summaryrefslogtreecommitdiff
path: root/32792-8.txt
diff options
context:
space:
mode:
Diffstat (limited to '32792-8.txt')
-rw-r--r--32792-8.txt3063
1 files changed, 3063 insertions, 0 deletions
diff --git a/32792-8.txt b/32792-8.txt
new file mode 100644
index 0000000..7363ac1
--- /dev/null
+++ b/32792-8.txt
@@ -0,0 +1,3063 @@
+The Project Gutenberg EBook of Um contemporaneo do Infante D. Henrique, by
+Alberto Pimentel
+
+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.org
+
+
+Title: Um contemporaneo do Infante D. Henrique
+
+Author: Alberto Pimentel
+
+Release Date: June 13, 2010 [EBook #32792]
+
+Language: Portuguese
+
+Character set encoding: ISO-8859-1
+
+*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK INFANTE D. HENRIQUE ***
+
+
+
+
+Produced by Pedro Saborano (produced from scanned images
+of public domain material from Google Book Search)
+
+
+
+
+
+UM CONTEMPORANEO
+
+DO
+
+INFANTE D. HENRIQUE
+
+Carta a MR. MATHIEU LUGAN
+
+POR
+
+ALBERTO PIMENTEL
+
+PORTO
+_Livraria Internacional de Ernesto Chardron_
+CASA EDITORA
+M. LUGAN, Successor
+
+1894
+
+Todos os direitos reservados
+
+
+
+UM CONTEMPORANEO
+
+DO
+
+INFANTE D. HENRIQUE
+
+
+
+PORTO: TYP. DE A. J. DA SILVA TEIXEIRA
+
+Rua da Cancella Velha, 70
+
+
+
+UM CONTEMPORANEO
+
+DO
+
+INFANTE D. HENRIQUE
+
+Carta a MR. MATHIEU LUGAN
+
+POR
+
+ALBERTO PIMENTEL
+
+PORTO
+_Livraria Internacional de Ernesto Chardron_
+CASA EDITORA
+M. LUGAN, Successor
+
+1894
+
+Todos os direitos reservados
+
+
+
+
+ L'histoire d'Alvaro Vaz de Almada est généralement peu connue hors
+ du Portugal; et en Portugal même la biographie de ce grand homme est
+ environnée de details contradictoires.
+
+ FERDINAND DENIS--_Portugal_, pag. 85.
+
+
+
+
+ Meu prezado amigo:
+
+Vivendo entre portuguezes ha muitos annos, quer v. corresponder á estima
+e consideração que d'elles tem justamente recebido, associando-se, como
+editor de obras litterarias, á commemoração solemne com que a cidade do
+Porto vai celebrar o quinto centenario do nascimento do infante D.
+Henrique, o Descobridor.
+
+É nobre a acção, que v. se propõe praticar. E, procedendo assim, segue o
+exemplo de muitos estrangeiros, a quem Portugal deve gratidão pelo
+interesse que tem tornado em evidenciar á luz da verdade e da gloria os
+feitos d'este pequeno povo, que tamanhos serviços prestou no seculo XV á
+sciencia e ao commercio, á humanidade e á civilisação, especialmente no
+momento historico em que o infante D. Henrique apparece em scena para
+emprehender e estimular os descobrimentos maritimos.
+
+Entre esses estrangeiros a quem devemos ser gratos, avulta, certamente,
+um compatriota de v., o illustre Ferdinand Denis, que tanto amou, com
+especial dedicação, o passado de Portugal nas suas gloriosas tradições e
+nos seus triumphos por mar e por terra, na guerra ou na paz.
+
+Estamos, pois, habituados á sympathia de estrangeiros, e não é, por
+isso, de estranhar a deliberação de v. Mas é para agradecer e louvar.
+
+Acceitando a missão de auxiliar o nobre alvitre de v., e achando-me
+collocado em frente do periodo mais brilhante da historia de Portugal,
+que o infante D. Henrique personifica, lembrei-me de que o assumpto,
+comquanto vasto, ha de ser amplamente tratado por muitos escriptores
+portuguezes, que mais ou menos se encontrarão n'um ponto de partida
+commum: a vida do infante, e a sua influencia na successão dos nossos
+descobrimentos maritimos.
+
+Assim, pois, pensei que, sendo já conhecida, nas suas linhas geraes, a
+biographia do infante, eu poderia, sem atraiçoar a intenção de v., tomar
+outro rumo, estudando, dentro dos estreitos limites de uma carta, a
+feição proeminente de uma época, de que D. Henrique foi a culminação,
+mas que se assignalou pelo concurso de um grupo de homens colossalmente
+prestigiosos.
+
+Como na vida de todos os heroes, ha manchas, claro-escuro na vida do
+infante Descobridor. Encarado em si mesmo o homem, teve defeitos,
+commetteu erros, mas não é esta a hora propria para os relembrar. O
+principe exerceu, e este é o ponto essencial e capital, uma acção
+benefica na historia da humanidade, e marca o periodo que, elevando
+Portugal, aproveitou ao mundo todo.
+
+Mas, quanto á época, é justo, sem nunca perder de vista o infante,
+procurar medir a estatura dos portuguezes do seculo XV, que com elle
+collaboraram, nas viagens ou nas campanhas, e que constituem os
+elementos de caracterisação do espirito arrojado, leal, cavalheiresco,
+épico, dos inexcediveis heroes d'esse tempo.
+
+A alma portugueza era então um mixto de poesia e valor, sobretudo de
+poesia no valor. Feita de bronze, não conhecia perigos, difficuldades,
+resistencias. O infante, estimulando a coragem para as emprezas
+maritimas, era a expressão do sentir de heroes, que avançavam sempre,
+contra o _Mar Tenebroso_, contra os moiros, os inimigos exteriores, ou
+contra as agitações da politica interna, sem medirem os percalços do
+commettimento.
+
+A pureza dos costumes, nos homens e nas mulheres, dava um como perfume
+de santidade impeccavel ás ideas e aos sentimentos da época. A religião
+era mais alguma coisa do que o culto de Deus nos templos: era a lei por
+onde cada um regia as suas palavras e acções, os seus pensamentos e
+feitos, nas suas relações com Deus ou com os homens.
+
+O fanatismo religioso levava a vêr inimigos n'aquelles que, não
+commungando na mesma religião, não poderiam attingir o gráo de perfeição
+moral em que todas as crenças se purificavam. Era um preconceito do
+tempo, eram as idéas da época. Mas ha n'esse sentir, que hoje se nos
+afigura barbaro, uma noção mal comprehendida, posto que sincera, de que
+o catholicismo era a unica expressão possivel da civilisação dos costumes.
+
+Alongados os descobrimentos maritimos pela costa occidental da Africa,
+iniciado, com chave de oiro, o periodo dos factos gloriosos, que nos
+deram farta participação nos progressos da civilisação universal,
+fechava-se, simultaneamente, a porta do espirito cavalheiresco que
+dominára o coração dos portuguezes da idade-média.
+
+Depois d'isso fomos guerreiros, mas não eramos já cavalleiros. Fomos
+ainda conquistadores, mas não eramos já impulsionados por um mobil limpo
+de ambições mesquinhas.
+
+O joven rei D. Sebastião, voltando da sua primeira jornada a Africa,
+quiz desembarcar no cabo de S. Vicente, por uma noite de lua, e alli se
+demorou nove ou dez dias, como elle proprio contou, meditando
+ambiciosamente na grandeza de uma época, que dos rochedos do Algarve,
+como uma águia, havia no tempo de D. Henrique arrancado vôo para ir
+assombrar o mundo inteiro.
+
+Tinha pena o joven e valoroso rei de não ser d'essa época. E com razão.
+Mas Portugal havia começado a descer: Alcacerquibir, o abysmo cavado
+pelas mãos do imprudente monarcha, breve se transformaria na sepultura
+de um seculo de gloria.
+
+Não trarei, meu amigo, novos subsidios á biographia do infante
+Descobridor, de quem tantas pennas illustres se irão por certo occupar;
+mas procurarei desenhar, na vasta tela da sua época famosa, o vulto de
+um homem, que é um elemento importantissimo de caracterisação e de
+synthese, de um homem sem o qual essa enorme e brilhante conjugação de
+heroes, apostados em glorificar o nome da patria, ficaria incompleta.
+
+Refiro-me a Alvaro Vaz de Almada, que foi contemporaneo do infante D.
+Henrique, e que bem se póde chamar o ultimo cavalleiro portuguez.
+
+Herculano escreveu d'elle no _Panorama_: «D. Alvaro, caindo morto, era o
+symbolo da cavallaria expirando».
+
+O proprio infante D. Henrique dizia de Alvaro Vaz de Almada que não
+sómente Portugal, mas tambem toda a Hespanha, podiam ter grande gloria
+de crear tão famoso cavalleiro.
+
+E o rei Affonso de Napoles e seu irmão o infante D. Henrique de Aragão
+diziam que tinham encontrado em Portugal _bom pão e bom capitão_. _Bom
+capitão_: Alvaro Vaz.
+
+Tal era o homem.
+
+ * * * * *
+
+Resumirei, quanto me fôr possivel, o quadro genealogico de Alvaro Vaz de
+Almada.
+
+D. Sueiro Viegas Coelho, fidalgo de velha estirpe, teve dois irmãos e
+uma irmã. D'elles, o mais velho foi frade; o outro, Gonçalo Magro,
+continuou-se n'um filho bastardo, Lourenço Gonçalves, que casou com D.
+Thereza Godins.
+
+D'este casamento houve dois filhos, um dos quaes, Vasco Lourenço, teve
+por successor João Annes de Almada, que foi chamado o _Grande_, e foi
+védor da fazenda d'el-rei D. Pedro e d'el-rei D. Fernando.
+
+É com este cavalleiro, que por seu bom conselho, reflectida experiencia,
+alta posição politica e apparatosa apresentação[1] mereceu o cognome de
+_Grande_, que principia, na sua familia, o appellido de _Almada_, pelo
+facto d'elle ser natural d'aquella villa.
+
+Diz D. Antonio de Lima, no _Nobiliario_, que João Annes fôra por duas
+vezes enviado ao estrangeiro como embaixador, e que por lembrança sua
+mandára o rei D. Fernando começar a cêrca nova de Lisboa[2].
+Ferdinand Denis tambem se refere a este facto[3].
+
+Casado com D. Urraca Moniz, deixou um filho, Vasco Lourenço de Almada,
+que foi o instituidor do morgado da sua familia na villa do mesmo nome,
+e que morava em Lisboa nos seus paços de Valverde[4], junto
+ao Rocio.
+
+Este Vasco Lourenço teve um filho e uma filha.
+
+O filho, João Vaz de Almada, casou com D. Joanna Annes, de quem houve
+uma filha, e dois filhos: Pedro Vaz de Almada, primogenito; Alvaro Vaz
+de Almada, que por morte do irmão herdou o morgado instituido pelo
+avô[5].
+
+Merece chronica a vida de João Vaz de Almada, pai de Alvaro Vaz.
+
+Foi feito cavalleiro por D. João I depois da batalha de Aljubarrota[6].
+
+Em 1400 enviou-o D. João I a Castella, com o arcebispo de Lisboa e o
+doutor Martim Docem para negociar um tratado de paz ou treguas, e em
+1404 a Inglaterra, tambem com Martim Docem, para tratar do casamento de
+D. Beatriz, filha natural do rei, e irmã do duque de Bragança, com o
+conde de Arundel e de Surry[7].
+
+Mais tarde, quando D. João I se apercebia para a conquista de Ceuta,
+enviou João Vaz de Almada outra vez a Inglaterra para levantar
+quatrocentas lanças ao serviço de Portugal.
+
+Parece que João Vaz levou comsigo seu filho Alvaro, porquanto ha
+noticia de uma carta de Henrique V, rei de Inglaterra, ás auctoridades
+do porto de Londres, ordenando-lhes que deixem sahir livremente os
+homens de armas e trezentas e cincoenta lanças que Alvaro Vaz havia
+contratado para o rei de Portugal[8].
+
+Não foram estes os unicos auxilios que D. João I mandou buscar a
+Inglaterra com o mesmo fim. Tambem Pedro Lobato trouxe d'aquelle paiz
+trezentas lanças «para o muito poderoso principe o infante D. Henrique,
+filho do dito seu tio--diz Henrique V n'uma carta aos seus
+almirantes,--_a fim de fazer a guerra aos incredulos e aos inimigos da
+fé catholica_[9].
+
+Pormenor interessante: Este mesmo Pedro Lobato trouxe n'essa occasião
+uma armadura completa para o infante D. Henrique.
+
+Vieram ainda mais sessenta lanças, com os respectivos cavallos e
+armaduras, a bordo de dois navios portuguezes, de que eram mestres João
+Affonso e Egydio João.
+
+João Vaz de Almada acompanhou D. João I na viagem a Ceuta.
+
+Conta Fernam Lopes que, tendo alguem visto um grande bando de pardaes
+sobre o castello d'aquella cidade, dissera:
+
+--Não vêdes como aquelles pardaes alli estão assocegados? Que me matem
+se Salat-bem-Salat com todos os outros não é partido d'alli, e deixou o
+castello vazio, cá se assi não fosse, não estariam alli aquelles pardaes
+assi de assocego.
+
+Foram dizer isto ao rei D. João, que respondeu:
+
+--Pois que assi é, vão chamar João Vaz de Almada[10],
+que traz a bandeira de S. Vicente, e digam-lhe de minha parte que a vá
+logo poer sobre a mais alta torre.
+
+Chamado immediatamente João Vaz, foi, com alguns outros, caminho do
+castello, levando o estandarte de S. Vicente, padroeiro de Lisboa.
+
+Tentavam forçar as portas da fortaleza, quando sobre o muro appareceram
+dois homens, um biscainho e o outro genovez, que lhes disseram em
+castelhano:
+
+--Não filheis trabalho em quebrar as portas, cá não tendes nenhum
+empacho em vossa entrada, cá os mouros são já partidos todos d'aqui e
+sómente ficamos nós ambos que vos abriremos as portas quando quizerdes.
+
+--Ora pois, respondeu João Vaz de Almada, filhai lá esta bandeira e
+ponde-a sobre esse muro, até que nos vamos.
+
+Este mesmo episodio é contado por mestre Matheus de Pisano[11],
+estrangeiro erudito, que foi chamado a Lisboa para escrever
+em latim a historia da guerra de Ceuta, como quer Herculano[12],
+ou para ser professor de D. Affonso V.
+
+João Vaz de Almada levou a Ceuta os seus dois filhos, Pedro e Alvaro,
+que, depois da victoria, ahi foram armados cavalleiros: Pedro pela mão
+do infante D. Duarte, herdeiro da corôa[13]; e Alvaro por
+mão do infante D. Pedro.
+
+Foi certamente n'esse dia que principiaram a estabelecer-se entre D.
+Alvaro Vaz de Almada e o infante D. Pedro, como consequencia tradicional
+d'essa cerimonia, os laços de lealissima amizade, que os uniu durante
+toda a existencia, e que não deixou sobreviver um ao outro mais do
+que alguns momentos.
+
+D. João I deu a capitania e guarda da fortaleza de Ceuta a João Vaz de
+Almada, que a teve até á partida d'el-rei para o reino, ficando depois a
+cidade entregue a D. Pedro de Menezes, que foi o primeiro capitão d'ella.
+
+Recolhendo a Portugal, João Vaz de Almada, malquistado, por motivos
+desconhecidos, com Gonçalo Pires Malafaia, esperou-o ás portas da
+Relação e maltratou-o corporalmente[14].
+
+Malafaia, que já tinha sido escrivão da chancellaria de el-rei D.
+Fernando, seguiu, por morte d'este rei, a causa do mestre de Aviz,
+exercendo depois, e em annos successivos, os cargos de védor da
+fazenda real, e o de regedor (presidente) da Casa do Civel, além de
+receber por doação as propriedades confiscadas, no termo de Lisboa e
+Santarem, a João Fernandes Pacheco e a Fernam Gomes da Silva.
+
+Como Malafaia foi nomeado regedor do Civel em 1457, mais de vinte annos
+depois da morte de D. João I, entende um escriptor moderno ser
+inverosimil a noticia d'aquelle conflicto como causa determinante da
+emigração de João Vaz de Almada, por isso que os codices dão Malafaia
+como exercendo o referido cargo n'essa occasião[15].
+
+O facto dos chronistas lhe declararem a qualidade de regedor do Civel
+não invalida, a meu vêr, a noticia do conflicto, porque muitas vezes os
+escriptores antigos, referindo-se a um acontecimento qualquer,
+intromettem circumstancias que se deram antes ou depois, especialmente
+quando mencionam titulos ou actos de um mesmo individuo.
+
+O conflicto causou escandalo e irritou D. João I, que, collocado entre
+dois homens a quem devia serviços e dedicações, cortou a direito, quiz
+fazer justiça contra o aggressor.
+
+João Vaz de Almada teve de fugir para Inglaterra, onde já era conhecido;
+e levou comsigo os seus dois filhos, Pedro e Alvaro.
+
+Fosse esta ou outra qualquer a causa determinate da sahida do fidalgo
+portuguez e seus dois filhos legitimos para Inglaterra (o auctor da
+_Historia Serafica_ limita-se a dizer: «os quaes ausentando-se do reino
+por razões, que para isso tiveram», parecendo comtudo querer occultar
+assim um motivo desagradavel), o que não padece duvida é que João
+Vaz de Almada emigrou para aquelle paiz, d'onde, tendo fallecido, vieram
+mais tarde os seus restos mortaes, bem como os de seu filho Pedro, para
+a capella de familia, que possuiam em S. Francisco de Lisboa[16].
+
+Duarte Nunes de Leão diz que João Vaz de Almada acompanhára o rei de
+Inglaterra, que devia ser Henrique VI, até Rouen. Sendo assim,
+assistiria ao sacrificio de Joanna d'Arc (30 de maio de 1431). E que
+fôra agraciado com a ordem da Jarreteira__[17].
+
+Pela minha parte não ouso confirmar estas noticias, mas apenas acceitar,
+como authentica, a morte de João Vaz de Almada em Inglaterra.
+
+ * * * * *
+
+Fallemos agora de Alvaro Vaz de Almada, o _bom capitão_, o heroe famoso
+de um cyclo de heroes, que deu honra e gloria a Portugal.
+
+O snr. Oliveira Martins figura Alvaro Vaz acompanhando o seu dilecto
+amigo o infante D. Pedro de Alfarrobeira logo ao principio da sua
+celebre viagem, logo que, como dizia o povo, começou a _correr as sete
+partidas do mundo_.
+
+Á sahida de Castella, onde o infante fôra visitar D. João II, galopava a
+seu lado, segundo a expressão do snr. Oliveira Martins, o seu fiel
+Achates, Alvaro Vaz de Almada, fadado para um destino igualmente cruel.
+
+Outras affirmações faz ainda o snr. Oliveira Martins. Precisamos
+conhecel-as.
+
+«D'esta Jornada, agora começada, principia a amizade constante que
+ligou em vida Alvaro Vaz a D. Pedro, etc.»
+
+«Dois annos haveria apenas que Alvaro Vaz voltára ao reino coberto de
+gloria. Batalhára pelos inglezes em Azincourt, no proprio anno da tomada
+de Ceuta, e o rei Henrique V dera-lhe o condado de Avranches, na _marka_
+franceza, com a ordem da Jarreteira. Essas guerras de França, começadas
+havia tres annos, tinham de durar meio seculo, e talvez os viajantes
+partissem com idéa de tambem intervir n'ellas. Alvaro Vaz, cavalgando ao
+lado do infante, contar-lhe-hia os casos de bravura presenciados no dia
+famoso de Azincourt; e D. Pedro, em volta, lhe diria como fôra a jornada
+de Ceuta n'esse proprio anno»[18].
+
+A amizade do infante e de Alvaro Vaz principiára antes da partida de
+D. Pedro para o estrangeiro. _Elles eram irmãos de armas_, circumstancia
+que, segundo o espirito da época, impunha deveres sagrados de reciproca
+amizade e lealdade[19].
+
+Quando, annos depois, o duque de Coimbra, vendo aproximar-se a hora do
+combate com as tropas d'el-rei seu sobrinho, pergunta a Alvaro Vaz se
+está disposto a todos os sacrificios, incluindo o da morte, tem em
+resposta:--Não sou eu vosso irmão de armas?[20]
+
+Eram. Porque ambos haviam sido armados cavalleiros no mesmo dia, em
+Ceuta, depois da victoria.
+
+Alvaro Vaz tinha estado em Inglaterra com o pai, mas devia regressar
+pouco antes de partir D. João I para Africa.
+
+Como já sabemos, João Vaz de Almada teve razões para refugiar-se mais
+tarde em Inglaterra levando comsigo os dois filhos legitimos[21].
