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| author | Roger Frank <rfrank@pglaf.org> | 2025-10-14 19:58:15 -0700 |
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Livraria Internacional de Ernesto Chardron, 1891"> + <meta http-equiv="content-type" content="text/html; charset=iso-8859-15"> + <style type="text/css"> + body{margin-left: 10%; + margin-right: 10%; + } + .pn { + text-indent: 0em; + position: absolute; + left: 92%; + font-size: smaller; + text-align: right; + color: silver; + } + #corpo p.centrado{text-align: center; text-indent: 0;} + #corpo p {text-align: justify; text-indent: 1em;} + #corpo blockquote {text-align: left; text-indent: 0; margin-left: 20%; } + h4 {text-align: left; text-indent: 0; margin-left: 20%;} + h1,h2,h3 {text-align: center; margin-top: 3em; margin-bottom: 2em;} + hr.dotted {border: 0; border-bottom: dotted 2px #000;} + hr {border: 0; border-bottom: solid 2px;} + .rodape { + font-size: 0.8em; + margin: 2em; + } + .imagem {width: 40%; float: right; text-align: center;} + .fbox {border: solid black 1px; background-color: #FFFFCC; font-size: +75%; margin-left: 10%; margin-right: 10%;} + </style> +</head> + +<body> + + +<pre> + +The Project Gutenberg EBook of Um contemporaneo do Infante D. Henrique, by +Alberto Pimentel + +This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with +almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or +re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included +with this eBook or online at www.gutenberg.org + + +Title: Um contemporaneo do Infante D. Henrique + +Author: Alberto Pimentel + +Release Date: June 13, 2010 [EBook #32792] + +Language: Portuguese + +Character set encoding: ISO-8859-1 + +*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK INFANTE D. HENRIQUE *** + + + + +Produced by Pedro Saborano (produced from scanned images +of public domain material from Google Book Search) + + + + + + +</pre> + + +<p> </p> + +<div style="text-align: center; border: solid 1px #000; padding: 1em;"> +<p style="font-size: 1.4em;">UM CONTEMPORANEO</p> + +<p>DO</p> + +<p style="font-size: 1.8em;">INFANTE D. HENRIQUE</p> + +<p>Carta a MR. MATHIEU LUGAN</p> + +<p>POR</p> + +<p style="font-size: 1.4em;">ALBERTO PIMENTEL</p> + +<p> </p> +<p> </p> +<p> </p> +<p> </p> + +<p>PORTO<br> +<i>Livraria Internacional de Ernesto Chardron</i><br> +<small>Casa editora</small><br> +M. LUGAN, Successor<br> +1894<br> +<small>Todos os direitos reservados</small></p> +</div> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p><span class="pn">{1}</span></p> + +<div style="text-align:center;"> +<p style="font-size: 1.4em;">UM CONTEMPORANEO</p> + +<p>DO</p> + +<p style="font-size: 1.8em;">INFANTE D. HENRIQUE</p> +</div> + +<p><span class="pn">{2}</span></p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<div +style="margin-left: 20%; margin-right: 20%; font-size: small; border: solid 2px #000; border-left:0; border-right: 0; text-align: center;"> +<p>P<small>ORTO—</small>T<small>YP. DE</small> A. J. <small>DA</small> +S<small>ILVA</small> T<small>EIXEIRA</small></p> + +<p><i>Cancella Velha, 70</i></p> +</div> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p><span class="pn">{3}</span></p> + +<div style="text-align:center;"> +<p style="font-size: 1.4em;">UM CONTEMPORANEO</p> + +<p>DO</p> + +<p style="font-size: 1.8em;">INFANTE D. HENRIQUE</p> + +<p>Carta a MR. MATHIEU LUGAN</p> + +<p>POR</p> + +<p style="font-size: 1.4em;">ALBERTO PIMENTEL</p> + +<p> </p> +<p> </p> +<p> </p> +<p> </p> + +<p>PORTO<br> +<i>Livraria Internacional de Ernesto Chardron</i><br> +<small>Casa editora</small><br> +M. LUGAN, Successor<br> +1894<br> +<small>Todos os direitos reservados</small></p> +</div> + +<p><span class="pn">{4}</span></p> + +<p> </p> + +<p><span class="pn">{5}</span></p> + +<p> </p> + +<blockquote style="margin: 5em; font-size: small;"> + <p>L'histoire d'Alvaro Vaz de Almada est généralement peu connue hors du + Portugal; et en Portugal même la biographie de ce grand homme est environnée + de details contradictoires.</p> + + <p style="text-align:right;margin-left:auto;margin-right:0;">F<small>ERDINAND + </small>D<small>ENIS</small>—<i>Portugal</i>, pag. 85. </p> +</blockquote> + + +<p><span class="pn">{6}</span></p> + +<p> </p> + +<p><span class="pn">{7}</span></p> + +<p> </p> + +<div id="corpo"> +<p style="text-align:right;margin-left:auto;margin-right:0;">Meu prezado amigo:</p> + +<p> </p> + +<p>Vivendo entre portuguezes ha muitos annos, quer v. corresponder á estima e +consideração que d'elles tem justamente recebido, associando-se, como editor de +obras litterarias, á commemoração solemne com que a cidade do Porto vai +celebrar o quinto centenario do nascimento do infante D. Henrique, o +Descobridor.</p> + +<p>É nobre a acção, que v. se propõe praticar. E, procedendo assim, segue o +exemplo de muitos estrangeiros, a quem Portugal<span class="pn">{8}</span> deve +gratidão pelo interesse que tem tornado em evidenciar á luz da verdade e da +gloria os feitos d'este pequeno povo, que tamanhos serviços prestou no seculo +<small>XV</small> á sciencia e ao commercio, á humanidade e á civilisação, +especialmente no momento historico em que o infante D. Henrique apparece em +scena para emprehender e estimular os descobrimentos maritimos.</p> + +<p>Entre esses estrangeiros a quem devemos ser gratos, avulta, certamente, um +compatriota de v., o illustre Ferdinand Denis, que tanto amou, com especial +dedicação, o passado de Portugal nas suas gloriosas tradições e nos seus +triumphos por mar e por terra, na guerra ou na paz.</p> + +<p>Estamos, pois, habituados á sympathia de estrangeiros, e não é, por isso, de +estranhar a deliberação de v. Mas é para agradecer e louvar.</p> + +<p>Acceitando a missão de auxiliar o nobre<span class="pn">{9}</span> alvitre +de v., e achando-me collocado em frente do periodo mais brilhante da historia +de Portugal, que o infante D. Henrique personifica, lembrei-me de que o +assumpto, comquanto vasto, ha de ser amplamente tratado por muitos escriptores +portuguezes, que mais ou menos se encontrarão n'um ponto de partida commum: a +vida do infante, e a sua influencia na successão dos nossos descobrimentos +maritimos.</p> + +<p>Assim, pois, pensei que, sendo já conhecida, nas suas linhas geraes, a +biographia do infante, eu poderia, sem atraiçoar a intenção de v., tomar outro +rumo, estudando, dentro dos estreitos limites de uma carta, a feição +proeminente de uma época, de que D. Henrique foi a culminação, mas que se +assignalou pelo concurso de um grupo de homens colossalmente prestigiosos.</p> + +<p>Como na vida de todos os heroes, ha<span class="pn">{10}</span> manchas, +claro-escuro na vida do infante Descobridor. Encarado em si mesmo o homem, teve +defeitos, commetteu erros, mas não é esta a hora propria para os relembrar. O +principe exerceu, e este é o ponto essencial e capital, uma acção benefica na +historia da humanidade, e marca o periodo que, elevando Portugal, aproveitou ao +mundo todo.</p> + +<p>Mas, quanto á época, é justo, sem nunca perder de vista o infante, procurar +medir a estatura dos portuguezes do seculo <small>XV</small>, que com elle +collaboraram, nas viagens ou nas campanhas, e que constituem os elementos de +caracterisação do espirito arrojado, leal, cavalheiresco, épico, dos +inexcediveis heroes d'esse tempo.</p> + +<p>A alma portugueza era então um mixto de poesia e valor, sobretudo de poesia +no valor. Feita de bronze, não conhecia perigos, difficuldades, resistencias. O +infante, estimulando a coragem<span class="pn">{11}</span> para as emprezas +maritimas, era a expressão do sentir de heroes, que avançavam sempre, contra o +<i>Mar Tenebroso</i>, contra os moiros, os inimigos exteriores, ou contra as +agitações da politica interna, sem medirem os percalços do commettimento.</p> + +<p>A pureza dos costumes, nos homens e nas mulheres, dava um como perfume de +santidade impeccavel ás ideas e aos sentimentos da época. A religião era mais +alguma coisa do que o culto de Deus nos templos: era a lei por onde cada um +regia as suas palavras e acções, os seus pensamentos e feitos, nas suas +relações com Deus ou com os homens.</p> + +<p>O fanatismo religioso levava a vêr inimigos n'aquelles que, não commungando +na mesma religião, não poderiam attingir o gráo de perfeição moral em que todas +as crenças se purificavam. Era um preconceito do tempo, eram as idéas da época. +Mas ha n'esse sentir, que hoje se nos<span class="pn">{12}</span> afigura +barbaro, uma noção mal comprehendida, posto que sincera, de que o catholicismo +era a unica expressão possivel da civilisação dos costumes.</p> + +<p>Alongados os descobrimentos maritimos pela costa occidental da Africa, +iniciado, com chave de oiro, o periodo dos factos gloriosos, que nos deram +farta participação nos progressos da civilisação universal, fechava-se, +simultaneamente, a porta do espirito cavalheiresco que dominára o coração dos +portuguezes da idade-média.</p> + +<p>Depois d'isso fomos guerreiros, mas não eramos já cavalleiros. Fomos ainda +conquistadores, mas não eramos já impulsionados por um mobil limpo de ambições +mesquinhas.</p> + +<p>O joven rei D. Sebastião, voltando da sua primeira jornada a Africa, quiz +desembarcar no cabo de S. Vicente, por uma noite de lua, e alli se demorou nove +ou<span class="pn">{13}</span> dez dias, como elle proprio contou, meditando +ambiciosamente na grandeza de uma época, que dos rochedos do Algarve, como uma +águia, havia no tempo de D. Henrique arrancado vôo para ir assombrar o mundo +inteiro.</p> + +<p>Tinha pena o joven e valoroso rei de não ser d'essa época. E com razão. Mas +Portugal havia começado a descer: Alcacerquibir, o abysmo cavado pelas mãos do +imprudente monarcha, breve se transformaria na sepultura de um seculo de +gloria.</p> + +<p>Não trarei, meu amigo, novos subsidios á biographia do infante Descobridor, +de quem tantas pennas illustres se irão por certo occupar; mas procurarei +desenhar, na vasta tela da sua época famosa, o vulto de um homem, que é um +elemento importantissimo de caracterisação e de synthese, de um homem sem o +qual essa enorme e brilhante conjugação de heroes,<span class="pn">{14}</span> +apostados em glorificar o nome da patria, ficaria incompleta.</p> + +<p>Refiro-me a Alvaro Vaz de Almada, que foi contemporaneo do infante D. +Henrique, e que bem se póde chamar o ultimo cavalleiro portuguez.</p> + +<p>Herculano escreveu d'elle no <i>Panorama</i>: «D. Alvaro, caindo morto, era +o symbolo da cavallaria expirando».</p> + +<p>O proprio infante D. Henrique dizia de Alvaro Vaz de Almada que não sómente +Portugal, mas tambem toda a Hespanha, podiam ter grande gloria de crear tão +famoso cavalleiro.</p> + +<p>E o rei Affonso de Napoles e seu irmão o infante D. Henrique de Aragão +diziam que tinham encontrado em Portugal <i>bom pão e bom capitão</i>. <i>Bom +capitão</i>: Alvaro Vaz.</p> + +<p>Tal era o homem.<span class="pn">{15}</span></p> + +<p class="centrado">*<br>* *</p> + +<p>Resumirei, quanto me fôr possivel, o quadro genealogico de Alvaro Vaz de +Almada.</p> + +<p>D. Sueiro Viegas Coelho, fidalgo de velha estirpe, teve dois irmãos e uma +irmã. D'elles, o mais velho foi frade; o outro, Gonçalo Magro, continuou-se +n'um filho bastardo, Lourenço Gonçalves, que casou com D. Thereza Godins.</p> + +<p>D'este casamento houve dois filhos, um dos quaes, Vasco Lourenço, teve por +successor João Annes de Almada, que foi chamado o <i>Grande</i>, e foi védor da +fazenda d'el-rei D. Pedro e d'el-rei D. Fernando.</p> + +<p>É com este cavalleiro, que por seu bom conselho, reflectida experiencia, +alta posição<span class="pn">{16}</span> politica e apparatosa apresentação<a +name="tex2html1" href="#foot98"><sup>[1]</sup></a> mereceu o cognome de +<i>Grande</i>, que principia, na sua familia, o appellido de <i>Almada</i>, +pelo facto d'elle ser natural d'aquella villa.</p> + +<p>Diz D. Antonio de Lima, no <i>Nobiliario</i>, que João Annes fôra por duas +vezes enviado ao estrangeiro como embaixador, e que por lembrança sua mandára o +rei D. Fernando começar a cêrca nova de Lisboa<a name="tex2html2" +href="#foot653"><sup>[2]</sup></a>. Ferdinand Denis tambem se refere a este +facto<a name="tex2html3" href="#foot654"><sup>[3]</sup></a>.<span +class="pn">{17}</span></p> + +<p>Casado com D. Urraca Moniz, deixou um filho, Vasco Lourenço de Almada, que +foi o instituidor do morgado da sua familia na villa do mesmo nome, e que +morava em Lisboa nos seus paços de Valverde<a name="tex2html4" +href="#foot106"><sup>[4]</sup></a>, junto ao Rocio.</p> + +<p>Este Vasco Lourenço teve um filho e uma filha.</p> + +<p>O filho, João Vaz de Almada, casou com D. Joanna Annes, de quem houve uma +filha, e dois filhos: Pedro Vaz de Almada, primogenito; Alvaro Vaz de Almada, +que por morte do irmão herdou o morgado instituido pelo avô<a name="tex2html5" +href="#foot107"><sup>[5]</sup></a>.</p> + +<p>Merece chronica a vida de João Vaz de Almada, pai de Alvaro Vaz.<span +class="pn">{18}</span></p> + +<p>Foi feito cavalleiro por D. João <small>I</small> depois da batalha de +Aljubarrota<a name="tex2html6" href="#foot655"><sup>[6]</sup></a>.</p> + +<p>Em 1400 enviou-o D. João <small>I</small> a Castella, com o arcebispo de +Lisboa e o doutor Martim Docem para negociar um tratado de paz ou treguas, e em +1404 a Inglaterra, tambem com Martim Docem, para tratar do casamento de D. +Beatriz, filha natural do rei, e irmã do duque de Bragança, com o conde de +Arundel e de Surry<a name="tex2html7" href="#foot656"><sup>[7]</sup></a>.</p> + +<p>Mais tarde, quando D. João <small>I</small> se apercebia para a conquista de +Ceuta, enviou João Vaz de Almada outra vez a Inglaterra para levantar +quatrocentas lanças ao serviço de Portugal.</p> + +<p>Parece que João Vaz levou comsigo<span class="pn">{19}</span> seu filho +Alvaro, porquanto ha noticia de uma carta de Henrique <small>V</small>, rei de +Inglaterra, ás auctoridades do porto de Londres, ordenando-lhes que deixem +sahir livremente os homens de armas e trezentas e cincoenta lanças que Alvaro +Vaz havia contratado para o rei de Portugal<a name="tex2html8" +href="#foot657"><sup>[8]</sup></a>.</p> + +<p>Não foram estes os unicos auxilios que D. João <small>I</small> mandou +buscar a Inglaterra com o mesmo fim. Tambem Pedro Lobato trouxe d'aquelle paiz +trezentas lanças «para o muito poderoso principe o infante D. Henrique, filho +do dito seu tio—diz Henrique <small>V</small> n'uma carta aos seus +almirantes,—<i>a fim de fazer a guerra aos incredulos e aos inimigos da fé +catholica</i><a name="tex2html9" href="#foot658"><sup>[9]</sup></a>.</p> + +<p>Pormenor interessante: Este mesmo Pedro Lobato trouxe n'essa occasião +uma<span class="pn">{20}</span> armadura completa para o infante D. Henrique. +</p> + +<p>Vieram ainda mais sessenta lanças, com os respectivos cavallos e armaduras, +a bordo de dois navios portuguezes, de que eram mestres João Affonso e Egydio +João.</p> + +<p>João Vaz de Almada acompanhou D. João <small>I</small> na viagem a Ceuta. +</p> + +<p>Conta Fernam Lopes que, tendo alguem visto um grande bando de pardaes sobre +o castello d'aquella cidade, dissera:</p> + +<p>—Não vêdes como aquelles pardaes alli estão assocegados? Que me matem se +Salat-bem-Salat com todos os outros não é partido d'alli, e deixou o castello +vazio, cá se assi não fosse, não estariam alli aquelles pardaes assi de +assocego.</p> + +<p>Foram dizer isto ao rei D. João, que respondeu:</p> + +<p>—Pois que assi é, vão chamar João<span class="pn">{21}</span> Vaz de +Almada<a name="tex2html10" href="#foot128"><sup>[10]</sup></a>, que traz a +bandeira de S. Vicente, e digam-lhe de minha parte que a vá logo poer sobre a +mais alta torre.</p> + +<p>Chamado immediatamente João Vaz, foi, com alguns outros, caminho do +castello, levando o estandarte de S. Vicente, padroeiro de Lisboa.</p> + +<p>Tentavam forçar as portas da fortaleza, quando sobre o muro appareceram dois +homens, um biscainho e o outro genovez, que lhes disseram em castelhano:</p> + +<p>—Não filheis trabalho em quebrar as portas, cá não tendes nenhum empacho em +vossa entrada, cá os mouros são já partidos todos d'aqui e sómente ficamos nós +ambos que vos abriremos as portas quando quizerdes.<span class="pn">{22}</span> +</p> + +<p>—Ora pois, respondeu João Vaz de Almada, filhai lá esta bandeira e ponde-a +sobre esse muro, até que nos vamos.</p> + +<p>Este mesmo episodio é contado por mestre Matheus de Pisano<a +name="tex2html11" href="#foot659"><sup>[11]</sup></a>, estrangeiro erudito, que +foi chamado a Lisboa para escrever em latim a historia da guerra de<span +class="pn">{23}</span> Ceuta, como quer Herculano<a name="tex2html12" +href="#foot660"><sup>[12]</sup></a>, ou para ser professor de D. Affonso +<small>V</small>.</p> + +<p>João Vaz de Almada levou a Ceuta os seus dois filhos, Pedro e Alvaro, que, +depois da victoria, ahi foram armados cavalleiros: Pedro pela mão do infante D. +Duarte, herdeiro da corôa<a name="tex2html13" +href="#foot661"><sup>[13]</sup></a>; e Alvaro por mão do infante D. Pedro.</p> + +<p>Foi certamente n'esse dia que principiaram a estabelecer-se entre D. Alvaro +Vaz de Almada e o infante D. Pedro, como consequencia tradicional d'essa +cerimonia, os laços de lealissima amizade, que os uniu durante toda a +existencia, e<span class="pn">{24}</span> que não deixou sobreviver um ao outro +mais do que alguns momentos.</p> + +<p>D. João <small>I</small> deu a capitania e guarda da fortaleza de Ceuta a +João Vaz de Almada, que a teve até á partida d'el-rei para o reino, ficando +depois a cidade entregue a D. Pedro de Menezes, que foi o primeiro capitão +d'ella.</p> + +<p>Recolhendo a Portugal, João Vaz de Almada, malquistado, por motivos +desconhecidos, com Gonçalo Pires Malafaia, esperou-o ás portas da Relação e +maltratou-o corporalmente<a name="tex2html14" +href="#foot662"><sup>[14]</sup></a>.</p> + +<p>Malafaia, que já tinha sido escrivão da chancellaria de el-rei D. Fernando, +seguiu, por morte d'este rei, a causa do mestre de Aviz, exercendo depois, e em +annos successivos, os cargos de védor da fazenda<span class="pn">{25}</span> +real, e o de regedor (presidente) da Casa do Civel, além de receber por doação +as propriedades confiscadas, no termo de Lisboa e Santarem, a João Fernandes +Pacheco e a Fernam Gomes da Silva.</p> + +<p>Como Malafaia foi nomeado regedor do Civel em 1457, mais de vinte annos +depois da morte de D. João <small>I</small>, entende um escriptor moderno ser +inverosimil a noticia d'aquelle conflicto como causa determinante da emigração +de João Vaz de Almada, por isso que os codices dão Malafaia como exercendo o +referido cargo n'essa occasião<a name="tex2html15" +href="#foot663"><sup>[15]</sup></a>.</p> + +<p>O facto dos chronistas lhe declararem a qualidade de regedor do Civel não +invalida, a meu vêr, a noticia do conflicto, porque muitas vezes os escriptores +antigos,<span class="pn">{26}</span> referindo-se a um acontecimento qualquer, +intromettem circumstancias que se deram antes ou depois, especialmente quando +mencionam titulos ou actos de um mesmo individuo.</p> + +<p>O conflicto causou escandalo e irritou D. João <small>I</small>, que, +collocado entre dois homens a quem devia serviços e dedicações, cortou a +direito, quiz fazer justiça contra o aggressor.</p> + +<p>João Vaz de Almada teve de fugir para Inglaterra, onde já era conhecido; e +levou comsigo os seus dois filhos, Pedro e Alvaro.