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+Project Gutenberg's Historias Sem Data, by Joaquim Maria Machado de Assis
+
+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.org
+
+
+Title: Historias Sem Data
+
+Author: Joaquim Maria Machado de Assis
+
+Release Date: July 3, 2010 [EBook #33056]
+
+Language: Portuguese
+
+Character set encoding: ISO-8859-1
+
+*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK HISTORIAS SEM DATA ***
+
+
+
+
+Produced by Pedro Saborano
+
+
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+
+HISTORIAS SEM DATA
+
+
+
+OBRAS DO AUTOR
+
+MEMORIAS POSTHUMAS DE BRAZ CUBAS 1 vol.
+HISTORIAS SEM DATA 1 vol.
+PAPEIS AVULSOS 1 vol.
+HELENA 1 vol.
+YAYÁ GARCIA 1 vol.
+A MÃO E A LUVA 1 vol.
+RESURREIÇÃO 1 vol.
+PHALENAS, poesias 1 vol.
+AMERICANAS, poesias 1 vol.
+CHRYSALIDAS, poesias 1 vol.
+CONTOS FLUMINENSES 1 vol.
+HISTORIAS DA MEIA NOITE 1 vol.
+TU SÓ, TU, PURO AMOR 1 vol.
+OS DEUSES DE CASACA, comedia 1 vol.
+DESENCANTOS 1 vol.
+THEATRO 1 vol.
+
+
+
+
+ MACHADO DE ASSIS
+
+ HISTORIAS SEM DATA
+
+ A EGREJA DO DIABO--O LAPSO--ULTIMO CAPITULO
+ CANTIGA DE ESPONSAES--UMA SENHORA
+ SINGULAR OCCURRENCIA--FULANO--CAPITULO DOS CHAPÉOS
+ GALERIA POSTHUMA
+ CONTO ALEXANDRINO--PRIMAS DE SAPUCAIA
+ ANECDOTA PECUNIARIA--A SEGUNDA VIDA--EX-CATHEDRA
+ MANUSCRIPTO DE UM SACRISTÃO
+ AS ACADEMIAS DE SIÃO
+ NOITE DE ALMIRANTE--A SENHORA DO GALVÃO
+
+
+ _RIO DE JANEIRO_
+ B. L. GARNIER.--LIVREIRO-EDITOR
+ _71--Rua do Ouvidor--77_
+
+ 1884.
+
+
+
+ Typ. lith. a vapor, encadernação e livraria LOMBAERTS & C.
+
+
+
+
+INDICE
+
+ PAGS.
+ADVERTENCIA vij
+A EGREJA DO DIABO 1
+O LAPSO 17
+ULTIMO CAPITULO 33
+CANTIGA DE ESPONSAES 49
+SINGULAR OCCURRENCIA 57
+GALERIA POSTHUMA 71
+CAPITULO DOS CHAPÉOS 87
+CONTO ALEXANDRINO 113
+PRIMAS DE SAPUCAIA! 131
+UMA SENHORA 147
+ANECDOTA PECUNIARIA 161
+FULANO 181
+A SEGUNDA VIDA 191
+NOITE DE ALMIRANTE 205
+MANUSCRIPTO DE UM SACRISTÃO 219
+EX CATHEDRA 235
+A SENHORA DO GALVÃO 251
+AS ACADEMIAS DE SIÃO 263
+
+
+ERRATA
+
+Escaparam alguns erros typographicos faceis de emendar; entre outros,
+estes: _coser-lhe_ por _coser_ (pag. 43); _estar-lhe a contar_ por
+_estar a contar-lhe_ (pag. 182); _deram a força_ por _lhe deram a força_
+(pag. 211); _evidente mais_ por _evidentemente mais_ (pag. 272), etc.
+
+
+
+
+ADVERTENCIA
+
+
+De todos os contos que aqui se acham ha dous que effectivamente não
+levam data expressa; os outros a tem, de maneira que este titulo
+_Historias sem data_ parecerá a alguns inintelligivel, ou vago.
+Suppondo, porém, que o meu fim é definir estas paginas como tratando, em
+substancia, de cousas que não são especialmente do dia, ou de um certo
+dia, penso que o titulo está explicado. E é o peor que lhe póde
+acontecer, pois o melhor dos titulos é ainda aquelle que não precisa de
+explicação.
+
+ M. de A.
+
+
+
+
+A EGREJA DO DIABO
+
+
+CAPITULO I
+
+DE UMA IDÉA MIRIFICA
+
+Conta um velho manuscripto benedictino que o Diabo, em certo dia, teve a
+idéa de fundar uma egreja. Embora os seus lucros fossem continuos e
+grandes, sentia-se humilhado com o papel avulso que exercia desde
+seculos, sem organisação, sem regras, sem canones, sem ritual, sem nada.
+Vivia, por assim dizer, dos remanescentes divinos, dos descuidos e
+obsequios humanos. Nada fixo, nada regular. Porque não teria elle a sua
+egreja? Uma egreja do Diabo era o meio efficaz de combater as outras
+religiões, e destruil-as de uma vez.
+
+--Vá, pois, uma egreja, concluiu elle. Escriptura contra Escriptura,
+breviario contra breviario. Terei a minha missa, com vinho e pão á
+farta, as minhas predicas, bullas, novenas e todo o demais apparelho
+ecclesiastico. O meu credo será o nucleo universal dos espiritos, a
+minha egreja uma tenda de Abrahão. E depois, emquanto as outras
+religiões se combatem e se dividem, a minha egreja será unica; não
+acharei diante de mim, nem Mahomet, nem Luthero. Ha muitos modos de
+affirmar; ha só um de negar tudo.
+
+Dizendo isto, o Diabo sacudiu a cabeça e estendeu os braços, com um
+gesto magnifico e varonil. Em seguida, lembrou-se de ir ter com Deus
+para communicar-lhe a idéa, e desafial-o; levantou os olhos, accesos de
+odio, asperos de vingança, e disse comsigo:--Vamos, é tempo. E rapido,
+batendo as azas, com tal estrondo que abalou todas as provincias do
+abysmo, arrancou da sombra para o infinito azul.
+
+
+CAPITULO II
+
+ENTRE DEUS E DIABO
+
+Deus recolhia um ancião, quando o Diabo chegou ao céu. Os seraphins que
+engrinaldavam o recem chegado, detiveram-se logo, e o Diabo deixou-se
+estar á entrada com os olhos no Senhor.
+
+--Que me queres tu? perguntou este.
+
+--Não venho pelo vosso servo Fausto, respondeu o Diabo rindo, mas por
+todos os Faustos do seculo e dos seculos.
+
+--Explica-te.
+
+--Senhor, a explicação é facil; mas permitti que vos diga: recolhei
+primeiro esse bom velho; dai-lhe o melhor logar, mandai que as mais
+afinadas citharas e alaúdes o recebam com os mais divinos córos...
+
+--Sabes o que elle fez? perguntou o Senhor, com os olhos cheios de
+doçura.
+
+--Não, mas provavelmente é dos ultimos que virão ter comvosco. Não tarda
+muito que o céu fique semelhante a uma casa vasia, por causa do preço,
+que é alto. Vou edificar uma hospedaria barata; em duas palavras, vou
+fundar uma egreja. Estou cançado da minha desorganisação, do meu reinado
+casual e adventicio. É tempo de obter a victoria final e completa. E
+então vim dizer-vos isto, com lealdade, para que me não accuseis de
+dissimulação... Boa idéa, não vos parece?
+
+--Vieste dizel-a, não legitimal-a, advertiu o Senhor.
+
+--Tendes razão, acudiu o Diabo; mas o amor proprio gosta de ouvir o
+applauso dos mestres. Verdade é que n'este caso seria o applauso de um
+mestre vencido, e uma tal exigencia... Senhor, desço a terra; vou largar
+a minha pedra fundamental.
+
+--Vai.
+
+--Quereis que venha annunciar-vos o remate da obra?
+
+--Não é preciso; basta que me digas desde já por que motivo, cançado ha
+tanto da tua desorganisação, só agora pensaste em fundar uma egreja?
+
+Diabo sorriu com certo ar de escarneo e triumpho. Tinha alguma idéa
+cruel no espirito, algum reparo picante no alforge da memoria, qualquer
+cousa que, n'esse breve instante da eternidade, o fazia crer superior ao
+proprio Deus. Mas recolheu o riso, e disse:
+
+--Só agora conclui uma observação, começada desde alguns seculos, e é
+que as virtudes, filhas do céu, são em grande numero comparaveis a
+rainhas, cujo manto de veludo rematasse em franjas de algodão. Ora, eu
+proponho-me a puxal-as por essa franja, e trazel-as todas para minha
+egreja; atraz d'ellas virão as de seda pura...
+
+--Velho rhetorico! murmurou o Senhor.
+
+--Olhai bem. Muitos corpos que ajoelham aos vossos pés, nos templos do
+mundo, trazem as anquinhas da sala e da rua, os rostos tingem-se do
+mesmo pó, os lenços cheiram aos mesmos cheiros, as pupillas centelham de
+curiosidade e devoção entre o livro santo e o bigode do peccado. Vêde o
+ardor,--a indifferença, ao menos,--com que esse cavalheiro põe em
+lettras publicas os beneficios que liberalmente espalha,--ou sejam
+roupas ou botas, ou moedas, ou quaesquer d'essas materias necessarias á
+vida... Mas não quero parecer que me detenho em cousas miudas; não
+fallo, por exemplo, da placidez com que este juiz de irmandade, nas
+procissões, carrega piedosamente ao peito o vosso amor e uma commenda...
+Vou a negocios mais altos...
+
+N'isto os seraphins agitaram as azas pesadas de fastio e somno. Miguel e
+Gabriel fitaram no Senhor um olhar de supplica. Deus interrompeu o
+Diabo.
+
+--Tu és vulgar, que é o peior que póde acontecer a um espirito da tua
+especie, replicou-lhe o Senhor. Tudo o que dizes ou digas está dito e
+redito pelos moralistas do mundo. É assumpto gasto; e se não tens força,
+nem originalidade para renovar um assumpto gasto, melhor é que te cales
+e te retires. Olha; todas as minhas legiões mostram no rosto os signaes
+vivos do tedio que lhes dás. Esse mesmo ancião parece enjoado; e sabes
+tu o que elle fez?
+
+--Já vos disse que não.
+
+--Depois de uma vida honesta, teve uma morte sublime. Colhido em um
+naufragio, ia salvar-se n'uma taboa; mas viu um casal de noivos, na flor
+da vida, que se debatiam já com a morte; deu-lhes a taboa de salvação e
+mergulhou na eternidade. Nenhum publico: a agua e o céu por cima. Onde
+achas ahi a franja de algodão?
+
+--Senhor, eu sou, como sabeis, o espirito que nega.
+
+--Negas esta morte?
+
+--Nego tudo. A misanthropia póde tomar aspecto de caridade; deixar a
+vida aos outros, para um misanthropo, é realmente aborrecel-os...
+
+--Rhetorico e subtil! exclamou o Senhor. Vai, vai, funda a tua egreja;
+chama todas as virtudes, recolhe todas as franjas, convoca todos os
+homens... Mas, vai! vai!
+
+Debalde o Diabo tentou proferir alguma coisa mais. Deus impuzera-lhe
+silencio; os seraphins, a um signal divino, encheram o céu com as
+harmonias de seus canticos. O Diabo sentiu, de repente, que se achava no
+ar; dobrou as azas, e, como um raio, caiu na terra.
+
+
+CAPITULO III
+
+A BOA NOVA AOS HOMENS
+
+Uma vez na terra, o Diabo não perdeu um minuto. Deu-se pressa em enfiar
+a cogula benedictina, como habito de boa fama, e entrou a espalhar uma
+doutrina nova e extraordinaria, com uma voz que reboava nas entranhas do
+seculo. Elle promettia aos seus discipulos e fieis as delicias da terra,
+todas as glorias, os deleites mais intimos. Confessava que era o Diabo;
+mas confessava-o para rectificar a noção que os homens tinham d'elle e
+desmentir as historias que a seu respeito contavam as velhas beatas.
+
+--Sim, sou o Diabo, repetia elle; não o Diabo das noites sulphureas, dos
+contos somniferos, terror das crianças, mas o Diabo verdadeiro e unico,
+o proprio genio da natureza, a que se deu aquelle nome para arredal-o do
+coração dos homens. Vêde-me gentil e airoso. Sou o vosso verdadeiro pai.
+Vamos lá: tomai d'aquelle nome, inventado para meu desdouro, fazei
+d'elle um trophéu e um labaro, e eu vos darei tudo, tudo, tudo, tudo,
+tudo, tudo...
+
+Era assim que fallava, a principio, para excitar o enthusiasmo, espertar
+os indifferentes, congregar, em summa, as multidões ao pé de si. E ellas
+vieram; e logo que vieram, o Diabo passou a definir a doutrina. A
+doutrina era a que podia ser na bocca de um espirito de negação. Isso
+quanto á substancia, porque, ácerca da fórma, era umas vezes subtil,
+outras cynica e deslavada.
+
+Clamava elle que as virtudes aceitas deviam ser substituidas por outras,
+que eram as naturaes e legitimas. A soberba, a luxuria, a preguiça foram
+rehabilitadas, e assim tambem a avareza, que declarou não ser mais do
+que a mãi da economia, com a differença que a mãi era robusta, e a filha
+uma esgalgada. A ira tinha a melhor defeza na existencia de Homero; sem
+o furor de Achilles, não haveria a _Illiada_: «Musa, canta a colera de
+Achilles, filho de Peleu...» O mesmo disse da gula, que produziu as
+melhores paginas de Rabelais, e muitos bons versos de _Hyssope_; virtude
+tão superior, que ninguem se lembra das batalhas de Lucullo, mas das
+suas ceias; foi a gula que realmente o fez immortal. Mas, ainda pondo de
+lado essas razões de ordem litteraria ou historica, para só mostrar o
+valor intrinseco d'aquella virtude, quem negaria que era muito melhor
+sentir na bocca e no ventre os bons manjares, em grande cópia, do que os
+máus boccados, ou a saliva do jejum? Pela sua parte o Diabo promettia
+substituir a vinha do Senhor, expressão metaphorica, pela vinha do
+Diabo, locução directa e verdadeira, pois não faltaria nunca aos seus
+com o fructo das mais bellas cepas do mundo. Quanto á inveja, prégou
+friamente que era a virtude principal, origem de prosperidades
+infinitas; virtude preciosa, que chegava a supprir todas as outras, e ao
+proprio talento.
+
+As turbas corriam atraz d'elle enthusiasmadas. O Diabo incutia-lhes, a
+grandes golpes de eloquencia, toda a nova ordem de cousas, trocando a
+noção d'ellas, fazendo amar as perversas e detestar as sãs.
+
+Nada mais curioso, por exemplo, do que a definição que elle dava da
+fraude. Chamava-lhe o braço esquerdo do homem; o braço direito era a
+força; e concluia: Muitos homens são canhotos, eis tudo. Ora, elle não
+exigia que todos fossem canhotos; não era exclusivista. Que uns fossem
+canhotos, outros dextros; aceitava a todos, menos os que não fossem
+nada. A demonstração, porém, mais rigorosa e profunda, foi a da
+venalidade. Um casuista do tempo chegou a confessar que era um monumento
+de logica. A venalidade, disse o Diabo, era o exercicio de um direito
+superior a todos os direitos. Se tu podes vender a tua casa, o teu boi,
+o teu sapato, o teu chapéo, cousas que são tuas por uma razão juridica
+e legal, mas que, em todo caso, estão fóra de ti, como é que não pódes
+vender a tua opinião, o teu voto, a tua palavra, a tua fé, cousas que
+são mais do que tuas, porque são a tua propria consciencia, isto é, tu
+mesmo? Negal-o é cair no absurdo e no contraditorio. Pois não ha
+mulheres que vendem os cabellos? não póde um homem vender uma parte do
+seu sangue para transfundil-o a outro homem anemico? e o sangue e os
+cabellos, partes physicas, terão um privilegio que se nega ao caracter,
+á porção moral do homem? Demonstrando assim o principio, o Diabo não se
+demorou em expôr as vantagens de ordem temporal ou pecuniaria; depois,
+mostrou ainda que, á vista do preconceito social, conviria dissimular o
+exercicio de um direito tão legitimo, o que era exercer ao mesmo tempo a
+venalidade e a hypocrisia, isto é, merecer duplicadamente.
+
+E descia, e subia, examinava tudo, rectificava tudo. Está claro que
+combateu o perdão das injurias e outras maximas de brandura e
+cordialidade. Não prohibiu formalmente a calumnia gratuita, mas induziu
+a exercel-a mediante retribuição, ou pecuniaria, ou de outra especie;
+nos casos, porém, em que ella fosse uma expansão imperiosa da força
+imaginativa, e nada mais, prohibia receber nenhum salario, pois
+equivalia a fazer pagar a transpiração. Todas as fórmas de respeito
+foram condemnadas por elle, como elementos possiveis de um certo decoro
+social e pessoal; salva, todavia, a unica excepção do interesse. Mas
+essa mesma excepção foi logo eliminada, pela consideração de que o
+interesse, convertendo o respeito em simples adulação, era este o
+sentimento applicado e não aquelle.
+
+Para rematar a obra, entendeu o Diabo que lhe cumpria cortar por toda a
+solidariedade humana. Com effeito, o amor do proximo era um obstaculo
+grave á nova instituição. Elle mostrou que essa regra era uma simples
+invenção de parasitas e negociantes insolvaveis; não se devia dar ao
+proximo se não indifferença; em alguns casos, odio ou despreso. Chegou
+mesmo á demonstração de que a noção de proximo era errada, e citava esta
+phrase de um padre de Napoles, aquelle fino e lettrado Galliani, que
+escrevia a uma das marquezas de antigo regimen: «Leve a breca o proximo!
+Não ha proximo!» A unica hypothese em que elle permittia amar ao proximo
+era quando se tratasse de amar as damas alheias, porque essa especie de
+amor tinha a particularidade de não ser outra cousa mais do que o amor
+do individuo a si mesmo. E como alguns discipulos achassem que uma tal
+explicação, por metaphysica, escapava á comprehensão das turbas, o Diabo
+recorreu a um apologo:--Cem pessoas tomam acções de um banco, para as
+operações communs; mas cada accionista não cuida realmente se não nos
+seus dividendos: é o que acontece aos adulteros. Este apologo foi
+incluido no livro da sabedoria.
+
+
+CAPITULO IV
+
+FRANJAS E FRANJAS
+
+A previsão do Diabo verificou-se. Todas as virtudes cuja capa de velludo
+acabava em franja de algodão, uma vez puxadas pela franja, deitavam a
+capa ás ortigas e vinham alistar-se na egreja nova. Atraz foram chegando
+as outras, e o tempo abençoou a instituição. A egreja fundára-se; a
+doutrina propagava-se; não havia uma região do globo que não a
+conhecesse, uma lingua que não a traduzisse, uma que não a amasse. Diabo
+alçou brados de triumpho.
+
+Um dia, porém, longos annos depois notou o Diabo que muitos dos seus
+fieis, ás escondidas, praticavam as antigas virtudes. Não as praticavam
+todas, nem integralmente, mas algumas, por partes, e, como digo, ás
+occultas. Certos glotões recolhiam-se a comer frugalmente tres ou quatro
+vezes por anno, justamente em dias de preceito catholico; muitos avaros
+davam esmolas, á noite, ou nas ruas mal povoadas; varios dilapidadores
+do erario restituam-lhe pequenas quantias; os fraudulentos fallavam, uma
+ou outra vez, com o coração nas mãos, mas com o mesmo rosto dissimulado,
+para fazer crer que estavam embaçando os outros.
+
+A descoberta assombrou o Diabo. Metteu-se a conhecer mais directamente e
+mal, e viu que lavrava muito. Alguns casos eram até incomprehensiveis,
+como o de um droguista do Levante, que envenenára longamente uma geração
+inteira, e, com o producto das drogas soccorria os filhos das victimas.
+No Cairo achou um perfeito ladrão de camellos, que tapava a cara para ir
+ás mesquitas. O Diabo deu com elle á entrada de uma, lançou-lhe em rosto
+o procedimento; elle negou, dizendo que ia alli roubar o camello de um
+drogman; roubou-o, com effeito, a vista do Diabo e foi dal-o de presente
+a um muezzin, que rezou por elle a Allah. O manuscripto benedictino cita
+muitas outras descobertas extraordinarias, entre ellas esta, que
+desorientou completamente o Diabo. Um dos seus melhores apostolos era
+um calabrez, varão de cincoenta annos, insigne falsificador de
+documentos, que possuia uma bella casa na campanha romana, telus,
+estatuas, bibliotheca, etc. Era a fraude em pessoa; chegava a metter-se
+na cama para não confessar que estava são. Pois esse homem, não só não
+furtava ao jogo, como ainda dava gratificações aos criados. Tendo
+angariado a amizade de um conego, ia todas as semanas confessar-se com
+elle, n'uma capella solitaria; e, comquanto não lhe desvendasse nenhuma
+das suas acções secretas, benzia-se duas vezes, ao ajoelhar-se, e ao
+levantar-se. Diabo mal póde crer tamanha aleivosia. Mas não havia
+duvidar; o caso era verdadeiro.
+
+Não se deteve um instante. O pasmo não lhe deu tempo de reflectir,
+comparar e concluir do expectaculo presente alguma cousa analoga ao
+passado. Voou de novo ao céu, tremulo de raiva, ancioso de conhecer a
+causa secreta de tão singular phenomeno. Deus ouviu-o com infinita
+complacencia; não o interrompeu, não o reprehendeu, não triumphou,
+sequer, d'aquella agonia satanica. Poz os olhos n'elle, e disse-lhe:
+
+Que queres tu, meu pobre Diabo? As capas de algodão têm agora franjas de
+seda, como as de veludo tiveram franjas de algodão. Que queres tu? é a
+eterna contradicção humana.
+
+
+FIM DA EGREJA DO DIABO.
+
+
+
+
+O LAPSO
+
+
+ E vieram todos os officiaes... e o resto do povo, desde o pequeno
+ até ao grande.
+
+ E disseram ao propheta Jeremias: Seja aceita a nossa supplica
+ na tua presença.
+
+ JEREM. XLII, 1, 2.
+
+
+Não me perguntem pela familia do Dr. Jeremias Halma, nem o que e que
+elle veiu fazer ao Rio de Janeiro, n'aquelle anno de 1768, governando o
+Conde de Azambuja, que a principio se disse o mandára buscar; esta
+versão durou pouco. Veiu, ficou e morreu com o seculo. Posso affirmar
+que era medico e hollandez. Viajára muito, sabia toda a chimica do
+tempo, e mais alguma; fallava correntemente cinco ou seis linguas vivas
+e duas mortas. Era tão universal e inventivo, que dotou a poesia malaia
+com um novo metro, e engendrou uma theoria da formação dos diamantes.
+Não conto os melhoramentos therapeuticos, e outras muitas cousas, que o
+recommendam á nossa admiração. Tudo isso, sem ser casmurro, nem
+orgulhoso. Ao contrario, a vida e a pessoa d'elle eram como a casa que
+um patricio lhe arranjou na rua do Piolho, casa singelissima, onde elle
+morreu pelo natal de 1799. Sim, o Dr. Jeremias era simples, lhano,
+modesto, tão modesto que... Mas isto seria transtornar a ordem do conto.
+Vamos ao principio.
+
+No fim da rua do Ouvidor, que ainda não era a via dolorosa dos maridos
+pobres, perto da antiga rua dos Latoeiros, morava por esse tempo um tal
+Thomé Gonçalves, homem abastado, e, segundo algumas inducções, vereador
+da camara. Vereador ou não, este Thomé Gonçalves não tinha só dinheiro,
+tinha tambem dividas, não poucas, nem todas recentes. O descuido podia
+explicar os seus atrazos, a velhacaria tambem; mas quem opinasse por uma
+ou outra dessas interpretações, mostraria que não sabe ler uma narração
+grave. Realmente, não valia a pena dar-se ninguem a tarefa de escrever
+algumas laudas de papel para dizer que houve, nos fins do seculo
+passado, um homem que, por velhacaria ou deleixo, deixava de pagar aos
+credores. A tradição affirma que este nosso concidadão era exacto em
+todas as cousas, pontual nas obrigações mais vulgares, severo e até
+meticuloso. A verdade é que as ordens terceiras e irmandades que tinham
+a fortuna de o possuir (era irmão-remido de muitas, desde o tempo em que
+usava pagar), não lhe regateavam provas de affeição e apreço: e, se é
+certo que foi vereador, como tudo faz crer, póde-se jurar que o foi a
+contento da cidade.
+
+Mas então...? La vou; nem é outra a materia do escripto, senão esse
+curioso phenomeno, cuja causa, se a conhecemos, foi porque a descobriu o
+Dr. Jeremias. Em uma tarde de procissão, Thomé Gonçalves, trajado com o
+habito de uma ordem terceira, ia segurando uma das varas do pallio, e
+caminhando com a placidez de um homem que não faz mal a ninguem. Nas
+janellas e ruas estavam muitos dos seus credores; dois, entretanto, na
+esquina do becco das Cancellas (a procissão descia a rua do Hospicio),
+depois de ajoelhados, resados, persignados e levantados, perguntaram um
+ao outro, se não era tempo de recorrer á justiça.
+
+--Que é que me póde acontecer? dizia um d'elles. Se brigar commigo,
+melhor; não me levará mais nada de graça. Não brigando, não lhe posso
+negar o que me pedir, e na esperança de receber os atrasados, vou
+fiando... Não, senhor; não póde continuar assim.
+
+--Pela minha parte, acudiu o outro, se ainda não fiz nada, é por causa
+da minha dona, que é medrosa, e entende que não devo brigar com pessoa
+tão importante... Mas eu como ou bebo da importancia dos outros? E as
+minhas cabelleiras?
+
+Este era um cabelleireiro da rua da Valla defronte da Sé, que vendera ao
+Thomé Gonçalves dez cabelleiras, em cinco annos, sem lhe haver nunca um
+real. O outro era alfaiate, e ainda maior credor que o primeiro. A
+procissão passára inteiramente; elles ficaram na esquina, ajustando o
+plano de mandar os meirinhos ao Thomé Gonçalves. O cabelleireiro
+advertiu que outros muitos credores só esperavam um signal para cahir em
+cima do devedor remisso; e o alfaiate lembrou a conveniencia de metter
+na conjuração o Matta-sapateiro, que vivia desesperado. Só a elle devia
+o Thomé Gonçalves mais de oitenta mil reis. N'isso estavam, quando por
+traz d'elles ouviram uma voz, com sotaque estrangeiro, perguntando
+porque motivo conspiravam contra um homem doente. Voltaram-se, e, dando
+com o Dr. Jeremias, desbarretaram-se os dois credores, tornados de
+profunda veneração; em seguida disseram que tanto não era doente o
+devedor, que lá ia andando na procissão, muito teso, pegando uma das
+varas do pallio.
+
+--Que tem isso? interrompeu o medico; ninguem lhes diz que está doente
+dos braços, nem das pernas...
+
+--Do coração? do estomago?
+
+--Nem coração, nem estomago, respondeu o Dr. Jeremias. E continuou, com
+muita doçura, que se tratava de negocios altamente especulativos, que
+não podia dizer alli, na rua, nem sabia mesmo se elles chegariam a
+entendel-o. Se eu tiver de pentear uma cabelleira ou talhar um
+calção--accrescentou para os não affligir,--é provavel que não alcance
+as regras dos seus officios tão uteis, tão necessarios ao Estado... Eh!
+eh! eh!
+
+Rindo assim, amigavelmente cortejou-os e foi andando. Os dois credores
+ficaram embascados. O cabelleireiro foi o primeiro que fallou, dizendo
+que a noticia do Dr. Jeremias não era tal que os devesse afrouxar no
+proposito de cobrar as dividas. Se até os mortos pagam, ou alguem por
+elles, reflexionou o cabelleireiro, não é muito exigir aos doentes igual
+obrigação. O alfaiate, invejoso da pilheria, fel-a sua cosendo-lhe este
+babado:--Pague e cure-se.
+
+Não foi dessa opinião o Matta-sapateiro, que entendeu haver alguma razão
+secreta nas palavras do doutor Jeremias, e propoz que primeiro se
+examinasse bem o que era, e depois se resolvesse o mais idoneo.
+Convidaram então outros credores a um conciliabulo, no domingo proximo,
+em casa de uma D. Anninha, para as bandas do Rocio, a pretexto de um
+baptizado. A precaução era discreta, para não fazer suppor ao intendente
+da policia que se tratava de alguma tenebrosa machinação contra o
+Estado. Mal anoiteceu, começaram a entrar os credores, embuçados em
+capotes, e, como a illuminação publica só veiu a principiar com o
+vice-reinado do conde de Rezende, levava cada qual uma lanterna na mão,
+ao uso do tempo, dando assim ao conciliabulo um rasgo pintoresco e
+theatral. Eram trinta e tantos, perto de quarenta--e não eram todos.
+
+A theoria de Ch. Lamb ácerca da divisão do genero humano em duas grandes
+raças, é posterior ao conciliabulo do Rocio; mas nenhum outro exemplo a
+demonstraria melhor. Com effeito, o ar abatido ou afflicto d'aquelles
+homens, o desespero de alguns, a preoccupação de todos, estavam de
+antemão provando que a theoria do fino ensaista é verdadeira, e que das
+duas grandes raças humanas,--a dos homens que emprestam, e a dos que
+pedem emprestado,--a primeira contrasta pela tristeza do gesto com as
+maneiras rasgadas e francas da segunda, _the open, trusting, generous
+manners of the other_. Assim que, n'aquella mesma hora, o Thomé
+Gonçalves, tendo voltado da procissão, regalava alguns amigos com os
+vinhos e gallinhas que comprára fiado; ao passo que os credores
+estudavam ás escondidas, com um ar desenganado e amarello, algum meio de
+rehaver o dinheiro perdido.
+
+Logo foi o debate; nenhuma opinião chegava a concertar os espiritos. Uns
+inclinavam-se á demanda, outros á espera, não poucos aceitavam o alvitre
+de consultar o Dr. Jeremias. Cinco ou seis partidarios d'este parecer
+não o defendiam senão com a intenção secreta e disfarçada de não fazer
+cousa nenhuma; eram os servos do medo e da esperanca. O cabelleireiro
+oppunha-se-lhe, e perguntava que molestia haveria que impedisse um homem
+de pagar o que deve. Mas o Matta-sapateiro:--«Sr. compadre, nos não
+entendemos d'esses negocios; lembre-se que o doutor é estrangeiro, e que
+nas terras estrangeiras sabem cousas que nunca lembraram ao diabo. Em
+todo caso, só perdemos algum tempo e nada mais.» Venceu este parecer;
+deputaram o sapateiro, o alfaiate e o cabelleireiro para entenderem-se
+com o Dr. Jeremias, em nome de todos, e o conciliabulo dissolveu-se na
+patuscada. Terpsychore bracejou e perneou diante d'elles as suas graças
+jocundas, e tanto bastou para que alguns esquecessem a ulcera secreta
+que os roia. _Eheu! fugaces..._ Nem mesmo a dor é constante.
+
+No dia seguinte o Dr. Jeremias recebeu os tres credores, entre sete e
+oito horas da manha. «Entrem, entrem...» E com o seu largo carão
+hollandez, e o riso derramado pela bocca fóra, como um vinho generoso de
+pipa que se rompeu, o grande medico veiu em pessoa abrir-lhes a porta.
+Estudava n'esse momento uma cobra, morta de vespera, no morro de Santo
+Antonio; mas a humanidade, costumava elle dizer, é anterior á sciencia.
+Convidou os tres a sentarem-se nas tres unicas cadeiras devolutas; a
+quarta era a d'elle; as outras, umas cinco ou seis, estavam atulhadas de
+objectos de toda a casta.
+
+Foi o Matta-sapateiro quem expoz a questão; era dos tres o que reunia
+maior cópia de talentos diplomaticos. Começou dizendo que o engenho do
+Sr. doutor ia salvar da miseria uma porção de familias, e não seria a
+primeira nem a ultima grande obra de um medico que, não desfazendo nos
+da terra, era o mais sabio de quantos cá havia desde o governo de Gomes
+Freire. Os credores de Thomé Gonçalves não tinham outra esperança.
+Sabendo que o Sr. doutor attribuia os atrazos d'aquelle cidadão a uma
+doença, tinham assentado que primeiro se tentasse a cura, antes de
+qualquer recurso á justiça. A justiça ficaria para o caso de desespero.
+Era isto o que vinham dizer-lhe, em nome de dezenas de credores;
+desejavam saber se era verdade que, além de outros achaques humanos,
+havia o de não pagar as dividas, se era mal incuravel, e, não o sendo,
+se as lagrimas de tantas familias...
+
+--Ha uma doença especial, interrompeu o Dr. Jeremias, visivelmente
+commovido, um lapso da memoria; o Thomé Gonçalves perdeu inteiramente a
+noção de pagar. Não é por descuido, nem de proposito que elle deixa de
+saldar as contas; é porque esta idéa de pagar, de entregar o preço de
+uma cousa, varreu-se-lhe da cabeça. Conheci isto ha dois mezes, estando
+em casa d'elle, quando alli foi o prior do Carmo, dizendo que ia
+«pagar-lhe a fineza de uma visita». Thomé Gonçalves, apenas o prior se
+despediu, perguntou-me o que era _pagar_; accrescentou que, alguns dias
+antes, um boticario lhe dissera a mesma palavra, sem nenhum outro
+esclarecimento, parecendo-lhe até que já a ouvira a outras pessoas; por
+ouvil-a da bocca do prior, suppunha ser latim. Comprehendi tudo; tinha
+estudado a molestia em varias partes do mundo, e comprehendi que elle
+estava atacado do lapso. Foi por isso que disse outro dia a estes dois
+senhores que não demandassem um homem doente.
+
+--Mas então, aventurou o Matta, pallido, o nosso dinheiro está
+completamente perdido...
+
+--A molestia não é incuravel, disse o medico
+
+--Ah!
+
+--Não é; conheço e possuo a droga curativa, e já a empreguei em dous
+grandes casos: um barbeiro, que perdera a noção do espaço, e, á noite
+estendia a mão para arrancar as estrellas do céu, e uma senhora da
+Catalunha, que perdera a noção do marido. O barbeiro arriscou muitas
+vezes a vida, querendo sahir pelas janellas mais altas das casas, como
+se estivesse ao rez do chão...
+
+--Santo Deus! exclamaram os tres credores.
+
+--É o que lhes digo, continuou placidamente o medico. Quanto á dama
+catalã, a principio confundia o marido com um licenciado Mathias, alto e
+fino, quando o marido era grosso e baixo; depois com um capitão, D.
+Hermogenes, e, no tempo em que comecei a tratal-a com um clerigo. Em
+tres mezes ficou boa. Chamava-se D. Agostinha.
+
+Realmente, era uma droga miraculosa. Os tres credores estavam radiantes
+de esperança; tudo fazia crer que o Thomé Gonçalves padecia do lapso, e,
+uma vez que a droga existia, e o medico a tinha em casa... Ah! mas aqui
+pegou o carro. O Dr. Jeremias não era familiar da casa do enfermo,
+embora entretivesse relações com elle; não podia ir offerecer-lhe os
+seus prestimos. Thomé Gonçalves não tinha parentes que tomassem a
+responsabilidade de convidar o medico, nem os credores podiam tomal-a a
+si. Mudos, perplexos, consultaram-se com os olhos. Os do alfaiate, como
+os do cabelleiro, exprimiram este alvitre desesperado; cotisarem-se os
+credores, e, mediante uma quantia grossa e appetitosa, convidarem o Dr.
+Jeremias á cura; talvez o interesse... Mas o illustre Matta via o perigo
+de um tal proposito, porque o doente podia não ficar bom, e a perda
+seria dobrada. Grande era a angustia; tudo parecia perdido. O medico
+rolava entre os dedos a boceta de rapé, esperando que elles se fossem
+embora, não impaciente, mas risonho. Foi então que o Matta, como um
+capitão dos grandes dias, viu o ponto fraco do inimigo; advertiu que as
+suas primeiras palavras tinham commovido o medico, e tornou ás lagrimas
+das familias, aos filhos sem pão, porque elles não eram senão uns
+tristes officiaes de officio ou mercadores de pouca fazenda, ao passo
+que o Thomé Gonçalves era rico. Sapatos, calções, capotes, xaropes,
+cabelleiras, tudo o que lhes custava dinheiro, tempo e saude... Saude,
+sim, senhor; os callos de suas mãos mostravam bem que o officio era
+duro; e o alfaiate, seu amigo, que alli estava presente, e que
+entisicava, ás noites, á luz de uma candeia, zas-que-darás, puchando a
+agulha...
+
+Magnanimo Jeremias! Não o deixou acabar; tinha os olhos humidos de
+lagrimas. O acanho de suas maneiras era compensado pelas expansões de um
+coração pio e humano. Pois, sim; ia tentar o curativo, ia pôr a sciencia
+ao serviço de uma causa justa. Demais, a vantagem era tambem e
+principalmente do proprio Thomé Gonçalves, cuja fama andava abocanhada,
+por um motivo em que elle tinha tanta culpa como o doudo que pratica uma
+iniquidade. Naturalmente, a alegria dos deputados traduziu-se em
+rapa-pés infindos e grandes louvores aos insignes merecimentos do
+medico. Este cortou-lhes modestamente o discurso, convidando-os a
+almoçar, obsequio que elles não aceitaram, mas agradeceram com palavras
+cordialissimas. E, na rua quando elle já os não podia ouvir, não se
+fartavam de elogiar-lhe a sciencia, a bondade, a generosidade, a
+delicadeza, os modos tão simples! tão naturaes!
+
+Desde esse dia começou Thomé Gonçalves a notar a assiduidade do medico,
+e, não desejando outra cousa, porque lhe queria muito, fez tudo o que
+lhe lembrou por atal-o de vez aos seus penates. O lapso do infeliz era
+completo; tanto a ideia de _pagar_, como as ideias co-relatas de
+_credor_, _divida_, _saldo_, e outras tinham-se-lhe apagado da memoria,
+constituindo-lhe assim um largo furo no espirito. Temo que se me argua
+de comparações extraordinarias, mas o abysmo de Pascal é o que mais
+promptamente veiu ao bico da penna. Thomé Gonçalves tinha o abysmo de
+Pascal, não ao lado, mas dentro de si mesmo, e tão profundo que cabiam
+n'elle mais de sessenta credores que se debatiam lá embaixo com o ranger
+de dentes da Escriptura. Urgia extrahir todos esses infelizes e entulhar
+o buraco.
+
+Jeremias fez crer ao doente que andava abatido, e, para retemperal-o,
+começou a applicar-lhe a droga. Não bastava a droga; era mister um
+tratamento subsidiario, porque a cura operava-se de dous modos:--o modo
+geral e abstracto, restauração da ideia de pagar, com todas as noções
+co-relatas--era a parte confiada á droga; e o modo particular e
+concreto, insinuação ou designação de uma certa divida e de um certo
+credor--era a parte do medico. Supponhamos que o credor escolhido era o
+sapateiro. O medico levava o doente ás lojas de sapatos, para assistir á
+compra e venda da mercadoria, e ver uma e muitas vezes a acção de pagar;
+fallava da fabricação e venda dos sapatos no resto do mundo, cotejava os
+preços do calçado n'aquelle anno de 1768 com o que tinha trinta ou
+quarenta annos antes; fazia com que o sapateiro fosse dez, vinte vezes a
+casa de Thomé Gonçalves levar a conta e pedir o dinheiro, e cem outros
+estratagemas. Assim com o alfaiate, o cabelleireiro, o segeiro, o
+boticario, um a um, levando mais tempo os primeiros, pela razão natural
+de estar a doença mais arraigada, e lucrando os ultimos com o trabalho
+anterior, d'onde lhes vinha a compensação da demora.
+
+Tudo foi pago. Não se descreve a alegria dos credores, não se
+transcrevem as bençãos com que elles encheram o nome do Dr. Jeremias.
+Sim, senhor, é um grande homem, bradavam em toda a parte. Parece cousa
+de feitiçaria, aventuravam as mulheres. Quanto ao Thomé Gronçalves,
+pasmado de tantas dividas velhas, não se fartava de elogiar a
+longanimidade dos credores, censurando-os ao mesmo tempo pela
+accumulação.
+
+--Agora, dizia-lhes, não quero contas de mais de oito dias.
+
+--Nós é que lhe marcaremos o tempo, respondiam generosamente os
+credores.
+
+Restava entretanto, um credor. Esse era o mais recente, o proprio Dr.
+Jeremias, pelos honorarios d'aquelle serviço relevantes. Mas, ai delle!
+a modestia atou-lhe a lingua. Tão expansivo era de coração, como
+acanhado de maneiras; e planeou tres, cinco investidas, sem chegar a
+executar nada. E aliás era facil; bastava insinuar-lhe a divida pelo
+methodo usado em relação á dos outros; mas seria bonito? perguntava a si
+mesmo; seria decente? etc., etc. E esperava, ia esperando. Para não
+parecer que se lhe mettia á cara, entrou a rarear as visitas; mas o
+Thomé Gonçalves ia ao casebre da rua do Piolho, e trazia-o a jantar, a
+ceiar, a fallar de cousas estrangeiras, em que era muito curioso. Nada
+de pagar. Jeremias chegou a imaginar que os credores... Mas os credores,
+ainda quando pudesse passar-lhes pela cabeça a ideia de ir lembrar a
+divida, não chegariam a fazel-o, porque a suppunham paga antes de todas.
+Era o que diziam uns aos outros, entre muitas formulas da sabedoria
+popular:--Matheus, primeiro os teus--A boa justiça começa por casa--Quem
+é tolo pede a Deus que o mate, etc. Tudo falso; a verdade é que o Thomé
+Gonçalves, no dia em que fallecera, tinha um só credor no mundo:--o Dr.
+Jeremias.
+
+Este, nos fins do seculo, chegára á canonisação.
+
+--«Adeus, grande homem!» dizia-lhe o Matta, ex-sapateiro, em 1798, de
+dentro da sege, que o levava á missa dos carmelitas. E o outro, curvo de
+velhice, melancolicamente, olhando para os bicos dos pés:
+
+--Grande homem, mas pobre diabo.
+
+
+FIM DO LAPSO.
+
+
+
+
+ULTIMO CAPITULO
+
+
+Ha entre os suicidas um excellente costume, que é não deixar a vida sem
+dizer o motivo e as circumstancias que os armam contra ella. Os que se
+vão calados, raramente é por orgulho; na maior parte dos casos ou não
+têm tempo, ou não sabem escrever. Costume excellente: em primeiro logar,
+é um acto de cortezia, não sendo este mundo um baile, de onde um homem
+possa esgueirar-se antes do cotilhão; em segundo logar, a imprensa
+recolhe e divulga os bilhetes posthumos, e o morto vive ainda um dia ou
+dois, ás vezes uma semana mais.
+
+Pois apezar da excellencia do costume, era meu proposito sahir calado. A
+razão é que, tendo sido caipora em minha vida toda, temia que qualquer
+palavra ultima pudesse levar-me alguma complicação á eternidade. Mas um
+incidente de ha pouco trocou-me o plano, e retiro-me deixando, não só um
+escripto, mas dous. O primeiro é o meu testamento, que acabo de compor e
+fechar, e está aqui em cima da mesa, ao pé da pistola carregada. O
+segundo é este resumo de autobiographia. E note-se que não dou o segundo
+escripto senão porque é preciso esclarecer o primeiro, que pareceria
+absurdo ou inintelligivel, sem algum commentario. Disponho alli que,
+vendidos os meus poucos livros, roupa de uso e um casebre que possuo em
+Catumby, alugado a um carpinteiro, seja o producto empregado em sapatos
+e botas novas, que se distribuirão por um modo indicado, e confesso que
+extraordinario. Não explicada a razão de um tal legado, arrisco a
+validade do testamento. Ora, a razão do legado brotou do incidente de ha
+pouco, e o incidente liga-se á minha vida inteira.
+
+Chamo-me Mathias Deodato de Castro e Mello, filho do sargento-mór
+Salvador Deodato de Castro e Mello e de D. Maria da Soledade Pereira,
+ambos fallecidos. Sou natural de Corumbá, Matto Grosso; nasci em 3 de
+março de 1820; tenho portanto, cincoenta e um annos, hoje, 3 de março de
+1871.
+
+Repito, sou um grande caipora, o mais caipora de todos os homens. Ha uma
+locução proverbial, que eu litteralmente realisei. Era em Corumbá; tinha
+sete para oito annos, embalava-me na rede, á hora da sesta, em um
+quartinho de telha vã; a rede, ou por estar frouxa a argola, ou por
+impulso demasiado violento da minha parte, desprendeu-se de uma das
+paredes, e deu commigo no chão. Cahi de costas; mas, assim mesmo de
+costas, quebrei o nariz, porque um pedaço de telha, mal seguro, que só
+esperava occasião de vir abaixo, aproveitou a commoção e cahiu tambem. O
+ferimento não foi grave nem longo; tanto que meu pai caçoou muito
+commigo. O conego Brito, de tarde, ao ir tomar guaraná comnosco, soube
+do episodio e citou o rifão, dizendo que era eu o primeiro que cumpria
+exactamente este absurdo de cahir de costas e quebrar o nariz. Nem um
+nem outro imaginava que o caso era um simples inicio de cousas futuras.
+
+Não me demoro em outros revezes da infancia e da juventude. Quero morrer
+ao meio-dia, e passa de onze horas. Além d'isso, mandei fóra o rapaz que
+me serve, e elle póde vir mais cedo, e interromper-me a execução do
+projecto mortal. Tivesse eu tempo, e contaria pelo miudo alguns
+episodios doloridos, entre elles, o de umas cacetadas que apanhei por
+engano. Tratava-se do rival de um amigo meu, rival de amores e
+naturalmente rival derrubado. O meu amigo e a dama indignaram-se com as
+pancadas quando souberam da aleivosia do outro; mas applaudiram
+secretamente a illusão. Tambem não fallo de alguns achaques que padeci.
+Corro ao ponto em que meu pai, tendo sido pobre toda a vida, morreu
+pobrissimo, e minha mãi não lhe sobreviveu dois mezes. O conego Brito,
+que acabava de ser eleito deputado, propoz então trazer-me ao Rio de
+Janeiro, e veiu commigo, com a idéa de fazer-me padre; mas cinco dias
+depois de chegar morreu. Vão vendo a acção constante do caiporismo.
+
+Fiquei só, sem amigos, nem recursos, com dezeseis annos de idade. Um
+conego da Capella Imperial lembrou-se de fazer-me entrar alli de
+sachristão; mas, posto que tivesse ajudado muita missa em Matto Grosso,
+e possuisse algumas lettras latinas, não fui admittido, por falta de
+vaga. Outras pessoas induziram-me então a estudar direito, e confesso
+que aceitei com resolução. Tive até alguns auxilios, a principio;
+faltando-me elles depois, lutei por mim mesmo; emfim alcancei a carta de
+bacharel. Não me digam que isto foi uma excepção na minha vida caipora,
+porque o diploma academico levou-me justamente a cousas mui graves; mas,
+como o destino tinha de flagellar-me, qualquer que fosse a minha
+profissão, não attribuo nenhum influxo especial ao grau juridico.
+Obtive-o com muito prazer, isso é verdade; a idade moça, e uma certa
+superstição de melhora, faziam-me do pergaminho uma chave de diamante
+que iria abrir todas as portas da fortuna.
+
+E, para principiar, a carta de bacharel não me encheu sósinha as
+algibeiras. Não, senhor, tinha ao lado d'ella umas outras, dez ou
+quinze, fructo de um namoro travado no Rio de Janeiro, pela semana santa
+de 1842, com uma viuva mais velha do que eu sete ou oito annos, mas
+ardente, lepida e abastada. Morava com um irmão cégo, na rua do Conde;
+não posso dar outras indicações. Nenhum dos meus amigos ignorava este
+namoro; dous d'elles até liam as cartas, que eu lhes mostrava, com o
+pretexto de admirar o estylo elegante da viuva, mas realmente para que
+vissem as finas cousas que ella me dizia. Na opinião de todos, o nosso
+casamento era certo, mais que certo; a viuva não esperava senão que eu
+concluisse os estudos. Um d'esses amigos, quando eu voltei graduado,
+deu-me os parabens, accentuando a sua convicção com esta phrase
+definitiva:
+
+--O teu casamento é um dogma.
+
+E, rindo, perguntou-me se por conta do dogma, poderia arranjar-lhe
+cincoenta mil réis; era para uma urgente precisão. Não tinha commigo os
+cincoenta mil réis; mas o _dogma_ repercutia ainda tão docemente no meu
+coração, que não descancei em todo esse dia, até arranjar-lh'os; fui
+leval-os eu mesmo, enthusiasmado; elle recebeu-os cheio de gratidão.
+Seis mezes depois foi elle quem casou com a viuva.
+
+Não digo tudo o que então padeci; digo só que o meu primeiro impulso foi
+dar um tiro em ambos; e, mentalmente, cheguei a fazel-o; cheguei a
+vel-os, moribundos, arquejantes, pedirem-me perdão. Vingança
+hypothetica; na realidade, não fiz nada. Elles casaram-se, e foram ver
+do alto da Tijuca a ascenção da lua de mel. Eu fiquei relendo as cartas
+da viuva. «Deus, que me ouve (dizia uma d'ellas), sabe que o meu amor é
+eterno, e que eu sou tua, eternamente tua...» E, no meu atordoamento,
+blasphemava commigo:--Deus é um grande invejoso; não quer outra
+eternidade ao pé d'elle, e por isso desmentiu a viuva:--nem outro dogma
+além do catholico, e por isso desmentiu o meu amigo. Era assim que eu
+explicava a perda da namorada e dos cincoenta mil réis.
+
+Deixei a capital, e fui advogar na roça, mas por pouco tempo. O
+caiporismo foi commigo, na garupa do burro, e onde eu me apeei, apeou-se
+elle tambem. Vi-lhe o dedo em tudo, nas demandas que não vinham, nas que
+vinham e valiam pouco ou nada, e nas que, valendo alguma cousa, eram
+invariavelmente perdidas. Além de que os constituintes vencedores são em
+geral mais gratos que os outros, a successão de derrotas foi arredando
+de mim os demandistas. No fim de algum tempo, anno e meio, voltei á
+côrte, e estabeleci-me com um antigo companheiro de anno: o Gonçalves.
+
+Este Gonçalves era o espirito menos juridico, menos apto para entestar
+com as questões de direito. Verdadeiramente era um pulha. Comparemos a
+vida mental a uma casa elegante; o Gonçalves não aturava dez minutos a
+conversa do salão, esgueirava-se, descia á copa e ia palestrar com os
+creados. Mas compensava essa qualidade inferior com certa lucidez, com a
+presteza de comprehensão, nos assumptos menos arduos ou menos complexos,
+com a facilidade de expôr, e, o que não era pouco para um pobre diabo
+batido da fortuna, com uma alegria quasi sem intermittencias. Nos
+primeiros tempos, como as demandas não vinham, matavamos as horas com
+excellente palestra, animada e viva, em que a melhor parte era d'elle,
+ou fallassemos de politica, ou de mulheres, assumpto que lhe era muito
+particular.
+
+Mas as demandas vieram vindo; entre ellas uma questão de hypotheca.
+Tratava-se da casa de um empregado da alfandega, Themistocles de Sá
+Botelho, que não tinha outros bens, e queria salvar a propriedade. Tomei
+conta do negocio. O Themistocles ficou encantado commigo: e, duas
+semanas depois, como eu lhe dissesse que não era casado, declarou-me
+rindo que não queria nada com solteirões. Disse-me outras cousas e
+convidou-me a jantar no domingo proximo. Fui; namorei-me da filha
+d'elle, D. Rufina, moça de dezenove annos, bem bonita, embora um pouco
+acanhada e meia morta. Talvez seja a educação, pensei eu. Casámo-nos
+poucos mezes depois. Não convidei o caiporismo, é claro; mas na egreja,
+entre as barbas rapadas e as suiças lustrosas, pareceu-me ver o carão
+sardonico e o olhar obliquo do meu cruel adversario. Foi por isso que,
+no acto mesmo de proferir a formula sagrada e definitiva do casamento,
+estremeci, hesitei, e, emfim, balbuciei a medo o que o padre me
+dictava...
+
+Estava casado. Rufina não dispunha, é verdade, de certas qualidades
+brilhantes e elegantes; não seria, por exemplo, e desde logo, uma dona
+de salão. Tinha, porém, as qualidades caseiras, e eu não queria outras.
+A vida obscura bastava-me; e, com tanto que ella m'a enchesse, tudo iria
+bem. Mas esse era justamente o agro da empreza. Rufina (permittam-me
+esta figuração chromatica) não tinha a alma negra de lady Macbeth, nem a
+vermelha de Cleopatra, nem a azul de Julieta, nem a alva de Beatriz, mas
+cinzenta e apagada como a multidão dos seres humanos. Era boa por
+apathia, fiel sem virtude, amiga sem ternura nem eleição. Um anjo a
+levaria ao céu, um diabo ao inferno, sem esforço em ambos os casos, e
+sem que, no primeiro lhe coubesse a ella nenhuma gloria, nem o menor
+desdouro no segundo. Era a passividade do somnambulo. Não tinha
+vaidades. O pai armou-me o casamento para ter um genro doutor; ella,
+não; aceitou-me como aceitaria um sachristão, um magistrado, um general,
+um empregado publico, um alferes e não por impaciencia de casar, mas por
+obediencia á familia, e, até certo ponto, para fazer como as outras.
+Usavam-se maridos; ella queria usar tambem o seu. Nada mais antipathico
+á minha propria natureza; mas estava casado.
+
+Felizmente--ah! um felizmente n'este ultimo capitulo de um caipora, é,
+na verdade, uma anomalia; mas vão lendo, e verão que o adverbio pertence
+ao estylo, não á vida; é um modo de transição e nada mais. O que vou
+dizer não altera o que está dito. Vou dizer que as qualidades domesticas
+de Rufina davam-lhe muito merito. Era modesta; não amava bailes, nem
+passeios, nem janellas. Vivia comsigo. Não mourejava em casa, nem era
+preciso; para dar-lhe tudo, trabalhava eu, e os vestidos e chapéus, tudo
+vinha «das francezas», como então se dizia, em vez de modistas. Rufina,
+no intervallo das ordens que dava, sentava-se horas e horas, bocejando o
+espirito, matando o tempo, uma hydra de cem cabeças, que não morria
+nunca; mas, repito, com todas essas lacunas, era boa dona de casa. Pela
+minha parte, estava no papel das rãs que queriam um rei; a differença é
+que, mandando-me Jupiter um cepo, não lhe pedi outro, por que viria a
+cobra e engolia-me. Viva o cepo! disse commigo. Nem conto estas cousas,
+senão para mostrar a logica e a constancia do meu destino.
+
+Outro _felizmente_; e este não é só uma transição de phrase. No fim de
+anno e meio, abotoou no horisonte uma esperança, e, a calcular pela
+commoção que me deu a noticia, uma esperança suprema e unica. Era o
+desejado que chegava. Que desejado? um filho. A minha vida mudou logo.
+Tudo me sorria como um dia de noivado. Preparei-lhe um recebimento
+regio; comprei-lhe um rico berço, que me custou bastante; era de ebano e
+marfim, obra acabada; depois, pouco a pouco, fui comprando o enxoval;
+mandei-lhe coser as mais finas cambraias, as mais quentes flanellas,
+uma linda touca de renda, comprei-lhe um carrinho, e esperei, esperei,
+prompto a bailar diante d'elle, como David diante da arca... Ai,
+caipora! a arca entrou vasia em Jerusalem; o pequeno nasceu morto.
+
+Quem me consolou no mallogro foi o Gonçalves, que devia ser padrinho do
+pequeno, e era amigo, comensal e confidente nosso. Tem paciencia,
+disse-me, serei padrinho do que vier. E confortava-me, fallava-me de
+outras cousas, com ternura de amigo. O tempo fez o resto. O proprio
+Gonçalves advertiu-me depois que, se o pequeno tinha de ser caipora,
+como eu dizia que era, melhor foi que nascesse morto.
+
+--E pensas que não? redargui.
+
+Gonçalves sorriu; elle não acreditava no meu caiporismo. Verdade é que
+não tinha tempo de acreditar em nada; todo era pouco para ser alegre.
+Afinal, começára a converter-se á advocacia, já arrasoava autos, já
+minutava petições, já ia ás audiencias, tudo porque era preciso viver,
+dizia elle. E alegre sempre. Minha mulher achava-lhe muita graça, ria
+longamente dos ditos d'elle, e das anecdotas, que ás vezes eram picantes
+demais. Eu, a principio, reprehendia-o em particular, mas acostumei-me a
+ellas. E depois, quem é que não perdoa as facilidades de um amigo, e de
+um amigo jovial? Devo dizer que elle mesmo se foi refreando, e d'alli a
+algum tempo, comecei a achar-lhe muita seriedade. Estás namorado,
+disse-lhe um dia; e elle, empallidecendo, respondeu que sim, e
+accrescentou sorrindo, embora frouxamente, que era indispensavel casar
+tambem. Eu, á mesa, fallei do assumpto.
+
+--Rufina, você sabe que o Gonçalves vai casar?
+
+--É caçoada d'elle, interrompeu vivamente o Gonçalves.
+
+Dei ao diabo a minha indiscrição, e não fallei mais n'isso; nem elle.
+Cinco mezes depois... A transição é rapida; mas não ha meio de a fazer
+longa. Cinco mezes depois, adoeceu Rufina, gravemente, e não resistiu
+oito dias; morreu de uma febre perniciosa.
+
+Cousa singular:--em vida, a nossa divergencia moral trazia a frouxidão
+dos vinculos, que se sustinham principalmente da necessidade e do
+costume. A morte, com o seu grande poder espiritual, mudou tudo; Rufina
+appareceu-me como a esposa que desce do Libano, e a divergencia foi
+substituida pela total fusão dos seres. Peguei da imagem, que enchia a
+minha alma, e enchi com ella a vida, onde outr'ora occupára tão pouco
+espaço e por tão pouco tempo. Era um desafio á má estrella; era levantar
+o edificio da fortuna em pura rocha indestructivel. Comprehendam-me bem;
+tudo o que até então dependia do mundo exterior, era naturalmente
+precario: as telhas cahiam com o abalo das redes, as sobrepellizes
+recusavam-se aos sachristães, os juramentos das viuvas fugiam com os
+dogmas dos amigos, as demandas vinham tropegas ou iam-se de mergulho;
+emfim, as crianças nasciam mortas. Mas a imagem de uma defunta era
+immortal. Com ella podia desafiar o olhar obliquo do mau destino. A
+felicidade estava nas minhas mãos, presa, vibrando no ar as grandes azas
+de condor, ao passo que o caiporismo, semelhante a uma coruja, batia as
+suas na direcção da noite e do silencio...
+
+Um dia, porém, convalescendo de uma febre, deu-me na cabeça inventariar
+uns objectos da finada e comecei por uma caixinha, que não fora aberta,
+desde que ella morreu, cinco mezes antes. Achei uma multidão de cousas
+minusculas, agulhas, linhas, entremeios, um dedal, uma tesoura, uma
+oração de S. Cypriano, um rol de roupa, outras quinquilharias, e um maço
+de cartas, atado por uma fita azul. Deslacei a fita e abri as cartas:
+eram do Gonçalves... Meio dia! Urge acabar; o moleque póde vir, e adeus.
+Ninguem imagina como o tempo corre nas circumstancias em que estou; os
+minutos voam como se fossem imperios, e, o que é importante n'esta
+occasião, as folhas de papel vão com elles.
+
+Não conto os bilhetes brancos, os negocios abortados, as relações
+interrompidas; menos ainda outros acintes infimos da fortuna. Cansado e
+aborrecido, entendi que não podia achar a felicidade em parte nenhuma;
+fui além: acreditei que ella não existia na terra, e preparei-me desde
+hontem para o grande mergulho na eternidade. Hoje, almocei, fumei um
+charuto, e debrucei-me á janella. No fim de dez minutos, vi passar um
+homem bem trajado, fitando a miudo os pés. Conhecia-o de vista; era uma
+victima de grandes revezes, mas ia risonho, e contemplava os pés, digo
+mal, os sapatos. Estes eram novos, de verniz, muito bem talhados, e
+provavelmente cosidos a primor. Elle levantava os olhos para as
+janellas, para as pessoas, mas tornava-os aos sapatos, como por uma lei
+de attracção, anterior e superior á vontade. Ia alegre; via-se-lhe no
+rosto a expressão da bemaventurança. Evidentemente era feliz; e, talvez,
+não tivesse almoçado; talvez mesmo não levasse um vintém no bolso. Mas
+ia feliz, e contemplava as botas.
+
+A felicidade será um par de botas? Esse homem, tão esbofeteado pela
+vida, achou finalmente um riso da fortuna. Nada vale nada. Nenhuma
+preoccupação d'este seculo, nenhum problema social ou moral, nem as
+alegrias da geração que começa, nem as tristezas da que termina, miseria
+ou guerra de classes, crises da arte e da politica, nada vale, para
+elle, um par de botas. Elle fita-as, elle respira-as, elle reluz com
+ellas, elle calca com ellas o chão de um globo que lhe pertence. D'ahi o
+orgulho das attitudes, a rigidez dos passos, e um certo ar de
+tranquillidade olympica... Sim, a felicidade é um par de botas.
+
+Não é outra a explicação do meu testamento. Os superficiaes dirão que
+estou doudo, que o delirio do suicida define a clausula do testador; mas
+eu fallo para os sapientes e para os malfadados. Nem colhe a objecção de
+que era melhor gastar commigo as botas, que lego aos outros; não, porque
+seria unico. Distribuindo-as, faço um certo numero de venturosos. Eia,
+caiporas! que a minha ultima vontade seja cumprida. Boa noite, e
+calçai-vos!
+
+
+FIM DO ULTIMO CAPITULO.
+
+
+
+
+CANTIGA DE ESPONSAES
+
+
+Imagine a leitora que está em 1813, na egreja do Carmo, ouvindo uma
+daquellas boas festas antigas, que eram todo o recreio publico e toda a
+arte musical. Sabem o que é uma missa cantada; podem imaginar o que
+seria uma missa cantada daquelles annos remotos. Não lhe chamo a
+attenção para os padres e os sacristães, nem para o sermão, nem para os
+olhos das moças cariocas, que já eram bonitos nesse tempo, nem para as
+mantilhas das senhoras graves, os calções, as cabelleiras, as sanefas,
+as luzes, os incensos, nada. Não fallo sequer da orchestra, que é
+excellente; limito-me a mostrar-lhes uma cabeça branca, a cabeça desse
+velho que rege a orchestra, com alma e devoção.
+
+Chama-se Romão Pires; terá sessenta annos, não menos, nasceu no
+Vallongo, ou por esses lados. É bom musico e bom homem; todos os musicos
+gostam delle. Mestre Romão é o nome familiar; e dizer familiar e publico
+era a mesma cousa em tal materia e naquelle tempo. «Quem rege a missa é
+mestre Romão,»--equivalia a esta outra forma de annuncio, annos depois:
+«Entra em scena o actor João Caetano»;--ou então: «O actor Martinho
+cantará uma de suas melhores arias». Era o tempero certo, o chamariz
+delicado e popular. Mestre Romão rege a festa! Quem não conhecia mestre
+Romão, com o seu ar circumspecto, olhos no chão, riso triste, e passo
+demorado? Tudo isso desapparecia á frente da orchestra; então a vida
+derramava-se por todo o corpo e todos os gestos do mestre; o olhar
+accendia-se, o riso illuminava-se: era outro. Não que a missa fosse
+delle; esta, por exemplo, que elle rege agora no Carmo é de José
+Mauricio; mas elle rege-a com o mesmo amor que empregaria, se a missa
+fosse sua.
+
+Acabou a festa; é como se acabasse um clarão intenso, e deixasse o rosto
+apenas allumiado da luz ordinaria. Eil-o que desce do côro, apoiado na
+bengala; vae á sacristia beijar a mão aos padres e aceita um logar á
+mesa do jantar. Tudo isso indifferente e calado. Jantou, saiu, caminhou
+para a rua da Mãi dos Homens, onde reside, com um preto velho, pae José,
+que é a sua verdadeira mãe, e que neste momento conversa com uma
+visinha.
+
+--Mestre Romão lá vem, pae José, disse a visinha.
+
+--Eh! eh! adeus, sinhá, até logo.
+
+Pae José deu um salto, entrou em casa, e esperou o senhor, que d'ahi a
+pouco entrava com o mesmo ar do costume. A casa não era rica
+naturalmente; nem alegre. Não tinha o menor vestigio de mulher, velha ou
+moça, nem passarinhos que cantassem, nem flores, nem cores vivas ou
+jocundas. Casa sombria e nua. O mais alegre era um cravo, onde o mestre
+Romão tocava algumas vezes, estudando. Sobre uma cadeira, ao pé, alguns
+papeis de musica; nenhuma d'elle...
+
+Ah! se mestre Romão podesse seria um grande compositor. Parece que ha
+duas sortes de vocação, as que tem lingua e as que a não tem. As
+primeiras realisam-se; as ultimas representam uma luta constante e
+esteril entre o impulso interior e a ausencia de um modo de communicação
+com os homens. Romão era d'estas. Tinha a vocação intima da musica;
+trazia dentro de si muitas operas e missas, um mundo de harmonias novas
+e originaes, que não alcançava exprimir e pôr no papel. Esta era a causa
+unica da tristeza de mestre Romão. Naturalmente o vulgo não atinava com
+ella; uns diziam isto, outros aquillo: doença, falta de dinheiro, algum
+desgosto antigo; mas a verdade é esta:--a causa da melancholia de mestre
+Romão era não poder compor, não possuir o meio de traduzir o que sentia.
+Não é que não rabiscasse muito papel e não interrogasse o cravo, durante
+horas; mas tudo lhe sahia informe, sem idéa nem harmonia. Nos ultimos
+tempos tinha até vergonha da visinhança, e não tentava mais nada.
+
+E, entretanto, se pudesse, acabaria ao menos uma certa peça, um canto
+esponsalicio, começado tres dias depois de casado, em 1779. A mulher,
+que tinha então vinte e um annos, e morreu com vinte e tres, não era
+muito bonita, nem pouco, mas extremamente sympathica, e amava-o tanto
+como elle a ella. Tres dias depois de casado, mestre Romão sentiu em si
+alguma cousa parecida com inspiração. Ideou então o canto esponsalicio,
+e quiz compol-o; mas a inspiração não pode sahir. Como um passaro que
+acaba de ser preso, e forceja por transpor as paredes da gaiola, abaixo,
+acima, impaciente, aterrado, assim batia a inspiração do nosso musico,
+encerrada n'elle sem poder sair, sem achar uma porta, nada. Algumas
+notas chegaram a ligar-se; elle escreveu-as; obra de uma folha de papel,
+não mais. Teimou no dia seguinte, dez dias depois, vinte vezes durante o
+tempo de casado. Quando a mulher morreu, elle releu essas primeiras
+notas conjugaes, e ficou ainda mais triste, por não ter podido fixar no
+papel a sensação da felicidade extincta.
+
+--Pae José, disse elle ao entrar, sinto-me hoje adoentado.
+
+--Sinhô comeu alguma cousa que fez mal...
+
+--Não; já de manhã não estava bom. Vae á botica...
+
+O boticario mandou alguma cousa, que elle tomou á noite; no dia seguinte
+mestre Romão não se sentia melhor. É preciso dizer que elle padecia do
+coração:--molestia grave e chronica. Pae José ficou atterrado, quando
+viu que o incommodo não cedera ao remedio, nem ao repouso, e quiz chamar
+o medico.
+
+--Para que? disse o mestre. Isto passa.
+
+O dia não acabou peor; e a noite supportou-a elle bem, não assim o
+preto, que mal pôde dormir duas horas. A visinhança, apenas soube do
+incommodo, não quiz outro motivo de palestra; os que entretinham
+relações com o mestre foram visital-o. E diziam-lhe que não era nada,
+que eram macacoas do tempo; um accrescentava graciosamente que era
+manha, para fugir aos capotes que o boticario lhe dava no gamão,--outro
+que eram amores. Mestre Romão sorria, mas comsigo mesmo dizia que era o
+final.
+
+--Está acabado, pensava elle.
+
+Um dia de manhã, cinco depois da festa, o medico achou-o realmente mal;
+e foi isso o que elle lhe viu na physionomia por traz das palavras
+enganadoras:--Isto não é nada; é preciso não pensar em musicas...
+
+Em musicas! justamente esta palavra do medico deu ao mestre um
+pensamento. Logo que ficou só, com o escravo, abriu a gaveta onde
+guardava desde 1779 o canto esponsalicio começado. Releu essas notas
+arrancadas a custo, e não concluidas. E então teve uma idéa
+singular:--rematar a obra agora, fosse como fosse; qualquer cousa
+servia, uma vez que deixasse um pouco de alma na terra.
+
+--Quem sabe? Em 1880, talvez se toque isto, e se conte que um mestre
+Romão...
+
+O principio do canto rematava em um certo _lá_; este _lá_, que lhe cahia
+bem no logar, era a nota derradeiramente escripta. Mestre Romão ordenou
+que lhe levassem o cravo para a sala do fundo, que dava para o quintal:
+era-lhe preciso ar. Pela janella viu na janella dos fundos de outra casa
+dous casadinhos de oito dias, debruçados, com os braços por cima dos
+hombros, e duas mãos presas. Mestre Romão sorriu com tristeza.
+
+--Aquelles chegam, disse elle, eu saio. Comporei ao menos este canto que
+elles poderão tocar...
+
+Sentou-se ao cravo; reproduziu as notas e chegou ao _la_...
+
+--_Lá, lá, lá..._
+
+Nada, não passava adeante. E comtudo, elle sabia musica como gente.
+
+--_Lá, dó... lá, mi... lá, si, dó, ré... ré... ré..._
+
+Impossivel! nenhuma inspiração. Não exigia uma peça profundamente
+original, mas emfim alguma cousa, que não fosse de outro e se ligasse ao
+pensamento começado. Voltava ao principio, repetia as notas, buscava
+rehaver um retalho da sensação estincta, lembrava-se da mulher, dos
+primeiros tempos. Para completar a illusão, deitava os olhos pela
+janella para o lado dos casadinhos. Estes continuavam alli, com as mãos
+presas e os braços passados nos hombros um do outro; a differença é que
+se miravam agora, em vez de olhar para baixo. Mestre Romão, offegante da
+molestia e de impaciencia, tornava ao cravo; mas a vista do casal não
+lhe supprira a inspiração, e as notas seguintes não soavam.
+
+--_Lá... lá... lá..._
+
+Desesperado, deixou o cravo, pegou do papel escripto e rasgou-o. Nesse
+momento, a moça embebida no olhar do marido, começou a cantarolar á toa,
+inconscientemente, uma cousa nunca antes cantada nem sabida, na qual
+cousa um certo _lá_ trazia apoz si uma linda phrase musical, justamente
+a que mestre Romão procurára durante annos sem achar nunca. O mestre
+ouviu-a com tristeza, abanou a cabeça, e á noite expirou.
+
+
+FIM DA CANTIGA DOS ESPONSAES.
+
+
+
+
+SINGULAR OCCURRENCIA
+
+
+--Ha occurencias bem singulares. Está vendo aquella dama que vai
+entrando na egreja da Cruz? Parou agora no adro para dar uma esmola.
+
+--De preto?
+
+--Justamente; lá vai entrando; entrou.
+
+--Não ponha mais na carta. Esse olhar está dizendo que a dama é uma sua
+recordação de outro tempo, e não ha de ser de muito tempo, a julgar pelo
+corpo: é moça de truz.
+
+--Deve ter quarenta e seis annos.
+
+--Ah! conservada. Vamos lá; deixe de olhar para o chão, e conte-me tudo.
+Está viuva, naturalmente?
+
+--Não.
+
+--Bem; o marido ainda vive. É velho?
+
+--Não é casada.
+
+--Solteira?
+
+--Assim, assim. Deve chamar-se hoje D. Maria de tal. Em 1860 florescia
+com o nome familiar de Marocas. Não era costureira, nem proprietaria,
+nem mestra de meninas; vá excluindo as profissões e lá chegará. Morava
+na rua do Sacramento. Já então era esbelta, e, seguramente, mais linda
+do que hoje; modos sérios, linguagem limpa. Na rua, com o vestido
+afogado, escorrido, sem espavento, arrastava a muitos, ainda assim.
+
+--Por exemplo, ao senhor.
+
+--Não, mas ao Andrade, um amigo meu, de vinte e seis annos, meio
+advogado, meio politico, nascido nas Alagoas, e casado na Bahia, d'onde
+viera em 1859. Era bonita a mulher d'elle, affectuosa, meiga e
+resignada; quando os conheci, tinham uma filhinha de dois annos.
+
+--Apezar d'isso, a Marocas...?
+
+--É verdade, dominou-o. Olhe, se não tem pressa conto-lhe uma cousa
+interessante.
+
+--Diga.
+
+--A primeira vez que elle a encontrou, foi á porta da loja Paula Brito,
+no Rocio. Estava alli viu a distancia uma mulher bonita, e esperou, já
+alvoraçado, porque elle tinha em alto grau a paixão das mulheres.
+Marocas vinha andando, parando e olhando como quem procura alguma casa.
+Defronte da loja deteve-se um instante; depois, envergonhada e a medo,
+estendeu um pedacinho de papel ao Andrade, e perguntou-lhe onde ficava o
+numero alli escripto, Andrade disse-lhe que do outro lado do Rocio, e
+ensinou-lhe a altura provavel da casa. Ella cortejou com muita graça;
+elle ficou sem saber o que pensasse da pergunta.
+
+--Como eu estou.
+
+--Nada mais simples: Marocas não sabia ler. Elle não chegou a
+suspeital-o. Viu-a atravessar o Rocio, que ainda não tinha estatua nem
+jardim, e ir á casa que buscava, ainda assim perguntando em outras. De
+noite foi ao Gymnasio, dava-se a _Dama das Camelias_; Marocas estava lá,
+e, no ultimo acto, chorou como uma criança. Não lhe digo nada; no fim de
+quinze dias amavam-se loucamente. Marocas despediu todos os seus
+namorados, e creio que não perdeu pouco; tinha alguns capitalistas bem
+bons. Ficou só, sosinha, vivendo para o Andrade, não querendo outra
+affeição, não cogitando de nenhum outro interesse.
+
+--Como a dama das Camelias.
+
+--Justo. Andrade ensinou-lhe a ler. Estou mestre-escola, disse-me elle
+um dia; e foi então que me contou a anecdota do Rocio. Marocas aprendeu
+depressa. Comprehende-se; o vexame de não saber, o desejo de conhecer os
+romances em que elle lhe fallava, e finalmente o gosto de obedecer a um
+desejo d'elle, de lhe ser agradavel... Não me encobriu nada; contou-me
+tudo com um riso de gratidão nos olhos, que o senhor não imagina. Eu
+tinha a confiança de ambos. Jantavamos ás vezes os tres juntos; e... não
+sei por que negal-o,--algumas vezes os quatro. Não cuide que eram
+jantares de gente pandega; alegres, mas honestos. Marocas gostava da
+linguagem afogada, como os vestidos. Pouco a pouco estabeleceu-se
+intimidade entre nós; ella interrogava-me ácerca da vida do Andrade, da
+mulher, da filha, dos habitos d'elle, se gostava devéras d'ella, ou se
+era um capricho, se tivera outros, se era capaz de a esquecer, uma chuva
+de perguntas, e um receio de o perder, que mostravam a força e a
+sinceridade da affeição... Um dia, uma festa de S. João, o Andrade
+acompanhou a familia á Gavea, onde ia assistir a um jantar e um baile;
+dous dias de ausencia. Eu fui com elles. Marocas, ao despedir-se,
+recordou a comedia que ouvira algumas semanas antes no Gymnasio--_Janto
+com minha mãi_--e disse-me que, não tendo familia para passar a festa de
+S. João, ia fazer como a Sophia Arnoult da comedia, ia jantar com um
+retrato; mas não seria o da mãi, porque não tinha, e sim do Andrade.
+Este dito ia-lhe rendendo um beijo; o Andrade chegou a inclinar-se;
+ella, porém, vendo que eu estava alli, afastou-o delicadamente com a
+mão.
+
+--Gosto d'esse gesto.
+
+--Elle não gostou menos. Pegou-lhe na cabeça com ambos as mãos, e,
+paternalmente, pingou-lhe o beijo na testa. Seguimos para a Gavea. De
+caminho disse-me a respeito da Marocas as maiores finezas, contou-me as
+ultimas Moleiras de ambos, fallou-me do projecto que tinha de
+comprar-lhe uma casa em algum arrabalde, logo que pudesse dispôr de
+dinheiro; e, de passagem, elogiou a modestia da moça, que não queria
+receber d'elle mais do que o estrictamente necessario. Ha mais do que
+isso, disse-lhe eu; e contei-lhe uma cousa que sabia, isto é, que cerca
+de tres semanas antes, a Marocas empenhára algumas joias para pagar uma
+conta da costureira. Esta noticia abalou-o muito; não juro, mas creio
+que ficou com os olhos molhados. Em todo caso, depois de cogitar algum
+tempo, disse-me que definitivamente ia arranjar-lhe uma casa e pôl-a ao
+abrigo da miseria. Na Gavea ainda fallámos da Marocas, até que as festas
+acabaram, e nós voltámos. O Andrade deixou a familia em casa, na Lapa, e
+foi ao escriptorio aviar alguns papeis urgentes. Pouco depois do
+meio-dia appareceu-lhe um tal Leandro ex-agente de certo advogado a
+pedir-lhe, como de costume, dois ou tres mil réis. Era um sugeito réles
+e vadio. Vivia a explorar os amigos do antigo patrão. Andrade deu-lhe
+tres mil réis, e, como o visse excepcionalmente risonho, perguntou-lhe
+se tinha visto passarinho verde. O Leandro piscou os olhos e lambeu os
+beiços: o Andrade, que dava o cavaco por anedoctas eroticas,
+perguntou-lhe se eram amores. Elle mastigou um pouco, e confessou que
+sim.
+
+--Olhe; lá vem ella sahindo: não é ella?
+
+--Ella mesma; afastemo-nos da esquina.
+
+--Realmente, deve ter sido muito bonita. Tem um ar de duqueza.
+
+--Não olhou para cá; não olha nunca para os lados. Vai subir pela rua do
+Ouvidor...
+
+--Sim, senhor. Comprehendo o Andrade.
+
+--Vamos ao caso. O Leandro confessou que tivera na vespera uma fortuna
+rara, ou antes unica, uma cousa que elle nunca esperara achar, nem
+merecia mesmo, porque se conhecia e não passava de um pobre diabo. Mas,
+emfim, os pobres tambem são filhos de Deus. Foi o caso que, na vespera,
+perto das dez horas da noite, encontrara no Rocio uma dama vestida
+com simplicidade, vistosa de corpo, e muito embrulhada n'um chale
+grande. A dama vinha atraz d'elle, e mais depressa; ao passar rentesinha
+com elle, fitou-lhe muito os olhos, e foi andando de vagar, como quem
+espera. O pobre diabo imaginou que era engano de pessoa; confessou ao
+Andrade que, apezar da roupa simples, viu logo que não era cousa para os
+seus beiços. Foi andando; a mulher, parada, fitou-o outra vez, mas com
+tal instancia, que elle chegou a atrever-se um pouco; ella atreveu-se o
+resto... Ah! um anjo! E que casa, que sala rica! Cousa papafina. E
+depois o desinteresse... «Olhe, accrescentou elle, para V. S. é que era
+um bom arranjo.» Andrade abanou a cabeça; não lhe cheirava o comborço.
+Mas o Leandro teimou; era na rua do Sacramento, numero tantos...
+
+--Não me diga isso!
+
+--Imagine como não ficou o Andrade. Elle mesmo não soube o que fez nem o
+que disse durante os primeiros minutos, nem o que pensou nem o que
+sentiu. Afinal teve força para perguntar se era verdade o que estava
+contando; mas o outro advertiu que não tinha nenhuma necessidade de
+inventar semelhante cousa; vendo, porém, o alvoroço do Andrade,
+pediu-lhe segredo, dizendo que elle, pela sua parte, era discreto.
+Parece que ia sahir; Andrade deteve-o, e propôz-lhe um negocio;
+propôz-lhe ganhar vinte mil réis.--«Prompto!»--«Dou-lhe vinte mil réis,
+se você for commigo á casa d'essa moça e disser em presença d'ella que é
+ella mesma.»
+
+--Oh!
+
+--Não defendo o Andrade; a cousa não era bonita; mas a paixão, n'esse
+caso, céga os melhores homens. Andrade era digno, generoso, sincero; mas
+o golpe fora tão profundo, e elle amava-a tanto, que não recuou diante
+de uma tal vingança.
+
+--O outro aceitou?
+
+--Hesitou um pouco, estou que por medo, não por dignidade; mas vinte mil
+réis... Poz uma condição: não mettel-o em barulhos... Marocas estava na
+sala, quando o Andrade entrou. Caminhou para a porta, na intenção de o
+abraçar; mas o Andrade advertiu-a, com o gesto, que trazia alguem.
+Depois, fitando-a muito, fez entrar o Leandro; Marocas empallideceu.--«É
+esta senhora?» perguntou elle.--«Sim, senhor», murmurou o Leandro com
+voz sumida, porque ha acções ainda mais ignobeis do que o proprio homem
+que as commette. Andrade abriu a carteira com grande afectação, tirou
+uma nota de vinte mil réis e deu-lh'a; e, com a mesma affectação,
+ordenou-lhe que se retirasse. O Leandro sahiu. A scena que se seguiu,
+foi breve, mas dramatica. Não a soube inteiramente, porque o proprio
+Andrade é que me contou tudo, e, naturalmente, estava tão atordoado, que
+muita cousa lhe escapou. Ella não confessou nada; mas estava fóra de si,
+e, quando elle, depois de lhe dizer as cousas mais duras do mundo,
+atirou-se para a porta, ella rojou-se-lhe aos pés, agarrou-lhe as mãos,
+lacrimosa, desesperada, ameaçando matar-se; e ficou atirada ao chão, no
+patamar da escada; elle desceu vertiginosamente e sahiu.
+
+--Na verdade, um sugeito réles, apanhado na rua; provavelmente eram
+habitos d'ella?
+
+--Não.
+
+--Não?
+
+--Ouça o resto. De noite seriam oito horas, o Andrade veiu á minha casa,
+e esperou por mim. Já me tinha procurado tres vezes. Fiquei estupefacto;
+mas como duvidar, se elle tivera a precaução de levar a prova até á
+evidencia? Não lhe conto o que ouvi, os planos de vingança, as
+exclamações, os nomes que lhe chamou, todo o estylo e todo o repertorio
+d'essas crises. Meu conselho foi que a deixasse; que, afinal, vivesse
+para a mulher e a filha, a mulher tão boa, tão meiga... Elle concordava,
+mas tornava ao furor. Do furor passou á duvida; chegou a imaginar que a
+Marocas, com o fim de o experimentar, inventára o artificio e pagára ao
+Leandro para vir dizer-lhe aquillo; e a prova é que o Leandro, não
+querendo elle saber quem era, teimou e lhe disse a casa e o numero. E
+agarrado a esta inverosimelhança, tentava fugir á realidade; mas a
+realidade vinha--a pallidez de Marocas, a alegria sincera do Leandro,
+tudo o que lhe dizia que a aventura era certa. Creio até que elle
+arrependia-se de ter ido tão longe. Quanto a mim, cogitava na aventura,
+sem atinar com a explicação. Tão modesta! maneiras tão acanhadas!
+
+--Ha uma phrase de theatro que pode explicar a aventura, uma phrase de
+Augier, creio eu: «a nostalgia da lama.»
+
+--Acho que não; mas vá ouvindo. Ás dez horas appareceu-nos em casa uma
+criada de Marocas, uma preta forra, muito amiga da ama. Andava afflicta
+em procura do Andrade, porque a Marocas, depois de chorar muito,
+trancada no quarto, sahiu de casa sem jantar, e não voltára mais.
+Contive o Andrade, cujo primeiro gesto foi para sahir logo. A preta
+pedia-nos por tudo, que fossemos descobrir a ama. «Não é costume d'ella
+sahir?» perguntou o Andrade com sarcasmo. Mas a preta disse que não era
+costume. «Está ouvindo?» bradou elle para mim. Era a esperança que de
+novo empolgára o coração do pobre diabo. «E hontem?...» disse eu. A
+preta respondeu que na vespera sim; mas não lhe perguntei mais nada,
+tive compaixão do Andrade, cuja afflicção crescia, e cujo pundonor ia
+cedendo diante do perigo. Sahimos em busca da Marocas; fomos a todas as
+casas em que era possivel encontral-a; fomos á policia; mas a noite
+passou-se sem outro resultado. De manhã voltámos á policia. O chefe ou
+um dos delegados, não me lembra, era amigo do Andrade, que lhe contou da
+aventura a parte conveniente; aliás a ligação do Andrade e da Marocas
+era conhecida de todos os seus amigos. Pesquizou-se tudo; nenhum
+desastre se déra durante a noite; as barcas da Praia Grande não viram
+cahir ao mar nenhum passageiro; as casas de armas não venderam nenhuma;
+as boticas nenhum veneno. A policia poz em campo todos os seus recursos,
+e nada. Não lhe digo o estado de afflicção em que o pobre Andrade viveu
+durante essas longas horas, porque todo o dia se passou em pesquizas
+inuteis. Não era só a dor de a perder; era tambem o remorso, a duvida,
+ao menos, da consciencia, em presença de um possivel desastre, que
+parecia justificar a moça. Elle perguntava-me, a cada passo se não era
+natural fazer o que fez, no delirio da indignação, se eu não faria a
+mesma cousa. Mas depois tornava a affirmar a aventura, e provava-me que
+era verdadeira, com o mesmo ardor com que na vespera tentara provar que
+era falsa; o que elle queria era acommodar a realidade ao sentimento da
+occasião.
+
+--Mas, emfim, descobriram a Marocas?
+
+--Estavamos comendo alguma cousa, em um hotel, eram perto de oito horas,
+quando recebemos noticia de um vestigio:--um cocheiro que levára na
+vespera uma senhora para o Jardim Botanico, onde ella entrou em uma
+hospedaria, e ficou. Nem acabámos o jantar; fomos no mesmo carro ao
+Jardim Botanico. O dono da hospedaria confirmou a versão; accrescentando
+que a pessoa se recolhera a um quarto, não comera nada desde que chegou
+na vespera; apenas pediu uma chicara de café; parecia profundamente
+abatida. Encaminhámo-nos para o quarto; o dono da hospedaria bateu á
+porta; ella respondeu com voz fraca, e abriu. O Andrade nem me deu tempo
+de preparar nada; empurrou-me, e cahiram nos braços um do outro. Marocas
+chorou muito e perdeu os sentidos.
+
+--Tudo se explicou?
+
+--Cousa nenhuma. Nenhum d'elles tornou ao assumpto; livres de um
+naufragio, não quizeram saber nada da tempestade que os metteu a pique.
+A reconciliação fez-se depressa. O Andrade comprou-lhe, mezes depois,
+uma casinha em Catumby; a Marocas deu-lhe um filho, que morreu de dois
+annos. Quando elle seguia para o norte, em commissão do governo, a
+affeição era ainda a mesma, posto que os primeiros ardores não tivessem
+já a mesma intensidade. Não obstante, ella quiz ir tambem; fui eu que a
+obriguei a ficar. O Andrade contava tornar ao fim de pouco tempo, mas,
+como lhe disse, morreu na provincia. A Marocas sentiu profundamente a
+morte, poz luto, e considerou-se viuva; sei que nos tres primeiros
+annos, ouvia sempre uma missa no dia anniversario. Ha dez annos perdi-a
+de vista. Que lhe parece tudo isto?
+
+--Realmente, ha occurrencias bem singulares, se o senhor não abusou da
+minha ingenuidade de rapaz para imaginar um romance...
+
+--Não inventei nada; é a realidade pura.
+
+--Pois, senhor, é curioso. No meio de uma paixão tão ardente, tão
+sincera... Eu ainda estou na minha; acho que foi a nostalgia da lama.
+
+--Não: nunca a Marocas desceu até os Leandros.
+
+--Então por que desceria n'aquella noite?
+
+--Era um homem que ella suppunha separado, por um abysmo, de todas as
+suas relações pessoaes; d'ahi a confiança. Mas o acaso, que é um deus e
+um diabo ao mesmo tempo... Emfim, cousas!
+
+
+FIM DA SINGULAR OCCURRENCIA.
+
+
+
+
+GALERIA POSTHUMA
+
+
+I
+
+Não, não se descreve a consternação que produziu em todo o Engenho
+Velho, e particularmente no coração dos amigos, a morte de Joaquim
+Fidelis. Nada mais inesperado. Era robusto, tinha saude de ferro, e
+ainda na vespera fôra a um baile, onde todos o viram conversado e
+alegre. Chegou a dansar, a pedido de uma senhora sexagenaria, viuva de
+um amigo d'elle, que lhe tomou do braço, e lhe disse:
+
+--Venha cá, venha cá, vamos mostrar a estes criançolas como é que os
+velhos são capazes de desbancar tudo.
+
+Joaquim Fidelis protestou sorrindo; mas obedeceu e dansou. Eram duas
+horas quando sahiu, embrulhando os seus sessenta annos n'uma capa
+grossa,--estavamos em junho de 1879--mettendo a calva na carapuça,
+accendendo um charuto, e entrando lepidamente no carro.
+
+No carro é possivel que conchilasse; mas, em casa, máu grado a hora e o
+grande peso das palpebras, ainda foi a secretária, abriu uma gaveta,
+tirou um de muitos folhetos manuscriptos,--e escreveu durante tres ou
+quatro minutos umas dez ou onze linhas. As ultimas palavras eram estas:
+«Em summa, baile chinfrim; uma velha gaiteira obrigou-me a dansar uma
+quadrilha; á porta um crioulo pediu-me as festas. Chinfrim!» Guardou o
+folheto, despiu-se, metteu-se na cama, dormiu e morreu.
