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+<head>
+ <title>Contos Phantasticos, por Teófilo Braga</title>
+ <meta name="Author" content="Teófilo Braga">
+ <meta name="Edition" content="Lisboa. Antonio Maria Pereira, 1894">
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+</head>
+
+<body>
+
+
+<pre>
+
+The Project Gutenberg EBook of Contos Phantasticos, by Teófilo Braga
+
+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.org
+
+
+Title: Contos Phantasticos
+ segunda edição correcta e ampliada
+
+Author: Teófilo Braga
+
+Release Date: June 1, 2010 [EBook #32646]
+
+Language: Portuguese
+
+Character set encoding: ISO-8859-1
+
+*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK CONTOS PHANTASTICOS ***
+
+
+
+
+Produced by Pedro Saborano and the Online Distributed
+Proofreading Team at https://www.pgdp.net (This book was
+produced from scanned images of public domain material
+from the Google Print project.)
+
+
+
+
+
+
+</pre>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<div class="fbox">
+<p><b>Notas de transcrição:</b></p>
+
+<p>O texto aqui transcrito, é uma cópia integral do livro impresso em 1894.</p>
+
+<p>Mantivemos a grafia usada na edição impressa, tendo sido corrigidos alguns
+pequenos erros tipográficos evidentes, que não alteram a leitura do texto, e
+que por isso não considerámos necessário assinalá-los. Os erros tipográficos
+que nos suscitaram dúvidas foram também corrigidos, e foram assinalados com um comentário do tipo: <span class="typo" title="no original: texto errado">texto corrigido</span>.</p>
+</div>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<div style="text-align:center;">
+<p>COLLECÇÃO ANTONIO MARIA PEREIRA&mdash;25.º Volume</p>
+
+<hr style="width: 30%;">
+
+<p style="font-size: 2em;">Contos phantasticos</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p><span class="pn">{II}<br>{III}</span></p>
+
+<hr style="width: 90%;">
+<p style="font-size: 1.2em; border: 0;">COLLECÇÃO ANTONIO MARIA PEREIRA</p>
+<hr style="width: 90%;">
+
+<p style="font-size: 1.6em;">THEOPHILO BRAGA</p>
+
+<p style="font-size: 2.5em;">CONTOS PHANTASTICOS</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>SEGUNDA EDIÇÃO<br>
+CORRECTA E AMPLIADA</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>LISBOA<br>
+<b>Livraria de Antonio Maria Pereira, Editor</b><br>
+<small>50&mdash;RUA AUGUSTA&mdash;54</small><br>
+1894</p>
+</div>
+
+<p><span class="pn">{IV}<br>{V}</span></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<div id="corpo">
+<h1>PRELIMINAR</h1>
+
+<h3>(<small>DA</small> 2.ª <small>EDIÇÃO</small>)</h3>
+
+<p>Vae para trinta annos que estão publicados os <i>Contos phantasticos</i>. Em
+boa verdade, nunca mais passei os olhos por este livro, que me apparece agora
+como obra de um extranho. Não tornei a lêr esses contos, não por um affectado
+desdem pela minha obra, desdem que condemno em todo o escriptor que se não
+preoccupa com a coordenação definitiva dos seus trabalhos, mas porque este
+pobre livro ficára ligado a impressões dolorosas cuja renovação evitava.</p>
+
+<p>Foram reunidos em volume em 1865 os <i>Contos phantasticos</i> no meio das
+refregas da conhecida <i>Questão de Coimbra</i>; publicára a maior parte
+d'elles no <i>Jornal do Commercio</i>, em cuja collaboração litteraria auferia
+uns tantos réis com que ia seguindo o meu curso na Universidade. De repente
+achei-me cercado de odios; cortaram-me os viveres na empreza do jornal, nas
+aulas de Direito tiraram-me a mesquinha distincção academica, os criticos
+espalmaram-me rudemente, os livreiros recusaram-se a dar publicidade ao que
+escrevia, e os patriarchas das lettras com o peso da sua auctoridade sorriam
+com equivocos sobre o meu valor intellectual, chegando a circularem lendas
+depressivas do meu caracter e costumes que só consegui desfazer<span
+class="pn">{VI}</span> com uma vida ás claras e cheia de ignorados sacrificios.
+Outro qualquer ter-se-hia rendido.</p>
+
+<p>Vi-me forçado a inverter as bases da minha existencia, abandonando a Arte
+que me seduzia, porque me abandonara a serenidade contemplativa, e lancei-me á
+critica, á erudição, á sciencia, á philosophia. N'este campo os meus erros e
+exageros bem merecem ser perdoados. Só muito tarde é que consegui conciliar em
+mim estas duas tendencias do espirito; mas não pensava em reimprimir os
+<i>Contos phantasticos</i>, a não sêr um dia em uma collecção de cousas avulsas
+constituindo a ingenua miscellanea das minhas <i>Juvenilia</i>.</p>
+
+<p>Uma carta do meu bom amigo Antonio Maria Pereira surprehendeu-me,
+manifestando o desejo de fazer uma nova edição d'estes <i>Contos</i>. Como
+recusar-me a uma tão honrosa proposta?</p>
+
+<p>Resalvei a condição de revêr isso de que nem já formava ideia. Foi assim que
+tive de lêr os <i>Contos phantasticos</i>, do rapaz de vinte e dous annos que
+existiu em mim, e a frio pude julgar da impressão por elles produzida. Achei
+ali uma fraca penetração do mundo subjectivo ou moral, encoberta com o esforço
+das comparações poeticas e dos epithetos; desgostou-me o estylo em que a prosa
+se confunde com o verso,&mdash;apresentando ainda a falta de nitidez de quem não
+pensa com segurança; e emquanto ao drama da vida, que é o thema eterno das
+obras de arte, notei tambem pouco movimento, as situações são narradas em vez
+de succedidas.</p>
+
+<p>O que salva então o livro?</p>
+
+<p>Uma pequena cousa, que é tudo,&mdash;a paixão. Ao fim de trinta annos ainda achei
+ali calor, a ardencia de um organismo que se queima, a vibração sensorial de
+uma mocidade plena que se lança de peito aberto ao combate da vida.</p>
+
+<p>Foi esta paixão flagrante que fez com que esses Contos não ficassem
+esquecidos no <i>Jornal do Commercio</i> de 1865; voltando então de umas ferias
+para Coimbra, felicitou-me<span class="pn">{VII}</span> Eça de Queiroz,
+affirmando-me que nos cafés em Lisboa cortavam-se os folhetins, quando traziam
+algum conto meu. N'esse mesmo anno José Fontana quiz publical-os em um livro,
+que seguiu o seu fadario, sendo o mais glorioso o andar na algibeira do celebre
+engenheiro João Evangelista, que morreu devorado por uma violenta paixão
+amorosa. O pequeno livro estava na mesma afinação da sua alma. Cartas, que
+ainda guardo, me fallaram da impressão de um ou outro conto, por esse tempo.</p>
+
+<p>Tudo isto me lembrou ao sentir que effectivamente o fogo que ha n'esses
+mesquinhos quadros se communica. E n'este dilemma dos dois amores, em que ainda
+se debate o espirito, attrahido para a arte e seduzido pela sciencia, hoje
+repassando as paginas d'este livro, é com uma certa piedade saudosa que o deixo
+reviver na publicidade, e lhe inscrevo com a frieza do Qualificador
+inquisitorial: <i>Feitas as emendas necessarias póde correr</i>.</p>
+
+<p> </p>
+
+<p><small class="SMALL">Fevereiro de 1894.</small></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p style="text-align: right;">T<small>HEOPHILO </small>B<small>RAGA.</small></p>
+
+<p><span class="pn">{VIII}<br>
+{1}</span></p>
+
+<h1>As azas brancas</h1>
+
+<h2>I</h2>
+
+<p>Sempre o mesmo olhar doloroso! uma constante expressão de magoa, esse
+abandono, que é o tedio da vida! Porque é que na flôr dos annos, quando a
+existencia se purpurêa com todas as graças que se entrevêem apenas em sonho e
+se veste das alegrias que a rodeiam, como uma criança enfeitando-se distrahida
+com as florinhas espontaneas, tu, bella, sentida, deixas reflectir pela
+transparencia da tua face pura um clarão pallido e incerto como de agonias e
+desespero, como a phosphorecencia de um grande mar que estúa? Diante de ti
+sente-se uma oppressão estranha, a mudez sagrada de uma grande floresta, o
+terror gélido, de quem entra na caverna de uma sibylla. Porque é que os teus
+vinte annos, as fórmas arrebatadoras<span class="pn">{2}</span> do teu flexuoso
+corpo de sylphide, que verga pela dôr, mais languido e gentil do que a palmeira
+solitaria embalada nas bafagens mornas vindas da amplidão remota do deserto,
+como é que toda esta adolescencia, que te cinge como auréola de encanto e
+attractivos, me faz ter medo de ti, me prende a voz temerosa e balbuciante, que
+ousa ás vezes perguntar-te:</p>
+
+<p>D'onde vieste? Em que scismas? Que véo te acena e está chamando de longe?
+Porque te escondes dos olhos que choram de vêr-te assim desolada, na
+consternação de uma angustia intraduzivel por palavras humanas? Porque não
+fallas, e nos contas o que soffres? Porque te deixas ficar horas esquecidas com
+a mão firmada ao rosto, suspensa n'uma contemplação divina, irradiante, de um
+modo, que ninguem ousa dizer se és da terra, se és a incarnação de alguma
+essencia archangelica que anda errante no mundo a sanctificar o amor no
+soffrimento?</p>
+
+<h2>II</h2>
+
+<p>Ás vezes o teu semblante, onde se póde lêr um enigma que se não destrinça,
+tem a lividez de cera, e a claridade que parece conter em si o jaspe. Então
+julgo vêr-te uma santa, sob o aspecto de penitente que acha em cada successo da
+vida uma tentação occulta nas apparencias mais risonhas, no folguedo mais
+descuidado e innocente, do<span class="pn">{3}</span> mesmo modo que o áspide
+se esconde no alegrete das mais perfumadas flôres ou o somno lethal na sombra
+da mancinella verdejante e copada, aberta ao sol, como uma escrava sustentando
+a umbella com que abriga do rigor das calmas a voluptuosa odalisca.</p>
+
+<p>Os vinte annos são a alegria, a innocencia, a expansão; ainda não viveste
+bastante para provar o travo amargo da vida, não sabes conhecer a tormenta que
+ha de vir pela nuvem que negreja, nem a bonança pelo santelmo, nem os parceis
+pelo refluxo da vaga marulhosa, nem o porto pelo perfume embalsamado da terra.
+Tu passas na vida como um meteoro fulgurante que não procura aonde irá caír,
+como uma creatura somnambula que não vacilla, não hesita diante do abysmo que
+transpõe, nem deixa possuir-se da attracção irresistivel porque a desconhece. A
+vida é assim para ti; passas despreoccupada do mundo, levada na ondulação
+saudosa d'essas vozes interiores que te segredam mysterios indefiniveis que
+fazem sentir o desejo de voar para o alto, até perder-se no azul.</p>
+
+<p>Os teus cabellos, quando os deixas cair destrançados sobre os hombros de
+marfim, agitados pela brisa vespertina que vem confidenciar comtigo á janella,
+que olha para o occidente, esses cabellos louros, extensos, são como as cordas
+de uma harpa, em que as imagens incoerciveis de teus pensamentos vêm fallar do
+céo, do amor, no frémito ligeiro, quasi imperceptivel das vibrações que só tu
+comprehendes.<span class="pn">{4}</span></p>
+
+<p>Consternada e muda como uma estatua, a Niobe grega, o teu silencio incute
+uma sublimidade prophetica; parece guardar a impressão do sêlo mais tremendo do
+Apocalypse,&mdash;a missão da mulher forte.</p>
+
+<h2>III</h2>
+
+<p>Quem sabe se é o amor que a transporta assim para as solidões, como a pomba
+que vae esconder-se na rocha alcantilada? O amor que esmalta a vida de
+harmonias e encantos, que acorda as virações para levarem longe o pollen
+fecundante, que abre o calyce das flores para as abelhas tocarem os nectarios
+deliciosos, que une o gemido do regato trepido com o ruido, brando que
+adormece, do canavial que orna as margens sinuosas? O amor é um amplexo, a
+identificação; como poderia divorcial-a com a vida, mudar a sua alegria em uma
+tristeza que é como o presentimento do sepulchro? Aquelle segredo
+incommunicavel opprime, aterra como a sphinge propondo o enigma.</p>
+
+<p>Ella cada vez andava mais desfallecida, pendia de cansaço, offegava; mas
+procurava illudir os disvelos da familia com um vigor que não tinha, como
+succede ao naufrago quasi a afferrar a terra, de que a ressaca da onda o
+afasta, e que hesita se deve luctar mais tempo, se deixar-se engulir nas
+voragens do oceano. Gravitaria ella em volta de um mundo em que procurasse
+absorver-se, e<span class="pn">{5}</span> a vida da terra, de cá, fosse como o
+refluxo que a impellia para longe? Pobre flôr, que se debruça nas bordas da
+sepultura, será uma illusão quanto a sua alma ingenua sente? Serão uma mentira
+todas as harmonias que se modulam lá dentro? O tapiz verde da relva fresca,
+lubrica, que a chama para vir doidejar ali n'um volteio feérico, febril,
+esconder-lhe-ha o lodo de um charco estagnado que a ha de engulir para
+sempre?</p>
+
+<p>Tenho medo de vêl-a assim, com os olhos fitos no horisonte, n'essa morbidez
+do extasis; a vertigem póde sacudil-a, e precipitar-se, como a borboleta
+prateada e indiscreta. A sua alma eleva-se para o céo; porque vôa tão cedo para
+cima a nevoa da madrugada, de uma alvura nitente? A andorinha quando parte, vôa
+na aza da rajada hybernal que a arrebata.</p>
+
+<p>Mas o mundo acariciou-a sempre; porque se esconde pois e foge d'elle? Será a
+reminiscencia viva do foco de luz d'onde saiu, que lhe inspira tamanha
+anciedade, e lhe abre n'alma uma saudade vivissima, que mata? Ás vezes está
+tranquilla, immovel, como quem escuta a toada de um concerto mavioso que embala
+e com que se adormece. Oh, quem ousará despertal-a? Seria perturbar a
+crystalisação de uma gota de orvalho que se transforma em perola. Outras vezes
+tem o olhar pavido, firme, de quem contempla e pasma ante uma visão immensa e
+augusta. Que apparição risonha virá fallar-lhe? Eros, na solidão remota da
+noite? Será o desejo de vêl-o, o desalento<span class="pn">{6}</span> do
+impossivel, que a fazem reconcentrar assim n'essa dôr? Uma lagrima era a gota
+do oleo aromatico da alampada escondida; em vez de fazel-o desapparecer,
+envolto na nuvem branca e etherea, a lagrima trazel-o-hia como um grande astro
+que attrae após si myriades de planetas.</p>
+
+<h2>IV</h2>
+
+<p>A tarde declinava amena, festiva, com o ultimo lampejo de graça que deixa
+presentir já a melancholia do outomno. Emma ergueu-se da mesa; o rosto estava
+deslumbrante de transfiguração, possuida do sentimento do infinito, que lhe
+dava uma expressão sobrehumana, excelsa, que se não podia fitar, similhante á
+<i>Seraphita</i> enlevada nas illuminações swedenborgianas, ao transpôr os
+precipicios icarios, inaccessiveis dos <i>fiords</i> da Norwega.</p>
+
+<p>N'aquella tarde parecia oppressa por uma angustia mais intima. Segui-a,
+queria admiral-a na altura a que se remontava, queria que me fizesse herdeiro
+do seu manto prophetico, no instante em que se librasse no carro de fogo, como
+Elias. E ella era bem a prophetisa do deserto. Approximei-me. Estava serena e
+placida, como quem mergulhára no oceano da contemplação. De mais perto vi que
+dormia, com um somno hypnotico. Ficára-lhe um sorriso estampado nos labios;
+parecia o involucro de uma chrysalida mysteriosa;<span class="pn">{7}</span> a
+borboleta voára para a luz, abandonára-o na terra.</p>
+
+<p>Conservava então um livro sobre o regaço; a mão inerte repousava sobre a
+pagina. Um leve signal notava uma phrase profunda em que a alma se lhe
+absorvêra: «<i>Um anjo está presente a um outro, quando elle o deseja</i>.»</p>
+
+<p>Procurei vêr de quem era o livro. Era escripto por Swedenborg, o patriarcha
+dos theosophos do norte, o que levou mais longe as relações com o mundo
+invisivel. O livro intitulava-se: <i>A sabedoria angelica da omnipotencia,
+omnisciencia, omniprezensa dos que gosam a eternidade, a immensidade de
+Deos.</i></p>
+
+<p>Emma acordou de subito. Senti um estremecimento de terror, começava a
+comprehender a sua solidão. Eu mesmo tinha estudado a <i>segunda vista</i>,
+colligido alguns phenomenos de suggestão que se passavam no meu espirito,
+conseguira por uma excitação nervosa perenne a hypnotisação voluntaria.</p>
+
+<h2>V</h2>
+
+<p>Tambem no livro <i>De varietate rerum</i> descreve Jeronymo Cardan a
+faculdade que tinha de experimentar o extasis espontaneo, e de tornar
+objectivas as imagens creadas na sua mente: «Quando eu <i>quero</i>, vejo o que
+me apraz, e isto não só com o espirito, mas com os olhos, com essas<span
+class="pn">{8}</span> imagens que eu via na minha infancia. Mas agora creio que
+ellas são o resultado de minhas occupações. É certo que nem sempre possúo esta
+faculdade, comtudo não a tenho senão quando quero. As imagens que eu vejo estão
+sempre em movimento; é assim que vejo as florestas, os animaes, os diversos
+paizes e tudo quanto eu quero vêr. Creio que a causa de todos estes effeitos
+está na actividade da minha imaginação e n'uma vista penetrantissima. Desde a
+minha infancia tinha de commum com Tiberio Cesar o poder vêr na obscuridade
+mais profunda, como em pleno dia. Porém não conservei muito tempo esta
+faculdade. Apesar d'isso vejo ainda alguma coisa, postoque não posso distinguir
+bem o que vejo; e attribuo este effeito ao calor do cerebro, á subtileza dos
+espiritos vitaes, á substancia do olho, e á energia da imaginação.» (Lib. IV c.
+43.)</p>
+
+<p>É esta uma qualidade vulgarissima nos povos do norte, principalmente os
+insulares, conhecida sob a denominação de <i>Second sight</i>. Ahi a imaginação
+tendo pouca variedade de paizagem que a fecunde, volta sobre si o que ha
+edificado e exagera-lhe as proporções. Por isso as theogonias do norte são
+terriveis. As avalanches suspensas a precipitarem-se, os nevoeiros diffundidos
+por toda a parte como um sudario immenso e frio, a aurora dos polos a
+desdobrar-se esplendida, tudo faz sonhar de um mundo phantastico, escutar essas
+toadas vagas, indefiniveis dos espiritos que se annunciam pelo ressoar de uma
+harpa longinqua.<span class="pn">{9}</span> O dom da visão é commum; é assim na
+ilha de Ferroë. Que virgens se não ostentam n'uma apparição repentina, e que o
+vidente procura, sem nunca mais poder encontral-as! Balzac, o observador sem
+egual do coração, sentiu toda a poesia do norte no poema de <i>Seraphita</i>; é
+um mysterio, o enlace da philosophia e da poesia, um extasis indecifravel de
+Swedenborg, contemplado nas <i>fiords</i> da Norwega. O delirio de
+<i>Seraphita</i> é o problema incessante da percepção immediata; o seu amor é
+mais puro que o ideal de Dyotima, é elle que lhe dá a <i>segunda vista</i>.</p>
+
+<p><i>Taishatrim</i> e <i>Phissichin</i> são os nomes que em lingua gaëlica se
+dão aos que tem esta faculdade. Os factos observados são innumeros, o seu
+estudo é dos nossos dias. Kant combateu a doutrina visionaria de Swedenborg,
+mas não attendeu que este phenomeno physico era todo sentimental; viu no
+patriarcha dos videntes do norte um impostor. A vida exemplarissima de
+Swedenborg é um desmentido completo e irretorquivel aos argumentos d'esta
+ordem.</p>
+
+<p>Como explicar a inspiração continua, a <i>segunda vista</i>? A alma paira
+entre dois mundos&mdash;o physico com que se relaciona pelos sentimentos, o psychico
+com que se relaciona pelos presentimentos; se é attrahida para o mundo dos
+corpos, predominam n'ella os instinctos, e as sensações, todas relativas, só
+lhe advém pela presença dos objectos; se a alma por um desejo vehemente se
+eleva do estado de <i>anima</i> ao de <i>spiritus</i>, os sentimentos<span
+class="pn">{10}</span> desprendem-se do nexo das relações terrestres, e
+conhecem tudo independente das sensações pela representação subjectiva. É o que
+acontece aos poetas, cantando a belleza de fórmas não sonhadas, a reminiscencia
+de harmonias não ouvidas.</p>
+
+<h2>VI</h2>
+
+<p>Emma estava n'aquella tarde tão affavel! tinha por certo a consciencia de ir
+em breve completar-se na essencia de algum anjo. As suas fallas eram como
+suspiros. Lançou-me um olhar interrogativo, de quem temia fazer-me uma pergunta
+indiscreta. Eu desconhecia-lhe aquella affabilidade de seraphim, costumado a
+vêl-a sempre aéria, desdenhosa do mundo, radiante como na transfiguração do
+Thabor. Apertei as mãos d'ella entre as minhas, queria tirar um som d'este
+instrumento celeste, cujo segredo de harmonia era só percebido pelos anjos. Se
+podesse desferil-o, havia de perguntar-lhe o motivo de tanta tristeza, a
+intensidade d'essa dôr tão intima, tão espiritual, que se não póde exprimir na
+materialidade phonica da palavra. Ella adivinhou o meu desejo:</p>
+
+<p>&mdash;Tens uma <i>vontade</i> energica?&mdash;perguntou-me quasi a medo e de um modo
+sybillino. Seria uma phrase abrupta para qualquer, e inintelligivel até; eu
+porém que devo á actividade só d'esta<span class="pn">{11}</span> faculdade
+tudo quanto sou, as grandes dôres, os impulsos irresistiveis, as glorias
+sonhadas, a realisação dos mais exiguos appetites, que a encontro na
+intensidade absoluta do <i>Fiat</i>, que é Deus, que a vejo nos grandes factos
+do espirito, a Religião, o Direito e a Arte: na religião manifestando-se
+emotivamente na fé; no direito, no accordo dos contractos individuaes; na arte,
+no ponto onde os gostos diversissimos se harmonisam, isto é o bello; eu,
+repito, comprehendi aquella interrogação na sua plenitude. E começava a
+conhecer mais o poder da <i>vontade</i> porque acabava de observar o resultado
+do acto em que a exercera.</p>
+
+<p>Emma fitou-me com um olhar profundo; o semblante era magestoso e santo, como
+o frontispicio de uma cathedral da Edade média; as flexas, as linhas
+architectonicas a infinitivarem-se para o alto, eram os seus cabellos; o olhar,
+o olhar que me opprimia n'esse instante, era mysterioso como uma ogiva sombria.
+Tive o medo do neophyto, quando ouve mugir a caverna, e escoar-se a brisa
+gelida e olorante pela fenda do penhasco, e quasi que se esvae em terra sem
+sentidos, ao vêr attonito as convulsões do hierophante. Emma perguntou-me se eu
+cria nas relações com o mundo invisivel. Hesitei um instante, depois volvi:</p>
+
+<p>&mdash;Creio, mas não as sei demonstrar por uma fórmula, que, embora refutavel,
+tenha valor philosophico.&mdash;Ella ouviu-me com o pezar e serenidade de uma joven
+esposa na sua viuvez, que<span class="pn">{12}</span> ouve o filhinho a
+perguntar-lhe pelo pae. Depois murmurou, encostando a face sobre o meu
+peito:</p>
+
+<p>&mdash;És tão novo ainda, e porque matas em ti já o sentimento pela reflexão? A
+reflexão é fria, é terrena, não comprehende sem decompôr para recompôr. Como se
+ha de ella elevar ao simples, ao absoluto, que tem por attributo supremo a
+indivisibilidade? A luz, que é incoercivel, não se espelha na face quieta do
+lago? O sentimento é assim; só elle te póde levar além das relações e das
+contingencias. A substancia é unica; esta essencia d'ella é que prende pela
+unidade a multiplicidade dos attributos. Todas as vezes que te absorveres na
+unidade que te allia como attributo ou modo á substancia, entraste na essencia
+de todas as cousas, porque o simples que actua n'esse momento em ti, é o mesmo
+em que tudo existe. Vibra em ti a harmonia universal.</p>
+
+<p>E continuou com palavras quasi imperceptiveis. Estava em extasis, no extasis
+da abstracção, como o sentia Newton quando determinava a essencia de uma ordem
+de factos complexos, na lei que havia ficar eterna, e a que havia imprimir o
+seu nome. Tive vontade de lançar-me por terra, diante d'aquelle espirito
+incomprehensivel; precipitava-me se ella me dissesse como satanaz, quando
+arrebatou Jesus ao pinaculo do templo:&mdash;<i>Haec omnia tibi dabo, si cadens
+adoraveris me.</i><span class="pn">{13}</span></p>
+
+<h2>VII</h2>
+
+<p>Quando Emma saiu da sua mudez sublime, recostou-se sobre o meu hombro com
+uma graça infantil:</p>
+
+<p>&mdash;Ainda não sabes porque ando triste? Olha, uma tarde, puz-me a escutar o
+murmurio de um regato; parecia-me ser uma musica interior. Tive vontade de
+saber o que dizia, de confidenciar com elle, de communicar minha alma, que
+aspirava n'uma sêde de amor. Ao trepidar mavioso da vêa crystallina, scismava,
+devaneiava, enleiada, embevecida. Adormeci. Pareceu-me então aquelle cicio,
+como de azas de um cherubim que baixasse a meu lado; via a claridade de alvura
+de suas roupagens longas, estava silencioso ao pé de mim. Mostrava a expressão
+da serenidade augusta, uma apparencia que consolava. Acordei, e o mundo
+affigurou-se-me um desterro, a vida um carcere, tinha uma impaciencia de voar,
+de fugir, o desejo irrepresivel de tornar a vêr o semblante risonho d'aquelle
+que me veiu mostrar o mundo intransitavel para a vida, como sarçal espinhoso.
+De outra vez appareceu-me, brilhante como Iahveh na sarça ardente. Era sempre
+silencioso. O amor emmudecia-me diante d'elle, quiz seguil-o na visão que se
+esvaecia lentamente, mas o corpo estava preso aos limos terrenos, como o
+cordeiro que se prende nas urzes do matagal. A ancia do extremo esforço
+despertou-me.<span class="pn">{14}</span> Foi assim que nasceu essa melancholia
+profunda, concebida diante do impossivel. Mais tarde conheci o mysterio da
+<i>vontade</i>; isolei-a em mim, para revocar o ente dos meus sonhos á
+realidade de um instante. Quasi que me abrasava na intensidade do querer. Elle
+appareceu-me mais triste. Perguntei-lhe se amava? Sorriu-se. Que era preciso
+para completarmos uma mesma essencia? o sorriso converteu-se em uma alegria
+doida, e disse-me vagamente&mdash;vôa da terra. Nunca mais tornou a visitar-me no
+desolamento em que vivo. A vida assim é o vegetar do lichen na humidade das
+lagrimas derramadas de hora em hora. Porque não hei de voar da terra?</p>
+
+<h2>VIII</h2>
+
+<p>Ouviu-se trindades n'esse instante; cerrava-se a noite, frigida; o luar
+vinha saudoso. Emma pediu-me para deixal-a só. Por alta noite via-se a luz
+derramar-se pela vidraça do seu quarto, luz viva, silenciosa, como da alampada
+do philosopho hermetico surprehendendo a natureza em algum dos seus segredos
+mais reconditos.</p>
+
+<p>Emma lia no livro predilecto, que eu deparára aberto sobre o regaço. Pouco
+depois começou a alvorada. Quando o silencio era mais solemne e a natureza
+inteira parecia reconcentrar-se em santos mysterios, sentiu-se em casa um
+estrondo surdo, como o baque de um corpo morto, depois<span
+class="pn">{15}</span> o bracejar, de quem se debatia nas vascas do paroxismo.
+Ergueram-se á pressa, foram apoz o ecco. Era no quarto de Emma. Seria algum
+pezadello longo? A porta cedeu á promptidão do soccorro. Foram encontral-a em
+terra, morta, a pouca distancia do fogão, que saturava o ar ambiente de
+exhalações carbonicas. O corpo já estava frio; o rosto tinha a pallidez do
+marmore. A pouca distancia d'ella estava aberto o livro fatal das exaltações
+mysticas de Swedenborg.</p>
+
+<p>Lia-se esta phrase profunda:</p>
+
+<p>«A innocencia dos céos produz uma tal impressão na alma, que os que são
+affectados d'ella guardam um transporte que lhes dura toda a vida, como eu
+mesmo experimentei. Basta talvez ter uma minima percepção para ser para sempre
+<i>mudado</i>, para querer ir aos céos e entrar assim na esphera da Esperança.»
+</p>
+
+<p>Seguiam-se outras palavras. Tive medo de lêr mais, porque começava tambem a
+sentir a seducção da melancholia e reconcentração subjectiva, que leva ao
+suicidio.<span class="pn">{16}<br>{17}</span></p>
+
+<h1>O véo</h1>
+
+<p>Tive apenas um amigo na infancia.</p>
+
+<p>Sinto abrir este conto com a minha personalidade; e, sem pretenções a
+<i>humorismo</i>, nem a estylo digressivo, conheço que a pessoa de um auctor
+inculcando-se na sua obra produz o effeito desagradavel, que o senso esthetico
+original de João Paulo nota no quadro em que o pintor agrupasse tambem a
+palheta, o cavallete e os pinceis. O valor da personalidade pouco é; os antigos
+comprehenderam-n'a perfeitamente, quando deram o nome de <i>persona</i> á
+mascara que o actor trazia para reforçar a voz. A personalidade que se toca,
+serve para o trato da rua; a individualidade, o caracter, revelado na vontade,
+são immanentes no livro, são o livro. Antes porém de fechar o parenthesis ahi
+vão algumas linhas sobre a pessoa do meu unico e primeiro amigo, um <i>alter
+ego</i>, ou <i>fidus Achates</i>, como diriam<span class="pn">{18}</span> dois
+estudantes de selecta. Não nos démos de repente. Tinhamos o mesmo nome de
+baptismo, faziamos annos no mesmo dia, começámos a versejar ao mesmo tempo; a
+affinidade electiva entre nós não provinha d'estas coincidencias, nunca
+reparámos n'ellas; era uma amizade de terror, respeitavamo-nos. Na eschola
+fômos sempre antagonistas; quando passámos a estudar latim, ficámos
+surprehendidos ao vermo-nos algemados ao <i>hora</i>, <i>horæ</i>. Ainda os
+mesmos desforços, o mesmo orgulho. Então já nos consultavamos sobre alguma
+duvida de syntaxe, como de potencia a potencia. Mais tarde encontrámo-nos sobre
+o mesmo banco a ouvir as prelecções estupidas de logica, a logica que nos havia
+de tornar máos, capciosos, ergotistas. Já não nos temiamos, eramos amigos,
+tinhamos necessidade um do outro. Depois vieram as confidencias estreitar mais
+esta <span class="typo" title="no original: ffeição">affeição</span>. Foi elle o primeiro a fazel-as. Não sei se era amor, compaixão ou
+cynismo a primeira aventura que me contou. Era assim:</p>
+
+<p>«Eu tive uma prima, não sei em que gráo, culpa das subtilezas canonicas. A
+pobre criança possuia uma morbidez voluptuosa no olhar, não os tirava de mim. A
+côr morena dizia tão bem com as linhas nitidas da physionomia arabe, que ella
+sabia animar com um ár doloroso de uma melancholia expressiva, que se lhe
+reflectia na face! Eu ficara orphão de mãe e costumara-me a brincar sósinho;
+ella procurava-me na minha solídão, sentava-se junto de mim; o seu olhar
+incommodava-me.<span class="pn">{19}</span> Mas tinha medo de fugir-lhe,
+doía-me esta indifferença e para disfarçal-a trepava acima das arvores
+carregadas de fructos do pomar onde passavamos o verão, e de lá deixava cahir
+aquelles que mais se douravam com os raios do sol de agosto, os que me expunham
+a maiores perigos. Ella aparava-os no regaço com a affabilidade com que se
+queria associar aos meus folguedos.</p>
+
+<p>«Afinal teve vergonha de mim; córava, escondia a face entre as mãos, ficava
+pensativa e depois fugia-me. N'este tempo contava eu algumas lições de desenho;
+os meus arabescos tinham uma frescura de innocencia, uma rudeza que parecia uma
+creação pura arte medieval. Eu tinha a monomania de esboçar cabeças. Não sei
+quem na familia, me pediu que fizesse o retrato d'ella. Fil-o. O caso deu-lhe
+uns longes de similhança, tive vergonha da verdade; quando ella me agradeceu
+com um sorriso timido, eu rasgava o papel com a crueldade de uma criança que
+brinca. Não a tornei a ver n'aquelle dia, escondera-se a chorar. Não tinha
+culpa d'esta frieza brutal; a falta de carinhos perdidos logo no berço, a
+verdade d'esse verso eterno de Virgilio:</p>
+
+<blockquote>
+ <i>Est mihi pater domi et injusta noverca</i> </blockquote>
+
+<p style="text-indent: 0;">tornaram-me taciturno, incredulo antes de tempo. Ás
+vezes obrigavam-me a brincar com ella. Uma vez fômos todos banhar-nos no
+Atlantico. A pobre criança tambem foi. As marés eram gigantescas;<span
+class="pn">{20}</span> era dia para mim de um orgulho immenso, gostava que me
+vissem nadar; mostrava uma superioridade minha. O acaso seguia-me o desejo. Uma
+onda envolveu no seu marulho a infeliz Branca; no refluxo levou-a comsigo.
+Desfalleceu de susto e foi levada pela vaga, como Ophelia na corrente. Quem
+sabe se ella no seu coração tecia alguma corôa para mim.</p>
+
+<p>«Abracei-a pela primeira vez, impellido por uma força interior; sustive-a
+nos braços, estava fria, pallida. Quando abriu os olhos teve vergonha de mim;
+era já o pudor de senhora. Trouxe-a sem custo para a praia, e continuei em
+carreiras no dorso da vaga, que se encapellava. Fôra o meu primeiro passo para
+homem.</p>
+
+<p>«N'esse mesmo dia brincámos, jogando o <i>anel</i>, um divertimento
+infantil, de que ainda guardo saudades. N'este folguedo de crianças o que tem o
+anel é sentenciado pelos demais a levar beijos e abraços, ou a dal-os, segundo
+o capricho. Tinha o anel a filha do feitor que brincava comnosco, Annita, uma
+rapariga de uma candura estreme. Branca pediu-lhe em segredo que ao percorrer a
+roda deixasse cair o anel entre as minhas mãos. Assim se deu. Um perguntava o
+que promettiam a quem tivesse o anel. Cada qual se lembrou de uma prenda
+innocente e insignificativa; Branca prometteu um beijo e um abraço muito
+apertado.</p>
+
+<p>«Eu não devia contar-te mais, porque me sinto infame! Este beijo perdeu-a
+para sempre, como o beijo de Paulo e Francesca di Rimini. Branca foi<span
+class="pn">{21}</span> crescendo, tornou-se formosa á luz de uma esperança
+fugitiva, como a flôr de um vaso, quando recebe, ao estiolar-se, o calor
+ephemero do ultimo raio do sol da tarde. Quando ella me sorriu com amargura, e
+córou de sua queda, sorri tambem por compaixão, illudi-a. Que fazer, se eu era
+tão novo, inconsciente, e queria divertir-me, gosar o mundo?</p>
+
+<p>«Uma vez tinha eu voltado pela ante-manhã de uma festa louca. Dormia a somno
+solto, prostrado pela fadiga, esgotado da orgia desenfreada. Senti uma mão fria
+passar-me de leve nas faces, acordei.</p>
+
+<p>«Era ella! Appareceu desmaiada, como a vi uma vez ao luar silencioso, com
+uma côr que lhe realçava a candidez, e disse-me:</p>
+
+<p>&mdash;«Vim vêr-te na despedida do tumulo. Desde que adoeci nunca mais me
+appareceste. O esquecimento é frio e pesado como a lagem sepulchral. Eu não
+queria dizer-te isto, não quero magoar-te; perdôa. Olha, hoje acordei de um
+sonho tão lindo! deu-me forças para levantar-me do leito e vestir-me de branco
+para vir contal-o a ti só. Como não choraria minha mãe que me vela se o
+soubesse! Não sei se velava, se dormia; minha alma parecia voar, suspensa n'uma
+como cadencia, vaga, quasi imperceptivel, confundia-se com ella até perder-se
+no céo. Acordei de subito; restava-me só a illusão. Olhei em roda; a
+alampadasinha tornava a solidão pungente, augusta; pavoroso o silencio do meu
+quarto. Comecei<span class="pn">{22}</span> a lembrar-me de ti, dos passados
+tempos; estava já na terra. Foi quando descobri a meu lado uma apparencia
+angelical, a falar-me de mansinho uma linguagem que eu mal entendia: que o
+Senhor o enviara para chamar-me. Eu não pude voar, voar com elle, e sinto agora
+que a alma me foge; venho dizer-te adeus.</p>
+
+<p>&mdash;E o que lhe respondeste?</p>
+
+<p>&mdash;Elle continuou:</p>
+
+<p>«Disse-lhe que os sonhos mentiam sempre, que elles a matavam.&mdash;«Não são os
+sonhos que me matam, gemeu a desgraçada, é a realidade, a realidade. Bem o
+sabes, e esse que tudo vê. As recordações são para mim como um remorso. Que
+noites, que vigilias inteiras a pensar em ti! cada palavra tua, que eu
+decorava, era um poema de amor e esperança; ao repetil-as na mente diziam-me
+quanto a alma anceava, e mais ainda, mas enganaram-me sempre. Lembras-te
+d'aquella noite? Oh! meu Deus, meu Deus. Não sabes quanto me fizeste soffrer!
+Não conheceste a profundidade do golpe quando o descarregaste! Disseste-me
+essas palavras só para perder-me. É impossivel que isto te não dôa? Quando me
+appareceste n'aquella noite era o luar tão sereno, tudo confidenciava comnosco.
+Estava adormecida quando chegaste. Depois de me estreitares nos braços e
+beijares as faces geladas pelo rociar da noite, porque sorriste de um modo
+incomprehensivel? Descobriste-me que não casavas commigo, que outro havia
+polluido a minha candura!<span class="pn">{23}</span> Era uma blasphemia
+brutal. Deixei-me cair em teus braços, sacrificando-te a virgindade para que a
+reconhecesses. Desde essa noite não me tornaste mais a amar. Illudi-te? Porque
+assim me fugiste? Uma lagrima só rehabilitava-te diante de Deus. É tarde, muito
+tarde. Vim só para despedir-me e perdoar-te. Adeus.»</p>
+
+<p>&mdash;E tu que lhe respondeste?</p>
+
+<p>«Voltei-me sobre o outro lado, e continuei a dormir.</p>
+
+<p>&mdash;Prosegue.</p>
+
+<p>«Foi um pezadello atroz aquelle somno. Julgava-me em uma orgia immensa, na
+hora ominosa do sabbat nocturno. Um bando de mulheres volteava reunido em uma
+corêa desenvolta, n'um tripudio infernal, ao redor de um carvalho lascado pelos
+raios que se cruzavam a espaços na solidão e escuridade absoluta da noite.
+Dançavam como possuidas do mesmo furor que inspirava a corneta de Oberon.
+Quando eu ia mais arrebatado pelos requebros voluptuosos, enlaçado a um par
+ligeiro e flexivel, senti um leve suspiro a meu lado, que se perdeu nos áres.
