. O +snr. D. Antonio ia todos os annos tomar banhos para Espinho; sempre que o +Barros chegava, o snr. D. Antonio ia-o visitar de varapau na mão. Ora +dissesse-lhe o Barros que só lhe tornaria a dar os votos se lhe arranjasse par +para a mulher dançar na assembléa, e o snr. D. Antonio faria com que todo o +partido reformista, que estivesse em Espinho, fosse dançar com ella.</p> + +<p>—Ó mulher! replicava o Barros. Isso póde lá<a class="pn" +name="pag_72">{72}</a> fazer-se! Isso é lá coisa que se faça! Tu não sabes o +que estás a dizer!</p> + +<p>—Sei muito bem o que digo; sempre soube. Isto de eleições é um negocio para +aquelles que não são tolos como tu. Tanto faz pedir uma commenda como uma +quadrilha. Acaso será maior vergonha pedir para arranjar um par do que um +emprego? Só elle, um pedaço d'asno, dava os seus votos de graça! Nem +commendador era ainda!</p> + +<p>O Barros procurava acalmal-a:</p> + +<p>—Que o snr. D. Antonio não era homem a quem se pedissem commendas. Ria-se +d'isso.</p> + +<p>Mas Serafina não se calava nunca por falta de argumentos:</p> + +<p>—Ah! o snr. D. Antonio ria-se d'isso! mas elle proprio quizera ser bispo, +que era uma especie de commendador da egreja ou mais ainda!</p> + +<p>N'estas discussões domesticas sobre a eterna questão da dança, era sempre +Serafina que ficava victoriosa. O Barros reconhecia n'ella superioridade de +raciocinio, força de logica. Cada pessoa, pensava elle, tem pelo menos um +defeito. Ora as mulheres, quando são espertas, ainda que tenham o seu defeito, +sabem sempre desculpal-o. O homem tem a força do pulso; a mulher tem a força do +argumento. O homem póde bater na mulher, mas acaba por ser batido por +ella,—logicamente.<a class="pn" name="pag_73">{73}</a> E o defeito da Fininha, +o seu gosto pela dança, não era d'aquelles defeitos que compromettem a honra +dos maridos. A mulher do Barradas d'Esmoriz, essa sim, servia-se da dança para +chegar a certos fins illegitimos. Mas a Fininha gostava da dança pela +dança,—sem segundas vistas.</p> + +<p>E a Fininha, a respeito da mulher do Barradas, dizia-lhe muitas vezes:</p> + +<p>—O que eu vejo é que as que se portam peior não ficam nunca sentadas!</p> + +<p>—Por isso mesmo... respondia o Barros.</p> + +<p>—Por isso mesmo!? Então na sociedade todas as distincções devem ser para +quem menos as merece!? Que premio destinam então os homens ás mulheres +honestas?!</p> + +<p>O Barros embuchava.</p> + +<p>—Lá está o raio da logica!... pensava elle.</p> + +<p>—Sim, que visse, que reparasse, continuava Serafina. Ao passo que ella +passava noites inteiras sem dançar, tendo a consciencia de ser uma esposa +virtuosa, a Barradas andava sempre n'uma roda viva, e a filha do Saraiva de +Mogofores, que fugira com um quintanista de direito para o Bussaco, e estivera +lá dois dias com elle, não chegava para as encommendas na assembléa de Espinho. +Elle Barros bem sabia que a sua Fina, quando casou, tanto podia ir para o<a +class="pn" name="pag_74">{74}</a> ceu como para o leito conjugal, porque não se +podia ser mais donzella; e depois que casou, nunca ninguem se atrevera com +ella, nem mesmo o escrivão de fazenda, que era baboso por mulheres.</p> + +<p>E isto era exacto. A honradez de Serafina tinha duas muralhas que a +defendiam: a virtude e a fealdade. Trigueira, ossuda, com as sobrancelhas +espêssas e um buço de adolescente, fazia lembrar uma cigana. Como as ciganas, +gostava das côres vivas, <i>tapageuses</i>. Dançando, saracoteava os quadris, +rebolia-se, peneirando sobre o pavimento uns passinhos curtos, miudos e +travados. As outras riam-se d'aquella quarentona amulatada, toda perliquiteta, +que na dança tirava a vez ás meninas solteiras. O proprio Barros algumas vezes +ouvia estes remoques, e em casa, timidamente, com um grande medo da Serafina e +da logica, dizia-lh'o.</p> + +<p>Ella replicava:</p> + +<p>—Deixa-as rir: é inveja. Muitas vezes me disse o papá que eu, se não fosse +tão alta, era tal e qual a snr.ª D. Carlota Joaquina.</p> + +<p>—Salvo seja!... acudia o Barros.</p> + +<p>—Nas feições, homem de Deus. E no meio da casa não me troco por nenhuma +d'essas lambisgoias de vinte annos, que não foram ainda capazes de aprender as +marcas dos <i>Lanceiros</i>!</p> + +<p>Mas um anno, em Espinho, fez-se uma terrivel<a class="pn" +name="pag_75">{75}</a> conspiração contra D. Serafina: meninas e meninos de +vinte annos combinaram entre si empregar esforços para que a cigana da Mealhada +não tornasse a dançar; um rapaz do Porto, a quem ella disse uma vez—<i>Sempre +mostra que é tripeiro!</i>—foi o chefe da conspiração.</p> + +<p>A coisa chegou a ponto de que n'uma noite de menor concorrencia, n'uma +quadrilha franceza, dançaram com <i>perna de pau</i>, indo o par marcante fazer +<i>coté</i>, tendo Serafina ficado sentada e estando disponivel um caloiro de +Coimbra.</p> + +<p>Serafina jurou aos seus deuses não voltar mais a Espinho; e no anno seguinte +o Barros levou-a á Figueira da Foz.</p> + +<p>Mas na Figueira havia grande numero de hespanholas e de portuguezas novas, +que dançavam sempre. Serafina estava fula, e um dia fez com que o marido se +entendesse com um dos directores do Club, o Peres, de Leiria.</p> + +<p>—V. ex.ª, disse-lhe o Barros, na sua qualidade do director deve zelar +igualmente os direitos de todos os socios. Ora a verdade é que minha mulher, +que gosta de dançar, não tem dançado nunca, ao passo que outras senhoras, que +pagaram quota igual, andam n'um sarilho continuo. Peço, em nome da justiça, +providencias a v. ex.ª<a class="pn" name="pag_76">{76}</a></p> + +<p>O Peres era reformista, sabia que o Barros pesava na eleição da Mealhada; +não o quiz desgostar.</p> + +<p>—Que sim. Que elle não dançava, mas que havia de fallar aos rapazes, e de +os apresentar á snr.ª D. Serafina.</p> + +<p>Mas o Peres nada poude conseguir dos rapazes: que não, que lá esse +sacrificio não faziam elles. Que a D. Serafina era um monstro indançavel.</p> + +<p>Muito entalado, o Peres já estava resolvido a perpetrar rheumaticamente uma +quadrilha, quando passou na Figueira um destacamento, cujo capitão fôra antigo +condiscipulo do Peres.</p> + +<p>O capitão Lamprêa, de botas empoeiradas e barretina no braço, disse ao Peres +que ia <i>reinar</i> um bocado, porque tinha bebido bem ao jantar; que o +apresentasse a uma dama.</p> + +<p>O Peres teve um pensamento machiavelico: impingir-lhe D. Serafina.</p> + +<p>Estava-se já organisando uma quadrilha. De pé, alguns pares esperavam. Um +amador de <i>salsifrés</i>, Justino Soares, por vocação, andarilhava, +combinando <i>vis-á-vis</i>. O Peres, poisando o braço direito sobre os hombros +do capitão Lamprêa, avançou na sala, e aproximando-se de Serafina solicitou +para o seu velho amigo e condiscipulo a honra de uma quadrilha.</p> + +<p>O capitão Lamprêa recuou instinctivamente. Mas<a class="pn" +name="pag_77">{77}</a> o Peres, ao ouvido, dizia-lhe com um sorriso de +malicia.</p> + +<p>—O que?! Um militar portuguez não recua nunca!</p> + +<p>Serafina acceitára com muito gosto: que sim, que tinha muita honra.</p> + +<p>O Peres disse ao capitão Lamprêa que lhe ia arranjar <i>vis-á-vis</i>.</p> + +<p>Mas n'isto ouviu-se tocar uma corneta, e o capitão Lamprêa, voltando-se +rapidamente para D. Serafina:</p> + +<p>—Ora esta! exclamou. Chama-me o dever. Já não tenho tempo de dançar! Que +contrariedade! Mas á volta, minha senhora, terei a honra e o prazer de dançar +com v. ex.ª</p> + +<p>Fôra providencial aquella corneta tocando a recolher.</p> + +<p>E D. Serafina, durante quinze dias, perguntava com um sorriso de +agradecimento ao Peres de Leiria:</p> + +<p>—Quando volta o seu amigo capitão?<a class="pn" name="pag_78">{78}</a></p> + +<p><a class="pn" name="pag_79">{79}</a></p> + +<h1>CHRONICAS DE VIAGEM</h1> + +<h2>IX</h2> + +<h3>Na Ericeira</h3> + +<p>N'esta bella Ericeira, á beira mar plantada, faltam principalmente duas +cousas... além de outras muitas: não ha flores nem passeios.</p> + +<p>Um namorado, se tem imaginação botanica, não encontrará facilmente, para +offerecer á sua dama, nada melhor do que uma <i>perninha de manjarico</i>, como +dizem os saloios.