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authorRoger Frank <rfrank@pglaf.org>2025-10-14 19:57:31 -0700
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+Project Gutenberg's O Primeiro de Maio, by Sebastião de Magalhães Lima
+
+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.org
+
+
+Title: O Primeiro de Maio
+
+Author: Sebastião de Magalhães Lima
+
+Release Date: May 15, 2010 [EBook #32379]
+
+Language: Portuguese
+
+Character set encoding: ISO-8859-1
+
+*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK O PRIMEIRO DE MAIO ***
+
+
+
+
+Produced by Pedro Saborano (produced from scanned images
+of public domain material from BibRia)
+
+
+
+
+
+
+MAGALHÃES LIMA
+
+
+O 1.º de Maio
+
+
+ _Marchez, l'humanité ne vit pas d'une idée,_
+ _Elle en allume une autre á l'eternel flambeau_
+
+
+CASA BERTRAND--JOSÉ BASTOS
+
+CHIADO
+
+LISBOA
+
+
+
+
+O PRIMEIRO DE MAIO
+
+
+
+
+ O PRIMEIRO DE MAIO
+
+ POR
+
+ S. DE MAGALHÃES LIMA
+
+
+
+ _Marchez, l'humanité ne vit pas d'une idée,_
+ _Elle en allume une autre á l'eternel flambeau_
+
+
+
+ LISBOA
+ TYP. DA COMPANHIA NACIONAL EDITORA
+ 1894
+
+
+
+
+Á MEMORIA
+DO
+MEU QUERIDO MESTRE
+E
+SAUDOSISSIMO AMIGO
+BENOIT MALON
+
+_Lisboa, 2 de dezembro de 1893._
+
+ _Magalhães Lima._
+
+
+
+
+_SOLEMNIA VERBA..._
+
+
+Recordo-me perfeitamente. Era uma manhã de agosto. Na vespera, Cipriani
+havia me dito: «amanhã, ás 11 horas, na _gare de S. Lazare_!»
+
+Fomos ambos pontuaes. Tomámos os nossos bilhetes, e seguimos no trem de
+Asnières. Era ali, na rua de Colombes, que vivia, ou que agonisava, para
+melhor dizer, Benoit Malon. Subimos a longa escadaria que conduzia a um
+terceiro andar. O mestre dormia tranquillamente. Mas, presentindo-nos,
+afastou docemente o lenço branco que lhe encobria o rosto, e
+estendeu-nos a mão com carinho e alvoroço, abraçando-nos e beijando-nos,
+ao mesmo tempo.
+
+A sua physionomia, abatida e amarellecida pelo uso da morphina, tinha o
+aspecto doentio, morbido, de quem, havia muito, não dormira ou se achara
+dominado por terriveis convulsões. O quarto era pequeno, illuminado por
+uma janella que deitava para a rua. Sobre o leito em desalinho, alguns
+jornaes, dobrados uns, abertos outros--_Le Rappel_, _La Petite
+Republique Française_, _La Justice_... A atmosphera estava impregnada
+d'aquelle cheiro caracteristico das longas enfermidades dolorosas. A um
+lado do leito uma mesa, completamente coalhada de garrafas e frascos,
+uma pequena pharmacia, para assim o dizer; e a outro lado a figura
+luminosa, transparente e doce de Mademoiselle Estelle Husson, a
+enfermeira querida e dedicada, que teve a rara coragem e a excepcional
+perseverança de atravessar os seis longos mezes da doença, passando as
+noites em vigilia, ao lado do enfermo, sem se deitar...
+
+--É uma heroina!--disse-me Amilcare Cipriani.
+
+E era-o, com effeito.
+
+Conservo ainda hoje a sua imagem, intensamente gravada no meu espirito
+saudosissimo. Uma bata branca envolvia o seu corpo flexivel e franzino,
+e uma pallidez marmorea se desenhava na sua figura delicada de _madona_,
+de olhos azues e de longas tranças louras. Dir-se-hia uma irmã do
+doente, pelo soffrimento e pela dôr que a caracterisavam.
+
+Benoit Malon não podia fallar. Escrevia n'uma lousa que tinha sempre ao
+seu lado, e que elle mesmo limpava, de quando em quando, com uma pequena
+esponja.
+
+Fez-me muitas perguntas. Felicitou-me pela publicação do meu livro--_La
+Fédération Ibérique_, que havia dado a Geisler, para que a elle se
+referisse na _Revue Socialiste_.--Porque não publica V., em volume, as
+suas impressões, sobre o congresso operario de Zurich?--disse-me por
+fim.
+
+Prometti-lhe solemnemente que o faria.
+
+Venho hoje cumprir a minha promessa; e, á tua memoria sacratissima,
+consagro o fructo do meu labor, ó morto querido!
+
+
+
+
+O PRIMEIRO DE MAIO
+
+ O congresso confirma a resolução do congresso de Bruxellas, assim
+ concebida:
+
+ O congresso, afim de conservar ao 1.º de Maio o seu verdadeiro
+ caracter de reivindicação do dia normal de 8 horas de trabalho e de
+ affirmação de lucta de classes, resolve:
+
+ Que deve fazer-se uma manifestação unica em que tomem parte os
+ trabalhadores de todos os paizes;
+
+ Que esta manifestação se realise no dia 1.º de maio, e se suspenda o
+ trabalho, n'esse dia, em toda a parte onde seja possivel fazel-o.
+
+ Adopta tambem a emenda seguinte:
+
+ A democracia socialista de cada paiz tem o dever de empregar todos
+ os seus esforços para conseguir a suspensão do trabalho no dia 1 de
+ maio, encorajando todas as tentativas feitas, n'este sentido, pelas
+ differentes organisações locaes.
+
+ O congresso resolve mais:
+
+ A manifestação do 1.º de maio, pelo dia normal de 8 horas de
+ trabalho, deve, ao mesmo tempo, ser, nos diversos povos, a
+ affirmação da energica vontade que anima o proletariado moderno de
+ pôr um termo, por meio da revolução social, ás desegualdades de
+ classes, devendo tambem manifestar o pensamento commum ao
+ proletariado de alcançar, pelas reformas sociaes, a paz universal,
+ como uma consequencia da paz obtida dentro de cada nação.
+
+ (_Congresso de Zurich._--Resolução tomada na sessão de 11 de agosto
+ de 1893).
+
+
+A celebração do primeiro de maio, significa e representa, ao mesmo
+tempo, uma affirmação e um protesto: affirmação de direito e de justiça
+contra os privilegios e os preconceitos do mundo, e protesto da
+humanidade trabalhadora contra o despotismo e a servidão social.
+Affirmar esse direito e relembrar essa justiça é o dever dos que
+trabalham; protestar contra a iniquidade de que são victimas, é a
+obrigação dos que soffrem.
+
+Encontramos-nos em face de um velho mundo que desaba. Os reis e os
+dictadores esgotam os thesouros dos seus respectivos paizes em munições
+e armamentos, e preparam-se para o supremo combate. Por toda a parte a
+duvida e a incerteza. Alguma cousa de sombrio e de lugubre caracterisa
+este terrivel periodo, chamado de transição. De duas uma: ou a guerra
+irrompe, n'uma época mais ou menos proxima; ou a revolução rebentará,
+como a consequencia logica, inevitavel, da crise economica a que esta
+nova barbarie, denominada pomposamente exercito permanente, arrastou as
+sociedades modernas.
+
+O capitalismo explora, e a guerra mata e aniquila. O operario
+encontra-se em frente d'estes dois inimigos; e elle, que representa o
+trabalho e a producção, combate os exploradores; e elle, que significa
+paz, amor e concordia, detesta e odeia a guerra.
+
+Reivindicar para a collectividade os beneficios do trabalho e da
+paz--eis a aspiração do proletariado moderno. A essas aspirações,
+chamamos nós socialismo; e, por seu turno, a gloriosa commemoração do
+primeiro de maio, não é outra cousa senão a affirmação solemne e
+collectiva das reivindicações operarias.
+
+
+
+
+I
+
+O DESENVOLVIMENTO DAS IDEIAS SOCIALISTAS
+
+
+BENOIT MALON, LUIZ RUCHONNET, RAMÓN CHÍES, VICTOR SCHOELCHER E VICTOR
+CONSIDÉRANT.--THEODORO HERTZKA E O SEU FREILAND.--NO CONGRESSO DE
+ZURICH:--A ALLEMANHA, A BELGICA, A FRANÇA E A INGLATERRA.--A ITALTA, A
+SUISSA, A HESPANHA E PORTUGAL.--NOTAS E COMMENTARIOS.
+
+No proximo anno preterito que acaba de desapparecer, arrastando na sua
+cauda varredora todo um mundo de lagrimas e de ficções, a humanidade
+perdeu cinco dos seus melhores amigos e a revolução cinco dos seus
+apostolos mais queridos e predilectos.
+
+O _primeiro de maio_, que, antes de tudo, significa paz e solidariedade,
+presta homenagem aos mortos illustres. Façamos reviver os Mestres. O seu
+exemplo é o nosso ensinamento, e a sua memoria luminosa é a origem dos
+nossos esforços e dos nossos sacrificios. Por elles vivemos, e pela sua
+lição sacratissima nos abalançamos aos supremos heroismos e aos supremos
+martyrios. Bem hajam elles, os bons, os santos, os immortaes, os
+calumniados de todos os tempos e de todos os paizes; bem hajam os
+simples, os eternamente ingenuos: foram elles que nos ensinaram; são
+elles ainda os que, atravez dos escolhos que as paixões semeiam na
+sociedade, nos guiam e conduzem ao ideal abençoado, á terra promettida
+da liberdade e da fraternidade humana!
+
+ * * * * *
+
+
+BENOIT MALON
+
+O odio destróe e espalha a guerra. Só o amor póde construir e trazer a
+paz. Benoit Malon era a personificação do altruismo e da bondade humana.
+Era um santo e um virtuoso. Ninguem o excedeu em virtude. Ninguem o
+egualou em abnegação e desinteresse. Por isso a sua morte pôz o lucto
+nos corações e encheu de afflição todas as boas almas, candidas e
+generosas. Elle não foi só o mestre do socialismo: foi o exemplo vivo de
+quanto póde a vontade, quando levada e dirigida pelo amor e pela
+curiosidade do saber. Elle foi a encarnação da alma moderna, em
+lucta com o presente e crente no futuro, pondo o ideal acima dos
+mesquinhos interesses do mundo e as ideias e os principios acima da
+ganancia sórdida dos homens e das sociedades.
+
+ [Gravura: Benoit Malon]
+
+Ah! sim!--dizia-me, pouco tempo depois da sua morte, Aurelien Scholl, o
+scintillante chronista parisiense--elle foi um dos raros e um dos
+privilegiados d'este fim de seculo! O meu pobre amigo vinha almoçar
+commigo de quando em quando. Um dia a minha creada perguntou-me, se
+poderia aproveitar a hora do almoço, para coser o sobretudo do sr.
+Malon, e se elle repararia... Respondi-lhe que cosesse o sobretudo,
+porque o sr. Malon nem sequer daria por tal... É que elle era tão bom,
+tão bom--rematou Scholl--que até as creadas de servir o amavam!
+
+Eis aqui uma narrativa que vale bem por uma biographia! E tudo quanto
+podessemos accrescentar a estas palavras, ao mesmo tempo tão simples e
+tão pittorescas, seria superfluo e inutil. Nem mais ambicionaria, por
+certo, o chorado e saudosissimo author do _Socialismo integral_!
+
+ * * * * *
+
+
+LUIZ RUCHONNET
+
+Luiz Ruchonnet foi, por duas vezes, presidente do conselho federal da
+florescente e grandiosa republica suissa. Era um sincero amigo da paz,
+e, como todos esses _visionarios_ e _sonhadores_, que em Inglaterra se
+chamam Cobden, Hodgson Pratt, Henry Richard, Cremer, Darby, em França,
+Charles Lemmonier, Frederico Passy, Emile Arnaud, René Goblet, Edmond
+Thiaudière, A. Millerand, Camillo Pelletan, Augusto Vacquerie; na
+Italia, Bonghi, Siccardi, Mazzoleni, Theodoro Moneta; na Dinamarca,
+Frederico Bajer; na Belgica, Laveleye, Janson, Cesar de Paepe, La
+Fontaine; na Allemanha, Franz Wirth, Baumbach, Adolfo e Eugenio Richter;
+na Austria, a baroneza de Suttner e o dr. Adler; na Suissa, Angelo
+Umiltá, Carlos Menn, M.me Goegg; na America, Alfredo Love, dr.
+Trueblood, M.me Belva Lockwood--elle pertenceu a essa gloriosa raça de
+philantropos e humanitarios, que atravessam o mundo, deixando atraz de
+si um rasto de luz, e cujos nomes se perpetuam, atravez os tempos e as
+gerações, consagrados pela historia, pela sciencia e pelo trabalho.
+
+ * * * * *
+
+
+RAMÓN CHÍES
+
+Na historia do livre pensamento, Ramón Chíes occupava um dos primeiros
+logares e era uma das personalidades mais em vista. Era um
+revolucionario por temperamento e por convicção. Não queria a republica
+simplesmente pela republica. Queria a republica sim! para elevar e
+engrandecer a sua patria aos olhos de nacionaes e estrangeiros. Para
+elle a republica era uma phase transitoria; a phase organica e positiva
+estava no socialismo. Por isso foi, ao mesmo tempo, um socialista e um
+federalista. Tribuno, ninguem o excedeu em eloquencia, na defeza do
+luminoso principio da fraternidade e da solidariedade humana; publicista
+e jornalista de pulso, foi um apostolo constante, ardente, impetuoso e
+dedicado da federação iberica.
+
+ [Gravura: Ramón Chies]
+
+ * * * * *
+
+
+VICTOR SCHOELCHER
+
+Victor Schoelcher pertenceu a essa mocidade alegre e enthusiasta que
+forneceu ao author dos _Miseraveis_ o seu typo d'Enjolras, o estudante
+de todas as sociedades secretas e de todas as conspirações. Franco-mação
+e conspirador, filiou-se na loja franceza dos _Amis de la verité_ e na
+_Sociedade Aide-toi, le ciel t'aidera_.
+
+Estas eram, com algumas outras, as associações dos _malfeitores_
+d'aquelles tempos, no dizer picante e ironico de um distincto jornalista
+parisiense.
+
+ [Gravura: Victor Schoelcher]
+
+A grande e gloriosa figura de Schoelcher destaca-se na sua
+brilhantissima campanha contra a escravidão. Quiz vêr de perto e
+observar pelos seus proprios olhos a triste situação dos negros. E, para
+poder denunciar ao mundo a ignominia e a barbarie dos homens, partiu
+para a America, d'onde regressou, com o coração angustiado pela dôr e o
+espirito horrorisado por tudo o que havia presenceado e visto. Sendo
+sub-secretario d'Estado, no ministerio da marinha, por occasião da
+revolução de 1848, o seu primeiro cuidado foi apresentar um decreto para
+a libertação immediata dos negros.
+
+Schoelcher encontrava-se ao lado de Baudin, na celebre e já hoje
+historica barricada da Bastilha.
+
+A tropa marchava sobre a barricada, sem dar um tiro.
+
+«--Amigos! gritou Schoelcher, voltando-se para o povo, nem um tiro até
+que a tropa abra o fogo. Avancemos; se ella atirar, a primeira descarga
+será nossa; se nos matar, vós nos vingareis.»
+
+E dirigindo-se depois aos soldados:
+
+«--Nós somos os representantes do povo, exclamou. Em nome da
+constituição, reclamamos o vosso concurso, para fazer respeitar as leis
+do paiz. Vinde a nós; será vossa a gloria.»
+
+E avançou para os soldados, commandados por um official. Seis dos seus
+collegas seguiram-n'o. A tropa parou indecisa.
+
+--Cumpro as ordens, respondeu o official. Retire-se, se não quer que dê
+a voz de fogo.
+
+--Mate-nos, se quizer, replicou Schoelcher.
+
+E, dando o exemplo que foi seguido pelos companheiros, gritou: «Viva a
+Republica!»
+
+O official mandou carregar.--«Avançar!»--ordenou.
+
+Ouviu-se o ruido sêcco das baterias. Alguns representantes
+descobriram-se e quedaram-se com o chapéu na mão, esperando serenamente
+a morte. N'esse instante, um soldado atacou Schoelcher á baioneta. Os
+defensores da barricada, suppondo que se attentava contra a sua vida,
+desfecharam e mataram o soldado. A tropa respondeu por uma descarga
+geral. Foi então que Baudin subiu á barricada para exhortar os soldados.
+Uma bala feriu-o na fronte, cahindo logo fulminado.
+
+Schoelcher, n'esse dia memoravel da sua vida, esteve á altura dos
+grandes heroes; e, á semelhança dos antigos paladinos, só abandonou o
+campo, quando nada mais restava a fazer. A barricada da Bastilha fôra
+improvisada de um momento para o outro; construida no ar, para assim o
+dizer, sem elementos de resistencia, desfez-se e cahiu como um castello
+de cartas. Mas o patriotismo opera milagres. E só patriotas sinceros e
+devotados seriam capazes de semelhante audacia e de semelhante arrojo!
+
+Chamaram-lhe idealista--um puro e nobre idealista!--a elle, que todos os
+seis mezes, na camara franceza, apresentava um projecto de lei para a
+abolição da pena de morte. Para o mundo, egoista e utilitario, são
+idealistas e são sentimentalistas, todos os que lhe não acceitam as
+falsas convenções e o tôrpe e vilissimo mercantilismo. E é precisamente
+de idealistas e de sentimentalistas que carecem e precisam as sociedades
+modernas! As grandes commoções da historia foram um producto do ideal e
+do sentimento humano. Assim como é preciso pensar para obrar, na phrase
+de Augusto Comte, é tambem preciso sentir para querer. Nem d'outro modo
+se comprehende o patriotismo, nem d'outro modo se poderiam comprehender
+as revoluções e os grandes dramas sociaes.
+
+Perdida a causa em que pozéra todo o seu heroismo e todos os seus
+esforços, Schoelcher emigrou para Inglaterra, onde permaneceu durante o
+imperio, regressando a Paris em 1870. Estava no Hotel-de-Ville, a 4 de
+setembro, e tomou parte na defeza de Paris, na sua qualidade de chefe
+d'Estado-maior da guarda nacional.
+
+ * * * * *
+
+
+VICTOR CONSIDÉRANT
+
+Um dia Victor Consideram dirigia-se á Escola Polytechnica, e atravessava
+os caes de Paris, _bouquinant_, como dizem os francezes, isto é,
+entretendo-se a vêr as curiosas livrarias, de livros raros e antigos,
+que guarnecem as varandas dos caes, na margem esquerda do Sena, e que
+constituem uma das primeiras curiosidades da grande capital da França,
+quando, subito, se lhe deparou uma obra que lhe despertou a attenção e a
+curiosidade. Era o _Nouveau monde commercial_ de Fourier. Abriu-o, leu-o
+e estudou o minuciosamente.
+
+ [Gravura: Victor Considerant]
+
+No fim do livro, Fourier dizia, pouco mais ou menos, o seguinte:
+
+«Precisa-se um capitalista, para realisar um novo mundo. Carta para
+minha casa.»
+
+E designava a sua morada.
+
+Considérant apresentou-se em sua casa.--«Não sou o seu homem, disse. Não
+tenho dinheiro, mas comprehendi-o».
+
+Fourier havia encontrado o seu primeiro discipulo, que lhe levava a mais
+que os capitaes pedidos--o genio para vulgarisar as suas theorias.
+
+Fourier nutrira, desde creança, um horror invencivel pelo commercio.
+Filho de commerciante, e tendo apenas sete annos de edade, ouviu um dia
+o pae gabar-se á mãe de haver enganado um cliente. Vexado por este
+proceder que qualificou de villão, procurou o freguez, afim de
+participar-lhe o occorrido. Valeu-lhe a indiscrição um bom par de
+bofetadas; mas, desde esse momento, votou ao commercio esse odio que
+transparece nos seus primeiros livros.
+
+«Possuo o segredo da felicidade, para todos os
+homens--dizia».--Intimaram-n'o a provar praticamente a sua
+asserção.--«Escrevel-o-hei--respondeu».
+
+«O genero sahe das mãos do productor, custando 3, por exemplo, e chega
+ás mãos do consumidor valendo 9. O intermediario, isto é o commerciante,
+ganhou, portanto, 6, na sua commissão, o que não succederia
+evidentemente, supprimindo-se o intermediario, e estabelecendo-se, pura
+e simplesmente, a troca entre productores e consumidores.
+
+O seu systema baseava-se sobre o principio da felicidade humana, e o
+ideal do mosteiro de Théléme não foi estranho ás suas concepções. «A
+felicidade consiste em cada um fazer o que quizer.» Mas, fazendo cada um
+aquillo que quer, corre tambem o risco de fazer o que os outros não
+querem. A esta objecção respondia elle que na natureza tudo se
+equilibra--o mal e o bem.
+
+Fourier era um poeta, mas tinha-se por homem pratico. Uma occasião,
+terminando uma conferencia sobre o futuro da humanidade: «E agora,
+concluiu, preparemos o cosido.»
+
+Ninguem contesta o grande alcance philosophico, da theoria
+phalansteriana; mas a sua parte organica e sociologica, observou muito
+bem Anthero de Quental, é quasi a negação do verdadeiro socialismo,
+positivo, liberal e moral.
+
+Victor Considérant pretendeu primeiro fundar um phalansterio em
+Conde-sur-Végre que não passou de uma tentativa infructuosa. A ideia,
+porêm, fructificou mais tarde, embora de modo differente, por occasião
+da fundação de uma colonia de velhos, n'aquelle mesmo paiz, que se
+denominou--«o phalansterio.»
+
+Em Texas estabeleceu Considérant, não um phalansterio, mas uma colonia
+agricola. Uma sedição, organisada por Cantagrel, desapossou-o do
+territorio e obrigou-o a retirar-se com sua esposa. A colonia prosperou
+a principio; depois desaggregou-se. Era mal vista pelos naturaes por
+causa da sua falta de religião--diziam.
+
+Um pintor de Paris, Capy, ensinava a musica. «Todos os domingos,
+respondia elle a um inspector americano, fazemos musica.» Ah! n'esse
+caso, é differente, exclamaram os bons Yankees, sempre ali ha um pouco
+de religião, uma vez que se canta.»
+
+E a verdade é que as censuras cessaram. Os membros da colonia, tambem,
+por seu turno, deixaram de ser phalansterianos.
+
+É mister ir a Iowa, para encontrar uma colonia communista--a Icaria.
+Tudo ali é commum, sem mesmo exceptuar as mulheres. Podem-se estabelecer
+uniões temporarias, mas de curta duração; se as uniões se prolongam, a
+authoridade intervêm, porque, nesse caso, affirmam os estatutos, a cousa
+torna-se immoral.
+
+Vejamos, porêm, como Victor Considérant considerava a _organisação da
+nova ordem social_.
+
+O primeiro feudalismo que sahiu da conquista militar, havia feito
+concessão do sólo aos chefes militares e aos nobres, subordinando as
+populações conquistadas á _pessoa_ dos conquistadores pela servidão da
+gleba.
+
+A guerra industrial e commercial, succedendo é guerra militar, sob a
+fórma de concorrencia, em que o capital e a especulação ficam
+forçosamente senhores do trabalho pobre, tende a constituir, pelas suas
+conquistas, uma nova servidão--não a _servidão pessoal e directa_, mas a
+_servidão indirecta e collectiva_, o dominio, em massa, da classe dos
+possuidores de capitaes, das machinas e dos instrumentos de trabalho,
+sobre a classe dos desherdados.
+
+E, com effeito, os proletarios das cidades e dos campos, considerados
+_collectivamente_, estão sob a dependencia absoluta d'aquelles que
+monopolisam os instrumentos de trabalho.
+
+Este grande facto economico e politico póde traduzir-se, pela seguinte
+formula, na vida pratica: «_Para ter que comer todo o proletario é
+obrigado a subjeitar-se a um patrão._»
+
+A revolução não se completou, pela simples emancipação politica, isto é
+pelo dogma metaphysico da egualdade perante a lei, ou da liberdade pura
+e simples.
+
+A antiga sociedade havia sido organisada, _pela guerra e para a guerra_.
+A nova sociedade terá de ser organisada pelo trabalho e pela paz e para
+o trabalho e para a paz.
+
+O problema dos nossos dias não póde pois, visar senão á libertação dos
+servos da industria, dando a todo o homem que queira trabalhar o direito
+aos instrumentos do trabalho, tornando-o assim proprietario dos fructos
+do seu labor, e creando a ordem, a cooperação e a convergencia no campo
+industrial.
+
+A solução d'este problema, que não é outra cousa senão a transformação
+do _salariado_, a moderna fórma de escravidão, constitue o complemento
+da revolução, e póde e deve intitular-se o _problema social_.
+
+Tal era, em rapidos traços, a doutrina d'essa altissima personalidade e
+d'esse bello caracter que se chamou Victor Considérant, e que tantas
+vezes vimos atravessar o boulevard S.t Michel, no bairro latino,
+consagrado pela mocidade das escolas e venerado por todos os que, acima
+dos materialismos do mundo, põem o supremo ideal da bondade e da
+felicidade humana.
+
+ * * * * *
+
+
+THEODORO HERTZKA E O SEU FREILAND
+
+_Freiland!_ (terra livre, paiz livre)--tal é o titulo do livro de
+Theodoro Hertzka, um austriaco e um sociologo eminente.
+
+ [Gravura: Theodoro Hertzka]
+
+Pelos meados de julho de 18...--assim principia a narrativa de
+Hertzka--lia-se o seguinte nos principaes jornaes da Europa e da America:
+
+ «_Sociedade livre internacional_
+
+ «Acaba de constituir-se um grupo de individuos de todas as partes do
+ mundo civilisado, com o fim de emprehender e tentar a resolução do
+ problema social.
+
+ «Ao cabo de muitas e pacientes investigações, opinou-se pela creação
+ de uma communidade, estabelecida sobre as bases, ao mesmo tempo, da
+ liberdade mais ampla e da justiça economica, a qual, mantendo de uma
+ maneira absoluta a independencia pessoal de cada trabalhador, lhe
+ assegure o gôso completo e integral do producto do seu trabalho.
+ Para fundar a mencionada communidade, occupar-se-ha uma vasta
+ região, n'um local que não tenha possuidor, mas que seja fertil e
+ proprio para a colonisação.
+
+ «N'esta região, a sociedade livre não reconhecerá nenhum direito de
+ propriedade sobre o sólo, quer a favor de um individuo quer a favor
+ da communidade.
+
+ «Para cultivar o sólo, como, de resto, para realisar toda a especie
+ de producção, constituir-se-hão associações, sendo cada uma
+ administrada como melhor o entender, e distribuindo, entre os seus
+ membros, o resultado da producção, consoante o trabalho de cada um.
+ É facultativo a cada membro o filiar-se na associação que escolher e
+ de a abandonar tambem a seu bel-prazer. A communidade encarrega-se
+ de fornecer gratuitamente os capitaes aos productores, com a
+ condição d'estes os restituirem. Os individuos incapazes de
+ trabalhar, assim como as mulheres, teem direito aos meios de
+ subsistencia, á custa da sociedade. A receita indispensavel para a
+ acquisição dos objectos, acima mencionados, assim como para as
+ despezas de interesse geral, será assegurada por uma quota tirada do
+ rendimento bruto de cada producção. A sociedade livre internacional
+ possue já o numero de membros e de capitaes sufficientes para a
+ realisação do seu plano. Sendo, porém, de opinião, por um lado, que
+ o resultado d'esta tentativa ha de ser tanto mais seguro e efficaz,
+ quanto maiores e mais importantes forem os meios de que disposer, e
+ desejando, por outro lado, offerecer a todos o ensejo de poderem
+ participar da empreza, a sociedade, pelo presente aviso, faz saber
+ ao publico que os pedidos e offertas de qualquer natureza que sejam,
+ devem ser dirigidos para Haya, Bochstraat, 57.
+
+ «A sociedade livre internacional celebrará em Haya, no dia 20 do
+ proximo mez de outubro, uma assembléa politica em que serão
+ apreciadas as ultimas resoluções, afim de realisar praticamente a
+ sua obra.
+
+ Haya,... de julho, 18..
+
+ _Pelo comité da sociedade livre internacional._
+
+ _Karl Strahl_
+
+Este annuncio produziu uma profunda emoção na imprensa e no publico. O
+nome do signatario, que era conhecido não só pela sua posição social,
+senão ainda por ser um dos primeiros escriptores da Allemanha em
+sciencia economica, afastava todo e qualquer pensamento de mystificação
+ou de equivoco.
+
+Realisou-se um congresso que foi aberto pelo seguinte discurso de
+Strahl:
+
+«A convicção de que a communidade, á fundação da qual vamos proceder, é
+destinada a extinguir a pobreza e a miseria pela base e a destruir com
+ella todos os desgostos e todos os crimes que devem ser considerados
+como uma consequencia forçada da miseria e da pobreza, essa convicção,
+apercebe-se não só nas palavras, senão tambem na maneira de obrar da
+maioria dos nossos consocios e no profundo e desinteressado enthusiasmo,
+segundo o qual cada um--na medida das suas forças--se tem applicado ao
+fim commum. Quando publicámos o nosso appêlo, eramos apenas 84; os
+recursos de que podiamos dispôr orçavam por 11.400 libras sterlinas;
+presentemente a sociedade compõe-se de 5.650 membros e o seu fundo monta
+a 205.620 libras sterlinas. Convêm notar que esta somma, não nos foi
+fornecida simplesmente pelas classes pobres que habitualmente se
+consideram como as unicas interessadas no problema social. E isto
+torna-se ainda mais evidente percorrendo a lista dos socios.
+Irresistivelmente, chega-se á conclusão de que a aversão e o horror,
+inspirados pelas actuaes condições sociaes, attingiram tambem as classes
+que, á primeira vista, parecem aproveitar com as privações dos
+desherdados da fortuna. A resolução do problema social impõe-se hoje,
+por tal fórma, que até os ricos e os favorecidos da sorte não duvidam
+concorrer com alguns milhões de libras, para a fundação da nova
+communidade, auxiliando-nos e participando da nossa empreza. N'este
+facto, mais do que em qualquer outro, repousa a convicção de que a nossa
+obra não poderá deixar de fructificar.
+
+«Trata-se de escolher a região onde poderemos realisar o nosso projecto.
+Toda e qualquer localidade europeia está naturalmente posta de parte,
+por rasões faceis de comprehender; a Asia, egualmente; e, em particular,
+devemos assignalar os pontos onde sóem acclimatar-se os emigrantes de
+raça caucasica, sendo facil que se estabelecessem conflictos com as
+organisações juridicas e sociaes de outros tempos. Na America e na
+Australia, os governos conceder-nos-hiam, com prazer, um territorio
+espaçoso, bem como a liberdade dos nossos movimentos; mas ainda ahi
+difficilmente poderia a nossa communidade encontrar garantia contra os
+ataques hostis e assegurar o repouso e a segurança, indispensaveis a um
+successo rapido e certo. Resta-nos a Africa, o continente mais antigo,
+e, sem embargo, aquelle cuja descoberta foi a mais recente. A parte
+central interior encontra-se ainda sem possuidor. Podemos encontrar ali,
+não só um espaço sem limite e um repouso assegurado, senão tambem as
+condições mais favoraveis, quanto ao clima e á fertilidade do sólo,
+desde que a escolha seja acertada. Ha paizes, a uma grande altitude,
+reunindo as vantagens dos tropicos e dos Alpes, que aguardam uma
+immigração. As communicações com esses paizes montanhosos, situados no
+coração do continente negro, são certamente muito penosas, mas é
+precisamente isso de que havemos mister para principiar. Propômos pois,
+que se procure a nova patria, no interior da Africa equatorial. E
+pensamos, principalmente, no paiz das altas montanhas do Kenia. Concorda
+a assembléa com a escolha?»
+
+Foi unanime o assentimento. Ouviram-se vozes que exclamavam:
+
+«Para deante, e antes hoje do que amanhã!»
+
+Era evidente que a maioria estava disposta a pôr-se a caminho sem mais
+delongas.
+
+De novo o presidente toma a palavra para declarar que as cousas nem
+sempre podem marchar tão depressa, como muitas vezes se deseja. A nova
+patria terá primeiro de ser escolhida e conquistada, o que representa
+uma empresa arriscada e difficil. O caminho tem que fazer-se por entre
+desertos e florestas inhospitas. Não poderemos evitar os combates com as
+tribus selvagens e hostis, e, por isso, só nos poderão convir homens
+fortes e validos, e não mulheres, creanças ou velhos. Alêm d'isso,
+teremos que apurar os milhares de immigrantes que deverão
+acompanhar-nos, atravez d'aquellas regiões, e de os organisar
+devidamente; 200 emigrantes, entre os quaes 4 naturalistas, 3 medicos, 8
+engenheiros e 4 representantes de outros ramos technicos, ricamente
+providos de armas, de machinas, de sementes, de mercadorias e de
+utensilios de viagem, formarão a vanguarda da expedição.
+
+A narração d'esta marcha até ao Kenia, constitue uma das partes mais
+interessantes do livro, devendo accrescentar-se que a descripção das
+grandiosas montanhas africanas não é obra de pura phantasia, mas é, ao
+contrario, extrahida das narrativas dos exploradores africanos que
+visitaram aquellas regiões. A expedição faz a sua primeira paragem em um
+valle delicioso, situado a 1:700 metros de altitude, ao sopé de um
+formidavel massiço do Kenia e das suas magnificas geleiras, e que se
+appellidará, por causa da sua belleza e da sua fertilidade, o valle do
+Eden. Com as provisões e os utensilios de que vão providos, podem os
+valentes porta-bandeiras da gloriosa caravana fazer os preparativos
+necessarios, para receber o principal grupo dos associados, se bem que
+só alguns mezes mais tarde, por occasião da chegada do comité director á
+base do Kenia, é que o paiz, onde refulgirá a liberdade, será baptisado
+com o nome de _Freiland_, pondo-se então, em pratica a nova organisação
+do trabalho, consoante os principios _freilandezes_.
+
+Para todos os que se interessam pelo estudo das questões sociaes, e
+ainda para todos os que pensam que as modernas sociedades,
+desorganisadas como estão e lançadas em bases falsas, devem ser
+reconstruidas, segundo um principio de justiça e de moralidade, o livro
+do escriptor allemão é de um interesse palpitante[1]. Digamos tambem que
+o author do _Freiland_ teve a rara felicidade de despertar em muitos
+espiritos, pela sua maravilhosa obra, escripta em fórma de romance, o
+desejo ardente de fundar uma sociedade em tudo semelhante áquella que
+tão brilhantemente concebeu e descreveu.
+
+Para vulgarisar e fazer a propaganda da ideia, creou e fundou a
+sociedade uma revista mensal, orgão dos associados:--«_Freiland_, organ
+der Freilandvereine».
+
+Temos á vista uma carta de Theodoro Hertzka em que nos communica a
+partida de Hamburgo da primeira expedição, por todo o mez de janeiro do
+corrente anno, dirigindo-se ao Kenia, que fica a 600 milhas da
+costa de Este, exactamente sob o Equador.
+
+E eis aqui está o motivo por que, depois de ter prestado homenagem á
+memoria dos mortos queridos, eu entendi que não devia continuar o meu
+trabalho, sem d'aqui saudar enthusiasticamente o honrado e illustre
+apostolo de uma nova organisação social, fazendo votos ardentes pelo
+completo triumpho dos seus ideaes.
+
+ * * * * *
+
+
+
+
+NO CONGRESSO DE ZURICH
+
+
+AMILCARE CIPRIANI
+
+Ao chegarmos a Zurich, na tarde de 6 de agosto de 1893--Amilcare
+Cipriani e eu--um soberbo e imponentissimo espectaculo se nos offereceu
+logo á vista, como só a Suissa seria capaz de offerecer e realisar. As
+sociedades do _Grütli_ desfilavam pelas ruas da cidade, com os seus
+estandartes e philarmonicas á frente, no meio do enthusiasmo e das
+acclamações da multidão. Estas associações constituem uma das grandes e
+uma das primeiras forças da poderosa republica. A sua origem é lendaria,
+e deriva do local, onde se reuniram os amigos de Guilherme Tell, quando
+decidiram conspirar contra Gessler.
+
+As sociedades do _Grütli_ constituiram-se e organisaram-se, a principio,
+com um caracter puramente patriotico; mas teem-se transformado, pouco a
+pouco, e hoje são, na sua maioria, socialistas.
+
+Nada mais bello e magestoso do que o desfilar d'esses 9:000
+trabalhadores, todos pittorescamente vestidos com os trajos das suas
+profissões e os distinctivos correlativos, e precedidos por 150
+bandeiras, quatro das quaes eram vermelhas.
+
+São estas as procissões da republica, e ninguem que as presenceie póde
+deixar de se descobrir reverente e solemnemente. O homem livre,
+associado e independente substituia o soldado escravo, tyrannisado e ás
+ordens de um senhor; ao principio da guerra contrapunha-se o principio
+da solidariedade humana; ao militarismo, o socialismo; ás armas e aos
+petrechos de guerra, os instrumentos do trabalho e os symbolos da paz.
+
+O cortejo havia sido organisado em honra dos congressistas. Na rua, o
+povo formava alas á passagem dos seus representantes. Calculava-se em
+mais de 40:000 o numero dos cidadãos que accorreram ao chamamento dos
+iniciadores do congresso. Nas janellas os espectadores applaudiam
+phreneticamente e lançavam flôres á passagem dos manifestantes. A
+recepção era digna e estava em tudo e por tudo á altura das ideias que
+se glorificavam. Celebrava-se a abertura do congresso operario
+socialista e não havia, com effeito, melhor meio para solemnisar a
+gloriosa data.
+
+Fallemos, porém, de Amilcare Cipriani.
+
+Tenho deante de mim o seu retrato. Na sua physionomia transparece a
+bondade do seu coração, e nos seus olhos a candura e a gentileza da sua
+alma. Guardo d'elle a recordação saudosissima de um homem que põe a sua
+dignidade e o seu brio pessoal acima dos seus interesses e das suas
+conveniencias; do apostolo que colloca as ideias e os principios acima
+das paixões humanas; do revolucionario, emfim, que ao amor da humanidade
+sacrifica a vida, a familia, o bem estar e a tranquillidade. D'elle
+poderia dizer que é um exemplo a seguir e a imitar, e d'elle afirmarei,
+sem receio de contestação, que é unico e excepcional, no meio de uma
+sociedade mercantil, gananciosa e covarde.
+
+ [Gravura: Amilcare Cipriani]
+
+Amilcare Cipriani tem hoje 47 annos de edade, dos quaes 22 foram
+passados no carcere. Honrado, valente e desinteressado, nunca hesitou,
+sempre que a causa da liberdade careceu do seu braço para a defender.
+Bateu-se, como um heróe, no Egypto; bateu-se na Grecia: bateu-se pela
+Italia, a sua patria querida e bateu-se pela França, a sua patria de
+adopção.
+
+Na parte inferior do seu retrato, e escriptas pelo seu proprio punho,
+lêem-se as seguintes phrases que synthetisam perfeitamente as suas
+aspirações e o seu credo social:
+
+«_Il proletariato, per essere libero ed emancipato, deve assingersi a
+rovisciare, colla forza, tutto l'ordine sociale existente._
+
+_Contre l'oppressione la ribellione é un diritto._»
+
+Está aqui o homem politico. Fallemos agora no homem particular, no amigo
+e no companheiro queridissimo.
+
+Soffreu sempre, com a maior resignação, todas as crueldades e todas as
+privações da existencia, sem um queixume, sem uma magoa, sem uma palavra
+de odio ou de rancor. Muitas vezes o seu almoço é um copo de agua e um
+pequeno pão de 15 centimos.
+
+Tendo amigos sinceros e dedicados, nunca pediu, para si, um real a
+nenhum d'elles. Se tem apenas 20 centimos no bolso, come com esses 20
+centimos: se não tem dinheiro não come. Estando em Londres exilado, nem
+sequer tinha um quarto onde dormir. Por noites geladas e frias, com as
+botas rotas, sem abrigo, sem dinheiro no bolso, era obrigado a andar
+horas seguidas pelas ruas da enorme cidade, para não ser preso por
+vagabundo.
+
+Quando falleceu o nosso querido e lealissimo amigo Benoit Malon, foi
+elle quem se conservou ao lado d'elle, durante quatro dias consecutivos;
+foi elle quem o vestiu e quem velou o cadaver, sem se deitar, sem sentir
+a menor fadiga, não pensando senão na amisade e no carinho que lhe
+consagrara durante a vida, e que tão bem retribuido foi pelo glorioso
+mestre. Mas no dia do enterro, apossou-se d'elle o desalento, no
+cemiterio do _Pére Lachaise_. Passavamos ao lado do tumulo do grande
+cidadão Anatole de la Forge.
+
+--«Eis aqui um que foi candidato á presidencia da republica, que se
+bateu heroicamente pela sua amada França, e que teve de recorrer ao
+suicidio para não morrer de fome!--disse.--Eis a sorte que naturalmente
+me está tambem reservada--continuou.--Mas eu, se um dia me suicidar, hei
+de escolher o muro dos federaes para o fazer, e, quando, junto d'elle,
+encontrarem o meu cadaver--que o transportem para onde muito bem
+quizerem, sem pompas nem discursos... Detesto as comedias e as
+representações theatraes deante de um cadaver.»
+
+Ah! bom e querido amigo! n'essa hora angustiosa, tu pensaste na
+ingratidão dos homens, e, em frente do camarada morto, avaliaste a
+torpeza do mundo e a inanidade das suas palavras hypocritas e
+fementidas!
+
+Os longos soffrimentos produzem, ás vezes, estes desanimos crueis. São
+momentaneos, é certo, mas são dolorosos.
+
+Sahimos do cemiterio e fomos almoçar juntos. Duas horas depois, Amilcare
+Cipriani havia recobrado animo, e fallava-me em ir bater-se na Sicilia,
+ao lado dos seus compatriotas, victimas da miseria e do despotismo.
+
+Que honradissimo caracter! e que gloriosa e brilhante personalidade!
+
+ * * * * *
+
+
+O CONGRESSO
+
+As sessões do congresso realisaram-se n'um vasto salão de concertos, um
+dos mais espaçosos da cidade, o _Tonhalle_, rodeado por uma enorme
+galeria, onde podiam accommodar-se muitas centenas de pessoas. Ao fundo,
+n'uma especie de palco, coberto de verdura e ornado com os estandartes
+das associações, destacava-se um magnifico retrato em busto de Karl
+Marx. Em redor e collada á galeria, a inscripção do chefe, impressa em
+grandes caracteres, e traduzida em vinte e duas linguas: «_Proletarios
+de todo o mundo, uni-vos!_»
+
+Grandes mesas, collocadas parallelamente umas ás outras, enchiam o
+vastissimo salão, sendo cada uma d'ellas occupada pelos representantes
+de uma dada nacionalidade.
+
+A representação da Allemanha não augmentara. Era quasi a mesma do
+congresso de Bruxellas. Á frente d'ella encontravam-se Liebknecht, Bebel
+e Singer. A novidade foi a representação dos novos, hostis ao velho
+grupo; e d'entre esses, chamados os independentes, devemos destacar
+Werner e Körner.
+
+Da Belgica, estavam Hector Denis, Jean Volders e Emile de Vanderwelde;
+da Hollanda, Domela Nieuwenhuis; da Hespanha, Pablo Iglesias; da
+Roumania, Mille; da Inglaterra, Max Avelling: da França, Allemane,
+Argyriadés, Jaclard, Veber, Degay, Borlioz; da Austria, Adler, Fankel.
+
+Augmentára consideravelmente a representação da Italia.
+
+Além de Madame Anna Koulischoff e Turati, um sociologo eminente e
+director da _Critica social_, de Milão, assistiam ao congresso Antonio
+Labriola, lente cathedratico da Universidade de Roma; Prampolini,
+deputado, etc.
+
+Entre as senhoras que tomaram assento na assembléa, notavam-se, como
+acima deixamos dito, Anna Koulischoff, russa, antiga nihilista, que fez
+o seu curso na Universidade de Milão, onde hoje exerce a clinica; Madame
+Mendelssohn, da Varsovia, casada com Mendelssohn, que fôra expulso de
+Paris, por nihilista; Madame Vera Sassulich, a notavel heroina que, em
+1878, desfechou o seu rewolver sobre o general Trepoff, o miseravel
+chefe de policia de S. Petersburgo, inimigo dos nihilistas e que tantas
+victimas arremessou para a Siberia. Trepoff morreu e Vera Sassulich, a
+grande libertadora, emigrou, sob um nome supposto, escapando ao furor
+das auctoridades russas, e vivendo ora na Italia, ora na Suissa. É uma
+mulher de armas, no bom sentido da palavra, honesta, intransigente e
+sincera e devotada amiga da liberdade e da humanidade.
+
+ [Gravura: Frederico Engels]
+
+O congresso foi encerrado com a grata e inesperada apparição do velho
+companheiro e continuador de Marx--Frederico Engels. Quando o presidente
+annunciou que se achava na sala um dos illustres precursores do
+socialismo, todos se pozeram de pé, e no palco surgiu, então, a figura
+gloriosa de Engels. O enthusiasmo foi indescriptivel. Uma estrondosa
+salva de palmas coroou esta agradavel surpresa. _Viva a
+Communa!_--gritou a delegação francesa. _Viva Engels!_--exclamaram todos
+numa voz unisona, formidavel e estridente.
+
+ * * * * *
+
+
+A ALLEMANHA, A BELGICA E A INGLATERRA
+
+Os paizes onde o socialismo está hoje, incontestavelmente, mais bem
+organisado e desenvolvido, são a Allemanha e a Belgica. Na França
+dividem-se e subdividem-se os grupos, chocam-se as personalidades, e os
+odios e as desintelligencias evidenceiam-se a cado passo. Na Inglaterra,
+apesar dos progressos realisados, n'estes ultimos tempos, principalmente
+pela adhesão das _Trades--Unions_, ainda o socialismo não representa o
+que póde chamar-se um partido politico.
+
+Na Allemanha, os mesmos pruridos militaristas que se observam nas altas
+regiões, reflectem-se, com maior ou menor intensidade, no partido
+socialista. Nota-se, principalmente, este facto nos congressos, onde, a
+um simples aceno do deputado Singer, todos os delegados approvam ou
+reprovam, consoante as instrucções de ante-mão estabelecidas. A mesma
+disciplina do exercito estende-se aos partidos e aos agrupamentos
+politicos. E ai! d'aquelle que se desviar destas normas: corre o risco
+de ser expulso, sem mais appêlo nem aggravo.
+
+O partido socialista está pois, organisado, na Allemanha, como um
+verdadeiro partido politico, um partido de governo, poderiamos, talvez,
+dizer, com uma caixa de resistencia, os seus jornaes, as suas
+associações e os seus milhares de filiados, em todas as cidades, em
+todas as villas e em todas as aldeias do vasto imperio. Todos, sem
+excepção, são obrigados a concorrer para as despesas do partido, e,
+n'este facto, reside a base do direito de cada um, como partidario ou
+membro da associação. Não se concebe um partido, sem os recursos
+indispensaveis, para fazer face ás eventualidades de momento e para
+combater o adversario, com vantagem. Os allemães sabem isto, e eis ahi
+está o motivo porque o numero dos partidarios do socialismo sobe de dia
+para dia na Allemanha, e por que os socialistas contam, presentemente,
+com quarenta e sete deputados no _Reichstag_, tendo augmentado, a
+representação partidaria, nas ultimas eleições.
+
+ [Gravura: Liebknecht]
+
+Liebknecht, um dos chefes consagrados pela opinião, e o director do
+_Vorwöerths_, o orgão do partido na imprensa, tem ácerca da politica a
+mesma opinião que poderia ter, em campanha, um general ácerca da guerra.
+Deante do inimigo, o dever é unir fileiras; e, todo aquelle que
+abandonar ou se arredar do seu posto, tem de ser considerado como
+desertor. E aqui está o motivo porque, no partido operario socialista
+allemão, nem se admittem os dissidentes nem os independentes. Todos por
+um e um por todos!--eis a maxima dos chefes. E n'este simples facto,
+muito digno aliás de ser imitado, por todos os partidos avançados, está
+a origem da força, do desenvolvimento e dos progressos do socialismo na
+Allemanha.
+
+Na Belgica acabam os socialistas de alcançar um enorme triumpho, pela
+conquista do suffragio universal que até aqui não possuiam. O belga é
+homem essencialmente pratico. O partido socialista, tendo reconhecido a
+necessidade de organisar as suas forças, estabeleceu as grandes
+cooperativas de consumo, principalmente de pão e de carvão, e logrou
+attrahir a si o elemento trabalhador, disciplinando-o, pelo interesse, e
+pela conveniencia, que da associação economica poderia advir á sua
+futura existencia. E as cooperativas belgas tornaram-se assim, não só
+valiosos elementos de cooperação, senão poderosas e temiveis armas de
+combate, pois que, dos lucros a destribuir, ficam sempre em caixa uns
+tantos por cento, para as despesas da propaganda. Não raro tem succedido
+fazerem as cooperativas face a uma _gréve_, distribuindo, diariamente,
+aos grevistas, alguns milhares de pães.
+
+Não póde contestar-se o enorme progresso, feito pelo socialismo em
+França que acaba de eleger quarenta e nove deputados, tendo,
+principalmente, alcançado, em Paris, um assignalado triumpho. Mas é para
+lastimar que não seja completa a união entre os differentes grupos
+que representam as ideias socialistas. A franca adhesão de René Goblet,
+A. Millerand, J. Jaurés, Camille Pelletan e outros notaveis politicos e
+publicistas, deu ao partido um grande e decisivo impulso, e creou-lhe,
+na camara, uma situação politica innegavel.
+
+A _Petite Republique Française_ é hoje, na imprensa, o orgão do novo
+grupo. O seu redactor principal--A. Millerand--é um escriptor de raça e
+um dos mais brilhantes e eloquentes oradores da camara franceza. O
+programma por elle exposto na sessão de 16 de fevereiro de 1893, foi
+adoptado por quasi todos os candidatos socialistas, nas ultimas
+eleições: «Revisão democratica da Constituição de 1875; modificação
+radical e profunda, no interesse dos trabalhadores dos campos e das
+cidades, da nossa legislação economica e do nosso systema de imposto;
+acquisição para o Estado do Banco de França, das minas e dos caminhos de
+ferro, arrancando-os das mãos da alta finança.»
+
+O primeiro acto politico de Millerand, foi a defesa dos mineiros de
+Monceau les Mines, em 1882. Desde então, nunca mais houve gréve em
+França, em que elle não tenha posto o seu talento e as suas grandes
+faculdades de orador ao serviço das victimas dos patrões gananciosos e
+usurarios. E assim o vêmos na brecha, defendendo successivamente os
+mineiros de Decazeville, os grevistas de Vierzon, e os mineiros de
+Carmaux que o haviam escolhido como arbitro.
+
+Foi elle o defensor de Duc-Quercy e Roche, em Villefranche, de Lafargue
+e Culine, perseguido por causa dos fusilamentos de Fourmies, de
+Baudin, em Bourges, e de muitos outros.
+
+ [Gravura: Millerand]
+
+Adversario implacavel da alta finança, Millerand pronunciou, contra a
+renovação do privilegio do Banco de França, um dos seus mais bellos
+discursos, «atacando essa realeza do ouro que trata de egual para egual
+com a Republica, e que, mercê da fraqueza e da cumplicidade dos regimens
+anteriores, chegou á situação em que actualmente se encontra.»
+
+E, melhor que todas as periphrases, uma citação poderá dar-nos uma ideia
+da sua eloquencia. A peroração do seu discurso, relativo ao privilegio
+do Banco de França, em que convida a burguezia a unir-se ao movimento de
+transformação universal que se opera no mundo economico, é notabilissima:
+
+
+«A massa dos trabalhadores, libertada por tres revoluções, poz-se a
+caminho; quer que o suffragio universal tenha por complemento necessario
+o bem estar universal. Pensa que ha contradicção em que um povo
+seja, ao mesmo tempo, miseravel e soberano.
+
+«A nação quer entrar na posse e no gozo de instituições, que até hoje
+teem sido exploradas, apenas em proveito de um pequeno numero de
+favorecidos. Vós não retardareis, nem a sua marcha, nem as suas
+conquistas. É mister saber fazer a tempo os sacrificios necessarios.
+
+«Responder-me-hão, talvez, os defensores do privilegio, que o
+sacrificio, que lhes pedimos poderá sahir caro ao paiz. Assim o pensam,
+estou convencido. Não ponho em duvida nem a sua sinceridade nem a sua
+boa fé. A illusão não é nova. É velha como a humanidade...
+
+«Assim como outr'ora succedeu com a nobreza, a burguezia invoca os
+serviços já prestados, e os que, por ventura, ainda poderá prestar. Não
+nego os seus serviços. É, sem duvida, bella e grande a parte que, ha cem
+annos, tem tomado no desenvolvimento do commercio e da industria e no
+aperfeiçoamento das sciencias. Se pretende invocar os seus serviços,
+como outros tantos titulos ao reconhecimento publico, está no seu papel
+e no seu direito. Mas se pensa poder abusar da sua antiga supremacia,
+para manter, na sombra e no esquecimento, a multidão dos desherdados
+que, por sua vez, pedem lhes seja reconhecido o direito que teem á luz,
+á acção, ao desenvolvimento integral da sua personalidade; a
+participação, n'uma palavra, á vida e á felicidade; n'esse caso, está
+irremediavelmente perdida. Eu quereria apenas que a sua teimosia e a sua
+obstinada resistencia não custassem muito caro ao paiz.
+
+«O progresso é cego, ingrato e brutal: os interesses particulares valem
+pouco deante d'elle. N'esta grave questão do credito, como em todas as
+outras, o que devemos fazer é aplanar-lhe o caminho, facilitando a sua
+marcha, e poupando assim ao paiz de que somos servidores algumas d'essas
+luctas violentas, d'essas convulsões dolorosas, d'essas supremas crises
+de sangue e de lagrimas, que até aqui teem assignalado cada uma das
+_étapes_, cada um dos progressos da historia e da evolução humana.»
+
+A _Petite République_, collaborada por alguns dos principaes socialistas
+francezes, entre os quaes convêm assignalar René Goblet, Jules Guesde,
+Marcel Sembat, J. Jaurés, Ed. Vaillant, Eugène Fournière, Hovelacque, E.
+Baudin, Gustave Rouanet, Dumas, Pierre Baudin, René Viviani, Clovis
+Hugues, Paul Lafargue, Camelinat, Duc-Quercy, Gérault-Richard, Madame
+Paule Mink, etc., é, por sem duvida, o grande reducto do socialismo
+parisiense, e em volta d'elle, teem os adversarios e conservadores de
+todas as côres e matizes estabelecido um verdadeiro estado de sitio,
+atacando-o, formulando accusações e inventando calumnias, que não servem
+para outra cousa senão para exaltar ainda mais a ideia, se é possivel,
+elevando e glorificando aquelles que a defendem.
+
+Tambem o socialismo agrario se tem desenvolvido, em França, de uma
+maneira espantosa. Acaba de o provar o ultimo congresso dos socialistas
+agrarios, realisado em Auxerre, em que tomaram parte quasi todos os
+deputados do partido operario socialista. A maior parte dos
+congressistas estavam de blusa de trabalho e de tamancos, com as
+mãos calejadas da enxada.
+
+ [Gravura: Thivrier]
+
+Os socialistas agrarios francezes possuem hoje mais de 150 secções,
+organisadas no Este e no Norte. O deputado Thivrier representa na camara
+o elemento socialista da população rural do Allier.
+
+Thivrier assiste de blusa azul ás sessões parlamentares. Fóra do
+parlamento tambem a não despe nunca. Conheci-o no _Coq d'Or_ da rua
+Montmartre. Apresentou-m'o Cipriani. O _Coq d'Or_ é o _rendez-vous_ de
+todos os socialistas militantes. Pelas 6 horas da tarde, são certos,
+n'aquella cervejaria, Eugene Fournière, Gustave Rouanet, Gérault
+Richard, Camélinat, Baudin, Degay e muitos outros.
+
+Thivrier é dotado de caracter energico; homem de poucas palavras, mas
+firme e resoluto; e isso explica a attitude por elle tomada na camara
+franceza, por occasião da sua expulsão.
+
+O camponez é, em geral, refractario á propaganda socialista. Os
+socialistas da cidade variam inteiramente de processo, quando se trata
+da população rural. A propaganda, em vez de ser humanitaria,
+transforma-se em socialismo pessoal, baseado no communismo
+liberatorio--a união dos pequenos proprietarios e caseiros communaes, em
+opposição aos syndicatos patronaes e aos grandes agricultores.
+
+ [Gravura: John Burns]
+
+O congresso de Auxerre elaborou já o programma das reivindicações dos
+socialistas agrarios.
+
+Na Gran-Bretanha e Irlanda, o movimento socialista tem feito grandes
+progressos. Pela primeira vez, foram nomeados para assistir a um
+congresso, em Zurich, os membros do parlamento, como delegados de
+organisações operarias.
+
+Coube a John Burns, o heroe de 1887, e o eloquentissimo deputado de
+hoje, essa suprema honra e essa suprema gloria.
+
+Os trabalhadores agricolas começam tambem a despertar n'aquelle paiz, e
+o partido operario acaba de se constituir, como partido independente,
+sem ligações com os antigos partidos, o que demonstra evidentemente que
+o movimento socialista tem ali augmentado em poder e extensão.
+
+ * * * * *
+
+
+A ITALIA, A SUISSA, A HESPANHA E PORTUGAL
+
+O partido socialista italiano divide-se em duas grandes escolas: a
+escola evolucionista e a escola revolucionaria. A primeira tem recrutado
+os seus numerosos adherentes na alta Italia e na Italia central, ao
+passo que a segunda tem recrutado especialmente os seus adherentes na
+Italia meridional.
+
+Mas, áparte a questão de methodo, as duas escolas caminham
+conjunctamente, tornando-se muitas vezes difficil delimitar os dois campos.
+
+Os evolucionistas consideram a revolução como uma fórma violenta da
+evolução, e pensam que, sem haver necessidade de a provocar, a revolução
+ha de produzir-se violentamente no dia em que todos os trabalhadores
+tiverem adherido ao socialismo.
+
+Os revolucionarios, admittindo as grandes vantagens que resultam de um
+paciente e demorado trabalho de preparação, sustentam que o operario
+italiano é já bastante socialista, para que seja necessario ainda
+esperar. Segundo a opinião d'estes ultimos, uma longa espera poderia
+levar os trabalhadores a duvidarem do triumpho da sua causa.
+
+Á organisação dos _fasci dei lavoratori_ se deve o enorme
+desenvolvimento que ultimamente tem adquirido o movimento socialista na
+Italia.
+
+Os _fasci_ (fachos) são associações operarias, tendo por base a
+cooperação e por fim o triumpho do collectivismo, segundo as theorias de
+Karl Marx. As mulheres tambem são admittidas.
+
+O primeiro _fascio_ foi fundado em Catanea, ao sopé de Etna, no dia 1.º
+de maio de 1890. Em menos de quatro annos, fundaram-se na Sicilia mais
+160 _fasci_. O numero de adherentes subia, ainda ha poucos mezes, a
+300:000, na sua maioria agricultores.
+
+O sr. Giolliti, então presidente de conselho, principiou a preoccupar-se
+seriamente com o movimento socialista dos _fasci_, e, num intuito de
+repressão, mandou á Sicilia o commandante Sensales, senador, com o fim
+de dissolver aquellas associações.
+
+Sensales estudou, inquiriu, investigou, e nada encontrou que podesse
+servir de pretexto a uma dissolução; o que não impediu o ministro de
+encher a Sicilia de soldados, obrigando as auctoridades a uma repressão
+rigorosa e até sangrenta, se tanto fosse necessario. O massacre de
+Giardinello foi o resultado d'estas ordens.
+
+Mas as medidas de rigor, empregadas pelos emissarios do governo, não
+serviram senão para augmentar a popularidade dos _fasci_, já então muito
+grande, chamando para elles as attenções de toda a Italia. Os seus
+fundadores aproveitaram as circumstancias, para crear novas secções e
+recrutar alguns milhares de novos adherentes, de modo que o numero dos
+associados dos _fasci_, pode hoje bem avaliar-se em 400:000. Em pouco
+tempo será de meio milhão.
+
+Os _fasci_ passaram da Sicilia para o continente, onde a sua organisação
+avança rapidamente, e em especial na Calabria, nos Abruzzos, na
+Ponille e na Romagna. Em Roma e Napoles, tambem foram fundadas muitas
+secções dos _fasci_.
+
+A propaganda pelo facto é repellida pelos socialistas italianos, que
+nada esperam da dynamite. O partido socialista italiano não é
+terrorista, mas _pacificamente revolucionario_, na phrase consagrada.
+
+Semelhantemente ao que succede na Irlanda, o socialismo agrario, tem
+tomado, na Italia, um incremento espantoso, n'estes ultimos tempos. Os
+governos são impotentes para o debellar. Não basta só mandar fusilar o
+povo faminto que se revolta nas ruas e nas praças publicas, como succede
+na Sicilia. Emquanto as causas do mal subsistirem, os effeitos hão de
+continuar a dar-se, fatal e irremediavelmente. O que importa pois, na
+Italia, é conjurar a crise economica e financeira que a levaram á ruina,
+e d'isso não serão capazes os governos monarchicos. Por isso o partido
+socialista, que já hoje constitue um partido forte e invencivel, ha de
+ir augmentando de dia para dia, até ao momento do seu triumpho. As
+adhesões a estas idéas emancipadoras, chegam a cada passo e de todos os
+pontos do paiz. O grande escriptor Edmundo de Amicis converteu-se ao
+socialismo, e é hoje uma das suas figuras mais salientes. Collajani, o
+celebre deputado que levantou no parlamento a questão dos bancos, é
+tambem socialista. Collajani é o temivel adversario de Lombroso. Combate
+o atavismo, e sustenta, com os positivistas modernos, que o individuo
+não é senão um producto do seu meio. Giuseppe Felice, o deputado
+siciliano, que foi preso por occasião dos acontecimentos da Sicilia,
+é uma das mais nobres e sympathicas personalidades do movimento agrario,
+e é muito considerado entre os seus concidadãos. O mesmo com Claudio
+Treves, um moço de raro e excepcional talento, e tantos outros que seria
+longo enumerar aqui.
+
+Para mostrar quanto o socialismo agrario tem uma rasão de ser na Italia,
+basta que façamos um pequeno estudo sobre os impostos n'aquelle paiz.
+
+«Vejamos o que paga uma familia operaria na Romagna. O chefe da familia
+ganhou, durante o anno, 586 liras e 72 centimos. Comprou 7 hectolitros
+de trigo. Mas esse cereal paga o direito de 5 francos por kilo. Segue-se
+pois, que de imposto para o Estado e para lucro dos que vivem á sombra
+da protecção aduaneira, o operario foi logo espoliado em perto de 26
+francos.
+
+«Comprou tambem 7 hectolitros de milho, e sobre essa compra teve de
+pagar 6 francos de imposto.
+
+«Pelo vinho nada pagou, porque apenas bebeu agua. Compra, por semana, um
+litro de sal para sua casa. Com esse consumo lucrou o governo, no fim do
+anno, 15 francos e 60 centimos. Pela sua illuminação, gasta, cada
+semana, em sua casa, 20 centimos com petroleo. No fim do anno somma esta
+despesa 10 francos e 40 centimos. Só á sua parte, embolsa o governo 7
+francos e 10 centimos.
+
+«Vivendo mais que modestamente, a familia, em todo o anno, gastou em
+fato 15 francos e 25 centimos. Em impostos, exigem-lhe cêrca de 3
+francos. De modo que só n'estas verbas, o contribuinte concorreu para o
+Estado com 10 por cento do seu ganho.
+
+«Junte-se a tudo isto os impostos directos, os impostos supplementares
+de consumo e outros que ha em muitas communas da Italia, e ver-se-ha a
+rasão que assiste ao desgraçado que, trabalhando mais do que póde, deixa
+nas garras do fisco quasi todo o resultado do seu labor.
+
+ [Gravura: De Felice]
+
+«A miseria é tanta e tamanha, que, nas pequenas communas da Sicilia, o
+povo apenas póde comer pão ordinarissimo, fabricado com farelos. E, nas
+ricas e uberrimas planicies da Lombardia, as classes trabalhadoras
+tambem não teem para se alimentar mais que a _polenta_, uma especie de
+massa de farinha de milho, havendo muitos que, por extrema pobresa, nem
+sequer podem temperar com sal essa miseravel comida.»
+
+Ora foi precisamente contra este triste estado de cousas, que o
+sympathico e honrado deputado siciliano de Felice levantou o grito de
+revolta que logo se repercutiu em todo o paiz, com a rapidez de um
+relampago.
+
+De Felice Jiuffrida nasceu em Catanea, no anno de 1860.
+
+Socialista convicto, havia-se assignalado na imprensa, pelos seus rudes
+ataques contra a monarchia, o que lhe valeu varias condemnações. Em
+1887, durante a epidemia cholerica, que dizimava o sul da Italia,
+deu provas de grande dedicação e de altissimo valor. O governo quiz
+distinguil-o com a medalha de ouro; mas elle recusou a distincção,
+dizendo, «que da monarchia só acceitava a perseguição.»
+
+Algum tempo depois, tendo sido condemnado a dois annos de prisão, por
+abuso de liberdade de imprensa, refugiou-se em Malta, d'onde regressou,
+em 1892, eleito, ao mesmo tempo, por Catanea e por Palermo.
+
+Foi, em virtude da parte activa e intelligentissima que tomou na
+organisação dos _Fasci_, especialmente na Calabria e na Romagna, que o
+governo ordenou a sua prisão.
+
+Foram dissolvidos os _Fasci_, sob protexto de attentarem contra as
+instituições; mas não morreram as idéas e os principios por elles
+representados. Ao contrario, avigoraram-se na lucta. De Felice foi o
+glorioso interprete da opinião popular. A consciencia publica estava com
+elle e applaudiu-o. Isto basta, para que seja immorredoura a sua obra e
+seja glorificado o seu nome, que é o nome de um bravo e o nome de um heróe!
+
+No congresso operario de Bruxellas, em 1891, nem a Italia nem a Suissa
+poderam apresentar relatorio: tão escassas eram as forças socialistas
+n'aquelles dois paizes. Em dois annos os progressos realisados por elles
+são superiores a toda a expectativa e de molde a surprehender todos os
+espiritos.
+
+Na Suissa todas as organisações profissionaes se constituiram em
+federação. A _federação dos syndicatos profissionaes_ tem progredido
+de dia para dia, possuindo uma receita de 28.000 francos, dos quaes
+15.800 são reservados a soccorros, em casos de _gréve_. É de cêrca de
+15.000 o numero de associados. A _federação operaria suissa_ conta
+200.000 adherentes. A sociedade suissa do _Grütli_ comprehende 350
+secções, com 15.000 societarios, possuindo um orgão central, o _Grütli_,
+que se publica tres vezes por semana.
+
+A estas organisações, convêm ajuntar o _partido democratico socialista
+suisso_ que existe, na sua fórma actual, desde 1888, possuindo, em
+commum, com a federação dos syndicatos profissionaes um orgão
+especial--o _Arbeiterstimme_ (a _Voz do operario_).
+
+No conselho nacional suisso, não contam os socialistas senão um
+representante. Mas é certo que o movimento se alastra por todo o paiz, a
+passos de gigante. Particularmente, são para registar os progressos
+realisados pelo partido na Suissa allemã.
+
+Em Hespanha, o partido socialista contava cêrca de 30 grupos, por
+occasião do congresso internacional de Bruxellas; segundo o relatorio,
+apresentado ao congresso de Zurich, o partido conta hoje 50, dos quaes 6
+pertencem aos trabalhadores agricolas.
+
+Nas ultimas eleições geraes para deputados, obtiveram os socialistas
+7:000 votos--2:000 a mais do que os obtidos nas eleições de 1890.
+
+Na Hespanha,--e é este o principal facto a notar--o movimento
+socialista, que, não ha muito ainda, comprehendia quasi exclusivamente
+os trabalhadores manuaes, tem ganho, pouco a pouco, o professorado,
+os jornalistas e os homens de letras; e hoje, pode-se dizer afoitamente
+que o socialismo cathedratico está, no visinho paiz, á altura d'aquelles
+que, como a Belgica e a França, mais se vangloriam com o progredimento
+das novas ideias nas escolas e nas universidades.
+
+Em Portugal continuam os socialistas, n'uma propaganda activa e
+utilissima, prégando as vantagens e os beneficios do principio da
+associação de classe, reclamando dos poderes publicos leis protectoras
+do trabalho, reunindo congressos, publicando jornaes e obras de
+propaganda, e tornando-se em tudo dignos dos esforços dos seus irmãos e
+camaradas no estrangeiro. O modo firme, serio e correcto por que os
+socialistas portuguezes celebraram o primeiro de Maio, no proximo
+preterito anno de 1893, bastaria para lhes attrahir as sympathias do
+publico, se outros factos os não tivessem já recommendado ao suffragio
+popular.
+
+
+
+
+II
+
+O PROGRAMMA SOCIALISTA
+
+
+O PROGRAMMA DO PARTIDO OPERARIO.--PARTE POLITICA E PARTE
+ECONOMICA.--JULES GUESDE E PAULO LAFARGUE.--O PROGRAMMA DO PARTIDO
+SOCIALISTA EM PORTUGAL.
+
+O programma do partido operario socialista francez, que é hoje
+considerado como o programma commum a todos os partidos operarios, foi
+elaborado por Jules Guesde e Paulo Lafargue. Digamos pois, algumas
+palavras, ácerca de cada um dos dois apostolos do socialismo.
+
+
+JULES GUESDE
+
+Jules Guesde póde e deve ser considerado, em França, como o verdadeiro
+chefe do partido operario marxista. E, se tivessemos de avaliar os seus
+meritos pelo numero das condemnações já soffridas por causa do
+socialismo, o seu logar de honra seria na primeira fila e ao lado dos
+primeiros combatentes da ideia. A sua primeira condemnação, em
+Montpellier, a cinco annos de prisão, por causa de um artigo, publicado
+no jornal _Os Direitos do homem_, teve uma grande influencia na sua
+existencia politica e no desenvolvimento do seu espirito.
+
+ [Gravura: Jules Guesde]
+
+Mes Guesde refugiou-se em Italia e depois na Suissa, onde encontrou
+muitos francezes exilados, por causa dos acontecimentos da Communa.
+Bakounine e Marx estavam então em lucta. Guesde não se pronunciou, nem
+por um nem por outro, contentando-se apenas em assimilar a doutrina de
+Marx; e por tal fórma o conseguiu, que hoje os dois nomes, o do fundador
+do socialismo allemão e o do propagandista do collectivismo marxista, em
+França, são inseparaveis.
+
+Voltando a Paris, em 1876, Guesde tentou baldadamente fazer a propaganda
+da doutrina allemã. A primeira proposta collectivista, feita em 1878, no
+congresso de Lyon, foi regeitada por grande maioria.
+
+Todavia, em Paris, devia realisar-se, n'esse mesmo anno, um segundo
+congresso, por occasião da exposição universal. O governo quiz
+prohibil-o. A minoria guesdista, porém, não fez caso da prohibição;
+reuniu-se, recebeu solemnemente os delegados estrangeiros e estabeleceu
+a base do collectivismo. Guesde proseguiu nos seus trabalhos, com
+trinta e sete dos seus amigos, pronunciou um notavel discurso,
+considerado como um verdadeiro manifesto do socialismo revolucionario, e
+tornou-se, por esse facto, o chefe incontestado do partido.