+Era como o segredo de uma magoa que eu bem conhecia. Parei. Adormecera a ler
+uma ballada dos peregrinos do Rheno contada por Bulwer. Junto a mim descobri
+uma figura de mulher linda, etherea; o semblante tinha a serenidade de uma
+grande agonia que cauterisa, uma tristeza mais vaga do que a impressão de
+saudade que a lua desperta quando se reflecte n'uma lagoa quiéta. Era como um
+seraphim<span class="pn">{24}</span> quando chora. Não pude olhal-a; a candura
+do seu antigo amor exprobrava-me o cynismo. A viração que ciciava não repetiria
+tão brandamente o que ella disse:</p>
+
+<p>&mdash;«Não sabes como te amo ainda além da campa! o gelo do sepulchro não pôde
+apagar o fogo em que os teus olhos me abrazaram. Esqueci o teu desprezo para
+perdoar-te. Para que havia ter mais esse flagicio na eternidade? Que destino,
+que felicidade a nossa, que regosijo no céo, se não houvesses ludibriado este
+amor! Nossas almas absorver-se-hiam na essencia de um anjo, enlevadas n'um
+sonho de harmonia, até despertarmos no empyreo. Assim precipitaste-me na mansão
+das penas e soffrimentos, onde o meu espirito se apura. O amor terreno tenho-o
+expiado no fogo. Vês este cendal de alvura transparente? estava quasi a
+tornar-se brilhante de gloria! Pedi a Deus este momento tão breve para poder
+agora ver-te; o goso fugitivo de contemplar-te, a esperança de te achar triste,
+scismando em mim com pezar e saudade, a troco de mais cem annos de novos
+soffrimentos! Cem annos mais, depois de te encontrar nos braços de outras
+descuidado, rindo desvairado n'uma orgia dissoluta. Oh, mas eu não sei senão
+perdoar-lhe.»&mdash;E desappareceu-me, continuou elle, como um meteoro fugaz, quando
+passa nos céos, e deixa após si um rasto luminoso. Acordei.</p>
+
+<p>«Em casa ouviam-se gritos, alaridos, como de um successo repentino e
+funesto. Fui a vêr. Disseram-me<span class="pn">{25}</span> que Branca
+desapparecêra. Cheguei a convencer-me da realidade do sonho, que um anjo a
+levára comsigo. Perguntei debalde. Passou-me pela mente um presentimento
+horrivel. Branca costumava ir sentar-se sobre uma rocha que se debruça sobre o
+mar, e em cujas furnas as vagas restrugem com um stridor surdo, como o anceio
+do ultimo esforço n'uma lucta desegual. Protegida pelo nevoeiro da madrugada,
+mais veloz que a ondina da mythologia slava, a pobre fôra saciar os pulmões
+ralados da febre lenta que a devorava. Houve quem a visse dependurada na aresta
+dos fraguedos, o véo branco que levava fluctuar ao vento, como n'um adeus de
+despedida. Ella sentira n'esse instante a attracção do abysmo, lembrou-se
+d'aquella tarde de agosto, em que eu a salvara, trazendo-a com um abraço á
+vida; quiz morrer com a recordação mais doce que levava do mundo.
+Precipitou-se. E o mar murmurava sereno e manso, como a embalar-lhe o seu
+ultimo somno.</p>
+
+<p>«Comecei então a sentir uma paixão por ella, depois de morta; se a terra a
+tivesse escondido, eu a iria arrancar ao repouso sagrado da sepultura,
+beijal-a, animal-a com o fogo do meu delirio, despedaçal-a n'estes braços
+convulsos, e cair tambem inanime. Queria sentir bem junto do peito o contacto
+gélido de um corpo que eu tantas vezes apertei, das faces que eu devorava,
+quando ella se dava aos caprichos da minha vertigem. Havia n'este amor um
+pensamento de halucinado,<span class="pn">{26}</span> um tanto de selvagem, de
+monstruoso; impellia-me uma inquietação continua, sentia em mim um como ranger
+de puas do remorso, a voz que interroga Caim. Fugia, não queria consolações. Eu
+ia sentar-me tambem na rocha escarpada, a vêr o mar, procurando a serenidade
+que me inspirava a contemplação do sepulchro da minha amada. Vinha visital-o, á
+busca d'esse allivio de que fala o poeta do Oriente.</p>
+
+<p>«Eram decorridos já tres dias, não se vira mais o corpo de Branca; o mar
+queria-o para si, mas eu tinha uma vontade fervente, absoluta, o desespero de
+tornal-a a vêr linda, roxa, núa, desfigurada. Era o mais que podia soffrer. Ia
+a maré na vasante, no fim da tarde, as ondas gemiam brandamente no areal
+deserto, as virações da noite sopravam frias, humidas das bandas do poente.
+Quando desci da rocha escarpada, encontrei inesperadamente o corpo de Branca
+estendido na area. Era uma criança descuidada, adormecida; a onda que a tinha
+despido para namorar-lhe a alvura do corpo, viera deposital-a na praia. Ia a
+precipitar-me para ella, unil-a a mim no frenesim d'essa loucura. Tive medo!
+recuei sem encaral-a. Temi profanal-a com a vista; estava quasi núa, de costas,
+com os olhos no céo, como pedindo á noite que viesse recatal-a no seu manto de
+trévas. Quando tornei junto d'ella com o lençol para a envolver, senti uma
+ancia de passamento, a lucidez de quem entrevê a eternidade: conheci que o
+cadaver de Branca se voltara<span class="pn">{27}</span> <span class="typo" title="no original: debruços">de bruços</span>, furtando á
+vista profanadora o verticello pudibundo da flor que eu fizera pender sobre o
+caule e cahir emmurchecida. O inexplicavel deixou-me um terror que ainda me
+dura...»</p>
+
+<p>Não tive animo para lhe pedir que continuasse.<span
+class="pn">{28}</span></p>
+
+<p><span class="pn">{29}</span></p>
+
+<h1>A estrella d'alva</h1>
+
+<h3>(<small>CONTO MARITIMO DO SECULO XVI</small>)</h3>
+
+<blockquote>
+ <p>N'isto andava tudo, que se não poderiam pôr os olhos em parte onde se não
+ vissem rostos cobertos de tristes lagrimas, e de uma amarelidão, e
+ trespassamento de manifesta dôr, e sobejo receio que a chegada da morte
+ causava, ouvindo-se tambem de quando em algumas palavras lastimosas, signal
+ certo da lembrança, que ainda n'aquelle derradeiro ponto não faltava dos
+ orphãos e pequenos filhos, das amadas e pobres mulheres, dos velhos e
+ saudosos paes que cá deixavam, etc.</p>
+
+ <p style="text-align:right;margin-left:auto;margin-right:0;"><i>Hist.
+ tragico-maritima</i>, t. <small>I</small>, p. 55.</p>
+</blockquote>
+
+<p>O sol esmaltava as côres limpidas do horisonte com uns cambiantes de purpura
+e de azul, cujo cariz incompleto e vago reflecte a melancolia suave em que a
+alma se concentra n'essa hora fugitiva da tarde. O horisonte fechava-se
+lentamente, como o véo de um templo que se cerra. As virações travéssas da
+noite volitavam encrespando a face trémula das aguas, que lhes respondiam ás
+caricias inquietas, confidenciando com um murmurio sonoroso e confuso. O galeão
+soberbo da India singrava<span class="pn">{30}</span> ufano, buscando em prôa a
+terra querida da patria; levado nas azas das monções propicias, a vela branca
+desfraldada aos ventos, tinha o garbo da garça altaneira que se libra vaidosa
+por sobre as ondas, que ella vae roçando de leve. A flamula ondulante, hasteada
+no tope do mastro de mezena, serpeava nos áres como em adeus silencioso ás
+ribas odoriferas do Oriente, a despedida ao paiz dos sonhos e das maravilhas. A
+natureza como que se absorvera nos encantos d'esta hora; havia um segredo
+intimo em cada toada perdida d'este concerto do declinar do dia.</p>
+
+<p>Longo tempo um mancebo encostado á amurada do navio, com os olhos fitos na
+corrente das vagas, permanecêra absorto n'um scismar incessante, como quem
+atava na mente as apparencias de um sonho mentido, como quem procurava alentar
+a ultima esperança que prende á vida, e que é como a hera das ruinas.
+Conhecia-se-lhe na respiração comprimida no peito, que offegava de cansaço, o
+esforço acintoso com que procurava afastar da lembrança um sentimento funesto.
+</p>
+
+<p>A pallidez retincta nas faces cavadas pelas insomnias longas e afflictivas,
+era a expressão dos pensamentos tenebrosos, confusos, incoherentes, que vinham
+povoar-lhe a anciedade das vigilias. Quem o visse sentiria uma dôr egual
+áquella, uma vontade irresistivel de entornar-lhe em sua alma o balsamo das
+consolações, com a prodigalidade do affecto com que a moça desenvolta de
+Magdala vinha derramar aos pés do divino<span class="pn">{31}</span> Mestre os
+perfumes inebriantes da sua urna de alabastro.</p>
+
+<p>Quem o visse na mudez expressiva d'aquelle desalento, no desamparo e
+soledade de todas as alegrias da vida, sentia-se levado para elle, como por um
+condão fascinador, que ás vezes possuem certos olhares que ninguem póde fitar e
+de que se tem medo. A brisa fresca da noite, que soprava do poente, como
+trazendo-lhe o presagio do ocaso de suas esperanças, vinha volatilisar a
+lagrima timida e ingenua que tremeluzia viva na pupilla scintilante.</p>
+
+<p>A este tempo appareceu sobre o convés do galeão alteroso um outro vulto,
+todo armado contra a rajada asperrima da noite, que se ia cerrando:</p>
+
+<p>&mdash;Ainda aqui, Fernão Ximenez? embebido n'esse longo scismar em que o passado
+se te affigura doloroso e feio? Para que foges de teu irmão? Bem vês que eu
+procuro distrair-te d'essa agonia lenta que te vae minando a essencia debil da
+vida, d'esse espasmo da atonia que produz em ti a mudez do sepulchro. O que
+tens tu em uma vida de criança, innocente, sempre desprevenida, para que o
+occultes a teu irmão, ao amigo que soffre com o teu soffrimento, e que exulta
+com as tuas alegrias? Uma ave, quando é levada para um paiz distante, longe do
+ninho que lhe ouviu balbuciar os primeiros trillos de amor, quando lhe falta a
+bafagem tepida das auras em que se espanejava contente, desfallece á<span
+class="pn">{32}</span> mingua, prisioneira, ralada pela saudade pungitiva que
+lhe amofina o sêr. Tu, pelo contrario, á medida que os aromas quasi
+imperceptiveis da terra abençoada da patria nos vêm dar força para affrontar as
+tormentas escuras, as cerrações e os cabos perigosos, perdes o animo ante uma
+dôr imaginaria, e deixas-te apossar de uma ancia, que um instante só de
+reflexão tranquilisaria. Vamos, serena o teu espirito; seja-te o meu coração o
+porto almejado onde encontres abrigo. Que receias pois? temes encontral-a na
+volta desposada, nos braços de outro? Conta-me a verdade toda; amas?</p>
+
+<p>&mdash;Se com vinte annos apenas haverá quem não tenha sentido ainda esse
+desvario divino, que acorda de subito em nós todas as potencias da alma, que
+rasga brilhante a manhã de um eden terreal, dando realidade á vida, e que a um
+tempo vibra o estertor e o cicio horrivel dos que se confrangem no barathro do
+desespero que elle gera! Eu amo, sim. É um amor que tem purpureado de risos
+todas as horas que me absorvo a pensar n'ella. Para mim é o resumo de todas as
+bellezas do mundo. Onde a vista depára uma apparição grandiosa, deslumbrante,
+ahi sinto uma reminiscencia d'ella; ás vezes procuro em vão formar na mente o
+composto do semblante engraçado, quero tel-a presente pela imaginação á minha
+idolatria; mas a phantasia não póde reunir em uma mesma auréola de encantos
+tudo quanto ha de mais puro no céo e na terra. Eu estou doido. É<span
+class="pn">{33}</span> o frenesim d'este amor que me enlouquece. Eu não a vejo,
+nem sei mesmo já se existe, mas sinto-a como a essencia de um licor suavissimo
+e volatil, que inebria a distancia os sentidos. Ella fluctua-me pairando ante a
+vista, como um nevoeiro da madrugada que se esvaece nos áres ao romper da
+claridade, e de que o sol faz realçar a alvura esplendente. Ella nunca me disse
+que me amava. Quando só em pensamentos a escuto, a dizer-me segredos
+intraduziveis, parece-me a bayadera indiana requebrando-se flascida, com uma
+morbidez encantadora, a voltear brandamente ás vibrações remotas das
+gandharvas, instrumentistas do paraizo. Eu vôo na mesma ondulação de harmonia,
+e sonho um goso indefinivel, que me exacerba mais as angustias cruciantes,
+quando desperto á realidade. Eu não sei mesmo se me ama. Costumado a brincar
+desde criança, unindo as nossas orações infantis em noites de tormenta, quando
+seu pae andava sobre as aguas, esta confiança torna impossivel o mysterio, que
+alimenta todo o amor.</p>
+
+<p>&mdash;«Aldonça! repetiu desapercebidamente Gaspar Ximenez;&mdash;a mesma, a que me
+torna aguerrido, audaz para affrontar estas regiões nos términos do mundo; a
+que jurou um dia ser minha e me prometteu a mão de esposa, que eu beijei e
+apertei tremulo, convulsivo!</p>
+
+<p>Fernão Ximenez comprehendeu estas palavras. Foram como um clarão subito, que
+lampeja e cega. Os olhos arrasaram-se-lhe de agua, sem as<span
+class="pn">{34}</span> lagrimas poderem rebentar. Era incrivel o que se passava
+em sua alma. A colera, a alegria, a contrariedade das aspirações mais ardentes
+da vida, o desinteresse sublime de um coração generoso debatendo-se tudo
+n'aquella alma deserta de esperança! Gaspar Ximenez continuou, como
+delirando:</p>
+
+<p>&mdash;Amas tambem Aldonça? Como ella é meiga e docil! É a rola innocente do
+sacrificio. Ella ha de querer a tua felicidade. O que eu disse era uma loucura.
+Amo-a como irmã apenas; ama-a tambem, mais do que eu, e será tua.</p>
+
+<p>Ao ouvir estas palavras, proferidas com uma accentuação dolorosa, por uma
+abnegação quasi impossivel, Fernão Ximenez não poude represar mais tempo as
+lagrimas, que lhe rebentavam ferventes dos olhos. Os soluços entercortaram-lhe
+a voz. Elle jurára dar-lhe tambem um dia a maior prova de dedicação.</p>
+
+<p>A este tempo, ouviu-se um berro do gageiro gritando da gávea:</p>
+
+<p>&mdash;Mestre Fernão Mendonça, um negrume espesso se alcança no horisonte, que
+levamos, pois que a não ser a cerração do cabo, mais me parece presagio de
+tormenta.</p>
+
+<p>O mar começava já a cavar-se. O piloto mandou logo ferrar o traquete, cassar
+a escota á bijarrona, e que o homem de quarto amurasse mais para sotavento,
+antes que a borrasca rebentasse de chofre. Instantes depois a marinhagem
+tripulava afanosa sobre o convés; a noite estendera<span class="pn">{35}</span>
+pela amplidão dos mares o seu manto gélido de sombras, como um sudario de
+morte. O vento frigido sibilava na enxarcia; parecia uma serpente escamosa
+quando assovia na floresta intrincavel. A orchestra da procella rompia sonorosa
+e esplendida, como a retrata Virgilio n'um incomparavel hemistichio.</p>
+
+<p>&mdash;Por San-Thiago, disse Fernão Ximenez, saindo da mudez do espanto em que o
+deixára a longanimidade do irmão;&mdash;adivinhava-o o diabo do gageiro, pois já as
+ondas guidam os castellos de prôa, e lambem a ponta do gorupés. Diabo! que se
+tivesse mando no timão amurava mais para sota-vento, e talvez que escapassemos
+á furia da tormenta.</p>
+
+<p>Continuava o ennovellar das vagas como grandes cordilheiras sacudidas por um
+vulcão subterreo. Instantes depois, o moço descia para o porão, e as marés
+gigantes em vagalhões, salvavam o baixel. Soltos, desencontrados dos quatro
+pontos, os ventos cáem de estouro sobre o galeão.</p>
+
+<p>&mdash;Que San-Thiago, o bom apostolo das Hespanhas, seja comnosco, murmurou o
+homem do leme, ao apagar-lhe uma maré a luzinha da bitácula. Que o bom Jesus
+dos mareantes nos ampare n'esta tribulação, Ave Maria!</p>
+
+<p>A tempestade recrudescia surda á voz do pobre homem de quarto, que não sabia
+já o rumo que levava. Pouco depois, as ondas envolveram-n'o no seu marulho, e o
+sorveram no pelago insondavel.<span class="pn">{36}</span></p>
+
+<p>Sem governo, o galeão altivo, cruzando-se sobre duas ondas que rebentaram
+sobre elle, estremeceu como aluido pelo cavername e costado; o mastro grande,
+gemendo sobre si, estalou, e sumiu-se na corrente das aguas. Por instantes
+ninguem respirou. Só o capitão Fernão de Mendonça, conhecendo que o temporal
+amainara, gritou com intrepidez:</p>
+
+<p>&mdash;Salta arriba!</p>
+
+<p>A tempestade amançara consideravelmente; via-se espelhado em todos os
+semblantes um sorriso de esperança, illuminado ao clarão diaphano do santelmo,
+que reluzia no tope dos mastros.</p>
+
+<p>&mdash;Salvé! salvé, oh Corpo Santo!&mdash;gritaram todos possuidos de um regosijo
+expansivo.</p>
+
+<p>&mdash;Podemos agora contar com a bonança,&mdash;disse a voz animadora do padre
+capellão,&mdash;que o sacro fogo de Santelmo se nos mostra risonho e mensageiro de
+paz. Oxalá que sem mais desgraças possamos dizer como o malaventurado soldado
+das Indias, o bom Luiz de Camões:</p>
+
+<blockquote>
+ <p class="versos">Vi nos ceus claramente o lume vivo, <br>
+ Que a maritima gente tem por santo, <br>
+ Em tempo de tormenta e vento esquivo, <br>
+ De tempestade escura e triste pranto. </p>
+</blockquote>
+
+<p>&mdash;Mestre Fernão de Mendonça!&mdash;interrompeu o gageiro,&mdash;o galeão tem um enorme
+rombo na prôa, e d'aqui a meia hora estaremos todos no fundo, se vos não apraz
+lançar esta lancha ao<span class="pn">{37}</span> mar.&mdash;E foi-se cantarolando
+aquellas trovas do <i>Auto da barca do Inferno</i>, do popular Gil Vicente:</p>
+
+<blockquote>
+ <p class="versos">Á barca, á barca, boa gente, <br>
+ Que que queremos dar a vela; <br>
+ Chegar a ella, chegar a ella. </p>
+</blockquote>
+
+<p>O tom frio com que dissera a ruim nova fazia julgal-o filho da rajada, como
+se cria nas incarnações da mythologia grega. Ouvida a falla do capitão, foram
+saltando todos para o batel. Pouco depois a náo soberba da India começara a
+afundar-se. Ao vêl-a sumir-se, o padre capellão lançou-lhe a benção, e proferiu
+uns versiculos da oração dos mortos. A mudez tornava mais sublimes estes
+instantes. Era como na morte de um heroe, que baqueia ferido no auge da luta.
+As lagrimas borbotavam dos olhos dos velhos mareantes ao perderem para sempre
+aquelle companheiro das refregas. O batel não podia com a tripulação toda; o
+mar estava brazeiro e a cada momento entrava-lhe pela borda.</p>
+
+<p>Assim foram andando á mercê das correntes, sem que transluzisse no horisonte
+escuro um clarão de esperança. O ranger dos remos fazia lembrar de hora em hora
+o estertor de uma vehemente agonia. O mar e a fome infundiam n'alma o tedio da
+vida.</p>
+
+<p>O mar continuava roleiro. A este tempo uma onda encapellada rebentou quase
+de choque sobre<span class="pn">{38}</span> o batel. Era preciso alijar para
+alivial-o. O capitão deitou sortes, para vêr os que iriam ao mar. Caiu a sorte
+sobre o intrepido gageiro. Pero Gutterrez, um velho marinheiro, atirou-se de
+livre vontade. Fernão Ximenez parecia de tal modo embebido na dor funda que
+alentava n'alma, que não sabia o que se passava em volta de si. A sorte
+fatidica caira tambem sobre o irmão. Despertou da abstracção dolorosa, ao
+abraço fraterno extremo. Repentinamente comprehendeu tudo com a lucidez de que
+o espirito se apossa nos momentos solemnes da vida. Deteve-o um instante:</p>
+
+<p>&mdash;Uma vez sacrificaste ao meu amor todas as tuas esperanças! É bem que o
+reconheça; agora estimo a vida só para dal-a por ti.&mdash;E desprendeu-se dos
+braços do irmão, com a resolução do desespero, e arrojou-se á voragem.</p>
+
+<p>Gaspar Ximenez permaneceu attonito, interdito ante o estranho heroismo. O
+sol ia já alto, o céo tornava-se limpido e sereno, o horisonte abria-se
+immenso, como a expansão de um pensamento de alegria. Depois de haverem remado
+bastante ainda, descobriram-n'o a distancia seguindo extenuado o batel. A
+energia sublime do seu heroismo e dedicação commovera todos os corações.
+Quizeram unanimes recebel-o, estava já sem forças, quasi immovel. O amor
+fraternal resplandecera com espanto. Os membros regelados começaram de novo a
+sentir vida com a reacção do calor.</p>
+
+<p>O mar ia amansando progressivamente, e antes<span class="pn">{39}</span> do
+cair da noite viram com pasmo e alegria doida alvejar uma vela. Saudaram-na com
+a celeuma do regosijo. Quando passados dias chegaram a beijar a terra de seus
+paes, Fernão Ximenez foi professar, cumprir o voto n'um mosteiro, para não
+tornar o amor do irmão impossivel.<span class="pn">{40}<br>
+{41}</span></p>
+
+<h1><a name="SECTION00050000000000000000">Lava de um craneo</a> </h1>
+
+<p>Quantas risadas se escutam perdidas no ár, que ás vezes são um punhal
+invisivel, brandido por mão diabolica, um veneno propinado a occultas, que
+infunde na vida o desalento, o tedio, a indifferença por todos os grandes
+sentimentos que nos agitam e nos elevam! O riso é a expressão mais energica do
+desespero, quando elle tem um timbre satanico, que gela, e se repercute na alma
+como o estampido de uma detonação que fulmina; então, mata mais do que a ponta
+de um estylete penetrante, embebida no aconito baço, que fere e não deixa vêr a
+cicatriz. Quem não ha soltado uma vez na vida uma d'essas risadas, que não seja
+uma loucura, uma impiedade, uma provocação, uma mentira, talvez um crime? Um
+dia ri tambem d'esse modo; é remorso que ainda hoje me punge.<span
+class="pn">{42}</span></p>
+
+<p>Eu vivia ignorado, obscuro, trabalhando na minha agua-furtada, alimentado
+pela febre da aspiração, pelo pensamento de exageradas vigilias; era a
+contumacia da desesperação que me dava forças, e me fazia caminhar incansavel
+sem saber para onde. Este vacuo da existencia amputava-me para todas as
+distracções, via em tudo uma futilidade, sentia-me máo, com uma vontade de
+torturar, de contradizer, de estar sempre em hostilidade com todas as idéas que
+não fossem as minhas. A dialectica fôra para mim uma arma, que ao passo que a
+manejava com mais presteza, me tornava mais intolerante. A solidão déra-me por
+um excesso de vida subjectiva uma susceptibilidade tactil, tornava-me
+perscrutador, analysta; pretendia lêr em todas as physionomias, deprimil-as
+ante a minha consciencia, como um juiz boçal, que não póde convencer-se de que
+o réo que interroga esteja innocente. Saía para as ruas, a luz opprimia-me, a
+multidão atropellava-me, sentia-me olhado, como nos tempos do absolutismo
+theocratico aquelle que vergava ao peso do anathema.</p>
+
+<p>Um dia saí para respirar o ár livre de uma bella manhã de verão; uma veia
+sarcastica, provocadora, não deixava harmonisar-me com a serenidade da
+natureza. Vinha pelo mesmo passeio um sujeito magro, fumando uma ponta de
+cigarro. A distancia ainda comecei a analysal-o; cada vez que o fitava sentia
+em mim uma hilaridade irrepressivel; parecia-me uma cara insignificativa.<span
+class="pn">{43}</span> De mais perto representava-me uma incarnação do
+grotesco, do comico objectivo, como se encontra nas goteiras das cathedraes da
+Edade media. Trazia uma vestimenta velha, esfarrapada, que produzia uma
+antithese perfeita com a sua edade. Mais ao pé, vi que tinha um fulgor de vida
+nos olhos, o movimento, a expressão de uma intensa actividade interior. Eu
+tinha caminhado para elle com um riso mofador, com pretensões a observal-o,
+este casquilho em quinta mão, e fui-lhe ao encontro a pretexto de accender um
+charuto.</p>
+
+<p>Conheci então o valor da phrase com que o povo exprime um desgosto intimo e
+repentino: caiu-me o coração aos pés. Via n'aquelle fato esfarrapado de
+escovado, a lucta de uma alma, que arcava com a miseria, de um homem, que
+aspirava á decencia, e que proseguia temeroso, como conhecendo que a vestimenta
+o degredava e o destituia de importancia, que um descuido qualquer o expunha
+aos apupos da vadiagem. Assim explicava commigo aquelles áres affectados de
+elegancia, que despertaram a risada, que resôou só dentro em mim. Era tambem
+criança, tinha uma figura trigueira, uma certa vivacidade de movimentos, uma
+timidez que se não accusa e se transforma em reconhecimento á menor
+consideração.</p>
+
+<p>Pedi-lhe lume com um tom levissimo de ironia. A affabilidade desarmou-me; o
+coração doeu-se ao primeiro impulso de sua crueldade. Tinha<span
+class="pn">{44}</span> vontade de confessar-me seu amigo; era-o n'esse
+instante, com todas as veras de alma.</p>
+
+<p>Dias e noites a imagem do pobre rapaz a fluctuar-me na mente; eu estava
+indisposto commigo, procurava equilibrar a vida de modo que podesse alcançar
+essa virtude sublime da <i>bondade</i>, filha quasi sempre da serenidade e da
+superioridade de espirito. Era ainda cedo para mim. Não tornára mais a vêl-o:
+julguei-o uma apparição diabolica, que viera inverter uma acção innocente da
+vida em uma preoccupação, que me perturbava a tranquilidade.</p>
+
+<p>Uma noite, saia eu do theatro: o frio regelava os membros, a escuridão era
+profunda como as <i>trevas visiveis</i> de que falla Milton. Esperei á porta
+que escampasse. Por um acaso feliz deparei a meu lado com o mesmo sujeito que
+um dia soube inverter-me um riso insignificativo em remorso. Tinha ainda a
+mesma compostura, esse apuramento que fazia rir os que não soubessem penetrar
+os dolorosos mysterios da sua existencia.</p>
+
+<p>O pobre rapaz, não sei que franqueza leu no meu rosto, que se chegou para
+mim. Poz-se a commentar o espectaculo; pouco depois, estiou e partimos juntos.
+Até aqui nada de interessante.</p>
+
+<p>&mdash;Quanto mais estudo (disse-me elle, cansado de andar e de fallar), tanto
+mais se me alarga a solidão do espirito; cada dia encontro menos pessoas com
+quem prive, caminho, e a cada passo me vão ficando mais longe. Quem não
+entender<span class="pn">{45}</span> isto e se revoltar contra a minha frieza,
+dirá que é orgulho, e egoismo até; os que se doerem de mim dirão que é
+misanthropia. A meditação é como um segredo, que pésa quando não ha a quem se
+conte; mas se eu encontrasse uma mulher a falar-me de amor, sacrificava-me a
+ella, para vêl-a mais ditosa que a pobre Frederica de Göethe. É a primeira vez
+que conversamos. O meu amigo deve estranhar esta liberdade; sou assim, amo a
+franqueza quando não busca rodeios para convencer, e tem a força da expansão
+sincera, a ingenuidade simples, que não sabe alliar a amisade com as
+pragmaticas. A franqueza d'este modo admira-se, e eu tanto mais, porque a tenho
+visto sempre usada como pretexto para dizer insultos impunemente. Acho-me
+solitario no meio da sociedade, e tenho ainda não sei que terror de me vêr
+perdido, atropellado entre as massas. Vivo assim desde criança; como criança
+fui tambem poeta, cantei porque tinha medo, queria distrahir-me. Eu chamo-lhe
+meu amigo, porque me escuta; era quanto bastava para lhe ficar reconhecido. A
+maior parte das pessoas que me ouvem riem-se de mim. Falo sobre a genese das
+religiões, a origem dos governos, as relações da arte com a sociedade, todos os
+grandes problemas que nos agitam; abanam a cabeça, e dizem com ár compassivo:
+«Utopias dos vinte annos.» Outras vezes, descrevo a formação da terra, procuro
+explicar as evoluções da anthropogenia com a cosmogonia, o aperfeiçoamento<span
+class="pn">{46}</span> dos sêres e a sua decadencia pelo gráo do calor que a
+materia conserva e vae irradiando; obedeço á pressão da causalidade que me
+obriga a explicar a mim mesmo os phenomenos que vejo, e riem-se, perguntam-me
+onde estudei, que diplomas tenho das Academias, e voltam-me as costas
+ludibriando-me, porque não querem admittir a sciencia sem a auctoridade, vêem
+como profanação um leigo explicar o que só está á altura da intelligencia dos
+cathedraticos. Tenho tido muitos d'estes desgostos na vida. Os homens que têm
+certa bondade, tambem me dizem, que a edade me fez todo idealista, que os annos
+me darão um caracter pratico de que careço. Ás vezes, tendo passado a noite em
+vigilia a pensar, cheio de frio, com fome, canso-me a fallar, para receber, ao
+cabo de um esforço inaudito, uma gargalhada brutal. Deos sabe quanto custa
+affazer-me á solidão absoluta. A solidão, é verdade, devasta o espirito, porque
+obriga á representação interior, dando-lhe um relêvo maior do que a realidade.
+Serão utopias tudo quanto tenho na cabeça? É uma lei natural. Ha na vida
+intellectual dois periodos, um de creação, outro de realisação. Hoje concebo um
+ideal que não posso determinar; porque ha de vir tempo em que saberei sómente
+dar fórma ao que senti. Convem não rir desapiedadamente de todas as theorias da
+mente febril da mocidade, porque ao approximar-se a edade esteril da força,
+quem ha de realisar o que não ideou? Bem sei que um grande poeta<span
+class="pn">{47}</span> disse antes de mim: «Uma grande vida, é um pensamento da
+mocidade realisado na edade madura.» Em tudo isto vejo uma força desoladora no
+homem, que o domina em tudo, e era pela analyse d'ella que poderiamos entrar na
+essencia dos actos de sua vida&mdash;é o egoismo. Quando o homem se vê compellido a
+reconhecer uma superioridade no seu semelhante, fórma d'elle um semi-deus,
+porque, então já não é outro homem que o sobrepuja. Christo é uma idéa
+transmittida ás gerações, que ellas concretisaram em um nome para
+comprehendel-a. E depois, porque um homem egual a nós a manifestava, o egoismo
+salva-se fazendo-o&mdash;filho de Deos. Arranca-se a <i>Illiada</i> das mãos de
+Homero, porque o orgulho do homem não consente que o homem o exceda. Vico
+representa na sua hypercritica a humanidade. Perguntamos, quem inventou a
+alavanca antes de Archimedes demonstrar a sua lei? quem descobriu o parafuso, a
+serra, bases de toda a mechanica? O egoismo occultou quanto pôde o segredo;
+apenas a mythologia responde com uma divindade allegorica, um Saturno, Perdice,
+Pan e Triptolemo.&mdash;</p>
+
+<p>O pobre rapaz falava de um modo precipitado, convulsivo, como se lhe
+faltasse o ár. A escuridão da noite não deixava lêr-lhe no rosto a volubilidade
+da expressão. De repente, parou á porta de um casebre velho, situado em uma
+viella estreita e infecta. Pediu-me para subir. Eu não podia resistir-lhe; cada
+palavra vibrava-me cá<span class="pn">{48}</span> dentro como um arranco. Fomos
+tacteando nas sombras, por um caracol de escadas carcomidas, que nos faltavam
+aos pés. Ia-se-me esclarecendo o mysterio d'aquella existencia. Por fim
+chegamos a um quarto pequenino e baixo, com um ár mephitico, saturado de fumo
+de tabaco. Elle acendeu uma vella de cebo roida dos ratos, que tinha presa no
+gargallo de uma garrafa; a enxerga com uma manta embrulhada achava-se a lastro.
+A miseria arripiava-me. O pobre rapaz deitou-se sem forças; vi-lhe então, á luz
+mortiça, uma pallidez cadaverica. Tive medo do seu silencio. Elle estava
+envergonhado de tanta indigencia, e procurava rir-se, ridicularisando-a:</p>
+
+<p>&mdash;Não extranhe vêr-me n'esta trapeira; ha uma analogia entre ella e a minha
+cabeça, onde as idéas refervem em tropel confuso, e se conflagram e se
+destroem. Estas teias de aranha são ás vezes a minha distracção nas horas de
+enfado; divirto-me como o Mascara-de-ferro, como Spinosa, Magliabechi e Silvio
+Pellico. É em que me pareço com os grandes homens. Deixemos isto; conversemos a
+serio diante de quem não sabe rir-se de mim. Eu tambem tenho pensado na
+organisação de uma sociedade perfeita, como Platão e Cicero, Campanella, Thomaz
+Morus e Fenelon; mas só encontro essa perfeição no momento em que os vinculos
+do direito que prendem as nossas relações sociaes, e os mysterios e terrores
+que as religiões incutem, fossem excluidos pelo desenvolvimento completo da
+idéa<span class="pn">{49}</span> do <i>Bello</i>; quando deixassemos de
+praticar uma acção, que vae contra as maximas do direito ou da religião, não
+por ser injusta ou immoral, mas porque repugna ao sentimento do bello. A Arte
+sobre tudo! é ella só que nos póde alcançar conjunctamente a perfeição
+plastica. Assim a anarchia, a negação absoluta de todo o governo fóra de nós,
+constitue o ideal do estado; a lei era a consciencia de cada um, a consciencia
+sempre incorruptivel a todo o interesse egoista. Porque a Arte é synthetica,
+mais do que a religião, a philososphia e a moral, porque só ella faz o accordo
+incondicional das vontades por uma emoção universal. Como chegar um dia a esta
+perfectibilidade! Não se vae lá de repente, a natureza não dá saltos. As
+revoluções pela idéa pódem tudo; não se confia n'ellas, nem se emprehendem,
+porque os resultados só os gosa o futuro. É esta sciencia nova da Sociologia
+que ha de levar mais longe a humanidade. A Edade media, o grande lethargo
+depois da civilisação da Grecia e Roma, foi ampliada pela passividade mystica
+do christianismo; é uma impiedade que ninguem talvez acredita. A esmola, a
+onzena sobre a bemaventurança, era o principio da dependencia e da
+desegualdade, a aniquilação do trabalho e da actividade; a reprovação dos
+juros, o stigma impresso sobre o judeu, elemento industrial na sociedade
+nascente, eram a inercia do capital e do espirito de empreza. A verdadeira
+doutrina é um cathecismo popular de economia social. É por esta<span
+class="pn">{50}</span> sciencia que nos ha de vir a libertação, desde que o
+homem reconheça que produz mais do que consome. O trabalho é o unico titulo da
+propriedade, a sanctificação da vida. O trabalho é para mim uma consolação, um
+orgulho; sou como Plauto, que fazia rodar um moinho, e nas horas de descanço
+escrevia as suas comedias; como Spinosa, que gravava vidros para se alimentar
+nas horas em que se absorvia no quietismo do pensamento e ampliava a synthese
+physica de Descartes á moral humana; eu toco na orchestra de um theatro; de dia
+penso.</p>
+
+<p>E o pobre rapaz parou em meio, de cansado; depois recomeçou, fazendo-me a
+historia do trabalho:</p>
+
+<p>&mdash;O homem ao destacar-se do ultimo élo da cadeia dos sêres, sentiu-se forte
+e senhor da terra. A natureza offerecia-lhe por toda a parte seus peitos
+uberantes, e este rigosijo de harmonia ligava a sua existencia á vida
+pantheistica do universo. A grandeza do homem n'este cyclo genesiaco,
+symbolisaram-na os escriptores sagrados no reflexo de graça e de innocencia que
+descia das alturas sobre a sua fronte; os escriptores profanos, menos
+inspirados pelo idealismo espiritual, retrataram-a na plastica, nas fórmas
+gigantes do corpo e na magestade homerica de uma estatura heracleana. N'este
+primeiro dia, foi o homem como os anjos, via e falava face a face com a
+divindade; n'este primeiro dia foi um gigante da terra, dominava pela força
+cyclopica. Ambos<span class="pn">{51}</span> os dois mythos têm um fundo de
+verdade revelada pela inspiração e intuição do passado aos prophetas da
+historia. Senhor e rei na creação, o homem deixou-se enleiar no seio voluptuoso
+da natureza. Admirou e caiu adorando. N'esse instante descobriu a sua nudez, e
+escondeu-se; sentiu a fome e a sede e as dôres do desterro. O outro mytho, mais
+violento e terrivel, para filiar n'essa queda o naturalismo e
+anthropomorphismo, fal-o <i>mergulhar no bruto</i>, e o satyro, o minotauro, é
+o homem a confundir-se na cathegoria inferior dos primates. Á queda succedeu a
+rehabilitação, como ao occaso a nova aurora de luz. Era a lei eterna das
+antitheses. Foi o trabalho o signal da rehabilitação, será o caminho para a
+apotheose. <i>Sic itur ad astra.</i> Nos mythos do Oriente, tenebrosos e
+tragicos, o trabalho é um stigma que pésa sobre o homem, é a dor, a
+atribulação, é a terra produzindo cardos e espinhos, fecundada pelo suor do seu
+rosto. É o enigma da vida a ser iniciado pelo soffrimento e o soffrimento a
+retratar a vida nomada da raça primitiva, na sua passagem através do dezerto.
+Nos mythos do Occidente é sublime o ideal do trabalho: ahi é a gloria dos
+semi-deuses, é a vida errante mas heroica. Chiron ensina o mysterio da força.
+Os <i>trabalhos</i> de Hercules, os <i>trabalhos</i> de Theseu, eis outros
+tantos passos para a elevação do homem, perdidos hoje completamente nas sombras
+imperscrutaveis do mytho. Nos <i>trabalhos</i> de Jason e dos Argonautas
+está<span class="pn">{52}</span> symbolisada a inauguração do commercio de toda
+a raça jonica. No Oriente, o trabalho é uma fatalidade religiosa, um anathema
+do primeiro passo do homem. O christianismo, creado no berço de todas as
+religiões, vindo da Asia, transportou comsigo o mesmo dogma fatidico, mas com
+expiação. Suavisou o golpe da espada flammejante, que lançou o homem fóra do
+Eden. Exagerou a culpa para perdoar o castigo; suscitou no interior do homem
+uma luta, luta escura e tremenda, um <i>eu</i> a combater outro <i>eu</i>, a
+carne a revoltar-se contra o espirito, a confusão e o cahos onde havia a ordem
+e a harmonia, e para este dualismo desesperado apontou como panacêa&mdash;o
+trabalho. D'esta idéa proveiu um diluvio de sangue para rehabilitar a raça
+futura; foi o sangue dos martyres; a arca fluctuante a egreja; o ramo de
+oliveira, representando a paz universal e a fraternidade a cruz. Só tarde estes
+symbolos foram comprehendidos; tinham sido como o enigma da Sphinge, que
+devorava os que iam passando. O christianismo ao ideal do trabalho-pena ligou a
+universalidade. Na Edade média a ordem social era classificada pela propriedade
+territorial; a posse era a caracteristica do senhor, o trabalho da cultura o
+ferrete do servo. A Edade média feudal é uma antinomia na historia; a
+influencia manifesta do christianismo é a communa. O abraço dos povos pelo
+trabalho do commercio e da industria, eis o segredo das riquezas de Pisa, Gand,
+Veneza, Genova, Bruges e Florença, ao pé da barbarie dos<span
+class="pn">{53}</span> estados feudaes. <i>Virtus unita fortius agit.</i> No
+dia em que o homem descobriu a alavanca, o parafuso, a força da agua, foram
+outras tantas fadigas de que aliviou seus hombros, sobrecarregando-as na
+natureza. Hoje o trabalho não é o sello da culpa segundo a antiguidade biblica,
+não é o signal da escravidão como na Edade média, nem o tributo dos párias,
+como concebia Aristoteles: hoje é o symbolo da dignidade do homem. São as
+machinas que vão conseguindo pouco a pouco esta realeza do homem sobre o
+universo. O hymno do trabalho eleva-se por toda a parte, e as strophes
+perpetuam-se ao estrepito das grandes descobertas de Galvani, Fulton, Watt,
+Pascal. Pelas machinas ganha o homem tempo á custa da força, mas força
+dispendida pela natureza. Virá uma epoca em que elle se liberte do trabalho
+material; abre-se então outro horisonte mais vasto&mdash;o trabalho da
+intelligencia. Prometheu ergue-se dos rochedos caucasicos, não para roubar o
+fogo celeste, porque é Deos, mas para atear aquelle que occultou longo tempo no
+encéphalo. O homem desprender-se-ha da animalidade para absorver-se no anjo. Se
+elle se destacou de uma animalidade inferior, não está terminada a sua
+progressão ascencional. Esta theoria explica já a prodigiosa actividade e
+precocidade intellectual d'este seculo.»</p>
+
+<p>A voz foi-se-lhe enfraquecendo, até que se calou; estava macilento,
+tiritando de frio; a vista com um brilho phosphorecente, felino. Depois de<span
+class="pn">{54}</span> alguns instantes de silencio, disse-me com um modo
+secco, que não comprehendi logo:</p>
+
+<p>&mdash;O succo gastrico é bastante corrosivo e dilacera-me as fibras do estomago.
