summaryrefslogtreecommitdiff
path: root/32387-8.txt
diff options
context:
space:
mode:
authorRoger Frank <rfrank@pglaf.org>2025-10-14 19:57:31 -0700
committerRoger Frank <rfrank@pglaf.org>2025-10-14 19:57:31 -0700
commit1930d6608d7f8810fa30a098c0dc715803feeaf1 (patch)
tree685c0a4305a0d98fc683cfd61a7a76d718ceb797 /32387-8.txt
initial commit of ebook 32387HEADmain
Diffstat (limited to '32387-8.txt')
-rw-r--r--32387-8.txt1485
1 files changed, 1485 insertions, 0 deletions
diff --git a/32387-8.txt b/32387-8.txt
new file mode 100644
index 0000000..348a44b
--- /dev/null
+++ b/32387-8.txt
@@ -0,0 +1,1485 @@
+Project Gutenberg's Poetas do Minho I - João Penha, by Alberto Pimentel
+
+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.org
+
+
+Title: Poetas do Minho I - João Penha
+
+Author: Alberto Pimentel
+
+Release Date: May 15, 2010 [EBook #32387]
+
+Language: Portuguese
+
+Character set encoding: ISO-8859-1
+
+*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK POETAS DO MINHO I - JOÃO PENHA ***
+
+
+
+
+Produced by Pedro Saborano (produzido a partir de imagens
+de material em domínio público, disponibilizadas pelos
+Serviços de Documentação da Universidade do Minho)
+
+
+
+
+
+ ALBERTO PIMENTEL
+
+ Poetas do Minho
+
+ I
+
+ JOÃO PENHA
+
+ BRAGA
+
+
+ CRUZ & C.ª--EDITORES
+
+ MDCCCXCIV
+
+
+
+POETAS DO MINHO
+
+
+
+BRAGA
+
+TYP. «MINERVA COMMERCIAL»
+
+José Maria de Souza Cruz
+
+1893
+
+
+
+ALBERTO PIMENTEL
+
+Poetas do Minho
+
+I
+
+JOÃO PENHA
+
+BRAGA
+
+LIVRARIA ESCOLAR DE CRUZ & C.ª
+
+EDITORES
+
+
+
+
+ Aquelle meu espirito opulento,
+ Que vivia na luz dos sonhos bellos,
+ Jaz ha muito nas ruinas dos castellos,
+ Que no ar edifica o pensamento.
+
+ _João Penha._
+
+ «... Quem publica um livro não o faz para o ler, publica-o para que
+ os outros o leiam. Quer, portanto, produzir um effeito qualquer,
+ effeito que, em todo o caso, não pode ser o do somno: para este ha o
+ opio, a belladona e o Codigo do Processo Civil.»
+
+ _João Penha._
+
+
+
+
+I
+
+Ha quinze dias, João Penha e eu, sentados no mesmo banco do _americano_,
+vinhamos do Senhor do Monte para Braga, e conversavamos de litteratura.
+Nomes de auctores, nomes de livros, recordações dispersas, do tempo em
+que elle redigia a _Folha_ em Coimbra e eu lhe enviava do Porto algum
+insignificante auxilio de collaborador, passavam rapidamente na
+precipitação tumultuante do dialogo, a cada momento interrompido
+pelas paragens do _tramway_, pela entrada e saida de passageiros, pela
+voz auctoritaria do conductor, que explicava em dialecto calaico:
+
+--Bai cheio. Num ha logar.
+
+Tendo João Penha alludido a mais de um dos poetas, que constituiram a
+constellação academica da _Folha_, para entrelembrar casos e anecdotas
+da bohemia coimbrã, disse-lhe eu de repente:
+
+--Por que não escreve as suas memorias de Coimbra?
+
+--Não tenho tempo, respondeu elle. Encheriam tres volumes.
+
+Tres volumes, de certo, porque João Penha foi o chefe de um cenaculo
+numeroso, que viveu na alegria e nas lettras, que teve aventuras e
+triumphos, e que legou aos cursos subsequentes uma gloriosa historia
+ainda hoje rememorada com prestigio na tradição academica. Elle,
+erguido no pedestal que o voto unanime dos seus contemporaneos lhe havia
+consagrado, via do alto, como um idolo, toda a nervosa multidão da
+academia, que o adorava, observava todas as evoluções caprichosas d'essa
+legião gentilissima de rapazes talentosos, que se moviam em torno
+d'elle, conhecia todos os segredos da biographia de uma geração, que ha
+de ficar eternamente lembrada. Tres volumes, pelo menos, e não seriam de
+mais.
+
+Mas percebe-se que lhe custe metter hombros a um labor de reconstrucção
+historica em que a penna seria como um estilete a revolver dolorosamente
+o coração saudoso do escriptor. Eu mesmo, que apenas segui de longe toda
+essa altivola mocidade academica, ouvindo reproduzida a distancia a sua
+voz no phonographo litterario da _Folha_ e de uma boa dezena de poemas,
+eu que senti rolar até mim a lava candente do vulcão sem assistir ás
+tempestades explosivas da cratera, eu proprio experimento a vaga
+nostalgia da Coimbra d'aquelle tempo vendo envelhecer em Lisboa, na
+prosa da burocracia, do fôro, do professorado e do parlamento, os poetas
+que ha vinte annos constituiam a ala victoriosa dos novos commandada por
+João Penha.
+
+E, mais infelizes ainda, os que hoje não fazem leis, nem minutas, nem
+aggravos, nem compendios, dormem prematuramente o somno da morte na
+apotheóse serena, sem invejas, mas tambem sem desillusões, d'aquelles
+que, como Gonçalves Crespo, brilharam pelo clarão do seu talento, e
+passaram como um meteoro fugitivo.
+
+Tive Gonçalves Crespo por companheiro na Redacção da Camara dos Pares. O
+seu espirito doirava-se ainda de um reflexo de alegria, sem
+constrangimento, que era como que o ultimo elo da sua tradição
+academica. Tinha passado de Coimbra para Lisboa serenamente, sem
+tempestades da vida, que envelhecem a alma antes do alvejar da primeira
+cã. Na paz domestica do seu lar, a morte foi como um salteador que
+surprehende um viajante a dormir na pousada, e o estrangula entre dois
+braços de ferro n'um momento. Os outros que ficaram ainda, são como as
+arvores no outomno, que dia a dia vão sendo sacudidas e abaladas pela
+nortada agreste, que annuncia o inverno.
+
+É difficil adivinhar hoje na melancolica indiferença de Simões Dias, que
+passa atravez de Lisboa com o ar desleixado de um provinciano
+aborrecido, aquella brilhante alma meridional do poeta das
+_Peninsulares_, onde cantavam serenatas da Andaluzia e rouxinoes do
+Mondego.
+
+Candido de Figueiredo, cuja musa era das mais crentes, embora não fosse
+das mais vulcanicas, cançado de repartir os restos da sua mocidade entre
+a cáthedra de professor e a Secretaria da Justiça, correu ao encontro da
+velhice, denominou-se voluntariamente _Caturra_, atirou-se ás questões
+de philologia, e conseguiu tornar-se rabujento contra os que escrevem
+_aereonauta_ com um e superfluo.
+
+Este correctissimo poeta da _Folha_ é hoje um suicidio ambulante.
+Mata-se a ensinar a lingua portugueza a quem a não quer saber. Já um
+ministerio lhe receitou, como distracção, o Governo Civil de Villa Real.
+Candido de Figueiredo viu o Marão resplandecente de neve, e não o
+cantou. Apenas recolheu a Lisboa, deu-se pressa em publicar _Novas
+licções praticas da lingua portugueza_.
+
+Não era poeta, poeta de fazer versos, embora tivesse começado por ahi,
+como todos, mas tinha assomos de graciosa imaginação quando romantisava
+na _Folha_ as lendas do alto Alemtejo, um que só doutorou em direito, e
+estuda e encalvece como todo o bom lente, e apenas sai dos braços de
+Minerva na Universidade para os braços do senhor José Luciano no
+Parlamento.
+
+Esse, José Frederico Laranjo, tão amante de fallar nos palratorios de
+Coimbra, vai estando tão mudado hoje, que já ninguem treme de medo
+quando elle pede a palavra na camara.
+
+--E Junqueiro? o nosso astral Guerra Junqueiro? perguntar-me-ha o
+luciolante apostolado que o rodea na cervejaria do Camanho.
+
+Junqueiro, se houvessemos de dar credito a todas as suas apprehensões
+pathologicas, está «precocemente chegado, pelo soffrimento, ao occaso da
+vida».[1] Sinceramente desejo que os factos venham desmentir
+esta apprehensão.