+
+Tornava-se mister um programma ao socialismo francez. Guesde fôra
+encarregado, pelo congresso de Marselha, de o elaborar. Partiu para
+Londres, e redigiu-o ali sob a direcção de Marx e com a collaboração de
+Lafargue e de Engels.
+
+O congresso nacional do Havre, ao qual foi submettido, approvou-o,
+estabelecendo definitivamente a ruptura entre collectivistas e
+cooperativistas. O partido operario adoptára o principio da lucta de
+classes, da propriedade collectiva e da revolução.
+
+N'este programma havia, todavia, uma lacuna. Não se havia pensado senão
+no operario das cidades. O trabalhador dos campos fôra esquecido. Foi
+essa a missão do congresso de Marselha de 1892.
+
+No seu ultimo manifesto eleitoral, Jules Guesde repelle os meios
+violentos. A revolução, escreveu, é antes um resultado, um facto, do que
+uma doutrina, e desde que os socialistas resolveram recorrer e acceitar
+o suffragio universal, é porque renunciaram, pelo menos provisoriamente,
+aos outros meios. No programma do partido operario, já formulara, de
+resto, o principio «de que a organisação socialista deveria ser levada a
+cabo por todos os meios de que o proletariado podesse dispôr, sem
+excluir o suffragio universal.»
+
+Jules Guesde deve contar quarenta annos de edade, e foi quem, no
+congresso de Paris, em 1889, propoz a manifestação do 1.º de Maio. É
+hoje deputado por Roubaix. Na camara franceza está-lhe reservado o
+successo a que dão direito o seu grande saber e a sua notavel
+eloquencia.
+
+ * * * * *
+
+
+PAULO LAFARGUE
+
+Estão ainda certamente na memoria de todos os fusilamentos de Fourmies
+do 1.º de Maio de 1891, e o julgamento e a condemnação de Paulo
+Lafargue, por «ter prégado o socialismo no departamento do Norte,»--no
+dizer dos seus juizes. Pois foi precisamente este facto que o levou á
+camara dos deputados. O mesmo departamento do Norte, entendeu que devia
+corrigir as demasias e a violencia do governo, elegendo-o deputado.
+Havia um ou dois mezes que Lafargue déra entrada no carcere, sahindo
+d'ali, victorioso e triumphante, em direcção ao palacio Bourbon.
+
+ [Gravura: Paulo Lafargue]
+
+O dr. Lafargue é uma das figuras mais originaes do partido
+socialista. Ao mesmo tempo, theorico e homem de acção, ha seguramente
+trinta annos que se mantem na lucta, e sempre com a mesma altivez e com
+a mesma dedicação.
+
+Sendo estudante de medicina em 1866, foi elle um dos organisadores do
+congresso de Liége, onde a bandeira negra se arvorou, como que para
+indicar que a França estava de lucto. No seu regresso, o imperio
+vingou-se, excluindo-o de todas as faculdades.
+
+Lafargue partiu então para Inglaterra. Fez em Londres o conhecimento de
+Karl Marx, que o iniciou no socialismo scientifico, alistando-o na
+_Associação internacional dos trabalhadores_.
+
+Genro de Karl Marx, occupou-se activamente da organisação do partido
+socialista francez, cujo programma, elaborado no gabinete do celebre
+revolucionario, é em parte obra sua.
+
+Foi tambem em Londres que elle se ligou com Jules Guesde. Permaneceram
+ambos fieis á doutrina orthodoxa e são, em França, os seus verdadeiros
+representantes.
+
+--É na officina--dizia Lafargue na sessão da camara dos deputados de 16
+de fevereiro de 1893--é na officina que principia a exploração da classe
+operaria; é ali que ella é roubada do producto do seu trabalho, e é por
+isso que, na sociedade actual, a classe operaria que tudo produz, é
+precisamente aquella que nada possue, ao passo que a classe que não
+trabalha é possuidora de toda a riqueza social, e governa a nação
+economicamente e politicamente.»
+
+ * * * * *
+
+
+O PROGRAMMA DO PARTIDO OPERARIO
+
+Considerando que a emancipação da classe productora é a de todos os
+seres humanos, sem distincção de sexo nem de raça;
+
+Considerando que os productores não serão nunca livres, emquanto não
+estiverem na posse dos meios de producção (terras, officinas, navios,
+bancos, credito, etc.)
+
+Considerando que não ha senão duas fórmas pelas quaes os meios de
+producção poderão pertencer-lhes, a saber:--a fórma individual que nunca
+existiu, como facto geral, e que tende, cada vez mais, a ser eliminada
+pelo progresso industrial;--e a fórma collectiva, cujos elementos
+materiaes e intellectuaes são constituidos pelo proprio desenvolvimento
+da sociedade capitalista;
+
+Considerando que esta apropriação collectiva não póde sahir senão de uma
+acção revolucionaria da classe productora, ou do proletariado,
+organisado em partido politico distincto;
+
+Considerando que semelhante organisação deve ser levada a cabo por todos
+os meios de que o proletariado dispõe, incluindo o suffragio universal,
+transformando-o de instrumento de corrupção, como até hoje tem sido, em
+instrumento de emancipação;
+
+Os trabalhadores socialistas, tendo por alvo dos seus esforços a
+expropriação politica e economica da classe capitalista e o regresso
+á collectividade de todos os meios de producção, decidiram, como meio de
+organisação e de lucta, entrar em todas as eleições com as seguintes
+reivindicações:
+
+
+*A.*--_Parte politica_
+
+1.º--Abolição de todas as leis sobre a imprensa, as reuniões e as
+associações, e, em especial, a Associação Internacional dos
+trabalhadores.--Suppressão do livrete, ferrete ignominioso da classe
+operaria, e de todos os artigos do codigo, estabelecendo a inferioridade
+do operario em face do patrão, e a inferioridade da mulher em face do
+homem;
+
+2.º--Suppressão do orçamento dos cultos, e o regresso á nação dos bens
+chamados de mão morta, moveis e immoveis, que hoje pertencem ás
+corporações religiosas, comprehendendo todos os annexos industriaes e
+commerciaes das referidas corporações;
+
+3.º--Suppressão da divida publica;
+
+4.º--Abolição dos exercitos permanentes e armamento geral do povo;
+
+5.º--A Communa na posse da sua administração e da sua policia.
+
+
+*B.*--_Parte economica_
+
+1.º--Repouso de um dia por semana, ou prohibição legal de mais de seis
+dias de trabalho sobre sete.--Reducção legal do dia de trabalho a oito
+horas para os adultos.--Prohibição do trabalho, nas officinas
+particulares, dos menores com menos de quatorze annos; e reducção do dia
+de trabalho a seis horas, desde os quatorze até aos dezoito annos.
+
+2.º--Vigilancia dos aprendizes pelas corporações operarias;
+
+3.º--Minimum legal dos salarios, determinado e fixado annualmente,
+segundo o preço local dos generos, por uma commissão de estatistica
+operaria;
+
+4.º--Prohibição legal aos patrões de poderem empregar os operarios
+estrangeiros por um salario inferior ao dos operarios nacionaes;
+
+5.º--Egualdade de salario, em egual trabalho, para os trabalhadores dos
+dois sexos;
+
+6.º--Instrucção scientifica e profissional de todas as creanças, á custa
+da sociedade, representada pelo Estado e pela communa;
+
+7.º--Manutenção, á custa da sociedade, dos velhos e invalidos do trabalho;
+
+8.º--Suppressão de toda a ingerencia dos patrões na administração das
+caixas operarias de soccorros, de previdencia, etc., restituindo-as á
+gestão exclusiva dos operarios;
+
+9.º--Responsabilidade dos patrões em materia d'accidentes, garantida por
+uma caução em dinheiro, lançado nas caixas operarias, e proporcional ao
+numero dos operarios empregados e aos perigos que a industria apresenta;
+
+10.º--Intervenção dos operarios, nos regulamentos especiaes das
+differentes officinas; suppressão do direito usurpado pelos patrões de
+poderem castigar os operarios por meio de multas ou de reducções nos
+salarios;
+
+11.º--Annulação de todos os contractos, que hajam alienado a propriedade
+publica (bancos, caminhos de ferro, minas, etc.) e a exploração de todas
+as officinas do Estado, confiadas aos operarios que n'ellas trabalharem;
+
+12.º--Abolição de todos os impostos indirectos e transformação de todos
+os impostos directos n'um imposto progressivo sobre os rendimentos que
+vão alêm de 3:000 francos.--Suppressão da herança em linha collateral e
+de toda a herança em linha directa que exceda a somma de 20:000 francos.
+
+ * * * * *
+
+
+DESENVOLVIMENTO E EXPLANAÇÃO DO PROGRAMMA SOCIALISTA
+
+
+PARTE POLITICA
+
+
+ARTIGO 1.º
+
+a) _Abolição de todas as leis sobre a imprensa, as reuniões e as
+associações, e, em especial, da lei contra a Associação Internacional
+dos Trabalhadores;_
+
+b) _Suppressão do livrete, ferrete ignominioso da classe operaria, e de
+todos os artigos do codigo que estabelecem a inferioridade do operario
+perante o patrão e a inferioridade da mulher perante o homem._
+
+
+Para que haja realmente liberdade, em materia de imprensa, não basta
+legislar, impondo multas e prisão aos que d'ella _abusam_, attenuando e
+modificando as penas, ou substituir o julgamento correccional pelo
+julgamento de jury.--O que se torna indispensavel e urgente, é abolir
+todas as leis existentes _contra_ e _sobre_ a imprensa, a começar pela
+lei que condemna, por diffamação, sem prova dos factos allegados, e que
+permitte assim aos ricos e aos poderosos de abusarem da situação
+especial em que se encontram, relativamente aos que nada possuem e aos
+que nada podem.
+
+Para que haja realmente liberdade, em materia de reunião, não basta
+substituir o regimen actual por um novo regimen, mais ou menos hypocrita
+e mais ou menos sophismado, permittindo os comicios em recinto fechado e
+prohibindo-os na rua e na praça publica.--O que se torna indispensavel e
+urgente, é a abolição de todas as leis, que subordinam ás condições de
+local, de tempo, de numero e de pessoas, o exercicio de um direito tão
+rudimentar como o direito de reunião.
+
+Para que haja realmente liberdade, em materia de associação, não basta
+permittir o uso d'este direito aos que estão nas boas graças dos
+governos, embaraçando-o e difficultando-o aos contrarios, pela exigencia
+de formalidades, tão ridiculas como absurdas.--O que se torna
+indispensavel e urgente, é a abolição de todas as leis sobre as
+associações, qualquer que seja a sua natureza e o seu fim.
+
+Mas a revolução não nos trouxe apenas a liberdade; deu-nos tambem a
+_egualdade civil_. E é, em nome d'essa egualdade, que temos o direito e
+o dever de reclamar a suppressão do «livrete», bem como todos os artigos
+do codigo que estabelecem a inferioridade da classe operaria perante
+a classe dos patrões.
+
+O livrete que assemelha o productor de todas as riquezas á meretriz,
+collocando-o no mesmo plano, sobre ser uma ignominia, é tambem infamante
+e improprio dos nossos tempos. Se o ferrete foi abolido para os grandes
+criminosos condemnados ás galés, como é que pode conservar-se para os
+trabalhadores do mundo moderno? Apenas a fórma variou, por isso que,
+sendo o livrete obrigatorio para todos os que são forçados a viver da
+venda do seu trabalho, nenhum movimento da vida operaria poderá escapar
+á policia. Para mudar de localidade e até para mudar de officina, são os
+trabalhadores forçados a apresentar essa prova da sua identidade e do
+seu comportamento anterior. De modo que aos patrões fica a liberdade
+plena de os admittirem ou de os expulsarem das suas officinas, conforme
+lhes aprouver. É uma inquisição de nova especie que se torna mister
+abolir não só dos codigos, senão tambem dos usos particulares. O
+operario será admittido em todas as officinas e em todos os
+estabelecimentos, quer do estado quer de particulares, sem que os
+patrões lhe possam exigir a minima formalidade. Condemnamos, por egual,
+o livrete e os attestados individuaes, que collocam os trabalhadores na
+mesma situação de inferioridade moral perante os seus superiores.
+
+Ha, felizmente, paizes onde a licença para trabalhar não é já exigida.
+Na explanação d'estes artigos, não nos dirigimos, porém, a este ou
+áquelle paiz, a esta ou áquella localidade: fazemos a critica geral
+do systema e apreciamos os factos que se assignalam e observam nas
+modernas sociedades.
+
+Na mesma ordem de reformas, entra a abolição dos artigos que estabelecem
+a inferioridade da mulher perante o homem.
+
+Que nos resta então da egualdade perante a lei--o novo evangelho da nova
+civilisação--se, na ordem civil assim como na ordem politica, continuam
+a coexistir duas leis differentes, uma para o homem e outra para a mulher?
+
+Diz-se, geralmente, que a mulher nasceu para os trabalhos caseiros. Mas
+essa limitação vae desapparecendo de dia para dia. E, hoje, a mulher
+applica-se a muitos outros trabalhos que antigamente só pertenciam aos
+homens, como correios e telegraphos, empregos e serviços dos grandes
+armazens e dos grandes restaurantes, casas de modas, lojas, caminhos de
+ferro e tantos mais que seria longo e superfluo ennumerar aqui.
+
+O socialismo moderno não reconhece distincções fundadas e baseadas sobre
+os sexos. Quer se trate de reuniões quer se trate de congressos, a
+mulher é chamada e eleita, com os mesmos titulos, que o homem. Ao
+partido operario--que é o partido de todos os explorados, sem distincção
+de sexo nem de raça.--cabe pois, o dever de se associar ás suas
+reivindicações.
+
+Art. 2.º--_Suppressão do orçamento dos cultos e regresso á nação dos
+bens, chamados de mão morta, que pertençam ás corporações religiosas,
+comprehendendo todos os annexos industriaes e commerciaes destas
+corporações._
+
+Na grande republica dos Estados Unidos da America, a Egreja, ou, para
+melhor dizer, as differentes egrejas nada teem com o Estado. Os cultos
+constituem, naquella nação, uma industria particular, como a industria
+das rolhas ou a industria da cortiça.
+
+_Paga quem consome._
+
+É este o principio, adoptado por todos os publicistas e pensadores da
+escola avançada. A separação da Egreja e do Estado, faz hoje parte de
+todos os programmas radicaes e constitue uma das principaes
+reivindicações da philosophia moderna.
+
+O regresso á nação da propriedade mobiliaria e immobiliaria das
+corporações religiosas, encontrou um precedente na revolução operaria de
+18 de Março. Tem, alêm d'isso, a vantagem de educar as massas,
+ensinando-as a rehaver aquillo que lhes foi extorquido pela violencia e
+pela fraude, isto é--na linguagem do programma socialista--ensinando-as
+a _expropriar os seus expropriadores_.
+
+Art. 3.º--_Suppressão da divida publica._
+
+A divida publica, com effeito, dil-o Karl Marx no seu _Capital_, «dá ao
+dinheiro improductivo o valor reproductivo, sem que por isso haja de
+correr os riscos e os transtornos inseparaveis do seu emprego industrial
+ou da usura particular.»
+
+A suppressão da divida que o partido operario reclama, aliviaria os
+habitantes de cada paiz de uma grande parte do imposto que, actualmente,
+são obrigados a pagar e constituiria, portanto, um novo rendimento
+annual para cada familia e para cada cidadão.
+
+Art. 4.º--_Abolição dos exercitos permanentes e armamento geral do povo._
+
+Está hoje provado que os exercitos permanentes, com os progressos das
+armas e dos instrumentos de guerra, e ainda com a rapidez dos
+telegraphos e dos caminhos de ferro que obrigam a uma immediata
+mobilisação de massas enormes, não são garantia sufficiente á defensão
+efficaz de um paiz. Em geral, os governos precisam e servem-se d'elles,
+não para esmagar o inimigo que lhes ultraja a bandeira ou lhes viola as
+fronteiras, mas para intimidar e reduzir ao silencio os adversarios,
+que, dentro da nação, os perturbam e incommodam. E eis ahi está o motivo
+porque os exercitos, na actualidade, longe de serem um elemento de
+defeza nacional, são, ao contrario, um elemento de defesa, para as
+classes dirigentes, que teem n'elles o seu unico e principal apoio,
+quando se trata de salvaguardar os seus interesses e os seus haveres,
+ainda que para isso seja preciso fuzilar a _canalha_ ou atirar sobre o
+povo inerme e faminto!
+
+O partido operario socialista condemna a guerra, e, por isso, repelle os
+exercitos permanentes. O armamento geral do povo não só traria, como
+consequencia, uma economia para cada paiz, senão ainda desarmaria, por
+completo, a burguezia. A nação armada até ao seu ultimo homem,
+tornar-se-ha mais forte e poderosa do que nunca, e será--digamol-o
+assim--inatacavel. Para isso bastará que a instrucção militar complete a
+instrucção scientifica e profissional, assegurada socialmente a todos os
+menores sem distincção; que a espingarda, posta na escola nas mãos
+de todos, esteja, ao sahir da escola, nas mãos de cada um, e que, depois
+de uma rapida passagem pelas bandeiras, todos os annos se realisem as
+grandes manobras, para manter a cohesão indispensavel, entre elementos
+individualmente superiores, obrigando-os a contrahir o habito das
+operações collectivas.
+
+O poder militar da Suissa, não se apoia n'outras razões e corrobora
+praticamente esta nobre e generosa aspiração.
+
+Art. 5.º--_A communa na posse da sua administração e da sua policia._
+
+A cummuna é a escola primaria da sciencia politica. É ali que se
+adquirem as primeiras noções de disciplina e os primeiros rudimentos da
+vida publica.
+
+O partido operario não espera certamente chegar á solução do problema
+social pela simples conquista do poder administrativo na communa. A
+abolição do salariado--essa escravidão do mundo moderno, peior que a do
+mundo antigo--não é uma questão communal, mas sim uma questão nacional e
+internacional, e só poderá resolver-se pela posse do poder central ou do
+Estado. Mas é certo que a conquista das communas constitue outros tantos
+meios de recrutamento e de lucta, para a classe proletaria.
+
+No dia em que as communas estiverem na posse da sua administração e da
+sua policia, os conflictos com o poder central tornar-se-hão
+impossiveis, se todos os municipios, comprehendendo a sua missão, se
+ligarem e federarem, afim de constituirem uma liga municipal que poderá
+e deverá ter uma influencia decisiva nos destinos de cada paiz.
+
+
+PARTE ECONOMICA
+
+Art. 1.º--a) _Repouso de um dia por semana, ou prohibição legal de mais
+de seis dias de trabalho sobre sete._
+
+b) _Reducção legal do dia de trabalho a oito horas para os adultos._
+
+e) _Prohibição do trabalho, nas officinas particulares, dos menores com
+menos de quatorze annos, e reducção do dia de trabalho a seis horas, dos
+quatorze aos dezoito annos._
+
+_a)_ A necessidade de um dia de repouso por semana, é hoje reconhecida
+por todos, e impõe-se como uma questão de moral e de hygiene. Mas não
+basta reconhecel-o. É mister que seja legal a prohibição,
+estabelecendo-se uma penalidade aos patrões que obrigam os seus
+operarios a trabalhar mais de seis dias sobre sete.
+
+_b)_ O primeiro congresso da Internacional, o congresso de Genebra de
+1866, estabeleceu «que o dia de trabalho devia ser de oito horas»; por
+isso que, diziam os considerandos, a primeira condição, sem a qual seria
+baldada toda a tentativa de melhoria e de emancipação, é a limitação
+legal do dia de trabalho. Esta limitação impõe-se, afim de restaurar a
+saude e a energia physica dos operarios, assegurando-lhes a
+possibilidade de um desenvolvimento intellectual, de relações sociaes e
+de uma acção politica. Os operarios dos Estados Unidos reclamaram,
+durante muito tempo, esta limitação, e o Congresso adoptou-a como um dos
+artigos dos programmas governamentaes. O secretario d'Estado do
+departamento da guerra, no Reino Unido, respondendo a John Burns, que,
+na camara dos communs, pedira informações, ácerca da experiencia do dia
+normal de 8 horas, no arsenal de Woolwich, asseverou que o resultado
+fôra excellente, e que o governo resolvêra estabelecer, para todos os
+arsenaes inglezes, o dia normal de 8 horas.
+
+E ninguem pense que a reducção do dia de trabalho traria, como
+consequencia, a reducção do salario.
+
+O patrão occupa, presentemente, dois operarios, para obter 24 horas de
+trabalho, ou dois dias de 12 horas. Se o dia legal fosse de 8 horas,
+seria forçado a empregar tres. Os operarios sem trabalho voltariam á
+officina, e, aquelles que trabalham, não estando já sob a ameaça de
+serem substituidos, poderiam, sem duvida, aproveitar a situação para
+exigir e obter um augmento de salario. A reducção do dia de trabalho
+teria, como consequencia necessaria, um augmento de salario.
+
+_c)_ Nas modernas sociedades, as creanças pertencem aos capitalistas,
+que as arrancam ao lar domestico e ao conchego da familia, para as
+converterem em instrumentos de sordida e desmesurada ganancia.
+Semelhante facto nunca se presenciara, nas sociedades anteriores, ainda
+mesmo nos peiores tempos da escravidão. O menor, condemnado desde tenra
+edade, ás torturas de dez e doze horas de trabalho na officina e na
+fabrica, e não offerecendo a minima resistencia, era ainda mais
+explorado que o homem e a mulher. E tão deshumana se tornou a
+exploração que o Estado se obrigou a protegel-o contra o patrão e o pae
+de familia. Este, invocando a authoridade paterna permittia-se a
+liberdade de vender os seus filhos, segundo as necessidades da situação;
+aquelle, invocando a liberdade anarchica da sociedade capitalista,
+arrogava-se o direito de impôr ao menor mais horas de trabalho do que
+geralmente se impõe a um forçado nas galés.
+
+Art. 2.º--_Vigilancia dos aprendizes pelas corporações operarias._
+
+A aprendizagem, constitue, para os patrões, um meio de ter trabalho sem
+necessidade de o pagar. O aprendiz, a quem nada se ensina, é
+transformado em creado, e ordinariamente empregado nos trabalhos mais
+grosseiros que os operarios se recusam a fazer. Em geral só quando finda
+a aprendizagem é que o trabalhador começa de aprender o seu officio.
+Para remediar estes males, é indispensavel que o aprendiz seja confiado
+á protecção e á vigilancia das corporações operarias.
+
+O aprendizado desapparecerá no dia em que a educação manual se combinar
+com a educação intellectual. Com o desenvolvimento da mechanica e a
+divisão do trabalho, a aprendizagem tende de dia para dia a ser
+substituida pela instrucção geral, ministrada ás creanças nas escolas
+publicas.
+
+Art. 3.º--_Minimum legal dos salarios, determinado e fixado annualmente,
+segundo o preço dos generos, por uma commissão de estatistica operaria._
+
+Dizer _minimum_, o mesmo é que dizer salario que permitta, pelo menos,
+viver trabalhando.
+
+Com o aperfeiçoamento e a generalisação da machina, os salarios
+diminuiram e tornaram-se insufficientes. O excedente que todos os dias
+vae augmentando da offerta do trabalho sobre a procura, fel-os descer
+ainda abaixo do strictamente indispensavel á alimentação quotidiana de
+cada operario. A fixação de um _minimum_ foi, por isso, considerada como
+um grande progresso.
+
+Esta justa reivindicação, formulou-a, pela primeira vez, Charles
+Fourier, em 1831. _Viver trabalhando ou morrer combatendo!_--tal era o
+lemma inscripto na bandeira negra dos primeiros revoltados do trabalho,
+que não reclamavam outra cousa senão um _minimum_ de existencia ou de
+salario, e que, por esse principio, se deixaram matar heroicamente,
+defendendo, até ao ultimo sacrificio, os interesses e o futuro da classe
+trabalhadora.
+
+Desde que, em todos os ramos de trabalho, possa ser determinado, por uma
+estatistica operaria, um _minimum_ de salario, e desde que se torne
+obrigatorio para os patrões, ficará o salariado senhor da mais poderosa
+das armas, para levantar o preço da mão obra.
+
+O _minimum_ de salario não deve ser, para os operarios, senão um meio
+para chegar ao _maximum_.
+
+Art. 4.º--_Prohibição legal aos patrões de poderem empregar operarios
+estrangeiros por um salario inferior ao dos operarios nacionaes._
+
+Ao capitalista, é-lhe indifferente que o operario seja nacional ou
+estrangeiro; o que lhe importa é que o salario seja diminuto.
+
+Os operarios estrangeiros (belgas, allemães, italianos, hespanhoes),
+obrigados a emigrar por causa da miseria, muitas vezes dominados e
+explorados por engajadores, ignorando a lingua, os preços e os costumes
+do paiz, são condemnados a aceitar as condições que os patrões lhes
+impõem e a trabalhar por salarios que os operarios da localidade
+regeitam. E ainda, em egualdade de circumstancias, preferem os patrões
+os estrangeiros, para evitar resistencias e amotinações.
+
+A 5 de maio de 1880, a _Sociedade de Economia politica_ discutiu as
+vantagens que poderiam advir da substituição dos operarios francezes por
+chinezes. O consul geral dos Estados Unidos, que estava presente á
+sessão, objectou que a introducção dos chinezes era corruptora por causa
+da sua immoralidade e perigosa por causa das miserias e das revoltas
+operarias que d'ahi derivavam.
+
+--Nada importa!--responderam severamente os economistas francezes: «O
+chinez é muito trabalhador, vive de quasi nada, contentando-se com um
+modico salario. Na California, onde um branco exige 10 fr. por dia, o
+chinez contenta-se com 2 fr. 50. Que venham os bons chinezes, e tanto
+peior para os operarios francezes, se isso os incommoda. Talvez a lição
+lhes aproveite!»
+
+O dr. Lunier (inspector geral dos serviços administrativos no ministerio
+do interior) observava que a vinda dos chinezes não estava tão longe
+como se suppunha: «É provavel que, em breve, a emigração chineza possa
+fazer-se por terra, e que tenhamos então de assistir a emigrações, que
+trarão á nossa velha Europa a sua sobriedade, a sua paciencia no
+trabalho, e, como consequencia, a mão d'obra barata.»
+
+A isso e só a isso, aspiram os patrões; e a prohibição legal de poderem
+empregar operarios estrangeiros, por um salario inferior aos dos
+operarios nacionaes, deriva não só de um principio de moralidade, para
+evitar a exploração até aqui seguida, senão tambem da protecção que á
+lei deve merecer o trabalho nacional.
+
+Art. 5.º--_Egualdade de salario, em egual trabalho, para os
+trabalhadores dos dois sexos._
+
+O partido operario, assim como não pede a expulsão dos estrangeiros, não
+reclama tambem a prohibição do trabalho para a mulher, nas fabricas ou
+nas officinas. O que pede e reclama para a mulher, para a operaria, é a
+protecção a que ella tem direito tanto como o homem; o que pede e
+reclama é que a um trabalho egual corresponda egualdade de salario para
+todos os trabalhadores, sem distincção de sexo.
+
+O motor mechanico, tornando a mulher tão apta, como o homem, para a
+maior parte dos trabalhos, permitte hoje, nas fabricas e officinas, o
+emprego do braço feminino, em substituição da antiga força muscular. Não
+foi a falta do braço masculino que provocou a _industrialisação_ da
+mulher: foi sim! a desmedida ambição do patrão de obter a mesma somma de
+trabalho por um salario muito inferior. De modo que a operaria foi
+inventada, por um lado, para augmentar os proventos dos patrões, e, por
+outro lado, para reduzir o operario á fome.
+
+É mister acabar com semelhante abuso, tornando a operaria egual ao
+operario, e não a sua concorrente.
+
+Para que a mulher seja senhora de si mesmo, para que recobre a liberdade
+do seu corpo, fóra da qual não ha senão prostituição, qualquer que seja
+a legalidade das relações que possa ter com o outro sexo, é mister que
+ella encontre em si os meios de subsistencia, independentemente do homem.
+
+Art. 6.º--_Instrucção scientifica e profissional de todas as creanças, á
+custa da sociedade, representada pelo Estado e pela communa._
+
+Do direito á existencia, deriva logicamente o direito ao trabalho, e
+d'este a obrigação, para o Estado e para a communa, de ministrar
+gratuitamente a todas as creanças, sem distincção de sexo, a instrucção
+scientifica e profissional.
+
+Para trabalhar, é preciso saber e poder trabalhar, e d'ahi se conclue,
+por um lado, a necessidade da instrucção, e, por outro lado, a
+necessidade não menos instante para o operario, de chegar á posse dos
+instrumentos de producção.
+
+Lepelletier Saint-Fargeau comprehendêra perfeitamente estes principios,
+quando, a 15 de julho de 1793, submetteu á Convenção um projecto de lei,
+assim concebido:
+
+«Art. 1.º--Todas as creanças serão educadas á custa da Republica,--as do
+sexo masculino da edade dos cinco aos doze annos e as do sexo feminino
+dos cinco aos onze.
+
+«Art. 2.º--A educação nacional será egual para todos; recebendo todos a
+mesma alimentação, o mesmo vestuario, a mesma instrucção e os mesmos
+cuidados.»
+
+O trabalho do homem é tanto mais productivo quanto a sua
+intelligencia fôr mais cultivada[2]. O trabalho de um homem
+ignorante não vale mais do que o _trabalho de um animal de egual força_.
+
+A monomania do emprego publico é um resultado da falta de ensino
+profissional. Em Portugal, a burocracia absorve a maior parte das
+receitas publicas, precisamente porque são poucos aquelles que se acham
+habilitados a trabalhar.
+
+Não basta só que as escolas ensinem a lêr: é mister tambem que ensinem a
+trabalhar, isto é que, a par do pão do espirito, se ministre egualmente
+a todos o pão do corpo.
+
+ * * * * *
+
+Art. 7.º--_Manutenção pela sociedade dos velhos e invalidos do trabalho._
+
+O trabalhador produz mais do que consome. Encarregando-se dos velhos e
+invalidos do trabalho, a sociedade não faz senão retribuir aos operarios
+aquillo que lhes é devido. É justo que um homem que passou a sua vida a
+vestir, a calçar e a alimentar os seus semelhantes e a construir as suas
+habitações, tenha tambem o vestuario, a casa e o alimento assegurados,
+quando, em consequencia da edade ou de qualquer enfermidade, não se
+encontre já apto para trabalhar.
+
+O ultimo codigo feudal da Russia, de 1795, estatuia o seguinte: «O
+senhor deve fazer ministrar a educação a todos os camponezes pobres,
+procurando tambem os meios de existencia áquelles dos seus vassalos que
+não possuem terras e soccorrendo os que cahirem na indigencia.»
+
+O servo transformou-se em salariado, e a liberdade burgueza deixou o
+operario, sem garantias, entregue ás exigencias do seu estomago e á
+mercê dos caprichos da fortuna. O militar e o funccionario do Estado
+teem direito a reformas e aposentações. O empregado do commercio succede
+muitas vezes ao patrão. Só ao operario, só áquelle que passou a sua vida
+a enriquecer os seus semelhantes, é recusado o direito que se concede
+aos demais membros da sociedade, isto é o direito de viver. Não lhe
+basta a incerteza de encontrar trabalho: ainda para mais lhe negam o que
+os senhores feudaes não negavam aos seus servos--a protecção na velhice
+e na doença. E eis ahi está porque o partido operario, não só por dever
+de humanidade, senão ainda por dever de solidariedade, inscreveu este
+artigo no seu programma.
+
+ * * * * *
+
+Art. 8.º--_Suppressão de toda a ingerencia dos patrões na administração
+das caixas operarias de soccorros, de previdencia, etc., restituindo-as
+á gestão exclusiva dos operarios._
+
+Na grande industria que multiplicou os riscos do trabalho, os patrões
+obrigam geralmente os operarios a tirarem, no fim de cada semana, uma
+certa quantia dos seus magros salarios, para fazerem face
+solidariamente aos accidentes, á doença e á velhice. As grandes
+companhias de caminhos de ferro e minas chegaram mesmo a instituir um
+fundo, destinado a uma caixa, com essa applicação. Comprehende-se a
+tactica. Quanto mais os salariados estiverem no caso de se soccorrerem
+mutuamente, tanto menos terão os patrões de dispender com elles.
+
+As caixas são, na sua quasi totalidade, sustentadas com o dinheiro dos
+operarios. Mas os proprietarios e capitalistas, no intuito de
+fiscalisarem esses fundos da _previdencia e da solidariedade operaria_,
+chamam a si a gerencia e a administração das referidas caixas,
+concorrendo tambem com uma parte, para o mesmo fim. O que os patrões
+desejam é evitar, por esta fórma, que os trabalhadores possam servir-se
+d'esse dinheiro, empregando-o n'uma _gréve_ ou em qualquer cousa que
+possa contrariar os seus interesses ou os da sua industria.
+
+É indispensavel que o proletariado se emancipe de semelhante tutella,
+transformando o fundo das caixas operarias num poderoso instrumento de
+emancipação social.
+
+Art. 9.º--_Responsabilidade dos patrões em materia d'accidentes,
+garantida por uma caução em dinheiro, e proporcional ao numero dos
+operarios empregados e aos perigos que a industria apresente._
+
+Este artigo traduz um principio de justiça, e representa uma compensação
+para todos os que, no trabalho, expõem a vida e arriscam a saude. Quem,
+nas grandes empresas, aufere os grandes lucros e os enormes proventos, é
+o capitalista e o proprietario. É justo pois, que, em caso
+d'accidente, sejam elles os responsaveis, indemnisando e garantindo, por
+meio de uma caução, os que affrontaram o perigo, para os enriquecer e
+locupletar. Em caso de desastre, occorrido nas fabricas e nas officinas,
+o invalido, a viuva e o orphão teem direito a serem amparados e
+protegidos; e esse amparo e essa protecção não pode exigir-se senão
+áquelles que foram a origem, embora indirecta, do seu infortunio, e que,
+muitas vezes, pelo seu desleixo e pela sua desmesurada ganancia,
+contribuiram poderosamente para esses tristes e dolorosos acontecimentos.
+
+A indemnisaçao a pagar seria, n'este caso, lançada na caixa operaria, e
+avaliada por um jury escolhido na corporação. Só os proprios operarios
+seriam capazes de avaliar o que custa e o que vale, para o trabalhador,
+a perda de um braço, a perda de uma perna ou a perda de uma vida.
+
+Quem nunca visitou uma mina, não sabe o que é o risco no trabalho.
+Superior á rhetorica dos economistas está a realidade das cousas. Que
+todos os que nos lêem se dignem, um dia, descer a uma mina, e que nos
+digam depois, se não assiste ao operario o direito sagrado de reclamar
+uma indemnisaçao, em caso d'accidente, áquelle por quem se sacrificou, e
+que locupletou, sem outra compensação, alêm de um salario diario
+representando o stritamente indispensavel para não morrer de fome?!
+
+ * * * * *
+
+Art. 10.º--_A intervenção dos operarios nos regulamentos especiaes das
+differentes officinas; suppressão do direito usurpado pelos patrões de
+poderem castigar os operarios, por meio de multas ou de reducções nos
+salarios._
+
+A intervenção dos operarios nos regulamentos especiaes das differentes
+officinas é uma salvaguarda á dignidade e á saude da classe
+trabalhadora. Muitas vexações inuteis serão supprimidas por este meio;
+muitas medidas hygienicas, hoje despresadas ou recusadas pelo
+fabricante, serão postas em pratica, no interesse da collectividade.
+
+Sob a fórma de multas, que se traduziam na retenção de uma parte do
+salario, o patrão abusava, muitas vezes, do operario, trazendo-o debaixo
+de um jugo de ferro, feroz e insupportavel. O patrão não pode arvorar-se
+em juiz, adoptando o codigo penal que muito bem lhe aprouver para multar
+o operario ou condemnal-o, segundo os caprichos da sua vontade.
+
+A justiça é fundada sobre uma delegação social. O direito moderno não
+admitte outra; porque o contrario seria o despotismo, o abuso, a fraude
+e a violencia. E é por isso que se justifica e se torna indispensavel a
+intervenção dos operarios nos regulamentos especiaes das differentes
+officinas--precisamente para que o patrão fique reduzido á sua esphera
+de acção, e impossibilitado de vexar os trabalhadores, por meio de
+penalidades, que, alêm de uma tyrannia e de uma brutalidade sem nome,
+representam para o capitalista, um interesse e um beneficio.
+
+ * * * * *
+
+Art. 11.º--_Annulação de todos os contractos que hajam alienado a
+propriedade publica (bancos, caminhos de ferro, minas, etc.), e a
+exploração de todas as officinas do Estado, confiadas aos operarios que
+n'ellas trabalharem._
+
+O partido operario pede a annulação, pura e simples, dos contractos que
+teem permittido a um bando de capitalistas de se locupletarem, á custa
+da nação. O partido operario pede essa annulação, não para que o Estado,
+entrando na posse das minas, dos caminhos de ferro e dos bancos, e
+tornando-se, por sua vez, productor, os explore, em seu proveito, como
+tem succedido com os correios e telegraphos, com a moeda, com os tabacos
+e outros serviços publicos, de que faz monopolio, mas sim, para confiar
+a sua exploração aos operarios, encarregados d'esses trabalhos.
+
+O programma socialista pede que a exploração das officinas do Estado
+seja confiada aos operarios, que n'ellas trabalharem, com o duplo fim de
+melhorar a sua triste situação e de provar experimentalmente, que, pela
+sua propria iniciativa e responsabilidade, estão aptos para emprehender
+a referida exploração.
+
+Sobre este assumpto divergem as escolas. São uns de opinião que todos os
+serviços publicos devem ficar a cargo do Estado e da communa; outros
+porém, sustentam que a absorpção gradual das industrias particulares
+pelo Estado augmentaria sensivelmente o numero dos salariados que o
+mesmo Estado explora. Teremos occasião de voltar ao assumpto no ultimo
+capitulo d'esta obra.
+
+ * * * * *
+
+Art. 12.º--a) _Abolição de todos os impostos indirectos e transformação
+dos impostos directos n'um imposto progressivo sobre os rendimentos que
+forem alêm de 3:000 francos._
+
+b) _Suppressão da herança em linha collateral e de toda a herança em
+linha directa que exceda a somma de 20.000 francos._
+
+Nas sociedades burguezas, o imposto é um encargo a que tem de
+sujeitar-se todo o cidadão, afim de garantir a sua pessoa e a sua
+propriedade. Ha duas especies de imposto--o imposto pessoal, ou imposto
+de sangue que todo o cidadão tem de satisfazer pelo serviço militar, e o
+imposto impessoal que satisfaz pelo abandono e entrega de uma parte dos
+seus rendimentos.
+
+Para ser equitativa a distribuição do imposto, todo o cidadão deveria
+ser soldado e abandonar ao Estado uma parte do seu rendimento,
+progressivamente, e proporcional á sua quantidade. Se o que possue 100
+fr. paga 10 fr., o que possue 1000 deverá pagar 200 fr., e o que possue
+um milhão, 400.000 fr.
+
+Os impostos indirectos que recahem sobre os generos de consumo (pão,
+vinho, vestuario, etc.) obstam a que seja equitativa a sua distribuição.
+Por exemplo: o operario que come por dia 1 kilo de pão paga duas
+vezes mais imposto do que o capitalista que come apenas meio kilo.
+
+O imposto indirecto é um meio jesuitico, inquisitorial, de depennar e de
+reduzir á miseria o operario, sem que elle d'isso se aperceba.
+
+Os ricos repellem o imposto progressivo que os obrigaria a pagar na
+proporção dos seus rendimentos; o imposto indirecto favorece-os de um
+modo escandaloso, e eis ahi está o motivo porque o defendem e applaudem.
+
+A abolição dos impostos indirectos e a creação de um imposto progressivo
+sobre o rendimento, reduziria seguramente o preço dos generos. A
+remodelação e transformação do imposto, seria para o operario a melhoria
+das suas condições de existencia. O augmento, nos impostos indirectos,
+tem-se traduzido praticamente por um augmento na mortalidade. A creação
+do imposto progressivo poder-se-hia traduzir por um augmento na
+alimentação e na vida das classes trabalhadoras.
+
+A Convenção havia estabelecido um imposto gradual e progressivo sobre o
+luxo e sobre todas as riquezas. Mas não teve tempo para o applicar.
+
+Montesquieu, e todos os economistas orthodoxos, como Adão Smith, J. B.
+Say e Rossi, pronunciaram-se pelo imposto progressivo. J. B. Say e
+Rossi, affirmaram-n'o claramente nas seguintes palavras: «Não deixaria
+de ser razoavel que os ricos contribuissem para as despezas do estado,
+na proporção do seu rendimento, e ainda com mais alguma cousa alêm
+d'essa proporção.»
+
+Na Suissa está o imposto progressivo em vigor na maioria dos cantões.
+Mas nem só a republica o perfilha e o applica. Tambem a real Inglaterra
+e a imperial Allemanha acceitaram e introduziram o imposto progressivo,
+no seu systema de impostos directos.
+
+_b)_ A herança estabelece, na sociedade, um privilegio e uma
+desegualdade revoltante. A sua suppressão impõe-se, e, se não
+completamente, pelo menos parcialmente. Em virtude da herança, a
+instrucção, a educação, o gôzo, o bem estar contituem o privilegio dos
+favorecidos da fortuna. O pobre, o infeliz que não herdou, tem de
+subjeitar-se aos caprichos do acaso e á lei do seu destino. O partido
+socialista quer a suppressão da herança em linha collateral,
+restringindo-a e limitando-a a 20.000 francos na linha directa.
+
+N'outra parte diremos a que seria applicado o excedente das heranças,
+desde que ultrapassassem esta somma.
+
+ * * * * *
+
+
+O PROGRAMMA DO PARTIDO SOCIALISTA EM PORTUGAL
+
+A titulo de curiosidade, publicamos, em seguida, o primeiro programma
+dos socialistas portuguezes, desde que se contituiram em partido. É um
+documento, por muitos titulos, importante, e que merece ser lido e
+apreciado pelo publico. A sua approvação data do 1.º congresso
+socialista, realisado em Lisboa, nos principios de 1877, tendo sido
+elaborado, após o celebre congresso de Haya, onde Portugal esteve
+representado por Lafargue.
+
+Vigorou até 1882, anno em que se celebrou n'esta capital uma conferencia
+dos delegados de Lisboa e Porto, sendo então substituido pelo actual
+programma que, ordinariamente se publica na quarta pagina do _Protesto
+Operario_.
+
+ * * * * *
+
+
+Programma transitorio do partido socialista em Portugal
+
+ O trabalho é a condição de existencia de todos os individuos.
+
+ Todos teem o dever de trabalhar imposto pela natureza.
+
+ Com os productos do trabalho de todos deve subsistir a sociedade, e
+ com os productos do trabalho da sociedade, effeituado por todos,
+ deve subsistir cada individuo.
+
+ A massa do trabalho da sociedade, que deve constituir a sua riqueza,
+ deve constituir a propriedade social, commum ou publica.
+
+ A parte do trabalho de cada individuo constitue a sua riqueza, e a
+ riqueza do individuo deve constituir a propiedade individual.
+
+ Sendo a propriedade social por natureza commum, ou publica, a
+ propriedade individual deve ser privada ou pessoal.
+
+ Tambem devem ser communs, ou publicas, as riquezas naturaes, não
+ creadas pela sociedade, nem pelos individuos.
+
+ Taes são as condições de existencia da sociedade justa, isto é, em
+ que todos os individuos subsistem pelo seu proprio trabalho, e em
+ que a sociedade subsiste pelo trabalho de todos; em que o producto
+ do trabalho de cada individuo é propriedade sua, e em que o producto
+ do trabalho de todos, ou da natureza, não é propriedade de alguem,
+ mas sim da sociedade toda.
+
+ * * * * *
+
+ A constituição da sociedade injusta é differente.
+
+ Na sociedade injusta os individuos não subsistem todos pelo seu
+ proprio trabalho, e a sociedade não subsiste pelo trabalho de todos.
+
+ Uma parte da sociedade trabalha para si e para a outra parte que não
+ trabalha, produzindo os meios de subsistencia de todos os
+ individuos.
+
+ Um individuo trabalha como dois e mais, ou o duplo, ou pela metade
+ do preço e por menos, para produzir os meios de subsistencia dos
+ individuos que os não produzem.
+
+ Os meios de subsistencia, em que consiste toda a especie de
+ propriedade, são produzidos por uma parte dos individuos, e
+ apropriados pela outra, que os não produz.
+
+ A riqueza, ou a propriedade, é o producto do trabalho de todos os
+ individuos accumulado na mão de alguns.
+
+ Os productores, ou creadores, da propriedade individual e publica
+ não possuem mesmo a parte com que subsistem. Esta parte é-lhes
+ vendida, ou arrendada, pelos proprietarios, que accumulam mais
+ productos do trabalho alheio por meio das transacções mercantes,
+ isto é, das transacções da propriedade transformada em mercadorias.
+
+ D'este modo se constitue a sociedade com proprietarios e não
+ proprietarios, com os possuidores da propriedade de todos os
+ individuos e com os não possuidores, que a produzem.
+
+ A sociedade consta assim de duas classes: a dos ricos e a dos pobres
+ ou proletarios, a superior e a inferior, a dominadora e a dependente
+ ou salariada.
+
+ Os proprietarios industriosos occupam-se em fazer trabalhar os
+ proletarios na agricultura, na fabricação e na manufactura dos meios
+ de subsistencia, isto é, da propriedade transformada em mercadorias
+ como objecto de commercio, de viação e de jogo.
+
+ A classe dos proletarios, ou miseraveis, conta tambem milhares de
+ individuos que não produzem: taes são os mendigos e os defensores
+ salariados da propriedade, escolhidos pelo estado de entre os mais
+ vigorosos, para que não a tomem aquelles que a produzem. Estes
+ subjugam-se a si e a seus eguaes.
+
+ A sociedade injusta subsiste só pela violencia, isto é, uma parte da
+ sociedade arranca violentamente á outra a sua propriedade.
+
+ A violencia existe sem manifestar-se, por ter sido no principio das
+ sociedades policiadas estabelecida pela força, depois attestada
+ pelas leis, depois acceita e transmittida por costume, pelas mesmas
+ leis e pela mesma força.
+
+ * * * * *
+
+ Na epoca actual os proletarios, obrigados pela necessidade,
+ constituem a sua classe de salariados, determinados a fazerem da
+ associação um poder, que modifique as violencias dos proprietarios
+ industriosos, pela proposição e estabelecimento de condições, taes
+ como:
+
+ 1.ª Estabelecimento do dia normal de trabalho, egual quanto possivel
+ em todos os officios e em todas as estações;
+
+ 2.ª Diminuição do tempo de trabalho;
+
+ 3.ª Elevação dos salarios;
+
+ 4.ª Salubridade e segurança dos logares onde se executa o trabalho;
+
+ 5.ª Melhoramentos particulares, tanto dos salarios como do tempo de
+ trabalho, para os que exercem officios de sua natureza penosos e
+ insalubres;
+
+ 6.ª Extincção do trabalho de jornal nos officios em que fôr
+ applicavel o estabelecimento de tabellas de preços dos trabalhos;
+
+ 7.ª Extincção das categorias nos officios, taes como: ajudantes e
+ serventes, devendo considerar-se as divisões do trabalho não como
+ categorias, mas como ramos e especies do mesmo trabalho;
+
+ 8.ª Abolição dos regulamentos das fabricas e manufacturas, como
+ especie que é de contrato unilateral, em que são partes os
+ proprietarios e os miseraveis, tendo os proprietarios, como teem,
+ liberdade de acção para despedir os trabalhadores e appellar para as
+ leis nos casos de attentados;
+
+ 9.ª Egualdade do tempo de trabalho e dos salarios das mulheres e dos
+ homens;
+
+ 10.ª Exclusão das creanças das fabricas e manufacturas, e relação do
+ tempo de trabalho dos menores com a sua idade;
+
+ 11.ª Abolição do tempo determinado de aprendizagem, e prohibição de
+ outros misteres estranhos a cada officio;
+
+ 12.ª Estabelecimento e eleição de commissões de exame e vigilancia
+ compostas de officiaes, que julguem da aptidão dos aprendizes em
+ periodos determinados e curtos;
+
+ 13.ª Egualdade de tratamento para os aprendizes, como individuos
+ racionaes, evitando-se assim a educação aviltante que lhes incutem
+ os costumes da obediencia passiva;
+
+ 14.ª Extincção dos signaes exteriores de obediencia e submissão,
+ como improprios da natureza humana;
+
+ 15.ª Exclusão dos proprietarios e seus representantes das sociedades
+ de trabalhadores, taes como: monte-pios, cooperativas, de recreio,
+ instrucção e outras, com o fim de evitar a dominação e o servilismo.
+
+ * * * * *
+
+ Ao mesmo tempo os proletarios, tendo conhecimento da situação
+ politica da sociedade, constituem-se em partido politico,
+ determinados a crearem um poder, que modifique as violencias
+ politicas da classe dominante, fazendo tambem representar nos
+ poderes do estado os seus interesses de classe, excluidos das
+ instituições politicas e civis.
+
+ O movimento politico da classe dos proletarios é transitorio.
+ Existirá em quanto existirem classes, subordinando-se ás
+ circumstancias e necessidades occorrentes.
+
+ Presentemente, o modo de effeituar o movimento politico dos
+ proletarios consiste em modificar o poder legislativo, pela
+ substituição dos individuos que o compõem, e que representam sómente
+ a classe e os interesses da classe proprietaria.
+
+ O pensamento, a aspiração, o fim, do movimento dos proletarios
+ constituidos em classe e em partido, é a implantação e a
+ constituição da sociedade justa. A este movimento tudo é
+ subordinado, inferior e transitorio.
+
+ Os proletarios de todas as nações civilisadas, constituindo a
+ associação internacional dos trabalhadores, da qual nos declaramos
+ um ramo, effeituam o mesmo movimento, e em cada uma organisam-se e
+ procedem conformes ás instituições politicas.
+
+ Em Portugal, onde os poderes politicos são constituidos
+ publicamente, os proletarios procedem dentro das instituições para
+ realisarem o seguinte:
+
+ 1.º
+
+ Instituição dos municipios.
+
+ _a)_ Constituição dos municipios com todos os contribuintes da sua
+ circumscripção.
+
+ Divisão dos municipios em circulos administrativos, e constituição
+ d'estes com todos os contribuintes da sua circumscripção.
+
+ Serem contribuintes todos os individuos maiores que exerçam alguma
+ profissão.
+
+ _b)_ Celebração de sessões periodicas, tanto nos municipios como nos
+ circulos, onde os contribuintes, constituidos em assembléas,
+ proponham, discutam e resolvam os respectivos interesses publicos.
+
+ _c)_ Creação de corpos gerentes, tanto dos municipios como dos
+ circulos, por eleição dos contribuintes nas assembléas respectivas.
+
+ Responsabilidade individual dos membros dos corpos gerentes
+ municipaes e dos circulos perante as assembléas respectivas, e sua
+ sujeição á justiça commum.
+
+ _d)_ Elaboração dos recenseamentos dos contribuintes, tanto dos
+ circulos como dos municipios, pelos corpos gerentes respectivos.
+
+ Validação dos recenseamentos municipaes para todos os effeitos civis
+ e politicos, publicos e privados.
+
+ _e)_ Administração dos rendimentos dos municipios feita pelos
+ municipios, e a dos circulos feita pelos circulos, sem dependencia
+ de poderes centraes, nem de regulamentos, nem de corpos e
+ auctoridades superiores.
+
+ _f)_ Integração dos municipios na administração das suas escolas, dos
+ hospitaes, cadeias, vias publicas, correios e telegraphos, da sua
+ circumscripção.
+
+ _g)_ Repartição e cobrança das contribuições publicas feitas pelos
+ municipios, e as d'estes pelos circulos ou pelos gremios de
+ profissões.
+
+ Concurso e ordenados fixos para todos os officiaes de fazenda,
+ effeituados por cada municipio.
+
+ Installação das repartições de fazenda nos edificios municipaes.
+
+ Responsabilidade dos officiaes de fazenda perante as assembléas
+ respectivas, e sua sujeição á justiça commum.
+
+ _h)_ Provisão dos officios de juizes e seus escrivães, tanto do civel
+ como do crime, por concurso aberto pelos municipios respectivos.
+
+ Eleição dos jurados.
+
+ Nomeação dos officiaes de justiça subalternos pelos juizes e
+ jurados.
+
+ Fixação dos vencimentos de todos os officiaes de justiça, tanto
+ superiores como subalternos, pagos por cada municipio.
+
+ Installação dos tribunaes de justiça em edificios municipaes.
+
+ Responsabilidade dos officiaes de justiça perante as assembléas, e
+ sua sujeição á justiça commum.
+
+ _i)_ Instituição da policia municipal, regida e paga por cada
+ municipio.
+
+ _j)_ Estabelecimento de escolas de ensino technico de artes e
+ officios, tanto ruraes como fabris, nos municipios, geridas e
+ sustentadas por elles.
+
+ _m)_ Alimentação, vestuario e objectos de ensino dados pelos
+ municipios aos menores miseraveis que frequentem as escolas.
+
+ --Consequencias:
+
+ Abrogação do codigo administrativo, e sua substituição por
+ disposições geraes no codigo fundamental, isto é, substituição de
+ leis por instituições, que estabeleçam e garantam as liberdades
+ politicas, publicas e individuaes, pela extincção das camaras
+ municipaes, das juntas geraes, dos conselhos de districto, dos
+ governos civis, das administrações dos concelhos, das regedorias e
+ das juntas de parochia.
+
+ 2.º
+
+ Conformação dos codigos civil, commercial, judicial e penal com as
+ disposições de egualdade civil e politica estatuidas no codigo
+ fundamental, abrogando-se no civel a parte que regula as condições
+ da servidão e todos os contratos unilateraes.
+
+ Revisão periodica dos codigos.
+
+ Abolição do juramento, tanto no fôro politico, como no civil,
+ judicial e militar.
+
+ 3.º
+
+ Constituição do poder legislativo com os delegados representantes de
+ cada municipio, eleitos nas assembléas dos circulos pelos seus
+ contribuintes.
+
+ 4.º
+
+ Abolição do recrutamento e das matriculas maritimas.
+
+ Serviço militar voluntario.
+
+ Sujeição dos militares ás leis e aos tribunaes communs nos casos de
+ offensas de direitos civis e politicos.
+
+ 5.º
+
+ Reducção de todas as contribuições, tanto para o estado como para os
+ municipios, a uma unica, directa.
+
+ Extincção immediata das barreiras, estabelecendo a livre circulação
+ dos generos alimenticios.
+
+ Creação de bilhetes de contribuição divisiveis e vendaveis como os
+ sellos, para que todos possam opportunamente compral-os durante o
+ anno e pagarem assim a sua contribuição.
+
+ 6.º
+
+ Extincção dos privilegios a companhias e associações. Rescisão de
+ seus contratos com o estado, e sua sujeição e de seus membros á
+ justiça commum.
+
+ 7.º
+
+ Extincção dos privilegios, subsidios ou mercês, subvenção ou
+ intervenção do estado e dos municipios a individuos, a empresas, a
+ estabelecimentos e a instituições industriaes, scientificas,
+ litterarias e religiosas.
+
+ 8.º
+
+ Taxação de todos os serviços publicos ao estrictamente necessario
+ para o custeamento das suas despezas correntes.
+
+
+
+
+III
+
+A COOPERAÇÃO DOS TRABALHADORES
+
+
+COOPERAÇÃO E SOLIDARIEDADE.--INSTRUCÇÃO E ASSOCIAÇÃO.--O
+INTERNACIONALISMO.--AS COOPERAÇÕES OPERARIAS E ALGUNS DOS SEUS MAIS
+DEDICADOS E FERVOROSOS APOSTOLOS.---CESAR DE PAEPE, ANSEELE, JEAN
+VOLDERS, LOUIS BERTRAND.
+
+A solidariedade operaria não é senão um resultado da cooperação. Disse-o
+Cesar de Paepe, num discurso eloquentissimo, pronunciado no congresso
+internacional cooperativo de Paris.
+
+«Não ha, na Belgica, um Lassalle e um Schultze inimigos, exclamava o
+illustre chefe do socialismo belga; ha sim! um partido operario que é,
+ao mesmo tempo, cooperativista, republicano e socialista.»
+
+E accrescentou:
+
+«Os cooperadores belgas associaram-se sempre ás manifestações em favor
+do suffragio universal.
+
+«As nossas sociedades cooperativas não têem por fim realisar interesses
+para alguns individuos, senão, ao contrario, desenvolver os sentimentos
+de solidariedade entre os seus membros.»
+
+A cooperação dos trabalhadores póde e deve tomar-se em dois sentidos
+differentes: um sentido restricto e um sentido amplo e generico. No
+primeiro caso, a cooperação limita-se a explorar as cooperativas
+sociaes, quer sejam as de producção, quer sejam as de consumo, quer
+sejam as de credito. No segundo caso, a cooperação estende-se alêm das
+fronteiras e affirma-se pelo principio da solidariedade de classe, no
+combate quotidiano contra o capitalismo e o industrialismo, em favor das
+reivindicações operarias.
+
+ [Gravura: Cesar de Paepe]
+
+Do mesmo modo que para todo o cidadão ha duas patrias--a patria onde
+cada um exerce a sua actividade e essa outra grande patria, a que
+estamos vinculados pelos nossos ideaes e pelas nossas aspirações, que se
+chama humanidade; assim tambem a cooperação dos trabalhadores tem de
+ser, ao mesmo tempo, nacional e internacional: nacional pela affirmação
+da solidariedade operaria, em cada paiz, e internacional pela
+affirmação da solidariedade com os companheiros de todos os paizes, de
+todas as raças, de todas as religiões e de todas as linguas.
+
+Da legislação internacional do trabalho, fizeram os socialistas o artigo
+1.º do seu programma. O internacionalismo manifesta-se, a cada passo,
+nas relações entre os povos. A facilidade de communicações tem
+concorrido extraordinariamente para isso. Mas ao facto material da
+rapidez nas viagens, devemos juntar o facto moral da transformação,
+realisada nos velhos processos politicos e da corrente, cada vez mais
+intensa e cada vez mais poderosa, das idéas modernas.
+
+_Proletarios de todo o mundo, uni-vos!_ Era esta a divisa de Karl Marx,
+e é esta a divisa do socialismo revolucionario.
+
+Mas a verdadeira união só poderá conseguir-se pelas associações de
+classe. No dia em que o proletariado tiver realisado este grande e
+supremo _desideratum_, n'esse dia terá soado a hora da sua emancipação.
+E deante do formidavel exercito, não haverá nem canhões Krupp nem
+espingardas Kropateschaek que valham ou prevaleçam. Isto matará aquillo.
+O proletariado organisado matará a realeza armada. O trabalhador vencerá
+o soldado. O homem livre e consciente transformará o velho mundo,
+enthronisando a paz e a justiça, no logar onde campeava a iniquidade e a
+desegualdade social.
+
+A beneficencia publica e particular, a caridade official e outros
+palliativos de egual natureza, são impotentes para resolver o problema,
+porque humilham aquelle que se pretende beneficiar, rebaixam os
+caracteres, engendram a preguiça e entreteem a mendicidade.
+
+Não se trata apenas, de soccorrer os pobres: o que se trata é de
+supprimir a pobreza. E para isso é mister que a sociedade, em vez de uma
+madrasta odienta, se converta em mãe protectora e disvelada; é mister
+que a todos, sem excepção, seja garantido o direito á instrucção e o
+direito ao trabalho, que são uma consequencia do direito á existencia; é
+mister que a educação e os meios de produzir não constituam o privilegio
+de uma minoria rica e favorecida da sorte; é mister, não só que todos
+sejam eguaes perante a lei, senão tambem que todos sejam eguaes perante
+a sociedade, pelo desenvolvimento physico e moral, pela posse dos
+instrumentos de producção e pelo gozo do credito; é mister, emfim, que o
+altruismo e a bondade se sobreponham ao egoismo e á crueldade das
+modernas sociedades.
+
+ * * * * *
+
+
+AS COOPERATIVAS OPERARIAS
+
+Ha quem pense que as cooperativas operarias podem concorrer
+poderosamente para a extincção da miseria. Não somos d'esse numero. As
+cooperativas, (e quando fallo em cooperativas, refiro-me particularmente
+ás cooperativas de consumo) podem, quando muito, attenuar, e attenuam,
+com effeito, as condições de existencia do proletariado. Mas d'ahi, a
+resolver o problema da sua emancipação, vae um abysmo.
+
+Quer isto dizer que tenham sido estereis todas as tentativas feitas para
+manter e sustentar as cooperativas? De modo algum. Entre os que tudo
+pedem e esperam da iniciativa das corporações operarias e os que tudo
+esperam do Estado, entre os dois exclusivismos, ha um meio termo que
+Malon synthetisava nas palavras de um velho proverbio: _Aide-toi, les
+pouvoirs publics t'aideront._
+
+Os esforços cooperativos e corporativos, do mesmo modo que a procura de
+uma melhoria immediata, devem ter por alvo a educação administrativa e a
+organisação dos trabalhadores, para se chegar á abolição do salariado,
+com o concurso dos poderes publicos, influenciados primeiro e
+conquistados depois.[3]
+
+Tal era o programma do pae da cooperação, o illustre Robert Owen; mas
+não foi esta a politica seguida pelos seus successores, que mutilaram a
+ideia do mestre, fazendo da cooperação um _fim_, quando não é nem deve
+ser senão um _meio_.
+
+ * * * * *
+
+
+OS APOSTOLOS DA COOPERAÇÃO
+
+Durante muito tempo, foi grande e profunda a inimisade entre
+cooperativistas e socialistas, se bem que o principio da cooperação
+tenha uma origem caracterisadamente socialista, tendo sido, como já
+dissemos, Robert Owen o seu primeiro apostolo. A elle se devem as
+primeiras tentativas de cooperação; foi elle quem inventou a palavra e
+quem propagou a theoria. Robert Owen, o inventor e o apostolo das
+_sociedades cooperativas_--escrevia d'Assaily que para todos deve ser
+insuspeito, pela sua tendencia conservadora e retrograda--pretendeu
+realisal-as n'um estabelecimento, onde o trabalho collectivo abraçasse,
+ao mesmo tempo, a agricultura e a industria; onde o espirito tivesse,
+como o corpo, a sua parte de legitima satisfação; onde o trabalho fosse
+voluntario; onde não fosse punida a minima infracção; onde não fossem
+obrigatorias quaesquer privações, e onde o respeito dos direitos fosse o
+resultado d'um mutuo interesse.»
+
+A idéa de Robert Owen era demasiadamente idealista e synthetica para o
+proletariado da Inglaterra. Mas, pratico como é, o operario inglez
+descobriu-lhe logo o lado util, e assim nasceram as cooperativas de
+consumo, que, após algumas tentativas, chegaram a ter um resultado
+brilhante nos _Pionniers de Rochdale_.
+
+Só é efficaz a cooperativa de consumo; a de producção é impotente para
+luctar com outras emprezas congeneres, attenta a difficuldade em obter o
+capital que é, por via de regra, superior ás forças operarias; e a de
+credito, por seu turno, tropeça praticamente com embaraços e obstaculos
+insuperaveis.
+
+Devemos, porém, repetir, com Malon, que todas as fórmas cooperativas
+servem, em geral, para preparar a educação administrativa do
+proletariado, tornando-o mais apto para as reivindicações de ordem
+politica e social.
+
+Os socialistas fazem mal, rebaixando e combatendo as tentativas
+cooperativistas. Do mesmo modo que a iniciativa individual só por si
+seria impotente, assim tambem a acção dos poderes publicos não poderá
+ser nunca verdadeiramente benefica, se não fôr secundada pelos esforços
+collectivos de um proletariado já familiarisado com as difficuldades
+administrativas das organisações politicas e economicas.
+
+Sob este ponto de vista, a cooperação, verdadeira escola de pratica
+industrial e commercial, desembaraçando-se pouco a pouco do primeiro
+exclusivismo, é uma excellente preparação para as reformas sociaes, que
+o proletariado terá um dia de arrancar aos poderes publicos.
+
+N'uma palavra, cooperadores e socialistas são militantes na mesma obra
+de renovação e de justiça. Os trabalhos de uns e as luctas dos outros
+completam-se mutuamente, e a sua união apressaria o dia, por todos
+desejado, da emancipação humana.
+
+Associamos-nos pois, de todo o coração ao generoso appêlo dirigido aos
+socialistas por Louis Bertrand, que é, ao mesmo tempo, um dos primeiros
+vulgarisadores do collectivismo e um cooperador pratico.
+
+«Á obra pois, companheiros, á obra! Não esqueçais nunca que qualquer
+nova sociedade cooperativa é um passo a mais para a sociedade do futuro,
+a sociedade que sonhamos, feita de justiça e de solidariedade, e na
+qual todos encontrarão o seu bem-estar em troca de um trabalho facil e
+remunerador.
+
+«Mas não olvideis, sobretudo, que o fim a attingir não se limita a
+beneficiar ou a fazer beneficiar os operarios de alguns francos por
+semana ou por mez, e que é preciso ter sempre em vista o fim supremo: a
+libertação completa da classe operaria pela suppressão do salariado e
+pela applicação das doutrinas socialistas.»[4]
+
+ [Gravura: Louis Bertrand]
+
+Na cooperação belga destacam-se cinco grandes realisações, porventura as
+primeiras e as mais solidas realisações do principio cooperativista: a
+sociedade do _Vooruit (àvante)_, de Gand; o _Progrés_, de
+Jolimont-La-Louvrière; a _Maison du Peuple_, de Bruxellas; o _Werker_,
+d'Anvers; e a _Populaire_, de Liége.
+
+A mais importante, o _Vooruit_, possue uma padaria, officinas de
+calçado, de vestuario, de quinquilheria, _armazens_ de carvão e um
+café restaurante onde é prohibida a venda de bebidas alcoolicas. O
+_Vooruit_ possue tambem uma caixa de soccorros, sendo os doentes curados
+gratuitamente. O jornal que se intitula _Vooruit_ tira por dia 10:000
+exemplares. A sociedade _Vooruit_ tem 40 administradores e 150
+empregados, e fazem negocios 2.500.000 francos por anno. O centro de
+estudos, as camaras syndicaes, as sociedades de musica e de gymnastica,
+constituem outras tantas secções da cooperativa que tem servido de
+modelo a todas as outras cooperativas belgas.
+
+ [Gravura: Anseele]
+
+Anseele é o gerente do _Vooruit_, como Jean Volders é o gerente da
+_Maison du Peuple_. A elles se deve uma parte da propaganda socialista
+da Belgica, porque as cooperativas, n'aquelle paiz, apresentam uma
+feição eminentemente revolucionaria e constituem, para o proletariado,
+uma formidavel arma de combate. Quantas _grèves_ não teem sido
+sustentadas com o pão e o carvão distribuido pelas cooperativas?! É que
+os belgas fizeram das cooperativas de consumo, ao mesmo tempo, um
+elemento de interesse pessoal, de resistencia politica e de propaganda
+socialista. Os dividendos a distribuir a cada associado constituem o
+fundo social do partido. E d'este modo, tão digno de ser imitado,
+organisaram os socialistas belgas o mais poderoso e valente exercito que
+temos visto e admirado, o grande e honrado exercito da sciencia e do
+trabalho, o invencivel exercito do povo, o exercito do futuro!
+
+ [Gravura: Jean Volders]
+
+Os cinco grupos, acima referidos, não comprehendem, ainda assim, todo o
+movimento cooperativo belga, que, em 1889, havia attingido os algarismos
+seguintes:
+
+ Cooperativas alimenticias 53
+
+ Padarias 36
+
+ Bancos populares 19
+
+ Sociedades de producção 18
+
+ Syndicatos agricolas 15
+
+ Cooperativas de industriaes e commerciantes 10
+
+ Pharmacias populares 6
+
+ Uniões de credito 5
+
+ Diversas sociedades 17
+
+ Total 179
+
+E Jean Volders não descança um momento, percorrendo a Belgica em missão
+de propaganda, uma e mais vezes por anno, espalhando a ideia e
+attrahindo proselytos á sua generosa causa!
+
+Uni-vos pois, trabalhadores! Organisae-vos e defendei-vos, creando
+escolas, estabelecendo cooperativas, fundando associações de classe e
+preparando-vos por todos os meios, para o supremo combate contra os
+vossos exploradores e os vossos inimigos. Sois hoje o numero e sereis
+ámanhã a qualidade! Para isso uma unica cousa bastará:--que vos
+associeis, nacional e internacionalmente. Na associação está a vossa
+força. Usae d'ella! Reuni os vossos elementos. Instrui, trabalhae,
+educae-vos. Sereis os vencedores. O mal não está n'este ou n'aquelle
+paiz: está na sociedade em geral. Os governos recuam e os reis e
+imperadores pensam que a salvação está na morte ou no desapparecimento
+dos insubmissos e rebeldes. Puro engano! Os effeitos hão ser os mesmos,
+emquanto subsistirem as mesmas causas. Eliminae o mal, pela vossa
+perseverança na lucta e pela vossa constancia no combate. Formae,
+adestrae os vossos batalhões. Sois regimento e sereis exercito. Tendes
+por vós a razão e a justiça. Confiae no futuro. Que a voz de commando
+seja só uma e que a obediencia seja geral e completa!
+
+O proletariado é só um, tem um só interesse e uma só aspiração. Não
+conhece raças, nem linguas, nem religiões. No dia em que elle quizer,
+nenhuma outra vontade lhe será superior. A humanidade é o supremo ideal,
+e, pensando n'ella, abstrahimos de nós mesmos, e das miserias e torpezas
+do mundo.
+
+
+
+
+IV
+
+ARBITRAGEM INTERNACIONAL
+
+
+SOCIEDADES DA PAZ.--EMILE ARNAUD.--O MILITARISMO.--DOMELA
+NIEUWENHUIS.--ARBITRAGEM INTERNACIONAL.--MICHEL REVON.--A FEDERAÇÃO E OS
+SEUS APOSTOLOS.--NACIONALISMO E INTERNACIONALISMO.--ALFREDO
+NAQUET.--RENÉ GOBLET E AUGUSTO VACQUERIE.--A GUERRA VENCIDA PELA
+ARBITRAGEM.--O DESARMAMENTO.--EDUARDO VAILLANT.
+
+O movimento em favor da paz, vae-se accentuando de dia para dia. É
+consolador registar o facto e apreciar as suas consequencias.
+
+Sobe a mais de cincoenta o numero das sociedades da paz de que temos
+conhecimento e que realmente funccionam.
+
+ALLEMANHA
+
+_Sociedade da Paz_ (presidente o conde Bodner)--_Wiesbaden._
+
+_Sociedade da Paz em Berlim_ (presidente o dr. Mühling)--Berlim.
+
+_Sociedade da Paz em Ulm_ (presidente H. Eberle)--_Neu-Ulm._
+
+_Sociedade da Paz em Francfort_ (presidente Franz Wirth)--_Francfort_.
+
+_Sociedade da Paz em Constança_ (presidente professor
+Martens)--_Constanz_.
+
+INGLATERRA
+
+_International Arbitration and peace association_ (presidente Hodgson
+Pratt)--_London_.
+
+_Peace Society_ (presidente Joseph Pease)--_London_.
+
+_Local Peace Association_ (presidente M.elle Peckover)--_Wisbech_.
