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+The Project Gutenberg EBook of O Infante Navegador, by Alfredo Campos
+
+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.org
+
+
+Title: O Infante Navegador
+
+Author: Alfredo Campos
+
+Release Date: June 1, 2010 [EBook #32647]
+
+Language: Portuguese
+
+Character set encoding: ISO-8859-1
+
+*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK O INFANTE NAVEGADOR ***
+
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+
+Produced by Pedro Saborano (produced from scanned images
+of public domain material from Google Book Search)
+
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+
+
+
+ _ALFREDO CAMPOS_
+
+
+ O INFANTE NAVEGADOR
+
+ POEMETO
+
+ COM UM PREFACIO
+
+ DE
+
+ JOÃO PENHA
+
+
+
+
+ PORTO
+ _Livraria Internacional de Ernesto Chardron_
+ Casa editora
+ M. LUGAN, Successor
+ 1894
+ Todos os direitos reservados
+
+
+
+
+ PORTO--TYP. DE A. J. DA SILVA TEIXEIRA
+ _Cancella Velha, 70_
+
+
+
+
+ _ALFREDO CAMPOS_
+
+
+ O INFANTE NAVEGADOR
+
+ POEMETO
+
+ COM UM PREFACIO
+
+ DE
+
+ JOÃO PENHA
+
+
+
+
+ PORTO
+ _Livraria Internacional de Ernesto Chardron_
+ Casa editora
+ M. LUGAN, Successor
+ 1894
+ Todos os direitos reservados
+
+
+
+
+AO ILL.MO E EXC.MO SNR.
+
+
+Conselheiro Luis Augusto Pimentel Pinto
+
+
+RESPEITOSAMENTE OFFERECE
+
+
+ _O AUCTOR._
+
+
+
+
+ _Ill.mo e Exc.mo Snr._
+
+_Tomo a liberdade de offerecer a V. Exc.ª este modestissimo trabalho, não
+porque o tenha como valioso, mas, sim, para significar a V. Exc.ª, por
+esta maneira, a consideração, estima e gratidão, que tributo a V. Exc.ª,
+aquellas por sympathia, esta pelas provas de deferencia, benevolencia e
+bondade que de V. Exc.ª hei recebido, civil e militarmente._
+
+_Sei que V. Exc.ª me concederá a mercê, de o acceitar, e penhorado
+agradeço a graça._
+
+_Considere-me V. Exc.ª como quem muito se honra, subscrevendo-se_
+
+ _De V. Exc.ª_
+
+_Ovar, 1 de Janeiro de 1894._
+
+ _subordinado, attento venerador, obrigado e admirador_
+
+ _Alfredo Campos_
+
+ _Major d'Infantaria._
+
+
+
+
+PREFACIO
+
+
+Em 1865, alguns poetas que se achavam reunidos no cubiculo interior da
+modesta livraria de um editor de Paris, resolveram, depois de animada
+discussão, _inter pocula_, publicar um periodico de versos.
+
+Esses poetas eram: François Coppée, André Lemoyne, Paul Verlaine, Léon
+Dierx, e José Maria de Heredia; o editor era Lemerre.
+
+Ha um proverbio francez que diz que não ha ninguem que, uma vez na vida,
+não encontre a occasião de se enriquecer: tudo depende de não a deixar
+escapar.
+
+Para Lemerre o momento psychologico, de que mysteriosamente dependia a
+sua fortuna, foi aquelle.
+
+Viu a Occasião, agarrou-a pelos cabellos, e no mez de janeiro do anno
+seguinte dava á luz o 1.º numero do periodico, que fôra intitulado:
+_Parnasse Contemporain_. Era mensal, e d'elle ha publicadas tres séries;
+a primeira abrange o anno de 1866, a segunda, principiada em 1869, e
+interrompida pela guerra franco-prussiana, concluiu em 1871; a terceira
+e ultima sahiu em 1876.
+
+O exito d'esta publicação foi enorme: a edição esgotou-se, e Lemerre,
+que a encetára pobre, em dia de bons auspicios, ganhou alentos e é
+actualmente um dos mais faustosos editores da grande cidade.
+
+Do titulo do periodico adveio para os seus numerosos collaboradores a
+denominação de _poetas parnasianos_.
+
+Catulle Mendès dá-lhe outra origem, mas a real é a que deixamos
+indicada: estas coisas vêem-se melhor de longe do que de perto.
+
+Já ha muito publicavamos em Coimbra a _Folha_, quando Eça de Queiroz,
+enthusiasmado, nos assignalou o novo periodico, incitando-nos a
+implantar entre nós a que elle chamava poesia do futuro.
+
+Acostumados á leitura exclusiva dos cinco ou seis poetas que, por
+aquella épocha, se liam e discutiam em Coimbra, surprehendeu-nos a nova
+publicação, não tanto pela novidade que poderia notar-se no seu elemento
+poetico propriamente dito, mas sim, principalmente, pela correcção quasi
+scientifica da fórma.
+
+Póde affirmar-se que foi ahi que, em França, teve principio a moderna
+evolução do verso, evolução que nós, que absolutamente desconheciamos
+aquelle movimento, tambem tinhamos iniciado na _Folha_.
+
+Este phenomeno poderia explicar-se por uma das leis de Vico.
+
+Dissemos que no _Parnaso_ não havia innovações no elemento poetico, e
+realmente, a não ser a exclusão de alguns dos velhos assumptos
+convencionaes, o que se observava era que os novos poetas (não nos
+referimos á sua idade segundo os repertorios) continuavam como até ali a
+poetar, de harmonia com os seus temperamentos, segundo a sua propria
+originalidade. Via-se que os não unia nem communhão de idéas ou de
+sentimentos e tradições, nem até um mesmo systema ou methodo de
+execução: não formavam uma escóla: unia-os apenas um principio, que
+manifestamente haviam adoptado por influencia de Th. Gautier e de
+Banville, o de que poesia sem arte não é poesia; não tem outro valor
+senão o dos pensamentos que contém: é prosa.
+
+Para esses parnasianos, portanto, que são os que actualmente constituem
+a mais gloriosa constellação de poetas do seculo XIX, isto é, para
+Baudelaire, F. Coppée, Sully-Prudhomme, Soulary, Leconte de Lisle, André
+Lemoyne, Glatigny, Catulle Mendès, Armand Silvestre, Th. de Banville,
+Léon Valade, Paul Verlaine, Léon Dierx, José Maria de Heredia, Em. des
+Essarts, e para muitos outros, não ha arte aonde o verso não é
+absolutamente correcto.
+
+Mas, a evolução da fórma consistirá só n'isso, parará ahi?
+
+Com certeza que não.
+
+Aquelle principio adoptado pelos parnasianos, não é realmente novo; os
+grandes poetas latinos sempre o seguiram, e foi na _Epistola ad
+Pisones_, que o Tasso, Camões, Ariosto, e outros, o encontraram,
+adoptando-o.
+
+O conhecimento amplissimo da lingua, tão necessario para quem faz um
+poema, como o da combinação das côres para quem pinta um quadro, e a
+sciencia da revelação do pensamento pela fórma mais nitida, mais
+perfeita e mais adequada a esse pensamento, são as duas bases em que
+assenta aquelle principio.
+
+O primeiro d'estes elementos de construcção e de composição technica
+estuda-se nos classicos; o segundo nas obras dos grandes escriptores.
+Este, porém, deve-o sobretudo estudar o poeta comsigo mesmo; porque um
+mesmo pensamento não só póde ser apresentado, sem alteração alguma, por
+palavras diversas, mas tambem pelas mesmas palavras combinadas de
+maneiras differentes.
+
+Já o _Mestre de Philosophia_ o indicava, na comedia de Molière, ao
+_Burguez Gentilhomem_:
+
+Mr. Jourdain sentira-se enamorado de uma dama da sociedade elegante, e
+queria escrever-lhe qualquer coisa n'um bilhetinho, que lhe deixaria
+cahir aos pés.
+
+A este respeito abriu-se com o seu Mestre de Philosophia.
+
+--«É em verso que quer escrever-lhe?--perguntou-lhe este.
+
+--Não; nada de verso.
+
+--Então quer tudo em prosa?
+
+--Não; não quero nem prosa nem verso.
+
+--Ha de ser uma ou outra coisa.
+
+--Porque?
+
+--Por uma razão muito simples; porque para nos exprimirmos não ha senão
+a prosa ou os versos.
+
+--Não ha senão a prosa ou os versos?
+
+--Não. Tudo que não é prosa é verso, e tudo que não é verso é prosa.
+
+--E, quando eu fallo, isso que é?
+
+--É prosa.
+
+--Como! quando eu digo: ó José, traz-me os meus sapatos, e dá-me o meu
+barrete de dormir, isto é prosa?
+
+--Sim, senhor.
+
+--É boa! Ha quarenta annos que fallo em prosa sem o saber! Muito obrigado
+pelas suas instrucções. O que eu queria pôr no bilhete era:--_Bella
+marqueza, seus bellos olhos fazem-me morrer d'amor_; mas queria que isto
+fosse posto de uma maneira galante, torneado com elegancia.
+
+--Pôr: que o fogo dos seus olhos lhe reduz o coração a cinzas, que
+soffre dia e noite as violencias d'um...
+
+--Não, não, não. Não quero nada d'isso. Não quero senão o que lhe
+disse:--_Bella marqueza, seus bellos olhos fazem-me morrer d'amor._
+
+--Comtudo, sempre é necessario estender isso um pouco mais.
