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| author | Roger Frank <rfrank@pglaf.org> | 2025-10-14 19:57:59 -0700 |
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Antonio Maria Pereira, 1894"> + <meta http-equiv="content-type" content="text/html; charset=iso-8859-15"> + <style type="text/css"> + body{margin-left: 10%; + margin-right: 10%; + } + .pn { + text-indent: 0em; + position: absolute; + left: 92%; + font-size: smaller; + text-align: right; + color: silver; + } + #corpo p.centrado{text-align: center; text-indent: 0;} + #corpo p {text-align: justify; text-indent: 1em;} + #corpo p.versos {text-align: left; text-indent: 0; margin-left: 5%; } + h1,h2,h3,h4 {text-align: center; margin-top: 3em; margin-bottom: 2em;} + hr.dotted {border: 0; border-bottom: dotted 2px #000;} + hr {border: 0; border-bottom: solid 2px #000;} + .rodape { + font-size: 0.8em; + margin: 2em; + } + .imagem {width: 40%; float: right; text-align: center;} + .errata {border-bottom: dotted 2px #aaaaaa;} + .typo {border-bottom: dotted 2px #77dd77;} + .fbox {border: solid black 1px; background-color: #FFFFCC; font-size: 0.8em; + margin-left: 10%; margin-right: 10%;} + </style> +</head> + +<body> + + +<pre> + +The Project Gutenberg EBook of Contos Phantasticos, by Teófilo Braga + +This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with +almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or +re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included +with this eBook or online at www.gutenberg.org + + +Title: Contos Phantasticos + segunda edição correcta e ampliada + +Author: Teófilo Braga + +Release Date: June 1, 2010 [EBook #32646] + +Language: Portuguese + +Character set encoding: ISO-8859-1 + +*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK CONTOS PHANTASTICOS *** + + + + +Produced by Pedro Saborano and the Online Distributed +Proofreading Team at https://www.pgdp.net (This book was +produced from scanned images of public domain material +from the Google Print project.) + + + + + + +</pre> + +<p> </p> + +<div class="fbox"> +<p><b>Notas de transcrição:</b></p> + +<p>O texto aqui transcrito, é uma cópia integral do livro impresso em 1894.</p> + +<p>Mantivemos a grafia usada na edição impressa, tendo sido corrigidos alguns +pequenos erros tipográficos evidentes, que não alteram a leitura do texto, e +que por isso não considerámos necessário assinalá-los. Os erros tipográficos +que nos suscitaram dúvidas foram também corrigidos, e foram assinalados com um comentário do tipo: <span class="typo" title="no original: texto errado">texto corrigido</span>.</p> +</div> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<div style="text-align:center;"> +<p>COLLECÇÃO ANTONIO MARIA PEREIRA—25.º Volume</p> + +<hr style="width: 30%;"> + +<p style="font-size: 2em;">Contos phantasticos</p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p><span class="pn">{II}<br>{III}</span></p> + +<hr style="width: 90%;"> +<p style="font-size: 1.2em; border: 0;">COLLECÇÃO ANTONIO MARIA PEREIRA</p> +<hr style="width: 90%;"> + +<p style="font-size: 1.6em;">THEOPHILO BRAGA</p> + +<p style="font-size: 2.5em;">CONTOS PHANTASTICOS</p> + +<p> </p> + +<p>SEGUNDA EDIÇÃO<br> +CORRECTA E AMPLIADA</p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p>LISBOA<br> +<b>Livraria de Antonio Maria Pereira, Editor</b><br> +<small>50—RUA AUGUSTA—54</small><br> +1894</p> +</div> + +<p><span class="pn">{IV}<br>{V}</span></p> + +<p> </p> + +<div id="corpo"> +<h1>PRELIMINAR</h1> + +<h3>(<small>DA</small> 2.ª <small>EDIÇÃO</small>)</h3> + +<p>Vae para trinta annos que estão publicados os <i>Contos phantasticos</i>. Em +boa verdade, nunca mais passei os olhos por este livro, que me apparece agora +como obra de um extranho. Não tornei a lêr esses contos, não por um affectado +desdem pela minha obra, desdem que condemno em todo o escriptor que se não +preoccupa com a coordenação definitiva dos seus trabalhos, mas porque este +pobre livro ficára ligado a impressões dolorosas cuja renovação evitava.</p> + +<p>Foram reunidos em volume em 1865 os <i>Contos phantasticos</i> no meio das +refregas da conhecida <i>Questão de Coimbra</i>; publicára a maior parte +d'elles no <i>Jornal do Commercio</i>, em cuja collaboração litteraria auferia +uns tantos réis com que ia seguindo o meu curso na Universidade. De repente +achei-me cercado de odios; cortaram-me os viveres na empreza do jornal, nas +aulas de Direito tiraram-me a mesquinha distincção academica, os criticos +espalmaram-me rudemente, os livreiros recusaram-se a dar publicidade ao que +escrevia, e os patriarchas das lettras com o peso da sua auctoridade sorriam +com equivocos sobre o meu valor intellectual, chegando a circularem lendas +depressivas do meu caracter e costumes que só consegui desfazer<span +class="pn">{VI}</span> com uma vida ás claras e cheia de ignorados sacrificios. +Outro qualquer ter-se-hia rendido.</p> + +<p>Vi-me forçado a inverter as bases da minha existencia, abandonando a Arte +que me seduzia, porque me abandonara a serenidade contemplativa, e lancei-me á +critica, á erudição, á sciencia, á philosophia. N'este campo os meus erros e +exageros bem merecem ser perdoados. Só muito tarde é que consegui conciliar em +mim estas duas tendencias do espirito; mas não pensava em reimprimir os +<i>Contos phantasticos</i>, a não sêr um dia em uma collecção de cousas avulsas +constituindo a ingenua miscellanea das minhas <i>Juvenilia</i>.</p> + +<p>Uma carta do meu bom amigo Antonio Maria Pereira surprehendeu-me, +manifestando o desejo de fazer uma nova edição d'estes <i>Contos</i>. Como +recusar-me a uma tão honrosa proposta?</p> + +<p>Resalvei a condição de revêr isso de que nem já formava ideia. Foi assim que +tive de lêr os <i>Contos phantasticos</i>, do rapaz de vinte e dous annos que +existiu em mim, e a frio pude julgar da impressão por elles produzida. Achei +ali uma fraca penetração do mundo subjectivo ou moral, encoberta com o esforço +das comparações poeticas e dos epithetos; desgostou-me o estylo em que a prosa +se confunde com o verso,—apresentando ainda a falta de nitidez de quem não +pensa com segurança; e emquanto ao drama da vida, que é o thema eterno das +obras de arte, notei tambem pouco movimento, as situações são narradas em vez +de succedidas.</p> + +<p>O que salva então o livro?</p> + +<p>Uma pequena cousa, que é tudo,—a paixão. Ao fim de trinta annos ainda achei +ali calor, a ardencia de um organismo que se queima, a vibração sensorial de +uma mocidade plena que se lança de peito aberto ao combate da vida.</p> + +<p>Foi esta paixão flagrante que fez com que esses Contos não ficassem +esquecidos no <i>Jornal do Commercio</i> de 1865; voltando então de umas ferias +para Coimbra, felicitou-me<span class="pn">{VII}</span> Eça de Queiroz, +affirmando-me que nos cafés em Lisboa cortavam-se os folhetins, quando traziam +algum conto meu. N'esse mesmo anno José Fontana quiz publical-os em um livro, +que seguiu o seu fadario, sendo o mais glorioso o andar na algibeira do celebre +engenheiro João Evangelista, que morreu devorado por uma violenta paixão +amorosa. O pequeno livro estava na mesma afinação da sua alma. Cartas, que +ainda guardo, me fallaram da impressão de um ou outro conto, por esse tempo.</p> + +<p>Tudo isto me lembrou ao sentir que effectivamente o fogo que ha n'esses +mesquinhos quadros se communica. E n'este dilemma dos dois amores, em que ainda +se debate o espirito, attrahido para a arte e seduzido pela sciencia, hoje +repassando as paginas d'este livro, é com uma certa piedade saudosa que o deixo +reviver na publicidade, e lhe inscrevo com a frieza do Qualificador +inquisitorial: <i>Feitas as emendas necessarias póde correr</i>.</p> + +<p> </p> + +<p><small class="SMALL">Fevereiro de 1894.</small></p> + +<p> </p> + +<p style="text-align: right;">T<small>HEOPHILO </small>B<small>RAGA.</small></p> + +<p><span class="pn">{VIII}<br> +{1}</span></p> + +<h1>As azas brancas</h1> + +<h2>I</h2> + +<p>Sempre o mesmo olhar doloroso! uma constante expressão de magoa, esse +abandono, que é o tedio da vida! Porque é que na flôr dos annos, quando a +existencia se purpurêa com todas as graças que se entrevêem apenas em sonho e +se veste das alegrias que a rodeiam, como uma criança enfeitando-se distrahida +com as florinhas espontaneas, tu, bella, sentida, deixas reflectir pela +transparencia da tua face pura um clarão pallido e incerto como de agonias e +desespero, como a phosphorecencia de um grande mar que estúa? Diante de ti +sente-se uma oppressão estranha, a mudez sagrada de uma grande floresta, o +terror gélido, de quem entra na caverna de uma sibylla. Porque é que os teus +vinte annos, as fórmas arrebatadoras<span class="pn">{2}</span> do teu flexuoso +corpo de sylphide, que verga pela dôr, mais languido e gentil do que a palmeira +solitaria embalada nas bafagens mornas vindas da amplidão remota do deserto, +como é que toda esta adolescencia, que te cinge como auréola de encanto e +attractivos, me faz ter medo de ti, me prende a voz temerosa e balbuciante, que +ousa ás vezes perguntar-te:</p> + +<p>D'onde vieste? Em que scismas? Que véo te acena e está chamando de longe? +Porque te escondes dos olhos que choram de vêr-te assim desolada, na +consternação de uma angustia intraduzivel por palavras humanas? Porque não +fallas, e nos contas o que soffres? Porque te deixas ficar horas esquecidas com +a mão firmada ao rosto, suspensa n'uma contemplação divina, irradiante, de um +modo, que ninguem ousa dizer se és da terra, se és a incarnação de alguma +essencia archangelica que anda errante no mundo a sanctificar o amor no +soffrimento?</p> + +<h2>II</h2> + +<p>Ás vezes o teu semblante, onde se póde lêr um enigma que se não destrinça, +tem a lividez de cera, e a claridade que parece conter em si o jaspe. Então +julgo vêr-te uma santa, sob o aspecto de penitente que acha em cada successo da +vida uma tentação occulta nas apparencias mais risonhas, no folguedo mais +descuidado e innocente, do<span class="pn">{3}</span> mesmo modo que o áspide +se esconde no alegrete das mais perfumadas flôres ou o somno lethal na sombra +da mancinella verdejante e copada, aberta ao sol, como uma escrava sustentando +a umbella com que abriga do rigor das calmas a voluptuosa odalisca.</p> + +<p>Os vinte annos são a alegria, a innocencia, a expansão; ainda não viveste +bastante para provar o travo amargo da vida, não sabes conhecer a tormenta que +ha de vir pela nuvem que negreja, nem a bonança pelo santelmo, nem os parceis +pelo refluxo da vaga marulhosa, nem o porto pelo perfume embalsamado da terra. +Tu passas na vida como um meteoro fulgurante que não procura aonde irá caír, +como uma creatura somnambula que não vacilla, não hesita diante do abysmo que +transpõe, nem deixa possuir-se da attracção irresistivel porque a desconhece. A +vida é assim para ti; passas despreoccupada do mundo, levada na ondulação +saudosa d'essas vozes interiores que te segredam mysterios indefiniveis que +fazem sentir o desejo de voar para o alto, até perder-se no azul.</p> + +<p>Os teus cabellos, quando os deixas cair destrançados sobre os hombros de +marfim, agitados pela brisa vespertina que vem confidenciar comtigo á janella, +que olha para o occidente, esses cabellos louros, extensos, são como as cordas +de uma harpa, em que as imagens incoerciveis de teus pensamentos vêm fallar do +céo, do amor, no frémito ligeiro, quasi imperceptivel das vibrações que só tu +comprehendes.<span class="pn">{4}</span></p> + +<p>Consternada e muda como uma estatua, a Niobe grega, o teu silencio incute +uma sublimidade prophetica; parece guardar a impressão do sêlo mais tremendo do +Apocalypse,—a missão da mulher forte.</p> + +<h2>III</h2> + +<p>Quem sabe se é o amor que a transporta assim para as solidões, como a pomba +que vae esconder-se na rocha alcantilada? O amor que esmalta a vida de +harmonias e encantos, que acorda as virações para levarem longe o pollen +fecundante, que abre o calyce das flores para as abelhas tocarem os nectarios +deliciosos, que une o gemido do regato trepido com o ruido, brando que +adormece, do canavial que orna as margens sinuosas? O amor é um amplexo, a +identificação; como poderia divorcial-a com a vida, mudar a sua alegria em uma +tristeza que é como o presentimento do sepulchro? Aquelle segredo +incommunicavel opprime, aterra como a sphinge propondo o enigma.</p> + +<p>Ella cada vez andava mais desfallecida, pendia de cansaço, offegava; mas +procurava illudir os disvelos da familia com um vigor que não tinha, como +succede ao naufrago quasi a afferrar a terra, de que a ressaca da onda o +afasta, e que hesita se deve luctar mais tempo, se deixar-se engulir nas +voragens do oceano. Gravitaria ella em volta de um mundo em que procurasse +absorver-se, e<span class="pn">{5}</span> a vida da terra, de cá, fosse como o +refluxo que a impellia para longe? Pobre flôr, que se debruça nas bordas da +sepultura, será uma illusão quanto a sua alma ingenua sente? Serão uma mentira +todas as harmonias que se modulam lá dentro? O tapiz verde da relva fresca, +lubrica, que a chama para vir doidejar ali n'um volteio feérico, febril, +esconder-lhe-ha o lodo de um charco estagnado que a ha de engulir para +sempre?</p> + +<p>Tenho medo de vêl-a assim, com os olhos fitos no horisonte, n'essa morbidez +do extasis; a vertigem póde sacudil-a, e precipitar-se, como a borboleta +prateada e indiscreta. A sua alma eleva-se para o céo; porque vôa tão cedo para +cima a nevoa da madrugada, de uma alvura nitente? A andorinha quando parte, vôa +na aza da rajada hybernal que a arrebata.</p> + +<p>Mas o mundo acariciou-a sempre; porque se esconde pois e foge d'elle? Será a +reminiscencia viva do foco de luz d'onde saiu, que lhe inspira tamanha +anciedade, e lhe abre n'alma uma saudade vivissima, que mata? Ás vezes está +tranquilla, immovel, como quem escuta a toada de um concerto mavioso que embala +e com que se adormece. Oh, quem ousará despertal-a? Seria perturbar a +crystalisação de uma gota de orvalho que se transforma em perola. Outras vezes +tem o olhar pavido, firme, de quem contempla e pasma ante uma visão immensa e +augusta. Que apparição risonha virá fallar-lhe? Eros, na solidão remota da +noite? Será o desejo de vêl-o, o desalento<span class="pn">{6}</span> do +impossivel, que a fazem reconcentrar assim n'essa dôr? Uma lagrima era a gota +do oleo aromatico da alampada escondida; em vez de fazel-o desapparecer, +envolto na nuvem branca e etherea, a lagrima trazel-o-hia como um grande astro +que attrae após si myriades de planetas.</p> + +<h2>IV</h2> + +<p>A tarde declinava amena, festiva, com o ultimo lampejo de graça que deixa +presentir já a melancholia do outomno. Emma ergueu-se da mesa; o rosto estava +deslumbrante de transfiguração, possuida do sentimento do infinito, que lhe +dava uma expressão sobrehumana, excelsa, que se não podia fitar, similhante á +<i>Seraphita</i> enlevada nas illuminações swedenborgianas, ao transpôr os +precipicios icarios, inaccessiveis dos <i>fiords</i> da Norwega.</p> + +<p>N'aquella tarde parecia oppressa por uma angustia mais intima. Segui-a, +queria admiral-a na altura a que se remontava, queria que me fizesse herdeiro +do seu manto prophetico, no instante em que se librasse no carro de fogo, como +Elias. E ella era bem a prophetisa do deserto. Approximei-me. Estava serena e +placida, como quem mergulhára no oceano da contemplação. De mais perto vi que +dormia, com um somno hypnotico. Ficára-lhe um sorriso estampado nos labios; +parecia o involucro de uma chrysalida mysteriosa;<span class="pn">{7}</span> a +borboleta voára para a luz, abandonára-o na terra.</p> + +<p>Conservava então um livro sobre o regaço; a mão inerte repousava sobre a +pagina. Um leve signal notava uma phrase profunda em que a alma se lhe +absorvêra: «<i>Um anjo está presente a um outro, quando elle o deseja</i>.»</p> + +<p>Procurei vêr de quem era o livro. Era escripto por Swedenborg, o patriarcha +dos theosophos do norte, o que levou mais longe as relações com o mundo +invisivel. O livro intitulava-se: <i>A sabedoria angelica da omnipotencia, +omnisciencia, omniprezensa dos que gosam a eternidade, a immensidade de +Deos.</i></p> + +<p>Emma acordou de subito. Senti um estremecimento de terror, começava a +comprehender a sua solidão. Eu mesmo tinha estudado a <i>segunda vista</i>, +colligido alguns phenomenos de suggestão que se passavam no meu espirito, +conseguira por uma excitação nervosa perenne a hypnotisação voluntaria.</p> + +<h2>V</h2> + +<p>Tambem no livro <i>De varietate rerum</i> descreve Jeronymo Cardan a +faculdade que tinha de experimentar o extasis espontaneo, e de tornar +objectivas as imagens creadas na sua mente: «Quando eu <i>quero</i>, vejo o que +me apraz, e isto não só com o espirito, mas com os olhos, com essas<span +class="pn">{8}</span> imagens que eu via na minha infancia. Mas agora creio que +ellas são o resultado de minhas occupações. É certo que nem sempre possúo esta +faculdade, comtudo não a tenho senão quando quero. As imagens que eu vejo estão +sempre em movimento; é assim que vejo as florestas, os animaes, os diversos +paizes e tudo quanto eu quero vêr. Creio que a causa de todos estes effeitos +está na actividade da minha imaginação e n'uma vista penetrantissima. Desde a +minha infancia tinha de commum com Tiberio Cesar o poder vêr na obscuridade +mais profunda, como em pleno dia. Porém não conservei muito tempo esta +faculdade. Apesar d'isso vejo ainda alguma coisa, postoque não posso distinguir +bem o que vejo; e attribuo este effeito ao calor do cerebro, á subtileza dos +espiritos vitaes, á substancia do olho, e á energia da imaginação.» (Lib. IV c. +43.)</p> + +<p>É esta uma qualidade vulgarissima nos povos do norte, principalmente os +insulares, conhecida sob a denominação de <i>Second sight</i>. Ahi a imaginação +tendo pouca variedade de paizagem que a fecunde, volta sobre si o que ha +edificado e exagera-lhe as proporções. Por isso as theogonias do norte são +terriveis. As avalanches suspensas a precipitarem-se, os nevoeiros diffundidos +por toda a parte como um sudario immenso e frio, a aurora dos polos a +desdobrar-se esplendida, tudo faz sonhar de um mundo phantastico, escutar essas +toadas vagas, indefiniveis dos espiritos que se annunciam pelo ressoar de uma +harpa longinqua.<span class="pn">{9}</span> O dom da visão é commum; é assim na +ilha de Ferroë. Que virgens se não ostentam n'uma apparição repentina, e que o +vidente procura, sem nunca mais poder encontral-as! Balzac, o observador sem +egual do coração, sentiu toda a poesia do norte no poema de <i>Seraphita</i>; é +um mysterio, o enlace da philosophia e da poesia, um extasis indecifravel de +Swedenborg, contemplado nas <i>fiords</i> da Norwega. O delirio de +<i>Seraphita</i> é o problema incessante da percepção immediata; o seu amor é +mais puro que o ideal de Dyotima, é elle que lhe dá a <i>segunda vista</i>.</p> + +<p><i>Taishatrim</i> e <i>Phissichin</i> são os nomes que em lingua gaëlica se +dão aos que tem esta faculdade. Os factos observados são innumeros, o seu +estudo é dos nossos dias. Kant combateu a doutrina visionaria de Swedenborg, +mas não attendeu que este phenomeno physico era todo sentimental; viu no +patriarcha dos videntes do norte um impostor. A vida exemplarissima de +Swedenborg é um desmentido completo e irretorquivel aos argumentos d'esta +ordem.</p> + +<p>Como explicar a inspiração continua, a <i>segunda vista</i>? A alma paira +entre dois mundos—o physico com que se relaciona pelos sentimentos, o psychico +com que se relaciona pelos presentimentos; se é attrahida para o mundo dos +corpos, predominam n'ella os instinctos, e as sensações, todas relativas, só +lhe advém pela presença dos objectos; se a alma por um desejo vehemente se +eleva do estado de <i>anima</i> ao de <i>spiritus</i>, os sentimentos<span +class="pn">{10}</span> desprendem-se do nexo das relações terrestres, e +conhecem tudo independente das sensações pela representação subjectiva. É o que +acontece aos poetas, cantando a belleza de fórmas não sonhadas, a reminiscencia +de harmonias não ouvidas.</p> + +<h2>VI</h2> + +<p>Emma estava n'aquella tarde tão affavel! tinha por certo a consciencia de ir +em breve completar-se na essencia de algum anjo. As suas fallas eram como +suspiros. Lançou-me um olhar interrogativo, de quem temia fazer-me uma pergunta +indiscreta. Eu desconhecia-lhe aquella affabilidade de seraphim, costumado a +vêl-a sempre aéria, desdenhosa do mundo, radiante como na transfiguração do +Thabor. Apertei as mãos d'ella entre as minhas, queria tirar um som d'este +instrumento celeste, cujo segredo de harmonia era só percebido pelos anjos. Se +podesse desferil-o, havia de perguntar-lhe o motivo de tanta tristeza, a +intensidade d'essa dôr tão intima, tão espiritual, que se não póde exprimir na +materialidade phonica da palavra. Ella adivinhou o meu desejo:</p> + +<p>—Tens uma <i>vontade</i> energica?—perguntou-me quasi a medo e de um modo +sybillino. Seria uma phrase abrupta para qualquer, e inintelligivel até; eu +porém que devo á actividade só d'esta<span class="pn">{11}</span> faculdade +tudo quanto sou, as grandes dôres, os impulsos irresistiveis, as glorias +sonhadas, a realisação dos mais exiguos appetites, que a encontro na +intensidade absoluta do <i>Fiat</i>, que é Deus, que a vejo nos grandes factos +do espirito, a Religião, o Direito e a Arte: na religião manifestando-se +emotivamente na fé; no direito, no accordo dos contractos individuaes; na arte, +no ponto onde os gostos diversissimos se harmonisam, isto é o bello; eu, +repito, comprehendi aquella interrogação na sua plenitude. E começava a +conhecer mais o poder da <i>vontade</i> porque acabava de observar o resultado +do acto em que a exercera.</p> + +<p>Emma fitou-me com um olhar profundo; o semblante era magestoso e santo, como +o frontispicio de uma cathedral da Edade média; as flexas, as linhas +architectonicas a infinitivarem-se para o alto, eram os seus cabellos; o olhar, +o olhar que me opprimia n'esse instante, era mysterioso como uma ogiva sombria. +Tive o medo do neophyto, quando ouve mugir a caverna, e escoar-se a brisa +gelida e olorante pela fenda do penhasco, e quasi que se esvae em terra sem +sentidos, ao vêr attonito as convulsões do hierophante. Emma perguntou-me se eu +cria nas relações com o mundo invisivel. Hesitei um instante, depois volvi:</p> + +<p>—Creio, mas não as sei demonstrar por uma fórmula, que, embora refutavel, +tenha valor philosophico.—Ella ouviu-me com o pezar e serenidade de uma joven +esposa na sua viuvez, que<span class="pn">{12}</span> ouve o filhinho a +perguntar-lhe pelo pae. Depois murmurou, encostando a face sobre o meu +peito:</p> + +<p>—És tão novo ainda, e porque matas em ti já o sentimento pela reflexão? A +reflexão é fria, é terrena, não comprehende sem decompôr para recompôr. Como se +ha de ella elevar ao simples, ao absoluto, que tem por attributo supremo a +indivisibilidade? A luz, que é incoercivel, não se espelha na face quieta do +lago? O sentimento é assim; só elle te póde levar além das relações e das +contingencias. A substancia é unica; esta essencia d'ella é que prende pela +unidade a multiplicidade dos attributos. Todas as vezes que te absorveres na +unidade que te allia como attributo ou modo á substancia, entraste na essencia +de todas as cousas, porque o simples que actua n'esse momento em ti, é o mesmo +em que tudo existe. Vibra em ti a harmonia universal.</p> + +<p>E continuou com palavras quasi imperceptiveis. Estava em extasis, no extasis +da abstracção, como o sentia Newton quando determinava a essencia de uma ordem +de factos complexos, na lei que havia ficar eterna, e a que havia imprimir o +seu nome. Tive vontade de lançar-me por terra, diante d'aquelle espirito +incomprehensivel; precipitava-me se ella me dissesse como satanaz, quando +arrebatou Jesus ao pinaculo do templo:—<i>Haec omnia tibi dabo, si cadens +adoraveris me.</i><span class="pn">{13}</span></p> + +<h2>VII</h2> + +<p>Quando Emma saiu da sua mudez sublime, recostou-se sobre o meu hombro com +uma graça infantil:</p> + +<p>—Ainda não sabes porque ando triste? Olha, uma tarde, puz-me a escutar o +murmurio de um regato; parecia-me ser uma musica interior. Tive vontade de +saber o que dizia, de confidenciar com elle, de communicar minha alma, que +aspirava n'uma sêde de amor. Ao trepidar mavioso da vêa crystallina, scismava, +devaneiava, enleiada, embevecida. Adormeci. Pareceu-me então aquelle cicio, +como de azas de um cherubim que baixasse a meu lado; via a claridade de alvura +de suas roupagens longas, estava silencioso ao pé de mim. Mostrava a expressão +da serenidade augusta, uma apparencia que consolava. Acordei, e o mundo +affigurou-se-me um desterro, a vida um carcere, tinha uma impaciencia de voar, +de fugir, o desejo irrepresivel de tornar a vêr o semblante risonho d'aquelle +que me veiu mostrar o mundo intransitavel para a vida, como sarçal espinhoso. +De outra vez appareceu-me, brilhante como Iahveh na sarça ardente. Era sempre +silencioso. O amor emmudecia-me diante d'elle, quiz seguil-o na visão que se +esvaecia lentamente, mas o corpo estava preso aos limos terrenos, como o +cordeiro que se prende nas urzes do matagal. A ancia do extremo esforço +despertou-me.<span class="pn">{14}</span> Foi assim que nasceu essa melancholia +profunda, concebida diante do impossivel. Mais tarde conheci o mysterio da +<i>vontade</i>; isolei-a em mim, para revocar o ente dos meus sonhos á +realidade de um instante. Quasi que me abrasava na intensidade do querer. Elle +appareceu-me mais triste. Perguntei-lhe se amava? Sorriu-se. Que era preciso +para completarmos uma mesma essencia? o sorriso converteu-se em uma alegria +doida, e disse-me vagamente—vôa da terra. Nunca mais tornou a visitar-me no +desolamento em que vivo. A vida assim é o vegetar do lichen na humidade das +lagrimas derramadas de hora em hora. Porque não hei de voar da terra?</p> + +<h2>VIII</h2> + +<p>Ouviu-se trindades n'esse instante; cerrava-se a noite, frigida; o luar +vinha saudoso. Emma pediu-me para deixal-a só. Por alta noite via-se a luz +derramar-se pela vidraça do seu quarto, luz viva, silenciosa, como da alampada +do philosopho hermetico surprehendendo a natureza em algum dos seus segredos +mais reconditos.</p> + +<p>Emma lia no livro predilecto, que eu deparára aberto sobre o regaço. Pouco +depois começou a alvorada. Quando o silencio era mais solemne e a natureza +inteira parecia reconcentrar-se em santos mysterios, sentiu-se em casa um +estrondo surdo, como o baque de um corpo morto, depois<span +class="pn">{15}</span> o bracejar, de quem se debatia nas vascas do paroxismo. +Ergueram-se á pressa, foram apoz o ecco. Era no quarto de Emma. Seria algum +pezadello longo? A porta cedeu á promptidão do soccorro. Foram encontral-a em +terra, morta, a pouca distancia do fogão, que saturava o ar ambiente de +exhalações carbonicas. O corpo já estava frio; o rosto tinha a pallidez do +marmore. A pouca distancia d'ella estava aberto o livro fatal das exaltações +mysticas de Swedenborg.</p> + +<p>Lia-se esta phrase profunda:</p> + +<p>«A innocencia dos céos produz uma tal impressão na alma, que os que são +affectados d'ella guardam um transporte que lhes dura toda a vida, como eu +mesmo experimentei. Basta talvez ter uma minima percepção para ser para sempre +<i>mudado</i>, para querer ir aos céos e entrar assim na esphera da Esperança.» +</p> + +<p>Seguiam-se outras palavras. Tive medo de lêr mais, porque começava tambem a +sentir a seducção da melancholia e reconcentração subjectiva, que leva ao +suicidio.<span class="pn">{16}<br>{17}</span></p> + +<h1>O véo</h1> + +<p>Tive apenas um amigo na infancia.</p> + +<p>Sinto abrir este conto com a minha personalidade; e, sem pretenções a +<i>humorismo</i>, nem a estylo digressivo, conheço que a pessoa de um auctor +inculcando-se na sua obra produz o effeito desagradavel, que o senso esthetico +original de João Paulo nota no quadro em que o pintor agrupasse tambem a +palheta, o cavallete e os pinceis. O valor da personalidade pouco é; os antigos +comprehenderam-n'a perfeitamente, quando deram o nome de <i>persona</i> á +mascara que o actor trazia para reforçar a voz. A personalidade que se toca, +serve para o trato da rua; a individualidade, o caracter, revelado na vontade, +são immanentes no livro, são o livro. Antes porém de fechar o parenthesis ahi +vão algumas linhas sobre a pessoa do meu unico e primeiro amigo, um <i>alter +ego</i>, ou <i>fidus Achates</i>, como diriam<span class="pn">{18}</span> dois +estudantes de selecta. Não nos démos de repente. Tinhamos o mesmo nome de +baptismo, faziamos annos no mesmo dia, começámos a versejar ao mesmo tempo; a +affinidade electiva entre nós não provinha d'estas coincidencias, nunca +reparámos n'ellas; era uma amizade de terror, respeitavamo-nos. Na eschola +fômos sempre antagonistas; quando passámos a estudar latim, ficámos +surprehendidos ao vermo-nos algemados ao <i>hora</i>, <i>horæ</i>. Ainda os +mesmos desforços, o mesmo orgulho. Então já nos consultavamos sobre alguma +duvida de syntaxe, como de potencia a potencia. Mais tarde encontrámo-nos sobre +o mesmo banco a ouvir as prelecções estupidas de logica, a logica que nos havia +de tornar máos, capciosos, ergotistas. Já não nos temiamos, eramos amigos, +tinhamos necessidade um do outro. Depois vieram as confidencias estreitar mais +esta <span class="typo" title="no original: ffeição">affeição</span>. Foi elle o primeiro a fazel-as. Não sei se era amor, compaixão ou +cynismo a primeira aventura que me contou. Era assim:</p> + +<p>«Eu tive uma prima, não sei em que gráo, culpa das subtilezas canonicas. A +pobre criança possuia uma morbidez voluptuosa no olhar, não os tirava de mim. A +côr morena dizia tão bem com as linhas nitidas da physionomia arabe, que ella +sabia animar com um ár doloroso de uma melancholia expressiva, que se lhe +reflectia na face! Eu ficara orphão de mãe e costumara-me a brincar sósinho; +ella procurava-me na minha solídão, sentava-se junto de mim; o seu olhar +incommodava-me.<span class="pn">{19}</span> Mas tinha medo de fugir-lhe, +doía-me esta indifferença e para disfarçal-a trepava acima das arvores +carregadas de fructos do pomar onde passavamos o verão, e de lá deixava cahir +aquelles que mais se douravam com os raios do sol de agosto, os que me expunham +a maiores perigos. Ella aparava-os no regaço com a affabilidade com que se +queria associar aos meus folguedos.</p> + +<p>«Afinal teve vergonha de mim; córava, escondia a face entre as mãos, ficava +pensativa e depois fugia-me. N'este tempo contava eu algumas lições de desenho; +os meus arabescos tinham uma frescura de innocencia, uma rudeza que parecia uma +creação pura arte medieval. Eu tinha a monomania de esboçar cabeças. Não sei +quem na familia, me pediu que fizesse o retrato d'ella. Fil-o. O caso deu-lhe +uns longes de similhança, tive vergonha da verdade; quando ella me agradeceu +com um sorriso timido, eu rasgava o papel com a crueldade de uma criança que +brinca. Não a tornei a ver n'aquelle dia, escondera-se a chorar. Não tinha +culpa d'esta frieza brutal; a falta de carinhos perdidos logo no berço, a +verdade d'esse verso eterno de Virgilio:</p> + +<blockquote> + <i>Est mihi pater domi et injusta noverca</i> </blockquote> + +<p style="text-indent: 0;">tornaram-me taciturno, incredulo antes de tempo. Ás +vezes obrigavam-me a brincar com ella. Uma vez fômos todos banhar-nos no +Atlantico. A pobre criança tambem foi. As marés eram gigantescas;<span +class="pn">{20}</span> era dia para mim de um orgulho immenso, gostava que me +vissem nadar; mostrava uma superioridade minha. O acaso seguia-me o desejo. Uma +onda envolveu no seu marulho a infeliz Branca; no refluxo levou-a comsigo. +Desfalleceu de susto e foi levada pela vaga, como Ophelia na corrente. Quem +sabe se ella no seu coração tecia alguma corôa para mim.</p> + +<p>«Abracei-a pela primeira vez, impellido por uma força interior; sustive-a +nos braços, estava fria, pallida. Quando abriu os olhos teve vergonha de mim; +era já o pudor de senhora. Trouxe-a sem custo para a praia, e continuei em +carreiras no dorso da vaga, que se encapellava. Fôra o meu primeiro passo para +homem.</p> + +<p>«N'esse mesmo dia brincámos, jogando o <i>anel</i>, um divertimento +infantil, de que ainda guardo saudades. N'este folguedo de crianças o que tem o +anel é sentenciado pelos demais a levar beijos e abraços, ou a dal-os, segundo +o capricho. Tinha o anel a filha do feitor que brincava comnosco, Annita, uma +rapariga de uma candura estreme. Branca pediu-lhe em segredo que ao percorrer a +roda deixasse cair o anel entre as minhas mãos. Assim se deu. Um perguntava o +que promettiam a quem tivesse o anel. Cada qual se lembrou de uma prenda +innocente e insignificativa; Branca prometteu um beijo e um abraço muito +apertado.</p> + +<p>«Eu não devia contar-te mais, porque me sinto infame! Este beijo perdeu-a +para sempre, como o beijo de Paulo e Francesca di Rimini. Branca foi<span +class="pn">{21}</span> crescendo, tornou-se formosa á luz de uma esperança +fugitiva, como a flôr de um vaso, quando recebe, ao estiolar-se, o calor +ephemero do ultimo raio do sol da tarde. Quando ella me sorriu com amargura, e +córou de sua queda, sorri tambem por compaixão, illudi-a. Que fazer, se eu era +tão novo, inconsciente, e queria divertir-me, gosar o mundo?</p> + +<p>«Uma vez tinha eu voltado pela ante-manhã de uma festa louca. Dormia a somno +solto, prostrado pela fadiga, esgotado da orgia desenfreada. Senti uma mão fria +passar-me de leve nas faces, acordei.</p> + +<p>«Era ella! Appareceu desmaiada, como a vi uma vez ao luar silencioso, com +uma côr que lhe realçava a candidez, e disse-me:</p> + +<p>—«Vim vêr-te na despedida do tumulo. Desde que adoeci nunca mais me +appareceste. O esquecimento é frio e pesado como a lagem sepulchral. Eu não +queria dizer-te isto, não quero magoar-te; perdôa. Olha, hoje acordei de um +sonho tão lindo! deu-me forças para levantar-me do leito e vestir-me de branco +para vir contal-o a ti só. Como não choraria minha mãe que me vela se o +soubesse! Não sei se velava, se dormia; minha alma parecia voar, suspensa n'uma +como cadencia, vaga, quasi imperceptivel, confundia-se com ella até perder-se +no céo. Acordei de subito; restava-me só a illusão. Olhei em roda; a +alampadasinha tornava a solidão pungente, augusta; pavoroso o silencio do meu +quarto. Comecei<span class="pn">{22}</span> a lembrar-me de ti, dos passados +tempos; estava já na terra. Foi quando descobri a meu lado uma apparencia +angelical, a falar-me de mansinho uma linguagem que eu mal entendia: que o +Senhor o enviara para chamar-me. Eu não pude voar, voar com elle, e sinto agora +que a alma me foge; venho dizer-te adeus.</p> + +<p>—E o que lhe respondeste?</p> + +<p>—Elle continuou:</p> + +<p>«Disse-lhe que os sonhos mentiam sempre, que elles a matavam.—«Não são os +sonhos que me matam, gemeu a desgraçada, é a realidade, a realidade. Bem o +sabes, e esse que tudo vê. As recordações são para mim como um remorso. Que +noites, que vigilias inteiras a pensar em ti! cada palavra tua, que eu +decorava, era um poema de amor e esperança; ao repetil-as na mente diziam-me +quanto a alma anceava, e mais ainda, mas enganaram-me sempre. Lembras-te +d'aquella noite? Oh! meu Deus, meu Deus. Não sabes quanto me fizeste soffrer! +Não conheceste a profundidade do golpe quando o descarregaste! Disseste-me +essas palavras só para perder-me. É impossivel que isto te não dôa? Quando me +appareceste n'aquella noite era o luar tão sereno, tudo confidenciava comnosco. +Estava adormecida quando chegaste. Depois de me estreitares nos braços e +beijares as faces geladas pelo rociar da noite, porque sorriste de um modo +incomprehensivel? Descobriste-me que não casavas commigo, que outro havia +polluido a minha candura!<span class="pn">{23}</span> Era uma blasphemia +brutal. Deixei-me cair em teus braços, sacrificando-te a virgindade para que a +reconhecesses. Desde essa noite não me tornaste mais a amar. Illudi-te? Porque +assim me fugiste? Uma lagrima só rehabilitava-te diante de Deus. É tarde, muito +tarde. Vim só para despedir-me e perdoar-te. Adeus.»</p> + +<p>—E tu que lhe respondeste?</p> + +<p>«Voltei-me sobre o outro lado, e continuei a dormir.