</p> + +<p>Fosse esta ou outra qualquer a causa determinate da sahida do fidalgo +portuguez e seus dois filhos legitimos para Inglaterra (o auctor da <i>Historia +Serafica</i> limita-se a dizer: «os quaes ausentando-se do reino por razões, +que para isso tiveram», parecendo comtudo querer occultar assim um motivo +desagradavel), o que não<span class="pn">{27}</span> padece duvida é que João +Vaz de Almada emigrou para aquelle paiz, d'onde, tendo fallecido, vieram mais +tarde os seus restos mortaes, bem como os de seu filho Pedro, para a capella de +familia, que possuiam em S. Francisco de Lisboa<a name="tex2html16" +href="#foot664"><sup>[16]</sup></a>.</p> + +<p>Duarte Nunes de Leão diz que João Vaz de Almada acompanhára o rei de +Inglaterra, que devia ser Henrique <small>VI</small>, até Rouen. Sendo assim, +assistiria ao sacrificio de Joanna d'Arc (30 de maio de 1431). E que fôra +agraciado com a ordem da Jarreteira<i></i><a name="tex2html17" +href="#foot665"><sup>[17]</sup></a>.</p> + +<p>Pela minha parte não ouso confirmar estas noticias, mas apenas acceitar, +como authentica, a morte de João Vaz de Almada em Inglaterra.<span +class="pn">{28}</span></p> + +<p class="centrado">*<br>* *</p> + +<p>Fallemos agora de Alvaro Vaz de Almada, o <i>bom capitão</i>, o heroe famoso +de um cyclo de heroes, que deu honra e gloria a Portugal.</p> + +<p>O snr. Oliveira Martins figura Alvaro Vaz acompanhando o seu dilecto amigo o +infante D. Pedro de Alfarrobeira logo ao principio da sua celebre viagem, logo +que, como dizia o povo, começou a <i>correr as sete partidas do mundo</i>.</p> + +<p>Á sahida de Castella, onde o infante fôra visitar D. João <small>II</small>, +galopava a seu lado, segundo a expressão do snr. Oliveira Martins, o seu fiel +Achates, Alvaro Vaz de Almada, fadado para um destino igualmente cruel.</p> + +<p>Outras affirmações faz ainda o snr. Oliveira Martins. Precisamos +conhecel-as.</p> + +<p>«D'esta Jornada, agora começada, principia<span class="pn">{29}</span> a +amizade constante que ligou em vida Alvaro Vaz a D. Pedro, etc.»</p> + +<p>«Dois annos haveria apenas que Alvaro Vaz voltára ao reino coberto de +gloria. Batalhára pelos inglezes em Azincourt, no proprio anno da tomada de +Ceuta, e o rei Henrique <small>V</small> dera-lhe o condado de Avranches, na +<i>marka</i> franceza, com a ordem da Jarreteira. Essas guerras de França, +começadas havia tres annos, tinham de durar meio seculo, e talvez os viajantes +partissem com idéa de tambem intervir n'ellas. Alvaro Vaz, cavalgando ao lado +do infante, contar-lhe-hia os casos de bravura presenciados no dia famoso de +Azincourt; e D. Pedro, em volta, lhe diria como fôra a jornada de Ceuta n'esse +proprio anno»<a name="tex2html18" href="#foot666"><sup>[18]</sup></a>.</p> + +<p>A amizade do infante e de Alvaro Vaz<span class="pn">{30}</span> principiára +antes da partida de D. Pedro para o estrangeiro. <i>Elles eram irmãos de +armas</i>, circumstancia que, segundo o espirito da época, impunha deveres +sagrados de reciproca amizade e lealdade<a name="tex2html19" +href="#foot667"><sup>[19]</sup></a>.</p> + +<p>Quando, annos depois, o duque de Coimbra, vendo aproximar-se a hora do +combate com as tropas d'el-rei seu sobrinho, pergunta a Alvaro Vaz se está +disposto a todos os sacrificios, incluindo o da morte, tem em resposta:—Não +sou eu vosso irmão de armas?<a name="tex2html20" +href="#foot668"><sup>[20]</sup></a></p> + +<p>Eram. Porque ambos haviam sido armados cavalleiros no mesmo dia, em Ceuta, +depois da victoria.<span class="pn">{31}</span></p> + +<p>Alvaro Vaz tinha estado em Inglaterra com o pai, mas devia regressar pouco +antes de partir D. João <small>I</small> para Africa.</p> + +<p>Como já sabemos, João Vaz de Almada teve razões para refugiar-se mais tarde +em Inglaterra levando comsigo os dois filhos legitimos<a name="tex2html21" +href="#foot175"><sup>[21]</sup></a>.</p> + +<p>Isto passou-se depois da tomada de Ceuta, onde pelas chronicas sabemos que +estivera João Vaz de Almada, e onde seu filho, Alvaro Vaz, fôra armado +cavalleiro, por mão do infante D. Pedro<a name="tex2html22" +href="#foot669"><sup>[22]</sup></a>, tendo ambos, o infante e Alvaro Vaz<a +name="tex2html23" href="#foot722"><sup>[23]</sup></a>, aproximadamente a mesma +idade.</p> + +<p>Não foi, como documentalmente provaremos,<span class="pn">{32}</span> +Henrique <small>V</small> que deu a Alvaro Vaz o condado de Avranches.</p> + +<p>Não poderia Alvaro Vaz contar ao infante os casos de bravura presenciados no +dia famoso de Azincourt.</p> + +<p>E a razão é obvia. A batalha de Azincourt feriu-se em 1415, e n'este mesmo +anno, em agosto, se realisou a tomada de Ceuta. Antes, João Vaz e Alvaro +estiveram de passagem em Inglaterra, para levantar lanças; só posteriormente á +viagem a Africa com D. João <small>I</small> é que emigraram.</p> + +<p>Henrique <small>V</small> reinou de 1413 a 1422.</p> + +<p>Depois de Ceuta, o genio ardente e o animo valoroso de Alvaro Vaz não lhe +consentiram ficar indifferente á guerra que Henrique <small>V</small> movia +contra o desgraçado Carlos <small>VI</small> para fazer vingar as antigas +pretenções dos Plantagenets sobre a França.</p> + +<p>Alvaro Vaz de Almada pagava assim, combatendo pela Inglaterra, a +hospitalidade<span class="pn">{33}</span> que elle e a sua familia receberam da +Inglaterra.</p> + +<p>Henrique <small>VI</small>, como veremos por documentos, remunerou-lhe, mais +tarde, os serviços que elle havia prestado a Henrique <small>V</small>, e ainda +as provas de amor, obediencia e dedicação que já no seu reinado Alvaro Vaz +havia dado á corôa de Inglaterra.</p> + +<p>D'aqui poderá inferir-se que Alvaro Vaz esteve ainda em Inglaterra depois +que Henrique <small>VI</small>, contando alguns mezes de idade, succedeu a seu +pai em 1422, e ahi prestou serviços, ou que, depois de ter regressado ao reino, +voltasse áquelle paiz, como parece suppôr um escriptor nosso contemporaneo<a +name="tex2html24" href="#foot671"><sup>[24]</sup></a>.</p> + +<p>Pelo que deixamos dito, é mais que<span class="pn">{34}</span> muito +duvidoso que Alvaro Vaz partisse de Castella cavalgando ao lado do infante D. +Pedro.</p> + +<p>Qualquer que fosse o anno em que o infante partiu, sabemos que já estava na +Allemanha em 1419, quando o imperador Sigismundo lhe concedeu a marka ou ducado +fronteiriço de Treviso.</p> + +<p>Foi justamente n'esse anno ou pouco antes que Sigismundo, já rei da Hungria, +herdou de Wenceslau a corôa da Bohemia, e se achou a braços com os Hussitas e +os Turcos.</p> + +<p>Duarte Nunes, o auctor dos <i>Retratos dos varoes e donas</i><a +name="tex2html25" href="#foot196"><sup>[25]</sup></a>, e outros escriptores dão +noticia de ter Alvaro Vaz de Almada combatido pelo imperador Sigismundo contra +os Turcos.<span class="pn">{35}</span></p> + +<p>Não custa acredital-o. Sabendo que o seu grande amigo, o infante D. Pedro, +estava na Allemanha, decerto se daria pressa em avistar-se com elle, indo +immediatamente ao seu encontro. Como não era homem para estar parado nem +quieto, continuaria a ser alli «irmão de armas» do infante, combatendo por +algum tempo a seu lado.</p> + +<p>Um escriptor moderno affirma este facto, sem hesitações: «Tambem Alvaro Vaz +de Almada militou nos exercitos do imperador Sigismundo da Allemanha, e ahi se +encontrou com o infante D. Pedro, estreitando os laços de amizade que a elle o +uniam, desde que fôra armado cavalleiro»<a name="tex2html26" +href="#foot672"><sup>[26]</sup></a>.<span class="pn">{36}</span></p> + +<p>É mais natural que Alvaro Vaz se encontrasse com o infante D. Pedro na +Allemanha do que na Inglaterra, porque D. Pedro parece ter estado n'este paiz +pouco antes de recolher a Portugal em 1428, visto que a concessão da +Jarreteira, com que foi agraciado por Henrique <small>VI</small>, tem a data de +22 de abril de 1427, e Alvaro Vaz já em 1423 estava em Lisboa.</p> + +<p>Ha um documento d'esta época, pelo qual Alvaro Vaz de Almada foi nomeado +capitão-mór da armada de D. João <small>I</small>.</p> + +<p>É o seguinte:</p> + +<p>«D. João, etc. A quantos esta carta virem fazemos saber que nós querendo +fazer graça e mercê a Alvaro Vasques de Almada, cavalleiro nosso vassallo, por +serviços que d'elle recebemos e entendemos a receber ao deante: Temos por bem e +damol-o por nosso capitão-mór da nossa frota pela guisa que o era Gonçalo +Tenreiro<span class="pn">{37}</span> em tempo d'el-rei D. Fernando, nosso +irmão, a quem Deus perdoe, e por a guisa que o foi Affonso Furtado em nosso +tempo, e porem mandamos aos patrões, alcaides, arraes e pintitaes, comitres e +bésteiros, galeotes, marcantes, marinheiros e a todos os outros, a que esta +carta fôr mostrada, que o hajam por nosso capitão-mór, como dito é, e lhe +obedeçam e façam todas as cousas que lhes elle mandar fazer por nosso serviço, +e segundo a seu officio pertence, e que possa com elles fazer justiça, ou em +cada um d'elles, assim como a nós fariamos outrosim se presente estivessemos, e +mandamos a todas as nossas justiças que cumpram suas cartas e mandados, e lhe +ajudem a fazer e cumprir direito e justiça em todas as cousas que lhe elle +assim disser e mandar da nossa parte quando pertence a seu officio, senão sejam +certos quaesquer que o contrario d'isto fizerem, que lh'o extranharemos +gravemente<span class="pn">{38}</span> nos corpos e haveres como aquelles que +não cumprem mandado de seu rei e senhor: em testemunho d'isto lhe mandamos dar +esta nossa carta, dada em Cintra a vinte e tres dias de junho. El-rei o mandou. +Martim Vasques a fez, éra do nascimento de Nosso Senhor Jesus Christo de mil +quatrocentos vinte tres»<a name="tex2html27" +href="#foot205"><sup>[27]</sup></a>.</p> + +<p>Este documento, publicado nas <i>Provas da Historia Genealogica</i>, põe um +limite preciso e seguro ás viagens de Alvaro Vaz. Por elle vêmos que o <i>bom +capitão</i> recolheu<span class="pn">{39}</span> ao reino muito primeiro que o +seu amigo, infante D. Pedro, isto é, cinco annos antes.</p> + +<p>D. João <small>I</small> quiz certamente dar, com esta nomeação, uma +indemnisação á familia Almada: honrar o filho, visto que não pudéra perdoar ao +pai.</p> + +<p>Até ao anno da desgraçada expedição de Tanger (1437) não teve Alvaro Vaz de +Almada, na sua qualidade de capitão-mór da frota, motivo para se assignalar por +feitos de armas.</p> + +<p>Mas em Tanger o vamos encontrar derramando o sangue pela patria, e +combatendo com o valor de que já havia dado sobejas provas em Ceuta ao serviço +de D. João <small>I</small>, e na Inglaterra ao serviço de Henrique +<small>V</small>.</p> + +<p>O infante D. Henrique, tendo chegado a Tanger, estabelece arraiaes n'um +outeiro que ficava contra o cabo d'Espartel, desviando-se das instrucções que a +este respeito<span class="pn">{40}</span> lhe havia dado seu irmão o rei D. +Duarte.</p> + +<p>«E em se começando a gente de alojar, sahiu uma voz, com um rumor sem +certidão, que as portas da cidade estavam abertas e os mouros fugiam; e a este +alvoroço acudiram muitos de cavallo contra a cidade, para entrarem, e +commetteram o feito mui ardidamente, e se metteram entre o muro e a barreira, e +combateram as portas tão rija e ousadamente, que de tres juntas que eram, +romperam duas; e a terceira, que se diz o Postigo de Guyrer, commetteram com +fogo: e, por ser forrada de ferro e sobrevir a noite, não foi entrada; e tambem +porque os mouros a defenderam mui bravamente. E o conde de Arrayolos, por +mandado do infante, foi recolher a gente que, alli e na porta do castello e nas +outras da cidade, estava em combates repetidos: em que morreram muitos cavallos +e alguns christãos, e sahiram muitos<span class="pn">{41}</span> feridos: entre +os quaes foi o conde de Arrayolos, de uma setta por uma perna, <i>e o capitão +Alvaro Vaz d'outra por um braço</i>»<a name="tex2html28" +href="#foot673"><sup>[28]</sup></a>.</p> + +<p>É o primeiro ferimento recebido, ao serviço de Portugal, por Alvaro Vaz. +Qualquer que fosse, porém, a sua gravidade, de novo o vemos a combater +esforçadamente logo no primeiro combate regular que o infante D. Henrique +ordenou contra os mouros.</p> + +<p>«Mas o infante D. Henrique, vendo que o commettimento por aquella vez não +succedia como esperava, e que sua gente recebia dos mouros muito damno, a fez +recolher: de que ficaram até vinte christãos mortos e quinhentos feridos: e +mandou ficar as bombardas e engenhos em<span class="pn">{42}</span> seus +alojamentos juntos com o muro d'onde tiravam, cuja guarda encommendou ao +recebel-a ao capitão Alvaro Vaz e a outros, que, por estarem afastadas do +arraial e pegadas ao muro, receberam dos inimigos muita affronta e trabalho: e +elles, na defensão d'ellas e offensão que aos mouros faziam, deram de si claro +testemunho de valentes cavalleiros»<a name="tex2html29" +href="#foot674"><sup>[29]</sup></a>.</p> + +<p>No segundo combate contra os mouros, o capitão Alvaro Vaz continua a +assignalar-se:</p> + +<p>«E n'este mesmo dia era fóra D. Alvaro de Castro, e o <i>capitão</i>, e +Gonçalo Rodrigues de Sousa, e Fernam Lopes d'Azevedo, com setenta de cavallo: +e, topando com quinhentos mouros de cavallaria e muitos de pé, pelejaram com +elles e, a seu salvo,<span class="pn">{43}</span> lhe mataram quarenta, e +tornaram victoriosos a recolher-se com o conde (de Arrayolos) e com os outros, +que dos mouros vinham bem perseguidos»<a name="tex2html30" +href="#foot675"><sup>[30]</sup></a>.</p> + +<p>Mas é sobretudo no tumultuoso embarque das tropas portuguezas, na retirada +de Tanger, que o capitão Alvaro Vaz, de par com o marechal Vasco Fernandes +Coutinho, que depois foi feito conde de Marialva, pratica um acto de extremada +cavallaria.</p> + +<p>Oiçamos o chronista:</p> + +<p>«... o infante com muito resguardo fez recolher a gente, e encommendou ao +marechal, e ao capitão Alvaro Vaz, que com alguma somma de bésteiros ficassem +sobre o atalhamento do palanque, em um arrife que ahi sobre o mar se fazia, +d'onde contrariassem os mouros por maneira, que<span class="pn">{44}</span> os +christãos embarcassem com mór segurança, e depois se recolhessem com sua +ventura o melhor que podessem; e certamente assim como este encargo era de +grande perigo a estes dois nobres homens, assim n'elle como esfoçados, se +aproveitaram de muita honra e boa fama que n'elle ganharam, e não sómente +n'esta, mas em todas as outras affrontas n'este feito passadas, elles por sua +bondade d'armas, e grandeza de coração, foram havidos por especiaes capitães, e +notaveis cavalleiros. A gente miuda, com desejo de salvar as vidas de que foram +desesperados, embarcavam com grande desordenança a que se não podia prover, cá +se lançavam ao mar soltamente, não esguardando se o batel era do navio, em que +vieram, se de outro algum, e muitos d'elles por fazerem os mareantes em sua +salvação mais attentos e diligentes tentavam-n'os com cubiça, offerecendo-lhes +logo nas mãos, alguma<span class="pn">{45}</span> provesa que ainda escapara; e +isto começou de dar grande desaviamento á embarcação, e causar algum damno; +porque a todos os ministros do mar venceu tanto esta aborrecivel cubiça, que +suspendiam a entrada dos que alguma cousa lhe não peitavam, e os dispunham por +isso a grande perigo, do que el-rei houve, depois, sabendo-o, gran desprazer, e +segundo a mostrança de seu desejo, certamente este erro não ficára sem grave +punição, se d'elle pudéra achar os certos auctores. O marechal, e o +<i>capitão</i>, como a gente que guardavam viram embarcada, começaram de se +recolher na melhor ordenança que puderam, mas os mouros, por acabarem de +mostrar sua falsa concordia, e verdadeira imisade, como os viram mover para +embarcar, ordenaram dos pavezes que achavam no palanque, uma forte pavezada, +com que tão rijamente os commetteram, que muitos dos christãos, especialmente +os<span class="pn">{46}</span> bésteiros, não podendo soffrer um duvidoso +perigo, tomaram para suas vidas outro maior, e mais certo, lançando-se sem +algum tento ao mar, onde morreriam até quarenta. <i>E tanto era o primor da +honra n'estes dois cavalleiros, que em chegando ao batel, que para seu +recolhimento os esperava, e trazendo com a perseguição dos mouros a morte nas +costas, á entrada d'elles ambos se rogaram, affrontando um ao outro a primeira +entrada, procurando com palavras de muita cortezia e grande esforço, por cada +um ficar por derradeiro em guarda do outro; e porem com todos estes revezes, ao +domingo pela manhã eram já todos á frota recolhidos</i>»<a name="tex2html31" +href="#foot676"><sup>[31]</sup></a>.</p> + +<p>Este lance da biographia de Alvaro Vaz de Almada é, com effeito, de uma +galhardia<span class="pn">{47}</span> cavalheirosa, que inflamma o espirito de +quem n'elle attenta, apesar de sermos chegados a um tempo em que estas proezas +guerreiras têm já todo o caracter de factos longinquos e semi-phantasticos.</p> + +<p>Á volta de Tanger, Alvaro Vaz torna-se verdadeiramente notavel pela +superioridade com que sabe disfarçar a sua dôr pelo desastre soffrido.</p> + +<p>D. Duarte estava em Carnide, quando «... chegaram em tanto a Lisboa dos que +vinham de Tanger, muitos navios que certificaram o caso como finalmente +passára, de que el-rei foi logo avisado, e certamente foi mui aspero de ouvir, +que o infante seu irmão ficava em poder de mouros; mas por saber, que a mais da +sua gente era em salvo, deu por isso muitas graças a Deus, e como rei virtuoso, +humano e agradecido, deteve-se n'aquella aldeia, para vêr e agasalhar os que +vinham do cêrco,<span class="pn">{48}</span> dos quaes muitos, ao tempo que iam +fazer-lhe reverencia, em disformes semelhanças e tristes vestidos, que para +isso de industria vestiam, e com palavras a desaventura conformes, se lhe +mostravam, e d'elles fingiam ser muito mais damnificados do que na verdade o +foram, com fundamento de carregarem mais na obrigação para o feito de seus +requerimentos, que alguns logo faziam e outros esperavam fazer, de que el-rei +recebia publica dôr e tristeza; mas a estes foi mui contrario, o nobre e +valente cavalleiro Alvaro Vaz de Almada, capitão-mór do mar, que como quer que +no cêrco de Tanger de sua fazenda perdesse muito, e da honra por merecimentos +d'armas não ganhasse pouca, como chegou a Lisboa, antes de ir fallar a el-rei, +logo de finos pannos e alegres côres se vestiu, a si e a todos os seus, e com +sua barba feita e o rosto cheio de alegria, chegou a Carnide, onde el-rei +andava<span class="pn">{49}</span> passeiando fóra das casas, e com elle o +infante D. Pedro, e depois de lhe beijar as mãos e lhe dizer palavras de grande +conforto, el-rei o recebeu mui graciosamente, e louvou muito sua ida n'aquella +maneira, que não sómente lhe apontou cousas e razões, para não dever por +aquelle caso ter nojo nem tristeza, mas ainda que por elle devia ser mui alegre +e contente, estimando em nada o captiveiro do infante seu irmão, que era um +homem só e mortal, em que haviam muitos remedios, em respeito da grande fama +que n'aquelle feito em seu nome se ganhára, aconselhando-lhe mais o repique e +alvoroço dos sinos, para honra e prazer dos vivos, que o dobrar d'elles que +ouvia, por tristeza e pelas almas dos mortos; pelo que el-rei começou a mostrar +que aquelle era o primeiro descanço que seu coração recebia, e por isso e por +seus bons merecimentos lhe prometteu muita mercê, e grande +acrescentamento;<span class="pn">{50}</span> e sem duvida assim o fizera, se +sua antecipada morte o não tolhera»<a name="tex2html32" +href="#foot677"><sup>[32]</sup></a>.