+
+Mas Guerra Junqueiro, meus senhores, era na Coimbra d'aquelle tempo, na
+_Folha_ principalmente, a promessa florescente de um lyrico primoroso,
+depois transviado, e a meu vêr atormentado, pela preoccupação constante
+de reformar a esthetica[2], a technica[3], o olympo dos romanticos[4], o
+paraizo dos catholicos[5], de fundar escola e de attingir a perfeição
+suprema no seu melhor livro, que, segundo o seu proprio conceito, são os
+_Simples_.
+
+E talvez não sejam.
+
+Em Coimbra, Guerra Junqueiro era, como todos os outros, um satellyte
+que gravitava em torno de João Penha, o chefe incontestado, antes
+adorado, do cenaculo, da bohemia, e da _Folha_.
+
+O tempo rolou a sua pesada mole por sobre as illusões d'esses rapazes
+que eram então a fina flôr da geração academica. D'elles, os que não
+estão ainda velhos por fóra, começam a descair na tristeza, não direi do
+occaso da vida, como apprehensivamente affirmou de si mesmo Guerra
+Junqueiro, mas da experiencia dura do mundo.
+
+João Penha, o primaz da tribu, é advogado em Braga, trabalha
+honestamente para sustentar a sua familia. Está ao corrente de todas as
+novidades litterarias que a França inventa e exporta, porque as recebe
+directamente de Pariz em primeira mão, mas atura todos os dias, no seu
+escriptorio, uma chusma de clientes, que ás vezes, o que o contraria
+muito, o assaltam em plena rua, já depois d'elle ter fechado o seu
+escriptorio ás duas horas da tarde, invariavelmente.
+
+Outro dia, João Penha ia para o Bom Jesus do Monte, em serviço--disse-me
+elle--ás sete horas da manhã. A seu lado, no _tramway_, um demandista
+estopante gritava para vencer a dureza de ouvido do advogado.
+
+--O que eu quero, berrava o cliente, é ganhar a queston do rego. Porque,
+snr. doutor, no rego é que está a grande maroteira d'ella. (Ella era a
+parte contraria, uma mulher).
+
+Questão d'aguas: a mais generalisada especie de litigios no Minho.
+
+João Penha, de charuto ao canto da boca, ouvia imperturbavelmente
+resignado e silencioso. Os outros passageiros sorriam disfarçadamente
+das phrases equivocas do demandista. Filado pelo cliente, João Penha
+era, n'aquella hora, sob o céu azul, radioso de sol, uma victima do
+Direito, que legisla sobre regos e outras coisas mais;--do Direito
+que elle podera amenisar em Coimbra com as satyras escriptas na
+aula, com os sonetos publicados na _Folha_, com a bohemia alegre das
+_Camêllas_ e do _Homem do gaz_.
+
+Agora, em Braga, o Direito esmagava-o como a clava de Hercules. Fazia
+dó, fazia pena vêr João Penha torturado nos colmilhos de um litigante
+obsesso, a quem elle não podia responder, com um repente de Bocage, n'um
+epigramma vingador.
+
+Não me atrevi a arrancar João Penha das garras do cliente. Mas á volta
+do Bom Jesus, tornando a encontrar-nos no mesmo _americano_, interpuz-me
+ao demandista e a elle, e conversamos de varia litteratura,--muralha da
+China Contra a qual esbarraram, infructiferamente, duas investidas do
+brácaro Chicaneau, que parecia recortado dos _Plaideurs_ de Racine.
+
+Aqui esta no que veio a dar aquelle bello espirito do maior improvisador
+e do maior bohemio da Coimbra de ha vinte annos!
+
+Ó salgueiraes do Mondego, lamentai-o! Ó musa alegre da tasca das
+_Camêllas_, cobre de luto a tua face mésta! Ó fina flôr dos rapazes
+d'esse tempo, chorai por elle e.... por vós!
+
+Colhi em Braga informações sobre o viver de João Penha transformado.
+Tem, como advogado, uma grande clientella posto não vá nunca ao
+tribunal. Mas a sua competencia em questões do civel não soffre
+rivalidade. Escrevendo nos processos, é um jurisconsulto de primeira ordem.
+
+Ás duas horas da tarde fecha impreterivelmente o escriptorio. Os
+clientes voltarão, se quizerem, no dia seguinte. Mas voltam sempre.
+
+Á noite, João Penha, invariavelmente de luvas pretas, monoculo posto,
+frequenta a confeitaria do Anacleto á rua de S. Marcos. Uma coincidencia
+leva-me a suspeitar que João Penha rivalisa na gulodice de bolos finos
+com o glorioso Sampaio da _Revolução_, de veneranda memoria. Vindo todos
+os annos á Povoa de Varzim, na epoca de banhos, é na confeitaria
+contigua ao _Café Chinez_ que elle apparece ás noites, sempre de luvas,
+correctamente vestido, sobraçando ás vezes um pacotinho de doces.
+
+Que ao menos o saboroso bôlo de côco possa adoçar as horas amargas da
+sua banca de advogado!
+
+--Snr. dr., dizia-lhe o demandista quando todos apeiamos do _americano_
+no Campo de Sant'Anna, olhe que a queston do rego tem furo. Num m'a
+avandone.
+
+E João Penha, sorrindo, voltado para mim, repetia-me:
+
+--Não se esqueça de lêr a _Nature_ de Hollinat. É soberba!
+
+Ó salgueiraes do Mondego, lamentai-o! Ó musa alegre da tasca das
+_Camêllas_, cobre de luto a tua face mésta! Ó fina flôr dos rapazes
+d'esse tempo, chorai por elle e... por vós!
+
+
+II
+
+Na individualidade litteraria de João Penha ha a distinguir o poeta da
+bohemia, e o poeta do amor.
+
+São dois homens reunidos n'um unico homem. O primeiro é o estudante que
+frequenta de noite as tascas de Coimbra, celebrisando-se nas libações e
+nos improvisos; que canta os paios do Alemtejo, o presunto de Lamego
+e os falernos da Beira; que satyrisa os lentes e adora a Cabula; que vê
+formar-se em torno de si o numeroso cenaculo a que preside com o
+applauso e a admiração da academia inteira, cuja alma, cheia de alegria
+e de mocidade, elle consubstancia n'uma saliente concretisação pessoal.
+
+Os seus versos, as suas anecdotas de bohemio noctivago correm ainda hoje
+na tradição universitaria, impregnados d'esse fugitivo _sachet_ de vida
+antiga, que é a gloria melancolica dos velhos e o ideal ambicioso dos
+novos.
+
+A baiuca da Camêlla, sem elle, ficou solitaria como um templo vasio.
+
+Os que foram da geração de João Penha ainda de certo o recordam hoje de
+monoculo no olho, capa traçada, n'uma attitude elegante e vigorosa de
+Apollo de Belvedére, cantando no templo, sob um imaginario baldaquino de
+folhas de parra verdejando esmeraldas, a alegria eterna da alma rubra do
+alcool.
+
+ Oh vós, que do canto sois velhos freguezes,
+ Ouvi d'estas lyras o mélico emprego!
+ Nós somos as gêmas, os bifes inglezes,
+ Os paios das filhas do claro Mondego.
+
+ Sorri-nos a vida nos calices cheios.
+ Dos roixos falernos das parras da Beira;
+ Sorri-nos a Céres dos túmidos seios;
+ Sorri-nos dos bosques a Venus ligeira.
+
+ Nos mostos papyros da sciencia moderna
+ A droga se encontra que ao somno convida;
+ Queimémol-os todos, que só na taberna
+ Os livros se encontram da sciencia da vida.
+
+ Ao vento os cabellos! por montes e valles
+ Corramos no passo das gregas choréas!
+ Bachantes das praças, vibrae os cymbales!
+ Abri-nos as portas, gentis Galathéas!
+
+A lenda das noites das Camêllas, personificada em João Penha, subsistiu
+como uma das seducções tradicionaes da vida academica.
+
+Antonio Nobre, que eu julgo ser, de todos os poetas novissimos, o que
+tem mais poderosas faculdades para traduzir as impressões da alma
+moderna, torturada pela nevrose, confessa a suggestão d'essa lenda
+bohemia, que reproduz a Poesia ardendo como uma pyra sobre o tampo dos
+toneis impantes:
+
+ ......... A Tasca das Camêllas
+ Para mim, era um sonho, o ceu cheio de estrellas.
+
+Mas quando Antonio Nobre chegou a Coimbra, uma barreira de vinte annos,
+espessos como vinte seculos, separava da tasca das Camêllas a pessoa do
+doutor João Penha, advogado nos auditorios de Braga. A alma espumante e
+radiosa das noites da bohemia partira-se como a tapa das ultimas
+libações; partira-se, e partira. No templo reinava o luto silencioso das
+lendas de antigos castellos abandonados por principes cujo destino é
+ainda um mysterio. E Antonio Nobre, relanceando os olhos tristes pela
+solidão tenebrosa, teve esta explosão de desespero truculento:
+
+ Tia Camêllas... só ficou a camellice.