+</p>
+
+<p>Conheci que era a fome que lhe dava esse aspecto, essa consumpção em que o
+via prostrar-se. Disse-lhe que esperasse um instante, e sai á pressa para
+comprar em uma espelunca uma posta de peixe. Quando voltei, a luz bruxuleava
+quasi a extinguir-se; o pobre rapaz estava voltado para a parede. Sacudi-o.
+Achei-o frio, com a rigidez cadaverica.<span class="pn">{55}</span></p>
+
+<h1>Beijos por facadas</h1>
+
+<h3>(<small>CONTO DE UMA SERENADA EM HESPANHA</small>)</h3>
+
+<h2>I</h2>
+
+<h2>A guitarra</h2>
+
+<p>Corria lenta e socegada a noite. Ha n'estas vozes indefiniveis das horas
+mortas a suspensão de um segredo, que se não articula; o silencio remoto parece
+escutar as musicas de dentro, que se espraiam na alma, como os sons eólios que
+a brisa entorna da escarpa.</p>
+
+<p>O céo estava profundo e puro, recamado de estrellas, brilhando silenciosas,
+absortas nas côres spectraes de sua luz, com que confidenciam e exprimem entre
+si as sonhadas harmonias das espheras. Cada traço radiante que se projecta nos
+áres lá vae perder-se n'um fasciculo mais intenso, pensamento de amor, energia
+inextinguivel que<span class="pn">{56}</span> vôa a despertar e embalar um
+devaneio ditoso, que não finda.</p>
+
+<p>Os ventos sopravam macios, remurmurejando na folhagem verde; a veia
+crystalina e sinuosa do Manzanares derramava seus aljofres, onde se reflectiam
+as graças e a alegria das myriades de astros que bordavam a cupula do empyreo.
+</p>
+
+<p>Soaram vagarosamente, como as palavras de uma sentença irrevogavel, onze
+horas na torre da Cathedral. A vibração argentina do sino, ondulando na calada
+da noite, fazia escoar-se pelo corpo um estremecimento gelido, como o pingo de
+agua que se infiltra das stalactites e cae, de quando em quando, no pavimento
+petrificado de uma gruta escura e sem fim.</p>
+
+<p>E a noite proseguia lenta e socegada. Pouco a pouco, uma viração travessa,
+vinda dos valles longiquos, dispersou nos céos uma nuvem espessa, que se havia
+levantado das bandas do mar. Assomou um leve resplendor, um clarão incerto na
+cima dos montes; depois, os arvoredos deixaram jorrar por entre as ramas
+entrançadas um alvor suave. Era a lua que se alevantava serena do topo das
+serranias, ostia branca erguida na reconcentração intima dos mundos. Á luz
+diaphana e branda, que devaneios principiados e interrompidos no vago das
+aspirações que não têm realidade! que confissões vehementes, que palavras
+sentidas, que protestos fogosos, apaixonados, gerados pelo influxo da saudade e
+da melancholia!</p>
+
+<p>Á luz tranquilla do astro dos namorados, meditava<span
+class="pn">{57}</span> distrahida em seu balcão, virgem, enleiada nos
+caprichosos desejos que lhe tumultuavam no coração infantil. Quinze annos! a
+efflorescencia da vida no seu viço exuberante; as alegrias perennes, sem
+motivo, um transporte a cada sensação que se ignora e que o acaso revela!
+Quinze annos! e o peito a palpitar apressado a cada presentimento de
+ventura.</p>
+
+<p>Estava em seu balcão a donzella timida; as tranças soltas, espalhadas pelos
+hombros, eram os jorros de uma catadupa que se despenha; respirava anciada,
+como quem acabára de brincar e sente na fadiga, que a prostra, a tentação de se
+precipitar novamente na vertigem da corêa que passa ligeira como um volteio de
+fadas em areal deserto.</p>
+
+<p>A lua illuminava-lhe o semblante com a magestade com que se reflecte n'uma
+janella gothica. Parecia adormecida, criança, embalada pela toada das harpas
+dos seraphins, que a vinham abrigar do rocio da noite debaixo da sombra de suas
+azas brancas. O vento levava-lhe as roupagens longas, que fluctuavam como uma
+nuvem rescendente que a envolvesse.</p>
+
+<p>Ella não estava adormecida, scismava. Que mysterios intraduziveis de amor
+não lhe viria descobrir esta hora! A natureza, mais velha e experiente, vinha
+ensinar sua irmãsinha, mostrar-lhe os philtros que um sorriso esconde, a
+fascinação de uns olhos humidos de volupia. Sentiria ella as primeiras notas do
+amor, pulsando levemente dentro do peito?<span class="pn">{58}</span></p>
+
+<p>O sitio, a hora, a mudez confidente da noite tepida e sombria, tornavam
+propicias as palavras timidas, balbuciadas tremendo, com um languor
+communicativo.</p>
+
+<p>A este tempo a lua brilhava esplendida de encantos pela amplidão celeste. A
+donzella cada vez apparecia mais radiante de graça; o luar tornava-a mais
+bella, como em uma transfiguração repentina.</p>
+
+<p>Será uma realidade a existencia d'este typo divino? Será uma creação apenas,
+uma visão chimerica da mente do poeta? Um sonho que a arte sabe encarnar e
+insuflar-lhe o sentimento de Rosina, quando espera anciosa detraz do cortinado
+alvejante Almaviva, a identificação de um sêr n'outro sêr? Não. Como uma filha,
+a mais linda das filhas de Eva, irmã das que foram amadas pelos anjos que se
+esqueceram do céo, ella tambem sente e ama. É Marcella, Marcella, o sol da
+velhice do grande poeta da Hespanha Lope da Vega.</p>
+
+<p>Cançado de triumphos, de glorias e pesares, o cantor de <i>Dorothea</i>
+ama-a, como um viandante do deserto que ama a brisa fresca da collina que lhe
+vem alentar os pulmões exhaustos. Coração immenso de um pae, que enlouquece de
+alegria ao vêr perpetuar-se-lhe no mundo a intelligencia, os sentimentos que o
+animaram e lhe trouxeram soffrimentos e glorias, n'aquella que o abraça como
+uma vergontea airosa á sombra do roble secular.<span class="pn">{59}</span></p>
+
+<p>Marcella é o seu pensamento predilecto das horas pacificas da existencia, a
+que ha de herdar-lhe o manto prophetico com que o pae penetrava nos mundos da
+poesia. Poeta, enleva-se diante da sua obra, a ideal Galathea, onde vive uma
+alma afinada pelas mesmas harmonias; ama-a, com que ternura! <i>É mas galan que
+padre.</i></p>
+
+<p>Marcella estava distraida ao luar no balcão; era na rua dos <i>Francos</i>;
+estava deserta e escura pela sombra. Começou então a sentir-se um som
+incompleto, como o gemido de um queixume que expira; depois, mão ignota a
+dedilhar vehemente, com força, nas cordas de uma guitarra. As auras levavam as
+melodias, ais de um peito que gemia de amor em segredo, e que ia ditando ao
+instrumento sonoroso as palavras, que não podia proferir. O silencio da noite
+destacava as notas delirantes, como o azul a um carbunculo que scintilla.</p>
+
+<p>A innocente criança despertou do sonhar aério em que permanecera absorvida;
+comprehendeu a linguagem suprema do sentimento, era a primeira confissão de
+amor que escutava na vida. Receiou correr o cortinado. Era a innocencia na sua
+timidez. A curiosidade, o orgulho de criança a impellia; começava a sentir-se
+bella, formosa. Debruçou-se desprevenida ao balcão, mirou, prescrutou nas
+sombras. A guitarra fascinadora emmudecêra.</p>
+
+<p>Depois, ella viu dois vultos aproximarem-se,<span class="pn">{60}</span>
+traçarem as capas, desembainhando as espadas reluzentes. A mudez tornava
+assombroso o recontro. Os ferros cruzaram-se faiscando; eram os rivaes, que se
+encontravam ali, levados pelo mesmo amor e pelo mesmo odio, a grande
+contrariedade d'este sonho da vida. Não se ouvia um gemido; os botes eram a
+fundo. Uma espada tiniu no chão partida; o outro galanteador, generoso, deixou
+a sua de mão e sacou um punhal do cinto. Era um duello a todo o transe, questão
+de vida ou de morte. Marcella nada discriminou nas sombras; sentia apenas o
+fragor de uma lucta porfiada. O outro rival alçou o punhal tambem; arrojaram-se
+aos braços um do outro, espumando de raiva, cozeram-se de facadas
+desapiedadamente, até que, escoados em sangue, cairam desfallecidos.</p>
+
+<p>O vento da noite refrescava; a lua mostrou-se no seu esplendor e deixou ver
+o campo do torneio. Marcella recolheu-se aterrada para o seu aposento; orou a
+noite toda ante o retabulo de Santa Maria d'Atocha, promettendo fechar para
+sempre o seu coração ao amor do mundo.</p>
+
+<h2>II</h2>
+
+<h2>La blanca palomica</h2>
+
+<p>Depois dos inesperados transes e provações, a que ás vezes a alma resiste
+para novos desastres,<span class="pn">{61}</span> Lope de Vega fugiu ás
+tempestades da vida, envolvendo-se no burel de uma ordem penitente, unindo a
+contricção e a poesia no mysticismo radiante das effusões lyricas com que
+desabafava nas horas comtemplativas. Quando o espirito solitario descia á terra
+e se deixava tocar pela dor, tinha então o encanto da sua prole, dos filhos que
+estremecia. Como se não lembrava elle, com pesar e saudade indelevel, do seu
+pequenino Carlos, côr de lirio e de rosa, quando vinha acariciar-lhe a alma com
+umas palavras de ternura infantil, quando o via pular de contente ao vir o dia,
+como uma antilope nos prados, quando os seus vagidos eram um gorgeio
+entrecortado que lhe pareciam um vaticinio encantador! Pobre criança, ainda
+coberto do orvalho matinal, de te expandires á bafagem perfumada da nova
+aurora, quando, lirio fanado pela geada, desappareceste na terra para seres
+transplantado no céo.</p>
+
+<p>O poeta buscava consolação na poesia; era ella que o cercava de uma aureola
+de felicidade. Distraia-se cuidando do seu pequeno horto. Era a imaginação que
+o revestia, aquelle exiguo canteiro, ornado apenas de duas arvores, dez
+florinhas, uma laranjeira e uma roseira, onde casualmente cantavam os
+rouxinoes, e onde dois cantaros de agua formavam a fonte, que gemia e adormecia
+seus pesares. Contenta-se de pouco a natureza; elle não trocava este canto da
+terra nem pelo monte Hybla, nem pelo valle fertilissimo de Tempe, nem pelos
+jardins suspensos de Semiramis,<span class="pn">{62}</span> como elle proprio
+confessa; porque a phantasia creadora reveste-o de todas as graças de um
+paraiso sonhado, mostra-lhe columnas brancas de marmore com inscripções
+gloriosas, fontes que jorram e se despenham em borbotões de perolas e aljofres,
+lagos profundos e limpidos sulcados por canôas que desfraldam as vélas como
+cysne voluptuoso que deslisa, rodeados de sombras amenas e encantadoras de
+arvores soberbas similhando os gigantes da terra, a vinha entrançada aos
+platanos, dourada pelo sol de agosto, bustos entre a ramagem espessa, satyros
+que se adormecem ao som da lympha fugitiva, nymphas travessas errando na relva
+macia, que tapeta o recinto... É um sonho de poeta na sua soledade. Que tem que
+seja uma ficção esta magnifica paizagem? Elle sente as emoções que lhe traz o
+retiro que fórma, e para onde se refugia.</p>
+
+<p>Seu filho levado pelos brios cavalheirescos, pelo impulso dos quatorze
+annos, deixou-o para seguir a expedição contra os hollandezes e os turcos. Uma
+catastrophe desastrosa veiu roubar-lhe mais esta esperança; a náo em que
+partira havia soçobrado.</p>
+
+<p>Restava-lhe só junto de si Marcella, para amenisar as horas lentas e
+enfastiadas da velhice. O pae offerecia-lhe seus livros, dedicava-lh'os,
+pedindo que os corrigisse; ella reunia ás graças do corpo, a harmonia da
+plastica com um sentimento delicado, uma penetração viva e lucida. O poeta
+recebêra todas as consolações do<span class="pn">{63}</span> céo n'aquella
+filha; era a sua creação mais perfeita, a admiração dos poetas do seu tempo,
+era todo o seu orgulho.</p>
+
+<p>Marcella começou a apparecer triste; tinha na face a pallidez da planta que
+esmorece. Nem uma palavra só de queixume; a mesma abstracção sempre! Os labios
+pareciam emmudecidos pelo sello do mysterio. Cercava-lhe os olhos languidos um
+disco roxo de maceração, ennublava-lhe o semblante a preoccupação de uma dôr,
+que não sabia confessar. Quando Lope a chamou para de junto a si, e a estreitou
+nos braços beijando aquella flor da mocidade que o Senhor fizera brotar de suas
+ruinas, sentiu uma dilaceração interior, ao ver uma lagrima pura, candida,
+ingenua, resvalar-lhe na face em que a dôr empanava o viço infantil:</p>
+
+<p>&mdash;Oh minha filha! quem podera adivinhar o segredo de tua angustia, e
+inverter os pensamentos afflictivos de magoa n'um extasis perenne de
+felicidade. Marcella, Marcella! Eu dizia-te um dia, lembras-te ainda? era
+n'aquelle livro, que o presentimento me fez intitular <i>Remedio na
+desdita</i>: «Deus te proteja, e te faça ditosa, postoque teus dotes o não
+consintam, principalmente se fôres herdeira do meu destino.» A coróa de gloria
+que me cinge sangra-me na fronte com dolorosos espinhos; o que a poesia me ha
+ditado tenho-o soffrido primeiro. Tu, alma da minha alma, vás pisando a mesma
+via dolorosa. Ergue-te d'essa prostração do desalento em que te deixas cair!
+Conta-me o que assim<span class="pn">{64}</span> vem perturbar teus pensamentos
+tranquillos, roubar-me as tuas caricias que me fazem rejuvenescer? Eu não sei
+como amparal-a, interrogal-a, sem que esta planta mimosa languesça como a
+sensitiva. Menina, moça, ignorando a vida, acordaria ella senhora? Leval-a-hia
+o amor em sonhos ao seu mundo de aspirações infindas? Ella inclina-se sobre meu
+hombro e chora. Como posso eu consolal-a, dar-lhe as esperanças que não tenho e
+que de ha muito me desampararam? Marcella! Ergue a tua cabeça; deixa-me vêr-te,
+beijar-te, enxugar as tuas lagrimas, filha. Dize-me o que te afflige tanto.
+Pobre creança, ella cada vez me estreita mais a si.</p>
+
+<p>&mdash;Oh meu pae! eu não sei o que me faz tão cedo aborrecer as galas, as
+seducções do mundo, e me mostra a vida como um dezerto invio, intransitavel. A
+alma sente um vacuo que ninguem pode encher. É o christianismo que me faz
+germinar no espirito este sentimento vago, uma sêde d'esse goso sem limites da
+visão beatifica, uma aspiração, um desejo ardente de regressar á eterna patria,
+de me confundir nos córos archangelicos, ao som do trissagio perenne. A
+natureza por mais esplendida e vicejante, as flores de aromas mais exquisitos,
+o céo mais admiravelmente cravejado de estrellas, o azul, o espaço aberto,
+causam-me o desgosto que havia sentir Moysés do alto da montanha vendo ao longe
+a terra promettida e sem poder attingil-a. Quanto mais me sinto enleada n'este
+encanto divino da<span class="pn">{65}</span> contemplação interior,
+torna-se-me mais intenso o desejo de abandonar o desterro d'este valle de
+lagrimas, quebrar os vinculos da carne, e acordar no empyreo. Este corpo que me
+déste é a prisão em que a alma suspira e anceia por soltar-se; ella é a escrava
+da Escriptura que vaga á mingua de uma gôta de agoa no dezerto: ella tem diante
+de si um abysmo, que precisa transpôr sem o fitar. Eu senti em sonho este
+hymeneu recondito e incomprehensivel do amor divino. O Amado erra pelas
+brenhas, chamando a Esposa perdida. Eu não me posso elevar até Deus, o <i>Deus
+absconditus</i>, pela intelligencia, como os doutores; deixae que a alma vulgar
+e humilde, desconhecendo essa vereda intrincada, caminhe conduzida pela
+intensidade do seu desejo á eterna fonte suprema do bem. Eu quero professar em
+um mosteiro, seguir a regra da penitencia austera, voltar para a arca santa,
+como a pomba do diluvio. Quero envolver-me no burel, mergulhar-me na escuridão
+de uma cella, e scismar embalada nas musicas do extasis.</p>
+
+<p>&mdash;Marcella! para que vaes tornar assim a minha solidão mais dolorosa? Teu
+irmão, perdi-o ainda tão criança! Eras só tu que me restavas no mundo. Sem ti,
+de que serve a vida que levo devorada pelas recordações do passado. Eu perdi
+uma esposa, que asserenava em meu coração as tempestades do amor. Tinha em ti
+meu unico refrigerio, e desamparas-me quando me vejo mais só! Pobre filha! Terá
+ella vergonha do mundo?<span class="pn">{66}</span> do seu nascimento
+illegitimo? Que provação tão dura e repentina me estava reservada em castigo de
+uma mocidade turbulenta! Vae, filha, corre aos braços do divino Esposo: elle só
+póde dar-te a grinalda immarcessivel, servir-te com uma legião de anjos. És o
+ultimo ramo virente que o destino arranca de um tronco carcomido pelos annos.
+Vae, vae.&mdash;E apertou-a nos braços a chorar como uma criança.</p>
+
+<p>Tempo depois, a engraçada filha do maior e mais fecundo poeta de Hespanha
+entrou para o convento das Carmelitas descalças, em Madrid. Lope de Vega
+descreve esse abandono do mundo com expressões sentidissimas:</p>
+
+<p>«Marcella, o primeiro pensamento do meu amor paternal, cuidava em casar-se,
+e uma noite me disse o nome d'aquelle que desejava para esposo.</p>
+
+<p>«E eu, que sabia quanto é prudente deixar amadurecer um tal pensamento,
+porque ha decisões que provêm de causas accidentaes, fiz minhas excusas,
+esperando sempre não contrariar seus desejos, se elles se fundassem na verdade
+de sua alma. Mas vendo cada dia esse desejo a augmentar-se, determinei-me
+dar-lhe esse esposo, que sollicitava seu amor. Esse esposo é bello, é rico, é
+sabio, e de uma estirpe illustre, e seu pae é nada menos do que todo poderoso.
+Eu juro que por parte de sua mãe é de sangue real, e que ella é tão boa, que
+não ha attractivos, nem virtudes que não possua. É uma mãe tão cheia de graça,
+que pelas suas mãos Deus a dispensa<span class="pn">{67}</span> ao mundo. Ella
+é juntamente rosa e lirio, cypreste e palmeira.»</p>
+
+<p>A egreja estava ornada como o thalamo de um noivado. Então, o poeta viu sua
+filha n'esse dia com uma graça, uma belleza, uma perfeição inexcedivel, que a
+alegria fazia realçar sobre os dons da natureza, que o contentamento animava de
+vivacidade e elegancia. O esposo recebia-a nos seus braços carinhosos. O amor
+divino transfigura-se sempre na infancia. Myriades de luzes, damascos e
+brocados enfeitavam o aposento nupcial.</p>
+
+<p>«Marcella,&mdash;continua o poeta&mdash;as faces coloridas como duas rosas, e os
+labios como banhados por um sorriso honesto, fitou-me: o ultimo adeus que
+separava duas existencias.</p>
+
+<p>«Sua alma trasbordava de felicidade com esta vocação; e por um ultimo adeus
+de seu corpo, ella voltou costas a tudo que o mundo chama festas e prazeres.
+</p>
+
+<p>«Depois, offerecendo ao joven esposo sua casta grinalda de virgem, ella
+estreitou-o a si, cobrindo de beijos seus olhos de esmeralda.</p>
+
+<p>«O céo fechou a porta ao meu coração cheio de amor paternal; arrebatava-me a
+melhor parte da minha alma; e eu era o unico a lamentar n'esta multidão de
+espectadores. Tornámos á egreja; a desposada deixara seus habitos de festa, os
+enfeites, para envolver-se no burel grosseiro. Suas tranças foram cortadas,
+porque, como as outras virgens que povoavam o côro, ella não devia ter para ser
+bella, mais do que a sua belleza.»<span class="pn">{68}</span></p>
+
+<p>Sente-se n'estas palavras do poeta a dôr do coração de um pae, a quem todo o
+sentimento e uncção religiosa não podem consolar. Verga diante d'essa agonia,
+resigna-se. Passado o anno do noviciado ainda o coração virginal de Marcella
+palpitava com o amor divino. Pronunciou os votos, e professou.</p>
+
+<p>«Ella dormia sobre a palha fria e dura, e andava descalça; o corpo andava
+occulto em uma vestimenta humilde; só os olhos eram a expressão de sua alma. Oh
+bemaventurado desengano das cousas da terra!&mdash;exclama o poeta na solidão do seu
+amor.&mdash;Esta virgem tão bella, tão casta, tão pura, consagrou a Deus os seus
+dezesete annos!»</p>
+
+<p>Estes desgostos da vida foram-o levando á sepultura; Lope de Vega succumbiu
+no auge da admiração. O seu funeral foi imponentissimo, como o de Miguel
+Angelo. Marcella, a intelligente filha do poeta, pediu para o cortejo passar
+pelo convento das Trinitarias descalças. No momento em que o préstito parou
+diante do mosteiro, viu-se apparecer por entre as grades avaras um semblante
+macerado por uma dôr lenta. Era Marcella chorando a morte do pae, talvez
+pungida pelo abandono em que o tinha deixado. Instantes depois, sumiu-se na
+escuridão da cella, e ninguem soube o que a levara na candura dos dezesete
+annos a abandonar seu pae na desconfortada velhice.<span
+class="pn">{69}</span></p>
+
+<h1>A Ogiva sombria </h1>
+
+<blockquote>
+ <p>Sem duvida, no tempo da mais bella flôr da architectura gotica, quando foi
+ construida a cathedral de Colonia, ligava-se uma grande importancia a estes
+ numeros symbolicos, porque a concepção ainda confusa das idéas racionaes,
+ contenta-se facilmente com estes signaes exteriores.</p>
+
+ <p
+ style="text-align:right;margin-left:auto;margin-right:0;">H<small>EGEL</small>&mdash;<i>Esthetica</i>.</p>
+</blockquote>
+
+<p>A Cathedral! a creação suprema da Edade média, em que a arte, pelo
+sentimento, em uma strophe de pedra, sabe concentrar o espirito radiante do
+christianismo, pela força audaciosa do symbolo! Ella representa a aspiração
+incessante da alma que se eleva para o céo; é ella como a Esposa dos
+<i>Cantares</i>, que espera em silencio a visita do Amado, e se veste de suas
+galas e realça de encantos. A curva suave da <i>Ogiva</i> imita uns párpados
+languidos, uma pupilla scismadora, enleiada n'aquelle extasis sensual do amor
+divino, que Thereza de Jesus sentia nos seus delirios mysticos; as
+<i>flexas</i> atrevidas,<span class="pn">{70}</span> atiradas para os áres, a
+linha a infinitivar-se, a perder-se no espaço, as <i>agulhas</i> bordadas,
+rendilhadas, são os cabellos dispersos, fluctuantes da donzellinha, que se
+assenta cansada de errar pelas brenhas e em volta da cabana dos pastores á
+busca do amado. A <i>cupula</i> altiva, representando aquelle momento em que a
+alma se desprende dos limos terrenos e se absorve toda na mystica unitiva, é o
+collo, que o poeta dos <i>Cantares</i> comparava á torre de marfim que olha
+para o occidente, e cuja magestade é similhante á da lua que se alevanta.
+Miguel Angelo chama tambem a uma egreja, nas effusões do seu pantheismo
+artistico, <i>mia sposa</i>.</p>
+
+<p>Cada monumento antigo é como uma fronte veneranda, enrugada pelos seculos,
+animada por uma expressão profunda. Essa expressão é a linguagem dos évos,
+creada pelo espirito que não póde contemplar um facto, acreditar na sua
+existencia independentemente de uma idéa, de uma razão de ser que procura achar
+n'elle. É a fatalidade do enigma do sphinge. As Cathedraes goticas reunem quasi
+sempre a lenda piedosa com a lenda grotesca e diabolica; ellas são como a
+incerteza da alma que paira duvidosa entre a possessão e o extasis. Umas vezes,
+são os anjos que vêm de noite trazer de longe grandes blocos para a edificação
+da fabrica, que lavram a pedra, que alevantam o mosteiro. É a inspiração do
+anonymo nas obras grandiosas. Ás vezes, é o diabo, que com a mira em dilatar o
+seu imperio faz tudo, e<span class="pn">{71}</span> transporta para a
+construcção as melhores peças que rouba de outros monumentos, como uma columna
+do templo de Diana em Epheso para o templo de S. Zenão em Verona. A alma do
+architecto está retratada na sua concepção; receiando de suas forças para
+realisar o ideal sublime dos sentimentos do christianismo nos monolithos de
+marmore para que cria uma fórma, não teme evocar a potencia das trevas. Nas
+Ogivas escuras, soturnas das Cathedraes goticas, nos arabescos extravagantes
+das janellas esguias, nos monstros boqui-abertos que servem de goteiras, nos
+basiliscos informes dos pedestaes, reflecte-se esta alliança do mysticismo
+poetico com o mysticismo divino. Muitas vezes a Cathedral tem o mysterio de um
+symbolo que se mobilisa para exprimir os sentimentos da humanidade; com as
+invasões e descobrimentos maritimos ella toma a fórma de um navio voltado para
+o Oriente, d'onde lhe vem a luz; tambem imita uma cruz estendida ao longo, como
+na nossa maravilha de architectura, a Batalha, o poema da crença e do heroismo
+de um seculo.</p>
+
+<p>Estamos em plena Edade média. A noite era caliginosa e tetrica; o coriscar
+frequente dos relampagos, o ribombo estridente dos trovões repercutindo-se
+distante, e o restrugir medonho da floresta, completavam as harmonias
+intraduziveis da tempestade. A alma, diante d'este espectaculo estupendo da
+natureza, sentia uma pressão que a fazia concentrar-se possuida do sentimento
+do infinito,<span class="pn">{72}</span> a que os homens que tudo indagam e
+submettem ás formulas metaphysicas chamam&mdash;o <i>sublime</i>.</p>
+
+<p>Via-se através da escuridade absoluta das horas mortas um clarão incerto,
+como de alampada veladora. Seria algum discipulo de Flamel ou de Lullo
+absorvido pelos mysterios da alchimia, submettendo a materia, interrogando este
+Proteo eterno, que, a cada pergunta ostenta uma fórma diversa, e responde de
+mil modos differentes, sem que cheguem a surprehender-lhe o segredo de sua
+simplicidade? Seria um monge solitario enlevado na paz ignota da vigilia,
+procurando, no silencio da noite, elevar-se pelo coração até Deus? A luz
+jorrava da janella do aposento humilde e sombrio. Dentro, sentia-se o respirar
+cansado de um peito oppresso; a alampada espalhava em tôrno uma penumbra em que
+fluctuavam as visagens caprichosas de uma mente tresvariada, e vinha
+reflectir-se pallida, descorada sobre o rosto macilento, em que os gestos davam
+uma expressão incomprehensivel como os pensamentos que o agitam. Via-se
+n'aquelle rosto impressa a anciedade dos que penetram pela intuição a verdade
+de um problema insoluvel, e uma distracção leve lh'a fez esquecer. Sobre uma
+mesa estavam pergaminhos extensos, desenrolados, cobertos de linhas
+cabalisticas, com que se evocam os espiritos nocturnos, compassos e
+astrolabios, espheras e mappas.</p>
+
+<p>Era alli que morava mestre Gerardo, o architecto<span class="pn">{73}</span>
+da Cathedral de Colonia. Estava contemplando o traçado da sua obra; a
+physionomia animava-se-lhe de quando em quando com uma luz, um resplendor vivo
+de transfiguração, como n'um extasis em que o ideal se deixava tocar,
+determinar em uma fórma só concebida pela mente do homem. Os cabellos
+andavam-lhe revoltos, espalhados sobre a fronte, como nas convulsões de uma
+sibylla quando entrevê o futuro, e sente o influxo vertiginoso que lhe dicta o
+vaticinio. Depois, uma sombra espessa, como de um desgosto repentino, veiu
+offuscar-lhe a serenidade que se lhe espelhára na fronte, em que os annos
+redobravam a magestade. N'isto, levou a mão á cabeça, como para suster o
+impulso de uma idéa que lhe occorrêra:</p>
+
+<p>&mdash;A arte! a arte! é ella que me vem descobrir estas linhas que eu fixo no
+marmore, e que hão de ser a admiração dos seculos. Ella vem-me ensinar este
+segredo do ornato, a variedade disposta de modo, que leva o espirito á unidade
+do pensamento. A arte é uma religião que inspira tambem uma fé viva, ardente,
+intensa, e dá forças para affrontar a duvida, que cerca e punge o espirito
+creador. Um dia duvidaram de mim; não imaginavam que eu podesse levantar essa
+mole de pedras, uma Cathedral representando o vôo mystico da alma! Riram-se do
+plano da minha obra! Eu tenho pensado dias e noites, como na virgem eleita dos
+sonhos da mocidade. A Cathedral! ella apparece-me na phantasia, illuminada<span
+class="pn">{74}</span> por um sol fulgurante, trasbordando de musicas e
+harmonias suaves, perfumada de incenso, revestida de purpura, recamada de ouro,
+como a noiva que se veste para entrar no aposento do real esposo. Cada pedra
+que se vae dispondo, cada arco, cada pilastra erguida, é a ponta de um véo que
+se alevanta e me deixa vêl-a, sonhal-a, idealisal-a sobre essa realidade
+incompleta. É como a terra que vae apparecendo vagarosamente ao nauta cansado
+das tormentas, á medida que se esvaece o nevoeiro da madrugada. A Cathedral! a
+Cathedral! eu scismo e estremeço diante d'ella, quando a contemplo; sinto o
+delirio do artista grego apaixonado pela carnalidade que ia descobrindo o seu
+escôpro. Ella parece-me uma fada escondida, e que a arte me descobre o segredo
+para quebrar-lhe o encantamento, e mostral-a excelsa, bella, radiante
+elevando-se para o alto n'uma ascenção divina. Eu queria vêl-a suspensa nos
+ares, servindo-lhe as nuvens e os cumulos alvacentos de pedestal! Agora já me
+não inspira terror o desdem dos meus inimigos: descobri a ultima strophe do
+poema da minha vida, hei de confundil-os, fazel-os curvar-se adorando-a: é o
+zimborio, a cupula arrojada ás alturas, similhante ao vôo extatico da alma até
+á absorpção em Deus.</p>
+
+<p>Havia n'estas palavras a vibração frenetica do delirio; mestre Gerardo de
+Colonia ficou silencioso como na prostração dos fortes impulsos que lhe déra a
+alegria. Os olhos brilhavam humedecidos,<span class="pn">{75}</span>
+scintilantes, exprimindo o regosijo intimo da contemplação da sua alma. E
+tornou a inclinar-se sobre a folha de pergaminho, a recompôr na mente as linhas
+que alli traçara n'um momento de inspiração. Depois, accometido por um novo
+accesso de enthusiasmo, arremessou de si o traçado; os olhos flammejaram
+coruscantes, parecia que estava doido:</p>
+
+<p>&mdash;Eu quero mostrar assim, que essas Confrarias dos obreiros constructores de
+Strasburg, de Vienna, de Zurich e Magdeburg não podem disputar a proeminencia a
+Colonia. Todos os obreiros e artifices da Baixa-Allemanha hãode reconhecer em
+mim a supremacia do chefe. Que importa que Strasburg queira ser a séde da
+grande mestria? De que vale a homenagem prestada pelas confraternidades
+maçonicas da Alta-Allemanha, de uma parte de França, da Hesse, da Suabia, de
+Thuringe, da Franconia e da Baviera? O zimborio da Cathedral ha de erguer-se
+bem alto para a admiração de todos.</p>
+
+<p>E calou-se de repente, como envergonhando-se diante de si mesmo, de se haver
+deixado possuir d'aquella vaidade. Depois continuou com dor:</p>
+
+<p>&mdash;Quantos monumentos estupendos, quantos obeliscos gigantes, que assombram
+as edades, e que mostram o poder creador do homem, competindo com as creações
+de Deus, quantas maravilhas espalhadas pela superficie da terra, e que o
+architecto não quiz que se soubesse o seu nome, com uma abnegação sublime da
+gloria do<span class="pn">{76}</span> mundo! Eu que ainda não completei a minha
+obra, que a tenho aqui na cabeça, nem sei mesmo se chegarei a realisar este
+sonho, se terei a força de Atlante para suster nos ares a cupula audaciosa, eu,
+mesquinho, ufano-me, ensoberbeço-me! O genio não tem consciencia de si, não
+conhece o poder magico de que dispõe, por isso não se infatua. O que é a gloria
+do mundo ante a gloria celeste! Illusão que nunca chega a ter um momento só de
+realidade; é uma nuvem tenuissima que tolda o azul diaphano do empyreo. Para a
+alma do que preliba os encantos do céo, a gloria do mundo é uma tentação
+dolorosa, um martyrio incessante; porque então para ella a vida é como a luz
+vivida da alampada, que se consome no silencio da noite diante da imagem
+veneranda; assim, a alma procura envolver-se no olvido, no esquecimento de si
+para resplandecer mais pura.</p>
+
+<p>Os legendarios estão cheios d'estas luctas violentas com os sentimentos mais
+profundos do coração do homem. Um dia Rubens estremeceu attonito diante de um
+quadro escondido na penumbra de um côro em uma egreja hespanhola; o quadro era
+um mysterio quasi impossivel de ser traduzido, divulgado pelas côres sobre a
+tella. Era a morte do justo. A morbida expressão do rosto macilento, uma
+auréola divina diffundindo-se em roda, a alma anciosa pelo jubilo do céo a
+exhalar-se docemente, como o ultimo raio do sol da tarde, e por sobre a cabeça
+os anjos<span class="pn">{77}</span> debruçando-se das alturas a contemplarem o
+monge na hora do passamento! Era uma transfiguração sublime, a idéa mais bella,
+a que resume todo o christianismo, revelada pela arte. Quando o grande pintor
+voltou a si d'aquelle extasis imprevisto, sentiu-se pequeno ao pé de uma
+creação tão perfeita. Perguntou ao monge que o conduzia, que pincel realisára
+tamanha obra, para confessar-se seu discipulo, e proclamal-o á admiração do
+mundo. O monge sentiu um estremecimento convulsivo, e respondeu-lhe
+apenas:&mdash;«Não é já do mundo!» e quando elle voltou á sua cella, juntou os
+pinceis, a palheta e lançou-os na corrente de um ribeiro que deslisava manso á
+falda da janella; e para esconder as lagrimas que ainda uma vez lhe escaldaram
+as faces retinctas na palidez da penitencia, foi procurar conforto na oração
+fervorosa. Como não teria tambem esta energia para luctar comsigo aquelle que
+escreveu na mudez da cella um livro de resignação e conforto, a <i>Imitação de
+Christo</i>, e que abnegou d'essa gloria para não tornal-o uma mentira!</p>
+
+<p>Mestre Gerardo de Colonia ficára absorvido em uma meditação profunda. A
+tempestade continuava solemne e grandiosa na mudez da noite. Sentiu um leve
+rumor no aposento, que a contenção de espirito em que estava mal deixou
+perceber. Prestou ouvidos. Batiam á porta.</p>
+
+<p>&mdash;Quem será? assim tão fóra de horas!&mdash;e correu os ferrolhos. Entrou uma
+figura alta, embuçada<span class="pn">{78}</span> em um gabinardo longo, o
+rosto assombreado pelas abas de um largo chapeirão.&mdash;Quem sois?&mdash;inquiriu o
+architecto, preoccupado ainda na sua abstracção.</p>
+
+<p>&mdash;Sou um irmão da Confraria dos obreiros constructores de Strasburg;&mdash;tornou
+o desconhecido com uma voz cava.</p>
+
+<p>&mdash;Entrae.</p>
+
+<p>Sentaram-se, contemplando-se um instante silenciosos.</p>
+
+<p>&mdash;A que vindes?</p>
+
+<p>&mdash;O que me traz?&mdash;redarguiu o desconhecido com um tom de ironia
+acerba,&mdash;deves sabel-o melhor do que ninguem. Confias no zimborio da Cathedral
+de Colonia, para quereres assim submetter á tua supremacia a mestria central de
+Strasburg. É impossivel e chimerica essa tua loucura. As grandes lojas querem
+todas a independencia. Demais o zimborio, a obra que é o teu orgulho, não está
+prompta e talvez nunca a possas levar ao cabo.</p>
+
+<p>Mestre Gerardo ficou espantado, hirto de raiva diante da audacia do
+desconhecido. Depois, volveu-lhe com uma severidade que lhe abafava a voz:</p>
+
+<p>&mdash;Ainda sou architecto! e o zimborio ha de ser o primeiro a saudar no alto
+os alvores do sol quando se alevanta. Juro pela minha alma.</p>
+
+<p>&mdash;Aposto em como te enganas!</p>
+
+<p>&mdash;Aposto em como te hei de confundir, e a todas as mestrias rebeldes da
+Allemanha!&mdash;insistiu o architecto.<span class="pn">{79}</span></p>
+
+<p>&mdash;Pois bem! Eu comecei ha dias a obra do Aqueducto de Treves, e espero ainda
+vel-o acabado antes de teres prompta a Cathedral. Se assim não for, no dia em
+que deres por acabada a tua obra, despenho-me do Aqueducto. Tu precipitas-te
+tambem dos coruchéos da Cathedral se eu vier reclamar primeiro? Acceitas a
+aposta?</p>
+
+<p>&mdash;Acceito.</p>
+
+<p>&mdash;Juras?</p>
+
+<p>&mdash;Juro.</p>
+
+<p>A este instante ouviu-se longe o canto do gallo. O interlocutor mysterioso
+desappareceu subitamente ás primeiras notas do nuncio da alvorada. Foi então
+que o architecto reconheceu o&mdash;diabo; não quiz acreditar na realidade d'aquelle
+pesadello. O canto do gallo é celebrado nos hymnos da egreja, principalmente
+nos de Santo Ambrosio. <i>Gallo canente vigilemus omnes.</i> Elle symbolisa a
+voz interior que desperta a alma do somno da tentação; foi o canto do gallo que
+despertou tambem a Pedro no atrio do Pretorio, quando renegou o Mestre. No
+mysticismo poetico elle representa uma parte importante. A imaginação exaltada
+pelos sonhos da noite não podia deixar de revestil-o de mysterio. Já a Grecia
+lhe havia formado o mytho: é o castigo de Alectrião. A sombra que reclama de
+Hamlet uma vingança, o côro das feiticeiras de Macbeth, desapparecem com a
+magia d'esse canto.</p>
+
+<p>Um dia o architecto subira á Cathedral; estava prestes a terminar-se a
+cupula. A alegria hallucinava-o.<span class="pn">{80}</span> Appareceu-lhe
+então uma cabeça disforme, rindo, confrangendo-se em esgares satanicos por
+entre as sombras profundas de uma ogiva. Disse-lhe que estava prompto o
+Aqueducto de Treves. Mestre Gerardo empallideceu e voltou o rosto á pressa!