</p> + +<p>Ferdinand Denis, referindo-se a esta passagem da vida de Alvaro Vaz, +escreve: «Mostrou-se principalmente corajoso cavalleiro durante o cêrco de +Tanger, onde ficou prisioneiro o infante D. Fernando, que morreu em Fez; se bem +que quando voltou ao reino, o bom rei D. Duarte sahiu para o receber +pessoalmente, a pé, fóra de Carnide, onde estava. Fez-lhe taes favores e +mercês, como até então ninguem tinha recebido. Foi d'elle que o rei Affonso de +Napoles e seu irmão o infante D. Henrique d'Aragão diziam que haviam encontrado +em Portugal bom pão e bom capitão»<a name="tex2html33" +href="#foot678"><sup>[33]</sup></a>.<span class="pn">{51}</span></p> + +<p>Cumpre advertir que, segundo o testimunho do chronista Pina, o rei D. Duarte +não teve tempo de fazer a Alvaro Vaz as mercês que desejava, e que as maiores +que o famoso capitão recebeu não provieram de Portugal, mas de Inglaterra.</p> + +<p>Muitos escriptores suppozeram que Alvaro Vaz de Almada fôra feito conde de +Avranches pelo rei de França, e cavalleiro da ordem da Jarreteira pelo de +Inglaterra; mas não padece a menor duvida que ambas estas graças lhe foram +concedidas pelo monarcha inglez, Henrique <small>VI</small>, quando, como rei +de França, senhoreava o ducado de Normandia.</p> + +<p class="centrado">*<br>* *</p> + +<p>Dois annos depois do desastre de Tanger, principia a agitar-se em Portugal +a<span class="pn">{52}</span> famosa questão da <i>regencia</i>, que havia de +ter um tragico desfecho no combate de Alfarrobeira.</p> + +<p>Em agosto de 1439 a rainha D. Leonor passou-se de Santo Antonio do Tojal, +onde estava, para Sacavem, e o rei menino, Affonso <small>V</small>, tornou +para Lisboa, onde estava o infante D. Pedro.</p> + +<p>Este infante fez reunir em sua casa as pessoas de maior confiança, e entre +ellas o «seu grande amigo Alvaro Vaz de Almada, capitão-mór do mar»<a +name="tex2html34" href="#foot679"><sup>[34]</sup></a>, ás quaes se queixou da +pequena parte que do governo lhe coubera nas côrtes, e communicou a resolução +de abandonar por completo os negocios do Estado, retirando-se para as suas +terras.</p> + +<p>N'essa reunião particular, de caracter<span class="pn">{53}</span> intimo, +distinguiu-se Alvaro Vaz aconselhando o infante a que, se lhe não entregassem +logo todo o poder da regencia, se recolhesse aos seus dominios, «porque perdia +muito de sua auctoridade e estimação andando na côrte com tão pouca +auctoridade»<a name="tex2html35" href="#foot249"><sup>[35]</sup></a>.</p> + +<p>Era este um meio, habilmente procurado por Alvaro Vaz de Almada, para +estimular o animo do povo, e apressar os acontecimentos no interesse do +infante.</p> + +<p>A rainha, por sua parte, tomava represalias irritantes contra os amigos e +partidarios de D. Pedro.</p> + +<p>Uma d'ellas foi despedir do seu serviço a irmã de Alvaro Vaz de Almada, por +desconfiar que ella communicava ao irmão o que se passava na côrte.<span +class="pn">{54}</span></p> + +<p>Este e outros actos, como, por exemplo, a mercê que D. Leonor fizera a Nuno +Martins da Silveira, aio do rei, dos varejos a que os mercadores de Lisboa eram +obrigados de sete em sete annos, irritaram profundamente os partidarios do +infante, entre os quaes eram numerosos os homens do povo.</p> + +<p>Foram-se de parte a parte exaltando os animos, a ponto que a rainha julgou +conveniente á sua segurança transferir-se de Sacavem para Alemquer.</p> + +<p>N'este lance da narrativa encontram-se Ruy de Pina e Gaspar Landim, se bem +que ambos elles se equivoquem, quando se referem a Alvaro Vaz de Almada, em +attribuir a mercê do condado de Avranches ao rei de França e a da Jarreteira ao +de Inglaterra, quando foram feitas, como sabemos, pelo mesmo rei, que ao mesmo +tempo se intitulava rei de Inglaterra e de França.<span class="pn">{55}</span> +</p> + +<p>«Os officiaes de Lisboa,—diz Ruy de Pina,—vendo esta mudança da rainha +fizeram logo seu ajuntamento, onde Vicente Egas Homem, cidadão velho, entendido +e de grave representação fez uma falla com largo recontamento, cuja substancia +foi avisar a cidade dos males e perigos, que por as mudanças presentes se lhe +apparelhavam; e como para terem por cabeça alguma pessoa que por ella os +resistisse, lhe era necessario elegerem e tomarem alferes, <i>apontando logo o +capitão Alvaro Vaz de Almada, que da cidade fôra o derradeiro alferes, como por +outros muitos e mui dignos merecimentos e louvores, que d'elle com verdade +recontou</i>; no que todos consentiram, e por dois cidadãos o enviaram logo +chamar por quanto era fóra da cidade; e em chegando á Ribeira, sendo já sabida +a determinação sobre que vinha, se ajuntou com elle a mór parte da cidade e +assim acompanhado com grande<span class="pn">{56}</span> honra foi levado á +camara, onde por os vereadores com certas cerimonias e largas palavras <i>de +grande seu louvor e muita confiança, lhe foi entregue a bandeira da cidade com +suas condições</i>; e elle a recebeu com palavras cortezes, e discretas, e de +grande esforço; porque era cavalleiro que <i>n'este reino e fóra d'elle por +experiencias mostrou</i>, que isto e muito <i>mais de louvor havia n'elle</i>, +cá em França por sua ardideza e bondades foi feito conde de Abranches, e em +Inglaterra por sua valentia foi recebido por companheiro da ordem da +Jarreteira, de que principes christãos, e pessoas de grande merecimento são +confrades; e em Portugal por todas estas, e mais por sua linhagem e fidalguia +mereceu ser como foi capitão-mór do mar»<a name="tex2html36" +href="#foot680"><sup>[36]</sup></a>.<span class="pn">{57}</span></p> + +<p>Ouçamos agora, na passagem parallela a esta, o testimunho de Gaspar de +Landim:</p> + +<p>«E tanto que em Lisboa se soube a mudança da rainha (<i>de Sacavem para +Alemquer</i>), como não havia acto seu que não parecesse mal aos cidadãos e +povo d'ella, se ajuntaram com os vereadores, e entre elles o costumado Vicente +Egas como mais contrario das cousas da Rainha, e favorecedor das do Infante lhe +fez uma pratica mui larga toda em seu favor d'elle, em qual encareceu +grandemente os males e perigos que dizia estarem-lhes apparelhados áquella +cidade e a todo o reino por ordem da Rainha, pelo que era necessario elegerem +um capitão que lhe servisse de cabeça, e os defendesse, a quem obedecessem, +para o qual effeito, pois que o Infante D. Pedro estava ausente (<i>em +Camarate</i>), ninguem o podia melhor fazer que o capitão Alvaro Vaz de +Almada,<span class="pn">{58}</span> grande amigo e familiar do Infante, e para +que não houvesse duvida na eleição d'elle recontou grandes feitos seus, e de +seu pai João Vaz de Almada, encarecendo sobre modo seu valor e merecimentos; o +qual logo de commum consentimento foi nomeado e eleito por defensor da cidade, +capitão e alferes-mór, e para haver esta eleição effeito bastou saber que era +mui contrario ás cousas da Rainha e suas cousas, e mui affecto ás do Infante; o +qual foi logo mandado chamar a uma quinta onde estava, e em entrando na cidade, +chegando á Ribeira se juntou todo o povo e cidadãos com elle para o acompanhar, +e d'ahi o levaram á camara com grande alvoroço e muitas exclamações de +libertador e defensor d'aquella cidade, e entrando na camara lhe foi entregue a +bandeira com muitas condições e declarações todas em favor do Infante D. Pedro, +e contrarias á Rainha; com as quaes elle a recebeu,<span class="pn">{59}</span> +e com palavras significadoras de grande agradecimento prometteu tudo cumprir. +</p> + +<p>«Os cidadaos e povo muito satisfeitos, confiados e a seu parecer seguros de +todos os medos e destruições que sobre si fingiam haverem de vir, e lh'o faziam +crêr, e por taes se deram com a eleição do seu defensor.</p> + +<p>«Era Alvaro Vaz de Almada cavalleiro que assim n'este reino, como em outros, +tinha feito grandes cousas por seu esforço em que cabiam aquelles e outros +maiores cargos, ainda que foi notado de temerario e arrogante, e como tal deu +muita cousa, e foi a principal parte da casa do infante D. Pedro, de sua honra +e vida; e por seu esforço foi feito por el-rei de França conde de Abranches, e +em Inglaterra por valorosos feitos lhe foi dada a honra da Garrotea, da qual +n'aquelle tempo se honraram muitos principes, e em Portugal depois de<span +class="pn">{60}</span> tornado a elle foi feito por el-rei D. Duarte +capitão-mór do mar».</p> + +<p>Aqui temos Alvaro Vaz de Almada lançado na accesa lucta travada entre o +infante e a rainha, e vel-o-hemos acompanhar sempre D. Pedro, até á morte, com +aquella cega dedicação, que já era antiga, porque datava de Ceuta.</p> + +<p>O povo de Lisboa, poucos dias depois da eleição de Alvaro Vaz, acclamára o +infante D. Pedro como unico governador do reino, n'um acto solemne realisado na +egreja de S. Domingos.</p> + +<p>N'este momento, Alvaro Vaz é o braço direito do infante e o querido do povo, +o homem escolhido para todas as missões importantes.</p> + +<p>Assim, foi designado para ir solicitar do infante D. João que viesse a +Lisboa, onde a sua presença se reputava necessaria.</p> + +<p>O emissario logrou convencer o infante,<span class="pn">{61}</span> que veio +logo, hospedando-se na casa da Moeda<a name="tex2html37" +href="#foot681"><sup>[37]</sup></a>.</p> + +<p>Novamente se tornou a reunir o povo, agora nos paços do concelho, fallando +por essa occasião o dr. Affonso Mangancha e Alvaro Vaz.</p> + +<p>Ruy de Pina dá-nos a summula do discurso do famoso <i>Capitão</i>: +«encommendaram logo ao <i>Capitão</i> que désse sobre o caso sua voz, que a deu +com cautelas e fundamentos de homem prudente, e mui avisado, em que concluiu +mais além, que era crime e aleijão elrei ser creado em<span +class="pn">{62}</span> poder de mulheres; e não menos erro reger a rainha, não +sem muitos merecimentos e grandes louvores d'ella, que tambem apontou para ser +sempre servida e acatada: e que o infante D. Pedro devia reger»<a +name="tex2html38" href="#foot682"><sup>[38]</sup></a>.</p> + +<p>Como sabemos, o povo havia entregado a D. Alvaro a defeza e guarda da cidade +de Lisboa. O infante D. Pedro confirmou, por um diploma official, a escolha que +o povo fizera, nomeando D. Alvaro alcaide-mór do castello, investindo-o +officialmente nas funcções, que já exercia, de defensor dos moradores de +Lisboa.</p> + +<p>«Dom Affonso etc. A quantos esta carta virem fazemos saber que vendo nós e +considerando os muitos e estremados serviços que o capitão-mór Alvaro Vasques +de Almada, Rico Homem e do nosso conselho,<span class="pn">{63}</span> fez a +ElRei meu Senhor e Pai e a ElRei Dom João, meu Avô, e isso mesmo a nós e ao +diante entendemos receber, e os muitos trabalhos e perigos em que foi assim +fóra dos nossos reinos como em elles por honra d'elles, e querendo-lhe +galardoar e conhecer, como todo bom Rei e theudo, aquelles que bem e lealmente +servem, conhecendo sua grande lealdade, porém de nosso motu proprio, livre +vontade, certa sciencia, poder absoluto, temos por bem e fazemol-o nosso +alcaide mór do nosso castello da nossa mui nobre e leal cidade de Lisboa, pelo +que nos fez preito e menagem uma, duas e tres vezes de nós em elle receber +irado e pagado no alto e no baixo, segundo mais cumpridamente é, contheudo na +fórma de sua menagem, a qual é escripta no livro das menagens que anda em a +nossa camara é assignada por elle. E porém mandamos a todos os fidalgos, +cavalleiros, escudeiros, corregedores,<span class="pn">{64}</span> juizes, +justiças, conselho e homens bons da dita cidade, que d'aqui em diante o hajam +por nosso alcaide em o dito castello e outro nenhum não, não embargando que o +até aqui tivesse D. Affonso, o qual nos praz nem queremos que o mais seja pelo +assim entendermos por nosso serviço, aos quaes mandamos que lhe obedeçam assim +como alcaide e saiam com elle e sem elle cada vez que por elle ou da sua parte +forem requeridos em aquillo que a seu officio pertencer para se fazer direito e +justiça. Outrosim queremos que tenha e haja de nós todas as rendas e direitos +que á dita alcaideria pertencem segundo é contheudo em nossa carta, que d'isso +tem, e os possa arrecadar, tirar e arrendar por si e por seus procuradores e +homens como a elle mais prouver. E em testimunho d'isso lhe mandamos dar esta +nossa carta. Dante (?) em Santarem cinco dias de abril por auctoridade do +Senhor Infante Dom Pedro,<span class="pn">{65}</span> tutor e curador do dito +Senhor Rei, Regedor defensor por elle de seus Reinos e Senhorios. Martins Gil a +fez, anno de Nosso Senhor Jesus Christo de mil quatrocentos e quarenta<a +name="tex2html39" href="#foot683"><sup>[39]</sup></a>.</p> + +<p>Mas Alvaro Vaz chegava para tudo, e o infante encarregou-o de ir tomar o +castello da Ameeira, que estava por D. Leonor. A esse tempo a rainha havia-se +entrincheirado no Crato.</p> + +<p>D. Alvaro deu-se pressa em partir para ir desempenhar esta nova commissão. +</p> + +<p>Vejamos o que diz Ruy de Pina; prefiro, sempre que seja isso possivel, +empregar a linguagem das chronicas, porque tem um sabor antigo, que se +conforma<span class="pn">{66}</span> melhor com o assumpto, tambem antigo, do +que a nossa linguagem actual.</p> + +<p>«O capitão Alvaro Vaz a que o cerco da Ameeira, como disse, era encarregado, +partiu de Lisboa por terra com sua gente d'armas e de pé, que era muita e mui +bem concertada, e assim com os artilheiros e provisões, que para o cerco +convinham, e todo posto em mui segura e singular ordenança, <i>fazendo-o assim +como homem que o vira, e passára em outros reinos já muitas vezes</i>. E tambem +folgou de o ordenar assim por dar a entender n'este pequeno cerco, o que faria +em outros maiores se lh'os encommendassem».</p> + +<p>O resultado da Jornada da Ameeira foi satisfatorio, como todos os +partidarios do infante esperavam, visto que a incumbencia tinha sido confiada +ao valoroso <i>Capitão</i>.</p> + +<p>O castello rendeu-se pouco depois de D. Alvaro lhe ter posto cerco.<span +class="pn">{67}</span></p> + +<p>O joven Affonso <small>V</small>, que estava então em Alemquer, tanto tinha +ouvido fallar de Alvaro Vaz de Almada, que quiz vêl-o por força quando elle +passava para a Ameeira. A sua imaginação de creança estava exaltada pela fama +d'esse cavalleiro portentoso, que já tinha uma lenda de heroicidade, com que +regressára do estrangeiro, e que em Portugal continuava a glorifical-o.</p> + +<p>Referindo-se ao pequeno rei, diz Ruy de Pina: «desejou muito de vêr o +Capitão, e sua gente na ordenança de guerra em que vinham, e sentindo-lhe +Alvaro Gonçalves de Athayde, seu aio, este vivo orgulho e desejo, louvou-lh'o +muito. E disse que era bem que cumprisse: mas por não errar em seu serviço e +estado indo de proposito vêr uma sua cousa tão pequena, seria bem que como +d'acerto fosse a caça, ao campo d'entre Castanheira e Villa Nova, e que ali +como de recontro veria o<span class="pn">{68}</span> Capitão, e a gente que +então havia de passar. E a outro dia andando alli el-rei com seus galgos e +gaviões, assomou o Capitão, e sabendo já que el-rei o queria vêr apurou ainda +muito mais sua ordenança, e de sua pessoa com seus pagens armados se concertou +com grande perfeição. Porque n'aquelle acto de armas, <i>por seu braço e por +experimentadas ardidezas passadas, a elle n'este reino se dava muito +louvor</i>, e tanto que foi atravez d'onde o rei olhava, se apartou só da gente +armado sobre uma facanea, e com grande alegria e desenvoltura se lançou fóra +d'ella, e a pé foi beijar as mãos a el-rei, e lhe disse:—«Senhor, assim como +eu sou o primeiro que Vossa Senhoria vê n'estes habitos, assim, prazendo a +Deus, não serei eu n'elles o segundo, em todo o que cumprir por vosso serviço, +e por defensão de vossos reinos». El-rei folgou muito de o vêr, e com palavras +e contenenças lhe fez mais honra e<span class="pn">{69}</span> mór acolhimento, +do que de sua pouca idade se esperava, e assim se despediu o Capitão, e seguiu +sua viagem até a Ameeira, que logo cercou e combateu até que a tomou<a +name="tex2html40" href="#foot684"><sup>[40]</sup></a>.</p> + +<p>Um homem de tamanho vulto, como era D. Alvaro Vaz de Almada, por força havia +de ter inimigos, especialmente n'uma época em que os interesses politicos da +sociedade portugueza estavam profundamente divididos em dous campos oppostos. +</p> + +<p>Uma carta regia, que se encontra no archivo da camara municipal de Lisboa e +é datada de 12 de maio de 1440, dá conhecimento de não ter sido permittido que +Alvaro Vaz de Almada, alcaide-mór, intentasse acção, para se desaggravar do que +contra a sua pessoa tinham dito e feito alguns<span class="pn">{70}</span> +officiaes da cidade; e recommenda-lhes que reciprocamente usassem d'aquella boa +maneira e amizade, com que sempre se haviam tratado<a name="tex2html41" +href="#foot685"><sup>[41]</sup></a>.</p> + +<p>A reacção, por parte dos sequazes da rainha, decerto procuraria amesquinhar +e desprestigiar D. Alvaro, a alma do movimento em favor do infante.</p> + +<p>Parece que, entre outras accusações, lhe fizeram tambem a de haver impedido +a entrada de um navio carregado de trigo, que era preciso ao consumo publico. +</p> + +<p>Mas, não obstante este e outros meios de reacção, a causa da rainha +naufragava: D. Leonor fugira para Castella, segundo parece, no dia 29 de +dezembro de 1440.</p> + +<p>N'este momento desapparece-nos Alvaro<span class="pn">{71}</span> Vaz de +Almada do theatro dos acontecimentos, sem que os chronistas nos dêem a chave do +enygma.</p> + +<p>Apenas se sabe, por uma phrase vaga de Ruy de Pina, e por outra phrase, não +menos vaga, do proprio infante D. Pedro, que elle estivera em Ceuta.</p> + +<p>Julgaria D. Alvaro,—insaciavel de correr perigos e aventuras,—que a sua +presença não era já precisa em Portugal ao infante D. Pedro, cuja causa estava +ganha? Dar-se-ia em Ceuta algum acontecimento, que fizesse com que o infante, +como regente do reino, entendesse ser necessario mandar alli o seu mais seguro +e dedicado amigo?</p> + +<p>Ficou em Ceuta D. Alvaro ou iria tambem ao estrangeiro, tentar novos feitos +de armas, hypothese a que se inclina o collaborador do <i>Diccionario +popular</i>?<span class="pn">{72}</span></p> + +<p class="centrado">*<br>* *</p> + +<p>Foi effectivamente durante esta sua ausencia que Henrique <small>VI</small> +o encheu de mercês importantissimas.</p> + +<p>«D. Alvaro Vaz estava então militando em Ceuta, e esse homem de nobilissimo +caracter, que, emquanto D. Pedro foi feliz, se conservou afastado, voltando +até, segundo todas as probabilidades, ao estrangeiro, porque não é natural que +em 1445 Henrique <small>VI</small> de Inglaterra lhe conferisse todas as graças +que dissemos, na sua ausencia, D. Alvaro, apenas soube o que se tramava contra +o seu irmão de armas, veio logo para Portugal...»<a name="tex2html42" +href="#foot686"><sup>[42]</sup></a><span class="pn">{73}</span></p> + +<p>Por minha parte pendo a acreditar que D. Alvaro não sahiu de Ceuta, mas devo +dizer, francamente, que caminho apenas por conjecturas.</p> + +<p>É possivel que a morte do pai e do irmão mais velho, ignorando eu comtudo a +data certa em que falleceram, levasse Henrique <small>VI</small> a galardoar em +D. Alvaro os serviços que anteriormente havia recebido d'elle proprio e da sua +familia.</p> + +<p>Mas é mais provavel que, «por esforço do infante D. Pedro», como diz Landim, +lhe fossem feitas aquellas mercês.