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| author | Roger Frank <rfrank@pglaf.org> | 2025-10-14 19:57:31 -0700 |
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You may copy it, give it away or +re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included +with this eBook or online at www.gutenberg.org + + +Title: Poetas do Minho I - João Penha + +Author: Alberto Pimentel + +Release Date: May 15, 2010 [EBook #32387] + +Language: Portuguese + +Character set encoding: ISO-8859-1 + +*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK POETAS DO MINHO I - JOÃO PENHA *** + + + + +Produced by Pedro Saborano (produzido a partir de imagens +de material em domínio público, disponibilizadas pelos +Serviços de Documentação da Universidade do Minho) + + + + + + ALBERTO PIMENTEL + + Poetas do Minho + + I + + JOÃO PENHA + + BRAGA + + + CRUZ & C.ª--EDITORES + + MDCCCXCIV + + + +POETAS DO MINHO + + + +BRAGA + +TYP. «MINERVA COMMERCIAL» + +José Maria de Souza Cruz + +1893 + + + +ALBERTO PIMENTEL + +Poetas do Minho + +I + +JOÃO PENHA + +BRAGA + +LIVRARIA ESCOLAR DE CRUZ & C.ª + +EDITORES + + + + + Aquelle meu espirito opulento, + Que vivia na luz dos sonhos bellos, + Jaz ha muito nas ruinas dos castellos, + Que no ar edifica o pensamento. + + _João Penha._ + + «... Quem publica um livro não o faz para o ler, publica-o para que + os outros o leiam. Quer, portanto, produzir um effeito qualquer, + effeito que, em todo o caso, não pode ser o do somno: para este ha o + opio, a belladona e o Codigo do Processo Civil.» + + _João Penha._ + + + + +I + +Ha quinze dias, João Penha e eu, sentados no mesmo banco do _americano_, +vinhamos do Senhor do Monte para Braga, e conversavamos de litteratura. +Nomes de auctores, nomes de livros, recordações dispersas, do tempo em +que elle redigia a _Folha_ em Coimbra e eu lhe enviava do Porto algum +insignificante auxilio de collaborador, passavam rapidamente na +precipitação tumultuante do dialogo, a cada momento interrompido +pelas paragens do _tramway_, pela entrada e saida de passageiros, pela +voz auctoritaria do conductor, que explicava em dialecto calaico: + +--Bai cheio. Num ha logar. + +Tendo João Penha alludido a mais de um dos poetas, que constituiram a +constellação academica da _Folha_, para entrelembrar casos e anecdotas +da bohemia coimbrã, disse-lhe eu de repente: + +--Por que não escreve as suas memorias de Coimbra? + +--Não tenho tempo, respondeu elle. Encheriam tres volumes. + +Tres volumes, de certo, porque João Penha foi o chefe de um cenaculo +numeroso, que viveu na alegria e nas lettras, que teve aventuras e +triumphos, e que legou aos cursos subsequentes uma gloriosa historia +ainda hoje rememorada com prestigio na tradição academica. Elle, +erguido no pedestal que o voto unanime dos seus contemporaneos lhe havia +consagrado, via do alto, como um idolo, toda a nervosa multidão da +academia, que o adorava, observava todas as evoluções caprichosas d'essa +legião gentilissima de rapazes talentosos, que se moviam em torno +d'elle, conhecia todos os segredos da biographia de uma geração, que ha +de ficar eternamente lembrada. Tres volumes, pelo menos, e não seriam de +mais. + +Mas percebe-se que lhe custe metter hombros a um labor de reconstrucção +historica em que a penna seria como um estilete a revolver dolorosamente +o coração saudoso do escriptor. Eu mesmo, que apenas segui de longe toda +essa altivola mocidade academica, ouvindo reproduzida a distancia a sua +voz no phonographo litterario da _Folha_ e de uma boa dezena de poemas, +eu que senti rolar até mim a lava candente do vulcão sem assistir ás +tempestades explosivas da cratera, eu proprio experimento a vaga +nostalgia da Coimbra d'aquelle tempo vendo envelhecer em Lisboa, na +prosa da burocracia, do fôro, do professorado e do parlamento, os poetas +que ha vinte annos constituiam a ala victoriosa dos novos commandada por +João Penha. + +E, mais infelizes ainda, os que hoje não fazem leis, nem minutas, nem +aggravos, nem compendios, dormem prematuramente o somno da morte na +apotheóse serena, sem invejas, mas tambem sem desillusões, d'aquelles +que, como Gonçalves Crespo, brilharam pelo clarão do seu talento, e +passaram como um meteoro fugitivo. + +Tive Gonçalves Crespo por companheiro na Redacção da Camara dos Pares. O +seu espirito doirava-se ainda de um reflexo de alegria, sem +constrangimento, que era como que o ultimo elo da sua tradição +academica. Tinha passado de Coimbra para Lisboa serenamente, sem +tempestades da vida, que envelhecem a alma antes do alvejar da primeira +cã. Na paz domestica do seu lar, a morte foi como um salteador que +surprehende um viajante a dormir na pousada, e o estrangula entre dois +braços de ferro n'um momento. Os outros que ficaram ainda, são como as +arvores no outomno, que dia a dia vão sendo sacudidas e abaladas pela +nortada agreste, que annuncia o inverno. + +É difficil adivinhar hoje na melancolica indiferença de Simões Dias, que +passa atravez de Lisboa com o ar desleixado de um provinciano +aborrecido, aquella brilhante alma meridional do poeta das +_Peninsulares_, onde cantavam serenatas da Andaluzia e rouxinoes do +Mondego. + +Candido de Figueiredo, cuja musa era das mais crentes, embora não fosse +das mais vulcanicas, cançado de repartir os restos da sua mocidade entre +a cáthedra de professor e a Secretaria da Justiça, correu ao encontro da +velhice, denominou-se voluntariamente _Caturra_, atirou-se ás questões +de philologia, e conseguiu tornar-se rabujento contra os que escrevem +_aereonauta_ com um e superfluo. + +Este correctissimo poeta da _Folha_ é hoje um suicidio ambulante. +Mata-se a ensinar a lingua portugueza a quem a não quer saber. Já um +ministerio lhe receitou, como distracção, o Governo Civil de Villa Real. +Candido de Figueiredo viu