+Aquella nova enterrava-o. Baixou os olhos como para suspender uma vertigem
+instantanea, fatalmente o relance mediu a altura da Cathedral; o angulo visual
+dilatou-se de modo que lhe produziu a attracção do abysmo. Resistiu debalde,
+vacillou um instante e despenhou-se por fim. Disseram que fôra a alegria
+explosiva de vêr a sua obra, que lhe causara o desvario que o precipitou.</p>
+
+<p>Assim conseguiu estabelecer o seu predominio a Mestria central de
+Strasburg.<span class="pn">{81}</span></p>
+
+<h1>As aguias do norte </h1>
+
+<h3>(<small>CONTO POLACO</small>) </h3>
+
+<p>Harpa sacrosanta, orvalhada pelas lagrimas dos videntes, que repousam sobre
+ti frontes encanecidas, banhadas no pranto do captiveiro, quando á tarde
+abandonada na solidão do exilio, á beira da torrente, a aragem vespertina vinha
+gemer em tuas cordas, o cantico remoto era como o anceio de um coração
+oppresso, ai, que se perde confundido com o rojar das cadeias.</p>
+
+<p>Inclina-te agora em meus braços, e vibra-me um canto de desespero,
+insoffrido, eterno, para acordar a turba, que dorme sob o peso das
+gargalheiras.</p>
+
+<p>O vento livre saberá levar a toada longinqua, para achar ecco no peito dos
+desgraçados. Patria! patria! és a tunica inconsutil sobre que rodam os dados do
+infortunio.<span class="pn">{82}</span></p>
+
+<p>Polonia! tu és o peito exangue, ferido pela lança do incredulo. Podesse o
+teu sangue dar a vista ao que te fere com mão obstinada. Ao menos, que o teu
+ultimo arranco afaste para bem longe o bando dos abutres selvagens que pairam
+sobre ti, Prometheu, algemado em terra, mas, que ainda nas convulsões da agonia
+mostra a animação do fogo divino da liberdade.</p>
+
+<p>Oh! mas o que vale ao poeta desterrado contemplar a ruina da patria! Para
+que ha de elle pedir á sua harpa um canto de angustia e saudade, se aquelles
+que o escutam e se sentem fortes para luctar com um esforço sobrehumano, são
+depois martyres do sublime enthusiasmo?</p>
+
+<p>Que tristeza profunda o lembrar-me que o meu poema a <i>Tentação</i>,
+exaltando os estudantes da Lithuania para sacudirem os tyrannos, fez com que os
+oppressores arrojassem para os steppes e minas da Siberia a flôr da mocidade da
+Polonia! Pobre Karl; ainda tenho aqui a carta em que elle me conta os trabalhos
+da jornada para o desterro:</p>
+
+<p style="text-align: center;"><i>De um estudante de Lithuania ao Poeta anonymo
+da Polonia</i> </p>
+
+<p>«Em todos os tempos a poesia tem sido a expressão dos sentimentos profundos
+da humanidade; chora com as suas dôres, e é ella que vae ao sepulchro das
+nações proferir o <i>Surge et ambula</i> á raça supplantada pela pressão dos
+despotas.<span class="pn">{83}</span> Desde os prophetas de Israel, e Tyrteu e
+Callino até Rouget de Lisle, Kerner e Poetefi, a poesia tem dirigido as
+revoluções; é como a columna de fogo que leva á terra promettida através dos
+errores do dezerto.</p>
+
+<p>Nós eramos crianças, animados dos sentimentos mais puros, que a edade não
+deixa contaminar; choravamos de magoa e despeito, com vergonha de vermos
+envilecida, sob o jugo obscurante dos czares, esta pobre patria esmagada por um
+colosso de inercia e barbarie. Um dia appareceu-nos um poema estranho, novo, um
+grito ancioso em que se exhalava uma alma. Pareceu-nos a voz da Polonia que nos
+chamava em seu desalento; sentimo-nos fortes no primeiro impulso.</p>
+
+<p>Estudavamos em Lithuania; uma noite reunimo-nos para lêr o poema. Brilhava
+em cada rosto um lampejo de colera e esperança. Cada estrophe era um
+sobresalto, a anciedade do sacrificio. Eramos como aquelles crentes dos
+primeiros seculos do christianismo, tinhamos a sêde do martyrio. A noite da
+conjuração era tempestuosa como os pensamentos que nos agitavam. Jurámos alli,
+com as mãos sobre as estancias mysteriosas que nos vieram despertar do lethargo
+da oppressão, abnegar do amor, da familia, da vida, por esta desgraçada
+Polonia. A alampada solitaria que allumiava o aposento deixava uma penumbra
+phantastica e terrivel, como em um tribunal whemico; os olhos coruscavam com
+brilho de alegrias<span class="pn">{84}</span> sanguinarias. O enthusiasmo
+precipitava-nos. Sentiamos forças de Atlante, uma audacia e tenacidade para a
+lucta; mas, via-se ao mesmo tempo em cada rosto a sombra, não sei de que
+pensamento funesto, de uma aspiração irrealisavel. Seria uma desgraça
+imminente?</p>
+
+<p>Quando nos abraçamos como irmãos na mesma crença, para os transes mais
+dolorosos, correram as lagrimas, ferventes, como nos momentos rapidos de uma
+despedida para sempre. Havia um silencio augusto. Parecia que o céo e a terra
+escutavam o nosso juramento; que a patria agrilhoada interrompera os lamentos
+para escutar a voz consoladora de seus filhos, que esperavam o dia da
+redempção.</p>
+
+<p>Foi então que ella appareceu, Hedwige, a mulher que eu amava, o cabello
+destrançado pelo vento da noite, cansada, offegando, sem côres, enfiada de
+susto. Julguei-a uma apparição angelica, que baixava para trazer-nos a palma do
+martyrio, a annunciar os transes d'este horto em que estavamos recordando as
+agonias da Polonia. Como ella estava bella, radiante; era uma prophetisa,
+altiva como Débora quando proclamava ás gentes a lei, a sombra das palmeiras
+entre Rama e Bethel, sobre as fronteiras de Benjamim e Ephraim. Ficámos
+suspensos, esperando o hymno que havia romper dos labios sellados por um
+mysterio profundo. Como deixou ella a casa de seus paes, nas sombras da noite
+medonha? Como soube onde estavamos; quem a trouxe aqui?<span
+class="pn">{85}</span> Fôra o amor, esta illuminação da segunda vista. Hedwige
+proferiu, depois de alguns instantes de repouso, com a voz entrecortada e
+tremula:</p>
+
+<p>&mdash;Ainda é tempo! Os soldados russos vêm em busca de nós; sabem da
+conjuração, e perseguem-nos; poupemo-nos para a hora suprema do resgate.</p>
+
+<p>Depois ella veiu para mim e abraçou-me. Ia começar a fallar, quando se
+sentiu na rua o estrepito de armas, e vozearia de uma soldadesca brutal e
+desenfreada. Não me custava a vida; mas tel-a a meu lado, alli! vêl-a sujeita á
+irrisão e malvadez dos que vinham para prender-nos! Pobre Hedwige; ella
+abraçou-me e sorriu-se:</p>
+
+<p>&mdash;Tens medo? vejo-te tão pallido! Receias que eu não tenha coragem para
+corresponder á tua bravura? Eu sou mulher, é verdade. Era ao suspiro de uma
+mulher que a liberdade romana acordava sempre. Lucrecia e Virginia ensinaram-me
+tambem a ser forte um dia. Karl! eu sinto que n'este instante nos une um amor
+mais alto e desinteressado, que nada tem das paixões terrenas. Dá-me o abraço
+que ha de fundir n'uma só as nossas almas para sempre. Agora já te posso dizer
+como Arria, se te visse esmorecer no perigo, o que elle disse levando o punhal
+ao peito: <i>P&oelig;, us, non dolet!</i></p>
+
+<p>O tumulto, o som confuso das armas, o tropear dos soldados, não me deixaram
+ouvil-a mais. Entraram na sala sombria, como uma onda turbulenta que irrompe
+derrubando os diques e<span class="pn">{86}</span> se precipita como um vertice
+fremente. As armaduras reluziam, e nos causavam a vertigem do terror. Um frio
+lethal escoou-se por mim; lembrou-me luctar para defendel-a.</p>
+
+<p>Reinava um silencio de morte. Já sabiamos a sorte que nos esperava. Depois
+vieram lançar-nos as cadeias pesadas, as gargalheiras infamantes da escravidão,
+ultrajando com risos aquelle sentimento puro que nos dava constancia para o
+martyrio. Era impossivel resistir; todo o esforço seria inutil. Deixei
+passivamente algemarem-me. Um olhar firme de Hedwige inspirou-me uma resignação
+indizivel. Não sei que apparencia divina, que irradiação sublime, etherea,
+envolvêra o rosto da minha amada, que os soldados não se atreviam a
+aproximar-se. Seria esse terror, que fazia cair em terra, fulminados, os que
+tocavam na Arca sacrosanta? Na serenidade altiva que ella mostrava n'este
+instante, conheci-lhe uma resolução extrema; Hedwige queria tambem ser
+prisioneira, para soffrer commigo as dores do desterro. Ella lançou mão do
+poema que estava sobre a mesa, e começou a recitar algumas das estrophes mais
+arrebatadas, com uma voz prophetica, no tom mysterioso de uma sibylla. A magia
+d'aquella voz sentida prendia; ficaram immoveis, quedos, escutando-a:</p>
+
+<h3>Fragmentos de uma Elegia polaca </h3>
+
+<p>&mdash;«E lentamente, mui lentamente, por detraz do Homem-Deus, avança
+deslumbrante de belleza<span class="pn">{87}</span> e sem vestigios de morte a
+minha dilecta Polonia.&mdash;Ella pára sobre os umbraes da Sião promettida a todos
+os povos, e&mdash;d'estas alturas sagradas sua voz retumba, dirigindo-se ás nações
+reunidas muito longe, lá em baixo, nos términos do espaço.</p>
+
+<p>«A mim, a mim, oh vós, raças fraternas! A ultima lucta do derradeiro combate
+terminou;&mdash;os embustes das traições e das mentiras terrestres estão
+destruidos.&mdash;Subi commigo para o reino da paz.»&mdash;E o côro das nações lhe
+responde: «Benção e gloria a ti, oh Polonia! porque ainda que tenhamos todas
+soffrido,&mdash;tu supportaste mais tormentos que nenhuma de nós,&mdash;Pela enormidade
+das injustiças accumuladas sobre ti, conservavas constantemente o inimigo
+debaixo do raio de Deus!&mdash;No transe do martyrio, tiravas de teu coração uma
+vida mais energica que a dos teus oppressores,&mdash;e pelo teu sacrificio nos
+salvaste.&mdash;Benção e gloria a ti, oh Polonia!»</p>
+
+<p>Oh! quantas vezes por uma noite sombria do outomno, a voz de minha mãe ou de
+algum antepassado sáe do tumulo, e chega até mim para me fallar do futuro.&mdash;Eis
+que a este ruido mysterioso, visões estranhas me apparecem.&mdash;O canto de
+triumpho soltando-se do peito de milhões de homens, resôa em derredor.&mdash;Os
+vencedores passam em phalanges innumeraveis,&mdash;eu vejo as brancas,
+resplandecentes figuras das irmãs e dos irmãos libertados da escravidão;&mdash;a
+centelha da immortalidade faisca de todas as frontes.&mdash;Mesmo<span
+class="pn">{88}</span> sem azas, elles vogam no ár, como se fossem alados; sem
+corôas brilham como se fossem coroados.&mdash;E eu mesmo prosigo no meio de todos, e
+me sinto em uma especie de céo desconhecido, antecipado.</p>
+
+<p>E, quem sabe? talvez que a prophecia dos meus sonhos se realisasse já sobre
+o tumulo da Polonia! E não havia senão eu, eu cadaver, que faltava entre os
+resuscitados! Oh, através d'estas grades e d'estes muros que me fecham como as
+taboas de um feretro, o meu espirito se illumina e se expande ao longe,
+transpondo o tempo e o espaço!&mdash;Sim, eu vejo: além, por toda a parte myriades
+de estrellas e flores;&mdash;o mundo regenerado celebra suas nupcias com a joven
+liberdade!&mdash;Na aresta dos Alpes, no cimo dos Carpathos, o céo resplandece com
+os raios da mesma aurora,&mdash;e todos os povos unidos, confundidos, parecem formar
+um só oceano, por sobre o qual é levado o espirito de Deus<a name="tex2html1"
+href="#foot585"><sup>[1]</sup></a>.»</p>
+
+<p>Á medida que ia proseguindo no canto, Hedwige, como a Sulamite dos
+<i>Cantares</i>, comparada á torre que olha para o occidente, parecia suspensa;
+o semblante com a graça diaphana de um seraphim. N'aquella elevação
+surprehendente, a commoção embaraçou-lhe a voz; não pôde fallar; ficou hirta,
+livida, como na concentração violenta do extasis. Era o genio da Polonia
+incarnado<span class="pn">{89}</span> em uma mulher que soffria. Hedwige ficou
+silenciosa; nem um queixume, uma lagrima sequer, quando lhe roxearam os pulsos.
+Quando tornou a si, e conheceu que ia compartilhar commigo a mesma sorte,
+sorriu-se, com a expressão divina da alegria dolorosa e da resignação.</p>
+
+<p>Dias depois leram-nos a sentença. Doze annos de desterro e trabalhos na
+Siberia. Hedwige escutou impassivel. Custava-me tanto vel-a soffrer em
+silencio; ella fazia um esforço inaudito para não vergar com as dores
+excessivas; não queria redobrar o meu soffrimento. Oh meu Poeta! foi então que
+me convenci de que o homem é o lobo do homem; peior ainda que o lobo cerval,
+porque espia os segredos da nossa alma, e antes que nos inflijam as sevicias do
+corpo, torturam-nos o espirito, insultando os sentimentos mais recatados e
+santos que nos dão coragem nos desalentos da vida.</p>
+
+<p>Partimos todos na carroça dos desterrados, um <i>kibitka</i> peior que o
+tormento inventado para matar o integerrimo Atilio. As rajadas do inverno eram
+cortantes, e tiravam-nos todo o vigor para avançar; depois, vieram
+amontoando-se os gelos, e nos obrigaram a proseguir a pé; a desolação dos
+steppes, por onde passavamos, despertava-nos não sei que sympathia, talvez
+porque eram uma similhança visivel do abandono e ruinas em que estavam nossas
+almas.</p>
+
+<p>Hedwige, delicada e fragil não podia caminhar mais, via-a desmaiar pouco a
+pouco; a lividez<span class="pn">{90}</span> do sepulchro no semblante
+desbotado! Parecia-me a flor mimosa, emmurchecida com as geadas da noite. As
+pancadas do <i>knut</i>, um látego formado de tiras de couro crú e rosetas de
+ferro, com que a verberavam para adiantar caminho, esgotaram-lhe as forças. Eu
+não sei que haja palavras humanas para exprimir a dor e a raiva que senti
+n'esse instante, porque o coração do homem nunca soffreu tanto, para descobrir
+uma expressão para este infinito da angustia. Hedwige nem se atrevia a olhar
+para mim; depois vi-a cair transida de frio e cansaço; esgotára o ultimo
+esforço. Quizeram deixal-a sepultada entre o gelo. A noite vinha a fechar-se
+asperrima, atroz; eu não podia sequer lembrar-me que o corpo da minha amada ia
+ser em breve pasto dos abutres. Via-me tambem já sem forças. Pedi para leval-a
+aos meus hombros.</p>
+
+<p>Era a loucura e egoismo do amor, que fazia com que a conduzisse, para sentir
+ainda agonias mais violentas que a morte.</p>
+
+<p>&mdash;«Oh! antes me deixasses sepultada na solidão dos steppes, exposta ás aves
+nocturnas, do que vermo-nos agora separados para sempre!»&mdash;Disse-me ella a
+abraçar-me phrenetica, louca, quando nos separaram, mal que chegámos ás minas
+da Siberia.</p>
+
+<p>Os meus companheiros do infortunio não os tornei mais a ver; Hedwige foi
+condemnada ao trabalho das minas de mercurio, muito longe. Não soube mais
+d'ella. A mim, enfiaram-me um<span class="pn">{91}</span> capote de feltro e
+desceram-me por uma corda pelas gargantas da terra, por um boqueirão escuro; á
+medida que ia baixando, ia sentindo vozes confusas, ruido de enxadas. Então, vi
+na obscuridade profunda a luz baça e mortiça das lampadas de segurança, e uma
+multidão de homens escaveirados, magros; era uma cidade de mumias. Era aquella
+a minha habitação para doze annos de existencia. Admirava-me de ver alli
+crianças; filhos dos desgraçados obreiros, rachiticos, enfezados, não conheciam
+a luz do mundo, a vida resumia-se no trabalho insano. As dores que supportava
+haviam-me embotado o sentimento, tinha a impassibilidade do idiotismo, a mudez
+do assombro. Ás vezes uma lembrança longiqua de Hedwige e de minha mãe, a quem
+não pude dizer ao menos o extremo adeus, me davam a consciencia de que ainda
+vivia; mas não podia alliviar-me com as lagrimas.</p>
+
+<p>Os que me viam nunca se atreveram a perguntar qual o meu crime. Não sei que
+esperança me prendia á vida, para que me não despedaçasse contra as rochas que
+ia arrancando. Estava já acostumado á obscuridade. Um dia começou a lembrança
+de Hedwige a occupar-me a imaginação. Seria uma saudade viva? algum
+presentimento? Lembrar-se-hia ella tambem de mim n'esse instante? Julgava-a já
+morta, criança e debil como era. Sem Hedwige, para que queria eu a vida? Oh! se
+a visse ainda uma vez morreria contente, resignado, perdoando tudo quanto<span
+class="pn">{92}</span> os que se dizem meus similhantes me fizeram soffrer.</p>
+
+<p>Era uma loucura esta idéa. E continuavamos silenciosos a romper a mina
+lobrega e funda. Começámos a sentir um écco surdo; eram os trabalhadores de
+outras minas, que se encontravam. Continuei a trabalhar com mais afan, na
+direcção d'onde vinham os sons abafados.</p>
+
+<p>Encontrámo-nos dias depois. Que alegrias, que abraços intimos entre aquelles
+socios da desgraça. Se estivesse ali Hedwige! Que fatalidade! o meu desejo era
+o presentimento. «Já te esqueceste de mim?» Senti um abraço sem vigor; fitei
+nas sombras o vulto, que me fallava e me estreitava a si. Era ella, livida,
+desconhecida, com a magreza da consumpção; o mercurio penetrára-lhe a parte
+esponjosa dos ossos. Tive horror do ente que amava, era só a compaixão que me
+prendia a ella.</p>
+
+<p>&mdash;«Lembras-te das palavras de Simeão quando na apresentação do templo viu o
+Messias em seus braços? Hoje digo-te o mesmo, Karl; já posso morrer.»</p>
+
+<p>E eu continuei a viver para vêr prolongados a miseria e os flagicios
+incriveis, que me cercavam. Já não tinha o amor, que alimentava as horas da
+minha solidão. Hedwige tinha-me expirado nos braços; soltára a alma candida,
+acrysolada nas tribulações, no ultimo beijo, que recebeu de mim. D'ahi por
+diante a vida pareceu-me mais impossivel de supportar; eu não vivia, vegetava
+como<span class="pn">{93}</span> o lichen no fundo de uma caverna escura. A
+imbecilidade proveniente da atonia e dos pesares indescriptiveis prolongara-me
+a existencia vegetativa. </p>
+
+<p>Lembrava-me minha mãe. Se a tornaria a vêr ainda! Estaria ella já no
+sepulchro, ralada com a saudade da ausencia, cansada de esperar a volta do
+captiveiro? Sem successos, nem distracções, que me preoccupassem a vida, cada
+momento parecia-me um seculo de desesperação. Estes doze annos foram uma outra
+existencia. Quando voltei á patria julguei um renascimento; mas tornava a
+apparecer á luz do mundo para mais provações e dôres, porque minha mãe estava
+morta; a patria, o que ainda me fazia palpitar o coração com vida, vejo-a
+esquecida, inerte sob o jugo prepotente da Russia. Hoje escrevo-lhe, meu Poeta,
+porque é a unica pessoa, que me resta no mundo, e só me prende á vida o
+juramento, que fiz de immolal-a no altar da patria.&mdash;<i>Karl</i>.»</p>
+
+<p>O Poeta anonymo da Polonia produziu com os seus poemas o mesmo que
+Mickiewich, o auctor do <i>Banquete de Walenrood</i>. Só depois de morto é que
+se soube o seu nome; era o conde Sigismundo de Krasinski. A liberdade da
+Polonia fôra o unico ideal da sua inspiração; é ella sempre que transluz nas
+maravilhas com que enriqueceu a litteratura polaca, nos <i>Psalmos do
+Futuro</i>, no <i>Iridion</i> na <i>Comedia Infernal</i> e na <i>Tentação</i>,
+a que anda ligado este facto que narrámos.<span class="pn">{94}<br>
+{95}</span></p>
+
+<div class="rodape">
+<p><a name="foot585" href="#tex2html1"><sup>[1]</sup></a> Strophes
+<small>XIX</small>, <small>XX</small>, <small>XXI</small> do poema <i>O
+Ultimo</i>, do conde Sigismundo Krasinski.</p>
+</div>
+
+<h1>O relogio de Strasburgo</h1>
+
+<h3>(<small>CONTO DE 1352</small>)</h3>
+
+<p>A Edade média está completamente caracterisada nas suas lendas; porque se
+não hade por ellas recompôr a historia, animal-a com essas côres vivas, dar-lhe
+movimento. A mais extensa, a que absorveu todas as imaginações rudes e
+creadoras, foi a lenda do Diabo, reproducção do dualismo persa, que apparece
+fatalmente no periodo instinctivo da genése religiosa. D'esta idealisação do
+mal provém, na arte, a realisação anonyma do grotesco, muitos dos velhos
+fabularios, e na ascese divina a tentação de que estão cheios Ribadaneyras e
+Bollandistas.</p>
+
+<p>A sciencia, nos primeiros seculos da Egreja, foi despresada, amaldiçoada
+como inutil e perigosa,<span class="pn">{96}</span> porque tornava o espirito
+rebelde, orgulhoso; a alma perdia com ella a simplicidade, que a elevava até
+Deus. A observação das leis physicas do mundo era uma impiedade; Bacon e
+Sylvestre II foram olhados como feiticeiros. É um martyrologio interminavel o
+desenvolvimento da razão. Foi um dos algozes Sam Paulo: «Eu destruirei a
+sabedoria dos sabios e rejeitarei a sciencia dos eruditos. O que é feito dos
+sabios? O que é feito d'estes espiritos curiosos das sciencias do seculo? Não
+os ha convencido Deus da loucura das sciencias d'este mundo?» A Egreja não se
+contentou com a acrimonia da invectiva, quiz encarnar este verbo do
+obscurantismo. As luctas e as agonias que se seguiram estão perpetuadas em um
+sem numero de lendas sobre as revoltas do espirito, que vieram a synthetisar-se
+no typo do <i>Fausto</i>.</p>
+
+<p>Em pleno seculo XIV. O sol brilhante, em um céo sereno e limpido de um dia
+de alegria, derramava-se em torrentes sobre a cathedral de Strasburgo. Voltada
+para o oriente, segundo o rigor do symbolismo religioso, recebia a luz do alto,
+como um cenaculo em que as linguas de fogo vinham revelar os mysterios da vida
+e a serenidade, que ella havia de infundir aos tristes que se accolhessem,
+corridos das tempestades do mundo, na tranquillidade do seu recinto. A luz
+reflectia-se coruscante das vidraças, que ostentavam um rosicler das côres mais
+caprichosas e vivas; cada pedra, cada angulo, cada saliencia destacava-se<span
+class="pn">{97}</span> mostrando os rendilhados e lavores exquisitos; a torre
+parecia então mais altiva, não topetava com as nuvens, perdia-se na profundesa
+do espaço azulado e puro. Era um bello dia de primavera.</p>
+
+<p>Diante da cathedral magestosa foram-se agrupando pouco a pouco alguns vultos
+ociosos; e, attrahida <i>na razão directa das massas</i>, instantes depois a
+multidão fluctuava impaciente, como quem espera um prodigio annunciado,
+<i>exempligratia</i>, um ecclipse. Não era nenhum ecclipse, nem tampouco o
+apparecimento de um cometa, que então fazia tremer os pontifices e os reis. Não
+era mesmo procissão esplendida, que o povo e os amadores de tertulias estavam
+esperando com anciedade. O que seria então?</p>
+
+<p>Uma figura extranha, embuçada em um tabardo escuro, chapéo emplumado ao uso
+da côrte, vinha montado, a passapello, em um cavallo fouveiro; custava-lhe a
+romper por entre a turba apinhada; estrangeiro ali, não quiz atropellar
+ninguem, e resolveu esperar que o concurso fosse diminuindo.</p>
+
+<p>&mdash;O que está toda esta gente aqui a fazer, em um dia de trabalho?&mdash;perguntou
+o desconhecido para um rapaz, que parecia esconder-se entre o vulgo, com um ár
+de tristeza e de uma dôr indizivel.&mdash;Ha alguma procissão ou festa de jubileu?
+Ainda as portas da cathedral estão fechadas.</p>
+
+<p>&mdash;É certo que vindes de bem longe,&mdash;volveu-lhe vivamente o pobre rapaz&mdash;pois
+que ainda vos<span class="pn">{98}</span> não chegou a fama do grande Relogio
+de Strasburgo. É uma maravilha da Allemanha. Não vêdes aquella estatuasinha da
+Virgem? Diante d'ella, vem ao bater do meio dia os trez Reis Magos com seus
+presentes, e o Gallo automato, que lá está, saccode as azas logo que o sol toca
+o zenith.</p>
+
+<p>O cavalleiro não teve tempo para comprehender o que ouviu, porque um susurro
+immenso, repentino, burburinhou por toda a praça. O carrilhão de Strasburgo
+dava meio dia. Ficaram boquiabertos, attentos esperando o apparecimento dos
+Reis Magos. Sentiu-se primeiro o ruido estrepitoso de umas azas pesadas, depois
+o clangor de uma voz énea, soturna. O cavalleiro estava pasmado com o que via.
+A fama do Relogio de Strasburgo correra as partidas do mundo. Os palacios, os
+mosteiros, os castellos desejavam uma maravilha egual. Ignorava-se o nome do
+artista. O cabido da cathedral ufanava-se com tão magnifico e singular
+artefacto.</p>
+
+<p>&mdash;Oh! dize-me,&mdash;acudiu o cavalleiro, saindo do espasmo da admiração&mdash;dize-me
+quem fez esta obra prodigiosa, que é a inveja de todas as cidades do mundo!
+Porque se não fala no nome d'elle? Onde está o artista? Venho de França para
+vel-o.</p>
+
+<p>&mdash;Perguntaes, nobre cavalleiro, como se eu pudesse violar tal segredo! Mal
+sabeis que as vossas palavras acordam na minha alma uma dôr profunda como um
+ecco n'um páramo aziago.<span class="pn">{99}</span> Quem fez o Relogio,
+perguntaes vós, e a gloria tenta-me, precipita-me, impelle-me a arriscar a
+vida! Foi meu pae!&mdash;E as lagrimas de alegria e pesar foram-lhe arrasando os
+olhos, até que rompeu em um choro insoffrido de criança. O cavalleiro apeou-se
+e estreitou-o nos braços. </p>
+
+<p>&mdash;É a saudade de teu pae, que te lava o rosto com esse pranto de ingenuidade
+e amor? Não soube a morte respeitar tão preclaro engenho? E eu que vinha da
+parte de Carlos V, de França, para visital-o e fallar-lhe!</p>
+
+<p>&mdash;Elle ainda vive, senhor. Mas que vida! Oh! antes a morte o tivesse
+envolvido nas suas trevas geladas; antes houvesse nascido sem aquella luz do
+talento, que é sempre a predestinação do martyrio.</p>
+
+<p>A praça estava já deserta, e os dois partiram enleiados n'esta conversação.
+Chegaram á officina do relojoeiro. Era um velho; as cans alvissimas
+formavam-lhe um diadema venerando; tinha o rosto escondido entre as mãos, como
+quem se abysmára n'uma abstracção intensa, ou n'uma grande e entranhavel
+agonia. O estrangeiro permaneceu hirto sob a soleira da porta; não se atrevia a
+interromper os processos mysteriosos d'aquella mente perscrutadora. A criança
+aproximou-se com familiaridade, e segredou-lhe longamente umas palavras mal
+articuladas e confusas. O velho ergueu então a fronte banhada em uma alegria
+suave, e voltou-se para a porta:</p>
+
+<p>&mdash;Buscam-me da parte de el-rei Carlos V de<span class="pn">{100}</span>
+França?&mdash;perguntou elle com um ár affavel e indicando um assento ao
+desconhecido.</p>
+
+<p>&mdash;Em verdade, el-rei me envia aqui.</p>
+
+<p>&mdash;E o que pretende de mim, que nada posso, el-rei, que tudo manda?</p>
+
+<p>&mdash;Conhecendo a vossa boa fama, vendo que enriquecestes a Allemanha com essa
+maravilha do Relogio de Strasburgo, elle quer tambem collocar na torre do
+palacio da Justiça uma machina, que dividindo com justeza as doze horas do dia,
+ensine a observar a justiça e as leis.</p>
+
+<p>&mdash;Como o não serviria eu de boa vontade, se me não houvessem apagado para
+sempre o lume dos olhos. Não vêdes estas orbitas vasias? Cegaram-me. Ha já
+dezeseis annos que vivo mergulhado n'estas sombras cerradas, que me antecipam a
+escuridão tetrica do sepulchro, mas que me prolongam a vida, no abandono da
+desgraça, para soffrer a cada instante as mais excruciantes provações. Eu vivo
+ao desamparo; nem sei já trabalhar. N'esta solidão do espirito, para esquecer o
+tedio e a desesperação que me pungem, eu invento machinismos complicados, que o
+meu pobre filho executa. É elle o herdeiro do meu engenho. Cada pancada do
+relogio no carrilhão da cathedral, é uma palavra de sarcasmo, um insulto
+vibrado por uma lingua satanica, só entendida por mim. Vou contando as horas na
+mudez das noites de insomnia, e cada uma me descreve com mais feias côres esta
+morte onde fui precipitado em vida.<span class="pn">{101}</span></p>
+
+<p>Havia nas palavras do velho um mixto de resignação e dor, uma conformidade,
+uma santidade admiravel. A fronte, enrugada pelos annos e o estudo, pendia-lhe
+sobre o peito; o filho ainda imberbe, engraçado, ingenuo, estava de pé a seu
+lado, mudo, com os olhos no chão.</p>
+
+<p>&mdash;Como houve mãos tão barbaras, que ousaram pôr diante do vosso espirito,
+para sempre, a sombra eterna da morte? Foi o acaso? Foi a malvadez que vos
+despenhou n'essa desgraça? Seria a inveja quem vos supplantou á traição,
+vendo-se obrigada a admirar os artefactos que não podia exceder? Oh, contae-me.
+Não! não! tenho horror de ouvir; deve custar-vos muito isso. El-rei ha de
+sabel-o e acudir-vos.</p>
+
+<p>O velho ergueu lentamente a fronte; poisou as mãos sobre a cabeça loira do
+filho, brincando distraido com os cabellos anellados. Depois de um momento de
+indecisão, começou:</p>
+
+<p>&mdash;O bispo João de Lichtenberg encommendou-me um relogio grande para a torre
+de Strasburgo. Era preciso que as horas canonicas fossem observadas com
+escrupulo; as irregularidades na divisão do tempo causavam graves
+inconvenientes ás resas e officios divinos do côro. Eu trabalhei dois annos
+consecutivos; tinha empenhada n'aquella obra a minha fama. Inventei um
+kalendario em que representava as indicações das principaes festas moveis: ao
+lado puz-lhe um quadro em que estavam escriptas em verso as principaes
+propriedades dos sete planetas; ao meio colloquei-lhe<span
+class="pn">{102}</span> um astrolabio, em que os ponteiros notavam o movimento
+do sol e da lua, as horas e os quartos. Ao alto estava uma estatua da Virgem,
+ante a qual se inclinavam, ao dar do meio dia, as figuras dos tres Reis Magos.
+Ficaram espantados com a maravilha da obra; soôu por toda a parte a fama
+d'ella. O povo agglomerava-se na praça para vêr. O cabido receiou que os outros
+mosteiros ou as côrtes da Europa quizessem ter um monumento egual. Como
+impedil-o? Uma noite, estava eu descançando do trabalho assiduo, improbo que
+levava, quando me bateram á porta. Vieram dizer-me que o relogio estava parado.
+Levantei-me á pressa, atterrado, confuso, e dirigi-me para a torre. Quando ia
+subindo, e já a uma altura vertiginosa, apagaram-se de repente os archotes; os
+que me acompanhavam, lançaram mão de mim para me precipitar; as unhas
+prenderam-me ás fendas da cantaria, com a tenacidade do amor á vida. Por fim,
+cansados, agarraram-me, arrancaram-me os olhos. Aos meus gritos, os malvados
+respondiam que me désse por feliz em não ser queimado vivo na praça publica,
+exposto á irrisão da plebe, por feiticeiro; que eu tinha pacto com Satanaz, que
+o evocava com linhas cabalisticas com que formava as rodas denteadas.</p>
+
+<p>O pobre velho permaneceu um instante silencioso reflectindo no assombro
+d'aquella noite infernal; depois mudando de conversa, o embaixador pediu-lhe
+para levar o filho, que havia de fazer<span class="pn">{103}</span> por certo o
+relogio para o palacio da justiça. Não faltaram negações e hesitações. O velho
+conhecia o talento do filho, e temia um egual desastre. O cavalleiro jurou
+protejel-o com a vida, e trazel-o incolume a casa de seu pae, logo que tivesse
+findado o trabalho.</p>
+
+<p>O relogio foi posto na torre do palacio da Justiça, e, elle que aconselhava
+a observancia da justiça e das leis, foi o mesmo que, dois seculos mais tarde
+deu o signal para a execranda carnificina da noite de S. Bartholomeu.</p>
+
+<p>Quando o filho do relojoeiro de Strasburgo voltou á patria, ainda o pobre
+velho vivia. Estava no meio da sua desgraça, possuido de uma alegria infinita.
+Na solidão do espirito em que ficara, procurara constantemente vingar-se.
+Vingou-se afinal. Um dia conseguiu aproximar-se do Relogio, e tocou em uma roda
+de tal forma, que não tornou mais a regular, apesar de todos os esforços; em
+1574, intentou restaural-o Dasypodius, outros em 1669, em 1731, até que cessou
+de trabalhar em 1789, como uma riliquia ultima da Edade media que arrebatava a
+Revolução. O desgraçado levava esta unica consolação do mundo. A mesma lenda se
+conta dos relogios de Nuremberg, de Auxerre e Lyon, em que as versões parecem
+filhas da comprehensão de uma mesma verdade.<span class="pn">{104}<br>
+{105}</span></p>
+
+<h1>Um erro no kalendario</h1>
+
+<h3>EPISODIO DA HISTORIA DA INQUISIÇÃO EM HESPANHA </h3>
+
+<h2>I</h2>
+
+<p>Quem o visse sentia-se atrahido para elle por uma fatalidade irresistivel. O
+olhar encovado e scintilante tinha a fascinação da onça refalsada. A estamenha
+monastica da humildade era uma arma de que se servia. A côr sombria do remorso,
+que o ralava interiormente, sabia invertel-a tão bem na maceração da
+penitencia, que assim facil lhe era devassar todas as consciencias, e
+submettel-as ao seu capricho, tyrannisal-as, alimentando sempre uma infinidade
+de horrores futilissimos, com que as trazia suspensas. Cabisbaixo, meditando
+continuamente um longo plano de vingança, de uma sevicia obscura e mesquinha,
+os que o viam achavam n'aquella gravidade satanica de monge um ár contemplativo
+de compunção piedosa.<span class="pn">{106}</span></p>
+
+<p>O frade fez-se Director espiritual.</p>
+
+<p>De uma extração illustre, rico, herdeiro de um grande nome, porque
+despresaria as pompas do mundo, os amores do seculo, as glorias?
+Acordar-lhe-hiam os annos todos esses sentimentos a um tempo na alma, e o
+horror do impossivel tornal-o-hia hypocrita, apagando-lhe a esperança com o
+sopro do cynismo? Elle amára a filha de um velho fidalgo de Hespanha, que
+desejava tambem realisar essa alliança dos seus pergaminhos com as grossas
+sommas do enamorado de Hernanda, a madrilena engraçada, de ingenua
+desenvoltura. Hernanda, na morbidez voluptuosa da sua natureza oriental, nunca
+mais sorriu, nunca mais deixou vêr aquella alegria impaciente que a animava,
+logo que soube a resolução da familia. Detestava o galanteador, aborrecia-o de
+morte, resistindo sempre ás instancias e ameaças do pae, que procurava
+sacrifical-a aos interesses e pompas do seu brazão de armas.</p>
+
+<p>Hernanda tinha um amor de infancia, puro, recondito; como um raio de luz que
+nos fecunda ao desabrochar da vida, aquella affinidade precoce e ignorada de
+todos fora uma intuição do sentimento. Amaram-se longo tempo sem saber o que
+era amor. Quando um dia acordaram á luz sentiram necessidade um do outro, a
+anciedade de uma mesma aspiração identificou as suas almas para sempre. Cedo o
+noivo proposto soube da existencia de um rival obscuro. Procurou-o, farejou-o
+na sombra, lançou-lhe o repto. Encontraram-se.<span class="pn">{107}</span>
+Ambos corajosos e fortes bateram-se destemidos em um duello a todo o transe.</p>
+
+<p>Logo que Hernanda soube da morte do seu amor primeiro jurou um odio eterno
+ao assassino. O velho fidalgo não comprehendia estas coisas; ameaçou-a com o
+convento. A idéa da clausura, em vez de amedrontal-a, sorriu-lhe; era um
+refugio, o unico que lhe restava no mundo, depois de perdida a esperança que
+resume todas as que se podem ter na vida. Professou.</p>
+
+<p>O galanteador assistiu impassivel na egreja, para ouvil-a pronunciar os
+votos. Havia n'aquella coragem uma alegria selvagem, egoista, para vêr que a
+mulher que elle amava debalde, não havia de pertencer a mais ninguem. Depois de
+satisfeito este instincto, lembrando-se de que fôra ludibriado, despresado,
+passou-lhe pela cabeça uma idéa atroz de vingança. Queria salvar o seu orgulho
+ferido. Lembrou-se tambem de abandonar o mundo, esconder-se debaixo da cugula
+monastica. Para os que o conheciam foi um rasgo heroico de resignação; para
+elle era um meio de poder vêr de mais perto Hernanda: só assim podia
+tortural-a, vir a ser seu Director espiritual.</p>
+
+<p>O socego da solidão deixa apreciar os ruidos mais imperceptiveis; Hernanda
+na mudez da cella, na ausencia completa de interesses que lhe povoassem a
+existencia, era impressionada profundamente pelos sentimentos mais leves que
+lhe passavam n'alma como as auras suaves pelas cordas de uma harpa. A
+imaginação desenvolvera-se<span class="pn">{108}</span> a tal ponto, que a
+fazia soffrer. Foi assim que frei Pedro, o disfarçado monge, veiu a ser seu
+Director de consciencia. Elle exagerava as doutrinas mysticas do dualismo, o
+predominio do mal, essa lucta incessante do espirito contra a carne,
+fortificada pelas mortificações do corpo, pela vigilia, cilicios, jejuns, e
+orações fervorosas. Provocava-a a abstrahir do goso dos sentidos, a contrariar
+a natureza e abnegar da vida. Apontava-lhe a natureza risonha e luxuriante como
+uma voluptuosidade, o regosijo e sêde de amor que a harmonia do universo
+infunde como uma infracção á regra austera da perfectibilidade.</p>
+
+<p>Era preciso a solidão para gosar essa existencia intima, recondita, e
+arrebatar-se até Deus. Com o silencio imposto, arvorado em preceito,
+exaltou-lhe a vida interior, e o tumulto de idéas que se succediam prolongava a
+excitação cerebral. A vigilia extensa e continua, a maceração e a leitura
+piedosa foram-lhe desconcertando o equilibrio nervoso. As visões extravagantes
+cercavam-na; vozes estranhas segredavam-lhe palavras assombrosas, que ella
+repetia tremendo na penumbra do confessionario.</p>
+
+<p>Foi então que o monge, depois de a ter desprendido pela ascese insistente
+dos limos da terra, lhe começou a falar de amor, o <i>amor divino</i>, a
+anciedade preenchida pelo vacuo, a sêde mitigada com a calma do dezerto. A
+imaginação perdida n'esse ideal vago, sem realidade possivel, delirava,
+revestia a imagem palpavel com todos<span class="pn">{109}</span> os encantos
+de um devaneio sensual, dava-lhe vida, amor, para corresponder ao que
+tumultuava na sua alma solitaria. Mulher, menos curiosa da razão sufficiente
+das cousas, sujeita a perturbações hystericas, enamorava-se da fronte altiva e
+conjuntamente modesta do Christo, como a representavam os pintores da Edade
+media; esquecia-se da vida exterior, parecia que a alma livre se absorvia na
+imanencia da divindade. Era este amor, inspirado pelas imagens dos templos, tão
+desvairado como a paixão do artista grego pela estatua eburnea que palpitava
+debaixo do escôpro. Santa Rosa de Lima amava uma imagem da Virgem que tinha nos
+braços o <i>bambino</i>. Ozana de Mantua, diante de uma imagem linda, caía em
+extasis. Estas figuras de Jesus, radiantes de candura e fascinação, bellas,
+fallavam aos sentidos; é por isso que o <i>amor divino</i> tem na sua
+vehemencia e transporte um caracter sensual, como o exprimiram o solitario da
+Ombria nos seus cantos a Santa Clara, S. João da Cruz a Santa Thereza de Jesus,
+Madame Chantal e S. Francisco de Sales, Fenelon e Madame Guyon.</p>
+
+<p>O Director espiritual da desditosa Hernanda, descrevendo-lhe o <i>amor
+divino</i>, isempto da zelotypia das paixões do mundo, não tendo a alma candida
+de nenhum d'esses apaixonados e santos poetas, presentira, dois seculos antes,
+a theoria ascetica de Molinos. Tinha em vista matar o peccado pelo peccado. Era
+impossivel já. Hernanda pairava em espirito pelo empyreo; sua<span
+class="pn">{110}</span> alma pura abysmara-se na immensidade do fóco de todo o
+amor. O extasis em Hernanda, originado pelo fervor piedoso, era o
+entorpecimento dos sentidos, um scismar indolente á cadencia dos inefaveis
+concertos das cytharas dos cherubins.</p>
+
+<p>Então o Director de consciencia descobriu uma nova tortura para flagellal-a;
+tinha um prazer infernal em tornar-lhe lento o soffrimento. Elle mostrava-lhe
+que era o extasis o mais alto favor do céo concedido aos seus eleitos, e
+descobria ao mesmo tempo como isso era para todos os grandes santos uma
+provação difficil, pelo terror dos <i>proprios merecimentos</i>. Sam Paulo, o
+que melhor revelou nos seus escriptos o espirito do christianismo, na Epistola
+segunda aos Corynthios, fala d'este terror.</p>
+
+<p>N'aquella virgindade timida da alma, o corpo foi caindo em inanição; tinha
+uma immobilidade beatifica. Apesar de todos os flagicios e macerações, o rosto
+conservava ainda a frescura da rosa entreaberta, rociada pelo orvalho matutino.