+
+Isto passou-se depois da tomada de Ceuta, onde pelas chronicas sabemos que
+estivera João Vaz de Almada, e onde seu filho, Alvaro Vaz, fôra armado
+cavalleiro, por mão do infante D. Pedro[22], tendo ambos, o infante e
+Alvaro Vaz[23], aproximadamente a mesma idade.
+
+Não foi, como documentalmente provaremos, Henrique V que deu a
+Alvaro Vaz o condado de Avranches.
+
+Não poderia Alvaro Vaz contar ao infante os casos de bravura
+presenciados no dia famoso de Azincourt.
+
+E a razão é obvia. A batalha de Azincourt feriu-se em 1415, e n'este
+mesmo anno, em agosto, se realisou a tomada de Ceuta. Antes, João Vaz e
+Alvaro estiveram de passagem em Inglaterra, para levantar lanças; só
+posteriormente á viagem a Africa com D. João I é que emigraram.
+
+Henrique V reinou de 1413 a 1422.
+
+Depois de Ceuta, o genio ardente e o animo valoroso de Alvaro Vaz não
+lhe consentiram ficar indifferente á guerra que Henrique V movia contra
+o desgraçado Carlos VI para fazer vingar as antigas pretenções dos
+Plantagenets sobre a França.
+
+Alvaro Vaz de Almada pagava assim, combatendo pela Inglaterra, a
+hospitalidade que elle e a sua familia receberam da Inglaterra.
+
+Henrique VI, como veremos por documentos, remunerou-lhe, mais tarde, os
+serviços que elle havia prestado a Henrique V, e ainda as provas de
+amor, obediencia e dedicação que já no seu reinado Alvaro Vaz havia dado
+á corôa de Inglaterra.
+
+D'aqui poderá inferir-se que Alvaro Vaz esteve ainda em Inglaterra
+depois que Henrique VI, contando alguns mezes de idade, succedeu a seu
+pai em 1422, e ahi prestou serviços, ou que, depois de ter regressado ao
+reino, voltasse áquelle paiz, como parece suppôr um escriptor nosso
+contemporaneo[24].
+
+Pelo que deixamos dito, é mais que muito duvidoso que Alvaro Vaz
+partisse de Castella cavalgando ao lado do infante D. Pedro.
+
+Qualquer que fosse o anno em que o infante partiu, sabemos que já estava
+na Allemanha em 1419, quando o imperador Sigismundo lhe concedeu a marka
+ou ducado fronteiriço de Treviso.
+
+Foi justamente n'esse anno ou pouco antes que Sigismundo, já rei da
+Hungria, herdou de Wenceslau a corôa da Bohemia, e se achou a braços com
+os Hussitas e os Turcos.
+
+Duarte Nunes, o auctor dos _Retratos dos varoes e donas_[25],
+e outros escriptores dão noticia de ter Alvaro Vaz de Almada
+combatido pelo imperador Sigismundo contra os Turcos.
+
+Não custa acredital-o. Sabendo que o seu grande amigo, o infante D.
+Pedro, estava na Allemanha, decerto se daria pressa em avistar-se com
+elle, indo immediatamente ao seu encontro. Como não era homem para estar
+parado nem quieto, continuaria a ser alli «irmão de armas» do infante,
+combatendo por algum tempo a seu lado.
+
+Um escriptor moderno affirma este facto, sem hesitações: «Tambem Alvaro
+Vaz de Almada militou nos exercitos do imperador Sigismundo da
+Allemanha, e ahi se encontrou com o infante D. Pedro, estreitando os
+laços de amizade que a elle o uniam, desde que fôra armado
+cavalleiro»[26].
+
+É mais natural que Alvaro Vaz se encontrasse com o infante D. Pedro na
+Allemanha do que na Inglaterra, porque D. Pedro parece ter estado n'este
+paiz pouco antes de recolher a Portugal em 1428, visto que a concessão
+da Jarreteira, com que foi agraciado por Henrique VI, tem a data de 22
+de abril de 1427, e Alvaro Vaz já em 1423 estava em Lisboa.
+
+Ha um documento d'esta época, pelo qual Alvaro Vaz de Almada foi nomeado
+capitão-mór da armada de D. João I.
+
+É o seguinte:
+
+«D. João, etc. A quantos esta carta virem fazemos saber que nós querendo
+fazer graça e mercê a Alvaro Vasques de Almada, cavalleiro nosso
+vassallo, por serviços que d'elle recebemos e entendemos a receber ao
+deante: Temos por bem e damol-o por nosso capitão-mór da nossa frota
+pela guisa que o era Gonçalo Tenreiro em tempo d'el-rei D. Fernando,
+nosso irmão, a quem Deus perdoe, e por a guisa que o foi Affonso Furtado
+em nosso tempo, e porem mandamos aos patrões, alcaides, arraes e
+pintitaes, comitres e bésteiros, galeotes, marcantes, marinheiros e a
+todos os outros, a que esta carta fôr mostrada, que o hajam por nosso
+capitão-mór, como dito é, e lhe obedeçam e façam todas as cousas que
+lhes elle mandar fazer por nosso serviço, e segundo a seu officio
+pertence, e que possa com elles fazer justiça, ou em cada um d'elles,
+assim como a nós fariamos outrosim se presente estivessemos, e mandamos
+a todas as nossas justiças que cumpram suas cartas e mandados, e lhe
+ajudem a fazer e cumprir direito e justiça em todas as cousas que lhe
+elle assim disser e mandar da nossa parte quando pertence a seu officio,
+senão sejam certos quaesquer que o contrario d'isto fizerem, que lh'o
+extranharemos gravemente nos corpos e haveres como aquelles que não
+cumprem mandado de seu rei e senhor: em testemunho d'isto lhe mandamos
+dar esta nossa carta, dada em Cintra a vinte e tres dias de junho.
+El-rei o mandou. Martim Vasques a fez, éra do nascimento de Nosso Senhor
+Jesus Christo de mil quatrocentos vinte tres»[27].
+
+Este documento, publicado nas _Provas da Historia Genealogica_, põe um
+limite preciso e seguro ás viagens de Alvaro Vaz. Por elle vêmos que o
+_bom capitão_ recolheu ao reino muito primeiro que o seu amigo,
+infante D. Pedro, isto é, cinco annos antes.
+
+D. João I quiz certamente dar, com esta nomeação, uma indemnisação á
+familia Almada: honrar o filho, visto que não pudéra perdoar ao pai.
+
+Até ao anno da desgraçada expedição de Tanger (1437) não teve Alvaro Vaz
+de Almada, na sua qualidade de capitão-mór da frota, motivo para se
+assignalar por feitos de armas.
+
+Mas em Tanger o vamos encontrar derramando o sangue pela patria, e
+combatendo com o valor de que já havia dado sobejas provas em Ceuta ao
+serviço de D. João I, e na Inglaterra ao serviço de Henrique V.
+
+O infante D. Henrique, tendo chegado a Tanger, estabelece arraiaes n'um
+outeiro que ficava contra o cabo d'Espartel, desviando-se das
+instrucções que a este respeito lhe havia dado seu irmão o rei D.
+Duarte.
+
+«E em se começando a gente de alojar, sahiu uma voz, com um rumor sem
+certidão, que as portas da cidade estavam abertas e os mouros fugiam; e
+a este alvoroço acudiram muitos de cavallo contra a cidade, para
+entrarem, e commetteram o feito mui ardidamente, e se metteram entre o
+muro e a barreira, e combateram as portas tão rija e ousadamente, que de
+tres juntas que eram, romperam duas; e a terceira, que se diz o Postigo
+de Guyrer, commetteram com fogo: e, por ser forrada de ferro e sobrevir
+a noite, não foi entrada; e tambem porque os mouros a defenderam mui
+bravamente. E o conde de Arrayolos, por mandado do infante, foi recolher
+a gente que, alli e na porta do castello e nas outras da cidade, estava
+em combates repetidos: em que morreram muitos cavallos e alguns
+christãos, e sahiram muitos feridos: entre os quaes foi o conde de
+Arrayolos, de uma setta por uma perna, _e o capitão Alvaro Vaz d'outra
+por um braço_»[28].
+
+É o primeiro ferimento recebido, ao serviço de Portugal, por Alvaro Vaz.
+Qualquer que fosse, porém, a sua gravidade, de novo o vemos a combater
+esforçadamente logo no primeiro combate regular que o infante D.
+Henrique ordenou contra os mouros.
+
+«Mas o infante D. Henrique, vendo que o commettimento por aquella vez
+não succedia como esperava, e que sua gente recebia dos mouros muito
+damno, a fez recolher: de que ficaram até vinte christãos mortos e
+quinhentos feridos: e mandou ficar as bombardas e engenhos em seus
+alojamentos juntos com o muro d'onde tiravam, cuja guarda encommendou ao
+recebel-a ao capitão Alvaro Vaz e a outros, que, por estarem afastadas
+do arraial e pegadas ao muro, receberam dos inimigos muita affronta e
+trabalho: e elles, na defensão d'ellas e offensão que aos mouros faziam,
+deram de si claro testemunho de valentes cavalleiros»[29].
+
+No segundo combate contra os mouros, o capitão Alvaro Vaz continua a
+assignalar-se:
+
+«E n'este mesmo dia era fóra D. Alvaro de Castro, e o _capitão_, e
+Gonçalo Rodrigues de Sousa, e Fernam Lopes d'Azevedo, com setenta de
+cavallo: e, topando com quinhentos mouros de cavallaria e muitos de pé,
+pelejaram com elles e, a seu salvo, lhe mataram quarenta, e tornaram
+victoriosos a recolher-se com o conde (de Arrayolos) e com os outros,
+que dos mouros vinham bem perseguidos»[30].
+
+Mas é sobretudo no tumultuoso embarque das tropas portuguezas, na
+retirada de Tanger, que o capitão Alvaro Vaz, de par com o marechal
+Vasco Fernandes Coutinho, que depois foi feito conde de Marialva,
+pratica um acto de extremada cavallaria.
+
+Oiçamos o chronista:
+
+«... o infante com muito resguardo fez recolher a gente, e encommendou
+ao marechal, e ao capitão Alvaro Vaz, que com alguma somma de bésteiros
+ficassem sobre o atalhamento do palanque, em um arrife que ahi sobre o
+mar se fazia, d'onde contrariassem os mouros por maneira, que os
+christãos embarcassem com mór segurança, e depois se recolhessem com sua
+ventura o melhor que podessem; e certamente assim como este encargo era
+de grande perigo a estes dois nobres homens, assim n'elle como
+esfoçados, se aproveitaram de muita honra e boa fama que n'elle
+ganharam, e não sómente n'esta, mas em todas as outras affrontas n'este
+feito passadas, elles por sua bondade d'armas, e grandeza de coração,
+foram havidos por especiaes capitães, e notaveis cavalleiros. A gente
+miuda, com desejo de salvar as vidas de que foram desesperados,
+embarcavam com grande desordenança a que se não podia prover, cá se
+lançavam ao mar soltamente, não esguardando se o batel era do navio, em
+que vieram, se de outro algum, e muitos d'elles por fazerem os mareantes
+em sua salvação mais attentos e diligentes tentavam-n'os com cubiça,
+offerecendo-lhes logo nas mãos, alguma provesa que ainda escapara; e
+isto começou de dar grande desaviamento á embarcação, e causar algum
+damno; porque a todos os ministros do mar venceu tanto esta aborrecivel
+cubiça, que suspendiam a entrada dos que alguma cousa lhe não peitavam,
+e os dispunham por isso a grande perigo, do que el-rei houve, depois,
+sabendo-o, gran desprazer, e segundo a mostrança de seu desejo,
+certamente este erro não ficára sem grave punição, se d'elle pudéra
+achar os certos auctores. O marechal, e o _capitão_, como a gente que
+guardavam viram embarcada, começaram de se recolher na melhor ordenança
+que puderam, mas os mouros, por acabarem de mostrar sua falsa concordia,
+e verdadeira imisade, como os viram mover para embarcar, ordenaram dos
+pavezes que achavam no palanque, uma forte pavezada, com que tão
+rijamente os commetteram, que muitos dos christãos, especialmente os
+bésteiros, não podendo soffrer um duvidoso perigo, tomaram para suas
+vidas outro maior, e mais certo, lançando-se sem algum tento ao mar,
+onde morreriam até quarenta. _E tanto era o primor da honra n'estes dois
+cavalleiros, que em chegando ao batel, que para seu recolhimento os
+esperava, e trazendo com a perseguição dos mouros a morte nas costas, á
+entrada d'elles ambos se rogaram, affrontando um ao outro a primeira
+entrada, procurando com palavras de muita cortezia e grande esforço, por
+cada um ficar por derradeiro em guarda do outro; e porem com todos estes
+revezes, ao domingo pela manhã eram já todos á frota recolhidos_»[31].
+
+Este lance da biographia de Alvaro Vaz de Almada é, com effeito, de uma
+galhardia cavalheirosa, que inflamma o espirito de quem n'elle
+attenta, apesar de sermos chegados a um tempo em que estas proezas
+guerreiras têm já todo o caracter de factos longinquos e semi-phantasticos.
+
+Á volta de Tanger, Alvaro Vaz torna-se verdadeiramente notavel pela
+superioridade com que sabe disfarçar a sua dôr pelo desastre soffrido.
+
+D. Duarte estava em Carnide, quando «... chegaram em tanto a Lisboa dos
+que vinham de Tanger, muitos navios que certificaram o caso como
+finalmente passára, de que el-rei foi logo avisado, e certamente foi mui
+aspero de ouvir, que o infante seu irmão ficava em poder de mouros; mas
+por saber, que a mais da sua gente era em salvo, deu por isso muitas
+graças a Deus, e como rei virtuoso, humano e agradecido, deteve-se
+n'aquella aldeia, para vêr e agasalhar os que vinham do cêrco, dos
+quaes muitos, ao tempo que iam fazer-lhe reverencia, em disformes
+semelhanças e tristes vestidos, que para isso de industria vestiam, e
+com palavras a desaventura conformes, se lhe mostravam, e d'elles
+fingiam ser muito mais damnificados do que na verdade o foram, com
+fundamento de carregarem mais na obrigação para o feito de seus
+requerimentos, que alguns logo faziam e outros esperavam fazer, de que
+el-rei recebia publica dôr e tristeza; mas a estes foi mui contrario, o
+nobre e valente cavalleiro Alvaro Vaz de Almada, capitão-mór do mar, que
+como quer que no cêrco de Tanger de sua fazenda perdesse muito, e da
+honra por merecimentos d'armas não ganhasse pouca, como chegou a Lisboa,
+antes de ir fallar a el-rei, logo de finos pannos e alegres côres se
+vestiu, a si e a todos os seus, e com sua barba feita e o rosto cheio de
+alegria, chegou a Carnide, onde el-rei andava passeiando fóra das
+casas, e com elle o infante D. Pedro, e depois de lhe beijar as mãos e
+lhe dizer palavras de grande conforto, el-rei o recebeu mui
+graciosamente, e louvou muito sua ida n'aquella maneira, que não sómente
+lhe apontou cousas e razões, para não dever por aquelle caso ter nojo
+nem tristeza, mas ainda que por elle devia ser mui alegre e contente,
+estimando em nada o captiveiro do infante seu irmão, que era um homem só
+e mortal, em que haviam muitos remedios, em respeito da grande fama que
+n'aquelle feito em seu nome se ganhára, aconselhando-lhe mais o repique
+e alvoroço dos sinos, para honra e prazer dos vivos, que o dobrar
+d'elles que ouvia, por tristeza e pelas almas dos mortos; pelo que
+el-rei começou a mostrar que aquelle era o primeiro descanço que seu
+coração recebia, e por isso e por seus bons merecimentos lhe prometteu
+muita mercê, e grande acrescentamento; e sem duvida assim o fizera,
+se sua antecipada morte o não tolhera»[32].
+
+Ferdinand Denis, referindo-se a esta passagem da vida de Alvaro Vaz,
+escreve: «Mostrou-se principalmente corajoso cavalleiro durante o cêrco
+de Tanger, onde ficou prisioneiro o infante D. Fernando, que morreu em
+Fez; se bem que quando voltou ao reino, o bom rei D. Duarte sahiu para o
+receber pessoalmente, a pé, fóra de Carnide, onde estava. Fez-lhe taes
+favores e mercês, como até então ninguem tinha recebido. Foi d'elle que
+o rei Affonso de Napoles e seu irmão o infante D. Henrique d'Aragão
+diziam que haviam encontrado em Portugal bom pão e bom capitão»[33].
+
+Cumpre advertir que, segundo o testimunho do chronista Pina, o rei D.
+Duarte não teve tempo de fazer a Alvaro Vaz as mercês que desejava, e
+que as maiores que o famoso capitão recebeu não provieram de Portugal,
+mas de Inglaterra.
+
+Muitos escriptores suppozeram que Alvaro Vaz de Almada fôra feito conde
+de Avranches pelo rei de França, e cavalleiro da ordem da Jarreteira
+pelo de Inglaterra; mas não padece a menor duvida que ambas estas graças
+lhe foram concedidas pelo monarcha inglez, Henrique VI, quando, como rei
+de França, senhoreava o ducado de Normandia.
+
+ * * * * *
+
+Dois annos depois do desastre de Tanger, principia a agitar-se em
+Portugal a famosa questão da _regencia_, que havia de ter um tragico
+desfecho no combate de Alfarrobeira.
+
+Em agosto de 1439 a rainha D. Leonor passou-se de Santo Antonio do
+Tojal, onde estava, para Sacavem, e o rei menino, Affonso V, tornou para
+Lisboa, onde estava o infante D. Pedro.
+
+Este infante fez reunir em sua casa as pessoas de maior confiança, e entre
+ellas o «seu grande amigo Alvaro Vaz de Almada, capitão-mór do mar»[34], ás
+quaes se queixou da pequena parte que do governo lhe coubera nas côrtes, e
+communicou a resolução de abandonar por completo os negocios do Estado,
+retirando-se para as suas terras.
+
+N'essa reunião particular, de caracter intimo, distinguiu-se Alvaro
+Vaz aconselhando o infante a que, se lhe não entregassem logo todo o
+poder da regencia, se recolhesse aos seus dominios, «porque perdia muito
+de sua auctoridade e estimação andando na côrte com tão pouca
+auctoridade»[35].
+
+Era este um meio, habilmente procurado por Alvaro Vaz de Almada, para
+estimular o animo do povo, e apressar os acontecimentos no interesse do
+infante.
+
+A rainha, por sua parte, tomava represalias irritantes contra os amigos
+e partidarios de D. Pedro.
+
+Uma d'ellas foi despedir do seu serviço a irmã de Alvaro Vaz de Almada,
+por desconfiar que ella communicava ao irmão o que se passava na côrte.
+
+Este e outros actos, como, por exemplo, a mercê que D. Leonor fizera a
+Nuno Martins da Silveira, aio do rei, dos varejos a que os mercadores de
+Lisboa eram obrigados de sete em sete annos, irritaram profundamente os
+partidarios do infante, entre os quaes eram numerosos os homens do povo.
+
+Foram-se de parte a parte exaltando os animos, a ponto que a rainha
+julgou conveniente á sua segurança transferir-se de Sacavem para Alemquer.
+
+N'este lance da narrativa encontram-se Ruy de Pina e Gaspar Landim, se
+bem que ambos elles se equivoquem, quando se referem a Alvaro Vaz de
+Almada, em attribuir a mercê do condado de Avranches ao rei de França e
+a da Jarreteira ao de Inglaterra, quando foram feitas, como sabemos,
+pelo mesmo rei, que ao mesmo tempo se intitulava rei de Inglaterra e de
+França.
+
+«Os officiaes de Lisboa,--diz Ruy de Pina,--vendo esta mudança da rainha
+fizeram logo seu ajuntamento, onde Vicente Egas Homem, cidadão velho,
+entendido e de grave representação fez uma falla com largo recontamento,
+cuja substancia foi avisar a cidade dos males e perigos, que por as
+mudanças presentes se lhe apparelhavam; e como para terem por cabeça
+alguma pessoa que por ella os resistisse, lhe era necessario elegerem e
+tomarem alferes, _apontando logo o capitão Alvaro Vaz de Almada, que da
+cidade fôra o derradeiro alferes, como por outros muitos e mui dignos
+merecimentos e louvores, que d'elle com verdade recontou_; no que todos
+consentiram, e por dois cidadãos o enviaram logo chamar por quanto era
+fóra da cidade; e em chegando á Ribeira, sendo já sabida a determinação
+sobre que vinha, se ajuntou com elle a mór parte da cidade e assim
+acompanhado com grande honra foi levado á camara, onde por os
+vereadores com certas cerimonias e largas palavras _de grande seu louvor
+e muita confiança, lhe foi entregue a bandeira da cidade com suas
+condições_; e elle a recebeu com palavras cortezes, e discretas, e de
+grande esforço; porque era cavalleiro que _n'este reino e fóra d'elle
+por experiencias mostrou_, que isto e muito _mais de louvor havia
+n'elle_, cá em França por sua ardideza e bondades foi feito conde de
+Abranches, e em Inglaterra por sua valentia foi recebido por companheiro
+da ordem da Jarreteira, de que principes christãos, e pessoas de grande
+merecimento são confrades; e em Portugal por todas estas, e mais por sua
+linhagem e fidalguia mereceu ser como foi capitão-mór do mar»[36].