o Marão resplandecente de neve, e não o +cantou. Apenas recolheu a Lisboa, deu-se pressa em publicar _Novas +licções praticas da lingua portugueza_. + +Não era poeta, poeta de fazer versos, embora tivesse começado por ahi, +como todos, mas tinha assomos de graciosa imaginação quando romantisava +na _Folha_ as lendas do alto Alemtejo, um que só doutorou em direito, e +estuda e encalvece como todo o bom lente, e apenas sai dos braços de +Minerva na Universidade para os braços do senhor José Luciano no +Parlamento. + +Esse, José Frederico Laranjo, tão amante de fallar nos palratorios de +Coimbra, vai estando tão mudado hoje, que já ninguem treme de medo +quando elle pede a palavra na camara. + +--E Junqueiro? o nosso astral Guerra Junqueiro? perguntar-me-ha o +luciolante apostolado que o rodea na cervejaria do Camanho. + +Junqueiro, se houvessemos de dar credito a todas as suas apprehensões +pathologicas, está «precocemente chegado, pelo soffrimento, ao occaso da +vida».[1] Sinceramente desejo que os factos venham desmentir +esta apprehensão. + +Mas Guerra Junqueiro, meus senhores, era na Coimbra d'aquelle tempo, na +_Folha_ principalmente, a promessa florescente de um lyrico primoroso, +depois transviado, e a meu vêr atormentado, pela preoccupação constante +de reformar a esthetica[2], a technica[3], o olympo dos romanticos[4], o +paraizo dos catholicos[5], de fundar escola e de attingir a perfeição +suprema no seu melhor livro, que, segundo o seu proprio conceito, são os +_Simples_. + +E talvez não sejam. + +Em Coimbra, Guerra Junqueiro era, como todos os outros, um satellyte +que gravitava em torno de João Penha, o chefe incontestado, antes +adorado, do cenaculo, da bohemia, e da _Folha_. + +O tempo rolou a sua pesada mole por sobre as illusões d'esses rapazes +que eram então a fina flôr da geração academica. D'elles, os que não +estão ainda velhos por fóra, começam a descair na tristeza, não direi do +occaso da vida, como apprehensivamente affirmou de si mesmo Guerra +Junqueiro, mas da experiencia dura do mundo. + +João Penha, o primaz da tribu, é advogado em Braga, trabalha +honestamente para sustentar a sua familia. Está ao corrente de todas as +novidades litterarias que a França inventa e exporta, porque as recebe +directamente de Pariz em primeira mão, mas atura todos os dias, no seu +escriptorio, uma chusma de clientes, que ás vezes, o que o contraria +muito, o assaltam em plena rua, já depois d'elle ter fechado o seu +escriptorio ás duas horas da tarde, invariavelmente. + +Outro dia, João Penha ia para o Bom Jesus do Monte, em serviço--disse-me +elle--ás sete horas da manhã. A seu lado, no _tramway_, um demandista +estopante gritava para vencer a dureza de ouvido do advogado. + +--O que eu quero, berrava o cliente, é ganhar a queston do rego. Porque, +snr. doutor, no rego é que está a grande maroteira d'ella. (Ella era a +parte contraria, uma mulher). + +Questão d'aguas: a mais generalisada especie de litigios no Minho. + +João Penha, de charuto ao canto da boca, ouvia imperturbavelmente +resignado e silencioso. Os outros passageiros sorriam disfarçadamente +das phrases equivocas do demandista. Filado pelo cliente, João Penha +era, n'aquella hora, sob o céu azul, radioso de sol, uma victima do +Direito, que legisla sobre regos e outras coisas mais;--do Direito +que elle podera amenisar em Coimbra com as satyras escriptas na +aula, com os sonetos publicados na _Folha_, com a bohemia alegre das +_Camêllas_ e do _Homem do gaz_. + +Agora, em Braga, o Direito esmagava-o como a clava de Hercules. Fazia +dó, fazia pena vêr João Penha torturado nos colmilhos de um litigante +obsesso, a quem elle não podia responder, com um repente de Bocage, n'um +epigramma vingador. + +Não me atrevi a arrancar João Penha das garras do cliente. Mas á volta +do Bom Jesus, tornando a encontrar-nos no mesmo _americano_, interpuz-me +ao demandista e a elle, e conversamos de varia litteratura,--muralha da +China Contra a qual esbarraram, infructiferamente, duas investidas do +brácaro Chicaneau, que parecia recortado dos _Plaideurs_ de Racine. + +Aqui esta no que veio a dar aquelle bello espirito do maior improvisador +e do maior bohemio da Coimbra de ha vinte annos! + +Ó salgueiraes do Mondego, lamentai-o! Ó musa alegre da tasca das +_Camêllas_, cobre de luto a tua face mésta! Ó fina flôr dos rapazes +d'esse tempo, chorai por elle e.... por vós! + +Colhi em Braga informações sobre o viver de João Penha transformado. +Tem, como advogado, uma grande clientella posto não vá nunca ao +tribunal. Mas a sua competencia em questões do civel não soffre +rivalidade. Escrevendo nos processos, é um jurisconsulto de primeira ordem. + +Ás duas horas da tarde fecha impreterivelmente o escriptorio. Os +clientes voltarão, se quizerem, no dia seguinte. Mas voltam sempre. + +Á noite, João Penha, invariavelmente de luvas pretas, monoculo posto, +frequenta a confeitaria do Anacleto á rua de S. Marcos. Uma coincidencia +leva-me a suspeitar que João Penha rivalisa na gulodice de bolos finos +com o glorioso Sampaio da _Revolução_, de veneranda memoria. Vindo todos +os annos á Povoa de Varzim, na epoca de banhos, é na confeitaria +contigua ao _Café Chinez_ que elle apparece ás noites, sempre de luvas, +correctamente vestido, sobraçando ás vezes um pacotinho de doces. + +Que ao menos o saboroso bôlo de côco possa adoçar as horas amargas da +sua banca de advogado! + +--Snr. dr., dizia-lhe o demandista quando todos apeiamos do _americano_ +no Campo de Sant'Anna, olhe que a queston do rego tem furo. Num m'a +avandone. + +E João Penha, sorrindo, voltado para mim, repetia-me: + +--Não se esqueça de lêr a _Nature_ de Hollinat. É soberba! + +Ó salgueiraes do Mondego, lamentai-o! Ó musa alegre da tasca das +_Camêllas_, cobre de luto a tua face mésta! Ó fina flôr dos