+No passamento das virgens, sereno como o declinar de uma aurora vespertina de
+primavera, Jesus visitava as suas desposadas, como referem os legendarios.
+Hernanda abrazára-se no amor ardente do céo; o vacuo absorvera-lhe o derradeiro
+alento e sua alma soltou-se na ancia do infinito. Alta noite, sentiram-se umas
+harmonias transbordando em enchentes do orgão do mosteiro; era uma musica
+indisivel, nunca ouvida na terra. Foram vêr; ninguem percorria o teclado.<span
+class="pn">{111}</span> Melodias suavissimas e remotas derramavam-se da cella
+de Hernanda. Entraram. Respiravam-se perfumes aérios em torno d'ella. Um
+sorriso diaphano, angelico, lhe ficára nos labios desbotados, como a ultima
+vibração de uma harpa que se quebrara; parecia a incarnação de um sonho
+melifluo das harmonias de Palestrina.</p>
+
+<h2>II</h2>
+
+<p>Desde o romper d'alva, que os sinos da Cathedral eccoavam clangorosos n'um
+dobre funerario; o povo agitava-se inquieto pelas ruas, como na impaciencia de
+uma grande festa. Era o dia de um <i>Auto de Fé</i> em Hespanha, uma
+solemnidade extraordinaria, com que se celebrava e honrava a coroação dos reis,
+o nascimento do herdeiro presumptivo, e a sua maioridade; era o grande drama
+judiciario da velha jurisprudencia theocratica revestido dos horrores do
+symbolo, mesclado de sangue derramado pelo fanatismo e prepotencia monachal. A
+procissão vinha coleando ao longe, com uma gravidade funebre, misturada de
+risos do rapazio que tudo parodía. Por todas as janellas negrejavam cabeças,
+donzellas engraçadas, contentes, distraidas com a festividade apparatosa. Á
+frente das confrarias e irmandades, os carvoeiros traziam a lenha para a
+fogueira, imitando o passo da Escriptura, em que Isaac caminhava<span
+class="pn">{112}</span> para a montanha do sacrificio. Seguiam-se em filas
+extensas os frades dominicanos, arvorada na frente a cruz branca, e o bolsão
+inquisitorial de damasco vermelho do duque de Medina Celli. Os penitenciados
+vinham vestidos de um modo irrisorio e grotesco, descalços, cobertos de um
+sambenito, com um chapeu afunilado, com figuras cabalisticas, diabos, labaredas
+e caveiras pintadas.</p>
+
+<p>A multidão pavida e credula, sentia aquella grande contradição do coração
+humano, apupava os miseraveis que interiormente a commoviam e lhe arrancavam
+lagrimas de compaixão. Chegados proximo do estrado real, o Inquisidor geral
+veiu receber o juramento da extirpação das heresias. Os brandões crepitavam nas
+mãos dos condemnados; tornavam mais lugubre o momento. Depois viu-se levantar
+uma figura macilenta, a cabeça encoberta no capuz, cruzadas as mãos sobre o
+peito em que tinha repousado um crucifixo, o mesmo que um dia apresentára
+diante dos reis catholicos Fernando e Izabel, dizendo-lhes que&mdash;o vendessem por
+trinta dinheiros, já que se queriam tornar menos rigorosos contra os judeus.
+Era o prégador frei Pedro. A voz taurina fazia estremecer as turbas,
+representando-lhes ao vivo, nos esgares e visagens que fazia, os terrores das
+penas do inferno. A multidão estava suspensa ante as vociferações sangrentas do
+dominicano.</p>
+
+<p>&mdash;Sabes... (disse um desconhecido para um cavalleiro ainda novo, que estava
+attento) não o conheces?<span class="pn">{113}</span></p>
+
+<p>O outro respondeu-lhe em voz baixa, de um modo quasi imperceptivel:</p>
+
+<p>&mdash;Ah, és tu, Diego Ortis? Bem o conheço pela fama de seu nome. É Pedro de
+Arbués.</p>
+
+<p>E não te sentes possuido de raiva ao pronunciar esse nome de um hypocrita e
+assassino?</p>
+
+<p>&mdash;Assassino?</p>
+
+<p>&mdash;Sim! Bem o devêras saber, porque é a ti a quem compete a vingança. Elle
+pretendeu por todos os meios desposar Hernanda, tua irmã. Lembras-te? Era rico,
+e teu pae desejava com todas as veras d'alma este enlace. A infeliz menina
+resistiu sempre, até que se viu obrigada a professar em um mosteiro, abandonada
+da familia. Não é verdade isto? Ferido no orgulho, elle metteu-se a padre,
+disfarçou-se debaixo da cugula monastica e fez-se seu Director espiritual.
+Matou-a lentamente com jejuns e macerações, com a lembrança continua da
+tentação e da condemnação eterna. Pobre Hernanda! o mundo disse que morrera
+como uma santa; Deus sabe que desesperos profundos lhe abalaram a vida, e
+quantas vezes, no intimo da alma oppressa, não amaldiçoou a hora do seu
+nascimento!</p>
+
+<p>&mdash;E como sabes isso?</p>
+
+<p>&mdash;Como o sei? Eu digo-te só que a vingança não dorme. Tambem tenho um legado
+de sangue a cumprir. Era meu irmão o apaixonado, o eleito de Hernanda. Se ha
+nada mais santo do que um amor que nos acompanha desde a infancia. Alonso
+Ortis, doestado pelo rival audacioso, bateu-se<span class="pn">{114}</span>
+generosamente e caiu ferido, morto á traição. Já comprehendes tudo.</p>
+
+<p>&mdash;Inferno! Para que me disseste essas cousas aqui, entre esta gente? Sinto a
+convulsão da raiva que prostra, a sêde de sangue que me atira para elle.
+Hernanda! a desgraçada, a silenciosa, a timida, que tudo soffreu e nunca soube
+queixar-se! Eu quero trocar todas as tuas dores por um prazer egoista de
+vingança. Fala-me, Diego Ortis; o que queres de mim?</p>
+
+<p>&mdash;Quero prudencia! Eu tenho esperado dia e noite, por toda a parte, e nunca
+o tenho encontrado! nunca esta mão deixou de repousar sobre o punhal, e ainda
+me parece que não é chegado o momento.</p>
+
+<p>A este tempo o frade estava na peroração do discurso; a turba batia nas
+faces, consternada, por terra. Os dois vultos permaneciam de pé, insensiveis. O
+prégador desceu do pulpito e vinha acercando-se d'elles com um olhar ameaçador,
+para reprehendel-os da insólita irreverencia. O joven fidalgo precipitou os
+planos de vingança, e arremetteu com um punhal no ár: apesar do impeto com que
+foi brandido resvalou sobre o habito que encobria debaixo uma armadura cerrada.
+</p>
+
+<p>Ergueu-se um susurro repentino. Era impossivel a salvação; com a ancia do
+desespero Diego Ortis descarregou-lhe promptamente sobre o craneo tonsurado a
+sua espada de cavalleiro. O povo alarmou-se e ia a precipitar-se sobre os
+facinoras;<span class="pn">{115}</span> recuou de horror diante da
+impassibilidade dos dois. A estatura corpulenta do padre tomou as proporções de
+um Goliath, derrubado, banhado de sangue negro, a massa encephalica
+derramando-se pelas soturas fracturadas do craneo. Fazia horror.</p>
+
+<p>N'aquelle mesmo dia os dois assassinos foram penitenciados; interrompeu-se a
+missa, e a procissão proseguiu levando-os para o <i>Quemadero</i>, onde, com os
+demais, foram devorados pelas chammas. Seguiram-se as pesquizas, as vexações e
+os sequestros; com os seus processos tenebrosos a Inquisição lançou a rede por
+sobre muitas familias. A Hespanha era, como se disse, uma grande fogueira. Mas
+como ha uma antithese fatal na natureza humana, manifestada muitas vezes, a
+cada instante da vida, na transição instantanea do sublime ao ridiculo, Roma
+parodiou tambem esta scena sanguinolenta do drama tetrico de Torquemada na
+farça jocosa da canonisação do frade prégador, que ainda hoje se venera nos
+altares e de quem resa a folhinha com o nome de S. Pedro de Arbués.</p>
+
+<p><i>Ora pro nobis.</i><span class="pn">{116}<br>
+{117}</span></p>
+
+<h1>A adega de Funck </h1>
+
+<h3>CONTO FUNDADO DAS NOTAS DE HOFFMANN </h3>
+
+<p>A ironia, quando não é despertada pela lucta incessante de contrariedades
+imprevistas, que cercam o espirito de duvidas e desesperos, e o deixam na
+prostração da indifferença e do cynismo, é uma doença, uma febre lenta, que vae
+devorando a existencia, depois de a ter despido de todas as alegrias.
+Observa-se no pessimismo do poeta. O riso com que a ironia se traduz, que é a
+expressão que mais de prompto lhe acode no accesso do phrenesi suscitado pela
+vista repentina de um contraste, para quem o comprehende, é uma visagem
+infernal, um esgar que gela, um arremedilho de cadaver sacudido por uma pilha
+galvanica. É uma descarga nervosa pela via muscular, como uma compensação, como
+notaram os physiologistas.<span class="pn">{118}</span></p>
+
+<p>A gargalhada é tambem a linguagem das grandes agonias; é esta polaridade
+mysteriosa da nossa natureza dupla, constituida já em aphorismo: os extremos
+tocam-se. A ironia, derivada do mesmo principio supremo, é a impressão abrupta
+de uma idéa infinita que se compara com outra finita, cuja disparidade
+intuitiva desperta em nós todas as vibrações do sentimento comico. A primeira
+manifestação do comico na vida foi por certo o <i>grotesco</i>; Susarion e
+Thespis caracterisavam os seus personagens com borras de vinho. Elle
+apparece-nos no mundo moderno como uma arma da burguezia contra a pressão do
+clero e as extorsões dos senhores feudaes, na <i>Festa do Asno</i>, nos
+<i>serviços</i>, nos <i>fabliaux</i>, nos baixos relêvos e goteiras das
+cathedraes. O pico, a agudeza do pensamento estão completamente materialisadas
+na imagem; eis o comico pela sua parte visivel ou objectiva, tanto da sympathia
+popular.</p>
+
+<p>O <i>humour</i> é um gráo elevado; no contraste que se funda na antithese da
+acção e o pensamento, a fórma não corresponde, contraría mesmo a expressão da
+idéa, d'onde resulta uma monotonia triste; o esforço do que procura alegrar-se
+infunde nos que o contemplam uma melancholia indefinida, como na <i>Viagem</i>
+de Sterne.</p>
+
+<p>A ironia é a impossibilidade de conciliar os elementos da antithese, ou o
+contraste mental que gera todo o sentimento comico: tal é o desespero<span
+class="pn">{119}</span> de Hamlet propondo ao seu espirito o problema insoluvel
+e eterno:</p>
+
+<blockquote>
+ <i>To be or not to be that is the question.</i> </blockquote>
+
+<p>A imaginação de Hoffmann similha um kaleidoscopo onde estas trez cambiantes
+do sentimento se reflectem, confundem, se cruzam em direcções infinitas,
+formando um espectro a que chamamos o <i>phantastico</i>. A ironia, o humorismo
+e o grotesco succedem-se, como phases da sua inspiração. Quando elle sente
+estas inversões do systema nervoso, annuncio da <i>tabes dorsalis</i> que
+progride de um modo irremissivel, o pensamento então dá fórma a todas as
+vertigens; a dôr torna a creação pessoal, caprichosa; os retratos que elle faz
+são quasi sempre caricaturas, a incarnação de um riso de desespero. As bebidas
+e o seu cachimbo de Kumer vêm distrail-o da consumpção que elle observa a cada
+instante em si. O fumo que se ennovella em fórmas extravagantes no ár, e se
+dissipa como uma chimera fugitiva, representa-lhe os typos que reproduz nos
+seus contos. Ao fogão, na concentração intima da familia, o cachimbo povoa-lhe
+o aposento de sylphos e gnomons, que embalam a phantasia enlevada em sonhos
+incriveis, com musicas estranhas que o deliciam no egoismo do soffrimento que o
+corróe. Elle tem uma affeição particular ás pessoas espirituosas, porque lhes
+suppõe talvez a veia sarcastica proveniente de algum estado morbido. Quando se
+retrata caricaturisa-se.<span class="pn">{120}</span></p>
+
+<p>Muitas vezes acceita-se uma creação comica, rimo-nos, sem saber que a
+inspiração que a produziu foi a doença que arrebatou Molière, o desalento de
+Gil Vicente, a resignação de Scarron. Porque não procuraria Hoffmann
+distrair-se com o vinho, afogar n'elle a preoccupação do mal irremediavel, que
+lhe atacava a espinha dorsal?</p>
+
+<p>O seu editor Funck, homem estimavel de caracter, a quem a especulação não
+poz em guerra com os que têm a infelicidade de precisar escrever, convidou-o
+para passar alguns dias na sua residencia em Bamberg. Funck tinha uma magnifica
+adega e lembrava-se perfeitamente d'aquellas expressões de Hoffmann: «Fala-se
+muito do enthusiasmo que procuram os artistas no uso das bebidas fortes;
+citam-se musicos, poetas que não podem trabalhar senão assim; <i>eu não
+sei</i>, mas é certo que com esta feliz disposição, direi, quasi sob a
+constellação favoravel, em que se está quando o espirito passa da concepção á
+realisação, as bebidas espirituosas acceleram a torrente das idéas.»</p>
+
+<p>Funck tinha o mais excellente de todos os vinhos, como lhe chamava Hoffmann,
+o <i>Porto</i>, que no seu nome traz o segredo da sua força. O escriptor
+original era esperado com anciedade em Bamberg. Chegou por uma tarde fria. O
+céo estava escuro, carregado de nuvens; relampejava a espaços, como o preludio
+de uma grande trovoada nocturna. Quando a natureza é triste sentimos uma
+vontade de nos reconcentrarmos; o<span class="pn">{121}</span> lar domestico é
+a grande poesia do norte. Um dos maiores castigos no antigo direito germanico
+era a pena severa expressa n'aquella formula romana <i>interdictio tecti</i>; o
+banido é comparado ao lobo solitario; a casa era arrasada, tapado o poço,
+extincto para sempre o fogo do lar.</p>
+
+<p>Hoffmann esquecia todas as dôres ao abraçar aquelle amigo; com toda a
+liberdade de uma confiança intima sentou-se logo ao piano. O phrenesi da
+inspiração fazia-o percorrer desesperadamente o teclado. Era a sua ultima
+composição, meio improvisada com o jubilo que sentia. Começou um canto com uma
+voz desentoada, que fazia arripiar os nervos; parecia que estava em delirio.
+N'isto um trovão rebentou com um estampido soturno.</p>
+
+<p>&mdash;A natureza, disse elle para Funck, escarnece-se de mim, parodia-me a voz
+roufenha. Ha bastantes dias que tenho sentido humor para o romantico religioso.
+<i>Jovis omnia plena!</i> Hoje, não sei se é o excesso da alegria, predomina em
+mim uma exaltação humoristica levada até á idéa da aberração.</p>
+
+<p>Funck continuava silencioso. Hoffmann permaneceu alheiado alguns instantes,
+como levado por uma serie de deducções, que absorvem fatalmente toda a
+contenção do espirito. Estava a diagnosticar-se; a prolongada doença dera-lhe
+um certo conhecimento do seu estado. Depois proseguiu:</p>
+
+<p>&mdash;É notavel! Que diversidade de sensações agora. Disposições humoristicas,
+colericas, com<span class="pn">{122}</span> um humor musical exaltado, e
+sentimento de um bem estar com indifferença. Como conciliar tudo isto? O
+systhema nervoso inverte-se-me de dia para dia.</p>
+
+<p>Restrugia um aguaceiro espesso. Ha no cair da agua uma magia, que
+adormece.</p>
+
+<p>&mdash;Vamos, disse Funck, interrompendo aquella reflexão penosa, eu tenho um
+excellente remedio. Vejo-te tiritar com frio, de um modo que me tira a
+satisfação do agasalho que presto a um amigo. O seio de Abrahão deve estar com
+uma temperatura suave; refugiemo-nos lá.</p>
+
+<p>&mdash;Como isso era bom! mas infelizmente as azas da poesia não nos desprendem
+da terra; a realidade é peior do que o sol para as azas de Icaro; ella toca-nos
+o corpo com mais aspereza do que o velho Satan quando experimentava o
+desgraçado varão da terra de Hus. Agora acho-me divorciado com a poesia, com a
+musica, com a pintura; são as tres furias que sob uma apparencia seductora
+surgiram das sombras do paganismo para attribularem-me o espirito.</p>
+
+<p>&mdash;E por que não havemos de refugiar-nos, em uma tarde d'estas, no seio de
+Abrahão?&mdash;disse Funck procurando interromper a corrente das idéas
+afflictivas.&mdash;Não é tão dificil como pensas. Nem são precizas azas para ir lá.
+Para descermos basta obedecer á lei eterna da gravidade, que sobre nós pésa.
+Não sabias ainda que a gravidade é o nosso peccado original?</p>
+
+<p>Hoffmann sorriu-se; o seu amigo tomou um<span class="pn">{123}</span> tom
+humoristico para se adequar ao caracter d'elle n'esse dia.</p>
+
+<p>&mdash;Apesar da facilidade que apresentas ainda não resolvi o problema. Como
+iremos nós procurar conforto ao seio de Abrahão?</p>
+
+<p>&mdash;Segue-me.</p>
+
+<p>Funck caminhava adiante com um ár victorioso. Hoffmann sorria-se com um modo
+duvidoso, para que o riso o defendesse do logro que esperava. Desceram uma
+escadaria escura; uns ferrolhos pesados gemeram, como se se abaixasse uma ponte
+levadiça. Entraram. Era um subterraneo fundo, allumiado por um lampadario de
+bronze. Depois de affeito á sombra, Hoffmann pôde discriminar grandes toneis
+dispostos, como uma longa fila de cachaci-pansudos conegos.</p>
+
+<p>Era a adega do seu amigo Funck. De facto havia ali uma temperatura tepida,
+de fermentação. Nenhum olhar importuno através da abobada calada.</p>
+
+<p>&mdash;Se os velhos patriarchas, principalmente nosso pae Noé, não trocariam de
+boa vontade a tua adega pelo seio de Abrahão!&mdash;Hoffmann estava animado de uma
+alegria indisivel; era um homem de extremos; a sensibilidade excessiva
+deixava-lhe apreciar os mais desapercebidos contrastes, era por isto que elle
+possuía mais do que ninguem o <i>genus irritabile vatum</i>.</p>
+
+<p>Mal acabava de proferir aquellas palavras, quando se atirou de um salto, com
+uma loucura de criança, e se escarranchou em um tonel.<span
+class="pn">{124}</span></p>
+
+<p>Funck seguiu o exemplo.</p>
+
+<p>&mdash;A vida é um grande mar, que estua em convulsões interminaveis; felizes os
+que caindo na voragem encontram d'estes delphins, que os tomam sobre si e os
+levam a porto seguro.</p>
+
+<p>&mdash;Foste feliz na imagem, principalmente, porque o vinho desperta-me o humor
+erotico-musical, e os delphins, se dermos credito a antigos fabuladores, eram
+levados pela magia da musica.</p>
+
+<p>E começou a cantar alguns trechos da sua opera a <i>Ondina</i>, que só
+interrompeu para levar á bocca o sifão de lata que estava mergulhado na pipa.
+Hoffmann tocava a realidade dos seus contos.</p>
+
+<p>&mdash;Este não dá pelos calcanhares do teu dilecto <i>Porto</i>?&mdash;accudiu Funck;
+o vinho de Nuits é dos melhores de Borgonha, e, graças ao céo, podemos nadar em
+mar de rosas.</p>
+
+<p>A noite corria tempestuosa e tetrica: os trovões rebentavam com uma
+detonação tremenda. Nos áres, coriscou um relampago repentino e veiu illuminar
+com um clarão pallido o rosto dos dois amigos, que tocavam n'este momento os
+copos espumantes. Era um quadro com toda a verdade e simplicidade de Teniers,
+como o proprio Funck, em uma nota de uma edição do seu amigo, confessa com
+aquella ingenuidade allemã.</p>
+
+<p>Hoffmann ficou deslumbrado com o fulgor instantaneo; tinha a mudez do
+terror.</p>
+
+<p>&mdash;Em que pensas?</p>
+
+<p>&mdash;Um conto, um conto horrivel!<span class="pn">{125}</span></p>
+
+<p>&mdash;Mais uma saude, e narra-me essa historia ponto por ponto.</p>
+
+<p>&mdash;Historia? dizes bem; porque tem muita verdade, ao menos a verdade da arte.
+Nunca te fallaram n'isso? Admira! Foi tão notorio. Quem a não conheceu! Bella,
+como era, ninguem podia fital-a sem experimentar o pasmo da admiração. As
+linhas do semblante tinham uma irradiação etherea, perdiam-se no ár. Era uma
+visão suspensa, a incarnação de um sonho indizivel de amor.</p>
+
+<p>A tristeza realçava-lhe a candura angelica. Para ella, a vida era um
+desterro no mundo. Passava, alheia de tudo, distraida, sem saber que levava
+apoz si todas as aspirações que um olhar de relance, fortuito, gerava na alma.
+Um dia vi-a pelo braço de um homem feio, que a conduzia com burlesca
+familiaridade! Disseram-me que era o marido.</p>
+
+<p>Perscrutei o segredo de uma união para mim impossivel, inexplicavel. Não
+tinha sido arrojada a hypothese: viviam com uma certa paz artificial, um
+accordo de convenção ante a sociedade. O marido bem conhecia, que a familia da
+engraçada criança a forçara áquella união desegual; a consciencia da riqueza
+não conseguira persuadil-o de que a merecesse; e espreitava, espiava-lhe todos
+os olhares, interpretava-lhe cada gesto insensivel.</p>
+
+<p>O que não idearia o ciume? O ciume que não tem a franqueza selvagem de
+Othello é vil, infame.<span class="pn">{126}</span> Um dia, a infeliz senhora,
+começou a sentir-se indisposta; não faltavam carinhos da parte do esposo, não
+poupava esforços para consolal-a, com uma solicitude hypocrita. O mal
+progredia, convulsões violentas a accommettiam, vertigens assombrosas, dores
+intensas, como se lhe retalhassem as entranhas. O marido escutava os gemidos
+com um pungimento affectado.</p>
+
+<p>Conhecera que morria:&mdash;«Sabes, disse ella tomando-lhe uma das mãos, eu deixo
+a vida, mas custa-me baixar á frieza do sepulchro sem te dizer uma palavra. Oh!
+nem sei como revelar-te esse segredo, esse desvario de uma paixão infantil. Não
+soube guardar a fidelidade do thalamo.» O marido ouviu a confidencia solemne
+com um ár estupido de imbecilidade:&mdash;És n'este momento tão generosa e grande! A
+verdade nos teus labios vibra-me de um modo que tudo te perdôo. Choras? escuta.
+Deixa tambem fazer-te uma revelação tremenda: envenenei-te.</p>
+
+<p>Hoffmann não pôde tirar do conto a moralidade que se espera, e caiu,
+esquecido do mundo, entre os toneis do seu amigo.<span
+class="pn">{127}</span></p>
+
+<h1>Revelação de um caracter </h1>
+
+<p>Como eu, elle tambem vivia ignorado, ocioso, distraído, fumando sempre,
+debruçado de uma janella que deitava sobre o mar. Passava horas esquecidas
+assim, a contemplar as ondas no seu eterno refluxo, imagem dos pensamentos
+reconditos, das aspirações impossiveis, que tempestuavam na solidão de sua
+alma. Muitas vezes me disse elle, quando a indiscrição da amisade o ia
+interromper do quietismo contemplativo que o absorvia, e lhe perguntava que
+idéas mysteriosas o afastavam para tão longe da realidade e da vida:</p>
+
+<p>&mdash;Se fosse possivel exprimir, stenographar na palavra tudo o que se revolve
+na mente, o homem mais sabio pareceria um tolo; se fossem coerciveis todos os
+sentimentos, que passam e succedem<span class="pn">{128}</span> no coração, o
+homem mais santo e simples apparecer-nos-hia com a hediondez da infamia.</p>
+
+<p>E continuava, embebido n'um scismar indefinivel, extranho a tudo o que se
+passava em volta d'elle, como na reconcentração de um grande desgosto. Outras
+vezes mostrava uma alegria irrepressivel, impaciente, louca, sem motivo; mas
+cada riso era o preludio de imprecações e ironias pungentes, que vibrava dos
+labios acerados: o enunciado breve e incisivo d'uma grande verdade, mas triste,
+horrenda, incrivel, e infelizmente verdadeira, que a sua lucidez de doente
+descobria. Não sei qual o torturára primeiro, se a duvida ou o sarcasmo. Elle
+submettia á analyse fria os sentimentos mais puros e intimos, volatilisava-os
+pelos processos de uma dialectica irretorquivel, e por fim o ultimo canon da
+sua logica era uma gargalhada irritante que fazia gelar de medo. Elle mesmo se
+doía de sua crueldade, era o primeiro a accusar-se e a procurar corrigir-se. As
+linhas de sua physionomia davam-lhe ao semblante uma fórma angulosa, de
+energia; o olhar incerto não repousava, como quem observa nas sombras de um
+abysmo insondavel, nunca o fitava, temendo talvez que lhe surprehendessem na
+expressão fugitiva que o animava o ridiculo, que sabia admiravelmente
+descobrir.</p>
+
+<p>Deixei de procural-o longo tempo; repugnava-me aquelle caracter
+incomprehensivel; para monomaniaco era insupportavel, para excentricidade
+despresivel. As contradições tornavam-no absurdo.<span class="pn">{129}</span>
+Custava-me vel-o na consumpção d'essa apathia, criança e foragido do mundo, sem
+ter a commoção dos grandes sentimentos que nos prendem á vida, e que são o
+conforto nas horas vagarosas do desalento. De uma vez encontrei-o a ler com uma
+voracidade, como a de Isaías ao revolver as paginas dos arcanos
+imperscrutaveis. Procurei vêr se a sua imaginação viva o tornava illuminado, se
+era a consciencia da segunda vista, da percepção immediata que o tornava ocioso
+e inerte:</p>
+
+<p>&mdash;O que lês? Que livro é esse que um dia te prendeu a attenção
+inconciliavel?</p>
+
+<p>&mdash;Uma terrivel obra prima, uma perigosissima e espantosa maravilha de arte!
+É um romance de Diderot, que contém em si o germen de uma revolução moral, o
+<i>Neveu de Rameau</i>. Nunca o leste? É impossivel observar mais profundamente
+o coração do homem, isolar-lhe os sentimentos e reproduzil-os em uma creação
+mais brilhante. Somos todos como elle. <i>Rameau</i> é a grande contradicção da
+nossa natureza, com a differença que obra segundo essa força, não se contrafaz
+pelas conveniencias da sociedade, obedece-lhe fatalmente, e é por isso que
+horrorisa; as maximas do cynismo mais revoltante e abjecto, as doutrinas mais
+subversivas de toda a ordem, vêm-lhe no dialogo animado, seguidas de
+sentimentos purissimos, intenções boas e justas, de um modo abrupto, que
+espanta. Os seus paradoxos são os da humanidade, com a differença que<span
+class="pn">{130}</span> a educação os abafa no intimo de nossa consciencia, e
+elle, o parasita, o musico, o bandido, o desgraçado <i>Rameau</i>, tem a
+infelicidade de pensar alto; deixa vêr, através da sua ingenuidade, todas as
+paixões despertadas por desenfreados instinctos, que existem egualmente em nós,
+mas que os refreamos e os detestamos, como se fossem a degradação nos outros.
+Este livro é a synthese da philosophia do seculo XVIII; ella avançou principios
+de uma verdade inconcussa, de rasão profunda, a rasão universal, de todos os
+tempos, mas que foram combatidos e ainda hoje não são completamente
+admissiveis, por esta maldita necessidade de transigirmos com as
+conveniencias.</p>
+
+<p>Esquecera-se n'aquelle dia do habitual silencio; fallava com uma verbosidade
+febril; observações penetrantissimas, rasgos de uma intuição pasmosa lampejavam
+brilhantes, no decurso da conversação. Expressando-se sempre com difficuldade,
+então, jorravam-lhe as palavras faceis e promptas, com uma nitidez que
+acompanhava as mais delicadas analyses.</p>
+
+<p>A este tempo, assomou a uma janella fronteira ao seu quarto uma visinha, que
+vivia honestamente na desgraça, irmã d'aquella flor de Magdala, calcada aos pés
+pelos que não comprehenderam o impulso dos sentimentos que a transviaram. A
+pobre trabalhava e distraía-se a vêr os que passavam; cantava e ria esquecida
+do seu opprobrio. Estava vestida com uma côr triste, que lhe realçava a
+expressão dolorosa. Elle viu-a;<span class="pn">{131}</span> cumprimentou-a com
+um sorriso leve, que traduzia um epigramma, que fôra comprehendido. Depois
+voltou-se para dentro: </p>
+
+<p>&mdash;Ha uma affinidade intima entre a mulher e as côres; a escolha, a
+preferencia, a seducção por uma, é a linguagem de um sentimento recondito, que
+resôa dentro em si, e que ella não sabe exprimir, é o symbolo na sua fórma mais
+poetica e simples. A mulher é sempre uma criança, chora e ri ao mesmo tempo;
+como sente mais do que pensa, quer mais do que pode. A grande contradicção, que
+faz com que realise as nossas aspirações vagas e ideaes! Como uma criancinha
+que tem sêde, e, não sabendo ainda pedir agua, aponta para ella e exulta, assim
+a mulher não podendo revelar o sentimento indefinido que a eleva, que a faz
+soffrer e amar, serve-se da linguagem symbolica das côres, para completar a
+expressão que lhe transluz no rosto. Raphael, na sua inspiração divina,
+entreviu este mysterio quando ao determinar o ideal da Virgem na arte moderna,
+tomou a côr do azul ethereo para colorir-lhe o manto. O ideal da mulher no
+mundo antigo, menos espiritual, mas egualmente bello, mostrava-a como uma flor,
+a creação mais aprimorada da natureza, a planta mimosissima e languida; é assim
+<i>Sacuntala</i>, na poesia da India; a <i>fraqueza</i>, que póde tanto como a
+constancia heroica, quasi impossivel, de sua irmã <i>Griselidis</i> na Edade
+média; ella confidencia com as aves, os arbustos choram na despedida, as flôres
+amam-n'a<span class="pn">{132}</span> como uma irmã gémea, um carpello
+tenuissimo animado á luz do sol brilhante, perfumado com todas as essencias de
+uma atmosphera limpida e serena. É por isso que do Oriente veiu aquelle modo de
+fallar de amores pelo <i>salem</i>, um ramilhete allegorico das paixões que
+perpassam na alma. Ha rostos de mulher archangelicos, sublimes, realçados pelas
+côres; a côr é a expressão da luz, como a luz uma expressão do espirito.
+Quantas mulheres perdidas, com um ár de innocencia que illude! a preferencia
+pelas côres, que as fazem realçar tanto, é por certo o desejo mais intimo de
+sua alma, que os labios não se atrevem a proferir. Como para cada zona ha uma
+analogia com as côres luxuriantes da vegetação, pelas côres das roupagens se
+pode conhecer a mulher; a oriental voluptuosa, enlevada n'um tropel de
+pensamentos de alegria, sentindo o coração a trasbordar-lhe desejos, que
+desconhece, orna-se com as côres que mais fallam aos sentidos, as mais vivas,
+as que mais seduzem. Não é isto assim?</p>
+
+<p>&mdash;É; porque o genio póde dizer tudo impunemente. Dá vida ás creações que
+inventa, soffre com ellas, que são a alma da sua alma.</p>
+
+<p>&mdash;Se assim fosse, não andaria no mundo travado este antagonismo do senso
+commum, positivo e costumeiro, inflexivel nos seus juizos praticos, com
+aquelles que procuram realisar na vida os sentimentos superiores e eternos com
+que animaram a argila fragil, que procura constantemente<span
+class="pn">{133}</span> elevar-se acima da materia a que está presa. É a lenda
+do cego de Smyrna, corrido, perseguido de terra em terra; não lhe comprehendem
+a vocação. Afferem-lhes as acções pelos factos vulgares, de todos dias, e a
+disparidade faz com que se lhes chame um desgraçado, um extravagante, um
+doido.</p>
+
+<p>&mdash;Revoltas-te contra o senso commum?</p>
+
+<p>&mdash;Revolto-me contra toda a generalidade, que procura absorver o individuo,
+assimilal-o, confundil-o. Quero que a individualidade se constitua e imprima o
+seu caracter, de modo que o tempo e o espaço attestem a passagem do grande
+homem.</p>
+
+<p>&mdash;Revoltas-te contra a natureza?</p>
+
+<p>&mdash;O que é a natureza diante da obra d'arte?&mdash;e elevando-se em um
+hegelianismo de sectario, elle proprio respondeu: Um verbo insignificativo, que
+apresenta todas as formas de que o bello pode revestir-se, o archetypo material
+que só se espiritualisa no typo, que é um facto da consciencia humana. Quando
+na imitação do archetypo a verdade é tão exacta, que o typo se confunde com
+elle, o sentimento que então disperta é incompleto, porque não deixou perceber
+que á determinação do facto presidiu uma consciencia. O bello é uma creação
+toda subjectiva; é despertada pela natureza, mas não existe lá; escolhemos as
+imagens em que melhor a podemos manifestar nas suas multiplices e variadas
+realisações, as caracteristicas que a traduzem<span class="pn">{134}</span>
+fóra de nós. O bello é absoluto. Não existe o feio, que é apenas uma hypothese
+negativa em que se funda a synthese das realisações artisticas; o bello! o
+ponto onde convergem todas as evoluções da forma, incluidas na polaridade do
+bonito e do feio, e gravitando em volta d'esse principio unico, eterno, é o
+ideal que as faz tender para elle. O bonito e o feio são as duas relações que
+nos levam á comprehensão da idéa do bello. O bonito desperta-nos esse
+sentimento espontaneo por inspiração intuitiva; o feio leva ao mesmo resultado
+pela reflexão. O <i>Sapo</i>, de Victor Hugo, asqueroso, repellente, depois de
+idealisado, é profundamente bello. Quando se espiritualisa a imagem, e é esta a
+missão da arte, o espirito ha de amar a sua creação. O estatuario delira com o
+amor da Galathea. Não posso deixar de obedecer a esta fatalidade do meu
+caracter; deixo-me arrastar pela contradicção. O bello tem algum tanto de
+convencional; assim admiramos uma illuminura da Edade média, os arabescos de
+uma janella gothica. O que parece convenção não é mais do que a reflexão, que
+nos faz descobrir n'aquillo que contemplamos um progresso do espirito, e nos
+mostra a tendencia da natureza a ser espiritualisada. Pelo sentimento do bello
+se obtem o desenvolvimento e elevação que podem prestar-nos na vida a religião
+e o direito; o <i>verdadeiro</i> e o <i>justo</i> não são mais do que as
+manifestações do <i>bello</i> no mundo moral. Ha só uma religião, é a da arte!
+O pantheismo é<span class="pn">{135}</span> a suprema creação poetica, a
+identificação dos sentimentos do bello e do verdadeiro. Mesmo o direito
+primitivo teve um caracter pantheista, a natureza é animada, é testemunha na
+accusação, é pura como no ordalio, firma o contrato, submette-se tambem á
+penalidade, tem personalidade; os animaes compareciam tambem em juizo. A arte
+sobre tudo! ella suppre a sciencia e a observação, pela intuição viva; a
+realidade é contingente, variavel; o ideal, a creação pura do homem, é
+intangivel, eterno, emquanto a obra de Deus se converte em pó.
+Sacrifiquemos-lhe tudo na vida.</p>
+
+<p>&mdash;Mesmo o amor?</p>
+
+<p>&mdash;O amor? Rio-me da tua credulidade. Ainda fazes uma religião d'esse
+sentimento egoista, que procuras elevar acima da animalidade. Querem afferir as
+affinidades electivas pelo que vêem nas paixões descriptas pelos poetas. O amor
+como o imaginas, só existe nas obras d'arte; fóra de lá é uma falsificação, uma
+loucura, um impossivel. Eu explico o egoismo olympico de Goethe recusando o
+beijo de Frederica, a dedicação symbolisada no que a mulher tem de mais
+apaixonado e expressivo. Pede ao amor a paixão, como pedes á natureza a
+paizagem; depois de te possuires de todos esses sentimentos, eleva-te acima da
+passividade pela reflexão fria, calculada, e terás a consciencia das fórmas com
+que has de fazer sentir os outros, dominal-os, possuir os segredos de suas
+emoções, e és grande! Não fallo mais n'isto; só fica bem na bocca de
+Dyotima.<span class="pn">{136}</span></p>
+
+<p>E começou a assoviar uma ária caprichosa, passeiando vagarosamente; depois
+voltou-se para mim:</p>
+
+<p>&mdash;Ha ainda que descobrir na musica; falta-lhe realisar o principio da
+ironia, como ha em todas as fórmas particulares da arte. A poesia tem a satyra;
+a pintura a caricatura e o grotesco; só a musica precisa attingir a antithese
+do pathetico. O pathetico e a ironia são os dois polos de toda a evolução
+esthetica. Todas as creações na arte sáem d'estas duas paixões oppostas. Uma é
+o natural, a outra é o não natural como natural; uma sustenta o sublime, a
+outra o ridiculo. Ao pathetico eleva-se todo o que soffre; só o riso é a força
+das grandes individualidades. Ri-te de tudo; o riso denota sempre uma
+superioridade.</p>
+
+<p>Não o comprehendia; o seu riso pungente de ironia desarmava-me. O genio é
+uma nevrose, uma disformidade; o que nos outros me parecia egoismo, n'elle não
+sabia como chamar-lhe. Para elle a gratidão era a justificação do servilismo; o
+sentimento religioso uma tradição da ignorancia primitiva; o amor de mãe uma
+impertinencia, que só se dá entre os animaes da classe dos mamiferos, pela
+conversão do habito em instincto. Explicava tudo assim. Parecia uma alma
+devastada por longas abstracções, que andava errante no mundo, á busca de uma
+formula impossivel. A analyse continua dava-lhe uma certa malvadez, tornava-o
+intratavel.</p>
+
+<p>O caracter faz-se. Quaes seriam as circumstancias<span
+class="pn">{137}</span> que o transformaram até áquelle ponto? Indagava-o como
+um problema interessante. Fui por deducções pequeninas. Muitas vezes me fallava
+elle da harmonia plastica das fórmas. Contou-me uma historia original: uma
+menina engraçada, cuja belleza realçava com uns dentes alvissimos de jaspe; a
+vaidade de mostral-os tornara-a jovial. Infelizmente tropeçou em uma escada e
+quebrou um dente. Perdera o seu melhor encanto. D'ahi em diante, procurando
+encobrir esse defeito, tornou-se taciturna, melancholica, apprehensiva, até que
+se foi definhando e morreu de desgosto. Contava-me isto como uma grande
+verdade, como doutrina que professava. Admirava o costume de Sparta, que
+mandava despenhar de uma rocha as crianças disformes. Pobre rapaz! Como uma
+circumstancia pequenissima lhe influiu no caracter e na existencia. Elle era
+aleijado de um pé, como Byron, e era este o seu desgosto intimo, que o trazia
+solitario e o tornava aggressivo, porque se via amarrado a um ridiculo.<span
+class="pn">{138}<br>{139}</span></p>
+
+<h1>O sonho de Esmeralda</h1>
+
+<p>Oh! meu amigo, oh! meu poeta, tu não sabes o que é um rapaz que sáe aos
+vinte annos da sua agua furtada, sem conhecer o mundo, ignorando a vida, tendo
+vivido alimentado por sonhos impossiveis, rico de todas as leituras, levado por
+ambições altivas, que o fazem grande, sentindo muito, amando tudo, e que o
+acaso atira ao meio de uma cidade opulenta, onde ninguem se conhece, onde todos
+se egualam e atropellam! Foi quando comprehendi aquelle tercetto de Dante, de
+uma profundesa nocturna, que me abysmava, cada vez que o repetia na mente:</p>
+
+<blockquote>
+ <p class="versos">No meio do caminho d'esta vida <br>
+ Dei por mim na amplidão de selva escura, <br>
+ Pois que a vereda certa era perdida. </p>
+</blockquote>
+
+<p>Não sabes como o ruido de uma cidade immensa, o dédalo das ruas, a
+extranhesa e indifferença<span class="pn">{140}</span> dos que passavam, me
+tornava solitario no meio das multidões. Tantas vozes perdidas no ár, e nenhuma
+para mim! Tantos braços cahidos com desdem, e sem nenhum me estreitar a si.