+
+--Não, repito. Não quero senão essas unicas palavras no bilhete, mas
+torneadas á moda, arranjadas como o devem ser. Obsequeia-me, dizendo-me,
+para eu ver, as diversas maneiras de as pôr.
+
+--Primeiramente podem pôr-se da maneira que me disse: _Bella marqueza,
+seus bellos olhos fazem-me morrer d'amor._ Ou então:--_D'amor morrer me
+fazem, bella marqueza, seus bellos olhos._ Ou então:--_Seus olhos
+bellos, d'amor me fazem, bella marqueza, morrer._ Ou então:--_Morrer
+seus bellos olhos, bella marquesa, d'amor me fazem._ Ou então:--_Me
+fazem, seus olhos bellos morrer, bella marqueza, d'amor._
+
+--Mas de todas essas maneiras qual é a melhor?
+
+--A sua: _Bella marqueza, seus bellos olhos fazem-me morrer d'amor!_
+
+--E comtudo não tive estudos, fiz isso logo á primeira! Muitissimo
+obrigado».
+
+A resposta final do Mestre de Philosophia, se o caso não fosse de puro
+gracejo, não poderia ser applicada, sem restricções, ao verso, não só
+porque das diversas formulas de qualquer pensamento deve ser escolhida a
+que fôr melhor segundo as circumstancias, mas tambem porque, como diz um
+poeta obscuro:
+
+ «Prosa e verso têm balisas».
+
+Tudo isto, porém: conhecimento cabal da lingua, e sciencia technica da
+construcção, não passa do que é estrictamente rudimental na composição
+poetica.
+
+A moderna evolução do verso, iniciada, como dissemos, pelos parnasianos,
+tende, no seu movimento ascensional para a perfeição artistica, a pôr de
+accordo o pensamento e a fórma, a idéa e o som, a melodia e a harmonia.
+
+A este respeito, transcreveremos aqui as idéas que já n'outra parte
+expozemos.
+
+«Em toda a composição poetica é indispensavel o elemento musical; sem
+este elemento, essa composição, embora rithmada e rimada, não transpõe
+os limites da prosa. Tanto o prosador, como o poeta, trabalham a mesma
+materia prima: o pensamento; o primeiro, porém, é apenas uma especie de
+artifice mechanico: extrahe da pedreira cerebral e transporta para o
+papel as idéas que ahi se lhe formam: executa.
+
+O trabalho do segundo é mais elevado e complexo: o poeta cria.
+
+Assim como nem toda a pedra é adequada e serve para a estatua que um
+Buonarotti se proponha fazer, assim nem todo o pensamento póde ser
+objecto de um poema.
+
+O artista, sem o procurar, escolhe, entre os que espontaneamente lhe
+germinam no intellecto, aquelle que o seu espirito de selecção prefere;
+expurga-o das impurezas da vulgaridade, que lhe empanem a originalidade
+nativa, e depois reveste-o, por meio de processos extremamente
+complicados, da fórma que o torna visivel no mundo exterior.
+
+Esses processos não consistem unicamente na escolha de palavras e
+locuções, e na regularidade do rithmo e da consonancia; consistem
+sobretudo na escolha dos sons que essas palavras devem produzir,
+combinadas umas com as outras, de modo que a composição musical, que
+d'ahi resulte, deve estar de harmonia com o pensamento que as mesmas
+palavras contêm, isto é, a tacitura e a notação melodica dos vocabulos,
+abstrahindo-se das idéas que n'elles estão incluidas, devem revelar,
+embora vagamente, o conjuncto d'essas mesmas idéas.
+
+Os tres grandes poetas romanos, e sobretudo Horacio, attingiram esta
+perfeição do verso.
+
+Leia-se uma ode d'aquelle poeta a um individuo que ignore completamente
+a lingua latina, a um professor d'essa lingua, por exemplo, e elle, só
+pela harmonia mysteriosa das estrophes, indicará o assumpto de que o
+poeta se occupou: Meyerbeer, Beethoven e Mozart collaboraram nas obras
+de Hugo, Musset e Lamartine».
+
+Os fundamentos d'esta nossa theoria, que talvez pareça a uns imaginaria,
+e a outros inexequivel, assentam em factos absolutamente experimentaes.
+
+Observe-se uma joven doente. As palavras que instinctivamente emprega
+para exprimir a tristeza da sua alma, e os soffrimentos de que se
+queixa, são adequadas ao seu estado, não só pelo tom lugubre e pelos
+pensamentos que encerram, mas tambem pela inflexão lamuriante e chorosa
+que lhes imprime. Observe-se, pelo contrario, um homem feliz e contente:
+se falla, se conta as suas aventuras, ha na sua voz a vibração das notas
+claras, estridentes e sonorosamente agudas: entre os seus pensamentos, e
+a parte musical que os reveste, ha uma harmonia completa, embora
+inconsciente.
+
+É, pois, na conjuncção d'estes dois elementos que deverá consistir o
+arduo e difficultoso trabalho do poeta moderno: se o realisar, a sua
+obra occupará um logar perduravel entre os monumentos artisticos da sua
+épocha; se o não conseguir, vêr-se-ha collocado, quando muito, entre a
+ephemera cohorte dos operarios da prosa, e por mais que diga, por mais
+que se contorsa, por mais que rechêe a sua obra de assombros de
+pensamento, de bonitos de phrase, e de floripondios de estylo, como
+diria sua excellencia o bispo de Bethesaida, ainda em vida a verá
+sepultada nos abysmos insondaveis d'um eterno esquecimento.
+
+É no sentido que deixamos esboçado que em França os antigos parnasianos,
+e uma enorme phalange de poetas mais novos, trabalham os seus poemas,
+sobresahindo entre elles pela sua mais perfeita comprehensão do elemento
+musical, no _La Nature_, Maurice Rollinat, o compositor das _Nevroses_.
+
+As suas poesias são tão musicaes que podem cantar-se, e elle mesmo,
+ainda ha pouco, com uma entoação estridente e angustiosa, que produziu
+uma sensação inexprimivel nos que o ouviam, cantou uma d'ellas, o rondó:
+_Les yeux morts_:
+
+ «De ses grands yeux, chastes et fous,
+ Il ne reste pás un vestige.
+ Ses yeux, qui donnaient le vertige
+ Sont allés ou nous irons tous.
+
+ En vain ils étaient frais et doux
+ Comme deux bluets sur leur tige:
+ De ses yeux, chastes et fous,
+ Il ne reste plus un vestige.
+
+ Quelquefois, par les minuits roux,
+ Pleins de mystères et de prestige
+ La morte autour de moi voltige...
+ Mais je ne vois plus que les trous
+ De ses grands yeux chastes et fous!»
+
+Entre nós, o movimento evolutivo, a que nos temos referido, fôra, como
+dissemos, iniciado espontaneamente em Coimbra por uma geração de poetas
+que, com os seus adeptos, formam actualmente uma pleiade de artistas que
+só tem por egual a pleiade dos poetas francezes.
+
+Eram e são os que o professor do Curso Superior de Lettras, Theophilo
+Braga, o Linneo da nossa litteratura, classifica, na sua ultima obra,
+com o desdem olympico de um metrificador de cyclos, da maneira seguinte:
+_poetas que tratam unicamente da fórma_.
+
+No emtanto, em que peze ao illustre cathedratico, para elles, excluido
+um, já ha muito fulgura, no Templo da Arte, o antigo _fas vobis limina
+divuum_.
+
+Alfredo Campos não é um d'esses poetas, mas se não é rigorosamente um
+parnasiano, mostra nas suas poesias, que, como João de Deus, tem musica
+na alma, e essa musica interior muitas vezes suppre, o que a arte, para
+os mesmos effeitos, laboriosamente obtem. Muitos dos seus sonetos
+poderiam ser assignados por Diogo Bernardes, e as bellas estrophes, que
+vão lêr-se, revelam que o seu talento malleavel não se affrontaria
+diante de uma obra mais completa, se com ella se propozesse enriquecer a
+nossa litteratura.
+
+11-2-94.
+ _João Penha._
+
+
+
+
+O INFANTE NAVEGADOR
+
+
+
+
+I
+
+ _.... se a natureza lhe negára a Corôa, as virtudes lhe
+ deram justiça para a merecer._
+
+ CANDIDO LUSITANO--_Vida do Infante D. Henrique._
+
+
+ 1
+
+ Espirito sublime e alevantado,
+ Cheio de crenças, coração formoso,
+ Olhar d'águia, profundo e dilatado,
+ Fictando o sol ardente, corajoso,
+ Sondando o mar, que adora apaixonado,
+ E em que sonha o seu poema grandioso,
+ Deixou seu nome vinculado á Gloria,
+ Escripto em bronze, pela mão da Historia.
+
+
+ 2
+
+ --Navegador!--Assim o baptisára
+ A fama das conquistas mais brilhantes;
+ Já, dominando o mar, na audacia rara,
+ Para o cortar de estradas rutilantes,
+ Já, implantando a Fé na gente ignára,
+ Em paragens ignotas e distantes,
+ Não, porque da ambição fosse vil presa,
+ Mas para dar á Fé maior grandeza!
+
+
+ 3
+
+ Varão de largo estudo e são talento,
+ Em vez de braço inerte na indolencia,
+ Nos prazeres da côrte, e luzimento
+ D'uma banal e inutil existencia;
+ Em vez dos galanteios de momento,
+ Que passam, como as nuvens d'uma essencia,
+ Votou a vida, desde a florea edade,
+ Ao trabalho, com honra e lealdade.