rapazes +d'esse tempo, chorai por elle e... por vós! + + +II + +Na individualidade litteraria de João Penha ha a distinguir o poeta da +bohemia, e o poeta do amor. + +São dois homens reunidos n'um unico homem. O primeiro é o estudante que +frequenta de noite as tascas de Coimbra, celebrisando-se nas libações e +nos improvisos; que canta os paios do Alemtejo, o presunto de Lamego +e os falernos da Beira; que satyrisa os lentes e adora a Cabula; que vê +formar-se em torno de si o numeroso cenaculo a que preside com o +applauso e a admiração da academia inteira, cuja alma, cheia de alegria +e de mocidade, elle consubstancia n'uma saliente concretisação pessoal. + +Os seus versos, as suas anecdotas de bohemio noctivago correm ainda hoje +na tradição universitaria, impregnados d'esse fugitivo _sachet_ de vida +antiga, que é a gloria melancolica dos velhos e o ideal ambicioso dos +novos. + +A baiuca da Camêlla, sem elle, ficou solitaria como um templo vasio. + +Os que foram da geração de João Penha ainda de certo o recordam hoje de +monoculo no olho, capa traçada, n'uma attitude elegante e vigorosa de +Apollo de Belvedére, cantando no templo, sob um imaginario baldaquino de +folhas de parra verdejando esmeraldas, a alegria eterna da alma rubra do +alcool. + + Oh vós, que do canto sois velhos freguezes, + Ouvi d'estas lyras o mélico emprego! + Nós somos as gêmas, os bifes inglezes, + Os paios das filhas do claro Mondego. + + Sorri-nos a vida nos calices cheios. + Dos roixos falernos das parras da Beira; + Sorri-nos a Céres dos túmidos seios; + Sorri-nos dos bosques a Venus ligeira. + + Nos mostos papyros da sciencia moderna + A droga se encontra que ao somno convida; + Queimémol-os todos, que só na taberna + Os livros se encontram da sciencia da vida. + + Ao vento os cabellos! por montes e valles + Corramos no passo das gregas choréas! + Bachantes das praças, vibrae os cymbales! + Abri-nos as portas, gentis Galathéas! + +A lenda das noites das Camêllas, personificada em João Penha, subsistiu +como uma das seducções tradicionaes da vida academica. + +Antonio Nobre, que eu julgo ser, de todos os poetas novissimos, o que +tem mais poderosas faculdades para traduzir as impressões da alma +moderna, torturada pela nevrose, confessa a suggestão d'essa lenda +bohemia, que reproduz a Poesia ardendo como uma pyra sobre o tampo dos +toneis impantes: + + ......... A Tasca das Camêllas + Para mim, era um sonho, o ceu cheio de estrellas. + +Mas quando Antonio Nobre chegou a Coimbra, uma barreira de vinte annos, +espessos como vinte seculos, separava da tasca das Camêllas a pessoa do +doutor João Penha, advogado nos auditorios de Braga. A alma espumante e +radiosa das noites da bohemia partira-se como a tapa das ultimas +libações; partira-se, e partira. No templo reinava o luto silencioso das +lendas de antigos castellos abandonados por principes cujo destino é +ainda um mysterio. E Antonio Nobre, relanceando os olhos tristes pela +solidão tenebrosa, teve esta explosão de desespero truculento: + + Tia Camêllas... só ficou a camellice. + +O que lembra uma situação analoga cantada por Delille nos _Jardins_: + + ......... Telle jadis Carthage + Vit sur ses murs détruits Marius malheureux. + +Dir-se-ia que tinham desapparecido com João Penha e com o seu tempo +essas télas vivas de Van Laar, que revestiram as paredes das Camêllas; +paineis pagãos, dignos de Ticiano e de Poussin, onde a Fabula parecia +sorrir ainda, coroada de pampanos, no verso bachico do auctor do _Vinho +e fel_: + + Dá-me esse onagro de vigor silvestre, + E os ôdres fundos, oh Sileno antigo: + Ensina-me na dor: só tu és mestre. + +Dir-se-ia que a rija cimitarra do vandalismo havia despedaçado algum +marmore de Pradier em que uma Bachante andaluza, cingida nos braços de +um Satyro inspirado, parecia entoar um dithyrambo amoroso, cortado +de evohés e de beijos, e de que só restava, inscripto no sôcco da +esculptura mutilada, um sonetilho de João Penha: + + Oh poetas d'agua fria! + Dizei-me: a vossa musa. + Será como a andalusa + Que as noites me abrevia? + + Olhai-a: que poesia! + Na dórna da Arethusa + Lá enche agora a infusa + De classica ambrosia, + + E aos labios de cereja + Eleva, airosa e rindo, + O copo de cerveja! + + Oh quadro novo e lindo! + Musas, chorai de inveja, + Musas, descei do Pindo! + +Ainda rescaldam nos «cavacos» da academia as anecdotas, os episodios das +noites das Camêllas no tempo de João Penha. É capitosa a tradição d'essa +bohemia extincta, que sôa ao longe, e que exalta a imaginação dos +rapazes. Para Antonio Nobre era um «sonho», que o attraiu a Coimbra, +como a devoção de Meca attrae o arabe. + +Elle tinha de certo ouvido contar que João Penha, entrando na Tasca sem +perder a donairosa compostura de um _gentleman_, que jamais esquecia as +luvas e o charuto, se limitava a esvasiar uma «taça», nome aristocratico +com que nas Camêllas a bohemia nobilitava o copo. E que, ao ouvido da +Tia Maria, João Penha, com o ar de uma discrição cheia de orgulho e de +mysterio, segredava: + +--Repita a dóse para um envergonhado, que está ali fóra... + +Na sombra do limiar, entreaberta a porta, João Penha esvasiava a segunda +«taça», simulando passal-a á mão de um embuçado de melodrama. + +Antonio Nobre conhecia a tradição, a anecdota, o pittoresco da lenda, +mas, quando chegou a Coimbra, apenas restava da bohemia de João +Penha, na Tasca das Camêllas e na Via Latina, a lembrança de que passára +outr'ora por ali uma onda de mocidade alegre, que o tempo seccou. + + Tia Camêllas... só ficou a camellice. + +A tradição em Coimbra, um advogado em Braga, eis o que resta de João +Penha bohemio. + +Mas ainda hoje os rapazes que passaram pela Universidade vem contar as +satyras, os epigrammas que elle deixou gravados na memoria das gerações. + +Todos elles sabem de cór