+
+O que lembra uma situação analoga cantada por Delille nos _Jardins_:
+
+ ......... Telle jadis Carthage
+ Vit sur ses murs détruits Marius malheureux.
+
+Dir-se-ia que tinham desapparecido com João Penha e com o seu tempo
+essas télas vivas de Van Laar, que revestiram as paredes das Camêllas;
+paineis pagãos, dignos de Ticiano e de Poussin, onde a Fabula parecia
+sorrir ainda, coroada de pampanos, no verso bachico do auctor do _Vinho
+e fel_:
+
+ Dá-me esse onagro de vigor silvestre,
+ E os ôdres fundos, oh Sileno antigo:
+ Ensina-me na dor: só tu és mestre.
+
+Dir-se-ia que a rija cimitarra do vandalismo havia despedaçado algum
+marmore de Pradier em que uma Bachante andaluza, cingida nos braços de
+um Satyro inspirado, parecia entoar um dithyrambo amoroso, cortado
+de evohés e de beijos, e de que só restava, inscripto no sôcco da
+esculptura mutilada, um sonetilho de João Penha:
+
+ Oh poetas d'agua fria!
+ Dizei-me: a vossa musa.
+ Será como a andalusa
+ Que as noites me abrevia?
+
+ Olhai-a: que poesia!
+ Na dórna da Arethusa
+ Lá enche agora a infusa
+ De classica ambrosia,
+
+ E aos labios de cereja
+ Eleva, airosa e rindo,
+ O copo de cerveja!
+
+ Oh quadro novo e lindo!
+ Musas, chorai de inveja,
+ Musas, descei do Pindo!
+
+Ainda rescaldam nos «cavacos» da academia as anecdotas, os episodios das
+noites das Camêllas no tempo de João Penha. É capitosa a tradição d'essa
+bohemia extincta, que sôa ao longe, e que exalta a imaginação dos
+rapazes. Para Antonio Nobre era um «sonho», que o attraiu a Coimbra,
+como a devoção de Meca attrae o arabe.
+
+Elle tinha de certo ouvido contar que João Penha, entrando na Tasca sem
+perder a donairosa compostura de um _gentleman_, que jamais esquecia as
+luvas e o charuto, se limitava a esvasiar uma «taça», nome aristocratico
+com que nas Camêllas a bohemia nobilitava o copo. E que, ao ouvido da
+Tia Maria, João Penha, com o ar de uma discrição cheia de orgulho e de
+mysterio, segredava:
+
+--Repita a dóse para um envergonhado, que está ali fóra...
+
+Na sombra do limiar, entreaberta a porta, João Penha esvasiava a segunda
+«taça», simulando passal-a á mão de um embuçado de melodrama.
+
+Antonio Nobre conhecia a tradição, a anecdota, o pittoresco da lenda,
+mas, quando chegou a Coimbra, apenas restava da bohemia de João
+Penha, na Tasca das Camêllas e na Via Latina, a lembrança de que passára
+outr'ora por ali uma onda de mocidade alegre, que o tempo seccou.
+
+ Tia Camêllas... só ficou a camellice.
+
+A tradição em Coimbra, um advogado em Braga, eis o que resta de João
+Penha bohemio.
+
+Mas ainda hoje os rapazes que passaram pela Universidade vem contar as
+satyras, os epigrammas que elle deixou gravados na memoria das gerações.
+
+Todos elles sabem de cór o famoso caso do incendio, que João Penha
+noticiava para Braga, ao irmão, como tendo sido uma calamidade biblica,
+um castigo do ceu, que o deixára despojado de todos os seus escassos
+haveres de estudante:
+
+ Foi um incendio voraz!
+ Parecia a propria Gomorra!
+
+E os manes do doutor Adrião Forjaz velam de pudor a face ouvindo
+repetir, na chalaça de Coimbra, a phrase attribuida aos labios
+castamente impollutos de uma bôca impeccavel, onde só os eufemismos
+floriam como lirios brancos.
+
+Conheci em Lisboa, de o vêr no parlamento, o irmão de João Penha, tambem
+advogado, e n'esse tempo deputado por Braga.
+
+Contava-se em Coimbra que o poeta, encarecendo as virtudes do irmão,
+costumava dizer d'elle:
+
+--O seu unico vicio sou eu.
+
+De improvisos feitos na aula, escriptos sobre o joelho e transmittidos
+de bancada em bancada, ficou em Coimbra memoria imperecivel, que
+irradiou até á raia do Minho e até á raia do Algarve, como uma lenda
+nacional.
+
+Perderam-se para a bibliographia os dois jornaes, o _Zabumba_ e a _Gaita
+de folles_, que João Penha publicou na _Sebenta_, no quarto e quinto
+anno; mas as quadras e sonetos, em que a alegria mordaz esfusiava
+diariamente n'essas folhas avulsas, salvaram-se para a tradição, que
+ainda hoje os repete, como se estivessem sendo lidos, nas noites de
+Coimbra. Quantas vezes não tenho eu ouvido recordar em Lisboa muitos dos
+epigrammas de João Penha, improvisos feitos nas aulas, como, por
+exemplo, o do Pinto Lambaça!
+
+ Em pé, diante do Brito,
+ Dá lição Pinto Lambaça:
+ Parece a voz do Infinito
+ A sair d'uma cabaça!
+
+E aquell'outro apontado ao nariz vermelho de Tamagnini Encarnação?
+
+ Tamagnini Encarnação
+ Tem na ponta do nariz
+ O colorido feliz
+ De uma rosa do Japão.
+
+E ainda aquelle que joga de vocabulo com o nome do condiscipulo Ennes:
+
+ A lettra dos teus assumptos
+ Bem nos demonstra quem és:
+ Vale dois _nn_ bem juntos,
+ É lettra de quatro pés.
+
+Ha poucos dias, no _In illo tempore_ das _Novidades_, li o epigramma com
+que João Penha alvejou a gastronomia proverbial do doutor Sanches da Gama:
+
+ Dizem que o Sanches embirra
+ Que lhe vão pedir dispensa.
+ Forte asneira!
+ --Imagina que lhe pedem
+ A despensa
+ Onde tem a salgadeira...
+
+Agora e sempre me parece novo em folha o famoso soneto _A um doutor
+Pedro_, que póde ser considerado, o soneto, como inexcedivel na
+profundidade do conceito. Pelo que toca ao doutor, a tradição
+universitaria apenas o considera inexcedivel no esguio da figura;
+
+ E vimos uma forma horrenda e bruta
+ Surgir do lôdo vil com gesto iroso,
+ Como out'rora, no Cabo Tormentoso,
+ O velho Adamastor de barba hirsuta.
+
+ --«Quem és tu?» eu lhe disse.--«Bardo, escuta,
+ (Bramiu com voz ingente e desdenhoso)
+ Eu sou no espaço infindo e luminoso
+ O verbo ideial da estupidez corrupta.
+
+ «Na terra sou Penedo: e o mar violento,
+ O mar das sciencias vãs da humanidade,
+ Já quiz vencer-me, e foi baldado o intento!»
+
+ Disse. E ouvimos n'aquella obscuridade
+ O cantico d'um tremulo jumento:
+ --Era o preito da terra á Immensidade.
+
+Sobre os inextinguiveis vestigios d'esta satyra teem caminhado as
+gerações subsequentes, cantando o doutor incommensuravelmente filiforme.
+Antonio Nobre tambem molhou a sua sôpa no capêllo que encima o
+zingamôcho do cathedratico zangaralhão:
+
+ Ó Pedro da minh'alma! meu amigo!
+ Que feliz sou, bom velho, em estudar comtigo!
+ Mal diria eu em pequenito, quando a ama,
+ Para eu me callar, vinha fazer-me susto á cama
+ Por ti chamava: Pedro! e eu socegava logo,
+ Que eras tu o _Papão_! A ama, de olhos em fogo
+ Imitava-te o andar, que não era bem de homem...
+ Eu tinha birras:--Ahi vem o lobishomem!
+ Dizia ella.--Bate á porta! Truz! truz! truz!
+ E tu entravas, Pedro, eu via! Horror! Jesus!
+
+Nas mais allucinantes tempestades de enthusiasmo academico a musa de
+João Penha era a sarça ardente que prendia todos os olhares, attraia
+todas as attenções pela originalidade fidalga do conceito, e pela
+gentileza patricia do verbo flammejante, como no soneto _A uma rabequista_:
+
+ Eu dera um litro do meu sangue azul,
+ (Oh meus avôs, não fulmineis o hereje!)