+
+Ouçamos agora, na passagem parallela a esta, o testimunho de Gaspar de
+Landim:
+
+«E tanto que em Lisboa se soube a mudança da rainha (_de Sacavem para
+Alemquer_), como não havia acto seu que não parecesse mal aos cidadãos e
+povo d'ella, se ajuntaram com os vereadores, e entre elles o costumado
+Vicente Egas como mais contrario das cousas da Rainha, e favorecedor das
+do Infante lhe fez uma pratica mui larga toda em seu favor d'elle, em
+qual encareceu grandemente os males e perigos que dizia estarem-lhes
+apparelhados áquella cidade e a todo o reino por ordem da Rainha, pelo
+que era necessario elegerem um capitão que lhe servisse de cabeça, e os
+defendesse, a quem obedecessem, para o qual effeito, pois que o Infante
+D. Pedro estava ausente (_em Camarate_), ninguem o podia melhor fazer
+que o capitão Alvaro Vaz de Almada, grande amigo e familiar do
+Infante, e para que não houvesse duvida na eleição d'elle recontou
+grandes feitos seus, e de seu pai João Vaz de Almada, encarecendo sobre
+modo seu valor e merecimentos; o qual logo de commum consentimento foi
+nomeado e eleito por defensor da cidade, capitão e alferes-mór, e para
+haver esta eleição effeito bastou saber que era mui contrario ás cousas
+da Rainha e suas cousas, e mui affecto ás do Infante; o qual foi logo
+mandado chamar a uma quinta onde estava, e em entrando na cidade,
+chegando á Ribeira se juntou todo o povo e cidadãos com elle para o
+acompanhar, e d'ahi o levaram á camara com grande alvoroço e muitas
+exclamações de libertador e defensor d'aquella cidade, e entrando na
+camara lhe foi entregue a bandeira com muitas condições e declarações
+todas em favor do Infante D. Pedro, e contrarias á Rainha; com as quaes
+elle a recebeu, e com palavras significadoras de grande
+agradecimento prometteu tudo cumprir.
+
+«Os cidadaos e povo muito satisfeitos, confiados e a seu parecer seguros
+de todos os medos e destruições que sobre si fingiam haverem de vir, e
+lh'o faziam crêr, e por taes se deram com a eleição do seu defensor.
+
+«Era Alvaro Vaz de Almada cavalleiro que assim n'este reino, como em
+outros, tinha feito grandes cousas por seu esforço em que cabiam
+aquelles e outros maiores cargos, ainda que foi notado de temerario e
+arrogante, e como tal deu muita cousa, e foi a principal parte da casa
+do infante D. Pedro, de sua honra e vida; e por seu esforço foi feito
+por el-rei de França conde de Abranches, e em Inglaterra por valorosos
+feitos lhe foi dada a honra da Garrotea, da qual n'aquelle tempo se
+honraram muitos principes, e em Portugal depois de tornado a elle
+foi feito por el-rei D. Duarte capitão-mór do mar».
+
+Aqui temos Alvaro Vaz de Almada lançado na accesa lucta travada entre o
+infante e a rainha, e vel-o-hemos acompanhar sempre D. Pedro, até á
+morte, com aquella cega dedicação, que já era antiga, porque datava de
+Ceuta.
+
+O povo de Lisboa, poucos dias depois da eleição de Alvaro Vaz, acclamára
+o infante D. Pedro como unico governador do reino, n'um acto solemne
+realisado na egreja de S. Domingos.
+
+N'este momento, Alvaro Vaz é o braço direito do infante e o querido do
+povo, o homem escolhido para todas as missões importantes.
+
+Assim, foi designado para ir solicitar do infante D. João que viesse a
+Lisboa, onde a sua presença se reputava necessaria.
+
+O emissario logrou convencer o infante, que veio logo, hospedando-se
+na casa da Moeda[37].
+
+Novamente se tornou a reunir o povo, agora nos paços do concelho,
+fallando por essa occasião o dr. Affonso Mangancha e Alvaro Vaz.
+
+Ruy de Pina dá-nos a summula do discurso do famoso _Capitão_:
+«encommendaram logo ao _Capitão_ que désse sobre o caso sua voz, que a
+deu com cautelas e fundamentos de homem prudente, e mui avisado, em que
+concluiu mais além, que era crime e aleijão elrei ser creado em
+poder de mulheres; e não menos erro reger a rainha, não sem muitos
+merecimentos e grandes louvores d'ella, que tambem apontou para ser
+sempre servida e acatada: e que o infante D. Pedro devia reger»[38].
+
+Como sabemos, o povo havia entregado a D. Alvaro a defeza e guarda da
+cidade de Lisboa. O infante D. Pedro confirmou, por um diploma official,
+a escolha que o povo fizera, nomeando D. Alvaro alcaide-mór do castello,
+investindo-o officialmente nas funcções, que já exercia, de defensor dos
+moradores de Lisboa.
+
+«Dom Affonso etc. A quantos esta carta virem fazemos saber que vendo nós
+e considerando os muitos e estremados serviços que o capitão-mór Alvaro
+Vasques de Almada, Rico Homem e do nosso conselho, fez a ElRei meu
+Senhor e Pai e a ElRei Dom João, meu Avô, e isso mesmo a nós e ao diante
+entendemos receber, e os muitos trabalhos e perigos em que foi assim
+fóra dos nossos reinos como em elles por honra d'elles, e querendo-lhe
+galardoar e conhecer, como todo bom Rei e theudo, aquelles que bem e
+lealmente servem, conhecendo sua grande lealdade, porém de nosso motu
+proprio, livre vontade, certa sciencia, poder absoluto, temos por bem e
+fazemol-o nosso alcaide mór do nosso castello da nossa mui nobre e leal
+cidade de Lisboa, pelo que nos fez preito e menagem uma, duas e tres
+vezes de nós em elle receber irado e pagado no alto e no baixo, segundo
+mais cumpridamente é, contheudo na fórma de sua menagem, a qual é
+escripta no livro das menagens que anda em a nossa camara é assignada
+por elle. E porém mandamos a todos os fidalgos, cavalleiros, escudeiros,
+corregedores, juizes, justiças, conselho e homens bons da dita
+cidade, que d'aqui em diante o hajam por nosso alcaide em o dito
+castello e outro nenhum não, não embargando que o até aqui tivesse D.
+Affonso, o qual nos praz nem queremos que o mais seja pelo assim
+entendermos por nosso serviço, aos quaes mandamos que lhe obedeçam assim
+como alcaide e saiam com elle e sem elle cada vez que por elle ou da sua
+parte forem requeridos em aquillo que a seu officio pertencer para se
+fazer direito e justiça. Outrosim queremos que tenha e haja de nós todas
+as rendas e direitos que á dita alcaideria pertencem segundo é contheudo
+em nossa carta, que d'isso tem, e os possa arrecadar, tirar e arrendar
+por si e por seus procuradores e homens como a elle mais prouver. E em
+testimunho d'isso lhe mandamos dar esta nossa carta. Dante (?) em
+Santarem cinco dias de abril por auctoridade do Senhor Infante Dom
+Pedro, tutor e curador do dito Senhor Rei, Regedor defensor por elle
+de seus Reinos e Senhorios. Martins Gil a fez, anno de Nosso Senhor
+Jesus Christo de mil quatrocentos e quarenta[39].
+
+Mas Alvaro Vaz chegava para tudo, e o infante encarregou-o de ir tomar o
+castello da Ameeira, que estava por D. Leonor. A esse tempo a rainha
+havia-se entrincheirado no Crato.
+
+D. Alvaro deu-se pressa em partir para ir desempenhar esta nova commissão.
+
+Vejamos o que diz Ruy de Pina; prefiro, sempre que seja isso possivel,
+empregar a linguagem das chronicas, porque tem um sabor antigo, que se
+conforma melhor com o assumpto, tambem antigo, do que a nossa
+linguagem actual.
+
+«O capitão Alvaro Vaz a que o cerco da Ameeira, como disse, era
+encarregado, partiu de Lisboa por terra com sua gente d'armas e de pé,
+que era muita e mui bem concertada, e assim com os artilheiros e
+provisões, que para o cerco convinham, e todo posto em mui segura e
+singular ordenança, _fazendo-o assim como homem que o vira, e passára em
+outros reinos já muitas vezes_. E tambem folgou de o ordenar assim por
+dar a entender n'este pequeno cerco, o que faria em outros maiores se
+lh'os encommendassem».
+
+O resultado da Jornada da Ameeira foi satisfatorio, como todos os
+partidarios do infante esperavam, visto que a incumbencia tinha sido
+confiada ao valoroso _Capitão_.
+
+O castello rendeu-se pouco depois de D. Alvaro lhe ter posto cerco.
+
+O joven Affonso V, que estava então em Alemquer, tanto tinha ouvido
+fallar de Alvaro Vaz de Almada, que quiz vêl-o por força quando elle
+passava para a Ameeira. A sua imaginação de creança estava exaltada pela
+fama d'esse cavalleiro portentoso, que já tinha uma lenda de
+heroicidade, com que regressára do estrangeiro, e que em Portugal
+continuava a glorifical-o.
+
+Referindo-se ao pequeno rei, diz Ruy de Pina: «desejou muito de vêr o
+Capitão, e sua gente na ordenança de guerra em que vinham, e
+sentindo-lhe Alvaro Gonçalves de Athayde, seu aio, este vivo orgulho e
+desejo, louvou-lh'o muito. E disse que era bem que cumprisse: mas por
+não errar em seu serviço e estado indo de proposito vêr uma sua cousa
+tão pequena, seria bem que como d'acerto fosse a caça, ao campo d'entre
+Castanheira e Villa Nova, e que ali como de recontro veria o
+Capitão, e a gente que então havia de passar. E a outro dia andando alli
+el-rei com seus galgos e gaviões, assomou o Capitão, e sabendo já que
+el-rei o queria vêr apurou ainda muito mais sua ordenança, e de sua
+pessoa com seus pagens armados se concertou com grande perfeição. Porque
+n'aquelle acto de armas, _por seu braço e por experimentadas ardidezas
+passadas, a elle n'este reino se dava muito louvor_, e tanto que foi
+atravez d'onde o rei olhava, se apartou só da gente armado sobre uma
+facanea, e com grande alegria e desenvoltura se lançou fóra d'ella, e a
+pé foi beijar as mãos a el-rei, e lhe disse:--«Senhor, assim como eu sou
+o primeiro que Vossa Senhoria vê n'estes habitos, assim, prazendo a
+Deus, não serei eu n'elles o segundo, em todo o que cumprir por vosso
+serviço, e por defensão de vossos reinos». El-rei folgou muito de o vêr,
+e com palavras e contenenças lhe fez mais honra e mór acolhimento,
+do que de sua pouca idade se esperava, e assim se despediu o Capitão, e
+seguiu sua viagem até a Ameeira, que logo cercou e combateu até que a
+tomou[40].
+
+Um homem de tamanho vulto, como era D. Alvaro Vaz de Almada, por força
+havia de ter inimigos, especialmente n'uma época em que os interesses
+politicos da sociedade portugueza estavam profundamente divididos em
+dous campos oppostos.
+
+Uma carta regia, que se encontra no archivo da camara municipal de
+Lisboa e é datada de 12 de maio de 1440, dá conhecimento de não ter sido
+permittido que Alvaro Vaz de Almada, alcaide-mór, intentasse acção, para
+se desaggravar do que contra a sua pessoa tinham dito e feito alguns
+officiaes da cidade; e recommenda-lhes que reciprocamente usassem
+d'aquella boa maneira e amizade, com que sempre se haviam tratado[41].
+
+A reacção, por parte dos sequazes da rainha, decerto procuraria
+amesquinhar e desprestigiar D. Alvaro, a alma do movimento em favor do
+infante.
+
+Parece que, entre outras accusações, lhe fizeram tambem a de haver
+impedido a entrada de um navio carregado de trigo, que era preciso ao
+consumo publico.
+
+Mas, não obstante este e outros meios de reacção, a causa da rainha
+naufragava: D. Leonor fugira para Castella, segundo parece, no dia 29 de
+dezembro de 1440.
+
+N'este momento desapparece-nos Alvaro Vaz de Almada do theatro dos
+acontecimentos, sem que os chronistas nos dêem a chave do enygma.
+
+Apenas se sabe, por uma phrase vaga de Ruy de Pina, e por outra phrase,
+não menos vaga, do proprio infante D. Pedro, que elle estivera em Ceuta.
+
+Julgaria D. Alvaro,--insaciavel de correr perigos e aventuras,--que a
+sua presença não era já precisa em Portugal ao infante D. Pedro, cuja
+causa estava ganha? Dar-se-ia em Ceuta algum acontecimento, que fizesse
+com que o infante, como regente do reino, entendesse ser necessario
+mandar alli o seu mais seguro e dedicado amigo?
+
+Ficou em Ceuta D. Alvaro ou iria tambem ao estrangeiro, tentar novos
+feitos de armas, hypothese a que se inclina o collaborador do
+_Diccionario popular_?
+
+ * * * * *
+
+Foi effectivamente durante esta sua ausencia que Henrique VI o encheu de
+mercês importantissimas.
+
+«D. Alvaro Vaz estava então militando em Ceuta, e esse homem de
+nobilissimo caracter, que, emquanto D. Pedro foi feliz, se conservou
+afastado, voltando até, segundo todas as probabilidades, ao estrangeiro,
+porque não é natural que em 1445 Henrique VI de Inglaterra lhe
+conferisse todas as graças que dissemos, na sua ausencia, D. Alvaro,
+apenas soube o que se tramava contra o seu irmão de armas, veio logo
+para Portugal...»[42]
+
+Por minha parte pendo a acreditar que D. Alvaro não sahiu de Ceuta, mas
+devo dizer, francamente, que caminho apenas por conjecturas.
+
+É possivel que a morte do pai e do irmão mais velho, ignorando eu
+comtudo a data certa em que falleceram, levasse Henrique VI a galardoar
+em D. Alvaro os serviços que anteriormente havia recebido d'elle proprio
+e da sua familia.
+
+Mas é mais provavel que, «por esforço do infante D. Pedro», como diz
+Landim, lhe fossem feitas aquellas mercês.
+
+As duas phrases, de Ruy de Pina e do infante D. Pedro, que logo
+citaremos, fallam apenas de Ceuta; supponho, por isso, que D. Alvaro Vaz
+de Almada não iria mais longe n'essa segunda ausencia.
+
+O que é certo é que as mercês de Henrique VI a D. Alvaro são do anno de
+1445, em que o valoroso _Capitão_ estava fóra de Lisboa.
+
+Os documentos comprovativos das mercês encontrou-os o snr. Figanière, e
+indicou-os pela primeira vez no _Catalogo dos manuscriptos portuguezes
+existentes no muzeu de Londres_ (Lisboa, 1853), por esta fórma;
+
+«N.º 6.298. _Fol. 316_--Noticia de D. Alvaro Vaz de Almada, conde de
+Abranches, cavalleiro da Jarreteira.
+
+«_Fol. 317_--Cópia de um documento passado sob o sêllo privado (_copy of
+Privy Seal_) em que contém a eleição de D. Alvaro de Almada, como
+cavalleiro da Jarreteira, e creando-o conde de Abranches em Normandia.
+Datado de Westminster a 4 de agosto do 23.º anno do reinado de Henrique
+VI, rei de Inglaterra; isto é, de 1445.
+
+«_Fol. 319 verso_--Cópia de outro semelhante documento, concedendo ao
+mesmo D. Alvaro de Almada, conde de Abranches, a somma annual de 100
+marcos. Datado de Westminster a 9 de agosto do mesmo anno.
+
+«_Fol. 320 a 321_--Cópia de outro semelhante documento, dando ao mesmo
+D. Alvaro de Almada uma taça de ouro do valor de 40 marcos, a qual
+continha 100 marcos em dinheiro. Datado de 13 de agosto do já referido
+anno.
+
+«Os quatro precedentes documentos estão collocados em seguida uns dos
+outros».
+
+Eis o que dizia o _Catalogo_. Tres annos depois, no _Panorama_, o snr.
+Figanière publicava na integra os documentos, cuja traducção vamos dar
+em seguida:
+
+«Nos Archivos da Torre de Londres, rotulo de França, anno 23, maço 6,
+pergaminho 2.º
+
+«Henrique, por Graça de Deus Rei de Inglaterra, de França e Senhor da
+Irlanda, aos Arcebispos, Bispos & saude.
+
+«De grandes louvores devem ser cumulados, e com singular gloria
+exaltados os que com ardente zelo se empenham em sacrificar o seu
+tempo e até a propria vida á salvação da Patria; que se expõem aos
+perigos para assegurar a tranquillidade publica, e que acima de todas as
+cousas d'este mundo ambicionam fama illustre e nome immortal, e se dão
+por felizes quando julgam poder com os seus serviços e lealdade promover
+o publico bem. Oh benemerita classe de homens! sem os quaes não poderiam
+gozar de segurança as cidades, as fortalezas, os reinos, os dominios, os
+Principes da terra, nem mesmo a propria Terra. Oh muito illustres e
+justos varões! sob cuja administração exemplar todas as virtudes se
+avigoram e florecem, os máos são reprimidos e os criminosos castigados.
+Ninguem ha, certamente, que com digno louvor possa celebrar por escripto
+ou de palavra almas tão nobres. N'este numero se deve contar e celebrar
+o insigne e preclaro varão, o bravo e glorioso militar, D. Alvaro de
+Almada, que desde _tenra idade, apenas saido da infancia_, apaixonado de
+gloria militar e ambicionando os premios dos valentes e a salvação
+commum, com todo o esforço e zelo se applicou aos exercicios militares,
+e logo que chegou á idade mais propria para a guerra, cresceu-lhe o
+esforço com a idade, e em defeza do Estado se portou com tão superior
+coragem que nada lhe parecia agradavel, digno de estima ou de apreço se
+não se encaminhasse ao bem commum; e tal valor mostrou nos perigos da
+guerra, e tal prudencia no remanso da paz, que com toda a justiça se
+devem premios ao seu trabalho. Por estas razões considerando nós a
+nobreza d'este varão, e as eminentes qualidades que, unidas a seus
+feitos, lhes dão grande realce, e outrosim as gloriosas façanhas por
+elle praticadas no _tempo do Christianissimo Rei de gloriosa memoria
+nosso Antecessor, realçadas ainda pelas provas de amor, obediencia e
+dedicação que a nós e nossos reinos elle tem dado_; o nomeamos
+cavalleiro socio e irmão da ordem da Jarreteira por voto unanime d'esta
+Ordem; e em testimunho de nossa Real Munificencia e das suas virtudes o
+nomeamos e estabelecemos Conde de Avranches no nosso Ducado de
+Normandia; e cingindo-lhe a espada o investimos n'este nome, dignidade e
+titulo e com elle effectivamente o honramos. Queremos e mandamos por nós
+e por nossos herdeiros que o dito nosso leal Dom Alvaro conserve
+perpetuamente para si e seus herdeiros varões, seus descendentes havidos
+em legitimo matrimonio, o nome e dignidade de Conde de Avranches. Foram
+testimunhas os veneraveis Padres: I. arcebispo de Cantuaria; I.
+arcebispo de Yorck; Thomaz, de Norwich; Will, de Sarum; I. Bathon e
+Wellen, bispo de Gloucester, tio materno do nosso carissimo Duque
+Humfredo; e os nossos carissimos parentes os duques João Exon, e
+Humfredo Buck; e Wilhelmo, marquez de Suffolk; João, visconde de
+Beaumont e seus amados e fieis soldados Radulpho Cromwell e Radulpho
+Bottler, thesoureiros de Inglaterra, e o chanceller Mestre Adam Moleyns
+e outros. Dado por nossa mão em Westminster a 4 de agosto. Por carta de
+sello privado passada n'esta mesma data»[43].
+
+«Nos Archivos da Torre de Londres, rotulo de França, anno 23.º, maço
+6.º, pergaminho 2.º
+
+«Eu El-Rei aos que esta virem & saude.