o famoso caso do incendio, que João Penha +noticiava para Braga, ao irmão, como tendo sido uma calamidade biblica, +um castigo do ceu, que o deixára despojado de todos os seus escassos +haveres de estudante: + + Foi um incendio voraz! + Parecia a propria Gomorra! + +E os manes do doutor Adrião Forjaz velam de pudor a face ouvindo +repetir, na chalaça de Coimbra, a phrase attribuida aos labios +castamente impollutos de uma bôca impeccavel, onde só os eufemismos +floriam como lirios brancos. + +Conheci em Lisboa, de o vêr no parlamento, o irmão de João Penha, tambem +advogado, e n'esse tempo deputado por Braga. + +Contava-se em Coimbra que o poeta, encarecendo as virtudes do irmão, +costumava dizer d'elle: + +--O seu unico vicio sou eu. + +De improvisos feitos na aula, escriptos sobre o joelho e transmittidos +de bancada em bancada, ficou em Coimbra memoria imperecivel, que +irradiou até á raia do Minho e até á raia do Algarve, como uma lenda +nacional. + +Perderam-se para a bibliographia os dois jornaes, o _Zabumba_ e a _Gaita +de folles_, que João Penha publicou na _Sebenta_, no quarto e quinto +anno; mas as quadras e sonetos, em que a alegria mordaz esfusiava +diariamente n'essas folhas avulsas, salvaram-se para a tradição, que +ainda hoje os repete, como se estivessem sendo lidos, nas noites de +Coimbra. Quantas vezes não tenho eu ouvido recordar em Lisboa muitos dos +epigrammas de João Penha, improvisos feitos nas aulas, como, por +exemplo, o do Pinto Lambaça! + + Em pé, diante do Brito, + Dá lição Pinto Lambaça: + Parece a voz do Infinito + A sair d'uma cabaça! + +E aquell'outro apontado ao nariz vermelho de Tamagnini Encarnação? + + Tamagnini Encarnação + Tem na ponta do nariz + O colorido feliz + De uma rosa do Japão. + +E ainda aquelle que joga de vocabulo com o nome do condiscipulo Ennes: + + A lettra dos teus assumptos + Bem nos demonstra quem és: + Vale dois _nn_ bem juntos, + É lettra de quatro pés. + +Ha poucos dias, no _In illo tempore_ das _Novidades_, li o epigramma com +que João Penha alvejou a gastronomia proverbial do doutor Sanches da Gama: + + Dizem que o Sanches embirra + Que lhe vão pedir dispensa. + Forte asneira! + --Imagina que lhe pedem + A despensa + Onde tem a salgadeira... + +Agora e sempre me parece novo em folha o famoso soneto _A um doutor +Pedro_, que póde ser considerado, o soneto, como inexcedivel na +profundidade do conceito. Pelo que toca ao doutor, a tradição +universitaria apenas o considera inexcedivel no esguio da figura; + + E vimos uma forma horrenda e bruta + Surgir do lôdo vil com gesto iroso, + Como out'rora, no Cabo Tormentoso, + O velho Adamastor de barba hirsuta. + + --«Quem és tu?» eu lhe disse.--«Bardo, escuta, + (Bramiu com voz ingente e desdenhoso) + Eu sou no espaço infindo e luminoso + O verbo ideial da estupidez corrupta. + + «Na terra sou Penedo: e o mar violento, + O mar das sciencias vãs da humanidade, + Já quiz vencer-me, e foi baldado o intento!» + + Disse. E ouvimos n'aquella obscuridade + O cantico d'um tremulo jumento: + --Era o preito da terra á Immensidade. + +Sobre os inextinguiveis vestigios d'esta satyra teem caminhado as +gerações subsequentes, cantando o doutor incommensuravelmente filiforme. +Antonio Nobre tambem molhou a sua sôpa no capêllo que encima o +zingamôcho do cathedratico zangaralhão: + + Ó Pedro da minh'alma! meu amigo! + Que feliz sou, bom velho, em estudar comtigo! + Mal diria eu em pequenito, quando a ama, + Para eu me callar, vinha fazer-me susto á cama + Por ti chamava: Pedro! e eu socegava logo, + Que eras tu o _Papão_! A ama, de olhos em fogo + Imitava-te o andar, que não era bem de homem... + Eu tinha birras:--Ahi vem o lobishomem! + Dizia ella.--Bate á porta! Truz! truz! truz! + E tu entravas, Pedro, eu via! Horror! Jesus! + +Nas mais allucinantes tempestades de enthusiasmo academico a musa de +João Penha era a sarça ardente que prendia todos os olhares, attraia +todas as attenções pela originalidade fidalga do conceito, e pela +gentileza patricia do verbo flammejante, como no soneto _A uma rabequista_: + + Eu dera um litro do meu sangue azul, + (Oh meus avôs, não fulmineis o hereje!) + Só por beijar-te, no chapim taful, + O pequenino pé, que orchestras rege![6] + +A respeito d'esta rabequista, que era uma italiana lindissima, dizia-me +ha pouco João Penha: + +--O Manoel da Assumpção queria casar com ella e eu dissuadi-o d'esse +intento... por ciumes. + +Pobre Manoel! elle foi o primeiro romantico do seu tempo, como João +Penha foi, na phrase de Gonçalves Crespo, o ultimo estudante de Coimbra. + +N'aquella quadra, como na organisação artistica de João Penha, incluindo +a sua modalidade de bohemio, ha um cunho brazonado de _vieille roche_ +das lettras. Conservador como a melhor nobresa parisiense do bairro +Saint Germain, elle ama a tradição da Arte, os velhos pergaminhos da +lingua, a lição classica dos mestres, a compostura aristocratica da +phrase, que não chega a desfraldar-se no epigramma, nem a esbagaxar-se +na satyra. Canta o Paio de luva branca, sem que fique na pellica uma +nodoa de gordura. Canta o Vinho, sem entornar no collarinho a mancha +roixa da bôrra. E se passa da tasca das Camêllas para o salão nobre da +Poesia madrigalesca, substitue facilmente a batina rôta pela casaca +broslada, é um cortezão de Luiz XIV quando empunha a taça, refulgente de +aureas facetas, para brindar as damas delicadas: + + D'este copo de vinho generoso + Dai-me que eu tire o alento que desejo, + Para que o novo canto, sonoroso, + Desfira na guitarra em doce arpejo; + E já que estou devéras amoroso, + Aproveito apressado um tal ensejo + Para erguer á leitora, que me escuta, + Um brinde que me deixe a taça enxuta. + +Tal é, rapidamente tracejado, o perfil lendario de João Penha bohemio, +do poeta da alegria e da mocidade, que improvisava