+
+Sim, a noticia consternou a todo o bairro. Tão amado que elle era, com
+os modos bonitos que tinha, sabendo conversar com toda a gente,
+instruido com os instruidos, ignorante com os ignorantes, rapaz com os
+rapazes, e até moça com as moças. E depois, muito serviçal, prompto a
+escrever cartas, a fallar a amigos, a concertar brigas, a emprestar
+dinheiro. Em casa d'elle reuniam-se á noite alguns intimos da
+visinhança, e ás vezes de outros bairros; jogavam o voltarete ou o
+_whist_, fallavam de politica. Joaquim Fidelis tinha sido deputado até á
+dissolução da camara pelo marquez de Olinda, em 1863. Não conseguindo
+ser reeleito, abandonou a vida publica. Era conservador, nome que a
+muito custo admittiu, por lhe parecer gallicismo politico. _Saquarema_ é
+o que elle gostava de ser chamado. Mas abriu mão de tudo; parece até que
+nos ultimos tempos desligou-se do proprio partido, e afinal da mesma
+opinião. Ha razões para crêr que, de certa data em diante, foi um
+profundo sceptico, e nada mais.
+
+Era rico e lettrado. Formára-se em direito no anno de 1842. Agora não
+fazia nada e lia muito. Não tinha mulheres em casa. Viuvo desde a
+primeira invasão da febre amarella, recusou contrahir segundas nupcias,
+com grande magoa de tres ou quatro damas, que nutriram essa esperança
+durante algum tempo. Uma d'ellas chegou a prorogar perfidamente os seus
+bellos cachos de 1845 até meiados do segundo neto; outra, mais moça e
+tambem viuva, pensou retel-o com algumas concessões, tão generosas quão
+irreparaveis. «Minha querida Leocadia, dizia elle nas occasiões em que
+ella insinuava a solução conjugal, por que não continuaremos assim
+mesmo? O mysterio é o encanto da vida.» Morava com um sobrinho, o
+Benjamim, filho de uma irmã, orphão desde tenra idade. Joaquim Fidelis
+deu-lhe educação e fel-o estudar, até obter diploma de bacharel em
+sciencias juridicas, no anno de 1877.
+
+Benjamim ficou atordoado. Não podia acabar de crer na morte do tio.
+Correu ao quarto, achou o cadaver na cama, frio, olhos abertos, e um
+leve arregaço ironico ao canto esquerdo da boca. Chorou muito e muito.
+Não perdia um simples parente, mas um pai, um pai terno, dedicado, um
+coração unico. Benjamim enxugou, emfim, as lagrimas; e, porque lhe
+fizesse mal ver os olhos abertos do morto, e principalmente o labio
+arregaçado, concertou-lhe ambas as cousas. A morte recebeu assim a
+expressão tragica; mas a originalidade da mascara perdeu-se.
+
+--Não me digam isto! bradava d'ahi a pouco um dos visinhos, Diogo
+Villares, ao receber noticia do caso.
+
+Diogo Villares era um dos cinco principaes familiares de Joaquim
+Fidelis. Devia-lhe o emprego que exercia desde 1857. Veiu elle; vieram
+os outros quatro, logo depois, um a um, estupefactos, incredulos.
+Primeiro chegou o Elias Xavier, que alcançára por intermedio do finado,
+segundo se dizia, uma commenda; depois entrou o João Braz, deputado que
+foi, no regimen das supplencias, eleito com o influxo do Joaquim
+Fidelis. Vieram, emfim, o Fragoso e o Galdino, que lhe não deviam
+diplomas, commendas nem empregos, mas outros favores. Ao Galdino
+adiantou elle alguns poucos capitaes, e ao Fragoso arranjou-lhe um bom
+casamento... E morto! morto para todo sempre! De redor da cama, fitavam
+o rosto sereno e recordavam a ultima festa, a do outro domingo, tão
+intima, tão expansiva! E, mais perto ainda, a noite da ante-vespera, em
+que o voltarete do costume foi até ás onze horas.
+
+--Amanhã não venham, disse-lhes o Joaquim Fidelis; vou ao baile do
+Carvalhinho.
+
+--E depois?...
+
+--Depois de amanhã, cá estou.
+
+E, á sahida, deu-lhes ainda um maço de excellentes charutos, segundo
+fazia ás vezes, com um accrescimo de doces seccos para os pequenos, e
+duas ou tres pilherias finas... Tudo esvaido! tudo disperso! tudo
+acabado!
+
+Ao enterro acudiram muitas pessoas gradas, dous senadores, um
+ex-ministro, titulares, capitalistas, advogados, commerciantes, medicos;
+mas as argolas do caixão foram seguras pelos cinco familiares e o
+Benjamim. Nenhum d'elles quiz ceder a ninguem esse ultimo obsequio,
+considerando que era um dever cordial e intransferivel. O adeus do
+cemiterio foi proferido pelo João Braz, um adeus tocante, com algum
+excesso de estylo para um caso tão urgente, mas, emfim, desculpavel.
+Deitada a pá de terra, cada um se foi arredando da cova, menos os seis,
+que assistiram ao trabalho posterior e indifferente dos coveiros. Não
+arredaram pé antes de vêr cheia a cova até acima, e depositadas sobre
+ellas as coroas funebres.
+
+
+II
+
+A missa do setimo dia reuniu-os na igreja. Acabada a missa, os cinco
+amigos acompanharam á casa o sobrinho do morto. Benjamim convidou-os a
+almoçar.
+
+--Espero que os amigos do tio Joaquim serão tambem meus amigos, disse
+elle.
+
+Entraram, almoçaram. Ao almoço fallaram do morto; cada um contou uma
+anecdota, um dito; eram unanimes no louvor e nas saudades. No fim do
+almoço, como tivessem pedido uma lembrança do finado, passaram ao
+gabinete, e escolheram á vontade, este uma canneta velha, aquelle uma
+caixa de oculos, um folheto, um retalho qualquer intimo, Benjamim
+sentia-se consolado. Communicou-lhes que pretendia conservar o gabinete
+tal qual estava. Nem a secretária abrira ainda. Abriu-a então, e, com
+elles, inventariou o conteudo de algumas gavetas. Cartas, papeis soltos,
+programmas de concertos, menus de grandes jantares, tudo alli estava de
+mistura e confusão. Entre outras cousas acharam alguns cadernos
+manuscriptos, numerados e datados.
+
+--Um diario! disse Benjamim.
+
+Com effeito, era um diario das impressões do finado, especie de memorias
+secretas, confidencias do homem a si mesmo. Grande foi a commoção dos
+amigos; lêl-o era ainda conversal-o. Tão recto caracter! tão discreto
+espirito! Benjamim começou a leitura; mas a voz embargou-se-lhe
+depressa, e João Braz continuou-a.
+
+O interesse do escripto adormeceu a dor do obito. Era um livro digno do
+prelo. Muita observação politica e social, muita reflexão philosophica,
+anecdotas de homens publicos, do Feijó, do Vasconcellos, outras
+puramente galantes, nomes de senhoras, o da Leocadia, entre outros; um
+repertorio de factos e commentarios. Cada um admirava o talento do
+finado, as graças do estylo, o interesse da materia. Uns opinavam pela
+impressão typographica; Benjamim dizia que sim, com a condição de
+excluir alguma cousa, ou inconveniente ou demasiado particular. E
+continuavam a ler, saltando pedaços e paginas, até que bateu meio-dia.
+Levantaram-se todos; Diogo Villares ia já chegar á repartição fóra de
+horas; João Braz e Elias tinham onde estar juntos. Galdino seguia para a
+loja. O Fragoso precisava mudar a roupa preta, e acompanhar a mulher á
+rua do Ouvidor. Concordaram em nova reunião para proseguir a leitura.
+Certas particularidades tinham-lhes dado uma comichão de escandalo, e as
+comichões coçam-se: é o que elles queriam fazer, lendo.
+
+--Até amanhã, disseram.
+
+--Até amanhã.
+
+Uma vez só, Benjamim continuou a lêr o manuscripto. Entre outras cousas,
+admirou o retrato da viuva Leocadia, obra-prima de paciencia e
+semelhança, embora a data coincidisse com a dos amores. Era prova de uma
+rara isenção de espirito. De resto, o finado era eximio nos retratos.
+Desde 1873 ou 1874, os cadernos vinham cheios d'elles, uns de vivos,
+outros de mortos, alguns de homens publicos, Paula Souza, Aureliano,
+Olinda, etc. Eram curtos e substanciaes, ás vezes trez ou quatro rasgos
+firmes, com tal fidelidade e perfeição, que a figura parecia
+photographada. Benjamim ia lendo; de repente deu com o Diogo Villares. E
+leu estas poucas linhas:
+
+«DIOGO VILLARES.--Tenho-me referido muitas vezes a este amigo, e
+fal-o-hei algumas outras mais, se elle me não matar de tedio, cousa em
+que o reputo profissional. Pediu-me ha annos que lhe arranjasse um
+emprego, e arranjei-lh'o. Não me avisou da moeda em que me pagaria. Que
+singular gratidão! Chegou ao excesso de compor um soneto e publical-o.
+Fallava-me do obsequio a cada passo, dava-me grandes nomes; emfim,
+acabou. Mais tarde relacionámo-nos intimamente. Conheci-o então ainda
+melhor. _C'est le genre ennuyeux._ Não é mau parceiro de voltarete.
+Dizem-me que não deve nada a ninguem. Bom pai de familia. Estupido e
+credulo. Com intervallo de quatro dias, já lhe ouvi dizer de um
+ministerio que era excellente e detestavel:--differença dos
+interlocutores. Ri muito e mal. Toda a gente, quando o vê pela primeira
+vez, começa por suppol-o um varão grave; no segundo dia dá-lhe
+piparotes. A razão é a figura, ou, mais particularmente, as bochechas,
+que lhe emprestam um certo ar superior.»
+
+A primeira sensação do Benjamim foi a do perigo evitado. Se o Diogo
+Villares estivesse alli? Releu o retrato e mal podia crer; mas não havia
+negal-o, era o proprio nome do Diogo Villares, era a mesma lettra do
+tio. E não era o unico dos familiares; folheou o manuscripto e deu com o
+Elias:
+
+«ELIAS XAVIER.--Este Elias é um espirito subalterno, destinado a servir
+alguem, e a servir com desvanecimento, como os cocheiros de casa
+elegante. Vulgarmente trata as minhas visitas intimas com alguma
+arrogancia e desdem: politica de lacaio ambicioso. Desde as primeiras
+semanas, comprehendi que elle queria fazer-se meu privado; e não menos
+comprehendi que, no dia que realmente o fosse, punha os outros no meio
+da rua. Ha occasiões em que me chama a um vão da janella para fallar-me
+secretamente do sol e da chuva. O fim claro é incutir nos outros a
+suspeita de que ha entre nós cousas particulares, e alcança isso mesmo,
+porque todos lhe rasgam muitas cortezias. É intelligente, risonho e
+fino. Conversa muito bem. Não conheço comprehensão mais rapida. Não é
+poltrão nem maldizente. Só falla mal de alguem, por interesse;
+faltando-lhe interesse, cala-se; e a maledicencia legitima é gratuita.
+Dedicado e insinuante. Não tem idéas, é verdade; mas ha esta grande
+differença entre elle e o Diogo Villares:--o Diogo repete prompta e
+boçalmente as que ouve, ao passo que o Elias sabe fazel-as suas e
+plantal-as opportunamente na conversação. Um caso de 1865 caracterisa
+bem a astucia d'este homem. Tendo dado alguns libertos para a guerra do
+Paraguay, ia receber uma commenda. Não precisava de mim; mas veiu pedir
+a minha intercessão, duas ou tres vezes, com um ar consternado e
+supplice. Fallei ao ministro, que me disse:--«O Elias já sabe que o
+decreto está lavrado; falta só a assignatura do imperador.» Comprehendi
+então que era um estratagema para poder confessar-me essa obrigação. Bom
+parceiro de voltarete; um pouco brigão, mas entendido.»
+
+--Ora o tio Joaquim! exclamou Benjamim levantando-se. E depois de alguns
+instantes, reflexionou comsigo:--Estou lendo um coração, livro inedito.
+Conhecia a edição publica, revista e expurgada. Este é o texto primitivo
+e interior, a lição exacta e authentica. Mas quem imaginaria nunca...
+Ora o tio Joaquim!
+
+E, tornando a sentar-se, releu tambem o retrato do Elias, com vagar,
+meditando as feições. Posto lhe faltasse observação, para avaliar a
+verdade do escripto, achou que em muitas partes, ao menos, o retrato era
+semelhante. Cotejava essas notas iconographicas, tão cruas, tão seccas,
+com as maneiras cordiaes e graciosas do tio, e sentia-se tomado de um
+certo terror e mau-estar. Elle, por exemplo, que teria dito delle o
+finado? Com esta ideia, folheou ainda o manuscripto, passou por alto
+algumas damas, alguns homens publicos, deu com o Fragoso,--um esboço
+curto e curtissimo,--logo depois o Galdino, e quatro paginas adiante o
+João Braz. Justamente o primeiro levára delle uma caneta, pouco antes,
+talvez a mesma com que o finado o retratára. Curto era o esboço, e dizia
+assim:
+
+«FRAGOSO.--Honesto, maneiras assucaradas e bonito. Não me custou
+casal-o; vive muito bem com a mulher. Sei que me tem uma extraordinaria
+adoração,--quasi tanta como a si mesmo. Conversação vulgar, polida e
+chocha.»
+
+«GALDINO MADEIRA.--O melhor coração do mundo e um caracter sem macula;
+mas as qualidades do espirito destroem as outras. Emprestei-lhe algum
+dinheiro, por motivo da familia, e porque me não fazia falta. Ha no
+cerebro d'elle um certo furo, por onde o espirito escorrega e cai no
+vacuo. Não reflecte tres minutos seguidos. Vive principalmente de
+imagens, de phrases translatas. Os «dentes da calumnia» e outras
+expressões, surradas como colchões de hospedaria, são os seus encantos.
+Mortifica-se facilmente no jogo, e, uma vez mortificado, faz timbre em
+perder, e em mostrar que é de proposito. Não despede os maus caixeiros.
+Se não tivesse guarda-livros, é duvidoso que sommasse os quebrados. Um
+subdelegado, meu amigo, que lhe deveu algum dinheiro, durante dous
+annos, dizia-me com muita graça, que o Galdino quando o via na rua, em
+vez de lhe pedir a divida, pedia-lhe noticias do ministerio.»
+
+«JOÃO BRAZ.--Nem tolo nem bronco. Muito attencioso, embora sem maneiras.
+Não póde ver passar um carro de ministro; fica pallido e vira os olhos.
+Creio que é ambicioso; mas na edade em que está, sem carreira, a ambição
+vai-se-lhe convertendo em inveja. Durante os dois annos em que serviu de
+deputado, desempenhou honradamente o cargo: trabalhou muito, e fez
+alguns discursos bons, não brilhantes, mas solidos, cheios de factos e
+reflectidos. A prova de que lhe ficou um residuo de ambição, é o ardor
+com que anda á cata de alguns cargos honorificos ou preeminentes; ha
+alguns mezes consentiu em ser juiz de uma irmandade de S. José, e
+segundo me dizem, desempenha o cargo com um zelo exemplar. Creio que é
+atheu, mas não affirmo. Ri pouco e discretamente. A vida é pura e
+severa, mas o caracter tem uma ou duas cordas fraudulentas, a que só
+faltou a mão do artista; nas cousas minimas, mente com facilidade.»
+
+Benjamim, estupefacto, deu emfim comsigo mesmo.--«Este meu sobrinho,
+dizia o manuscripto, tem vinte e quatro annos de edade, um projecto de
+reforma judiciaria, muito cabello, e ama-me. Eu não o amo menos.
+Discreto leal e bom,--bom até á credulidade. Tão firme nas affeições
+como versatil nos pareceres. Superficial, amigo de novidades, amando no
+direito o vocabulario e as formulas.»
+
+Quiz reler, e não pôde; essas poucas linhas davam-lhe a sensação de um
+espelho. Levantou-se, foi á janella, mirou a chacara e tornou dentro
+para contemplar outra vez as suas feições. Contemplou-as; eram poucas,
+falhas, mas não pareciam calumniosas. Se alli estivesse um publico, é
+provavel que a mortificação do rapaz fosse menor, porque a necessidade
+de dissipar a impressão moral dos outros dar-lhe-ia a força necessaria
+para reagir contra o escripto; mas, a sós, comsigo, teve de supportal-o
+sem contraste. Então considerou se o tio não teria composto essas
+paginas nas horas de máu humor; comparou-as a outras em que a phrase era
+menos aspera, mas não cogitou se alli a brandura vinha ou não de molde.
+
+Para confirmar a conjectura, recordou as maneiras usuaes do finado, as
+horas de intimidade e riso, a sós com elle, ou de palestra com os demais
+familiares. Evocou a figura do tio, com o olhar espirituoso e meigo, e a
+pilheria grave; em logar d'essa, tão candida e sympathica, a que lhe
+appareceu foi a do tio morto, estendido na cama, com os olhos abertos e
+o labio arregaçado. Sacudiu-a do espirito, mas a imagem ficou. Não
+podendo rejeital-a, Benjamim tentou mentalmente fechar-lhe os olhos e
+concertar-lhe a bocca; mas tão depressa o fazia, como a palpebra tornava
+a levantar-se, e a ironia arregaçava o beiço. Já não era o homem, era o
+auctor do manuscripto.
+
+Benjamim jantou mal e dormiu mal. No dia seguinte, á tarde,
+apresentaram-se os cinco familiares para ouvir a leitura. Chegaram
+sofregos, anciosos; fizera-lhe muitas perguntas; pediram-lhe com
+instancia para ver o manuscripto. Mas Benjamim tergiversava, dizia isto
+e aquillo, inventava pretextos; por mal de peccados, appareceu-lhe na
+sala, por traz d'elles, a eterna bocca do defunto, e esta circumstancia
+fel-o ainda mais acanhado. Chegou a mostrar-se frio, para ficar só, e
+ver se com elles desapparecia a visão. Assim se passaram trinta a
+quarenta minutos. Os cinco olharam emfim uns para os outros, e
+deliberaram sahir; despediram-se ceremoniosamente, e foram conversando,
+para suas casas:
+
+--Que differença do tio! que abysmo! a herança enfunou-o! deixal-o! ah!
+Joaquim Fidelis! ah! Joaquim Fidelis!
+
+
+FIM DA GALERIA POSTHUMA.
+
+
+
+
+CAPITULO DOS CHAPÉOS
+
+
+ GÉRONTE
+
+ Dans quel chapitre, s'il vous plait?
+
+ SCAGNARELLE
+
+ Dans le chapitre des chapeaux.
+
+ MOLIÈRE.
+
+
+Musa, canta o despeito de Marianna, esposa do bacharel Conrado Seabra,
+naquella manhã de abril de 1879. Qual a causa de tamanho alvoroço? Um
+simples chapéo, leve, não deselegante, um chapéo baixo. Conrado,
+advogado, com escriptorio na rua da Quitanda, trazia-o todos os dias á
+cidade, ia com elle ás audiencias; só não o levava ás recepções, theatro
+lyrico, enterros e visitas de ceremonia. No mais era constante, e isto
+desde cinco ou seis annos, que tantos eram os do casamento. Ora,
+naquella singular manhã de abril, acabado o almoço, Conrado começou a
+enrolar um cigarro, e Marianna annunciou sorrindo que ia pedir-lhe uma
+cousa.
+
+--Que é, meu anjo?
+
+--Você é capaz de fazer-me um sacrificio?
+
+--Dez, vinte...
+
+--Pois então não vá mais á cidade com aquelle chapéo.
+
+--Porque? é feio?
+
+--Não digo que seja feio; mas é cá para fóra, para andar na visinhança,
+á tarde ou á noite, mas na cidade, um advogado, não me parece que...
+
+--Que tolice, yayá!
+
+--Pois sim, mas faz-me este favor, faz?
+
+Conrado riscou um phosphoro, accendeu o cigarro, e fez-lhe um gesto de
+gracejo, para desconversar; mas a mulher teimou. A teima, a principio
+frouxa e supplice, tornou-se logo imperiosa e aspera. Conrado ficou
+espantado. Conhecia a mulher; era, de ordinario, uma creatura passiva,
+meiga, de uma plasticidade de encommenda, capaz de usar com a mesma
+divina indifferença tanto um diadema régio como uma touca. A prova é
+que, tendo tido uma vida de andarilha nos ultimos dous annos de
+solteira, tão depressa casou como se affez aos habitos quietos. Sahia ás
+vezes, e a maior parte dellas por instancias do proprio consorte; mas só
+estava commodamente em casa. Moveis, cortinas, ornatos suppriam-lhe os
+filhos; tinha-lhes um amor de mãe; e tal era a concordancia da pessoa
+com o meio, que ella saboreava os trastes na posição occupada, as
+cortinas com as dobras do costume, e assim o resto. Uma das tres
+janellas, por exemplo, que davam para a rua vivia sempre meia aberta;
+nunca era outra. Nem o gabinete do marido escapava ás exigencias
+monotonas da mulher, que mantinha sem alteração a desordem dos livros, e
+até chegava a restaural-a. Os habitos mentaes seguiam a mesma
+uniformidade. Marianna dispunha de mui poucas noções, e nunca lêra se
+não os mesmos livros:--a _Moreninha_ de Macedo, sete vezes; _Ivanhoe e o
+Pirata_ de Walter Scott, dez vezes; o _Mot de l'enigme_, de Madame
+Craven, onze vezes.
+
+Isto posto, como explicar o caso do chapéo? Na vespera, á noite,
+emquanto o marido fôra a uma sessão do Instituto da Ordem dos Advogados,
+o pae de Marianna veiu á casa d'elles. Era um bom velho, magro, pausado,
+ex-funccionario publico, ralado de saudades do tempo em que os
+empregados iam de casaca para as suas repartições. Casaca era o que
+elle, ainda agora, levava aos enterros, não pela razão que o leitor
+suspeita, a solemnidade da morte ou a gravidade da despedida ultima, mas
+por esta menos philosophica, por ser um costume antigo. Não dava outra,
+nem da casaca nos enterros, nem do jantar ás duas horas, nem de vinte
+usos mais. E tão afferrado aos habitos, que no anniversario do casamento
+da filha, ia para lá ás seis horas da tarde, jantado e diggerido, via
+comer, e no fim acceitava um pouco de doce, um calix de vinho e café.
+Tal era o sogro de Conrado; como suppor que elle approvasse o chapéo
+baixo do genro? Supportava-o calado, em attenção ás qualidades da
+pessoa; nada mais. Acontecera-lhe, porém, naquelle dia, vel-o de relance
+na rua, de palestra com outros chapéos altos de homens publicos, e nunca
+lhe pareceu tão torpe. De noite, encontrando a filha sosinha, abriu-lhe
+o coração; pintou-lhe o chapéo baixo como a abominação das abominações,
+e instou com ella para que o fizesse desterrar.
+
+Conrado ignorava essa circumstancia, origem do pedido. Conhecendo a
+docilidade da mulher, não entendeu a resistencia; e, porque era
+autoritario, e voluntarioso, a teima veiu irrital-o profundamente.
+Conteve-se ainda assim; preferiu mofar do caso; fallou-lhe com tal
+ironia e desdém, que a pobre dama sentiu-se humilhada. Marianna quiz
+levantar-se duas vezes; elle obrigou-a a ficar, a primeira pegando-lhe
+levemente no pulso, a segunda subjugando-a com o olhar. E dizia
+sorrindo:
+
+--Olhe, yayá, tenho uma razão philosophica para não fazer o que você me
+pede. Nunca lhe disse isto; mas já agora confio-lhe tudo.
+
+Marianna mordia o labio, sem dizer mais nada; pegou de uma faca, e
+entrou a bater com ella devagarinho para fazer alguma cousa; mas, nem
+isso mesmo consentiu o marido, que lhe tirou a faca delicadamente, e
+continuou:
+
+--A escolha do chapéo não é uma acção indifferente, como você póde
+suppor; é regida por um principio metaphysico. Não cuide que quem compra
+um chapéo exerce uma acção voluntária e livre; a verdade é que obedece a
+um determinismo obscuro. A illusão da liberdade existe arraigada nos
+compradores, e é mantida pelos chapelleiros que, ao verem um freguez
+ensaiar trinta ou quarenta chapéos, e sair sem comprar nenhum, imaginam
+que elle está procurando livremente uma combinação elegante. O principio
+metaphysico é este:--o chapéo é a integração do homem, um prolongamento
+da cabeça, um complemento decretado _ab eterno_; ninguem o póde trocar
+sem mutilação. É uma questão profunda que ainda não occorreu a ninguem.
+Os sabios tem estudado tudo desde o astro até o verme, ou, para
+exemplificar bibliographicamente, desde Laplace... Você nunca leu
+Laplace? desde Laplace e a _Mecanica Celeste_ até Darwin e o seu curioso
+livro das _Minhocas_, e, entretanto, não se lembraram ainda de parar
+deante do chapéo e estudal-o por todos os lados. Ninguem advertiu que ha
+uma metaphysica do chapéo. Talvez eu escreva uma memoria a este
+respeito. São nove horas e tres quartos; não tenho tempo de dizer mais
+nada; mas você reflicta comsigo, e verá... Quem sabe? póde ser até que
+nem mesmo o chapéo seja complemento do homem, mas o homem do chapéo...
+
+Marianna venceu-se afinal, e deixou a mesa. Não entendera nada d'aquella
+nomenclatura aspera nem da singular theoria; mas sentiu que era um
+sarcasmo, e, dentro de si, chorava de vergonha. O marido subiu para
+vestir-se; desceu d'ahi a alguns minutos, e parou deante della com o
+famoso chapéo na cabeça. Marianna achou-lh'o, na verdade, torpe,
+ordinario, vulgar, nada serio. Conrado despediu-se ceremoniosamente e
+sahiu.
+
+A irritação da dama tinha afrouxado muito; mas, o sentimento de
+humiliação subsistia. Marianna não chorou, não clamou, como suppunha que
+ia fazer; mas, comsigo mesma, recordou a simplicidade do pedido, os
+sarcasmos de Conrado, e, posto reconhecesse que fôra um pouco exigente,
+não achava justificação para taes excessos. Ia de um lado para outro,
+sem poder parar; foi á sala de visitas, chegou á janella meia aberta,
+viu ainda o marido, na rua, á espera do _bond_, de costas para casa, com
+o eterno e torpissimo chapéo na cabeça. Marianna sentiu-se tomada de
+odio contra essa peça ridicula; não comprehendia como pudera supportal-a
+por tantos annos. E relembrava os annos, pensava na docilidade dos seus
+modos, na acquiescencia a todas as vontades e caprichos do marido, e
+perguntava a si mesma se não seria essa justamente a causa do excesso
+d'aquella manhã. Chamava-se tola, moleirona; se tivesse feito como
+tantas outras, a Clara e a Sophia, por exemplo, que tratavam os maridos
+como elles deviam ser tratados, não lhe aconteceria nem metade nem uma
+sombra do que lhe aconteceu. De reflexão em reflexão, chegou á ideia de
+sahir. Vestiu-se, e foi á casa da Sophia, uma antiga companheira de
+collegio, com o fim de espairecer, não de lhe contar nada.
+
+Sophia tinha trinta annos, mais dous que Marianna. Era alta, forte,
+muito senhora de si. Recebeu a amiga com as festas do costume; e, posto
+que esta lhe não dissesse nada, adivinhou que trazia um desgosto e
+grande. Adeus, planos de Marianna! D'ahi a vinte minutos contava-lhe
+tudo. Sophia riu della, sacudiu os hombros; disse-lhe que a culpa não
+era do marido.
+
+--Bem sei, é minha, concordava Marianna.
+
+--Não seja tola, yayá! Você tem sido muito molle com elle. Mas seja
+forte uma vez; não faça caso; não lhe falle tão cedo; e se elle vier
+fazer as pazes, diga-lhe que mude primeiro de chapéo.
+
+--Veja você, uma cousa de nada...
+
+--No fim de contas, elle tem muita razão; tanta como outros. Olhe a
+pamonha da Beatriz; não foi agora para a roça, só porque o marido
+implicou com um inglez que costumava passar o cavallo de tarde? Coitado
+do inglez! Naturalmente nem deu pela falta. A gente póde viver bem com
+seu marido, respeitando-se, não indo contra os desejos um do outro, sem
+pirraças, nem despotismo. Olhe; eu cá vivo muito bem com o meu Ricardo;
+temos muita harmonia. Não lhe peço uma cousa que elle me não faça logo;
+mesmo quando não tem vontade nenhuma, basta que eu feche a cara, obedece
+logo. Não era elle que teimaria assim por causa de um chapéo! Tinha que
+vêr! Pois não! Onde iria elle parar! Mudava de chapéo, quer quizesse,
+quer não.
+
+Marianna ouvia com inveja essa bella definição do socego conjugal. A
+rebellião de Eva embocava nella os seus clarins; e o contacto da amiga
+dava-lhe um prurido de independencia e vontade. Para completar a
+situação, esta Sophia não era só muito senhora de si, mas tambem dos
+outros; tinha olhos para todos os inglezes, a cavallo ou a pé. Honesta,
+mas namoradeira; o termo é crú, e não ha tempo de compor outro mais
+brando. Namorava a torto e a direito, por uma necessidade natural, um
+costume de solteira. Era o troco miudo do amor, que ella distribuia a
+todos os pobres que lhe batiam á porta:--um nikel a um, outro a outro;
+nunca uma nota de cinco mil réis, menos ainda uma apolice. Ora este
+sentimento caritativo induziu-a a propor á amiga que fossem passear, ver
+as lojas, contemplar a vista de outros chapéos bonitos e graves.
+Marianna aceitou; um certo demonio soprava n'ella as furias da vingança.
+Demais, a amiga tinha o dom de fascinar, virtude de Bonaparte, e não lhe
+deu tempo de reflectir. Pois sim, iria, estava cançada de viver captiva.
+Tambem queria gosar um pouco, etc., etc.
+
+Emquanto Sophia foi vestir-se, Marianna deixou-se estar na sala,
+irrequieta e contente comsigo mesma. Planeou a vida de toda aquella
+semana, marcando os dias e horas de cada cousa, como n'uma viagem
+official. Levantava-se, sentava-se, ia á janella, á espera da amiga.
+
+--Sophia parece que morreu, dizia de quando em quando.
+
+De uma das vezes que foi á janella, viu passar um rapaz a cavallo. Não
+era inglez, mas lembrou-lhe a outra, que o marido levou para a roça,
+desconfiado de um inglez, e sentiu crescer-lhe o odio contra a raça
+masculina,--com excepção, talvez, dos rapazes a cavallo. Na verdade,
+aquelle era affectado demais; esticava a perna no estribo com evidente
+vaidade das botas, dobrava a mão na cintura, com um ar de figurino.
+Marianna notou-lhe esses dous defeitos; mas achou que o chapéo
+resgatava-os; não que fosse um chapéo alto; era baixo, mas proprio do
+apparelho equestre. Não cobria a cabeça de um advogado indo gravemente
+para o escriptorio, mas a de um homem que espairecia ou matava o tempo.
+
+Os tacões de Sophia desceram a escada, compassadamente. Prompta! disse
+ella d'ahi a pouco, ao entrar na sala. Realmente, estava bonita. Já
+sabemos que era alta. O chapéo augmentava-lhe o ar senhoril; e um diabo
+de vestido de seda preta, arredondando-lhe as fórmas do busto, fazia-a
+ainda mais vistosa. Ao pé della, a figura de Marianna desapparecia um
+pouco. Era preciso attentar primeiro nesta para ver que possuia feições
+mui graciosas, uns olhos lindos, muita e natural elegancia. O peior é
+que a outra dominava desde logo; e onde houvesse pouco tempo de as ver,
+tomava-o Sophia para si. Este reparo seria incompleto, se eu não
+accrescentasse que Sophia tinha consciencia da superioridade, e que
+apreciava por isso mesmo as bellezas do genero Marianna, menos
+derramadas e apparentes. Se é um defeito, não me compete emendal-o.
+
+--Onde vamos nós? perguntou Marianna.
+
+--Que tolice! vamos passear á cidade... Agora me lembro, vou tirar o
+retrato; depois vou ao dentista. Não; primeiro vamos ao dentista. Você
+não precisa de ir ao dentista?
+
+--Não.
+
+--Nem tirar o retrato?
+
+--Já tenho muitos. E para que? para dal-o «áquelle senhor»?
+
+Sophia comprehendeu que o resentimento da amiga persistia, e, durante o
+caminho, tratou de lhe pôr um ou dous bagos mais de pimenta. Disse-lhe
+que, embora fosse difficil, ainda era tempo de libertar-se. E
+ensinava-lhe um methodo para subtrahir-se á tyrannia. Não convinha ir
+logo de um salto, mas de vagar, com segurança, de maneira que elle desse
+por si quando ella lhe puzesse o pé no pescoço. Obra de algumas semanas,
+tres a quatro, não mais. Ella, Sophia, estava prompta a ajudal-a. E
+repetia-lhe que não fosse molle, que não era escrava de ninguem, etc.
+Marianna ia cantando dentro do coração a _marselheza_ do matrimonio.
+
+Chegaram á rua do Ouvidor. Era pouco mais do meio dia. Muita gente,
+andando ou parada, o movimento do costume. Marianna sentiu-se um pouco
+atordoada, como sempre lhe acontecia. A uniformidade e a placidez, que
+eram o fundo do seu caracter e da sua vida, receberam daquella agitação
+os repellões do costume. Ella mal podia andar por entre os grupos, menos
+ainda sabia onde fixasse os olhos, tal era a confusão das gentes, tal
+era a variedade das lojas. Conchegava-se muito á amiga, e, sem reparar
+que tinham passado a casa do dentista, ia anciosa de lá entrar. Era um
+repouso; era alguma cousa melhor do que o tumulto.
+
+--Esta rua do Ouvidor! ia dizendo.
+
+--Sim? respondia Sophia, voltando a cabeça para ella e os olhos para um
+rapaz que estava na outra calçada.
+
+Sophia, prática daquelles mares, transpunha, rasgava ou contornava as
+gentes com muita pericia e tranquillidade. A figura impunha; os que a
+conheciam gostavam de vel-a outra vez; os que não a conheciam paravam ou
+voltavam-se para admirar-lhe o garbo. E a boa senhora, cheia de
+caridade, derramava os olhos á direita e a esquerda, sem grande
+escandalo, porque Marianna servia a cohonestar os movimentos. Nada dizia
+seguidamente; parece até que mal ouvia as respostas da outra: mas
+fallava de tudo, de outras damas que iam ou vinham, de uma loja, de um
+chapéo... Justamente os chapéos,--de senhora ou de homem,--abundavam
+naquella primeira hora da rua do Ouvidor.
+
+--Olha este, dizia-lhe Sophia.
+
+E Marianna acudia a vel-os, femininos ou masculinos, sem saber onde
+ficar, porque os demonios dos chapéos succediam-se como n'um
+kaleidoscopio. Onde era o dentista? perguntava ella á amiga. Sophia só á
+segunda vez lhe respondeu que tinham passado a casa; mas já agora iriam
+até ao fim da rua; voltariam depois. Voltaram finalmente.
+
+--Uf! respirou Marianna entrando no corredor.
+
+--Que é, meu Deus? Ora você! Parece da roça... A sala do dentista tinha
+já algumas freguezas. Marianna não achou entre ellas uma só cara
+conhecida, e para fugir ao exame das pessoas estranhas, foi para a
+janella. Da janella podia gozar a rua, sem atropello. Recostou-se;
+Sophia veiu ter com ella. Alguns chapéos masculinos, parados, começaram
+a fital-as; outros, passando, faziam a mesma cousa. Marianna
+aborreceu-se da insistencia; mas, notando que fitavam principalmente a
+amiga, dissolveu-se-lhe o tédio n'uma especie de inveja. Sophia,
+entretanto, contava-lhe a historia de alguns chapéos,--ou, mais
+correctamente, as aventuras. Um delles merecia os pensamentos de Fulana;
+outro andava derretido por Sicrana, e ella por elle, tanto que eram
+certos na rua do Ouvidor ás quartas e sabbados, entre duas e tres horas.
+Marianna ouvia aturdida. Na verdade, o chapéo era bonito, trazia uma
+linda gravata, e possuia um ar entre elegante e pelintra, mas...
+
+--Não juro, ouviu? replicava a outra, mas é o que se diz.
+
+Marianna fitou pensativa o chapéo denunciado. Havia agora mais tres, de
+egual porte e graça, e provavelmente os quatro fallavam dellas, e
+fallavam bem. Marianna enrubeceu muito, voltou a cabeça para o outro
+lado, tornou logo á primeira attitude, e afinal entrou. Entrando, viu na
+sala duas senhoras recem-chegadas, e com ellas um rapaz que se levantou
+promptamente e veiu comprimental-a com muita ceremonia. Era o seu
+primeiro namorado.
+
+Este primeiro namorado devia ter agora trinta e tres annos. Andara por
+fóra, na roça, na Europa, e afinal na presidencia de uma provincia do
+sul. Era mediano de estatura, pallido, barba inteira e rara, e muito
+apertado na roupa. Tinha na mão um chapéo novo, alto, preto, grave,
+presidencial, administrativo, um chapéo adequado á pessoa e ás ambições.
+Marianna, entretanto, mal pode vel-o. Tão confusa ficou, tão
+desorientada com a presença de um homem que conhecera em especiaes
+circumstancias, e a quem não vira desde 1877, que não pode reparar em
+nada. Estendeu-lhe os dedos, parece mesmo que murmurou uma resposta
+qualquer, e ia tornar á janella, quando a amiga sahiu dalli.
+
+Sophia conhecia tambem o recem-chegado. Trocaram algumas palavras.
+Marianna, impaciente, perguntou-lhe ao ouvido se não era melhor adiar os
+dentes para outro dia; mas a amiga disse-lhe que não; negocio de meia
+hora a trez quartos. Marianna sentia-se oppressa: a presença de um tal
+homem atava-lhe os sentidos, lançava-a na luta e na confusão. Tudo culpa
+do marido. Se elle não teimasse e não caçoasse com ella, ainda em cima,
+não aconteceria nada. E Marianna, pensando assim, jurava tirar uma
+desforra. De memoria contemplava a casa, tão socegada, tão bonitinha,
+onde podia estar agora, como de costume, sem os safanões da rua, sem a
+dependencia da amiga...
+
+--Marianna, disse-lhe esta, o Dr. Viçoso teima que está muito magro.
+Você não acha que está mais gordo do que no anno passado... Não se
+lembra delle no anno passado?
+
+Dr. Viçoso era o proprio namorado antigo, que palestrava com Sophia,
+olhando muitas vezes para Marianna. Esta respondeu negativamente. Elle
+aproveitou a fresta para puxal-a á conversação; disse, que, na verdade,
+não a vira desde alguns annos. E sublinhava o dito com um certo olhar
+triste e profundo. Depois abriu o estojo dos assumptos, saccou para fóra
+o theatro lyrico. Que tal achavam a companhia? Na opinião delle era
+excellente, menos o barytono; o barytono parecia-lhe cançado. Sophia
+protestou contra o cançasso do barytono, mas elle insistiu,
+accrescentando que, em Londres, onde o ouvira pela primeira vez, já lhe
+parecera a mesma cousa. As damas, sim, senhora; tanto a soprano como a
+contralto eram de primeira ordem. E fallou das operas, citava os
+trechos, elogiou a orchestra, principalmente nos _Huguenotes_... Tinha
+visto Marianna na ultima noite, no quarto ou quinto camarote da
+esquerda, não era verdade?
+
+--Fomos, murmurou ella, accentuando bem o plural.
+
+--No Cassino é que a não tenho visto, continuou elle.
+
+--Está ficando um bicho do matto, acudiu Sophia rindo.
+
+Viçoso gostára muito do ultimo baile, e desfiou as suas recordações;
+Sophia fez o mesmo ás della. As melhores _toilettes_ foram descriptas
+por ambos com muita particularidade; depois vieram as pessoas, os
+caracteres, dous ou tres picos de malicia, mas tão anodina, que não fez
+mal a ninguem. Marianna ouvia-os sem interesse; duas ou tres vezes
+chegou a levantar-se e ir á janella; mas os chapéos eram tantos e tão
+curiosos, que ella voltava a sentar-se. Interiormente, disse alguns
+nomes feios á amiga; não os ponho aqui por não serem necessarios, e,
+aliás, seria de máu gosto desvendar o que esta moça pôde pensar da outra
+durante alguns minutos de irritação.
+
+--E as corridas do Jockey-Club? perguntou o ex-presidente.
+
+Marianna continuava a abanar a cabeça. Não tinha ido ás corridas
+naquelle anno. Pois perdêra muito, a penultima, principalmente; esteve
+animadissima, e os cavallos eram de primeira ordem. As de Epsom, que
+elle vira, quando esteve em Inglaterra, não eram melhores do que a
+penultima do Prado Fluminense. E Sophia dizia que sim, que realmente a
+penultima corrida honrava o Jockey-Club. Confessou que gostava muito;
+dava emoções fortes. A conversação descambou em dous concertos daquella
+semana; depois tomou a barca, subiu a serra e foi a Petropolis, onde
+dous diplomatas lhe fizeram as despezas da estadia. Como fallassem da
+esposa de um ministro, Sophia lembrou-se de ser agradavel ao
+ex-presidente, declarando-lhe que era preciso casar tambem por que em
+breve estaria no ministerio. Viçoso teve um estremeção de prazer, e
+sorriu, e protestou que não; depois, com os olhos em Marianna, disse que
+provavelmente não casaria nunca... Marianna enrubeceu muito e
+levantou-se.
+
+--Você está com muita pressa, disse-lhe Sophia. Quantas são? continuou
+voltando-se para Viçoso.
+
+--Perto de tres! exclamou elle.
+
+Era tarde; tinha de ir á camara dos deputados. Foi fallar ás duas
+senhoras, que acompanhára, e que eram primas suas, e despediu-se; vinha
+despedir-se das outras, mas Sophia declarou que sahiria tambem. Já agora
+não esperava mais. A verdade é que a ideia de ir á camara dos deputados
+começára a faiscar-lhe na cabeça.
+
+--Vamos á camara? propoz ella á outra.
+
+--Não, não, disse Marianna; não posso, estou muito cançada.
+
+--Vamos, um bocadinho só; eu tambem estou muito cançada...
+
+Marianna teimou ainda um pouco; mas teimar contra Sophia,--a pomba
+discutindo com o gavião,--era realmente insensatez. Não teve remedio,
+foi. A rua estava agora mais agitada, as gentes iam e vinham por ambas
+as calçadas, e complicavam-se no cruzamento das ruas. De mais a mais, o
+obsequioso ex-presidente flanqueiava as duas damas, tendo-se offerecido
+para arranjar-lhes uma tribuna.
+
+A alma de Marianna sentia-se cada vez mais dilacerada de toda essa
+confusão de cousas. Perdera o interesse da primeira hora; e o despeito,
+que lhe dera forças para um vôo audaz e fugidio, começava a afrouxar as
+azas, ou afrouxara-as inteiramente. E outra vez recordava a casa, tão
+quieta, com todas as cousas nos seus logares, methodicas, respeitosas
+umas com as outras, fazendo-se tudo sem atropello, e, principalmente,
+sem mudança imprevista. E a alma batia o pé raivosa... Não ouvia nada
+do que o Viçoso ia dizendo, comquanto elle fallasse alto, e muitas
+cousas fossem ditas para ella. Não ouvia, não queria ouvir nada. Só
+pedia a Deus que as horas andassem depressa. Chegaram á camara e foram
+para uma tribuna. O rumor das saias chamou a attenção de uns vinte
+deputados, que restavam, escutando um discurso de orçamento. Tão
+depressa o Viçoso pediu licença e sahiu, Marianna disse rapidamente á
+amiga que não lhe fizesse outra.
+
+--Que outra? perguntou Sophia.
+
+--Não me pregue outra peça como esta de andar de um logar para outro
+feito maluca. Que tenho eu com a camara? que me importam discursos que
+não entendo?
+
+Sophia sorriu, agitou o leque e recebeu em cheio o olhar de um dos
+secretarios. Muitos eram os olhos que a fitavam quando ella ia á camara,
+mas os do tal secretario tinham uma expressão mais especial, callida e
+supplice. Entende-se, pois, que ella não o recebeu de sopetão; póde
+mesmo entender-se que o procurou curiosa. Emquanto acolhia esse olhar
+legislativo ia respondendo á amiga, com brandura, que a culpa era della,
+e que a sua intenção era boa, era restituir-lhe a posse de si mesma.
+
+--Mas, se você acha que a aborreço não venha mais commigo, concluiu
+Sophia.
+
+E, inclinando-se um pouco:
+
+--Olha o ministro da justiça.
+
+Marianna não teve remedio senão ver o ministro da justiça. Este
+aguentava o discurso do orador, um governista, que provava a
+conveniencia dos tribunaes correccionaes, e, incidentemente, compendiava
+a antiga legislação colonial. Nenhum aparte; um silencio resignado,
+polido, discreto e cauteloso. Marianna passeava os olhos de um lado para
+outro, sem interesse; Sophia dizia-lhe muitas cousas, para dar saida a
+uma porção de gestos graciosos. No fim de quinze minutos agitou-se a
+camara, graças a uma expressão do orador e uma replica da opposição.
+Trocaram-se apartes, os segundos mais bravos que os primeiros, e
+seguiu-se um tumulto, que durou perto de um quarto de hora.
+
+Essa diversão não o foi para Marianna, cujo espirito placido e uniforme,
+ficou atarantado no meio de tanta e tão inesperada agitação. Ella chegou
+a levantar-se para sair; mas, sentou-se outra vez. Já agora estava
+disposta a ir ao fim, arrependida e resoluta a chorar só comsigo as suas
+magoas conjugaes. A duvida começou mesmo a entrar nella. Tinha razão no
+pedido ao marido; mas era caso de doer-se tanto? era razoavel o
+espalhafato? Certamente que as ironias delle foram crueis; mas, em
+summa, era a primeira vez que ella lhe batêra o pé, e, naturalmente, a
+novidade irritou-o. De qualquer modo porém, fôra um erro ir revelar tudo
+á amiga. Sophia iria talvez contal-o a outras... Esta ideia trouxe um
+calafrio a Marianna; a indiscrição da amiga era certa; tinha-lhe ouvido
+uma porção de historias de chapéos masculinos e femininos, cousa mais
+grave do que uma simples briga de casados. Marianna sentiu necessidade
+de lisonjeal-a, e cobriu a sua impaciencia e zanga com uma mascara de
+docilidade hypocrita. Começou a sorrir tambem, a fazer algumas
+observações, a respeito de um ou outro deputado, e assim chegaram ao fim
+do discurso e da sessão.
+
+Eram quatro horas dadas. Toca a recolher, disse Sophia; e Marianna
+concordou que sim, mas sem impaciencia, e ambas tornaram a subir a rua
+do Ouvidor. A rua, a entrada no _bond_, completaram a fadiga do espirito
+de Marianna, que afinal respirou quando viu que ia caminho de casa.
+Pouco antes de apear-se a outra, pediu-lhe que guardasse segredo sobre o
+que lhe contára; Sophia prometteu que sim.
+
+Marianna respirou. A rola estava livre do gavião. Levava a alma doente
+dos encontrões, vertiginosa da diversidade de cousas e pessoas. Tinha
+necessidade de equilibrio e saude. A casa estava perto; á medida que ia
+vendo as outras casas e chacaras proximas, Marianna sentia-se restituida
+a si mesma. Chegou finalmente; entrou no jardim, respirou. Era aquelle o
+seu mundo; menos um vaso, que o jardineiro trocára de logar.
+
+--João, bota este vaso onde estava antes, disse ella.
+
+Tudo o mais estava em ordem, a sala de entrada, a de visitas, a de
+jantar, os seus quartos, tudo. Marianna sentou-se primeiro, em
+differentes logares, olhando bem para todas as cousas, tão quietas e
+ordenadas. Depois de uma manhã inteira de perturbação e variedade, a
+monotonia trazia-lhe um grande bem, e nunca lhe pareceu tão deliciosa.
+Na verdade, fizera mal... Quiz recapitular os successos e não pode; a
+alma espreguiçava-se toda naquella uniformidade caseira. Quando muito,
+pensou na figura do Viçoso, que achava agora ridicula, e era injustiça.
+Despiu-se lentamente, com amor, indo certeira a cada objecto. Uma vez
+despida, pensou outra vez na briga com o marido. Achou que, bem pesadas
+as cousas, a principal culpa era della. Que diabo de teima por causa de
+um chapéo, que o marido usára ha tantos annos? Tambem o pae era exigente
+de mais...
+
+--Vou ver a cara com que elle vem, pensou ella.
+
+Eram cinco e meia; não tardaria muito. Marianna foi á sala da frente
+espiou pela vidraça, prestou o ouvido ao _bond_, e nada. Sentou-se alli
+mesmo com o _Ivanhoe_ nas palmas, querendo ler e não lendo nada. Os
+olhos iam até o fim da pagina, e tornavam ao principio, em primeiro
+lugar, porque não apanhavam o sentido, em segundo lugar, porque uma ou
+outra vez desviavam-se para saborear a correcção das cortinas ou
+qualquer outra feição particular da sala. Santa monotonia, tu a
+acalentavas no teu regaço eterno.
+
+Emfim, parou um _bond_; apeou-se o marido; rangeu a porta de ferro do
+jardim. Marianna foi á vidraça, e espiou. Conrado entrava lentamente,
+olhando para a direita e a esquerda, com o chapéo na cabeça, não o
+famoso chapéo do costume, porém outro, o que a mulher lhe tinha pedido
+de manhã. O espirito de Marianna recebeu um choque violento, egual ao
+que lhe dera o vaso do jardim trocado,--ou ao que lhe daria uma lauda de
+Voltaire entre as folhas da _Moreninha_ ou de _Ivanhoe_... Era a nota
+desegual no meio da harmoniosa sonata da vida. Não, não podia ser esse
+chapéo. Realmente, que mania a della exigir que elle deixasse o outro
+que lhe ficava tão bem? E que não fosse o mais proprio, era o de longos
+annos; era o que quadrava á physionomia do marido... Conrado entrou por
+uma porta lateral. Marianna recebeu-o nos braços.
+
+--Então, passou? perguntou elle, emfim, cingindo-lhe a cintura.
+
+--Escuta uma cousa, respondeu ella com uma caricia divina, bota fóra
+esse; antes o outro.
+
+
+FIM DO CAPITULO DOS CHAPÉOS.
+
+
+
+
+CONTO ALEXANDRINO
+
+
+CAPITULO I
+
+NO MAR
+
+--O que, meu caro Stroibus? Não, impossivel. Nunca jámais ninguem
+acreditará que o sangue de rato, dado a beber a um homem, possa fazer do
+homem um ratoneiro.
+
+--Em primeiro logar, Pythias, tu omittes uma condição:--é que o rato
+deve expirar debaixo do escalpello, para que o sangue traga o seu
+principio. Essa condição é essencial. Em segundo logar, uma vez que me
+apontas o exemplo do rato, fica sabendo que já fiz com elle uma
+experiencia, e cheguei a produzir um ladrão...
+
+--Ladrão authentico?
+
+--Levou-me o manto, ao cabo de trinta dias, mas deixou-me a maior
+alegria do mundo:--a realidade da minha doutrina. Que perdi eu? um pouco
+de tecido grosso; e que lucrou o universo? a verdade immortal. Sim, meu
+caro Pythias; esta é a eterna verdade. Os elementos constitutivos do
+ratoneiro estão no sangue do rato, os do paciente no boi, os do arrojado
+na aguia...
+
+--Os do sabio na coruja, interrompeu Pythias sorrindo.
+
+--Não; a coruja é apenas um emblema; mas a aranha, se pudessemos
+transferi-la a um homem, daria a esse homem os rudimentos da geometria e
+o sentimento musical. Com um bando de cegonhas, andorinhas ou grous,
+faço-te de um caseiro um viageiro. O principio da fidelidade conjugal
+está no sangue da rola, o da enfatuação no dos pavões... Em summa, os
+deuses puzeram nos bichos da terra, da agua e do ar a essencia de todos
+os sentimentos e capacidades humanas. Os animaes são as letras soltas do
+alphabeto: o homem é a syntaxe. Esta é a minha philosophia recente; esta
+é a que vou divulgar na côrte do grande Ptolomeu.
+
+Pythias sacudiu a cabeça, e fixou os olhos no mar. O navio singrava, em
+direitura a Alexandria, com essa carga preciosa de dous philosophos, que
+iam levar áquelle regaço do saber os fructos da razão esclarecida. Eram
+amigos, viuvos e quinquagenarios. Cultivavam especialmente a
+methaphysica, mas conheciam a physica, a chimica, a medicina e a musica;
+um d'elles, Stroibus, chegára a ser excellente anatomista, tendo lido
+muitas vezes os tratados do mestre Herophilo. Chypre era a patria de
+ambos; mas, tão certo é que ninguem é propheta em sua terra, Chypre não
+dava o merecido respeito aos dous philosophos. Ao contrario,
+desdenhava-os; os garotos tocavam ao extremo de rir d'elles. Não foi
+esse, entretanto, o motivo que os levou a deixar a patria. Um dia,
+Pythias, voltando de uma viagem, propoz ao amigo irem para Alexandria,
+onde as artes e as sciencias eram grandemente honradas. Stroibus
+adheriu, e embarcaram. Só agora, depois de embarcados, é que o inventor
+da nova doutrina expol-a ao amigo, com todas as suas recentes cogitações
+e experiencias.
+
+--Está feito, disse Pythias, levantando a cabeça, não affirmo nem nego
+nada. Vou estudar a doutrina, e se a achar verdadeira, proponho-me a
+desenvolvel-a e divulgal-a.
+
+--Vive Helios! exclamou Stroibus. Posso contar que és meu discipulo.
+
+
+CAPITULO II
+
+EXPERIENCIA
+
+Os garotos alexandrinos não trataram os dous sabios com o escarneo dos
+garotos cypriotas. A terra era grave como a ibis pousada n'uma só pata,
+pensativa como a sphynge, circumspecta como as mumias, dura como as
+pyramides; não tinha tempo nem maneira de rir. Cidade e côrte, que desde
+muito tinham noticia dos nossos dous amigos, fizeram-lhes um recebimento
+regio, mostraram conhecer seus escriptos, discutiram as suas idéas,
+mandaram-lhes muitos presentes, papyros, crocodilos, zebras, purpuras.
+Elles porém, recusaram tudo, com simplicidade, dizendo que a philosophia
+bastava ao philosopho, e que o superfluo era um dissolvente. Tão nobre
+resposta encheu de admiração tanto aos sabios como aos principaes e á
+mesma plebe. E aliás, diziam os mais sagazes, que outra cousa se podia
+esperar de dous homens tão sublimes, que em seus magnificos tratados...
+
+--Temos cousa melhor do que esses tratados, interrompia Stroibus. Trago
+uma doutrina, que, em pouco, vai dominar o universo; cuido nada menos
+que em reconstituir os homens e os Estados, distribuindo os talentos e
+as virtudes.
+
+--Não é esse o officio dos deuses? objectava um.
+
+--Eu violei o segredo dos deuses, acudia Stroibus. O homem é a syntaxe
+da natureza, eu descobri as leis da grammatica divina...
+
+--Explica-te.
+
+--Mais tarde; deixa-me experimentar primeiro. Quando a minha doutrina
+estiver completa, divulgal-a-hei como a maior riqueza que os homens
+jámais poderão receber de um homem.
+
+Imaginem a expectação publica e a curiosidade dos outros philosophos,
+embora incredulos de que a verdade recente viesse aposentar as que elles
+mesmos possuiam. Entretanto, esperavam todos. Os dous hospedes eram
+apontados na rua até pelas crianças. Um filho meditava trocar a avareza
+do pai, um pai a prodigalidade do filho, uma dama a frieza de um varão,
+um varão os desvarios de uma dama, porque o Egypto, desde os Pharaós até
+aos Lagides, era a terra de Putiphar, da mulher de Putiphar, da capa de
+José, e do resto. Stroibus tornou-se a esperança da cidade e do mundo.
+
+Pythias, tendo estudado a doutrina, foi ter com Stroibus, e disse-lhe:
+
+--Methaphysicamente, a tua doutrina é um desproposito; mas estou prompto
+a admittir uma experiencia, comtanto que seja decisiva. Para isto, meu
+caro Stroibus, ha só um meio. Tu e eu, tanto pelo cultivo da razão como
+pela rigidez do caracter, somos o que ha mais opposto ao vicio do furto.
+Pois bem, se conseguires incutir-nos esse vicio, não será preciso mais;
+se não conseguires nada, (e pódes crel-o, porque é um absurdo) recuarás
+de semelhante doutrina, e tornarás ás nossas velhas meditações.
+
+Stroibus acceitou a proposta.
+
+--O meu sacrifio é o mais penoso, disse elle, pois estou certo do
+resultado; mas que não merece a verdade? A verdade é immortal; o homem é
+um breve momento...
+
+Os ratos egypcios, se pudessem saber de um tal accordo, teriam imitado
+os primitivos hebreus, acceitando a fuga para o deserto, antes do que a
+nova philosophia. E podemos crer que seria um desastre. A sciencia, como
+a guerra, tem necessidades imperiosas; e desde que a ignorancia dos
+ratos, a sua fraqueza, a superioridade mental e physica dos dois
+philosophos eram outras tantas vantagens na experiencia que ia começar,
+cumpria não perder tão boa occasião de saber se efectivamente o
+principio das paixões e das virtudes humanas estavam distribuidos pelas
+varias especies de animaes, e se era possivel transmittil-o.
+
+Stroibus engaiolava os ratos; depois, um a um, ia-os sujeitando ao
+ferro. Primeiro, atava uma tira de panno no focinho do paciente; em
+seguida, os pés, finalmente, cingia com um cordel as pernas e o pescoço
+do animal á taboa da operação. Isto feito, dava o primeiro talho no
+peito, com vagar, e com vagar ia enterrando o ferro até tocar o coração,
+porque era opinião d'elle que a morte instantanea corrompia o sangue e
+retirava-lhe o principio. Habil anatomista, operava com uma firmeza
+digna do proposito scientifico. Outro, menos destro, interromperia muita
+vez a tarefa, porque as contorsões de dôr e de agonia tornavam difficil
+o meneio do escalpello; mas essa era justamente a superioridade de
+Stroibus: tinha o pulso magistral e pratico.
+
+Ao lado d'elle, Pythias aparava o sangue e ajudava a obra, já contendo
+os movimentos convulsivos do paciente, já espiando-lhe nos olhos o
+progresso da agonia. As observações que ambos faziam eram notadas em
+folhas de papyro; e assim ganhava a sciencia de duas maneiras. Ás vezes,
+por divergencia de apreciação, eram obrigados a escalpellar maior numero
+de ratos do que o necessario; mas não perdiam com isso, porque o sangue
+dos excedentes era conservado e ingerido depois. Um só d'esses casos
+mostrará a consciencia com que elles procediam. Pythias observára que a
+retina do rato agonisante mudava de côr até chegar ao azul claro, ao
+passo que a observação de Stroibus dava a côr de canella como o tom
+final da morte. Estavam na ultima operação do dia; mas o ponto valia a
+pena, e, não obstante o cansaço, fizeram successivamente desenove
+experiencias sem resultado definitivo; Pythias insistia pela côr azul, e
+Stroibus pela côr de canella. O vigesimo rato esteve prestes a pôl-os de
+accordo, mas Stroibus advertiu, com muita sagacidade, que a sua posição
+era agora differente, rectificou-a e escalpellaram mais vinte e cinco.
+D'estes, o primeiro ainda os deixou em duvida; mas os outros vinte e
+quatro provaram-lhes que a côr final não era canella nem azul, mas um
+lyrio roxo, tirando a claro.
+
+A descripção exagerada das experimentações deu rebate á porção
+sentimental da cidade, e excitou a loquella de alguns sophistas; mas o
+grave Stroibus (com brandura, para não aggravar uma disposição propria
+da alma humana) respondeu que a verdade valia todos os ratos do
+universo, e não só os ratos, como os pavões, as cabras, os cães, os
+rouxinoes, etc.; que, em relação aos ratos, além de ganhar a sciencia,
+ganhava a cidade, vendo diminuida a praga de um animal tão damninho; e,
+se a mesma consideração não se dava com outros animaes, como, por
+exemplo, as rolas e os cães, que elles iam escalpellar d'ahi a tempos,
+nem por isso os direitos da verdade eram menos imprescriptiveis. A
+natureza não ha de ser só a mesa de jantar, concluia em fórma de
+aphorismo, mas tambem a mesa de sciencia.
+
+E continuavam a extrahir o sangue e a bebel-o. Não o bebiam puro, mas
+diluido em um cosimento de cinamomo, succo de acacia e balsamo, que lhe
+tirava todo o sabor primitivo. As doses eram diarias e diminutas;
+tinham, portanto, de aguardar um longo praso antes de produzido o
+effeito. Pythias, impaciente e incredulo, mofava do amigo.
+
+--Então? nada?
+
+--Espera, dizia o outro, espera. Não se incute um vicio como se cose um
+par de sandalias.
+
+
+CAPITULO III
+
+VICTORIA
+
+Emfim, venceu Stroibus! A experiencia provou a doutrina. A Pythias foi o
+primeiro que deu mostras da realidade do effeito, attribuindo-se umas
+tres idéas ouvidas ao proprio Stroibus; este, em compensação, furtou-lhe
+quatro comparações e uma theoria dos ventos. Nada mais scientifico do
+que essas estréas. As idéas alheias, por isso mesmo que não foram
+compradas na esquina, trazem um certo ar commum; e é muito natural
+começar por ellas antes de passar aos livros emprestados, ás gallinhas,
+aos papeis falsos, ás provincias, etc. A propria denominação de plagio é
+um indicio de que os homens comprehendem a difficuldade de confundir
+esse embryão da ladroeira com a ladroeira formal.
+
+Duro é dizel-o; mas a verdade é que elles deitaram ao Nilo a bagagem
+metaphysica, e dentro de pouco estavam larapios acabados. Concertavam-se
+de vespera, e iam aos mantos, aos bronzes, ás amphoras de vinho, ás
+mercadorias do porto, ás boas drachmas. Como furtassem sem estrepito,
+ninguem dava por elles; mas, ainda mesmo que os suspeitassem, como
+fazel-o crêr aos outros? Já então Ptolomeu colligira na bibliotheca
+muitas riquezas e raridades; e, porque conviesse ordenal-as, designou
+para isso cinco grammaticos e cinco philosophos, entre estes os nossos
+dous amigos. Estes ultimos trabalharam com singular ardor, sendo os
+primeiros que entravam e os ultimos que sahiam, e ficando alli muitas
+noites, ao clarão da lampada, decifrando, colligindo, classificando.
+Ptolomeu, enthusiasmado, meditava para elles os mais altos destinos.
+
+Ao cabo de algum tempo, começaram a notar-se faltas graves:--um exemplar
+de Homero, tres rolos de manuscriptos persas, dois de samaritanos, uma
+soberba collecção de cartas originaes de Alexandre, copias de leis
+athenienses, o 2º e o 3º livro da _Republica_ de Platão, etc., etc. A
+auctoridade poz-se á espreita; mas a esperteza do rato, transferida a um
+organismo superior, era naturalmente maior, e os dois illustres gatunos
+zombavam de espias e guardas. Chegaram ao ponto de estabelecer este
+preceito philosophico de não sahir d'alli com as mãos vasias; traziam
+sempre alguma cousa, uma fabula, quando menos. Emfim, estando a sahir um
+navio para Chypre, pediram licença a Ptolomeu, com promessa de voltar,
+cozeram os livros dentro de couros de hippopotamo, puzeram-lhe rotulos
+falsos, e trataram de fugir. Mas a inveja de outros philosophos não
+dormia; deu rebate ás suspeitas dos magistrados, e descobriu-se o roubo.
+Stroibus e Pythias foram tidos por aventureiros, mascarados com os nomes
+d'aquelles dous varões illustres; Ptolomeu entregou-os á justiça com
+ordem de os passar logo ao carrasco. Foi então que interveiu Herophilo,
+inventor da anatomia.
+
+
+CAPITULO IV
+
+PLUS ULTRA!
+
+--Senhor, disse elle a Ptolomeu, tenho-me limitado até agora a
+escalpellar cadaveres. Mas o cadaver dá-me a estructura, não me dá a
+vida; dá-me os orgãos, não me dá as funcções. Eu preciso das funcções e
+da vida.
+
+--Que me dizes? redarguiu Ptolomeu. Queres estripar os ratos de
+Stroibus?
+
+--Não, senhor; não quero estripar os ratos.
+
+--Os cães? os gansos? as lebres?...
+
+--Nada; peço alguns homens vivos.
+
+--Vivos? não é possivel...
+
+--Vou demonstrar que não só é possivel, mas até legitimo e necessario.
+As prisões egypicias estão cheias de criminosos, e os criminosos
+occupam, na escala humana, um grau muito inferior. Já não são cidadãos,
+nem mesmo se podem dizer homens, porque a razão e a virtude, que são os
+dois principaes caracteristicos humanos, elles os perderam, infringindo
+a lei e a moral. Além d'isso, uma vez que têm de expiar com a morte os
+seus crimes, não é justo que prestem algum serviço á verdade e a
+sciencia? A verdade é immortal; ella vale não só todos os ratos, como
+todos os delinquentes do universo.
+
+Ptolomeu achou o raciocinio exacto, e ordenou que os criminosos fossem
+entregues a Herophilo e seus discipulos. O grande anatomista agradeceu
+tão insigne obsequio, e começou a escalpellar os réus. Grande foi o
+assombro do povo; mas, salvo alguns pedidos verbaes, não houve nenhuma
+manifestação contra a medida. Herophilo repetia o que dissera a
+Ptolomeu, acrescentando que a sujeição dos réus á experiencia anatomica
+era até um modo indirecto de servir á moral, visto que o terror de
+escalpello impediria a pratica de muitos crimes.
+
+Nenhum dos criminosos, ao deixar a prisão, suspeitava o destino
+scientifico que o esperava. Sahiam um por um; ás vezes dous a dous, ou
+tres a tres. Muitos d'elles, estendidos e atados á mesa da operação, não
+chegavam a desconfiar nada; imaginavam que era um novo genero de
+execução summaria. Só quando os anatomistas definiam o objecto do estudo
+do dia, alçavam os ferros e davam os primeiros talhos, é que os
+desgraçados adquiriam a consciencia da situação. Os que se lembravam de
+ter visto as experiencias dos ratos, padeciam em dobro, porque a
+imaginação juntava á dôr presente o expectaculo passado.
+
+Para conciliar os interesses da sciencia com os impulsos da piedade, os
+réos não eram escalpellados á vista uns dos outros, mas successivamente.
+Quando vinham aos dois ou aos tres, não ficavam em logar d'onde os que
+esperavam pudessem ouvir os gritos do paciente, embora os gritos fossem
+muitas vezes abafados por meio de apparelhos; mas se eram abafados, não
+eram supprimidos, e em certos casos, o proprio objecto da experiencia
+exigia que a emissão da voz fosse franca. Ás vezes as operações eram
+simultaneas; mas então faziam-se em logares distanciados.
+
+Tinham sido escalpellados cerca de cincoenta réus, quando chegou a vez
+de Stroibus e Pythias. Vieram buscal-os; elles suppuzeram que era para a
+morte judiciaria, e encommendaram-se aos deuses. De caminho, furtaram
+uns figos, e explicaram o caso allegando que era um impulso da fome,
+adiante, porém, subtrahiram uma flauta, e essa outra acção não a puderam
+explicar satisfactoriamente. Todavia, a astucia do larapio é infinita, e
+Stroibus, para justificar a acção, tentou extrahir algumas notas do
+instrumento, enchendo de compaixão as pessoas que os viam passar, e não
+ignoravam a sorte que iam ter. A noticia d'esses dous novos delictos foi
+narrada por Herophilo, e abalou a todos os seus discipulos.
+
+Realmente, disse o mestre, é um caso extraordinario, um caso lindissimo.
+Antes do principal, examinemos aqui o outro ponto...
+
+O ponto era saber se o nervo do latrocionio residia na palma da mão ou
+na extremidade dos dedos; problema esse suggerido por um dos discipulos.
+Stroibus foi o primeiro sujeito á operação. Comprehendeu tudo, desde que
+entrou na sala; e, como a natureza humana tem uma parte infima,
+pediu-lhes humildemente que poupassem a vida a um philosopho. Mas
+Herophilo, com um grande poder de dialectica, disse-lhe mais ou menos
+isto:--Ou és um aventureiro ou o verdadeiro Stroibus; no primeiro caso,
+tens aqui o unico meio para resgatar o crime de illudir a um principe
+esclarecido, presta-te ao escalpello; no segundo caso, não deves ignorar
+que a obrigação do philosopho é servir á philosophia, e que o corpo é
+nada em comparação com o entendimento.
+
+Dito isto, começaram pela experiencia das mãos, que produziu optimos
+resultados, colligidos em livros, que se perderam com a queda dos
+Ptolomeus. Tambem as mãos de Pythias foram rasgadas e minuciosamente
+examinadas. Os infelizes berravam, choravam, supplicavam; mas Herophilo
+dizia-lhes pacificamente que a obrigação do philosopho era servir á
+philosophia, e que para os fins da sciencia, elles valiam ainda mais que
+os ratos, pois era melhor concluir do homem para o homem, e não do rato
+para o homem. E continuou a rasgal-os fibra por fibra, durante oito
+dias. No terceiro dia arrancaram-lhes os olhos, para desmentir
+praticamente uma theoria sobre a conformação interior do orgão. Não
+fallo da extracção do estomago de ambos, por se tratar de problemas
+relativamente secundarios, e em todo caso estudados e resolvidos em
+cinco ou seis individuos escalpellados antes d'elles.
+
+Diziam os alexandrinos que os ratos celebraram esse caso afflictivo e
+doloroso com dansas e festas, a que convidaram alguns cães, rolas,
+pavões e outros animaes ameaçados de egual destino, e outrosim, que
+nenhum dos convidados acceitou o convite, por suggestão de um cachorro,
+que lhes disse melancolicamente:--«Seculo virá em que a mesma cousa nos
+aconteça.» Ao que retorquiu um rato: «Mas até lá, riamos!»
+
+
+FIM DO CONTO ALEXANDRINO.
+
+
+
+
+PRIMAS DE SAPUCAIA!
+
+
+Ha umas occasiões opportunas e fugitivas, em que o acaso nos inflige
+duas ou trez primas de Sapucaia; outras vezes, ao contrario, as primas
+de Sapucaia são antes um beneficio do que um infortunio.
+
+Era á porta de uma egreja. Eu esperava que as minhas primas Claudina e
+Rosa tomassem agua benta, para conduzil-as á nossa casa, onde estavam
+hospedadas. Tinham vindo de Sapucaia, pelo Carnaval, e demoraram-se dois
+mezes na côrte. Era eu que as acompanhava a toda a parte, missas,
+theatros, rua do Ouvidor, porque minha mãi, com o seu rheumatico, mal
+podia mover-se dentro de casa, e ellas não sabiam andar sós. Sapucaia
+era a nossa patria commum. Embora todos os parentes estivessem
+dispersos, alli nasceu o tronco da familia. Meu tio José Ribeiro, pai
+d'estas primas, foi o unico, de cinco irmãos, que lá ficou lavrando a
+terra e figurando na politica do logar. Eu vim cedo para a côrte, d'onde
+segui a estudar e bacharelar-me em S. Paulo. Voltei uma só vez a
+Sapucaia, para pleitear uma eleição, que perdi.
+
+Rigorosamente, todas estas noticias são desnecessarias para a
+comprehensão da minha aventura; mas é um modo de ir dizendo alguma
+cousa, antes de entrar em materia, para a qual não acho porta grande nem
+pequena; o melhor é afrouxar a redea á penna, e ella que vá andando, até
+achar entrada. Hade haver alguma; tudo depende das circumstancias, regra
+que tanto serve para o estylo como para a vida; palavra puxa palavra,
+uma idéa traz outra, e assim se faz um livro, um governo, ou uma
+revolução; alguns dizem mesmo que assim é que a natureza compoz as suas
+especies.
+
+Portanto, agua benta e porta de egreja. Era a egreja de S. José. A missa
+acabára; Claudina e Rosa fizeram uma cruz na testa, com o dedo pollegar,
+molhado na agua benta e descalçado unicamente para esse gesto. Depois
+ajustaram os manteletes, emquanto eu, ao portal, ia vendo as damas que
+sahiam. De repente, estremeço, inclino-me para fóra, chego mesmo a dar
+dous passos na direcção da rua.
+
+--Que foi, primo?
+
+--Nada, nada.
+
+Era uma senhora, que passára rentesinha com a egreja, vagarosa,
+cabisbaixa, apoiando-se no chapellinho de sol; ia pela rua da
+Misericordia acima. Para explicar a minha commoção, é preciso dizer que
+era a segunda vez que a via. A primeira foi no Prado Fluminense, dous
+mezes antes, com um homem que, pelos modos, era seu marido, mas tanto
+podia ser marido como pai. Estava então um pouco de espavento, vestida
+de escarlate, com grandes enfeites vistosos, e umas argolas demasiado
+grossas nas orelhas; mas os olhos e a bocca resgatavam o resto.
+Namorámos ás bandeiras despregadas. Se disser que sahi d'alli
+apaixonado, não metto a minha alma no inferno, porque é a verdade pura.
+Sahi tonto, mas sahi tambem desapontado, perdia-a de vista na multidão.
+Nunca mais pude dar com ella, nem ninguem me soube dizer quem fosse.
+
+Calcule-se o meu enfado, vendo que a fortuna vinha trazel-a outra vez ao
+meu caminho, e que umas primas fortuitas não me deixavam lançar-lhe as
+mãos. Não será difficil calculal-o, porque estas primas de Sapucaia
+tomam todas as fórmas, e o leitor, se não as teve de um modo, teve-as de
+outro. Umas vezes copiam o ar confidencial de um cavalheiro informado da
+ultima crise do ministerio, de todas as causas apparentes ou secretas,
+dissensões novas ou antigas, interesses aggravados, conspiração, crise.
+Outras vezes, enfronham-se na figura d'aquelle eterno cidadão que
+affirma de um modo ponderoso e abotoado, que não ha leis sem costumes,
+_nisi lege sine moribus_. Outras, afivellam a mascara de um Dangeau de
+esquina, que nos conta miudamente as fitas e rendas que esta, aquella,
+aquell'outra dama levara ao baile ou ao theatro. E durante esse tempo, a
+Occasião passa, vagarosa, cabisbaixa, apoiando-se no chapellinho de sol:
+passa, dobra a esquina, e adeus... O ministerio esphacelava-se; malinas
+e bruxellas; _nisi lege sine moribus_...
+
+Esteve a pique de dizer ás primas, que se fossem embora; moravamos na
+rua do Carmo, não era longe; mas abri mão da idéa. Já na rua pensei
+tambem em deixal-as na egreja, á minha espera, e ir ver se agarrava a
+Occasião pela calva. Creio mesmo que cheguei a parar um momento, mas
+rejeitei egualmente esse alvitre e fui andando.
+
+Fui andando com ellas para o lado opposto ao da minha incognita. Olhei
+para traz repetidas vezes, até perdel-a n'uma das curvas da rua, com os
+olhos no chão, como quem reflecte, devaneia ou espera uma hora
+marcada. Não minto dizendo que esta ultima idéa trouxe-me a emoção do
+ciume. Sou exclusivo e pessoal; daria um triste amante de mulheres
+casadas. Não importa que entre mim e aquella dama existisse apenas uma
+contemplação fugitiva de algumas horas; desde que a minha personalidade
+ia para ella, a partilha tornava-se-me insupportavel. Sou tambem
+imaginoso; engenhei logo uma aventura e um aventureiro, dei-me ao prazer
+morbido de affligir-me sem motivo nem necessidade. As primas iam
+adiante, e falavam-me de quando em quando; eu respondia mal, se
+respondia alguma cousa. Cordialmente, execrava-as.
+
+Ao chegar á porta de casa, consultei o relogio, como si tivesse alguma
+cousa que fazer; depois disse ás primas que subissem e fossem almoçando.
+Corri á rua da Misericordia. Fui primeiro até á Escola de Medicina;
+depois voltei e vim até a Camara dos Deputados, então mais devagar,
+esperando vel-a ao chegar a cada curva da rua; mas nem sombra. Era
+insensato, não era? Todavia, ainda subi outra vez a rua, porque adverti
+que, a pé e de vagar, mal teria tempo de ir em meio da praia de Santa
+Luzia, se acaso não parára antes; e ahi fui, rua acima e praia fóra, até
+o convento da Ajuda. Não encontrei nada, cousa nenhuma. Nem por isso
+perdi as esperanças; arripiei caminho e vim, a passo lento ou apressado,
+conforme se me afigurava que era possivel apanhal-a adiante, ou dar
+tempo a que sahisse de alguma parte. Desde que a minha imaginação
+reproduzia a dama, todo eu sentia um abalo, como se realmente tivesse de
+vel-a d'ahi a alguns minutos. Comprehendi a emoção dos doudos.
+
+Entretanto, nada. Desci a rua sem achar o menor vestigio da minha
+incognita. Felizes os cães, que pelo faro dão com os amigos! Quem sabe
+se não estaria alli bem perto, no interior de alguma casa, talvez a
+propria casa d'ella? Lembrou-me indagar; mas de quem, e como? Um
+padeiro, encostado ao portal espiava-me; algumas mulheres faziam a mesma
+cousa enfiando os olhos pelos postigos. Naturalmente desconfiavam do
+transeunte, do andar vagaroso ou apressado, do olhar inquisidor, do
+gesto inquieto. Deixei-me ir até á Camara dos Deputados, e parei uns
+cinco minutos, sem saber que fizesse. Era perto de meio-dia. Esperei
+mais dez minutos, depois mais cinco, parado, com a esperança de vel-a;
+afinal, desesperei e fui almoçar.
+
+Não almocei em casa. Não queria ver os demonios das primas, que me
+impediram de seguir a dama incognita. Fui a um hotel. Escolhi uma mesa
+no fim da sala, e sentei-me de costas para as outras; não queria ser
+visto nem conversado. Comecei a comer o que me deram. Pedi alguns
+jornaes, mas confesso que não li nada seguidamente, e apenas entendi
+tres quartas partes do que ia lendo. No meio de uma noticia ou de um
+artigo, escorregava-me o espirito e cahia na rua da Misericordia, á
+porta da egreja, vendo passar a incognita, vagarosa, cabisbaixa,
+apoiando-se no chapellinho de sol.
+
+A ultima vez que me aconteceu essa separação da _outra_ e da _besta_,
+estava já no café, e tinha diante de mim um discurso parlamentar.
+Achei-me ainda uma vez á porta da egreja; imaginei então que as primas
+não estavam commigo, e que eu seguia atraz da bella dama. Assim é que se
+consolam os preteridos da loteria; assim é que se fartam as ambições
+mallogradas.
+
+Não me peçam minucias nem preliminares do encontro. Os sonhos desdenham
+as linhas finas e o acabado das paysagens; contentam-se de quatro ou
+cinco brochadas grossas, mas representativas. Minha imaginação galgou as
+difficuldades da primeira falla, e foi direita á rua do Lavradio ou dos
+Invalidos, á propria casa de Adriana. Chama-se Adriana. Não viera á rua
+da Misericordia por motivos de amores, mas a ver alguem, uma parenta ou
+uma comadre, ou uma costureira. Conheceu-me, e teve egual commoção.
+Escrevi-lhe; respondeu-me. Nossas pessoas foram uma para a outra por
+cima de uma multidão de regras moraes e de perigos. Adriana é casada; o
+marido conta cincoenta e dous annos, ella trinta imperfeitos. Não amou
+nunca, não amou mesmo o marido, com quem casou por obedecer á familia.
+Eu ensinei-lhe ao mesmo tempo o amor e a traição; é o que ella me diz
+nesta casinha que aluguei fóra da cidade, de proposito para nós.
+
+Ouço-a embriagado. Não me enganei; é a mulher ardente e amorosa, qual me
+diziam os seus olhos, olhos de touro, como os de Juno, grandes e
+redondos. Vive de mim e para mim. Escrevemo-nos todos os dias; e, apezar
+d'isso, quando nos encontramos na casinha, é como se medeara um seculo.
+Creio até que o coração d'ella ensinou-me alguma cousa, embora noviço,
+ou por isso mesmo. N'esta materia desapprende-se com o uso e o ignorante
+é que é douto. Adriana não dissimula a alegria nem as lagrimas; escreve
+o que pensa, conta o que sente; mostra-me que não somos dois, mas um,
+tão sómente um ente universal, para quem Deus creou o sol e as flores, o
+papel e a tinta, o correio e as carruagens fechadas.
+
+Emquanto ideava isto, creio que acabei de beber o café; lembra-me que o
+criado veiu á mesa e retirou a chicara e o assucareiro. Não sei se lhe
+pedi fogo, provavelmente viu-me com o charuto na mão e trouxe-me
+phosphoros.
+
+Não juro, mas penso que accendi o charuto, porque d'ahi a um instante,
+atravez de um véu de fumaça, vi a cabeça meiga e energica da minha bella
+Adriana, encostada a um sophá. Eu estou de joelhos, ouvindo-lhe a
+narração da ultima rusga do marido. Que elle já desconfia; ella sahe
+muitas vezes, distrahe-se, absorve-se, apparece-lhe triste ou alegre,
+sem motivo, e o marido começa a ameaçal-a. Ameaçal-a de que? Digo-lhe
+que, antes de qualquer excesso, era melhor deixal-o, para viver commigo,
+publicamente, um para o outro. Adriana escuta-me pensativa, cheia de
+Eva, namorada do demonio, que lhe sussurra de fóra o que o coração lhe
+diz de dentro. Os dedos affagam-me os cabellos.
+
+--Pois sim! pois sim!
+
+Veiu no dia seguinte, consigo mesma, sem marido, sem sociedade, sem
+escrupulos, tão sómente comsigo, e fomos d'alli viver juntos. Nem
+ostentação, nem resguardo. Suppuzemo-nos estrangeiros, e realmente não
+eramos outra cousa; fallavamos uma lingua, que nunca ninguem antes
+fallara nem ouvira. Os outros amores eram, desde seculos, verdadeiras
+contrafacções; nós davamos a edição authentica. Pela primeira vez,
+imprimia-se o manuscripto divino, um grosso volume que nós dividiamos em
+tantos capitulos e paragraphos quantas eram as horas do dia ou os dias
+da semana. O estylo era tecido de sol e musica; a linguagem compunha-se
+da fina flôr dos outros vocabularios. Tudo o que n'elles existia, meigo
+ou vibrante, foi extrahido pelo autor para formar esse livro
+unico--livro sem indice, porque era infinito--sem margens, para que o
+fastio não viesse escrever n'ellas as suas notas,--sem fita, porque já
+não tinhamos precisão de interromper a leitura e marcar a pagina.
+
+Uma voz chamou-me á realidade. Era um amigo que acordara tarde, e vinha
+almoçar. Nem o sonho me deixava esta outra prima de Sapucaia! Cinco
+minutos depois despedi-me e sahi; eram duas horas passadas.
+
+Vexa-me dizer que ainda fui á rua da Misericordia, mas é preciso narrar
+tudo: fui e não achei nada. Voltei nos dias seguintes sem outro lucro,
+além do tempo perdido. Resignei-me a abrir mão da aventura, ou esperar a
+solução do acaso. As primas achavam-me aborrecido ou doente; não lhes
+disse que não. D'ahi a oito dias, foram-se embora, sem me deixar
+saudades; despedi-me d'ellas como de uma febre maligna.
+
+A imagem da minha incognita não me deixou durante muitas semanas. Na
+rua, enganei-me varias vezes. Descobria ao longe uma figura, que era tal
+qual a outra; picava os calcanhares, até apanhal-a e desenganar-me.
+Comecei a achar-me ridiculo; mas lá vinha uma hora ou um minuto, uma
+sombra ao longe, e a preoccupação revivia. Afinal vieram outros
+cuidados, e não pensei mais n'isso.
+
+No principio do anno seguinte, fui a Petropolis; fiz a viagem com um
+antigo companheiro de estudos, Oliveira, que foi promotor em
+Minas-Geraes, mas abandonara ultimamente a carreira por ter recebido uma
+herança. Estava alegre como nos tempos da academia; mas de quando em
+quando calava-se, olhando para fóra da barca ou da caleça, com a atonia
+de quem regala a alma de uma recordação, de uma esperança ou de um
+desejo. No alto da serra perguntei-lhe para que hotel ia; respondeu que
+ia para uma casa particular, mas não me disse aonde, e até desconversou.
+Cuidei que me visitaria no dia seguinte; mas nem me visitou, nem o vi em
+parte alguma. Outro collega nosso ouvira dizer que elle tinha uma casa
+para os lados da Rhenania.
+
+Nenhuma d'estas circumstancias voltaria á memoria, se não fosse a
+noticia que me deram dias depois. Oliveira tirára uma mulher ao marido,
+e fôra refugiar-se com ella em Petropolis. Deram-me o nome do marido e o
+d'ella. O d'ella era Adriana. Confesso que, embora o nome da outra fosse
+pura invenção minha, estremeci ao ouvil-o; não seria a mesma mulher? Vi
+logo depois que era pedir muito ao acaso. Já faz bastante esse pobre
+official das cousas humanas, concertando alguns fios dispersos; exigir
+que os reate a todos, e com os mesmos titulos, é saltar da realidade na
+novella. Assim fallou o meu bom senso, e nunca disse tão gravemente uma
+tolice, pois as duas mulheres eram nada menos que a mesmissima.
+
+Vi-a tres semanas depois, indo visitar o Oliveira, que viera doente da
+côrte. Subimos juntos na vespera; no meio da serra, começou elle a
+sentir-se incommodado; no alto estava febril. Acompanhei-o no carro até
+a casa, e não entrei, porque elle dispensou-me o incommodo. Mas no dia
+seguinte fui vel-o, um pouco por amizade, outro pouco por avidez de
+conhecer a incognita. Vi-a; era ella, era a minha, era a unica Adriana.
+
+Oliveira sarou depressa, e, apezar do meu zelo em visital-o, não me
+offereceu a casa; limitou-se a vir ver-me no hotel. Respeitei-lhe os
+motivos; mas elles mesmos é que faziam reviver a antiga preoccupação.
+Considerei que, além das razões de decoro, havia da parte d'elle um
+sentimento de ciume, filho de um sentimento de amor, e que um e outro
+podiam ser a prova de um complexo de qualidades finas e grandes
+n'aquella mulher. Isto bastava a transtornar-me; mas a idéa de que a
+paixão d'ella não seria menor que a d'elle, o quadro d'esse casal que
+fazia uma só alma e pessoa, excitou em mim todos os nervos da inveja.
+Baldei esforços para ver se mettia o pé na casa; cheguei a fallar-lhe do
+boato que corria; elle sorria e tratava de outra cousa.
+
+Acabou a estação de Petropolis, e elle ficou. Creio que desceu em julho
+ou agosto. No fim do anno encontrámo-nos casualmente; achei-o um pouco
+taciturno e preoccupado. Vi-o ainda outras vezes, e não me pareceu
+differente, a não ser que, além de taciturno, trazia na physionomia uma
+longa préga de desgosto. Imaginei que eram effeitos da aventura, e, como
+não estou aqui para empulhar ninguem, accrescento que tive uma sensação
+de prazer. Durou pouco; era o demonio que trago em mim, e costuma fazer
+d'esses esgares de saltimbanco. Mas castiguei-o depressa, e puz no logar
+d'elle o anjo, que tambem uso, e que se compadeceu do pobre rapaz,
+qualquer que fosse o motivo da tristeza.
+
+Um visinho d'elle, amigo nosso, contou-me alguma cousa, que me confirmou
+a suspeita de desgostos domesticos; mas foi elle mesmo quem me disse
+tudo, um dia, perguntando-lhe eu, estouvadamente o que é que tinha que o
+mudára tanto.
+
+--Que hei de ter? Imagina tu que comprei um bilhete de loteria, e nem
+tive, ao menos, o gosto de não tirar nada; tirei um escorpião.
+
+E, como eu franzisse a testa interrogativamente:
+
+--Ah! se soubesses metade só das cousas que me têm acontecido! Tens
+tempo? Vamos aqui ao Passeio Publico.
+
+Entrámos no jardim, e mettemo-nos por uma das alamedas. Contou-me tudo.
+Gastou duas horas em desfiar um rosario infinito de miserias. Vi atravez
+da narração duas indoles incompativeis, unidas pelo amor ou pelo
+peccado, fartas uma da outra, mas condemnadas á convivencia e ao odio.
+Elle nem podia deixal-a nem supportal-a. Nenhuma estima, nenhum
+respeito, alegria rara e impura; uma vida gorada.
+
+--Gorada, repetia elle, gesticulando affirmativamente com a cabeça. Não
+tem que ver; a minha vida gorou. Has de lembrar-te dos nossos planos da
+academia, quando nos propunhamos, tu a ministro do imperio, eu da
+justiça. Pódes guardar as duas pastas; não serei nada, nada. O ovo, que
+devia dar uma aguia, não chega a dar um frango. Gorou completamente. Ha
+anno e meio que ando n'isso, e não acho sahida nenhuma; perdia a
+energia...
+
+Seis mezes depois, encontrei-o afflicto e desvairado. Adriana deixara-o
+para ir estudar geometria com um estudante da antiga Escola Central.
+Tanto melhor, disse-lhe eu. Oliveira olhou para o chão envergonhado;
+despediu-se, e correu em procura d'ella. Achou-a d'ahi a algumas
+semanas, disseram as ultimas um ao outro, e no fim reconciliaram-se.
+Comecei então a visital-os, com a idéa de os separar um do outro. Ella
+estava ainda bonita e fascinante; as maneiras eram finas e meigas, mas
+evidentemente de emprestimo, acompanhadas de umas attitudes e gestos,
+cujo intuito latente era attrahir-me e arrastar-me.
