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authorRoger Frank <rfrank@pglaf.org>2025-10-14 19:57:30 -0700
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+The Project Gutenberg EBook of O Marquez de Pombal, by Manuel Emídio Garcia
+
+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.org
+
+
+Title: O Marquez de Pombal
+ Lance d'olhos sobre a sua sciencia; politica e systema de
+ administração; ideias liberaes que o dominavam; plano e
+ primeiras tent
+
+Author: Manuel Emídio Garcia
+
+Release Date: May 15, 2010 [EBook #32378]
+
+Language: Portuguese
+
+Character set encoding: ISO-8859-1
+
+*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK O MARQUEZ DE POMBAL ***
+
+
+
+
+Produced by Pedro Saborano (produced from scanned images
+of public domain material from Google Book Search)
+
+
+
+
+
+
+ ESTUDOS CRITICO-HISTORICOS
+
+ I
+
+ O MARQUEZ DE POMBAL
+
+ Lance d'olhos sobre a sua sciencia;
+ politica e systema de administração;
+ ideias liberaes que o dominavam;
+ plano e primeiras tentativas democraticas
+
+ POR
+
+ M. EMYGDIO GARCIA
+
+
+ COIMBRA
+ IMPRENSA DA UNIVERSIDADE
+ 1869
+
+
+
+
+ESTUDOS CRITICO-HISTORICOS
+
+I
+
+O MARQUEZ DE POMBAL
+
+ Confundem facilmente os espiritos _vulgares_ a ideia com a
+ manifestação, a doutrina com o homem.
+
+ SR. ALEXANDRE HERCULANO.
+
+ Portugal no _reinado_ d'el-rei D. José subiu á altura dos outros
+ povos, se não é que em muitas cousas acima.
+
+ SR. ALMEIDA GARRETT.
+
+
+II
+
+REACÇÃO OU LIBERDADE?
+
+As reformas liberaes e a reacção ultramontana-absolutista em Portugal;
+estudo, feito em 1866, sobre a carta do Marechal Duque de Saldanha
+ácerca do casamento civil.
+
+
+III
+
+PASCHOAL JOSÉ DE MELLO FREIRE DOS REIS
+
+Lance d'olhos sobre a sciencia do Direito em Portugal nos começos d'este
+seculo. Escreveu-se pela primeira vez a Historia do Direito Patrio e foi
+este reduzido a um systema regular e harmonico. Revolução nas leis e na
+jurisprudência.
+
+
+
+
+
+ ESTUDOS CRITICO-HISTORICOS
+
+ I
+
+ O MARQUEZ DE POMBAL
+
+ Lance d'olhos sobre a sua sciencia;
+ politica e systema de administração;
+ ideias liberaes que o dominavam;
+ plano e primeiras tentativas democraticas
+
+ POR
+
+ M. EMYGDIO GARCIA
+
+
+ COIMBRA
+ IMPRENSA DA UNIVERSIDADE
+ 1869
+
+
+
+
+Deparam-se mui varias, e até contradictorias, apreciações e juizos sobre
+o caracter e obras do celebre Marquez de Pombal.
+
+Livros de recentissima data, fabricas de muito pezo litterario e
+primores de arte, ricos de substancia, e não menos opulentos de formas,
+reproduzindo-as, parece quererem de novo levantar pleito, propor acção e
+renovar processo, que não logrou ainda passar em julgado.
+
+Mas não se diga que por parte do auctor d'este apoucado escripto ha
+tanta vaidade e tamanho arrojo, que ouse inculcar-se para juiz officioso
+em tão graves contendas; consintam-lhe todavia, e para isso pede
+antecipada venia, que deponha em processo, no qual a posteridade, e
+talvez ainda o nosso publico illustrado, ha de proferir, algum dia, e
+lavrar sentença definitiva.
+
+Não é para alardear thesouros de sciencia e pompas de erudição; que tão
+arredadas nos andam uma e outra, que mal de longe as enxergamos em poder
+de alguns privilegiados, que, merecendo muito a Deos, não pouco devem á
+fama que os apregôa; o que só nos achega, porque a todos chega, é o amor
+da verdade e o zelo da justiça.
+
+E foi a verdade que nos citou, para comparecermos no tribunal da
+imprensa: se fingindo ser tal nos illudiu o erro, valha-nos de desculpa,
+para bem merecer perdão, a boa fé com que, sem a menor sombra de
+rebeldia, nos damos á obediencia.
+
+As paginas, que ao diante vão, fazem parte de um livro, que o auctor
+compoz e escreveu em 1866, quando a apparição do projecto do _codigo
+civil_ no seio da representação nacional levantou, servindo-lhe de
+pretexto, porfiada lucta entre o partido liberal e o _bando_
+reaccionario, que a provocou.
+
+Em mingoado tempo, e ainda assim cortado por outros maiores e mais
+austeros trabalhos e cuidados, se concluiu o _manuscripto_; e logo foi
+mettido em carcere privado á espera da ultima demão, para não haver de
+saír em liberdade, sem se lhe alimparem erros e expurgarem peccados, que
+não ha ahi obra de homens, por mais acabada de bigorna e lima, que os
+não tenha ou d'elles possa eximir-se.
+
+E com effeito, imperiosas circumstancias e motivos ponderosos estorvaram
+o auctor, e bem contra sua vontade, de saír a pleitear na contenda em
+prol da liberdade e dos liberaes, contra quem se erguia e praguejava
+mais uma vez, em descomposto e mal soante vozear, a turba dos
+retrogrados. Não nos amedrontaram clamorosas gritas de injusta, se não
+ainda mais fingida e calculada indignação, odios ameaçadores de raiva
+accesos, que não ha receios, nem escrupulos, onde entranhadas convicções
+se alentam; nem fomos levados do temor de affrontar-lhe as iras vans,
+que não falecem animos e coragem, quando a consciência é pura e as
+intenções desinteressadas; nem pode a ignorancia de uns, o fanatismo de
+outros e a hypocrisia de muitos vencer ou sequer dobrar espiritos rectos.
+
+D'esse livro ainda se evadiram como rebeldes e saíram a lume alguns
+capitulos, abrigando-se, mais como fugitivos do que hospedes, em dous
+periodicos litterarios--_O Povo_ e _A Academia_.--Mas como é sorte, e
+não sei se melhor diga, fatal destino de todas as publicações d'este
+genero, tão frequentes na nossa Lusa Athenas, que bem se parecem com as
+flores do outomno, que abrem com a aurora, fecham e morrem ao caír das
+sombras em um mesmo dia,--tão curta foi a duração dos dous
+periodicosinhos, que nos ficámos a começo da longa derrota que
+poderiamos percorrer.
+
+Nesse pouco, que do incognito e encarcerado manuscripto passou á
+liberdade e a correr mundo, vem o que reproduzimos agora: bem pode ser
+que algum dia nos dê na vontade e resolvamos fazer correr o livro
+inteiro, em demanda de bom e generoso gazalhado; e de experimental-o
+comece já, para que, posto não merecer subida estimação obra de tão
+mediano vulto, não tenha o auctor de arrepender-se d'esta sua primeira
+tentativa.
+
+
+
+
+O MARQUEZ DE POMBAL
+
+
+I
+
+Não foram só os germens da civilisação, despontando ao sol da
+renascença, a luz irradiada pela philosophia do seculo XVIII, o brado
+universal de 89, as armas de Napoleão I, o drama sanguinario de
+1817,--que prepararam a revolução de 1820.
+
+De longe, de mui longe nos veio e se gravou em Portugal o espirito de
+liberdade e independencia: Manifestou-se bem solemnemente na iniciativa
+popular em 1385; mais solemnemente ainda em 1640; arreigou-se d'um modo
+profundo e indestructivel durante a sabia administração de um genio
+reformador, que lhe preparou o campo de suas _ligitimas_ conquistas e
+removeu os estorvos, que lhe empeciam o caminho, por onde, mais tarde,
+devia deixar seu rastro luminoso.
+
+Foi essa epocha o prologo fecundo das revoluções! Esse homem o precursor
+admiravel do liberalismo!
+
+Foi a lucta gigante dos opprimidos contra os despotas; a _reacção
+social_ contra a _reacção ultramontana_; lucta na qual a liberdade
+pareceu succumbir e deixar-se esmagar debaixo dos pés da aristocracia
+orgulhosa e da cleresia degenerada e pervertida,--para mais tarde
+resurgir e erguer-se do mal encerrado tumulo vigorosa e ousada--para
+cantar no dia do merecido triumpho o hymno da legitima victoria!
+
+
+II
+
+Em Portugal, como em Inglaterra, como em França, a revolução reformadora
+teve os seus prophetas e apostolos: para não fallar em muitos outros de
+mais circumscripta esphera e menor vulto, apontaremos para o celebre e
+illustrado ministro de D. José I.
+
+Quando Sebastião José de Carvalho e Mello, por circumstancias,
+talvez imprevistas aos olhos do vulgo, importantes todavia, quando se
+perscrutam os designios do Ser infinito no destino das nações e se
+estuda a sua acção previdente sobre o mundo, appareceu á testa dos
+negocios do estado, assenhoreando-se do monarcha, concentrando em si
+todo o poder politico d'uma nação, abatendo a nobreza, reprimindo o
+clero e subjugando o povo,--Portugal era patrimonio do rei, _feudatario_
+da côrte de Roma, objecto de exploração para as duas ordens nobilitadas,
+orphão de patriotismo, pupillo de nações estranhas!
+
+
+III
+
+Principiava a arvore da _renascença_ a produzir os seus fructos, e de
+sua frondosa copa já pendia, sobre a cabeça do povo, o saborosissimo
+pomo da liberdade: sem que lhe aguardassem a queda, muitos espiritos
+elevados, vontades firmes e perseverantes haviam calculado as leis e, em
+harmonia com ellas, traçado a _mecanica_ politica do _regimen
+constitucional_; distinguindo sómente entre--rei e povo,--não
+reconhecendo outras entidades sociaes, demonstraram a necessidade de
+abater o orgulho da nobreza e destruir a influencia do clero,--elementos
+politicamente inuteis e prejudiciaes a um tal systema!
+
+
+IV
+
+Era pleno seculo XVIII.
+
+O sol da liberdade começava de surgir e elevar-se no horisonte das
+sociedades europeas, e, com elle, despontava do lado da França o dia da
+emancipação popular.
+
+Baccon, Montesquieu, Rabelais, Bayle, Fontenelle, e outros, foram apenas
+a aurora do brilhante dia; Diderot, Alembert, Condorcet, e Rousseau,
+animando-lhe cada vez mais os raios luminosos, só esperavam por
+Voltaire, o astro da philosophia, por Mirabeau, o genio da politica,
+que, resumindo em si toda a sciencia, toda a energia do seu seculo,
+haviam de dar a realidade ao sentimento e á ideia revolucionaria.
+
+
+V
+
+Foi no seio d'essa atmosphera repassada de novos elementos, e impregnada
+de novos germens de vida, que o espirito de Sebastião José de Carvalho e
+Mello cresceu, se desenvolveu e preparou para vir a ser o que na
+realidade foi, com grande applauso das nações e de certo com grande
+proveito nosso, se lograsse levar a cabo a regeneração politica, moral e
+economica do seu paiz, que tão habilmente emprehendera e á qual miravam
+as vistas, eminentemente _liberaes_ e _patrioticas_, do ministro de D.
+José.
+
+«Cultor assiduo de todos aquelles estudos, que habilitam o homem para
+governar; já herdeiro do aperfeiçoamento de muitas sciencias e artes,
+que podem illustrar o mundo politico e determinar a prosperidade e
+engrandecimento dos povos, lendo e meditando os livros economicos,
+politicos e financeiros, que em seu tempo inundavam a Europa», ía
+dispondo o animo para entrar um dia affoito e lidar desassombradamente
+com os negocios da alta politica e da administração publica.
+
+Tomara por modelo, escolhera para seus mestres,--Richelieu, Sully,
+Colbert, Argenson, e as maximas, as memorias, os testamentos politicos
+d'estes estadistas, mas principalmente a moral, a philosophia e todos os
+trabalhos scientificos dos encyclopedistas--foram o thesouro, onde
+aquella intelligencia vasta, aquelle espirito eminente, aquella vontade
+firme e energica se enriqueceram e auriram luz e força, para produzir o
+que depois se viu e admirou.
+
+
+VI
+
+Portugal era ainda, no começo do reinado de D. José I, o que a França
+principiara a ser desde o reinado de Luiz XV.
+
+D. Pedro II e D. João V, fascinados pelo brilho deslumbrante e pelo
+apparato tumultuoso da côrte de Luiz XIV, fizeram d'este rei absoluto,
+libertino e folgazão, considerado, naquelle tempo e pelo partido
+retrogrado e fanatico, o prototypo da realeza absoluta, o seu
+aperfeiçoado modelo.
+
+Um, seguindo a sua politica e imitando o seu exemplo, lançou ao
+esquecimento as fórmas da antiga _monarchia representativa_; reprimindo
+a nobreza e o clero, sem libertar o povo, preparou o _absolutismo_.
+
+O outro, animado de um espirito romanesco, dotado de uma imaginação
+ardente, dominado por uma piedade exagerada, ou especulando com uma
+calculada hypocrisia, imitou Luiz XIV nas suas vaidades, invejou-lhe a
+pompa e o esplendor da sua côrte, satisfez os mais puerís caprichos e as
+mais levianas phantasias, nada sacrificou ao bem do povo, enriquecendo a
+curia romana, esfalcou o thesouro publico, enfraqueceu a agricultura e
+as artes, enervou o espirito e a actividade nacional, numa palavra--o
+rei fanatico... fanatisou o povo!
+
+
+VII
+
+Era mister levantar o edificio, que, minado pela base, dobrava já ao
+peso de tantas pompas e magnificencias: o reino, povoado de sumptuosos
+edificios, deslumbrante de purpura e ouro, mas pobre de actividade e
+iniciativa, definhando á mingoa de moralidade e instrucção, pendia já
+sobre o abysmo, que um luxo reprehensivel e uma ociosidade criminosa lhe
+tinham aberto pelas mãos do proprio rei, sempre e em tudo dirigido pela
+côrte de Roma, dominado pelo clero e lisongeado pela nobreza.
+
+
+VIII
+
+Genio perspicaz, philosopho profundo e habil politico, o Marquez de
+Pombal já previa, como o antigo ministro de Luiz XV, que uma revolução,
+uma crise tempestuosa se avisinhava, para tudo transformar e regenerar
+tudo, ou tudo perder.
+
+A Europa agitava-se em seus fundamentos: havia uma especie de detonação,
+que impressionava os espiritos: estranhas convulsões abalavam o grande
+corpo social, como symptomas percursores d'um proximo terremoto moral e
+politico.
+
+A anarchia popular avisinhava-se do seu momento fatal; o governo
+monarchico-absoluto, desacreditado em quasi todos os estados da Europa,
+quasi desconhecido no Novo Mundo e declarado por muitos espiritos rectos
+o peior dos governos, esperava todos os dias a sua sentença de morte; a
+acção philosophica, apoderando-se das intelligencias elevadas do seculo,
+ia-lhe preparando o supplicio no patibulo da opinião publica.
+
+Os philosophos de Inglaterra e França trabalhavam fervorosos na
+propaganda liberal: as theorias de Baccon e Mentesquieu tinham sido
+profundamente desenvolvidas e levadas até ás suas ultimas consequencias
+praticas.
+
+A interferencia da Inglaterra, a sua acção politica, disfarçada debaixo
+da apparencia de um grosso trato commercial, influenciava, de um modo
+energico e profundo, a situação moral e economica dos povos; como as
+_cruzadas_, em nome de Deus e pela fé, produziram, em seu tempo, notavel
+transformação social.
+
+Um vento philosophico soprava da Allemanha, da Inglaterra, da França e
+da America, e murmurava aos ouvidos de muitos as palavras--_liberdade_,
+_emancipação_, _democracia_, _republicanismo_ e outras, que bem
+significavam não estar longe o momento, em que o povo, senhor da sua
+vontade, conscio da sua _força_, reivindicasse os seus direitos,
+usurpados pela realeza, ultrajados pelos nobres e em parte absorvidos
+pelo clero.
+
+Uma nova fórma de governo existia já traçada na mente de muitos homens
+illustres.
+
+As materias combustiveis, que se haviam de inflammar para accender a
+revolução, acervavam-se por toda a parte.
+
+Alguma cousa de extraordinario e assombroso se preparava no laboratorio
+immenso da Europa!
+
+Algum monumento, de sumptuosa fachada e maravilhosa architectura,
+mas já gasto pelo roçar dos tempos, ia desabar até aos alicerces.
+
+Era--a _bastilha_ monarchica do absolutismo; era--o _capitolio_
+jesuitico da theocracia, minados nos fundamentos, abalados na solidez!...
+
+Finalmente as instituições, os poderes, as opiniões.... tudo annunciava
+que a transformação estava imminente, e inevitavel e fatal devia
+operar-se por uma revolução geral e profunda!
+
+
+IX
+
+Filho do seculo XVIII, herdeiro da renascença, educado na philosophia e
+na politica dos encyclopedistas, admirador dos grandes homens da França,
+versado nas suas obras e dominado pelas suas theorias, seguidor das suas
+maximas, iniciado na vida politica da Inglaterra, Sebastião José de
+Carvalho para logo viu os males que affligiam o povo e degradavam a
+nação, e que o unico remedio, que podia salval-os, era--ou uma revolução
+popular, uma guerra civil tempestuosa e terrivel em sua acção, embora
+salutar e benefica em suas consequencias,--ou a reforma pacifica e
+diplomatica das instituições.