nas tascas do _Homem +do gaz_, do _Varão do Luxemburgo_, do _Conselheiro Rodrigo_, e da _Tia +Maria Camêlla_. + +Mas esse improvisador errante, que a borga arrastava de taberna em +taberna, não descalçava nunca as luvas, nem para beber, nem para cantar. +Era um artista de raça, que adorava o primor da fórma. Sob este ponto de +vista João Penha e a _Folha_ exerceram uma sensivel influencia. O soneto +da escola italiana, tão abandonado como antiqualha árcade depois de +Bocage, resurgiu no acuro parnasiano de João Penha. E todos os da +_Folha_, que navegavam na esteira do mestre, sahiram excellentes +artistas no cinzelamento esculptural da fórma litteraria: Crespo, +Junqueiro, Simões Dias, Candido de Figueiredo, etc. + + +III + +Para João Penha, como poeta lyrico, o amor parecia não ser mais que uma +idealisação, uma phantasia de artista. + +Eu não encontrava, nos sonetos do _Vinho e Fel_, a abstracção absorvente +de Petrarcha, a paixão abrasadora como lava, o Vesuvio que vulcanisa o +coração, reduzindo-o a cinzas. + +A Ironia andava de braço dado com o Amor, no lyrismo de João Penha, +mais como um effeito pittoresco da Arte, suppunha eu, do que como a crua +expressão da Verdade. + +Não descobria atravez das _Rimas_ o typo constante, persistente, de uma +mulher, embora se me affigurasse que de recordações avulsas e de perfis +differentes creára o poeta o elemento feminino dos seus poemas. + +Nunca os versos de João Penha me deram, na taça do _Vinho e Fel_, a +impressão de uma grande catastrophe psychologica, que lhe precipitasse a +alma na voragem do scepticismo. + +Parecia-me que a sua musa obedeceu á orientação romantica, que se +comprazia em polvilhar de gottas de fel, como um effeito decorativo, +puramente ornamental, a corolla das flôres ideiaes do Sentimento. + +É verdade que no escrinio das Rimas havia a miniatura de uma mulher, mas +eu considerava-a, se me permittem a expressão, um retrato de phantasia: + + Um rosto encantador, quasi moreno, + De uns grandes olhos verdes animado: + Negro o cabello, em tranças ennastrado; + Correcto o supercilio, iris sereno; + + Vermelho o labio, sorridente e ameno; + Breve a cintura; o collo, assetinado; + Um donaire, das outras invejado; + Magras as mãos; o pé, leve e pequeno: + + Eis a dama por quem chorando anhélo! + Rival das graças do cinsel iónio, + Mas fria como a neve: o meu flagello! + + Eis a minha Nathercia, o cruel demonio + Por quem vivo perdido, mas tão bello + Que nem lhe resistira Santo Antonio! + +Este soneto affigurava-se-me como o primeiro elo de uma concepção +artistica de poeta, de um plano litterario preconcebido, que visava a +produzir effeitos pela antithese do Amor e da Ironia, pelo contraste da +veia alegre do bohemio com a inspiração sentimental do lyrico. + +Assim não tardava muito que a musa dicaz do epigramma deixasse cair +sobre o retrato da primeira pagina o peso de um paio roliço de +Lamego, que se esborrachava em rúbidas gorduras sobre a miniatura delicada: + + Mal pode phantasiar-te a mente accêsa + Tão gentil como quando, venturoso, + Te vi a vez primeira, ébrio de goso, + Estatico de pasmo e de surpreza. + + Que prodigio de esplendida bellesa! + Que labios, que sorrir, que olhar piedoso! + Que opulento cabello... um mar undoso + Onde escondêras a gentil nudeza! + + Assentada n'um banco de verdura, + Junto á margem do múrmuro Mondêgo, + De um Corregio vencêras a pintura. + + Ai! perdi, desde então, paz e socego: + Se estavas tão graciosa em tal postura, + E comias um paio de Lamego! + +E logo, como na travação logica de um poema, cuja traça foi gisada +calculadamente, o paio continuava a materialisar a desillusão do poeta, +que não encontrava na realidade da vida a mulher ideial das suas +noites de phantasia romantica. + +O paio parecia-me na obra de João Penha um symbolo de salutar desengano +para os que criam na espiritualidade ethérea da mulher e que, +regressando alquebrados do Paiz do Sonho, ainda podem achar +rehabilitação salvadora na despensa, no _réstaurant_, e na cava. + + És minha, és minha, oh venturoso fado! + Cedeste á chamma que em meu peito alento! + Chegou por fim o divinal momento, + O dia de meus sonhos anhelado! + + O ceu, ha pouco tôrvo, eil-o azulado: + Sussurra esmorecido ao longe o vento; + Esplende o sol no ethereo firmamento; + Recende aromas o florente prado. + + Quando ha pouco a teus pés (oh quadro lindo!) + Te disse o meu amor, em doce esmaio + Senti volupias de um prazer infindo. + + Oh camênas agricolas, cantai-o! + Ella, a minha formosa, ella fugindo, + Deixou-me o coração, deixou-me o paio. + +Desfeito o sonho, fica nas mãos do poeta como um refem da sua esperança +perdida, das suas illusões derrotadas, o paio,--a porção mais subjectiva +do _eu_ espiritual da dama, o paio, um symbolo, o paio, uma philosophia, +como o porco do rebanho de Epicuro, _Epicuri de grege porcus_. + +Se alguma duvida pudesse restar sobre a interpretação d'este symbolo +culinario, que atravessa toda a obra do poeta, bastaria a desvanecêl-a a +clara exegése d'este soneto: + + Aquella Rosa branca, a flor mais viva + Dos jardins olorosos de Granada, + Já não parece a flor enamorada, + Triste por viver só, viver captiva. + + Outr'ora, em seu mirante, pensativa, + Muitas vezes a luz da madrugada + A via entre boninas, enlevada, + Nos sons d'uma guitarra fugitiva. + + Agora, a Beatriz do Poeta abstruso, + A Elleonora das canções do Tasso, + A Nathercia gentil do cantor luso, + + Sol perdido em nevoeiro escuro e baço, + A citharas prefere a roca e o fuso, + Aos meus cantos,--presuntos de Melgaço! + +Sente-se na symbolica de João Penha a alma alegre de uma geração que +teve sangue, que teve vigor, que adorou a vida porque a podia gosar. + +Respira-se ahi o aroma aperitivo de um succolento jantar fradesco, como +na antiga cosinha dos