+
+Tive medo e retrahi-me. Não se mortificou; deitou fóra a capa de renda,
+restituiu-se ao natural. Vi então que era ferrenha, manhosa, injusta,
+muita vez grosseira; em alguns lances notei-lhe uma nota de
+perversidade. Oliveira, nos primeiros tempos, para fazer-me crer que
+mentira ou exagerára, supportava tudo rindo; era a vergonha da propria
+fraqueza. Mas não pôde guardar a mascara; ella arrancou-lh'a um dia, sem
+piedade, denunciando as humilhações em que elle cahia, quando eu não
+estava presente. Tive nojo da mulher e pena do pobre diabo. Convidei-o
+abertamente a deixal-a, elle hesitou, mas prometteu que sim.
+
+--Realmente, não posso mais...
+
+Combinamos tudo; mas no momento da separação, não pôde. Ella embebeu-lhe
+novamente os seus grandes olhos de touro e de basilisco, e d'esta
+vez,--ó minhas queridas primas de Sapucaia!--d'esta vez para só deixal-o
+exhausto e morto.
+
+
+FIM DAS PRIMAS DE SAPUCAIA!
+
+
+
+
+UMA SENHORA.
+
+
+Nunca encontro esta senhora que me não lembre a prophecia de uma
+lagartixa ao poeta Heine, subindo os Appeninos: «Dia virá em que as
+pedras serão plantas, as plantas animaes, os animaes homens e os homens
+deuses.» E dá-me vontade de dizer-lhe:--A senhora, D. Camilla, amou
+tanto a mocidade e a belleza, que atrazou o seu relogio, afim de ver se
+podia fixar esses dois minutos de crystal. Não se desconsole, D.
+Camilla. No dia da lagartixa, a senhora será Hebe, deusa da juventude; a
+senhora nos dará a beber o nectar da perennidade com as suas mãos
+eternamente moças.
+
+A primeira vez que a vi, tinha ella trinta e seis annos, posto só
+parecesse trinta e dous, e não passasse da casa dos vinte e nove. Casa é
+um modo de dizer. Não ha castello mais vasto do que a vivenda d'estes
+bons amigos, nem tratamento mais obsequioso do que o que elles sabem dar
+ás suas hospedes. Cada vez que D. Camilla queria ir-se embora, elles
+pediam-lhe muito que ficasse, e ella ficava. Vinham então novos
+folguedos, cavalhadas, musica, dansa, uma successão de cousas bellas,
+inventadas com o unico fim de impedir que esta senhora seguisse o seu
+caminho.
+
+--Mamãi, mamãi, dizia-lhe a filha crescendo, vamos embora, não podemos
+ficar aqui toda a vida.
+
+D. Camilla olhava para ella mortificada, depois sorria, dava-lhe um
+beijo e mandava-a brincar com as outras creanças. Que outras creanças?
+Ernestina estava então entre quatorze e quinze annos, era muito
+espigada, muito quieta, com uns modos naturaes de senhora. Provavelmente
+não se divertiria com as meninas de oito e nove annos; não importa, uma
+vez que deixasse a mãi tranquilla, podia alegrar-se ou enfadar-se. Mas,
+ai triste! ha um limite para tudo, mesmo para os vinte e nove annos. D.
+Camilla resolveu, emfim, despedir-se d'essses dignos amphytriões, e
+fel-o ralada de saudades. Elles ainda instaram por uns cinco ou seis
+mezes de quebra; a bella dama respondeu-lhes que era impossivel e,
+trepando no alazão do tempo, foi alojar-se na casa dos trinta.
+
+Ella era, porém, d'aquella casta de mulheres que riem do sol e dos
+almanaks. Côr de leite, fresca, inalteravel, deixava ás outras o
+trabalho de envelhecer. Só queria o de existir. Cabello negro, olhos
+castanhos e callidos. Tinha as espaduas e o collo feitos de encommenda
+para os vestidos decotados, e assim tambem os braços, que eu não digo
+que eram os da Venus de Milo, para evitar uma vulgaridade, mas
+provavelmente não eram outros. D. Camilla sabia d'isto; sabia que era
+bonita, não só porque lh'o dizia o olhar sorrateiro das outras damas,
+como por um certo instincto que a belleza possue, como o talento e o
+genio. Resta dizer que era casada, que o marido era ruivo, e que os dois
+amavam-se como noivos; finalmente, que era honesta. Não o era, note-se
+bem, por temperamento, mas por principio, por amor ao marido, e creio
+que um pouco por orgulho.
+
+Nenhum defeito, pois, excepto o de retardar os annos; mas é isso um
+defeito? Ha, não me lembra em que pagina da Escriptura, naturalmente nos
+Prophetas, uma comparação dos dias com as aguas de um rio que não voltam
+mais. D. Camilla queria fazer uma represa para seu uso. No tumulto
+d'esta marcha continua entre o nascimento e a morte, ella apegava-se á
+illusão da estabilidade. Só se lhe podia exigir que não fosse ridicula,
+e não o era. Dir-me-ha o leitor que a belleza vive de si mesma, e que a
+preoccupação do calendario mostra que esta senhora vivia principalmente
+com os olhos na opinião. É verdade; mas como quer que vivam as mulheres
+do nosso tempo?
+
+D. Camilla entrou na casa dos trinta e não lhe custou passar adiante.
+Evidentemente o terror era uma superstição. Duas ou tres amigas intimas,
+nutridas de arithemetica, continuavam a dizer que ella perdera a conta
+dos annos. Não advertiam que a natureza era complice no erro, e que aos
+quarenta annos (verdadeiros), D. Camilla trazia um ar de trinta e
+poucos. Restava um recurso: espiar-lhe o primeiro cabello branco, um
+fiosinho de nada, mas branco. Em vão espiavam; o demonio do cabello
+parecia cada vez mais negro.
+
+N'isto enganavam-se. O fio branco estava alli; era a filha de D. Camilla
+que entrava nos dezenove annos, e, por mal de peccados, bonita. D.
+Camilla prolongou, quanto poude, os vestidos adolescentes da filha,
+conservou-a no collegio até tarde, fez tudo para proclamal-a creança. A
+natureza, porem, que não é só immoral, mas tambem illogica, emquanto
+sofreava os annos de uma, afrouxava a redea aos da outra, e Ernestina,
+moça feita, entrou radiante no primeiro baile. Foi uma revelação. D.
+Camilla adorava a filha; saboreou-lhe a gloria a tragos demorados. No
+fundo do copo achou a gotta amarga e fez uma carêta. Chegou a pensar na
+abdicação; mas um grande prodigo de phrases feitas disse-lhe que ella
+parecia a irmã mais velha da filha, e o projecto desfez-se. Foi d'essa
+noite em diante que D. Camilla entrou a dizer a todos que casára muito
+creança.
+
+Um dia, poucos mezes depois, apontou no horisonte o primeiro namorado.
+D. Camilla pensára vagamente n'essa calamidade, sem encaral-a, sem
+apparelhar-se para a defeza. Quando menos esperava, achou um pretendente
+á porta. Interrogou a filha; descobriu-lhe um alvoroço indefinivel, a
+inclinação dos vinte annos, e ficou prostrada. Casal-a era o menos; mas,
+se os seres são como as aguas da Escriptura, que não voltam mais, é
+porque atraz d'elles vêm outros, como atraz das aguas outras aguas; e,
+para definir essas ondas successivas é que os homens inventaram este
+nome de netos. D. Camilla viu imminente o primeiro neto, e determinou
+adial-o. Está claro que não formulou a resolução, como não formulára a
+idéa do perigo. A alma entende-se a si mesma; uma sensação vale um
+raciocinio. As que ella teve foram rapidas, obscuras, no mais intimo do
+seu ser, d'onde não as extrahiu para não ser obrigada a encaral-as.
+
+--Mas que é que você acha de máo no Ribeiro? perguntou-lhe o marido, uma
+noite, á janella.
+
+D. Camilla levantou os hombros.--Acho-lhe o nariz torto, disse.
+
+--Máo! Você está nervosa; fallemos de outra cousa, respondeu o marido.
+E, depois, de olhar uns dous minutos para a rua, cantarolando na
+garganta, tornou ao Ribeiro, que achava um genro aceitavel, e se lhe
+pedisse Ernestina, entendia que deviam ceder-lh'a. Era intelligente e
+educado. Era tambem o herdeiro provavel de uma tia de Cantagallo. E
+depois tinha um coração de ouro. Contavam-se d'elle cousas muito
+bonitas. Na academia, por exemplo... D. Camilla ouviu o resto, batendo
+com a ponta do pé no chão e rufando com os dedos a sonata da
+impaciencia; mas, quando o marido lhe disse que o Ribeiro esperava um
+despacho do ministro de estrangeiros, um logar para os Estados-Unidos,
+não poude ter-se e cortou-lhe a palavra.
+
+--O que? separar-me de minha filha. Não, senhor.
+
+Em que dóse entrára n'este grito o amor materno e o sentimento pessoal,
+é um problema difficil de resolver, principalmente agora, longe dos
+acontecimentos e das pessoas. Supponhamos que em partes eguaes. A
+verdade é que o marido não soube que inventar para defender o ministro
+de estrangeiros, as necessidades diplomaticas, a fatalidade do
+matrimonio, e, não achando que inventar, foi dormir. Dois dias depois
+veiu a nomeação. No terceiro dia, a moça declarou ao namorado que não a
+pedisse ao pai, porque não queria separar-se da familia. Era o mesmo que
+dizer: prefiro a familia ao senhor. É verdade que tinha a voz tremula e
+sumida, e um ar de profunda consternação; mas o Ribeiro viu tão sómente
+a rejeição, e embarcou. Assim acabou a primeira aventura.
+
+D. Camilla padeceu com o desgosto da filha; mas consolou-se depressa.
+Não faltam noivos, reflectiu ella. Para consolar a filha, levou-a a
+passeiar a toda parte. Eram ambas bonitas, e Ernestina tinha a frescura
+dos annos; mas a belleza da mãi era mais perfeita, e apezar dos annos,
+superava a da filha. Não vamos ao ponto de crêr que o sentimento da
+superioridade é que animava D. Camilla a prolongar e repetir os
+passeios. Não: o amor materno, só por si, explica tudo. Mas concedamos
+que animasse um pouco. Que mal ha n'isso? Que mal ha em que um bravo
+coronel defenda nobremente a patria, e as suas dragonas? Nem por isso
+acaba o amor da patria e o amor das mãis.
+
+Mezes depois despontou a orelha de um segundo namorado. D'esta vez era
+um viuvo, advogado, vinte e sete annos. Ernestina não sentiu por elle a
+mesma emoção que o outro lhe dera; limitou-se a aceital-o. D. Camilla
+farejou depressa a nova candidatura. Não podia allegar nada contra elle;
+tinha o nariz recto como a consciencia, e profunda aversão á vida
+diplomatica. Mas haveria outros defeitos, devia haver outros. D. Camilla
+buscou-os com alma; indagou de suas relações, habitos, passado.
+Conseguiu achar umas cousinhas miudas, tão sómente a unha da imperfeição
+humana, alternativas de humor, ausencia de graças intellectuaes, e,
+finalmente, um grande excesso de amor proprio. Foi n'este ponto que a
+bella dama o apanhou. Começou a levantar vagarosamente a muralha do
+silencio; lançou primeiro a camada das pausas, mais ou menos longas,
+depois as phrases curtas, depois os monosyllabos, as distracções, as
+absorpções, os olhares complacentes, os ouvidos resignados, os bocejos
+fingidos por traz da ventarola. Elle não entendeu logo; mas, quando
+reparou que os enfados da mãi coincidiam com as ausencias da filha,
+achou que era alli de mais e retirou-se. Se fosse homem de luta, tinha
+saltado a muralha; mas era orgulhoso e fraco. D. Camilla deu graças aos
+deuses.
+
+Houve um trimestre de respiro. Depois appareceram alguns namoricos de
+uma noite, insectos ephemeros, que não deixaram historia. D. Camilla
+comprehendeu que elles tinham de multiplicar-se, até vir algum decisivo
+que a obrigasse a ceder; mas ao menos, dizia ella a si mesma, queria um
+genro que trouxesse á filha a mesma felicidade que o marido lhe deu. E,
+uma vez, ou para robustecer este decreto da vontade, ou por outro
+motivo, repetiu o conceito em voz alta, embora só ella pudesse ouvil-o.
+Tu, psychologo subtil, pódes imaginar que ella queria convencer-se a si
+mesma; eu prefiro contar o que lhe aconteceu em 186....
+
+Era de manhã. D. Camilla estava ao espelho, a janella aberta, a chacara
+verde e sonora de cigarras e passarinhos. Ella sentia em si a harmonia
+que a ligava ás cousas externas. Só a belleza intellectual é
+independente e superior. A belleza physica é irmã da paysagem. D.
+Camilla saboreava essa fraternidade intima, secreta, um sentimento de
+identidade, uma recordação da vida anterior no mesmo utero divino.
+Nenhuma lembrança desagradavel, nenhuma occurrencia vinha turvar essa
+expansão mysteriosa. Ao contrario, tudo parecia embebel-a de eternidade,
+e os quarenta e dous annos em que ia não lhe pesavam mais do que outras
+tantas folhas de rosa. Olhava para fóra, olhava para o espelho. De
+repente, como se lhe surdisse uma cobra, recuou atterrada. Tinha visto,
+sobre a fonte esquerda, um cabellinho branco. Ainda cuidou que fosse do
+marido; mas reconheceu depressa que não, que era d'ella mesma, um
+telegramma da velhice, que ahi vinha a marchas forçadas. O primeiro
+sentimento foi de prostração. D. Camilla sentiu faltar-lhe tudo, tudo,
+viu-se encanecida e acabada no fim de uma semana.
+
+--Mamãi, mamãi, bradou Ernestina, entrando na saleta. Está aqui o
+camarote que papai mandou.
+
+D. Camilla teve um sobresalto de pudor, e instinctivamente voltou para a
+filha o lado que não tinha o fio branco. Nunca a achou tão graciosa e
+lepida. Fitou-a com saudade. Fitou-a tambem com inveja, e, para abafar
+este sentimento máu, pegou no bilhete de camarote. Era para aquella
+mesma noite. Uma idéa expelle outra; D. Camilla anteviu-se no meio das
+luzes e das gentes, e depressa levantou o coração. Ficando só, tornou a
+olhar para o espelho, e corajosamente arrancou o cabellinho branco, e
+deitou-o á chacara. _Out, damnet spot! Out!_ Mais feliz do que a outra
+lady Macbeth, viu assim desapparecer a nodoa no ar, porque no animo
+d'ella, a velhice era um remorso, e a fealdade um crime. Sae, maldita
+mancha! sae!
+
+Mas, se os remorsos voltam, porque não hão de voltar os cabellos
+brancos? Um mez depois, D. Camilla descobriu outro, insinuado na bella e
+farta madeixa negra, e amputou-o sem piedade. Cinco ou seis semanas
+depois, outro. Este terceiro coincidiu com um terceiro candidato á mão
+da filha, e ambos acharam D. Camilla n'uma hora de prostração. A
+belleza, que lhe supprira a mocidade, parecia-lhe prestes a ir tambem,
+como uma pomba sae em busca da outra. Os dias precipitavam-se. Creanças
+que ella vira ao collo, ou de carrinho empuxado pelas amas, dansavam
+agora nos bailes. Os que eram homens fumavam; as mulheres cantavam ao
+piano. Algumas d'estas apresentavam-lhe os seus _babies_, gorduchos, uma
+segunda geração que mamava, á espera de ir bailar tambem, cantar ou
+fumar, apresentar outros _babies_ a outras pessoas, e assim por diante.
+
+D. Camilla, apenas tergiversou um pouco, acabou cedendo. Que remedio,
+senão aceitar um genro? Mas, como um velho costume não se perde de um
+dia para outro, D. Camilla viu parallelamente, n'aquella festa do
+coração, um scenario e grande scenario. Preparou-se galhardamente, e o
+efeito correspondeu ao esforço. Na egreja, no meio de outras damas; na
+sala, sentada no sophá (o estofo que forrava este movel, assim como o
+papel da parede foram sempre escuros para fazer sobresahir a tez de D.
+Camilla), vestida a capricho, sem o requinte da extrema juventude, mas
+tambem sem a rigidez matronal, um meio termo apenas, destinado a pôr em
+relevo as suas graças outoniças, risonha, e feliz, emfim, a recente
+sogra colheu os melhores suffragios. Era certo que ainda lhe pendia dos
+hombros um retalho de purpura.
+
+Purpura suppõe dynastia. Dynastia exige netos. Restava que o Senhor
+abençoasse a união, e elle abençoou-a, no anno seguinte. D. Camilla
+acostumara-se a idéa; mas era tão penoso abdicar, que ella aguardava o
+neto com amor e repugnancia. Esse importuno embryão, curioso da vida e
+pretencioso, era necessario na terra? Evidentemente, não; mas appareceu
+um dia, com as flores de Setembro. Durante a crise, D. Camilla só teve
+de pensar na filha; depois da crise, pensou na filha e no neto. Só dias
+depois é que poude pensar em si mesma. Emfim, avó. Não havia duvidar;
+era avó. Nem as feições que eram ainda concertadas, nem os cabellos, que
+eram pretos (salvo meia duzia de fios escondidos), podiam por si sós
+denunciar a realidade; mas a realidade existia; ella era, emfim, avó.
+
+Quiz recolher-se; e para ter o neto mais perto de si, chamou a filha
+para casa. Mas a casa não era um mosteiro, e as ruas e os jornaes com os
+seus mil rumores acordavam n'ella os echos de outro tempo. D. Camilla
+rasgou o acto de abdicação e tornou ao tumulto.
+
+Um dia, encontrei-a ao lado de uma preta, que levava ao collo uma
+creança de cinco a seis mezes. D. Camilla segurava na mão o chapellinho
+de sol aberto para cobrir a creança. Encontrei-a oito dias depois, com a
+mesma creança, a mesma preta e o mesmo chapéu de sol. Vinte dias depois,
+e trinta dias mais tarde, tornei a vel-a, entrando para o bond, com a
+preta e a creança.--Você já deu de mamar? dizia ella á preta. Olhe o
+sol. Não vá cahir. Não aperte muito o menino. Acordou? Não mexa com
+elle. Cubra a carinha, etc., etc.
+
+Era o neto. Ella, porém, ia tão apertadinha, tão cuidadosa da creança,
+tão a miudo, tão sem outra senhora, que antes parecia mãi do que avó; e
+muita gente pensava que era mãi. Que tal fosse a intenção de D. Camilla
+não o juro eu. («Não jurarás», MATH. V, 34 ). Tão sómente digo que
+nenhuma outra mãi seria mais desvellada do que D. Camilla com o neto;
+attribuirem-lhe um simples filho era a cousa mais verosimil do mundo.
+
+
+FIM DE UMA SENHORA.
+
+
+
+
+ANECDOTA PECUNIARIA
+
+
+Chama-se Falcão o meu homem. N'aquelle dia--quatorze de Abril de
+1870--quem lhe entrasse em casa, ás dez horas da noite, vel-o-hia
+passear na sala, em mangas de camisa, calça preta e gravata branca,
+resmungando, gesticulando, suspirando, evidentemente afflicto. Ás vezes,
+sentava-se; outras, encostava-se á janella, olhando para a praia, que
+era a da Gambôa. Mas, em qualquer logar ou attitude, demorava-se pouco
+tempo.
+
+--Fiz mal, dizia elle, muito mal. Tão minha amiga que ella era! tão
+amorosa! Ia chorando, coitadinha! Fiz mal, muito mal... Ao menos, que
+seja feliz!
+
+Se eu disser que este homem vendeu uma sobrinha, não me hão de crer; se
+descer a definir o preço, dez contos de réis, voltar-me-hão as costas
+com desprezo e indignação. Entretanto, basta ver este olhar felino,
+estes dois beiços, mestres de calculo, que, ainda fechados, parecem
+estar contando alguma cousa, para adivinhar logo que a feição capital do
+nosso homem é a voracidade do lucro. Entendamo-nos: elle faz arte pela
+arte, não ama o dinheiro pelo que elle póde dar, mas pelo que é em si
+mesmo! Ninguem lhe vá fallar dos regalos da vida. Não tem cama fofa, nem
+mesa fina, nem carruagem, nem commenda. Não se ganha dinheiro para
+esbanjal-o, dizia elle. Vive de migalhas; tudo o que amontoa é para a
+contemplação. Vai muitas vezes á burra, que está na alcova de dormir,
+com o unico fim de fartar os olhos nos rolos de ouro e maços de titulos.
+Outras vezes, por um requinte de erotismo pecuniario, contempla-os só de
+memoria. N'este particular, tudo o que eu pudesse dizer, ficaria abaixo
+de uma palavra d'elle mesmo, em 1857.
+
+Já então millionario, ou quasi, encontrou na rua dois meninos, seus
+conhecidos, que lhe perguntaram se uma nota de cinco mil réis, que lhes
+dera um tio, era verdadeira. Corriam algumas notas falsas, e os pequenos
+lembraram-se d'isso em caminho. Falcão ia com um amigo. Pegou tremulo na
+nota, examinou-a bem, virou-a, revirou-a...
+
+--É falsa? perguntou com impaciencia um dos meninos.
+
+--Não; é verdadeira.
+
+--Dê cá, disseram ambos.
+
+Falcão dobrou a nota vagarosamente, sem tirar-lhe os olhos de cima;
+depois, restituiu-a aos pequenos, e, voltando-se para o amigo, que
+esperava por elle, disse-lhe com a maior candura do mundo:
+
+--Dinheiro, mesmo quando não é da gente, faz gosto vêr.
+
+Era assim que elle amava o dinheiro, até á contemplação desinteressada.
+Que outro motivo podia leval-o a parar, diante das vitrinas dos
+cambistas, cinco, dez, quinze minutos, lambendo com os olhos os montes
+de libras e francos, tão arrumadinhos e amarellos? O mesmo sobresalto
+com que pegou na nota de cinco mil réis, era um rasgo subtil, era o
+terror da nota falsa. Nada aborrecia tanto, como os moedeiros falsos,
+não por serem criminosos, mas prejudiciaes, por desmoralisarem o
+dinheiro bom.
+
+A linguagem do Falcão valia um estudo. Assim é que, um dia, em 1864,
+voltando do enterro de um amigo, referiu o explendor do prestito,
+exclamando com enthusiasmo:--«Pegavam no caixão tres mil contos!» E,
+como um dos ouvintes não o entendesse logo, concluiu do espanto, que
+duvidava d'elle, e discriminou a affirmação:--«Fulano quatro centos,
+Sicrano seiscentos... Sim, senhor, seiscentos; ha dois annos, quando
+desfez a sociedade com o sogro, ia em mais de quinhentos; mas
+supponhamos quinhentos...» E foi por diante, demonstrando, sommando e
+concluindo:--«Justamente, tres mil contos!»
+
+Não era casado. Casar era botar dinheiro fóra. Mas os annos passaram, e
+aos quarenta e cinco entrou a sentir uma certa necessidade moral, que
+não comprehendeu logo, e era a saudade paterna. Não mulher, não
+parentes, mas um filho ou uma filha, se elle o tivesse, era como receber
+um patacão de ouro. Infelizmente, esse outro capital devia ter sido
+accumulado em tempo; não podia começal-o a ganhar tão tarde. Restava a
+loteria; a loteria deu-lhe o premio grande.
+
+Morreu-lhe o irmão, e tres mezes depois a cunhada, deixando uma filha de
+onze annos. Elle gostava muito d'esta e de outra sobrinha, filha de uma
+irmã viuva; dava-lhes beijos, quando as visitava; chegava mesmo ao
+delirio de levar-lhes, uma ou outra vez, biscoitos. Hesitou um pouco,
+mas, emfim, recolheu a orphã; era a filha cobiçada. Não cabia em si de
+contente; durante as primeiras semanas, quasi não sahia de casa, ao pé
+d'ella, ouvindo-lhe historias e tolices.
+
+Chamava-se Jacintha, e não era bonita; mas tinha a voz melodiosa e os
+modos fagueiros. Sabia ler e escrever; começava a aprender musica.
+Trouxe o piano comsigo, o methodo e alguns exercicios; não pôde trazer o
+professor, porque o tio entendeu que era melhor ir praticando o que
+aprendera, e um dia... mais tarde... Onze annos, doze annos, treze
+annos, cada anno que passava era mais um vinculo que atava o velho
+solteirão á filha adoptiva, e vice-versa. Aos treze, Jacintha mandava na
+casa; aos dezesete era verdadeira dona. Não abusou do dominio; era
+naturalmente modesta, frugal, poupada.
+
+--Um anjo! dizia o Falcão ao Chico Borges.
+
+Este Chico Borges tinha quarenta annos, e era dono de um trapiche. Ia
+jogar com o Falcão, á noite. Jacintha assistia ás partidas. Tinha então
+dezoito annos; não era mais bonita, mas diziam todos «que estava
+enfeitando muito.» Era pequenina, e o trapicheiro adorava as mulheres
+pequeninas. Corresponderam-se, o namoro fez-se paixão.
+
+--Vamos a ellas, dizia o Chico Borges ao entrar, pouco depois de
+ave-marias.
+
+As cartas eram o chapéu de sol dos dous namorados. Não jogavam a
+dinheiro; mas o Falcão tinha tal sêde ao lucro, que contemplava os
+proprios tentos, sem valor, e contava-os de dez em dez minutos, para ver
+se ganhava ou perdia. Quando perdia, cahia-lhe o rosto n'um desalento
+incuravel, e elle recolhia-se pouco a pouco ao silencio. Se a sorte
+teimava em perseguil-o, acabava o jogo, e levantava-se tão melancolico e
+cego, que a sobrinha e o parceiro podiam apertar a mão, uma, duas, tres
+vezes, sem que elle visse cousa nenhuma.
+
+Era isto em 1869. No principio de 1870 Falcão propoz ao outro uma venda
+de acções. Não as tinha; mas farejou uma grande baixa, e contava ganhar
+de um só lance trinta a quarenta contos ao Chico Borges. Este
+respondeu-lhe finamente que andava pensando em offerecer-lhe a mesma
+cousa. Uma vez que ambos queriam vender e nenhum comprar, podiam
+juntar-se e propor a venda a um terceiro. Acharam o terceiro, e fecharam
+o contracto a sessenta dias. Falcão estava tão contente, ao voltar do
+negocio, que o socio abriu-lhe o coração e pediu-lhe a mão de Jacintha.
+Foi o mesmo que, se de repente, começasse a fallar turco. Falcão parou,
+embasbacado, sem entender. Que lhe desse a sobrinha? Mas então...
+
+--Sim; confesso a vossê que estimaria muito casar com ella, e ella...
+penso que tambem estimaria casar comigo.
+
+--Qual, nada! interrompeu o Falcão. Não, senhor; está muito criança, não
+consinto.
+
+--Mas reflicta...
+
+--Não reflicto, não quero.
+
+Chegou á casa irritado e aterrado. A sobrinha afagou-o tanto para saber
+o que era, que elle acabou contando tudo, e chamando-lhe esquecida e
+ingrata. Jacintha empallideceu; amava os dous, e via-os tão dados, que
+não imaginou nunca esse contraste de affeições. No quarto chorou á
+larga; depois escreveu uma carta ao Chico Borges pedindo-lhe pelas cinco
+chagas de Nosso Senhor Jesus Christo, que não fizesse barulho nem
+brigasse com o tio; dizia-lhe que esperasse, e jurava-lhe um amor
+eterno.
+
+Não brigaram os dois parceiros; mas as visitas foram naturalmente mais
+escassas e frias. Jacintha não vinha á sala, ou retirava-se logo. O
+terror do Falcão era enorme. Elle amava a sobrinha com um amor de cão,
+que persegue e morde aos extranhos. Queria-a para si, não como homem,
+mas como pai. A paternidade natural dá forças para o sacrificio da
+separação; a paternidade d'elle era de emprestimo, e, talvez, por isso
+mesmo, mais egoista. Nunca pensara em perdel-a; agora, porém, eram
+trinta mil cuidados, janellas fechadas, advertencias á preta, uma
+vigilancia perpetua, um espiar os gestos e os ditos, uma campanha de D.
+Bartholo.
+
+Entretanto, o sol, modelo de funccionarios, continuou a servir
+pontualmente os dias, um a um, até chegar aos dois mezes do prazo
+marcado para a entrega das acções. Estas deviam baixar, segundo a
+previsão dos dois; mas as acções, como as loterias e as batalhas, zombam
+dos calculos humanos. N'aquelle caso, além de zombaria, houve crueldade,
+porque nem baixaram, nem ficaram ao par; subiram até converter o
+esperado lucro de quarenta contos n'uma perda de vinte.
+
+Foi aqui que o Chico Borges teve uma inspiração de genio. Na vespera,
+quando o Falcão, abatido e mudo, passeava na sala o seu desapontamento,
+propoz elle custear todo o _deficit_, se lhe désse a sobrinha. Falcão
+teve um deslumbramento.
+
+--Que eu...?
+
+--Isso mesmo, interrompeu o outro, rindo.
+
+--Não, não...
+
+Não quiz; recusou tres e quatro vezes. A primeira impressão fôra de
+alegria, eram os dez contos na algibeira. Mas a idéa de separar-se de
+Jacintha era insupportavel, e recusou. Dormiu mal. De manhã, encarou a
+situação, pesou as cousas, considerou que, entregando Jacintha ao outro,
+não a perdia inteiramente, ao passo que os dez contos iam-se embora. E,
+depois, se ella gostava d'elle e elle d'ella, porque razão separal-os?
+Todas as filhas casam-se, e os pais contentam-se de as vêr felizes.
+Correu á casa do Chico Borges, e chegaram a accordo.
+
+--Fiz mal, muito mal, bradava elle na noite do casamento. Tão minha
+amiga que ella era! Tão amorosa! Ia chorando, coitadinha... Fiz mal,
+muito mal.
+
+Cessára o terror dos dez contos; começára o fastio da solidão. Na manhã
+seguinte, foi visitar os noivos. Jacintha não se limitou a regalal-o com
+um bom almoço, encheu-o de mimos e affagos; mas nem estes, nem o almoço
+lhe restituiram a alegria. Ao contrario, a felicidade dos noivos
+entristeceu-o mais. Ao voltar para casa não achou a carinha meiga de
+Jacintha. Nunca mais lhe ouviria as cantigas de menina e moça; não seria
+ella quem lhe faria o chá, quem lhe traria, á noite, quando elle
+quizesse ler, o velho tomo ensebado do _Saint-Clair das Ilhas_, dadiva
+de 1850.
+
+--Fiz mal, muito mal...
+
+Para remediar o mal feito, transferiu as cartas para a casa da sobrinha,
+e ia lá jogar, á noute, com o Chico Borges. Mas a fortuna, quando
+flagella um homem, corta-lhe todas as vazas. Quatro mezes depois, os
+recem-casados foram para a Europa; a solidão alargou-se de toda a
+extensão do mar. Falcão contava então cincoenta e quatro annos. Já
+estava mais consolado do casamento de Jacintha; tinha mesmo o plano de
+ir morar com elles, ou de graça, ou mediante uma pequena retribuição,
+que calculou ser muito mais economico do que a despeza de viver só. Tudo
+se esboroou; eil-o outra vez na situação de oito annos antes, com a
+differença que a sorte arrancára-lhe a taça entre dous goles.
+
+Vai senão quando cai-lhe outra sobrinha em casa. Era a filha da irmã
+viuva, que morreu e lhe pediu a esmola de tomar conta d'ella. Falcão não
+prometteu nada, por que um certo instincto o levava a não prometter
+cousa nenhuma a ninguem, mas a verdade é que recolheu a sobrinha, tão
+depressa a irmã fechou os olhos. Não teve constrangimento; ao contrario,
+abriu-lhe as portas de casa, com um alvoroço de namorado, e quasi
+abençoou a morte da irmã. Era outra vez a filha perdida.
+
+--Esta ha de fechar-me os olhos, dizia elle comsigo.
+
+Não era facil. Virginia tinha dezoito annos, feições lindas e originaes;
+era grande e vistosa. Para evitar que lh'a levassem, Falcão começou por
+onde acabara da primeira vez:--janellas cerradas, advertencias á preta,
+raros passeios, só com elle e de olhos baixos. Virginia não se mostrou
+enfadada.--Nunca fui janelleira, dizia ella, e acho muito feio que uma
+moça viva com o sentido na rua. Outra cautella do Falcão foi não trazer
+para casa senão parceiros de cincoenta annos para cima ou casados.
+Emfim, não cuidou mais da baixa das acções. E tudo isso era
+desnecessario, porque a sobrinha não cuidava realmente senão d'elle e da
+casa. Ás vezes, como a vista do tio começava a diminuir muito, lia-lhe
+ella mesma alguma pagina do _Saint-Clair das Ilhas_. Para supprir os
+parceiros, quando elles faltavam, apprendeu a jogar cartas, e,
+entendendo que o tio gostava de ganhar, deixava-se sempre perder. Ia
+mais longe: quando perdia muito, fingia-se zangada ou triste, com o
+unico fim de dar ao tio um accrescimo de prazer. Elle ria então á larga,
+mofava d'ella, achava-lhe o nariz comprido, pedia um lenço para
+enxugar-lhe as lagrimas; mas não deixava de contar os seus tentos de dez
+em dez minutos, e se algum cahia no chão (eram grãos de milho) descia a
+vela para apanhal-o.
+
+No fim de tres mezes, Falcão adoeceu. A molestia não foi grave nem
+longa; mas o terror da morte apoderou-se-lhe do espirito, e foi então
+que se pôde vêr toda a affeição que elle tinha á moça. Cada visita que
+se lhe chegava, era recebida com rispidez, ou pelo menos com sequidão.
+Os mais intimos padeciam mais, porque elle dizia-lhes brutalmente que
+ainda não era cadaver, que a carniça ainda estava viva, que os urubús
+enganavam-se de cheiro, etc. Mas nunca Virginia achou n'elle um só
+instante de máu humor. Falcão obedecia-lhe em tudo, com uma passividade
+de creança, e quando ria, é porque ella o fazia rir.
+
+--Vamos, tome o remedio, deixe-se disso, vosmecê agora é meu filho...
+
+Falcão sorria e bebia a droga. Ella sentava-se ao pé da cama,
+contando-lhe historias, espiava o relogio para dar-lhe os caldos ou a
+gallinha, lia-lhe o sempiterno _Saint-Clair_. Veiu a convalecença.
+Falcão sahiu a alguns passeios, acompanhado de Virginia. A prudencia com
+que esta, dando-lhe o braço, ia mirando as pedras da rua, com medo de
+encarar os olhos de algum homem, encantavam o Falcão.
+
+--Esta ha de fechar-me os olhos, repetia elle comsigo mesmo. Um dia,
+chegou a pensal-o em voz alta:--Não é verdade que você me ha de fechar
+os olhos?
+
+--Não diga tolices!
+
+Comquanto estivesse na rua, elle parou, apertou-lhe muito as mãos,
+agradecido, não achando que dizer. Se tivesse a faculdade de chorar,
+ficaria provavelmente com os olhos humidos. Chegando á casa? Virginia
+correu ao quarto para reler uma carta que lhe entregára na vespera uma
+D. Bernarda, amiga de sua mãi. Era datada de New-York, e trazia por
+unica assignatura este nome: Reginaldo. Um dos trechos dizia assim: «Vou
+d'aqui no paquete de 25. Espera-me sem falta. Não sei ainda se irei
+ver-te logo ou não. Teu tio deve lembrar-se de mim; viu-me em casa de
+meu tio Chico Borges, no dia do casamento de tua prima...»
+
+Quarenta dias depois, desembarcava este Reginaldo, vindo de New-York,
+com trinta annos feitos e trezentos mil dollars ganhos. Vinte e quatro
+horas depois visitou o Falcão, que o recebeu apenas com polidez. Mas o
+Reginaldo era fino e pratico; atinou com a principal corda do homem, e
+vibrou-a. Contou-lhe os prodigios de negocio nos Estados-Unidos, as
+hordas de moedas que corriam de um a outro dos dous oceanos. Falcão
+ouvia deslumbrado, e pedia mais. Então o outro fez-lhe uma extensa
+computação das companhias e bancos, acções, saldos de orçamento publico,
+riquezas particulares, receita municipal de New-York; descreveu-lhe os
+grandes palacios do commercio...
+
+--Realmente, é um grande paiz, dizia o Falcão, de quando em quando. E
+depois de tres minutos de reflexão:--Mas, pelo que o senhor conta, só ha
+ouro?
+
+--Ouro só, não; ha muita prata e papel; mas alli papel e ouro é a mesma
+cousa. E moedas de outras nações? Hei de mostrar-lhe uma collecção que
+trago. Olhe; para vêr o que é aquillo basta pôr os olhos em mim. Fui
+para lá pobre, com vinte e tres annos; no fim de sete annos, trago
+seiscentos contos.
+
+Falcão estremeceu:--Eu, com a sua edade, confessou elle, mal chegaria a
+cem.
+
+Estava encantado. Reginaldo disse-lhe que precisava de duas ou tres
+semanas, para lhe contar os milagres do dollar.
+
+--Como é que o senhor lhe chama?
+
+--Dollar.
+
+--Talvez não acredite que nunca vi essa moeda.
+
+Reginaldo tirou do bolso do collete um dollar e mostrou-lh'o. Falcão,
+antes de lhe pôr a mão, agarrou-o com os olhos. Como estava um pouco
+escuro, levantou-se e foi até á janella, para examinal-o bem--de ambos
+os lados; depois restituiu-o, gabando muito o desenho e a cunhagem, e
+accrescentando que os nossos antigos patacões eram bem bonitos.
+
+As visitas repetiram-se. Reginaldo assentou de pedir a moça. Esta,
+porém, disse-lhe que era preciso ganhar primeiro as boas graças do tio;
+não casaria contra a vontade d'elle. Reginaldo não desanimou. Tratou de
+redobrar as finezas; abarrotou o tio de dividendos fabulosos.
+
+--A proposito, o senhor nunca me mostrou a sua collecção de moedas,
+disse-lhe um dia o Falcão.
+
+--Vá amanhã á minha casa.
+
+Falcão foi. Reginaldo mostrou-lhe a collecção mettida n'um movel
+envidraçado por todos os lados. A sorpreza de Falcão foi extraordinaria;
+esperava uma caixinha com um exemplar de cada moeda, e achou montes de
+ouro, de prata, de bronze e de cobre. Falcão mirou-as primeiro de um
+olhar universal e collectivo; depois, começou a fixal-as
+especificadamente. Só conheceu as libras, os dollars e os francos; mas o
+Reginaldo nomeou-as todas: florins, corôas, rublos, drachmas, piastras,
+pesos, rupias, toda a numismatica do trabalho, concluiu elle
+poeticamente.
+
+--Mas que paciencia a sua para ajuntar tudo isto! disse elle.
+
+--Não fui eu que ajuntei, replicou o Reginaldo; a collecção pertencia ao
+espolio de um sujeito de Philadelphia. Custou-me uma bagatella:--cinco
+mil dollars.
+
+Na verdade, valia mais. Falcão sahiu d'alli com a collecção na alma;
+fallou d'ella á sobrinha, e, imaginariamente, desarrumou e tornou a
+arrumar as moedas, como um amante desgrenha a amante para toucal-a outra
+vez. De noite sonhou que era um florim, que um jogador o deitava á mesa
+do _lansquenet_, e que elle trazia comsigo para a algibeira do jogador
+mais de duzentos florins. De manhã, para consolar-se, foi contemplar as
+proprias moedas que tinha na burra; mas não se consolou nada. O melhor
+dos bens é o que se não possue.
+
+D'alli a dias, estando em casa, na sala, pareceu-lhe ver uma moeda no
+chão. Inclinou-se a apanhal-a; não era moeda, era uma simples carta.
+Abriu a carta distrahidamente e leu-a espantado: era de Reginaldo a
+Virginia...
+
+--Basta! interrompe-me o leitor; adivinho o resto. Virginia casou com o
+Reginaldo, as moedas passaram ás mãos do Falcão, e eram falsas...
+
+Não, senhor, eram verdadeiras. Era mais moral que, para castigo do nosso
+homem, fossem falsas; mas, ai de mim! eu não sou Seneca, não passo de um
+Suetonio que contaria dez vezes a morte de Cezar, se elle resussitasse
+dez vezes, pois não tornaria á vida, se não para tornar ao imperio.
+
+
+FIM DE UMA ANECDOTA PECUNIARIA.
+
+
+
+
+FULANO
+
+
+Venha o leitor commigo assistir á abertura do testamento do meu amigo
+Fulano Beltrão. Conheceu-o? Era um homem de cerca de sessenta annos.
+Morreu hontem, dous de Janeiro de 1884, ás onze horas e trinta minutos
+da noite. Não imagina a força de animo que mostrou em toda a molestia.
+Cahiu na vespera de finados, e a principio suppunhamos que não fosse
+nada; mas a doença persistiu, e ao fim de dous mezes e poucos dias a
+morte o levou.
+
+Eu confesso-lhe que estou curioso de ouvir o testamento. Ha de conter
+por força algumas determinações de interesse geral e honrosas para elle.
+Antes de 1863 não seria assim, porque até então era um homem muito
+mettido comsigo, reservado, morando no caminho do Jardim Botanico, para
+onde ia de omnibus ou de mula. Tinha a mulher e o filho vivos, a filha
+solteira, com treze annos. Foi n'esse anno que elle começou a occupar-se
+com outras cousas, além da familia, revellando um espirito universal e
+generoso. Nada posso affirmar-lhe sobre a causa disto. Creio que foi uma
+apologia de amigo, por occasião d'elle fazer quarenta annos. Fulano
+Beltrão leu no _Jornal do Commercio_, no dia cinco de Março de 1864, um
+artigo anonymo em que se lhe diziam cousas bellas e exactas:--bom pai,
+bom esposo, amigo pontual, cidadão digno, alma levantada e pura. Que se
+lhe fizesse justiça, era muito; mas anonymamente, era raro.
+
+--Você verá, disse Fulano Beltrão á mulher, você verá que isto é do
+Xavier ou do Castro; logo rasgaremos o capote.
+
+Castro e Xavier eram dous habituados da casa, parceiros constantes do
+voltarete e velhos amigos do meu amigo. Costumavam dizer cousas amaveis,
+no dia cinco de março, mas era ao jantar, na intimidade da familia,
+entre quatro paredes; impressos, era a primeira vez que elle se benzia
+com elogios. Póde ser que me engane; mas estou que o expectaculo da
+justiça, a prova material de que as boas qualidades e as boas acções não
+morrem no escuro, foi o que animou o meu amigo a dispersar-se, a
+apparecer, a divulgar-se, a dar á collectividade humana um pouco das
+virtudes com que nasceu. Considerou que milhares de pessoas estariam
+lendo o artigo, á mesma hora em que o lia tambem; imaginou que o
+commentavam, que interrogavam, que confirmavam, ouviu mesmo, por um
+phenomeno de allucinação que a sciencia ha de explicar, e que não é
+raro, ouviu distinctamente algumas vozes do publico. Ouviu que lhe
+chamavam homem de bem, cavalheiro distincto, amigo dos amigos,
+laborioso, honesto, todos os qualificativos que elle vira empregados em
+outros, e que na vida de bicho do matto em que ia, nunca presumiu que
+lhe fossem--typographicamente--applicados.
+
+--A imprensa é uma grande invenção, disse elle á mulher.
+
+Foi ella, D. Maria Antonia, quem rasgou o capote; o artigo era do
+Xavier. Declarou este que só em attenção á dona casa confessava a
+auctoria; e accrescentou que a manifestação não sahira completa, porque
+a idéa d'elle era que o artigo fosse dado em todos os jornaes, não o
+tendo feito por havel-o acabado ás sete horas da noite. Não houve tempo
+de tirar cópias. Fulano Beltrão emendou essa falta, se falta se lhe
+podia chamar, mandando transcrever o artigo no _Diario do Rio_ e o
+_Correio Mercantil_.
+
+Quando mesmo, porém, este facto não desse causa á mudança de vida do
+nosso amigo, fica uma cousa de pé, a saber, que daquelle anno em diante,
+e propriamente do mez de março, é que elle começou a apparecer mais. Era
+até então um casmurro, que não ia ás assembléas das companhias, não
+votava nas eleições politicas, não frequentava theatros, nada,
+absolutamente nada. Já n'aquelle mez de março, a vinte e dous ou vinte
+ou vinte e tres, presenteou a Santa Casa da Misericordia com um bilhete
+da grande loteria de Hespanha, e recebeu uma honrosa carta do provedor,
+agradecendo em nome dos pobres. Consultou a mulher e os amigos, se devia
+publicar a carta ou guardal-a, parecendo-lhe que não a publicar era uma
+desattenção. Com effeito, a carta foi dada a vinte e seis de março, em
+todas as folhas, fazendo uma dellas commentarios desenvolvidos ácerca da
+piedade do doador. Das pessoas que leram esta noticia, muitas
+naturalmente ainda se lembravam do artigo do Xavier, e ligaram as duas
+occurencias: «Fulano Beltrão é aquelle mesmo que, etc.» primeiro
+alicerce da reputação de um homem.
+
+É tarde, temos de ir ouvir o testamento, não posso estar a contar-lhe
+tudo. Digo-lhe summariamente que as injustiças da rua começaram a ter
+n'elle um vingador activo e discursivo; que as miserias, principalmente
+as miserias dramaticas, filhas de um incendio ou inundação, acharam no
+meu amigo a iniciativa dos soccorros que, em taes casos, devem ser
+promptos e publicos. Ninguem como elle para um desses movimentos. Assim
+tambem com as alforias de escravos. Antes da lei de 28 de setembro de
+1871, era muito commum apparecerem na Praça do Commercio crianças
+escravas, para cuja liberdade se pedia o favor dos negociantes. Fulano
+Beltrão iniciava tres quartas partes das subscripções, com tal exito,
+que em poucos minutos ficava o preço coberto.
+
+A justiça que se lhe fazia, animava-o, e até lhe trazia lembranças que,
+sem ella, é possivel que nunca lhe tivessem acudido. Não fallo do baile
+que elle deu para celebrar a victoria de Riachuelo, porque era um baile
+planeado antes de chegar a noticia da batalha, e elle não fez mais do
+que attribuir-lhe um motivo mais alto do que a simples recreação de
+familia, metter o retrato do almirante Barroso no meio de um trophéu de
+armas navaes e bandeiras no salão de honra, em frente ao retrato do
+imperador, e fazer, á ceia, alguns brindes patrioticos, como tudo consta
+dos jornaes de 1865.
+
+Mas aqui vai, por exemplo, um caso bem caracteristico da influencia que
+a justiça dos outros póde ter no nosso procedimento. Fulano Beltrão
+vinha um dia do thesouro, aonde tinha ido tratar de umas decimas. Ao
+passar pela egreja da Lampadosa, lembrou-se que fôra alli baptisado; e
+nenhum homem tem uma recordação d'estas, sem remontar o curso dos annos
+e dos acontecimentos, deitar-se outra vez no collo materno, rir e
+brincar, como nunca mais se ri nem brinca. Fulano Beltrão não escapou a
+este effeito; atravessou o adro, entrou na egreja, tão singela, tão
+modesta, e para elle tão rica e linda. Ao sahir, tinha uma resolução
+feita, que pôz por obra dentro de poucos dias: mandou de presente á
+Lampadosa um soberbo castiçal de prata, com duas datas, além do nome do
+doador--a data da doação e a do baptisado. Todos os jornaes deram esta
+noticia, e até a receberam em duplicata, porque a administração da
+egreja entendeu (com muita razão) que tambem lhe cumpria divulgal-a aos
+quatro ventos.
+
+No fim de tres annos, ou menos, entrára o meu amigo nas cogitações
+publicas; o nome d'elle era lembrado, mesmo quando nenhum successo
+recente vinha suggeril-o, e não só lembrado como adjectivado. Já se lhe
+notava a ausencia em alguns logares. Já o iam buscar para outros. D.
+Maria Antonia via assim entrar-lhe no Eden a serpente biblica, não para
+tental-a, mas para tentar a Adão. Com effeito, o marido ia a tantas
+partes, cuidava de tantas cousas, mostrava-se tanto na rua do Ouvidor, á
+porta do Bernardo, que afrouxou a convivencia antiga da casa. D. Maria
+Antonia disse-lh'o. Elle concordou que era assim, mas demonstrou-lhe que
+não podia ser de outro modo, e, em todo caso, se mudára de costumes, não
+mudára de sentimentos. Tinha obrigações moraes com a sociedade; ninguem
+se pertence exclusivamente; d'ahi um pouco de dispersão dos seus
+cuidados. A verdade é que tinham vivido demasiadamente reclusos; não era
+justo nem bonito. Não era mesmo conveniente; a filha caminhava para a
+edade do matrimonio, e casa fechada cria morrinha de convento; por
+exemplo, um carro, porque é que não teriam um carro? D. Maria Antonia
+sentiu um arrepio de prazer, mas curto; protestou logo, depois de um
+minuto de reflexão.
+
+--Não; carro para que? Não; deixemo-nos de carro.
+
+--Já está comprado, mentiu o marido.
+
+Mas aqui chegamos ao juizo da provedoria. Não veiu ainda ninguem;
+esperemos á porta. Tem pressa? São vinte minutos no maximo. Pois é
+verdade, comprou uma linda victoria; e, para quem, só por modestia,
+andou tantos annos ás costas de mula ou apertado n'um omnibus, não era
+facil acostumar-se logo ao novo vehiculo. A isso attribuo eu as
+attitudes salientes e inclinadas com que elle andava, nas primeiras
+semanas, os olhos que estendia a um lado e outro, á maneira de pessoa
+que procura alguem ou uma casa. Afinal acostumou-se; passou a usar das
+attitudes reclinadas, embora sem um certo sentimento de indifferença ou
+despreoccupação, que a mulher e a filha tinham muito bem, talvez por
+serem mulheres. Ellas, aliás, não gostavam de sahir de carro; mas elle
+teimava tanto que sahissem, que fossem a toda a parte, e até a parte
+nenhuma, que não tinham remedio senão obedecer-lhe; e, na rua, era
+sabido, mal vinha ao longe a ponta do vestido de duas senhoras, e na
+almofada um certo cocheiro, toda a gente dizia logo:--ahi vem a familia
+de Fulano Beltrão. E isto mesmo, sem que elle talvez o pensasse,
+tornava-o mais conhecido.
+
+No anno de 1868 deu entrada na politica. Sei do anno porque coincidiu
+com a queda dos liberaes e a subida dos conservadores. Foi em março ou
+abril de 1868 que elle declarou adherir á situação, não á socapa, mas
+estrepitosamente. Este foi, talvez, o ponto mais fraco da vida do meu
+amigo. Não tinha idéas politicas; quando muito, dispunha de um d'esses
+temperamentos que substituem as idéas, e fazem crer que um homem pensa,
+quando simplesmente transpira. Cedeu, porém, a uma allucinação de
+momento. Viu-se na camara vibrando um áparte, ou inclinado sobre a
+balaustrada, em conversa com o presidente do conselho, que sorria para
+elle, n'uma intimidade grave de governo. E ahi é que a galeria, na
+exacta accepção do termo, tinha de o contemplar. Fez tudo o que poude
+para entrar na camara; a meio caminho cahiu a situação. Voltando do
+atordoamento, lembrou-se de affirmar ao Itaborahy o contrario do que
+dissera ao Zacarias, ou antes a mesma cousa; mas perdeu a eleição, e deu
+de mão á politica. Muito mais acertado andou, mettendo-se na questão da
+maçonaria com os prelados. Deixára-se estar quedo, a principio; por um
+lado, era maçon; por outro, queria respeitar os sentimentos religiosos
+da mulher. Mas o conflicto tomou taes proporções que elle não podia
+ficar calado; entrou n'elle com o ardor, a expansão, a publicidade que
+mettia em tudo; celebrou reuniões em que fallou muito da liberdade de
+consciencia e do direito que assistia ao maçon de enfiar uma opa;
+assignou protestos, representações, felicitações, abriu a bolsa e o
+coração, escancaradamente.
+
+Morreu-lhe a mulher em 1878. Ella pediu-lhe que a enterrasse sem
+apparato, e elle assim o fez, porque a amava deveras e tinha a sua
+ultima vontade como um decreto do céu. Já então perdera o filho; e a
+filha, casada, achava-se na Europa. O meu amigo dividiu a dôr com o
+publico; e, se enterrou a mulher sem apparato, não deixou de lhe mandar
+esculpir na Italia um magnifico mausoléu, que esta cidade admirou
+exposto, na rua do Ouvidor, durante perto de um mez. A filha ainda veiu
+assistir á inauguração. Deixei de os ver uns quatro annos. Ultimamente
+surgiu a doença, que no fim de pouco mais de dous mezes o levou d'esta
+para a melhor. Note que, até começar a agonia, nunca perdeu a razão nem
+a força d'alma. Conversava com as visitas, mandava-as relacionar, não
+esquecia mesmo noticiar ás que chegavam, as que acabavam de sahir; cousa
+inutil, porque uma folha amiga publicava-as todas. Na manhã do dia em
+que morreu ainda ouviu lêr os jornaes, e n'um d'elles uma pequena
+communicação relativamente á sua molestia, o que de algum modo pareceu
+reanimal-o. Mas para a tarde enfraqueceu um pouco; á noite expirou.
+
+Vejo que está aborrecido. Realmente demoram-se... Espere; creio que são
+elles. São; entremos. Cá está o nosso magistrado, que começa a ler o
+testamento. Está ouvindo? Não era preciso esta minuciosa genealogia,
+excedente das praticas tabelliôas; mas isto mesmo de contar a familia
+desde o quarto avô prova o espirito exacto e paciente do meu amigo. Não
+esquecia nada. O ceremonial do sahimento é longo e complicado, mas
+bonito. Começa agora a lista dos legados. São todos pios; alguns
+industriaes. Vá vendo a alma do meu amigo. Trinta contos...
+
+Trinta contos para que? Para servir de começo a uma subscripção publica
+destinada a erigir uma estatua a Pedro Alvares Cabral. «Cabral, diz alli
+o testamento, não póde ser olvidado dos brazileiros, foi o precursor do
+nosso imperio». Recommenda que a estatua seja de bronze, com quatro
+medalhões no pedestal, a saber, o retrato do bispo Coutinho, presidente
+da Constituinte, o de Gonzaga, chefe da conjuração mineira, e o de dous
+cidadãos da presente geração «notáveis por seu patriotismo e
+liberalidade» á escolha da commissão, que elle mesmo nomeou para levar a
+empreza a cabo.
+
+Que ella se realise, não sei; falta-nos a perseverança do fundador da
+verba. Dado, porém, que a commissão se desempenhe da tarefa, e que este
+sol americano ainda veja erguer-se a estatua de Cabral, é da nossa honra
+que elle contemple n'um dos medalhões o retrato do meu finado amigo. Não
+lhe parece? Bem, o magistrado acabou, vamos embora.
+
+
+FIM DO FULANO.
+
+
+
+
+A SEGUNDA VIDA
+
+
+Monsenhor Caldas interrompeu a narração do desconhecido:--Dá licença? é
+só um instante. Levantou-se, foi ao interior da casa, chamou o preto
+velho que o servia, e disse-lhe em voz baixa:
+
+--João, vae alli á estação de urbanos, falla da minha parte ao
+commandante, e pede-lhe que venha cá com um ou dous homens, para
+livrar-me de um sujeito doudo. Anda, vae depressa.
+
+E, voltando á sala:
+
+--Prompto, disse elle; podemos continuar.
+
+--Como ia dizendo a Vossa Reverendissima, morri no dia vinte de março de
+1860, ás cinco horas e quarenta e tres minutos da manhã. Tinha então
+sessenta e oito annos de edade. Minha alma vôou pelo espaço, até perder
+a terra de vista, deixando muito abaixo a lua, as estrellas e o sol;
+penetrou finalmente n'um espaço em que não havia mais nada, e era
+clareado tão sómente por uma luz diffusa. Continuei a subir, e comecei a
+ver um pontinho mais luminoso ao longe, muito longe. O ponto cresceu,
+fez-se sol. Fui por alli dentro, sem arder, porque as almas são
+incombustiveis. A sua pegou fogo alguma vez?
+
+--Não, senhor.
+
+--São incombustiveis. Fui subindo, subindo; na distancia de quarenta mil
+legoas, ouvi uma deliciosa musica, e logo que cheguei a cinco mil
+legoas, desceu um enxame de almas, que me levaram n'um palanquim feito
+de ether e plumas. Entrei dahi a pouco no novo sol, que é o planeta dos
+virtuosos da terra. Não sou poeta, monsenhor; não ouso descrever-lhe as
+magnificencias daquella estancia divina. Poeta que fosse, não poderia,
+usando a linguagem humana, transmittir-lhe a emoção da grandeza, do
+deslumbramento, da felicidade, os extasis, as melodias, os arrojos de
+luz e cores, uma cousa indefinivel e incomprehensivel. Só vendo. Lá
+dentro é que soube que completava mais um milheiro de almas; tal era o
+motivo das festas extraordinarias que me fizeram, e que duraram dous
+seculos, ou, pelas nossas contas, quarenta e oito horas. Afinal,
+concluidas as festas, convidaram-me a tornar á terra para cumprir uma
+vida nova; era o privilegio de cada alma que completava um milheiro.
+Respondi agradecendo e recusando, mas não havia recusar. Era uma lei
+eterna. A unica liberdade que me deram foi a escolha do vehiculo; podia
+nascer principe ou conductor de omnibus. Que fazer? Que faria Vossa
+Reverendissima no meu logar?
+
+--Não posso saber; depende...
+
+--Tem razão; depende das circumstancias. Mas imagine que as minhas eram
+taes que não me davam gosto a tornar cá. Fui victima da inexperiencia,
+monsenhor, tive uma velhice ruim, por essa razão. Então lembrou-me que
+sempre ouvira dizer a meu pae e outras pessoas mais velhas, quando viam
+algum rapaz:--«Quem me dera aquella edade, sabendo o que sei hoje!»
+Lembrou-me isto, e declarei que me era indifferente nascer mendigo ou
+potentado, com a condição de nascer experiente. Não imagina o riso
+universal com que me ouviram. Job, que alli preside a provincia dos
+pacientes, disse-me que um tal desejo era disparate; mas eu teimei e
+venci. Dahi a pouco escorreguei no espaço; gastei nove mezes a
+atravessal-o até cair nos braços de uma ama de leite, e chamei-me José
+Maria. Vossa Reverendissima é Romualdo, não?
+
+--Sim, senhor; Romualdo de Souza Caldas.
+
+--Será parente do padre Souza Caldas?
+
+--Não, senhor.
+
+--Bom poeta o padre Caldas. Poesia é um dom; eu nunca pude compor uma
+decima. Mas, vamos ao que importa. Conto-lhe primeiro o que me succedeu;
+depois lhe direi o que desejo de Vossa Reverendissima. Entretanto, se me
+permittisse ir fumando...
+
+Monsenhor Caldas fez um gesto de assentimento, sem perder de vista a
+bengala que José Maria conservava atravessada sobre as pernas. Este
+preparou vagarosamente um cigarro. Era um homem de trinta e poucos
+annos, pallido, com um olhar ora molle e apagado, ora inquieto e
+centelhante. Appareceu alli, tinha o padre acabado de almoçar, e
+pediu-lhe uma entrevista para negocio grave e urgente. Monsenhor fel-o
+entrar e sentar-se; no fim de dez minutos, viu que estava com um
+lunatico. Perdoava-lhe a incoherencia das idéas ou o assombroso das
+invenções; póde ser até que lhe servissem de estudo. Mas o desconhecido
+teve um assomo de raiva, que metteu medo ao pacato clerigo. Que podiam
+fazer elle e o preto, ambos velhos, contra qualquer aggressão de um
+homem forte e louco? Em quanto esperava o auxilio policial, monsenhor
+Caldas desfazia-se em sorrisos e assentimentos de cabeça, espantava-se
+com elle, alegrava-se com elle, politica util com os loucos, as mulheres
+e os potentados. José Maria accendeu finalmente o cigarro, e continuou:
+
+--Renasci em cinco de Janeiro de 1861. Não lhe digo nada da nova
+meninice, porque ahi a experiencia teve só uma fórma instinctiva. Mamava
+pouco; chorava o menos que podia para não apanhar pancada. Comecei a
+andar tarde, por medo de cair, e dahi me ficou uma tal ou qual fraqueza
+nas pernas. Correr e rolar, trepar nas arvores, saltar paredões, trocar
+murros, cousas tão uteis, nada disso fiz, por medo de contusão e sangue.
+Para fallar com franqueza, tive uma infancia aborrecida, e a escola não
+o foi menos. Chamavam-me tolo e moleirão. Realmente, eu vivia fugindo de
+tudo. Creia que durante esse tempo não escorreguei, mas tambem não
+corria nunca. Palavra, foi um tempo de aborrecimento; e, comparando as
+cabeças quebradas de outro tempo com o tédio de hoje, antes as cabeças
+quebradas. Cresci; fiz-me rapaz, entrei no periodo dos amores... Não se
+assuste; serei casto, como a primeira ceia. Vossa Reverendissima sabe o
+que é uma ceia de rapazes e mulheres?
+
+--Como quer que saiba?...
+
+--Tinha dezenove annos, continuou José Maria, e não imagina o espanto
+dos meus amigos, quando me declarei prompto a ir a uma tal ceia...
+Ninguem esperava tal cousa de um rapaz tão cautelloso, que fugia de
+tudo, dos somnos atrazados, dos somnos excessivos, de andar sozinho a
+horas mortas, que vivia, por assim dizer, ás apalpadellas. Fui á ceia;
+era no Jardim Botanico, obra explendida. Comidas, vinhos, luzes, flores,
+alegria dos rapazes, os olhos das damas, e, por cima de tudo, um
+appetite de vinte annos. Hade crer que não comi nada? A lembrança de
+tres indigestões apanhadas quarenta annos antes, na primeira vida,
+fez-me recuar. Menti dizendo que estava indisposto. Uma das damas veiu
+sentar-se á minha direita, para curar-me; outra levantou-se tambem, e
+veiu para a minha esquerda, com o mesmo fim. Você cura de um lado, eu
+curo do outro, disseram ellas. Eram lepidas, frescas, astuciosas, e
+tinham fama de devorar o coração e a vida dos rapazes. Confesso-lhe que
+fiquei com medo e retrahi-me. Ellas fizeram tudo, tudo; mas em vão. Vim
+de lá de manhã, apaixonado por ambas, sem nenhuma dellas, e caindo de
+fome. Que lhe parece? concluiu José Maria pondo as mãos nos joelhos, e
+arqueando os braços para fóra?
+
+--Com effeito...
+
+--Não lhe digo mais nada; Vossa Reverendissima adivinhará o resto. A
+minha segunda vida é assim uma mocidade expansiva e impetuosa, enfreiada
+por uma experiencia virtual e tradiccional. Vivo como Eurico, atado ao
+proprio cadaver... Não, a comparação não é boa. Como lhe parece que
+vivo?
+
+--Sou pouco imaginoso. Supponho que vive assim como um passaro, batendo
+as azas e amarrado pelos pés...
+
+--Justamente. Pouco imaginoso? Achou a formula; é isso mesmo. Um
+passaro, um grande passaro, batendo as azas, assim...
+
+José Maria ergueu-se, agitando os braços, á maneira de azas. Ao
+erguer-se, caiu-lhe a bengala no chão; mas elle não deu por ella.
+Continuou a agitar os braços, em pé, defronte do padre, e a dizer que
+era isso mesmo, um passaro, um grande passaro... De cada vez que batia
+os braços nas coxas, levantava os calcanhares, dando ao corpo uma
+cadencia de movimentos, e conservava os pés unidos, para mostrar que os
+tinha amarrados. Monsenhor approvava de cabeça; ao mesmo tempo afiava as
+orelhas para vêr se ouvia passos na escada. Tudo silencio. Só lhe
+chegavam os rumores de fóra:--carros e carroças que desciam,
+quitandeiras apregoando legumes, e um piano da vizinhança. José Maria
+sentou-se finalmente, depois de apanhar a bengala, e continuou nestes
+termos:
+
+--Um passaro, um grande passaro. Para ver quanto é feliz a comparação,
+basta a aventura que me traz aqui, um caso de consciencia, uma paixão,
+uma mulher, uma viuva, D. Clemencia. Tem vinte e seis annos, uns olhos
+que não acabam mais, não digo no tamanho, mas na expressão, e duas
+pincelladas de buço, que lhe completam a physionomia. É filha de um
+professor jubilado. Os vestidos pretos ficam-lhe tão bem que eu ás vezes
+digo-lhe rindo que ella não enviuvou senão para andar de luto. Caçoadas!
+Conhecemo-nos ha um anno, em casa de um fazendeiro de Cantagallo. Saimos
+namorados um do outro. Já sei o que me vae perguntar: porque é que não
+nos casamos, sendo ambos livres...
+
+--Sim, senhor.
+
+--Mas, homem de Deus! é essa justamente a materia da minha aventura.
+Somos livres, gostamos um do outro, e não nos casamos: tal é a situação
+tenebrosa que venho expor a Vossa Reverendissima, e que a sua theologia
+ou o que quer que seja, explicará, se puder. Voltamos para a Côrte
+namorados. Clemencia morava com o velho pae, e um irmão empregado no
+commercio; relacionei-me com ambos, e comecei a frequentar a casa, em
+Matacavallos. Olhos, apertos de mão, palavras soltas, outras ligadas,
+uma phrase, duas phrases, e estavamos amados e confessados. Uma noite,
+no patamar da escada, trocamos o primeiro beijo... Perdôe estas cousas,
+monsenhor; faça de conta que me está ouvindo de confissão. Nem eu lhe
+digo isto senão para acrescentar que sahi dalli tonto, desvairado, com a
+imagem de Clemencia na cabeça e o sabor do beijo na bocca. Errei cerca
+de duas horas, planeando uma vida unica; determinei pedir-lhe a mão no
+fim da semana, e casar dahi a um mez. Cheguei ás derradeiras minucias,
+cheguei a redigir e ornar de cabeça as cartas de participação. Entrei em
+casa depois de meia noite, e toda essa fantasmagoria vôou, como as
+mutações á vista nas antigas peças de theatro. Veja se adivinha como.
+
+--Não alcanço...
+
+--Considerei, no momento de despir o collete, que o amor podia acabar
+depressa; tem-se visto algumas vezes. Ao descalçar as botas, lembrou-me
+cousa peior:--podia ficar o fastio. Conclui a _toilette_ de dormir,
+accendi um cigarro, e, reclinado no canapé, pensei que o costume, a
+convivencia, podia salvar tudo; mas, logo depois adverti que as duas
+indoles podiam ser incompativeis; e que fazer com duas indoles
+imcompativeis e inseparaveis? Mas, emfim, dei de barato tudo isso,
+porque a paixão era grande, violenta; considerei-me casado, com uma
+linda creancinha... Uma? duas, seis, oito; podiam vir oito, podiam vir
+dez; algumas aleijadas. Tambem podia vir uma crise, duas crises, falta
+de dinheiro, penuria, doenças; podia vir alguma dessas affeições
+espurias que perturbam a paz domestica... Considerei tudo e conclui que
+o melhor era não casar. O que não lhe posso contar é o meu desespero;
+faltam-me expressões para lhe pintar o que padeci nessa noite...
+Deixa-me fumar outro cigarro?
+
+Não esperou resposta, fez o cigarro, e accendeu-o. Monsenhor não podia
+deixar de admirar-lhe a bella cabeça, no meio do desalinho proprio do
+estado; ao mesmo tempo notou que elle fallava em termos polidos, e, que
+apesar dos rompantes morbidos, tinha maneiras. Quem diabo podia ser esse
+homem? José Maria continuou a historia, dizendo que deixou de ir á casa
+de Clemencia, durante seis dias, mas não resistiu ás cartas e ás
+lagrimas. No fim de uma semana correu para lá, e confessou-lhe tudo,
+tudo. Ella ouviu-o com muito interesse, e quiz saber o que era preciso
+para acabar com tantas scismas, que prova de amor queria que ella lhe
+désse.--A resposta de José Maria foi uma pergunta.
+
+--Está disposta a fazer-me um grande sacrificio? disse-lhe eu. Clemencia
+jurou que sim. «Pois bem, rompa com tudo, familia e sociedade; venha
+morar commigo; casamo-nos depois desse noviciado.» Comprehendo que Vossa
+Reverendissima arregale os olhos. Os della encheram-se de lagrimas; mas,
+apesar de humilhada, aceitou tudo. Vamos; confesse que sou um monstro.
+
+--Não, senhor...
+
+--Como não? Sou um monstro. Clemencia veiu para minha casa, e não
+imagina as festas com que a recebi. «Deixo tudo, disse-me ella; você é
+para mim o universo.» Eu beijei-lhe os pés, beijei-lhe os tacões dos
+sapatos. Não imagina o meu contentamento. No dia seguinte, recebi uma
+carta tarjada de preto; era a noticia da morte de um tio meu, em Santa
+Anna do Livramento, deixando-me vinte mil contos. Fiquei fulminado.
+«Entendo, disse a Clemencia, você sacrificou tudo, por que tinha noticia
+da herança.» Desta vez, Clemencia não chorou, pegou em si e sahiu. Fui
+atraz della, envergonhado, pedi-lhe perdão; ella resistiu. Um dia, dous
+dias, tres dias, foi tudo vão; Clemencia não cedia nada, não fallava
+sequer. Então declarei-lhe que me mataria; comprei um revolver, fui ter
+com ella, e apresentei-lh'o: é este.
+
+Monsenhor Caldas empallideceu. José Maria mostrou-lhe o revolver,
+durante alguns segundos, tornou a mettel-o na algibeira, e continuou:
+
+--Cheguei a dar um tiro. Ella, assustada, desarmou-me e perdoou-me.
+Ajustámos precipitar o casamento, e, pela minha parte, impuz uma
+condição: doar os vinte mil contos á Bibliotheca Nacional. Clemencia
+atirou-se-me aos braços, e approvou-me com um beijo. Dei os vinte mil
+contos. Ha de ter lido nos jornaes... Tres semanas depois casamo-nos.
+Vossa Reverendissima respira como quem chegou ao fim. Qual! Agora é que
+chegamos ao tragico. O que posso fazer é abreviar umas particularidades
+e supprimir outras; restrinjo-me a Clemencia. Não lhe fallo de outras
+emoções truncadas, que são todas as minhas, abortos de prazer, planos
+que se esgarçam no ar, nem das illusões de saia rota, nem do tal
+passaro... plas... plas... plas...
+
+E, de um salto, José Maria ficou outra vez de pé, agitando os braços, e
+dando ao corpo uma cadencia. Monsenhor Caldas começou a suar frio. No
+fim de alguns segundos, José Maria parou, sentou-se, e reatou a
+narração, agora mais diffusa, mais derramada, evidentemente mais
+delirante. Contava os sustos em que vivia, desgostos e desconfianças.
+Não podia comer um figo ás dentadas, como outr'ora; o receio do bicho
+diminuia-lhe o sabor. Não cria nas caras alegres da gente que ia pela
+rua: preoccupações, desejos, odios, tristezas, outras cousas, iam
+dissimuladas por umas tres quartas partes dellas. Vivia a temer um filho
+cego ou surdo-mudo, ou tuberculoso, ou assassino, etc. Não conseguia dar
+um jantar que não ficasse triste logo depois da sopa, pela idéa de que
+uma palavra sua, um gesto da mulher, qualquer falta de serviço podia
+suggerir o epigramma digestivo, na rua, debaixo de um lampeão. A
+experiencia dera-lhe o terror de ser empulhado. Confessava ao padre que,
+realmente, não tinha até agora lucrado nada; ao contrario, perdera até,
+porque fôra levado ao sangue... Ia contar-lhe o caso do sangue. Na
+vespera, deitara-se cedo, e sonhou... Com quem pensava o padre que elle
+sonhou?
+
+--Não atino...
+
+--Sonhei que o Diabo lia-me o Evangelho. Chegando ao ponto em que Jesus
+falla dos lyrios do campo, o Diabo colheu alguns e deu-m'os. «Toma,
+disse-me elle; são os lyrios da Escriptura; segundo ouviste, nem Salomão
+em toda a pompa, pôde hombrear com elles. Salomão é a sapiencia. E sabes
+o que são estes lyrios, José? São os teus vinte annos.» Fitei-os
+encantado; eram lindos como não imagina. O Diabo pegou delles,
+cheirou-os e disse-me que os cheirasse tambem. Não lhe digo nada; no
+momento de os chegar ao nariz, vi sahir de dentro um reptil fedorento e
+torpe, dei um grito, e arrojei para longe as flôres. Então, o Diabo,
+escancarando uma formidavel gargalhada: «José Maria, são os teus vinte
+annos». Era uma gargalhada assim:--cá, cá, cá, cá, cá...
+
+José Maria ria á solta, ria de um modo estridente e diabolico. De
+repente, parou; levantou-se, e contou que, tão depressa abriu os olhos,
+como viu a mulher deante d'elle, afflicta e desgrenhada. Os olhos de
+Clemencia eram doces, mas elle disse-lhe que os olhos doces tambem fazem
+mal. Ella arrojou-se-lhe aos pés... Neste ponto a physionomia de José
+Maria estava tão transtornada que o padre, tambem de pé, começou a
+recuar, tremulo e pallido. «Não, miseravel! não! tu não me fugirás!»
+bradava José Maria investindo para elle. Tinha os olhos esbugalhados, as
+temporas latejantes; o padre ia recuando... recuando... Pela escada
+acima ouvia-se um rumor de espadas e de pés.
+
+
+
+
+NOITE DE ALMIRANTE
+
+
+Deolindo Venta-Grande (era uma alcunha de bordo) sahio do arsenal de
+marinha e enfiou pela rua de Bragança. Batiam tres horas da tarde. Era a
+fina flor dos marujos e, de mais, levava um grande ar de felicidade nos
+olhos. A corveta d'elle voltou de uma longa viagem de instrucção, e
+Deolindo veiu á terra tão depressa alcançou licença. Os companheiros
+disseram-lhe, rindo:
+
+--Ah! Venta-Grande! Que noite de almirante vai você pasmar! ceia, viola
+e os braços de Genoveva. Collosinho de Genoveva...
+
+Deolindo sorriu. Era assim mesmo, uma noite de almirante, como elles
+dizem, uma d'essas grandes noites de almirante que o esperava em terra.
+Começára a paixão tres mezes antes de sahir a corveta. Chamava-se
+Genoveva, caboclinha de vinte annos, esperta, olho negro e atrevido.
+Encontraram-se em casa de terceiro e ficaram morrendo um pelo outro, a
+tal ponto que estiveram prestes a dar uma cabeçada, elle deixaria o
+serviço e ella o acompanharia para a villa mais recondita do interior.
+
+A velha Ignacia, que morava com ella, dissuadiu-os disso; Deolindo não
+teve remedio senão seguir em viagem de instrucção. Eram oito ou dez
+mezes de ausencia. Como fiança reciproca, entenderam dever fazer um
+juramento de fidelidade.
+
+--Juro por Deus que está no céu. E você?
+
+--Eu tambem.
+
+--Diz direito.
+
+--Juro por Deus que está no céu; a luz me falte na hora da morte.
+
+Estava celebrado o contracto. Não havia descrer da sinceridade de ambos;
+ella chorava doudamente, elle mordia o beiço para dissimular. Afinal
+separaram-se, Genoveva foi ver sahir a corveta e voltou para casa com um
+tal aperto no coração que parecia que «lhe ia dar uma cousa». Não lhe
+deu nada, felizmente; os dias foram passando, as semanas, os mezes, dez
+mezes, ao cabo dos quaes, a corveta tornou e Deolindo com ella.
+
+Lá vai elle agora, pela rua de Bragança, Prainha e Saude, até ao
+principio da Gambôa, onde mora Genoveva. A casa é uma rotulasinha
+escura, portal rachado do sol, passando o cemiterio dos inglezes; lá
+deve estar Genoveva, debruçada á janella, esperando por elle. Deolindo
+prepara uma palavra que lhe diga. Já formulou esta: «jurei e cumpri» mas
+procura outra melhor. Ao mesmo tempo lembra as mulheres que viu por esse
+mundo de Christo, italianas, marselhezas ou turcas, muitas d'ellas
+bonitas, ou que lhe pareciam taes. Concorda que nem todas seriam para os
+beiços d'elle, mas algumas eram, e nem por isso fez caso de nenhuma. Só
+pensava em Genoveva. A mesma casinha d'ella, tão pequenina, e a mobilia
+de pé quebrado, tudo velho e pouco, isso mesmo lhe lembrava deante dos
+palacios de outras terras. Foi á custa de muita economia que comprou em
+Trieste um par de brincos, que leva agora no bolso com algumas
+bugigangas. E ella que lhe guardaria? Pode ser que um lenço marcado com
+o nome d'elle e uma ancora na ponta, porque ella sabia marcar muito bem.
+N'isto chegou á Gambôa, passou o cemiterio e deu com a casa fechada.
+Bateu, fallou-lhe uma voz conhecida, a da velha Ignacia, que veiu
+abrir-lhe a porta com grandes exclamações de prazer. Deolindo,
+impaciente, perguntou por Genoveva.
+
+--Não me falle n'essa maluca, arremetteu a velha. Estou bem satisfeita
+com o conselho que lhe dei. Olhe lá se fugisse. Estava agora como o
+lindo amor.
+
+--Mas que foi? que foi?
+
+A velha disse-lhe que descançasse, que não era nada, uma d'essas cousas
+que apparecem na vida; não valia a pena zangar-se. Genoveva andava com a
+cabeça virada...
+
+--Mas virada porque?
+
+--Está com um mascate, José Diogo. Conheceu José Diogo, mascate de
+fazendas? Está com elle. Não imagina a paixão que elles têm um pelo
+outro. Ella então anda maluca. Foi o motivo da nossa briga. José Diogo
+não me sahia da porta; eram conversas e mais conversas, até que eu um
+dia disse que não queria a minha casa diffamada. Ah! meu pai do céu! foi
+um dia de juizo. Genoveva investiu para mim com uns olhos d'este
+tamanho, dizendo que nunca diffamou ninguem e não precisava de esmolas.
+Que esmolas, Genoveva? O que digo é que não quero esses cochichos á
+porta, desde as ave-marias... Dous dias depois estava mudada e brigada
+commigo.
+
+--Onde mora ella?
+
+--Na praia Formosa, antes de chegar á pedreira, uma rotula pintada de
+novo.
+
+Deolindo não quiz ouvir mais nada. A velha Ignacia, um tanto
+arrependida, ainda lhe deu avisos de prudencia, mas elle não os escutou
+e foi andando. Deixo de notar o que pensou em todo o caminho; não pensou
+nada. As idéas marinhavam-lhe no cerebro, como em hora de temporal, no
+meio de uma confusão de ventos e apitos. Entre ellas rutilou a faca de
+bordo, ensanguentada e vingadora. Tinha passado a Gambôa, o Sacco do
+Alferes, entrára na praia Formosa. Não sabia o numero da casa, mas era
+perto da pedreira, pintada de novo, e com auxilio da visinhança poderia
+achal-a. Não contou com o acaso que pegou de Genoveva e fel-a sentar á
+janella, cosendo, no momento em que Deolindo ia passando. Elle
+conheceu-a e parou; ella, vendo o vulto de um homem, levantou os olhos e
+deu com o marujo.
+
+--Que é isso? exclamou espantada. Quando chegou? Entre, seu Deolindo.
+
+E, levantando-se, abriu a rotula e fel-o entrar. Qualquer outro homem
+ficaria alvoroçado de esperanças, tão francas eram as maneiras da
+rapariga; podia ser que a velha se enganasse ou mentisse; podia ser
+mesmo que a cantiga do mascate estivesse acabada. Tudo isso lhe passou
+pela cabeça, sem a fórma precisa do raciocinio ou da reflexão, mas em
+tumulto e rapido.. Genoveva deixou a porta aberta, fel-o sentar-se,
+pediu-lhe noticias da viagem e achou-o mais gordo; nenhuma commoção nem
+intimidade. Deolindo perdeu a ultima esperança. Em falta de faca,
+bastavam-lhe as mãos para estrangular Genoveva, que era um pedacinho de
+gente, e durante os primeiros minutos não pensou em outra cousa.
+
+--Sei tudo, disse elle.
+
+--Quem lhe contou?
+
+Deolindo levantou os hombros.
+
+--Fosse quem fosse, tornou ella, disseram-lhe que eu gostava muito de um
+moço?
+
+--Disseram.
+
+--Disseram a verdade.
+
+Deolindo chegou a ter um impeto; ella fel-o parar só com a acção dos
+olhos. Em seguida disse que, se lhe abrira a porta, é porque contava que
+era homem de juizo. Contou-lhe então tudo, as saudades que curtira, as
+propostas do mascate, as suas recusas, até que um dia, sem saber como,
+amanhecera gostando d'elle.
+
+--Pode crer que pensei muito e muito em você. Sinhá Ignacia que lhe diga
+se não chorei muito... Mas o coração mudou... Mudou... Conto-lhe tudo
+isto, como se estivesse diante do padre, concluiu sorrindo.
+
+Não sorria de escarneo. A expressão das palavras é que era uma mescla de
+candura e cynismo, de insolencia e simplicidade, que desisto de definir
+melhor. Creio até que insolencia e cynismo são mal applicados. Genoveva
+não se defendia de um erro ou de um perjurio; não se defendia de nada;
+faltava-lhe o padrão moral das acções. O que dizia, em resumo, é que era
+melhor não ter mudado, dava-se bem com a affeição do Deolindo, a prova é
+que quiz fugir com elle; mas, uma vez que o mascate venceu o marujo, a
+razão era do mascate, e cumpria declaral-o. Que vos parece? O pobre
+marujo citava o juramento de despedida, como uma obrigação eterna,
+diante da qual consentira em não fugir e embarcar: «Juro por Deus que
+está no céu; a luz me falte na hora da morte». Se embarcou, foi porque
+ella lhe jurou isso. Com essas palavras é que andou, viajou, esperou e
+tornou; foram ellas que lhe deram a força de viver. Juro por Deos que
+está no céu; a luz me falte na hora da morte...
+
+--Pois, sim, Deolindo, era verdade. Quando jurei, era verdade. Tanto era
+verdade que eu queria fugir com você para o sertão. Só Deus sabe se era
+verdade! Mas vieram outras cousas... Veio este moço e eu comecei a
+gostar d'elle...
+
+--Mas a gente jura é para isso mesmo; é para não gostar de mais
+ninguem...
+
+--Deixa d'isso, Deolindo. Então você só se lembrou de mim? Deixa de
+partes...
+
+--A que horas volta José Diogo?
+
+--Não volta hoje.
+
+--Não?
+
+--Não volta; está lá para os lados de Guaratiba com a caixa; deve voltar
+sexta-feira ou sabbado... E por que é que você quer saber? Que mal lhe
+fez elle?
+
+Pode ser que qualquer outra mulher tivesse egual palavra; poucas lhe
+dariam uma expressão tão candida, não de proposito, mas
+involuntariamente. Vêde que estamos aqui muito proximos da natureza. Que
+mal lhe fez elle? Que mal lhe fez esta pedra que cahiu de cima? Qualquer
+mestre de physica lhe explicaria a queda das pedras. Deolindo declarou,
+com um gesto de desespero, que queria matal-o. Genoveva olhou, para elle
+com desprezo, sorriu de leve e deu um muxoxo; e, como elle lhe fallasse
+de ingratidão e perjurio, não poude disfarçar o pasmo. Que perjurio? que
+ingratidão? Já lhe tinha dito e repetia que quando jurou era verdade.
+Nossa Senhora, que alli estava, em cima da commoda, sabia se era verdade
+ou não. Era assim que lhe pagava o que padeceu? E elle que tanto enchia
+a bocca de fidelidade, tinha-se lembrado d'ella por onde andou?
+
+A resposta d'elle foi metter a mão no bolso e tirar o pacote que lhe
+trazia. Ella abriu-o, aventou as bugigangas, uma por uma, e por fim deu
+com os brincos. Não eram nem poderiam ser ricos; eram mesmo de mau
+gosto, mas faziam uma vista de todos os diabos. Genoveva pegou d'elles,
+contente, deslumbrada, mirou-os por um lado e outro, perto e longe dos
+olhos, e afinal enfiou-os nas orelhas; depois foi ao espelho de pataca,
+suspenso na parede, entre a janella e a rotula, para ver o effeito que
+lhe faziam. Recuou, approximou-se, voltou a cabeça da direita para
+esquerda e da esquerda para a direita.
+
+--Sim, senhor, muito bonitos, disse ella, fazendo uma grande mesura de
+agradecimento. Onde é que comprou?
+
+Creio que elle não respondeu nada, nem teria tempo para isso, porque
+ella disparou mais duas ou tres perguntas, uma atraz da outra, tão
+confusa estava de receber um mimo a troco de um esquecimento. Confusão
+de cinco ou quatro minutos; pode ser que dous. Não tardou que tirasse os
+brincos, e os contemplasse e puzesse na caixinha em cima da mesa redonda
+que estava no meio da sala. Elle pela sua parte começou a crer que,
+assim como a perdeu, estando ausente, assim o outro, ausente, podia
+tambem perdel-a; e, provavelmente, ella não lhe jurára nada.
+
+--Brincando, brincando, é noite, disse Genoveva.
+
+Com effeito, a noite ia cahindo rapidamente. Já não podiam ver o
+hospital dos Lazaros e mal distinguiam a ilha dos Melões; as mesmas
+lanchas e canôas, postas em secco, defronte da casa, confundiam-se com a
+terra e o lodo da praia. Genoveva accendeu uma vela. Depois foi
+sentar-se na soleira da porta e pediu-lhe que contasse alguma cousa das
+terras por onde andara. Deolindo recusou a principio; disse que se ia
+embora, levantou-se e deu alguns passos na sala. Mas o demonio da
+esperança mordia e babujava o coração do pobre diabo, e elle voltou a
+sentar-se, para dizer duas ou tres anecdotas de bordo. Genoveva escutava
+com attenção. Interrompidos por uma mulher da visinhança, que alli veiu,
+Genoveva fel-a sentar-se tambem para ouvir «as bonitas historias que o
+Sr. Deolindo estava contando». Não houve outra apresentação. A grande
+dama que prolonga a vigilia para concluir a leitura de um livro ou de um
+capitulo, não vive mais intimamente a vida dos personagens do que a
+antiga amante do marujo vivia as scenas que elle ia contando, tão
+livremente interessada e presa, como se entre ambos não houvesse mais
+que uma narração de episodios. Que importa á grande dama o auctor do
+livro? Que importava a esta rapariga o contador dos episodios?
+
+A esperança, entretanto, começava a desemparal-o e elle levantou-se
+definitivamente para sahir. Genoveva não quiz deixal-o sahir antes que a
+amiga visse os brincos, e foi mostrar-lh'os com grandes encarecimentos.
+A outra ficou encantada, elogiou-os muito, perguntou se os comprara em
+França e pediu a Genoveva que os puzesse.
+
+--Realmente, são muito bonitos.
+
+Quero crer que o proprio marujo concordou com essa opinião. Gostou de os
+ver, achou que pareciam feitos para ella e, durante alguns segundos,
+saboreou o prazer exclusivo e superfino de haver dado um bom presente;
+mas foram só alguns segundos.
+
+Como elle se despedisse, Genoveva acompanhou-o até á porta para lhe
+agradecer ainda uma vez o mimo, e provavelmente dizer-lhe algumas cousas
+meigas e inuteis. A amiga, que deixára ficar na sala, apenas lhe ouviu
+esta palavra: «Deixa d'isso, Deolindo»; e esta outra do marinheiro:
+«Você verá». Não poude ouvir o resto, que não passou de um sussurro.
+
+Deolindo seguiu, praia fóra, cabisbaixo e lento, não já o rapaz
+impetuoso da tarde, mas com um ar velho e triste, ou, para usar outra
+metaphora de marujo, como um homem «que vai do meio caminho para terra».
+Genoveva entrou logo depois, alegre e barulhenta. Contou á outra a
+anecdota dos seus amores maritimos, gabou muito o genio do Deolindo e os
+seus bonitos modos; a amiga declarou achal-o grandemente sympathico.
+
+--Muito bom rapaz, insistiu Genoveva. Sabe o que elle me disse agora?
+
+--Que foi!
+
+--Que vai matar-se.
+
+--Jesus!
+
+--Qual o que! Não se mata, não. Deolindo é assim mesmo; diz as cousas,
+mas não faz. Você verá que não se mata. Coitado, são ciumes. Mas os
+brincos são muito engraçados.
+
+--Eu aqui ainda não vi d'estes.
+
+--Nem eu, concordou Genoveva, examinando-os á luz. Depois guardou-os e
+convidou a outra a coser.--Vamos coser um bocadinho, quero acabar o meu
+corpinho azul...
+
+A verdade é que o marinheiro não se matou. No dia seguinte, alguns dos
+companheiros bateram-lhe no hombro, comprimentando-o pela noite de
+almirante, e pediram-lhe noticias de Genoveva, se estava mais bonita, se
+chorára muito na ausencia, etc. Elle respondia a tudo com um sorriso
+satisfeito e discreto, um sorriso de pessoa que viveu uma grande noite.
+Parece que teve vergonha da realidade e preferiu mentir.
+
+
+FIM DA NOITE DE ALMIRANTE.
+
+
+
+
+MANUSCRITO DE UM SACHRISTÃO
+
+
+I
+
+........... Ao dar com o padre Theophilo fallando a uma senhora, ambos
+sentadinhos no banco da egreja, e a egreja deserta, confesso que fiquei
+espantado. Note-se que conversavam em voz tão baixa e discreta, que eu,
+por mais que afiasse o ouvido e me demorasse a apagar as velas do altar,
+não podia apanhar nada, nada, nada. Não tive remedio senão adivinhar
+alguma cousa. Que eu sou um sacristão philosopho. Ninguem me julgue pela
+sobrepeliz rota e amarrotada nem pelo uso clandestino das galhetas. Sou
+um philosopho sacristão. Tive estudos ecclesiasticos, que interrompi por
+causa de uma doença e que inteiramente deixei por outro motivo, uma
+paixão violenta, que me trouxe á miseria. Como o seminario deixa sempre
+um certo vinco, fiz-me sacristão aos trinta annos, para ganhar a vida.
+Venhamos, porém, ao nosso padre e á nossa dama.