</p> + +<p>As duas phrases, de Ruy de Pina e do infante D. Pedro, que logo citaremos, +fallam apenas de Ceuta; supponho, por isso, que D. Alvaro Vaz de Almada não +iria mais longe n'essa segunda ausencia.</p> + +<p>O que é certo é que as mercês de Henrique <small>VI</small> a D. Alvaro são +do anno de 1445, em que o valoroso <i>Capitão</i> estava fóra de Lisboa.<span +class="pn">{74}</span></p> + +<p>Os documentos comprovativos das mercês encontrou-os o snr. Figanière, e +indicou-os pela primeira vez no <i>Catalogo dos manuscriptos portuguezes +existentes no muzeu de Londres</i> (Lisboa, 1853), por esta fórma;</p> + +<p>«N.º 6.298. <i>Fol. 316</i>—Noticia de D. Alvaro Vaz de Almada, conde de +Abranches, cavalleiro da Jarreteira.</p> + +<p>«<i>Fol. 317</i>—Cópia de um documento passado sob o sêllo privado (<i>copy +of Privy Seal</i>) em que contém a eleição de D. Alvaro de Almada, como +cavalleiro da Jarreteira, e creando-o conde de Abranches em Normandia. Datado +de Westminster a 4 de agosto do 23.º anno do reinado de Henrique +<small>VI</small>, rei de Inglaterra; isto é, de 1445.</p> + +<p>«<i>Fol. 319 verso</i>—Cópia de outro semelhante documento, concedendo ao +mesmo D. Alvaro de Almada, conde de Abranches, a somma annual de 100 +marcos.<span class="pn">{75}</span> Datado de Westminster a 9 de agosto do +mesmo anno.</p> + +<p>«<i>Fol. 320 a 321</i>—Cópia de outro semelhante documento, dando ao mesmo +D. Alvaro de Almada uma taça de ouro do valor de 40 marcos, a qual continha 100 +marcos em dinheiro. Datado de 13 de agosto do já referido anno.</p> + +<p>«Os quatro precedentes documentos estão collocados em seguida uns dos +outros».</p> + +<p>Eis o que dizia o <i>Catalogo</i>. Tres annos depois, no <i>Panorama</i>, o +snr. Figanière publicava na integra os documentos, cuja traducção vamos dar em +seguida:</p> + +<p>«Nos Archivos da Torre de Londres, rotulo de França, anno 23, maço 6, +pergaminho 2.º</p> + +<p>«Henrique, por Graça de Deus Rei de Inglaterra, de França e Senhor da +Irlanda, aos Arcebispos, Bispos & saude.</p> + +<p>«De grandes louvores devem ser cumulados, e com singular gloria +exaltados<span class="pn">{76}</span> os que com ardente zelo se empenham em +sacrificar o seu tempo e até a propria vida á salvação da Patria; que se expõem +aos perigos para assegurar a tranquillidade publica, e que acima de todas as +cousas d'este mundo ambicionam fama illustre e nome immortal, e se dão por +felizes quando julgam poder com os seus serviços e lealdade promover o publico +bem. Oh benemerita classe de homens! sem os quaes não poderiam gozar de +segurança as cidades, as fortalezas, os reinos, os dominios, os Principes da +terra, nem mesmo a propria Terra. Oh muito illustres e justos varões! sob cuja +administração exemplar todas as virtudes se avigoram e florecem, os máos são +reprimidos e os criminosos castigados. Ninguem ha, certamente, que com digno +louvor possa celebrar por escripto ou de palavra almas tão nobres. N'este +numero se deve contar e celebrar o insigne e preclaro varão, o bravo e glorioso +militar,<span class="pn">{77}</span> D. Alvaro de Almada, que desde <i>tenra +idade, apenas saido da infancia</i>, apaixonado de gloria militar e +ambicionando os premios dos valentes e a salvação commum, com todo o esforço e +zelo se applicou aos exercicios militares, e logo que chegou á idade mais +propria para a guerra, cresceu-lhe o esforço com a idade, e em defeza do Estado +se portou com tão superior coragem que nada lhe parecia agradavel, digno de +estima ou de apreço se não se encaminhasse ao bem commum; e tal valor mostrou +nos perigos da guerra, e tal prudencia no remanso da paz, que com toda a +justiça se devem premios ao seu trabalho. Por estas razões considerando nós a +nobreza d'este varão, e as eminentes qualidades que, unidas a seus feitos, lhes +dão grande realce, e outrosim as gloriosas façanhas por elle praticadas no +<i>tempo do Christianissimo Rei de gloriosa memoria nosso Antecessor, realçadas +ainda<span class="pn">{78}</span> pelas provas de amor, obediencia e dedicação +que a nós e nossos reinos elle tem dado</i>; o nomeamos cavalleiro socio e +irmão da ordem da Jarreteira por voto unanime d'esta Ordem; e em testimunho de +nossa Real Munificencia e das suas virtudes o nomeamos e estabelecemos Conde de +Avranches no nosso Ducado de Normandia; e cingindo-lhe a espada o investimos +n'este nome, dignidade e titulo e com elle effectivamente o honramos. Queremos +e mandamos por nós e por nossos herdeiros que o dito nosso leal Dom Alvaro +conserve perpetuamente para si e seus herdeiros varões, seus descendentes +havidos em legitimo matrimonio, o nome e dignidade de Conde de Avranches. Foram +testimunhas os veneraveis Padres: I. arcebispo de Cantuaria; I. arcebispo de +Yorck; Thomaz, de Norwich; Will, de Sarum; I. Bathon e Wellen, bispo de +Gloucester, tio materno do nosso carissimo Duque Humfredo;<span +class="pn">{79}</span> e os nossos carissimos parentes os duques João Exon, e +Humfredo Buck; e Wilhelmo, marquez de Suffolk; João, visconde de Beaumont e +seus amados e fieis soldados Radulpho Cromwell e Radulpho Bottler, thesoureiros +de Inglaterra, e o chanceller Mestre Adam Moleyns e outros. Dado por nossa mão +em Westminster a 4 de agosto. Por carta de sello privado passada n'esta mesma +data»<a name="tex2html43" href="#foot688"><sup>[43]</sup></a>.<span +class="pn">{80}</span></p> + +<p>«Nos Archivos da Torre de Londres, rotulo de França, anno 23.º, maço 6.º, +pergaminho 2.º</p> + +<p>«Eu El-Rei aos que esta virem & saude.</p> + +<p>«Tomando em consideração a lealdade,<span class="pn">{81}</span> +intelligencia, circumspecção, affecto, serviços e todas as mais cousas dignas +de menção que <i>a nosso amantissimo Pae de feliz memoria, e tambem a nós</i> +com singular desvelo prestou o nosso leal D. Alvaro de Almada, Conde de +Avranches, do conselho<span class="pn">{82}</span> do nosso Parente o muito +excellente Principe e poderosissimo Senhor Rei de Portugal, e capitão mór em +todos os seus reinos e dominios, e Alcaide mór da cidade de Lisboa, e querendo +outrosim que taes serviços não fiquem em esquecimento e sem<span +class="pn">{83}</span> recompensa: por nosso motu proprio concedemos ao mesmo +D. Alvaro em quanto viver cem marcos de pensão annual, a receber do nosso +Erario de Inglaterra por mão do nosso thesoureiro e officiaes que então alli +servirem, e a vencer em porções eguaes pela Paschoa e pelo S. Miguel. Em fé do +que é. Testimunha R.»</p> + +<p>«Westminster 9 de agosto»<a name="tex2html44" +href="#foot689"><sup>[44]</sup></a>.</p> + +<p>«Sello particular do Governo, 13 de agosto 23 H. 6.—Nós, tomando em +consideração<span class="pn">{84}</span> os bons serviços, grande zelo, e bom +amor que nosso fiel e bem amado Alvaro de Almada, cavalleiro de Portugal, nos +tem feito e prestado e aos nossos muito nobres antepassados, o temos feito e +creado ha pouco tempo conde de Avranches, e além d'isso temos concedido ao dito +Alvaro uma pensão de 100 marcos por anno durante a sua vida. Nós vos ordenamos +de lhe entregar uma taça de ouro do valor de quarenta marcos<a +name="tex2html45" href="#foot347"><sup>[45]</sup></a> e a somma<span +class="pn">{85}</span> de cem marcos contidos na dita taça»<a name="tex2html46" +href="#foot690"><sup>[46]</sup></a>.</p> + +<p>Estas mercês foram feitas por Henrique <small>VI</small> na sua dupla +qualidade de rei de Inglaterra e duque de Normandia em França. Insistimos +n'este ponto para combater o erro em que tantos escriptores nacionaes e +estrangeiros têm cahido, de suppor que Alvaro Vaz recebera do rei de Inglaterra +a ordem da Jarreteira, e do rei<span class="pn">{86}</span> de França o condado +de Avranches, que estava incluido no antigo ducado de Normandia. O rei era um +só. A este respeito com inteira razão nota o snr. Oliveira Martins que nem se +concebe que, estando em guerra os dous reinos, o mesmo homem fosse feito conde +de Avranches pelo rei de França e cavalleiro da Jarreteira pelo rei de +Inglaterra<a name="tex2html47" href="#foot691"><sup>[47]</sup></a>.</p> + +<p>Em 1447, o joven rei D. Affonso <small>V</small><span class="pn">{87}</span> +pede a seu tio o infante D. Pedro que lhe entregue as redeas do governo, o que +immediatamente consegue.</p> + +<p>É então que principia a agitar-se em torno do infante ex-regente a intriga +atiçada pelo duque de Bragança.</p> + +<p>Os conselheiros de D. Affonso <small>V</small> diziam-lhe, segundo conta +Pina, que «por segurança não sómente de sua vida, mas da justiça e fazenda +tirasse, como logo tirou, todos os officios, que os criados de seu<span +class="pn">{88}</span> tio na côrte tinham de qualquer qualidade que fossem, +pondo suspeições e testimunhos falsos, a uns que erravam na justiça, e a outros +que roubavam a fazenda, e a outros que dariam peçonha a el-rei, segundo a cada +um em seus officios podia tocar, e para parecer que o queriam provar, não +falleciam logo pessoas induzidas, que com medo de pena, ou com esperança de +galardão, que lhe promettiam, na sua vontade o testimunhavam»<a +name="tex2html48" href="#foot692"><sup>[48]</sup></a>.</p> + +<p>O que é certo é que, apesar de todas estas machinações dos inimigos do +infante D. Pedro, o joven rei Affonso não se mostrou severo, nem mesmo +reservado, com D. Alvaro Vaz de Almada quando elle recolheu a Lisboa.</p> + +<p>É que, como logo veremos pelas palavras do infante D. Pedro, Alvaro Vaz +tinha<span class="pn">{89}</span> augmentado a sua gloria militar, praticando +<i>em Ceuta</i> novos e brilhantes feitos de armas.</p> + +<p>N'este lance da narrativa, precisamos recorrer mais uma vez ao testimunho +de Ruy de Pina, transcrevendo um capitulo da sua <i>Chronica</i>:</p> + +<p>«<i>A este tempo chegou tambem a Lisboa, que vinha de Ceuta</i>, o conde +d'Abranches, que sobre todos era grande servidor e muito amigo do infante D. +Pedro, e publico imigo do conde d'Ourem, e em sua chegada não foi então +d'el-rei e de sua côrte assim agasalhado e honrado, como seus serviços +presentes e merecimentos passados requeriam. Porém o conde assim como era de +nobre sangue, assim não fallecia n'elle uma graciosa soltura de dizer, com mui +esforçado coração e singular agradecimento, com que ante el-rei e os de sua +côrte, no publico e no secreto defendia muito a honra e estado<span +class="pn">{90}</span> do infante D. Pedro, com claro exemplo e vivas razões de +sua mui louvada lealdade, afeando muito com grande audacia os movimentos e +maldades, que seus imigos tão sem causa contra elle moviam. E como quer que +el-rei fosse induzido, que não ouvisse o conde e o mandasse ir fóra de sua +côrte, pondo-lhe que em todas as culpas do infante elle era muito culpado, +porém porque el-rei era de alto coração, accêso no ardor de actos +cavalleirosos, suspirando para grandes empresas, folgava muito de o ouvir, e +começava dar-lhe de si muita parte e acolhimento, especialmente porque o +infante D. Henrique ante el-rei muitas vezes por cousas muito assignaladas em +que o vira, dizia por elle, que não sómente Portugal, mas Hespanha toda se +devia de haver por honrada crear tal cavalleiro. E porque os imigos do infante +viram, que a vontade d'el-rei ácerca do conde não terçava por elles<span +class="pn">{91}</span> como desejavam, lançaram-lhe amigos d'elle lançadiços, e +pessoas de credito que com resguardo de grande segredo o aconselhassem, que se +fosse fóra da côrte, e não entrasse em um conselho publico que se então fazia, +avisando-o manhosamente que n'elle por cousas do infante D. Pedro o haviam de +prender. Mas o conde com a cara cheia d'essa forçada segurança, lhe +disse—<i>Amigos, certamente pelos muitos e grandes serviços que tenho feitos a +esta casa de Portugal, eu lhe mereço mais villas e castellos com que me +acrecente, que prisões nem cadêas em que sem causa me ponha, e por tanto com +todo o que me dizeis, sabei que não hei de fugir do conselho e serviço d'el-rei +nosso senhor, pois leal e verdadeiramente sempre o segui. E porém se tal cousa, +e por tal causa se move contra mim, sabei certo que em defender minha honra, e +limpeza d'aquelle senhor, eu me mostrarei hoje digno de ser confrade da<span +class="pn">{92}</span> santa Garrotea que recebi, e espero em Deus que sem +ociosidade de minhas mãos, os que me quizerem visitar antes seja na sepultura, +que nos carceres nem cadêas, e por isso não hajaes dó nem compaixão de minha +vida porque minha morte honrada a fará com louvor viver mui viva, e muito mais +honrada nas memorias dos homens para sempre.</i> Pelo qual o conde depois de +com esta determinação despedir estes manhosos e dobrados conselheiros; porque a +hora do conselho se chegava, a que determinou ir, se vestiu de pannos finos mui +bem e muito melhor d'armas secretas, com que entrou no paço, onde seus imigos, +vendo a segurança de sua pessoa, foram claramente certificados do esforço e +bondade de seu coração. E estando el-rei na casa do conselho, onde eram muitos +senhores presentes e os principaes imigos do infante, o conde e com cara que +mais parecia que ameaçava que temia, lhe tocou em sua<span +class="pn">{93}</span> prisão que lhe fora revelada, e assim lhe fallou com +muito repouso e grande auctoridade nas cousas do infante e suas, approvando sua +bondade e lealdade por termos, e com razões a todos tão manifestas, que se não +podiam contrariar; concluindo, que quaesquer pessoas de qualquer estado e +condição que fossem, que do contrario tinham informado a El-Rei, eram com +reverencia e acatamento de sua real pessoa, a Deus e a elle e ao mundo máus e +traidores, e que com licença e consentimento de sua senhoria os combateria por +armas, <i>e em campo a tres d'elles os melhores juntamente</i><a +name="tex2html49" href="#foot377"><sup>[49]</sup></a>. A resposta d'el-rei para +o conde foi então graciosa e branda, e com mostrança que lhe pesara de o ouvir, +que para o mau fundamento dos que tratavam a morte do infante, foram mui +tristes signaes,<span class="pn">{94}</span> e por arredarem el-rei do infante +D. Henrique e do conde, que começavam ser causa, que de todo impedia seu +damnado proposito, o levaram a Cintra aforrado».</p> + +<p>Este ultimo periodo de Ruy de Pina tem sido interpretado por alguns +escriptores com manifesta confusão. Suppõem elles que Alvaro Vaz é que foi +levado para Cintra, e não o rei. Eu entendo o contrario. Em Major a redacção +póde suscitar duvidas; diz o erudito inglez: «Apesar da frieza, que lhe +mostraram (ao conde de Avranches) por sua amizade a D. Pedro, foi sempre seu +caloroso e perseverante defensor, e tal poder tinha sua influencia, que os maus +conselheiros de elrei julgaram conveniente fazel-o retirar para Cintra»<a +name="tex2html50" href="#foot694"><sup>[50]</sup></a>.<span +class="pn">{95}</span> Soares da Sylva, deixando-se arrastar pelo equivoco, +escreve: «N'este mesmo tempo veio á Côrte o Conde de Abranches D. Alvaro Vaz de +Almada, que até alli estava <i>em Cintra</i><a name="tex2html51" +href="#foot695"><sup>[51]</sup></a>.</p> + +<p>Ora, em face do texto de Pina, vê-se que Alvaro Vaz veio de <i>Ceuta</i>, e +que os cortezãos, para subtrairem D. Affonso <small>V</small> á influencia do +conde, levaram o rei <i>aforrado</i> para Cintra.</p> + +<p>D. Antonio de Lima, no <i>Nobiliario</i>, diz que Alvaro Vaz de Almada armou +tres navios contra os genovezes que andavam no Estreito, que lhes tomou uma +carraca, e praticou outros feitos valorosos. Não diz, porém, em que época isto +succedeu. Mas poderá talvez presumir-se que fosse n'esta segunda ida a Ceuta, e +que sejam estes os<span class="pn">{96}</span> feitos a que o infante D. Pedro +se refere.</p> + +<p>Os genovezes tinham n'aquelle tempo uma poderosa marinha, e póde bem ser que +affluissem ao estreito de Gibraltar com a mira em Ceuta, chegando a fazer uma +investida, que Alvaro Vaz teria repellido victoriosamente.</p> + +<p>Os nossos chronistas guardam silencio sobre o assumpto. Mas não custa a +acreditar que o motivo que levou novamente a Ceuta Alvaro Vaz fosse a ameaça +dos genovezes, contra os quaes elle acudiria com tres navios armados á sua +custa.</p> + +<p>Sendo assim, ficaria explicado o facto de ter abandonado temporariamente o +governo do castello de Lisboa, como explicadas ficariam tambem uma phrase do +infante D. Pedro e a admiração que o joven rei manifestou mais uma vez pelo +insigne capitão, a ponto dos cortezãos julgarem conveniente retirar D. Affonso +<small>V</small> para Cintra,<span class="pn">{97}</span> para evitar a +repetição de entrevistas que davam vantagem ao conde de Avranches.</p> + +<p>Acaso governaria já Affonso <small>V</small> quando o conde partiu para +Ceuta? Parece que não. Se esta viagem tivesse sido um meio de o tirar de ao pé +do infante D. Pedro, se tivesse sido «um castigo», como explicar que o rei lhe +conservasse o castello de Lisboa, que só lhe retirou quando D. Alvaro Vaz +voltou de Ceuta? E como explicar igualmente que recebesse o <i>Capitão</i> com +tanto agrado?</p> + +<p>Parece mais verosimil e provavel que Alvaro Vaz partisse para Ceuta durante +a regencia e por indicação do infante, em razão talvez do perigo que offereciam +alli os genovezes.</p> + +<p>Por fim, como era natural que acontecesse, dada a idade impressionavel de +Affonso <small>V</small> e a insistencia dos inimigos do infante, o joven rei +acabou por ceder e tirar<span class="pn">{98}</span> a D. Alvaro o governo do +castello de Lisboa<a name="tex2html52" href="#foot696"><sup>[52]</sup></a>.</p> + +<p>Durante a regencia, o infante D. Pedro não só havia conservado ao +<i>Capitão</i> o cargo de alcaide-mór, mas tambem lhe fizera importantes +doações, como se póde vêr por documento existente no Archivo National<a +name="tex2html53" href="#foot697"><sup>[53]</sup></a>.<span +class="pn">{99}</span></p> + +<p>O infante magoou-se profundamente com o acto pelo qual seu sobrinho tirára o +governo do castello de Lisboa a D. Alvaro: não só o feriam directa e +pessoalmente, imputando-lhe crimes atrozes, mas tambem na pessoa do seu mais +dilecto amigo o queriam ferir.</p> + +<p>Na celebre carta que o infante dirigiu<span class="pn">{100}</span> de +Coimbra, em 30 de dezembro de 1448, ao conde de Arrayolos, que de Ceuta viera +expressamente para defendel-o, dizia D. Pedro:</p> + +<p>«... por me fazerem deshonra tiraram o castello de Lisboa ao conde +d'Avranches, o qual se tinha feito serviços a estes Reynos e aos Reys delles +por que lhe esto devesse<span class="pn">{101}</span> de ser feito vós sabees; +deram-lhe por elles <i>e em especial pollo que agora fez em Ceita</i>, ho +gallardam que dam a mim de meus serviços e trabalhos».</p> + +<p>Este periodo da celebre carta mostra não só o profundo resentimento do +infante D. Pedro, mas tambem que D. Alvaro <i>viera de Ceuta</i>, onde +praticára novos e gloriosos feitos.</p> + +<p>Não podemos precisar o anno em que o conde esteve pela segunda vez em Ceuta. +Mas, pelo dizer o infante, sabemos que no fim de 1448 já tinha regressado, e +por outra noticia sabemos tambem que em 1446 estava em Lisboa.</p> + +<p>Certamente n'este ultimo anno<a name="tex2html54" +href="#foot698"><sup>[54]</sup></a> veiu a Portugal Jacques de Lalain, famoso +cavalleiro<span class="pn">{102}</span> da côrte do duque de Borgonha. Foi +recebido pelo joven rei Affonso <small>V</small> e pelo regente D. Pedro com +grandes honras e festas. Quando De Lalain se aproximava da cidade de Evora, +sahiram a recebel-o, em nome do rei, Alvaro Vaz de Almada e outros senhores e +cavalleiros portuguezes<a name="tex2html55" +href="#foot699"><sup>[55]</sup></a>.