+Parecia-me o tumulto como um naufragio em que a ancia do salvamento nos torna
+egoistas, insensiveis para as agonias dos outros.</p>
+
+<p>Todas as aspirações que me fizeram deixar o retiro benigno onde me voaram os
+primeiros annos, mostrando-me o mundo como uma grande festa, que me despertaram
+o desejo de ser tambem um dia conviva, iam-se apagando, abandonavam-me como no
+encontro fortuito de um desconhecido. Sentia-me pequeno, incapaz de luctar, de
+me impôr a admiração dos outros.</p>
+
+<p>O que teria sido de mim nas horas monotonas do desalento, nos longos dias do
+desamparo, se não fôra a poesia! Até então tinha ella sido um folguedo, um
+brinco infantil, innocente, um vagido timido e suave da alma, que anceava a
+luz, como uma borboleta prateada antes de romper a chrysalida nocturna. Sem ter
+quem me fallasse, pedi á poesia os seus antigos carinhos, um alento de
+esperanças, um orvalho para refrescar a aridez do dezerto em que me via. Ella,
+a irmã dos tristes, a alma dos que soffrem, como veiu terna, espontanea,
+compassiva para consolar-me! Cantava, como uma criança, quando tem medo e
+procura esvaecer os vultos caprichosos que lhe voejam na phantasia. Foi a
+poesia tambem que salvou o desgraçado Jacopone, quando, abalado<span
+class="pn">{141}</span> pelos desastres da vida, errando pelas ruas desvairado
+e doido, apupado da plebe, perseguido, veiu bater ás portas de um mosteiro,
+d'onde egualmente o repelliam. Foi ella que lhe deu a paz da cella e a
+serenidade da contemplação.</p>
+
+<p>Oh santa e divina poesia! bem hajam os que choraram por que te descobriram e
+trouxeram á vida, como uma pérola nunca vista trazida do fundo do oceano. Bem
+hajam os que ainda choram, por que te guardam em si, como uma vestal solicita
+ateando continuamente a labareda do altar. Bem hajam os que hão de vir para
+soffrerem, por que nos comprehenderão sentindo-se aliviados.</p>
+
+<p>Andava pela cidade sem destino, vagabundo; eu mesmo ia comprar o alimento
+para o dia, e enojava-me esta guerra mesquinha e vil do pequeno commercio para
+os que chegam incautos, inexperientes. Os fundos, e bem poucos que eram, iam-se
+reduzindo de dia para dia; estava quasi sem dinheiro, e com um orgulho e
+altivez incrivel para affrontar o futuro.</p>
+
+<p>Enrolado, dentro de uma gaveta, tinha um manuscripto, que escrevera para
+distrair-me na solidão das minhas horas. Quando me lembrei d'elle comecei então
+a dar-lhe o valor que até alli não conhecia. A necessidade, que se approximava,
+a cada instante, fazia-me procurar n'elle todas as esperanças. Pobre
+manuscripto! Quem o poderá entender, quem dará dinheiro por essas paginas sem
+sentido, que a<span class="pn">{142}</span> ninguem tocam e que nem ao menos
+fazem rir? Demais, estava escripto com uma letra inintelligivel, entrelinhado e
+sublinhado, em um papel repassado de tinta amarella, que mal se percebia.
+Quando me vi quasi sem dinheiro, á <i>porta inferi</i>, tornei a enrolar o
+manuscripto, metti-o debaixo do braço, e sahi. Passava pela porta dos editores
+e não me atrevia a entrar. Tinha medo que me insultassem com um riso de
+escarneo, por me verem tão criança e já com pretenções a auctor. Guardava
+sempre para ámanhã a extrema resolução, e tornava a trazer o livro para casa e
+a fechal-o na gaveta. Não imaginas que horas de tormentos! Eu temia que me
+apagassem com um riso todas estas esperanças, e me convencessem com argumentos
+assim da minha nullidade; bem conhecia o que me haviam de dizer, previa-o,
+cheguei a escrever a resposta que os editores me dariam: «O seu manuscripto não
+tem leitores; não é um romance, nem um conto; tem algumas paginas excellentes,
+mas não póde dar lucro de maneira alguma.»</p>
+
+<p>Era esta a resposta que eu antecipava, para me não doêr tanto depois quando
+a recebesse. Um dia, o ultimo, sai a tremer com o manuscripto. Oh meu amigo,
+para que te hei de fallar n'estas cousas? Nem eu queria chegar a este ponto,
+quando te prometti contar a historia d'essa mulher, que tu conhecias melhor do
+que eu. N'esse dia, comecei a sentir povoar-se-me a soledade da vida, mas com
+outras dores, desesperanças novas.<span class="pn">{143}</span></p>
+
+<p>Nos primeiros mezes que passei n'aquella cidade, tinha lido e estudado
+desesperadamente; a meditação fôra o refugio do tedio, mas era como um abutre
+que me lacerava as entranhas.</p>
+
+<p>Vi-a! leve, delgada, divertida, olhando para todos, com uma graça
+encantadora de infancia, com uma gentileza de senhora, confundida pelo meio da
+plebe, sorrindo para os que a fitavam. Foi um d'esses sorrisos que me levou a
+alma presa. Que lucta obstinada e escura dentro d'esta pobre alma! o estudo e a
+paixão debatiam-se, arcavam, procuravam mutuamente supplantar-se. Eu tinha
+acabado de ler a <i>Notre Dame de Paris</i>, e achava em mim não sei que
+analogias sinistras com Claudio Frollo. A <i>Notre Dame</i> de Victor Hugo é a
+rosa emmurchecida, que rejuvenesce ao sol do mysticismo, é a <i>Turris
+eburnea</i> por quem o poeta se apaixona no sublime delirio da arte. Claudio
+Frollo! o desgraçado arcediago deixou tambem correr tranquilla a mocidade no
+retiro do estudo; depois a <i>Esmeralda</i> enfeitiça-o, dançando, no volteio
+vertiginoso das praças. São duas paixões que se combatem. Qual d'ellas
+triumphará? A fatalidade do impossivel?</p>
+
+<p>Eu não conhecia o labyrintho de ruas da cidade populosa e immensa, ía em
+busca d'ella sem saber para onde. Encontrava-a quasi sempre, por uma
+coincidencia fatal. De uma vez, lembra-me ainda, foi quando a vi mais bella do
+que nunca, mesmo do que todas as mulheres. Estava confundida entre a multidão,
+que a abafava na sua<span class="pn">{144}</span> onda; mas para mim realçava
+tanto como um carbunculo que reflecte em si a luz de todos os cirios. Via-lhe
+na expressão languida e curiosa a alma de todas as almas dos que a cercavam. O
+povo amontoara-se para vêr subir aos áres um balão. Era um dia de alegria e de
+festa; quando a descobri estava com os olhos erguidos para o céo. Oh! se ella
+soffresse, se implorasse a Deus uma consolação, não estaria mais sublime e
+radiante. O que a fazia confundir o azul dos seus olhos com a limpidez do
+firmamento era a curiosidade de criança. E contemplava o balão que subia,
+alheia á vozeria da gentalha. Desejaria elevar-se tambem ás alturas, e então
+estava pensando no devaneio d'esse desejo? Quem sabe os caprichos que passam
+pela alma de uma mulher? Quem póde contar todas as ondas que faz uma brisa
+perpassando levemente á flôr das aguas? Quando baixou os olhos á terra deu com
+os meus, que a contemplavam, sorriu-se. Oh! como aquelle sorriso me faria
+esquecer todos os pezares, me daria coragem para todas as luctas, me insuflaria
+alento para os mais inauditos esforços, se ella se não sorrise assim para
+todos.</p>
+
+<p>Para todos! É este egoismo do sentimento que gera os nossos males, exacerba
+a mais terrivel das paixões, a mais selvagem e vil, que é só grande pela
+loucura. Eu tinha ciumes de todos, porque ella sorria prodiga de encantos,
+tanto para os que passavam indifferentes, como para o que a contemplava com o
+desinteresse com que se<span class="pn">{145}</span> olha para um marmore
+antigo ou adorando a sua morbidez de Madona, como para aquelles espiritos
+baixos e abjectos que a fitavam desassombrados, preoccupados de um desejo
+faminto e estupido de sensualidade.</p>
+
+<p>Criança e indiscreta, seria a innocencia que a fazia sorrir para todos, como
+uma borboleta que vôa de flor em flor, ou como uma rosa que embalsama de
+perfumes todas as virações que passam? Eu não sabia, e tinha medo da verdade. O
+amor triumphava completamente do estudo. A verdade, que procurava incansavel no
+ardor das vigilias, agora já não me mostrava os mesmos encantos. Queria que se
+escondesse, que se não deixasse tocar por mim, como um arcano divino. Quem
+podesse viver sempre illudido! Oh! verdade! verdade! para que vens agora, que
+te não busco, acordar-me tão cedo do sonho doirado?</p>
+
+<p>A multidão dispersou-se ao vir da noite; eu fui seguindo para onde ella
+habitava. Ia perdido, a distancia, sem conhecer as ruas; a pequena, distrahida,
+como por descuido olhava para traz. Depois que soube onde morava, procurava a
+cada instante vel-a. Havia uma fatalidade que me atirava para essa mulher. Só,
+no meio de uma cidade grande, desconhecido, amava a perdição, e sentia-me
+arrastado, sem ter ao menos um Tiberge que me salvasse, como o amigo do infeliz
+Des Grieux, amante da <i>Manon Lescaut</i>. O futuro! nem já podia vêl-o, com a
+vertigem que um olhar<span class="pn">{146}</span> fascinador me causava;
+apagava-se esse ideal que me dera tantas vezes coragem nos transes e provações
+da vida. Ria-me do futuro. E que é o futuro? De que me vale preparal-o,
+consummindo a vida, se me foge antes de o gosar? Viver obscuro! embora n'uma
+trapeira, mas ter um dia, ao menos, a mais pequena realidade de tantos sonhos!
+Ter que apalpar entre as visões brilhantes, sem corpo, e que nos mentem sempre.
+Viver obscuro! Que haverá melhor, quando se tem ao lado aquella que se ama e
+resume todos os encantos e riquezas do mundo na mais pequenina de suas
+fallas?</p>
+
+<p>Sentia-me escorregar lentamente para o precipicio; a paixão dava-me uma
+lucidez com que explicava a loucura e a justificava diante da consciencia que
+me accusava de instinctos baixos, sem dignidade. Apparecia-me á janella todas
+as tardes; sentava-se ali e costurava. Tinha um orgulho indizivel ao lembrar-me
+que, de entre todo aquelle bulicio de gente desconhecida, havia uma mulher que
+pensava em mim e me estava esperando. O amor tornava-me timido; queria
+fallar-lhe e não sabia. Pedi então á poesia que fallasse por mim.</p>
+
+<p>Para um amor puro, ethereo, que se esconde e não se atreve a declarar-se,
+nada o exprime melhor no seu vago ideal do que um soneto. Estudei esta fórma, a
+mais completa das fórmas lyricas. Elevado como a ode, melifluo e simples como o
+madrigal, sentencioso como o epigramma, é a synthese de todas as fórmas do
+lyrismo. Como<span class="pn">{147}</span> o não desenvolveu o genio da Italia,
+nas suas elevações erotico-mysticas! Nas duas primeiras strophes do soneto, o
+sentimento revela-se pela imagem, occulta-se sob ella como indefinido,
+intangivel; o predominio da imagem tem a quadra, fórma livre para as
+representações do mundo exterior. Depois é que o sentimento se mostra no seu
+esplendor absorvendo em si todas as potencias da alma; é o terceto que o
+traduz, a triade fatidica, que se imprime mysteriosamente em todos os factos do
+espirito. Do accordo entre a imagem e o sentimento, provém a diversidade das
+fórmas poeticas. Se a imagem se mostra na sua complexidade finita, a poesia tem
+um caracter didactico e descriptivo; se o sentimento se sobreeleva á imagem e
+se manifesta na sua subjectividade, eis o lyrismo puro. É por isso que o soneto
+é a fórma suprema do lyrismo. Santificaram-n'o Dante, no retrato do amor ideal,
+na <i>Vita Nuova</i>; Petrarcha, exaltando o amor religioso de Laura na solidão
+de Vauclusa; Miguel Angelo, esse Protheu que encarna todas as fórmas do bello,
+e Vittoria Colonna, confidenciando ambos com os sonhos da arte, de um modo que
+ninguem macularia o seu platonismo radiante. É tambem nos sonetos religiosos de
+Lope de Vega, que se conhece a profundidade de sua alma sensivel, e nos de
+Camões, que se aspira o perfume da saudade de seus mallogrados amores.</p>
+
+<p>Esquecia-me a dissertar sobre o soneto para evitar o ridiculo de ter assim
+cantado esse desvario.<span class="pn">{148}</span> Eu a via todas as tardes á
+janella; tinha a seu lado um passarinho, que saltitava, chilreando contente,
+para quem fallava, dizendo o que queria que eu ouvisse. Como não perceberia
+elle estes segredos de amor, quando o estava embalando com o seu cantar
+soffrego, tremente. De uma vez atirei para dentro da janella este soneto
+traduzido do hespanhol de Lope de Vega. Não ha expressões humanas que possam
+dizer mais:</p>
+
+<blockquote>
+ <p class="versos">Dava alimento a um passarinho um dia <br>
+ Lucinda, e pela estreita portinhola <br>
+ Foi-se-lhe a ave das grades da gaiola <br>
+ Ao vento livre, onde a cantar vivia.</p>
+
+ <p class="versos">Entre-rindo, a mãosinha ella estendia <br>
+ Para o suster; na dor que a desconsola, <br>
+ Diz (pois como a vergontea se estiola <br>
+ Sem luz, sua face a pallidez tingia):</p>
+
+ <p class="versos">«Para onde vás? e deixas este ninho <br>
+ «Que de frouxel teceu a doce amiga, <br>
+ «Que a brincar com o teu bico se enamora?»</p>
+
+ <p class="versos">Ouviu-a enternecido o passarinho, <br>
+ Bate as azas para a prisão antiga, <br>
+ Que tanto póde uma mulher que chora. </p>
+</blockquote>
+
+<p>O que haverá na poesia antiga que exceda este primor? Quem soube idealisar
+assim uma lagrima? Comprehenderia ella a profundidade d'este sentimento? E
+sorria-se de cada vez que lhe enviava<span class="pn">{149}</span> novas
+confidencias, mas do mesmo modo que sorria para todos. Para todos! Sempre esta
+idéa infernal a envenenar-me todas as horas da vida. O poder das lagrimas que
+lhe descobri, a <i>fraqueza</i> que vence todas as forças, não tinha esse
+mysterio, quando as derramei ao vêr-me nú, abandonado pela esperança fagueira,
+que fugira como o passarinho de Lucinda. Disseram-me... nem eu sei o que me
+disseram. Fôra a mãe, a mesma que a susteve nos joelhos quando a atirou á vida
+e a amamentou com seu leite, quem a arrojou á perdição. Quem havia de adivinhar
+que sob um ár de candura, que a cercava de uma auréola divina, vergava uma alma
+oppressa pelos insultos dos que lhe pagavam! O que é uma cidade grande! Não se
+devoram com os horrores da anthropophagia, mas a vida vae continuamente
+alimentando-se da vida. Não sei, não posso contar-te tudo.»</p>
+
+<hr style="width: 30%;">
+
+<p>Um anno depois encontrámo-nos; o pobre rapaz estava possuido novamente da
+paixão dos livros. Era uma anciedade de saber, não menos funesta, que o
+amputava para todos os gosos da vida. Não me atrevia a fallar no antigo amor;
+tinha medo de acordar-lhe as agonias que estariam talvez já adormecidas. De uma
+vez, estavamos juntos, vi passar a distancia uma rapariga,<span
+class="pn">{150}</span> um typo raphaelico de candura; ia seguida por uma
+mulher velha e tropega. Era uma antithese que fazia pensar muito. Elle olhou-a
+e foi acompanhando-a com a vista, com certa anciedade; depois, como refreado
+pela reflexão, olhou para mim envergonhado, córou e disse, procurando esconder
+esta impressão repentina:</p>
+
+<p>&mdash;É ella.</p>
+
+<p>Não comprehendi immediatamente; fui barbaro, pedindo que me explicasse o
+mysterio d'essas palavras intercortadas. Elle apenas pôde proferir uma, mas que
+era o resumo de todas as dores e decepções, da compaixão que ainda sentia, do
+ideal a que tinha aspirado, da fatalidade a que tinha succumbido. Olhou-a, ella
+já ia longe; depois que a viu desapparecer, disse, contemplando ainda e com a
+voz a apagar-se:</p>
+
+<p>&mdash;Uma ruina!<span class="pn">{151}</span></p>
+
+<h1>O Evangelho da desgraça </h1>
+
+<p>Era uma criança linda, linda como os amores. Os movimentos impensados da
+infancia davam-lhe a cada instante uma nova expressão de candura, faziam
+amal-a, beijal-a. Ella não sabia que estava sósinha no mundo; a pomba não tinha
+a aza maternal sob que se occultasse, quando viesse o abutre pairando para
+arrebatal-a. Ria, descuidada.</p>
+
+<p>A graça com que saltava! Parecia um pequeno gato quando brinca.</p>
+
+<p>Faltava-lhe pae e mãe que lhe soubessem interpretar todos os requebros, a
+meiguice das palavras apenas balbuciadas, adivinhar seus medos, aspirar-lhe os
+risos, unir-se ás suas alegrias, beber-lhe as lagrimas sem motivo.</p>
+
+<p>Era uma florsinha nascida á beira da estrada,<span class="pn">{152}</span>
+exposta aos ventos da noite, ao rigor das calmas, ao tropel dos que passam,
+banhada de perfumes que ninguem vem respirar, derramados ao capricho das
+virações. Pobre filha! Como estas plantas que se estiolam e seccam, mal rebenta
+o gomo que as hade substituir, a mãe morrera ao trazel-a á luz; com ella se
+foram para a cova todos os carinhos que nos embalam e fazem esquecer as dôres
+por onde se nos dá a conhecer a vida.</p>
+
+<p>Sem mãe!</p>
+
+<p>Ninguem sabe o que é vêr descer a noite negra, e as crianças que brincavam
+comnosco cairem de cansadas em um regaço que accalenta, ouvir as cantigas que
+as adormecem e lhes afastam o medo; e não saber por que não temos aquillo
+tambem, não haver quem nos chame, nos fale e nos conte maravilhas, e nos
+esconda no calor benigno de um seio que bate por nós. A orphandade! E depois
+quando os primeiros alvores da mocidade começam a doirar-nos a existencia, a
+acordar a um tempo todos os sentimentos bons e santos, não ter quem nos
+descubra e faça presentir as sarças que nos podem prender, as torrentes que nos
+podem levar, os abysmos em que se póde cair. Uma mãe! Ella nos ensina a amar e
+nos faz bons com o seu amor.</p>
+
+<p>E se o amor inconsiderado da gloria nos arrasta, se a vertigem de alcançal-a
+dá coragem para affrontar o impossivel, sacrificar a vida por um fumo que o
+tempo dissipa, feliz de quem<span class="pn">{153}</span> tem uma lagrima na
+vida que nos ensine o que ella vale, para não dal-a por tão pouco.</p>
+
+<p>Mas a pobre criança na sua ignorancia ditosa não sabia d'isto; brincava
+sósinha, aprendia a ser mãe. Que affagos perdidos com a boneca que embalava ao
+seio, que beijava, vestia e despia, fallando com uma ternura que ella
+adivinhava, porque nunca no mundo ninguem lh'a havia dado, ensinado.</p>
+
+<p>Aos sete annos perdeu seu pae; era pescador. Elle e a sua barca
+desappareceram em uma noite de temporal. Costumada a vêl-o poucas vezes, a
+criança não deu pela falta; esqueceu-se de que tinha pae, como se acostumára á
+falta dos desvellos de sua mãe. O pescador, quando ía para a costa deixava-a
+sempre em casa de uma visinha, com quem distribuia os diminutos ganhos que
+apurava. Esta visinha era como todas as pessoas que resam muito com a mira no
+céo, e de tal fórma se tornam refractarias a todo o sentimento, sem affeição a
+ninguem, incapazes de uma generosidade; então para as crianças, que não
+comprehendem, são mais aterradoras que um mestre de meninos. Quando a visinha
+soube da morte do pescador, carpiu, deplorou, sem saber como subtrahir-se ao
+encargo da abandonada criança. Se até ali o nimio descuido e desmazello eram
+providenciaes, porque ao menos não vinham atrophiar os impulsos expansivos da
+infancia, d'ali em diante a visinha arrogou-se a auctoridade absoluta, expressa
+n'esta maxima popular&mdash;quem<span class="pn">{154}</span> dá o pão dá o ensino.
+Mas a criança tinha um dom que a defendia de todas as atrocidades brutaes da
+prepotencia irresponsavel, era linda, linda!</p>
+
+<p>Quantas vezes não passou pela cabeça da desalmada visinha amparal-a até á
+edade em que pudesse auferir um lucro criminoso d'aquella formosura angelica.
+Belleza funesta que vem accumular a desgraça á indigencia, dar uma côr mais
+sinistra á miseria. Tinha sete annos apenas! custava tanto esperar. Lembrou-se
+então a visinha&mdash;uma idéa luminosa que a livrou de escrupulos de consciencia e
+lhe asserenou o animo alvoroçado por uma caridade que a sorte lhe impuzera&mdash;a
+criança tinha ainda um avô do lado materno, feitor de uma rica propriedade. Era
+a algumas legoas de distancia; em um domingo, depois da missa da madrugada,
+poz-se a caminho com a pequena e foi entregal-a ao avô.</p>
+
+<p>Nada mais commovente do que a infancia e a velhice quando se amam e se
+comprehendem; tem ambas uma frescura juvenil, o frescor dos orvalhos doirados
+da alvorada e da geada nocturna, a luz e sombra formando um brando crepusculo
+em que se scisma sonhando alegrias por vir e illusões que não tornam.</p>
+
+<p>Não se descreve a loucura de jubilo que o velho sentiu ao vêr a criança,
+carne da sua carne, uma parte da sua alma, que reflorescia viçosa no engraçado
+renovo. Ria, chorava no seu transporte, doudo, doudo de contente ao beijal-a.
+Fitava-a,<span class="pn">{155}</span> esquecia-se a vêr-se n'aquelle retrato,
+a menina dos seus olhos, como lhe chamava quando os soluços lhe não embargavam
+a voz.</p>
+
+<p>&mdash;Eu não podia morrer, sair d'este mundo, sem te vêr, minha filha! Tu bem
+sabias isto; foram os anjos que t'o disseram, por isso quizeste vir. Trazes-me
+o dia mais alegre da minha vida. Quando tua mãe nasceu foi n'um dia como este,
+e eu não me alegrei tanto; não me lembrava que uma filha é o melhor encanto da
+velhice! Estava longe da minha aldêa, muito longe, andava na guerra havia quasi
+um anno, e ainda não era bem um que estava casado. Quando voltei, já tua avó e
+tua mãe tinham morrido. Não te importam estas cousas! Tu queres brincar? Vae
+correr, anda á tua vontade. Como ella é tão bonita! Eu choro sem saber porquê!
+Tinha pedido tantas vezes ao pae que a trouxesse cá um dia. Eu não devo
+deixal-a ir; ella é minha agora.</p>
+
+<p>Quando o velho soube que a criancinha estava completamente orphã no mundo,
+deu graças ao céo por lhe havêr poupado a vida de tantos riscos que
+atravessára. Julgava-se o roble secular que protege o arbusto flexivel, quando
+as rajadas retouçam na floresta. Queria penetrar os designios da providencia,
+que o destinára no declinar dos annos para a guarda d'este thesouro de candura.
+</p>
+
+<p>O velho, á noite, sentava-a sobre os joelhos, fallava como a uma pessoa
+desenvolvida, contava-lhe historias do passado, até que adormecia, e<span
+class="pn">{156}</span> se esquecia vellando ao pé d'ella, horas inteiras. O
+que lhe não contaria o velho na sua simplicidade de justo? Mutilado como estava
+das longas batalhas em que entrára, perguntava-lhe a criança a historia de cada
+cicatriz. Ella nunca vira estas disformidades nas outras pessoas e tinha medo;
+o velho distraía-se de continuo pintando-lhe os recontros, as contraminas, as
+cargas; ás vezes não fallava para ella, fallava comsigo, vehemente, exaltado,
+por fim ria-se de si, e acabava por beijal-a muito. Isto repetido quasi sempre
+ao fim da tarde, quando o sol dardejava na aresta da montanha, e vinha de longe
+a toada dolorida e plangente da sineta de uma freguezia proxima.</p>
+
+<p>A apparencia do velho infundia consolação; a falta de dentes dera-lhe uma
+disposição aos beiços desbotados de modo que parecia ter sempre um riso de
+mofa, inoffensivo, divertido, communicativo. Sobretudo, o que era mais
+sympathico na sua fealdade eram uns olhos, de pequenos, tão alegres e vivos,
+que pulavam, como no vigor da edade e das paixões, em umas orbitas encovadas,
+maceradas pela senectude. As cicatrizes das ballas e espadagadas, misturando-se
+com as rugas da velhice, em vez de o tornarem repulsivo, davam-lhe um aspecto
+attrahente, em que o bom humor que o animava deixava reflectir um fundo de
+bondade, que tem quasi sempre as pessoas que soffreram bastante.</p>
+
+<p>E quanto não tinha elle soffrido? Noivo, casado de um anno, viu-se forçado a
+abandonar seu lar,<span class="pn">{157}</span> deixar a roupa de camponeo pela
+farda apertada, a choça pela caserna, o nome por um numero, o leito fresco,
+cheiroso com roupas de linho, pela tarimba, e sobretudo a vida sanctificada da
+familia que acabava de formar em roda de si, pela guerra em que se ia
+confundir.</p>
+
+<p>Fôra no tempo da guerra peninsular. Uma estrella funesta o acompanhou
+sempre, amparando-lhe a vida para soffrimentos inauditos. Nunca entrou em acção
+d'onde não voltasse ferido; todos galardoados sempre, d'elle ninguem se
+lembrava! A jovialidade dava-lhe forças para resistir á oppressão da injustiça.
+De uma vez levaram-lhe os dedos quasi todos, porque em uma carga de cavallaria
+teve de fazer das mãos capacete. Retalhado, calcado aos pés do esquadrão, ainda
+ali a sorte acintosa o guardou para novas provações. O pobre soldado não sabia
+queixar-se; por fim como não pudesse dar ao gatilho, passaram-no para a
+artilheria.</p>
+
+<p>Ahi subiu de ponto a sua infelicidade. Em uma investida a peça que
+descarregava esteve quasi nas mãos do inimigo; era um magnifico apresamento.
+Exasperado de raiva encravou-lhe o busil, para não fazer mais fogo. Depois, que
+a levassem os contrarios! N'isto o pelotão foi distrahido para outro lado.
+Julgaram então o misero soldado traidor aos seus, e descarregou-lhe o general
+um golpe que o estendeu por terra. Em uma nova investida dos contrarios
+conheceram a prudencia do artilheiro, mas deixaram-no estendido por<span
+class="pn">{158}</span> morto; as carretas passaram por sobre elle e
+fracturaram-lhe as pernas. Pediu debalde aos inimigos, que iam de avançada, que
+o acabassem de matar. Ninguem o ouviu, com o estrepito das descargas e do rodar
+dos trens, o ruido da cavallaria e o ecco dos clarins. Depois da batalha,
+quando iam atiral-o á valla, pediu que lhe poupassem a vida. Doeram-se d'elle e
+levaram-no.</p>
+
+<p>Passados longos annos, depois de percorrer alheias terras e ter affrontado a
+fome e a solidão de extrangeiro, pôde voltar á sua aldeia, desacompanhado de
+felicidade, sem um unico signal de reconhecimento pelos serviços. A esposa que
+deixára um anno quasi depois de casado, tinha já morrido, deixando uma filhinha
+na orphandade. Ella mesma fôra crescendo, fizera-se mulher; humilde, havia dias
+que se casára tambem com um pobre pescador. O velho soldado não quiz ir aguar
+com a sua presença a sociedade dos dois esposos; restava-lhe um antigo amigo,
+que ouviu attento as suas calamidades, e o convidou para tomar conta de uma
+rica herdade que possuia. Ao menos encontrava no fim da vida a suavidade dos
+campos, e a tranquilidade da solidão.</p>
+
+<p>Quando se tem soffrido muito, cada momento está cheio de saudades da vida,
+porque o soffrimento é o signal mais certo de que se tem vivido.</p>
+
+<p>Estava pois n'esse remanso o velhinho quando no desejo de ver a creança,
+filha de sua filha, passára annos e annos na doce espectativa. Só<span
+class="pn">{159}</span> quando lh'a trouxeram e a beijou com a loucura de quem
+se sente duas vezes pae, é que soube dos novos desastres que o saltearam. Que
+havia fazer senão resignar-se! Aquella planta debil e mimosa era o que lhe
+restava na vida; protegia-a com afan, sollicito, esmerado, como um amante,
+cioso de que um atomo impalpavel de pó a maculasse.</p>
+
+<p>Em todos os momentos, em qualquer parte o velho e a creança agrupavam-se tão
+bem, que a natureza, por mais bella e surprehendente, era sempre accessoria, o
+fundo do quadro em que realçavam. N'este idylio encantador a creança passou a
+infancia mais descuidada e feliz; a liberdade dos campos, a serenidade do
+espirito deram-se as mãos no desenvolvimento d'ella.</p>
+
+<p>Estava uma rapariga!</p>
+
+<p>Linda, linda como os amores!</p>
+
+<p>Quem a via esquecia-se a olhar, contemplava.</p>
+
+<p>Era mais um seraphim do que uma creatura.</p>
+
+<p>Os olhos tremeluziam-lhe com um fulgor metalico; pareciam nunca terem sido
+empanados pelas lagrimas. Cantava a toda a hora como um passarinho das balsas;
+mas as cantigas que modulava distraida, eram a expressão do segredo mais
+recondito da sua alma. Lavando na ribeira ao som da agua corrente, ouviram-lhe
+uma vez cantar:</p>
+
+<blockquote>
+ <p class="versos">Os meus olhos são dois peixes <br>
+ Que nadam n'uma alagôa; <br>
+ Choram lagrimas de sangue <br>
+ Por uma certa pessoa.<span class="pn">{160}</span></p>
+</blockquote>
+
+<p>E quem seria essa pessoa, a primeira que soube arrancar uma lagrima d'estes
+olhos tão puros e meigos? Maior que todos os poetas, mais do que Deus talvez,
+quem soube dar fórma ao sentimento d'aquelle coração virginal em uma gota de
+agua, uma lagrima caida, irmã gemea das que os anjos andam pelo mundo aparando
+em suas urnas crystalinas, para as engastarem como estrellas da noite saudosa
+no vacuo do firmamento. E ella cantava:</p>
+
+<blockquote>
+ <p class="versos">O coração e os olhos <br>
+ São dois amantes leaes, <br>
+ Quando o coração tem pena, <br>
+ Logo os olhos dão signaes.</p>
+</blockquote>
+
+<p>Ella espalhava ao vento os seus pezares, mas ninguem os percebia; o avô
+alegrava-se ao vêl-a sempre entrar em casa cantando; mal sabia que a harmonia
+sonorosa era o ruido de uma grande tormenta. A pobre criança soffria muito,
+amava! Ha na vida do coração um momento em que todas as emoções, impulsos e
+sentimentos se alevantam a um tempo, e vão apoz o primeiro que os acorda. São
+como os perfumes derramados pela primeira brisa que chega. É como um <i>estado
+nascente</i> da paixão.</p>
+
+<p>Don Juan sabia por certo este segredo, conhecia o momento em que todas as
+mulheres se perdem, porque se dão ao primeiro que apparece.</p>
+
+<p>Nem ella conhecia porque amava, nem tampouco o impossivel que se erguia
+entre o seu<span class="pn">{161}</span> amor e o nascimento desegual d'aquelle
+que a endoudecera com as palavras balbuciadas tremendo. Amava o filho do antigo
+amigo de seu avô, dono da herdade em que habitava; estupido, uma d'essas almas
+boçaes, nascidas para deturparem tudo, porque não vêem, nem sonham senão o mal,
+mesmo no instante em que a linguagem mais intima da candura vem affagar-lhes o
+deserto em que o seu egoismo as esconde. Demais, elle tinha esta regularidade
+de feições, de uma monotonia que enfada, chata, insignificativa, mas que dizia
+bem com a alma que o animava, incapaz de qualquer acto generoso, de instinctos
+vis, mas julgando-se digno de todos os respeitos diante da sociedade. Tanto
+mais criminoso parecia, quanto era ainda novo, tambem criança, em quem se
+espera a ingenuidade dos primeiros annos que tudo perdôa.</p>
+
+<p>Aquelle que a innocente rapariga amava, não pensava senão em perdel-a. Era
+tão facil! Estava desprevenida, não via a traição da onça refalsada, onde
+esperava uma attracção irresistivel! Mal haja quem não falla verdade n'este
+episodio mais santo e verdadeiro de toda a existencia.</p>
+
+<p>A pobre pequena não sabia estas subtilezas do peccado; foi apoz os seus
+sentimentos, deixou-se adormecer ao som da voz que a illudia, para acordar com
+a gargalhada fria e insultante no fundo de um abysmo onde fôra atirada para
+sempre. A alegria que até ali tivera, e era a sua principal belleza, perdeu-a
+com a innocencia.<span class="pn">{162}</span></p>
+
+<p>Ja não cantava; andava silenciosa, desolada, como na afflicção de uma dôr
+que se não exprime. A unica pessoa que a amára verdadeiramente no mundo, seu
+avô, não tinha alma para perguntar-lhe o que a trazia assim oppressa.</p>
+
+<p>Ella envergonhava-se das lagrimas, represava-as, bebia-as! Uma vez, pela
+volta das trindades, o velho voltava do trabalho; pousou a enxada ao canto da
+choça. Sentaram-se á mesa frugal; não comiam, preoccupados por uma angustia que
+se não atreviam a confessar um ao outro.</p>
+
+<p>A final o avô perguntou-lhe com uma doçura inexcedivel:</p>
+
+<p>&mdash;O que tens?</p>
+
+<p>Ella prorompeu n'este instante em uma torrente de lagrimas irrepressiveis;
+ia para fallar, os soluços intercortaram-lhe a voz; atirou-se ao pescoço do
+velhinho, estreitou-o a si, sem poder fallar.</p>
+
+<p>Era o maior golpe que o desgraçado soldado experimentava, o ultimo que lhe
+abalava a vida.</p>
+
+<p>Comprehendeu tudo.</p>
+
+<p>Traduziu as meias palavras da queixa dolorida, e soube que o filho do seu
+protector fôra o seu algoz.</p>
+
+<p>Não podia accusal-o, vingar-se; era uma horrivel collisão de deveres! Ficou
+com a immobilidade do espasmo; hirto, como Bonifacio VIII diante da multidão
+que ia para despedaçal-o. Sentado á mesa, com a mudez do assombro, assim
+permaneceu a noite toda, até que ao outro dia deram com elle regelado,
+cadaver!<span class="pn">{163}</span></p>
+
+<p style="text-align: center; text-indent:0;">*<br>*&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;*</p>
+
+<p>O desespero das imprecações do desgraçado da terra de Hus, deitado sobre o
+monturo, coberto de lepra, envergonhando-se da luz, desejando haver tido o
+sepulchro por berço e por seio que o escondesse a podridão e os vermes da
+terra, todo este cicio da immensa agonia da alma que se alevanta até Deus e na
+sua fraqueza lhe exproba a desegualdade da lucta, é uma das mais completas, a
+primeira manifestação do poema eterno da agonia.</p>
+
+<p>Acorrentado sobre os fraguedos que te serviram de leito, Prometheu vencido,
+a Força e a Violencia guardaram os sarcasmos para a hora em que as extorsões
+convulsas não amedrontam os algozes; deixaram-te aos abutres famintos,
+fustigado dos ventos, mas ao menos o turbilhão erguia o grito da ameaça; o
+orvalho das noites refrescava-te o ardor da raiva, e o Oceano consolava-te
+porque te dizia: Prometheu, mesmo pregado contra essas rochas, sabes fallar
+ainda com liberdade! Deus banido, os outros deuses feriram-te porque nos
+alentaste a vida com a esperança; se é de força o soffrimento cumpra-se a
+fatalidade! Elles não conheciam as dôres fundas, que se não vêem, que matam
+lentamente, as dôres da alma, não as conheciam por isso não as<span
+class="pn">{164}</span> infligiram. As grandes obras da arte, Job e Prometheu,
+foram os que fizeram sentir no mundo as maiores dôres; mas a dôr moral, que os
+deuses antigos desconheceram, a dôr muda, essa é uma creação do homem, o maior
+inimigo do homem.<span class="pn">{165}</span></p>
+
+<h1>Aquella mascara</h1>
+
+<h2>I</h2>
+
+<p>A dôr transforma-te! Estás desconhecido. Já não tens o entendimento e a
+vivacidade dos dias da tua alegria. Que desastre repentino te deu essa
+immobilidade do espanto? Desfolharam-se tão cedo as flores da tua primavera;
+estão desbotadas as rosas de tua face, extincto o fogo d'esses olhos, que davam
+alma a tudo quanto dizias. A tua alma expandia-se, mostrava-se franca, como a
+verdade; illuminava-te o rosto, como um sol rutilante na immensidade tranquilla
+do mar. Eras exaltado, febril no que sentias; cada palavra tua era o ésto de
+uma paixão latente. Tinhas o segredo da fascinação, a magnanimidade do heroe, e
+a impenitencia do ergotista; eras a um tempo seraphim e demonio, podias
+transportar ao setimo<span class="pn">{166}</span> céo, ou atirar ao barathro a
+mulher que te seguisse. Tinhas a consciencia da força e rias-te de todas as
+mulheres, não te affligia o amor. Ainda era cedo para pensares n'isso, se é que
+se pensa quando nos atiramos á luz que nos deslumbra. Comparavas a sociedade a
+um oceano revolto, e só tinhas em vista levar o teu baixel a porto seguro; a
+estrella que te guiava, a monção fagueira que desfraldava aos pontos do céo a
+tua vella branca que havia de ser, a não ser o amor? O amor era um pequeno
+movel para ti; a ambição dava-te maiores impulsos, querias ser grande e
+dominar, absorver os outros. De facto tinhas em ti um poder assimilador,
+reduzias os outros a ti. No meio dos caprichos da tua individualidade altiva,
+mostravas grandes verdades. Eras todo sensualista, cercavas a vida de prazeres,
+mas só d'aquelles que te proporcionavam os recursos infinitos da intelligencia.