</p> + +<p>Quanto aos passeios, são pouquissimos: a estrada de Cintra, incompleta; a de +Mafra que, á sahida da Ericeira, é muito ingreme. Restam S. Sebastião e as +Furnas, que são o pão nosso de cada dia, pela simples razão de não haver por +onde variar.</p> + +<p>Acontece que, sendo poucos os passeios, toda a gente se encontra marchando +sobre o mesmo terreno,—como se estivesse fazendo sentinella.</p> + +<p>Por isso, a cada momento esbarramos com os<a class="pn" +name="pag_80">{80}</a> mesmos adultos e com as mesmas creanças, sempre muitas +creanças,—principalmente este anno.</p> + +<p>Tenho, é certo, uma natural affeição pelas creanças, mas não posso deixar de +dizer que ellas chegam ás vezes, quando são tão numerosas como aqui, a +embaraçar a marcha governativa das praias.</p> + +<p>As creanças são sempre opposição, sophysmam e conspiram.</p> + +<p>Havia outr'ora uma arma para vencel-as: a dictadura paterna. Mas as +dictaduras são sempre violentas, ainda mesmo quando exercidas paternalmente. De +modo que, graças á brandura dos nossos costumes, como se diz em S. Bento, se as +creanças de agora teimam, o governo cede sem querer sahir da constituição, e a +opposição triumpha sem que a Carta seja desacatada... mais uma vez.</p> + +<p>Ora a civilisação tem evolucionado profundamente a maneira de pensar das +creanças.</p> + +<p>Quasi se póde affirmar que já não ha creanças, pois que essas pequeninas +creaturas, que eu por ahi vejo a toda a hora em tão grande numero, são antes +espiritos adultos que povôam os corpos de verdadeiros cidadãos de Lilliput.</p> + +<p>Na minha infancia, havia ainda creanças, moralmente fallando, e eu tambem o +fui.</p> + +<p>Até aos doze annos, divertia-se a gente em casa<a class="pn" +name="pag_81">{81}</a> fazendo theatros e egrejas. Eu fui actor e sachristão em +minha casa; ou antes, eu só, no <i>meu theatro</i>, valia por uma companhia +inteira, desde o emprezario até ao contra-regra, e, na <i>minha egreja</i>, +cheguei ás vezes a ser uma collegiada inteira, incluindo o Dom Prior.</p> + +<p>Muitas pessoas da familia imaginaram que eu teria vocação ecclesiastica, tal +era o meu enthusiasmo pelos officios divinos e pela vida de sachristia.</p> + +<p>Completa illusão!</p> + +<p>Aquillo não era de mim; era do tempo. Todas as creanças foram então +assim.</p> + +<p>Quando uma vez por outra nos era concedido ir passar o serão n'uma casa +amiga, o que nós faziamos, as creanças d'esse tempo, era entretermo-nos em +adivinhações e joguinhos de prendas, a um canto do salão ou em qualquer outra +sala onde os adultos não estavam.</p> + +<p>As pessoas crescidas, como nós lhes chamavamos, dançavam, jogavam o +<i>whist</i>, o voltarete ou conversavam simplesmente.</p> + +<p>Os homens fallavam de politica: fallava-se muito n'aquelle tempo do marechal +Saldanha, o heroe da Regeneração; principiava a fallar-se de Fontes Pereira de +Mello, o ministro novo,—o ministro janota.</p> + +<p>As senhoras fallavam de criadas e modas, como agora, como sempre.<a +class="pn" name="pag_82">{82}</a></p> + +<p>Não foram os adultos que mudaram moralmente, porque o thema de suas +conversações continua a ser o mesmo,—para os homens a politica, para as +senhoras as modas e as criadas: quem mudou foram as creanças.</p> + +<p>Lembro-me muito bem de algumas adivinhações que então nos entretinham, pela +maior parte difficilimas,—exemplo:</p> + +<blockquote> + Serra na cabeça, <br> + Foucinha no rabo. <br> + Adivinha, tolo, <br> + Que é gallo. </blockquote> + +<p>E esta, egualmente difficil:</p> + +<blockquote> + Uma velhinha, <br> + Muito encorrilhadinha, <br> + Encostadinha <br> + A uma tranquilha. <br> + Passa, asno, <br> + Passa é. <br> + Adivinha o que isto é. </blockquote> + +<p>E ainda outras mais, todas do mesmo theor.</p> + +<p>Que grande surriada quando qualquer de nós, pesar as palavras da +adivinhação, mas attendendo<a class="pn" name="pag_83">{83}</a> apenas ao seu +conjuncto, bem merecia os epithetos de <i>tolo</i> e <i>asno</i>, não atinando +com o conceito do enygma!</p> + +<p>Então, os paes e as mães, interrompendo a sua conversação, recommendavam +menos barulho.</p> + +<p>E os pequenos obedeciam, porque, n'aquelle tempo, não eram ainda opposição, +como agora.</p> + +<p>Apesar da revolução ter derrubado os Cabraes, o regimen paterno pautava-se +ainda pela tradição cabralina, que era por sua vez uma revivescencia do regimen +miguelista: o pau decidia todas as questões em ultima instancia; era a suprema +razão.</p> + +<p>Perante o pau, o pau que era palmatoria ou bengala, o que para o effeito +valia o mesmo, as creanças cediam, os paes triumphavam.</p> + +<p>Os pequenos de hoje em dia já se não divertem do mesmo modo, mas, em +desproporção com a sua altura, divertem-se um pouco... á grande.</p> + +<p>São os adultos que lhes fornecem pretexto para divertir-se; mas são as +creanças que realmente se divertem.</p> + +<p>Lembra-me a este respeito uma anecdota authentica.</p> + +<p>Na Ericeira ha dois cemiterios: um que está cheio, e por isso condemnado; o +outro, de construcção recente.</p> + +<p>Como seja preciso pagar a despeza feita com o<a class="pn" +name="pag_84">{84}</a> novo cemiterio, a contribuição parochial augmentou este +anno.</p> + +<p>Ha dias, uma mulher, indo pagar a sua contribuição, queixou-se, achou que +era muito pesada.</p> + +<p>Explicaram-lhe o caso: que era preciso pagar a construcção do cemiterio.</p> + +<p>E vae ella respondeu;</p> + +<p>—Uns são que pagam, e os outros que gosam.</p> + +<p>Authentico, repito.</p> + +<p>Póde applicar-se esta anecdota ás creanças da colonia balnear da +Ericeira.</p> + +<p>Quem paga para se divertir são os adultos; mas são realmente as creanças que +se divertem.</p> + +<p>No Club, os primeiros a tirar par e a collocarem-se no meio da casa, são os +pequenos.</p> + +<p>Mas como os pequenos sejam muitos, a direcção do Club viu-se forçada a +recorrer a uma medida severa, e mandou affixar na porta do salão o seguinte +aviso:</p> + +<p>«As creanças que concorrerem ás <i>soirées</i> do Club apenas poderão dançar +na sala de entrada, a fim de não prejudicarem a boa ordem das danças no +salão».</p> + +<p>Os pequenos leram o aviso, e não gostaram. Houve amuos, piadas, protestos. A +direcção, severa como Catão o Censor, manteve a sua resolução. Tudo foi pelo +melhor durante duas ou tres noites, mas as<a class="pn" name="pag_85">{85}</a> +creanças lá tinham a sua fisgada,—sem que se soubesse o que, na sua qualidade +de opposição, haviam resolvido.</p> + +<p>Aconteceu que um valsista foi escolher para parceira de valsa uma menina de +treze ou quatorze annos.</p> + +<p>Os pequenos, reunidos em grupo, cochicharam entre si.</p> + +<p>Conspiravam; não havia duvida. Mas qual seria o seu plano? Mysterio!</p> + +<p>Pouco depois toca-se uma quadrilha, e os chefes da opposição conseguem que +algumas senhoras vão dançar com elles.</p> + +<p>Então os supracitados chefes argumentam do seguinte modo, revolucionaria e +logicamente:</p> + +<p>—Se um socio do Club póde dançar com uma pequena, uma socia do mesmo Club +póde dançar com um pequeno. O direito e a quota são eguaes perante os sexos.</p> + +<p>A quadrilha dançou-se, os pequenos dançaram, e a revolta triumphou.</p> + +<p>Foi uma especie de <i>janeirinha</i>, de revolução pacifica, feita sem +sangue, apenas com as portas fechadas.</p> + +<p>Os directores de sala pensaram gravemente na sua embaraçosa situação.<a +class="pn" name="pag_86">{86}</a></p> + +<p>Entregar o poder? Mas, segundo a logica das indicações constitucionaes, +deveriam entregal-o aos vencedores. Teriamos pois um ministerio, quero dizer +uma direcção de creanças.</p> + +<p>Fugir á vergonha que os cobria? Mas os directores precisavam tomar banhos de +mar, e não tinham ainda a sua conta.</p> + +<p>Ficar, permanecer? Sim... talvez. Houve quem lembrasse que governar era +transigir.</p> + +<p>Para ganhar tempo, transigiu-se.</p> + +<p>Um dos directores tomou para si o papel de duque de Avilla:</p> + +<p>—Fiquemos, e conversaremos depois.</p> + +<p>Entretanto, a revolta victoriosa campeava em pleno salão. Passavam +rapidamente, nas voltas da valsa, por deante dos dois arcos da porta, meninas +de dez annos bailando com meninos de doze. E os pares adultos passaram a ser +n'essa noite verdadeiros pares de <i>galão branco</i>, tendo apenas as honras +de valsistas, porque na realidade não pudéram dançar.