+
+
+II
+
+Antes de ir adiante, direi que eram primos. Soube depois que eram
+primos, nascidos em Vassouras. Os pais d'ella mudaram-se para a côrte,
+tendo Eulalia (é o seu nome) sete annos. Theophilo veiu depois. Na
+familia era uso antigo que um dos rapazes fosse padre. Vivia ainda na
+Bahia um tio, d'elle, conego. Cabendo-lhe n'esta geração envergar a
+batina, veiu para o seminario de S. José, no anno de mil oitocentos e
+cincoenta e tantos, e foi ahi que o conheci. Comprehende-se o sentimento
+de discrição que me leva a deixar a data no ar.
+
+
+III
+
+No seminario, dizia-nos o lente de rhetorica:--A theologia é a cabeça do
+genero humano, o latim a perna esquerda, e a rhetorica a perna direita.
+
+Justamente da perna direita é que o Theophilo coxeava. Sabia muito as
+outras cousas: theologia, philosophia, latim, historia sagrada; mas a
+rhetorica é que lhe não entrava no cerebro. Elle, para desculpar-se,
+dizia que a palavra divina não precisava de adornos. Tinha então vinte
+ou vinte e dous annos de edade, e era lindo como S. João.
+
+Já n'esse tempo era um mystico; achava em todas as cousas uma
+significação recondita. A vida era uma eterna missa, em que o mundo
+servia de altar, a alma de sacerdote e o corpo de acolyto; nada
+respondia á realidade exterior. Vivia ancioso de tomar ordens para sahir
+a prégar grandes cousas, espertar as almas, chamar os corações á Egreja,
+e renovar o genero humano. Entre todos os apostolos, amava
+principalmente S. Paulo.
+
+Não sei se o leitor é da minha opinião; eu cuido que se póde avaliar um
+homem pelas suas sympathias historicas; tu serás mais ou menos da
+familia dos personagens que amares devéras. Applico assim aquella lei de
+Helvetius: «o grau de espirito que nos deleita dá a medida exacta do
+grau de espirito que possuimos». No nosso caso, ao menos, a regra não
+falhou. Theophilo amava S. Paulo, adorava-o, estudava-o dia e noite,
+parecia viver d'aquelle converso que ia de cidade em cidade, á custa de
+um officio mecanico, espalhando a boa nova aos homens. Nem tinha sómente
+esse modelo, tinha mais dous: Hildebrando e Loyola. D'aqui podeis
+concluir que nasceu com a fibra da peleja e do apostolado. Era um
+faminto de ideal e creação, olhando todas as cousas correntes por cima
+da cabeça do seculo. Na opinião de um conego, que lá ia ao seminario, o
+amor dos dous modelos ultimos temperava o que pudesse haver perigoso em
+relação ao primeiro.
+
+--Não vá o senhor cair no excesso e no exclusivo, disse-lhe um dia com
+brandura; não pareça que, exaltando sómente a Paulo, intenta diminuir
+Pedro. A egreja, que os commemora ao lado um do outro, metteu-os ambos
+no Credo; mas veneremos Paulo e obedeçamos a Pedro. _Super hanc
+petram..._
+
+Os seminaristas gostavam do Theophilo, principalmente tres, um
+Vasconcellos, um Soares e um Velloso, todos excellentes rhetoricos. Eram
+tambem bons rapazes, alegres por natureza, graves por necessidade e
+ambiciosos. Vasconcellos jurava que seria bispo; Soares contentava-se
+com algum grande cargo; Velloso cobiçava as meias roxas de conego e um
+pulpito. Theophilo tentou repartir com elles o pão mystico dos seus
+sonhos, mas reconheceu depressa que era manjar leve ou pesado de mais, e
+passou a devoral-o sosinho. Até aqui o padre; vamos agora á dama.
+
+
+IV
+
+Agora a dama. No momento em que os vi fallar baixinho na egreja, Eulalia
+contava trinta e oito annos de edade. Juro-lhes que era ainda bonita.
+Não era pobre; os pais deixaram-lhe alguma cousa. Nem casada; recusou
+cinco ou seis pretendentes.
+
+Este ponto nunca foi entendido pelas amigas. Nenhuma d'ellas era capaz
+de repellir um noivo. Creio até que não pediam outra cousa, quando
+resavam antes de entrar na cama, e ao domingo, á missa, no momento de
+levantar a Deus. Porque é que Eulalia recusava-os todos? Vou dizer desde
+já o que soube depois. Suppuzeram-lhe, a principio, um simples
+desdem,--nariz torcido, dizia uma d'ellas;--mas, no fim da terceira
+recusa, inclinaram-se a crer que havia namoro encoberto, e esta
+explicação prevaleceu. A propria mãi de Eulalia não aceitou outra. Não
+lhe importaram as primeiras recusas; mas, repetindo-se, ella começou a
+assustar-se. Um dia, voltando de um casamento, perguntou á filha, no
+carro em que vinham, se não se lembrava que tinha de ficar só.
+
+--Ficar só?
+
+--Sim, um dia hei de morrer. Por ora tudo são flores; cá estou para
+governar a casa; e você é só ler, scismar, tocar e brincar; mas eu tenho
+de morrer, Eulalia, e você tem de ficar só...
+
+Eulalia apertou-lhe muito a mão, sem poder dizer palavra. Nunca pensára
+na morte da mãi; perdel-a era perder metade de si mesma. Na expansão de
+momento, a mãi atreveu-se a perguntar-lhe se amava alguem e não era
+correspondida; Eulalia respondeu que não. Não sympathisara com os
+candidatos. A boa velha abanou a cabeça; fallou dos vinte sete annos da
+filha, procurou atterral-a com os trinta, disse-lhe que, se nem todos os
+noivos a mereciam egualmente, alguns eram dignos de ser aceitos, e que
+importava a falta de amor? O amor conjugal podia ser assim mesmo; podia
+nascer depois, como um fructo da convivencia. Conhecera pessoas que se
+casaram por simples interesse de familia e acabaram amando-se muito.
+Esperar uma grande paixão para casar era arriscar-se a morrer esperando.
+
+--Pois sim, mamãi, deixe estar...
+
+E, reclinando a cabeça, fechou um pouco os olhos para espiar alguem,
+para ver o namorado encoberto, que não era só encoberto, mas tambem e
+principalmente impalpavel. Concordo que isto agora é obscuro; não tenho
+duvida em dizer que entramos em pleno sonho.
+
+Eulalia era uma exquisita, para usarmos a linguagem da mãi, ou
+romanesca, para empregarmos a definição das amigas. Tinha, em verdade,
+uma singular organisação. Saiu ao pai. O pai nascera com o amor do
+enigmatico, do arriscado e do obscuro; morreu quando apparelhava uma
+expedição para ir á Bahia descobrir a «cidade abandonada». Eulalia
+recebeu essa herança moral, modificada ou aggravada pela natureza
+feminil. N'ella dominava principalmente a contemplação. Era na cabeça
+que ella descobria as cidades abandonadas. Tinha os olhos dispostos de
+maneira que não podiam apanhar integralmente os contornos da vida.
+Começou idealisando as cousas, e, se não acabou negando-as, é certo que
+o sentimento da realidade esgarçou-se-lhe até chegar á transparencia
+fina em que o tecido parece confundir-se com o ar.
+
+Aos dezoito annos, recusou o primeiro casamento. A razão é que esperava
+outro, um marido extraordinario, que ella viu e conversou, em sonho ou
+allucinação, a mais radiosa figura do universo, a mais sublime e rara,
+uma creatura em que não havia falha ou quebra, verdadeira grammatica sem
+irregularidades, pura lingua sem solecismos.
+
+Perdão, interrompe-me uma senhora, esse noivo não é obra exclusiva de
+Eulalia, é o marido de todas as virgens de dezesete annos. Perdão,
+digo-lhe eu, ha uma differença entre Eulalia e as outras, é que as
+outras trocam finalmente o original esperado por uma copia gravada,
+antes ou depois da lettra, e ás vezes por uma simples photographia ou
+lithographia, ao passo que Eulalia continuou a esperar o painel
+authentico. Vinham as gravuras, vinham as lithographias, algumas muito
+bem acabadas, obra de artista e grande artista, mas para ella traziam o
+defeito de ser copias. Tinha fome e sêde de originalidade. A vida commum
+parecia-lhe uma copia eterna. As pessoas do seu conhecimento caprichavam
+em repetir as idéas umas das outras, com eguaes palavras, e ás vezes sem
+differente inflexão, á semelhança do vestuario que usavam, e que era do
+mesmo gosto e feitio. Se ella visse alvejar na rua um turbante mourisco
+ou fluctuar um pennacho, póde ser que perdoasse o resto; mas nada, cousa
+nenhuma, uma constante uniformidade de idéas e colletes. Não era outro o
+peccado mortal das cousas. Mas, como tinha a faculdade de viver tudo o
+que sonhava, continuou a esperar uma vida nova e um marido unico.
+
+Em quanto esperava, as outras iam casando. Assim perdeu ella as tres
+principaes amigas: Julia Costinha, Josepha e Marianna. Viu-as todas
+casadas, viu-as mãis, a principio de um filho, depois de dous, de quatro
+e de cinco. Visitava-as, assistia ao viver dellas, sereno e alegre,
+mediocre, vulgar, sem sonhos nem quedas, mais ou menos feliz. Assim se
+passaram os annos; assim chegou aos trinta, aos trinta e tres, aos
+trinta e cinco, e finalmente aos trinta e oito em que a vemos na egreja,
+conversando com o padre Theophilo.
+
+
+V
+
+N'aquelle dia mandara dizer uma missa por alma da mãe, que morrera um
+anno antes. Não convidou ninguem: foi ouvil-a sosinha. Ouviu-a, resou,
+depois sentou-se no banco.
+
+Eu, depois de ajudar á missa, voltei para a sacristia, e vi alli o padre
+Theophilo, que viera da roça duas semanas antes e andava á cata de
+alguma missa para comer. Parece que elle ouviu do outro sacristão ou do
+mesmo padre officiante o nome da pessoa suffragada; viu que era o da tia
+e correu á egreja, onde ainda achou a prima no banco. Sentou-se ao pé
+d'ella, esquecido do logar e das posições, e fallaram naturalmente de si
+mesmos. Não se viam desde longos annos. Theophilo visitára-as logo
+depois de ordenado padre; mas saiu para o interior e nunca mais soube
+d'ellas, nem ellas d'elle.
+
+Já disse que não pude ouvir nada. Estiveram assim perto de meia hora. O
+coadjutor veiu espiar, deu com elles e ficou justamente escandalisado. A
+noticia do caso chegou, dous dias depois, ao bispo. Theophilo recebeu
+uma advertencia amiga, subiu á Conceição e explicou tudo: era uma prima,
+a quem não via desde muito. O padre coadjutor, quando soube da
+explicação, exclamou com muito criterio que o ser parenta não lhe
+trocava o sexo nem suppria o escandalo.
+
+Entretanto, como eu tinha sido companheiro do Theophilo no seminario e
+gostava d'elle, defendi-o com muito calor e fiz chegar o meu testemunho
+ao palacio da Conceição. Elle ficou-me grato por isso, e d'ahi veiu a
+intimidade de nossas relações. Como os dous primos podiam vêr-se em
+casa, Theophilo passou a visital-a, e ella a recebel-o com muito prazer.
+No fim de oito dias, recebeu-me tambem; ao cabo de duas semanas era eu
+um dos seus familiares.
+
+Dous patricios que se encontram em plaga estrangeira e podem finalmente
+trocar as palavras mamadas na infancia não sentem maior alvoroço do que
+estes dous primos, que eram mais que primos: moralmente eram gemeos.
+Elle contou-lhe a vida e, como os acontecimentos acarretassem os
+sentimentos, ella olhou para dentro da alma do primo e achou que era a
+sua mesma alma e que, em substancia, a vida de ambos era a mesma. A
+differença é que uma esperou quieta o que o outro andou buscando por
+montes e valles; no mais, egual equivoco, egual conflicto com a
+realidade, identico dialogo de arabe e japonez.
+
+--Tudo o que me cerca é trivial e chocho, dizia-lhe elle.
+
+Com effeito, gastara o aço da mocidade em divulgar uma concepção que
+ninguem lhe entendeu. Emquanto os tres amigos mais chegados do seminario
+passavam adiante, trabalhando e servindo, afinados pela nota do seculo,
+Velloso conego e prégador, Soares com uma grande vigararia, Vasconcellos
+a caminho de bispar, elle Theophilo era o mesmo apostolo e mystico dos
+primeiros annos, em plena aurora christã e metaphysica. Vivia
+miseravelmente, costeando a fome, pão magro e batina surrada; tinha
+instantes e horas de tristeza e de abatimento: confessou-os á prima...
+
+--Tambem o senhor? perguntou ella.
+
+E as suas mãos apertaram-se com energia: entendiam-se. Não tendo achado
+um astro na loja de um relojoeiro, a culpa era do relojoeiro; tal era a
+logica de ambos. Olharam-se com a sympathia de naufragos,--naufragos e
+não desenganados--, porque não o eram. Crusoe, na ilha deserta, inventa
+e trabalha; elles não; lançados á ilha, estendiam os olhos para o mar
+illimitado, esperando a aguia que viria buscal-os com as suas grandes
+azas abertas. Uma era a eterna noiva sem noivo, outro o eterno propheta
+sem Israel; ambos punidos e obstinados.
+
+Já disse que Eulalia era ainda bonita. Resta dizer que o padre
+Theophilo, com quarenta e dous annos tinha os cabellos grisalhos e as
+feições cançadas; as mãos não possuiam nem a maciez nem o aroma da
+sacristia, eram magras e callosas e cheiravam ao matto. Os olhos é que
+conservavam o fogo antigo era por alli que a mocidade interior fallava
+cá para fóra, e força é dizer que elles valiam só por si todo o resto.
+
+As visitas amiudaram-se. Afinal iamos passar alli as tardes e as noites
+e jantar aos domingos. A convivencia produziu dous effeitos, e até tres.
+O primeiro foi que os dous primos, frequentando-se, deram força e vida
+um ao outro; relevem-me esta expressão familiar:--fizeram um
+_pique-nique_ de illusões. O segundo é que Eulalia, cançada de esperar
+um noivo humano, volveu os olhos para o noivo divino e, assim como ao
+primo viera a ambição de S. Paulo, veiu-lhe a ella a de Santa Thereza. O
+terceiro effeito é o que o leitor já adivinhou.
+
+Já adivinhou. O terceiro foi o caminho de Damasco,--um caminho ás
+avessas, porque a voz não baixou do céu, mas subiu da terra; não chamava
+a prégar Deus, mas a prégar o homem. Sem metaphora, amavam-se. Outra
+differença é que a vocação aqui não foi subita como em relação ao
+apostolo das gentes; foi vagarosa, muito vagarosa, cochichada,
+insinuada, bafejada pelas azas da pomba mystica.
+
+Note-se que a faina precedeu ao amor. Sussurrava-se desde muito que as
+visitas do padre eram menos de confessor que de peccador. Era mentira;
+eu juro que era mentira. Via-os, acompanhava-os, estudava esses dous
+temperamentos tão espirituaes, tão cheios de si mesmos, que nem sabiam
+da fama, nem cogitavam no perigo da apparencia. Um dia vi-lhes os
+primeiros signaes do amor. Será o que quizerem, uma paixão quarentona,
+rosa outoniça e pallida, mas era, existia, crescia, ia tomal-os
+inteiramente. Pensei em avisar o padre, não por mim, mas por elle mesmo;
+mas era difficil, e talvez perigoso. Demais, eu era e sou gastronomo e
+psychologo; avisal-o era botar fóra uma fina materia de estudo e perder
+os jantares dominicaes. A psychologia, ao menos, merecia um sacrificio:
+calei-me.
+
+Calei-me á toa. O que eu não quiz dizer, publicou-o o coração de ambos.
+Se o leitor me leu de corrida, conclue por si mesmo a anecdota,
+conjugando os dous primos: mas, se me leu de vagar, adivinha o que
+succedeu. Os dous mysticos recuaram; não tiveram horror um do outro nem
+de si mesmos, porque essa sensação estava excluida de ambos, mas
+recuaram, agitados de medo e de desejo.
+
+--Volto para a roça, disse-me o padre.
+
+--Mas por que?
+
+--Volto para o roça.
+
+Voltou para a roça e nunca mais cá veiu. Ella, é claro que tinha achado
+o marido que esperava, mas saiu-lhe tão impossivel como a vida que
+sonhou. Eu, gastronomo e psychologo, continuei a ir jantar com Eulalia
+aos domingos. Considero que alguma cousa deve subsistir debaixo do sol,
+ou amor ou o jantar, se é certo, como quer Schiller, que o amor e a fome
+governam este mundo.
+
+
+FIM DO MANUSCRITO DE UM SACRISTÃO
+
+
+
+
+EX CATHEDRA
+
+
+--Padrinho, vosmecê assim fica cégo.
+
+--O que?
+
+--Vosmecê fica cégo; lê que é um desespero. Não, senhor, dê cá o livro.
+
+Caetaninha tirou-lhe o livro das mãos. O padrinho deu uma volta, e foi
+metter-se no gabinete, onde lhe não faltavam livros; fechou-se por
+dentro e continuou a ler. Era o seu mal; lia com excesso, lia de manhã,
+de tarde e de noute, ao almoço e ao jantar, antes de dormir, depois do
+banho, lia andando, lia parado, lia em casa e na chacara, lia antes de
+ler e depois de ler, lia toda a casta de livros, mas especialmente
+direito (em que era graduado), mathematicas e philosophia; ultimamente
+dava-se tambem ás sciencias naturaes.
+
+Peior que cégo, ficou aluado. Foi pelos fins de 1873, na Tijuca, que
+elle começou a dar signaes de transtorno cerebral; mas, como eram leves
+e poucos, só em Março ou Abril de 1874 é que a afilhada lhe percebeu a
+alteração. Um dia, almoçando, interrompeu elle a leitura para lhe
+perguntar:
+
+--Como é que eu me chamo?
+
+--Como é que padrinho se chama? repetiu ella espantada. Chama-se
+Fulgencio.
+
+--De hoje em diante, chamar-me-has Fulgencius.
+
+E, enterrando a cara no livro, proseguiu na leitura. Caetaninha referiu
+o caso ás mucamas, que lhe declararam desconfiar desde algum tempo, que
+elle não andava bom. Imagine-se o medo da moça; mas o medo passou
+depressa para só deixar a piedade que lhe augmentou a affeição. Tambem a
+mania era restricta e mansa; não passava dos livros. Fulgencio vivia do
+escripto, do impresso, do doutrinal, do abstracto, dos principios e das
+formulas. Com o tempo chegou, não já á superstição, mas á allucinação da
+theoria. Uma de suas maximas era, que a liberdade não morre onde restar
+uma folha de papel para decretal-a; e um dia, acordando com a idea de
+melhorar a condição dos turcos, redigiu uma constituição, que mandou de
+presente ao ministro inglez, em Petrópolis. De outra occasião, metteu-se
+a estudar nos livros a anatomia dos olhos, para verificar se realmente
+elles podiam vêr, e concluiu que sim.
+
+Digam-me, se, em taes condições, a vida de Caetaninha podia ser alegre.
+Não lhe faltava nada, é verdade, porque o padrinho era rico. Foi elle
+mesmo que a educou, desde os sete annos, quando perdeu a mulher;
+ensinou-lhe a ler e escrever, francez, um pouco de historia e
+geographia, para não dizer quasi nada, e incumbiu uma das mucamas de lhe
+ensinar crivo, renda e costura. Tudo isso é verdade. Mas Caetaninha
+fizera quatorze annos; e, se nos primeiros tempos bastavam os brinquedos
+e as escravas para divertil-a, era chegada a idade em que os brinquedos
+perdem de moda e as escravas de interesse, em que não ha leituras nem
+escripturas que façam de uma casa solitaria na Tijuca um paraiso. Descia
+algumas vezes, raras, e de corrida; não ia a theatros nem bailes; não
+fazia nem recebia visitas. Quando via passar na estrada uma cavalgada de
+homens e senhoras, punha a alma na garupa dos animaes, e deixava-a ir
+com elles, ficando-lhe o corpo, ao pé do padrinho, que continuava a ler.
+
+Um dia, estando na chacara, viu parar ao portão um rapaz, montado n'uma
+bestinha, e ouviu que lhe perguntava se era alli a casa do doutor
+Fulgencio.
+
+--Sim, senhor, é aqui mesmo.
+
+--Podia fallar-lhe?
+
+Caetaninha respondeu que ia ver; entrou em casa, e foi ao gabinete, onde
+achou o padrinho remoendo, com a mais voluptuaria e beata das
+expressões, um capitulo de Hegel. Mocinho? Que mocinho? Caetaninha
+disse-lhe que era um mocinho vestido de luto. De luto? repetiu o velho
+doutor fechando precipitadamente o livro; ha de ser elle. Esquecia-me
+dizer (mas ha tempo para tudo) que, tres mezes antes, fallecera um irmão
+de Fulgencio, no norte, deixando um filho natural. Como o irmão, dias
+antes de morrer, lhe escrevera recommendando o orphão que ia deixar,
+Fulgencio mandou que este viesse para o Rio de Janeiro. Ouvindo que
+estava alli um mocinho de luto, concluiu que era o sobrinho, e não
+concluiu mal. Era elle mesmo.
+
+Parece que até aqui nada ha que destoe de uma historia ingenuamente
+romanesca: temos um velho lunatico, uma mocinha solitaria e suspirosa, e
+vemos despontar inopinadamente um sobrinho. Para não descer da região
+poetica em que nos achamos, deixo de dizer que a mula em que o Raymundo
+veiu montado, foi reconduzida por um preto ao alugador; passo tambem por
+alto as circumstancias da accommodação do rapaz, limitando-me a dizer
+que, como o tio, á força de viver lendo, esquecera inteiramente que o
+mandára buscar, nada havia em casa preparado para recebel-o. Mas a casa
+era grande e abastada; uma hora depois, estava o rapaz aposentado n'um
+lindo quarto, d'onde podia ver a chacara, a cisterna antiga, o
+lavadouro, basta folha verde e vasto céu azul.
+
+Creio que ainda não disse a idade do hospede; tem quinze annos e um
+ameaço de buço; é quasi uma criança. Logo, se a nossa Caetaninha ficou
+alvoroçada, e as mucamas andam de um lado para outro espiando e fallando
+do «sobrinho de sinhô velho que chegou de fóra», é porque a vida alli
+não tem outros episodios, não porque elle seja homem feito. Essa foi
+tambem a impressão do dono da casa; mas, aqui vae a differença. A
+afilhada não advertia que o officio do buço é virar bigode, ou, se
+pensou n'isso, fel-o tão vagamente, que não vale a pena de o pôr aqui.
+Não assim o velho Fulgencio. Comprehendeu este que havia alli a massa de
+um marido, e resolveu casal-os; mas viu tambem que, a menos de lhes
+pegar nas mãos e mandar que se amassem, o acaso podia guiar as cousas
+por modo differente.
+
+Uma idéia traz outra. A idéia de os casar pegou por um lado com uma de
+suas opiniões recentes. Era esta que as calamidades ou os simples
+dissabores nas relações do coração provinham de que o amor era praticado
+de um modo empyrico; faltava-lhe a base scientifica. Um homem e uma
+mulher, desde que conhecessem as razões physicas e metaphysicas d'esse
+sentimento, estariam mais aptos a recebel-o e nutril-o com efficacia, do
+que outro homem e outra mulher que nada soubessem do phenomeno.
+
+--Os meus pequenos estão verdes, dizia elle comsigo: tenho tres a quatro
+annos diante da mim, e posso começar desde já a preparal-os. Vamos com
+logica; primeiro os alicerces, depois as paredes, depois o tecto..., em
+vez de começar pelo tecto... Dia virá em que se aprenda a amar como se
+aprende a ler... Nesse dia...
+
+Estava atordoado, deslumbrado, delirante. Foi ás estantes, desceu alguns
+tomos, astronomia, geologia, physiologia, anatomia, jurisprudencia,
+politica, linguistica, abriu-os, folheou-os, comparou-os, extractou
+d'aqui e d'ali, até formular um programma de ensino. Compunha-se este de
+vinte capitulos, nos quaes entravam as noções geraes do universo, uma
+definição da vida, demonstração da existencia do homem e da mulher,
+organisação das sociedades, definição e analyse das paixões, definição e
+analyse do amor, suas causas, necessidades e effeitos. Em verdade, as
+materias eram crespas; elle entendeu tornal-as doceis, tratando-as em
+phrase corriqueira e chã, dando-lhes um tom puramente familiar, como a
+astronomia de Fontenelle. E dizia com emphasis que o essencial da fructa
+era o miolo, não a casca.
+
+Tudo isso era engenhoso; mas aqui vai o mais engenhoso. Não os convidou
+a aprender. Uma noite, olhando para o céo, disse que as estrellas
+estavam brilhando muito; e o que eram as estrellas? acaso sabiam elles o
+que eram as estrellas?
+
+--Não senhor.
+
+D'aqui a iniciar uma descripção do universo era um passo. Fulgencio deu
+o passo, com tal presteza e naturalidade, que os deixou encantados e
+elles pediram a viagem toda.
+
+--Não, disse o velho; não esgotemos tudo hoje, nem isto se entende bem
+se não de vagar; amanhã ou depois...
+
+Foi assim, sorrateiramente, que elle começou a executar o plano. Os dois
+alumnos, assombrados com o mundo astronomico, pediam-lhe todos os dias
+que continuasse, e, posto que no fim dessa primeira parte Caetaninha
+ficasse um tanto confusa, ainda assim quiz ouvir as outras cousas que o
+padrinho lhe prometteu.
+
+Não digo nada da familiaridade entre os dois alumnos, por ser cousa
+obvia. Entre quatorze e quinze annos a differença é tão pequena, que os
+portadores das duas edades, não tinha mais que dar a mão um ao outro.
+Foi o que aconteceu.
+
+No fim de tres semanas pareciam ter sido criados juntos. Só isto bastava
+a mudar a vida de Caetaninha; mas Raymundo trouxe-lhe mais. Não ha dez
+minutos, vimol-a olhar com saudade as cavalgadas de homens e damas que
+passavam na estrada. Raymundo matou-lhe a saudade, ensinando-lhe a
+montaria, apezar da relutancia do velho, que temia algum desastre; mas
+este cedeu e alugou dois cavallos. Caetaninha mandou fazer uma linda
+amazona, Raymundo veiu á cidade comprar-lhe as luvas e um chicotinho,
+com o dinheiro do tio--já se sabe--que tambem lhe deu as botas e o
+demais apparelho masculino. D'ahi a pouco era um gosto vel-os ambos,
+galhardos e intrepidos, abaixo e acima da montanha.
+
+Em casa, brincavam á larga, jogavam damas e cartas, cuidavam de aves e
+plantas. Brigavam muita vez; mas, segundo as mucamas, eram brigas de
+mentira, só para fazerem as pazes depois. Era o pico do arrufo. Raymundo
+vinha ás vezes á cidade, a mandado do tio. Caetaninha ia esperal-o ao
+portão, espiando anciosa. Quando elle chegava, brigavam, porque ella
+queria tirar-lhe os maiores embrulhos, a pretexto de que elle vinha
+cançado, e elle queria dar-lhe os mais leves, allegando que ella era
+fraquinha.
+
+No fim de quatro mezes, a vida era totalmente outra. Póde-se até dizer
+que só então é que Caetaninha começou a usar rosas no cabello. Antes
+d'isso vinha muita vez despenteada para a mesa do almoço. Agora, não só
+se penteava logo cedo, mas até, como digo, trazia rosas, uma ou duas;
+estas eram, ou colhidas na vespera, por ella mesma, e guardadas em agua,
+ou na propria manhã, por elle, que ia levar-lh'as á janella. A janella
+era alta, mas Raymundo, pondo-se na ponta dos pés, e levantando o braço,
+conseguia dar-lhe as rosas em mão. Foi por esse tempo que elle adquiriu
+o séstro de mortificar o buço, puchando-o muito de um e outro lado.
+Caetaninha chegava a bater-lhe nos dedos, para lhe tirar tão máo
+costume.
+
+Entretanto, as licções continuavam regularmente. Já tinham uma idéa
+geral do universo, e uma definição da vida, que nenhum d'elles entendeu.
+Assim chegaram ao quinto mez. No sexto, começou a demonstração da
+existencia do homem. Caetaninha não pôde suster o riso, quando o
+padrinho, expondo a materia, perguntou-lhes se elles sabiam que existiam
+e porque; mas ficou logo séria, e respondeu que não.
+
+--Nem você?
+
+--Nem eu, não, senhor, concordou o sobrinho,
+
+Fulgencio iniciou uma demonstração em regra, profundamente cartesiana. A
+seguinte licção foi na chacara. Chovera muito nos dias anteriores; mas o
+sol agora alagava tudo de luz, e a chacara parecia uma linda viuva, que
+troca o véo do luto pelo do noivado. Raymundo, como se quizesse copiar o
+sol, (copiam-se naturalmente os grandes) despedia das pupillas um olhar
+vasto e longo, que Caetaninha recebia, palpitando, como a chacara.
+Fusão, transfusão, diffusão, confusão e profusão de seres e de cousas.
+
+Emquanto o velho fallava, recto, logico, vagaroso, curtido de formulas,
+com os olhos fixos em parte nenhuma, os dous alumnos faziam trinta mil
+esforços para escutal-o, mas vinham trinta mil incidentes distrahil-os.
+Foi a principio um casal de borboletas que brincavam no ar. Façam-me o
+favor de dizer o que é que póde haver extraordinario n'um casal de
+borboletas? Concordo que eram amarellas, mas esta circumstancia não
+basta a explicar a distracção. O facto de voarem uma atraz da outra, ora
+á direita, ora á esquerda, ora abaixo, ora acima, tambem não dá a razão
+do desvio, visto que nunca as borboletas voaram, em linha recta, como
+simples militares.
+
+--O entendimento, dizia o velho, o entendimento, segundo eu já
+expliquei...
+
+Raymundo olhou para Caetaninha, e achou-a olhando para elle. Um e outro
+pareciam confusos e acanhados. Ella foi a primeira que baixou os olhos
+ao regaço. Depois, levantou-os, afim de os levar a outra parte, mais
+remota, o muro da chacara; na passagem como os de Raymundo ali
+estivessem, ella encarou-os o mais rapidamente que pôde. Felizmente, o
+muro apresentava um expectaculo que a encheu de admiração: um casal de
+andorinhas (era o dia dos casaes) saltitava n'elle, com a graça peculiar
+ás pessoas aladas. Saltitavam piando, dizendo cousas uma á outra, o que
+quer que fosse, talvez isto--que era bem bom não haver philosophia nos
+muros das chacaras. Se não quando, uma d'ellas voou, provavelmente a
+dama, e a outra, naturalmente o garção, não se deixou ficar atraz:
+esticou as azas e seguiu o mesmo caminho. Caetaninha desceu os olhos á
+gramma do chão.
+
+Quando a licção acabou, d'ahi a alguns minutos, ella pediu ao padrinho
+que continuasse, e, recusando este, tomou-lhe o braço e convidou-o a dar
+um giro na chacara.
+
+--Está muito sol, contestou o velho.
+
+--Vamos pela sombra.
+
+--Faz muito calor.
+
+Caetaninha propoz irem continuar na varanda; mas o padrinho disse-lhe
+mysteriosamente que Roma não se fez n'um dia, e acabou declarando que só
+dois dias depois continuaria a licção. Caetaninha recolheu-se ao quarto,
+esteve ali tres quartos de hora fechada, sentada, á janella, de um lado
+para outro, procurando as cousas que tinha na mão, e chegando ao cumulo
+de ver-se a si mesma, cavalgando, estrada acima, ao lado de Raymundo. De
+uma vez aconteceu-lhe ver o rapaz no muro da chacara; mas attentou bem,
+reconheceu que era um par de bezouros que zumbiam no ar. E dizia um
+d'elles ao outro:
+
+--Tu és a flor da nossa raça, a flor do ar, a flor das flôres, o sol e a
+lua da minha vida.
+
+Ao que respondia o outro:
+
+--Ninguem te vence na belleza e na graça; o teu zumbir é um éco das
+fallas divinas; mas, deixa-me... deixa-me...
+
+--Porque deixar-te, alma d'estes bosques?
+
+--Já te disse, rei dos ares puros, deixa-me.
+
+--Não me falles assim, feitiço e gala das mattas. Tudo por cima e em
+volta de nós está dizendo que me deves fallar de outra maneira. Conheces
+a cantiga dos mysterios azues?
+
+--Vamos ouvil-a nas folhas verdes da larangeira.
+
+--As da mangueira são mais bonitas.
+
+--Tu és mais linda que umas e outras.
+
+--E tu, sol da minha vida?
+
+--Lua do meu ser, eu sou o que tu quizeres...
+
+Era assim que os dous bezouros fallavam. Ella ouviu-os scismando. Como
+elles desapparecessem, ella entrou, viu as horas e saiu do quarto.
+Raymundo estava fóra; ella foi esperal-o ao portão, dez, vinte, trinta,
+quarenta, cincoenta minutos. Na volta disseram pouco; uniram-se e
+separaram-se duas ou tres vezes. Da ultima vez foi ella que o trouxe á
+varanda, para mostrar-lhe um enfeite que julgava perdido e acabava de
+achar. Façam-lhe a justiça de crer que era pura mentira. Entretanto,
+Fulgencio antecipou a licção; deu-a no dia seguinte, entre o almoço e o
+jantar. Nunca a palavra lhe saiu tão limpida e singella. E assim devia
+ser; tratava-se da existencia do homem, capitulo profundamente
+methaphysico, em que era preciso considerar tudo e por todos os lados.
+
+--Estão entendendo? perguntava elle.
+
+--Perfeitamente.
+
+E a licção seguia até o fim. No fim, deu-se a mesma cousa da vespera;
+Caetaninha, como se tivesse medo de ficar só, pediu-lhe para continuar
+ou passear; elle recusou uma e outra cousa, bateu-lhe paternalmente na
+cara, e foi encerrar-se no gabinete.
+
+--Para a semana, pensava o velho doutor, dando volta á chave, para a
+semana entro na organisação das sociedades; todo o mez que vem e o outro
+é para a definição e classificação das paixões; em maio, passaremos ao
+amor... já será tempo...
+
+Emquanto elle dizia isto, e fechava a porta, alguma cousa resoava do
+lado da varanda--um trovão de beijos, segundo disseram as lagartas da
+chacara; mas, para as lagartas qualquer pequeno rumor vale um trovão.
+Quanto aos auctores do ruido nada positivo se sabe. Parece que um
+maribondo, vendo Caetaninha e Raymundo unidos n'essa occasião, concluiu
+da coincidencia para a consequencia, e entendeu que eram elles; mas um
+velho gafanhoto demonstrou a inanidade do fundamento, allegando que
+ouvira muitos beijos, outr'ora, em logares onde nem Raymundo nem
+Caetaninha puzera os pés. Convenhamos que este outro argumento não
+prestava para nada; mas, tal é o prestigio de um bom caracter, que o
+gafanhoto foi acclamado como tendo ainda uma vez defendido a verdade e a
+razão. E d'ahi pode ser que fosse assim mesmo. Mas um trovão de beijos?
+Supponhamos dous; supponhamos tres ou quatro.
+
+
+FIM DA EX CATHEDRA.
+
+
+
+
+A SENHORA DO GALVÃO
+
+
+Começaram a rosnar dos amores d'este advogado com a viuva do brigadeiro,
+quando elles não tinham ainda passado dos primeiros obsequios. Assim vai
+o mundo. Assim se fazem algumas reputações más, e, o que parece absurdo,
+algumas boas. Com effeito, ha vidas que só têm prologo; mas toda a gente
+falla do grande livro que se lhe segue, e o autor morre com as folhas em
+branco. No presente caso, as folhas escreveram-se, formando todas um
+grosso volume de tresentas paginas compactas, sem contar as notas. Estas
+foram postas no fim, não para esclarecer, mas para recordar os capitulos
+passados; tal é o methodo n'esses livros de collaboração. Mas a verdade
+é que elles apenas combinavam no plano, quando a mulher do advogado
+recebeu este bilhete anonymo:
+
+«Não é possivel que a senhora se deixe embair mais tempo, tão
+escandalosamente, por uma de suas amigas, que se consola da viuvez,
+seduzindo os maridos alheios, quando bastava conservar os cachos...»
+
+Que cachos? Maria Olympia não perguntou que cachos eram; eram da viuva
+do brigadeiro, que os trazia por gosto, e não por moda. Creio que isto
+se passou em 1853. Maria Olympia leu e releu o bilhete; examinou a
+lettra, que lhe pareceu de mulher e disfarçada, e percorreu mentalmente
+a primeira linha das suas amigas, a ver se descobria a autora. Não
+descobriu nada, dobrou o papel e fitou o tapete do chão, cahindo-lhe os
+olhos justamente no ponto do desenho em que dous pombinhos ensinavam um
+ao outro a maneira de fazer de dous bicos um bico. Ha d'essas ironias do
+acaso, que dão vontade de destruir o universo. Afinal metteu o bilhete
+no vestido, e encarou a mucama, que esperava por ella, e que lhe
+perguntou:
+
+--Nhanhã não quer mais ver o chale?
+
+Maria Olympia pegou no chale, que a mucama lhe dava e foi pol-o aos
+hombros, defronte do espelho. Achou que lhe ficava bem, muito melhor que
+á viuva. Cotejou as suas graças com as da outra. Nem os olhos nem a
+bocca eram comparaveis; a viuva tinha os hombros estreitinhos, a cabeça
+grande, e o andar feio. Era alta; mas que tinha ser alta? E os trinta e
+cinco annos de edade, mais nove que ella? Emquanto fazia essas
+reflexões, ia compondo, pregando e despregando o chale.
+
+--Este parece melhor, que o outro, aventurou a mucama.
+
+--Não sei... disse a senhora, chegando-se mais para a janella, com os
+dous nas mãos.
+
+--Bota o outro, nhanhã.
+
+A nhanhã obdeceu. Experimentou cinco chales dos dez que alli estavam, em
+caixas, vindos de uma loja da rua da Ajuda. Concluiu que os dois
+primeiros eram os melhores; mas aqui surgiu uma complicação--minima,
+realmente--mas tão subtil e profunda na solução, que não vacillo em
+recommendal-a aos nossos pensadores de 1906. A questão era saber qual
+dos dois chales escolheria, uma vez que o marido, recente advogado,
+pedia-lhe que fosse economica. Contemplava-os alternadamente, e ora
+preferia um, ora outro. De repente, lembrou-lhe a aleivosia do marido, a
+necessidade de mortifical-o, castigal-o, mostrar-lhe que não era peteca
+de ninguem, nem maltrapilha; e, de raiva, comprou ambos os chales.
+
+Ao bater das quatro horas (era a hora do marido) nada de marido. Nem ás
+quatro, nem ás quatro e meia. Maria Olympia imaginava uma porção de
+cousas aborrecidas, ia á janella, tornava a entrar, temia um desastre ou
+doença repentina; pensou tambem que fosse uma sessão do jury. Cinco
+horas, e nada. Os cachos da viuva tambem negrejavam diante d'ella, entre
+a doença e o jury, com uns tons de azul-ferrete, que era provavelmente a
+côr do diabo. Realmente era para exhaurir a paciencia de uma moça de
+vinte e seis annos. Tinte e seis annos; não tinha mais. Era filha de um
+deputado do tempo da Regencia, que a deixou menina; e foi uma tia que a
+educou com muita distincção. A tia não a levou muito cedo a bailes e
+expectaculos. Era religiosa, conduziu-a primeiro á egreja. Maria Olympia
+tinha a vocação da vida exterior, e, nas procissões e missas cantadas,
+gostava principalmente do rumor, da pompa; a devoção era sincera, tibia
+e distrahida. A primeira cousa que ella via na tribuna das egrejas, era
+a si mesma. Tinha um gosto particular era olhar de cima para baixo,
+fitar a multidão das mulheres ajoelhadas ou sentadas, e os rapazes, que,
+por baixo do coro ou nas portas lateraes, temperavam com attitudes
+namoradas as ceremonias latinas. Não entendia os sermões; o resto,
+porém, orchestra, canto, flores, luzes, sanefas, ouros, gentes, tudo
+exercia n'ella um singular feitiço. Magra devoção, que escasseou ainda
+mais com o primeiro expectaculo e o primeiro baile. Não alcançou a
+Candiani, mas ouviu a Ida Edelvira, dansou á larga, e ganhou fama de
+elegante.
+
+Eram cinco horas e meia, quando o Galvão chegou. Maria Olympia, que
+então passeava na sala, tão depressa lhe ouviu os pés, fez o que faria
+qualquer outra senhora na mesma situação: pegou de um jornal de modas, e
+sentou-se, lendo, com um grande ar de pouco caso. Galvão entrou
+offegante, risonho, cheio de carinhos, perguntando-lhe se estava
+zangada, e jurando que tinha um motivo para a demora, um motivo que ella
+havia de agradecer, se soubesse...
+
+--Não é preciso, interrompeu ella friamente. Levantou-se; foram jantar.
+Fallaram pouco; ella menos que elle, mas em todo o caso, sem parecer
+magoada. Póde ser que entrasse a duvidar da carta anonyma; póde ser
+tambem que os dous chales lhe pesassem na consciencia. No fim do jantar,
+Galvão explicou a demora; tinha ido, a pé, ao theatro Provisorio,
+comprar um camarote para essa noite: davam os _Lombardos_. De lá, na
+volta, foi encommendar um carro...
+
+Os _Lombardos_? interrompeu Maria Olympia.
+
+--Sim; canta o Laboceta, canta a Jacobson; ha bailado. Você nunca ouviu
+os _Lombardos_?
+
+--Nunca.
+
+--E ahi está porque me demorei. Que é que você merecia agora? Merecia
+que eu lhe cortasse a ponta d'esse narizinho arrebitado...
+
+Como elle acompanhasse o dito com um gesto, ella recuou a cabeça; depois
+acabou de tomar o café. Tenhamos pena da alma d'esta moça. Os primeiros
+accórdes dos _Lombardos_ ecoavam n'ella, emquanto a carta anonyma lhe
+trazia uma nota lugubre, especie de _Requiem_. E porque é que a carta
+não seria uma calumnia? Naturalmente não era outra cousa: alguma
+invenção de inimigas, ou para affligil-a, ou para fazel-os brigar. Era
+isto mesmo. Entretanto, uma vez que estava avisada, não os perderia de
+vista. Aqui acudiu-lhe uma idéa: consultou o marido se mandaria convidar
+a viuva.
+
+--Não, respondeu elle; o carro só tem dois logares, e eu não hei de ir
+na boléa.
+
+Maria Olympia sorriu de contente, e levantou-se. Ha muito tempo que
+tinha vontade de ouvir os _Lombardos_. Vamos aos _Lombardos_! Trá, lá,
+lá, lá... Meia hora depois foi vestir-se. Galvão, quando a viu prompta
+d'ahi a pouco, ficou encantado. Minha mulher é linda, pensou elle; e fez
+um gesto para estreital-a ao peito; mas a mulher recuou, pedindo-lhe que
+não a amarrotasse. E, como elle, por umas velleidades de camareiro,
+pretendeu concertar-lhe a pluma do cabello, ella disse-lhe enfastiada:
+
+--Deixa, Eduardo! Já veiu o carro?
+
+Entraram no carro e seguiram para o theatro. Quem é que estava no
+camarote contiguo ao d'elles? Justamente a viuva e a mãe. Esta
+coincidencia, filha do acaso, podia fazer crer algum ajuste prévio.
+Maria Olympia chegou a suspeital-o; mas a sensação da entrada não lhe
+deu tempo de examinar a suspeita. Toda a sala voltara-se para vel-a, e
+ella bebeu, a tragos demorados, o leite da admiração publica. Demais, o
+marido teve a inspiração machiavelica de lhe dizer ao ouvido: «Antes a
+mandasses convidar; ficava-nos devendo o favor.» Qualquer suspeita
+cahiria diante d'esta palavra. Comtudo, ella cuidou de os não perder de
+vista--e renovou a resolução de cinco em cinco minutos, durante meia
+hora, até que, não podendo fixar a attenção, deixou-a andar. Lá vae
+ella, inquieta, vai direito ao clarão das luzes, ao explendor dos
+vestuarios, um pouco á opera, como pedindo a todas as cousas alguma
+sensação deleitosa em que se espreguice uma alma fria e pessoal. E volta
+depois á propria dona, ao seu leque, ás suas luvas, aos adornos do
+vestido, realmente magnifico. Nos intervallos, conversando com a viuva,
+Maria Olympia tinha a voz e os gestos do costume, sem calculo, sem
+esforço, sem sentimento, esquecida da carta. Justamente nos intervallos
+é que o marido, com uma discrição rara entre os filhos dos homens, ia
+para os corredores ou para o saguão pedir noticias do ministerio.
+
+Juntas sahiram do camarote, no fim, e atravessaram os corredores. A
+modestia com que a viuva trajava podia realçar a magnificencia da amiga.
+As feições, porém, não eram o que esta affirmou, quando ensaiava os
+chales de manhã. Não, senhor; eram engraçadas, e tinham um certo pico
+original. Os hombros proporcionaes e bonitos. Não contava trinta e cinco
+annos, mas trinta e um; nasceu em 1822, na vespera da independencia,
+tanto que o pae, por brincadeira, entrou a chamal-a Ypiranga, e
+ficou-lhe esta alcunha entre as amigas. Demais, lá estava em Santa Rita
+o assentamento de baptismo.
+
+Uma semana depois, recebeu Maria Olympia outra carta anonyma. Era mais
+longa e explicita. Vieram outras, uma por semana, durante tres mezes.
+Maria Olympia leu as primeiras com algum aborrecimento; as seguintes
+foram callejando a sensibilidade. Não havia duvida que o marido
+demorava-se fóra, muitas vezes, ao contrario do que fazia d'antes, ou
+sahia á noite e regressava tarde; mas, segundo dizia, gastava o tempo no
+Wallerstein ou no Bernardo, em palestras politicas. E isto era verdade,
+uma verdade de cinco a dez minutos, o tempo necessario para recolher
+alguma anecdota ou novidade, que pudesse repetir em casa, á laia de
+documento. D'alli seguia para o largo de S. Francisco, e mettia-se no
+omnibus.
+
+Tudo era verdade. E, comtudo, ella continuava a não crêr nas cartas.
+Ultimamente, não se dava mais ao trabalho de as refutar comsigo; lia-as
+uma só vez, e rasgava-as. Com o tempo foram surgindo alguns indicios
+menos vagos, pouco a pouco, ao modo do apparecimento da terra aos
+navegantes; mas este Colombo teimava em não crêr na America. Negava o
+que via; não podendo negal-o, interpretava-o; depois recordava algum
+caso de allucinação, uma anecdota de apparencias illusorias, e n'esse
+travesseiro commodo e molle punha a cabeça e dormia. Já então,
+prosperando-lhe o escriptorio, dava o Galvão partidas e jantares, iam a
+bailes, theatros, corridas de cavallos. Maria Olympia vivia alegre,
+radiante; começava a ser um dos nomes da moda. E andava muita vez, com a
+viuva, a despeito das cartas, a tal ponto que uma d'estas lhe dizia:
+«Parece que é melhor não escrever mais, uma vez que a senhora se regala
+n'uma comborçaria de máu gosto.» Que era comborçaria? Maria Olympia quiz
+perguntal-o ao marido, mas esqueceu o termo, e não pensou mais n'isso.
+
+Entretanto, constou ao marido que a mulher recebia cartas pelo correio.
+Cartas de quem? Esta noticia foi um golpe duro e inesperado. Galvão
+examinou de memoria as pessoas que lhe frequentavam a casa, as que
+podiam encontral-a em theatros ou bailes, e achou muitas figuras
+verosimeis. Em verdade, não lhe faltavam adoradores.
+
+--Cartas de quem? repetia elle mordendo o beiço e franzindo a testa.
+
+Durante sete dias passou uma vida inquieta e aborrecida, espiando a
+mulher e gastando em casa grande parte do tempo. No oitavo dia, veiu uma
+carta.
+
+--Para mim? disse elle vivamente.
+
+--Não; é para mim, respondeu Maria Olympia, lendo o sobrescripto; parece
+letra de Mariana ou de Lulú Fontoura...
+
+Não queria lel-a; mas o marido disse que a lesse; podia ser alguma
+noticia grave. Maria Olympia leu a carta e dobrou-a, sorrindo; ia
+guardal-a, quando o marido desejou ver o que era.
+
+--Você sorriu, disse elle gracejando; ha de ser algum epigramma commigo.
+
+--Qual! é um negocio de moldes.
+
+--Mas deixa ver.
+
+--Para que, Eduardo?
+
+--Que tem? Você, que não quer mostrar, por algum motivo ha de ser. De
+cá.
+
+Ja não sorria; tinha a voz tremula. Ella ainda recusou a carta, uma,
+duas, tres vezes. Teve mesmo ideia de rasgal-a, mas era peior, e não
+conseguiria fazel-o até o fim. Realmente, era uma situação original.
+Quando ella viu que não tinha remedio, determinou ceder. Que melhor
+occasião para ler no rosto d'elle a expressão da verdade? A carta era
+das mais explicitas; fallava da viuva em termos crús. Maria Olympia
+entregou-lh'a.
+
+--Não queria mostrar esta, disse-lhe ella primeiro, como não mostrei
+outras que tenho recebido e botado fóra; são tolices, intrigas, que
+andam fazendo para... Leia, leia a carta.
+
+Galvão abriu a carta e deitou-lhe os olhos avidos. Ella enterrou a
+cabeça na cintura, para ver de perto a franja do vestido. Não o viu
+empallidecer. Quando elle, depois de alguns minutos, proferiu duas ou
+tres palavras, tinha já a physionomia composta e um esboço de sorriso.
+Mas a mulher, que o não adivinhava, respondeu ainda de cabeça baixa; só
+a levantou d'ahi a tres ou quatro minutos, e não para fital-o de uma
+vez, mas aos pedaços, como se temesse descobrir-lhe nos olhos a
+confirmação do anonymo. Vendo-lhe, ao contrario, um sorriso, achou que
+era o da innocencia, e fallou de outra cousa.
+
+Redobraram as cautelas do marido; parece tambem que elle não pôde
+esquivar-se a um tal ou qual sentimento de admiração para com a mulher.
+Pela sua parte, a viuva, tendo noticia das cartas, sentiu-se
+envergonhada; mas reagiu depressa, e requintou de maneiras affectuosas
+com a amiga.
+
+Na segunda ou terceira semana de agosto, Galvão fez-se socio do Cassino
+fluminense. Era um dos sonhos da mulher. A seis de setembro fazia annos
+a viuva, como sabemos. Na vespera, foi Maria Olympia (com a tia que
+chegara de fóra), comprar-lhe um mimo: era uso entre ellas. Comprou-lhe
+um annel. Viu na mesma casa uma joia engraçada, uma meia lua de
+diamantes para o cabello, emblema de Diana, que lhe iria muito bem sobre
+a testa. De Mahomet que fosse; todo o emblema de diamantes é christão.
+Maria Olympia pensou naturalmente na primeira noite do Cassino; e a tia,
+vendo-lhe o desejo, quiz comprar a joia, mas era tarde, estava vendida.
+
+Veiu a noite do baile. Maria Olympia subiu commovida as escadas do
+Cassino. Pessoas que a conheceram n'aquelle tempo, dizem que o que ella
+achava na vida exterior, era a sensação de uma grande caricia publica, a
+distancia; era a sua maneira de ser amada. Entrando no Cassino, ia
+recolher nova copia de admirações, e não se enganou, porque ellas
+vieram, e de fina casta.
+
+Foi pelas dez horas e meia que a viuva ali appareceu. Estava realmente
+bella, trajada a primor, tendo na cabeça a meia lua de diamantes.
+Ficava-lhe bem o diabo da joia, com as duas pontas para cima, emergindo
+do cabello negro. Toda a gente admirou sempre a viuva n'aquelle salão.
+Tinha muitas amigas, mais ou menos intimas, não poucos adoradores, e
+possuia um genero de espirito que espertava com as grandes luzes. Certo
+secretario de legação não cessava de a recommendar aos diplomatas novos:
+«_Causes avec Mme. Tavares; c'est adorable!_» Assim era nas outras
+noites; assim foi n'esta.
+
+--Hoje quasi não tenho tido tempo de estar com você, disse ella a Maria
+Olympia, perto de meia-noite.
+
+--Naturalmente, disse a outra abrindo e fechando o leque; e, depois de
+humedecer os labios, como para chamar a elles todo o veneno que tinha no
+coração:--Ypiranga, você está hoje uma viuva deliciosa... Vem seduzir
+mais algum marido?
+
+A viuva empalideceu, e não pode dizer nada. Maria Olympia accrescentou,
+com os olhos, alguma cousa que a humilhasse bem, que lhe respingasse
+lama no triumpho. Já no resto da noite fallaram pouco; trez dias depois
+romperam para nunca mais.
+
+
+FIM DA SENHORA DO GALVÃO.
+
+
+
+
+AS ACADEMIAS DE SIÃO
+
+
+Conhecem as academias de Sião? Bem sei que em Sião nunca houve
+academias: mas supponhamos que sim, e que eram quatro, e escutem-me.
+
+
+I
+
+As estrellas, quando viam subir, atravez da noite, muitos vagalumes côr
+de leite, costumavam dizer que eram os suspiros do rei de Sião, que se
+divertia com as suas trezentas concubinas. E, piscando o olho umas ás
+outras, perguntavam:
+
+--Reaes suspiros, em que é que se occupa esta noite o lindo Kalaphangko?
+
+Ao que os vagalumes respondiam com gravidade:
+
+--Nós somos os pensamentos sublimes das quatro academias de Sião;
+trazemos comnosco toda a sabedoria do universo.
+
+Uma noite, foram em tal quantidade os vagalumes, que as estrellas, de
+medrosas, refugiaram-se nas alcovas, e elles tomaram conta de uma parte
+do espaço, onde se fixaram para sempre com o nome de via-lactea.
+
+Deu logar, a essa enorme ascenção de pensamentos o facto de quererem as
+quatro academias de Sião resolver este singular problema:--porque é que
+ha homens femininos e mulheres masculas? E o que as induziu a isso foi a
+indole do joven rei. Kalaphangko era virtualmente uma dama. Tudo n'elle
+respirava a mais esquisita feminidade: tinha os olhos doces, a voz
+argentina, attitudes molles e obedientes e um cordial horror ás armas.
+Os guerreiros siamezes gemiam, mas a nação vivia alegre, tudo eram
+dansas, comedias e cantigas, á maneira do rei que não cuidava de outra
+cousa. D'ahi a illusão das estrellas.
+
+Vai senão quando, uma das academias achou esta solução ao problema:
+
+--Umas almas são masculinas, outras femininas. A anomalia que se observa
+é uma questão de corpos errados.
+
+--Nego, bradaram as outras tres; a alma é neutra; nada tem com o
+contraste exterior.
+
+Não foi preciso mais para que as vielas e aguas de Bangkok se tingissem
+de sangue academico. Veiu primeiramente a controversia, depois a
+descompostura, e finalmente a pancada. No principio da descompostura
+tudo andou menos mal; nenhuma das rivaes arremessou um improperio que
+não fosse escrupulosamente derivado do sanscrito, que era a lingua
+academica, o latim de Sião. Mas d'alli em diante perderam a vergonha. A
+rivalidade desgrenhou-se, pôz as mãos na cintura, baixou á lama, á
+pedrada, ao murro, ao gesto vil, até que a academia sexual, exasperada,
+resolveu dar cabo das outras, e organisou um plano sinistro... Ventos
+que passaes, se quizesseis levar comvosco estas folhas de papel, para
+que eu não contasse a tragedia de Sião! Custa-me (ai de mim!), custa-me
+escrever a singular desforra. Os academicos armaram-se em segredo, e
+foram ter com os outros, justamente quando estes, curvados sobre o
+famoso problema, faziam subir ao céu uma nuvem de vagalumes. Nem
+preambulo, nem piedade. Cahiram-lhe em cima espumando de raiva. Os que
+puderam fugir, não fugiram por muitas horas; perseguidos e attacados,
+morreram na beira do rio, a bordo das lanchas, ou nas vielas escusas. Ao
+todo, trinta e oito cadaveres. Cortaram uma orelha aos principaes, e
+fizeram d'ellas collar e braceletes para o presidente vencedor, o
+sublime U-Tong. Ebrios da victoria, celebraram o feito com um grande
+festim, no qual cantaram este hymno magnifico: «Gloria a nós, que somos
+o arroz da sciencia e a luminaria do universo».
+
+A cidade acordou estupefacta. O terror apoderou-se da multidão. Ninguem
+podia absolver uma acção tão crúa e feia; alguns chegavam mesmo a
+duvidar do que viam... Uma só pessoa approvou tudo: foi a bella Kinnara,
+a flôr das concubinas regias.
+
+
+II
+
+Mollemente deitado aos pés da bella Kinnara, o joven rei pedia-lhe uma
+cantiga.
+
+--Não dou outra cantiga que não seja esta: creio na alma sexual.
+
+--Crês no absurdo, Kinnara.
+
+--Vossa Magestade crê então na alma neutra?
+
+--Outro absurdo, Kinnara. Não, não creio na alma neutra, nem na alma
+sexual.
+
+--Mas então em que é que Vossa Magestade crê, se não crê em nenhuma
+d'ellas?
+
+--Creio nos teus olhos, Kinnara, que são o sol e a luz do universo.
+
+--Mas cumpre-lhe escolher:--ou crêr na alma neutra, e punir a academia
+viva, ou crêr na alma sexual, e absolvel-a.
+
+--Que deliciosa que é a tua boca, minha doce Kinnara! Creio na tua boca:
+é a fonte da sabedoria.
+
+Kinnara levantou-se agitada. Assim como o rei era o homem feminino, ella
+era a mulher mascula--um bufalo com pennas de cysne. Era o bufalo que
+andava agora no aposento, mas d'ahi a pouco foi o cysne que parou, e,
+inclinando o pescoço, pediu e obeteve do rei, entre duas caricias, um
+decreto em que a doutrina da alma sexual foi declarada legitima e
+orthodoxa, e a outra absurda e perversa. N'esse mesmo dia, foi o decreto
+mandado á academia triumphante, aos pagodes, aos mandarins, a todo o
+reino. A academia poz luminarias; restabeleceu-se a paz publica.
+
+
+III
+
+Entretanto, a bella Kinnara tinha um plano engenhoso e secreto. Uma
+noite, como o rei examinasse alguns papeis do Estado, perguntou-lhe ella
+se os impostos eram pagos com pontualidade.
+
+--_Ohimé!_ exclamou elle, repetindo essa palavra que lhe ficara de um
+missionario italiano. Poucos impostos têm sido pagos. Eu não quizera
+mandar cortar a cabeça aos contribuintes... Não, isso nunca... Sangue?
+sangue? não, não quero sangue...
+
+--E se eu lhe der um remedio a tudo?
+
+--Qual?
+
+--Vossa Magestade decretou que as almas eram femininas e masculinas,
+disse Kinnara depois de um beijo. Supponha que os nossos corpos estão
+trocados. Basta restituir cada alma ao corpo que lhe pertence. Troquemos
+os nossos...
+
+Kalaphangko riu muito da idéa, e perguntou-lhe como é que fariam a
+troca. Ella respondeu que pelo methodo Mukunda, rei dos Hindus, que se
+metteu no cadaver de um brahamane, emquanto um truão se mettia no d'elle
+Mukunda,--velha lenda passada aos turcos, persas e christãos. Sim, mas a
+formula da invocação? Kinnara declarou que a possuia; um velho bonzo
+achára copia d'ella nas ruinas de um templo.
+
+--Valeu?
+
+--Não creio no meu proprio decreto, redarguiu elle rindo; mas vá lá, se
+fôr verdade, troquemos... mas por um semestre não mais. No fim do
+semestre destrocaremos os corpos.
+
+Ajustaram que seria n'essa mesma noite. Quando toda a cidade dormia,
+elles mandaram vir a piroga real, metteram-se dentro e deixaram-se ir á
+tôa. Nenhum dos remadores os via. Quando a aurora começou a apparecer,
+fustigando as vaccas rútilas, Kinnara proferiu a mysteriosa invocação; a
+alma desprendeu-se-lhe, e ficou pairando, á espera que o corpo do rei
+vagasse tambem. O d'ella cahira no tapete.
+
+--Prompto? disse Kalaphangko.
+
+--Prompto, aqui estou no ar esperando. Desculpe Vossa Magestade a
+indignidade da minha pessoa...
+
+Mas a alma do rei não ouviu o resto. Lepida e scintilante, deixou o seu
+vaso physico e penetrou no corpo de Kinnara, emquanto a d'esta se
+apoderava do despojo real. Ambos os corpos ergueram-se e olharam um para
+o outro, imagine-se com que assombro. Era a situação do Buoso e da
+cobra, segundo conta o velho Dante; mas vede aqui a minha audacia. O
+poeta manda calar Ovidio e Lucano, por achar que a sua methamorphose
+vale mais que a d'elles dous. Eu mando-os calar a todos tres. Buoso e a
+cobra não se encontram mais, ao passo que os meus dous heróes, uma vez
+trocados continuam a fallar e a viver juntos--cousa evidente mais
+dantesca, em que me peze á modéstia.
+
+--Realmente, disse Kalaphangko, isto de olhar para mim mesmo e dar-me
+magestade é exquisito. Vossa Magestade não sente a mesma cousa?
+
+Um e outro estavam bem, como pessoas que acham finalmente uma casa
+adequada. Kalaphangko espreguiçava-se todo nas curvas femininas de
+Kinnara. Esta esteiriçava-se no tronco rijo de Kalaphangko. Sião tinha,
+finalmente, um rei.
+
+
+IV
+
+A primeira acção de Kalaphangko (d'aqui em diante entenda-se que é o
+corpo do rei com a alma de Kinnara, e Kinnara o corpo da bella siameza
+com a alma do Kalaphangko) foi nada menos que dar as maiores honrarias á
+academia sexual. Não elevou os seus membros ao mandarinato, pois eram
+mais homens de pensamento que de acção e administração, dados á
+philosophia e á litteratura, mas decretou que todos se prosternassem
+diante d'elles, como é de uso aos mandarins. Além d'isso, fez-lhes
+grandes presentes, cousas raras ou de valia, crocodillos empalhados,
+cadeiras de marfim, apparelhos de esmeralda para almoço, diamantes,
+reliquias. A academia, grata a tantos beneficios, pediu mais o direito
+de usar officialmente o titulo de Claridade do Mundo, que lhe foi
+outorgado.
+
+Feito isso, cuidou Kalaphangko da fazenda publica, da justiça, do culto
+e do ceremonial. A nação começou de sentir o peso grosso, para fallar
+como o excelso Camões, pois nada menos de onze contribuintes remissos
+foram logo decapitados. Naturalmente os outros, preferindo a cabeça ao
+dinheiro, correram a pagar as taxas, e tudo se regularisou. A justiça e
+a legislação tiveram grandes melhoras. Construiram-se novos pagodes; e a
+religião pareceu até ganhar outro impulso, desde que Kalaphangko,
+copiando as antigas artes hespanholas, mandou queimar uma duzia de
+pobres missionarios christãos que por lá andavam; acção que os bonzos da
+terra chamaram a perola do reinado.
+
+Faltava uma guerra. Kalaphangko, com um pretexto mais ou menos
+diplomatico, atacou a outro reino, e fez a campanha mais breve e
+gloriosa do seculo. Na volta a Bangkok, achou grandes festas
+esplendidas. Trezentos barcos, forrados de seda escarlate e azul, foram
+recebel-o. Cada um d'estes tinha na prôa um cysne ou um dragão de ouro,
+e era tripolado pela mais fina gente da cidade; musicas e acclamações
+atroaram os ares. De noite, acabadas as festas, sussurrou-lhe ao ouvido
+a bella concubina:
+
+--Meu joven guerreiro, paga-me as saudades que curti na ausencia;
+dize-me que a melhor das festas é a tua meiga Kinnara.
+
+Kalaphangko respondeu com um beijo.
+
+--Os teus beiços têm o frio da morte ou do desdem, suspirou ella.
+
+Era verdade, o rei estava distrahido e preoccupado; meditava uma
+tragedia. Ia-se approximando o termo do prazo em que deviam destrocar os
+corpos, e elle cuidava em illudir a clausula, matando a linda siameza.
+Hesitava por não saber se padeceria com a morte d'ella visto que o corpo
+era seu, ou mesmo se teria de succumbir tambem. Era esta a duvida de
+Kalaphangko; mas a idéa da morte sombreava-lhe a fronte, emquanto elle
+afagava ao peito um frasquinho com veneno, imitado dos Borgias.
+
+De repente, pensou na douta academia; podia consultal-a, não claramente,
+mas por hypothese. Mandou chamar os academicos; vieram todos menos o
+presidente, o illustre U-Tong, que estava enfermo. Eram treze;
+prosternaram-se e disseram ao modo de Sião:
+
+--Nós, despreziveis palhas, corremos ao chamado de Kalaphangko.
+
+--Erguei-vos, disse benevolamente o rei.
+
+--O logar da poeira é o chão, teimaram elles com os cotovelos e joelhos
+em terra.
+
+--Pois serei o vento que subleva a poeira, redarguiu Kalaphangko; e, com
+um gesto cheio de graça e tolerancia, estendeu-lhes as mãos.
+
+Em seguida, começou a fallar de cousas diversas, para que o principal
+assumpto viesse de si mesmo; fallou nas ultimas noticias do occidente e
+nas leis de Manú. Referindo-se a U-Tong, perguntou-lhes se realmente era
+um grande sabio, como parecia; mas, vendo que mastigavam a resposta,
+ordenou-lhes que dissessem a verdade inteira. Com exemplar unanimidade,
+confessaram elles que U-Tong era um dos mais singulares estupidos do
+reino; espirito raso, sem valor, nada sabendo e incapaz de aprender
+nada. Kalaphangko estava pasmado. Um estupido?
+
+--Custa-nos dizel-o, mas não é outra cousa; é um espirito raso e chocho.
+O coração é excellente, caracter puro, elevado...
+
+Kalaphangko, quando voltou a si do espanto, mandou embora os academicos,
+sem lhes perguntar o que queria. Um estupido? Era mister tiral-o da
+cadeira sem molestal-o. Tres dias depois, U-Tong compareceu ao chamado
+do rei. Este perguntou-lhe carinhosamente pela saude; depois disse que
+queria mandar alguem ao Japão estudar uns documentos, negocio que só
+podia ser confiado a pessoa esclarecida. Qual dos seus collegas da
+academia lhe parecia idoneo para tal mister? Comprehende-se o plano
+artificioso do rei; era ouvir dois ou tres nomes, e concluir que a todos
+preferia o do proprio U-Tong; mas eis aqui o que este lhe respondeu:
+
+--Real Senhor, perdoai a familiaridade da palavra: são treze camellos,
+com a differença que os camellos são modestos, e elles não; comparam-se
+ao sol e á lua. Mas, na verdade, nunca a lua nem o sol cobriram mais
+singulares pulhas do que esses treze... Comprehendo o assombro de Vossa
+Magestade; mas eu não seria digno de mim se não dissesse isto com
+lealdade, embora confidencialmente...
+
+Kalaphangko tinha a boca aberta. Treze camellos? Treze, treze. U-Tong
+resalvou tão sómente o coração de todos, que declarou excellente; nada
+superior a elles pelo lado do caracter. Kalaphangko, com um fino gesto
+de complacencia, despediu o sublime U-Tong, e ficou pensativo. Quaes
+fossem, as suas reflexões, não o soube ninguem. Sabe-se que elle mandou
+chamar os outros academicos, mas d'esta vez separadamente, afim de não
+dar na vista, e para obter maior expansão. O primeiro que chegou,
+ignorando aliás a opinão de U-Tong, confirmou-a integralmente, com a
+unica emenda de serem doze os camellos, ou treze, contando o proprio
+U-Tong. O segundo não teve opinião differente, nem o terceiro, nem os
+restantes academicos. Differiam no estylo; uns diziam camellos, outros
+usavam circumloquios e metaphoras, que vinham a dar na mesma cousa. E,
+entretanto, nenhuma injuria ao caracter moral das pessoas. Kalaphangko
+estava attonito.
+
+Mas não foi esse o ultimo espanto do rei. Não podendo consultar a
+academia, tratou de deliberar por si, no que gastou dois dias, até que a
+linda Kinnara lhe segredou que era mãi. Esta noticia fel-o recuar do
+crime. Como destruir o vaso eleito da flôr que tinha de vir com a
+primavera proxima? Jurou ao céo e á terra que o filho havia de nascer e
+viver. Chegou ao fim do semestre; chegou o momento de destrocar os
+corpos.
+
+Como da primeira vez, metteram-se no barco real, á noite, e deixaram-se
+ir aguas abaixo, ambos de má vontade, saudosos do corpo que iam
+restituir um ao outro. Quando as vaccas scintillantes da madrugada
+começaram de pisar vagarosamente o céo, proferiram elles o formula
+mysteriosa, e cada alma foi devolvida ao corpo anterior. Kinnara,
+tornando ao seu, teve a commoção materna, como tivera a paterna, quando
+occupava o corpo de Kalaphangko. Parecia-lhe até que era ao mesmo tempo
+mãi e pai da creança.
+
+--Pai e mãi? repetiu o principe restituido á fórma anterior.
+
+Foram interrompidos por uma deleitosa musica, ao longe. Era algum junco
+ou piroga que subia o rio, pois a musica approximava-se rapidamente! Já
+então o sol alagava de luz as aguas e as margens verdes, dando ao quadro
+um tom de vida e renascença, que de algum modo fazia esquecer aos dous
+amantes a restituição psychica. E a musica vinha chegando, agora mais
+distincta, até que n'uma curva do rio, appareceu aos olhos de ambos um
+barco magnifico, adornado de plumas e flammulas. Vinham dentro os
+quatorze membros da academia (contando U-Tong) e todos em côro mandavam
+aos ares o velho hymno: «Gloria a nós, que somos o arroz da sciencia e a
+claridade do mundo»!
+
+A bella Kinnara (antigo Kalaphangko) tinha os olhos esbogalhados de
+assombro. Não podia entender como é que quatorze varões reunidos em
+academia eram a claridade do mundo, e separadamente uma multidão de
+camellos. Kalaphangko consultado por ella, não achou explicação. Se
+alguem descobrir alguma, pode obsequiar uma das mais graciosas damas do
+Oriente, mandando-lh'a em carta fechada, e, para maior segurança,
+sobrescriptada ao nosso consul em Changai, China.
+
+
+FIM DAS ACADEMIAS DE SIÃO.
+
+
+
+
+
+End of the Project Gutenberg EBook of Historias Sem Data, by
+Joaquim Maria Machado de Assis
+
+*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK HISTORIAS SEM DATA ***
+
+***** This file should be named 33056-8.txt or 33056-8.zip *****
+This and all associated files of various formats will be found in:
+ https://www.gutenberg.org/3/3/0/5/33056/
+
+Produced by Pedro Saborano
+
+Updated editions will replace the previous one--the old editions
+will be renamed.
+
+Creating the works from public domain print editions means that no
+one owns a United States copyright in these works, so the Foundation
+(and you!) can copy and distribute it in the United States without
+permission and without paying copyright royalties. Special rules,
+set forth in the General Terms of Use part of this license, apply to
+copying and distributing Project Gutenberg-tm electronic works to
+protect the PROJECT GUTENBERG-tm concept and trademark. Project
+Gutenberg is a registered trademark, and may not be used if you
+charge for the eBooks, unless you receive specific permission. If you
+do not charge anything for copies of this eBook, complying with the
+rules is very easy. You may use this eBook for nearly any purpose
+such as creation of derivative works, reports, performances and
+research. They may be modified and printed and given away--you may do
+practically ANYTHING with public domain eBooks. Redistribution is
+subject to the trademark license, especially commercial
+redistribution.
+
+
+
+*** START: FULL LICENSE ***
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+THE FULL PROJECT GUTENBERG LICENSE
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+distribution of electronic works, by using or distributing this work
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+Gutenberg-tm License (available with this file or online at
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+
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+electronic works
+
+1.A. By reading or using any part of this Project Gutenberg-tm
+electronic work, you indicate that you have read, understand, agree to
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+the terms of this agreement, you must cease using and return or destroy
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+Gutenberg-tm electronic work and you do not agree to be bound by the
+terms of this agreement, you may obtain a refund from the person or
+entity to whom you paid the fee as set forth in paragraph 1.E.8.
+
+1.B. "Project Gutenberg" is a registered trademark. It may only be
+used on or associated in any way with an electronic work by people who
+agree to be bound by the terms of this agreement. There are a few
+things that you can do with most Project Gutenberg-tm electronic works
+even without complying with the full terms of this agreement. See
+paragraph 1.C below. There are a lot of things you can do with Project
+Gutenberg-tm electronic works if you follow the terms of this agreement
+and help preserve free future access to Project Gutenberg-tm electronic
+works. See paragraph 1.E below.
+
+1.C. The Project Gutenberg Literary Archive Foundation ("the Foundation"
+or PGLAF), owns a compilation copyright in the collection of Project
+Gutenberg-tm electronic works. Nearly all the individual works in the
+collection are in the public domain in the United States. If an
+individual work is in the public domain in the United States and you are
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+the work. You can easily comply with the terms of this agreement by
+keeping this work in the same format with its attached full Project
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+access to or distributing Project Gutenberg-tm electronic works provided
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+ destroy all copies of the works possessed in a physical medium
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+INCIDENTAL DAMAGES EVEN IF YOU GIVE NOTICE OF THE POSSIBILITY OF SUCH
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+refund. If you received the work electronically, the person or entity
+providing it to you may choose to give you a second opportunity to
+receive the work electronically in lieu of a refund. If the second copy
+is also defective, you may demand a refund in writing without further
+opportunities to fix the problem.
+
+1.F.4. Except for the limited right of replacement or refund set forth
+in paragraph 1.F.3, this work is provided to you 'AS-IS' WITH NO OTHER
+WARRANTIES OF ANY KIND, EXPRESS OR IMPLIED, INCLUDING BUT NOT LIMITED TO
+WARRANTIES OF MERCHANTIBILITY OR FITNESS FOR ANY PURPOSE.
+
+1.F.5. Some states do not allow disclaimers of certain implied
+warranties or the exclusion or limitation of certain types of damages.
+If any disclaimer or limitation set forth in this agreement violates the
+law of the state applicable to this agreement, the agreement shall be
+interpreted to make the maximum disclaimer or limitation permitted by
+the applicable state law. The invalidity or unenforceability of any
+provision of this agreement shall not void the remaining provisions.
+
+1.F.6. INDEMNITY - You agree to indemnify and hold the Foundation, the
+trademark owner, any agent or employee of the Foundation, anyone
+providing copies of Project Gutenberg-tm electronic works in accordance
+with this agreement, and any volunteers associated with the production,
+promotion and distribution of Project Gutenberg-tm electronic works,
+harmless from all liability, costs and expenses, including legal fees,
+that arise directly or indirectly from any of the following which you do
+or cause to occur: (a) distribution of this or any Project Gutenberg-tm
+work, (b) alteration, modification, or additions or deletions to any
+Project Gutenberg-tm work, and (c) any Defect you cause.
+
+
+Section 2. Information about the Mission of Project Gutenberg-tm
+
+Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
+electronic works in formats readable by the widest variety of computers
+including obsolete, old, middle-aged and new computers. It exists
+because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
+people in all walks of life.
+
+Volunteers and financial support to provide volunteers with the
+assistance they need are critical to reaching Project Gutenberg-tm's
+goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
+remain freely available for generations to come. In 2001, the Project
+Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
+and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
+To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
+and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
+and the Foundation web page at https://www.pglaf.org.
+
+
+Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive
+Foundation
+
+The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
+501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
+state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
+Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification
+number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at
+https://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
+permitted by U.S. federal laws and your state's laws.
+
+The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
+Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
+throughout numerous locations. Its business office is located at
+809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
+business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact
+information can be found at the Foundation's web site and official
+page at https://pglaf.org
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+ Dr. Gregory B. Newby
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+
+Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation
+
+Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
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+increasing the number of public domain and licensed works that can be
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+array of equipment including outdated equipment. Many small donations
+($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
+status with the IRS.
+
+The Foundation is committed to complying with the laws regulating
+charities and charitable donations in all 50 states of the United
+States. Compliance requirements are not uniform and it takes a
+considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
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+where we have not received written confirmation of compliance. To
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+particular state visit https://pglaf.org
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+have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
+against accepting unsolicited donations from donors in such states who
+approach us with offers to donate.
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+any statements concerning tax treatment of donations received from
+outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff.
+
+Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
+methods and addresses. Donations are accepted in a number of other
+ways including including checks, online payments and credit card
+donations. To donate, please visit: https://pglaf.org/donate
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+
+Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic
+works.
+
+Professor Michael S. Hart was the originator of the Project Gutenberg-tm
+concept of a library of electronic works that could be freely shared
+with anyone. For thirty years, he produced and distributed Project
+Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.
+
+
+Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
+editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
+unless a copyright notice is included. Thus, we do not necessarily
+keep eBooks in compliance with any particular paper edition.
+
+
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+
+This Web site includes information about Project Gutenberg-tm,
+including how to make donations to the Project Gutenberg Literary
+Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to
+subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks.
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+ body{margin-left: 10%;
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+ .pn {
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+</head>
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+
+
+<pre>
+
+Project Gutenberg's Historias Sem Data, by Joaquim Maria Machado de Assis
+
+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.org
+
+
+Title: Historias Sem Data
+
+Author: Joaquim Maria Machado de Assis
+
+Release Date: July 3, 2010 [EBook #33056]
+
+Language: Portuguese
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+Character set encoding: ISO-8859-1
+
+*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK HISTORIAS SEM DATA ***
+
+
+
+
+Produced by Pedro Saborano
+
+
+
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+
+</pre>
+
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p style="text-align:center; font-size: 1.5em;">HISTORIAS SEM
+DATA</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p style="text-align:center;font-size: 1.2em;">OBRAS DO
+AUTOR</p>
+
+<hr style="width: 20%;">
+
+<table border="0" align="center" summary="Obras do Autor">
+ <tbody>
+ <tr>
+ <td>MEMORIAS POSTHUMAS DE BRAZ CUBAS</td>
+ <td>1 vol.</td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td>HISTORIAS SEM DATA</td>
+ <td>1 vol.</td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td>PAPEIS AVULSOS</td>
+ <td>1 vol.</td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td>HELENA</td>
+ <td>1 vol.</td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td>YAYÁ GARCIA</td>
+ <td>1 vol.</td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td>A MÃO E A LUVA</td>
+ <td>1 vol.</td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td>RESURREIÇÃO</td>
+ <td>1 vol.</td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td>PHALENAS, poesias</td>
+ <td>1 vol.</td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td>AMERICANAS, poesias</td>
+ <td>1 vol.</td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td>CHRYSALIDAS, poesias</td>
+ <td>1 vol.</td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td>CONTOS FLUMINENSES</td>
+ <td>1 vol.</td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td>HISTORIAS DA MEIA NOITE</td>
+ <td>1 vol.</td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td>TU SÓ, TU, PURO AMOR</td>
+ <td>1 vol.</td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td>OS DEUSES DE CASACA, comedia</td>
+ <td>1 vol.</td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td>DESENCANTOS</td>
+ <td>1 vol.</td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td>THEATRO</td>
+ <td>1 vol.</td>
+ </tr>
+ </tbody>
+</table>
+
+<hr style="width: 20%;">
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<div style="text-align: center;">
+<p style="font-size: 1.4em;">MACHADO DE ASSIS</p>
+
+<hr style="width: 20%;">
+
+<p style="font-size: 2.2em;">HISTORIAS SEM DATA</p>
+
+<p style="font-size: 0.9em;">A EGREJA DO DIABO&mdash;O LAPSO&mdash;ULTIMO CAPITULO <br>
+CANTIGA DE ESPONSAES&mdash;UMA SENHORA <br>
+SINGULAR OCCURRENCIA&mdash;FULANO&mdash;CAPITULO DOS CHAPÉOS <br>
+GALERIA POSTHUMA<br>
+CONTO ALEXANDRINO&mdash;PRIMAS DE SAPUCAIA <br>
+ANECDOTA PECUNIARIA&mdash;A SEGUNDA VIDA&mdash;EX-CATHEDRA <br>
+MANUSCRIPTO DE UM SACRISTÃO <br>
+AS ACADEMIAS DE SIÃO <br>
+NOITE DE ALMIRANTE&mdash;A SENHORA DO GALVÃO</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+<hr style="width: 30%;">
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p><em>RIO DE JANEIRO</em> <br>
+B. L. GARNIER.&mdash;<small>LIVREIRO-EDITOR<br>
+<em>71&mdash;Rua do Ouvidor&mdash;77</em></small><br>
+&mdash;<br>
+1884.</p>
+</div>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<hr style="width: 50%;">
+<p style="text-align:center; font-size: 0.8em;">Typ. lith. a
+vapor, encadernação e livraria LOMBAERTS &amp; C.</p>
+<hr style="width: 50%;">
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p style="text-align:center; font-size: 1.2em;">INDICE</p>
+
+<table border="0" align="center" summary="Indice">
+ <tbody>
+ <tr>
+ <td></td>
+ <td style="text-align:right;">PAGS.</td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td><a href="#ADVERTENCIA">ADVERTENCIA</a></td>
+ <td style="text-align:right;"><a href="#ADVERTENCIA">vij</a></td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td><a href="#SECTION00010000">A EGREJA DO DIABO</a></td>
+ <td style="text-align:right;"><a href="#SECTION00010000">1</a></td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td><a href="#SECTION00020000">O LAPSO</a></td>
+ <td style="text-align:right;"><a href="#SECTION00020000">17</a></td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td><a href="#SECTION00030000">ULTIMO CAPITULO</a></td>
+ <td style="text-align:right;"><a href="#SECTION00030000">33</a></td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td><a href="#SECTION00040000">CANTIGA DE ESPONSAES</a></td>
+ <td style="text-align:right;"><a href="#SECTION00040000">49</a></td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td><a href="#SECTION00050000">SINGULAR OCCURRENCIA</a></td>
+ <td style="text-align:right;"><a href="#SECTION00050000">57</a></td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td><a href="#SECTION00060000">GALERIA POSTHUMA</a></td>
+ <td style="text-align:right;"><a href="#SECTION00060000">71</a></td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td><a href="#SECTION00070000">CAPITULO DOS CHAPÉOS</a></td>
+ <td style="text-align:right;"><a href="#SECTION00070000">87</a></td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td><a href="#SECTION00080000">CONTO ALEXANDRINO</a></td>
+ <td style="text-align:right;"><a href="#SECTION00080000">113</a></td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td><a href="#SECTION00090000">PRIMAS DE SAPUCAIA!</a></td>
+ <td style="text-align:right;"><a href="#SECTION00090000">131</a></td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td><a href="#SECTION000100000">UMA SENHORA</a></td>
+ <td style="text-align:right;"><a href="#SECTION000100000">147</a></td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td><a href="#SECTION000110000">ANECDOTA PECUNIARIA</a></td>
+ <td style="text-align:right;"><a href="#SECTION000110000">161</a></td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td><a href="#SECTION000120000">FULANO</a></td>
+ <td style="text-align:right;"><a href="#SECTION000120000">181</a></td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td><a href="#SECTION000130000">A SEGUNDA VIDA</a></td>
+ <td style="text-align:right;"><a href="#SECTION000130000">191</a></td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td><a href="#SECTION000140000">NOITE DE ALMIRANTE</a></td>
+ <td style="text-align:right;"><a href="#SECTION000140000">205</a></td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td><a href="#SECTION000150000">MANUSCRIPTO DE UM SACRISTÃO</a></td>
+ <td style="text-align:right;"><a href="#SECTION000150000">219</a></td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td><a href="#SECTION000160000">EX CATHEDRA</a></td>
+ <td style="text-align:right;"><a href="#SECTION000160000">235</a></td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td><a href="#SECTION000170000">A SENHORA DO GALVÃO</a></td>
+ <td style="text-align:right;"><a href="#SECTION000170000">251</a></td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td><a href="#SECTION000180000">AS ACADEMIAS DE SIÃO</a></td>
+ <td style="text-align:right;"><a href="#SECTION000180000">263</a></td>
+ </tr>
+ </tbody>
+</table>
+
+<div id="corpo">
+
+<p style="text-align:center;font-size: 1.2em;">ERRATA</p>
+
+<p>Escaparam alguns erros typographicos faceis de emendar; entre outros, estes:
+<em>coser-lhe</em> por <em>coser</em> (pag. 43); <em>estar-lhe a contar</em>
+por <em>estar a contar-lhe</em> (pag. 182); <em>deram a força</em> por <em>lhe
+deram a força</em> (pag. 211); <em>evidente mais</em> por <em>evidentemente
+mais</em> (pag. 272), etc.</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h2><a name="ADVERTENCIA">ADVERTENCIA</a></h2>
+
+<p>De todos os contos que aqui se acham ha dous que effectivamente não levam
+data expressa; os outros a tem, de maneira que este titulo <em>Historias sem
+data</em> parecerá a alguns inintelligivel, ou vago. Suppondo, porém, que o meu
+fim é definir estas paginas como tratando, em substancia, de cousas que não são
+especialmente do dia, ou de um certo dia, penso que o titulo está explicado. E
+é o peor que lhe póde acontecer, pois o melhor dos titulos é ainda aquelle que
+não precisa de explicação.</p>
+
+<p style="text-align: right;">M. de A.</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p><span class="pn">{1}</span></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h1><a name="SECTION00010000">A EGREJA DO DIABO</a> </h1>
+
+<h2><a name="SECTION00011000">CAPITULO I</a> </h2>
+
+<h3><a name="SECTION00011100">DE UMA IDÉA MIRIFICA</a></h3>
+
+<p>Conta um velho manuscripto benedictino que o Diabo, em certo dia, teve a
+idéa de fundar uma egreja. Embora os seus lucros fossem continuos e grandes,
+sentia-se humilhado com o papel avulso que exercia desde seculos, sem
+organisação, sem regras, sem canones, sem ritual, sem nada. Vivia, por assim
+dizer, dos remanescentes divinos, dos descuidos e obsequios humanos. Nada fixo,
+nada regular. Porque não teria elle a sua egreja? Uma egreja do Diabo era o
+meio efficaz de combater as outras religiões, e destruil-as de uma vez.</p>
+
+<p>&mdash;Vá, pois, uma egreja, concluiu elle. Escriptura contra Escriptura,
+breviario contra breviario. Terei<span class="pn">{2}</span> a minha missa, com
+vinho e pão á farta, as minhas predicas, bullas, novenas e todo o demais
+apparelho ecclesiastico. O meu credo será o nucleo universal dos espiritos, a
+minha egreja uma tenda de Abrahão. E depois, emquanto as outras religiões se
+combatem e se dividem, a minha egreja será unica; não acharei diante de mim,
+nem Mahomet, nem Luthero. Ha muitos modos de affirmar; ha só um de negar tudo.
+</p>
+
+<p>Dizendo isto, o Diabo sacudiu a cabeça e estendeu os braços, com um gesto
+magnifico e varonil. Em seguida, lembrou-se de ir ter com Deus para
+communicar-lhe a idéa, e desafial-o; levantou os olhos, accesos de odio,
+asperos de vingança, e disse comsigo:&mdash;Vamos, é tempo. E rapido, batendo as
+azas, com tal estrondo que abalou todas as provincias do abysmo, arrancou da
+sombra para o infinito azul.</p>
+
+<h2><a name="SECTION00012000">CAPITULO II</a> </h2>
+
+<h3><a name="SECTION00012100">ENTRE DEUS E DIABO</a> </h3>
+
+<p>Deus recolhia um ancião, quando o Diabo chegou ao céu. Os seraphins que
+engrinaldavam o recem<span class="pn">{3}</span> chegado, detiveram-se logo, e
+o Diabo deixou-se estar á entrada com os olhos no Senhor.</p>
+
+<p>&mdash;Que me queres tu? perguntou este.</p>
+
+<p>&mdash;Não venho pelo vosso servo Fausto, respondeu o Diabo rindo, mas por
+todos os Faustos do seculo e dos seculos.</p>
+
+<p>&mdash;Explica-te.</p>
+
+<p>&mdash;Senhor, a explicação é facil; mas permitti que vos diga: recolhei
+primeiro esse bom velho; dai-lhe o melhor logar, mandai que as mais afinadas
+citharas e alaúdes o recebam com os mais divinos córos...</p>
+
+<p>&mdash;Sabes o que elle fez? perguntou o Senhor, com os olhos cheios de
+doçura. </p>
+
+<p>&mdash;Não, mas provavelmente é dos ultimos que virão ter comvosco. Não tarda
+muito que o céu fique semelhante a uma casa vasia, por causa do preço, que é
+alto. Vou edificar uma hospedaria barata; em duas palavras, vou fundar uma
+egreja. Estou cançado da minha desorganisação, do meu reinado casual e
+adventicio. É tempo de obter a victoria final e completa. E então vim dizer-vos
+isto, com lealdade, para que me não accuseis de dissimulação... Boa idéa, não
+vos parece?</p>
+
+<p>&mdash;Vieste dizel-a, não legitimal-a, advertiu o Senhor.<span
+class="pn">{4}</span></p>
+
+<p>&mdash;Tendes razão, acudiu o Diabo; mas o amor proprio gosta de ouvir o
+applauso dos mestres. Verdade é que n'este caso seria o applauso de um mestre
+vencido, e uma tal exigencia... Senhor, desço a terra; vou largar a minha pedra
+fundamental.</p>
+
+<p>&mdash;Vai.</p>
+
+<p>&mdash;Quereis que venha annunciar-vos o remate da obra?</p>
+
+<p>&mdash;Não é preciso; basta que me digas desde já por que motivo, cançado ha
+tanto da tua desorganisação, só agora pensaste em fundar uma egreja?</p>
+
+<p>Diabo sorriu com certo ar de escarneo e triumpho. Tinha alguma idéa cruel no
+espirito, algum reparo picante no alforge da memoria, qualquer cousa que,
+n'esse breve instante da eternidade, o fazia crer superior ao proprio Deus. Mas
+recolheu o riso, e disse:</p>
+
+<p>&mdash;Só agora conclui uma observação, começada desde alguns seculos, e é
+que as virtudes, filhas do céu, são em grande numero comparaveis a rainhas,
+cujo manto de veludo rematasse em franjas de algodão. Ora, eu proponho-me a
+puxal-as por essa franja, e trazel-as todas para minha egreja; atraz d'ellas
+virão as de seda pura...</p>
+
+<p>&mdash;Velho rhetorico! murmurou o Senhor.<span class="pn">{5}</span></p>
+
+<p>&mdash;Olhai bem. Muitos corpos que ajoelham aos vossos pés, nos templos do
+mundo, trazem as anquinhas da sala e da rua, os rostos tingem-se do mesmo pó,
+os lenços cheiram aos mesmos cheiros, as pupillas centelham de curiosidade e
+devoção entre o livro santo e o bigode do peccado. Vêde o ardor,&mdash;a
+indifferença, ao menos,&mdash;com que esse cavalheiro põe em lettras publicas
+os beneficios que liberalmente espalha,&mdash;ou sejam roupas ou botas, ou
+moedas, ou quaesquer d'essas materias necessarias á vida... Mas não quero
+parecer que me detenho em cousas miudas; não fallo, por exemplo, da placidez
+com que este juiz de irmandade, nas procissões, carrega piedosamente ao peito o
+vosso amor e uma commenda... Vou a negocios mais altos...</p>
+
+<p>N'isto os seraphins agitaram as azas pesadas de fastio e somno. Miguel e
+Gabriel fitaram no Senhor um olhar de supplica. Deus interrompeu o Diabo.</p>
+
+<p>&mdash;Tu és vulgar, que é o peior que póde acontecer a um espirito da tua
+especie, replicou-lhe o Senhor. Tudo o que dizes ou digas está dito e redito
+pelos moralistas do mundo. É assumpto gasto; e se não tens força, nem
+originalidade para renovar um assumpto gasto, melhor é que te cales e te
+retires. Olha; todas as minhas legiões mostram no rosto os<span
+class="pn">{6}</span> signaes vivos do tedio que lhes dás. Esse mesmo ancião
+parece enjoado; e sabes tu o que elle fez?</p>
+
+<p>&mdash;Já vos disse que não.</p>
+
+<p>&mdash;Depois de uma vida honesta, teve uma morte sublime. Colhido em um
+naufragio, ia salvar-se n'uma taboa; mas viu um casal de noivos, na flor da
+vida, que se debatiam já com a morte; deu-lhes a taboa de salvação e mergulhou
+na eternidade. Nenhum publico: a agua e o céu por cima. Onde achas ahi a franja
+de algodão?</p>
+
+<p>&mdash;Senhor, eu sou, como sabeis, o espirito que nega.</p>
+
+<p>&mdash;Negas esta morte?</p>
+
+<p>&mdash;Nego tudo. A misanthropia póde tomar aspecto de caridade; deixar a
+vida aos outros, para um misanthropo, é realmente aborrecel-os...</p>
+
+<p>&mdash;Rhetorico e subtil! exclamou o Senhor. Vai, vai, funda a tua egreja;
+chama todas as virtudes, recolhe todas as franjas, convoca todos os homens...