+
+«Tomando em consideração a lealdade, intelligencia, circumspecção,
+affecto, serviços e todas as mais cousas dignas de menção que _a nosso
+amantissimo Pae de feliz memoria, e tambem a nós_ com singular desvelo
+prestou o nosso leal D. Alvaro de Almada, Conde de Avranches, do
+conselho do nosso Parente o muito excellente Principe e
+poderosissimo Senhor Rei de Portugal, e capitão mór em todos os seus
+reinos e dominios, e Alcaide mór da cidade de Lisboa, e querendo
+outrosim que taes serviços não fiquem em esquecimento e sem
+recompensa: por nosso motu proprio concedemos ao mesmo D. Alvaro em
+quanto viver cem marcos de pensão annual, a receber do nosso Erario de
+Inglaterra por mão do nosso thesoureiro e officiaes que então alli
+servirem, e a vencer em porções eguaes pela Paschoa e pelo S. Miguel. Em
+fé do que é. Testimunha R.»
+
+«Westminster 9 de agosto»[44].
+
+«Sello particular do Governo, 13 de agosto 23 H. 6.--Nós, tomando em
+consideração os bons serviços, grande zelo, e bom amor que nosso fiel e bem
+amado Alvaro de Almada, cavalleiro de Portugal, nos tem feito e prestado e
+aos nossos muito nobres antepassados, o temos feito e creado ha pouco tempo
+conde de Avranches, e além d'isso temos concedido ao dito Alvaro uma pensão
+de 100 marcos por anno durante a sua vida. Nós vos ordenamos de lhe
+entregar uma taça de ouro do valor de quarenta marcos[45] e a somma de cem
+marcos contidos na dita taça»[46].
+
+Estas mercês foram feitas por Henrique VI na sua dupla qualidade de rei
+de Inglaterra e duque de Normandia em França. Insistimos n'este ponto
+para combater o erro em que tantos escriptores nacionaes e estrangeiros
+têm cahido, de suppor que Alvaro Vaz recebera do rei de Inglaterra a
+ordem da Jarreteira, e do rei de França o condado de Avranches, que
+estava incluido no antigo ducado de Normandia. O rei era um só. A este
+respeito com inteira razão nota o snr. Oliveira Martins que nem se
+concebe que, estando em guerra os dous reinos, o mesmo homem fosse feito
+conde de Avranches pelo rei de França e cavalleiro da Jarreteira pelo
+rei de Inglaterra[47].
+
+Em 1447, o joven rei D. Affonso V pede a seu tio o infante D. Pedro
+que lhe entregue as redeas do governo, o que immediatamente consegue.
+
+É então que principia a agitar-se em torno do infante ex-regente a
+intriga atiçada pelo duque de Bragança.
+
+Os conselheiros de D. Affonso V diziam-lhe, segundo conta Pina, que «por
+segurança não sómente de sua vida, mas da justiça e fazenda tirasse,
+como logo tirou, todos os officios, que os criados de seu tio na
+côrte tinham de qualquer qualidade que fossem, pondo suspeições e
+testimunhos falsos, a uns que erravam na justiça, e a outros que
+roubavam a fazenda, e a outros que dariam peçonha a el-rei, segundo a
+cada um em seus officios podia tocar, e para parecer que o queriam
+provar, não falleciam logo pessoas induzidas, que com medo de pena, ou
+com esperança de galardão, que lhe promettiam, na sua vontade o
+testimunhavam»[48].
+
+O que é certo é que, apesar de todas estas machinações dos inimigos do
+infante D. Pedro, o joven rei Affonso não se mostrou severo, nem mesmo
+reservado, com D. Alvaro Vaz de Almada quando elle recolheu a Lisboa.
+
+É que, como logo veremos pelas palavras do infante D. Pedro, Alvaro Vaz
+tinha augmentado a sua gloria militar, praticando _em Ceuta_ novos e
+brilhantes feitos de armas.
+
+N'este lance da narrativa, precisamos recorrer mais uma vez ao
+testimunho de Ruy de Pina, transcrevendo um capitulo da sua _Chronica_:
+
+«_A este tempo chegou tambem a Lisboa, que vinha de Ceuta_, o conde
+d'Abranches, que sobre todos era grande servidor e muito amigo do
+infante D. Pedro, e publico imigo do conde d'Ourem, e em sua chegada não
+foi então d'el-rei e de sua côrte assim agasalhado e honrado, como seus
+serviços presentes e merecimentos passados requeriam. Porém o conde
+assim como era de nobre sangue, assim não fallecia n'elle uma graciosa
+soltura de dizer, com mui esforçado coração e singular agradecimento,
+com que ante el-rei e os de sua côrte, no publico e no secreto defendia
+muito a honra e estado do infante D. Pedro, com claro exemplo e
+vivas razões de sua mui louvada lealdade, afeando muito com grande
+audacia os movimentos e maldades, que seus imigos tão sem causa contra
+elle moviam. E como quer que el-rei fosse induzido, que não ouvisse o
+conde e o mandasse ir fóra de sua côrte, pondo-lhe que em todas as
+culpas do infante elle era muito culpado, porém porque el-rei era de
+alto coração, accêso no ardor de actos cavalleirosos, suspirando para
+grandes empresas, folgava muito de o ouvir, e começava dar-lhe de si
+muita parte e acolhimento, especialmente porque o infante D. Henrique
+ante el-rei muitas vezes por cousas muito assignaladas em que o vira,
+dizia por elle, que não sómente Portugal, mas Hespanha toda se devia de
+haver por honrada crear tal cavalleiro. E porque os imigos do infante
+viram, que a vontade d'el-rei ácerca do conde não terçava por elles
+como desejavam, lançaram-lhe amigos d'elle lançadiços, e pessoas de
+credito que com resguardo de grande segredo o aconselhassem, que se
+fosse fóra da côrte, e não entrasse em um conselho publico que se então
+fazia, avisando-o manhosamente que n'elle por cousas do infante D. Pedro
+o haviam de prender. Mas o conde com a cara cheia d'essa forçada
+segurança, lhe disse--_Amigos, certamente pelos muitos e grandes
+serviços que tenho feitos a esta casa de Portugal, eu lhe mereço mais
+villas e castellos com que me acrecente, que prisões nem cadêas em que
+sem causa me ponha, e por tanto com todo o que me dizeis, sabei que não
+hei de fugir do conselho e serviço d'el-rei nosso senhor, pois leal e
+verdadeiramente sempre o segui. E porém se tal cousa, e por tal causa se
+move contra mim, sabei certo que em defender minha honra, e limpeza
+d'aquelle senhor, eu me mostrarei hoje digno de ser confrade da
+santa Garrotea que recebi, e espero em Deus que sem ociosidade de minhas
+mãos, os que me quizerem visitar antes seja na sepultura, que nos
+carceres nem cadêas, e por isso não hajaes dó nem compaixão de minha
+vida porque minha morte honrada a fará com louvor viver mui viva, e
+muito mais honrada nas memorias dos homens para sempre._ Pelo qual o
+conde depois de com esta determinação despedir estes manhosos e dobrados
+conselheiros; porque a hora do conselho se chegava, a que determinou ir,
+se vestiu de pannos finos mui bem e muito melhor d'armas secretas, com
+que entrou no paço, onde seus imigos, vendo a segurança de sua pessoa,
+foram claramente certificados do esforço e bondade de seu coração. E
+estando el-rei na casa do conselho, onde eram muitos senhores presentes
+e os principaes imigos do infante, o conde e com cara que mais parecia
+que ameaçava que temia, lhe tocou em sua prisão que lhe fora
+revelada, e assim lhe fallou com muito repouso e grande auctoridade nas
+cousas do infante e suas, approvando sua bondade e lealdade por termos,
+e com razões a todos tão manifestas, que se não podiam contrariar;
+concluindo, que quaesquer pessoas de qualquer estado e condição que
+fossem, que do contrario tinham informado a El-Rei, eram com reverencia
+e acatamento de sua real pessoa, a Deus e a elle e ao mundo máus e
+traidores, e que com licença e consentimento de sua senhoria os
+combateria por armas, _e em campo a tres d'elles os melhores
+juntamente_[49]. A resposta d'el-rei para o conde foi então
+graciosa e branda, e com mostrança que lhe pesara de o ouvir, que para o
+mau fundamento dos que tratavam a morte do infante, foram mui tristes
+signaes, e por arredarem el-rei do infante D. Henrique e do conde,
+que começavam ser causa, que de todo impedia seu damnado proposito, o
+levaram a Cintra aforrado».
+
+Este ultimo periodo de Ruy de Pina tem sido interpretado por alguns
+escriptores com manifesta confusão. Suppõem elles que Alvaro Vaz é que foi
+levado para Cintra, e não o rei. Eu entendo o contrario. Em Major a
+redacção póde suscitar duvidas; diz o erudito inglez: «Apesar da frieza,
+que lhe mostraram (ao conde de Avranches) por sua amizade a D. Pedro, foi
+sempre seu caloroso e perseverante defensor, e tal poder tinha sua
+influencia, que os maus conselheiros de elrei julgaram conveniente fazel-o
+retirar para Cintra»[50]. Soares da Sylva, deixando-se arrastar pelo
+equivoco, escreve: «N'este mesmo tempo veio á Côrte o Conde de Abranches D.
+Alvaro Vaz de Almada, que até alli estava _em Cintra_[51].
+
+Ora, em face do texto de Pina, vê-se que Alvaro Vaz veio de _Ceuta_, e
+que os cortezãos, para subtrairem D. Affonso V á influencia do conde,
+levaram o rei _aforrado_ para Cintra.
+
+D. Antonio de Lima, no _Nobiliario_, diz que Alvaro Vaz de Almada armou
+tres navios contra os genovezes que andavam no Estreito, que lhes tomou
+uma carraca, e praticou outros feitos valorosos. Não diz, porém, em que
+época isto succedeu. Mas poderá talvez presumir-se que fosse n'esta
+segunda ida a Ceuta, e que sejam estes os feitos a que o infante D.
+Pedro se refere.
+
+Os genovezes tinham n'aquelle tempo uma poderosa marinha, e póde bem ser
+que affluissem ao estreito de Gibraltar com a mira em Ceuta, chegando a
+fazer uma investida, que Alvaro Vaz teria repellido victoriosamente.
+
+Os nossos chronistas guardam silencio sobre o assumpto. Mas não custa a
+acreditar que o motivo que levou novamente a Ceuta Alvaro Vaz fosse a
+ameaça dos genovezes, contra os quaes elle acudiria com tres navios
+armados á sua custa.
+
+Sendo assim, ficaria explicado o facto de ter abandonado temporariamente
+o governo do castello de Lisboa, como explicadas ficariam tambem uma
+phrase do infante D. Pedro e a admiração que o joven rei manifestou mais
+uma vez pelo insigne capitão, a ponto dos cortezãos julgarem conveniente
+retirar D. Affonso V para Cintra, para evitar a repetição de
+entrevistas que davam vantagem ao conde de Avranches.
+
+Acaso governaria já Affonso V quando o conde partiu para Ceuta? Parece
+que não. Se esta viagem tivesse sido um meio de o tirar de ao pé do
+infante D. Pedro, se tivesse sido «um castigo», como explicar que o rei
+lhe conservasse o castello de Lisboa, que só lhe retirou quando D.
+Alvaro Vaz voltou de Ceuta? E como explicar igualmente que recebesse o
+_Capitão_ com tanto agrado?
+
+Parece mais verosimil e provavel que Alvaro Vaz partisse para Ceuta
+durante a regencia e por indicação do infante, em razão talvez do perigo
+que offereciam alli os genovezes.
+
+Por fim, como era natural que acontecesse, dada a idade impressionavel
+de Affonso V e a insistencia dos inimigos do infante, o joven rei acabou
+por ceder e tirar a D. Alvaro o governo do castello de Lisboa[52].
+
+Durante a regencia, o infante D. Pedro não só havia conservado ao
+_Capitão_ o cargo de alcaide-mór, mas tambem lhe fizera importantes
+doações, como se póde vêr por documento existente no Archivo
+National[53].
+
+O infante magoou-se profundamente com o acto pelo qual seu sobrinho
+tirára o governo do castello de Lisboa a D. Alvaro: não só o feriam
+directa e pessoalmente, imputando-lhe crimes atrozes, mas tambem na
+pessoa do seu mais dilecto amigo o queriam ferir.
+
+Na celebre carta que o infante dirigiu de Coimbra, em 30 de
+dezembro de 1448, ao conde de Arrayolos, que de Ceuta viera
+expressamente para defendel-o, dizia D. Pedro:
+
+«... por me fazerem deshonra tiraram o castello de Lisboa ao conde
+d'Avranches, o qual se tinha feito serviços a estes Reynos e aos Reys
+delles por que lhe esto devesse de ser feito vós sabees; deram-lhe
+por elles _e em especial pollo que agora fez em Ceita_, ho gallardam que
+dam a mim de meus serviços e trabalhos».
+
+Este periodo da celebre carta mostra não só o profundo resentimento do
+infante D. Pedro, mas tambem que D. Alvaro _viera de Ceuta_, onde
+praticára novos e gloriosos feitos.
+
+Não podemos precisar o anno em que o conde esteve pela segunda vez em
+Ceuta. Mas, pelo dizer o infante, sabemos que no fim de 1448 já tinha
+regressado, e por outra noticia sabemos tambem que em 1446 estava em
+Lisboa.
+
+Certamente n'este ultimo anno[54] veiu a Portugal Jacques de
+Lalain, famoso cavalleiro da côrte do duque de Borgonha. Foi
+recebido pelo joven rei Affonso V e pelo regente D. Pedro com grandes
+honras e festas. Quando De Lalain se aproximava da cidade de Evora,
+sahiram a recebel-o, em nome do rei, Alvaro Vaz de Almada e outros
+senhores e cavalleiros portuguezes[55].
+
+Não houve justas nem torneios, porque a De Lalain foi dito, em nome do
+rei, que elle não podia consentir que nenhum cavalleiro portuguez
+fizesse armas contra outro da casa de Borgonha, a que estava ligado por
+estreitos laços de parentesco e affecto.
+
+Perdeu-se assim uma excellente occasião de vêr o conde de Avranches
+justar, em Portugal, com um cavalleiro estrangeiro dos mais
+afamados, porque Alvaro Vaz de Almada não teria certamente prescindido
+d'essa honra e gloria.
+
+Vamos agora caminhando rapidamente para Alfarrobeira.
+
+Depois de fallar ao rei, Alvaro Vaz correu ancioso a abraçar o infante
+D. Pedro, que estava em Coimbra, nas suas terras.
+
+O infante D. Henrique acampanhou-o.
+
+Houve então alli um como conselho de familia para se deliberar sobre o
+que cumpria fazer. O momento era angustioso; a resolução difficil. A
+reunião do conselho repetiu-se quando se soube que o duque de Bragança
+tinha sido chamado á côrte.
+
+Alvaro Vaz de Almada opinou que a todo o custo o infante devia impedir a
+passagem ao duque[56].
+
+Este parecer foi acceito.
+
+Para o executar, D. Pedro moveu a sua gente, que de Penella seguiu para
+a Louzã, e da Louzã para a aldeia de Villarinho, sendo a vanguarda
+confiada a D. Jayme, filho do ex-regente, e a D. Alvaro Vaz de Almada. O
+proprio D. Pedro commandava a rectaguarda.
+
+Quando chegaram ao logar de Serpiz, soube o infante que o duque de
+Bragança estava apenas a meia legua de distancia.
+
+Logo que isto constou a D. Alvaro, não lhe soffreu o animo mais
+delongas. Sem dizer nada ao infante, metteu esporas ao cavallo, e foi
+vêr o arraial do duque. Quando voltou, vinha radiante; mas D. Pedro
+acolheu-o com tristeza, pesaroso de que elle o não tivesse consultado
+primeiro.
+
+Perguntou-lhe o infante o que tinha visto.
+
+D. Alvaro respondeu com decisão:
+
+--Senhor, venho de vêr vossos inimigos, de quem prazendo a Deus, e
+ao bemaventurado S. Jorge, vos eu darei hoje se quizerdes mui boa
+vingança, e peço-vos por mercê que a não dilateis para mais, e ahi logo
+dar n'elles; porque na desordem e tristeza em que estão, dão já certos
+signaes de serem cortados com medo e meio desbaratados, e não percaes
+tão bom dia; porque já em vossa vida nunca havereis outro tal, e não
+alongueis a vida a quem se lh'a hoje dais, sabei que a encurtára mui
+cedo a vós, tendo por certo que o duque na maneira em que se repaira e
+afortallesa não quer vir ávante, e ou se tornará para traz como veio, ou
+escondido se salvará por outro caminho»[57].
+
+O infante D. Pedro, querendo certamente adiar o derramamento de sangue,
+não acceitou o conselho, nem acreditou a prophecia.
+
+Mas D. Alvaro fôra n'essa occasião um vidente.
+
+O duque de Bragança conseguiu atravessar furtivamente a serra da
+Estrella, escapando-se d'este modo ás mãos do infante, e seguindo
+jornada para Lisboa.
+
+D. Pedro e os seus tornaram para Coimbra.
+
+Ahi foi surprehender o infante uma carta de sua filha, a rainha.
+Dizia-lhe ella que no dia 5 de maio (estava-se em 1449) D. Affonso V o
+iria cercar, e que, se elle infante fosse vencido, seria morto,
+encarcerado ou desterrado.
+
+D. Pedro mostrou-se alegre e tranquillo perante o mensageiro, mas ficou
+profundamente abatido.
+
+Reuniu o conselho dos seus amigos. As opiniões dividiram-se. D. Alvaro,
+sem fazer a menor allusão á boa occasião que o infante havia
+perdido, disse com inabalavel firmeza:
+
+--Antes morrer grande e honrado que viver pequeno e deshonrado.
+
+Desenvolvendo esta these, aconselhou que, vestindo todos as suas armas,
+fossem caminho de Santarem, onde a côrte estava, para que o infante
+mandasse pedir a el-rei que ou lhe permittisse defender-se na presença
+de seus inimigos ou haver pelas armas satisfação das injurias que
+propalavam, e que se el-rei nenhuma d'estas concessões quizesse fazer, e
+sobre elles viesse, que se defendessem no campo como bons e esforçados
+cavalleiros[58].
+
+_Antes morrer grande e honrado que viver pequeno e deshonrado_: estas
+heroicas palavras calaram no animo, até ahi indeciso, do infante D.
+Pedro.
+
+Conheceu que a razão e a honra estavam do lado de D. Alvaro.
+Acceitou-lhe o conselho. As duas almas entendiam-se, completavam-se.
+Tinha chegado o momento decisivo: só restava apparelhar para elle.
+_Antes morrer grande e honrado que viver pequeno e deshonrado._ Tal era
+o dilemma. A voz da cavallaria portugueza fallára pela bocca de D. Alvaro.
+
+Preparou-se o infante D. Pedro para a sorte das armas, qualquer que ella
+fosse.
+
+Ruy de Pina, que segue os moldes de Tito Livio, pondo longos discursos
+na bocca dos personagens historicos, descreve d'este modo a scena
+intima, que se déra entre D. Pedro e D. Alvaro:
+
+«E passados alguns dias depois estes conselhos, o infante não se
+esfriando em seu proposito, apartou só em uma camara o conde
+d'Abranches, e lhe disse--_conde, sabe que eu sinto já minha alma
+aborrecida de viver n'este corpo, como desejosa de se sair de suas
+paixões e tristezas, e considerados os seus combates que minha vida,
+honra, e estado cada dia recebem, com esperança de não minguarem, mas
+cada vez crescerem mais, certo se as cousas n'esta viagem me não
+succedem como eu desejo, e seria razão, eu todavia determino morrer e
+acabar inteiro, e não em pedaços, e como quer que tenho outros bons
+criados e servidores, que por suas bondades folgariam e não se
+escusariam de morrer comigo, porém em vós sobre todos tomei esta
+confiança, assim pela irmandade que comigo merecestes ter, na santa e
+honrada ordem da Garrotea em que somos confrades, e como por creação que
+vos fiz, e principalmente pela certidão que de vossa bondade e esforço
+tenho muito ha conhecido, e por tanto quero saber de vós, se no dia que
+d'este mundo me partir, querereis tambem ser meu companheiro, e com isso
+lembre-vos para satisfazerdes aos primores de vossa honra, que
+sendo vós tão conhecidamente meu criado e servidor, e tão publico imigo
+do conde d'Ourem e arcebispo de Lisboa, depois de minha morte não podeis
+ter vida, salvo reservada para com mãos d'algozes a perderdes em lugares
+vis, e com pregões deshonrados. Senhor,_ respondeu o conde, _para caso
+de tamanho contentamento, como foi sempre e é para mim viver e morrer
+por vosso serviço, muitas palavras nem os encarecimentos não são
+necessarios, eu vos tenho muito em mercê escolherdes-me para tal
+serviço, e eu sou muito contente ter-vos essa companhia na morte, assim
+como vol-a tive na vida, e se Deos ordenar que deste mundo vossa alma se
+parta, sede certo que a minha seguirá logo a vossa, e se as almas no
+outro mundo podem receber serviço umas das outras, a minha n'esse dia
+irá acompanhar e servir para sempre a vossa_».