</p> + +<p>O boato da victoria dos pequenos correu rapidamente por todas as casas.</p> + +<p>Creanças de dois annos fizeram perrice, choramigaram, gritaram que as +levassem ao Club,—para valsar.</p> + +<p>—Pelo amor de Deus! supplicavam os directores.<a class="pn" +name="pag_87">{87}</a> Que não venham mais creançcas! Isto é uma inundação de +pequenos!</p> + +<p>A sala da entrada do Club, que havia sido destinada ás creanças, estava +deserta. E os revoltosos, embriagados com a victoria, continuavam a valsar no +salão.</p> + +<p>A direcção, como todos os vencidos, azoinava. Queria dar uma satisfação +publica á sociedade, e a si mesma. Exercer represalias para com as creanças +seria uma cobardia revoltante. Em todo caso, á sombra dos pequenos, já os +grandes começavam a rir-se.</p> + +<p>Era preciso uma idéa salvadora, uma sahida qualquer.</p> + +<p>O pianista, sempre por ordem dos pequenos, principiava a tocar uma +quadrilha. Então, por uma d'estas lembranças que passam rapidamente pelo +espirito, illuminando como os meteoros, resolveu-se organisar uma quadrilha só +composta dos paes, que foram dançar na sala de entrada, ao mesmo tempo que os +filhos dançavam no salão, que era destinado aos paes. Esta inversão do papeis +produziu geral hilaridade; salvara-se a situação com um epigramma, que é o +unico desforço possivel nas situações perdidas...</p> + +<p>Mas os heroesinhos vencedores tomaram gosto a essa especie de junta +revolucionaria que haviam constituido e, não contentes com a posse do salão, +principiaram<a class="pn" name="pag_88">{88}</a> a inventar divertimentos por +sua conta e risco.</p> + +<p>Imaginaram uma toirada... platonica, isto é, uma toirada sem toiros, mas em +tudo o mais a caracter.</p> + +<p><i>Monteras</i>, jalecas, capas, bandarilhas, tudo segundo o rigor +tauromachico.</p> + +<p>Mas, quanto aos toiros, esses, por intervenção de pessoas prudentes, foram +substituidos por alguns garotos da beiramar, que se constituiram em curro para +ir ganhar 100 réis por cabeça.</p> + +<p>Eu encontrei na Praça do Jogo da Bola, conversando um com o outro, um toiro +e um toireiro.</p> + +<p>Andavam combinando as sortes a que um se prestaria e que o outro +aproveitaria.</p> + +<p>—Mas olhe lá, menino—dizia o toiro—olhe que se me chegar á pelle, eu +marro-lhe a valer.</p> + +<p>E o toireiro, fallando muito á mão, dizia ao toiro:</p> + +<p>—Não tenhas medo, que eu só te ponho os ferros no fato.</p> + +<p>Como se vê, são as creanças que estão dando as cartas e as toiradas, este +anno, na Ericeira.</p> + +<p>Decididamente, indubitavelmente: já não ha creança!<a class="pn" +name="pag_89">{89}</a> </p> + +<h1>CHRONICAS DE VIAGEM</h1> + +<h2>X</h2> + +<h3>Um pic-nic</h3> + +<p>Ha oito dias, um grupo de familias, a banhos na Ericeira, realisou na Foz um +<i>pic-nic</i>.</p> + +<p>Fallou-se muito da festa nos dias que medeiaram entre o projectal-a e o +realisal-a. Pendo hoje a crêr que o que principalmente diverte em todas as +festas é o antegostal-as. Fazer projectos... fóra de S. Bento, torna-se sempre +agradavel. Só acho comparavel ao prazer de antegostal-as, o de recordal-as... +annos depois.</p> + +<p>Como n'este mundo não haja felicidade sem o contrapeso de contrariedades, +acontece que a melhor maneira da gente gosar consiste em imaginar o goso que +vae ter e que ás vezes, na realidade das coisas, sáe muito inferior ao que se +esperava. Ás vezes ou... sempre;—sempre é que é. Passados annos, se a gente<a +class="pn" name="pag_90">{90}</a> se lembra de uma festa em que esteve, de uma +hora de alegria que passou, dá apenas importancia ao que ella teve de bom, e já +não deita conta ao que ella teve de menos agradavel.</p> + +<p>A saudade é uma feição predominante do meu espirito: por isso eu saboreio as +minhas recordações com prazer muito mais doce do que aquelle que as realidades +me déram...</p> + +<p>Um <i>pic-nic</i> é, certamente, uma festa muito convidativa... no +programma, quando se trata de fazer a distribuição dos encargos que tocam a +cada um: as aves a este, as fructas áquelle, os vinhos a aquell'outro.</p> + +<p>Entre pessoas que se estimam, e que vivem na melhor intimidade, todas essas +combinações culinarias servem de pretexto para matar o tempo agradavelmente.</p> + +<p>A espectativa de um dia bem passado, em plena natureza, seja no campo ou á +beira mar, é o ante-gosto de uma diversão nos nossos habitos de todos os dias, +um córte excepcional, e como tal attrahente, no ramerrão da nossa vida +ordinaria.</p> + +<p>—Nem sempre rainha nem sempre gallinha... dizia um rei portuguez.</p> + +<p>Pois bem! um <i>pic-nic</i> é uma variante á gallinha do nosso espirito, é +uma especie de sardinha salgada que nos vae saber muito bem... como +distracção.<a class="pn" name="pag_91">{91}</a></p> + +<p>Surgem, na discussão do projecto, idéas extravagantes, caprichos exoticos: +ha tal que não dispensa nunca os foguetes n'um <i>pic-nic</i> e que portanto +faz questão ministerial dos foguetes...</p> + +<p>—Ó homem de Deus! mas se você não ha de comer os foguetes, porque é que os +não dispensa?</p> + +<p>—É porque eu, em Lisboa, não janto nunca com foguetes e, como se trata de +uma diversão aos nossos habitos, quero que até nos foguetes seja completa a +diversão.</p> + +<p>—Muito bem. Haverá pois foguetes. Ó thesoureiro, escreva ahi, por baixo da +verba das uvas, a verba dos foguetes. Ponha lá duas duzias.</p> + +<p>—Pouco! Pouquissimo! Duas duzias de foguetes não é coisa que se oiça bem. +Você sabe que D. Pedro <small>I</small>, quando tinha insomnias, sahia a bailar +pelas ruas com grande arruido? Pois eu pareço-me um pouco com elle... Quando +espero divertir-me, desejo que todos fiquem sabendo que eu me estou divertindo +á larga.</p> + +<p>—N'esse caso, thesoureiro, seis duzias de foguetes.</p> + +<p>Depois, um outro lembra que é preciso escrever a verba dos palitos, porque o +palito como que prolonga a impressão de um bom jantar, e, como espera comer +bem, quer prolongar esse prazer pelo maior tempo possivel.<a class="pn" +name="pag_92">{92}</a></p> + +<p>—Pois sim! Thesoureiro, seis massos de palitos...</p> + +<p>Isto é alegre, divertido, desopilante.</p> + +<p>Chega porém o dia do <i>pic-nic</i> e as contrariedades levantam-se debaixo +dos pés.</p> + +<p>Madame *** amanheceu com a sua enxaqueca,—a terrivel enxaqueca que a +persegue desde o seu ultimo parto.</p> + +<p>O snr. Fulano espera a cada momento um telegramma importante de Lisboa e vae +subresaltado.</p> + +<p>Finalmente, o menino Arthur, ao subir para o <i>char-à-bancs</i>, entalou um +dedo, e a mãe quasi que perdeu os sentidos com a dôr do filho...</p> + +<p>Confessem francamente se isto não costuma ser assim? Ora aqui está porque eu +disse ha pouco que todas as festas trazem o seu cortejo de contrariedades.</p> + +<p>D'esta vez, na Ericeira, todos os adultos se comprometteram a não ter +enxaquecas nem telegrammas. E todas as creanças prestaram juramento solemne de +não entalar os dedos na portinhola do <i>char-à-bancs</i>.</p> + +<p>Partimos alegremente, cerca de quarenta pessoas, para o <i>pic-nic</i>, para +a Foz, que fica a pequena distancia da Ericeira, e que se chama assim porque +alli entra no mar, depois de haver descripto varios torcicollos, a ribeira de +Porto.</p> + +<p>O sitio todos nos o conheciamos.</p> + +<p>Pittoresco, em verdade. O rio contorce-se dentro<a class="pn" +name="pag_92">{92}</a> do areal e interna-se pela terra passando por entre +margens onde a vinha parece sorrir verduras ao abrigo das fragas.</p> + +<p>Alli a dois passos, o mar, o mar franjado de espumas rebentando na areia.</p> + +<p>Sitio delicioso! De mais a mais, nada nos havia esquecido. Fôra n'um carro +de bois o barco em que deviamos deitar as redes; foram as redes; foram os +bellos pitéos que cada um se encarregou de levar. Não havia esquecido nada; +n'uma palavra, nada!</p> + +<p>Mas, chegámos lá, e vimos que faltava uma coisa, que aliás a ninguem havia +lembrado! E essa coisa era realmente indispensavel, imprescindivel. Essa coisa +era... a sombra!