+Mas, vai! vai!</p>
+
+<p>Debalde o Diabo tentou proferir alguma coisa mais. Deus impuzera-lhe
+silencio; os seraphins, a um signal divino, encheram o céu com as harmonias de
+seus canticos. O Diabo sentiu, de repente, que se achava no ar; dobrou as azas,
+e, como um raio, caiu na terra.<span class="pn">{7}</span></p>
+
+<h2><a name="SECTION00013000">CAPITULO III</a> </h2>
+
+<h3><a name="SECTION00013100">A BOA NOVA AOS HOMENS</a> </h3>
+
+<p>Uma vez na terra, o Diabo não perdeu um minuto. Deu-se pressa em enfiar a
+cogula benedictina, como habito de boa fama, e entrou a espalhar uma doutrina
+nova e extraordinaria, com uma voz que reboava nas entranhas do seculo. Elle
+promettia aos seus discipulos e fieis as delicias da terra, todas as glorias,
+os deleites mais intimos. Confessava que era o Diabo; mas confessava-o para
+rectificar a noção que os homens tinham d'elle e desmentir as historias que a
+seu respeito contavam as velhas beatas.</p>
+
+<p>&mdash;Sim, sou o Diabo, repetia elle; não o Diabo das noites sulphureas,
+dos contos somniferos, terror das crianças, mas o Diabo verdadeiro e unico, o
+proprio genio da natureza, a que se deu aquelle nome para arredal-o do coração
+dos homens. Vêde-me gentil e airoso. Sou o vosso verdadeiro pai. Vamos lá:
+tomai d'aquelle nome, inventado para meu desdouro, fazei d'elle um trophéu e um
+labaro, e eu vos darei tudo, tudo, tudo, tudo, tudo, tudo...<span
+class="pn">{8}</span></p>
+
+<p>Era assim que fallava, a principio, para excitar o enthusiasmo, espertar os
+indifferentes, congregar, em summa, as multidões ao pé de si. E ellas vieram; e
+logo que vieram, o Diabo passou a definir a doutrina. A doutrina era a que
+podia ser na bocca de um espirito de negação. Isso quanto á substancia, porque,
+ácerca da fórma, era umas vezes subtil, outras cynica e deslavada.</p>
+
+<p>Clamava elle que as virtudes aceitas deviam ser substituidas por outras, que
+eram as naturaes e legitimas. A soberba, a luxuria, a preguiça foram
+rehabilitadas, e assim tambem a avareza, que declarou não ser mais do que a mãi
+da economia, com a differença que a mãi era robusta, e a filha uma esgalgada. A
+ira tinha a melhor defeza na existencia de Homero; sem o furor de Achilles, não
+haveria a <em>Illiada</em>: «Musa, canta a colera de Achilles, filho de
+Peleu...» O mesmo disse da gula, que produziu as melhores paginas de Rabelais,
+e muitos bons versos de <em>Hyssope</em>; virtude tão superior, que ninguem se
+lembra das batalhas de Lucullo, mas das suas ceias; foi a gula que realmente o
+fez immortal. Mas, ainda pondo de lado essas razões de ordem litteraria ou
+historica, para só mostrar o valor intrinseco d'aquella virtude, quem negaria
+que era muito<span class="pn">{9}</span> melhor sentir na bocca e no ventre os
+bons manjares, em grande cópia, do que os máus boccados, ou a saliva do jejum?
+Pela sua parte o Diabo promettia substituir a vinha do Senhor, expressão
+metaphorica, pela vinha do Diabo, locução directa e verdadeira, pois não
+faltaria nunca aos seus com o fructo das mais bellas cepas do mundo. Quanto á
+inveja, prégou friamente que era a virtude principal, origem de prosperidades
+infinitas; virtude preciosa, que chegava a supprir todas as outras, e ao
+proprio talento.</p>
+
+<p>As turbas corriam atraz d'elle enthusiasmadas. O Diabo incutia-lhes, a
+grandes golpes de eloquencia, toda a nova ordem de cousas, trocando a noção
+d'ellas, fazendo amar as perversas e detestar as sãs.</p>
+
+<p>Nada mais curioso, por exemplo, do que a definição que elle dava da fraude.
+Chamava-lhe o braço esquerdo do homem; o braço direito era a força; e concluia:
+Muitos homens são canhotos, eis tudo. Ora, elle não exigia que todos fossem
+canhotos; não era exclusivista. Que uns fossem canhotos, outros dextros;
+aceitava a todos, menos os que não fossem nada. A demonstração, porém, mais
+rigorosa e profunda, foi a da venalidade. Um casuista do tempo chegou a
+confessar que era um monumento de logica. A venalidade, disse o Diabo, era o
+exercicio de um direito<span class="pn">{10}</span> superior a todos os
+direitos. Se tu podes vender a tua casa, o teu boi, o teu sapato, o teu chapéo,
+cousas que são tuas por uma razão juridica e legal, mas que, em todo caso,
+estão fóra de ti, como é que não pódes vender a tua opinião, o teu voto, a tua
+palavra, a tua fé, cousas que são mais do que tuas, porque são a tua propria
+consciencia, isto é, tu mesmo? Negal-o é cair no absurdo e no contraditorio.
+Pois não ha mulheres que vendem os cabellos? não póde um homem vender uma parte
+do seu sangue para transfundil-o a outro homem anemico? e o sangue e os
+cabellos, partes physicas, terão um privilegio que se nega ao caracter, á
+porção moral do homem? Demonstrando assim o principio, o Diabo não se demorou
+em expôr as vantagens de ordem temporal ou pecuniaria; depois, mostrou ainda
+que, á vista do preconceito social, conviria dissimular o exercicio de um
+direito tão legitimo, o que era exercer ao mesmo tempo a venalidade e a
+hypocrisia, isto é, merecer duplicadamente.</p>
+
+<p>E descia, e subia, examinava tudo, rectificava tudo. Está claro que combateu
+o perdão das injurias e outras maximas de brandura e cordialidade. Não prohibiu
+formalmente a calumnia gratuita, mas induziu a exercel-a mediante retribuição,
+ou pecuniaria,<span class="pn">{11}</span> ou de outra especie; nos casos,
+porém, em que ella fosse uma expansão imperiosa da força imaginativa, e nada
+mais, prohibia receber nenhum salario, pois equivalia a fazer pagar a
+transpiração. Todas as fórmas de respeito foram condemnadas por elle, como
+elementos possiveis de um certo decoro social e pessoal; salva, todavia, a
+unica excepção do interesse. Mas essa mesma excepção foi logo eliminada, pela
+consideração de que o interesse, convertendo o respeito em simples adulação,
+era este o sentimento applicado e não aquelle.</p>
+
+<p>Para rematar a obra, entendeu o Diabo que lhe cumpria cortar por toda a
+solidariedade humana. Com effeito, o amor do proximo era um obstaculo grave á
+nova instituição. Elle mostrou que essa regra era uma simples invenção de
+parasitas e negociantes insolvaveis; não se devia dar ao proximo se não
+indifferença; em alguns casos, odio ou despreso. Chegou mesmo á demonstração de
+que a noção de proximo era errada, e citava esta phrase de um padre de Napoles,
+aquelle fino e lettrado Galliani, que escrevia a uma das marquezas de antigo
+regimen: «Leve a breca o proximo! Não ha proximo!» A unica hypothese em que
+elle permittia amar ao proximo era quando se tratasse de amar as damas<span
+class="pn">{12}</span> alheias, porque essa especie de amor tinha a
+particularidade de não ser outra cousa mais do que o amor do individuo a si
+mesmo. E como alguns discipulos achassem que uma tal explicação, por
+metaphysica, escapava á comprehensão das turbas, o Diabo recorreu a um
+apologo:&mdash;Cem pessoas tomam acções de um banco, para as operações communs;
+mas cada accionista não cuida realmente se não nos seus dividendos: é o que
+acontece aos adulteros. Este apologo foi incluido no livro da sabedoria.</p>
+
+<h2><a name="SECTION00014000">CAPITULO IV</a> </h2>
+
+<h3><a name="SECTION00014100">FRANJAS E FRANJAS</a> </h3>
+
+<p>A previsão do Diabo verificou-se. Todas as virtudes cuja capa de velludo
+acabava em franja de algodão, uma vez puxadas pela franja, deitavam a capa ás
+ortigas e vinham alistar-se na egreja nova. Atraz foram chegando as outras, e o
+tempo abençoou a instituição. A egreja fundára-se; a doutrina propagava-se; não
+havia uma região do globo que não a conhecesse, uma lingua que não a
+traduzisse, uma<span class="pn">{13}</span> que não a amasse. Diabo alçou
+brados de triumpho.</p>
+
+<p>Um dia, porém, longos annos depois notou o Diabo que muitos dos seus fieis,
+ás escondidas, praticavam as antigas virtudes. Não as praticavam todas, nem
+integralmente, mas algumas, por partes, e, como digo, ás occultas. Certos
+glotões recolhiam-se a comer frugalmente tres ou quatro vezes por anno,
+justamente em dias de preceito catholico; muitos avaros davam esmolas, á noite,
+ou nas ruas mal povoadas; varios dilapidadores do erario restituam-lhe pequenas
+quantias; os fraudulentos fallavam, uma ou outra vez, com o coração nas mãos,
+mas com o mesmo rosto dissimulado, para fazer crer que estavam embaçando os
+outros.</p>
+
+<p>A descoberta assombrou o Diabo. Metteu-se a conhecer mais directamente e
+mal, e viu que lavrava muito. Alguns casos eram até incomprehensiveis, como o
+de um droguista do Levante, que envenenára longamente uma geração inteira, e,
+com o producto das drogas soccorria os filhos das victimas. No Cairo achou um
+perfeito ladrão de camellos, que tapava a cara para ir ás mesquitas. O Diabo
+deu com elle á entrada de uma, lançou-lhe em rosto o procedimento; elle negou,
+dizendo que ia alli roubar o camello de<span class="pn">{14}</span> um drogman;
+roubou-o, com effeito, a vista do Diabo e foi dal-o de presente a um muezzin,
+que rezou por elle a Allah. O manuscripto benedictino cita muitas outras
+descobertas extraordinarias, entre ellas esta, que desorientou completamente o
+Diabo. Um dos seus melhores apostolos era um calabrez, varão de cincoenta
+annos, insigne falsificador de documentos, que possuia uma bella casa na
+campanha romana, telus, estatuas, bibliotheca, etc. Era a fraude em pessoa;
+chegava a metter-se na cama para não confessar que estava são. Pois esse
+homem, não só não furtava ao jogo, como ainda dava gratificações aos criados.
+Tendo angariado a amizade de um conego, ia todas as semanas confessar-se com
+elle, n'uma capella solitaria; e, comquanto não lhe desvendasse nenhuma das
+suas acções secretas, benzia-se duas vezes, ao ajoelhar-se, e ao levantar-se.
+Diabo mal póde crer tamanha aleivosia. Mas não havia duvidar; o caso era
+verdadeiro.</p>
+
+<p>Não se deteve um instante. O pasmo não lhe deu tempo de reflectir, comparar e
+concluir do expectaculo presente alguma cousa analoga ao passado. Voou de novo
+ao céu, tremulo de raiva, ancioso de conhecer a causa secreta de tão singular
+phenomeno. Deus ouviu-o com infinita complacencia; não o<span
+class="pn">{15}</span> interrompeu, não o reprehendeu, não triumphou, sequer,
+d'aquella agonia satanica. Poz os olhos n'elle, e disse-lhe:</p>
+
+<p>Que queres tu, meu pobre Diabo? As capas de algodão têm agora franjas de
+seda, como as de veludo tiveram franjas de algodão. Que queres tu? é a eterna
+contradicção humana.</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p style="text-align: center;">FIM DA EGREJA DO DIABO.</p>
+
+<p><span class="pn">{16}<br>
+{17}</span></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h1><a name="SECTION00020000">O LAPSO</a> </h1>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<blockquote style="margin-left:30%;">
+ <p>E vieram todos os officiaes... e o resto do povo, desde o pequeno até ao
+ grande.</p>
+
+ <p>E disseram ao propheta Jeremias: Seja aceita a nossa supplica na tua
+ presença.</p>
+
+ <p style="text-align:right;">J<small>EREM.</small> XLII, 1, 2.</p>
+</blockquote>
+
+<p>Não me perguntem pela familia do Dr. Jeremias Halma, nem o que e que elle
+veiu fazer ao Rio de Janeiro, n'aquelle anno de 1768, governando o Conde de
+Azambuja, que a principio se disse o mandára buscar; esta versão durou pouco.
+Veiu, ficou e morreu com o seculo. Posso affirmar que era medico e hollandez.
+Viajára muito, sabia toda a chimica do tempo, e mais alguma; fallava
+correntemente cinco ou seis linguas vivas e duas mortas. Era tão universal e
+inventivo, que dotou a poesia malaia com um novo metro, e engendrou uma theoria
+da formação dos diamantes. Não conto os melhoramentos<span
+class="pn">{18}</span> therapeuticos, e outras muitas cousas, que o recommendam
+á nossa admiração. Tudo isso, sem ser casmurro, nem orgulhoso. Ao contrario, a
+vida e a pessoa d'elle eram como a casa que um patricio lhe arranjou na rua do
+Piolho, casa singelissima, onde elle morreu pelo natal de 1799. Sim, o Dr.
+Jeremias era simples, lhano, modesto, tão modesto que... Mas isto seria
+transtornar a ordem do conto. Vamos ao principio.</p>
+
+<p>No fim da rua do Ouvidor, que ainda não era a via dolorosa dos maridos
+pobres, perto da antiga rua dos Latoeiros, morava por esse tempo um tal Thomé
+Gonçalves, homem abastado, e, segundo algumas inducções, vereador da camara.
+Vereador ou não, este Thomé Gonçalves não tinha só dinheiro, tinha tambem
+dividas, não poucas, nem todas recentes. O descuido podia explicar os seus
+atrazos, a velhacaria tambem; mas quem opinasse por uma ou outra dessas
+interpretações, mostraria que não sabe ler uma narração grave. Realmente, não
+valia a pena dar-se ninguem a tarefa de escrever algumas laudas de papel para
+dizer que houve, nos fins do seculo passado, um homem que, por velhacaria ou
+deleixo, deixava de pagar aos credores. A tradição affirma que este nosso
+concidadão era exacto em todas as<span class="pn">{19}</span> cousas, pontual
+nas obrigações mais vulgares, severo e até meticuloso. A verdade é que as
+ordens terceiras e irmandades que tinham a fortuna de o possuir (era
+irmão-remido de muitas, desde o tempo em que usava pagar), não lhe regateavam
+provas de affeição e apreço: e, se é certo que foi vereador, como tudo faz
+crer, póde-se jurar que o foi a contento da cidade.</p>
+
+<p>Mas então...? La vou; nem é outra a materia do escripto, senão esse curioso
+phenomeno, cuja causa, se a conhecemos, foi porque a descobriu o Dr. Jeremias.
+Em uma tarde de procissão, Thomé Gonçalves, trajado com o habito de uma ordem
+terceira, ia segurando uma das varas do pallio, e caminhando com a placidez de
+um homem que não faz mal a ninguem. Nas janellas e ruas estavam muitos dos seus
+credores; dois, entretanto, na esquina do becco das Cancellas (a procissão
+descia a rua do Hospicio), depois de ajoelhados, resados, persignados e
+levantados, perguntaram um ao outro, se não era tempo de recorrer á justiça.
+</p>
+
+<p>&mdash;Que é que me póde acontecer? dizia um d'elles. Se brigar commigo,
+melhor; não me levará mais nada de graça. Não brigando, não lhe posso negar o
+que me pedir, e na esperança de receber os atrasados,<span
+class="pn">{20}</span> vou fiando... Não, senhor; não póde continuar assim.</p>
+
+<p>&mdash;Pela minha parte, acudiu o outro, se ainda não fiz nada, é por causa
+da minha dona, que é medrosa, e entende que não devo brigar com pessoa tão
+importante... Mas eu como ou bebo da importancia dos outros? E as minhas
+cabelleiras?</p>
+
+<p>Este era um cabelleireiro da rua da Valla defronte da Sé, que vendera ao
+Thomé Gonçalves dez cabelleiras, em cinco annos, sem lhe haver nunca um real. O
+outro era alfaiate, e ainda maior credor que o primeiro. A procissão passára
+inteiramente; elles ficaram na esquina, ajustando o plano de mandar os
+meirinhos ao Thomé Gonçalves. O cabelleireiro advertiu que outros muitos
+credores só esperavam um signal para cahir em cima do devedor remisso; e o
+alfaiate lembrou a conveniencia de metter na conjuração o Matta-sapateiro, que
+vivia desesperado. Só a elle devia o Thomé Gonçalves mais de oitenta mil reis.
+N'isso estavam, quando por traz d'elles ouviram uma voz, com sotaque
+estrangeiro, perguntando porque motivo conspiravam contra um homem doente.
+Voltaram-se, e, dando com o Dr. Jeremias, desbarretaram-se os dois credores,
+tornados de profunda veneração; em seguida disseram que tanto<span
+class="pn">{21}</span> não era doente o devedor, que lá ia andando na
+procissão, muito teso, pegando uma das varas do pallio.</p>
+
+<p>&mdash;Que tem isso? interrompeu o medico; ninguem lhes diz que está doente
+dos braços, nem das pernas...</p>
+
+<p>&mdash;Do coração? do estomago?</p>
+
+<p>&mdash;Nem coração, nem estomago, respondeu o Dr. Jeremias. E continuou, com
+muita doçura, que se tratava de negocios altamente especulativos, que não podia
+dizer alli, na rua, nem sabia mesmo se elles chegariam a entendel-o. Se eu
+tiver de pentear uma cabelleira ou talhar um calção&mdash;accrescentou para os
+não affligir,&mdash;é provavel que não alcance as regras dos seus officios tão
+uteis, tão necessarios ao Estado... Eh! eh! eh!</p>
+
+<p>Rindo assim, amigavelmente cortejou-os e foi andando. Os dois credores
+ficaram embascados. O cabelleireiro foi o primeiro que fallou, dizendo que a
+noticia do Dr. Jeremias não era tal que os devesse afrouxar no proposito de
+cobrar as dividas. Se até os mortos pagam, ou alguem por elles, reflexionou o
+cabelleireiro, não é muito exigir aos doentes igual obrigação. O alfaiate,
+invejoso da pilheria, fel-a sua cosendo-lhe este babado:&mdash;Pague e
+cure-se.</p>
+
+<p>Não foi dessa opinião o Matta-sapateiro, que entendeu haver alguma razão
+secreta nas palavras<span class="pn">{22}</span> do doutor Jeremias, e propoz
+que primeiro se examinasse bem o que era, e depois se resolvesse o mais idoneo.
+Convidaram então outros credores a um conciliabulo, no domingo proximo, em casa
+de uma D. Anninha, para as bandas do Rocio, a pretexto de um baptizado. A
+precaução era discreta, para não fazer suppor ao intendente da policia que se
+tratava de alguma tenebrosa machinação contra o Estado. Mal anoiteceu,
+começaram a entrar os credores, embuçados em capotes, e, como a illuminação
+publica só veiu a principiar com o vice-reinado do conde de Rezende, levava
+cada qual uma lanterna na mão, ao uso do tempo, dando assim ao conciliabulo um
+rasgo pintoresco e theatral. Eram trinta e tantos, perto de quarenta&mdash;e
+não eram todos.</p>
+
+<p>A theoria de Ch. Lamb ácerca da divisão do genero humano em duas grandes
+raças, é posterior ao conciliabulo do Rocio; mas nenhum outro exemplo a
+demonstraria melhor. Com effeito, o ar abatido ou afflicto d'aquelles homens, o
+desespero de alguns, a preoccupação de todos, estavam de antemão provando que a
+theoria do fino ensaista é verdadeira, e que das duas grandes raças
+humanas,&mdash;a dos homens que emprestam, e a dos que pedem
+emprestado,&mdash;a primeira contrasta pela tristeza do gesto com as<span
+class="pn">{23}</span> maneiras rasgadas e francas da segunda, <em>the open,
+trusting, generous manners of the other</em>. Assim que, n'aquella mesma hora,
+o Thomé Gonçalves, tendo voltado da procissão, regalava alguns amigos com os
+vinhos e gallinhas que comprára fiado; ao passo que os credores estudavam ás
+escondidas, com um ar desenganado e amarello, algum meio de rehaver o dinheiro
+perdido.</p>
+
+<p>Logo foi o debate; nenhuma opinião chegava a concertar os espiritos. Uns
+inclinavam-se á demanda, outros á espera, não poucos aceitavam o alvitre de
+consultar o Dr. Jeremias. Cinco ou seis partidarios d'este parecer não o
+defendiam senão com a intenção secreta e disfarçada de não fazer cousa nenhuma;
+eram os servos do medo e da esperanca. O cabelleireiro oppunha-se-lhe, e
+perguntava que molestia haveria que impedisse um homem de pagar o que deve. Mas
+o Matta-sapateiro:&mdash;«Sr. compadre, nos não entendemos d'esses negocios;
+lembre-se que o doutor é estrangeiro, e que nas terras estrangeiras sabem
+cousas que nunca lembraram ao diabo. Em todo caso, só perdemos algum tempo e
+nada mais.» Venceu este parecer; deputaram o sapateiro, o alfaiate e o
+cabelleireiro para entenderem-se com o Dr. Jeremias, em nome de todos, e o
+conciliabulo<span class="pn">{24}</span> dissolveu-se na patuscada. Terpsychore
+bracejou e perneou diante d'elles as suas graças jocundas, e tanto bastou para
+que alguns esquecessem a ulcera secreta que os roia. <em>Eheu! fugaces...</em>
+Nem mesmo a dor é constante.</p>
+
+<p>No dia seguinte o Dr. Jeremias recebeu os tres credores, entre sete e oito
+horas da manha. «Entrem, entrem...» E com o seu largo carão hollandez, e o riso
+derramado pela bocca fóra, como um vinho generoso de pipa que se rompeu, o
+grande medico veiu em pessoa abrir-lhes a porta. Estudava n'esse momento uma
+cobra, morta de vespera, no morro de Santo Antonio; mas a humanidade, costumava
+elle dizer, é anterior á sciencia. Convidou os tres a sentarem-se nas tres
+unicas cadeiras devolutas; a quarta era a d'elle; as outras, umas cinco ou
+seis, estavam atulhadas de objectos de toda a casta.</p>
+
+<p>Foi o Matta-sapateiro quem expoz a questão; era dos tres o que reunia maior
+cópia de talentos diplomaticos. Começou dizendo que o engenho do Sr. doutor ia
+salvar da miseria uma porção de familias, e não seria a primeira nem a ultima
+grande obra de um medico que, não desfazendo nos da terra, era o mais sabio de
+quantos cá havia desde o governo de Gomes Freire. Os credores de Thomé<span
+class="pn">{25}</span> Gonçalves não tinham outra esperança. Sabendo que o Sr.
+doutor attribuia os atrazos d'aquelle cidadão a uma doença, tinham assentado
+que primeiro se tentasse a cura, antes de qualquer recurso á justiça. A justiça
+ficaria para o caso de desespero. Era isto o que vinham dizer-lhe, em nome de
+dezenas de credores; desejavam saber se era verdade que, além de outros
+achaques humanos, havia o de não pagar as dividas, se era mal incuravel, e, não
+o sendo, se as lagrimas de tantas familias...</p>
+
+<p>&mdash;Ha uma doença especial, interrompeu o Dr. Jeremias, visivelmente
+commovido, um lapso da memoria; o Thomé Gonçalves perdeu inteiramente a noção
+de pagar. Não é por descuido, nem de proposito que elle deixa de saldar as
+contas; é porque esta idéa de pagar, de entregar o preço de uma cousa,
+varreu-se-lhe da cabeça. Conheci isto ha dois mezes, estando em casa d'elle,
+quando alli foi o prior do Carmo, dizendo que ia «pagar-lhe a fineza de uma
+visita». Thomé Gonçalves, apenas o prior se despediu, perguntou-me o que era
+<em>pagar</em>; accrescentou que, alguns dias antes, um boticario lhe dissera a
+mesma palavra, sem nenhum outro esclarecimento, parecendo-lhe até que já a
+ouvira a outras pessoas; por ouvil-a da bocca do prior, suppunha ser
+latim.<span class="pn">{26}</span> Comprehendi tudo; tinha estudado a molestia
+em varias partes do mundo, e comprehendi que elle estava atacado do lapso. Foi
+por isso que disse outro dia a estes dois senhores que não demandassem um homem
+doente.</p>
+
+<p>&mdash;Mas então, aventurou o Matta, pallido, o nosso dinheiro está
+completamente perdido...</p>
+
+<p>&mdash;A molestia não é incuravel, disse o medico</p>
+
+<p>&mdash;Ah!</p>
+
+<p>&mdash;Não é; conheço e possuo a droga curativa, e já a empreguei em dous
+grandes casos: um barbeiro, que perdera a noção do espaço, e, á noite estendia
+a mão para arrancar as estrellas do céu, e uma senhora da Catalunha, que
+perdera a noção do marido. O barbeiro arriscou muitas vezes a vida, querendo
+sahir pelas janellas mais altas das casas, como se estivesse ao rez do
+chão...</p>
+
+<p>&mdash;Santo Deus! exclamaram os tres credores.</p>
+
+<p>&mdash;É o que lhes digo, continuou placidamente o medico. Quanto á dama
+catalã, a principio confundia o marido com um licenciado Mathias, alto e fino,
+quando o marido era grosso e baixo; depois com um capitão, D. Hermogenes, e, no
+tempo em que comecei a tratal-a com um clerigo. Em tres mezes ficou boa.
+Chamava-se D. Agostinha.<span class="pn">{27}</span></p>
+
+<p>Realmente, era uma droga miraculosa. Os tres credores estavam radiantes de
+esperança; tudo fazia crer que o Thomé Gonçalves padecia do lapso, e, uma vez
+que a droga existia, e o medico a tinha em casa... Ah! mas aqui pegou o carro.
+O Dr. Jeremias não era familiar da casa do enfermo, embora entretivesse
+relações com elle; não podia ir offerecer-lhe os seus prestimos. Thomé
+Gonçalves não tinha parentes que tomassem a responsabilidade de convidar o
+medico, nem os credores podiam tomal-a a si. Mudos, perplexos, consultaram-se
+com os olhos. Os do alfaiate, como os do cabelleiro, exprimiram este alvitre
+desesperado; cotisarem-se os credores, e, mediante uma quantia grossa e
+appetitosa, convidarem o Dr. Jeremias á cura; talvez o interesse... Mas o
+illustre Matta via o perigo de um tal proposito, porque o doente podia não
+ficar bom, e a perda seria dobrada. Grande era a angustia; tudo parecia
+perdido. O medico rolava entre os dedos a boceta de rapé, esperando que elles
+se fossem embora, não impaciente, mas risonho. Foi então que o Matta, como um
+capitão dos grandes dias, viu o ponto fraco do inimigo; advertiu que as suas
+primeiras palavras tinham commovido o medico, e tornou ás lagrimas das
+familias, aos filhos sem pão, porque elles não<span class="pn">{28}</span> eram
+senão uns tristes officiaes de officio ou mercadores de pouca fazenda, ao passo
+que o Thomé Gonçalves era rico. Sapatos, calções, capotes, xaropes,
+cabelleiras, tudo o que lhes custava dinheiro, tempo e saude... Saude, sim,
+senhor; os callos de suas mãos mostravam bem que o officio era duro; e o
+alfaiate, seu amigo, que alli estava presente, e que entisicava, ás noites, á
+luz de uma candeia, zas-que-darás, puchando a agulha...</p>
+
+<p>Magnanimo Jeremias! Não o deixou acabar; tinha os olhos humidos de lagrimas.
+O acanho de suas maneiras era compensado pelas expansões de um coração pio e
+humano. Pois, sim; ia tentar o curativo, ia pôr a sciencia ao serviço de uma
+causa justa. Demais, a vantagem era tambem e principalmente do proprio Thomé
+Gonçalves, cuja fama andava abocanhada, por um motivo em que elle tinha tanta
+culpa como o doudo que pratica uma iniquidade. Naturalmente, a alegria dos
+deputados traduziu-se em rapa-pés infindos e grandes louvores aos insignes
+merecimentos do medico. Este cortou-lhes modestamente o discurso, convidando-os
+a almoçar, obsequio que elles não aceitaram, mas agradeceram com palavras
+cordialissimas. E, na rua quando elle já os não podia ouvir, não se fartavam de
+elogiar-lhe a<span class="pn">{29}</span> sciencia, a bondade, a generosidade,
+a delicadeza, os modos tão simples! tão naturaes!</p>
+
+<p>Desde esse dia começou Thomé Gonçalves a notar a assiduidade do medico, e,
+não desejando outra cousa, porque lhe queria muito, fez tudo o que lhe lembrou
+por atal-o de vez aos seus penates. O lapso do infeliz era completo; tanto a
+ideia de <em>pagar</em>, como as ideias co-relatas de <em>credor</em>,
+<em>divida</em>, <em>saldo</em>, e outras tinham-se-lhe apagado da memoria,
+constituindo-lhe assim um largo furo no espirito. Temo que se me argua de
+comparações extraordinarias, mas o abysmo de Pascal é o que mais promptamente
+veiu ao bico da penna. Thomé Gonçalves tinha o abysmo de Pascal, não ao lado,
+mas dentro de si mesmo, e tão profundo que cabiam n'elle mais de sessenta
+credores que se debatiam lá embaixo com o ranger de dentes da Escriptura. Urgia
+extrahir todos esses infelizes e entulhar o buraco.</p>
+
+<p>Jeremias fez crer ao doente que andava abatido, e, para retemperal-o,
+começou a applicar-lhe a droga. Não bastava a droga; era mister um tratamento
+subsidiario, porque a cura operava-se de dous modos:&mdash;o modo geral e
+abstracto, restauração da ideia de pagar, com todas as noções
+co-relatas&mdash;era a parte confiada á droga; e o modo particular e
+concreto,<span class="pn">{30}</span> insinuação ou designação de uma certa
+divida e de um certo credor&mdash;era a parte do medico. Supponhamos que o
+credor escolhido era o sapateiro. O medico levava o doente ás lojas de sapatos,
+para assistir á compra e venda da mercadoria, e ver uma e muitas vezes a acção
+de pagar; fallava da fabricação e venda dos sapatos no resto do mundo, cotejava
+os preços do calçado n'aquelle anno de 1768 com o que tinha trinta ou quarenta
+annos antes; fazia com que o sapateiro fosse dez, vinte vezes a casa de Thomé
+Gonçalves levar a conta e pedir o dinheiro, e cem outros estratagemas. Assim
+com o alfaiate, o cabelleireiro, o segeiro, o boticario, um a um, levando mais
+tempo os primeiros, pela razão natural de estar a doença mais arraigada, e
+lucrando os ultimos com o trabalho anterior, d'onde lhes vinha a compensação da
+demora.</p>
+
+<p>Tudo foi pago. Não se descreve a alegria dos credores, não se transcrevem as
+bençãos com que elles encheram o nome do Dr. Jeremias. Sim, senhor, é um grande
+homem, bradavam em toda a parte. Parece cousa de feitiçaria, aventuravam as
+mulheres. Quanto ao Thomé Gronçalves, pasmado de tantas dividas velhas, não se
+fartava de elogiar a longanimidade dos credores, censurando-os ao mesmo tempo
+pela accumulação.<span class="pn">{31}</span></p>
+
+<p>&mdash;Agora, dizia-lhes, não quero contas de mais de oito dias.</p>
+
+<p>&mdash;Nós é que lhe marcaremos o tempo, respondiam generosamente os
+credores. </p>
+
+<p>Restava entretanto, um credor. Esse era o mais recente, o proprio Dr.
+Jeremias, pelos honorarios d'aquelle serviço relevantes. Mas, ai delle! a
+modestia atou-lhe a lingua. Tão expansivo era de coração, como acanhado de
+maneiras; e planeou tres, cinco investidas, sem chegar a executar nada. E aliás
+era facil; bastava insinuar-lhe a divida pelo methodo usado em relação á dos
+outros; mas seria bonito? perguntava a si mesmo; seria decente? etc., etc. E
+esperava, ia esperando. Para não parecer que se lhe mettia á cara, entrou a
+rarear as visitas; mas o Thomé Gonçalves ia ao casebre da rua do Piolho, e
+trazia-o a jantar, a ceiar, a fallar de cousas estrangeiras, em que era muito
+curioso. Nada de pagar. Jeremias chegou a imaginar que os credores... Mas os
+credores, ainda quando pudesse passar-lhes pela cabeça a ideia de ir lembrar a
+divida, não chegariam a fazel-o, porque a suppunham paga antes de todas. Era o
+que diziam uns aos outros, entre muitas formulas da sabedoria
+popular:&mdash;Matheus, primeiro os teus&mdash;A boa justiça começa por
+casa&mdash;Quem<span class="pn">{32}</span> é tolo pede a Deus que o mate, etc.
+Tudo falso; a verdade é que o Thomé Gonçalves, no dia em que fallecera, tinha
+um só credor no mundo:&mdash;o Dr. Jeremias.</p>
+
+<p>Este, nos fins do seculo, chegára á canonisação.</p>
+
+<p>&mdash;«Adeus, grande homem!» dizia-lhe o Matta, ex-sapateiro, em 1798, de
+dentro da sege, que o levava á missa dos carmelitas. E o outro, curvo de
+velhice, melancolicamente, olhando para os bicos dos pés:</p>
+
+<p>&mdash;Grande homem, mas pobre diabo.</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p style="text-align: center;">FIM DO LAPSO.</p>
+
+<p><span class="pn">{33}</span></p>
+
+<h1><a name="SECTION00030000">ULTIMO CAPITULO</a> </h1>
+
+<p>Ha entre os suicidas um excellente costume, que é não deixar a vida sem
+dizer o motivo e as circumstancias que os armam contra ella. Os que se vão
+calados, raramente é por orgulho; na maior parte dos casos ou não têm tempo, ou
+não sabem escrever. Costume excellente: em primeiro logar, é um acto de
+cortezia, não sendo este mundo um baile, de onde um homem possa esgueirar-se
+antes do cotilhão; em segundo logar, a imprensa recolhe e divulga os bilhetes
+posthumos, e o morto vive ainda um dia ou dois, ás vezes uma semana mais.</p>
+
+<p>Pois apezar da excellencia do costume, era meu proposito sahir calado. A
+razão é que, tendo sido caipora em minha vida toda, temia que qualquer palavra
+ultima pudesse levar-me alguma complicação á eternidade. Mas um incidente de ha
+pouco trocou-me o plano, e retiro-me deixando, não só um<span
+class="pn">{34}</span> escripto, mas dous. O primeiro é o meu testamento, que
+acabo de compor e fechar, e está aqui em cima da mesa, ao pé da pistola
+carregada. O segundo é este resumo de autobiographia. E note-se que não dou o
+segundo escripto senão porque é preciso esclarecer o primeiro, que pareceria
+absurdo ou inintelligivel, sem algum commentario. Disponho alli que, vendidos
+os meus poucos livros, roupa de uso e um casebre que possuo em Catumby, alugado
+a um carpinteiro, seja o producto empregado em sapatos e botas novas, que se
+distribuirão por um modo indicado, e confesso que extraordinario. Não explicada
+a razão de um tal legado, arrisco a validade do testamento. Ora, a razão do
+legado brotou do incidente de ha pouco, e o incidente liga-se á minha vida
+inteira.</p>
+
+<p>Chamo-me Mathias Deodato de Castro e Mello, filho do sargento-mór Salvador
+Deodato de Castro e Mello e de D. Maria da Soledade Pereira, ambos fallecidos.
+Sou natural de Corumbá, Matto Grosso; nasci em 3 de março de 1820; tenho
+portanto, cincoenta e um annos, hoje, 3 de março de 1871.</p>
+
+<p>Repito, sou um grande caipora, o mais caipora de todos os homens. Ha uma
+locução proverbial, que<span class="pn">{35}</span> eu litteralmente realisei.
+Era em Corumbá; tinha sete para oito annos, embalava-me na rede, á hora da
+sesta, em um quartinho de telha vã; a rede, ou por estar frouxa a argola, ou
+por impulso demasiado violento da minha parte, desprendeu-se de uma das
+paredes, e deu commigo no chão. Cahi de costas; mas, assim mesmo de costas,
+quebrei o nariz, porque um pedaço de telha, mal seguro, que só esperava
+occasião de vir abaixo, aproveitou a commoção e cahiu tambem. O ferimento não
+foi grave nem longo; tanto que meu pai caçoou muito commigo. O conego Brito, de
+tarde, ao ir tomar guaraná comnosco, soube do episodio e citou o rifão, dizendo
+que era eu o primeiro que cumpria exactamente este absurdo de cahir de costas e
+quebrar o nariz. Nem um nem outro imaginava que o caso era um simples inicio de
+cousas futuras.</p>
+
+<p>Não me demoro em outros revezes da infancia e da juventude. Quero morrer ao
+meio-dia, e passa de onze horas. Além d'isso, mandei fóra o rapaz que me serve,
+e elle póde vir mais cedo, e interromper-me a execução do projecto mortal.
+Tivesse eu tempo, e contaria pelo miudo alguns episodios doloridos, entre
+elles, o de umas cacetadas que apanhei por engano.<span class="pn">{36}</span>
+Tratava-se do rival de um amigo meu, rival de amores e naturalmente rival
+derrubado. O meu amigo e a dama indignaram-se com as pancadas quando souberam
+da aleivosia do outro; mas applaudiram secretamente a illusão. Tambem não fallo
+de alguns achaques que padeci. Corro ao ponto em que meu pai, tendo sido pobre
+toda a vida, morreu pobrissimo, e minha mãi não lhe sobreviveu dois mezes. O
+conego Brito, que acabava de ser eleito deputado, propoz então trazer-me ao Rio
+de Janeiro, e veiu commigo, com a idéa de fazer-me padre; mas cinco dias depois
+de chegar morreu. Vão vendo a acção constante do caiporismo.</p>
+
+<p>Fiquei só, sem amigos, nem recursos, com dezeseis annos de idade. Um conego
+da Capella Imperial lembrou-se de fazer-me entrar alli de sachristão; mas,
+posto que tivesse ajudado muita missa em Matto Grosso, e possuisse algumas
+lettras latinas, não fui admittido, por falta de vaga. Outras pessoas
+induziram-me então a estudar direito, e confesso que aceitei com resolução.
+Tive até alguns auxilios, a principio; faltando-me elles depois, lutei por mim
+mesmo; emfim alcancei a carta de bacharel. Não me digam que isto foi uma
+excepção na minha vida caipora, porque<span class="pn">{37}</span> o diploma
+academico levou-me justamente a cousas mui graves; mas, como o destino tinha de
+flagellar-me, qualquer que fosse a minha profissão, não attribuo nenhum influxo
+especial ao grau juridico. Obtive-o com muito prazer, isso é verdade; a idade
+moça, e uma certa superstição de melhora, faziam-me do pergaminho uma chave de
+diamante que iria abrir todas as portas da fortuna.</p>
+
+<p>E, para principiar, a carta de bacharel não me encheu sósinha as algibeiras.
+Não, senhor, tinha ao lado d'ella umas outras, dez ou quinze, fructo de um
+namoro travado no Rio de Janeiro, pela semana santa de 1842, com uma viuva mais
+velha do que eu sete ou oito annos, mas ardente, lepida e abastada. Morava com
+um irmão cégo, na rua do Conde; não posso dar outras indicações. Nenhum dos
+meus amigos ignorava este namoro; dous d'elles até liam as cartas, que eu lhes
+mostrava, com o pretexto de admirar o estylo elegante da viuva, mas realmente
+para que vissem as finas cousas que ella me dizia. Na opinião de todos, o nosso
+casamento era certo, mais que certo; a viuva não esperava senão que eu
+concluisse os estudos. Um d'esses amigos, quando eu voltei graduado, deu-me os
+parabens,<span class="pn">{38}</span> accentuando a sua convicção com esta
+phrase definitiva:</p>
+
+<p>&mdash;O teu casamento é um dogma.</p>
+
+<p>E, rindo, perguntou-me se por conta do dogma, poderia arranjar-lhe cincoenta
+mil réis; era para uma urgente precisão. Não tinha commigo os cincoenta mil
+réis; mas o <em>dogma</em> repercutia ainda tão docemente no meu coração, que
+não descancei em todo esse dia, até arranjar-lh'os; fui leval-os eu mesmo,
+enthusiasmado; elle recebeu-os cheio de gratidão. Seis mezes depois foi elle
+quem casou com a viuva.</p>
+
+<p>Não digo tudo o que então padeci; digo só que o meu primeiro impulso foi dar
+um tiro em ambos; e, mentalmente, cheguei a fazel-o; cheguei a vel-os,
+moribundos, arquejantes, pedirem-me perdão. Vingança hypothetica; na realidade,
+não fiz nada. Elles casaram-se, e foram ver do alto da Tijuca a ascenção da lua
+de mel. Eu fiquei relendo as cartas da viuva. «Deus, que me ouve (dizia uma
+d'ellas), sabe que o meu amor é eterno, e que eu sou tua, eternamente tua...»
+E, no meu atordoamento, blasphemava commigo:&mdash;Deus é um grande invejoso;
+não quer outra eternidade ao pé d'elle, e por isso desmentiu a viuva:&mdash;nem
+outro dogma além do catholico, e por isso<span class="pn">{39}</span> desmentiu
+o meu amigo. Era assim que eu explicava a perda da namorada e dos cincoenta mil
+réis. </p>
+
+<p>Deixei a capital, e fui advogar na roça, mas por pouco tempo. O caiporismo
+foi commigo, na garupa do burro, e onde eu me apeei, apeou-se elle tambem.
+Vi-lhe o dedo em tudo, nas demandas que não vinham, nas que vinham e valiam
+pouco ou nada, e nas que, valendo alguma cousa, eram invariavelmente perdidas.
+Além de que os constituintes vencedores são em geral mais gratos que os outros,
+a successão de derrotas foi arredando de mim os demandistas. No fim de algum
+tempo, anno e meio, voltei á côrte, e estabeleci-me com um antigo companheiro
+de anno: o Gonçalves.</p>
+
+<p>Este Gonçalves era o espirito menos juridico, menos apto para entestar com
+as questões de direito. Verdadeiramente era um pulha. Comparemos a vida mental
+a uma casa elegante; o Gonçalves não aturava dez minutos a conversa do salão,
+esgueirava-se, descia á copa e ia palestrar com os creados. Mas compensava essa
+qualidade inferior com certa lucidez, com a presteza de comprehensão, nos
+assumptos menos arduos ou menos complexos, com a facilidade de expôr, e, o que
+não era pouco para um pobre diabo<span class="pn">{40}</span> batido da
+fortuna, com uma alegria quasi sem intermittencias. Nos primeiros tempos, como
+as demandas não vinham, matavamos as horas com excellente palestra, animada e
+viva, em que a melhor parte era d'elle, ou fallassemos de politica, ou de
+mulheres, assumpto que lhe era muito particular.</p>
+
+<p>Mas as demandas vieram vindo; entre ellas uma questão de hypotheca.
+Tratava-se da casa de um empregado da alfandega, Themistocles de Sá Botelho,
+que não tinha outros bens, e queria salvar a propriedade. Tomei conta do
+negocio. O Themistocles ficou encantado commigo: e, duas semanas depois, como
+eu lhe dissesse que não era casado, declarou-me rindo que não queria nada com
+solteirões. Disse-me outras cousas e convidou-me a jantar no domingo proximo.
+Fui; namorei-me da filha d'elle, D. Rufina, moça de dezenove annos, bem bonita,
+embora um pouco acanhada e meia morta. Talvez seja a educação, pensei eu.
+Casámo-nos poucos mezes depois. Não convidei o caiporismo, é claro; mas na
+egreja, entre as barbas rapadas e as suiças lustrosas, pareceu-me ver o carão
+sardonico e o olhar obliquo do meu cruel adversario. Foi por isso que, no acto
+mesmo de proferir a formula sagrada e definitiva do casamento,<span
+class="pn">{41}</span> estremeci, hesitei, e, emfim, balbuciei a medo o que o
+padre me dictava...</p>
+
+<p>Estava casado. Rufina não dispunha, é verdade, de certas qualidades
+brilhantes e elegantes; não seria, por exemplo, e desde logo, uma dona de
+salão. Tinha, porém, as qualidades caseiras, e eu não queria outras. A vida
+obscura bastava-me; e, com tanto que ella m'a enchesse, tudo iria bem. Mas esse
+era justamente o agro da empreza. Rufina (permittam-me esta figuração
+chromatica) não tinha a alma negra de lady Macbeth, nem a vermelha de
+Cleopatra, nem a azul de Julieta, nem a alva de Beatriz, mas cinzenta e apagada
+como a multidão dos seres humanos. Era boa por apathia, fiel sem virtude, amiga
+sem ternura nem eleição. Um anjo a levaria ao céu, um diabo ao inferno, sem
+esforço em ambos os casos, e sem que, no primeiro lhe coubesse a ella nenhuma
+gloria, nem o menor desdouro no segundo. Era a passividade do somnambulo. Não
+tinha vaidades. O pai armou-me o casamento para ter um genro doutor; ella, não;
+aceitou-me como aceitaria um sachristão, um magistrado, um general, um
+empregado publico, um alferes e não por impaciencia de casar, mas por
+obediencia á familia, e, até certo ponto, para fazer como as outras.<span
+class="pn">{42}</span> Usavam-se maridos; ella queria usar tambem o seu. Nada
+mais antipathico á minha propria natureza; mas estava casado.</p>
+
+<p>Felizmente&mdash;ah! um felizmente n'este ultimo capitulo de um caipora, é,
+na verdade, uma anomalia; mas vão lendo, e verão que o adverbio pertence ao
+estylo, não á vida; é um modo de transição e nada mais. O que vou dizer não
+altera o que está dito. Vou dizer que as qualidades domesticas de Rufina
+davam-lhe muito merito. Era modesta; não amava bailes, nem passeios, nem
+janellas. Vivia comsigo. Não mourejava em casa, nem era preciso; para dar-lhe
+tudo, trabalhava eu, e os vestidos e chapéus, tudo vinha «das francezas», como
+então se dizia, em vez de modistas. Rufina, no intervallo das ordens que dava,
+sentava-se horas e horas, bocejando o espirito, matando o tempo, uma hydra de
+cem cabeças, que não morria nunca; mas, repito, com todas essas lacunas, era
+boa dona de casa. Pela minha parte, estava no papel das rãs que queriam um rei;
+a differença é que, mandando-me Jupiter um cepo, não lhe pedi outro, por que
+viria a cobra e engolia-me. Viva o cepo! disse commigo. Nem conto estas cousas,
+senão para mostrar a logica e a constancia do meu destino.<span
+class="pn">{43}</span></p>
+
+<p>Outro <em>felizmente</em>; e este não é só uma transição de phrase. No fim
+de anno e meio, abotoou no horisonte uma esperança, e, a calcular pela commoção
+que me deu a noticia, uma esperança suprema e unica. Era o desejado que
+chegava. Que desejado? um filho. A minha vida mudou logo. Tudo me sorria como
+um dia de noivado. Preparei-lhe um recebimento regio; comprei-lhe um rico
+berço, que me custou bastante; era de ebano e marfim, obra acabada; depois,
+pouco a pouco, fui comprando o enxoval; mandei-lhe coser as mais finas
+cambraias, as mais quentes flanellas, uma linda touca de renda, comprei-lhe um
+carrinho, e esperei, esperei, prompto a bailar diante d'elle, como David diante
+da arca... Ai, caipora! a arca entrou vasia em Jerusalem; o pequeno nasceu
+morto.</p>
+
+<p>Quem me consolou no mallogro foi o Gonçalves, que devia ser padrinho do
+pequeno, e era amigo, comensal e confidente nosso. Tem paciencia, disse-me,
+serei padrinho do que vier. E confortava-me, fallava-me de outras cousas, com
+ternura de amigo. O tempo fez o resto. O proprio Gonçalves advertiu-me depois
+que, se o pequeno tinha de ser caipora, como eu dizia que era, melhor foi que
+nascesse morto.<span class="pn">{44}</span></p>
+
+<p>&mdash;E pensas que não? redargui.</p>
+
+<p>Gonçalves sorriu; elle não acreditava no meu caiporismo. Verdade é que não
+tinha tempo de acreditar em nada; todo era pouco para ser alegre. Afinal,
+começára a converter-se á advocacia, já arrasoava autos, já minutava petições,
+já ia ás audiencias, tudo porque era preciso viver, dizia elle. E alegre
+sempre. Minha mulher achava-lhe muita graça, ria longamente dos ditos d'elle, e
+das anecdotas, que ás vezes eram picantes demais. Eu, a principio,
+reprehendia-o em particular, mas acostumei-me a ellas. E depois, quem é que não
+perdoa as facilidades de um amigo, e de um amigo jovial? Devo dizer que elle
+mesmo se foi refreando, e d'alli a algum tempo, comecei a achar-lhe muita
+seriedade. Estás namorado, disse-lhe um dia; e elle, empallidecendo, respondeu
+que sim, e accrescentou sorrindo, embora frouxamente, que era indispensavel
+casar tambem. Eu, á mesa, fallei do assumpto.</p>
+
+<p>&mdash;Rufina, você sabe que o Gonçalves vai casar?</p>
+
+<p>&mdash;É caçoada d'elle, interrompeu vivamente o Gonçalves.</p>
+
+<p>Dei ao diabo a minha indiscrição, e não fallei mais n'isso; nem elle. Cinco
+mezes depois... A transição<span class="pn">{45}</span> é rapida; mas não ha
+meio de a fazer longa. Cinco mezes depois, adoeceu Rufina, gravemente, e não
+resistiu oito dias; morreu de uma febre perniciosa.</p>
+
+<p>Cousa singular:&mdash;em vida, a nossa divergencia moral trazia a frouxidão
+dos vinculos, que se sustinham principalmente da necessidade e do costume. A
+morte, com o seu grande poder espiritual, mudou tudo; Rufina appareceu-me como
+a esposa que desce do Libano, e a divergencia foi substituida pela total fusão
+dos seres. Peguei da imagem, que enchia a minha alma, e enchi com ella a vida,
+onde outr'ora occupára tão pouco espaço e por tão pouco tempo. Era um desafio á
+má estrella; era levantar o edificio da fortuna em pura rocha indestructivel.
+Comprehendam-me bem; tudo o que até então dependia do mundo exterior, era
+naturalmente precario: as telhas cahiam com o abalo das redes, as sobrepellizes
+recusavam-se aos sachristães, os juramentos das viuvas fugiam com os dogmas dos
+amigos, as demandas vinham tropegas ou iam-se de mergulho; emfim, as crianças
+nasciam mortas. Mas a imagem de uma defunta era immortal. Com ella podia
+desafiar o olhar obliquo do mau destino. A felicidade estava nas minhas mãos,
+presa, vibrando no ar as grandes azas de<span class="pn">{46}</span> condor, ao
+passo que o caiporismo, semelhante a uma coruja, batia as suas na direcção da
+noite e do silencio...</p>
+
+<p>Um dia, porém, convalescendo de uma febre, deu-me na cabeça inventariar uns
+objectos da finada e comecei por uma caixinha, que não fora aberta, desde que
+ella morreu, cinco mezes antes. Achei uma multidão de cousas minusculas,
+agulhas, linhas, entremeios, um dedal, uma tesoura, uma oração de S. Cypriano,
+um rol de roupa, outras quinquilharias, e um maço de cartas, atado por uma fita
+azul. Deslacei a fita e abri as cartas: eram do Gonçalves... Meio dia! Urge
+acabar; o moleque póde vir, e adeus. Ninguem imagina como o tempo corre nas
+circumstancias em que estou; os minutos voam como se fossem imperios, e, o que
+é importante n'esta occasião, as folhas de papel vão com elles.</p>
+
+<p>Não conto os bilhetes brancos, os negocios abortados, as relações
+interrompidas; menos ainda outros acintes infimos da fortuna. Cansado e
+aborrecido, entendi que não podia achar a felicidade em parte nenhuma; fui
+além: acreditei que ella não existia na terra, e preparei-me desde hontem para
+o grande mergulho na eternidade. Hoje, almocei, fumei um<span
+class="pn">{47}</span> charuto, e debrucei-me á janella. No fim de dez minutos,
+vi passar um homem bem trajado, fitando a miudo os pés. Conhecia-o de vista;
+era uma victima de grandes revezes, mas ia risonho, e contemplava os pés, digo
+mal, os sapatos. Estes eram novos, de verniz, muito bem talhados, e
+provavelmente cosidos a primor. Elle levantava os olhos para as janellas, para
+as pessoas, mas tornava-os aos sapatos, como por uma lei de attracção, anterior
+e superior á vontade. Ia alegre; via-se-lhe no rosto a expressão da
+bemaventurança. Evidentemente era feliz; e, talvez, não tivesse almoçado;
+talvez mesmo não levasse um vintém no bolso. Mas ia feliz, e contemplava as
+botas.</p>
+
+<p>A felicidade será um par de botas? Esse homem, tão esbofeteado pela vida,
+achou finalmente um riso da fortuna. Nada vale nada. Nenhuma preoccupação
+d'este seculo, nenhum problema social ou moral, nem as alegrias da geração que
+começa, nem as tristezas da que termina, miseria ou guerra de classes, crises
+da arte e da politica, nada vale, para elle, um par de botas. Elle fita-as,
+elle respira-as, elle reluz com ellas, elle calca com ellas o chão de um globo
+que lhe pertence. D'ahi o orgulho das attitudes, a<span class="pn">{48}</span>
+rigidez dos passos, e um certo ar de tranquillidade olympica... Sim, a
+felicidade é um par de botas.</p>
+
+<p>Não é outra a explicação do meu testamento. Os superficiaes dirão que estou
+doudo, que o delirio do suicida define a clausula do testador; mas eu fallo
+para os sapientes e para os malfadados. Nem colhe a objecção de que era melhor
+gastar commigo as botas, que lego aos outros; não, porque seria unico.
+Distribuindo-as, faço um certo numero de venturosos. Eia, caiporas! que a minha
+ultima vontade seja cumprida. Boa noite, e calçai-vos!</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p style="text-align: center;">FIM DO ULTIMO CAPITULO.</p>
+
+<p><span class="pn">{49}</span></p>
+
+<h1><a name="SECTION00040000">CANTIGA DE ESPONSAES</a> </h1>
+
+<p>Imagine a leitora que está em 1813, na egreja do Carmo, ouvindo uma
+daquellas boas festas antigas, que eram todo o recreio publico e toda a arte
+musical. Sabem o que é uma missa cantada; podem imaginar o que seria uma missa
+cantada daquelles annos remotos. Não lhe chamo a attenção para os padres e os
+sacristães, nem para o sermão, nem para os olhos das moças cariocas, que já
+eram bonitos nesse tempo, nem para as mantilhas das senhoras graves, os
+calções, as cabelleiras, as sanefas, as luzes, os incensos, nada. Não fallo
+sequer da orchestra, que é excellente; limito-me a mostrar-lhes uma cabeça
+branca, a cabeça desse velho que rege a orchestra, com alma e devoção.</p>
+
+<p>Chama-se Romão Pires; terá sessenta annos, não menos, nasceu no Vallongo, ou
+por esses lados. É bom musico e bom homem; todos os musicos gostam delle.
+Mestre Romão é o nome familiar; e dizer<span class="pn">{50}</span> familiar e
+publico era a mesma cousa em tal materia e naquelle tempo. «Quem rege a missa é
+mestre Romão,»&mdash;equivalia a esta outra forma de annuncio, annos depois:
+«Entra em scena o actor João Caetano»;&mdash;ou então: «O actor Martinho
+cantará uma de suas melhores arias». Era o tempero certo, o chamariz delicado e
+popular. Mestre Romão rege a festa! Quem não conhecia mestre Romão, com o seu
+ar circumspecto, olhos no chão, riso triste, e passo demorado? Tudo isso
+desapparecia á frente da orchestra; então a vida derramava-se por todo o corpo
+e todos os gestos do mestre; o olhar accendia-se, o riso illuminava-se: era
+outro. Não que a missa fosse delle; esta, por exemplo, que elle rege agora no
+Carmo é de José Mauricio; mas elle rege-a com o mesmo amor que empregaria, se a
+missa fosse sua.</p>
+
+<p>Acabou a festa; é como se acabasse um clarão intenso, e deixasse o rosto
+apenas allumiado da luz ordinaria. Eil-o que desce do côro, apoiado na bengala;
+vae á sacristia beijar a mão aos padres e aceita um logar á mesa do jantar.
+Tudo isso indifferente e calado. Jantou, saiu, caminhou para a rua da Mãi dos
+Homens, onde reside, com um preto velho, pae José, que é a sua verdadeira mãe,
+e que neste momento conversa com uma visinha.<span class="pn">{51}</span></p>
+
+<p>&mdash;Mestre Romão lá vem, pae José, disse a visinha.</p>
+
+<p>&mdash;Eh! eh! adeus, sinhá, até logo.</p>
+
+<p>Pae José deu um salto, entrou em casa, e esperou o senhor, que d'ahi a pouco
+entrava com o mesmo ar do costume. A casa não era rica naturalmente; nem
+alegre. Não tinha o menor vestigio de mulher, velha ou moça, nem passarinhos
+que cantassem, nem flores, nem cores vivas ou jocundas. Casa sombria e nua. O
+mais alegre era um cravo, onde o mestre Romão tocava algumas vezes, estudando.
+Sobre uma cadeira, ao pé, alguns papeis de musica; nenhuma d'elle...</p>
+
+<p>Ah! se mestre Romão podesse seria um grande compositor. Parece que ha duas
+sortes de vocação, as que tem lingua e as que a não tem. As primeiras
+realisam-se; as ultimas representam uma luta constante e esteril entre o
+impulso interior e a ausencia de um modo de communicação com os homens. Romão
+era d'estas. Tinha a vocação intima da musica; trazia dentro de si muitas
+operas e missas, um mundo de harmonias novas e originaes, que não alcançava
+exprimir e pôr no papel. Esta era a causa unica da tristeza de mestre Romão.
+Naturalmente o vulgo não atinava com ella; uns diziam isto, outros<span
+class="pn">{52}</span> aquillo: doença, falta de dinheiro, algum desgosto
+antigo; mas a verdade é esta:&mdash;a causa da melancholia de mestre Romão era
+não poder compor, não possuir o meio de traduzir o que sentia. Não é que não
+rabiscasse muito papel e não interrogasse o cravo, durante horas; mas tudo lhe
+sahia informe, sem idéa nem harmonia. Nos ultimos tempos tinha até vergonha da
+visinhança, e não tentava mais nada.</p>
+
+<p>E, entretanto, se pudesse, acabaria ao menos uma certa peça, um canto
+esponsalicio, começado tres dias depois de casado, em 1779. A mulher, que tinha
+então vinte e um annos, e morreu com vinte e tres, não era muito bonita, nem
+pouco, mas extremamente sympathica, e amava-o tanto como elle a ella. Tres dias
+depois de casado, mestre Romão sentiu em si alguma cousa parecida com
+inspiração. Ideou então o canto esponsalicio, e quiz compol-o; mas a inspiração
+não pode sahir. Como um passaro que acaba de ser preso, e forceja por transpor
+as paredes da gaiola, abaixo, acima, impaciente, aterrado, assim batia a
+inspiração do nosso musico, encerrada n'elle sem poder sair, sem achar uma
+porta, nada. Algumas notas chegaram a ligar-se; elle escreveu-as; obra de uma
+folha de papel, não mais. Teimou no dia seguinte, dez dias depois, vinte vezes
+durante o<span class="pn">{53}</span> tempo de casado. Quando a mulher morreu,
+elle releu essas primeiras notas conjugaes, e ficou ainda mais triste, por não
+ter podido fixar no papel a sensação da felicidade extincta.</p>
+
+<p>&mdash;Pae José, disse elle ao entrar, sinto-me hoje adoentado.</p>
+
+<p>&mdash;Sinhô comeu alguma cousa que fez mal...</p>
+
+<p>&mdash;Não; já de manhã não estava bom. Vae á botica...</p>
+
+<p>O boticario mandou alguma cousa, que elle tomou á noite; no dia seguinte
+mestre Romão não se sentia melhor. É preciso dizer que elle padecia do
+coração:&mdash;molestia grave e chronica. Pae José ficou atterrado, quando viu
+que o incommodo não cedera ao remedio, nem ao repouso, e quiz chamar o
+medico.</p>
+
+<p>&mdash;Para que? disse o mestre. Isto passa.</p>
+
+<p>O dia não acabou peor; e a noite supportou-a elle bem, não assim o preto,
+que mal pôde dormir duas horas. A visinhança, apenas soube do incommodo, não
+quiz outro motivo de palestra; os que entretinham relações com o mestre foram
+visital-o. E diziam-lhe que não era nada, que eram macacoas do tempo; um
+accrescentava graciosamente que era manha, para fugir aos capotes que o
+boticario lhe dava no gamão,&mdash;outro que eram amores. Mestre<span
+class="pn">{54}</span> Romão sorria, mas comsigo mesmo dizia que era o final.
+</p>
+
+<p>&mdash;Está acabado, pensava elle.</p>
+
+<p>Um dia de manhã, cinco depois da festa, o medico achou-o realmente mal; e
+foi isso o que elle lhe viu na physionomia por traz das palavras
+enganadoras:&mdash;Isto não é nada; é preciso não pensar em musicas...</p>
+
+<p>Em musicas! justamente esta palavra do medico deu ao mestre um pensamento.
+Logo que ficou só, com o escravo, abriu a gaveta onde guardava desde 1779 o
+canto esponsalicio começado. Releu essas notas arrancadas a custo, e não
+concluidas. E então teve uma idéa singular:&mdash;rematar a obra agora, fosse
+como fosse; qualquer cousa servia, uma vez que deixasse um pouco de alma na
+terra. </p>
+
+<p>&mdash;Quem sabe? Em 1880, talvez se toque isto, e se conte que um mestre
+Romão...</p>
+
+<p>O principio do canto rematava em um certo <em>lá</em>; este <em>lá</em>, que
+lhe cahia bem no logar, era a nota derradeiramente escripta. Mestre Romão
+ordenou que lhe levassem o cravo para a sala do fundo, que dava para o quintal:
+era-lhe preciso ar. Pela janella viu na janella dos fundos de outra casa dous
+casadinhos de oito dias, debruçados, com os braços por cima dos<span
+class="pn">{55}</span> hombros, e duas mãos presas. Mestre Romão sorriu com
+tristeza.</p>
+
+<p>&mdash;Aquelles chegam, disse elle, eu saio. Comporei ao menos este canto
+que elles poderão tocar...</p>
+
+<p>Sentou-se ao cravo; reproduziu as notas e chegou ao <em>la</em>...</p>
+
+<p>&mdash;<em>Lá, lá, lá...</em></p>
+
+<p>Nada, não passava adeante. E comtudo, elle sabia musica como gente.</p>
+
+<p>&mdash;<em>Lá, dó... lá, mi... lá, si, dó, ré... ré... ré...</em></p>
+
+<p>Impossivel! nenhuma inspiração. Não exigia uma peça profundamente original,
+mas emfim alguma cousa, que não fosse de outro e se ligasse ao pensamento
+começado. Voltava ao principio, repetia as notas, buscava rehaver um retalho da
+sensação estincta, lembrava-se da mulher, dos primeiros tempos. Para completar
+a illusão, deitava os olhos pela janella para o lado dos casadinhos. Estes
+continuavam alli, com as mãos presas e os braços passados nos hombros um do
+outro; a differença é que se miravam agora, em vez de olhar para baixo. Mestre
+Romão, offegante da molestia e de impaciencia, tornava ao cravo; mas a vista do
+casal não lhe supprira a inspiração, e as notas seguintes não soavam.</p>
+
+<p>&mdash;<em>Lá... lá... lá...</em><span class="pn">{56}</span></p>
+
+<p>Desesperado, deixou o cravo, pegou do papel escripto e rasgou-o. Nesse
+momento, a moça embebida no olhar do marido, começou a cantarolar á toa,
+inconscientemente, uma cousa nunca antes cantada nem sabida, na qual cousa um
+certo <em>lá</em> trazia apoz si uma linda phrase musical, justamente a que
+mestre Romão procurára durante annos sem achar nunca. O mestre ouviu-a com
+tristeza, abanou a cabeça, e á noite expirou.</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p style="text-align: center;">FIM DA CANTIGA DOS ESPONSAES.</p>
+
+<p><span class="pn">{57}</span></p>
+
+<h1><a name="SECTION00050000">SINGULAR OCCURRENCIA</a> </h1>
+
+<p>&mdash;Ha occurencias bem singulares. Está vendo aquella dama que vai
+entrando na egreja da Cruz? Parou agora no adro para dar uma esmola.</p>
+
+<p>&mdash;De preto?</p>
+
+<p>&mdash;Justamente; lá vai entrando; entrou.</p>
+
+<p>&mdash;Não ponha mais na carta. Esse olhar está dizendo que a dama é uma sua
+recordação de outro tempo, e não ha de ser de muito tempo, a julgar pelo corpo:
+é moça de truz.</p>
+
+<p>&mdash;Deve ter quarenta e seis annos.</p>
+
+<p>&mdash;Ah! conservada. Vamos lá; deixe de olhar para o chão, e conte-me
+tudo. Está viuva, naturalmente?</p>
+
+<p>&mdash;Não.</p>
+
+<p>&mdash;Bem; o marido ainda vive. É velho?</p>
+
+<p>&mdash;Não é casada.</p>
+
+<p>&mdash;Solteira?</p>
+
+<p>&mdash;Assim, assim. Deve chamar-se hoje D. Maria<span
+class="pn">{58}</span> de tal. Em 1860 florescia com o nome familiar de
+Marocas. Não era costureira, nem proprietaria, nem mestra de meninas; vá
+excluindo as profissões e lá chegará. Morava na rua do Sacramento. Já então era
+esbelta, e, seguramente, mais linda do que hoje; modos sérios, linguagem limpa.
+Na rua, com o vestido afogado, escorrido, sem espavento, arrastava a muitos,
+ainda assim.</p>
+
+<p>&mdash;Por exemplo, ao senhor.</p>
+
+<p>&mdash;Não, mas ao Andrade, um amigo meu, de vinte e seis annos, meio
+advogado, meio politico, nascido nas Alagoas, e casado na Bahia, d'onde viera
+em 1859. Era bonita a mulher d'elle, affectuosa, meiga e resignada; quando os
+conheci, tinham uma filhinha de dois annos.</p>
+
+<p>&mdash;Apezar d'isso, a Marocas...?</p>
+
+<p>&mdash;É verdade, dominou-o. Olhe, se não tem pressa conto-lhe uma cousa
+interessante.</p>
+
+<p>&mdash;Diga.</p>
+
+<p>&mdash;A primeira vez que elle a encontrou, foi á porta da loja Paula Brito,
+no Rocio. Estava alli viu a distancia uma mulher bonita, e esperou, já
+alvoraçado, porque elle tinha em alto grau a paixão das mulheres. Marocas vinha
+andando, parando e olhando como quem procura alguma casa. Defronte da loja<span
+class="pn">{59}</span> deteve-se um instante; depois, envergonhada e a medo,
+estendeu um pedacinho de papel ao Andrade, e perguntou-lhe onde ficava o numero
+alli escripto, Andrade disse-lhe que do outro lado do Rocio, e ensinou-lhe a
+altura provavel da casa. Ella cortejou com muita graça; elle ficou sem saber o
+que pensasse da pergunta.</p>
+
+<p>&mdash;Como eu estou.</p>
+
+<p>&mdash;Nada mais simples: Marocas não sabia ler. Elle não chegou a
+suspeital-o. Viu-a atravessar o Rocio, que ainda não tinha estatua nem jardim,
+e ir á casa que buscava, ainda assim perguntando em outras. De noite foi ao
+Gymnasio, dava-se a <em>Dama das Camelias</em>; Marocas estava lá, e, no ultimo
+acto, chorou como uma criança. Não lhe digo nada; no fim de quinze dias
+amavam-se loucamente. Marocas despediu todos os seus namorados, e creio que não
+perdeu pouco; tinha alguns capitalistas bem bons. Ficou só, sosinha, vivendo
+para o Andrade, não querendo outra affeição, não cogitando de nenhum outro
+interesse. </p>
+
+<p>&mdash;Como a dama das Camelias.</p>
+
+<p>&mdash;Justo. Andrade ensinou-lhe a ler. Estou mestre-escola, disse-me elle
+um dia; e foi então que me contou a anecdota do Rocio. Marocas aprendeu
+depressa.<span class="pn">{60}</span> Comprehende-se; o vexame de não saber, o
+desejo de conhecer os romances em que elle lhe fallava, e finalmente o gosto de
+obedecer a um desejo d'elle, de lhe ser agradavel... Não me encobriu nada;
+contou-me tudo com um riso de gratidão nos olhos, que o senhor não imagina. Eu
+tinha a confiança de ambos. Jantavamos ás vezes os tres juntos; e... não sei
+por que negal-o,&mdash;algumas vezes os quatro. Não cuide que eram jantares de
+gente pandega; alegres, mas honestos. Marocas gostava da linguagem afogada,
+como os vestidos. Pouco a pouco estabeleceu-se intimidade entre nós; ella
+interrogava-me ácerca da vida do Andrade, da mulher, da filha, dos habitos
+d'elle, se gostava devéras d'ella, ou se era um capricho, se tivera outros, se
+era capaz de a esquecer, uma chuva de perguntas, e um receio de o perder, que
+mostravam a força e a sinceridade da affeição... Um dia, uma festa de S. João,
+o Andrade acompanhou a familia á Gavea, onde ia assistir a um jantar e um
+baile; dous dias de ausencia. Eu fui com elles. Marocas, ao despedir-se,
+recordou a comedia que ouvira algumas semanas antes no Gymnasio&mdash;<em>Janto
+com minha mãi</em>&mdash;e disse-me que, não tendo familia para passar a festa
+de S. João, ia fazer como a Sophia Arnoult da comedia, ia jantar com um
+retrato;<span class="pn">{61}</span> mas não seria o da mãi, porque não tinha,
+e sim do Andrade. Este dito ia-lhe rendendo um beijo; o Andrade chegou a
+inclinar-se; ella, porém, vendo que eu estava alli, afastou-o delicadamente com
+a mão.</p>
+
+<p>&mdash;Gosto d'esse gesto.</p>
+
+<p>&mdash;Elle não gostou menos. Pegou-lhe na cabeça com ambos as mãos, e,
+paternalmente, pingou-lhe o beijo na testa. Seguimos para a Gavea. De caminho
+disse-me a respeito da Marocas as maiores finezas, contou-me as ultimas
+Moleiras de ambos, fallou-me do projecto que tinha de comprar-lhe uma casa em
+algum arrabalde, logo que pudesse dispôr de dinheiro; e, de passagem, elogiou a
+modestia da moça, que não queria receber d'elle mais do que o estrictamente
+necessario. Ha mais do que isso, disse-lhe eu; e contei-lhe uma cousa que
+sabia, isto é, que cerca de tres semanas antes, a Marocas empenhára algumas
+joias para pagar uma conta da costureira. Esta noticia abalou-o muito; não
+juro, mas creio que ficou com os olhos molhados. Em todo caso, depois de
+cogitar algum tempo, disse-me que definitivamente ia arranjar-lhe uma casa e
+pôl-a ao abrigo da miseria. Na Gavea ainda fallámos da Marocas, até que as
+festas acabaram, e nós voltámos. O Andrade deixou a familia<span
+class="pn">{62}</span> em casa, na Lapa, e foi ao escriptorio aviar alguns
+papeis urgentes. Pouco depois do meio-dia appareceu-lhe um tal Leandro
+ex-agente de certo advogado a pedir-lhe, como de costume, dois ou tres mil
+réis. Era um sugeito réles e vadio. Vivia a explorar os amigos do antigo
+patrão. Andrade deu-lhe tres mil réis, e, como o visse excepcionalmente
+risonho, perguntou-lhe se tinha visto passarinho verde. O Leandro piscou os
+olhos e lambeu os beiços: o Andrade, que dava o cavaco por anedoctas eroticas,
+perguntou-lhe se eram amores. Elle mastigou um pouco, e confessou que sim.</p>
+
+<p>&mdash;Olhe; lá vem ella sahindo: não é ella?</p>
+
+<p>&mdash;Ella mesma; afastemo-nos da esquina.</p>
+
+<p>&mdash;Realmente, deve ter sido muito bonita. Tem um ar de duqueza.</p>
+
+<p>&mdash;Não olhou para cá; não olha nunca para os lados. Vai subir pela rua
+do Ouvidor...</p>
+
+<p>&mdash;Sim, senhor. Comprehendo o Andrade.</p>
+
+<p>&mdash;Vamos ao caso. O Leandro confessou que tivera na vespera uma fortuna
+rara, ou antes unica, uma cousa que elle nunca esperara achar, nem merecia
+mesmo, porque se conhecia e não passava de um pobre diabo. Mas, emfim, os
+pobres tambem são filhos de Deus. Foi o caso que, na vespera, perto das<span
+class="pn">{63}</span> dez horas da noite, encontrara no Rocio uma dama
+vestida com simplicidade, vistosa de corpo, e muito embrulhada n'um chale
+grande. A dama vinha atraz d'elle, e mais depressa; ao passar rentesinha com
+elle, fitou-lhe muito os olhos, e foi andando de vagar, como quem espera. O
+pobre diabo imaginou que era engano de pessoa; confessou ao Andrade que, apezar
+da roupa simples, viu logo que não era cousa para os seus beiços. Foi andando;
+a mulher, parada, fitou-o outra vez, mas com tal instancia, que elle chegou a
+atrever-se um pouco; ella atreveu-se o resto... Ah! um anjo! E que casa, que
+sala rica! Cousa papafina. E depois o desinteresse... «Olhe, accrescentou elle,
+para V. S. é que era um bom arranjo.» Andrade abanou a cabeça; não lhe cheirava
+o comborço. Mas o Leandro teimou; era na rua do Sacramento, numero tantos...
+</p>
+
+<p>&mdash;Não me diga isso!</p>
+
+<p>&mdash;Imagine como não ficou o Andrade. Elle mesmo não soube o que fez nem
+o que disse durante os primeiros minutos, nem o que pensou nem o que sentiu.
+Afinal teve força para perguntar se era verdade o que estava contando; mas o
+outro advertiu que não tinha nenhuma necessidade de inventar semelhante cousa;
+vendo, porém, o alvoroço do Andrade, pediu-lhe<span class="pn">{64}</span>
+segredo, dizendo que elle, pela sua parte, era discreto. Parece que ia sahir;
+Andrade deteve-o, e propôz-lhe um negocio; propôz-lhe ganhar vinte mil
+réis.&mdash;«Prompto!»&mdash;«Dou-lhe vinte mil réis, se você for commigo á
+casa d'essa moça e disser em presença d'ella que é ella mesma.»</p>
+
+<p>&mdash;Oh!</p>
+
+<p>&mdash;Não defendo o Andrade; a cousa não era bonita; mas a paixão, n'esse
+caso, céga os melhores homens. Andrade era digno, generoso, sincero; mas o
+golpe fora tão profundo, e elle amava-a tanto, que não recuou diante de uma tal
+vingança. </p>
+
+<p>&mdash;O outro aceitou?</p>
+
+<p>&mdash;Hesitou um pouco, estou que por medo, não por dignidade; mas vinte
+mil réis... Poz uma condição: não mettel-o em barulhos... Marocas estava na
+sala, quando o Andrade entrou. Caminhou para a porta, na intenção de o abraçar;
+mas o Andrade advertiu-a, com o gesto, que trazia alguem. Depois, fitando-a
+muito, fez entrar o Leandro; Marocas empallideceu.&mdash;«É esta senhora?»
+perguntou elle.&mdash;«Sim, senhor», murmurou o Leandro com voz sumida, porque
+ha acções ainda mais ignobeis do que o proprio homem que as commette. Andrade
+abriu a carteira com grande afectação, tirou uma<span class="pn">{65}</span>
+nota de vinte mil réis e deu-lh'a; e, com a mesma affectação, ordenou-lhe que
+se retirasse. O Leandro sahiu. A scena que se seguiu, foi breve, mas dramatica.
+Não a soube inteiramente, porque o proprio Andrade é que me contou tudo, e,
+naturalmente, estava tão atordoado, que muita cousa lhe escapou. Ella não
+confessou nada; mas estava fóra de si, e, quando elle, depois de lhe dizer as
+cousas mais duras do mundo, atirou-se para a porta, ella rojou-se-lhe aos pés,
+agarrou-lhe as mãos, lacrimosa, desesperada, ameaçando matar-se; e ficou
+atirada ao chão, no patamar da escada; elle desceu vertiginosamente e sahiu.</p>
+
+<p>&mdash;Na verdade, um sugeito réles, apanhado na rua; provavelmente eram
+habitos d'ella?</p>
+
+<p>&mdash;Não.</p>
+
+<p>&mdash;Não?</p>
+
+<p>&mdash;Ouça o resto. De noite seriam oito horas, o Andrade veiu á minha
+casa, e esperou por mim. Já me tinha procurado tres vezes. Fiquei estupefacto;
+mas como duvidar, se elle tivera a precaução de levar a prova até á evidencia?
+Não lhe conto o que ouvi, os planos de vingança, as exclamações, os nomes que
+lhe chamou, todo o estylo e todo o repertorio d'essas crises. Meu conselho foi
+que a deixasse; que, afinal,<span class="pn">{66}</span> vivesse para a mulher
+e a filha, a mulher tão boa, tão meiga... Elle concordava, mas tornava ao
+furor. Do furor passou á duvida; chegou a imaginar que a Marocas, com o fim de
+o experimentar, inventára o artificio e pagára ao Leandro para vir dizer-lhe
+aquillo; e a prova é que o Leandro, não querendo elle saber quem era, teimou e
+lhe disse a casa e o numero. E agarrado a esta inverosimelhança, tentava fugir
+á realidade; mas a realidade vinha&mdash;a pallidez de Marocas, a alegria
+sincera do Leandro, tudo o que lhe dizia que a aventura era certa. Creio até
+que elle arrependia-se de ter ido tão longe. Quanto a mim, cogitava na
+aventura, sem atinar com a explicação. Tão modesta! maneiras tão acanhadas!</p>
+
+<p>&mdash;Ha uma phrase de theatro que pode explicar a aventura, uma phrase de
+Augier, creio eu: «a nostalgia da lama.»</p>
+
+<p>&mdash;Acho que não; mas vá ouvindo. Ás dez horas appareceu-nos em casa uma
+criada de Marocas, uma preta forra, muito amiga da ama. Andava afflicta em
+procura do Andrade, porque a Marocas, depois de chorar muito, trancada no
+quarto, sahiu de casa sem jantar, e não voltára mais. Contive o Andrade, cujo
+primeiro gesto foi para sahir logo. A preta pedia-nos por tudo, que fossemos
+descobrir a ama.<span class="pn">{67}</span> «Não é costume d'ella sahir?»
+perguntou o Andrade com sarcasmo. Mas a preta disse que não era costume. «Está
+ouvindo?» bradou elle para mim. Era a esperança que de novo empolgára o coração
+do pobre diabo. «E hontem?...» disse eu. A preta respondeu que na vespera sim;
+mas não lhe perguntei mais nada, tive compaixão do Andrade, cuja afflicção
+crescia, e cujo pundonor ia cedendo diante do perigo. Sahimos em busca da
+Marocas; fomos a todas as casas em que era possivel encontral-a; fomos á
+policia; mas a noite passou-se sem outro resultado. De manhã voltámos á
+policia. O chefe ou um dos delegados, não me lembra, era amigo do Andrade, que
+lhe contou da aventura a parte conveniente; aliás a ligação do Andrade e da
+Marocas era conhecida de todos os seus amigos. Pesquizou-se tudo; nenhum
+desastre se déra durante a noite; as barcas da Praia Grande não viram cahir ao
+mar nenhum passageiro; as casas de armas não venderam nenhuma; as boticas
+nenhum veneno. A policia poz em campo todos os seus recursos, e nada. Não lhe
+digo o estado de afflicção em que o pobre Andrade viveu durante essas longas
+horas, porque todo o dia se passou em pesquizas inuteis. Não era só a dor de a
+perder; era tambem o remorso, a duvida, ao menos, da consciencia,<span
+class="pn">{68}</span> em presença de um possivel desastre, que parecia
+justificar a moça. Elle perguntava-me, a cada passo se não era natural fazer o
+que fez, no delirio da indignação, se eu não faria a mesma cousa. Mas depois
+tornava a affirmar a aventura, e provava-me que era verdadeira, com o mesmo
+ardor com que na vespera tentara provar que era falsa; o que elle queria era
+acommodar a realidade ao sentimento da occasião.</p>
+
+<p>&mdash;Mas, emfim, descobriram a Marocas?</p>
+
+<p>&mdash;Estavamos comendo alguma cousa, em um hotel, eram perto de oito
+horas, quando recebemos noticia de um vestigio:&mdash;um cocheiro que levára na
+vespera uma senhora para o Jardim Botanico, onde ella entrou em uma hospedaria,
+e ficou. Nem acabámos o jantar; fomos no mesmo carro ao Jardim Botanico. O dono
+da hospedaria confirmou a versão; accrescentando que a pessoa se recolhera a um
+quarto, não comera nada desde que chegou na vespera; apenas pediu uma chicara
+de café; parecia profundamente abatida. Encaminhámo-nos para o quarto; o dono
+da hospedaria bateu á porta; ella respondeu com voz fraca, e abriu. O Andrade
+nem me deu tempo de preparar nada; empurrou-me, e cahiram nos braços um do
+outro. Marocas chorou muito e perdeu os sentidos.<span class="pn">{69}</span>
+</p>
+
+<p>&mdash;Tudo se explicou?</p>
+
+<p>&mdash;Cousa nenhuma. Nenhum d'elles tornou ao assumpto; livres de um
+naufragio, não quizeram saber nada da tempestade que os metteu a pique. A
+reconciliação fez-se depressa. O Andrade comprou-lhe, mezes depois, uma casinha
+em Catumby; a Marocas deu-lhe um filho, que morreu de dois annos. Quando elle
+seguia para o norte, em commissão do governo, a affeição era ainda a mesma,
+posto que os primeiros ardores não tivessem já a mesma intensidade. Não
+obstante, ella quiz ir tambem; fui eu que a obriguei a ficar. O Andrade contava
+tornar ao fim de pouco tempo, mas, como lhe disse, morreu na provincia. A
+Marocas sentiu profundamente a morte, poz luto, e considerou-se viuva; sei que
+nos tres primeiros annos, ouvia sempre uma missa no dia anniversario. Ha dez
+annos perdi-a de vista. Que lhe parece tudo isto?</p>
+
+<p>&mdash;Realmente, ha occurrencias bem singulares, se o senhor não abusou da
+minha ingenuidade de rapaz para imaginar um romance...</p>
+
+<p>&mdash;Não inventei nada; é a realidade pura.</p>
+
+<p>&mdash;Pois, senhor, é curioso. No meio de uma paixão tão ardente, tão
+sincera... Eu ainda estou na minha; acho que foi a nostalgia da lama.<span
+class="pn">{70}</span></p>
+
+<p>&mdash;Não: nunca a Marocas desceu até os Leandros.</p>
+
+<p>&mdash;Então por que desceria n'aquella noite?</p>
+
+<p>&mdash;Era um homem que ella suppunha separado, por um abysmo, de todas as
+suas relações pessoaes; d'ahi a confiança. Mas o acaso, que é um deus e um
+diabo ao mesmo tempo... Emfim, cousas!</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p style="text-align: center;">FIM DA SINGULAR OCCURRENCIA.</p>
+
+<p><span class="pn">{71}</span></p>
+
+<h1><a name="SECTION00060000">GALERIA POSTHUMA</a> </h1>
+
+<h2><a name="SECTION00061000">I</a> </h2>
+
+<p>Não, não se descreve a consternação que produziu em todo o Engenho Velho, e
+particularmente no coração dos amigos, a morte de Joaquim Fidelis. Nada mais
+inesperado. Era robusto, tinha saude de ferro, e ainda na vespera fôra a um
+baile, onde todos o viram conversado e alegre. Chegou a dansar, a pedido de uma
+senhora sexagenaria, viuva de um amigo d'elle, que lhe tomou do braço, e lhe
+disse:</p>
+
+<p>&mdash;Venha cá, venha cá, vamos mostrar a estes criançolas como é que os
+velhos são capazes de desbancar tudo.</p>
+
+<p>Joaquim Fidelis protestou sorrindo; mas obedeceu e dansou. Eram duas horas
+quando sahiu, embrulhando os seus sessenta annos n'uma capa
+grossa,&mdash;estavamos em junho de 1879&mdash;mettendo a calva na<span
+class="pn">{72}</span> carapuça, accendendo um charuto, e entrando lepidamente
+no carro.</p>
+
+<p>No carro é possivel que conchilasse; mas, em casa, máu grado a hora e o
+grande peso das palpebras, ainda foi a secretária, abriu uma gaveta, tirou um
+de muitos folhetos manuscriptos,&mdash;e escreveu durante tres ou quatro
+minutos umas dez ou onze linhas. As ultimas palavras eram estas: «Em summa,
+baile chinfrim; uma velha gaiteira obrigou-me a dansar uma quadrilha; á porta
+um crioulo pediu-me as festas. Chinfrim!» Guardou o folheto, despiu-se,
+metteu-se na cama, dormiu e morreu.</p>
+
+<p>Sim, a noticia consternou a todo o bairro. Tão amado que elle era, com os
+modos bonitos que tinha, sabendo conversar com toda a gente, instruido com os
+instruidos, ignorante com os ignorantes, rapaz com os rapazes, e até moça com
+as moças. E depois, muito serviçal, prompto a escrever cartas, a fallar a
+amigos, a concertar brigas, a emprestar dinheiro. Em casa d'elle reuniam-se á
+noite alguns intimos da visinhança, e ás vezes de outros bairros; jogavam o
+voltarete ou o <em>whist</em>, fallavam de politica. Joaquim Fidelis tinha sido
+deputado até á dissolução da camara pelo marquez de Olinda, em 1863. Não
+conseguindo ser reeleito, abandonou a vida publica. Era<span
+class="pn">{73}</span> conservador, nome que a muito custo admittiu, por lhe
+parecer gallicismo politico. <em>Saquarema</em> é o que elle gostava de ser
+chamado. Mas abriu mão de tudo; parece até que nos ultimos tempos desligou-se
+do proprio partido, e afinal da mesma opinião. Ha razões para crêr que, de
+certa data em diante, foi um profundo sceptico, e nada mais.</p>
+
+<p>Era rico e lettrado. Formára-se em direito no anno de 1842. Agora não fazia
+nada e lia muito. Não tinha mulheres em casa. Viuvo desde a primeira invasão da
+febre amarella, recusou contrahir segundas nupcias, com grande magoa de tres ou
+quatro damas, que nutriram essa esperança durante algum tempo. Uma d'ellas
+chegou a prorogar perfidamente os seus bellos cachos de 1845 até meiados do
+segundo neto; outra, mais moça e tambem viuva, pensou retel-o com algumas
+concessões, tão generosas quão irreparaveis. «Minha querida Leocadia, dizia
+elle nas occasiões em que ella insinuava a solução conjugal, por que não
+continuaremos assim mesmo? O mysterio é o encanto da vida.» Morava com um
+sobrinho, o Benjamim, filho de uma irmã, orphão desde tenra idade. Joaquim
+Fidelis deu-lhe educação e fel-o estudar, até obter diploma de bacharel em
+sciencias juridicas, no anno de 1877.<span class="pn">{74}</span></p>
+
+<p>Benjamim ficou atordoado. Não podia acabar de crer na morte do tio. Correu
+ao quarto, achou o cadaver na cama, frio, olhos abertos, e um leve arregaço
+ironico ao canto esquerdo da boca. Chorou muito e muito. Não perdia um simples
+parente, mas um pai, um pai terno, dedicado, um coração unico. Benjamim
+enxugou, emfim, as lagrimas; e, porque lhe fizesse mal ver os olhos abertos do
+morto, e principalmente o labio arregaçado, concertou-lhe ambas as cousas. A
+morte recebeu assim a expressão tragica; mas a originalidade da mascara
+perdeu-se.</p>
+
+<p>&mdash;Não me digam isto! bradava d'ahi a pouco um dos visinhos, Diogo
+Villares, ao receber noticia do caso.</p>
+
+<p>Diogo Villares era um dos cinco principaes familiares de Joaquim Fidelis.