+
+Ferdinand Denis torna esta scena mais rapida, e por isso mesmo
+talvez mais verdadeira.
+
+O infante teria perguntado a D. Alvaro, com uma simplicidade e rudeza
+proprias do caracter de ambos, se estava disposto a morrer por sua causa.
+
+D. Alvaro responderia com laconica firmeza:
+
+--Acaso não sou eu vosso irmão de armas?
+
+Esta concisa resposta vale bem, segundo as ideias d'aquelle tempo, o
+discurso de Ruy de Pina.
+
+Foi avisado um sacerdote, homem abalisado, o doutor Alvaro Affonso, para
+comparecer na egreja de S. Thiago.
+
+Por mão d'este sacerdote commungaram o infante e D. Alvaro, jurando
+ambos, sobre a hostia consagrada, que juntos triumphariam ou morreriam.
+
+Depois o infante visitou as egrejas da Sé, de Santa Cruz e de Santa
+Clara, com as quaes tinha particular devoção, e, recolhendo ao
+paço, deu ordem para que estivessem prestes os seus seis mil homens, e
+para que n'essa noite se abrissem e illuminassem os salões do solar.
+
+Tendo cumprido os deveres de bom christão, queria despedir-se do mundo,
+na hypothese de ser vencido, se não era presentimento, como bom cavalleiro.
+
+E elle, que tão modesto vivera sempre, deu ao sarau d'essa noite um
+esplendor verdadeiramente principesco.
+
+«La veille de son départ pour Santarem, une fête fut donnée aux dames;
+et il y brilla de cette grâce de langage, de cette noblesse toute
+chevaleresque, qui l'avaient rendu maintes fois l'admiration des cours
+de l'Allemagne et de l'Aragon»[59].
+
+Como que está a gente a vêr o amavel donaire d'esses dous
+cavalleiros, o infante e D. Alvaro, fallando ás damas, pisando
+gentilmente tapetes macios que encobriam a cratera de um vulcão ameaçador.
+
+Ao romper da manhã, quando o sol da primavera aclarava docemente a
+paizagem formosissima de Coimbra, a cavallaria, a infanteria, a
+carriagem de bois e bestas, principiaram a mover-se, desfraldando duas
+bandeiras, cujos lemmas diziam, n'uma, _Lealdade_, na outra, _Justiça e
+vingança_.
+
+O infante D. Pedro, tendo abraçado sua esposa, seguira o exercito que
+abalava em som de guerra.
+
+ * * * * *
+
+Esta Jornada, a mais curta e ao mesmo passo a mais longa que o infante
+fizera, porque não regressou jámais, lembra até certo ponto a
+attracção da chamma sobre a borboleta. Tambem o infante e o seu fiel
+companheiro D. Alvaro pareciam attrahidos pela morte.
+
+Iam procurando os templos famosos como para encommendar sua alma a Deus.
+Estiveram na Batalha, onde D. Pedro ajoelhou diante do tumulo de seus
+pais, quedando-se tambem algum tempo diante do jazigo que elle proprio
+devia ir povoar. Estiveram em Alcobaça, e d'alli seguiram para Rio
+Maior, onde o infante reuniu o conselho.
+
+Todos, á excepção de D. Alvaro, aconselhavam D. Pedro a que não
+avançasse mais; diziam-lhe que, feita aquella demonstração de força,
+retrocedesse para Coimbra.
+
+O infante ouvia-os engolphado n'uma abstracção melancolica. Mas deu
+ordem para que o exercito marchasse na direcção de Alcoentre: para
+a morte é que era o caminho.
+
+Cbegados ahi, D. Alvaro Vaz de Almada pratíca um novo acto de bravura,
+de fogoso ardor militar.
+
+Ayres Gomes da Silva, a quem coube a guarda das forragens, fôra cercado
+pelos esclarecedores do exercito real.
+
+Mal que isto se soube em Alcoentre, no acampamento do infante, «o conde
+de Abranches com grande trigança logo sahiu, e com elle quasi todos os
+do arraial não guardando alguma regra em sua sahida, antes com muita
+desordem e desmando romperam por muitas partes o palanque, e deram com
+muita força nos corredores, de que alguns d'elles achando-se atalhados,
+querendo-se salvar cairam em um grande tremedal e lagoa, de que não
+poderam sahir, onde entre mortos e presos ficaram logo até trinta, e os
+vivos levaram logo ante o infante, entre os quaes o principal era
+um Pero de Castro, fidalgo e criado do infante D. Henrique»[60].
+
+Impellido por este acontecimento, o exercito de D. Pedro avançou.
+Sahiu-lhe ao caminho a noticia de que D. Affonso V havia partido de
+Santarem ao seu encontro. Sabido isto, o infante mandou fazer alto, a
+pequena distancia de Alverca, junto ao ribeiro de Alfarrobeira.
+
+O conde de Avranches, que era sempre o primeiro, foi observar o exercito
+do rei, que se aproximava.
+
+Fez-lhe impressão a grandeza d'esse exercito. Mas, voltando, occultou a
+toda a gente a sua impressão, menos ao infante.
+
+«... e alguns disseram que o Conde pedira e requerera ao infante, visto
+a desigual comparação que havia de uns a outros, que só se fosse e
+salvasse, e o deixasse com sua gente alli onde folgaria acabar por
+seu serviço»[61].
+
+Se isto assim foi, o infante recusou o offerecimento. Lembrou porventura
+a D. Alvaro que o voto feito por ambos era de morrerem um pelo outro.
+
+«Mas o que mais verdadeiramente ácerca d'isto se deve crêr, é que o
+Conde pela certa sabedoria que tinha do proposito do infante, que era
+morrer, e pelo consagramento que ambos por isso tinham feito, não lhe
+commetteria nem ousaria commetter tal cousa, em que ao menos ficava o
+infante por ser perjuro e fraco»[62].
+
+Foi ahi, junto ao ribeiro de Alfarrobeira, que n'esse dia, uma
+terça-feira, 20 de maio, o infante D. Pedro esperou o exercito do rei.
+
+O conflicto, rapido e decisivo, devia comtudo ficar memoravel na
+historia de Portugal. Uma setta, certeiramente despedida, fôra cravar-se
+no peito do infante, que pouco tempo sobreviveu.
+
+Luiz de Azevedo[63], poeta do _Cancioneiro_ de Rezende, põe
+na bocca do infante moribundo lastimas que talvez lhe atravessassem o
+pensamento n'essa angustiada hora final:
+
+ Nam ha rreynos em Cristãos
+ que em todos nam andasse,
+ e que sempre nom achasse
+ nos rreys d'eles doces mãos;
+ Fydalguos e cydadaõs
+ me seruiam lealmente,
+ e agora cruelmente
+ me matarom meus yrmãos.
+
+ Eu andey per muytas partes
+ e por outras boas terras,
+ muyta paz e tam bem guerras
+ vy tratar per muytas artes.
+ Mas aqueste dia Martes
+ foy jnfeles pera mym;
+ o meu sangue me deu fim
+ e rrompeu meus estandartes.
+
+Vamos, na confusão do rapido combate, procurar o conde de Avranches. O
+infante é morto. D. Alvaro ha de cumprir o seu juramento como o mais
+leal dos cavalleiros portuguezes.
+
+Ruy de Pina escreve:
+
+«O conde d'Abranches andando a cavallo em outra parte do arraial,
+provendo e resistindo em sua estancia, como bom e ardido cavalleiro, a
+muitas affrontas que o perseguiam, um moço chegou a elle e chorando lhe
+disse--_Senhor conde, que fazeis? porque o infante D. Pedro é morto._--E
+o conde com quanto esta embaixada era de morte, que sem escusa nem
+dilação desafiou logo sua vida, elle com a cara segura e o coração
+esforçado disse ao moço--_Cala-te e aqui o não digas a ninguem._--E
+com isto feriu rijamente o cavallo das esporas, e foi-se descer em seu
+alojamentor onde sem alguma turvação pediu pão e vinho, de que por
+esfoçar mais seu esforço comeu e bebeu alguns bocados, e tomou suas
+armas para com ellas honrar sua sepultura, que era a terra em que havia
+de cair, e saiu a pé pelo arraial, que de todas as partes era já entrado
+e vencido, e como foi conhecido, logo os d'el-rei uns sobre os outros
+carregaram sobre elle acommettendo de todas as partes para o matar, mas
+elle logo com uma lança que cortaram, e depois com sua espada os feria,
+e escarmentava de maneira, que os que a primeira vez o acommettiam, de
+mortos ou feridos não volviam a elle a segunda, e assim pelejou um
+grande pedaço como mui valente e accordado cavalleiro, não sem grande
+espanto dos que o viam trazendo as mãos, e todas suas armas cheias não
+de seu sangue, mas de muito alheio que espargiu; porque em quanto
+andou em pé e se poude revolver, nunca sua carne recebeu golpe que a
+cortasse. E emfim vencido já de muito trabalho, e longo cansaço, disse
+em altas vozes: _Ó corpo, já sinto que não podes mais, e tu minha alma
+já tardas._ E com isto se deixou cair estendido no chão, e uns dizem que
+disse, _ora fartar, rapazes_, e outros _ora vingar, villanagem_. Cujo
+corpo que já não resistia, foi logo de tantos golpes ferido, que em
+breve despediu a alma de si para ir acompanhar a do infante como lhe
+tinha promettido, e alli um seu amigo, que não usou do que devia, lhe
+cortou e levou a cabeça com que a el-rei foi pedir acrescentamento e
+honra de cavallaria, e o tronco ficou no chão feito em pedaços, até que
+por requerimento de João Vaz d'Almada seu irmão bastardo, que era valor
+d'el-rei, houve logo enterramento no campo, e depois sepultura honrada.
+E os outros fidalgos e nobre gente que eram com o infante, vendo
+tão caro seu destroço, cada um desamparou a defeza das estancias, que
+lhe foram encommendadas, e como desesperados das vidas não lhe
+fallecendo o coração e accordo para vingarem suas mortes, se soltaram
+pelo arraial á aventura que se lhes offerecesse, e emfim de mortos,
+feridos, ou presos não escapou algum».
+
+Realmente, um frémito de enthusiasmo põe no nosso organismo uma vibração
+violenta, ao chegarmos a esta pagina, a ultima, da biographia de Alvaro
+Vaz de Almada. Os heroes da epopéa costumam cair assim. Na morte, esse
+homem extraordinario parece ainda sobrepujar a grandeza de toda a sua
+vida. Para os livros de educação popular, nenhum exemplo de valor
+militar e de leal amizade poderá ser mais apropriado do que este.
+
+Os nobiliarios da Torre do Tombo referem entre as phrases finaes de
+Alvaro Vaz uma que o chronista aliás não cita. Contam que,
+embravecido em vingar a morte do seu amigo, o conde de Avranches, na
+vertigem do combate, pronunciára: «_Jantar aqui, ceiar no inferno_». Era
+um leão que se vingava, cego de colera, imponente de magestade.
+
+Estes acontecimentos causaram uma profunda impressão em toda a Europa.
+D. Affonso V procurou attenual-a enviando embaixadores ás principaes
+côrtes, encarregando-os de explicarem os motivos do seu procedimento.
+
+Mas a impressão foi tanto maior, quanto é certo que a vingança do rei
+ultrapassou o respeito devido aos mortos.
+
+O cadaver do infante ficou insepulto sobre o campo, durante tres dias.
+Depois levaram-n'o sobre um escudo para a egreja de Alverca. Aquelle
+desgraçado principe, de quem o povo conta que, em vida, andou as sete
+partidas do mundo[64], ainda depois da morte errou n'uma longa
+peregrinação, porque os seus ossos foram successivamente trasladados de
+Alverca (onde o rei receiou que os fossem roubar) para o castello de
+Abrantes, de Abrantes para o mosteiro de Santo Eloy em Lisboa, e de Lisboa,
+finalmente, para a Batalha, a instancias da infeliz rainha D. Isabel.
+
+Ao cadaver do conde de Avranches foi, como diz Pina, cortada a cabeça
+por um dos adversarios, aliás seu antigo amigo, que a levou a el-rei na
+esperança de obter mercê[65]. Feito pedaços, retalhado de
+golpes, o corpo de D. Alvaro ficou tambem insepulto sobre o campo de
+Alfarrobeira, até que a requerimento de seu irmão bastardo, João
+Vaz de Almada[66], e não sem difficuldade, foi enterrado
+honradamente na capella de familia.
+
+Esta capella, que confinava com a casa do Capitulo em S. Francisco de
+Lisboa, era chamada _dos Abranches_ (corrupção de Avranches), por n'ella
+ter sido sepultado D. Alvaro Vaz.
+
+«Está sepultado--descrevia no seculo XVII o auctor da _Historia
+serafica_--no meio d'esta capella, debaixo de uma pedra, na qual se vêem
+estas letras: _Aqui jaz um Christão._ Na parede sustentavam dous leões
+uma arca pequena, ennobrecida com as armas dos Almadas, em que estavam
+os ossos de seu pai João Vaz de Almada, e de seu irmão Pero Vaz de
+Almada, os quaes ausentando-se do reino por razões, que para isso
+tiveram, fóra d'elle fizeram celebre seu nome com muitos feitos
+cavalleirosos[67]. E por quanto uma ruina do tecto a tem
+feito em pedaços, e a mesma capella se ha de incorporar em a Casa
+do Capitulo, com mais gosto deixamos escripta esta memoria».
+
+Por carta de D. Affonso V, de 10 de outubro d'aquelle anno de 1449,
+foram privados de todos os seus beneficios, dignidades, officios,
+honras, prerogativas, isenções, privilegios, liberdades, etc., os
+partidarios do infante que se acharam em Alfarrobeira.
+
+O conde de Avranches não escapou a esta medida geral, que abrangia tanto
+os vivos como os mortos.
+
+«Morto o conde de Avranches, foram-lhe logo os bens confiscados como de
+reo de alta traição: a casa da actual rua do _Almada_, sobre o Calhariz,
+campo então, e afastado, e mais uns terrenos em Caparica. Tudo se doou
+em 25 de agosto de 1449 a Alvaro Pires de Tavora, chamado o velho, filho
+de Lourenço Pires de Tavora e de Alda Gonçalves, e do conselho d'elrei
+D. Affonso V. Esses bens conservam-se ainda, na sua maior parte, em
+poder do actual representante dos Tavoras, o sr. marquez de Vallada,
+etc.»[68]
+
+Quantos lisboetas ignorarão ainda hoje que foi o famoso conde de
+Avranches, espelho da cavallaria portugueza, como muitos escriptores lhe
+chamam, que deu o nome a essa aliás modesta rua, proxima do Calhariz!
+
+Alvaro Vaz de Almada, primeiro conde de Avranches, casou duas vezes.
+
+A primeira com D. Isabel da Cunha, filha de Alvaro da Cunha, quinto
+senhor de Pombeiro, o qual era filho de João Lourenço da Cunha e de sua
+mulher a celeberrima D. Leonor Telles[69].
+
+A lista dos filhos de Alvaro Vaz de Almada, publicada nos _Retratos dos
+varões e donas_, é deficiente. Nos nobiliarios da Torre do Tombo
+encontra-se a seguinte noticia genealogica, que deve completar a sua
+biographia:
+
+Do primeiro casamento, nasceram cinco filhos, a saber:
+
+1.º D. João de Almada, cuja geração se extinguiu.
+
+2.º D. Leonor, solteira.
+
+3.º D. Violante da Cunha, primeira mulher de Fernam Martins Mascarenhas,
+capitão de ginetes, do qual se apartou.
+
+4.º D. Isabel da Cunha, mulher de Alvaro Pessanha, filho de micer
+Carlos Pessanha, almirante[70].
+
+5.º Dona V... da Cunha, que casou em Inglaterra.
+
+Em segundas nupcias casou D. Alvaro Vaz de Almada com D. Catharina de
+Castro, filha de D. Fernando de Castro (casa Monsanto) e de sua mulher
+D. Isabel de Athayde.
+
+D'este segundo cazamento nasceu D. Fernando de Almada, que veio a herdar
+o titulo de conde de Avranches, confirmado em França por Luiz XI.
+
+D. Catharina não teve pela memoria de D. Alvaro o respeito que era de
+esperar, visto que não podia encontrar outro marido, que excedesse
+em gloria o primeiro.
+
+Casou outra vez. Casou, depois da morte do conde de Avranches, com D.
+Martinho de Athayde, conde de Athouguia, seu primo co-irmão.
+
+É triste recordar esta pagina de fragilidade feminina.
+
+Mas a patria, essa, ficou eternamente viuva do grande cavalleiro.
+
+ * * * * *
+
+De proposito deixei para o final d'esta carta um assumpto, vago e
+confuso, que anda lendariamente relacionado com a vida de D. Alvaro Vaz
+de Almada.
+
+Os chronistas fazem d'este famoso capitão um dos _doze de Inglaterra_,
+emparceirando-o alguns, n'esta cavalheiresca aventura, com seu pai.
+
+Não póde ser mais completa a confusão de datas e de nomes, que obscurece
+esta lenda em si mesma e na sua referencia á familia Almada.
+
+Dêmos desde já um exemplo.
+
+Ferdinand Denis, que com tanto cuidado estudava a historia de Portugal,
+diz a respeito de Alvaro Vaz de Almada:
+
+«Il faisait partie, dit-on, des douze preux qui allèrent venger
+l'honneur outragé des dames anglaises; et Camoens l'a celebré en cette
+occasion, en alterant toutefois son nom»[71].
+
+Ora, no episodio _dos doze de Inglaterra_, Camões apenas nomeia um só,
+que «Magriço se dizia». Onde o poeta falla do conde de Avranches é
+no canto IV, quando descreve a batalha de Aljubarrota. E ahi é que lhe
+troca o nome. Vejamos:
+
+ E da outra ála que a esta corresponde,
+ Antão Vasques de Almada[72] é capitão,
+ Que depois d'Abranches nobre conde,
+ Das gentes vai regendo a sestra mão.
+ Logo na rectaguarda não se esconde,
+ Das quinas e castellos o pendão,
+ Com Joanne rei forte em toda a parte,
+ Que escurecendo o preço vai de Marte.
+
+Quem esteve em Aljubarrota não foi Alvaro Vaz de Almada, nem podia
+estar, porque, sendo aproximadamente da mesma idade do infante D. Pedro,
+não teria ainda nascido: mas foi seu pai, João Vaz de Almada,--ahi
+armado cavalleiro.
+
+Effectivamente, um cavalleiro, chamado Antão Vasques, de Almada
+acrescentam alguns, commandava a ala esquerda do exercito com o gascão
+Guilherme de Montferrant[73].
+
+E este mesmo Antão Vasques, depois da batalha, cobriu os pés do Mestre
+de Aviz com a bandeira real de Castella.
+
+Não se póde confundir este cavalleiro com João Vaz de Almada, a quem,
+antes de ser armado cavalleiro, não dariam o commando da ála esquerda do
+exercito. Já sabemos que João Vaz foi armado ahi, em Aljubarrota, o que
+prova que era muito novo então.
+
+Assim, temos que Ferdinand Denis se equivocou dizendo que Camões altera
+o nome do conde de Avranches quando descreve o episodio dos _doze
+de Inglaterra_; e que Camões se enganou tambem dizendo que Antão Vasques
+de Almada foi depois conde de Avranches.
+
+Vamos agora á lenda dos _doze_.
+
+Será acaso nos _Lusiadas_ que pela primeira vez apparece noticia d'esta
+lenda?
+
+Não é. A primeira edição do poema de Camões foi estampada em Lisboa no
+anno de 1572. Em 1567 imprimia-se em Evora o _Palmeirim de Inglaterra_,
+por Francisco de Moraes, e no capitulo CLXIII da segunda parte d'esta
+obra, faz-se menção de um combate cavalheiresco, que envolve o fundo da
+lenda dos _Doze_.
+
+Mas o _Palmeirim de Inglaterra_ será uma obra original, uma traducção
+fiel ou apenas uma imitação? Moraes, que acompanhou em 1540 a França o
+embaixador portuguez, o segundo conde de Linhares, diz na dedicatoria á
+infanta D. Maria que trasladára a sua chronica de outra de Albert
+de Rennes, em Paris. Innocencio Francisco da Silva julga, porém, que
+Francisco de Moraes não traduziu servilmente, antes introduziu cousas de
+sua lavra.