</p> + +<p>Não houve justas nem torneios, porque a De Lalain foi dito, em nome do rei, +que elle não podia consentir que nenhum cavalleiro portuguez fizesse armas +contra outro da casa de Borgonha, a que estava ligado por estreitos laços de +parentesco e affecto.</p> + +<p>Perdeu-se assim uma excellente occasião de vêr o conde de Avranches justar, +em Portugal, com um cavalleiro estrangeiro<span class="pn">{103}</span> dos +mais afamados, porque Alvaro Vaz de Almada não teria certamente prescindido +d'essa honra e gloria.</p> + +<p>Vamos agora caminhando rapidamente para Alfarrobeira.</p> + +<p>Depois de fallar ao rei, Alvaro Vaz correu ancioso a abraçar o infante D. +Pedro, que estava em Coimbra, nas suas terras.</p> + +<p>O infante D. Henrique acampanhou-o.</p> + +<p>Houve então alli um como conselho de familia para se deliberar sobre o que +cumpria fazer. O momento era angustioso; a resolução difficil. A reunião do +conselho repetiu-se quando se soube que o duque de Bragança tinha sido chamado +á côrte.</p> + +<p>Alvaro Vaz de Almada opinou que a todo o custo o infante devia impedir a +passagem ao duque<a name="tex2html56" href="#foot700"><sup>[56]</sup></a>.<span +class="pn">{104}</span></p> + +<p>Este parecer foi acceito.</p> + +<p>Para o executar, D. Pedro moveu a sua gente, que de Penella seguiu para a +Louzã, e da Louzã para a aldeia de Villarinho, sendo a vanguarda confiada a D. +Jayme, filho do ex-regente, e a D. Alvaro Vaz de Almada. O proprio D. Pedro +commandava a rectaguarda.</p> + +<p>Quando chegaram ao logar de Serpiz, soube o infante que o duque de Bragança +estava apenas a meia legua de distancia.</p> + +<p>Logo que isto constou a D. Alvaro, não lhe soffreu o animo mais delongas. +Sem dizer nada ao infante, metteu esporas ao cavallo, e foi vêr o arraial do +duque. Quando voltou, vinha radiante; mas D. Pedro acolheu-o com tristeza, +pesaroso de que elle o não tivesse consultado primeiro.</p> + +<p>Perguntou-lhe o infante o que tinha visto.</p> + +<p>D. Alvaro respondeu com decisão:</p> + +<p>—Senhor, venho de vêr vossos inimigos,<span class="pn">{105}</span> de quem +prazendo a Deus, e ao bemaventurado S. Jorge, vos eu darei hoje se quizerdes +mui boa vingança, e peço-vos por mercê que a não dilateis para mais, e ahi logo +dar n'elles; porque na desordem e tristeza em que estão, dão já certos signaes +de serem cortados com medo e meio desbaratados, e não percaes tão bom dia; +porque já em vossa vida nunca havereis outro tal, e não alongueis a vida a quem +se lh'a hoje dais, sabei que a encurtára mui cedo a vós, tendo por certo que o +duque na maneira em que se repaira e afortallesa não quer vir ávante, e ou se +tornará para traz como veio, ou escondido se salvará por outro caminho»<a +name="tex2html57" href="#foot701"><sup>[57]</sup></a>.</p> + +<p>O infante D. Pedro, querendo certamente adiar o derramamento de sangue, +não<span class="pn">{106}</span> acceitou o conselho, nem acreditou a +prophecia.</p> + +<p>Mas D. Alvaro fôra n'essa occasião um vidente.</p> + +<p>O duque de Bragança conseguiu atravessar furtivamente a serra da Estrella, +escapando-se d'este modo ás mãos do infante, e seguindo jornada para Lisboa. +</p> + +<p>D. Pedro e os seus tornaram para Coimbra.</p> + +<p>Ahi foi surprehender o infante uma carta de sua filha, a rainha. Dizia-lhe +ella que no dia 5 de maio (estava-se em 1449) D. Affonso <small>V</small> o +iria cercar, e que, se elle infante fosse vencido, seria morto, encarcerado ou +desterrado.</p> + +<p>D. Pedro mostrou-se alegre e tranquillo perante o mensageiro, mas ficou +profundamente abatido.</p> + +<p>Reuniu o conselho dos seus amigos. As opiniões dividiram-se. D. Alvaro, sem +fazer a menor allusão á boa occasião que<span class="pn">{107}</span> o infante +havia perdido, disse com inabalavel firmeza:</p> + +<p>—Antes morrer grande e honrado que viver pequeno e deshonrado.</p> + +<p>Desenvolvendo esta these, aconselhou que, vestindo todos as suas armas, +fossem caminho de Santarem, onde a côrte estava, para que o infante mandasse +pedir a el-rei que ou lhe permittisse defender-se na presença de seus inimigos +ou haver pelas armas satisfação das injurias que propalavam, e que se el-rei +nenhuma d'estas concessões quizesse fazer, e sobre elles viesse, que se +defendessem no campo como bons e esforçados cavalleiros<a name="tex2html58" +href="#foot702"><sup>[58]</sup></a>.</p> + +<p><i>Antes morrer grande e honrado que viver pequeno e deshonrado</i>: estas +heroicas palavras calaram no animo, até ahi indeciso, do infante D. Pedro.<span +class="pn">{108}</span></p> + +<p>Conheceu que a razão e a honra estavam do lado de D. Alvaro. Acceitou-lhe o +conselho. As duas almas entendiam-se, completavam-se. Tinha chegado o momento +decisivo: só restava apparelhar para elle. <i>Antes morrer grande e honrado que +viver pequeno e deshonrado.</i> Tal era o dilemma. A voz da cavallaria +portugueza fallára pela bocca de D. Alvaro.</p> + +<p>Preparou-se o infante D. Pedro para a sorte das armas, qualquer que ella +fosse.</p> + +<p>Ruy de Pina, que segue os moldes de Tito Livio, pondo longos discursos na +bocca dos personagens historicos, descreve d'este modo a scena intima, que se +déra entre D. Pedro e D. Alvaro:</p> + +<p>«E passados alguns dias depois estes conselhos, o infante não se esfriando +em seu proposito, apartou só em uma camara o conde d'Abranches, e lhe +disse—<i>conde, sabe que eu sinto já minha alma aborrecida de viver n'este +corpo, como desejosa de<span class="pn">{109}</span> se sair de suas paixões e +tristezas, e considerados os seus combates que minha vida, honra, e estado cada +dia recebem, com esperança de não minguarem, mas cada vez crescerem mais, certo +se as cousas n'esta viagem me não succedem como eu desejo, e seria razão, eu +todavia determino morrer e acabar inteiro, e não em pedaços, e como quer que +tenho outros bons criados e servidores, que por suas bondades folgariam e não +se escusariam de morrer comigo, porém em vós sobre todos tomei esta confiança, +assim pela irmandade que comigo merecestes ter, na santa e honrada ordem da +Garrotea em que somos confrades, e como por creação que vos fiz, e +principalmente pela certidão que de vossa bondade e esforço tenho muito ha +conhecido, e por tanto quero saber de vós, se no dia que d'este mundo me +partir, querereis tambem ser meu companheiro, e com isso lembre-vos para +satisfazerdes aos primores de vossa<span class="pn">{110}</span> honra, que +sendo vós tão conhecidamente meu criado e servidor, e tão publico imigo do +conde d'Ourem e arcebispo de Lisboa, depois de minha morte não podeis ter vida, +salvo reservada para com mãos d'algozes a perderdes em lugares vis, e com +pregões deshonrados. Senhor,</i> respondeu o conde, <i>para caso de tamanho +contentamento, como foi sempre e é para mim viver e morrer por vosso serviço, +muitas palavras nem os encarecimentos não são necessarios, eu vos tenho muito +em mercê escolherdes-me para tal serviço, e eu sou muito contente ter-vos essa +companhia na morte, assim como vol-a tive na vida, e se Deos ordenar que deste +mundo vossa alma se parta, sede certo que a minha seguirá logo a vossa, e se as +almas no outro mundo podem receber serviço umas das outras, a minha n'esse dia +irá acompanhar e servir para sempre a vossa</i>».</p> + +<p>Ferdinand Denis torna esta scena mais<span class="pn">{111}</span> rapida, e +por isso mesmo talvez mais verdadeira.</p> + +<p>O infante teria perguntado a D. Alvaro, com uma simplicidade e rudeza +proprias do caracter de ambos, se estava disposto a morrer por sua causa.</p> + +<p>D. Alvaro responderia com laconica firmeza:</p> + +<p>—Acaso não sou eu vosso irmão de armas?</p> + +<p>Esta concisa resposta vale bem, segundo as ideias d'aquelle tempo, o +discurso de Ruy de Pina.</p> + +<p>Foi avisado um sacerdote, homem abalisado, o doutor Alvaro Affonso, para +comparecer na egreja de S. Thiago.</p> + +<p>Por mão d'este sacerdote commungaram o infante e D. Alvaro, jurando ambos, +sobre a hostia consagrada, que juntos triumphariam ou morreriam.</p> + +<p>Depois o infante visitou as egrejas da Sé, de Santa Cruz e de Santa Clara, +com<span class="pn">{112}</span> as quaes tinha particular devoção, e, +recolhendo ao paço, deu ordem para que estivessem prestes os seus seis mil +homens, e para que n'essa noite se abrissem e illuminassem os salões do solar. +</p> + +<p>Tendo cumprido os deveres de bom christão, queria despedir-se do mundo, na +hypothese de ser vencido, se não era presentimento, como bom cavalleiro.</p> + +<p>E elle, que tão modesto vivera sempre, deu ao sarau d'essa noite um +esplendor verdadeiramente principesco.</p> + +<p>«La veille de son départ pour Santarem, une fête fut donnée aux dames; et il +y brilla de cette grâce de langage, de cette noblesse toute chevaleresque, qui +l'avaient rendu maintes fois l'admiration des cours de l'Allemagne et de +l'Aragon»<a name="tex2html59" href="#foot704"><sup>[59]</sup></a>.</p> + +<p>Como que está a gente a vêr o amavel<span class="pn">{113}</span> donaire +d'esses dous cavalleiros, o infante e D. Alvaro, fallando ás damas, pisando +gentilmente tapetes macios que encobriam a cratera de um vulcão ameaçador.</p> + +<p>Ao romper da manhã, quando o sol da primavera aclarava docemente a paizagem +formosissima de Coimbra, a cavallaria, a infanteria, a carriagem de bois e +bestas, principiaram a mover-se, desfraldando duas bandeiras, cujos lemmas +diziam, n'uma, <i>Lealdade</i>, na outra, <i>Justiça e vingança</i>.</p> + +<p>O infante D. Pedro, tendo abraçado sua esposa, seguira o exercito que +abalava em som de guerra.</p> + +<p class="centrado">*<br>* *</p> + +<p>Esta Jornada, a mais curta e ao mesmo passo a mais longa que o infante +fizera,<span class="pn">{114}</span> porque não regressou jámais, lembra até +certo ponto a attracção da chamma sobre a borboleta. Tambem o infante e o seu +fiel companheiro D. Alvaro pareciam attrahidos pela morte.</p> + +<p>Iam procurando os templos famosos como para encommendar sua alma a Deus. +Estiveram na Batalha, onde D. Pedro ajoelhou diante do tumulo de seus pais, +quedando-se tambem algum tempo diante do jazigo que elle proprio devia ir +povoar. Estiveram em Alcobaça, e d'alli seguiram para Rio Maior, onde o infante +reuniu o conselho.</p> + +<p>Todos, á excepção de D. Alvaro, aconselhavam D. Pedro a que não avançasse +mais; diziam-lhe que, feita aquella demonstração de força, retrocedesse para +Coimbra.</p> + +<p>O infante ouvia-os engolphado n'uma abstracção melancolica. Mas deu ordem +para que o exercito marchasse na direcção<span class="pn">{115}</span> de +Alcoentre: para a morte é que era o caminho.</p> + +<p>Cbegados ahi, D. Alvaro Vaz de Almada pratíca um novo acto de bravura, de +fogoso ardor militar.</p> + +<p>Ayres Gomes da Silva, a quem coube a guarda das forragens, fôra cercado +pelos esclarecedores do exercito real.</p> + +<p>Mal que isto se soube em Alcoentre, no acampamento do infante, «o conde de +Abranches com grande trigança logo sahiu, e com elle quasi todos os do arraial +não guardando alguma regra em sua sahida, antes com muita desordem e desmando +romperam por muitas partes o palanque, e deram com muita força nos corredores, +de que alguns d'elles achando-se atalhados, querendo-se salvar cairam em um +grande tremedal e lagoa, de que não poderam sahir, onde entre mortos e presos +ficaram logo até trinta, e os vivos levaram logo ante o infante, entre os quaes +o principal<span class="pn">{116}</span> era um Pero de Castro, fidalgo e +criado do infante D. Henrique»<a name="tex2html60" +href="#foot705"><sup>[60]</sup></a>.</p> + +<p>Impellido por este acontecimento, o exercito de D. Pedro avançou. Sahiu-lhe +ao caminho a noticia de que D. Affonso <small>V</small> havia partido de +Santarem ao seu encontro. Sabido isto, o infante mandou fazer alto, a pequena +distancia de Alverca, junto ao ribeiro de Alfarrobeira.</p> + +<p>O conde de Avranches, que era sempre o primeiro, foi observar o exercito do +rei, que se aproximava.</p> + +<p>Fez-lhe impressão a grandeza d'esse exercito. Mas, voltando, occultou a toda +a gente a sua impressão, menos ao infante.</p> + +<p>«... e alguns disseram que o Conde pedira e requerera ao infante, visto a +desigual comparação que havia de uns a outros, que só se fosse e salvasse, e o +deixasse<span class="pn">{117}</span> com sua gente alli onde folgaria acabar +por seu serviço»<a name="tex2html61" href="#foot706"><sup>[61]</sup></a>.</p> + +<p>Se isto assim foi, o infante recusou o offerecimento. Lembrou porventura a +D. Alvaro que o voto feito por ambos era de morrerem um pelo outro.</p> + +<p>«Mas o que mais verdadeiramente ácerca d'isto se deve crêr, é que o Conde +pela certa sabedoria que tinha do proposito do infante, que era morrer, e pelo +consagramento que ambos por isso tinham feito, não lhe commetteria nem ousaria +commetter tal cousa, em que ao menos ficava o infante por ser perjuro e +fraco»<a name="tex2html62" href="#foot453"><sup>[62]</sup></a>.</p> + +<p>Foi ahi, junto ao ribeiro de Alfarrobeira, que n'esse dia, uma terça-feira, +20 de maio, o infante D. Pedro esperou o exercito do rei.<span +class="pn">{118}</span></p> + +<p>O conflicto, rapido e decisivo, devia comtudo ficar memoravel na historia de +Portugal. Uma setta, certeiramente despedida, fôra cravar-se no peito do +infante, que pouco tempo sobreviveu.</p> + +<p>Luiz de Azevedo<a name="tex2html63" href="#foot455"><sup>[63]</sup></a>, +poeta do <i>Cancioneiro</i> de Rezende, põe na bocca do infante moribundo +lastimas que talvez lhe atravessassem o pensamento n'essa angustiada hora +final:</p> + +<p> </p> + +<blockquote> + Nam ha rreynos em Cristãos <br> + que em todos nam andasse, <br> + e que sempre nom achasse <br> + nos rreys d'eles doces mãos; <br> + Fydalguos e cydadaõs <br> + me seruiam lealmente, <br> + e agora cruelmente <br> + me matarom meus yrmãos. </blockquote> + +<p> </p> + +<blockquote> + Eu andey per muytas partes <br> + e por outras boas terras, <br> + muyta paz e tam bem guerras <br> + vy tratar per muytas artes.<span class="pn">{119}</span> <br> + Mas aqueste dia Martes <br> + foy jnfeles pera mym; <br> + o meu sangue me deu fim <br> + e rrompeu meus estandartes. </blockquote> + +<p>Vamos, na confusão do rapido combate, procurar o conde de Avranches. O +infante é morto. D. Alvaro ha de cumprir o seu juramento como o mais leal dos +cavalleiros portuguezes.</p> + +<p>Ruy de Pina escreve:</p> + +<p>«O conde d'Abranches andando a cavallo em outra parte do arraial, provendo e +resistindo em sua estancia, como bom e ardido cavalleiro, a muitas affrontas +que o perseguiam, um moço chegou a elle e chorando lhe disse—<i>Senhor conde, +que fazeis? porque o infante D. Pedro é morto.</i>—E o conde com quanto esta +embaixada era de morte, que sem escusa nem dilação desafiou logo sua vida, elle +com a cara segura e o coração esforçado disse ao moço—<i>Cala-te e aqui o não +digas a ninguem.</i>—E<span class="pn">{120}</span> com isto feriu rijamente o +cavallo das esporas, e foi-se descer em seu alojamentor onde sem alguma +turvação pediu pão e vinho, de que por esfoçar mais seu esforço comeu e bebeu +alguns bocados, e tomou suas armas para com ellas honrar sua sepultura, que era +a terra em que havia de cair, e saiu a pé pelo arraial, que de todas as partes +era já entrado e vencido, e como foi conhecido, logo os d'el-rei uns sobre os +outros carregaram sobre elle acommettendo de todas as partes para o matar, mas +elle logo com uma lança que cortaram, e depois com sua espada os feria, e +escarmentava de maneira, que os que a primeira vez o acommettiam, de mortos ou +feridos não volviam a elle a segunda, e assim pelejou um grande pedaço como mui +valente e accordado cavalleiro, não sem grande espanto dos que o viam trazendo +as mãos, e todas suas armas cheias não de seu sangue, mas de muito alheio +que<span class="pn">{121}</span> espargiu; porque em quanto andou em pé e se +poude revolver, nunca sua carne recebeu golpe que a cortasse. E emfim vencido +já de muito trabalho, e longo cansaço, disse em altas vozes: <i>Ó corpo, já +sinto que não podes mais, e tu minha alma já tardas.</i> E com isto se deixou +cair estendido no chão, e uns dizem que disse, <i>ora fartar, rapazes</i>, e +outros <i>ora vingar, villanagem</i>. Cujo corpo que já não resistia, foi logo +de tantos golpes ferido, que em breve despediu a alma de si para ir acompanhar +a do infante como lhe tinha promettido, e alli um seu amigo, que não usou do +que devia, lhe cortou e levou a cabeça com que a el-rei foi pedir +acrescentamento e honra de cavallaria, e o tronco ficou no chão feito em +pedaços, até que por requerimento de João Vaz d'Almada seu irmão bastardo, que +era valor d'el-rei, houve logo enterramento no campo, e depois sepultura +honrada. E os outros fidalgos e nobre gente<span class="pn">{122}</span> que +eram com o infante, vendo tão caro seu destroço, cada um desamparou a defeza +das estancias, que lhe foram encommendadas, e como desesperados das vidas não +lhe fallecendo o coração e accordo para vingarem suas mortes, se soltaram pelo +arraial á aventura que se lhes offerecesse, e emfim de mortos, feridos, ou +presos não escapou algum».</p> + +<p>Realmente, um frémito de enthusiasmo põe no nosso organismo uma vibração +violenta, ao chegarmos a esta pagina, a ultima, da biographia de Alvaro Vaz de +Almada. Os heroes da epopéa costumam cair assim. Na morte, esse homem +extraordinario parece ainda sobrepujar a grandeza de toda a sua vida. Para os +livros de educação popular, nenhum exemplo de valor militar e de leal amizade +poderá ser mais apropriado do que este.</p> + +<p>Os nobiliarios da Torre do Tombo referem entre as phrases finaes de +Alvaro<span class="pn">{123}</span> Vaz uma que o chronista aliás não cita. +Contam que, embravecido em vingar a morte do seu amigo, o conde de Avranches, +na vertigem do combate, pronunciára: «<i>Jantar aqui, ceiar no inferno</i>». +Era um leão que se vingava, cego de colera, imponente de magestade.</p> + +<p>Estes acontecimentos causaram uma profunda impressão em toda a Europa. D. +Affonso <small>V</small> procurou attenual-a enviando embaixadores ás +principaes côrtes, encarregando-os de explicarem os motivos do seu +procedimento.</p> + +<p>Mas a impressão foi tanto maior, quanto é certo que a vingança do rei +ultrapassou o respeito devido aos mortos.</p> + +<p>O cadaver do infante ficou insepulto sobre o campo, durante tres dias. +Depois levaram-n'o sobre um escudo para a egreja de Alverca. Aquelle desgraçado +principe, de quem o povo conta que, em vida, andou as sete partidas do mundo<a +name="tex2html64" href="#foot707"><sup>[64]</sup></a>,<span +class="pn">{124}</span> ainda depois da morte errou n'uma longa peregrinação, +porque os seus ossos foram successivamente trasladados de Alverca (onde o rei +receiou que os fossem roubar) para o castello de Abrantes, de Abrantes para o +mosteiro de Santo Eloy em Lisboa, e de Lisboa, finalmente, para a Batalha, a +instancias da infeliz rainha D. Isabel.</p> + +<p>Ao cadaver do conde de Avranches foi, como diz Pina, cortada a cabeça por um +dos adversarios, aliás seu antigo amigo, que a levou a el-rei na esperança de +obter mercê<a name="tex2html65" href="#foot708"><sup>[65]</sup></a>. Feito +pedaços, retalhado de golpes, o corpo de D. Alvaro ficou tambem insepulto sobre +o campo de Alfarrobeira,<span class="pn">{125}</span> até que a requerimento de +seu irmão bastardo, João Vaz de Almada<a name="tex2html66" +href="#foot709"><sup>[66]</sup></a>, e não sem difficuldade, foi enterrado +honradamente na capella de familia.