</p> + +<p>Sim! Havia o barco, as redes, o jantar, boa disposição, mas faltava +unicamente a sombra.</p> + +<p>Então, sobre a praia batida pelo sol, principiamos a procurar +impacientemente, avidamente aquillo que nos faltava e de que todos se haviam +esquecido: a sombra!</p> + +<p>Dispersámo-nos em grupos, em pequenas caravanas: procura d'aqui, procura +d'alli; todos procuravam sombra.</p> + +<p>De repente ouviu-se um grito...</p> + +<p>O que foi?! Appareceu a sombra?</p> + +<p>Era o snr. Fulano que tinha escorregado de uma lage, e estava estatelado na +areia.<a class="pn" name="pag_94">{94}</a></p> + +<p>Outro grito, d'ahi a nada...</p> + +<p>Agora sim! é a sombra?</p> + +<p>Qual sombra nem qual diabo?! Foi o menino Arnaldo que se deixou morder por +uma vespa.</p> + +<p>O sujeito dos foguetes estava contrariadissimo.</p> + +<p>—Não ha foguetes completos n'este mundo! dizia elle. A gente, ao sol, nem +póde vêr bem a direcção que um foguete toma no ar! Esta só a mim acontece!</p> + +<p>O dos palitos exclamava:</p> + +<p>—Com uma torreira d'estas nem dá gosto jantar,—quanto mais palitar os +dentes! Acreditem os snrs. que para palitar os dentes é preciso estar sentado á +sombra, serenamente, sem que as moscas nos persigam. Eu não tenho geito nenhum +de palitar os dentes com um raio de sol...</p> + +<p>E os grupos dispersos continuavam procurando a sombra por toda a parte, no +rio e na areia.</p> + +<p>Mas a sombra, com ser uma coisa tão vulgar, não apparecia!</p> + +<p>Um trocista affiançou que esperassemos pela noite para jantar, porque ao +menos á noite haveria sombra.</p> + +<p>Esta idéa sorriu ao sujeito dos foguetes, porque é justamente á noite que os +foguetes podem fazer melhor vista.</p> + +<p>Mas o dos palitos protestou, por que de noite não lhe seria facil verificar +a qualidade dos palitos.<a class="pn" name="pag_95">{95}</a></p> + +<p>Finalmente, depois de muitos trabalhos, uma estreita faixa de sombra +appareceu, projectada por um rochedo.</p> + +<p>—Isso não é sombra que chegue para todos, disseram alguns.</p> + +<p>Mas não havia melhor: resolvemos portanto anichar-nos dentro da unica sombra +que a praia nos offerecia.</p> + +<p>E, sobre a sombra, as pernas encruzadas á oriental, o prato na areia, +jantámos.</p> + +<p>Chegava o farnel para o dobro da gente, e assim, para evitarmos uma grande +bagagem de retorno, resolvemos comer o que poderia ter chegado á farta para nós +e... outros tantos.</p> + +<p>Emquanto jantavamos, uma machina photographica reproduziu o grupo +pittoresco. D'este modo ficaremos por largos annos saboreando o nosso +<i>pic-nic</i> da Foz, ainda muito mais agradavelmente do que no momento em que +o fizemos, porque ao menos na photographia não nos falta sombra.</p> + +<p>Vejam se eu tenho ou não razão para gostar do passado!</p> + +<p>Depois do jantar dançou-se, ao som de uma caixa de musica, no areial.</p> + +<p>Se as caixas de musica servem para alguma coisa é para se dançar n'um +<i>pic-nic</i>, porque, á volta, confundem-se<a class="pn" +name="pag_96">{96}</a> com a outra bagagem, e ninguem se torna a lembrar mais +d'ellas.</p> + +<p>E é preciso que seja assim, porque eu não conheço nada tão ridiculo como +lembrar-se uma pessoa de que já se divertiu ao som de uma caixa de musica!</p> + +<p>Mas, no regresso, as carruagens e os cavallos esperavam em cima na estrada, +e o areial era immenso.</p> + +<p>Lembramo-nos então que nos tinhamos esquecido dos burros!</p> + +<p>Como tudo n'este mundo tem compensações, houve quem dissesse que, a haver +burros, os foguetes tel-os-hiam espantado.</p> + +<p>Que sim; que seria um incommodo para... os burros.</p> + +<p>E o sujeito dos foguetes, satisfeito por não ter que contrariar ninguem, nem +mesmo os burros, pois que tinham esquecido, mandou para o ar o seu ultimo +foguete.</p> + +<p>E o outro, o dos palitos, muito bem sentado no <i>char-à-bancs</i>, +affirmava que palitar os dentes era o mesmo que tornar a comer... em sêcco.</p> + +<p>Mas, sobre tudo, quando este <i>pic-nic</i> ha de ser bom, é daqui a vinte +annos... quando o recordarmos saudosamente.<a class="pn" +name="pag_97">{97}</a></p> + +<h1>CHRONICAS DE VIAGEM</h1> + +<h2>XI</h2> + +<h3>Aventuras de um aeronauta portuguez</h3> + +<p>Está aqui a banhos, na Ericeira, um estimabilissimo rapaz, de fino trato +social, excellente cavaqueador, sympathico, gentil e de mais a mais... +lendario.</p> + +<p>Não ha duvida nenhuma: lendario!</p> + +<p>Na Europa, na Africa, na America tem uma lenda, a lenda de um homem que vôa, +um filho do ar, que ás vezes, ao descer para a terra, como que recebe da terra +mostras de justo resentimento pelo muito que parece desdenhal-a.</p> + +<p>Ainda ultimamente, em S. Luiz, nos Estados-Unidos, esteve, ao descer do ar, +para ser victima de uma grande catastrophe, que o telegrapho noticiou, e que +causou dolorosa impressão em toda Lisboa.<a class="pn" +name="pag_98">{98}</a></p> + +<p>Refiro-me a Antonio Infante, aeronauta portuguez... unico!</p> + +<p>Foi em 1883 que elle fez em Lisboa, na explanada do antigo Colyseu, a sua +primeira ascensão, com o Beudet, lembram-se?</p> + +<p>Toda a gente ficou admirada de que um rapaz bem nascido, que apenas conhecia +a região do Chiado, se affoutasse a ir devassar os mysterios da região do +éther, porque nós os portuguezes, como sempre nos tem acontecido em tudo, +lançamos ao ar o primeiro balão, ensinamos os outros a serem aeronautas e nunca +mais o quizemos ser.</p> + +<p>Parece que no ar, como na terra, tudo está em dar o primeiro passo... +perdão, o primeiro vôo.</p> + +<p>Antonio Infante fez em Lisboa segunda ascensão, e depois, como o socio do +Beudet se desligasse da empreza, Antonio Infante continuou a sociedade e foi-se +para Hespanha com o antigo socio do Beudet.</p> + +<p>Em Madrid realisou uma ascensão tendo por companheiro um homem conhecido, +Ducascal, actualmente deputado e, passando a Italia, subiu em Napoles com o +director do Observatorio á altura do seis mil e quinhentos metros, por tal +signal que o sabio do Observatorio, tendo lá em cima a vertigem do infinito, +encolheu-se no fundo da barquinha, e mandou ao diabo a sciencia e as +observações.<a class="pn" name="pag_99">{99}</a></p> + +<p>Eu faria o mesmo, se tivesse perpetrado uma tal aventura.</p> + +<p>Mas em Napoles esteve Antonio Infante para representar involuntariamente +n'uma tragedia aerea, porque elle não conhece outras.</p> + +<p>Procurou-o um desconhecido e propoz-lhe que, a troco d'uma certa quantia, o +levasse no balão. O aeronauta acceitou, e, no dia aprasado, estava já o balão +quasi cheio de gaz, quando a policia appareceu e prendeu o desconhecido.</p> + +<p>Seria um salteador—os salteadores são tão vulgares em Napoles!—que +recorresse a esse meio de escapula?</p> + +<p>Nada d'isso.</p> + +<p>Era apenas um suicida, que já por mais vezes havia attentado contra a +existencia, e que d'aquella vez sonhára despenhar-se no infinito...</p> + +<p>Se a policia não acode tanto a tempo, Infante teria tido que luctar com o +homem dentro da barquinha ou, se elle houvesse podido suicidar-se, teria que +livrar-se da suspeita de um crime.</p> + +<p>Da Italia passou a Constantinopla, onde o governo do sultão lhe não +consentiu que fizesse ascensão alguma. Todos os esforços que empregou, durante +muito tempo, foram baldados. Não podendo elle proprio fazer um espectaculo, +contentou-se com vêr em Constantinopla<a class="pn" name="pag_100">{100}</a> os +espectaculos dos outros. Assistiu, no pateo do palacio imperial, a uma +representação dada por arabes. O sultão estava na tribuna com seus filhos, e no +andar superior, atravez dos crivos das janellas, os olhares das odaliscas +espreitavam avidamente...</p> + +<p>Eu já disse que Antonio Infante é um rapaz elegante, bem posto...</p> + +<p>Passou ao Cairo, a Alexandria, e foi dar comsigo a Marrocos, onde o sultão o +recebeu de boa sombra.</p> + +<p>Os marroquinos, incluindo o proprio sultão, viram n'elle um feiticeiro, um +homem sobrenatural e, quando o encontravam na rua, diziam uns para os outros +supersticiosamente:</p> + +<p>—<i>Ua!</i> (Elle!)