+
+Optou pelo segundo meio. Como politico propoz-se o plano e as medidas de
+Richelieu, mas com outro fim e mirando a mui diverso resultado; como
+economista e financeiro esforçou-se por imitar o grande estadista Sully;
+discipulo de Quesnay, aprendera com elle que é no solo que reside a
+principal fonte de riqueza e as materias primas de toda a producção;
+como Adam Smith já não ignorava que só o trabalho pode arrancar á
+natureza os seus productos e, transformando-os, fazel-os servir á
+satisfacção das necessidades humanas, á prosperidade publica e á
+felicidade domestica.
+
+Foi por isso que lhe mereceram particular attenção e desvelado esmero a
+agricultura e a industria, as artes e os officios, que, arrancando o
+homem da abjecção, que a mizeria gera, da ociosidade, que perverte, têm
+alem d'isso a singular virtude de emancipar o povo, entregando nas suas
+mãos, com o sceptro do trabalho,--a _realeza_ politica.
+
+
+X
+
+Sebastião José de Carvalho, discipulo fervoroso das ideias
+philosophicas, politicas e economicas, que a França espalhava por toda
+Europa, comprehendia bem o estado de fermentação revolucionaria, em que
+por toda ella se agitavam os animos.
+
+«Uma revolução é sempre um mal», pensava elle, «uma enfermidade, que, só
+depois de longa e angustiosa convalescença, dá ao corpo social,
+martyrisado, vigor e robustez.»
+
+O empenho na realisação d'um plano immenso, profundo e salutar, de
+regeneração e progresso, só esperava opportunidade para se mostrar e
+desenvolver d'um modo util ao seu paiz, glorioso para elle e para o rei,
+em nome do qual e a bem do povo devia progredir affanoso na tarefa
+reformadora, que ousadamente emprehendera.
+
+
+XI
+
+O estado lamentavel de quasi completa desorganisação, em que Portugal de
+ha muito se debatia; a oppressão, que sobre nós exerciam algumas côrtes
+estrangeiras, nomeadamente a de Inglaterra, que de Portugal havia feito
+não só pupillo, mas vassallo obediente, dirigindo-nos a politica,
+exhaurindo-nos as fontes de toda a vida economica, dominando em todos os
+nossos portos, explorando as nossas colonias occidentaes e obrigando-nos
+a votar a um quasi completo abandono as ricas possessões do oriente,
+fingindo manter em _equilíbrio_ a nossa independencia nacional, e
+opprimindo-nos como povo conquistado,--eram motivos fortes para
+determinar o animo e despertar o desejo de applicar remedio a tamanhos
+males, quebrar aquelle jugo funestissimo, ou pelo menos attenuar
+consequencias desastrosas, que de dia para dia se iam aggravando.
+
+
+XII
+
+Por toda a parte o abandono da agricultura, o desprezo pelas artes,
+insignificantissimo o trato commercial; um governo monarchico sem
+prestigio, um throno esplendido sem solidez; o jesuitismo e a nobreza
+lisongeando os reis, fanatizando o povo e especulando com a sua piedade,
+dominando e opprimindo, gozando sem trabalho, adquirindo por meio de
+successivas usurpações, accumullando sem esforço; o luxo e a
+immoralidade para uns, a miseria e a degradação para outros.... tal era
+a situação perigosa e assustadora, o triste espectaculo, que a nação
+offerecia, quando Sebastião José de Carvalho appareceu na scena publica
+e concebeu o arriscado mas grandioso projecto da sua emancipação,
+restabelecimento e progresso!
+
+
+XIII
+
+Valendo-se, por um bem combinado calculo, da protecção, que desde muito
+tempo lhe dispensava a viuva de D. João V, e da docilidade e
+benevolencia de D. José I (que de seu pae havia recebido uma mediocre e
+superficial educação, sendo por natureza debil em forças e talentos),
+gosando já entre nós de um nome illustre, que, a par de outros titulos,
+tinha por fundamento a subida reputação que alcançara em Viena
+d'Austria, não perdeu a primeira occasião, que lhe pareceu opportuna,
+para, aproveitando o favor e a confiança do rei, salvar o seu paiz,
+reivindicar a independencia da nação e dar liberdade ao povo.
+
+Foi o seu governo um dos periodos mais gloriosos da nossa historia!
+
+Foi Sebastião José de Carvalho um dos maiores vultos do seculo XVIII!
+
+Foi então que se travou no meio de nós a mais porfiada lucta da
+_reacção_ com a liberdade!
+
+
+XIV
+
+É por isso que, entre os grandes genios, fadados para ousados
+commettimentos, entre os ministros energicos em emprehender e vigorosos
+em executar, não ha nenhum que se lhe avantaje, nenhum que, em menos
+tempo, mais se distinguisse, maiores benefícios prodigalisasse ao povo e
+mais gloria alcançasse ao rei:
+
+--Restaurou a disciplina militar.
+
+--Fortificou as praças d'armas.
+
+--Renovou a marinha.
+
+--Reanimou a agricultura.
+
+--Restaurou e desenvolveu as artes, de todo esquecidas, e vivificou o
+commercio moribundo.
+
+--Restabeleceu e firmou o credito publico, e organisou as finanças.
+
+--Reformou e ampliou os estudos superiores, segundo os progressos
+litterarios e scientificos do seculo.
+
+--Abriu as portas da instrucção popular, fechadas pelo jesuitismo,
+áquelles que durante seculos haviam sido condemnados ás trevas da
+ignorancia e da superstição.
+
+--Instituiu mais de oitocentas escholas gratuitas para o ensino primario.
+
+--Creou e dotou collegios, escholas secundarias e professionaes para a
+navegação, commercio e outras industrias.
+
+--Diminuiu as prerogativas, cerceou os privilegios e abateu o orgulho da
+nobreza.
+
+--Tentou apagar odios de raças e extinguir luctas de crenças religiosas.
+
+--Abriu caminho amplo á confusão das classes e á egualdade perante a lei.
+
+--Tornou livres os indigenas do Brazil, e levantou barreiras ao trafico
+infame e degradante da escravatura.
+
+--Reprimiu as despoticas exigencias e a preponderancia orgulhosa da
+_insaciavel_ Inglaterra.
+
+--Frustrou os planos _ambiciosos_ da Hespanha.
+
+--Celebrou tractados politicos e commerciaes com muitas nações da
+Europa, e com outras o pacto da nossa independencia e dignidade nacional.
+
+--Fundou e organisou companhias de commercio e industria, para reanimar
+as nossas colonias, ou de todo abandonadas, ou preza da cubiça de
+estranhos especuladores.
+
+--Restringiu o tremendo poder da inquisição, e proscreveu os autos de fé.
+
+--Dobrou e venceu a preponderancia pontificia, e refreou, por vezes,
+a cholera do Vaticano, apontando ao Papa quaes os limites onde devia
+expirar o seu poder temporal e politico.............
+
+--Substituiu á auctoridade dos jurisconsultos romanos e ás argucias e
+sophysmas dos glossadores, que mantinham agrilhoadas as leis e a
+jurisprudencia ao imperio absoluto d'uma sciencia convencional, curvada
+sob o peso de muitos seculos e já decrepita--a auctoridade da Razão,
+esse poder soberano, capaz de descubrir a verdade; alargando assim o
+campo de exploração a um dos maiores genios do seculo--Paschoal José de
+Mello Freire, o sabio jurisconsulto portuguez, que por si só egualou, se
+não é que excedeu, ao mesmo tempo Montesquieu e Beccaria.
+
+--Vendo que as artes e as sciencias floresciam na Inglaterra e por quasi
+toda a Allemanha, para logo viu tambem a necessidade de operar uma
+revolução completa no mundo scientifico, litterario e artistico; e foi
+ella tão profunda e salutar, que, no dizer de Almeida Garrett «tudo
+mudou de face; cahiu o collosso jesuitico, o reino de Aristoteles e a
+barbaridade Thomistica, para lhe succeder Milton, Baccon, Descartes,
+Newton, Lineu e outros.»
+
+É que o reflexo d'uma nova luz brilhava do lado do septemptrião, para
+inundar com o seu esplendor a nós «os meridionaes, que estudavamos as
+_cathegorias_ e as _summas_, aguçavamos distincções, alambicavamos
+conceitos, retorciamos a phrase no discurso e torciamos a razão no
+pensamento» nada produzindo de bom e util ao progresso da humanidade.
+
+A reforma da universidade produziu: José Anastacio da Cunha, Avelar
+Brotero, Monteiro da Rocha, Mello Freire e muitas outras illustrações,
+que, exterminando a barbaridade, haviam de produzir a civilisação, e,
+fundando a republica das letras, pela soberania da razão, unica
+verdadeira e legitima, abater se não destruir o imperio absoluto d'uma
+auctoridade prepotente, acoitada sob a roupeta jesuitica e
+intrincheirada por detrás do volumoso, mas indigesto, _corpus juris
+romanorum_, das leis canonicas e dos mil _in folio_ dos glossadores e
+reinicolas.
+
+E a universidade de Coimbra começou de ser mais uma prova eloquente, não
+só da influencia, mas tambem da fecunda iniciativa, que as
+_universidades_ desenvolveram sempre em preparar e promover as
+revoluções do progresso pela liberdade.
+
+Bem sabia elle, porque a reflexão e a experiencia poucas vezes deixam
+illudir os homens de genio, que á republica das letras, á emancipação da
+intelligencia devia succeder--a democracia politica e a liberdade para o
+povo.
+
+Foi tambem em virtude d'esta lei que á reforma religiosa do seculo XVI
+succedeu--a revolução social de 1688 em Inglaterra; e á revolução
+litteraria e scientifica das idéas no seculo XVIII--a revolução politica
+de 1789 em França.
+
+--Ordenou que as _execuções_ por dividas parassem deante das portas das
+cadeias, que até 1774 em Portugal, até 1867 em França, se abriam como
+ainda hoje em Inglaterra para sequestrar a liberdade d'aquelles, que
+muitas vezes não tinham outro crime alem da pobreza, outro peccado alem
+da miseria!
+
+E quando ainda hontem a imprensa liberal de todos os paizes saudava, em
+nome do progresso, e applaudia, como gloriosa e civilisadora, a abolição
+de tão odiosa pena, havemos de ficar silenciosos ante a memoria do
+Marquez de Pombal, que a eliminou, um seculo primeiro, em nome da
+humanidade?!
+
+Finalmente, o Marquez de Pombal, usando da oppressão e da tyrannia,
+empregando o terror e o despotismo, mirava á grande transformação
+social, que em França se operou depois; preparava, pacifica e
+diplomaticamente, o que ella só pôde alcançar por meio de uma
+conflagração geral, e entregando-se louca e desvairada a todos os
+excessos, a todos os horrores da guerra civil, á _guilhotina_ e ás
+_barricadas_, com que immolava os seus proprios filhos e assolava as
+cidades, as villas e os campos, ensanguentados pelos combates
+fratricidas ou entregues á voracidode das chammas, á pilhagem e á
+carnificina!...
+
+
+XV
+
+Não recuou o Marquez de Pombal, porque o julgou necessario e de
+maravilhoso effeito para libertar o povo, deante do cadafalso, levantado
+para rolarem algumas cabeças _nobres_.
+
+Não tremeu o Marquez de Pombal, quando lavrou o decreto que expulsava os
+_jesuitas_; pois com tão rasgada medida não só beneficiou Portugal, mas
+a Europa inteira e o Novo Mundo; com este acto de sabia politica
+quebrava as cadeias, com que os _padres da companhia_ amarravam as
+consciencias ao poste d'uma fé convencional; limpava o corpo social da
+lepra da superstição e do fanatismo, que rapidamente se propagava e
+desinvolvia, por toda a parte, aonde penetrava o morbido contagio da
+roupeta dos _máos e falsos companheiros_ de Jesus!
+
+Para alguns são estes dous factos dous grandes e execrandos crimes; para
+outros duas louvaveis virtudes; para nós--dura necessidade, consequencia
+_forçada_ na realisação de um plano salutar e benefico.
+
+A nobreza e o jesuitismo eram, naquella epocha, os obstaculos
+gigantes, que se oppunham ao estabelecimento da liberdade.
+
+A nobreza e o jesuitismo, desherdando, espoliando o povo de tudo o que
+podia tornal-o livre e independente, disputando o poder, a influencia e
+a preponderancia monarchica, eram estorvo invencivel ao _systema
+representativo_, á adopção e reconhecimento legal das _garantias
+constitucionaes_ e das _prerogativas da corôa_, que a philosophia
+politica de seculo, as necessidades do tempo e o exemplo da Inglaterra
+instantemente reclamavam, cujo disco luminoso começava já a brilhar nos
+horisontes do futuro em muitos estados da Europa, cuja triangulação
+havia sido habilmente traçada sobre--a _inviolabilidade_ do rei--a
+_responsabilidade_ do _ministro_ e a _soberania_, do _povo_.
+
+
+XVI
+
+O Marquez de Pombal queria a liberdade para a patria e para o povo, como
+a primeira fonte de engrandecimento e prosperidade nacional.
+
+O Marquez de Pombal não phantasiava theorias politicas nem traçava
+systemas philosophicos; não escrevia pungentes ironias e asperos
+epigrammas; não defendia e exaltava o protestantismo, para censurar
+e maldizer a Egreja catholica; não persuadia a revolta nem excitava os
+povos á pilhagem e á carnificina--concebia medidas uteis e prudentes, e
+executava-as conforme as circumstancias imperiosamente o exigiam.
+
+A regeneração intima dos homens e das instituições, e não a organisação
+_formal_ e superficial do systema governativo, foi o seu firme
+proposito, objecto constante de sua actividade e desvelo, embora para o
+conseguir fosse necessario dominar o _rei_, opprimir e desacreditar os
+nobres, desprestigiar e abater o clero.
+
+Tinha por ventura o _rei_ força, energia, firmeza de vontade, sciencia e
+coragem para salvar a nação e o povo e detel-o á beira do abysmo, que de
+dia para dia lhe cavavam profundo tantas causas de ruina?!
+
+Seria bastante robusto o seu braço, poderoso o seu sceptro de oiro,
+valiosos os diamantes da sua corôa, para poupal-os ao choque
+revolucionario, que de perto e ao longe se presentia, e que em breve
+devia abalar a Europa inteira, já consideravelmente agitada pelas
+pulsações, que violentas se succediam no coração da França e que a
+faziam estremecer até ás mais affastadas extremidades?!
+
+Qual teria sido o destino do pequeno e então pobre e humilde Portugal,
+se o não houvessem preparado para resistir á onda revolucionaria,
+que mais tarde lhe devia passar por sobre as _quinas_ e inundar os seus
+_castellos_?!
+
+Existiria hoje Portugal, como nacionalidade e paiz _independente_, se
+lhe não houvessem dado, annos antes, força e coragem, recursos e
+patriotismo, para não succumbir abatido ante as armas victoriosas do
+moderno Cesar, que, debaixo da forma do despotismo e da tyrannia, da
+invasão e da conquista, contra a sua vontade talvez, ou, melhor ainda,
+sem o presentir, fazia com a ponta da espada e com a bocca de seus mil
+canhões a propaganda liberal?![1].
+
+
+XXIII
+
+Depois da resurreição nacional, que em 1640 succedeu á morte da
+independencia da patria, esmagada pelo peso oppressor de estranho jugo,
+devida não como pretendem alguns, ás combinações _grandiosas_ e á
+politica _admiravel_ de Richelieu, mas á patriotica iniciativa e á
+dignidade heroica dos conspiradores populares,--a nação portugueza
+recobrou a sua autonomia, despedaçou as algemas de tão odiosa
+servidão politica, desprendeu-se, por um soberano esforço de coragem,
+dos braços de ferro, em que durante longo e angustioso periodo a tinham
+apertado os despotas castelhanos, e levantou sobre o throno de Affonso
+Henriques, reis, se não filhos do povo, eleitos e proclamados por elle.
+
+Portugal entrou de novo no dominio e posse de suas conquistas; e o
+soberano opulento do Oriente, o descobridor generoso de ignotas plagas e
+de estranhas gentes, ergueu-se do tumulo, que lhe tinham aberto o arrojo
+pueril d'uma creança ávida de glorias vãs, e a imbecilidade trôpega
+d'um velho cardeal fanatizado.
+
+Era todavia sombra magestosa d'um vulto heroico, surgindo entre as
+ruinas de sumptuoso edificio desmantelado!
+
+Nem exercito, nem marinha, sem commercio, sem industria, exhaustos os
+cofres do estado, perdido o credito, nominal a riqueza de suas
+maravilhosas descobertas, vazio o thesouro de suas conquistas!... Só com
+a auréola de passadas glorias; sem outro titulo perante as nações, alem
+da merecida gratidão, a que tinha direito pelos valiosos serviços
+prestados á humanidade e á religião, que o ligara ao céo e a Deus
+logo desde o berço!
+
+Havia para elle a esperança no futuro firmada na lembrança do passado;
+existiam amontoados, sobre os mares e nas suas ricas possessões
+abandonadas, os despojos da sua antiga grandeza; o seu nome escripto
+sobre toda a extensão do Oceano, brilhando nas coroas de muitos
+monarchas, gravado no coração de muitas nações florescentes!