+
+_Peace Society of Liverpool_ (presidente Thomas Suape)--_Liverpool_.
+
+_International Arbitration League_ (presidente Cremer)--_London_.
+
+_Local Peace Association_ (presidente Rowntree)--_York_.
+
+_Woman's Peace and Arbitration Society_ (presidente
+Thompson)--_Birkenhead_.
+
+AUSTRIA
+
+_Oesterr. Friedensgesselschaft_ (presidente a baroneza de
+Suttner)--_Vienna_.
+
+_Societé Universitaire de la paix_ (presidente dr. Steckel)--_Vienna_.
+
+BELGICA
+
+_Section belge de l'arbitrage et de la paix_ (secretario
+Lafontaine)--_Bruxellas_.
+
+DINAMARCA
+
+_Association pour la neutralisation de la Danemark_ (presidente
+Frederico Bajer)--_Copenhague_.
+
+FRANÇA
+
+_Ligue internationale de la paix et de la liberté_ (presidente Emile
+Arnaud)--_Luzarches_.
+
+_Societé française de l'arbitrage entre nations_ (presidente Frederic
+Passy)--_Neuilly_.
+
+_Ligue du Bien public_ (presidente Pierre Potonié)--_Fontenay_.
+
+_Societé de la paix du familistére de Guise_ (presidente
+Bernardot)--_Guise_.
+
+_Societé de la paix perpétuelle par la justice internationale_
+(presidente Philippe Destrem)--_Paris_.
+
+_Groupe des amis de la paix du Puy-de-Dóme_ (presidente
+Pardoux)--_Clermont-Ferrani_.
+
+_Association des jeunes amis de la paix_ (presidente Dumas)--_Paris_.
+
+_Societé universitaire internationale_ (presidente Dumas)--_Paris_.
+
+_Societé de la paix d'Abbeville et de Ponthieux_ (presidente Jules
+Tripier)--_Eancourt_.
+
+_Union Méditerranéenne_ (presidente Gromier)--_Paris_.
+
+_Comité de la Sarthe_ (presidente Destriché)--_Sarthe_.
+
+_Société de la paix de Felletin_ (presidente Abbé Pichot)--_Felletin_.
+
+HOLLANDA
+
+_Pax Humanitate_ (presidente Schook)--_Amsterdam_.
+
+_Société Générale de la paix_ (presidente Moddermann)--_Haya_.
+
+ITALIA
+
+_Union Lombarda_ (presidente Theodoro Moncta)--_Milão_.
+
+_Comité Romano da Paz_ (presidente Boughi)--_Roma_.
+
+_Sociedade da paz de Turim_ (presidente Armandon)--_Turim_.
+
+_Sociedade da paz de Palermo_ (presidente Aguanno)--_Palermo_.
+
+_Sociedade da paz e da arbitragem de Perugia_ (presidente Leopoldo
+Tiberi)--_Perugia_.
+
+SUECIA
+
+_Sociedade da Paz_ (presidente Wawrinsky)--_Stockholmo_.
+
+SUISSA
+
+LIGA INTERNACIONAL DA PAZ E DA LIBERDADE
+
+--_Comité central_ (secretario M.me Goegg)--_Genève_.
+
+--_Secção de Neuchatel_ (presidente Gustavo Renaud)--_Neuchatel_.
+
+--_Secção de Berne_ (presidente W. Marcussen)--_Berne_.
+
+--_Secção de Saint Gall_ (presidente Schimd)--_Saint Gall_.
+
+--_Secção de Zurich_ (presidente Gustavo Vogt)--_Zurich_.
+
+--_Secção de Genebra_ (presidente dr. Cordés)--_Genève_.
+
+ESTADOS UNIDOS DA AMERICA
+
+--_Sociedade americana da paz_ (presidente dr. Trueblood)--_Boston_.
+
+_Sociedade christã para a arbitragem da paz_ (presidente
+Wood)--_Philadelphia_.
+
+_Associação nacional da arbitragem_ (presidente
+Gardener)--_Washington_.
+
+_National Association for the Promotion of Arbitration_ (presidente
+Lockwood)--_Washington_.
+
+_Associação da arbitragem da California_ (presidente Berwick)--_Monterey
+(California)_.
+
+_Universal Peace Union_ (presidente Loye)--_Philadelphia_.
+
+_Peace Department of the N. W. C. T. U._ (presidente Bailey)--_Maine U.
+S. A._
+
+_Peace Association of friends in America_ (Daniel Whill
+secret.)--_Richmond, Ind. U. S. A._
+
+_South Carolina Peace Society_--_Columbia S. C._
+
+_Illinois Peace Society_ (presidente Allen)--_Chicago III._
+
+_Connecticut Peace Society_ (Whipple, secret.)--_Old Mistic Conn. U. S. A._
+
+_Rhode Island Peace Society_ (Robert, secret.)--_Providence R. I. U. S. A._
+
+_Friend's Peace Association of Philadelphia_ (presidente
+Wickersham)--_Philadelphia_.
+
+_National Peacy Society_ (presidente Ellen Lease)--_Topeka (Kausao) U.
+S. A._
+
+
+A paz constitue hoje o supremo _desideratum_ da humanidade trabalhadora.
+Mas a paz tem um complemento indispensavel--a liberdade e a justiça.
+D'este modo o antigo adagio: _Si vis pacem, para bellum (Se queres a paz
+prepara a guerra)_, que havia sido substituido por est'outro, não menos
+illusorio: _Si vis pacem, para pacem (Se queres a paz prepara a paz)_,
+foi transformado, ao sopro da revolução, pelo seguinte principio: _Si
+vis pacem, para libertatem (Se queres a paz prepara a liberdade)_.
+
+Com o progresso dos tempos, reconheceu-se porém, que a paz pela
+liberdade era ainda pouco, e Aurelio Saffi, traduzindo as aspirações dos
+philosophos e pensadores da sua época, estabeleceu o lemma da _paz pela
+liberdade e pela justiça (si vis pacem, para libertatem et justitiam)_.
+
+Mais tarde, Carlos Lemmonier reforçou esta formula, demonstrando que a
+paz, assim como a liberdade, não devia ser um _fim_, mas apenas um
+_meio_. E os philantropos, aceitando a observação, principiaram então de
+apregoar a paz _pela_ liberdade e _por amor_ da justiça.
+
+ [Gravura: Emile Arnaud]
+
+A formula de hoje--diz ajuizadamente Emile Arnaud--a unica que
+corresponde ao estado actual da Europa e á situação especial de cada
+paiz, é a seguinte: _Si vis justitiam, para pacem (Se queres a justiça,
+prepara a paz)_.
+
+E, uma vez que fallamos em Emile Arnaud, o glorioso continuador da
+doutrina de Carlos Lemmonier, devemos dizer que dos apostolos e
+evangelistas da paz, é elle um dos mais ardentes, um dos mais convictos
+e um dos mais activos. A _Liga Internacional da Paz e da Liberdade_ está
+organisada como nenhuma outra sociedade, com ramificações em toda a
+Suissa e secções e _comités_ em todos os outros paizes da Europa.
+
+ * * * * *
+
+
+O MILITARISMO.--DOMELA NIEUWENHUIS.
+
+Em caso de guerra, qual deverá ser a attitude do partido operario
+socialista?--perguntava-se no congresso de Zurich.
+
+Domela Nieuwenhuis, o sympathico e benemerito chefe do socialismo na
+Hollanda, já havia respondido a esta pergunta no congresso de Bruxellas,
+em 1891.
+
+Em caso de guerra, aconselhava Nieuwenhuis a _proclamação de uma gréve
+militar e de uma gréve geral_. Esta mesma idéa havia já sido enunciada
+na mesma cidade de Bruxellas, em 1868, por occasião do Congresso da
+Associação Internacional dos Trabalhadores. Por unanimidade havia sido
+approvada a resolução seguinte:
+
+«O congresso recommenda, sobretudo, aos trabalhadores a suspensão de
+todo o trabalho, no caso em que uma guerra viesse a explodir nos seus
+respectivos paizes. O congresso conta sufficientemente com o espirito de
+solidariedade, que anima os trabalhadores, que não se negarão a prestar
+o seu apoio a esta guerra dos povos contra a guerra.»
+
+Cesar de Paepe propôz dois meios:
+
+1.º A recusa em satisfazer o serviço militar, ou, o que vale o mesmo, a
+gréve geral;
+
+2.º A resolução definitiva da questão social, ou, por outros termos, a
+revolução social na Europa.
+
+O militarismo não póde ser combatido com simples protestos. Á guerra é
+mister oppôr a guerra, diz muito bem Domela Nieuwenhuis. Já era este
+tambem o grito de Victor Hugo. Guerra á guerra! Morte á morte!
+
+ [Gravura: Domela Nieuwenhuis]
+
+Não basta só condemnar a guerra. É mister impedil-a, por todos meios,
+evital-a e _deshonral-a_, ainda na phrase do Mestre.
+
+No manifesto, feito por occasião da guerra civil em França, e redigido
+por Karl Marx, o conselho geral da Internacional declarou que, no longo
+curso da historia, uma unica guerra podia justificar-se--era a guerra
+dos escravos contra os senhores. Eis o motivo porque, em caso de guerra,
+nós devemos responder, recusando-nos ao serviço militar, quer dizer,
+proclamando a guerra civil. O partido socialista quer acabar com as
+guerras nacionaes, substituindo-as pela guerra internacional, cujo
+ultimo resultado será a emancipação do proletariado.
+
+Propômos a gréve geral, sobretudo nos officios e profissões, que tenham
+qualquer relação com a guerra, porque isso póde ser de grande
+utilidade.
+
+Com effeito, se, em caso de proclamação de hostilidades, os operarios
+fizerem tudo quanto poderem, para destruir as rêdes telegraphicas, os
+_rails_, as machinas, numa palavra para impedir o encontro dos
+exercitos, é claro que a guerra se tornará impossivel.
+
+Apesar de tudo--concluia Domela Nieuwenhuis[5]--continuaremos a nossa
+propaganda, para fazer germinar a idéa da _recusa de serviço em caso de
+guerra_, acompanhada de uma _grève_ geral. Esta idéa fará o seu caminho.
+O proletariado deve arriscar o seu sangue unicamente contra o seu unico
+e verdadeiro inimigo: _o capitalismo_.
+
+ * * * * *
+
+
+ARBITRAGEM INTERNACIONAL.--MICHEL REVON
+
+Para acabar com a guerra, propõe Michel Revon, pelo seu lado, e com elle
+outros notaveis pensadores, á frente dos quaes se encontra Frederico
+Passy, a arbitragem internacional. Atravessamos um periodo de
+transição--escreve elle[6]--que póde durar ainda dois ou
+tres annos, mas que não poderá prolongar-se. Em dez annos, ou a guerra
+geral terá arruinado a Europa, ou o militarismo se haverá tornado
+impotente. A lucta entre o espirito da guerra e o espirito da paz, está
+por ora indecisa. O momento «psychologico» poderá surgir em 1894, como
+em 1895 ou em 1896.
+
+Em 1900 é que não.
+
+Segundo o criterio desenvolvido por Michel Revon no seu bello livro, a
+guerra teve outr'ora a sua rasão de ser. Foi já um phenomeno divino, mas
+é hoje um anachronismo e uma brutalidade sem nome. Em tres seculos os
+armamentos actuaes pertencerão aos museus archeologicos.
+
+São precisos os exercitos permanentes, para quê?--Para que os ricos
+durmam descançados, como dizia Balzac?
+
+É precisa a guerra para quê? Para devastar e exterminar a humanidade?
+N'esse caso, proclamem tambem as vantagens das epidemias que dizimam as
+populações e das grandes catastrophes que enchem de victimas as
+localidades.
+
+A guerra só se justificava entre povos barbaros, em plena noite da
+historia.
+
+Vergniaud pinta-nos effectivamente os povos, combatendo durante a noite,
+como amigos ou irmãos que se não conhecessem, mas promptos a
+abraçarem-se e a fraternisarem, desde que a luz, descobrindo-os, os
+tornou conhecidos uns dos outros.
+
+Quem é que não conhece o obra prima de Proudhon:--a Justiça e a Vingança
+perseguindo o crime? A victima jaz por terra; o assassino foje; no
+ambiente azulado da noite, entrevêem-se, porém, as duas deusas
+agitando-se, terriveis e fataes, compasso seguro e tranquillo;
+ellas sabem perfeitamente, as immortaes, que, cedo ou tarde, o criminoso
+lhes hade cahir nas mãos, porque nenhum ainda lhes escapou. Esta
+perseguição dramatisada do mal pelo direito, esta vibrante condemnação
+d'esse hediondo crime que se chama a guerra, esta passagem formidavel da
+vingança e da justiça de Deus, não é outra cousa, no fundo, senão a
+propria revolução da civilisação humana. É, n'uma palavra, a verdade
+suprema da historia, o seu principio de vida e o seu mais salutar
+ensinamento.
+
+Para todos aquelles que, estudando a historia, observaram as duas
+tendencias que nos offerecem as civilisações da antiguidade--a tendencia
+para a paz e a tendencia para a guerra, n'uma lucta épica, semelhante á
+lucta entre a morte e a vida; para aquelles que, analysando o
+christianismo, as perturbações da edade média, e o esforço immenso do
+papado, chegaram emfim, aos tempos modernos, e á transformação dos
+Estados europeus, para esses não póde a arbitragem internacional
+apresentar a minima duvida, por isso que ella não é senão o resultado
+dos progressos alcançados pelo direito positivo moderno, que nol-a
+apresenta em nossos dias, na sua preparação social, na sua elaboração
+juridica e nas suas applicações.
+
+A arbitragem é, no dizer de Revon, uma reforma absolutamente necessaria,
+muito possivel de realisar, mas, ao mesmo tempo, de uma difficuldade
+extrema, visto como a sua pratica depende não só de uma transformação
+moral, economica, juridica, e sobretudo do meio em que terá de se
+desenvolver, senão tambem do funccionamento de uma jurisdicção
+internacional, sob todas as suas fórmas variadas, insensiveis, e
+necessariamente ligadas umas ás outras, desde a simples arbitragem
+facultativa até ao tribunal geral, no triplice ponto de vista da sua
+organisação, da sua competencia e do seu processo.
+
+ * * * * *
+
+
+A FEDERAÇÃO E OS SEUS APOSTOLOS
+
+«A guerra é um facto barbaro, e os exercitos são instituições barbaras,
+disse-o Victor Considérant. O principal dogma da republica
+democratica--_Liberdade, Egualdade, Fraternidade_--constitue, com a
+guerra e os exercitos, uma triplice contradicção. O progresso nos povos
+deve contribuir para o desapparecimento da guerra, transformando os
+exercitos _destructores_ em exercitos _productores_.»
+
+Herbert Spencer, no fim do terceiro volume dos seus _Principios de
+Sociologia_, resume do seguinte modo o seu profundissimo estudo sobre as
+instituições politicas:
+
+«A possibilidade de um estado social superior, tanto em politica, como
+em geral, depende de um facto fundamental: a cessação da guerra. Tal é a
+conclusão mais importante a que chegam todas as partes do nosso
+trabalho. Depois de tudo o que dissémos, é inutil insistir ainda sobre
+os effeitos da persistencia do militarismo, o qual, conservando as
+instituições adaptadas ás suas necessidades, impede ou neutralisa a
+transformação d'essas instituições ou d'essas leis n'um sentido mais
+equitativo, ao passo que a paz permanente ha de ser seguida
+necessariamente por melhoramentos sociaes de toda a especie.
+
+«A guerra deu tudo o que podia dar. A occupação da terra pelas raças
+mais poderosas e intelligentes é um beneficio, já realisado em grande
+parte; o que está por conquistar não reclama senão uma cousa: a pressão
+crescente que exerce uma civilisação industrial sobre uma barbarie que
+recúa. A integração que fusiona grupos simples em grupos compostos, como
+resultado de um estado de guerra, e que conduz no fim de certo tempo á
+formação das grandes nacionalidades, é uma operação que parece ter
+tocado o seu termo. Os imperios formados de povos estranhos uns aos
+outros, desmembram-se ordinariamente, quando desapparece a força
+coerciva que os mantinha. E, ainda quando mesmo ficassem unidos, não
+poderiam jámais constituir um todo harmonioso. Uma _federação pacifica_
+é o unico processo de _consolidação_ que se póde prevêr.»
+
+Tal é a opinião do grande philosopho. Para elle a paz é o fundamento da
+moral.
+
+Era esta tambem a opinião de Kant que consagrou a moral como a base de
+toda a politica. Em sua opinião, todo o direito civil, politico ou
+internacional constitue uma ligação entre duas vontades, e baseia-se no
+respeito reciproco das liberdades. Quer se trate de dois povos, quer de
+duas pessoas, o estado de guerra significa estado de natureza, e é
+um dever sahir d'elle. Sob o ponto de vista da rasão, não ha senão
+um meio de tirar os Estados da situação violenta em que se encontram,
+renunciando á liberdade anarchica dos selvagens, e submettendo-os ao
+imperio de leis mais liberaes, afim de formar assim um Estado de nações
+(_civitas gentium_) que possa augmentar insensivelmente, até abraçar,
+pouco a pouco, todos os povos da terra.
+
+Será chimerico este ideal de paz? Não, responde Kant, por isso que é
+obrigatorio.
+
+E que terá de realisar-se, prova-o não só o inevitavel progresso do
+direito, senão tambem o progresso dos interesses.
+
+Os interesses economicos deverão tornar a guerra impossivel. A natureza
+garante a paz, pelo simples equilibrio das paixões humanas.
+
+A federação dos povos não será só o desarmamento dos reis e imperadores;
+será tambem o aniquilamento da guerra.
+
+No dia em que todos os cidadãos souberem conciliar, no seu coração, a
+idéa de patria e a idéa de humanidade, n'esse dia a paz pela federação
+haverá triumphado definitivamente no mundo.
+
+O que torna os povos inimigos uns dos outros, é o sentimento de
+nacionalidade, levado até á barbarie. Mas o homem moderno é
+essencialmente cosmopolita. O amor pela patria não exclue o amor da
+humanidade. Ao contrario, estes dois sentimentos completam-se e
+identificam-se, num mesmo ideal e n'uma mesma aspiração de progresso. Da
+comprehensão d'este principio deriva, a nosso ver, toda a moderna
+philosophia social.
+
+Dir-nos-hão, talvez, que não somos patriotas. A esta accusação responde
+Alfredo Naquet, o grande e glorioso pensador, n'uma soberba carta que
+nos dirigiu, a proposito da _Federação Iberica_:
+
+ [Gravura: Alfredo Naquet]
+
+«Não! se o patriotismo é feito de um espirito estreito e sectario, e á
+custa do odio dos outros povos e de aspirações militares--eu não sou
+patriota.
+
+«Mas se o patriotismo consiste em amar profundamente o paiz onde
+nascemos, e onde exercemos a nossa actividade, n'esse caso sou patriota.
+
+«Amo apaixonadamente a França. Amo-a porque foi no seu espirito que
+moldei o meu cerebro, e porque as minhas aspirações, os meus
+sentimentos, e os meus instinctos, n'ella se desenvolveram; amo-a porque
+ella constitue um factor indispensavel do grande trabalho humano; e,
+mesmo por cosmopolitismo, teria ainda de ser patriota. Amo-a bastante
+para tudo sacrificar por ella e pela sua defesa no dia em que fosse
+necessario--a minha fortuna, a minha liberdade e a minha vida.
+
+«Mas estou convencido que a patria europeia será tão superior ás
+patrias de hoje, como a França o é á Borgonha, a Hespanha á Andaluzia, e
+o Reino-Unido á Inglaterra ou á Escocia.
+
+«E, no dia em que fôr possivel substituir a patria nova ás antigas
+patrias, sem prejuizo do amor e das homenagens que estas nos merecem,
+n'esse dia, entre o que foi grande e o que deverá ser ainda maior, a
+minha escolha far-se-ha sem hesitação.
+
+«Não tenho a esperança de assistir a esse espectaculo radioso. É
+provavel, quem sabe? que eu morra francez, pensando quasi
+exclusivamente, além das minhas meditações philosophicas, na defesa, na
+grandeza e na prosperidade d'este bello e nobre paiz. Mas invejo
+aquelles que tiverem de assistir á creação dos Estados-Unidos da Europa.»
+
+E pensam assim todos os grandes pensadores modernos. No estabelecimento
+de uma _Federação occidental_, baseava Littré toda a politica do futuro.
+Emile de Laveleye conclue o seu bello livro _La Démocratie_, pela
+apologia de uma _federação fraternal_. Federalista foi Garibaldi, que
+presidiu, em 1867, ao primeiro congresso da _Liga Internacional da paz e
+da liberdade_; federalista foi Mazzini; federalista foi Victor Hugo. São
+federalistas todas as sociedades de paz, que, presentemente, existem e
+funccionam. Em Italia, como em Hespanha e Portugal, o federalismo ganha
+terreno de dia para dia. O proprio sr. Crispi, actual presidente de
+conselho de ministros, declarava, n'um dos seus ultimos discursos que
+era para a federação que os povos caminhavam. Em França, são muitos os
+partidarios da federação. Citemos, principalmente, dois--um por ser
+o representante destas idéas no parlamento, e outro por ser, na
+imprensa, o seu glorioso interprete. Refiro-me a René Goblet e a Augusto
+Vacquerie.
+
+ * * * * *
+
+
+RENÉ GOBLET
+
+Para bem se apreciar esta altissima personalidade, seria necessario
+fazer a historia da politica franceza d'estes ultimos vinte annos.
+Eleito deputado á Assembléa Nacional em 1871, Goblet nunca mais deixou
+de pertencer ao parlamento, a não ser no periodo que decorreu desde as
+eleições geraes de 1889 até á sua eleição para o senado em 1891.
+
+ [Gravura: René Goblet]
+
+Goblet pensa, e muito bem, que a republica é mais alguma cousa do que
+uma simples mudança de pessoal governamental, e que deve, sob pena de
+morte, tirar todas as consequencias do seu principio, correspondendo
+plenamente á confiança que o povo n'ella deposita. E eis ahi o motivo
+porque não duvidou aproximar-se dos socialistas. Mudar de instituições,
+unicamente para beneficiar meia duzia de favorecidos de um dado
+partido ou de uma determinada politica, é cousa que não póde merecer o
+sacrificio do povo. Se, com a mudança de instituições, se não póde, ao
+mesmo tempo, reorganisar economicamente a sociedade ou remodelar o seu
+modo de ser social, a transformação é esteril e sem resultado.
+
+Assim pensa Goblet, e assim deveriam pensar todos os que sinceramente
+amam os principios republicanos.
+
+«Duas especies de politica são possiveis--dizia elle n'um dos seus
+maravilhosos discursos: a politica conservadora e a politica de
+progresso, que consiste em realisar as reformas politicas, sociaes,
+economicas, financeiras e administrativas, que, em todos os tempos,
+foram consideradas, como que o programma necessario da democracia
+republicana.»
+
+Goblet é republicano socialista, e é, na actual camara franceza, um dos
+chefes mais authorisados do glorioso grupo a que pertencem Millerand,
+Jaurés, Rouanet, etc., e que pretende a revisão immediata da
+Constituição e a discussão e approvação de alguns dos primeiros artigos
+do programma socialista.
+
+É tambem federalista convicto, e um d'aquelles que acreditam que é no
+estado federativo que reside o futuro para as nações da Europa. O
+problema da guerra só no principio federalista poderá encontrar a sua
+solução logica e natural. É esta a sua opinião que muito o honra e a que
+eu não posso deixar de prestar a minha respeitosa e profunda homenagem.
+
+ * * * * *
+
+
+AUGUSTO VACQUERIE
+
+Augusto Vacquerie é, em França, o continuador da obra de Victor Hugo.
+Jornalista primoroso, poeta e escriptor dramatico applaudidissimo, a sua
+vida podia e devia servir de modelo a todos os que ás letras e á
+politica se consagram. É um puro, na verdadeira accepção da palavra, e
+nunca jámais a ambição maculou os seus principios ou a vaidade toldou as
+suas aspirações. Propugnador das doutrinas do Mestre, tem sempre
+defendido, com enthusiasmo e ardôr, o bello e supremo ideal da creação
+dos _Estados Unidos da Europa_, como meio de pôr um termo aos conflictos
+internacionaes e de levar os povos á fraternisação universal, pela
+pratica e realisação dos principios federaes.
+
+ [Gravura: Augusto Vacquerie]
+
+Augusto Vacquerie é hoje, na Europa, um dos principaes e um dos mais
+brilhantes apostolos da federação latina, e, como premissa, da federação
+iberica. É d'aquelles que acreditam como nós, que só pelo federalismo
+poderemos chegar á suppressão dos exercitos permanentes, e,
+consequentemente, á suppressão da guerra.
+
+ * * * * *
+
+
+A GUERRA VENCIDA PELA ARBITRAGEM
+
+A federação dos povos tornará a guerra impossivel. Mas, emquanto a
+federação se não realisa, urge estabelecer a arbitragem internacional,
+como meio pacificador. Está ainda na memoria de todos a decisão que o
+tribunal de arbitragem, constituido pelo tratado de Washington, deu
+ácerca das reclamações do Alabama. O conflicto levantado entre os
+Estados Unidos e a Inglaterra foi assim regulado de uma maneira
+pacifica. O governo inglez acatou a sentença, sendo obrigado a pagar ao
+governo americano uma indemnisação de 75 milhões de francos.
+
+Ora, se a questão do Alabama poude assim ser resolvida, sem derramamento
+de sangue, porque não hão de resolver-se, pelo mesmo processo, todas as
+questões internacionaes?
+
+Sob o ponto de vista juridico e sob o ponto de vista politico, é pois,
+evidente a necessidade da arbitragem: sob o ponto de vista juridico,
+porque, sem um systema de arbitragem, o direito das gentes é um edificio
+incompleto; sob o ponto de vista politico, porque a situação actual
+exige manifestamente uma solução.
+
+Mas os systemas é que variam; havendo uns que advogam a jurisdicção
+internacional facultativa, outros que defendem a creação de tribunaes
+internacionaes especiaes, outros ainda que são por um tribunal
+internacional geral desprovido de sancção, e os ultimos que acceitam o
+tribunal internacional geral, mas com sancção.
+
+ [Gravura: Emile de Laveleye]
+
+Poderá, porém, realisar-se a arbitragem internacional, independentemente
+da ideia de federação?
+
+Opinam uns pela affirmativa, sendo outros de opinião que só, pela
+constituição dos Estados Unidos da Europa, poderemos chegar á realisação
+effectiva e immediata da arbitragem.
+
+O sabio professor, Emile de Laveleye publicou, em 1873, um interessante
+estudo, sobre as causas actuaes da guerra na Europa, concluindo pelo
+estabelecimento de um tribunal internacional. Dois eram os meios
+aconselhados pelo eminente publicista, para acabar com o flagello da
+guerra: em primeiro logar, mostrando aos povos e convencendo-os, que, em
+nenhum caso, teriam a ganhar com a guerra, e, em seguida,
+realisando duas grandes reformas juridicas: a elaboração de um codigo
+internacional e a creação de um tribunal para o applicar. Este tribunal
+seria permanente, reunindo-se todas as vezes que se levantasse um
+conflicto internacional, tendo a sua séde na capital de um paiz
+neutro--a Suissa ou a Belgica--e sendo composto dos representantes
+diplomaticos das potencias, coadjuvados por juristas versados na
+sciencia do direito das gentes.
+
+Laveleye era um apostolo da ideia federativa, e propunha este alvitre,
+por o considerar de mais facil acceitação por parte dos governos actuaes.
+
+Para aquelles que admittem o principio federalista, o tribunal
+internacional não deve ser senão um dos orgãos do futuro estado
+juridico. Quatro são as instituições, essenciaes a este systema: uma
+convenção federativa, que garantisse ás nações associadas a soberania e
+a autonomia de cada uma; uma lei, livremente votada por todas essas
+nações, e pela qual seriam julgados todos os conflictos, litigios e
+difficuldades que se levantassem entre ellas; um tribunal, com membros
+eleitos por estas mesmas nações, que pronunciasse a sentença em ultimo
+recurso sobre as questões que lhe fossem submettidas; e um poder
+executivo, tambem livremente eleito por todas as nações, encarregado de
+assegurar a execução da lei e as determinações do tribunal. Os
+partidarios d'esta doutrina não visam sómente, por este systema, a
+aperfeiçoar o direito internacional ou a estabelecer uma jurisdicção
+internacional obrigatoria; vão mais alêm e chegam a um resultado
+final pela creação dos Estados Unidos da Europa.
+
+A guerra é um crime, condemnado pela moral, pelo direito e pela
+philosophia social.
+
+A sciencia e o trabalho exigem o seu desapparecimento immediato.
+
+Como?
+
+Pela arbitragem internacional e pela federação. Entre estados
+confederados, a solução impor-se-hia sem difficuldade. Na espectativa
+porém, e, em caso de guerra, é dever appellar para a arbitragem, sempre
+que o permittam as circumstancias especiaes dos paizes, cujos interesses
+se degladiam.
+
+«Ou o desarmamento ou a ruina!»
+
+--É este o dilemma que se levanta, sinistro e ameaçador, ante as
+potencias da Europa, cada dia mais sobrecarregadas com a contribuição de
+guerra.
+
+Se tal estado continua por mais dez annos, os receios de guerra haverão
+desapparecido, dizia Liebknecht e muito bem; o resultado será, então, a
+ruina geral, e, como consequencia ainda, a revolução social triumphante
+e generalisada a todos os paizes.
+
+Bem sabemos nós que a arbitragem internacional ha de triumphar e ha de
+estabalecer-se no mundo, como uma consequencia logica da federação. Mas,
+emquanto o actual estado de cousas subsistir, não seria demais que as
+nações submettessem as suas contendas a um tribunal arbitral, imitando,
+d'este modo, a Inglaterra e os Estados Unidos da America, na questão
+Alabama.
+
+Isto seria possivel, e isto seria, principalmente, humanitario.
+
+O espirito moderno detesta a guerra. Só o trabalho liberta. Só a paz
+emancipa. Convertamos os exercitos da destruição em exercitos da
+producção e da abundancia.
+
+ * * * * *
+
+
+O DESARMAMENTO.--EDUARDO VAILLANT
+
+Depois da morte do general Eudes, e, ainda mais, depois da scisão que se
+deu no partido blanquista, por causa do boulangismo, ficou sendo Eduardo
+Vaillant o chefe incontestado do partido communista revolucionario, que
+preconisa o emprego da acção, da força, da propaganda pelo facto, para
+conquistar o poder e fazer cessar as iniquidades sociaes.
+
+Sob a sua iniciativa, porém, a concepção do velho Blanqui parece haver
+passado por uma especie de transformação. O movimento insurrecional de
+1871, deixára no espirito de Vaillant uma impressão profunda e
+inextinguivel.
+
+Vaillant não limita o seu communismo ás forças productoras e a
+repartição dos productos, segundo as necessidades de cada um, vae até á
+organisação da communa de Paris, como primeiro passo para o
+estabelecimento da nova ordem social.
+
+Na sua profissão de fé, encontra-se esta ideia, profundamente accentuada:
+
+«É mister dar ao paiz, emancipado da tyrannia administrativa, policial e
+judiciaria, como elemento do seu organismo politico, a organisação
+communal e cantonal, dando a Paris a liberdade communal, e fazendo-a
+entrar no direito commum, pelo restabelecimento da _Communa de Paris_.»
+Mais adeante pede, «que a communa seja senhora da sua administração, das
+suas finanças, e da sua policia.»
+
+ [Gravura: Eduardo Vaillant]
+
+A vida politica de Vaillant, começou no anno terrivel. Regressando da
+Allemanha, por occasião da declaração de guerra, fez parte da communa,
+refugiando-se depois em Inglaterra.
+
+A amnistia trouxe-o novamente a França, em 1880.
+
+Ao lado de Blanqui que os eleitores de Lyon e Bordeaux haviam arrancado
+á prisão, Vaillant prosegue na sua obra revolucionaria, organisando o
+comité central revolucionario e sendo um dos fundadores do jornal--_Ni
+Dieu ni Maitre_, que pouco tempo poude resistir ás forças combinadas da
+policia e da reacção.
+
+Foi eleito conselheiro municipal em 1887, 1890 e 1893, e é hoje um dos
+deputados socialistas de Paris.
+
+Foi elle o auctor de um importantissimo projecto de lei apresentado
+ultimamente, em nome do partido socialista, á camara dos deputados
+sobre _a suppressão do exercito permanente e a sua transformação
+progressiva em milicias nacionaes_.
+
+_Artigo primeiro._--É supprimido o exercito permanente.
+
+«Esta suppressão far-se-ha pela transformação immediata e rapida do
+exercito permanente em milicias nacionaes, de modo que o poder defensivo
+da nação, longe de diminuir, pelo contrario se eleve e augmente, até ao
+ponto de poder pôr em acção integralmente todas as suas forças. A defeza
+do paiz e da Republica, da sua independencia e das suas liberdades,
+tornar-se-hia, assim, invencivel.»
+
+É a renovação do projecto de Blanqui e de Gambon.
+
+«A Republica franceza, pela transformação democratica das suas
+instituições militares, deve pôr-se ao abrigo de todos os perigos de
+guerra ou de invasão, e de toda a ameaça de intervenção ou influencia de
+qualquer inimigo estrangeiro. Para esse fim, devem ser educadas,
+exercidas e organisadas todas as suas forças, e aproveitados todos os
+cidadãos validos.»
+
+O desarmamento só poderá realisar-se, em virtude de um accôrdo, feito e
+acceite pelas differentes potencias. Não se concebe que uma nação
+desarme, ficando á mercê de nações inimigas e armadas. Seria um
+contrasenso e uma leviandade sem nome.
+
+O notavel criminalista italiano, N. Colajanni, termina o capitulo da
+guerra e do militarismo, da sua _Sociologia criminale_, pelas seguintes,
+conceituosas palavras:
+
+«Em resumo: a guerra e o militarismo engendram o desgosto de todo o
+trabalho util; favorecem a tendencia para a preguiça; despertam no
+soldado novas necessidades, sem os meios necessarios para as satisfazer;
+excitam os primitivos instinctos, ferozes e egoistas, transformam o
+respeito do direito em respeito exaltado pela força bruta; conduzem ao
+servilismo e á prepotencia; e, por vias directas e indirectas, levam á
+miseria, ao suicidio, á alienação mental e ao crime.--Taes são os
+tristes resultados d'estas instituições sinistras, deduzidos das provas
+historicas e estatisticas.
+
+N'uma palavra--conclue o illustre e honrado socialista--«_o militarismo
+constitue a verdadeira escola do crime._»
+
+O eminente escriptor e philosopho russo, Léon Tolstoi, é de opinião que
+a principal origem da guerra deriva da actual ordem social, baseada
+sobre a violencia. A organisação militar dos estados modernos está toda
+concentrada nas mãos dos governos, que não desejam perder o monopolio,
+servindo-se para isso de meios poderosos, taes como o _terrorismo_, o
+_egoismo_, a _disciplina militar_, etc.
+
+A guerra, apesar de iniqua, não poderá nunca ser destruida, senão pela
+educação, generalisada a todos os paizes. Quando a maioria dos povos
+reconhecer que a guerra é injusta, n'esse dia cessará a guerra. Esta
+revolta do direito e da justiça contra a força e a violencia, está
+certamente destinada a fazer algumas victimas; mas, como todas as idéas
+nobres e generosas, penetrará, pouco a pouco, nas consciencias e acabará
+por triumphar.
+
+Em Paris, publicou-se recentemente um livro interessantissimo de A.
+Hamon, o sabio socialista, sobre a _psychologia do militar de
+profissão_, que não podemos deixar de mencionar n'este logar, por ser de
+uma actualidade palpitante.
+
+O dr. Hamon parte do principio de que a criminalidade legal é infima,
+quasi inapercebivel, relativamente á criminalidade occulta.
+
+O fim da profissão militar é a guerra, e toda a guerra implica
+necessariamente a violencia, manifestando-se por assassinatos,
+violações, pilhagens e incendios.
+
+Os individuos que escolhem esta profissão, fazem-n'o levados pelo seu
+interesse pessoal. Taes individuos sentem-se predispostos para a
+violencia pela sua organisação psychica, resultante do seu organismo
+physiologico, pelo meio em que vivem e pela sua educação profissional.
+
+O livro de A. Hamon é a justificação da _Delenda Caserna_ do capitão
+Siccardi. Estabelece a superioridade moral dos exercitos nacionaes sobre
+os exercitos profissionaes. Nos primeiros encontra-se maior respeito
+pela dignidade humana, e isto basta para que se não registem os actos de
+grosseria, de brutalidade e de violencia, que se registam ordinariamente
+nos segundos.
+
+«O militarismo é a escola do crime!»--tal é a conclusão a que chega
+Hamon no seu bello estudo de psychologia social.
+
+Quando é, porém, que os povos poderão celebrar, no mundo, o supremo
+beneficio da paz, do amor e da concordia?!
+
+Quando é que o homem se libertará, por completo, dos velhos prejuizos
+selvagens e das antigas e barbaras tradições?
+
+Quando soará a hora da completa maioridade e da completa emancipação?
+
+A humanidade caminha,--lentamente, é certo!--mas caminha...
+
+Confiemos no futuro!
+
+
+
+
+V
+
+A MULHER
+
+
+RESOLUÇÃO DO CONGRESSO DE ZURICH.--A SITUAÇÃO DA MULHER--SEUS DIREITOS
+CIVIS E POLITICOS.--A MULHER EM RELAÇÃO Á INDUSTRIA.--A MULHER NO ESTADO
+SOCIALISTA.--A PRIMEIRA VICTORIA.--MADAME FAULE MINK.--AUGUSTO
+BEBEL.--P. ARGYRIADÉS.
+
+Relativamente ao trabalho das mulheres nas fabricas, o congresso de
+Zurich adoptou as seguintes resoluções, promettendo envidar, n'esse
+sentido, todos os esforços dos seus delegados:
+
+--Dia de trabalho maximo de dez horas para as mulheres, e de seis horas
+para as jovens de menos de dezoito annos;
+
+--Descanço semanal de trinta e seis horas consecutivas;
+
+--Prohibição do trabalho nocturno;
+
+--Prohibição do trabalho das mulheres em todas as industrias insalubres;
+
+--Prohibição do trabalho das mulheres nos quatro mezes seguintes ao
+parto e nos dois ultimos mezes de gravidez;
+
+--Creação dos logares de inspectoras de fabricas, em numero sufficiente
+á efficaz vigilancia de todas as officinas, onde se empreguem mulheres;
+
+--Applicação d'estas disposições a todas as mulheres empregadas nas
+fabricas, officinas, armazens e na industria domestica e agricola.
+
+De futuro reclamar-se-ha formalmente a equiparação dos salarios das
+mulheres, conforme o seu trabalho.
+
+A situação da mulher, na sociedade, constitue evidentemente uma das
+questões mais importantes do nosso seculo, e reclama por isso um estudo
+especial. A população da Europa, é formada, na sua maioria, por
+mulheres. D'ahi a sua importancia, e o grande numero de opiniões,
+formuladas, ácerca da sua condição. Pensam uns que é a vocação natural
+da mulher que determina a esposa, a mãe e a dona de casa. Mas esquecem
+que, apenas, uma parte minima da população feminina está no caso de
+preencher os seus deveres. Contam-se por milhões, as mulheres que nunca
+poderam ser nem esposas, nem mães, nem donas de casa, e muitas outras
+que nem sequer poderam satisfazer a esta vocação natural, sendo, como é,
+o casamento, para ellas, uma escravidão, graças ás condições da
+industria moderna. Outros reclamam o accesso da mulher a todos os ramos
+do trabalho, manual e intellectual, e outros vão ainda mais longe
+pedindo que lhes sejam tambem conferidos direitos politicos.
+
+Na opinião de Bebel, este assumpto está intimamente ligado á
+questão social. A sua solução, assim como a da questão operaria, é
+impossivel, emquanto não forem radicalmente transformadas as condições
+do actual estado social.[7]
+
+ * * * * *
+
+
+A SITUAÇÃO DA MULHER
+
+Os defensores da ordem actual dizem e sustentam que o casamento é a base
+da familia, esta a base do Estado, e que, por conseguinte, atacar o
+casamento o mesmo é que atacar a sociedade e o Estado.
+
+Perguntaremos, em primeiro logar, qual dos casamentos é o mais moral?
+
+Será o casamento forçado, o casamento venal da sociedade actual, ou o
+casamento livre, fundado sobre o amor e a estima reciproca, e que, de
+resto, não poderá realisar-se senão n'uma sociedade socialista?
+
+O casamento dos nossos dias, que é um resultado de considerações
+puramente materiaes, está intimamente ligado á sociedade actual e
+destinado a cahir com ella. A lucta pela existencia, tornando-se, de dia
+para dia, mais acerba, transformou o casamento n'um acto de perfeita
+especulação mercantil.
+
+A prostituição é, pois, uma instituição necessaria á sociedade burgueza,
+e tão necessaria como a policia, o exercito permanente, a egreja, etc.
+
+Na Grecia, em Roma e na Edade-Média, a prostituição era organisada pelo
+Estado, e Santo Agostinho chegou mesmo a affirmar a sua necessidade. A
+sociedade burgueza, não só a julgou indispensavel, senão tambem a
+regulamentou.
+
+Hügel, na sua historia sobre a _Estatistica e regulamentação da
+prostituição em Vienna_, exprime-se do seguinte modo:
+
+«Com os progressos da civilisação, a prostituição transformar-se-ha,
+adoptando uma fórma mais doce e mais conveniente, mas existirá emquanto
+existir o mundo.»
+
+Quaes são as consequencias d'este estado de cousas?
+
+As doenças syphiliticas e a degeneração da humanidade que d'ellas resulta.
+
+O abaixamento progressivo da moral.
+
+A humilhação da mulher e a sua escravidão.
+
+O infanticidio e o suicidio das mulheres são devidos, em grande parte, á
+prostituição, devendo ainda accrescentar-se que são os orphãos e os
+filhos bastardos que constituem, tambem, em grande parte, os criminosos
+da nossa sociedade burgueza.
+
+A sociedade inteira encontra-se em estado de enervamento e de excitação,
+sendo a mulher a victima.
+
+Mulheres ha que sentem e vêem claramente a situação, e procuram
+remedial-a. Reclamam primeiro a sua independencia economica. Pretendem
+ser admittidas em todos os trabalhos e em todos os empregos que a sua
+força physica e a sua capacidade moral lhes permittem; pedindo,
+sobretudo, o accesso ás chamadas profissões liberaes.
+
+Serão justas e realisaveis semelhantes tendencias?
+
+É isso o que procuraremos demonstrar.
+
+ * * * * *
+
+O casamento, na antiguidade, era fundado sobre o despreso e a escravidão
+da mulher; o casamento christão tinha, por principio, a inferioridade e
+a servidão da mulher; o casamento burguez actual baseia-se sobre a unica
+conveniencia dos interesses mercantis e ainda na subordinação da mulher.
+Pela primeira d'estas fórmas matrimoniaes, o filho era para o pae uma
+simples cousa; pela segunda, o seu servo; e pela terceira quasi se póde
+dizer que continua sem direito. É indispensavel libertar a mulher e
+conceder direitos aos filhos. O casamento futuro terá, por condição, a
+escolha revogavel dos interessados, escolha livre e baseada unicamente
+sobre as affinidades intellectuaes, moraes e physicas. Assim ficarão
+assegurados a felicidade e o aperfeiçoamento dos conjuges; assim poderá
+effectuar-se a perpetuação da especie nas melhores condições moraes e
+physicas[8]
+
+Todos os socialistas dos partidos operarios são partidarios da
+emancipação da mulher, e da manutenção e educação dos filhos pela
+Communa ou pelo Estado. A unica divergencia está em saber se, de futuro,
+as uniões deverão ou não ser consagradas pela lei, admittindo todos que
+devem ser fundadas sobre a livre escolha dos affectos.
+
+O inconveniente da familia actual não é, como querem alguns, a monogamia
+que deve considerar-se a fórma mais digna da união dos sexos e que
+subsistirá, atravez de todas as reformas e innovações. É antes, a sua
+quasi indissolubilidade, a subordinação legal da mulher, e o
+rebaixamento do sentimento, pela preoccupação de um mercantilismo vil
+que preside aos actos conjugaes.
+
+O congresso internacional de Bruxellas de 1891 affirmou, no seu
+programma, a egualdade completa dos dois sexos, e reclamou para a mulher
+os mesmos direitos civis e politicos, concedidos aos homens. Como
+esposa, como mãe de familia, como trabalhadora, a mulher é tão
+interessada como o homem, na confecção das leis. A humanidade compõe-se,
+por egual, de homens e mulheres, inseparaveis em direitos e eguaes
+perante a justiça.
+
+ * * * * *
+
+
+A MULHER EM RELAÇÃO Á INDUSTRIA
+
+A burguezia, diz Bebel, concedeu á mulher a independencia individual e o
+direito ao trabalho: resultou d'aqui a sua admissão em quasi todos os
+ramos da industria.
+
+A burguezia reconheceu que era esse o seu interesse, por isso que o
+trabalho da mulher é menos retribuido que o do homem.
+
+E isto porquê?
+
+Porque a mulher foi sempre considerada como um ser subordinado, inferior
+ao homem, por causa das suas particularidades sexuaes. Sendo muitas
+vezes forçada a suspender o seu trabalho, os capitalistas exploraram
+habilmente essa circumstancia, como pretexto para o abaixamento do salario.
+
+Além d'isso, a mulher é mais docil, mais paciente que o homem,
+deixando-se tambem explorar mais facilmente do que elle.
+
+D'este modo, a mulher substitue o homem, e, é, por seu turno,
+substituida pela creança.--Tal é «a ordem moral» na industria moderna.
+
+Em vista de semelhantes abusos, tem-se já pedido a prohibição completa
+do trabalho da mulher.
+
+Não esqueçamos que o machinismo representou um papel importante na
+transformação industrial e que foram justamente os progressos do
+machinismo, que, supprimindo os trabalhos mais rudes, tornaram
+possivel o emprego da mulher em certos ramos da industria.
+
+Só um limitado numero de pessoas, porém, graças ao auxilio dos seus
+capitaes, podem aproveitar os resultados que as descobertas scientificas
+trouxeram á sociedade; e é revoltante que milhares de operarios sejam
+lançados á margem, em virtude dos progressos do machinismo que
+substituiu o trabalho manual.
+
+Resulta de tudo isto, que se torna indispensavel mudar as actuaes bases
+sociaes, procurando-se a fórma de uma distribuição mais equitativa dos
+bens e dos instrumentos de trabalho.
+
+Na sociedade nova, os instrumentos de trabalho serão propriedade de
+todos, sem distincção de classes nem de sexos. Cada um será obrigado a
+trabalhar, e os melhoramentos e as descobertas technicas a todos
+aproveitarão.
+
+A mulher tornar-se-ha egual ao homem, podendo exercer e desenvolver as
+suas qualidades physicas e intellectuaes e gosar de todos os seus direitos.
+
+Sustentam alguns que a mulher é inferior ao homem, sob o ponto de vista
+intellectual, e que não é susceptivel de uma elevada cultura, sendo,
+como é, o peso do seu cerebro inferior ao do homem.
+
+Se a mulher é hoje menos intelligente que o homem, provém isso de haver
+sido descurada a sua educação. Quanto ao cerebro, não é o peso que lhe é
+necessario, mas a boa organisação e o exercicio. Averiguou-se, além
+d'isso, que, em muitos homens notaveis, o peso do cerebro era quasi
+egual á média dos cerebros femininos.
+
+No dia em que a mulher fôr tão instruida, tão educada e tão
+desenvolvida, como o homem, n'esse dia terá proclamado a sua
+emancipação, pela conquista dos seus direitos civis e politicos, e pela
+equiparação do seu salario ao do homem, em todos os ramos da industria.
+
+Para esse estado caminhamos. Na vida da familia, tem-se operado, n'estes
+ultimos cincoenta annos, uma verdadeira revolução. A mulher tornou-se
+mais livre, e está menos adstricta ás funcções de dona de casa. Com o
+andar dos tempos chegará a emancipar-se completamente.
+
+ * * * * *
+
+
+A MULHER NO ESTADO SOCIALISTA
+
+Na sociedade nova, a mulher, gosando de inteira independencia, não
+estará mais exposta a qualquer dominio ou exploração, e tornar-se-ha a
+egual do homem. Receberá a mesma educação que o homem, excepto nas
+especialidades em que a differença de sexo exige uma cultura especial.
+Como o homem, ella poderá pois, desenvolver livremente as suas forças,
+as suas capacidades physicas e intellectuaes, e escolher, para a esphera
+da sua actividade, o que fôr conforme aos seus gostos e ás suas
+aptidões.
+
+Pelo que respeita ao amor, a mulher gosará de tanta liberdade como o
+homem. Poderá, pelos mesmos titulos, manifestar os sentimentos que elle
+lhe inspirar. Na sua união, não será guiada senão pelo amor, como
+nos tempos primitivos. Tal união dependerá de uma simples combinação
+particular, sem o concurso de nenhum funccionario, com a differença de
+que a mulher deixará de ser a escrava do homem e não lhe será dada como
+um presente ou uma mercadoria.
+
+Devemos pois, trabalhar para esse futuro proximo que ha de inaugurar o
+regimem das uniões monogamicas, livremente contractadas, e, em ultimo
+caso, tambem livremente dissolvidas, por simples consentimento mutuo, á
+semelhança do que se faz já hoje com os divorcios, nos diversos paizes
+europeus, em Genebra, na Belgica, na Roumania, etc., e com a separação
+na Italia.
+
+O discernimento, a instrucção e a independencia facilitarão as uniões.
+No caso em que a antipathia, o desgosto, e a incompatibilidade de genio
+succedessem ao amor, entre o homem e a mulher, a moral impôr-lhes-hia o
+dever de romperem uma união, que, não sendo já baseada sobre o affecto,
+se havia tornado anormal.
+
+N'uma palavra, sendo supprimida a herança, os casamentos de mero
+interesse deixarão de ter uma razão de ser.
+
+ * * * * *
+
+
+A PRIMEIRA VICTORIA
+
+As mulheres francesas acabam de alcançar a sua primeira victoria, no
+campo politico: o senado adoptou, em primeira leitura, um projecto de
+lei que concede á mulher o direito de participar, como eleitora, na
+formação dos tribunaes de commercio. Se a camara partilhar esta opinião,
+de hoje em deante as mulheres commerciantes poderão nomear os seus
+juizes.
+
+A 3 de dezembro de 1883, a camara dos deputados tinha de examinar a nova
+lei que lhe era proposta, sobre a eleição dos juizes consulares. A
+commissão das petições, havia recebido de Madame Maria Deraismes uma
+petição, pedindo para que fosse extendido ás mulheres este direito de
+suffragio. O relator introduziu effectivamente, na lei, uma emenda,
+assim concebida: «Os membros dos tribunaes de commercio serão eleitos
+pelos commerciantes e _pelas commerciantes_...» A commissão, porém, por
+rasões de simples opportunidade, não adoptou esta emenda.
+
+Na sessão de 11 de Março de 1884, o deputado Hubbard apresentou um novo
+projecto, em que se propunha «que as mulheres commerciantes tinham pela
+lei obrigações e encargos especiaes inherentes á qualidade da sua
+profissão. A commerciante paga, como o commerciante, um imposto
+especial, a patente; está submettida ás disposições rigorosas da lei
+commercial; póde ser declarada fallida e póde ser perseguida por quebra
+fraudulenta. É impossivel citar uma unica das obrigações impostas aos
+homens que lhe não incumbam. Estando submettida aos mesmos deveres
+especiaes, é justo que aproveite dos direitos especiaes que a lei
+confere ao commerciante. E desde que ao commerciante é dado eleger os
+magistrados que teem de julgar as suas causas, á commerciante, sob
+pena de inferioridade, não póde deixar de ser concedido o mesmo direito.»
+
+O relator terminava, affirmando que as mulheres que teem a direcção e a
+responsabilidade de um estabelecimento commercial, assignalam-se, em
+geral, mais que os homens, por qualidades de ordem, de economia e de
+probidade.
+
+A 17 de fevereiro, a camara dos deputados tomava em consideração um
+relatorio do sr. Colfavru favoravel aos direitos civis da mulher.
+
+Finalmente, em junho de 1889, Ernesto Lefèvre, vice-presidente da
+camara, com mais 53 dos seus collegas, renovou a iniciativa da proposta,
+que tinha por fim conferir ás mulheres o eleitorado nos tribunaes de
+commercio. A camara tomou-a na devida consideração, elegendo-se uma
+commissão de 9 membros, todos favoraveis ao projecto, e, sendo votada a
+lei, depois de approvado o relatorio do sr. Colfavru.
+
+Após quatro annos e meio de demora, acaba tambem o senado de dar o seu
+assentimento ao projecto. O tempo pouco faz ao caso. O importante a
+registrar, foi o triumpho obtido pelas mulheres, triumpho que não será
+certamente o ultimo, e que é, porventura, o primeiro de uma longa serie
+de outros a contar e a celebrar.
+
+ * * * * *
+
+
+MADAME PAULE MINK
+
+Entre as mulheres que, em França, mais se teem distinguido na gloriosa
+campanha, em favor da emancipação da mulher, seria ingratidão esquecer
+Madame Paule Mink, que, ainda nas ultimas eleições, foi apresentada como
+candidata á deputação por Paris.
+
+ [Gravura: M.me Paule Mink]
+
+Conheci-a, em Madrid, por occasião do centenario de Colombo. Era
+delegada ao congresso dos livres pensadores e fôra-me recommendada por
+Benoit Malon e P. Argyriadés.
+
+Modesta, despretenciosa e dedicada, Madame Paule Mink tem sido para
+muitos uma incomprehendida, mas é seguramente para todos um bello e
+luminoso talento, engastado n'um coração de oiro.
+
+Quem a visita, na sua casa de Paris, encontra-a sempre rodeada das suas
+gentis filhas que estremece e adora, e absorvida pela leitura dos seus
+authores predilectos. É uma mãe disvelada e terna e uma companheira leal
+e affectuosa.
+
+Madame Paule Mink fez parte da Communa de Paris, e ainda ultimamente,
+por occasião da greve de Pas de Calais, foi presa, no momento em que se
+preparava para fazer uma conferencia, e depois julgada e condemnada.
+
+As perseguições teem-lhe avigorado ainda mais, se é possivel, as
+convicções purissimas. Nada a contraria e nada a desalenta. Faz
+consistir toda a sua felicidade, no amor de seus filhos e na dedicação
+pela causa a que se entregou de corpo e alma. É uma altruista, no bom e
+verdadeiro sentido da palavra. Não conhece obstaculos e não conhece
+sacrificios. Nem as privações, nem as difficuldades da vida, lograram
+jámais perturbar-lhe o animo ou aniquilar-lhe a vontade indomavel. Não é
+só uma mulher forte; é tambem um grande e superior caracter, e, n'este
+duplo aspecto, reside o segredo do seu poder, como evangelista e como
+propagandista da causa social.
+
+ * * * * *
+
+
+P. ARGYRIADÉS
+
+Não encerraremos já agora este capitulo, sem prestar uma homenagem
+devida a P. Argyriadés, pelo serviço que prestou á democracia
+socialista, com a traducção analytica da bella e gloriosissima obra de
+Augusto Bebel--_A mulher e o Socialismo._
+
+Alto, forte, robusto, dotado de um temperamento excepcional e de
+qualidades verdadeiramente superiores, Panagiotis Argyriadés nasceu em
+Castoria, na Macedonia, a 15 de agosto de 1852. Em 1872, installou-se em
+Paris, fazendo-se inscrever na faculdade de direito. Em 1878, assistiu,
+como representante da Grecia, ao congresso dos orientalistas que se
+realisou n'aquella cidade, e, no anno seguinte, ao de Londres, tambem
+como delegado do seu paiz. Em 1875, publicou um interessante
+opusculo sobre a _Pena de morte, considerada sob o ponto de vista
+philosophico, moral, legal e pratico_, que teve as honras de ser citado,
+na tribuna do senado, por Victor Schoelcher. Foi depois d'esta bella
+estreia que se entregou inteiramente ao socialismo. Naturalisou-se
+francez, em 1880; e d'esta época em diante, assignalou-se no fôro, pela
+defeza de muitas causas importantes que, ao mesmo tempo, lhe grangearam
+renome e gloria. Em 1883, foi elle quem organisou a manifestação em
+honra de Flourens; mais tarde, foi ainda, pela sua iniciativa, que se
+provocou o protesto publico contra a chegada a Paris do rei Affonso XII
+que acabava de ser nomeado coronel de uhlanos. Em 1885, fundou _La
+Question Sociale_, a popularissima revista que todos conhecem e que tão
+relevantes serviços tem prestado aos principios socialistas.
+
+ [Gravura: P. Argyriadés]
+
+O _Almanach de la Question Sociale_ que é o melhor, no seu genero, que
+se publica na grande capital da França, vae já no seu quarto anno, e foi
+fundado com eguaes intuitos e eguaes aspirações. É um excellente
+repositorio do actual movimento socialista, e recommenda-se a todos os
+que se interessam pelo estudo e pela solução dos problemas sociaes.
+
+Tambem lhe é devido o numero commemorativo da _Manifestação do 1.º de
+Maio_ que, nos dois ultimos annos, se publicou em Paris.
+
+P. Argyriadés reside em Autenil, numa deliciosa e aprasivel vivenda, a
+vinte minutos dos Campos Elyseos. A sua casa é o ponto de reunião de
+todos os escriptores e pensadores socialistas. Foi ali que eu, pela
+primeira vez, travei conhecimento com Allemane, um glorioso trabalhador
+e um chefe incontestado; foi ali, em almoços intimos, e numa dôce e pura
+confraternidade, que tive o inolvidavel prazer de estreitar relações com
+alguns dos principaes vultos do socialismo moderno--com Pierre Lavroff,
+o honrado revolucionario russo, um convicto e um fanatico; com Adolphe
+Tabarant, o auctor do _Pequeno cathecismo socialista_, um poeta
+adoravel, e um espirito vivo e scintillante; com Paul Cassard, o
+intrepido e valente redactor do _Peuple_, de Lyon; com Aurelien Scholl,
+o mais delicioso e original conversador que temos encontrado, a prosa
+transformada em arte, a palavra feita esculptura; com Sanial, um
+americano, trazendo ao socialismo as lições da sua experiencia e as
+observações da sua longa pratica na vida; com Duc-Quercy, tão
+attrahente pela sua physionomia energica e communicativa, como pelo seu
+caracter firme e decidido; e com tantos outros cujos nomes constituem a
+immensa e gloriosa pleiade de publicistas, de revolucionarios e de
+combatentes que bem poderiamos denominar a ala dos namorados do Bem, da
+Verdade e da Justiça.
+
+A estas pequenas festas de familia preside de ordinario uma senhora que
+occulta, sob o pseudonymo de Marianne, um bello e juvenil talento de
+escriptora, e que, além de mãe disvelada e de esposa extremosa, é tambem
+a companheira gentilissima do nosso querido e honrado amigo: é M.me
+Argyriadés.
+
+Juntos os dois esposos formam como que um nucleo de propaganda
+socialista, de uma influencia decisiva e de um largo e elevado alcance.
+O socialismo internacional e cosmopolita não tem, seguramente, em
+França, melhor vulgarisador nem mais dedicado e intelligente
+apostolo!
+
+
+
+
+VI
+
+A SOCIEDADE NOVA
+
+
+A TRANSFORMAÇÃO SOCIAL IMPÕE-SE.--O QUE É O COLLECTIVISMO.--O ESTADO
+SOCIALISTA, SEGUNDO AUGUSTO BEBEL, E BENOIT MALON.--A LEGISLAÇÃO DIRECTA
+PELO POVO.--A SOCIALISAÇÃO DOS MONOPOLIOS.--HECTOR DENIS, GUILLAUME DE
+GREEF E EMILE DE VANDERWELDE.--A NOVA GERAÇÃO PORTUGUEZA.--JOSÉ FONTANA
+E SOUSA BRANDÃO.
+
+Já n'outro logar o dissémos: o socialismo desenvolve-se, por toda a
+parte, de uma maneira espantosa. Nas eleições geraes para deputados, de
+1889, obteve o partido socialista, em França, 90:000 votos nas ultimas
+eleições de 1893, elevou-se essa votação a 500:000 votos, cabendo a
+Paris 226:000. Na Inglaterra, o paiz do individualismo, conseguiram os
+socialistas levar ao parlamento onze deputados, na eleição de 1892. A
+limitação das horas de trabalho e a garantia obrigatoria nos accidentes,
+são uma prova provada da importancia e da influencia d'esse grupo, na
+camara dos communs. Na Austria, e especialmente na Bohemia e na Silesia,
+o partido operario dispõe de uma forte organisação. Na Suissa, á frente
+do seu programma, inscrevem os socialistas o direito ao trabalho;
+na Dinamarca, pela eleição de 1893, foram sete socialistas eleitos para
+o conselho municipal de Copenhague; em França, por duas vezes, no mez de
+Janeiro corrente, esteve o governo da republica ameaçado de dar a sua
+demissão: a primeira vez pela proposta de Paschal Grousset, o antigo
+communista e um pamphletario destemido, sobre a amnistia, e a segunda
+vez pela emenda de Jaurés, um pensador e um parlamentar distinctissimo,
+ácerca da conversão dos titulos da divida publica. Emfim, não ha já hoje
+governo ou individuo, qualquer que seja a sua posição ou fortuna, que
+não acompanhe ou se não interesse pela solução dos problemas sociaes. O
+exercito do futuro é cada vez mais numeroso. Sobre o fundo vermelho da
+sua bandeira, desfraldada aos ventos, destaca-se esta divisa, escripta
+em letras de fogo: «_Emancipação de todos os opprimidos e de todos os
+explorados. Renovação total, pela bondade, pelo amor, pela sciencia,
+pela justiça e pela solidariedade._»
+
+A todos se afigura não só _possivel_, senão tambem inevitavel uma
+revolução social.
+
+Luiz Blanc dizia-o ha cincoenta annos, dirigindo-se á burguesia franceza.
+
+«Deve tentar-se uma revolução social:
+
+«1.º--Porque a actual ordem social está cheia, em demasia, de
+iniquidades, de miserias e de servidões, para que possa durar muito tempo;
+
+«2.º--Porque não ha ninguem que deixe de ter interesse n'uma nova ordem
+social;
+
+«3.º--Porque, emfim, esta revolução, tão necessaria, é possivel e
+até facil de se proclamar pacificamente.»
+
+Assim fallava o eloquente author de _L'histoire de dix ans_, ha meio
+seculo. De então para cá, os factos teem-lhe dado rasão. A transformação
+social impõe-se a todos os espiritos, a todos os paizes e a todos os
+governos, e isto explica, até certo ponto, o motivo porque o socialismo
+está tanto em voga e porque o perfilham e adoptam os povos modernos, não
+só por intermedio dos seus pensadores mais notaveis, senão tambem pelos
+seus representantes de classe e pelos interpretes da opinião popular.
+
+ * * * * *
+
+
+O QUE É O COLLECTIVISMO
+
+Toda a theoria, como toda a civilisação, diz Benoit Malon, tem a sua
+dominante, pela qual se julga e afere. A dominante da sociedade
+contemporanea encontra-se na pratica do individualismo universal, pelo
+odioso _cada um para si e pela guerra de todos contra todos_.
+
+De todas as questões que o socialismo pretende resolver, é, sem duvida,
+a questão da propriedade a mais importante. Da sua solução depende o
+juizo a fazer sobre o pensamento social contemporaneo. O collectivismo
+derivou do modo de conceber a apropriação das cousas. Ha mais de
+quarenta annos que os socialistas procuram explicar a significação
+d'esta palavra, e, sem embargo, o vulgo ainda muitas vezes confunde
+o collectivismo com o communismo, não obstante haver uma differença
+radical entre um e outro.
+
+No _communismo_, as forças productoras e os productos, postos em commum,
+ficam sob a gestão directa do Estado; o _collectivismo_ não é senão a
+inalienabilidade das forças productoras, collocadas sob a tutella do
+Estado, que, por seu turno, as confia, temporariamente e mediante
+indemnisação, aos grupos profissionaes. N'estes grupos a repartição
+faz-se pelo _prorata_ do trabalho. O consumo é inteiramente livre. Cada
+um gasta, conforme lhe apraz, o equivalente que lhe cabe, do producto do
+seu trabalho, depois de satisfeitos os encargos sociaes.
+
+O collectivismo é pois, uma concepção socialista que comporta:
+
+1.º--A apropriação em commum, mais ou menos gradual, da terra, dos
+instrumentos de producção e da troca;
+
+2.º--A organisaçao corporativa, communal ou geral, da producção e da troca;
+
+3.º--A faculdade para cada trabalhador de dispôr, a seu bel prazer, do
+equivalente de maior valor por elle creado;
+
+4.º--O direito ao desenvolvimento integral para as creanças; o direito á
+existencia para os invalidos do trabalho; e a garantia, para todos os
+validos, de um trabalho remunerador na associação da sua livre escolha.
+
+Querer isto--affirma muito bem Malon--não é perfilhar os erros do
+communismo utopico: é combinar simplesmente a necessidade do concurso
+para a producção com a justiça economica e as justas exigencias da
+liberdade humana.
+
+ * * * * *
+
+
+O ESTADO SOCIALISTA, SEGUNDO AUGUSTO BEBEL
+
+Não se destróe radicalmente senão aquillo que se substitue--dizia
+Danton, na sua phrase grandemente revolucionaria.
+
+O Estado socialista oppõe:
+
+1.º--_ao estado de guerra, a paz internacional e a federação dos povos;_
+
+2.º--_aos antagonismos economicos, a organisação solidaria da producção
+e da distribuição das riquezas;_
+
+3.º--_á ignorancia, a universalisação do saber e a cultura moral._
+
+Todos os pensadores progressistas são pois, accordes em reconhecer que
+os Estados socialistas, de um futuro mais ou menos proximo, hão de ser
+formados por republicas federadas, que, em si mesmo, não serão outra
+cousa, senão uma estreita federação de communas, engrandecidas e
+transformadas, politica e socialmente. Para essa concepção de fórmas
+sociaes superiores se dirigem presentemente todas as vistas e todas as
+escholas. Só os processos variam, segundo o individuo que os emprega ou
+segundo o meio em que teem de actuar.
+
+Vejamos, primeiro, como Augusto Bebel, um socialista republicano,
+segundo a sua propria confissão, concebe as relações sociaes que hão de
+vigorar n'um regimen socialista, isto é, n'uma sociedade futura.
+
+ [Gravura: Augusto Bebel]
+
+A.--_A expropriação capitalista inherente ao novo regimen, será feita em
+proveito de todos e no interesse de toda a sociedade. Realisada esta
+expropriação, a sociedade assentará em novas bases e a existencia humana
+mudará por completo. A organisação actual tornar-se-ha inutil, e o
+proprio Estado se tornará desnecessario, tendendo a desapparecer, como
+desappareceram as religiões, desde que deixou de existir a crença no
+sobrenatural._
+
+B.--_A lei fundamental da sociedade socialista é o trabalho para cada um
+dos seus membros sem distincção de sexo._
+
+Esta lei é justa e necessaria. Em primeiro logar, ninguem póde
+satisfazer as suas necessidades sem trabalhar. Sendo valido, ninguem tem
+o direito, por outro lado, de viver do trabalho do seu semelhante.
+
+A organisação da sociedade, fundada sobre a liberdade e a legalidade, na
+qual cada um responde por todos assim como todos respondem por cada um,
+suscitará um sentimento de solidariedade, uma emulação e um desejo de
+trabalho até hoje desconhecidos. D'esta fórma o trabalho tornar-se-ha
+mais productivo e o producto aperfeiçoar-se-ha.
+
+A falta de trabalho, tão frequente nos nossos dias, não poderá existir
+na sociedade futura, que apenas produzirá para consumir, em harmonia com
+os principios de justiça e tendo sempre em vista o bem geral.
+
+C.--_Na sociedade futura, a producção, mudando de fórma, fará
+desapparecer o commercio, apanagio da sociedade actual._
+
+Em vez dos milhares d'intermediarios que hoje existem, teremos os
+grandes estabelecimentos, e o transporte dos productos far-se-ha por uma
+fórma completamente nova.
+
+D.--_Na nova organisação as terras serão propriedade commum, assim como
+o foram já no começo da civilisação, mas com fórmas sociaes superiores._
+
+O bem estar de uma população depende do grau de cultura que o sólo
+attingir. Emquanto a terra se conservar como propriedade privada, nunca
+a cultura se aperfeiçoará. Os pequenos proprietarios não dispõem para
+isso dos meios necessarios, e os grandes proprietarios, com as suas
+florestas e os seus parques, deixam por cultivar uma grande parte das
+suas terras.
+
+Pela fórma indicada desapparecerá o contraste secular entre a população
+das cidades e a população dos campos.
+
+E.--_Com a expropriação do sólo e dos instrumentos de trabalho,
+desapparecerá um grande numero de abusos e de males que nos affligem na
+organização actual._
+
+O que determina hoje a posição dos homens, na sociedade, é a quantidade
+maior ou menor de dinheiro que possuem. No futuro estado socialista, a
+sociedade fará tudo por si mesmo. Nem as pessoas nem as classes poderão
+prejudicar-se entre si. O estado, tornando-se inutil, desapparecerá. Não
+haverá pois, nada a governar nem a supprimir ou a opprimir.
+
+Com o Estado desapparecerá naturalmente tudo o que o representa:
+ministros, parlamentos, policia, prisões, exercito permanente,
+procuradores, advogados, n'uma palavra, todo o apparelho da dominação
+politica. A sociedade ficará na plena posse de si mesmo.
+
+F.--_Na organisação actual reclama-se, para todos, o mesmo nivel
+d'instrucção e de educação._
+
+Ora esta egualdade é impossivel no regimen burguez, conforme o demonstra
+Augusto Bebel. Para receber uma instrucção mediana é preciso ter
+dinheiro e vagar. No Estado socialista as condições do desenvolvimento
+physico, moral e intellectual serão as mesmas para todos. Cada um poderá
+pois, instruir-se e viver, conforme as suas aptidões e os seus gostos.
+
+G.--_Sob o regimen futuro a vida social tornar-se-ha publica._
+
+São os factos que o provam. A vida tem-se modificado sensivelmente
+n'estes ultimos dez annos. A existencia torna-se cada vez menos
+familiar, e, em pouco, será passada inteiramente nas officinas, nos
+campos, e nos locaes publicos, destinados ao estudo e á instrucção.
+
+H.--Bebel diz que, sendo melhoradas e augmentadas as vias de
+communicação na sociedade futura, as viagens de instrucção tornar-se-hão
+mais faceis do que succede no actual regimen. O trabalho será regulado,
+de modo a permittir a viagem, ao mesmo tempo, de prazer e de estudo.
+
+Quanto aos velhos, aos invalidos, e aos doentes, quando já não possam
+trabalhar, a sociedade fornecer-lhes-ha os meios indispensaveis á
+existencia.
+
+As doenças tomar-se-hão mais raras, por isso mesmo que a vida será mais
+regular. A alimentação será preparada scientificamente nos
+estabelecimentos publicos. A vida de familia será transformada por
+completo.
+
+Bebel diz ainda que o socialismo não póde ser realisado por um povo,
+isoladamente. Á primeira vista parece que o principio das nacionalidades
+domina o mundo. Mas é um erro. O internacionalismo cosmopolita começa
+realmente a penetrar nas populações. Todos os povos se encontram nas
+mesmas condições sociaes. Por toda a parte se observam as mesmas luctas
+de classes que serão decisivas antes do fim do seculo XIX.