bernardos de Alcobaça, que ainda hoje, apesar de +vasia, dá a impressão do apetite saluberrimo da ordem de Cistér. + +Como que se ouvem os passos dos leigos conduzindo da copa os cangirões +bojudos, da ucharia as viandas gelatinosas, e da frescura dos coutos, +regados por agua diamantina, as fructas deliciosas e maduras. + +Um braço invisivel parece encaminhar o nosso espirito á vasta mesa do +refeitorio cisterciense, onde a gula monastica levanta castellos de +comesana macissa, que o apetite voraz ha de em breve vencer e +desmoronar. + +Sóbe ao pulpito, emquanto os outros devoram pingues vitualhas, um +prégador aguado, que, com os olhos postos no gordo repasto, falla, sem +fé e sem uncção, da diabolica attracção dos sete peccados mortaes, que +os setecentos filhos de S. Bernardo ali reunidos devem a todo o custo +evitar. + +E especifica: a soberba, a avareza, a luxuria... + +Deglutindo truculentamente, um velho frade, saturado do mundo, dirá para +o fundo do prato com os seus botões:--Que mulher conheci eu por lá que +valesse esta bella petisqueira d'Alcobaça? + +Assim João Penha, como o bernardo guloso, exclama no soneto: + + Cantai-me a vida, e o sonho transitorio! + Cantai, emquanto á dor busco remedio + Nos vastos caldeirões do refeitorio. + +A raça, no breve lapso de vinte annos, hysterisou-se excessivamente +em nervosismos e melancolias, que allucinam funebremente o cerebro dos +poetas modernos. + +Vede bem! João Penha cantava o Paio, celebrava o Presunto, preconisava a +Vida, ao passo que Antonio Nobre deixa entenebrecer o seu espirito no +symbolismo tetrico da _Velha_ (a morte) e do _Hotel da Cova_ (a sepultura). + +E, todavia, Coimbra, onde um gozou e o outro se aborreceu, continua a +ser talqualmente a mesma, pesa sobre a Universidade a mesma Torre de +pedra, sobre os hombros do doutor Pedro a mesma Torre de sciencia, ha o +mesmo cheiro a lente cathedratico e a bolôr auctoritario, a Pandecta +rançosa falla ainda mais alto que toda a concepção do Direito moderno +explanada pelo snr. M. Fratel, porque, n'essa Coimbra vetusta, ha só uma +coisa que falla mais alto que a Universidade,--é a _Cabra_. + +Continuando o _meio_ a ser o mesmo, sendo mesmissima a atmosphera +social onde a mocidade academica respira, é claro que a variedade das +impressões recebidas se ha de explicar pelas condições especiaes, tanto +psychicas como physicas, do individuo que as recebe. + +Assim, pois, temos em João Penha a musa viva que floresce o amarantho, +rubro como a purpura e como... o paio: em Antonio Nobre temos a musa +languida que desabrocha a pállida cecém, perfumada, mas branca como a neve. + +Depois de haver escripto a _Carta a Manoel_, Antonio Nobre, sedento de +ideiaes consolativamente calmantes, vai, luziada errante, procurar a +Vida no Bairro Latino, e lá mesmo se encontra _só_ e desgraçado. + +João Penha, durante o seu tempo de Coimbra, saltou, como um funambulo, +por sobre todos os desgostos do amor intimo, sem entornar a taça repleta +de phalerno. + + Não ha dôr que resista a um vinho ardente, + Nem ao facil amor de uma hespanhola. + +Porque a verdade, ao contrario do que eu e outros poderiamos suppôr de +longe, enganados pela apparencia picarescamente ironica dos versos de +João Penha, a verdade é que elle amou, embora não andasse lutuosamente +vestido de almáfega, nem passeiasse merencorio e sinistro como os bardos +melodramaticos, que aliás caricaturou. + +Os humoristas levam ás vezes a estes erros de apreciação, porque, em vez +de fazerem da sua dôr um poema, segundo a expressão de Goethe, fingem +que lhe sopram, como a uma nuvem de fumo, para dissipal-a... + +No fundo da biographia de João Penha está effectivamente a memoria de um +amor, que inspirou _O Vinho e Fel_ e _O Tancredo_, poema no genero do +_Onofre_, e que, como muitas outras composições, perdidas, ou publicadas +em jornaes, não sahiu nas _Rimas_. + +--Nós em Coimbra, dizia-me João Penha, bebiamos, não para apagar a sêde +ou para afogar paixões,--mas para dar tom aos nervos e activar os +movimentos do machinismo intellectual. Todavia não deve esquecer-se que +o vinho é o grande consolador dos tristes: _date vinum moerentibus et +lætobunt..._ + +Esta phrase rasga o véo de um segredo, que o vinho letificante diluiu na +taça da bonomia. + + Mas ri-se como quem chora, + O bardo das scenas varias, + Qual ri o mocho sombrio + Sobre as loisas funerarias. + + A noite na adega esconsa, + D'uns candís á luz escassa, + Quantas vezes não procura + O esquecimento na taça! + ....................... + Que já li sobre uma lage, + Occulta, n'umas cavernas, + Este sinistro epitaphio + Do phantasma das tabernas: + + «Aqui jaz o bardo triste + Junto á bella Carolina: + Riu-se a bella do rapaz, + Riu-se o rapaz da menina.» + +Mais de um rugido de paixão leonina estruge na adêga esconsa, á luz +fumenta dos candis, emquanto a tia Camêlla despeja do pichel um gorgolão +vermelho de phalerno: + + Venho pedir-te o retrato + Que te dei por amisade: + Não quero servir de ornato + Nos alcouces da cidade. + + Quero laval-o nas ondas, + Que gemem na praia agreste, + D'aquellas manchas hediondas + Dos beijos que tu lhe déste. + + Quero arrancar-lhe a moldura, + O teu cabello, e trocal-o + Por uma trança mais pura + Das crinas do meu cavallo. + +Estes gritos de desespero fazem lembrar aquella sazão plena de +romantismo, em que Dumas Filho obtinha um duplo triumpho no romance e no +palco quando Armand Duval arremessava a bolsa recheiada de oiro á face +de Margarida Gautier. + +_És da raça dos Borgias!