+ Só por beijar-te, no chapim taful,
+ O pequenino pé, que orchestras rege![6]
+
+A respeito d'esta rabequista, que era uma italiana lindissima, dizia-me
+ha pouco João Penha:
+
+--O Manoel da Assumpção queria casar com ella e eu dissuadi-o d'esse
+intento... por ciumes.
+
+Pobre Manoel! elle foi o primeiro romantico do seu tempo, como João
+Penha foi, na phrase de Gonçalves Crespo, o ultimo estudante de Coimbra.
+
+N'aquella quadra, como na organisação artistica de João Penha, incluindo
+a sua modalidade de bohemio, ha um cunho brazonado de _vieille roche_
+das lettras. Conservador como a melhor nobresa parisiense do bairro
+Saint Germain, elle ama a tradição da Arte, os velhos pergaminhos da
+lingua, a lição classica dos mestres, a compostura aristocratica da
+phrase, que não chega a desfraldar-se no epigramma, nem a esbagaxar-se
+na satyra. Canta o Paio de luva branca, sem que fique na pellica uma
+nodoa de gordura. Canta o Vinho, sem entornar no collarinho a mancha
+roixa da bôrra. E se passa da tasca das Camêllas para o salão nobre da
+Poesia madrigalesca, substitue facilmente a batina rôta pela casaca
+broslada, é um cortezão de Luiz XIV quando empunha a taça, refulgente de
+aureas facetas, para brindar as damas delicadas:
+
+ D'este copo de vinho generoso
+ Dai-me que eu tire o alento que desejo,
+ Para que o novo canto, sonoroso,
+ Desfira na guitarra em doce arpejo;
+ E já que estou devéras amoroso,
+ Aproveito apressado um tal ensejo
+ Para erguer á leitora, que me escuta,
+ Um brinde que me deixe a taça enxuta.
+
+Tal é, rapidamente tracejado, o perfil lendario de João Penha bohemio,
+do poeta da alegria e da mocidade, que improvisava nas tascas do _Homem
+do gaz_, do _Varão do Luxemburgo_, do _Conselheiro Rodrigo_, e da _Tia
+Maria Camêlla_.
+
+Mas esse improvisador errante, que a borga arrastava de taberna em
+taberna, não descalçava nunca as luvas, nem para beber, nem para cantar.
+Era um artista de raça, que adorava o primor da fórma. Sob este ponto de
+vista João Penha e a _Folha_ exerceram uma sensivel influencia. O soneto
+da escola italiana, tão abandonado como antiqualha árcade depois de
+Bocage, resurgiu no acuro parnasiano de João Penha. E todos os da
+_Folha_, que navegavam na esteira do mestre, sahiram excellentes
+artistas no cinzelamento esculptural da fórma litteraria: Crespo,
+Junqueiro, Simões Dias, Candido de Figueiredo, etc.
+
+
+III
+
+Para João Penha, como poeta lyrico, o amor parecia não ser mais que uma
+idealisação, uma phantasia de artista.
+
+Eu não encontrava, nos sonetos do _Vinho e Fel_, a abstracção absorvente
+de Petrarcha, a paixão abrasadora como lava, o Vesuvio que vulcanisa o
+coração, reduzindo-o a cinzas.
+
+A Ironia andava de braço dado com o Amor, no lyrismo de João Penha,
+mais como um effeito pittoresco da Arte, suppunha eu, do que como a crua
+expressão da Verdade.
+
+Não descobria atravez das _Rimas_ o typo constante, persistente, de uma
+mulher, embora se me affigurasse que de recordações avulsas e de perfis
+differentes creára o poeta o elemento feminino dos seus poemas.
+
+Nunca os versos de João Penha me deram, na taça do _Vinho e Fel_, a
+impressão de uma grande catastrophe psychologica, que lhe precipitasse a
+alma na voragem do scepticismo.
+
+Parecia-me que a sua musa obedeceu á orientação romantica, que se
+comprazia em polvilhar de gottas de fel, como um effeito decorativo,
+puramente ornamental, a corolla das flôres ideiaes do Sentimento.
+
+É verdade que no escrinio das Rimas havia a miniatura de uma mulher, mas
+eu considerava-a, se me permittem a expressão, um retrato de phantasia:
+
+ Um rosto encantador, quasi moreno,
+ De uns grandes olhos verdes animado:
+ Negro o cabello, em tranças ennastrado;
+ Correcto o supercilio, iris sereno;
+
+ Vermelho o labio, sorridente e ameno;
+ Breve a cintura; o collo, assetinado;
+ Um donaire, das outras invejado;
+ Magras as mãos; o pé, leve e pequeno:
+
+ Eis a dama por quem chorando anhélo!
+ Rival das graças do cinsel iónio,
+ Mas fria como a neve: o meu flagello!
+
+ Eis a minha Nathercia, o cruel demonio
+ Por quem vivo perdido, mas tão bello
+ Que nem lhe resistira Santo Antonio!
+
+Este soneto affigurava-se-me como o primeiro elo de uma concepção
+artistica de poeta, de um plano litterario preconcebido, que visava a
+produzir effeitos pela antithese do Amor e da Ironia, pelo contraste da
+veia alegre do bohemio com a inspiração sentimental do lyrico.
+
+Assim não tardava muito que a musa dicaz do epigramma deixasse cair
+sobre o retrato da primeira pagina o peso de um paio roliço de
+Lamego, que se esborrachava em rúbidas gorduras sobre a miniatura delicada:
+
+ Mal pode phantasiar-te a mente accêsa
+ Tão gentil como quando, venturoso,
+ Te vi a vez primeira, ébrio de goso,
+ Estatico de pasmo e de surpreza.
+
+ Que prodigio de esplendida bellesa!
+ Que labios, que sorrir, que olhar piedoso!
+ Que opulento cabello... um mar undoso
+ Onde escondêras a gentil nudeza!
+
+ Assentada n'um banco de verdura,
+ Junto á margem do múrmuro Mondêgo,
+ De um Corregio vencêras a pintura.
+
+ Ai! perdi, desde então, paz e socego:
+ Se estavas tão graciosa em tal postura,
+ E comias um paio de Lamego!
+
+E logo, como na travação logica de um poema, cuja traça foi gisada
+calculadamente, o paio continuava a materialisar a desillusão do poeta,
+que não encontrava na realidade da vida a mulher ideial das suas
+noites de phantasia romantica.
+
+O paio parecia-me na obra de João Penha um symbolo de salutar desengano
+para os que criam na espiritualidade ethérea da mulher e que,
+regressando alquebrados do Paiz do Sonho, ainda podem achar
+rehabilitação salvadora na despensa, no _réstaurant_, e na cava.
+
+ És minha, és minha, oh venturoso fado!
+ Cedeste á chamma que em meu peito alento!
+ Chegou por fim o divinal momento,
+ O dia de meus sonhos anhelado!
+
+ O ceu, ha pouco tôrvo, eil-o azulado:
+ Sussurra esmorecido ao longe o vento;
+ Esplende o sol no ethereo firmamento;
+ Recende aromas o florente prado.
+
+ Quando ha pouco a teus pés (oh quadro lindo!)
+ Te disse o meu amor, em doce esmaio
+ Senti volupias de um prazer infindo.
+
+ Oh camênas agricolas, cantai-o!
+ Ella, a minha formosa, ella fugindo,
+ Deixou-me o coração, deixou-me o paio.
+
+Desfeito o sonho, fica nas mãos do poeta como um refem da sua esperança
+perdida, das suas illusões derrotadas, o paio,--a porção mais subjectiva
+do _eu_ espiritual da dama, o paio, um symbolo, o paio, uma philosophia,
+como o porco do rebanho de Epicuro, _Epicuri de grege porcus_.
+
+Se alguma duvida pudesse restar sobre a interpretação d'este symbolo
+culinario, que atravessa toda a obra do poeta, bastaria a desvanecêl-a a
+clara exegése d'este soneto:
+
+ Aquella Rosa branca, a flor mais viva
+ Dos jardins olorosos de Granada,
+ Já não parece a flor enamorada,
+ Triste por viver só, viver captiva.
+
+ Outr'ora, em seu mirante, pensativa,
+ Muitas vezes a luz da madrugada
+ A via entre boninas, enlevada,
+ Nos sons d'uma guitarra fugitiva.
+
+ Agora, a Beatriz do Poeta abstruso,
+ A Elleonora das canções do Tasso,
+ A Nathercia gentil do cantor luso,
+
+ Sol perdido em nevoeiro escuro e baço,
+ A citharas prefere a roca e o fuso,
+ Aos meus cantos,--presuntos de Melgaço!