+
+No novo estado social, fundado sobre bases internacionaes, as nações
+civilisadas formarão uma federação d'onde será banida a guerra. A paz
+universal não é um sonho nem uma aspiração de visionarios. Um progresso
+dará logar a outros progressos, e a humanidade avançará sem cessar para
+um ideal de perfeição illimitada.
+
+ * * * * *
+
+
+O ESTADO SOCIALISTA, SEGUNDO BENOIT MALON
+
+A noção de patria encerrou-se primeiro na _tribu_; depois na _cidade_;
+mais tarde na _provincia_, e por ultimo na _nação_. Porque é pois, que a
+patria não ha de ser _continental_ ou _intercontinental_
+(europeio-americana) e finalmente _planetaria_?
+
+A philosophia antiga dizia: _Dignidade, Moderação, Virtude;_ o
+Christianismo: _Fé, Esperança, Caridade;_ o boudhismo: _Vontade,
+Justiça, Affinidade;_ o XVIII seculo: _Investigação, tolerancia,
+sensibilidade;_ a revolução franceza: _Liberdade, egualdade,
+fraternidade;_ o socialismo utopico: _Dedicação, solidariedade,
+harmonia;_ o socialismo integral terá por divisa: _Justiça,
+fraternidade, solidariedade._
+
+Taes serão os principios do Estado social do futuro, no conceito de
+Benoit Malon.
+
+Não nos accuseis de utopista, diz elle. Possuimos o _saber_ e a
+_actividade_; o que nos falta é a _doutrina_ e a _boa vontade_. Nas
+federaçães europeia, americana e planetaria do futuro, estas quatro
+forças estarão unidas, e, pelo seu poder, constituirão a origem da
+felicidade e tenderão a suavisar, no interesse de todos os seres, a
+crueldade da situação actual.
+
+Como politica, o socialismo aconselha: o emprego de todos os meios de
+lucta: a resistencia economica (grève); voto; e, sendo necessario,
+a força, a geradora das sociedades novas, no dizer de Marx.
+
+Tão longe não ia decerto Malon. Elle não renegou nunca o espirito
+revolucionario que reputava indispensavel á existencia e á disciplina
+dos partidos operarios. Mas estava persuadido que o convencimento e a
+persuasão valiam mais que a força, como elementos de propaganda e de
+transformação social.
+
+Vejamos qual era a sua concepção, sobre o Estado socialista, pela
+socialisação dos monopolios. Mas antes d'isso fallemos rapidamente n'um
+outro artigo, tambem do seu programma.
+
+ * * * * *
+
+
+A LEGISLAÇÃO DIRECTA PELO POVO
+
+Charles Burkli apresentou, sobre este assumpto, ao congresso de Zurich,
+uma proposta muito notavel e muito bem deduzida:
+
+«O congresso, considerando que a lei é o interesse escripto do
+legislador; que na legislação a determinante deve ser o interesse do
+povo; que os corpos representativos, segundo a experiencia, representam
+mais os capitalistas do que os operarios; e que as leis, por
+conseguinte, se fazem a favor do capital, em detrimento da classe
+operaria; que o parlamentarismo, em toda a parte onde domina sem
+limites, conduz á corrupção e ao ludibrio do povo; e que só pela
+intervenção directa na legislação é que o povo adquirirá a
+consciencia da sua força, condição indispensavel á liberdade da classe
+operaria:
+
+«Declara que é uma condição preliminar da suppressão de todo o dominio
+de classe, que as classes operarias intervenham, como o mais poderoso
+meio de combate politico, a favor da legislação directa pelo povo,
+segundo a qual o povo exercerá o direito de proposição para as leis
+(iniciativa) e o direito da votação das leis (referendum).»
+
+Foi Mauricio Rittinghausen o instigador d'esta ideia e o seu
+propagandista mais authorisado.
+
+Convencido que só o collectivismo na legislação, isto é, a participação
+de todos na confecção das leis, póde corresponder ao collectivismo da
+propriedade, e que nunca chegaremos a este segundo meio, a não ser por
+intermedio do primeiro: convencido ainda que o systema representativo,
+embora fira o privilegio, não resolverá nunca a questão social;
+Rittinghausen tentou construir sobre este principio um systema
+governamental que tornou applicavel ás grandes nações modernas,
+compostas de milhares de individuos, e foi este o systema que elle
+intitulou _a legislação directa pelo povo_.
+
+Foi a 8 de setembro de 1850, que appareceu, na _Démocratie Pacifique_, o
+primeiro dos tres artigos intitulados--a legislação directa pelo povo ou
+a verdadeira democracia. Rittinghausen viu-se logo atacado por Luiz
+Blanc, Emile de Girardin e Proudhon. Mas teve por si o apoio das massas.
+Poucos mezes depois, mais de trinta e seis jornaes defendiam a nova
+theoria. Proudhon publicava, por esse tempo, a sua grande obra:
+_Idée générale de la Révolution_, e dizia:--Supponhamos que é esta a
+questão: «O governo será directo ou indirecto?»--A avaliar pelo successo
+que acabam de ter, para a democracia, as ideias de Rittinghausen e
+Considerant, quasi se póde affirmar, com uma quasi certeza, que a
+resposta da grande maioria será pelo governo _directo_...»
+
+Após longos annos de lucta, Rittinghausen logrou ver inscripta a
+legislação directa, no programma da democracia socialista allemã,
+approvado pelo congresso d'Eisnach, em agosto de 1869.
+
+Só em 1868, porém, foi a legislação directa, introduzida em Zurich, por
+Charles Burkli, o mesmo que apresentou ao congresso de 1863 a proposta a
+que acima nos referimos.
+
+Mauricio Rittinghausen nasceu em Huckeswagen (Allemanha) a 12 de
+Novembro de 1814 e falleceu em Ath (Belgica) a 29 de dezembro de 1890.
+
+O systema parlamentar deu já, por toda a parte, o que tinha a dar. A
+legislação directa pelo povo é o unico systema governamental que
+corresponde, em politica, ás exigencias e ás necessidades do socialismo
+moderno.
+
+ * * * * *
+
+
+A SOCIALISAÇÃO DOS MONOPOLIOS
+
+O direito á existencia deve ser fundado sobre o direito ao trabalho. Por
+seu turno o direito ao trabalho engendra a organisação social do
+trabalho, d'onde deriva a necessidade de um _ministerio do trabalho_.
+
+As attribuições d'este ministerio seriam:
+
+1.º--A applicação rigorosa das leis industriaes, melhoradas e completadas;
+
+2.º--A reorganisação do trabalho das prisões, de molde a proteger os
+interesses do trabalho livre, e a tornar mais justas, mais humanas e
+mais moralisadoras as relações entre a administração e os condemnados;
+
+3.º--O estabelecimento de um serviço especial de estatistica, que sirva
+de informação aos productores (operarios e patrões) e aos commerciantes,
+ácerca das condições do mercado do trabalho e da troca;
+
+4.º--Reorganisação do trabalho nas manufacturas e outros
+estabelecimentos do Estado;
+
+5.º--Instituição de uma camara operaria consultiva do trabalho, em bases
+rigorosamente corporativas, e de uma camara do commercio e da industria,
+destinada a apresentar os projectos que teriam de ser discutidos em
+publico;
+
+6.º--Instituição de um grande conselho arbitral, eleito em parte pelos
+syndicatos operarios, e em parte pelos syndicatos dos patrões e pelas
+camaras de commercio, e que se pronunciaria sobre todas as questões
+economicas a elle submettidas pelas partes interessadas;
+
+7.º--A reorganisação do ensino agricola, industrial e commercial;
+
+8.º--A reorganisação dos trabalhos publicos, comportando a constituição
+de exercitos industriaes, de quadros permanentes mas de pessoal
+variavel, e que poderiam ser quadruplicados em certas estações e
+redobrados em épocas de crise;
+
+9.º--A fundação de colonias agricolas e viticolas;
+
+10.º--O exercicio racional da força de ponderação, afim de attenuar ou
+prevenir as crises, de regularisar o mercado e de preparar a organisação
+social do trabalho.
+
+A reorganisação do credito far-se-hia, lançando um pesado imposto sobre
+a agiotagem, abolindo as leis que permittem a emissão de titulos ao
+portador e a formação das sociedades anonymas, e prohibindo a especulação.
+
+Por seu turno, a reorganisação judiciaria realisar-se-hia por uma
+justiça prompta, simplificada e gratuita.
+
+Emfim, todas as questões de finanças e de credito seriam resolvidas pela
+nacionalisação dos bancos.
+
+Mas estas reformas tornar-se-hiam irrealisaveis, se a collectividade,
+Estado ou Communa, conforme os casos, não procedesse á transformação, em
+serviço publico productivo, dos monopolios de facto que gera
+espontaneamente o systema capitalista, e a que chamaremos a SOCIALISAÇÃO
+DOS MONOPOLIOS.
+
+A regra effectivamente, estabelecida pela theoria do socialismo, é a
+seguinte: desde que uma industria ou o principal elemento de uma
+industria, passa, pela sua natureza e pelo seu desenvolvimento, ao
+estado de monopolio, constituindo uma poderosa agglomeração de forças
+productoras, incumbe á collectividade exploral-a em _régie_ ou
+fazel-a explorar, sob a sua direcção, mediante indemnisação.
+
+D'este modo, além dos monopolios do Estado já constituidos, figuram, na
+primeira linha, os caminhos de ferro, as minas, os poços de petroleo, as
+fontes de aguas mineraes, os canaes, as fabricas de armas, os grandes
+fornos, as companhias de vapores, as grandes officinas de machinas, que,
+por seu turno, devem ser collocados sob a direcção do Estado e
+transformados gradualmente em _serviços nacionaes_ productivos.
+
+Esta socialisação dos organismos dominantes da producção e da viação,
+tem o seu complemento logico e inevitavel na _communalisação_ dos
+monopolios urbanos, que, por sua vez, seriam tambem transformados em
+serviços communaes. N'esta cathegoria entram:--a illuminação (gaz e
+electricidade); os transportes em commum (omnibus, tramways,
+carruagens); o serviço das aguas (fornecimento, banhos e lavatorios
+communs), os grandes armazens; os serviços de provisão (padarias e
+talhos municipaes), o serviço pharmaceutico e a habitação.
+
+A organisação dos serviços communaes presuppõe uma completa
+reconstituição communal, baseada sobre uma população de cinco mil
+habitantes, pelo menos.
+
+Uma sociedade, onde se tivessem operado semelhantes
+transformações--conclue Benoit Malon--teria progressiva e pacificamente
+vencido a miseria e a ignorancia, organisando socialmente o trabalho,
+creando uma nova consciencia social, fundada sobre as bases
+indestructiveis da liberdade politica, da justiça economica e da
+solidariedade humana.
+
+_Muitos serão os chamados e poucos serão os eleitos_--dizia a antiga
+formula christã. _Todos serão chamados e todos serão eleitos_--tal é a
+divisa da moderna escola socialista.
+
+ * * * * *
+
+
+HECTOR DENIS, GUILLAUME DE GREEF E EMILE DE VANDERWELDE
+
+Por _socialismo integral_ deve entender-se o socialismo encarado sob
+todos os seus aspectos, em todos os seus elementos de formação, e com
+todas as suas possiveis manifestações.
+
+O sentimento não abdicará nunca, e será sempre o primeiro mobil dos
+actos humanos--disse-o Claude Bernard na sua _Philosophia experimental_.
+
+_Faz socialismo_ o sabio, o pensador, que, ao cabo das suas longas
+investigações sobre a natureza das cousas, descobre o mysterio da
+evolução universal.
+
+_Faz socialismo_ o inventor, quando applica as forças productoras do
+homem, favorecendo a multiplicação dos productos e diminuindo, ao mesmo
+tempo, a duração e as agruras do trabalho.
+
+_Faz socialismo_ o escriptor quando no livro, no drama ou no jornal, faz
+a apotheose dos sentimentos de justiça para com os homens e de piedade
+para com os animaes.
+
+_Faz socialismo_ todo aquelle que combate pela liberdade.
+
+_Faz socialismo_ o altruista que passa a sua existencia, fazendo o bem,
+soccorrendo, consolando e fortalecendo os que soffrem e os que são
+desventurados.
+
+_Faz socialismo_ o poeta, quando canta o heroismo, a bravura, o
+desinteresse e consagra as grandes e supremas virtudes civicas.
+
+_Faz socialismo_ o professor, quando á orthodoxia das velhas formulas
+inuteis, antepõe o sagrado ideal de emancipação humana, prégando-o e
+ensinando-o aos seus discipulos.
+
+Emfim, o socialismo já não é apenas uma doutrina abstracta. O socialismo
+faz-se e pratica-se por toda a parte: por sentimento uns, por convicção
+muitos, por raciocinio outros e por necessidade todos. E d'ahi a grande
+variedade de escolas e um sem numero de theorias e de programmas.
+
+Mas, em nosso juizo, é o socialismo professoral ou cathedratico aquelle
+que mais tem concorrido para o desenvolvimento da ideia emancipadora, no
+seio das sociedades modernas. E entre os principaes apostolos da escola,
+seria erro imperdoavel esquecer os professores belgas que tão grande
+relevo teem sabido dar ás doutrinas socialistas. Não fallando já no
+fallecido Emile de Laveleye, o mais celebre dos economistas
+contemporaneos e auctor de um livro que se tornou classico--_Da
+propriedade e das suas fórmas primitivas_, cumpre-nos mencionar aqui
+Hector Denis, Guilherme de Greef, o sabio auctor da _Introducção à
+sociologia_, e Emile de Vanderwelde que, sendo advogado, pertence,
+todavia, a esse glorioso grupo.
+
+A Universidade livre de Bruxellas conta, no seu seio, dois
+socialistas--Hector Denis e Guilherme de Greef, e um anarchista--Elisée
+Reclus.
+
+ [Gravura: Emile de Vanderwelde]
+
+Estão ainda na memoria de todos os recentes acontecimentos, que se
+originaram pela suspensão official do curso de Elisée Reclus. Os
+estudantes tomaram uma parte activa no assumpto. Hector Denis, o reitor
+da Universidade, demittiu-se, e Guilherme de Greef interveiu a favor dos
+que protestavam contra a intervenção dos poderes publicos. O governo
+viu-se obrigado a reconsiderar, e o socialismo sahiu mais uma vez
+triumphante da lucta.
+
+Na campanha figurou tambem Emile de Vanderwelde, antigo alumno da
+Universidade, um nobre e generoso espirito e auctor de um bello estudo
+sobre _os parasitas organicos e os parasitas sociaes_.
+
+Emile de Vanderwelde exerce, sobretudo, uma acção espiritual sobre o
+socialismo belga. A sua influencia é enorme, e o seu prestigio cresce e
+augmenta de dia para dia.
+
+ * * * * *
+
+Entre os socialistas cathedraticos, ha uma escola moderada que aspira á
+implantação da theoria socialista por uma transformação gradual e lenta
+da sociedade actual. Assim, são alguns de opinião que, para se chegar á
+completa abolição da propriedade, se deverá principiar pela abolição da
+grande propriedade que estabelece um desequilibrio economico no mundo,
+concentrando e monopolisando nas mãos de alguns os capitaes e os
+recursos que deveriam estar nas mãos de todos. Outros fazem distincção
+entre a propriedade industrial e a propriedade agricola, reclamando a
+suppressão da primeira e conservando a segunda, visto mediar uma enorme
+distancia entre o industrialismo e a agricultura.
+
+Succede o mesmo com relação á grande e á pequena industria e com relação
+ás heranças. N'este ponto divergem tambem muitos socialistas, querendo
+uns a extincção total das heranças, além de uma certa quantia e
+revertendo o excedente para o fundo da educação nacional, contentando-se
+outros apenas, com a sua extincção immediata em linha collateral.
+
+Como quer que seja, ha um ponto fundamental em que todos estão de
+accôrdo--a negação do existente. É indispensavel pois, destruir o que
+está para o substituir. E a reconstrucção social será tanto mais facil,
+quanto maior fôr o numero de ideias emittidas. Da variedade de
+theorias é que hade resultar a unidade do conjuncto. E a lucta travada
+entre o capitalismo e o proletariado ainda mais apressará e favorecerá a
+solução do problema.
+
+ * * * * *
+
+
+A NOVA GERAÇÃO PORTUGUEZA
+
+A evolução que, n'estes ultimos annos, se tem operado na parte sã,
+intellectual, deixem-me dizer assim, da nova geração portugueza, é muito
+digna de registar-se. Á frente d'esses moços estudiosos e enthusiastas,
+encontra-se Fernando Martins de Carvalho, um grande e solido talento,
+disciplinado pelo estudo da philosophia moderna e educado na convivencia
+dos grandes mestres da sciencia social.
+
+A tendencia federalista e socialista accentua-se na nova geração
+portugueza, como um resultado da corrente internacionalista que, por
+toda a parte, se impõe e affirma, e como uma consequencia logica e
+necessaria das ideias do nosso tempo.
+
+Prova este facto que marchamos para a conquista de um novo ideal e que a
+politica, entre nós, vae perdendo o seu antigo caracter sentimental e
+jacobino, para se transformar n'uma solução organica, positiva, liberal
+e moral.
+
+Procedendo assim, a nova geração portugueza affirma a sua solidariedade
+com o movimento social moderno e mostra-se em tudo digna e á altura
+dos grandes problemas que agitam a sociedade.
+
+Parabens muito sinceros a todos esses bons e leaes companheiros, e, em
+especial, a Fernando Martins de Carvalho, o chefe incontestado da
+gloriosa crusada!
+
+Os periodos que vão lêr-se representam mais do que um simples estudo ou
+uma simples aspiração: são, para assim o dizer, o programma ou o
+manifesto dos novos. Por isso julgámos que tinham aqui o seu logar, e
+que seria de summa utilidade reproduzil-os, embora n'elles se notem umas
+lisongeiras referencias á minha pessoa que não posso nem devo attribuir
+senão á muita bondade de Martins de Carvalho.
+
+ * * * * *
+
+«A aproximação do individualismo economico do individualismo politico é
+o resultado de uma viciosa associação de ideias. A sociologia moderna
+deve acceitar o individualismo, como solução politica, e o communismo,
+como solução economica. Nem ha qualquer conflicto entre estas duas
+formulas, restrictas aos campos proprios:--o _neminem laede_, essa
+formula fundamental do individualismo, tem evidentemente consequencias
+communistas; não lesar a ninguem é não tolher a ninguem a apropriação do
+necessario, não é apenas não perturbar ninguem na sua situação actual,
+justa ou injusta. Spencer, que generalisou a economia orthodoxa na
+sociologia, é decididamente individualista e affirma a tendencia
+evolutiva para a propriedade social.
+
+Do primitivo communismo genealogico, de caracter familiar, passou-se
+para o communismo local, dos que habitam o mesmo territorio. Dos
+communismos das tribus passa-se para o communismo universal, para a
+confederação de todas as communas.
+
+A passagem de uma a outra fórma do communismo deu logar ao
+individualismo economico, a desintegração, successiva e gradual, do
+communismo genealogico, desde o condominio familiar até á simples quota
+legitimaria dos parentes. O individualismo não poderá ser uma integração
+social; os elementos que elle dispersou precisam de se integrar n'uma
+nova fórma communista.
+
+A evolução social realisa-se em virtude da lei do uso e do desuso, de
+que deriva a divisão do trabalho, e que é o principio fundamental do
+transformismo, em que se accentua hoje uma renascença lamarckista.
+Lamarck deveria ter applicado aquella lei, que applicou só aos
+organismos individuaes, tambem directamente aos organismos collectivos,
+ás especies. A influencia do uso e do desuso actua sobre os orgãos dos
+organismos individuaes, mas actua tambem sobre os organismos
+individuaes, como orgãos dos organismos collectivos. A doutrina da
+selecção natural não representa senão uma tentativa para applicar á
+differenciação das especies a lei do uso e do desuso; na selecção
+social, uma fórma da selecção natural, desapparecem todos os inuteis,
+embora as subsistencias cheguem para todos. A evolução realisa-se
+pela differenciação estructural das massas organicas primitivas,
+constituindo os organismos individuaes; pela differenciação dos
+organismos individuaes formando o protoplasma social primitivo, em
+variedades, especies, reinos. Uma especie constitue-se organicamente
+pela successão de fórmas cada vez mais perfeitas da divisão do trabalho,
+pela formação de uma solidariedade social, generalisando-se gradualmente
+dos pequenos grupos ás raças, e a toda a especie; á concorrencia vital
+dentro das especies succede-se a concorrencia vital com outras especies,
+até que umas e outras entrem n'um hyper-organismo superior, que irá até
+estabelecer a solidariedade de toda a existencia.
+
+A sociedade, que começou a sahir da primitiva homogeneidade communista
+pela anthropophagia, com manifestações juridicas notaveis, como por
+exemplo a condemnação do criminoso a servir de alimento á tribu,--pelas
+fórmas parasitarias e commensalistas, vae pouco a pouco aproximando-se
+da fórma superior da divisão do trabalho,--o communismo, que é a fórma
+de repartição nos organismos perfeitos--a cada orgão segundo as suas
+necessidades.
+
+Á medida que esta evolução se realisa a concorrencia social torna-se
+cada vez menos intensa; o parasitarismo interno da especie transforma-se
+em parasitarismo com relação ás outras especies. As profundas
+differenciações anthropologicas, produzidas pelas velhas fórmas
+parasitarias da constituição social, vão-se attenuando. A analogia real
+da sociedade com o organismo, que tem sido muito exaggerada e tem
+dado logar a mil hespanholadas scientificas, a doutrinas muito
+estheticas que se têem destacado por gemmiparidade das theorias de Comte
+e Spencer, não nos póde levar a idealisar a sociedade futura como a
+perfeita reproducção do organismo individual, com a sua forte
+differenciação de estructura, a sociedade é um organismo superior, que
+reproduz na sua phase embryonnaria a evolução dos organismos individuaes
+(como pela lei biogenetica o individuo reproduz na vida fetal toda a
+evolução organica anterior), mas que na sua phase post-embryonnaria a
+continua.
+
+A economia da divisão do trabalho, que se succede á primitiva economia
+communista, tem duas phases preparatorias: uma militar, violenta,--a
+escravidão, a servidão, o feudalismo--, outra pacifica,--o capitalismo
+moderno. A distribuição da riqueza pelo producto do trabalho, dando
+logar á intervenção da concorrencia, produz o capitalismo; a theoria
+communista quer que se pague o trabalho-funcção social e não o
+trabalho-producto, como o capitalismo e mesmo o collectivismo, uma
+doutrina transitoria evidentemente, e que se vê em difficuldades para
+provar que o capital não é accumulação de trabalho, coisa absolutamente
+indifferente no ponto de vista communista.
+
+As castas não são diversas raças, diversos povos, que se sobrepõem; são
+differenciações anthropologicas, que se formam dentro de todas as
+sociedades pela acção de factores eminentemente sociaes, as fórmas
+primitivas da divisão do trabalho. As castas correspondem ás raças
+occipital--a exploradora pela violencia--e á frontal, a
+primitivamente explorada, que se liberta pela intelligencia;--a theoria
+de Gratiolet é verdadeira, admittindo-se factores sociaes da
+differenciação dentro das primitivas raças, que pouco a pouco
+desapparecem perante as nacionalidades, um parasitismo de que resultam
+differenciações anthropologicas, e perante as castas. O militarismo
+exterior e internacional e o militarismo nacional ou aristocracia, têem
+origens economicas, e produzem differenciações anthropologicas.
+
+No regime communista primitivo o direito é a coacção á adaptação social
+pela intimidação, ou o appressamento violento da inadaptação. Existia a
+promiscuidade. Havia perfeita egualdade economica e perfeita egualdade
+politica.
+
+Fez-se sentir a necessidade da divisão do trabalho: ia-se constituir a
+primeira fórma de parasitarismo. Ninguem ousava violar a tradição, com
+profunda sancção religiosa, da propria tribu. Começa a guerra permanente
+entre as tribus de bimanos. O que se não aventurava a escravisar
+individuos, a monopolisar femeas, a apossar-se da propriedade da propria
+tribu, cahia sobre a tribu visinha. O individualismo começou pela
+escravidão dos extrangeiros, pela exogamia, pelo roubo da propriedade
+das outras tribus. Constituiu-se um direito internacional,
+fundamentalmente differente do direito do _clan_;--conflicto
+anthropologico, o direito tinha um caracter collectivo;--crime e pena
+eram conflictos ethnicos.
+
+Constituiram-se assim em casta os homens de guerra, passando depois a
+exercer a violencia sobre a propria tribu. O direito entre as
+castas passou a ser cópia do direito internacional; o velho direito
+interno só persistiu em _survivances_ nas relações entre os membros das
+classes inferiores.
+
+Á casta, como a todos os grandes factores sociaes, devia corresponder
+uma differenciação anthropologica. A anthropologia criminal, quando nega
+os factores economicos do crime, não repara em que a selecção natural
+das raças tem segundo o darwinismo, de que essa escola deriva, uma
+origem economica--o facto registado pela lei de Malthus.
+
+Á primitiva selecção individual devia pouco a pouco substituir-se uma
+selecção entre os grupos anthropologicos, que se iam formando, selecção
+naturalmente preventiva, d'ahi a formação da escravidão, que é uma fórma
+de caracter duradouro da selecção e que se substituiu á pena de morte do
+criminoso e do prisioneiro de guerra; d'ahi a formação na aristocracia
+da familia polygamica, destinada a garantir a rapida multiplicação da
+casta superior, e acompanhada de diversas medidas restrictivas da
+multiplicação da casta inferior.
+
+Pouco a pouco tem ido perdendo de intensidade a fórma violenta do
+individualismo, pelo apparecimento do capitalismo e pelo cruzamento das
+castas, primitivamente prohibido, que caracterisa as fórmas sociaes
+superiores, como o cruzamento das raças caracterisa a domesticação com
+respeito ao estado selvagem. O caracter de conflicto anthropologico do
+direito na phase primitiva do militarismo tem pouco a pouco
+desapparecido de diversos dos seus ramos; primitivamente aquelle direito
+que hoje só tem sancção civil, tinha uma sancção penal. Hoje o
+direito penal tende a tornar-se tão contractualista como o direito
+civil; Spencer baseia toda uma theoria penal sobre a organisação
+systematica da indemnisação de perdas e damnos.
+
+Á medida que o militarismo vae declinando, vae-se realisando no direito
+internacional uma endosmose do direito interno progressivo; o contrario
+precisamente do que se deu nas origens do militarismo.
+
+Resultado de todos estes progressos sociaes é o desapparecimento
+evolutivo das differenciações anthropologicas, a que as castas e as
+nacionalidades deram origem.
+
+Contra o que o collectivismo affirma, somos de opinião que o capitalismo
+representa um progresso. A evolução realisa-se pela acção cada vez menor
+da hereditariedade, permittindo a evolução rapida da especie, por
+adaptações repetidas. A organisação em castas, a hereditariedade
+politica e economica, correspondeu a phases inferiores da transformação
+da especie: hoje sobre a hereditariedade predomina a adaptação, na sua
+fórma seleccional, que tem como consequencia politicamente o regime
+representativo, economicamente o regime capitalista. As selecções, não
+sendo fixas pela hereditariedade, que, tanto nas suas consequencias
+politicas, como nas suas consequencias economicas, tende a desapparecer,
+é uma transição necessaria para o regime da egualdade, em que as
+progressivas adaptações da especie não se realisarão seleccionalmente,
+mas solidariamente.
+
+É um facto conhecido o da degeneração das aristocracias,
+facto perfeitamente egual ao da degeneração das raças indigenas
+perante a civilisação branca, e ao da degeneração das raças
+criminosas,--selecções militaristas e aristocracias abortadas, raças
+d'origem teratologica,--perante o homem normal. Á degeneração das
+aristocracias correspondeu necessariamente a formação das monarchias;
+era facil no decorrer da degeneração da casta, uma familia garantir-se o
+poder monarchico. Quando a degeneração se estende ás dynastias, a
+monarchia torna-se temperada ou constitucional. É possivel que na
+degeneração da burguezia perante o quarto estado, pelo mesmo processo
+historico appareçam novos cesarismos.
+
+Vejamos os factores intellectuaes da evolução social. O homem primitivo
+faz corresponder á sensação o mundo exterior; á _ideia_, que julga
+independente da sensação, o espirito, a substancia: eis a origem do
+substancialismo, do livre-arbitrismo, da doutrina das ideias innatas, da
+theoria da creação. Reconhecida a dependencia causal da ideia para a
+sensação, substitue-se ao principio da substancialidade o principio de
+causalidade, e funda-se a sciencia moderna, positiva, monista,
+determinista e evolucionista. Por fazer do positivismo uma questão de
+methodo e não determinar precisamente a origem do causalismo e todas as
+suas consequencias, Comte acceitou a irreductibilidade dos phenomenos e
+a relatividade dos conhecimentos, principio que occasionou esta recente
+recaida idealista. A evolução scientifica não é deductiva, como queria
+Comte, mas inductiva, das ciencias do espirito para as sciencias
+mais geraes, as do mundo inorganico; é assim que, por exemplo, a
+doutrina da evolução appareceu successivamenie na sociologia, na
+biologia e na physico-chimica. Note-se que na astronomia ainda se
+admitte a evolução-circular, da nebulosa á nebulosa, e a
+evolução-circular foi precisamente a primeira phase do evolucionismo
+social; e que nada ha ainda sobre a evolução geral physico-chimica.
+Conhecem-se os factores psychologicos da marcha social; conhecem-se os
+seus factores biologicos ainda; e muito mal os factores inorganicos.
+
+A doutrina do livre-arbitrio deu origem ao contractualismo na politica,
+no direito economico, na familia e no direito penal, punindo o crime,
+não o criminoso. O determinismo, que successivamente, visivelmente na
+criminologia, tem passado da sua fórma statica, para uma fórma dynamica,
+evolucionista, do motivismo psychologico ao condicionalismo biologico e
+anorganico, tem como consequencia necessaria uma constituição
+socialista. O direito economico fundar-se-ha sobre o destino social dos
+actos, não sobre o livre-arbitrio dos contrahentes; reconhecido o
+governo de leis sociologicas, e o progresso, contradictorio com o
+livre-arbitrio, isto é, a eterna possibilidade do homem pensar e
+praticar indifferentemente, desapparecerá a necessidade do Estado,
+resultado theorico da necessidade de uma eterna intervenção coactiva
+para levar o livre-arbitrio ao Bem; a pena terá um fim socialista, a
+adaptação do criminoso á sociedade. Esta adaptação será facil, contra o
+que julga a antropologia criminal, que admitte a evolução
+anthropologica e social e nega a evolução anthropologica e social dos
+criminosos, que, sabendo que a symbolica juridica mostra bem que a
+origem da propriedade foi a conquista e que a origem da successão foi o
+culto dos mortos, chama aos attentados contra a propriedade--_delictos
+naturaes_. A probidade actual que é senão o habito violentamente creado
+de respeitar a desegualdade economica, hereditariamente transmittido?
+
+Differimos do collectivismo:--na nossa solução final economica, que é
+communista; na theoria politica, que é o anarchismo scientifico; no
+processo theorico, por isso que fazemos sociologia anthropologica e por
+não fazermos sociologia exclusivamente economica. Os primitivos
+socialistas como os primeiros economistas nem sequer suspeitaram a
+sociologia, viveram no especialismo economico; n'uma segunda phase
+economista e socialista levaram a explicação economica a todos os
+phenomenos sociaes, fizeram sociologia economica; n'uma terceira phase a
+economia orthodoxa generalisou-se com as outras sciencias sociaes na
+sociologia spenceriana. Tudo hoje tambem faz prever a constituição de
+uma sociologia socialista. A biologia nunca ousou explicar a evolução
+organica só por factores economicos--os que dizem respeito á nutrição. O
+collectivismo é, em Marx principalmente, um argumento _ad hominem_ com
+relação á economia orthodoxa, de cujas entidades metaphysicas tirou
+consequencias habeis, mas scientificamente infundadas; Karl Marx vê-se
+obrigado a contradizer violentamente as suas theorias, aproximando
+o seu socialismo da formula communista da distribuição.
+
+Differimos do anarchismo, apesar de acreditarmos que o Estado tende a
+desapparecer pelas rasões que démos e ainda pelas legitimas deducções
+sociologicas da doutrina lamarckiana da creação natural dos instinctos,
+em virtude da qual o Estado perderá a sua rasão de ser apenas tenha
+formado habitos, que, tornados hereditarios, sejam a base moral da
+sociedade futura:--na theoria determinista e anthropologica, e pelo
+sentimento profundo da evolução historica. É preciso contar com a
+historia, a hereditariedade psychologica; o espirito social não é
+evidentemente a _taboa rasa_ da velha psychologia materialista. A
+evolução tem periodos revolucionarios; a _lucta pelo direito_ de Jhering
+é a theoria do progresso sanguinolento das sociedades. Mas não podemos
+como o anarchismo ou como o jacobinismo fazer do crime politico uma
+metaphysica revolucionaria. Dissémo-nos communistas: devemos notar que a
+unica theoria socialista de que saiu uma sociologia, foi uma doutrina
+communista, a de Saint-Simon, cuja influencia na obra de Comte é conhecida.
+
+É nitida a nossa posição. Libertos completamente das velhas doutrinas,
+hereditariedade morbida muitas vezes secular do espirito collectivo,
+affirmamos a necessidade de uma reconstrucção social completa. As velhas
+theorias sociaes, que são senão as velhas tendencias inconscientes, a
+que se quer dar um pretexto de que se faz pedantemente uma sociologia,
+como o hypnotisado dá um pretexto pueril e julga da sua iniciativa
+os actos suggeridos e que inconscientemente praticou?
+
+É no partido republicano o logar dos novos, não vencidos por essa
+_surménage_ mental da historia que caracterisa o momento, para quem a
+sociologia não é apenas um libretto da _Portugueza_, que fazem uma
+critica intellectual do que existe, e que deixam a velha critica
+jacobina, uma parte de policia carregada.
+
+É preciso que o partido republicano faça, porém, vigorosamente
+affirmações socialistas e federalistas. Estas duas correntes poderosas
+teem sido vehementemente representadas na propaganda republicana por
+Magalhães Lima, contra aquelles, para quem a republica é toda a sciencia
+social e um _ménagesinho patriotico_, e que fazem a sociologia pacata do
+bom homem Ricardo.
+
+A questão politica não é indifferente, contra o que alguns deduzem do
+principio socialista de que as transformações politicas teem apenas
+factores e destinos economicos. Os novos devem pois, collocar-se ao lado
+dos republicanos, porque a solução politica immediata é a mesma.
+Socialistas, achamo-nos reunidos aos orthodoxos, que piedosamente julgam
+o socialismo uma metaphysica do roubo. Aproxima-nos uma especie de
+_isomorphismo_, porque as nossas e as suas doutrinas crystalisam nas
+mesmas formulas politicas.
+
+Socialismo rasgado, não um socialismo que seja um dilettantismo da
+Historia, e que corresponda á velha formula--_panem et circenses_,
+politica internacional definida e sem hesitações, tem sido a
+propaganda vehemente feita por Magalhães Lima, que assim abriu uma
+nova phase na historia do partido republicano portuguez. Os novos podem,
+pois entrar sem hesitações na vida nova do partido.»
+
+ * * * * *
+
+
+JOSÉ FONTANA E SOUSA BRANDÃO
+
+E, uma vez que fallámos nos novos, seria ingratidão esquecer aquelles
+que, pela sua influencia, pela sua dedicação, pela sua actividade e pela
+sua propaganda, tanto contribuiram para o derramamento d'estas ideias no
+povo portuguez. Refiro-me a José Fontana e Sousa Brandão.
+
+Ser republicano ou ser socialista n'estes tempos que vão correndo, cousa
+é que não importa um grande acto de coragem ou de audacia. Mas para
+affirmar as opiniões republicanas e socialistas, na época em que
+aquelles dois benemeritos o fizeram, requeria-se ainda mais que coragem
+e audacia--requeria-se uma grande independencia de caracter e um grande
+e soberano despreso pelas conveniencias e interesses pessoaes.
+
+Os que modernamente vieram para a politica, não sabem, nem podem mesmo
+avaliar, o que custava a propaganda n'aquelle tempo. Era uma lucta cruel
+e constante, com a familia, com os amigos, e com tudo e com todos.
+Ser republicano o mesmo era que ser um doido mau. Socialismo era
+synonimo de pilhagem e de liquidação social.
+
+ [Gravura: José Fontana]
+
+Os partidos por via de regra, ingratos para com os seus servidores.
+Superior, porém, á gratidão dos partidos, ha o applauso da propria
+consciencia. E só pela satisfação do dever cumprido, vale bem a pena
+supportar as chufas dos adversarios, as calumnias dos maldosos e a
+perseguição dos inscientes e dos inconscientes.
+
+José Fontana era muitas vezes calumniado por aquelles que o não
+comprehendiam. De Sousa Brandão sorriam-se os _finorios_ e os homens
+praticos, como se tivessem dó d'elle. Fui d'essa época, e sei o que isso
+era e o que isso custava! Mas que importava? Os calumniadores calaram-se
+e os disfructadores desappareceram. José Fontana e Sousa Brandão são
+hoje venerados e consagrados, em Portugal, como o são egualmente, na
+Allemanha, Karl Marx e Lassale.
+
+E isto porquê?
+
+Precisamente porque elles representaram, na sociedade portugueza,
+mais alguma cousa do que as suas proprias pessoas. Elles foram os
+genuinos interpretes de uma ideia que honraram e glorificaram, pela sua
+coherencia, pela sua abnegação e pelo seu civismo. Foram dois puros e
+foram dois fortes. Era differente o processo de cada um. Mas o ideal, o
+fim, o objectivo era o mesmo em ambos. José Fontana era o apostolo da
+_Internacional_, e ella ahi está hoje mais solida e mais viva do que
+nunca, apesar da perseguição dos governos! Sousa Brandão foi o
+evangelista das _sociedades cooperativas_, e ellas ahi estão hoje a
+impôr-se por toda a parte e em todas as classes, apesar dos embaraços e
+obstaculos que o capitalismo lhe levanta!
+
+ [Gravura: Sousa Brandão]
+
+Ha quem desanime na lucta e ha quem cance, durante o caminho. Nem um nem
+outro souberam nunca o que era o desanimo ou o cansaço. Trabalharam,
+combateram, perseveraram e seguiram sempre ávante como os crentes das
+antigas religiões. Edificaram sobre as ruinas e construiram sobre
+os escombros do velho mundo. A obra ahi está--bella, soberba,
+imponente. O exemplo é d'aquelles que não morrem nunca e a lição é das
+que aproveitam sempre. Inspiremo-nos no seu nobre e magnanimo exemplo e
+reavivemos nos nossos espiritos a grandeza e a sublimidade da sua lição.
+
+A homenagem aos mortos deve constituir um culto para os vivos. E, quando
+os mortos se chamam José Fontana e Sousa Brandão, a homenagem reveste
+então o duplo caracter de um preito ao amigo querido e de uma apotheose
+pelo bravo, pelo apostolo e pelo heróe.
+
+
+
+
+CONCLUINDO
+
+
+Bom ou máu, ahi fica um rapido esboço do actual movimento. Foi simples a
+nossa missão. Desejando que todos vissem pelos proprios olhos e
+palpassem pelas proprias mãos, limitámos-nos a fazer a historia do que é
+e do que se passa. Historiámos; não criticámos; narrámos; não
+commentámos. _Savoir pour prévoir, afin de pouvoir_--tal era a maxima de
+Augusto Comte. _Saber para prevêr, afim de poder_--tal deve ser o
+principio de todos os que, presentemente, se dedicam e consagram aos
+estudos politicos e sociaes.
+
+Não confundamos o ideal com a utopia. O ideal de hoje é a realidade de
+ámanhã. O ideal,--disse muito bem Elie Réclus, não é senão o
+desenvolvimento da realidade. A utopia não passa, muitas vezes, do
+espirito ou do cerebro que a gerou. Mas não succede o mesmo com o ideal
+que encontra sempre uma realisação pratica, no mundo. O socialismo é o
+ideal do seculo XIX e será a realidade do seculo XX. Muitos governos
+monarchicos começam já a aceitar-lhe as reivindicações e as
+consequencias. Gladstone perfilhou, para o seu programma liberal, o
+dia normal das 8 horas de trabalho e a responsabilidade nos accidentes.
+É socialista o imperador da Allemanha e são socialistas todos os
+governos da Europa. Comprehende-se. Fazendo concessões ao proletariado,
+os reaccionarios e ultramontanos procuram defender-se da onda que os
+ameaça, prolongando d'este modo a sua existencia, embora á custa de uma
+especulação e de uma hypocrisia. Não acontece porém, o mesmo com os
+partidos avançados. Esses teem de acompanhar o movimento, sob pena de se
+suicidarem, não o fazendo. Ahi fica a advertencia. Quem tem olhos para
+vêr, veja; quem tem ouvidos para ouvir, oiça.
+
+N'este livro reproduzi, a largos traços, as minhas impressões sobre o
+congresso operario de Zurich de 1893, desenvolvendo os assumptos ali
+tratados, segundo o criterio das diversas escolas socialistas. Aos novos
+me dirijo, porque só dos novos ha alguma cousa a esperar. Os velhos são
+impenetraveis ás ideias modernas. Concorre, para isso, o egoismo e a
+intransigencia da edade. Seria absurdo esperar qualquer cousa de
+proficuo e de util de elementos gastos, cançados, e, em parte,
+desacreditados. Já uma vez o disse e não cessarei de o repetir. O bom
+senso publico não reconhece, em geral, senão dois partidos--o partido
+dos que avançam e o partido dos que recúam. Deixemos recuar os que tudo
+sacrificam ao seu interesse pessoal e á sua desmesurada ganancia;
+deixemos recuar os timidos, os covardes e os impotentes; e avancemos
+nós, unidos, fortes e disciplinados--unidos na acção, embora
+divergentes na doutrina; fortes pelo sentimento do dever, e
+disciplinados pela solidariedade das ideias e dos principios.
+
+A festa do 1.º de de maio do corrente anno será uma nova affirmação da
+força e da importancia do proletariado internacional.
+
+Michelin, o illustre deputado socialista, apresentou ultimamente, na
+camara franceza, o seguinte projecto de lei:
+
+«O trabalho é a origem unica e legitima da riqueza. Nenhum producto póde
+existir sem o trabalho, que é a condição essencial da liberdade e da
+prosperidade do homem, e só, por meio d'elle, se póde assegurar o
+progresso e moralisar a sociedade.
+
+«Os trabalhadores tomaram a iniciativa da celebração de uma festa
+annual, com o fim de honrar o trabalho. Peço por isso, á camara que
+decrete, no sentido de considerar esta festa nacional.
+
+Os poderes publicos, cuja missão consiste em dar satisfação ás
+aspirações do povo, não podem senão associar-se a um sentimento tão
+elevado, demonstrando assim o desejo sincero em que estão de examinar,
+para as attender, as justas reivindicações dos trabalhadores que
+constituem a immensa maioria do paiz.
+
+«Por estas rasões, tenho a honra de submetter á camara o seguinte projecto:
+
+Art.º unico--O 1.º de Maio é declarado o dia da festa nacional e annual
+do trabalho.»
+
+Michelin deseja, por este modo, consagrar o 1.º de Maio, assim como se
+tem consagrado o 14 de julho que é o dia da festa da Republica. Perderia
+a festa dos operarios, n'este caso, o seu caracter de resistencia, e
+converter-se-hia n'uma celebração pacifica do trabalho. Nada mais nobre
+e digno! Aos termos da proposta, associou-se enthusiaticamente o grande
+poeta socialista, Clovis Hugues, embora outros divergissem por desejarem
+conservar ao 1.º de Maio a sua feição, radical e revolucionaria, de
+combate e de opposição ao existente.
+
+De um ou de outro modo, a celebração do 1.º de Maio não deixará de
+fazer-se.
+
+Ha um problema a resolver. É a questão magna do seculo. Ou os governos o
+resolvem, ou as sociedades terão de passar por um cataclismo terrivel.
+
+É este o dilemma. E da solução do assumpto dependerá, no futuro, a
+felicidade e o bem-estar dos povos!
+
+
+FIM
+
+
+
+
+INDICE
+
+
+SOLEMNIA VERBA 7
+
+O PRIMEIRO DE MAIO 11
+
+O DESENVOLVIMENTO DAS IDEIAS SOCIALISTAS.--Benoit Malon, Luiz Ruchonnet,
+Ramón Chies, Victor Schoelcher e Victor Considérant.--Theodoro Hertzka e
+o seu Freiland.--No congresso de Zurich.--A Allemanha, a Belgica, a
+França e a Inglaterra.--A Italia, a Hespanha e Portugal.--Notas e
+commentarios 13
+
+O PROGRAMMA SOCIALISTA.--O programma do partido operario.--Parte
+politica e parte economica--Jules Guesde e Paulo Lafargue.--O programma
+do partido socialista em Portugal 57
+
+A COOPERAÇÃO DOS TRABALHADORES.--Cooperação e solidariedade.--Instrucção
+e associação.--O internacionalismo.--As cooperações operarias e alguns
+dos seus mais dedicados e fervorosos apostolos.--Cesar de Paepe,
+Anseele, Jean Volders, Louis Bertrand 97
+
+ARBITRAGEM INTERNACIONAL.--Sociedades da paz.--Emile Arnaud.--O
+militarismo.--Domela Nieuwenhuis.--Arbitragem internacional--Michel
+Revon.--A federação e os seus apostolos.--Nacionalismo e
+internacionalismo.--Alfredo Naquet.--René Goblet e Augusto Vacquerie.--A
+guerra vencida pela arbitragem.--O desarmamento.--Eduardo Vaillant 109
+
+A MULHER.--Resolução do Congresso de Zurich.--A situação da
+mulher.--Seus direitos civis e politicos.--A mulher em relação á
+industria.--A mulher no estado socialista.--A primeira victoria.--Madame
+Paule Mink.--Augusto Bebel.--P. Argyriadés 137
+
+A SOCIEDADE NOVA.--A transformação social impõe-se.--O que é o
+collectivismo.--O Estado socialista, segundo Augusto Bebel e Benoit
+Malon.--A legislação directa pelo povo.--A Socialisação dos
+monopolios.--Hector Denis, Guillaume de Greefe Emile de Vanderwelde.--A
+nova geração portugueza.--José Fontana e Souza Brandão 155
+
+CONCLUINDO.-- 193
+
+
+
+
+RETRATOS
+
+
+ 1.º--Benoit Malon 14
+ 2.º--Ramón Chies 17
+ 3.º--Victor Schoelcher 18
+ 4.º--Victor Considerant 21
+ 5.º--Theodoro Hertzka 26
+ 6.º--Amilcare Cipriani 35
+ 7.º--Frederico Engels 39
+ 8.º--Liebknecht 41
+ 9.º--Millerand 44
+ 10.º--Thivrier 47
+ 11.º--John Burns 48
+ 12.º--De Felice 53
+ 13.º--Jules Guesde 58
+ 14.º--Paulo Lafargue 60
+ 15.º--Cesar de Paepe 98
+ 16.º--Louis Bertrand 104
+ 17.º--Anseele 105
+ 18.º--Jean Volders 106
+ 19.º--Emile Arnaud 113
+ 20.º--Domela Nieuwenhuis 115
+ 21.º--Alfredo Naquet 122
+ 22.º--René Goblet 124
+ 23.º--Augusto Vacquerie 126
+ 24.º--Emile de Laveleye 128
+ 25.º--Eduardo Vaillant 132
+ 26.º--M.me Paule Mink 149
+ 27.º--P. Argyriadés 151
+ 28.º--Augusto Bebel 160
+ 29.º--Emile de Vanderwelde 173
+ 30.º--José Fontana 189
+ 31.º--Sousa Brandão 190
+
+
+
+
+
+ [1] _Freiland. Ein soziales Zukunftbild_. Leipzig, Duncker und
+ Humblot, 1889, 10 mk; Dresden, E. Pierson, 1891 e 1892, 3
+ mk.--_Freeland_, traducção ingleza por Arthur Ranson. Londres,
+ Chatto e Windus, 1892, 6 sh.--_Freiland und die Freilandbewegung_.
+ Vienna, 10 pf., traduzido por H. La Fontaine, advogado em Bruxellas,
+ sob o titulo de _Freiland_, un roman collectiviste. Extraits et
+ résumé. Bruxelles. 1892. Imprimerie Veuvc Mounom.
+
+ [2] _Horace Greeley._
+
+ [3] B. Malon--_Socialismo integral._
+
+ [4] Louis Bertrand.--_La Cooperation, ses avantages et son avenir._
+
+ [5] _Discurso proferido no congresso de Zurich._
+
+ [6] Michel Revon--_L'arbttrage international._
+
+ [7] Serviu-nos de guia, n'este estudo, a traducção analytica da obra
+ de Rebel--_La femme et le socialisme_--publicada por P. Argyriadés.
+ Vulgarisando a excellente doutrina, procurámos fazer obra de
+ propaganda e nada mais.
+
+ [8] B. Malon--_Le Socialisme Integral._
+
+
+
+
+
+
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+
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+Gutenberg-tm electronic works if you follow the terms of this agreement
+and help preserve free future access to Project Gutenberg-tm electronic
+works. See paragraph 1.E below.
+
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+or PGLAF), owns a compilation copyright in the collection of Project
+Gutenberg-tm electronic works. Nearly all the individual works in the
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+
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+ <title>O Primeiro de Maio, por Sebastião de Magalhães Lima</title>
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+<pre>
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+Project Gutenberg's O Primeiro de Maio, by Sebastião de Magalhães Lima
+
+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.org
+
+
+Title: O Primeiro de Maio
+
+Author: Sebastião de Magalhães Lima
+
+Release Date: May 15, 2010 [EBook #32379]
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+Language: Portuguese
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+Character set encoding: ISO-8859-1
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+*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK O PRIMEIRO DE MAIO ***
+
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+
+
+Produced by Pedro Saborano (produced from scanned images
+of public domain material from BibRia)
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+
+
+
+
+</pre>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p class="centrado"><img src="images/capa.png" alt="O Primeiro de Maio"
+border="0"></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p style="font-size: 1.8em; margin-left: 10%;">MAGALHÃES LIMA</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p style="font-size: 3.5em; text-align: center;">O<br>
+1.º de Maio</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<blockquote style="margin-left: 50%; font-size: 0.6em;">
+ <p><i>Marchez, l'humanité ne vit pas d'une idée,</i><br>
+ <i>Elle en allume une autre á l'eternel flambeau</i></p>
+</blockquote>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p class="centrado">CASA BERTRAND&mdash;JOSÉ BASTOS</p>
+
+<p class="centrado">CHIADO</p>
+
+<p class="centrado"><big>LISBOA</big></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p class="centrado">O PRIMEIRO DE MAIO</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p class="centrado" style="font-size: 3em;"><span style="margin-right: 30%;">O
+P<small>RIMEIRO</small></span><br>
+<span style="margin-left: 30%;"><small>DE</small> M<small>AIO</small></span></p>
+
+<p class="centrado">POR</p>
+
+<p class="centrado" style="font-size: 1.2em;">S. DE MAGALHÃES LIMA</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<blockquote style="margin-left: 50%; font-size: 0.6em;">
+ <p><i>Marchez, l'humanité ne vit pas d'une idée,</i><br>
+ <i>Elle en allume une autre á l'eternel flambeau</i></p>
+</blockquote>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+<hr style="width: 30%;">
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p class="centrado">LISBOA<br>
+<small>TYP. DA COMPANHIA NACIONAL EDITORA</small><br>
+1894</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p><span class="pn">{4}<br>
+{5}</span></p>
+
+<div style="border: 4px solid rgb(0, 0, 0); margin: 2em; text-align: center;">
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>Á MEMORIA<br>
+<small>DO</small><br>
+MEU QUERIDO MESTRE<br>
+<small>E</small><br>
+SAUDOSISSIMO AMIGO</p>
+
+<p style="font-size: 2em;">BENOIT MALON</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p style="text-align: left;"><small> <i>Lisboa, 2 de dezembro de
+1893.</i></small></p>
+
+<p style="text-align: right;"><i>Magalhães Lima.</i></p>
+</div>
+
+<p><span class="pn">{6}<br>
+{7}</span></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<div id="corpo">
+<h1><a name="SECTION0010000"><i>SOLEMNIA VERBA...</i></a></h1>
+
+<p>Recordo-me perfeitamente. Era uma manhã de agosto. Na vespera, Cipriani
+havia me dito: «amanhã, ás 11 horas, na <i>gare de S. Lazare</i>!»</p>
+
+<p>Fomos ambos pontuaes. Tomámos os nossos bilhetes, e seguimos no trem de
+Asnières. Era ali, na rua de Colombes, que vivia, ou que agonisava, para melhor
+dizer, Benoit Malon. Subimos a longa escadaria que conduzia a um terceiro
+andar. O mestre dormia tranquillamente. Mas, presentindo-nos, afastou docemente
+o lenço branco que lhe encobria o rosto, e estendeu-nos a mão com carinho e
+alvoroço, abraçando-nos e beijando-nos, ao mesmo tempo.</p>
+
+<p>A sua physionomia, abatida e amarellecida pelo uso da morphina, tinha o
+aspecto doentio, morbido,<span class="pn">{8}</span> de quem, havia muito, não
+dormira ou se achara dominado por terriveis convulsões. O quarto era pequeno,
+illuminado por uma janella que deitava para a rua. Sobre o leito em desalinho,
+alguns jornaes, dobrados uns, abertos outros&mdash;<i>Le Rappel</i>, <i>La
+Petite Republique Française</i>, <i>La Justice</i>... A atmosphera estava
+impregnada d'aquelle cheiro caracteristico das longas enfermidades dolorosas. A
+um lado do leito uma mesa, completamente coalhada de garrafas e frascos, uma
+pequena pharmacia, para assim o dizer; e a outro lado a figura luminosa,
+transparente e doce de Mademoiselle Estelle Husson, a enfermeira querida e
+dedicada, que teve a rara coragem e a excepcional perseverança de atravessar os
+seis longos mezes da doença, passando as noites em vigilia, ao lado do enfermo,
+sem se deitar...</p>
+
+<p>&mdash;É uma heroina!&mdash;disse-me Amilcare Cipriani.</p>
+
+<p>E era-o, com effeito.</p>
+
+<p>Conservo ainda hoje a sua imagem, intensamente gravada no meu espirito
+saudosissimo. Uma bata branca envolvia o seu corpo flexivel e franzino, e uma
+pallidez marmorea se desenhava na sua figura delicada de <i>madona</i>, de
+olhos azues e de longas tranças louras. Dir-se-hia uma irmã do doente, pelo
+soffrimento e pela dôr que a caracterisavam.</p>
+
+<p>Benoit Malon não podia fallar. Escrevia n'uma lousa que tinha sempre ao seu
+lado, e que elle mesmo limpava, de quando em quando, com uma pequena
+esponja.</p>
+
+<p>Fez-me muitas perguntas. Felicitou-me pela publicação do meu
+livro&mdash;<i>La Fédération Ibérique</i>, que havia dado a Geisler, para que a
+elle se referisse<span class="pn">{9}</span> na <i>Revue
+Socialiste</i>.&mdash;Porque não publica V., em volume, as suas impressões,
+sobre o congresso operario de Zurich?&mdash;disse-me por fim.</p>
+
+<p>Prometti-lhe solemnemente que o faria.</p>
+
+<p>Venho hoje cumprir a minha promessa; e, á tua memoria sacratissima, consagro
+o fructo do meu labor, ó morto querido!<span class="pn">{10}<br>
+{11}</span></p>
+
+<h1><a name="SECTION0020000">O PRIMEIRO DE MAIO</a></h1>
+
+<blockquote style="font-size: small; margin-left: 30%;">
+ <p>O congresso confirma a resolução do congresso de Bruxellas, assim
+ concebida:</p>
+
+ <p>O congresso, afim de conservar ao 1.º de Maio o seu verdadeiro caracter de
+ reivindicação do dia normal de 8 horas de trabalho e de affirmação de lucta
+ de classes, resolve:</p>
+
+ <p>Que deve fazer-se uma manifestação unica em que tomem parte os
+ trabalhadores de todos os paizes;</p>
+
+ <p>Que esta manifestação se realise no dia 1.º de maio, e se suspenda o
+ trabalho, n'esse dia, em toda a parte onde seja possivel fazel-o.</p>
+
+ <p>Adopta tambem a emenda seguinte:</p>
+
+ <p>A democracia socialista de cada paiz tem o dever de empregar todos os seus
+ esforços para conseguir a suspensão do trabalho no dia 1 de maio, encorajando
+ todas as tentativas feitas, n'este sentido, pelas differentes organisações
+ locaes.</p>
+
+ <p>O congresso resolve mais:</p>
+
+ <p>A manifestação do 1.º de maio, pelo dia normal de 8 horas de trabalho,
+ deve, ao mesmo tempo, ser, nos diversos povos, a affirmação da energica
+ vontade que anima o proletariado moderno de pôr um termo, por meio da
+ revolução social, ás desegualdades de classes, devendo tambem manifestar o
+ pensamento commum ao proletariado de alcançar, pelas reformas sociaes, a paz
+ universal, como uma consequencia da paz obtida dentro de cada nação.</p>
+
+ <p>(<i>Congresso de Zurich.</i>&mdash;Resolução tomada na sessão de 11 de
+ agosto de 1893).</p>
+</blockquote>
+
+<p>A celebração do primeiro de maio, significa e representa, ao mesmo tempo,
+uma affirmação e um protesto: affirmação de direito e de justiça contra os
+privilegios e os preconceitos do mundo, e protesto da humanidade trabalhadora
+contra o despotismo e a servidão social. Affirmar esse direito e relembrar essa
+justiça é o dever dos que trabalham; protestar contra a iniquidade de que são
+victimas, é a obrigação dos que soffrem.<span class="pn">{12}</span></p>
+
+<p>Encontramos-nos em face de um velho mundo que desaba. Os reis e os
+dictadores esgotam os thesouros dos seus respectivos paizes em munições e
+armamentos, e preparam-se para o supremo combate. Por toda a parte a duvida e a
+incerteza. Alguma cousa de sombrio e de lugubre caracterisa este terrivel
+periodo, chamado de transição. De duas uma: ou a guerra irrompe, n'uma época
+mais ou menos proxima; ou a revolução rebentará, como a consequencia logica,
+inevitavel, da crise economica a que esta nova barbarie, denominada
+pomposamente exercito permanente, arrastou as sociedades modernas.</p>
+
+<p>O capitalismo explora, e a guerra mata e aniquila. O operario encontra-se em
+frente d'estes dois inimigos; e elle, que representa o trabalho e a producção,
+combate os exploradores; e elle, que significa paz, amor e concordia, detesta e
+odeia a guerra.</p>
+
+<p>Reivindicar para a collectividade os beneficios do trabalho e da
+paz&mdash;eis a aspiração do proletariado moderno. A essas aspirações, chamamos
+nós socialismo; e, por seu turno, a gloriosa commemoração do primeiro de maio,
+não é outra cousa senão a affirmação solemne e collectiva das reivindicações
+operarias.<span class="pn">{13}</span></p>
+
+<h1><a name="SECTION0030000">I <br>
+O DESENVOLVIMENTO DAS IDEIAS SOCIALISTAS</a> </h1>
+
+<h3 class="sinopse"><a name="SECTION0030010">B<small>ENOIT</small>
+M<small>ALON,</small> L<small>UIZ</small> R<small>UCHONNET,</small>
+R<small>AMÓN</small> C<small>HÍES,</small> V<small>ICTOR</small>
+S<small>CHOELCHER E</small> V<small>ICTOR</small>
+C<small>ONSIDÉRANT.&mdash;</small>T<small>HEODORO</small> H<small>ERTZKA E O
+SEU</small> F<small>REILAND.&mdash;</small>N<small>O CONGRESSO DE</small>
+Z<small>URICH:&mdash;</small>A A<small>LLEMANHA, A</small> B<small>ELGICA,
+A</small> F<small>RANÇA E A</small> I<small>NGLATERRA.&mdash;</small>A
+I<small>TALTA, A</small> S<small>UISSA, A</small> H<small>ESPANHA E</small>
+P<small>ORTUGAL.&mdash;</small>N<small>OTAS E COMMENTARIOS.</small></a></h3>
+
+<p>No proximo anno preterito que acaba de desapparecer, arrastando na sua cauda
+varredora todo um mundo de lagrimas e de ficções, a humanidade perdeu cinco dos
+seus melhores amigos e a revolução cinco dos seus apostolos mais queridos e
+predilectos.</p>
+
+<p>O <i>primeiro de maio</i>, que, antes de tudo, significa paz e
+solidariedade, presta homenagem aos mortos illustres. Façamos reviver os
+Mestres. O seu exemplo é o nosso ensinamento, e a sua memoria luminosa é a
+origem dos nossos esforços e dos nossos sacrificios. Por elles vivemos, e pela
+sua lição sacratissima nos abalançamos aos supremos heroismos e aos supremos
+martyrios. Bem hajam elles, os bons, os santos, os immortaes, os calumniados de
+todos os tempos e de todos os paizes; bem hajam<span class="pn">{14}</span> os
+simples, os eternamente ingenuos: foram elles que nos ensinaram; são elles
+ainda os que, atravez dos escolhos que as paixões semeiam na sociedade, nos
+guiam e conduzem ao ideal abençoado, á terra promettida da liberdade e da
+fraternidade humana!</p>
+
+<p class="centrado">*</p>
+
+<p class="centrado">*      *</p>
+
+<h2><a name="SECTION0030100">BENOIT MALON</a></h2>
+
+<p>O odio destróe e espalha a guerra. Só o amor póde construir e trazer a paz.
+Benoit Malon era a personificação do altruismo e da bondade humana. Era um
+santo e um virtuoso. Ninguem o excedeu em virtude. Ninguem o egualou em
+abnegação e desinteresse. Por isso a sua morte pôz o lucto nos corações e
+encheu de afflição todas as boas almas, candidas e generosas. Elle não foi só o
+mestre do socialismo: foi o exemplo vivo de quanto póde a vontade, quando
+levada e dirigida pelo amor e pela curiosidade<span class="pn">{15}</span> do
+saber. Elle foi a encarnação da alma moderna, em lucta com o presente e crente
+no futuro, pondo o ideal acima dos mesquinhos interesses do mundo e as ideias e
+os principios acima da ganancia sórdida dos homens e das sociedades.</p>
+
+<div class="imagem">
+<p><a name="img_pag014"></a><img src="images/pag014.png" alt="Benoit Malon"
+width="100%" align="top" border="0"></p>
+</div>
+
+<p>Ah! sim!&mdash;dizia-me, pouco tempo depois da sua morte, Aurelien Scholl, o
+scintillante chronista parisiense&mdash;elle foi um dos raros e um dos
+privilegiados d'este fim de seculo! O meu pobre amigo vinha almoçar commigo de
+quando em quando. Um dia a minha creada perguntou-me, se poderia aproveitar a
+hora do almoço, para coser o sobretudo do sr. Malon, e se elle repararia...
+Respondi-lhe que cosesse o sobretudo, porque o sr. Malon nem sequer daria por
+tal... É que elle era tão bom, tão bom&mdash;rematou Scholl&mdash;que até as
+creadas de servir o amavam!</p>
+
+<p>Eis aqui uma narrativa que vale bem por uma biographia! E tudo quanto
+podessemos accrescentar a estas palavras, ao mesmo tempo tão simples e tão
+pittorescas, seria superfluo e inutil. Nem mais ambicionaria, por certo, o
+chorado e saudosissimo author do <i>Socialismo integral</i>!</p>
+
+<p class="centrado">*</p>
+
+<p class="centrado">*      *</p>
+
+<h2><a name="SECTION0030200">LUIZ RUCHONNET</a></h2>
+
+<p>Luiz Ruchonnet foi, por duas vezes, presidente do conselho federal da
+florescente e grandiosa republica suissa. Era um sincero amigo da paz, e,<span
+class="pn">{16}</span> como todos esses <i>visionarios</i> e <i>sonhadores</i>,
+que em Inglaterra se chamam Cobden, Hodgson Pratt, Henry Richard, Cremer,
+Darby, em França, Charles Lemmonier, Frederico Passy, Emile Arnaud, René
+Goblet, Edmond Thiaudière, A. Millerand, Camillo Pelletan, Augusto Vacquerie;
+na Italia, Bonghi, Siccardi, Mazzoleni, Theodoro Moneta; na Dinamarca,
+Frederico Bajer; na Belgica, Laveleye, Janson, Cesar de Paepe, La Fontaine; na
+Allemanha, Franz Wirth, Baumbach, Adolfo e Eugenio Richter; na Austria, a
+baroneza de Suttner e o dr. Adler; na Suissa, Angelo Umiltá, Carlos Menn,
+M.<sup>me</sup> Goegg; na America, Alfredo Love, dr. Trueblood, M.<sup>me</sup>
+Belva Lockwood&mdash;elle pertenceu a essa gloriosa raça de philantropos e
+humanitarios, que atravessam o mundo, deixando atraz de si um rasto de luz, e
+cujos nomes se perpetuam, atravez os tempos e as gerações, consagrados pela
+historia, pela sciencia e pelo trabalho.</p>
+
+<p class="centrado">*</p>
+
+<p class="centrado">*      *</p>
+
+<h2><a name="SECTION0030300">RAMÓN CHÍES</a></h2>
+
+<div class="imagem">
+<p><a name="img_pag017"></a><img src="images/pag017.png" alt="Ramón Chies"
+width="100%" align="top" border="0"></p>
+</div>
+
+<p>Na historia do livre pensamento, Ramón Chíes occupava um dos primeiros
+logares e era uma das personalidades mais em vista. Era um revolucionario por
+temperamento e por convicção. Não queria a republica simplesmente pela
+republica. Queria a republica sim! para elevar e engrandecer a sua patria aos
+olhos de nacionaes e estrangeiros. Para<span class="pn">{17}</span> elle a
+republica era uma phase transitoria; a phase organica e positiva estava no
+socialismo. Por isso foi, ao mesmo tempo, um socialista e um federalista.
+Tribuno, ninguem o excedeu em eloquencia, na defeza do luminoso principio da
+fraternidade e da solidariedade humana; publicista e jornalista de pulso, foi
+um apostolo constante, ardente, impetuoso e dedicado da federação iberica.</p>
+
+<p class="centrado">*</p>
+
+<p class="centrado">*      *</p>
+
+<h2><a name="SECTION0030400">VICTOR SCHOELCHER</a></h2>
+
+<p>Victor Schoelcher pertenceu a essa mocidade alegre e enthusiasta que
+forneceu ao author dos <i>Miseraveis</i> o seu typo d'Enjolras, o estudante de
+todas as sociedades secretas e de todas as conspirações. Franco-mação e
+conspirador, filiou-se na loja franceza dos <i>Amis de la verité</i> e na
+<i>Sociedade Aide-toi, le ciel t'aidera</i>.<span class="pn">{18}</span></p>
+
+<p>Estas eram, com algumas outras, as associações dos <i>malfeitores</i>
+d'aquelles tempos, no dizer picante e ironico de um distincto jornalista
+parisiense.</p>
+
+<div class="imagem">
+<p><a name="img_pag018"></a><img src="images/pag018.png"
+alt="Victor Schoelcher" width="100%" align="top" border="0"></p>
+</div>
+
+<p>A grande e gloriosa figura de Schoelcher destaca-se na sua brilhantissima
+campanha contra a escravidão. Quiz vêr de perto e observar pelos seus proprios
+olhos a triste situação dos negros. E, para poder denunciar ao mundo a
+ignominia e a barbarie dos homens, partiu para a America, d'onde regressou, com
+o coração angustiado pela dôr e o espirito horrorisado por tudo o que havia
+presenceado e visto. Sendo sub-secretario d'Estado, no ministerio da marinha,
+por occasião da revolução de 1848, o seu primeiro cuidado foi apresentar um
+decreto para a libertação immediata dos negros.</p>
+
+<p>Schoelcher encontrava-se ao lado de Baudin, na celebre e já hoje historica
+barricada da Bastilha.</p>
+
+<p>A tropa marchava sobre a barricada, sem dar um tiro.</p>
+
+<p>«&mdash;Amigos! gritou Schoelcher, voltando-se para o povo, nem um tiro até
+que a tropa abra o fogo.<span class="pn">{19}</span> Avancemos; se ella atirar,
+a primeira descarga será nossa; se nos matar, vós nos vingareis.»</p>
+
+<p>E dirigindo-se depois aos soldados:</p>
+
+<p>«&mdash;Nós somos os representantes do povo, exclamou. Em nome da
+constituição, reclamamos o vosso concurso, para fazer respeitar as leis do
+paiz. Vinde a nós; será vossa a gloria.»</p>
+
+<p>E avançou para os soldados, commandados por um official. Seis dos seus
+collegas seguiram-n'o. A tropa parou indecisa.</p>
+
+<p>&mdash;Cumpro as ordens, respondeu o official. Retire-se, se não quer que dê
+a voz de fogo.</p>
+
+<p>&mdash;Mate-nos, se quizer, replicou Schoelcher.</p>
+
+<p>E, dando o exemplo que foi seguido pelos companheiros, gritou: «Viva a
+Republica!»</p>
+
+<p>O official mandou carregar.&mdash;«Avançar!»&mdash;ordenou.</p>
+
+<p>Ouviu-se o ruido sêcco das baterias. Alguns representantes descobriram-se e
+quedaram-se com o chapéu na mão, esperando serenamente a morte. N'esse
+instante, um soldado atacou Schoelcher á baioneta. Os defensores da barricada,
+suppondo que se attentava contra a sua vida, desfecharam e mataram o soldado. A
+tropa respondeu por uma descarga geral. Foi então que Baudin subiu á barricada
+para exhortar os soldados. Uma bala feriu-o na fronte, cahindo logo
+fulminado.</p>
+
+<p>Schoelcher, n'esse dia memoravel da sua vida, esteve á altura dos grandes
+heroes; e, á semelhança dos antigos paladinos, só abandonou o campo, quando
+nada mais restava a fazer. A barricada da Bastilha fôra improvisada de um
+momento para o outro; <span class="pn">{20}</span> construida no ar, para assim
+o dizer, sem elementos de resistencia, desfez-se e cahiu como um castello de
+cartas. Mas o patriotismo opera milagres. E só patriotas sinceros e devotados
+seriam capazes de semelhante audacia e de semelhante arrojo!</p>
+
+<p>Chamaram-lhe idealista&mdash;um puro e nobre idealista!&mdash;a elle, que
+todos os seis mezes, na camara franceza, apresentava um projecto de lei para a
+abolição da pena de morte. Para o mundo, egoista e utilitario, são idealistas e
+são sentimentalistas, todos os que lhe não acceitam as falsas convenções e o
+tôrpe e vilissimo mercantilismo. E é precisamente de idealistas e de
+sentimentalistas que carecem e precisam as sociedades modernas! As grandes
+commoções da historia foram um producto do ideal e do sentimento humano. Assim
+como é preciso pensar para obrar, na phrase de Augusto Comte, é tambem preciso
+sentir para querer. Nem d'outro modo se comprehende o patriotismo, nem d'outro
+modo se poderiam comprehender as revoluções e os grandes dramas sociaes.</p>
+
+<p>Perdida a causa em que pozéra todo o seu heroismo e todos os seus esforços,
+Schoelcher emigrou para Inglaterra, onde permaneceu durante o imperio,
+regressando a Paris em 1870. Estava no Hotel-de-Ville, a 4 de setembro, e tomou
+parte na defeza de Paris, na sua qualidade de chefe d'Estado-maior da guarda
+nacional.<span class="pn">{21}</span></p>
+
+<p class="centrado">*</p>
+
+<p class="centrado">*      *</p>
+
+<h2><a name="SECTION0030500">VICTOR CONSIDÉRANT</a></h2>
+
+<p>Um dia Victor Consideram dirigia-se á Escola Polytechnica, e atravessava os
+caes de Paris, <i>bouquinant</i>, como dizem os francezes, isto é,
+entretendo-se a vêr as curiosas livrarias, de livros raros e antigos, que
+guarnecem as varandas dos caes, na margem esquerda do Sena, e que constituem
+uma das primeiras curiosidades da grande capital da França, quando, subito, se
+lhe deparou uma obra que lhe despertou a attenção e a curiosidade. Era o
+<i>Nouveau monde commercial</i> de Fourier. Abriu-o, leu-o e estudou o
+minuciosamente.</p>
+
+<div class="imagem">
+<p><a name="img_pag021"></a><img src="images/pag021.png"
+alt="Victor Considerant" width="100%" align="top" border="0"></p>
+</div>
+
+<p>No fim do livro, Fourier dizia, pouco mais ou menos, o seguinte:</p>
+
+<p>«Precisa-se um capitalista, para realisar um novo mundo. Carta para minha
+casa.»</p>
+
+<p>E designava a sua morada.<span class="pn">{22}</span></p>
+
+<p>Considérant apresentou-se em sua casa.&mdash;«Não sou o seu homem, disse.