+
+Foi por isso que todos acolheram com applauso o brado da sua
+independencia e lhe ajudaram a manter a liberdade, que desastrosamente
+havia perdido nas plagas longinquas de Alcacer Quivir e sobre o leito de
+um cardeal moribundo!
+
+A coroa de ferro dos senhores de Hespanha precisava das perolas e dos
+diamantes de quatro mundos!...
+
+Para cobrir a juba ensanguentada do leão de Castella eram necessarios os
+alvissimos arminhos do manto de nossos reis!...
+
+A ambição insaciavel do hespanhol, não contente com as suas possessões,
+pretendia ainda com sôfrega cubiça usurpar as colonias portuguezas, que
+já se alongavam e estendiam do oriente ao occidente, do septentrião ao
+meio dia, sobre todos os continentes, á roda e no meio de todos os
+mares!...[2].
+
+
+XXIV
+
+Os herdeiros da casa de Bragança, os _populares soberanos eleitos pelo
+povo_, os primeiros representantes d'essa realeza _legitima_, nem
+comprehenderam a sua elevada missão, nem lhe importaram as necessidades
+do _seu_ povo, não sabendo ou não querendo aproveitar-se do amor e
+da confiança que nelles haviam depositado os que, resgatando o reino,
+lhes cingiram o diadema e lhes lançaram sobre os hombros a purpura de
+duas _dynastias_!
+
+Não emprehenderam reformas; não traçaram plano algum de politica
+definida; não promoveram o desenvolvimento ou ao menos a restauração da
+industria, do commercio, da navegação--de todos quantos elementos
+constituem a vida laboriosa, o bem estar social e a prosperidade d'uma
+nação livre, independente e opulenta do que poderia tornal-a grande e
+respeitada; exhaurindo o _erario_, sem activar as forças da riqueza
+publica e particular, sem abrir novos mananciaes de producção, sem dotar
+o paiz de melhoramentos de reconhecida utilidade... sua unica
+preoccupação, todo o seu empenho limitava-se, parecia comprazer-se até,
+em augmentar e completar o despotismo, que estranhos para cá haviam
+importado, e o gosto da epocha, o exemplo d'outras côrtes, muito
+favoreciam, engrandecendo ao mesmo tempo os jesuitas, dando força e
+apoio ao tribunal da inquisição; em manter um fausto ruinoso, em
+propagar o amor e a paixão por um luxo, mais do que inutil,
+prejudicial, e por vezes e em muitas cousas insolente; em consumir
+improductivamente, com vaidades reaes, em sumptuosas construcções, em
+dispendiosas obras d'arte, e, o que é peor, em beatificas e exaggeradas
+piedades mundanas, capitaes immensos, sommas fabulosas!
+
+Portugal, arrancado pela mão do povo ao jugo de Castella, é em 1703
+_hypothecado_ aos inglezes, que o exploraram, como o possuidor de _má
+fé_ explora a propriedade alheia. Roma especulou tambem; a nobreza e
+o clero completaram este systema de legal e convencionada pilhagem!...
+
+
+XXV
+
+Foi nesta situação, aggravada por muitos males, que o sabio e corajoso
+ministro de D. José se propoz a tarefa espinhosa de restaurar a patria,
+quebrar o jugo estranho, que lhe pezava odioso, extinguir aquella
+vexatoria exploração, que, debaixo da apparencia de uma _benefica_
+tutela, lhe ia aniquilando as forças physicas, ao mesmo tempo que
+_outros_, invocando a fé e o Evangelho, a cruz e a Redempção, abrindo
+masmorras e atiçando fogueiras, iam apagando a luz na alma e
+immobilisando o espirito do povo!...
+
+Restabelecer a actividade e ordem no seio da familia portugueza, dar-lhe
+a liberdade, fundar a felicidade domestica e a prosperidade
+publica,--tal foi o seu elevado empenho.
+
+É pois a intelligencia, a vontade, o poder de um só homem,--reanimando uma
+nação moribunda, prestes a esconder-se no cemiterio da historia, embora
+as gerações vindouras, prestando-lhe a devida homenagem, houvessem de
+lhe gravar sobre a campa o mais glorioso epitaphio;--chamando á vida, ao
+trabalho, á liberdade e á independencia um povo escravo da nobreza e do
+clero, e, o que é peor, da ignorancia, do fanatismo, da indolencia e da
+miseria;--elevando e fazendo respeitar um rei _servo_ da côrte de Roma,
+_vassallo_ da Inglaterra!...
+
+
+XXVI
+
+Luta infatigavel de tantos annos, se não de todo infructifera, porque a
+semente, que ficara escondida na terra, veio mais tarde a germinar com o
+calor das revoluções, foi todavia mallograda pelas intrigas dos nobres e
+do clero, pelas ambições da Inglaterra e da Hespanha: aquelles, ainda
+curvados sobre o catafalco de D. José, juravam o exterminio do homem,
+que consideravam seu implacavel e invencivel inimigo; estas, insinuando
+ás occultas a queda do independente ministro, promettiam _apoio
+seguro_ aos que emprehendessem e conseguissem derribal-o.
+
+Á morte do rei succedeu pois a queda do ministro e por ultimo a
+condemnação e o exilio do varão prestante e benemerito, calumniado,
+perseguido e processado por ter amado o rei e a patria, o povo e a
+liberdade!...
+
+
+XXVII
+
+Poucos annos depois da sua morte, apressada talvez pela condemnação, que
+o obrigara a encerrar-se em logar obscuro, e afastado da côrte, onde
+ostentara sciencia e poder, força de vontade e energia, regulando
+sabiamente os destinos da nação, que por sua direcção immediata e em
+suas proprias mãos se havia reanimado e engrandecido, realisavam-se em
+França as prophecias da revolução, com todos os horrores da guerra civil.
+
+A cabeça de Luiz XVI rolava nos degráus do cadafalso, que lhe levantaram
+os despotas da _liberdade_, como tambem em Inglaterra havia caído
+abatida a cabeça de Carlos I. A guilhotina fazia victimas ás mil,
+tragava, devorava, em nome da _deosa da razão_, como a fogueira
+inquisitorial em nome da religião sancta! O punhal revolucionario,
+impellido pelo braço homicida dos revoltosos, alastrava as ruas e as
+praças de cadaveres com a mesma furia, com que em outras eras immolara
+os _albigenses_ e os sectarios da religião _reformada_.
+
+Foi seu intuito, objecto de seus infatigaveis esforços, obter o mesmo
+resultado, por meios brandos e pacificos; conquistar as mesmas ideias,
+fazer dominar os mesmos principios, firmar o poder dos reis na
+_soberania de todos_, dar a liberdade ao povo por meio d'uma
+_constituição representativa_, semelhante á que vigorava em Inglaterra,
+embora para o conseguir fosse necessario usar de tyrannia contra alguns
+nobres, decretar o exterminio d'uma congregação mais politica do que
+religiosa, odiada já em toda a Europa e em muitas regiões da America,
+condemnada pelas universidades seculares, mal vista dos povos e d'uma
+parte consideravel do clero, e até repudiada pela Egreja.
+
+
+XXVIII
+
+Era forçoso, em tão arriscado e perigosissimo lance, em circumstancias
+tão anormaes, oppôr á tyrannia de alguns a tyrannia de um só, ao
+despotismo de muitos o despotismo em nome do rei; de outra sorte não
+conseguiria desarmar as ciladas, desfazer as intrigas, cortar os tramas,
+frustrar manejos, surprehender conspirações, que tudo e por toda a parte
+a _nobreza_ e o _jesuitismo_ estendiam e machinavam ao _rei_, ao seu
+_ministro_ e ao _povo_, que, ligando-se por um pacto inviolavel, não
+tardariam a destruir-lhes a insolente _preponderancia_, a extinguir-lhes
+os _privilegios_, a supprimir-lhes as _regalias_, a alevantar-lhes os
+_foros_, a picar-lhes os _brazões_, em uma palavra a dobrar-lhes as
+_orgulhosas servis_ sob o jugo inflexivel da--_egualdade perante a lei_.
+
+Se o Marquez de Pombal não fosse victima de falsas accusações e vis
+intrigas, se se conservasse mais algum tempo á testa dos negocios
+publicos investido do supremo governo da nação, se houvesse gozado
+juncto do throno de D. Maria da mesma confiança, apoio e favor, que
+alcançara perante D. José, a _constituição_ teria apparecido primeiro em
+Portugal do que em França, em Hespanha e em outros paizes, e o systema
+_representativo_ seria proclamado entre nós, pelo menos, ao mesmo tempo.
+
+É esta uma verdade, que immediatamente deriva dos factos, e que
+difficilmente poderá escurecer-se.
+
+O despotismo, a tyrannia de que se argúe Pombal, era imposta pelas
+necessidades, como o unico meio de chegar á liberdade.
+
+Não ignorava por certo este grande homem--que a _liberdade_ e a
+_tolerancia_ só com a liberdade e com a tolerancia podem solidamente
+fundar-se no seio de uma nação.
+
+Bem sabia elle--que os partidarios da liberdade e da tolerancia devem
+deixar o emprego da força aos partidarios da força e da intolerancia.
+
+Mas este conselho evangelico, que só hoje começa a converter-se em
+preceito obrigatorio, este grande principio theorico, era naquella
+epocha, attentas as circumstancias, de impossivel applicação na pratica.
+
+O que no seculo XIX em 1868 não pôde realisar a Hespanha, era nos fins
+do seculo XVIII uma utopia impraticavel em Inglatarra, em França, e
+muito mais em Portugal.
+
+Os designios do grande estadista e as suas vistas eram patrioticas; o
+seu ideal a emancipação politica, religiosa, moral e economica do povo,
+que elle conhecia--grande, opulento e soberano na historia,--pequeno,
+pobre e escravo no presente; o mobil que o determinava o amor da liberdade.
+
+Sebastião José de Carvalho mostrava em muitos dos seus actos ser no
+interior da sua alma, no intimo da sua consciencia, pela razão e pelo
+sentimento, um dos maiores e mais enthusiasticos liberaes do seculo XVIII.
+
+Se não pôde ver executado o seu plano e levar ao cabo tão gloriosa
+empresa, arremessando para longe a mascara do despotismo, foi porque o
+não deixaram; foi ainda a _reacção_, que lh'o impediu, a injustiça que
+lh'o estorvou.
+
+Despojado do poder, privado da acção governativa, condemnado ao
+ostracismo politico, exilado para longe da côrte, afastado dos negocios
+publicos, viu mallograda a sua obra; não lhe embaciaram porem a gloria,
+não lhe quebraram os brazões, e, o que é de maior valia, não lhe
+extinguiram a gratidão no coração dos povos; e se ao tumulo baixam
+esperanças, devia acompanhal-o a lembrança de que um dia as suas ideias
+haviam de ser realisadas, os seus principios triumphar, e o plano, que
+lhe absorvera a existencia inteira, posto em plena execução, o seu nome
+exaltado, a sua reputação glorificada e os seus inimigos, os inimigos do
+povo e da liberdade, confundidos.
+
+Se ao Marquez de Pombal não permittiu Deos continuar a obra do
+_constitucionalismo_, cabe-lhe todavia a bem-merecida gloria de preparar
+o paiz e os povos para a proclamarem trinta annos depois da sua morte.
+
+
+XXIX
+
+Á transformação, que Portugal experimentou pela acção previdente e
+reformadora do grande ministro, aos elementos de força e prosperidade,
+que não só indicou, mas com que legalmente dotou a patria, ás
+instituições politicas e economicas, e aos germens de educação popular,
+que semeou, devemos em grande parte os beneficios, que com razão se
+attribuem á revolução liberal.
+
+Sem o genio fecundo, sem a intelligencia vasta e a dedicação inexcedivel
+de Sebastião de José Carvalho, seria Portugal conquista partilhada entre
+a França e a Hespanha, ou nação livre e independente?
+
+No estado de desorganisação politica, de desordem moral e economica, de
+miseria e degradação, a que Portugal tinha chegado antes da sua
+administração, seria possivel o triumpho glorioso do partido liberal em
+1820?
+
+Cremos firmemente que não: assim nol-o dizem a razão e a consciencia,
+firmadas na historia e esclarecidas pela philosophia dos factos.
+
+É por isso que entre as causas remotas, mas essencialmente
+determinativas, da transformação liberal, que depois se operou, devemos
+considerar, como uma das mais importantes e efficazes, o governo forte e
+energico, a administração sabia e illustrada, a politica severa e, por
+vezes, intolerante do Marquez de Pombal.
+
+Abone a historia imparcial a verdade que o paradoxo esconde.
+
+Que importa a expulsão dos jesuitas?
+
+Era uma necessidade para o estabelecimento da liberdade politica e da
+tolerancia religiosa, que o Marquez de Pombal amava, queria fundar, e
+que elles detestavam.
+
+Que importa que do alto do cadafalso rolassem as cabeças de alguns
+nobres, que, ociosos e embriagados no mais escandaloso luxo, conspiravam
+contra o rei, odiavam as reformas do ministro, queriam privilegios e
+prerogativas injustificaveis, opprimiam e vexavam o povo, nada fazendo
+em beneficio da patria; e, de mãos dadas com os inquisidores, discipulos
+de Loyola, dedicados familiares do _sancto officio_, procuravam a morte
+do rei, a queda do ministro e a ruina da nação?!
+
+
+XXX
+
+O Marquez de Pombal obstou por uma sabia politica--ao despotismo do rei,
+á oligarchia dos nobres, á theocracia dos jesuitas, á miseria e á
+degradação do povo.
+
+«Foi, como se exprimem alguns, odiado dos nobres pelo seu nascimento e
+pelo seu liberalismo; dos inquisidores pela sua tolerancia e moderada
+piedade; dos jesuitas pelo seu saber e perseverança; da populaça por sua
+severidade; dos inglezes pelos obstaculos que lhes oppoz, e com que
+abateu a sua omnipotencia commercial e politica.»
+
+Os inimigos implacaveis do ministro só com a morte do rei poderam
+derribal-o, mas não perdel-o. Affastaram-n'o dos negocios publicos; mas
+nos dias do seu poder nem lhe torceram o animo nem lhe afrouxaram os
+esforços, que continuadamente empregou para o engrandecimento e
+regeneração da sua patria.
+
+Interrogae a politica, a moral, a jurisprudencia, as finanças, a
+agricultura, o commercio, a industria, as artes, a navegação, a milicia,
+a instrucção publica, e até a propria religião; numa palavra,
+consultae as leis, as instituições e os costumes, e por toda a parte
+encontrareis ainda hoje a sua acção benefica e reformadora.
+
+A guerra implacavel, que então lhe fizeram os retrogrados e os
+absolutistas, os nobres e os jesuitas, a inquisição, a Hespanha e até a
+propria Inglaterra, é a mesma que a _reacção_ machína e promove ainda
+hoje e tem promovido sempre contra os _liberaes_.
+
+Se o Marquez de Pombal foi despota, se empregou o terror e a tyrannia,
+não lhe vinham d'alma taes excessos, nem lh'os inspirava o seu genio
+altivo e severo, mas liberal e bemfazejo; provocava-lh'os a reacção dos
+nobres e dos fanaticos, exigiam-lh'os as necessidades da patria e os
+velhos e inveterados prejuisos do passado.
+
+Não foi para exaltar o despotismo, nem para lisonjear o monarcha, que,
+por amor do povo e para bem da nação, parecia adorar a realeza.
+
+Não foi para satisfazer vaidosas ambições de quem nunca mostrara tel-as,
+que a memoria do _augusto principe_ se gravou no bronze da estatua
+equestre, nem o monumento levantado para impôr ao povo a idolatria
+monarchica.
+
+
+XXXI
+
+Todos os grandes homens como todos os sanctos têm a sua estrophe na
+epopea legendaria do povo.
+
+Affonso Henriques, Mestre d'Aviz, Nuno Alvares Pereira, João das Regras,
+Vasco da Gama, D. João de Castro, Affonso de Albuquerque, Camões, João
+Pinto Ribeiro, frei Bartholomeu dos Martyres, frei Caetano Brandão e mil
+outros, perpetuos na historia, são creações ideaes na immortalidade da
+legenda.
+
+O Marquez de Pombal, tendo sido na realidade tudo o que dissemos, é no
+bom senso dos povos um ente legendario. É um typo ideal, que não se
+apaga, que jámais se apagará na consciencia e na imaginação do nosso
+povo, como o serão no futuro e em parte já o estão sendo Gomes Freire,
+Fernandes Thomaz, Borges Carneiro, Ferreira Borges, Mousinho da
+Silveira, Agostinho José Freire, Passos Manuel, Alexandre Herculano...
+são sempre estes os homens que o povo escolhe para cantar na sua lyra de
+oiro, para perpetuar-lhes a memoria na sua rude mas espontanea e sincera
+poesia.
+
+Todos os grandes homens começam por ser utopistas; a sua vida é uma
+lucta sem treguas. Numa das mãos o camartello destruidor do passado que
+resiste, na outra o facho civilisador das ideias alumiando o caminho do
+futuro que a sua razão descobre.
+
+Para premio as mais das vezes o martyrio, para recompensa o esquecimento
+ou a injustiça na historia.
+
+Mas, para salval-os d'esse esquecimento ou reparar essa injustiça lá
+está o bom senso, o espirito recto, a alma poetica, o coração agradecido
+dos povos, a legenda, esse--_relatus inter divos_, com que elle
+significa e apregôa a immortalidade e faz a apotheose dos seus heroes.