+Devia-lhe o emprego que exercia desde 1857. Veiu elle; vieram os outros quatro,
+logo depois, um a um, estupefactos, incredulos. Primeiro chegou o Elias Xavier,
+que alcançára por intermedio do finado, segundo se dizia, uma commenda; depois
+entrou o João Braz, deputado que foi, no regimen das supplencias, eleito com o
+influxo do Joaquim Fidelis. Vieram, emfim, o Fragoso e o Galdino, que lhe não
+deviam diplomas, commendas nem empregos, mas outros favores. Ao<span
+class="pn">{75}</span> Galdino adiantou elle alguns poucos capitaes, e ao
+Fragoso arranjou-lhe um bom casamento... E morto! morto para todo sempre! De
+redor da cama, fitavam o rosto sereno e recordavam a ultima festa, a do outro
+domingo, tão intima, tão expansiva! E, mais perto ainda, a noite da
+ante-vespera, em que o voltarete do costume foi até ás onze horas.</p>
+
+<p>&mdash;Amanhã não venham, disse-lhes o Joaquim Fidelis; vou ao baile do
+Carvalhinho.</p>
+
+<p>&mdash;E depois?...</p>
+
+<p>&mdash;Depois de amanhã, cá estou.</p>
+
+<p>E, á sahida, deu-lhes ainda um maço de excellentes charutos, segundo fazia
+ás vezes, com um accrescimo de doces seccos para os pequenos, e duas ou tres
+pilherias finas... Tudo esvaido! tudo disperso! tudo acabado!</p>
+
+<p>Ao enterro acudiram muitas pessoas gradas, dous senadores, um ex-ministro,
+titulares, capitalistas, advogados, commerciantes, medicos; mas as argolas do
+caixão foram seguras pelos cinco familiares e o Benjamim. Nenhum d'elles quiz
+ceder a ninguem esse ultimo obsequio, considerando que era um dever cordial e
+intransferivel. O adeus do cemiterio foi proferido pelo João Braz, um adeus
+tocante, com algum excesso de estylo para um caso tão urgente,<span
+class="pn">{76}</span> mas, emfim, desculpavel. Deitada a pá de terra, cada um
+se foi arredando da cova, menos os seis, que assistiram ao trabalho posterior e
+indifferente dos coveiros. Não arredaram pé antes de vêr cheia a cova até
+acima, e depositadas sobre ellas as coroas funebres.</p>
+
+<h2><a name="SECTION00062000">II</a> </h2>
+
+<p>A missa do setimo dia reuniu-os na igreja. Acabada a missa, os cinco amigos
+acompanharam á casa o sobrinho do morto. Benjamim convidou-os a almoçar.</p>
+
+<p>&mdash;Espero que os amigos do tio Joaquim serão tambem meus amigos, disse
+elle.</p>
+
+<p>Entraram, almoçaram. Ao almoço fallaram do morto; cada um contou uma
+anecdota, um dito; eram unanimes no louvor e nas saudades. No fim do almoço,
+como tivessem pedido uma lembrança do finado, passaram ao gabinete, e
+escolheram á vontade, este uma canneta velha, aquelle uma caixa de oculos, um
+folheto, um retalho qualquer intimo, Benjamim sentia-se consolado.
+Communicou-lhes que pretendia conservar o gabinete tal qual estava.<span
+class="pn">{77}</span> Nem a secretária abrira ainda. Abriu-a então, e, com
+elles, inventariou o conteudo de algumas gavetas. Cartas, papeis soltos,
+programmas de concertos, menus de grandes jantares, tudo alli estava de mistura
+e confusão. Entre outras cousas acharam alguns cadernos manuscriptos, numerados
+e datados.</p>
+
+<p>&mdash;Um diario! disse Benjamim.</p>
+
+<p>Com effeito, era um diario das impressões do finado, especie de memorias
+secretas, confidencias do homem a si mesmo. Grande foi a commoção dos amigos;
+lêl-o era ainda conversal-o. Tão recto caracter! tão discreto espirito!
+Benjamim começou a leitura; mas a voz embargou-se-lhe depressa, e João Braz
+continuou-a.</p>
+
+<p>O interesse do escripto adormeceu a dor do obito. Era um livro digno do
+prelo. Muita observação politica e social, muita reflexão philosophica,
+anecdotas de homens publicos, do Feijó, do Vasconcellos, outras puramente
+galantes, nomes de senhoras, o da Leocadia, entre outros; um repertorio de
+factos e commentarios. Cada um admirava o talento do finado, as graças do
+estylo, o interesse da materia. Uns opinavam pela impressão typographica;
+Benjamim dizia que sim, com a condição de excluir alguma cousa, ou
+inconveniente ou demasiado particular.<span class="pn">{78}</span> E
+continuavam a ler, saltando pedaços e paginas, até que bateu meio-dia.
+Levantaram-se todos; Diogo Villares ia já chegar á repartição fóra de horas;
+João Braz e Elias tinham onde estar juntos. Galdino seguia para a loja. O
+Fragoso precisava mudar a roupa preta, e acompanhar a mulher á rua do Ouvidor.
+Concordaram em nova reunião para proseguir a leitura. Certas particularidades
+tinham-lhes dado uma comichão de escandalo, e as comichões coçam-se: é o que
+elles queriam fazer, lendo.</p>
+
+<p>&mdash;Até amanhã, disseram.</p>
+
+<p>&mdash;Até amanhã.</p>
+
+<p>Uma vez só, Benjamim continuou a lêr o manuscripto. Entre outras cousas,
+admirou o retrato da viuva Leocadia, obra-prima de paciencia e semelhança,
+embora a data coincidisse com a dos amores. Era prova de uma rara isenção de
+espirito. De resto, o finado era eximio nos retratos. Desde 1873 ou 1874, os
+cadernos vinham cheios d'elles, uns de vivos, outros de mortos, alguns de
+homens publicos, Paula Souza, Aureliano, Olinda, etc. Eram curtos e
+substanciaes, ás vezes trez ou quatro rasgos firmes, com tal fidelidade e
+perfeição, que a figura parecia photographada. Benjamim ia lendo; de repente
+deu<span class="pn">{79}</span> com o Diogo Villares. E leu estas poucas
+linhas:</p>
+
+<p>«D<small>IOGO </small>V<small>ILLARES.</small>&mdash;Tenho-me referido
+muitas vezes a este amigo, e fal-o-hei algumas outras mais, se elle me não
+matar de tedio, cousa em que o reputo profissional. Pediu-me ha annos que lhe
+arranjasse um emprego, e arranjei-lh'o. Não me avisou da moeda em que me
+pagaria. Que singular gratidão! Chegou ao excesso de compor um soneto e
+publical-o. Fallava-me do obsequio a cada passo, dava-me grandes nomes; emfim,
+acabou. Mais tarde relacionámo-nos intimamente. Conheci-o então ainda melhor.
+<em>C'est le genre ennuyeux.</em> Não é mau parceiro de voltarete. Dizem-me que
+não deve nada a ninguem. Bom pai de familia. Estupido e credulo. Com intervallo
+de quatro dias, já lhe ouvi dizer de um ministerio que era excellente e
+detestavel:&mdash;differença dos interlocutores. Ri muito e mal. Toda a gente,
+quando o vê pela primeira vez, começa por suppol-o um varão grave; no segundo
+dia dá-lhe piparotes. A razão é a figura, ou, mais particularmente, as
+bochechas, que lhe emprestam um certo ar superior.»</p>
+
+<p>A primeira sensação do Benjamim foi a do perigo evitado. Se o Diogo Villares
+estivesse alli? Releu o retrato e mal podia crer; mas não havia negal-o,<span
+class="pn">{80}</span> era o proprio nome do Diogo Villares, era a mesma lettra
+do tio. E não era o unico dos familiares; folheou o manuscripto e deu com o
+Elias:</p>
+
+<p>«E<small>LIAS </small>X<small>AVIER.</small>&mdash;Este Elias é um espirito
+subalterno, destinado a servir alguem, e a servir com desvanecimento, como os
+cocheiros de casa elegante. Vulgarmente trata as minhas visitas intimas com
+alguma arrogancia e desdem: politica de lacaio ambicioso. Desde as primeiras
+semanas, comprehendi que elle queria fazer-se meu privado; e não menos
+comprehendi que, no dia que realmente o fosse, punha os outros no meio da rua.
+Ha occasiões em que me chama a um vão da janella para fallar-me secretamente do
+sol e da chuva. O fim claro é incutir nos outros a suspeita de que ha entre nós
+cousas particulares, e alcança isso mesmo, porque todos lhe rasgam muitas
+cortezias. É intelligente, risonho e fino. Conversa muito bem. Não conheço
+comprehensão mais rapida. Não é poltrão nem maldizente. Só falla mal de alguem,
+por interesse; faltando-lhe interesse, cala-se; e a maledicencia legitima é
+gratuita. Dedicado e insinuante. Não tem idéas, é verdade; mas ha esta grande
+differença entre elle e o Diogo Villares:&mdash;o Diogo repete prompta e
+boçalmente as que ouve, ao passo que o Elias sabe fazel-as<span
+class="pn">{81}</span> suas e plantal-as opportunamente na conversação. Um caso
+de 1865 caracterisa bem a astucia d'este homem. Tendo dado alguns libertos para
+a guerra do Paraguay, ia receber uma commenda. Não precisava de mim; mas veiu
+pedir a minha intercessão, duas ou tres vezes, com um ar consternado e
+supplice. Fallei ao ministro, que me disse:&mdash;«O Elias já sabe que o
+decreto está lavrado; falta só a assignatura do imperador.» Comprehendi então
+que era um estratagema para poder confessar-me essa obrigação. Bom parceiro de
+voltarete; um pouco brigão, mas entendido.»</p>
+
+<p>&mdash;Ora o tio Joaquim! exclamou Benjamim levantando-se. E depois de
+alguns instantes, reflexionou comsigo:&mdash;Estou lendo um coração, livro
+inedito. Conhecia a edição publica, revista e expurgada. Este é o texto
+primitivo e interior, a lição exacta e authentica. Mas quem imaginaria nunca...
+Ora o tio Joaquim!</p>
+
+<p>E, tornando a sentar-se, releu tambem o retrato do Elias, com vagar,
+meditando as feições. Posto lhe faltasse observação, para avaliar a verdade do
+escripto, achou que em muitas partes, ao menos, o retrato era semelhante.
+Cotejava essas notas iconographicas, tão cruas, tão seccas, com as maneiras
+cordiaes e<span class="pn">{82}</span> graciosas do tio, e sentia-se tomado de
+um certo terror e mau-estar. Elle, por exemplo, que teria dito delle o finado?
+Com esta ideia, folheou ainda o manuscripto, passou por alto algumas damas,
+alguns homens publicos, deu com o Fragoso,&mdash;um esboço curto e
+curtissimo,&mdash;logo depois o Galdino, e quatro paginas adiante o João Braz.
+Justamente o primeiro levára delle uma caneta, pouco antes, talvez a mesma com
+que o finado o retratára. Curto era o esboço, e dizia assim:</p>
+
+<p>«F<small>RAGOSO.</small>&mdash;Honesto, maneiras assucaradas e bonito. Não
+me custou casal-o; vive muito bem com a mulher. Sei que me tem uma
+extraordinaria adoração,&mdash;quasi tanta como a si mesmo. Conversação vulgar,
+polida e chocha.» </p>
+
+<p>«G<small>ALDINO </small>M<small>ADEIRA.</small>&mdash;O melhor coração do
+mundo e um caracter sem macula; mas as qualidades do espirito destroem as
+outras. Emprestei-lhe algum dinheiro, por motivo da familia, e porque me não
+fazia falta. Ha no cerebro d'elle um certo furo, por onde o espirito escorrega
+e cai no vacuo. Não reflecte tres minutos seguidos. Vive principalmente de
+imagens, de phrases translatas. Os «dentes da calumnia» e outras expressões,
+surradas como colchões de hospedaria, são os seus encantos. Mortifica-se<span
+class="pn">{83}</span> facilmente no jogo, e, uma vez mortificado, faz timbre
+em perder, e em mostrar que é de proposito. Não despede os maus caixeiros. Se
+não tivesse guarda-livros, é duvidoso que sommasse os quebrados. Um
+subdelegado, meu amigo, que lhe deveu algum dinheiro, durante dous annos,
+dizia-me com muita graça, que o Galdino quando o via na rua, em vez de lhe
+pedir a divida, pedia-lhe noticias do ministerio.»</p>
+
+<p>«J<small>OÃO </small>B<small>RAZ.</small>&mdash;Nem tolo nem bronco. Muito
+attencioso, embora sem maneiras. Não póde ver passar um carro de ministro; fica
+pallido e vira os olhos. Creio que é ambicioso; mas na edade em que está, sem
+carreira, a ambição vai-se-lhe convertendo em inveja. Durante os dois annos em
+que serviu de deputado, desempenhou honradamente o cargo: trabalhou muito, e
+fez alguns discursos bons, não brilhantes, mas solidos, cheios de factos e
+reflectidos. A prova de que lhe ficou um residuo de ambição, é o ardor com que
+anda á cata de alguns cargos honorificos ou preeminentes; ha alguns mezes
+consentiu em ser juiz de uma irmandade de S. José, e segundo me dizem,
+desempenha o cargo com um zelo exemplar. Creio que é atheu, mas não affirmo. Ri
+pouco e discretamente. A vida é pura e severa, mas o caracter<span
+class="pn">{84}</span> tem uma ou duas cordas fraudulentas, a que só faltou a
+mão do artista; nas cousas minimas, mente com facilidade.»</p>
+
+<p>Benjamim, estupefacto, deu emfim comsigo mesmo.&mdash;«Este meu sobrinho,
+dizia o manuscripto, tem vinte e quatro annos de edade, um projecto de reforma
+judiciaria, muito cabello, e ama-me. Eu não o amo menos. Discreto leal e
+bom,&mdash;bom até á credulidade. Tão firme nas affeições como versatil nos
+pareceres. Superficial, amigo de novidades, amando no direito o vocabulario e
+as formulas.»</p>
+
+<p>Quiz reler, e não pôde; essas poucas linhas davam-lhe a sensação de um
+espelho. Levantou-se, foi á janella, mirou a chacara e tornou dentro para
+contemplar outra vez as suas feições. Contemplou-as; eram poucas, falhas, mas
+não pareciam calumniosas. Se alli estivesse um publico, é provavel que a
+mortificação do rapaz fosse menor, porque a necessidade de dissipar a impressão
+moral dos outros dar-lhe-ia a força necessaria para reagir contra o escripto;
+mas, a sós, comsigo, teve de supportal-o sem contraste. Então considerou se o
+tio não teria composto essas paginas nas horas de máu humor; comparou-as a
+outras em que a phrase era menos aspera, mas não cogitou se alli a brandura
+vinha ou não de molde.<span class="pn">{85}</span></p>
+
+<p>Para confirmar a conjectura, recordou as maneiras usuaes do finado, as horas
+de intimidade e riso, a sós com elle, ou de palestra com os demais familiares.
+Evocou a figura do tio, com o olhar espirituoso e meigo, e a pilheria grave; em
+logar d'essa, tão candida e sympathica, a que lhe appareceu foi a do tio morto,
+estendido na cama, com os olhos abertos e o labio arregaçado. Sacudiu-a do
+espirito, mas a imagem ficou. Não podendo rejeital-a, Benjamim tentou
+mentalmente fechar-lhe os olhos e concertar-lhe a bocca; mas tão depressa o
+fazia, como a palpebra tornava a levantar-se, e a ironia arregaçava o beiço. Já
+não era o homem, era o auctor do manuscripto.</p>
+
+<p>Benjamim jantou mal e dormiu mal. No dia seguinte, á tarde, apresentaram-se
+os cinco familiares para ouvir a leitura. Chegaram sofregos, anciosos;
+fizera-lhe muitas perguntas; pediram-lhe com instancia para ver o manuscripto.
+Mas Benjamim tergiversava, dizia isto e aquillo, inventava pretextos; por mal
+de peccados, appareceu-lhe na sala, por traz d'elles, a eterna bocca do
+defunto, e esta circumstancia fel-o ainda mais acanhado. Chegou a mostrar-se
+frio, para ficar só, e ver se com elles desapparecia a visão. Assim se passaram
+trinta a quarenta minutos. Os cinco olharam emfim uns para os outros, e
+deliberaram<span class="pn">{86}</span> sahir; despediram-se ceremoniosamente,
+e foram conversando, para suas casas:</p>
+
+<p>&mdash;Que differença do tio! que abysmo! a herança enfunou-o! deixal-o! ah!
+Joaquim Fidelis! ah! Joaquim Fidelis!</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p style="text-align: center;">FIM DA GALERIA POSTHUMA.</p>
+
+<p><span class="pn">{87}</span></p>
+
+<h1><a name="SECTION00070000">CAPITULO DOS CHAPÉOS</a> </h1>
+
+<blockquote style="margin-left:30%;">
+ <p
+ style="text-align:center;"><small>GÉRONTE</small></p>
+
+ <p>Dans quel chapitre, s'il vous plait?</p>
+
+ <p
+ style="text-align:center;"><small>SCAGNARELLE</small></p>
+
+ <p>Dans le chapitre des chapeaux.</p>
+
+ <p style="text-align:right;">M<small>OLIÈRE</small>.</p>
+</blockquote>
+
+<p>Musa, canta o despeito de Marianna, esposa do bacharel Conrado Seabra,
+naquella manhã de abril de 1879. Qual a causa de tamanho alvoroço? Um simples
+chapéo, leve, não deselegante, um chapéo baixo. Conrado, advogado, com
+escriptorio na rua da Quitanda, trazia-o todos os dias á cidade, ia com elle ás
+audiencias; só não o levava ás recepções, theatro lyrico, enterros e visitas de
+ceremonia. No mais era constante, e isto desde cinco ou seis annos, que tantos
+eram os do casamento. Ora, naquella singular manhã de abril, acabado o almoço,
+Conrado começou a enrolar um cigarro, e Marianna annunciou sorrindo que ia
+pedir-lhe uma cousa.<span class="pn">{88}</span></p>
+
+<p>&mdash;Que é, meu anjo?</p>
+
+<p>&mdash;Você é capaz de fazer-me um sacrificio?</p>
+
+<p>&mdash;Dez, vinte...</p>
+
+<p>&mdash;Pois então não vá mais á cidade com aquelle chapéo.</p>
+
+<p>&mdash;Porque? é feio?</p>
+
+<p>&mdash;Não digo que seja feio; mas é cá para fóra, para andar na visinhança,
+á tarde ou á noite, mas na cidade, um advogado, não me parece que...</p>
+
+<p>&mdash;Que tolice, yayá!</p>
+
+<p>&mdash;Pois sim, mas faz-me este favor, faz?</p>
+
+<p>Conrado riscou um phosphoro, accendeu o cigarro, e fez-lhe um gesto de
+gracejo, para desconversar; mas a mulher teimou. A teima, a principio frouxa e
+supplice, tornou-se logo imperiosa e aspera. Conrado ficou espantado. Conhecia
+a mulher; era, de ordinario, uma creatura passiva, meiga, de uma plasticidade
+de encommenda, capaz de usar com a mesma divina indifferença tanto um diadema
+régio como uma touca. A prova é que, tendo tido uma vida de andarilha nos
+ultimos dous annos de solteira, tão depressa casou como se affez aos habitos
+quietos. Sahia ás vezes, e a maior parte dellas por instancias do proprio
+consorte; mas só estava commodamente em casa. Moveis, cortinas, ornatos
+suppriam-lhe os<span class="pn">{89}</span> filhos; tinha-lhes um amor de mãe;
+e tal era a concordancia da pessoa com o meio, que ella saboreava os trastes na
+posição occupada, as cortinas com as dobras do costume, e assim o resto. Uma
+das tres janellas, por exemplo, que davam para a rua vivia sempre meia aberta;
+nunca era outra. Nem o gabinete do marido escapava ás exigencias monotonas da
+mulher, que mantinha sem alteração a desordem dos livros, e até chegava a
+restaural-a. Os habitos mentaes seguiam a mesma uniformidade. Marianna dispunha
+de mui poucas noções, e nunca lêra se não os mesmos livros:&mdash;a
+<em>Moreninha</em> de Macedo, sete vezes; <em>Ivanhoe e o Pirata</em> de Walter
+Scott, dez vezes; o <em>Mot de l'enigme</em>, de Madame Craven, onze vezes.</p>
+
+<p>Isto posto, como explicar o caso do chapéo? Na vespera, á noite, emquanto o
+marido fôra a uma sessão do Instituto da Ordem dos Advogados, o pae de Marianna
+veiu á casa d'elles. Era um bom velho, magro, pausado, ex-funccionario publico,
+ralado de saudades do tempo em que os empregados iam de casaca para as suas
+repartições. Casaca era o que elle, ainda agora, levava aos enterros, não pela
+razão que o leitor suspeita, a solemnidade da morte ou a gravidade da despedida
+ultima, mas por esta menos<span class="pn">{90}</span> philosophica, por ser um
+costume antigo. Não dava outra, nem da casaca nos enterros, nem do jantar ás
+duas horas, nem de vinte usos mais. E tão afferrado aos habitos, que no
+anniversario do casamento da filha, ia para lá ás seis horas da tarde, jantado
+e diggerido, via comer, e no fim acceitava um pouco de doce, um calix de vinho
+e café. Tal era o sogro de Conrado; como suppor que elle approvasse o chapéo
+baixo do genro? Supportava-o calado, em attenção ás qualidades da pessoa; nada
+mais. Acontecera-lhe, porém, naquelle dia, vel-o de relance na rua, de palestra
+com outros chapéos altos de homens publicos, e nunca lhe pareceu tão torpe. De
+noite, encontrando a filha sosinha, abriu-lhe o coração; pintou-lhe o chapéo
+baixo como a abominação das abominações, e instou com ella para que o fizesse
+desterrar.</p>
+
+<p>Conrado ignorava essa circumstancia, origem do pedido. Conhecendo a
+docilidade da mulher, não entendeu a resistencia; e, porque era autoritario, e
+voluntarioso, a teima veiu irrital-o profundamente. Conteve-se ainda assim;
+preferiu mofar do caso; fallou-lhe com tal ironia e desdém, que a pobre dama
+sentiu-se humilhada. Marianna quiz levantar-se duas vezes; elle obrigou-a a
+ficar, a primeira pegando-lhe<span class="pn">{91}</span> levemente no pulso, a
+segunda subjugando-a com o olhar. E dizia sorrindo:</p>
+
+<p>&mdash;Olhe, yayá, tenho uma razão philosophica para não fazer o que você me
+pede. Nunca lhe disse isto; mas já agora confio-lhe tudo.</p>
+
+<p>Marianna mordia o labio, sem dizer mais nada; pegou de uma faca, e entrou a
+bater com ella devagarinho para fazer alguma cousa; mas, nem isso mesmo
+consentiu o marido, que lhe tirou a faca delicadamente, e continuou:</p>
+
+<p>&mdash;A escolha do chapéo não é uma acção indifferente, como você póde
+suppor; é regida por um principio metaphysico. Não cuide que quem compra um
+chapéo exerce uma acção voluntária e livre; a verdade é que obedece a um
+determinismo obscuro. A illusão da liberdade existe arraigada nos compradores,
+e é mantida pelos chapelleiros que, ao verem um freguez ensaiar trinta ou
+quarenta chapéos, e sair sem comprar nenhum, imaginam que elle está procurando
+livremente uma combinação elegante. O principio metaphysico é este:&mdash;o
+chapéo é a integração do homem, um prolongamento da cabeça, um complemento
+decretado <em>ab eterno</em>; ninguem o póde trocar sem mutilação. É uma
+questão profunda que ainda não occorreu a ninguem. Os sabios tem estudado<span
+class="pn">{92}</span> tudo desde o astro até o verme, ou, para exemplificar
+bibliographicamente, desde Laplace... Você nunca leu Laplace? desde Laplace e a
+<em>Mecanica Celeste</em> até Darwin e o seu curioso livro das
+<em>Minhocas</em>, e, entretanto, não se lembraram ainda de parar deante do
+chapéo e estudal-o por todos os lados. Ninguem advertiu que ha uma metaphysica
+do chapéo. Talvez eu escreva uma memoria a este respeito. São nove horas e tres
+quartos; não tenho tempo de dizer mais nada; mas você reflicta comsigo, e
+verá... Quem sabe? póde ser até que nem mesmo o chapéo seja complemento do
+homem, mas o homem do chapéo...</p>
+
+<p>Marianna venceu-se afinal, e deixou a mesa. Não entendera nada d'aquella
+nomenclatura aspera nem da singular theoria; mas sentiu que era um sarcasmo, e,
+dentro de si, chorava de vergonha. O marido subiu para vestir-se; desceu d'ahi
+a alguns minutos, e parou deante della com o famoso chapéo na cabeça. Marianna
+achou-lh'o, na verdade, torpe, ordinario, vulgar, nada serio. Conrado
+despediu-se ceremoniosamente e sahiu.</p>
+
+<p>A irritação da dama tinha afrouxado muito; mas, o sentimento de humiliação
+subsistia. Marianna não chorou, não clamou, como suppunha que ia fazer; mas,
+comsigo mesma, recordou a simplicidade do<span class="pn">{93}</span> pedido,
+os sarcasmos de Conrado, e, posto reconhecesse que fôra um pouco exigente, não
+achava justificação para taes excessos. Ia de um lado para outro, sem poder
+parar; foi á sala de visitas, chegou á janella meia aberta, viu ainda o marido,
+na rua, á espera do <em>bond</em>, de costas para casa, com o eterno e
+torpissimo chapéo na cabeça. Marianna sentiu-se tomada de odio contra essa peça
+ridicula; não comprehendia como pudera supportal-a por tantos annos. E
+relembrava os annos, pensava na docilidade dos seus modos, na acquiescencia a
+todas as vontades e caprichos do marido, e perguntava a si mesma se não seria
+essa justamente a causa do excesso d'aquella manhã. Chamava-se tola, moleirona;
+se tivesse feito como tantas outras, a Clara e a Sophia, por exemplo, que
+tratavam os maridos como elles deviam ser tratados, não lhe aconteceria nem
+metade nem uma sombra do que lhe aconteceu. De reflexão em reflexão, chegou á
+ideia de sahir. Vestiu-se, e foi á casa da Sophia, uma antiga companheira de
+collegio, com o fim de espairecer, não de lhe contar nada.</p>
+
+<p>Sophia tinha trinta annos, mais dous que Marianna. Era alta, forte, muito
+senhora de si. Recebeu a amiga com as festas do costume; e, posto que esta lhe
+não dissesse nada, adivinhou que trazia um desgosto<span class="pn">{94}</span>
+e grande. Adeus, planos de Marianna! D'ahi a vinte minutos contava-lhe tudo.
+Sophia riu della, sacudiu os hombros; disse-lhe que a culpa não era do marido.
+</p>
+
+<p>&mdash;Bem sei, é minha, concordava Marianna.</p>
+
+<p>&mdash;Não seja tola, yayá! Você tem sido muito molle com elle. Mas seja
+forte uma vez; não faça caso; não lhe falle tão cedo; e se elle vier fazer as
+pazes, diga-lhe que mude primeiro de chapéo.</p>
+
+<p>&mdash;Veja você, uma cousa de nada...</p>
+
+<p>&mdash;No fim de contas, elle tem muita razão; tanta como outros. Olhe a
+pamonha da Beatriz; não foi agora para a roça, só porque o marido implicou com
+um inglez que costumava passar o cavallo de tarde? Coitado do inglez!
+Naturalmente nem deu pela falta. A gente póde viver bem com seu marido,
+respeitando-se, não indo contra os desejos um do outro, sem pirraças, nem
+despotismo. Olhe; eu cá vivo muito bem com o meu Ricardo; temos muita harmonia.
+Não lhe peço uma cousa que elle me não faça logo; mesmo quando não tem vontade
+nenhuma, basta que eu feche a cara, obedece logo. Não era elle que teimaria
+assim por causa de um chapéo! Tinha que vêr! Pois não! Onde iria elle parar!
+Mudava de chapéo, quer quizesse, quer não.<span class="pn">{95}</span></p>
+
+<p>Marianna ouvia com inveja essa bella definição do socego conjugal. A
+rebellião de Eva embocava nella os seus clarins; e o contacto da amiga dava-lhe
+um prurido de independencia e vontade. Para completar a situação, esta Sophia
+não era só muito senhora de si, mas tambem dos outros; tinha olhos para todos
+os inglezes, a cavallo ou a pé. Honesta, mas namoradeira; o termo é crú, e não
+ha tempo de compor outro mais brando. Namorava a torto e a direito, por uma
+necessidade natural, um costume de solteira. Era o troco miudo do amor, que
+ella distribuia a todos os pobres que lhe batiam á porta:&mdash;um nikel a um,
+outro a outro; nunca uma nota de cinco mil réis, menos ainda uma apolice. Ora
+este sentimento caritativo induziu-a a propor á amiga que fossem passear, ver
+as lojas, contemplar a vista de outros chapéos bonitos e graves. Marianna
+aceitou; um certo demonio soprava n'ella as furias da vingança. Demais, a amiga
+tinha o dom de fascinar, virtude de Bonaparte, e não lhe deu tempo de
+reflectir. Pois sim, iria, estava cançada de viver captiva. Tambem queria gosar
+um pouco, etc., etc.</p>
+
+<p>Emquanto Sophia foi vestir-se, Marianna deixou-se estar na sala, irrequieta
+e contente comsigo mesma. Planeou a vida de toda aquella semana,<span
+class="pn">{96}</span> marcando os dias e horas de cada cousa, como n'uma
+viagem official. Levantava-se, sentava-se, ia á janella, á espera da amiga.</p>
+
+<p>&mdash;Sophia parece que morreu, dizia de quando em quando.</p>
+
+<p>De uma das vezes que foi á janella, viu passar um rapaz a cavallo. Não era
+inglez, mas lembrou-lhe a outra, que o marido levou para a roça, desconfiado de
+um inglez, e sentiu crescer-lhe o odio contra a raça masculina,&mdash;com
+excepção, talvez, dos rapazes a cavallo. Na verdade, aquelle era affectado
+demais; esticava a perna no estribo com evidente vaidade das botas, dobrava a
+mão na cintura, com um ar de figurino. Marianna notou-lhe esses dous defeitos;
+mas achou que o chapéo resgatava-os; não que fosse um chapéo alto; era baixo,
+mas proprio do apparelho equestre. Não cobria a cabeça de um advogado indo
+gravemente para o escriptorio, mas a de um homem que espairecia ou matava o
+tempo.</p>
+
+<p>Os tacões de Sophia desceram a escada, compassadamente. Prompta! disse ella
+d'ahi a pouco, ao entrar na sala. Realmente, estava bonita. Já sabemos que era
+alta. O chapéo augmentava-lhe o ar senhoril; e um diabo de vestido de seda
+preta, arredondando-lhe as fórmas do busto, fazia-a ainda mais<span
+class="pn">{97}</span> vistosa. Ao pé della, a figura de Marianna desapparecia
+um pouco. Era preciso attentar primeiro nesta para ver que possuia feições mui
+graciosas, uns olhos lindos, muita e natural elegancia. O peior é que a outra
+dominava desde logo; e onde houvesse pouco tempo de as ver, tomava-o Sophia
+para si. Este reparo seria incompleto, se eu não accrescentasse que Sophia
+tinha consciencia da superioridade, e que apreciava por isso mesmo as bellezas
+do genero Marianna, menos derramadas e apparentes. Se é um defeito, não me
+compete emendal-o.</p>
+
+<p>&mdash;Onde vamos nós? perguntou Marianna.</p>
+
+<p>&mdash;Que tolice! vamos passear á cidade... Agora me lembro, vou tirar o
+retrato; depois vou ao dentista. Não; primeiro vamos ao dentista. Você não
+precisa de ir ao dentista?</p>
+
+<p>&mdash;Não.</p>
+
+<p>&mdash;Nem tirar o retrato?</p>
+
+<p>&mdash;Já tenho muitos. E para que? para dal-o «áquelle senhor»?</p>
+
+<p>Sophia comprehendeu que o resentimento da amiga persistia, e, durante o
+caminho, tratou de lhe pôr um ou dous bagos mais de pimenta. Disse-lhe que,
+embora fosse difficil, ainda era tempo de libertar-se. E ensinava-lhe um
+methodo para subtrahir-se á<span class="pn">{98}</span> tyrannia. Não convinha
+ir logo de um salto, mas de vagar, com segurança, de maneira que elle desse por
+si quando ella lhe puzesse o pé no pescoço. Obra de algumas semanas, tres a
+quatro, não mais. Ella, Sophia, estava prompta a ajudal-a. E repetia-lhe que
+não fosse molle, que não era escrava de ninguem, etc. Marianna ia cantando
+dentro do coração a <em>marselheza</em> do matrimonio.</p>
+
+<p>Chegaram á rua do Ouvidor. Era pouco mais do meio dia. Muita gente, andando
+ou parada, o movimento do costume. Marianna sentiu-se um pouco atordoada, como
+sempre lhe acontecia. A uniformidade e a placidez, que eram o fundo do seu
+caracter e da sua vida, receberam daquella agitação os repellões do costume.
+Ella mal podia andar por entre os grupos, menos ainda sabia onde fixasse os
+olhos, tal era a confusão das gentes, tal era a variedade das lojas.
+Conchegava-se muito á amiga, e, sem reparar que tinham passado a casa do
+dentista, ia anciosa de lá entrar. Era um repouso; era alguma cousa melhor do
+que o tumulto.</p>
+
+<p>&mdash;Esta rua do Ouvidor! ia dizendo.</p>
+
+<p>&mdash;Sim? respondia Sophia, voltando a cabeça para ella e os olhos para um
+rapaz que estava na outra calçada.<span class="pn">{99}</span></p>
+
+<p>Sophia, prática daquelles mares, transpunha, rasgava ou contornava as gentes
+com muita pericia e tranquillidade. A figura impunha; os que a conheciam
+gostavam de vel-a outra vez; os que não a conheciam paravam ou voltavam-se para
+admirar-lhe o garbo. E a boa senhora, cheia de caridade, derramava os olhos á
+direita e a esquerda, sem grande escandalo, porque Marianna servia a cohonestar
+os movimentos. Nada dizia seguidamente; parece até que mal ouvia as respostas
+da outra: mas fallava de tudo, de outras damas que iam ou vinham, de uma loja,
+de um chapéo... Justamente os chapéos,&mdash;de senhora ou de
+homem,&mdash;abundavam naquella primeira hora da rua do Ouvidor.</p>
+
+<p>&mdash;Olha este, dizia-lhe Sophia.</p>
+
+<p>E Marianna acudia a vel-os, femininos ou masculinos, sem saber onde ficar,
+porque os demonios dos chapéos succediam-se como n'um kaleidoscopio. Onde era o
+dentista? perguntava ella á amiga. Sophia só á segunda vez lhe respondeu que
+tinham passado a casa; mas já agora iriam até ao fim da rua; voltariam depois.
+Voltaram finalmente.</p>
+
+<p>&mdash;Uf! respirou Marianna entrando no corredor.</p>
+
+<p>&mdash;Que é, meu Deus? Ora você! Parece da roça... A sala do dentista tinha
+já algumas freguezas.<span class="pn">{100}</span> Marianna não achou entre
+ellas uma só cara conhecida, e para fugir ao exame das pessoas estranhas, foi
+para a janella. Da janella podia gozar a rua, sem atropello. Recostou-se;
+Sophia veiu ter com ella. Alguns chapéos masculinos, parados, começaram a
+fital-as; outros, passando, faziam a mesma cousa. Marianna aborreceu-se da
+insistencia; mas, notando que fitavam principalmente a amiga, dissolveu-se-lhe
+o tédio n'uma especie de inveja. Sophia, entretanto, contava-lhe a historia de
+alguns chapéos,&mdash;ou, mais correctamente, as aventuras. Um delles merecia
+os pensamentos de Fulana; outro andava derretido por Sicrana, e ella por elle,
+tanto que eram certos na rua do Ouvidor ás quartas e sabbados, entre duas e
+tres horas. Marianna ouvia aturdida. Na verdade, o chapéo era bonito, trazia
+uma linda gravata, e possuia um ar entre elegante e pelintra, mas...</p>
+
+<p>&mdash;Não juro, ouviu? replicava a outra, mas é o que se diz.</p>
+
+<p>Marianna fitou pensativa o chapéo denunciado. Havia agora mais tres, de
+egual porte e graça, e provavelmente os quatro fallavam dellas, e fallavam bem.
+Marianna enrubeceu muito, voltou a cabeça para o outro lado, tornou logo á
+primeira attitude, e afinal entrou. Entrando, viu na sala duas senhoras<span
+class="pn">{101}</span> recem-chegadas, e com ellas um rapaz que se levantou
+promptamente e veiu comprimental-a com muita ceremonia. Era o seu primeiro
+namorado.</p>
+
+<p>Este primeiro namorado devia ter agora trinta e tres annos. Andara por fóra,
+na roça, na Europa, e afinal na presidencia de uma provincia do sul. Era
+mediano de estatura, pallido, barba inteira e rara, e muito apertado na roupa.
+Tinha na mão um chapéo novo, alto, preto, grave, presidencial, administrativo,
+um chapéo adequado á pessoa e ás ambições. Marianna, entretanto, mal pode
+vel-o. Tão confusa ficou, tão desorientada com a presença de um homem que
+conhecera em especiaes circumstancias, e a quem não vira desde 1877, que não
+pode reparar em nada. Estendeu-lhe os dedos, parece mesmo que murmurou uma
+resposta qualquer, e ia tornar á janella, quando a amiga sahiu dalli.</p>
+
+<p>Sophia conhecia tambem o recem-chegado. Trocaram algumas palavras. Marianna,
+impaciente, perguntou-lhe ao ouvido se não era melhor adiar os dentes para
+outro dia; mas a amiga disse-lhe que não; negocio de meia hora a trez quartos.
+Marianna sentia-se oppressa: a presença de um tal homem atava-lhe os sentidos,
+lançava-a na luta e na confusão. Tudo culpa do marido. Se elle não teimasse e
+não caçoasse com<span class="pn">{102}</span> ella, ainda em cima, não
+aconteceria nada. E Marianna, pensando assim, jurava tirar uma desforra. De
+memoria contemplava a casa, tão socegada, tão bonitinha, onde podia estar
+agora, como de costume, sem os safanões da rua, sem a dependencia da amiga...
+</p>
+
+<p>&mdash;Marianna, disse-lhe esta, o Dr. Viçoso teima que está muito magro.
+Você não acha que está mais gordo do que no anno passado... Não se lembra delle
+no anno passado?</p>
+
+<p>Dr. Viçoso era o proprio namorado antigo, que palestrava com Sophia, olhando
+muitas vezes para Marianna. Esta respondeu negativamente. Elle aproveitou a
+fresta para puxal-a á conversação; disse, que, na verdade, não a vira desde
+alguns annos. E sublinhava o dito com um certo olhar triste e profundo. Depois
+abriu o estojo dos assumptos, saccou para fóra o theatro lyrico. Que tal
+achavam a companhia? Na opinião delle era excellente, menos o barytono; o
+barytono parecia-lhe cançado. Sophia protestou contra o cançasso do barytono,
+mas elle insistiu, accrescentando que, em Londres, onde o ouvira pela primeira
+vez, já lhe parecera a mesma cousa. As damas, sim, senhora; tanto a soprano
+como a contralto eram de primeira ordem. E fallou<span class="pn">{103}</span>
+das operas, citava os trechos, elogiou a orchestra, principalmente nos
+<em>Huguenotes</em>... Tinha visto Marianna na ultima noite, no quarto ou
+quinto camarote da esquerda, não era verdade?</p>
+
+<p>&mdash;Fomos, murmurou ella, accentuando bem o plural.</p>
+
+<p>&mdash;No Cassino é que a não tenho visto, continuou elle.</p>
+
+<p>&mdash;Está ficando um bicho do matto, acudiu Sophia rindo.</p>
+
+<p>Viçoso gostára muito do ultimo baile, e desfiou as suas recordações; Sophia
+fez o mesmo ás della. As melhores <em>toilettes</em> foram descriptas por ambos
+com muita particularidade; depois vieram as pessoas, os caracteres, dous ou
+tres picos de malicia, mas tão anodina, que não fez mal a ninguem. Marianna
+ouvia-os sem interesse; duas ou tres vezes chegou a levantar-se e ir á janella;
+mas os chapéos eram tantos e tão curiosos, que ella voltava a sentar-se.
+Interiormente, disse alguns nomes feios á amiga; não os ponho aqui por não
+serem necessarios, e, aliás, seria de máu gosto desvendar o que esta moça pôde
+pensar da outra durante alguns minutos de irritação.</p>
+
+<p>&mdash;E as corridas do Jockey-Club? perguntou o ex-presidente.<span
+class="pn">{104}</span></p>
+
+<p>Marianna continuava a abanar a cabeça. Não tinha ido ás corridas naquelle
+anno. Pois perdêra muito, a penultima, principalmente; esteve animadissima, e
+os cavallos eram de primeira ordem. As de Epsom, que elle vira, quando esteve
+em Inglaterra, não eram melhores do que a penultima do Prado Fluminense. E
+Sophia dizia que sim, que realmente a penultima corrida honrava o Jockey-Club.
+Confessou que gostava muito; dava emoções fortes. A conversação descambou em
+dous concertos daquella semana; depois tomou a barca, subiu a serra e foi a
+Petropolis, onde dous diplomatas lhe fizeram as despezas da estadia. Como
+fallassem da esposa de um ministro, Sophia lembrou-se de ser agradavel ao
+ex-presidente, declarando-lhe que era preciso casar tambem por que em breve
+estaria no ministerio. Viçoso teve um estremeção de prazer, e sorriu, e
+protestou que não; depois, com os olhos em Marianna, disse que provavelmente
+não casaria nunca... Marianna enrubeceu muito e levantou-se.</p>
+
+<p>&mdash;Você está com muita pressa, disse-lhe Sophia. Quantas são? continuou
+voltando-se para Viçoso.</p>
+
+<p>&mdash;Perto de tres! exclamou elle.</p>
+
+<p>Era tarde; tinha de ir á camara dos deputados. Foi fallar ás duas senhoras,
+que acompanhára, e que<span class="pn">{105}</span> eram primas suas, e
+despediu-se; vinha despedir-se das outras, mas Sophia declarou que sahiria
+tambem. Já agora não esperava mais. A verdade é que a ideia de ir á camara dos
+deputados começára a faiscar-lhe na cabeça.</p>
+
+<p>&mdash;Vamos á camara? propoz ella á outra.</p>
+
+<p>&mdash;Não, não, disse Marianna; não posso, estou muito cançada.</p>
+
+<p>&mdash;Vamos, um bocadinho só; eu tambem estou muito cançada...</p>
+
+<p>Marianna teimou ainda um pouco; mas teimar contra Sophia,&mdash;a pomba
+discutindo com o gavião,&mdash;era realmente insensatez. Não teve remedio, foi.
+A rua estava agora mais agitada, as gentes iam e vinham por ambas as calçadas,
+e complicavam-se no cruzamento das ruas. De mais a mais, o obsequioso
+ex-presidente flanqueiava as duas damas, tendo-se offerecido para arranjar-lhes
+uma tribuna.</p>
+
+<p>A alma de Marianna sentia-se cada vez mais dilacerada de toda essa confusão
+de cousas. Perdera o interesse da primeira hora; e o despeito, que lhe dera
+forças para um vôo audaz e fugidio, começava a afrouxar as azas, ou
+afrouxara-as inteiramente. E outra vez recordava a casa, tão quieta, com todas
+as cousas nos seus logares, methodicas, respeitosas umas com as<span
+class="pn">{106}</span> outras, fazendo-se tudo sem atropello, e,
+principalmente, sem mudança imprevista. E a alma batia o pé raivosa... Não
+ouvia nada do que o Viçoso ia dizendo, comquanto elle fallasse alto, e muitas
+cousas fossem ditas para ella. Não ouvia, não queria ouvir nada. Só pedia a
+Deus que as horas andassem depressa. Chegaram á camara e foram para uma
+tribuna. O rumor das saias chamou a attenção de uns vinte deputados, que
+restavam, escutando um discurso de orçamento. Tão depressa o Viçoso pediu
+licença e sahiu, Marianna disse rapidamente á amiga que não lhe fizesse outra.
+</p>
+
+<p>&mdash;Que outra? perguntou Sophia.</p>
+
+<p>&mdash;Não me pregue outra peça como esta de andar de um logar para outro
+feito maluca. Que tenho eu com a camara? que me importam discursos que não
+entendo? </p>
+
+<p>Sophia sorriu, agitou o leque e recebeu em cheio o olhar de um dos
+secretarios. Muitos eram os olhos que a fitavam quando ella ia á camara, mas os
+do tal secretario tinham uma expressão mais especial, callida e supplice.
+Entende-se, pois, que ella não o recebeu de sopetão; póde mesmo entender-se que
+o procurou curiosa. Emquanto acolhia esse olhar legislativo ia respondendo á
+amiga, com brandura,<span class="pn">{107}</span> que a culpa era della, e que
+a sua intenção era boa, era restituir-lhe a posse de si mesma.</p>
+
+<p>&mdash;Mas, se você acha que a aborreço não venha mais commigo, concluiu
+Sophia. </p>
+
+<p>E, inclinando-se um pouco:</p>
+
+<p>&mdash;Olha o ministro da justiça.</p>
+
+<p>Marianna não teve remedio senão ver o ministro da justiça. Este aguentava o
+discurso do orador, um governista, que provava a conveniencia dos tribunaes
+correccionaes, e, incidentemente, compendiava a antiga legislação colonial.
+Nenhum aparte; um silencio resignado, polido, discreto e cauteloso. Marianna
+passeava os olhos de um lado para outro, sem interesse; Sophia dizia-lhe muitas
+cousas, para dar saida a uma porção de gestos graciosos. No fim de quinze
+minutos agitou-se a camara, graças a uma expressão do orador e uma replica da
+opposição. Trocaram-se apartes, os segundos mais bravos que os primeiros, e
+seguiu-se um tumulto, que durou perto de um quarto de hora.</p>
+
+<p>Essa diversão não o foi para Marianna, cujo espirito placido e uniforme,
+ficou atarantado no meio de tanta e tão inesperada agitação. Ella chegou a
+levantar-se para sair; mas, sentou-se outra vez. Já agora estava disposta a ir
+ao fim, arrependida e<span class="pn">{108}</span> resoluta a chorar só comsigo
+as suas magoas conjugaes. A duvida começou mesmo a entrar nella. Tinha razão no
+pedido ao marido; mas era caso de doer-se tanto? era razoavel o espalhafato?
+Certamente que as ironias delle foram crueis; mas, em summa, era a primeira vez
+que ella lhe batêra o pé, e, naturalmente, a novidade irritou-o. De qualquer
+modo porém, fôra um erro ir revelar tudo á amiga. Sophia iria talvez contal-o a
+outras... Esta ideia trouxe um calafrio a Marianna; a indiscrição da amiga era
+certa; tinha-lhe ouvido uma porção de historias de chapéos masculinos e
+femininos, cousa mais grave do que uma simples briga de casados. Marianna
+sentiu necessidade de lisonjeal-a, e cobriu a sua impaciencia e zanga com uma
+mascara de docilidade hypocrita. Começou a sorrir tambem, a fazer algumas
+observações, a respeito de um ou outro deputado, e assim chegaram ao fim do
+discurso e da sessão.</p>
+
+<p>Eram quatro horas dadas. Toca a recolher, disse Sophia; e Marianna concordou
+que sim, mas sem impaciencia, e ambas tornaram a subir a rua do Ouvidor. A rua,
+a entrada no <em>bond</em>, completaram a fadiga do espirito de Marianna, que
+afinal respirou quando viu que ia caminho de casa. Pouco antes de<span
+class="pn">{109}</span> apear-se a outra, pediu-lhe que guardasse segredo sobre
+o que lhe contára; Sophia prometteu que sim.</p>
+
+<p>Marianna respirou. A rola estava livre do gavião. Levava a alma doente dos
+encontrões, vertiginosa da diversidade de cousas e pessoas. Tinha necessidade
+de equilibrio e saude. A casa estava perto; á medida que ia vendo as outras
+casas e chacaras proximas, Marianna sentia-se restituida a si mesma. Chegou
+finalmente; entrou no jardim, respirou. Era aquelle o seu mundo; menos um vaso,
+que o jardineiro trocára de logar.</p>
+
+<p>&mdash;João, bota este vaso onde estava antes, disse ella.</p>
+
+<p>Tudo o mais estava em ordem, a sala de entrada, a de visitas, a de jantar,
+os seus quartos, tudo. Marianna sentou-se primeiro, em differentes logares,
+olhando bem para todas as cousas, tão quietas e ordenadas. Depois de uma manhã
+inteira de perturbação e variedade, a monotonia trazia-lhe um grande bem, e
+nunca lhe pareceu tão deliciosa. Na verdade, fizera mal... Quiz recapitular os
+successos e não pode; a alma espreguiçava-se toda naquella uniformidade
+caseira. Quando muito, pensou na figura do Viçoso, que achava agora ridicula, e
+era injustiça. Despiu-se lentamente, com amor, indo certeira<span
+class="pn">{110}</span> a cada objecto. Uma vez despida, pensou outra vez na
+briga com o marido. Achou que, bem pesadas as cousas, a principal culpa era
+della. Que diabo de teima por causa de um chapéo, que o marido usára ha tantos
+annos? Tambem o pae era exigente de mais...</p>
+
+<p>&mdash;Vou ver a cara com que elle vem, pensou ella.</p>
+
+<p>Eram cinco e meia; não tardaria muito. Marianna foi á sala da frente espiou
+pela vidraça, prestou o ouvido ao <em>bond</em>, e nada. Sentou-se alli mesmo
+com o <em>Ivanhoe</em> nas palmas, querendo ler e não lendo nada. Os olhos iam
+até o fim da pagina, e tornavam ao principio, em primeiro lugar, porque não
+apanhavam o sentido, em segundo lugar, porque uma ou outra vez desviavam-se
+para saborear a correcção das cortinas ou qualquer outra feição particular da
+sala. Santa monotonia, tu a acalentavas no teu regaço eterno.</p>
+
+<p>Emfim, parou um <em>bond</em>; apeou-se o marido; rangeu a porta de ferro do
+jardim. Marianna foi á vidraça, e espiou. Conrado entrava lentamente, olhando
+para a direita e a esquerda, com o chapéo na cabeça, não o famoso chapéo do
+costume, porém outro, o que a mulher lhe tinha pedido de manhã. O espirito de
+Marianna recebeu um choque violento,<span class="pn">{111}</span> egual ao que
+lhe dera o vaso do jardim trocado,&mdash;ou ao que lhe daria uma lauda de
+Voltaire entre as folhas da <em>Moreninha</em> ou de <em>Ivanhoe</em>... Era a
+nota desegual no meio da harmoniosa sonata da vida. Não, não podia ser esse
+chapéo. Realmente, que mania a della exigir que elle deixasse o outro que lhe
+ficava tão bem? E que não fosse o mais proprio, era o de longos annos; era o
+que quadrava á physionomia do marido... Conrado entrou por uma porta lateral.
+Marianna recebeu-o nos braços.</p>
+
+<p>&mdash;Então, passou? perguntou elle, emfim, cingindo-lhe a cintura.</p>
+
+<p>&mdash;Escuta uma cousa, respondeu ella com uma caricia divina, bota fóra
+esse; antes o outro.</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p style="text-align: center;">FIM DO CAPITULO DOS CHAPÉOS.</p>
+
+<p><span class="pn">{112}<br>
+{113}</span></p>
+
+<h1><a name="SECTION00080000">CONTO ALEXANDRINO</a> </h1>
+
+<h2><a name="SECTION00081000">CAPITULO I</a> </h2>
+
+<h3><a name="SECTION00081100">NO MAR</a> </h3>
+
+<p>&mdash;O que, meu caro Stroibus? Não, impossivel. Nunca jámais ninguem
+acreditará que o sangue de rato, dado a beber a um homem, possa fazer do homem
+um ratoneiro.</p>
+
+<p>&mdash;Em primeiro logar, Pythias, tu omittes uma condição:&mdash;é que o
+rato deve expirar debaixo do escalpello, para que o sangue traga o seu
+principio. Essa condição é essencial. Em segundo logar, uma vez que me apontas
+o exemplo do rato, fica sabendo que já fiz com elle uma experiencia, e cheguei
+a produzir um ladrão...</p>
+
+<p>&mdash;Ladrão authentico?</p>
+
+<p>&mdash;Levou-me o manto, ao cabo de trinta dias,<span
+class="pn">{114}</span> mas deixou-me a maior alegria do mundo:&mdash;a
+realidade da minha doutrina. Que perdi eu? um pouco de tecido grosso; e que
+lucrou o universo? a verdade immortal. Sim, meu caro Pythias; esta é a eterna
+verdade. Os elementos constitutivos do ratoneiro estão no sangue do rato, os do
+paciente no boi, os do arrojado na aguia...</p>
+
+<p>&mdash;Os do sabio na coruja, interrompeu Pythias sorrindo.</p>
+
+<p>&mdash;Não; a coruja é apenas um emblema; mas a aranha, se pudessemos
+transferi-la a um homem, daria a esse homem os rudimentos da geometria e o
+sentimento musical. Com um bando de cegonhas, andorinhas ou grous, faço-te de
+um caseiro um viageiro. O principio da fidelidade conjugal está no sangue da
+rola, o da enfatuação no dos pavões... Em summa, os deuses puzeram nos bichos
+da terra, da agua e do ar a essencia de todos os sentimentos e capacidades
+humanas. Os animaes são as letras soltas do alphabeto: o homem é a syntaxe.
+Esta é a minha philosophia recente; esta é a que vou divulgar na côrte do
+grande Ptolomeu.</p>
+
+<p>Pythias sacudiu a cabeça, e fixou os olhos no mar. O navio singrava, em
+direitura a Alexandria, com essa carga preciosa de dous philosophos, que
+iam<span class="pn">{115}</span> levar áquelle regaço do saber os fructos da
+razão esclarecida. Eram amigos, viuvos e quinquagenarios. Cultivavam
+especialmente a methaphysica, mas conheciam a physica, a chimica, a medicina e
+a musica; um d'elles, Stroibus, chegára a ser excellente anatomista, tendo lido
+muitas vezes os tratados do mestre Herophilo. Chypre era a patria de ambos;
+mas, tão certo é que ninguem é propheta em sua terra, Chypre não dava o
+merecido respeito aos dous philosophos. Ao contrario, desdenhava-os; os garotos
+tocavam ao extremo de rir d'elles. Não foi esse, entretanto, o motivo que os
+levou a deixar a patria. Um dia, Pythias, voltando de uma viagem, propoz ao
+amigo irem para Alexandria, onde as artes e as sciencias eram grandemente
+honradas. Stroibus adheriu, e embarcaram. Só agora, depois de embarcados, é que
+o inventor da nova doutrina expol-a ao amigo, com todas as suas recentes
+cogitações e experiencias.</p>
+
+<p>&mdash;Está feito, disse Pythias, levantando a cabeça, não affirmo nem nego
+nada. Vou estudar a doutrina, e se a achar verdadeira, proponho-me a
+desenvolvel-a e divulgal-a.</p>
+
+<p>&mdash;Vive Helios! exclamou Stroibus. Posso contar que és meu
+discipulo.<span class="pn">{116}</span></p>
+
+<h2><a name="SECTION00082000">CAPITULO II</a> </h2>
+
+<h3><a name="SECTION00082100">EXPERIENCIA</a> </h3>
+
+<p>Os garotos alexandrinos não trataram os dous sabios com o escarneo dos
+garotos cypriotas. A terra era grave como a ibis pousada n'uma só pata,
+pensativa como a sphynge, circumspecta como as mumias, dura como as pyramides;
+não tinha tempo nem maneira de rir. Cidade e côrte, que desde muito tinham
+noticia dos nossos dous amigos, fizeram-lhes um recebimento regio, mostraram
+conhecer seus escriptos, discutiram as suas idéas, mandaram-lhes muitos
+presentes, papyros, crocodilos, zebras, purpuras. Elles porém, recusaram tudo,
+com simplicidade, dizendo que a philosophia bastava ao philosopho, e que o
+superfluo era um dissolvente. Tão nobre resposta encheu de admiração tanto aos
+sabios como aos principaes e á mesma plebe. E aliás, diziam os mais sagazes,
+que outra cousa se podia esperar de dous homens tão sublimes, que em seus
+magnificos tratados...</p>
+
+<p>&mdash;Temos cousa melhor do que esses tratados,<span
+class="pn">{117}</span> interrompia Stroibus. Trago uma doutrina, que, em
+pouco, vai dominar o universo; cuido nada menos que em reconstituir os homens e
+os Estados, distribuindo os talentos e as virtudes.</p>
+
+<p>&mdash;Não é esse o officio dos deuses? objectava um.</p>
+
+<p>&mdash;Eu violei o segredo dos deuses, acudia Stroibus. O homem é a syntaxe
+da natureza, eu descobri as leis da grammatica divina...</p>
+
+<p>&mdash;Explica-te.</p>
+
+<p>&mdash;Mais tarde; deixa-me experimentar primeiro. Quando a minha doutrina
+estiver completa, divulgal-a-hei como a maior riqueza que os homens jámais
+poderão receber de um homem.</p>
+
+<p>Imaginem a expectação publica e a curiosidade dos outros philosophos, embora
+incredulos de que a verdade recente viesse aposentar as que elles mesmos
+possuiam. Entretanto, esperavam todos. Os dous hospedes eram apontados na rua
+até pelas crianças. Um filho meditava trocar a avareza do pai, um pai a
+prodigalidade do filho, uma dama a frieza de um varão, um varão os desvarios de
+uma dama, porque o Egypto, desde os Pharaós até aos Lagides, era a terra de
+Putiphar, da mulher de Putiphar, da capa de José, e do resto. Stroibus
+tornou-se a esperança da cidade e do mundo.<span class="pn">{118}</span></p>
+
+<p>Pythias, tendo estudado a doutrina, foi ter com Stroibus, e disse-lhe:</p>
+
+<p>&mdash;Methaphysicamente, a tua doutrina é um desproposito; mas estou
+prompto a admittir uma experiencia, comtanto que seja decisiva. Para isto, meu
+caro Stroibus, ha só um meio. Tu e eu, tanto pelo cultivo da razão como pela
+rigidez do caracter, somos o que ha mais opposto ao vicio do furto. Pois bem,
+se conseguires incutir-nos esse vicio, não será preciso mais; se não
+conseguires nada, (e pódes crel-o, porque é um absurdo) recuarás de semelhante
+doutrina, e tornarás ás nossas velhas meditações.</p>
+
+<p>Stroibus acceitou a proposta.</p>
+
+<p>&mdash;O meu sacrifio é o mais penoso, disse elle, pois estou certo do
+resultado; mas que não merece a verdade? A verdade é immortal; o homem é um
+breve momento...</p>
+
+<p>Os ratos egypcios, se pudessem saber de um tal accordo, teriam imitado os
+primitivos hebreus, acceitando a fuga para o deserto, antes do que a nova
+philosophia. E podemos crer que seria um desastre. A sciencia, como a guerra,
+tem necessidades imperiosas; e desde que a ignorancia dos ratos, a sua
+fraqueza, a superioridade mental e physica dos dois philosophos eram outras
+tantas vantagens na experiencia<span class="pn">{119}</span> que ia começar,
+cumpria não perder tão boa occasião de saber se efectivamente o principio das
+paixões e das virtudes humanas estavam distribuidos pelas varias especies de
+animaes, e se era possivel transmittil-o.</p>
+
+<p>Stroibus engaiolava os ratos; depois, um a um, ia-os sujeitando ao ferro.
+Primeiro, atava uma tira de panno no focinho do paciente; em seguida, os pés,
+finalmente, cingia com um cordel as pernas e o pescoço do animal á taboa da
+operação. Isto feito, dava o primeiro talho no peito, com vagar, e com vagar ia
+enterrando o ferro até tocar o coração, porque era opinião d'elle que a morte
+instantanea corrompia o sangue e retirava-lhe o principio. Habil anatomista,
+operava com uma firmeza digna do proposito scientifico. Outro, menos destro,
+interromperia muita vez a tarefa, porque as contorsões de dôr e de agonia
+tornavam difficil o meneio do escalpello; mas essa era justamente a
+superioridade de Stroibus: tinha o pulso magistral e pratico.</p>
+
+<p>Ao lado d'elle, Pythias aparava o sangue e ajudava a obra, já contendo os
+movimentos convulsivos do paciente, já espiando-lhe nos olhos o progresso da
+agonia. As observações que ambos faziam eram notadas em folhas de papyro; e
+assim ganhava<span class="pn">{120}</span> a sciencia de duas maneiras. Ás
+vezes, por divergencia de apreciação, eram obrigados a escalpellar maior numero
+de ratos do que o necessario; mas não perdiam com isso, porque o sangue dos
+excedentes era conservado e ingerido depois. Um só d'esses casos mostrará a
+consciencia com que elles procediam. Pythias observára que a retina do rato
+agonisante mudava de côr até chegar ao azul claro, ao passo que a observação de
+Stroibus dava a côr de canella como o tom final da morte. Estavam na ultima
+operação do dia; mas o ponto valia a pena, e, não obstante o cansaço, fizeram
+successivamente desenove experiencias sem resultado definitivo; Pythias
+insistia pela côr azul, e Stroibus pela côr de canella. O vigesimo rato esteve
+prestes a pôl-os de accordo, mas Stroibus advertiu, com muita sagacidade, que a
+sua posição era agora differente, rectificou-a e escalpellaram mais vinte e
+cinco. D'estes, o primeiro ainda os deixou em duvida; mas os outros vinte e
+quatro provaram-lhes que a côr final não era canella nem azul, mas um lyrio
+roxo, tirando a claro.</p>
+
+<p>A descripção exagerada das experimentações deu rebate á porção sentimental
+da cidade, e excitou a loquella de alguns sophistas; mas o grave Stroibus<span
+class="pn">{121}</span> (com brandura, para não aggravar uma disposição propria
+da alma humana) respondeu que a verdade valia todos os ratos do universo, e não
+só os ratos, como os pavões, as cabras, os cães, os rouxinoes, etc.; que, em
+relação aos ratos, além de ganhar a sciencia, ganhava a cidade, vendo diminuida
+a praga de um animal tão damninho; e, se a mesma consideração não se dava com
+outros animaes, como, por exemplo, as rolas e os cães, que elles iam
+escalpellar d'ahi a tempos, nem por isso os direitos da verdade eram menos
+imprescriptiveis. A natureza não ha de ser só a mesa de jantar, concluia em
+fórma de aphorismo, mas tambem a mesa de sciencia.</p>
+
+<p>E continuavam a extrahir o sangue e a bebel-o. Não o bebiam puro, mas
+diluido em um cosimento de cinamomo, succo de acacia e balsamo, que lhe tirava
+todo o sabor primitivo. As doses eram diarias e diminutas; tinham, portanto, de
+aguardar um longo praso antes de produzido o effeito. Pythias, impaciente e
+incredulo, mofava do amigo.</p>
+
+<p>&mdash;Então? nada?</p>
+
+<p>&mdash;Espera, dizia o outro, espera. Não se incute um vicio como se cose um
+par de sandalias.<span class="pn">{122}</span></p>
+
+<h2><a name="SECTION00083000">CAPITULO III</a> </h2>
+
+<h3><a name="SECTION00083100">VICTORIA</a> </h3>
+
+<p>Emfim, venceu Stroibus! A experiencia provou a doutrina. A Pythias foi o
+primeiro que deu mostras da realidade do effeito, attribuindo-se umas tres
+idéas ouvidas ao proprio Stroibus; este, em compensação, furtou-lhe quatro
+comparações e uma theoria dos ventos. Nada mais scientifico do que essas
+estréas. As idéas alheias, por isso mesmo que não foram compradas na esquina,
+trazem um certo ar commum; e é muito natural começar por ellas antes de passar
+aos livros emprestados, ás gallinhas, aos papeis falsos, ás provincias, etc. A
+propria denominação de plagio é um indicio de que os homens comprehendem a
+difficuldade de confundir esse embryão da ladroeira com a ladroeira formal.</p>
+
+<p>Duro é dizel-o; mas a verdade é que elles deitaram ao Nilo a bagagem
+metaphysica, e dentro de pouco estavam larapios acabados. Concertavam-se de
+vespera, e iam aos mantos, aos bronzes, ás amphoras de vinho, ás mercadorias do
+porto, ás boas<span class="pn">{123}</span> drachmas. Como furtassem sem
+estrepito, ninguem dava por elles; mas, ainda mesmo que os suspeitassem, como
+fazel-o crêr aos outros? Já então Ptolomeu colligira na bibliotheca muitas
+riquezas e raridades; e, porque conviesse ordenal-as, designou para isso cinco
+grammaticos e cinco philosophos, entre estes os nossos dous amigos. Estes
+ultimos trabalharam com singular ardor, sendo os primeiros que entravam e os
+ultimos que sahiam, e ficando alli muitas noites, ao clarão da lampada,
+decifrando, colligindo, classificando. Ptolomeu, enthusiasmado, meditava para
+elles os mais altos destinos.</p>
+
+<p>Ao cabo de algum tempo, começaram a notar-se faltas graves:&mdash;um
+exemplar de Homero, tres rolos de manuscriptos persas, dois de samaritanos, uma
+soberba collecção de cartas originaes de Alexandre, copias de leis athenienses,
+o 2º e o 3º livro da <em>Republica</em> de Platão, etc., etc. A auctoridade
+poz-se á espreita; mas a esperteza do rato, transferida a um organismo
+superior, era naturalmente maior, e os dois illustres gatunos zombavam de
+espias e guardas. Chegaram ao ponto de estabelecer este preceito philosophico
+de não sahir d'alli com as mãos vasias; traziam sempre alguma cousa, uma
+fabula, quando menos. Emfim, estando a sahir um<span class="pn">{124}</span>
+navio para Chypre, pediram licença a Ptolomeu, com promessa de voltar, cozeram
+os livros dentro de couros de hippopotamo, puzeram-lhe rotulos falsos, e
+trataram de fugir. Mas a inveja de outros philosophos não dormia; deu rebate ás
+suspeitas dos magistrados, e descobriu-se o roubo. Stroibus e Pythias foram
+tidos por aventureiros, mascarados com os nomes d'aquelles dous varões
+illustres; Ptolomeu entregou-os á justiça com ordem de os passar logo ao
+carrasco. Foi então que interveiu Herophilo, inventor da anatomia.</p>
+
+<h2><a name="SECTION00084000">CAPITULO IV</a> </h2>
+
+<h3><a name="SECTION00084100">PLUS ULTRA!</a> </h3>
+
+<p>&mdash;Senhor, disse elle a Ptolomeu, tenho-me limitado até agora a
+escalpellar cadaveres. Mas o cadaver dá-me a estructura, não me dá a vida;
+dá-me os orgãos, não me dá as funcções. Eu preciso das funcções e da vida.</p>
+
+<p>&mdash;Que me dizes? redarguiu Ptolomeu. Queres estripar os ratos de
+Stroibus?<span class="pn">{125}</span></p>
+
+<p>&mdash;Não, senhor; não quero estripar os ratos.</p>
+
+<p>&mdash;Os cães? os gansos? as lebres?...</p>
+
+<p>&mdash;Nada; peço alguns homens vivos.</p>
+
+<p>&mdash;Vivos? não é possivel...</p>
+
+<p>&mdash;Vou demonstrar que não só é possivel, mas até legitimo e necessario.
+As prisões egypicias estão cheias de criminosos, e os criminosos occupam, na
+escala humana, um grau muito inferior. Já não são cidadãos, nem mesmo se podem
+dizer homens, porque a razão e a virtude, que são os dois principaes
+caracteristicos humanos, elles os perderam, infringindo a lei e a moral. Além
+d'isso, uma vez que têm de expiar com a morte os seus crimes, não é justo que
+prestem algum serviço á verdade e a sciencia? A verdade é immortal; ella vale
+não só todos os ratos, como todos os delinquentes do universo.</p>
+
+<p>Ptolomeu achou o raciocinio exacto, e ordenou que os criminosos fossem
+entregues a Herophilo e seus discipulos. O grande anatomista agradeceu tão
+insigne obsequio, e começou a escalpellar os réus. Grande foi o assombro do
+povo; mas, salvo alguns pedidos verbaes, não houve nenhuma manifestação contra
+a medida. Herophilo repetia o que dissera a Ptolomeu, acrescentando que a
+sujeição dos réus á experiencia anatomica era até um modo indirecto de<span
+class="pn">{126}</span> servir á moral, visto que o terror de escalpello
+impediria a pratica de muitos crimes.</p>
+
+<p>Nenhum dos criminosos, ao deixar a prisão, suspeitava o destino scientifico
+que o esperava. Sahiam um por um; ás vezes dous a dous, ou tres a tres. Muitos
+d'elles, estendidos e atados á mesa da operação, não chegavam a desconfiar
+nada; imaginavam que era um novo genero de execução summaria. Só quando os
+anatomistas definiam o objecto do estudo do dia, alçavam os ferros e davam os
+primeiros talhos, é que os desgraçados adquiriam a consciencia da situação. Os
+que se lembravam de ter visto as experiencias dos ratos, padeciam em dobro,
+porque a imaginação juntava á dôr presente o expectaculo passado.</p>
+
+<p>Para conciliar os interesses da sciencia com os impulsos da piedade, os réos
+não eram escalpellados á vista uns dos outros, mas successivamente. Quando
+vinham aos dois ou aos tres, não ficavam em logar d'onde os que esperavam
+pudessem ouvir os gritos do paciente, embora os gritos fossem muitas vezes
+abafados por meio de apparelhos; mas se eram abafados, não eram supprimidos, e
+em certos casos, o proprio objecto da experiencia exigia que a emissão da voz
+fosse franca. Ás vezes as operações eram<span class="pn">{127}</span>
+simultaneas; mas então faziam-se em logares distanciados.</p>
+
+<p>Tinham sido escalpellados cerca de cincoenta réus, quando chegou a vez de
+Stroibus e Pythias. Vieram buscal-os; elles suppuzeram que era para a morte
+judiciaria, e encommendaram-se aos deuses. De caminho, furtaram uns figos, e
+explicaram o caso allegando que era um impulso da fome, adiante, porém,
+subtrahiram uma flauta, e essa outra acção não a puderam explicar
+satisfactoriamente. Todavia, a astucia do larapio é infinita, e Stroibus, para
+justificar a acção, tentou extrahir algumas notas do instrumento, enchendo de
+compaixão as pessoas que os viam passar, e não ignoravam a sorte que iam ter. A
+noticia d'esses dous novos delictos foi narrada por Herophilo, e abalou a todos
+os seus discipulos.</p>
+
+<p>Realmente, disse o mestre, é um caso extraordinario, um caso lindissimo.
+Antes do principal, examinemos aqui o outro ponto...</p>
+
+<p>O ponto era saber se o nervo do latrocionio residia na palma da mão ou na
+extremidade dos dedos; problema esse suggerido por um dos discipulos. Stroibus
+foi o primeiro sujeito á operação. Comprehendeu tudo, desde que entrou na sala;
+e, como<span class="pn">{128}</span> a natureza humana tem uma parte infima,
+pediu-lhes humildemente que poupassem a vida a um philosopho. Mas Herophilo,
+com um grande poder de dialectica, disse-lhe mais ou menos isto:&mdash;Ou és um
+aventureiro ou o verdadeiro Stroibus; no primeiro caso, tens aqui o unico meio
+para resgatar o crime de illudir a um principe esclarecido, presta-te ao
+escalpello; no segundo caso, não deves ignorar que a obrigação do philosopho é
+servir á philosophia, e que o corpo é nada em comparação com o entendimento.
+</p>
+
+<p>Dito isto, começaram pela experiencia das mãos, que produziu optimos
+resultados, colligidos em livros, que se perderam com a queda dos Ptolomeus.
+Tambem as mãos de Pythias foram rasgadas e minuciosamente examinadas. Os
+infelizes berravam, choravam, supplicavam; mas Herophilo dizia-lhes
+pacificamente que a obrigação do philosopho era servir á philosophia, e que
+para os fins da sciencia, elles valiam ainda mais que os ratos, pois era melhor
+concluir do homem para o homem, e não do rato para o homem. E continuou a
+rasgal-os fibra por fibra, durante oito dias. No terceiro dia arrancaram-lhes
+os olhos, para desmentir praticamente uma theoria sobre a conformação interior
+do orgão.<span class="pn">{129}</span> Não fallo da extracção do estomago de
+ambos, por se tratar de problemas relativamente secundarios, e em todo caso
+estudados e resolvidos em cinco ou seis individuos escalpellados antes d'elles.
+</p>
+
+<p>Diziam os alexandrinos que os ratos celebraram esse caso afflictivo e
+doloroso com dansas e festas, a que convidaram alguns cães, rolas, pavões e
+outros animaes ameaçados de egual destino, e outrosim, que nenhum dos
+convidados acceitou o convite, por suggestão de um cachorro, que lhes disse
+melancolicamente:&mdash;«Seculo virá em que a mesma cousa nos aconteça.» Ao que
+retorquiu um rato: «Mas até lá, riamos!»</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p style="text-align: center;">FIM DO CONTO ALEXANDRINO.</p>
+
+<p><span class="pn">{130}<br>
+{131}</span></p>
+
+<h1><a name="SECTION00090000">PRIMAS DE SAPUCAIA!</a> </h1>
+
+<p>Ha umas occasiões opportunas e fugitivas, em que o acaso nos inflige duas ou
+trez primas de Sapucaia; outras vezes, ao contrario, as primas de Sapucaia são
+antes um beneficio do que um infortunio.</p>
+
+<p>Era á porta de uma egreja. Eu esperava que as minhas primas Claudina e Rosa
+tomassem agua benta, para conduzil-as á nossa casa, onde estavam hospedadas.
+Tinham vindo de Sapucaia, pelo Carnaval, e demoraram-se dois mezes na côrte.
+Era eu que as acompanhava a toda a parte, missas, theatros, rua do Ouvidor,
+porque minha mãi, com o seu rheumatico, mal podia mover-se dentro de casa, e
+ellas não sabiam andar sós. Sapucaia era a nossa patria commum. Embora todos os
+parentes estivessem dispersos, alli nasceu o tronco da familia. Meu tio José
+Ribeiro, pai d'estas primas, foi o unico, de cinco irmãos, que lá ficou
+lavrando a terra e figurando<span class="pn">{132}</span> na politica do logar.
+Eu vim cedo para a côrte, d'onde segui a estudar e bacharelar-me em S. Paulo.
+Voltei uma só vez a Sapucaia, para pleitear uma eleição, que perdi.</p>
+
+<p>Rigorosamente, todas estas noticias são desnecessarias para a comprehensão
+da minha aventura; mas é um modo de ir dizendo alguma cousa, antes de entrar em
+materia, para a qual não acho porta grande nem pequena; o melhor é afrouxar a
+redea á penna, e ella que vá andando, até achar entrada. Hade haver alguma;
+tudo depende das circumstancias, regra que tanto serve para o estylo como para
+a vida; palavra puxa palavra, uma idéa traz outra, e assim se faz um livro, um
+governo, ou uma revolução; alguns dizem mesmo que assim é que a natureza compoz
+as suas especies.</p>
+
+<p>Portanto, agua benta e porta de egreja. Era a egreja de S. José. A missa
+acabára; Claudina e Rosa fizeram uma cruz na testa, com o dedo pollegar,
+molhado na agua benta e descalçado unicamente para esse gesto. Depois ajustaram
+os manteletes, emquanto eu, ao portal, ia vendo as damas que sahiam. De
+repente, estremeço, inclino-me para fóra, chego mesmo a dar dous passos na
+direcção da rua.</p>
+
+<p>&mdash;Que foi, primo?<span class="pn">{133}</span></p>
+
+<p>&mdash;Nada, nada.</p>
+
+<p>Era uma senhora, que passára rentesinha com a egreja, vagarosa, cabisbaixa,
+apoiando-se no chapellinho de sol; ia pela rua da Misericordia acima. Para
+explicar a minha commoção, é preciso dizer que era a segunda vez que a via. A
+primeira foi no Prado Fluminense, dous mezes antes, com um homem que, pelos
+modos, era seu marido, mas tanto podia ser marido como pai. Estava então um
+pouco de espavento, vestida de escarlate, com grandes enfeites vistosos, e umas
+argolas demasiado grossas nas orelhas; mas os olhos e a bocca resgatavam o
+resto. Namorámos ás bandeiras despregadas. Se disser que sahi d'alli
+apaixonado, não metto a minha alma no inferno, porque é a verdade pura. Sahi
+tonto, mas sahi tambem desapontado, perdia-a de vista na multidão. Nunca mais
+pude dar com ella, nem ninguem me soube dizer quem fosse.</p>
+
+<p>Calcule-se o meu enfado, vendo que a fortuna vinha trazel-a outra vez ao meu
+caminho, e que umas primas fortuitas não me deixavam lançar-lhe as mãos. Não
+será difficil calculal-o, porque estas primas de Sapucaia tomam todas as
+fórmas, e o leitor, se não as teve de um modo, teve-as de outro. Umas vezes
+copiam o ar confidencial de um cavalheiro informado<span
+class="pn">{134}</span> da ultima crise do ministerio, de todas as causas
+apparentes ou secretas, dissensões novas ou antigas, interesses aggravados,
+conspiração, crise. Outras vezes, enfronham-se na figura d'aquelle eterno
+cidadão que affirma de um modo ponderoso e abotoado, que não ha leis sem
+costumes, <em>nisi lege sine moribus</em>. Outras, afivellam a mascara de um
+Dangeau de esquina, que nos conta miudamente as fitas e rendas que esta,
+aquella, aquell'outra dama levara ao baile ou ao theatro. E durante esse tempo,
+a Occasião passa, vagarosa, cabisbaixa, apoiando-se no chapellinho de sol:
+passa, dobra a esquina, e adeus... O ministerio esphacelava-se; malinas e
+bruxellas; <em>nisi lege sine moribus</em>...</p>
+
+<p>Esteve a pique de dizer ás primas, que se fossem embora; moravamos na rua do
+Carmo, não era longe; mas abri mão da idéa. Já na rua pensei tambem em
+deixal-as na egreja, á minha espera, e ir ver se agarrava a Occasião pela
+calva. Creio mesmo que cheguei a parar um momento, mas rejeitei egualmente esse
+alvitre e fui andando.</p>
+
+<p>Fui andando com ellas para o lado opposto ao da minha incognita. Olhei para
+traz repetidas vezes, até perdel-a n'uma das curvas da rua, com os olhos no
+chão, como quem reflecte, devaneia ou espera uma<span class="pn">{135}</span>
+hora marcada. Não minto dizendo que esta ultima idéa trouxe-me a emoção do
+ciume. Sou exclusivo e pessoal; daria um triste amante de mulheres casadas. Não
+importa que entre mim e aquella dama existisse apenas uma contemplação fugitiva
+de algumas horas; desde que a minha personalidade ia para ella, a partilha
+tornava-se-me insupportavel. Sou tambem imaginoso; engenhei logo uma aventura e
+um aventureiro, dei-me ao prazer morbido de affligir-me sem motivo nem
+necessidade. As primas iam adiante, e falavam-me de quando em quando; eu
+respondia mal, se respondia alguma cousa. Cordialmente, execrava-as.</p>
+
+<p>Ao chegar á porta de casa, consultei o relogio, como si tivesse alguma cousa
+que fazer; depois disse ás primas que subissem e fossem almoçando. Corri á rua
+da Misericordia. Fui primeiro até á Escola de Medicina; depois voltei e vim até
+a Camara dos Deputados, então mais devagar, esperando vel-a ao chegar a cada
+curva da rua; mas nem sombra. Era insensato, não era? Todavia, ainda subi outra
+vez a rua, porque adverti que, a pé e de vagar, mal teria tempo de ir em meio
+da praia de Santa Luzia, se acaso não parára antes; e ahi fui, rua acima e
+praia fóra, até o convento da Ajuda. Não encontrei nada,<span
+class="pn">{136}</span> cousa nenhuma. Nem por isso perdi as esperanças;
+arripiei caminho e vim, a passo lento ou apressado, conforme se me afigurava
+que era possivel apanhal-a adiante, ou dar tempo a que sahisse de alguma parte.
+Desde que a minha imaginação reproduzia a dama, todo eu sentia um abalo, como
+se realmente tivesse de vel-a d'ahi a alguns minutos. Comprehendi a emoção dos
+doudos.</p>
+
+<p>Entretanto, nada. Desci a rua sem achar o menor vestigio da minha incognita.
+Felizes os cães, que pelo faro dão com os amigos! Quem sabe se não estaria alli
+bem perto, no interior de alguma casa, talvez a propria casa d'ella? Lembrou-me
+indagar; mas de quem, e como? Um padeiro, encostado ao portal espiava-me;
+algumas mulheres faziam a mesma cousa enfiando os olhos pelos postigos.
+Naturalmente desconfiavam do transeunte, do andar vagaroso ou apressado, do
+olhar inquisidor, do gesto inquieto. Deixei-me ir até á Camara dos Deputados, e
+parei uns cinco minutos, sem saber que fizesse. Era perto de meio-dia. Esperei
+mais dez minutos, depois mais cinco, parado, com a esperança de vel-a; afinal,
+desesperei e fui almoçar.</p>
+
+<p>Não almocei em casa. Não queria ver os demonios das primas, que me impediram
+de seguir a<span class="pn">{137}</span> dama incognita. Fui a um hotel.
+Escolhi uma mesa no fim da sala, e sentei-me de costas para as outras; não
+queria ser visto nem conversado. Comecei a comer o que me deram. Pedi alguns
+jornaes, mas confesso que não li nada seguidamente, e apenas entendi tres
+quartas partes do que ia lendo. No meio de uma noticia ou de um artigo,
+escorregava-me o espirito e cahia na rua da Misericordia, á porta da egreja,
+vendo passar a incognita, vagarosa, cabisbaixa, apoiando-se no chapellinho de
+sol.</p>
+
+<p>A ultima vez que me aconteceu essa separação da <em>outra</em> e da
+<em>besta</em>, estava já no café, e tinha diante de mim um discurso
+parlamentar. Achei-me ainda uma vez á porta da egreja; imaginei então que as
+primas não estavam commigo, e que eu seguia atraz da bella dama. Assim é que se
+consolam os preteridos da loteria; assim é que se fartam as ambições
+mallogradas.</p>
+
+<p>Não me peçam minucias nem preliminares do encontro. Os sonhos desdenham as
+linhas finas e o acabado das paysagens; contentam-se de quatro ou cinco
+brochadas grossas, mas representativas. Minha imaginação galgou as
+difficuldades da primeira falla, e foi direita á rua do Lavradio ou dos
+Invalidos, á propria casa de Adriana. Chama-se Adriana.<span
+class="pn">{138}</span> Não viera á rua da Misericordia por motivos de amores,
+mas a ver alguem, uma parenta ou uma comadre, ou uma costureira. Conheceu-me, e
+teve egual commoção. Escrevi-lhe; respondeu-me. Nossas pessoas foram uma para a
+outra por cima de uma multidão de regras moraes e de perigos. Adriana é casada;
+o marido conta cincoenta e dous annos, ella trinta imperfeitos. Não amou nunca,
+não amou mesmo o marido, com quem casou por obedecer á familia. Eu ensinei-lhe
+ao mesmo tempo o amor e a traição; é o que ella me diz nesta casinha que
+aluguei fóra da cidade, de proposito para nós.</p>
+
+<p>Ouço-a embriagado. Não me enganei; é a mulher ardente e amorosa, qual me
+diziam os seus olhos, olhos de touro, como os de Juno, grandes e redondos. Vive
+de mim e para mim. Escrevemo-nos todos os dias; e, apezar d'isso, quando nos
+encontramos na casinha, é como se medeara um seculo. Creio até que o coração
+d'ella ensinou-me alguma cousa, embora noviço, ou por isso mesmo. N'esta
+materia desapprende-se com o uso e o ignorante é que é douto. Adriana não
+dissimula a alegria nem as lagrimas; escreve o que pensa, conta o que sente;
+mostra-me que não somos dois, mas um, tão sómente um ente universal, para quem
+Deus creou o sol e as flores, o<span class="pn">{139}</span> papel e a tinta, o
+correio e as carruagens fechadas.</p>
+
+<p>Emquanto ideava isto, creio que acabei de beber o café; lembra-me que o
+criado veiu á mesa e retirou a chicara e o assucareiro. Não sei se lhe pedi
+fogo, provavelmente viu-me com o charuto na mão e trouxe-me phosphoros.</p>
+
+<p>Não juro, mas penso que accendi o charuto, porque d'ahi a um instante,
+atravez de um véu de fumaça, vi a cabeça meiga e energica da minha bella
+Adriana, encostada a um sophá. Eu estou de joelhos, ouvindo-lhe a narração da
+ultima rusga do marido. Que elle já desconfia; ella sahe muitas vezes,
+distrahe-se, absorve-se, apparece-lhe triste ou alegre, sem motivo, e o marido
+começa a ameaçal-a. Ameaçal-a de que? Digo-lhe que, antes de qualquer excesso,
+era melhor deixal-o, para viver commigo, publicamente, um para o outro. Adriana
+escuta-me pensativa, cheia de Eva, namorada do demonio, que lhe sussurra de
+fóra o que o coração lhe diz de dentro. Os dedos affagam-me os cabellos.</p>
+
+<p>&mdash;Pois sim! pois sim!</p>
+
+<p>Veiu no dia seguinte, consigo mesma, sem marido, sem sociedade, sem
+escrupulos, tão sómente comsigo, e fomos d'alli viver juntos. Nem ostentação,
+nem resguardo. Suppuzemo-nos estrangeiros, e realmente<span
+class="pn">{140}</span> não eramos outra cousa; fallavamos uma lingua, que
+nunca ninguem antes fallara nem ouvira. Os outros amores eram, desde seculos,
+verdadeiras contrafacções; nós davamos a edição authentica. Pela primeira vez,
+imprimia-se o manuscripto divino, um grosso volume que nós dividiamos em tantos
+capitulos e paragraphos quantas eram as horas do dia ou os dias da semana. O
+estylo era tecido de sol e musica; a linguagem compunha-se da fina flôr dos
+outros vocabularios. Tudo o que n'elles existia, meigo ou vibrante, foi
+extrahido pelo autor para formar esse livro unico&mdash;livro sem indice,
+porque era infinito&mdash;sem margens, para que o fastio não viesse escrever
+n'ellas as suas notas,&mdash;sem fita, porque já não tinhamos precisão de
+interromper a leitura e marcar a pagina.</p>
+
+<p>Uma voz chamou-me á realidade. Era um amigo que acordara tarde, e vinha
+almoçar. Nem o sonho me deixava esta outra prima de Sapucaia! Cinco minutos
+depois despedi-me e sahi; eram duas horas passadas.</p>
+
+<p>Vexa-me dizer que ainda fui á rua da Misericordia, mas é preciso narrar
+tudo: fui e não achei nada. Voltei nos dias seguintes sem outro lucro, além do
+tempo perdido. Resignei-me a abrir mão<span class="pn">{141}</span> da
+aventura, ou esperar a solução do acaso. As primas achavam-me aborrecido ou
+doente; não lhes disse que não. D'ahi a oito dias, foram-se embora, sem me
+deixar saudades; despedi-me d'ellas como de uma febre maligna.</p>
+
+<p>A imagem da minha incognita não me deixou durante muitas semanas. Na rua,
+enganei-me varias vezes. Descobria ao longe uma figura, que era tal qual a
+outra; picava os calcanhares, até apanhal-a e desenganar-me. Comecei a achar-me
+ridiculo; mas lá vinha uma hora ou um minuto, uma sombra ao longe, e a
+preoccupação revivia. Afinal vieram outros cuidados, e não pensei mais n'isso.