</p> + +<p>Esta capella, que confinava com a casa do Capitulo em S. Francisco de +Lisboa, era chamada <i>dos Abranches</i> (corrupção de Avranches), por n'ella +ter sido sepultado D. Alvaro Vaz.<span class="pn">{126}</span></p> + +<p>«Está sepultado—descrevia no seculo <small>XVII</small> o auctor da +<i>Historia serafica</i>—no meio d'esta capella, debaixo de uma pedra, na qual +se vêem estas letras: <i>Aqui jaz um Christão.</i> Na parede sustentavam dous +leões uma arca pequena, ennobrecida com as armas dos Almadas, em que estavam os +ossos de seu pai João Vaz de Almada, e de seu irmão Pero Vaz de Almada, os +quaes ausentando-se do reino por razões, que para isso tiveram, fóra d'elle +fizeram celebre seu nome com muitos feitos cavalleirosos<a name="tex2html67" +href="#foot710"><sup>[67]</sup></a>. E por quanto uma ruina do tecto a tem +feito em pedaços, e a mesma capella se ha de incorporar em a Casa do<span +class="pn">{127}</span> Capitulo, com mais gosto deixamos escripta esta +memoria».</p> + +<p>Por carta de D. Affonso <small>V</small>, de 10 de outubro d'aquelle anno de +1449, foram privados de todos os seus beneficios, dignidades, officios, honras, +prerogativas, isenções, privilegios, liberdades, etc., os partidarios do +infante que se acharam em Alfarrobeira.</p> + +<p>O conde de Avranches não escapou a esta medida geral, que abrangia tanto os +vivos como os mortos.</p> + +<p>«Morto o conde de Avranches, foram-lhe logo os bens confiscados como de reo +de alta traição: a casa da actual rua do <i>Almada</i>, sobre o Calhariz, campo +então, e afastado, e mais uns terrenos em Caparica. Tudo se doou em 25 de +agosto de 1449 a Alvaro Pires de Tavora, chamado o velho, filho de Lourenço +Pires de Tavora e de Alda Gonçalves, e do conselho d'elrei D. Affonso +<small>V</small>. Esses bens conservam-se<span class="pn">{128}</span> ainda, +na sua maior parte, em poder do actual representante dos Tavoras, o sr. marquez +de Vallada, etc.»<a name="tex2html68" href="#foot711"><sup>[68]</sup></a></p> + +<p>Quantos lisboetas ignorarão ainda hoje que foi o famoso conde de Avranches, +espelho da cavallaria portugueza, como muitos escriptores lhe chamam, que deu o +nome a essa aliás modesta rua, proxima do Calhariz!</p> + +<p>Alvaro Vaz de Almada, primeiro conde de Avranches, casou duas vezes.</p> + +<p>A primeira com D. Isabel da Cunha, filha de Alvaro da Cunha, quinto senhor +de Pombeiro, o qual era filho de João Lourenço da Cunha e de sua mulher a +celeberrima D. Leonor Telles<a name="tex2html69" +href="#foot494"><sup>[69]</sup></a>.<span class="pn">{129}</span></p> + +<p>A lista dos filhos de Alvaro Vaz de Almada, publicada nos <i>Retratos dos +varões e donas</i>, é deficiente. Nos nobiliarios da Torre do Tombo encontra-se +a seguinte noticia genealogica, que deve completar a sua biographia:</p> + +<p>Do primeiro casamento, nasceram cinco filhos, a saber:</p> + +<p>1.º D. João de Almada, cuja geração se extinguiu.</p> + +<p>2.º D. Leonor, solteira.</p> + +<p>3.º D. Violante da Cunha, primeira mulher de Fernam Martins Mascarenhas, +capitão de ginetes, do qual se apartou.</p> + +<p>4.º D. Isabel da Cunha, mulher de<span class="pn">{130}</span> Alvaro +Pessanha, filho de micer Carlos Pessanha, almirante<a name="tex2html70" +href="#foot498"><sup>[70]</sup></a>.</p> + +<p>5.º Dona V... da Cunha, que casou em Inglaterra.</p> + +<p>Em segundas nupcias casou D. Alvaro Vaz de Almada com D. Catharina de +Castro, filha de D. Fernando de Castro (casa Monsanto) e de sua mulher D. +Isabel de Athayde.</p> + +<p>D'este segundo cazamento nasceu D. Fernando de Almada, que veio a herdar o +titulo de conde de Avranches, confirmado em França por Luiz <small>XI</small>. +</p> + +<p>D. Catharina não teve pela memoria de D. Alvaro o respeito que era de +esperar, visto que não podia encontrar outro<span class="pn">{131}</span> +marido, que excedesse em gloria o primeiro.</p> + +<p>Casou outra vez. Casou, depois da morte do conde de Avranches, com D. +Martinho de Athayde, conde de Athouguia, seu primo co-irmão.</p> + +<p>É triste recordar esta pagina de fragilidade feminina.</p> + +<p>Mas a patria, essa, ficou eternamente viuva do grande cavalleiro.</p> + +<p class="centrado">*<br>* *</p> + +<p>De proposito deixei para o final d'esta carta um assumpto, vago e confuso, +que anda lendariamente relacionado com a vida de D. Alvaro Vaz de Almada.</p> + +<p>Os chronistas fazem d'este famoso capitão um dos <i>doze de Inglaterra</i>, +emparceirando-o<span class="pn">{132}</span> alguns, n'esta cavalheiresca +aventura, com seu pai.</p> + +<p>Não póde ser mais completa a confusão de datas e de nomes, que obscurece +esta lenda em si mesma e na sua referencia á familia Almada.</p> + +<p>Dêmos desde já um exemplo.</p> + +<p>Ferdinand Denis, que com tanto cuidado estudava a historia de Portugal, diz +a respeito de Alvaro Vaz de Almada:</p> + +<p>«Il faisait partie, dit-on, des douze preux qui allèrent venger l'honneur +outragé des dames anglaises; et Camoens l'a celebré en cette occasion, en +alterant toutefois son nom»<a name="tex2html71" +href="#foot712"><sup>[71]</sup></a>.</p> + +<p>Ora, no episodio <i>dos doze de Inglaterra</i>, Camões apenas nomeia um só, +que «Magriço se dizia». Onde o poeta falla do<span class="pn">{133}</span> +conde de Avranches é no canto <small>IV</small>, quando descreve a batalha de +Aljubarrota. E ahi é que lhe troca o nome. Vejamos:</p> + +<p> </p> + +<blockquote> + E da outra ála que a esta corresponde, <br> + Antão Vasques de Almada<a name="tex2html72" + href="#foot512"><sup>[72]</sup></a> é capitão, <br> + Que depois d'Abranches nobre conde, <br> + Das gentes vai regendo a sestra mão. <br> + Logo na rectaguarda não se esconde, <br> + Das quinas e castellos o pendão, <br> + Com Joanne rei forte em toda a parte, <br> + Que escurecendo o preço vai de Marte. </blockquote> + +<p>Quem esteve em Aljubarrota não foi Alvaro Vaz de Almada, nem podia estar, +porque, sendo aproximadamente da mesma idade do infante D. Pedro, não teria +ainda nascido: mas foi seu pai, João Vaz de Almada,—ahi armado cavalleiro.</p> + +<p>Effectivamente, um cavalleiro, chamado<span class="pn">{134}</span> Antão +Vasques, de Almada acrescentam alguns, commandava a ala esquerda do exercito +com o gascão Guilherme de Montferrant<a name="tex2html73" +href="#foot515"><sup>[73]</sup></a>.</p> + +<p>E este mesmo Antão Vasques, depois da batalha, cobriu os pés do Mestre de +Aviz com a bandeira real de Castella.</p> + +<p>Não se póde confundir este cavalleiro com João Vaz de Almada, a quem, antes +de ser armado cavalleiro, não dariam o commando da ála esquerda do exercito. Já +sabemos que João Vaz foi armado ahi, em Aljubarrota, o que prova que era muito +novo então.</p> + +<p>Assim, temos que Ferdinand Denis se equivocou dizendo que Camões altera o +nome do conde de Avranches quando descreve<span class="pn">{135}</span> o +episodio dos <i>doze de Inglaterra</i>; e que Camões se enganou tambem dizendo +que Antão Vasques de Almada foi depois conde de Avranches.</p> + +<p>Vamos agora á lenda dos <i>doze</i>.</p> + +<p>Será acaso nos <i>Lusiadas</i> que pela primeira vez apparece noticia d'esta +lenda?</p> + +<p>Não é. A primeira edição do poema de Camões foi estampada em Lisboa no anno +de 1572. Em 1567 imprimia-se em Evora o <i>Palmeirim de Inglaterra</i>, por +Francisco de Moraes, e no capitulo <small>CLXIII</small> da segunda parte +d'esta obra, faz-se menção de um combate cavalheiresco, que envolve o fundo da +lenda dos <i>Doze</i>.</p> + +<p>Mas o <i>Palmeirim de Inglaterra</i> será uma obra original, uma traducção +fiel ou apenas uma imitação? Moraes, que acompanhou em 1540 a França o +embaixador portuguez, o segundo conde de Linhares, diz na dedicatoria á infanta +D. Maria que trasladára a sua chronica de outra de Albert<span +class="pn">{136}</span> de Rennes, em Paris. Innocencio Francisco da Silva +julga, porém, que Francisco de Moraes não traduziu servilmente, antes +introduziu cousas de sua lavra.</p> + +<p>No mesmo anno de 1567 imprimia-se em Coimbra o <i>Memorial das proezas da +segunda tavola redonda</i>, de Jorge Ferreira de Vasconcellos, e ahi, no +capitulo <small>XLVII</small> se lê: «Porque não se nega aos lusitanos, dês o +tempo dos romanos que fizeram memoria dos feitos heroicos, um abalisado e raro +grau de cavallaria. E em tempo d'elrei D. João de <i>Boa Memoria</i> sabemos +que seus vassallos no cêrco de Guimarães se nomeavam por cavalleiros da tavola +redonda; e elle por rei Arthur. E de sua côrte mandou treze cavalleiros +portuguezes a Londres, que se desafiaram em campo cerrado com outros tantos +inglezes, nobres e esforçados, por respeito das damas do duque de +Alencastro».<span class="pn">{137}</span></p> + +<p>Aqui nos apparece a lenda já apropriada a Portugal, com a só differença de +serem treze os cavalleiros em vez de doze.</p> + +<p>O que se vê claramente do que fica exposto é que em 1567 a lenda a que nos +vimos referindo andava em moda em Portugal. E talvez por estar muito viva a +fama gloriosa do reinado cavalheiresco de D. João <small>I</small>, seria Jorge +Ferreira de Vasconcellos o primeiro que a localisou n'aquella época.</p> + +<p>Alguns escriptores nossos, e entre elles o auctor dos <i>Retratos dos varões +e donas</i>, precisam a data da ida dos cavalleiros portuguezes a Inglaterra, +collocando-a no anno 1390. Com effeito, esta era a época mais propria, por amor +da verosimilhança, porque foi depois do casamento de D. João <small>I</small> +com D. Filippa de Lancaster na Sé do Porto (1387) que se estreitaram as +relações de Portugal com a Inglaterra<a name="tex2html74" +href="#foot713"><sup>[74]</sup></a>,<span class="pn">{138}</span> e foi depois +da batalha de Aljubarrota (1385) que o espirito cavalheiresco se accendeu entre +nós. Mas Fernam Lopes, a melhor auctoridade que podia fazer fé, não se refere +ao caso.</p> + +<p>Prosigamos. Mariz, nos <i>Dialogos da varia historia</i>, publicados em +1594, referindo-se a uma relação antiga,<span class="pn">{139}</span> +<i>Chronica antigua hujus temporis</i>, publíca uma narrativa do feito dos +<i>Doze</i>, occorrido, segundo elle, no reinado de D. João <small>I</small>. +Cita, entre os <i>Doze</i>, apenas quatro, mencionando o nome de <i>um que se +chamava Alvaro de Almada</i>.</p> + +<p>Faria e Sousa, commentando os <i>Lusiadas</i>, em 1639, tambem se refere a +um <i>papel antiguo</i>, em que <i>toscamente</i> se historiava o episodio dos +<i>Doze</i>.</p> + +<p>Ora, o velho chronista francez João Froissart, que falleceu em 1410, falla +de uma ordem de cavallaria, a ordem da <i>Dama Branca</i>, que foi organisada +para defeza das damas ultrajadas, <i>plusieurs dames et damoiselles, veufves et +autres, estoyent oppressées d'aucuns puissants hommes</i><a name="tex2html75" +href="#foot714"><sup>[75]</sup></a>, e publíca o texto das cartas de armas<span +class="pn">{140}</span> pelas quaes <i>treze</i> cavalleiros francezes, messire +Charles d'Albret, messire Bouciquaut, marechal de França, Bouciquaut, seu +irmão, Francisco de Aubrecicourt, João de Lignères, Chambrillac, Castelbayac, +Gaucourt, Chasteaumorant, Betas, Bonnebaut, Colleville e Torsay, se +comprometteram a defender as damas no anno da graça de 1399.</p> + +<p>Em face do texto de Froissart, a prioridade seria dos portuguezes, porque a +sua ida a Inglaterra é collocada por uns no anno de 1390, e por outros no de +1396. O duque de Lancaster, que para este feito cavalleiresco teria pedido o +auxilio de D. João <small>I</small>, falleceu em 1399.</p> + +<p>Mas nós abstemo-nos de reivindicar a prioridade dos portuguezes e, portanto, +a filiação portugueza da lenda. Contentamo-nos com dizer apenas que esta lenda +se tinha generalisado na Europa, querendo cada paiz aproprial-a a cavalleiros +seus.<span class="pn">{141}</span></p> + +<p>O catalogo completo dos <i>Doze</i> portuguezes appareceu pela primeira vez +no opusculo de Ignacio Rodrigues Védouro, <i>Desafio dos Doze de +Inglaterra</i>, publicado em 1732<a name="tex2html76" +href="#foot715"><sup>[76]</sup></a>.</p> + +<p>Ora, segundo a tradição recolhida por Védouro, esses cavalleiros seriam: +Alvaro de Almada, o <i>Justador</i>; Alvaro Gonçalves Coutinho, o +<i>Magriço</i>; Alvaro Mendes Cerveira; Alvaro Vaz de Almada, primeiro conde de +Avranches; João Pereira Agostinho, Lopo Fernandes Pacheco, Luiz Gonçalves +Malafaia, Martim Lopes de Azevedo, Pedro Homem, Ruy Gomes da Silva, Ruy Mendes +Cerveira e Soeiro da Costa. Como supranumerarios, João Fernandes Pacheco e +Vasco Annes Côrte Real.</p> + +<p>Este catalogo tem para nós muito pouco<span class="pn">{142}</span> valor. +Os nossos antigos chronistas não se preoccupavam com a chronologia. Assim é, +por exemplo, que Luiz Goçalves Malafaia e Soeiro da Costa são incompativeis, +chronologicamente, com a época dos <i>Doze de Inglaterra</i><a +name="tex2html77" href="#foot566"><sup>[77]</sup></a>. Além d'isto, a vaidade +das familias mais illustres de Portugal não deixaria de collaborar no catalogo, +fazendo supprimir uns nomes para os substituir pelos de representantes seus. +</p> + +<p>Quanto ao primeiro cavalleiro do catalogo de Védouro, Alvaro de Almada, o +<i>Justador</i>, não deixa de inspirar certa desconfiança a coincidencia de +existirem na mesma época dois homens do mesmo nome e do mesmo vulto +cavalheiresco.</p> + +<p>Não será acaso Alvaro de Almada, o <i>Justador</i>, um desdobramento da +individualidade de Alvaro de Almada, o conde de<span class="pn">{143}</span> +Avranches, por errada repetição de algum códice, nobiliario principalmente?</p> + +<p>Talvez por descobrir este equivoco seria que José da Fonseca, na edição dos +<i>Lusiadas</i>, feita em Paris em 1846, substituiu Alvaro de Almada, o +designado <i>Justador</i>, por João Fernandes Pacheco, que no catalogo de +Védouro figura como primeiro supranumerario.</p> + +<p>A ter-se como certa a ida dos <i>Doze</i> cavalleiros portuguezes a +Inglaterra, o que não póde ter-se como certo, parece-me, é que Alvaro Vaz de +Almada fosse um d'esses cavalleiros.</p> + +<p>Elle, que foi armado cavalleiro em Ceuta em 1415, e que pela primeira vez +estivera na Inglaterra em Janeiro d'esse anno, quando alli fôra levantar as +trezentas e cincoenta lanças, não poderia tomar parte n'um torneio, que se +teria realisado no fim do seculo anterior.</p> + +<p>A sua inclusão na lenda dos <i>Doze</i> explica-se,<span +class="pn">{144}</span> decerto, por ter sido um dos mais famosos cavalleiros +portuguezes do seu tempo.</p> + +<p>Sobretudo, as suas viagens e a sua morte em Alfarrobeira, que tanta +impressão causou pelas circumstancias cavalheirescas que a revestiram, +despertariam, na imaginação popular, o sentimento do maravilhoso. D'aqui talvez +o associarem-n'o á lenda.</p> + +<p>Mas Alvaro Vaz de Almada não precisa d'essa gloria, aliás duvidosa, porque +sobeja gloria lhe adveio dos seus brilhantes feitos e singulares aventuras.</p> + +<p>Na <i>Chronica</i> de Monstrelet falla-se de um combate que, no anno de +1414, houve em França entre tres cavalleiros portuguezes e tres gascões: sendo +o pretexto o amor das damas, comquanto o verdadeiro mobil fosse o odio que +existia entre os francezes e os inglezes, de que os portuguezes eram então +alliados.<span class="pn">{145}</span></p> + +<p>Os portuguezes foram D. Alvares, D. João e D. Pedro Gonçalves<a +name="tex2html78" href="#foot716"><sup>[78]</sup></a>; e os gascões François de +Grignols, Archambaud de la Roque e Maurignon.</p> + +<p>O combate ter-se-ia realisado em Saint-Ouen, na presença do rei: Os +portuguezes portaram-se com bravura, mas foram vencidos. Pudera! ou a versão +não fosse franceza...</p> + +<p>Desculpe, meu caro snr. Lugan. O orgulho das nações chega a ser uma cousa +respeitavel.</p> + +<p>Para fazer justiça ao valor dos seis campeões, foram passeiados, todos, +pelas ruas de Paris, em triumpho, ao som de trombetas e acclamações +enthusiasticas.</p> + +<p>Ora estes tres nomes, mudado Alvares para Alvaro, correspondem justamente +aos<span class="pn">{146}</span> dos tres cavalleiros da familia Almada: o pai +e os dous filhos.</p> + +<p>E o appellido de Gonçalves poderá talvez explicar-se por confusão com o do +<i>Magriço</i>, que, como sabemos, se chamava Alvaro Gonçalves (Coutinho).</p> + +<p>Vimos como Alvaro Vaz de Almada fôra com seu pai a Inglaterra levantar armas +para a guerra de Ceuta. Naturalmente tambem iria Pedro de Almada. O pai estava +na côrte de Henrique <small>V</small> em setembro de 1414, como consta do +<i>Quadro diplomatico</i>, e Alvaro ainda alli estava em Janeiro de 1415.</p> + +<p>A commissão requeria brevidade, porque D. João <small>I</small> queria +partir para Ceuta, e não me parece provavel que a familia Almada se demorasse +então em França a combater gascões.</p> + +<p>Mas é possivel.</p> + +<p>O que é provavel é que Alvaro Vaz de Almada, e seu pai, e seu irmão, na +Inglaterra,<span class="pn">{147}</span> na França ou mesmo na Allemanha, onde +Alvaro Vaz se encontraria mais tarde com o infante D. Pedro, praticassem, +collectiva ou individualmente, algum feito galante em honra das damas, tomassem +parte em qualquer dos torneios cavalheirescos, que eram n'aquella época +frequentes.</p> + +<p>Após o combate entre os tres portuguezes e os tres gascões, houve um duello +entre outro portuguez e um cavalleiro bretão, de appellido La Haye, na presença +de Carlos <small>VI</small>.</p> + +<p>«Foram, diz Vulson de la Colombière, por ordem do rei igualmente honrados, +comquanto se diga que La Haye obteve vantagem».</p> + +<p>Reiffenberg dá noticia de que D. João <small>I</small> convidára muitos +cavalleiros francezes para um torneio em Lisboa<a name="tex2html79" +href="#foot717"><sup>[79]</sup></a>.<span class="pn">{148}</span></p> + +<p>Era este o requinte da galanteria militar da época. Portanto Alvaro Vaz ou +qualquer dos outros cavalleiros da sua familia bem poderiam ter praticado +semelhantes proezas no estrangeiro, de 1414 a 1415, ou depois da tomada de +Ceuta, quando se viram obrigados a emigrar.</p> + +<p>Infelizmente, não posso precisar quaes fossem esses feitos cavalheirescos +praticados por elle ou pelos seus.</p> + +<p>Camões, na sequencia do episodio dos <i>Doze</i>, refere-se ao duello que o +<i>Magriço</i> teve com um francez, e ao desafio que um outro dos cavalleiros +portuguezes tivera na Allemanha.</p> + +<p>O cavalleiro francez morto, no campo, pelo <i>Magriço</i> foi, segundo a +tradição, mr. De Lansay.</p> + +<p>O duello do outro portuguez com o allemão:<span class="pn">{149}</span></p> + +<p> </p> + +<blockquote> + Outro tambem dos doze em Allemanha <br> + Se lança, e teve um fero desafio <br> + C'um germano enganoso, que com manha <br> + Não devida, o quiz pôr no extremo fio; </blockquote> + +<p>bem podia ser vaga recordação de alguma façanha de Alvaro Vaz quando +combateu pelo imperador Sigismundo, embora essa façanha nenhuma relação tivesse +com a lenda dos <i>Doze</i>. Mas, no poema, quando Velloso está n'este lance da +narrativa, o mestre de bordo toca o apito, a manobra começa, as conversações na +tolda interrompem-se.