+
+A estatua de D. José I póde tombal-a a mão soberana do povo ou
+polverisal-a a lima edaz do tempo, que assim gasta o granito como o
+bronze e tudo consome.
+
+A _realesa_, depois de haver durante seculos contrariado os progressos
+da civilisação pela liberdade, pode ser ámanhã um facto _utopico_, sem
+valor na consciencia da humanidade, sem deixar saudades nem merecer
+bençãos; mas o homem grande pela grandeza do genio, pelo acerto e
+inergia de acção, o homem, que illustrando a patria beneficiou o povo, é
+vulto que se ergue magestoso ante os olhos de todas as gerações que
+passam e em todos os seculos que vôam; tem a immortalidade no sentimento
+intimo das massas, na consciencia do povo; em cada coração um altar
+de saudades, em cada cabeça um monumento de gloria, em cada bôcca uma
+trombeta a apregoar-lhe as virtudes... e todas as mãos se erguem para o
+abençoar e applaudir.
+
+Que a realidade historica do grande Sebastião José de Carvalho e Mello
+corresponde á poesia da legenda provam-o muitos documentos, cuja
+authenticidade não póde ser contestada: foi por isso que nos dispensámos
+de os apontar, ou transcrever.
+
+Muito alem poderiamos avançar nesta apreciação historica, fragmento d'um
+livro inedito, em que o assumpto occorreu incidentemente: julgámos
+bastante este simples esboço critico, ligeiros traços, a que outros mais
+competentes darão luz e colorido.
+
+FIM
+
+ [1] Napoleão! que a Providencia parece haver lançado no meio das
+ ruinas, a que a revolução de 1789 tinha reduzido a França, para
+ levantar sobre os destroços do despotismo o dominio salutar e
+ benefico da liberdade!
+
+ Os elementos corrompidos, que constituiam uma civilisação, já
+ caduca, enferma e quasi moribunda, foram por ultimo triturados,
+ dissolvidos pela acção candente do vulcão revolucionario, que tinha
+ por principal reagente a liberdade.
+
+ A desaggregação molecular, se assim é licito dizel-o, do monstruoso
+ cadaver do feudalismo, da theocracia e da realeza absoluta,
+ operou-se d'um modo geral e completo no violento e vigoroso impulso,
+ que a força soberana do povo havia desenvolvido.
+
+ Familia, patriotismo, cohesão e unidade nacional e politica,
+ religião, amor de dignidade, nobreza de sentimentos elevação de
+ ideias, aspirações de gloria e a propria liberdade... tudo havia
+ desapparecido, abysmando-se em completa desordem e anarchia, na
+ immensa cratera, que a espantosa erupção revolucionaria acabava de
+ rasgar no seio da França.
+
+ O imperio, a concentração, o despotismo, a tyrannia das armas, os
+ estragos apparentes da conquista, as invasões ambiciosas d'um homem
+ e do seu numeroso exercito, despertaram e desenvolveram por toda a
+ parte uma nova força de cohesão e affinidade, para reunir os
+ fragmentos dispersos, e dar ao corpo dilacerado consistencia e
+ unidade por meio de um novo arranjo politico, religioso, moral e
+ economico, que lhe assegurasse a existencia e uma vida regenerada e
+ pura.
+
+ Do embate de duas forças contrarias, mas tendentes e susceptiveis de
+ formar um dia o _equilibrio_--da acção _descentralisadora_ da
+ republica e da acção _concentradora_ do imperio, devia mais uma vez
+ resultar a _harmonia_!
+
+ Com a bayoneta e com a espada levava o soldado do imperio o terror e
+ o espanto ao seio das familias nas terras, que invadia e
+ conquistava,--era o instrumento material e automatico do despotismo.
+
+ Com a palavra, junto do lar domestico e rodeado d'essa familia, que
+ o recebia, como inimigo e como hospede, narrava os feitos gloriosos
+ da revolução, expunha o seu plano, traçava as suas reformas,
+ bemdizia os seus beneficios, exaltava as suas doutrinas, applaudia o
+ seu triumpho--era o apostolo fervoroso da liberdade, o discipulo
+ intelligente e livre da eschola de 89.
+
+ A Constituinte tinha-lhe dominado a intelligencia e o coração;
+ Bonaparte recrutara-lhe apenas os braços e a força muscular.
+
+ Aquella apontou-lhe para o sol da liberdade e dava-lhe como premio a
+ emancipação: este descobriu-lhe o horisonte luminoso da gloria e
+ promettia-lhe a corôa do vencedor.
+
+ Estas duas forças, ambas poderosas, ambas intrepidas e inflexiveis
+ na meta, quasi sempre terminam por transigir... Se uma convence e
+ domina, a outra seduz e arrasta; e ás vezes a razão e a consciência
+ humilham-se ante as ambições mesquinhas dos homens... E a historia
+ prova de sobejo que se os filhos da França amam a liberdade, prezam
+ sobre tudo a gloria militar, o que não admira se attentarmos á
+ poderosa influencia que sobre este povo exerceram duas raças, duas
+ civilisações differentes--a latina e a germanica, e á sua educação
+ guerreira.
+
+ Foi por isso que ao vulto heroico do soldado imperial seguia por
+ toda a parte a sombra, pelo menos, do revolucionario de 89.
+
+ [2] Hoje ainda nos invejam e disputam a liberdade, o nosso mais
+ precioso thesouro... Hoje clamam pelo irmão portuguez para que lhe
+ cure as chagas venenosas da tyrannia e lhe restitua a vida quasi
+ exhausta pelo despotismo com o elixir animador da liberdade!...
+
+ A liberdade!...
+
+ A liberdade, que os desventurados filhos da moderna Hespanha, os que
+ se appellidam legitimos descendentes de arabes e godos, parece não
+ sentirem nem conhecerem, e que muitos traiçoeiramente fingem amar,
+ para mais facilmente a destruirem!...
+
+ Querem a liberdade que para o portuguez é a vida, que o portuguez
+ ama e respeita, de que o portuguez é apostolo e soldado
+ inflexivel?...
+
+ Levantem-lhe um altar e adorem-na; façam-se missionarios e
+ propaguem-na; e, se tanto for preciso, opponham aos despotas, que os
+ opprimem, o despotismo das revoluções.
+
+ Não clamem pelo _auxilio_ d'aquelles que, não podendo dar-lhes essa
+ liberdade, não querem, com uma união impossivel, perder a sua!...
+
+ Os livros sanctos fallam de um Caim e de um Abel.
+
+ Terá a historia contemporanea, um dia, de personificar nelles dous
+ povos que se dizem tambem _irmãos_?!
+
+ Venha, e bem vinda seja,--a harmonia nas leis; a uniformidade nas
+ instituições; o consorcio das litteraturas; a aproximação dos
+ costumes; a intimidade de relações moraes e economicas: cáiam por
+ terra essas odiosas barreiras que estorvam a liberdade de commercio
+ entre os dois povos, e a troca de seus productos; acabe por uma vez
+ o repugnante systema dos passaportes; entronquem-se as linhas
+ ferreas; facilitem-se as communicações fluviaes; canalizem-se os
+ rios communs; celebrem-se congressos scientificos e litterarios,
+ exposições industriaes e artisticas, _peninsulares_; venham, numa
+ palavra, a fraternisação dos homens e a alliança dos governos; mas,
+ para fortalecer a _autonomia_ dos _dois_ povos e garantir a
+ _liberdade de todos_,--e o _futuro_ resolverá o difficil problema,
+ para o qual a _natureza_ e a _historia_ fornecem dados tão
+ differentes e heterogeneos, que o tornam _hoje_ absolutamente
+ insoluvel.
+
+ .....................................................................
+
+ Em 1866, em que pela primeira vez se traçaram estas linhas, bem se
+ presentia já o que dous annos depois veio a succeder, e se está
+ realisando na visinha Hespanha.
+
+ Commoções violentas denunciavam o aproximar--d'uma revolução
+ profunda para preparar uma regeneração intima,--de um esforço
+ gigante que devia partir os ferros a essa nação escrava da tyrannia
+ e do fanatismo, agrilhoada (e o que é assombroso!) por alguns de
+ seus degenerados filhos ao poste do mais affrontoso despotismo e da
+ mais ignominiosa intolerancia politica e religiosa!
+
+ Fez-se o esforço, operou-se a revolução e com tanta maior gloria
+ quanta maior abnegação e generosidade; caíram os tyrannos,
+ libertaram-se os opprimidos, erigiram-se altares, levantaram-se
+ monumentos á liberdade em muitas leis e instituições, novas ou
+ regeneradas; mas a revolução profunda no sentimento, grandiosa na
+ ideia, sublime nas inspirações, é, fatalmente, á hora em que
+ escrevemos mais um desengano pungentissimo que uma illusão fagueira,
+ antes um desalento que uma esperança.
+
+ A Hespanha parece retrogradar, em vez de progredir; olha desconfiada
+ e como receosa para o futuro que a chama, e pesam-lhe saudades do
+ passado, saudades de amarguras, saudades do seu longo martyrio!
+
+ Desventurada Hespanha! Para que te cortam o vôo de legitimas
+ aspirações?
+
+ Para que sem dó arrancam no teu bello jardim de esperanças as mais
+ formosas e promettedoras?
+
+ Para que te querem agrilhoar de novo ao poste onde te suppliciaram
+ durante tantos seculos?
+
+ Mudança de _potro_, mudança de _cutello_, substituição de
+ _algozes_... mas sempre o mesmo supplicio! sempre os mesmos
+ instrumentos de tortura!
+
+ Mesquinha revolução, que tão pouco alcança!
+
+ Povo infeliz! quanto mais rega com lagrimas e sangue o sólo da
+ patria, tanto mais elle se lhe desentranha em ferro para forjar
+ grilhões; e só produz espinhos para tecer a corôa do seu prolongado
+ martyrio!...
+
+ Povo infeliz! mal principiava a despontar a aurora da tua
+ _redempção_ pela liberdade, e erguem-se tenebrosas as nuvens do
+ passado, para toldar a face ao grande astro do teu dia de gloria,
+ projectando sombras em vez de irradiar luz!
+
+ Quando, apostolo da grande ideia, te purificavas para tomar sobre os
+ hombros a tunica alvissima do augusto sacerdocio, prestar culto á
+ liberdade, e entoar o hymno do progresso, que em breve deveria
+ talvez repercutir-se em todos os angulos da Europa,--arremessam-te a
+ mortalha destinada ao _moribundo_, ainda tincta no sangue das
+ hectombes, com que a tyrannia oppressora celebrava as suas
+ criminosas e lugubres victorias, e condemnam-te a mais alguns annos,
+ e quem sabe se a mais alguns seculos de tormentoso martyrio!
+
+ Revolução de 1848 em França, de 1868 na Hespanha: datas gloriosas, e
+ que apenas separam vinte annos de luctas não interrompidas; sonhadas
+ aspirações, gratas lembranças d'esse sonho de liberdade, que valor,
+ que importancia será a vossa na historia das nações?!
+
+ A França acordando encontra--o _imperio_, e a liberdade mutilada.
+
+ A Hespanha--A _realeza_, e a liberdade... talvez perdida.
+
+ .....................................................................
+
+ Tremenda é a responsabilidade d'aquelles que preferem á liberdade de
+ todos as pompas deslumbrantes, mas vãs, d'uma _côrte_ apparatosa!...
+
+
+
+
+
+
+End of Project Gutenberg's O Marquez de Pombal, by Manuel Emídio Garcia
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+Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
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+To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
+and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
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+The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
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+Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
+permitted by U.S. federal laws and your state's laws.
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+ <title>O Marquez de Pombal, por M. Emygdio Garcia</title>
+ <meta name="Author" content="M. Emidio Garcia">
+ <meta name="Edition" content="Coimbra. Imprensa da Universidade, 1869.">
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+</head>
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+
+
+<pre>
+
+The Project Gutenberg EBook of O Marquez de Pombal, by Manuel Emídio Garcia
+
+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.org
+
+
+Title: O Marquez de Pombal
+ Lance d'olhos sobre a sua sciencia; politica e systema de
+ administração; ideias liberaes que o dominavam; plano e
+ primeiras tent
+
+Author: Manuel Emídio Garcia
+
+Release Date: May 15, 2010 [EBook #32378]
+
+Language: Portuguese
+
+Character set encoding: ISO-8859-1
+
+*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK O MARQUEZ DE POMBAL ***
+
+
+
+
+Produced by Pedro Saborano (produced from scanned images
+of public domain material from Google Book Search)
+
+
+
+
+
+
+</pre>
+
+
+<div style="text-align:center; border: solid 2px #000;">
+<p>ESTUDOS CRITICO-HISTORICOS</p>
+
+<hr style="width: 80%;">
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p style="font-size: 1.8em;">I</p>
+
+<p style="font-size: 2em;">O MARQUEZ DE POMBAL</p>
+
+<p style="font-size: 1.2em;">Lance d'olhos sobre a sua sciencia;<br>
+politica e systema de administração;<br>
+ideias liberaes que o dominavam;<br>
+plano e primeiras tentativas democraticas</p>
+
+<p>POR</p>
+
+<p style="font-size: 1.4em;">M. EMYGDIO GARCIA</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>COIMBRA<br>
+<small>IMPRENSA DA UNIVERSIDADE</small><br>
+1869</p>
+</div>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p style="text-align:center;">ESTUDOS
+CRITICO-HISTORICOS</p>
+
+<hr class="dotted" style="width: 80%;">
+
+<p style="text-align:center; font-size: 1.5em;">I</p>
+
+<p style="text-align:center; font-size: 1.5em;">O MARQUEZ DE POMBAL</p>
+
+<blockquote style="margin-left: 45%">
+ <p>Confundem facilmente os espiritos <i>vulgares</i> a ideia com a
+ manifestação, a doutrina com o homem.</p>
+
+ <p style="text-align:right;margin-left:auto;margin-right:0;">S<small>R.
+ </small>A<small>LEXANDRE </small>H<small>ERCULANO.</small></p>
+
+ <p>Portugal no <i>reinado</i> d'el-rei D. José subiu á altura dos outros
+ povos, se não é que em muitas cousas acima.</p>
+
+ <p style="text-align:right;margin-left:auto;margin-right:0;">S<small>R.