</p> + +<p>—Prosegue.</p> + +<p>«Foi um pezadello atroz aquelle somno. Julgava-me em uma orgia immensa, na +hora ominosa do sabbat nocturno. Um bando de mulheres volteava reunido em uma +corêa desenvolta, n'um tripudio infernal, ao redor de um carvalho lascado pelos +raios que se cruzavam a espaços na solidão e escuridade absoluta da noite. +Dançavam como possuidas do mesmo furor que inspirava a corneta de Oberon. +Quando eu ia mais arrebatado pelos requebros voluptuosos, enlaçado a um par +ligeiro e flexivel, senti um leve suspiro a meu lado, que se perdeu nos áres. +Era como o segredo de uma magoa que eu bem conhecia. Parei. Adormecera a ler +uma ballada dos peregrinos do Rheno contada por Bulwer. Junto a mim descobri +uma figura de mulher linda, etherea; o semblante tinha a serenidade de uma +grande agonia que cauterisa, uma tristeza mais vaga do que a impressão de +saudade que a lua desperta quando se reflecte n'uma lagoa quiéta. Era como um +seraphim<span class="pn">{24}</span> quando chora. Não pude olhal-a; a candura +do seu antigo amor exprobrava-me o cynismo. A viração que ciciava não repetiria +tão brandamente o que ella disse:</p> + +<p>—«Não sabes como te amo ainda além da campa! o gelo do sepulchro não pôde +apagar o fogo em que os teus olhos me abrazaram. Esqueci o teu desprezo para +perdoar-te. Para que havia ter mais esse flagicio na eternidade? Que destino, +que felicidade a nossa, que regosijo no céo, se não houvesses ludibriado este +amor! Nossas almas absorver-se-hiam na essencia de um anjo, enlevadas n'um +sonho de harmonia, até despertarmos no empyreo. Assim precipitaste-me na mansão +das penas e soffrimentos, onde o meu espirito se apura. O amor terreno tenho-o +expiado no fogo. Vês este cendal de alvura transparente? estava quasi a +tornar-se brilhante de gloria! Pedi a Deus este momento tão breve para poder +agora ver-te; o goso fugitivo de contemplar-te, a esperança de te achar triste, +scismando em mim com pezar e saudade, a troco de mais cem annos de novos +soffrimentos! Cem annos mais, depois de te encontrar nos braços de outras +descuidado, rindo desvairado n'uma orgia dissoluta. Oh, mas eu não sei senão +perdoar-lhe.»—E desappareceu-me, continuou elle, como um meteoro fugaz, quando +passa nos céos, e deixa após si um rasto luminoso. Acordei.</p> + +<p>«Em casa ouviam-se gritos, alaridos, como de um successo repentino e +funesto. Fui a vêr. Disseram-me<span class="pn">{25}</span> que Branca +desapparecêra. Cheguei a convencer-me da realidade do sonho, que um anjo a +levára comsigo. Perguntei debalde. Passou-me pela mente um presentimento +horrivel. Branca costumava ir sentar-se sobre uma rocha que se debruça sobre o +mar, e em cujas furnas as vagas restrugem com um stridor surdo, como o anceio +do ultimo esforço n'uma lucta desegual. Protegida pelo nevoeiro da madrugada, +mais veloz que a ondina da mythologia slava, a pobre fôra saciar os pulmões +ralados da febre lenta que a devorava. Houve quem a visse dependurada na aresta +dos fraguedos, o véo branco que levava fluctuar ao vento, como n'um adeus de +despedida. Ella sentira n'esse instante a attracção do abysmo, lembrou-se +d'aquella tarde de agosto, em que eu a salvara, trazendo-a com um abraço á +vida; quiz morrer com a recordação mais doce que levava do mundo. +Precipitou-se. E o mar murmurava sereno e manso, como a embalar-lhe o seu +ultimo somno.</p> + +<p>«Comecei então a sentir uma paixão por ella, depois de morta; se a terra a +tivesse escondido, eu a iria arrancar ao repouso sagrado da sepultura, +beijal-a, animal-a com o fogo do meu delirio, despedaçal-a n'estes braços +convulsos, e cair tambem inanime. Queria sentir bem junto do peito o contacto +gélido de um corpo que eu tantas vezes apertei, das faces que eu devorava, +quando ella se dava aos caprichos da minha vertigem. Havia n'este amor um +pensamento de halucinado,<span class="pn">{26}</span> um tanto de selvagem, de +monstruoso; impellia-me uma inquietação continua, sentia em mim um como ranger +de puas do remorso, a voz que interroga Caim. Fugia, não queria consolações. Eu +ia sentar-me tambem na rocha escarpada, a vêr o mar, procurando a serenidade +que me inspirava a contemplação do sepulchro da minha amada. Vinha visital-o, á +busca d'esse allivio de que fala o poeta do Oriente.</p> + +<p>«Eram decorridos já tres dias, não se vira mais o corpo de Branca; o mar +queria-o para si, mas eu tinha uma vontade fervente, absoluta, o desespero de +tornal-a a vêr linda, roxa, núa, desfigurada. Era o mais que podia soffrer. Ia +a maré na vasante, no fim da tarde, as ondas gemiam brandamente no areal +deserto, as virações da noite sopravam frias, humidas das bandas do poente. +Quando desci da rocha escarpada, encontrei inesperadamente o corpo de Branca +estendido na area. Era uma criança descuidada, adormecida; a onda que a tinha +despido para namorar-lhe a alvura do corpo, viera deposital-a na praia. Ia a +precipitar-me para ella, unil-a a mim no frenesim d'essa loucura. Tive medo! +recuei sem encaral-a. Temi profanal-a com a vista; estava quasi núa, de costas, +com os olhos no céo, como pedindo á noite que viesse recatal-a no seu manto de +trévas. Quando tornei junto d'ella com o lençol para a envolver, senti uma +ancia de passamento, a lucidez de quem entrevê a eternidade: conheci que o +cadaver de Branca se voltara<span class="pn">{27}</span> <span class="typo" title="no original: debruços">de bruços</span>, furtando á +vista profanadora o verticello pudibundo da flor que eu fizera pender sobre o +caule e cahir emmurchecida. O inexplicavel deixou-me um terror que ainda me +dura...»</p> + +<p>Não tive animo para lhe pedir que continuasse.<span +class="pn">{28}</span></p> + +<p><span class="pn">{29}</span></p> + +<h1>A estrella d'alva</h1> + +<h3>(<small>CONTO MARITIMO DO SECULO XVI</small>)</h3> + +<blockquote> + <p>N'isto andava tudo, que se não poderiam pôr os olhos em parte onde se não + vissem rostos cobertos de tristes lagrimas, e de uma amarelidão, e + trespassamento de manifesta dôr, e sobejo receio que a chegada da morte + causava, ouvindo-se tambem de quando em algumas palavras lastimosas, signal + certo da lembrança, que ainda n'aquelle derradeiro ponto não faltava dos + orphãos e pequenos filhos, das amadas e pobres mulheres, dos velhos e + saudosos paes que cá deixavam, etc.</p> + + <p style="text-align:right;margin-left:auto;margin-right:0;"><i>Hist. + tragico-maritima</i>, t. <small>I</small>, p. 55.</p> +</blockquote> + +<p>O sol esmaltava as côres limpidas do horisonte com uns cambiantes de purpura +e de azul, cujo cariz incompleto e vago reflecte a melancolia suave em que a +alma se concentra n'essa hora fugitiva da tarde. O horisonte fechava-se +lentamente, como o véo de um templo que se cerra. As virações travéssas da +noite volitavam encrespando a face trémula das aguas, que lhes respondiam ás +caricias inquietas, confidenciando com um murmurio sonoroso e confuso. O galeão +soberbo da India singrava<span class="pn">{30}</span> ufano, buscando em prôa a +terra querida da patria; levado nas azas das monções propicias, a vela branca +desfraldada aos ventos, tinha o garbo da garça altaneira que se libra vaidosa +por sobre as ondas, que ella vae roçando de leve. A flamula ondulante, hasteada +no tope do mastro de mezena, serpeava nos áres como em adeus silencioso ás +ribas odoriferas do Oriente, a despedida ao paiz dos sonhos e das maravilhas. A +natureza como que se absorvera nos encantos d'esta hora; havia um segredo +intimo em cada toada perdida d'este concerto do declinar do dia.</p> + +<p>Longo tempo um mancebo encostado á amurada do navio, com os olhos fitos na +corrente das vagas, permanecêra absorto n'um scismar incessante, como quem +atava na mente as apparencias de um sonho mentido, como quem procurava alentar +a ultima esperança que prende á vida, e que é como a hera das ruinas. +Conhecia-se-lhe na respiração comprimida no peito, que offegava de cansaço, o +esforço acintoso com que procurava afastar da lembrança um sentimento funesto. +</p> + +<p>A pallidez retincta nas faces cavadas pelas insomnias longas e afflictivas, +era a expressão dos pensamentos tenebrosos, confusos, incoherentes, que vinham +povoar-lhe a anciedade das vigilias. Quem o visse sentiria uma dôr egual +áquella, uma vontade irresistivel de entornar-lhe em sua alma o balsamo das +consolações, com a prodigalidade do affecto com que a moça desenvolta de +Magdala vinha derramar aos pés do divino<span class="pn">{31}</span> Mestre os +perfumes inebriantes da sua urna de alabastro.</p> + +<p>Quem o visse na mudez expressiva d'aquelle desalento, no desamparo e +soledade de todas as alegrias da vida, sentia-se levado para elle, como por um +condão fascinador, que ás vezes possuem certos olhares que ninguem póde fitar e +de que se tem medo. A brisa fresca da noite, que soprava do poente, como +trazendo-lhe o presagio do ocaso de suas esperanças, vinha volatilisar a +lagrima timida e ingenua que tremeluzia viva na pupilla scintilante.</p> + +<p>A este tempo appareceu sobre o convés do galeão alteroso um outro vulto, +todo armado contra a rajada asperrima da noite, que se ia cerrando:</p> + +<p>—Ainda aqui, Fernão Ximenez? embebido n'esse longo scismar em que o passado +se te affigura doloroso e feio? Para que foges de teu irmão? Bem vês que eu +procuro distrair-te d'essa agonia lenta que te vae minando a essencia debil da +vida, d'esse espasmo da atonia que produz em ti a mudez do sepulchro. O que +tens tu em uma vida de criança, innocente, sempre desprevenida, para que o +occultes a teu irmão, ao amigo que soffre com o teu soffrimento, e que exulta +com as tuas alegrias? Uma ave, quando é levada para um paiz distante, longe do +ninho que lhe ouviu balbuciar os primeiros trillos de amor, quando lhe falta a +bafagem tepida das auras em que se espanejava contente, desfallece á<span +class="pn">{32}</span> mingua, prisioneira, ralada pela saudade pungitiva que +lhe amofina o sêr. Tu, pelo contrario, á medida que os aromas quasi +imperceptiveis da terra abençoada da patria nos vêm dar força para affrontar as +tormentas escuras, as cerrações e os cabos perigosos, perdes o animo ante uma +dôr imaginaria, e deixas-te apossar de uma ancia, que um instante só de +reflexão tranquilisaria. Vamos, serena o teu espirito; seja-te o meu coração o +porto almejado onde encontres abrigo. Que receias pois? temes encontral-a na +volta desposada, nos braços de outro? Conta-me a verdade toda; amas?</p> + +<p>—Se com vinte annos apenas haverá quem não tenha sentido ainda esse +desvario divino, que acorda de subito em nós todas as potencias da alma, que +rasga brilhante a manhã de um eden terreal, dando realidade á vida, e que a um +tempo vibra o estertor e o cicio horrivel dos que se confrangem no barathro do +desespero que elle gera! Eu amo, sim. É um amor que tem purpureado de risos +todas as horas que me absorvo a pensar n'ella. Para mim é o resumo de todas as +bellezas do mundo. Onde a vista depára uma apparição grandiosa, deslumbrante, +ahi sinto uma reminiscencia d'ella; ás vezes procuro em vão formar na mente o +composto do semblante engraçado, quero tel-a presente pela imaginação á minha +idolatria; mas a phantasia não póde reunir em uma mesma auréola de encantos +tudo quanto ha de mais puro no céo e na terra. Eu estou doido. É<span +class="pn">{33}</span> o frenesim d'este amor que me enlouquece. Eu não a vejo, +nem sei mesmo já se existe, mas sinto-a como a essencia de um licor suavissimo +e volatil, que inebria a distancia os sentidos. Ella fluctua-me pairando ante a +vista, como um nevoeiro da madrugada que se esvaece nos áres ao romper da +claridade, e de que o sol faz realçar a alvura esplendente. Ella nunca me disse +que me amava. Quando só em pensamentos a escuto, a dizer-me segredos +intraduziveis, parece-me a bayadera indiana requebrando-se flascida, com uma +morbidez encantadora, a voltear brandamente ás vibrações remotas das +gandharvas, instrumentistas do paraizo. Eu vôo na mesma ondulação de harmonia, +e sonho um goso indefinivel, que me exacerba mais as angustias cruciantes, +quando desperto á realidade. Eu não sei mesmo se me ama. Costumado a brincar +desde criança, unindo as nossas orações infantis em noites de tormenta, quando +seu pae andava sobre as aguas, esta confiança torna impossivel o mysterio, que +alimenta todo o amor.</p> + +<p>—«Aldonça! repetiu desapercebidamente Gaspar Ximenez;—a mesma, a que me +torna aguerrido, audaz para affrontar estas regiões nos términos do mundo; a +que jurou um dia ser minha e me prometteu a mão de esposa, que eu beijei e +apertei tremulo, convulsivo!</p> + +<p>Fernão Ximenez comprehendeu estas palavras. Foram como um clarão subito, que +lampeja e cega. Os olhos arrasaram-se-lhe de agua, sem as<span +class="pn">{34}</span> lagrimas poderem rebentar. Era incrivel o que se passava +em sua alma. A colera, a alegria, a contrariedade das aspirações mais ardentes +da vida, o desinteresse sublime de um coração generoso debatendo-se tudo +n'aquella alma deserta de esperança! Gaspar Ximenez continuou, como +delirando:</p> + +<p>—Amas tambem Aldonça? Como ella é meiga e docil! É a rola innocente do +sacrificio. Ella ha de querer a tua felicidade. O que eu disse era uma loucura. +Amo-a como irmã apenas; ama-a tambem, mais do que eu, e será tua.</p> + +<p>Ao ouvir estas palavras, proferidas com uma accentuação dolorosa, por uma +abnegação quasi impossivel, Fernão Ximenez não poude represar mais tempo as +lagrimas, que lhe rebentavam ferventes dos olhos. Os soluços entercortaram-lhe +a voz. Elle jurára dar-lhe tambem um dia a maior prova de dedicação.</p> + +<p>A este tempo, ouviu-se um berro do gageiro gritando da gávea:</p> + +<p>—Mestre Fernão Mendonça, um negrume espesso se alcança no horisonte, que +levamos, pois que a não ser a cerração do cabo, mais me parece presagio de +tormenta.</p> + +<p>O mar começava já a cavar-se. O piloto mandou logo ferrar o traquete, cassar +a escota á bijarrona, e que o homem de quarto amurasse mais para sotavento, +antes que a borrasca rebentasse de chofre. Instantes depois a marinhagem +tripulava afanosa sobre o convés; a noite estendera<span class="pn">{35}</span> +pela amplidão dos mares o seu manto gélido de sombras, como um sudario de +morte. O vento frigido sibilava na enxarcia; parecia uma serpente escamosa +quando assovia na floresta intrincavel. A orchestra da procella rompia sonorosa +e esplendida, como a retrata Virgilio n'um incomparavel hemistichio.</p> + +<p>—Por San-Thiago, disse Fernão Ximenez, saindo da mudez do espanto em que o +deixára a longanimidade do irmão;—adivinhava-o o diabo do gageiro, pois já as +ondas guidam os castellos de prôa, e lambem a ponta do gorupés. Diabo! que se +tivesse mando no timão amurava mais para sota-vento, e talvez que escapassemos +á furia da tormenta.</p> + +<p>Continuava o ennovellar das vagas como grandes cordilheiras sacudidas por um +vulcão subterreo. Instantes depois, o moço descia para o porão, e as marés +gigantes em vagalhões, salvavam o baixel. Soltos, desencontrados dos quatro +pontos, os ventos cáem de estouro sobre o galeão.</p> + +<p>—Que San-Thiago, o bom apostolo das Hespanhas, seja comnosco, murmurou o +homem do leme, ao apagar-lhe uma maré a luzinha da bitácula. Que o bom Jesus +dos mareantes nos ampare n'esta tribulação, Ave Maria!</p> + +<p>A tempestade recrudescia surda á voz do pobre homem de quarto, que não sabia +já o rumo que levava. Pouco depois, as ondas envolveram-n'o no seu marulho, e o +sorveram no pelago insondavel.<span class="pn">{36}</span></p> + +<p>Sem governo, o galeão altivo, cruzando-se sobre duas ondas que rebentaram +sobre elle, estremeceu como aluido pelo cavername e costado; o mastro grande, +gemendo sobre si, estalou, e sumiu-se na corrente das aguas. Por instantes +ninguem respirou. Só o capitão Fernão de Mendonça, conhecendo que o temporal +amainara, gritou com intrepidez:</p> + +<p>—Salta arriba!</p> + +<p>A tempestade amançara consideravelmente; via-se espelhado em todos os +semblantes um sorriso de esperança, illuminado ao clarão diaphano do santelmo, +que reluzia no tope dos mastros.</p> + +<p>—Salvé! salvé, oh Corpo Santo!—gritaram todos possuidos de um regosijo +expansivo.</p> + +<p>—Podemos agora contar com a bonança,—disse a voz animadora do padre +capellão,—que o sacro fogo de Santelmo se nos mostra risonho e mensageiro de +paz. Oxalá que sem mais desgraças possamos dizer como o malaventurado soldado +das Indias, o bom Luiz de Camões:</p> + +<blockquote> + <p class="versos">Vi nos ceus claramente o lume vivo, <br> + Que a maritima gente tem por santo, <br> + Em tempo de tormenta e vento esquivo, <br> + De tempestade escura e triste pranto. </p> +</blockquote> + +<p>—Mestre Fernão de Mendonça!—interrompeu o gageiro,—o galeão tem um enorme +rombo na prôa, e d'aqui a meia hora estaremos todos no fundo, se vos não apraz +lançar esta lancha ao<span class="pn">{37}</span> mar.—E foi-se cantarolando +aquellas trovas do <i>Auto da barca do Inferno</i>, do popular Gil Vicente:</p> + +<blockquote> + <p class="versos">Á barca, á barca, boa gente, <br> + Que que queremos dar a vela; <br> + Chegar a ella, chegar a ella. </p> +</blockquote> + +<p>O tom frio com que dissera a ruim nova fazia julgal-o filho da rajada, como +se cria nas incarnações da mythologia grega. Ouvida a falla do capitão, foram +saltando todos para o batel. Pouco depois a náo soberba da India começara a +afundar-se. Ao vêl-a sumir-se, o padre capellão lançou-lhe a benção, e proferiu +uns versiculos da oração dos mortos. A mudez tornava mais sublimes estes +instantes. Era como na morte de um heroe, que baqueia ferido no auge da luta. +As lagrimas borbotavam dos olhos dos velhos mareantes ao perderem para sempre +aquelle companheiro das refregas. O batel não podia com a tripulação toda; o +mar estava brazeiro e a cada momento entrava-lhe pela borda.</p> + +<p>Assim foram andando á mercê das correntes, sem que transluzisse no horisonte +escuro um clarão de esperança. O ranger dos remos fazia lembrar de hora em hora +o estertor de uma vehemente agonia. O mar e a fome infundiam n'alma o tedio da +vida.</p> + +<p>O mar continuava roleiro. A este tempo uma onda encapellada rebentou quase +de choque sobre<span class="pn">{38}</span> o batel. Era preciso alijar para +alivial-o. O capitão deitou sortes, para vêr os que iriam ao mar. Caiu a sorte +sobre o intrepido gageiro. Pero Gutterrez, um velho marinheiro, atirou-se de +livre vontade. Fernão Ximenez parecia de tal modo embebido na dor funda que +alentava n'alma, que não sabia o que se passava em volta de si. A sorte +fatidica caira tambem sobre o irmão. Despertou da abstracção dolorosa, ao +abraço fraterno extremo. Repentinamente comprehendeu tudo com a lucidez de que +o espirito se apossa nos momentos solemnes da vida. Deteve-o um instante:</p> + +<p>—Uma vez sacrificaste ao meu amor todas as tuas esperanças! É bem que o +reconheça; agora estimo a vida só para dal-a por ti.—E desprendeu-se dos +braços do irmão, com a resolução do desespero, e arrojou-se á voragem.</p> + +<p>Gaspar Ximenez permaneceu attonito, interdito ante o estranho heroismo. O +sol ia já alto, o céo tornava-se limpido e sereno, o horisonte abria-se +immenso, como a expansão de um pensamento de alegria. Depois de haverem remado +bastante ainda, descobriram-n'o a distancia seguindo extenuado o batel. A +energia sublime do seu heroismo e dedicação commovera todos os corações. +Quizeram unanimes recebel-o, estava já sem forças, quasi immovel. O amor +fraternal resplandecera com espanto. Os membros regelados começaram de novo a +sentir vida com a reacção do calor.</p> + +<p>O mar ia amansando progressivamente, e antes<span class="pn">{39}</span> do +cair da noite viram com pasmo e alegria doida alvejar uma vela. Saudaram-na com +a celeuma do regosijo. Quando passados dias chegaram a beijar a terra de seus +paes, Fernão Ximenez foi professar, cumprir o voto n'um mosteiro, para não +tornar o amor do irmão impossivel.<span class="pn">{40}<br> +{41}</span></p> + +<h1><a name="SECTION00050000000000000000">Lava de um craneo</a> </h1> + +<p>Quantas risadas se escutam perdidas no ár, que ás vezes são um punhal +invisivel, brandido por mão diabolica, um veneno propinado a occultas, que +infunde na vida o desalento, o tedio, a indifferença por todos os grandes +sentimentos que nos agitam e nos elevam! O riso é a expressão mais energica do +desespero, quando elle tem um timbre satanico, que gela, e se repercute na alma +como o estampido de uma detonação que fulmina; então, mata mais do que a ponta +de um estylete penetrante, embebida no aconito baço, que fere e não deixa vêr a +cicatriz. Quem não ha soltado uma vez na vida uma d'essas risadas, que não seja +uma loucura, uma impiedade, uma provocação, uma mentira, talvez um crime? Um +dia ri tambem d'esse modo; é remorso que ainda hoje me punge.<span +class="pn">{42}</span></p> + +<p>Eu vivia ignorado, obscuro, trabalhando na minha agua-furtada, alimentado +pela febre da aspiração, pelo pensamento de exageradas vigilias; era a +contumacia da desesperação que me dava forças, e me fazia caminhar incansavel +sem saber para onde. Este vacuo da existencia amputava-me para todas as +distracções, via em tudo uma futilidade, sentia-me máo, com uma vontade de +torturar, de contradizer, de estar sempre em hostilidade com todas as idéas que +não fossem as minhas. A dialectica fôra para mim uma arma, que ao passo que a +manejava com mais presteza, me tornava mais intolerante. A solidão déra-me por +um excesso de vida subjectiva uma susceptibilidade tactil, tornava-me +perscrutador, analysta; pretendia lêr em todas as physionomias, deprimil-as +ante a minha consciencia, como um juiz boçal, que não póde convencer-se de que +o réo que interroga esteja innocente. Saía para as ruas, a luz opprimia-me, a +multidão atropellava-me, sentia-me olhado, como nos tempos do absolutismo +theocratico aquelle que vergava ao peso do anathema.</p> + +<p>Um dia saí para respirar o ár livre de uma bella manhã de verão; uma veia +sarcastica, provocadora, não deixava harmonisar-me com a serenidade da +natureza. Vinha pelo mesmo passeio um sujeito magro, fumando uma ponta de +cigarro. A distancia ainda comecei a analysal-o; cada vez que o fitava sentia +em mim uma hilaridade irrepressivel; parecia-me uma cara insignificativa.<span +class="pn">{43}</span> De mais perto representava-me uma incarnação do +grotesco, do comico objectivo, como se encontra nas goteiras das cathedraes da +Edade media. Trazia uma vestimenta velha, esfarrapada, que produzia uma +antithese perfeita com a sua edade. Mais ao pé, vi que tinha um fulgor de vida +nos olhos, o movimento, a expressão de uma intensa actividade interior. Eu +tinha caminhado para elle com um riso mofador, com pretensões a observal-o, +este casquilho em quinta mão, e fui-lhe ao encontro a pretexto de accender um +charuto.</p> + +<p>Conheci então o valor da phrase com que o povo exprime um desgosto intimo e +repentino: caiu-me o coração aos pés. Via n'aquelle fato esfarrapado de +escovado, a lucta de uma alma, que arcava com a miseria, de um homem, que +aspirava á decencia, e que proseguia temeroso, como conhecendo que a vestimenta +o degredava e o destituia de importancia, que um descuido qualquer o expunha +aos apupos da vadiagem. Assim explicava commigo aquelles áres affectados de +elegancia, que despertaram a risada, que resôou só dentro em mim. Era tambem +criança, tinha uma figura trigueira, uma certa vivacidade de movimentos, uma +timidez que se não accusa e se transforma em reconhecimento á menor +consideração.</p> + +<p>Pedi-lhe lume com um tom levissimo de ironia. A affabilidade desarmou-me; o +coração doeu-se ao primeiro impulso de sua crueldade. Tinha<span +class="pn">{44}</span> vontade de confessar-me seu amigo; era-o n'esse +instante, com todas as veras de alma.</p> + +<p>Dias e noites a imagem do pobre rapaz a fluctuar-me na mente; eu estava +indisposto commigo, procurava equilibrar a vida de modo que podesse alcançar +essa virtude sublime da <i>bondade</i>, filha quasi sempre da serenidade e da +superioridade de espirito. Era ainda cedo para mim. Não tornára mais a vêl-o: +julguei-o uma apparição diabolica, que viera inverter uma acção innocente da +vida em uma preoccupação, que me perturbava a tranquilidade.</p> + +<p>Uma noite, saia eu do theatro: o frio regelava os membros, a escuridão era +profunda como as <i>trevas visiveis</i> de que falla Milton. Esperei á porta +que escampasse. Por um acaso feliz deparei a meu lado com o mesmo sujeito que +um dia soube inverter-me um riso insignificativo em remorso. Tinha ainda a +mesma compostura, esse apuramento que fazia rir os que não soubessem penetrar +os dolorosos mysterios da sua existencia.</p> + +<p>O pobre rapaz, não sei que franqueza leu no meu rosto, que se chegou para +mim. Poz-se a commentar o espectaculo; pouco depois, estiou e partimos juntos. +Até aqui nada de interessante.</p> + +<p>—Quanto mais estudo (disse-me elle, cansado de andar e de fallar), tanto +mais se me alarga a solidão do espirito; cada dia encontro menos pessoas com +quem prive, caminho, e a cada passo me vão ficando mais longe. Quem não +entender<span class="pn">{45}</span> isto e se revoltar contra a minha frieza, +dirá que é orgulho, e egoismo até; os que se doerem de mim dirão que é +misanthropia. A meditação é como um segredo, que pésa quando não ha a quem se +conte; mas se eu encontrasse uma mulher a falar-me de amor, sacrificava-me a +ella, para vêl-a mais ditosa que a pobre Frederica de Göethe. É a primeira vez +que conversamos. O meu amigo deve estranhar esta liberdade; sou assim, amo a +franqueza quando não busca rodeios para convencer, e tem a força da expansão +sincera, a ingenuidade simples, que não sabe alliar a amisade com as +pragmaticas. A franqueza d'este modo admira-se, e eu tanto mais, porque a tenho +visto sempre usada como pretexto para dizer insultos impunemente. Acho-me +solitario no meio da sociedade, e tenho ainda não sei que terror de me vêr +perdido, atropellado entre as massas. Vivo assim desde criança; como criança +fui tambem poeta, cantei porque tinha medo, queria distrahir-me. Eu chamo-lhe +meu amigo, porque me escuta; era quanto bastava para lhe ficar reconhecido. A +maior parte das pessoas que me ouvem riem-se de mim. Falo sobre a genese das +religiões, a origem dos governos, as relações da arte com a sociedade, todos os +grandes problemas que nos agitam; abanam a cabeça, e dizem com ár compassivo: +«Utopias dos vinte annos.» Outras vezes, descrevo a formação da terra, procuro +explicar as evoluções da anthropogenia com a cosmogonia, o aperfeiçoamento<span +class="pn">{46}</span> dos sêres e a sua decadencia pelo gráo do calor que a +materia conserva e vae irradiando; obedeço á pressão da causalidade que me +obriga a explicar a mim mesmo os phenomenos que vejo, e riem-se, perguntam-me +onde estudei, que diplomas tenho das Academias, e voltam-me as costas +ludibriando-me, porque não querem admittir a sciencia sem a auctoridade, vêem +como profanação um leigo explicar o que só está á altura da intelligencia dos +cathedraticos. Tenho tido muitos d'estes desgostos na vida. Os homens que têm +certa bondade, tambem me dizem, que a edade me fez todo idealista, que os annos +me darão um caracter pratico de que careço. Ás vezes, tendo passado a noite em +vigilia a pensar, cheio de frio, com fome, canso-me a fallar, para receber, ao +cabo de um esforço inaudito, uma gargalhada brutal. Deos sabe quanto custa +affazer-me á solidão absoluta. A solidão, é verdade, devasta o espirito, porque +obriga á representação interior, dando-lhe um relêvo maior do que a realidade. +Serão utopias tudo quanto tenho na cabeça? É uma lei natural. Ha na vida +intellectual dois periodos, um de creação, outro de realisação. Hoje concebo um +ideal que não posso determinar; porque ha de vir tempo em que saberei sómente +dar fórma ao que senti. Convem não rir desapiedadamente de todas as theorias da +mente febril da mocidade, porque ao approximar-se a edade esteril da força, +quem ha de realisar o que não ideou? Bem sei que um grande poeta<span +class="pn">{47}</span> disse antes de mim: «Uma grande vida, é um pensamento da +mocidade realisado na edade madura.» Em tudo isto vejo uma força desoladora no +homem, que o domina em tudo, e era pela analyse d'ella que poderiamos entrar na +essencia dos actos de sua vida—é o egoismo. Quando o homem se vê compellido a +reconhecer uma superioridade no seu semelhante, fórma d'elle um semi-deus, +porque, então já não é outro homem que o sobrepuja. Christo é uma idéa +transmittida ás gerações, que ellas concretisaram em um nome para +comprehendel-a. E depois, porque um homem egual a nós a manifestava, o egoismo +salva-se fazendo-o—filho de Deos. Arranca-se a <i>Illiada</i> das mãos de +Homero, porque o orgulho do homem não consente que o homem o exceda. Vico +representa na sua hypercritica a humanidade. Perguntamos, quem inventou a +alavanca antes de Archimedes demonstrar a sua lei? quem descobriu o parafuso, a +serra, bases de toda a mechanica? O egoismo occultou quanto pôde o segredo; +apenas a mythologia responde com uma divindade allegorica, um Saturno, Perdice, +Pan e Triptolemo.—</p> + +<p>O pobre rapaz falava de um modo precipitado, convulsivo, como se lhe +faltasse o ár. A escuridão da noite não deixava lêr-lhe no rosto a volubilidade +da expressão. De repente, parou á porta de um casebre velho, situado em uma +viella estreita e infecta. Pediu-me para subir. Eu não podia resistir-lhe; cada +palavra vibrava-me cá<span class="pn">{48}</span> dentro como um arranco. Fomos +tacteando nas sombras, por um caracol de escadas carcomidas, que nos faltavam +aos pés. Ia-se-me esclarecendo o mysterio d'aquella existencia. Por fim +chegamos a um quarto pequenino e baixo, com um ár mephitico, saturado de fumo +de tabaco. Elle acendeu uma vella de cebo roida dos ratos, que tinha presa no +gargallo de uma garrafa; a enxerga com uma manta embrulhada achava-se a lastro. +A miseria arripiava-me. O pobre rapaz deitou-se sem forças; vi-lhe então, á luz +mortiça, uma pallidez cadaverica. Tive medo do seu silencio. Elle estava +envergonhado de tanta indigencia, e procurava rir-se, ridicularisando-a:</p> + +<p>—Não extranhe vêr-me n'esta trapeira; ha uma analogia entre ella e a minha +cabeça, onde as idéas refervem em tropel confuso, e se conflagram e se +destroem. Estas teias de aranha são ás vezes a minha distracção nas horas de +enfado; divirto-me como o Mascara-de-ferro, como Spinosa, Magliabechi e Silvio +Pellico. É em que me pareço com os grandes homens. Deixemos isto; conversemos a +serio diante de quem não sabe rir-se de mim. Eu tambem tenho pensado na +organisação de uma sociedade perfeita, como Platão e Cicero, Campanella, Thomaz +Morus e Fenelon; mas só encontro essa perfeição no momento em que os vinculos +do direito que prendem as nossas relações sociaes, e os mysterios e terrores +que as religiões incutem, fossem excluidos pelo desenvolvimento completo da +idéa<span class="pn">{49}</span> do <i>Bello</i>; quando deixassemos de +praticar uma acção, que vae contra as maximas do direito ou da religião, não +por ser injusta ou immoral, mas porque repugna ao sentimento do bello. A Arte +sobre tudo! é ella só que nos póde alcançar conjunctamente a perfeição +plastica. Assim a anarchia, a negação absoluta de todo o governo fóra de nós, +constitue o ideal do estado; a lei era a consciencia de cada um, a consciencia +sempre incorruptivel a todo o interesse egoista. Porque a Arte é synthetica, +mais do que a religião, a philososphia e a moral, porque só ella faz o accordo +incondicional das vontades por uma emoção universal. Como chegar um dia a esta +perfectibilidade! Não se vae lá de repente, a natureza não dá saltos. As +revoluções pela idéa pódem tudo; não se confia n'ellas, nem se emprehendem, +porque os resultados só os gosa o futuro. É esta sciencia nova da Sociologia +que ha de levar mais longe a humanidade. A Edade media, o grande lethargo +depois da civilisação da Grecia e Roma, foi ampliada pela passividade mystica +do christianismo; é uma impiedade que ninguem talvez acredita. A esmola, a +onzena sobre a bemaventurança, era o principio da dependencia e da +desegualdade, a aniquilação do trabalho e da actividade; a reprovação dos +juros, o stigma impresso sobre o judeu, elemento industrial na sociedade +nascente, eram a inercia do capital e do espirito de empreza. A verdadeira +doutrina é um cathecismo popular de economia social. É por esta<span +class="pn">{50}</span> sciencia que nos ha de vir a libertação, desde que o +homem reconheça que produz mais do que consome. O trabalho é o unico titulo da +propriedade, a sanctificação da vida. O trabalho é para mim uma consolação, um +orgulho; sou como Plauto, que fazia rodar um moinho, e nas horas de descanço +escrevia as suas comedias; como Spinosa, que gravava vidros para se alimentar +nas horas em que se absorvia no quietismo do pensamento e ampliava a synthese +physica de Descartes á moral humana; eu toco na orchestra de um theatro; de dia +penso.</p> + +<p>E o pobre rapaz parou em meio, de cansado; depois recomeçou, fazendo-me a +historia do trabalho:</p> + +<p>—O homem ao destacar-se do ultimo élo da cadeia dos sêres, sentiu-se forte +e senhor da terra. A natureza offerecia-lhe por toda a parte seus peitos +uberantes, e este rigosijo de harmonia ligava a sua existencia á vida +pantheistica do universo. A grandeza do homem n'este cyclo genesiaco, +symbolisaram-na os escriptores sagrados no reflexo de graça e de innocencia que +descia das alturas sobre a sua fronte; os escriptores profanos, menos +inspirados pelo idealismo espiritual, retrataram-a na plastica, nas fórmas +gigantes do corpo e na magestade homerica de uma estatura heracleana. N'este +primeiro dia, foi o homem como os anjos, via e falava face a face com a +divindade; n'este primeiro dia foi um gigante da terra, dominava pela força +cyclopica. Ambos<span class="pn">{51}</span> os dois mythos têm um fundo de +verdade revelada pela inspiração e intuição do passado aos prophetas da +historia. Senhor e rei na creação, o homem deixou-se enleiar no seio voluptuoso +da natureza. Admirou e caiu adorando. N'esse instante descobriu a sua nudez, e +escondeu-se; sentiu a fome e a sede e as dôres do desterro. O outro mytho, mais +violento e terrivel, para filiar n'essa queda o naturalismo e +anthropomorphismo, fal-o <i>mergulhar no bruto</i>, e o satyro, o minotauro, é +o homem a confundir-se na cathegoria inferior dos primates. Á queda succedeu a +rehabilitação, como ao occaso a nova aurora de luz. Era a lei eterna das +antitheses. Foi o trabalho o signal da rehabilitação, será o caminho para a +apotheose. <i>Sic itur ad astra.</i> Nos mythos do Oriente, tenebrosos e +tragicos, o trabalho é um stigma que pésa sobre o homem, é a dor, a +atribulação, é a terra produzindo cardos e espinhos, fecundada pelo suor do seu +rosto. É o enigma da vida a ser iniciado pelo soffrimento e o soffrimento a +retratar a vida nomada da raça primitiva, na sua passagem através do dezerto. +Nos mythos do Occidente é sublime o ideal do trabalho: ahi é a gloria dos +semi-deuses, é a vida errante mas heroica. Chiron ensina o mysterio da força. +Os <i>trabalhos</i> de Hercules, os <i>trabalhos</i> de Theseu, eis outros +tantos passos para a elevação do homem, perdidos hoje completamente nas sombras +imperscrutaveis do mytho. Nos <i>trabalhos</i> de Jason e dos Argonautas +está<span class="pn">{52}</span> symbolisada a inauguração do commercio de toda +a raça jonica. No Oriente, o trabalho é uma fatalidade religiosa, um anathema +do primeiro passo do homem. O christianismo, creado no berço de todas as +religiões, vindo da Asia, transportou comsigo o mesmo dogma fatidico, mas com +expiação. Suavisou o golpe da espada flammejante, que lançou o homem fóra do +Eden. Exagerou a culpa para perdoar o castigo; suscitou no interior do homem +uma luta, luta escura e tremenda, um <i>eu</i> a combater outro <i>eu</i>, a +carne a revoltar-se contra o espirito, a confusão e o cahos onde havia a ordem +e a harmonia, e para este dualismo desesperado apontou como panacêa—o +trabalho. D'esta idéa proveiu um diluvio de sangue para rehabilitar a raça +futura; foi o sangue dos martyres; a arca fluctuante a egreja; o ramo de +oliveira, representando a paz universal e a fraternidade a cruz. Só tarde estes +symbolos foram comprehendidos; tinham sido como o enigma da Sphinge, que +devorava os que iam passando. O christianismo ao ideal do trabalho-pena ligou a +universalidade. Na Edade média a ordem social era classificada pela propriedade +territorial; a posse era a caracteristica do senhor, o trabalho da cultura o +ferrete do servo. A Edade média feudal é uma antinomia na historia; a +influencia manifesta do christianismo é a communa. O abraço dos povos pelo +trabalho do commercio e da industria, eis o segredo das riquezas de Pisa, Gand, +Veneza, Genova, Bruges e Florença, ao pé da barbarie dos<span +class="pn">{53}</span> estados feudaes. <i>Virtus unita fortius agit.