</p> + +<p>Camões conta que Magriço não recolhera logo depois do torneio:</p> + +<p> </p> + +<blockquote> + Mas dizem que comtudo o grão Magriço <br> + Desejoso de vêr as cousas grandes, <br> + Lá se deixou ficar, onde um serviço <br> + Notavel á Condessa fez de Frandes. </blockquote> + +<p>E Mariz, nos <i>Dialogos</i>, diz que tambem ficaram no estrangeiro, além de +Magriço,<span class="pn">{150}</span> mais dous, «fazendo taes obras em armas, +que um d'elles alcançou de el-rei de França o condado de Abranches em França, +pelas obras que em seu serviço fizera», e que este veio depois a morrer em +Alfarrobeira.</p> + +<p>Ora não foi o rei de França, mas o de Inglaterra, como já está dito, que deu +o condado de Avranches a Alvaro Vaz de Almada. E, dizendo a lenda que o torneio +dos <i>Doze</i> se realisou em vida do duque de Lancaster, não podia Alvaro Vaz +tomar parte n'elle, por não ser ainda nascido ou por estar ainda na primeira +infancia.</p> + +<p>Em conclusão, meu caro snr. Lugan:</p> + +<p>Na formação das lendas, a imaginação popular não olha a anachronismos. +Alvaro Vaz foi um cavalleiro famoso por seus feitos d'armas, pelo seu grande +valor; combateu ao serviço de Inglaterra e em Inglaterra foi mais tarde +agraciado: a<span class="pn">{151}</span> lenda cavalheiresca dos <i>Doze</i> +envolveu-o portanto nos seus magicos véos, para nos servirmos de uma expressão +de Pinheiro Chagas, sem attender á chronologia. Tambem em torno do infante D. +Pedro se fórma a lenda das <i>sete partidas</i>, originada nas suas viagens. A +imaginação popular não podia deixar de envolver no maravilhoso das tradições +nacionaes estes Castor e Pollux do seculo <small>XV</small>, tão unidos +moralmente, tão consubstanciados, na vida e na morte, por um estreito laço de +relação historica.</p> + +<p class="centrado">*<br>* *</p> + +<p>Seria longo trabalho enumerar as menções e referencias que de Alvaro Vaz de +Almada fazem tanto os escriptores portuguezes,<span class="pn">{152}</span> +como os estrangeiros que se têm occupado em estudar a historia do nosso paiz. +</p> + +<p>D'estes, alguns, Ferdinand Denis á frente, lamentam que tão pouco se saiba +da vida do conde de Avranches. Um d'elles, que é dos que melhor conhecem a +litteratura portugueza, mr. Francisque Michel, chega a escrever: «<i>Nous ne +savons rien de sa vie</i>».</p> + +<p>Quanto aos escriptores nacionaes, não quero, comtudo, deixar de citar Gomes +Eanes de Azurara, porque escrevia em circumstancias verdadeiramente embaraçosas +para elle. Azurara fôra encarregado por D. Affonso <small>V</small> de escrever +a <i>Chronica do descobrimento e conquista de Guiné</i>. Por D. Affonso +<small>V</small>, note-se, por D. Affonso <small>V</small>, que moveu o seu +exercito contra o infante D. Pedro, e que tão severo se mostrou com todos os +que combateram em Alfarrobeira ao lado do infante.<span class="pn">{153}</span> +</p> + +<p>Azurara acabou de escrever a sua <i>Chronica</i> em fevereiro de 1453, isto +é, menos de quatro annos depois do deploravel acontecimento, quando ainda não +estavam de todo apagadas as paixões politicas que lhe deram origem.</p> + +<p>Pois, não obstante estas difficeis circumstancias em que se via collocado, +Azurara, com louvavel hombridade, faz esta referencia a D. Alvaro Vaz de +Almada:</p> + +<p>«... batalha da Alfarrobeira, naqual o dicto iffante foe morto e o conde +Dabranxes que era com elle, e toda sua hoste desbaratada, onde, se o meu +entender pera esto abasta, justamente posso dizer, que lealdades dos homees de +todollos segres (seculos) forom nada em comparaçom da sua. E postoque o serviço +nom seja tamanho, quanto ao trabalho, segundo os que já disse, certamente as +circonstancias lhe dam splandor e grandeza sobre todollos<span +class="pn">{154}</span> outros, cuja perfeita declaraçom remeto aa estorea +geeral dos feitos do regno»<a name="tex2html80" +href="#foot718"><sup>[80]</sup></a>.</p> + +<p>D. Affonso <small>V</small> leu isto, que foi escripto na sua propria +casa—<i>acabousse esta obra na livrarya que este Rey dom Affonso fez em +Lixboa</i>—e sentiu, porventura, passar ainda por diante dos olhos o vulto +d'esse cavalleiro fascinante, que elle quiz por força vêr quando D. Alvaro ia +caminho da Ameeira, e que tamanha influencia exercia no seu juvenil espirito, +que os inimigos do infante D. Pedro, quando o conde de Avranches regressou de +Ceuta pela segunda vez, julgaram conveniente a seus fins levar o rei para +Cintra, de modo a evitar nova entrevista.</p> + +<p>Affonso <small>V</small> leu isto, e certamente lhe pesou na alma o remorso +de ter cedido ás perfidas suggestões dos inimigos do infante.<span +class="pn">{155}</span></p> + +<p>As palavras que Azurara havia escripto, ficaram. O rei não as cancellou. O +espirito de Affonso <small>V</small> fez justiça ao chronista e ao conde, +conservando-as.</p> + +<p class="centrado">*<br>* *</p> + +<p>Tal era o homem, o heroe.</p> + +<p>Elle bastaria por si só a caracterisar uma época, o occaso da idade-média em +Portugal, se, a dous passos de distancia, os descobrimentos maritimos, +promovidos pelo infante D. Henrique, não tivessem vindo relegar para o segundo +plano do vasto quadro da civilisação universal todos os outros factos, e todos +os vultos humanos que não collaboraram directamente n'essa colossal epopêa das +aventuras maritimas.</p> + +<p>Alvaro Vaz de Almada é até certo ponto prejudicado pelo esplendor de +uma<span class="pn">{156}</span> época gloriosissima, que marca o inicio dos +tempos modernos. Eramos então tão felizes que sobejavam heroes, heroes de uma +raça unica, inexcedivel, para todos os generos de celebridade. Mas a grandeza +do vulto do conde de Avranches, podendo medir-se pela bitola dos maiores e +melhores cavalleiros do cyclo medieval, tanto se abalisou nas tradições da +Europa cavalheiresca, que não ficou de todo offuscada pelo esplendor da sua +propria época.</p> + +<p>Quando quizermos recordar o periodo aureo em que o espirito aventuroso dos +portuguezes investia com as lendas tenebrosas do oceano, para rasgal-as com a +prôa das caravellas descobridoras, e affrontava os perigos das explorações +terrestres por sertões inhospitos, teremos que figurar na nossa imaginação o +vulto do infante D. Henrique, de pé sobre o promontorio de Sagres, dominando o +mar, que se lhe quebrava aos pés humilde como um<span class="pn">{157}</span> +leão vencido, e que, no seu eterno refluxo, ia levar a longinquas plagas o +prestigio do nome portuguez.</p> + +<p>Mas quando quizermos figurar a agonia extrema da cavallaria portugueza, +quando quizermos procurar a chave de ouro que fechou, n'esta região do +occidente, o periodo do valor militar, das aventuras galantes, da coragem no +soffrimento, da dedicação na amizade, da abnegação na existencia e da +heroicidade na morte, teremos que figurar o conde de Avranches, brandindo +primeiro a lança, floreando depois a espada, no campo de Alfarrobeira, onde o +infante D. Pedro era já cadaver, até que, extenuado, sentindo exhalar-se o +derradeiro alento, cae sobre a terra da patria, offerecendo aos golpes dos +adversarios o corpo que já podia menos do que a alma, e exclamando ao +despedil-a: <i>Ora vingar, villanagem!</i></p> + +<p>Se o infante D. Henrique é o traço de<span class="pn">{158}</span> união que +para todo o sempre, emquanto se não perder a memoria das grandezas passadas com +a existencia do ultimo homem, nos liga ao Oriente, cujas portas abrimos, cujos +mares devassamos, cujos emporios vencemos, D. Alvaro Vaz de Almada é o vinculo +eterno que nos prende ao Occidente cavalheiresco, ás tradições aventurosas do +brio militar e do militarismo galante que foram, na Europa da idade-média, a +suprema expressão da nobreza da alma humana.</p> + +<p>Um, o infante, é a aurora do novo dia que começa a raiar para a humanidade +do seculo <small>XV</small>, aurora resplendente de fulgurações prismaticas, de +arreboes dourados, de rosicler cambiante.</p> + +<p>O outro, o conde, é o occaso da idade-média, o sol-pôr de um seculo de +feitos heroicos, de primores e gentilezas de cavalleiros intemeratos,—occaso +opulento de tintas e de sombras grandiosas, em que a<span +class="pn">{159}</span> luz briga ainda com as trevas, affirmando na lucta o +valor que certamente havia aprendido com os cavalleiros d'esse tempo.</p> + +<p>Estes dous homens, o infante e o conde, são como uma dupla personificação da +sua época, do momento de transição solemne em que a poesia das espadas, a +epopêa das cavallarias errantes, que preparavam a alma humana para todas as +concepções arrojadas e para todos os feitos destemidos, vai ceder o passo á +quilha das caravellas e das naus, que iam em demanda do Oriente para trazel-o +ás portas de Lisboa, estreitando as relações dos povos, desenvolvendo a +navegação e o commercio, fomentando a industria pela abundancia de capitaes e +pela exploração de novos mercados, pela nobilitação do trabalho, que não +tardaria a deixar de ser um mister de escravos para converter-se n'uma +applicação honrosa da actividade humana.</p> + +<p>O infante e o programma, ainda então<span class="pn">{160}</span> mal +desenrolado, da transformação economica da Europa culta.</p> + +<p>O conde é o livro, prestes a fechar-se, do espirito militar da idade-média, +o ultimo clarão da cavallaria moribunda.</p> + +<p>São uma época, estes dous homens. Completam-se um pelo outro.</p> + +<p>Ora, no momento em que a cidade do Porto vai prestar uma grande homenagem +collectiva ao infante Descobridor, que n'essa boa terra nasceu, e fazer +resuscitar por alguns dias o periodo mais brilhante da nossa historia nacional, +pareceu-me justo, agora o repito, recordar o vulto do homem que, ao lado de D. +Henrique, synthetisa o seculo <small>XV</small>, a transição da idade-média +para os tempos modernos, na historia de Portugal.</p> + +<p>Tendo, meu caro snr. Lugan, de lhe enviar esta carta a tempo de poder ser +publicada por occasião da festa centenaria do infante, fui obrigado a +circumscrever-me<span class="pn">{161}</span> a estreitissimos limites, e a +passar rapidamente por acontecimentos que mereciam longa attenção.</p> + +<p>Não é um trabalho litterario perfeito o que lhe mando, porque o fazel-o +excederia os meus recursos e não caberia nos poucos dias de que pude dispôr. É, +pois, uma simples carta, escripta ao correr da penna, sem preoccupações +academicas, mas inspirada unicamente no desejo de corresponder á louvavel +resolução do meu bom amigo e de, por minha parte, render homenagem ás glorias +da minha patria.</p> + +<p> </p> + +<p><small>Lisboa, 2 de fevereiro de 1894.</small></p> + +<div style="text-align:center; margin-left: 20%;"> +<p style="text-align:center;">De V. </p> + +<p style="text-align:center;">amigo muito +affeiçoado</p> + +<p style="text-align:center;"><i>Alberto +Pimentel.</i> </p> +</div> + +<p> </p> +<p> </p> + +<div class="rodape"> +<p><a name="foot98" href="#tex2html1"><sup>[1]</sup></a> Quando se queria +elogiar a opulencia de alguem, dizia-se: É como Janeanez (João Éannes ou +Annes).</p> + +<p><a name="foot653" href="#tex2html2"><sup>[2]</sup></a> O snr. Oliveira +Martins (<i>Filhos de D. João I</i>, pag. 87) confunde João Vaz de Almada com +João Annes, que erradamente suppõe ter sido o pai de Alvaro Vaz de Almada.</p> + +<p><a name="foot654" href="#tex2html3"><sup>[3]</sup></a> «Tavarez fait +remonter les chevaliers de cette race au grand Janeanez d'Almada, qui occupa +les offices les plus importants sous D. Pedro, puis sous son fils, et auquel +ont dû les fortifications dont ce dernier monarque entoura <i>Lisbonne</i>». +(<i>Portugal</i>, pag. 85).</p> + +<p><a name="foot106" href="#tex2html4"><sup>[4]</sup></a> O valle por onde hoje +se estende a Avenida da Liberdade.</p> + +<p><a name="foot107" href="#tex2html5"><sup>[5]</sup></a> João Vaz de Almada +teve um filho bastardo, do mesmo nome, que foi senhor de Pereira.</p> + +<p><a name="foot655" href="#tex2html6"><sup>[6]</sup></a> Fernam Lopes, +<i>Chronica d'el-rei D. João I</i>, cap. <small>XXXIX</small>.</p> + +<p><a name="foot656" href="#tex2html7"><sup>[7]</sup></a> <i>Quadro +diplomatico</i>, tom. <small>I</small>, pag. 283; tom.. <small>XIV</small>, +pag. 155-156.</p> + +<p><a name="foot657" href="#tex2html8"><sup>[8]</sup></a> <i>Quadro +diplomatico</i>, tom., <small>XIV</small>, pag. 172-173.</p> + +<p><a name="foot658" href="#tex2html9"><sup>[9]</sup></a> <i>Ibid.</i>, pag. +174.</p> + +<p><a name="foot128" href="#tex2html10"><sup>[10]</sup></a> Esta preferencia +explica-se pelo facto de João Vaz de Almada ir na qualidade de capitão-mór da +cidade de Lisboa.</p> + +<p><a name="foot659" href="#tex2html11"><sup>[11]</sup></a> «Rex Johannem +Valascum de Almatina vocari fecit, cui dixit: «Cape signum Sancti Vicentii et, +si potes, alteram civitatis partem ingrede, et si senseris barbaros fugam +arripuisse arcemque reliquisse, signum in summo arcis pone». Ille mandato Regis +parens, signum accepit et ad portam muri qui civitatem in duas partes +dividebat, cum multis armatis eum sequentibus, venit; et quia clausa erat, +illos eam ipsam rescindere monuit; illis vero rescindentibus, duo barbari qui +remanserant, ut rerum exitum expectarent, ad murum accedentes, lingua +castellana quam noverant dixere: «Nolite tantum laboris assumere, nos enim +portam aperiemus et vobis aditum faciemus». Ubi fuit aperta Johannes Valascus, +arcem ingressus, in altiori turre signum collocavit, etc.» (Matheus de Pisano, +<i>Gesta illustrissimi regis Johannis de Bello Septensi</i>, 1460; <i>Inéditos +da Accademia</i>, tom. <small>I</small>).</p> + +<p>Henry Major copiou este episodio. <i>Discoveries of Prince Henry the +Navigator.</i> London, 1877. Pag. 35.</p> + +<p><a name="foot660" href="#tex2html12"><sup>[12]</sup></a> <i>Historia de +Portugal</i>, vol. <small>I</small>, pag. 9.</p> + +<p><a name="foot661" href="#tex2html13"><sup>[13]</sup></a> «E este Ifante (D. +Affonso, fiiho do rei D. Duarte) foy ho primeiro filho herdeiro dos Reys destes +Regnos, que se chamou Principe, porque atee elle, todoloos outros se chamaram +Ifantes primogenitos herdeiros, etc.» (Ruy de Pina, <i>Chronica do sr. rei D. +Duarte</i>, vol. <small>I</small> dos <i>Inéditos</i>).</p> + +<p><a name="foot662" href="#tex2html14"><sup>[14]</sup></a> O <i>Nobiliario</i> +de Damião de Goes (Torre do Tombo, 21-B-26) falla de ferimentos; outro codice +(Torre do Tombo, 21-F-17) diz—pancadas.</p> + +<p><a name="foot663" href="#tex2html15"><sup>[15]</sup></a> O snr. João +Teixeira Soares, artigo <i>Os doze de Inglaterra</i>, publicado na <i>Era +nova</i>, pag. 458.</p> + +<p><a name="foot664" href="#tex2html16"><sup>[16]</sup></a> <i>Historia +serafica</i>, 1.ª parte, cap. <small>XXIII</small>.</p> + +<p><a name="foot665" href="#tex2html17"><sup>[17]</sup></a> <i>Descripção de +Portugal</i>, pag. 311.</p> + +<p><a name="foot666" href="#tex2html18"><sup>[18]</sup></a> <i>Os filhos de D. +João I</i>, pag. 87.</p> + +<p><a name="foot667" href="#tex2html19"><sup>[19]</sup></a> «... esta cerimonia +(a investidura de um cavalleiro) dava áquelle que iniciava um seu companheiro +no culto do valor e da lealdade, uma certa influencia sobre o neophyto, que lhe +ficava consagrando sempre respeito e affeição indissoluvel». (Pinheiro Chagas, +<i>Historia de Portugal</i>, vol. <small>II</small>, pag. 147).</p> + +<p><a name="foot668" href="#tex2html20"><sup>[20]</sup></a> Ferdinand Denis, +<i>Portugal</i>, pag. 84.</p> + +<p><a name="foot175" href="#tex2html21"><sup>[21]</sup></a> Torre do Tombo. +Codice 21-F-17.</p> + +<p><a name="foot669" href="#tex2html22"><sup>[22]</sup></a> Fernam Lopes, +<i>Chr. d'el-rei D. João I</i>, cap. <small>XCV</small>.</p> + +<p><a name="foot722" href="#tex2html23"><sup>[23]</sup></a> ... né au +commencement du quinzième siècle...» (Ferdinand Denis, <i>Nouvelle biographie +universelle</i>, tom. <small>II</small>, pag. 170). «Alvaro était né, selon +toutes les probabilités, à peu près vers l'époque ou Joam +<small>I</small><sup>er</sup> avait eu ses premiers fils». (Ferdinand Denis, +<i>Portugal</i>, pag. 86).</p> + +<p><a name="foot671" href="#tex2html24"><sup>[24]</sup></a> Suppomos ser o snr. +Pinheiro Chagas a pessoa que, no <i>Diccionario popular</i>, escreveu o artigo +relativo a Alvaro Vaz de Almada.</p> + +<p><a name="foot196" href="#tex2html25"><sup>[25]</sup></a> Foi Pedro José de +Figueiredo, mas parece que teve collaboradores. 1817.</p> + +<p><a name="foot672" href="#tex2html26"><sup>[26]</sup></a> Artigo <i>Alvaro +Vaz de Almada</i>, no <i>Diccionario popular</i>.</p> + +<p><a name="foot205" href="#tex2html27"><sup>[27]</sup></a> A pedido de Alvaro +Vaz, esta carta foi confirmada por outra do rei D. Duarte, dada em Almeirim a 5 +de Janeiro de 1434.</p> + +<p>O posto de capitão-mór da armada conservou-se depois nos Almadas +descendentes do agraciado, até ao tempo de el-rei D. Sebastião, que d'elle fez +mercê a D. Fernando de Almada, bisneto de Alvaro Vaz, por carta passada em +Evora a 25 de agosto de 1573.</p> + +<p><a name="foot673" href="#tex2html28"><sup>[28]</sup></a> Ruy de Pina, +<i>Chronica do senhor rei D. Duarte</i>, cap. <small>XXIV</small>.</p> + +<p><a name="foot674" href="#tex2html29"><sup>[29]</sup></a> <i>Chronica do +senhor rei D. Duarte</i>, cap. <small>XXV</small>.</p> + +<p><a name="foot675" href="#tex2html30"><sup>[30]</sup></a> <i>Chronica do +senhor rei D. Duarte</i>, cap. <small>XXVI</small>.</p> + +<p><a name="foot676" href="#tex2html31"><sup>[31]</sup></a> <i>Chronica do +senhor rei D. Duarte</i>, cap. <small>XXXIV</small>.</p> + +<p><a name="foot677" href="#tex2html32"><sup>[32]</sup></a> Ruy de Pina, +<i>Chronica do senhor rei D. Duarte</i>, cap. <small>XXXVI</small>.</p> + +<p><a name="foot678" href="#tex2html33"><sup>[33]</sup></a> <i>Portugal</i>, +pag. 86, nota.</p> + +<p><a name="foot679" href="#tex2html34"><sup>[34]</sup></a> <i>O infante D. +Pedro</i>, chronica por Gaspar Dias de Landim, cap. <small>XIV</small>.</p> + +<p><a name="foot249" href="#tex2html35"><sup>[35]</sup></a> Landim, mesmo +capitulo.</p> + +<p><a name="foot680" href="#tex2html36"><sup>[36]</sup></a> <i>Chronica do +senhor rei D. Affonso V</i>, cap. <small>XXXI</small>.</p> + +<p><a name="foot681" href="#tex2html37"><sup>[37]</sup></a> Pina, <i>Chronica +do senhor rei D. Affonso V</i>, cap. <small>XXXIV</small>.</p> + +<p>Era o <i>Limoeiro</i>. Este edificio havia sido Casa da Moeda, e depois +palacio <i>dos infantes</i>, porque lhes era destinado. (Vêr <i>Noticias +chronologicas da universidade de Coimbra</i>, por Francisco Leitão Ferreira, +nas <i>Memorias da Academia Real de Historia</i> relativas ao anno de 1729, +pag. 206). Mas ficou por muito tempo o costume de designar o palacio pelo seu +nome antigo: a <i>Moeda</i>.</p> + +<p><a name="foot682" href="#tex2html38"><sup>[38]</sup></a> <i>Chronica</i>, +cap. <small>XXXVI</small>.</p> + +<p><a name="foot683" href="#tex2html39"><sup>[39]</sup></a> Torre do +Tombo—Chancellaria de D. Affonso <small>V</small>, liv. 20, fol. 85 v.</p> + +<p><a name="foot684" href="#tex2html40"><sup>[40]</sup></a> <i>Chronica</i>, +cap. <small>LXXI</small>.</p> + +<p><a name="foot685" href="#tex2html41"><sup>[41]</sup></a> <i>Elementos para a +historia do municipio de Lisboa</i>, tom. <small>I</small>, pag. 322.</p> + +<p><a name="foot686" href="#tex2html42"><sup>[42]</sup></a> <i>Diccionario +popular</i>, artigo <i>Alvaro Vaz de Almada</i>.</p> + +<p><a name="foot688" href="#tex2html43"><sup>[43]</sup></a></p> + +<blockquote> + Ex Archivis in Turri London <br> + E rotulo Franciae, A.