+
+
+ 4
+
+ Foi de Sagres, nos sonhos radiosos,
+ Embalados, do mar, nas harmonias,
+ Quando o mar, nos anceios carinhosos,
+ Ia, meigo, beijar-lhe as penedias,
+ Como para attrahil-o aos gloriosos,
+ Altos projectos de futuros dias,
+ Que concebeu os planos de conquista,
+ Lançando, ao longe, a penetrante vista.
+
+
+ 5
+
+ Ninguem, como elle, ousára ainda tanto,
+ Abrir caminho certo a essas paragens,
+ Onde a noite é mortal, o sol quebranto,
+ Os habitantes negros e selvagens;
+ Porque ninguem sentira o doce encanto
+ De lograr tão esplendidas miragens;
+ Porque ninguem, como elle, decifrava
+ Os enigmas, que o mar apresentava.
+
+
+ 6
+
+ Rodeado d'espiritos valentes,
+ Promptos á voz, que vinha d'um desejo,
+ Calando, sempre, em corações ardentes,
+ Cheios de brio, aspiração e pejo,
+ Mal dardejava ás ondas relusentes,
+ Os olhos, no clarão d'algum lampejo,
+ Ao vento desfraldavam, logo, as vélas,
+ Arrojadas, veleiras caravellas!
+
+
+ 7
+
+ Não eram ambições de vil riqueza,
+ De conquistas, que augmentam poderio,
+ Ou paixão de cubiça, de torpeza,
+ Para satisfazer um desvario,
+ Ou um capricho vão de vã fraqueza,
+ O que o levava á busca do gentio:
+ --Era mais alto e nobre o pensamento,
+ Que o punha firme n'esse ousado intento.
+
+
+ 8
+
+ Na descoberta de regiões ignotas,
+ Tinha apenas um alvo, que era a Gloria,
+ D'avançar na sciencia das derrotas,
+ Para lograr, sobre outros, tal victoria,
+ Levando a Fé ás tribus mais remotas,
+ Cuja religião era irrisoria;
+ Não por prazer de ter móres dominios
+ Acalentava o Infante estes designios.
+
+
+ 9
+
+ Tal como o mar, que um dia é bonançoso,
+ Beijando docemente a costa, a praia,
+ E no outro dia é já tempestuoso,
+ Em mortalha mudando a alva cambraia,
+ Da fina espuma do seu dorso airoso,
+ Para melhor colher o que desmaia,
+ Hoje, sereno, amante peregrino,
+ Mau, amanhã, terrivel e tigrino.
+
+
+ 10
+
+ Assim o espirito do Infante, ás vezes,
+ Calmo sorria ao fim d'alguma empreza,
+ Triumphante de todos os revezes;
+ Mas enchia a sua alma de tristeza
+ Quando a sorte feria os portuguezes,
+ Porque ante a sorte ha força que é fraqueza,
+ E nem sempre volviam gloriosas,
+ Essas expedições audaciosas!
+
+
+
+
+II
+
+ O mysterio que desde a creação estava suspenso sobre o
+ Atlantico, e occultava ao conhecimento do homem metade da
+ superficie do globo, tinha reservado para o Infante D.
+ Henrique, o navegador, um campo de nobres commettimentos.
+
+ RICHARD HENRY MAJOR--_Vida do Infante D. Henrique._
+
+
+ 1
+
+ Como um extenso campo, pelo arado
+ Fendido em sulcos para a sementeira,
+ O Atlantico, por elle, foi sulcado,
+ N'uma larga derrota lisongeira,
+ Em que, sempre, um caminho era traçado,
+ De larga via e luminosa esteira,
+ Levando o Infante ás terras procuradas,
+ As naus e as galés afortunadas.
+
+
+ 2
+
+ Os Açores, Madeira e Porto Santo,
+ Pelo arrojo de Zarco e Tristão Vaz,
+ Surgem formosas, como por encanto,
+ Ao que, por descubril-as, tanto faz.
+ Leva a Ceuta os seus feitos e, no emtanto,
+ Sempre no seu intento firme e audaz,
+ Segue lançando o penetrante olhar,
+ As ondas do attrahente e vasto mar!
+
+
+ 3
+
+ Diogo Gomes põe as lusas quinas,
+ Em Cabo Verde--essa africana porta
+ --Como se as hasteasse nas campinas,
+ Onde não houve nunca esperança morta.
+ Rasgam-se as nuvens densas de neblinas,
+ Ante o fervor, que o heroismo exhorta,
+ E á bahia d'Arguim o accesso expande
+ A maritima audacia, e ao Rio Grande!
+
+
+ 4
+
+ Desvenda-se esse Mar, que Tenebroso,
+ Toda a coragem transformava em medo,
+ Como rendido ao susto perigoso,
+ Quem quer sondar o abysmo d'um segredo;
+ E esse campo de vagas, mysterioso,
+ Tão tido por feroz, insano e tredo,
+ Deixa de ser phantastica voragem,
+ Para prestar aos lusos vassalagem!
+
+
+ 5
+
+ Levado na corrente caudalosa,
+ Que os animos inspira com ardor,
+ Dobra, n'uma derrota gloriosa,
+ Gil Eannes, o Cabo Bajador;
+ E essa tarefa rude e trabalhosa,
+ Que ao Infante traz mais um esplendor,
+ Novo florão engasta em seu diadema,
+ Nova estrophe nos cantos do seu poema!
+
+
+ 6
+
+ Andavam cavalleiros, moços, pagens,
+ Entre si, disputando a primasia,
+ De derrotas incertas, de viagens,
+ Tidas por mais difficeis, dia a dia,
+ Buscando, cada qual, novas paragens,
+ Consoante as pintava a phantasia;
+ E foi assim, que, com fervor e fé,
+ Chegaram a Benim, Congo e Guiné!
+
+
+ 7
+
+ Vencem os seus o Cabo das Tormentas,
+ Que foi, depois, Cabo da Boa Esperança,
+ Não sem luctas e luctas violentas,
+ Em que o trabalho mais renome alcança;
+ Não sem rudezas grandes e cruentas,
+ Dessas que a fama em seus laureis entrança,
+ E coube ao Duque de Vizeu a Gloria,
+ Dessa arrojada empreza meritoria.
+
+
+ 8
+
+ Levanta em Sagres a grandiosa Escóla,
+ Onde a navegação acha elemento,
+ Para as expedições, que desenrola,
+ Em busca de qualquer descubrimento,
+ Quando uma frota sua o mar assola,
+ Ou uma nau se expõe ao mar e ao vento,
+ Escóla, que assombrava o mundo inteiro,
+ E em que, no estudo, o Infante era o primeiro!
+
+
+ 9
+
+ Se pelo mar conquista tanta fama,
+ E o seu nome circumda glorioso,
+ Das joias das acções que lá derrama,
+ Como navegador audacioso,
+ Tambem como homem d'armas se proclama
+ Disciplinado, firme e valoroso,
+ Como se fôra feito para a lucta,
+ Quem, pela Patria, a Gloria só disputa.
+
+
+ 10
+
+ Nos mares, onde tantas caravellas,
+ Rasgaram horisontes dilatados,
+ Sem receio da furia das procellas,
+ Nesses longinquos portos ignorados,
+ Onde as galés molharam suas velas,
+ Levando a Cruz e a Fé aos seus povoados,
+ Andam, inda, hoje, vivas, por memoria,
+ Do grande Heroe, as tradições de Gloria!
+
+
+
+
+III
+
+ A fama, a gloria, o nome, e a saudade.
+ .............................
+ Oh! ditoso morrer! Sorte ditosa!
+
+ CAMÕES--_Sonetos_.
+
+
+ 1
+
+ Póde o tempo esquecer, por largos annos,
+ Os feitos d'um Heroe, acções d'um povo,
+ Quando o tempo resolve em seus arcanos,
+ O consagrar algum Heroe mais novo,
+ Ou commentar cruezas de tyrannos,
+ Pois cada tronco tem o seu renovo;
+ Mas desse olvido ha de surgir, um dia,
+ O tempo que esses feitos esquecia.
+
+
+ 2
+
+ Revive, assim, a grandiosa Gloria
+ Do compendio da vida d'esse Infante,
+ Que enche de brilho as paginas da Historia,
+ N'uma lição famosa e fecundante;
+ E nesse consagrar tanta victoria,
+ Nesse avivar exemplo tão gigante,
+ Cumpre um dever o povo que pretende,
+ Que é pela Historia que se instrue e aprende.
+
+
+ 3
+
+ Filho de Reis, podia, na grandeza,
+ Trazer a vida, e em ocios, regalada;
+ Preferiu, da Sciencia, a realeza,
+ Porque era d'ella uma alma enamorada,
+ Levando, em protegel-a, a gentileza
+ De, em seus Paços, a ver bem hospedada,
+ Que eram de illustres Sabios, grande gremio,
+ Sabios, que honrava e a quem dava premio.
+
+
+ 4
+
+ Pelo seu coração foi mui piedoso,
+ Varão d'inteira Fé, de firme Crença,
+ Erguendo muito monumento honroso,
+ Que a tradição, agora, ainda incensa,
+ Como para attestar o caloroso,
+ Real valor d'essa piedade immensa,
+ De quem tinha, por si, segura a regra,
+ Que sem religião a vida é negra.