+ </small>A<small>LMEIDA </small>G<small>ARRETT.</small></p>
+</blockquote>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p style="text-align:center; font-size: 1.5em;">II</p>
+
+<p style="text-align:center; font-size: 1.5em;">REACÇÃO OU LIBERDADE?</p>
+
+<p style="text-align:justify; text-indent: -1em; margin-left: 1em;">As reformas liberaes e a reacção
+ultramontana-absolutista em Portugal; estudo, feito em 1866, sobre a carta do
+Marechal Duque de Saldanha ácerca do casamento civil.</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p style="text-align:center; font-size: 1.5em;">III</p>
+
+<p style="text-align:center; font-size: 1.5em;">PASCHOAL JOSÉ DE MELLO FREIRE DOS REIS </p>
+
+<p style="text-align:justify; text-indent: -1em; margin-left: 1em;">Lance d'olhos sobre a sciencia do Direito em
+Portugal nos começos d'este seculo. Escreveu-se pela primeira vez a Historia do
+Direito Patrio e foi este reduzido a um systema regular e harmonico. Revolução
+nas leis e na jurisprudência.</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+
+<div style="text-align:center;">
+<p>ESTUDOS CRITICO-HISTORICOS</p>
+
+<hr style="width: 80%;">
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p style="font-size: 1.8em;">I</p>
+
+<p style="font-size: 2em;">O MARQUEZ DE POMBAL</p>
+
+<p style="font-size: 1.2em;">Lance d'olhos sobre a sua sciencia;<br>
+politica e systema de administração;<br>
+ideias liberaes que o dominavam;<br>
+plano e primeiras tentativas democraticas</p>
+
+<p>POR</p>
+
+<p style="font-size: 1.4em;">M. EMYGDIO GARCIA</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>COIMBRA<br>
+<small>IMPRENSA DA UNIVERSIDADE</small><br>
+1869</p>
+</div>
+
+<div id="corpo">
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p><span class="pn">{5}</span></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>Deparam-se mui varias, e até contradictorias, apreciações e juizos sobre o
+caracter e obras do celebre Marquez de Pombal.</p>
+
+<p>Livros de recentissima data, fabricas de muito pezo litterario e primores de
+arte, ricos de substancia, e não menos opulentos de formas, reproduzindo-as,
+parece quererem de novo levantar pleito, propor acção e renovar processo, que
+não logrou ainda passar em julgado.</p>
+
+<p>Mas não se diga que por parte do auctor d'este apoucado escripto ha tanta
+vaidade e tamanho arrojo, que ouse inculcar-se para juiz officioso em tão
+graves contendas; consintam-lhe todavia, e para isso pede antecipada venia, que
+deponha em processo, no qual a posteridade, e talvez ainda o nosso publico
+illustrado, ha de proferir, algum dia, e lavrar sentença definitiva.</p>
+
+<p>Não é para alardear thesouros de sciencia e pompas de erudição; que tão
+arredadas nos andam uma e outra, que mal de longe as enxergamos em poder de
+alguns privilegiados, que, merecendo muito a Deos, não pouco devem á fama que
+os apregôa; o que só nos achega, porque a todos chega, é o amor da verdade e o
+zelo da justiça.<span class="pn">{6}</span></p>
+
+<p>E foi a verdade que nos citou, para comparecermos no tribunal da imprensa:
+se fingindo ser tal nos illudiu o erro, valha-nos de desculpa, para bem merecer
+perdão, a boa fé com que, sem a menor sombra de rebeldia, nos damos á
+obediencia.</p>
+
+<p>As paginas, que ao diante vão, fazem parte de um livro, que o auctor compoz
+e escreveu em 1866, quando a apparicão do projecto do <i>codigo civil</i> no
+seio da representação nacional levantou, servindo-lhe de pretexto, porfiada
+lucta entre o partido liberal e o <i>bando</i> reaccionario, que a provocou.</p>
+
+<p>Em mingoado tempo, e ainda assim cortado por outros maiores e mais austeros
+trabalhos e cuidados, se concluiu o <i>manuscripto</i>; e logo foi mettido em
+carcere privado á espera da ultima demão, para não haver de saír em liberdade,
+sem se lhe alimparem erros e expurgarem peccados, que não ha ahi obra de
+homens, por mais acabada de bigorna e lima, que os não tenha ou d'elles possa
+eximir-se.</p>
+
+<p>E com effeito, imperiosas circumstancias e motivos ponderosos estorvaram o
+auctor, e bem contra sua vontade, de saír a pleitear na contenda em prol da
+liberdade e dos liberaes,<span class="pn">{7}</span> contra quem se erguia e
+praguejava mais uma vez, em descomposto e mal soante vozear, a turba dos
+retrogrados. Não nos amedrontaram clamorosas gritas de injusta, se não ainda
+mais fingida e calculada indignação, odios ameaçadores de raiva accesos, que
+não ha receios, nem escrupulos, onde entranhadas convicções se alentam; nem
+fomos levados do temor de affrontar-lhe as iras vans, que não falecem animos e
+coragem, quando a consciência é pura e as intenções desinteressadas; nem pode a
+ignorancia de uns, o fanatismo de outros e a hypocrisia de muitos vencer ou
+sequer dobrar espiritos rectos.</p>
+
+<p>D'esse livro ainda se evadiram como rebeldes e saíram a lume alguns
+capitulos, abrigando-se, mais como fugitivos do que hospedes, em dous
+periodicos litterarios&mdash;<i>O Povo</i> e <i>A Academia</i>.&mdash;Mas como
+é sorte, e não sei se melhor diga, fatal destino de todas as publicações d'este
+genero, tão frequentes na nossa Lusa Athenas, que bem se parecem com as flores
+do outomno, que abrem com a aurora, fecham e morrem ao caír das sombras em um
+mesmo dia,&mdash;tão curta foi a duração dos dous periodicosinhos, que nos
+ficámos a começo da longa derrota que poderiamos percorrer.<span
+class="pn">{8}</span></p>
+
+<p>Nesse pouco, que do incognito e encarcerado manuscripto passou á liberdade e
+a correr mundo, vem o que reproduzimos agora: bem pode ser que algum dia nos dê
+na vontade e resolvamos fazer correr o livro inteiro, em demanda de bom e
+generoso gazalhado; e de experimental-o comece já, para que, posto não merecer
+subida estimação obra de tão mediano vulto, não tenha o auctor de arrepender-se
+d'esta sua primeira tentativa.<span class="pn">{9}</span></p>
+
+<hr style="width: 30%;">
+
+
+<h1>O MARQUEZ DE POMBAL</h1>
+
+<h2>I</h2>
+
+<p>Não foram só os germens da civilisação, despontando ao sol da renascença, a
+luz irradiada pela philosophia do seculo <small>XVIII</small>, o brado
+universal de 89, as armas de Napoleão <small>I</small>, o drama sanguinario de
+1817,&mdash;que prepararam a revolução de 1820.</p>
+
+<p>De longe, de mui longe nos veio e se gravou em Portugal o espirito de
+liberdade e independencia: Manifestou-se bem solemnemente na iniciativa popular
+em 1385; mais solemnemente ainda em 1640; arreigou-se d'um modo profundo e
+indestructivel durante<span class="pn">{10}</span> a sabia administração de um
+genio reformador, que lhe preparou o campo de suas <i>ligitimas</i> conquistas
+e removeu os estorvos, que lhe empeciam o caminho, por onde, mais tarde, devia
+deixar seu rastro luminoso.</p>
+
+<p>Foi essa epocha o prologo fecundo das revoluções! Esse homem o precursor
+admiravel do liberalismo!</p>
+
+<p>Foi a lucta gigante dos opprimidos contra os despotas; a <i>reacção
+social</i> contra a <i>reacção ultramontana</i>; lucta na qual a liberdade
+pareceu succumbir e deixar-se esmagar debaixo dos pés da aristocracia orgulhosa
+e da cleresia degenerada e pervertida,&mdash;para mais tarde resurgir e
+erguer-se do mal encerrado tumulo vigorosa e ousada&mdash;para cantar no dia do
+merecido triumpho o hymno da legitima victoria!</p>
+
+<h2>II</h2>
+
+<p>Em Portugal, como em Inglaterra, como em França, a revolução reformadora
+teve os seus prophetas e apostolos: para não fallar em muitos outros de mais
+circumscripta esphera e menor vulto, apontaremos para o celebre e illustrado
+ministro de D. José <small>I</small>.</p>
+
+<p>Quando Sebastião José de Carvalho e Mello, por<span class="pn">{11}</span>
+circumstancias, talvez imprevistas aos olhos do vulgo, importantes todavia,
+quando se perscrutam os designios do Ser infinito no destino das nações e se
+estuda a sua acção previdente sobre o mundo, appareceu á testa dos negocios do
+estado, assenhoreando-se do monarcha, concentrando em si todo o poder politico
+d'uma nação, abatendo a nobreza, reprimindo o clero e subjugando o
+povo,&mdash;Portugal era patrimonio do rei, <i>feudatario</i> da côrte de Roma,
+objecto de exploração para as duas ordens nobilitadas, orphão de patriotismo,
+pupillo de nações estranhas!</p>
+
+<h2>III</h2>
+
+<p>Principiava a arvore da <i>renascença</i> a produzir os seus fructos, e de
+sua frondosa copa já pendia, sobre a cabeça do povo, o saborosissimo pomo da
+liberdade: sem que lhe aguardassem a queda, muitos espiritos elevados, vontades
+firmes e perseverantes haviam calculado as leis e, em harmonia com ellas,
+traçado a <i>mecanica</i> politica do <i>regimen constitucional</i>;
+distinguindo sómente entre&mdash;rei e povo,&mdash;não reconhecendo outras
+entidades sociaes, demonstraram a necessidade de abater o orgulho da
+nobreza<span class="pn">{12}</span> e destruir a influencia do
+clero,&mdash;elementos politicamente inuteis e prejudiciaes a um tal
+systema!</p>
+
+<h2>IV</h2>
+
+<p>Era pleno seculo <small>XVIII</small>.</p>
+
+<p>O sol da liberdade começava de surgir e elevar-se no horisonte das
+sociedades europeas, e, com elle, despontava do lado da França o dia da
+emancipação popular.</p>
+
+<p>Baccon, Montesquieu, Rabelais, Bayle, Fontenelle, e outros, foram apenas a
+aurora do brilhante dia; Diderot, Alembert, Condorcet, e Rousseau, animando-lhe
+cada vez mais os raios luminosos, só esperavam por Voltaire, o astro da
+philosophia, por Mirabeau, o genio da politica, que, resumindo em si toda a
+sciencia, toda a energia do seu seculo, haviam de dar a realidade ao sentimento
+e á ideia revolucionaria.<span class="pn">{13}</span></p>
+
+<h2>V</h2>
+
+<p>Foi no seio d'essa atmosphera repassada de novos elementos, e impregnada de
+novos germens de vida, que o espirito de Sebastião José de Carvalho e Mello
+cresceu, se desenvolveu e preparou para vir a ser o que na realidade foi, com
+grande applauso das nações e de certo com grande proveito nosso, se lograsse
+levar a cabo a regeneração politica, moral e economica do seu paiz, que tão
+habilmente emprehendera e á qual miravam as vistas, eminentemente
+<i>liberaes</i> e <i>patrioticas</i>, do ministro de D. José.</p>
+
+<p>«Cultor assiduo de todos aquelles estudos, que habilitam o homem para
+governar; já herdeiro do aperfeiçoamento de muitas sciencias e artes, que podem
+illustrar o mundo politico e determinar a prosperidade e engrandecimento dos
+povos, lendo e meditando os livros economicos, politicos e financeiros, que em
+seu tempo inundavam a Europa», ía dispondo o animo para entrar um dia affoito e
+lidar desassombradamente com os negocios da alta politica e da administração
+publica.</p>
+
+<p>Tomara por modelo, escolhera para seus mestres,&mdash;Richelieu,<span
+class="pn">{14}</span> Sully, Colbert, Argenson, e as maximas, as memorias, os
+testamentos politicos d'estes estadistas, mas principalmente a moral, a
+philosophia e todos os trabalhos scientificos dos encyclopedistas&mdash;foram o
+thesouro, onde aquella intelligencia vasta, aquelle espirito eminente, aquella
+vontade firme e energica se enriqueceram e auriram luz e força, para produzir o
+que depois se viu e admirou.</p>
+
+<h2>VI</h2>
+
+<p>Portugal era ainda, no começo do reinado de D. José <small>I</small>, o que
+a França principiara a ser desde o reinado de Luiz <small>XV</small>.</p>
+
+<p>D. Pedro <small>II</small> e D. João <small>V</small>, fascinados pelo
+brilho deslumbrante e pelo apparato tumultuoso da côrte de Luiz
+<small>XIV</small>, fizeram d'este rei absoluto, libertino e folgazão,
+considerado, naquelle tempo e pelo partido retrogrado e fanatico, o prototypo
+da realeza absoluta, o seu aperfeiçoado modelo.</p>
+
+<p>Um, seguindo a sua politica e imitando o seu exemplo, lançou ao esquecimento
+as fórmas da antiga <i>monarchia representativa</i>; reprimindo a nobreza e o
+clero, sem libertar o povo, preparou o <i>absolutismo</i>.<span
+class="pn">{15}</span></p>
+
+<p>O outro, animado de um espirito romanesco, dotado de uma imaginação ardente,
+dominado por uma piedade exagerada, ou especulando com uma calculada
+hypocrisia, imitou Luiz <small>XIV</small> nas suas vaidades, invejou-lhe a
+pompa e o esplendor da sua côrte, satisfez os mais puerís caprichos e as mais
+levianas phantasias, nada sacrificou ao bem do povo, enriquecendo a curia
+romana, esfalcou o thesouro publico, enfraqueceu a agricultura e as artes,
+enervou o espirito e a actividade nacional, numa palavra&mdash;o rei
+fanatico... fanatisou o povo!</p>
+
+<h2>VII</h2>
+
+<p>Era mister levantar o edificio, que, minado pela base, dobrava já ao peso de
+tantas pompas e magnificencias: o reino, povoado de sumptuosos edificios,
+deslumbrante de purpura e ouro, mas pobre de actividade e iniciativa,
+definhando á mingoa de moralidade e instrucção, pendia já sobre o abysmo, que
+um luxo reprehensivel e uma ociosidade criminosa lhe tinham aberto pelas mãos
+do proprio rei, sempre e em tudo dirigido pela côrte de Roma, dominado pelo
+clero e lisongeado pela nobreza.<span class="pn">{16}</span></p>
+
+<h2>VIII</h2>
+
+<p>Genio perspicaz, philosopho profundo e habil politico, o Marquez de Pombal
+já previa, como o antigo ministro de Luiz <small>XV</small>, que uma revolução,
+uma crise tempestuosa se avisinhava, para tudo transformar e regenerar tudo, ou
+tudo perder.</p>
+
+<p>A Europa agitava-se em seus fundamentos: havia uma especie de detonação, que
+impressionava os espiritos: estranhas convulsões abalavam o grande corpo
+social, como symptomas percursores d'um proximo terremoto moral e politico.</p>
+
+<p>A anarchia popular avisinhava-se do seu momento fatal; o governo
+monarchico-absoluto, desacreditado em quasi todos os estados da Europa, quasi
+desconhecido no Novo Mundo e declarado por muitos espiritos rectos o peior dos
+governos, esperava todos os dias a sua sentença de morte; a acção philosophica,
+apoderando-se das intelligencias elevadas do seculo, ia-lhe preparando o
+supplicio no patibulo da opinião publica.</p>
+
+<p>Os philosophos de Inglaterra e França trabalhavam fervorosos na propaganda
+liberal: as theorias de Baccon<span class="pn">{17}</span> e Mentesquieu tinham
+sido profundamente desenvolvidas e levadas até ás suas ultimas consequencias
+praticas.</p>
+
+<p>A interferencia da Inglaterra, a sua acção politica, disfarçada debaixo da
+apparencia de um grosso trato commercial, influenciava, de um modo energico e
+profundo, a situação moral e economica dos povos; como as <i>cruzadas</i>, em
+nome de Deus e pela fé, produziram, em seu tempo, notavel transformação
+social.</p>
+
+<p>Um vento philosophico soprava da Allemanha, da Inglaterra, da França e da
+America, e murmurava aos ouvidos de muitos as palavras&mdash;<i>liberdade</i>,
+<i>emancipação</i>, <i>democracia</i>, <i>republicanismo</i> e outras, que bem
+significavam não estar longe o momento, em que o povo, senhor da sua vontade,
+conscio da sua <i>força</i>, reivindicasse os seus direitos, usurpados pela
+realeza, ultrajados pelos nobres e em parte absorvidos pelo clero.</p>
+
+<p>Uma nova fórma de governo existia já traçada na mente de muitos homens
+illustres.</p>
+
+<p>As materias combustiveis, que se haviam de inflammar para accender a
+revolução, acervavam-se por toda a parte.</p>
+
+<p>Alguma cousa de extraordinario e assombroso se preparava no laboratorio
+immenso da Europa!</p>
+
+<p>Algum monumento, de sumptuosa fachada e maravilhosa<span
+class="pn">{18}</span> architectura, mas já gasto pelo roçar dos tempos, ia
+desabar até aos alicerces.</p>
+
+<p>Era&mdash;a <i>bastilha</i> monarchica do absolutismo; era&mdash;o
+<i>capitolio</i> jesuitico da theocracia, minados nos fundamentos, abalados na
+solidez!...</p>
+
+<p>Finalmente as instituições, os poderes, as opiniões.... tudo annunciava que
+a transformação estava imminente, e inevitavel e fatal devia operar-se por uma
+revolução geral e profunda!</p>
+
+<h2>IX</h2>
+
+<p>Filho do seculo <small>XVIII</small>, herdeiro da renascença, educado na
+philosophia e na politica dos encyclopedistas, admirador dos grandes homens da
+França, versado nas suas obras e dominado pelas suas theorias, seguidor das
+suas maximas, iniciado na vida politica da Inglaterra, Sebastião José de
+Carvalho para logo viu os males que affligiam o povo e degradavam a nação, e
+que o unico remedio, que podia salval-os, era&mdash;ou uma revolução popular,
+uma guerra civil tempestuosa e terrivel em sua acção, embora salutar e benefica
+em suas consequencias,&mdash;ou a reforma pacifica e diplomatica das
+instituições.<span class="pn">{19}</span></p>
+
+<p>Optou pelo segundo meio. Como politico propoz-se o plano e as medidas de
+Richelieu, mas com outro fim e mirando a mui diverso resultado; como economista
+e financeiro esforçou-se por imitar o grande estadista Sully; discipulo de
+Quesnay, aprendera com elle que é no solo que reside a principal fonte de
+riqueza e as materias primas de toda a producção; como Adam Smith já não