+Não tenho dinheiro, mas comprehendi-o».</p>
+
+<p>Fourier havia encontrado o seu primeiro discipulo, que lhe levava a mais que
+os capitaes pedidos&mdash;o genio para vulgarisar as suas theorias.</p>
+
+<p>Fourier nutrira, desde creança, um horror invencivel pelo commercio. Filho
+de commerciante, e tendo apenas sete annos de edade, ouviu um dia o pae
+gabar-se á mãe de haver enganado um cliente. Vexado por este proceder que
+qualificou de villão, procurou o freguez, afim de participar-lhe o occorrido.
+Valeu-lhe a indiscrição um bom par de bofetadas; mas, desde esse momento, votou
+ao commercio esse odio que transparece nos seus primeiros livros.</p>
+
+<p>«Possuo o segredo da felicidade, para todos os
+homens&mdash;dizia».&mdash;Intimaram-n'o a provar praticamente a sua
+asserção.&mdash;«Escrevel-o-hei&mdash;respondeu».</p>
+
+<p>«O genero sahe das mãos do productor, custando 3, por exemplo, e chega ás
+mãos do consumidor valendo 9. O intermediario, isto é o commerciante, ganhou,
+portanto, 6, na sua commissão, o que não succederia evidentemente,
+supprimindo-se o intermediario, e estabelecendo-se, pura e simplesmente, a
+troca entre productores e consumidores.</p>
+
+<p>O seu systema baseava-se sobre o principio da felicidade humana, e o ideal
+do mosteiro de Théléme não foi estranho ás suas concepções. «A felicidade
+consiste em cada um fazer o que quizer.» Mas, fazendo cada um aquillo que quer,
+corre tambem o<span class="pn">{23}</span> risco de fazer o que os outros não
+querem. A esta objecção respondia elle que na natureza tudo se
+equilibra&mdash;o mal e o bem.</p>
+
+<p>Fourier era um poeta, mas tinha-se por homem pratico. Uma occasião,
+terminando uma conferencia sobre o futuro da humanidade: «E agora, concluiu,
+preparemos o cosido.»</p>
+
+<p>Ninguem contesta o grande alcance philosophico, da theoria phalansteriana;
+mas a sua parte organica e sociologica, observou muito bem Anthero de Quental,
+é quasi a negação do verdadeiro socialismo, positivo, liberal e moral.</p>
+
+<p>Victor Considérant pretendeu primeiro fundar um phalansterio em
+Conde-sur-Végre que não passou de uma tentativa infructuosa. A ideia, porêm,
+fructificou mais tarde, embora de modo differente, por occasião da fundação de
+uma colonia de velhos, n'aquelle mesmo paiz, que se denominou&mdash;«o
+phalansterio.»</p>
+
+<p>Em Texas estabeleceu Considérant, não um phalansterio, mas uma colonia
+agricola. Uma sedição, organisada por Cantagrel, desapossou-o do territorio e
+obrigou-o a retirar-se com sua esposa. A colonia prosperou a principio; depois
+desaggregou-se. Era mal vista pelos naturaes por causa da sua falta de
+religião&mdash;diziam.</p>
+
+<p>Um pintor de Paris, Capy, ensinava a musica. «Todos os domingos, respondia
+elle a um inspector americano, fazemos musica.» Ah! n'esse caso, é differente,
+exclamaram os bons Yankees, sempre ali ha um pouco de religião, uma vez que se
+canta.»<span class="pn">{24}</span></p>
+
+<p>E a verdade é que as censuras cessaram. Os membros da colonia, tambem, por
+seu turno, deixaram de ser phalansterianos.</p>
+
+<p>É mister ir a Iowa, para encontrar uma colonia communista&mdash;a Icaria.
+Tudo ali é commum, sem mesmo exceptuar as mulheres. Podem-se estabelecer uniões
+temporarias, mas de curta duração; se as uniões se prolongam, a authoridade
+intervêm, porque, nesse caso, affirmam os estatutos, a cousa torna-se
+immoral.</p>
+
+<p>Vejamos, porêm, como Victor Considérant considerava a <i>organisação da nova
+ordem social</i>.</p>
+
+<p>O primeiro feudalismo que sahiu da conquista militar, havia feito concessão
+do sólo aos chefes militares e aos nobres, subordinando as populações
+conquistadas á <i>pessoa</i> dos conquistadores pela servidão da gleba.</p>
+
+<p>A guerra industrial e commercial, succedendo é guerra militar, sob a fórma
+de concorrencia, em que o capital e a especulação ficam forçosamente senhores
+do trabalho pobre, tende a constituir, pelas suas conquistas, uma nova
+servidão&mdash;não a <i>servidão pessoal e directa</i>, mas a <i>servidão
+indirecta e collectiva</i>, o dominio, em massa, da classe dos possuidores de
+capitaes, das machinas e dos instrumentos de trabalho, sobre a classe dos
+desherdados.</p>
+
+<p>E, com effeito, os proletarios das cidades e dos campos, considerados
+<i>collectivamente</i>, estão sob a dependencia absoluta d'aquelles que
+monopolisam os instrumentos de trabalho.</p>
+
+<p>Este grande facto economico e politico póde traduzir-se, pela seguinte
+formula, na vida pratica:<span class="pn">{25}</span> «<i>Para ter que comer
+todo o proletario é obrigado a subjeitar-se a um patrão.</i>»</p>
+
+<p>A revolução não se completou, pela simples emancipação politica, isto é pelo
+dogma metaphysico da egualdade perante a lei, ou da liberdade pura e
+simples.</p>
+
+<p>A antiga sociedade havia sido organisada, <i>pela guerra e para a
+guerra</i>. A nova sociedade terá de ser organisada pelo trabalho e pela paz e
+para o trabalho e para a paz.</p>
+
+<p>O problema dos nossos dias não póde pois, visar senão á libertação dos
+servos da industria, dando a todo o homem que queira trabalhar o direito aos
+instrumentos do trabalho, tornando-o assim proprietario dos fructos do seu
+labor, e creando a ordem, a cooperação e a convergencia no campo industrial.</p>
+
+<p>A solução d'este problema, que não é outra cousa senão a transformação do
+<i>salariado</i>, a moderna fórma de escravidão, constitue o complemento da
+revolução, e póde e deve intitular-se o <i>problema social</i>.</p>
+
+<p>Tal era, em rapidos traços, a doutrina d'essa altissima personalidade e
+d'esse bello caracter que se chamou Victor Considérant, e que tantas vezes
+vimos atravessar o boulevard S.<sup>t</sup> Michel, no bairro latino,
+consagrado pela mocidade das escolas e venerado por todos os que, acima dos
+materialismos do mundo, põem o supremo ideal da bondade e da felicidade
+humana.<span class="pn">{26}</span></p>
+
+<p class="centrado">*</p>
+
+<p class="centrado">*      *</p>
+
+<h2><a name="SECTION0030600">THEODORO HERTZKA E O SEU FREILAND</a> </h2>
+
+<p><i>Freiland!</i> (terra livre, paiz livre)&mdash;tal é o titulo do livro de
+Theodoro Hertzka, um austriaco e um sociologo eminente.</p>
+
+<div class="imagem">
+<p><a name="img_pag026"></a><img src="images/pag026.png" alt="Theodoro Hertzka"
+width="100%" align="top" border="0"></p>
+</div>
+
+<p>Pelos meados de julho de 18...&mdash;assim principia a narrativa de
+Hertzka&mdash;lia-se o seguinte nos principaes jornaes da Europa e da
+America:</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>«<i>Sociedade livre internacional</i></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<div style="font-size: small;">
+<p>«Acaba de constituir-se um grupo de individuos de todas as partes do mundo
+civilisado, com o fim de emprehender e tentar a resolução do problema
+social.</p>
+
+<p>«Ao cabo de muitas e pacientes investigações, opinou-se pela creação de uma
+communidade, estabelecida sobre as bases, ao mesmo tempo, da liberdade mais
+ampla e da justiça economica, a qual, mantendo de uma maneira absoluta a
+independencia pessoal de cada trabalhador, lhe assegure o<span
+class="pn">{27}</span> gôso completo e integral do producto do seu trabalho.
+Para fundar a mencionada communidade, occupar-se-ha uma vasta região, n'um
+local que não tenha possuidor, mas que seja fertil e proprio para a
+colonisação.</p>
+
+<p>«N'esta região, a sociedade livre não reconhecerá nenhum direito de
+propriedade sobre o sólo, quer a favor de um individuo quer a favor da
+communidade.</p>
+
+<p>«Para cultivar o sólo, como, de resto, para realisar toda a especie de
+producção, constituir-se-hão associações, sendo cada uma administrada como
+melhor o entender, e distribuindo, entre os seus membros, o resultado da
+producção, consoante o trabalho de cada um. É facultativo a cada membro o
+filiar-se na associação que escolher e de a abandonar tambem a seu bel-prazer.
+A communidade encarrega-se de fornecer gratuitamente os capitaes aos
+productores, com a condição d'estes os restituirem. Os individuos incapazes de
+trabalhar, assim como as mulheres, teem direito aos meios de subsistencia, á
+custa da sociedade. A receita indispensavel para a acquisição dos objectos,
+acima mencionados, assim como para as despezas de interesse geral, será
+assegurada por uma quota tirada do rendimento bruto de cada producção. A
+sociedade livre internacional possue já o numero de membros e de capitaes
+sufficientes para a realisação do seu plano. Sendo, porém, de opinião, por um
+lado, que o resultado d'esta tentativa ha de ser tanto mais seguro e efficaz,
+quanto maiores e mais importantes forem os meios de que disposer, e desejando,
+por outro lado, offerecer a todos o ensejo de poderem participar da empreza, a
+sociedade, pelo presente aviso, faz saber ao publico que os pedidos e offertas
+de qualquer natureza que sejam, devem ser dirigidos para Haya, Bochstraat,
+57.</p>
+
+<p>«A sociedade livre internacional celebrará em Haya, no dia 20 do proximo mez
+de outubro, uma assembléa politica em que serão apreciadas as ultimas
+resoluções, afim de realisar praticamente a sua obra.</p>
+
+<p>Haya,... de julho, 18..</p>
+
+<p style="text-align: right; font-size: small;"><i>Pelo comité da sociedade
+livre internacional.</i></p>
+</div>
+
+<p style="text-align: right; margin-right: 10%;"><i>Karl Strahl</i><span
+class="pn">{28}</span></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>Este annuncio produziu uma profunda emoção na imprensa e no publico. O nome
+do signatario, que era conhecido não só pela sua posição social, senão ainda
+por ser um dos primeiros escriptores da Allemanha em sciencia economica,
+afastava todo e qualquer pensamento de mystificação ou de equivoco.</p>
+
+<p>Realisou-se um congresso que foi aberto pelo seguinte discurso de Strahl:</p>
+
+<p>«A convicção de que a communidade, á fundação da qual vamos proceder, é
+destinada a extinguir a pobreza e a miseria pela base e a destruir com ella
+todos os desgostos e todos os crimes que devem ser considerados como uma
+consequencia forçada da miseria e da pobreza, essa convicção, apercebe-se não
+só nas palavras, senão tambem na maneira de obrar da maioria dos nossos
+consocios e no profundo e desinteressado enthusiasmo, segundo o qual cada
+um&mdash;na medida das suas forças&mdash;se tem applicado ao fim commum. Quando
+publicámos o nosso appêlo, eramos apenas 84; os recursos de que podiamos dispôr
+orçavam por 11.400 libras sterlinas; presentemente a sociedade compõe-se de
+5.650 membros e o seu fundo monta a 205.620 libras sterlinas. Convêm notar que
+esta somma, não nos foi fornecida simplesmente pelas classes pobres que
+habitualmente se consideram como as unicas interessadas no problema social. E
+isto torna-se ainda mais evidente percorrendo a lista dos socios.
+Irresistivelmente, chega-se á conclusão de que a aversão e o horror, inspirados
+pelas actuaes condições sociaes, attingiram tambem as classes que, á primeira
+vista,<span class="pn">{29}</span> parecem aproveitar com as privações dos
+desherdados da fortuna. A resolução do problema social impõe-se hoje, por tal
+fórma, que até os ricos e os favorecidos da sorte não duvidam concorrer com
+alguns milhões de libras, para a fundação da nova communidade, auxiliando-nos e
+participando da nossa empreza. N'este facto, mais do que em qualquer outro,
+repousa a convicção de que a nossa obra não poderá deixar de fructificar.</p>
+
+<p>«Trata-se de escolher a região onde poderemos realisar o nosso projecto.
+Toda e qualquer localidade europeia está naturalmente posta de parte, por
+rasões faceis de comprehender; a Asia, egualmente; e, em particular, devemos
+assignalar os pontos onde sóem acclimatar-se os emigrantes de raça caucasica,
+sendo facil que se estabelecessem conflictos com as organisações juridicas e
+sociaes de outros tempos. Na America e na Australia, os governos
+conceder-nos-hiam, com prazer, um territorio espaçoso, bem como a liberdade dos
+nossos movimentos; mas ainda ahi difficilmente poderia a nossa communidade
+encontrar garantia contra os ataques hostis e assegurar o repouso e a
+segurança, indispensaveis a um successo rapido e certo. Resta-nos a Africa, o
+continente mais antigo, e, sem embargo, aquelle cuja descoberta foi a mais
+recente. A parte central interior encontra-se ainda sem possuidor. Podemos
+encontrar ali, não só um espaço sem limite e um repouso assegurado, senão
+tambem as condições mais favoraveis, quanto ao clima e á fertilidade do sólo,
+desde que a escolha seja acertada. Ha paizes, a uma grande altitude, reunindo
+as vantagens dos tropicos<span class="pn">{30}</span> e dos Alpes, que aguardam
+uma immigração. As communicações com esses paizes montanhosos, situados no
+coração do continente negro, são certamente muito penosas, mas é precisamente
+isso de que havemos mister para principiar. Propômos pois, que se procure a
+nova patria, no interior da Africa equatorial. E pensamos, principalmente, no
+paiz das altas montanhas do Kenia. Concorda a assembléa com a escolha?»</p>
+
+<p>Foi unanime o assentimento. Ouviram-se vozes que exclamavam:</p>
+
+<p>«Para deante, e antes hoje do que amanhã!»</p>
+
+<p>Era evidente que a maioria estava disposta a pôr-se a caminho sem mais
+delongas.</p>
+
+<p>De novo o presidente toma a palavra para declarar que as cousas nem sempre
+podem marchar tão depressa, como muitas vezes se deseja. A nova patria terá
+primeiro de ser escolhida e conquistada, o que representa uma empresa arriscada
+e difficil. O caminho tem que fazer-se por entre desertos e florestas
+inhospitas. Não poderemos evitar os combates com as tribus selvagens e hostis,
+e, por isso, só nos poderão convir homens fortes e validos, e não mulheres,
+creanças ou velhos. Alêm d'isso, teremos que apurar os milhares de immigrantes
+que deverão acompanhar-nos, atravez d'aquellas regiões, e de os organisar
+devidamente; 200 emigrantes, entre os quaes 4 naturalistas, 3 medicos, 8
+engenheiros e 4 representantes de outros ramos technicos, ricamente providos de
+armas, de machinas, de sementes, de mercadorias e de utensilios de viagem,
+formarão a vanguarda da expedição.<span class="pn">{31}</span></p>
+
+<p>A narração d'esta marcha até ao Kenia, constitue uma das partes mais
+interessantes do livro, devendo accrescentar-se que a descripção das grandiosas
+montanhas africanas não é obra de pura phantasia, mas é, ao contrario,
+extrahida das narrativas dos exploradores africanos que visitaram aquellas
+regiões. A expedição faz a sua primeira paragem em um valle delicioso, situado
+a 1:700 metros de altitude, ao sopé de um formidavel massiço do Kenia e das
+suas magnificas geleiras, e que se appellidará, por causa da sua belleza e da
+sua fertilidade, o valle do Eden. Com as provisões e os utensilios de que vão
+providos, podem os valentes porta-bandeiras da gloriosa caravana fazer os
+preparativos necessarios, para receber o principal grupo dos associados, se bem
+que só alguns mezes mais tarde, por occasião da chegada do comité director á
+base do Kenia, é que o paiz, onde refulgirá a liberdade, será baptisado com o
+nome de <i>Freiland</i>, pondo-se então, em pratica a nova organisação do
+trabalho, consoante os principios <i>freilandezes</i>.</p>
+
+<p>Para todos os que se interessam pelo estudo das questões sociaes, e ainda
+para todos os que pensam que as modernas sociedades, desorganisadas como estão
+e lançadas em bases falsas, devem ser reconstruidas, segundo um principio de
+justiça e de moralidade, o livro do escriptor allemão é de um interesse
+palpitante<a name="tex2html6" href="#foot1419"><sup>[1]</sup></a>. Digamos
+tambem que o author<span class="pn">{32}</span> do <i>Freiland</i> teve a rara
+felicidade de despertar em muitos espiritos, pela sua maravilhosa obra,
+escripta em fórma de romance, o desejo ardente de fundar uma sociedade em tudo
+semelhante áquella que tão brilhantemente concebeu e descreveu.</p>
+
+<p>Para vulgarisar e fazer a propaganda da ideia, creou e fundou a sociedade
+uma revista mensal, orgão dos associados:&mdash;«<i>Freiland</i>, organ der
+Freilandvereine».</p>
+
+<p>Temos á vista uma carta de Theodoro Hertzka em que nos communica a partida
+de Hamburgo da primeira expedição, por todo o mez de janeiro do corrente anno,
+dirigindo-se ao Kenia, que fica a 600 milhas da
+costa de Este, exactamente sob o Equador.</p>
+
+<p>E eis aqui está o motivo por que, depois de ter prestado homenagem á memoria
+dos mortos queridos, eu entendi que não devia continuar o meu trabalho, sem
+d'aqui saudar enthusiasticamente o honrado e illustre apostolo de uma nova
+organisação social, fazendo votos ardentes pelo completo triumpho dos seus
+ideaes.<span class="pn">{33}</span></p>
+
+<p class="centrado">*</p>
+
+<p class="centrado">*      *</p>
+
+<h2><a name="SECTION0030700">NO CONGRESSO DE ZURICH</a></h2>
+
+<h3><a name="SECTION0030710">AMILCARE CIPRIANI</a></h3>
+
+<p>Ao chegarmos a Zurich, na tarde de 6 de agosto de 1893&mdash;Amilcare
+Cipriani e eu&mdash;um soberbo e imponentissimo espectaculo se nos offereceu
+logo á vista, como só a Suissa seria capaz de offerecer e realisar. As
+sociedades do <i>Grütli</i> desfilavam pelas ruas da cidade, com os seus
+estandartes e philarmonicas á frente, no meio do enthusiasmo e das acclamações
+da multidão. Estas associações constituem uma das grandes e uma das primeiras
+forças da poderosa republica. A sua origem é lendaria, e deriva do local, onde
+se reuniram os amigos de Guilherme Tell, quando decidiram conspirar contra
+Gessler.</p>
+
+<p>As sociedades do <i>Grütli</i> constituiram-se e organisaram-se, a
+principio, com um caracter puramente patriotico; mas teem-se transformado,
+pouco a pouco, e hoje são, na sua maioria, socialistas.</p>
+
+<p>Nada mais bello e magestoso do que o desfilar d'esses 9:000 trabalhadores,
+todos pittorescamente vestidos com os trajos das suas profissões e os
+distinctivos correlativos, e precedidos por 150 bandeiras, quatro das quaes
+eram vermelhas.</p>
+
+<p>São estas as procissões da republica, e ninguem que as presenceie póde
+deixar de se descobrir reverente<span class="pn">{34}</span> e solemnemente. O
+homem livre, associado e independente substituia o soldado escravo, tyrannisado
+e ás ordens de um senhor; ao principio da guerra contrapunha-se o principio da
+solidariedade humana; ao militarismo, o socialismo; ás armas e aos petrechos de
+guerra, os instrumentos do trabalho e os symbolos da paz.</p>
+
+<p>O cortejo havia sido organisado em honra dos congressistas. Na rua, o povo
+formava alas á passagem dos seus representantes. Calculava-se em mais de 40:000
+o numero dos cidadãos que accorreram ao chamamento dos iniciadores do
+congresso. Nas janellas os espectadores applaudiam phreneticamente e lançavam
+flôres á passagem dos manifestantes. A recepção era digna e estava em tudo e
+por tudo á altura das ideias que se glorificavam. Celebrava-se a abertura do
+congresso operario socialista e não havia, com effeito, melhor meio para
+solemnisar a gloriosa data.</p>
+
+<p>Fallemos, porém, de Amilcare Cipriani.</p>
+
+<p>Tenho deante de mim o seu retrato. Na sua physionomia transparece a bondade
+do seu coração, e nos seus olhos a candura e a gentileza da sua alma. Guardo
+d'elle a recordação saudosissima de um homem que põe a sua dignidade e o seu
+brio pessoal acima dos seus interesses e das suas conveniencias; do apostolo
+que colloca as ideias e os principios acima das paixões humanas; do
+revolucionario, emfim, que ao amor da humanidade sacrifica a vida, a familia, o
+bem estar e a tranquillidade. D'elle poderia dizer que é um exemplo a seguir e
+a imitar, e d'elle afirmarei, sem receio de contestação, que<span
+class="pn">{35}</span> é unico e excepcional, no meio de uma sociedade
+mercantil, gananciosa e covarde.</p>
+
+<div class="imagem">
+<p><a name="img_pag035"></a><img src="images/pag035.png"
+alt="Amilcare Cipriani" width="100%" align="top" border="0"></p>
+</div>
+
+<p>Amilcare Cipriani tem hoje 47 annos de edade, dos quaes 22 foram passados no
+carcere. Honrado, valente e desinteressado, nunca hesitou, sempre que a causa
+da liberdade careceu do seu braço para a defender. Bateu-se, como um heróe, no
+Egypto; bateu-se na Grecia: bateu-se pela Italia, a sua patria querida e
+bateu-se pela França, a sua patria de adopção.</p>
+
+<p>Na parte inferior do seu retrato, e escriptas pelo seu proprio punho,
+lêem-se as seguintes phrases que synthetisam perfeitamente as suas aspirações e
+o seu credo social:</p>
+
+<p>«<i>Il proletariato, per essere libero ed emancipato, deve assingersi a
+rovisciare, colla forza, tutto l'ordine sociale existente.</i></p>
+
+<p><i>Contre l'oppressione la ribellione é un diritto.</i>»</p>
+
+<p>Está aqui o homem politico. Fallemos agora no homem particular, no amigo e
+no companheiro queridissimo.</p>
+
+<p>Soffreu sempre, com a maior resignação, todas<span class="pn">{36}</span> as
+crueldades e todas as privações da existencia, sem um queixume, sem uma magoa,
+sem uma palavra de odio ou de rancor. Muitas vezes o seu almoço é um copo de
+agua e um pequeno pão de 15 centimos.</p>
+
+<p>Tendo amigos sinceros e dedicados, nunca pediu, para si, um real a nenhum
+d'elles. Se tem apenas 20 centimos no bolso, come com esses 20 centimos: se não
+tem dinheiro não come. Estando em Londres exilado, nem sequer tinha um quarto
+onde dormir. Por noites geladas e frias, com as botas rotas, sem abrigo, sem
+dinheiro no bolso, era obrigado a andar horas seguidas pelas ruas da enorme
+cidade, para não ser preso por vagabundo.</p>
+
+<p>Quando falleceu o nosso querido e lealissimo amigo Benoit Malon, foi elle
+quem se conservou ao lado d'elle, durante quatro dias consecutivos; foi elle
+quem o vestiu e quem velou o cadaver, sem se deitar, sem sentir a menor fadiga,
+não pensando senão na amisade e no carinho que lhe consagrara durante a vida, e
+que tão bem retribuido foi pelo glorioso mestre. Mas no dia do enterro,
+apossou-se d'elle o desalento, no cemiterio do <i>Pére Lachaise</i>. Passavamos
+ao lado do tumulo do grande cidadão Anatole de la Forge.</p>
+
+<p>&mdash;«Eis aqui um que foi candidato á presidencia da republica, que se
+bateu heroicamente pela sua amada França, e que teve de recorrer ao suicidio
+para não morrer de fome!&mdash;disse.&mdash;Eis a sorte que naturalmente me
+está tambem reservada&mdash;continuou.&mdash;Mas eu, se um dia me suicidar, hei
+de escolher o muro dos federaes para o fazer, e, quando,<span
+class="pn">{37}</span> junto d'elle, encontrarem o meu cadaver&mdash;que o
+transportem para onde muito bem quizerem, sem pompas nem discursos... Detesto
+as comedias e as representações theatraes deante de um cadaver.»</p>
+
+<p>Ah! bom e querido amigo! n'essa hora angustiosa, tu pensaste na ingratidão
+dos homens, e, em frente do camarada morto, avaliaste a torpeza do mundo e a
+inanidade das suas palavras hypocritas e fementidas!</p>
+
+<p>Os longos soffrimentos produzem, ás vezes, estes desanimos crueis. São
+momentaneos, é certo, mas são dolorosos.</p>
+
+<p>Sahimos do cemiterio e fomos almoçar juntos. Duas horas depois, Amilcare
+Cipriani havia recobrado animo, e fallava-me em ir bater-se na Sicilia, ao lado
+dos seus compatriotas, victimas da miseria e do despotismo.</p>
+
+<p>Que honradissimo caracter! e que gloriosa e brilhante personalidade!</p>
+
+<p class="centrado">*</p>
+
+<p class="centrado">*      *</p>
+
+<h3><a name="SECTION0030720">O CONGRESSO</a></h3>
+
+<p>As sessões do congresso realisaram-se n'um vasto salão de concertos, um dos
+mais espaçosos da cidade, o <i>Tonhalle</i>, rodeado por uma enorme galeria,
+onde podiam accommodar-se muitas centenas de pessoas. Ao fundo, n'uma especie
+de palco, coberto de verdura e ornado com os estandartes das associações,
+destacava-se um magnifico retrato em<span class="pn">{38}</span> busto de Karl
+Marx. Em redor e collada á galeria, a inscripção do chefe, impressa em grandes
+caracteres, e traduzida em vinte e duas linguas: «<i>Proletarios de todo o
+mundo, uni-vos!</i>»</p>
+
+<p>Grandes mesas, collocadas parallelamente umas ás outras, enchiam o
+vastissimo salão, sendo cada uma d'ellas occupada pelos representantes de uma
+dada nacionalidade.</p>
+
+<p>A representação da Allemanha não augmentara. Era quasi a mesma do congresso
+de Bruxellas. Á frente d'ella encontravam-se Liebknecht, Bebel e Singer. A
+novidade foi a representação dos novos, hostis ao velho grupo; e d'entre esses,
+chamados os independentes, devemos destacar Werner e Körner.</p>
+
+<p>Da Belgica, estavam Hector Denis, Jean Volders e Emile de Vanderwelde; da
+Hollanda, Domela Nieuwenhuis; da Hespanha, Pablo Iglesias; da Roumania, Mille;
+da Inglaterra, Max Avelling: da França, Allemane, Argyriadés, Jaclard, Veber,
+Degay, Borlioz; da Austria, Adler, Fankel.</p>
+
+<p>Augmentára consideravelmente a representação da Italia.</p>
+
+<p>Além de Madame Anna Koulischoff e Turati, um sociologo eminente e director
+da <i>Critica social</i>, de Milão, assistiam ao congresso Antonio Labriola,
+lente cathedratico da Universidade de Roma; Prampolini, deputado, etc.</p>
+
+<p>Entre as senhoras que tomaram assento na assembléa, notavam-se, como acima
+deixamos dito, Anna Koulischoff, russa, antiga nihilista, que fez o seu curso
+na Universidade de Milão, onde hoje exerce a clinica; Madame Mendelssohn, da
+Varsovia, casada<span class="pn">{39}</span> com Mendelssohn, que fôra expulso
+de Paris, por nihilista; Madame Vera Sassulich, a notavel heroina que, em 1878,
+desfechou o seu rewolver sobre o general Trepoff, o miseravel chefe de policia
+de S. Petersburgo, inimigo dos nihilistas e que tantas victimas arremessou para
+a Siberia. Trepoff morreu e Vera Sassulich, a grande libertadora, emigrou, sob
+um nome supposto, escapando ao furor das auctoridades russas, e vivendo ora na
+Italia, ora na Suissa. É uma mulher de armas, no bom sentido da palavra,
+honesta, intransigente e sincera e devotada amiga da liberdade e da
+humanidade.</p>
+
+<div class="imagem">
+<p><a name="img_pag039"></a><img src="images/pag039.png" alt="Frederico Engels"
+width="100%" align="top" border="0"></p>
+</div>
+
+<p>O congresso foi encerrado com a grata e inesperada apparição do velho
+companheiro e continuador de Marx&mdash;Frederico Engels. Quando o presidente
+annunciou que se achava na sala um dos illustres precursores do socialismo,
+todos se pozeram de pé, e no palco surgiu, então, a figura gloriosa de Engels.
+O enthusiasmo foi indescriptivel. Uma estrondosa salva de palmas coroou esta
+agradavel surpresa. <i>Viva a Communa!</i>&mdash;gritou a delegação francesa.
+<i>Viva Engels!</i>&mdash;exclamaram todos numa voz unisona, formidavel e
+estridente.<span class="pn">{40}</span></p>
+
+<p class="centrado">*</p>
+
+<p class="centrado">*      *</p>
+
+<h2><a name="SECTION0030800">A ALLEMANHA, A BELGICA E A INGLATERRA</a></h2>
+
+<p>Os paizes onde o socialismo está hoje, incontestavelmente, mais bem
+organisado e desenvolvido, são a Allemanha e a Belgica. Na França dividem-se e
+subdividem-se os grupos, chocam-se as personalidades, e os odios e as
+desintelligencias evidenceiam-se a cado passo. Na Inglaterra, apesar dos
+progressos realisados, n'estes ultimos tempos, principalmente pela adhesão das
+<i>Trades&mdash;Unions</i>, ainda o socialismo não representa o que póde
+chamar-se um partido politico.</p>
+
+<p>Na Allemanha, os mesmos pruridos militaristas que se observam nas altas
+regiões, reflectem-se, com maior ou menor intensidade, no partido socialista.
+Nota-se, principalmente, este facto nos congressos, onde, a um simples aceno do
+deputado Singer, todos os delegados approvam ou reprovam, consoante as
+instrucções de ante-mão estabelecidas. A mesma disciplina do exercito
+estende-se aos partidos e aos agrupamentos politicos. E ai! d'aquelle que se
+desviar destas normas: corre o risco de ser expulso, sem mais appêlo nem
+aggravo.</p>
+
+<p>O partido socialista está pois, organisado, na Allemanha, como um verdadeiro
+partido politico, um partido de governo, poderiamos, talvez, dizer, com uma
+caixa de resistencia, os seus jornaes, as suas<span class="pn">{41}</span>
+associações e os seus milhares de filiados, em todas as cidades, em todas as
+villas e em todas as aldeias do vasto imperio. Todos, sem excepção, são
+obrigados a concorrer para as despesas do partido, e, n'este facto, reside a
+base do direito de cada um, como partidario ou membro da associação. Não se
+concebe um partido, sem os recursos indispensaveis, para fazer face ás
+eventualidades de momento e para combater o adversario, com vantagem. Os
+allemães sabem isto, e eis ahi está o motivo porque o numero dos partidarios do
+socialismo sobe de dia para dia na Allemanha, e por que os socialistas contam,
+presentemente, com quarenta e sete deputados no <i>Reichstag</i>, tendo
+augmentado, a representação partidaria, nas ultimas eleições.</p>
+
+<div class="imagem">
+<p><a name="img_pag041"></a><img src="images/pag041.png" alt="Liebknecht"
+width="100%" align="top" border="0"></p>
+</div>
+
+<p>Liebknecht, um dos chefes consagrados pela opinião, e o director do
+<i>Vorwöerths</i>, o orgão do partido na imprensa, tem ácerca da politica a
+mesma opinião que poderia ter, em campanha, um general ácerca da guerra. Deante
+do inimigo, o dever é unir fileiras; e, todo aquelle que abandonar ou se
+arredar<span class="pn">{42}</span> do seu posto, tem de ser considerado como
+desertor. E aqui está o motivo porque, no partido operario socialista allemão,
+nem se admittem os dissidentes nem os independentes. Todos por um e um por
+todos!&mdash;eis a maxima dos chefes. E n'este simples facto, muito digno aliás
+de ser imitado, por todos os partidos avançados, está a origem da força, do
+desenvolvimento e dos progressos do socialismo na Allemanha.</p>
+
+<p>Na Belgica acabam os socialistas de alcançar um enorme triumpho, pela
+conquista do suffragio universal que até aqui não possuiam. O belga é homem
+essencialmente pratico. O partido socialista, tendo reconhecido a necessidade
+de organisar as suas forças, estabeleceu as grandes cooperativas de consumo,
+principalmente de pão e de carvão, e logrou attrahir a si o elemento
+trabalhador, disciplinando-o, pelo interesse, e pela conveniencia, que da
+associação economica poderia advir á sua futura existencia. E as cooperativas
+belgas tornaram-se assim, não só valiosos elementos de cooperação, senão
+poderosas e temiveis armas de combate, pois que, dos lucros a destribuir, ficam
+sempre em caixa uns tantos por cento, para as despesas da propaganda. Não raro
+tem succedido fazerem as cooperativas face a uma <i>gréve</i>, distribuindo,
+diariamente, aos grevistas, alguns milhares de pães.</p>
+
+<p>Não póde contestar-se o enorme progresso, feito pelo socialismo em França
+que acaba de eleger quarenta e nove deputados, tendo, principalmente,
+alcançado, em Paris, um assignalado triumpho. Mas é para lastimar que não seja
+completa a união entre<span class="pn">{43}</span> os differentes grupos que
+representam as ideias socialistas. A franca adhesão de René Goblet, A.
+Millerand, J. Jaurés, Camille Pelletan e outros notaveis politicos e
+publicistas, deu ao partido um grande e decisivo impulso, e creou-lhe, na
+camara, uma situação politica innegavel.</p>
+
+<p>A <i>Petite Republique Française</i> é hoje, na imprensa, o orgão do novo
+grupo. O seu redactor principal&mdash;A. Millerand&mdash;é um escriptor de raça
+e um dos mais brilhantes e eloquentes oradores da camara franceza. O programma
+por elle exposto na sessão de 16 de fevereiro de 1893, foi adoptado por quasi
+todos os candidatos socialistas, nas ultimas eleições: «Revisão democratica da
+Constituição de 1875; modificação radical e profunda, no interesse dos
+trabalhadores dos campos e das cidades, da nossa legislação economica e do
+nosso systema de imposto; acquisição para o Estado do Banco de França, das
+minas e dos caminhos de ferro, arrancando-os das mãos da alta finança.»</p>
+
+<p>O primeiro acto politico de Millerand, foi a defesa dos mineiros de Monceau
+les Mines, em 1882. Desde então, nunca mais houve gréve em França, em que elle
+não tenha posto o seu talento e as suas grandes faculdades de orador ao serviço
+das victimas dos patrões gananciosos e usurarios. E assim o vêmos na brecha,
+defendendo successivamente os mineiros de Decazeville, os grevistas de Vierzon,
+e os mineiros de Carmaux que o haviam escolhido como arbitro.</p>
+
+<p>Foi elle o defensor de Duc-Quercy e Roche, em Villefranche, de Lafargue e
+Culine, perseguido por<span class="pn">{44}</span> causa dos fusilamentos de
+Fourmies, de Baudin, em Bourges, e de muitos outros.</p>
+
+<div class="imagem">
+<p><a name="img_pag044"></a><img src="images/pag044.png" alt="Millerand"
+width="100%" align="top" border="0"></p>
+</div>
+
+<p>Adversario implacavel da alta finança, Millerand pronunciou, contra a
+renovação do privilegio do Banco de França, um dos seus mais bellos discursos,
+«atacando essa realeza do ouro que trata de egual para egual com a Republica, e
+que, mercê da fraqueza e da cumplicidade dos regimens anteriores, chegou á
+situação em que actualmente se encontra.»</p>
+
+<p>E, melhor que todas as periphrases, uma citação poderá dar-nos uma ideia da
+sua eloquencia. A peroração do seu discurso, relativo ao privilegio do Banco de
+França, em que convida a burguezia a unir-se ao movimento de transformação
+universal que se opera no mundo economico, é notabilissima:</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>«A massa dos trabalhadores, libertada por tres revoluções, poz-se a caminho;
+quer que o suffragio universal tenha por complemento necessario o bem estar
+universal. Pensa que ha contradicção<span class="pn">{45}</span> em que um povo
+seja, ao mesmo tempo, miseravel e soberano.</p>
+
+<p>«A nação quer entrar na posse e no gozo de instituições, que até hoje teem
+sido exploradas, apenas em proveito de um pequeno numero de favorecidos. Vós
+não retardareis, nem a sua marcha, nem as suas conquistas. É mister saber fazer
+a tempo os sacrificios necessarios.</p>
+
+<p>«Responder-me-hão, talvez, os defensores do privilegio, que o sacrificio,
+que lhes pedimos poderá sahir caro ao paiz. Assim o pensam, estou convencido.
+Não ponho em duvida nem a sua sinceridade nem a sua boa fé. A illusão não é
+nova. É velha como a humanidade...</p>
+
+<p>«Assim como outr'ora succedeu com a nobreza, a burguezia invoca os serviços
+já prestados, e os que, por ventura, ainda poderá prestar. Não nego os seus
+serviços. É, sem duvida, bella e grande a parte que, ha cem annos, tem tomado
+no desenvolvimento do commercio e da industria e no aperfeiçoamento das
+sciencias. Se pretende invocar os seus serviços, como outros tantos titulos ao
+reconhecimento publico, está no seu papel e no seu direito. Mas se pensa poder
+abusar da sua antiga supremacia, para manter, na sombra e no esquecimento, a
+multidão dos desherdados que, por sua vez, pedem lhes seja reconhecido o
+direito que teem á luz, á acção, ao desenvolvimento integral da sua
+personalidade; a participação, n'uma palavra, á vida e á felicidade; n'esse
+caso, está irremediavelmente perdida. Eu quereria apenas que a sua teimosia e a
+sua obstinada resistencia não custassem muito caro ao paiz.<span
+class="pn">{46}</span></p>
+
+<p>«O progresso é cego, ingrato e brutal: os interesses particulares valem
+pouco deante d'elle. N'esta grave questão do credito, como em todas as outras,
+o que devemos fazer é aplanar-lhe o caminho, facilitando a sua marcha, e
+poupando assim ao paiz de que somos servidores algumas d'essas luctas
+violentas, d'essas convulsões dolorosas, d'essas supremas crises de sangue e de
+lagrimas, que até aqui teem assignalado cada uma das <i>étapes</i>, cada um dos
+progressos da historia e da evolução humana.»</p>
+
+<p>A <i>Petite République</i>, collaborada por alguns dos principaes
+socialistas francezes, entre os quaes convêm assignalar René Goblet, Jules
+Guesde, Marcel Sembat, J. Jaurés, Ed. Vaillant, Eugène Fournière, Hovelacque,
+E. Baudin, Gustave Rouanet, Dumas, Pierre Baudin, René Viviani, Clovis Hugues,
+Paul Lafargue, Camelinat, Duc-Quercy, Gérault-Richard, Madame Paule Mink, etc.,
+é, por sem duvida, o grande reducto do socialismo parisiense, e em volta
+d'elle, teem os adversarios e conservadores de todas as côres e matizes
+estabelecido um verdadeiro estado de sitio, atacando-o, formulando accusações e
+inventando calumnias, que não servem para outra cousa senão para exaltar ainda
+mais a ideia, se é possivel, elevando e glorificando aquelles que a
+defendem.</p>
+
+<p>Tambem o socialismo agrario se tem desenvolvido, em França, de uma maneira
+espantosa. Acaba de o provar o ultimo congresso dos socialistas agrarios,
+realisado em Auxerre, em que tomaram parte quasi todos os deputados do partido
+operario socialista. A maior parte dos congressistas estavam<span
+class="pn">{47}</span> de blusa de trabalho e de tamancos, com as mãos
+calejadas da enxada.</p>
+
+<div class="imagem">
+<p><a name="img_pag047"></a><img src="images/pag047.png" alt="Thivrier"
+width="100%" align="top" border="0"></p>
+</div>
+
+<p>Os socialistas agrarios francezes possuem hoje mais de 150 secções,
+organisadas no Este e no Norte. O deputado Thivrier representa na camara o
+elemento socialista da população rural do Allier.</p>
+
+<p>Thivrier assiste de blusa azul ás sessões parlamentares. Fóra do parlamento
+tambem a não despe nunca. Conheci-o no <i>Coq d'Or</i> da rua Montmartre.
+Apresentou-m'o Cipriani. O <i>Coq d'Or</i> é o <i>rendez-vous</i> de todos os
+socialistas militantes. Pelas 6 horas da tarde, são certos, n'aquella
+cervejaria, Eugene Fournière, Gustave Rouanet, Gérault Richard, Camélinat,
+Baudin, Degay e muitos outros.</p>
+
+<p>Thivrier é dotado de caracter energico; homem de poucas palavras, mas firme
+e resoluto; e isso explica a attitude por elle tomada na camara franceza, por
+occasião da sua expulsão.</p>
+
+<p>O camponez é, em geral, refractario á propaganda socialista. Os socialistas
+da cidade variam inteiramente de processo, quando se trata da população rural.
+A propaganda, em vez de ser humanitaria,<span class="pn">{48}</span>
+transforma-se em socialismo pessoal, baseado no communismo liberatorio&mdash;a
+união dos pequenos proprietarios e caseiros communaes, em opposição aos
+syndicatos patronaes e aos grandes agricultores.</p>
+
+<div class="imagem">
+<p><a name="img_pag048"></a><img src="images/pag048.png" alt="John Burns"
+width="100%" align="top" border="0"></p>
+</div>
+
+<p>O congresso de Auxerre elaborou já o programma das reivindicações dos
+socialistas agrarios.</p>
+
+<p>Na Gran-Bretanha e Irlanda, o movimento socialista tem feito grandes
+progressos. Pela primeira vez, foram nomeados para assistir a um congresso, em
+Zurich, os membros do parlamento, como delegados de organisações operarias.</p>
+
+<p>Coube a John Burns, o heroe de 1887, e o eloquentissimo deputado de hoje,
+essa suprema honra e essa suprema gloria.</p>
+
+<p>Os trabalhadores agricolas começam tambem a despertar n'aquelle paiz, e o
+partido operario acaba de se constituir, como partido independente, sem
+ligações com os antigos partidos, o que demonstra evidentemente que o movimento
+socialista tem ali augmentado em poder e extensão.<span
+class="pn">{49}</span></p>
+
+<p class="centrado">*</p>
+
+<p class="centrado">*      *</p>
+
+<h2><a name="SECTION0030900">A ITALIA, A SUISSA, A HESPANHA E PORTUGAL</a></h2>
+
+<p>O partido socialista italiano divide-se em duas grandes escolas: a escola
+evolucionista e a escola revolucionaria. A primeira tem recrutado os seus
+numerosos adherentes na alta Italia e na Italia central, ao passo que a segunda
+tem recrutado especialmente os seus adherentes na Italia meridional.</p>
+
+<p>Mas, áparte a questão de methodo, as duas escolas caminham conjunctamente,
+tornando-se muitas vezes difficil delimitar os dois campos.</p>
+
+<p>Os evolucionistas consideram a revolução como uma fórma violenta da
+evolução, e pensam que, sem haver necessidade de a provocar, a revolução ha de
+produzir-se violentamente no dia em que todos os trabalhadores tiverem adherido
+ao socialismo.</p>
+
+<p>Os revolucionarios, admittindo as grandes vantagens que resultam de um
+paciente e demorado trabalho de preparação, sustentam que o operario italiano é
+já bastante socialista, para que seja necessario ainda esperar. Segundo a
+opinião d'estes ultimos, uma longa espera poderia levar os trabalhadores a
+duvidarem do triumpho da sua causa.</p>
+
+<p>Á organisação dos <i>fasci dei lavoratori</i> se deve o enorme
+desenvolvimento que ultimamente tem adquirido o movimento socialista na
+Italia.</p>
+
+<p>Os <i>fasci</i> (fachos) são associações operarias, tendo<span
+class="pn">{50}</span> por base a cooperação e por fim o triumpho do
+collectivismo, segundo as theorias de Karl Marx. As mulheres tambem são
+admittidas.</p>
+
+<p>O primeiro <i>fascio</i> foi fundado em Catanea, ao sopé de Etna, no dia 1.º
+de maio de 1890. Em menos de quatro annos, fundaram-se na Sicilia mais 160
+<i>fasci</i>. O numero de adherentes subia, ainda ha poucos mezes, a 300:000,
+na sua maioria agricultores.</p>
+
+<p>O sr. Giolliti, então presidente de conselho, principiou a preoccupar-se
+seriamente com o movimento socialista dos <i>fasci</i>, e, num intuito de
+repressão, mandou á Sicilia o commandante Sensales, senador, com o fim de
+dissolver aquellas associações.</p>
+
+<p>Sensales estudou, inquiriu, investigou, e nada encontrou que podesse servir
+de pretexto a uma dissolução; o que não impediu o ministro de encher a Sicilia
+de soldados, obrigando as auctoridades a uma repressão rigorosa e até
+sangrenta, se tanto fosse necessario. O massacre de Giardinello foi o resultado
+d'estas ordens.</p>
+
+<p>Mas as medidas de rigor, empregadas pelos emissarios do governo, não
+serviram senão para augmentar a popularidade dos <i>fasci</i>, já então muito
+grande, chamando para elles as attenções de toda a Italia. Os seus fundadores
+aproveitaram as circumstancias, para crear novas secções e recrutar alguns
+milhares de novos adherentes, de modo que o numero dos associados dos
+<i>fasci</i>, pode hoje bem avaliar-se em 400:000. Em pouco tempo será de meio
+milhão.</p>
+
+<p>Os <i>fasci</i> passaram da Sicilia para o continente, onde a sua
+organisação avança rapidamente, e em<span class="pn">{51}</span> especial na
+Calabria, nos Abruzzos, na Ponille e na Romagna. Em Roma e Napoles, tambem
+foram fundadas muitas secções dos <i>fasci</i>.</p>
+
+<p>A propaganda pelo facto é repellida pelos socialistas italianos, que nada
+esperam da dynamite. O partido socialista italiano não é terrorista, mas
+<i>pacificamente revolucionario</i>, na phrase consagrada.</p>
+
+<p>Semelhantemente ao que succede na Irlanda, o socialismo agrario, tem tomado,
+na Italia, um incremento espantoso, n'estes ultimos tempos. Os governos são
+impotentes para o debellar. Não basta só mandar fusilar o povo faminto que se
+revolta nas ruas e nas praças publicas, como succede na Sicilia. Emquanto as
+causas do mal subsistirem, os effeitos hão de continuar a dar-se, fatal e
+irremediavelmente. O que importa pois, na Italia, é conjurar a crise economica
+e financeira que a levaram á ruina, e d'isso não serão capazes os governos
+monarchicos. Por isso o partido socialista, que já hoje constitue um partido
+forte e invencivel, ha de ir augmentando de dia para dia, até ao momento do seu
+triumpho. As adhesões a estas idéas emancipadoras, chegam a cada passo e de
+todos os pontos do paiz. O grande escriptor Edmundo de Amicis converteu-se ao
+socialismo, e é hoje uma das suas figuras mais salientes. Collajani, o celebre
+deputado que levantou no parlamento a questão dos bancos, é tambem socialista.
+Collajani é o temivel adversario de Lombroso. Combate o atavismo, e sustenta,
+com os positivistas modernos, que o individuo não é senão um producto do seu
+meio. Giuseppe Felice, o deputado siciliano, que foi preso por<span
+class="pn">{52}</span> occasião dos acontecimentos da Sicilia, é uma das mais
+nobres e sympathicas personalidades do movimento agrario, e é muito considerado
+entre os seus concidadãos. O mesmo com Claudio Treves, um moço de raro e
+excepcional talento, e tantos outros que seria longo enumerar aqui.</p>
+
+<p>Para mostrar quanto o socialismo agrario tem uma rasão de ser na Italia,
+basta que façamos um pequeno estudo sobre os impostos n'aquelle paiz.</p>
+
+<p>«Vejamos o que paga uma familia operaria na Romagna. O chefe da familia
+ganhou, durante o anno, 586 liras e 72 centimos. Comprou 7 hectolitros de
+trigo. Mas esse cereal paga o direito de 5 francos por kilo. Segue-se pois, que
+de imposto para o Estado e para lucro dos que vivem á sombra da protecção
+aduaneira, o operario foi logo espoliado em perto de 26 francos.</p>
+
+<p>«Comprou tambem 7 hectolitros de milho, e sobre essa compra teve de pagar 6
+francos de imposto.</p>
+
+<p>«Pelo vinho nada pagou, porque apenas bebeu agua. Compra, por semana, um
+litro de sal para sua casa. Com esse consumo lucrou o governo, no fim do anno,
+15 francos e 60 centimos. Pela sua illuminação, gasta, cada semana, em sua
+casa, 20 centimos com petroleo. No fim do anno somma esta despesa 10 francos e
+40 centimos. Só á sua parte, embolsa o governo 7 francos e 10 centimos.</p>
+
+<p>«Vivendo mais que modestamente, a familia, em todo o anno, gastou em fato 15
+francos e 25 centimos. Em impostos, exigem-lhe cêrca de 3 francos. De modo que
+só n'estas verbas, o contribuinte concorreu para o Estado com 10 por cento do
+seu ganho.<span class="pn">{53}</span></p>
+
+<p>«Junte-se a tudo isto os impostos directos, os impostos supplementares de
+consumo e outros que ha em muitas communas da Italia, e ver-se-ha a rasão que
+assiste ao desgraçado que, trabalhando mais do que póde, deixa nas garras do
+fisco quasi todo o resultado do seu labor.</p>
+
+<div class="imagem">
+<p><a name="img_pag053"></a><img src="images/pag053.png" alt="De Felice"
+width="100%" align="top" border="0"></p>
+</div>
+
+<p>«A miseria é tanta e tamanha, que, nas pequenas communas da Sicilia, o povo
+apenas póde comer pão ordinarissimo, fabricado com farelos. E, nas ricas e
+uberrimas planicies da Lombardia, as classes trabalhadoras tambem não teem para
+se alimentar mais que a <i>polenta</i>, uma especie de massa de farinha de
+milho, havendo muitos que, por extrema pobresa, nem sequer podem temperar com
+sal essa miseravel comida.»</p>
+
+<p>Ora foi precisamente contra este triste estado de cousas, que o sympathico e
+honrado deputado siciliano de Felice levantou o grito de revolta que logo se
+repercutiu em todo o paiz, com a rapidez de um relampago.</p>
+
+<p>De Felice Jiuffrida nasceu em Catanea, no anno de 1860.</p>
+
+<p>Socialista convicto, havia-se assignalado na imprensa, pelos seus rudes
+ataques contra a monarchia, o que lhe valeu varias condemnações. Em 1887,
+durante a epidemia cholerica, que dizimava o sul da<span class="pn">{54}</span>
+Italia, deu provas de grande dedicação e de altissimo valor. O governo quiz
+distinguil-o com a medalha de ouro; mas elle recusou a distincção, dizendo,
+«que da monarchia só acceitava a perseguição.»</p>
+
+<p>Algum tempo depois, tendo sido condemnado a dois annos de prisão, por abuso
+de liberdade de imprensa, refugiou-se em Malta, d'onde regressou, em 1892,
+eleito, ao mesmo tempo, por Catanea e por Palermo.</p>
+
+<p>Foi, em virtude da parte activa e intelligentissima que tomou na organisação
+dos <i>Fasci</i>, especialmente na Calabria e na Romagna, que o governo ordenou
+a sua prisão.</p>
+
+<p>Foram dissolvidos os <i>Fasci</i>, sob protexto de attentarem contra as
+instituições; mas não morreram as idéas e os principios por elles
+representados. Ao contrario, avigoraram-se na lucta. De Felice foi o glorioso
+interprete da opinião popular. A consciencia publica estava com elle e
+applaudiu-o. Isto basta, para que seja immorredoura a sua obra e seja
+glorificado o seu nome, que é o nome de um bravo e o nome de um heróe!</p>
+
+<p>No congresso operario de Bruxellas, em 1891, nem a Italia nem a Suissa
+poderam apresentar relatorio: tão escassas eram as forças socialistas
+n'aquelles dois paizes. Em dois annos os progressos realisados por elles são
+superiores a toda a expectativa e de molde a surprehender todos os
+espiritos.</p>
+
+<p>Na Suissa todas as organisações profissionaes se constituiram em federação.
+A <i>federação dos syndicatos profissionaes</i><span class="pn">{55}</span> tem
+progredido de dia para dia, possuindo uma receita de 28.000 francos, dos quaes
+15.800 são reservados a soccorros, em casos de <i>gréve</i>. É de cêrca de
+15.000 o numero de associados. A <i>federação operaria suissa</i> conta 200.000
+adherentes. A sociedade suissa do <i>Grütli</i> comprehende 350 secções, com
+15.000 societarios, possuindo um orgão central, o <i>Grütli</i>, que se publica
+tres vezes por semana.</p>
+
+<p>A estas organisações, convêm ajuntar o <i>partido democratico socialista
+suisso</i> que existe, na sua fórma actual, desde 1888, possuindo, em commum,
+com a federação dos syndicatos profissionaes um orgão especial&mdash;o
+<i>Arbeiterstimme</i> (a <i>Voz do operario</i>).</p>
+
+<p>No conselho nacional suisso, não contam os socialistas senão um
+representante. Mas é certo que o movimento se alastra por todo o paiz, a passos
+de gigante. Particularmente, são para registar os progressos realisados pelo
+partido na Suissa allemã.</p>
+
+<p>Em Hespanha, o partido socialista contava cêrca de 30 grupos, por occasião
+do congresso internacional de Bruxellas; segundo o relatorio, apresentado ao
+congresso de Zurich, o partido conta hoje 50, dos quaes 6 pertencem aos
+trabalhadores agricolas.</p>
+
+<p>Nas ultimas eleições geraes para deputados, obtiveram os socialistas 7:000
+votos&mdash;2:000 a mais do que os obtidos nas eleições de 1890.</p>
+
+<p>Na Hespanha,&mdash;e é este o principal facto a notar&mdash;o movimento
+socialista, que, não ha muito ainda, comprehendia quasi exclusivamente os
+trabalhadores manuaes, tem ganho, pouco a pouco, o<span class="pn">{56}</span>
+professorado, os jornalistas e os homens de letras; e hoje, pode-se dizer
+afoitamente que o socialismo cathedratico está, no visinho paiz, á altura
+d'aquelles que, como a Belgica e a França, mais se vangloriam com o
+progredimento das novas ideias nas escolas e nas universidades.</p>
+
+<p>Em Portugal continuam os socialistas, n'uma propaganda activa e utilissima,
+prégando as vantagens e os beneficios do principio da associação de classe,
+reclamando dos poderes publicos leis protectoras do trabalho, reunindo
+congressos, publicando jornaes e obras de propaganda, e tornando-se em tudo
+dignos dos esforços dos seus irmãos e camaradas no estrangeiro. O modo firme,
+serio e correcto por que os socialistas portuguezes celebraram o primeiro de
+Maio, no proximo preterito anno de 1893, bastaria para lhes attrahir as
+sympathias do publico, se outros factos os não tivessem já recommendado ao
+suffragio popular.<span class="pn">{57}</span></p>
+
+<h1><a name="SECTION0031000">II <br>
+O PROGRAMMA SOCIALISTA</a> </h1>
+
+<h3 class="sinopse"><a name="SECTION0031010">O <small>PROGRAMMA DO PARTIDO
+OPERARIO.&mdash;</small>P<small>ARTE POLITICA E PARTE
+ECONOMICA.&mdash;</small>J<small>ULES </small>G<small>UESDE E</small>
+P<small>AULO</small> L<small>AFARGUE.&mdash;</small>O <small>PROGRAMMA DO
+PARTIDO SOCIALISTA EM</small> P<small>ORTUGAL.</small></a></h3>
+
+<p>O programma do partido operario socialista francez, que é hoje considerado
+como o programma commum a todos os partidos operarios, foi elaborado por Jules
+Guesde e Paulo Lafargue. Digamos pois, algumas palavras, ácerca de cada um dos
+dois apostolos do socialismo.</p>
+
+<h3><a name="SECTION0031020">J<small>ULES</small> G<small>UESDE</small></a></h3>
+
+<p>Jules Guesde póde e deve ser considerado, em França, como o verdadeiro chefe
+do partido operario marxista. E, se tivessemos de avaliar os seus meritos pelo
+numero das condemnações já soffridas por causa do socialismo, o seu logar de
+honra seria na primeira fila e ao lado dos primeiros combatentes da ideia. A
+sua primeira condemnação, em Montpellier, a cinco annos de prisão, por causa de
+um artigo, publicado no jornal <i>Os Direitos do homem</i>,<span
+class="pn">{58}</span> teve uma grande influencia na sua existencia politica e
+no desenvolvimento do seu espirito.</p>
+
+<div class="imagem">
+<p><a name="img_pag058"></a><img src="images/pag058.png" alt="Jules Guesde"
+width="100%" align="top" border="0"></p>
+</div>
+
+<p>Mes Guesde refugiou-se em Italia e depois na Suissa, onde encontrou muitos
+francezes exilados, por causa dos acontecimentos da Communa. Bakounine e Marx
+estavam então em lucta. Guesde não se pronunciou, nem por um nem por outro,
+contentando-se apenas em assimilar a doutrina de Marx; e por tal fórma o
+conseguiu, que hoje os dois nomes, o do fundador do socialismo allemão e o do
+propagandista do collectivismo marxista, em França, são inseparaveis.</p>
+
+<p>Voltando a Paris, em 1876, Guesde tentou baldadamente fazer a propaganda da
+doutrina allemã. A primeira proposta collectivista, feita em 1878, no congresso
+de Lyon, foi regeitada por grande maioria.</p>
+
+<p>Todavia, em Paris, devia realisar-se, n'esse mesmo anno, um segundo
+congresso, por occasião da exposição universal. O governo quiz prohibil-o. A
+minoria guesdista, porém, não fez caso da prohibição; reuniu-se, recebeu
+solemnemente os delegados estrangeiros e estabeleceu a base do
+collectivismo.<span class="pn">{59}</span> Guesde proseguiu nos seus trabalhos,
+com trinta e sete dos seus amigos, pronunciou um notavel discurso, considerado
+como um verdadeiro manifesto do socialismo revolucionario, e tornou-se, por
+esse facto, o chefe incontestado do partido.</p>
+
+<p>Tornava-se mister um programma ao socialismo francez. Guesde fôra
+encarregado, pelo congresso de Marselha, de o elaborar. Partiu para Londres, e
+redigiu-o ali sob a direcção de Marx e com a collaboração de Lafargue e de
+Engels.</p>
+
+<p>O congresso nacional do Havre, ao qual foi submettido, approvou-o,
+estabelecendo definitivamente a ruptura entre collectivistas e cooperativistas.
+O partido operario adoptára o principio da lucta de classes, da propriedade
+collectiva e da revolução.</p>
+
+<p>N'este programma havia, todavia, uma lacuna. Não se havia pensado senão no
+operario das cidades. O trabalhador dos campos fôra esquecido. Foi essa a
+missão do congresso de Marselha de 1892.</p>
+
+<p>No seu ultimo manifesto eleitoral, Jules Guesde repelle os meios violentos.
+A revolução, escreveu, é antes um resultado, um facto, do que uma doutrina, e
+desde que os socialistas resolveram recorrer e acceitar o suffragio universal,
+é porque renunciaram, pelo menos provisoriamente, aos outros meios. No
+programma do partido operario, já formulara, de resto, o principio «de que a
+organisação socialista deveria ser levada a cabo por todos os meios de que o
+proletariado podesse dispôr, sem excluir o suffragio universal.»</p>
+
+<p>Jules Guesde deve contar quarenta annos de edade, e foi quem, no congresso
+de Paris, em<span class="pn">{60}</span> 1889, propoz a manifestação do 1.º de
+Maio. É hoje deputado por Roubaix. Na camara franceza está-lhe reservado o
+successo a que dão direito o seu grande saber e a sua notavel eloquencia.</p>
+
+<p class="centrado">*</p>
+
+<p class="centrado">*      *</p>
+
+<h3><a name="SECTION0031030">P<small>AULO</small>
+L<small>AFARGUE</small></a></h3>
+
+<p>Estão ainda certamente na memoria de todos os fusilamentos de Fourmies do
+1.º de Maio de 1891, e o julgamento e a condemnação de Paulo Lafargue, por «ter
+prégado o socialismo no departamento do Norte,»&mdash;no dizer dos seus juizes.