+
+
+ 5
+
+ Affavel, terno, todo castidade,
+ Abria o seio ás afflicções dos pobres,
+ Que consolava ao sol da caridade,
+ Mudando em oiro a falta dos seus cobres,
+ Nos extremos do affecto e da bondade,
+ Taes como os dispensava aos ricos nobres,
+ Chegando, por impulsos desvelados
+ A ser chamado até--_Pai dos Soldados!_
+
+
+ 6
+
+ _Protector dos estudos_, contribuia,
+ Com larga renda e generosa offerta,
+ Para pôr a instrucção em pleno dia,
+ Nos proprios Paços seus, fulgindo certa,
+ Como mãi do Progresso, que antevia,
+ E fonte de ventura, em jorro aberta;
+ Pois se do mar, das armas era amante,
+ Punha nas Lettras um amor constante.
+
+
+ 7
+
+ _Talent de bien faire_ era o seu lemma:
+ --De fazer bem, vontade sempre ardente,
+ E nessa ancia do bem, viva e suprema,
+ Exemplo sublimado a toda a gente,
+ Talhou o maior canto do seu poema;
+ É raro achar brazão mais resplendente,
+ Como egualmente o é, entre a nobreza,
+ Mais virtude, mais Gloria, mais grandeza!
+
+
+ 8
+
+ Foi-lhe a vida sublime uma epopeia!
+ Heroe, que faz Heroes pelo traslado,
+ Dos dons com que seus dias encadeia,
+ Só pelo Patrio amor, sempre inspirado!
+ Dá flôr e fructo o exemplo que semeia,
+ Fertil foi sempre o campo que ha lavrado,
+ E dessa enorme e estranha sementeira,
+ Inda, hoje, ha grão ao sol da nossa eira!
+
+
+ 9
+
+ Quando morreu, coberto foi de pranto,
+ Do povo, que o seu nome idolatrava;
+ Foi tecido de lagrimas o manto,
+ A mortalha, que ao tumulo levava!
+ Diziam todos que morrêra um santo!
+ Dizia o proprio mar que... orphão ficava!
+ Chorava, assim, uma nação inteira,
+ Como que a sua esperança derradeira!
+
+
+ 10
+
+ Um povo, que acalenta o seu presente,
+ Ao sol das tradições do seu passado,
+ Levanta, agora, um monumento ingente,
+ Ao seu Navegador afortunado,
+ Na aspiração da Gloria resplendente,
+ Porque o que é grande é mister ser lembrado.
+ Aprenda bem o povo a lêr na Historia,
+ E Deus o inspire para maior Gloria.
+
+
+
+FIM
+
+
+
+
+
+
+
+
+
+LIVRARIA CHARDRON--M. LUGAN, EDITOR
+
+
+CENTENARIO DO INFANTE D. HENRIQUE
+
+
+_ALBERTO PIMENTEL_
+
+UM CONTEMPORANEO DO INFANTE D. HENRIQUE
+
+Carta a Mr. Lugan
+
+Um vol...................................... 300 reis
+
+Edição em papel de linho.................... 500 reis
+
+
+_CAMILLO CASTELLO BRANCO_
+
+A LENDA DE MACHIN
+
+Reflexões á VIDA DO INFARTE D. HENRIQUE
+por Mr. Richard H. Major
+Vertida do Inglez por J. A. Ferreira Brandão
+
+Esta lenda acha-se no romance: EUSEBIO MACARIO
+
+Um volume................................... 800 reis
+
+
+_MANUEL DUARTE D'ALMEIDA_
+
+ESTANCIAS AO INFANTE D. HENRIQUE
+
+Recitadas pelo auctor
+
+Edição de luxo.............................. 300 reis.
+
+
+_OLIVEIRA MARTINS_
+
+OS FILHOS DE D. JOÃO I
+
+Edição de luxo, illustrada, papel de linho, tipo elzevir
+
+Um grosso volume.......................... 2$000 reis
+
+
+Porto--Typ. de A. J. da Silva Teixeira, Cancella Velha, 70
+
+
+
+
+
+End of the Project Gutenberg EBook of O Infante Navegador, by Alfredo Campos
+
+*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK O INFANTE NAVEGADOR ***
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+or cause to occur: (a) distribution of this or any Project Gutenberg-tm
+work, (b) alteration, modification, or additions or deletions to any
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+Section 2. Information about the Mission of Project Gutenberg-tm
+
+Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
+electronic works in formats readable by the widest variety of computers
+including obsolete, old, middle-aged and new computers. It exists
+because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
+people in all walks of life.
+
+Volunteers and financial support to provide volunteers with the
+assistance they need are critical to reaching Project Gutenberg-tm's
+goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
+remain freely available for generations to come. In 2001, the Project
+Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
+and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
+To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
+and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
+and the Foundation web page at https://www.pglaf.org.
+
+
+Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive
+Foundation
+
+The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
+501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
+state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
+Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification
+number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at
+https://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
+permitted by U.S. federal laws and your state's laws.
+
+The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
+Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
+throughout numerous locations. Its business office is located at
+809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
+business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact
+information can be found at the Foundation's web site and official
+page at https://pglaf.org
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+For additional contact information:
+ Dr. Gregory B. Newby
+ Chief Executive and Director
+ gbnewby@pglaf.org
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+Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation
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+Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
+spread public support and donations to carry out its mission of
+increasing the number of public domain and licensed works that can be
+freely distributed in machine readable form accessible by the widest
+array of equipment including outdated equipment. Many small donations
+($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
+status with the IRS.
+
+The Foundation is committed to complying with the laws regulating
+charities and charitable donations in all 50 states of the United
+States. Compliance requirements are not uniform and it takes a
+considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
+with these requirements. We do not solicit donations in locations
+where we have not received written confirmation of compliance. To
+SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
+particular state visit https://pglaf.org
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+While we cannot and do not solicit contributions from states where we
+have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
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+approach us with offers to donate.
+
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+any statements concerning tax treatment of donations received from
+outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff.
+
+Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
+methods and addresses. Donations are accepted in a number of other
+ways including including checks, online payments and credit card
+donations. To donate, please visit: https://pglaf.org/donate
+
+
+Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic
+works.
+
+Professor Michael S. Hart was the originator of the Project Gutenberg-tm
+concept of a library of electronic works that could be freely shared
+with anyone. For thirty years, he produced and distributed Project
+Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.
+
+
+Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
+editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
+unless a copyright notice is included. Thus, we do not necessarily
+keep eBooks in compliance with any particular paper edition.
+
+
+Most people start at our Web site which has the main PG search facility:
+
+ https://www.gutenberg.org
+
+This Web site includes information about Project Gutenberg-tm,
+including how to make donations to the Project Gutenberg Literary
+Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to
+subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks.
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+<pre>
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+The Project Gutenberg EBook of O Infante Navegador, by Alfredo Campos
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+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
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+with this eBook or online at www.gutenberg.org
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+Title: O Infante Navegador
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+Release Date: June 1, 2010 [EBook #32647]
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+Language: Portuguese
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+Character set encoding: ISO-8859-1
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+*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK O INFANTE NAVEGADOR ***
+
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+Produced by Pedro Saborano (produced from scanned images
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+<p>&nbsp;</p>
+
+<div style="text-align: center; border: solid 1px #000; padding: 1em;">
+<p style="font-size: 1.4em;"><i>ALFREDO CAMPOS</i></p>
+<hr style="width: 30%;">
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+<p style="font-size: 2.5em;">O INFANTE NAVEGADOR</p>
+
+<p>POEMETO</p>
+
+<p style="font-size: 1.1em;">COM UM PREFACIO</p>
+
+<p>DE</p>
+
+<p style="font-size: 1.2em;">JOÃO PENHA</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>PORTO<br>
+<i>Livraria Internacional de Ernesto Chardron</i><br>
+<small>Casa editora</small><br>
+M. LUGAN, Successor<br>
+1894<br>
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+</div>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<div
+style="margin-left: 20%; margin-right: 20%; font-size: small; border: solid 2px #000; border-left:0; border-right: 0; text-align: center;">
+<p>P<small>ORTO&mdash;</small>T<small>YP. DE</small> A. J. <small>DA</small>
+S<small>ILVA</small> T<small>EIXEIRA</small></p>
+
+<p><i>Cancella Velha, 70</i></p>
+</div>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<div style="text-align: center;">
+<p style="font-size: 1.4em;"><i>ALFREDO CAMPOS</i></p>
+<hr style="width: 30%;">
+
+<p style="font-size: 2.5em;">O INFANTE NAVEGADOR</p>
+
+<p>POEMETO</p>
+
+<p style="font-size: 1.1em;">COM UM PREFACIO</p>
+
+<p>DE</p>
+
+<p style="font-size: 1.2em;">JOÃO PENHA</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>PORTO<br>
+<i>Livraria Internacional de Ernesto Chardron</i><br>
+<small>Casa editora</small><br>
+M. LUGAN, Successor<br>
+1894<br>
+<small>Todos os direitos reservados</small></p>
+</div>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<div style="text-align: center;">
+<p>A<small>O</small> I<small>LL.</small><sup>MO</sup> <small>E</small>
+E<small>XC.</small><sup>MO</sup> S<small>NR.</small></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p style="font-size: 1.5em;">Conselheiro Luis Augusto Pimentel Pinto</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p><small>RESPEITOSAMENTE OFFERECE</small></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p style="text-align: right;"><i>O AUCTOR.</i></p>
+</div>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<div id="corpo">
+<p style="text-align: right;"><i>Ill.<sup>mo</sup> e Exc.<sup>mo</sup>
+Snr.</i></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p><i>Tomo a liberdade de offerecer a V. Exc.ª este modestissimo trabalho, não
+porque o tenha como valioso, mas, sim, para significar a V. Exc.ª, por esta
+maneira, a consideração, estima e gratidão, que tributo a V. Exc.ª,
+aquellas
+por sympathia, esta pelas provas de deferencia, benevolencia e bondade que de
+V. Exc.ª hei recebido, civil e militarmente.</i></p>
+
+<p><i>Sei que V. Exc.ª me concederá a mercê, de o acceitar, e penhorado
+agradeço a graça.</i></p>
+
+<p><i>Considere-me V. Exc.ª como quem muito se honra, subscrevendo-se</i></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p style="text-align: center; margin-left: 30%; margin-right: 10%;"><i>De V.