+ignorava que só o trabalho pode arrancar á natureza os seus productos e,
+transformando-os, fazel-os servir á satisfacção das necessidades humanas, á
+prosperidade publica e á felicidade domestica.</p>
+
+<p>Foi por isso que lhe mereceram particular attenção e desvelado esmero a
+agricultura e a industria, as artes e os officios, que, arrancando o homem da
+abjecção, que a mizeria gera, da ociosidade, que perverte, têm alem d'isso a
+singular virtude de emancipar o povo, entregando nas suas mãos, com o sceptro
+do trabalho,&mdash;a <i>realeza</i> politica.<span class="pn">{20}</span></p>
+
+<h2>X</h2>
+
+<p>Sebastião José de Carvalho, discipulo fervoroso das ideias philosophicas,
+politicas e economicas, que a França espalhava por toda Europa, comprehendia
+bem o estado de fermentação revolucionaria, em que por toda ella se agitavam os
+animos.</p>
+
+<p>«Uma revolução é sempre um mal», pensava elle, «uma enfermidade, que, só
+depois de longa e angustiosa convalescença, dá ao corpo social, martyrisado,
+vigor e robustez.»</p>
+
+<p>O empenho na realisação d'um plano immenso, profundo e salutar, de
+regeneração e progresso, só esperava opportunidade para se mostrar e
+desenvolver d'um modo util ao seu paiz, glorioso para elle e para o rei, em
+nome do qual e a bem do povo devia progredir affanoso na tarefa reformadora,
+que ousadamente emprehendera.<span class="pn">{21}</span></p>
+
+<h2>XI</h2>
+
+<p>O estado lamentavel de quasi completa desorganisação, em que Portugal de ha
+muito se debatia; a oppressão, que sobre nós exerciam algumas côrtes
+estrangeiras, nomeadamente a de Inglaterra, que de Portugal havia feito não só
+pupillo, mas vassallo obediente, dirigindo-nos a politica, exhaurindo-nos as
+fontes de toda a vida economica, dominando em todos os nossos portos,
+explorando as nossas colonias occidentaes e obrigando-nos a votar a um quasi
+completo abandono as ricas possessões do oriente, fingindo manter em
+<i>equilíbrio</i> a nossa independencia nacional, e opprimindo-nos como povo
+conquistado,&mdash;eram motivos fortes para determinar o animo e despertar o
+desejo de applicar remedio a tamanhos males, quebrar aquelle jugo funestissimo,
+ou pelo menos attenuar consequencias desastrosas, que de dia para dia se iam
+aggravando.<span class="pn">{22}</span></p>
+
+<h2>XII</h2>
+
+<p>Por toda a parte o abandono da agricultura, o desprezo pelas artes,
+insignificantissimo o trato commercial; um governo monarchico sem prestigio, um
+throno esplendido sem solidez; o jesuitismo e a nobreza lisongeando os reis,
+fanatizando o povo e especulando com a sua piedade, dominando e opprimindo,
+gozando sem trabalho, adquirindo por meio de successivas usurpações,
+accumullando sem esforço; o luxo e a immoralidade para uns, a miseria e a
+degradação para outros.... tal era a situação perigosa e assustadora, o triste
+espectaculo, que a nação offerecia, quando Sebastião José de Carvalho appareceu
+na scena publica e concebeu o arriscado mas grandioso projecto da sua
+emancipação, restabelecimento e progresso!<span class="pn">{23}</span></p>
+
+<h2>XIII</h2>
+
+<p>Valendo-se, por um bem combinado calculo, da protecção, que desde muito
+tempo lhe dispensava a viuva de D. João <small>V</small>, e da docilidade e
+benevolencia de D. José <small>I</small> (que de seu pae havia recebido uma
+mediocre e superficial educação, sendo por natureza debil em forças e
+talentos), gosando já entre nós de um nome illustre, que, a par de outros
+titulos, tinha por fundamento a subida reputação que alcançara em Viena
+d'Austria, não perdeu a primeira occasião, que lhe pareceu opportuna, para,
+aproveitando o favor e a confiança do rei, salvar o seu paiz, reivindicar a
+independencia da nação e dar liberdade ao povo.</p>
+
+<p>Foi o seu governo um dos periodos mais gloriosos da nossa historia!</p>
+
+<p>Foi Sebastião José de Carvalho um dos maiores vultos do seculo
+<small>XVIII</small>!</p>
+
+<p>Foi então que se travou no meio de nós a mais porfiada lucta da
+<i>reacção</i> com a liberdade!<span class="pn">{24}</span></p>
+
+<h2>XIV</h2>
+
+<p>É por isso que, entre os grandes genios, fadados para ousados
+commettimentos, entre os ministros energicos em emprehender e vigorosos em
+executar, não ha nenhum que se lhe avantaje, nenhum que, em menos tempo, mais
+se distinguisse, maiores benefícios prodigalisasse ao povo e mais gloria
+alcançasse ao rei:</p>
+
+<p>&mdash;Restaurou a disciplina militar.</p>
+
+<p>&mdash;Fortificou as praças d'armas.</p>
+
+<p>&mdash;Renovou a marinha.</p>
+
+<p>&mdash;Reanimou a agricultura.</p>
+
+<p>&mdash;Restaurou e desenvolveu as artes, de todo esquecidas, e vivificou o
+commercio moribundo.</p>
+
+<p>&mdash;Restabeleceu e firmou o credito publico, e organisou as finanças.</p>
+
+<p>&mdash;Reformou e ampliou os estudos superiores, segundo os progressos
+litterarios e scientificos do seculo.</p>
+
+<p>&mdash;Abriu as portas da instrucção popular, fechadas pelo jesuitismo,
+áquelles que durante seculos haviam sido condemnados ás trevas da ignorancia e
+da superstição.<span class="pn">{25}</span></p>
+
+<p>&mdash;Instituiu mais de oitocentas escholas gratuitas para o ensino
+primario.</p>
+
+<p>&mdash;Creou e dotou collegios, escholas secundarias e professionaes para a
+navegação, commercio e outras industrias.</p>
+
+<p>&mdash;Diminuiu as prerogativas, cerceou os privilegios e abateu o orgulho
+da nobreza.</p>
+
+<p>&mdash;Tentou apagar odios de raças e extinguir luctas de crenças
+religiosas.</p>
+
+<p>&mdash;Abriu caminho amplo á confusão das classes e á egualdade perante a
+lei.</p>
+
+<p>&mdash;Tornou livres os indigenas do Brazil, e levantou barreiras ao trafico
+infame e degradante da escravatura.</p>
+
+<p>&mdash;Reprimiu as despoticas exigencias e a preponderancia orgulhosa da
+<i>insaciavel</i> Inglaterra.</p>
+
+<p>&mdash;Frustrou os planos <i>ambiciosos</i> da Hespanha.</p>
+
+<p>&mdash;Celebrou tractados politicos e commerciaes com muitas nações da
+Europa, e com outras o pacto da nossa independencia e dignidade nacional.</p>
+
+<p>&mdash;Fundou e organisou companhias de commercio e industria, para reanimar
+as nossas colonias, ou de todo abandonadas, ou preza da cubiça de estranhos
+especuladores.</p>
+
+<p>&mdash;Restringiu o tremendo poder da inquisição, e proscreveu os autos de
+fé.</p>
+
+<p>&mdash;Dobrou e venceu a preponderancia pontificia,<span
+class="pn">{26}</span> e refreou, por vezes, a cholera do Vaticano, apontando
+ao Papa quaes os limites onde devia expirar o seu poder temporal e
+politico.............</p>
+
+<p>&mdash;Substituiu á auctoridade dos jurisconsultos romanos e ás argucias e
+sophysmas dos glossadores, que mantinham agrilhoadas as leis e a jurisprudencia
+ao imperio absoluto d'uma sciencia convencional, curvada sob o peso de muitos
+seculos e já decrepita&mdash;a auctoridade da Razão, esse poder soberano, capaz
+de descubrir a verdade; alargando assim o campo de exploração a um dos maiores
+genios do seculo&mdash;Paschoal José de Mello Freire, o sabio jurisconsulto
+portuguez, que por si só egualou, se não é que excedeu, ao mesmo tempo
+Montesquieu e Beccaria.</p>
+
+<p>&mdash;Vendo que as artes e as sciencias floresciam na Inglaterra e por
+quasi toda a Allemanha, para logo viu tambem a necessidade de operar uma
+revolução completa no mundo scientifico, litterario e artistico; e foi ella tão
+profunda e salutar, que, no dizer de Almeida Garrett «tudo mudou de face; cahiu
+o collosso jesuitico, o reino de Aristoteles e a barbaridade Thomistica, para
+lhe succeder Milton, Baccon, Descartes, Newton, Lineu e outros.»</p>
+
+<p>É que o reflexo d'uma nova luz brilhava do lado do septemptrião, para
+inundar com o seu esplendor a nós «os meridionaes, que estudavamos as
+<i>cathegorias</i><span class="pn">{27}</span> e as <i>summas</i>, aguçavamos
+distincções, alambicavamos conceitos, retorciamos a phrase no discurso e
+torciamos a razão no pensamento» nada produzindo de bom e util ao progresso da
+humanidade.</p>
+
+<p>A reforma da universidade produziu: José Anastacio da Cunha, Avelar Brotero,
+Monteiro da Rocha, Mello Freire e muitas outras illustrações, que, exterminando
+a barbaridade, haviam de produzir a civilisação, e, fundando a republica das
+letras, pela soberania da razão, unica verdadeira e legitima, abater se não
+destruir o imperio absoluto d'uma auctoridade prepotente, acoitada sob a
+roupeta jesuitica e intrincheirada por detrás do volumoso, mas indigesto,
+<i>corpus juris romanorum</i>, das leis canonicas e dos mil <i>in folio</i> dos
+glossadores e reinicolas.</p>
+
+<p>E a universidade de Coimbra começou de ser mais uma prova eloquente, não só
+da influencia, mas tambem da fecunda iniciativa, que as <i>universidades</i>
+desenvolveram sempre em preparar e promover as revoluções do progresso pela
+liberdade.</p>
+
+<p>Bem sabia elle, porque a reflexão e a experiencia poucas vezes deixam
+illudir os homens de genio, que á republica das letras, á emancipação da
+intelligencia devia succeder&mdash;a democracia politica e a liberdade para o
+povo.</p>
+
+<p>Foi tambem em virtude d'esta lei que á reforma religiosa do seculo
+<small>XVI</small> succedeu&mdash;a revolução social<span
+class="pn">{28}</span> de 1688 em Inglaterra; e á revolução litteraria e
+scientifica das idéas no seculo <small>XVIII</small>&mdash;a revolução politica
+de 1789 em França.</p>
+
+<p>&mdash;Ordenou que as <i>execuções</i> por dividas parassem deante das
+portas das cadeias, que até 1774 em Portugal, até 1867 em França, se abriam
+como ainda hoje em Inglaterra para sequestrar a liberdade d'aquelles, que
+muitas vezes não tinham outro crime alem da pobreza, outro peccado alem da
+miseria!</p>
+
+<p>E quando ainda hontem a imprensa liberal de todos os paizes saudava, em nome
+do progresso, e applaudia, como gloriosa e civilisadora, a abolição de tão
+odiosa pena, havemos de ficar silenciosos ante a memoria do Marquez de Pombal,
+que a eliminou, um seculo primeiro, em nome da humanidade?!</p>
+
+<p>Finalmente, o Marquez de Pombal, usando da oppressão e da tyrannia,
+empregando o terror e o despotismo, mirava á grande transformação social, que
+em França se operou depois; preparava, pacifica e diplomaticamente, o que ella
+só pôde alcançar por meio de uma conflagração geral, e entregando-se louca e
+desvairada a todos os excessos, a todos os horrores da guerra civil, á
+<i>guilhotina</i> e ás <i>barricadas</i>, com que immolava os seus proprios
+filhos e assolava as cidades, as villas e os campos, ensanguentados pelos
+combates fratricidas ou entregues á voracidode das chammas, á pilhagem e á
+carnificina!...<span class="pn">{29}</span></p>
+
+<h2>XV</h2>
+
+<p>Não recuou o Marquez de Pombal, porque o julgou necessario e de maravilhoso
+effeito para libertar o povo, deante do cadafalso, levantado para rolarem
+algumas cabeças <i>nobres</i>.</p>
+
+<p>Não tremeu o Marquez de Pombal, quando lavrou o decreto que expulsava os
+<i>jesuitas</i>; pois com tão rasgada medida não só beneficiou Portugal, mas a
+Europa inteira e o Novo Mundo; com este acto de sabia politica quebrava as
+cadeias, com que os <i>padres da companhia</i> amarravam as consciencias ao
+poste d'uma fé convencional; limpava o corpo social da lepra da superstição e
+do fanatismo, que rapidamente se propagava e desinvolvia, por toda a parte,
+aonde penetrava o morbido contagio da roupeta dos <i>máos e falsos
+companheiros</i> de Jesus!</p>
+
+<p>Para alguns são estes dous factos dous grandes e execrandos crimes; para
+outros duas louvaveis virtudes; para nós&mdash;dura necessidade, consequencia
+<i>forçada</i> na realisação de um plano salutar e benefico.</p>
+
+<p>A nobreza e o jesuitismo eram, naquella epocha,<span class="pn">{30}</span>
+os obstaculos gigantes, que se oppunham ao estabelecimento da liberdade.</p>
+
+<p>A nobreza e o jesuitismo, desherdando, espoliando o povo de tudo o que podia
+tornal-o livre e independente, disputando o poder, a influencia e a
+preponderancia monarchica, eram estorvo invencivel ao <i>systema
+representativo</i>, á adopção e reconhecimento legal das <i>garantias
+constitucionaes</i> e das <i>prerogativas da corôa</i>, que a philosophia
+politica de seculo, as necessidades do tempo e o exemplo da Inglaterra
+instantemente reclamavam, cujo disco luminoso começava já a brilhar nos
+horisontes do futuro em muitos estados da Europa, cuja triangulação havia sido
+habilmente traçada sobre&mdash;a <i>inviolabilidade</i> do rei&mdash;a
+<i>responsabilidade</i> do <i>ministro</i> e a <i>soberania</i>, do
+<i>povo</i>.</p>
+
+<h2>XVI</h2>
+
+<p>O Marquez de Pombal queria a liberdade para a patria e para o povo, como a
+primeira fonte de engrandecimento e prosperidade nacional.</p>
+
+<p>O Marquez de Pombal não phantasiava theorias politicas nem traçava systemas
+philosophicos; não escrevia pungentes ironias e asperos epigrammas; não<span
+class="pn">{31}</span> defendia e exaltava o protestantismo, para censurar e
+maldizer a Egreja catholica; não persuadia a revolta nem excitava os povos á
+pilhagem e á carnificina&mdash;concebia medidas uteis e prudentes, e
+executava-as conforme as circumstancias imperiosamente o exigiam.</p>
+
+<p>A regeneração intima dos homens e das instituições, e não a organisação
+<i>formal</i> e superficial do systema governativo, foi o seu firme proposito,
+objecto constante de sua actividade e desvelo, embora para o conseguir fosse
+necessario dominar o <i>rei</i>, opprimir e desacreditar os nobres,
+desprestigiar e abater o clero.</p>
+
+<p>Tinha por ventura o <i>rei</i> força, energia, firmeza de vontade, sciencia
+e coragem para salvar a nação e o povo e detel-o á beira do abysmo, que de dia
+para dia lhe cavavam profundo tantas causas de ruina?!</p>
+
+<p>Seria bastante robusto o seu braço, poderoso o seu sceptro de oiro, valiosos
+os diamantes da sua corôa, para poupal-os ao choque revolucionario, que de
+perto e ao longe se presentia, e que em breve devia abalar a Europa inteira, já
+consideravelmente agitada pelas pulsações, que violentas se succediam no
+coração da França e que a faziam estremecer até ás mais affastadas
+extremidades?!</p>
+
+<p>Qual teria sido o destino do pequeno e então pobre e humilde Portugal, se o
+não houvessem preparado<span class="pn">{32}</span> para resistir á onda
+revolucionaria, que mais tarde lhe devia passar por sobre as <i>quinas</i> e
+inundar os seus <i>castellos</i>?!</p>
+
+<p>Existiria hoje Portugal, como nacionalidade e paiz <i>independente</i>, se
+lhe não houvessem dado, annos antes, força e coragem, recursos e patriotismo,
+para não succumbir abatido ante as armas victoriosas do moderno Cesar, que,
+debaixo da forma do despotismo e da tyrannia, da invasão e da conquista, contra
+a sua vontade talvez, ou, melhor ainda, sem o presentir, fazia com a ponta da
+espada e com a bocca de seus mil canhões a propaganda liberal?!<a
+name="tex2html1" href="#foot307"><sup>[1]</sup></a>.<span
+class="pn">{33}</span></p>
+
+<h2>XXIII</h2>
+
+<p>Depois da resurreição nacional, que em 1640 succedeu á morte da
+independencia da patria, esmagada pelo peso oppressor de estranho jugo, devida
+não como pretendem alguns, ás combinações <i>grandiosas</i> e á politica
+<i>admiravel</i> de Richelieu, mas á patriotica iniciativa e á dignidade
+heroica dos conspiradores populares,&mdash;a nação portugueza recobrou a sua
+autonomia,<span class="pn">{34}</span> despedaçou as algemas de tão odiosa
+servidão politica, desprendeu-se, por um soberano esforço de coragem, dos
+braços de ferro, em que durante longo e angustioso periodo a tinham apertado os
+despotas castelhanos, e levantou sobre o throno de Affonso Henriques, reis, se
+não filhos do povo, eleitos e proclamados por elle.</p>
+
+<p>Portugal entrou de novo no dominio e posse de suas conquistas; e o soberano
+opulento do Oriente, o descobridor generoso de ignotas plagas e de estranhas
+gentes, ergueu-se do tumulo, que lhe tinham aberto o arrojo pueril d'uma
+creança ávida de glorias<span class="pn">{35}</span> vãs, e a imbecilidade
+trôpega d'um velho cardeal fanatizado.</p>
+
+<p>Era todavia sombra magestosa d'um vulto heroico, surgindo entre as ruinas de
+sumptuoso edificio desmantelado!</p>
+
+<p>Nem exercito, nem marinha, sem commercio, sem industria, exhaustos os cofres
+do estado, perdido o credito, nominal a riqueza de suas maravilhosas
+descobertas, vazio o thesouro de suas conquistas!... Só com a auréola de
+passadas glorias; sem outro titulo perante as nações, alem da merecida
+gratidão, a que tinha direito pelos valiosos serviços prestados<span
+class="pn">{36}</span> á humanidade e á religião, que o ligara ao céo e a Deus
+logo desde o berço!</p>
+
+<p>Havia para elle a esperança no futuro firmada na lembrança do passado;
+existiam amontoados, sobre os mares e nas suas ricas possessões abandonadas, os
+despojos da sua antiga grandeza; o seu nome escripto sobre toda a extensão do