+Para ti a arte era mais do que todas as sciencias do mundo, era a synthese
+suprema das faculdades do homem, porque é pela arte que elle adquire a
+consciencia de si. A acção justa, não a conhecias pela harmonia dos principios
+eternos da justiça, era preciso sobretudo que fosse capaz de produzir uma obra
+de arte. Todas as tuas posições eram esculpturaes, podiam-se reproduzir no
+marmore; não era a affectação que te levava a este estudo, eram as tuas idéas
+da eurythmia, a necessidade de completar as expressões de tua alma no movimento
+exterior que mais as significasse. Áquelles<span class="pn">{167}</span> que
+não comprehendiam isto, que se riam e violavam os encantos da plastica,
+chamavas-lhes <i>Verna</i>, um nome insultante, com que mostravas a sua
+incapacidade para sentirem o bello. Dotado d'esta serenidade impassivel que tem
+o homem verdadeiramente superior, ás vezes não sabia porque deixavas um
+instante de ser bom; não se te dava de sacrificar os outros com tanto que te
+engrandecesses. Parecia um egoismo revoltante. Tu não professas a egualdade. Os
+<i>Verna</i> existem, para que entulhem a valla em que o heroe poderia cair.
+Isto é assim. Já vês que te conheço. Para que te escondes agora? Porque me não
+contas a anciedade de todas as tuas dôres! Eu sou incapaz de te humilhar com a
+minha compaixão. Se te custa, não me digas tudo, deixa-me adivinhar, presentir
+o mais; temos em tudo a necessidade do indefinido. As grandes dôres são como as
+lagrimas; são mais ardentes á medida que se represam.</p>
+
+<p>&mdash;Eu tenho vergonha de te não haver descoberto ha mais tempo o labor
+mysterioso que se tem operado em minha alma. Amo! Esta palavra diz tudo. A
+minha agonia provém do meu orgulho; é um golpe que dóe sempre, eternamente, que
+me faz ser máo, vingativo, e me dá força para esmagar os outros. Em mim o
+orgulho é o movel de todos os grandes sentimentos, é elle que me pôde fazer
+mais do que homem. Tu sabes perfeitamente a minha vida; tem sido até hoje um
+combate incessante; a aura pequena<span class="pn">{168}</span> que me cerca, o
+favor e a consideração que tenho tem sido uma conquista infatigavel, como
+aquelles combates sangrentos da velha tactica nas minas e contraminas das
+fortalezas. Detestei a familia em que nasci porque foi a primeira que me
+humilhou e me queria egualar. Não imaginas que esforços inauditos para
+conseguir uma diminuta independencia á custa de um trabalho insano, o trabalho
+da intelligencia, que ninguem reconhece, que se não paga. Depois, vêr-me
+envolvido na alta sociedade, ter de competir e de mostrar-me forte, não querer
+que ninguem adivinhasse a minha indigencia! Não sabes, o que é voltar alta
+noite do ruido de uma grande festa e atirar-se um homem de cansado a cima de
+uma enxerga alastrada em uma mansarda lobrega, depois das mais brilhantes
+ovações, depois de ter aspirado o perfume quasi celestial da gloria. Quantos
+n'aquella noite não invejariam a minha transfiguração, sem saber que o Thabor
+por onde subia era semeado de cardos que me ensanguentavam. De um dia para o
+outro me vi cercado de gloria; fallava-se em mim, queriam vêr-me, estava em
+moda, era recebido como principe, festejado, seguido. Explicavam a distracção
+continua que me tornava alheio a este culto perenne, pelo extasi da alma, pela
+abstracção continua do espirito pairando entre o céo e a terra. Não era assim.
+Lembrava-me o passado, a miseria e o abandono do dia de hontem, e doía-me o
+contraste. A gloria só por si era pouco, não me saciava. Queria bastante<span
+class="pn">{169}</span> gloria, mas para dal-a. Tinha necessidade de encontrar
+uma pessoa no mundo que vivesse da minha vida. Para amar tinha os typos da
+minha phantasia, desenhava-os a meu capricho, como queria, puros como Ophelia,
+dedicados como Griselidis, minhas, minhas como <i>la Belle au bois dormant</i>.
+Mas os dias corriam sem novidade de impressões, e os typos archangelicos que me
+cercavam, que evocava dos abysmos da imaginação ardente desamparavam-me como as
+filhas do Rei Lear. Lembras-te do quadro gigante traçado pela audacia de
+Shakespeare, quando o velho pae, com as cans fluctuando ao vento da tempestade,
+no inverno, caminha desolado no seu abandono? As filhas da minha imaginação
+desamparavam-me e o tedio da alma era o deserto glacial em que me via perdido.
+Eu sentia em mim bastante fogo, muita vida, para dal-a a quem viesse compassiva
+e não soubesse mesmo confessar o seu amor. Havia de interpretar cada olhar,
+como uma aurora que se abre, cada sorriso como uma cataracta de luz que nos
+envolve e nos confunde no infinito. Creara um longo sonho de amor, bello,
+bello, quanto sabia que era impossivel realisal-o no mundo. Por fim convenci-me
+tanto da verdade que o julgava possivel. Conheces estes sonhos dos nevoeiros do
+norte; quando a ondina se confunde na cerração, e o desejo vehemente de vel-a,
+de abraçal-a, começa pouco a pouco a dar-lhe fórma, a vestil-a de realidade,
+até que um dia se sente nos braços d'aquelle que a trouxe um momento<span
+class="pn">{170}</span> á existencia pelo ardor da aspiração? Foi como
+encontrei a mulher que primeiro me fallou de amor. A confiança d'ella fez-me
+grande. Disse-me que não queria a minha gloria; que antes me queria obscuro
+para ter de amar só a mim. Deixei-me levar por aquellas palavras que eram uma
+musica celeste; quando já não podia resistir a mim mesmo, o orgulho atacou-me
+de frente.</p>
+
+<p>Disse-lhe então que era impossivel o amor entre nós. Rica, bella, não podia
+ser amada desinteressadamente, ao menos diante do publico. Tinha vergonha que
+dissessem que a amava pela fortuna que possuia; esmagava-me esta idéa vil do
+senso commum. Desde esse instante procurei combater-lhe o sentimento puro que
+me revelara. Descobri-lhe uma rival, com quem ella, apezar de todos os
+encantos, não poderia competir, que a deixaria na sombra a estiolar-se,
+emquanto se aureolava de luz, se dava á adoração de todos; era a Arte, a Arte!
+Quando lhe descobri esta atrocidade do egoismo, em vez de desmaiar e
+desfallecer como aquella ingenua e timida donzella que se prostra ante a
+magestade olympica de Goethe, repellida pela sua rival a Arte, que a lançou
+fóra do seu templo, pelo contrario se enlaçou a mim com uma candura infantil,
+despreoccupada, beijou-me em delirio, segredando-me com uma voz que se coava
+por mim, que me vencia: O que é a Arte sem a realidade! Depois disse-me com a
+voz languida, frouxa, impensada como a melodia de uma harpa eólia: «Eu bem<span
+class="pn">{171}</span> sei que não tenho uma belleza que deslumbre; nem ella
+existe senão para exprimir algum sentimento. O que agora se passa em mim é uma
+verdade, é por isso que as outras me chamam bella. Se eu tivesse uma correcção
+de fórmas como um marmore antigo, tinha medo, sabia que não era amada por mim,
+que me adoravam os contornos da plastica. Gosto mais de ser como sou, posso ser
+amada com mais verdade.» Sentia-me mais do que Deus; elle nunca teve uma
+adoração assim; tinha vontade de precipitar o tempo, e chamar-lhe minha. O amor
+ia crescendo de dia para dia. Diante da mulher que eu sonhara, era preciso
+mostrar-me grande para merecel-a. «Eu bem sei que a minha familia hade combater
+o nosso amor; que importa! Tenho medo de não poder luctar. Se me violentarem a
+casar com outro, tens direito a reclamar quando quizeres o teu amor.» É
+impossivel! Nunca. Essas palavras na bocca de qualquer eram infames, abjectas;
+ditas por ti, são uma dôr funda, a abnegação de quem não sabe resistir. Eu
+pensava em alcançar uma posição social á custa de todos os esforços; depois
+iria pedir a sua mão de esposa. O successo está em não precipitar o tempo.
+Confiava na minha vontade inabalavel. N'um instante desampararam-me todos os
+planos de felicidade; vi-me só! Não sei mesmo a quem accuse. Seria por força
+minha, se eu podesse ser infame. Ninguem mentiu. Perdi-a para sempre; entre nós
+ergue-se o impossivel. Eu nunca duvido<span class="pn">{172}</span> do seu
+amor; mas de que me serve agora, que é já realmente de outro homem? Não sabias
+que estava já casada? Não sei como explicar isto! Ella tinha um primo, o unico
+herdeiro de um titulo, das grandes riquezas de sua familia. Era a ultima pessoa
+que restava, rachytico, infesado, com a doença hereditaria, que foi levando um
+após um os seus irmãos. Voltara de uma viagem pela Europa; elle mesmo chegara a
+esquecer-se do praso fatal que lhe estava imposto pela doença. Apaixonou-se
+pela prima, pediu-a, dizendo que não queria deixar extinguir-se o nome de sua
+casa. Accederam immediatamente. A victima innocente não pôde resistir a estes
+combates domesticos, de todos os dias; deixou-se levar, como o cordeiro do
+sacrificio. Vi-a pela ultima vez no carro com o noivo; senti-me pequeno e
+envilecido, parece que me enterrava pelo chão. Depois não tive coragem de
+apparecer. Temia os epigrammas dos outros. O orgulho é o meu maior algoz;
+devora-me como um cancro. Sinto-me máo, com vontade de esmagar os outros, não
+comprehendo a generosidade. Este desgosto fez uma alteração profunda em minha
+vida; nunca mais posso fallar verdade, porque me mentiram no momento mais santo
+da vida. Sinto-me com a imbecilidade do assombro, estou estupido; sou um
+involucro vasio, abandonado pela borboleta; como uma concha atirada do fundo do
+mar immenso a uma praia deserta. Apossa-se de mim um desespero insoffrido ao
+lembrar-me que ainda<span class="pn">{173}</span> sou criança, e que tenho de
+arrastar uma vida erma de todas as esperanças.</p>
+
+<p>&mdash;Eu bem sei que não mentes, que não é imaginaria a tua dôr. Basta olhar
+para a tua face; tem empanado o brilho da mocidade; é como um lago que vae
+perdendo a limpidez, e que as bafagens mornas evaporam. Eu queria saber
+consolar-te sem te humilhar. Bem sei que é muito difficil. Não achas a minima
+distracção onde os outros encerram todos os seus prazeres. Deixa que a tua
+indifferença te leve. A mulher que amaste é hoje condessa, e abre os seus
+salões aos amigos que festejam os annos de seu marido. Vem commigo. É um baile
+de mascaras. Ninguem te póde descobrir; eu apresento-te como um amigo intimo.
+Tu precisas cauterisar essa agonia. Vem vestir-te.</p>
+
+<h2>II</h2>
+
+<p>Pela volta das onze horas da noite os dois mascaras foram introduzidos na
+sala do baile. Era mais vivo o estridor das walsas; as côres deslumbrantes, as
+pedrarias, os reflexos da luz, a confusão e o delirio, os pares enlaçados n'um
+volteio frenetico, tornavam communicativa, convulsa tamanha alegria. Entraram
+desapercebidos, sob dominós singelos. Debaixo de uma mascara de setim ninguem
+sabia que andava escondido um grande desgosto; a mascara servia mais para<span
+class="pn">{174}</span> não deixar ver aos outros aquella tristeza funda que
+não era para ali. Ia pelos salões olhando, seguindo, como quem caminha nas
+trevas. Cada vulto que passava, gracejando, rindo distraído, parecia-lhe uma
+larva errante n'um páramo deserto. Tanta mulher bella, tantas palavras de amor,
+vibradas tremendo, e nem uma sombra leve de verdade. Como os homens se alegram
+quando sabem que estão entre si a mentir!</p>
+
+<p>N'essa noite a condessa estava arrebatadora de encanto; acabara de tirar a
+mascara n'esse instante, e o calor que lhe afogueava a face dava-lhe uma côr
+lasciva, de endoudecer; o cansaço, os labios entre abertos, que estavam como a
+pedir beijos, tornavam-na languida, voluptuosa como a huri mais ideal dos
+sonhos do propheta. Caiam-lhe algumas tranças desprendidas no fragor da dança,
+sobre os hombros alabastrinos, como n'uma travessura, como os cabellos de uma
+odalisca que se alevanta do banho embalsamado e tépido. Uma das rosas da sua
+grinalda caiu casualmente no chão. O olhar mais ardente e expressivo de uma
+mulher, não podia ser tão fatal como a queda d'aquella rosa. A mascara de setim
+aproximou-se mysteriosamente e ergueu-a do chão. A condessa seguiu-a
+vagarosamente com a vista, e esperava que a flor lhe fosse restituida. O
+mascara escondeu-a em si, e confundiu-se nos grupos que se cruzavam. Ninguem
+deu por isto. Depois a orchestra rompeu com as notas estridentes e repentinas
+de uma contradança.<span class="pn">{175}</span></p>
+
+<p>&mdash;Digna-se V. Ex.ª dar-me a honra de ser meu par?&mdash;disse o mascara de setim
+aproximando-se levemente da condessa.</p>
+
+<p>&mdash;Com tanto que diga para que escondeu a rosa?</p>
+
+<p>&mdash;Se escondi a flôr, temia que a calcassem aos pés. Custava-me tanto vêr
+esmagada a imagem mais triste de minha alma.&mdash;Apenas proferidas estas palavras
+com a voz abafada e tremula, a condessa ergueu-se de subito, hesitando se
+deveria ouvir uma confidencia que a compromettia; o mascara de setim deu-lhe o
+braço e foi collocar-se ao fundo da sala diante do seu vis-a-vis, triumphando
+d'aquella irresolução.</p>
+
+<p>&mdash;E o que pretende fazer d'essa flôr?</p>
+
+<p>&mdash;Guardal-a.</p>
+
+<p>&mdash;A sua determinação leva-me a perguntar quem lhe deu direito para tanto?</p>
+
+<p>&mdash;Não devo dizel-o.</p>
+
+<p>&mdash;Ordeno!</p>
+
+<p>&mdash;Não é justo satisfazer todas as indiscrições, principalmente quando...</p>
+
+<p>&mdash;Complete a phrase.</p>
+
+<p>&mdash;A ingenuidade de criança...</p>
+
+<p>&mdash;Diga tudo.</p>
+
+<p>&mdash;É irresponsavel pelo passado.</p>
+
+<p>&mdash;Não comprehendo!&mdash;Retorquiu a condessa fitando a mascara, procurando em
+vão surprehender debaixo d'ella quem seria capaz de fallar assim. Um mixto de
+terror e de curiosidade embaraçava-a, não sabia o que devia fazer. Depois<span
+class="pn">{176}</span> de alguns instantes de silencio, disse quasi em
+lagrimas:&mdash;Tenho medo de si! Oh dê-me essa flôr.</p>
+
+<p>&mdash;Nunca!</p>
+
+<p>&mdash;Exijo!&mdash;tornou a condessa com a voz sumida, sentindo-se dominada pela
+fascinação do desconhecido.</p>
+
+<p>&mdash;Aqui está a rosa,&mdash;disse o mascara tirando do seio a flôr quasi murcha.&mdash;É
+impossivel entregal-a. Eu posso exigir mais em paga d'ella. Posso exigir tudo!
+É uma promessa inviolavel como o juramento. Um dia a mulher que eu amava, no
+extremo de sua vertigem e loucura por mim, prometteu ir até onde eu estivesse,
+e ahi entregar-se-me, se soubesse que eu tinha a vida contada por instantes, e
+havia de saír d'este mundo sem abraçal-a ao menos uma só vez como minha. Os
+desgostos têm-me devorado lentamente a existencia; presinto a cada instante em
+mim a frieza do sepulchro, e não soube ainda erguer a voz e reclamar a promessa
+fatal. Nem eu a quero! Bastou-me ouvil-a para antecipar no mundo todas as
+venturas do empyreo. Deseja a rosa ainda?</p>
+
+<p>&mdash;O senhor dilacera-me!&mdash;volveu a condessa com a voz dorida, e com uma
+delicadeza inexcedivel.</p>
+
+<p>&mdash;Se a flôr que deixou cair está cheia de espinhos! Não me atrevo a
+entregal-a. Dou pela rosa a unica idéa que me podia fazer persuadir que ainda
+vivo! É uma troca generosa! Acceita? Um dia a mulher que eu amava, conheceu a
+desegualdade<span class="pn">{177}</span> da nossa posição, disse-me, de um
+modo que só ella saberia dizer sem macular a ingenuidade de sua candura:&mdash;«Se
+me violentarem a casar com outro, tens direito a reclamar quando quizeres o meu
+amor!» Seria uma infamia vir lembrar-lhe uma palavra proferida no momento mais
+exaltado da paixão, para perdel-a por um capricho. Não vale essa promessa.
+Agora ainda quer a flôr?</p>
+
+<p>&mdash;Oh, não! não!&mdash;accudiu a condessa represando as lagrimas que lhe inundavam
+os olhos scintillantes.&mdash;Eu não sei o que quero agora! Ninguem podia fallar-me
+assim a não ser... Fale-me, eu estou conhecendo esta voz! É impossivel que não
+seja! Não sabe como é horrivel esta incerteza. Não o julgo capaz de
+atraiçoar-me! Erga uma ponta da mascara, deixe-me vêl-o, a mim só, e fico
+descansada.</p>
+
+<p>&mdash;Eu não podia atraiçoal-a, nem mentir-lhe. Sou quem imagina; vim para vêl-a
+pela ultima vez, porque me sinto acabar; estão contados os dias da minha vida;
+passo com as folhas d'este inverno. Bem o conheço, e resigno-me. Não pensei que
+o primeiro amor que se tem na vida poderia ser tão funesto.</p>
+
+<p>&mdash;Oh, não falle assim, que me mata! Eu tenho remorsos de não ter luctado
+mais tempo; não tive culpa; minha familia quiz a minha infelicidade. Eu amo-o
+porque não sabe accusar-me. Quero vêl-o! já que não é possivel mais. Tire por
+um instante a mascara. É o que ouso pedir-lhe.<span class="pn">{178}</span></p>
+
+<p>&mdash;Eu tenho medo de arrancar a mascara; está pregada com o suor frio que me
+escorre da fronte. Para que me quer vêr? Estou tão demudado! Não sou o mesmo.
+Deve ter horror de mim; estou quasi esqueleto.</p>
+
+<p>&mdash;Por um instante só! quero vêl-o, afaste um pouco a mascara.&mdash;N'este
+instante a condessa voltou a face de aterrada. Contemplou de relance os
+estragos que uma dôr lenta fizera sobre as faces tão animadas que primeiro
+reflectiam os seus primeiros rubores. Fez um esforço inaudito para suster-se; a
+mascara de setim deu-lhe novamente o braço e foi sental-a no mesmo logar onde
+tinha caído a rosa da grinalda; depois segredou-lhe umas palavras de abnegação
+e bondade:</p>
+
+<p>&mdash;Esta rosa é a primeira que hade reflorir sobre o meu sepulchro.&mdash;E saiu; a
+noite ia remota; os alvores da madrugada luctavam com as luzes baças das salas,
+o acordar da natureza com o ruido vertiginoso da festa; o tedio e o cansaço
+traziam a desanimação, como acaba sempre o baile mais esplendido.</p>
+
+<h2>III</h2>
+
+<p>Apezar da impertinencia de rachytico e da estupidez vinculada na sua
+descendencia, o conde tratava perfeitamente sua mulher. A causa d'este respeito
+provinha da desegualdade, da força de intelligencia, da graça com que ella se
+tornava interessante<span class="pn">{179}</span> para todos. Admiravam-n'a, e
+esta veneração reflectia-se um pouco sobre o marido. O conde sentia que sua
+mulher lhe dava a importancia que não tinha por si, e respeitava-a tambem.</p>
+
+<p>A alegria com que ella andava! Sentia-se mãe, tinha vontade de amar.
+Dera-lhe Deus um filho, uma alma para o seu amor. Parecia-lhe que ao beijal-o,
+ao tel-o sobre os joelhos, se esquecia de tudo, de um passado feliz, de uma
+união forçada, do vasio da existencia, mesmo d'aquella noite ligeira, em que
+contemplou as ruinas que fizera, e que lhe deixou recordações pungentes,
+infinitas. Depois, a lembrança do passado amor, o primeiro, o puro, o intimo,
+vinha unir-se a esta idéa risonha de ser mãe, que a fazia esquecer-se de tudo!
+Pobre mãe! O conde preoccupava-se apenas com a existencia de um herdeiro. Era o
+que bastava. Almas vis que destroem o que ha de mais santo na vida pelo
+interesse mercenario! Doente, no seu amor a mãe sentia-se cada vez mais
+compassiva; lembrava-lhe a rosa que lhe tinha caido do cabello, o cavalleiro
+que lhe fizera a despedida para o sepulchro, e esta saudade começou
+vagarosamente a influir, a exercer uma acção mysteriosa sobre o feto. Não é
+estranho este phenomeno maravilhoso em physiologia. O segredo da callipedia das
+mães gregas consistia em contemplar estatuas admiraveis cuja belleza se
+reflectia depois nos filhos.</p>
+
+<p>Passados mezes veiu á luz a criança. O conde<span class="pn">{180}</span>
+andava louco com o nascimento do filho. Á medida que os traços da physionomia
+se iam precisando, a criança parecia-se menos com o conde; elle começou a
+observar isto. Não se atrevia a fazer uma accusação. Era impossivel. Depois as
+desconfianças tomaram corpo em sua alma, quando viu que a creança se parecia
+muito, muito com o rival, que preterira. Com a malignidade acintosa de
+achacado, foi torturando com esta atrocidade a tranquilidade de sua esposa.
+Ella, quanto mais se refugiava no passado, tanto mais via o filho represental-o
+diante dos seus olhos. Não sabia defender-se; a innocencia não se preoccupa com
+argucias, não quiz resistir, e deixou-se vergar pela dôr. Foi a definhar-se
+lentamente no soffrimento mudo d'esta impia injustiça. Assim a rosa que
+refloriu sobre um sepulchro que impensadamente abrira, veiu cahir desfolhada
+pelas virações da tarde sobre a terra fresca que acabava de a cobrir.<span
+class="pn">{181}</span></p>
+
+<h1>A rosa de Sáron</h1>
+
+<h3>(<small>POEMA EM PROSA</small>)</h3>
+
+<h2>I</h2>
+
+<p>Era noite; o som do <i>sino corrido</i> ecoára pela Judiaria; emmudeceu como
+se as passadas lentas de um convidado de pedra troassem no meio das risadas de
+um festim. A alegria e o ruido do trabalho suspenderam-se; os mesteiraes e
+homens de officio fecharam as portas; os christãos, odiando a raça maldita,
+separaram-se, deixando-a ao medo da noite. Então na pequena casa do judeu
+accende-se a luz do lar; cansado de receber insultos durante o dia, de vêr em
+roda de si a vileza e a traição, a lei e o fanatismo a ameaçal-o, esquece por
+um instante os planos da sua industria, os recursos com que produz o ouro e os
+capitaes com que hade comprar a sua segurança, e entra no fóco mais intimo da
+familia. Entra prostrado;<span class="pn">{182}</span> banha-lhe o suor as
+faces, traz o desgosto pintado na fronte encanecida, vem afadigado das longas
+migrações, amedrontado pelos terrores das grandes crises do estado; ao
+asylar-se no remanso da casa, entra como o errante do deserto em um oásis
+desconhecido; o semblante tranquillo da esposa lembra-lhe o typo de Esther, da
+Sulamite, de Débora, da Sibylla palestiniana, e abraça-a com a sofreguidão com
+que umas fauces resequidas se dessedentam em uma nascente viva. Vêm depois os
+filhos, debruçam-se-lhe dos hombros, prendem-se-lhe ás pernas, enlaçam-se em
+volta do corpo, e n'essa hora o judeu sente-se outra vez forte para todas as
+luctas, para todos os opprobrios, para todos os vexames, com alma para
+affrontar a miseria e o queimadero. Falla das tradições de Israel, da sua
+migração através dos seculos, da terra promettida, e do Messias, não o idolo
+papal que se impõe pela fogueira, mas a boa nova da egualdade e da liberdade
+humana.</p>
+
+<h2>II</h2>
+
+<p>Na Judiaria, habitava um velho negociante de joias e pedrarias; quando algum
+potentado casava, mandava sempre ali escolher o presente de noiva, a compra de
+corpo, o dom da manhã. Elle tinha as pérolas das mais lindas do fundo do mar;
+as rochas mais encantadas do Oriente<span class="pn">{183}</span> tinham
+entregues ao joalheiro os brilhantes facetados da agua mais limpida; topazios,
+esmeraldas, adereces, diademas, nunca o thesouro da Senhoria de Veneza reuniu
+riquezas de tanto gosto e primor. Viera de Hespanha, no tempo da grande
+expulsão dos judeus por Fernando e Isabel; o facho de Torquemada allumiou-lhe o
+caminho de Portugal, terra da tolerancia e da paz. O clima, o ár, a doçura do
+céo, lembram-lhe o Oriente; elle ama como filho a boa terra luzitana. Voltava
+do trabalho á hora do sino corrido; deixava o thesouro que faria a inveja de
+bastantes thronos, mas vinha vêr outro thesouro, o mais querido, e
+extremecido&mdash;uma filha de quinze annos. Chamava-lhe o bago das vinhas de
+Engadhi; chamava-lhe a Rosa das campinas de Sáron, irmã gemea da filha de
+Jephté, pura como Débora, deslumbrante como a Sulamite.</p>
+
+<h2>III</h2>
+
+<p>O pae entrara para casa; veiu a filha abraçal-o quasi á porta. Se o bom do
+velho não recearia que lhe descobrissem essa flôr escondida! Esperava-o a
+tranquillidade do lar; os risos e folguedos das outras crianças faziam-lhe
+esquecer os apupos e maldições da gentalha. Jogral de um povo rude, o lar
+tornava-o um patriarcha, um levita, sacrosanto como Moysés descendo o
+Monte<span class="pn">{184}</span> do Senhor. Sentou-se de cansado. Tinha perto
+de si o <i>Guemára</i>; ao lado vem assentar-se a filha, Ebla, assim chamada do
+nome da Lua, como conta o velho <i>Livro de Enoch</i>. Ebla fallou-lhe:</p>
+
+<p>&mdash;Nunca mais tornaremos a vêr Sião, e os tumulos dos prophetas? nem
+escutaremos o susurro dos nossos rios?</p>
+
+<p>O pae, emquanto as outras crianças brincavam, poisou o dedo sobre o verso do
+<i>Guemára</i>, volveu-lhe um sorriso doloroso.</p>
+
+<p>&mdash;Virgem do côro das donzellas de Sião, os nossos filhos continuam a nossa
+existencia na terra; assim como o castigo vem dos paes sobre a cabeça dos
+filhos, o Senhor tambem recompensa nos filhos os bens que os paes tiverem
+merecido. Ha quantos seculos andamos longe de Sião bemdita; eu sinto que os
+meus não pisarão o solo da terra promettida; mas vejo-te ao meu lado, como a
+flôr que brota de uma ruina; eu não poderei entrar na Cidade dos prophetas,
+serei como Moysés no alto do Abarim; mas o Senhor deu-me uma esperança, fez-te
+nascer em meu lar, filha. Assim o fanatismo e a atrocidade me não arranquem a
+vida. Uma noite, eras tu ainda pequenina, em Toledo; a noite ia escura e
+carregada, chovia, cruzavam-se os raios. Soôu na Judiaria uma voz sinistra: Ás
+onze horas do sino da Cathedral, a hora em que deviamos abraçar a religião de
+Christo, seriamos lançados nas fogueiras das praças ou abandonar para sempre a
+formosissima<span class="pn">{185}</span> terra de Hespanha. Os meus thesouros
+lá ficaram, e dei-me por feliz em trazer-te commigo. Portugal anda entregue ás
+descobertas e aventuras do mar; os odios de raça ainda cá não tinham sido
+exaltados pela classe dos tonsurados. Trouxe-te ao collo, e tu me deste
+animação e alento na fugida.</p>
+
+<p>&mdash;Ó meu pae, accudiu Ebla, passou hoje pela nossa porta uma cigana, cantando
+romances e siguidilhas de Hespanha, e pedi-lhe para ella cantar...</p>
+
+<p>&mdash;E que ouviste? interrompeu o judeu aterrado.</p>
+
+<p>&mdash;Ella contou-me que el-rei D. Manoel vae em breve casar com a filha de
+Fernando e Isabel a Catholica, e que ella só acceita a mão de esposo com a
+condição de desterrar para sempre os judeus para fóra de Portugal. E
+acompanhava a noticia com a cantiga castelhana:</p>
+
+<blockquote>
+ <p class="versos">Ea! Judios <br>
+ á enfardelar!... <br>
+ los Reyes mandan <br>
+ passar la mar.</p>
+</blockquote>
+
+<p>O velho judeu ficou assombrado; fechou o <i>Guemára</i>, e repousou a cabeça
+sobre o livro. De repente sentiu-se eccoar pela Mouraria o som secco e repetido
+de uma matraca, e de espaço a espaço, a voz do pregoeiro das justiças, bradar:
+</p>
+
+<p>«Ordem d'el-rei para os judeus de Lisboa se apresentarem na alvorada com uma
+dança judenga,<span class="pn">{186}</span> guisos, touras e guinolas, para
+irem receber o séquito da nova rainha. Soffrerá pena de morte o que levar armas
+comsigo. O rabbi da Judiaria irá na frente das dansas.»</p>
+
+<p>Debaixo das janellas do velho judeu soaram estas palavras. O canto da cigana
+revelado pela filha lembrou-lhe um presagio funesto.</p>
+
+<p>&mdash;Patriarcha no lar e truão nas ruas! cumpra-se o destino a troco da paz.&mdash;E
+levantou-se com o aspecto venerando de sacerdote magno, e foi sacudir a sua
+vestimenta de guisos, procurar a palheta, emquanto esperava o toque da
+alvorada.</p>
+
+<h2>IV</h2>
+
+<p>Lisboa tumultuava em festa immensa; arcos e flôres, salvas de artilheria,
+estandartes, musicas, annunciavam o dia da chegada da infanta D. Isabel, mulher
+do monarcha Venturoso. Já se sentia o estrépito do cortejo real; pelas portas
+da cidade vem entrando as dansas dos mesteiraes. Primeiro, vinha a
+<i>Folia</i>, com gaitas e pandeiros á velha portugueza, dansando em volta de
+um tambor; trazem guizos nos pés, cantam letrilhas de folgar e sainetes
+galantes; os guizos dos artelhos no reteninte som confundem as coplas. Com
+gentil ademan no ár volteiam lenços acenando. Vinha depois a
+<i>Carraquisca</i>, a dansa dos barqueiros e mareantes dos galeões do Tejo;
+trazem<span class="pn">{187}</span> andando um balanço que imita um bambula dos
+pretos, aprendido lá nas conquistas. Vae passando a <i>Cativa</i>, uma outra
+dansa de agrilhoados mouros, bailando aos modos da Salé, vão confessando preito
+á nova rainha. Já vem perto a <i>Gitana</i>, toda feita de ranchos de raparigas
+vestidas de variegados pannos, cintos de ouro e vermelho; voam-lhes as
+roupagens com o vento cruzando facas entre si, ao doce baylo da
+<i>Mourisca</i>, que os sentidos fez perder com a trisca dos volteios. Eis que
+chega tambem a <i>Dansa judenga</i>! Os apupos do povo alevantaram-se furiosos
+chamando-lhes traidores; as vaias e as pedradas eram pelo ár sem conto; a plebe
+desenfreada atira-se de roldão sobre a <i>judenga</i> ao entrar da cidade, e
+abafam as queixas dos opprimidos com risadas. Vinha na frente o velho Rabbi,
+dirigindo a guinola e toura, quando um malvado lhe arrepella as barbas brancas.
+Os olhos do veneravel velho chamejaram de indignação e vergonha; levantou a
+palheta de bobo que bamboava nos ares, e descarregou-a na cabeça do atrevido,
+com a mesma altivez de animo do velho Consul da cadeira curul. O villão cahiu
+por terra e lá ficou calcado aos pés da multidão que se atropellava e ruía
+furibunda sobre a desgraçada dansa judenga. O velho Rabbi fugiu a todo o custo;
+a multidão precipita-se apoz elle; gritando, chamando-lhe réfece assassino. A
+noite vinha descendo, e protegido pelas sombras do crepusculo se ia livrando
+dos golpes que lhe atiravam.<span class="pn">{188}</span> O velho ia quasi
+exhausto, a turba que o perseguia ia rareando apoz elle; já poucos o seguiam;
+mais um esforço, e ficaria salvo; as pernas parecem falhar-lhe, falta-lhe o ar;
+sente vontade de atirar-se ao chão e deixar-se retalhar. Mas um raio de luz e
+de vigor lhe atravessou o espirito; lembrara-se de Ebla, de sua filha!</p>
+
+<p>Ia o velho Rabbi a entrar já na Judiaria, estava quasi á porta de casa
+quando um dos poucos populares que ainda vinha atraz d'elle lhe deitou a mão.
+Inesperadamente veiu-lhe um soccorro imprevisto; um donzel do séquito do
+principe Dom Affonso, e que andava ainda triste com a morte do seu joven amigo,
+sentiu um impulso do bem e defendeu o velho judeu. Desembainhou a espada e os
+populares retiraram-se. O Rabbi bateu á porta; abriram. Á luz de um candil viu
+o moço cavalleiro a cara mais linda de nazarena, os olhos mais languidos que
+não teria a Sulamite; o sorriso mais puro, a graça, a meiguice, a expressão de
+Quirub. Que contraste! na rua o genio do mal a seguil-o, em casa o anjo da
+candura a allumial-o, a inspirar-lhe serenidade.</p>
+
+<p>O velho Rabbi vinha ensanguentado e roto; ao receber o abraço de Ebla
+tirou-lhe do pescoço um colar de perolas, e veio dal-o ao desconhecido. O moço
+cavalleiro beijou-o, e tornou-o a entregar.</p>
+
+<p>&mdash;Quem és, que te mostras tão generoso e cavalleiro? perguntou o Rabbi.<span
+class="pn">{189}</span></p>
+
+<p>&mdash;Dom Tello; e adeos!</p>
+
+<p>O moço cavalleiro perdeu-se na sombra da noite; ai d'elle se a essa hora
+entrasse em casa do judeu; a lei era implacavel; condemnava-o á pena do fogo.
+</p>
+
+<p>O velho Rabbi sentou-se offegante, com a cabeça encostada aos hombros da
+filha. Quiz começar a fallar-lhe mas as lagrimas e os soluços irrompiam
+frequentes. Alfim, pode ligar as palavras e contar-lhe o succedido.</p>
+
+<p>&mdash;Oh meu pae; parece que os nossos desastres não acabaram aqui. Hoje passou
+rente á gelosia uma cigana, e parou a cantar, e dizia que el-rei D. Manuel
+casando com a infanta de Castella, a primeira promessa do seu dote era tirar
+aos judeus os filhos de menos de quatorze annos, e baptisal-os á força, e matar
+os mais velhos e pol-os fóra de Portugal...</p>
+
+<p>&mdash;Filha, é o céo que manda esse aviso; tu foste a minha providencia.</p>
+
+<p>E desceu a um subterraneo da casa, e lá se entreteve sósinho dispondo as
+suas riquezas para a hora da expulsão.</p>
+
+<p>Ebla ficára por instantes só; revolvia na mente o dito da cigana; nas
+cantigas a cigana dissera-lhe mais cousas: Que um cavalleiro moço e formoso a
+adorava; que por ella seria capaz de abandonar a religião em que nascera e
+seguil-a até aos confins do universo. E que se um dia visse um moço trigueiro,
+de bigode preto e olhos vivos, faiscantes, era D. Tello, aquelle que a<span
+class="pn">{190}</span> adorava. Ebla atou na mente esta lembrança; lembrou-se
+que Tello, o moço cavalleiro acabava n'esse instante de salvar o pae.
+Nasceu-lhe na alma um amor repentino; veiu-lhe uma vontade de vêl-o, de lhe
+fallar; notou a generosidade de não acceitar mas beijar o collar de pérolas.
+Solícita e a medo assomou á gelosia; a luz do candil reflectiu-se fóra, através
+das grades da adufa. Sentiu uns passos na rua, depois uma voz mansa e suave que
+proferiu no silencio da noite:</p>
+
+<p>&mdash;Ebla!</p>
+
+<p>Estes sons entraram na alma da donzella; e obedecendo á fascinação d'aquella
+voz, lançou a cabeça de fóra. Viu na sombra um vulto, que a irradiação lhe
+illuminou como a imagem vaga descripta no cantar da cigana. Aquella voz, como
+vibrada por um verdadeiro amor, disse-lhe com o imperio de uma vontade
+irresistivel:</p>
+
+<p>&mdash;Vem.</p>
+
+<p>Ebla desceu em cabello, e sentiu-se envolver em um abraço apaixonado,
+vehemente, expressivo. Era a primeira vez que sentia o amor. Deixou-se levar
+sem saber porque, nem para onde.</p>
+
+<p>N'aquella noite, com as festas do casamento de el-rei D. Manuel, as portas
+da Judiaria ficaram abertas. Ebla e D. Tello afundavam-se na escuridão da
+noite, quando entra na Judiaria um tropel immenso de homens de armas e de
+cavallo; ia na frente o alcaide da justiça. Ao som de uma matraca
+restabelecera-se o silencio, e pela<span class="pn">{191}</span> escuridão
+sombria e soturna da Judiaria soava uma voz sinistra, como de sentença:</p>
+
+<p>«Pregão d'el-rei D. Manoel, para os judeus, ao toque da alvorada, embarcarem
+para fóra de Lisboa, sob pena de morte.»</p>
+
+<p>A palavra morte accendia na multidão um enthusiasmo frenetico que apupava,
+ameaçava e esbravejava cantando entre risos alvares:</p>
+
+<blockquote>
+ Ea! Judios <br>
+ á enfardelar!... <br>
+ los Reyes mandan <br>
+ passar la mar. </blockquote>
+
+<p>Áquelle grito sinistro, toda a judiaria se levantou em pezo; do fundo do seu
+subterraneo saiu o velho Rabbi, solicito, temeroso, mas constante. Ouviu
+proferir a sentença ominosa. Chamou por sua filha, e foi accordar as outras
+crianças que dormiam; a mulher voltou apressada do pé dos thesouros. Tornaram a
+chamar por Ebla; o grande ruido das ruas e da multidão nada deixava perceber.