+Exc.ª</i></p>
+
+<p><small><small><i>Ovar, 1 de Janeiro de 1894.</i></small></small></p>
+
+<p
+style="text-align: center; margin-left: 30%; margin-right: 10%;"><small><i>subordinado,
+attento venerador, obrigado e admirador</i></small></p>
+
+<p style="text-align: center; margin-left: 30%; margin-right: 10%;"><i>Alfredo
+Campos</i></p>
+
+<p
+style="text-align: center; margin-left: 30%; margin-right: 10%;"><small><small><i>Major
+d'Infantaria.</i></small></small></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h1>PREFACIO</h1>
+
+<p>Em 1865, alguns poetas que se achavam reunidos no cubiculo interior da
+modesta livraria de um editor de Paris, resolveram, depois de animada
+discussão, <i>inter pocula</i>, publicar um periodico de versos.</p>
+
+<p>Esses poetas eram: François Coppée, André Lemoyne, Paul Verlaine, Léon
+Dierx, e José Maria de Heredia; o editor era Lemerre.</p>
+
+<p>Ha um proverbio francez que diz que não ha ninguem que, uma vez na vida, não
+encontre a occasião de se enriquecer: tudo depende de não a deixar escapar.</p>
+
+<p>Para Lemerre o momento psychologico, de que mysteriosamente dependia a sua
+fortuna, foi aquelle.</p>
+
+<p>Viu a Occasião, agarrou-a pelos cabellos, e no mez de janeiro do anno
+seguinte dava á luz o 1.º numero do periodico, que fôra intitulado: <i>Parnasse
+Contemporain</i>. Era mensal, e d'elle ha publicadas tres séries; a primeira
+abrange o anno de 1866, a segunda, principiada em 1869, e interrompida pela
+guerra franco-prussiana, concluiu em 1871; a terceira e ultima sahiu em 1876.
+</p>
+
+<p>O exito d'esta publicação foi enorme: a edição esgotou-se, e Lemerre, que a
+encetára pobre, em dia de bons auspicios, ganhou alentos e é actualmente um dos
+mais faustosos editores da grande cidade.</p>
+
+<p>Do titulo do periodico adveio para os seus numerosos collaboradores a
+denominação de <i>poetas parnasianos</i>.</p>
+
+<p>Catulle Mendès dá-lhe outra origem, mas a real é a que deixamos indicada:
+estas coisas vêem-se melhor de longe do que de perto.</p>
+
+<p>Já ha muito publicavamos em Coimbra a <i>Folha</i>, quando Eça de Queiroz,
+enthusiasmado, nos assignalou o novo periodico, incitando-nos a implantar entre
+nós a que elle chamava poesia do futuro.</p>
+
+<p>Acostumados á leitura exclusiva dos cinco ou seis poetas que, por aquella
+épocha, se liam e discutiam em Coimbra, surprehendeu-nos a nova publicação, não
+tanto pela novidade que poderia notar-se no seu elemento poetico propriamente
+dito, mas sim, principalmente, pela correcção quasi scientifica da fórma.</p>
+
+<p>Póde affirmar-se que foi ahi que, em França, teve principio a moderna
+evolução do verso, evolução que nós, que absolutamente desconheciamos aquelle
+movimento, tambem tinhamos iniciado na <i>Folha</i>.</p>
+
+<p>Este phenomeno poderia explicar-se por uma das leis de Vico.</p>
+
+<p>Dissemos que no <i>Parnaso</i> não havia innovações no elemento poetico, e
+realmente, a não ser a exclusão de alguns dos velhos assumptos convencionaes, o
+que se observava era que os novos poetas (não nos referimos á sua idade segundo
+os repertorios) continuavam como até ali a poetar, de harmonia com os seus
+temperamentos, segundo a sua propria originalidade. Via-se que os não unia nem
+communhão de idéas ou de sentimentos e tradições, nem até um mesmo systema ou
+methodo de execução: não formavam uma escóla: unia-os apenas um principio, que
+manifestamente haviam adoptado por influencia de Th. Gautier e de Banville, o
+de que poesia sem arte não é poesia; não tem outro valor senão o dos
+pensamentos que contém: é prosa.</p>
+
+<p>Para esses parnasianos, portanto, que são os que actualmente constituem a
+mais gloriosa constellação de poetas do seculo XIX, isto é, para Baudelaire, F.
+Coppée, Sully-Prudhomme, Soulary, Leconte de Lisle, André Lemoyne, Glatigny,
+Catulle Mendès, Armand Silvestre, Th. de Banville, Léon Valade, Paul Verlaine,
+Léon Dierx, José Maria de Heredia, Em. des Essarts, e para muitos outros,
+não ha
+arte aonde o verso não é absolutamente correcto.</p>
+
+<p>Mas, a evolução da fórma consistirá só n'isso, parará ahi?</p>
+
+<p>Com certeza que não.</p>
+
+<p>Aquelle principio adoptado pelos parnasianos, não é realmente novo; os
+grandes poetas latinos sempre o seguiram, e foi na <i>Epistola ad Pisones</i>,
+que o Tasso, Camões, Ariosto, e outros, o encontraram, adoptando-o.</p>
+
+<p>O conhecimento amplissimo da lingua, tão necessario para quem faz um poema,
+como o da combinação das côres para quem pinta um quadro, e a sciencia da
+revelação do pensamento pela fórma mais nitida, mais perfeita e mais adequada a
+esse pensamento, são as duas bases em que assenta aquelle principio.</p>
+
+<p>O primeiro d'estes elementos de construcção e de composição technica
+estuda-se nos classicos; o segundo nas obras dos grandes escriptores. Este,
+porém, deve-o sobretudo estudar o poeta comsigo mesmo; porque um mesmo
+pensamento não só póde ser apresentado, sem alteração alguma, por palavras
+diversas, mas tambem pelas mesmas palavras combinadas de maneiras differentes.
+</p>
+
+<p>Já o <i>Mestre de Philosophia</i> o indicava, na comedia de Molière, ao
+<i>Burguez Gentilhomem</i>:</p>
+
+<p>Mr. Jourdain sentira-se enamorado de uma dama da sociedade elegante, e
+queria escrever-lhe qualquer coisa n'um bilhetinho, que lhe deixaria cahir aos
+pés.</p>
+
+<p>A este respeito abriu-se com o seu Mestre de Philosophia.</p>
+
+<p>&mdash;«É em verso que quer escrever-lhe?&mdash;perguntou-lhe este.</p>
+
+<p>&mdash;Não; nada de verso.</p>
+
+<p>&mdash;Então quer tudo em prosa?</p>
+
+<p>&mdash;Não; não quero nem prosa nem verso.</p>
+
+<p>&mdash;Ha de ser uma ou outra coisa.</p>
+
+<p>&mdash;Porque?</p>
+
+<p>&mdash;Por uma razão muito simples; porque para nos exprimirmos não ha senão a
+prosa ou os versos.</p>
+
+<p>&mdash;Não ha senão a prosa ou os versos?</p>
+
+<p>&mdash;Não. Tudo que não é prosa é verso, e tudo que não é verso é prosa.</p>
+
+<p>&mdash;E, quando eu fallo, isso que é?</p>
+
+<p>&mdash;É prosa.</p>
+
+<p>&mdash;Como! quando eu digo: ó José, traz-me os meus sapatos, e dá-me o meu
+barrete de dormir, isto é prosa?</p>
+
+<p>&mdash;Sim, senhor.</p>
+
+<p>&mdash;É boa! Ha quarenta annos que fallo em prosa sem o saber! Muito obrigado
+pelas suas instrucções. O que eu queria pôr no bilhete era:&mdash;<i>Bella marqueza,
+seus bellos olhos fazem-me morrer d'amor</i>; mas queria que isto fosse posto
+de uma maneira galante, torneado com elegancia.</p>
+
+<p>&mdash;Pôr: que o fogo dos seus olhos lhe reduz o coração a cinzas, que soffre
+dia e noite as violencias d'um...</p>
+
+<p>&mdash;Não, não, não. Não quero nada d'isso. Não quero senão o que lhe
+disse:&mdash;<i>Bella marqueza, seus bellos olhos fazem-me morrer d'amor.</i></p>
+
+<p>&mdash;Comtudo, sempre é necessario estender isso um pouco mais.</p>
+
+<p>&mdash;Não, repito. Não quero senão essas unicas palavras no bilhete, mas
+torneadas á moda, arranjadas como o devem ser. Obsequeia-me, dizendo-me, para
+eu ver, as diversas maneiras de as pôr.</p>
+
+<p>&mdash;Primeiramente podem pôr-se da maneira que me disse: <i>Bella marqueza,
+seus bellos olhos fazem-me morrer d'amor.</i> Ou então:&mdash;<i>D'amor morrer me
+fazem, bella marqueza, seus bellos olhos.</i> Ou então:&mdash;<i>Seus olhos bellos,
+d'amor me fazem, bella marqueza, morrer.</i> Ou então:&mdash;<i>Morrer seus bellos
+olhos, bella marquesa, d'amor me fazem.</i> Ou então:&mdash;<i>Me fazem, seus olhos
+bellos morrer, bella marqueza, d'amor.</i></p>
+
+<p>&mdash;Mas de todas essas maneiras qual é a melhor?</p>
+
+<p>&mdash;A sua: <i>Bella marqueza, seus bellos olhos fazem-me morrer d'amor!</i>
+</p>
+
+<p>&mdash;E comtudo não tive estudos, fiz isso logo á primeira! Muitissimo
+obrigado».</p>
+
+<p>A resposta final do Mestre de Philosophia, se o caso não fosse de puro
+gracejo, não poderia ser applicada, sem restricções, ao verso, não só porque
+das diversas formulas de qualquer pensamento deve ser escolhida a que fôr
+melhor segundo as circumstancias, mas tambem porque, como diz um poeta obscuro:
+</p>
+
+<blockquote>
+ «Prosa e verso têm balisas».</blockquote>
+
+<p>Tudo isto, porém: conhecimento cabal da lingua, e sciencia technica da
+construcção, não passa do que é estrictamente rudimental na composição poetica.