+</p>
+
+<p>No principio do anno seguinte, fui a Petropolis; fiz a viagem com um antigo
+companheiro de estudos, Oliveira, que foi promotor em Minas-Geraes, mas
+abandonara ultimamente a carreira por ter recebido uma herança. Estava alegre
+como nos tempos da academia; mas de quando em quando calava-se, olhando para
+fóra da barca ou da caleça, com a atonia de quem regala a alma de uma
+recordação, de uma esperança ou de um desejo. No alto da serra perguntei-lhe
+para que hotel ia; respondeu que ia para uma casa particular, mas não me disse
+aonde, e até desconversou. Cuidei que me visitaria<span class="pn">{142}</span>
+no dia seguinte; mas nem me visitou, nem o vi em parte alguma. Outro collega
+nosso ouvira dizer que elle tinha uma casa para os lados da Rhenania.</p>
+
+<p>Nenhuma d'estas circumstancias voltaria á memoria, se não fosse a noticia
+que me deram dias depois. Oliveira tirára uma mulher ao marido, e fôra
+refugiar-se com ella em Petropolis. Deram-me o nome do marido e o d'ella. O
+d'ella era Adriana. Confesso que, embora o nome da outra fosse pura invenção
+minha, estremeci ao ouvil-o; não seria a mesma mulher? Vi logo depois que era
+pedir muito ao acaso. Já faz bastante esse pobre official das cousas humanas,
+concertando alguns fios dispersos; exigir que os reate a todos, e com os mesmos
+titulos, é saltar da realidade na novella. Assim fallou o meu bom senso, e
+nunca disse tão gravemente uma tolice, pois as duas mulheres eram nada menos
+que a mesmissima.</p>
+
+<p>Vi-a tres semanas depois, indo visitar o Oliveira, que viera doente da
+côrte. Subimos juntos na vespera; no meio da serra, começou elle a sentir-se
+incommodado; no alto estava febril. Acompanhei-o no carro até a casa, e não
+entrei, porque elle dispensou-me o incommodo. Mas no dia seguinte fui<span
+class="pn">{143}</span> vel-o, um pouco por amizade, outro pouco por avidez de
+conhecer a incognita. Vi-a; era ella, era a minha, era a unica Adriana.</p>
+
+<p>Oliveira sarou depressa, e, apezar do meu zelo em visital-o, não me
+offereceu a casa; limitou-se a vir ver-me no hotel. Respeitei-lhe os motivos;
+mas elles mesmos é que faziam reviver a antiga preoccupação. Considerei que,
+além das razões de decoro, havia da parte d'elle um sentimento de ciume, filho
+de um sentimento de amor, e que um e outro podiam ser a prova de um complexo de
+qualidades finas e grandes n'aquella mulher. Isto bastava a transtornar-me; mas
+a idéa de que a paixão d'ella não seria menor que a d'elle, o quadro d'esse
+casal que fazia uma só alma e pessoa, excitou em mim todos os nervos da inveja.
+Baldei esforços para ver se mettia o pé na casa; cheguei a fallar-lhe do boato
+que corria; elle sorria e tratava de outra cousa.</p>
+
+<p>Acabou a estação de Petropolis, e elle ficou. Creio que desceu em julho ou
+agosto. No fim do anno encontrámo-nos casualmente; achei-o um pouco taciturno e
+preoccupado. Vi-o ainda outras vezes, e não me pareceu differente, a não ser
+que, além de taciturno, trazia na physionomia uma longa préga<span
+class="pn">{144}</span> de desgosto. Imaginei que eram effeitos da aventura, e,
+como não estou aqui para empulhar ninguem, accrescento que tive uma sensação de
+prazer. Durou pouco; era o demonio que trago em mim, e costuma fazer d'esses
+esgares de saltimbanco. Mas castiguei-o depressa, e puz no logar d'elle o anjo,
+que tambem uso, e que se compadeceu do pobre rapaz, qualquer que fosse o motivo
+da tristeza.</p>
+
+<p>Um visinho d'elle, amigo nosso, contou-me alguma cousa, que me confirmou a
+suspeita de desgostos domesticos; mas foi elle mesmo quem me disse tudo, um
+dia, perguntando-lhe eu, estouvadamente o que é que tinha que o mudára tanto.
+</p>
+
+<p>&mdash;Que hei de ter? Imagina tu que comprei um bilhete de loteria, e nem
+tive, ao menos, o gosto de não tirar nada; tirei um escorpião.</p>
+
+<p>E, como eu franzisse a testa interrogativamente:</p>
+
+<p>&mdash;Ah! se soubesses metade só das cousas que me têm acontecido! Tens
+tempo? Vamos aqui ao Passeio Publico.</p>
+
+<p>Entrámos no jardim, e mettemo-nos por uma das alamedas. Contou-me tudo.
+Gastou duas horas em desfiar um rosario infinito de miserias. Vi atravez da
+narração duas indoles incompativeis, unidas pelo amor ou pelo peccado, fartas
+uma da outra, mas condemnadas<span class="pn">{145}</span> á convivencia e ao
+odio. Elle nem podia deixal-a nem supportal-a. Nenhuma estima, nenhum respeito,
+alegria rara e impura; uma vida gorada.</p>
+
+<p>&mdash;Gorada, repetia elle, gesticulando affirmativamente com a cabeça. Não
+tem que ver; a minha vida gorou. Has de lembrar-te dos nossos planos da
+academia, quando nos propunhamos, tu a ministro do imperio, eu da justiça.
+Pódes guardar as duas pastas; não serei nada, nada. O ovo, que devia dar uma
+aguia, não chega a dar um frango. Gorou completamente. Ha anno e meio que ando
+n'isso, e não acho sahida nenhuma; perdia a energia...</p>
+
+<p>Seis mezes depois, encontrei-o afflicto e desvairado. Adriana deixara-o para
+ir estudar geometria com um estudante da antiga Escola Central. Tanto melhor,
+disse-lhe eu. Oliveira olhou para o chão envergonhado; despediu-se, e correu em
+procura d'ella. Achou-a d'ahi a algumas semanas, disseram as ultimas um ao
+outro, e no fim reconciliaram-se. Comecei então a visital-os, com a idéa de os
+separar um do outro. Ella estava ainda bonita e fascinante; as maneiras eram
+finas e meigas, mas evidentemente de emprestimo, acompanhadas de umas attitudes
+e gestos, cujo intuito latente era attrahir-me e arrastar-me.<span
+class="pn">{146}</span></p>
+
+<p>Tive medo e retrahi-me. Não se mortificou; deitou fóra a capa de renda,
+restituiu-se ao natural. Vi então que era ferrenha, manhosa, injusta, muita vez
+grosseira; em alguns lances notei-lhe uma nota de perversidade. Oliveira, nos
+primeiros tempos, para fazer-me crer que mentira ou exagerára, supportava tudo
+rindo; era a vergonha da propria fraqueza. Mas não pôde guardar a mascara; ella
+arrancou-lh'a um dia, sem piedade, denunciando as humilhações em que elle
+cahia, quando eu não estava presente. Tive nojo da mulher e pena do pobre
+diabo. Convidei-o abertamente a deixal-a, elle hesitou, mas prometteu que sim.
+</p>
+
+<p>&mdash;Realmente, não posso mais...</p>
+
+<p>Combinamos tudo; mas no momento da separação, não pôde. Ella embebeu-lhe
+novamente os seus grandes olhos de touro e de basilisco, e d'esta vez,&mdash;ó
+minhas queridas primas de Sapucaia!&mdash;d'esta vez para só deixal-o exhausto
+e morto.</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p style="text-align: center;">FIM DAS PRIMAS DE SAPUCAIA!</p>
+
+<p><span class="pn">{147}</span></p>
+
+<h1><a name="SECTION000100000">UMA SENHORA.</a> </h1>
+
+<p>Nunca encontro esta senhora que me não lembre a prophecia de uma lagartixa
+ao poeta Heine, subindo os Appeninos: «Dia virá em que as pedras serão plantas,
+as plantas animaes, os animaes homens e os homens deuses.» E dá-me vontade de
+dizer-lhe:&mdash;A senhora, D. Camilla, amou tanto a mocidade e a belleza, que
+atrazou o seu relogio, afim de ver se podia fixar esses dois minutos de
+crystal. Não se desconsole, D. Camilla. No dia da lagartixa, a senhora será
+Hebe, deusa da juventude; a senhora nos dará a beber o nectar da perennidade
+com as suas mãos eternamente moças.</p>
+
+<p>A primeira vez que a vi, tinha ella trinta e seis annos, posto só parecesse
+trinta e dous, e não passasse da casa dos vinte e nove. Casa é um modo de
+dizer. Não ha castello mais vasto do que a vivenda d'estes bons amigos, nem
+tratamento mais obsequioso<span class="pn">{148}</span> do que o que elles
+sabem dar ás suas hospedes. Cada vez que D. Camilla queria ir-se embora, elles
+pediam-lhe muito que ficasse, e ella ficava. Vinham então novos folguedos,
+cavalhadas, musica, dansa, uma successão de cousas bellas, inventadas com o
+unico fim de impedir que esta senhora seguisse o seu caminho.</p>
+
+<p>&mdash;Mamãi, mamãi, dizia-lhe a filha crescendo, vamos embora, não podemos
+ficar aqui toda a vida.</p>
+
+<p>D. Camilla olhava para ella mortificada, depois sorria, dava-lhe um beijo e
+mandava-a brincar com as outras creanças. Que outras creanças? Ernestina estava
+então entre quatorze e quinze annos, era muito espigada, muito quieta, com uns
+modos naturaes de senhora. Provavelmente não se divertiria com as meninas de
+oito e nove annos; não importa, uma vez que deixasse a mãi tranquilla, podia
+alegrar-se ou enfadar-se. Mas, ai triste! ha um limite para tudo, mesmo para os
+vinte e nove annos. D. Camilla resolveu, emfim, despedir-se d'essses dignos
+amphytriões, e fel-o ralada de saudades. Elles ainda instaram por uns cinco ou
+seis mezes de quebra; a bella dama respondeu-lhes que era impossivel e,
+trepando no alazão do tempo, foi alojar-se na casa dos trinta.<span
+class="pn">{149}</span></p>
+
+<p>Ella era, porém, d'aquella casta de mulheres que riem do sol e dos almanaks.
+Côr de leite, fresca, inalteravel, deixava ás outras o trabalho de envelhecer.
+Só queria o de existir. Cabello negro, olhos castanhos e callidos. Tinha as
+espaduas e o collo feitos de encommenda para os vestidos decotados, e assim
+tambem os braços, que eu não digo que eram os da Venus de Milo, para evitar uma
+vulgaridade, mas provavelmente não eram outros. D. Camilla sabia d'isto; sabia
+que era bonita, não só porque lh'o dizia o olhar sorrateiro das outras damas,
+como por um certo instincto que a belleza possue, como o talento e o genio.
+Resta dizer que era casada, que o marido era ruivo, e que os dois amavam-se
+como noivos; finalmente, que era honesta. Não o era, note-se bem, por
+temperamento, mas por principio, por amor ao marido, e creio que um pouco por
+orgulho.</p>
+
+<p>Nenhum defeito, pois, excepto o de retardar os annos; mas é isso um defeito?
+Ha, não me lembra em que pagina da Escriptura, naturalmente nos Prophetas, uma
+comparação dos dias com as aguas de um rio que não voltam mais. D. Camilla
+queria fazer uma represa para seu uso. No tumulto d'esta marcha continua entre
+o nascimento e a morte, ella apegava-se á illusão da estabilidade. Só se lhe
+podia exigir que<span class="pn">{150}</span> não fosse ridicula, e não o era.
+Dir-me-ha o leitor que a belleza vive de si mesma, e que a preoccupação do
+calendario mostra que esta senhora vivia principalmente com os olhos na
+opinião. É verdade; mas como quer que vivam as mulheres do nosso tempo?</p>
+
+<p>D. Camilla entrou na casa dos trinta e não lhe custou passar adiante.
+Evidentemente o terror era uma superstição. Duas ou tres amigas intimas,
+nutridas de arithemetica, continuavam a dizer que ella perdera a conta dos
+annos. Não advertiam que a natureza era complice no erro, e que aos quarenta
+annos (verdadeiros), D. Camilla trazia um ar de trinta e poucos. Restava um
+recurso: espiar-lhe o primeiro cabello branco, um fiosinho de nada, mas branco.
+Em vão espiavam; o demonio do cabello parecia cada vez mais negro.</p>
+
+<p>N'isto enganavam-se. O fio branco estava alli; era a filha de D. Camilla que
+entrava nos dezenove annos, e, por mal de peccados, bonita. D. Camilla
+prolongou, quanto poude, os vestidos adolescentes da filha, conservou-a no
+collegio até tarde, fez tudo para proclamal-a creança. A natureza, porem, que
+não é só immoral, mas tambem illogica, emquanto sofreava os annos de uma,
+afrouxava a redea aos da outra, e<span class="pn">{151}</span> Ernestina, moça
+feita, entrou radiante no primeiro baile. Foi uma revelação. D. Camilla adorava
+a filha; saboreou-lhe a gloria a tragos demorados. No fundo do copo achou a
+gotta amarga e fez uma carêta. Chegou a pensar na abdicação; mas um grande
+prodigo de phrases feitas disse-lhe que ella parecia a irmã mais velha da
+filha, e o projecto desfez-se. Foi d'essa noite em diante que D. Camilla entrou
+a dizer a todos que casára muito creança.</p>
+
+<p>Um dia, poucos mezes depois, apontou no horisonte o primeiro namorado. D.
+Camilla pensára vagamente n'essa calamidade, sem encaral-a, sem apparelhar-se
+para a defeza. Quando menos esperava, achou um pretendente á porta. Interrogou
+a filha; descobriu-lhe um alvoroço indefinivel, a inclinação dos vinte annos, e
+ficou prostrada. Casal-a era o menos; mas, se os seres são como as aguas da
+Escriptura, que não voltam mais, é porque atraz d'elles vêm outros, como atraz
+das aguas outras aguas; e, para definir essas ondas successivas é que os homens
+inventaram este nome de netos. D. Camilla viu imminente o primeiro neto, e
+determinou adial-o. Está claro que não formulou a resolução, como não formulára
+a idéa do perigo. A alma entende-se a si mesma; uma sensação vale um
+raciocinio. As que ella teve foram rapidas,<span class="pn">{152}</span>
+obscuras, no mais intimo do seu ser, d'onde não as extrahiu para não ser
+obrigada a encaral-as.</p>
+
+<p>&mdash;Mas que é que você acha de máo no Ribeiro? perguntou-lhe o marido,
+uma noite, á janella.</p>
+
+<p>D. Camilla levantou os hombros.&mdash;Acho-lhe o nariz torto, disse.</p>
+
+<p>&mdash;Máo! Você está nervosa; fallemos de outra cousa, respondeu o marido.
+E, depois, de olhar uns dous minutos para a rua, cantarolando na garganta,
+tornou ao Ribeiro, que achava um genro aceitavel, e se lhe pedisse Ernestina,
+entendia que deviam ceder-lh'a. Era intelligente e educado. Era tambem o
+herdeiro provavel de uma tia de Cantagallo. E depois tinha um coração de ouro.
+Contavam-se d'elle cousas muito bonitas. Na academia, por exemplo... D. Camilla
+ouviu o resto, batendo com a ponta do pé no chão e rufando com os dedos a
+sonata da impaciencia; mas, quando o marido lhe disse que o Ribeiro esperava um
+despacho do ministro de estrangeiros, um logar para os Estados-Unidos, não
+poude ter-se e cortou-lhe a palavra.</p>
+
+<p>&mdash;O que? separar-me de minha filha. Não, senhor.</p>
+
+<p>Em que dóse entrára n'este grito o amor materno e o sentimento pessoal, é um
+problema difficil de<span class="pn">{153}</span> resolver, principalmente
+agora, longe dos acontecimentos e das pessoas. Supponhamos que em partes
+eguaes. A verdade é que o marido não soube que inventar para defender o
+ministro de estrangeiros, as necessidades diplomaticas, a fatalidade do
+matrimonio, e, não achando que inventar, foi dormir. Dois dias depois veiu a
+nomeação. No terceiro dia, a moça declarou ao namorado que não a pedisse ao
+pai, porque não queria separar-se da familia. Era o mesmo que dizer: prefiro a
+familia ao senhor. É verdade que tinha a voz tremula e sumida, e um ar de
+profunda consternação; mas o Ribeiro viu tão sómente a rejeição, e embarcou.
+Assim acabou a primeira aventura.</p>
+
+<p>D. Camilla padeceu com o desgosto da filha; mas consolou-se depressa. Não
+faltam noivos, reflectiu ella. Para consolar a filha, levou-a a passeiar a toda
+parte. Eram ambas bonitas, e Ernestina tinha a frescura dos annos; mas a
+belleza da mãi era mais perfeita, e apezar dos annos, superava a da filha. Não
+vamos ao ponto de crêr que o sentimento da superioridade é que animava D.
+Camilla a prolongar e repetir os passeios. Não: o amor materno, só por si,
+explica tudo. Mas concedamos que animasse um pouco. Que mal ha n'isso? Que mal
+ha em que um<span class="pn">{154}</span> bravo coronel defenda nobremente a
+patria, e as suas dragonas? Nem por isso acaba o amor da patria e o amor das
+mãis.</p>
+
+<p>Mezes depois despontou a orelha de um segundo namorado. D'esta vez era um
+viuvo, advogado, vinte e sete annos. Ernestina não sentiu por elle a mesma
+emoção que o outro lhe dera; limitou-se a aceital-o. D. Camilla farejou
+depressa a nova candidatura. Não podia allegar nada contra elle; tinha o nariz
+recto como a consciencia, e profunda aversão á vida diplomatica. Mas haveria
+outros defeitos, devia haver outros. D. Camilla buscou-os com alma; indagou de
+suas relações, habitos, passado. Conseguiu achar umas cousinhas miudas, tão
+sómente a unha da imperfeição humana, alternativas de humor, ausencia de graças
+intellectuaes, e, finalmente, um grande excesso de amor proprio. Foi n'este
+ponto que a bella dama o apanhou. Começou a levantar vagarosamente a muralha do
+silencio; lançou primeiro a camada das pausas, mais ou menos longas, depois as
+phrases curtas, depois os monosyllabos, as distracções, as absorpções, os
+olhares complacentes, os ouvidos resignados, os bocejos fingidos por traz da
+ventarola. Elle não entendeu logo; mas, quando reparou que os enfados da mãi
+coincidiam com as<span class="pn">{155}</span> ausencias da filha, achou que
+era alli de mais e retirou-se. Se fosse homem de luta, tinha saltado a muralha;
+mas era orgulhoso e fraco. D. Camilla deu graças aos deuses.</p>
+
+<p>Houve um trimestre de respiro. Depois appareceram alguns namoricos de uma
+noite, insectos ephemeros, que não deixaram historia. D. Camilla comprehendeu
+que elles tinham de multiplicar-se, até vir algum decisivo que a obrigasse a
+ceder; mas ao menos, dizia ella a si mesma, queria um genro que trouxesse á
+filha a mesma felicidade que o marido lhe deu. E, uma vez, ou para robustecer
+este decreto da vontade, ou por outro motivo, repetiu o conceito em voz alta,
+embora só ella pudesse ouvil-o. Tu, psychologo subtil, pódes imaginar que ella
+queria convencer-se a si mesma; eu prefiro contar o que lhe aconteceu em
+186....</p>
+
+<p>Era de manhã. D. Camilla estava ao espelho, a janella aberta, a chacara
+verde e sonora de cigarras e passarinhos. Ella sentia em si a harmonia que a
+ligava ás cousas externas. Só a belleza intellectual é independente e superior.
+A belleza physica é irmã da paysagem. D. Camilla saboreava essa fraternidade
+intima, secreta, um sentimento de identidade, uma recordação da vida anterior
+no mesmo utero<span class="pn">{156}</span> divino. Nenhuma lembrança
+desagradavel, nenhuma occurrencia vinha turvar essa expansão mysteriosa. Ao
+contrario, tudo parecia embebel-a de eternidade, e os quarenta e dous annos em
+que ia não lhe pesavam mais do que outras tantas folhas de rosa. Olhava para
+fóra, olhava para o espelho. De repente, como se lhe surdisse uma cobra, recuou
+atterrada. Tinha visto, sobre a fonte esquerda, um cabellinho branco. Ainda
+cuidou que fosse do marido; mas reconheceu depressa que não, que era d'ella
+mesma, um telegramma da velhice, que ahi vinha a marchas forçadas. O primeiro
+sentimento foi de prostração. D. Camilla sentiu faltar-lhe tudo, tudo, viu-se
+encanecida e acabada no fim de uma semana.</p>
+
+<p>&mdash;Mamãi, mamãi, bradou Ernestina, entrando na saleta. Está aqui o
+camarote que papai mandou.</p>
+
+<p>D. Camilla teve um sobresalto de pudor, e instinctivamente voltou para a
+filha o lado que não tinha o fio branco. Nunca a achou tão graciosa e lepida.
+Fitou-a com saudade. Fitou-a tambem com inveja, e, para abafar este sentimento
+máu, pegou no bilhete de camarote. Era para aquella mesma noite. Uma idéa
+expelle outra; D. Camilla anteviu-se no meio das luzes e das gentes, e depressa
+levantou o coração. Ficando só, tornou a olhar para<span
+class="pn">{157}</span> o espelho, e corajosamente arrancou o cabellinho
+branco, e deitou-o á chacara. <em>Out, damnet spot! Out!</em> Mais feliz do que
+a outra lady Macbeth, viu assim desapparecer a nodoa no ar, porque no animo
+d'ella, a velhice era um remorso, e a fealdade um crime. Sae, maldita mancha!
+sae!</p>
+
+<p>Mas, se os remorsos voltam, porque não hão de voltar os cabellos brancos? Um
+mez depois, D. Camilla descobriu outro, insinuado na bella e farta madeixa
+negra, e amputou-o sem piedade. Cinco ou seis semanas depois, outro. Este
+terceiro coincidiu com um terceiro candidato á mão da filha, e ambos acharam D.
+Camilla n'uma hora de prostração. A belleza, que lhe supprira a mocidade,
+parecia-lhe prestes a ir tambem, como uma pomba sae em busca da outra. Os dias
+precipitavam-se. Creanças que ella vira ao collo, ou de carrinho empuxado pelas
+amas, dansavam agora nos bailes. Os que eram homens fumavam; as mulheres
+cantavam ao piano. Algumas d'estas apresentavam-lhe os seus <em>babies</em>,
+gorduchos, uma segunda geração que mamava, á espera de ir bailar tambem, cantar
+ou fumar, apresentar outros <em>babies</em> a outras pessoas, e assim por
+diante.</p>
+
+<p>D. Camilla, apenas tergiversou um pouco, acabou cedendo. Que remedio, senão
+aceitar um genro?<span class="pn">{158}</span> Mas, como um velho costume não
+se perde de um dia para outro, D. Camilla viu parallelamente, n'aquella festa
+do coração, um scenario e grande scenario. Preparou-se galhardamente, e o
+efeito correspondeu ao esforço. Na egreja, no meio de outras damas; na sala,
+sentada no sophá (o estofo que forrava este movel, assim como o papel da parede
+foram sempre escuros para fazer sobresahir a tez de D. Camilla), vestida a
+capricho, sem o requinte da extrema juventude, mas tambem sem a rigidez
+matronal, um meio termo apenas, destinado a pôr em relevo as suas graças
+outoniças, risonha, e feliz, emfim, a recente sogra colheu os melhores
+suffragios. Era certo que ainda lhe pendia dos hombros um retalho de purpura.
+</p>
+
+<p>Purpura suppõe dynastia. Dynastia exige netos. Restava que o Senhor
+abençoasse a união, e elle abençoou-a, no anno seguinte. D. Camilla
+acostumara-se a idéa; mas era tão penoso abdicar, que ella aguardava o neto com
+amor e repugnancia. Esse importuno embryão, curioso da vida e pretencioso, era
+necessario na terra? Evidentemente, não; mas appareceu um dia, com as flores de
+Setembro. Durante a crise, D. Camilla só teve de pensar na filha; depois da
+crise, pensou na filha e no neto.<span class="pn">{159}</span> Só dias depois é
+que poude pensar em si mesma. Emfim, avó. Não havia duvidar; era avó. Nem as
+feições que eram ainda concertadas, nem os cabellos, que eram pretos (salvo
+meia duzia de fios escondidos), podiam por si sós denunciar a realidade; mas a
+realidade existia; ella era, emfim, avó.</p>
+
+<p>Quiz recolher-se; e para ter o neto mais perto de si, chamou a filha para
+casa. Mas a casa não era um mosteiro, e as ruas e os jornaes com os seus mil
+rumores acordavam n'ella os echos de outro tempo. D. Camilla rasgou o acto de
+abdicação e tornou ao tumulto.</p>
+
+<p>Um dia, encontrei-a ao lado de uma preta, que levava ao collo uma creança de
+cinco a seis mezes. D. Camilla segurava na mão o chapellinho de sol aberto para
+cobrir a creança. Encontrei-a oito dias depois, com a mesma creança, a mesma
+preta e o mesmo chapéu de sol. Vinte dias depois, e trinta dias mais tarde,
+tornei a vel-a, entrando para o bond, com a preta e a creança.&mdash;Você já
+deu de mamar? dizia ella á preta. Olhe o sol. Não vá cahir. Não aperte muito o
+menino. Acordou? Não mexa com elle. Cubra a carinha, etc., etc.</p>
+
+<p>Era o neto. Ella, porém, ia tão apertadinha, tão cuidadosa da creança, tão a
+miudo, tão sem outra<span class="pn">{160}</span> senhora, que antes parecia
+mãi do que avó; e muita gente pensava que era mãi. Que tal fosse a intenção de
+D. Camilla não o juro eu. («Não jurarás», M<small>ATH.</small> V, 34 ). Tão
+sómente digo que nenhuma outra mãi seria mais desvellada do que D. Camilla com
+o neto; attribuirem-lhe um simples filho era a cousa mais verosimil do mundo.
+</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p style="text-align: center;">FIM DE UMA SENHORA.</p>
+
+<p><span class="pn">{161}</span></p>
+
+<h1><a name="SECTION000110000">ANECDOTA PECUNIARIA</a> </h1>
+
+<p>Chama-se Falcão o meu homem. N'aquelle dia&mdash;quatorze de Abril de
+1870&mdash;quem lhe entrasse em casa, ás dez horas da noite, vel-o-hia passear
+na sala, em mangas de camisa, calça preta e gravata branca, resmungando,
+gesticulando, suspirando, evidentemente afflicto. Ás vezes, sentava-se; outras,
+encostava-se á janella, olhando para a praia, que era a da Gambôa. Mas, em
+qualquer logar ou attitude, demorava-se pouco tempo.</p>
+
+<p>&mdash;Fiz mal, dizia elle, muito mal. Tão minha amiga que ella era! tão
+amorosa! Ia chorando, coitadinha! Fiz mal, muito mal... Ao menos, que seja
+feliz!</p>
+
+<p>Se eu disser que este homem vendeu uma sobrinha, não me hão de crer; se
+descer a definir o preço, dez contos de réis, voltar-me-hão as costas com
+desprezo e indignação. Entretanto, basta ver este olhar felino, estes dois
+beiços, mestres de calculo, que,<span class="pn">{162}</span> ainda fechados,
+parecem estar contando alguma cousa, para adivinhar logo que a feição capital
+do nosso homem é a voracidade do lucro. Entendamo-nos: elle faz arte pela arte,
+não ama o dinheiro pelo que elle póde dar, mas pelo que é em si mesmo! Ninguem
+lhe vá fallar dos regalos da vida. Não tem cama fofa, nem mesa fina, nem
+carruagem, nem commenda. Não se ganha dinheiro para esbanjal-o, dizia elle.
+Vive de migalhas; tudo o que amontoa é para a contemplação. Vai muitas vezes á
+burra, que está na alcova de dormir, com o unico fim de fartar os olhos nos
+rolos de ouro e maços de titulos. Outras vezes, por um requinte de erotismo
+pecuniario, contempla-os só de memoria. N'este particular, tudo o que eu
+pudesse dizer, ficaria abaixo de uma palavra d'elle mesmo, em 1857.</p>
+
+<p>Já então millionario, ou quasi, encontrou na rua dois meninos, seus
+conhecidos, que lhe perguntaram se uma nota de cinco mil réis, que lhes dera um
+tio, era verdadeira. Corriam algumas notas falsas, e os pequenos lembraram-se
+d'isso em caminho. Falcão ia com um amigo. Pegou tremulo na nota, examinou-a
+bem, virou-a, revirou-a...</p>
+
+<p>&mdash;É falsa? perguntou com impaciencia um dos meninos.<span
+class="pn">{163}</span></p>
+
+<p>&mdash;Não; é verdadeira.</p>
+
+<p>&mdash;Dê cá, disseram ambos.</p>
+
+<p>Falcão dobrou a nota vagarosamente, sem tirar-lhe os olhos de cima; depois,
+restituiu-a aos pequenos, e, voltando-se para o amigo, que esperava por elle,
+disse-lhe com a maior candura do mundo:</p>
+
+<p>&mdash;Dinheiro, mesmo quando não é da gente, faz gosto vêr.</p>
+
+<p>Era assim que elle amava o dinheiro, até á contemplação desinteressada. Que
+outro motivo podia leval-o a parar, diante das vitrinas dos cambistas, cinco,
+dez, quinze minutos, lambendo com os olhos os montes de libras e francos, tão
+arrumadinhos e amarellos? O mesmo sobresalto com que pegou na nota de cinco mil
+réis, era um rasgo subtil, era o terror da nota falsa. Nada aborrecia tanto,
+como os moedeiros falsos, não por serem criminosos, mas prejudiciaes, por
+desmoralisarem o dinheiro bom.</p>
+
+<p>A linguagem do Falcão valia um estudo. Assim é que, um dia, em 1864,
+voltando do enterro de um amigo, referiu o explendor do prestito, exclamando
+com enthusiasmo:&mdash;«Pegavam no caixão tres mil contos!» E, como um dos
+ouvintes não o entendesse logo, concluiu do espanto, que duvidava d'elle, e
+discriminou a affirmação:&mdash;«Fulano quatro<span class="pn">{164}</span>
+centos, Sicrano seiscentos... Sim, senhor, seiscentos; ha dois annos, quando
+desfez a sociedade com o sogro, ia em mais de quinhentos; mas supponhamos
+quinhentos...» E foi por diante, demonstrando, sommando e
+concluindo:&mdash;«Justamente, tres mil contos!» </p>
+
+<p>Não era casado. Casar era botar dinheiro fóra. Mas os annos passaram, e aos
+quarenta e cinco entrou a sentir uma certa necessidade moral, que não
+comprehendeu logo, e era a saudade paterna. Não mulher, não parentes, mas um
+filho ou uma filha, se elle o tivesse, era como receber um patacão de ouro.
+Infelizmente, esse outro capital devia ter sido accumulado em tempo; não podia
+começal-o a ganhar tão tarde. Restava a loteria; a loteria deu-lhe o premio
+grande.</p>
+
+<p>Morreu-lhe o irmão, e tres mezes depois a cunhada, deixando uma filha de
+onze annos. Elle gostava muito d'esta e de outra sobrinha, filha de uma irmã
+viuva; dava-lhes beijos, quando as visitava; chegava mesmo ao delirio de
+levar-lhes, uma ou outra vez, biscoitos. Hesitou um pouco, mas, emfim, recolheu
+a orphã; era a filha cobiçada. Não cabia em si de contente; durante as
+primeiras semanas, quasi não sahia de casa, ao pé d'ella, ouvindo-lhe historias
+e tolices.<span class="pn">{165}</span></p>
+
+<p>Chamava-se Jacintha, e não era bonita; mas tinha a voz melodiosa e os modos
+fagueiros. Sabia ler e escrever; começava a aprender musica. Trouxe o piano
+comsigo, o methodo e alguns exercicios; não pôde trazer o professor, porque o
+tio entendeu que era melhor ir praticando o que aprendera, e um dia... mais
+tarde... Onze annos, doze annos, treze annos, cada anno que passava era mais um
+vinculo que atava o velho solteirão á filha adoptiva, e vice-versa. Aos treze,
+Jacintha mandava na casa; aos dezesete era verdadeira dona. Não abusou do
+dominio; era naturalmente modesta, frugal, poupada.</p>
+
+<p>&mdash;Um anjo! dizia o Falcão ao Chico Borges.</p>
+
+<p>Este Chico Borges tinha quarenta annos, e era dono de um trapiche. Ia jogar
+com o Falcão, á noite. Jacintha assistia ás partidas. Tinha então dezoito
+annos; não era mais bonita, mas diziam todos «que estava enfeitando muito.» Era
+pequenina, e o trapicheiro adorava as mulheres pequeninas. Corresponderam-se, o
+namoro fez-se paixão.</p>
+
+<p>&mdash;Vamos a ellas, dizia o Chico Borges ao entrar, pouco depois de
+ave-marias. </p>
+
+<p>As cartas eram o chapéu de sol dos dous namorados. Não jogavam a dinheiro;
+mas o Falcão tinha<span class="pn">{166}</span> tal sêde ao lucro, que
+contemplava os proprios tentos, sem valor, e contava-os de dez em dez minutos,
+para ver se ganhava ou perdia. Quando perdia, cahia-lhe o rosto n'um desalento
+incuravel, e elle recolhia-se pouco a pouco ao silencio. Se a sorte teimava em
+perseguil-o, acabava o jogo, e levantava-se tão melancolico e cego, que a
+sobrinha e o parceiro podiam apertar a mão, uma, duas, tres vezes, sem que elle
+visse cousa nenhuma.</p>
+
+<p>Era isto em 1869. No principio de 1870 Falcão propoz ao outro uma venda de
+acções. Não as tinha; mas farejou uma grande baixa, e contava ganhar de um só
+lance trinta a quarenta contos ao Chico Borges. Este respondeu-lhe finamente
+que andava pensando em offerecer-lhe a mesma cousa. Uma vez que ambos queriam
+vender e nenhum comprar, podiam juntar-se e propor a venda a um terceiro.
+Acharam o terceiro, e fecharam o contracto a sessenta dias. Falcão estava tão
+contente, ao voltar do negocio, que o socio abriu-lhe o coração e pediu-lhe a
+mão de Jacintha. Foi o mesmo que, se de repente, começasse a fallar turco.
+Falcão parou, embasbacado, sem entender. Que lhe desse a sobrinha? Mas então...
+</p>
+
+<p>&mdash;Sim; confesso a vossê que estimaria muito<span
+class="pn">{167}</span> casar com ella, e ella... penso que tambem estimaria
+casar comigo.</p>
+
+<p>&mdash;Qual, nada! interrompeu o Falcão. Não, senhor; está muito criança,
+não consinto.</p>
+
+<p>&mdash;Mas reflicta...</p>
+
+<p>&mdash;Não reflicto, não quero.</p>
+
+<p>Chegou á casa irritado e aterrado. A sobrinha afagou-o tanto para saber o
+que era, que elle acabou contando tudo, e chamando-lhe esquecida e ingrata.
+Jacintha empallideceu; amava os dous, e via-os tão dados, que não imaginou
+nunca esse contraste de affeições. No quarto chorou á larga; depois escreveu
+uma carta ao Chico Borges pedindo-lhe pelas cinco chagas de Nosso Senhor Jesus
+Christo, que não fizesse barulho nem brigasse com o tio; dizia-lhe que
+esperasse, e jurava-lhe um amor eterno.</p>
+
+<p>Não brigaram os dois parceiros; mas as visitas foram naturalmente mais
+escassas e frias. Jacintha não vinha á sala, ou retirava-se logo. O terror do
+Falcão era enorme. Elle amava a sobrinha com um amor de cão, que persegue e
+morde aos extranhos. Queria-a para si, não como homem, mas como pai. A
+paternidade natural dá forças para o sacrificio da separação; a paternidade
+d'elle era de emprestimo, e, talvez, por isso mesmo, mais egoista. Nunca<span
+class="pn">{168}</span> pensara em perdel-a; agora, porém, eram trinta mil
+cuidados, janellas fechadas, advertencias á preta, uma vigilancia perpetua, um
+espiar os gestos e os ditos, uma campanha de D. Bartholo.</p>
+
+<p>Entretanto, o sol, modelo de funccionarios, continuou a servir pontualmente
+os dias, um a um, até chegar aos dois mezes do prazo marcado para a entrega das
+acções. Estas deviam baixar, segundo a previsão dos dois; mas as acções, como
+as loterias e as batalhas, zombam dos calculos humanos. N'aquelle caso, além de
+zombaria, houve crueldade, porque nem baixaram, nem ficaram ao par; subiram até
+converter o esperado lucro de quarenta contos n'uma perda de vinte.</p>
+
+<p>Foi aqui que o Chico Borges teve uma inspiração de genio. Na vespera, quando
+o Falcão, abatido e mudo, passeava na sala o seu desapontamento, propoz elle
+custear todo o <em>deficit</em>, se lhe désse a sobrinha. Falcão teve um
+deslumbramento.</p>
+
+<p>&mdash;Que eu...?</p>
+
+<p>&mdash;Isso mesmo, interrompeu o outro, rindo.</p>
+
+<p>&mdash;Não, não...</p>
+
+<p>Não quiz; recusou tres e quatro vezes. A primeira impressão fôra de alegria,
+eram os dez contos na algibeira. Mas a idéa de separar-se de Jacintha<span
+class="pn">{169}</span> era insupportavel, e recusou. Dormiu mal. De manhã,
+encarou a situação, pesou as cousas, considerou que, entregando Jacintha ao
+outro, não a perdia inteiramente, ao passo que os dez contos iam-se embora. E,
+depois, se ella gostava d'elle e elle d'ella, porque razão separal-os? Todas as
+filhas casam-se, e os pais contentam-se de as vêr felizes. Correu á casa do
+Chico Borges, e chegaram a accordo.</p>
+
+<p>&mdash;Fiz mal, muito mal, bradava elle na noite do casamento. Tão minha
+amiga que ella era! Tão amorosa! Ia chorando, coitadinha... Fiz mal, muito
+mal.</p>
+
+<p>Cessára o terror dos dez contos; começára o fastio da solidão. Na manhã
+seguinte, foi visitar os noivos. Jacintha não se limitou a regalal-o com um bom
+almoço, encheu-o de mimos e affagos; mas nem estes, nem o almoço lhe
+restituiram a alegria. Ao contrario, a felicidade dos noivos entristeceu-o
+mais. Ao voltar para casa não achou a carinha meiga de Jacintha. Nunca mais lhe
+ouviria as cantigas de menina e moça; não seria ella quem lhe faria o chá, quem
+lhe traria, á noite, quando elle quizesse ler, o velho tomo ensebado do
+<em>Saint-Clair das Ilhas</em>, dadiva de 1850.</p>
+
+<p>&mdash;Fiz mal, muito mal...</p>
+
+<p>Para remediar o mal feito, transferiu as cartas<span class="pn">{170}</span>
+para a casa da sobrinha, e ia lá jogar, á noute, com o Chico Borges. Mas a
+fortuna, quando flagella um homem, corta-lhe todas as vazas. Quatro mezes
+depois, os recem-casados foram para a Europa; a solidão alargou-se de toda a
+extensão do mar. Falcão contava então cincoenta e quatro annos. Já estava mais
+consolado do casamento de Jacintha; tinha mesmo o plano de ir morar com elles,
+ou de graça, ou mediante uma pequena retribuição, que calculou ser muito mais
+economico do que a despeza de viver só. Tudo se esboroou; eil-o outra vez na
+situação de oito annos antes, com a differença que a sorte arrancára-lhe a taça
+entre dous goles.</p>
+
+<p>Vai senão quando cai-lhe outra sobrinha em casa. Era a filha da irmã viuva,
+que morreu e lhe pediu a esmola de tomar conta d'ella. Falcão não prometteu
+nada, por que um certo instincto o levava a não prometter cousa nenhuma a
+ninguem, mas a verdade é que recolheu a sobrinha, tão depressa a irmã fechou os
+olhos. Não teve constrangimento; ao contrario, abriu-lhe as portas de casa, com
+um alvoroço de namorado, e quasi abençoou a morte da irmã. Era outra vez a
+filha perdida.</p>
+
+<p>&mdash;Esta ha de fechar-me os olhos, dizia elle comsigo.</p>
+
+<p>Não era facil. Virginia tinha dezoito annos, feições<span
+class="pn">{171}</span> lindas e originaes; era grande e vistosa. Para evitar
+que lh'a levassem, Falcão começou por onde acabara da primeira
+vez:&mdash;janellas cerradas, advertencias á preta, raros passeios, só com elle
+e de olhos baixos. Virginia não se mostrou enfadada.&mdash;Nunca fui
+janelleira, dizia ella, e acho muito feio que uma moça viva com o sentido na
+rua. Outra cautella do Falcão foi não trazer para casa senão parceiros de
+cincoenta annos para cima ou casados. Emfim, não cuidou mais da baixa das
+acções. E tudo isso era desnecessario, porque a sobrinha não cuidava realmente
+senão d'elle e da casa. Ás vezes, como a vista do tio começava a diminuir
+muito, lia-lhe ella mesma alguma pagina do <em>Saint-Clair das Ilhas</em>. Para
+supprir os parceiros, quando elles faltavam, apprendeu a jogar cartas, e,
+entendendo que o tio gostava de ganhar, deixava-se sempre perder. Ia mais
+longe: quando perdia muito, fingia-se zangada ou triste, com o unico fim de dar
+ao tio um accrescimo de prazer. Elle ria então á larga, mofava d'ella,
+achava-lhe o nariz comprido, pedia um lenço para enxugar-lhe as lagrimas; mas
+não deixava de contar os seus tentos de dez em dez minutos, e se algum cahia no
+chão (eram grãos de milho) descia a vela para apanhal-o.<span
+class="pn">{172}</span></p>
+
+<p>No fim de tres mezes, Falcão adoeceu. A molestia não foi grave nem longa;
+mas o terror da morte apoderou-se-lhe do espirito, e foi então que se pôde vêr
+toda a affeição que elle tinha á moça. Cada visita que se lhe chegava, era
+recebida com rispidez, ou pelo menos com sequidão. Os mais intimos padeciam
+mais, porque elle dizia-lhes brutalmente que ainda não era cadaver, que a
+carniça ainda estava viva, que os urubús enganavam-se de cheiro, etc. Mas nunca
+Virginia achou n'elle um só instante de máu humor. Falcão obedecia-lhe em tudo,
+com uma passividade de creança, e quando ria, é porque ella o fazia rir.</p>
+
+<p>&mdash;Vamos, tome o remedio, deixe-se disso, vosmecê agora é meu
+filho...</p>
+
+<p>Falcão sorria e bebia a droga. Ella sentava-se ao pé da cama, contando-lhe
+historias, espiava o relogio para dar-lhe os caldos ou a gallinha, lia-lhe o
+sempiterno <em>Saint-Clair</em>. Veiu a convalecença. Falcão sahiu a alguns
+passeios, acompanhado de Virginia. A prudencia com que esta, dando-lhe o braço,
+ia mirando as pedras da rua, com medo de encarar os olhos de algum homem,
+encantavam o Falcão.</p>
+
+<p>&mdash;Esta ha de fechar-me os olhos, repetia elle comsigo mesmo. Um dia,
+chegou a pensal-o em voz<span class="pn">{173}</span> alta:&mdash;Não é verdade
+que você me ha de fechar os olhos?</p>
+
+<p>&mdash;Não diga tolices!</p>
+
+<p>Comquanto estivesse na rua, elle parou, apertou-lhe muito as mãos,
+agradecido, não achando que dizer. Se tivesse a faculdade de chorar, ficaria
+provavelmente com os olhos humidos. Chegando á casa? Virginia correu ao quarto
+para reler uma carta que lhe entregára na vespera uma D. Bernarda, amiga de sua
+mãi. Era datada de New-York, e trazia por unica assignatura este nome:
+Reginaldo. Um dos trechos dizia assim: «Vou d'aqui no paquete de 25. Espera-me
+sem falta. Não sei ainda se irei ver-te logo ou não. Teu tio deve lembrar-se de
+mim; viu-me em casa de meu tio Chico Borges, no dia do casamento de tua
+prima...»</p>
+
+<p>Quarenta dias depois, desembarcava este Reginaldo, vindo de New-York, com
+trinta annos feitos e trezentos mil dollars ganhos. Vinte e quatro horas depois
+visitou o Falcão, que o recebeu apenas com polidez. Mas o Reginaldo era fino e
+pratico; atinou com a principal corda do homem, e vibrou-a. Contou-lhe os
+prodigios de negocio nos Estados-Unidos, as hordas de moedas que corriam de um
+a outro dos dous oceanos. Falcão ouvia deslumbrado, e pedia<span
+class="pn">{174}</span> mais. Então o outro fez-lhe uma extensa computação das
+companhias e bancos, acções, saldos de orçamento publico, riquezas
+particulares, receita municipal de New-York; descreveu-lhe os grandes palacios
+do commercio...</p>
+
+<p>&mdash;Realmente, é um grande paiz, dizia o Falcão, de quando em quando. E
+depois de tres minutos de reflexão:&mdash;Mas, pelo que o senhor conta, só ha
+ouro?</p>
+
+<p>&mdash;Ouro só, não; ha muita prata e papel; mas alli papel e ouro é a mesma
+cousa. E moedas de outras nações? Hei de mostrar-lhe uma collecção que trago.
+Olhe; para vêr o que é aquillo basta pôr os olhos em mim. Fui para lá pobre,
+com vinte e tres annos; no fim de sete annos, trago seiscentos contos.</p>
+
+<p>Falcão estremeceu:&mdash;Eu, com a sua edade, confessou elle, mal chegaria a
+cem. </p>
+
+<p>Estava encantado. Reginaldo disse-lhe que precisava de duas ou tres semanas,
+para lhe contar os milagres do dollar.</p>
+
+<p>&mdash;Como é que o senhor lhe chama?</p>
+
+<p>&mdash;Dollar.</p>
+
+<p>&mdash;Talvez não acredite que nunca vi essa moeda.</p>
+
+<p>Reginaldo tirou do bolso do collete um dollar e mostrou-lh'o. Falcão, antes
+de lhe pôr a mão, agarrou-o<span class="pn">{175}</span> com os olhos. Como
+estava um pouco escuro, levantou-se e foi até á janella, para examinal-o
+bem&mdash;de ambos os lados; depois restituiu-o, gabando muito o desenho e a
+cunhagem, e accrescentando que os nossos antigos patacões eram bem bonitos.</p>
+
+<p>As visitas repetiram-se. Reginaldo assentou de pedir a moça. Esta, porém,
+disse-lhe que era preciso ganhar primeiro as boas graças do tio; não casaria
+contra a vontade d'elle. Reginaldo não desanimou. Tratou de redobrar as
+finezas; abarrotou o tio de dividendos fabulosos.</p>
+
+<p>&mdash;A proposito, o senhor nunca me mostrou a sua collecção de moedas,
+disse-lhe um dia o Falcão.</p>
+
+<p>&mdash;Vá amanhã á minha casa.</p>
+
+<p>Falcão foi. Reginaldo mostrou-lhe a collecção mettida n'um movel envidraçado
+por todos os lados. A sorpreza de Falcão foi extraordinaria; esperava uma
+caixinha com um exemplar de cada moeda, e achou montes de ouro, de prata, de
+bronze e de cobre. Falcão mirou-as primeiro de um olhar universal e collectivo;
+depois, começou a fixal-as especificadamente. Só conheceu as libras, os dollars
+e os francos; mas o Reginaldo nomeou-as todas: florins, corôas, rublos,
+drachmas, piastras, pesos, rupias, toda a numismatica do trabalho, concluiu
+elle poeticamente.<span class="pn">{176}</span></p>
+
+<p>&mdash;Mas que paciencia a sua para ajuntar tudo isto! disse elle.</p>
+
+<p>&mdash;Não fui eu que ajuntei, replicou o Reginaldo; a collecção pertencia
+ao espolio de um sujeito de Philadelphia. Custou-me uma bagatella:&mdash;cinco
+mil dollars.</p>
+
+<p>Na verdade, valia mais. Falcão sahiu d'alli com a collecção na alma; fallou
+d'ella á sobrinha, e, imaginariamente, desarrumou e tornou a arrumar as moedas,
+como um amante desgrenha a amante para toucal-a outra vez. De noite sonhou que
+era um florim, que um jogador o deitava á mesa do <em>lansquenet</em>, e que
+elle trazia comsigo para a algibeira do jogador mais de duzentos florins. De
+manhã, para consolar-se, foi contemplar as proprias moedas que tinha na burra;
+mas não se consolou nada. O melhor dos bens é o que se não possue.</p>
+
+<p>D'alli a dias, estando em casa, na sala, pareceu-lhe ver uma moeda no chão.
+Inclinou-se a apanhal-a; não era moeda, era uma simples carta. Abriu a carta
+distrahidamente e leu-a espantado: era de Reginaldo a Virginia...</p>
+
+<p>&mdash;Basta! interrompe-me o leitor; adivinho o resto. Virginia casou com o
+Reginaldo, as moedas passaram ás mãos do Falcão, e eram falsas...<span
+class="pn">{177}</span></p>
+
+<p>Não, senhor, eram verdadeiras. Era mais moral que, para castigo do nosso
+homem, fossem falsas; mas, ai de mim! eu não sou Seneca, não passo de um
+Suetonio que contaria dez vezes a morte de Cezar, se elle resussitasse dez
+vezes, pois não tornaria á vida, se não para tornar ao imperio.</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p style="text-align: center;">FIM DE UMA ANECDOTA PECUNIARIA.</p>
+
+<p><span class="pn">{178}<br>
+{179}</span></p>
+
+<h1><a name="SECTION000120000">FULANO</a> </h1>
+
+<p>Venha o leitor commigo assistir á abertura do testamento do meu amigo Fulano
+Beltrão. Conheceu-o? Era um homem de cerca de sessenta annos. Morreu hontem,
+dous de Janeiro de 1884, ás onze horas e trinta minutos da noite. Não imagina a
+força de animo que mostrou em toda a molestia. Cahiu na vespera de finados, e a
+principio suppunhamos que não fosse nada; mas a doença persistiu, e ao fim de
+dous mezes e poucos dias a morte o levou.</p>
+
+<p>Eu confesso-lhe que estou curioso de ouvir o testamento. Ha de conter por
+força algumas determinações de interesse geral e honrosas para elle. Antes de
+1863 não seria assim, porque até então era um homem muito mettido comsigo,
+reservado, morando no caminho do Jardim Botanico, para onde ia de omnibus ou de
+mula. Tinha a mulher e o filho vivos, a filha solteira, com treze annos. Foi
+n'esse<span class="pn">{180}</span> anno que elle começou a occupar-se com
+outras cousas, além da familia, revellando um espirito universal e generoso.
+Nada posso affirmar-lhe sobre a causa disto. Creio que foi uma apologia de
+amigo, por occasião d'elle fazer quarenta annos. Fulano Beltrão leu no
+<em>Jornal do Commercio</em>, no dia cinco de Março de 1864, um artigo anonymo
+em que se lhe diziam cousas bellas e exactas:&mdash;bom pai, bom esposo, amigo
+pontual, cidadão digno, alma levantada e pura. Que se lhe fizesse justiça, era
+muito; mas anonymamente, era raro.</p>
+
+<p>&mdash;Você verá, disse Fulano Beltrão á mulher, você verá que isto é do
+Xavier ou do Castro; logo rasgaremos o capote.</p>
+
+<p>Castro e Xavier eram dous habituados da casa, parceiros constantes do
+voltarete e velhos amigos do meu amigo. Costumavam dizer cousas amaveis, no dia
+cinco de março, mas era ao jantar, na intimidade da familia, entre quatro
+paredes; impressos, era a primeira vez que elle se benzia com elogios. Póde ser
+que me engane; mas estou que o expectaculo da justiça, a prova material de que
+as boas qualidades e as boas acções não morrem no escuro, foi o que animou o
+meu amigo a dispersar-se, a apparecer, a divulgar-se, a dar á collectividade
+humana um<span class="pn">{181}</span> pouco das virtudes com que nasceu.
+Considerou que milhares de pessoas estariam lendo o artigo, á mesma hora em que
+o lia tambem; imaginou que o commentavam, que interrogavam, que confirmavam,
+ouviu mesmo, por um phenomeno de allucinação que a sciencia ha de explicar, e
+que não é raro, ouviu distinctamente algumas vozes do publico. Ouviu que lhe
+chamavam homem de bem, cavalheiro distincto, amigo dos amigos, laborioso,
+honesto, todos os qualificativos que elle vira empregados em outros, e que na
+vida de bicho do matto em que ia, nunca presumiu que lhe
+fossem&mdash;typographicamente&mdash;applicados.</p>
+
+<p>&mdash;A imprensa é uma grande invenção, disse elle á mulher.</p>
+
+<p>Foi ella, D. Maria Antonia, quem rasgou o capote; o artigo era do Xavier.
+Declarou este que só em attenção á dona casa confessava a auctoria; e
+accrescentou que a manifestação não sahira completa, porque a idéa d'elle era
+que o artigo fosse dado em todos os jornaes, não o tendo feito por havel-o
+acabado ás sete horas da noite. Não houve tempo de tirar cópias. Fulano Beltrão
+emendou essa falta, se falta se lhe podia chamar, mandando transcrever o artigo
+no <em>Diario do Rio</em> e o <em>Correio Mercantil</em>.<span
+class="pn">{182}</span></p>
+
+<p>Quando mesmo, porém, este facto não desse causa á mudança de vida do nosso
+amigo, fica uma cousa de pé, a saber, que daquelle anno em diante, e
+propriamente do mez de março, é que elle começou a apparecer mais. Era até
+então um casmurro, que não ia ás assembléas das companhias, não votava nas
+eleições politicas, não frequentava theatros, nada, absolutamente nada. Já
+n'aquelle mez de março, a vinte e dous ou vinte ou vinte e tres, presenteou a
+Santa Casa da Misericordia com um bilhete da grande loteria de Hespanha, e
+recebeu uma honrosa carta do provedor, agradecendo em nome dos pobres.
+Consultou a mulher e os amigos, se devia publicar a carta ou guardal-a,
+parecendo-lhe que não a publicar era uma desattenção. Com effeito, a carta foi
+dada a vinte e seis de março, em todas as folhas, fazendo uma dellas
+commentarios desenvolvidos ácerca da piedade do doador. Das pessoas que leram
+esta noticia, muitas naturalmente ainda se lembravam do artigo do Xavier, e
+ligaram as duas occurencias: «Fulano Beltrão é aquelle mesmo que, etc.»
+primeiro alicerce da reputação de um homem.</p>
+
+<p>É tarde, temos de ir ouvir o testamento, não posso estar a contar-lhe tudo.
+Digo-lhe summariamente que as injustiças da rua começaram a ter<span
+class="pn">{183}</span> n'elle um vingador activo e discursivo; que as
+miserias, principalmente as miserias dramaticas, filhas de um incendio ou
+inundação, acharam no meu amigo a iniciativa dos soccorros que, em taes casos,
+devem ser promptos e publicos. Ninguem como elle para um desses movimentos.
+Assim tambem com as alforias de escravos. Antes da lei de 28 de setembro de
+1871, era muito commum apparecerem na Praça do Commercio crianças escravas,
+para cuja liberdade se pedia o favor dos negociantes. Fulano Beltrão iniciava
+tres quartas partes das subscripções, com tal exito, que em poucos minutos
+ficava o preço coberto.</p>
+
+<p>A justiça que se lhe fazia, animava-o, e até lhe trazia lembranças que, sem
+ella, é possivel que nunca lhe tivessem acudido. Não fallo do baile que elle
+deu para celebrar a victoria de Riachuelo, porque era um baile planeado antes
+de chegar a noticia da batalha, e elle não fez mais do que attribuir-lhe um
+motivo mais alto do que a simples recreação de familia, metter o retrato do
+almirante Barroso no meio de um trophéu de armas navaes e bandeiras no salão de
+honra, em frente ao retrato do imperador, e fazer, á ceia, alguns brindes
+patrioticos, como tudo consta dos jornaes de 1865.<span class="pn">{184}</span>
+</p>
+
+<p>Mas aqui vai, por exemplo, um caso bem caracteristico da influencia que a
+justiça dos outros póde ter no nosso procedimento. Fulano Beltrão vinha um dia
+do thesouro, aonde tinha ido tratar de umas decimas. Ao passar pela egreja da
+Lampadosa, lembrou-se que fôra alli baptisado; e nenhum homem tem uma
+recordação d'estas, sem remontar o curso dos annos e dos acontecimentos,
+deitar-se outra vez no collo materno, rir e brincar, como nunca mais se ri nem
+brinca. Fulano Beltrão não escapou a este effeito; atravessou o adro, entrou na
+egreja, tão singela, tão modesta, e para elle tão rica e linda. Ao sahir, tinha
+uma resolução feita, que pôz por obra dentro de poucos dias: mandou de presente
+á Lampadosa um soberbo castiçal de prata, com duas datas, além do nome do
+doador&mdash;a data da doação e a do baptisado. Todos os jornaes deram esta
+noticia, e até a receberam em duplicata, porque a administração da egreja
+entendeu (com muita razão) que tambem lhe cumpria divulgal-a aos quatro
+ventos.</p>
+
+<p>No fim de tres annos, ou menos, entrára o meu amigo nas cogitações publicas;
+o nome d'elle era lembrado, mesmo quando nenhum successo recente vinha
+suggeril-o, e não só lembrado como adjectivado.<span class="pn">{185}</span> Já
+se lhe notava a ausencia em alguns logares. Já o iam buscar para outros. D.
+Maria Antonia via assim entrar-lhe no Eden a serpente biblica, não para
+tental-a, mas para tentar a Adão. Com effeito, o marido ia a tantas partes,
+cuidava de tantas cousas, mostrava-se tanto na rua do Ouvidor, á porta do
+Bernardo, que afrouxou a convivencia antiga da casa. D. Maria Antonia
+disse-lh'o. Elle concordou que era assim, mas demonstrou-lhe que não podia ser
+de outro modo, e, em todo caso, se mudára de costumes, não mudára de
+sentimentos. Tinha obrigações moraes com a sociedade; ninguem se pertence
+exclusivamente; d'ahi um pouco de dispersão dos seus cuidados. A verdade é que
+tinham vivido demasiadamente reclusos; não era justo nem bonito. Não era mesmo
+conveniente; a filha caminhava para a edade do matrimonio, e casa fechada cria
+morrinha de convento; por exemplo, um carro, porque é que não teriam um carro?
+D. Maria Antonia sentiu um arrepio de prazer, mas curto; protestou logo, depois
+de um minuto de reflexão.</p>
+
+<p>&mdash;Não; carro para que? Não; deixemo-nos de carro.</p>
+
+<p>&mdash;Já está comprado, mentiu o marido.</p>
+
+<p>Mas aqui chegamos ao juizo da provedoria. Não<span class="pn">{186}</span>
+veiu ainda ninguem; esperemos á porta. Tem pressa? São vinte minutos no maximo.
+Pois é verdade, comprou uma linda victoria; e, para quem, só por modestia,
+andou tantos annos ás costas de mula ou apertado n'um omnibus, não era facil
+acostumar-se logo ao novo vehiculo. A isso attribuo eu as attitudes salientes e
+inclinadas com que elle andava, nas primeiras semanas, os olhos que estendia a
+um lado e outro, á maneira de pessoa que procura alguem ou uma casa. Afinal
+acostumou-se; passou a usar das attitudes reclinadas, embora sem um certo
+sentimento de indifferença ou despreoccupação, que a mulher e a filha tinham
+muito bem, talvez por serem mulheres. Ellas, aliás, não gostavam de sahir de
+carro; mas elle teimava tanto que sahissem, que fossem a toda a parte, e até a
+parte nenhuma, que não tinham remedio senão obedecer-lhe; e, na rua, era
+sabido, mal vinha ao longe a ponta do vestido de duas senhoras, e na almofada
+um certo cocheiro, toda a gente dizia logo:&mdash;ahi vem a familia de Fulano
+Beltrão. E isto mesmo, sem que elle talvez o pensasse, tornava-o mais
+conhecido.</p>
+
+<p>No anno de 1868 deu entrada na politica. Sei do anno porque coincidiu com a
+queda dos liberaes e a subida dos conservadores. Foi em março ou abril de<span
+class="pn">{187}</span> 1868 que elle declarou adherir á situação, não á
+socapa, mas estrepitosamente. Este foi, talvez, o ponto mais fraco da vida do
+meu amigo. Não tinha idéas politicas; quando muito, dispunha de um d'esses
+temperamentos que substituem as idéas, e fazem crer que um homem pensa, quando
+simplesmente transpira. Cedeu, porém, a uma allucinação de momento. Viu-se na
+camara vibrando um áparte, ou inclinado sobre a balaustrada, em conversa com o
+presidente do conselho, que sorria para elle, n'uma intimidade grave de
+governo. E ahi é que a galeria, na exacta accepção do termo, tinha de o
+contemplar. Fez tudo o que poude para entrar na camara; a meio caminho cahiu a
+situação. Voltando do atordoamento, lembrou-se de affirmar ao Itaborahy o
+contrario do que dissera ao Zacarias, ou antes a mesma cousa; mas perdeu a
+eleição, e deu de mão á politica. Muito mais acertado andou, mettendo-se na
+questão da maçonaria com os prelados. Deixára-se estar quedo, a principio; por
+um lado, era maçon; por outro, queria respeitar os sentimentos religiosos da
+mulher. Mas o conflicto tomou taes proporções que elle não podia ficar calado;
+entrou n'elle com o ardor, a expansão, a publicidade que mettia em tudo;
+celebrou reuniões em que fallou muito da liberdade<span class="pn">{188}</span>
+de consciencia e do direito que assistia ao maçon de enfiar uma opa; assignou
+protestos, representações, felicitações, abriu a bolsa e o coração,
+escancaradamente.</p>
+
+<p>Morreu-lhe a mulher em 1878. Ella pediu-lhe que a enterrasse sem apparato, e
+elle assim o fez, porque a amava deveras e tinha a sua ultima vontade como um
+decreto do céu. Já então perdera o filho; e a filha, casada, achava-se na
+Europa. O meu amigo dividiu a dôr com o publico; e, se enterrou a mulher sem
+apparato, não deixou de lhe mandar esculpir na Italia um magnifico mausoléu,
+que esta cidade admirou exposto, na rua do Ouvidor, durante perto de um mez. A
+filha ainda veiu assistir á inauguração. Deixei de os ver uns quatro annos.
+Ultimamente surgiu a doença, que no fim de pouco mais de dous mezes o levou
+d'esta para a melhor. Note que, até começar a agonia, nunca perdeu a razão nem
+a força d'alma. Conversava com as visitas, mandava-as relacionar, não esquecia
+mesmo noticiar ás que chegavam, as que acabavam de sahir; cousa inutil, porque
+uma folha amiga publicava-as todas. Na manhã do dia em que morreu ainda ouviu
+lêr os jornaes, e n'um d'elles uma pequena communicação relativamente á sua
+molestia, o que de algum modo<span class="pn">{189}</span> pareceu reanimal-o.
+Mas para a tarde enfraqueceu um pouco; á noite expirou.</p>
+
+<p>Vejo que está aborrecido. Realmente demoram-se... Espere; creio que são
+elles. São; entremos. Cá está o nosso magistrado, que começa a ler o
+testamento. Está ouvindo? Não era preciso esta minuciosa genealogia, excedente
+das praticas tabelliôas; mas isto mesmo de contar a familia desde o quarto avô
+prova o espirito exacto e paciente do meu amigo. Não esquecia nada. O
+ceremonial do sahimento é longo e complicado, mas bonito. Começa agora a lista
+dos legados. São todos pios; alguns industriaes. Vá vendo a alma do meu amigo.
+Trinta contos...</p>
+
+<p>Trinta contos para que? Para servir de começo a uma subscripção publica
+destinada a erigir uma estatua a Pedro Alvares Cabral. «Cabral, diz alli o
+testamento, não póde ser olvidado dos brazileiros, foi o precursor do nosso
+imperio». Recommenda que a estatua seja de bronze, com quatro medalhões no
+pedestal, a saber, o retrato do bispo Coutinho, presidente da Constituinte, o
+de Gonzaga, chefe da conjuração mineira, e o de dous cidadãos da presente
+geração «notáveis por seu patriotismo e liberalidade» á escolha da commissão,
+que elle mesmo nomeou para levar a empreza a cabo.<span class="pn">{190}</span>
+</p>
+
+<p>Que ella se realise, não sei; falta-nos a perseverança do fundador da verba.
+Dado, porém, que a commissão se desempenhe da tarefa, e que este sol americano
+ainda veja erguer-se a estatua de Cabral, é da nossa honra que elle contemple
+n'um dos medalhões o retrato do meu finado amigo. Não lhe parece? Bem, o
+magistrado acabou, vamos embora.</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p style="text-align: center;">FIM DO FULANO.</p>
+
+<p><span class="pn">{191}</span></p>
+
+<h1><a name="SECTION000130000">A SEGUNDA VIDA</a> </h1>
+
+<p>Monsenhor Caldas interrompeu a narração do desconhecido:&mdash;Dá licença? é
+só um instante. Levantou-se, foi ao interior da casa, chamou o preto velho que
+o servia, e disse-lhe em voz baixa:</p>
+
+<p>&mdash;João, vae alli á estação de urbanos, falla da minha parte ao
+commandante, e pede-lhe que venha cá com um ou dous homens, para livrar-me de
+um sujeito doudo. Anda, vae depressa.</p>
+
+<p>E, voltando á sala:</p>
+
+<p>&mdash;Prompto, disse elle; podemos continuar.</p>
+
+<p>&mdash;Como ia dizendo a Vossa Reverendissima, morri no dia vinte de março
+de 1860, ás cinco horas e quarenta e tres minutos da manhã. Tinha então
+sessenta e oito annos de edade. Minha alma vôou pelo espaço, até perder a terra
+de vista, deixando muito abaixo a lua, as estrellas e o sol; penetrou
+finalmente n'um espaço em que não havia mais nada,<span class="pn">{192}</span>
+e era clareado tão sómente por uma luz diffusa. Continuei a subir, e comecei a
+ver um pontinho mais luminoso ao longe, muito longe. O ponto cresceu, fez-se
+sol. Fui por alli dentro, sem arder, porque as almas são incombustiveis. A sua
+pegou fogo alguma vez?</p>
+
+<p>&mdash;Não, senhor.</p>
+
+<p>&mdash;São incombustiveis. Fui subindo, subindo; na distancia de quarenta
+mil legoas, ouvi uma deliciosa musica, e logo que cheguei a cinco mil legoas,
+desceu um enxame de almas, que me levaram n'um palanquim feito de ether e
+plumas. Entrei dahi a pouco no novo sol, que é o planeta dos virtuosos da
+terra. Não sou poeta, monsenhor; não ouso descrever-lhe as magnificencias
+daquella estancia divina. Poeta que fosse, não poderia, usando a linguagem
+humana, transmittir-lhe a emoção da grandeza, do deslumbramento, da felicidade,
+os extasis, as melodias, os arrojos de luz e cores, uma cousa indefinivel e
+incomprehensivel. Só vendo. Lá dentro é que soube que completava mais um
+milheiro de almas; tal era o motivo das festas extraordinarias que me
+fizeram, e que duraram dous seculos, ou, pelas nossas contas, quarenta e oito
+horas. Afinal, concluidas as festas, convidaram-me a tornar á terra para
+cumprir uma<span class="pn">{193}</span> vida nova; era o privilegio de cada
+alma que completava um milheiro. Respondi agradecendo e recusando, mas não
+havia recusar. Era uma lei eterna. A unica liberdade que me deram foi a escolha
+do vehiculo; podia nascer principe ou conductor de omnibus. Que fazer? Que
+faria Vossa Reverendissima no meu logar?</p>
+
+<p>&mdash;Não posso saber; depende...</p>
+
+<p>&mdash;Tem razão; depende das circumstancias. Mas imagine que as minhas eram
+taes que não me davam gosto a tornar cá. Fui victima da inexperiencia,
+monsenhor, tive uma velhice ruim, por essa razão. Então lembrou-me que sempre
+ouvira dizer a meu pae e outras pessoas mais velhas, quando viam algum
+rapaz:&mdash;«Quem me dera aquella edade, sabendo o que sei hoje!» Lembrou-me
+isto, e declarei que me era indifferente nascer mendigo ou potentado, com a
+condição de nascer experiente. Não imagina o riso universal com que me ouviram.
+Job, que alli preside a provincia dos pacientes, disse-me que um tal desejo era
+disparate; mas eu teimei e venci. Dahi a pouco escorreguei no espaço; gastei
+nove mezes a atravessal-o até cair nos braços de uma ama de leite, e chamei-me
+José Maria. Vossa Reverendissima é Romualdo, não?<span
+class="pn">{194}</span></p>
+
+<p>&mdash;Sim, senhor; Romualdo de Souza Caldas.</p>
+
+<p>&mdash;Será parente do padre Souza Caldas?</p>
+
+<p>&mdash;Não, senhor.</p>
+
+<p>&mdash;Bom poeta o padre Caldas. Poesia é um dom; eu nunca pude compor uma
+decima. Mas, vamos ao que importa. Conto-lhe primeiro o que me succedeu; depois
+lhe direi o que desejo de Vossa Reverendissima. Entretanto, se me permittisse
+ir fumando...</p>
+
+<p>Monsenhor Caldas fez um gesto de assentimento, sem perder de vista a bengala
+que José Maria conservava atravessada sobre as pernas. Este preparou
+vagarosamente um cigarro. Era um homem de trinta e poucos annos, pallido, com
+um olhar ora molle e apagado, ora inquieto e centelhante. Appareceu alli, tinha
+o padre acabado de almoçar, e pediu-lhe uma entrevista para negocio grave e
+urgente. Monsenhor fel-o entrar e sentar-se; no fim de dez minutos, viu que
+estava com um lunatico. Perdoava-lhe a incoherencia das idéas ou o assombroso
+das invenções; póde ser até que lhe servissem de estudo. Mas o desconhecido
+teve um assomo de raiva, que metteu medo ao pacato clerigo. Que podiam fazer
+elle e o preto, ambos velhos, contra qualquer aggressão de um homem forte e
+louco? Em quanto esperava o auxilio policial, monsenhor Caldas desfazia-se
+em<span class="pn">{195}</span> sorrisos e assentimentos de cabeça,
+espantava-se com elle, alegrava-se com elle, politica util com os loucos, as
+mulheres e os potentados. José Maria accendeu finalmente o cigarro, e
+continuou:</p>
+
+<p>&mdash;Renasci em cinco de Janeiro de 1861. Não lhe digo nada da nova
+meninice, porque ahi a experiencia teve só uma fórma instinctiva. Mamava pouco;
+chorava o menos que podia para não apanhar pancada. Comecei a andar tarde, por
+medo de cair, e dahi me ficou uma tal ou qual fraqueza nas pernas. Correr e
+rolar, trepar nas arvores, saltar paredões, trocar murros, cousas tão uteis,
+nada disso fiz, por medo de contusão e sangue. Para fallar com franqueza, tive
+uma infancia aborrecida, e a escola não o foi menos. Chamavam-me tolo e
+moleirão. Realmente, eu vivia fugindo de tudo. Creia que durante esse tempo não
+escorreguei, mas tambem não corria nunca. Palavra, foi um tempo de
+aborrecimento; e, comparando as cabeças quebradas de outro tempo com o tédio de
+hoje, antes as cabeças quebradas. Cresci; fiz-me rapaz, entrei no periodo dos
+amores... Não se assuste; serei casto, como a primeira ceia. Vossa
+Reverendissima sabe o que é uma ceia de rapazes e mulheres?</p>
+
+<p>&mdash;Como quer que saiba?...<span class="pn">{196}</span></p>
+
+<p>&mdash;Tinha dezenove annos, continuou José Maria, e não imagina o espanto
+dos meus amigos, quando me declarei prompto a ir a uma tal ceia... Ninguem
+esperava tal cousa de um rapaz tão cautelloso, que fugia de tudo, dos somnos
+atrazados, dos somnos excessivos, de andar sozinho a horas mortas, que vivia,
+por assim dizer, ás apalpadellas. Fui á ceia; era no Jardim Botanico, obra
+explendida. Comidas, vinhos, luzes, flores, alegria dos rapazes, os olhos das
+damas, e, por cima de tudo, um appetite de vinte annos. Hade crer que não comi
+nada? A lembrança de tres indigestões apanhadas quarenta annos antes, na
+primeira vida, fez-me recuar. Menti dizendo que estava indisposto. Uma das
+damas veiu sentar-se á minha direita, para curar-me; outra levantou-se tambem,
+e veiu para a minha esquerda, com o mesmo fim. Você cura de um lado, eu curo do
+outro, disseram ellas. Eram lepidas, frescas, astuciosas, e tinham fama de
+devorar o coração e a vida dos rapazes. Confesso-lhe que fiquei com medo e
+retrahi-me. Ellas fizeram tudo, tudo; mas em vão. Vim de lá de manhã,
+apaixonado por ambas, sem nenhuma dellas, e caindo de fome. Que lhe parece?
+concluiu José Maria pondo as mãos nos joelhos, e arqueando os braços para
+fóra?<span class="pn">{197}</span></p>
+
+<p>&mdash;Com effeito...</p>
+
+<p>&mdash;Não lhe digo mais nada; Vossa Reverendissima adivinhará o resto. A
+minha segunda vida é assim uma mocidade expansiva e impetuosa, enfreiada por
+uma experiencia virtual e tradiccional. Vivo como Eurico, atado ao proprio
+cadaver... Não, a comparação não é boa. Como lhe parece que vivo?</p>
+
+<p>&mdash;Sou pouco imaginoso. Supponho que vive assim como um passaro, batendo
+as azas e amarrado pelos pés...</p>
+
+<p>&mdash;Justamente. Pouco imaginoso? Achou a formula; é isso mesmo. Um
+passaro, um grande passaro, batendo as azas, assim...</p>
+
+<p>José Maria ergueu-se, agitando os braços, á maneira de azas. Ao erguer-se,
+caiu-lhe a bengala no chão; mas elle não deu por ella. Continuou a agitar os
+braços, em pé, defronte do padre, e a dizer que era isso mesmo, um passaro, um
+grande passaro... De cada vez que batia os braços nas coxas, levantava os
+calcanhares, dando ao corpo uma cadencia de movimentos, e conservava os pés
+unidos, para mostrar que os tinha amarrados. Monsenhor approvava de cabeça; ao
+mesmo tempo afiava as orelhas para vêr se ouvia passos na escada. Tudo
+silencio. Só lhe chegavam os rumores de fóra:&mdash;carros e carroças<span
+class="pn">{198}</span> que desciam, quitandeiras apregoando legumes, e um
+piano da vizinhança. José Maria sentou-se finalmente, depois de apanhar a
+bengala, e continuou nestes termos:</p>
+
+<p>&mdash;Um passaro, um grande passaro. Para ver quanto é feliz a comparação,
+basta a aventura que me traz aqui, um caso de consciencia, uma paixão, uma
+mulher, uma viuva, D. Clemencia. Tem vinte e seis annos, uns olhos que não
+acabam mais, não digo no tamanho, mas na expressão, e duas pincelladas de buço,
+que lhe completam a physionomia. É filha de um professor jubilado. Os vestidos
+pretos ficam-lhe tão bem que eu ás vezes digo-lhe rindo que ella não enviuvou
+senão para andar de luto. Caçoadas! Conhecemo-nos ha um anno, em casa de um
+fazendeiro de Cantagallo. Saimos namorados um do outro. Já sei o que me vae
+perguntar: porque é que não nos casamos, sendo ambos livres...</p>
+
+<p>&mdash;Sim, senhor.</p>
+
+<p>&mdash;Mas, homem de Deus! é essa justamente a materia da minha aventura.
+Somos livres, gostamos um do outro, e não nos casamos: tal é a situação
+tenebrosa que venho expor a Vossa Reverendissima, e que a sua theologia ou o
+que quer que seja, explicará, se puder. Voltamos para a Côrte namorados.<span
+class="pn">{199}</span> Clemencia morava com o velho pae, e um irmão empregado
+no commercio; relacionei-me com ambos, e comecei a frequentar a casa, em
+Matacavallos. Olhos, apertos de mão, palavras soltas, outras ligadas, uma
+phrase, duas phrases, e estavamos amados e confessados. Uma noite, no patamar
+da escada, trocamos o primeiro beijo... Perdôe estas cousas, monsenhor; faça de
+conta que me está ouvindo de confissão. Nem eu lhe digo isto senão para
+acrescentar que sahi dalli tonto, desvairado, com a imagem de Clemencia na
+cabeça e o sabor do beijo na bocca. Errei cerca de duas horas, planeando uma
+vida unica; determinei pedir-lhe a mão no fim da semana, e casar dahi a um mez.
+Cheguei ás derradeiras minucias, cheguei a redigir e ornar de cabeça as cartas
+de participação. Entrei em casa depois de meia noite, e toda essa fantasmagoria
+vôou, como as mutações á vista nas antigas peças de theatro. Veja se adivinha
+como.</p>
+
+<p>&mdash;Não alcanço...</p>
+
+<p>&mdash;Considerei, no momento de despir o collete, que o amor podia acabar
+depressa; tem-se visto algumas vezes. Ao descalçar as botas, lembrou-me cousa
+peior:&mdash;podia ficar o fastio. Conclui a <em>toilette</em> de dormir,
+accendi um cigarro, e, reclinado no canapé, pensei que o costume, a
+convivencia, podia<span class="pn">{200}</span> salvar tudo; mas, logo depois
+adverti que as duas indoles podiam ser incompativeis; e que fazer com duas
+indoles imcompativeis e inseparaveis? Mas, emfim, dei de barato tudo isso,
+porque a paixão era grande, violenta; considerei-me casado, com uma linda
+creancinha... Uma? duas, seis, oito; podiam vir oito, podiam vir dez; algumas
+aleijadas. Tambem podia vir uma crise, duas crises, falta de dinheiro, penuria,
+doenças; podia vir alguma dessas affeições espurias que perturbam a paz
+domestica... Considerei tudo e conclui que o melhor era não casar. O que não
+lhe posso contar é o meu desespero; faltam-me expressões para lhe pintar o que
+padeci nessa noite... Deixa-me fumar outro cigarro?</p>
+
+<p>Não esperou resposta, fez o cigarro, e accendeu-o. Monsenhor não podia
+deixar de admirar-lhe a bella cabeça, no meio do desalinho proprio do estado;
+ao mesmo tempo notou que elle fallava em termos polidos, e, que apesar dos
+rompantes morbidos, tinha maneiras. Quem diabo podia ser esse homem? José Maria
+continuou a historia, dizendo que deixou de ir á casa de Clemencia, durante
+seis dias, mas não resistiu ás cartas e ás lagrimas. No fim de uma semana
+correu para lá, e confessou-lhe tudo, tudo. Ella ouviu-o com muito interesse, e
+quiz saber o<span class="pn">{201}</span> que era preciso para acabar com
+tantas scismas, que prova de amor queria que ella lhe désse.&mdash;A resposta
+de José Maria foi uma pergunta.</p>
+
+<p>&mdash;Está disposta a fazer-me um grande sacrificio? disse-lhe eu.
+Clemencia jurou que sim. «Pois bem, rompa com tudo, familia e sociedade; venha
+morar commigo; casamo-nos depois desse noviciado.» Comprehendo que Vossa
+Reverendissima arregale os olhos. Os della encheram-se de lagrimas; mas, apesar
+de humilhada, aceitou tudo. Vamos; confesse que sou um monstro.</p>
+
+<p>&mdash;Não, senhor...</p>
+
+<p>&mdash;Como não? Sou um monstro. Clemencia veiu para minha casa, e não
+imagina as festas com que a recebi. «Deixo tudo, disse-me ella; você é para mim
+o universo.» Eu beijei-lhe os pés, beijei-lhe os tacões dos sapatos. Não
+imagina o meu contentamento. No dia seguinte, recebi uma carta tarjada de
+preto; era a noticia da morte de um tio meu, em Santa Anna do Livramento,
+deixando-me vinte mil contos. Fiquei fulminado. «Entendo, disse a Clemencia,
+você sacrificou tudo, por que tinha noticia da herança.» Desta vez, Clemencia
+não chorou, pegou em si e sahiu. Fui atraz della, envergonhado, pedi-lhe
+perdão; ella resistiu. Um dia, dous dias, tres dias, foi tudo vão;<span
+class="pn">{202}</span> Clemencia não cedia nada, não fallava sequer. Então
+declarei-lhe que me mataria; comprei um revolver, fui ter com ella, e
+apresentei-lh'o: é este.</p>
+
+<p>Monsenhor Caldas empallideceu. José Maria mostrou-lhe o revolver, durante
+alguns segundos, tornou a mettel-o na algibeira, e continuou:</p>
+
+<p>&mdash;Cheguei a dar um tiro. Ella, assustada, desarmou-me e perdoou-me.
+Ajustámos precipitar o casamento, e, pela minha parte, impuz uma condição: doar
+os vinte mil contos á Bibliotheca Nacional. Clemencia atirou-se-me aos braços,
+e approvou-me com um beijo. Dei os vinte mil contos. Ha de ter lido nos
+jornaes... Tres semanas depois casamo-nos. Vossa Reverendissima respira como
+quem chegou ao fim. Qual! Agora é que chegamos ao tragico. O que posso fazer é
+abreviar umas particularidades e supprimir outras; restrinjo-me a Clemencia.
+Não lhe fallo de outras emoções truncadas, que são todas as minhas, abortos de
+prazer, planos que se esgarçam no ar, nem das illusões de saia rota, nem do tal
+passaro... plas... plas... plas...</p>
+
+<p>E, de um salto, José Maria ficou outra vez de pé, agitando os braços, e
+dando ao corpo uma cadencia. Monsenhor Caldas começou a suar frio. No fim de
+alguns segundos, José Maria parou, sentou-se, e<span class="pn">{203}</span>
+reatou a narração, agora mais diffusa, mais derramada, evidentemente mais
+delirante. Contava os sustos em que vivia, desgostos e desconfianças. Não podia
+comer um figo ás dentadas, como outr'ora; o receio do bicho diminuia-lhe o
+sabor. Não cria nas caras alegres da gente que ia pela rua: preoccupações,
+desejos, odios, tristezas, outras cousas, iam dissimuladas por umas tres
+quartas partes dellas. Vivia a temer um filho cego ou surdo-mudo, ou
+tuberculoso, ou assassino, etc. Não conseguia dar um jantar que não ficasse
+triste logo depois da sopa, pela idéa de que uma palavra sua, um gesto da
+mulher, qualquer falta de serviço podia suggerir o epigramma digestivo, na rua,
+debaixo de um lampeão. A experiencia dera-lhe o terror de ser empulhado.
+Confessava ao padre que, realmente, não tinha até agora lucrado nada; ao
+contrario, perdera até, porque fôra levado ao sangue... Ia contar-lhe o caso do
+sangue. Na vespera, deitara-se cedo, e sonhou... Com quem pensava o padre que
+elle sonhou?</p>
+
+<p>&mdash;Não atino...</p>
+
+<p>&mdash;Sonhei que o Diabo lia-me o Evangelho. Chegando ao ponto em que Jesus
+falla dos lyrios do campo, o Diabo colheu alguns e deu-m'os. «Toma, disse-me
+elle; são os lyrios da Escriptura; segundo<span class="pn">{204}</span>
+ouviste, nem Salomão em toda a pompa, pôde hombrear com elles. Salomão é a
+sapiencia. E sabes o que são estes lyrios, José? São os teus vinte annos.»
+Fitei-os encantado; eram lindos como não imagina. O Diabo pegou delles,
+cheirou-os e disse-me que os cheirasse tambem. Não lhe digo nada; no momento de
+os chegar ao nariz, vi sahir de dentro um reptil fedorento e torpe, dei um
+grito, e arrojei para longe as flôres. Então, o Diabo, escancarando uma
+formidavel gargalhada: «José Maria, são os teus vinte annos». Era uma
+gargalhada assim:&mdash;cá, cá, cá, cá, cá...</p>
+
+<p>José Maria ria á solta, ria de um modo estridente e diabolico. De repente,
+parou; levantou-se, e contou que, tão depressa abriu os olhos, como viu a
+mulher deante d'elle, afflicta e desgrenhada. Os olhos de Clemencia eram doces,
+mas elle disse-lhe que os olhos doces tambem fazem mal. Ella arrojou-se-lhe aos
+pés... Neste ponto a physionomia de José Maria estava tão transtornada que o
+padre, tambem de pé, começou a recuar, tremulo e pallido. «Não, miseravel! não!
+tu não me fugirás!» bradava José Maria investindo para elle. Tinha os olhos
+esbugalhados, as temporas latejantes; o padre ia recuando... recuando... Pela
+escada acima ouvia-se um rumor de espadas e de pés. <span
+class="pn">{205}</span></p>
+
+<h1><a name="SECTION000140000">NOITE DE ALMIRANTE</a> </h1>
+
+<p>Deolindo Venta-Grande (era uma alcunha de bordo) sahio do arsenal de marinha
+e enfiou pela rua de Bragança. Batiam tres horas da tarde. Era a fina flor dos
+marujos e, de mais, levava um grande ar de felicidade nos olhos. A corveta
+d'elle voltou de uma longa viagem de instrucção, e Deolindo veiu á terra tão
+depressa alcançou licença. Os companheiros disseram-lhe, rindo:</p>
+
+<p>&mdash;Ah! Venta-Grande! Que noite de almirante vai você pasmar! ceia, viola
+e os braços de Genoveva. Collosinho de Genoveva...</p>
+
+<p>Deolindo sorriu. Era assim mesmo, uma noite de almirante, como elles dizem,
+uma d'essas grandes noites de almirante que o esperava em terra. Começára a
+paixão tres mezes antes de sahir a corveta. Chamava-se Genoveva, caboclinha de
+vinte annos, esperta, olho negro e atrevido. Encontraram-se em casa de
+terceiro<span class="pn">{206}</span> e ficaram morrendo um pelo outro, a tal
+ponto que estiveram prestes a dar uma cabeçada, elle deixaria o serviço e ella
+o acompanharia para a villa mais recondita do interior.</p>
+
+<p>A velha Ignacia, que morava com ella, dissuadiu-os disso; Deolindo não teve
+remedio senão seguir em viagem de instrucção. Eram oito ou dez mezes de
+ausencia. Como fiança reciproca, entenderam dever fazer um juramento de
+fidelidade.</p>
+
+<p>&mdash;Juro por Deus que está no céu. E você?</p>
+
+<p>&mdash;Eu tambem.</p>
+
+<p>&mdash;Diz direito.</p>
+
+<p>&mdash;Juro por Deus que está no céu; a luz me falte na hora da morte.</p>
+
+<p>Estava celebrado o contracto. Não havia descrer da sinceridade de ambos;
+ella chorava doudamente, elle mordia o beiço para dissimular. Afinal
+separaram-se, Genoveva foi ver sahir a corveta e voltou para casa com um tal
+aperto no coração que parecia que «lhe ia dar uma cousa». Não lhe deu nada,
+felizmente; os dias foram passando, as semanas, os mezes, dez mezes, ao cabo
+dos quaes, a corveta tornou e Deolindo com ella.</p>
+
+<p>Lá vai elle agora, pela rua de Bragança, Prainha e Saude, até ao principio
+da Gambôa, onde mora<span class="pn">{207}</span> Genoveva. A casa é uma
+rotulasinha escura, portal rachado do sol, passando o cemiterio dos inglezes;
+lá deve estar Genoveva, debruçada á janella, esperando por elle. Deolindo
+prepara uma palavra que lhe diga. Já formulou esta: «jurei e cumpri» mas
+procura outra melhor. Ao mesmo tempo lembra as mulheres que viu por esse mundo
+de Christo, italianas, marselhezas ou turcas, muitas d'ellas bonitas, ou que
+lhe pareciam taes. Concorda que nem todas seriam para os beiços d'elle, mas
+algumas eram, e nem por isso fez caso de nenhuma. Só pensava em Genoveva. A
+mesma casinha d'ella, tão pequenina, e a mobilia de pé quebrado, tudo velho e
+pouco, isso mesmo lhe lembrava deante dos palacios de outras terras. Foi á
+custa de muita economia que comprou em Trieste um par de brincos, que leva
+agora no bolso com algumas bugigangas. E ella que lhe guardaria? Pode ser que
+um lenço marcado com o nome d'elle e uma ancora na ponta, porque ella sabia
+marcar muito bem. N'isto chegou á Gambôa, passou o cemiterio e deu com a casa
+fechada. Bateu, fallou-lhe uma voz conhecida, a da velha Ignacia, que veiu
+abrir-lhe a porta com grandes exclamações de prazer. Deolindo, impaciente,
+perguntou por Genoveva.</p>
+
+<p>&mdash;Não me falle n'essa maluca, arremetteu a<span class="pn">{208}</span>
+velha. Estou bem satisfeita com o conselho que lhe dei. Olhe lá se fugisse.
+Estava agora como o lindo amor.</p>
+
+<p>&mdash;Mas que foi? que foi?</p>
+
+<p>A velha disse-lhe que descançasse, que não era nada, uma d'essas cousas que
+apparecem na vida; não valia a pena zangar-se. Genoveva andava com a cabeça
+virada...</p>
+
+<p>&mdash;Mas virada porque?</p>
+
+<p>&mdash;Está com um mascate, José Diogo. Conheceu José Diogo, mascate de
+fazendas? Está com elle. Não imagina a paixão que elles têm um pelo outro. Ella
+então anda maluca. Foi o motivo da nossa briga. José Diogo não me sahia da
+porta; eram conversas e mais conversas, até que eu um dia disse que não queria
+a minha casa diffamada. Ah! meu pai do céu! foi um dia de juizo. Genoveva
+investiu para mim com uns olhos d'este tamanho, dizendo que nunca diffamou
+ninguem e não precisava de esmolas. Que esmolas, Genoveva? O que digo é que não
+quero esses cochichos á porta, desde as ave-marias... Dous dias depois estava
+mudada e brigada commigo.</p>
+
+<p>&mdash;Onde mora ella?</p>
+
+<p>&mdash;Na praia Formosa, antes de chegar á pedreira, uma rotula pintada de
+novo.<span class="pn">{209}</span></p>
+
+<p>Deolindo não quiz ouvir mais nada. A velha Ignacia, um tanto arrependida,
+ainda lhe deu avisos de prudencia, mas elle não os escutou e foi andando. Deixo
+de notar o que pensou em todo o caminho; não pensou nada. As idéas
+marinhavam-lhe no cerebro, como em hora de temporal, no meio de uma confusão de
+ventos e apitos. Entre ellas rutilou a faca de bordo, ensanguentada e
+vingadora. Tinha passado a Gambôa, o Sacco do Alferes, entrára na praia
+Formosa. Não sabia o numero da casa, mas era perto da pedreira, pintada de
+novo, e com auxilio da visinhança poderia achal-a. Não contou com o acaso que
+pegou de Genoveva e fel-a sentar á janella, cosendo, no momento em que
+Deolindo ia passando. Elle conheceu-a e parou; ella, vendo o vulto de um homem,
+levantou os olhos e deu com o marujo.</p>
+
+<p>&mdash;Que é isso? exclamou espantada. Quando chegou? Entre, seu
+Deolindo.</p>
+
+<p>E, levantando-se, abriu a rotula e fel-o entrar. Qualquer outro homem
+ficaria alvoroçado de esperanças, tão francas eram as maneiras da rapariga;
+podia ser que a velha se enganasse ou mentisse; podia ser mesmo que a cantiga
+do mascate estivesse acabada. Tudo isso lhe passou pela cabeça, sem a fórma
+precisa do raciocinio ou da reflexão, mas em tumulto<span
+class="pn">{210}</span> e rapido.. Genoveva deixou a porta aberta, fel-o
+sentar-se, pediu-lhe noticias da viagem e achou-o mais gordo; nenhuma commoção
+nem intimidade. Deolindo perdeu a ultima esperança. Em falta de faca,
+bastavam-lhe as mãos para estrangular Genoveva, que era um pedacinho de gente,
+e durante os primeiros minutos não pensou em outra cousa.</p>
+
+<p>&mdash;Sei tudo, disse elle.</p>
+
+<p>&mdash;Quem lhe contou?</p>
+
+<p>Deolindo levantou os hombros.</p>
+
+<p>&mdash;Fosse quem fosse, tornou ella, disseram-lhe que eu gostava muito de
+um moço?</p>
+
+<p>&mdash;Disseram.</p>
+
+<p>&mdash;Disseram a verdade.</p>
+
+<p>Deolindo chegou a ter um impeto; ella fel-o parar só com a acção dos olhos.