_ vocifera o poeta, mas traça a capa de +estudante, e vai procurar o contra-veneno da paixão + + ... nos bôjos da amphora vetusta. + +Diz Gonçalves Crespo que a mulher amada do poeta poz, um dia, o pé no +estribo, e partiu para Lisboa. Mas a verdade é que quem partiu foi elle, +deixando-a a ella, aos sinceiraes do Mondego, ao Paiz azul do sonho e á +vida murciana de Coimbra. N'essa hora surgiu mais um advogado em Braga. + +Poderiam, erradamente, suppol-o voluvel, inconstante no amor os que não +conheciam os segredos da sua biographia, que a resposta não tardava, +prompta e cabal: + + Mais frio que Blondin sobre o Niagára, + Julgas minh'alma em vis paixões accesa; + E comtudo nas ostras da bellesa + Eu só procuro o amor, perola rara. + +Mas, não encontrando a perola rara, tomava o partido de comer +ostras, temperando-as com pimenta e limão, e com o sorriso tolerante de +Pangloss, para quem tudo era pelo melhor no melhor dos mundos possivel. + +Convém notar que João Ponha deu o titulo de _Lyra de Pangloss_ a uma das +subdivisões das suas _Rimas_. + +Sahindo de Coimbra, não chorava sobre as ruinas dos seus sonhos +desfeitos, das suas illusões perdidas. Vinha desenganado, mas gordo. O +espirito, + + Aquelle meu espirito opulento, + Que vivia na luz dos sonhos bellos, + +vira morrer os «ultimos anhelos», mas resistira, graças ao sabio +formulario do doutor Pangloss. E o corpo, sadio e forte, continuou a +florescer + + ... em tão doce obesidade, + Que dentro em pouco me vereis no transe + De tomar ordens e fazer-me abbade. + +A gente sahe da leitura das _Rimas_ tão bem disposta como João Penha +sahiu de Coimbra. + +Ordinariamente um livro de versos, especialmente os modernos, deixam no +nosso espirito a impressão de um cemiterio sombrio, umbroso de cyprestes +e chorões, dealbado de mausuleos luarentos, como diria um nephelibata, e +de cruzes tiritantes de frio na gelida nudez do marmore. + +Pelo contrario, as _Rimas_ de João Penha são como um pomar do Minho, +uberrimo e cantante, onde a côr dos fructos se tinge de tonalidades +sadias, onde o despenho da agua sobre a relva viçosa espuma em borbotões +sonoros, e onde os passaros, nas latadas verdes, assobiam n'uma +bambochata feliz de collegiaes em liberdade. + +É com a impresão de ter visitado um d'estes pomares feracissimos e +alegres que a gente fecha o volume das _Rimas_. + + +IV + +Em litteratura, João Penha é hoje, como hontem, um conservador convicto, +um idealista, um romantico, intransigente, mas brilhante de +originalidade saudavel. + +As suas opiniões são conhecidas.[7] + +Para elle a escola romantica, sem estar subordinada a uma unica e +determinada philosophia, porque não ha relação proxima ou remota entre +os seus trez grandes poetas, Lamartine, Hugo e Musset, resistirá a todos +os golpes que lhe vibrem os revolucionarios da litteratura, será eterna, +porque eternamente o homem «perseguido pela realidade, se refugiará, +pelo menos durante algumas horas do seu dia, no mundo das illusões.» + +Na escola romantica, o que impressiona, o que commove, é a obra em si +mesma, ao passo que na escola naturalista apenas se admira o auctor pelo +seu talento de observação. + +João Penha distingue entre escola naturalista e escola realista: +n'aquella, é licito admittir «personagens excepcionaes, casos que não +sejam communs»; n'esta, os modelos são vulgares, «as cousas são +descriptas, não como o artista as possa vêr, mas como a multidão as vê.» + +Notarei, de passagem, que n'esta subdivisão, João Penha parece ir mais +longe do que Emilio Zola, o qual envolve na mesma formula o naturalismo +e o realismo. O famoso auctor do _Roman expérimental_ adoptou como +formula generica o naturalismo, que é velho, porque data de Homero, e +que define: «o regresso á natureza e ao homem, a observação directa, a +anatomia exacta.» + +Mas, para Emilio Zola, pouco importa que os modelos sejam excepcionaes +ou vulgares, que estejam no sette-estrello ou no charco, no alto ou em +baixo. + +«Quand j'ai lu un roman, je le condamne, si l'auteur me parait manquer +du sens réel. Qu'il soit dans un fossé ou dans les étoiles, en bas ou en +haut, il m'est également indifférent. La verité a un son auquel j'estime +qu'on ne saurait se tromper.» + +Comtanto que o artista haja tomado como ponto de partida o estudo dos +corpos e dos phenomenos, pouco parece importar a Zola que os corpos +girem no azul ou na terra. + +Eu não estabeleço differença entre naturalismo e realismo, que considero +synonimos: acho que procurar a realidade é investigar a natureza, seja +nos modelos excepcionaes, em que a natureza capricha ás vezes, seja nos +modelos vulgares, em que a natureza se repete todos os dias. + +Tornando, porém, ao ponto, João Penha não admitte, nas obras do espirito +humano, senão dois effeitos: o de instruir e o de commover. + +A formula de Zola, procedendo da analyse, caminhando na orientação da +medicina experimental de Claudio Bernard, constitue uma obra de +sciencia, que pretende guiar o espirito na investigação da verdade. + +Não sensibilisa, não evola a alma até á região do sonho; pelo contrario, +prende-a á terra, á realidade, como uma algema, um Prometheu. + +Portanto está fóra da esphera da arte, que é fundamentalmente suggestiva +e emotiva. + +Por isso Alexandre Dumas será eternamente lido, ao passo que os editores +franceses se téem visto na necessidade de ir alijando as edições dos +copistas da realidade por meio de uma tombola, a franco a entrada. + +A profissão de fé litteraria de João Penha, exposta no prefacio da +_Tristia_, não abrange a moderna escola poetica, chamada, entre nós, dos +_nephelibatas_. + +Mas a sua opinião sobre esta escola poderia deduzir-se do ardor com que +defende as tradições do idealismo romantico, se eu ainda ha poucos dias +não ouvisse, nitida e firmemente explanado, o parecer de João Penha +sobre a obra recente dos novissimos: + +--Não transijo com essa escola, disse-me elle. Não admitto poesia sem +rythmo, como não admitto musica sem compasso. O verso sem cesura e sem +medida, é prosa. + +E dizia-m'o com aquella rispida firmeza de convicção