+Chamou por Ebla com uma afflicção de morte; viram a porta aberta; multidão de
+gente que tripudiava, lançando fogo ás casas. O velho pae parecia um leão
+ferido.</p>
+
+<p>&mdash;A maldição d'esta raça caiu inteira sobre mim. Perdi tudo ao levarem-me
+essa filha. A minha condemnação, a minha morte para salval-a. Se ha no mundo
+alguma força superior, que seja o destino das cousas, Jahvé ou Jesus, acaso ou
+as potencias do inferno, conjuro tudo<span class="pn">{192}</span>
+sacrifico-lhe a minha vida, a minha sorte pelo apparecimento d'Ebla. De que
+vale todo esse ouro e pedrarias se perdi Ebla; levaram a minha joia de mais
+valia, e com ella todas as esperanças e alegrias da minha vida...</p>
+
+<p>Era incomportavel a dôr do velho; ia continuando, frenetico, doido; queria
+fazer-se christão para procurar a filha, quando eccoou de novo a voz do alcaide
+da alta justiça:</p>
+
+<p>«Soou agora o toque da alvorada; o incendio lavra já na Judiaria!&mdash;Ao
+embarque, ao embarque nos galeões do Tejo, ou a morte á escolha.»</p>
+
+<p>O velho Rabbi saiu com sua mulher e dois filhos pequenos, levados em tropel
+confuso e lamentos para o Tejo, aonde se enchiam os galeões de Hollanda, e
+resoava o ecco lugubre:</p>
+
+<blockquote>
+ los Reyes mandan <br>
+ passar la mar.<span class="pn">{193}</span></blockquote>
+
+<h1>Os quatro filhos d'Aymon</h1>
+
+<h3>(<small>CONTO DO CERCO DO PORTO</small>) </h3>
+
+<p>Havia tres dias que o Marechal Solignac desembarcara no Porto com alguns
+soldados belgas; com elles entrara tambem para dentro do cêrco um terrivel
+inimigo&mdash;o cholera-morbus. Aos tiphos, que já devastavam a cidade, veiu
+ajuntar-se essa nova desolação, para tornar mais completo o triumvirato da
+morte. De cem pessoas, atacadas diariamente, succumbia um terço. A fome ia
+conduzindo ao desespero, porque, além das forças inimigas, desde janeiro que os
+vendavaes bloqueavam a barra. Á falta de carne, os doentes eram sustentados a
+sôpa de bacalhau; os caldos eram temperados com assucar e aguardente, as camas
+eram desfeitas para sustento dos cavallos, e, além dos preços dos generos
+encarecerem,<span class="pn">{194}</span> os mercieiros vendiam falsificações
+doentias, taes como de azeite e oleo de linhaça, ou de manteiga e sebo. Era
+preciso luctar com a fome, e em fevereiro começou a distribuir-se uma sopa
+economica, de um quartilho de caldo de feijão com arroz e farinha de trigo; no
+primeiro dia acudiram trezentas pessoas, ao segundo dia subiram já a setecentas
+as rações. Emfim, desde a perda do reducto do Monte de Crasto, que Solignac
+apenas conservou oito horas, as condições de resistencia da cidade tornaram-se
+desesperadas; derrotado o marechal, na sua tentativa de assalto ao Castello do
+Queijo, em 24 de janeiro, a consequencia desastrosa fez-se logo sentir. O
+inimigo comprehendeu que, fechando a barra do Porto, venceria o cêrco pela
+fome. Para isso fortificou quasi toda a costa, e levantou a terrivel bateria de
+Serralves, que cortava toda a communicação com a Foz. Pelo seu lado, os
+liberaes reforçaram o reducto da Senhora da Luz e occuparam immediatamente as
+alturas do Pastelleiro e do Pinhal. Mas a resistencia ia-se tornando cada vez
+mais inutil, porque além da chuva de granadas que cahiam dia e noite sobre a
+cidade, além da recrudescencia do cholera, para o qual já não bastava o
+hospital da Quinta dos Congregados, o mar conservava-se tão tempestuoso que não
+era possivel apparecer véla alguma no horisonte! Foram quarenta dias
+desesperados, quarenta dias em que esteve tudo perdido, menos a força
+moral.<span class="pn">{195}</span></p>
+
+<p>A historia official, subordinada á exacção dos boletins de campanha, não
+allude a este cyclo dos quarenta dias do principio do anno de 1833, e comtudo
+n'esse periodo de desolação extrema é que se praticaram os maiores rasgos de
+validez moral: todos foram heroes, as mulheres, os velhos. É triste que homens
+do talento de Garrett e de Herculano, e mesmo generaes que sabiam trocar a
+espada pela penna, e que foram heroes n'esses grandes dias de sacrificio, se
+não lembrassem de colligir as sublimes tradições epicas do cêrco do Porto, que
+ainda casualmente se repetem. Essas tradições vão-se perdendo, como toda a
+poesia de um povo, que começa a morrer pelo esquecimento do seu passado.
+Contaremos um d'esses esplendidos episodios, desconhecido dos historiadores,
+mas conservado ainda na vida burgueza do Porto; pinta-nos o espirito de
+resistencia em que a cidade se achava, n'esses quarenta dias decisivos.</p>
+
+<p>A 4 de março, as tropas de D. Miguel foram atacar as posições dos liberaes
+na Foz, seguras de que era já impossivel sustental-as mais tempo; no meio da
+sua hallucinação, os atacados tomaram a offensiva, e os rebeldes retiraram-se
+deixando duzentos mortos no campo. D. Pedro, que gastava os seus esforços em
+conciliar os generaes despeitados, apparecia sempre em todos os momentos de
+conflicto. Era junto dos soldados, ao pé dos voluntarios burguezes, que elle
+readquiria confiança e se mostráva alegre, presentindo<span
+class="pn">{196}</span> o triumpho da causa da liberdade. D. Pedro appareceu na
+bateria da Luz; foi ahi que se lhe tornou reparavel um velho que elle
+encontrava sempre vagabundo pelas linhas, nos pontos em que eram renhidos os
+ataques. Notou que o velho andava desarmado, e observando diligentemente; não
+pôde deixar de dirigir-se a elle com um interesse e familiaridade em parte
+provocados pelo seu aspecto venerando e cheio de auctoridade:</p>
+
+<p>&mdash;Amigo! que faz você por aqui?</p>
+
+<p>&mdash;Senhor, tenho aqui nas linhas um filho.</p>
+
+<p>&mdash;Bem; então ande á vontade, se não tem medo das balas.</p>
+
+<p>&mdash;Medo das balas? Isso são confeitos de noivado. Não tivesse eu cá os meus
+setenta e quatro, que outro gallo cantaria.</p>
+
+<p>&mdash;O seu filho, vê-o d'ahi?</p>
+
+<p>&mdash;Por ora ainda o vejo. Não estou aqui por ter medo de perdel-o; é para ir
+socegar as mulheres, as irmãs, que sempre estão com cuidado. Querem saber
+alguma cousa das linhas.</p>
+
+<p>Este dialogo foi interrompido por um toque de carga á baioneta; pode-se
+imaginar quem trouxe para a cidade a noticia do triumpho. Chegou o terrivel dia
+24 de maio; estava acabado de construir o reducto das Antas, guardado apenas
+por trinta soldados de caçadores 5. N'isto, as tropas inimigas, de dois mil
+homens, tomaram o reducto das Antas! Era preciso desapossal-as, a todo o
+transe, e de facto não poderam conservar o<span class="pn">{197}</span> reducto
+além das tres horas da tarde desse dia. Infanteria tres, nove e dez, quarenta
+lanceiros e um batalhão inglez cumpriram o seu dever; foi uma refrega atroz. O
+Monte das Antas ficou juncado de cadaveres; mais adiante, na Casa Negra, era
+ainda maior a carnificina.</p>
+
+<p>Foi no combate da retomada das Antas que D. Pedro tornou a encontrar o velho
+burguez; já lhe haviam dito como se chamava. Era o contraste do ouro, o typo do
+antigo homem bom, chão e abonado, como o caracterisa a Ordenação do reino;
+chamava-se Cosme Martins. Assim que D. Pedro deu por elle no tropel,
+destacou-se dos officiaes, para fallar-lhe:</p>
+
+<p>&mdash;Outra vez por aqui, com este fogo?</p>
+
+<p>&mdash;Tenho cá outro filho.</p>
+
+<p>&mdash;Outro filho? Como se chamam os rapazes?</p>
+
+<p>&mdash;Na bateria da Luz está o meu Eduardo, tem dezenove annos feitos.</p>
+
+<p>&mdash;Póde bem com a espingarda. E o outro?</p>
+
+<p>&mdash;Está aqui nas Antas; é o meu Thomaz, já formado em leis.</p>
+
+<p>Em meio da conversa, D. Pedro foi interrompido por uma d'estas
+circumstancias que se dão em todo o campo de batalha; vieram contar-lhe como se
+achara uma carta na algibeira de um morto por onde se sabia que era o major dos
+realengos de Trancoso. Não se tornaram a vêr, n'esse dia, o velho e D. Pedro.
+</p>
+
+<p>A sete de abril, descobriu-se a longa estacada feita pelos inimigos desde as
+primeiras casas de<span class="pn">{198}</span> Paranhos até á Eira do Covêlo.
+Queriam fortificar-se alli; não havia tempo a perder; era preciso desalojal-os.
+A artilheria dos liberaes começou a responder desde as nove horas da manhã, e
+durou o fogo até ás seis horas da tarde. Cruzaram-se as baterias da Gloria, do
+Pico das Medalhas, do Serio, da Aguardente e de S. Braz. Uma força de mil
+homens sahiu fóra das linhas, para tomar de assalto o monte do Covêlo, que os
+inimigos abandonaram. Porém, no dia 10, os miguelistas voltaram, com o intuito
+de retomar os pontos perdidos, onde os liberaes tinham levantado um reducto em
+menos de oito horas. Estavam lá dentro apenas duzentos soldados; foram atacados
+por mais de dois mil dos rebeldes, que chegaram até dez passos de distancia. No
+meio do fogo, quasi á queima-roupa, jogavam-se os insultos que tornavam mais
+violento o ataque; de dentro perguntavam aos assaltantes se elles traziam os
+saccos para a pilhagem da cidade. Foram momentos decisivos: duzentos homens
+livres poderam esmagar dois mil janizaros.</p>
+
+<p>No meio d'esse implacavel desbarato, andava D. Pedro, e quando tornou a
+avistar o velho, que estava envolvido em um antigo capote de camelão, sorriu-se
+para elle, como quem o tomava já como um presagio de felicidade. E emquanto
+tocava a reunir, D. Pedro foi para elle, esfregando as mãos:</p>
+
+<p>&mdash;Olá! bom homem.<span class="pn">{199}</span></p>
+
+<p>&mdash;Senhor D. Pedro, elles hoje é que pagaram o vinho.</p>
+
+<p>&mdash;E bem pago. Então você tem por cá mais algum filho?</p>
+
+<p>O velho não pôde deixar de alegrar-se com a pergunta maliciosa, e respondeu
+com uma convicta serenidade:</p>
+
+<p>&mdash;Tenho aqui mais outro filho.</p>
+
+<p>&mdash;Outro filho, homem! De dois, sei eu.</p>
+
+<p>&mdash;Este é o que me ajuda no officio; ficou de hontem para hoje no reducto do
+Covêlo, e já sei que está são como um pêro...</p>
+
+<p>&mdash;Parabens, amigo, parabens. Com que então, na bateria da Luz, um; no
+reducto do Monte das Antas, outro; no Covelo...</p>
+
+<p>&mdash;É o meu filho Cosme.</p>
+
+<p>&mdash;Ainda tem mais algum?</p>
+
+<p>O velho sorriu-se, com ár de quem busca attenuar uma phrase, que poderia ser
+tomada como expressão de vaidade:</p>
+
+<p>&mdash;Não queria fallar do outro filho, que tenho na bateria do Pico das
+Medalhas, antes de me encontrar alli com vossa magestade.</p>
+
+<p>&mdash;Oh! homem! outro filho?</p>
+
+<p>&mdash;E mais que tivesse; esse é o meu Fortunato; e quando não está no fogo da
+bateria fica de semana, em serviço medico no hospital dos cholericos de S.
+Pedro de Alcantara.</p>
+
+<p>D. Pedro emmudeceu diante da revelação casual de um tão completo sacrificio.
+Abraçou o velho, porque não pôde articular palavras, e os<span
+class="pn">{200}</span> olhos marejaram-se-lhe de lagrimas. Aquella natureza
+egoista, como a de todos os principes, insensivel á dedicação como o revela a
+demissão do grande Mousinho da Silveira, foi uma vez tocada pela realidade das
+cousas. As palavras desinteressadas d'aquelle velho revelaram-lhe que se elle
+sabia sacrificar-se por uma filha, ninguem, em uma cidade sem muros, cercada
+por mais de oitenta mil inimigos, dizimada pela peste, apertada pela fome,
+ameaçada pelo saque, ninguem poupava o seu sangue, porque todos queriam
+converter a liberdade em um direito. O sacrificio de um pae ficava supplantado
+pelo sacrificio a uma geração inteira!<span class="pn">{201}</span></p>
+
+<h1>Odio de inglez </h1>
+
+<h3><small>COMMENTARIOS AO CONTO DO SR. THEOPHILO BRAGA</small></h3>
+
+<h2><i>A adega de Funck</i></h2>
+
+<p>Uma das idéas de que todo o bom artista se possue fortemente, foi de que
+Hoffmann, apesar da extravagancia das suas composições, não inventava
+totalmente os typos singulares da sua grotesca e terrivel galeria. Hoffmann,
+como Callot, Lantara, Heine, Diderot, e Chamisso, accusados de terem creado
+typos fóra da natureza, extravagantes, impossiveis, e movendo-se n'uma
+atmosphera puramente ideal, tinha reunidos, ás potentes faculdades creadoras do
+poeta, todos os finos e preciosos dotes de observação&mdash;o apanagio
+especialissimo da pintura.</p>
+
+<p>Ora Hoffmann foi uma das mais privilegiadas e divinas organisações
+artistas&mdash;por que como todos o sabem excellentemente&mdash;foi <i>maestro</i>, poeta
+e pintor.</p>
+
+<p>É possivel que a imaginação singular do narrador allemão preenchesse muitas
+lacunas dos dramas reaes, de que o seu lapis tomava apontamentos, lhe désse
+depois uma outra vida mais poetica, mais ideal, mais conforme á sua organisação
+de visionario, de poeta e caricaturista&mdash;e elles<span class="pn">{202}</span>
+depois apparecessem no seu estranho reportorio sensivelmente transformados e
+melhorados&mdash;como um artista mysanthropo emendando a natureza, e nos seus
+momentos de máo humor permittindo-se a liberdade de a achar vulgar e imbecil. É
+possivel, porque todos os verdadeiros artistas têm sentido estas taciturnas
+horas de mysanthropia incuravel, e este profundissimo desgosto da ordem regular
+das cousas.</p>
+
+<p>Mas o que é certo é que achamos attestados notaveis tanto nos seus contos
+como nas suas carteiras, notas secretas, de que Hoffmann era um espirituoso
+observador, e que não creava&mdash;totalmente&mdash;as suas composições por muito
+estranhas que pareçam.</p>
+
+<p>N'um dos mais bellos contos de Theophilo Braga, <i>A adega de Funck</i>,
+n'aquelle dialogo entre o visionario e o amigo, achamos sempre um novo,
+melancholico e precioso sabor. Baseia-se o conto n'aquelle amor do artista pela
+novidade dramatica e singular que apresentam certas peripecias vulgares da vida
+real. Hoffmann mostra-se possuido da idéa de escrever um conto fundado n'uma
+aventura sinistra de um homem a quem a mulher confessa, na hora cheia de
+lagrimas da agonia, de o haver trahido, e a que elle retribue successivamente
+com a fria e medonha confissão de a <i>haver envenenado</i>.</p>
+
+<p>Ora nós, na distracção solitaria do nosso gabinete, folheando ha pouco um
+livro curioso pela sua notavel excentricidade, de Emilio Colombey,&mdash;encontramos
+a sinistra historia, que tanto impressionou o nervoso narrador allemão.</p>
+
+<p>Emilio Colombey diz haver extrahido a noticia, que nos impressionou tambem,
+das columnas da <i>Gazeta dos Tribunaes</i>, de 1795.</p>
+
+<p>Vamos dar alguns pormenores sobre esta historia colhidos no livro de
+Colombey, que servirão como de curiosa nota ao conto phantastico de Theophilo
+Braga;&mdash;os leitores de apurado gosto litterario acharão prazer em conhecer a
+aventura terrivel.&mdash;<span class="pn">{203}</span></p>
+
+<p>«O auctor d'esse assassinio mysterioso, diz a <i>Gazeta dos
+Tribunaes</i>,&mdash;depois de descrever o homicidio de um official de marinha
+ingleza que se affastava rapidamente n'um escaler de guerra, o <i>Penguim</i>,
+no canal de S. Jorge,&mdash;o auctor d'esse assassinio singular, pertencia a uma das
+mais antigas e illustres familias inglezas. Chamava-se lord A... e gosava no
+condado de Tifferay de todos os privilegios inherentes ainda á auctoridade
+feudal. Os sentimentos que lhe votavam, tambem, eram geralmente, mais do terror
+que os da amizade; porque era bem notorio que o lord, no seu odio pela Irlanda,
+não tinha retrogradado muito aos tempos da Rosa Vermelha e da Rosa Branca, e
+que não era por falta de vontade que os irlandezes não eram tratados tão
+deshumanamente como sob Henrique VII, quando conquistou aquella ilha e lançou
+as bases da legislação atroz que devia pesar sem interrupção sobre esta nação
+humilhada.</p>
+
+<p>Não era voluntariamente, tambem, que lord A... viera estabelecer-se na
+Irlanda, depois de haver sido por muito tempo em Londres um dos <i>dandys</i>
+mais requintados do Regent Street e de Piccadilly: tinha-lhe cabido em herança
+um vasto dominio no condado de Tipperary. Mas o testamento do legatario tinha
+uma clausula pela qual se estabelecia que este não poderia ser senhor do dito
+dominio, senão com a condição de o habitar perpetuamente. O lord inglez, que
+estava longe de possuir uma fortuna correspondente á illustração do seu
+nascimento e ao seu amor do luxo, viu-se na necessidade de subjugar-se a esta
+extravagante exigencia.</p>
+
+<p>A antipathia hereditaria que tinha á Irlanda mais se aggravou com esta
+restricção, e o seu humor, naturalmente melancholico, tornou-se sombrio e
+feroz. Comtudo, como era rico, e ligado a uma dama caritativa e formosa, que,
+afinal de contas, semeava em torno de si o dinheiro com uma rara profusão, a
+opinião publica mostrava-se paciente e attribuia, não sem razão talvez, as
+frias violencias e os excessos sem paixão a que se deixava levar, á
+originalidade do seu caracter.<span class="pn">{204}</span></p>
+
+<p>Lord A. seguido de um doutor que fôra chamar,&mdash;porque mal acabara de
+commetter o assassinio fôra chamar um medico para assistir a lady que se achava
+agonisando,&mdash;Lord A. seguido do doutor, atravessou silenciosamente o seu
+dominio, embrenhou-se no campo, e subiu com passo firme o caminho em declive
+que conduzia á entrada do castello senhorial.</p>
+
+<p>O cuidado que se havia tomado de estender por todos os corredores uma
+espessa cama de palha e feno, a physionomia alterada dos creados que
+atravessavam machinalmente as camaras e os corredores, como para fugirem a um
+indomavel terror, emfim os gritos dilacerantes que quebravam, por intervallos,
+o profundo e frio silencio que reinava n'aquella casa, affirmavam
+sufficientemente que se estava representando ali uma scena de agonia.</p>
+
+<p>Lord A. sem se dignar dirigir uma palavra aos creados, penetrou no quarto
+d'onde partiam os gemidos desesperados. Uma mulher extremamente nova ainda e de
+uma physionomia das mais seductoras, estava estendida n'um leito, na attitude
+de um soffrimento incrivel; os longos cabellos loiros desmanchados envolviam-a
+toda; corria-lhe o suor do rosto; e o corpo abalado de estremecimentos
+convulsivos retrahia-se sobre si mesmo a intervallos, com uma horrivel
+flexibilidade.</p>
+
+<p>O lord parou a este espectaculo. A doente ouvira-lhe o ruido dos passos e
+pronunciára o seu nome: fixou n'elle um olhar desvairado com uma indefinivel
+expressão de dôr, e voltando-se para o medico, que se conservava ao pé do leito
+n'uma immobilidade contemplativa, bradou-lhe n'uma voz sonora que não admittia
+hesitação nem recusa:</p>
+
+<p>&mdash;Não tendes nada aqui que fazer, senhor, sahi!</p>
+
+<p>O medico parecia indeciso, e cheio de duvidas terriveis: no emtanto não
+tratou de se oppôr a esta ordem, porque um simples olhar bastou-lhe para
+comprehender que lady A... estava perdida. Todavia pegou na mão da doente,
+baixou-se para vel-a melhor, e não poude ser senhor de um estremecimento,
+observando que as unhas d'aquella mão, já livida,<span class="pn">{205}</span>
+estavam mosqueadas de pequenas nodoas negras. Assim que saiu do quarto, lady
+A... fez um signal ao lord de approximar-se, e opprimindo-lhe o braço com uma
+força cheia de paixão: </p>
+
+<p>&mdash;Mylord, esperava-vos para morrer, não chameis ninguem, não invoqueis
+soccorro algum, o mal é irremediavel, o doutor bem o percebeu: viste-o!</p>
+
+<p>Abafou no travesseiro os soluços involuntarios que lhe arrancava o
+soffrimento, e ajuntou:</p>
+
+<p>«Ouvi, mylord;&mdash;uma pobre mulher á morte, que succumbe ás mais atrozes
+torturas, tem direito, talvez, a alguma indulgencia. Rasgae, oh! rasgae por um
+momento o manto de frieza com que vos cobris... por que tenho um favor supremo
+a solicitar-vos, uma confissão dilacerante a fazer-vos... Eduardo, lady A...
+acha-se criminosa, bastante criminosa para comvosco. Durante a vossa ultima
+estada em Londres, um homem, que na mocidade amei, aproveitou-se do isolamento
+em que me achava pela vossa ausencia, para despertar com suas palavras, em mim,
+recordações mal extinguidas. Que mais direi? Não vos achaveis aqui para me
+defenderdes da minha fraqueza, para me proteger contra o meu coração,
+succumbi... É isto o que vos quiz confessar antes de descer ao sepulchro, e o
+que me causa dôres mais atrozes do que as da agonia. Sêde clemente, mylord!...
+A expiação succedeu logo á culpa. Sinto arderem-me as entranhas. Deus
+encarregou-se de vos vingar!</p>
+
+<p>«Lord A. escutára esta confissão solemne da moribunda com uma attenção grave
+e recolhida. Os seus gestos em perfeita immobilidade, não deixavam transparecer
+colera, espanto ou piedade. Contentou-se só em apertar a mão da moribunda que
+procurava a sua.</p>
+
+<p>«Surpreza com este silencio, lady A... por um violento esforço tratou de se
+levantar no leito, e encarou fixamente o marido, procurando vêr se lhe lia nos
+olhos o seu pensamento mais secreto.</p>
+
+<p>&mdash;Depressa, mylord, soluçou ella,&mdash;um derradeiro beijo; o beijo do perdão. É
+quasi n'uma morta que o daes!<span class="pn">{206}</span></p>
+
+<p>&mdash;Eu sabia tudo, e perdôo-vos,&mdash;respondeu o lord sem se commover. Mas, lady,
+a vosso turno, tendes tambem que me conceder um perdão: fui eu que vos
+envenenei.</p>
+
+<p>«E ajuntou com o mesmo sangue frio:</p>
+
+<p>&mdash;Quanto ao vosso amante matei-o esta manhã nas margens do canal de S.
+Jorge.</p>
+
+<p>Uma exclamação de horrivel espanto, um grito de odio selvagem succedeu a
+esta dupla revelação, atirada de um modo tão calmo no meio de uma tão dolorosa
+agonia.</p>
+
+<p>Sempre senhor de si, lord A. não abandonou a cabeça da moribunda em quanto
+esta não exhalou o derradeiro suspiro.</p>
+
+<p>Depois de lhe ter emfim coberto a cabeça com o lençol mortuario, pegou no
+castiçal que havia illuminado esta scena lugubre e subiu ao andar superior onde
+estavam situados os seus aposentos particulares. Ao affastar-se d'aquelles
+tristes logares, teve o cuidado de ir fechando as portas dos diversos quartos
+por onde atravessava, de lhes tirar as chaves e ir correndo todos os ferrolhos,
+atraz de si, sem excepção de algum.</p>
+
+<p>Ninguem teria podido suspeitar, nem da sua attitude firme, nem dos seus
+gestos fleugmaticos, um indicio qualquer da mais leve agitação; e se por acaso
+o temor ou o remorso lhe agitavam surdamente o coração, esforçava-se por
+occultal-o a si mesmo.</p>
+
+<p>Durante toda a noite viu-se brilhar uma luz no quarto de dormir do lord; não
+chamou creado algum, e reinou sempre o mais profundo silencio n'esta parte do
+castello.</p>
+
+<p>No outro dia pela manhã o creado de quarto do lord tentou debalde penetrar
+nos aposentos, e, cheio de inquietação, mandou chamar os <i>constables</i> e os
+<i>policemen</i>. As portas foram abertas pela força armada, e quando entraram
+poderam ver então o lord estendido em cima de um tapete e banhado em sangue.
+</p>
+
+<p>Uma expressão de ironia convulsiva era a unica cousa que a morte lhe deixara
+impressa na physionomia decomposta. Sem perder cousa alguma do sangue frio
+estoico de que os suicidas inglezes teem offerecido até hoje tão
+espantosos<span class="pn">{207}</span> exemplos, o lord havia-se degolado com
+uma navalha de barba, e havia separado de um unico golpe, com uma força
+incrivel e com a mais sinistra habilidade a secção da arteria carotida.</p>
+
+<p>A vella, quasi toda consummida, ardia ainda sobre a mesa, onde estava
+collocado, no logar mais visivel, um papel, lacrado e sellado com as armas do
+lord e com esta epigraphe escripta certamente por um punho firme e seguro:</p>
+
+<p style="text-align: center;"><i>Testamento de lord A... fallecido em C... a 7
+d'outubro de 1795</i></p>
+
+<p>Este papel, depois de aberto, indicava o <i>spleen</i> feroz que roía o
+lord, e o odio cego que elle votára á desgraçada Irlanda:</p>
+
+<p>«Eu deixo e lego a somma annual de dez libras esterlinas para serem pagas,
+perpetuamente, pelos meus successores; essa somma, tal é a minha vontade e o
+meu gosto, será empregada em comprar um certo licor, chamado vulgarmente
+<i>wiskey</i>; e fazer-se-ha saber ao publico que este licor deve ser
+distribuido a um certo numero de particulares irlandezes, sómente, cujo numero
+não poderá ser superior a vinte; e deverão ajuntar-se no cemiterio em que eu
+hei de ser enterrado. Ahi deverá ser entregue a cada um, um bordão de carvalho
+e uma faca, e, assim armados, começará a ser distribuido um quartilho de
+<i>wiskey</i> a cada um, até que toda a ração seja consummida, e é minha
+vontade que isto tenha logar todos os annos a 17 de março ou a 10 de outubro.
+</p>
+
+<p>«A razão por que assim determino isto é para que os habitantes grosseiros da
+Irlanda, cada vez que se juntem, nunca lhes escasseiem armas para se
+destruirem; e por isso quiz tomar o meio mais efficaz de os reunir, na
+esperança que com o tempo chegarão a despovoar por suas proprias mãos o seu
+paiz, que se poderá tornar a povoar depois com uma raça civilisada vinda de
+Inglaterra.»</p>
+
+<p>Aqui termina a estranha noticia dada pela <i>Gazeta dos Tribunaes</i>, que
+extrahimos do livro de Colombey.<span class="pn">{208}</span></p>
+
+<p>Ora Hoffmann é muito provavel que houvesse lido o celebre jornal, que trazia
+sempre dramas muito notaveis por aquelles tempos tão agitados de 1795, e muito
+mais notaveis especialmente para aquella imaginação ardente do poeta allemão:
+pois que é certo que na sua carteira existiam muitos outros apontamentos como
+este; ou a que Hoffmann não tinha achado no seu espirito a fórma especial em
+que os devia moldar; ou porque novas phantasias de visionario o impediam.</p>
+
+<p>Muitos dos seus contos tinham sido achados na conversa dos amigos, nos
+jornaes, na rua e nas obras dos auctores que lia. Juntamente com este drama,
+este terrivel conto em embryão&mdash;que Theophilo Braga faz tão bem perseguir a
+imaginação doente do artista n'uma noite chuvosa, á luz crepuscular de uma
+lampada, n'uma adega subterranea&mdash;juntamente com este apontamento, estava outro
+colhido no <i>Diabo coxo</i>, de Lesage. O assumpto devia ser um demonio
+perseguidor e conselheiro. E com estes mais...</p>
+
+<p>O que Hoffmann faria com este terrivel incidente, colhido na <i>Gazeta dos
+Tribunaes</i>, ou talvez na transcripção dos jornaes allemães, deixo-o suppôr
+áquelles que teem admirado as visões terriveis do allemão.&mdash;Talvez um conto
+cheio de phantastica tristeza, como o D. Juan ou o Morgado?!...</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p style="text-align: right;">G<small>OMES </small>L<small>EAL.</small></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>N<small>OTA.</small>&mdash;O livro d'onde extrahimos este commentario ácerca do
+bello conto de Theophilo Braga intitula-se <i>Les originaux de la dernière
+heure</i>. Citamol-o aqui para não fazermos como certos histriões lentejoulados
+das letras, cujos plagiatos são em tão grande numero como as obras, e para os
+quaes será um dia terrivel aquelle em que se lhe desafivellar a mascara da
+consciencia cancerosa e em que se proceder a excavações nas suas obras.</p>
+
+<p style="text-align: right;">G. L.</p>
+
+<p>(<i>Da Tribuna</i>, n.<sup>os</sup> 8, 9 e 10, de 1874).<span
+class="pn">{209}</span></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h1>ADDITAMENTO</h1>
+
+<p><span class="pn">{210}<br>
+{211}</span></p>
+
+<h2>Carta a José Fontana</h2>
+
+<h3>(<small>DA 1.ª EDIÇÃO</small>)</h3>
+
+<p style="text-align: right;"><i>Meu caro editor</i></p>
+
+<p>Disse-me que esperava um prologo, para começar a publicação dos
+<i>Contos</i>; lembrou-me escrever-lhe um capitulo de esthetica sobre esta
+fórma litteraria. O publico não gosta de abstracções. Por minha vontade
+desistia do promettido; limito-me porém a algumas considerações historicas.</p>
+
+<p>A fórma do <i>conto</i> é de origem oriental. As fabulas de Bidpaï foram o
+primeiro ensaio para fazer sentir uma moralidade abstracta por meio de uma
+ficção interessante. É pelo seculo XII que esta creação do genio do oriente
+apparece na Europa, imitada na <i>Disciplina clericalis</i> de Moysés Sephardi,
+conhecido depois da sua conversão ao christianismo com o nome de Petrus
+Alphonsus. A <i>Disciplina clericalis</i>, escripta em latim barbaro, para
+ensino dos clerigos, compõe-se de trinta e sete contos e apophtegmas, que o
+auctor imagina dados por um arabe a seu filho na hora da agonia. A popularidade
+do livro foi dispondo os animos para a cultura d'esta fórma litteraria.<span
+class="pn">{212}</span> </p>
+
+<p>O <i>Conde de Lucanor</i> de D. João Manuel, algumas das ficções do <i>Gesta
+Romanorum</i>, o <i>Decameron</i> de Boccacio, os <i>Contos de Cantorbery</i>,
+resentem-se bastante do livro do judeu convertido da Huesca.</p>
+
+<p>Uma creação do genio celtico e germanico é o mundo feérico; elaborada
+lentamente na phantasia popular, animada n'esses typos de Melusina, Morgane e
+Urgante, dos trovadores da Edade média, cantada depois nos galanteios de
+Boiardo e Ariosto, Spencer e Shakespeare, tornou-se o divertimento infantil dos
+<i>Contes bleus</i>, os contos de fadas, colligidos nas <i>Notte piacevoli</i>
+de Straparole, publicadas no seculo XVI, e no <i>Pentamerone</i> de
+Giambattista Basile em 1637.</p>
+
+<p>O conto é a fórma litteraria da lenda. Boccacio no <i>Decameron</i>,
+n'aquellas transições instantaneas do ridiculo ao pathetico, revela uma face
+profunda da historia, o estado dos espiritos na terrivel peste de 1358. A
+imaginação era tão perigosa como o contagio; a distracção calculada, o prazer
+egoista dos jardins de Pampinea, a indifferença, o scepticismo que se
+desenvolve nas grandes calamidades, só podiam suspendel-a na exageração do
+terror. Nos contos da Edade média ha uma mistura de devoção e desenvoltura; no
+<i>Heptameron</i> da rainha de Navarra, as aventuras cavalleirosas, as intrigas
+de amor, os padres e monges seduzindo as noviças, entretecem-se com reflexões
+moraes, e de <i>quelque léçon de la sainte Ecriture</i>. É a mesma antithese
+fatal que parodia a exaltação religiosa nos ritos grotescos da egreja. A Edade
+média retratou-se em todas as suas creações, mesmo nos <i>fabliaux</i> e no
+conto.</p>
+
+<p>O conto é a passagem do fabulario para a linguagem da prosa, ingenua, rude,
+de uma franqueza maliciosa muitas vezes, e desenvolta. O conto era uma situação
+inventada para aproveitar um dito feliz, um repente engenhoso dos serões das
+côrtes e dos castellos; nasceu d'aquelle genio primitivo, com que Froissart
+narrava a historia.</p>
+
+<p>Demogeot, na sua <i>Historia da Litteratura franceza</i>, considera os
+contos do seculo XVI como alheios ao desenvolvimento<span
+class="pn">{213}</span> intellectual; é uma affirmação menos verdadeira por
+absoluta. A actividade d'este periodo, a fecundidade e originalidade
+verdadeiramente cahoticas reproduzem-se em Rabelais, o creador de
+<i>Gargantua</i> e <i>Pantagruel</i>.</p>
+
+<p>A Renascença com as ficções gregas e romanas desnaturara o conto. No seculo
+XVII elle torna-se volumoso, arrebicado de galanice e galanteria amaneirada. As
+attenções tinham refluido sobre os trabalhos philosophicos; ficaram as creações
+imaginativas em poder das Gamberville, de Scudery, de La Calprenède e
+quejandos, que as alongaram fastidiosamente com pieguices sentimentaes, por
+essas séries indefinidas de volumes da <i>Polexandra</i>, <i>Caritea</i>,
+<i>Cytherca</i>, <i>Cassandra</i>, <i>Pharemundo</i>, <i>Ibraim ou o illustre
+Bassa</i>, <i>Artamene ou o grande Cyrus</i>, <i>Clelia e Almahide</i>. Os
+heroes apaixonados são Anacreonte conversando em amaveis versos, Bruto e
+Lucrecia, Horacio Cocles e Clelia, movidos pelos interesses da sociedade
+moderna; a magestade escultural da antiguidade e da historia em presença das
+pequeninas intrigas amatorias tocára o cumulo do ridiculo!</p>
+
+<p>O movimento, a convulsão philosophica do seculo XVIII apparece tambem no
+romance e no conto. Lesage escalpelisa a natureza humana, e o <i>Gil Blas</i> é
+a synthese das observações profundas; o abbade Prevost analysa as paixões n'uma
+lucta intima, recondita, e procura os sentimentos novos que scintillam dos que
+se embatem e se destroem. <i>Manon Lescaut</i> é uma das verdades eternas do
+sentimento humano, a contradição do que mais se aspira e idealisa, a vontade
+negando-se, mobilisando-se nos multiplices desejos que tumultuam na alma.
+Voltaire philosopha tambem nos seus <i>Contos</i>. Diderot, sobretudo, a
+intelligencia mais robusta do seu tempo, mathematico, artista creador pela
+reflexão e inspiração, reduz ao interesse do conto, á peripecia da acção as
+verdades mais abstractas. Na assombrosa maravilha de arte, o <i>Neveu de
+Rameau</i>, mostra a maldade disfarçada em virtude pelas conveniencias; todos
+nos horrorisamos ao vêr alli o nosso retrato;<span class="pn">{214}</span>
+sentiamos aquillo, mas não tinhamos a coragem, a abnegação para dizel-o. O
+sobrinho de Rameau mostra-se infame, ao passo que é sublime de razão, porque
+diz tudo o que pensa. Vê-se agitarem-se n'aquelle cerebro em ebulição todos os
+processos intellectuaes. Na <i>Religiosa</i>, Diderot evoca as dores cruciantes
+e desconhecidas, soffridas nas trevas por um coração ingenuo, que é o ludibrio
+do interesse egoista, do fanatismo estupido, e da superioridade brutal. Este
+conto por si é uma revolução latente. A analyse delicadissima dos pequenos
+sentimentos que formam a grande lucta na alma da <i>Religiosa</i> não é
+inferior ao quadro do quietismo de Michelet no processo da Cadière, e excede
+por muitas vezes a profundidade com que Manzoni no <i>Promessi Sposi</i>
+retrata as agonias da desgraçada Genoveva no convento de Monza.</p>
+
+<p>Uma vez descobertos estes segredos do sentimento, o conto deixou de ser
+individual; o romance é o desenvolvimento de uma these da vida na sociedade.
+Richardson é a admiração de Diderot; Goëthe descobre Diderot á Allemanha,
+traduzindo a sua obra prima; elle mesmo isola os sentimentos do amor e o dever
+no <i>Werther</i> e chega pela arte á conclusão logica do suicidio.</p>
+
+<p>Hoffmann, o caricaturista das paixões, de uma individualidade extravagante,
+nas creações abstractas d'aquella imaginação de hypocondriaco deixa-lhes o
+incompleto do maravilhoso; mais tarde os editores dão aos seus contos o nome de
+<i>phantasticos</i>. Nos Contos de Hoffmann ha uma série de observações
+psychologicas, de impressões instinctivas que supprem a falta de imaginação; os
+seus contos são o diagnostico de uma alma doente. É o lado que os torna
+apreciaveis, apesar do capricho e grotesco dos typos a que a mente hallucinada
+dá fórma. Os Contos de Edgar Poë, a imaginação mais extraordinaria da America,
+têm o phantastico da insolubilidade dos problemas philosophicos que constituem
+a acção; tocam ás vezes a alta metaphysica. Tendo de transigir com as
+materialidades da vida, na esterilidade da indigencia pede a inspiração ao
+alcool; elle<span class="pn">{215}</span> sente a excitação lucida que lhe dá a
+força espantosa da invenção, mas conhece já em si a tremulencia, que é a
+decomposição inevitavel, e exclama no meio da fadiga&mdash;<i>Não ha peior inimigo
+do que o alcool!</i> Edgar Poë é a força da imaginação e do ideal supplantada
+pelo positivismo de uma sociedade manufactureira e orgulhosa do seu caracter
+industrial; nos seus Contos ha a allucinação prophetica da doudice.</p>
+
+<p>A fórma do conto é estudada em todas as litteraturas da Europa; trazendo a
+lume este pequeno trabalho, só nos inspira a boa vontade de corresponder ao
+movimento que observamos lá fóra. Que mais teriamos a dizer de um livro simples
+que lhe não desnaturasse a intenção.</p>
+
+<p> </p>
+
+<p><small class="SMALL">Coimbra, 8 de março de 1865.</small></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p style="text-align: right;">T<small>HEOPHILO </small>B<small>RAGA</small>.</p>
+</div>
+
+
+
+
+
+
+
+<pre>
+
+
+
+
+
+End of the Project Gutenberg EBook of Contos Phantasticos, by Teófilo Braga
+
+*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK CONTOS PHANTASTICOS ***
+
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+works. See paragraph 1.E below.
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+or PGLAF), owns a compilation copyright in the collection of Project
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+
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+
+Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
+electronic works in formats readable by the widest variety of computers
+including obsolete, old, middle-aged and new computers. It exists
+because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
+people in all walks of life.
+
+Volunteers and financial support to provide volunteers with the
+assistance they need are critical to reaching Project Gutenberg-tm's
+goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
+remain freely available for generations to come. In 2001, the Project
+Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
+and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
+To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
+and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
+and the Foundation web page at https://www.pglaf.org.
+
+
+Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive
+Foundation
+
+The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
+501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
+state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
+Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification
+number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at
+https://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
+permitted by U.S. federal laws and your state's laws.
+
+The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
+Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
+throughout numerous locations. Its business office is located at
+809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
+business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact
+information can be found at the Foundation's web site and official
+page at https://pglaf.org
+
+For additional contact information:
+ Dr. Gregory B. Newby
+ Chief Executive and Director
+ gbnewby@pglaf.org
+
+
+Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation
+
+Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
+spread public support and donations to carry out its mission of
+increasing the number of public domain and licensed works that can be
+freely distributed in machine readable form accessible by the widest
+array of equipment including outdated equipment. Many small donations
+($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
+status with the IRS.
+
+The Foundation is committed to complying with the laws regulating
+charities and charitable donations in all 50 states of the United
+States. Compliance requirements are not uniform and it takes a
+considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
+with these requirements. We do not solicit donations in locations
+where we have not received written confirmation of compliance. To
+SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
+particular state visit https://pglaf.org
+
+While we cannot and do not solicit contributions from states where we
+have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
+against accepting unsolicited donations from donors in such states who
+approach us with offers to donate.
+
+International donations are gratefully accepted, but we cannot make
+any statements concerning tax treatment of donations received from
+outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff.
+
+Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
+methods and addresses. Donations are accepted in a number of other
+ways including including checks, online payments and credit card
+donations. To donate, please visit: https://pglaf.org/donate
+
+
+Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic
+works.
+
+Professor Michael S. Hart was the originator of the Project Gutenberg-tm
+concept of a library of electronic works that could be freely shared
+with anyone. For thirty years, he produced and distributed Project
+Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.
+
+
+Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
+editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
+unless a copyright notice is included. Thus, we do not necessarily
+keep eBooks in compliance with any particular paper edition.
+
+
+Most people start at our Web site which has the main PG search facility:
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+including how to make donations to the Project Gutenberg Literary
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