+Oceano, brilhando nas coroas de muitos monarchas, gravado no coração de muitas
+nações florescentes!</p>
+
+<p>Foi por isso que todos acolheram com applauso o brado da sua independencia e
+lhe ajudaram a manter a liberdade, que desastrosamente havia perdido nas plagas
+longinquas de Alcacer Quivir e sobre o leito de um cardeal moribundo!</p>
+
+<p>A coroa de ferro dos senhores de Hespanha precisava das perolas e dos
+diamantes de quatro mundos!...</p>
+
+<p>Para cobrir a juba ensanguentada do leão de Castella eram necessarios os
+alvissimos arminhos do manto de nossos reis!...</p>
+
+<p>A ambição insaciavel do hespanhol, não contente com as suas possessões,
+pretendia ainda com sôfrega cubiça usurpar as colonias portuguezas, que já se
+alongavam e estendiam do oriente ao occidente, do septentrião ao meio dia,
+sobre todos os continentes, á roda e no meio de todos os mares!...<a
+name="tex2html2" href="#foot308"><sup>[2]</sup></a>.<span
+class="pn">{37}</span></p>
+
+<h2>XXIV</h2>
+
+<p>Os herdeiros da casa de Bragança, os <i>populares soberanos eleitos pelo
+povo</i>, os primeiros representantes d'essa realeza <i>legitima</i>, nem
+comprehenderam a sua elevada missão, nem lhe importaram as necessidades do
+<i>seu</i> povo, não sabendo ou não querendo<span class="pn">{38}</span>
+aproveitar-se do amor e da confiança que nelles haviam depositado os que,
+resgatando o reino, lhes cingiram o diadema e lhes lançaram sobre os hombros a
+purpura de duas <i>dynastias</i>!</p>
+
+<p>Não emprehenderam reformas; não traçaram plano algum de politica definida;
+não promoveram o desenvolvimento ou ao menos a restauração da industria, do
+commercio, da navegação&mdash;de todos quantos elementos constituem a vida
+laboriosa, o bem estar social e a prosperidade d'uma nação livre, independente
+e opulenta do que poderia tornal-a grande e respeitada;<span
+class="pn">{39}</span> exhaurindo o <i>erario</i>, sem activar as forças da
+riqueza publica e particular, sem abrir novos mananciaes de producção, sem
+dotar o paiz de melhoramentos de reconhecida utilidade... sua unica
+preoccupação, todo o seu empenho limitava-se, parecia comprazer-se até, em
+augmentar e completar o despotismo, que estranhos para cá haviam importado, e o
+gosto da epocha, o exemplo d'outras côrtes, muito favoreciam, engrandecendo ao
+mesmo tempo os jesuitas, dando força e apoio ao tribunal da inquisição; em
+manter um fausto ruinoso, em propagar o amor<span class="pn">{40}</span> e a
+paixão por um luxo, mais do que inutil, prejudicial, e por vezes e em muitas
+cousas insolente; em consumir improductivamente, com vaidades reaes, em
+sumptuosas construcções, em dispendiosas obras d'arte, e, o que é peor, em
+beatificas e exaggeradas piedades mundanas, capitaes immensos, sommas
+fabulosas!</p>
+
+<p>Portugal, arrancado pela mão do povo ao jugo de Castella, é em 1703
+<i>hypothecado</i> aos inglezes, que o exploraram, como o possuidor de <i>má
+fé</i> explora a propriedade alheia. Roma especulou tambem; a nobreza<span
+class="pn">{41}</span> e o clero completaram este systema de legal e
+convencionada pilhagem!...</p>
+
+<h2>XXV</h2>
+
+<p>Foi nesta situação, aggravada por muitos males, que o sabio e corajoso
+ministro de D. José se propoz a tarefa espinhosa de restaurar a patria,
+quebrar<span class="pn">{42}</span> o jugo estranho, que lhe pezava odioso,
+extinguir aquella vexatoria exploração, que, debaixo da apparencia de uma
+<i>benefica</i> tutela, lhe ia aniquilando as forças physicas, ao mesmo tempo
+que <i>outros</i>, invocando a fé e o Evangelho, a cruz e a Redempção, abrindo
+masmorras e atiçando fogueiras, iam apagando a luz na alma e immobilisando o
+espirito do povo!...</p>
+
+<p>Restabelecer a actividade e ordem no seio da familia portugueza, dar-lhe a
+liberdade, fundar a felicidade domestica e a prosperidade publica,&mdash;tal
+foi o seu elevado empenho.<span class="pn">{43}</span></p>
+
+<p>É pois a intelligencia, a vontade, o poder de um só homem,&mdash;reanimando
+uma nação moribunda, prestes a esconder-se no cemiterio da historia, embora as
+gerações vindouras, prestando-lhe a devida homenagem, houvessem de lhe gravar
+sobre a campa o mais glorioso epitaphio;&mdash;chamando á vida, ao trabalho, á
+liberdade e á independencia um povo escravo da nobreza e do clero, e, o que é
+peor, da ignorancia, do fanatismo, da indolencia e da miseria;&mdash;elevando e
+fazendo respeitar um rei <i>servo</i> da côrte de Roma, <i>vassallo</i> da
+Inglaterra!...</p>
+
+<h2>XXVI</h2>
+
+<p>Luta infatigavel de tantos annos, se não de todo infructifera, porque a
+semente, que ficara escondida na terra, veio mais tarde a germinar com o calor
+das revoluções, foi todavia mallograda pelas intrigas dos nobres e do clero,
+pelas ambições da Inglaterra e da Hespanha: aquelles, ainda curvados sobre o
+catafalco de D. José, juravam o exterminio do homem, que consideravam seu
+implacavel e invencivel inimigo; estas, insinuando ás occultas a queda do
+independente<span class="pn">{44}</span> ministro, promettiam <i>apoio
+seguro</i> aos que emprehendessem e conseguissem derribal-o.</p>
+
+<p>Á morte do rei succedeu pois a queda do ministro e por ultimo a condemnação
+e o exilio do varão prestante e benemerito, calumniado, perseguido e processado
+por ter amado o rei e a patria, o povo e a liberdade!...</p>
+
+<h2>XXVII</h2>
+
+<p>Poucos annos depois da sua morte, apressada talvez pela condemnação, que o
+obrigara a encerrar-se em logar obscuro, e afastado da côrte, onde ostentara
+sciencia e poder, força de vontade e energia, regulando sabiamente os destinos
+da nação, que por sua direcção immediata e em suas proprias mãos se havia
+reanimado e engrandecido, realisavam-se em França as prophecias da revolução,
+com todos os horrores da guerra civil.</p>
+
+<p>A cabeça de Luiz <small>XVI</small> rolava nos degráus do cadafalso, que lhe
+levantaram os despotas da <i>liberdade</i>, como tambem em Inglaterra havia
+caído abatida a cabeça de Carlos <small>I</small>. A guilhotina fazia victimas
+ás mil, tragava, devorava, em nome da <i>deosa da razão</i>, como a fogueira
+inquisitorial em nome da religião sancta!<span class="pn">{45}</span> O punhal
+revolucionario, impellido pelo braço homicida dos revoltosos, alastrava as ruas
+e as praças de cadaveres com a mesma furia, com que em outras eras immolara os
+<i>albigenses</i> e os sectarios da religião <i>reformada</i>.</p>
+
+<p>Foi seu intuito, objecto de seus infatigaveis esforços, obter o mesmo
+resultado, por meios brandos e pacificos; conquistar as mesmas ideias, fazer
+dominar os mesmos principios, firmar o poder dos reis na <i>soberania de
+todos</i>, dar a liberdade ao povo por meio d'uma <i>constituição
+representativa</i>, semelhante á que vigorava em Inglaterra, embora para o
+conseguir fosse necessario usar de tyrannia contra alguns nobres, decretar o
+exterminio d'uma congregação mais politica do que religiosa, odiada já em toda
+a Europa e em muitas regiões da America, condemnada pelas universidades
+seculares, mal vista dos povos e d'uma parte consideravel do clero, e até
+repudiada pela Egreja.</p>
+
+<h2>XXVIII</h2>
+
+<p>Era forçoso, em tão arriscado e perigosissimo lance, em circumstancias tão
+anormaes, oppôr á tyrannia de alguns a tyrannia de um só, ao despotismo de<span
+class="pn">{46}</span> muitos o despotismo em nome do rei; de outra sorte não
+conseguiria desarmar as ciladas, desfazer as intrigas, cortar os tramas,
+frustrar manejos, surprehender conspirações, que tudo e por toda a parte a
+<i>nobreza</i> e o <i>jesuitismo</i> estendiam e machinavam ao <i>rei</i>, ao
+seu <i>ministro</i> e ao <i>povo</i>, que, ligando-se por um pacto inviolavel,
+não tardariam a destruir-lhes a insolente <i>preponderancia</i>, a
+extinguir-lhes os <i>privilegios</i>, a supprimir-lhes as <i>regalias</i>, a
+alevantar-lhes os <i>foros</i>, a picar-lhes os <i>brazões</i>, em uma palavra
+a dobrar-lhes as <i>orgulhosas servis</i> sob o jugo inflexivel
+da&mdash;<i>egualdade perante a lei</i>.</p>
+
+<p>Se o Marquez de Pombal não fosse victima de falsas accusações e vis
+intrigas, se se conservasse mais algum tempo á testa dos negocios publicos
+investido do supremo governo da nação, se houvesse gozado juncto do throno de
+D. Maria da mesma confiança, apoio e favor, que alcançara perante D. José, a
+<i>constituição</i> teria apparecido primeiro em Portugal do que em França, em
+Hespanha e em outros paizes, e o systema <i>representativo</i> seria proclamado
+entre nós, pelo menos, ao mesmo tempo.</p>
+
+<p>É esta uma verdade, que immediatamente deriva dos factos, e que
+difficilmente poderá escurecer-se.</p>
+
+<p>O despotismo, a tyrannia de que se argúe Pombal, era imposta pelas
+necessidades, como o unico meio de chegar á liberdade.<span
+class="pn">{47}</span></p>
+
+<p>Não ignorava por certo este grande homem&mdash;que a <i>liberdade</i> e a
+<i>tolerancia</i> só com a liberdade e com a tolerancia podem solidamente
+fundar-se no seio de uma nação.</p>
+
+<p>Bem sabia elle&mdash;que os partidarios da liberdade e da tolerancia devem
+deixar o emprego da força aos partidarios da força e da intolerancia.</p>
+
+<p>Mas este conselho evangelico, que só hoje começa a converter-se em preceito
+obrigatorio, este grande principio theorico, era naquella epocha, attentas as
+circumstancias, de impossivel applicação na pratica.</p>
+
+<p>O que no seculo <small>XIX</small> em 1868 não pôde realisar a Hespanha, era
+nos fins do seculo <small>XVIII</small> uma utopia impraticavel em Inglatarra,
+em França, e muito mais em Portugal.</p>
+
+<p>Os designios do grande estadista e as suas vistas eram patrioticas; o seu
+ideal a emancipação politica, religiosa, moral e economica do povo, que elle
+conhecia&mdash;grande, opulento e soberano na historia,&mdash;pequeno, pobre e
+escravo no presente; o mobil que o determinava o amor da liberdade.</p>
+
+<p>Sebastião José de Carvalho mostrava em muitos dos seus actos ser no interior
+da sua alma, no intimo da sua consciencia, pela razão e pelo sentimento, um dos
+maiores e mais enthusiasticos liberaes do seculo <small>XVIII</small>.</p>
+
+<p>Se não pôde ver executado o seu plano e levar<span class="pn">{48}</span> ao
+cabo tão gloriosa empresa, arremessando para longe a mascara do despotismo, foi
+porque o não deixaram; foi ainda a <i>reacção</i>, que lh'o impediu, a
+injustiça que lh'o estorvou.</p>
+
+<p>Despojado do poder, privado da acção governativa, condemnado ao ostracismo
+politico, exilado para longe da côrte, afastado dos negocios publicos, viu
+mallograda a sua obra; não lhe embaciaram porem a gloria, não lhe quebraram os
+brazões, e, o que é de maior valia, não lhe extinguiram a gratidão no coração
+dos povos; e se ao tumulo baixam esperanças, devia acompanhal-o a lembrança de
+que um dia as suas ideias haviam de ser realisadas, os seus principios
+triumphar, e o plano, que lhe absorvera a existencia inteira, posto em plena
+execução, o seu nome exaltado, a sua reputação glorificada e os seus inimigos,
+os inimigos do povo e da liberdade, confundidos.</p>
+
+<p>Se ao Marquez de Pombal não permittiu Deos continuar a obra do
+<i>constitucionalismo</i>, cabe-lhe todavia a bem-merecida gloria de preparar o
+paiz e os povos para a proclamarem trinta annos depois da sua
+morte.<span class="pn">{49}</span></p>
+
+<h2>XXIX</h2>
+
+<p>Á transformação, que Portugal experimentou pela acção previdente e
+reformadora do grande ministro, aos elementos de força e prosperidade, que não
+só indicou, mas com que legalmente dotou a patria, ás instituições politicas e
+economicas, e aos germens de educação popular, que semeou, devemos em grande
+parte os beneficios, que com razão se attribuem á revolução liberal.</p>
+
+<p>Sem o genio fecundo, sem a intelligencia vasta e a dedicação inexcedivel de
+Sebastião de José Carvalho, seria Portugal conquista partilhada entre a França
+e a Hespanha, ou nação livre e independente?</p>
+
+<p>No estado de desorganisação politica, de desordem moral e economica, de
+miseria e degradação, a que Portugal tinha chegado antes da sua administração,
+seria possivel o triumpho glorioso do partido liberal em 1820?</p>
+
+<p>Cremos firmemente que não: assim nol-o dizem a razão e a consciencia,
+firmadas na historia e esclarecidas pela philosophia dos factos.</p>
+
+<p>É por isso que entre as causas remotas, mas essencialmente<span
+class="pn">{50}</span> determinativas, da transformação liberal, que depois se
+operou, devemos considerar, como uma das mais importantes e efficazes, o
+governo forte e energico, a administração sabia e illustrada, a politica severa
+e, por vezes, intolerante do Marquez de Pombal.</p>
+
+<p>Abone a historia imparcial a verdade que o paradoxo esconde.</p>
+
+<p>Que importa a expulsão dos jesuitas?</p>
+
+<p>Era uma necessidade para o estabelecimento da liberdade politica e da
+tolerancia religiosa, que o Marquez de Pombal amava, queria fundar, e que elles
+detestavam.</p>
+
+<p>Que importa que do alto do cadafalso rolassem as cabeças de alguns nobres,
+que, ociosos e embriagados no mais escandaloso luxo, conspiravam contra o rei,
+odiavam as reformas do ministro, queriam privilegios e prerogativas
+injustificaveis, opprimiam e vexavam o povo, nada fazendo em beneficio da
+patria; e, de mãos dadas com os inquisidores, discipulos de Loyola, dedicados
+familiares do <i>sancto officio</i>, procuravam a morte do rei, a queda do
+ministro e a ruina da nação?!<span class="pn">{51}</span></p>
+
+<h2>XXX</h2>
+
+<p>O Marquez de Pombal obstou por uma sabia politica&mdash;ao despotismo do
+rei, á oligarchia dos nobres, á theocracia dos jesuitas, á miseria e á
+degradação do povo.</p>
+
+<p>«Foi, como se exprimem alguns, odiado dos nobres pelo seu nascimento e pelo
+seu liberalismo; dos inquisidores pela sua tolerancia e moderada piedade; dos
+jesuitas pelo seu saber e perseverança; da populaça por sua severidade; dos
+inglezes pelos obstaculos que lhes oppoz, e com que abateu a sua omnipotencia
+commercial e politica.»</p>
+
+<p>Os inimigos implacaveis do ministro só com a morte do rei poderam
+derribal-o, mas não perdel-o. Affastaram-n'o dos negocios publicos; mas nos
+dias do seu poder nem lhe torceram o animo nem lhe afrouxaram os esforços, que
+continuadamente empregou para o engrandecimento e regeneração da sua patria.</p>
+
+<p>Interrogae a politica, a moral, a jurisprudencia, as finanças, a
+agricultura, o commercio, a industria, as artes, a navegação, a milicia, a
+instrucção publica, e até a propria religião; numa palavra, consultae<span
+class="pn">{52}</span> as leis, as instituições e os costumes, e por toda a
+parte encontrareis ainda hoje a sua acção benefica e reformadora.</p>
+
+<p>A guerra implacavel, que então lhe fizeram os retrogrados e os absolutistas,
+os nobres e os jesuitas, a inquisição, a Hespanha e até a propria Inglaterra, é
+a mesma que a <i>reacção</i> machína e promove ainda hoje e tem promovido
+sempre contra os <i>liberaes</i>.</p>
+
+<p>Se o Marquez de Pombal foi despota, se empregou o terror e a tyrannia, não
+lhe vinham d'alma taes excessos, nem lh'os inspirava o seu genio altivo e
+severo, mas liberal e bemfazejo; provocava-lh'os a reacção dos nobres e dos
+fanaticos, exigiam-lh'os as necessidades da patria e os velhos e inveterados
+prejuisos do passado.</p>
+
+<p>Não foi para exaltar o despotismo, nem para lisonjear o monarcha, que, por
+amor do povo e para bem da nação, parecia adorar a realeza.</p>
+
+<p>Não foi para satisfazer vaidosas ambições de quem nunca mostrara tel-as, que
+a memoria do <i>augusto principe</i> se gravou no bronze da estatua equestre,
+nem o monumento levantado para impôr ao povo a idolatria monarchica.<span
+class="pn">{53}</span></p>
+
+<h2>XXXI</h2>
+
+<p>Todos os grandes homens como todos os sanctos têm a sua estrophe na epopea
+legendaria do povo.</p>
+
+<p>Affonso Henriques, Mestre d'Aviz, Nuno Alvares Pereira, João das Regras,
+Vasco da Gama, D. João de Castro, Affonso de Albuquerque, Camões, João Pinto
+Ribeiro, frei Bartholomeu dos Martyres, frei Caetano Brandão e mil outros,
+perpetuos na historia, são creações ideaes na immortalidade da legenda.</p>
+
+<p>O Marquez de Pombal, tendo sido na realidade tudo o que dissemos, é no bom
+senso dos povos um ente legendario. É um typo ideal, que não se apaga, que
+jámais se apagará na consciencia e na imaginação do nosso povo, como o serão no
+futuro e em parte já o estão sendo Gomes Freire, Fernandes Thomaz, Borges
+Carneiro, Ferreira Borges, Mousinho da Silveira, Agostinho José Freire, Passos
+Manuel, Alexandre Herculano... são sempre estes os homens que o povo escolhe
+para cantar na sua lyra de oiro, para perpetuar-lhes a memoria na sua rude mas
+espontanea e sincera poesia.</p>
+
+<p>Todos os grandes homens começam por ser utopistas;<span
+class="pn">{54}</span> a sua vida é uma lucta sem treguas. Numa das mãos o
+camartello destruidor do passado que resiste, na outra o facho civilisador das