+
+Sente-se na symbolica de João Penha a alma alegre de uma geração que
+teve sangue, que teve vigor, que adorou a vida porque a podia gosar.
+
+Respira-se ahi o aroma aperitivo de um succolento jantar fradesco, como
+na antiga cosinha dos bernardos de Alcobaça, que ainda hoje, apesar de
+vasia, dá a impressão do apetite saluberrimo da ordem de Cistér.
+
+Como que se ouvem os passos dos leigos conduzindo da copa os cangirões
+bojudos, da ucharia as viandas gelatinosas, e da frescura dos coutos,
+regados por agua diamantina, as fructas deliciosas e maduras.
+
+Um braço invisivel parece encaminhar o nosso espirito á vasta mesa do
+refeitorio cisterciense, onde a gula monastica levanta castellos de
+comesana macissa, que o apetite voraz ha de em breve vencer e
+desmoronar.
+
+Sóbe ao pulpito, emquanto os outros devoram pingues vitualhas, um
+prégador aguado, que, com os olhos postos no gordo repasto, falla, sem
+fé e sem uncção, da diabolica attracção dos sete peccados mortaes, que
+os setecentos filhos de S. Bernardo ali reunidos devem a todo o custo
+evitar.
+
+E especifica: a soberba, a avareza, a luxuria...
+
+Deglutindo truculentamente, um velho frade, saturado do mundo, dirá para
+o fundo do prato com os seus botões:--Que mulher conheci eu por lá que
+valesse esta bella petisqueira d'Alcobaça?
+
+Assim João Penha, como o bernardo guloso, exclama no soneto:
+
+ Cantai-me a vida, e o sonho transitorio!
+ Cantai, emquanto á dor busco remedio
+ Nos vastos caldeirões do refeitorio.
+
+A raça, no breve lapso de vinte annos, hysterisou-se excessivamente
+em nervosismos e melancolias, que allucinam funebremente o cerebro dos
+poetas modernos.
+
+Vede bem! João Penha cantava o Paio, celebrava o Presunto, preconisava a
+Vida, ao passo que Antonio Nobre deixa entenebrecer o seu espirito no
+symbolismo tetrico da _Velha_ (a morte) e do _Hotel da Cova_ (a sepultura).
+
+E, todavia, Coimbra, onde um gozou e o outro se aborreceu, continua a
+ser talqualmente a mesma, pesa sobre a Universidade a mesma Torre de
+pedra, sobre os hombros do doutor Pedro a mesma Torre de sciencia, ha o
+mesmo cheiro a lente cathedratico e a bolôr auctoritario, a Pandecta
+rançosa falla ainda mais alto que toda a concepção do Direito moderno
+explanada pelo snr. M. Fratel, porque, n'essa Coimbra vetusta, ha só uma
+coisa que falla mais alto que a Universidade,--é a _Cabra_.
+
+Continuando o _meio_ a ser o mesmo, sendo mesmissima a atmosphera
+social onde a mocidade academica respira, é claro que a variedade das
+impressões recebidas se ha de explicar pelas condições especiaes, tanto
+psychicas como physicas, do individuo que as recebe.
+
+Assim, pois, temos em João Penha a musa viva que floresce o amarantho,
+rubro como a purpura e como... o paio: em Antonio Nobre temos a musa
+languida que desabrocha a pállida cecém, perfumada, mas branca como a neve.
+
+Depois de haver escripto a _Carta a Manoel_, Antonio Nobre, sedento de
+ideiaes consolativamente calmantes, vai, luziada errante, procurar a
+Vida no Bairro Latino, e lá mesmo se encontra _só_ e desgraçado.
+
+João Penha, durante o seu tempo de Coimbra, saltou, como um funambulo,
+por sobre todos os desgostos do amor intimo, sem entornar a taça repleta
+de phalerno.
+
+ Não ha dôr que resista a um vinho ardente,
+ Nem ao facil amor de uma hespanhola.
+
+Porque a verdade, ao contrario do que eu e outros poderiamos suppôr de
+longe, enganados pela apparencia picarescamente ironica dos versos de
+João Penha, a verdade é que elle amou, embora não andasse lutuosamente
+vestido de almáfega, nem passeiasse merencorio e sinistro como os bardos
+melodramaticos, que aliás caricaturou.
+
+Os humoristas levam ás vezes a estes erros de apreciação, porque, em vez
+de fazerem da sua dôr um poema, segundo a expressão de Goethe, fingem
+que lhe sopram, como a uma nuvem de fumo, para dissipal-a...
+
+No fundo da biographia de João Penha está effectivamente a memoria de um
+amor, que inspirou _O Vinho e Fel_ e _O Tancredo_, poema no genero do
+_Onofre_, e que, como muitas outras composições, perdidas, ou publicadas
+em jornaes, não sahiu nas _Rimas_.
+
+--Nós em Coimbra, dizia-me João Penha, bebiamos, não para apagar a sêde
+ou para afogar paixões,--mas para dar tom aos nervos e activar os
+movimentos do machinismo intellectual. Todavia não deve esquecer-se que
+o vinho é o grande consolador dos tristes: _date vinum moerentibus et
+lætobunt..._
+
+Esta phrase rasga o véo de um segredo, que o vinho letificante diluiu na
+taça da bonomia.
+
+ Mas ri-se como quem chora,
+ O bardo das scenas varias,
+ Qual ri o mocho sombrio
+ Sobre as loisas funerarias.
+
+ A noite na adega esconsa,
+ D'uns candís á luz escassa,
+ Quantas vezes não procura
+ O esquecimento na taça!
+ .......................
+ Que já li sobre uma lage,
+ Occulta, n'umas cavernas,
+ Este sinistro epitaphio
+ Do phantasma das tabernas:
+
+ «Aqui jaz o bardo triste
+ Junto á bella Carolina:
+ Riu-se a bella do rapaz,
+ Riu-se o rapaz da menina.»
+
+Mais de um rugido de paixão leonina estruge na adêga esconsa, á luz
+fumenta dos candis, emquanto a tia Camêlla despeja do pichel um gorgolão
+vermelho de phalerno:
+
+ Venho pedir-te o retrato
+ Que te dei por amisade:
+ Não quero servir de ornato
+ Nos alcouces da cidade.
+
+ Quero laval-o nas ondas,
+ Que gemem na praia agreste,
+ D'aquellas manchas hediondas
+ Dos beijos que tu lhe déste.
+
+ Quero arrancar-lhe a moldura,
+ O teu cabello, e trocal-o
+ Por uma trança mais pura
+ Das crinas do meu cavallo.
+
+Estes gritos de desespero fazem lembrar aquella sazão plena de
+romantismo, em que Dumas Filho obtinha um duplo triumpho no romance e no
+palco quando Armand Duval arremessava a bolsa recheiada de oiro á face
+de Margarida Gautier.
+
+_És da raça dos Borgias!_ vocifera o poeta, mas traça a capa de
+estudante, e vai procurar o contra-veneno da paixão
+
+ ... nos bôjos da amphora vetusta.
+
+Diz Gonçalves Crespo que a mulher amada do poeta poz, um dia, o pé no
+estribo, e partiu para Lisboa. Mas a verdade é que quem partiu foi elle,
+deixando-a a ella, aos sinceiraes do Mondego, ao Paiz azul do sonho e á
+vida murciana de Coimbra. N'essa hora surgiu mais um advogado em Braga.
+
+Poderiam, erradamente, suppol-o voluvel, inconstante no amor os que não
+conheciam os segredos da sua biographia, que a resposta não tardava,
+prompta e cabal:
+
+ Mais frio que Blondin sobre o Niagára,
+ Julgas minh'alma em vis paixões accesa;
+ E comtudo nas ostras da bellesa
+ Eu só procuro o amor, perola rara.
+
+Mas, não encontrando a perola rara, tomava o partido de comer
+ostras, temperando-as com pimenta e limão, e com o sorriso tolerante de
+Pangloss, para quem tudo era pelo melhor no melhor dos mundos possivel.
+
+Convém notar que João Ponha deu o titulo de _Lyra de Pangloss_ a uma das
+subdivisões das suas _Rimas_.
+
+Sahindo de Coimbra, não chorava sobre as ruinas dos seus sonhos
+desfeitos, das suas illusões perdidas. Vinha desenganado, mas gordo. O
+espirito,
+
+ Aquelle meu espirito opulento,
+ Que vivia na luz dos sonhos bellos,
+
+vira morrer os «ultimos anhelos», mas resistira, graças ao sabio
+formulario do doutor Pangloss. E o corpo, sadio e forte, continuou a
+florescer
+
+ ... em tão doce obesidade,
+ Que dentro em pouco me vereis no transe
+ De tomar ordens e fazer-me abbade.