</i> No +dia em que o homem descobriu a alavanca, o parafuso, a força da agua, foram +outras tantas fadigas de que aliviou seus hombros, sobrecarregando-as na +natureza. Hoje o trabalho não é o sello da culpa segundo a antiguidade biblica, +não é o signal da escravidão como na Edade média, nem o tributo dos párias, +como concebia Aristoteles: hoje é o symbolo da dignidade do homem. São as +machinas que vão conseguindo pouco a pouco esta realeza do homem sobre o +universo. O hymno do trabalho eleva-se por toda a parte, e as strophes +perpetuam-se ao estrepito das grandes descobertas de Galvani, Fulton, Watt, +Pascal. Pelas machinas ganha o homem tempo á custa da força, mas força +dispendida pela natureza. Virá uma epoca em que elle se liberte do trabalho +material; abre-se então outro horisonte mais vasto—o trabalho da +intelligencia. Prometheu ergue-se dos rochedos caucasicos, não para roubar o +fogo celeste, porque é Deos, mas para atear aquelle que occultou longo tempo no +encéphalo. O homem desprender-se-ha da animalidade para absorver-se no anjo. Se +elle se destacou de uma animalidade inferior, não está terminada a sua +progressão ascencional. Esta theoria explica já a prodigiosa actividade e +precocidade intellectual d'este seculo.»</p> + +<p>A voz foi-se-lhe enfraquecendo, até que se calou; estava macilento, +tiritando de frio; a vista com um brilho phosphorecente, felino. Depois de<span +class="pn">{54}</span> alguns instantes de silencio, disse-me com um modo +secco, que não comprehendi logo:</p> + +<p>—O succo gastrico é bastante corrosivo e dilacera-me as fibras do estomago. +</p> + +<p>Conheci que era a fome que lhe dava esse aspecto, essa consumpção em que o +via prostrar-se. Disse-lhe que esperasse um instante, e sai á pressa para +comprar em uma espelunca uma posta de peixe. Quando voltei, a luz bruxuleava +quasi a extinguir-se; o pobre rapaz estava voltado para a parede. Sacudi-o. +Achei-o frio, com a rigidez cadaverica.<span class="pn">{55}</span></p> + +<h1>Beijos por facadas</h1> + +<h3>(<small>CONTO DE UMA SERENADA EM HESPANHA</small>)</h3> + +<h2>I</h2> + +<h2>A guitarra</h2> + +<p>Corria lenta e socegada a noite. Ha n'estas vozes indefiniveis das horas +mortas a suspensão de um segredo, que se não articula; o silencio remoto parece +escutar as musicas de dentro, que se espraiam na alma, como os sons eólios que +a brisa entorna da escarpa.</p> + +<p>O céo estava profundo e puro, recamado de estrellas, brilhando silenciosas, +absortas nas côres spectraes de sua luz, com que confidenciam e exprimem entre +si as sonhadas harmonias das espheras. Cada traço radiante que se projecta nos +áres lá vae perder-se n'um fasciculo mais intenso, pensamento de amor, energia +inextinguivel que<span class="pn">{56}</span> vôa a despertar e embalar um +devaneio ditoso, que não finda.</p> + +<p>Os ventos sopravam macios, remurmurejando na folhagem verde; a veia +crystalina e sinuosa do Manzanares derramava seus aljofres, onde se reflectiam +as graças e a alegria das myriades de astros que bordavam a cupula do empyreo. +</p> + +<p>Soaram vagarosamente, como as palavras de uma sentença irrevogavel, onze +horas na torre da Cathedral. A vibração argentina do sino, ondulando na calada +da noite, fazia escoar-se pelo corpo um estremecimento gelido, como o pingo de +agua que se infiltra das stalactites e cae, de quando em quando, no pavimento +petrificado de uma gruta escura e sem fim.</p> + +<p>E a noite proseguia lenta e socegada. Pouco a pouco, uma viração travessa, +vinda dos valles longiquos, dispersou nos céos uma nuvem espessa, que se havia +levantado das bandas do mar. Assomou um leve resplendor, um clarão incerto na +cima dos montes; depois, os arvoredos deixaram jorrar por entre as ramas +entrançadas um alvor suave. Era a lua que se alevantava serena do topo das +serranias, ostia branca erguida na reconcentração intima dos mundos. Á luz +diaphana e branda, que devaneios principiados e interrompidos no vago das +aspirações que não têm realidade! que confissões vehementes, que palavras +sentidas, que protestos fogosos, apaixonados, gerados pelo influxo da saudade e +da melancholia!</p> + +<p>Á luz tranquilla do astro dos namorados, meditava<span +class="pn">{57}</span> distrahida em seu balcão, virgem, enleiada nos +caprichosos desejos que lhe tumultuavam no coração infantil. Quinze annos! a +efflorescencia da vida no seu viço exuberante; as alegrias perennes, sem +motivo, um transporte a cada sensação que se ignora e que o acaso revela! +Quinze annos! e o peito a palpitar apressado a cada presentimento de +ventura.</p> + +<p>Estava em seu balcão a donzella timida; as tranças soltas, espalhadas pelos +hombros, eram os jorros de uma catadupa que se despenha; respirava anciada, +como quem acabára de brincar e sente na fadiga, que a prostra, a tentação de se +precipitar novamente na vertigem da corêa que passa ligeira como um volteio de +fadas em areal deserto.</p> + +<p>A lua illuminava-lhe o semblante com a magestade com que se reflecte n'uma +janella gothica. Parecia adormecida, criança, embalada pela toada das harpas +dos seraphins, que a vinham abrigar do rocio da noite debaixo da sombra de suas +azas brancas. O vento levava-lhe as roupagens longas, que fluctuavam como uma +nuvem rescendente que a envolvesse.</p> + +<p>Ella não estava adormecida, scismava. Que mysterios intraduziveis de amor +não lhe viria descobrir esta hora! A natureza, mais velha e experiente, vinha +ensinar sua irmãsinha, mostrar-lhe os philtros que um sorriso esconde, a +fascinação de uns olhos humidos de volupia. Sentiria ella as primeiras notas do +amor, pulsando levemente dentro do peito?<span class="pn">{58}</span></p> + +<p>O sitio, a hora, a mudez confidente da noite tepida e sombria, tornavam +propicias as palavras timidas, balbuciadas tremendo, com um languor +communicativo.</p> + +<p>A este tempo a lua brilhava esplendida de encantos pela amplidão celeste. A +donzella cada vez apparecia mais radiante de graça; o luar tornava-a mais +bella, como em uma transfiguração repentina.</p> + +<p>Será uma realidade a existencia d'este typo divino? Será uma creação apenas, +uma visão chimerica da mente do poeta? Um sonho que a arte sabe encarnar e +insuflar-lhe o sentimento de Rosina, quando espera anciosa detraz do cortinado +alvejante Almaviva, a identificação de um sêr n'outro sêr? Não. Como uma filha, +a mais linda das filhas de Eva, irmã das que foram amadas pelos anjos que se +esqueceram do céo, ella tambem sente e ama. É Marcella, Marcella, o sol da +velhice do grande poeta da Hespanha Lope da Vega.</p> + +<p>Cançado de triumphos, de glorias e pesares, o cantor de <i>Dorothea</i> +ama-a, como um viandante do deserto que ama a brisa fresca da collina que lhe +vem alentar os pulmões exhaustos. Coração immenso de um pae, que enlouquece de +alegria ao vêr perpetuar-se-lhe no mundo a intelligencia, os sentimentos que o +animaram e lhe trouxeram soffrimentos e glorias, n'aquella que o abraça como +uma vergontea airosa á sombra do roble secular.<span class="pn">{59}</span></p> + +<p>Marcella é o seu pensamento predilecto das horas pacificas da existencia, a +que ha de herdar-lhe o manto prophetico com que o pae penetrava nos mundos da +poesia. Poeta, enleva-se diante da sua obra, a ideal Galathea, onde vive uma +alma afinada pelas mesmas harmonias; ama-a, com que ternura! <i>É mas galan que +padre.</i></p> + +<p>Marcella estava distraida ao luar no balcão; era na rua dos <i>Francos</i>; +estava deserta e escura pela sombra. Começou então a sentir-se um som +incompleto, como o gemido de um queixume que expira; depois, mão ignota a +dedilhar vehemente, com força, nas cordas de uma guitarra. As auras levavam as +melodias, ais de um peito que gemia de amor em segredo, e que ia ditando ao +instrumento sonoroso as palavras, que não podia proferir. O silencio da noite +destacava as notas delirantes, como o azul a um carbunculo que scintilla.</p> + +<p>A innocente criança despertou do sonhar aério em que permanecera absorvida; +comprehendeu a linguagem suprema do sentimento, era a primeira confissão de +amor que escutava na vida. Receiou correr o cortinado. Era a innocencia na sua +timidez. A curiosidade, o orgulho de criança a impellia; começava a sentir-se +bella, formosa. Debruçou-se desprevenida ao balcão, mirou, prescrutou nas +sombras. A guitarra fascinadora emmudecêra.</p> + +<p>Depois, ella viu dois vultos aproximarem-se,<span class="pn">{60}</span> +traçarem as capas, desembainhando as espadas reluzentes. A mudez tornava +assombroso o recontro. Os ferros cruzaram-se faiscando; eram os rivaes, que se +encontravam ali, levados pelo mesmo amor e pelo mesmo odio, a grande +contrariedade d'este sonho da vida. Não se ouvia um gemido; os botes eram a +fundo. Uma espada tiniu no chão partida; o outro galanteador, generoso, deixou +a sua de mão e sacou um punhal do cinto. Era um duello a todo o transe, questão +de vida ou de morte. Marcella nada discriminou nas sombras; sentia apenas o +fragor de uma lucta porfiada. O outro rival alçou o punhal tambem; arrojaram-se +aos braços um do outro, espumando de raiva, cozeram-se de facadas +desapiedadamente, até que, escoados em sangue, cairam desfallecidos.</p> + +<p>O vento da noite refrescava; a lua mostrou-se no seu esplendor e deixou ver +o campo do torneio. Marcella recolheu-se aterrada para o seu aposento; orou a +noite toda ante o retabulo de Santa Maria d'Atocha, promettendo fechar para +sempre o seu coração ao amor do mundo.</p> + +<h2>II</h2> + +<h2>La blanca palomica</h2> + +<p>Depois dos inesperados transes e provações, a que ás vezes a alma resiste +para novos desastres,<span class="pn">{61}</span> Lope de Vega fugiu ás +tempestades da vida, envolvendo-se no burel de uma ordem penitente, unindo a +contricção e a poesia no mysticismo radiante das effusões lyricas com que +desabafava nas horas comtemplativas. Quando o espirito solitario descia á terra +e se deixava tocar pela dor, tinha então o encanto da sua prole, dos filhos que +estremecia. Como se não lembrava elle, com pesar e saudade indelevel, do seu +pequenino Carlos, côr de lirio e de rosa, quando vinha acariciar-lhe a alma com +umas palavras de ternura infantil, quando o via pular de contente ao vir o dia, +como uma antilope nos prados, quando os seus vagidos eram um gorgeio +entrecortado que lhe pareciam um vaticinio encantador! Pobre criança, ainda +coberto do orvalho matinal, de te expandires á bafagem perfumada da nova +aurora, quando, lirio fanado pela geada, desappareceste na terra para seres +transplantado no céo.</p> + +<p>O poeta buscava consolação na poesia; era ella que o cercava de uma aureola +de felicidade. Distraia-se cuidando do seu pequeno horto. Era a imaginação que +o revestia, aquelle exiguo canteiro, ornado apenas de duas arvores, dez +florinhas, uma laranjeira e uma roseira, onde casualmente cantavam os +rouxinoes, e onde dois cantaros de agua formavam a fonte, que gemia e adormecia +seus pesares. Contenta-se de pouco a natureza; elle não trocava este canto da +terra nem pelo monte Hybla, nem pelo valle fertilissimo de Tempe, nem pelos +jardins suspensos de Semiramis,<span class="pn">{62}</span> como elle proprio +confessa; porque a phantasia creadora reveste-o de todas as graças de um +paraiso sonhado, mostra-lhe columnas brancas de marmore com inscripções +gloriosas, fontes que jorram e se despenham em borbotões de perolas e aljofres, +lagos profundos e limpidos sulcados por canôas que desfraldam as vélas como +cysne voluptuoso que deslisa, rodeados de sombras amenas e encantadoras de +arvores soberbas similhando os gigantes da terra, a vinha entrançada aos +platanos, dourada pelo sol de agosto, bustos entre a ramagem espessa, satyros +que se adormecem ao som da lympha fugitiva, nymphas travessas errando na relva +macia, que tapeta o recinto... É um sonho de poeta na sua soledade. Que tem que +seja uma ficção esta magnifica paizagem? Elle sente as emoções que lhe traz o +retiro que fórma, e para onde se refugia.</p> + +<p>Seu filho levado pelos brios cavalheirescos, pelo impulso dos quatorze +annos, deixou-o para seguir a expedição contra os hollandezes e os turcos. Uma +catastrophe desastrosa veiu roubar-lhe mais esta esperança; a náo em que +partira havia soçobrado.</p> + +<p>Restava-lhe só junto de si Marcella, para amenisar as horas lentas e +enfastiadas da velhice. O pae offerecia-lhe seus livros, dedicava-lh'os, +pedindo que os corrigisse; ella reunia ás graças do corpo, a harmonia da +plastica com um sentimento delicado, uma penetração viva e lucida. O poeta +recebêra todas as consolações do<span class="pn">{63}</span> céo n'aquella +filha; era a sua creação mais perfeita, a admiração dos poetas do seu tempo, +era todo o seu orgulho.</p> + +<p>Marcella começou a apparecer triste; tinha na face a pallidez da planta que +esmorece. Nem uma palavra só de queixume; a mesma abstracção sempre! Os labios +pareciam emmudecidos pelo sello do mysterio. Cercava-lhe os olhos languidos um +disco roxo de maceração, ennublava-lhe o semblante a preoccupação de uma dôr, +que não sabia confessar. Quando Lope a chamou para de junto a si, e a estreitou +nos braços beijando aquella flor da mocidade que o Senhor fizera brotar de suas +ruinas, sentiu uma dilaceração interior, ao ver uma lagrima pura, candida, +ingenua, resvalar-lhe na face em que a dôr empanava o viço infantil:</p> + +<p>—Oh minha filha! quem podera adivinhar o segredo de tua angustia, e +inverter os pensamentos afflictivos de magoa n'um extasis perenne de +felicidade. Marcella, Marcella! Eu dizia-te um dia, lembras-te ainda? era +n'aquelle livro, que o presentimento me fez intitular <i>Remedio na +desdita</i>: «Deus te proteja, e te faça ditosa, postoque teus dotes o não +consintam, principalmente se fôres herdeira do meu destino.» A coróa de gloria +que me cinge sangra-me na fronte com dolorosos espinhos; o que a poesia me ha +ditado tenho-o soffrido primeiro. Tu, alma da minha alma, vás pisando a mesma +via dolorosa. Ergue-te d'essa prostração do desalento em que te deixas cair! +Conta-me o que assim<span class="pn">{64}</span> vem perturbar teus pensamentos +tranquillos, roubar-me as tuas caricias que me fazem rejuvenescer? Eu não sei +como amparal-a, interrogal-a, sem que esta planta mimosa languesça como a +sensitiva. Menina, moça, ignorando a vida, acordaria ella senhora? Leval-a-hia +o amor em sonhos ao seu mundo de aspirações infindas? Ella inclina-se sobre meu +hombro e chora. Como posso eu consolal-a, dar-lhe as esperanças que não tenho e +que de ha muito me desampararam? Marcella! Ergue a tua cabeça; deixa-me vêr-te, +beijar-te, enxugar as tuas lagrimas, filha. Dize-me o que te afflige tanto. +Pobre creança, ella cada vez me estreita mais a si.</p> + +<p>—Oh meu pae! eu não sei o que me faz tão cedo aborrecer as galas, as +seducções do mundo, e me mostra a vida como um dezerto invio, intransitavel. A +alma sente um vacuo que ninguem pode encher. É o christianismo que me faz +germinar no espirito este sentimento vago, uma sêde d'esse goso sem limites da +visão beatifica, uma aspiração, um desejo ardente de regressar á eterna patria, +de me confundir nos córos archangelicos, ao som do trissagio perenne. A +natureza por mais esplendida e vicejante, as flores de aromas mais exquisitos, +o céo mais admiravelmente cravejado de estrellas, o azul, o espaço aberto, +causam-me o desgosto que havia sentir Moysés do alto da montanha vendo ao longe +a terra promettida e sem poder attingil-a. Quanto mais me sinto enleada n'este +encanto divino da<span class="pn">{65}</span> contemplação interior, +torna-se-me mais intenso o desejo de abandonar o desterro d'este valle de +lagrimas, quebrar os vinculos da carne, e acordar no empyreo. Este corpo que me +déste é a prisão em que a alma suspira e anceia por soltar-se; ella é a escrava +da Escriptura que vaga á mingua de uma gôta de agoa no dezerto: ella tem diante +de si um abysmo, que precisa transpôr sem o fitar. Eu senti em sonho este +hymeneu recondito e incomprehensivel do amor divino. O Amado erra pelas +brenhas, chamando a Esposa perdida. Eu não me posso elevar até Deus, o <i>Deus +absconditus</i>, pela intelligencia, como os doutores; deixae que a alma vulgar +e humilde, desconhecendo essa vereda intrincada, caminhe conduzida pela +intensidade do seu desejo á eterna fonte suprema do bem. Eu quero professar em +um mosteiro, seguir a regra da penitencia austera, voltar para a arca santa, +como a pomba do diluvio. Quero envolver-me no burel, mergulhar-me na escuridão +de uma cella, e scismar embalada nas musicas do extasis.</p> + +<p>—Marcella! para que vaes tornar assim a minha solidão mais dolorosa? Teu +irmão, perdi-o ainda tão criança! Eras só tu que me restavas no mundo. Sem ti, +de que serve a vida que levo devorada pelas recordações do passado. Eu perdi +uma esposa, que asserenava em meu coração as tempestades do amor. Tinha em ti +meu unico refrigerio, e desamparas-me quando me vejo mais só! Pobre filha! Terá +ella vergonha do mundo?<span class="pn">{66}</span> do seu nascimento +illegitimo? Que provação tão dura e repentina me estava reservada em castigo de +uma mocidade turbulenta! Vae, filha, corre aos braços do divino Esposo: elle só +póde dar-te a grinalda immarcessivel, servir-te com uma legião de anjos. És o +ultimo ramo virente que o destino arranca de um tronco carcomido pelos annos. +Vae, vae.—E apertou-a nos braços a chorar como uma criança.</p> + +<p>Tempo depois, a engraçada filha do maior e mais fecundo poeta de Hespanha +entrou para o convento das Carmelitas descalças, em Madrid. Lope de Vega +descreve esse abandono do mundo com expressões sentidissimas:</p> + +<p>«Marcella, o primeiro pensamento do meu amor paternal, cuidava em casar-se, +e uma noite me disse o nome d'aquelle que desejava para esposo.</p> + +<p>«E eu, que sabia quanto é prudente deixar amadurecer um tal pensamento, +porque ha decisões que provêm de causas accidentaes, fiz minhas excusas, +esperando sempre não contrariar seus desejos, se elles se fundassem na verdade +de sua alma. Mas vendo cada dia esse desejo a augmentar-se, determinei-me +dar-lhe esse esposo, que sollicitava seu amor. Esse esposo é bello, é rico, é +sabio, e de uma estirpe illustre, e seu pae é nada menos do que todo poderoso. +Eu juro que por parte de sua mãe é de sangue real, e que ella é tão boa, que +não ha attractivos, nem virtudes que não possua. É uma mãe tão cheia de graça, +que pelas suas mãos Deus a dispensa<span class="pn">{67}</span> ao mundo. Ella +é juntamente rosa e lirio, cypreste e palmeira.»</p> + +<p>A egreja estava ornada como o thalamo de um noivado. Então, o poeta viu sua +filha n'esse dia com uma graça, uma belleza, uma perfeição inexcedivel, que a +alegria fazia realçar sobre os dons da natureza, que o contentamento animava de +vivacidade e elegancia. O esposo recebia-a nos seus braços carinhosos. O amor +divino transfigura-se sempre na infancia. Myriades de luzes, damascos e +brocados enfeitavam o aposento nupcial.</p> + +<p>«Marcella,—continua o poeta—as faces coloridas como duas rosas, e os +labios como banhados por um sorriso honesto, fitou-me: o ultimo adeus que +separava duas existencias.</p> + +<p>«Sua alma trasbordava de felicidade com esta vocação; e por um ultimo adeus +de seu corpo, ella voltou costas a tudo que o mundo chama festas e prazeres. +</p> + +<p>«Depois, offerecendo ao joven esposo sua casta grinalda de virgem, ella +estreitou-o a si, cobrindo de beijos seus olhos de esmeralda.</p> + +<p>«O céo fechou a porta ao meu coração cheio de amor paternal; arrebatava-me a +melhor parte da minha alma; e eu era o unico a lamentar n'esta multidão de +espectadores. Tornámos á egreja; a desposada deixara seus habitos de festa, os +enfeites, para envolver-se no burel grosseiro. Suas tranças foram cortadas, +porque, como as outras virgens que povoavam o côro, ella não devia ter para ser +bella, mais do que a sua belleza.»<span class="pn">{68}</span></p> + +<p>Sente-se n'estas palavras do poeta a dôr do coração de um pae, a quem todo o +sentimento e uncção religiosa não podem consolar. Verga diante d'essa agonia, +resigna-se. Passado o anno do noviciado ainda o coração virginal de Marcella +palpitava com o amor divino. Pronunciou os votos, e professou.</p> + +<p>«Ella dormia sobre a palha fria e dura, e andava descalça; o corpo andava +occulto em uma vestimenta humilde; só os olhos eram a expressão de sua alma. Oh +bemaventurado desengano das cousas da terra!—exclama o poeta na solidão do seu +amor.—Esta virgem tão bella, tão casta, tão pura, consagrou a Deus os seus +dezesete annos!»</p> + +<p>Estes desgostos da vida foram-o levando á sepultura; Lope de Vega succumbiu +no auge da admiração. O seu funeral foi imponentissimo, como o de Miguel +Angelo. Marcella, a intelligente filha do poeta, pediu para o cortejo passar +pelo convento das Trinitarias descalças. No momento em que o préstito parou +diante do mosteiro, viu-se apparecer por entre as grades avaras um semblante +macerado por uma dôr lenta. Era Marcella chorando a morte do pae, talvez +pungida pelo abandono em que o tinha deixado. Instantes depois, sumiu-se na +escuridão da cella, e ninguem soube o que a levara na candura dos dezesete +annos a abandonar seu pae na desconfortada velhice.<span +class="pn">{69}</span></p> + +<h1>A Ogiva sombria </h1> + +<blockquote> + <p>Sem duvida, no tempo da mais bella flôr da architectura gotica, quando foi + construida a cathedral de Colonia, ligava-se uma grande importancia a estes + numeros symbolicos, porque a concepção ainda confusa das idéas racionaes, + contenta-se facilmente com estes signaes exteriores.</p> + + <p + style="text-align:right;margin-left:auto;margin-right:0;">H<small>EGEL</small>—<i>Esthetica</i>.</p> +</blockquote> + +<p>A Cathedral! a creação suprema da Edade média, em que a arte, pelo +sentimento, em uma strophe de pedra, sabe concentrar o espirito radiante do +christianismo, pela força audaciosa do symbolo! Ella representa a aspiração +incessante da alma que se eleva para o céo; é ella como a Esposa dos +<i>Cantares</i>, que espera em silencio a visita do Amado, e se veste de suas +galas e realça de encantos. A curva suave da <i>Ogiva</i> imita uns párpados +languidos, uma pupilla scismadora, enleiada n'aquelle extasis sensual do amor +divino, que Thereza de Jesus sentia nos seus delirios mysticos; as +<i>flexas</i> atrevidas,<span class="pn">{70}</span> atiradas para os áres, a +linha a infinitivar-se, a perder-se no espaço, as <i>agulhas</i> bordadas, +rendilhadas, são os cabellos dispersos, fluctuantes da donzellinha, que se +assenta cansada de errar pelas brenhas e em volta da cabana dos pastores á +busca do amado. A <i>cupula</i> altiva, representando aquelle momento em que a +alma se desprende dos limos terrenos e se absorve toda na mystica unitiva, é o +collo, que o poeta dos <i>Cantares</i> comparava á torre de marfim que olha +para o occidente, e cuja magestade é similhante á da lua que se alevanta. +Miguel Angelo chama tambem a uma egreja, nas effusões do seu pantheismo +artistico, <i>mia sposa</i>.</p> + +<p>Cada monumento antigo é como uma fronte veneranda, enrugada pelos seculos, +animada por uma expressão profunda. Essa expressão é a linguagem dos évos, +creada pelo espirito que não póde contemplar um facto, acreditar na sua +existencia independentemente de uma idéa, de uma razão de ser que procura achar +n'elle. É a fatalidade do enigma do sphinge. As Cathedraes goticas reunem quasi +sempre a lenda piedosa com a lenda grotesca e diabolica; ellas são como a +incerteza da alma que paira duvidosa entre a possessão e o extasis. Umas vezes, +são os anjos que vêm de noite trazer de longe grandes blocos para a edificação +da fabrica, que lavram a pedra, que alevantam o mosteiro. É a inspiração do +anonymo nas obras grandiosas. Ás vezes, é o diabo, que com a mira em dilatar o +seu imperio faz tudo, e<span class="pn">{71}</span> transporta para a +construcção as melhores peças que rouba de outros monumentos, como uma columna +do templo de Diana em Epheso para o templo de S. Zenão em Verona. A alma do +architecto está retratada na sua concepção; receiando de suas forças para +realisar o ideal sublime dos sentimentos do christianismo nos monolithos de +marmore para que cria uma fórma, não teme evocar a potencia das trevas. Nas +Ogivas escuras, soturnas das Cathedraes goticas, nos arabescos extravagantes +das janellas esguias, nos monstros boqui-abertos que servem de goteiras, nos +basiliscos informes dos pedestaes, reflecte-se esta alliança do mysticismo +poetico com o mysticismo divino. Muitas vezes a Cathedral tem o mysterio de um +symbolo que se mobilisa para exprimir os sentimentos da humanidade; com as +invasões e descobrimentos maritimos ella toma a fórma de um navio voltado para +o Oriente, d'onde lhe vem a luz; tambem imita uma cruz estendida ao longo, como +na nossa maravilha de architectura, a Batalha, o poema da crença e do heroismo +de um seculo.</p> + +<p>Estamos em plena Edade média. A noite era caliginosa e tetrica; o coriscar +frequente dos relampagos, o ribombo estridente dos trovões repercutindo-se +distante, e o restrugir medonho da floresta, completavam as harmonias +intraduziveis da tempestade. A alma, diante d'este espectaculo estupendo da +natureza, sentia uma pressão que a fazia concentrar-se possuida do sentimento +do infinito,<span class="pn">{72}</span> a que os homens que tudo indagam e +submettem ás formulas metaphysicas chamam—o <i>sublime</i>.</p> + +<p>Via-se através da escuridade absoluta das horas mortas um clarão incerto, +como de alampada veladora. Seria algum discipulo de Flamel ou de Lullo +absorvido pelos mysterios da alchimia, submettendo a materia, interrogando este +Proteo eterno, que, a cada pergunta ostenta uma fórma diversa, e responde de +mil modos differentes, sem que cheguem a surprehender-lhe o segredo de sua +simplicidade? Seria um monge solitario enlevado na paz ignota da vigilia, +procurando, no silencio da noite, elevar-se pelo coração até Deus? A luz +jorrava da janella do aposento humilde e sombrio. Dentro, sentia-se o respirar +cansado de um peito oppresso; a alampada espalhava em tôrno uma penumbra em que +fluctuavam as visagens caprichosas de uma mente tresvariada, e vinha +reflectir-se pallida, descorada sobre o rosto macilento, em que os gestos davam +uma expressão incomprehensivel como os pensamentos que o agitam. Via-se +n'aquelle rosto impressa a anciedade dos que penetram pela intuição a verdade +de um problema insoluvel, e uma distracção leve lh'a fez esquecer. Sobre uma +mesa estavam pergaminhos extensos, desenrolados, cobertos de linhas +cabalisticas, com que se evocam os espiritos nocturnos, compassos e +astrolabios, espheras e mappas.</p> + +<p>Era alli que morava mestre Gerardo, o architecto<span class="pn">{73}</span> +da Cathedral de Colonia. Estava contemplando o traçado da sua obra; a +physionomia animava-se-lhe de quando em quando com uma luz, um resplendor vivo +de transfiguração, como n'um extasis em que o ideal se deixava tocar, +determinar em uma fórma só concebida pela mente do homem. Os cabellos +andavam-lhe revoltos, espalhados sobre a fronte, como nas convulsões de uma +sibylla quando entrevê o futuro, e sente o influxo vertiginoso que lhe dicta o +vaticinio. Depois, uma sombra espessa, como de um desgosto repentino, veiu +offuscar-lhe a serenidade que se lhe espelhára na fronte, em que os annos +redobravam a magestade. N'isto, levou a mão á cabeça, como para suster o +impulso de uma idéa que lhe occorrêra:</p> + +<p>—A arte! a arte! é ella que me vem descobrir estas linhas que eu fixo no +marmore, e que hão de ser a admiração dos seculos. Ella vem-me ensinar este +segredo do ornato, a variedade disposta de modo, que leva o espirito á unidade +do pensamento. A arte é uma religião que inspira tambem uma fé viva, ardente, +intensa, e dá forças para affrontar a duvida, que cerca e punge o espirito +creador. Um dia duvidaram de mim; não imaginavam que eu podesse levantar essa +mole de pedras, uma Cathedral representando o vôo mystico da alma! Riram-se do +plano da minha obra! Eu tenho pensado dias e noites, como na virgem eleita dos +sonhos da mocidade. A Cathedral! ella apparece-me na phantasia, illuminada<span +class="pn">{74}</span> por um sol fulgurante, trasbordando de musicas e +harmonias suaves, perfumada de incenso, revestida de purpura, recamada de ouro, +como a noiva que se veste para entrar no aposento do real esposo. Cada pedra +que se vae dispondo, cada arco, cada pilastra erguida, é a ponta de um véo que +se alevanta e me deixa vêl-a, sonhal-a, idealisal-a sobre essa realidade +incompleta. É como a terra que vae apparecendo vagarosamente ao nauta cansado +das tormentas, á medida que se esvaece o nevoeiro da madrugada. A Cathedral! a +Cathedral! eu scismo e estremeço diante d'ella, quando a contemplo; sinto o +delirio do artista grego apaixonado pela carnalidade que ia descobrindo o seu +escôpro. Ella parece-me uma fada escondida, e que a arte me descobre o segredo +para quebrar-lhe o encantamento, e mostral-a excelsa, bella, radiante +elevando-se para o alto n'uma ascenção divina. Eu queria vêl-a suspensa nos +ares, servindo-lhe as nuvens e os cumulos alvacentos de pedestal! Agora já me +não inspira terror o desdem dos meus inimigos: descobri a ultima strophe do +poema da minha vida, hei de confundil-os, fazel-os curvar-se adorando-a: é o +zimborio, a cupula arrojada ás alturas, similhante ao vôo extatico da alma até +á absorpção em Deus.</p> + +<p>Havia n'estas palavras a vibração frenetica do delirio; mestre Gerardo de +Colonia ficou silencioso como na prostração dos fortes impulsos que lhe déra a +alegria. Os olhos brilhavam humedecidos,<span class="pn">{75}</span> +scintilantes, exprimindo o regosijo intimo da contemplação da sua alma. E +tornou a inclinar-se sobre a folha de pergaminho, a recompôr na mente as linhas +que alli traçara n'um momento de inspiração. Depois, accometido por um novo +accesso de enthusiasmo, arremessou de si o traçado; os olhos flammejaram +coruscantes, parecia que estava doido:</p> + +<p>—Eu quero mostrar assim, que essas Confrarias dos obreiros constructores de +Strasburg, de Vienna, de Zurich e Magdeburg não podem disputar a proeminencia a +Colonia. Todos os obreiros e artifices da Baixa-Allemanha hãode reconhecer em +mim a supremacia do chefe. Que importa que Strasburg queira ser a séde da +grande mestria? De que vale a homenagem prestada pelas confraternidades +maçonicas da Alta-Allemanha, de uma parte de França, da Hesse, da Suabia, de +Thuringe, da Franconia e da Baviera? O zimborio da Cathedral ha de erguer-se +bem alto para a admiração de todos.</p> + +<p>E calou-se de repente, como envergonhando-se diante de si mesmo, de se haver +deixado possuir d'aquella vaidade. Depois continuou com dor:</p> + +<p>—Quantos monumentos estupendos, quantos obeliscos gigantes, que assombram +as edades, e que mostram o poder creador do homem, competindo com as creações +de Deus, quantas maravilhas espalhadas pela superficie da terra, e que o +architecto não quiz que se soubesse o seu nome, com uma abnegação sublime da +gloria do<span class="pn">{76}</span> mundo! Eu que ainda não completei a minha +obra, que a tenho aqui na cabeça, nem sei mesmo se chegarei a realisar este +sonho, se terei a força de Atlante para suster nos ares a cupula audaciosa, eu, +mesquinho, ufano-me, ensoberbeço-me! O genio não tem consciencia de si, não +conhece o poder magico de que dispõe, por isso não se infatua. O que é a gloria +do mundo ante a gloria celeste! Illusão que nunca chega a ter um momento só de +realidade; é uma nuvem tenuissima que tolda o azul diaphano do empyreo. Para a +alma do que preliba os encantos do céo, a gloria do mundo é uma tentação +dolorosa, um martyrio incessante; porque então para ella a vida é como a luz +vivida da alampada, que se consome no silencio da noite diante da imagem +veneranda; assim, a alma procura envolver-se no olvido, no esquecimento de si +para resplandecer mais pura.</p> + +<p>Os legendarios estão cheios d'estas luctas violentas com os sentimentos mais +profundos do coração do homem. Um dia Rubens estremeceu attonito diante de um +quadro escondido na penumbra de um côro em uma egreja hespanhola; o quadro era +um mysterio quasi impossivel de ser traduzido, divulgado pelas côres sobre a +tella. Era a morte do justo. A morbida expressão do rosto macilento, uma +auréola divina diffundindo-se em roda, a alma anciosa pelo jubilo do céo a +exhalar-se docemente, como o ultimo raio do sol da tarde, e por sobre a cabeça +os anjos<span class="pn">{77}</span> debruçando-se das alturas a contemplarem o +monge na hora do passamento! Era uma transfiguração sublime, a idéa mais bella, +a que resume todo o christianismo, revelada pela arte. Quando o grande pintor +voltou a si d'aquelle extasis imprevisto, sentiu-se pequeno ao pé de uma +creação tão perfeita. Perguntou ao monge que o conduzia, que pincel realisára +tamanha obra, para confessar-se seu discipulo, e proclamal-o á admiração do +mundo. O monge sentiu um estremecimento convulsivo, e respondeu-lhe +apenas:—«Não é já do mundo!» e quando elle voltou á sua cella, juntou os +pinceis, a palheta e lançou-os na corrente de um ribeiro que deslisava manso á +falda da janella; e para esconder as lagrimas que ainda uma vez lhe escaldaram +as faces retinctas na palidez da penitencia, foi procurar conforto na oração +fervorosa. Como não teria tambem esta energia para luctar comsigo aquelle que +escreveu na mudez da cella um livro de resignação e conforto, a <i>Imitação de +Christo</i>, e que abnegou d'essa gloria para não tornal-o uma mentira!</p> + +<p>Mestre Gerardo de Colonia ficára absorvido em uma meditação profunda. A +tempestade continuava solemne e grandiosa na mudez da noite. Sentiu um leve +rumor no aposento, que a contenção de espirito em que estava mal deixou +perceber. Prestou ouvidos. Batiam á porta.</p> + +<p>—Quem será? assim tão fóra de horas!—e correu os ferrolhos. Entrou uma +figura alta, embuçada<span class="pn">{78}</span> em um gabinardo longo, o +rosto assombreado pelas abas de um largo chapeirão.—Quem sois?—inquiriu o +architecto, preoccupado ainda na sua abstracção.</p> + +<p>—Sou um irmão da Confraria dos obreiros constructores de Strasburg;—tornou +o desconhecido com uma voz cava.</p> + +<p>—Entrae.</p> + +<p>Sentaram-se, contemplando-se um instante silenciosos.</p> + +<p>—A que vindes?</p> + +<p>—O que me traz?—redarguiu o desconhecido com um tom de ironia +acerba,—deves sabel-o melhor do que ninguem. Confias no zimborio da Cathedral +de Colonia, para quereres assim submetter á tua supremacia a mestria central de +Strasburg. É impossivel e chimerica essa tua loucura. As grandes lojas querem +todas a independencia. Demais o zimborio, a obra que é o teu orgulho, não está +prompta e talvez nunca a possas levar ao cabo.</p> + +<p>Mestre Gerardo ficou espantado, hirto de raiva diante da audacia do +desconhecido. Depois, volveu-lhe com uma severidade que lhe abafava a voz:</p> + +<p>—Ainda sou architecto! e o zimborio ha de ser o primeiro a saudar no alto +os alvores do sol quando se alevanta. Juro pela minha alma.</p> + +<p>—Aposto em como te enganas!</p> + +<p>—Aposto em como te hei de confundir, e a todas as mestrias rebeldes da +Allemanha!—insistiu o architecto.