+ideias alumiando o caminho do futuro que a sua razão descobre.</p>
+
+<p>Para premio as mais das vezes o martyrio, para recompensa o esquecimento ou
+a injustiça na historia.</p>
+
+<p>Mas, para salval-os d'esse esquecimento ou reparar essa injustiça lá está o
+bom senso, o espirito recto, a alma poetica, o coração agradecido dos povos, a
+legenda, esse&mdash;<i>relatus inter divos</i>, com que elle significa e
+apregôa a immortalidade e faz a apotheose dos seus heroes.</p>
+
+<p>A estatua de D. José <small>I</small> póde tombal-a a mão soberana do povo
+ou polverisal-a a lima edaz do tempo, que assim gasta o granito como o bronze e
+tudo consome.</p>
+
+<p>A <i>realesa</i>, depois de haver durante seculos contrariado os progressos
+da civilisação pela liberdade, pode ser ámanhã um facto <i>utopico</i>, sem
+valor na consciencia da humanidade, sem deixar saudades nem merecer bençãos;
+mas o homem grande pela grandeza do genio, pelo acerto e inergia de acção, o
+homem, que illustrando a patria beneficiou o povo, é vulto que se ergue
+magestoso ante os olhos de todas as gerações que passam e em todos os seculos
+que vôam; tem a immortalidade no sentimento intimo<span class="pn">{55}</span>
+das massas, na consciencia do povo; em cada coração um altar de saudades, em
+cada cabeça um monumento de gloria, em cada bôcca uma trombeta a apregoar-lhe
+as virtudes... e todas as mãos se erguem para o abençoar e applaudir.</p>
+
+<p>Que a realidade historica do grande Sebastião José de Carvalho e Mello
+corresponde á poesia da legenda provam-o muitos documentos, cuja authenticidade
+não póde ser contestada: foi por isso que nos dispensámos de os apontar, ou
+transcrever.</p>
+
+<p>Muito alem poderiamos avançar nesta apreciação historica, fragmento d'um
+livro inedito, em que o assumpto occorreu incidentemente: julgámos bastante
+este simples esboço critico, ligeiros traços, a que outros mais competentes
+darão luz e colorido.</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<div align="center">
+FIM </div>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<div align="center">
+</div>
+
+<div class="rodape">
+<p><a name="foot307" href="#tex2html1"><sup>[1]</sup></a> Napoleão! que a
+Providencia parece haver lançado no meio das ruinas, a que a revolução de 1789
+tinha reduzido a França, para levantar sobre os destroços do despotismo o
+dominio salutar e benefico da liberdade!</p>
+
+<p>Os elementos corrompidos, que constituiam uma civilisação, já caduca,
+enferma e quasi moribunda, foram por ultimo triturados, dissolvidos pela acção
+candente do vulcão revolucionario, que tinha por principal reagente a
+liberdade.</p>
+
+<p>A desaggregacão molecular, se assim é licito dizel-o, do monstruoso cadaver
+do feudalismo, da theocracia e da realeza absoluta, operou-se d'um modo geral e
+completo no violento e vigoroso impulso, que a força soberana do povo havia
+desenvolvido.</p>
+
+<p>Familia, patriotismo, cohesão e unidade nacional e politica, religião, amor
+de dignidade, nobreza de sentimentos elevação de ideias, aspirações de gloria e
+a propria liberdade... tudo havia desapparecido, abysmando-se em completa
+desordem e anarchia, na immensa cratera, que a espantosa erupção revolucionaria
+acabava de rasgar no seio da França.</p>
+
+<p>O imperio, a concentração, o despotismo, a tyrannia das armas, os estragos
+apparentes da conquista, as invasões ambiciosas d'um homem e do seu numeroso
+exercito, despertaram e desenvolveram por toda a parte uma nova força de
+cohesão e affinidade, para reunir os fragmentos dispersos, e dar ao corpo
+dilacerado consistencia e unidade por meio de um novo arranjo politico,
+religioso, moral e economico, que lhe assegurasse a existencia e uma vida
+regenerada e pura.</p>
+
+<p>Do embate de duas forças contrarias, mas tendentes e susceptiveis de formar
+um dia o <i>equilibrio</i>&mdash;da acção <i>descentralisadora</i> da republica
+e da acção <i>concentradora</i> do imperio, devia mais uma vez resultar a
+<i>harmonia</i>!</p>
+
+<p>Com a bayoneta e com a espada levava o soldado do imperio o terror e o
+espanto ao seio das familias nas terras, que invadia e conquistava,&mdash;era o
+instrumento material e automatico do despotismo.</p>
+
+<p>Com a palavra, junto do lar domestico e rodeado d'essa familia, que o
+recebia, como inimigo e como hospede, narrava os feitos gloriosos da revolução,
+expunha o seu plano, traçava as suas reformas, bemdizia os seus beneficios,
+exaltava as suas doutrinas, applaudia o seu triumpho&mdash;era o apostolo
+fervoroso da liberdade, o discipulo intelligente e livre da eschola de 89.</p>
+
+<p>A Constituinte tinha-lhe dominado a intelligencia e o coração; Bonaparte
+recrutara-lhe apenas os braços e a força muscular.</p>
+
+<p>Aquella apontou-lhe para o sol da liberdade e dava-lhe como premio a
+emancipação: este descobriu-lhe o horisonte luminoso da gloria e promettia-lhe
+a corôa do vencedor.</p>
+
+<p>Estas duas forças, ambas poderosas, ambas intrepidas e inflexiveis na meta,
+quasi sempre terminam por transigir... Se uma convence e domina, a outra seduz
+e arrasta; e ás vezes a razão e a consciência humilham-se ante as ambições
+mesquinhas dos homens... E a historia prova de sobejo que se os filhos da
+França amam a liberdade, prezam sobre tudo a gloria militar, o que não admira
+se attentarmos á poderosa influencia que sobre este povo exerceram duas raças,
+duas civilisações differentes&mdash;a latina e a germanica, e á sua educação
+guerreira.</p>
+
+<p>Foi por isso que ao vulto heroico do soldado imperial seguia por toda a
+parte a sombra, pelo menos, do revolucionario de 89.</p>
+
+<p><a name="foot308" href="#tex2html2"><sup>[2]</sup></a> Hoje ainda nos
+invejam e disputam a liberdade, o nosso mais precioso thesouro... Hoje clamam
+pelo irmão portuguez para que lhe cure as chagas venenosas da tyrannia e lhe
+restitua a vida quasi exhausta pelo despotismo com o elixir animador da
+liberdade!...</p>
+
+<p>A liberdade!...</p>
+
+<p>A liberdade, que os desventurados filhos da moderna Hespanha, os que se
+appellidam legitimos descendentes de arabes e godos, parece não sentirem nem
+conhecerem, e que muitos traiçoeiramente fingem amar, para mais facilmente a
+destruirem!...</p>
+
+<p>Querem a liberdade que para o portuguez é a vida, que o portuguez ama e
+respeita, de que o portuguez é apostolo e soldado inflexivel?...</p>
+
+<p>Levantem-lhe um altar e adorem-na; façam-se missionarios e propaguem-na; e,
+se tanto for preciso, opponham aos despotas, que os opprimem, o despotismo das
+revoluções.</p>
+
+<p>Não clamem pelo <i>auxilio</i> d'aquelles que, não podendo dar-lhes essa
+liberdade, não querem, com uma união impossivel, perder a sua!...</p>
+
+<p>Os livros sanctos fallam de um Caim e de um Abel.</p>
+
+<p>Terá a historia contemporanea, um dia, de personificar nelles dous povos que
+se dizem tambem <i>irmãos</i>?!</p>
+
+<p>Venha, e bem vinda seja,&mdash;a harmonia nas leis; a uniformidade nas
+instituições; o consorcio das litteraturas; a aproximação dos costumes; a
+intimidade de relações moraes e economicas: cáiam por terra essas odiosas
+barreiras que estorvam a liberdade de commercio entre os dois povos, e a troca
+de seus productos; acabe por uma vez o repugnante systema dos passaportes;
+entronquem-se as linhas ferreas; facilitem-se as communicações fluviaes;
+canalizem-se os rios communs; celebrem-se congressos scientificos e
+litterarios, exposições industriaes e artisticas, <i>peninsulares</i>; venham,
+numa palavra, a fraternisacão dos homens e a alliança dos governos; mas, para
+fortalecer a <i>autonomia</i> dos <i>dois</i> povos e garantir a <i>liberdade
+de todos</i>,&mdash;e o <i>futuro</i> resolverá o difficil problema, para o
+qual a <i>natureza</i> e a <i>historia</i> fornecem dados tão differentes e
+heterogeneos, que o tornam <i>hoje</i> absolutamente insoluvel.</p>
+
+<hr class="dotted">
+
+<p>Em 1866, em que pela primeira vez se traçaram estas linhas, bem se presentia
+já o que dous annos depois veio a succeder, e se está realisando na visinha
+Hespanha.</p>
+
+<p>Commoções violentas denunciavam o aproximar&mdash;d'uma revolução profunda
+para preparar uma regeneração intima,&mdash;de um esforço gigante que devia
+partir os ferros a essa nação escrava da tyrannia e do fanatismo, agrilhoada (e
+o que é assombroso!) por alguns de seus degenerados filhos ao poste do mais
+affrontoso despotismo e da mais ignominiosa intolerancia politica e
+religiosa!</p>
+
+<p>Fez-se o esforço, operou-se a revolução e com tanta maior gloria quanta
+maior abnegação e generosidade; caíram os tyrannos, libertaram-se os
+opprimidos, erigiram-se altares, levantaram-se monumentos á liberdade em muitas
+leis e instituições, novas ou regeneradas; mas a revolução profunda no
+sentimento, grandiosa na ideia, sublime nas inspirações, é, fatalmente, á hora
+em que escrevemos mais um desengano pungentissimo que uma illusão fagueira,
+antes um desalento que uma esperança.</p>
+
+<p>A Hespanha parece retrogradar, em vez de progredir; olha desconfiada e como
+receosa para o futuro que a chama, e pesam-lhe saudades do passado, saudades de
+amarguras, saudades do seu longo martyrio!</p>
+
+<p>Desventurada Hespanha! Para que te cortam o vôo de legitimas aspirações?</p>
+
+<p>Para que sem dó arrancam no teu bello jardim de esperanças as mais formosas
+e promettedoras?</p>
+
+<p>Para que te querem agrilhoar de novo ao poste onde te suppliciaram durante
+tantos seculos?</p>
+
+<p>Mudança de <i>potro</i>, mudança de <i>cutello</i>, substituição de
+<i>algozes</i>... mas sempre o mesmo supplicio! sempre os mesmos instrumentos
+de tortura!</p>
+
+<p>Mesquinha revolução, que tão pouco alcança!</p>
+
+<p>Povo infeliz! quanto mais rega com lagrimas e sangue o sólo da patria, tanto
+mais elle se lhe desentranha em ferro para forjar grilhões; e só produz
+espinhos para tecer a corôa do seu prolongado martyrio!...</p>
+
+<p>Povo infeliz! mal principiava a despontar a aurora da tua <i>redempção</i>
+pela liberdade, e erguem-se tenebrosas as nuvens do passado, para toldar a face
+ao grande astro do teu dia de gloria, projectando sombras em vez de irradiar
+luz!</p>
+
+<p>Quando, apostolo da grande ideia, te purificavas para tomar sobre os hombros
+a tunica alvissima do augusto sacerdocio, prestar culto á liberdade, e entoar o
+hymno do progresso, que em breve deveria talvez repercutir-se em todos os
+angulos da Europa,&mdash;arremessam-te a mortalha destinada ao
+<i>moribundo</i>, ainda tincta no sangue das hectombes, com que a tyrannia
+oppressora celebrava as suas criminosas e lugubres victorias, e condemnam-te a
+mais alguns annos, e quem sabe se a mais alguns seculos de tormentoso
+martyrio!</p>
+
+<p>Revolução de 1848 em França, de 1868 na Hespanha: datas gloriosas, e que
+apenas separam vinte annos de luctas não interrompidas; sonhadas aspirações,
+gratas lembranças d'esse sonho de liberdade, que valor, que importancia será a
+vossa na historia das nações?!</p>
+
+<p>A França acordando encontra&mdash;o <i>imperio</i>, e a liberdade
+mutilada.</p>
+
+<p>A Hespanha&mdash;A <i>realeza</i>, e a liberdade... talvez perdida.</p>
+
+<hr class="dotted">
+
+<p>Tremenda é a responsabilidade d'aquelles que preferem á liberdade de todos
+as pompas deslumbrantes, mas vãs, d'uma <i>côrte</i> apparatosa!...</p>
+</div>
+</div>
+
+
+
+
+
+
+
+<pre>
+
+
+
+
+
+End of Project Gutenberg's O Marquez de Pombal, by Manuel Emídio Garcia
+
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+Foundation as set forth in Section 3 below.
+
+1.F.
+
+1.F.1. Project Gutenberg volunteers and employees expend considerable
+effort to identify, do copyright research on, transcribe and proofread
+public domain works in creating the Project Gutenberg-tm
+collection. Despite these efforts, Project Gutenberg-tm electronic
+works, and the medium on which they may be stored, may contain
+"Defects," such as, but not limited to, incomplete, inaccurate or
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+your equipment.
+
+1.F.2. LIMITED WARRANTY, DISCLAIMER OF DAMAGES - Except for the "Right
+of Replacement or Refund" described in paragraph 1.F.3, the Project
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+in paragraph 1.F.3, this work is provided to you 'AS-IS' WITH NO OTHER
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+
+
+Section 2. Information about the Mission of Project Gutenberg-tm
+
+Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
+electronic works in formats readable by the widest variety of computers
+including obsolete, old, middle-aged and new computers. It exists
+because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
+people in all walks of life.
+
+Volunteers and financial support to provide volunteers with the
+assistance they need are critical to reaching Project Gutenberg-tm's
+goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
+remain freely available for generations to come. In 2001, the Project
+Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
+and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
+To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
+and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
+and the Foundation web page at https://www.pglaf.org.
+
+
+Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive
+Foundation
+
+The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
+501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
+state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
+Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification
+number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at
+https://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
+permitted by U.S. federal laws and your state's laws.
+
+The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
+Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
+throughout numerous locations. Its business office is located at
+809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
+business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact
+information can be found at the Foundation's web site and official
+page at https://pglaf.org
+
+For additional contact information:
+ Dr. Gregory B. Newby
+ Chief Executive and Director
+ gbnewby@pglaf.org
+
+
+Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation
+
+Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
+spread public support and donations to carry out its mission of
+increasing the number of public domain and licensed works that can be
+freely distributed in machine readable form accessible by the widest
+array of equipment including outdated equipment. Many small donations
+($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
+status with the IRS.
+
+The Foundation is committed to complying with the laws regulating
+charities and charitable donations in all 50 states of the United
+States. Compliance requirements are not uniform and it takes a
+considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
+with these requirements. We do not solicit donations in locations
+where we have not received written confirmation of compliance. To
+SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
+particular state visit https://pglaf.org
+
+While we cannot and do not solicit contributions from states where we
+have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
+against accepting unsolicited donations from donors in such states who
+approach us with offers to donate.
+
+International donations are gratefully accepted, but we cannot make
+any statements concerning tax treatment of donations received from
+outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff.
+
+Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
+methods and addresses. Donations are accepted in a number of other
+ways including including checks, online payments and credit card
+donations. To donate, please visit: https://pglaf.org/donate
+
+
+Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic
+works.
+
+Professor Michael S. Hart was the originator of the Project Gutenberg-tm
+concept of a library of electronic works that could be freely shared
+with anyone. For thirty years, he produced and distributed Project
+Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.
+
+
+Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
+editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
+unless a copyright notice is included. Thus, we do not necessarily
+keep eBooks in compliance with any particular paper edition.
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+
+Most people start at our Web site which has the main PG search facility:
+
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+This Web site includes information about Project Gutenberg-tm,
+including how to make donations to the Project Gutenberg Literary
+Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to
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