+</p>
+
+<p>A moderna evolução do verso, iniciada, como dissemos, pelos parnasianos,
+tende, no seu movimento ascensional para a perfeição artistica, a pôr de
+accordo o pensamento e a fórma, a idéa e o som, a melodia e a harmonia.</p>
+
+<p>A este respeito, transcreveremos aqui as idéas que já n'outra parte
+expozemos.</p>
+
+<p>«Em toda a composição poetica é indispensavel o elemento musical; sem este
+elemento, essa composição, embora rithmada e rimada, não transpõe os limites da
+prosa. Tanto o prosador, como o poeta, trabalham a mesma materia prima: o
+pensamento; o primeiro, porém, é apenas uma especie de artifice mechanico:
+extrahe da pedreira cerebral e transporta para o papel as idéas que ahi se lhe
+formam: executa.</p>
+
+<p>O trabalho do segundo é mais elevado e complexo: o poeta cria.</p>
+
+<p>Assim como nem toda a pedra é adequada e serve para a estatua que um
+Buonarotti se proponha fazer, assim nem todo o pensamento póde ser objecto de
+um poema.</p>
+
+<p>O artista, sem o procurar, escolhe, entre os que espontaneamente lhe
+germinam no intellecto, aquelle que o seu espirito de selecção prefere;
+expurga-o das impurezas da vulgaridade, que lhe empanem a originalidade nativa,
+e depois reveste-o, por meio de processos extremamente complicados, da fórma
+que o torna visivel no mundo exterior.</p>
+
+<p>Esses processos não consistem unicamente na escolha de palavras e locuções,
+e na regularidade do rithmo e da consonancia; consistem sobretudo na escolha
+dos sons que essas palavras devem produzir, combinadas umas com as outras, de
+modo que a composição musical, que d'ahi resulte, deve estar de harmonia com o
+pensamento que as mesmas palavras contêm, isto é, a tacitura e a notação
+melodica dos vocabulos, abstrahindo-se das idéas que n'elles estão incluidas,
+devem revelar, embora vagamente, o conjuncto d'essas mesmas idéas.</p>
+
+<p>Os tres grandes poetas romanos, e sobretudo Horacio, attingiram esta
+perfeição do verso.</p>
+
+<p>Leia-se uma ode d'aquelle poeta a um individuo que ignore completamente a
+lingua latina, a um professor d'essa lingua, por exemplo, e elle, só pela
+harmonia mysteriosa das estrophes, indicará o assumpto de que o poeta se
+occupou: Meyerbeer, Beethoven e Mozart collaboraram nas obras de Hugo, Musset e
+Lamartine».</p>
+
+<p>Os fundamentos d'esta nossa theoria, que talvez pareça a uns imaginaria, e a
+outros inexequivel, assentam em factos absolutamente experimentaes.</p>
+
+<p>Observe-se uma joven doente. As palavras que instinctivamente emprega para
+exprimir a tristeza da sua alma, e os soffrimentos de que se queixa, são
+adequadas ao seu estado, não só pelo tom lugubre e pelos pensamentos que
+encerram, mas tambem pela inflexão lamuriante e chorosa que lhes imprime.
+Observe-se, pelo contrario, um homem feliz e contente: se falla, se conta as
+suas aventuras, ha na sua voz a vibração das notas claras, estridentes e
+sonorosamente agudas: entre os seus pensamentos, e a parte musical que os
+reveste, ha uma harmonia completa, embora inconsciente.</p>
+
+<p>É, pois, na conjuncção d'estes dois elementos que deverá consistir o arduo e
+difficultoso trabalho do poeta moderno: se o realisar, a sua obra occupará um
+logar perduravel entre os monumentos artisticos da sua épocha; se o não
+conseguir, vêr-se-ha collocado, quando muito, entre a ephemera cohorte dos
+operarios da prosa, e por mais que diga, por mais que se contorsa, por mais que
+rechêe a sua obra de assombros de pensamento, de bonitos de phrase, e de
+floripondios de estylo, como diria sua excellencia o bispo de Bethesaida, ainda
+em vida a verá sepultada nos abysmos insondaveis d'um eterno esquecimento.</p>
+
+<p>É no sentido que deixamos esboçado que em França os antigos parnasianos,
+e
+uma enorme phalange de poetas mais novos, trabalham os seus poemas,
+sobresahindo entre elles pela sua mais perfeita comprehensão do elemento
+musical, no <i>La Nature</i>, Maurice Rollinat, o compositor das
+<i>Nevroses</i>.</p>
+
+<p>As suas poesias são tão musicaes que podem cantar-se, e elle mesmo, ainda ha
+pouco, com uma entoação estridente e angustiosa, que produziu uma sensação
+inexprimivel nos que o ouviam, cantou uma d'ellas, o rondó: <i>Les yeux
+morts</i>:</p>
+
+<blockquote>
+ «De ses grands yeux, chastes et fous,<br>
+ Il ne reste pás un vestige.<br>
+ Ses yeux, qui donnaient le vertige<br>
+ Sont allés ou nous irons tous.<br>
+ <br>
+ En vain ils étaient frais et doux<br>
+ Comme deux bluets sur leur tige:<br>
+ De ses yeux, chastes et fous,<br>
+ Il ne reste plus un vestige.<br>
+ <br>
+ Quelquefois, par les minuits roux,<br>
+ Pleins de mystères et de prestige<br>
+ La morte autour de moi voltige...<br>
+ Mais je ne vois plus que les trous<br>
+ De ses grands yeux chastes et fous!»</blockquote>
+
+<p>Entre nós, o movimento evolutivo, a que nos temos referido, fôra, como
+dissemos, iniciado espontaneamente em Coimbra por uma geração de poetas que,
+com os seus adeptos, formam actualmente uma pleiade de artistas que só tem por
+egual a pleiade dos poetas francezes.</p>
+
+<p>Eram e são os que o professor do Curso Superior de Lettras, Theophilo Braga,
+o Linneo da nossa litteratura, classifica, na sua ultima obra, com o desdem
+olympico de um metrificador de cyclos, da maneira seguinte: <i>poetas que
+tratam unicamente da fórma</i>.</p>
+
+<p>No emtanto, em que peze ao illustre cathedratico, para elles, excluido um,
+já ha muito fulgura, no Templo da Arte, o antigo <i>fas vobis limina
+divuum</i>.</p>
+
+<p>Alfredo Campos não é um d'esses poetas, mas se não é rigorosamente um
+parnasiano, mostra nas suas poesias, que, como João de Deus, tem musica na
+alma, e essa musica interior muitas vezes suppre, o que a arte, para os mesmos
+effeitos, laboriosamente obtem. Muitos dos seus sonetos poderiam ser assignados
+por Diogo Bernardes, e as bellas estrophes, que vão lêr-se, revelam que o seu
+talento malleavel não se affrontaria diante de uma obra mais completa, se com
+ella se propozesse enriquecer a nossa litteratura.</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p><small>11-2-94.</small></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p style="text-align: right;"><i>João Penha.</i></p>
+
+<h1>O INFANTE NAVEGADOR</h1>
+
+<h2>I</h2>
+
+<blockquote style="margin-left: 30%; font-size: small;">
+ <p><i>.... se a natureza lhe negára a Corôa, as virtudes lhe deram justiça
+ para a merecer.</i></p>
+
+ <p>C<small>ANDIDO</small> L<small>USITANO</small>&mdash;<i>Vida do Infante D.