+
+No mesmo anno de 1567 imprimia-se em Coimbra o _Memorial das proezas da
+segunda tavola redonda_, de Jorge Ferreira de Vasconcellos, e ahi, no
+capitulo XLVII se lê: «Porque não se nega aos lusitanos, dês o tempo dos
+romanos que fizeram memoria dos feitos heroicos, um abalisado e raro
+grau de cavallaria. E em tempo d'elrei D. João de _Boa Memoria_ sabemos
+que seus vassallos no cêrco de Guimarães se nomeavam por cavalleiros da
+tavola redonda; e elle por rei Arthur. E de sua côrte mandou treze
+cavalleiros portuguezes a Londres, que se desafiaram em campo cerrado
+com outros tantos inglezes, nobres e esforçados, por respeito das damas
+do duque de Alencastro».
+
+Aqui nos apparece a lenda já apropriada a Portugal, com a só differença
+de serem treze os cavalleiros em vez de doze.
+
+O que se vê claramente do que fica exposto é que em 1567 a lenda a que
+nos vimos referindo andava em moda em Portugal. E talvez por estar muito
+viva a fama gloriosa do reinado cavalheiresco de D. João I, seria Jorge
+Ferreira de Vasconcellos o primeiro que a localisou n'aquella época.
+
+Alguns escriptores nossos, e entre elles o auctor dos _Retratos dos varões
+e donas_, precisam a data da ida dos cavalleiros portuguezes a Inglaterra,
+collocando-a no anno 1390. Com effeito, esta era a época mais propria, por
+amor da verosimilhança, porque foi depois do casamento de D. João I com D.
+Filippa de Lancaster na Sé do Porto (1387) que se estreitaram as relações
+de Portugal com a Inglaterra[74], e foi depois da batalha de Aljubarrota
+(1385) que o espirito cavalheiresco se accendeu entre nós. Mas Fernam
+Lopes, a melhor auctoridade que podia fazer fé, não se refere ao caso.
+
+Prosigamos. Mariz, nos _Dialogos da varia historia_, publicados em 1594,
+referindo-se a uma relação antiga, _Chronica antigua hujus
+temporis_, publíca uma narrativa do feito dos _Doze_, occorrido, segundo
+elle, no reinado de D. João I. Cita, entre os _Doze_, apenas quatro,
+mencionando o nome de _um que se chamava Alvaro de Almada_.
+
+Faria e Sousa, commentando os _Lusiadas_, em 1639, tambem se refere a um
+_papel antiguo_, em que _toscamente_ se historiava o episodio dos _Doze_.
+
+Ora, o velho chronista francez João Froissart, que falleceu em 1410, falla
+de uma ordem de cavallaria, a ordem da _Dama Branca_, que foi organisada
+para defeza das damas ultrajadas, _plusieurs dames et damoiselles, veufves
+et autres, estoyent oppressées d'aucuns puissants hommes_[75], e publíca o
+texto das cartas de armas pelas quaes _treze_ cavalleiros francezes,
+messire Charles d'Albret, messire Bouciquaut, marechal de França,
+Bouciquaut, seu irmão, Francisco de Aubrecicourt, João de Lignères,
+Chambrillac, Castelbayac, Gaucourt, Chasteaumorant, Betas, Bonnebaut,
+Colleville e Torsay, se comprometteram a defender as damas no anno da graça
+de 1399.
+
+Em face do texto de Froissart, a prioridade seria dos portuguezes,
+porque a sua ida a Inglaterra é collocada por uns no anno de 1390, e por
+outros no de 1396. O duque de Lancaster, que para este feito
+cavalleiresco teria pedido o auxilio de D. João I, falleceu em 1399.
+
+Mas nós abstemo-nos de reivindicar a prioridade dos portuguezes e,
+portanto, a filiação portugueza da lenda. Contentamo-nos com dizer
+apenas que esta lenda se tinha generalisado na Europa, querendo cada
+paiz aproprial-a a cavalleiros seus.
+
+O catalogo completo dos _Doze_ portuguezes appareceu pela primeira vez
+no opusculo de Ignacio Rodrigues Védouro, _Desafio dos Doze de
+Inglaterra_, publicado em 1732[76].
+
+Ora, segundo a tradição recolhida por Védouro, esses cavalleiros seriam:
+Alvaro de Almada, o _Justador_; Alvaro Gonçalves Coutinho, o _Magriço_;
+Alvaro Mendes Cerveira; Alvaro Vaz de Almada, primeiro conde de
+Avranches; João Pereira Agostinho, Lopo Fernandes Pacheco, Luiz
+Gonçalves Malafaia, Martim Lopes de Azevedo, Pedro Homem, Ruy Gomes da
+Silva, Ruy Mendes Cerveira e Soeiro da Costa. Como supranumerarios, João
+Fernandes Pacheco e Vasco Annes Côrte Real.
+
+Este catalogo tem para nós muito pouco valor. Os nossos antigos
+chronistas não se preoccupavam com a chronologia. Assim é, por exemplo,
+que Luiz Goçalves Malafaia e Soeiro da Costa são incompativeis,
+chronologicamente, com a época dos _Doze de Inglaterra_[77].
+Além d'isto, a vaidade das familias mais illustres de Portugal não
+deixaria de collaborar no catalogo, fazendo supprimir uns nomes para os
+substituir pelos de representantes seus.
+
+Quanto ao primeiro cavalleiro do catalogo de Védouro, Alvaro de Almada,
+o _Justador_, não deixa de inspirar certa desconfiança a coincidencia de
+existirem na mesma época dois homens do mesmo nome e do mesmo vulto
+cavalheiresco.
+
+Não será acaso Alvaro de Almada, o _Justador_, um desdobramento da
+individualidade de Alvaro de Almada, o conde de Avranches, por
+errada repetição de algum códice, nobiliario principalmente?
+
+Talvez por descobrir este equivoco seria que José da Fonseca, na edição
+dos _Lusiadas_, feita em Paris em 1846, substituiu Alvaro de Almada, o
+designado _Justador_, por João Fernandes Pacheco, que no catalogo de
+Védouro figura como primeiro supranumerario.
+
+A ter-se como certa a ida dos _Doze_ cavalleiros portuguezes a
+Inglaterra, o que não póde ter-se como certo, parece-me, é que Alvaro
+Vaz de Almada fosse um d'esses cavalleiros.
+
+Elle, que foi armado cavalleiro em Ceuta em 1415, e que pela primeira
+vez estivera na Inglaterra em Janeiro d'esse anno, quando alli fôra
+levantar as trezentas e cincoenta lanças, não poderia tomar parte n'um
+torneio, que se teria realisado no fim do seculo anterior.
+
+A sua inclusão na lenda dos _Doze_ explica-se, decerto, por ter
+sido um dos mais famosos cavalleiros portuguezes do seu tempo.
+
+Sobretudo, as suas viagens e a sua morte em Alfarrobeira, que tanta
+impressão causou pelas circumstancias cavalheirescas que a revestiram,
+despertariam, na imaginação popular, o sentimento do maravilhoso. D'aqui
+talvez o associarem-n'o á lenda.
+
+Mas Alvaro Vaz de Almada não precisa d'essa gloria, aliás duvidosa,
+porque sobeja gloria lhe adveio dos seus brilhantes feitos e singulares
+aventuras.
+
+Na _Chronica_ de Monstrelet falla-se de um combate que, no anno de 1414,
+houve em França entre tres cavalleiros portuguezes e tres gascões: sendo
+o pretexto o amor das damas, comquanto o verdadeiro mobil fosse o odio
+que existia entre os francezes e os inglezes, de que os portuguezes eram
+então alliados.
+
+Os portuguezes foram D. Alvares, D. João e D. Pedro Gonçalves[78]; e os
+gascões François de Grignols, Archambaud de la Roque e Maurignon.
+
+O combate ter-se-ia realisado em Saint-Ouen, na presença do rei: Os
+portuguezes portaram-se com bravura, mas foram vencidos. Pudera! ou a
+versão não fosse franceza...
+
+Desculpe, meu caro snr. Lugan. O orgulho das nações chega a ser uma
+cousa respeitavel.
+
+Para fazer justiça ao valor dos seis campeões, foram passeiados, todos,
+pelas ruas de Paris, em triumpho, ao som de trombetas e acclamações
+enthusiasticas.
+
+Ora estes tres nomes, mudado Alvares para Alvaro, correspondem
+justamente aos dos tres cavalleiros da familia Almada: o pai e os
+dous filhos.
+
+E o appellido de Gonçalves poderá talvez explicar-se por confusão com o
+do _Magriço_, que, como sabemos, se chamava Alvaro Gonçalves (Coutinho).
+
+Vimos como Alvaro Vaz de Almada fôra com seu pai a Inglaterra levantar
+armas para a guerra de Ceuta. Naturalmente tambem iria Pedro de Almada.
+O pai estava na côrte de Henrique V em setembro de 1414, como consta do
+_Quadro diplomatico_, e Alvaro ainda alli estava em Janeiro de 1415.
+
+A commissão requeria brevidade, porque D. João I queria partir para
+Ceuta, e não me parece provavel que a familia Almada se demorasse então
+em França a combater gascões.
+
+Mas é possivel.
+
+O que é provavel é que Alvaro Vaz de Almada, e seu pai, e seu irmão, na
+Inglaterra, na França ou mesmo na Allemanha, onde Alvaro Vaz se
+encontraria mais tarde com o infante D. Pedro, praticassem, collectiva
+ou individualmente, algum feito galante em honra das damas, tomassem
+parte em qualquer dos torneios cavalheirescos, que eram n'aquella época
+frequentes.
+
+Após o combate entre os tres portuguezes e os tres gascões, houve um
+duello entre outro portuguez e um cavalleiro bretão, de appellido La
+Haye, na presença de Carlos VI.
+
+«Foram, diz Vulson de la Colombière, por ordem do rei igualmente
+honrados, comquanto se diga que La Haye obteve vantagem».
+
+Reiffenberg dá noticia de que D. João I convidára muitos cavalleiros
+francezes para um torneio em Lisboa[79].
+
+Era este o requinte da galanteria militar da época. Portanto Alvaro Vaz
+ou qualquer dos outros cavalleiros da sua familia bem poderiam ter
+praticado semelhantes proezas no estrangeiro, de 1414 a 1415, ou depois
+da tomada de Ceuta, quando se viram obrigados a emigrar.
+
+Infelizmente, não posso precisar quaes fossem esses feitos
+cavalheirescos praticados por elle ou pelos seus.
+
+Camões, na sequencia do episodio dos _Doze_, refere-se ao duello que o
+_Magriço_ teve com um francez, e ao desafio que um outro dos cavalleiros
+portuguezes tivera na Allemanha.
+
+O cavalleiro francez morto, no campo, pelo _Magriço_ foi, segundo a
+tradição, mr. De Lansay.
+
+O duello do outro portuguez com o allemão:
+
+ Outro tambem dos doze em Allemanha
+ Se lança, e teve um fero desafio
+ C'um germano enganoso, que com manha
+ Não devida, o quiz pôr no extremo fio;
+
+bem podia ser vaga recordação de alguma façanha de Alvaro Vaz quando
+combateu pelo imperador Sigismundo, embora essa façanha nenhuma relação
+tivesse com a lenda dos _Doze_. Mas, no poema, quando Velloso está
+n'este lance da narrativa, o mestre de bordo toca o apito, a manobra
+começa, as conversações na tolda interrompem-se.
+
+Camões conta que Magriço não recolhera logo depois do torneio:
+
+ Mas dizem que comtudo o grão Magriço
+ Desejoso de vêr as cousas grandes,
+ Lá se deixou ficar, onde um serviço
+ Notavel á Condessa fez de Frandes.
+
+E Mariz, nos _Dialogos_, diz que tambem ficaram no estrangeiro, além de
+Magriço, mais dous, «fazendo taes obras em armas, que um d'elles
+alcançou de el-rei de França o condado de Abranches em França, pelas
+obras que em seu serviço fizera», e que este veio depois a morrer em
+Alfarrobeira.
+
+Ora não foi o rei de França, mas o de Inglaterra, como já está dito, que
+deu o condado de Avranches a Alvaro Vaz de Almada. E, dizendo a lenda
+que o torneio dos _Doze_ se realisou em vida do duque de Lancaster, não
+podia Alvaro Vaz tomar parte n'elle, por não ser ainda nascido ou por
+estar ainda na primeira infancia.
+
+Em conclusão, meu caro snr. Lugan:
+
+Na formação das lendas, a imaginação popular não olha a anachronismos.
+Alvaro Vaz foi um cavalleiro famoso por seus feitos d'armas, pelo seu
+grande valor; combateu ao serviço de Inglaterra e em Inglaterra foi mais
+tarde agraciado: a lenda cavalheiresca dos _Doze_ envolveu-o
+portanto nos seus magicos véos, para nos servirmos de uma expressão de
+Pinheiro Chagas, sem attender á chronologia. Tambem em torno do infante
+D. Pedro se fórma a lenda das _sete partidas_, originada nas suas
+viagens. A imaginação popular não podia deixar de envolver no
+maravilhoso das tradições nacionaes estes Castor e Pollux do seculo XV,
+tão unidos moralmente, tão consubstanciados, na vida e na morte, por um
+estreito laço de relação historica.
+
+ * * * * *
+
+Seria longo trabalho enumerar as menções e referencias que de Alvaro Vaz
+de Almada fazem tanto os escriptores portuguezes, como os
+estrangeiros que se têm occupado em estudar a historia do nosso paiz.
+
+D'estes, alguns, Ferdinand Denis á frente, lamentam que tão pouco se
+saiba da vida do conde de Avranches. Um d'elles, que é dos que melhor
+conhecem a litteratura portugueza, mr. Francisque Michel, chega a
+escrever: «_Nous ne savons rien de sa vie_».
+
+Quanto aos escriptores nacionaes, não quero, comtudo, deixar de citar
+Gomes Eanes de Azurara, porque escrevia em circumstancias
+verdadeiramente embaraçosas para elle. Azurara fôra encarregado por D.
+Affonso V de escrever a _Chronica do descobrimento e conquista de
+Guiné_. Por D. Affonso V, note-se, por D. Affonso V, que moveu o seu
+exercito contra o infante D. Pedro, e que tão severo se mostrou com
+todos os que combateram em Alfarrobeira ao lado do infante.
+
+Azurara acabou de escrever a sua _Chronica_ em fevereiro de 1453, isto
+é, menos de quatro annos depois do deploravel acontecimento, quando
+ainda não estavam de todo apagadas as paixões politicas que lhe deram
+origem.
+
+Pois, não obstante estas difficeis circumstancias em que se via
+collocado, Azurara, com louvavel hombridade, faz esta referencia a D.
+Alvaro Vaz de Almada:
+
+«... batalha da Alfarrobeira, naqual o dicto iffante foe morto e o conde
+Dabranxes que era com elle, e toda sua hoste desbaratada, onde, se o meu
+entender pera esto abasta, justamente posso dizer, que lealdades dos
+homees de todollos segres (seculos) forom nada em comparaçom da sua. E
+postoque o serviço nom seja tamanho, quanto ao trabalho, segundo os que
+já disse, certamente as circonstancias lhe dam splandor e grandeza sobre
+todollos outros, cuja perfeita declaraçom remeto aa estorea geeral
+dos feitos do regno»[80].
+
+D. Affonso V leu isto, que foi escripto na sua propria casa--_acabousse
+esta obra na livrarya que este Rey dom Affonso fez em Lixboa_--e sentiu,
+porventura, passar ainda por diante dos olhos o vulto d'esse cavalleiro
+fascinante, que elle quiz por força vêr quando D. Alvaro ia caminho da
+Ameeira, e que tamanha influencia exercia no seu juvenil espirito, que
+os inimigos do infante D. Pedro, quando o conde de Avranches regressou
+de Ceuta pela segunda vez, julgaram conveniente a seus fins levar o rei
+para Cintra, de modo a evitar nova entrevista.
+
+Affonso V leu isto, e certamente lhe pesou na alma o remorso de ter
+cedido ás perfidas suggestões dos inimigos do infante.
+
+As palavras que Azurara havia escripto, ficaram. O rei não as cancellou.
+O espirito de Affonso V fez justiça ao chronista e ao conde,
+conservando-as.
+
+ * * * * *
+
+Tal era o homem, o heroe.
+
+Elle bastaria por si só a caracterisar uma época, o occaso da
+idade-média em Portugal, se, a dous passos de distancia, os
+descobrimentos maritimos, promovidos pelo infante D. Henrique, não
+tivessem vindo relegar para o segundo plano do vasto quadro da
+civilisação universal todos os outros factos, e todos os vultos humanos
+que não collaboraram directamente n'essa colossal epopêa das aventuras
+maritimas.
+
+Alvaro Vaz de Almada é até certo ponto prejudicado pelo esplendor de
+uma época gloriosissima, que marca o inicio dos tempos modernos.
+Eramos então tão felizes que sobejavam heroes, heroes de uma raça unica,
+inexcedivel, para todos os generos de celebridade. Mas a grandeza do
+vulto do conde de Avranches, podendo medir-se pela bitola dos maiores e
+melhores cavalleiros do cyclo medieval, tanto se abalisou nas tradições
+da Europa cavalheiresca, que não ficou de todo offuscada pelo esplendor
+da sua propria época.
+
+Quando quizermos recordar o periodo aureo em que o espirito aventuroso
+dos portuguezes investia com as lendas tenebrosas do oceano, para
+rasgal-as com a prôa das caravellas descobridoras, e affrontava os
+perigos das explorações terrestres por sertões inhospitos, teremos que
+figurar na nossa imaginação o vulto do infante D. Henrique, de pé sobre
+o promontorio de Sagres, dominando o mar, que se lhe quebrava aos pés
+humilde como um leão vencido, e que, no seu eterno refluxo, ia
+levar a longinquas plagas o prestigio do nome portuguez.
+
+Mas quando quizermos figurar a agonia extrema da cavallaria portugueza,
+quando quizermos procurar a chave de ouro que fechou, n'esta região do
+occidente, o periodo do valor militar, das aventuras galantes, da
+coragem no soffrimento, da dedicação na amizade, da abnegação na
+existencia e da heroicidade na morte, teremos que figurar o conde de
+Avranches, brandindo primeiro a lança, floreando depois a espada, no
+campo de Alfarrobeira, onde o infante D. Pedro era já cadaver, até que,
+extenuado, sentindo exhalar-se o derradeiro alento, cae sobre a terra da
+patria, offerecendo aos golpes dos adversarios o corpo que já podia
+menos do que a alma, e exclamando ao despedil-a: _Ora vingar, villanagem!_
+
+Se o infante D. Henrique é o traço de união que para todo o sempre,
+emquanto se não perder a memoria das grandezas passadas com a existencia
+do ultimo homem, nos liga ao Oriente, cujas portas abrimos, cujos mares
+devassamos, cujos emporios vencemos, D. Alvaro Vaz de Almada é o vinculo
+eterno que nos prende ao Occidente cavalheiresco, ás tradições
+aventurosas do brio militar e do militarismo galante que foram, na
+Europa da idade-média, a suprema expressão da nobreza da alma humana.
+
+Um, o infante, é a aurora do novo dia que começa a raiar para a
+humanidade do seculo XV, aurora resplendente de fulgurações prismaticas,
+de arreboes dourados, de rosicler cambiante.
+
+O outro, o conde, é o occaso da idade-média, o sol-pôr de um seculo de
+feitos heroicos, de primores e gentilezas de cavalleiros
+intemeratos,--occaso opulento de tintas e de sombras grandiosas, em que
+a luz briga ainda com as trevas, affirmando na lucta o valor que
+certamente havia aprendido com os cavalleiros d'esse tempo.
+
+Estes dous homens, o infante e o conde, são como uma dupla
+personificação da sua época, do momento de transição solemne em que a
+poesia das espadas, a epopêa das cavallarias errantes, que preparavam a
+alma humana para todas as concepções arrojadas e para todos os feitos
+destemidos, vai ceder o passo á quilha das caravellas e das naus, que
+iam em demanda do Oriente para trazel-o ás portas de Lisboa, estreitando
+as relações dos povos, desenvolvendo a navegação e o commercio,
+fomentando a industria pela abundancia de capitaes e pela exploração de
+novos mercados, pela nobilitação do trabalho, que não tardaria a deixar
+de ser um mister de escravos para converter-se n'uma applicação honrosa
+da actividade humana.
+
+O infante e o programma, ainda então mal desenrolado, da
+transformação economica da Europa culta.
+
+O conde é o livro, prestes a fechar-se, do espirito militar da
+idade-média, o ultimo clarão da cavallaria moribunda.
+
+São uma época, estes dous homens. Completam-se um pelo outro.