<span class="pn">{79}</span></p> + +<p>—Pois bem! Eu comecei ha dias a obra do Aqueducto de Treves, e espero ainda +vel-o acabado antes de teres prompta a Cathedral. Se assim não for, no dia em +que deres por acabada a tua obra, despenho-me do Aqueducto. Tu precipitas-te +tambem dos coruchéos da Cathedral se eu vier reclamar primeiro? Acceitas a +aposta?</p> + +<p>—Acceito.</p> + +<p>—Juras?</p> + +<p>—Juro.</p> + +<p>A este instante ouviu-se longe o canto do gallo. O interlocutor mysterioso +desappareceu subitamente ás primeiras notas do nuncio da alvorada. Foi então +que o architecto reconheceu o—diabo; não quiz acreditar na realidade d'aquelle +pesadello. O canto do gallo é celebrado nos hymnos da egreja, principalmente +nos de Santo Ambrosio. <i>Gallo canente vigilemus omnes.</i> Elle symbolisa a +voz interior que desperta a alma do somno da tentação; foi o canto do gallo que +despertou tambem a Pedro no atrio do Pretorio, quando renegou o Mestre. No +mysticismo poetico elle representa uma parte importante. A imaginação exaltada +pelos sonhos da noite não podia deixar de revestil-o de mysterio. Já a Grecia +lhe havia formado o mytho: é o castigo de Alectrião. A sombra que reclama de +Hamlet uma vingança, o côro das feiticeiras de Macbeth, desapparecem com a +magia d'esse canto.</p> + +<p>Um dia o architecto subira á Cathedral; estava prestes a terminar-se a +cupula. A alegria hallucinava-o.<span class="pn">{80}</span> Appareceu-lhe +então uma cabeça disforme, rindo, confrangendo-se em esgares satanicos por +entre as sombras profundas de uma ogiva. Disse-lhe que estava prompto o +Aqueducto de Treves. Mestre Gerardo empallideceu e voltou o rosto á pressa! +Aquella nova enterrava-o. Baixou os olhos como para suspender uma vertigem +instantanea, fatalmente o relance mediu a altura da Cathedral; o angulo visual +dilatou-se de modo que lhe produziu a attracção do abysmo. Resistiu debalde, +vacillou um instante e despenhou-se por fim. Disseram que fôra a alegria +explosiva de vêr a sua obra, que lhe causara o desvario que o precipitou.</p> + +<p>Assim conseguiu estabelecer o seu predominio a Mestria central de +Strasburg.<span class="pn">{81}</span></p> + +<h1>As aguias do norte </h1> + +<h3>(<small>CONTO POLACO</small>) </h3> + +<p>Harpa sacrosanta, orvalhada pelas lagrimas dos videntes, que repousam sobre +ti frontes encanecidas, banhadas no pranto do captiveiro, quando á tarde +abandonada na solidão do exilio, á beira da torrente, a aragem vespertina vinha +gemer em tuas cordas, o cantico remoto era como o anceio de um coração +oppresso, ai, que se perde confundido com o rojar das cadeias.</p> + +<p>Inclina-te agora em meus braços, e vibra-me um canto de desespero, +insoffrido, eterno, para acordar a turba, que dorme sob o peso das +gargalheiras.</p> + +<p>O vento livre saberá levar a toada longinqua, para achar ecco no peito dos +desgraçados. Patria! patria! és a tunica inconsutil sobre que rodam os dados do +infortunio.<span class="pn">{82}</span></p> + +<p>Polonia! tu és o peito exangue, ferido pela lança do incredulo. Podesse o +teu sangue dar a vista ao que te fere com mão obstinada. Ao menos, que o teu +ultimo arranco afaste para bem longe o bando dos abutres selvagens que pairam +sobre ti, Prometheu, algemado em terra, mas, que ainda nas convulsões da agonia +mostra a animação do fogo divino da liberdade.</p> + +<p>Oh! mas o que vale ao poeta desterrado contemplar a ruina da patria! Para +que ha de elle pedir á sua harpa um canto de angustia e saudade, se aquelles +que o escutam e se sentem fortes para luctar com um esforço sobrehumano, são +depois martyres do sublime enthusiasmo?</p> + +<p>Que tristeza profunda o lembrar-me que o meu poema a <i>Tentação</i>, +exaltando os estudantes da Lithuania para sacudirem os tyrannos, fez com que os +oppressores arrojassem para os steppes e minas da Siberia a flôr da mocidade da +Polonia! Pobre Karl; ainda tenho aqui a carta em que elle me conta os trabalhos +da jornada para o desterro:</p> + +<p style="text-align: center;"><i>De um estudante de Lithuania ao Poeta anonymo +da Polonia</i> </p> + +<p>«Em todos os tempos a poesia tem sido a expressão dos sentimentos profundos +da humanidade; chora com as suas dôres, e é ella que vae ao sepulchro das +nações proferir o <i>Surge et ambula</i> á raça supplantada pela pressão dos +despotas.<span class="pn">{83}</span> Desde os prophetas de Israel, e Tyrteu e +Callino até Rouget de Lisle, Kerner e Poetefi, a poesia tem dirigido as +revoluções; é como a columna de fogo que leva á terra promettida através dos +errores do dezerto.</p> + +<p>Nós eramos crianças, animados dos sentimentos mais puros, que a edade não +deixa contaminar; choravamos de magoa e despeito, com vergonha de vermos +envilecida, sob o jugo obscurante dos czares, esta pobre patria esmagada por um +colosso de inercia e barbarie. Um dia appareceu-nos um poema estranho, novo, um +grito ancioso em que se exhalava uma alma. Pareceu-nos a voz da Polonia que nos +chamava em seu desalento; sentimo-nos fortes no primeiro impulso.</p> + +<p>Estudavamos em Lithuania; uma noite reunimo-nos para lêr o poema. Brilhava +em cada rosto um lampejo de colera e esperança. Cada estrophe era um +sobresalto, a anciedade do sacrificio. Eramos como aquelles crentes dos +primeiros seculos do christianismo, tinhamos a sêde do martyrio. A noite da +conjuração era tempestuosa como os pensamentos que nos agitavam. Jurámos alli, +com as mãos sobre as estancias mysteriosas que nos vieram despertar do lethargo +da oppressão, abnegar do amor, da familia, da vida, por esta desgraçada +Polonia. A alampada solitaria que allumiava o aposento deixava uma penumbra +phantastica e terrivel, como em um tribunal whemico; os olhos coruscavam com +brilho de alegrias<span class="pn">{84}</span> sanguinarias. O enthusiasmo +precipitava-nos. Sentiamos forças de Atlante, uma audacia e tenacidade para a +lucta; mas, via-se ao mesmo tempo em cada rosto a sombra, não sei de que +pensamento funesto, de uma aspiração irrealisavel. Seria uma desgraça +imminente?</p> + +<p>Quando nos abraçamos como irmãos na mesma crença, para os transes mais +dolorosos, correram as lagrimas, ferventes, como nos momentos rapidos de uma +despedida para sempre. Havia um silencio augusto. Parecia que o céo e a terra +escutavam o nosso juramento; que a patria agrilhoada interrompera os lamentos +para escutar a voz consoladora de seus filhos, que esperavam o dia da +redempção.</p> + +<p>Foi então que ella appareceu, Hedwige, a mulher que eu amava, o cabello +destrançado pelo vento da noite, cansada, offegando, sem côres, enfiada de +susto. Julguei-a uma apparição angelica, que baixava para trazer-nos a palma do +martyrio, a annunciar os transes d'este horto em que estavamos recordando as +agonias da Polonia. Como ella estava bella, radiante; era uma prophetisa, +altiva como Débora quando proclamava ás gentes a lei, a sombra das palmeiras +entre Rama e Bethel, sobre as fronteiras de Benjamim e Ephraim. Ficámos +suspensos, esperando o hymno que havia romper dos labios sellados por um +mysterio profundo. Como deixou ella a casa de seus paes, nas sombras da noite +medonha? Como soube onde estavamos; quem a trouxe aqui?<span +class="pn">{85}</span> Fôra o amor, esta illuminação da segunda vista. Hedwige +proferiu, depois de alguns instantes de repouso, com a voz entrecortada e +tremula:</p> + +<p>—Ainda é tempo! Os soldados russos vêm em busca de nós; sabem da +conjuração, e perseguem-nos; poupemo-nos para a hora suprema do resgate.</p> + +<p>Depois ella veiu para mim e abraçou-me. Ia começar a fallar, quando se +sentiu na rua o estrepito de armas, e vozearia de uma soldadesca brutal e +desenfreada. Não me custava a vida; mas tel-a a meu lado, alli! vêl-a sujeita á +irrisão e malvadez dos que vinham para prender-nos! Pobre Hedwige; ella +abraçou-me e sorriu-se:</p> + +<p>—Tens medo? vejo-te tão pallido! Receias que eu não tenha coragem para +corresponder á tua bravura? Eu sou mulher, é verdade. Era ao suspiro de uma +mulher que a liberdade romana acordava sempre. Lucrecia e Virginia ensinaram-me +tambem a ser forte um dia. Karl! eu sinto que n'este instante nos une um amor +mais alto e desinteressado, que nada tem das paixões terrenas. Dá-me o abraço +que ha de fundir n'uma só as nossas almas para sempre. Agora já te posso dizer +como Arria, se te visse esmorecer no perigo, o que elle disse levando o punhal +ao peito: <i>Pœ, us, non dolet!</i></p> + +<p>O tumulto, o som confuso das armas, o tropear dos soldados, não me deixaram +ouvil-a mais. Entraram na sala sombria, como uma onda turbulenta que irrompe +derrubando os diques e<span class="pn">{86}</span> se precipita como um vertice +fremente. As armaduras reluziam, e nos causavam a vertigem do terror. Um frio +lethal escoou-se por mim; lembrou-me luctar para defendel-a.</p> + +<p>Reinava um silencio de morte. Já sabiamos a sorte que nos esperava. Depois +vieram lançar-nos as cadeias pesadas, as gargalheiras infamantes da escravidão, +ultrajando com risos aquelle sentimento puro que nos dava constancia para o +martyrio. Era impossivel resistir; todo o esforço seria inutil. Deixei +passivamente algemarem-me. Um olhar firme de Hedwige inspirou-me uma resignação +indizivel. Não sei que apparencia divina, que irradiação sublime, etherea, +envolvêra o rosto da minha amada, que os soldados não se atreviam a +aproximar-se. Seria esse terror, que fazia cair em terra, fulminados, os que +tocavam na Arca sacrosanta? Na serenidade altiva que ella mostrava n'este +instante, conheci-lhe uma resolução extrema; Hedwige queria tambem ser +prisioneira, para soffrer commigo as dores do desterro. Ella lançou mão do +poema que estava sobre a mesa, e começou a recitar algumas das estrophes mais +arrebatadas, com uma voz prophetica, no tom mysterioso de uma sibylla. A magia +d'aquella voz sentida prendia; ficaram immoveis, quedos, escutando-a:</p> + +<h3>Fragmentos de uma Elegia polaca </h3> + +<p>—«E lentamente, mui lentamente, por detraz do Homem-Deus, avança +deslumbrante de belleza<span class="pn">{87}</span> e sem vestigios de morte a +minha dilecta Polonia.—Ella pára sobre os umbraes da Sião promettida a todos +os povos, e—d'estas alturas sagradas sua voz retumba, dirigindo-se ás nações +reunidas muito longe, lá em baixo, nos términos do espaço.</p> + +<p>«A mim, a mim, oh vós, raças fraternas! A ultima lucta do derradeiro combate +terminou;—os embustes das traições e das mentiras terrestres estão +destruidos.—Subi commigo para o reino da paz.»—E o côro das nações lhe +responde: «Benção e gloria a ti, oh Polonia! porque ainda que tenhamos todas +soffrido,—tu supportaste mais tormentos que nenhuma de nós,—Pela enormidade +das injustiças accumuladas sobre ti, conservavas constantemente o inimigo +debaixo do raio de Deus!—No transe do martyrio, tiravas de teu coração uma +vida mais energica que a dos teus oppressores,—e pelo teu sacrificio nos +salvaste.—Benção e gloria a ti, oh Polonia!»</p> + +<p>Oh! quantas vezes por uma noite sombria do outomno, a voz de minha mãe ou de +algum antepassado sáe do tumulo, e chega até mim para me fallar do futuro.—Eis +que a este ruido mysterioso, visões estranhas me apparecem.—O canto de +triumpho soltando-se do peito de milhões de homens, resôa em derredor.—Os +vencedores passam em phalanges innumeraveis,—eu vejo as brancas, +resplandecentes figuras das irmãs e dos irmãos libertados da escravidão;—a +centelha da immortalidade faisca de todas as frontes.—Mesmo<span +class="pn">{88}</span> sem azas, elles vogam no ár, como se fossem alados; sem +corôas brilham como se fossem coroados.—E eu mesmo prosigo no meio de todos, e +me sinto em uma especie de céo desconhecido, antecipado.</p> + +<p>E, quem sabe? talvez que a prophecia dos meus sonhos se realisasse já sobre +o tumulo da Polonia! E não havia senão eu, eu cadaver, que faltava entre os +resuscitados! Oh, através d'estas grades e d'estes muros que me fecham como as +taboas de um feretro, o meu espirito se illumina e se expande ao longe, +transpondo o tempo e o espaço!—Sim, eu vejo: além, por toda a parte myriades +de estrellas e flores;—o mundo regenerado celebra suas nupcias com a joven +liberdade!—Na aresta dos Alpes, no cimo dos Carpathos, o céo resplandece com +os raios da mesma aurora,—e todos os povos unidos, confundidos, parecem formar +um só oceano, por sobre o qual é levado o espirito de Deus<a name="tex2html1" +href="#foot585"><sup>[1]</sup></a>.»</p> + +<p>Á medida que ia proseguindo no canto, Hedwige, como a Sulamite dos +<i>Cantares</i>, comparada á torre que olha para o occidente, parecia suspensa; +o semblante com a graça diaphana de um seraphim. N'aquella elevação +surprehendente, a commoção embaraçou-lhe a voz; não pôde fallar; ficou hirta, +livida, como na concentração violenta do extasis. Era o genio da Polonia +incarnado<span class="pn">{89}</span> em uma mulher que soffria. Hedwige ficou +silenciosa; nem um queixume, uma lagrima sequer, quando lhe roxearam os pulsos. +Quando tornou a si, e conheceu que ia compartilhar commigo a mesma sorte, +sorriu-se, com a expressão divina da alegria dolorosa e da resignação.</p> + +<p>Dias depois leram-nos a sentença. Doze annos de desterro e trabalhos na +Siberia. Hedwige escutou impassivel. Custava-me tanto vel-a soffrer em +silencio; ella fazia um esforço inaudito para não vergar com as dores +excessivas; não queria redobrar o meu soffrimento. Oh meu Poeta! foi então que +me convenci de que o homem é o lobo do homem; peior ainda que o lobo cerval, +porque espia os segredos da nossa alma, e antes que nos inflijam as sevicias do +corpo, torturam-nos o espirito, insultando os sentimentos mais recatados e +santos que nos dão coragem nos desalentos da vida.</p> + +<p>Partimos todos na carroça dos desterrados, um <i>kibitka</i> peior que o +tormento inventado para matar o integerrimo Atilio. As rajadas do inverno eram +cortantes, e tiravam-nos todo o vigor para avançar; depois, vieram +amontoando-se os gelos, e nos obrigaram a proseguir a pé; a desolação dos +steppes, por onde passavamos, despertava-nos não sei que sympathia, talvez +porque eram uma similhança visivel do abandono e ruinas em que estavam nossas +almas.</p> + +<p>Hedwige, delicada e fragil não podia caminhar mais, via-a desmaiar pouco a +pouco; a lividez<span class="pn">{90}</span> do sepulchro no semblante +desbotado! Parecia-me a flor mimosa, emmurchecida com as geadas da noite. As +pancadas do <i>knut</i>, um látego formado de tiras de couro crú e rosetas de +ferro, com que a verberavam para adiantar caminho, esgotaram-lhe as forças. Eu +não sei que haja palavras humanas para exprimir a dor e a raiva que senti +n'esse instante, porque o coração do homem nunca soffreu tanto, para descobrir +uma expressão para este infinito da angustia. Hedwige nem se atrevia a olhar +para mim; depois vi-a cair transida de frio e cansaço; esgotára o ultimo +esforço. Quizeram deixal-a sepultada entre o gelo. A noite vinha a fechar-se +asperrima, atroz; eu não podia sequer lembrar-me que o corpo da minha amada ia +ser em breve pasto dos abutres. Via-me tambem já sem forças. Pedi para leval-a +aos meus hombros.</p> + +<p>Era a loucura e egoismo do amor, que fazia com que a conduzisse, para sentir +ainda agonias mais violentas que a morte.</p> + +<p>—«Oh! antes me deixasses sepultada na solidão dos steppes, exposta ás aves +nocturnas, do que vermo-nos agora separados para sempre!»—Disse-me ella a +abraçar-me phrenetica, louca, quando nos separaram, mal que chegámos ás minas +da Siberia.</p> + +<p>Os meus companheiros do infortunio não os tornei mais a ver; Hedwige foi +condemnada ao trabalho das minas de mercurio, muito longe. Não soube mais +d'ella. A mim, enfiaram-me um<span class="pn">{91}</span> capote de feltro e +desceram-me por uma corda pelas gargantas da terra, por um boqueirão escuro; á +medida que ia baixando, ia sentindo vozes confusas, ruido de enxadas. Então, vi +na obscuridade profunda a luz baça e mortiça das lampadas de segurança, e uma +multidão de homens escaveirados, magros; era uma cidade de mumias. Era aquella +a minha habitação para doze annos de existencia. Admirava-me de ver alli +crianças; filhos dos desgraçados obreiros, rachiticos, enfezados, não conheciam +a luz do mundo, a vida resumia-se no trabalho insano. As dores que supportava +haviam-me embotado o sentimento, tinha a impassibilidade do idiotismo, a mudez +do assombro. Ás vezes uma lembrança longiqua de Hedwige e de minha mãe, a quem +não pude dizer ao menos o extremo adeus, me davam a consciencia de que ainda +vivia; mas não podia alliviar-me com as lagrimas.</p> + +<p>Os que me viam nunca se atreveram a perguntar qual o meu crime. Não sei que +esperança me prendia á vida, para que me não despedaçasse contra as rochas que +ia arrancando. Estava já acostumado á obscuridade. Um dia começou a lembrança +de Hedwige a occupar-me a imaginação. Seria uma saudade viva? algum +presentimento? Lembrar-se-hia ella tambem de mim n'esse instante? Julgava-a já +morta, criança e debil como era. Sem Hedwige, para que queria eu a vida? Oh! se +a visse ainda uma vez morreria contente, resignado, perdoando tudo quanto<span +class="pn">{92}</span> os que se dizem meus similhantes me fizeram soffrer.</p> + +<p>Era uma loucura esta idéa. E continuavamos silenciosos a romper a mina +lobrega e funda. Começámos a sentir um écco surdo; eram os trabalhadores de +outras minas, que se encontravam. Continuei a trabalhar com mais afan, na +direcção d'onde vinham os sons abafados.</p> + +<p>Encontrámo-nos dias depois. Que alegrias, que abraços intimos entre aquelles +socios da desgraça. Se estivesse ali Hedwige! Que fatalidade! o meu desejo era +o presentimento. «Já te esqueceste de mim?» Senti um abraço sem vigor; fitei +nas sombras o vulto, que me fallava e me estreitava a si. Era ella, livida, +desconhecida, com a magreza da consumpção; o mercurio penetrára-lhe a parte +esponjosa dos ossos. Tive horror do ente que amava, era só a compaixão que me +prendia a ella.</p> + +<p>—«Lembras-te das palavras de Simeão quando na apresentação do templo viu o +Messias em seus braços? Hoje digo-te o mesmo, Karl; já posso morrer.»</p> + +<p>E eu continuei a viver para vêr prolongados a miseria e os flagicios +incriveis, que me cercavam. Já não tinha o amor, que alimentava as horas da +minha solidão. Hedwige tinha-me expirado nos braços; soltára a alma candida, +acrysolada nas tribulações, no ultimo beijo, que recebeu de mim. D'ahi por +diante a vida pareceu-me mais impossivel de supportar; eu não vivia, vegetava +como<span class="pn">{93}</span> o lichen no fundo de uma caverna escura. A +imbecilidade proveniente da atonia e dos pesares indescriptiveis prolongara-me +a existencia vegetativa. </p> + +<p>Lembrava-me minha mãe. Se a tornaria a vêr ainda! Estaria ella já no +sepulchro, ralada com a saudade da ausencia, cansada de esperar a volta do +captiveiro? Sem successos, nem distracções, que me preoccupassem a vida, cada +momento parecia-me um seculo de desesperação. Estes doze annos foram uma outra +existencia. Quando voltei á patria julguei um renascimento; mas tornava a +apparecer á luz do mundo para mais provações e dôres, porque minha mãe estava +morta; a patria, o que ainda me fazia palpitar o coração com vida, vejo-a +esquecida, inerte sob o jugo prepotente da Russia. Hoje escrevo-lhe, meu Poeta, +porque é a unica pessoa, que me resta no mundo, e só me prende á vida o +juramento, que fiz de immolal-a no altar da patria.—<i>Karl</i>.»</p> + +<p>O Poeta anonymo da Polonia produziu com os seus poemas o mesmo que +Mickiewich, o auctor do <i>Banquete de Walenrood</i>. Só depois de morto é que +se soube o seu nome; era o conde Sigismundo de Krasinski. A liberdade da +Polonia fôra o unico ideal da sua inspiração; é ella sempre que transluz nas +maravilhas com que enriqueceu a litteratura polaca, nos <i>Psalmos do +Futuro</i>, no <i>Iridion</i> na <i>Comedia Infernal</i> e na <i>Tentação</i>, +a que anda ligado este facto que narrámos.<span class="pn">{94}<br> +{95}</span></p> + +<div class="rodape"> +<p><a name="foot585" href="#tex2html1"><sup>[1]</sup></a> Strophes +<small>XIX</small>, <small>XX</small>, <small>XXI</small> do poema <i>O +Ultimo</i>, do conde Sigismundo Krasinski.</p> +</div> + +<h1>O relogio de Strasburgo</h1> + +<h3>(<small>CONTO DE 1352</small>)</h3> + +<p>A Edade média está completamente caracterisada nas suas lendas; porque se +não hade por ellas recompôr a historia, animal-a com essas côres vivas, dar-lhe +movimento. A mais extensa, a que absorveu todas as imaginações rudes e +creadoras, foi a lenda do Diabo, reproducção do dualismo persa, que apparece +fatalmente no periodo instinctivo da genése religiosa. D'esta idealisação do +mal provém, na arte, a realisação anonyma do grotesco, muitos dos velhos +fabularios, e na ascese divina a tentação de que estão cheios Ribadaneyras e +Bollandistas.</p> + +<p>A sciencia, nos primeiros seculos da Egreja, foi despresada, amaldiçoada +como inutil e perigosa,<span class="pn">{96}</span> porque tornava o espirito +rebelde, orgulhoso; a alma perdia com ella a simplicidade, que a elevava até +Deus. A observação das leis physicas do mundo era uma impiedade; Bacon e +Sylvestre II foram olhados como feiticeiros. É um martyrologio interminavel o +desenvolvimento da razão. Foi um dos algozes Sam Paulo: «Eu destruirei a +sabedoria dos sabios e rejeitarei a sciencia dos eruditos. O que é feito dos +sabios? O que é feito d'estes espiritos curiosos das sciencias do seculo? Não +os ha convencido Deus da loucura das sciencias d'este mundo?» A Egreja não se +contentou com a acrimonia da invectiva, quiz encarnar este verbo do +obscurantismo. As luctas e as agonias que se seguiram estão perpetuadas em um +sem numero de lendas sobre as revoltas do espirito, que vieram a synthetisar-se +no typo do <i>Fausto</i>.</p> + +<p>Em pleno seculo XIV. O sol brilhante, em um céo sereno e limpido de um dia +de alegria, derramava-se em torrentes sobre a cathedral de Strasburgo. Voltada +para o oriente, segundo o rigor do symbolismo religioso, recebia a luz do alto, +como um cenaculo em que as linguas de fogo vinham revelar os mysterios da vida +e a serenidade, que ella havia de infundir aos tristes que se accolhessem, +corridos das tempestades do mundo, na tranquillidade do seu recinto. A luz +reflectia-se coruscante das vidraças, que ostentavam um rosicler das côres mais +caprichosas e vivas; cada pedra, cada angulo, cada saliencia destacava-se<span +class="pn">{97}</span> mostrando os rendilhados e lavores exquisitos; a torre +parecia então mais altiva, não topetava com as nuvens, perdia-se na profundesa +do espaço azulado e puro. Era um bello dia de primavera.</p> + +<p>Diante da cathedral magestosa foram-se agrupando pouco a pouco alguns vultos +ociosos; e, attrahida <i>na razão directa das massas</i>, instantes depois a +multidão fluctuava impaciente, como quem espera um prodigio annunciado, +<i>exempligratia</i>, um ecclipse. Não era nenhum ecclipse, nem tampouco o +apparecimento de um cometa, que então fazia tremer os pontifices e os reis. Não +era mesmo procissão esplendida, que o povo e os amadores de tertulias estavam +esperando com anciedade. O que seria então?</p> + +<p>Uma figura extranha, embuçada em um tabardo escuro, chapéo emplumado ao uso +da côrte, vinha montado, a passapello, em um cavallo fouveiro; custava-lhe a +romper por entre a turba apinhada; estrangeiro ali, não quiz atropellar +ninguem, e resolveu esperar que o concurso fosse diminuindo.</p> + +<p>—O que está toda esta gente aqui a fazer, em um dia de trabalho?—perguntou +o desconhecido para um rapaz, que parecia esconder-se entre o vulgo, com um ár +de tristeza e de uma dôr indizivel.—Ha alguma procissão ou festa de jubileu? +Ainda as portas da cathedral estão fechadas.</p> + +<p>—É certo que vindes de bem longe,—volveu-lhe vivamente o pobre rapaz—pois +que ainda vos<span class="pn">{98}</span> não chegou a fama do grande Relogio +de Strasburgo. É uma maravilha da Allemanha. Não vêdes aquella estatuasinha da +Virgem? Diante d'ella, vem ao bater do meio dia os trez Reis Magos com seus +presentes, e o Gallo automato, que lá está, saccode as azas logo que o sol toca +o zenith.</p> + +<p>O cavalleiro não teve tempo para comprehender o que ouviu, porque um susurro +immenso, repentino, burburinhou por toda a praça. O carrilhão de Strasburgo +dava meio dia. Ficaram boquiabertos, attentos esperando o apparecimento dos +Reis Magos. Sentiu-se primeiro o ruido estrepitoso de umas azas pesadas, depois +o clangor de uma voz énea, soturna. O cavalleiro estava pasmado com o que via. +A fama do Relogio de Strasburgo correra as partidas do mundo. Os palacios, os +mosteiros, os castellos desejavam uma maravilha egual. Ignorava-se o nome do +artista. O cabido da cathedral ufanava-se com tão magnifico e singular +artefacto.</p> + +<p>—Oh! dize-me,—acudiu o cavalleiro, saindo do espasmo da admiração—dize-me +quem fez esta obra prodigiosa, que é a inveja de todas as cidades do mundo! +Porque se não fala no nome d'elle? Onde está o artista? Venho de França para +vel-o.</p> + +<p>—Perguntaes, nobre cavalleiro, como se eu pudesse violar tal segredo! Mal +sabeis que as vossas palavras acordam na minha alma uma dôr profunda como um +ecco n'um páramo aziago.<span class="pn">{99}</span> Quem fez o Relogio, +perguntaes vós, e a gloria tenta-me, precipita-me, impelle-me a arriscar a +vida! Foi meu pae!—E as lagrimas de alegria e pesar foram-lhe arrasando os +olhos, até que rompeu em um choro insoffrido de criança. O cavalleiro apeou-se +e estreitou-o nos braços. </p> + +<p>—É a saudade de teu pae, que te lava o rosto com esse pranto de ingenuidade +e amor? Não soube a morte respeitar tão preclaro engenho? E eu que vinha da +parte de Carlos V, de França, para visital-o e fallar-lhe!</p> + +<p>—Elle ainda vive, senhor. Mas que vida! Oh! antes a morte o tivesse +envolvido nas suas trevas geladas; antes houvesse nascido sem aquella luz do +talento, que é sempre a predestinação do martyrio.</p> + +<p>A praça estava já deserta, e os dois partiram enleiados n'esta conversação. +Chegaram á officina do relojoeiro. Era um velho; as cans alvissimas +formavam-lhe um diadema venerando; tinha o rosto escondido entre as mãos, como +quem se abysmára n'uma abstracção intensa, ou n'uma grande e entranhavel +agonia. O estrangeiro permaneceu hirto sob a soleira da porta; não se atrevia a +interromper os processos mysteriosos d'aquella mente perscrutadora. A criança +aproximou-se com familiaridade, e segredou-lhe longamente umas palavras mal +articuladas e confusas. O velho ergueu então a fronte banhada em uma alegria +suave, e voltou-se para a porta:</p> + +<p>—Buscam-me da parte de el-rei Carlos V de<span class="pn">{100}</span> +França?—perguntou elle com um ár affavel e indicando um assento ao +desconhecido.</p> + +<p>—Em verdade, el-rei me envia aqui.</p> + +<p>—E o que pretende de mim, que nada posso, el-rei, que tudo manda?</p> + +<p>—Conhecendo a vossa boa fama, vendo que enriquecestes a Allemanha com essa +maravilha do Relogio de Strasburgo, elle quer tambem collocar na torre do +palacio da Justiça uma machina, que dividindo com justeza as doze horas do dia, +ensine a observar a justiça e as leis.</p> + +<p>—Como o não serviria eu de boa vontade, se me não houvessem apagado para +sempre o lume dos olhos. Não vêdes estas orbitas vasias? Cegaram-me. Ha já +dezeseis annos que vivo mergulhado n'estas sombras cerradas, que me antecipam a +escuridão tetrica do sepulchro, mas que me prolongam a vida, no abandono da +desgraça, para soffrer a cada instante as mais excruciantes provações. Eu vivo +ao desamparo; nem sei já trabalhar. N'esta solidão do espirito, para esquecer o +tedio e a desesperação que me pungem, eu invento machinismos complicados, que o +meu pobre filho executa. É elle o herdeiro do meu engenho. Cada pancada do +relogio no carrilhão da cathedral, é uma palavra de sarcasmo, um insulto +vibrado por uma lingua satanica, só entendida por mim. Vou contando as horas na +mudez das noites de insomnia, e cada uma me descreve com mais feias côres esta +morte onde fui precipitado em vida.<span class="pn">{101}</span></p> + +<p>Havia nas palavras do velho um mixto de resignação e dor, uma conformidade, +uma santidade admiravel. A fronte, enrugada pelos annos e o estudo, pendia-lhe +sobre o peito; o filho ainda imberbe, engraçado, ingenuo, estava de pé a seu +lado, mudo, com os olhos no chão.</p> + +<p>—Como houve mãos tão barbaras, que ousaram pôr diante do vosso espirito, +para sempre, a sombra eterna da morte? Foi o acaso? Foi a malvadez que vos +despenhou n'essa desgraça? Seria a inveja quem vos supplantou á traição, +vendo-se obrigada a admirar os artefactos que não podia exceder? Oh, contae-me. +Não! não! tenho horror de ouvir; deve custar-vos muito isso. El-rei ha de +sabel-o e acudir-vos.</p> + +<p>O velho ergueu lentamente a fronte; poisou as mãos sobre a cabeça loira do +filho, brincando distraido com os cabellos anellados. Depois de um momento de +indecisão, começou:</p> + +<p>—O bispo João de Lichtenberg encommendou-me um relogio grande para a torre +de Strasburgo. Era preciso que as horas canonicas fossem observadas com +escrupulo; as irregularidades na divisão do tempo causavam graves +inconvenientes ás resas e officios divinos do côro. Eu trabalhei dois annos +consecutivos; tinha empenhada n'aquella obra a minha fama. Inventei um +kalendario em que representava as indicações das principaes festas moveis: ao +lado puz-lhe um quadro em que estavam escriptas em verso as principaes +propriedades dos sete planetas; ao meio colloquei-lhe<span +class="pn">{102}</span> um astrolabio, em que os ponteiros notavam o movimento +do sol e da lua, as horas e os quartos. Ao alto estava uma estatua da Virgem, +ante a qual se inclinavam, ao dar do meio dia, as figuras dos tres Reis Magos. +Ficaram espantados com a maravilha da obra; soôu por toda a parte a fama +d'ella. O povo agglomerava-se na praça para vêr. O cabido receiou que os outros +mosteiros ou as côrtes da Europa quizessem ter um monumento egual. Como +impedil-o? Uma noite, estava eu descançando do trabalho assiduo, improbo que +levava, quando me bateram á porta. Vieram dizer-me que o relogio estava parado. +Levantei-me á pressa, atterrado, confuso, e dirigi-me para a torre. Quando ia +subindo, e já a uma altura vertiginosa, apagaram-se de repente os archotes; os +que me acompanhavam, lançaram mão de mim para me precipitar; as unhas +prenderam-me ás fendas da cantaria, com a tenacidade do amor á vida. Por fim, +cansados, agarraram-me, arrancaram-me os olhos. Aos meus gritos, os malvados +respondiam que me désse por feliz em não ser queimado vivo na praça publica, +exposto á irrisão da plebe, por feiticeiro; que eu tinha pacto com Satanaz, que +o evocava com linhas cabalisticas com que formava as rodas denteadas.</p> + +<p>O pobre velho permaneceu um instante silencioso reflectindo no assombro +d'aquella noite infernal; depois mudando de conversa, o embaixador pediu-lhe +para levar o filho, que havia de fazer<span class="pn">{103}</span> por certo o +relogio para o palacio da justiça. Não faltaram negações e hesitações. O velho +conhecia o talento do filho, e temia um egual desastre. O cavalleiro jurou +protejel-o com a vida, e trazel-o incolume a casa de seu pae, logo que tivesse +findado o trabalho.</p> + +<p>O relogio foi posto na torre do palacio da Justiça, e, elle que aconselhava +a observancia da justiça e das leis, foi o mesmo que, dois seculos mais tarde +deu o signal para a execranda carnificina da noite de S. Bartholomeu.</p> + +<p>Quando o filho do relojoeiro de Strasburgo voltou á patria, ainda o pobre +velho vivia. Estava no meio da sua desgraça, possuido de uma alegria infinita. +Na solidão do espirito em que ficara, procurara constantemente vingar-se. +Vingou-se afinal. Um dia conseguiu aproximar-se do Relogio, e tocou em uma roda +de tal forma, que não tornou mais a regular, apesar de todos os esforços; em +1574, intentou restaural-o Dasypodius, outros em 1669, em 1731, até que cessou +de trabalhar em 1789, como uma riliquia ultima da Edade media que arrebatava a +Revolução. O desgraçado levava esta unica consolação do mundo. A mesma lenda se +conta dos relogios de Nuremberg, de Auxerre e Lyon, em que as versões parecem +filhas da comprehensão de uma mesma verdade.<span class="pn">{104}<br> +{105}</span></p> + +<h1>Um erro no kalendario</h1> + +<h3>EPISODIO DA HISTORIA DA INQUISIÇÃO EM HESPANHA </h3> + +<h2>I</h2> + +<p>Quem o visse sentia-se atrahido para elle por uma fatalidade irresistivel. O +olhar encovado e scintilante tinha a fascinação da onça refalsada. A estamenha +monastica da humildade era uma arma de que se servia. A côr sombria do remorso, +que o ralava interiormente, sabia invertel-a tão bem na maceração da +penitencia, que assim facil lhe era devassar todas as consciencias, e +submettel-as ao seu capricho, tyrannisal-as, alimentando sempre uma infinidade +de horrores futilissimos, com que as trazia suspensas. Cabisbaixo, meditando +continuamente um longo plano de vingança, de uma sevicia obscura e mesquinha, +os que o viam achavam n'aquella gravidade satanica de monge um ár contemplativo +de compunção piedosa.<span class="pn">{106}</span></p> + +<p>O frade fez-se Director espiritual.</p> + +<p>De uma extração illustre, rico, herdeiro de um grande nome, porque +despresaria as pompas do mundo, os amores do seculo, as glorias? +Acordar-lhe-hiam os annos todos esses sentimentos a um tempo na alma, e o +horror do impossivel tornal-o-hia hypocrita, apagando-lhe a esperança com o +sopro do cynismo? Elle amára a filha de um velho fidalgo de Hespanha, que +desejava tambem realisar essa alliança dos seus pergaminhos com as grossas +sommas do enamorado de Hernanda, a madrilena engraçada, de ingenua +desenvoltura. Hernanda, na morbidez voluptuosa da sua natureza oriental, nunca +mais sorriu, nunca mais deixou vêr aquella alegria impaciente que a animava, +logo que soube a resolução da familia. Detestava o galanteador, aborrecia-o de +morte, resistindo sempre ás instancias e ameaças do pae, que procurava +sacrifical-a aos interesses e pompas do seu brazão de armas.</p> + +<p>Hernanda tinha um amor de infancia, puro, recondito; como um raio de luz que +nos fecunda ao desabrochar da vida, aquella affinidade precoce e ignorada de +todos fora uma intuição do sentimento. Amaram-se longo tempo sem saber o que +era amor. Quando um dia acordaram á luz sentiram necessidade um do outro, a +anciedade de uma mesma aspiração identificou as suas almas para sempre. Cedo o +noivo proposto soube da existencia de um rival obscuro. Procurou-o, farejou-o +na sombra, lançou-lhe o repto. Encontraram-se.<span class="pn">{107}</span> +Ambos corajosos e fortes bateram-se destemidos em um duello a todo o transe.</p> + +<p>Logo que Hernanda soube da morte do seu amor primeiro jurou um odio eterno +ao assassino. O velho fidalgo não comprehendia estas coisas; ameaçou-a com o +convento. A idéa da clausura, em vez de amedrontal-a, sorriu-lhe; era um +refugio, o unico que lhe restava no mundo, depois de perdida a esperança que +resume todas as que se podem ter na vida. Professou.</p> + +<p>O galanteador assistiu impassivel na egreja, para ouvil-a pronunciar os +votos. Havia n'aquella coragem uma alegria selvagem, egoista, para vêr que a +mulher que elle amava debalde, não havia de pertencer a mais ninguem. Depois de +satisfeito este instincto, lembrando-se de que fôra ludibriado, despresado, +passou-lhe pela cabeça uma idéa atroz de vingança. Queria salvar o seu orgulho +ferido. Lembrou-se tambem de abandonar o mundo, esconder-se debaixo da cugula +monastica. Para os que o conheciam foi um rasgo heroico de resignação; para +elle era um meio de poder vêr de mais perto Hernanda: só assim podia +tortural-a, vir a ser seu Director espiritual.</p> + +<p>O socego da solidão deixa apreciar os ruidos mais imperceptiveis; Hernanda +na mudez da cella, na ausencia completa de interesses que lhe povoassem a +existencia, era impressionada profundamente pelos sentimentos mais leves que +lhe passavam n'alma como as auras suaves pelas cordas de uma harpa. A +imaginação desenvolvera-se<span class="pn">{108}</span> a tal ponto, que a +fazia soffrer. Foi assim que frei Pedro, o disfarçado monge, veiu a ser seu +Director de consciencia. Elle exagerava as doutrinas mysticas do dualismo, o +predominio do mal, essa lucta incessante do espirito contra a carne, +fortificada pelas mortificações do corpo, pela vigilia, cilicios, jejuns, e +orações fervorosas. Provocava-a a abstrahir do goso dos sentidos, a contrariar +a natureza e abnegar da vida. Apontava-lhe a natureza risonha e luxuriante como +uma voluptuosidade, o regosijo e sêde de amor que a harmonia do universo +infunde como uma infracção á regra austera da perfectibilidade.