+Em seguida disse que, se lhe abrira a porta, é porque contava que era homem de
+juizo. Contou-lhe então tudo, as saudades que curtira, as propostas do mascate,
+as suas recusas, até que um dia, sem saber como, amanhecera gostando d'elle.
+</p>
+
+<p>&mdash;Pode crer que pensei muito e muito em você. Sinhá Ignacia que lhe
+diga se não chorei muito... Mas o coração mudou... Mudou... Conto-lhe tudo
+isto, como se estivesse diante do padre, concluiu sorrindo.<span
+class="pn">{211}</span> </p>
+
+<p>Não sorria de escarneo. A expressão das palavras é que era uma mescla de
+candura e cynismo, de insolencia e simplicidade, que desisto de definir melhor.
+Creio até que insolencia e cynismo são mal applicados. Genoveva não se defendia
+de um erro ou de um perjurio; não se defendia de nada; faltava-lhe o padrão
+moral das acções. O que dizia, em resumo, é que era melhor não ter mudado,
+dava-se bem com a affeição do Deolindo, a prova é que quiz fugir com elle; mas,
+uma vez que o mascate venceu o marujo, a razão era do mascate, e cumpria
+declaral-o. Que vos parece? O pobre marujo citava o juramento de despedida,
+como uma obrigação eterna, diante da qual consentira em não fugir e embarcar:
+«Juro por Deus que está no céu; a luz me falte na hora da morte». Se embarcou,
+foi porque ella lhe jurou isso. Com essas palavras é que andou, viajou, esperou
+e tornou; foram ellas que lhe deram a força de viver. Juro por Deos que está no
+céu; a luz me falte na hora da morte...</p>
+
+<p>&mdash;Pois, sim, Deolindo, era verdade. Quando jurei, era verdade. Tanto
+era verdade que eu queria fugir com você para o sertão. Só Deus sabe se era
+verdade! Mas vieram outras cousas... Veio este moço e eu comecei a gostar
+d'elle...<span class="pn">{212}</span></p>
+
+<p>&mdash;Mas a gente jura é para isso mesmo; é para não gostar de mais
+ninguem... </p>
+
+<p>&mdash;Deixa d'isso, Deolindo. Então você só se lembrou de mim? Deixa de
+partes...</p>
+
+<p>&mdash;A que horas volta José Diogo?</p>
+
+<p>&mdash;Não volta hoje.</p>
+
+<p>&mdash;Não?</p>
+
+<p>&mdash;Não volta; está lá para os lados de Guaratiba com a caixa; deve
+voltar sexta-feira ou sabbado... E por que é que você quer saber? Que mal lhe
+fez elle?</p>
+
+<p>Pode ser que qualquer outra mulher tivesse egual palavra; poucas lhe dariam
+uma expressão tão candida, não de proposito, mas involuntariamente. Vêde que
+estamos aqui muito proximos da natureza. Que mal lhe fez elle? Que mal lhe fez
+esta pedra que cahiu de cima? Qualquer mestre de physica lhe explicaria a queda
+das pedras. Deolindo declarou, com um gesto de desespero, que queria matal-o.
+Genoveva olhou, para elle com desprezo, sorriu de leve e deu um muxoxo; e, como
+elle lhe fallasse de ingratidão e perjurio, não poude disfarçar o pasmo. Que
+perjurio? que ingratidão? Já lhe tinha dito e repetia que quando jurou era
+verdade. Nossa Senhora, que alli estava, em cima da commoda, sabia se era
+verdade ou não. Era assim que lhe pagava o que padeceu? E elle que<span
+class="pn">{213}</span> tanto enchia a bocca de fidelidade, tinha-se lembrado
+d'ella por onde andou?</p>
+
+<p>A resposta d'elle foi metter a mão no bolso e tirar o pacote que lhe trazia.
+Ella abriu-o, aventou as bugigangas, uma por uma, e por fim deu com os brincos.
+Não eram nem poderiam ser ricos; eram mesmo de mau gosto, mas faziam uma vista
+de todos os diabos. Genoveva pegou d'elles, contente, deslumbrada, mirou-os por
+um lado e outro, perto e longe dos olhos, e afinal enfiou-os nas orelhas;
+depois foi ao espelho de pataca, suspenso na parede, entre a janella e a
+rotula, para ver o effeito que lhe faziam. Recuou, approximou-se, voltou a
+cabeça da direita para esquerda e da esquerda para a direita.</p>
+
+<p>&mdash;Sim, senhor, muito bonitos, disse ella, fazendo uma grande mesura de
+agradecimento. Onde é que comprou?</p>
+
+<p>Creio que elle não respondeu nada, nem teria tempo para isso, porque ella
+disparou mais duas ou tres perguntas, uma atraz da outra, tão confusa estava de
+receber um mimo a troco de um esquecimento. Confusão de cinco ou quatro
+minutos; pode ser que dous. Não tardou que tirasse os brincos, e os
+contemplasse e puzesse na caixinha em cima da mesa redonda que estava no meio
+da sala. Elle pela sua parte<span class="pn">{214}</span> começou a crer que,
+assim como a perdeu, estando ausente, assim o outro, ausente, podia tambem
+perdel-a; e, provavelmente, ella não lhe jurára nada.</p>
+
+<p>&mdash;Brincando, brincando, é noite, disse Genoveva.</p>
+
+<p>Com effeito, a noite ia cahindo rapidamente. Já não podiam ver o hospital
+dos Lazaros e mal distinguiam a ilha dos Melões; as mesmas lanchas e canôas,
+postas em secco, defronte da casa, confundiam-se com a terra e o lodo da praia.
+Genoveva accendeu uma vela. Depois foi sentar-se na soleira da porta e
+pediu-lhe que contasse alguma cousa das terras por onde andara. Deolindo
+recusou a principio; disse que se ia embora, levantou-se e deu alguns passos na
+sala. Mas o demonio da esperança mordia e babujava o coração do pobre diabo, e
+elle voltou a sentar-se, para dizer duas ou tres anecdotas de bordo. Genoveva
+escutava com attenção. Interrompidos por uma mulher da visinhança, que alli
+veiu, Genoveva fel-a sentar-se tambem para ouvir «as bonitas historias que o
+Sr. Deolindo estava contando». Não houve outra apresentação. A grande dama que
+prolonga a vigilia para concluir a leitura de um livro ou de um capitulo, não
+vive mais intimamente a vida dos personagens do que a antiga amante do marujo
+vivia as scenas que elle ia contando, tão livremente<span
+class="pn">{215}</span> interessada e presa, como se entre ambos não houvesse
+mais que uma narração de episodios. Que importa á grande dama o auctor do
+livro? Que importava a esta rapariga o contador dos episodios?</p>
+
+<p>A esperança, entretanto, começava a desemparal-o e elle levantou-se
+definitivamente para sahir. Genoveva não quiz deixal-o sahir antes que a amiga
+visse os brincos, e foi mostrar-lh'os com grandes encarecimentos. A outra ficou
+encantada, elogiou-os muito, perguntou se os comprara em França e pediu a
+Genoveva que os puzesse.</p>
+
+<p>&mdash;Realmente, são muito bonitos.</p>
+
+<p>Quero crer que o proprio marujo concordou com essa opinião. Gostou de os
+ver, achou que pareciam feitos para ella e, durante alguns segundos, saboreou o
+prazer exclusivo e superfino de haver dado um bom presente; mas foram só alguns
+segundos.</p>
+
+<p>Como elle se despedisse, Genoveva acompanhou-o até á porta para lhe
+agradecer ainda uma vez o mimo, e provavelmente dizer-lhe algumas cousas meigas
+e inuteis. A amiga, que deixára ficar na sala, apenas lhe ouviu esta palavra:
+«Deixa d'isso, Deolindo»; e esta outra do marinheiro: «Você verá». Não poude
+ouvir o resto, que não passou de um sussurro.<span class="pn">{216}</span></p>
+
+<p>Deolindo seguiu, praia fóra, cabisbaixo e lento, não já o rapaz impetuoso da
+tarde, mas com um ar velho e triste, ou, para usar outra metaphora de marujo,
+como um homem «que vai do meio caminho para terra». Genoveva entrou logo
+depois, alegre e barulhenta. Contou á outra a anecdota dos seus amores
+maritimos, gabou muito o genio do Deolindo e os seus bonitos modos; a amiga
+declarou achal-o grandemente sympathico.</p>
+
+<p>&mdash;Muito bom rapaz, insistiu Genoveva. Sabe o que elle me disse
+agora?</p>
+
+<p>&mdash;Que foi!</p>
+
+<p>&mdash;Que vai matar-se.</p>
+
+<p>&mdash;Jesus!</p>
+
+<p>&mdash;Qual o que! Não se mata, não. Deolindo é assim mesmo; diz as cousas,
+mas não faz. Você verá que não se mata. Coitado, são ciumes. Mas os brincos são
+muito engraçados.</p>
+
+<p>&mdash;Eu aqui ainda não vi d'estes.</p>
+
+<p>&mdash;Nem eu, concordou Genoveva, examinando-os á luz. Depois guardou-os e
+convidou a outra a coser.&mdash;Vamos coser um bocadinho, quero acabar o meu
+corpinho azul...</p>
+
+<p>A verdade é que o marinheiro não se matou. No dia seguinte, alguns dos
+companheiros bateram-lhe<span class="pn">{217}</span> no hombro,
+comprimentando-o pela noite de almirante, e pediram-lhe noticias de Genoveva,
+se estava mais bonita, se chorára muito na ausencia, etc. Elle respondia a tudo
+com um sorriso satisfeito e discreto, um sorriso de pessoa que viveu uma grande
+noite. Parece que teve vergonha da realidade e preferiu mentir.</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p style="text-align: center;">FIM DA NOITE DE ALMIRANTE.</p>
+
+<p><span class="pn">{218}<br>
+{219}</span></p>
+
+<h1><a name="SECTION000150000">MANUSCRITO DE UM SACHRISTÃO</a> </h1>
+
+<h2><a name="SECTION000151000">I</a> </h2>
+
+<p>........... Ao dar com o padre Theophilo fallando a uma senhora, ambos
+sentadinhos no banco da egreja, e a egreja deserta, confesso que fiquei
+espantado. Note-se que conversavam em voz tão baixa e discreta, que eu, por
+mais que afiasse o ouvido e me demorasse a apagar as velas do altar, não podia
+apanhar nada, nada, nada. Não tive remedio senão adivinhar alguma cousa. Que eu
+sou um sacristão philosopho. Ninguem me julgue pela sobrepeliz rota e
+amarrotada nem pelo uso clandestino das galhetas. Sou um philosopho sacristão.
+Tive estudos ecclesiasticos, que interrompi por causa de uma doença e que
+inteiramente deixei por outro motivo, uma paixão violenta, que me trouxe á
+miseria. Como o seminario deixa sempre um certo vinco, fiz-me<span
+class="pn">{220}</span> sacristão aos trinta annos, para ganhar a vida.
+Venhamos, porém, ao nosso padre e á nossa dama.</p>
+
+<h2><a name="SECTION000152000">II</a> </h2>
+
+<p>Antes de ir adiante, direi que eram primos. Soube depois que eram primos,
+nascidos em Vassouras. Os pais d'ella mudaram-se para a côrte, tendo Eulalia (é
+o seu nome) sete annos. Theophilo veiu depois. Na familia era uso antigo que um
+dos rapazes fosse padre. Vivia ainda na Bahia um tio, d'elle, conego.
+Cabendo-lhe n'esta geração envergar a batina, veiu para o seminario de S. José,
+no anno de mil oitocentos e cincoenta e tantos, e foi ahi que o conheci.
+Comprehende-se o sentimento de discrição que me leva a deixar a data no ar.</p>
+
+<h2><a name="SECTION000153000">III</a> </h2>
+
+<p>No seminario, dizia-nos o lente de rhetorica:&mdash;A theologia é a cabeça
+do genero humano, o<span class="pn">{221}</span> latim a perna esquerda, e a
+rhetorica a perna direita.</p>
+
+<p>Justamente da perna direita é que o Theophilo coxeava. Sabia muito as outras
+cousas: theologia, philosophia, latim, historia sagrada; mas a rhetorica é que
+lhe não entrava no cerebro. Elle, para desculpar-se, dizia que a palavra divina
+não precisava de adornos. Tinha então vinte ou vinte e dous annos de edade, e
+era lindo como S. João.</p>
+
+<p>Já n'esse tempo era um mystico; achava em todas as cousas uma significação
+recondita. A vida era uma eterna missa, em que o mundo servia de altar, a alma
+de sacerdote e o corpo de acolyto; nada respondia á realidade exterior. Vivia
+ancioso de tomar ordens para sahir a prégar grandes cousas, espertar as almas,
+chamar os corações á Egreja, e renovar o genero humano. Entre todos os
+apostolos, amava principalmente S. Paulo.</p>
+
+<p>Não sei se o leitor é da minha opinião; eu cuido que se póde avaliar um
+homem pelas suas sympathias historicas; tu serás mais ou menos da familia dos
+personagens que amares devéras. Applico assim aquella lei de Helvetius: «o grau
+de espirito que nos deleita dá a medida exacta do grau de espirito que
+possuimos». No nosso caso, ao menos, a regra não falhou. Theophilo amava S.
+Paulo, adorava-o,<span class="pn">{222}</span> estudava-o dia e noite, parecia
+viver d'aquelle converso que ia de cidade em cidade, á custa de um officio
+mecanico, espalhando a boa nova aos homens. Nem tinha sómente esse modelo,
+tinha mais dous: Hildebrando e Loyola. D'aqui podeis concluir que nasceu com a
+fibra da peleja e do apostolado. Era um faminto de ideal e creação, olhando
+todas as cousas correntes por cima da cabeça do seculo. Na opinião de um
+conego, que lá ia ao seminario, o amor dos dous modelos ultimos temperava o que
+pudesse haver perigoso em relação ao primeiro.</p>
+
+<p>&mdash;Não vá o senhor cair no excesso e no exclusivo, disse-lhe um dia com
+brandura; não pareça que, exaltando sómente a Paulo, intenta diminuir Pedro. A
+egreja, que os commemora ao lado um do outro, metteu-os ambos no Credo; mas
+veneremos Paulo e obedeçamos a Pedro. <em>Super hanc petram...</em></p>
+
+<p>Os seminaristas gostavam do Theophilo, principalmente tres, um Vasconcellos,
+um Soares e um Velloso, todos excellentes rhetoricos. Eram tambem bons rapazes,
+alegres por natureza, graves por necessidade e ambiciosos. Vasconcellos jurava
+que seria bispo; Soares contentava-se com algum grande cargo; Velloso cobiçava
+as meias roxas de conego e<span class="pn">{223}</span> um pulpito. Theophilo
+tentou repartir com elles o pão mystico dos seus sonhos, mas reconheceu
+depressa que era manjar leve ou pesado de mais, e passou a devoral-o sosinho.
+Até aqui o padre; vamos agora á dama.</p>
+
+<h2><a name="SECTION000154000">IV</a> </h2>
+
+<p>Agora a dama. No momento em que os vi fallar baixinho na egreja, Eulalia
+contava trinta e oito annos de edade. Juro-lhes que era ainda bonita. Não era
+pobre; os pais deixaram-lhe alguma cousa. Nem casada; recusou cinco ou seis
+pretendentes.</p>
+
+<p>Este ponto nunca foi entendido pelas amigas. Nenhuma d'ellas era capaz de
+repellir um noivo. Creio até que não pediam outra cousa, quando resavam antes
+de entrar na cama, e ao domingo, á missa, no momento de levantar a Deus. Porque
+é que Eulalia recusava-os todos? Vou dizer desde já o que soube depois.
+Suppuzeram-lhe, a principio, um simples desdem,&mdash;nariz torcido, dizia uma
+d'ellas;&mdash;mas, no fim da terceira recusa, inclinaram-se a crer que havia
+namoro encoberto, e esta explicação prevaleceu.<span class="pn">{224}</span> A
+propria mãi de Eulalia não aceitou outra. Não lhe importaram as primeiras
+recusas; mas, repetindo-se, ella começou a assustar-se. Um dia, voltando de um
+casamento, perguntou á filha, no carro em que vinham, se não se lembrava que
+tinha de ficar só.</p>
+
+<p>&mdash;Ficar só?</p>
+
+<p>&mdash;Sim, um dia hei de morrer. Por ora tudo são flores; cá estou para
+governar a casa; e você é só ler, scismar, tocar e brincar; mas eu tenho de
+morrer, Eulalia, e você tem de ficar só...</p>
+
+<p>Eulalia apertou-lhe muito a mão, sem poder dizer palavra. Nunca pensára na
+morte da mãi; perdel-a era perder metade de si mesma. Na expansão de momento, a
+mãi atreveu-se a perguntar-lhe se amava alguem e não era correspondida; Eulalia
+respondeu que não. Não sympathisara com os candidatos. A boa velha abanou a
+cabeça; fallou dos vinte sete annos da filha, procurou atterral-a com os
+trinta, disse-lhe que, se nem todos os noivos a mereciam egualmente, alguns
+eram dignos de ser aceitos, e que importava a falta de amor? O amor conjugal
+podia ser assim mesmo; podia nascer depois, como um fructo da convivencia.
+Conhecera pessoas que se casaram por simples interesse de familia e
+acabaram<span class="pn">{225}</span> amando-se muito. Esperar uma grande
+paixão para casar era arriscar-se a morrer esperando.</p>
+
+<p>&mdash;Pois sim, mamãi, deixe estar...</p>
+
+<p>E, reclinando a cabeça, fechou um pouco os olhos para espiar alguem, para
+ver o namorado encoberto, que não era só encoberto, mas tambem e principalmente
+impalpavel. Concordo que isto agora é obscuro; não tenho duvida em dizer que
+entramos em pleno sonho.</p>
+
+<p>Eulalia era uma exquisita, para usarmos a linguagem da mãi, ou romanesca,
+para empregarmos a definição das amigas. Tinha, em verdade, uma singular
+organisação. Saiu ao pai. O pai nascera com o amor do enigmatico, do arriscado
+e do obscuro; morreu quando apparelhava uma expedição para ir á Bahia descobrir
+a «cidade abandonada». Eulalia recebeu essa herança moral, modificada ou
+aggravada pela natureza feminil. N'ella dominava principalmente a contemplação.
+Era na cabeça que ella descobria as cidades abandonadas. Tinha os olhos
+dispostos de maneira que não podiam apanhar integralmente os contornos da vida.
+Começou idealisando as cousas, e, se não acabou negando-as, é certo que o
+sentimento da realidade esgarçou-se-lhe até chegar á transparencia fina em que
+o tecido parece confundir-se com o ar.<span class="pn">{226}</span></p>
+
+<p>Aos dezoito annos, recusou o primeiro casamento. A razão é que esperava
+outro, um marido extraordinario, que ella viu e conversou, em sonho ou
+allucinação, a mais radiosa figura do universo, a mais sublime e rara, uma
+creatura em que não havia falha ou quebra, verdadeira grammatica sem
+irregularidades, pura lingua sem solecismos.</p>
+
+<p>Perdão, interrompe-me uma senhora, esse noivo não é obra exclusiva de
+Eulalia, é o marido de todas as virgens de dezesete annos. Perdão, digo-lhe eu,
+ha uma differença entre Eulalia e as outras, é que as outras trocam finalmente
+o original esperado por uma copia gravada, antes ou depois da lettra, e ás
+vezes por uma simples photographia ou lithographia, ao passo que Eulalia
+continuou a esperar o painel authentico. Vinham as gravuras, vinham as
+lithographias, algumas muito bem acabadas, obra de artista e grande artista,
+mas para ella traziam o defeito de ser copias. Tinha fome e sêde de
+originalidade. A vida commum parecia-lhe uma copia eterna. As pessoas do seu
+conhecimento caprichavam em repetir as idéas umas das outras, com eguaes
+palavras, e ás vezes sem differente inflexão, á semelhança do vestuario que
+usavam, e que era do mesmo gosto e feitio. Se ella visse alvejar na rua um
+turbante<span class="pn">{227}</span> mourisco ou fluctuar um pennacho, póde
+ser que perdoasse o resto; mas nada, cousa nenhuma, uma constante uniformidade
+de idéas e colletes. Não era outro o peccado mortal das cousas. Mas, como tinha
+a faculdade de viver tudo o que sonhava, continuou a esperar uma vida nova e um
+marido unico.</p>
+
+<p>Em quanto esperava, as outras iam casando. Assim perdeu ella as tres
+principaes amigas: Julia Costinha, Josepha e Marianna. Viu-as todas casadas,
+viu-as mãis, a principio de um filho, depois de dous, de quatro e de cinco.
+Visitava-as, assistia ao viver dellas, sereno e alegre, mediocre, vulgar, sem
+sonhos nem quedas, mais ou menos feliz. Assim se passaram os annos; assim
+chegou aos trinta, aos trinta e tres, aos trinta e cinco, e finalmente aos
+trinta e oito em que a vemos na egreja, conversando com o padre Theophilo.</p>
+
+<h2><a name="SECTION000155000">V</a> </h2>
+
+<p>N'aquelle dia mandara dizer uma missa por alma da mãe, que morrera um anno
+antes. Não convidou<span class="pn">{228}</span> ninguem: foi ouvil-a sosinha.
+Ouviu-a, resou, depois sentou-se no banco.</p>
+
+<p>Eu, depois de ajudar á missa, voltei para a sacristia, e vi alli o padre
+Theophilo, que viera da roça duas semanas antes e andava á cata de alguma missa
+para comer. Parece que elle ouviu do outro sacristão ou do mesmo padre
+officiante o nome da pessoa suffragada; viu que era o da tia e correu á egreja,
+onde ainda achou a prima no banco. Sentou-se ao pé d'ella, esquecido do logar e
+das posições, e fallaram naturalmente de si mesmos. Não se viam desde longos
+annos. Theophilo visitára-as logo depois de ordenado padre; mas saiu para o
+interior e nunca mais soube d'ellas, nem ellas d'elle.</p>
+
+<p>Já disse que não pude ouvir nada. Estiveram assim perto de meia hora. O
+coadjutor veiu espiar, deu com elles e ficou justamente escandalisado. A
+noticia do caso chegou, dous dias depois, ao bispo. Theophilo recebeu uma
+advertencia amiga, subiu á Conceição e explicou tudo: era uma prima, a quem não
+via desde muito. O padre coadjutor, quando soube da explicação, exclamou com
+muito criterio que o ser parenta não lhe trocava o sexo nem suppria o
+escandalo.</p>
+
+<p>Entretanto, como eu tinha sido companheiro do<span class="pn">{229}</span>
+Theophilo no seminario e gostava d'elle, defendi-o com muito calor e fiz chegar
+o meu testemunho ao palacio da Conceição. Elle ficou-me grato por isso, e d'ahi
+veiu a intimidade de nossas relações. Como os dous primos podiam vêr-se em
+casa, Theophilo passou a visital-a, e ella a recebel-o com muito prazer. No fim
+de oito dias, recebeu-me tambem; ao cabo de duas semanas era eu um dos seus
+familiares.</p>
+
+<p>Dous patricios que se encontram em plaga estrangeira e podem finalmente
+trocar as palavras mamadas na infancia não sentem maior alvoroço do que estes
+dous primos, que eram mais que primos: moralmente eram gemeos. Elle contou-lhe
+a vida e, como os acontecimentos acarretassem os sentimentos, ella olhou para
+dentro da alma do primo e achou que era a sua mesma alma e que, em substancia,
+a vida de ambos era a mesma. A differença é que uma esperou quieta o que o
+outro andou buscando por montes e valles; no mais, egual equivoco, egual
+conflicto com a realidade, identico dialogo de arabe e japonez.</p>
+
+<p>&mdash;Tudo o que me cerca é trivial e chocho, dizia-lhe elle.</p>
+
+<p>Com effeito, gastara o aço da mocidade em divulgar uma concepção que ninguem
+lhe entendeu. Emquanto os tres amigos mais chegados do seminario<span
+class="pn">{230}</span> passavam adiante, trabalhando e servindo, afinados pela
+nota do seculo, Velloso conego e prégador, Soares com uma grande vigararia,
+Vasconcellos a caminho de bispar, elle Theophilo era o mesmo apostolo e mystico
+dos primeiros annos, em plena aurora christã e metaphysica. Vivia
+miseravelmente, costeando a fome, pão magro e batina surrada; tinha instantes e
+horas de tristeza e de abatimento: confessou-os á prima...</p>
+
+<p>&mdash;Tambem o senhor? perguntou ella.</p>
+
+<p>E as suas mãos apertaram-se com energia: entendiam-se. Não tendo achado um
+astro na loja de um relojoeiro, a culpa era do relojoeiro; tal era a logica de
+ambos. Olharam-se com a sympathia de naufragos,&mdash;naufragos e não
+desenganados&mdash;, porque não o eram. Crusoe, na ilha deserta, inventa e
+trabalha; elles não; lançados á ilha, estendiam os olhos para o mar illimitado,
+esperando a aguia que viria buscal-os com as suas grandes azas abertas. Uma era
+a eterna noiva sem noivo, outro o eterno propheta sem Israel; ambos punidos e
+obstinados.</p>
+
+<p>Já disse que Eulalia era ainda bonita. Resta dizer que o padre Theophilo,
+com quarenta e dous annos tinha os cabellos grisalhos e as feições cançadas; as
+mãos não possuiam nem a maciez nem o aroma da<span class="pn">{231}</span>
+sacristia, eram magras e callosas e cheiravam ao matto. Os olhos é que
+conservavam o fogo antigo era por alli que a mocidade interior fallava cá para
+fóra, e força é dizer que elles valiam só por si todo o resto.</p>
+
+<p>As visitas amiudaram-se. Afinal iamos passar alli as tardes e as noites e
+jantar aos domingos. A convivencia produziu dous effeitos, e até tres. O
+primeiro foi que os dous primos, frequentando-se, deram força e vida um ao
+outro; relevem-me esta expressão familiar:&mdash;fizeram um
+<em>pique-nique</em> de illusões. O segundo é que Eulalia, cançada de esperar
+um noivo humano, volveu os olhos para o noivo divino e, assim como ao primo
+viera a ambição de S. Paulo, veiu-lhe a ella a de Santa Thereza. O terceiro
+effeito é o que o leitor já adivinhou.</p>
+
+<p>Já adivinhou. O terceiro foi o caminho de Damasco,&mdash;um caminho ás
+avessas, porque a voz não baixou do céu, mas subiu da terra; não chamava a
+prégar Deus, mas a prégar o homem. Sem metaphora, amavam-se. Outra differença é
+que a vocação aqui não foi subita como em relação ao apostolo das gentes; foi
+vagarosa, muito vagarosa, cochichada, insinuada, bafejada pelas azas da pomba
+mystica.<span class="pn">{232}</span></p>
+
+<p>Note-se que a faina precedeu ao amor. Sussurrava-se desde muito que as
+visitas do padre eram menos de confessor que de peccador. Era mentira; eu juro
+que era mentira. Via-os, acompanhava-os, estudava esses dous temperamentos tão
+espirituaes, tão cheios de si mesmos, que nem sabiam da fama, nem cogitavam no
+perigo da apparencia. Um dia vi-lhes os primeiros signaes do amor. Será o que
+quizerem, uma paixão quarentona, rosa outoniça e pallida, mas era, existia,
+crescia, ia tomal-os inteiramente. Pensei em avisar o padre, não por mim, mas
+por elle mesmo; mas era difficil, e talvez perigoso. Demais, eu era e sou
+gastronomo e psychologo; avisal-o era botar fóra uma fina materia de estudo e
+perder os jantares dominicaes. A psychologia, ao menos, merecia um sacrificio:
+calei-me.</p>
+
+<p>Calei-me á toa. O que eu não quiz dizer, publicou-o o coração de ambos. Se o
+leitor me leu de corrida, conclue por si mesmo a anecdota, conjugando os dous
+primos: mas, se me leu de vagar, adivinha o que succedeu. Os dous mysticos
+recuaram; não tiveram horror um do outro nem de si mesmos, porque essa sensação
+estava excluida de ambos, mas recuaram, agitados de medo e de desejo.</p>
+
+<p>&mdash;Volto para a roça, disse-me o padre.<span class="pn">{233}</span></p>
+
+<p>&mdash;Mas por que?</p>
+
+<p>&mdash;Volto para o roça.</p>
+
+<p>Voltou para a roça e nunca mais cá veiu. Ella, é claro que tinha achado o
+marido que esperava, mas saiu-lhe tão impossivel como a vida que sonhou. Eu,
+gastronomo e psychologo, continuei a ir jantar com Eulalia aos domingos.
+Considero que alguma cousa deve subsistir debaixo do sol, ou amor ou o jantar,
+se é certo, como quer Schiller, que o amor e a fome governam este mundo.</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p style="text-align: center;">FIM DO MANUSCRITO DE UM SACRISTÃO</p>
+
+<p><span class="pn">{234}<br>
+{235}</span></p>
+
+<h1><a name="SECTION000160000">EX CATHEDRA</a> </h1>
+
+<p>&mdash;Padrinho, vosmecê assim fica cégo.</p>
+
+<p>&mdash;O que?</p>
+
+<p>&mdash;Vosmecê fica cégo; lê que é um desespero. Não, senhor, dê cá o
+livro.</p>
+
+<p>Caetaninha tirou-lhe o livro das mãos. O padrinho deu uma volta, e foi
+metter-se no gabinete, onde lhe não faltavam livros; fechou-se por dentro e
+continuou a ler. Era o seu mal; lia com excesso, lia de manhã, de tarde e de
+noute, ao almoço e ao jantar, antes de dormir, depois do banho, lia andando,
+lia parado, lia em casa e na chacara, lia antes de ler e depois de ler, lia
+toda a casta de livros, mas especialmente direito (em que era graduado),
+mathematicas e philosophia; ultimamente dava-se tambem ás sciencias naturaes.
+</p>
+
+<p>Peior que cégo, ficou aluado. Foi pelos fins de 1873, na Tijuca, que elle
+começou a dar signaes de<span class="pn">{236}</span> transtorno cerebral; mas,
+como eram leves e poucos, só em Março ou Abril de 1874 é que a afilhada lhe
+percebeu a alteração. Um dia, almoçando, interrompeu elle a leitura para lhe
+perguntar:</p>
+
+<p>&mdash;Como é que eu me chamo?</p>
+
+<p>&mdash;Como é que padrinho se chama? repetiu ella espantada. Chama-se
+Fulgencio. </p>
+
+<p>&mdash;De hoje em diante, chamar-me-has Fulgencius.</p>
+
+<p>E, enterrando a cara no livro, proseguiu na leitura. Caetaninha referiu o
+caso ás mucamas, que lhe declararam desconfiar desde algum tempo, que elle não
+andava bom. Imagine-se o medo da moça; mas o medo passou depressa para só
+deixar a piedade que lhe augmentou a affeição. Tambem a mania era restricta e
+mansa; não passava dos livros. Fulgencio vivia do escripto, do impresso, do
+doutrinal, do abstracto, dos principios e das formulas. Com o tempo chegou, não
+já á superstição, mas á allucinação da theoria. Uma de suas maximas era, que a
+liberdade não morre onde restar uma folha de papel para decretal-a; e um dia,
+acordando com a idea de melhorar a condição dos turcos, redigiu uma
+constituição, que mandou de presente ao ministro inglez, em Petrópolis. De
+outra occasião, metteu-se a estudar nos livros a anatomia dos olhos, para
+verificar se<span class="pn">{237}</span> realmente elles podiam vêr, e
+concluiu que sim.</p>
+
+<p>Digam-me, se, em taes condições, a vida de Caetaninha podia ser alegre. Não
+lhe faltava nada, é verdade, porque o padrinho era rico. Foi elle mesmo que a
+educou, desde os sete annos, quando perdeu a mulher; ensinou-lhe a ler e
+escrever, francez, um pouco de historia e geographia, para não dizer quasi
+nada, e incumbiu uma das mucamas de lhe ensinar crivo, renda e costura. Tudo
+isso é verdade. Mas Caetaninha fizera quatorze annos; e, se nos primeiros
+tempos bastavam os brinquedos e as escravas para divertil-a, era chegada a
+idade em que os brinquedos perdem de moda e as escravas de interesse, em que
+não ha leituras nem escripturas que façam de uma casa solitaria na Tijuca um
+paraiso. Descia algumas vezes, raras, e de corrida; não ia a theatros nem
+bailes; não fazia nem recebia visitas. Quando via passar na estrada uma
+cavalgada de homens e senhoras, punha a alma na garupa dos animaes, e deixava-a
+ir com elles, ficando-lhe o corpo, ao pé do padrinho, que continuava a ler.</p>
+
+<p>Um dia, estando na chacara, viu parar ao portão um rapaz, montado n'uma
+bestinha, e ouviu que lhe perguntava se era alli a casa do doutor Fulgencio.
+</p>
+
+<p>&mdash;Sim, senhor, é aqui mesmo.<span class="pn">{238}</span></p>
+
+<p>&mdash;Podia fallar-lhe?</p>
+
+<p>Caetaninha respondeu que ia ver; entrou em casa, e foi ao gabinete, onde
+achou o padrinho remoendo, com a mais voluptuaria e beata das expressões, um
+capitulo de Hegel. Mocinho? Que mocinho? Caetaninha disse-lhe que era um
+mocinho vestido de luto. De luto? repetiu o velho doutor fechando
+precipitadamente o livro; ha de ser elle. Esquecia-me dizer (mas ha tempo para
+tudo) que, tres mezes antes, fallecera um irmão de Fulgencio, no norte,
+deixando um filho natural. Como o irmão, dias antes de morrer, lhe escrevera
+recommendando o orphão que ia deixar, Fulgencio mandou que este viesse para o
+Rio de Janeiro. Ouvindo que estava alli um mocinho de luto, concluiu que era o
+sobrinho, e não concluiu mal. Era elle mesmo.</p>
+
+<p>Parece que até aqui nada ha que destoe de uma historia ingenuamente
+romanesca: temos um velho lunatico, uma mocinha solitaria e suspirosa, e vemos
+despontar inopinadamente um sobrinho. Para não descer da região poetica em que
+nos achamos, deixo de dizer que a mula em que o Raymundo veiu montado, foi
+reconduzida por um preto ao alugador; passo tambem por alto as circumstancias
+da accommodação do rapaz, limitando-me a dizer que, como<span
+class="pn">{239}</span> o tio, á força de viver lendo, esquecera inteiramente
+que o mandára buscar, nada havia em casa preparado para recebel-o. Mas a casa
+era grande e abastada; uma hora depois, estava o rapaz aposentado n'um lindo
+quarto, d'onde podia ver a chacara, a cisterna antiga, o lavadouro, basta folha
+verde e vasto céu azul.</p>
+
+<p>Creio que ainda não disse a idade do hospede; tem quinze annos e um ameaço
+de buço; é quasi uma criança. Logo, se a nossa Caetaninha ficou alvoroçada, e
+as mucamas andam de um lado para outro espiando e fallando do «sobrinho de
+sinhô velho que chegou de fóra», é porque a vida alli não tem outros episodios,
+não porque elle seja homem feito. Essa foi tambem a impressão do dono da casa;
+mas, aqui vae a differença. A afilhada não advertia que o officio do buço é
+virar bigode, ou, se pensou n'isso, fel-o tão vagamente, que não vale a pena de
+o pôr aqui. Não assim o velho Fulgencio. Comprehendeu este que havia alli a
+massa de um marido, e resolveu casal-os; mas viu tambem que, a menos de lhes
+pegar nas mãos e mandar que se amassem, o acaso podia guiar as cousas por modo
+differente.</p>
+
+<p>Uma idéia traz outra. A idéia de os casar pegou<span class="pn">{240}</span>
+por um lado com uma de suas opiniões recentes. Era esta que as calamidades ou
+os simples dissabores nas relações do coração provinham de que o amor era
+praticado de um modo empyrico; faltava-lhe a base scientifica. Um homem e uma
+mulher, desde que conhecessem as razões physicas e metaphysicas d'esse
+sentimento, estariam mais aptos a recebel-o e nutril-o com efficacia, do que
+outro homem e outra mulher que nada soubessem do phenomeno.</p>
+
+<p>&mdash;Os meus pequenos estão verdes, dizia elle comsigo: tenho tres a
+quatro annos diante da mim, e posso começar desde já a preparal-os. Vamos com
+logica; primeiro os alicerces, depois as paredes, depois o tecto..., em vez de
+começar pelo tecto... Dia virá em que se aprenda a amar como se aprende a
+ler... Nesse dia...</p>
+
+<p>Estava atordoado, deslumbrado, delirante. Foi ás estantes, desceu alguns
+tomos, astronomia, geologia, physiologia, anatomia, jurisprudencia, politica,
+linguistica, abriu-os, folheou-os, comparou-os, extractou d'aqui e d'ali, até
+formular um programma de ensino. Compunha-se este de vinte capitulos, nos quaes
+entravam as noções geraes do universo, uma definição da vida, demonstração da
+existencia do homem e da mulher, organisação das sociedades, definição e
+analyse<span class="pn">{241}</span> das paixões, definição e analyse do amor,
+suas causas, necessidades e effeitos. Em verdade, as materias eram crespas;
+elle entendeu tornal-as doceis, tratando-as em phrase corriqueira e chã,
+dando-lhes um tom puramente familiar, como a astronomia de Fontenelle. E dizia
+com emphasis que o essencial da fructa era o miolo, não a casca.</p>
+
+<p>Tudo isso era engenhoso; mas aqui vai o mais engenhoso. Não os convidou a
+aprender. Uma noite, olhando para o céo, disse que as estrellas estavam
+brilhando muito; e o que eram as estrellas? acaso sabiam elles o que eram as
+estrellas?</p>
+
+<p>&mdash;Não senhor.</p>
+
+<p>D'aqui a iniciar uma descripção do universo era um passo. Fulgencio deu o
+passo, com tal presteza e naturalidade, que os deixou encantados e elles
+pediram a viagem toda.</p>
+
+<p>&mdash;Não, disse o velho; não esgotemos tudo hoje, nem isto se entende bem
+se não de vagar; amanhã ou depois...</p>
+
+<p>Foi assim, sorrateiramente, que elle começou a executar o plano. Os dois
+alumnos, assombrados com o mundo astronomico, pediam-lhe todos os dias que
+continuasse, e, posto que no fim dessa primeira parte Caetaninha ficasse um
+tanto confusa, ainda assim<span class="pn">{242}</span> quiz ouvir as outras
+cousas que o padrinho lhe prometteu.</p>
+
+<p>Não digo nada da familiaridade entre os dois alumnos, por ser cousa obvia.
+Entre quatorze e quinze annos a differença é tão pequena, que os portadores das
+duas edades, não tinha mais que dar a mão um ao outro. Foi o que aconteceu.</p>
+
+<p>No fim de tres semanas pareciam ter sido criados juntos. Só isto bastava a
+mudar a vida de Caetaninha; mas Raymundo trouxe-lhe mais. Não ha dez minutos,
+vimol-a olhar com saudade as cavalgadas de homens e damas que passavam na
+estrada. Raymundo matou-lhe a saudade, ensinando-lhe a montaria, apezar da
+relutancia do velho, que temia algum desastre; mas este cedeu e alugou dois
+cavallos. Caetaninha mandou fazer uma linda amazona, Raymundo veiu á cidade
+comprar-lhe as luvas e um chicotinho, com o dinheiro do tio&mdash;já se
+sabe&mdash;que tambem lhe deu as botas e o demais apparelho masculino. D'ahi a
+pouco era um gosto vel-os ambos, galhardos e intrepidos, abaixo e acima da
+montanha.</p>
+
+<p>Em casa, brincavam á larga, jogavam damas e cartas, cuidavam de aves e
+plantas. Brigavam muita vez; mas, segundo as mucamas, eram brigas de mentira,
+só para fazerem as pazes depois. Era o pico do<span class="pn">{243}</span>
+arrufo. Raymundo vinha ás vezes á cidade, a mandado do tio. Caetaninha ia
+esperal-o ao portão, espiando anciosa. Quando elle chegava, brigavam, porque
+ella queria tirar-lhe os maiores embrulhos, a pretexto de que elle vinha
+cançado, e elle queria dar-lhe os mais leves, allegando que ella era fraquinha.
+</p>
+
+<p>No fim de quatro mezes, a vida era totalmente outra. Póde-se até dizer que
+só então é que Caetaninha começou a usar rosas no cabello. Antes d'isso vinha
+muita vez despenteada para a mesa do almoço. Agora, não só se penteava logo
+cedo, mas até, como digo, trazia rosas, uma ou duas; estas eram, ou colhidas na
+vespera, por ella mesma, e guardadas em agua, ou na propria manhã, por elle,
+que ia levar-lh'as á janella. A janella era alta, mas Raymundo, pondo-se na
+ponta dos pés, e levantando o braço, conseguia dar-lhe as rosas em mão. Foi por
+esse tempo que elle adquiriu o séstro de mortificar o buço, puchando-o muito de
+um e outro lado. Caetaninha chegava a bater-lhe nos dedos, para lhe tirar tão
+máo costume.</p>
+
+<p>Entretanto, as licções continuavam regularmente. Já tinham uma idéa geral do
+universo, e uma definição da vida, que nenhum d'elles entendeu. Assim chegaram
+ao quinto mez. No sexto, começou a demonstração<span class="pn">{244}</span> da
+existencia do homem. Caetaninha não pôde suster o riso, quando o padrinho,
+expondo a materia, perguntou-lhes se elles sabiam que existiam e porque; mas
+ficou logo séria, e respondeu que não.</p>
+
+<p>&mdash;Nem você?</p>
+
+<p>&mdash;Nem eu, não, senhor, concordou o sobrinho,</p>
+
+<p>Fulgencio iniciou uma demonstração em regra, profundamente cartesiana. A
+seguinte licção foi na chacara. Chovera muito nos dias anteriores; mas o sol
+agora alagava tudo de luz, e a chacara parecia uma linda viuva, que troca o véo
+do luto pelo do noivado. Raymundo, como se quizesse copiar o sol, (copiam-se
+naturalmente os grandes) despedia das pupillas um olhar vasto e longo, que
+Caetaninha recebia, palpitando, como a chacara. Fusão, transfusão, diffusão,
+confusão e profusão de seres e de cousas.</p>
+
+<p>Emquanto o velho fallava, recto, logico, vagaroso, curtido de formulas, com
+os olhos fixos em parte nenhuma, os dous alumnos faziam trinta mil esforços
+para escutal-o, mas vinham trinta mil incidentes distrahil-os. Foi a principio
+um casal de borboletas que brincavam no ar. Façam-me o favor de dizer o que é
+que póde haver extraordinario n'um casal de borboletas? Concordo que eram
+amarellas, mas esta circumstancia não basta a explicar a distracção. O
+facto<span class="pn">{245}</span> de voarem uma atraz da outra, ora á direita,
+ora á esquerda, ora abaixo, ora acima, tambem não dá a razão do desvio, visto
+que nunca as borboletas voaram, em linha recta, como simples militares.</p>
+
+<p>&mdash;O entendimento, dizia o velho, o entendimento, segundo eu já
+expliquei... </p>
+
+<p>Raymundo olhou para Caetaninha, e achou-a olhando para elle. Um e outro
+pareciam confusos e acanhados. Ella foi a primeira que baixou os olhos ao
+regaço. Depois, levantou-os, afim de os levar a outra parte, mais remota, o
+muro da chacara; na passagem como os de Raymundo ali estivessem, ella
+encarou-os o mais rapidamente que pôde. Felizmente, o muro apresentava um
+expectaculo que a encheu de admiração: um casal de andorinhas (era o dia dos
+casaes) saltitava n'elle, com a graça peculiar ás pessoas aladas. Saltitavam
+piando, dizendo cousas uma á outra, o que quer que fosse, talvez isto&mdash;que
+era bem bom não haver philosophia nos muros das chacaras. Se não quando, uma
+d'ellas voou, provavelmente a dama, e a outra, naturalmente o garção, não se
+deixou ficar atraz: esticou as azas e seguiu o mesmo caminho. Caetaninha desceu
+os olhos á gramma do chão.</p>
+
+<p>Quando a licção acabou, d'ahi a alguns minutos,<span class="pn">{246}</span>
+ella pediu ao padrinho que continuasse, e, recusando este, tomou-lhe o braço e
+convidou-o a dar um giro na chacara.</p>
+
+<p>&mdash;Está muito sol, contestou o velho.</p>
+
+<p>&mdash;Vamos pela sombra.</p>
+
+<p>&mdash;Faz muito calor.</p>
+
+<p>Caetaninha propoz irem continuar na varanda; mas o padrinho disse-lhe
+mysteriosamente que Roma não se fez n'um dia, e acabou declarando que só dois
+dias depois continuaria a licção. Caetaninha recolheu-se ao quarto, esteve ali
+tres quartos de hora fechada, sentada, á janella, de um lado para outro,
+procurando as cousas que tinha na mão, e chegando ao cumulo de ver-se a si
+mesma, cavalgando, estrada acima, ao lado de Raymundo. De uma vez aconteceu-lhe
+ver o rapaz no muro da chacara; mas attentou bem, reconheceu que era um par de
+bezouros que zumbiam no ar. E dizia um d'elles ao outro:</p>
+
+<p>&mdash;Tu és a flor da nossa raça, a flor do ar, a flor das flôres, o sol e
+a lua da minha vida.</p>
+
+<p>Ao que respondia o outro:</p>
+
+<p>&mdash;Ninguem te vence na belleza e na graça; o teu zumbir é um éco das
+fallas divinas; mas, deixa-me... deixa-me...</p>
+
+<p>&mdash;Porque deixar-te, alma d'estes bosques?<span
+class="pn">{247}</span></p>
+
+<p>&mdash;Já te disse, rei dos ares puros, deixa-me.</p>
+
+<p>&mdash;Não me falles assim, feitiço e gala das mattas. Tudo por cima e em
+volta de nós está dizendo que me deves fallar de outra maneira. Conheces a
+cantiga dos mysterios azues?</p>
+
+<p>&mdash;Vamos ouvil-a nas folhas verdes da larangeira.</p>
+
+<p>&mdash;As da mangueira são mais bonitas.</p>
+
+<p>&mdash;Tu és mais linda que umas e outras.</p>
+
+<p>&mdash;E tu, sol da minha vida?</p>
+
+<p>&mdash;Lua do meu ser, eu sou o que tu quizeres...</p>
+
+<p>Era assim que os dous bezouros fallavam. Ella ouviu-os scismando. Como elles
+desapparecessem, ella entrou, viu as horas e saiu do quarto. Raymundo estava
+fóra; ella foi esperal-o ao portão, dez, vinte, trinta, quarenta, cincoenta
+minutos. Na volta disseram pouco; uniram-se e separaram-se duas ou tres vezes.
+Da ultima vez foi ella que o trouxe á varanda, para mostrar-lhe um enfeite que
+julgava perdido e acabava de achar. Façam-lhe a justiça de crer que era pura
+mentira. Entretanto, Fulgencio antecipou a licção; deu-a no dia seguinte, entre
+o almoço e o jantar. Nunca a palavra lhe saiu tão limpida e singella. E assim
+devia ser; tratava-se da existencia do homem, capitulo profundamente
+methaphysico, em que era preciso considerar tudo e por todos os lados.<span
+class="pn">{248}</span></p>
+
+<p>&mdash;Estão entendendo? perguntava elle.</p>
+
+<p>&mdash;Perfeitamente.</p>
+
+<p>E a licção seguia até o fim. No fim, deu-se a mesma cousa da vespera;
+Caetaninha, como se tivesse medo de ficar só, pediu-lhe para continuar ou
+passear; elle recusou uma e outra cousa, bateu-lhe paternalmente na cara, e foi
+encerrar-se no gabinete.</p>
+
+<p>&mdash;Para a semana, pensava o velho doutor, dando volta á chave, para a
+semana entro na organisação das sociedades; todo o mez que vem e o outro é para
+a definição e classificação das paixões; em maio, passaremos ao amor... já será
+tempo...</p>
+
+<p>Emquanto elle dizia isto, e fechava a porta, alguma cousa resoava do lado da
+varanda&mdash;um trovão de beijos, segundo disseram as lagartas da chacara;
+mas, para as lagartas qualquer pequeno rumor vale um trovão. Quanto aos
+auctores do ruido nada positivo se sabe. Parece que um maribondo, vendo
+Caetaninha e Raymundo unidos n'essa occasião, concluiu da coincidencia para a
+consequencia, e entendeu que eram elles; mas um velho gafanhoto demonstrou a
+inanidade do fundamento, allegando que ouvira muitos beijos, outr'ora, em
+logares onde nem Raymundo nem Caetaninha puzera os pés. Convenhamos que este
+outro argumento não prestava para nada; mas, tal é o<span
+class="pn">{249}</span> prestigio de um bom caracter, que o gafanhoto foi
+acclamado como tendo ainda uma vez defendido a verdade e a razão. E d'ahi pode
+ser que fosse assim mesmo. Mas um trovão de beijos? Supponhamos dous;
+supponhamos tres ou quatro.</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p style="text-align: center;">FIM DA EX CATHEDRA.</p>
+
+<p><span class="pn">{250}<br>
+{251}</span></p>
+
+<h1><a name="SECTION000170000">A SENHORA DO GALVÃO</a> </h1>
+
+<p>Começaram a rosnar dos amores d'este advogado com a viuva do brigadeiro,
+quando elles não tinham ainda passado dos primeiros obsequios. Assim vai o
+mundo. Assim se fazem algumas reputações más, e, o que parece absurdo, algumas
+boas. Com effeito, ha vidas que só têm prologo; mas toda a gente falla do
+grande livro que se lhe segue, e o autor morre com as folhas em branco. No
+presente caso, as folhas escreveram-se, formando todas um grosso volume de
+tresentas paginas compactas, sem contar as notas. Estas foram postas no fim,
+não para esclarecer, mas para recordar os capitulos passados; tal é o methodo
+n'esses livros de collaboração. Mas a verdade é que elles apenas combinavam no
+plano, quando a mulher do advogado recebeu este bilhete anonymo:</p>
+
+<p>«Não é possivel que a senhora se deixe embair mais tempo, tão
+escandalosamente, por uma de suas<span class="pn">{252}</span> amigas, que se
+consola da viuvez, seduzindo os maridos alheios, quando bastava conservar os
+cachos...»</p>
+
+<p>Que cachos? Maria Olympia não perguntou que cachos eram; eram da viuva do
+brigadeiro, que os trazia por gosto, e não por moda. Creio que isto se passou
+em 1853. Maria Olympia leu e releu o bilhete; examinou a lettra, que lhe
+pareceu de mulher e disfarçada, e percorreu mentalmente a primeira linha das
+suas amigas, a ver se descobria a autora. Não descobriu nada, dobrou o papel e
+fitou o tapete do chão, cahindo-lhe os olhos justamente no ponto do desenho em
+que dous pombinhos ensinavam um ao outro a maneira de fazer de dous bicos um
+bico. Ha d'essas ironias do acaso, que dão vontade de destruir o universo.
+Afinal metteu o bilhete no vestido, e encarou a mucama, que esperava por ella,
+e que lhe perguntou:</p>
+
+<p>&mdash;Nhanhã não quer mais ver o chale?</p>
+
+<p>Maria Olympia pegou no chale, que a mucama lhe dava e foi pol-o aos hombros,
+defronte do espelho. Achou que lhe ficava bem, muito melhor que á viuva.
+Cotejou as suas graças com as da outra. Nem os olhos nem a bocca eram
+comparaveis; a viuva tinha os hombros estreitinhos, a cabeça grande, e o andar
+feio. Era alta; mas que tinha ser alta? E os<span class="pn">{253}</span>
+trinta e cinco annos de edade, mais nove que ella? Emquanto fazia essas
+reflexões, ia compondo, pregando e despregando o chale.</p>
+
+<p>&mdash;Este parece melhor, que o outro, aventurou a mucama.</p>
+
+<p>&mdash;Não sei... disse a senhora, chegando-se mais para a janella, com os
+dous nas mãos.</p>
+
+<p>&mdash;Bota o outro, nhanhã.</p>
+
+<p>A nhanhã obdeceu. Experimentou cinco chales dos dez que alli estavam, em
+caixas, vindos de uma loja da rua da Ajuda. Concluiu que os dois primeiros eram
+os melhores; mas aqui surgiu uma complicação&mdash;minima, realmente&mdash;mas
+tão subtil e profunda na solução, que não vacillo em recommendal-a aos nossos
+pensadores de 1906. A questão era saber qual dos dois chales escolheria, uma
+vez que o marido, recente advogado, pedia-lhe que fosse economica.
+Contemplava-os alternadamente, e ora preferia um, ora outro. De repente,
+lembrou-lhe a aleivosia do marido, a necessidade de mortifical-o, castigal-o,
+mostrar-lhe que não era peteca de ninguem, nem maltrapilha; e, de raiva,
+comprou ambos os chales.</p>
+
+<p>Ao bater das quatro horas (era a hora do marido) nada de marido. Nem ás
+quatro, nem ás quatro e meia. Maria Olympia imaginava uma porção de<span
+class="pn">{254}</span> cousas aborrecidas, ia á janella, tornava a entrar,
+temia um desastre ou doença repentina; pensou tambem que fosse uma sessão do
+jury. Cinco horas, e nada. Os cachos da viuva tambem negrejavam diante d'ella,
+entre a doença e o jury, com uns tons de azul-ferrete, que era provavelmente a
+côr do diabo. Realmente era para exhaurir a paciencia de uma moça de vinte e
+seis annos. Tinte e seis annos; não tinha mais. Era filha de um deputado do
+tempo da Regencia, que a deixou menina; e foi uma tia que a educou com muita
+distincção. A tia não a levou muito cedo a bailes e expectaculos. Era
+religiosa, conduziu-a primeiro á egreja. Maria Olympia tinha a vocação da vida
+exterior, e, nas procissões e missas cantadas, gostava principalmente do rumor,
+da pompa; a devoção era sincera, tibia e distrahida. A primeira cousa que ella
+via na tribuna das egrejas, era a si mesma. Tinha um gosto particular era olhar
+de cima para baixo, fitar a multidão das mulheres ajoelhadas ou sentadas, e os
+rapazes, que, por baixo do coro ou nas portas lateraes, temperavam com
+attitudes namoradas as ceremonias latinas. Não entendia os sermões; o resto,
+porém, orchestra, canto, flores, luzes, sanefas, ouros, gentes, tudo exercia
+n'ella um singular feitiço. Magra devoção, que escasseou ainda mais com<span
+class="pn">{255}</span> o primeiro expectaculo e o primeiro baile. Não alcançou
+a Candiani, mas ouviu a Ida Edelvira, dansou á larga, e ganhou fama de
+elegante.</p>
+
+<p>Eram cinco horas e meia, quando o Galvão chegou. Maria Olympia, que então
+passeava na sala, tão depressa lhe ouviu os pés, fez o que faria qualquer outra
+senhora na mesma situação: pegou de um jornal de modas, e sentou-se, lendo, com
+um grande ar de pouco caso. Galvão entrou offegante, risonho, cheio de
+carinhos, perguntando-lhe se estava zangada, e jurando que tinha um motivo para
+a demora, um motivo que ella havia de agradecer, se soubesse...</p>
+
+<p>&mdash;Não é preciso, interrompeu ella friamente. Levantou-se; foram jantar.
+Fallaram pouco; ella menos que elle, mas em todo o caso, sem parecer magoada.
+Póde ser que entrasse a duvidar da carta anonyma; póde ser tambem que os dous
+chales lhe pesassem na consciencia. No fim do jantar, Galvão explicou a demora;
+tinha ido, a pé, ao theatro Provisorio, comprar um camarote para essa noite:
+davam os <em>Lombardos</em>. De lá, na volta, foi encommendar um carro...</p>
+
+<p>Os <em>Lombardos</em>? interrompeu Maria Olympia.</p>
+
+<p>&mdash;Sim; canta o Laboceta, canta a Jacobson; ha bailado. Você nunca ouviu
+os <em>Lombardos</em>?<span class="pn">{256}</span></p>
+
+<p>&mdash;Nunca.</p>
+
+<p>&mdash;E ahi está porque me demorei. Que é que você merecia agora? Merecia
+que eu lhe cortasse a ponta d'esse narizinho arrebitado...</p>
+
+<p>Como elle acompanhasse o dito com um gesto, ella recuou a cabeça; depois
+acabou de tomar o café. Tenhamos pena da alma d'esta moça. Os primeiros
+accórdes dos <em>Lombardos</em> ecoavam n'ella, emquanto a carta anonyma lhe
+trazia uma nota lugubre, especie de <em>Requiem</em>. E porque é que a carta
+não seria uma calumnia? Naturalmente não era outra cousa: alguma invenção de
+inimigas, ou para affligil-a, ou para fazel-os brigar. Era isto mesmo.
+Entretanto, uma vez que estava avisada, não os perderia de vista. Aqui
+acudiu-lhe uma idéa: consultou o marido se mandaria convidar a viuva.</p>
+
+<p>&mdash;Não, respondeu elle; o carro só tem dois logares, e eu não hei de ir
+na boléa.</p>
+
+<p>Maria Olympia sorriu de contente, e levantou-se. Ha muito tempo que tinha
+vontade de ouvir os <em>Lombardos</em>. Vamos aos <em>Lombardos</em>! Trá, lá,
+lá, lá... Meia hora depois foi vestir-se. Galvão, quando a viu prompta d'ahi a
+pouco, ficou encantado. Minha mulher é linda, pensou elle; e fez um gesto para
+estreital-a ao peito; mas a mulher recuou, pedindo-lhe<span
+class="pn">{257}</span> que não a amarrotasse. E, como elle, por umas
+velleidades de camareiro, pretendeu concertar-lhe a pluma do cabello, ella
+disse-lhe enfastiada:</p>
+
+<p>&mdash;Deixa, Eduardo! Já veiu o carro?</p>
+
+<p>Entraram no carro e seguiram para o theatro. Quem é que estava no camarote
+contiguo ao d'elles? Justamente a viuva e a mãe. Esta coincidencia, filha do
+acaso, podia fazer crer algum ajuste prévio. Maria Olympia chegou a
+suspeital-o; mas a sensação da entrada não lhe deu tempo de examinar a
+suspeita. Toda a sala voltara-se para vel-a, e ella bebeu, a tragos demorados,
+o leite da admiração publica. Demais, o marido teve a inspiração machiavelica
+de lhe dizer ao ouvido: «Antes a mandasses convidar; ficava-nos devendo o
+favor.» Qualquer suspeita cahiria diante d'esta palavra. Comtudo, ella cuidou
+de os não perder de vista&mdash;e renovou a resolução de cinco em cinco
+minutos, durante meia hora, até que, não podendo fixar a attenção, deixou-a
+andar. Lá vae ella, inquieta, vai direito ao clarão das luzes, ao explendor dos
+vestuarios, um pouco á opera, como pedindo a todas as cousas alguma sensação
+deleitosa em que se espreguice uma alma fria e pessoal. E volta depois á
+propria dona, ao seu leque, ás suas luvas, aos adornos do vestido, realmente
+magnifico.<span class="pn">{258}</span> Nos intervallos, conversando com a
+viuva, Maria Olympia tinha a voz e os gestos do costume, sem calculo, sem
+esforço, sem sentimento, esquecida da carta. Justamente nos intervallos é que o
+marido, com uma discrição rara entre os filhos dos homens, ia para os
+corredores ou para o saguão pedir noticias do ministerio.</p>
+
+<p>Juntas sahiram do camarote, no fim, e atravessaram os corredores. A modestia
+com que a viuva trajava podia realçar a magnificencia da amiga. As feições,
+porém, não eram o que esta affirmou, quando ensaiava os chales de manhã. Não,
+senhor; eram engraçadas, e tinham um certo pico original. Os hombros
+proporcionaes e bonitos. Não contava trinta e cinco annos, mas trinta e um;
+nasceu em 1822, na vespera da independencia, tanto que o pae, por brincadeira,
+entrou a chamal-a Ypiranga, e ficou-lhe esta alcunha entre as amigas. Demais,
+lá estava em Santa Rita o assentamento de baptismo.</p>
+
+<p>Uma semana depois, recebeu Maria Olympia outra carta anonyma. Era mais longa
+e explicita. Vieram outras, uma por semana, durante tres mezes. Maria Olympia
+leu as primeiras com algum aborrecimento; as seguintes foram callejando a
+sensibilidade. Não havia duvida que o marido<span class="pn">{259}</span>
+demorava-se fóra, muitas vezes, ao contrario do que fazia d'antes, ou sahia á
+noite e regressava tarde; mas, segundo dizia, gastava o tempo no Wallerstein ou
+no Bernardo, em palestras politicas. E isto era verdade, uma verdade de cinco a
+dez minutos, o tempo necessario para recolher alguma anecdota ou novidade, que
+pudesse repetir em casa, á laia de documento. D'alli seguia para o largo de S.
+Francisco, e mettia-se no omnibus.</p>
+
+<p>Tudo era verdade. E, comtudo, ella continuava a não crêr nas cartas.
+Ultimamente, não se dava mais ao trabalho de as refutar comsigo; lia-as uma só
+vez, e rasgava-as. Com o tempo foram surgindo alguns indicios menos vagos,
+pouco a pouco, ao modo do apparecimento da terra aos navegantes; mas este
+Colombo teimava em não crêr na America. Negava o que via; não podendo negal-o,
+interpretava-o; depois recordava algum caso de allucinação, uma anecdota de
+apparencias illusorias, e n'esse travesseiro commodo e molle punha a cabeça e
+dormia. Já então, prosperando-lhe o escriptorio, dava o Galvão partidas e
+jantares, iam a bailes, theatros, corridas de cavallos. Maria Olympia vivia
+alegre, radiante; começava a ser um dos nomes da moda. E andava muita vez, com
+a viuva, a despeito das cartas, a tal ponto que<span class="pn">{260}</span>
+uma d'estas lhe dizia: «Parece que é melhor não escrever mais, uma vez que a
+senhora se regala n'uma comborçaria de máu gosto.» Que era comborçaria? Maria
+Olympia quiz perguntal-o ao marido, mas esqueceu o termo, e não pensou mais
+n'isso.</p>
+
+<p>Entretanto, constou ao marido que a mulher recebia cartas pelo correio.
+Cartas de quem? Esta noticia foi um golpe duro e inesperado. Galvão examinou de
+memoria as pessoas que lhe frequentavam a casa, as que podiam encontral-a em
+theatros ou bailes, e achou muitas figuras verosimeis. Em verdade, não lhe
+faltavam adoradores.</p>
+
+<p>&mdash;Cartas de quem? repetia elle mordendo o beiço e franzindo a testa.</p>
+
+<p>Durante sete dias passou uma vida inquieta e aborrecida, espiando a mulher e
+gastando em casa grande parte do tempo. No oitavo dia, veiu uma carta.</p>
+
+<p>&mdash;Para mim? disse elle vivamente.</p>
+
+<p>&mdash;Não; é para mim, respondeu Maria Olympia, lendo o sobrescripto;
+parece letra de Mariana ou de Lulú Fontoura...</p>
+
+<p>Não queria lel-a; mas o marido disse que a lesse; podia ser alguma noticia
+grave. Maria Olympia leu a carta e dobrou-a, sorrindo; ia guardal-a, quando o
+marido desejou ver o que era.<span class="pn">{261}</span></p>
+
+<p>&mdash;Você sorriu, disse elle gracejando; ha de ser algum epigramma
+commigo.</p>
+
+<p>&mdash;Qual! é um negocio de moldes.</p>
+
+<p>&mdash;Mas deixa ver.</p>
+
+<p>&mdash;Para que, Eduardo?</p>
+
+<p>&mdash;Que tem? Você, que não quer mostrar, por algum motivo ha de ser. De
+cá. </p>
+
+<p>Ja não sorria; tinha a voz tremula. Ella ainda recusou a carta, uma, duas,
+tres vezes. Teve mesmo ideia de rasgal-a, mas era peior, e não conseguiria
+fazel-o até o fim. Realmente, era uma situação original. Quando ella viu que
+não tinha remedio, determinou ceder. Que melhor occasião para ler no rosto
+d'elle a expressão da verdade? A carta era das mais explicitas; fallava da
+viuva em termos crús. Maria Olympia entregou-lh'a.</p>
+
+<p>&mdash;Não queria mostrar esta, disse-lhe ella primeiro, como não mostrei
+outras que tenho recebido e botado fóra; são tolices, intrigas, que andam
+fazendo para... Leia, leia a carta.</p>
+
+<p>Galvão abriu a carta e deitou-lhe os olhos avidos. Ella enterrou a cabeça na
+cintura, para ver de perto a franja do vestido. Não o viu empallidecer. Quando
+elle, depois de alguns minutos, proferiu duas ou tres palavras, tinha já a
+physionomia composta e um<span class="pn">{262}</span> esboço de sorriso. Mas a
+mulher, que o não adivinhava, respondeu ainda de cabeça baixa; só a levantou
+d'ahi a tres ou quatro minutos, e não para fital-o de uma vez, mas aos pedaços,
+como se temesse descobrir-lhe nos olhos a confirmação do anonymo. Vendo-lhe, ao
+contrario, um sorriso, achou que era o da innocencia, e fallou de outra cousa.
+</p>
+
+<p>Redobraram as cautelas do marido; parece tambem que elle não pôde
+esquivar-se a um tal ou qual sentimento de admiração para com a mulher. Pela
+sua parte, a viuva, tendo noticia das cartas, sentiu-se envergonhada; mas
+reagiu depressa, e requintou de maneiras affectuosas com a amiga.</p>
+
+<p>Na segunda ou terceira semana de agosto, Galvão fez-se socio do Cassino
+fluminense. Era um dos sonhos da mulher. A seis de setembro fazia annos a
+viuva, como sabemos. Na vespera, foi Maria Olympia (com a tia que chegara de
+fóra), comprar-lhe um mimo: era uso entre ellas. Comprou-lhe um annel. Viu na
+mesma casa uma joia engraçada, uma meia lua de diamantes para o cabello,
+emblema de Diana, que lhe iria muito bem sobre a testa. De Mahomet que fosse;
+todo o emblema de diamantes é christão. Maria Olympia pensou naturalmente na
+primeira noite do Cassino; e a tia, vendo-lhe o<span class="pn">{263}</span>
+desejo, quiz comprar a joia, mas era tarde, estava vendida.</p>
+
+<p>Veiu a noite do baile. Maria Olympia subiu commovida as escadas do Cassino.
+Pessoas que a conheceram n'aquelle tempo, dizem que o que ella achava na vida
+exterior, era a sensação de uma grande caricia publica, a distancia; era a sua
+maneira de ser amada. Entrando no Cassino, ia recolher nova copia de
+admirações, e não se enganou, porque ellas vieram, e de fina casta.</p>
+
+<p>Foi pelas dez horas e meia que a viuva ali appareceu. Estava realmente
+bella, trajada a primor, tendo na cabeça a meia lua de diamantes. Ficava-lhe
+bem o diabo da joia, com as duas pontas para cima, emergindo do cabello negro.
+Toda a gente admirou sempre a viuva n'aquelle salão. Tinha muitas amigas, mais
+ou menos intimas, não poucos adoradores, e possuia um genero de espirito que
+espertava com as grandes luzes. Certo secretario de legação não cessava de a
+recommendar aos diplomatas novos: «<em>Causes avec Mme. Tavares; c'est
+adorable!</em>» Assim era nas outras noites; assim foi n'esta.</p>
+
+<p>&mdash;Hoje quasi não tenho tido tempo de estar com você, disse ella a Maria
+Olympia, perto de meia-noite.<span class="pn">{264}</span></p>
+
+<p>&mdash;Naturalmente, disse a outra abrindo e fechando o leque; e, depois de
+humedecer os labios, como para chamar a elles todo o veneno que tinha no
+coração:&mdash;Ypiranga, você está hoje uma viuva deliciosa... Vem seduzir mais
+algum marido?</p>
+
+<p>A viuva empalideceu, e não pode dizer nada. Maria Olympia accrescentou, com
+os olhos, alguma cousa que a humilhasse bem, que lhe respingasse lama no
+triumpho. Já no resto da noite fallaram pouco; trez dias depois romperam para
+nunca mais.</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p style="text-align: center;">FIM DA SENHORA DO GALVÃO.</p>
+
+<p><span class="pn">{265}</span></p>
+
+<h1><a name="SECTION000180000">AS ACADEMIAS DE SIÃO</a> </h1>
+
+<p>Conhecem as academias de Sião? Bem sei que em Sião nunca houve academias:
+mas supponhamos que sim, e que eram quatro, e escutem-me.</p>
+
+<h2><a name="SECTION000181000">I</a> </h2>
+
+<p>As estrellas, quando viam subir, atravez da noite, muitos vagalumes côr de
+leite, costumavam dizer que eram os suspiros do rei de Sião, que se divertia
+com as suas trezentas concubinas. E, piscando o olho umas ás outras,
+perguntavam:</p>
+
+<p>&mdash;Reaes suspiros, em que é que se occupa esta noite o lindo
+Kalaphangko?</p>
+
+<p>Ao que os vagalumes respondiam com gravidade:</p>
+
+<p>&mdash;Nós somos os pensamentos sublimes das quatro academias de Sião;
+trazemos comnosco toda a sabedoria do universo.<span class="pn">{266}</span></p>
+
+<p>Uma noite, foram em tal quantidade os vagalumes, que as estrellas, de
+medrosas, refugiaram-se nas alcovas, e elles tomaram conta de uma parte do
+espaço, onde se fixaram para sempre com o nome de via-lactea.</p>
+
+<p>Deu logar, a essa enorme ascenção de pensamentos o facto de quererem as
+quatro academias de Sião resolver este singular problema:&mdash;porque é que ha
+homens femininos e mulheres masculas? E o que as induziu a isso foi a indole do
+joven rei. Kalaphangko era virtualmente uma dama. Tudo n'elle respirava a mais
+esquisita feminidade: tinha os olhos doces, a voz argentina, attitudes molles e
+obedientes e um cordial horror ás armas. Os guerreiros siamezes gemiam, mas a
+nação vivia alegre, tudo eram dansas, comedias e cantigas, á maneira do rei que
+não cuidava de outra cousa. D'ahi a illusão das estrellas.</p>
+
+<p>Vai senão quando, uma das academias achou esta solução ao problema:</p>
+
+<p>&mdash;Umas almas são masculinas, outras femininas. A anomalia que se
+observa é uma questão de corpos errados.</p>
+
+<p>&mdash;Nego, bradaram as outras tres; a alma é neutra; nada tem com o
+contraste exterior.<span class="pn">{267}</span></p>
+
+<p>Não foi preciso mais para que as vielas e aguas de Bangkok se tingissem de
+sangue academico. Veiu primeiramente a controversia, depois a descompostura, e
+finalmente a pancada. No principio da descompostura tudo andou menos mal;
+nenhuma das rivaes arremessou um improperio que não fosse escrupulosamente
+derivado do sanscrito, que era a lingua academica, o latim de Sião. Mas d'alli
+em diante perderam a vergonha. A rivalidade desgrenhou-se, pôz as mãos na
+cintura, baixou á lama, á pedrada, ao murro, ao gesto vil, até que a academia
+sexual, exasperada, resolveu dar cabo das outras, e organisou um plano
+sinistro... Ventos que passaes, se quizesseis levar comvosco estas folhas de
+papel, para que eu não contasse a tragedia de Sião! Custa-me (ai de mim!),
+custa-me escrever a singular desforra. Os academicos armaram-se em segredo, e
+foram ter com os outros, justamente quando estes, curvados sobre o famoso
+problema, faziam subir ao céu uma nuvem de vagalumes. Nem preambulo, nem
+piedade. Cahiram-lhe em cima espumando de raiva. Os que puderam fugir, não
+fugiram por muitas horas; perseguidos e attacados, morreram na beira do rio, a
+bordo das lanchas, ou nas vielas escusas. Ao todo, trinta e oito cadaveres.
+Cortaram uma<span class="pn">{268}</span> orelha aos principaes, e fizeram
+d'ellas collar e braceletes para o presidente vencedor, o sublime U-Tong.
+Ebrios da victoria, celebraram o feito com um grande festim, no qual cantaram
+este hymno magnifico: «Gloria a nós, que somos o arroz da sciencia e a
+luminaria do universo».</p>
+
+<p>A cidade acordou estupefacta. O terror apoderou-se da multidão. Ninguem
+podia absolver uma acção tão crúa e feia; alguns chegavam mesmo a duvidar do
+que viam... Uma só pessoa approvou tudo: foi a bella Kinnara, a flôr das
+concubinas regias.</p>
+
+<h2><a name="SECTION000182000">II</a> </h2>
+
+<p>Mollemente deitado aos pés da bella Kinnara, o joven rei pedia-lhe uma
+cantiga.</p>
+
+<p>&mdash;Não dou outra cantiga que não seja esta: creio na alma sexual.</p>
+
+<p>&mdash;Crês no absurdo, Kinnara.</p>
+
+<p>&mdash;Vossa Magestade crê então na alma neutra?</p>
+
+<p>&mdash;Outro absurdo, Kinnara. Não, não creio na alma neutra, nem na alma
+sexual. </p>
+
+<p>&mdash;Mas então em que é que Vossa Magestade crê, se não crê em nenhuma
+d'ellas?<span class="pn">{269}</span></p>
+
+<p>&mdash;Creio nos teus olhos, Kinnara, que são o sol e a luz do universo.</p>
+
+<p>&mdash;Mas cumpre-lhe escolher:&mdash;ou crêr na alma neutra, e punir a
+academia viva, ou crêr na alma sexual, e absolvel-a.</p>
+
+<p>&mdash;Que deliciosa que é a tua boca, minha doce Kinnara! Creio na tua
+boca: é a fonte da sabedoria.</p>
+
+<p>Kinnara levantou-se agitada. Assim como o rei era o homem feminino, ella era
+a mulher mascula&mdash;um bufalo com pennas de cysne. Era o bufalo que andava
+agora no aposento, mas d'ahi a pouco foi o cysne que parou, e, inclinando o
+pescoço, pediu e obeteve do rei, entre duas caricias, um decreto em que a
+doutrina da alma sexual foi declarada legitima e orthodoxa, e a outra absurda e
+perversa. N'esse mesmo dia, foi o decreto mandado á academia triumphante, aos
+pagodes, aos mandarins, a todo o reino. A academia poz luminarias;
+restabeleceu-se a paz publica.</p>
+
+<h2><a name="SECTION000183000">III</a> </h2>
+
+<p>Entretanto, a bella Kinnara tinha um plano engenhoso e secreto. Uma noite,
+como o rei examinasse<span class="pn">{270}</span> alguns papeis do Estado,
+perguntou-lhe ella se os impostos eram pagos com pontualidade.</p>
+
+<p>&mdash;<em>Ohimé!</em> exclamou elle, repetindo essa palavra que lhe ficara
+de um missionario italiano. Poucos impostos têm sido pagos. Eu não quizera
+mandar cortar a cabeça aos contribuintes... Não, isso nunca... Sangue? sangue?
+não, não quero sangue...</p>
+
+<p>&mdash;E se eu lhe der um remedio a tudo?</p>
+
+<p>&mdash;Qual?</p>
+
+<p>&mdash;Vossa Magestade decretou que as almas eram femininas e masculinas,
+disse Kinnara depois de um beijo. Supponha que os nossos corpos estão trocados.
+Basta restituir cada alma ao corpo que lhe pertence. Troquemos os nossos...</p>
+
+<p>Kalaphangko riu muito da idéa, e perguntou-lhe como é que fariam a troca.
+Ella respondeu que pelo methodo Mukunda, rei dos Hindus, que se metteu no
+cadaver de um brahamane, emquanto um truão se mettia no d'elle
+Mukunda,&mdash;velha lenda passada aos turcos, persas e christãos. Sim, mas a
+formula da invocação? Kinnara declarou que a possuia; um velho bonzo achára
+copia d'ella nas ruinas de um templo.</p>
+
+<p>&mdash;Valeu?</p>
+
+<p>&mdash;Não creio no meu proprio decreto, redarguiu<span
+class="pn">{271}</span> elle rindo; mas vá lá, se fôr verdade, troquemos... mas
+por um semestre não mais. No fim do semestre destrocaremos os corpos.</p>
+
+<p>Ajustaram que seria n'essa mesma noite. Quando toda a cidade dormia, elles
+mandaram vir a piroga real, metteram-se dentro e deixaram-se ir á tôa. Nenhum
+dos remadores os via. Quando a aurora começou a apparecer, fustigando as vaccas
+rútilas, Kinnara proferiu a mysteriosa invocação; a alma desprendeu-se-lhe, e
+ficou pairando, á espera que o corpo do rei vagasse tambem. O d'ella cahira no
+tapete.</p>
+
+<p>&mdash;Prompto? disse Kalaphangko.</p>
+
+<p>&mdash;Prompto, aqui estou no ar esperando. Desculpe Vossa Magestade a
+indignidade da minha pessoa...</p>
+
+<p>Mas a alma do rei não ouviu o resto. Lepida e scintilante, deixou o seu vaso
+physico e penetrou no corpo de Kinnara, emquanto a d'esta se apoderava do
+despojo real. Ambos os corpos ergueram-se e olharam um para o outro, imagine-se
+com que assombro. Era a situação do Buoso e da cobra, segundo conta o velho
+Dante; mas vede aqui a minha audacia. O poeta manda calar Ovidio e Lucano, por
+achar que a sua methamorphose vale mais<span class="pn">{272}</span> que a
+d'elles dous. Eu mando-os calar a todos tres. Buoso e a cobra não se encontram
+mais, ao passo que os meus dous heróes, uma vez trocados continuam a fallar e a
+viver juntos&mdash;cousa evidente mais dantesca, em que me peze á modéstia.</p>
+
+<p>&mdash;Realmente, disse Kalaphangko, isto de olhar para mim mesmo e dar-me
+magestade é exquisito. Vossa Magestade não sente a mesma cousa?</p>
+
+<p>Um e outro estavam bem, como pessoas que acham finalmente uma casa adequada.
+Kalaphangko espreguiçava-se todo nas curvas femininas de Kinnara. Esta
+esteiriçava-se no tronco rijo de Kalaphangko. Sião tinha, finalmente, um rei.
+</p>
+
+<h2><a name="SECTION000184000">IV</a> </h2>
+
+<p>A primeira acção de Kalaphangko (d'aqui em diante entenda-se que é o corpo
+do rei com a alma de Kinnara, e Kinnara o corpo da bella siameza com a alma do
+Kalaphangko) foi nada menos que dar as maiores honrarias á academia sexual. Não
+elevou os seus membros ao mandarinato, pois eram mais homens de pensamento que
+de acção e administração, dados á philosophia e á litteratura, mas<span
+class="pn">{273}</span> decretou que todos se prosternassem diante d'elles,
+como é de uso aos mandarins. Além d'isso, fez-lhes grandes presentes, cousas
+raras ou de valia, crocodillos empalhados, cadeiras de marfim, apparelhos de
+esmeralda para almoço, diamantes, reliquias. A academia, grata a tantos
+beneficios, pediu mais o direito de usar officialmente o titulo de Claridade do
+Mundo, que lhe foi outorgado.</p>
+
+<p>Feito isso, cuidou Kalaphangko da fazenda publica, da justiça, do culto e do
+ceremonial. A nação começou de sentir o peso grosso, para fallar como o excelso
+Camões, pois nada menos de onze contribuintes remissos foram logo decapitados.
+Naturalmente os outros, preferindo a cabeça ao dinheiro, correram a pagar as
+taxas, e tudo se regularisou. A justiça e a legislação tiveram grandes
+melhoras. Construiram-se novos pagodes; e a religião pareceu até ganhar outro
+impulso, desde que Kalaphangko, copiando as antigas artes hespanholas, mandou
+queimar uma duzia de pobres missionarios christãos que por lá andavam; acção
+que os bonzos da terra chamaram a perola do reinado.</p>
+
+<p>Faltava uma guerra. Kalaphangko, com um pretexto mais ou menos diplomatico,
+atacou a outro reino, e fez a campanha mais breve e gloriosa do<span
+class="pn">{274}</span> seculo. Na volta a Bangkok, achou grandes festas
+esplendidas. Trezentos barcos, forrados de seda escarlate e azul, foram
+recebel-o. Cada um d'estes tinha na prôa um cysne ou um dragão de ouro, e era
+tripolado pela mais fina gente da cidade; musicas e acclamações atroaram os
+ares. De noite, acabadas as festas, sussurrou-lhe ao ouvido a bella concubina:
+</p>
+
+<p>&mdash;Meu joven guerreiro, paga-me as saudades que curti na ausencia;
+dize-me que a melhor das festas é a tua meiga Kinnara.</p>
+
+<p>Kalaphangko respondeu com um beijo.</p>
+
+<p>&mdash;Os teus beiços têm o frio da morte ou do desdem, suspirou ella.</p>
+
+<p>Era verdade, o rei estava distrahido e preoccupado; meditava uma tragedia.
+Ia-se approximando o termo do prazo em que deviam destrocar os corpos, e elle
+cuidava em illudir a clausula, matando a linda siameza. Hesitava por não saber
+se padeceria com a morte d'ella visto que o corpo era seu, ou mesmo se teria de
+succumbir tambem. Era esta a duvida de Kalaphangko; mas a idéa da morte
+sombreava-lhe a fronte, emquanto elle afagava ao peito um frasquinho com
+veneno, imitado dos Borgias.</p>
+
+<p>De repente, pensou na douta academia; podia consultal-a, não claramente, mas
+por hypothese. Mandou<span class="pn">{275}</span> chamar os academicos; vieram
+todos menos o presidente, o illustre U-Tong, que estava enfermo. Eram treze;
+prosternaram-se e disseram ao modo de Sião:</p>
+
+<p>&mdash;Nós, despreziveis palhas, corremos ao chamado de Kalaphangko.</p>
+
+<p>&mdash;Erguei-vos, disse benevolamente o rei.</p>
+
+<p>&mdash;O logar da poeira é o chão, teimaram elles com os cotovelos e joelhos
+em terra.</p>
+
+<p>&mdash;Pois serei o vento que subleva a poeira, redarguiu Kalaphangko; e,
+com um gesto cheio de graça e tolerancia, estendeu-lhes as mãos.</p>
+
+<p>Em seguida, começou a fallar de cousas diversas, para que o principal
+assumpto viesse de si mesmo; fallou nas ultimas noticias do occidente e nas
+leis de Manú. Referindo-se a U-Tong, perguntou-lhes se realmente era um grande
+sabio, como parecia; mas, vendo que mastigavam a resposta, ordenou-lhes que
+dissessem a verdade inteira. Com exemplar unanimidade, confessaram elles que
+U-Tong era um dos mais singulares estupidos do reino; espirito raso, sem valor,
+nada sabendo e incapaz de aprender nada. Kalaphangko estava pasmado. Um
+estupido?</p>
+
+<p>&mdash;Custa-nos dizel-o, mas não é outra cousa; é um espirito raso e
+chocho. O coração é excellente, caracter puro, elevado...<span
+class="pn">{276}</span> </p>
+
+<p>Kalaphangko, quando voltou a si do espanto, mandou embora os academicos, sem
+lhes perguntar o que queria. Um estupido? Era mister tiral-o da cadeira sem
+molestal-o. Tres dias depois, U-Tong compareceu ao chamado do rei. Este
+perguntou-lhe carinhosamente pela saude; depois disse que queria mandar alguem
+ao Japão estudar uns documentos, negocio que só podia ser confiado a pessoa
+esclarecida. Qual dos seus collegas da academia lhe parecia idoneo para tal
+mister? Comprehende-se o plano artificioso do rei; era ouvir dois ou tres
+nomes, e concluir que a todos preferia o do proprio U-Tong; mas eis aqui o que
+este lhe respondeu:</p>
+
+<p>&mdash;Real Senhor, perdoai a familiaridade da palavra: são treze camellos,
+com a differença que os camellos são modestos, e elles não; comparam-se ao sol
+e á lua. Mas, na verdade, nunca a lua nem o sol cobriram mais singulares pulhas
+do que esses treze... Comprehendo o assombro de Vossa Magestade; mas eu não
+seria digno de mim se não dissesse isto com lealdade, embora
+confidencialmente...</p>
+
+<p>Kalaphangko tinha a boca aberta. Treze camellos? Treze, treze. U-Tong
+resalvou tão sómente o coração de todos, que declarou excellente; nada superior
+a elles pelo lado do caracter. Kalaphangko, com um<span class="pn">{277}</span>
+fino gesto de complacencia, despediu o sublime U-Tong, e ficou pensativo. Quaes
+fossem, as suas reflexões, não o soube ninguem. Sabe-se que elle mandou chamar
+os outros academicos, mas d'esta vez separadamente, afim de não dar na vista, e
+para obter maior expansão. O primeiro que chegou, ignorando aliás a opinão de
+U-Tong, confirmou-a integralmente, com a unica emenda de serem doze os
+camellos, ou treze, contando o proprio U-Tong. O segundo não teve opinião
+differente, nem o terceiro, nem os restantes academicos. Differiam no estylo;
+uns diziam camellos, outros usavam circumloquios e metaphoras, que vinham a dar
+na mesma cousa. E, entretanto, nenhuma injuria ao caracter moral das pessoas.
+Kalaphangko estava attonito.</p>
+
+<p>Mas não foi esse o ultimo espanto do rei. Não podendo consultar a academia,
+tratou de deliberar por si, no que gastou dois dias, até que a linda Kinnara
+lhe segredou que era mãi. Esta noticia fel-o recuar do crime. Como destruir o
+vaso eleito da flôr que tinha de vir com a primavera proxima? Jurou ao céo e á
+terra que o filho havia de nascer e viver. Chegou ao fim do semestre; chegou o
+momento de destrocar os corpos.</p>
+
+<p>Como da primeira vez, metteram-se no barco real, á noite, e deixaram-se ir
+aguas abaixo, ambos de<span class="pn">{278}</span> má vontade, saudosos do
+corpo que iam restituir um ao outro. Quando as vaccas scintillantes da
+madrugada começaram de pisar vagarosamente o céo, proferiram elles o formula
+mysteriosa, e cada alma foi devolvida ao corpo anterior. Kinnara, tornando ao
+seu, teve a commoção materna, como tivera a paterna, quando occupava o corpo de
+Kalaphangko. Parecia-lhe até que era ao mesmo tempo mãi e pai da creança.</p>
+
+<p>&mdash;Pai e mãi? repetiu o principe restituido á fórma anterior.</p>
+
+<p>Foram interrompidos por uma deleitosa musica, ao longe. Era algum junco ou
+piroga que subia o rio, pois a musica approximava-se rapidamente! Já então o
+sol alagava de luz as aguas e as margens verdes, dando ao quadro um tom de vida
+e renascença, que de algum modo fazia esquecer aos dous amantes a restituição
+psychica. E a musica vinha chegando, agora mais distincta, até que n'uma curva
+do rio, appareceu aos olhos de ambos um barco magnifico, adornado de plumas e
+flammulas. Vinham dentro os quatorze membros da academia (contando U-Tong) e
+todos em côro mandavam aos ares o velho hymno: «Gloria a nós, que somos o arroz
+da sciencia e a claridade do mundo»!<span class="pn">{279}</span></p>
+
+<p>A bella Kinnara (antigo Kalaphangko) tinha os olhos esbogalhados de
+assombro. Não podia entender como é que quatorze varões reunidos em academia
+eram a claridade do mundo, e separadamente uma multidão de camellos.
+Kalaphangko consultado por ella, não achou explicação. Se alguem descobrir
+alguma, pode obsequiar uma das mais graciosas damas do Oriente, mandando-lh'a
+em carta fechada, e, para maior segurança, sobrescriptada ao nosso consul em
+Changai, China.</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p style="text-align: center;">FIM DAS ACADEMIAS DE SIÃO.</p>
+
+<p><span class="pn">{280}</span></p>
+
+<p><span class="pn">{281}</span></p>
+</div>
+
+
+
+
+
+
+
+<pre>
+
+
+
+
+
+End of the Project Gutenberg EBook of Historias Sem Data, by
+Joaquim Maria Machado de Assis
+
+*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK HISTORIAS SEM DATA ***
+
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+Produced by Pedro Saborano
+
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+To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
+and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
+and the Foundation web page at https://www.pglaf.org.
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+
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+Foundation
+
+The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
+501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
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+Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification
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+including how to make donations to the Project Gutenberg Literary
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+
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+This eBook, including all associated images, markup, improvements,
+metadata, and any other content or labor, has been confirmed to be
+in the PUBLIC DOMAIN IN THE UNITED STATES.
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+Procedures for determining public domain status are described in
+the "Copyright How-To" at https://www.gutenberg.org.
+
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+status under the laws that apply to them.
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+Project Gutenberg (https://www.gutenberg.org) public repository for
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