+
+Ora, no momento em que a cidade do Porto vai prestar uma grande
+homenagem collectiva ao infante Descobridor, que n'essa boa terra
+nasceu, e fazer resuscitar por alguns dias o periodo mais brilhante da
+nossa historia nacional, pareceu-me justo, agora o repito, recordar o
+vulto do homem que, ao lado de D. Henrique, synthetisa o seculo XV, a
+transição da idade-média para os tempos modernos, na historia de Portugal.
+
+Tendo, meu caro snr. Lugan, de lhe enviar esta carta a tempo de poder
+ser publicada por occasião da festa centenaria do infante, fui obrigado
+a circumscrever-me a estreitissimos limites, e a passar rapidamente
+por acontecimentos que mereciam longa attenção.
+
+Não é um trabalho litterario perfeito o que lhe mando, porque o fazel-o
+excederia os meus recursos e não caberia nos poucos dias de que pude
+dispôr. É, pois, uma simples carta, escripta ao correr da penna, sem
+preoccupações academicas, mas inspirada unicamente no desejo de
+corresponder á louvavel resolução do meu bom amigo e de, por minha
+parte, render homenagem ás glorias da minha patria.
+
+Lisboa, 2 de fevereiro de 1894.
+
+ De V.
+
+ amigo muito affeiçoado
+
+ _Alberto Pimentel._
+
+
+
+
+ [1] Quando se queria elogiar a opulencia de alguem, dizia-se: É como
+ Janeanez (João Éannes ou Annes).
+
+ [2] O snr. Oliveira Martins (_Filhos de D. João I_, pag. 87) confunde
+ João Vaz de Almada com João Annes, que erradamente suppõe ter sido o
+ pai de Alvaro Vaz de Almada.
+
+ [3] «Tavarez fait remonter les chevaliers de cette race au grand
+ Janeanez d'Almada, qui occupa les offices les plus importants sous D.
+ Pedro, puis sous son fils, et auquel ont dû les fortifications dont
+ ce dernier monarque entoura _Lisbonne_». (_Portugal_, pag. 85).
+
+ [4] O valle por onde hoje se estende a Avenida da Liberdade.
+
+ [5] João Vaz de Almada teve um filho bastardo, do mesmo nome, que foi
+ senhor de Pereira.
+
+ [6] Fernam Lopes, _Chronica d'el-rei D. João I_, cap. XXXIX.
+
+ [7] _Quadro diplomatico_, tom. I, pag. 283; tom. XIV, pag. 155-156.
+
+ [8] _Quadro diplomatico_, tom. XIV, pag. 172-173.
+
+ [9] _Ibid._, pag. 174.
+
+ [10] Esta preferencia explica-se pelo facto de João Vaz de Almada ir
+ na qualidade de capitão-mór da cidade de Lisboa.
+
+ [11] «Rex Johannem Valascum de Almatina vocari fecit, cui dixit: «Cape
+ signum Sancti Vicentii et, si potes, alteram civitatis partem ingrede,
+ et si senseris barbaros fugam arripuisse arcemque reliquisse, signum
+ in summo arcis pone». Ille mandato Regis parens, signum accepit et ad
+ portam muri qui civitatem in duas partes dividebat, cum multis armatis
+ eum sequentibus, venit; et quia clausa erat, illos eam ipsam
+ rescindere monuit; illis vero rescindentibus, duo barbari qui
+ remanserant, ut rerum exitum expectarent, ad murum accedentes, lingua
+ castellana quam noverant dixere: «Nolite tantum laboris assumere, nos
+ enim portam aperiemus et vobis aditum faciemus». Ubi fuit aperta
+ Johannes Valascus, arcem ingressus, in altiori turre signum
+ collocavit, etc.» (Matheus de Pisano, _Gesta illustrissimi regis
+ Johannis de Bello Septensi_, 1460; _Inéditos da Accademia_, tom. I).
+
+ Henry Major copiou este episodio. _Discoveries of Prince Henry the
+ Navigator._ London, 1877. Pag. 35.
+
+ [12] _Historia de Portugal_, vol. I, pag. 9.
+
+ [13] «E este Ifante (D. Affonso, fiiho do rei D. Duarte) foy ho
+ primeiro filho herdeiro dos Reys destes Regnos, que se chamou
+ Principe, porque atee elle, todoloos outros se chamaram Ifantes
+ primogenitos herdeiros, etc.» (Ruy de Pina, _Chronica do sr. rei D.
+ Duarte_, vol. I dos _Inéditos_).
+
+ [14] O _Nobiliario_ de Damião de Goes (Torre do Tombo, 21-B-26) falla
+ de ferimentos; outro codice (Torre do Tombo, 21-F-17) diz--pancadas.
+
+ [15] O snr. João Teixeira Soares, artigo _Os doze de Inglaterra_,
+ publicado na _Era nova_, pag. 458.
+
+ [16] _Historia serafica_, 1.ª parte, cap. XXIII.
+
+ [17] _Descripção de Portugal_, pag. 311.
+
+ [18] _Os filhos de D. João I_, pag. 87.
+
+ [19] «... esta cerimonia (a investidura de um cavalleiro) dava áquelle
+ que iniciava um seu companheiro no culto do valor e da lealdade, uma
+ certa influencia sobre o neophyto, que lhe ficava consagrando sempre
+ respeito e affeição indissoluvel». (Pinheiro Chagas, _Historia de
+ Portugal_, vol. II, pag. 147).
+
+ [20] Ferdinand Denis, _Portugal_, pag. 84.
+
+ [21] Torre do Tombo. Codice 21-F-17.
+
+ [22] Fernam Lopes, _Chr. d'el-rei D. João I_, cap. XCV.
+
+ [23] ... né au commencement du quinzième siècle...» (Ferdinand Denis,
+ _Nouvelle biographie universelle_, tom. II, pag. 170). «Alvaro était
+ né, selon toutes les probabilités, à peu près vers l'époque ou Joam
+ Ier avait eu ses premiers fils». (Ferdinand Denis, _Portugal_, pag.
+ 86).
+
+ [24] Suppomos ser o snr. Pinheiro Chagas a pessoa que, no _Diccionario
+ popular_, escreveu o artigo relativo a Alvaro Vaz de Almada.
+
+ [25] Foi Pedro José de Figueiredo, mas parece que teve collaboradores.
+ 1817.
+
+ [26] Artigo _Alvaro Vaz de Almada_, no _Diccionario popular_.
+
+ [27] A pedido de Alvaro Vaz, esta carta foi confirmada por outra do
+ rei D. Duarte, dada em Almeirim a 5 de Janeiro de 1434.
+
+ O posto de capitão-mór da armada conservou-se depois nos Almadas
+ descendentes do agraciado, até ao tempo de el-rei D. Sebastião, que
+ d'elle fez mercê a D. Fernando de Almada, bisneto de Alvaro Vaz, por
+ carta passada em Evora a 25 de agosto de 1573.
+
+ [28] Ruy de Pina, _Chronica do senhor rei D. Duarte_, cap. XXIV.
+
+ [29] _Chronica do senhor rei D. Duarte_, cap. XXV.
+
+ [30] _Chronica do senhor rei D. Duarte_, cap. XXVI.
+
+ [31] _Chronica do senhor rei D. Duarte_, cap. XXXIV.
+
+ [32] Ruy de Pina, _Chronica do senhor rei D. Duarte_, cap. XXXVI.
+
+ [33] _Portugal_, pag. 86, nota.
+
+ [34] _O infante D. Pedro_, chronica por Gaspar Dias de Landim, cap.
+ XIV.
+
+ [35] Landim, mesmo capitulo.
+
+ [36] _Chronica do senhor rei D. Affonso V_, cap. XXXI.
+
+ [37] Pina, _Chronica do senhor rei D. Affonso V_, cap. XXXIV.
+
+ Era o _Limoeiro_. Este edificio havia sido Casa da Moeda, e depois
+ palacio _dos infantes_, porque lhes era destinado. (Vêr _Noticias
+ chronologicas da universidade de Coimbra_, por Francisco Leitão
+ Ferreira, nas _Memorias da Academia Real de Historia_ relativas ao
+ anno de 1729, pag. 206). Mas ficou por muito tempo o costume de
+ designar o palacio pelo seu nome antigo: a _Moeda_.
+
+ [38] _Chronica_, cap. XXXVI.
+
+ [39] Torre do Tombo--Chancellaria de D. Affonso V, liv. 20, fol. 85 v.
+
+ [40] _Chronica_, cap. LXXI.
+
+ [41] _Elementos para a historia do municipio de Lisboa_, tom. I, pag.
+ 322.
+
+ [42] _Diccionario popular_, artigo _Alvaro Vaz de Almada_.
+
+ [43]
+
+ Ex Archivis in Turri London
+ E rotulo Franciae, A.º 23.º
+ Hen. 6, membrana 2.
+
+ Henricus dei gratia Rex Angliae et Franciae et dominus Hiberniae
+ Archiepiscopis, Episcopis &c. salutem. Magnis efferendi sunt laudibus,
+ singulari attollendi gloria, qui in Rei publicae salutem dies suos et
+ vitam ipsam ferventi studio et animo indefesso conferre nituntur; qui
+ de seipsis pericula faciunt pro aliorum quiete, qui egregiam famam et
+ nomen immortale, prae coeteris mundanis rebus sitiunt, et foelices se
+ praedicant dum communem utilitatem eorum operâ et fide adjutari posse
+ arbitrantur: O foelicissimum genus hominum! sine quibus urbes, moenia,
+ regna, dominia, mundi Principes, nec mundus ipse, incolumitate gaudere
+ poterunt: O clarissimi et justi viri! quorum sancta dispositione
+ virescunt virtutes omnes et florent, pulcherime effrenantur mali,
+ praemuntur perversi; nemo est certe qui horum ingenuos animos aut
+ literis contexere aut verbis affari dignâ laude poterit; de quorum
+ numero insignis et nobilis animi vir et strenuus et splendidissimus
+ miles DOMINUS ALVARUS DE ALMADAA dicendus et praedicandus est, qui ab
+ ineunt suâ aetate, dum annos pueritiae excesserat, militiae gloriâ
+ debaccatus, virtutum praemia et communem omnium salutem anelans, toto
+ conanime et omni studio in armorum usum so conjecit, et cum aptiores
+ Rei militares attigerat annos, adolevit strennitas sua cum aetate,
+ itaq animo excellenti in omnem Rei publicae tuitionem crevit, ut
+ nichil sibi dulce, acceptum aut desiderabile videbatur, si pro communi
+ bono non fuerit institutum; adeo sua pro virili bellorum descrimini
+ insudavit forti animo, et pacis tranquilitati consilio, quod suo jure
+ praemia debentur suo labori: propterea nos animadvertentes nobilitatem
+ et animi dicti viri egregiam dispositionem, quae suis gestis adjunctae
+ magnum efficiuntornamentum, nec non ingentia facta quae non tantum
+ tempore regni celeberimae memoriae Christianissimi Progenitoris nostri
+ verum etiam cumulum amoris servitii et meritorum quae nobis regnisq
+ exhibuit nostris, ipsum in militem ac socium et fratrem de GARTERIA EX
+ unanimi consensu societatis ejusdem elegimus et realiter investivimus:
+ eundem etiam Dominum ALVARUM ex nostra habundantiori gratiâ in evidens
+ testimonium suarum virtutum, in comitem DAVARANS in DUCATU nostro
+ NORMANDIAE creavimus et praefecimus, ac per presentes creamus et
+ praeficimus ac de eisdem nomine honore et titulo per cincturam gladii
+ investientes effectualiter insignivimus. Habenda et tenenda eadem
+ nomen et honorem Comitis DAVARANS sibi et haeredibus suis masculis de
+ corpore suo legitime exeuntibus in perpetuum, volentes et
+ praecipientes pro nobis et haeredibus nostris quod dictus fidelis
+ noster dominus ALVARUS nomen et honorem Comitis DAVARANS teneat sibi
+ et haeredibus suis masculis de corpore suo ut praemissum est legitime
+ exeuntibus in perpetuum, Hiis testibus venerabilibus patribus I:
+ Cantuar: et I. Eborum archiepis. Tho: Norwicen: W: Sarum, I: Bathon et
+ Wellen Epis. carissimo avunculo nostro Humfredo Duce Glouc: ac
+ carissimis consanguineis nostris Iohan. Exon. et Humfredo Buck.
+ Ducibus et Willõ Marchione Suffolciae. Iohan: Vicecom: de Beaumont, ac
+ diltis(1) et fidelibus suis Radulpho Cromwell et Radulpho Botiller
+ militibus, Thess(2) Angl., et Magistro Adam Moleyns custode privati
+ sigilli et aliis. Dat. per manum nostram apud Westm(3). 4 die Aug.
+
+ Per breve de private sigillo et de data praedicta &c.
+
+ (1) Dilectis.
+
+ (2) Thesaurariis.
+
+ (3) Westminster.
+
+ [44]
+
+ Ex Archivis in Turri London
+ E rotulo Franciae, A.º 23.º
+ Hen. 6. membrana 2.
+
+ Rex omnibus ad quos &c salutem. Ponimos ante oculos nostros fidem
+ industriam circumspectionem affectionem laboresq et alia memoriâ
+ dignissima quae fidelis noster Dominus ALVARUS DE ALMADAA Comes
+ DAVARANS consiliarius excellentissimi Principis et potentissimi domini
+ Regis Portugaliae consanguinei nostri et Capitaneus Major in omnibus
+ regnis suis et dominationibus ac Alcayde major civitatis Ulisbonensis
+ foelicis memoriae genitori nostro et etiam nobis singulari intentione
+ impendit: volentes ideo hujusmodi merita sine fructu nequaquam
+ oblivioni comittese, Ex mero motu nostro concessimus et concedimus per
+ praesentes eidem ALVARO centum marcas percipiendas annuatim quamdiu
+ vixerit ad receptam Scaccarii nostri Angliae per manus Thesaurarii et
+ Camerariorum nostrorum ibidem pro tempore existentium ad Terminos
+ Paschae et Sancti Michaelis per equales porcõnes. In cujus, etc. Teste
+ R. apud Westm. 9 die Augusti.
+
+ [45] N. B.--O marco inglez valia 13 schellings e 4 pences.
+
+ [46] Priv. Sigill. 13 Aug. 23 H. 6. We in good consideration of the
+ good service grete zele and good love that our trusty and welbeloved
+ ALVAST DALMAA Knyght of Portugale hath doon and shewed unto us and
+ oure full noble progenitors have maad(1) and creat(2) him now late(3)
+ Therle(4) of AVERANCHE and over that(5) we have graunted unto the said
+ ALVAST a pension of an C marc by yere during his life. We charge you
+ that ye delivere unto him a cupp of golde of XL marc and C marc
+ thereinne &c.
+
+ (1) Made.
+
+ (2) Created.
+
+ (3) Now of late; lately.
+
+ (4) The earl.
+
+ (5) And besides that; and moreover.
+
+ [47] O titulo de conde de Avranches, posto que Henque VI o concedesse
+ hereditario, caducou desde que Carlos VII conseguiu reunir á França o
+ ducado de Normandia.
+
+ Foi pois preciso que Luiz XI o confirmasse na pessoa de D. Fernando de
+ Almada, filho das segundas nupcias de D. Alvaro Vaz de Almada, porque
+ a geração do primogenito do primeiro casamento extinguiu-se.
+
+ A confirmação realisou-se quando Affonso V esteve em França, e D.
+ Fernando de Almada o acompanhou.
+
+ O titulo, assim renovado, foi reconhecido em Portugal: D. João II
+ mandou fazer assentamento a D. Fernando de Almada, _conde de
+ Avranches_, de 102:864 reaes brancos.
+
+ Acabou o titulo na pessoa de D. Antão de Almada, que acompanhou a
+ Africa D. Sebastião, e lá morreu. O filho de D. Antão, que estivera
+ com o pai em Alcacerquibir, ficou captivo, e só logrou repatriar-se
+ depois da morte do cardeal D. Henrique. Não se renovou por isso a
+ concessão do titulo, interrompendo-se tambem a successão do officio de
+ capitão-mór do reino.
+
+ Outro D. Antão de Almada, descendente do _Bom capitão_, foi um dos
+ quarenta fidalgos de 1640.
+
+ A rainha D. Maria I agraciou a familia Vaz de Almada com a concessão
+ do titulo de conde de Almada, a 13 de maio de 1793.
+
+ [48] _Chronica_, cap. LXXXIX.
+
+ [49] Que bello desplante cavalheiresco n'este repto de um contra tres!
+
+ [50] _The life of Prince Henry of Portugal_, cap. XIII, pag. 229.
+
+ [51] _Memorias d'el-rei D. João I_, tom. V, cap. LXV, pag. 342.
+
+ [52] Pina, _Chronica_, cap. XCIII.
+
+ [53] Dom Affonso, etc., a quantos esta carta virem fazemos saber que a
+ nós disseram que em Abrantes foram deixados certos bens de herança por
+ um Fernão Rodrigues Rombo; que por morte de um seu filho os houvesse a
+ egreja de S. João da dita villa, a qual os houve e teve anno e dia sem
+ os venderem e acabado o dito tempo a pessoas leigas segundo por nós é
+ ordenado (_sic_). Os quaes bens vai em dois ou tres annos os tem os
+ clerigos da dita egreja, pela qual razão por bem da nossa ordenação
+ pertencem a nós e os podemos dar de direito a quem nossa mercê for. E
+ ora querendo nós fazer graça e mercê ao capitão Alvaro Vaz d'Almada,
+ Rico Homem do nosso Conselho e Alcaide Mór da cidade de Lisboa, se
+ assim é, como nos foi dito, e que por a dita razão os ditos bens
+ pertencem a nós e os podemos de direito dar a quem nossa mercê for,
+ temos por bem e fazemos-lhe d'elles livre e pura irrevogavel doação
+ entre os vivos valedoura d'este dia para todo sempre e de todos seus
+ herdeiros e successores que depois elle vierem, assim ascendentes
+ (_sic_) como descendentes. E, porem, mandamos aos juizes da dita villa
+ d'Abrantes e a outros quaes que isto houverem de ver que, presentes os
+ tedores dos ditos bens e partes, a que isto pertencer, que se acharem
+ que assim é como nos disseram e que por isso os ditos bens que assim
+ ficaram á dita egreja pertencem a nós e os podemos de direito dar, que
+ vista esta carta os façam logo dar e entregar ao dito capitão ou a seu
+ certo procurador e lh'os deixem ter e haver, lograr, possuir, vender,
+ dar e doar, trocar e escambar, fazer d'elles e n'elles o que lhe
+ prouver, como de sua cousa propria e corporal possessão, por quanto
+ nós lhe fazemos d'elles a dita mercê e doação o mais firmemente que
+ ser pode, se a nós de direito pertencem e a outrem primeiramente não
+ são dados, por nossa carta dando appellação e aggravo ás partes nos
+ casos que o direito outorga, e esta mercê lhe fazemos com tanto que
+ elle nem seu procurador não faça avença com as partes sem nossa
+ licença, e se a fizer que perca para nós isto de que lhe assim fazemos
+ mercê e mais o preço que por isso receber e al não façaes. Dada em
+ Lisboa 18 de Agosto. El-Rei o mandou por Lopo d'Almeida, cavalleiro de
+ sua casa, não sendo ahi Diogo Femandes d'Almeida, seu pai, do conselho
+ do dito Senhor e védor de sua Fazenda, a que isto pertencia. Nuno
+ Affonso a fez anno de Nosso Senhor Jesus Christo de mil quatrocentos
+ quarenta e quatro(1).
+
+ (1) Torre do Tombo--Chancellaria de D. Affonso V, liv. V, fl. 68.
+
+ [54] Devia ser n'este anno, pelas razões expostas pelo visconde de
+ Santarem no _Quadro elementar_, tom. III, pag. 80, nota, e pelo conde
+ de Villa Franca, _D. João I e a alliança ingleza_, pag. 201, nota.
+
+ [55] _Chronique du bon chevalier Jacques de Lalain, frère et compagnon
+ de l'ordre de la toison d'or_, por Georges de Chastelain, cap. XXXVIII
+ a XLII.
+
+ [56] Pina, _Chronica_, cap. XCVI.
+
+ [57] Pina, _Chronica_, cap. CIV.
+
+ [58] Pina, _Chronica_, cap. CX.
+
+ [59] _Portugal_, pag. 88.
+
+ [60] Pina, _Chronica_, cap. CXVIII.
+
+ [61] Pina, _Chronica_, cap. CXX.
+
+ [62] Pina, mesmo capitulo.
+
+ [63] Combateu pelo infante D. Pedro em Alfarrobeira. Era quinto filho
+ de Lopo Dias de Azevedo.