</p> + +<p>Por muito tempo imaginaram que os mystificava, e que, mandando o balão para +o ar, não ia dentro d'elle. Mas os mais crentes philosophavam:</p> + +<p>—Se o passaro voa, o homem, querendo Deus, póde voar.</p> + +<p>Chamavam-lhe <i>Serani kai-tir</i>, o <i>christão que vôa</i>, e ao balão, +<i>Quesana kai-tir</i>, com quem diz, <i>barraca aerea</i>.</p> + +<p>Considerando-o feiticeiro, procuravam-n'o para tudo,—até para compôr +desavenças domesticas, tempestades de ciumes, amúos de namorados.<a class="pn" +name="pag_101">{101}</a></p> + +<p>Os marroquinos alimentavam a superstição de que ninguem seria capaz de +matal-o com bala de chumbo.</p> + +<p>—É como o <i>homem do cavallo branco</i>, diziam elles. Só com bala de +prata...</p> + +<p>O <i>homem do cavallo branco</i> era o general Prim, que pelos seus actos de +bravura ficára tido no norte de Africa como invulneravel ás balas de chumbo.</p> + +<p>Foi ás quatro horas da manhã que Antonio Infante fez uma ascensão para o +sultão de Marrocos vêr, e a guarda do sultão seguiu o aeróstato, em marcha +forçada, até que desceu, para sua magestade se desenganar de que o aeronauta +subia tambem no balão.</p> + +<p>Da Africa septemtrional traz Antonio Infante muitas recordações agradaveis. +Ahi vae uma, que elle conta com orgulho patriotico. Nas portas da Arzilla +conservam-se ainda as armas reaes portuguezas, e, sempre que um <i>cicerone</i> +explica em Arzilla a historia de algumas ruinas, diz aos viajantes:</p> + +<p>—Isto é do tempo do portuguez...</p> + +<p>De Marrocos passou a Gibraltar, onde o governador da praça lhe prohibiu que +realisasse qualquer ascensão, mas subiu em La Linea, que fica apenas separada +de Gibraltar por uma pequena lingua de terra. O balão caiu no mar, em aguas +hespanholas, e os carabineiros apprehenderam-lh'o como tomadia.<a class="pn" +name="pag_102">{102}</a></p> + +<p>Mez e meio gastou Infante para rehavel-o. A final foi a legação portugueza +de Madrid que resolveu o negocio.</p> + +<p>Nas Canarias caiu tambem no mar, a uma milha de Teneriffe. Duas horas esteve +dentro d'agua á espera que um barco de pescadores o fosse buscar. E em Las +Palmas, ao subir, feriu-se de tal modo, que perdeu os sentidos dentro da +barquinha.</p> + +<p>Foi principalmente na America que a odyssea aerea de Antonio Infante +principiou a ter mais vivo interesse.</p> + +<p>Em Montevideo, ao descer, deslocou o pé direito, e na Havana caiu na bahia, +que os tubarões frequentam.</p> + +<p>Seria ignominioso para um filho do ar morrer na, guela de um filho do mar, +ainda que esse filho do mar fosse um monstro tão respeitavel como o tubarão. +Emquanto esperava por socorro, esta ideia atormentava-o. Nadou sempre, porque o +tubarão, para atacar, precisa voltar-se e, nadando, não lhe daria tempo para +isso. Além de que, ia vestido de preto, porque o tubarão não ataca o preto. +Mas, por cautella, Antonio Infante ia nadando sempre. Finalmente, chegou um +escaler de guerra que o levou, e o filho do ar zombou dos tubarões.</p> + +<p>No Panamá partiu a perna direita, para que a<a class="pn" +name="pag_103">{103}</a> perna não tivesse que rir-se do pé, o qual já tinha +sido deslocado em Montevideu.</p> + +<p>Em New-York Antonio Infante foi escripturado pelo celebre empresario Barnum, +que já gastou este anno em annuncios cicoenta mil dollars. Barnum dava-lhe +500$000 réis por semana, pagando-lhe os <i>hoteis</i> e as viagens. Queria-o +apenas como reclame, para fazer uma ascensão á porta do seu gigande circo de +lona, que comporta vinte e cinco mil espectadores, e que Barnum vae armando e +desarmando de terra em terra, acompanhado de uma grande comitiva de vendedores, +que lhe pagam para que os deixe seguil-o. Os <i>pikpockets</i> dão cem e +duzentos dollars a Barnum para que lhes permitta venderem bilhetes á porta do +circo, tal é a ganancia que elles pódem auferir das suas escamoteações.</p> + +<p>Em S. Luiz trabalhou tambem como <i>reclame</i> á porta do theatro onde se +representava a colossal magica <i>Os ultimos dias de Pompeia</i>, que mettia +quinhentos comparsas e duzentos musicos. A erupção do Vezuvio era um prodigio +de pyrotechnia, realisado pelo celebre fogueteiro Pain, que esteve em Lisboa +por occasião da visita do principe de Galles.</p> + +<p>Uma vez, em Virginia, onde se debatiam eleitoralmente dois candidatos, um +republicano, outro democrata, o republicano contratou com Infante uma ascensão +para attrair gente ao local do comicio.<a class="pn" +name="pag_104">{104}</a></p> + +<p>O candidato faria o seu discurso e, ao dar meio dia, Infante deveria subir. +Reconhecendo que estava no paiz da pontualidade, ao meio dia em ponto, Infante +subiu. Mas, ao descer, o candidato só quiz pagar metade da quantia ajustada.</p> + +<p>—Porque? perguntou o aeronauta.</p> + +<p>—Porque quando o snr. subiu, estava eu em meio do meu discurso, e o povo, +logo que viu o balão cheio, já não quiz ouvir o resto, que era o melhor...</p> + +<p>Foi ainda nos Estados-Unidos, em S. Luiz, que Antonio Infante esteve para +ser victima da grande catastrophe, que o telegrapho noticiára.</p> + +<p>O balão, ao subir, bateu de encontro a um dos postes da luz electrica, +rasgou-se no ar, e abriu-se de alto a baixo no momento em que descia +rapidamente.</p> + +<p>Póde imaginar-se o que seria esse vertiginoso despenhar-se de um homem no +espaço, atravez da escuridão da noite, indo dentro de um balão que +phantasticamente se illuminava de fogos de artificio!</p> + +<p>Um enorme prego, cravado no fundo da barquinha, segurava exteriormente uma +peça de fogo, e, quando a barquinha chofrou com grande estampido no solo, como +se fôra uma pedra, foi esse prego que feriu de um modo calamitoso o infeliz +aeronauta.</p> + +<p>O serviço das ambulancias medicas está organisado maravilhosamente nos +Estados-Unidos. Ha communicação<a class="pn" name="pag_105">{105}</a> +telephonica entre todos os postos de policia, de modo que a ambulancia, com o +respectivo medico, acode de prompto para fazer-se o primeiro curativo, e os +carros d'este serviço, que se annunciam por um forte timbre sempre em vibração, +tomam a deanteira a todos os outros vehiculos.</p> + +<p>Ligeiramente pensado no proprio logar do sinistro, Antonio Infante foi +conduzido ao hospital, onde o medico assistente, examinando a gravidade dos +ferimentos, o avisou de que a sua vida corria imminente perigo e de que não +tinha tempo a perder para o caso de, na sua qualidade de estrangeiro, querer +fazer qualquer recommendação.</p> + +<p>—Em Portugal, diz Antonio Infante, eu teria sido um homem morto. Nem a +minha familia consentiria que eu fosse para um hospital, nem o medico haveria +decerto empregado as ultimas violencias da sciencia como <i>in anima vili</i>. +Foi isso o que me salvou...</p> + +<p>Ora além da dilaceração dos tecidos, Infante havia deslocado o pé +direito—sempre o pé direito, que parece ser ainda mais esquerdo do que o +outro!—e fôra atacado de uma pneumonia.</p> + +<p>Quatro mezes esteve no catre do hospital, sendo visitado por todos os +professores e por todos os estudantes de medicina que pasmavam da cura. O +medico<a class="pn" name="pag_106">{106}</a> assistente fez grandes +<i>reclames</i>, á americana, e durante o mez, que a convalescença durou, uma +verdadeira procissão de curiosos correu ao hospital a visitar o aeronauta +resuscitado.</p> + +<p>Salvo finalmente, Infante deu-se pressa em vir tranquillisar os cuidados da +sua familia, e embarcou em New-York por Bordeos para Lisboa.</p> + +<p>Agora está na Ericeira, um pouco nostalgico das regiões ethereas, como um +passaro na gaiola.</p> + +<p>Nas ultimas noites de luar, vi-o sempre sentado n'algum banco do Jogo da +Bola a olhar saudoso para o ceu azul, como se estivesse dizendo mentalmente:</p> + +<p>—Aquillo, lá em cima, é meu... e de Deus.<a class="pn" +name="pag_107">{107}</a></p> + +<h1>CHRONICAS DE VIAGEM</h1> + +<h2>XII</h2> + +<h3>O Varatojo</h3> + +<p>No dia 23 de setembro, ás cinco horas da manhã em ponto, estava eu no Jogo +da Bola, da Ericeira, á espera dos meus companheiros de viagem.</p> + +<p>A lua cheia principiava a empallidecer no ceu, e o sol dormia ainda o ultimo +somno na sua camara celeste.</p> + +<p>Naturalmente o criado de quarto havia-o chamado já mais de uma vez, se é que +o sol não usa despertador á cabeceira da cama, a fim de poder exercer, com a +pontualidade que lhe é habitual, as suas funcções de astro rei.</p> + +<p>Mas n'esse dia parece que o loiro principe sol estava tão tonto de somno +como aquelle sujeito da anecdota, que acordando ao estrondo do despertador,<a +class="pn" name="pag_108">{108}</a> o atirou pela janella fóra muito zangado, +tornando a ir deitar-se.</p> + +<p>Eu proprio, para que tudo fosse excepcional n'aquella madrugada, fiz de +guarda-nocturno e andei a bater á porta de um e outro.</p> + +<p>—Que eram horas. Que já o <i>char-à-bancs</i> estava á nossa espera na +Praça.</p> + +<p>E todos elles, uns e outros:</p> + +<p>—Já lá vou. Estou a lavar a cara. Estou a vestir o casaco.</p> + +<p>Pois o sol tambem n'aquella manhã levou muito tempo a lavar a cara e a +vestir o casaco.</p> + +<p>Reuniu-se a <i>troupe</i>,—dez ou doze amigos—, subia o +<i>char-à-bancs</i> a passo a Calçada Real, e ainda o sol não se tinha dignado +apparecer.</p> + +<p>Em dez minutos apenas, foram-se encastellando grossas nuvens, carregadas de +electricidade, ao longe, sobre as montanhas de Cintra, e trovões distantes +ribombavam surdamente.</p> + +<p>—Mau! Temos um dia estragado!</p> + +<p>O calor começava a ser asphyxiante.</p> + +<p>—Que fossem acreditar em poetas! Pois não disséra Castilho que as manhãs de +setembro eram frescas?!</p> + +<p>Sahi em defeza do querido mestre Castilho.</p> + +<p>—Que aquella manhã de setembro tinha, por causa da trovoada, um feitio +excepcional. Mas que eu<a class="pn" name="pag_109">{109}</a> me compromettia a +dar-lhes no dia seguinte, caso não houvesse trovoada, uma fresca manhã de +Castilho.</p> + +<p>Então, o sol, com cara de ter passado mal a noite, o que era uma +justificação, espreitou atravez de uma nuvem menos espessa.</p> + +<p>O <i>char-à-bancs</i>, tendo sahido da estrada de Mafra, principiava a +descer para o Gradil, torneando a Tapada, onde, passado o Celebredo, pacatos +veados appareciam aqui e alli pastando tranquillamente.</p> + +<p>Os caçadores ralavam-se de pena:</p> + +<p>—Não poder a gente matal-os! Aqui na tapada a caça brava é abundantissima. +No primeiro dia de caçada, os veados quasi vem comer á mão. No segundo dia, já +um pouco assustados, mostram-se hesitantes. Só no terceiro dia, comprehendendo +a cousa, é que tratam de se alapardar.</p> + +<p>—Lá está outro!</p> + +<p>Estavam, sim, muitos, á boa vida, porque, como se sabe, na Tapada de Mafra +só caça a familia real, e essa vae alli poucas vezes.</p> + +<p>Apenas o marquez de Oldoini obtivera ha annos auctorização para poder caçar +na Tapada.</p> + +<p>Não se sita outra excepção.</p> + +<p>Durante longo tempo o <i>char-à-bancs</i> foi torneando a Tapada, que é +vastissima, e quando o Gradil nos appareceu lá em baixo, com as suas chaminés +fumegantes<a class="pn" name="pag_110">{110}</a> e os seus predios caiados, já +estavamos anciosos de avistal-o.</p> + +<p>Então as vinhas atacadas de phylloxera principiaram a mostrar-se-nos com +grandes nodoas amarellas, indicando uma devastação terrivel na primeira cultura +de Portugal.</p> + +<p>Quanto mais avançavamos na região de Torres Vedras, mais a devastação +alastrava. Videiras doentes, dessoradas, pendiam languidamente com meia duzia +de cachos. E ás vezes, no meio de largas manchas amarellas, um pequeno jardim +de vinhas, não contaminadas ainda, verdejava sádiamente.</p> + +<p>Acontece que, em certos sitios, de um lado da estrada as vinhas estão +indemnes, e do outro lado inteiramente perdidas.</p> + +<p>No Gradil, como fosse domingo, havia um grupo de homens á porta da taverna. +Iam ou vinham da missa, isso é indifferente, mas tinham bebido já. Alguns +limpavam ainda a bocca com o dorso da mão.</p> + +<p>Estrada fóra, avistamos a povoação do Livramento, depois o Turcifal.</p> + +<p>—Aquella casa é de fulano. Aquella outra é de sicrano.</p> + +<p>As nuvens negras tinham-se dissipado, o sol, completamente restabelecido, +resplandecia, e um calor surdo, abafadiço, cahia obliquamente.<a class="pn" +name="pag_111">{111}</a></p> + +<p>Todos mais ou menos iamos fallando do almoço, como da Terra Promettida.</p> + +<p>Ora, n'aquelle dia, a Terra Promettida era para nós a casa de Antonio +Batalha Reis, a sua quinta do Carvalhal.</p> + +<p>Batalha Reis, sendo um grande amador de culinaria, faz petiscos excellentes, +unicos.</p> + +<p>Já durante uns dias que estivera na Ericeira nos havia offerecido um +delicioso bacalhau preparado por elle. Mas, n'aquelle dia, sabiamol-o na +cosinha, de barrete branco, caprichoso em offerecer-nos um almoço +principesco.</p> + +<p>Ao cabo de tres horas e meia de jornada, chegamos ao Carvalhal. Meia hora +depois, o almoço estava na mesa, e cada um dos convivas tinha deante de si um +prato de sopa de cebola, composição de Batalha Reis. Era a chave de prata que +ia abrir esse bello soneto gastronomico. Batalha Reis disse-nos que a chave de +ouro a reservava para o jantar,—ás cinco horas da tarde. Mas um coelho +guisado, que nos deu ao almoço, valia ouro. Estava divino.</p> + +<p>Quando nos levantamos da mesa, todo eu era pressa de partir para o Varatojo, +por causa... por causa de um livro: ora ahi está o grande segredo!<a +name="tex2html1" href="#foot362"><sup>[1]</sup></a> Mas<a class="pn" +name="pag_112">{112}</a> como tivessemos levado uma machina photographica, +fez-se primeiro um grupo, uma scena de duellistas, que crusavam floretes, +sabres e lanças.</p> + +<p>A machina reproduziu instantaneamente toda esta batalha incruenta, que sahiu +bem boa.</p> + +<p>Depois, finalmente, partimos para o Varatojo, e Antonio Batalha Reis, que +tinha sido um dos duellistas, poz o barrete branco e foi para a cosinha do +Carvalhal fazer o jantar.</p> + +<p>Atravessamos, de caminho, a villa de Torres Vedras, que se engrandece ainda +de uns restos da sua antiga prosperidade vinicula. Boas casas, grandes adegas, +homens rolando pelas ruas cascos de pipa. Uma praça com coreto: o rocio +elegante. Um magnifico chafariz gothico, denominado dos <i>Canos</i>. Uma +egreja com uma bella porta de lavores. Sobre o outeiro, as ruinas do famoso +castello. O Passeio da Varzea com o seu sombrio arvoredo de choupos e faias.</p> + +<p>Mas nós passamos por tudo isso a correr, rodando para o Varatojo.</p> + +<p>Finalmente, á esquerda, na encosta, surgiu um grupo de casas e logo ao pé o +telhado do convento e a matta.</p> + +<p>Apoiamo-nos no principio da encosta, porque não havia caminho para trem.</p> + +<p>E, subindo, chegamos ao largo do convento, de<a class="pn" +name="pag_113">{113}</a> humilde apparencia, enterrado ao fundo de alguns +lanços de escada.</p> + +<p>Uma cruz de pedra e um velho cypreste dão ao sitio essa phisionomia de +tristeza que caracterisa os eremiterios pobres.</p> + +<p>Descemos os poucos degraus que dão ingresso para o convento, e entramos no +atrio.</p> + +<p>Á esquerda uma capella com o Senhor dos Passos. Em frente, o postigo da +roda, em cujo bordo havia tres escudellas vasias com colheres de páu; sobre o +postigo esta legenda: <i>De paupertate nostra frangamus Jesu esurienti +panem.</i> Á direita uma porta em ogiva com esta simples palavra no topo: +<i>Silencio.</i></p> + +<p>Pedimos licença para entrar, e foi-nos concedida. Recebeu-nos o sacristão em +habito de franciscano. Mostrou-nos a egreja, em cujo altar-mór ha a notar a +obra de talha, o retabulo, os quadros, os azulejos. No corpo da egreja torna-se +digno de menção o altar de marmore, excellentemente trabalhado, de uma capella +lateral. É obra recente, executada por um conventual.</p> + +<p>Como houvessemos mandado entregar uma carta de apresentação, veio +acompanhar-nos um padre franciscano, de habito com capuz, cordão, rosario e +sandalias.</p> + +<p>Boa physionomia, alegre e rosada. Fallava sem<a class="pn" +name="pag_114">{114}</a> biôcos. Quando nos tornou a mostrar o altar de +marmore, disse para mim:</p> + +<p>—Isto é obra feita no convento. Cá trabalha-se.</p> + +<p>Foi depois mostrar-nos o presepio, e chamou a nossa attenção para a figura +que representava um cégo tocador de gaita de folles, com borracha de vinho a +tiracollo, fazendo-nos notar a circumstancia de que o moço do cégo estava +bebendo subrepticiamente o vinho da borracha.</p> + +<p>Levou-nos depois á casa dos retratos, onde, eu precisava vêr um, e á casa do +capitulo, onde copiei a inscripção de uma sepultura.</p> + +<p>Offereceu-nos na casa dos retratos vinho doce, e bolos. Quizemos deixar uma +esmola para o convento: recusou-a. Perguntamos-lhe se vendiam bentinhos, porque +os desejavamos adquirir como recordação. Sorriu-se.</p> + +<p>—Que os bentinhos que tinham, eram os que pessoas de fóra davam aos +frades.</p> + +<p>Na cêrca offereceu-nos flores, e conduziu-nos até á entrada da matta.</p> + +<p>De caminho respondia com boa sombra ás perguntas que lhe faziamos.</p> + +<p>Disse-nos que havia uma escóla para o sexo masculino, annexa ao convento, +mas com entrada independente.<a class="pn" name="pag_115">{115}</a></p> + +<p>Disse-nos mais que, actualmente, eram uns vinte os frades, e que o resto do +pessoal orçava por quinze homens. Que no convento não entravam mulheres, mas +que na povoação havia um recolhimento de irmãs hospitaleiras de S. José com +escóla para meninas. Accrescentou que viviam pobremente, mas que do seu pouco +repartiam com os pobres.</p> + +<p>Mostrou-nos a sachristia, em cujos azulejos, que revestem as paredes, se +lêem disticos metreficados em castelhano. Por exemplo:</p> + +<blockquote> + Mi coraçon como cera <br> + Se derrite en dulce ardor <br> + Con tu fuego, ay Dios d'Amor <br> + Si hasta aqui de marmol era. </blockquote> + +<p>Estes disticos devem ser composição de Frei Antonio das Chagas, que versejou +gongoricamente em lingua hespanhola, e que no seculo XVII reformou o instituto +do Varatojo, depois de ter vivido uma vida mundana de militar aventuroso.</p> + +<p>N'aquella simples quadra, que de industria preferimos, está todo o drama da +conversão de Frei Antonio das Chagas.</p> + +<p>Na egreja, no claustro e cêrca encontramos alguns camponezes, uns imberbes, +outros velhos, orando<a class="pn" name="pag_116">{116}</a> como em extasi ou +lendo livros mysticos. Um d'esses livros; cujo titulo podemos lêr, +denominava-se—<i>Devoção das Chagas de Christo.</i></p> + +<p>E ao cabo de uma visita de hora e meia sahimos do convento do Varatojo com a +estranha impressão com que o poderiamos fazer ha duzentos annos.</p> + +<p>Parecia que o tempo se havia immobilisado no passado!...<a class="pn" +name="pag_117">{117}</a></p> + +<p class="rodape"><a name="foot362" href="#tex2html1"><sup>[1]</sup></a> O +livro, que já entrou no prelo, intitula-se <i>Vida mundana d'um frade +virtuoso.</i></p> + + +<h1>CHRONICAS DE VIAGEM</h1> + +<h2>XIII</h2> + +<h3>O regresso</h3> + +<p>Com as chuvas dos primeiros dias da semana, começaram as praias a +despovoar-se um pouco tumultuariamente.</p> + +<p>Ás portas da cidade, segundo me informa um visinho meu que é guarda +barreira, chegavam a toda a hora carros e carretas com pessoas e malas.</p> + +<p>Toda a familia, segundo me observou philosophicamente o supracitado guarda +fiscal, tem a sua praia.</p> + +<p>Uns atiram-se ao bulicio da Figueira, outros á aristocracia de Cascaes; +estes preferem a Nazareth, talvez por causa dos cyrios, que dão muitos dias de +festa; aquell'outros, mais pacatos, isolam-se em S. Martinho do Porto, e +contentam-se com ir de vez em<a class="pn" name="pag_118">{118}</a> quando, no +caminho de ferro, vêr gente ás Caldas da Rainha, etc.</p> + +<p>Eu reflecti maduramente na phrase philosophica do guarda-fiical. +Effectivamente, cada familia tem a sua praia.</p> + +<p>Uma vez, certa dama <i>vieille roche</i>, recebendo á sua mesa dois primos e +um companheiro dos primos, lembrou-se de corrigir a falta que elles haviam +perpetrado não lhe explicando genealogicamente a procedencia do companheiro. Á +sobremesa, a grande dama, que se tinha desfeito em attenções com o +desconhecido, fez estalar o quinau.</p> + +<p>—V. ex.ª, disse ella dirigindo-se ao desconhecido, ainda não teve a bondade +de nos dizer de que casa era!</p> + +<p>O amigo dos primos estava descascando tranquillamente uma pêra. Ouviu a +pergunta, levantou a cabeça, fitou por momentos a grande dama, e respondeu:</p> + +<p>—Eu, minha senhora, sou da casa... da Supplicação.</p> + +<p>Arranjou a ter uma casa, a primeira que lhe lembrou, mas livrou-se do apuro, +que era a grande questão.</p> + +<p>A respeito de praias, o que é preciso, em chegando o verão, é ter uma, seja +qual fôr, boa ou má, alegre ou triste.<a class="pn" name="pag_119">{119}</a></p> + +<p>Ter uma praia! eis o problema. E cada familia trata de partir, ás vezes um +pouco mesmo ao acaso, porque, entrando o mez de agosto, presume-se que só ficam +em Lisboa os corpos da guarnição e o D. José do Terreiro do Paço.</p> + +<p>Tudo o mais abala.</p> + +<p>Se eu fosse guarda barreira, havia de aproveitar a occasião do regresso dos +banhistas para completar os meus estudos sobre os diversos typos da galeria das +praias.</p> + +<p>Em Lisboa todas as pessoas parecem vestir e pensar do mesmo modo. A +sobrecasaca e o chapeu alto uniformisam a <i>toilette</i> e o espirito de cada +um. Mas, nas praias, em plena liberdade de acção, cada banhista veste a +<i>toilette</i> que quer, e exhibe com certa semceremonia as suas predilecções, +as suas manias, as suas excentricidades de caracter.</p> + +<p>Este revela-se jogador. Atira-se á roleta, á batota ou ao <i>baccarat</i>. +Senta-se á mesa verde de lapis em punho, faz calculos mathematicos para saber +quando o <i>rei</i> deve tornar a sahir ou quando o 36 deve voltar.</p> + +<p>Aquelle é pescador de anzol. Passa o dia de canna na mão, sentado nas fragas +por horas esquecidas, esperando, com uma paciencia que ninguem lhe suppunha, +que o peixe venha picar na isca.</p> + +<p>Est'outro, tão pachorrento e pouseiro, como todos<a class="pn" +name="pag_120">{120}</a> o conheciamos no Chiado, joga na praia o +<i>croquet</i> todo o dia e dança a Valsa toda a noite no club.</p> + +<p>Aquell'outro, que em Lisboa faz parte da sociedade protectora dos animaes, +manifesta-se um caçador acerrimo, enthusiasta pelas perdizes, doido pelos +coelhos, e loquaz chronista de anecdotas cynegeticas.</p> + +<p>Conta historias dos seus cães, cousa que ninguem cá lhe conhecia,—nem mesmo +os credores.</p> + +<p>De todos estes typos da collecção balnear o mais tagarella e o mais +imaginoso é por certo o caçador.</p> + +<p>Elle tem sempre uma cousa extraordinaria, que lhe aconteceu, para contar.</p> + +<p>E no cenaculo da praia, seja n'um estanco, n'uma botica ou n'uma loja de +capella, é elle o <i>habitué</i> que tem corda para mais tempo, o caso é +dar-lhe a gente a cheirar á imaginação môlho de perdiz ou deixar-lhe vêr por um +oculo, n'uma referencia fugitiva, um coelho que elle logo fila para nos +impingir a sua illyada venatoria.</p> + +<p>Então, enthusiasmado, o chapeu atirado para a nuca, os olhos brilhantes, um +riso de satisfação nos labios, elle falla de si, dos seus cães, da sua +espingarda, das suas caçadas maravilhosas.</p> + +<p>Ou parte logo da mentira para fazer romance ou chega lá a breve trecho. O +caçador entra facilmente no paiz da fabula, o caso é haver quem ao de leve o +empurre para os intermundios de Diana.<a class="pn" name="pag_121">{121}</a></p> + +<p>—Eu tinha um cão, principia elle.</p> + +<p>Até aqui póde ser verdade, posto que ninguem lh'o conhecesse, porque nada ha +tão natural como ter a gente um cão... ou mesmo dois.</p> + +<p>Mas, por via de regra, o caçador, que tem sempre a imaginação prompta, não +se demora muito no prologo.</p> + +<p>—Eu tinha um cão, continúa elle, que era... um assombro!</p> + +<p>Aqui é que principia o maravilhoso do conto.</p> + +<p>—Cão mais intelligente não n'o podia haver. Nem mais dedicado ao dono e á +sua familia. Pobre Epaminondas!</p> + +<p>Ao soltar esta exclamação, o caçador faz beicinho para chorar. Uma explosão +de ternura envinagra os seus olhos, até ahi brilhantes e, fingindo pensar no +seu Epaminondas, demora-se algum tempo soluçante, convulso.</p> + +<p>—Mas que diabo de mania, pergunta do lado um dos ouvintes, foi essa que +você teve de chamar Epaminondas ao seu cão?