+Pois foi precisamente este facto que o levou á camara dos deputados. O mesmo
+departamento do Norte, entendeu que devia corrigir as demasias e a violencia do
+governo, elegendo-o deputado. Havia um ou dois mezes que Lafargue déra entrada
+no carcere, sahindo d'ali, victorioso e triumphante, em direcção ao palacio
+Bourbon.</p>
+
+<div class="imagem">
+<p><a name="img_pag060"></a><img src="images/pag060.png" alt="Paulo Lafargue"
+width="100%" align="top" border="0"></p>
+</div>
+
+<p>O dr. Lafargue é uma das figuras mais originaes<span class="pn">{61}</span>
+do partido socialista. Ao mesmo tempo, theorico e homem de acção, ha
+seguramente trinta annos que se mantem na lucta, e sempre com a mesma altivez e
+com a mesma dedicação.</p>
+
+<p>Sendo estudante de medicina em 1866, foi elle um dos organisadores do
+congresso de Liége, onde a bandeira negra se arvorou, como que para indicar que
+a França estava de lucto. No seu regresso, o imperio vingou-se, excluindo-o de
+todas as faculdades.</p>
+
+<p>Lafargue partiu então para Inglaterra. Fez em Londres o conhecimento de Karl
+Marx, que o iniciou no socialismo scientifico, alistando-o na <i>Associação
+internacional dos trabalhadores</i>.</p>
+
+<p>Genro de Karl Marx, occupou-se activamente da organisação do partido
+socialista francez, cujo programma, elaborado no gabinete do celebre
+revolucionario, é em parte obra sua.</p>
+
+<p>Foi tambem em Londres que elle se ligou com Jules Guesde. Permaneceram ambos
+fieis á doutrina orthodoxa e são, em França, os seus verdadeiros
+representantes.</p>
+
+<p>&mdash;É na officina&mdash;dizia Lafargue na sessão da camara dos deputados
+de 16 de fevereiro de 1893&mdash;é na officina que principia a exploração da
+classe operaria; é ali que ella é roubada do producto do seu trabalho, e é por
+isso que, na sociedade actual, a classe operaria que tudo produz, é
+precisamente aquella que nada possue, ao passo que a classe que não trabalha é
+possuidora de toda a riqueza social, e governa a nação economicamente e
+politicamente.»<span class="pn">{62}</span></p>
+
+<p class="centrado">*</p>
+
+<p class="centrado">*      *</p>
+
+<h2><a name="SECTION0031100">O PROGRAMMA DO PARTIDO OPERARIO</a> </h2>
+
+<p>Considerando que a emancipação da classe productora é a de todos os seres
+humanos, sem distincção de sexo nem de raça;</p>
+
+<p>Considerando que os productores não serão nunca livres, emquanto não
+estiverem na posse dos meios de producção (terras, officinas, navios, bancos,
+credito, etc.)</p>
+
+<p>Considerando que não ha senão duas fórmas pelas quaes os meios de producção
+poderão pertencer-lhes, a saber:&mdash;a fórma individual que nunca existiu,
+como facto geral, e que tende, cada vez mais, a ser eliminada pelo progresso
+industrial;&mdash;e a fórma collectiva, cujos elementos materiaes e
+intellectuaes são constituidos pelo proprio desenvolvimento da sociedade
+capitalista;</p>
+
+<p>Considerando que esta apropriação collectiva não póde sahir senão de uma
+acção revolucionaria da classe productora, ou do proletariado, organisado em
+partido politico distincto;</p>
+
+<p>Considerando que semelhante organisação deve ser levada a cabo por todos os
+meios de que o proletariado dispõe, incluindo o suffragio universal,
+transformando-o de instrumento de corrupção, como até hoje tem sido, em
+instrumento de emancipação;</p>
+
+<p>Os trabalhadores socialistas, tendo por alvo dos seus esforços a
+expropriação politica e economica<span class="pn">{63}</span> da classe
+capitalista e o regresso á collectividade de todos os meios de producção,
+decidiram, como meio de organisação e de lucta, entrar em todas as eleições com
+as seguintes reivindicações:</p>
+
+<p class="centrado"><b>A.</b>&mdash;<i>Parte politica</i></p>
+
+<p>1.º&mdash;Abolição de todas as leis sobre a imprensa, as reuniões e as
+associações, e, em especial, a Associação Internacional dos
+trabalhadores.&mdash;Suppressão do livrete, ferrete ignominioso da classe
+operaria, e de todos os artigos do codigo, estabelecendo a inferioridade do
+operario em face do patrão, e a inferioridade da mulher em face do homem;</p>
+
+<p>2.º&mdash;Suppressão do orçamento dos cultos, e o regresso á nação dos bens
+chamados de mão morta, moveis e immoveis, que hoje pertencem ás corporações
+religiosas, comprehendendo todos os annexos industriaes e commerciaes das
+referidas corporações;</p>
+
+<p>3.º&mdash;Suppressão da divida publica;</p>
+
+<p>4.º&mdash;Abolição dos exercitos permanentes e armamento geral do povo;</p>
+
+<p>5.º&mdash;A Communa na posse da sua administração e da sua policia.</p>
+
+<p class="centrado"><b>B.</b>&mdash;<i>Parte economica</i></p>
+
+<p>1.º&mdash;Repouso de um dia por semana, ou prohibição legal de mais de seis
+dias de trabalho sobre sete.&mdash;Reducção legal do dia de trabalho a oito
+horas<span class="pn">{64}</span> para os adultos.&mdash;Prohibição do
+trabalho, nas officinas particulares, dos menores com menos de quatorze annos;
+e reducção do dia de trabalho a seis horas, desde os quatorze até aos dezoito
+annos.</p>
+
+<p>2.º&mdash;Vigilancia dos aprendizes pelas corporações operarias;</p>
+
+<p>3.º&mdash;Minimum legal dos salarios, determinado e fixado annualmente,
+segundo o preço local dos generos, por uma commissão de estatistica
+operaria;</p>
+
+<p>4.º&mdash;Prohibição legal aos patrões de poderem empregar os operarios
+estrangeiros por um salario inferior ao dos operarios nacionaes;</p>
+
+<p>5.º&mdash;Egualdade de salario, em egual trabalho, para os trabalhadores dos
+dois sexos;</p>
+
+<p>6.º&mdash;Instrucção scientifica e profissional de todas as creanças, á
+custa da sociedade, representada pelo Estado e pela communa;</p>
+
+<p>7.º&mdash;Manutenção, á custa da sociedade, dos velhos e invalidos do
+trabalho;</p>
+
+<p>8.º&mdash;Suppressão de toda a ingerencia dos patrões na administração das
+caixas operarias de soccorros, de previdencia, etc., restituindo-as á gestão
+exclusiva dos operarios;</p>
+
+<p>9.º&mdash;Responsabilidade dos patrões em materia d'accidentes, garantida
+por uma caução em dinheiro, lançado nas caixas operarias, e proporcional ao
+numero dos operarios empregados e aos perigos que a industria apresenta;</p>
+
+<p>10.º&mdash;Intervenção dos operarios, nos regulamentos especiaes das
+differentes officinas; suppressão do direito usurpado pelos patrões de poderem
+castigar<span class="pn">{65}</span> os operarios por meio de multas ou de
+reducções nos salarios;</p>
+
+<p>11.º&mdash;Annulação de todos os contractos, que hajam alienado a
+propriedade publica (bancos, caminhos de ferro, minas, etc.) e a exploração de
+todas as officinas do Estado, confiadas aos operarios que n'ellas
+trabalharem;</p>
+
+<p>12.º&mdash;Abolição de todos os impostos indirectos e transformação de todos
+os impostos directos n'um imposto progressivo sobre os rendimentos que vão alêm
+de 3:000 francos.&mdash;Suppressão da herança em linha collateral e de toda a
+herança em linha directa que exceda a somma de 20:000 francos.</p>
+
+<p class="centrado">*</p>
+
+<p class="centrado">*      *</p>
+
+<h2><a name="SECTION0031200">DESENVOLVIMENTO E EXPLANAÇÃO DO PROGRAMMA
+SOCIALISTA</a></h2>
+
+<h3><a name="SECTION0031210">PARTE POLITICA</a></h3>
+
+<h3><a name="SECTION0031220">ARTIGO 1.º</a></h3>
+
+<p>a) <i>Abolição de todas as leis sobre a imprensa, as reuniões e as
+associações, e, em especial, da lei contra a Associação Internacional dos
+Trabalhadores;</i></p>
+
+<p>b) <i>Suppressão do livrete, ferrete ignominioso da classe operaria, e de
+todos os artigos do codigo que estabelecem a inferioridade do operario perante
+o patrão e a inferioridade da mulher perante o homem.</i></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>Para que haja realmente liberdade, em materia de imprensa, não basta
+legislar, impondo multas e prisão aos que d'ella <i>abusam</i>, attenuando e
+modificando<span class="pn">{66}</span> as penas, ou substituir o julgamento
+correccional pelo julgamento de jury.&mdash;O que se torna indispensavel e
+urgente, é abolir todas as leis existentes <i>contra</i> e <i>sobre</i> a
+imprensa, a começar pela lei que condemna, por diffamação, sem prova dos factos
+allegados, e que permitte assim aos ricos e aos poderosos de abusarem da
+situação especial em que se encontram, relativamente aos que nada possuem e aos
+que nada podem.</p>
+
+<p>Para que haja realmente liberdade, em materia de reunião, não basta
+substituir o regimen actual por um novo regimen, mais ou menos hypocrita e mais
+ou menos sophismado, permittindo os comicios em recinto fechado e prohibindo-os
+na rua e na praça publica.&mdash;O que se torna indispensavel e urgente, é a
+abolição de todas as leis, que subordinam ás condições de local, de tempo, de
+numero e de pessoas, o exercicio de um direito tão rudimentar como o direito de
+reunião.</p>
+
+<p>Para que haja realmente liberdade, em materia de associação, não basta
+permittir o uso d'este direito aos que estão nas boas graças dos governos,
+embaraçando-o e difficultando-o aos contrarios, pela exigencia de formalidades,
+tão ridiculas como absurdas.&mdash;O que se torna indispensavel e urgente, é a
+abolição de todas as leis sobre as associações, qualquer que seja a sua
+natureza e o seu fim.</p>
+
+<p>Mas a revolução não nos trouxe apenas a liberdade; deu-nos tambem a
+<i>egualdade civil</i>. E é, em nome d'essa egualdade, que temos o direito e o
+dever de reclamar a suppressão do «livrete», bem como todos os artigos do
+codigo que estabelecem a<span class="pn">{67}</span> inferioridade da classe
+operaria perante a classe dos patrões.</p>
+
+<p>O livrete que assemelha o productor de todas as riquezas á meretriz,
+collocando-o no mesmo plano, sobre ser uma ignominia, é tambem infamante e
+improprio dos nossos tempos. Se o ferrete foi abolido para os grandes
+criminosos condemnados ás galés, como é que pode conservar-se para os
+trabalhadores do mundo moderno? Apenas a fórma variou, por isso que, sendo o
+livrete obrigatorio para todos os que são forçados a viver da venda do seu
+trabalho, nenhum movimento da vida operaria poderá escapar á policia. Para
+mudar de localidade e até para mudar de officina, são os trabalhadores forçados
+a apresentar essa prova da sua identidade e do seu comportamento anterior. De
+modo que aos patrões fica a liberdade plena de os admittirem ou de os
+expulsarem das suas officinas, conforme lhes aprouver. É uma inquisição de nova
+especie que se torna mister abolir não só dos codigos, senão tambem dos usos
+particulares. O operario será admittido em todas as officinas e em todos os
+estabelecimentos, quer do estado quer de particulares, sem que os patrões lhe
+possam exigir a minima formalidade. Condemnamos, por egual, o livrete e os
+attestados individuaes, que collocam os trabalhadores na mesma situação de
+inferioridade moral perante os seus superiores.</p>
+
+<p>Ha, felizmente, paizes onde a licença para trabalhar não é já exigida. Na
+explanação d'estes artigos, não nos dirigimos, porém, a este ou áquelle paiz, a
+esta ou áquella localidade: fazemos a critica<span class="pn">{68}</span> geral
+do systema e apreciamos os factos que se assignalam e observam nas modernas
+sociedades.</p>
+
+<p>Na mesma ordem de reformas, entra a abolição dos artigos que estabelecem a
+inferioridade da mulher perante o homem.</p>
+
+<p>Que nos resta então da egualdade perante a lei&mdash;o novo evangelho da
+nova civilisação&mdash;se, na ordem civil assim como na ordem politica,
+continuam a coexistir duas leis differentes, uma para o homem e outra para a
+mulher?</p>
+
+<p>Diz-se, geralmente, que a mulher nasceu para os trabalhos caseiros. Mas essa
+limitação vae desapparecendo de dia para dia. E, hoje, a mulher applica-se a
+muitos outros trabalhos que antigamente só pertenciam aos homens, como correios
+e telegraphos, empregos e serviços dos grandes armazens e dos grandes
+restaurantes, casas de modas, lojas, caminhos de ferro e tantos mais que seria
+longo e superfluo ennumerar aqui.</p>
+
+<p>O socialismo moderno não reconhece distincções fundadas e baseadas sobre os
+sexos. Quer se trate de reuniões quer se trate de congressos, a mulher é
+chamada e eleita, com os mesmos titulos, que o homem. Ao partido
+operario&mdash;que é o partido de todos os explorados, sem distincção de sexo
+nem de raça.&mdash;cabe pois, o dever de se associar ás suas reivindicações.</p>
+
+<p>Art. 2.º&mdash;<i>Suppressão do orçamento dos cultos e regresso á nação dos
+bens, chamados de mão morta, que pertençam ás corporações religiosas,
+comprehendendo todos os annexos industriaes e commerciaes destas
+corporações.</i><span class="pn">{69}</span></p>
+
+<p>Na grande republica dos Estados Unidos da America, a Egreja, ou, para melhor
+dizer, as differentes egrejas nada teem com o Estado. Os cultos constituem,
+naquella nação, uma industria particular, como a industria das rolhas ou a
+industria da cortiça.</p>
+
+<p><i>Paga quem consome.</i></p>
+
+<p>É este o principio, adoptado por todos os publicistas e pensadores da escola
+avançada. A separação da Egreja e do Estado, faz hoje parte de todos os
+programmas radicaes e constitue uma das principaes reivindicações da
+philosophia moderna.</p>
+
+<p>O regresso á nação da propriedade mobiliaria e immobiliaria das corporações
+religiosas, encontrou um precedente na revolução operaria de 18 de Março. Tem,
+alêm d'isso, a vantagem de educar as massas, ensinando-as a rehaver aquillo que
+lhes foi extorquido pela violencia e pela fraude, isto é&mdash;na linguagem do
+programma socialista&mdash;ensinando-as a <i>expropriar os seus
+expropriadores</i>.</p>
+
+<p>Art. 3.º&mdash;<i>Suppressão da divida publica.</i></p>
+
+<p>A divida publica, com effeito, dil-o Karl Marx no seu <i>Capital</i>, «dá ao
+dinheiro improductivo o valor reproductivo, sem que por isso haja de correr os
+riscos e os transtornos inseparaveis do seu emprego industrial ou da usura
+particular.»</p>
+
+<p>A suppressão da divida que o partido operario reclama, aliviaria os
+habitantes de cada paiz de uma grande parte do imposto que, actualmente, são
+obrigados a pagar e constituiria, portanto, um novo rendimento annual para cada
+familia e para cada cidadão.<span class="pn">{70}</span></p>
+
+<p>Art. 4.º&mdash;<i>Abolição dos exercitos permanentes e armamento geral do
+povo.</i></p>
+
+<p>Está hoje provado que os exercitos permanentes, com os progressos das armas
+e dos instrumentos de guerra, e ainda com a rapidez dos telegraphos e dos
+caminhos de ferro que obrigam a uma immediata mobilisação de massas enormes,
+não são garantia sufficiente á defensão efficaz de um paiz. Em geral, os
+governos precisam e servem-se d'elles, não para esmagar o inimigo que lhes
+ultraja a bandeira ou lhes viola as fronteiras, mas para intimidar e reduzir ao
+silencio os adversarios, que, dentro da nação, os perturbam e incommodam. E eis
+ahi está o motivo porque os exercitos, na actualidade, longe de serem um
+elemento de defeza nacional, são, ao contrario, um elemento de defesa, para as
+classes dirigentes, que teem n'elles o seu unico e principal apoio, quando se
+trata de salvaguardar os seus interesses e os seus haveres, ainda que para isso
+seja preciso fuzilar a <i>canalha</i> ou atirar sobre o povo inerme e
+faminto!</p>
+
+<p>O partido operario socialista condemna a guerra, e, por isso, repelle os
+exercitos permanentes. O armamento geral do povo não só traria, como
+consequencia, uma economia para cada paiz, senão ainda desarmaria, por
+completo, a burguezia. A nação armada até ao seu ultimo homem, tornar-se-ha
+mais forte e poderosa do que nunca, e será&mdash;digamol-o
+assim&mdash;inatacavel. Para isso bastará que a instrucção militar complete a
+instrucção scientifica e profissional, assegurada socialmente a todos os
+menores sem distincção; que a espingarda, posta na escola nas<span
+class="pn">{71}</span> mãos de todos, esteja, ao sahir da escola, nas mãos de
+cada um, e que, depois de uma rapida passagem pelas bandeiras, todos os annos
+se realisem as grandes manobras, para manter a cohesão indispensavel, entre
+elementos individualmente superiores, obrigando-os a contrahir o habito das
+operações collectivas.</p>
+
+<p>O poder militar da Suissa, não se apoia n'outras razões e corrobora
+praticamente esta nobre e generosa aspiração.</p>
+
+<p>Art. 5.º&mdash;<i>A communa na posse da sua administração e da sua
+policia.</i></p>
+
+<p>A cummuna é a escola primaria da sciencia politica. É ali que se adquirem as
+primeiras noções de disciplina e os primeiros rudimentos da vida publica.</p>
+
+<p>O partido operario não espera certamente chegar á solução do problema social
+pela simples conquista do poder administrativo na communa. A abolição do
+salariado&mdash;essa escravidão do mundo moderno, peior que a do mundo
+antigo&mdash;não é uma questão communal, mas sim uma questão nacional e
+internacional, e só poderá resolver-se pela posse do poder central ou do
+Estado. Mas é certo que a conquista das communas constitue outros tantos meios
+de recrutamento e de lucta, para a classe proletaria.</p>
+
+<p>No dia em que as communas estiverem na posse da sua administração e da sua
+policia, os conflictos com o poder central tornar-se-hão impossiveis, se todos
+os municipios, comprehendendo a sua missão, se ligarem e federarem, afim de
+constituirem uma liga municipal que poderá e deverá ter uma influencia decisiva
+nos destinos de cada paiz.<span class="pn">{72}</span></p>
+
+<h3><a name="SECTION0031230">PARTE ECONOMICA</a></h3>
+
+<p>Art. 1.º&mdash;a) <i>Repouso de um dia por semana, ou prohibição legal de
+mais de seis dias de trabalho sobre sete.</i></p>
+
+<p>b) <i>Reducção legal do dia de trabalho a oito horas para os adultos.</i></p>
+
+<p>e) <i>Prohibição do trabalho, nas officinas particulares, dos menores com
+menos de quatorze annos, e reducção do dia de trabalho a seis horas, dos
+quatorze aos dezoito annos.</i></p>
+
+<p><i>a)</i> A necessidade de um dia de repouso por semana, é hoje reconhecida
+por todos, e impõe-se como uma questão de moral e de hygiene. Mas não basta
+reconhecel-o. É mister que seja legal a prohibição, estabelecendo-se uma
+penalidade aos patrões que obrigam os seus operarios a trabalhar mais de seis
+dias sobre sete.</p>
+
+<p><i>b)</i> O primeiro congresso da Internacional, o congresso de Genebra de
+1866, estabeleceu «que o dia de trabalho devia ser de oito horas»; por isso
+que, diziam os considerandos, a primeira condição, sem a qual seria baldada
+toda a tentativa de melhoria e de emancipação, é a limitação legal do dia de
+trabalho. Esta limitação impõe-se, afim de restaurar a saude e a energia
+physica dos operarios, assegurando-lhes a possibilidade de um desenvolvimento
+intellectual, de relações sociaes e de uma acção politica. Os operarios dos
+Estados Unidos reclamaram, durante muito tempo, esta limitação, e o Congresso
+adoptou-a como um dos artigos dos programmas<span class="pn">{73}</span>
+governamentaes. O secretario d'Estado do departamento da guerra, no Reino
+Unido, respondendo a John Burns, que, na camara dos communs, pedira
+informações, ácerca da experiencia do dia normal de 8 horas, no arsenal de
+Woolwich, asseverou que o resultado fôra excellente, e que o governo resolvêra
+estabelecer, para todos os arsenaes inglezes, o dia normal de 8 horas.</p>
+
+<p>E ninguem pense que a reducção do dia de trabalho traria, como consequencia,
+a reducção do salario.</p>
+
+<p>O patrão occupa, presentemente, dois operarios, para obter 24 horas de
+trabalho, ou dois dias de 12 horas. Se o dia legal fosse de 8 horas, seria
+forçado a empregar tres. Os operarios sem trabalho voltariam á officina, e,
+aquelles que trabalham, não estando já sob a ameaça de serem substituidos,
+poderiam, sem duvida, aproveitar a situação para exigir e obter um augmento de
+salario. A reducção do dia de trabalho teria, como consequencia necessaria, um
+augmento de salario.</p>
+
+<p><i>c)</i> Nas modernas sociedades, as creanças pertencem aos capitalistas,
+que as arrancam ao lar domestico e ao conchego da familia, para as converterem
+em instrumentos de sordida e desmesurada ganancia. Semelhante facto nunca se
+presenciara, nas sociedades anteriores, ainda mesmo nos peiores tempos da
+escravidão. O menor, condemnado desde tenra edade, ás torturas de dez e doze
+horas de trabalho na officina e na fabrica, e não offerecendo a minima
+resistencia, era ainda mais explorado que o homem e a mulher. E tão
+deshumana<span class="pn">{74}</span> se tornou a exploração que o Estado se
+obrigou a protegel-o contra o patrão e o pae de familia. Este, invocando a
+authoridade paterna permittia-se a liberdade de vender os seus filhos, segundo
+as necessidades da situação; aquelle, invocando a liberdade anarchica da
+sociedade capitalista, arrogava-se o direito de impôr ao menor mais horas de
+trabalho do que geralmente se impõe a um forçado nas galés.</p>
+
+<p>Art. 2.º&mdash;<i>Vigilancia dos aprendizes pelas corporações
+operarias.</i></p>
+
+<p>A aprendizagem, constitue, para os patrões, um meio de ter trabalho sem
+necessidade de o pagar. O aprendiz, a quem nada se ensina, é transformado em
+creado, e ordinariamente empregado nos trabalhos mais grosseiros que os
+operarios se recusam a fazer. Em geral só quando finda a aprendizagem é que o
+trabalhador começa de aprender o seu officio. Para remediar estes males, é
+indispensavel que o aprendiz seja confiado á protecção e á vigilancia das
+corporações operarias.</p>
+
+<p>O aprendizado desapparecerá no dia em que a educação manual se combinar com
+a educação intellectual. Com o desenvolvimento da mechanica e a divisão do
+trabalho, a aprendizagem tende de dia para dia a ser substituida pela
+instrucção geral, ministrada ás creanças nas escolas publicas.</p>
+
+<p>Art. 3.º&mdash;<i>Minimum legal dos salarios, determinado e fixado
+annualmente, segundo o preço dos generos, por uma commissão de estatistica
+operaria.</i></p>
+
+<p>Dizer <i>minimum</i>, o mesmo é que dizer salario que permitta, pelo menos,
+viver trabalhando.</p>
+
+<p>Com o aperfeiçoamento e a generalisação da machina,<span
+class="pn">{75}</span> os salarios diminuiram e tornaram-se insufficientes. O
+excedente que todos os dias vae augmentando da offerta do trabalho sobre a
+procura, fel-os descer ainda abaixo do strictamente indispensavel á alimentação
+quotidiana de cada operario. A fixação de um <i>minimum</i> foi, por isso,
+considerada como um grande progresso.</p>
+
+<p>Esta justa reivindicação, formulou-a, pela primeira vez, Charles Fourier, em
+1831. <i>Viver trabalhando ou morrer combatendo!</i>&mdash;tal era o lemma
+inscripto na bandeira negra dos primeiros revoltados do trabalho, que não
+reclamavam outra cousa senão um <i>minimum</i> de existencia ou de salario, e
+que, por esse principio, se deixaram matar heroicamente, defendendo, até ao
+ultimo sacrificio, os interesses e o futuro da classe trabalhadora.</p>
+
+<p>Desde que, em todos os ramos de trabalho, possa ser determinado, por uma
+estatistica operaria, um <i>minimum</i> de salario, e desde que se torne
+obrigatorio para os patrões, ficará o salariado senhor da mais poderosa das
+armas, para levantar o preço da mão obra.</p>
+
+<p>O <i>minimum</i> de salario não deve ser, para os operarios, senão um meio
+para chegar ao <i>maximum</i>.</p>
+
+<p>Art. 4.º&mdash;<i>Prohibição legal aos patrões de poderem empregar operarios
+estrangeiros por um salario inferior ao dos operarios nacionaes.</i></p>
+
+<p>Ao capitalista, é-lhe indifferente que o operario seja nacional ou
+estrangeiro; o que lhe importa é que o salario seja diminuto.</p>
+
+<p>Os operarios estrangeiros (belgas, allemães, italianos, hespanhoes),
+obrigados a emigrar por causa<span class="pn">{76}</span> da miseria, muitas
+vezes dominados e explorados por engajadores, ignorando a lingua, os preços e
+os costumes do paiz, são condemnados a aceitar as condições que os patrões lhes
+impõem e a trabalhar por salarios que os operarios da localidade regeitam. E
+ainda, em egualdade de circumstancias, preferem os patrões os estrangeiros,
+para evitar resistencias e amotinações.</p>
+
+<p>A 5 de maio de 1880, a <i>Sociedade de Economia politica</i> discutiu as
+vantagens que poderiam advir da substituição dos operarios francezes por
+chinezes. O consul geral dos Estados Unidos, que estava presente á sessão,
+objectou que a introducção dos chinezes era corruptora por causa da sua
+immoralidade e perigosa por causa das miserias e das revoltas operarias que
+d'ahi derivavam.</p>
+
+<p>&mdash;Nada importa!&mdash;responderam severamente os economistas francezes:
+«O chinez é muito trabalhador, vive de quasi nada, contentando-se com um modico
+salario. Na California, onde um branco exige 10 fr. por dia, o chinez
+contenta-se com 2 fr. 50. Que venham os bons chinezes, e tanto peior para os
+operarios francezes, se isso os incommoda. Talvez a lição lhes aproveite!»</p>
+
+<p>O dr. Lunier (inspector geral dos serviços administrativos no ministerio do
+interior) observava que a vinda dos chinezes não estava tão longe como se
+suppunha: «É provavel que, em breve, a emigração chineza possa fazer-se por
+terra, e que tenhamos então de assistir a emigrações, que trarão á nossa velha
+Europa a sua sobriedade, a sua paciencia no trabalho, e, como consequencia, a
+mão d'obra barata.»<span class="pn">{77}</span></p>
+
+<p>A isso e só a isso, aspiram os patrões; e a prohibição legal de poderem
+empregar operarios estrangeiros, por um salario inferior aos dos operarios
+nacionaes, deriva não só de um principio de moralidade, para evitar a
+exploração até aqui seguida, senão tambem da protecção que á lei deve merecer o
+trabalho nacional.</p>
+
+<p>Art. 5.º&mdash;<i>Egualdade de salario, em egual trabalho, para os
+trabalhadores dos dois sexos.</i></p>
+
+<p>O partido operario, assim como não pede a expulsão dos estrangeiros, não
+reclama tambem a prohibição do trabalho para a mulher, nas fabricas ou nas
+officinas. O que pede e reclama para a mulher, para a operaria, é a protecção a
+que ella tem direito tanto como o homem; o que pede e reclama é que a um
+trabalho egual corresponda egualdade de salario para todos os trabalhadores,
+sem distincção de sexo.</p>
+
+<p>O motor mechanico, tornando a mulher tão apta, como o homem, para a maior
+parte dos trabalhos, permitte hoje, nas fabricas e officinas, o emprego do
+braço feminino, em substituição da antiga força muscular. Não foi a falta do
+braço masculino que provocou a <i>industrialisação</i> da mulher: foi sim! a
+desmedida ambição do patrão de obter a mesma somma de trabalho por um salario
+muito inferior. De modo que a operaria foi inventada, por um lado, para
+augmentar os proventos dos patrões, e, por outro lado, para reduzir o operario
+á fome.</p>
+
+<p>É mister acabar com semelhante abuso, tornando a operaria egual ao operario,
+e não a sua concorrente.<span class="pn">{78}</span></p>
+
+<p>Para que a mulher seja senhora de si mesmo, para que recobre a liberdade do
+seu corpo, fóra da qual não ha senão prostituição, qualquer que seja a
+legalidade das relações que possa ter com o outro sexo, é mister que ella
+encontre em si os meios de subsistencia, independentemente do homem.</p>
+
+<p>Art. 6.º&mdash;<i>Instrucção scientifica e profissional de todas as
+creanças, á custa da sociedade, representada pelo Estado e pela communa.</i></p>
+
+<p>Do direito á existencia, deriva logicamente o direito ao trabalho, e d'este
+a obrigação, para o Estado e para a communa, de ministrar gratuitamente a todas
+as creanças, sem distincção de sexo, a instrucção scientifica e
+profissional.</p>
+
+<p>Para trabalhar, é preciso saber e poder trabalhar, e d'ahi se conclue, por
+um lado, a necessidade da instrucção, e, por outro lado, a necessidade não
+menos instante para o operario, de chegar á posse dos instrumentos de
+producção.</p>
+
+<p>Lepelletier Saint-Fargeau comprehendêra perfeitamente estes principios,
+quando, a 15 de julho de 1793, submetteu á Convenção um projecto de lei, assim
+concebido:</p>
+
+<p>«Art. 1.º&mdash;Todas as creanças serão educadas á custa da
+Republica,&mdash;as do sexo masculino da edade dos cinco aos doze annos e as do
+sexo feminino dos cinco aos onze.</p>
+
+<p>«Art. 2.º&mdash;A educação nacional será egual para todos; recebendo todos a
+mesma alimentação, o mesmo vestuario, a mesma instrucção e os mesmos
+cuidados.»</p>
+
+<p>O trabalho do homem é tanto mais productivo<span class="pn">{79}</span>
+quanto a sua intelligencia fôr mais cultivada<a name="tex2html16"
+href="#foot1423"><sup>[2]</sup></a>. O trabalho de um homem ignorante não vale
+mais do que o <i>trabalho de um animal de egual força</i>.</p>
+
+<p>A monomania do emprego publico é um resultado da falta de ensino
+profissional. Em Portugal, a burocracia absorve a maior parte das receitas
+publicas, precisamente porque são poucos aquelles que se acham habilitados a
+trabalhar.</p>
+
+<p>Não basta só que as escolas ensinem a lêr: é mister tambem que ensinem a
+trabalhar, isto é que, a par do pão do espirito, se ministre egualmente a todos
+o pão do corpo.</p>
+
+<p class="centrado">*</p>
+
+<p class="centrado">*      *</p>
+
+<p>Art. 7.º&mdash;<i>Manutenção pela sociedade dos velhos e invalidos do
+trabalho.</i></p>
+
+<p>O trabalhador produz mais do que consome. Encarregando-se dos velhos e
+invalidos do trabalho, a sociedade não faz senão retribuir aos operarios
+aquillo que lhes é devido. É justo que um homem que passou a sua vida a vestir,
+a calçar e a alimentar os seus semelhantes e a construir as suas habitações,
+tenha tambem o vestuario, a casa e o alimento assegurados, quando, em
+consequencia da edade ou de qualquer enfermidade, não se encontre já apto para
+trabalhar.</p>
+
+<p>O ultimo codigo feudal da Russia, de 1795, estatuia o seguinte: «O senhor
+deve fazer ministrar a<span class="pn">{80}</span> educação a todos os
+camponezes pobres, procurando tambem os meios de existencia áquelles dos seus
+vassalos que não possuem terras e soccorrendo os que cahirem na indigencia.»</p>
+
+<p>O servo transformou-se em salariado, e a liberdade burgueza deixou o
+operario, sem garantias, entregue ás exigencias do seu estomago e á mercê dos
+caprichos da fortuna. O militar e o funccionario do Estado teem direito a
+reformas e aposentações. O empregado do commercio succede muitas vezes ao
+patrão. Só ao operario, só áquelle que passou a sua vida a enriquecer os seus
+semelhantes, é recusado o direito que se concede aos demais membros da
+sociedade, isto é o direito de viver. Não lhe basta a incerteza de encontrar
+trabalho: ainda para mais lhe negam o que os senhores feudaes não negavam aos
+seus servos&mdash;a protecção na velhice e na doença. E eis ahi está porque o
+partido operario, não só por dever de humanidade, senão ainda por dever de
+solidariedade, inscreveu este artigo no seu programma.</p>
+
+<p class="centrado">*</p>
+
+<p class="centrado">*      *</p>
+
+<p>Art. 8.º&mdash;<i>Suppressão de toda a ingerencia dos patrões na
+administração das caixas operarias de soccorros, de previdencia, etc.,
+restituindo-as á gestão exclusiva dos operarios.</i></p>
+
+<p>Na grande industria que multiplicou os riscos do trabalho, os patrões
+obrigam geralmente os operarios a tirarem, no fim de cada semana, uma
+certa<span class="pn">{81}</span> quantia dos seus magros salarios, para
+fazerem face solidariamente aos accidentes, á doença e á velhice. As grandes
+companhias de caminhos de ferro e minas chegaram mesmo a instituir um fundo,
+destinado a uma caixa, com essa applicação. Comprehende-se a tactica. Quanto
+mais os salariados estiverem no caso de se soccorrerem mutuamente, tanto menos
+terão os patrões de dispender com elles.</p>
+
+<p>As caixas são, na sua quasi totalidade, sustentadas com o dinheiro dos
+operarios. Mas os proprietarios e capitalistas, no intuito de fiscalisarem
+esses fundos da <i>previdencia e da solidariedade operaria</i>, chamam a si a
+gerencia e a administração das referidas caixas, concorrendo tambem com uma
+parte, para o mesmo fim. O que os patrões desejam é evitar, por esta fórma, que
+os trabalhadores possam servir-se d'esse dinheiro, empregando-o n'uma
+<i>gréve</i> ou em qualquer cousa que possa contrariar os seus interesses ou os
+da sua industria.</p>
+
+<p>É indispensavel que o proletariado se emancipe de semelhante tutella,
+transformando o fundo das caixas operarias num poderoso instrumento de
+emancipação social.</p>
+
+<p>Art. 9.º&mdash;<i>Responsabilidade dos patrões em materia d'accidentes,
+garantida por uma caução em dinheiro, e proporcional ao numero dos operarios
+empregados e aos perigos que a industria apresente.</i></p>
+
+<p>Este artigo traduz um principio de justiça, e representa uma compensação
+para todos os que, no trabalho, expõem a vida e arriscam a saude. Quem, nas
+grandes empresas, aufere os grandes lucros e os enormes proventos, é o
+capitalista e o proprietario.<span class="pn">{82}</span> É justo pois, que, em
+caso d'accidente, sejam elles os responsaveis, indemnisando e garantindo, por
+meio de uma caução, os que affrontaram o perigo, para os enriquecer e
+locupletar. Em caso de desastre, occorrido nas fabricas e nas officinas, o
+invalido, a viuva e o orphão teem direito a serem amparados e protegidos; e
+esse amparo e essa protecção não pode exigir-se senão áquelles que foram a
+origem, embora indirecta, do seu infortunio, e que, muitas vezes, pelo seu
+desleixo e pela sua desmesurada ganancia, contribuiram poderosamente para esses
+tristes e dolorosos acontecimentos.</p>
+
+<p>A indemnisaçao a pagar seria, n'este caso, lançada na caixa operaria, e
+avaliada por um jury escolhido na corporação. Só os proprios operarios seriam
+capazes de avaliar o que custa e o que vale, para o trabalhador, a perda de um
+braço, a perda de uma perna ou a perda de uma vida.</p>
+
+<p>Quem nunca visitou uma mina, não sabe o que é o risco no trabalho. Superior
+á rhetorica dos economistas está a realidade das cousas. Que todos os que nos
+lêem se dignem, um dia, descer a uma mina, e que nos digam depois, se não
+assiste ao operario o direito sagrado de reclamar uma indemnisaçao, em caso
+d'accidente, áquelle por quem se sacrificou, e que locupletou, sem outra
+compensação, alêm de um salario diario representando o stritamente
+indispensavel para não morrer de fome?!</p>
+
+<p class="centrado">*</p>
+
+<p class="centrado">*      *</p>
+
+<p>Art. 10.º&mdash;<i>A intervenção dos operarios nos regulamentos<span
+class="pn">{83}</span> especiaes das differentes officinas; suppressão do
+direito usurpado pelos patrões de poderem castigar os operarios, por meio de
+multas ou de reducções nos salarios.</i></p>
+
+<p>A intervenção dos operarios nos regulamentos especiaes das differentes
+officinas é uma salvaguarda á dignidade e á saude da classe trabalhadora.
+Muitas vexações inuteis serão supprimidas por este meio; muitas medidas
+hygienicas, hoje despresadas ou recusadas pelo fabricante, serão postas em
+pratica, no interesse da collectividade.</p>
+
+<p>Sob a fórma de multas, que se traduziam na retenção de uma parte do salario,
+o patrão abusava, muitas vezes, do operario, trazendo-o debaixo de um jugo de
+ferro, feroz e insupportavel. O patrão não pode arvorar-se em juiz, adoptando o
+codigo penal que muito bem lhe aprouver para multar o operario ou condemnal-o,
+segundo os caprichos da sua vontade.</p>
+
+<p>A justiça é fundada sobre uma delegação social. O direito moderno não
+admitte outra; porque o contrario seria o despotismo, o abuso, a fraude e a
+violencia. E é por isso que se justifica e se torna indispensavel a intervenção
+dos operarios nos regulamentos especiaes das differentes
+officinas&mdash;precisamente para que o patrão fique reduzido á sua esphera de
+acção, e impossibilitado de vexar os trabalhadores, por meio de penalidades,
+que, alêm de uma tyrannia e de uma brutalidade sem nome, representam para o
+capitalista, um interesse e um beneficio.<span class="pn">{84}</span></p>
+
+<p class="centrado">*</p>
+
+<p class="centrado">*      *</p>
+
+<p>Art. 11.º&mdash;<i>Annulação de todos os contractos que hajam alienado a
+propriedade publica (bancos, caminhos de ferro, minas, etc.), e a exploração de
+todas as officinas do Estado, confiadas aos operarios que n'ellas
+trabalharem.</i></p>
+
+<p>O partido operario pede a annulação, pura e simples, dos contractos que teem
+permittido a um bando de capitalistas de se locupletarem, á custa da nação. O
+partido operario pede essa annulação, não para que o Estado, entrando na posse
+das minas, dos caminhos de ferro e dos bancos, e tornando-se, por sua vez,
+productor, os explore, em seu proveito, como tem succedido com os correios e
+telegraphos, com a moeda, com os tabacos e outros serviços publicos, de que faz
+monopolio, mas sim, para confiar a sua exploração aos operarios, encarregados
+d'esses trabalhos.</p>
+
+<p>O programma socialista pede que a exploração das officinas do Estado seja
+confiada aos operarios, que n'ellas trabalharem, com o duplo fim de melhorar a
+sua triste situação e de provar experimentalmente, que, pela sua propria
+iniciativa e responsabilidade, estão aptos para emprehender a referida
+exploração.</p>
+
+<p>Sobre este assumpto divergem as escolas. São uns de opinião que todos os
+serviços publicos devem ficar a cargo do Estado e da communa; outros porém,
+sustentam que a absorpção gradual das industrias particulares pelo Estado
+augmentaria sensivelmente<span class="pn">{85}</span> o numero dos salariados
+que o mesmo Estado explora. Teremos occasião de voltar ao assumpto no ultimo
+capitulo d'esta obra.</p>
+
+<p class="centrado">*</p>
+
+<p class="centrado">*      *</p>
+
+<p>Art. 12.º&mdash;a) <i>Abolição de todos os impostos indirectos e
+transformação dos impostos directos n'um imposto progressivo sobre os
+rendimentos que forem alêm de 3:000 francos.</i></p>
+
+<p>b) <i>Suppressão da herança em linha collateral e de toda a herança em linha
+directa que exceda a somma de 20.000 francos.</i></p>
+
+<p>Nas sociedades burguezas, o imposto é um encargo a que tem de sujeitar-se
+todo o cidadão, afim de garantir a sua pessoa e a sua propriedade. Ha duas
+especies de imposto&mdash;o imposto pessoal, ou imposto de sangue que todo o
+cidadão tem de satisfazer pelo serviço militar, e o imposto impessoal que
+satisfaz pelo abandono e entrega de uma parte dos seus rendimentos.</p>
+
+<p>Para ser equitativa a distribuição do imposto, todo o cidadão deveria ser
+soldado e abandonar ao Estado uma parte do seu rendimento, progressivamente, e
+proporcional á sua quantidade. Se o que possue 100 fr. paga 10 fr., o que
+possue 1000 deverá pagar 200 fr., e o que possue um milhão, 400.000 fr.</p>
+
+<p>Os impostos indirectos que recahem sobre os generos de consumo (pão, vinho,
+vestuario, etc.) obstam a que seja equitativa a sua distribuição. Por<span
+class="pn">{86}</span> exemplo: o operario que come por dia 1 kilo de pão paga
+duas vezes mais imposto do que o capitalista que come apenas meio kilo.</p>
+
+<p>O imposto indirecto é um meio jesuitico, inquisitorial, de depennar e de
+reduzir á miseria o operario, sem que elle d'isso se aperceba.</p>
+
+<p>Os ricos repellem o imposto progressivo que os obrigaria a pagar na
+proporção dos seus rendimentos; o imposto indirecto favorece-os de um modo
+escandaloso, e eis ahi está o motivo porque o defendem e applaudem.</p>
+
+<p>A abolição dos impostos indirectos e a creação de um imposto progressivo
+sobre o rendimento, reduziria seguramente o preço dos generos. A remodelação e
+transformação do imposto, seria para o operario a melhoria das suas condições
+de existencia. O augmento, nos impostos indirectos, tem-se traduzido
+praticamente por um augmento na mortalidade. A creação do imposto progressivo
+poder-se-hia traduzir por um augmento na alimentação e na vida das classes
+trabalhadoras.</p>
+
+<p>A Convenção havia estabelecido um imposto gradual e progressivo sobre o luxo
+e sobre todas as riquezas. Mas não teve tempo para o applicar.</p>
+
+<p>Montesquieu, e todos os economistas orthodoxos, como Adão Smith, J. B. Say e
+Rossi, pronunciaram-se pelo imposto progressivo. J. B. Say e Rossi,
+affirmaram-n'o claramente nas seguintes palavras: «Não deixaria de ser razoavel
+que os ricos contribuissem para as despezas do estado, na proporção do seu
+rendimento, e ainda com mais alguma cousa alêm d'essa proporção.»<span
+class="pn">{87}</span></p>
+
+<p>Na Suissa está o imposto progressivo em vigor na maioria dos cantões. Mas
+nem só a republica o perfilha e o applica. Tambem a real Inglaterra e a
+imperial Allemanha acceitaram e introduziram o imposto progressivo, no seu
+systema de impostos directos.</p>
+
+<p><i>b)</i> A herança estabelece, na sociedade, um privilegio e uma
+desegualdade revoltante. A sua suppressão impõe-se, e, se não completamente,
+pelo menos parcialmente. Em virtude da herança, a instrucção, a educação, o
+gôzo, o bem estar contituem o privilegio dos favorecidos da fortuna. O pobre, o
+infeliz que não herdou, tem de subjeitar-se aos caprichos do acaso e á lei do
+seu destino. O partido socialista quer a suppressão da herança em linha
+collateral, restringindo-a e limitando-a a 20.000 francos na linha directa.</p>
+
+<p>N'outra parte diremos a que seria applicado o excedente das heranças, desde
+que ultrapassassem esta somma.</p>
+
+<p class="centrado">*</p>
+
+<p class="centrado">*      *</p>
+
+<h2><a name="SECTION0031300">O PROGRAMMA DO PARTIDO SOCIALISTA EM
+PORTUGAL</a></h2>
+
+<p>A titulo de curiosidade, publicamos, em seguida, o primeiro programma dos
+socialistas portuguezes, desde que se contituiram em partido. É um documento,
+por muitos titulos, importante, e que merece ser lido e apreciado pelo publico.
+A sua approvação data do 1.º congresso socialista, realisado em<span
+class="pn">{88}</span> Lisboa, nos principios de 1877, tendo sido elaborado,
+após o celebre congresso de Haya, onde Portugal esteve representado por
+Lafargue.</p>
+
+<p>Vigorou até 1882, anno em que se celebrou n'esta capital uma conferencia dos
+delegados de Lisboa e Porto, sendo então substituido pelo actual programma que,
+ordinariamente se publica na quarta pagina do <i>Protesto Operario</i>.</p>
+
+<p class="centrado">*</p>
+
+<p class="centrado">*      *</p>
+
+<h3><a name="SECTION0031310">Programma transitorio do partido socialista em
+Portugal</a></h3>
+
+<div style="font-size: 0.8em;">
+<p>O trabalho é a condição de existencia de todos os individuos.</p>
+
+<p>Todos teem o dever de trabalhar imposto pela natureza.</p>
+
+<p>Com os productos do trabalho de todos deve subsistir a sociedade, e com os
+productos do trabalho da sociedade, effeituado por todos, deve subsistir cada
+individuo.</p>
+
+<p>A massa do trabalho da sociedade, que deve constituir a sua riqueza, deve
+constituir a propriedade social, commum ou publica.</p>
+
+<p>A parte do trabalho de cada individuo constitue a sua riqueza, e a riqueza
+do individuo deve constituir a propiedade individual.</p>
+
+<p>Sendo a propriedade social por natureza commum, ou publica, a propriedade
+individual deve ser privada ou pessoal.</p>
+
+<p>Tambem devem ser communs, ou publicas, as riquezas naturaes, não creadas
+pela sociedade, nem pelos individuos.</p>
+
+<p>Taes são as condições de existencia da sociedade justa, isto é, em que todos
+os individuos subsistem pelo seu proprio trabalho, e em que a sociedade
+subsiste pelo trabalho de todos; em que o producto do trabalho de cada
+individuo é propriedade sua, e em que o producto do trabalho de todos, ou<span
+class="pn">{89}</span> da natureza, não é propriedade de alguem, mas sim da
+sociedade toda.</p>
+<hr style="width: 30%;">
+
+<p>A constituição da sociedade injusta é differente.</p>
+
+<p>Na sociedade injusta os individuos não subsistem todos pelo seu proprio
+trabalho, e a sociedade não subsiste pelo trabalho de todos.</p>
+
+<p>Uma parte da sociedade trabalha para si e para a outra parte que não
+trabalha, produzindo os meios de subsistencia de todos os individuos.</p>
+
+<p>Um individuo trabalha como dois e mais, ou o duplo, ou pela metade do preço
+e por menos, para produzir os meios de subsistencia dos individuos que os não
+produzem.</p>
+
+<p>Os meios de subsistencia, em que consiste toda a especie de propriedade, são
+produzidos por uma parte dos individuos, e apropriados pela outra, que os não
+produz.</p>
+
+<p>A riqueza, ou a propriedade, é o producto do trabalho de todos os individuos
+accumulado na mão de alguns.</p>
+
+<p>Os productores, ou creadores, da propriedade individual e publica não
+possuem mesmo a parte com que subsistem. Esta parte é-lhes vendida, ou
+arrendada, pelos proprietarios, que accumulam mais productos do trabalho alheio
+por meio das transacções mercantes, isto é, das transacções da propriedade
+transformada em mercadorias.</p>
+
+<p>D'este modo se constitue a sociedade com proprietarios e não proprietarios,
+com os possuidores da propriedade de todos os individuos e com os não
+possuidores, que a produzem.</p>
+
+<p>A sociedade consta assim de duas classes: a dos ricos e a dos pobres ou
+proletarios, a superior e a inferior, a dominadora e a dependente ou
+salariada.</p>
+
+<p>Os proprietarios industriosos occupam-se em fazer trabalhar os proletarios
+na agricultura, na fabricação e na manufactura dos meios de subsistencia, isto
+é, da propriedade transformada em mercadorias como objecto de commercio, de
+viação e de jogo.</p>
+
+<p>A classe dos proletarios, ou miseraveis, conta tambem milhares de individuos
+que não produzem: taes são os mendigos<span class="pn">{90}</span> e os
+defensores salariados da propriedade, escolhidos pelo estado de entre os mais
+vigorosos, para que não a tomem aquelles que a produzem. Estes subjugam-se a si
+e a seus eguaes.</p>
+
+<p>A sociedade injusta subsiste só pela violencia, isto é, uma parte da
+sociedade arranca violentamente á outra a sua propriedade.</p>
+
+<p>A violencia existe sem manifestar-se, por ter sido no principio das
+sociedades policiadas estabelecida pela força, depois attestada pelas leis,
+depois acceita e transmittida por costume, pelas mesmas leis e pela mesma
+força.</p>
+<hr style="width: 30%;">
+
+<p>Na epoca actual os proletarios, obrigados pela necessidade, constituem a sua
+classe de salariados, determinados a fazerem da associação um poder, que
+modifique as violencias dos proprietarios industriosos, pela proposição e
+estabelecimento de condições, taes como:</p>
+
+<p>1.ª Estabelecimento do dia normal de trabalho, egual quanto possivel em
+todos os officios e em todas as estações;</p>
+
+<p>2.ª Diminuição do tempo de trabalho;</p>
+
+<p>3.ª Elevação dos salarios;</p>
+
+<p>4.ª Salubridade e segurança dos logares onde se executa o trabalho;</p>
+
+<p>5.ª Melhoramentos particulares, tanto dos salarios como do tempo de
+trabalho, para os que exercem officios de sua natureza penosos e insalubres;</p>
+
+<p>6.ª Extincção do trabalho de jornal nos officios em que fôr applicavel o
+estabelecimento de tabellas de preços dos trabalhos;</p>
+
+<p>7.ª Extincção das categorias nos officios, taes como: ajudantes e serventes,
+devendo considerar-se as divisões do trabalho não como categorias, mas como
+ramos e especies do mesmo trabalho;</p>
+
+<p>8.ª Abolição dos regulamentos das fabricas e manufacturas, como especie que
+é de contrato unilateral, em que são partes os proprietarios e os miseraveis,
+tendo os proprietarios,<span class="pn">{91}</span> como teem, liberdade de
+acção para despedir os trabalhadores e appellar para as leis nos casos de
+attentados;</p>
+
+<p>9.ª Egualdade do tempo de trabalho e dos salarios das mulheres e dos
+homens;</p>
+
+<p>10.ª Exclusão das creanças das fabricas e manufacturas, e relação do tempo
+de trabalho dos menores com a sua idade;</p>
+
+<p>11.ª Abolição do tempo determinado de aprendizagem, e prohibição de outros
+misteres estranhos a cada officio;</p>
+
+<p>12.ª Estabelecimento e eleição de commissões de exame e vigilancia compostas
+de officiaes, que julguem da aptidão dos aprendizes em periodos determinados e
+curtos;</p>
+
+<p>13.ª Egualdade de tratamento para os aprendizes, como individuos racionaes,
+evitando-se assim a educação aviltante que lhes incutem os costumes da
+obediencia passiva;</p>
+
+<p>14.ª Extincção dos signaes exteriores de obediencia e submissão, como
+improprios da natureza humana;</p>
+
+<p>15.ª Exclusão dos proprietarios e seus representantes das sociedades de
+trabalhadores, taes como: monte-pios, cooperativas, de recreio, instrucção e
+outras, com o fim de evitar a dominação e o servilismo.</p>
+<hr style="width: 30%;">
+
+<p>Ao mesmo tempo os proletarios, tendo conhecimento da situação politica da
+sociedade, constituem-se em partido politico, determinados a crearem um poder,
+que modifique as violencias politicas da classe dominante, fazendo tambem
+representar nos poderes do estado os seus interesses de classe, excluidos das
+instituições politicas e civis.</p>
+
+<p>O movimento politico da classe dos proletarios é transitorio. Existirá em
+quanto existirem classes, subordinando-se ás circumstancias e necessidades
+occorrentes.</p>
+
+<p>Presentemente, o modo de effeituar o movimento politico dos proletarios
+consiste em modificar o poder legislativo, pela substituição dos individuos que
+o compõem, e que representam sómente a classe e os interesses da classe
+proprietaria.</p>
+
+<p>O pensamento, a aspiração, o fim, do movimento dos proletarios constituidos
+em classe e em partido, é a implantação<span class="pn">{92}</span> e a
+constituição da sociedade justa. A este movimento tudo é subordinado, inferior
+e transitorio.</p>
+
+<p>Os proletarios de todas as nações civilisadas, constituindo a associação
+internacional dos trabalhadores, da qual nos declaramos um ramo, effeituam o
+mesmo movimento, e em cada uma organisam-se e procedem conformes ás
+instituições politicas.</p>
+
+<p>Em Portugal, onde os poderes politicos são constituidos publicamente, os
+proletarios procedem dentro das instituições para realisarem o seguinte:</p>
+
+<p class="centrado">1.º</p>
+
+<p>Instituição dos municipios.</p>
+
+<p><i>a)</i> Constituição dos municipios com todos os contribuintes da sua
+circumscripção.</p>
+
+<p>Divisão dos municipios em circulos administrativos, e constituição d'estes
+com todos os contribuintes da sua circumscripção.</p>
+
+<p>Serem contribuintes todos os individuos maiores que exerçam alguma
+profissão.</p>
+
+<p><i>b)</i> Celebração de sessões periodicas, tanto nos municipios como nos
+circulos, onde os contribuintes, constituidos em assembléas, proponham,
+discutam e resolvam os respectivos interesses publicos.</p>
+
+<p><i>c)</i> Creação de corpos gerentes, tanto dos municipios como dos
+circulos, por eleição dos contribuintes nas assembléas respectivas.</p>
+
+<p>Responsabilidade individual dos membros dos corpos gerentes municipaes e dos
+circulos perante as assembléas respectivas, e sua sujeição á justiça commum.</p>
+
+<p><i>d)</i> Elaboração dos recenseamentos dos contribuintes, tanto dos
+circulos como dos municipios, pelos corpos gerentes respectivos.</p>
+
+<p>Validação dos recenseamentos municipaes para todos os effeitos civis e
+politicos, publicos e privados.</p>
+
+<p><i>e)</i> Administração dos rendimentos dos municipios feita pelos
+municipios, e a dos circulos feita pelos circulos, sem dependencia<span
+class="pn">{93}</span> de poderes centraes, nem de regulamentos, nem de corpos
+e auctoridades superiores.</p>
+
+<p><i>f)</i> Integração dos municipios na administração das suas escolas, dos
+hospitaes, cadeias, vias publicas, correios e telegraphos, da sua
+circumscripção.</p>
+
+<p><i>g)</i> Repartição e cobrança das contribuições publicas feitas pelos
+municipios, e as d'estes pelos circulos ou pelos gremios de profissões.</p>
+
+<p>Concurso e ordenados fixos para todos os officiaes de fazenda, effeituados
+por cada municipio.</p>
+
+<p>Installação das repartições de fazenda nos edificios municipaes.</p>
+
+<p>Responsabilidade dos officiaes de fazenda perante as assembléas respectivas,
+e sua sujeição á justiça commum.</p>
+
+<p><i>h)</i> Provisão dos officios de juizes e seus escrivães, tanto do civel
+como do crime, por concurso aberto pelos municipios respectivos.</p>
+
+<p>Eleição dos jurados.</p>
+
+<p>Nomeação dos officiaes de justiça subalternos pelos juizes e jurados.</p>
+
+<p>Fixação dos vencimentos de todos os officiaes de justiça, tanto superiores
+como subalternos, pagos por cada municipio.</p>
+
+<p>Installação dos tribunaes de justiça em edificios municipaes.</p>
+
+<p>Responsabilidade dos officiaes de justiça perante as assembléas, e sua
+sujeição á justiça commum.</p>
+
+<p><i>i)</i> Instituição da policia municipal, regida e paga por cada
+municipio.</p>
+
+<p><i>j)</i> Estabelecimento de escolas de ensino technico de artes e officios,
+tanto ruraes como fabris, nos municipios, geridas e sustentadas por elles.</p>
+
+<p><i>m)</i> Alimentação, vestuario e objectos de ensino dados pelos municipios
+aos menores miseraveis que frequentem as escolas.</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&mdash;Consequencias:</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>Abrogação do codigo administrativo, e sua substituição por<span
+class="pn">{94}</span> disposições geraes no codigo fundamental, isto é,
+substituição de leis por instituições, que estabeleçam e garantam as liberdades
+politicas, publicas e individuaes, pela extincção das camaras municipaes, das
+juntas geraes, dos conselhos de districto, dos governos civis, das
+administrações dos concelhos, das regedorias e das juntas de parochia.</p>
+
+<p class="centrado">2.º</p>
+
+<p>Conformação dos codigos civil, commercial, judicial e penal com as
+disposições de egualdade civil e politica estatuidas no codigo fundamental,
+abrogando-se no civel a parte que regula as condições da servidão e todos os
+contratos unilateraes.</p>
+
+<p>Revisão periodica dos codigos.</p>
+
+<p>Abolição do juramento, tanto no fôro politico, como no civil, judicial e
+militar.</p>
+
+<p class="centrado">3.º</p>
+
+<p>Constituição do poder legislativo com os delegados representantes de cada
+municipio, eleitos nas assembléas dos circulos pelos seus contribuintes.</p>
+
+<p class="centrado">4.º</p>
+
+<p>Abolição do recrutamento e das matriculas maritimas.</p>
+
+<p>Serviço militar voluntario.</p>
+
+<p>Sujeição dos militares ás leis e aos tribunaes communs nos casos de offensas
+de direitos civis e politicos.</p>
+
+<p class="centrado">5.º</p>
+
+<p>Reducção de todas as contribuições, tanto para o estado como para os
+municipios, a uma unica, directa.</p>
+
+<p>Extincção immediata das barreiras, estabelecendo a livre circulação dos
+generos alimenticios.</p>
+
+<p>Creação de bilhetes de contribuição divisiveis e vendaveis como os sellos,
+para que todos possam opportunamente compral-os durante o anno e pagarem assim
+a sua contribuição.<span class="pn">{95}</span></p>
+
+<p class="centrado">6.º</p>
+
+<p>Extincção dos privilegios a companhias e associações. Rescisão de seus
+contratos com o estado, e sua sujeição e de seus membros á justiça commum.</p>
+
+<p class="centrado">7.º</p>
+
+<p>Extincção dos privilegios, subsidios ou mercês, subvenção ou intervenção do
+estado e dos municipios a individuos, a empresas, a estabelecimentos e a
+instituições industriaes, scientificas, litterarias e religiosas.</p>
+
+<p class="centrado">8.º</p>
+
+<p>Taxação de todos os serviços publicos ao estrictamente necessario para o
+custeamento das suas despezas correntes.<span class="pn">{96}</span> <span
+class="pn">{97}</span></p>
+</div>
+
+<h1><a name="SECTION0032000">III <br>
+A COOPERAÇÃO DOS TRABALHADORES</a> </h1>
+
+<h3 class="sinopse"><a name="SECTION0032010">C<small>OOPERAÇÃO E
+SOLIDARIEDADE.&mdash;</small>I<small>NSTRUCÇÃO E ASSOCIAÇÃO.&mdash;</small>O
+<small>INTERNACIONALISMO.&mdash;</small>A<small>S COOPERAÇÕES OPERARIAS E
+ALGUNS DOS SEUS MAIS DEDICADOS E FERVOROSOS
+APOSTOLOS.&mdash;-</small>C<small>ESAR DE</small> P<small>AEPE,</small>
+A<small>NSEELE,</small> J<small>EAN </small>V<small>OLDERS,</small>
+L<small>OUIS</small> B<small>ERTRAND.</small></a></h3>
+
+<p>A solidariedade operaria não é senão um resultado da cooperação. Disse-o
+Cesar de Paepe, num discurso eloquentissimo, pronunciado no congresso
+internacional cooperativo de Paris.</p>
+
+<p>«Não ha, na Belgica, um Lassalle e um Schultze inimigos, exclamava o
+illustre chefe do socialismo belga; ha sim! um partido operario que é, ao mesmo
+tempo, cooperativista, republicano e socialista.»</p>
+
+<p>E accrescentou:</p>
+
+<p>«Os cooperadores belgas associaram-se sempre ás manifestações em favor do
+suffragio universal.</p>
+
+<p>«As nossas sociedades cooperativas não têem por fim realisar interesses para
+alguns individuos, senão, ao contrario, desenvolver os sentimentos de
+solidariedade entre os seus membros.»<span class="pn">{98}</span></p>
+
+<p>A cooperação dos trabalhadores póde e deve tomar-se em dois sentidos
+differentes: um sentido restricto e um sentido amplo e generico. No primeiro
+caso, a cooperação limita-se a explorar as cooperativas sociaes, quer sejam as
+de producção, quer sejam as de consumo, quer sejam as de credito. No segundo
+caso, a cooperação estende-se alêm das fronteiras e affirma-se pelo principio
+da solidariedade de classe, no combate quotidiano contra o capitalismo e o
+industrialismo, em favor das reivindicações operarias.</p>
+
+<div class="imagem">
+<p><a name="img_pag098"></a><img src="images/pag098.png" alt="Cesar de Paepe"
+width="100%" align="top" border="0"></p>
+</div>
+
+<p>Do mesmo modo que para todo o cidadão ha duas patrias&mdash;a patria onde
+cada um exerce a sua actividade e essa outra grande patria, a que estamos
+vinculados pelos nossos ideaes e pelas nossas aspirações, que se chama
+humanidade; assim tambem a cooperação dos trabalhadores tem de ser, ao mesmo
+tempo, nacional e internacional: nacional pela affirmação da solidariedade
+operaria, em cada<span class="pn">{99}</span> paiz, e internacional pela
+affirmação da solidariedade com os companheiros de todos os paizes, de todas as
+raças, de todas as religiões e de todas as linguas.</p>
+
+<p>Da legislação internacional do trabalho, fizeram os socialistas o artigo 1.º
+do seu programma. O internacionalismo manifesta-se, a cada passo, nas relações
+entre os povos. A facilidade de communicações tem concorrido
+extraordinariamente para isso. Mas ao facto material da rapidez nas viagens,
+devemos juntar o facto moral da transformação, realisada nos velhos processos
+politicos e da corrente, cada vez mais intensa e cada vez mais poderosa, das
+idéas modernas.</p>
+
+<p><i>Proletarios de todo o mundo, uni-vos!</i> Era esta a divisa de Karl Marx,
+e é esta a divisa do socialismo revolucionario.</p>
+
+<p>Mas a verdadeira união só poderá conseguir-se pelas associações de classe.
+No dia em que o proletariado tiver realisado este grande e supremo
+<i>desideratum</i>, n'esse dia terá soado a hora da sua emancipação. E deante
+do formidavel exercito, não haverá nem canhões Krupp nem espingardas
+Kropateschaek que valham ou prevaleçam. Isto matará aquillo. O proletariado
+organisado matará a realeza armada. O trabalhador vencerá o soldado. O homem
+livre e consciente transformará o velho mundo, enthronisando a paz e a justiça,
+no logar onde campeava a iniquidade e a desegualdade social.</p>
+
+<p>A beneficencia publica e particular, a caridade official e outros
+palliativos de egual natureza, são impotentes para resolver o problema, porque
+humilham<span class="pn">{100}</span> aquelle que se pretende beneficiar,
+rebaixam os caracteres, engendram a preguiça e entreteem a mendicidade.</p>
+
+<p>Não se trata apenas, de soccorrer os pobres: o que se trata é de supprimir a
+pobreza. E para isso é mister que a sociedade, em vez de uma madrasta odienta,
+se converta em mãe protectora e disvelada; é mister que a todos, sem excepção,
+seja garantido o direito á instrucção e o direito ao trabalho, que são uma
+consequencia do direito á existencia; é mister que a educação e os meios de
+produzir não constituam o privilegio de uma minoria rica e favorecida da sorte;
+é mister, não só que todos sejam eguaes perante a lei, senão tambem que todos
+sejam eguaes perante a sociedade, pelo desenvolvimento physico e moral, pela
+posse dos instrumentos de producção e pelo gozo do credito; é mister, emfim,
+que o altruismo e a bondade se sobreponham ao egoismo e á crueldade das
+modernas sociedades.</p>
+
+<p class="centrado">*</p>
+
+<p class="centrado">*      *</p>
+
+<h2><a name="SECTION0032100">AS COOPERATIVAS OPERARIAS</a></h2>
+
+<p>Ha quem pense que as cooperativas operarias podem concorrer poderosamente
+para a extincção da miseria. Não somos d'esse numero. As cooperativas, (e
+quando fallo em cooperativas, refiro-me particularmente ás cooperativas de
+consumo) podem, quando muito, attenuar, e attenuam, com effeito, as condições
+de existencia do proletariado.<span class="pn">{101}</span> Mas d'ahi, a
+resolver o problema da sua emancipação, vae um abysmo.</p>
+
+<p>Quer isto dizer que tenham sido estereis todas as tentativas feitas para
+manter e sustentar as cooperativas? De modo algum. Entre os que tudo pedem e
+esperam da iniciativa das corporações operarias e os que tudo esperam do
+Estado, entre os dois exclusivismos, ha um meio termo que Malon synthetisava
+nas palavras de um velho proverbio: <i>Aide-toi, les pouvoirs publics
+t'aideront.</i></p>
+
+<p>Os esforços cooperativos e corporativos, do mesmo modo que a procura de uma
+melhoria immediata, devem ter por alvo a educação administrativa e a
+organisação dos trabalhadores, para se chegar á abolição do salariado, com o
+concurso dos poderes publicos, influenciados primeiro e conquistados depois.<a
+name="tex2html18" href="#foot1443"><sup>[3]</sup></a></p>
+
+<p>Tal era o programma do pae da cooperação, o illustre Robert Owen; mas não
+foi esta a politica seguida pelos seus successores, que mutilaram a ideia do
+mestre, fazendo da cooperação um <i>fim</i>, quando não é nem deve ser senão um
+<i>meio</i>.</p>
+
+<p class="centrado">*</p>
+
+<p class="centrado">*      *</p>
+
+<h2><a name="SECTION0032200">OS APOSTOLOS DA COOPERAÇÃO</a></h2>
+
+<p>Durante muito tempo, foi grande e profunda a inimisade entre cooperativistas
+e socialistas, se bem que o principio da cooperação tenha uma origem<span
+class="pn">{102}</span> caracterisadamente socialista, tendo sido, como já
+dissemos, Robert Owen o seu primeiro apostolo. A elle se devem as primeiras
+tentativas de cooperação; foi elle quem inventou a palavra e quem propagou a
+theoria. Robert Owen, o inventor e o apostolo das <i>sociedades
+cooperativas</i>&mdash;escrevia d'Assaily que para todos deve ser insuspeito,
+pela sua tendencia conservadora e retrograda&mdash;pretendeu realisal-as n'um
+estabelecimento, onde o trabalho collectivo abraçasse, ao mesmo tempo, a
+agricultura e a industria; onde o espirito tivesse, como o corpo, a sua parte
+de legitima satisfação; onde o trabalho fosse voluntario; onde não fosse punida
+a minima infracção; onde não fossem obrigatorias quaesquer privações, e onde o
+respeito dos direitos fosse o resultado d'um mutuo interesse.»</p>
+
+<p>A idéa de Robert Owen era demasiadamente idealista e synthetica para o
+proletariado da Inglaterra. Mas, pratico como é, o operario inglez
+descobriu-lhe logo o lado util, e assim nasceram as cooperativas de consumo,
+que, após algumas tentativas, chegaram a ter um resultado brilhante nos
+<i>Pionniers de Rochdale</i>.</p>
+
+<p>Só é efficaz a cooperativa de consumo; a de producção é impotente para
+luctar com outras emprezas congeneres, attenta a difficuldade em obter o
+capital que é, por via de regra, superior ás forças operarias; e a de credito,
+por seu turno, tropeça praticamente com embaraços e obstaculos insuperaveis.</p>
+
+<p>Devemos, porém, repetir, com Malon, que todas as fórmas cooperativas servem,
+em geral, para preparar<span class="pn">{103}</span> a educação administrativa
+do proletariado, tornando-o mais apto para as reivindicações de ordem politica
+e social.</p>
+
+<p>Os socialistas fazem mal, rebaixando e combatendo as tentativas
+cooperativistas. Do mesmo modo que a iniciativa individual só por si seria
+impotente, assim tambem a acção dos poderes publicos não poderá ser nunca
+verdadeiramente benefica, se não fôr secundada pelos esforços collectivos de um
+proletariado já familiarisado com as difficuldades administrativas das
+organisações politicas e economicas.</p>
+
+<p>Sob este ponto de vista, a cooperação, verdadeira escola de pratica
+industrial e commercial, desembaraçando-se pouco a pouco do primeiro
+exclusivismo, é uma excellente preparação para as reformas sociaes, que o
+proletariado terá um dia de arrancar aos poderes publicos.</p>
+
+<p>N'uma palavra, cooperadores e socialistas são militantes na mesma obra de
+renovação e de justiça. Os trabalhos de uns e as luctas dos outros completam-se
+mutuamente, e a sua união apressaria o dia, por todos desejado, da emancipação
+humana.</p>
+
+<p>Associamos-nos pois, de todo o coração ao generoso appêlo dirigido aos
+socialistas por Louis Bertrand, que é, ao mesmo tempo, um dos primeiros
+vulgarisadores do collectivismo e um cooperador pratico.</p>
+
+<p>«Á obra pois, companheiros, á obra! Não esqueçais nunca que qualquer nova
+sociedade cooperativa é um passo a mais para a sociedade do futuro, a sociedade
+que sonhamos, feita de justiça e de solidariedade,<span class="pn">{104}</span>
+e na qual todos encontrarão o seu bem-estar em troca de um trabalho facil e
+remunerador.</p>
+
+<p>«Mas não olvideis, sobretudo, que o fim a attingir não se limita a
+beneficiar ou a fazer beneficiar os operarios de alguns francos por semana ou
+por mez, e que é preciso ter sempre em vista o fim supremo: a libertação
+completa da classe operaria pela suppressão do salariado e pela applicação das
+doutrinas socialistas.»<a name="tex2html19"
+href="#foot1444"><sup>[4]</sup></a></p>
+
+<div class="imagem">
+<p><a name="img_pag104"></a><img src="images/pag104.png" alt="Louis Bertrand"
+width="100%" align="top" border="0"></p>
+</div>
+
+<p>Na cooperação belga destacam-se cinco grandes realisações, porventura as
+primeiras e as mais solidas realisações do principio cooperativista: a
+sociedade do <i>Vooruit (àvante)</i>, de Gand; o <i>Progrés</i>, de
+Jolimont-La-Louvrière; a <i>Maison du Peuple</i>, de Bruxellas; o
+<i>Werker</i>, d'Anvers; e a <i>Populaire</i>, de Liége.</p>
+
+<p>A mais importante, o <i>Vooruit</i>, possue uma padaria, officinas de
+calçado, de vestuario, de quinquilheria,<span class="pn">{105}</span>
+<i>armazens</i> de carvão e um café restaurante onde é prohibida a venda de
+bebidas alcoolicas. O <i>Vooruit</i> possue tambem uma caixa de soccorros,
+sendo os doentes curados gratuitamente. O jornal que se intitula <i>Vooruit</i>
+tira por dia 10:000 exemplares. A sociedade <i>Vooruit</i> tem 40
+administradores e 150 empregados, e fazem negocios 2.500.000 francos por anno.
+O centro de estudos, as camaras syndicaes, as sociedades de musica e de
+gymnastica, constituem outras tantas secções da cooperativa que tem servido de
+modelo a todas as outras cooperativas belgas.</p>
+
+<div class="imagem">
+<p><a name="img_pag105"></a><img src="images/pag105.png" alt="Anseele"
+width="100%" align="top" border="0"></p>
+</div>
+
+<p>Anseele é o gerente do <i>Vooruit</i>, como Jean Volders é o gerente da
+<i>Maison du Peuple</i>. A elles se deve uma parte da propaganda socialista da
+Belgica, porque as cooperativas, n'aquelle paiz, apresentam uma feição
+eminentemente revolucionaria e constituem, para o proletariado, uma formidavel
+arma de combate. Quantas <i>grèves</i> não teem sido sustentadas com o pão e o
+carvão distribuido pelas cooperativas?! É que os belgas fizeram das
+cooperativas de consumo,<span class="pn">{106}</span> ao mesmo tempo, um
+elemento de interesse pessoal, de resistencia politica e de propaganda
+socialista. Os dividendos a distribuir a cada associado constituem o fundo
+social do partido. E d'este modo, tão digno de ser imitado, organisaram os
+socialistas belgas o mais poderoso e valente exercito que temos visto e
+admirado, o grande e honrado exercito da sciencia e do trabalho, o invencivel
+exercito do povo, o exercito do futuro!</p>
+
+<div class="imagem">
+<p><a name="img_pag106"></a><img src="images/pag106.png" alt="Jean Volders"
+width="100%" align="top" border="0"></p>
+</div>
+
+<p>Os cinco grupos, acima referidos, não comprehendem, ainda assim, todo o
+movimento cooperativo belga, que, em 1889, havia attingido os algarismos
+seguintes:</p>
+
+<table summary="Movimento corporativo belga" width="90%" align="center"
+border="0">
+ <tbody>
+ <tr>
+ <td>Cooperativas alimenticias</td>
+ <td>53</td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td>Padarias</td>
+ <td>36</td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td>Bancos populares</td>
+ <td>19</td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td>Sociedades de producção</td>
+ <td>18</td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td>Syndicatos agricolas</td>
+ <td>15</td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td>Cooperativas de industriaes e commerciantes</td>
+ <td>10</td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td>Pharmacias populares</td>
+ <td>6<span class="pn">{107}</span></td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td>Uniões de credito</td>
+ <td>5</td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td>Diversas sociedades</td>
+ <td>17</td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td>Total</td>
+ <td>179</td>
+ </tr>
+ </tbody>
+</table>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>E Jean Volders não descança um momento, percorrendo a Belgica em missão de
+propaganda, uma e mais vezes por anno, espalhando a ideia e attrahindo
+proselytos á sua generosa causa!</p>
+
+<p>Uni-vos pois, trabalhadores! Organisae-vos e defendei-vos, creando escolas,
+estabelecendo cooperativas, fundando associações de classe e preparando-vos por
+todos os meios, para o supremo combate contra os vossos exploradores e os
+vossos inimigos. Sois hoje o numero e sereis ámanhã a qualidade! Para isso uma
+unica cousa bastará:&mdash;que vos associeis, nacional e internacionalmente. Na
+associação está a vossa força. Usae d'ella! Reuni os vossos elementos. Instrui,
+trabalhae, educae-vos. Sereis os vencedores. O mal não está n'este ou n'aquelle
+paiz: está na sociedade em geral. Os governos recuam e os reis e imperadores
+pensam que a salvação está na morte ou no desapparecimento dos insubmissos e
+rebeldes. Puro engano! Os effeitos hão ser os mesmos, emquanto subsistirem as
+mesmas causas. Eliminae o mal, pela vossa perseverança na lucta e pela vossa
+constancia no combate. Formae, adestrae os vossos batalhões. Sois regimento e
+sereis exercito. Tendes por vós a razão e a justiça. Confiae no futuro. Que a
+voz de commando seja só uma e que a obediencia seja geral e completa!<span
+class="pn">{108}</span></p>
+
+<p>O proletariado é só um, tem um só interesse e uma só aspiração. Não conhece
+raças, nem linguas, nem religiões. No dia em que elle quizer, nenhuma outra
+vontade lhe será superior. A humanidade é o supremo ideal, e, pensando n'ella,
+abstrahimos de nós mesmos, e das miserias e torpezas do mundo.<span
+class="pn">{109}</span></p>
+
+<h1><a name="SECTION0033000">IV <br>
+ARBITRAGEM INTERNACIONAL</a> </h1>
+
+<h3 class="sinopse"><a name="SECTION0033010">S<small>OCIEDADES DA
+PAZ.&mdash;</small>E<small>MILE</small> A<small>RNAUD.&mdash;</small>O
+<small>MILITARISMO.&mdash;</small>D<small>OMELA
+</small>N<small>IEUWENHUIS.&mdash;</small>A<small>RBITRAGEM
+INTERNACIONAL.&mdash;</small>M<small>ICHEL</small>
+R<small>EVON.&mdash;</small>A <small>FEDERAÇÃO E OS SEUS
+APOSTOLOS.&mdash;</small>N<small>ACIONALISMO E
+INTERNACIONALISMO.&mdash;</small>A<small>LFREDO
+</small>N<small>AQUET.&mdash;</small>R<small>ENÉ</small> G<small>OBLET
+E</small> A<small>UGUSTO</small> V<small>ACQUERIE.&mdash;</small>A
+<small>GUERRA VENCIDA PELA ARBITRAGEM.&mdash;</small>O
+<small>DESARMAMENTO.&mdash;</small>E<small>DUARDO</small>
+V<small>AILLANT.</small></a></h3>
+
+<p>O movimento em favor da paz, vae-se accentuando de dia para dia. É
+consolador registar o facto e apreciar as suas consequencias.</p>
+
+<p>Sobe a mais de cincoenta o numero das sociedades da paz de que temos
+conhecimento e que realmente funccionam.</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<div style="font-size: 0.8em;">
+<p style="margin-left: 2em;">ALLEMANHA</p>
+
+<p><i>Sociedade da Paz</i> (presidente o conde
+Bodner)&mdash;<i>Wiesbaden.</i></p>
+
+<p><i>Sociedade da Paz</i> <i>em Berlim</i> (presidente o dr.
+Mühling)&mdash;Berlim.</p>
+
+<p><i>Sociedade da Paz em Ulm</i> (presidente H.
+Eberle)&mdash;<i>Neu-Ulm.</i></p>
+
+<p><i>Sociedade da Paz em Francfort</i> (presidente Franz
+Wirth)&mdash;<i>Francfort</i>.</p>
+
+<p><i>Sociedade da Paz</i> <i>em Constança</i> (presidente professor
+Martens)&mdash;<i>Constanz</i>.<span class="pn">{110}</span></p>
+
+<p style="margin-left: 2em;">INGLATERRA</p>
+
+<p><i>International Arbitration and peace association</i> (presidente Hodgson
+Pratt)&mdash;<i>London</i>.</p>
+
+<p><i>Peace Society</i> (presidente Joseph Pease)&mdash;<i>London</i>.</p>
+
+<p><i>Local Peace Association</i> (presidente M.<sup>elle</sup>
+Peckover)&mdash;<i>Wisbech</i>.</p>
+
+<p><i>Peace Society of Liverpool</i> (presidente Thomas
+Suape)&mdash;<i>Liverpool</i>.</p>
+
+<p><i>International Arbitration League</i> (presidente
+Cremer)&mdash;<i>London</i>.</p>
+
+<p><i>Local Peace Association</i> (presidente Rowntree)&mdash;<i>York</i>.</p>
+
+<p><i>Woman's Peace and Arbitration Society</i> (presidente
+Thompson)&mdash;<i>Birkenhead</i>.</p>
+
+<p style="margin-left: 2em;">AUSTRIA</p>
+
+<p><i>Oesterr. Friedensgesselschaft</i> (presidente a baroneza de
+Suttner)&mdash;<i>Vienna</i>.</p>
+
+<p><i>Societé Universitaire de la paix</i> (presidente dr.