+
+ [64] Frei Luiz de Sousa, _Historia de S. Domingos_, 1.ª parte, liv.
+ VI, cap. XV.
+
+ [65] Mariz, _Dialogos de varia historia_; Major, _The life of Prince
+ Henry of Portugal_.
+
+ [66] Um codice da Torre do Tombo (21-F-17) confunde este João Vaz de
+ Almada com o pai, que tinha o mesmo nome. O filho é que foi védor da
+ fazenda de D. Affonso V, como claramente diz Ruy de Pina. É verdade
+ que o mesmo codice, suppondo que João Vaz de Almada, pai do conde de
+ Avranches, era védor em 1451, encarrega-se de evidenciar o equivoco,
+ noticiando que falleceu em Londres logo depois do casamento de D.
+ Beatriz, com o conde de Arundel, casamento que se realisou em 1405! A
+ chronologia dos nobiliarios é uma cousa escurissima.
+
+ O pai do conde de Avranches figura com a moradia de 12:000 livras na
+ casa de D. João I.
+
+ O bastardo, além de védor, foi rico-homem e cavalleiro do conselho de
+ Affonso V.
+
+ [67] Diz Duarte Nunes que em Inglaterra se cantavam _romances_
+ populares em honra de Pedro Vaz de Almada por um feito de armas que
+ praticára, e que fôra muito louvado dos inglezes. Os ossos de D.
+ Pedro, que falleceu solteiro, foram trazidos a Portugal por um criado,
+ que se chamava Rolão Vaz.
+
+ [68] Visconde de Castilho, Julio, _Lisboa antiga_, vol. I.
+
+ [69] D. Leonor Telles, quando passou do marido para o rei D. Fernando,
+ ou ainda ia pejada ou pouco antes havia dado á luz este filho
+ legitimo. O pai, João Lourenço da Cunha, voltou á patria quando D.
+ Fernando morreu, e pediu ao Mestre de Aviz que reconhecesse Alvaro da
+ Cunha como herdeiro de todos os seus bens, o que foi concedido.
+
+ [70] Descendente, como todos os outros Pessanhas, do nautico genovez
+ Manoel Pezagno, que o rei D. Diniz chamou ao serviço de Portugal, e
+ nomeou almirante da sua frota. O appellido Pezagno aportuguezou-se em
+ Pessanha. E o almirantado ficou na familia.
+
+ [71] _Nouvelle biographie universelle_, tom. II, pag. 170.
+
+ [72] O primeiro Antão que apparece na familia de Alvaro Vaz de Almada
+ é um seu neto, segundo filho de D. Fernando de Almada, segundo conde
+ de Avranches.
+
+ [73] Os chronistas portuguezes dizem--João de Montferrat. Froissart,
+ porém, chama-lhe Guilherme de Montferrant.
+
+ [74] «... mas foi desde o tempo de João I que multiplicados laços
+ uniram estreitamente as duas casas e os dois Estados (Portugal e
+ Inglaterra). O antigo tratado de commercio e de alliança de 12 de
+ abril de 1372, que era apenas uma extensão do precedente, foi renovado
+ a 15 de abril de 1386; ainda no mesmo anno (9 de maio) uma alliança
+ defensiva foi concluida com o rei Ricardo de Inglaterra, confirmada
+ solemnemente no anno seguinte (12 de agosto) e reconfirmada ainda a 16
+ de fevereiro de 1404 por Henrique IV, successor de Ricardo. O
+ casamento de João com a filha do duque de Lancaster (2 de fevereiro de
+ 1387) sellou ainda estes laços de amizade com a corôa de Inglaterra,
+ garantiu e assegurou os tratados de diversa natureza que existiam
+ entre os portuguezes e os inglezes».
+
+ Schæfer--_Historia de Portugal_. (Reinado de D. João I).
+
+ [75] _Les chroniques de sire Jean Froissart_, tom. III, part. I, cap.
+ XXXVII.
+
+ [76] _Os doze de Inglaterra_, artigo do snr. João Teixeira Soares, na
+ _Era Nova_, pag. 448.
+
+ [77] Snr. Teixeira Soares, artigo citado.
+
+ [78] Francisque Michel, _Les portugais en France, les français en
+ Portugal_, 1882, pag. 9.
+
+ [79] _Relations anciennes de la Belgique et du Portugal_, pag. 25.
+
+ [80] _Chronica_, cap. V.
+
+
+
+
+LIVRARIA CHARDRON--M. LUGAN, EDITOR
+
+
+CENTENARIO DO INFANTE D. HENRIQUE
+
+
+_ALFREDO CAMPOS_
+
+O INFANTE NAVEGADOR
+
+POEMETO
+
+Com um prefacio de JOÃO PENHA
+
+Um folheto.............................. 200 reis
+
+Edição em papel de linho................ 400 reis
+
+
+_CAMILLO CASTELLO BRANCO_
+
+A LENDA DE MACHIN
+
+Reflexões á VIDA DO INFARTE D. HENRIQUE
+por Mr. Richard H. Major
+Vertida do Inglez por J. A. Ferreira Brandão
+
+Esta lenda acha-se no romance: EUSEBIO MACARIO
+
+Um volume............................... 800 reis
+
+
+_MANUEL DUARTE D'ALMEIDA_
+
+ESTANCIAS AO INFANTE D. HENRIQUE
+
+Recitadas pelo auctor
+
+Edição de luxo.......................... 300 reis.
+
+
+_OLIVEIRA MARTINS_
+
+OS FILHOS DE D. JOÃO I
+
+Edição de luxo, illustrada, papel de linho, tipo elzevir
+
+Um grosso volume....................... 2$000 reis
+
+
+Porto--Typ. de A. J. da Silva Teixeira, Cancella Velha, 70
+
+
+
+
+
+End of the Project Gutenberg EBook of Um contemporaneo do Infante D. Henrique, by
+Alberto Pimentel
+
+*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK INFANTE D. HENRIQUE ***
+
+***** This file should be named 32792-8.txt or 32792-8.zip *****
+This and all associated files of various formats will be found in:
+ https://www.gutenberg.org/3/2/7/9/32792/
+
+Produced by Pedro Saborano (produced from scanned images
+of public domain material from Google Book Search)
+
+
+Updated editions will replace the previous one--the old editions
+will be renamed.
+
+Creating the works from public domain print editions means that no
+one owns a United States copyright in these works, so the Foundation
+(and you!) can copy and distribute it in the United States without
+permission and without paying copyright royalties. Special rules,
+set forth in the General Terms of Use part of this license, apply to
+copying and distributing Project Gutenberg-tm electronic works to
+protect the PROJECT GUTENBERG-tm concept and trademark. Project
+Gutenberg is a registered trademark, and may not be used if you
+charge for the eBooks, unless you receive specific permission. If you
+do not charge anything for copies of this eBook, complying with the
+rules is very easy. You may use this eBook for nearly any purpose
+such as creation of derivative works, reports, performances and
+research. They may be modified and printed and given away--you may do
+practically ANYTHING with public domain eBooks. Redistribution is
+subject to the trademark license, especially commercial
+redistribution.
+
+
+
+*** START: FULL LICENSE ***
+
+THE FULL PROJECT GUTENBERG LICENSE
+PLEASE READ THIS BEFORE YOU DISTRIBUTE OR USE THIS WORK
+
+To protect the Project Gutenberg-tm mission of promoting the free
+distribution of electronic works, by using or distributing this work
+(or any other work associated in any way with the phrase "Project
+Gutenberg"), you agree to comply with all the terms of the Full Project
+Gutenberg-tm License (available with this file or online at
+https://gutenberg.org/license).
+
+
+Section 1. General Terms of Use and Redistributing Project Gutenberg-tm
+electronic works
+
+1.A. By reading or using any part of this Project Gutenberg-tm
+electronic work, you indicate that you have read, understand, agree to
+and accept all the terms of this license and intellectual property
+(trademark/copyright) agreement. If you do not agree to abide by all
+the terms of this agreement, you must cease using and return or destroy
+all copies of Project Gutenberg-tm electronic works in your possession.
+If you paid a fee for obtaining a copy of or access to a Project
+Gutenberg-tm electronic work and you do not agree to be bound by the
+terms of this agreement, you may obtain a refund from the person or
+entity to whom you paid the fee as set forth in paragraph 1.E.8.
+
+1.B. "Project Gutenberg" is a registered trademark. It may only be
+used on or associated in any way with an electronic work by people who
+agree to be bound by the terms of this agreement. There are a few
+things that you can do with most Project Gutenberg-tm electronic works
+even without complying with the full terms of this agreement. See
+paragraph 1.C below. There are a lot of things you can do with Project
+Gutenberg-tm electronic works if you follow the terms of this agreement
+and help preserve free future access to Project Gutenberg-tm electronic
+works. See paragraph 1.E below.
+
+1.C. The Project Gutenberg Literary Archive Foundation ("the Foundation"
+or PGLAF), owns a compilation copyright in the collection of Project
+Gutenberg-tm electronic works. Nearly all the individual works in the
+collection are in the public domain in the United States. If an
+individual work is in the public domain in the United States and you are
+located in the United States, we do not claim a right to prevent you from
+copying, distributing, performing, displaying or creating derivative
+works based on the work as long as all references to Project Gutenberg
+are removed. Of course, we hope that you will support the Project
+Gutenberg-tm mission of promoting free access to electronic works by
+freely sharing Project Gutenberg-tm works in compliance with the terms of
+this agreement for keeping the Project Gutenberg-tm name associated with
+the work. You can easily comply with the terms of this agreement by
+keeping this work in the same format with its attached full Project
+Gutenberg-tm License when you share it without charge with others.
+
+1.D. The copyright laws of the place where you are located also govern
+what you can do with this work. Copyright laws in most countries are in
+a constant state of change. If you are outside the United States, check
+the laws of your country in addition to the terms of this agreement
+before downloading, copying, displaying, performing, distributing or
+creating derivative works based on this work or any other Project
+Gutenberg-tm work. The Foundation makes no representations concerning
+the copyright status of any work in any country outside the United
+States.
+
+1.E. Unless you have removed all references to Project Gutenberg:
+
+1.E.1. The following sentence, with active links to, or other immediate
+access to, the full Project Gutenberg-tm License must appear prominently
+whenever any copy of a Project Gutenberg-tm work (any work on which the
+phrase "Project Gutenberg" appears, or with which the phrase "Project
+Gutenberg" is associated) is accessed, displayed, performed, viewed,
+copied or distributed:
+
+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.org
+
+1.E.2. If an individual Project Gutenberg-tm electronic work is derived
+from the public domain (does not contain a notice indicating that it is
+posted with permission of the copyright holder), the work can be copied
+and distributed to anyone in the United States without paying any fees
+or charges. If you are redistributing or providing access to a work
+with the phrase "Project Gutenberg" associated with or appearing on the
+work, you must comply either with the requirements of paragraphs 1.E.1
+through 1.E.7 or obtain permission for the use of the work and the
+Project Gutenberg-tm trademark as set forth in paragraphs 1.E.8 or
+1.E.9.
+
+1.E.3. If an individual Project Gutenberg-tm electronic work is posted
+with the permission of the copyright holder, your use and distribution
+must comply with both paragraphs 1.E.1 through 1.E.7 and any additional
+terms imposed by the copyright holder. Additional terms will be linked
+to the Project Gutenberg-tm License for all works posted with the
+permission of the copyright holder found at the beginning of this work.
+
+1.E.4. Do not unlink or detach or remove the full Project Gutenberg-tm
+License terms from this work, or any files containing a part of this
+work or any other work associated with Project Gutenberg-tm.
+
+1.E.5. Do not copy, display, perform, distribute or redistribute this
+electronic work, or any part of this electronic work, without
+prominently displaying the sentence set forth in paragraph 1.E.1 with
+active links or immediate access to the full terms of the Project
+Gutenberg-tm License.
+
+1.E.6. You may convert to and distribute this work in any binary,
+compressed, marked up, nonproprietary or proprietary form, including any
+word processing or hypertext form. However, if you provide access to or
+distribute copies of a Project Gutenberg-tm work in a format other than
+"Plain Vanilla ASCII" or other format used in the official version
+posted on the official Project Gutenberg-tm web site (www.gutenberg.org),
+you must, at no additional cost, fee or expense to the user, provide a
+copy, a means of exporting a copy, or a means of obtaining a copy upon
+request, of the work in its original "Plain Vanilla ASCII" or other
+form. Any alternate format must include the full Project Gutenberg-tm
+License as specified in paragraph 1.E.1.
+
+1.E.7. Do not charge a fee for access to, viewing, displaying,
+performing, copying or distributing any Project Gutenberg-tm works
+unless you comply with paragraph 1.E.8 or 1.E.9.
+
+1.E.8. You may charge a reasonable fee for copies of or providing
+access to or distributing Project Gutenberg-tm electronic works provided
+that
+
+- You pay a royalty fee of 20% of the gross profits you derive from
+ the use of Project Gutenberg-tm works calculated using the method
+ you already use to calculate your applicable taxes. The fee is
+ owed to the owner of the Project Gutenberg-tm trademark, but he
+ has agreed to donate royalties under this paragraph to the
+ Project Gutenberg Literary Archive Foundation. Royalty payments
+ must be paid within 60 days following each date on which you
+ prepare (or are legally required to prepare) your periodic tax
+ returns. Royalty payments should be clearly marked as such and
+ sent to the Project Gutenberg Literary Archive Foundation at the
+ address specified in Section 4, "Information about donations to
+ the Project Gutenberg Literary Archive Foundation."
+
+- You provide a full refund of any money paid by a user who notifies
+ you in writing (or by e-mail) within 30 days of receipt that s/he
+ does not agree to the terms of the full Project Gutenberg-tm
+ License. You must require such a user to return or
+ destroy all copies of the works possessed in a physical medium
+ and discontinue all use of and all access to other copies of
+ Project Gutenberg-tm works.
+
+- You provide, in accordance with paragraph 1.F.3, a full refund of any
+ money paid for a work or a replacement copy, if a defect in the
+ electronic work is discovered and reported to you within 90 days
+ of receipt of the work.
+
+- You comply with all other terms of this agreement for free
+ distribution of Project Gutenberg-tm works.
+
+1.E.9. If you wish to charge a fee or distribute a Project Gutenberg-tm
+electronic work or group of works on different terms than are set
+forth in this agreement, you must obtain permission in writing from
+both the Project Gutenberg Literary Archive Foundation and Michael
+Hart, the owner of the Project Gutenberg-tm trademark. Contact the
+Foundation as set forth in Section 3 below.
+
+1.F.
+
+1.F.1. Project Gutenberg volunteers and employees expend considerable
+effort to identify, do copyright research on, transcribe and proofread
+public domain works in creating the Project Gutenberg-tm
+collection. Despite these efforts, Project Gutenberg-tm electronic
+works, and the medium on which they may be stored, may contain
+"Defects," such as, but not limited to, incomplete, inaccurate or
+corrupt data, transcription errors, a copyright or other intellectual
+property infringement, a defective or damaged disk or other medium, a
+computer virus, or computer codes that damage or cannot be read by
+your equipment.
+
+1.F.2. LIMITED WARRANTY, DISCLAIMER OF DAMAGES - Except for the "Right
+of Replacement or Refund" described in paragraph 1.F.3, the Project
+Gutenberg Literary Archive Foundation, the owner of the Project
+Gutenberg-tm trademark, and any other party distributing a Project
+Gutenberg-tm electronic work under this agreement, disclaim all
+liability to you for damages, costs and expenses, including legal
+fees. YOU AGREE THAT YOU HAVE NO REMEDIES FOR NEGLIGENCE, STRICT
+LIABILITY, BREACH OF WARRANTY OR BREACH OF CONTRACT EXCEPT THOSE
+PROVIDED IN PARAGRAPH F3. YOU AGREE THAT THE FOUNDATION, THE
+TRADEMARK OWNER, AND ANY DISTRIBUTOR UNDER THIS AGREEMENT WILL NOT BE
+LIABLE TO YOU FOR ACTUAL, DIRECT, INDIRECT, CONSEQUENTIAL, PUNITIVE OR
+INCIDENTAL DAMAGES EVEN IF YOU GIVE NOTICE OF THE POSSIBILITY OF SUCH
+DAMAGE.
+
+1.F.3. LIMITED RIGHT OF REPLACEMENT OR REFUND - If you discover a
+defect in this electronic work within 90 days of receiving it, you can
+receive a refund of the money (if any) you paid for it by sending a
+written explanation to the person you received the work from. If you
+received the work on a physical medium, you must return the medium with
+your written explanation. The person or entity that provided you with
+the defective work may elect to provide a replacement copy in lieu of a
+refund. If you received the work electronically, the person or entity
+providing it to you may choose to give you a second opportunity to
+receive the work electronically in lieu of a refund. If the second copy
+is also defective, you may demand a refund in writing without further
+opportunities to fix the problem.
+
+1.F.4. Except for the limited right of replacement or refund set forth
+in paragraph 1.F.3, this work is provided to you 'AS-IS' WITH NO OTHER
+WARRANTIES OF ANY KIND, EXPRESS OR IMPLIED, INCLUDING BUT NOT LIMITED TO
+WARRANTIES OF MERCHANTIBILITY OR FITNESS FOR ANY PURPOSE.
+
+1.F.5. Some states do not allow disclaimers of certain implied
+warranties or the exclusion or limitation of certain types of damages.
+If any disclaimer or limitation set forth in this agreement violates the
+law of the state applicable to this agreement, the agreement shall be
+interpreted to make the maximum disclaimer or limitation permitted by
+the applicable state law. The invalidity or unenforceability of any
+provision of this agreement shall not void the remaining provisions.
+
+1.F.6. INDEMNITY - You agree to indemnify and hold the Foundation, the
+trademark owner, any agent or employee of the Foundation, anyone
+providing copies of Project Gutenberg-tm electronic works in accordance
+with this agreement, and any volunteers associated with the production,
+promotion and distribution of Project Gutenberg-tm electronic works,
+harmless from all liability, costs and expenses, including legal fees,
+that arise directly or indirectly from any of the following which you do
+or cause to occur: (a) distribution of this or any Project Gutenberg-tm
+work, (b) alteration, modification, or additions or deletions to any
+Project Gutenberg-tm work, and (c) any Defect you cause.
+
+
+Section 2. Information about the Mission of Project Gutenberg-tm
+
+Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
+electronic works in formats readable by the widest variety of computers
+including obsolete, old, middle-aged and new computers. It exists
+because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
+people in all walks of life.
+
+Volunteers and financial support to provide volunteers with the
+assistance they need are critical to reaching Project Gutenberg-tm's
+goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
+remain freely available for generations to come. In 2001, the Project
+Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
+and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
+To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
+and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
+and the Foundation web page at https://www.pglaf.org.
+
+
+Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive
+Foundation
+
+The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
+501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
+state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
+Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification
+number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at
+https://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
+permitted by U.S. federal laws and your state's laws.
+
+The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
+Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
+throughout numerous locations. Its business office is located at
+809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
+business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact
+information can be found at the Foundation's web site and official
+page at https://pglaf.org
+
+For additional contact information:
+ Dr. Gregory B. Newby
+ Chief Executive and Director
+ gbnewby@pglaf.org
+
+
+Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation
+
+Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
+spread public support and donations to carry out its mission of
+increasing the number of public domain and licensed works that can be
+freely distributed in machine readable form accessible by the widest
+array of equipment including outdated equipment. Many small donations
+($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
+status with the IRS.
+
+The Foundation is committed to complying with the laws regulating
+charities and charitable donations in all 50 states of the United
+States. Compliance requirements are not uniform and it takes a
+considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
+with these requirements. We do not solicit donations in locations
+where we have not received written confirmation of compliance. To
+SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
+particular state visit https://pglaf.org
+
+While we cannot and do not solicit contributions from states where we
+have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
+against accepting unsolicited donations from donors in such states who
+approach us with offers to donate.
+
+International donations are gratefully accepted, but we cannot make
+any statements concerning tax treatment of donations received from
+outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff.
+
+Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
+methods and addresses. Donations are accepted in a number of other
+ways including including checks, online payments and credit card
+donations. To donate, please visit: https://pglaf.org/donate
+
+
+Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic
+works.
+
+Professor Michael S. Hart was the originator of the Project Gutenberg-tm
+concept of a library of electronic works that could be freely shared
+with anyone. For thirty years, he produced and distributed Project
+Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.
+
+
+Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
+editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
+unless a copyright notice is included. Thus, we do not necessarily
+keep eBooks in compliance with any particular paper edition.
+
+
+Most people start at our Web site which has the main PG search facility:
+
+ https://www.gutenberg.org
+
+This Web site includes information about Project Gutenberg-tm,
+including how to make donations to the Project Gutenberg Literary
+Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to
+subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks.