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diff --git a/32387-h/32387-h.htm b/32387-h/32387-h.htm new file mode 100644 index 0000000..ddfbc41 --- /dev/null +++ b/32387-h/32387-h.htm @@ -0,0 +1,2925 @@ +<!DOCTYPE HTML PUBLIC "-//W3C//DTD HTML 4.01 Transitional//EN" "http://www.w3.org/TR/html4/loose.dtd"> +<html> +<head> + <title>Poetas do Minho I - João Penha, por Alberto Pimentel</title> + <meta name="Author" content="Alberto Pimentel"> + <meta name="Edition" content="Braga: Cruz e C.ª, 1894."> + <meta http-equiv="content-type" content="text/html; charset=iso-8859-15"> + <style type="text/css"> + body{margin-left: 10%; + margin-right: 10%; + } + .pn { + text-indent: 0em; + position: absolute; + left: 92%; + font-size: smaller; + text-align: right; + color: silver; + } + .corpo p {text-align: justify; text-indent: 1em;} + h1, h2 {text-align: center; margin-bottom: 2em;} + hr.dotted {border: 0; border-bottom: dotted 2px #000;} + hr {border: 0; border-bottom: solid 2px #000;} + blockquote {margin-left: 20%; font-size: 0.9em;} + .corpo blockquote p {text-indent: 0;} + a {text-decoration: none;} + .rodape { + font-size: 0.8em; + margin: 2em; + } + .fbox {border: solid black 1px; background-color: #FFFFCC; font-size: 0.8em; + margin-left: 10%; margin-right: 10%;} + </style> +</head> + +<body> + + +<pre> + +Project Gutenberg's Poetas do Minho I - João Penha, by Alberto Pimentel + +This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with +almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or +re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included +with this eBook or online at www.gutenberg.org + + +Title: Poetas do Minho I - João Penha + +Author: Alberto Pimentel + +Release Date: May 15, 2010 [EBook #32387] + +Language: Portuguese + +Character set encoding: ISO-8859-1 + +*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK POETAS DO MINHO I - JOÃO PENHA *** + + + + +Produced by Pedro Saborano (produzido a partir de imagens +de material em domínio público, disponibilizadas pelos +Serviços de Documentação da Universidade do Minho) + + + + + + +</pre> + + + + + +<div class="fbox"> +<p><b>Notas de transcrição:</b></p> + +<p>Nesta edição em HTML estão disponíveis duas versões do texto.</p> + +<p>A primeira contém o texto com a grafia de acordo com o <a href="#grafia_original">original</a> impresso em 1894. A segunda, contém uma variante com a grafia <a href="#grafia_moderna">actualizada</a> para português europeu.</p> +</div> + +<p> </p> + +<div style="border: solid 5px #888; text-align: center; padding: 1em;"> + +<p><big><big><a name="grafia_original">Ortografia original.</a></big></big></p> + +<p><small><small><a href="#grafia_moderna">(Ver Ortografia actualizada.)</a></small></small></p> + + +<p> </p> + +<div style="text-align: center; border: solid 4px #000;"> +<p style="font-size: 1.4em;">ALBERTO PIMENTEL</p> +<hr style="width: 30%"> + +<p style="font-size: 2em;">Poetas do Minho</p> +<hr style="width: 30%"> + +<p style="font-size: 2em;">I</p> + +<p style="font-size: 2.5em;">JOÃO PENHA</p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p style="font-size: 1.1em;">BRAGA</p> + +<p>CRUZ & C.ª—EDITORES<br> +<small>MDCCCXCIV</small></p> +</div> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p style="text-align: center; font-size: 1.5em;">POETAS DO MINHO</p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<div style="text-align: center; font-size: 0.8em;"> +<p>BRAGA<br> +TYP. «MINERVA COMMERCIAL»<br> +José Maria de Souza Cruz<br> +<small>1893</small></p> +</div> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<div style="text-align: center;"> +<p style="font-size: 1.4em;">ALBERTO PIMENTEL</p> +<hr style="width: 30%"> + +<p style="font-size: 2em;">Poetas do Minho</p> +<hr style="width: 30%"> + +<p style="font-size: 2em;">I</p> + +<p style="font-size: 2.5em;">JOÃO PENHA</p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p style="font-size: 1.1em;">BRAGA</p> + +<p>LIVRARIA ESCOLAR DE CRUZ & C.ª<br> +EDITORES</p> +</div> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<blockquote> + <p>Aquelle meu espirito opulento,<br> + Que vivia na luz dos sonhos bellos,<br> + Jaz ha muito nas ruinas dos castellos,<br> + Que no ar edifica o pensamento.</p> + + <p style="text-align:right;"><i>João Penha.</i></p> +</blockquote> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<blockquote> + <p>«... Quem publica um livro não o faz para o ler, publica-o para que os + outros o leiam. Quer, portanto, produzir um effeito qualquer, effeito que, em + todo o caso, não pode ser o do somno: para este ha o opio, a belladona e o + Codigo do Processo Civil.»</p> + + <p style="text-align:right;"><i>João Penha.</i></p> +</blockquote> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<div class="corpo"> +<h1><a name="SECTION00010000000000000000">I</a> </h1> + +<p>Ha quinze dias, João Penha e eu, sentados no mesmo banco do +<i>americano</i>, vinhamos do Senhor do Monte para Braga, e conversavamos de +litteratura. Nomes de auctores, nomes de livros, recordações dispersas, do +tempo em que elle redigia a <i>Folha</i> em Coimbra e eu lhe enviava do Porto +algum insignificante auxilio de collaborador, passavam rapidamente na +precipitação<span class="pn">{8}</span> tumultuante do dialogo, a cada momento +interrompido pelas paragens do <i>tramway</i>, pela entrada e saida de +passageiros, pela voz auctoritaria do conductor, que explicava em dialecto +calaico:</p> + +<p>—Bai cheio. Num ha logar.</p> + +<p>Tendo João Penha alludido a mais de um dos poetas, que constituiram a +constellação academica da <i>Folha</i>, para entrelembrar casos e anecdotas da +bohemia coimbrã, disse-lhe eu de repente:</p> + +<p>—Por que não escreve as suas memorias de Coimbra?</p> + +<p>—Não tenho tempo, respondeu elle. Encheriam tres volumes.</p> + +<p>Tres volumes, de certo, porque João Penha foi o chefe de um cenaculo +numeroso, que viveu na alegria e nas lettras, que teve aventuras e triumphos, e +que legou aos cursos subsequentes uma gloriosa historia ainda hoje rememorada +com prestigio na tradição academica.<span class="pn">{9}</span> Elle, erguido +no pedestal que o voto unanime dos seus contemporaneos lhe havia consagrado, +via do alto, como um idolo, toda a nervosa multidão da academia, que o adorava, +observava todas as evoluções caprichosas d'essa legião gentilissima de rapazes +talentosos, que se moviam em torno d'elle, conhecia todos os segredos da +biographia de uma geração, que ha de ficar eternamente lembrada. Tres volumes, +pelo menos, e não seriam de mais.</p> + +<p>Mas percebe-se que lhe custe metter hombros a um labor de reconstrucção +historica em que a penna seria como um estilete a revolver dolorosamente o +coração saudoso do escriptor. Eu mesmo, que apenas segui de longe toda essa +altivola mocidade academica, ouvindo reproduzida a distancia a sua voz no +phonographo litterario da <i>Folha</i> e de uma boa dezena de poemas, eu que +senti rolar até mim a lava candente do vulcão sem assistir<span +class="pn">{10}</span> ás tempestades explosivas da cratera, eu proprio +experimento a vaga nostalgia da Coimbra d'aquelle tempo vendo envelhecer em +Lisboa, na prosa da burocracia, do fôro, do professorado e do parlamento, os +poetas que ha vinte annos constituiam a ala victoriosa dos novos commandada por +João Penha.</p> + +<p>E, mais infelizes ainda, os que hoje não fazem leis, nem minutas, nem +aggravos, nem compendios, dormem prematuramente o somno da morte na apotheóse +serena, sem invejas, mas tambem sem desillusões, d'aquelles que, como Gonçalves +Crespo, brilharam pelo clarão do seu talento, e passaram como um meteoro +fugitivo.</p> + +<p>Tive Gonçalves Crespo por companheiro na Redacção da Camara dos Pares. O seu +espirito doirava-se ainda de um reflexo de alegria, sem constrangimento, que +era como que o ultimo elo da sua tradição academica. Tinha passado de Coimbra +para Lisboa serenamente,<span class="pn">{11}</span> sem tempestades da vida, +que envelhecem a alma antes do alvejar da primeira cã. Na paz domestica do seu +lar, a morte foi como um salteador que surprehende um viajante a dormir na +pousada, e o estrangula entre dois braços de ferro n'um momento. Os outros que +ficaram ainda, são como as arvores no outomno, que dia a dia vão sendo +sacudidas e abaladas pela nortada agreste, que annuncia o inverno.</p> + +<p>É difficil adivinhar hoje na melancolica indiferença de Simões Dias, que +passa atravez de Lisboa com o ar desleixado de um provinciano aborrecido, +aquella brilhante alma meridional do poeta das <i>Peninsulares</i>, onde +cantavam serenatas da Andaluzia e rouxinoes do Mondego.</p> + +<p>Candido de Figueiredo, cuja musa era das mais crentes, embora não fosse das +mais vulcanicas, cançado de repartir os restos da sua mocidade entre a cáthedra +de professor<span class="pn">{12}</span> e a Secretaria da Justiça, correu ao +encontro da velhice, denominou-se voluntariamente <i>Caturra</i>, atirou-se ás +questões de philologia, e conseguiu tornar-se rabujento contra os que escrevem +<i>aereonauta</i> com um e superfluo.</p> + +<p>Este correctissimo poeta da <i>Folha</i> é hoje um suicidio ambulante. +Mata-se a ensinar a lingua portugueza a quem a não quer saber. Já um ministerio +lhe receitou, como distracção, o Governo Civil de Villa Real. Candido de +Figueiredo viu o Marão resplandecente de neve, e não o cantou. Apenas recolheu +a Lisboa, deu-se pressa em publicar <i>Novas licções praticas da lingua +portugueza</i>.</p> + +<p>Não era poeta, poeta de fazer versos, embora tivesse começado por ahi, como +todos, mas tinha assomos de graciosa imaginação quando romantisava na +<i>Folha</i> as lendas do alto Alemtejo, um que só doutorou em direito, e +estuda e encalvece como todo o bom lente, e apenas sai dos braços de Minerva +na<span class="pn">{13}</span> Universidade para os braços do senhor José +Luciano no Parlamento.</p> + +<p>Esse, José Frederico Laranjo, tão amante de fallar nos palratorios de +Coimbra, vai estando tão mudado hoje, que já ninguem treme de medo quando elle +pede a palavra na camara.</p> + +<p>—E Junqueiro? o nosso astral Guerra Junqueiro? perguntar-me-ha o +luciolante apostolado que o rodea na cervejaria do Camanho.</p> + +<p>Junqueiro, se houvessemos de dar credito a todas as suas apprehensões +pathologicas, está «precocemente chegado, pelo soffrimento, ao occaso da +vida».<a name="tex2html1" href="#foot281"><sup>[1]</sup></a> Sinceramente +desejo que os factos venham desmentir esta apprehensão.</p> + +<p>Mas Guerra Junqueiro, meus senhores,<span class="pn">{14}</span> era na +Coimbra d'aquelle tempo, na <i>Folha</i> principalmente, a promessa florescente +de um lyrico primoroso, depois transviado, e a meu vêr atormentado, pela +preoccupação constante de reformar a esthetica<a name="tex2html2" +href="#foot282"><sup>[2]</sup></a>, a technica<a name="tex2html3" +href="#foot80"><sup>[3]</sup></a>, o olympo dos romanticos<a name="tex2html4" +href="#foot283"><sup>[4]</sup></a>, o paraizo dos catholicos<a name="tex2html5" +href="#foot284"><sup>[5]</sup></a>, de fundar escola e de attingir a perfeição +suprema no seu melhor livro, que, segundo o seu proprio conceito, são os +<i>Simples</i>.</p> + +<p>E talvez não sejam.</p> + +<p>Em Coimbra, Guerra Junqueiro era, como<span class="pn">{15}</span> todos os +outros, um satellyte que gravitava em torno de João Penha, o chefe +incontestado, antes adorado, do cenaculo, da bohemia, e da <i>Folha</i>.</p> + +<p>O tempo rolou a sua pesada mole por sobre as illusões d'esses rapazes que +eram então a fina flôr da geração academica. D'elles, os que não estão ainda +velhos por fóra, começam a descair na tristeza, não direi do occaso da vida, +como apprehensivamente affirmou de si mesmo Guerra Junqueiro, mas da +experiencia dura do mundo.</p> + +<p>João Penha, o primaz da tribu, é advogado em Braga, trabalha honestamente +para sustentar a sua familia. Está ao corrente de todas as novidades +litterarias que a França inventa e exporta, porque as recebe directamente de +Pariz em primeira mão, mas atura todos os dias, no seu escriptorio, uma chusma +de clientes, que ás vezes, o que o contraria muito, o assaltam em plena rua, já +depois<span class="pn">{16}</span> d'elle ter fechado o seu escriptorio ás duas +horas da tarde, invariavelmente.</p> + +<p>Outro dia, João Penha ia para o Bom Jesus do Monte, em +serviço—disse-me elle—ás sete horas da manhã. A seu lado, no +<i>tramway</i>, um demandista estopante gritava para vencer a dureza de ouvido +do advogado.</p> + +<p>—O que eu quero, berrava o cliente, é ganhar a queston do rego. +Porque, snr. doutor, no rego é que está a grande maroteira d'ella. (Ella era a +parte contraria, uma mulher).</p> + +<p>Questão d'aguas: a mais generalisada especie de litigios no Minho.</p> + +<p>João Penha, de charuto ao canto da boca, ouvia imperturbavelmente resignado +e silencioso. Os outros passageiros sorriam disfarçadamente das phrases +equivocas do demandista. Filado pelo cliente, João Penha era, n'aquella hora, +sob o céu azul, radioso de sol, uma victima do Direito, que legisla sobre regos +e outras coisas mais;—do Direito que<span class="pn">{17}</span> elle +podera amenisar em Coimbra com as satyras escriptas na aula, com os sonetos +publicados na <i>Folha</i>, com a bohemia alegre das <i>Camêllas</i> e do +<i>Homem do gaz</i>.</p> + +<p>Agora, em Braga, o Direito esmagava-o como a clava de Hercules. Fazia dó, +fazia pena vêr João Penha torturado nos colmilhos de um litigante obsesso, a +quem elle não podia responder, com um repente de Bocage, n'um epigramma +vingador.</p> + +<p>Não me atrevi a arrancar João Penha das garras do cliente. Mas á volta do +Bom Jesus, tornando a encontrar-nos no mesmo <i>americano</i>, interpuz-me ao +demandista e a elle, e conversamos de varia litteratura,—muralha da China +Contra a qual esbarraram, infructiferamente, duas investidas do brácaro +Chicaneau, que parecia recortado dos <i>Plaideurs</i> de Racine.</p> + +<p>Aqui esta no que veio a dar aquelle bello espirito do maior improvisador e +do maior bohemio da Coimbra de ha vinte annos!<span class="pn">{18}</span></p> + +<p>Ó salgueiraes do Mondego, lamentai-o! Ó musa alegre da tasca das +<i>Camêllas</i>, cobre de luto a tua face mésta! Ó fina flôr dos rapazes d'esse +tempo, chorai por elle e.... por vós!</p> + +<p>Colhi em Braga informações sobre o viver de João Penha transformado. Tem, +como advogado, uma grande clientella posto não vá nunca ao tribunal. Mas a sua +competencia em questões do civel não soffre rivalidade. Escrevendo nos +processos, é um jurisconsulto de primeira ordem.</p> + +<p>Ás duas horas da tarde fecha impreterivelmente o escriptorio. Os clientes +voltarão, se quizerem, no dia seguinte. Mas voltam sempre.</p> + +<p>Á noite, João Penha, invariavelmente de luvas pretas, monoculo posto, +frequenta a confeitaria do Anacleto á rua de S. Marcos. Uma coincidencia +leva-me a suspeitar que João Penha rivalisa na gulodice de bolos finos com o +glorioso Sampaio da <i>Revolução</i>, de veneranda memoria. Vindo todos os +annos á Povoa<span class="pn">{19}</span> de Varzim, na epoca de banhos, é na +confeitaria contigua ao <i>Café Chinez</i> que elle apparece ás noites, sempre +de luvas, correctamente vestido, sobraçando ás vezes um pacotinho de doces.</p> + +<p>Que ao menos o saboroso bôlo de côco possa adoçar as horas amargas da sua +banca de advogado!</p> + +<p>—Snr. dr., dizia-lhe o demandista quando todos apeiamos do +<i>americano</i> no Campo de Sant'Anna, olhe que a queston do rego tem furo. +Num m'a avandone. </p> + +<p>E João Penha, sorrindo, voltado para mim, repetia-me:</p> + +<p>—Não se esqueça de lêr a <i>Nature</i> de Hollinat. É soberba!</p> + +<p>Ó salgueiraes do Mondego, lamentai-o! Ó musa alegre da tasca das +<i>Camêllas</i>, cobre de luto a tua face mésta! Ó fina flôr dos rapazes d'esse +tempo, chorai por elle e... por vós!<span class="pn">{20}<br>{21}</span></p> + +<h1><a name="SECTION00020000000000000000">II</a> </h1> + +<p>Na individualidade litteraria de João Penha ha a distinguir o poeta da +bohemia, e o poeta do amor.</p> + +<p>São dois homens reunidos n'um unico homem. O primeiro é o estudante que +frequenta de noite as tascas de Coimbra, celebrisando-se nas libações e nos +improvisos; que canta os paios do Alemtejo, o presunto<span +class="pn">{22}</span> de Lamego e os falernos da Beira; que satyrisa os lentes +e adora a Cabula; que vê formar-se em torno de si o numeroso cenaculo a que +preside com o applauso e a admiração da academia inteira, cuja alma, cheia de +alegria e de mocidade, elle consubstancia n'uma saliente concretisação pessoal. +</p> + +<p>Os seus versos, as suas anecdotas de bohemio noctivago correm ainda hoje na +tradição universitaria, impregnados d'esse fugitivo <i>sachet</i> de vida +antiga, que é a gloria melancolica dos velhos e o ideal ambicioso dos novos. +</p> + +<p>A baiuca da Camêlla, sem elle, ficou solitaria como um templo vasio.</p> + +<p>Os que foram da geração de João Penha ainda de certo o recordam hoje de +monoculo no olho, capa traçada, n'uma attitude elegante e vigorosa de Apollo de +Belvedére, cantando no templo, sob um imaginario baldaquino de folhas de parra +verdejando esmeraldas, a alegria eterna da alma rubra do alcool.<span +class="pn">{23}</span></p> + +<blockquote> + <p>Oh vós, que do canto sois velhos freguezes,<br> + Ouvi d'estas lyras o mélico emprego!<br> + Nós somos as gêmas, os bifes inglezes,<br> + Os paios das filhas do claro Mondego.</p> + + <p>Sorri-nos a vida nos calices cheios.<br> + Dos roixos falernos das parras da Beira;<br> + Sorri-nos a Céres dos túmidos seios;<br> + Sorri-nos dos bosques a Venus ligeira.</p> + + <p>Nos mostos papyros da sciencia moderna<br> + A droga se encontra que ao somno convida;<br> + Queimémol-os todos, que só na taberna<br> + Os livros se encontram da sciencia da vida.</p> + + <p>Ao vento os cabellos! por montes e valles<br> + Corramos no passo das gregas choréas!<br> + Bachantes das praças, vibrae os cymbales!<br> + Abri-nos as portas, gentis Galathéas!</p> +</blockquote> + +<p>A lenda das noites das Camêllas, personificada em João Penha, subsistiu como +uma das seducções tradicionaes da vida academica.</p> + +<p>Antonio Nobre, que eu julgo ser, de todos os poetas novissimos, o que tem +mais poderosas faculdades para traduzir as impressões da alma moderna, +torturada pela nevrose,<span class="pn">{24}</span> confessa a suggestão d'essa +lenda bohemia, que reproduz a Poesia ardendo como uma pyra sobre o tampo dos +toneis impantes:</p> + +<blockquote> + <p>......... A Tasca das Camêllas<br> + Para mim, era um sonho, o ceu cheio de estrellas.</p> +</blockquote> + +<p>Mas quando Antonio Nobre chegou a Coimbra, uma barreira de vinte annos, +espessos como vinte seculos, separava da tasca das Camêllas a pessoa do doutor +João Penha, advogado nos auditorios de Braga. A alma espumante e radiosa das +noites da bohemia partira-se como a tapa das ultimas libações; partira-se, e +partira. No templo reinava o luto silencioso das lendas de antigos castellos +abandonados por principes cujo destino é ainda um mysterio. E Antonio Nobre, +relanceando os olhos tristes pela solidão tenebrosa, teve esta explosão de +desespero truculento:</p> + +<blockquote> + <p>Tia Camêllas... só ficou a camellice.<span class="pn">{25}</span></p> +</blockquote> + +<p>O que lembra uma situação analoga cantada por Delille nos <i>Jardins</i>: +</p> + +<blockquote> + <p>......... Telle jadis Carthage<br> + Vit sur ses murs détruits Marius malheureux.</p> +</blockquote> + +<p>Dir-se-ia que tinham desapparecido com João Penha e com o seu tempo essas +télas vivas de Van Laar, que revestiram as paredes das Camêllas; paineis +pagãos, dignos de Ticiano e de Poussin, onde a Fabula parecia sorrir ainda, +coroada de pampanos, no verso bachico do auctor do <i>Vinho e fel</i>:</p> + +<blockquote> + <p>Dá-me esse onagro de vigor silvestre,<br> + E os ôdres fundos, oh Sileno antigo:<br> + Ensina-me na dor: só tu és mestre.</p> +</blockquote> + +<p>Dir-se-ia que a rija cimitarra do vandalismo havia despedaçado algum marmore +de Pradier em que uma Bachante andaluza, cingida nos braços de um Satyro +inspirado, parecia entoar um dithyrambo amoroso, cortado<span +class="pn">{26}</span> de evohés e de beijos, e de que só restava, inscripto no +sôcco da esculptura mutilada, um sonetilho de João Penha:</p> + +<blockquote> + <p>Oh poetas d'agua fria!<br> + Dizei-me: a vossa musa.<br> + Será como a andalusa<br> + Que as noites me abrevia?</p> + + <p>Olhai-a: que poesia!<br> + Na dórna da Arethusa<br> + Lá enche agora a infusa<br> + De classica ambrosia,</p> + + <p>E aos labios de cereja<br> + Eleva, airosa e rindo,<br> + O copo de cerveja!</p> + + <p>Oh quadro novo e lindo!<br> + Musas, chorai de inveja,<br> + Musas, descei do Pindo!</p> +</blockquote> + +<p>Ainda rescaldam nos «cavacos» da academia as anecdotas, os episodios das +noites das Camêllas no tempo de João Penha. É capitosa a tradição d'essa +bohemia extincta, que<span class="pn">{27}</span> sôa ao longe, e que exalta a +imaginação dos rapazes. Para Antonio Nobre era um «sonho», que o attraiu a +Coimbra, como a devoção de Meca attrae o arabe.</p> + +<p>Elle tinha de certo ouvido contar que João Penha, entrando na Tasca sem +perder a donairosa compostura de um <i>gentleman</i>, que jamais esquecia as +luvas e o charuto, se limitava a esvasiar uma «taça», nome aristocratico com +que nas Camêllas a bohemia nobilitava o copo. E que, ao ouvido da Tia Maria, +João Penha, com o ar de uma discrição cheia de orgulho e de mysterio, +segredava:</p> + +<p>—Repita a dóse para um envergonhado, que está ali fóra...</p> + +<p>Na sombra do limiar, entreaberta a porta, João Penha esvasiava a segunda +«taça», simulando passal-a á mão de um embuçado de melodrama.</p> + +<p>Antonio Nobre conhecia a tradição, a anecdota, o pittoresco da lenda, mas, +quando<span class="pn">{28}</span> chegou a Coimbra, apenas restava da bohemia +de João Penha, na Tasca das Camêllas e na Via Latina, a lembrança de que +passára outr'ora por ali uma onda de mocidade alegre, que o tempo seccou.</p> + +<blockquote> + <p>Tia Camêllas... só ficou a camellice.</p> +</blockquote> + +<p>A tradição em Coimbra, um advogado em Braga, eis o que resta de João Penha +bohemio.</p> + +<p>Mas ainda hoje os rapazes que passaram pela Universidade vem contar as +satyras, os epigrammas que elle deixou gravados na memoria das gerações.</p> + +<p>Todos elles sabem de cór o famoso caso do incendio, que João Penha noticiava +para Braga, ao irmão, como tendo sido uma calamidade biblica, um castigo do +ceu, que o deixára despojado de todos os seus escassos haveres de estudante: +</p> + +<blockquote> + <p>Foi um incendio voraz!<br> + Parecia a propria Gomorra!<span class="pn">{29}</span></p> +</blockquote> + +<p>E os manes do doutor Adrião Forjaz velam de pudor a face ouvindo repetir, na +chalaça de Coimbra, a phrase attribuida aos labios castamente impollutos de uma +bôca impeccavel, onde só os eufemismos floriam como lirios brancos.</p> + +<p>Conheci em Lisboa, de o vêr no parlamento, o irmão de João Penha, tambem +advogado, e n'esse tempo deputado por Braga.</p> + +<p>Contava-se em Coimbra que o poeta, encarecendo as virtudes do irmão, +costumava dizer d'elle:</p> + +<p>—O seu unico vicio sou eu.</p> + +<p>De improvisos feitos na aula, escriptos sobre o joelho e transmittidos de +bancada em bancada, ficou em Coimbra memoria imperecivel, que irradiou até á +raia do Minho e até á raia do Algarve, como uma lenda nacional.</p> + +<p>Perderam-se para a bibliographia os dois jornaes, o <i>Zabumba</i> e a +<i>Gaita de folles</i>, que<span class="pn">{30}</span> João Penha publicou na +<i>Sebenta</i>, no quarto e quinto anno; mas as quadras e sonetos, em que a +alegria mordaz esfusiava diariamente n'essas folhas avulsas, salvaram-se para a +tradição, que ainda hoje os repete, como se estivessem sendo lidos, nas noites +de Coimbra. Quantas vezes não tenho eu ouvido recordar em Lisboa muitos dos +epigrammas de João Penha, improvisos feitos nas aulas, como, por exemplo, o do +Pinto Lambaça!</p> + +<blockquote> + <p>Em pé, diante do Brito,<br> + Dá lição Pinto Lambaça:<br> + Parece a voz do Infinito<br> + A sair d'uma cabaça!</p> +</blockquote> + +<p>E aquell'outro apontado ao nariz vermelho de Tamagnini Encarnação?</p> + +<blockquote> + <p>Tamagnini Encarnação<br> + Tem na ponta do nariz<br> + O colorido feliz<br> + De uma rosa do Japão.<span class="pn">{31}</span></p> +</blockquote> + +<p>E ainda aquelle que joga de vocabulo com o nome do condiscipulo Ennes:</p> + +<blockquote> + <p>A lettra dos teus assumptos<br> + Bem nos demonstra quem és:<br> + Vale dois <i>nn</i> bem juntos,<br> + É lettra de quatro pés.</p> +</blockquote> + +<p>Ha poucos dias, no <i>In illo tempore</i> das <i>Novidades</i>, li o +epigramma com que João Penha alvejou a gastronomia proverbial do doutor Sanches +da Gama:</p> + +<blockquote> + <p>Dizem que o Sanches embirra<br> + Que lhe vão pedir dispensa.<br> + Forte asneira!<br> + —Imagina que lhe pedem<br> + A despensa<br> + Onde tem a salgadeira...</p> +</blockquote> + +<p>Agora e sempre me parece novo em folha o famoso soneto <i>A um doutor +Pedro</i>, que póde ser considerado, o soneto, como inexcedivel na profundidade +do conceito. Pelo que<span class="pn">{32}</span> toca ao doutor, a tradição +universitaria apenas o considera inexcedivel no esguio da figura;</p> + +<blockquote> + <p>E vimos uma forma horrenda e bruta<br> + Surgir do lôdo vil com gesto iroso,<br> + Como out'rora, no Cabo Tormentoso,<br> + O velho Adamastor de barba hirsuta.</p> + + <p>—«Quem és tu?» eu lhe disse.—«Bardo, escuta,<br> + (Bramiu com voz ingente e desdenhoso)<br> + Eu sou no espaço infindo e luminoso<br> + O verbo ideial da estupidez corrupta.</p> + + <p>«Na terra sou Penedo: e o mar violento,<br> + O mar das sciencias vãs da humanidade,<br> + Já quiz vencer-me, e foi baldado o intento!»</p> + + <p>Disse. E ouvimos n'aquella obscuridade<br> + O cantico d'um tremulo jumento:<br> + —Era o preito da terra á Immensidade.</p> +</blockquote> + +<p>Sobre os inextinguiveis vestigios d'esta satyra teem caminhado as gerações +subsequentes, cantando o doutor incommensuravelmente filiforme. Antonio Nobre +tambem molhou a<span class="pn">{33}</span> sua sôpa no capêllo que encima o +zingamôcho do cathedratico zangaralhão:</p> + +<blockquote> + <p>Ó Pedro da minh'alma! meu amigo!<br> + Que feliz sou, bom velho, em estudar comtigo!<br> + Mal diria eu em pequenito, quando a ama,<br> + Para eu me callar, vinha fazer-me susto á cama<br> + Por ti chamava: Pedro! e eu socegava logo,<br> + Que eras tu o <i>Papão</i>! A ama, de olhos em fogo<br> + Imitava-te o andar, que não era bem de homem...<br> + Eu tinha birras:—Ahi vem o lobishomem!<br> + Dizia ella.—Bate á porta! Truz! truz! truz!<br> + E tu entravas, Pedro, eu via! Horror! Jesus!</p> +</blockquote> + +<p>Nas mais allucinantes tempestades de enthusiasmo academico a musa de João +Penha era a sarça ardente que prendia todos os olhares, attraia todas as +attenções pela originalidade fidalga do conceito, e pela gentileza patricia do +verbo flammejante, como no soneto <i>A uma rabequista</i>:</p> + +<blockquote> + <p>Eu dera um litro do meu sangue azul,<br> + (Oh meus avôs, não fulmineis o hereje!)<span class="pn">{34}</span><br> + Só por beijar-te, no chapim taful,<br> + O pequenino pé, que orchestras rege!<a name="tex2html6" + href="#foot285"><sup>[6]</sup></a></p> +</blockquote> + +<p>A respeito d'esta rabequista, que era uma italiana lindissima, dizia-me ha +pouco João Penha:</p> + +<p>—O Manoel da Assumpção queria casar com ella e eu dissuadi-o d'esse +intento... por ciumes.</p> + +<p>Pobre Manoel! elle foi o primeiro romantico do seu tempo, como João Penha +foi, na<span class="pn">{35}</span> phrase de Gonçalves Crespo, o ultimo +estudante de Coimbra.</p> + +<p>N'aquella quadra, como na organisação artistica de João Penha, incluindo a +sua modalidade de bohemio, ha um cunho brazonado de <i>vieille roche</i> das +lettras. Conservador como a melhor nobresa parisiense do bairro Saint Germain, +elle ama a tradição da Arte, os velhos pergaminhos da lingua, a lição classica +dos mestres, a compostura aristocratica da phrase, que não chega a +desfraldar-se no epigramma, nem a esbagaxar-se na satyra. Canta o Paio de luva +branca, sem que fique na pellica uma nodoa de gordura. Canta o Vinho, sem +entornar no collarinho a mancha roixa da bôrra. E se passa da tasca das +Camêllas para o salão nobre da Poesia madrigalesca, substitue facilmente a +batina rôta pela casaca broslada, é um cortezão de Luiz <small>XIV</small> +quando empunha a taça, refulgente de aureas facetas, para brindar as damas +delicadas:<span class="pn">{36}</span></p> + +<blockquote> + <p>D'este copo de vinho generoso<br> + Dai-me que eu tire o alento que desejo,<br> + Para que o novo canto, sonoroso,<br> + Desfira na guitarra em doce arpejo;<br> + E já que estou devéras amoroso,<br> + Aproveito apressado um tal ensejo<br> + Para erguer á leitora, que me escuta,<br> + Um brinde que me deixe a taça enxuta.</p> +</blockquote> + +<p>Tal é, rapidamente tracejado, o perfil lendario de João Penha bohemio, do +poeta da alegria e da mocidade, que improvisava nas tascas do <i>Homem do +gaz</i>, do <i>Varão do Luxemburgo</i>, do <i>Conselheiro Rodrigo</i>, e da +<i>Tia Maria Camêlla</i>.</p> + +<p>Mas esse improvisador errante, que a borga arrastava de taberna em taberna, +não descalçava nunca as luvas, nem para beber, nem para cantar. Era um artista +de raça, que adorava o primor da fórma. Sob este ponto de vista João Penha e a +<i>Folha</i> exerceram uma sensivel influencia. O soneto da escola italiana, +tão abandonado como antiqualha árcade depois de Bocage, resurgiu no acuro +parnasiano<span class="pn">{37}</span> de João Penha. E todos os da +<i>Folha</i>, que navegavam na esteira do mestre, sahiram excellentes artistas +no cinzelamento esculptural da fórma litteraria: Crespo, Junqueiro, Simões +Dias, Candido de Figueiredo, etc.<span class="pn">{38}<br>{39}</span></p> + +<h1><a name="SECTION00030000000000000000">III</a> </h1> + +<p>Para João Penha, como poeta lyrico, o amor parecia não ser mais que uma +idealisação, uma phantasia de artista.</p> + +<p>Eu não encontrava, nos sonetos do <i>Vinho e Fel</i>, a abstracção +absorvente de Petrarcha, a paixão abrasadora como lava, o Vesuvio que vulcanisa +o coração, reduzindo-o a cinzas.</p> + +<p>A Ironia andava de braço dado com o<span class="pn">{40}</span> Amor, no +lyrismo de João Penha, mais como um effeito pittoresco da Arte, suppunha eu, do +que como a crua expressão da Verdade.</p> + +<p>Não descobria atravez das <i>Rimas</i> o typo constante, persistente, de uma +mulher, embora se me affigurasse que de recordações avulsas e de perfis +differentes creára o poeta o elemento feminino dos seus poemas.</p> + +<p>Nunca os versos de João Penha me deram, na taça do <i>Vinho e Fel</i>, a +impressão de uma grande catastrophe psychologica, que lhe precipitasse a alma +na voragem do scepticismo.</p> + +<p>Parecia-me que a sua musa obedeceu á orientação romantica, que se comprazia +em polvilhar de gottas de fel, como um effeito decorativo, puramente +ornamental, a corolla das flôres ideiaes do Sentimento.</p> + +<p>É verdade que no escrinio das Rimas havia a miniatura de uma mulher, mas eu +considerava-a, se me permittem a expressão, um retrato de phantasia:<span +class="pn">{41}</span></p> + +<blockquote> + <p>Um rosto encantador, quasi moreno,<br> + De uns grandes olhos verdes animado:<br> + Negro o cabello, em tranças ennastrado;<br> + Correcto o supercilio, iris sereno;</p> + + <p>Vermelho o labio, sorridente e ameno;<br> + Breve a cintura; o collo, assetinado;<br> + Um donaire, das outras invejado;<br> + Magras as mãos; o pé, leve e pequeno:</p> + + <p>Eis a dama por quem chorando anhélo!<br> + Rival das graças do cinsel iónio,<br> + Mas fria como a neve: o meu flagello!</p> + + <p>Eis a minha Nathercia, o cruel demonio<br> + Por quem vivo perdido, mas tão bello<br> + Que nem lhe resistira Santo Antonio!</p> +</blockquote> + +<p>Este soneto affigurava-se-me como o primeiro elo de uma concepção artistica +de poeta, de um plano litterario preconcebido, que visava a produzir effeitos +pela antithese do Amor e da Ironia, pelo contraste da veia alegre do bohemio +com a inspiração sentimental do lyrico.</p> + +<p>Assim não tardava muito que a musa dicaz do epigramma deixasse cair sobre o +retrato da<span class="pn">{42}</span> primeira pagina o peso de um paio roliço +de Lamego, que se esborrachava em rúbidas gorduras sobre a miniatura delicada: +</p> + +<blockquote> + <p>Mal pode phantasiar-te a mente accêsa<br> + Tão gentil como quando, venturoso,<br> + Te vi a vez primeira, ébrio de goso,<br> + Estatico de pasmo e de surpreza.</p> + + <p>Que prodigio de esplendida bellesa!<br> + Que labios, que sorrir, que olhar piedoso!<br> + Que opulento cabello... um mar undoso<br> + Onde escondêras a gentil nudeza!</p> + + <p>Assentada n'um banco de verdura,<br> + Junto á margem do múrmuro Mondêgo,<br> + De um Corregio vencêras a pintura.</p> + + <p>Ai! perdi, desde então, paz e socego:<br> + Se estavas tão graciosa em tal postura,<br> + E comias um paio de Lamego!</p> +</blockquote> + +<p>E logo, como na travação logica de um poema, cuja traça foi gisada +calculadamente, o paio continuava a materialisar a desillusão do poeta, que não +encontrava na realidade<span class="pn">{43}</span> da vida a mulher ideial das +suas noites de phantasia romantica.</p> + +<p>O paio parecia-me na obra de João Penha um symbolo de salutar desengano para +os que criam na espiritualidade ethérea da mulher e que, regressando +alquebrados do Paiz do Sonho, ainda podem achar rehabilitação salvadora na +despensa, no <i>réstaurant</i>, e na cava.</p> + +<blockquote> + <p>És minha, és minha, oh venturoso fado!<br> + Cedeste á chamma que em meu peito alento!<br> + Chegou por fim o divinal momento,<br> + O dia de meus sonhos anhelado!</p> + + <p>O ceu, ha pouco tôrvo, eil-o azulado:<br> + Sussurra esmorecido ao longe o vento;<br> + Esplende o sol no ethereo firmamento;<br> + Recende aromas o florente prado.</p> + + <p>Quando ha pouco a teus pés (oh quadro lindo!)<br> + Te disse o meu amor, em doce esmaio<br> + Senti volupias de um prazer infindo.</p> + + <p>Oh camênas agricolas, cantai-o!<br> + Ella, a minha formosa, ella fugindo,<br> + Deixou-me o coração, deixou-me o paio.<span class="pn">{44}</span></p> +</blockquote> + +<p>Desfeito o sonho, fica nas mãos do poeta como um refem da sua esperança +perdida, das suas illusões derrotadas, o paio,—a porção mais subjectiva +do <i>eu</i> espiritual da dama, o paio, um symbolo, o paio, uma philosophia, +como o porco do rebanho de Epicuro, <i>Epicuri de grege porcus</i>.</p> + +<p>Se alguma duvida pudesse restar sobre a interpretação d'este symbolo +culinario, que atravessa toda a obra do poeta, bastaria a desvanecêl-a a clara +exegése d'este soneto:</p> + +<blockquote> + <p>Aquella Rosa branca, a flor mais viva<br> + Dos jardins olorosos de Granada,<br> + Já não parece a flor enamorada,<br> + Triste por viver só, viver captiva.</p> + + <p>Outr'ora, em seu mirante, pensativa,<br> + Muitas vezes a luz da madrugada<br> + A via entre boninas, enlevada,<br> + Nos sons d'uma guitarra fugitiva.</p> + + <p>Agora, a Beatriz do Poeta abstruso,<br> + A Elleonora das canções do Tasso,<br> + A Nathercia gentil do cantor luso,<span class="pn">{45}</span></p> + + <p>Sol perdido em nevoeiro escuro e baço,<br> + A citharas prefere a roca e o fuso,<br> + Aos meus cantos,—presuntos de Melgaço!</p> +</blockquote> + +<p>Sente-se na symbolica de João Penha a alma alegre de uma geração que teve +sangue, que teve vigor, que adorou a vida porque a podia gosar.</p> + +<p>Respira-se ahi o aroma aperitivo de um succolento jantar fradesco, como na +antiga cosinha dos bernardos de Alcobaça, que ainda hoje, apesar de vasia, dá a +impressão do apetite saluberrimo da ordem de Cistér.</p> + +<p>Como que se ouvem os passos dos leigos conduzindo da copa os cangirões +bojudos, da ucharia as viandas gelatinosas, e da frescura dos coutos, regados +por agua diamantina, as fructas deliciosas e maduras.</p> + +<p>Um braço invisivel parece encaminhar o nosso espirito á vasta mesa do +refeitorio cisterciense, onde a gula monastica levanta castellos de comesana +macissa, que o apetite<span class="pn">{46}</span> voraz ha de em breve vencer +e desmoronar.</p> + +<p>Sóbe ao pulpito, emquanto os outros devoram pingues vitualhas, um prégador +aguado, que, com os olhos postos no gordo repasto, falla, sem fé e sem uncção, +da diabolica attracção dos sete peccados mortaes, que os setecentos filhos de +S. Bernardo ali reunidos devem a todo o custo evitar.</p> + +<p>E especifica: a soberba, a avareza, a luxuria...</p> + +<p>Deglutindo truculentamente, um velho frade, saturado do mundo, dirá para o +fundo do prato com os seus botões:—Que mulher conheci eu por lá que +valesse esta bella petisqueira d'Alcobaça?</p> + +<p>Assim João Penha, como o bernardo guloso, exclama no soneto:</p> + +<blockquote> + <p>Cantai-me a vida, e o sonho transitorio!<br> + Cantai, emquanto á dor busco remedio<br> + Nos vastos caldeirões do refeitorio.</p> +</blockquote> + +<p>A raça, no breve lapso de vinte annos,<span class="pn">{47}</span> +hysterisou-se excessivamente em nervosismos e melancolias, que allucinam +funebremente o cerebro dos poetas modernos.</p> + +<p>Vede bem! João Penha cantava o Paio, celebrava o Presunto, preconisava a +Vida, ao passo que Antonio Nobre deixa entenebrecer o seu espirito no +symbolismo tetrico da <i>Velha</i> (a morte) e do <i>Hotel da Cova</i> (a +sepultura).</p> + +<p>E, todavia, Coimbra, onde um gozou e o outro se aborreceu, continua a ser +talqualmente a mesma, pesa sobre a Universidade a mesma Torre de pedra, sobre +os hombros do doutor Pedro a mesma Torre de sciencia, ha o mesmo cheiro a lente +cathedratico e a bolôr auctoritario, a Pandecta rançosa falla ainda mais alto +que toda a concepção do Direito moderno explanada pelo snr. M. Fratel, porque, +n'essa Coimbra vetusta, ha só uma coisa que falla mais alto que a +Universidade,—é a <i>Cabra</i>.</p> + +<p>Continuando o <i>meio</i> a ser o mesmo, sendo<span class="pn">{48}</span> +mesmissima a atmosphera social onde a mocidade academica respira, é claro que a +variedade das impressões recebidas se ha de explicar pelas condições especiaes, +tanto psychicas como physicas, do individuo que as recebe.</p> + +<p>Assim, pois, temos em João Penha a musa viva que floresce o amarantho, rubro +como a purpura e como... o paio: em Antonio Nobre temos a musa languida que +desabrocha a pállida cecém, perfumada, mas branca como a neve.</p> + +<p>Depois de haver escripto a <i>Carta a Manoel</i>, Antonio Nobre, sedento de +ideiaes consolativamente calmantes, vai, luziada errante, procurar a Vida no +Bairro Latino, e lá mesmo se encontra <i>só</i> e desgraçado.</p> + +<p>João Penha, durante o seu tempo de Coimbra, saltou, como um funambulo, por +sobre todos os desgostos do amor intimo, sem entornar a taça repleta de +phalerno.<span class="pn">{49}</span></p> + +<blockquote> + <p>Não ha dôr que resista a um vinho ardente,<br> + Nem ao facil amor de uma hespanhola.</p> +</blockquote> + +<p>Porque a verdade, ao contrario do que eu e outros poderiamos suppôr de +longe, enganados pela apparencia picarescamente ironica dos versos de João +Penha, a verdade é que elle amou, embora não andasse lutuosamente vestido de +almáfega, nem passeiasse merencorio e sinistro como os bardos melodramaticos, +que aliás caricaturou.</p> + +<p>Os humoristas levam ás vezes a estes erros de apreciação, porque, em vez de +fazerem da sua dôr um poema, segundo a expressão de Goethe, fingem que lhe +sopram, como a uma nuvem de fumo, para dissipal-a...</p> + +<p>No fundo da biographia de João Penha está effectivamente a memoria de um +amor, que inspirou <i>O Vinho e Fel</i> e <i>O Tancredo</i>, poema no genero do +<i>Onofre</i>, e que, como muitas outras composições, perdidas, ou publicadas +em jornaes, não sahiu nas <i>Rimas</i>.<span class="pn">{50}</span></p> + +<p>—Nós em Coimbra, dizia-me João Penha, bebiamos, não para apagar a sêde +ou para afogar paixões,—mas para dar tom aos nervos e activar os +movimentos do machinismo intellectual. Todavia não deve esquecer-se que o vinho +é o grande consolador dos tristes: <i>date vinum moerentibus et +lætobunt...</i></p> + +<p>Esta phrase rasga o véo de um segredo, que o vinho letificante diluiu na +taça da bonomia.</p> + +<blockquote> + <p>Mas ri-se como quem chora,<br> + O bardo das scenas varias,<br> + Qual ri o mocho sombrio<br> + Sobre as loisas funerarias.</p> + + <p>A noite na adega esconsa,<br> + D'uns candís á luz escassa,<br> + Quantas vezes não procura<br> + O esquecimento na taça!<br> + .......................<br> + Que já li sobre uma lage,<br> + Occulta, n'umas cavernas,<br> + Este sinistro epitaphio<br> + Do phantasma das tabernas:</p> + + <p>«Aqui jaz o bardo triste<br> + Junto á bella Carolina:<span class="pn">{51}</span><br> + Riu-se a bella do rapaz,<br> + Riu-se o rapaz da menina.»</p> +</blockquote> + +<p>Mais de um rugido de paixão leonina estruge na adêga esconsa, á luz fumenta +dos candis, emquanto a tia Camêlla despeja do pichel um gorgolão vermelho de +phalerno:</p> + +<blockquote> + <p>Venho pedir-te o retrato<br> + Que te dei por amisade:<br> + Não quero servir de ornato<br> + Nos alcouces da cidade.</p> + + <p>Quero laval-o nas ondas,<br> + Que gemem na praia agreste,<br> + D'aquellas manchas hediondas<br> + Dos beijos que tu lhe déste.</p> + + <p>Quero arrancar-lhe a moldura,<br> + O teu cabello, e trocal-o<br> + Por uma trança mais pura<br> + Das crinas do meu cavallo.</p> +</blockquote> + +<p>Estes gritos de desespero fazem lembrar aquella sazão plena de romantismo, +em que Dumas Filho obtinha um duplo triumpho no romance e no palco quando +Armand Duval arremessava a bolsa recheiada de oiro á face de Margarida +Gautier.<span class="pn">{52}</span></p> + +<p><i>És da raça dos Borgias!</i> vocifera o poeta, mas traça a capa de +estudante, e vai procurar o contra-veneno da paixão</p> + +<blockquote> + <p>... nos bôjos da amphora vetusta.</p> +</blockquote> + +<p>Diz Gonçalves Crespo que a mulher amada do poeta poz, um dia, o pé no +estribo, e partiu para Lisboa. Mas a verdade é que quem partiu foi elle, +deixando-a a ella, aos sinceiraes do Mondego, ao Paiz azul do sonho e á vida +murciana de Coimbra. N'essa hora surgiu mais um advogado em Braga.</p> + +<p>Poderiam, erradamente, suppol-o voluvel, inconstante no amor os que não +conheciam os segredos da sua biographia, que a resposta não tardava, prompta e +cabal:</p> + +<blockquote> + <p>Mais frio que Blondin sobre o Niagára,<br> + Julgas minh'alma em vis paixões accesa;<br> + E comtudo nas ostras da bellesa<br> + Eu só procuro o amor, perola rara.</p> +</blockquote> + +<p>Mas, não encontrando a perola rara, tomava<span class="pn">{53}</span> o +partido de comer ostras, temperando-as com pimenta e limão, e com o sorriso +tolerante de Pangloss, para quem tudo era pelo melhor no melhor dos mundos +possivel.</p> + +<p>Convém notar que João Ponha deu o titulo de <i>Lyra de Pangloss</i> a uma +das subdivisões das suas <i>Rimas</i>.</p> + +<p>Sahindo de Coimbra, não chorava sobre as ruinas dos seus sonhos desfeitos, +das suas illusões perdidas. Vinha desenganado, mas gordo. O espirito,</p> + +<blockquote> + <p>Aquelle meu espirito opulento,<br> + Que vivia na luz dos sonhos bellos,</p> +</blockquote> + +<p>vira morrer os «ultimos anhelos», mas resistira, graças ao sabio formulario +do doutor Pangloss. E o corpo, sadio e forte, continuou a florescer</p> + +<blockquote> + <p>... em tão doce obesidade,<br> + Que dentro em pouco me vereis no transe<br> + De tomar ordens e fazer-me abbade.</p> +</blockquote> + +<p>A gente sahe da leitura das <i>Rimas</i> tão bem<span class="pn">{54}</span> +disposta como João Penha sahiu de Coimbra.</p> + +<p>Ordinariamente um livro de versos, especialmente os modernos, deixam no +nosso espirito a impressão de um cemiterio sombrio, umbroso de cyprestes e +chorões, dealbado de mausuleos luarentos, como diria um nephelibata, e de +cruzes tiritantes de frio na gelida nudez do marmore.</p> + +<p>Pelo contrario, as <i>Rimas</i> de João Penha são como um pomar do Minho, +uberrimo e cantante, onde a côr dos fructos se tinge de tonalidades sadias, +onde o despenho da agua sobre a relva viçosa espuma em borbotões sonoros, e +onde os passaros, nas latadas verdes, assobiam n'uma bambochata feliz de +collegiaes em liberdade.</p> + +<p>É com a impresão de ter visitado um d'estes pomares feracissimos e alegres +que a gente fecha o volume das <i>Rimas</i>.<span class="pn">{55}</span></p> + +<h1><a name="SECTION00040000000000000000">IV</a> </h1> + +<p>Em litteratura, João Penha é hoje, como hontem, um conservador convicto, um +idealista, um romantico, intransigente, mas brilhante de originalidade +saudavel.</p> + +<p>As suas opiniões são conhecidas.<a name="tex2html7" +href="#foot286"><sup>[7]</sup></a><span class="pn">{56}</span></p> + +<p>Para elle a escola romantica, sem estar subordinada a uma unica e +determinada philosophia, porque não ha relação proxima ou remota entre os seus +trez grandes poetas, Lamartine, Hugo e Musset, resistirá a todos os golpes que +lhe vibrem os revolucionarios da litteratura, será eterna, porque eternamente o +homem «perseguido pela realidade, se refugiará, pelo menos durante algumas +horas do seu dia, no mundo das illusões.»</p> + +<p>Na escola romantica, o que impressiona, o que commove, é a obra em si mesma, +ao passo que na escola naturalista apenas se admira o auctor pelo seu talento +de observação.</p> + +<p>João Penha distingue entre escola naturalista e escola realista: n'aquella, +é licito admittir «personagens excepcionaes, casos que não sejam communs»; +n'esta, os modelos são vulgares, «as cousas são descriptas, não como o artista +as possa vêr, mas como a multidão as vê.»<span class="pn">{57}</span></p> + +<p>Notarei, de passagem, que n'esta subdivisão, João Penha parece ir mais longe +do que Emilio Zola, o qual envolve na mesma formula o naturalismo e o realismo. +O famoso auctor do <i>Roman expérimental</i> adoptou como formula generica o +naturalismo, que é velho, porque data de Homero, e que define: «o regresso á +natureza e ao homem, a observação directa, a anatomia exacta.»</p> + +<p>Mas, para Emilio Zola, pouco importa que os modelos sejam excepcionaes ou +vulgares, que estejam no sette-estrello ou no charco, no alto ou em baixo.</p> + +<p>«Quand j'ai lu un roman, je le condamne, si l'auteur me parait manquer du +sens réel. Qu'il soit dans un fossé ou dans les étoiles, en bas ou en haut, il +m'est également indifférent. La verité a un son auquel j'estime qu'on ne +saurait se tromper.»</p> + +<p>Comtanto que o artista haja tomado como ponto de partida o estudo dos corpos +e<span class="pn">{58}</span> dos phenomenos, pouco parece importar a Zola que +os corpos girem no azul ou na terra.</p> + +<p>Eu não estabeleço differença entre naturalismo e realismo, que considero +synonimos: acho que procurar a realidade é investigar a natureza, seja nos +modelos excepcionaes, em que a natureza capricha ás vezes, seja nos modelos +vulgares, em que a natureza se repete todos os dias.</p> + +<p>Tornando, porém, ao ponto, João Penha não admitte, nas obras do espirito +humano, senão dois effeitos: o de instruir e o de commover.</p> + +<p>A formula de Zola, procedendo da analyse, caminhando na orientação da +medicina experimental de Claudio Bernard, constitue uma obra de sciencia, que +pretende guiar o espirito na investigação da verdade.</p> + +<p>Não sensibilisa, não evola a alma até á região do sonho; pelo contrario, +prende-a á terra, á realidade, como uma algema, um Prometheu.<span +class="pn">{59}</span></p> + +<p>Portanto está fóra da esphera da arte, que é fundamentalmente suggestiva e +emotiva.</p> + +<p>Por isso Alexandre Dumas será eternamente lido, ao passo que os editores +franceses se téem visto na necessidade de ir alijando as edições dos copistas +da realidade por meio de uma tombola, a franco a entrada.</p> + +<p>A profissão de fé litteraria de João Penha, exposta no prefacio da +<i>Tristia</i>, não abrange a moderna escola poetica, chamada, entre nós, dos +<i>nephelibatas</i>.</p> + +<p>Mas a sua opinião sobre esta escola poderia deduzir-se do ardor com que +defende as tradições do idealismo romantico, se eu ainda ha poucos dias não +ouvisse, nitida e firmemente explanado, o parecer de João Penha sobre a obra +recente dos novissimos:</p> + +<p>—Não transijo com essa escola, disse-me elle. Não admitto poesia sem +rythmo, como não admitto musica sem compasso. O verso sem cesura e sem medida, +é prosa.<span class="pn">{60}</span></p> + +<p>E dizia-m'o com aquella rispida firmeza de convicção com que Theophilo +Gautier escrevera: «Vouloir séparer le vers de la poésie, c'est une folie +moderne qui ne tend à rien de moins que l'anéantissement de l'art lui-même». +</p> + +<p>Quando eu estava ouvindo as palavras de João Penha, lembrava-me da phrase de +Junqueiro nos <i>Simples</i>: «A fórma poetica encaminha-se á solução final. +Horisonte immenso.»</p> + +<p>Horisonte immenso, sim, porque já não ha medida para o verso, que vai até +onde quer ir. De outro modo não percebo a phrase de Junqueiro. Os limites da +metrificação portugueza estão definidos e marcados, não há por onde variar, sem +quebra da arte e do genio da lingua. Castilho introduziu na fórma poetica a +novidade dos exdruxulos italianos, e combateu a peito descoberto pela +nacionalisação dos alexandrinos francezes. Thomaz Ribeiro, no <i>D. Jayme</i> e +na <i>Delphina</i>, percorreu todos os metros admissiveis<span +class="pn">{61}</span> na versificação portugueza, empregando o de treze +syllabas, que já era demasiadamente violento para o rythmo organico da lingua +portugueza. E, feito isto, elle proprio reconheceu que, por amor da variedade, +se poderia tentar ainda a medição latina e resuscitar a toante castelhana,<a +name="tex2html8" href="#foot287"><sup>[8]</sup></a> Mas os poetas que vieram +depois, rapazes cheios de talento e conhecedores da arte, porque todos elles a +respeitaram até certo tempo, acharam que não valia a pena experimentar a +metrica latina e restaurar a toante dos seiscentistas (que a meu vêr não era +menos monotona que o <i>refrain</i> dos nephelibatas): nada d'isto fizeram, +preferiram escrever versos de longo curso, com quinze e mais syllabas, +intercalaram rubricas em prosa no estiramento kilometrico do verso, e para que +o alexandrino perdesse a harmonia que provinha da fusão<span +class="pn">{62}</span> de dois versos de seis syllabas, fizeram-n'o tripartido, +privando-o da cadencia que deleitava o ouvido.</p> + +<p>Percebe-se que João Penha, que já em Coimbra dizia a um renegado do +romantismo</p> + +<blockquote> + <p>Prosa e verso têm balizas,</p> +</blockquote> + +<p>exija ainda hoje uma coisa, que parece ser fundamental e logica: que os +poeta escrevam em verso e os prosadores escrevam em prosa. Quanto á pureza da +lingua, João Penha não se mostra menos intransigente. Ainda o anno passado +lembrava elle ao snr. Anthero de Figueiredo o conhecido conselho de mestre +Boileau:</p> + +<blockquote> + <p>Sans la langue... l'auteur le plus divin<br> + Est toujours, quoi qu'il fasse, un méchant écrivain.</p> +</blockquote> + +<p>Assim, pois, não lhe regalarão decerto o ouvido puritano as innovações +barbaras de quasi todos os poetas modernos, alguns de incontestavel<span +class="pn">{63}</span> valor, á parte os vicios de escola, como por exemplo o +snr. Julio Brandão, quando diz:</p> + +<blockquote> + <p>E citharas balança um côro vago de <i>pucellas</i>.<br> + Rostos morenos, <i>brunos</i>, pallidos, divinos.</p> +</blockquote> + +<p>Espero apreciar em breve, individualmente, a cohorte revolucionaria dos +modernos poetas portugueses. Ver-se-ha então que admiro a concepção genial de +uns, e que faço justiça a todos.</p> + +<p>Mas encontro-me com João Penha no que reputo a disciplina indispensavel da +arte e da lingua, comquanto bastasse talvez dizer—da arte. E estou em +opposição a Guerra Junqueiro quando affirma que a modernissima evolução poetica +rasga horisontes inéditos, «sobretudo no ponto de vista da fórma e da +expressão.»<a name="tex2html9" href="#foot288"><sup>[9]</sup></a></p> + +<p>P. de Varzim—Novembro de 1893.</p> + +<p> </p> + +<p style="text-align:center;">FIM</p> + +<p> </p> + +<div class="rodape"> +<p><a name="foot281" href="#tex2html1"><sup>[1]</sup></a> Palavras suas em +annotação ao volume dos <i>Simples</i>.</p> + +<p><a name="foot282" href="#tex2html2"><sup>[2]</sup></a> «D'uma visão mais +intima e profunda do universo germinaram em mim novas emoções, e portanto +<i>uma nova arte</i>. O poeta renasceu e cresceu. Fecundo renascimento +psicologico, e não apenas uma evoluçãosinha toda litteraria, meramente verbal e +de superficie.»</p> + +<p><a name="foot80" href="#tex2html3"><sup>[3]</sup></a> «Emquanto á technica +do poema, muitissimo havia que dizer, se esta nota não fosse escripta +rapidamente, com o impressor á espera.»</p> + +<p>—Notas aos Simples.</p> + +<p><a name="foot283" href="#tex2html4"><sup>[4]</sup></a> <i>Morte de D. +João.</i></p> + +<p><a name="foot284" href="#tex2html5"><sup>[5]</sup></a> <i>A Velhice do Padre +Eterno.</i></p> + +<p><a name="foot285" href="#tex2html6"><sup>[6]</sup></a> A plastica d'esta +quadra foi alterada na sua transplantação da <i>Folha</i> para as +<i>Rimas</i>.</p> + +<blockquote> + <p>Déra um quartilho do meu sangue azul<br> + (Oh meus avós, estremecei na campa!)<br> + Por dar-te um beijo no chapim taful,<br> + Que esconde um pé, de se gravar na estampa.</p> +</blockquote> + +<p>Tal era, na <i>Folha</i>, a primitiva feitura. A originalidade do pensamento +nada perdeu, e o systema metrico decimal foi respeitado. Dizer-se que os +bachareis em direito são os primeiros a desacatar a lei!</p> + +<p><a name="foot286" href="#tex2html7"><sup>[7]</sup></a> Expostas no prefacio +á <i>Tristia</i> de Anthero de Figueiredo.</p> + +<p><a name="foot287" href="#tex2html8"><sup>[8]</sup></a> <i>Vesperas</i>; pag. +219.</p> + +<p><a name="foot288" href="#tex2html9"><sup>[9]</sup></a> Prefacio ao <i>Livro +de Aglaïs</i>.</p> +</div> + +<p> </p> + +<div style="text-align: center; border: solid 4px #000; padding: 1em;"> +<h2>Preço 250 reis</h2> + +<p>A collecção de monografias que hoje encetamos patrioticamente, não obstante +a apathia do mercado litterario, abrangerá, do modo mais completo possivel, a +larga e gloriosa lista de <i>todos</i> os poetas modernos do Minho.</p> + +<p>O auctor dedica os seus dois primeiros estudos a J<small>OÃO +</small>P<small>ENHA</small> e A<small>LMEIDA </small>B<small>RAGA</small>, que +nasceram na capital da provincia, mas traçará, seguidamente, o perfil de outros +poetas brilhantes, nascidos em Guimarães, Vianna do Castello, Barcellos, Ponte +do Lima, etc.</p> + +<p> </p> +</div> +</div> +</div> + +<p> </p> + +<div style="border: solid 5px #666; text-align: center; padding: 1em;"> + +<p><big><big><a name="grafia_moderna">Ortografia actualizada.</a></big></big></p> + +<p><small><small><a href="#grafia_original">(Ver Ortografia original.)</a></small></small></p> + + +<p> </p> + +<div style="text-align: center; border: solid 4px #000;"> +<p style="font-size: 1.4em;">ALBERTO PIMENTEL</p> +<hr style="width: 30%"> + +<p style="font-size: 2em;">Poetas do Minho</p> +<hr style="width: 30%"> + +<p style="font-size: 2em;">I</p> + +<p style="font-size: 2.5em;">JOÃO PENHA</p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p style="font-size: 1.1em;">BRAGA</p> + +<p>CRUZ & C.ª—EDITORES<br> +<small>MDCCCXCIV</small></p> +</div> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p style="text-align: center; font-size: 1.5em;">POETAS DO MINHO</p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<div style="text-align: center; font-size: 0.8em;"> +<p>BRAGA<br> +TIP. «MINERVA COMERCIAL»<br> +José Maria de Sousa Cruz<br> +<small>1893</small></p> +</div> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<div style="text-align: center;"> +<p style="font-size: 1.4em;">ALBERTO PIMENTEL</p> +<hr style="width: 30%"> + +<p style="font-size: 2em;">Poetas do Minho</p> +<hr style="width: 30%"> + +<p style="font-size: 2em;">I</p> + +<p style="font-size: 2.5em;">JOÃO PENHA</p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p style="font-size: 1.1em;">BRAGA</p> + +<p>LIVRARIA ESCOLAR DE CRUZ & C.ª<br> +EDITORES</p> +</div> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<blockquote> + <p>Aquele meu espírito opulento,<br> + Que vivia na luz dos sonhos belos,<br> + Jaz há muito nas ruínas dos castelos,<br> + Que no ar edifica o pensamento.</p> + + <p style="text-align:right;"><i>João Penha.</i></p> +</blockquote> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<blockquote> + <p>«... Quem publica um livro não o faz para o ler, publica-o para que os + outros o leiam. Quer, portanto, produzir um efeito qualquer, efeito que, em + todo o caso, não pode ser o do sono: para este há o opio, a Beladona e o + Código do Processo Civil.»</p> + + <p style="text-align:right;"><i>João Penha.</i> </p> +</blockquote> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<div class="corpo"> +<h1><a name="SECTION000100">I</a> </h1> + +<p>Há quinze dias, João Penha e eu, sentados no mesmo banco do +<i>americano</i>, vínhamos do Senhor do Monte para Braga, e conversávamos de +literatura. Nomes de autores, nomes de livros, recordações dispersas, do tempo +em que ele redigia a <i>Folha</i> em Coimbra e eu lhe enviava do Porto algum +insignificante auxilio de colaborador, passavam rapidamente na +precipitação<span class="pn">{8}</span> tumultuante do dialogo, a cada momento +interrompido pelas paragens do <i>tramway</i>, pela entrada e saída de +passageiros, pela voz autoritária do condutor, que explicava em dialecto +calaico:</p> + +<p>—Bai cheio. Num há lugar.</p> + +<p>Tendo João Penha aludido a mais de um dos poetas, que constituíram a +constelação académica da <i>Folha</i>, para entrelembrar casos e anedotas da +boémia coimbrã, disse-lhe eu de repente:</p> + +<p>—Por que não escreve as suas memorias de Coimbra?</p> + +<p>—Não tenho tempo, respondeu ele. Encheriam três volumes.</p> + +<p>Três volumes, de certo, porque João Penha foi o chefe de um cenáculo +numeroso, que viveu na alegria e nas letras, que teve aventuras e triunfos, e +que legou aos cursos subsequentes uma gloriosa historia ainda hoje rememorada +com prestigio na tradição académica.<span class="pn">{9}</span> Ele, erguido no +pedestal que o voto unânime dos seus contemporâneos lhe havia consagrado, via +do alto, como um ídolo, toda a nervosa multidão da academia, que o adorava, +observava todas as evoluções caprichosas dessa legião gentilissima de rapazes +talentosos, que se moviam em torno dele, conhecia todos os segredos da +biografia de uma geração, que há de ficar eternamente lembrada. Três volumes, +pelo menos, e não seriam de mais.</p> + +<p>Mas percebe-se que lhe custe meter ombros a um labor de reconstrução +histórica em que a pena seria como um estilete a revolver dolorosamente o +coração saudoso do escritor. Eu mesmo, que apenas segui de longe toda essa +altívola mocidade académica, ouvindo reproduzida a distancia a sua voz no +fonógrafo literário da <i>Folha</i> e de uma boa dezena de poemas, eu que senti +rolar até mim a lava candente do vulcão sem assistir<span +class="pn">{10}</span> ás tempestades explosivas da cratera, eu próprio +experimento a vaga nostalgia da Coimbra daquele tempo vendo envelhecer em +Lisboa, na prosa da burocracia, do foro, do professorado e do parlamento, os +poetas que há vinte anos constituíam a ala vitoriosa dos novos comandada por +João Penha.</p> + +<p>E, mais infelizes ainda, os que hoje não fazem leis, nem minutas, nem +agravos, nem compêndios, dormem prematuramente o somo da morte na apoteose +serena, sem invejas, mas também sem desilusões, daqueles que, como Gonçalves +Crespo, brilharam pelo clarão do seu talento, e passaram como um meteoro +fugitivo.</p> + +<p>Tive Gonçalves Crespo por companheiro na Redacção da Câmara dos Pares. O seu +espírito doirava-se ainda de um reflexo de alegria, sem constrangimento, que +era como que o último elo da sua tradição académica. Tinha passado de Coimbra +para Lisboa serenamente,<span class="pn">{11}</span> sem tempestades da vida, +que envelhecem a alma antes do alvejar da primeira cã. Na paz domestica do seu +lar, a morte foi como um salteador que surpreende um viajante a dormir na +pousada, e o estrangula entre dois braços de ferro num momento. Os outros que +ficaram ainda, são como as árvores no Outono, que dia a dia vão sendo sacudidas +e abaladas pela nortada agreste, que anuncia o inverno.</p> + +<p>É difícil adivinhar hoje na melancólica indiferença de Simões Dias, que +passa através de Lisboa com o ar desleixado de um provinciano aborrecido, +aquela brilhante alma meridional do poeta das <i>Peninsulares</i>, onde +cantavam serenatas da Andaluzia e rouxinóis do Mondego.</p> + +<p>Cândido de Figueiredo, cuja musa era das mais crentes, embora não fosse das +mais vulcânicas, cansado de repartir os restos da sua mocidade entre a cátedra +de professor<span class="pn">{12}</span> e a Secretaria da Justiça, correu ao +encontro da velhice, denominou-se voluntariamente <i>Caturra</i>, atirou-se ás +questões de filologia, e conseguiu tornar-se rabugento contra os que escrevem +<i>aereonauta</i> com um e supérfluo.</p> + +<p>Este correctíssimo poeta da <i>Folha</i> é hoje um suicídio ambulante. +Mata-se a ensinar a língua portuguesa a quem a não quer saber. Já um ministério +lhe receitou, como distracção, o Governo Civil de Vila Real. Cândido de +Figueiredo viu o Marão resplandecente de neve, e não o cantou. Apenas recolheu +a Lisboa, deu-se pressa em publicar <i>Novas lições praticas da língua +portuguesa</i>.</p> + +<p>Não era poeta, poeta de fazer versos, embora tivesse começado por aí, como +todos, mas tinha assomos de graciosa imaginação quando romantizava na +<i>Folha</i> as lendas do alto Alentejo, um que só doutorou em direito, e +estuda e encalvece como todo o bom lente, e apenas sai dos braços de Minerva +na<span class="pn">{13}</span> Universidade para os braços do senhor José +Luciano no Parlamento.</p> + +<p>Esse, José Frederico Laranjo, tão amante de falar nos palratórios de +Coimbra, vai estando tão mudado hoje, que já ninguém treme de medo quando ele +pede a palavra na câmara.</p> + +<p>—E Junqueiro? o nosso astral Guerra Junqueiro? perguntar-me-há o +luciolante apostolado que o rodeia na cervejaria do Camanho.</p> + +<p>Junqueiro, se houvéssemos de dar credito a todas as suas apreensões +patológicas, está «precocemente chegado, pelo sofrimento, ao ocaso da vida».<a +name="u_tex2html1" href="#u_foot281"><sup>[1]</sup></a> Sinceramente desejo que +os factos venham desmentir esta apreensão.</p> + +<p>Mas Guerra Junqueiro, meus senhores,<span class="pn">{14}</span> era na +Coimbra daquele tempo, na <i>Folha</i> principalmente, a promessa florescente +de um lírico primoroso, depois transviado, e a meu ver atormentado, pela +preocupação constante de reformar a estética<a name="u_tex2html2" +href="#u_foot282"><sup>[2]</sup></a>, a técnica<a name="u_tex2html3" +href="#u_foot80"><sup>[3]</sup></a>, o Olimpo dos românticos<a +name="u_tex2html4" href="#u_foot283"><sup>[4]</sup></a>, o paraíso dos +católicos<a name="u_tex2html5" href="#u_foot284"><sup>[5]</sup></a>, de fundar +escola e de atingir a perfeição suprema no seu melhor livro, que, segundo o seu +próprio conceito, são os <i>Simples</i>.</p> + +<p>E talvez não sejam.</p> + +<p>Em Coimbra, Guerra Junqueiro era, como<span class="pn">{15}</span> todos os +outros, um satélite que gravitava em torno de João Penha, o chefe incontestado, +antes adorado, do cenáculo, da boémia, e da <i>Folha</i>.</p> + +<p>O tempo rolou a sua pesada mole por sobre as ilusões desses rapazes que eram +então a fina flor da geração académica. Deles, os que não estão ainda velhos +por fora, começam a descair na tristeza, não direi do ocaso da vida, como +apreensivamente afirmou de si mesmo Guerra Junqueiro, mas da experiência dura +do mundo.</p> + +<p>João Penha, o primaz da tribo, é advogado em Braga, trabalha honestamente +para sustentar a sua família. Está ao corrente de todas as novidades literárias +que a França inventa e exporta, porque as recebe directamente de Paris em +primeira mão, mas atura todos os dias, no seu escritório, uma chusma de +clientes, que ás vezes, o que o contraria muito, o assaltam em plena rua, já +depois<span class="pn">{16}</span> dele ter fechado o seu escritório ás duas +horas da tarde, invariavelmente.</p> + +<p>Outro dia, João Penha ia para o Bom Jesus do Monte, em +serviço—disse-me ele—ás sete horas da manhã. A seu lado, no +<i>tramway</i>, um demandista estopante gritava para vencer a dureza de ouvido +do advogado.</p> + +<p>—O que eu quero, berrava o cliente, é ganhar a queston do rego. +Porque, snr. doutor, no rego é que está a grande maroteira dela. (Ela era a +parte contraria, uma mulher).</p> + +<p>Questão de águas: a mais generalizada espécie de litígios no Minho.</p> + +<p>João Penha, de charuto ao canto da boca, ouvia imperturbavelmente resignado +e silencioso. Os outros passageiros sorriam disfarçadamente das frases +equivocas do demandista. Filado pelo cliente, João Penha era, naquela hora, sob +o céu azul, radioso de sol, uma vitima do Direito, que legisla sobre regos e +outras coisas mais;—do Direito que<span class="pn">{17}</span> ele pudera +amenizar em Coimbra com as sátiras escritas na aula, com os sonetos publicados +na <i>Folha</i>, com a boémia alegre das <i>Camêlas</i> e do <i>Homem do +gás</i>.</p> + +<p>Agora, em Braga, o Direito esmagava-o como a clava de Hércules. Fazia dó, +fazia pena ver João Penha torturado nos colmilhos de um litigante obsesso, a +quem ele não podia responder, com um repente de Bocage, num epigrama vingador. +</p> + +<p>Não me atrevi a arrancar João Penha das garras do cliente. Mas à volta do +Bom Jesus, tornando a encontrar-nos no mesmo <i>americano</i>, interpus-me ao +demandista e a ele, e conversamos de varia literatura,—muralha da China +Contra a qual esbarraram, infrutiferamente, duas investidas do brácaro +Chicaneau, que parecia recortado dos <i>Plaideurs</i> de Racine.</p> + +<p>Aqui esta no que veio a dar aquele belo espírito do maior improvisador e do +maior boémio da Coimbra de há vinte anos!<span class="pn">{18}</span></p> + +<p>Ó salgueirais do Mondego, lamentai-o! Ó musa alegre da tasca das +<i>Camelas</i>, cobre de luto a tua face mésta! Ó fina flor dos rapazes desse +tempo, chorai por ele e.... por vós!</p> + +<p>Colhi em Braga informações sobre o viver de João Penha transformado. Tem, +como advogado, uma grande clientela posto não vá nunca ao tribunal. Mas a sua +competência em questões do cível não sofre rivalidade. Escrevendo nos +processos, é um jurisconsulto de primeira ordem.</p> + +<p>Às duas horas da tarde fecha impreterivelmente o escritório. Os clientes +voltarão, se quiserem, no dia seguinte. Mas voltam sempre.</p> + +<p>À noite, João Penha, invariavelmente de luvas pretas, monóculo posto, +frequenta a confeitaria do Anacleto à rua de S. Marcos. Uma coincidência +leva-me a suspeitar que João Penha rivaliza na gulodice de bolos finos com o +glorioso Sampaio da <i>Revolução</i>, de veneranda memória. Vindo todos os anos +à Póvoa<span class="pn">{19}</span> de Varzim, na época de banhos, é na +confeitaria contigua ao <i>Café Chinês</i> que ele aparece ás noites, sempre de +luvas, correctamente vestido, sobraçando ás vezes um pacotinho de doces.</p> + +<p>Que ao menos o saboroso bolo de coco possa adoçar as horas amargas da sua +banca de advogado!</p> + +<p>—Sr. dr., dizia-lhe o demandista quando todos apeámos do +<i>americano</i> no Campo de Santana, olhe que a queston do rego tem furo. Num +m'a avandone.</p> + +<p>E João Penha, sorrindo, voltado para mim, repetia-me:</p> + +<p>—Não se esqueça de ler a <i>Nature</i> de Holinat. É soberba!</p> + +<p>Ó salgueirais do Mondego, lamentai-o! Ó musa alegre da tasca das +<i>Camelas</i>, cobre de luto a tua face mésta! Ó fina flor dos rapazes desse +tempo, chorai por ele e... por vós!<span class="pn">{20}<br>{21}</span></p> + +<h1><a name="SECTION000200">II</a> </h1> + +<p>Na individualidade literária de João Penha há a distinguir o poeta da +boémia, e o poeta do amor.</p> + +<p>São dois homens reunidos num único homem. O primeiro é o estudante que +frequenta de noite as tascas de Coimbra, celebrizando-se nas libações e nos +improvisos; que canta os paios do Alentejo, o presunto<span +class="pn">{22}</span> de Lamego e os falernos da Beira; que satiriza os lentes +e adora a Cabula; que vê formar-se em torno de si o numeroso cenáculo a que +preside com o aplauso e a admiração da academia inteira, cuja alma, cheia de +alegria e de mocidade, ele consubstancia numa saliente concretização +pessoal.</p> + +<p>Os seus versos, as suas anedotas de boémio noctívago correm ainda hoje na +tradição universitária, impregnados desse fugitivo <i>sachet</i> de vida +antiga, que é a gloria melancólica dos velhos e o ideal ambicioso dos novos.</p> + +<p>A baiúca da Camela, sem ele, ficou solitária como um templo vazio.</p> + +<p>Os que foram da geração de João Penha ainda de certo o recordam hoje de +monóculo no olho, capa traçada, numa atitude elegante e vigorosa de Apolo de +Belvedére, cantando no templo, sob um imaginário baldaquino de folhas de parra +verdejando esmeraldas, a alegria eterna da alma rubra do álcool.<span +class="pn">{23}</span></p> + +<blockquote> + <p>Oh vós, que do canto sois velhos fregueses,<br> + Ouvi destas liras o mélico emprego!<br> + Nós somos as gemas, os bifes ingleses,<br> + Os paios das filhas do claro Mondego.</p> + + <p>Sorri-nos a vida nos cálices cheios.<br> + Dos roxos falernos das parras da Beira;<br> + Sorri-nos a Céres dos túmidos seios;<br> + Sorri-nos dos bosques a Vénus ligeira.</p> + + <p>Nos mostos papiros da ciência moderna<br> + A droga se encontra que ao sono convida;<br> + Queimemo-los todos, que só na taberna<br> + Os livros se encontram da ciência da vida.</p> + + <p>Ao vento os cabelos! por montes e vales<br> + Corramos no passo das gregas coreias!<br> + Bacantes das praças, vibrai os címbales!<br> + Abri-nos as portas, gentis Galateias!</p> +</blockquote> + +<p>A lenda das noites das Camelas, personificada em João Penha, subsistiu como +uma das seduções tradicionais da vida académica.</p> + +<p>António Nobre, que eu julgo ser, de todos os poetas novíssimos, o que tem +mais poderosas faculdades para traduzir as impressões da alma moderna, +torturada pela nevrose,<span class="pn">{24}</span> confessa a sugestão dessa +lenda boémia, que reproduz a Poesia ardendo como uma pira sobre o tampo dos +toneis impantes:</p> + +<blockquote> + <p>......... A Tasca das Camelas<br> + Para mim, era um sonho, o céu cheio de estrelas.</p> +</blockquote> + +<p>Mas quando António Nobre chegou a Coimbra, uma barreira de vinte anos, +espessos como vinte séculos, separava da tasca das Camelas a pessoa do doutor +João Penha, advogado nos auditórios de Braga. A alma espumante e radiosa das +noites da boémia partira-se como a tapa das últimas libações; partira-se, e +partira. No templo reinava o luto silencioso das lendas de antigos castelos +abandonados por príncipes cujo destino é ainda um mistério. E António Nobre, +relanceando os olhos tristes pela solidão tenebrosa, teve esta explosão de +desespero truculento:</p> + +<blockquote> + <p>Tia Camelas... só ficou a camelice.<span class="pn">{25}</span></p> +</blockquote> + +<p>O que lembra uma situação análoga cantada por Delile nos <i>Jardins</i>:</p> + +<blockquote> + <p>......... Tele jadis Carthage<br> + Vit sur ses murs détruits Marius malheureux.</p> +</blockquote> + +<p>Dir-se-ia que tinham desaparecido com João Penha e com o seu tempo essas +telas vivas de Van Laar, que revestiram as paredes das Camelas; painéis pagãos, +dignos de Ticiano e de Poussin, onde a Fábula parecia sorrir ainda, coroada de +pâmpanos, no verso báquico do autor do <i>Vinho e fel</i>:</p> + +<blockquote> + <p>Dá-me esse onagro de vigor silvestre,<br> + E os odres fundos, oh Sileno antigo:<br> + Ensina-me na dor: só tu és mestre.</p> +</blockquote> + +<p>Dir-se-ia que a rija cimitarra do vandalismo havia despedaçado algum mármore +de Pradier em que uma Bacante andaluza, cingida nos braços de um Sátiro +inspirado, parecia entoar um ditirambo amoroso, cortado<span +class="pn">{26}</span> de evohés e de beijos, e de que só restava, inscrito no +sóco da escultura mutilada, um sonetilho de João Penha:</p> + +<blockquote> + <p>Oh poetas d'água fria!<br> + Dizei-me: a vossa musa.<br> + Será como a andaluza<br> + Que as noites me abrevia?</p> + + <p>Olhai-a: que poesia!<br> + Na dórna da Aretusa<br> + Lá enche agora a infusa<br> + De clássica ambrósia,</p> + + <p>E aos lábios de cereja<br> + Eleva, airosa e rindo,<br> + O copo de cerveja!</p> + + <p>Oh quadro novo e lindo!<br> + Musas, chorai de inveja,<br> + Musas, descei do Pindo!</p> +</blockquote> + +<p>Ainda rescaldam nos «cavacos» da academia as anedotas, os episódios das +noites das Camelas no tempo de João Penha. É capitosa a tradição dessa boémia +extinta, que<span class="pn">{27}</span> soa ao longe, e que exalta a +imaginação dos rapazes. Para António Nobre era um «sonho», que o atraiu a +Coimbra, como a devoção de Meca atrai o árabe.</p> + +<p>Ele tinha de certo ouvido contar que João Penha, entrando na Tasca sem +perder a donairosa compostura de um <i>gentleman</i>, que jamais esquecia as +luvas e o charuto, se limitava a esvaziar uma «taça», nome aristocrático com +que nas Camelas a boémia nobilitava o copo. E que, ao ouvido da Tia Maria, João +Penha, com o ar de uma discrição cheia de orgulho e de mistério, segredava:</p> + +<p>—Repita a dose para um envergonhado, que está ali fora...</p> + +<p>Na sombra do limiar, entreaberta a porta, João Penha esvaziava a segunda +«taça», simulando passá-la à mão de um embuçado de melodrama.</p> + +<p>António Nobre conhecia a tradição, a anedota, o pitoresco da lenda, mas, +quando<span class="pn">{28}</span> chegou a Coimbra, apenas restava da boémia +de João Penha, na Tasca das Camelas e na Via Latina, a lembrança de que passara +outrora por ali uma onda de mocidade alegre, que o tempo secou.</p> + +<blockquote> + <p>Tia Camelas... só ficou a camelice.</p> +</blockquote> + +<p>A tradição em Coimbra, um advogado em Braga, eis o que resta de João Penha +boémio.</p> + +<p>Mas ainda hoje os rapazes que passaram pela Universidade vêm contar as +sátiras, os epigramas que ele deixou gravados na memória das gerações.</p> + +<p>Todos eles sabem de cor o famoso caso do incêndio, que João Penha noticiava +para Braga, ao irmão, como tendo sido uma calamidade bíblica, um castigo do +céu, que o deixara despojado de todos os seus escassos haveres de estudante: +</p> + +<blockquote> + <p>Foi um incêndio voraz!<br> + Parecia a própria Gomorra!<span class="pn">{29}</span></p> +</blockquote> + +<p>E os manes do doutor Adrião Forjaz velam de pudor a face ouvindo repetir, na +chalaça de Coimbra, a frase atribuída aos lábios castamente impolutos de uma +boca impecável, onde só os eufemismos floriam como lírios brancos.</p> + +<p>Conheci em Lisboa, de o ver no parlamento, o irmão de João Penha, também +advogado, e nesse tempo deputado por Braga.</p> + +<p>Contava-se em Coimbra que o poeta, encarecendo as virtudes do irmão, +costumava dizer dele:</p> + +<p>—O seu único vício sou eu.</p> + +<p>De improvisos feitos na aula, escritos sobre o joelho e transmitidos de +bancada em bancada, ficou em Coimbra memória imperecível, que irradiou até à +raia do Minho e até à raia do Algarve, como uma lenda nacional.</p> + +<p>Perderam-se para a bibliografia os dois jornais, o <i>Zabumba</i> e a +<i>Gaita de foles</i>, que<span class="pn">{30}</span> João Penha publicou na +<i>Sebenta</i>, no quarto e quinto ano; mas as quadras e sonetos, em que a +alegria mordaz esfuziava diariamente nessas folhas avulsas, salvaram-se para a +tradição, que ainda hoje os repete, como se estivessem sendo lidos, nas noites +de Coimbra. Quantas vezes não tenho eu ouvido recordar em Lisboa muitos dos +epigramas de João Penha, improvisos feitos nas aulas, como, por exemplo, o do +Pinto Lambaça!</p> + +<blockquote> + <p>Em pé, diante do Brito,<br> + Dá lição Pinto Lambaça:<br> + Parece a voz do Infinito<br> + A sair duma cabaça!</p> +</blockquote> + +<p>E aquele outro apontado ao nariz vermelho de Tamagnini Encarnação?</p> + +<blockquote> + <p>Tamagnini Encarnação<br> + Tem na ponta do nariz<br> + O colorido feliz<br> + De uma rosa do Japão.<span class="pn">{31}</span></p> +</blockquote> + +<p>E ainda aquele que joga de vocábulo com o nome do condiscípulo Ennes:</p> + +<blockquote> + <p>A letra dos teus assuntos<br> + Bem nos demonstra quem és:<br> + Vale dois <i>nn</i> bem juntos,<br> + É letra de quatro pés.</p> +</blockquote> + +<p>Há poucos dias, no <i>In ilo tempore</i> das <i>Novidades</i>, li o epigrama +com que João Penha alvejou a gastronomia proverbial do doutor Sanches da Gama: +</p> + +<blockquote> + <p>Dizem que o Sanches embirra<br> + Que lhe vão pedir dispensa.<br> + Forte asneira!<br> + —Imagina que lhe pedem<br> + A despensa<br> + Onde tem a salgadeira...</p> +</blockquote> + +<p>Agora e sempre me parece novo em folha o famoso soneto <i>A um doutor +Pedro</i>, que pode ser considerado, o soneto, como inexcedível na profundidade +do conceito. Pelo que<span class="pn">{32}</span> toca ao doutor, a tradição +universitária apenas o considera inexcedível no esguio da figura;</p> + +<blockquote> + <p>E vimos uma forma horrenda e bruta<br> + Surgir do lodo vil com gesto iroso,<br> + Como outrora, no Cabo Tormentoso,<br> + O velho Adamastor de barba hirsuta.</p> + + <p>—«Quem és tu?» eu lhe disse.—«Bardo, escuta,<br> + (Bramiu com voz ingente e desdenhoso)<br> + Eu sou no espaço infindo e luminoso<br> + O verbo ideal da estupidez corrupta.</p> + + <p>«Na terra sou Penedo: e o mar violento,<br> + O mar das ciências vãs da humanidade,<br> + Já quis vencer-me, e foi baldado o intento!»</p> + + <p>Disse. E ouvimos naquela obscuridade<br> + O cântico dum trémulo jumento:<br> + —Era o preito da terra à Imensidade.</p> +</blockquote> + +<p>Sobre os inextinguíveis vestígios desta sátira têm caminhado as gerações +subsequentes, cantando o doutor incomensuravelmente filiforme. António Nobre +também molhou a<span class="pn">{33}</span> sua sopa no capelo que encima o +zingamôcho do catedrático zangaralhão:</p> + +<blockquote> + <p>Ó Pedro da minh'alma! meu amigo!<br> + Que feliz sou, bom velho, em estudar contigo!<br> + Mal diria eu em pequenito, quando a ama,<br> + Para eu me calar, vinha fazer-me susto à cama<br> + Por ti chamava: Pedro! e eu sossegava logo,<br> + Que eras tu o <i>Papão</i>! A ama, de olhos em fogo<br> + Imitava-te o andar, que não era bem de homem...<br> + Eu tinha birras:—Aí vem o lobisomem!<br> + Dizia ela.—Bate à porta! Truz! truz! truz!<br> + E tu entravas, Pedro, eu via! Horror! Jesus!</p> +</blockquote> + +<p>Nas mais alucinantes tempestades de entusiasmo académico a musa de João +Penha era a sarça ardente que prendia todos os olhares, atraía todas as +atenções pela originalidade fidalga do conceito, e pela gentileza patrícia do +verbo flamejante, como no soneto <i>A uma rabequista</i>:</p> + +<blockquote> + <p>Eu dera um litro do meu sangue azul,<br> + (Oh meus avós, não fulmineis o herege!)<span class="pn">{34}</span><br> + Só por beijar-te, no chapim taful,<br> + O pequenino pé, que orquestras rege!<a name="u_tex2html6" + href="#u_foot285"><sup>[6]</sup></a></p> +</blockquote> + +<p>A respeito desta rabequista, que era uma italiana lindíssima, dizia-me há +pouco João Penha:</p> + +<p>—O Manuel da Assumpção queria casar com ela e eu dissuadi-o desse +intento... por ciúmes.</p> + +<p>Pobre Manuel! ele foi o primeiro romântico do seu tempo, como João Penha +foi, na<span class="pn">{35}</span> frase de Gonçalves Crespo, o último +estudante de Coimbra.</p> + +<p>Naquela quadra, como na organização artística de João Penha, incluindo a sua +modalidade de boémio, há um cunho brasonado de <i>vieile roche</i> das letras. +Conservador como a melhor nobreza parisiense do bairro Saint Germain, ele ama a +tradição da Arte, os velhos pergaminhos da língua, a lição clássica dos +mestres, a compostura aristocrática da frase, que não chega a desfraldar-se no +epigrama, nem a esbagaxar-se na sátira. Canta o Paio de luva branca, sem que +fique na pelica uma nódoa de gordura. Canta o Vinho, sem entornar no colarinho +a mancha roxa da borra. E se passa da tasca das Camelas para o salão nobre da +Poesia madrigalesca, substitui facilmente a batina rota pela casaca broslada, é +um cortesão de Luís <small>XIV</small> quando empunha a taça, refulgente de +áureas facetas, para brindar as damas delicadas:<span class="pn">{36}</span></p> + +<blockquote> + <p>Deste copo de vinho generoso<br> + Dai-me que eu tire o alento que desejo,<br> + Para que o novo canto, sonoroso,<br> + Desfira na guitarra em doce arpejo;<br> + E já que estou deveras amoroso,<br> + Aproveito apressado um tal ensejo<br> + Para erguer à leitora, que me escuta,<br> + Um brinde que me deixe a taça enxuta.</p> +</blockquote> + +<p>Tal é, rapidamente tracejado, o perfil lendário de João Penha boémio, do +poeta da alegria e da mocidade, que improvisava nas tascas do <i>Homem do +gás</i>, do <i>Varão do Luxemburgo</i>, do <i>Conselheiro Rodrigo</i>, e da +<i>Tia Maria Camela</i>.</p> + +<p>Mas esse improvisador errante, que a borga arrastava de taberna em taberna, +não descalçava nunca as luvas, nem para beber, nem para cantar. Era um artista +de raça, que adorava o primor da forma. Sob este ponto de vista João Penha e a +<i>Folha</i> exerceram uma sensível influência. O soneto da escola italiana, +tão abandonado como antiqualha árcade depois de Bocage, ressurgiu no acuro +parnasiano<span class="pn">{37}</span> de João Penha. E todos os da +<i>Folha</i>, que navegavam na esteira do mestre, saíram excelentes artistas no +cinzelamento escultural da forma literária: Crespo, Junqueiro, Simões Dias, +Cândido de Figueiredo, etc.<span class="pn">{38}<br>{39}</span></p> + +<h1><a name="SECTION000300">III</a> </h1> + +<p>Para João Penha, como poeta lírico, o amor parecia não ser mais que uma +idealização, uma fantasia de artista.</p> + +<p>Eu não encontrava, nos sonetos do <i>Vinho e Fel</i>, a abstracção +absorvente de Petrarca, a paixão abrasadora como lava, o Vesúvio que vulcaniza +o coração, reduzindo-o a cinzas.</p> + +<p>A Ironia andava de braço dado com o<span class="pn">{40}</span> Amor, no +lirismo de João Penha, mais como um efeito pitoresco da Arte, supunha eu, do +que como a crua expressão da Verdade.</p> + +<p>Não descobria através das <i>Rimas</i> o tipo constante, persistente, de uma +mulher, embora se me afigurasse que de recordações avulsas e de perfis +diferentes criara o poeta o elemento feminino dos seus poemas.</p> + +<p>Nunca os versos de João Penha me deram, na taça do <i>Vinho e Fel</i>, a +impressão de uma grande catástrofe psicológica, que lhe precipitasse a alma na +voragem do cepticismo.</p> + +<p>Parecia-me que a sua musa obedeceu à orientação romântica, que se comprazia +em polvilhar de gotas de fel, como um efeito decorativo, puramente ornamental, +a corola das flores ideais do Sentimento.</p> + +<p>É verdade que no escrínio das Rimas havia a miniatura de uma mulher, mas eu +considerava-a, se me permitem a expressão, um retrato de fantasia:<span +class="pn">{41}</span></p> + +<blockquote> + <p>Um rosto encantador, quase moreno,<br> + De uns grandes olhos verdes animado:<br> + Negro o cabelo, em tranças enastrado;<br> + Correcto o supercílio, íris sereno;</p> + + <p>Vermelho o lábio, sorridente e ameno;<br> + Breve a cintura; o colo, acetinado;<br> + Um donaire, das outras invejado;<br> + Magras as mãos; o pé, leve e pequeno:</p> + + <p>Eis a dama por quem chorando anelo!<br> + Rival das graças do cinzel iónio,<br> + Mas fria como a neve: o meu flagelo!</p> + + <p>Eis a minha Natércia, o cruel demónio<br> + Por quem vivo perdido, mas tão belo<br> + Que nem lhe resistira Santo António!</p> +</blockquote> + +<p>Este soneto afigurava-se-me como o primeiro elo de uma concepção artística +de poeta, de um plano literário preconcebido, que visava a produzir efeitos +pela antítese do Amor e da Ironia, pelo contraste da veia alegre do boémio com +a inspiração sentimental do lírico.</p> + +<p>Assim não tardava muito que a musa dicaz do epigrama deixasse cair sobre o +retrato da<span class="pn">{42}</span> primeira pagina o peso de um paio roliço +de Lamego, que se esborrachava em rúbidas gorduras sobre a miniatura +delicada:</p> + +<blockquote> + <p>Mal pode fantasiar-te a mente acesa<br> + Tão gentil como quando, venturoso,<br> + Te vi a vez primeira, ébrio de gozo,<br> + Estático de pasmo e de surpresa.</p> + + <p>Que prodígio de esplêndida beleza!<br> + Que lábios, que sorrir, que olhar piedoso!<br> + Que opulento cabelo... um mar undoso<br> + Onde esconderas a gentil nudeza!</p> + + <p>Assentada num banco de verdura,<br> + Junto à margem do múrmuro Mondego,<br> + De um Corregio venceras a pintura.</p> + + <p>Ai! perdi, desde então, paz e sossego:<br> + Se estavas tão graciosa em tal postura,<br> + E comias um paio de Lamego!</p> +</blockquote> + +<p>E logo, como na travação lógica de um poema, cuja traça foi gisada +calculadamente, o paio continuava a materializar a desilusão do poeta, que não +encontrava na realidade<span class="pn">{43}</span> da vida a mulher ideal das +suas noites de fantasia romântica.</p> + +<p>O paio parecia-me na obra de João Penha um símbolo de salutar desengano para +os que criam na espiritualidade etérea da mulher e que, regressando alquebrados +do País do Sonho, ainda podem achar reabilitação salvadora na despensa, no +<i>réstaurant</i>, e na cava.</p> + +<blockquote> + <p>És minha, és minha, oh venturoso fado!<br> + Cedeste à chama que em meu peito alento!<br> + Chegou por fim o divinal momento,<br> + O dia de meus sonhos anelado!</p> + + <p>O céu, há pouco torvo, hei-lo azulado:<br> + Sussurra esmorecido ao longe o vento;<br> + Esplende o sol no etéreo firmamento;<br> + Recende aromas o florente prado.</p> + + <p>Quando há pouco a teus pés (oh quadro lindo!)<br> + Te disse o meu amor, em doce esmaio<br> + Senti volúpias de um prazer infindo.</p> + + <p>Oh camênas agrícolas, cantai-o!<br> + Ela, a minha formosa, ela fugindo,<br> + Deixou-me o coração, deixou-me o paio.<span class="pn">{44}</span></p> +</blockquote> + +<p>Desfeito o sonho, fica nas mãos do poeta como um refém da sua esperança +perdida, das suas ilusões derrotadas, o paio,—a porção mais subjectiva do +<i>eu</i> espiritual da dama, o paio, um símbolo, o paio, uma filosofia, como o +porco do rebanho de Epicuro, <i>Epicuri de grege porcus</i>.</p> + +<p>Se alguma dúvida pudesse restar sobre a interpretação deste símbolo +culinário, que atravessa toda a obra do poeta, bastaria a desvanecê-la a clara +exegese deste soneto:</p> + +<blockquote> + <p>Aquela Rosa branca, a flor mais viva<br> + Dos jardins olorosos de Granada,<br> + Já não parece a flor enamorada,<br> + Triste por viver só, viver cativa.</p> + + <p>Outrora, em seu mirante, pensativa,<br> + Muitas vezes a luz da madrugada<br> + A via entre boninas, enlevada,<br> + Nos sons duma guitarra fugitiva.</p> + + <p>Agora, a Beatriz do Poeta abstruso,<br> + A Eleonora das canções do Tasso,<br> + A Natércia gentil do cantor luso,<span class="pn">{45}</span></p> + + <p>Sol perdido em nevoeiro escuro e baço,<br> + A cítaras prefere a roca e o fuso,<br> + Aos meus cantos,—presuntos de Melgaço!</p> +</blockquote> + +<p>Sente-se na simbólica de João Penha a alma alegre de uma geração que teve +sangue, que teve vigor, que adorou a vida porque a podia gozar.</p> + +<p>Respira-se aí o aroma aperitivo de um suculento jantar fradesco, como na +antiga cozinha dos bernardos de Alcobaça, que ainda hoje, apesar de vazia, dá a +impressão do apetite salubérrimo da ordem de Cistér.</p> + +<p>Como que se ouvem os passos dos leigos conduzindo da copa os cangirões +bojudos, da ucharia as viandas gelatinosas, e da frescura dos coutos, regados +por água diamantina, as frutas deliciosas e maduras.</p> + +<p>Um braço invisível parece encaminhar o nosso espírito à vasta mesa do +refeitório cisterciense, onde a gula monástica levanta castelos de comezana +maciça, que o apetite<span class="pn">{46}</span> voraz há de em breve vencer e +desmoronar.</p> + +<p>Sobe ao púlpito, enquanto os outros devoram pingues vitualhas, um pregador +aguado, que, com os olhos postos no gordo repasto, fala, sem fé e sem unção, da +diabólica atracção dos sete pecados mortais, que os setecentos filhos de S. +Bernardo ali reunidos devem a todo o custo evitar.</p> + +<p>E especifica: a soberba, a avareza, a luxúria...</p> + +<p>Deglutindo truculentamente, um velho frade, saturado do mundo, dirá para o +fundo do prato com os seus botões:—Que mulher conheci eu por lá que +valesse esta bela petisqueira de Alcobaça?</p> + +<p>Assim João Penha, como o bernardo guloso, exclama no soneto:</p> + +<blockquote> + <p>Cantai-me a vida, e o sonho transitório!<br> + Cantai, enquanto à dor busco remédio<br> + Nos vastos caldeirões do refeitório.</p> +</blockquote> + +<p>A raça, no breve lapso de vinte anos,<span class="pn">{47}</span> +histerizou-se excessivamente em nervosismos e melancolias, que alucinam +funebremente o cérebro dos poetas modernos.</p> + +<p>Vede bem! João Penha cantava o Paio, celebrava o Presunto, preconizava a +Vida, ao passo que António Nobre deixa entenebrecer o seu espírito no +simbolismo tétrico da <i>Velha</i> (a morte) e do <i>Hotel da Cova</i> (a +sepultura).</p> + +<p>E, todavia, Coimbra, onde um gozou e o outro se aborreceu, continua a ser +talqualmente a mesma, pesa sobre a Universidade a mesma Torre de pedra, sobre +os ombros do doutor Pedro a mesma Torre de ciência, há o mesmo cheiro a lente +catedrático e a bolor autoritário, a Pandecta rançosa fala ainda mais alto que +toda a concepção do Direito moderno explanada pelo sr. M. Fratel, porque, nessa +Coimbra vetusta, há só uma coisa que fala mais alto que a Universidade,—é +a <i>Cabra</i>.</p> + +<p>Continuando o <i>meio</i> a ser o mesmo, sendo<span class="pn">{48}</span> +mesmíssima a atmosfera social onde a mocidade académica respira, é claro que a +variedade das impressões recebidas se há de explicar pelas condições especiais, +tanto psíquicas como físicas, do individuo que as recebe.</p> + +<p>Assim, pois, temos em João Penha a musa viva que floresce o amaranto, rubro +como a púrpura e como... o paio: em António Nobre temos a musa lânguida que +desabrocha a pálida cecém, perfumada, mas branca como a neve.</p> + +<p>Depois de haver escrito a <i>Carta a Manuel</i>, António Nobre, sedento de +ideais consolativamente calmantes, vai, luziada errante, procurar a Vida no +Bairro Latino, e lá mesmo se encontra <i>só</i> e desgraçado.</p> + +<p>João Penha, durante o seu tempo de Coimbra, saltou, como um funâmbulo, por +sobre todos os desgostos do amor íntimo, sem entornar a taça repleta de +falerno.<span class="pn">{49}</span></p> + +<blockquote> + <p>Não há dor que resista a um vinho ardente,<br> + Nem ao fácil amor de uma espanhola.</p> +</blockquote> + +<p>Porque a verdade, ao contrário do que eu e outros poderíamos supor de longe, +enganados pela aparência picarescamente irónica dos versos de João Penha, a +verdade é que ele amou, embora não andasse lutuosamente vestido de almáfega, +nem passeasse merencório e sinistro como os bardos melodramáticos, que aliás +caricaturou.</p> + +<p>Os humoristas levam ás vezes a estes erros de apreciação, porque, em vez de +fazerem da sua dôr um poema, segundo a expressão de Goethe, fingem que lhe +sopram, como a uma nuvem de fumo, para dissipá-la...</p> + +<p>No fundo da biografia de João Penha está efectivamente a memória de um amor, +que inspirou <i>O Vinho e Fel</i> e <i>O Tancredo</i>, poema no género do +<i>Onofre</i>, e que, como muitas outras composições, perdidas, ou publicadas +em jornais, não saiu nas <i>Rimas</i>.<span class="pn">{50}</span></p> + +<p>—Nós em Coimbra, dizia-me João Penha, bebíamos, não para apagar a sede +ou para afogar paixões,—mas para dar tom aos nervos e activar os +movimentos do maquinismo intelectual. Todavia não deve esquecer-se que o vinho +é o grande consolador dos tristes: <i>date vinum moerentibus et +lætobunt...</i></p> + +<p>Esta frase rasga o véu de um segredo, que o vinho letificante diluiu na taça +da bonomia.</p> + +<blockquote> + <p>Mas ri-se como quem chora,<br> + O bardo das cenas várias,<br> + Qual ri o mocho sombrio<br> + Sobre as loisas funerárias.</p> + + <p>A noite na adega esconsa,<br> + D'uns candís à luz escassa,<br> + Quantas vezes não procura<br> + O esquecimento na taça!<br> + .......................<br> + Que já li sobre uma lage,<br> + Oculta, numas cavernas,<br> + Este sinistro epitáfio<br> + Do fantasma das tabernas:</p> + + <p>«Aqui jaz o bardo triste<br> + Junto à bela Carolina:<span class="pn">{51}</span><br> + Riu-se a bela do rapaz,<br> + Riu-se o rapaz da menina.»</p> +</blockquote> + +<p>Mais de um rugido de paixão leonina estruge na adega esconsa, à luz fumenta +dos candis, enquanto a tia Camela despeja do pichel um gorgolão vermelho de +falerno:</p> + +<blockquote> + <p>Venho pedir-te o retrato<br> + Que te dei por amizade:<br> + Não quero servir de ornato<br> + Nos alcouces da cidade.</p> + + <p>Quero lavá-lo nas ondas,<br> + Que gemem na praia agreste,<br> + Daquelas manchas hediondas<br> + Dos beijos que tu lhe deste.</p> + + <p>Quero arrancar-lhe a moldura,<br> + O teu cabelo, e trocá-lo<br> + Por uma trança mais pura<br> + Das crinas do meu cavalo. </p> +</blockquote> + +<p>Estes gritos de desespero fazem lembrar aquela sazão plena de romantismo, em +que Dumas Filho obtinha um duplo triunfo no romance e no palco quando Armand +Duval arremessava a bolsa recheada de oiro à face de Margarida Gautier.<span +class="pn">{52}</span></p> + +<p><i>És da raça dos Borgias!</i> vocifera o poeta, mas traça a capa de +estudante, e vai procurar o contra-veneno da paixão</p> + +<blockquote> + ... nos bojos da ânfora vetusta.</blockquote> + +<p>Diz Gonçalves Crespo que a mulher amada do poeta pôs, um dia, o pé no +estribo, e partiu para Lisboa. Mas a verdade é que quem partiu foi ele, +deixando-a a ela, aos sinceirais do Mondego, ao País azul do sonho e à vida +murciana de Coimbra. Nessa hora surgiu mais um advogado em Braga.