+Steckel)&mdash;<i>Vienna</i>.</p>
+
+<p style="margin-left: 2em;">BELGICA</p>
+
+<p><i>Section belge de l'arbitrage et de la paix</i> (secretario
+Lafontaine)&mdash;<i>Bruxellas</i>.</p>
+
+<p style="margin-left: 2em;">DINAMARCA</p>
+
+<p><i>Association pour la neutralisation de la Danemark</i> (presidente
+Frederico Bajer)&mdash;<i>Copenhague</i>.</p>
+
+<p style="margin-left: 2em;">FRANÇA</p>
+
+<p><i>Ligue internationale de la paix et de la liberté</i> (presidente Emile
+Arnaud)&mdash;<i>Luzarches</i>.</p>
+
+<p><i>Societé française de l'arbitrage entre nations</i> (presidente Frederic
+Passy)&mdash;<i>Neuilly</i>.</p>
+
+<p><i>Ligue du Bien public</i> (presidente Pierre
+Potonié)&mdash;<i>Fontenay</i>.</p>
+
+<p><i>Societé de la paix du familistére de Guise</i> (presidente
+Bernardot)&mdash;<i>Guise</i>.</p>
+
+<p><i>Societé de la paix perpétuelle par la justice internationale</i>
+(presidente Philippe Destrem)&mdash;<i>Paris</i>.</p>
+
+<p><i>Groupe des amis de la paix du Puy-de-Dóme</i> (presidente
+Pardoux)&mdash;<i>Clermont-Ferrani</i>.</p>
+
+<p><i>Association des jeunes amis de la paix</i> (presidente
+Dumas)&mdash;<i>Paris</i>.<span class="pn">{111}</span></p>
+
+<p><i>Societé universitaire internationale</i> (presidente
+Dumas)&mdash;<i>Paris</i>.</p>
+
+<p><i>Societé de la paix d'Abbeville et de Ponthieux</i> (presidente Jules
+Tripier)&mdash;<i>Eancourt</i>.</p>
+
+<p><i>Union Méditerranéenne</i> (presidente Gromier)&mdash;<i>Paris</i>.</p>
+
+<p><i>Comité de la Sarthe</i> (presidente Destriché)&mdash;<i>Sarthe</i>.</p>
+
+<p><i>Société de la paix de Felletin</i> (presidente Abbé
+Pichot)&mdash;<i>Felletin</i>.</p>
+
+<p style="margin-left: 2em;">HOLLANDA</p>
+
+<p><i>Pax Humanitate</i> (presidente Schook)&mdash;<i>Amsterdam</i>.</p>
+
+<p><i>Société Générale de la paix</i> (presidente
+Moddermann)&mdash;<i>Haya</i>.</p>
+
+<p style="margin-left: 2em;">ITALIA</p>
+
+<p><i>Union Lombarda</i> (presidente Theodoro Moncta)&mdash;<i>Milão</i>.</p>
+
+<p><i>Comité Romano da Paz</i> (presidente Boughi)&mdash;<i>Roma</i>.</p>
+
+<p><i>Sociedade da paz de Turim</i> (presidente
+Armandon)&mdash;<i>Turim</i>.</p>
+
+<p><i>Sociedade da paz de Palermo</i> (presidente
+Aguanno)&mdash;<i>Palermo</i>.</p>
+
+<p><i>Sociedade da paz e da arbitragem de Perugia</i> (presidente Leopoldo
+Tiberi)&mdash;<i>Perugia</i>.</p>
+
+<p style="margin-left: 2em;">SUECIA</p>
+
+<p><i>Sociedade da Paz</i> (presidente Wawrinsky)&mdash;<i>Stockholmo</i>.</p>
+
+<p style="margin-left: 2em;">SUISSA</p>
+
+<p><small>LIGA INTERNACIONAL DA PAZ E DA LIBERDADE</small></p>
+
+<p>&mdash;<i>Comité central</i> (secretario M.<sup>me</sup>
+Goegg)&mdash;<i>Genève</i>.</p>
+
+<p>&mdash;<i>Secção de Neuchatel</i> (presidente Gustavo
+Renaud)&mdash;<i>Neuchatel</i>.</p>
+
+<p>&mdash;<i>Secção de Berne</i> (presidente W.
+Marcussen)&mdash;<i>Berne</i>.</p>
+
+<p>&mdash;<i>Secção de Saint Gall</i> (presidente Schimd)&mdash;<i>Saint
+Gall</i>.</p>
+
+<p>&mdash;<i>Secção de Zurich</i> (presidente Gustavo
+Vogt)&mdash;<i>Zurich</i>.</p>
+
+<p>&mdash;<i>Secção de Genebra</i> (presidente dr.
+Cordés)&mdash;<i>Genève</i>.</p>
+
+<p style="margin-left: 2em;">ESTADOS UNIDOS DA AMERICA</p>
+
+<p>&mdash;<i>Sociedade americana da paz</i> (presidente dr.
+Trueblood)&mdash;<i>Boston</i>.</p>
+
+<p><i>Sociedade christã para a arbitragem da paz</i> (presidente
+Wood)&mdash;<i>Philadelphia</i>.</p>
+
+<p><i>Associação nacional da arbitragem</i> (presidente
+Gardener)&mdash;<i>Washington</i>.<span class="pn">{112}</span></p>
+
+<p><i>National Association for the Promotion of Arbitration</i> (presidente
+Lockwood)&mdash;<i>Washington</i>.</p>
+
+<p><i>Associação da arbitragem da California</i> (presidente
+Berwick)&mdash;<i>Monterey (California)</i>.</p>
+
+<p><i>Universal Peace Union</i> (presidente Loye)&mdash;<i>Philadelphia</i>.</p>
+
+<p><i>Peace Department of the N. W. C. T. U.</i> (presidente
+Bailey)&mdash;<i>Maine U. S. A.</i></p>
+
+<p><i>Peace Association of friends in America</i> (Daniel Whill
+secret.)&mdash;<i>Richmond, Ind. U. S. A.</i></p>
+
+<p><i>South Carolina Peace Society</i>&mdash;<i>Columbia S. C.</i></p>
+
+<p><i>Illinois Peace Society</i> (presidente Allen)&mdash;<i>Chicago
+III.</i></p>
+
+<p><i>Connecticut Peace Society</i> (Whipple, secret.)&mdash;<i>Old Mistic
+Conn. U. S. A.</i></p>
+
+<p><i>Rhode Island Peace Society</i> (Robert, secret.)&mdash;<i>Providence R.
+I. U. S. A.</i></p>
+
+<p><i>Friend's Peace Association of Philadelphia</i> (presidente
+Wickersham)&mdash;<i>Philadelphia</i>.</p>
+
+<p><i>National Peacy Society</i> (presidente Ellen Lease)&mdash;<i>Topeka
+(Kausao) U. S. A.</i></p>
+</div>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>A paz constitue hoje o supremo <i>desideratum</i> da humanidade
+trabalhadora. Mas a paz tem um complemento indispensavel&mdash;a liberdade e a
+justiça. D'este modo o antigo adagio: <i>Si vis pacem, para bellum (Se queres a
+paz prepara a guerra)</i>, que havia sido substituido por est'outro, não menos
+illusorio: <i>Si vis pacem, para pacem (Se queres a paz prepara a paz)</i>, foi
+transformado, ao sopro da revolução, pelo seguinte principio: <i>Si vis pacem,
+para libertatem (Se queres a paz prepara a liberdade)</i>.</p>
+
+<p>Com o progresso dos tempos, reconheceu-se porém, que a paz pela liberdade
+era ainda pouco, e Aurelio Saffi, traduzindo as aspirações dos philosophos<span
+class="pn">{113}</span> e pensadores da sua época, estabeleceu o lemma da
+<i>paz pela liberdade e pela justiça (si vis pacem, para libertatem et
+justitiam)</i>.</p>
+
+<p>Mais tarde, Carlos Lemmonier reforçou esta formula, demonstrando que a paz,
+assim como a liberdade, não devia ser um <i>fim</i>, mas apenas um <i>meio</i>.
+E os philantropos, aceitando a observação, principiaram então de apregoar a paz
+<i>pela</i> liberdade e <i>por amor</i> da justiça.</p>
+
+<div class="imagem">
+<p><a name="img_pag113"></a><img src="images/pag113.png" alt="Emile Arnaud"
+width="100%" align="top" border="0"></p>
+</div>
+
+<p>A formula de hoje&mdash;diz ajuizadamente Emile Arnaud&mdash;a unica que
+corresponde ao estado actual da Europa e á situação especial de cada paiz, é a
+seguinte: <i>Si vis justitiam, para pacem (Se queres a justiça, prepara a
+paz)</i>.</p>
+
+<p>E, uma vez que fallamos em Emile Arnaud, o glorioso continuador da doutrina
+de Carlos Lemmonier, devemos dizer que dos apostolos e evangelistas da paz, é
+elle um dos mais ardentes, um dos mais convictos e um dos mais activos. A
+<i>Liga Internacional da Paz e da Liberdade</i> está organisada como nenhuma
+outra sociedade, com ramificações em toda a Suissa e secções e <i>comités</i>
+em todos os outros paizes da Europa.<span class="pn">{114}</span></p>
+
+<p class="centrado">*</p>
+
+<p class="centrado">*      *</p>
+
+<h2><a name="SECTION0033100">O MILITARISMO.&mdash;DOMELA NIEUWENHUIS.</a></h2>
+
+<p>Em caso de guerra, qual deverá ser a attitude do partido operario
+socialista?&mdash;perguntava-se no congresso de Zurich.</p>
+
+<p>Domela Nieuwenhuis, o sympathico e benemerito chefe do socialismo na
+Hollanda, já havia respondido a esta pergunta no congresso de Bruxellas, em
+1891.</p>
+
+<p>Em caso de guerra, aconselhava Nieuwenhuis a <i>proclamação de uma gréve
+militar e de uma gréve geral</i>. Esta mesma idéa havia já sido enunciada na
+mesma cidade de Bruxellas, em 1868, por occasião do Congresso da Associação
+Internacional dos Trabalhadores. Por unanimidade havia sido approvada a
+resolução seguinte:</p>
+
+<p>«O congresso recommenda, sobretudo, aos trabalhadores a suspensão de todo o
+trabalho, no caso em que uma guerra viesse a explodir nos seus respectivos
+paizes. O congresso conta sufficientemente com o espirito de solidariedade, que
+anima os trabalhadores, que não se negarão a prestar o seu apoio a esta guerra
+dos povos contra a guerra.»</p>
+
+<p>Cesar de Paepe propôz dois meios:</p>
+
+<p>1.º A recusa em satisfazer o serviço militar, ou, o que vale o mesmo, a
+gréve geral;</p>
+
+<p>2.º A resolução definitiva da questão social, ou, por outros termos, a
+revolução social na Europa.<span class="pn">{115}</span></p>
+
+<p>O militarismo não póde ser combatido com simples protestos. Á guerra é
+mister oppôr a guerra, diz muito bem Domela Nieuwenhuis. Já era este tambem o
+grito de Victor Hugo. Guerra á guerra! Morte á morte!</p>
+
+<div class="imagem">
+<p><a name="img_pag115"></a><img src="images/pag115.png"
+alt="Domela Nieuwenhuis" width="100%" align="top" border="0"></p>
+</div>
+
+<p>Não basta só condemnar a guerra. É mister impedil-a, por todos meios,
+evital-a e <i>deshonral-a</i>, ainda na phrase do Mestre.</p>
+
+<p>No manifesto, feito por occasião da guerra civil em França, e redigido por
+Karl Marx, o conselho geral da Internacional declarou que, no longo curso da
+historia, uma unica guerra podia justificar-se&mdash;era a guerra dos escravos
+contra os senhores. Eis o motivo porque, em caso de guerra, nós devemos
+responder, recusando-nos ao serviço militar, quer dizer, proclamando a guerra
+civil. O partido socialista quer acabar com as guerras nacionaes,
+substituindo-as pela guerra internacional, cujo ultimo resultado será a
+emancipação do proletariado.</p>
+
+<p>Propômos a gréve geral, sobretudo nos officios e profissões, que tenham
+qualquer relação com a guerra, porque isso póde ser de grande utilidade.<span
+class="pn">{116}</span></p>
+
+<p>Com effeito, se, em caso de proclamação de hostilidades, os operarios
+fizerem tudo quanto poderem, para destruir as rêdes telegraphicas, os
+<i>rails</i>, as machinas, numa palavra para impedir o encontro dos exercitos,
+é claro que a guerra se tornará impossivel.</p>
+
+<p>Apesar de tudo&mdash;concluia Domela Nieuwenhuis<a name="tex2html25"
+href="#foot1448"><sup>[5]</sup></a>&mdash;continuaremos a nossa propaganda,
+para fazer germinar a idéa da <i>recusa de serviço em caso de guerra</i>,
+acompanhada de uma <i>grève</i> geral. Esta idéa fará o seu caminho. O
+proletariado deve arriscar o seu sangue unicamente contra o seu unico e
+verdadeiro inimigo: <i>o capitalismo</i>.</p>
+
+<p class="centrado">*</p>
+
+<p class="centrado">*      *</p>
+
+<h2><a name="SECTION0033200">ARBITRAGEM INTERNACIONAL.&mdash;MICHEL
+REVON</a></h2>
+
+<p>Para acabar com a guerra, propõe Michel Revon, pelo seu lado, e com elle
+outros notaveis pensadores, á frente dos quaes se encontra Frederico Passy, a
+arbitragem internacional. Atravessamos um periodo de transição&mdash;escreve
+elle<a name="tex2html26" href="#foot1449"><sup>[6]</sup></a>&mdash;que póde
+durar ainda dois ou tres annos, mas que não poderá prolongar-se. Em dez annos,
+ou a guerra geral terá arruinado a Europa, ou o militarismo se haverá<span
+class="pn">{117}</span> tornado impotente. A lucta entre o espirito da guerra e
+o espirito da paz, está por ora indecisa. O momento «psychologico» poderá
+surgir em 1894, como em 1895 ou em 1896.</p>
+
+<p>Em 1900 é que não.</p>
+
+<p>Segundo o criterio desenvolvido por Michel Revon no seu bello livro, a
+guerra teve outr'ora a sua rasão de ser. Foi já um phenomeno divino, mas é hoje
+um anachronismo e uma brutalidade sem nome. Em tres seculos os armamentos
+actuaes pertencerão aos museus archeologicos.</p>
+
+<p>São precisos os exercitos permanentes, para quê?&mdash;Para que os ricos
+durmam descançados, como dizia Balzac?</p>
+
+<p>É precisa a guerra para quê? Para devastar e exterminar a humanidade? N'esse
+caso, proclamem tambem as vantagens das epidemias que dizimam as populações e
+das grandes catastrophes que enchem de victimas as localidades.</p>
+
+<p>A guerra só se justificava entre povos barbaros, em plena noite da
+historia.</p>
+
+<p>Vergniaud pinta-nos effectivamente os povos, combatendo durante a noite,
+como amigos ou irmãos que se não conhecessem, mas promptos a abraçarem-se e a
+fraternisarem, desde que a luz, descobrindo-os, os tornou conhecidos uns dos
+outros.</p>
+
+<p>Quem é que não conhece o obra prima de Proudhon:&mdash;a Justiça e a
+Vingança perseguindo o crime? A victima jaz por terra; o assassino foje; no
+ambiente azulado da noite, entrevêem-se, porém, as duas deusas agitando-se,
+terriveis e fataes, compasso<span class="pn">{118}</span> seguro e tranquillo;
+ellas sabem perfeitamente, as immortaes, que, cedo ou tarde, o criminoso lhes
+hade cahir nas mãos, porque nenhum ainda lhes escapou. Esta perseguição
+dramatisada do mal pelo direito, esta vibrante condemnação d'esse hediondo
+crime que se chama a guerra, esta passagem formidavel da vingança e da justiça
+de Deus, não é outra cousa, no fundo, senão a propria revolução da civilisação
+humana. É, n'uma palavra, a verdade suprema da historia, o seu principio de
+vida e o seu mais salutar ensinamento.</p>
+
+<p>Para todos aquelles que, estudando a historia, observaram as duas tendencias
+que nos offerecem as civilisações da antiguidade&mdash;a tendencia para a paz e
+a tendencia para a guerra, n'uma lucta épica, semelhante á lucta entre a morte
+e a vida; para aquelles que, analysando o christianismo, as perturbações da
+edade média, e o esforço immenso do papado, chegaram emfim, aos tempos
+modernos, e á transformação dos Estados europeus, para esses não póde a
+arbitragem internacional apresentar a minima duvida, por isso que ella não é
+senão o resultado dos progressos alcançados pelo direito positivo moderno, que
+nol-a apresenta em nossos dias, na sua preparação social, na sua elaboração
+juridica e nas suas applicações.</p>
+
+<p>A arbitragem é, no dizer de Revon, uma reforma absolutamente necessaria,
+muito possivel de realisar, mas, ao mesmo tempo, de uma difficuldade extrema,
+visto como a sua pratica depende não só de uma transformação moral, economica,
+juridica, e sobretudo do meio em que terá de se desenvolver,<span
+class="pn">{119}</span> senão tambem do funccionamento de uma jurisdicção
+internacional, sob todas as suas fórmas variadas, insensiveis, e
+necessariamente ligadas umas ás outras, desde a simples arbitragem facultativa
+até ao tribunal geral, no triplice ponto de vista da sua organisação, da sua
+competencia e do seu processo.</p>
+
+<p class="centrado">*</p>
+
+<p class="centrado">*      *</p>
+
+<h2><a name="SECTION0033300">A FEDERAÇÃO E OS SEUS APOSTOLOS</a> </h2>
+
+<p>«A guerra é um facto barbaro, e os exercitos são instituições barbaras,
+disse-o Victor Considérant. O principal dogma da republica
+democratica&mdash;<i>Liberdade, Egualdade, Fraternidade</i>&mdash;constitue,
+com a guerra e os exercitos, uma triplice contradicção. O progresso nos povos
+deve contribuir para o desapparecimento da guerra, transformando os exercitos
+<i>destructores</i> em exercitos <i>productores</i>.»</p>
+
+<p>Herbert Spencer, no fim do terceiro volume dos seus <i>Principios de
+Sociologia</i>, resume do seguinte modo o seu profundissimo estudo sobre as
+instituições politicas:</p>
+
+<p>«A possibilidade de um estado social superior, tanto em politica, como em
+geral, depende de um facto fundamental: a cessação da guerra. Tal é a conclusão
+mais importante a que chegam todas as partes do nosso trabalho. Depois de tudo
+o que dissémos, é inutil insistir ainda sobre os effeitos da persistencia do
+militarismo, o qual, conservando as instituições adaptadas ás suas
+necessidades, impede<span class="pn">{120}</span> ou neutralisa a transformação
+d'essas instituições ou d'essas leis n'um sentido mais equitativo, ao passo que
+a paz permanente ha de ser seguida necessariamente por melhoramentos sociaes de
+toda a especie.</p>
+
+<p>«A guerra deu tudo o que podia dar. A occupação da terra pelas raças mais
+poderosas e intelligentes é um beneficio, já realisado em grande parte; o que
+está por conquistar não reclama senão uma cousa: a pressão crescente que exerce
+uma civilisação industrial sobre uma barbarie que recúa. A integração que
+fusiona grupos simples em grupos compostos, como resultado de um estado de
+guerra, e que conduz no fim de certo tempo á formação das grandes
+nacionalidades, é uma operação que parece ter tocado o seu termo. Os imperios
+formados de povos estranhos uns aos outros, desmembram-se ordinariamente,
+quando desapparece a força coerciva que os mantinha. E, ainda quando mesmo
+ficassem unidos, não poderiam jámais constituir um todo harmonioso. Uma
+<i>federação pacifica</i> é o unico processo de <i>consolidação</i> que se póde
+prevêr.»</p>
+
+<p>Tal é a opinião do grande philosopho. Para elle a paz é o fundamento da
+moral.</p>
+
+<p>Era esta tambem a opinião de Kant que consagrou a moral como a base de toda
+a politica. Em sua opinião, todo o direito civil, politico ou internacional
+constitue uma ligação entre duas vontades, e baseia-se no respeito reciproco
+das liberdades. Quer se trate de dois povos, quer de duas pessoas, o estado de
+guerra significa estado de natureza, e é um<span class="pn">{121}</span> dever
+sahir d'elle. Sob o ponto de vista da rasão, não ha senão um meio de tirar os
+Estados da situação violenta em que se encontram, renunciando á liberdade
+anarchica dos selvagens, e submettendo-os ao imperio de leis mais liberaes,
+afim de formar assim um Estado de nações (<i>civitas gentium</i>) que possa
+augmentar insensivelmente, até abraçar, pouco a pouco, todos os povos da
+terra.</p>
+
+<p>Será chimerico este ideal de paz? Não, responde Kant, por isso que é
+obrigatorio.</p>
+
+<p>E que terá de realisar-se, prova-o não só o inevitavel progresso do direito,
+senão tambem o progresso dos interesses.</p>
+
+<p>Os interesses economicos deverão tornar a guerra impossivel. A natureza
+garante a paz, pelo simples equilibrio das paixões humanas.</p>
+
+<p>A federação dos povos não será só o desarmamento dos reis e imperadores;
+será tambem o aniquilamento da guerra.</p>
+
+<p>No dia em que todos os cidadãos souberem conciliar, no seu coração, a idéa
+de patria e a idéa de humanidade, n'esse dia a paz pela federação haverá
+triumphado definitivamente no mundo.</p>
+
+<p>O que torna os povos inimigos uns dos outros, é o sentimento de
+nacionalidade, levado até á barbarie. Mas o homem moderno é essencialmente
+cosmopolita. O amor pela patria não exclue o amor da humanidade. Ao contrario,
+estes dois sentimentos completam-se e identificam-se, num mesmo ideal e n'uma
+mesma aspiração de progresso. Da comprehensão d'este principio deriva, a nosso
+ver, toda a moderna philosophia social.<span class="pn">{122}</span></p>
+
+<p>Dir-nos-hão, talvez, que não somos patriotas. A esta accusação responde
+Alfredo Naquet, o grande e glorioso pensador, n'uma soberba carta que nos
+dirigiu, a proposito da <i>Federação Iberica</i>:</p>
+
+<div class="imagem">
+<p><a name="img_pag122"></a><img src="images/pag122.png" alt="Alfredo Naquet"
+width="100%" align="top" border="0"></p>
+</div>
+
+<p>«Não! se o patriotismo é feito de um espirito estreito e sectario, e á custa
+do odio dos outros povos e de aspirações militares&mdash;eu não sou
+patriota.</p>
+
+<p>«Mas se o patriotismo consiste em amar profundamente o paiz onde nascemos, e
+onde exercemos a nossa actividade, n'esse caso sou patriota.</p>
+
+<p>«Amo apaixonadamente a França. Amo-a porque foi no seu espirito que moldei o
+meu cerebro, e porque as minhas aspirações, os meus sentimentos, e os meus
+instinctos, n'ella se desenvolveram; amo-a porque ella constitue um factor
+indispensavel do grande trabalho humano; e, mesmo por cosmopolitismo, teria
+ainda de ser patriota. Amo-a bastante para tudo sacrificar por ella e pela sua
+defesa no dia em que fosse necessario&mdash;a minha fortuna, a minha liberdade
+e a minha vida.</p>
+
+<p>«Mas estou convencido que a patria europeia será<span
+class="pn">{123}</span> tão superior ás patrias de hoje, como a França o é á
+Borgonha, a Hespanha á Andaluzia, e o Reino-Unido á Inglaterra ou á Escocia.</p>
+
+<p>«E, no dia em que fôr possivel substituir a patria nova ás antigas patrias,
+sem prejuizo do amor e das homenagens que estas nos merecem, n'esse dia, entre
+o que foi grande e o que deverá ser ainda maior, a minha escolha far-se-ha sem
+hesitação.</p>
+
+<p>«Não tenho a esperança de assistir a esse espectaculo radioso. É provavel,
+quem sabe? que eu morra francez, pensando quasi exclusivamente, além das minhas
+meditações philosophicas, na defesa, na grandeza e na prosperidade d'este bello
+e nobre paiz. Mas invejo aquelles que tiverem de assistir á creação dos
+Estados-Unidos da Europa.»</p>
+
+<p>E pensam assim todos os grandes pensadores modernos. No estabelecimento de
+uma <i>Federação occidental</i>, baseava Littré toda a politica do futuro.
+Emile de Laveleye conclue o seu bello livro <i>La Démocratie</i>, pela apologia
+de uma <i>federação fraternal</i>. Federalista foi Garibaldi, que presidiu, em
+1867, ao primeiro congresso da <i>Liga Internacional da paz e da liberdade</i>;
+federalista foi Mazzini; federalista foi Victor Hugo. São federalistas todas as
+sociedades de paz, que, presentemente, existem e funccionam. Em Italia, como em
+Hespanha e Portugal, o federalismo ganha terreno de dia para dia. O proprio sr.
+Crispi, actual presidente de conselho de ministros, declarava, n'um dos seus
+ultimos discursos que era para a federação que os povos caminhavam. Em França,
+são muitos os partidarios da federação. Citemos, principalmente, dois&mdash;um
+por<span class="pn">{124}</span> ser o representante destas idéas no
+parlamento, e outro por ser, na imprensa, o seu glorioso interprete. Refiro-me
+a René Goblet e a Augusto Vacquerie.</p>
+
+<p class="centrado">*</p>
+
+<p class="centrado">*      *</p>
+
+<h3><a name="SECTION0033310">RENÉ GOBLET</a></h3>
+
+<p>Para bem se apreciar esta altissima personalidade, seria necessario fazer a
+historia da politica franceza d'estes ultimos vinte annos. Eleito deputado á
+Assembléa Nacional em 1871, Goblet nunca mais deixou de pertencer ao
+parlamento, a não ser no periodo que decorreu desde as eleições geraes de 1889
+até á sua eleição para o senado em 1891.</p>
+
+<div class="imagem">
+<p><a name="img_pag124"></a><img src="images/pag124.png" alt="René Goblet"
+width="100%" align="top" border="0"></p>
+</div>
+
+<p>Goblet pensa, e muito bem, que a republica é mais alguma cousa do que uma
+simples mudança de pessoal governamental, e que deve, sob pena de morte, tirar
+todas as consequencias do seu principio, correspondendo plenamente á confiança
+que o povo n'ella deposita. E eis ahi o motivo porque não duvidou aproximar-se
+dos socialistas. Mudar de instituições, unicamente<span class="pn">{125}</span>
+para beneficiar meia duzia de favorecidos de um dado partido ou de uma
+determinada politica, é cousa que não póde merecer o sacrificio do povo. Se,
+com a mudança de instituições, se não póde, ao mesmo tempo, reorganisar
+economicamente a sociedade ou remodelar o seu modo de ser social, a
+transformação é esteril e sem resultado.</p>
+
+<p>Assim pensa Goblet, e assim deveriam pensar todos os que sinceramente amam
+os principios republicanos.</p>
+
+<p>«Duas especies de politica são possiveis&mdash;dizia elle n'um dos seus
+maravilhosos discursos: a politica conservadora e a politica de progresso, que
+consiste em realisar as reformas politicas, sociaes, economicas, financeiras e
+administrativas, que, em todos os tempos, foram consideradas, como que o
+programma necessario da democracia republicana.»</p>
+
+<p>Goblet é republicano socialista, e é, na actual camara franceza, um dos
+chefes mais authorisados do glorioso grupo a que pertencem Millerand, Jaurés,
+Rouanet, etc., e que pretende a revisão immediata da Constituição e a discussão
+e approvação de alguns dos primeiros artigos do programma socialista.</p>
+
+<p>É tambem federalista convicto, e um d'aquelles que acreditam que é no estado
+federativo que reside o futuro para as nações da Europa. O problema da guerra
+só no principio federalista poderá encontrar a sua solução logica e natural. É
+esta a sua opinião que muito o honra e a que eu não posso deixar de prestar a
+minha respeitosa e profunda homenagem.<span class="pn">{126}</span></p>
+
+<p class="centrado">*</p>
+
+<p class="centrado">*      *</p>
+
+<h3><a name="SECTION0033320">AUGUSTO VACQUERIE</a></h3>
+
+<p>Augusto Vacquerie é, em França, o continuador da obra de Victor Hugo.
+Jornalista primoroso, poeta e escriptor dramatico applaudidissimo, a sua vida
+podia e devia servir de modelo a todos os que ás letras e á politica se
+consagram. É um puro, na verdadeira accepção da palavra, e nunca jámais a
+ambição maculou os seus principios ou a vaidade toldou as suas aspirações.
+Propugnador das doutrinas do Mestre, tem sempre defendido, com enthusiasmo e
+ardôr, o bello e supremo ideal da creação dos <i>Estados Unidos da Europa</i>,
+como meio de pôr um termo aos conflictos internacionaes e de levar os povos á
+fraternisação universal, pela pratica e realisação dos principios federaes.</p>
+
+<div class="imagem">
+<p><a name="img_pag126"></a><img src="images/pag126.png"
+alt="Augusto Vacquerie" width="100%" align="top" border="0"></p>
+</div>
+
+<p>Augusto Vacquerie é hoje, na Europa, um dos principaes e um dos mais
+brilhantes apostolos da<span class="pn">{127}</span> federação latina, e, como
+premissa, da federação iberica. É d'aquelles que acreditam como nós, que só
+pelo federalismo poderemos chegar á suppressão dos exercitos permanentes, e,
+consequentemente, á suppressão da guerra.</p>
+
+<p class="centrado">*</p>
+
+<p class="centrado">*      *</p>
+
+<h2><a name="SECTION0033400">A GUERRA VENCIDA PELA ARBITRAGEM</a> </h2>
+
+<p>A federação dos povos tornará a guerra impossivel. Mas, emquanto a federação
+se não realisa, urge estabelecer a arbitragem internacional, como meio
+pacificador. Está ainda na memoria de todos a decisão que o tribunal de
+arbitragem, constituido pelo tratado de Washington, deu ácerca das reclamações
+do Alabama. O conflicto levantado entre os Estados Unidos e a Inglaterra foi
+assim regulado de uma maneira pacifica. O governo inglez acatou a sentença,
+sendo obrigado a pagar ao governo americano uma indemnisação de 75 milhões de
+francos.</p>
+
+<p>Ora, se a questão do Alabama poude assim ser resolvida, sem derramamento de
+sangue, porque não hão de resolver-se, pelo mesmo processo, todas as questões
+internacionaes?</p>
+
+<p>Sob o ponto de vista juridico e sob o ponto de vista politico, é pois,
+evidente a necessidade da arbitragem: sob o ponto de vista juridico, porque,
+sem um systema de arbitragem, o direito das gentes é um edificio incompleto;
+sob o ponto de vista<span class="pn">{128}</span> politico, porque a situação
+actual exige manifestamente uma solução.</p>
+
+<p>Mas os systemas é que variam; havendo uns que advogam a jurisdicção
+internacional facultativa, outros que defendem a creação de tribunaes
+internacionaes especiaes, outros ainda que são por um tribunal internacional
+geral desprovido de sancção, e os ultimos que acceitam o tribunal internacional
+geral, mas com sancção.</p>
+
+<div class="imagem">
+<p><a name="img_pag128"></a><img src="images/pag128.png"
+alt="Emile de Laveleye" width="100%" align="top" border="0"></p>
+</div>
+
+<p>Poderá, porém, realisar-se a arbitragem internacional, independentemente da
+ideia de federação?</p>
+
+<p>Opinam uns pela affirmativa, sendo outros de opinião que só, pela
+constituição dos Estados Unidos da Europa, poderemos chegar á realisação
+effectiva e immediata da arbitragem.</p>
+
+<p>O sabio professor, Emile de Laveleye publicou, em 1873, um interessante
+estudo, sobre as causas actuaes da guerra na Europa, concluindo pelo
+estabelecimento de um tribunal internacional. Dois eram os meios aconselhados
+pelo eminente publicista, para acabar com o flagello da guerra: em primeiro
+logar, mostrando aos povos e convencendo-os, que, em nenhum caso, teriam a
+ganhar com<span class="pn">{129}</span> a guerra, e, em seguida, realisando
+duas grandes reformas juridicas: a elaboração de um codigo internacional e a
+creação de um tribunal para o applicar. Este tribunal seria permanente,
+reunindo-se todas as vezes que se levantasse um conflicto internacional, tendo
+a sua séde na capital de um paiz neutro&mdash;a Suissa ou a Belgica&mdash;e
+sendo composto dos representantes diplomaticos das potencias, coadjuvados por
+juristas versados na sciencia do direito das gentes.</p>
+
+<p>Laveleye era um apostolo da ideia federativa, e propunha este alvitre, por o
+considerar de mais facil acceitação por parte dos governos actuaes.</p>
+
+<p>Para aquelles que admittem o principio federalista, o tribunal internacional
+não deve ser senão um dos orgãos do futuro estado juridico. Quatro são as
+instituições, essenciaes a este systema: uma convenção federativa, que
+garantisse ás nações associadas a soberania e a autonomia de cada uma; uma lei,
+livremente votada por todas essas nações, e pela qual seriam julgados todos os
+conflictos, litigios e difficuldades que se levantassem entre ellas; um
+tribunal, com membros eleitos por estas mesmas nações, que pronunciasse a
+sentença em ultimo recurso sobre as questões que lhe fossem submettidas; e um
+poder executivo, tambem livremente eleito por todas as nações, encarregado de
+assegurar a execução da lei e as determinações do tribunal. Os partidarios
+d'esta doutrina não visam sómente, por este systema, a aperfeiçoar o direito
+internacional ou a estabelecer uma jurisdicção internacional obrigatoria; vão
+mais alêm e chegam a<span class="pn">{130}</span> um resultado final pela
+creação dos Estados Unidos da Europa.</p>
+
+<p>A guerra é um crime, condemnado pela moral, pelo direito e pela philosophia
+social.</p>
+
+<p>A sciencia e o trabalho exigem o seu desapparecimento immediato.</p>
+
+<p>Como?</p>
+
+<p>Pela arbitragem internacional e pela federação. Entre estados confederados,
+a solução impor-se-hia sem difficuldade. Na espectativa porém, e, em caso de
+guerra, é dever appellar para a arbitragem, sempre que o permittam as
+circumstancias especiaes dos paizes, cujos interesses se degladiam.</p>
+
+<p>«Ou o desarmamento ou a ruina!»</p>
+
+<p>&mdash;É este o dilemma que se levanta, sinistro e ameaçador, ante as
+potencias da Europa, cada dia mais sobrecarregadas com a contribuição de
+guerra.</p>
+
+<p>Se tal estado continua por mais dez annos, os receios de guerra haverão
+desapparecido, dizia Liebknecht e muito bem; o resultado será, então, a ruina
+geral, e, como consequencia ainda, a revolução social triumphante e
+generalisada a todos os paizes.</p>
+
+<p>Bem sabemos nós que a arbitragem internacional ha de triumphar e ha de
+estabalecer-se no mundo, como uma consequencia logica da federação. Mas,
+emquanto o actual estado de cousas subsistir, não seria demais que as nações
+submettessem as suas contendas a um tribunal arbitral, imitando, d'este modo, a
+Inglaterra e os Estados Unidos da America, na questão Alabama.</p>
+
+<p>Isto seria possivel, e isto seria, principalmente, humanitario.<span
+class="pn">{131}</span></p>
+
+<p>O espirito moderno detesta a guerra. Só o trabalho liberta. Só a paz
+emancipa. Convertamos os exercitos da destruição em exercitos da producção e da
+abundancia.</p>
+
+<p class="centrado">*</p>
+
+<p class="centrado">*      *</p>
+
+<h2><a name="SECTION0033500">O DESARMAMENTO.&mdash;EDUARDO VAILLANT</a></h2>
+
+<p>Depois da morte do general Eudes, e, ainda mais, depois da scisão que se deu
+no partido blanquista, por causa do boulangismo, ficou sendo Eduardo Vaillant o
+chefe incontestado do partido communista revolucionario, que preconisa o
+emprego da acção, da força, da propaganda pelo facto, para conquistar o poder e
+fazer cessar as iniquidades sociaes.</p>
+
+<p>Sob a sua iniciativa, porém, a concepção do velho Blanqui parece haver
+passado por uma especie de transformação. O movimento insurrecional de 1871,
+deixára no espirito de Vaillant uma impressão profunda e inextinguivel.</p>
+
+<p>Vaillant não limita o seu communismo ás forças productoras e a repartição
+dos productos, segundo as necessidades de cada um, vae até á organisação da
+communa de Paris, como primeiro passo para o estabelecimento da nova ordem
+social.</p>
+
+<p>Na sua profissão de fé, encontra-se esta ideia, profundamente accentuada:</p>
+
+<p>«É mister dar ao paiz, emancipado da tyrannia administrativa, policial e
+judiciaria, como elemento<span class="pn">{132}</span> do seu organismo
+politico, a organisação communal e cantonal, dando a Paris a liberdade
+communal, e fazendo-a entrar no direito commum, pelo restabelecimento da
+<i>Communa de Paris</i>.» Mais adeante pede, «que a communa seja senhora da sua
+administração, das suas finanças, e da sua policia.»</p>
+
+<div class="imagem">
+<p><a name="img_pag132"></a><img src="images/pag132.png" alt="Eduardo Vaillant"
+width="100%" align="top" border="0"></p>
+</div>
+
+<p>A vida politica de Vaillant, começou no anno terrivel. Regressando da
+Allemanha, por occasião da declaração de guerra, fez parte da communa,
+refugiando-se depois em Inglaterra.</p>
+
+<p>A amnistia trouxe-o novamente a França, em 1880.</p>
+
+<p>Ao lado de Blanqui que os eleitores de Lyon e Bordeaux haviam arrancado á
+prisão, Vaillant prosegue na sua obra revolucionaria, organisando o comité
+central revolucionario e sendo um dos fundadores do jornal&mdash;<i>Ni Dieu ni
+Maitre</i>, que pouco tempo poude resistir ás forças combinadas da policia e da
+reacção.</p>
+
+<p>Foi eleito conselheiro municipal em 1887, 1890 e 1893, e é hoje um dos
+deputados socialistas de Paris.</p>
+
+<p>Foi elle o auctor de um importantissimo projecto de lei apresentado
+ultimamente, em nome do partido<span class="pn">{133}</span> socialista, á
+camara dos deputados sobre <i>a suppressão do exercito permanente e a sua
+transformação progressiva em milicias nacionaes</i>.</p>
+
+<p><i>Artigo primeiro.</i>&mdash;É supprimido o exercito permanente.</p>
+
+<p>«Esta suppressão far-se-ha pela transformação immediata e rapida do exercito
+permanente em milicias nacionaes, de modo que o poder defensivo da nação, longe
+de diminuir, pelo contrario se eleve e augmente, até ao ponto de poder pôr em
+acção integralmente todas as suas forças. A defeza do paiz e da Republica, da
+sua independencia e das suas liberdades, tornar-se-hia, assim, invencivel.»</p>
+
+<p>É a renovação do projecto de Blanqui e de Gambon.</p>
+
+<p>«A Republica franceza, pela transformação democratica das suas instituições
+militares, deve pôr-se ao abrigo de todos os perigos de guerra ou de invasão, e
+de toda a ameaça de intervenção ou influencia de qualquer inimigo estrangeiro.
+Para esse fim, devem ser educadas, exercidas e organisadas todas as suas
+forças, e aproveitados todos os cidadãos validos.»</p>
+
+<p>O desarmamento só poderá realisar-se, em virtude de um accôrdo, feito e
+acceite pelas differentes potencias. Não se concebe que uma nação desarme,
+ficando á mercê de nações inimigas e armadas. Seria um contrasenso e uma
+leviandade sem nome.</p>
+
+<p>O notavel criminalista italiano, N. Colajanni, termina o capitulo da guerra
+e do militarismo, da sua <i>Sociologia criminale</i>, pelas seguintes,
+conceituosas palavras:<span class="pn">{134}</span></p>
+
+<p>«Em resumo: a guerra e o militarismo engendram o desgosto de todo o trabalho
+util; favorecem a tendencia para a preguiça; despertam no soldado novas
+necessidades, sem os meios necessarios para as satisfazer; excitam os
+primitivos instinctos, ferozes e egoistas, transformam o respeito do direito em
+respeito exaltado pela força bruta; conduzem ao servilismo e á prepotencia; e,
+por vias directas e indirectas, levam á miseria, ao suicidio, á alienação
+mental e ao crime.&mdash;Taes são os tristes resultados d'estas instituições
+sinistras, deduzidos das provas historicas e estatisticas.</p>
+
+<p>N'uma palavra&mdash;conclue o illustre e honrado socialista&mdash;«<i>o
+militarismo constitue a verdadeira escola do crime.</i>»</p>
+
+<p>O eminente escriptor e philosopho russo, Léon Tolstoi, é de opinião que a
+principal origem da guerra deriva da actual ordem social, baseada sobre a
+violencia. A organisação militar dos estados modernos está toda concentrada nas
+mãos dos governos, que não desejam perder o monopolio, servindo-se para isso de
+meios poderosos, taes como o <i>terrorismo</i>, o <i>egoismo</i>, a
+<i>disciplina militar</i>, etc.</p>
+
+<p>A guerra, apesar de iniqua, não poderá nunca ser destruida, senão pela
+educação, generalisada a todos os paizes. Quando a maioria dos povos reconhecer
+que a guerra é injusta, n'esse dia cessará a guerra. Esta revolta do direito e
+da justiça contra a força e a violencia, está certamente destinada a fazer
+algumas victimas; mas, como todas as idéas nobres e generosas, penetrará, pouco
+a pouco, nas consciencias e acabará por triumphar.<span
+class="pn">{135}</span></p>
+
+<p>Em Paris, publicou-se recentemente um livro interessantissimo de A. Hamon, o
+sabio socialista, sobre a <i>psychologia do militar de profissão</i>, que não
+podemos deixar de mencionar n'este logar, por ser de uma actualidade
+palpitante.</p>
+
+<p>O dr. Hamon parte do principio de que a criminalidade legal é infima, quasi
+inapercebivel, relativamente á criminalidade occulta.</p>
+
+<p>O fim da profissão militar é a guerra, e toda a guerra implica
+necessariamente a violencia, manifestando-se por assassinatos, violações,
+pilhagens e incendios.</p>
+
+<p>Os individuos que escolhem esta profissão, fazem-n'o levados pelo seu
+interesse pessoal. Taes individuos sentem-se predispostos para a violencia pela
+sua organisação psychica, resultante do seu organismo physiologico, pelo meio
+em que vivem e pela sua educação profissional.</p>
+
+<p>O livro de A. Hamon é a justificação da <i>Delenda Caserna</i> do capitão
+Siccardi. Estabelece a superioridade moral dos exercitos nacionaes sobre os
+exercitos profissionaes. Nos primeiros encontra-se maior respeito pela
+dignidade humana, e isto basta para que se não registem os actos de grosseria,
+de brutalidade e de violencia, que se registam ordinariamente nos segundos.</p>
+
+<p>«O militarismo é a escola do crime!»&mdash;tal é a conclusão a que chega
+Hamon no seu bello estudo de psychologia social.</p>
+
+<p>Quando é, porém, que os povos poderão celebrar, no mundo, o supremo
+beneficio da paz, do amor e da concordia?!<span class="pn">{136}</span></p>
+
+<p>Quando é que o homem se libertará, por completo, dos velhos prejuizos
+selvagens e das antigas e barbaras tradições?</p>
+
+<p>Quando soará a hora da completa maioridade e da completa emancipação?</p>
+
+<p>A humanidade caminha,&mdash;lentamente, é certo!&mdash;mas caminha...</p>
+
+<p>Confiemos no futuro!<span class="pn">{137}</span></p>
+
+<h1><a name="SECTION0034000">V <br>
+A MULHER</a> </h1>
+
+<h3 class="sinopse"><a name="SECTION0034010">R<small>ESOLUÇÃO DO CONGRESSO
+DE</small> Z<small>URICH.&mdash;</small>A <small>SITUAÇÃO DA
+MULHER&mdash;</small>S<small>EUS DIREITOS CIVIS E POLITICOS.&mdash;</small>A
+<small>MULHER EM RELAÇÃO Á INDUSTRIA.&mdash;</small>A <small>MULHER NO ESTADO
+SOCIALISTA.&mdash;</small>A <small>PRIMEIRA
+VICTORIA.&mdash;</small>M<small>ADAME</small> F<small>AULE
+</small>M<small>INK.&mdash;</small>A<small>UGUSTO</small>
+B<small>EBEL.&mdash;</small>P. A<small>RGYRIADÉS.</small></a></h3>
+
+<p>Relativamente ao trabalho das mulheres nas fabricas, o congresso de Zurich
+adoptou as seguintes resoluções, promettendo envidar, n'esse sentido, todos os
+esforços dos seus delegados:</p>
+
+<p>&mdash;Dia de trabalho maximo de dez horas para as mulheres, e de seis horas
+para as jovens de menos de dezoito annos;</p>
+
+<p>&mdash;Descanço semanal de trinta e seis horas consecutivas;</p>
+
+<p>&mdash;Prohibição do trabalho nocturno;</p>
+
+<p>&mdash;Prohibição do trabalho das mulheres em todas as industrias
+insalubres;</p>
+
+<p>&mdash;Prohibição do trabalho das mulheres nos quatro<span
+class="pn">{138}</span> mezes seguintes ao parto e nos dois ultimos mezes de
+gravidez;</p>
+
+<p>&mdash;Creação dos logares de inspectoras de fabricas, em numero sufficiente
+á efficaz vigilancia de todas as officinas, onde se empreguem mulheres;</p>
+
+<p>&mdash;Applicação d'estas disposições a todas as mulheres empregadas nas
+fabricas, officinas, armazens e na industria domestica e agricola.</p>
+
+<p>De futuro reclamar-se-ha formalmente a equiparação dos salarios das
+mulheres, conforme o seu trabalho.</p>
+
+<p>A situação da mulher, na sociedade, constitue evidentemente uma das questões
+mais importantes do nosso seculo, e reclama por isso um estudo especial. A
+população da Europa, é formada, na sua maioria, por mulheres. D'ahi a sua
+importancia, e o grande numero de opiniões, formuladas, ácerca da sua condição.
+Pensam uns que é a vocação natural da mulher que determina a esposa, a mãe e a
+dona de casa. Mas esquecem que, apenas, uma parte minima da população feminina
+está no caso de preencher os seus deveres. Contam-se por milhões, as mulheres
+que nunca poderam ser nem esposas, nem mães, nem donas de casa, e muitas outras
+que nem sequer poderam satisfazer a esta vocação natural, sendo, como é, o
+casamento, para ellas, uma escravidão, graças ás condições da industria
+moderna. Outros reclamam o accesso da mulher a todos os ramos do trabalho,
+manual e intellectual, e outros vão ainda mais longe pedindo que lhes sejam
+tambem conferidos direitos politicos.</p>
+
+<p>Na opinião de Bebel, este assumpto está intimamente<span
+class="pn">{139}</span> ligado á questão social. A sua solução, assim como a da
+questão operaria, é impossivel, emquanto não forem radicalmente transformadas
+as condições do actual estado social.<a name="tex2html32"
+href="#foot1451"><sup>[7]</sup></a></p>
+
+<p class="centrado">*</p>
+
+<p class="centrado">*      *</p>
+
+<h2><a name="SECTION0034100">A SITUAÇÃO DA MULHER</a></h2>
+
+<p>Os defensores da ordem actual dizem e sustentam que o casamento é a base da
+familia, esta a base do Estado, e que, por conseguinte, atacar o casamento o
+mesmo é que atacar a sociedade e o Estado.</p>
+
+<p>Perguntaremos, em primeiro logar, qual dos casamentos é o mais moral?</p>
+
+<p>Será o casamento forçado, o casamento venal da sociedade actual, ou o
+casamento livre, fundado sobre o amor e a estima reciproca, e que, de resto,
+não poderá realisar-se senão n'uma sociedade socialista?</p>
+
+<p>O casamento dos nossos dias, que é um resultado<span class="pn">{140}</span>
+de considerações puramente materiaes, está intimamente ligado á sociedade
+actual e destinado a cahir com ella. A lucta pela existencia, tornando-se, de
+dia para dia, mais acerba, transformou o casamento n'um acto de perfeita
+especulação mercantil.</p>
+
+<p>A prostituição é, pois, uma instituição necessaria á sociedade burgueza, e
+tão necessaria como a policia, o exercito permanente, a egreja, etc.</p>
+
+<p>Na Grecia, em Roma e na Edade-Média, a prostituição era organisada pelo
+Estado, e Santo Agostinho chegou mesmo a affirmar a sua necessidade. A
+sociedade burgueza, não só a julgou indispensavel, senão tambem a
+regulamentou.</p>
+
+<p>Hügel, na sua historia sobre a <i>Estatistica e regulamentação da
+prostituição em Vienna</i>, exprime-se do seguinte modo:</p>
+
+<p>«Com os progressos da civilisação, a prostituição transformar-se-ha,
+adoptando uma fórma mais doce e mais conveniente, mas existirá emquanto existir
+o mundo.»</p>
+
+<p>Quaes são as consequencias d'este estado de cousas?</p>
+
+<p>As doenças syphiliticas e a degeneração da humanidade que d'ellas
+resulta.</p>
+
+<p>O abaixamento progressivo da moral.</p>
+
+<p>A humilhação da mulher e a sua escravidão.</p>
+
+<p>O infanticidio e o suicidio das mulheres são devidos, em grande parte, á
+prostituição, devendo ainda accrescentar-se que são os orphãos e os filhos
+bastardos que constituem, tambem, em grande parte, os criminosos da nossa
+sociedade burgueza.<span class="pn">{141}</span></p>
+
+<p>A sociedade inteira encontra-se em estado de enervamento e de excitação,
+sendo a mulher a victima.</p>
+
+<p>Mulheres ha que sentem e vêem claramente a situação, e procuram remedial-a.
+Reclamam primeiro a sua independencia economica. Pretendem ser admittidas em
+todos os trabalhos e em todos os empregos que a sua força physica e a sua
+capacidade moral lhes permittem; pedindo, sobretudo, o accesso ás chamadas
+profissões liberaes.</p>
+
+<p>Serão justas e realisaveis semelhantes tendencias?</p>
+
+<p>É isso o que procuraremos demonstrar.</p>
+
+<p class="centrado">*</p>
+
+<p class="centrado">*      *</p>
+
+<p>O casamento, na antiguidade, era fundado sobre o despreso e a escravidão da
+mulher; o casamento christão tinha, por principio, a inferioridade e a servidão
+da mulher; o casamento burguez actual baseia-se sobre a unica conveniencia dos
+interesses mercantis e ainda na subordinação da mulher. Pela primeira d'estas
+fórmas matrimoniaes, o filho era para o pae uma simples cousa; pela segunda, o
+seu servo; e pela terceira quasi se póde dizer que continua sem direito. É
+indispensavel libertar a mulher e conceder direitos aos filhos. O casamento
+futuro terá, por condição, a escolha revogavel dos interessados, escolha livre
+e baseada unicamente sobre as affinidades intellectuaes, moraes e physicas.
+Assim<span class="pn">{142}</span> ficarão assegurados a felicidade e o
+aperfeiçoamento dos conjuges; assim poderá effectuar-se a perpetuação da
+especie nas melhores condições moraes e physicas<a name="tex2html33"
+href="#foot1452"><sup>[8]</sup></a></p>
+
+<p>Todos os socialistas dos partidos operarios são partidarios da emancipação
+da mulher, e da manutenção e educação dos filhos pela Communa ou pelo Estado. A
+unica divergencia está em saber se, de futuro, as uniões deverão ou não ser
+consagradas pela lei, admittindo todos que devem ser fundadas sobre a livre
+escolha dos affectos.</p>
+
+<p>O inconveniente da familia actual não é, como querem alguns, a monogamia que
+deve considerar-se a fórma mais digna da união dos sexos e que subsistirá,
+atravez de todas as reformas e innovações. É antes, a sua quasi
+indissolubilidade, a subordinação legal da mulher, e o rebaixamento do
+sentimento, pela preoccupação de um mercantilismo vil que preside aos actos
+conjugaes.</p>
+
+<p>O congresso internacional de Bruxellas de 1891 affirmou, no seu programma, a
+egualdade completa dos dois sexos, e reclamou para a mulher os mesmos direitos
+civis e politicos, concedidos aos homens. Como esposa, como mãe de familia,
+como trabalhadora, a mulher é tão interessada como o homem, na confecção das
+leis. A humanidade compõe-se, por egual, de homens e mulheres, inseparaveis em
+direitos e eguaes perante a justiça.<span class="pn">{143}</span></p>
+
+<p class="centrado">*</p>
+
+<p class="centrado">*      *</p>
+
+<h2><a name="SECTION0034200">A MULHER EM RELAÇÃO Á INDUSTRIA</a> </h2>
+
+<p>A burguezia, diz Bebel, concedeu á mulher a independencia individual e o
+direito ao trabalho: resultou d'aqui a sua admissão em quasi todos os ramos da
+industria.</p>
+
+<p>A burguezia reconheceu que era esse o seu interesse, por isso que o trabalho
+da mulher é menos retribuido que o do homem.</p>
+
+<p>E isto porquê?</p>
+
+<p>Porque a mulher foi sempre considerada como um ser subordinado, inferior ao
+homem, por causa das suas particularidades sexuaes. Sendo muitas vezes forçada
+a suspender o seu trabalho, os capitalistas exploraram habilmente essa
+circumstancia, como pretexto para o abaixamento do salario.</p>
+
+<p>Além d'isso, a mulher é mais docil, mais paciente que o homem, deixando-se
+tambem explorar mais facilmente do que elle.</p>
+
+<p>D'este modo, a mulher substitue o homem, e, é, por seu turno, substituida
+pela creança.&mdash;Tal é «a ordem moral» na industria moderna.</p>
+
+<p>Em vista de semelhantes abusos, tem-se já pedido a prohibição completa do
+trabalho da mulher.</p>
+
+<p>Não esqueçamos que o machinismo representou um papel importante na
+transformação industrial e que foram justamente os progressos do machinismo,
+que, supprimindo os trabalhos mais rudes, tornaram<span class="pn">{144}</span>
+possivel o emprego da mulher em certos ramos da industria.</p>
+
+<p>Só um limitado numero de pessoas, porém, graças ao auxilio dos seus
+capitaes, podem aproveitar os resultados que as descobertas scientificas
+trouxeram á sociedade; e é revoltante que milhares de operarios sejam lançados
+á margem, em virtude dos progressos do machinismo que substituiu o trabalho
+manual.</p>
+
+<p>Resulta de tudo isto, que se torna indispensavel mudar as actuaes bases
+sociaes, procurando-se a fórma de uma distribuição mais equitativa dos bens e
+dos instrumentos de trabalho.</p>
+
+<p>Na sociedade nova, os instrumentos de trabalho serão propriedade de todos,
+sem distincção de classes nem de sexos. Cada um será obrigado a trabalhar, e os
+melhoramentos e as descobertas technicas a todos aproveitarão.</p>
+
+<p>A mulher tornar-se-ha egual ao homem, podendo exercer e desenvolver as suas
+qualidades physicas e intellectuaes e gosar de todos os seus direitos.</p>
+
+<p>Sustentam alguns que a mulher é inferior ao homem, sob o ponto de vista
+intellectual, e que não é susceptivel de uma elevada cultura, sendo, como é, o
+peso do seu cerebro inferior ao do homem.</p>
+
+<p>Se a mulher é hoje menos intelligente que o homem, provém isso de haver sido
+descurada a sua educação. Quanto ao cerebro, não é o peso que lhe é necessario,
+mas a boa organisação e o exercicio. Averiguou-se, além d'isso, que, em muitos
+homens notaveis, o peso do cerebro era quasi egual á média dos cerebros
+femininos.<span class="pn">{145}</span></p>
+
+<p>No dia em que a mulher fôr tão instruida, tão educada e tão desenvolvida,
+como o homem, n'esse dia terá proclamado a sua emancipação, pela conquista dos
+seus direitos civis e politicos, e pela equiparação do seu salario ao do homem,
+em todos os ramos da industria.</p>
+
+<p>Para esse estado caminhamos. Na vida da familia, tem-se operado, n'estes
+ultimos cincoenta annos, uma verdadeira revolução. A mulher tornou-se mais
+livre, e está menos adstricta ás funcções de dona de casa. Com o andar dos
+tempos chegará a emancipar-se completamente.</p>
+
+<p class="centrado">*</p>
+
+<p class="centrado">*      *</p>
+
+<h2><a name="SECTION0034300">A MULHER NO ESTADO SOCIALISTA</a> </h2>
+
+<p>Na sociedade nova, a mulher, gosando de inteira independencia, não estará
+mais exposta a qualquer dominio ou exploração, e tornar-se-ha a egual do homem.
+Receberá a mesma educação que o homem, excepto nas especialidades em que a
+differença de sexo exige uma cultura especial. Como o homem, ella poderá pois,
+desenvolver livremente as suas forças, as suas capacidades physicas e
+intellectuaes, e escolher, para a esphera da sua actividade, o que fôr conforme
+aos seus gostos e ás suas aptidões.</p>
+
+<p>Pelo que respeita ao amor, a mulher gosará de tanta liberdade como o homem.
+Poderá, pelos mesmos titulos, manifestar os sentimentos que elle lhe inspirar.
+Na sua união, não será guiada senão pelo<span class="pn">{146}</span> amor,
+como nos tempos primitivos. Tal união dependerá de uma simples combinação
+particular, sem o concurso de nenhum funccionario, com a differença de que a
+mulher deixará de ser a escrava do homem e não lhe será dada como um presente
+ou uma mercadoria.</p>
+
+<p>Devemos pois, trabalhar para esse futuro proximo que ha de inaugurar o
+regimem das uniões monogamicas, livremente contractadas, e, em ultimo caso,
+tambem livremente dissolvidas, por simples consentimento mutuo, á semelhança do
+que se faz já hoje com os divorcios, nos diversos paizes europeus, em Genebra,
+na Belgica, na Roumania, etc., e com a separação na Italia.</p>
+
+<p>O discernimento, a instrucção e a independencia facilitarão as uniões. No
+caso em que a antipathia, o desgosto, e a incompatibilidade de genio
+succedessem ao amor, entre o homem e a mulher, a moral impôr-lhes-hia o dever
+de romperem uma união, que, não sendo já baseada sobre o affecto, se havia
+tornado anormal.</p>
+
+<p>N'uma palavra, sendo supprimida a herança, os casamentos de mero interesse
+deixarão de ter uma razão de ser.</p>
+
+<p class="centrado">*</p>
+
+<p class="centrado">*      *</p>
+
+<h2><a name="SECTION0034400">A PRIMEIRA VICTORIA</a></h2>
+
+<p>As mulheres francesas acabam de alcançar a sua primeira victoria, no campo
+politico: o senado adoptou, em primeira leitura, um projecto de lei que<span
+class="pn">{147}</span> concede á mulher o direito de participar, como
+eleitora, na formação dos tribunaes de commercio. Se a camara partilhar esta
+opinião, de hoje em deante as mulheres commerciantes poderão nomear os seus
+juizes.</p>
+
+<p>A 3 de dezembro de 1883, a camara dos deputados tinha de examinar a nova lei
+que lhe era proposta, sobre a eleição dos juizes consulares. A commissão das
+petições, havia recebido de Madame Maria Deraismes uma petição, pedindo para
+que fosse extendido ás mulheres este direito de suffragio. O relator introduziu
+effectivamente, na lei, uma emenda, assim concebida: «Os membros dos tribunaes
+de commercio serão eleitos pelos commerciantes e <i>pelas commerciantes</i>...»
+A commissão, porém, por rasões de simples opportunidade, não adoptou esta
+emenda.</p>
+
+<p>Na sessão de 11 de Março de 1884, o deputado Hubbard apresentou um novo
+projecto, em que se propunha «que as mulheres commerciantes tinham pela lei
+obrigações e encargos especiaes inherentes á qualidade da sua profissão. A
+commerciante paga, como o commerciante, um imposto especial, a patente; está
+submettida ás disposições rigorosas da lei commercial; póde ser declarada
+fallida e póde ser perseguida por quebra fraudulenta. É impossivel citar uma
+unica das obrigações impostas aos homens que lhe não incumbam. Estando
+submettida aos mesmos deveres especiaes, é justo que aproveite dos direitos
+especiaes que a lei confere ao commerciante. E desde que ao commerciante é dado
+eleger os magistrados que teem de julgar as suas causas,<span
+class="pn">{148}</span> á commerciante, sob pena de inferioridade, não póde
+deixar de ser concedido o mesmo direito.»</p>
+
+<p>O relator terminava, affirmando que as mulheres que teem a direcção e a
+responsabilidade de um estabelecimento commercial, assignalam-se, em geral,
+mais que os homens, por qualidades de ordem, de economia e de probidade.</p>
+
+<p>A 17 de fevereiro, a camara dos deputados tomava em consideração um
+relatorio do sr. Colfavru favoravel aos direitos civis da mulher.</p>
+
+<p>Finalmente, em junho de 1889, Ernesto Lefèvre, vice-presidente da camara,
+com mais 53 dos seus collegas, renovou a iniciativa da proposta, que tinha por
+fim conferir ás mulheres o eleitorado nos tribunaes de commercio. A camara
+tomou-a na devida consideração, elegendo-se uma commissão de 9 membros, todos
+favoraveis ao projecto, e, sendo votada a lei, depois de approvado o relatorio
+do sr. Colfavru.</p>
+
+<p>Após quatro annos e meio de demora, acaba tambem o senado de dar o seu
+assentimento ao projecto. O tempo pouco faz ao caso. O importante a registrar,
+foi o triumpho obtido pelas mulheres, triumpho que não será certamente o
+ultimo, e que é, porventura, o primeiro de uma longa serie de outros a contar e
+a celebrar.</p>
+
+<p class="centrado">*</p>
+
+<p class="centrado">*      *</p>
+
+<h3><a name="SECTION0034410">M<small>ADAME</small> P<small>AULE</small>
+M<small>INK</small></a></h3>
+
+<p>Entre as mulheres que, em França, mais se teem distinguido na gloriosa
+campanha, em favor da emancipação<span class="pn">{149}</span> da mulher, seria
+ingratidão esquecer Madame Paule Mink, que, ainda nas ultimas eleições, foi
+apresentada como candidata á deputação por Paris.</p>
+
+<div class="imagem">
+<p><a name="img_pag149"></a><img src="images/pag149.png" alt="M.me Paule Mink"
+width="100%" align="top" border="0"></p>
+</div>
+
+<p>Conheci-a, em Madrid, por occasião do centenario de Colombo. Era delegada ao
+congresso dos livres pensadores e fôra-me recommendada por Benoit Malon e P.
+Argyriadés.</p>
+
+<p>Modesta, despretenciosa e dedicada, Madame Paule Mink tem sido para muitos
+uma incomprehendida, mas é seguramente para todos um bello e luminoso talento,
+engastado n'um coração de oiro.</p>
+
+<p>Quem a visita, na sua casa de Paris, encontra-a sempre rodeada das suas
+gentis filhas que estremece e adora, e absorvida pela leitura dos seus authores
+predilectos. É uma mãe disvelada e terna e uma companheira leal e
+affectuosa.</p>
+
+<p>Madame Paule Mink fez parte da Communa de Paris, e ainda ultimamente, por
+occasião da greve de Pas de Calais, foi presa, no momento em que se preparava
+para fazer uma conferencia, e depois julgada e condemnada.</p>
+
+<p>As perseguições teem-lhe avigorado ainda mais, se<span
+class="pn">{150}</span> é possivel, as convicções purissimas. Nada a contraria
+e nada a desalenta. Faz consistir toda a sua felicidade, no amor de seus filhos
+e na dedicação pela causa a que se entregou de corpo e alma. É uma altruista,
+no bom e verdadeiro sentido da palavra. Não conhece obstaculos e não conhece
+sacrificios. Nem as privações, nem as difficuldades da vida, lograram jámais
+perturbar-lhe o animo ou aniquilar-lhe a vontade indomavel. Não é só uma mulher
+forte; é tambem um grande e superior caracter, e, n'este duplo aspecto, reside
+o segredo do seu poder, como evangelista e como propagandista da causa
+social.</p>
+
+<p class="centrado">*</p>
+
+<p class="centrado">*      *</p>
+
+<h3><a name="SECTION0034420">P. A<small>RGYRIADÉS</small></a></h3>
+
+<p>Não encerraremos já agora este capitulo, sem prestar uma homenagem devida a
+P. Argyriadés, pelo serviço que prestou á democracia socialista, com a
+traducção analytica da bella e gloriosissima obra de Augusto Bebel&mdash;<i>A
+mulher e o Socialismo.</i></p>
+
+<p>Alto, forte, robusto, dotado de um temperamento excepcional e de qualidades
+verdadeiramente superiores, Panagiotis Argyriadés nasceu em Castoria, na
+Macedonia, a 15 de agosto de 1852. Em 1872, installou-se em Paris, fazendo-se
+inscrever na faculdade de direito. Em 1878, assistiu, como representante da
+Grecia, ao congresso dos orientalistas que se realisou n'aquella cidade, e, no
+anno seguinte, ao de Londres, tambem como delegado do seu paiz. Em<span
+class="pn">{151}</span> 1875, publicou um interessante opusculo sobre a <i>Pena
+de morte, considerada sob o ponto de vista philosophico, moral, legal e
+pratico</i>, que teve as honras de ser citado, na tribuna do senado, por Victor
+Schoelcher. Foi depois d'esta bella estreia que se entregou inteiramente ao
+socialismo. Naturalisou-se francez, em 1880; e d'esta época em diante,
+assignalou-se no fôro, pela defeza de muitas causas importantes que, ao mesmo
+tempo, lhe grangearam renome e gloria. Em 1883, foi elle quem organisou a
+manifestação em honra de Flourens; mais tarde, foi ainda, pela sua iniciativa,
+que se provocou o protesto publico contra a chegada a Paris do rei Affonso XII
+que acabava de ser nomeado coronel de uhlanos. Em 1885, fundou <i>La Question
+Sociale</i>, a popularissima revista que todos conhecem e que tão relevantes
+serviços tem prestado aos principios socialistas.<span
+class="pn">{152}</span></p>
+
+<div class="imagem">
+<p><a name="img_pag151"></a><img src="images/pag151.png" alt="P. Argyriadés"
+width="100%" align="top" border="0"></p>
+</div>
+
+<p>O <i>Almanach de la Question Sociale</i> que é o melhor, no seu genero, que
+se publica na grande capital da França, vae já no seu quarto anno, e foi
+fundado com eguaes intuitos e eguaes aspirações. É um excellente repositorio do
+actual movimento socialista, e recommenda-se a todos os que se interessam pelo
+estudo e pela solução dos problemas sociaes.</p>
+
+<p>Tambem lhe é devido o numero commemorativo da <i>Manifestação do 1.º de
+Maio</i> que, nos dois ultimos annos, se publicou em Paris.</p>
+
+<p>P. Argyriadés reside em Autenil, numa deliciosa e aprasivel vivenda, a vinte
+minutos dos Campos Elyseos. A sua casa é o ponto de reunião de todos os
+escriptores e pensadores socialistas. Foi ali que eu, pela primeira vez, travei
+conhecimento com Allemane, um glorioso trabalhador e um chefe incontestado; foi
+ali, em almoços intimos, e numa dôce e pura confraternidade, que tive o
+inolvidavel prazer de estreitar relações com alguns dos principaes vultos do
+socialismo moderno&mdash;com Pierre Lavroff, o honrado revolucionario russo, um
+convicto e um fanatico; com Adolphe Tabarant, o auctor do <i>Pequeno cathecismo
+socialista</i>, um poeta adoravel, e um espirito vivo e scintillante; com Paul
+Cassard, o intrepido e valente redactor do <i>Peuple</i>, de Lyon; com Aurelien
+Scholl, o mais delicioso e original conversador que temos encontrado, a prosa
+transformada em arte, a palavra feita esculptura; com Sanial, um americano,
+trazendo ao socialismo as lições da sua experiencia e as observações da sua
+longa pratica na vida; com Duc-Quercy, tão<span class="pn">{153}</span>
+attrahente pela sua physionomia energica e communicativa, como pelo seu
+caracter firme e decidido; e com tantos outros cujos nomes constituem a immensa
+e gloriosa pleiade de publicistas, de revolucionarios e de combatentes que bem
+poderiamos denominar a ala dos namorados do Bem, da Verdade e da Justiça.</p>
+
+<p>A estas pequenas festas de familia preside de ordinario uma senhora que
+occulta, sob o pseudonymo de Marianne, um bello e juvenil talento de
+escriptora, e que, além de mãe disvelada e de esposa extremosa, é tambem a
+companheira gentilissima do nosso querido e honrado amigo: é M.<sup>me</sup>
+Argyriadés.</p>
+
+<p>Juntos os dois esposos formam como que um nucleo de propaganda socialista,
+de uma influencia decisiva e de um largo e elevado alcance. O socialismo
+internacional e cosmopolita não tem, seguramente, em França, melhor
+vulgarisador nem mais dedicado e intelligente apostolo!<span
+class="pn">{154}</span> <span class="pn">{155}</span></p>
+
+<h1><a name="SECTION0035000">VI <br>
+A SOCIEDADE NOVA</a> </h1>
+
+<h3 class="sinopse"><a name="SECTION0035010">A <small>TRANSFORMAÇÃO SOCIAL
+IMPÕE-SE.&mdash;</small>O <small>QUE É O COLLECTIVISMO.&mdash;</small>O
+E<small>STADO SOCIALISTA, SEGUNDO</small> A<small>UGUSTO</small> B<small>EBEL,
+E</small> B<small>ENOIT</small> M<small>ALON.&mdash;</small>A <small>LEGISLAÇÃO
+DIRECTA PELO POVO.&mdash;</small>A <small>SOCIALISAÇÃO DOS
+MONOPOLIOS.&mdash;</small>H<small>ECTOR</small> D<small>ENIS,
+</small>G<small>UILLAUME DE</small> G<small>REEF E</small> E<small>MILE
+DE</small> V<small>ANDERWELDE.&mdash;</small>A <small>NOVA GERAÇÃO
+PORTUGUEZA.&mdash;</small>J<small>OSÉ </small>F<small>ONTANA E</small>
+S<small>OUSA</small> B<small>RANDÃO.</small></a></h3>
+
+<p>Já n'outro logar o dissémos: o socialismo desenvolve-se, por toda a parte,
+de uma maneira espantosa. Nas eleições geraes para deputados, de 1889, obteve o
+partido socialista, em França, 90:000 votos nas ultimas eleições de 1893,
+elevou-se essa votação a 500:000 votos, cabendo a Paris 226:000. Na Inglaterra,
+o paiz do individualismo, conseguiram os socialistas levar ao parlamento onze
+deputados, na eleição de 1892. A limitação das horas de trabalho e a garantia
+obrigatoria nos accidentes, são uma prova provada da importancia e da
+influencia d'esse grupo, na camara dos communs. Na Austria, e especialmente na
+Bohemia e na Silesia, o partido operario dispõe de uma forte organisação. Na
+Suissa, á frente do seu programma, inscrevem<span class="pn">{156}</span> os
+socialistas o direito ao trabalho; na Dinamarca, pela eleição de 1893, foram
+sete socialistas eleitos para o conselho municipal de Copenhague; em França,
+por duas vezes, no mez de Janeiro corrente, esteve o governo da republica
+ameaçado de dar a sua demissão: a primeira vez pela proposta de Paschal
+Grousset, o antigo communista e um pamphletario destemido, sobre a amnistia, e
+a segunda vez pela emenda de Jaurés, um pensador e um parlamentar
+distinctissimo, ácerca da conversão dos titulos da divida publica. Emfim, não
+ha já hoje governo ou individuo, qualquer que seja a sua posição ou fortuna,
+que não acompanhe ou se não interesse pela solução dos problemas sociaes. O
+exercito do futuro é cada vez mais numeroso. Sobre o fundo vermelho da sua
+bandeira, desfraldada aos ventos, destaca-se esta divisa, escripta em letras de
+fogo: «<i>Emancipação de todos os opprimidos e de todos os explorados.