+
+A gente sahe da leitura das _Rimas_ tão bem disposta como João Penha
+sahiu de Coimbra.
+
+Ordinariamente um livro de versos, especialmente os modernos, deixam no
+nosso espirito a impressão de um cemiterio sombrio, umbroso de cyprestes
+e chorões, dealbado de mausuleos luarentos, como diria um nephelibata, e
+de cruzes tiritantes de frio na gelida nudez do marmore.
+
+Pelo contrario, as _Rimas_ de João Penha são como um pomar do Minho,
+uberrimo e cantante, onde a côr dos fructos se tinge de tonalidades
+sadias, onde o despenho da agua sobre a relva viçosa espuma em borbotões
+sonoros, e onde os passaros, nas latadas verdes, assobiam n'uma
+bambochata feliz de collegiaes em liberdade.
+
+É com a impresão de ter visitado um d'estes pomares feracissimos e
+alegres que a gente fecha o volume das _Rimas_.
+
+
+IV
+
+Em litteratura, João Penha é hoje, como hontem, um conservador convicto,
+um idealista, um romantico, intransigente, mas brilhante de
+originalidade saudavel.
+
+As suas opiniões são conhecidas.[7]
+
+Para elle a escola romantica, sem estar subordinada a uma unica e
+determinada philosophia, porque não ha relação proxima ou remota entre
+os seus trez grandes poetas, Lamartine, Hugo e Musset, resistirá a todos
+os golpes que lhe vibrem os revolucionarios da litteratura, será eterna,
+porque eternamente o homem «perseguido pela realidade, se refugiará,
+pelo menos durante algumas horas do seu dia, no mundo das illusões.»
+
+Na escola romantica, o que impressiona, o que commove, é a obra em si
+mesma, ao passo que na escola naturalista apenas se admira o auctor pelo
+seu talento de observação.
+
+João Penha distingue entre escola naturalista e escola realista:
+n'aquella, é licito admittir «personagens excepcionaes, casos que não
+sejam communs»; n'esta, os modelos são vulgares, «as cousas são
+descriptas, não como o artista as possa vêr, mas como a multidão as vê.»
+
+Notarei, de passagem, que n'esta subdivisão, João Penha parece ir mais
+longe do que Emilio Zola, o qual envolve na mesma formula o naturalismo
+e o realismo. O famoso auctor do _Roman expérimental_ adoptou como
+formula generica o naturalismo, que é velho, porque data de Homero, e
+que define: «o regresso á natureza e ao homem, a observação directa, a
+anatomia exacta.»
+
+Mas, para Emilio Zola, pouco importa que os modelos sejam excepcionaes
+ou vulgares, que estejam no sette-estrello ou no charco, no alto ou em
+baixo.
+
+«Quand j'ai lu un roman, je le condamne, si l'auteur me parait manquer
+du sens réel. Qu'il soit dans un fossé ou dans les étoiles, en bas ou en
+haut, il m'est également indifférent. La verité a un son auquel j'estime
+qu'on ne saurait se tromper.»
+
+Comtanto que o artista haja tomado como ponto de partida o estudo dos
+corpos e dos phenomenos, pouco parece importar a Zola que os corpos
+girem no azul ou na terra.
+
+Eu não estabeleço differença entre naturalismo e realismo, que considero
+synonimos: acho que procurar a realidade é investigar a natureza, seja
+nos modelos excepcionaes, em que a natureza capricha ás vezes, seja nos
+modelos vulgares, em que a natureza se repete todos os dias.
+
+Tornando, porém, ao ponto, João Penha não admitte, nas obras do espirito
+humano, senão dois effeitos: o de instruir e o de commover.
+
+A formula de Zola, procedendo da analyse, caminhando na orientação da
+medicina experimental de Claudio Bernard, constitue uma obra de
+sciencia, que pretende guiar o espirito na investigação da verdade.
+
+Não sensibilisa, não evola a alma até á região do sonho; pelo contrario,
+prende-a á terra, á realidade, como uma algema, um Prometheu.
+
+Portanto está fóra da esphera da arte, que é fundamentalmente suggestiva
+e emotiva.
+
+Por isso Alexandre Dumas será eternamente lido, ao passo que os editores
+franceses se téem visto na necessidade de ir alijando as edições dos
+copistas da realidade por meio de uma tombola, a franco a entrada.
+
+A profissão de fé litteraria de João Penha, exposta no prefacio da
+_Tristia_, não abrange a moderna escola poetica, chamada, entre nós, dos
+_nephelibatas_.
+
+Mas a sua opinião sobre esta escola poderia deduzir-se do ardor com que
+defende as tradições do idealismo romantico, se eu ainda ha poucos dias
+não ouvisse, nitida e firmemente explanado, o parecer de João Penha
+sobre a obra recente dos novissimos:
+
+--Não transijo com essa escola, disse-me elle. Não admitto poesia sem
+rythmo, como não admitto musica sem compasso. O verso sem cesura e sem
+medida, é prosa.
+
+E dizia-m'o com aquella rispida firmeza de convicção com que Theophilo
+Gautier escrevera: «Vouloir séparer le vers de la poésie, c'est une
+folie moderne qui ne tend à rien de moins que l'anéantissement de l'art
+lui-même».
+
+Quando eu estava ouvindo as palavras de João Penha, lembrava-me da
+phrase de Junqueiro nos _Simples_: «A fórma poetica encaminha-se á
+solução final. Horisonte immenso.»
+
+Horisonte immenso, sim, porque já não ha medida para o verso, que vai
+até onde quer ir. De outro modo não percebo a phrase de Junqueiro. Os
+limites da metrificação portugueza estão definidos e marcados, não há
+por onde variar, sem quebra da arte e do genio da lingua. Castilho
+introduziu na fórma poetica a novidade dos exdruxulos italianos, e
+combateu a peito descoberto pela nacionalisação dos alexandrinos
+francezes. Thomaz Ribeiro, no _D. Jayme_ e na _Delphina_, percorreu
+todos os metros admissiveis na versificação portugueza, empregando o
+de treze syllabas, que já era demasiadamente violento para o rythmo
+organico da lingua portugueza. E, feito isto, elle proprio reconheceu
+que, por amor da variedade, se poderia tentar ainda a medição latina e
+resuscitar a toante castelhana,[8] Mas os poetas que vieram
+depois, rapazes cheios de talento e conhecedores da arte, porque todos
+elles a respeitaram até certo tempo, acharam que não valia a pena
+experimentar a metrica latina e restaurar a toante dos seiscentistas
+(que a meu vêr não era menos monotona que o _refrain_ dos nephelibatas):
+nada d'isto fizeram, preferiram escrever versos de longo curso, com
+quinze e mais syllabas, intercalaram rubricas em prosa no estiramento
+kilometrico do verso, e para que o alexandrino perdesse a harmonia que
+provinha da fusão de dois versos de seis syllabas, fizeram-n'o
+tripartido, privando-o da cadencia que deleitava o ouvido.
+
+Percebe-se que João Penha, que já em Coimbra dizia a um renegado do
+romantismo
+
+ Prosa e verso têm balizas,
+
+exija ainda hoje uma coisa, que parece ser fundamental e logica: que os
+poeta escrevam em verso e os prosadores escrevam em prosa. Quanto á
+pureza da lingua, João Penha não se mostra menos intransigente. Ainda o
+anno passado lembrava elle ao snr. Anthero de Figueiredo o conhecido
+conselho de mestre Boileau:
+
+ Sans la langue... l'auteur le plus divin
+ Est toujours, quoi qu'il fasse, un méchant écrivain.
+
+Assim, pois, não lhe regalarão decerto o ouvido puritano as innovações
+barbaras de quasi todos os poetas modernos, alguns de incontestavel
+valor, á parte os vicios de escola, como por exemplo o snr. Julio
+Brandão, quando diz:
+
+ E citharas balança um côro vago de _pucellas_.
+ Rostos morenos, _brunos_, pallidos, divinos.
+
+Espero apreciar em breve, individualmente, a cohorte revolucionaria dos
+modernos poetas portugueses. Ver-se-ha então que admiro a concepção
+genial de uns, e que faço justiça a todos.
+
+Mas encontro-me com João Penha no que reputo a disciplina indispensavel
+da arte e da lingua, comquanto bastasse talvez dizer--da arte. E estou
+em opposição a Guerra Junqueiro quando affirma que a modernissima
+evolução poetica rasga horisontes inéditos, «sobretudo no ponto de vista
+da fórma e da expressão.»[9]
+
+P. de Varzim--Novembro de 1893.
+
+
+FIM
+
+
+
+Preço 250 reis
+
+A collecção de monografias que hoje encetamos patrioticamente, não
+obstante a apathia do mercado litterario, abrangerá, do modo mais
+completo possivel, a larga e gloriosa lista de _todos_ os poetas
+modernos do Minho.