+ Henrique.</i></p>
+</blockquote>
+
+<h3>1</h3>
+
+<blockquote>
+ Espirito sublime e alevantado,<br>
+ Cheio de crenças, coração formoso,<br>
+ Olhar d'águia, profundo e dilatado,<br>
+ Fictando o sol ardente, corajoso,<br>
+ Sondando o mar, que adora apaixonado,<br>
+ E em que sonha o seu poema grandioso,<br>
+ Deixou seu nome vinculado á Gloria,<br>
+ Escripto em bronze, pela mão da Historia.</blockquote>
+
+<h3>2</h3>
+
+<blockquote>
+ &mdash;Navegador!&mdash;Assim o baptisára<br>
+ A fama das conquistas mais brilhantes;<br>
+ Já, dominando o mar, na audacia rara,<br>
+ Para o cortar de estradas rutilantes,<br>
+ Já, implantando a Fé na gente ignára,<br>
+ Em paragens ignotas e distantes,<br>
+ Não, porque da ambição fosse vil presa,<br>
+ Mas para dar á Fé maior grandeza!</blockquote>
+
+<h3>3</h3>
+
+<blockquote>
+ Varão de largo estudo e são talento,<br>
+ Em vez de braço inerte na indolencia,<br>
+ Nos prazeres da côrte, e luzimento<br>
+ D'uma banal e inutil existencia;<br>
+ Em vez dos galanteios de momento,<br>
+ Que passam, como as nuvens d'uma essencia,<br>
+ Votou a vida, desde a florea edade,<br>
+ Ao trabalho, com honra e lealdade.</blockquote>
+
+<h3>4</h3>
+
+<blockquote>
+ Foi de Sagres, nos sonhos radiosos,<br>
+ Embalados, do mar, nas harmonias,<br>
+ Quando o mar, nos anceios carinhosos,<br>
+ Ia, meigo, beijar-lhe as penedias,<br>
+ Como para attrahil-o aos gloriosos,<br>
+ Altos projectos de futuros dias,<br>
+ Que concebeu os planos de conquista,<br>
+ Lançando, ao longe, a penetrante vista.</blockquote>
+
+<h3>5</h3>
+
+<blockquote>
+ Ninguem, como elle, ousára ainda tanto,<br>
+ Abrir caminho certo a essas paragens,<br>
+ Onde a noite é mortal, o sol quebranto,<br>
+ Os habitantes negros e selvagens;<br>
+ Porque ninguem sentira o doce encanto<br>
+ De lograr tão esplendidas miragens;<br>
+ Porque ninguem, como elle, decifrava<br>
+ Os enigmas, que o mar apresentava.</blockquote>
+
+<h3>6</h3>
+
+<blockquote>
+ Rodeado d'espiritos valentes,<br>
+ Promptos á voz, que vinha d'um desejo,<br>
+ Calando, sempre, em corações ardentes,<br>
+ Cheios de brio, aspiração e pejo,<br>
+ Mal dardejava ás ondas relusentes,<br>
+ Os olhos, no clarão d'algum lampejo,<br>
+ Ao vento desfraldavam, logo, as vélas,<br>
+ Arrojadas, veleiras caravellas!</blockquote>
+
+<h3>7</h3>
+
+<blockquote>
+ Não eram ambições de vil riqueza,<br>
+ De conquistas, que augmentam poderio,<br>
+ Ou paixão de cubiça, de torpeza,<br>
+ Para satisfazer um desvario,<br>
+ Ou um capricho vão de vã fraqueza,<br>
+ O que o levava á busca do gentio:<br>
+ &mdash;Era mais alto e nobre o pensamento,<br>
+ Que o punha firme n'esse ousado intento.</blockquote>
+
+<h3>8</h3>
+
+<blockquote>
+ Na descoberta de regiões ignotas,<br>
+ Tinha apenas um alvo, que era a Gloria,<br>
+ D'avançar na sciencia das derrotas,<br>
+ Para lograr, sobre outros, tal victoria,<br>
+ Levando a Fé ás tribus mais remotas,<br>
+ Cuja religião era irrisoria;<br>
+ Não por prazer de ter móres dominios<br>
+ Acalentava o Infante estes designios.</blockquote>
+
+<h3>9</h3>
+
+<blockquote>
+ Tal como o mar, que um dia é bonançoso,<br>
+ Beijando docemente a costa, a praia,<br>
+ E no outro dia é já tempestuoso,<br>
+ Em mortalha mudando a alva cambraia,<br>
+ Da fina espuma do seu dorso airoso,<br>
+ Para melhor colher o que desmaia,<br>
+ Hoje, sereno, amante peregrino,<br>
+ Mau, amanhã, terrivel e tigrino.</blockquote>
+
+<h3>10</h3>
+
+<blockquote>
+ Assim o espirito do Infante, ás vezes,<br>
+ Calmo sorria ao fim d'alguma empreza,<br>
+ Triumphante de todos os revezes;<br>
+ Mas enchia a sua alma de tristeza<br>
+ Quando a sorte feria os portuguezes,<br>
+ Porque ante a sorte ha força que é fraqueza,<br>
+ E nem sempre volviam gloriosas,<br>
+ Essas expedições audaciosas!</blockquote>
+
+<h2>II </h2>
+
+<blockquote style="margin-left: 30%; font-size: small;">
+ <p>O mysterio que desde a creação estava suspenso sobre o Atlantico, e
+ occultava ao conhecimento do homem metade da superficie do globo, tinha
+ reservado para o Infante D. Henrique, o navegador, um campo de nobres
+ commettimentos. </p>
+
+ <p>R<small>ICHARD</small> H<small>ENRY</small> M<small>AJOR</small>&mdash;<i>Vida
+ do Infante D. Henrique.</i></p>
+</blockquote>
+
+<h3>1</h3>
+
+<blockquote>
+ Como um extenso campo, pelo arado<br>
+ Fendido em sulcos para a sementeira,<br>
+ O Atlantico, por elle, foi sulcado,<br>
+ N'uma larga derrota lisongeira,<br>
+ Em que, sempre, um caminho era traçado,<br>
+ De larga via e luminosa esteira,<br>
+ Levando o Infante ás terras procuradas,<br>
+ As naus e as galés afortunadas.</blockquote>
+
+<h3>2</h3>
+
+<blockquote>
+ Os Açores, Madeira e Porto Santo,<br>
+ Pelo arrojo de Zarco e Tristão Vaz,<br>
+ Surgem formosas, como por encanto,<br>
+ Ao que, por descubril-as, tanto faz.<br>
+ Leva a Ceuta os seus feitos e, no emtanto,<br>
+ Sempre no seu intento firme e audaz,<br>
+ Segue lançando o penetrante olhar,<br>
+ As ondas do attrahente e vasto mar!</blockquote>
+
+<h3>3</h3>
+
+<blockquote>
+ Diogo Gomes põe as lusas quinas,<br>
+ Em Cabo Verde&mdash;essa africana porta<br>
+ &mdash;Como se as hasteasse nas campinas,<br>
+ Onde não houve nunca esperança morta.<br>
+ Rasgam-se as nuvens densas de neblinas,<br>
+ Ante o fervor, que o heroismo exhorta,<br>
+ E á bahia d'Arguim o accesso expande<br>
+ A maritima audacia, e ao Rio Grande!</blockquote>
+
+<h3>4</h3>
+
+<blockquote>
+ Desvenda-se esse Mar, que Tenebroso,<br>
+ Toda a coragem transformava em medo,<br>
+ Como rendido ao susto perigoso,<br>
+ Quem quer sondar o abysmo d'um segredo;<br>
+ E esse campo de vagas, mysterioso,<br>
+ Tão tido por feroz, insano e tredo,<br>
+ Deixa de ser phantastica voragem,<br>
+ Para prestar aos lusos vassalagem!</blockquote>
+
+<h3>5</h3>
+
+<blockquote>
+ Levado na corrente caudalosa,<br>
+ Que os animos inspira com ardor,<br>
+ Dobra, n'uma derrota gloriosa,<br>
+ Gil Eannes, o Cabo Bajador;<br>
+ E essa tarefa rude e trabalhosa,<br>
+ Que ao Infante traz mais um esplendor,<br>
+ Novo florão engasta em seu diadema,<br>
+ Nova estrophe nos cantos do seu poema!</blockquote>
+
+<h3>6</h3>
+
+<blockquote>
+ Andavam cavalleiros, moços, pagens,<br>
+ Entre si, disputando a primasia,<br>
+ De derrotas incertas, de viagens,<br>
+ Tidas por mais difficeis, dia a dia,<br>
+ Buscando, cada qual, novas paragens,<br>
+ Consoante as pintava a phantasia;<br>
+ E foi assim, que, com fervor e fé,<br>
+ Chegaram a Benim, Congo e Guiné!</blockquote>
+
+<h3>7</h3>
+
+<blockquote>
+ Vencem os seus o Cabo das Tormentas,<br>
+ Que foi, depois, Cabo da Boa Esperança,<br>
+ Não sem luctas e luctas violentas,<br>
+ Em que o trabalho mais renome alcança;<br>
+ Não sem rudezas grandes e cruentas,<br>
+ Dessas que a fama em seus laureis entrança,<br>
+ E coube ao Duque de Vizeu a Gloria,<br>
+ Dessa arrojada empreza meritoria.</blockquote>
+
+<h3>8</h3>
+
+<blockquote>
+ Levanta em Sagres a grandiosa Escóla,<br>
+ Onde a navegação acha elemento,<br>
+ Para as expedições, que desenrola,<br>
+ Em busca de qualquer descubrimento,<br>
+ Quando uma frota sua o mar assola,<br>
+ Ou uma nau se expõe ao mar e ao vento,<br>
+ Escóla, que assombrava o mundo inteiro,<br>
+ E em que, no estudo, o Infante era o primeiro!</blockquote>
+
+<h3>9</h3>
+
+<blockquote>
+ Se pelo mar conquista tanta fama,<br>
+ E o seu nome circumda glorioso,<br>
+ Das joias das acções que lá derrama,<br>
+ Como navegador audacioso,<br>
+ Tambem como homem d'armas se proclama<br>
+ Disciplinado, firme e valoroso,<br>
+ Como se fôra feito para a lucta,<br>
+ Quem, pela Patria, a Gloria só disputa.</blockquote>