+Renovação total, pela bondade, pelo amor, pela sciencia, pela justiça e pela
+solidariedade.</i>»</p>
+
+<p>A todos se afigura não só <i>possivel</i>, senão tambem inevitavel uma
+revolução social.</p>
+
+<p>Luiz Blanc dizia-o ha cincoenta annos, dirigindo-se á burguesia franceza.</p>
+
+<p>«Deve tentar-se uma revolução social:</p>
+
+<p>«1.º&mdash;Porque a actual ordem social está cheia, em demasia, de
+iniquidades, de miserias e de servidões, para que possa durar muito tempo;</p>
+
+<p>«2.º&mdash;Porque não ha ninguem que deixe de ter interesse n'uma nova ordem
+social;</p>
+
+<p>«3.º&mdash;Porque, emfim, esta revolução, tão necessaria,<span
+class="pn">{157}</span> é possivel e até facil de se proclamar
+pacificamente.»</p>
+
+<p>Assim fallava o eloquente author de <i>L'histoire de dix ans</i>, ha meio
+seculo. De então para cá, os factos teem-lhe dado rasão. A transformação social
+impõe-se a todos os espiritos, a todos os paizes e a todos os governos, e isto
+explica, até certo ponto, o motivo porque o socialismo está tanto em voga e
+porque o perfilham e adoptam os povos modernos, não só por intermedio dos seus
+pensadores mais notaveis, senão tambem pelos seus representantes de classe e
+pelos interpretes da opinião popular.</p>
+
+<p class="centrado">*</p>
+
+<p class="centrado">*      *</p>
+
+<h2><a name="SECTION0035100">O QUE É O COLLECTIVISMO</a></h2>
+
+<p>Toda a theoria, como toda a civilisação, diz Benoit Malon, tem a sua
+dominante, pela qual se julga e afere. A dominante da sociedade contemporanea
+encontra-se na pratica do individualismo universal, pelo odioso <i>cada um para
+si e pela guerra de todos contra todos</i>.</p>
+
+<p>De todas as questões que o socialismo pretende resolver, é, sem duvida, a
+questão da propriedade a mais importante. Da sua solução depende o juizo a
+fazer sobre o pensamento social contemporaneo. O collectivismo derivou do modo
+de conceber a apropriação das cousas. Ha mais de quarenta annos que os
+socialistas procuram explicar a significação d'esta palavra, e, sem embargo, o
+vulgo ainda<span class="pn">{158}</span> muitas vezes confunde o collectivismo
+com o communismo, não obstante haver uma differença radical entre um e
+outro.</p>
+
+<p>No <i>communismo</i>, as forças productoras e os productos, postos em
+commum, ficam sob a gestão directa do Estado; o <i>collectivismo</i> não é
+senão a inalienabilidade das forças productoras, collocadas sob a tutella do
+Estado, que, por seu turno, as confia, temporariamente e mediante indemnisação,
+aos grupos profissionaes. N'estes grupos a repartição faz-se pelo
+<i>prorata</i> do trabalho. O consumo é inteiramente livre. Cada um gasta,
+conforme lhe apraz, o equivalente que lhe cabe, do producto do seu trabalho,
+depois de satisfeitos os encargos sociaes.</p>
+
+<p>O collectivismo é pois, uma concepção socialista que comporta:</p>
+
+<p>1.º&mdash;A apropriação em commum, mais ou menos gradual, da terra, dos
+instrumentos de producção e da troca;</p>
+
+<p>2.º&mdash;A organisaçao corporativa, communal ou geral, da producção e da
+troca;</p>
+
+<p>3.º&mdash;A faculdade para cada trabalhador de dispôr, a seu bel prazer, do
+equivalente de maior valor por elle creado;</p>
+
+<p>4.º&mdash;O direito ao desenvolvimento integral para as creanças; o direito
+á existencia para os invalidos do trabalho; e a garantia, para todos os
+validos, de um trabalho remunerador na associação da sua livre escolha.</p>
+
+<p>Querer isto&mdash;affirma muito bem Malon&mdash;não é perfilhar os erros do
+communismo utopico: é combinar simplesmente a necessidade do concurso para<span
+class="pn">{159}</span> a producção com a justiça economica e as justas
+exigencias da liberdade humana.</p>
+
+<p class="centrado">*</p>
+
+<p class="centrado">*      *</p>
+
+<h2><a name="SECTION0035200">O ESTADO SOCIALISTA, SEGUNDO AUGUSTO BEBEL</a></h2>
+
+<p>Não se destróe radicalmente senão aquillo que se substitue&mdash;dizia
+Danton, na sua phrase grandemente revolucionaria.</p>
+
+<p>O Estado socialista oppõe:</p>
+
+<p>1.º&mdash;<i>ao estado de guerra, a paz internacional e a federação dos
+povos;</i></p>
+
+<p>2.º&mdash;<i>aos antagonismos economicos, a organisação solidaria da
+producção e da distribuição das riquezas;</i></p>
+
+<p>3.º&mdash;<i>á ignorancia, a universalisação do saber e a cultura
+moral.</i></p>
+
+<p>Todos os pensadores progressistas são pois, accordes em reconhecer que os
+Estados socialistas, de um futuro mais ou menos proximo, hão de ser formados
+por republicas federadas, que, em si mesmo, não serão outra cousa, senão uma
+estreita federação de communas, engrandecidas e transformadas, politica e
+socialmente. Para essa concepção de fórmas sociaes superiores se dirigem
+presentemente todas as vistas e todas as escholas. Só os processos variam,
+segundo o individuo que os emprega ou segundo o meio em que teem de actuar.</p>
+
+<p>Vejamos, primeiro, como Augusto Bebel, um socialista<span
+class="pn">{160}</span> republicano, segundo a sua propria confissão, concebe
+as relações sociaes que hão de vigorar n'um regimen socialista, isto é, n'uma
+sociedade futura.</p>
+
+<div class="imagem">
+<p><a name="img_pag160"></a><img src="images/pag160.png" alt="Augusto Bebel"
+width="100%" align="top" border="0"></p>
+</div>
+
+<p><small>A.</small>&mdash;<i>A expropriação capitalista inherente ao novo
+regimen, será feita em proveito de todos e no interesse de toda a sociedade.
+Realisada esta expropriação, a sociedade assentará em novas bases e a
+existencia humana mudará por completo. A organisação actual tornar-se-ha
+inutil, e o proprio Estado se tornará desnecessario, tendendo a desapparecer,
+como desappareceram as religiões, desde que deixou de existir a crença no
+sobrenatural.</i></p>
+
+<p><small>B.</small>&mdash;<i>A lei fundamental da sociedade socialista é o
+trabalho para cada um dos seus membros sem distincção de sexo.</i></p>
+
+<p>Esta lei é justa e necessaria. Em primeiro logar, ninguem póde satisfazer as
+suas necessidades sem trabalhar. Sendo valido, ninguem tem o direito, por outro
+lado, de viver do trabalho do seu semelhante.<span class="pn">{161}</span></p>
+
+<p>A organisação da sociedade, fundada sobre a liberdade e a legalidade, na
+qual cada um responde por todos assim como todos respondem por cada um,
+suscitará um sentimento de solidariedade, uma emulação e um desejo de trabalho
+até hoje desconhecidos. D'esta fórma o trabalho tornar-se-ha mais productivo e
+o producto aperfeiçoar-se-ha.</p>
+
+<p>A falta de trabalho, tão frequente nos nossos dias, não poderá existir na
+sociedade futura, que apenas produzirá para consumir, em harmonia com os
+principios de justiça e tendo sempre em vista o bem geral.</p>
+
+<p><small>C.</small>&mdash;<i>Na sociedade futura, a producção, mudando de
+fórma, fará desapparecer o commercio, apanagio da sociedade actual.</i></p>
+
+<p>Em vez dos milhares d'intermediarios que hoje existem, teremos os grandes
+estabelecimentos, e o transporte dos productos far-se-ha por uma fórma
+completamente nova.</p>
+
+<p><small>D.</small>&mdash;<i>Na nova organisação as terras serão propriedade
+commum, assim como o foram já no começo da civilisação, mas com fórmas sociaes
+superiores.</i></p>
+
+<p>O bem estar de uma população depende do grau de cultura que o sólo attingir.
+Emquanto a terra se conservar como propriedade privada, nunca a cultura se
+aperfeiçoará. Os pequenos proprietarios não dispõem para isso dos meios
+necessarios, e os grandes proprietarios, com as suas florestas e os seus
+parques, deixam por cultivar uma grande parte das suas terras.</p>
+
+<p>Pela fórma indicada desapparecerá o contraste secular entre a população das
+cidades e a população dos campos.<span class="pn">{162}</span></p>
+
+<p><small>E.</small>&mdash;<i>Com a expropriação do sólo e dos instrumentos de
+trabalho, desapparecerá um grande numero de abusos e de males que nos affligem
+na organização actual.</i></p>
+
+<p>O que determina hoje a posição dos homens, na sociedade, é a quantidade
+maior ou menor de dinheiro que possuem. No futuro estado socialista, a
+sociedade fará tudo por si mesmo. Nem as pessoas nem as classes poderão
+prejudicar-se entre si. O estado, tornando-se inutil, desapparecerá. Não haverá
+pois, nada a governar nem a supprimir ou a opprimir.</p>
+
+<p>Com o Estado desapparecerá naturalmente tudo o que o representa: ministros,
+parlamentos, policia, prisões, exercito permanente, procuradores, advogados,
+n'uma palavra, todo o apparelho da dominação politica. A sociedade ficará na
+plena posse de si mesmo.</p>
+
+<p><small>F.</small>&mdash;<i>Na organisação actual reclama-se, para todos, o
+mesmo nivel d'instrucção e de educação.</i></p>
+
+<p>Ora esta egualdade é impossivel no regimen burguez, conforme o demonstra
+Augusto Bebel. Para receber uma instrucção mediana é preciso ter dinheiro e
+vagar. No Estado socialista as condições do desenvolvimento physico, moral e
+intellectual serão as mesmas para todos. Cada um poderá pois, instruir-se e
+viver, conforme as suas aptidões e os seus gostos.</p>
+
+<p><small>G.</small>&mdash;<i>Sob o regimen futuro a vida social tornar-se-ha
+publica.</i></p>
+
+<p>São os factos que o provam. A vida tem-se modificado sensivelmente n'estes
+ultimos dez annos. A existencia torna-se cada vez menos familiar, e, em pouco,
+será passada inteiramente nas officinas, nos<span class="pn">{163}</span>
+campos, e nos locaes publicos, destinados ao estudo e á instrucção.</p>
+
+<p><small>H.</small>&mdash;Bebel diz que, sendo melhoradas e augmentadas as
+vias de communicação na sociedade futura, as viagens de instrucção
+tornar-se-hão mais faceis do que succede no actual regimen. O trabalho será
+regulado, de modo a permittir a viagem, ao mesmo tempo, de prazer e de
+estudo.</p>
+
+<p>Quanto aos velhos, aos invalidos, e aos doentes, quando já não possam
+trabalhar, a sociedade fornecer-lhes-ha os meios indispensaveis á
+existencia.</p>
+
+<p>As doenças tomar-se-hão mais raras, por isso mesmo que a vida será mais
+regular. A alimentação será preparada scientificamente nos estabelecimentos
+publicos. A vida de familia será transformada por completo.</p>
+
+<p>Bebel diz ainda que o socialismo não póde ser realisado por um povo,
+isoladamente. Á primeira vista parece que o principio das nacionalidades domina
+o mundo. Mas é um erro. O internacionalismo cosmopolita começa realmente a
+penetrar nas populações. Todos os povos se encontram nas mesmas condições
+sociaes. Por toda a parte se observam as mesmas luctas de classes que serão
+decisivas antes do fim do seculo XIX.</p>
+
+<p>No novo estado social, fundado sobre bases internacionaes, as nações
+civilisadas formarão uma federação d'onde será banida a guerra. A paz universal
+não é um sonho nem uma aspiração de visionarios. Um progresso dará logar a
+outros progressos, e a humanidade avançará sem cessar para um ideal de
+perfeição illimitada.<span class="pn">{164}</span></p>
+
+<p class="centrado">*</p>
+
+<p class="centrado">*      *</p>
+
+<h2><a name="SECTION0035300">O ESTADO SOCIALISTA, SEGUNDO BENOIT MALON</a></h2>
+
+<p>A noção de patria encerrou-se primeiro na <i>tribu</i>; depois na
+<i>cidade</i>; mais tarde na <i>provincia</i>, e por ultimo na <i>nação</i>.
+Porque é pois, que a patria não ha de ser <i>continental</i> ou
+<i>intercontinental</i> (europeio-americana) e finalmente <i>planetaria</i>?</p>
+
+<p>A philosophia antiga dizia: <i>Dignidade, Moderação, Virtude;</i> o
+Christianismo: <i>Fé, Esperança, Caridade;</i> o boudhismo: <i>Vontade,
+Justiça, Affinidade;</i> o XVIII seculo: <i>Investigação, tolerancia,
+sensibilidade;</i> a revolução franceza: <i>Liberdade, egualdade,
+fraternidade;</i> o socialismo utopico: <i>Dedicação, solidariedade,
+harmonia;</i> o socialismo integral terá por divisa: <i>Justiça, fraternidade,
+solidariedade.</i></p>
+
+<p>Taes serão os principios do Estado social do futuro, no conceito de Benoit
+Malon.</p>
+
+<p>Não nos accuseis de utopista, diz elle. Possuimos o <i>saber</i> e a
+<i>actividade</i>; o que nos falta é a <i>doutrina</i> e a <i>boa vontade</i>.
+Nas federaçães europeia, americana e planetaria do futuro, estas quatro forças
+estarão unidas, e, pelo seu poder, constituirão a origem da felicidade e
+tenderão a suavisar, no interesse de todos os seres, a crueldade da situação
+actual.</p>
+
+<p>Como politica, o socialismo aconselha: o emprego de todos os meios de lucta:
+a resistencia economica (grève); voto; e, sendo necessario, a<span
+class="pn">{165}</span> força, a geradora das sociedades novas, no dizer de
+Marx.</p>
+
+<p>Tão longe não ia decerto Malon. Elle não renegou nunca o espirito
+revolucionario que reputava indispensavel á existencia e á disciplina dos
+partidos operarios. Mas estava persuadido que o convencimento e a persuasão
+valiam mais que a força, como elementos de propaganda e de transformação
+social.</p>
+
+<p>Vejamos qual era a sua concepção, sobre o Estado socialista, pela
+socialisação dos monopolios. Mas antes d'isso fallemos rapidamente n'um outro
+artigo, tambem do seu programma.</p>
+
+<p class="centrado">*</p>
+
+<p class="centrado">*      *</p>
+
+<h2><a name="SECTION0035400">A LEGISLAÇÃO DIRECTA PELO POVO</a> </h2>
+
+<p>Charles Burkli apresentou, sobre este assumpto, ao congresso de Zurich, uma
+proposta muito notavel e muito bem deduzida:</p>
+
+<p>«O congresso, considerando que a lei é o interesse escripto do legislador;
+que na legislação a determinante deve ser o interesse do povo; que os corpos
+representativos, segundo a experiencia, representam mais os capitalistas do que
+os operarios; e que as leis, por conseguinte, se fazem a favor do capital, em
+detrimento da classe operaria; que o parlamentarismo, em toda a parte onde
+domina sem limites, conduz á corrupção e ao ludibrio do povo; e que só pela
+intervenção directa na legislação é<span class="pn">{166}</span> que o povo
+adquirirá a consciencia da sua força, condição indispensavel á liberdade da
+classe operaria:</p>
+
+<p>«Declara que é uma condição preliminar da suppressão de todo o dominio de
+classe, que as classes operarias intervenham, como o mais poderoso meio de
+combate politico, a favor da legislação directa pelo povo, segundo a qual o
+povo exercerá o direito de proposição para as leis (iniciativa) e o direito da
+votação das leis (referendum).»</p>
+
+<p>Foi Mauricio Rittinghausen o instigador d'esta ideia e o seu propagandista
+mais authorisado.</p>
+
+<p>Convencido que só o collectivismo na legislação, isto é, a participação de
+todos na confecção das leis, póde corresponder ao collectivismo da propriedade,
+e que nunca chegaremos a este segundo meio, a não ser por intermedio do
+primeiro: convencido ainda que o systema representativo, embora fira o
+privilegio, não resolverá nunca a questão social; Rittinghausen tentou
+construir sobre este principio um systema governamental que tornou applicavel
+ás grandes nações modernas, compostas de milhares de individuos, e foi este o
+systema que elle intitulou <i>a legislação directa pelo povo</i>.</p>
+
+<p>Foi a 8 de setembro de 1850, que appareceu, na <i>Démocratie Pacifique</i>,
+o primeiro dos tres artigos intitulados&mdash;a legislação directa pelo povo ou
+a verdadeira democracia. Rittinghausen viu-se logo atacado por Luiz Blanc,
+Emile de Girardin e Proudhon. Mas teve por si o apoio das massas. Poucos mezes
+depois, mais de trinta e seis jornaes defendiam a nova theoria. Proudhon
+publicava, por esse<span class="pn">{167}</span> tempo, a sua grande obra:
+<i>Idée générale de la Révolution</i>, e dizia:&mdash;Supponhamos que é esta a
+questão: «O governo será directo ou indirecto?»&mdash;A avaliar pelo successo
+que acabam de ter, para a democracia, as ideias de Rittinghausen e Considerant,
+quasi se póde affirmar, com uma quasi certeza, que a resposta da grande maioria
+será pelo governo <i>directo</i>...»</p>
+
+<p>Após longos annos de lucta, Rittinghausen logrou ver inscripta a legislação
+directa, no programma da democracia socialista allemã, approvado pelo congresso
+d'Eisnach, em agosto de 1869.</p>
+
+<p>Só em 1868, porém, foi a legislação directa, introduzida em Zurich, por
+Charles Burkli, o mesmo que apresentou ao congresso de 1863 a proposta a que
+acima nos referimos.</p>
+
+<p>Mauricio Rittinghausen nasceu em Huckeswagen (Allemanha) a 12 de Novembro de
+1814 e falleceu em Ath (Belgica) a 29 de dezembro de 1890.</p>
+
+<p>O systema parlamentar deu já, por toda a parte, o que tinha a dar. A
+legislação directa pelo povo é o unico systema governamental que corresponde,
+em politica, ás exigencias e ás necessidades do socialismo moderno.</p>
+
+<p class="centrado">*</p>
+
+<p class="centrado">*      *</p>
+
+<h2><a name="SECTION0035500">A SOCIALISAÇÃO DOS MONOPOLIOS</a> </h2>
+
+<p>O direito á existencia deve ser fundado sobre o direito ao trabalho. Por seu
+turno o direito ao trabalho engendra a organisação social do trabalho,<span
+class="pn">{168}</span> d'onde deriva a necessidade de um <i>ministerio do
+trabalho</i>.</p>
+
+<p>As attribuições d'este ministerio seriam:</p>
+
+<p>1.º&mdash;A applicação rigorosa das leis industriaes, melhoradas e
+completadas;</p>
+
+<p>2.º&mdash;A reorganisação do trabalho das prisões, de molde a proteger os
+interesses do trabalho livre, e a tornar mais justas, mais humanas e mais
+moralisadoras as relações entre a administração e os condemnados;</p>
+
+<p>3.º&mdash;O estabelecimento de um serviço especial de estatistica, que sirva
+de informação aos productores (operarios e patrões) e aos commerciantes, ácerca
+das condições do mercado do trabalho e da troca;</p>
+
+<p>4.º&mdash;Reorganisação do trabalho nas manufacturas e outros
+estabelecimentos do Estado;</p>
+
+<p>5.º&mdash;Instituição de uma camara operaria consultiva do trabalho, em
+bases rigorosamente corporativas, e de uma camara do commercio e da industria,
+destinada a apresentar os projectos que teriam de ser discutidos em publico;</p>
+
+<p>6.º&mdash;Instituição de um grande conselho arbitral, eleito em parte pelos
+syndicatos operarios, e em parte pelos syndicatos dos patrões e pelas camaras
+de commercio, e que se pronunciaria sobre todas as questões economicas a elle
+submettidas pelas partes interessadas;</p>
+
+<p>7.º&mdash;A reorganisação do ensino agricola, industrial e commercial;</p>
+
+<p>8.º&mdash;A reorganisação dos trabalhos publicos, comportando a constituição
+de exercitos industriaes,<span class="pn">{169}</span> de quadros permanentes
+mas de pessoal variavel, e que poderiam ser quadruplicados em certas estações e
+redobrados em épocas de crise;</p>
+
+<p>9.º&mdash;A fundação de colonias agricolas e viticolas;</p>
+
+<p>10.º&mdash;O exercicio racional da força de ponderação, afim de attenuar ou
+prevenir as crises, de regularisar o mercado e de preparar a organisação social
+do trabalho.</p>
+
+<p>A reorganisação do credito far-se-hia, lançando um pesado imposto sobre a
+agiotagem, abolindo as leis que permittem a emissão de titulos ao portador e a
+formação das sociedades anonymas, e prohibindo a especulação.</p>
+
+<p>Por seu turno, a reorganisação judiciaria realisar-se-hia por uma justiça
+prompta, simplificada e gratuita.</p>
+
+<p>Emfim, todas as questões de finanças e de credito seriam resolvidas pela
+nacionalisação dos bancos.</p>
+
+<p>Mas estas reformas tornar-se-hiam irrealisaveis, se a collectividade, Estado
+ou Communa, conforme os casos, não procedesse á transformação, em serviço
+publico productivo, dos monopolios de facto que gera espontaneamente o systema
+capitalista, e a que chamaremos a <small>SOCIALISAÇÃO DOS
+MONOPOLIOS</small>.</p>
+
+<p>A regra effectivamente, estabelecida pela theoria do socialismo, é a
+seguinte: desde que uma industria ou o principal elemento de uma industria,
+passa, pela sua natureza e pelo seu desenvolvimento, ao estado de monopolio,
+constituindo uma poderosa agglomeração de forças productoras, incumbe á
+collectividade<span class="pn">{170}</span> exploral-a em <i>régie</i> ou
+fazel-a explorar, sob a sua direcção, mediante indemnisação.</p>
+
+<p>D'este modo, além dos monopolios do Estado já constituidos, figuram, na
+primeira linha, os caminhos de ferro, as minas, os poços de petroleo, as fontes
+de aguas mineraes, os canaes, as fabricas de armas, os grandes fornos, as
+companhias de vapores, as grandes officinas de machinas, que, por seu turno,
+devem ser collocados sob a direcção do Estado e transformados gradualmente em
+<i>serviços nacionaes</i> productivos.</p>
+
+<p>Esta socialisação dos organismos dominantes da producção e da viação, tem o
+seu complemento logico e inevitavel na <i>communalisação</i> dos monopolios
+urbanos, que, por sua vez, seriam tambem transformados em serviços communaes.
+N'esta cathegoria entram:&mdash;a illuminação (gaz e electricidade); os
+transportes em commum (omnibus, tramways, carruagens); o serviço das aguas
+(fornecimento, banhos e lavatorios communs), os grandes armazens; os serviços
+de provisão (padarias e talhos municipaes), o serviço pharmaceutico e a
+habitação.</p>
+
+<p>A organisação dos serviços communaes presuppõe uma completa reconstituição
+communal, baseada sobre uma população de cinco mil habitantes, pelo menos.</p>
+
+<p>Uma sociedade, onde se tivessem operado semelhantes
+transformações&mdash;conclue Benoit Malon&mdash;teria progressiva e
+pacificamente vencido a miseria e a ignorancia, organisando socialmente o
+trabalho, creando uma nova consciencia social, fundada sobre as bases
+indestructiveis da liberdade politica,<span class="pn">{171}</span> da justiça
+economica e da solidariedade humana.</p>
+
+<p><i>Muitos serão os chamados e poucos serão os eleitos</i>&mdash;dizia a
+antiga formula christã. <i>Todos serão chamados e todos serão
+eleitos</i>&mdash;tal é a divisa da moderna escola socialista.</p>
+
+<p class="centrado">*</p>
+
+<p class="centrado">*      *</p>
+
+<h3><a name="SECTION0035510">HECTOR DENIS, GUILLAUME DE GREEF E EMILE DE
+VANDERWELDE</a></h3>
+
+<p>Por <i>socialismo integral</i> deve entender-se o socialismo encarado sob
+todos os seus aspectos, em todos os seus elementos de formação, e com todas as
+suas possiveis manifestações.</p>
+
+<p>O sentimento não abdicará nunca, e será sempre o primeiro mobil dos actos
+humanos&mdash;disse-o Claude Bernard na sua <i>Philosophia experimental</i>.</p>
+
+<p><i>Faz socialismo</i> o sabio, o pensador, que, ao cabo das suas longas
+investigações sobre a natureza das cousas, descobre o mysterio da evolução
+universal.</p>
+
+<p><i>Faz socialismo</i> o inventor, quando applica as forças productoras do
+homem, favorecendo a multiplicação dos productos e diminuindo, ao mesmo tempo,
+a duração e as agruras do trabalho.</p>
+
+<p><i>Faz socialismo</i> o escriptor quando no livro, no drama ou no jornal,
+faz a apotheose dos sentimentos de justiça para com os homens e de piedade para
+com os animaes.<span class="pn">{172}</span></p>
+
+<p><i>Faz socialismo</i> todo aquelle que combate pela liberdade.</p>
+
+<p><i>Faz socialismo</i> o altruista que passa a sua existencia, fazendo o bem,
+soccorrendo, consolando e fortalecendo os que soffrem e os que são
+desventurados.</p>
+
+<p><i>Faz socialismo</i> o poeta, quando canta o heroismo, a bravura, o
+desinteresse e consagra as grandes e supremas virtudes civicas.</p>
+
+<p><i>Faz socialismo</i> o professor, quando á orthodoxia das velhas formulas
+inuteis, antepõe o sagrado ideal de emancipação humana, prégando-o e
+ensinando-o aos seus discipulos.</p>
+
+<p>Emfim, o socialismo já não é apenas uma doutrina abstracta. O socialismo
+faz-se e pratica-se por toda a parte: por sentimento uns, por convicção muitos,
+por raciocinio outros e por necessidade todos. E d'ahi a grande variedade de
+escolas e um sem numero de theorias e de programmas.</p>
+
+<p>Mas, em nosso juizo, é o socialismo professoral ou cathedratico aquelle que
+mais tem concorrido para o desenvolvimento da ideia emancipadora, no seio das
+sociedades modernas. E entre os principaes apostolos da escola, seria erro
+imperdoavel esquecer os professores belgas que tão grande relevo teem sabido
+dar ás doutrinas socialistas. Não fallando já no fallecido Emile de Laveleye, o
+mais celebre dos economistas contemporaneos e auctor de um livro que se tornou
+classico&mdash;<i>Da propriedade e das suas fórmas primitivas</i>, cumpre-nos
+mencionar aqui Hector Denis, Guilherme de Greef, o sabio auctor da
+<i>Introducção à sociologia</i>, e Emile de Vanderwelde<span
+class="pn">{173}</span> que, sendo advogado, pertence, todavia, a esse glorioso
+grupo.</p>
+
+<p>A Universidade livre de Bruxellas conta, no seu seio, dois
+socialistas&mdash;Hector Denis e Guilherme de Greef, e um
+anarchista&mdash;Elisée Reclus.</p>
+
+<div class="imagem">
+<p><a name="img_pag173"></a><img src="images/pag173.png"
+alt="Emile de Vanderwelde" width="100%" align="top" border="0"></p>
+</div>
+
+<p>Estão ainda na memoria de todos os recentes acontecimentos, que se
+originaram pela suspensão official do curso de Elisée Reclus. Os estudantes
+tomaram uma parte activa no assumpto. Hector Denis, o reitor da Universidade,
+demittiu-se, e Guilherme de Greef interveiu a favor dos que protestavam contra
+a intervenção dos poderes publicos. O governo viu-se obrigado a reconsiderar, e
+o socialismo sahiu mais uma vez triumphante da lucta.</p>
+
+<p>Na campanha figurou tambem Emile de Vanderwelde, antigo alumno da
+Universidade, um nobre e generoso espirito e auctor de um bello estudo sobre
+<i>os parasitas organicos e os parasitas sociaes</i>.</p>
+
+<p>Emile de Vanderwelde exerce, sobretudo, uma acção espiritual sobre o
+socialismo belga. A sua influencia é enorme, e o seu prestigio cresce e
+augmenta de dia para dia.<span class="pn">{174}</span></p>
+
+<p class="centrado">*</p>
+
+<p class="centrado">*      *</p>
+
+<p>Entre os socialistas cathedraticos, ha uma escola moderada que aspira á
+implantação da theoria socialista por uma transformação gradual e lenta da
+sociedade actual. Assim, são alguns de opinião que, para se chegar á completa
+abolição da propriedade, se deverá principiar pela abolição da grande
+propriedade que estabelece um desequilibrio economico no mundo, concentrando e
+monopolisando nas mãos de alguns os capitaes e os recursos que deveriam estar
+nas mãos de todos. Outros fazem distincção entre a propriedade industrial e a
+propriedade agricola, reclamando a suppressão da primeira e conservando a
+segunda, visto mediar uma enorme distancia entre o industrialismo e a
+agricultura.</p>
+
+<p>Succede o mesmo com relação á grande e á pequena industria e com relação ás
+heranças. N'este ponto divergem tambem muitos socialistas, querendo uns a
+extincção total das heranças, além de uma certa quantia e revertendo o
+excedente para o fundo da educação nacional, contentando-se outros apenas, com
+a sua extincção immediata em linha collateral.</p>
+
+<p>Como quer que seja, ha um ponto fundamental em que todos estão de
+accôrdo&mdash;a negação do existente. É indispensavel pois, destruir o que está
+para o substituir. E a reconstrucção social será tanto mais facil, quanto maior
+fôr o numero de ideias<span class="pn">{175}</span> emittidas. Da variedade de
+theorias é que hade resultar a unidade do conjuncto. E a lucta travada entre o
+capitalismo e o proletariado ainda mais apressará e favorecerá a solução do
+problema.</p>
+
+<p class="centrado">*</p>
+
+<p class="centrado">*      *</p>
+
+<h2><a name="SECTION0035600">A NOVA GERAÇÃO PORTUGUEZA</a></h2>
+
+<p>A evolução que, n'estes ultimos annos, se tem operado na parte sã,
+intellectual, deixem-me dizer assim, da nova geração portugueza, é muito digna
+de registar-se. Á frente d'esses moços estudiosos e enthusiastas, encontra-se
+Fernando Martins de Carvalho, um grande e solido talento, disciplinado pelo
+estudo da philosophia moderna e educado na convivencia dos grandes mestres da
+sciencia social.</p>
+
+<p>A tendencia federalista e socialista accentua-se na nova geração portugueza,
+como um resultado da corrente internacionalista que, por toda a parte, se impõe
+e affirma, e como uma consequencia logica e necessaria das ideias do nosso
+tempo.</p>
+
+<p>Prova este facto que marchamos para a conquista de um novo ideal e que a
+politica, entre nós, vae perdendo o seu antigo caracter sentimental e jacobino,
+para se transformar n'uma solução organica, positiva, liberal e moral.</p>
+
+<p>Procedendo assim, a nova geração portugueza affirma a sua solidariedade com
+o movimento social<span class="pn">{176}</span> moderno e mostra-se em tudo
+digna e á altura dos grandes problemas que agitam a sociedade.</p>
+
+<p>Parabens muito sinceros a todos esses bons e leaes companheiros, e, em
+especial, a Fernando Martins de Carvalho, o chefe incontestado da gloriosa
+crusada!</p>
+
+<p>Os periodos que vão lêr-se representam mais do que um simples estudo ou uma
+simples aspiração: são, para assim o dizer, o programma ou o manifesto dos
+novos. Por isso julgámos que tinham aqui o seu logar, e que seria de summa
+utilidade reproduzil-os, embora n'elles se notem umas lisongeiras referencias á
+minha pessoa que não posso nem devo attribuir senão á muita bondade de Martins
+de Carvalho.</p>
+
+<p class="centrado">*</p>
+
+<p class="centrado">*      *</p>
+
+<p>«A aproximação do individualismo economico do individualismo politico é o
+resultado de uma viciosa associação de ideias. A sociologia moderna deve
+acceitar o individualismo, como solução politica, e o communismo, como solução
+economica. Nem ha qualquer conflicto entre estas duas formulas, restrictas aos
+campos proprios:&mdash;o <i>neminem laede</i>, essa formula fundamental do
+individualismo, tem evidentemente consequencias communistas; não lesar a
+ninguem é não tolher a ninguem a apropriação do necessario, não é apenas não
+perturbar ninguem na sua situação actual, justa ou injusta. Spencer, que
+generalisou a economia orthodoxa na sociologia,<span class="pn">{177}</span> é
+decididamente individualista e affirma a tendencia evolutiva para a propriedade
+social.</p>
+
+<p>Do primitivo communismo genealogico, de caracter familiar, passou-se para o
+communismo local, dos que habitam o mesmo territorio. Dos communismos das
+tribus passa-se para o communismo universal, para a confederação de todas as
+communas.</p>
+
+<p>A passagem de uma a outra fórma do communismo deu logar ao individualismo
+economico, a desintegração, successiva e gradual, do communismo genealogico,
+desde o condominio familiar até á simples quota legitimaria dos parentes. O
+individualismo não poderá ser uma integração social; os elementos que elle
+dispersou precisam de se integrar n'uma nova fórma communista.</p>
+
+<p>A evolução social realisa-se em virtude da lei do uso e do desuso, de que
+deriva a divisão do trabalho, e que é o principio fundamental do transformismo,
+em que se accentua hoje uma renascença lamarckista. Lamarck deveria ter
+applicado aquella lei, que applicou só aos organismos individuaes, tambem
+directamente aos organismos collectivos, ás especies. A influencia do uso e do
+desuso actua sobre os orgãos dos organismos individuaes, mas actua tambem sobre
+os organismos individuaes, como orgãos dos organismos collectivos. A doutrina
+da selecção natural não representa senão uma tentativa para applicar á
+differenciação das especies a lei do uso e do desuso; na selecção social, uma
+fórma da selecção natural, desapparecem todos os inuteis, embora as
+subsistencias cheguem para todos.<span class="pn">{178}</span> A evolução
+realisa-se pela differenciação estructural das massas organicas primitivas,
+constituindo os organismos individuaes; pela differenciação dos organismos
+individuaes formando o protoplasma social primitivo, em variedades, especies,
+reinos. Uma especie constitue-se organicamente pela successão de fórmas cada
+vez mais perfeitas da divisão do trabalho, pela formação de uma solidariedade
+social, generalisando-se gradualmente dos pequenos grupos ás raças, e a toda a
+especie; á concorrencia vital dentro das especies succede-se a concorrencia
+vital com outras especies, até que umas e outras entrem n'um hyper-organismo
+superior, que irá até estabelecer a solidariedade de toda a existencia.</p>
+
+<p>A sociedade, que começou a sahir da primitiva homogeneidade communista pela
+anthropophagia, com manifestações juridicas notaveis, como por exemplo a
+condemnação do criminoso a servir de alimento á tribu,&mdash;pelas fórmas
+parasitarias e commensalistas, vae pouco a pouco aproximando-se da fórma
+superior da divisão do trabalho,&mdash;o communismo, que é a fórma de
+repartição nos organismos perfeitos&mdash;a cada orgão segundo as suas
+necessidades.</p>
+
+<p>Á medida que esta evolução se realisa a concorrencia social torna-se cada
+vez menos intensa; o parasitarismo interno da especie transforma-se em
+parasitarismo com relação ás outras especies. As profundas differenciações
+anthropologicas, produzidas pelas velhas fórmas parasitarias da constituição
+social, vão-se attenuando. A analogia real da sociedade com o organismo, que
+tem sido muito exaggerada<span class="pn">{179}</span> e tem dado logar a mil
+hespanholadas scientificas, a doutrinas muito estheticas que se têem destacado
+por gemmiparidade das theorias de Comte e Spencer, não nos póde levar a
+idealisar a sociedade futura como a perfeita reproducção do organismo
+individual, com a sua forte differenciação de estructura, a sociedade é um
+organismo superior, que reproduz na sua phase embryonnaria a evolução dos
+organismos individuaes (como pela lei biogenetica o individuo reproduz na vida
+fetal toda a evolução organica anterior), mas que na sua phase
+post-embryonnaria a continua.</p>
+
+<p>A economia da divisão do trabalho, que se succede á primitiva economia
+communista, tem duas phases preparatorias: uma militar, violenta,&mdash;a
+escravidão, a servidão, o feudalismo&mdash;, outra pacifica,&mdash;o
+capitalismo moderno. A distribuição da riqueza pelo producto do trabalho, dando
+logar á intervenção da concorrencia, produz o capitalismo; a theoria communista
+quer que se pague o trabalho-funcção social e não o trabalho-producto, como o
+capitalismo e mesmo o collectivismo, uma doutrina transitoria evidentemente, e
+que se vê em difficuldades para provar que o capital não é accumulação de
+trabalho, coisa absolutamente indifferente no ponto de vista communista.</p>
+
+<p>As castas não são diversas raças, diversos povos, que se sobrepõem; são
+differenciações anthropologicas, que se formam dentro de todas as sociedades
+pela acção de factores eminentemente sociaes, as fórmas primitivas da divisão
+do trabalho. As castas correspondem ás raças occipital&mdash;a exploradora<span
+class="pn">{180}</span> pela violencia&mdash;e á frontal, a primitivamente
+explorada, que se liberta pela intelligencia;&mdash;a theoria de Gratiolet é
+verdadeira, admittindo-se factores sociaes da differenciação dentro das
+primitivas raças, que pouco a pouco desapparecem perante as nacionalidades, um
+parasitismo de que resultam differenciações anthropologicas, e perante as
+castas. O militarismo exterior e internacional e o militarismo nacional ou
+aristocracia, têem origens economicas, e produzem differenciações
+anthropologicas.</p>
+
+<p>No regime communista primitivo o direito é a coacção á adaptação social pela
+intimidação, ou o appressamento violento da inadaptação. Existia a
+promiscuidade. Havia perfeita egualdade economica e perfeita egualdade
+politica.</p>
+
+<p>Fez-se sentir a necessidade da divisão do trabalho: ia-se constituir a
+primeira fórma de parasitarismo. Ninguem ousava violar a tradição, com profunda
+sancção religiosa, da propria tribu. Começa a guerra permanente entre as tribus
+de bimanos. O que se não aventurava a escravisar individuos, a monopolisar
+femeas, a apossar-se da propriedade da propria tribu, cahia sobre a tribu
+visinha. O individualismo começou pela escravidão dos extrangeiros, pela
+exogamia, pelo roubo da propriedade das outras tribus. Constituiu-se um direito
+internacional, fundamentalmente differente do direito do
+<i>clan</i>;&mdash;conflicto anthropologico, o direito tinha um caracter
+collectivo;&mdash;crime e pena eram conflictos ethnicos.</p>
+
+<p>Constituiram-se assim em casta os homens de guerra, passando depois a
+exercer a violencia sobre<span class="pn">{181}</span> a propria tribu. O
+direito entre as castas passou a ser cópia do direito internacional; o velho
+direito interno só persistiu em <i>survivances</i> nas relações entre os
+membros das classes inferiores.</p>
+
+<p>Á casta, como a todos os grandes factores sociaes, devia corresponder uma
+differenciação anthropologica. A anthropologia criminal, quando nega os
+factores economicos do crime, não repara em que a selecção natural das raças
+tem segundo o darwinismo, de que essa escola deriva, uma origem
+economica&mdash;o facto registado pela lei de Malthus.</p>
+
+<p>Á primitiva selecção individual devia pouco a pouco substituir-se uma
+selecção entre os grupos anthropologicos, que se iam formando, selecção
+naturalmente preventiva, d'ahi a formação da escravidão, que é uma fórma de
+caracter duradouro da selecção e que se substituiu á pena de morte do criminoso
+e do prisioneiro de guerra; d'ahi a formação na aristocracia da familia
+polygamica, destinada a garantir a rapida multiplicação da casta superior, e
+acompanhada de diversas medidas restrictivas da multiplicação da casta
+inferior.</p>
+
+<p>Pouco a pouco tem ido perdendo de intensidade a fórma violenta do
+individualismo, pelo apparecimento do capitalismo e pelo cruzamento das castas,
+primitivamente prohibido, que caracterisa as fórmas sociaes superiores, como o
+cruzamento das raças caracterisa a domesticação com respeito ao estado
+selvagem. O caracter de conflicto anthropologico do direito na phase primitiva
+do militarismo tem pouco a pouco desapparecido de diversos dos seus ramos;
+primitivamente aquelle direito que hoje só<span class="pn">{182}</span> tem
+sancção civil, tinha uma sancção penal. Hoje o direito penal tende a tornar-se
+tão contractualista como o direito civil; Spencer baseia toda uma theoria penal
+sobre a organisação systematica da indemnisação de perdas e damnos.</p>
+
+<p>Á medida que o militarismo vae declinando, vae-se realisando no direito
+internacional uma endosmose do direito interno progressivo; o contrario
+precisamente do que se deu nas origens do militarismo.</p>
+
+<p>Resultado de todos estes progressos sociaes é o desapparecimento evolutivo
+das differenciações anthropologicas, a que as castas e as nacionalidades deram
+origem.</p>
+
+<p>Contra o que o collectivismo affirma, somos de opinião que o capitalismo
+representa um progresso. A evolução realisa-se pela acção cada vez menor da
+hereditariedade, permittindo a evolução rapida da especie, por adaptações
+repetidas. A organisação em castas, a hereditariedade politica e economica,
+correspondeu a phases inferiores da transformação da especie: hoje sobre a
+hereditariedade predomina a adaptação, na sua fórma seleccional, que tem como
+consequencia politicamente o regime representativo, economicamente o regime
+capitalista. As selecções, não sendo fixas pela hereditariedade, que, tanto nas
+suas consequencias politicas, como nas suas consequencias economicas, tende a
+desapparecer, é uma transição necessaria para o regime da egualdade, em que as
+progressivas adaptações da especie não se realisarão seleccionalmente, mas
+solidariamente.<span class="pn">{183}</span></p>
+
+<p>É um facto conhecido o da degeneração das aristocracias, facto perfeitamente
+egual ao da degeneração das raças indigenas perante a civilisação branca, e ao
+da degeneração das raças criminosas,&mdash;selecções militaristas e
+aristocracias abortadas, raças d'origem teratologica,&mdash;perante o homem
+normal. Á degeneração das aristocracias correspondeu necessariamente a formação
+das monarchias; era facil no decorrer da degeneração da casta, uma familia
+garantir-se o poder monarchico. Quando a degeneração se estende ás dynastias, a
+monarchia torna-se temperada ou constitucional. É possivel que na degeneração
+da burguezia perante o quarto estado, pelo mesmo processo historico appareçam
+novos cesarismos.</p>
+
+<p>Vejamos os factores intellectuaes da evolução social. O homem primitivo faz
+corresponder á sensação o mundo exterior; á <i>ideia</i>, que julga
+independente da sensação, o espirito, a substancia: eis a origem do
+substancialismo, do livre-arbitrismo, da doutrina das ideias innatas, da
+theoria da creação. Reconhecida a dependencia causal da ideia para a sensação,
+substitue-se ao principio da substancialidade o principio de causalidade, e
+funda-se a sciencia moderna, positiva, monista, determinista e evolucionista.
+Por fazer do positivismo uma questão de methodo e não determinar precisamente a
+origem do causalismo e todas as suas consequencias, Comte acceitou a
+irreductibilidade dos phenomenos e a relatividade dos conhecimentos, principio
+que occasionou esta recente recaida idealista. A evolução scientifica não é
+deductiva, como queria Comte, mas inductiva,<span class="pn">{184}</span> das
+ciencias do espirito para as sciencias mais geraes, as do mundo inorganico; é
+assim que, por exemplo, a doutrina da evolução appareceu successivamenie na
+sociologia, na biologia e na physico-chimica. Note-se que na astronomia ainda
+se admitte a evolução-circular, da nebulosa á nebulosa, e a evolução-circular
+foi precisamente a primeira phase do evolucionismo social; e que nada ha ainda
+sobre a evolução geral physico-chimica. Conhecem-se os factores psychologicos
+da marcha social; conhecem-se os seus factores biologicos ainda; e muito mal os
+factores inorganicos.</p>
+
+<p>A doutrina do livre-arbitrio deu origem ao contractualismo na politica, no
+direito economico, na familia e no direito penal, punindo o crime, não o
+criminoso. O determinismo, que successivamente, visivelmente na criminologia,
+tem passado da sua fórma statica, para uma fórma dynamica, evolucionista, do
+motivismo psychologico ao condicionalismo biologico e anorganico, tem como
+consequencia necessaria uma constituição socialista. O direito economico
+fundar-se-ha sobre o destino social dos actos, não sobre o livre-arbitrio dos
+contrahentes; reconhecido o governo de leis sociologicas, e o progresso,
+contradictorio com o livre-arbitrio, isto é, a eterna possibilidade do homem
+pensar e praticar indifferentemente, desapparecerá a necessidade do Estado,
+resultado theorico da necessidade de uma eterna intervenção coactiva para levar
+o livre-arbitrio ao Bem; a pena terá um fim socialista, a adaptação do
+criminoso á sociedade. Esta adaptação será facil, contra o que julga a
+antropologia criminal, que admitte<span class="pn">{185}</span> a evolução
+anthropologica e social e nega a evolução anthropologica e social dos
+criminosos, que, sabendo que a symbolica juridica mostra bem que a origem da
+propriedade foi a conquista e que a origem da successão foi o culto dos mortos,
+chama aos attentados contra a propriedade&mdash;<i>delictos naturaes</i>. A
+probidade actual que é senão o habito violentamente creado de respeitar a
+desegualdade economica, hereditariamente transmittido?</p>
+
+<p>Differimos do collectivismo:&mdash;na nossa solução final economica, que é
+communista; na theoria politica, que é o anarchismo scientifico; no processo
+theorico, por isso que fazemos sociologia anthropologica e por não fazermos
+sociologia exclusivamente economica. Os primitivos socialistas como os
+primeiros economistas nem sequer suspeitaram a sociologia, viveram no
+especialismo economico; n'uma segunda phase economista e socialista levaram a
+explicação economica a todos os phenomenos sociaes, fizeram sociologia
+economica; n'uma terceira phase a economia orthodoxa generalisou-se com as
+outras sciencias sociaes na sociologia spenceriana. Tudo hoje tambem faz prever
+a constituição de uma sociologia socialista. A biologia nunca ousou explicar a
+evolução organica só por factores economicos&mdash;os que dizem respeito á
+nutrição. O collectivismo é, em Marx principalmente, um argumento <i>ad
+hominem</i> com relação á economia orthodoxa, de cujas entidades metaphysicas
+tirou consequencias habeis, mas scientificamente infundadas; Karl Marx vê-se
+obrigado a contradizer violentamente as suas theorias,<span
+class="pn">{186}</span> aproximando o seu socialismo da formula communista da
+distribuição.</p>
+
+<p>Differimos do anarchismo, apesar de acreditarmos que o Estado tende a
+desapparecer pelas rasões que démos e ainda pelas legitimas deducções
+sociologicas da doutrina lamarckiana da creação natural dos instinctos, em
+virtude da qual o Estado perderá a sua rasão de ser apenas tenha formado
+habitos, que, tornados hereditarios, sejam a base moral da sociedade
+futura:&mdash;na theoria determinista e anthropologica, e pelo sentimento
+profundo da evolução historica. É preciso contar com a historia, a
+hereditariedade psychologica; o espirito social não é evidentemente a <i>taboa
+rasa</i> da velha psychologia materialista. A evolução tem periodos
+revolucionarios; a <i>lucta pelo direito</i> de Jhering é a theoria do
+progresso sanguinolento das sociedades. Mas não podemos como o anarchismo ou
+como o jacobinismo fazer do crime politico uma metaphysica revolucionaria.
+Dissémo-nos communistas: devemos notar que a unica theoria socialista de que
+saiu uma sociologia, foi uma doutrina communista, a de Saint-Simon, cuja
+influencia na obra de Comte é conhecida.</p>
+
+<p>É nitida a nossa posição. Libertos completamente das velhas doutrinas,
+hereditariedade morbida muitas vezes secular do espirito collectivo, affirmamos
+a necessidade de uma reconstrucção social completa. As velhas theorias sociaes,
+que são senão as velhas tendencias inconscientes, a que se quer dar um pretexto
+de que se faz pedantemente uma sociologia, como o hypnotisado dá um pretexto
+pueril e julga<span class="pn">{187}</span> da sua iniciativa os actos
+suggeridos e que inconscientemente praticou?</p>
+
+<p>É no partido republicano o logar dos novos, não vencidos por essa
+<i>surménage</i> mental da historia que caracterisa o momento, para quem a
+sociologia não é apenas um libretto da <i>Portugueza</i>, que fazem uma critica
+intellectual do que existe, e que deixam a velha critica jacobina, uma parte de
+policia carregada.</p>
+
+<p>É preciso que o partido republicano faça, porém, vigorosamente affirmações
+socialistas e federalistas. Estas duas correntes poderosas teem sido
+vehementemente representadas na propaganda republicana por Magalhães Lima,
+contra aquelles, para quem a republica é toda a sciencia social e um
+<i>ménagesinho patriotico</i>, e que fazem a sociologia pacata do bom homem
+Ricardo.</p>
+
+<p>A questão politica não é indifferente, contra o que alguns deduzem do
+principio socialista de que as transformações politicas teem apenas factores e
+destinos economicos. Os novos devem pois, collocar-se ao lado dos republicanos,
+porque a solução politica immediata é a mesma. Socialistas, achamo-nos reunidos
+aos orthodoxos, que piedosamente julgam o socialismo uma metaphysica do roubo.
+Aproxima-nos uma especie de <i>isomorphismo</i>, porque as nossas e as suas
+doutrinas crystalisam nas mesmas formulas politicas.</p>
+
+<p>Socialismo rasgado, não um socialismo que seja um dilettantismo da Historia,
+e que corresponda á velha formula&mdash;<i>panem et circenses</i>, politica
+internacional definida e sem hesitações, tem sido a propaganda<span
+class="pn">{188}</span> vehemente feita por Magalhães Lima, que assim abriu uma
+nova phase na historia do partido republicano portuguez. Os novos podem, pois
+entrar sem hesitações na vida nova do partido.»</p>
+
+<p class="centrado">*</p>
+
+<p class="centrado">*      *</p>
+
+<h2><a name="SECTION0035700">JOSÉ FONTANA E SOUSA BRANDÃO</a></h2>
+
+<p>E, uma vez que fallámos nos novos, seria ingratidão esquecer aquelles que,
+pela sua influencia, pela sua dedicação, pela sua actividade e pela sua
+propaganda, tanto contribuiram para o derramamento d'estas ideias no povo
+portuguez. Refiro-me a José Fontana e Sousa Brandão.</p>
+
+<p>Ser republicano ou ser socialista n'estes tempos que vão correndo, cousa é
+que não importa um grande acto de coragem ou de audacia. Mas para affirmar as
+opiniões republicanas e socialistas, na época em que aquelles dois benemeritos
+o fizeram, requeria-se ainda mais que coragem e audacia&mdash;requeria-se uma
+grande independencia de caracter e um grande e soberano despreso pelas
+conveniencias e interesses pessoaes.</p>
+
+<p>Os que modernamente vieram para a politica, não sabem, nem podem mesmo
+avaliar, o que custava a propaganda n'aquelle tempo. Era uma lucta cruel e
+constante, com a familia, com os amigos, e<span class="pn">{189}</span> com
+tudo e com todos. Ser republicano o mesmo era que ser um doido mau. Socialismo
+era synonimo de pilhagem e de liquidação social.</p>
+
+<div class="imagem">
+<p><a name="img_pag189"></a><img src="images/pag189.png" alt="José Fontana"
+width="100%" align="top" border="0"></p>
+</div>
+
+<p>Os partidos por via de regra, ingratos para com os seus servidores.
+Superior, porém, á gratidão dos partidos, ha o applauso da propria consciencia.
+E só pela satisfação do dever cumprido, vale bem a pena supportar as chufas dos
+adversarios, as calumnias dos maldosos e a perseguição dos inscientes e dos
+inconscientes.</p>
+
+<p>José Fontana era muitas vezes calumniado por aquelles que o não
+comprehendiam. De Sousa Brandão sorriam-se os <i>finorios</i> e os homens
+praticos, como se tivessem dó d'elle. Fui d'essa época, e sei o que isso era e
+o que isso custava! Mas que importava? Os calumniadores calaram-se e os
+disfructadores desappareceram. José Fontana e Sousa Brandão são hoje venerados
+e consagrados, em Portugal, como o são egualmente, na Allemanha, Karl Marx e
+Lassale.</p>
+
+<p>E isto porquê?</p>
+
+<p>Precisamente porque elles representaram, na sociedade<span
+class="pn">{190}</span> portugueza, mais alguma cousa do que as suas proprias
+pessoas. Elles foram os genuinos interpretes de uma ideia que honraram e
+glorificaram, pela sua coherencia, pela sua abnegação e pelo seu civismo. Foram
+dois puros e foram dois fortes. Era differente o processo de cada um. Mas o
+ideal, o fim, o objectivo era o mesmo em ambos. José Fontana era o apostolo da
+<i>Internacional</i>, e ella ahi está hoje mais solida e mais viva do que
+nunca, apesar da perseguição dos governos! Sousa Brandão foi o evangelista das
+<i>sociedades cooperativas</i>, e ellas ahi estão hoje a impôr-se por toda a
+parte e em todas as classes, apesar dos embaraços e obstaculos que o
+capitalismo lhe levanta!</p>
+
+<div class="imagem">
+<p><a name="img_pag190"></a><img src="images/pag190.png" alt="Sousa Brandão"
+width="100%" align="top" border="0"></p>
+</div>
+
+<p>Ha quem desanime na lucta e ha quem cance, durante o caminho. Nem um nem
+outro souberam nunca o que era o desanimo ou o cansaço. Trabalharam,
+combateram, perseveraram e seguiram sempre ávante como os crentes das antigas
+religiões. Edificaram sobre as ruinas e construiram sobre os<span
+class="pn">{191}</span> escombros do velho mundo. A obra ahi está&mdash;bella,
+soberba, imponente. O exemplo é d'aquelles que não morrem nunca e a lição é das
+que aproveitam sempre. Inspiremo-nos no seu nobre e magnanimo exemplo e
+reavivemos nos nossos espiritos a grandeza e a sublimidade da sua lição.</p>
+
+<p>A homenagem aos mortos deve constituir um culto para os vivos. E, quando os
+mortos se chamam José Fontana e Sousa Brandão, a homenagem reveste então o
+duplo caracter de um preito ao amigo querido e de uma apotheose pelo bravo,
+pelo apostolo e pelo heróe.<span class="pn">{192}<br>
+{193}</span></p>
+
+<h1><a name="SECTION0036000">CONCLUINDO</a> </h1>
+
+<p>Bom ou máu, ahi fica um rapido esboço do actual movimento. Foi simples a
+nossa missão. Desejando que todos vissem pelos proprios olhos e palpassem pelas
+proprias mãos, limitámos-nos a fazer a historia do que é e do que se passa.
+Historiámos; não criticámos; narrámos; não commentámos. <i>Savoir pour prévoir,
+afin de pouvoir</i>&mdash;tal era a maxima de Augusto Comte. <i>Saber para
+prevêr, afim de poder</i>&mdash;tal deve ser o principio de todos os que,
+presentemente, se dedicam e consagram aos estudos politicos e sociaes.</p>
+
+<p>Não confundamos o ideal com a utopia. O ideal de hoje é a realidade de
+ámanhã. O ideal,&mdash;disse muito bem Elie Réclus, não é senão o
+desenvolvimento da realidade. A utopia não passa, muitas vezes, do espirito ou
+do cerebro que a gerou. Mas não succede o mesmo com o ideal que encontra sempre
+uma realisação pratica, no mundo. O socialismo é o ideal do seculo
+<small>XIX</small> e será a realidade do seculo <small>XX</small>. Muitos
+governos monarchicos começam já a aceitar-lhe as reivindicações e as
+consequencias. Gladstone<span class="pn">{194}</span> perfilhou, para o seu
+programma liberal, o dia normal das 8 horas de trabalho e a responsabilidade
+nos accidentes. É socialista o imperador da Allemanha e são socialistas todos
+os governos da Europa. Comprehende-se. Fazendo concessões ao proletariado, os
+reaccionarios e ultramontanos procuram defender-se da onda que os ameaça,
+prolongando d'este modo a sua existencia, embora á custa de uma especulação e
+de uma hypocrisia. Não acontece porém, o mesmo com os partidos avançados. Esses
+teem de acompanhar o movimento, sob pena de se suicidarem, não o fazendo. Ahi
+fica a advertencia. Quem tem olhos para vêr, veja; quem tem ouvidos para ouvir,
+oiça.</p>
+
+<p>N'este livro reproduzi, a largos traços, as minhas impressões sobre o
+congresso operario de Zurich de 1893, desenvolvendo os assumptos ali tratados,
+segundo o criterio das diversas escolas socialistas. Aos novos me dirijo,
+porque só dos novos ha alguma cousa a esperar. Os velhos são impenetraveis ás
+ideias modernas. Concorre, para isso, o egoismo e a intransigencia da edade.
+Seria absurdo esperar qualquer cousa de proficuo e de util de elementos gastos,
+cançados, e, em parte, desacreditados. Já uma vez o disse e não cessarei de o
+repetir. O bom senso publico não reconhece, em geral, senão dois
+partidos&mdash;o partido dos que avançam e o partido dos que recúam. Deixemos
+recuar os que tudo sacrificam ao seu interesse pessoal e á sua desmesurada
+ganancia; deixemos recuar os timidos, os covardes e os impotentes; e avancemos
+nós, unidos, fortes e disciplinados&mdash;unidos na acção, embora<span
+class="pn">{195}</span> divergentes na doutrina; fortes pelo sentimento do
+dever, e disciplinados pela solidariedade das ideias e dos principios.</p>
+
+<p>A festa do 1.º de de maio do corrente anno será uma nova affirmação da força
+e da importancia do proletariado internacional.</p>
+
+<p>Michelin, o illustre deputado socialista, apresentou ultimamente, na camara
+franceza, o seguinte projecto de lei:</p>
+
+<p>«O trabalho é a origem unica e legitima da riqueza. Nenhum producto póde
+existir sem o trabalho, que é a condição essencial da liberdade e da
+prosperidade do homem, e só, por meio d'elle, se póde assegurar o progresso e
+moralisar a sociedade.</p>
+
+<p>«Os trabalhadores tomaram a iniciativa da celebração de uma festa annual,
+com o fim de honrar o trabalho. Peço por isso, á camara que decrete, no sentido
+de considerar esta festa nacional.</p>
+
+<p>Os poderes publicos, cuja missão consiste em dar satisfação ás aspirações do
+povo, não podem senão associar-se a um sentimento tão elevado, demonstrando
+assim o desejo sincero em que estão de examinar, para as attender, as justas
+reivindicações dos trabalhadores que constituem a immensa maioria do paiz.</p>
+
+<p>«Por estas rasões, tenho a honra de submetter á camara o seguinte
+projecto:</p>
+
+<p>Art.º unico&mdash;O 1.º de Maio é declarado o dia da festa nacional e annual
+do trabalho.»</p>
+
+<p>Michelin deseja, por este modo, consagrar o 1.º de Maio, assim como se tem
+consagrado o 14 de<span class="pn">{196}</span> julho que é o dia da festa da
+Republica. Perderia a festa dos operarios, n'este caso, o seu caracter de
+resistencia, e converter-se-hia n'uma celebração pacifica do trabalho. Nada
+mais nobre e digno! Aos termos da proposta, associou-se enthusiaticamente o
+grande poeta socialista, Clovis Hugues, embora outros divergissem por desejarem
+conservar ao 1.º de Maio a sua feição, radical e revolucionaria, de combate e
+de opposição ao existente.</p>
+
+<p>De um ou de outro modo, a celebração do 1.º de Maio não deixará de
+fazer-se.</p>
+
+<p>Ha um problema a resolver. É a questão magna do seculo. Ou os governos o
+resolvem, ou as sociedades terão de passar por um cataclismo terrivel.</p>
+
+<p>É este o dilemma. E da solução do assumpto dependerá, no futuro, a
+felicidade e o bem-estar dos povos!</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h3><a name="SECTION0036010">FIM</a></h3>
+</div>
+
+<p><span class="pn">{197}</span></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h2><a name="SECTION0036100">INDICE</a></h2>
+
+<table summary="Indice" align="center" border="0">
+ <tbody>
+ <tr>
+ <td><a href="#SECTION0010000">S<small>OLEMNIA</small>
+ V<small>ERBA</small></a></td>
+ <td>7</td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td><a href="#SECTION0020000">O P<small>RIMEIRO DE</small>
+ M<small>AIO</small></a></td>
+ <td>11</td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td><a href="#SECTION0030000">O D<small>ESENVOLVIMENTO DAS</small>
+ I<small>DEIAS</small> S<small>OCIALISTAS.</small></a>&mdash;<a
+ href="#SECTION0030100">Benoit Malon</a>, <a href="#SECTION0030200">Luiz
+ Ruchonnet</a>, <a href="#SECTION0030300">Ramón Chies</a>, <a
+ href="#SECTION0030400">Victor Schoelcher</a> e <a
+ href="#SECTION0030500">Victor Considérant</a>.&mdash;<a
+ href="#SECTION0030600">Theodoro Hertzka e o seu Freiland.</a>&mdash;<a
+ href="#SECTION0030700">No congresso de Zurich.</a>&mdash;<a
+ href="#SECTION0030800">A Allemanha, a Belgica, a França e a
+ Inglaterra.</a>&mdash;<a href="#SECTION0030900">A Italia, a Hespanha e
+ Portugal.</a>&mdash;Notas e commentarios</td>
+ <td>13</td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td><a href="#SECTION0031000">O P<small>ROGRAMMA</small>
+ S<small>OCIALISTA.</small></a>&mdash;<a href="#SECTION0031100">O
+ programma do partido operario.</a>&mdash;<a
+ href="#SECTION0031200">Parte politica e parte economica</a>&mdash;<a
+ href="#SECTION0031020">Jules Guesde</a> e <a
+ href="#SECTION0031030">Paulo Lafargue</a>.&mdash;<a
+ href="#SECTION0031300">O programma do partido socialista em
+ Portugal</a></td>
+ <td>57</td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td><a href="#SECTION0032000">A C<small>OOPERAÇÃO DOS</small>
+ T<small>RABALHADORES.</small></a>&mdash;Cooperação e
+ solidariedade.&mdash;Instrucção e associação.&mdash;O
+ internacionalismo.&mdash;As cooperações operarias e alguns dos seus
+ mais dedicados e fervorosos apostolos.&mdash;Cesar de Paepe, Anseele,
+ Jean Volders, Louis Bertrand</td>
+ <td>97</td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td><a href="#SECTION0033000">A<small>RBITRAGEM</small>
+ I<small>NTERNACIONAL.</small></a>&mdash;Sociedades da paz.&mdash;Emile
+ Arnaud.&mdash;O militarismo.&mdash;<a href="#SECTION0033100">Domela
+ Nieuwenhuis.</a>&mdash;<a href="#SECTION0033200">Arbitragem
+ internacional</a>&mdash;Michel Revon.&mdash;<a href="#SECTION0033300">A
+ federação e os seus apostolos.</a>&mdash;Nacionalismo e
+ internacionalismo.&mdash;Alfredo Naquet.&mdash;<a
+ href="#SECTION0033310">René Goblet</a> e <a
+ href="#SECTION0033320">Augusto Vacquerie</a>.&mdash;<a
+ href="#SECTION0033400">A guerra vencida pela arbitragem.</a>&mdash;<a
+ href="#SECTION0033500">O desarmamento.&mdash;Eduardo Vaillant</a></td>
+ <td>109</td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td><a href="#SECTION0034000">A
+ M<small>ULHER.</small></a>&mdash;Resolução do Congresso de
+ Zurich.&mdash;<a href="#SECTION0034100">A situação da
+ mulher.</a>&mdash;Seus direitos civis e politicos.&mdash;<a
+ href="#SECTION0034200">A mulher em relação á industria.</a>&mdash;<a
+ href="#SECTION0034300">A mulher no estado socialista.</a>&mdash;<a
+ href="#SECTION0034400">A primeira victoria.</a>&mdash;<a
+ href="#SECTION0034410">Madame Paule Mink.</a>&mdash;Augusto
+ Bebel.&mdash;<a href="#SECTION0034420">P. Argyriadés</a></td>
+ <td>137<span class="pn">{198}</span></td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td><a href="#SECTION0035000">A S<small>OCIEDADE</small>
+ N<small>OVA.</small></a>&mdash;A transformação social
+ impõe-se.&mdash;<a href="#SECTION0035100">O que é o
+ collectivismo.</a>&mdash;<a href="#SECTION0035200">O Estado socialista,
+ segundo Augusto Bebel</a> e <a href="#SECTION0035300">Benoit
+ Malon</a>.&mdash;<a href="#SECTION0035400">A legislação directa pelo
+ povo.</a>&mdash;<a href="#SECTION0035500">A Socialisação dos
+ monopolios.</a>&mdash;<a href="#SECTION0035510">Hector Denis, Guillaume
+ de Greefe Emile de Vanderwelde.</a>&mdash;<a href="#SECTION0035600">A
+ nova geração portugueza.</a>&mdash;<a href="#SECTION0035700">José
+ Fontana e Souza Brandão</a></td>
+ <td>155</td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td><a href="#SECTION0036000">C<small>ONCLUINDO</small>.</a>&mdash;</td>
+ <td>193</td>
+ </tr>
+ </tbody>
+</table>
+
+<p><span class="pn">{199}</span></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h3><a name="SECTION0036110">RETRATOS</a></h3>
+
+<table summary="Lista de Gravuras" align="center" border="0">
+ <tbody>
+ <tr>
+ <td>1.º&mdash;Benoit Malon</td>
+ <td><a href="#img_pag014">14</a></td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td>2.º&mdash;Ramón Chies</td>
+ <td><a href="#img_pag017">17</a></td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td>3.º&mdash;Victor Schoelcher</td>
+ <td><a href="#img_pag018">18</a></td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td>4.º&mdash;Victor Considerant</td>
+ <td><a href="#img_pag021">21</a></td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td>5.º&mdash;Theodoro Hertzka</td>
+ <td><a href="#img_pag026">26</a></td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td>6.º&mdash;Amilcare Cipriani</td>
+ <td><a href="#img_pag035">35</a></td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td>7.º&mdash;Frederico Engels</td>
+ <td><a href="#img_pag039">39</a></td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td>8.º&mdash;Liebknecht</td>
+ <td><a href="#img_pag041">41</a></td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td>9.º&mdash;Millerand</td>
+ <td><a href="#img_pag044">44</a></td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td>10.º&mdash;Thivrier</td>
+ <td><a href="#img_pag047">47</a></td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td>11.º&mdash;John Burns</td>
+ <td><a href="#img_pag048">48</a></td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td>12.º&mdash;De Felice</td>
+ <td><a href="#img_pag053">53</a></td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td>13.º&mdash;Jules Guesde</td>
+ <td><a href="#img_pag058">58</a></td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td>14.º&mdash;Paulo Lafargue</td>
+ <td><a href="#img_pag060">60</a></td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td>15.º&mdash;Cesar de Paepe</td>
+ <td><a href="#img_pag098">98</a></td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td>16.º&mdash;Louis Bertrand</td>
+ <td><a href="#img_pag104">104</a></td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td>17.º&mdash;Anseele</td>
+ <td><a href="#img_pag105">105</a></td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td>18.º&mdash;Jean Volders</td>
+ <td><a href="#img_pag106">106</a></td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td>19.º&mdash;Emile Arnaud</td>
+ <td><a href="#img_pag113">113</a></td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td>20.º&mdash;Domela Nieuwenhuis</td>
+ <td><a href="#img_pag115">115</a></td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td>21.º&mdash;Alfredo Naquet</td>
+ <td><a href="#img_pag122">122</a></td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td>22.º&mdash;René Goblet</td>
+ <td><a href="#img_pag124">124</a></td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td>23.º&mdash;Augusto Vacquerie</td>
+ <td><a href="#img_pag126">126</a></td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td>24.º&mdash;Emile de Laveleye</td>
+ <td><a href="#img_pag128">128</a></td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td>25.º&mdash;Eduardo Vaillant</td>
+ <td><a href="#img_pag132">132</a></td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td>26.º&mdash;M.<sup>me</sup> Paule Mink</td>
+ <td><a href="#img_pag149">149</a></td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td>27.º&mdash;P. Argyriadés</td>
+ <td><a href="#img_pag151">151</a></td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td>28.º&mdash;Augusto Bebel</td>
+ <td><a href="#img_pag160">160</a></td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td>29.º&mdash;Emile de Vanderwelde</td>
+ <td><a href="#img_pag173">173</a></td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td>30.º&mdash;José Fontana</td>
+ <td><a href="#img_pag189">189</a></td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td>31.º&mdash;Sousa Brandão</td>
+ <td><a href="#img_pag190">190</a></td>
+ </tr>
+ </tbody>
+</table>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p></p>
+
+<div class="rodape">
+<p><a name="foot1419" href="#tex2html6"><sup>[1]</sup></a> <i>Freiland. Ein
+soziales Zukunftbild</i>. Leipzig, Duncker und Humblot, 1889, 10 mk; Dresden,
+E. Pierson, 1891 e 1892, 3 mk.&mdash;<i>Freeland</i>, traducção ingleza por
+Arthur Ranson. Londres, Chatto e Windus, 1892, 6 sh.&mdash;<i>Freiland und die
+Freilandbewegung</i>. Vienna, 10 pf., traduzido por H. La Fontaine, advogado em
+Bruxellas, sob o titulo de <i>Freiland</i>, un roman collectiviste. Extraits et
+résumé. Bruxelles. 1892. Imprimerie Veuve Mounom.</p>
+
+<p><a name="foot1423" href="#tex2html16"><sup>[2]</sup></a> <i>Horace
+Greeley.</i></p>
+
+<p><a name="foot1443" href="#tex2html18"><sup>[3]</sup></a> B.
+Malon&mdash;<i>Socialismo integral.</i></p>
+
+<p><a name="foot1444" href="#tex2html19"><sup>[4]</sup></a> Louis
+Bertrand.&mdash;<i>La Cooperation, ses avantages et son avenir.</i></p>
+
+<p><a name="foot1448" href="#tex2html25"><sup>[5]</sup></a> <i>Discurso
+proferido no congresso de Zurich.</i></p>
+
+<p><a name="foot1449" href="#tex2html26"><sup>[6]</sup></a> Michel
+Revon&mdash;<i>L'arbitrage international.</i></p>
+
+<p><a name="foot1451" href="#tex2html32"><sup>[7]</sup></a> Serviu-nos de guia,
+n'este estudo, a traducção analytica da obra de Rebel&mdash;<i>La femme et le
+socialisme</i>&mdash;publicada por P. Argyriadés. Vulgarisando a excellente
+doutrina, procurámos fazer obra de propaganda e nada mais.</p>
+
+<p><a name="foot1452" href="#tex2html33"><sup>[8]</sup></a> B.
+Malon&mdash;<i>Le Socialisme Integral.</i></p>
+</div>
+
+
+
+
+
+
+
+<pre>
+
+
+
+
+
+End of Project Gutenberg's O Primeiro de Maio, by Sebastião de Magalhães Lima
+
+*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK O PRIMEIRO DE MAIO ***
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+To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
+and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
+and the Foundation web page at https://www.pglaf.org.
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+The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
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