</p> + +<p>Era preciso a solidão para gosar essa existencia intima, recondita, e +arrebatar-se até Deus. Com o silencio imposto, arvorado em preceito, +exaltou-lhe a vida interior, e o tumulto de idéas que se succediam prolongava a +excitação cerebral. A vigilia extensa e continua, a maceração e a leitura +piedosa foram-lhe desconcertando o equilibrio nervoso. As visões extravagantes +cercavam-na; vozes estranhas segredavam-lhe palavras assombrosas, que ella +repetia tremendo na penumbra do confessionario.</p> + +<p>Foi então que o monge, depois de a ter desprendido pela ascese insistente +dos limos da terra, lhe começou a falar de amor, o <i>amor divino</i>, a +anciedade preenchida pelo vacuo, a sêde mitigada com a calma do dezerto. A +imaginação perdida n'esse ideal vago, sem realidade possivel, delirava, +revestia a imagem palpavel com todos<span class="pn">{109}</span> os encantos +de um devaneio sensual, dava-lhe vida, amor, para corresponder ao que +tumultuava na sua alma solitaria. Mulher, menos curiosa da razão sufficiente +das cousas, sujeita a perturbações hystericas, enamorava-se da fronte altiva e +conjuntamente modesta do Christo, como a representavam os pintores da Edade +media; esquecia-se da vida exterior, parecia que a alma livre se absorvia na +imanencia da divindade. Era este amor, inspirado pelas imagens dos templos, tão +desvairado como a paixão do artista grego pela estatua eburnea que palpitava +debaixo do escôpro. Santa Rosa de Lima amava uma imagem da Virgem que tinha nos +braços o <i>bambino</i>. Ozana de Mantua, diante de uma imagem linda, caía em +extasis. Estas figuras de Jesus, radiantes de candura e fascinação, bellas, +fallavam aos sentidos; é por isso que o <i>amor divino</i> tem na sua +vehemencia e transporte um caracter sensual, como o exprimiram o solitario da +Ombria nos seus cantos a Santa Clara, S. João da Cruz a Santa Thereza de Jesus, +Madame Chantal e S. Francisco de Sales, Fenelon e Madame Guyon.</p> + +<p>O Director espiritual da desditosa Hernanda, descrevendo-lhe o <i>amor +divino</i>, isempto da zelotypia das paixões do mundo, não tendo a alma candida +de nenhum d'esses apaixonados e santos poetas, presentira, dois seculos antes, +a theoria ascetica de Molinos. Tinha em vista matar o peccado pelo peccado. Era +impossivel já. Hernanda pairava em espirito pelo empyreo; sua<span +class="pn">{110}</span> alma pura abysmara-se na immensidade do fóco de todo o +amor. O extasis em Hernanda, originado pelo fervor piedoso, era o +entorpecimento dos sentidos, um scismar indolente á cadencia dos inefaveis +concertos das cytharas dos cherubins.</p> + +<p>Então o Director de consciencia descobriu uma nova tortura para flagellal-a; +tinha um prazer infernal em tornar-lhe lento o soffrimento. Elle mostrava-lhe +que era o extasis o mais alto favor do céo concedido aos seus eleitos, e +descobria ao mesmo tempo como isso era para todos os grandes santos uma +provação difficil, pelo terror dos <i>proprios merecimentos</i>. Sam Paulo, o +que melhor revelou nos seus escriptos o espirito do christianismo, na Epistola +segunda aos Corynthios, fala d'este terror.</p> + +<p>N'aquella virgindade timida da alma, o corpo foi caindo em inanição; tinha +uma immobilidade beatifica. Apesar de todos os flagicios e macerações, o rosto +conservava ainda a frescura da rosa entreaberta, rociada pelo orvalho matutino. +No passamento das virgens, sereno como o declinar de uma aurora vespertina de +primavera, Jesus visitava as suas desposadas, como referem os legendarios. +Hernanda abrazára-se no amor ardente do céo; o vacuo absorvera-lhe o derradeiro +alento e sua alma soltou-se na ancia do infinito. Alta noite, sentiram-se umas +harmonias transbordando em enchentes do orgão do mosteiro; era uma musica +indisivel, nunca ouvida na terra. Foram vêr; ninguem percorria o teclado.<span +class="pn">{111}</span> Melodias suavissimas e remotas derramavam-se da cella +de Hernanda. Entraram. Respiravam-se perfumes aérios em torno d'ella. Um +sorriso diaphano, angelico, lhe ficára nos labios desbotados, como a ultima +vibração de uma harpa que se quebrara; parecia a incarnação de um sonho +melifluo das harmonias de Palestrina.</p> + +<h2>II</h2> + +<p>Desde o romper d'alva, que os sinos da Cathedral eccoavam clangorosos n'um +dobre funerario; o povo agitava-se inquieto pelas ruas, como na impaciencia de +uma grande festa. Era o dia de um <i>Auto de Fé</i> em Hespanha, uma +solemnidade extraordinaria, com que se celebrava e honrava a coroação dos reis, +o nascimento do herdeiro presumptivo, e a sua maioridade; era o grande drama +judiciario da velha jurisprudencia theocratica revestido dos horrores do +symbolo, mesclado de sangue derramado pelo fanatismo e prepotencia monachal. A +procissão vinha coleando ao longe, com uma gravidade funebre, misturada de +risos do rapazio que tudo parodía. Por todas as janellas negrejavam cabeças, +donzellas engraçadas, contentes, distraidas com a festividade apparatosa. Á +frente das confrarias e irmandades, os carvoeiros traziam a lenha para a +fogueira, imitando o passo da Escriptura, em que Isaac caminhava<span +class="pn">{112}</span> para a montanha do sacrificio. Seguiam-se em filas +extensas os frades dominicanos, arvorada na frente a cruz branca, e o bolsão +inquisitorial de damasco vermelho do duque de Medina Celli. Os penitenciados +vinham vestidos de um modo irrisorio e grotesco, descalços, cobertos de um +sambenito, com um chapeu afunilado, com figuras cabalisticas, diabos, labaredas +e caveiras pintadas.</p> + +<p>A multidão pavida e credula, sentia aquella grande contradição do coração +humano, apupava os miseraveis que interiormente a commoviam e lhe arrancavam +lagrimas de compaixão. Chegados proximo do estrado real, o Inquisidor geral +veiu receber o juramento da extirpação das heresias. Os brandões crepitavam nas +mãos dos condemnados; tornavam mais lugubre o momento. Depois viu-se levantar +uma figura macilenta, a cabeça encoberta no capuz, cruzadas as mãos sobre o +peito em que tinha repousado um crucifixo, o mesmo que um dia apresentára +diante dos reis catholicos Fernando e Izabel, dizendo-lhes que—o vendessem por +trinta dinheiros, já que se queriam tornar menos rigorosos contra os judeus. +Era o prégador frei Pedro. A voz taurina fazia estremecer as turbas, +representando-lhes ao vivo, nos esgares e visagens que fazia, os terrores das +penas do inferno. A multidão estava suspensa ante as vociferações sangrentas do +dominicano.</p> + +<p>—Sabes... (disse um desconhecido para um cavalleiro ainda novo, que estava +attento) não o conheces?<span class="pn">{113}</span></p> + +<p>O outro respondeu-lhe em voz baixa, de um modo quasi imperceptivel:</p> + +<p>—Ah, és tu, Diego Ortis? Bem o conheço pela fama de seu nome. É Pedro de +Arbués.</p> + +<p>E não te sentes possuido de raiva ao pronunciar esse nome de um hypocrita e +assassino?</p> + +<p>—Assassino?</p> + +<p>—Sim! Bem o devêras saber, porque é a ti a quem compete a vingança. Elle +pretendeu por todos os meios desposar Hernanda, tua irmã. Lembras-te? Era rico, +e teu pae desejava com todas as veras d'alma este enlace. A infeliz menina +resistiu sempre, até que se viu obrigada a professar em um mosteiro, abandonada +da familia. Não é verdade isto? Ferido no orgulho, elle metteu-se a padre, +disfarçou-se debaixo da cugula monastica e fez-se seu Director espiritual. +Matou-a lentamente com jejuns e macerações, com a lembrança continua da +tentação e da condemnação eterna. Pobre Hernanda! o mundo disse que morrera +como uma santa; Deus sabe que desesperos profundos lhe abalaram a vida, e +quantas vezes, no intimo da alma oppressa, não amaldiçoou a hora do seu +nascimento!</p> + +<p>—E como sabes isso?</p> + +<p>—Como o sei? Eu digo-te só que a vingança não dorme. Tambem tenho um legado +de sangue a cumprir. Era meu irmão o apaixonado, o eleito de Hernanda. Se ha +nada mais santo do que um amor que nos acompanha desde a infancia. Alonso +Ortis, doestado pelo rival audacioso, bateu-se<span class="pn">{114}</span> +generosamente e caiu ferido, morto á traição. Já comprehendes tudo.</p> + +<p>—Inferno! Para que me disseste essas cousas aqui, entre esta gente? Sinto a +convulsão da raiva que prostra, a sêde de sangue que me atira para elle. +Hernanda! a desgraçada, a silenciosa, a timida, que tudo soffreu e nunca soube +queixar-se! Eu quero trocar todas as tuas dores por um prazer egoista de +vingança. Fala-me, Diego Ortis; o que queres de mim?</p> + +<p>—Quero prudencia! Eu tenho esperado dia e noite, por toda a parte, e nunca +o tenho encontrado! nunca esta mão deixou de repousar sobre o punhal, e ainda +me parece que não é chegado o momento.</p> + +<p>A este tempo o frade estava na peroração do discurso; a turba batia nas +faces, consternada, por terra. Os dois vultos permaneciam de pé, insensiveis. O +prégador desceu do pulpito e vinha acercando-se d'elles com um olhar ameaçador, +para reprehendel-os da insólita irreverencia. O joven fidalgo precipitou os +planos de vingança, e arremetteu com um punhal no ár: apesar do impeto com que +foi brandido resvalou sobre o habito que encobria debaixo uma armadura cerrada. +</p> + +<p>Ergueu-se um susurro repentino. Era impossivel a salvação; com a ancia do +desespero Diego Ortis descarregou-lhe promptamente sobre o craneo tonsurado a +sua espada de cavalleiro. O povo alarmou-se e ia a precipitar-se sobre os +facinoras;<span class="pn">{115}</span> recuou de horror diante da +impassibilidade dos dois. A estatura corpulenta do padre tomou as proporções de +um Goliath, derrubado, banhado de sangue negro, a massa encephalica +derramando-se pelas soturas fracturadas do craneo. Fazia horror.</p> + +<p>N'aquelle mesmo dia os dois assassinos foram penitenciados; interrompeu-se a +missa, e a procissão proseguiu levando-os para o <i>Quemadero</i>, onde, com os +demais, foram devorados pelas chammas. Seguiram-se as pesquizas, as vexações e +os sequestros; com os seus processos tenebrosos a Inquisição lançou a rede por +sobre muitas familias. A Hespanha era, como se disse, uma grande fogueira. Mas +como ha uma antithese fatal na natureza humana, manifestada muitas vezes, a +cada instante da vida, na transição instantanea do sublime ao ridiculo, Roma +parodiou tambem esta scena sanguinolenta do drama tetrico de Torquemada na +farça jocosa da canonisação do frade prégador, que ainda hoje se venera nos +altares e de quem resa a folhinha com o nome de S. Pedro de Arbués.</p> + +<p><i>Ora pro nobis.</i><span class="pn">{116}<br> +{117}</span></p> + +<h1>A adega de Funck </h1> + +<h3>CONTO FUNDADO DAS NOTAS DE HOFFMANN </h3> + +<p>A ironia, quando não é despertada pela lucta incessante de contrariedades +imprevistas, que cercam o espirito de duvidas e desesperos, e o deixam na +prostração da indifferença e do cynismo, é uma doença, uma febre lenta, que vae +devorando a existencia, depois de a ter despido de todas as alegrias. +Observa-se no pessimismo do poeta. O riso com que a ironia se traduz, que é a +expressão que mais de prompto lhe acode no accesso do phrenesi suscitado pela +vista repentina de um contraste, para quem o comprehende, é uma visagem +infernal, um esgar que gela, um arremedilho de cadaver sacudido por uma pilha +galvanica. É uma descarga nervosa pela via muscular, como uma compensação, como +notaram os physiologistas.<span class="pn">{118}</span></p> + +<p>A gargalhada é tambem a linguagem das grandes agonias; é esta polaridade +mysteriosa da nossa natureza dupla, constituida já em aphorismo: os extremos +tocam-se. A ironia, derivada do mesmo principio supremo, é a impressão abrupta +de uma idéa infinita que se compara com outra finita, cuja disparidade +intuitiva desperta em nós todas as vibrações do sentimento comico. A primeira +manifestação do comico na vida foi por certo o <i>grotesco</i>; Susarion e +Thespis caracterisavam os seus personagens com borras de vinho. Elle +apparece-nos no mundo moderno como uma arma da burguezia contra a pressão do +clero e as extorsões dos senhores feudaes, na <i>Festa do Asno</i>, nos +<i>serviços</i>, nos <i>fabliaux</i>, nos baixos relêvos e goteiras das +cathedraes. O pico, a agudeza do pensamento estão completamente materialisadas +na imagem; eis o comico pela sua parte visivel ou objectiva, tanto da sympathia +popular.</p> + +<p>O <i>humour</i> é um gráo elevado; no contraste que se funda na antithese da +acção e o pensamento, a fórma não corresponde, contraría mesmo a expressão da +idéa, d'onde resulta uma monotonia triste; o esforço do que procura alegrar-se +infunde nos que o contemplam uma melancholia indefinida, como na <i>Viagem</i> +de Sterne.</p> + +<p>A ironia é a impossibilidade de conciliar os elementos da antithese, ou o +contraste mental que gera todo o sentimento comico: tal é o desespero<span +class="pn">{119}</span> de Hamlet propondo ao seu espirito o problema insoluvel +e eterno:</p> + +<blockquote> + <i>To be or not to be that is the question.</i> </blockquote> + +<p>A imaginação de Hoffmann similha um kaleidoscopo onde estas trez cambiantes +do sentimento se reflectem, confundem, se cruzam em direcções infinitas, +formando um espectro a que chamamos o <i>phantastico</i>. A ironia, o humorismo +e o grotesco succedem-se, como phases da sua inspiração. Quando elle sente +estas inversões do systema nervoso, annuncio da <i>tabes dorsalis</i> que +progride de um modo irremissivel, o pensamento então dá fórma a todas as +vertigens; a dôr torna a creação pessoal, caprichosa; os retratos que elle faz +são quasi sempre caricaturas, a incarnação de um riso de desespero. As bebidas +e o seu cachimbo de Kumer vêm distrail-o da consumpção que elle observa a cada +instante em si. O fumo que se ennovella em fórmas extravagantes no ár, e se +dissipa como uma chimera fugitiva, representa-lhe os typos que reproduz nos +seus contos. Ao fogão, na concentração intima da familia, o cachimbo povoa-lhe +o aposento de sylphos e gnomons, que embalam a phantasia enlevada em sonhos +incriveis, com musicas estranhas que o deliciam no egoismo do soffrimento que o +corróe. Elle tem uma affeição particular ás pessoas espirituosas, porque lhes +suppõe talvez a veia sarcastica proveniente de algum estado morbido. Quando se +retrata caricaturisa-se.<span class="pn">{120}</span></p> + +<p>Muitas vezes acceita-se uma creação comica, rimo-nos, sem saber que a +inspiração que a produziu foi a doença que arrebatou Molière, o desalento de +Gil Vicente, a resignação de Scarron. Porque não procuraria Hoffmann +distrair-se com o vinho, afogar n'elle a preoccupação do mal irremediavel, que +lhe atacava a espinha dorsal?</p> + +<p>O seu editor Funck, homem estimavel de caracter, a quem a especulação não +poz em guerra com os que têm a infelicidade de precisar escrever, convidou-o +para passar alguns dias na sua residencia em Bamberg. Funck tinha uma magnifica +adega e lembrava-se perfeitamente d'aquellas expressões de Hoffmann: «Fala-se +muito do enthusiasmo que procuram os artistas no uso das bebidas fortes; +citam-se musicos, poetas que não podem trabalhar senão assim; <i>eu não +sei</i>, mas é certo que com esta feliz disposição, direi, quasi sob a +constellação favoravel, em que se está quando o espirito passa da concepção á +realisação, as bebidas espirituosas acceleram a torrente das idéas.»</p> + +<p>Funck tinha o mais excellente de todos os vinhos, como lhe chamava Hoffmann, +o <i>Porto</i>, que no seu nome traz o segredo da sua força. O escriptor +original era esperado com anciedade em Bamberg. Chegou por uma tarde fria. O +céo estava escuro, carregado de nuvens; relampejava a espaços, como o preludio +de uma grande trovoada nocturna. Quando a natureza é triste sentimos uma +vontade de nos reconcentrarmos; o<span class="pn">{121}</span> lar domestico é +a grande poesia do norte. Um dos maiores castigos no antigo direito germanico +era a pena severa expressa n'aquella formula romana <i>interdictio tecti</i>; o +banido é comparado ao lobo solitario; a casa era arrasada, tapado o poço, +extincto para sempre o fogo do lar.</p> + +<p>Hoffmann esquecia todas as dôres ao abraçar aquelle amigo; com toda a +liberdade de uma confiança intima sentou-se logo ao piano. O phrenesi da +inspiração fazia-o percorrer desesperadamente o teclado. Era a sua ultima +composição, meio improvisada com o jubilo que sentia. Começou um canto com uma +voz desentoada, que fazia arripiar os nervos; parecia que estava em delirio. +N'isto um trovão rebentou com um estampido soturno.</p> + +<p>—A natureza, disse elle para Funck, escarnece-se de mim, parodia-me a voz +roufenha. Ha bastantes dias que tenho sentido humor para o romantico religioso. +<i>Jovis omnia plena!</i> Hoje, não sei se é o excesso da alegria, predomina em +mim uma exaltação humoristica levada até á idéa da aberração.</p> + +<p>Funck continuava silencioso. Hoffmann permaneceu alheiado alguns instantes, +como levado por uma serie de deducções, que absorvem fatalmente toda a +contenção do espirito. Estava a diagnosticar-se; a prolongada doença dera-lhe +um certo conhecimento do seu estado. Depois proseguiu:</p> + +<p>—É notavel! Que diversidade de sensações agora. Disposições humoristicas, +colericas, com<span class="pn">{122}</span> um humor musical exaltado, e +sentimento de um bem estar com indifferença. Como conciliar tudo isto? O +systhema nervoso inverte-se-me de dia para dia.</p> + +<p>Restrugia um aguaceiro espesso. Ha no cair da agua uma magia, que +adormece.</p> + +<p>—Vamos, disse Funck, interrompendo aquella reflexão penosa, eu tenho um +excellente remedio. Vejo-te tiritar com frio, de um modo que me tira a +satisfação do agasalho que presto a um amigo. O seio de Abrahão deve estar com +uma temperatura suave; refugiemo-nos lá.</p> + +<p>—Como isso era bom! mas infelizmente as azas da poesia não nos desprendem +da terra; a realidade é peior do que o sol para as azas de Icaro; ella toca-nos +o corpo com mais aspereza do que o velho Satan quando experimentava o +desgraçado varão da terra de Hus. Agora acho-me divorciado com a poesia, com a +musica, com a pintura; são as tres furias que sob uma apparencia seductora +surgiram das sombras do paganismo para attribularem-me o espirito.</p> + +<p>—E por que não havemos de refugiar-nos, em uma tarde d'estas, no seio de +Abrahão?—disse Funck procurando interromper a corrente das idéas +afflictivas.—Não é tão dificil como pensas. Nem são precizas azas para ir lá. +Para descermos basta obedecer á lei eterna da gravidade, que sobre nós pésa. +Não sabias ainda que a gravidade é o nosso peccado original?</p> + +<p>Hoffmann sorriu-se; o seu amigo tomou um<span class="pn">{123}</span> tom +humoristico para se adequar ao caracter d'elle n'esse dia.</p> + +<p>—Apesar da facilidade que apresentas ainda não resolvi o problema. Como +iremos nós procurar conforto ao seio de Abrahão?</p> + +<p>—Segue-me.</p> + +<p>Funck caminhava adiante com um ár victorioso. Hoffmann sorria-se com um modo +duvidoso, para que o riso o defendesse do logro que esperava. Desceram uma +escadaria escura; uns ferrolhos pesados gemeram, como se se abaixasse uma ponte +levadiça. Entraram. Era um subterraneo fundo, allumiado por um lampadario de +bronze. Depois de affeito á sombra, Hoffmann pôde discriminar grandes toneis +dispostos, como uma longa fila de cachaci-pansudos conegos.</p> + +<p>Era a adega do seu amigo Funck. De facto havia ali uma temperatura tepida, +de fermentação. Nenhum olhar importuno através da abobada calada.</p> + +<p>—Se os velhos patriarchas, principalmente nosso pae Noé, não trocariam de +boa vontade a tua adega pelo seio de Abrahão!—Hoffmann estava animado de uma +alegria indisivel; era um homem de extremos; a sensibilidade excessiva +deixava-lhe apreciar os mais desapercebidos contrastes, era por isto que elle +possuía mais do que ninguem o <i>genus irritabile vatum</i>.</p> + +<p>Mal acabava de proferir aquellas palavras, quando se atirou de um salto, com +uma loucura de criança, e se escarranchou em um tonel.<span +class="pn">{124}</span></p> + +<p>Funck seguiu o exemplo.</p> + +<p>—A vida é um grande mar, que estua em convulsões interminaveis; felizes os +que caindo na voragem encontram d'estes delphins, que os tomam sobre si e os +levam a porto seguro.</p> + +<p>—Foste feliz na imagem, principalmente, porque o vinho desperta-me o humor +erotico-musical, e os delphins, se dermos credito a antigos fabuladores, eram +levados pela magia da musica.</p> + +<p>E começou a cantar alguns trechos da sua opera a <i>Ondina</i>, que só +interrompeu para levar á bocca o sifão de lata que estava mergulhado na pipa. +Hoffmann tocava a realidade dos seus contos.</p> + +<p>—Este não dá pelos calcanhares do teu dilecto <i>Porto</i>?—accudiu Funck; +o vinho de Nuits é dos melhores de Borgonha, e, graças ao céo, podemos nadar em +mar de rosas.</p> + +<p>A noite corria tempestuosa e tetrica: os trovões rebentavam com uma +detonação tremenda. Nos áres, coriscou um relampago repentino e veiu illuminar +com um clarão pallido o rosto dos dois amigos, que tocavam n'este momento os +copos espumantes. Era um quadro com toda a verdade e simplicidade de Teniers, +como o proprio Funck, em uma nota de uma edição do seu amigo, confessa com +aquella ingenuidade allemã.</p> + +<p>Hoffmann ficou deslumbrado com o fulgor instantaneo; tinha a mudez do +terror.</p> + +<p>—Em que pensas?</p> + +<p>—Um conto, um conto horrivel!<span class="pn">{125}</span></p> + +<p>—Mais uma saude, e narra-me essa historia ponto por ponto.</p> + +<p>—Historia? dizes bem; porque tem muita verdade, ao menos a verdade da arte. +Nunca te fallaram n'isso? Admira! Foi tão notorio. Quem a não conheceu! Bella, +como era, ninguem podia fital-a sem experimentar o pasmo da admiração. As +linhas do semblante tinham uma irradiação etherea, perdiam-se no ár. Era uma +visão suspensa, a incarnação de um sonho indizivel de amor.</p> + +<p>A tristeza realçava-lhe a candura angelica. Para ella, a vida era um +desterro no mundo. Passava, alheia de tudo, distraida, sem saber que levava +apoz si todas as aspirações que um olhar de relance, fortuito, gerava na alma. +Um dia vi-a pelo braço de um homem feio, que a conduzia com burlesca +familiaridade! Disseram-me que era o marido.</p> + +<p>Perscrutei o segredo de uma união para mim impossivel, inexplicavel. Não +tinha sido arrojada a hypothese: viviam com uma certa paz artificial, um +accordo de convenção ante a sociedade. O marido bem conhecia, que a familia da +engraçada criança a forçara áquella união desegual; a consciencia da riqueza +não conseguira persuadil-o de que a merecesse; e espreitava, espiava-lhe todos +os olhares, interpretava-lhe cada gesto insensivel.</p> + +<p>O que não idearia o ciume? O ciume que não tem a franqueza selvagem de +Othello é vil, infame.<span class="pn">{126}</span> Um dia, a infeliz senhora, +começou a sentir-se indisposta; não faltavam carinhos da parte do esposo, não +poupava esforços para consolal-a, com uma solicitude hypocrita. O mal +progredia, convulsões violentas a accommettiam, vertigens assombrosas, dores +intensas, como se lhe retalhassem as entranhas. O marido escutava os gemidos +com um pungimento affectado.</p> + +<p>Conhecera que morria:—«Sabes, disse ella tomando-lhe uma das mãos, eu deixo +a vida, mas custa-me baixar á frieza do sepulchro sem te dizer uma palavra. Oh! +nem sei como revelar-te esse segredo, esse desvario de uma paixão infantil. Não +soube guardar a fidelidade do thalamo.» O marido ouviu a confidencia solemne +com um ár estupido de imbecilidade:—És n'este momento tão generosa e grande! A +verdade nos teus labios vibra-me de um modo que tudo te perdôo. Choras? escuta. +Deixa tambem fazer-te uma revelação tremenda: envenenei-te.</p> + +<p>Hoffmann não pôde tirar do conto a moralidade que se espera, e caiu, +esquecido do mundo, entre os toneis do seu amigo.<span +class="pn">{127}</span></p> + +<h1>Revelação de um caracter </h1> + +<p>Como eu, elle tambem vivia ignorado, ocioso, distraído, fumando sempre, +debruçado de uma janella que deitava sobre o mar. Passava horas esquecidas +assim, a contemplar as ondas no seu eterno refluxo, imagem dos pensamentos +reconditos, das aspirações impossiveis, que tempestuavam na solidão de sua +alma. Muitas vezes me disse elle, quando a indiscrição da amisade o ia +interromper do quietismo contemplativo que o absorvia, e lhe perguntava que +idéas mysteriosas o afastavam para tão longe da realidade e da vida:</p> + +<p>—Se fosse possivel exprimir, stenographar na palavra tudo o que se revolve +na mente, o homem mais sabio pareceria um tolo; se fossem coerciveis todos os +sentimentos, que passam e succedem<span class="pn">{128}</span> no coração, o +homem mais santo e simples apparecer-nos-hia com a hediondez da infamia.</p> + +<p>E continuava, embebido n'um scismar indefinivel, extranho a tudo o que se +passava em volta d'elle, como na reconcentração de um grande desgosto. Outras +vezes mostrava uma alegria irrepressivel, impaciente, louca, sem motivo; mas +cada riso era o preludio de imprecações e ironias pungentes, que vibrava dos +labios acerados: o enunciado breve e incisivo d'uma grande verdade, mas triste, +horrenda, incrivel, e infelizmente verdadeira, que a sua lucidez de doente +descobria. Não sei qual o torturára primeiro, se a duvida ou o sarcasmo. Elle +submettia á analyse fria os sentimentos mais puros e intimos, volatilisava-os +pelos processos de uma dialectica irretorquivel, e por fim o ultimo canon da +sua logica era uma gargalhada irritante que fazia gelar de medo. Elle mesmo se +doía de sua crueldade, era o primeiro a accusar-se e a procurar corrigir-se. As +linhas de sua physionomia davam-lhe ao semblante uma fórma angulosa, de +energia; o olhar incerto não repousava, como quem observa nas sombras de um +abysmo insondavel, nunca o fitava, temendo talvez que lhe surprehendessem na +expressão fugitiva que o animava o ridiculo, que sabia admiravelmente +descobrir.</p> + +<p>Deixei de procural-o longo tempo; repugnava-me aquelle caracter +incomprehensivel; para monomaniaco era insupportavel, para excentricidade +despresivel. As contradições tornavam-no absurdo.<span class="pn">{129}</span> +Custava-me vel-o na consumpção d'essa apathia, criança e foragido do mundo, sem +ter a commoção dos grandes sentimentos que nos prendem á vida, e que são o +conforto nas horas vagarosas do desalento. De uma vez encontrei-o a ler com uma +voracidade, como a de Isaías ao revolver as paginas dos arcanos +imperscrutaveis. Procurei vêr se a sua imaginação viva o tornava illuminado, se +era a consciencia da segunda vista, da percepção immediata que o tornava ocioso +e inerte:</p> + +<p>—O que lês? Que livro é esse que um dia te prendeu a attenção +inconciliavel?</p> + +<p>—Uma terrivel obra prima, uma perigosissima e espantosa maravilha de arte! +É um romance de Diderot, que contém em si o germen de uma revolução moral, o +<i>Neveu de Rameau</i>. Nunca o leste? É impossivel observar mais profundamente +o coração do homem, isolar-lhe os sentimentos e reproduzil-os em uma creação +mais brilhante. Somos todos como elle. <i>Rameau</i> é a grande contradicção da +nossa natureza, com a differença que obra segundo essa força, não se contrafaz +pelas conveniencias da sociedade, obedece-lhe fatalmente, e é por isso que +horrorisa; as maximas do cynismo mais revoltante e abjecto, as doutrinas mais +subversivas de toda a ordem, vêm-lhe no dialogo animado, seguidas de +sentimentos purissimos, intenções boas e justas, de um modo abrupto, que +espanta. Os seus paradoxos são os da humanidade, com a differença que<span +class="pn">{130}</span> a educação os abafa no intimo de nossa consciencia, e +elle, o parasita, o musico, o bandido, o desgraçado <i>Rameau</i>, tem a +infelicidade de pensar alto; deixa vêr, através da sua ingenuidade, todas as +paixões despertadas por desenfreados instinctos, que existem egualmente em nós, +mas que os refreamos e os detestamos, como se fossem a degradação nos outros. +Este livro é a synthese da philosophia do seculo XVIII; ella avançou principios +de uma verdade inconcussa, de rasão profunda, a rasão universal, de todos os +tempos, mas que foram combatidos e ainda hoje não são completamente +admissiveis, por esta maldita necessidade de transigirmos com as +conveniencias.</p> + +<p>Esquecera-se n'aquelle dia do habitual silencio; fallava com uma verbosidade +febril; observações penetrantissimas, rasgos de uma intuição pasmosa lampejavam +brilhantes, no decurso da conversação. Expressando-se sempre com difficuldade, +então, jorravam-lhe as palavras faceis e promptas, com uma nitidez que +acompanhava as mais delicadas analyses.</p> + +<p>A este tempo, assomou a uma janella fronteira ao seu quarto uma visinha, que +vivia honestamente na desgraça, irmã d'aquella flor de Magdala, calcada aos pés +pelos que não comprehenderam o impulso dos sentimentos que a transviaram. A +pobre trabalhava e distraía-se a vêr os que passavam; cantava e ria esquecida +do seu opprobrio. Estava vestida com uma côr triste, que lhe realçava a +expressão dolorosa. Elle viu-a;<span class="pn">{131}</span> cumprimentou-a com +um sorriso leve, que traduzia um epigramma, que fôra comprehendido. Depois +voltou-se para dentro: </p> + +<p>—Ha uma affinidade intima entre a mulher e as côres; a escolha, a +preferencia, a seducção por uma, é a linguagem de um sentimento recondito, que +resôa dentro em si, e que ella não sabe exprimir, é o symbolo na sua fórma mais +poetica e simples. A mulher é sempre uma criança, chora e ri ao mesmo tempo; +como sente mais do que pensa, quer mais do que pode. A grande contradicção, que +faz com que realise as nossas aspirações vagas e ideaes! Como uma criancinha +que tem sêde, e, não sabendo ainda pedir agua, aponta para ella e exulta, assim +a mulher não podendo revelar o sentimento indefinido que a eleva, que a faz +soffrer e amar, serve-se da linguagem symbolica das côres, para completar a +expressão que lhe transluz no rosto. Raphael, na sua inspiração divina, +entreviu este mysterio quando ao determinar o ideal da Virgem na arte moderna, +tomou a côr do azul ethereo para colorir-lhe o manto. O ideal da mulher no +mundo antigo, menos espiritual, mas egualmente bello, mostrava-a como uma flor, +a creação mais aprimorada da natureza, a planta mimosissima e languida; é assim +<i>Sacuntala</i>, na poesia da India; a <i>fraqueza</i>, que póde tanto como a +constancia heroica, quasi impossivel, de sua irmã <i>Griselidis</i> na Edade +média; ella confidencia com as aves, os arbustos choram na despedida, as flôres +amam-n'a<span class="pn">{132}</span> como uma irmã gémea, um carpello +tenuissimo animado á luz do sol brilhante, perfumado com todas as essencias de +uma atmosphera limpida e serena. É por isso que do Oriente veiu aquelle modo de +fallar de amores pelo <i>salem</i>, um ramilhete allegorico das paixões que +perpassam na alma. Ha rostos de mulher archangelicos, sublimes, realçados pelas +côres; a côr é a expressão da luz, como a luz uma expressão do espirito. +Quantas mulheres perdidas, com um ár de innocencia que illude! a preferencia +pelas côres, que as fazem realçar tanto, é por certo o desejo mais intimo de +sua alma, que os labios não se atrevem a proferir. Como para cada zona ha uma +analogia com as côres luxuriantes da vegetação, pelas côres das roupagens se +pode conhecer a mulher; a oriental voluptuosa, enlevada n'um tropel de +pensamentos de alegria, sentindo o coração a trasbordar-lhe desejos, que +desconhece, orna-se com as côres que mais fallam aos sentidos, as mais vivas, +as que mais seduzem. Não é isto assim?</p> + +<p>—É; porque o genio póde dizer tudo impunemente. Dá vida ás creações que +inventa, soffre com ellas, que são a alma da sua alma.</p> + +<p>—Se assim fosse, não andaria no mundo travado este antagonismo do senso +commum, positivo e costumeiro, inflexivel nos seus juizos praticos, com +aquelles que procuram realisar na vida os sentimentos superiores e eternos com +que animaram a argila fragil, que procura constantemente<span +class="pn">{133}</span> elevar-se acima da materia a que está presa. É a lenda +do cego de Smyrna, corrido, perseguido de terra em terra; não lhe comprehendem +a vocação. Afferem-lhes as acções pelos factos vulgares, de todos dias, e a +disparidade faz com que se lhes chame um desgraçado, um extravagante, um +doido.</p> + +<p>—Revoltas-te contra o senso commum?</p> + +<p>—Revolto-me contra toda a generalidade, que procura absorver o individuo, +assimilal-o, confundil-o. Quero que a individualidade se constitua e imprima o +seu caracter, de modo que o tempo e o espaço attestem a passagem do grande +homem.</p> + +<p>—Revoltas-te contra a natureza?</p> + +<p>—O que é a natureza diante da obra d'arte?—e elevando-se em um +hegelianismo de sectario, elle proprio respondeu: Um verbo insignificativo, que +apresenta todas as formas de que o bello pode revestir-se, o archetypo material +que só se espiritualisa no typo, que é um facto da consciencia humana. Quando +na imitação do archetypo a verdade é tão exacta, que o typo se confunde com +elle, o sentimento que então disperta é incompleto, porque não deixou perceber +que á determinação do facto presidiu uma consciencia. O bello é uma creação +toda subjectiva; é despertada pela natureza, mas não existe lá; escolhemos as +imagens em que melhor a podemos manifestar nas suas multiplices e variadas +realisações, as caracteristicas que a traduzem<span class="pn">{134}</span> +fóra de nós. O bello é absoluto. Não existe o feio, que é apenas uma hypothese +negativa em que se funda a synthese das realisações artisticas; o bello! o +ponto onde convergem todas as evoluções da forma, incluidas na polaridade do +bonito e do feio, e gravitando em volta d'esse principio unico, eterno, é o +ideal que as faz tender para elle. O bonito e o feio são as duas relações que +nos levam á comprehensão da idéa do bello. O bonito desperta-nos esse +sentimento espontaneo por inspiração intuitiva; o feio leva ao mesmo resultado +pela reflexão. O <i>Sapo</i>, de Victor Hugo, asqueroso, repellente, depois de +idealisado, é profundamente bello. Quando se espiritualisa a imagem, e é esta a +missão da arte, o espirito ha de amar a sua creação. O estatuario delira com o +amor da Galathea. Não posso deixar de obedecer a esta fatalidade do meu +caracter; deixo-me arrastar pela contradicção. O bello tem algum tanto de +convencional; assim admiramos uma illuminura da Edade média, os arabescos de +uma janella gothica. O que parece convenção não é mais do que a reflexão, que +nos faz descobrir n'aquillo que contemplamos um progresso do espirito, e nos +mostra a tendencia da natureza a ser espiritualisada. Pelo sentimento do bello +se obtem o desenvolvimento e elevação que podem prestar-nos na vida a religião +e o direito; o <i>verdadeiro</i> e o <i>justo</i> não são mais do que as +manifestações do <i>bello</i> no mundo moral. Ha só uma religião, é a da arte! +O pantheismo é<span class="pn">{135}</span> a suprema creação poetica, a +identificação dos sentimentos do bello e do verdadeiro. Mesmo o direito +primitivo teve um caracter pantheista, a natureza é animada, é testemunha na +accusação, é pura como no ordalio, firma o contrato, submette-se tambem á +penalidade, tem personalidade; os animaes compareciam tambem em juizo. A arte +sobre tudo! ella suppre a sciencia e a observação, pela intuição viva; a +realidade é contingente, variavel; o ideal, a creação pura do homem, é +intangivel, eterno, emquanto a obra de Deus se converte em pó. +Sacrifiquemos-lhe tudo na vida.</p> + +<p>—Mesmo o amor?