+
+<h3>10</h3>
+
+<blockquote>
+ Nos mares, onde tantas caravellas,<br>
+ Rasgaram horisontes dilatados,<br>
+ Sem receio da furia das procellas,<br>
+ Nesses longinquos portos ignorados,<br>
+ Onde as galás molharam suas velas,<br>
+ Levando a Cruz e a Fé aos seus povoados,<br>
+ Andam, inda, hoje, vivas, por memoria,<br>
+ Do grande Heroe, as tradições de Gloria!</blockquote>
+
+<h2>III </h2>
+
+<blockquote style="margin-left: 30%; font-size: small;">
+ A fama, a gloria, o nome, e a saudade.<br>
+ .............................<br>
+ Oh! ditoso morrer! Sorte ditosa!<br>
+
+
+ <p style="margin-left: 20%;">C<small>AMÕES</small>&mdash;<i>Sonetos</i>.</p>
+</blockquote>
+
+<h3>1</h3>
+
+<blockquote>
+ Póde o tempo esquecer, por largos annos,<br>
+ Os feitos d'um Heroe, acções d'um povo,<br>
+ Quando o tempo resolve em seus arcanos,<br>
+ O consagrar algum Heroe mais novo,<br>
+ Ou commentar cruezas de tyrannos,<br>
+ Pois cada tronco tem o seu renovo;<br>
+ Mas desse olvido ha de surgir, um dia,<br>
+ O tempo que esses feitos esquecia.</blockquote>
+
+<h3>2</h3>
+
+<blockquote>
+ Revive, assim, a grandiosa Gloria<br>
+ Do compendio da vida d'esse Infante,<br>
+ Que enche de brilho as paginas da Historia,<br>
+ N'uma lição famosa e fecundante;<br>
+ E nesse consagrar tanta victoria,<br>
+ Nesse avivar exemplo tão gigante,<br>
+ Cumpre um dever o povo que pretende,<br>
+ Que é pela Historia que se instrue e aprende.</blockquote>
+
+<h3>3</h3>
+
+<blockquote>
+ Filho de Reis, podia, na grandeza,<br>
+ Trazer a vida, e em ocios, regalada;<br>
+ Preferiu, da Sciencia, a realeza,<br>
+ Porque era d'ella uma alma enamorada,<br>
+ Levando, em protegel-a, a gentileza<br>
+ De, em seus Paços, a ver bem hospedada,<br>
+ Que eram de illustres Sabios, grande gremio,<br>
+ Sabios, que honrava e a quem dava premio.</blockquote>
+
+<h3>4</h3>
+
+<blockquote>
+ Pelo seu coração foi mui piedoso,<br>
+ Varão d'inteira Fé, de firme Crença,<br>
+ Erguendo muito monumento honroso,<br>
+ Que a tradição, agora, ainda incensa,<br>
+ Como para attestar o caloroso,<br>
+ Real valor d'essa piedade immensa,<br>
+ De quem tinha, por si, segura a regra,<br>
+ Que sem religião a vida é negra.</blockquote>
+
+<h3>5</h3>
+
+<blockquote>
+ Affavel, terno, todo castidade,<br>
+ Abria o seio ás afflicções dos pobres,<br>
+ Que consolava ao sol da caridade,<br>
+ Mudando em oiro a falta dos seus cobres,<br>
+ Nos extremos do affecto e da bondade,<br>
+ Taes como os dispensava aos ricos nobres,<br>
+ Chegando, por impulsos desvelados<br>
+ A ser chamado até&mdash;<i>Pai dos Soldados!</i></blockquote>
+
+<h3>6</h3>
+
+<blockquote>
+ <i>Protector dos estudos</i>, contribuia,<br>
+ Com larga renda e generosa offerta,<br>
+ Para pôr a instrucção em pleno dia,<br>
+ Nos proprios Paços seus, fulgindo certa,<br>
+ Como mãi do Progresso, que antevia,<br>
+ E fonte de ventura, em jorro aberta;<br>
+ Pois se do mar, das armas era amante,<br>
+ Punha nas Lettras um amor constante.</blockquote>
+
+<h3>7</h3>
+
+<blockquote>
+ <i>Talent de bien faire</i> era o seu lemma:<br>
+ &mdash;De fazer bem, vontade sempre ardente,<br>
+ E nessa ancia do bem, viva e suprema,<br>
+ Exemplo sublimado a toda a gente,<br>
+ Talhou o maior canto do seu poema;<br>
+ É raro achar brazão mais resplendente,<br>
+ Como egualmente o é, entre a nobreza,<br>
+ Mais virtude, mais Gloria, mais grandeza!</blockquote>
+
+<h3>8</h3>
+
+<blockquote>
+ Foi-lhe a vida sublime uma epopeia!<br>
+ Heroe, que faz Heroes pelo traslado,<br>
+ Dos dons com que seus dias encadeia,<br>
+ Só pelo Patrio amor, sempre inspirado!<br>
+ Dá flôr e fructo o exemplo que semeia,<br>
+ Fertil foi sempre o campo que ha lavrado,<br>
+ E dessa enorme e estranha sementeira,<br>
+ Inda, hoje, ha grão ao sol da nossa eira!</blockquote>
+
+<h3>9</h3>
+
+<blockquote>
+ Quando morreu, coberto foi de pranto,<br>
+ Do povo, que o seu nome idolatrava;<br>
+ Foi tecido de lagrimas o manto,<br>
+ A mortalha, que ao tumulo levava!<br>
+ Diziam todos que morrêra um santo!<br>
+ Dizia o proprio mar que... orphão ficava!<br>
+ Chorava, assim, uma nação inteira,<br>
+ Como que a sua esperança derradeira!</blockquote>
+
+<h3>10</h3>
+
+<blockquote>
+ Um povo, que acalenta o seu presente,<br>
+ Ao sol das tradições do seu passado,<br>
+ Levanta, agora, um monumento ingente,<br>
+ Ao seu Navegador afortunado,<br>
+ Na aspiração da Gloria resplendente,<br>
+ Porque o que é grande é mister ser lembrado.<br>
+ Aprenda bem o povo a lêr na Historia,<br>
+ E Deus o inspire para maior Gloria.</blockquote>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p style="text-align: center;">FIM</p>
+</div>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<div style="text-align:center; font-size: small;">
+<p>LIVRARIA CHARDRON&mdash;M. LUGAN, E<small>DITOR</small></p>
+<hr width="30%">
+
+<p>CENTENARIO DO INFANTE D. HENRIQUE</p>
+<hr width="20%">
+
+<p><i>ALBERTO PIMENTEL</i></p>
+
+<p>UM CONTEMPORANEO DO INFANTE D. HENRIQUE</p>
+
+<p><small>Carta a Mr. Lugan</small></p>
+
+<p>Um vol...................................... 300 reis</p>
+
+<p>Edição em papel de linho........ 500 reis</p>
+<hr width="20%">
+
+<p><i>CAMILLO CASTELLO BRANCO</i></p>
+
+<p><big><big>A LENDA DE MACHIN</big></big></p>
+
+<p><small>Reflexões á VIDA DO INFARTE D. HENRIQUE<br>
+
+<small>por Mr. Richard H. Major</small><br>
+
+Vertida do Inglez por J. A. Ferreira Brandão</small></p>
+
+<p>Esta lenda acha-se no romance: EUSEBIO MACARIO</p>
+
+<p>Um volume....................... 800 reis</p>
+<hr width="20%">
+
+<p><i>MANUEL DUARTE D'ALMEIDA</i></p>
+
+<p><big>ESTANCIAS AO INFANTE D. HENRIQUE</big></p>
+
+<p><small>Recitadas pelo auctor</small></p>
+
+<p>Edição de luxo................ 300 reis.</p>
+<hr width="20%">
+
+<p><i>OLIVEIRA MARTINS</i></p>
+
+<p><big><big>OS FILHOS DE D. JOÃO I</big></big></p>
+
+<p><small>Edição de luxo, illustrada, papel de linho, tipo elzevir</small></p>
+
+<p>Um grosso volume............. 2$000 reis</p>
+
+<hr width="80%">
+
+<p><small>Porto&mdash;Typ. de A. J. da Silva Teixeira, Cancella Velha, 70</small></p>
+</div>
+
+
+
+
+
+
+
+<pre>
+
+
+
+
+
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+To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
+and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
+and the Foundation web page at https://www.pglaf.org.
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+
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+Foundation
+
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+state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
+Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification
+number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at
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+</pre>
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+This eBook, including all associated images, markup, improvements,
+metadata, and any other content or labor, has been confirmed to be
+in the PUBLIC DOMAIN IN THE UNITED STATES.
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+Procedures for determining public domain status are described in
+the "Copyright How-To" at https://www.gutenberg.org.
+
+No investigation has been made concerning possible copyrights in
+jurisdictions other than the United States. Anyone seeking to utilize
+this eBook outside of the United States should confirm copyright
+status under the laws that apply to them.
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+Project Gutenberg (https://www.gutenberg.org) public repository for
+eBook #32647 (https://www.gutenberg.org/ebooks/32647)