º 23.º <br> + Hen. 6, membrana 2. </blockquote> +Henricus dei gratia Rex Angliae et Franciae et dominus Hiberniae +Archiepiscopis, Episcopis &c. salutem. Magnis efferendi sunt laudibus, +singulari attollendi gloria, qui in Rei publicae salutem dies suos et vitam +ipsam ferventi studio et animo indefesso conferre nituntur; qui de seipsis +pericula faciunt pro aliorum quiete, qui egregiam famam et nomen immortale, +prae coeteris mundanis rebus sitiunt, et foelices se praedicant dum communem +utilitatem eorum operâ et fide adjutari posse arbitrantur: O foelicissimum +genus hominum! sine quibus urbes, moenia, regna, dominia, mundi Principes, nec +mundus ipse, incolumitate gaudere poterunt: O clarissimi et justi viri! quorum +sancta dispositione virescunt virtutes omnes et florent, pulcherime effrenantur +mali, praemuntur perversi; nemo est certe qui horum ingenuos animos aut literis +contexere aut verbis affari dignâ laude poterit; de quorum numero insignis et +nobilis animi vir et strenuus et splendidissimus miles D<small>OMINUS +</small>A<small>LVARUS DE </small>A<small>LMADAA</small> dicendus et +praedicandus est, qui ab ineunt suâ aetate, dum annos pueritiae excesserat, +militiae gloriâ debaccatus, virtutum praemia et communem omnium salutem +anelans, toto conanime et omni studio in armorum usum so conjecit, et cum +aptiores Rei militares attigerat annos, adolevit strennitas sua cum aetate, +itaq animo excellenti in omnem Rei publicae tuitionem crevit, ut nichil sibi +dulce, acceptum aut desiderabile videbatur, si pro communi bono non fuerit +institutum; adeo sua pro virili bellorum descrimini insudavit forti animo, et +pacis tranquilitati consilio, quod suo jure praemia debentur suo labori: +propterea nos animadvertentes nobilitatem et animi dicti viri egregiam +dispositionem, quae suis gestis adjunctae magnum efficiuntornamentum, nec non +ingentia facta quae non tantum tempore regni celeberimae memoriae +Christianissimi Progenitoris nostri verum etiam cumulum amoris servitii et +meritorum quae nobis regnisq exhibuit nostris, ipsum in militem ac socium et +fratrem de G<small>ARTERIA EX</small> unanimi consensu societatis ejusdem +elegimus et realiter investivimus: eundem etiam Dominum A<small>LVARUM</small> +ex nostra habundantiori gratiâ in evidens testimonium suarum virtutum, in +comitem D<small>AVARANS</small> in D<small>UCATU</small> nostro +N<small>ORMANDIAE</small> creavimus et praefecimus, ac per presentes creamus et +praeficimus ac de eisdem nomine honore et titulo per cincturam gladii +investientes effectualiter insignivimus. Habenda et tenenda eadem nomen et +honorem Comitis D<small>AVARANS</small> sibi et haeredibus suis masculis de +corpore suo legitime exeuntibus in perpetuum, volentes et praecipientes pro +nobis et haeredibus nostris quod dictus fidelis noster dominus +A<small>LVARUS</small> nomen et honorem Comitis D<small>AVARANS</small> teneat +sibi et haeredibus suis masculis de corpore suo ut praemissum est legitime +exeuntibus in perpetuum, Hiis testibus venerabilibus patribus I: Cantuar: et I. +Eborum archiepis. Tho: Norwicen: W: Sarum, I: Bathon et Wellen Epis. carissimo +avunculo nostro Humfredo Duce Glouc: ac carissimis consanguineis nostris Iohan. +Exon. et Humfredo Buck. Ducibus et Willõ Marchione Suffolciae. Iohan: Vicecom: +de Beaumont, ac diltis(1) et fidelibus suis Radulpho Cromwell et Radulpho +Botiller militibus, Thess(2) Angl., et Magistro Adam Moleyns custode privati +sigilli et aliis. Dat. per manum nostram apud Westm(3). 4 die Aug. + +<p>Per breve de private sigillo et de data praedicta &c.</p> + +<p>(1) Dilectis.</p> + +<p>(2) Thesaurariis.</p> + +<p>(3) Westminster.</p> + +<p><a name="foot689" href="#tex2html44"><sup>[44]</sup></a></p> + +<blockquote> + Ex Archivis in Turri London <br> + E rotulo Franciae, A.º 23.º <br> + Hen. 6. membrana 2. </blockquote> +Rex omnibus ad quos &c salutem. Ponimos ante oculos nostros fidem +industriam circumspectionem affectionem laboresq et alia memoriâ dignissima +quae fidelis noster Dominus A<small>LVARUS DE </small>A<small>LMADAA</small> +Comes D<small>AVARANS</small> consiliarius excellentissimi Principis et +potentissimi domini Regis Portugaliae consanguinei nostri et Capitaneus Major +in omnibus regnis suis et dominationibus ac Alcayde major civitatis +Ulisbonensis foelicis memoriae genitori nostro et etiam nobis singulari +intentione impendit: volentes ideo hujusmodi merita sine fructu nequaquam +oblivioni comittese, Ex mero motu nostro concessimus et concedimus per +praesentes eidem A<small>LVARO</small> centum marcas percipiendas annuatim +quamdiu vixerit ad receptam Scaccarii nostri Angliae per manus Thesaurarii et +Camerariorum nostrorum ibidem pro tempore existentium ad Terminos Paschae et +Sancti Michaelis per equales porcõnes. In cujus, etc. Teste R. apud Westm. 9 +die Augusti. + +<p><a name="foot347" href="#tex2html45"><sup>[45]</sup></a> N. B.—O marco +inglez valia 13 schellings e 4 pences.</p> + +<p><a name="foot690" href="#tex2html46"><sup>[46]</sup></a> Priv. Sigill. 13 +Aug. 23 H. 6. We in good consideration of the good service grete zele and good +love that our trusty and welbeloved A<small>LVAST </small>D<small>ALMAA</small> +Knyght of Portugale hath doon and shewed unto us and oure full noble +progenitors have maad(1) and creat(2) him now late(3) Therle(4) of +A<small>VERANCHE</small> and over that(5) we have graunted unto the said +A<small>LVAST</small> a pension of an C marc by yere during his life. We charge +you that ye delivere unto him a cupp of golde of XL marc and C marc thereinne +&c.</p> + +<p>(1) Made.</p> + +<p>(2) Created.</p> + +<p>(3) Now of late; lately.</p> + +<p>(4) The earl.</p> + +<p>(5) And besides that; and moreover.</p> + +<p><a name="foot691" href="#tex2html47"><sup>[47]</sup></a> O titulo de conde +de Avranches, posto que Henque <small>VI</small> o concedesse hereditario, +caducou desde que Carlos <small>VII</small> conseguiu reunir á França o ducado +de Normandia.</p> + +<p>Foi pois preciso que Luiz <small>XI</small> o confirmasse na pessoa de D. +Fernando de Almada, filho das segundas nupcias de D. Alvaro Vaz de Almada, +porque a geração do primogenito do primeiro casamento extinguiu-se.</p> + +<p>A confirmação realisou-se quando Affonso <small>V</small> esteve em França, +e D. Fernando de Almada o acompanhou.</p> + +<p>O titulo, assim renovado, foi reconhecido em Portugal: D. João +<small>II</small> mandou fazer assentamento a D. Fernando de Almada, <i>conde +de Avranches</i>, de 102:864 reaes brancos.</p> + +<p>Acabou o titulo na pessoa de D. Antão de Almada, que acompanhou a Africa D. +Sebastião, e lá morreu. O filho de D. Antão, que estivera com o pai em +Alcacerquibir, ficou captivo, e só logrou repatriar-se depois da morte do +cardeal D. Henrique. Não se renovou por isso a concessão do titulo, +interrompendo-se tambem a successão do officio de capitão-mór do reino.</p> + +<p>Outro D. Antão de Almada, descendente do <i>Bom capitão</i>, foi um dos +quarenta fidalgos de 1640.</p> + +<p>A rainha D. Maria <small>I</small> agraciou a familia Vaz de Almada com a +concessão do titulo de conde de Almada, a 13 de maio de 1793.</p> + +<p><a name="foot692" href="#tex2html48"><sup>[48]</sup></a> <i>Chronica</i>, +cap. <small>LXXXIX</small>.</p> + +<p><a name="foot377" href="#tex2html49"><sup>[49]</sup></a> Que bello desplante +cavalheiresco n'este repto de um contra tres!</p> + +<p><a name="foot694" href="#tex2html50"><sup>[50]</sup></a> <i>The life of +Prince Henry of Portugal</i>, cap. <small>XIII</small>, pag. 229.</p> + +<p><a name="foot695" href="#tex2html51"><sup>[51]</sup></a> <i>Memorias +d'el-rei D. João I</i>, tom. <small>V</small>, cap. <small>LXV</small>, pag. +342.</p> + +<p><a name="foot696" href="#tex2html52"><sup>[52]</sup></a> Pina, +<i>Chronica</i>, cap. <small>XCIII</small>.</p> + +<p><a name="foot697" href="#tex2html53"><sup>[53]</sup></a> Dom Affonso, etc., +a quantos esta carta virem fazemos saber que a nós disseram que em Abrantes +foram deixados certos bens de herança por um Fernão Rodrigues Rombo; que por +morte de um seu filho os houvesse a egreja de S. João da dita villa, a qual os +houve e teve anno e dia sem os venderem e acabado o dito tempo a pessoas leigas +segundo por nós é ordenado (<i>sic</i>). Os quaes bens vai em dois ou tres +annos os tem os clerigos da dita egreja, pela qual razão por bem da nossa +ordenação pertencem a nós e os podemos dar de direito a quem nossa mercê for. E +ora querendo nós fazer graça e mercê ao capitão Alvaro Vaz d'Almada, Rico Homem +do nosso Conselho e Alcaide Mór da cidade de Lisboa, se assim é, como nos foi +dito, e que por a dita razão os ditos bens pertencem a nós e os podemos de +direito dar a quem nossa mercê for, temos por bem e fazemos-lhe d'elles livre e +pura irrevogavel doação entre os vivos valedoura d'este dia para todo sempre e +de todos seus herdeiros e successores que depois elle vierem, assim ascendentes +(<i>sic</i>) como descendentes. E, porem, mandamos aos juizes da dita villa +d'Abrantes e a outros quaes que isto houverem de ver que, presentes os tedores +dos ditos bens e partes, a que isto pertencer, que se acharem que assim é como +nos disseram e que por isso os ditos bens que assim ficaram á dita egreja +pertencem a nós e os podemos de direito dar, que vista esta carta os façam logo +dar e entregar ao dito capitão ou a seu certo procurador e lh'os deixem ter e +haver, lograr, possuir, vender, dar e doar, trocar e escambar, fazer d'elles e +n'elles o que lhe prouver, como de sua cousa propria e corporal possessão, por +quanto nós lhe fazemos d'elles a dita mercê e doação o mais firmemente que ser +pode, se a nós de direito pertencem e a outrem primeiramente não são dados, por +nossa carta dando appellação e aggravo ás partes nos casos que o direito +outorga, e esta mercê lhe fazemos com tanto que elle nem seu procurador não +faça avença com as partes sem nossa licença, e se a fizer que perca para nós +isto de que lhe assim fazemos mercê e mais o preço que por isso receber e al +não façaes. Dada em Lisboa 18 de Agosto. El-Rei o mandou por Lopo d'Almeida, +cavalleiro de sua casa, não sendo ahi Diogo Femandes d'Almeida, seu pai, do +conselho do dito Senhor e védor de sua Fazenda, a que isto pertencia. Nuno +Affonso a fez anno de Nosso Senhor Jesus Christo de mil quatrocentos quarenta e +quatro(1).</p> + +<p>(1) Torre do Tombo—Chancellaria de D. Affonso <small>V</small>, liv. +<small>V</small>, fl. 68.</p> + +<p><a name="foot698" href="#tex2html54"><sup>[54]</sup></a> Devia ser n'este +anno, pelas razões expostas pelo visconde de Santarem no <i>Quadro +elementar</i>, tom. <small>III</small>, pag. 80, nota, e pelo conde de Villa +Franca, <i>D. João I e a alliança ingleza</i>, pag. 201, nota.</p> + +<p><a name="foot699" href="#tex2html55"><sup>[55]</sup></a> <i>Chronique du bon +chevalier Jacques de Lalain, frère et compagnon de l'ordre de la toison +d'or</i>, por Georges de Chastelain, cap. <small>XXXVIII</small> a +<small>XLII</small>.</p> + +<p><a name="foot700" href="#tex2html56"><sup>[56]</sup></a> Pina, +<i>Chronica</i>, cap. <small>XCVI</small>.</p> + +<p><a name="foot701" href="#tex2html57"><sup>[57]</sup></a> Pina, +<i>Chronica</i>, cap. <small>CIV</small>.</p> + +<p><a name="foot702" href="#tex2html58"><sup>[58]</sup></a> Pina, +<i>Chronica</i>, cap. <small>CX</small>.</p> + +<p><a name="foot704" href="#tex2html59"><sup>[59]</sup></a> <i>Portugal</i>, +pag. 88.</p> + +<p><a name="foot705" href="#tex2html60"><sup>[60]</sup></a> Pina, +<i>Chronica</i>, cap. <small>CXVIII</small>.</p> + +<p><a name="foot706" href="#tex2html61"><sup>[61]</sup></a> Pina, +<i>Chronica</i>, cap. <small>CXX</small>.</p> + +<p><a name="foot453" href="#tex2html62"><sup>[62]</sup></a> Pina, mesmo +capitulo.</p> + +<p><a name="foot455" href="#tex2html63"><sup>[63]</sup></a> Combateu pelo +infante D. Pedro em Alfarrobeira. Era quinto filho de Lopo Dias de Azevedo.</p> + +<p><a name="foot707" href="#tex2html64"><sup>[64]</sup></a> Frei Luiz de Sousa, +<i>Historia de S. Domingos</i>, 1.ª parte, liv. <small>VI</small>, cap. +<small>XV</small>.</p> + +<p><a name="foot708" href="#tex2html65"><sup>[65]</sup></a> Mariz, <i>Dialogos +de varia historia</i>; Major, <i>The life of Prince Henry of Portugal</i>.</p> + +<p><a name="foot709" href="#tex2html66"><sup>[66]</sup></a> Um codice da Torre +do Tombo (21-F-17) confunde este João Vaz de Almada com o pai, que tinha o +mesmo nome. O filho é que foi védor da fazenda de D. Affonso <small>V</small>, +como claramente diz Ruy de Pina. É verdade que o mesmo codice, suppondo que +João Vaz de Almada, pai do conde de Avranches, era védor em 1451, encarrega-se +de evidenciar o equivoco, noticiando que falleceu em Londres logo depois do +casamento de D. Beatriz, com o conde de Arundel, casamento que se realisou em +1405! A chronologia dos nobiliarios é uma cousa escurissima.</p> + +<p>O pai do conde de Avranches figura com a moradia de 12:000 livras na casa de +D. João <small>I</small>.</p> + +<p>O bastardo, além de védor, foi rico-homem e cavalleiro do conselho de +Affonso <small>V</small>.</p> + +<p><a name="foot710" href="#tex2html67"><sup>[67]</sup></a> Diz Duarte Nunes +que em Inglaterra se cantavam <i>romances</i> populares em honra de Pedro Vaz +de Almada por um feito de armas que praticára, e que fôra muito louvado dos +inglezes. Os ossos de D. Pedro, que falleceu solteiro, foram trazidos a +Portugal por um criado, que se chamava Rolão Vaz.</p> + +<p><a name="foot711" href="#tex2html68"><sup>[68]</sup></a> Visconde de +Castilho, Julio, <i>Lisboa antiga</i>, vol. <small>I</small>.</p> + +<p><a name="foot494" href="#tex2html69"><sup>[69]</sup></a> D. Leonor Telles, +quando passou do marido para o rei D. Fernando, ou ainda ia pejada ou pouco +antes havia dado á luz este filho legitimo. O pai, João Lourenço da Cunha, +voltou á patria quando D. Fernando morreu, e pediu ao Mestre de Aviz que +reconheoesse Alvaro da Cunha como herdeiro de todos os seus bens, o que foi +concedido.</p> + +<p><a name="foot498" href="#tex2html70"><sup>[70]</sup></a> Descendente, como +todos os outros Pessanhas, do nautico genovez Manoel Pezagno, que o rei D. +Diniz chamou ao serviço de Portugal, e nomeou almirante da sua frota. O +appellido Pezagno aportuguezou-se em Pessanha. E o almirantado ficou na +familia.</p> + +<p><a name="foot712" href="#tex2html71"><sup>[71]</sup></a> <i>Nouvelle +biographie universelle</i>, tom. <small>II</small>, pag. 170.</p> + +<p><a name="foot512" href="#tex2html72"><sup>[72]</sup></a> O primeiro Antão +que apparece na familia de Alvaro Vaz de Almada é um seu neto, segundo filho de +D. Fernando de Almada, segundo conde de Avranches.</p> + +<p><a name="foot515" href="#tex2html73"><sup>[73]</sup></a> Os chronistas +portuguezes dizem—João de Montferrat. Froissart, porém, chama-lhe Guilherme de +Montferrant.</p> + +<p><a name="foot713" href="#tex2html74"><sup>[74]</sup></a> «... mas foi desde +o tempo de João <small>I</small> que multiplicados laços uniram estreitamente +as duas casas e os dois Estados (Portugal e Inglaterra). O antigo tratado de +commercio e de alliança de 12 de abril de 1372, que era apenas uma extensão do +precedente, foi renovado a 15 de abril de 1386; ainda no mesmo anno (9 de maio) +uma alliança defensiva foi concluida com o rei Ricardo de Inglaterra, +confirmada solemnemente no anno seguinte (12 de agosto) e reconfirmada ainda a +16 de fevereiro de 1404 por Henrique <small>IV</small>, successor de Ricardo. O +casamento de João com a filha do duque de Lancaster (2 de fevereiro de 1387) +sellou ainda estes laços de amizade com a corôa de Inglaterra, garantiu e +assegurou os tratados de diversa natureza que existiam entre os portuguezes e +os inglezes».</p> + +<p>Schæfer—<i>Historia de Portugal</i>. (Reinado de D. João <small>I</small>). +</p> + +<p><a name="foot714" href="#tex2html75"><sup>[75]</sup></a> <i>Les chroniques +de sire Jean Froissart</i>, tom. <small>III</small>, part. <small>I</small>, +cap. <small>XXXVII</small>.</p> + +<p><a name="foot715" href="#tex2html76"><sup>[76]</sup></a> <i>Os doze de +Inglaterra</i>, artigo do snr. João Teixeira Soares, na <i>Era Nova</i>, pag. +448.</p> + +<p><a name="foot566" href="#tex2html77"><sup>[77]</sup></a> Snr. Teixeira +Soares, artigo citado.</p> + +<p><a name="foot716" href="#tex2html78"><sup>[78]</sup></a> Francisque Michel, +<i>Les portugais en France, les français en Portugal</i>, 1882, pag. 9.</p> + +<p><a name="foot717" href="#tex2html79"><sup>[79]</sup></a> <i>Relations +anciennes de la Belgique et du Portugal</i>, pag. 25.</p> + +<p><a name="foot718" href="#tex2html80"><sup>[80]</sup></a> <i>Chronica</i>, +cap. <small>V</small>.</p> +</div> +</div> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<div style="text-align:center; font-size: small;"> +<p>LIVRARIA CHARDRON—M. LUGAN, E<small>DITOR</small></p> +<hr width="30%"> + +<p>CENTENARIO DO INFANTE D. HENRIQUE</p> +<hr width="20%"> + +<p><i>ALFREDO CAMPOS</i></p> + +<p><big>O INFANTE NAVEGADOR</big></p> + +<p><small>POEMETO</small></p> + +<p><small>Com um prefacio de JOÃO PENHA</small></p> + +<p>Um folheto.............................. 200 reis</p> + +<p>Edição em papel de linho........ 400 reis</p> +<hr width="20%"> + +<p><i>CAMILLO CASTELLO BRANCO</i></p> + +<p><big><big>A LENDA DE MACHIN</big></big></p> + +<p><small>Reflexões á VIDA DO INFARTE D. HENRIQUE<br> +<small>por Mr. Richard H. Major</small><br> +Vertida do Inglez por J. A. Ferreira Brandão</small></p> + +<p>Esta lenda acha-se no romance: EUSEBIO MACARIO</p> + +<p>Um volume....................... 800 reis</p> +<hr width="20%"> + +<p><i>MANUEL DUARTE D'ALMEIDA</i></p> + +<p><big>ESTANCIAS AO INFANTE D. HENRIQUE</big></p> + +<p><small>Recitadas pelo auctor</small></p> + +<p>Edição de luxo................ 300 reis.</p> +<hr width="20%"> + +<p><i>OLIVEIRA MARTINS</i></p> + +<p><big><big>OS FILHOS DE D. JOÃO I</big></big></p> + +<p><small>Edição de luxo, illustrada, papel de linho, tipo elzevir</small></p> + +<p>Um grosso volume............. 2$000 reis</p> +<hr width="80%"> + +<p><small>Porto—Typ. de A. J. da Silva Teixeira, Cancella Velha, +70</small></p> +</div> + + + + + + + +<pre> + + + + + +End of the Project Gutenberg EBook of Um contemporaneo do Infante D. Henrique, by +Alberto Pimentel + +*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK INFANTE D. HENRIQUE *** + +***** This file should be named 32792-h.htm or 32792-h.zip ***** +This and all associated files of various formats will be found in: + https://www.gutenberg.org/3/2/7/9/32792/ + +Produced by Pedro Saborano (produced from scanned images +of public domain material from Google Book Search) + + +Updated editions will replace the previous one--the old editions +will be renamed. + +Creating the works from public domain print editions means that no +one owns a United States copyright in these works, so the Foundation +(and you!) can copy and distribute it in the United States without +permission and without paying copyright royalties. Special rules, +set forth in the General Terms of Use part of this license, apply to +copying and distributing Project Gutenberg-tm electronic works to +protect the PROJECT GUTENBERG-tm concept and trademark. Project +Gutenberg is a registered trademark, and may not be used if you +charge for the eBooks, unless you receive specific permission. 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