</p> + +<p>—O amor? Rio-me da tua credulidade. Ainda fazes uma religião d'esse +sentimento egoista, que procuras elevar acima da animalidade. Querem afferir as +affinidades electivas pelo que vêem nas paixões descriptas pelos poetas. O amor +como o imaginas, só existe nas obras d'arte; fóra de lá é uma falsificação, uma +loucura, um impossivel. Eu explico o egoismo olympico de Goethe recusando o +beijo de Frederica, a dedicação symbolisada no que a mulher tem de mais +apaixonado e expressivo. Pede ao amor a paixão, como pedes á natureza a +paizagem; depois de te possuires de todos esses sentimentos, eleva-te acima da +passividade pela reflexão fria, calculada, e terás a consciencia das fórmas com +que has de fazer sentir os outros, dominal-os, possuir os segredos de suas +emoções, e és grande! Não fallo mais n'isto; só fica bem na bocca de +Dyotima.<span class="pn">{136}</span></p> + +<p>E começou a assoviar uma ária caprichosa, passeiando vagarosamente; depois +voltou-se para mim:</p> + +<p>—Ha ainda que descobrir na musica; falta-lhe realisar o principio da +ironia, como ha em todas as fórmas particulares da arte. A poesia tem a satyra; +a pintura a caricatura e o grotesco; só a musica precisa attingir a antithese +do pathetico. O pathetico e a ironia são os dois polos de toda a evolução +esthetica. Todas as creações na arte sáem d'estas duas paixões oppostas. Uma é +o natural, a outra é o não natural como natural; uma sustenta o sublime, a +outra o ridiculo. Ao pathetico eleva-se todo o que soffre; só o riso é a força +das grandes individualidades. Ri-te de tudo; o riso denota sempre uma +superioridade.</p> + +<p>Não o comprehendia; o seu riso pungente de ironia desarmava-me. O genio é +uma nevrose, uma disformidade; o que nos outros me parecia egoismo, n'elle não +sabia como chamar-lhe. Para elle a gratidão era a justificação do servilismo; o +sentimento religioso uma tradição da ignorancia primitiva; o amor de mãe uma +impertinencia, que só se dá entre os animaes da classe dos mamiferos, pela +conversão do habito em instincto. Explicava tudo assim. Parecia uma alma +devastada por longas abstracções, que andava errante no mundo, á busca de uma +formula impossivel. A analyse continua dava-lhe uma certa malvadez, tornava-o +intratavel.</p> + +<p>O caracter faz-se. Quaes seriam as circumstancias<span +class="pn">{137}</span> que o transformaram até áquelle ponto? Indagava-o como +um problema interessante. Fui por deducções pequeninas. Muitas vezes me fallava +elle da harmonia plastica das fórmas. Contou-me uma historia original: uma +menina engraçada, cuja belleza realçava com uns dentes alvissimos de jaspe; a +vaidade de mostral-os tornara-a jovial. Infelizmente tropeçou em uma escada e +quebrou um dente. Perdera o seu melhor encanto. D'ahi em diante, procurando +encobrir esse defeito, tornou-se taciturna, melancholica, apprehensiva, até que +se foi definhando e morreu de desgosto. Contava-me isto como uma grande +verdade, como doutrina que professava. Admirava o costume de Sparta, que +mandava despenhar de uma rocha as crianças disformes. Pobre rapaz! Como uma +circumstancia pequenissima lhe influiu no caracter e na existencia. Elle era +aleijado de um pé, como Byron, e era este o seu desgosto intimo, que o trazia +solitario e o tornava aggressivo, porque se via amarrado a um ridiculo.<span +class="pn">{138}<br>{139}</span></p> + +<h1>O sonho de Esmeralda</h1> + +<p>Oh! meu amigo, oh! meu poeta, tu não sabes o que é um rapaz que sáe aos +vinte annos da sua agua furtada, sem conhecer o mundo, ignorando a vida, tendo +vivido alimentado por sonhos impossiveis, rico de todas as leituras, levado por +ambições altivas, que o fazem grande, sentindo muito, amando tudo, e que o +acaso atira ao meio de uma cidade opulenta, onde ninguem se conhece, onde todos +se egualam e atropellam! Foi quando comprehendi aquelle tercetto de Dante, de +uma profundesa nocturna, que me abysmava, cada vez que o repetia na mente:</p> + +<blockquote> + <p class="versos">No meio do caminho d'esta vida <br> + Dei por mim na amplidão de selva escura, <br> + Pois que a vereda certa era perdida. </p> +</blockquote> + +<p>Não sabes como o ruido de uma cidade immensa, o dédalo das ruas, a +extranhesa e indifferença<span class="pn">{140}</span> dos que passavam, me +tornava solitario no meio das multidões. Tantas vozes perdidas no ár, e nenhuma +para mim! Tantos braços cahidos com desdem, e sem nenhum me estreitar a si. +Parecia-me o tumulto como um naufragio em que a ancia do salvamento nos torna +egoistas, insensiveis para as agonias dos outros.</p> + +<p>Todas as aspirações que me fizeram deixar o retiro benigno onde me voaram os +primeiros annos, mostrando-me o mundo como uma grande festa, que me despertaram +o desejo de ser tambem um dia conviva, iam-se apagando, abandonavam-me como no +encontro fortuito de um desconhecido. Sentia-me pequeno, incapaz de luctar, de +me impôr a admiração dos outros.</p> + +<p>O que teria sido de mim nas horas monotonas do desalento, nos longos dias do +desamparo, se não fôra a poesia! Até então tinha ella sido um folguedo, um +brinco infantil, innocente, um vagido timido e suave da alma, que anceava a +luz, como uma borboleta prateada antes de romper a chrysalida nocturna. Sem ter +quem me fallasse, pedi á poesia os seus antigos carinhos, um alento de +esperanças, um orvalho para refrescar a aridez do dezerto em que me via. Ella, +a irmã dos tristes, a alma dos que soffrem, como veiu terna, espontanea, +compassiva para consolar-me! Cantava, como uma criança, quando tem medo e +procura esvaecer os vultos caprichosos que lhe voejam na phantasia. Foi a +poesia tambem que salvou o desgraçado Jacopone, quando, abalado<span +class="pn">{141}</span> pelos desastres da vida, errando pelas ruas desvairado +e doido, apupado da plebe, perseguido, veiu bater ás portas de um mosteiro, +d'onde egualmente o repelliam. Foi ella que lhe deu a paz da cella e a +serenidade da contemplação.</p> + +<p>Oh santa e divina poesia! bem hajam os que choraram por que te descobriram e +trouxeram á vida, como uma pérola nunca vista trazida do fundo do oceano. Bem +hajam os que ainda choram, por que te guardam em si, como uma vestal solicita +ateando continuamente a labareda do altar. Bem hajam os que hão de vir para +soffrerem, por que nos comprehenderão sentindo-se aliviados.</p> + +<p>Andava pela cidade sem destino, vagabundo; eu mesmo ia comprar o alimento +para o dia, e enojava-me esta guerra mesquinha e vil do pequeno commercio para +os que chegam incautos, inexperientes. Os fundos, e bem poucos que eram, iam-se +reduzindo de dia para dia; estava quasi sem dinheiro, e com um orgulho e +altivez incrivel para affrontar o futuro.</p> + +<p>Enrolado, dentro de uma gaveta, tinha um manuscripto, que escrevera para +distrair-me na solidão das minhas horas. Quando me lembrei d'elle comecei então +a dar-lhe o valor que até alli não conhecia. A necessidade, que se approximava, +a cada instante, fazia-me procurar n'elle todas as esperanças. Pobre +manuscripto! Quem o poderá entender, quem dará dinheiro por essas paginas sem +sentido, que a<span class="pn">{142}</span> ninguem tocam e que nem ao menos +fazem rir? Demais, estava escripto com uma letra inintelligivel, entrelinhado e +sublinhado, em um papel repassado de tinta amarella, que mal se percebia. +Quando me vi quasi sem dinheiro, á <i>porta inferi</i>, tornei a enrolar o +manuscripto, metti-o debaixo do braço, e sahi. Passava pela porta dos editores +e não me atrevia a entrar. Tinha medo que me insultassem com um riso de +escarneo, por me verem tão criança e já com pretenções a auctor. Guardava +sempre para ámanhã a extrema resolução, e tornava a trazer o livro para casa e +a fechal-o na gaveta. Não imaginas que horas de tormentos! Eu temia que me +apagassem com um riso todas estas esperanças, e me convencessem com argumentos +assim da minha nullidade; bem conhecia o que me haviam de dizer, previa-o, +cheguei a escrever a resposta que os editores me dariam: «O seu manuscripto não +tem leitores; não é um romance, nem um conto; tem algumas paginas excellentes, +mas não póde dar lucro de maneira alguma.»</p> + +<p>Era esta a resposta que eu antecipava, para me não doêr tanto depois quando +a recebesse. Um dia, o ultimo, sai a tremer com o manuscripto. Oh meu amigo, +para que te hei de fallar n'estas cousas? Nem eu queria chegar a este ponto, +quando te prometti contar a historia d'essa mulher, que tu conhecias melhor do +que eu. N'esse dia, comecei a sentir povoar-se-me a soledade da vida, mas com +outras dores, desesperanças novas.<span class="pn">{143}</span></p> + +<p>Nos primeiros mezes que passei n'aquella cidade, tinha lido e estudado +desesperadamente; a meditação fôra o refugio do tedio, mas era como um abutre +que me lacerava as entranhas.</p> + +<p>Vi-a! leve, delgada, divertida, olhando para todos, com uma graça +encantadora de infancia, com uma gentileza de senhora, confundida pelo meio da +plebe, sorrindo para os que a fitavam. Foi um d'esses sorrisos que me levou a +alma presa. Que lucta obstinada e escura dentro d'esta pobre alma! o estudo e a +paixão debatiam-se, arcavam, procuravam mutuamente supplantar-se. Eu tinha +acabado de ler a <i>Notre Dame de Paris</i>, e achava em mim não sei que +analogias sinistras com Claudio Frollo. A <i>Notre Dame</i> de Victor Hugo é a +rosa emmurchecida, que rejuvenesce ao sol do mysticismo, é a <i>Turris +eburnea</i> por quem o poeta se apaixona no sublime delirio da arte. Claudio +Frollo! o desgraçado arcediago deixou tambem correr tranquilla a mocidade no +retiro do estudo; depois a <i>Esmeralda</i> enfeitiça-o, dançando, no volteio +vertiginoso das praças. São duas paixões que se combatem. Qual d'ellas +triumphará? A fatalidade do impossivel?</p> + +<p>Eu não conhecia o labyrintho de ruas da cidade populosa e immensa, ía em +busca d'ella sem saber para onde. Encontrava-a quasi sempre, por uma +coincidencia fatal. De uma vez, lembra-me ainda, foi quando a vi mais bella do +que nunca, mesmo do que todas as mulheres. Estava confundida entre a multidão, +que a abafava na sua<span class="pn">{144}</span> onda; mas para mim realçava +tanto como um carbunculo que reflecte em si a luz de todos os cirios. Via-lhe +na expressão languida e curiosa a alma de todas as almas dos que a cercavam. O +povo amontoara-se para vêr subir aos áres um balão. Era um dia de alegria e de +festa; quando a descobri estava com os olhos erguidos para o céo. Oh! se ella +soffresse, se implorasse a Deus uma consolação, não estaria mais sublime e +radiante. O que a fazia confundir o azul dos seus olhos com a limpidez do +firmamento era a curiosidade de criança. E contemplava o balão que subia, +alheia á vozeria da gentalha. Desejaria elevar-se tambem ás alturas, e então +estava pensando no devaneio d'esse desejo? Quem sabe os caprichos que passam +pela alma de uma mulher? Quem póde contar todas as ondas que faz uma brisa +perpassando levemente á flôr das aguas? Quando baixou os olhos á terra deu com +os meus, que a contemplavam, sorriu-se. Oh! como aquelle sorriso me faria +esquecer todos os pezares, me daria coragem para todas as luctas, me insuflaria +alento para os mais inauditos esforços, se ella se não sorrise assim para +todos.</p> + +<p>Para todos! É este egoismo do sentimento que gera os nossos males, exacerba +a mais terrivel das paixões, a mais selvagem e vil, que é só grande pela +loucura. Eu tinha ciumes de todos, porque ella sorria prodiga de encantos, +tanto para os que passavam indifferentes, como para o que a contemplava com o +desinteresse com que se<span class="pn">{145}</span> olha para um marmore +antigo ou adorando a sua morbidez de Madona, como para aquelles espiritos +baixos e abjectos que a fitavam desassombrados, preoccupados de um desejo +faminto e estupido de sensualidade.</p> + +<p>Criança e indiscreta, seria a innocencia que a fazia sorrir para todos, como +uma borboleta que vôa de flor em flor, ou como uma rosa que embalsama de +perfumes todas as virações que passam? Eu não sabia, e tinha medo da verdade. O +amor triumphava completamente do estudo. A verdade, que procurava incansavel no +ardor das vigilias, agora já não me mostrava os mesmos encantos. Queria que se +escondesse, que se não deixasse tocar por mim, como um arcano divino. Quem +podesse viver sempre illudido! Oh! verdade! verdade! para que vens agora, que +te não busco, acordar-me tão cedo do sonho doirado?</p> + +<p>A multidão dispersou-se ao vir da noite; eu fui seguindo para onde ella +habitava. Ia perdido, a distancia, sem conhecer as ruas; a pequena, distrahida, +como por descuido olhava para traz. Depois que soube onde morava, procurava a +cada instante vel-a. Havia uma fatalidade que me atirava para essa mulher. Só, +no meio de uma cidade grande, desconhecido, amava a perdição, e sentia-me +arrastado, sem ter ao menos um Tiberge que me salvasse, como o amigo do infeliz +Des Grieux, amante da <i>Manon Lescaut</i>. O futuro! nem já podia vêl-o, com a +vertigem que um olhar<span class="pn">{146}</span> fascinador me causava; +apagava-se esse ideal que me dera tantas vezes coragem nos transes e provações +da vida. Ria-me do futuro. E que é o futuro? De que me vale preparal-o, +consummindo a vida, se me foge antes de o gosar? Viver obscuro! embora n'uma +trapeira, mas ter um dia, ao menos, a mais pequena realidade de tantos sonhos! +Ter que apalpar entre as visões brilhantes, sem corpo, e que nos mentem sempre. +Viver obscuro! Que haverá melhor, quando se tem ao lado aquella que se ama e +resume todos os encantos e riquezas do mundo na mais pequenina de suas +fallas?</p> + +<p>Sentia-me escorregar lentamente para o precipicio; a paixão dava-me uma +lucidez com que explicava a loucura e a justificava diante da consciencia que +me accusava de instinctos baixos, sem dignidade. Apparecia-me á janella todas +as tardes; sentava-se ali e costurava. Tinha um orgulho indizivel ao lembrar-me +que, de entre todo aquelle bulicio de gente desconhecida, havia uma mulher que +pensava em mim e me estava esperando. O amor tornava-me timido; queria +fallar-lhe e não sabia. Pedi então á poesia que fallasse por mim.</p> + +<p>Para um amor puro, ethereo, que se esconde e não se atreve a declarar-se, +nada o exprime melhor no seu vago ideal do que um soneto. Estudei esta fórma, a +mais completa das fórmas lyricas. Elevado como a ode, melifluo e simples como o +madrigal, sentencioso como o epigramma, é a synthese de todas as fórmas do +lyrismo. Como<span class="pn">{147}</span> o não desenvolveu o genio da Italia, +nas suas elevações erotico-mysticas! Nas duas primeiras strophes do soneto, o +sentimento revela-se pela imagem, occulta-se sob ella como indefinido, +intangivel; o predominio da imagem tem a quadra, fórma livre para as +representações do mundo exterior. Depois é que o sentimento se mostra no seu +esplendor absorvendo em si todas as potencias da alma; é o terceto que o +traduz, a triade fatidica, que se imprime mysteriosamente em todos os factos do +espirito. Do accordo entre a imagem e o sentimento, provém a diversidade das +fórmas poeticas. Se a imagem se mostra na sua complexidade finita, a poesia tem +um caracter didactico e descriptivo; se o sentimento se sobreeleva á imagem e +se manifesta na sua subjectividade, eis o lyrismo puro. É por isso que o soneto +é a fórma suprema do lyrismo. Santificaram-n'o Dante, no retrato do amor ideal, +na <i>Vita Nuova</i>; Petrarcha, exaltando o amor religioso de Laura na solidão +de Vauclusa; Miguel Angelo, esse Protheu que encarna todas as fórmas do bello, +e Vittoria Colonna, confidenciando ambos com os sonhos da arte, de um modo que +ninguem macularia o seu platonismo radiante. É tambem nos sonetos religiosos de +Lope de Vega, que se conhece a profundidade de sua alma sensivel, e nos de +Camões, que se aspira o perfume da saudade de seus mallogrados amores.</p> + +<p>Esquecia-me a dissertar sobre o soneto para evitar o ridiculo de ter assim +cantado esse desvario.<span class="pn">{148}</span> Eu a via todas as tardes á +janella; tinha a seu lado um passarinho, que saltitava, chilreando contente, +para quem fallava, dizendo o que queria que eu ouvisse. Como não perceberia +elle estes segredos de amor, quando o estava embalando com o seu cantar +soffrego, tremente. De uma vez atirei para dentro da janella este soneto +traduzido do hespanhol de Lope de Vega. Não ha expressões humanas que possam +dizer mais:</p> + +<blockquote> + <p class="versos">Dava alimento a um passarinho um dia <br> + Lucinda, e pela estreita portinhola <br> + Foi-se-lhe a ave das grades da gaiola <br> + Ao vento livre, onde a cantar vivia.</p> + + <p class="versos">Entre-rindo, a mãosinha ella estendia <br> + Para o suster; na dor que a desconsola, <br> + Diz (pois como a vergontea se estiola <br> + Sem luz, sua face a pallidez tingia):</p> + + <p class="versos">«Para onde vás? e deixas este ninho <br> + «Que de frouxel teceu a doce amiga, <br> + «Que a brincar com o teu bico se enamora?»</p> + + <p class="versos">Ouviu-a enternecido o passarinho, <br> + Bate as azas para a prisão antiga, <br> + Que tanto póde uma mulher que chora. </p> +</blockquote> + +<p>O que haverá na poesia antiga que exceda este primor? Quem soube idealisar +assim uma lagrima? Comprehenderia ella a profundidade d'este sentimento? E +sorria-se de cada vez que lhe enviava<span class="pn">{149}</span> novas +confidencias, mas do mesmo modo que sorria para todos. Para todos! Sempre esta +idéa infernal a envenenar-me todas as horas da vida. O poder das lagrimas que +lhe descobri, a <i>fraqueza</i> que vence todas as forças, não tinha esse +mysterio, quando as derramei ao vêr-me nú, abandonado pela esperança fagueira, +que fugira como o passarinho de Lucinda. Disseram-me... nem eu sei o que me +disseram. Fôra a mãe, a mesma que a susteve nos joelhos quando a atirou á vida +e a amamentou com seu leite, quem a arrojou á perdição. Quem havia de adivinhar +que sob um ár de candura, que a cercava de uma auréola divina, vergava uma alma +oppressa pelos insultos dos que lhe pagavam! O que é uma cidade grande! Não se +devoram com os horrores da anthropophagia, mas a vida vae continuamente +alimentando-se da vida. Não sei, não posso contar-te tudo.»</p> + +<hr style="width: 30%;"> + +<p>Um anno depois encontrámo-nos; o pobre rapaz estava possuido novamente da +paixão dos livros. Era uma anciedade de saber, não menos funesta, que o +amputava para todos os gosos da vida. Não me atrevia a fallar no antigo amor; +tinha medo de acordar-lhe as agonias que estariam talvez já adormecidas. De uma +vez, estavamos juntos, vi passar a distancia uma rapariga,<span +class="pn">{150}</span> um typo raphaelico de candura; ia seguida por uma +mulher velha e tropega. Era uma antithese que fazia pensar muito. Elle olhou-a +e foi acompanhando-a com a vista, com certa anciedade; depois, como refreado +pela reflexão, olhou para mim envergonhado, córou e disse, procurando esconder +esta impressão repentina:</p> + +<p>—É ella.</p> + +<p>Não comprehendi immediatamente; fui barbaro, pedindo que me explicasse o +mysterio d'essas palavras intercortadas. Elle apenas pôde proferir uma, mas que +era o resumo de todas as dores e decepções, da compaixão que ainda sentia, do +ideal a que tinha aspirado, da fatalidade a que tinha succumbido. Olhou-a, ella +já ia longe; depois que a viu desapparecer, disse, contemplando ainda e com a +voz a apagar-se:</p> + +<p>—Uma ruina!<span class="pn">{151}</span></p> + +<h1>O Evangelho da desgraça </h1> + +<p>Era uma criança linda, linda como os amores. Os movimentos impensados da +infancia davam-lhe a cada instante uma nova expressão de candura, faziam +amal-a, beijal-a. Ella não sabia que estava sósinha no mundo; a pomba não tinha +a aza maternal sob que se occultasse, quando viesse o abutre pairando para +arrebatal-a. Ria, descuidada.</p> + +<p>A graça com que saltava! Parecia um pequeno gato quando brinca.</p> + +<p>Faltava-lhe pae e mãe que lhe soubessem interpretar todos os requebros, a +meiguice das palavras apenas balbuciadas, adivinhar seus medos, aspirar-lhe os +risos, unir-se ás suas alegrias, beber-lhe as lagrimas sem motivo.</p> + +<p>Era uma florsinha nascida á beira da estrada,<span class="pn">{152}</span> +exposta aos ventos da noite, ao rigor das calmas, ao tropel dos que passam, +banhada de perfumes que ninguem vem respirar, derramados ao capricho das +virações. Pobre filha! Como estas plantas que se estiolam e seccam, mal rebenta +o gomo que as hade substituir, a mãe morrera ao trazel-a á luz; com ella se +foram para a cova todos os carinhos que nos embalam e fazem esquecer as dôres +por onde se nos dá a conhecer a vida.</p> + +<p>Sem mãe!</p> + +<p>Ninguem sabe o que é vêr descer a noite negra, e as crianças que brincavam +comnosco cairem de cansadas em um regaço que accalenta, ouvir as cantigas que +as adormecem e lhes afastam o medo; e não saber por que não temos aquillo +tambem, não haver quem nos chame, nos fale e nos conte maravilhas, e nos +esconda no calor benigno de um seio que bate por nós. A orphandade! E depois +quando os primeiros alvores da mocidade começam a doirar-nos a existencia, a +acordar a um tempo todos os sentimentos bons e santos, não ter quem nos +descubra e faça presentir as sarças que nos podem prender, as torrentes que nos +podem levar, os abysmos em que se póde cair. Uma mãe! Ella nos ensina a amar e +nos faz bons com o seu amor.</p> + +<p>E se o amor inconsiderado da gloria nos arrasta, se a vertigem de alcançal-a +dá coragem para affrontar o impossivel, sacrificar a vida por um fumo que o +tempo dissipa, feliz de quem<span class="pn">{153}</span> tem uma lagrima na +vida que nos ensine o que ella vale, para não dal-a por tão pouco.</p> + +<p>Mas a pobre criança na sua ignorancia ditosa não sabia d'isto; brincava +sósinha, aprendia a ser mãe. Que affagos perdidos com a boneca que embalava ao +seio, que beijava, vestia e despia, fallando com uma ternura que ella +adivinhava, porque nunca no mundo ninguem lh'a havia dado, ensinado.</p> + +<p>Aos sete annos perdeu seu pae; era pescador. Elle e a sua barca +desappareceram em uma noite de temporal. Costumada a vêl-o poucas vezes, a +criança não deu pela falta; esqueceu-se de que tinha pae, como se acostumára á +falta dos desvellos de sua mãe. O pescador, quando ía para a costa deixava-a +sempre em casa de uma visinha, com quem distribuia os diminutos ganhos que +apurava. Esta visinha era como todas as pessoas que resam muito com a mira no +céo, e de tal fórma se tornam refractarias a todo o sentimento, sem affeição a +ninguem, incapazes de uma generosidade; então para as crianças, que não +comprehendem, são mais aterradoras que um mestre de meninos. Quando a visinha +soube da morte do pescador, carpiu, deplorou, sem saber como subtrahir-se ao +encargo da abandonada criança. Se até ali o nimio descuido e desmazello eram +providenciaes, porque ao menos não vinham atrophiar os impulsos expansivos da +infancia, d'ali em diante a visinha arrogou-se a auctoridade absoluta, expressa +n'esta maxima popular—quem<span class="pn">{154}</span> dá o pão dá o ensino. +Mas a criança tinha um dom que a defendia de todas as atrocidades brutaes da +prepotencia irresponsavel, era linda, linda!</p> + +<p>Quantas vezes não passou pela cabeça da desalmada visinha amparal-a até á +edade em que pudesse auferir um lucro criminoso d'aquella formosura angelica. +Belleza funesta que vem accumular a desgraça á indigencia, dar uma côr mais +sinistra á miseria. Tinha sete annos apenas! custava tanto esperar. Lembrou-se +então a visinha—uma idéa luminosa que a livrou de escrupulos de consciencia e +lhe asserenou o animo alvoroçado por uma caridade que a sorte lhe impuzera—a +criança tinha ainda um avô do lado materno, feitor de uma rica propriedade. Era +a algumas legoas de distancia; em um domingo, depois da missa da madrugada, +poz-se a caminho com a pequena e foi entregal-a ao avô.</p> + +<p>Nada mais commovente do que a infancia e a velhice quando se amam e se +comprehendem; tem ambas uma frescura juvenil, o frescor dos orvalhos doirados +da alvorada e da geada nocturna, a luz e sombra formando um brando crepusculo +em que se scisma sonhando alegrias por vir e illusões que não tornam.</p> + +<p>Não se descreve a loucura de jubilo que o velho sentiu ao vêr a criança, +carne da sua carne, uma parte da sua alma, que reflorescia viçosa no engraçado +renovo. Ria, chorava no seu transporte, doudo, doudo de contente ao beijal-a. +Fitava-a,<span class="pn">{155}</span> esquecia-se a vêr-se n'aquelle retrato, +a menina dos seus olhos, como lhe chamava quando os soluços lhe não embargavam +a voz.</p> + +<p>—Eu não podia morrer, sair d'este mundo, sem te vêr, minha filha! Tu bem +sabias isto; foram os anjos que t'o disseram, por isso quizeste vir. Trazes-me +o dia mais alegre da minha vida. Quando tua mãe nasceu foi n'um dia como este, +e eu não me alegrei tanto; não me lembrava que uma filha é o melhor encanto da +velhice! Estava longe da minha aldêa, muito longe, andava na guerra havia quasi +um anno, e ainda não era bem um que estava casado. Quando voltei, já tua avó e +tua mãe tinham morrido. Não te importam estas cousas! Tu queres brincar? Vae +correr, anda á tua vontade. Como ella é tão bonita! Eu choro sem saber porquê! +Tinha pedido tantas vezes ao pae que a trouxesse cá um dia. Eu não devo +deixal-a ir; ella é minha agora.</p> + +<p>Quando o velho soube que a criancinha estava completamente orphã no mundo, +deu graças ao céo por lhe havêr poupado a vida de tantos riscos que +atravessára. Julgava-se o roble secular que protege o arbusto flexivel, quando +as rajadas retouçam na floresta. Queria penetrar os designios da providencia, +que o destinára no declinar dos annos para a guarda d'este thesouro de candura. +</p> + +<p>O velho, á noite, sentava-a sobre os joelhos, fallava como a uma pessoa +desenvolvida, contava-lhe historias do passado, até que adormecia, e<span +class="pn">{156}</span> se esquecia vellando ao pé d'ella, horas inteiras. O +que lhe não contaria o velho na sua simplicidade de justo? Mutilado como estava +das longas batalhas em que entrára, perguntava-lhe a criança a historia de cada +cicatriz. Ella nunca vira estas disformidades nas outras pessoas e tinha medo; +o velho distraía-se de continuo pintando-lhe os recontros, as contraminas, as +cargas; ás vezes não fallava para ella, fallava comsigo, vehemente, exaltado, +por fim ria-se de si, e acabava por beijal-a muito. Isto repetido quasi sempre +ao fim da tarde, quando o sol dardejava na aresta da montanha, e vinha de longe +a toada dolorida e plangente da sineta de uma freguezia proxima.</p> + +<p>A apparencia do velho infundia consolação; a falta de dentes dera-lhe uma +disposição aos beiços desbotados de modo que parecia ter sempre um riso de +mofa, inoffensivo, divertido, communicativo. Sobretudo, o que era mais +sympathico na sua fealdade eram uns olhos, de pequenos, tão alegres e vivos, +que pulavam, como no vigor da edade e das paixões, em umas orbitas encovadas, +maceradas pela senectude. As cicatrizes das ballas e espadagadas, misturando-se +com as rugas da velhice, em vez de o tornarem repulsivo, davam-lhe um aspecto +attrahente, em que o bom humor que o animava deixava reflectir um fundo de +bondade, que tem quasi sempre as pessoas que soffreram bastante.</p> + +<p>E quanto não tinha elle soffrido? Noivo, casado de um anno, viu-se forçado a +abandonar seu lar,<span class="pn">{157}</span> deixar a roupa de camponeo pela +farda apertada, a choça pela caserna, o nome por um numero, o leito fresco, +cheiroso com roupas de linho, pela tarimba, e sobretudo a vida sanctificada da +familia que acabava de formar em roda de si, pela guerra em que se ia +confundir.</p> + +<p>Fôra no tempo da guerra peninsular. Uma estrella funesta o acompanhou +sempre, amparando-lhe a vida para soffrimentos inauditos. Nunca entrou em acção +d'onde não voltasse ferido; todos galardoados sempre, d'elle ninguem se +lembrava! A jovialidade dava-lhe forças para resistir á oppressão da injustiça. +De uma vez levaram-lhe os dedos quasi todos, porque em uma carga de cavallaria +teve de fazer das mãos capacete. Retalhado, calcado aos pés do esquadrão, ainda +ali a sorte acintosa o guardou para novas provações. O pobre soldado não sabia +queixar-se; por fim como não pudesse dar ao gatilho, passaram-no para a +artilheria.</p> + +<p>Ahi subiu de ponto a sua infelicidade. Em uma investida a peça que +descarregava esteve quasi nas mãos do inimigo; era um magnifico apresamento. +Exasperado de raiva encravou-lhe o busil, para não fazer mais fogo. Depois, que +a levassem os contrarios! N'isto o pelotão foi distrahido para outro lado. +Julgaram então o misero soldado traidor aos seus, e descarregou-lhe o general +um golpe que o estendeu por terra. Em uma nova investida dos contrarios +conheceram a prudencia do artilheiro, mas deixaram-no estendido por<span +class="pn">{158}</span> morto; as carretas passaram por sobre elle e +fracturaram-lhe as pernas. Pediu debalde aos inimigos, que iam de avançada, que +o acabassem de matar. Ninguem o ouviu, com o estrepito das descargas e do rodar +dos trens, o ruido da cavallaria e o ecco dos clarins. Depois da batalha, +quando iam atiral-o á valla, pediu que lhe poupassem a vida. Doeram-se d'elle e +levaram-no.</p> + +<p>Passados longos annos, depois de percorrer alheias terras e ter affrontado a +fome e a solidão de extrangeiro, pôde voltar á sua aldeia, desacompanhado de +felicidade, sem um unico signal de reconhecimento pelos serviços. A esposa que +deixára um anno quasi depois de casado, tinha já morrido, deixando uma filhinha +na orphandade. Ella mesma fôra crescendo, fizera-se mulher; humilde, havia dias +que se casára tambem com um pobre pescador. O velho soldado não quiz ir aguar +com a sua presença a sociedade dos dois esposos; restava-lhe um antigo amigo, +que ouviu attento as suas calamidades, e o convidou para tomar conta de uma +rica herdade que possuia. Ao menos encontrava no fim da vida a suavidade dos +campos, e a tranquilidade da solidão.</p> + +<p>Quando se tem soffrido muito, cada momento está cheio de saudades da vida, +porque o soffrimento é o signal mais certo de que se tem vivido.</p> + +<p>Estava pois n'esse remanso o velhinho quando no desejo de ver a creança, +filha de sua filha, passára annos e annos na doce espectativa. Só<span +class="pn">{159}</span> quando lh'a trouxeram e a beijou com a loucura de quem +se sente duas vezes pae, é que soube dos novos desastres que o saltearam. Que +havia fazer senão resignar-se! Aquella planta debil e mimosa era o que lhe +restava na vida; protegia-a com afan, sollicito, esmerado, como um amante, +cioso de que um atomo impalpavel de pó a maculasse.</p> + +<p>Em todos os momentos, em qualquer parte o velho e a creança agrupavam-se tão +bem, que a natureza, por mais bella e surprehendente, era sempre accessoria, o +fundo do quadro em que realçavam. N'este idylio encantador a creança passou a +infancia mais descuidada e feliz; a liberdade dos campos, a serenidade do +espirito deram-se as mãos no desenvolvimento d'ella.</p> + +<p>Estava uma rapariga!</p> + +<p>Linda, linda como os amores!</p> + +<p>Quem a via esquecia-se a olhar, contemplava.</p> + +<p>Era mais um seraphim do que uma creatura.</p> + +<p>Os olhos tremeluziam-lhe com um fulgor metalico; pareciam nunca terem sido +empanados pelas lagrimas. Cantava a toda a hora como um passarinho das balsas; +mas as cantigas que modulava distraida, eram a expressão do segredo mais +recondito da sua alma. Lavando na ribeira ao som da agua corrente, ouviram-lhe +uma vez cantar:</p> + +<blockquote> + <p class="versos">Os meus olhos são dois peixes <br> + Que nadam n'uma alagôa; <br> + Choram lagrimas de sangue <br> + Por uma certa pessoa.<span class="pn">{160}</span></p> +</blockquote> + +<p>E quem seria essa pessoa, a primeira que soube arrancar uma lagrima d'estes +olhos tão puros e meigos? Maior que todos os poetas, mais do que Deus talvez, +quem soube dar fórma ao sentimento d'aquelle coração virginal em uma gota de +agua, uma lagrima caida, irmã gemea das que os anjos andam pelo mundo aparando +em suas urnas crystalinas, para as engastarem como estrellas da noite saudosa +no vacuo do firmamento. E ella cantava:</p> + +<blockquote> + <p class="versos">O coração e os olhos <br> + São dois amantes leaes, <br> + Quando o coração tem pena, <br> + Logo os olhos dão signaes.</p> +</blockquote> + +<p>Ella espalhava ao vento os seus pezares, mas ninguem os percebia; o avô +alegrava-se ao vêl-a sempre entrar em casa cantando; mal sabia que a harmonia +sonorosa era o ruido de uma grande tormenta. A pobre criança soffria muito, +amava! Ha na vida do coração um momento em que todas as emoções, impulsos e +sentimentos se alevantam a um tempo, e vão apoz o primeiro que os acorda. São +como os perfumes derramados pela primeira brisa que chega. É como um <i>estado +nascente</i> da paixão.</p> + +<p>Don Juan sabia por certo este segredo, conhecia o momento em que todas as +mulheres se perdem, porque se dão ao primeiro que apparece.</p> + +<p>Nem ella conhecia porque amava, nem tampouco o impossivel que se erguia +entre o seu<span class="pn">{161}</span> amor e o nascimento desegual d'aquelle +que a endoudecera com as palavras balbuciadas tremendo. Amava o filho do antigo +amigo de seu avô, dono da herdade em que habitava; estupido, uma d'essas almas +boçaes, nascidas para deturparem tudo, porque não vêem, nem sonham senão o mal, +mesmo no instante em que a linguagem mais intima da candura vem affagar-lhes o +deserto em que o seu egoismo as esconde. Demais, elle tinha esta regularidade +de feições, de uma monotonia que enfada, chata, insignificativa, mas que dizia +bem com a alma que o animava, incapaz de qualquer acto generoso, de instinctos +vis, mas julgando-se digno de todos os respeitos diante da sociedade. Tanto +mais criminoso parecia, quanto era ainda novo, tambem criança, em quem se +espera a ingenuidade dos primeiros annos que tudo perdôa.</p> + +<p>Aquelle que a innocente rapariga amava, não pensava senão em perdel-a. Era +tão facil! Estava desprevenida, não via a traição da onça refalsada, onde +esperava uma attracção irresistivel! Mal haja quem não falla verdade n'este +episodio mais santo e verdadeiro de toda a existencia.</p> + +<p>A pobre pequena não sabia estas subtilezas do peccado; foi apoz os seus +sentimentos, deixou-se adormecer ao som da voz que a illudia, para acordar com +a gargalhada fria e insultante no fundo de um abysmo onde fôra atirada para +sempre. A alegria que até ali tivera, e era a sua principal belleza, perdeu-a +com a innocencia.<span class="pn">{162}</span></p> + +<p>Ja não cantava; andava silenciosa, desolada, como na afflicção de uma dôr +que se não exprime. A unica pessoa que a amára verdadeiramente no mundo, seu +avô, não tinha alma para perguntar-lhe o que a trazia assim oppressa.</p> + +<p>Ella envergonhava-se das lagrimas, represava-as, bebia-as! Uma vez, pela +volta das trindades, o velho voltava do trabalho; pousou a enxada ao canto da +choça. Sentaram-se á mesa frugal; não comiam, preoccupados por uma angustia que +se não atreviam a confessar um ao outro.</p> + +<p>A final o avô perguntou-lhe com uma doçura inexcedivel:</p> + +<p>—O que tens?</p> + +<p>Ella prorompeu n'este instante em uma torrente de lagrimas irrepressiveis; +ia para fallar, os soluços intercortaram-lhe a voz; atirou-se ao pescoço do +velhinho, estreitou-o a si, sem poder fallar.</p> + +<p>Era o maior golpe que o desgraçado soldado experimentava, o ultimo que lhe +abalava a vida.</p> + +<p>Comprehendeu tudo.</p> + +<p>Traduziu as meias palavras da queixa dolorida, e soube que o filho do seu +protector fôra o seu algoz.</p> + +<p>Não podia accusal-o, vingar-se; era uma horrivel collisão de deveres! Ficou +com a immobilidade do espasmo; hirto, como Bonifacio VIII diante da multidão +que ia para despedaçal-o. Sentado á mesa, com a mudez do assombro, assim +permaneceu a noite toda, até que ao outro dia deram com elle regelado, +cadaver!<span class="pn">{163}</span></p> + +<p style="text-align: center; text-indent:0;">*<br>* *</p> + +<p>O desespero das imprecações do desgraçado da terra de Hus, deitado sobre o +monturo, coberto de lepra, envergonhando-se da luz, desejando haver tido o +sepulchro por berço e por seio que o escondesse a podridão e os vermes da +terra, todo este cicio da immensa agonia da alma que se alevanta até Deus e na +sua fraqueza lhe exproba a desegualdade da lucta, é uma das mais completas, a +primeira manifestação do poema eterno da agonia.</p> + +<p>Acorrentado sobre os fraguedos que te serviram de leito, Prometheu vencido, +a Força e a Violencia guardaram os sarcasmos para a hora em que as extorsões +convulsas não amedrontam os algozes; deixaram-te aos abutres famintos, +fustigado dos ventos, mas ao menos o turbilhão erguia o grito da ameaça; o +orvalho das noites refrescava-te o ardor da raiva, e o Oceano consolava-te +porque te dizia: Prometheu, mesmo pregado contra essas rochas, sabes fallar +ainda com liberdade! Deus banido, os outros deuses feriram-te porque nos +alentaste a vida com a esperança; se é de força o soffrimento cumpra-se a +fatalidade! Elles não conheciam as dôres fundas, que se não vêem, que matam +lentamente, as dôres da alma, não as conheciam por isso não as<span +class="pn">{164}</span> infligiram. As grandes obras da arte, Job e Prometheu, +foram os que fizeram sentir no mundo as maiores dôres; mas a dôr moral, que os +deuses antigos desconheceram, a dôr muda, essa é uma creação do homem, o maior +inimigo do homem.<span class="pn">{165}</span></p> + +<h1>Aquella mascara</h1> + +<h2>I</h2> + +<p>A dôr transforma-te! Estás desconhecido. Já não tens o entendimento e a +vivacidade dos dias da tua alegria. Que desastre repentino te deu essa +immobilidade do espanto? Desfolharam-se tão cedo as flores da tua primavera; +estão desbotadas as rosas de tua face, extincto o fogo d'esses olhos, que davam +alma a tudo quanto dizias. A tua alma expandia-se, mostrava-se franca, como a +verdade; illuminava-te o rosto, como um sol rutilante na immensidade tranquilla +do mar. Eras exaltado, febril no que sentias; cada palavra tua era o ésto de +uma paixão latente. Tinhas o segredo da fascinação, a magnanimidade do heroe, e +a impenitencia do ergotista; eras a um tempo seraphim e demonio, podias +transportar ao setimo<span class="pn">{166}</span> céo, ou atirar ao barathro a +mulher que te seguisse. Tinhas a consciencia da força e rias-te de todas as +mulheres, não te affligia o amor. Ainda era cedo para pensares n'isso, se é que +se pensa quando nos atiramos á luz que nos deslumbra. Comparavas a sociedade a +um oceano revolto, e só tinhas em vista levar o teu baixel a porto seguro; a +estrella que te guiava, a monção fagueira que desfraldava aos pontos do céo a +tua vella branca que havia de ser, a não ser o amor? O amor era um pequeno +movel para ti; a ambição dava-te maiores impulsos, querias ser grande e +dominar, absorver os outros. De facto tinhas em ti um poder assimilador, +reduzias os outros a ti. No meio dos caprichos da tua individualidade altiva, +mostravas grandes verdades. Eras todo sensualista, cercavas a vida de prazeres, +mas só d'aquelles que te proporcionavam os recursos infinitos da intelligencia. +Para ti a arte era mais do que todas as sciencias do mundo, era a synthese +suprema das faculdades do homem, porque é pela arte que elle adquire a +consciencia de si. A acção justa, não a conhecias pela harmonia dos principios +eternos da justiça, era preciso sobretudo que fosse capaz de produzir uma obra +de arte. Todas as tuas posições eram esculpturaes, podiam-se reproduzir no +marmore; não era a affectação que te levava a este estudo, eram as tuas idéas +da eurythmia, a necessidade de completar as expressões de tua alma no movimento +exterior que mais as significasse. Áquelles<span class="pn">{167}</span> que +não comprehendiam isto, que se riam e violavam os encantos da plastica, +chamavas-lhes <i>Verna</i>, um nome insultante, com que mostravas a sua +incapacidade para sentirem o bello. Dotado d'esta serenidade impassivel que tem +o homem verdadeiramente superior, ás vezes não sabia porque deixavas um +instante de ser bom; não se te dava de sacrificar os outros com tanto que te +engrandecesses. Parecia um egoismo revoltante. Tu não professas a egualdade. Os +<i>Verna</i> existem, para que entulhem a valla em que o heroe poderia cair. +Isto é assim. Já vês que te conheço. Para que te escondes agora? Porque me não +contas a anciedade de todas as tuas dôres! Eu sou incapaz de te humilhar com a +minha compaixão. Se te custa, não me digas tudo, deixa-me adivinhar, presentir +o mais; temos em tudo a necessidade do indefinido. As grandes dôres são como as +lagrimas; são mais ardentes á medida que se represam.</p> + +<p>—Eu tenho vergonha de te não haver descoberto ha mais tempo o labor +mysterioso que se tem operado em minha alma. Amo! Esta palavra diz tudo. A +minha agonia provém do meu orgulho; é um golpe que dóe sempre, eternamente, que +me faz ser máo, vingativo, e me dá força para esmagar os outros. Em mim o +orgulho é o movel de todos os grandes sentimentos, é elle que me pôde fazer +mais do que homem. Tu sabes perfeitamente a minha vida; tem sido até hoje um +combate incessante; a aura pequena<span class="pn">{168}</span> que me cerca, o +favor e a consideração que tenho tem sido uma conquista infatigavel, como +aquelles combates sangrentos da velha tactica nas minas e contraminas das +fortalezas. Detestei a familia em que nasci porque foi a primeira que me +humilhou e me queria egualar. Não imaginas que esforços inauditos para +conseguir uma diminuta independencia á custa de um trabalho insano, o trabalho +da intelligencia, que ninguem reconhece, que se não paga. Depois, vêr-me +envolvido na alta sociedade, ter de competir e de mostrar-me forte, não querer +que ninguem adivinhasse a minha indigencia! Não sabes, o que é voltar alta +noite do ruido de uma grande festa e atirar-se um homem de cansado a cima de +uma enxerga alastrada em uma mansarda lobrega, depois das mais brilhantes +ovações, depois de ter aspirado o perfume quasi celestial da gloria. Quantos +n'aquella noite não invejariam a minha transfiguração, sem saber que o Thabor +por onde subia era semeado de cardos que me ensanguentavam. De um dia para o +outro me vi cercado de gloria; fallava-se em mim, queriam vêr-me, estava em +moda, era recebido como principe, festejado, seguido. Explicavam a distracção +continua que me tornava alheio a este culto perenne, pelo extasi da alma, pela +abstracção continua do espirito pairando entre o céo e a terra. Não era assim. +Lembrava-me o passado, a miseria e o abandono do dia de hontem, e doía-me o +contraste. A gloria só por si era pouco, não me saciava. Queria bastante<span +class="pn">{169}</span> gloria, mas para dal-a. Tinha necessidade de encontrar +uma pessoa no mundo que vivesse da minha vida. Para amar tinha os typos da +minha phantasia, desenhava-os a meu capricho, como queria, puros como Ophelia, +dedicados como Griselidis, minhas, minhas como <i>la Belle au bois dormant</i>. +Mas os dias corriam sem novidade de impressões, e os typos archangelicos que me +cercavam, que evocava dos abysmos da imaginação ardente desamparavam-me como as +filhas do Rei Lear. Lembras-te do quadro gigante traçado pela audacia de +Shakespeare, quando o velho pae, com as cans fluctuando ao vento da tempestade, +no inverno, caminha desolado no seu abandono? As filhas da minha imaginação +desamparavam-me e o tedio da alma era o deserto glacial em que me via perdido. +Eu sentia em mim bastante fogo, muita vida, para dal-a a quem viesse compassiva +e não soubesse mesmo confessar o seu amor. Havia de interpretar cada olhar, +como uma aurora que se abre, cada sorriso como uma cataracta de luz que nos +envolve e nos confunde no infinito. Creara um longo sonho de amor, bello, +bello, quanto sabia que era impossivel realisal-o no mundo. Por fim convenci-me +tanto da verdade que o julgava possivel. Conheces estes sonhos dos nevoeiros do +norte; quando a ondina se confunde na cerração, e o desejo vehemente de vel-a, +de abraçal-a, começa pouco a pouco a dar-lhe fórma, a vestil-a de realidade, +até que um dia se sente nos braços d'aquelle que a trouxe um momento<span +class="pn">{170}</span> á existencia pelo ardor da aspiração? Foi como +encontrei a mulher que primeiro me fallou de amor. A confiança d'ella fez-me +grande. Disse-me que não queria a minha gloria; que antes me queria obscuro +para ter de amar só a mim. Deixei-me levar por aquellas palavras que eram uma +musica celeste; quando já não podia resistir a mim mesmo, o orgulho atacou-me +de frente.</p> + +<p>Disse-lhe então que era impossivel o amor entre nós. Rica, bella, não podia +ser amada desinteressadamente, ao menos diante do publico. Tinha vergonha que +dissessem que a amava pela fortuna que possuia; esmagava-me esta idéa vil do +senso commum. Desde esse instante procurei combater-lhe o sentimento puro que +me revelara. Descobri-lhe uma rival, com quem ella, apezar de todos os +encantos, não poderia competir, que a deixaria na sombra a estiolar-se, +emquanto se aureolava de luz, se dava á adoração de todos; era a Arte, a Arte! +Quando lhe descobri esta atrocidade do egoismo, em vez de desmaiar e +desfallecer como aquella ingenua e timida donzella que se prostra ante a +magestade olympica de Goethe, repellida pela sua rival a Arte, que a lançou +fóra do seu templo, pelo contrario se enlaçou a mim com uma candura infantil, +despreoccupada, beijou-me em delirio, segredando-me com uma voz que se coava +por mim, que me vencia: O que é a Arte sem a realidade! Depois disse-me com a +voz languida, frouxa, impensada como a melodia de uma harpa eólia: «Eu bem<span +class="pn">{171}</span> sei que não tenho uma belleza que deslumbre; nem ella +existe senão para exprimir algum sentimento. O que agora se passa em mim é uma +verdade, é por isso que as outras me chamam bella. Se eu tivesse uma correcção +de fórmas como um marmore antigo, tinha medo, sabia que não era amada por mim, +que me adoravam os contornos da plastica. Gosto mais de ser como sou, posso ser +amada com mais verdade.» Sentia-me mais do que Deus; elle nunca teve uma +adoração assim; tinha vontade de precipitar o tempo, e chamar-lhe minha. O amor +ia crescendo de dia para dia. Diante da mulher que eu sonhara, era preciso +mostrar-me grande para merecel-a. «Eu bem sei que a minha familia hade combater +o nosso amor; que importa! Tenho medo de não poder luctar. Se me violentarem a +casar com outro, tens direito a reclamar quando quizeres o teu amor.» É +impossivel! Nunca. Essas palavras na bocca de qualquer eram infames, abjectas; +ditas por ti, são uma dôr funda, a abnegação de quem não sabe resistir. Eu +pensava em alcançar uma posição social á custa de todos os esforços; depois +iria pedir a sua mão de esposa. O successo está em não precipitar o tempo. +Confiava na minha vontade inabalavel. N'um instante desampararam-me todos os +planos de felicidade; vi-me só! Não sei mesmo a quem accuse. Seria por força +minha, se eu podesse ser infame. Ninguem mentiu. Perdi-a para sempre; entre nós +ergue-se o impossivel. Eu nunca duvido<span class="pn">{172}</span> do seu +amor; mas de que me serve agora, que é já realmente de outro homem? Não sabias +que estava já casada? Não sei como explicar isto! Ella tinha um primo, o unico +herdeiro de um titulo, das grandes riquezas de sua familia. Era a ultima pessoa +que restava, rachytico, infesado, com a doença hereditaria, que foi levando um +após um os seus irmãos. Voltara de uma viagem pela Europa; elle mesmo chegara a +esquecer-se do praso fatal que lhe estava imposto pela doença. Apaixonou-se +pela prima, pediu-a, dizendo que não queria deixar extinguir-se o nome de sua +casa. Accederam immediatamente. A victima innocente não pôde resistir a estes +combates domesticos, de todos os dias; deixou-se levar, como o cordeiro do +sacrificio. Vi-a pela ultima vez no carro com o noivo; senti-me pequeno e +envilecido, parece que me enterrava pelo chão. Depois não tive coragem de +apparecer. Temia os epigrammas dos outros. O orgulho é o meu maior algoz; +devora-me como um cancro. Sinto-me máo, com vontade de esmagar os outros, não +comprehendo a generosidade. Este desgosto fez uma alteração profunda em minha +vida; nunca mais posso fallar verdade, porque me mentiram no momento mais santo +da vida. Sinto-me com a imbecilidade do assombro, estou estupido; sou um +involucro vasio, abandonado pela borboleta; como uma concha atirada do fundo do +mar immenso a uma praia deserta. Apossa-se de mim um desespero insoffrido ao +lembrar-me que ainda<span class="pn">{173}</span> sou criança, e que tenho de +arrastar uma vida erma de todas as esperanças.</p> + +<p>—Eu bem sei que não mentes, que não é imaginaria a tua dôr. Basta olhar +para a tua face; tem empanado o brilho da mocidade; é como um lago que vae +perdendo a limpidez, e que as bafagens mornas evaporam. Eu queria saber +consolar-te sem te humilhar. Bem sei que é muito difficil. Não achas a minima +distracção onde os outros encerram todos os seus prazeres. Deixa que a tua +indifferença te leve. A mulher que amaste é hoje condessa, e abre os seus +salões aos amigos que festejam os annos de seu marido. Vem commigo. É um baile +de mascaras. Ninguem te póde descobrir; eu apresento-te como um amigo intimo. +Tu precisas cauterisar essa agonia. Vem vestir-te.</p> + +<h2>II</h2> + +<p>Pela volta das onze horas da noite os dois mascaras foram introduzidos na +sala do baile. Era mais vivo o estridor das walsas; as côres deslumbrantes, as +pedrarias, os reflexos da luz, a confusão e o delirio, os pares enlaçados n'um +volteio frenetico, tornavam communicativa, convulsa tamanha alegria. Entraram +desapercebidos, sob dominós singelos. Debaixo de uma mascara de setim ninguem +sabia que andava escondido um grande desgosto; a mascara servia mais para<span +class="pn">{174}</span> não deixar ver aos outros aquella tristeza funda que +não era para ali. Ia pelos salões olhando, seguindo, como quem caminha nas +trevas. Cada vulto que passava, gracejando, rindo distraído, parecia-lhe uma +larva errante n'um páramo deserto. Tanta mulher bella, tantas palavras de amor, +vibradas tremendo, e nem uma sombra leve de verdade. Como os homens se alegram +quando sabem que estão entre si a mentir!</p> + +<p>N'essa noite a condessa estava arrebatadora de encanto; acabara de tirar a +mascara n'esse instante, e o calor que lhe afogueava a face dava-lhe uma côr +lasciva, de endoudecer; o cansaço, os labios entre abertos, que estavam como a +pedir beijos, tornavam-na languida, voluptuosa como a huri mais ideal dos +sonhos do propheta. Caiam-lhe algumas tranças desprendidas no fragor da dança, +sobre os hombros alabastrinos, como n'uma travessura, como os cabellos de uma +odalisca que se alevanta do banho embalsamado e tépido. Uma das rosas da sua +grinalda caiu casualmente no chão. O olhar mais ardente e expressivo de uma +mulher, não podia ser tão fatal como a queda d'aquella rosa. A mascara de setim +aproximou-se mysteriosamente e ergueu-a do chão. A condessa seguiu-a +vagarosamente com a vista, e esperava que a flor lhe fosse restituida. O +mascara escondeu-a em si, e confundiu-se nos grupos que se cruzavam. Ninguem +deu por isto. Depois a orchestra rompeu com as notas estridentes e repentinas +de uma contradança.<span class="pn">{175}</span></p> + +<p>—Digna-se V. Ex.ª dar-me a honra de ser meu par?—disse o mascara de setim +aproximando-se levemente da condessa.</p> + +<p>—Com tanto que diga para que escondeu a rosa?</p> + +<p>—Se escondi a flôr, temia que a calcassem aos pés. Custava-me tanto vêr +esmagada a imagem mais triste de minha alma.—Apenas proferidas estas palavras +com a voz abafada e tremula, a condessa ergueu-se de subito, hesitando se +deveria ouvir uma confidencia que a compromettia; o mascara de setim deu-lhe o +braço e foi collocar-se ao fundo da sala diante do seu vis-a-vis, triumphando +d'aquella irresolução.</p> + +<p>—E o que pretende fazer d'essa flôr?</p> + +<p>—Guardal-a.</p> + +<p>—A sua determinação leva-me a perguntar quem lhe deu direito para tanto?</p> + +<p>—Não devo dizel-o.</p> + +<p>—Ordeno!</p> + +<p>—Não é justo satisfazer todas as indiscrições, principalmente quando...</p> + +<p>—Complete a phrase.</p> + +<p>—A ingenuidade de criança...</p> + +<p>—Diga tudo.</p> + +<p>—É irresponsavel pelo passado.</p> + +<p>—Não comprehendo!—Retorquiu a condessa fitando a mascara, procurando em +vão surprehender debaixo d'ella quem seria capaz de fallar assim. Um mixto de +terror e de curiosidade embaraçava-a, não sabia o que devia fazer. Depois<span +class="pn">{176}</span> de alguns instantes de silencio, disse quasi em +lagrimas:—Tenho medo de si! Oh dê-me essa flôr.</p> + +<p>—Nunca!</p> + +<p>—Exijo!—tornou a condessa com a voz sumida, sentindo-se dominada pela +fascinação do desconhecido.</p> + +<p>—Aqui está a rosa,—disse o mascara tirando do seio a flôr quasi murcha.—É +impossivel entregal-a. Eu posso exigir mais em paga d'ella. Posso exigir tudo! +É uma promessa inviolavel como o juramento. Um dia a mulher que eu amava, no +extremo de sua vertigem e loucura por mim, prometteu ir até onde eu estivesse, +e ahi entregar-se-me, se soubesse que eu tinha a vida contada por instantes, e +havia de saír d'este mundo sem abraçal-a ao menos uma só vez como minha. Os +desgostos têm-me devorado lentamente a existencia; presinto a cada instante em +mim a frieza do sepulchro, e não soube ainda erguer a voz e reclamar a promessa +fatal. Nem eu a quero! Bastou-me ouvil-a para antecipar no mundo todas as +venturas do empyreo. Deseja a rosa ainda?</p> + +<p>—O senhor dilacera-me!—volveu a condessa com a voz dorida, e com uma +delicadeza inexcedivel.</p> + +<p>—Se a flôr que deixou cair está cheia de espinhos! Não me atrevo a +entregal-a. Dou pela rosa a unica idéa que me podia fazer persuadir que ainda +vivo! É uma troca generosa! Acceita? Um dia a mulher que eu amava, conheceu a +desegualdade<span class="pn">{177}</span> da nossa posição, disse-me, de um +modo que só ella saberia dizer sem macular a ingenuidade de sua candura:—«Se +me violentarem a casar com outro, tens direito a reclamar quando quizeres o meu +amor!» Seria uma infamia vir lembrar-lhe uma palavra proferida no momento mais +exaltado da paixão, para perdel-a por um capricho. Não vale essa promessa. +Agora ainda quer a flôr?</p> + +<p>—Oh, não! não!—accudiu a condessa represando as lagrimas que lhe inundavam +os olhos scintillantes.—Eu não sei o que quero agora! Ninguem podia fallar-me +assim a não ser... Fale-me, eu estou conhecendo esta voz! É impossivel que não +seja! Não sabe como é horrivel esta incerteza. Não o julgo capaz de +atraiçoar-me! Erga uma ponta da mascara, deixe-me vêl-o, a mim só, e fico +descansada.</p> + +<p>—Eu não podia atraiçoal-a, nem mentir-lhe. Sou quem imagina; vim para vêl-a +pela ultima vez, porque me sinto acabar; estão contados os dias da minha vida; +passo com as folhas d'este inverno. Bem o conheço, e resigno-me. Não pensei que +o primeiro amor que se tem na vida poderia ser tão funesto.</p> + +<p>—Oh, não falle assim, que me mata! Eu tenho remorsos de não ter luctado +mais tempo; não tive culpa; minha familia quiz a minha infelicidade. Eu amo-o +porque não sabe accusar-me. Quero vêl-o! já que não é possivel mais. Tire por +um instante a mascara. É o que ouso pedir-lhe.<span class="pn">{178}</span></p> + +<p>—Eu tenho medo de arrancar a mascara; está pregada com o suor frio que me +escorre da fronte. Para que me quer vêr? Estou tão demudado! Não sou o mesmo. +Deve ter horror de mim; estou quasi esqueleto.</p> + +<p>—Por um instante só! quero vêl-o, afaste um pouco a mascara.—N'este +instante a condessa voltou a face de aterrada. Contemplou de relance os +estragos que uma dôr lenta fizera sobre as faces tão animadas que primeiro +reflectiam os seus primeiros rubores. Fez um esforço inaudito para suster-se; a +mascara de setim deu-lhe novamente o braço e foi sental-a no mesmo logar onde +tinha caído a rosa da grinalda; depois segredou-lhe umas palavras de abnegação +e bondade:</p> + +<p>—Esta rosa é a primeira que hade reflorir sobre o meu sepulchro.—E saiu; a +noite ia remota; os alvores da madrugada luctavam com as luzes baças das salas, +o acordar da natureza com o ruido vertiginoso da festa; o tedio e o cansaço +traziam a desanimação, como acaba sempre o baile mais esplendido.</p> + +<h2>III</h2> + +<p>Apezar da impertinencia de rachytico e da estupidez vinculada na sua +descendencia, o conde tratava perfeitamente sua mulher. A causa d'este respeito +provinha da desegualdade, da força de intelligencia, da graça com que ella se +tornava interessante<span class="pn">{179}</span> para todos. Admiravam-n'a, e +esta veneração reflectia-se um pouco sobre o marido. O conde sentia que sua +mulher lhe dava a importancia que não tinha por si, e respeitava-a tambem.</p> + +<p>A alegria com que ella andava! Sentia-se mãe, tinha vontade de amar. +Dera-lhe Deus um filho, uma alma para o seu amor. Parecia-lhe que ao beijal-o, +ao tel-o sobre os joelhos, se esquecia de tudo, de um passado feliz, de uma +união forçada, do vasio da existencia, mesmo d'aquella noite ligeira, em que +contemplou as ruinas que fizera, e que lhe deixou recordações pungentes, +infinitas. Depois, a lembrança do passado amor, o primeiro, o puro, o intimo, +vinha unir-se a esta idéa risonha de ser mãe, que a fazia esquecer-se de tudo! +Pobre mãe! O conde preoccupava-se apenas com a existencia de um herdeiro. Era o +que bastava. Almas vis que destroem o que ha de mais santo na vida pelo +interesse mercenario! Doente, no seu amor a mãe sentia-se cada vez mais +compassiva; lembrava-lhe a rosa que lhe tinha caido do cabello, o cavalleiro +que lhe fizera a despedida para o sepulchro, e esta saudade começou +vagarosamente a influir, a exercer uma acção mysteriosa sobre o feto. Não é +estranho este phenomeno maravilhoso em physiologia. O segredo da callipedia das +mães gregas consistia em contemplar estatuas admiraveis cuja belleza se +reflectia depois nos filhos.</p> + +<p>Passados mezes veiu á luz a criança. O conde<span class="pn">{180}</span> +andava louco com o nascimento do filho. Á medida que os traços da physionomia +se iam precisando, a criança parecia-se menos com o conde; elle começou a +observar isto. Não se atrevia a fazer uma accusação. Era impossivel. Depois as +desconfianças tomaram corpo em sua alma, quando viu que a creança se parecia +muito, muito com o rival, que preterira. Com a malignidade acintosa de +achacado, foi torturando com esta atrocidade a tranquilidade de sua esposa. +Ella, quanto mais se refugiava no passado, tanto mais via o filho represental-o +diante dos seus olhos. Não sabia defender-se; a innocencia não se preoccupa com +argucias, não quiz resistir, e deixou-se vergar pela dôr. Foi a definhar-se +lentamente no soffrimento mudo d'esta impia injustiça. Assim a rosa que +refloriu sobre um sepulchro que impensadamente abrira, veiu cahir desfolhada +pelas virações da tarde sobre a terra fresca que acabava de a cobrir.<span +class="pn">{181}</span></p> + +<h1>A rosa de Sáron</h1> + +<h3>(<small>POEMA EM PROSA</small>)</h3> + +<h2>I</h2> + +<p>Era noite; o som do <i>sino corrido</i> ecoára pela Judiaria; emmudeceu como +se as passadas lentas de um convidado de pedra troassem no meio das risadas de +um festim. A alegria e o ruido do trabalho suspenderam-se; os mesteiraes e +homens de officio fecharam as portas; os christãos, odiando a raça maldita, +separaram-se, deixando-a ao medo da noite. Então na pequena casa do judeu +accende-se a luz do lar; cansado de receber insultos durante o dia, de vêr em +roda de si a vileza e a traição, a lei e o fanatismo a ameaçal-o, esquece por +um instante os planos da sua industria, os recursos com que produz o ouro e os +capitaes com que hade comprar a sua segurança, e entra no fóco mais intimo da +familia. Entra prostrado;<span class="pn">{182}</span> banha-lhe o suor as +faces, traz o desgosto pintado na fronte encanecida, vem afadigado das longas +migrações, amedrontado pelos terrores das grandes crises do estado; ao +asylar-se no remanso da casa, entra como o errante do deserto em um oásis +desconhecido; o semblante tranquillo da esposa lembra-lhe o typo de Esther, da +Sulamite, de Débora, da Sibylla palestiniana, e abraça-a com a sofreguidão com +que umas fauces resequidas se dessedentam em uma nascente viva. Vêm depois os +filhos, debruçam-se-lhe dos hombros, prendem-se-lhe ás pernas, enlaçam-se em +volta do corpo, e n'essa hora o judeu sente-se outra vez forte para todas as +luctas, para todos os opprobrios, para todos os vexames, com alma para +affrontar a miseria e o queimadero. Falla das tradições de Israel, da sua +migração através dos seculos, da terra promettida, e do Messias, não o idolo +papal que se impõe pela fogueira, mas a boa nova da egualdade e da liberdade +humana.</p> + +<h2>II</h2> + +<p>Na Judiaria, habitava um velho negociante de joias e pedrarias; quando algum +potentado casava, mandava sempre ali escolher o presente de noiva, a compra de +corpo, o dom da manhã. Elle tinha as pérolas das mais lindas do fundo do mar; +as rochas mais encantadas do Oriente<span class="pn">{183}</span> tinham +entregues ao joalheiro os brilhantes facetados da agua mais limpida; topazios, +esmeraldas, adereces, diademas, nunca o thesouro da Senhoria de Veneza reuniu +riquezas de tanto gosto e primor. Viera de Hespanha, no tempo da grande +expulsão dos judeus por Fernando e Isabel; o facho de Torquemada allumiou-lhe o +caminho de Portugal, terra da tolerancia e da paz. O clima, o ár, a doçura do +céo, lembram-lhe o Oriente; elle ama como filho a boa terra luzitana. Voltava +do trabalho á hora do sino corrido; deixava o thesouro que faria a inveja de +bastantes thronos, mas vinha vêr outro thesouro, o mais querido, e +extremecido—uma filha de quinze annos. Chamava-lhe o bago das vinhas de +Engadhi; chamava-lhe a Rosa das campinas de Sáron, irmã gemea da filha de +Jephté, pura como Débora, deslumbrante como a Sulamite.</p> + +<h2>III</h2> + +<p>O pae entrara para casa; veiu a filha abraçal-o quasi á porta. Se o bom do +velho não recearia que lhe descobrissem essa flôr escondida! Esperava-o a +tranquillidade do lar; os risos e folguedos das outras crianças faziam-lhe +esquecer os apupos e maldições da gentalha. Jogral de um povo rude, o lar +tornava-o um patriarcha, um levita, sacrosanto como Moysés descendo o +Monte<span class="pn">{184}</span> do Senhor. Sentou-se de cansado. Tinha perto +de si o <i>Guemára</i>; ao lado vem assentar-se a filha, Ebla, assim chamada do +nome da Lua, como conta o velho <i>Livro de Enoch</i>. Ebla fallou-lhe:</p> + +<p>—Nunca mais tornaremos a vêr Sião, e os tumulos dos prophetas? nem +escutaremos o susurro dos nossos rios?</p> + +<p>O pae, emquanto as outras crianças brincavam, poisou o dedo sobre o verso do +<i>Guemára</i>, volveu-lhe um sorriso doloroso.</p> + +<p>—Virgem do côro das donzellas de Sião, os nossos filhos continuam a nossa +existencia na terra; assim como o castigo vem dos paes sobre a cabeça dos +filhos, o Senhor tambem recompensa nos filhos os bens que os paes tiverem +merecido. Ha quantos seculos andamos longe de Sião bemdita; eu sinto que os +meus não pisarão o solo da terra promettida; mas vejo-te ao meu lado, como a +flôr que brota de uma ruina; eu não poderei entrar na Cidade dos prophetas, +serei como Moysés no alto do Abarim; mas o Senhor deu-me uma esperança, fez-te +nascer em meu lar, filha. Assim o fanatismo e a atrocidade me não arranquem a +vida. Uma noite, eras tu ainda pequenina, em Toledo; a noite ia escura e +carregada, chovia, cruzavam-se os raios. Soôu na Judiaria uma voz sinistra: Ás +onze horas do sino da Cathedral, a hora em que deviamos abraçar a religião de +Christo, seriamos lançados nas fogueiras das praças ou abandonar para sempre a +formosissima<span class="pn">{185}</span> terra de Hespanha. Os meus thesouros +lá ficaram, e dei-me por feliz em trazer-te commigo. Portugal anda entregue ás +descobertas e aventuras do mar; os odios de raça ainda cá não tinham sido +exaltados pela classe dos tonsurados. Trouxe-te ao collo, e tu me deste +animação e alento na fugida.</p> + +<p>—Ó meu pae, accudiu Ebla, passou hoje pela nossa porta uma cigana, cantando +romances e siguidilhas de Hespanha, e pedi-lhe para ella cantar...</p> + +<p>—E que ouviste? interrompeu o judeu aterrado.</p> + +<p>—Ella contou-me que el-rei D. Manoel vae em breve casar com a filha de +Fernando e Isabel a Catholica, e que ella só acceita a mão de esposo com a +condição de desterrar para sempre os judeus para fóra de Portugal. E +acompanhava a noticia com a cantiga castelhana:</p> + +<blockquote> + <p class="versos">Ea! Judios <br> + á enfardelar!... <br> + los Reyes mandan <br> + passar la mar.</p> +</blockquote> + +<p>O velho judeu ficou assombrado; fechou o <i>Guemára</i>, e repousou a cabeça +sobre o livro. De repente sentiu-se eccoar pela Mouraria o som secco e repetido +de uma matraca, e de espaço a espaço, a voz do pregoeiro das justiças, bradar: +</p> + +<p>«Ordem d'el-rei para os judeus de Lisboa se apresentarem na alvorada com uma +dança judenga,<span class="pn">{186}</span> guisos, touras e guinolas, para +irem receber o séquito da nova rainha. Soffrerá pena de morte o que levar armas +comsigo. O rabbi da Judiaria irá na frente das dansas.»</p> + +<p>Debaixo das janellas do velho judeu soaram estas palavras. O canto da cigana +revelado pela filha lembrou-lhe um presagio funesto.</p> + +<p>—Patriarcha no lar e truão nas ruas! cumpra-se o destino a troco da paz.—E +levantou-se com o aspecto venerando de sacerdote magno, e foi sacudir a sua +vestimenta de guisos, procurar a palheta, emquanto esperava o toque da +alvorada.</p> + +<h2>IV</h2> + +<p>Lisboa tumultuava em festa immensa; arcos e flôres, salvas de artilheria, +estandartes, musicas, annunciavam o dia da chegada da infanta D. Isabel, mulher +do monarcha Venturoso. Já se sentia o estrépito do cortejo real; pelas portas +da cidade vem entrando as dansas dos mesteiraes. Primeiro, vinha a +<i>Folia</i>, com gaitas e pandeiros á velha portugueza, dansando em volta de +um tambor; trazem guizos nos pés, cantam letrilhas de folgar e sainetes +galantes; os guizos dos artelhos no reteninte som confundem as coplas. Com +gentil ademan no ár volteiam lenços acenando. Vinha depois a +<i>Carraquisca</i>, a dansa dos barqueiros e mareantes dos galeões do Tejo; +trazem<span class="pn">{187}</span> andando um balanço que imita um bambula dos +pretos, aprendido lá nas conquistas. Vae passando a <i>Cativa</i>, uma outra +dansa de agrilhoados mouros, bailando aos modos da Salé, vão confessando preito +á nova rainha. Já vem perto a <i>Gitana</i>, toda feita de ranchos de raparigas +vestidas de variegados pannos, cintos de ouro e vermelho; voam-lhes as +roupagens com o vento cruzando facas entre si, ao doce baylo da +<i>Mourisca</i>, que os sentidos fez perder com a trisca dos volteios. Eis que +chega tambem a <i>Dansa judenga</i>! Os apupos do povo alevantaram-se furiosos +chamando-lhes traidores; as vaias e as pedradas eram pelo ár sem conto; a plebe +desenfreada atira-se de roldão sobre a <i>judenga</i> ao entrar da cidade, e +abafam as queixas dos opprimidos com risadas. Vinha na frente o velho Rabbi, +dirigindo a guinola e toura, quando um malvado lhe arrepella as barbas brancas. +Os olhos do veneravel velho chamejaram de indignação e vergonha; levantou a +palheta de bobo que bamboava nos ares, e descarregou-a na cabeça do atrevido, +com a mesma altivez de animo do velho Consul da cadeira curul. O villão cahiu +por terra e lá ficou calcado aos pés da multidão que se atropellava e ruía +furibunda sobre a desgraçada dansa judenga. O velho Rabbi fugiu a todo o custo; +a multidão precipita-se apoz elle; gritando, chamando-lhe réfece assassino. A +noite vinha descendo, e protegido pelas sombras do crepusculo se ia livrando +dos golpes que lhe atiravam.<span class="pn">{188}</span> O velho ia quasi +exhausto, a turba que o perseguia ia rareando apoz elle; já poucos o seguiam; +mais um esforço, e ficaria salvo; as pernas parecem falhar-lhe, falta-lhe o ar; +sente vontade de atirar-se ao chão e deixar-se retalhar. Mas um raio de luz e +de vigor lhe atravessou o espirito; lembrara-se de Ebla, de sua filha!</p> + +<p>Ia o velho Rabbi a entrar já na Judiaria, estava quasi á porta de casa +quando um dos poucos populares que ainda vinha atraz d'elle lhe deitou a mão. +Inesperadamente veiu-lhe um soccorro imprevisto; um donzel do séquito do +principe Dom Affonso, e que andava ainda triste com a morte do seu joven amigo, +sentiu um impulso do bem e defendeu o velho judeu. Desembainhou a espada e os +populares retiraram-se. O Rabbi bateu á porta; abriram. Á luz de um candil viu +o moço cavalleiro a cara mais linda de nazarena, os olhos mais languidos que +não teria a Sulamite; o sorriso mais puro, a graça, a meiguice, a expressão de +Quirub. Que contraste! na rua o genio do mal a seguil-o, em casa o anjo da +candura a allumial-o, a inspirar-lhe serenidade.</p> + +<p>O velho Rabbi vinha ensanguentado e roto; ao receber o abraço de Ebla +tirou-lhe do pescoço um colar de perolas, e veio dal-o ao desconhecido. O moço +cavalleiro beijou-o, e tornou-o a entregar.</p> + +<p>—Quem és, que te mostras tão generoso e cavalleiro? perguntou o Rabbi.<span +class="pn">{189}</span></p> + +<p>—Dom Tello; e adeos!</p> + +<p>O moço cavalleiro perdeu-se na sombra da noite; ai d'elle se a essa hora +entrasse em casa do judeu; a lei era implacavel; condemnava-o á pena do fogo. +</p> + +<p>O velho Rabbi sentou-se offegante, com a cabeça encostada aos hombros da +filha. Quiz começar a fallar-lhe mas as lagrimas e os soluços irrompiam +frequentes. Alfim, pode ligar as palavras e contar-lhe o succedido.</p> + +<p>—Oh meu pae; parece que os nossos desastres não acabaram aqui. Hoje passou +rente á gelosia uma cigana, e parou a cantar, e dizia que el-rei D. Manuel +casando com a infanta de Castella, a primeira promessa do seu dote era tirar +aos judeus os filhos de menos de quatorze annos, e baptisal-os á força, e matar +os mais velhos e pol-os fóra de Portugal...</p> + +<p>—Filha, é o céo que manda esse aviso; tu foste a minha providencia.</p> + +<p>E desceu a um subterraneo da casa, e lá se entreteve sósinho dispondo as +suas riquezas para a hora da expulsão.</p> + +<p>Ebla ficára por instantes só; revolvia na mente o dito da cigana; nas +cantigas a cigana dissera-lhe mais cousas: Que um cavalleiro moço e formoso a +adorava; que por ella seria capaz de abandonar a religião em que nascera e +seguil-a até aos confins do universo. E que se um dia visse um moço trigueiro, +de bigode preto e olhos vivos, faiscantes, era D. Tello, aquelle que a<span +class="pn">{190}</span> adorava. Ebla atou na mente esta lembrança; lembrou-se +que Tello, o moço cavalleiro acabava n'esse instante de salvar o pae. +Nasceu-lhe na alma um amor repentino; veiu-lhe uma vontade de vêl-o, de lhe +fallar; notou a generosidade de não acceitar mas beijar o collar de pérolas. +Solícita e a medo assomou á gelosia; a luz do candil reflectiu-se fóra, através +das grades da adufa. Sentiu uns passos na rua, depois uma voz mansa e suave que +proferiu no silencio da noite:</p> + +<p>—Ebla!</p> + +<p>Estes sons entraram na alma da donzella; e obedecendo á fascinação d'aquella +voz, lançou a cabeça de fóra. Viu na sombra um vulto, que a irradiação lhe +illuminou como a imagem vaga descripta no cantar da cigana. Aquella voz, como +vibrada por um verdadeiro amor, disse-lhe com o imperio de uma vontade +irresistivel:</p> + +<p>—Vem.</p> + +<p>Ebla desceu em cabello, e sentiu-se envolver em um abraço apaixonado, +vehemente, expressivo. Era a primeira vez que sentia o amor. Deixou-se levar +sem saber porque, nem para onde.</p> + +<p>N'aquella noite, com as festas do casamento de el-rei D. Manuel, as portas +da Judiaria ficaram abertas. Ebla e D. Tello afundavam-se na escuridão da +noite, quando entra na Judiaria um tropel immenso de homens de armas e de +cavallo; ia na frente o alcaide da justiça. Ao som de uma matraca +restabelecera-se o silencio, e pela<span class="pn">{191}</span> escuridão +sombria e soturna da Judiaria soava uma voz sinistra, como de sentença:</p> + +<p>«Pregão d'el-rei D. Manoel, para os judeus, ao toque da alvorada, embarcarem +para fóra de Lisboa, sob pena de morte.»</p> + +<p>A palavra morte accendia na multidão um enthusiasmo frenetico que apupava, +ameaçava e esbravejava cantando entre risos alvares:</p> + +<blockquote> + Ea! Judios <br> + á enfardelar!... <br> + los Reyes mandan <br> + passar la mar. </blockquote> + +<p>Áquelle grito sinistro, toda a judiaria se levantou em pezo; do fundo do seu +subterraneo saiu o velho Rabbi, solicito, temeroso, mas constante. Ouviu +proferir a sentença ominosa. Chamou por sua filha, e foi accordar as outras +crianças que dormiam; a mulher voltou apressada do pé dos thesouros. Tornaram a +chamar por Ebla; o grande ruido das ruas e da multidão nada deixava perceber. +Chamou por Ebla com uma afflicção de morte; viram a porta aberta; multidão de +gente que tripudiava, lançando fogo ás casas. O velho pae parecia um leão +ferido.</p> + +<p>—A maldição d'esta raça caiu inteira sobre mim. Perdi tudo ao levarem-me +essa filha. A minha condemnação, a minha morte para salval-a. Se ha no mundo +alguma força superior, que seja o destino das cousas, Jahvé ou Jesus, acaso ou +as potencias do inferno, conjuro tudo<span class="pn">{192}</span> +sacrifico-lhe a minha vida, a minha sorte pelo apparecimento d'Ebla. De que +vale todo esse ouro e pedrarias se perdi Ebla; levaram a minha joia de mais +valia, e com ella todas as esperanças e alegrias da minha vida...</p> + +<p>Era incomportavel a dôr do velho; ia continuando, frenetico, doido; queria +fazer-se christão para procurar a filha, quando eccoou de novo a voz do alcaide +da alta justiça:</p> + +<p>«Soou agora o toque da alvorada; o incendio lavra já na Judiaria!—Ao +embarque, ao embarque nos galeões do Tejo, ou a morte á escolha.»</p> + +<p>O velho Rabbi saiu com sua mulher e dois filhos pequenos, levados em tropel +confuso e lamentos para o Tejo, aonde se enchiam os galeões de Hollanda, e +resoava o ecco lugubre:</p> + +<blockquote> + los Reyes mandan <br> + passar la mar.<span class="pn">{193}</span></blockquote> + +<h1>Os quatro filhos d'Aymon</h1> + +<h3>(<small>CONTO DO CERCO DO PORTO</small>) </h3> + +<p>Havia tres dias que o Marechal Solignac desembarcara no Porto com alguns +soldados belgas; com elles entrara tambem para dentro do cêrco um terrivel +inimigo—o cholera-morbus. Aos tiphos, que já devastavam a cidade, veiu +ajuntar-se essa nova desolação, para tornar mais completo o triumvirato da +morte. De cem pessoas, atacadas diariamente, succumbia um terço. A fome ia +conduzindo ao desespero, porque, além das forças inimigas, desde janeiro que os +vendavaes bloqueavam a barra. Á falta de carne, os doentes eram sustentados a +sôpa de bacalhau; os caldos eram temperados com assucar e aguardente, as camas +eram desfeitas para sustento dos cavallos, e, além dos preços dos generos +encarecerem,<span class="pn">{194}</span> os mercieiros vendiam falsificações +doentias, taes como de azeite e oleo de linhaça, ou de manteiga e sebo. Era +preciso luctar com a fome, e em fevereiro começou a distribuir-se uma sopa +economica, de um quartilho de caldo de feijão com arroz e farinha de trigo; no +primeiro dia acudiram trezentas pessoas, ao segundo dia subiram já a setecentas +as rações. Emfim, desde a perda do reducto do Monte de Crasto, que Solignac +apenas conservou oito horas, as condições de resistencia da cidade tornaram-se +desesperadas; derrotado o marechal, na sua tentativa de assalto ao Castello do +Queijo, em 24 de janeiro, a consequencia desastrosa fez-se logo sentir. O +inimigo comprehendeu que, fechando a barra do Porto, venceria o cêrco pela +fome. Para isso fortificou quasi toda a costa, e levantou a terrivel bateria de +Serralves, que cortava toda a communicação com a Foz. Pelo seu lado, os +liberaes reforçaram o reducto da Senhora da Luz e occuparam immediatamente as +alturas do Pastelleiro e do Pinhal. Mas a resistencia ia-se tornando cada vez +mais inutil, porque além da chuva de granadas que cahiam dia e noite sobre a +cidade, além da recrudescencia do cholera, para o qual já não bastava o +hospital da Quinta dos Congregados, o mar conservava-se tão tempestuoso que não +era possivel apparecer véla alguma no horisonte! Foram quarenta dias +desesperados, quarenta dias em que esteve tudo perdido, menos a força +moral.<span class="pn">{195}</span></p> + +<p>A historia official, subordinada á exacção dos boletins de campanha, não +allude a este cyclo dos quarenta dias do principio do anno de 1833, e comtudo +n'esse periodo de desolação extrema é que se praticaram os maiores rasgos de +validez moral: todos foram heroes, as mulheres, os velhos. É triste que homens +do talento de Garrett e de Herculano, e mesmo generaes que sabiam trocar a +espada pela penna, e que foram heroes n'esses grandes dias de sacrificio, se +não lembrassem de colligir as sublimes tradições epicas do cêrco do Porto, que +ainda casualmente se repetem. Essas tradições vão-se perdendo, como toda a +poesia de um povo, que começa a morrer pelo esquecimento do seu passado. +Contaremos um d'esses esplendidos episodios, desconhecido dos historiadores, +mas conservado ainda na vida burgueza do Porto; pinta-nos o espirito de +resistencia em que a cidade se achava, n'esses quarenta dias decisivos.</p> + +<p>A 4 de março, as tropas de D. Miguel foram atacar as posições dos liberaes +na Foz, seguras de que era já impossivel sustental-as mais tempo; no meio da +sua hallucinação, os atacados tomaram a offensiva, e os rebeldes retiraram-se +deixando duzentos mortos no campo. D. Pedro, que gastava os seus esforços em +conciliar os generaes despeitados, apparecia sempre em todos os momentos de +conflicto. Era junto dos soldados, ao pé dos voluntarios burguezes, que elle +readquiria confiança e se mostráva alegre, presentindo<span +class="pn">{196}</span> o triumpho da causa da liberdade. D. Pedro appareceu na +bateria da Luz; foi ahi que se lhe tornou reparavel um velho que elle +encontrava sempre vagabundo pelas linhas, nos pontos em que eram renhidos os +ataques. Notou que o velho andava desarmado, e observando diligentemente; não +pôde deixar de dirigir-se a elle com um interesse e familiaridade em parte +provocados pelo seu aspecto venerando e cheio de auctoridade:</p> + +<p>—Amigo! que faz você por aqui?</p> + +<p>—Senhor, tenho aqui nas linhas um filho.</p> + +<p>—Bem; então ande á vontade, se não tem medo das balas.</p> + +<p>—Medo das balas? Isso são confeitos de noivado. Não tivesse eu cá os meus +setenta e quatro, que outro gallo cantaria.</p> + +<p>—O seu filho, vê-o d'ahi?</p> + +<p>—Por ora ainda o vejo. Não estou aqui por ter medo de perdel-o; é para ir +socegar as mulheres, as irmãs, que sempre estão com cuidado. Querem saber +alguma cousa das linhas.</p> + +<p>Este dialogo foi interrompido por um toque de carga á baioneta; pode-se +imaginar quem trouxe para a cidade a noticia do triumpho. Chegou o terrivel dia +24 de maio; estava acabado de construir o reducto das Antas, guardado apenas +por trinta soldados de caçadores 5. N'isto, as tropas inimigas, de dois mil +homens, tomaram o reducto das Antas! Era preciso desapossal-as, a todo o +transe, e de facto não poderam conservar o<span class="pn">{197}</span> reducto +além das tres horas da tarde desse dia. Infanteria tres, nove e dez, quarenta +lanceiros e um batalhão inglez cumpriram o seu dever; foi uma refrega atroz. O +Monte das Antas ficou juncado de cadaveres; mais adiante, na Casa Negra, era +ainda maior a carnificina.</p> + +<p>Foi no combate da retomada das Antas que D. Pedro tornou a encontrar o velho +burguez; já lhe haviam dito como se chamava. Era o contraste do ouro, o typo do +antigo homem bom, chão e abonado, como o caracterisa a Ordenação do reino; +chamava-se Cosme Martins. Assim que D. Pedro deu por elle no tropel, +destacou-se dos officiaes, para fallar-lhe:</p> + +<p>—Outra vez por aqui, com este fogo?</p> + +<p>—Tenho cá outro filho.</p> + +<p>—Outro filho? Como se chamam os rapazes?</p> + +<p>—Na bateria da Luz está o meu Eduardo, tem dezenove annos feitos.</p> + +<p>—Póde bem com a espingarda. E o outro?</p> + +<p>—Está aqui nas Antas; é o meu Thomaz, já formado em leis.</p> + +<p>Em meio da conversa, D. Pedro foi interrompido por uma d'estas +circumstancias que se dão em todo o campo de batalha; vieram contar-lhe como se +achara uma carta na algibeira de um morto por onde se sabia que era o major dos +realengos de Trancoso. Não se tornaram a vêr, n'esse dia, o velho e D. Pedro. +</p> + +<p>A sete de abril, descobriu-se a longa estacada feita pelos inimigos desde as +primeiras casas de<span class="pn">{198}</span> Paranhos até á Eira do Covêlo. +Queriam fortificar-se alli; não havia tempo a perder; era preciso desalojal-os. +A artilheria dos liberaes começou a responder desde as nove horas da manhã, e +durou o fogo até ás seis horas da tarde. Cruzaram-se as baterias da Gloria, do +Pico das Medalhas, do Serio, da Aguardente e de S. Braz. Uma força de mil +homens sahiu fóra das linhas, para tomar de assalto o monte do Covêlo, que os +inimigos abandonaram. Porém, no dia 10, os miguelistas voltaram, com o intuito +de retomar os pontos perdidos, onde os liberaes tinham levantado um reducto em +menos de oito horas. Estavam lá dentro apenas duzentos soldados; foram atacados +por mais de dois mil dos rebeldes, que chegaram até dez passos de distancia. No +meio do fogo, quasi á queima-roupa, jogavam-se os insultos que tornavam mais +violento o ataque; de dentro perguntavam aos assaltantes se elles traziam os +saccos para a pilhagem da cidade. Foram momentos decisivos: duzentos homens +livres poderam esmagar dois mil janizaros.</p> + +<p>No meio d'esse implacavel desbarato, andava D. Pedro, e quando tornou a +avistar o velho, que estava envolvido em um antigo capote de camelão, sorriu-se +para elle, como quem o tomava já como um presagio de felicidade. E emquanto +tocava a reunir, D. Pedro foi para elle, esfregando as mãos:</p> + +<p>—Olá! bom homem.<span class="pn">{199}</span></p> + +<p>—Senhor D. Pedro, elles hoje é que pagaram o vinho.</p> + +<p>—E bem pago. Então você tem por cá mais algum filho?</p> + +<p>O velho não pôde deixar de alegrar-se com a pergunta maliciosa, e respondeu +com uma convicta serenidade:</p> + +<p>—Tenho aqui mais outro filho.</p> + +<p>—Outro filho, homem! De dois, sei eu.</p> + +<p>—Este é o que me ajuda no officio; ficou de hontem para hoje no reducto do +Covêlo, e já sei que está são como um pêro...</p> + +<p>—Parabens, amigo, parabens. Com que então, na bateria da Luz, um; no +reducto do Monte das Antas, outro; no Covelo...</p> + +<p>—É o meu filho Cosme.</p> + +<p>—Ainda tem mais algum?</p> + +<p>O velho sorriu-se, com ár de quem busca attenuar uma phrase, que poderia ser +tomada como expressão de vaidade:</p> + +<p>—Não queria fallar do outro filho, que tenho na bateria do Pico das +Medalhas, antes de me encontrar alli com vossa magestade.</p> + +<p>—Oh! homem! outro filho?</p> + +<p>—E mais que tivesse; esse é o meu Fortunato; e quando não está no fogo da +bateria fica de semana, em serviço medico no hospital dos cholericos de S. +Pedro de Alcantara.</p> + +<p>D. Pedro emmudeceu diante da revelação casual de um tão completo sacrificio. +Abraçou o velho, porque não pôde articular palavras, e os<span +class="pn">{200}</span> olhos marejaram-se-lhe de lagrimas. Aquella natureza +egoista, como a de todos os principes, insensivel á dedicação como o revela a +demissão do grande Mousinho da Silveira, foi uma vez tocada pela realidade das +cousas. As palavras desinteressadas d'aquelle velho revelaram-lhe que se elle +sabia sacrificar-se por uma filha, ninguem, em uma cidade sem muros, cercada +por mais de oitenta mil inimigos, dizimada pela peste, apertada pela fome, +ameaçada pelo saque, ninguem poupava o seu sangue, porque todos queriam +converter a liberdade em um direito. O sacrificio de um pae ficava supplantado +pelo sacrificio a uma geração inteira!<span class="pn">{201}</span></p> + +<h1>Odio de inglez </h1> + +<h3><small>COMMENTARIOS AO CONTO DO SR. THEOPHILO BRAGA</small></h3> + +<h2><i>A adega de Funck</i></h2> + +<p>Uma das idéas de que todo o bom artista se possue fortemente, foi de que +Hoffmann, apesar da extravagancia das suas composições, não inventava +totalmente os typos singulares da sua grotesca e terrivel galeria. Hoffmann, +como Callot, Lantara, Heine, Diderot, e Chamisso, accusados de terem creado +typos fóra da natureza, extravagantes, impossiveis, e movendo-se n'uma +atmosphera puramente ideal, tinha reunidos, ás potentes faculdades creadoras do +poeta, todos os finos e preciosos dotes de observação—o apanagio +especialissimo da pintura.</p> + +<p>Ora Hoffmann foi uma das mais privilegiadas e divinas organisações +artistas—por que como todos o sabem excellentemente—foi <i>maestro</i>, poeta +e pintor.</p> + +<p>É possivel que a imaginação singular do narrador allemão preenchesse muitas +lacunas dos dramas reaes, de que o seu lapis tomava apontamentos, lhe désse +depois uma outra vida mais poetica, mais ideal, mais conforme á sua organisação +de visionario, de poeta e caricaturista—e elles<span class="pn">{202}</span> +depois apparecessem no seu estranho reportorio sensivelmente transformados e +melhorados—como um artista mysanthropo emendando a natureza, e nos seus +momentos de máo humor permittindo-se a liberdade de a achar vulgar e imbecil. É +possivel, porque todos os verdadeiros artistas têm sentido estas taciturnas +horas de mysanthropia incuravel, e este profundissimo desgosto da ordem regular +das cousas.</p> + +<p>Mas o que é certo é que achamos attestados notaveis tanto nos seus contos +como nas suas carteiras, notas secretas, de que Hoffmann era um espirituoso +observador, e que não creava—totalmente—as suas composições por muito +estranhas que pareçam.</p> + +<p>N'um dos mais bellos contos de Theophilo Braga, <i>A adega de Funck</i>, +n'aquelle dialogo entre o visionario e o amigo, achamos sempre um novo, +melancholico e precioso sabor. Baseia-se o conto n'aquelle amor do artista pela +novidade dramatica e singular que apresentam certas peripecias vulgares da vida +real. Hoffmann mostra-se possuido da idéa de escrever um conto fundado n'uma +aventura sinistra de um homem a quem a mulher confessa, na hora cheia de +lagrimas da agonia, de o haver trahido, e a que elle retribue successivamente +com a fria e medonha confissão de a <i>haver envenenado</i>.</p> + +<p>Ora nós, na distracção solitaria do nosso gabinete, folheando ha pouco um +livro curioso pela sua notavel excentricidade, de Emilio Colombey,—encontramos +a sinistra historia, que tanto impressionou o nervoso narrador allemão.</p> + +<p>Emilio Colombey diz haver extrahido a noticia, que nos impressionou tambem, +das columnas da <i>Gazeta dos Tribunaes</i>, de 1795.</p> + +<p>Vamos dar alguns pormenores sobre esta historia colhidos no livro de +Colombey, que servirão como de curiosa nota ao conto phantastico de Theophilo +Braga;—os leitores de apurado gosto litterario acharão prazer em conhecer a +aventura terrivel.—<span class="pn">{203}</span></p> + +<p>«O auctor d'esse assassinio mysterioso, diz a <i>Gazeta dos +Tribunaes</i>,—depois de descrever o homicidio de um official de marinha +ingleza que se affastava rapidamente n'um escaler de guerra, o <i>Penguim</i>, +no canal de S. Jorge,—o auctor d'esse assassinio singular, pertencia a uma das +mais antigas e illustres familias inglezas. Chamava-se lord A... e gosava no +condado de Tifferay de todos os privilegios inherentes ainda á auctoridade +feudal. Os sentimentos que lhe votavam, tambem, eram geralmente, mais do terror +que os da amizade; porque era bem notorio que o lord, no seu odio pela Irlanda, +não tinha retrogradado muito aos tempos da Rosa Vermelha e da Rosa Branca, e +que não era por falta de vontade que os irlandezes não eram tratados tão +deshumanamente como sob Henrique VII, quando conquistou aquella ilha e lançou +as bases da legislação atroz que devia pesar sem interrupção sobre esta nação +humilhada.</p> + +<p>Não era voluntariamente, tambem, que lord A... viera estabelecer-se na +Irlanda, depois de haver sido por muito tempo em Londres um dos <i>dandys</i> +mais requintados do Regent Street e de Piccadilly: tinha-lhe cabido em herança +um vasto dominio no condado de Tipperary. Mas o testamento do legatario tinha +uma clausula pela qual se estabelecia que este não poderia ser senhor do dito +dominio, senão com a condição de o habitar perpetuamente. O lord inglez, que +estava longe de possuir uma fortuna correspondente á illustração do seu +nascimento e ao seu amor do luxo, viu-se na necessidade de subjugar-se a esta +extravagante exigencia.</p> + +<p>A antipathia hereditaria que tinha á Irlanda mais se aggravou com esta +restricção, e o seu humor, naturalmente melancholico, tornou-se sombrio e +feroz. Comtudo, como era rico, e ligado a uma dama caritativa e formosa, que, +afinal de contas, semeava em torno de si o dinheiro com uma rara profusão, a +opinião publica mostrava-se paciente e attribuia, não sem razão talvez, as +frias violencias e os excessos sem paixão a que se deixava levar, á +originalidade do seu caracter.<span class="pn">{204}</span></p> + +<p>Lord A. seguido de um doutor que fôra chamar,—porque mal acabara de +commetter o assassinio fôra chamar um medico para assistir a lady que se achava +agonisando,—Lord A. seguido do doutor, atravessou silenciosamente o seu +dominio, embrenhou-se no campo, e subiu com passo firme o caminho em declive +que conduzia á entrada do castello senhorial.</p> + +<p>O cuidado que se havia tomado de estender por todos os corredores uma +espessa cama de palha e feno, a physionomia alterada dos creados que +atravessavam machinalmente as camaras e os corredores, como para fugirem a um +indomavel terror, emfim os gritos dilacerantes que quebravam, por intervallos, +o profundo e frio silencio que reinava n'aquella casa, affirmavam +sufficientemente que se estava representando ali uma scena de agonia.</p> + +<p>Lord A. sem se dignar dirigir uma palavra aos creados, penetrou no quarto +d'onde partiam os gemidos desesperados. Uma mulher extremamente nova ainda e de +uma physionomia das mais seductoras, estava estendida n'um leito, na attitude +de um soffrimento incrivel; os longos cabellos loiros desmanchados envolviam-a +toda; corria-lhe o suor do rosto; e o corpo abalado de estremecimentos +convulsivos retrahia-se sobre si mesmo a intervallos, com uma horrivel +flexibilidade.</p> + +<p>O lord parou a este espectaculo. A doente ouvira-lhe o ruido dos passos e +pronunciára o seu nome: fixou n'elle um olhar desvairado com uma indefinivel +expressão de dôr, e voltando-se para o medico, que se conservava ao pé do leito +n'uma immobilidade contemplativa, bradou-lhe n'uma voz sonora que não admittia +hesitação nem recusa:</p> + +<p>—Não tendes nada aqui que fazer, senhor, sahi!</p> + +<p>O medico parecia indeciso, e cheio de duvidas terriveis: no emtanto não +tratou de se oppôr a esta ordem, porque um simples olhar bastou-lhe para +comprehender que lady A... estava perdida. Todavia pegou na mão da doente, +baixou-se para vel-a melhor, e não poude ser senhor de um estremecimento, +observando que as unhas d'aquella mão, já livida,<span class="pn">{205}</span> +estavam mosqueadas de pequenas nodoas negras. Assim que saiu do quarto, lady +A... fez um signal ao lord de approximar-se, e opprimindo-lhe o braço com uma +força cheia de paixão: </p> + +<p>—Mylord, esperava-vos para morrer, não chameis ninguem, não invoqueis +soccorro algum, o mal é irremediavel, o doutor bem o percebeu: viste-o!</p> + +<p>Abafou no travesseiro os soluços involuntarios que lhe arrancava o +soffrimento, e ajuntou:</p> + +<p>«Ouvi, mylord;—uma pobre mulher á morte, que succumbe ás mais atrozes +torturas, tem direito, talvez, a alguma indulgencia. Rasgae, oh! rasgae por um +momento o manto de frieza com que vos cobris... por que tenho um favor supremo +a solicitar-vos, uma confissão dilacerante a fazer-vos... Eduardo, lady A... +acha-se criminosa, bastante criminosa para comvosco. Durante a vossa ultima +estada em Londres, um homem, que na mocidade amei, aproveitou-se do isolamento +em que me achava pela vossa ausencia, para despertar com suas palavras, em mim, +recordações mal extinguidas. Que mais direi? Não vos achaveis aqui para me +defenderdes da minha fraqueza, para me proteger contra o meu coração, +succumbi... É isto o que vos quiz confessar antes de descer ao sepulchro, e o +que me causa dôres mais atrozes do que as da agonia. Sêde clemente, mylord!... +A expiação succedeu logo á culpa. Sinto arderem-me as entranhas. Deus +encarregou-se de vos vingar!</p> + +<p>«Lord A. escutára esta confissão solemne da moribunda com uma attenção grave +e recolhida. Os seus gestos em perfeita immobilidade, não deixavam transparecer +colera, espanto ou piedade. Contentou-se só em apertar a mão da moribunda que +procurava a sua.</p> + +<p>«Surpreza com este silencio, lady A... por um violento esforço tratou de se +levantar no leito, e encarou fixamente o marido, procurando vêr se lhe lia nos +olhos o seu pensamento mais secreto.</p> + +<p>—Depressa, mylord, soluçou ella,—um derradeiro beijo; o beijo do perdão. É +quasi n'uma morta que o daes!<span class="pn">{206}</span></p> + +<p>—Eu sabia tudo, e perdôo-vos,—respondeu o lord sem se commover. Mas, lady, +a vosso turno, tendes tambem que me conceder um perdão: fui eu que vos +envenenei.</p> + +<p>«E ajuntou com o mesmo sangue frio:</p> + +<p>—Quanto ao vosso amante matei-o esta manhã nas margens do canal de S. +Jorge.</p> + +<p>Uma exclamação de horrivel espanto, um grito de odio selvagem succedeu a +esta dupla revelação, atirada de um modo tão calmo no meio de uma tão dolorosa +agonia.</p> + +<p>Sempre senhor de si, lord A. não abandonou a cabeça da moribunda em quanto +esta não exhalou o derradeiro suspiro.</p> + +<p>Depois de lhe ter emfim coberto a cabeça com o lençol mortuario, pegou no +castiçal que havia illuminado esta scena lugubre e subiu ao andar superior onde +estavam situados os seus aposentos particulares. Ao affastar-se d'aquelles +tristes logares, teve o cuidado de ir fechando as portas dos diversos quartos +por onde atravessava, de lhes tirar as chaves e ir correndo todos os ferrolhos, +atraz de si, sem excepção de algum.</p> + +<p>Ninguem teria podido suspeitar, nem da sua attitude firme, nem dos seus +gestos fleugmaticos, um indicio qualquer da mais leve agitação; e se por acaso +o temor ou o remorso lhe agitavam surdamente o coração, esforçava-se por +occultal-o a si mesmo.</p> + +<p>Durante toda a noite viu-se brilhar uma luz no quarto de dormir do lord; não +chamou creado algum, e reinou sempre o mais profundo silencio n'esta parte do +castello.</p> + +<p>No outro dia pela manhã o creado de quarto do lord tentou debalde penetrar +nos aposentos, e, cheio de inquietação, mandou chamar os <i>constables</i> e os +<i>policemen</i>. As portas foram abertas pela força armada, e quando entraram +poderam ver então o lord estendido em cima de um tapete e banhado em sangue. +</p> + +<p>Uma expressão de ironia convulsiva era a unica cousa que a morte lhe deixara +impressa na physionomia decomposta. Sem perder cousa alguma do sangue frio +estoico de que os suicidas inglezes teem offerecido até hoje tão +espantosos<span class="pn">{207}</span> exemplos, o lord havia-se degolado com +uma navalha de barba, e havia separado de um unico golpe, com uma força +incrivel e com a mais sinistra habilidade a secção da arteria carotida.</p> + +<p>A vella, quasi toda consummida, ardia ainda sobre a mesa, onde estava +collocado, no logar mais visivel, um papel, lacrado e sellado com as armas do +lord e com esta epigraphe escripta certamente por um punho firme e seguro:</p> + +<p style="text-align: center;"><i>Testamento de lord A... fallecido em C... a 7 +d'outubro de 1795</i></p> + +<p>Este papel, depois de aberto, indicava o <i>spleen</i> feroz que roía o +lord, e o odio cego que elle votára á desgraçada Irlanda:</p> + +<p>«Eu deixo e lego a somma annual de dez libras esterlinas para serem pagas, +perpetuamente, pelos meus successores; essa somma, tal é a minha vontade e o +meu gosto, será empregada em comprar um certo licor, chamado vulgarmente +<i>wiskey</i>; e fazer-se-ha saber ao publico que este licor deve ser +distribuido a um certo numero de particulares irlandezes, sómente, cujo numero +não poderá ser superior a vinte; e deverão ajuntar-se no cemiterio em que eu +hei de ser enterrado. Ahi deverá ser entregue a cada um, um bordão de carvalho +e uma faca, e, assim armados, começará a ser distribuido um quartilho de +<i>wiskey</i> a cada um, até que toda a ração seja consummida, e é minha +vontade que isto tenha logar todos os annos a 17 de março ou a 10 de outubro. +</p> + +<p>«A razão por que assim determino isto é para que os habitantes grosseiros da +Irlanda, cada vez que se juntem, nunca lhes escasseiem armas para se +destruirem; e por isso quiz tomar o meio mais efficaz de os reunir, na +esperança que com o tempo chegarão a despovoar por suas proprias mãos o seu +paiz, que se poderá tornar a povoar depois com uma raça civilisada vinda de +Inglaterra.»</p> + +<p>Aqui termina a estranha noticia dada pela <i>Gazeta dos Tribunaes</i>, que +extrahimos do livro de Colombey.<span class="pn">{208}</span></p> + +<p>Ora Hoffmann é muito provavel que houvesse lido o celebre jornal, que trazia +sempre dramas muito notaveis por aquelles tempos tão agitados de 1795, e muito +mais notaveis especialmente para aquella imaginação ardente do poeta allemão: +pois que é certo que na sua carteira existiam muitos outros apontamentos como +este; ou a que Hoffmann não tinha achado no seu espirito a fórma especial em +que os devia moldar; ou porque novas phantasias de visionario o impediam.</p> + +<p>Muitos dos seus contos tinham sido achados na conversa dos amigos, nos +jornaes, na rua e nas obras dos auctores que lia. Juntamente com este drama, +este terrivel conto em embryão—que Theophilo Braga faz tão bem perseguir a +imaginação doente do artista n'uma noite chuvosa, á luz crepuscular de uma +lampada, n'uma adega subterranea—juntamente com este apontamento, estava outro +colhido no <i>Diabo coxo</i>, de Lesage. O assumpto devia ser um demonio +perseguidor e conselheiro. E com estes mais...</p> + +<p>O que Hoffmann faria com este terrivel incidente, colhido na <i>Gazeta dos +Tribunaes</i>, ou talvez na transcripção dos jornaes allemães, deixo-o suppôr +áquelles que teem admirado as visões terriveis do allemão.—Talvez um conto +cheio de phantastica tristeza, como o D. Juan ou o Morgado?!...</p> + +<p> </p> + +<p style="text-align: right;">G<small>OMES </small>L<small>EAL.</small></p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p>N<small>OTA.</small>—O livro d'onde extrahimos este commentario ácerca do +bello conto de Theophilo Braga intitula-se <i>Les originaux de la dernière +heure</i>. Citamol-o aqui para não fazermos como certos histriões lentejoulados +das letras, cujos plagiatos são em tão grande numero como as obras, e para os +quaes será um dia terrivel aquelle em que se lhe desafivellar a mascara da +consciencia cancerosa e em que se proceder a excavações nas suas obras.</p> + +<p style="text-align: right;">G. L.</p> + +<p>(<i>Da Tribuna</i>, n.<sup>os</sup> 8, 9 e 10, de 1874).<span +class="pn">{209}</span></p> + +<p> </p> + +<h1>ADDITAMENTO</h1> + +<p><span class="pn">{210}<br> +{211}</span></p> + +<h2>Carta a José Fontana</h2> + +<h3>(<small>DA 1.ª EDIÇÃO</small>)</h3> + +<p style="text-align: right;"><i>Meu caro editor</i></p> + +<p>Disse-me que esperava um prologo, para começar a publicação dos +<i>Contos</i>; lembrou-me escrever-lhe um capitulo de esthetica sobre esta +fórma litteraria. O publico não gosta de abstracções. Por minha vontade +desistia do promettido; limito-me porém a algumas considerações historicas.</p> + +<p>A fórma do <i>conto</i> é de origem oriental. As fabulas de Bidpaï foram o +primeiro ensaio para fazer sentir uma moralidade abstracta por meio de uma +ficção interessante. É pelo seculo XII que esta creação do genio do oriente +apparece na Europa, imitada na <i>Disciplina clericalis</i> de Moysés Sephardi, +conhecido depois da sua conversão ao christianismo com o nome de Petrus +Alphonsus. A <i>Disciplina clericalis</i>, escripta em latim barbaro, para +ensino dos clerigos, compõe-se de trinta e sete contos e apophtegmas, que o +auctor imagina dados por um arabe a seu filho na hora da agonia. A popularidade +do livro foi dispondo os animos para a cultura d'esta fórma litteraria.<span +class="pn">{212}</span> </p> + +<p>O <i>Conde de Lucanor</i> de D. João Manuel, algumas das ficções do <i>Gesta +Romanorum</i>, o <i>Decameron</i> de Boccacio, os <i>Contos de Cantorbery</i>, +resentem-se bastante do livro do judeu convertido da Huesca.</p> + +<p>Uma creação do genio celtico e germanico é o mundo feérico; elaborada +lentamente na phantasia popular, animada n'esses typos de Melusina, Morgane e +Urgante, dos trovadores da Edade média, cantada depois nos galanteios de +Boiardo e Ariosto, Spencer e Shakespeare, tornou-se o divertimento infantil dos +<i>Contes bleus</i>, os contos de fadas, colligidos nas <i>Notte piacevoli</i> +de Straparole, publicadas no seculo XVI, e no <i>Pentamerone</i> de +Giambattista Basile em 1637.</p> + +<p>O conto é a fórma litteraria da lenda. Boccacio no <i>Decameron</i>, +n'aquellas transições instantaneas do ridiculo ao pathetico, revela uma face +profunda da historia, o estado dos espiritos na terrivel peste de 1358. A +imaginação era tão perigosa como o contagio; a distracção calculada, o prazer +egoista dos jardins de Pampinea, a indifferença, o scepticismo que se +desenvolve nas grandes calamidades, só podiam suspendel-a na exageração do +terror. Nos contos da Edade média ha uma mistura de devoção e desenvoltura; no +<i>Heptameron</i> da rainha de Navarra, as aventuras cavalleirosas, as intrigas +de amor, os padres e monges seduzindo as noviças, entretecem-se com reflexões +moraes, e de <i>quelque léçon de la sainte Ecriture</i>. É a mesma antithese +fatal que parodia a exaltação religiosa nos ritos grotescos da egreja. A Edade +média retratou-se em todas as suas creações, mesmo nos <i>fabliaux</i> e no +conto.</p> + +<p>O conto é a passagem do fabulario para a linguagem da prosa, ingenua, rude, +de uma franqueza maliciosa muitas vezes, e desenvolta. O conto era uma situação +inventada para aproveitar um dito feliz, um repente engenhoso dos serões das +côrtes e dos castellos; nasceu d'aquelle genio primitivo, com que Froissart +narrava a historia.</p> + +<p>Demogeot, na sua <i>Historia da Litteratura franceza</i>, considera os +contos do seculo XVI como alheios ao desenvolvimento<span +class="pn">{213}</span> intellectual; é uma affirmação menos verdadeira por +absoluta. A actividade d'este periodo, a fecundidade e originalidade +verdadeiramente cahoticas reproduzem-se em Rabelais, o creador de +<i>Gargantua</i> e <i>Pantagruel</i>.</p> + +<p>A Renascença com as ficções gregas e romanas desnaturara o conto. No seculo +XVII elle torna-se volumoso, arrebicado de galanice e galanteria amaneirada. As +attenções tinham refluido sobre os trabalhos philosophicos; ficaram as creações +imaginativas em poder das Gamberville, de Scudery, de La Calprenède e +quejandos, que as alongaram fastidiosamente com pieguices sentimentaes, por +essas séries indefinidas de volumes da <i>Polexandra</i>, <i>Caritea</i>, +<i>Cytherca</i>, <i>Cassandra</i>, <i>Pharemundo</i>, <i>Ibraim ou o illustre +Bassa</i>, <i>Artamene ou o grande Cyrus</i>, <i>Clelia e Almahide</i>. Os +heroes apaixonados são Anacreonte conversando em amaveis versos, Bruto e +Lucrecia, Horacio Cocles e Clelia, movidos pelos interesses da sociedade +moderna; a magestade escultural da antiguidade e da historia em presença das +pequeninas intrigas amatorias tocára o cumulo do ridiculo!</p> + +<p>O movimento, a convulsão philosophica do seculo XVIII apparece tambem no +romance e no conto. Lesage escalpelisa a natureza humana, e o <i>Gil Blas</i> é +a synthese das observações profundas; o abbade Prevost analysa as paixões n'uma +lucta intima, recondita, e procura os sentimentos novos que scintillam dos que +se embatem e se destroem. <i>Manon Lescaut</i> é uma das verdades eternas do +sentimento humano, a contradição do que mais se aspira e idealisa, a vontade +negando-se, mobilisando-se nos multiplices desejos que tumultuam na alma. +Voltaire philosopha tambem nos seus <i>Contos</i>. Diderot, sobretudo, a +intelligencia mais robusta do seu tempo, mathematico, artista creador pela +reflexão e inspiração, reduz ao interesse do conto, á peripecia da acção as +verdades mais abstractas. Na assombrosa maravilha de arte, o <i>Neveu de +Rameau</i>, mostra a maldade disfarçada em virtude pelas conveniencias; todos +nos horrorisamos ao vêr alli o nosso retrato;<span class="pn">{214}</span> +sentiamos aquillo, mas não tinhamos a coragem, a abnegação para dizel-o. O +sobrinho de Rameau mostra-se infame, ao passo que é sublime de razão, porque +diz tudo o que pensa. Vê-se agitarem-se n'aquelle cerebro em ebulição todos os +processos intellectuaes. Na <i>Religiosa</i>, Diderot evoca as dores cruciantes +e desconhecidas, soffridas nas trevas por um coração ingenuo, que é o ludibrio +do interesse egoista, do fanatismo estupido, e da superioridade brutal. Este +conto por si é uma revolução latente. A analyse delicadissima dos pequenos +sentimentos que formam a grande lucta na alma da <i>Religiosa</i> não é +inferior ao quadro do quietismo de Michelet no processo da Cadière, e excede +por muitas vezes a profundidade com que Manzoni no <i>Promessi Sposi</i> +retrata as agonias da desgraçada Genoveva no convento de Monza.</p> + +<p>Uma vez descobertos estes segredos do sentimento, o conto deixou de ser +individual; o romance é o desenvolvimento de uma these da vida na sociedade. +Richardson é a admiração de Diderot; Goëthe descobre Diderot á Allemanha, +traduzindo a sua obra prima; elle mesmo isola os sentimentos do amor e o dever +no <i>Werther</i> e chega pela arte á conclusão logica do suicidio.</p> + +<p>Hoffmann, o caricaturista das paixões, de uma individualidade extravagante, +nas creações abstractas d'aquella imaginação de hypocondriaco deixa-lhes o +incompleto do maravilhoso; mais tarde os editores dão aos seus contos o nome de +<i>phantasticos</i>. Nos Contos de Hoffmann ha uma série de observações +psychologicas, de impressões instinctivas que supprem a falta de imaginação; os +seus contos são o diagnostico de uma alma doente. É o lado que os torna +apreciaveis, apesar do capricho e grotesco dos typos a que a mente hallucinada +dá fórma. Os Contos de Edgar Poë, a imaginação mais extraordinaria da America, +têm o phantastico da insolubilidade dos problemas philosophicos que constituem +a acção; tocam ás vezes a alta metaphysica. Tendo de transigir com as +materialidades da vida, na esterilidade da indigencia pede a inspiração ao +alcool; elle<span class="pn">{215}</span> sente a excitação lucida que lhe dá a +força espantosa da invenção, mas conhece já em si a tremulencia, que é a +decomposição inevitavel, e exclama no meio da fadiga—<i>Não ha peior inimigo +do que o alcool!</i> Edgar Poë é a força da imaginação e do ideal supplantada +pelo positivismo de uma sociedade manufactureira e orgulhosa do seu caracter +industrial; nos seus Contos ha a allucinação prophetica da doudice.</p> + +<p>A fórma do conto é estudada em todas as litteraturas da Europa; trazendo a +lume este pequeno trabalho, só nos inspira a boa vontade de corresponder ao +movimento que observamos lá fóra. Que mais teriamos a dizer de um livro simples +que lhe não desnaturasse a intenção.</p> + +<p> </p> + +<p><small class="SMALL">Coimbra, 8 de março de 1865.</small></p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p style="text-align: right;">T<small>HEOPHILO </small>B<small>RAGA</small>.</p> +</div> + + + + + + + +<pre> + + + + + +End of the Project Gutenberg EBook of Contos Phantasticos, by Teófilo Braga + +*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK CONTOS PHANTASTICOS *** + +***** This file should be named 32646-h.htm or 32646-h.zip ***** +This and all associated files of various formats will be found in: + https://www.gutenberg.org/3/2/6/4/32646/ + +Produced by Pedro Saborano and the Online Distributed +Proofreading Team at https://www.pgdp.net (This book was +produced from scanned images of public domain material +from the Google Print project.) + + +Updated editions will replace the previous one--the old editions +will be renamed. + +Creating the works from public domain print editions means that no +one owns a United States copyright in these works, so the Foundation +(and you!) can copy and distribute it in the United States without +permission and without paying copyright royalties. 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