</p> + +<p>Poderiam, erradamente, supô-lo volúvel, inconstante no amor os que não +conheciam os segredos da sua biografia, que a resposta não tardava, pronta e +cabal:</p> + +<blockquote> + Mais frio que Blondin sobre o Niagára,<br> + Julgas minh'alma em vis paixões acesa;<br> + E contudo nas ostras da beleza<br> + Eu só procuro o amor, pérola rara.</blockquote> + +<p>Mas, não encontrando a pérola rara, tomava<span class="pn">{53}</span> o +partido de comer ostras, temperando-as com pimenta e limão, e com o sorriso +tolerante de Pangloss, para quem tudo era pelo melhor no melhor dos mundos +possível.</p> + +<p>Convém notar que João Ponha deu o título de <i>Lira de Pangloss</i> a uma +das subdivisões das suas <i>Rimas</i>.</p> + +<p>Saindo de Coimbra, não chorava sobre as ruínas dos seus sonhos desfeitos, +das suas ilusões perdidas. Vinha desenganado, mas gordo. O espírito,</p> + +<blockquote> + Aquele meu espírito opulento,<br> + Que vivia na luz dos sonhos belos,</blockquote> + +<p>vira morrer os «últimos anelos», mas resistira, graças ao sábio formulário +do doutor Pangloss. E o corpo, sadio e forte, continuou a florescer</p> + +<blockquote> + ... em tão doce obesidade,<br> + Que dentro em pouco me vereis no transe<br> + De tomar ordens e fazer-me abade.</blockquote> + +<p>A gente sai da leitura das <i>Rimas</i> tão bem<span class="pn">{54}</span> +disposta como João Penha saiu de Coimbra.</p> + +<p>Ordinariamente um livro de versos, especialmente os modernos, deixam no +nosso espírito a impressão de um cemitério sombrio, umbroso de ciprestes e +chorões, dealbado de mausoléus luarentos, como diria um nefelibata, e de cruzes +tiritantes de frio na gélida nudez do mármore.</p> + +<p>Pelo contrário, as <i>Rimas</i> de João Penha são como um pomar do Minho, +ubérrimo e cantante, onde a cor dos frutos se tinge de tonalidades sadias, onde +o despenho da água sobre a relva viçosa espuma em borbotões sonoros, e onde os +pássaros, nas latadas verdes, assobiam numa bambochata feliz de colegiais em +liberdade.</p> + +<p>É com a impressão de ter visitado um destes pomares feracissimos e alegres +que a gente fecha o volume das <i>Rimas</i>.<span class="pn">{55}</span></p> + +<h1><a name="SECTION000400">IV</a> </h1> + +<p>Em literatura, João Penha é hoje, como ontem, um conservador convicto, um +idealista, um romântico, intransigente, mas brilhante de originalidade +saudável.</p> + +<p>As suas opiniões são conhecidas.<a name="u_tex2html7" +href="#u_foot286"><sup>[7]</sup></a><span class="pn">{56}</span></p> + +<p>Para ele a escola romântica, sem estar subordinada a uma única e determinada +filosofia, porque não há relação próxima ou remota entre os seus três grandes +poetas, Lamartine, Hugo e Musset, resistirá a todos os golpes que lhe vibrem os +revolucionários da literatura, será eterna, porque eternamente o homem +«perseguido pela realidade, se refugiará, pelo menos durante algumas horas do +seu dia, no mundo das ilusões.»</p> + +<p>Na escola romântica, o que impressiona, o que comove, é a obra em si mesma, +ao passo que na escola naturalista apenas se admira o autor pelo seu talento de +observação.</p> + +<p>João Penha distingue entre escola naturalista e escola realista: naquela, é +lícito admitir «personagens excepcionais, casos que não sejam comuns»; nesta, +os modelos são vulgares, «as cousas são descritas, não como o artista as possa +ver, mas como a multidão as vê.»<span class="pn">{57}</span></p> + +<p>Notarei, de passagem, que nesta subdivisão, João Penha parece ir mais longe +do que Emílio Zola, o qual envolve na mesma fórmula o naturalismo e o realismo. +O famoso autor do <i>Roman expérimental</i> adoptou como fórmula genérica o +naturalismo, que é velho, porque data de Homero, e que define: «o regresso à +natureza e ao homem, a observação directa, a anatomia exacta.»</p> + +<p>Mas, para Emílio Zola, pouco importa que os modelos sejam excepcionais ou +vulgares, que estejam no sete-estrelo ou no charco, no alto ou em baixo.</p> + +<p>«Quand j'ai lu un roman, je le condamne, si l'auteur me parait manquer du +sens réel. Qu'il soit dans un fossé ou dans les étoiles, en bas ou en haut, il +m'est également indifférent. La verité a un son auquel j'estime qu'on ne +saurait se tromper.»</p> + +<p>Contanto que o artista haja tomado como ponto de partida o estudo dos corpos +e<span class="pn">{58}</span> dos fenómenos, pouco parece importar a Zola que +os corpos girem no azul ou na terra.</p> + +<p>Eu não estabeleço diferença entre naturalismo e realismo, que considero +sinónimos: acho que procurar a realidade é investigar a natureza, seja nos +modelos excepcionais, em que a natureza capricha ás vezes, seja nos modelos +vulgares, em que a natureza se repete todos os dias.</p> + +<p>Tornando, porém, ao ponto, João Penha não admite, nas obras do espírito +humano, senão dois efeitos: o de instruir e o de comover.</p> + +<p>A fórmula de Zola, procedendo da análise, caminhando na orientação da +medicina experimental de Cláudio Bernard, constitui uma obra de ciência, que +pretende guiar o espírito na investigação da verdade.</p> + +<p>Não sensibiliza, não evola a alma até à região do sonho; pelo contrário, +prende-a à terra, à realidade, como uma algema, um Prometeu.<span +class="pn">{59}</span></p> + +<p>Portanto está fora da esfera da arte, que é fundamentalmente sugestiva e +emotiva.</p> + +<p>Por isso Alexandre Dumas será eternamente lido, ao passo que os editores +franceses se têm visto na necessidade de ir alijando as edições dos copistas da +realidade por meio de uma tômbola, a franco a entrada.</p> + +<p>A profissão de fé literária de João Penha, exposta no prefácio da +<i>Tristia</i>, não abrange a moderna escola poética, chamada, entre nós, dos +<i>nefelibatas</i>.</p> + +<p>Mas a sua opinião sobre esta escola poderia deduzir-se do ardor com que +defende as tradições do idealismo romântico, se eu ainda há poucos dias não +ouvisse, nítida e firmemente explanado, o parecer de João Penha sobre a obra +recente dos novíssimos:</p> + +<p>—Não transijo com essa escola, disse-me ele. Não admito poesia sem +ritmo, como não admito música sem compasso. O verso sem cesura e sem medida, é +prosa.<span class="pn">{60}</span></p> + +<p>E dizia-mo com aquela ríspida firmeza de convicção com que Teófilo Gautier +escrevera: «Vouloir séparer le vers de la poésie, c'est une folie moderne qui +ne tend à rien de moins que l'anéantissement de l'art lui-même».</p> + +<p>Quando eu estava ouvindo as palavras de João Penha, lembrava-me da frase de +Junqueiro nos <i>Simples</i>: «A forma poética encaminha-se à solução final. +Horizonte imenso.»</p> + +<p>Horizonte imenso, sim, porque já não há medida para o verso, que vai até +onde quer ir. De outro modo não percebo a frase de Junqueiro. Os limites da +metrificação portuguesa estão definidos e marcados, não há por onde variar, sem +quebra da arte e do génio da língua. Castilho introduziu na forma poética a +novidade dos esdrúxulos italianos, e combateu a peito descoberto pela +nacionalização dos alexandrinos franceses. Tomás Ribeiro, no <i>D. Jaime</i> e +na <i>Delfina</i>, percorreu todos os metros admissíveis<span +class="pn">{61}</span> na versificação portuguesa, empregando o de treze +sílabas, que já era demasiadamente violento para o ritmo orgânico da língua +portuguesa. E, feito isto, ele próprio reconheceu que, por amor da variedade, +se poderia tentar ainda a medição latina e ressuscitar a toante castelhana,<a +name="u_tex2html8" href="#u_foot287"><sup>[8]</sup></a> Mas os poetas que +vieram depois, rapazes cheios de talento e conhecedores da arte, porque todos +eles a respeitaram até certo tempo, acharam que não valia a pena experimentar a +métrica latina e restaurar a toante dos seiscentistas (que a meu ver não era +menos monótona que o <i>refrain</i> dos nefelibatas): nada disto fizeram, +preferiram escrever versos de longo curso, com quinze e mais sílabas, +intercalaram rubricas em prosa no estiramento quilométrico do verso, e para que +o alexandrino perdesse a harmonia que provinha da fusão<span +class="pn">{62}</span> de dois versos de seis sílabas, fizeram-no tripartido, +privando-o da cadência que deleitava o ouvido.</p> + +<p>Percebe-se que João Penha, que já em Coimbra dizia a um renegado do +romantismo</p> + +<blockquote> + Prosa e verso têm balizas,</blockquote> + +<p>exija ainda hoje uma coisa, que parece ser fundamental e lógica: que os +poeta escrevam em verso e os prosadores escrevam em prosa. Quanto à pureza da +língua, João Penha não se mostra menos intransigente. Ainda o ano passado +lembrava ele ao sr. Antero de Figueiredo o conhecido conselho de mestre +Boileau:</p> + +<blockquote> + <p>Sans la langue... l'auteur le plus divin<br> + Est toujours, quoi qu'il fasse, un méchant écrivain.</p> +</blockquote> + +<p>Assim, pois, não lhe regalarão decerto o ouvido puritano as inovações +bárbaras de quase todos os poetas modernos, alguns de incontestável<span +class="pn">{63}</span> valor, à parte os vícios de escola, como por exemplo o +sr. Júlio Brandão, quando diz:</p> + +<blockquote> + <p>E cítaras balança um coro vago de <i>pucelas</i>.<br> + Rostos morenos, <i>brunos</i>, pálidos, divinos.</p> +</blockquote> + +<p>Espero apreciar em breve, individualmente, a coorte revolucionária dos +modernos poetas portugueses. Ver-se-há então que admiro a concepção genial de +uns, e que faço justiça a todos.</p> + +<p>Mas encontro-me com João Penha no que reputo a disciplina indispensável da +arte e da língua, conquanto bastasse talvez dizer—da arte. E estou em +oposição a Guerra Junqueiro quando afirma que a moderníssima evolução poética +rasga horizontes inéditos, «sobretudo no ponto de vista da forma e da +expressão.»<a name="u_tex2html9" href="#u_foot288"><sup>[9]</sup></a></p> + +<p>P. de Varzim—Novembro de 1893.</p> + +<p> </p> + +<p style="text-align:center;">FIM</p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<div class="rodape"> +<p><a name="u_foot281" href="#u_tex2html1"><sup>[1]</sup></a> Palavras suas em +anotação ao volume dos <i>Simples</i>.</p> + +<p><a name="u_foot282" href="#u_tex2html2"><sup>[2]</sup></a> «De uma visão +mais intima e profunda do universo germinaram em mim novas emoções, e portanto +<i>uma nova arte</i>. O poeta renasceu e cresceu. Fecundo renascimento +psicológico, e não apenas uma evoluçãozinha toda literária, meramente verbal e +de superfície.»</p> + +<p><a name="u_foot80" href="#u_tex2html3"><sup>[3]</sup></a> «Enquanto à +técnica do poema, muitíssimo havia que dizer, se esta nota não fosse escrita +rapidamente, com o impressor à espera.» </p> + +<p>—Notas aos Simples.</p> + +<p><a name="u_foot283" href="#u_tex2html4"><sup>[4]</sup></a> <i>Morte de D. +João.</i></p> + +<p><a name="u_foot284" href="#u_tex2html5"><sup>[5]</sup></a> <i>A Velhice do +Padre Eterno.</i></p> + +<p><a name="u_foot285" href="#u_tex2html6"><sup>[6]</sup></a> A plástica desta +quadra foi alterada na sua transplantação da <i>Folha</i> para as <i>Rimas</i>. +</p> + +<blockquote> + <p>Dera um quartilho do meu sangue azul<br> + (Oh meus avós, estremecei na campa!)<br> + Por dar-te um beijo no chapim taful,<br> + Que esconde um pé, de se gravar na estampa. </p> +</blockquote> + +<p>Tal era, na <i>Folha</i>, a primitiva feitura. A originalidade do pensamento +nada perdeu, e o sistema métrico decimal foi respeitado. Dizer-se que os +bacharéis em direito são os primeiros a desacatar a lei! </p> + +<p><a name="u_foot286" href="#u_tex2html7"><sup>[7]</sup></a> Expostas no +prefacio à <i>Tristia</i> de Antero de Figueiredo.</p> + +<p><a name="u_foot287" href="#u_tex2html8"><sup>[8]</sup></a> <i>Vésperas</i>; +pág. 219.</p> + +<p><a name="u_foot288" href="#u_tex2html9"><sup>[9]</sup></a> Prefacio ao +<i>Livro de Aglaïs</i>.</p> +</div> + +<p> </p> + +<div style="text-align: center; border: solid 4px #000; padding: 1em;"> +<h2>Preço 250 réis</h2> + +<p>A colecção de monografias que hoje encetamos patrioticamente, não obstante a +apatia do mercado literário, abrangerá, do modo mais completo possível, a larga +e gloriosa lista de <i>todos</i> os poetas modernos do Minho.</p> + +<p>O autor dedica os seus dois primeiros estudos a J<small>OÃO +</small>P<small>ENHA</small> e A<small>LMEIDA </small>B<small>RAGA</small>, que +nasceram na capital da província, mas traçará, seguidamente, o perfil de outros +poetas brilhantes, nascidos em Guimarães, Viana do Castelo, Barcelos, Ponte do +Lima, etc.<br> +</p> + +<p> </p> +</div> +</div> +</div> + + + + + + + +<pre> + + + + + +End of Project Gutenberg's Poetas do Minho I - João Penha, by Alberto Pimentel + +*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK POETAS DO MINHO I - JOÃO PENHA *** + +***** This file should be named 32387-h.htm or 32387-h.zip ***** +This and all associated files of various formats will be found in: + http://www.gutenberg.org/3/2/3/8/32387/ + +Produced by Pedro Saborano (produzido a partir de imagens +de material em domínio público, disponibilizadas pelos +Serviços de Documentação da Universidade do Minho) + + +Updated editions will replace the previous one--the old editions +will be renamed. + +Creating the works from public domain print editions means that no +one owns a United States copyright in these works, so the Foundation +(and you!) can copy and distribute it in the United States without +permission and without paying copyright royalties. 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