com que Theophilo +Gautier escrevera: «Vouloir séparer le vers de la poésie, c'est une +folie moderne qui ne tend à rien de moins que l'anéantissement de l'art +lui-même». + +Quando eu estava ouvindo as palavras de João Penha, lembrava-me da +phrase de Junqueiro nos _Simples_: «A fórma poetica encaminha-se á +solução final. Horisonte immenso.» + +Horisonte immenso, sim, porque já não ha medida para o verso, que vai +até onde quer ir. De outro modo não percebo a phrase de Junqueiro. Os +limites da metrificação portugueza estão definidos e marcados, não há +por onde variar, sem quebra da arte e do genio da lingua. Castilho +introduziu na fórma poetica a novidade dos exdruxulos italianos, e +combateu a peito descoberto pela nacionalisação dos alexandrinos +francezes. Thomaz Ribeiro, no _D. Jayme_ e na _Delphina_, percorreu +todos os metros admissiveis na versificação portugueza, empregando o +de treze syllabas, que já era demasiadamente violento para o rythmo +organico da lingua portugueza. E, feito isto, elle proprio reconheceu +que, por amor da variedade, se poderia tentar ainda a medição latina e +resuscitar a toante castelhana,[8] Mas os poetas que vieram +depois, rapazes cheios de talento e conhecedores da arte, porque todos +elles a respeitaram até certo tempo, acharam que não valia a pena +experimentar a metrica latina e restaurar a toante dos seiscentistas +(que a meu vêr não era menos monotona que o _refrain_ dos nephelibatas): +nada d'isto fizeram, preferiram escrever versos de longo curso, com +quinze e mais syllabas, intercalaram rubricas em prosa no estiramento +kilometrico do verso, e para que o alexandrino perdesse a harmonia que +provinha da fusão de dois versos de seis syllabas, fizeram-n'o +tripartido, privando-o da cadencia que deleitava o ouvido. + +Percebe-se que João Penha, que já em Coimbra dizia a um renegado do +romantismo + + Prosa e verso têm balizas, + +exija ainda hoje uma coisa, que parece ser fundamental e logica: que os +poeta escrevam em verso e os prosadores escrevam em prosa. Quanto á +pureza da lingua, João Penha não se mostra menos intransigente. Ainda o +anno passado lembrava elle ao snr. Anthero de Figueiredo o conhecido +conselho de mestre Boileau: + + Sans la langue... l'auteur le plus divin + Est toujours, quoi qu'il fasse, un méchant écrivain. + +Assim, pois, não lhe regalarão decerto o ouvido puritano as innovações +barbaras de quasi todos os poetas modernos, alguns de incontestavel +valor, á parte os vicios de escola, como por exemplo o snr. Julio +Brandão, quando diz: + + E citharas balança um côro vago de _pucellas_. + Rostos morenos, _brunos_, pallidos, divinos. + +Espero apreciar em breve, individualmente, a cohorte revolucionaria dos +modernos poetas portugueses. Ver-se-ha então que admiro a concepção +genial de uns, e que faço justiça a todos. + +Mas encontro-me com João Penha no que reputo a disciplina indispensavel +da arte e da lingua, comquanto bastasse talvez dizer--da arte. E estou +em opposição a Guerra Junqueiro quando affirma que a modernissima +evolução poetica rasga horisontes inéditos, «sobretudo no ponto de vista +da fórma e da expressão.»[9] + +P. de Varzim--Novembro de 1893. + + +FIM + + + +Preço 250 reis + +A collecção de monografias que hoje encetamos patrioticamente, não +obstante a apathia do mercado litterario, abrangerá, do modo mais +completo possivel, a larga e gloriosa lista de _todos_ os poetas +modernos do Minho. + +O auctor dedica os seus dois primeiros estudos a JOÃO PENHA e ALMEIDA +BRAGA, que nasceram na capital da provincia, mas traçará, seguidamente, +o perfil de outros poetas brilhantes, nascidos em Guimarães, Vianna do +Castello, Barcellos, Ponte do Lima, etc. + + + + [1] Palavras suas em annotação ao volume dos _Simples_. + + [2] «D'uma visão mais intima e profunda do universo germinaram em + mim novas emoções, e portanto _uma nova arte_. O poeta renasceu e + cresceu. Fecundo renascimento psicologico, e não apenas uma + evoluçãosinha toda litteraria, meramente verbal e de superficie.» + + [3] «Emquanto á technica do poema, muitissimo havia que dizer, se + esta nota não fosse escripta rapidamente, com o impressor á espera.» + + --Notas aos Simples. + + [4] _Morte de D. João._ + + [5] _A Velhice do Padre Eterno._ + + [6] A plastica d'esta quadra foi alterada na sua transplantação da + _Folha_ para as _Rimas_. + + Déra um quartilho do meu sangue azul + (Oh meus avós, estremecei na campa!) + Por dar-te um beijo no chapim taful, + Que esconde um pé, de se gravar na estampa. + + Tal era, na _Folha_, a primitiva feitura. A originalidade do + pensamento nada perdeu, e o systema metrico decimal foi respeitado. + Dizer-se que os bachareis em direito são os primeiros a desacatar a + lei! + + [7] Expostas no prefacio á _Tristia_ de Anthero de Figueiredo. + + [8] _Vesperas_; pag. 219. + + [9] Prefacio ao _Livro de Aglaïs_. + + + + + + +End of Project Gutenberg's Poetas do Minho I - João Penha, by Alberto Pimentel + +*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK POETAS DO MINHO I - JOÃO PENHA *** + +***** This file should be named 32387-8.txt or 32387-8.zip ***** +This and all associated files of various formats will be found in: + http://www.gutenberg.org/3/2/3/8/32387/ + +Produced by Pedro Saborano (produzido a partir de imagens +de material em domínio público, disponibilizadas pelos +Serviços de Documentação da Universidade do Minho) + + +Updated editions will replace the previous one--the old editions +will be renamed. + +Creating the works from public domain print editions means that no +one owns a United States copyright in these works, so the Foundation +(and you!) can copy and distribute it in the United States without +permission and without paying copyright royalties. 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