+
+O auctor dedica os seus dois primeiros estudos a JOÃO PENHA e ALMEIDA
+BRAGA, que nasceram na capital da provincia, mas traçará, seguidamente,
+o perfil de outros poetas brilhantes, nascidos em Guimarães, Vianna do
+Castello, Barcellos, Ponte do Lima, etc.
+
+
+
+ [1] Palavras suas em annotação ao volume dos _Simples_.
+
+ [2] «D'uma visão mais intima e profunda do universo germinaram em
+ mim novas emoções, e portanto _uma nova arte_. O poeta renasceu e
+ cresceu. Fecundo renascimento psicologico, e não apenas uma
+ evoluçãosinha toda litteraria, meramente verbal e de superficie.»
+
+ [3] «Emquanto á technica do poema, muitissimo havia que dizer, se
+ esta nota não fosse escripta rapidamente, com o impressor á espera.»
+
+ --Notas aos Simples.
+
+ [4] _Morte de D. João._
+
+ [5] _A Velhice do Padre Eterno._
+
+ [6] A plastica d'esta quadra foi alterada na sua transplantação da
+ _Folha_ para as _Rimas_.
+
+ Déra um quartilho do meu sangue azul
+ (Oh meus avós, estremecei na campa!)
+ Por dar-te um beijo no chapim taful,
+ Que esconde um pé, de se gravar na estampa.
+
+ Tal era, na _Folha_, a primitiva feitura. A originalidade do
+ pensamento nada perdeu, e o systema metrico decimal foi respeitado.
+ Dizer-se que os bachareis em direito são os primeiros a desacatar a
+ lei!
+
+ [7] Expostas no prefacio á _Tristia_ de Anthero de Figueiredo.
+
+ [8] _Vesperas_; pag. 219.
+
+ [9] Prefacio ao _Livro de Aglaïs_.
+
+
+
+
+
+
+End of Project Gutenberg's Poetas do Minho I - João Penha, by Alberto Pimentel
+
+*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK POETAS DO MINHO I - JOÃO PENHA ***
+
+***** This file should be named 32387-8.txt or 32387-8.zip *****
+This and all associated files of various formats will be found in:
+ http://www.gutenberg.org/3/2/3/8/32387/
+
+Produced by Pedro Saborano (produzido a partir de imagens
+de material em domínio público, disponibilizadas pelos
+Serviços de Documentação da Universidade do Minho)
+
+
+Updated editions will replace the previous one--the old editions
+will be renamed.
+
+Creating the works from public domain print editions means that no
+one owns a United States copyright in these works, so the Foundation
+(and you!) can copy and distribute it in the United States without
+permission and without paying copyright royalties. Special rules,
+set forth in the General Terms of Use part of this license, apply to
+copying and distributing Project Gutenberg-tm electronic works to
+protect the PROJECT GUTENBERG-tm concept and trademark. Project
+Gutenberg is a registered trademark, and may not be used if you
+charge for the eBooks, unless you receive specific permission. If you
+do not charge anything for copies of this eBook, complying with the
+rules is very easy. You may use this eBook for nearly any purpose
+such as creation of derivative works, reports, performances and
+research. They may be modified and printed and given away--you may do
+practically ANYTHING with public domain eBooks. Redistribution is
+subject to the trademark license, especially commercial
+redistribution.
+
+
+
+*** START: FULL LICENSE ***
+
+THE FULL PROJECT GUTENBERG LICENSE
+PLEASE READ THIS BEFORE YOU DISTRIBUTE OR USE THIS WORK
+
+To protect the Project Gutenberg-tm mission of promoting the free
+distribution of electronic works, by using or distributing this work
+(or any other work associated in any way with the phrase "Project
+Gutenberg"), you agree to comply with all the terms of the Full Project
+Gutenberg-tm License (available with this file or online at
+http://gutenberg.org/license).
+
+
+Section 1. General Terms of Use and Redistributing Project Gutenberg-tm
+electronic works
+
+1.A. By reading or using any part of this Project Gutenberg-tm
+electronic work, you indicate that you have read, understand, agree to
+and accept all the terms of this license and intellectual property
+(trademark/copyright) agreement. If you do not agree to abide by all
+the terms of this agreement, you must cease using and return or destroy
+all copies of Project Gutenberg-tm electronic works in your possession.
+If you paid a fee for obtaining a copy of or access to a Project
+Gutenberg-tm electronic work and you do not agree to be bound by the
+terms of this agreement, you may obtain a refund from the person or
+entity to whom you paid the fee as set forth in paragraph 1.E.8.
+
+1.B. "Project Gutenberg" is a registered trademark. It may only be
+used on or associated in any way with an electronic work by people who
+agree to be bound by the terms of this agreement. There are a few
+things that you can do with most Project Gutenberg-tm electronic works
+even without complying with the full terms of this agreement. See
+paragraph 1.C below. There are a lot of things you can do with Project
+Gutenberg-tm electronic works if you follow the terms of this agreement
+and help preserve free future access to Project Gutenberg-tm electronic
+works. See paragraph 1.E below.
+
+1.C. The Project Gutenberg Literary Archive Foundation ("the Foundation"
+or PGLAF), owns a compilation copyright in the collection of Project
+Gutenberg-tm electronic works. Nearly all the individual works in the
+collection are in the public domain in the United States. If an
+individual work is in the public domain in the United States and you are
+located in the United States, we do not claim a right to prevent you from
+copying, distributing, performing, displaying or creating derivative
+works based on the work as long as all references to Project Gutenberg
+are removed. Of course, we hope that you will support the Project
+Gutenberg-tm mission of promoting free access to electronic works by
+freely sharing Project Gutenberg-tm works in compliance with the terms of
+this agreement for keeping the Project Gutenberg-tm name associated with
+the work. You can easily comply with the terms of this agreement by
+keeping this work in the same format with its attached full Project
+Gutenberg-tm License when you share it without charge with others.
+
+1.D. The copyright laws of the place where you are located also govern
+what you can do with this work. Copyright laws in most countries are in
+a constant state of change. If you are outside the United States, check
+the laws of your country in addition to the terms of this agreement
+before downloading, copying, displaying, performing, distributing or
+creating derivative works based on this work or any other Project
+Gutenberg-tm work. The Foundation makes no representations concerning
+the copyright status of any work in any country outside the United
+States.
+
+1.E. Unless you have removed all references to Project Gutenberg:
+
+1.E.1. The following sentence, with active links to, or other immediate
+access to, the full Project Gutenberg-tm License must appear prominently
+whenever any copy of a Project Gutenberg-tm work (any work on which the
+phrase "Project Gutenberg" appears, or with which the phrase "Project
+Gutenberg" is associated) is accessed, displayed, performed, viewed,
+copied or distributed:
+
+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.org
+
+1.E.2. If an individual Project Gutenberg-tm electronic work is derived
+from the public domain (does not contain a notice indicating that it is
+posted with permission of the copyright holder), the work can be copied
+and distributed to anyone in the United States without paying any fees
+or charges. If you are redistributing or providing access to a work
+with the phrase "Project Gutenberg" associated with or appearing on the
+work, you must comply either with the requirements of paragraphs 1.E.1
+through 1.E.7 or obtain permission for the use of the work and the
+Project Gutenberg-tm trademark as set forth in paragraphs 1.E.8 or
+1.E.9.
+
+1.E.3. If an individual Project Gutenberg-tm electronic work is posted
+with the permission of the copyright holder, your use and distribution
+must comply with both paragraphs 1.E.1 through 1.E.7 and any additional
+terms imposed by the copyright holder. Additional terms will be linked
+to the Project Gutenberg-tm License for all works posted with the
+permission of the copyright holder found at the beginning of this work.
+
+1.E.4. Do not unlink or detach or remove the full Project Gutenberg-tm
+License terms from this work, or any files containing a part of this
+work or any other work associated with Project Gutenberg-tm.
+
+1.E.5. Do not copy, display, perform, distribute or redistribute this
+electronic work, or any part of this electronic work, without
+prominently displaying the sentence set forth in paragraph 1.E.1 with
+active links or immediate access to the full terms of the Project
+Gutenberg-tm License.
+
+1.E.6. You may convert to and distribute this work in any binary,
+compressed, marked up, nonproprietary or proprietary form, including any
+word processing or hypertext form. However, if you provide access to or
+distribute copies of a Project Gutenberg-tm work in a format other than
+"Plain Vanilla ASCII" or other format used in the official version
+posted on the official Project Gutenberg-tm web site (www.gutenberg.org),
+you must, at no additional cost, fee or expense to the user, provide a
+copy, a means of exporting a copy, or a means of obtaining a copy upon
+request, of the work in its original "Plain Vanilla ASCII" or other
+form. Any alternate format must include the full Project Gutenberg-tm
+License as specified in paragraph 1.E.1.