</p> + +<p>O caçador, querendo dominar a sua commoção:</p> + +<p>—O que?! Que diabo de mania foi essa?! É facil de explicar. O cão era +superiormente intelligente; era, no seu genero, um heroe, uma celebridade, +direi mesmo uma gloria. De modo que eu quiz dar-lhe um<a class="pn" +name="pag_122">{122}</a> nome glorioso, que elle bem merecia. E não fiz nada +de mais. Meu pobre... meu rico Epaminondas! Senti mais a sua morte do que a de +meu avô, que eu nunca conheci, por ter vivido sempre no Brazil. Os senhores vão +dar-me rasão, vocês vão concordar comigo em lhes eu contando o que aquelle cão +era!</p> + +<p>A fim de recobrar toda a sua tranquilidade, o caçador faz um intervallo, +accende o charuto que tinha deixado apagar, e continúa:</p> + +<p>—Vocês sabem que meu pae, tendo recolhido a Portugal, viveu sempre +comigo...</p> + +<p>Neste momento entra no estanco, se o cenaculo é um estanco, um garoto a +comprar dez réis de cigarros fortes.</p> + +<p>O caçador interrompe-se, mostrando-se contrariado de que um intruso venha +esfriar o interesse que a sua narração estava produzindo no auditorio.</p> + +<p>O rapaz recebe os cigarros, e demora-se accendendo um.</p> + +<p>Sempre suspenso, o orador espera que o garoto sahia.</p> + +<p>Finalmente, continúa:</p> + +<p>—Casei, e meu pae ficou vivendo sempre comigo. Tambem era o que valia, para +fazer companhia a minha mulher, porque eu, volta e meia, dizia-lhe adeus e ia +para a caça com o Epaminondas.<a class="pn" name="pag_123">{123}</a></p> + +<p>—Santa Justa, fracos, diz um freguez conhecido entrando no estanco.</p> + +<p>O orador torna a interromper-se. Apertos de mão; as perguntas banaes do +estylo. O freguez de Santa Justa demora-se cerca de cinco minutos.</p> + +<p>Quando elle sahe com os cigarros da sua devoção, o caçador, tomando uma +attitude erecta:</p> + +<p>—Mas onde é que eu fiquei?</p> + +<p>Do lado ha sempre um apontador espirituoso:</p> + +<p>—Sahia você para a caça com Epaminondas quando o homem entrou.</p> + +<p>—É verdade! Volta e meia, eu dizia adeus a meu pae e a minha mulher e ia +para a caça com o Epaminondas. Pelo caminho, parecia que iamos conversando, +porque o diabo do cão fallava.</p> + +<p>—Fallava?!</p> + +<p>—É um modo de dizer, tão bem se entendia tudo o que elle pensava!</p> + +<p>—Homem! diz do lado o espirituoso, isso faz-me lembrar o caso da <i>pateada +tacita</i>!</p> + +<p>—Vocês não acreditam—prosegue o caçador fingindo-se um pouco +indignado—mas eu garanto com a minha palavra de honra a exactidão de tudo +quanto digo a respeito do meu Epaminondas. Pelo caminho iamo-nos entendendo +como dois bons amigos. «Que te parece hoje o dia?» perguntava eu. E o +Epaminondas<a class="pn" name="pag_124">{124}</a> respondia: «Boa caçada; o dia +está magnifico para as perdizes.» Ou então torcia o nariz, como a dizer: «Isto +hoje não dá nada que se veja.» E depois parecia accrescentar: «Mas em todo o +caso eu hei-de fazer-lhe a diligencia.» Se o cão tinha concordado comigo em que +era dia de boa caçada, acontecia assim, por força. D'alli a nada não tardavam a +apparecer bandos de perdizes, ás vezes até a pequena distancia de casa.</p> + +<p>N'este comenos assoma ao limiar do estanco o boletineiro do telegrapho.</p> + +<p>—Os snrs. não saberão dizer-me quem é o snr. Antonio do Espirito Santo +Soares?</p> + +<p>Que não: que não é conhecido.</p> + +<p>O boletineiro vae-se embora, e o caçador prosegue:</p> + +<p>—Se alguma das perdizes era mais gorda, eu aproveitava a occasião para +fazer uma galanteria a meu pae ou a minha mulher, e mandava o cão a casa com a +perdiz.</p> + +<p>—Olha lá, dizia-lhe eu entregando-lh'a, tu vaes n'um instante a casa levar +esta perdiz a meu pae. Mas toma cuidado, Epaminondas, olha que esta é para meu +pae. Nada de tolices, Epaminondas!</p> + +<p>O cão partia por alli fóra como um relampago, com a perdiz nos dentes.</p> + +<p>Chegava a casa mais depressa do que eu o estou<a class="pn" +name="pag_125">{125}</a> dizendo, e ás vezes a primeira pessoa que encontrava +não era meu pae mas minha mulher.</p> + +<p>Como era natural, minha mulher, até para experimentar a intelligencia do +cão, queria tirar-lhe a perdiz.</p> + +<p>E o Epaminondas, como se não fosse realmente um cão, mas uma pessoa, +dizia-lhe:</p> + +<p>—Nada, não. Esta mandou-a o senhor para o pae. Logo virá outra para a +senhora.</p> + +<p>—O que?! Pois o cão dizia isso?!</p> + +<p>—Está claro que não dizia como a gente o diz. Mas fazia-se entender de tal +modo, que minha mulher deixava-o passar, e era meu pae que recebia a perdiz. +Depois o Epaminondas voltava logo.</p> + +<p>—E dizia alguma cousa?</p> + +<p>—Dizia, sim; pelo menos eu entendia-o. «Seu pae diz que muito obrigado; mas +a senhora tambem quer.» «Está bem, Epaminondas, respondia eu; logo irá para a +senhora.» Ora acontecia que eu algumas vezes me esquecia do compromisso que +havia tomado; mas quem não se esquecia era o cão. Em cahindo alguma perdiz mais +geitosa, o Epaminondas estava-me logo a dizer: «E a perdiz da senhora?» «Pois +bem, leva lá a perdiz, e não te demores.»</p> + +<p>—Mas qual era o processo de eloquencia a que o Epaminondas recorria para se +fazer comprehender tão explicitamente?<a class="pn" name="pag_126">{126}</a></p> + +<p>—Eu sei lá! Era tudo: os olhos, o focinho, o rabo. Era tudo!</p> + +<p>—Diga antes você que estava tão habituado com o cão, que já o entendia, +como a gente, á força de habito, chega a entender um surdo-mudo...</p> + +<p>—Qual historia! De uma vez morreu a mulher do regedor de Loures, que morava +a dois passos da quinta em que eu estava. O cão ouviu, e percebeu o que o +criado tinha contado. E, sem que lhe tivessemos dito nada, sahe por alli fóra, +e vae a casa do regedor dar-lhe os pesames!</p> + +<p>Quando a imaginação do caçador tem aquecido até á temperatura do +maravilhoso, já não ha ninguem que seja capaz de detel-o. É como um +<i>rapido</i> que passa. Parece ás vezes, o que é phenomenal, que chega a +acreditar o que diz, e que adquire a convicção de que os outros o estão +acreditando.</p> + +<p>Pois em cada praia ha sempre um caçador... pelo menos!</p> + +<p>O guarda fiscal confirmou plenamente esta minha observação.</p> + +<p>—Sim, senhor, disse-me elle. Eu conheço-os: ás vezes, fico até admirado de +que não tragam espingarda na bagagem!</p> + +<p> </p> + +<p>Lisboa, 8 de outubro de 1888.<a class="pn" name="pag_127" +id="pag_127">{127}</a></p> +</div> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p style="text-align:center;"><big>300 +RS.</big></p> + +<p> </p> +<p> </p> +<hr class="full" noshade> +<p>***END OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK CHRONICAS DE VIAGEM***</p> +<p>******* This file should be named 33067-h.txt or 33067-h.zip *******</p> +<p>This and all associated files of various formats will be found in:<br> +<a href="http://www.gutenberg.org/dirs/3/3/0/6/33067">http://www.gutenberg.org/3/3/0/6/33067</a></p> +<p>Updated editions will replace the previous one--the old editions +will be renamed.</p> + +<p>Creating the works from public domain print editions means that no +one owns a United States copyright in these works, so the Foundation +(and you!) can copy and distribute it in the United States without +permission and without paying copyright royalties. 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Information about the Project Gutenberg Literary Archive +Foundation + +The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit +501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the +state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal +Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification +number is 64-6221541. Contributions to the Project Gutenberg +Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent +permitted by U.S. federal laws and your state's laws. + +The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S. +Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered +throughout numerous locations. Its business office is located at +809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email +business@pglaf.org. 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