+
+1.E.7. Do not charge a fee for access to, viewing, displaying,
+performing, copying or distributing any Project Gutenberg-tm works
+unless you comply with paragraph 1.E.8 or 1.E.9.
+
+1.E.8. You may charge a reasonable fee for copies of or providing
+access to or distributing Project Gutenberg-tm electronic works provided
+that
+
+- You pay a royalty fee of 20% of the gross profits you derive from
+ the use of Project Gutenberg-tm works calculated using the method
+ you already use to calculate your applicable taxes. The fee is
+ owed to the owner of the Project Gutenberg-tm trademark, but he
+ has agreed to donate royalties under this paragraph to the
+ Project Gutenberg Literary Archive Foundation. Royalty payments
+ must be paid within 60 days following each date on which you
+ prepare (or are legally required to prepare) your periodic tax
+ returns. Royalty payments should be clearly marked as such and
+ sent to the Project Gutenberg Literary Archive Foundation at the
+ address specified in Section 4, "Information about donations to
+ the Project Gutenberg Literary Archive Foundation."
+
+- You provide a full refund of any money paid by a user who notifies
+ you in writing (or by e-mail) within 30 days of receipt that s/he
+ does not agree to the terms of the full Project Gutenberg-tm
+ License. You must require such a user to return or
+ destroy all copies of the works possessed in a physical medium
+ and discontinue all use of and all access to other copies of
+ Project Gutenberg-tm works.
+
+- You provide, in accordance with paragraph 1.F.3, a full refund of any
+ money paid for a work or a replacement copy, if a defect in the
+ electronic work is discovered and reported to you within 90 days
+ of receipt of the work.
+
+- You comply with all other terms of this agreement for free
+ distribution of Project Gutenberg-tm works.
+
+1.E.9. If you wish to charge a fee or distribute a Project Gutenberg-tm
+electronic work or group of works on different terms than are set
+forth in this agreement, you must obtain permission in writing from
+both the Project Gutenberg Literary Archive Foundation and Michael
+Hart, the owner of the Project Gutenberg-tm trademark. Contact the
+Foundation as set forth in Section 3 below.
+
+1.F.
+
+1.F.1. Project Gutenberg volunteers and employees expend considerable
+effort to identify, do copyright research on, transcribe and proofread
+public domain works in creating the Project Gutenberg-tm
+collection. Despite these efforts, Project Gutenberg-tm electronic
+works, and the medium on which they may be stored, may contain
+"Defects," such as, but not limited to, incomplete, inaccurate or
+corrupt data, transcription errors, a copyright or other intellectual
+property infringement, a defective or damaged disk or other medium, a
+computer virus, or computer codes that damage or cannot be read by
+your equipment.
+
+1.F.2. LIMITED WARRANTY, DISCLAIMER OF DAMAGES - Except for the "Right
+of Replacement or Refund" described in paragraph 1.F.3, the Project
+Gutenberg Literary Archive Foundation, the owner of the Project
+Gutenberg-tm trademark, and any other party distributing a Project
+Gutenberg-tm electronic work under this agreement, disclaim all
+liability to you for damages, costs and expenses, including legal
+fees. YOU AGREE THAT YOU HAVE NO REMEDIES FOR NEGLIGENCE, STRICT
+LIABILITY, BREACH OF WARRANTY OR BREACH OF CONTRACT EXCEPT THOSE
+PROVIDED IN PARAGRAPH F3. YOU AGREE THAT THE FOUNDATION, THE
+TRADEMARK OWNER, AND ANY DISTRIBUTOR UNDER THIS AGREEMENT WILL NOT BE
+LIABLE TO YOU FOR ACTUAL, DIRECT, INDIRECT, CONSEQUENTIAL, PUNITIVE OR
+INCIDENTAL DAMAGES EVEN IF YOU GIVE NOTICE OF THE POSSIBILITY OF SUCH
+DAMAGE.
+
+1.F.3. LIMITED RIGHT OF REPLACEMENT OR REFUND - If you discover a
+defect in this electronic work within 90 days of receiving it, you can
+receive a refund of the money (if any) you paid for it by sending a
+written explanation to the person you received the work from. If you
+received the work on a physical medium, you must return the medium with
+your written explanation. The person or entity that provided you with
+the defective work may elect to provide a replacement copy in lieu of a
+refund. If you received the work electronically, the person or entity
+providing it to you may choose to give you a second opportunity to
+receive the work electronically in lieu of a refund. If the second copy
+is also defective, you may demand a refund in writing without further
+opportunities to fix the problem.
+
+1.F.4. Except for the limited right of replacement or refund set forth
+in paragraph 1.F.3, this work is provided to you 'AS-IS' WITH NO OTHER
+WARRANTIES OF ANY KIND, EXPRESS OR IMPLIED, INCLUDING BUT NOT LIMITED TO
+WARRANTIES OF MERCHANTIBILITY OR FITNESS FOR ANY PURPOSE.
+
+1.F.5. Some states do not allow disclaimers of certain implied
+warranties or the exclusion or limitation of certain types of damages.
+If any disclaimer or limitation set forth in this agreement violates the
+law of the state applicable to this agreement, the agreement shall be
+interpreted to make the maximum disclaimer or limitation permitted by
+the applicable state law. The invalidity or unenforceability of any
+provision of this agreement shall not void the remaining provisions.
+
+1.F.6. INDEMNITY - You agree to indemnify and hold the Foundation, the
+trademark owner, any agent or employee of the Foundation, anyone
+providing copies of Project Gutenberg-tm electronic works in accordance
+with this agreement, and any volunteers associated with the production,
+promotion and distribution of Project Gutenberg-tm electronic works,
+harmless from all liability, costs and expenses, including legal fees,
+that arise directly or indirectly from any of the following which you do
+or cause to occur: (a) distribution of this or any Project Gutenberg-tm
+work, (b) alteration, modification, or additions or deletions to any
+Project Gutenberg-tm work, and (c) any Defect you cause.
+
+
+Section 2. Information about the Mission of Project Gutenberg-tm
+
+Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
+electronic works in formats readable by the widest variety of computers
+including obsolete, old, middle-aged and new computers. It exists
+because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
+people in all walks of life.
+
+Volunteers and financial support to provide volunteers with the
+assistance they need, are critical to reaching Project Gutenberg-tm's
+goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
+remain freely available for generations to come. In 2001, the Project
+Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
+and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
+To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
+and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
+and the Foundation web page at http://www.pglaf.org.
+
+
+Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive
+Foundation
+
+The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
+501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
+state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
+Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification
+number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at
+http://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
+permitted by U.S. federal laws and your state's laws.
+
+The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
+Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
+throughout numerous locations. Its business office is located at
+809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
+business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact
+information can be found at the Foundation's web site and official
+page at http://pglaf.org
+
+For additional contact information:
+ Dr. Gregory B. Newby
+ Chief Executive and Director
+ gbnewby@pglaf.org
+
+
+Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation
+
+Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
+spread public support and donations to carry out its mission of
+increasing the number of public domain and licensed works that can be
+freely distributed in machine readable form accessible by the widest
+array of equipment including outdated equipment. Many small donations
+($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
+status with the IRS.
+
+The Foundation is committed to complying with the laws regulating
+charities and charitable donations in all 50 states of the United
+States. Compliance requirements are not uniform and it takes a
+considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
+with these requirements. We do not solicit donations in locations
+where we have not received written confirmation of compliance. To
+SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
+particular state visit http://pglaf.org
+
+While we cannot and do not solicit contributions from states where we
+have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
+against accepting unsolicited donations from donors in such states who
+approach us with offers to donate.
+
+International donations are gratefully accepted, but we cannot make
+any statements concerning tax treatment of donations received from
+outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff.
+
+Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
+methods and addresses. Donations are accepted in a number of other
+ways including checks, online payments and credit card donations.
+To donate, please visit: http://pglaf.org/donate
+
+
+Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic
+works.
+
+Professor Michael S. Hart is the originator of the Project Gutenberg-tm
+concept of a library of electronic works that could be freely shared
+with anyone. For thirty years, he produced and distributed Project
+Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.
+
+
+Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
+editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
+unless a copyright notice is included. Thus, we do not necessarily
+keep eBooks in compliance with any particular paper edition.
+
+
+Most people start at our Web site which has the main PG search facility:
+
+ http://www.gutenberg.org
+
+This Web site includes information about Project Gutenberg-tm,
+including how to make donations to the Project Gutenberg Literary
+Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to
+subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks.