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diff --git a/32072-h/32072-h.htm b/32072-h/32072-h.htm new file mode 100644 index 0000000..3e9408a --- /dev/null +++ b/32072-h/32072-h.htm @@ -0,0 +1,9599 @@ +<!DOCTYPE html PUBLIC "-//W3C//DTD XHTML 1.0 Strict//EN" "http://www.w3.org/TR/xhtml1/DTD/xhtml1-strict.dtd"> +<html xmlns="http://www.w3.org/1999/xhtml"> +<head> + <title>Algumas lições de psicologia e +pedologia</title> + + + <meta content="António Aurélio da Costa Ferreira" name="AUTHOR" /> + + <meta content="text/html; charset=ISO-8859-1" http-equiv="Content-Type" /> + + <style type="text/css"> +body {width: 50%; margin-left:10%; text-align: justify;} +h1, h2, h3, h4 { text-align: center;} +h1 {margin: 2em; text-align: center;} +h2, h4 {margin-top: 2em;} +.tiny {font-size: 80%;} +.tinyl {font-size: 90%;} +.bbox {border: solid black 1px; margin-left: 5%; margin-right: 5%;} +.fbox {border: solid black 1px; background-color: #FFFFCC; font-size: 75%; margin-left: 10%; margin-right: 10%;} +.quote {margin-left:10%;} +.intro1 {margin-left:50%; +font-size: 90%;} +.signature { +margin-right: 5%; +text-align: right;} +.smallcaps {font-variant: small-caps;} +.sbreak { +width: 20%; +margin-left:40%;} +.dots {color: #fff; background-color: inherit; border: 3px dotted #555; border-style: none none dotted;} +.pagenum { position: absolute; right: 35%; +font-size: 75%; +text-align: right; +text-indent: 0em; +font-style: normal; +font-weight: normal; +color: silver; background-color: inherit; +font-variant: normal;} + </style> +</head> + + + +<body> + + +<pre> + +The Project Gutenberg EBook of Algumas lições de psicologia e pedologia, by +António Aurélio da Costa Ferreira + +This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with +almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or +re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included +with this eBook or online at www.gutenberg.org + + +Title: Algumas lições de psicologia e pedologia + +Author: António Aurélio da Costa Ferreira + +Release Date: April 20, 2010 [EBook #32072] + +Language: Portuguese + +Character set encoding: ISO-8859-1 + +*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK ALGUMAS LIÇÕES DE PSICOLOGIA *** + + + + +Produced by Rita Farinha and the Online Distributed +Proofreading Team at https://www.pgdp.net (This file was +produced from images generously made available by National +Library of Portugal (Biblioteca Nacional de Portugal).) + + + + + + +</pre> + + +<div> +<div class="fbox"><b>Nota de editor:</b> +Devido à +quantidade de erros tipográficos existentes neste texto, +foram tomadas várias decisões quanto à +versão final. Em caso de dúvida, a grafia foi +mantida de acordo com o original. No final deste livro +encontrará a lista de erros corrigidos.<br /> + +<br /> + +<div style="text-align: right; font-style: italic;">Rita +Farinha (Abril 2010) +</div> + +</div> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="bbox"> +<h4>ANTÓNIO AURÉLIO DA COSTA FERREIRA +</h4> + +<div style="text-align: center;" class="tiny">Professor +de Psicologia experimental e Pedologia<br /> + +na Escola Normal Primária de Lisboa</div> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h3>ALGUMAS LIÇÕES</h3> + +<h3>DE</h3> + +<h2>PSICOLOGIA E PEDOLOGIA +</h2> + +<br /> + +<br /> + +<div style="text-align: center;"><img style="width: 350px; height: 210px;" alt="" src="images/fig01.png" /><br /> + +</div> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div style="text-align: center;"><img style="width: 250px; height: 146px;" alt="" src="images/fig02.png" /><br /> + +</div> + +<br /> + +</div> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h2>PSICOLOGIA E PEDOLOGIA +</h2> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h4>ANTÓNIO AURÉLIO DA COSTA FERREIRA +</h4> + +<div style="text-align: center;" class="tiny">Professor +de Psicologia experimental e Pedologia<br /> + +na Escola Normal Primária de Lisboa</div> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h3>ALGUMAS LIÇÕES</h3> + +<h3>DE</h3> + +<h2>PSICOLOGIA E PEDOLOGIA +</h2> + +<br /> + +<br /> + +<div style="text-align: center;"><img style="width: 350px; height: 210px;" alt="" src="images/fig01.png" /><br /> + +</div> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div style="text-align: center;"><img style="width: 250px; height: 146px;" alt="" src="images/fig02.png" /><br /> + +</div> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<hr /> +<div style="text-align: center;">Comp. e impr. na Typ. +Costa Carregal—Porto +<br /> + +</div> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div style="text-align: center;">AOS MEUS COLEGAS E AOS +MEUS ALUNOS<br /> + +DA<br /> + +ANTIGA E DA NOVA<br /> + +ESCOLA NORMAL PRIMÁRIA DE LISBOA<br /> + +</div> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h3>ÍNDICE +</h3> + +<br /> + +<table style="text-align: left; width: 100%;" border="0" cellpadding="2" cellspacing="2"> + + <tbody> + + <tr> + + <td></td> + + <td></td> + + <td style="text-align: right;">Pág.</td> + + </tr> + + <tr> + + <td>Prefácio</td> + + <td></td> + + <td style="text-align: right;"><a href="#c1">5</a></td> + + </tr> + + <tr> + + <td>O ensino da pedologia na escola normal +primária</td> + + <td></td> + + <td style="text-align: right;"><a href="#c2">7</a></td> + + </tr> + + <tr> + + <td>A arte de educar e a psicologia +experimental</td> + + <td></td> + + <td style="text-align: right;"><a href="#c3">17</a></td> + + </tr> + + <tr> + + <td>O pêso do corpo da +criança</td> + + <td></td> + + <td style="text-align: right;"><a href="#c4">29</a></td> + + </tr> + + <tr> + + <td>A agudeza visual e a auditiva debaixo do ponto +de vista +pedagógico</td> + + <td></td> + + <td style="text-align: right;"><a href="#c5">47</a></td> + + </tr> + + <tr> + + <td>A visão das +côres</td> + + <td></td> + + <td style="text-align: right;"><a href="#c6">61</a></td> + + </tr> + + <tr> + + <td>Sôbre umas provas de exame da +atenção +voluntária +visual</td> + + <td></td> + + <td style="text-align: right;"><a href="#c7">89</a></td> + + </tr> + + <tr> + + <td>Da inteligência do escolar e da sua +avaliação</td> + + <td></td> + + <td style="text-align: right;"><a href="#c8">111</a></td> + + </tr> + + <tr> + + <td>Inteligência e +apercepção</td> + + <td></td> + + <td style="text-align: right;"><a href="#c9">123</a></td> + + </tr> + + <tr> + + <td>Sôbre psicologia, estética e +pedagogia do +gesto</td> + + <td></td> + + <td style="text-align: right;"><a href="#c10">135</a></td> + + </tr> + + </tbody> +</table> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<a name="c1" id="c1"></a> +<h3>PREFÁCIO +</h3> + +<br /> + +<br /> + +<em>Com o título</em> Algumas +lições de Psicologia +e Pedologia <em>publíco neste pequeno volume as +principais lições que li e comentei, como +professor da antiga Escola Normal do Calvário, +e da actual Escola Normal de Bemfica, +às quais acrescento a conferência que realizei +no Conservatório, por ocasião da +Exposição +de Arte na Escola. +<br /> + +<br /> + +Algumas das lições são verdadeiros +planos +e resumos dos meus cursos. +<br /> + +<br /> + +A matéria vai exposta com a maior clareza +de que fui capaz e pela forma que me pareceu +melhor, em atenção à +preparação habitual dos +alunos das Escolas Normais e ao fim que +essas escolas têm ou devem ter em vista. Busquei +principalmente interessar e orientar os +meus alunos, habituando-os a confiar na prática +dos métodos scientíficos em pedagogia. +<br /> + +<br /> + +O livrinho vai ilustrado com uma gravura, +reprodução duma cópia feita pelo +professor +Eduardo Romero, da Casa Pia, cópia de +um curioso desenho de R. Gudden, de Francfort +s. M., excelente exemplo de um fenómeno +de apercepção, que encontrei publicado no manual +de Starch:</em> Experiments in Educational +psychology, <em>e que me pareceu ser uma +ilustração +muito apropriada para acompanhar as +minhas lições de Psicologia e Pedologia, e +particularmente a lição:</em> +Inteligencia e apercepção. +<br /> + +<br /> + +<em>Estou certo de que a leitura dêste livrinho, +e a dos livros que nele cito, será de muita, +utilidade para os alunos das Escolas Normais +e para os candidatos aos concursos de +Inspectores primários.<br /> + +<br /> + +<span class="quote">Belem—25—XII—920.</span> + +</em><br /> + +<div class="smallcaps signature">A. Aurélio da +Costa +Ferreira.</div> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<a name="c2" id="c2"></a> +<h3>O ENSINO DA PEDOLOGIA +NA ESCOLA NORMAL PRIMÁRIA<sup><a href="#n1">[1]</a></sup> +</h3> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="smallcaps signature">Minhas Senhoras e meus +Senhores:</div> + +<br /> + +<br /> + +Parafraseando o emérito +<span class="smallcaps">Claparède</span>, +direi:—como +se consideraria uma escola de horticultura +onde se não ensinasse a botânica?! +<br /> + +<br /> + +Que se poderia dizer de uma escola que +preparasse professores para a infância, seus +educadores, e em que se não professasse a +pedologia?! +<br /> + +<br /> + +Como se chamaria aquele que hoje, no estado +em que se encontra a sciência, quizesse +como outrora tratar de doenças, empíricamente, +sem saber, sem nunca ter estudado a anatomia +e a fisiologia e as suas aplicações ao +diagnóstico e não soubesse examinar +convenientemente, +scientíficamente, um doente, e +<span class="pagenum">[8]</span> +procurar as indicações? Seria, hoje, porventura, +um médico? Não. Nem mereceria +confiança, +nem mereceria consideração e as penalidades +da lei até sôbre êle +recaìriam. +<br /> + +<br /> + +Como se poderiam considerar aqueles que +hoje se obstinassem a pretender desenvolver +a inteligência, formar caractéres, corrigir os +instintos da criança, sem nunca ter aprendido +a estudá-la, a medir-lhe a inteligência e a +examinar-lhe +o feitio mental, as suas tendências e +as suas aptidões? +<br /> + +<br /> + +Pois se a psicologia tem progredido tanto +que hoje há processos quási tam seguros para +fazer tudo isto, como há na clínica para estudar +o pulso ou a respiração, desconhecê-los +não será, pelo menos, ser um professor +incompleto, +atrazado, fóra do seu tempo? Sem dúvida +que sim. +<br /> + +<br /> + +Bem posso dizer como eu mesmo dizia no +último Congresso Pedagógico de Lisboa: +«querer +e crer que sem conhecimentos de pedologia, +de higiene escolar, de metodologia dos trabalhos +manuais e da ginástica, possam saír +das nossas escolas normais professores dignos +da nossa época, a quem os governos possam +confiar a educação das novas +gerações, capazes, +como dizia, parece-me, numa das suas célebres +lições de pedagogia, o meu querido +mestre, Dr. <span class="smallcaps">Bernardino Machado</span>, +capazes não +só de transmitir—<em>«em +tôda a sua pureza o património +da civilização dos antepassados, a +hercúlea fôrça atávica que +nos pode permitir +reabilitar-nos perante a +história»</em>—mas tambêm +capazes de fazer tudo o que fôr possível +<span class="pagenum">[9]</span> +fazer-se para fomentar o progresso, melhorar +a raça, melhorar o solo, melhorar o país; querer +que aqueles a quem compete fazer e refazer +a pátria, a façam e refaçam como +noutros +tempos, como no nosso tempo já não deve fazer-se, +é tão estulto como querer confiar hoje +a defeza da nossa terra aos heróis de outrora, +a valentes de cota e malha, ou os progressos +do nosso comércio, às antigas e gloriosas +caravelas!» +<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Van Bierveliet</span>, da +Universidade de +Gand, +numa das suas magistrais lições de pedagogia +scientífica, feitas para professores de +instrução +primária, exprime-se assim: +<br /> + +<br /> + +«Consideremos uma classe qualquer e interroguemos +o professor; saberemos logo que +num conjunto de cincoenta alunos, por exemplo, +se encontram dois ou três que demostram +uma grande diligência, e aceitam com prazer +tôdas as tarefas que se lhe impõem. Constituem +os primeiros da classe, o que pode chamar-se +a <em>cabeça da classe</em>. Na +grande massa +dos alunos, dominam aquêles em que o zêlo +é +moderado; cometem erros e sabem as suas lições +mais ou menos bem. Finalmente, um número +mais ou menos considerável da classe +acha que a tarefa que se lhe impõe é demasiado +pesada e aborrecida; constitui o grupo +dos <em>preguiçosos</em>, dos +mandriões. Estes, fazem +os seus exercícios mal, ou nada fazem, e aprendem +muito pouco, uma ou outra pequena cousa, +um ou outro fragmento de lição. As classes +apresentam uma cabeça, um corpo e uma cauda; +geralmente a cabeça é composta por dois +<span class="pagenum">[10]</span> +ou três indivíduos e a cauda, pelo +contrário, +é muitas vezes notavelmente desenvolvida; as +classes são organismos por vezes +<em>microcéfalos</em> +(de cabeça pequena) e +<em>macrures</em> (de cauda +grande). +<br /> + +<br /> + +«A simples constatação dêste +facto, basta +para demonstrar que o regimen escolar é pouco +atraente para as inteligências em +formação. +<br /> + +<br /> + +«Se num jantar de cincoenta talheres se +constatasse que três pessoas sómente mostravam +bom apetite, trinta comiam com repugnância +e o resto nada comia, concluir-se-ia, com +alguma razão, que ou o +<em>menú</em> era +medíocre ou +que os convivas tinham o estomago caprichoso +e que por isso lhes não convinham os pratos +que lhes eram oferecidos ou destinados. O mesmo +se pode dizer das classes. Há inteligências +excepcionalmente vivas que assimilam tudo, +como sucede com as pessoas que têm o que +se usa chamar estomago de avestruz, que tudo +digerem. Há outras, pelo contrário, que perante +os conhecimentos apresentados, pelos métodos +mais correntes, se comportam como dispépticos +da inteligência. Que se faz em regra a estas? +Castigam-se. Melhor fôra curá-las.» +<br /> + +<br /> + +Melhor fôra, acrescento eu, saber conhecer +o feitio mental dos alunos, agrupá-los consoante +as suas semelhanças e diferenças, e saber +administrar-lhes +os mesmos conhecimentos por +métodos diferentes, aqueles que melhor se acomodem +e mais convenham ao seu feitio. +<br /> + +<br /> + +As mesmas doenças não se tratam sempre +do mesmo modo; tem que se atender ao doente. +No ensino sucede a mesma coisa. Não se ensinam +<span class="pagenum">[11]</span> +todos pelo mesmo modo; tem que se atender +ao aluno. +<br /> + +<br /> + +Um professor de instrução primária +não +pode, não deve desconhecer, ao entrar no +exercício +da sua profissão, a psicologia infantil e +os processos de a estudar e de a observar. +Não basta conhecer a +<em>metodologia</em>, é +necessário +a <em>psicologia</em>. +<br /> + +<br /> + +A metodologia deverá, de resto, ajustar-se +à psicologia da classe e à do aluno. +<br /> + +<br /> + +Diz <span class="smallcaps">Claparède</span> +num +livro, cuja leitura muito +lhes aconselho (<em>Psychologie de +l'enfant</em>):«Muitas +pessoas supõem que só a prática do +ensino +pode formar o professor e dar-lhe a verdadeira +experiência. Seguramente, a importância da +prática é capital para formar um especialista +numa determinada arte. Mas é preciso esforçar-se +por reduzir ao mínimo as experiências, +as tentativas, sobretudo quando se trata de +seres humanos. O professor que entra na prática +da sua profissão, sem ter o menor conhecimento +de psicologia, vê-se naturalmente reduzido +a tentar, a fazer experiências com que +os alunos podem sofrer; é obrigado a experimentar +<em>in anima vili</em>, e algumas vezes essas +experiências são demasiado longas e +peníveis +para as gerações de alunos que as têm +de +sofrer. Sem dúvida, a prática pode, dentro de +certos limites, compensar a insuficiência dos +conhecimentos teóricos, mas à custa de quantos +rodeios e de quantos erros! Á força de +construir pontes que abatem, ou máquinas que +estoiram e se escangalham, pode um técnico +sem instrução teórica acabar por ser +um bom +<span class="pagenum">[12]</span> +construtor e encontrar empíricamente as fórmulas +que êle é incapaz de calcular. Mas quem +quereria semelhante engenheiro? +<br /> + +<br /> + +«Um professor sem educação +psicológica +está precisamente no mesmo caso, com esta +diferença, contudo: que, quando uma ponte +tende a abater, no decurso da sua construção, +pode ser reparada imediatamente ou pode ser +refeita. Enquanto que se se trata de uma inteligência +ou de um carácter que erradamente +se forçou ou tratou na sua evolução, +só tarde +se dá pelo mal, quando êle já se +não pode remediar, +e nunca em nenhum caso se pode refazer, +reconstruir, fazer de novo outra inteligência +ou outro carácter.» +<br /> + +<br /> + +Estas parábolas devem convencer as senhoras +e os senhores normalistas da utilidade do +estudo da psicologia, do estudo das faculdades +mentais, na preparação dos professores de +instrução +primária. +<br /> + +<br /> + +Mas que psicologia? +<br /> + +<br /> + +Será a psicologia clássica dos +compêndios +de filosofia? Será a psicologia especulativa? +Será a psicologia, o conhecimento das faculdades +mentais pelo exame introspectivo de indivíduos +excepcionais, supra-normais quási sempre, +filósofos que se deram ao trabalho de se +estudar a si mesmo? Não. +<br /> + +<br /> + +A psicologia do adulto é diferente da da +criança e o estudo desta não se pode fundar +no exame feito por ela própria. O estudo da +psicologia da criança é quási como o +da dos +animais. A criança não é um homem e +é quási +tam diferente do homem como a lagarta da +<span class="pagenum">[13]</span> +borboleta. Que se diria de quem quizesse alimentar +ou tratar a lagarta do bicho da sêda +como a sua borboleta, como êle na sua fase +de insecto perfeito? E no entanto lagarta e +borboleta, tam diferentes na fórma e nos hábitos, +são o mesmo indivíduo. Assim sucede com +cada um de nós, na sua fase infantil e na sua +fase adulta. +<br /> + +<br /> + +A propósito da psicologia clássica, talvez +com mais razão do que dizia +<span class="smallcaps">Binet</span> da antiga +pedagogia, se pudesse dizer: «deve ser completamente +suprimida», no ensino das escolas +normais, acrescento eu. +<br /> + +<br /> + +Eu sei com que razão se tem apresentado +contra o ensino da pedologia, ou estudo da +criança, aos professores de instrução +primária, +o argumento de que êle tem levado êstes a +distrair-se das suas funções docentes, para se +dedicarem a estudos e experiências que não +só prejudicam, porque afastam o professor da +sua principal missão: instruir e educar, como +tambêm porque o levam a fornecer dados que +por insuficiência ou carência de +preparação +scientífica, que só em cursos superiores e +especiais +se pode adquirir, são em regra dados +perdidos, cheios de erros, falseados, quási +inúteis +para a sciência. +<br /> + +<br /> + +Mas o que eu pretendo fazer não é preparar +psicólogos, antropologistas, filósofos; nem +eu, nem ninguem deveria pretender fazê-los +numa escola normal primária, principalmente +com as habilitações que os senhores podem e +devem ter. O que eu pretendo fazer é ensinar +os principais elementos de pedologia, que a +<span class="pagenum">[14]</span> +sua preparação literária consente e +que os +professores devem conhecer para melhor ensinar. +<br /> + +<br /> + +Procurarei, em suma, ensinar <em>rudimentos +de pedologia e as suas aplicações ao ensino +na escola primária</em>. +<br /> + +<br /> + +Seria estulto que eu, médico antropologista, +embora director de um instituto de educação, +eu que não fiz estudos regulares de metodologia +do ensino primário, nem nunca professei +êsse ensino, viesse ensinar-lhes todo o programa +actual da pedagogia, sciência e arte de +ensinar, como seria igualmente estulto e injustificado +que se exigisse a um professor de +instrução primária, que não +tivesse feito estudos +especiais de antropologia, e não tivesse +suficientes conhecimentos de técnica-pedométrica, +que ensinasse a pedologia, sciência que +é conveniente e, mais do que conveniente, +indispensável +ensinar ao futuro professor. +<br /> + +<br /> + +Não é preciso exagerar como +<span class="smallcaps">Chaillou</span> e +<span class="smallcaps">Mac-Auliffe</span>, quando +na sua +<em>Morfologia médica</em>, +dizem: «A educação é e +continua a ser puramente +pedagógica. <em>Escapa ao único +homem +que deve dirigi-la, ao médico.</em>» +Não. Mas é +preciso dizer-se, porque é fácil provar que o +é, que é necessário que parte da +preparação +do professor primário seja feita por médico +especializado nas aplicações das +sciências médicas +à pedagogia, e que o professor seja um +auxiliar do médico. +<br /> + +<br /> + +Os exercícios que habitualmente passarei, +serão exercícios de +educação scientífica e neles +terei em vista não só ensinar como se estuda +<span class="pagenum">[15]</span> +e desenvolve as faculdades da criança, mas +tambem o ensinar a estudar e a desenvolver +as faculdades dos que a têm de educar. +<br /> + +<br /> + +A S. Ex.<sup>a</sup> o actual Ministro de +Instrução +Pública caberá a honra de ter introduzido no +quadro dos estudos do curso normal, o ensino +regular da pedologia. +<br /> + +<br /> + +Por minha parte, procurarei corresponder +aos desejos de S. Ex.<sup>a</sup> o Ministro, repartindo +com todos os meus alunos o que da matéria +souber e com êles estudando o que fôr preciso +estudar, pondo ao seu dispôr os meus hábitos, +os meus recursos e o meu método de trabalho. +<br /> + +<br /> + +Que a dedicação e a lialdade com que sempre +uso servir nos lugares para que me nomeiam, +possam compensar outras minhas faltas, +que eu possa provar ao digno director e +ao ilustre corpo docente dêste estabelecimento +de instrução, a que agora muito me honro de +pertencer, quanto desejo contribuir para o bom +nome e reputação desta Escola, e finalmente +que eu possa ter o maior e melhor pago que +desejo ter: o poder ouvir dizer aos meus alunos +que na vida prática de bastante lhes serviu +o que procurei ensinar-lhes, os conhecimentos +que lhes transmiti, os hábitos que lhes criei +e as prelecções que lhes fiz. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<a name="c3" id="c3"></a> +<h3>A ARTE DE EDUCAR +E A PSICOLOGIA EXPERIMENTAL<sup><a href="#n2">[2]</a></sup> +</h3> + +<br /> + +<br /> + +<div class="intro1"> +«To educate is to bring out all the +powers that are in the child and to +traim him to use them to the best +advantage of himself and indirectly of +the nation of which he is a part». +<br /> + +<br /> + +<div class="signature">(<span class="smallcaps">Miss +C. Aguther</span>, +<em>Child Study</em>, +June, 1917).</div> + +</div> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="smallcaps signature">Minhas Senhoras e meus +Senhores: +</div> + +<br /> + +<br /> + +A arte de educar é fundamentalmente a +arte de regular a conduta presente e futura +dos que se têm de educar. Implica forçosamente +o conhecimento da conduta, das causas +dela, do seu mecanismo e das possibilidades +que o indivíduo oferece. A arte de educar assenta +<span class="pagenum">[18]</span> +como a arte de curar, na anatomia e na +fisiologia e assim como o médico, médico que +tenha de exercer a profissão, tem não +só de +conhecer as doenças e os remédios, mas +tambêm +conhecer os doentes e encontrar as indicações, +assim tambêm o educador, que tenha +de educar, tem não só de conhecer os fins da +educação e os meios da +educação, a pedagogia +e a metodologia, mas tambêm de saber conhecer +o educando e encontrar a fórma de +educação +que mais lhe convenha e se adapte ao seu +feitio. E assim como para o estudo do doente +não basta conhecer os sintomas das doenças, +porque é necessário sabê-los observar, +assim +tambêm não basta ao educador conhecer os +fenómenos da educação, a psicologia, +mesmo +que esta tenha a feição moderna e +scientífica, +e se chame psico-fisiologia ou psicologia experimental, +é necessário tambêm principalmente +possuir a técnica da observação e da +experimentação. +Saber psicologia pode não ser saber +fazer psicologia, como saber quais os sintomas +das doenças pode não ser saber +observá-los e +fazer diagnóstico. +<br /> + +<br /> + +Ensinar num curso prático de psicologia +experimental, que é como oficialmente se chama +o curso que tive a honra de ser chamado +a reger, ensinar nesse curso numa Escola Normal, +é fundamentalmente ensinar o que fôr +preciso para habilitar os futuros professores a +conhecer e praticar os meios scientíficos de estudar +práticamente os fenómenos mentais, isto +é, possuir as regras e os meios de condicionar +êsses fenómenos, por fórma a que outros +os +<span class="pagenum">[19]</span> +possam observar nas mesmas condições, e +verificá-los. +<br /> + +<br /> + +Educar não é hoje, como noutros tempos +se supunha, criar, é essencialmente orientar. +Não é lutar contra a natureza. O educador dos +homens como o educador dos animais, tem que +aproveitar as boas tendências, os talentos, para +os enriquecer e desenvolver, como dos instintos +diz o educador e moralista Foerster, falando do +ensino dos animais. E quanto às más +tendências, +tem que saber inibi-las, ou sublimá-las. +Talvez que nesta altura, para lhes dar uma +exacta idea acêrca do valor e possibilidades +do ensino e quebrar-lhes preconceitos que a +todos os professores desta Escola pertence o +combater, e isto, por minha parte, na intenção +de aproveitar o pretexto de demonstrar que a +arte de educar hoje assenta e quási se confunde +com a arte de estudar os fenómenos +psíquicos, com a psico-técnica, talvez que, para +isso, não lhes pudesse de momento aconselhar +melhor leitura, como leitura prévia, do que a +do livrinho <em>Criminalidade e +Educação</em>, do Sr. +Padre <span class="smallcaps">António de +Oliveira</span> que não é +só, como +todos sabem, uma admirável figura de filântropo, +mas, mais do que isso, uma figura notável +de educador, com vocação e larga e +valiosíssima +experiência. +<br /> + +<br /> + +É preciso que a arte de educar seja como +a arte de curar. +<br /> + +<br /> + +É necessário ouvir tambêm o +prático, ouvir +o que educa, ouvir o que cura, sobretudo quando +sucede como deve ser, que a arte que praticam +<span class="pagenum">[20]</span> +seja arte esclarecida pela sciência, e não +simples empirismo. +<br /> + +<br /> + +Educar é condicionar intencionalmente as +reacções do indivíduo. Educar, +portanto, implica, +primeiro do que tudo, o saber estudar as +causas e mecanismo das reacções individuais. +E o estudo dessas reacções feito +experimentalmente +tem o maior interêsse e importância +para o educador. Muitas dessas reacções +são +de ordem interna e só o próprio +indivíduo as +pode observar directamente, mas essas mesmas +são acompanhadas doutras reacções, +acessíveis +ao estudo directo dos outros e portanto podem +ser estudadas objectivamente, sem intervenção +do exame dos próprios em que elas se dão. +O educador, em resumo, tem de estudar o mecanismo +das reacções individuais e a maneira +scientífica de as condicionar. +<br /> + +<br /> + +De acôrdo com estas ideas, já a dentro da +velha Escola Normal, onde tive a honra de +reger durante alguns anos o <em>Curso de +Pedologia</em>, +o meu distinto colega naquela e nesta Escola +Sr. Professor Dr. <span class="smallcaps">Alberto +Pimentel</span>, cujo +livrinho de lições lhes aconselho, procurou +orientar o ensino teórico da Psicologia. Eu, +por minha parte, completarei êsse trabalho +ensinando-lhes a técnica dos estudos +psicológicos, +segundo essa orientação. +<br /> + +<br /> + +Disse eu que a psicologia experimental se +prende tanto com a arte de educar, que por +vezes até quási se confunde com ela. +Não é +quási se confunde, confunde-se até. Em psicologia +animal, ramo da psicologia quási desconhecido +entre nós, a psicologia experimental +<span class="pagenum">[21]</span> +funda-se na <em>educabilidade</em>, +é o proprio exame +da educabilidade, é a propria arte da +educação +exercida com o fim de estudar os fenómenos +e os recursos mentais do animal. +<br /> + +<br /> + +Vejam por exemplo, para fácilmente e sob +uma fórma agradável apreenderem melhor o +assunto, o excelente livrinho de +<span class="smallcaps">Hache-Souplet</span>, +director do Instituto de Psicologia Zoológica, +intitulado <em>De l'animal à +l'enfant</em> (Bibl. de ph. +contemporaine) e que se pode considerar um +pequeno manual adoptável na preparação +dos +professores de ensino infantil. +<br /> + +<br /> + +Não se surpreendam com êste atrevido conselho +de lhes indicar um livro de psicologia +zoológica, como meio de preparação +pedagógica. +Há grandes afinidades entre a psicologia +dos animais superiores e a das crianças e sobretudo +é a estas duas psicologias, a zoológica +e a infantil, que é, quando não +indispensável, +pelo menos mais necessária a prática +dos métodos da psicologia objectiva. Num dos +melhores e mais modernos livros de <em>psicologia +pedagógica</em>, o de +<span class="smallcaps">Thorndike</span>, +notável +professor +de psicologia pedagógica numa escola de mestres, +têm um livro cheio de estudos interessantes +de psicologia zoológica sôbre a +inteligência +dos animais, estudada pelos meios da +psicologia experimental; e o afamado e emérito +psicólogo suisso, cujo nome já vai sendo +banal citar entre nós, o Professor +<span class="smallcaps">Claparède</span> +disse, ao publicar o programa do Instituto de +Sciências da Educação de Genebra: +«Para +ser completa uma escola de sciências da +educação +deveria possuir um serviço anexo..., +<span class="pagenum">[22]</span> +quero dizer, um laboratório de psicologia +animal...» +<br /> + +<br /> + +Adestrar um animal, regular-lhe a conduta, +é aprender muitas vezes a ensinar uma criança. +Algumas vezes, por isso, recorrerei, se as +circunstâncias o permitirem, a alguns exercícios +de psicologia animal, para lhes esclarecer +uma ou outra questão psicotécnica +pedagógica. +<br /> + +<br /> + +O exame objectivo das reacções será o +escopo +principal do meu curso. Curso prático de +psicologia objectiva podia bem ser o título a +dar-lhe. Psicologia objectiva não quere porêm +dizer, que seja exclusivamente um curso de +psico-fisiologia, como muitos podem supor. A +psico-fisiologia é apenas uma parte da psicologia +objectiva, aquela em que se estudam as +variações fisiológicas, +própriamente ditas, que +acompanham ou condicionam os fenómenos +mentais. As reacções exteriorizam-se +tambêm +por outras fórmas, que não podem +sómente +ser estudadas pelos métodos da fisiologia. +O estudo das reacções provocadas por certos +reagentes mentais é um verdadeiro estudo +pedagógico. Outra cousa não é a maior +parte das vezes o estudo dos chamados +<em>tests</em>, +como é por exemplo o dos +<em>tests</em> para a medida +da inteligência, de que por certo já têm +ouvido +falar e talvez tenham já visto descritos. +<br /> + +<br /> + +A psicologia experimental será talvez ainda +preferível à psicologia objectiva, porque a +psicologia +experimental atinge tambêm o estudo +introspectivo dos fenómenos mentais, o seu +estudo directo, e êste há-de-nos ser preciso +quando se tratar do estudo da psicologia do +<span class="pagenum">[23]</span> +professor, da psicologia de quem ensina, porque +o ensino não depende só da psicologia do +educando, mas tambêm da do educador, e bom +é que êste aprenda a saber examinar-se, a estudar +as reacções que o aluno e a escola nele +determinam para examinar a sua aptidão, e +a corrigir vícios de reacção, que +são por vezes +causa de graves perturbações escolares. +Não é +só o aluno anormal que perturba a classe, é +o professor anormal, é o que não se adapta +à +profissão, é o que não a sabe +praticar, por +falta de cultura ou por falta de +intuìção. +<br /> + +<br /> + +No aluno professor poder-se há com vantagem +praticar a psicologia experimental subjectiva. +A psicologia experimental não é apenas +a psicologia objectiva, repito. E a propósito +lembrarei as palavras do fisiologista francês +Prof. <span class="smallcaps">Ch. Richet</span>: +«A +observação interior constitui +uma psicologia de observação tam fecunda, +tam legítima, como a psicologia a mais experimental +que se possa imaginar. Os factos +assim adquiridos pelo estudo do <em>eu</em> +têm tanto +valor como os fenómenos fisiológicos registados +nos laboratórios pelos métodos mais +aperfeiçoados +da técnica contemporânea.» +<br /> + +<br /> + +Apesar de tudo, porém, o nosso curso será +principalmente um curso de técnica objectiva, +porque êle visa, primeiro do que tudo, o estudo +psicológico do educando e porque é minha +tenção, mesmo quando se trate da +prática da +psicologia subjectiva, recorrer a ela apenas +como um auxiliar da psicologia objectiva. A +propósito recordo os dizeres do grande +<span class="smallcaps">Binet</span>: +«Em nossa opinião, diz êle, +não é preciso procurar +<span class="pagenum">[24]</span> +limitar e simplificar as respostas do indivíduo +em experiência, é preciso, pelo +contrário, +deixar-lhe a plena liberdade de exprimir +o que sente, e mesmo convidá-lo a expressamente +se observar de perto durante o decurso +da experiência; esta maneira de proceder tem +a vantagem de não restringir a +investigação +ao círculo da idea preconcebida: podem-se +constatar muitas vezes factos novos e não previstos, +que muitas vezes tambêm permitem +compreender o mecanismo dum certo estado +de consciência.» +<br /> + +<br /> + +Com felicidade, pois, se chamou «Curso prático +de psicologia experimental» ao curso de +técnica psicológica desta Escola, criado pelo +Sr. Ministro de Instrução, Prof. Dr. +<span class="smallcaps">Alfredo de +Magalhães</span>, cujo nome deve merecer sempre +a +todos nós, desta Escola Normal, uma grata homenagem, +pela atenção que lhe merecemos e +pelo entusiasmo, apaixonado entusiasmo e energia, +com que procurou instalar e proteger a +nova Escola. O curso prático, e acentuo a palavra +prático, de psicologia experimental será +uma maneira de logo, desde o início da +freqùência +da Escola Normal, habituar o futuro +professor, a sentir-se professor, a despertar-lhe +e trenar-lhe a aptidão, a pô-lo em contacto +real, directo, concreto com a massa que tem +de trabalhar, com a sublime argila que tem +de moldar: a alma tal qual ela é. +<br /> + +<br /> + +Trabalhar a alma da criança com alma e +com arte, com arte e com acêrto, com acêrto e +com sciência, tal é o nosso escopo. +<br /> + +<br /> + +A psicologia que havemos de praticar, será, +<span class="pagenum">[25]</span> +mais uma vez o digo, de carácter principalmente +objectivo, não só pela dificuldade, se +não impossibilidade, do exame subjectivo no +meio e com os indivíduos que temos de trabalhar, +não só porque o exame objectivo +constitúi +uma fórma excelente de fazer a +educação +scientífica do aluno professor, de dar-lhe +hábitos +de observação e experiência +extrospectivos +ou melhor exteriores, essenciais à arte de educar, +mas tambêm porque em psicologia, pode-se +dizer, que o que mais importa ao educador +são os actos psíquicos, os fenómenos +mentais +de que introspectivamente se tem menos conhecimento. +<br /> + +<br /> + +Em psicologia pedagógica o sub-consciente +vale mais que o consciente. E mesmo quando +ao educador compete regular o comportamento +do adulto, quando ao educador compete fazer +reeducação, compete-lhe principalmente examinar +o sub-consciente, porque é nele que se +guarda a fôrça que a experiência +anterior gerou +e que regula e influi, por vezes, mais do +que nenhuma, no comportamento do indivíduo. +<br /> + +<br /> + +A conduta é principalmente governada +pelo sub-consciente e neste tem tanta influência +a infância, o que ela foi em cada um, que +quando a fadiga ou a doença perturba o exame +introspectivo e a fiscalização, censura e +govêrno, que por meio dele podemos exercer +nos nossos actos, é a mentalidade infantil que +aparece, se exterioriza e nos revela, tal como +fomos e no íntimo somos. +<br /> + +<br /> + +Uma escola de psicologia há até, que hoje +<span class="pagenum">[26]</span> +já invadiu a filosofia, a medicina e a pedagogia, +que assenta tôda no estudo do sub-consciente +e particularmente na pesquisa das impressões +que nele gravou a vida sexual. Refiro-me +à +<em>psico-análise</em>, de +<span class="smallcaps">Freud</span> e seus +sequazes, +que, apesar dos ataques violentos que +tem sofrido, mormente depois da declaração +da última guerra (mais talvez por xenofobia do +que por outra cousa), contém muito de verdade. +Tirado o que há de místico, de escabroso +e de exagerado no seu pansexualismo, a psico-análise +pode e deve ser conhecida pelo educador. +E, para terminar com estas referências à +questão da importância do consciente e do +sub-consciente em educação, lembrarei a +já +banalizada definição de <span class="smallcaps">Gustavo +Le Bon</span>: <em>A +educação é a arte de fazer passar do +consciente +para o inconsciente</em>. A +reeducação, essa +é muitas vezes o trabalho oposto, digo eu, o +de trazer do inconsciente ao consciente, para +transformar e depois voltar a tornar inconsciente. +<br /> + +<br /> + +A educação, na idea de +<span class="smallcaps">Bacon</span>, é o +conjunto +dos hábitos adquiridos na infância. A +reeducação +é muitas vezes a correcção +dêsses hábitos; +mas tanto em educação como em +reeducação +há que aproveitar a Natureza, porque ela, +ainda segundo <span class="smallcaps">Bacon</span>, +não se governa, senão +deixando-a governar, conhecendo-a, aproveitando-a, +seguindo-a. +<span class="pagenum">[27]</span> +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="smallcaps signature">Meus Alunos:</div> + +<br /> + +<br /> + +A arte de educar, como logo no princípio +eu disse, é a arte de regular a conduta presente +e futura do educando, e a psicologia experimental, +de escôpo pedagógico, é a psicologia +que pela experiência ensina a conhecer as +causas, o mecanismo da conduta do indivíduo +ou da classe a educar. +<br /> + +<br /> + +Psicologia experimental é quási pedagogia +experimental. E não imaginem que esta pedagogia +experimental é menos do que a outra, +porque não tem em conta os ideais, a parte +política, religiosa, social, a finalidade da +educação. +Não. +<br /> + +<br /> + +O Ideal quando não é factor da +acção, é +produto da acção, ou as duas cousas ao mesmo +tempo, factor e produto da experiência pessoal, +e o que nós vamos aprender é a arte de +estudar práticamente, experimentalmente, os +factores e o mecanismo da acção, ou melhor +das reacções do indivíduo sujeito +à influência +dos meios, isto é, ainda a parte prática, +experimental, +utilitária, debaixo do ponto de vista +educativo, que talvez melhor do que psicologia, +se poderia chamar, à maneira de +<span class="smallcaps">Bechterew</span>, +a <em>reflexologia +pedagógica</em>, e nela bem +podemos estudar o valor, a acção e a +formação +dos ideais. +<span class="pagenum">[28]</span> +<br /> + +<br /> + +Com isto declaro aberto o «Curso prático de +psicologia experimental», que neste semestre +será essencialmente um curso de propedêutica, +destinado ao estudo das noções preliminares +e fundamentais de anatomia, fisiologia e psicologia, +que mais importam à +<em>psico-técnica</em>... +<br /> + +<br /> + +Disse. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="quote">15-III-919.</div> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<a name="c4" id="c4"></a> +<h3>O PÊSO DO CORPO DA CRIANÇA<sup><a href="#n3">[3]</a></sup> +</h3> + +<br /> + +<br /> + +<div class="smallcaps signature">Meus Alunos<br /> +Senhoras e Senhores</div> + +<br /> + +<br /> + +Quiz um pouco o acaso que o <em>pêso do corpo +da criança</em> fôsse o tema da minha +última lição. +O fim do ano, como sabeis, veio-nos surpreender +num ponto ainda atrasado do programa a +que me obrigára: o estudo dos métodos da +pedologia +somática, particularmente da pedometria +e com ela o dos principais caractéres métricos +da criança. O pêso do corpo da criança +terá que ser o tema da lição de +encerramento +do meu curso dêste ano. E, embora pareça o +contrário, talvez não pudesse encontrar melhor +tema para encerrar o concurso. +<br /> + +<br /> + +A lição de abertura que vos li foi, como +<span class="pagenum">[30]</span> +devia ser, uma lição-programa e uma +lição-promessa. +Na lição de encerramento que vou ler-vos +tambêm, procurarei fazer com que ela seja +o que deve ser uma lição de encerramento: +uma lição em que até certo ponto se +recapitulem +as noções principais expostas durante o +curso, uma lição-conclusão, e uma +lição em que +se procure provar a realização de algumas das +promessas que se haviam feito na lição inicial. +<br /> + +<br /> + +A criança é fundamentalmente um ser humano +em via de crescimento; é um homem ou +uma mulher em via de formação. A sua principal +função é crescer, procurando atingir a +grandeza que a hereditariedade lhe destinou e +alcançar o equilíbrio morfológico e +fisiológico +do adulto, que constitui a perfeição do ser. +Respeitar o crescimento, a lei natural do crescimento, +é o principal dever do educador, e +tôda a educação se tem de subordinar a +esta +questão de medida: <em>não perturbar +a lei natural +do crescimento</em>. +<br /> + +<br /> + +O pêso não cresce como deve ser? Diminui, +pára, aumenta de mais ou de menos? Um problema +se põe. O regimen de vida ou de +educação +provavelmente não é o que convêm. +Modifique-se +e observe-se, por exemplo por meio +da balança, a influência das +modificações. A +balança guia a higiene, e na higiene assenta a +educação. Por isso, com razão dizia eu +no Congresso +da Liga Nacional contra a Tuberculose, +em 1907, e o repetia no Congresso Pedagógico +do ano passado: «O problema escolar é +essencialmente +um problema métrico.» +<br /> + +<br /> + +Mas mesmo que a medida do pêso e sobretudo +<span class="pagenum">[31]</span> +a da sua evolução não servisse, como +serve, para julgar da saúde e do estado da +nutrição da criança e por +êle aferir o valor do +meio em que a criança vive e dos meios educativos +de que se serve quem dela cuida, mesmo +que o estudo das variações do pêso +não +tivesse grande significação para os educadores, +ainda assim, como muitas vezes vos tenho dito, +valeria a pena ensinar o professor a pesar a +criança. Mais do que uma vez, na realidade, +vos tenho afirmado que uma das vantagens +do ensino da pedologia aos futuros professores +está em ela servir excelentemente para +fazer a sua educação scientífica, para +os ensinar +a observar, a descrever, a medir, a experimentar, +a analisar e a criticar, para aperfeiçoar +o <em>bom senso</em>, que é a +mesma cousa que o +espírito scientífico, que permite sentir e +descobrir +a realidade e medir a possibilidade. O +<em>bom senso</em> é a principal +qualidade de carácter +de qualquer e principalmente do professor. +<br /> + +<br /> + +Aprender a pesar é aprender a julgar, e +com razão, por isso, um médico francês, +o Dr. +<span class="smallcaps">Baudrand</span>, numa tese +extensa e +notável sôbre +o crescimento, diz: «Um médico que regista o +pêso assemelha-se ao magistrado que aprecia +o valor de um prejuízo e calcula o valor da +indemnização.» +<br /> + +<br /> + +A pesagem tem ainda sôbre outras muitas +medidas pedométricas a vantagem de ser a +mais fácil de tôdas; nem exige instrumentos +especiais, nem técnica muito diferente da das +pesagens mais comuns e, porque está sujeita +a menos erros, permite ao professor ou ao +<span class="pagenum">[32]</span> +médico não ser tão +fácilmente logrado, como +sucede com muitas outras medidas pedométricas, +que praticadas mesmo às vezes por quem +tenha cultura especial levam a conclusões falsas, +a listas de números que outra cousa não +são mais do que números, vistosos na +aparência, +mas vazios na significação. +<br /> + +<br /> + +<em>Meçam sim, mas meçam +só aquilo que fôr +fácil de medir, menos sujeito a erros e que +sirva para julgar da saúde do educando, e +das influências que sôbre êle tem o +regimen +de vida e os métodos de ensino.</em> +<br /> + +<br /> + +Mais uma vez insisto, chamando-lhes a atenção +para a obrigação que têm—quando +medirem +e quizerem apresentar os resultados de +suas medições—de exporem minuciosamente o +<em>modus faciendi</em> que adoptaram e se +darem ao +trabalho de, pelo menos nas primeiras medidas, +repeti-las algumas vezes, no mesmo sujeito e +na mesma sessão, para verificar a técnica. O +observador não tem só que conquistar a +confiança +dos outros, precisa tambêm de conquistar +a sua própria. +<br /> + +<br /> + +O pêso do corpo do escolar, não obstante +haver balanças especiais, pode tomar-se com +uma balança décimal ordinária, +aferida, e convêm +que quando, por qualquer razão, se não +possa despir completamente a criança, ela tenha +sôbre si o menor número possível de +peças +de vestuário: um leve calção nos +rapazes, +uma simples saia ou uma saia e um corpete +nas raparigas. A pesagem deve fazer-se no +mesmo indivíduo, sempre à mesma hora, de +preferência de manhã, e nas +condições o mais +<span class="pagenum">[33]</span> +idênticas que fôr possível. +Convêm tambêm +repetir a pesagem em cada ano, com intervalo +de semestre, por exemplo. +<br /> + +<br /> + +Podem parecer exageradas as precauções +que acabo de aconselhar, mas não o são por +que é bom saber-se que as variações do +pêso +não são sempre sinal de crescimento, e porque +tambêm está provado que o pêso da +criança +como o do adulto oscila durante o dia, e de +época para época do ano. +<br /> + +<br /> + +<em>Há oscilações +regulares diárias do pêso</em>. +De manhã, ao levantar da cama, todos pesam +menos do que à noite. Esta diferença de +pêso +chega a ser, numa criança de dez anos, de setecentos +gramas, e num adulto pode chegar a +um quilo (<span class="smallcaps">Camerer</span>), +quilo e meio +(<span class="smallcaps">Ammon</span>). Parece +resultar êste facto de que durante o dia, +as perdas que se sofrem por saída de substâncias +do organismo são compensadas pela +entrada de substâncias reparadoras, enquanto +que durante a noite as perdas não são +compensadas. +Nos adultos a diminuição do pêso +durante a noite é em média igual à +elevação +do pêso durante o dia, mas nas crianças a +diminuição +do pêso durante a noite é menor do +que a elevação durante o dia, o que corresponde +ao crescimento. +<br /> + +<br /> + +Pode algumas vezes observar-se uma diferença +de gramas a mais, simplesmente porque +o intestino ainda não se esvaziou. +<br /> + +<br /> + +As estações influem tambêm e produzem +oscilações no pêso. Está +provado que êste aumenta +mais de agosto a dezembro do que de +abril a junho. O aumento máximo verifica-se +<span class="pagenum">[34]</span> +no primeiro período apresentado e o mínimo +no segundo. De dezembro a abril o valor do +aumento é intermédio. Estas +oscilações podem +depender ou resultar de desarranjos que o +organismo experimenta com as mudanças de +estação e tambêm com mudança +de hábitos +que podem levar a aumentar ou a diminuir as +perdas. A sudação e os jogos, por exemplo, +tudo que modifica a função dos +emuntórios +ou a desassimilação, tudo pode influir. Aos +factores metereológicos devem juntar-se os da +<em>metereologia do ensino</em>, os exames +por exemplo, +que desarranjam e consomem. O conhecimento +dêstes factos levou-me a determinar, de +acordo com o distinto médico-inspector da +Casa Pia e seu professor, Dr. <span class="smallcaps">Jorge +Cid</span>, que +a medida e observação periódica de +todos os +alunos fôsse feita duas vezes ao ano, nos primeiros +meses do ano lectivo, a começar em +outubro, e naqueles que imediatamente precedem +as férias grandes, nos três últimos. +<br /> + +<br /> + +Ás vezes, com a melhoria da +alimentação, +com a mudança de ares, com a liberdade, a +criança aumenta extraordináriamente de +pêso, +como por ex. observei na <em>colónia de +férias</em>, +instalada na Figueira da Foz, por iniciativa e +sob a protecção do meu mestre Dr. +<span class="smallcaps">Bernardino +Machado</span>,—colónia em que vi +crianças +aumentarem <em>cinco vezes mais</em> do que +em igual +período aumentaram alunos da mesma idade, +dum colégio excelente, como é o +Colégio Militar +(vidè medidas do Dr. <span class="smallcaps">Mascarenhas +de +Melo</span>, apresentadas no Congresso Internacional +de Medicina de 1906, e o meu artigo, +<em>Uma</em> +<span class="pagenum">[35]</span> +<em>colónia de +férias</em>, publicado no +<em>Boletim da Assistência +Nacional aos Tuberculosos</em>, em 1908). +<br /> + +<br /> + +Êste facto, que tem sido observado por +vários, dos grandes aumentos de pêso que, +às +vezes mesmo ao fim de quinze dias, se notam +nas <em>colónias de +férias</em> das crianças pobres das +cidades, dessas que eu chamei em tempos pobres +<em>exilados da Natureza</em>, mostra bem a +importância +destas instituições peri-escolares: as +<em>colónias</em>, para que me +não canso de vos chamar +a atenção, instigando-vos a promover sempre +que vos fôr possível a sua +organização, +mas sempre com o auxílio do médico, a quem +cabe a selecção dos casos e a +indicação daqueles +a quem convêm a praia e daqueloutros a +quem o campo mais convêm. +<br /> + +<br /> + +Na apreciação do pêso do aluno deve +ter-se +em vista mais a fórma porque êle cresce +do que a diferença do seu pêso para a +média +dos da sua idade. Muito seria para desejar +que à semelhança do que se faz, por ex. em +Bruxelas, o professor dispuzesse de uns cartões +quadriculados onde apontasse o pêso do +corpo de seu aluno em cada ano e fôsse traçando +a curva da sua variação ao lado da +curva média normal, que convinha se tratasse +de obter com dados colhidos entre nós. Muito +convinha, direi de passagem, que se generalizasse +o uso da <em>Caderneta da mocidade, da +Instrução militar +preparatória</em>, tal como está, +ou melhor, <em>simplificada</em>. +<br /> + +<br /> + +Nem a todos é destinado o mesmo tamanho: +há crianças leves e crianças pesadas, +como +há indivíduos altos e indivíduos +baixos, indivíduos +<span class="pagenum">[36]</span> +loiros e indivíduos morenos. A inferioridade +do pêso, por isso, nem sempre significa +que a criança sofre. Mas acresce a isto o não +termos ainda, nós portugueses, médias nossas, +pelas quais nos possâmos seguramente guiar. +A raça influi no pêso, e a +composição étnica +de cada povo deve influir na média do pêso +absoluto da sua população, em cada idade. +Para as raparigas portuguesas não conheço +tabela alguma; para os rapazes costumo guiar-me, +enquanto não organizo uma tabela com +os pêsos observados nos rapazes da Casa Pia, +costumo guiar-me, dizia, pelas observações do +Dr. <span class="smallcaps">Mascarenhas de Melo</span>, +publicadas nos +<em>Anuários do Colégio +Militar</em> e de que aquele +meu distinto colega fez um apanhado na sua +comunicação ao Congresso Internacional de +Medicina, realizado em Lisboa em 1906, +comunicação +intitulada: <em>Sur l'Antropométrie +médicale</em>. +As tabelas do Dr. <span class="smallcaps">Mascarenhas de +Melo</span> +servem, porêm, apenas para o estudo do pêso +dos dez aos dezanove anos. Sôbre estas +observações +e sôbre pedometria escolar podem vêr +um pequeno relatório que com o +título—<em>Antropometria +escolar</em>—escrevi para o Congresso +da Liga contra a Tuberculose de 1907 e que +com poucas modificações foi reimpresso o ano +passado, por ocasião do Congresso Pedagógico +de Lisboa[4]. +<span class="pagenum">[37]</span> +<br /> + +<br /> + +A título de curiosidade porei em face umas +das outras algumas médias das tabelas do Dr. +<span class="smallcaps">Mascarenhas de Melo</span> +(observações portuguesas) +e algumas extraídas dum trabalho de +<span class="smallcaps">Camerer</span>, de +Stuttgart: +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<table style="text-align: left; width: 100%;" class="tinyl" border="0" cellpadding="2" cellspacing="2"> + + <tbody> + + <tr> + + <td style="text-align: center;" colspan="3" rowspan="1">Idades</td> + + <td style="text-align: center;" colspan="2" rowspan="1">Rapazes<br /> + +(Masc.<sup>as</sup><br /> + +de Melo)</td> + + <td style="text-align: center;" colspan="2" rowspan="1">Rapazes<br /> + +(Camerer)</td> + + <td style="text-align: center;" colspan="2" rowspan="1">Raparigas<br /> + +(Camerer)</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;">10</td> + + <td style="width: 5%; text-align: center;">anos</td> + + <td style="width: 5%;"> + <div class="dots"></div> + + </td> + + <td style="text-align: right;">29</td> + + <td style="text-align: center;">kg.</td> + + <td style="text-align: right;">30</td> + + <td style="text-align: center;">kg.</td> + + <td style="text-align: right;">27</td> + + <td style="text-align: center;">kg.</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;">11</td> + + <td style="text-align: center;">»</td> + + <td> + <div class="dots"></div> + + </td> + + <td style="text-align: right;">30,5</td> + + <td style="text-align: center;">»</td> + + <td style="text-align: right;">32,5</td> + + <td style="text-align: center;">»</td> + + <td style="text-align: right;">29</td> + + <td style="text-align: center;">»</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;">12</td> + + <td style="text-align: center;">»</td> + + <td> + <div class="dots"></div> + + </td> + + <td style="text-align: right;">33</td> + + <td style="text-align: center;">»</td> + + <td style="text-align: right;">35</td> + + <td style="text-align: center;">»</td> + + <td style="text-align: right;">32</td> + + <td style="text-align: center;">»</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;">13</td> + + <td style="text-align: center;">»</td> + + <td> + <div class="dots"></div> + + </td> + + <td style="text-align: right;">36,5</td> + + <td style="text-align: center;">»</td> + + <td style="text-align: right;">37,5</td> + + <td style="text-align: center;">»</td> + + <td style="text-align: right;">37</td> + + <td style="text-align: center;">»</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;">14</td> + + <td style="text-align: center;">»</td> + + <td> + <div class="dots"></div> + + </td> + + <td style="text-align: right;">42</td> + + <td style="text-align: center;">»</td> + + <td style="text-align: right;">41</td> + + <td style="text-align: center;">»</td> + + <td style="text-align: right;">43</td> + + <td style="text-align: center;">»</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;">15</td> + + <td style="text-align: center;">»</td> + + <td> + <div class="dots"></div> + + </td> + + <td style="text-align: right;">47</td> + + <td style="text-align: center;">»</td> + + <td style="text-align: right;">45</td> + + <td style="text-align: center;">»</td> + + <td style="text-align: right;">48</td> + + <td style="text-align: center;">»</td> + + </tr> + + </tbody> +</table> + +<br /> + +<br /> + +Uma alemã parece pesar, a partir dos catorze +anos, mais do que uma portuguesa da mesma +idade. +<span class="pagenum">[38]</span> +<br /> + +<br /> + +Estas médias são às vezes +assombrosamente +excedidas, nos casos de obesidade. Neste momento +estou tratando na minha clínica particular +de um rapaz de quinze anos, um obeso +com gigantismo, obeso hipófiso-genital, que +pesa bastante mais de cem quilos! +<br /> + +<br /> + +O primeiro ano da vida é aquele em que o +pêso aumenta mais. Em média, segundo +<span class="smallcaps">Camerer</span>, +por ex. ao nascer, um rapaz pesa três +quilos e quatrocentos gramas e uma rapariga +três quilos e duzentos gramas. Na Maternidade +de Lisboa, no tempo do Prof. <span class="smallcaps">Alfredo +da Costa</span> (1899-1904), a média do +pêso dos +rapazes foi de 3<sup>kg</sup>,236 e a do das raparigas +3<sup>kg</sup>,103. +<br /> + +<br /> + +Nos dois primeiros dias a criança perde uns +duzentos gramas, mas ao oitavo ou ao nono +recupera o pêso da nascença. O aumento +diário +das crianças criadas ao peito, ainda por +ex. segundo <span class="smallcaps">Camerer</span>, +anda por uns +30 gr. +até à quarta semana, de 26-28 da quinta +à décima +segunda, de 20-24 da décima terceira à +vigésima, de 16-18 da vigésima primeira +à trigésima +sexta, e de 10-15 da trigésima sétima +à +quinquagésima segunda. +<br /> + +<br /> + +<em>No quinto mês da vida, em regra, a +criança +dobra de pêso, e ao fim do primeiro ano +costuma tê-lo triplicado.</em> Pode dizer-se que +nos +cinco primeiros meses o aumento é de cêrca +de setecentos gramas por mês; nos cinco meses +seguintes é metade menor. Daqui a regra indicada +por <span class="smallcaps">Terrien</span> para +calcular o +pêso de uma +criança de peito durante o primeiro ano: para +os cinco primeiros meses, multiplicar 700 pelo +<span class="pagenum">[39]</span> +número de meses que a criança tem e juntar +ao produto o pêso que ela tinha à +nascença; +para os cinco meses seguintes, multiplicar 350 +pelo número de meses que ela tem +<em>alêm do 5.º</em>, +e juntar-lhe o pêso do quinto mês, isto +é, o +dôbro do pêso à nascença. +<br /> + +<br /> + +«No segundo ano de vida o aumento de +pêso é notavelmente menor que no primeiro e +chega tam só, tanto nos rapazes como nas raparigas, +a cêrca de dois quilos e meio; dos +três aos cinco anos o crescimento diminui um +pouco mais, não passando de um a dois quilos +por ano. Finalmente, ao fim do quinto ano os +rapazes vêem a ter 18 quilos e as raparigas +17. A partir desta idade, até aos catorze +anos, os <em>rapazes</em> aumentam de 2 a 3 +quilos; +segue-se depois dos <em>quinze aos +dezóito</em> um período +de maior crescimento, com aumento anual +que pode chegar a oito quilos. Nas +<em>raparigas</em> +o acréscimo anual pode manter-se até aos doze +anos à volta de dois quilos, e dos <em>13 aos +16</em> +o aumento anda por uns 4 a 5 quilos. A partir +dos <em>16 nas raparigas</em> e dos +<em>19 nos rapazes</em>, +o acréscimo pode cessar. Em regra, porêm, +poucos são os indivíduos nos quais permanece +estacionário o pêso adquirido aos 16 +ou aos 19.» (<span class="smallcaps">Camerer</span>). +<br /> + +<br /> + +Duma longa série de observações feitas +em +crianças portuguesas de escolas primárias +oficiais +do Alentejo e de escolas primárias não +oficiais de Lisboa, série infelizmente pouco +homogénea +e insuficiente para algumas idades, +dessa longa série de observações +feitas pelo +Dr. <span class="smallcaps">Moraes Manchego</span> +e pelo Sr. +Major <span class="smallcaps">Desidério</span> +<span class="pagenum">[40]</span> +<span class="smallcaps">Beça</span>, +tirou o Dr. +<span class="smallcaps">Manchego</span> os elementos +com que construiu uma curva de crescimento +do pêso em portugueses de 6 a 19 anos +de idade, curva que conjuntamente com algumas +tabelas interessantes, foi apresentada +num trabalho daquele distinto +médico:—<em>Contribuição +ao estudo do crescimento da criança +portuguesa</em> (Trabalhos do 3.º Congresso +Pedagógico, +realizado em abril de 1912, por iniciativa +da Liga Nacional de Instrução<sup><a href="#n5">[5]</a></sup>. Por +ser interessante e dizer respeito a observações +portuguesas, transcrevo dêsse trabalho, digno +de apreço, as seguintes linhas:—«Na curva +portuguesa há primeiramente um pequeno +acréscimo com o máximo nos 8 anos, que joga +perfeitamente com o acidente similar já apontado +no mesmo trôço da curva homóloga da +estatura, depois vem um crescimento quási +insensível +até aos 12 anos; a seguir apresenta-se +uma depressão, e aos 13 anos começa o +crescimento muito intensivo com o máximo +absoluto aos 16 (êste acréscimo é de +6<sup>k</sup>,8); +depois desta idade a curva desce muito de +ano para ano, sendo o acréscimo para os 19 +anos apenas de 1<sup>k</sup>,5. O aumento de pêso +dos +6 aos 19 anos é de 36<sup>k</sup>,8, isto +é, o +pêso que +aos 14 anos já duplicou é aos 19 superior ao +triplo do que corresponde aos 6 anos.» +<span class="pagenum">[41]</span> +<br /> + +<br /> + +O que convêm, porêm, principalmente fixar +é que durante o crescimento se observam dois +períodos de crescimento máximo: o primeiro +período corresponde ao primeiro ano da vida, +e o segundo nas <em>raparigas</em> ao que vai +dos +<em>doze aos dezasseis anos</em> e nos +<em>rapazes</em> dos <em>quinze +aos dezóito</em>. O primeiro dêstes +períodos é, +como diz <span class="smallcaps">Camerer</span>, +uma +continuação da excessiva +energia fetal do crescimento (lembremo-nos, +como faz notar <span class="smallcaps">Variot</span>, +que em nove +meses +se passa de um óvulo de duas décimas de +milímetro a um féto que mede meio metro e +pesa cêrca de três quilos!) +<br /> + +<br /> + +O segundo período de crescimento máximo +corresponde, tanto nos rapazes como nas raparigas, +à puberdade. +<br /> + +<br /> + +As condições de vida das mães influem +no +pêso dos filhos. Sem ir buscar exemplos lá de +fóra, basta dizer-lhes, para documentar a +afirmação, +que o falecido e ilustre professor da +Escola Médica de Lisboa, <span class="smallcaps">Alfredo +da +Costa</span>, +encontrou notáveis diferenças entre os pesos +à +nascença dos filhos de mulheres que passaram +os últimos tempos da gravidez em repouso e +tranquilidade moral e os daquelas que pelo +contrário até ao último momento +trabalharam +e viveram na miséria. As crianças destas +últimas +pesavam sempre menos. +<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Niceforo</span>, no seu +afamado +volume—<em>Les +Classes Pauvres</em>,—publica um quadro comparativo +do pêso médio de umas séries de rapazes +e raparigas, por onde se vê que o pêso +médio é mais baixo nas crianças pobres +do +que nas ricas, da mesma idade. +<span class="pagenum">[42]</span> +<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Ley</span> e outros +verificaram que em +regra as +crianças atardadas são inferiores em +pêso aos +normais que em idade lhes correspondem. E +<span class="smallcaps">Sluys</span>, o antigo e +illustre +director da Escola +Normal de Bruxelas, num interessante opúsculo +que muito vos recomendo—<em>Loi de +Croissance</em>,—chama +a atenção para o emmagrecimento +dos sobreexcitados e sobrecarregados pelos +trabalhos de preparação dos exames<sup><a href="#n6">[6]</a></sup>. E +já +que acidentalmente vos recomendei a leitura +dêste livro sôbre as +variações do pêso do corpo +da criança, não quero deixar de vos aconselhar +tambêm a leitura do que escreveu e das +tabelas que sôbre o pêso publicou nas suas +<em>Lições de +Pedologia</em> o nosso distinto conterrâneo +Dr. <span class="smallcaps">Faria e Vasconcelos</span>, +professor +em +Bruxelas, de quem por várias vezes tenho tido +o prazer de vos falar. +<br /> + +<br /> + +Afinal a balança, como fiz vêr, pesa, mede +a marcha da nutrição e permite apreciar as +condições de vida e os regimens de trabalho. +Perturbar o crescimento é perturbar a vida, é +afrouxar os meios de defesa, é predispor para +a doença, é inferiorisar o indivíduo. +<br /> + +<br /> + +Foi minha tenção ler-vos esta +lição de encerramento +do curso, no <em>Lactário de +Lisboa</em>, +<span class="pagenum">[43]</span> +instituição que eu muito desejava que visitasseis +em minha companhia. +<br /> + +<br /> + +De facto, em nenhum sítio melhor eu poderia +mostrar o valor da medida do pêso nas +crianças. Nos lactários, nessas benemeritas +instituições +destinadas a distribuir leite para alimentação +artificial das crianças, cujas mães, +por doença, e as mais das vezes apenas por +imposição do trabalho, não podem +amamentar, +a balança não é apenas um meio de +estudar o +crescimento, é um meio de salvar a vida. A +aleitação +artificial desregrada é uma espécie de +infanticídio que vitíma muitas +crianças. Graças +à balança, o médico pode dirigir a +alimentação +por fórma a evitar muitos e danosos +males. +<br /> + +<br /> + +Mas, meus alunos, os lactários e as consultas +para recemnascidos não são apenas +laboratórios +de pesagem e agências de alimentação +láctea. São verdadeiras escolas que em muita +parte com êxito freqùentam normalistas como +vós, que ali vão aprender a alimentar e a tratar +de crianças. +<br /> + +<br /> + +Para o ano, se me fôr permitido e se se +me oferecer, como espero, ocasião e facilidade, +procurarei fazer com que o +<em>Lactário</em> e o +<em>Instituto de Puericultura</em>, da rua +Alexandre +Herculano, para que agora chamo a vossa +atenção, se relacionem com esta Escola Normal. +<br /> + +<br /> + +A preparação do professor deve ser uma +espécie de preparação materna. +<br /> + +<br /> + +Professoras ou professores só têm a ganhar +com se habituarem a lidar desde muito +<span class="pagenum">[44]</span> +cedo com crianças, e a estudá-las, +estimá-las +como pais. E êste deve ser a meu vêr o principal +fim da co-educação na Escola Normal. +<br /> + +<br /> + +De resto, eu quereria que desde o primeiro +ano do curso, alunos e alunas estudassem Pedologia +para se habituarem a viver com as +crianças, para se habituarem a vê-las +não só +no mutismo e no rijo formalismo, muitas vezes +necessário, das aulas, onde se lhes estanha a +fisionomia, se lhes paralisam os movimentos, +se lhes esconde a graça, se lhes abafam os +sorrisos, se lhes sufocam os cantares, mas tambêm +para se habituarem a vê-las, e lidar com +elas, quando em plena liberdade, com a eloqùência +da sua mímica, com a alacridade dos +seus gritos, esfusiando alegria, irradiando afectividade, +nos prendem, nos alegram, nos comovem, +nos enternecem, nos interessam e nos +fazem estimá-las, compreendê-las, +protejê-las, +e educá-las. +<br /> + +<br /> + +Meditai as palavras de <span class="smallcaps">Waynbaum</span>, +com que +terminarei a minha lição e que se referem +à +fisionomia da criança: +<br /> + +<br /> + +«A voz do sangue, o amor da progenitura, +o instinto natural pouco entram na constituição +dêste sentimento sólido e orgânico que +fórma o amor do pai pelo seu filho. Estes laços +naturais, hereditários, existem certamente, +mas não valem o laço que a própria +criança +cria e faz aparecer no nosso coração, +êsse laço +que é uma arma poderosa que a natureza lhe +deu e de que ela largamente usa para se +prender a nós, para se tornar uma parte de +nós mesmos.» +<span class="pagenum">[45]</span> +<br /> + +<br /> + +Meus alunos, senhoras e senhores, que em +breve todos sejais professores. +<br /> + +<br /> + +Futuros pais, sêde bons professores: <em>futuros +professores, sêde como pais</em><sup><a href="#n7">[7]</a></sup>. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="quote">Lisboa, 19-IV-915. +</div> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<a name="c5" id="c5"></a> +<h3>A AGUDEZA VISUAL +E A AUDITIVA DEBAIXO DO PONTO +DE VISTA PEDAGÓGICO<sup><a href="#n8">[8]</a></sup> +</h3> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="smallcaps signature">Minhas Senhoras e Meus +Senhores<br /> +Meus Alunos</div> + +<br /> + +<br /> + +Sejam as minhas primeiras palavras, no dia +de hoje, de saúdação e agradecimento e +principalmente +de agradecimento para com S. Ex.<sup>a</sup> +o actual Ministro da Instrução Sr. Prof. +<span class="smallcaps">Ferreira +de Simas</span>, e para com o Conselho desta +Escola a quem sobretudo devo a honra de +poder novamente retomar êste logar, grato para +mim como nenhum outro, e onde poderei continuar +a série de lições que o ano passado +iniciei, desejando e esperando que elas, pelo +menos, sejam tam atentamente ouvidas e tam +<span class="pagenum">[48]</span> +proveitosas como o ano passado tenho a certeza +que foram. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="smallcaps signature">Meus Alunos</div> + +<br /> + +<br /> + +Posso dizer que a lição que vou fazer-vos, +embora seja a lição de abertura do meu curso +dêste ano, não é no entanto a primeira +lição +que êste ano vos dou. A primeira foi aquela +que cada um de vós recebeu, quando eu, acedendo +ao criterioso convite do Sr. prof. <span class="smallcaps">Tiago +da Fonseca</span>, secretário desta Escola, +procedi à +medida da agudeza visual e da auditiva de +cada um dos que pretendiam matricular-se, a +fim de que na sua distribuição pelas turmas e +pelas salas se atendesse às indicações +tiradas +daquele utilíssimo exame. +<br /> + +<br /> + +Procedi a êsse exame não como médico, +mas +como professor, e procedi por fórma a dar-lhes +uma norma de inspecção, segundo a qual todos, +no exercício das suas funções, em +qualquer +escola que seja, poderão proceder a ela, +e por meio dela classificar, segundo a visão e +a audição, os seus alunos em um dos +três +grupos:—<em>supra-normais</em>, +<em>normais</em>, +<em>infra-normais</em>, +distribuindo-os nas salas das classes pela maneira +que mais convêm ao ensino: adiante os +que ouvem e vêem pouco, ao meio os que vêem +e ouvem regularmente e ao fundo os que ouvem +e vêem melhor. Tive sempre tambem o +cuidado de, quando verificava a existência de +<span class="pagenum">[49]</span> +anormalidade, ou melhor, quando encontrava +candidato que via ou ouvia a uma distância +notávelmente inferior àquela a que a maioria +costuma vêr e ouvir, tive sempre o cuidado, +dizia, de lhes aconselhar a que se dirigissem a +médico competente para que se julgasse da +causa da inferioridade e se corrigisse esta, se +porventura isso fôsse possível; enfim, para que +se tratassem. Quiz assim não só cuidar ou fazer +com que cuidassem da saúde de órgãos +importantíssimos para todos e principalmente +para quem aprende e para quem ensina, mas +tambêm quiz assim indirectamente aconselhar-lhes +ou apontar-lhes a maneira de proceder +que convêm que adoptem quando tiverem como +eu, na sua qualidade de professores, de examinar +e medir a agudeza visual e auditiva dos +seus alunos. +<br /> + +<br /> + +A instrução, como sabeis, faz-se nas nossas +escolas sobretudo à custa de +excitações visuais +e auditivas. O professor dirige-se principalmente +à vista e ao ouvido do aluno. Se vista +e ouvido não estiverem em condições de +aprender +nítidamente, de serem clara, forte, profunda +e agradávelmente impressionados, a +instrução +não se fará ou far-se há defeituosa e +deficiêntemente; a falta de aproveitamento com +facilidade se fará notar. +<br /> + +<br /> + +Aquele que nem vê nem ouve bem, acaba +por deixar de prestar atenção; não se +aplica, +não se instrui e não se educa tambêm, +como +deve ser, porque a experiência é pouca e +má, +porque não excita convenientemente os sentidos, +porque não enriquece convenientemente o +<span class="pagenum">[50]</span> +cérebro em imagens, precisas e nítidas. +Não +tem ou tem pouco sôbre que trabalhar; não +desenvolve a inteligência. +<br /> + +<br /> + +Pelos olhos tomamos nós habitualmente conhecimento +dum grande número de propriedades +e tal é o papel que as imagens visuais +representam na <em>cerebralidade</em>, na +compreensão +das cousas, que <span class="smallcaps">Gaston Gaillard</span>, +num artigo +notável sôbre as +<em>condições ópticas e +fórma +visual da inteligência</em>, disse: «a +inteligência +parece ser uma espécie de faculdade +óptica.» +Fisiologistas e histologistas têm demonstrado +que a visão tem uma influência +importantíssima +no desenvolvimento dos centros cerebrais, +e vários médicos têm demonstrado +tambêm +que muitas vezes o atraso intelectual nas crianças, +que os franceses chamam +<em>arriérés</em>, nos +débeis mentais ou +<em>atardados</em> como se vai dizendo +em português, o atraso, a inferioridade +resulta muitas vezes dum defeito de visão. +Vários casos se apontam tambêm de perfeita +normalização de crianças +anormais-inferiores, +por simples tratamento ou correcção conveniente +do seu defeito visual. Êstes anormais +são verdadeiros <em>anormais de +ocasião</em> ou anormais +por <em>deficit sensorial</em>, como os chama +<span class="smallcaps">Ley</span>. E já +que vos estou +falando das relações +da visão com o desenvolvimento intelectual, +com muito prazer e com muita utilidade para +vós vos chamarei a atenção, convidando +a lê-la, +para a conferência realizada em 20 de Maio +de 1914, na Sociedade Portuguesa de Estudos +Pedagógicos, pelo nosso distinto Inspector Geral +de Sanidade Escolar e meu muito presado +<span class="pagenum">[51]</span> +amigo Dr. <span class="smallcaps">Costa Sacadura</span>, +conferência intitulada: +<em>Influência do estado da visão +sôbre o desenvolvimento +intelectual e físico das +crianças</em>. +<br /> + +<br /> + +Cousa semelhante ao que acabo de vos dizer +a propósito da inferioridade da agudeza +visual, poderei dizer tambêm a propósito da +baixa ou redução da agudeza auditiva. A +criança que ouve mal, compreende mal, acaba +por desinteressar-se, distrai-se, deixando de +escutar e aprender, atrasando-se na instrução +por falta de noções que lhe ministram oralmente +e que ela não aprende, atrasando-se na +educação, por +<em>deficit</em> de +excitações sensoriais +auditivas. O professor <span class="smallcaps">Bezold</span>, +de +Munich, notou +que quanto maior fôr a dureza do ouvido, +tanto menor é o desenvolvimento intelectual. +E <span class="smallcaps">Rouma</span> no seu +importante livro: +<em>La parole +et les troubles de la parole</em>, conta que numa +classe de crianças semi-surdas, em Berlim, +classe composta por 12 alunos, entre os quais +havia 4 que tinham sido apontados como intelectualmente +inferiores, êstes se mostraram +como perfeitamente aptos para o trabalho +escolar e provaram ter uma inteligência perfeitamente +normal, logo que foram colocados +num meio em que se os educou tendo em vista +a sua inferioridade física. +<br /> + +<br /> + +A dureza do ouvido deforma as imagens +auditivas e a criança procurando reproduzir +os sons, as palavras que ouve emite sons, pronuncia +palavras deformadas, adulteradas, sofrendo +assim dum defeito de pronúncia por +simples defeito da audição. +<br /> + +<br /> + +A redução da agudeza visual e da auditiva +<span class="pagenum">[52]</span> +veem a ter tambêm uma influência importante +no feitio moral daqueles que delas sofrem. A +má compreensão dos factos que se passam em +redor e de que tomam conhecimento por intermédio +de órgãos insuficientes e a dificuldade +de comunicar com as outras pessoas, acarretam +muitas vezes conseqùências mais ou menos +emocionantes que podem perturbar o carácter. +Lembrem-se das diferenças psicológicas, de +ordem moral, que todos sabem que existem +entre o surdo e o que ouve, e entre o cego e o +que vê. E neste momento, ao tratar-se dêste +assunto, eu relembro a transformação que se +operou no meu espírito, e a alegria que experimentei, +quando pela primeira vez eu, que era um +<em>míope inconsciente</em>, olhei +para o que me cercava, +através de umas lunetas de vidros divergentes. +Corrigi a minha vista e então comecei +a aproveitar mais nas minhas aulas, onde muitas +vezes não seguia o que se expunha no +quadro preto, por supôr que isso era só para +os que junto dêle estavam, e comecei então +tambêm a usufruir uma maior soma de prazer, +o prazer de vêr e gosar o que se vê. A minha +concepção do mundo modificou-se, melhorou. +Passei a ser mais optimista; encontrei no mundo +e na vida um fim estético, harmonioso, espectacular, +se me permitem o termo. +<br /> + +<br /> + +E lembrar-me eu que entre vós, segundo +as minhas recentes observações, há, de +43% +de inferiores ou defeituosos da visão, apenas +uns 10% com a vista corrigida! Correi já, por +vosso interêsse, aos médicos oculistas; eis o +meu conselho. +<span class="pagenum">[53]</span> +<br /> + +<br /> + +Pelo que respeita ao ouvido, os 9% de +infra-normais que a observação me levou a +encontrar, na população desta Escola, que +não +se descuidem tambêm, porque é possível +que +nalguns se trate de defeito corrigível, talvez +apenas de uma obstrução ocasional, que simples +lavagens ou duches auriculares farão desaparecer. +Devo dizer-lhes que as percentagens +que acabo de apontar dizem apenas respeito a +alunos com inferioridade bilateral dos olhos +ou dos ouvidos, reconhecida pelos processos +simples, que todos viram praticar, e dos quais +lhes vou agora dar mais minuciosa conta. +<br /> + +<br /> + +Numa sala desta Escola que me pareceu +ser daquelas onde menos se ouve o barulho +da rua, que neste sítio infelizmente não +é pequeno, +coloquei em face de uma das janelas, a +seis metros aproximadamente dela, e a uma +altura que correspondesse aproximadamente à +dos olhos da maior parte dos alunos, coloquei, +dizia, um cartão em que colocara o <em>quadro +optométrico</em> dos Drs. +<span class="smallcaps">Mario Moutinho</span> e +<span class="smallcaps">Costa +Sacadura</span>, quadro que suponho se encontra +espalhado por tôdas as escolas, mercê de uma +larga e útil distribuição. +<br /> + +<br /> + +Marquei a giz sôbre o chão um traço +indicando +a distância de 5 metros para àquem da +parede onde pendurava o quadro optométrico. +<br /> + +<br /> + +Numa outra parede, no tôpo da sala, tracei +a uma altura correspondente à dos ouvidos +na maioria dos alunos, um traço horizontal, a +giz, sôbre o qual a partir aproximadamente de +1 metro de uma das extremidades marquei um +zero e, a partir dêste, pequenos traços verticais +<span class="pagenum">[54]</span> +indicando os decímetros e os metros (4 metros +aproximadamente). +<br /> + +<br /> + +Quando ia proceder aos meus exames, procurava +obter o maior silêncio possível, na proximidade +da sala, e fazia entrar os alunos um +a um ou dois a dois, e de maneira a evitar +que se distraíssem. Uma empregada tomava-lhes +à entrada o nome e eu logo começava o +meu exame, em que fui várias vezes auxiliado +pelo meu venerando colega Sr. prof. <span class="smallcaps">Pedro +Ferreira</span>. Para a medida da agudeza visual, +mandava colocar o aluno em frente do quadro +optométrico a uma distância aproximadamente +de 6 metros. As letras do quadro estão dispostas +em 3 linhas paralelas e tais que para +uma visão normal devem respectivamente ser +lidas a 20, 10 e 5 metros de distância. Mandava +procurar ler a 6 metros as letras da +linha inferior, aquelas que se devem lêr, quando +a visão seja mediana, à distância de 5 +metros. +Se o aluno as lia tôdas ou dois terços delas +à +distância de 6 metros, colocava-o no grupo dos +<em>supra-normais da visão</em>, +se não, mandava-o +tentar ler as letras da mesma linha à distância +de 5 metros. Se as lia, colocava-o no grupo +dos <em>normais</em>: finalmente se o aluno +nem à +distância de 5 metros lia sequer dois terços +das letras que a essa distância devia ler se a +visão fôsse normal, colocava-o no grupo dos +<em>infra-normais</em>, e procurava +então vêr quais as +letras que conseguia ler a essa distância de 5 +metros. Se lia as da linha média, que um normal +devia ler a 10 metros, dizia que tinha uma +agudeza visual igual a <sup>1</sup><big>⁄</big><sub>2</sub> +do normal, se lia a +<span class="pagenum">[55]</span> +5 metros só aquelas que um normal lê à +distância +de 20 metros, dizia que tinha uma agudeza +visual igual a <sup>1</sup><big>⁄</big><sub>4</sub> +do normal. Se nem +estas lia, dizia que tinha uma agudeza visual +inferior a <sup>1</sup><big>⁄</big><sub>4</sub> +do normal. +<br /> + +<br /> + +O exame era feito em separado, para cada +um dos olhos, tendo o cuidado de evitar que +com a mão carregassem sôbre aquele cuja agudeza +visual se não estava medindo. Em regra, +e esta parece ser a melhor fórma, mandava +colocar um cartão de visita diante do ôlho a +encobrir, mas um pouco afastado dele. +<br /> + +<br /> + +Esta técnica, que é uma técnica de +confiança +para determinar com precisão a agudeza +visual, pode ser empregada por qualquer professor, +e praticada em todos os escolares, +mesmo naqueles que não sabem ler, visto que +junto às letras e com dimensões respectivamente +iguais às delas se encontram no quadro +optométrico linhas com sinais +(<em>optotipos</em> +se chamam) que um analfabeto pode perfeitamente +apontar (zonas circulares incompletas, +com abertura voltada segundo quatro +direcções). +<br /> + +<br /> + +Para o exame do ouvido, mandava colocar +o aluno em frente da linha que traçara na +parede, voltado para ela, junto dela e com o +ouvido direito à altura do zero. O aluno, com +um dedo, sem carregar, tapava o ouvido esquerdo +e olhando em frente, prestava atenção +a vêr se ouvia o <em>tic-tac</em> +de um relógio de algibeira, +que eu lhe aproximava do ouvido. Logo +que o aluno dava sinais de o ouvir, começava +eu a afastar o relógio, fazendo deslocar êste +<span class="pagenum"><a name="p56" id="p56">[56]</a></span> +sôbre uma linha, não perpendicular à +face, +mas sim dirigida para diante, perpendicularmente +ao pavilhão da orelha. E deslocando o +relógio procurava determinar a maior distância +a que o aluno conseguia ouvir o bater +dêsse relógio. +<br /> + +<br /> + +Fiz uma série de observações e +verifiquei +que <em>com o meu relógio</em> a +maioria ouvia o +<em>tic-tac</em> a uma distância de +2 a 3 metros. Em +vista disto considerei como +<em>infra-normais</em>, na +audição, francamente infra-normais, os que ouviam +o máximo a 1 metro e +<em>supra-normais</em>, +na audição, francamente <a href="#e1">supra-normais</a>, +os que +ouviam a 3 metros e mais. +<br /> + +<br /> + +Para o exame do ouvido esquerdo, mandava +voltar o aluno, colocava-o com o ouvido esquerdo +à altura do zero, pedia-lhe para tapar +o ouvido direito e olhar bem em frente, ou +fechar os olhos, e procedia depois por uma +fórma semelhante à que adoptei para o exame +da agudeza auditiva do ouvido direito. +<br /> + +<br /> + +Quando a redução da agudeza auditiva era +notável (menos de 1 metro), mandava sentar +o aluno no fundo da sala, voltado para a parede, +e colocando-me atrás dele, no lado oposto, +falava-lhe em tom ordinário por fórma a +ver se me ouvia e para isso o mandava repetir +a frase que eu pronunciava ou executar +movimentos que lhe ordenava. +<br /> + +<br /> + +Êste processo, da medida da agudeza auditiva, +ao contrário do que adoptara para medida +de agudeza visual, não é exacto, não +é +preciso, não é seguro, mas serve, e isso basta, +para comparar os alunos debaixo do ponto de +<span class="pagenum">[57]</span> +vista da agudeza auditiva e distribuí-los nas +aulas, de acôrdo com ela. +<br /> + +<br /> + +Nas crianças é necessário talvez tomar +mais +precauções do que aquelas que com os senhores +tomei é conveniente sentá-las, vendar-lhes: +os olhos e de vez em quando <em>fingir</em> +que se +aproxima ou afasta o relógio, para assim julgar +do valor das suas respostas. +<br /> + +<br /> + +Devo dizer-lhes, o que tambêm importa, que +levava, em regra, dois a três minutos com o +exame da agudeza visual e da auditiva. +<br /> + +<br /> + +Na Casa Pia, onde eu e o Dr. <span class="smallcaps">Jorge +Cid</span> +temos feito várias observações, usando +de processos +semelhantes àqueles de que vos falei, verifiquei +há dias a existência de alguns factos +curiosos para que não quero deixar de chamar-vos +a atenção. Considerando apenas os +alunos que neste momento freqùentam a 4.ª classe de +instrução primária, e com +êles os que +em Julho a freqùentaram e distribuindo-os por +ordem crescente das idades verifica-se: que à +medida que se avança na escala das idades, e +aumenta o número de anos de internato, diminui +a percentagem de alunos que fizeram +exame do 2.º grau, e <em>diminui a percentagem +dos que têm audição +normal</em>. Quere isto dizer +que é provável que o atraso de alguns +alunos provenha de inferioridade auditiva. Por +outro lado encontram-se dois máximos de +freqùência +da visão inferior à normal um (30%) +coincidindo com o máximo de freqùência +de +exames do 2.º grau (61%) e outro (40%) +coincidindo com o máximo da idade (16 anos +e mais) e o mínimo da freqùência de +exames +<span class="pagenum">[58]</span> +(40%), factos estes que interpreto por esta +fórma: a anormalidade visual nos rapazes de +16 anos e mais (máximo de idade), que ainda +não fizeram exame do 2.º grau, coincide e +deve estar relacionada com inferioridade mental +e a grande freqùência da visão inferior +à +normal nos rapazes de 14 a 15 anos, grupo a +que na sua maior parte pertencem os que fizeram +exame do 2.º grau, é naturalmente devida +à <em>miopía</em> que o +trabalho das aulas agrava, +quando não determina. Quando um dia me +ocupar particularmente dêste importante defeito +da visão, a miopía, procurarei obter alguns +dados especiais recorrendo, provávelmente, para +isso, ao registo das observações +oftalmológicas +e às estatísticas do distinto +médico-oftalmologista +da Casa Pia Dr. <span class="smallcaps">Xavier da Costa</span>. +<br /> + +<br /> + +A miopía é uma verdadeira doença +profissional +da escola; é em grande parte um produto +do trabalho escolar. A sua freqùência +aumenta à medida que se avança no grau do +ensino. E já que levantei êste incidente, +não +deixarei de vos recomendar a leitura de uma +interessante e utilíssima conferência feita na +Imprensa Nacional, em 19 de Abril de 1914, +pelo Dr. <span class="smallcaps">Sebastião da +Costa +Santos</span>, tambêm +distinto médico-oftalmologista, e em que por +fórma muito clara e completa se trata da miopía +e doutros assuntos de oculística que se +prendem com a higiene escolar. +<br /> + +<br /> + +O exame da agudeza visual e da auditiva +presta-se tambêm a permitir julgar até certo +ponto de certas qualidades de ordem psíquica +que ao educador muito interessa conhecer. A +<span class="pagenum">[59]</span> +maneira por que o aluno se apresenta, a rapidez +ou a lentidão dos seus movimentos, a rapidez +ou a lentidão na leitura do quadro optométrico, +a maneira agitada ou, pelo contrário, +lenta e dócil por que se comporta, a precisão +ou a indecisão na compreensão e +execução das +nossas ordens, tudo permite, com grande probabilidade +de acêrto, formar um juízo útil e +necessário para o educador, sôbre o grau de +emotividade, ou sôbre a <em>potencialidade +nervosa</em> +de cada aluno, destrinçando particularmente +os dois tipos extremos, o do +<em>hipersténico</em>, +agitado, e o do +<em>hiposténico</em>, tardo nas +suas +reacções. O educador encontrará nesse +exame +elementos importantes para calcular possibilidades +na educação, e tirar +indicações muito +úteis para a escolha dos meios educativos a +empregar. +<br /> + +<br /> + +O exame da agudeza visual e da auditiva +feito à luz dos conhecimentos que vos procurei +transmitir permitir-vos há convencer-vos, +desta verdade fundamental: <em>de que os escolares +são diferentes uns dos outros</em>. E +convencidos +disso, o vosso espírito estará preparado +para a adquisição desta outra verdade: +<em>de +que o ensino se deve individualizar o mais +possível</em>. +<br /> + +<br /> + +A pedologia, estudo da criança, vos ensinará +a conhecer os vossos alunos, e a encontrar o +caminho educativo que mais convêm seguir. +<br /> + +<br /> + +Pudesse eu deixar-vos convencidos disso, e +conseguisse que em tôdas as escolas o professor +determinasse a agudeza visual e a auditiva e +eu, e todos os que tivessem contribuído para +<span class="pagenum">[60]</span> +isso, teríamos alcançado a não pequena +glória +de ter promovido na escola o que o grande +professor <span class="smallcaps">Biervliet</span>, +a +propósito do mesmo +assunto, não duvidou chamar um <em>progresso +imenso</em>. +<br /> + +<br /> + +Disse. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<a name="c6" id="c6"></a> +<h3>A VISÃO DAS CORES<sup><a href="#n9">[9]</a></sup> +</h3> + +<br /> + +<br /> + +<div class="smallcaps signature">Minhas Senhoras e meus +Senhores:</div> + +<br /> + +<br /> + +Foi objecto da minha lição de abertura, no +ano findo: <em>A agudeza visual e a auditiva, +debaixo do ponto de vista pedagógico</em>, +tendo-me +servido de pretexto para a lição o exame +da agudeza visual e da auditiva por mim praticado, +nos alunos desta Escola, com o fim de +se regular a sua distribuìção nas +aulas. Será +êste ano objecto da minha primeira +lição um +assunto que se prende tambêm com a fisiologia +dos sentidos, servindo-me de pretexto para +ela o exame que êste ano tambêm fiz a alunos +desta Escola, mas não só com o fim de +julgar da sua agudeza visual e da sua agudeza +auditiva, mas tambêm para julgar até +<span class="pagenum">[62]</span> +certo ponto do seu sentido cromático, do grau +da sua visão, na visão das côres. +<br /> + +<br /> + +Deu origem a esta ampliação do exame +fisio-pedagógico que se começou a praticar o +ano passado por iniciativa do Sr. Secretário +desta Escola, e seu distinto professor sr. <span class="smallcaps">Tiago +da Fonseca</span>, deu origem a essa +ampliação, um +simples acaso. Um dos jornais da cidade, ao +noticiar que eu ia proceder ao exame dos alunos, +falou em <em>daltonismo</em>, e isso +fazendo-me +suspeitar uma confusão entre o exame da agudeza +visual e o do sentido cromático e recordando-me +da importância que êste pode ter na +escolha dos candidatos a professores, resolveu-me +a fazer a minha primeira lição dêste +ano sôbre o <em>sentido cromático e +os seus defeitos</em>, +e proceder, como procedi, a um <em>exame +elementar</em> dêsse sentido. +<br /> + +<br /> + +M.<sup>elle</sup> <span class="smallcaps">Yoteyko</span>, +a +ilustre +professora belga, +considera como indispensável na escola normal +a prática de um exame do sentido cromático, +por causa da importância que a +diferenciação +das côres tem no ensino. É sua opinião +tambêm que a êsse exame devem ser +obrigatóriamente +sujeitas tôdas as professoras dos +jardins de infância e, mais ainda, atribúi-lhe, +e com razão, grande valor no exame pedagógico +dos alunos da escola primária. +<br /> + +<br /> + +E isto lembra-me as palavras do professor +americano <span class="smallcaps">Rowe</span>, +quando num dos +seus livros, +diz: «na cegueira das côres está muitas +vezes +a explicação da aparente estupidez que revelam +certas crianças das nossas escolas, diante +dos mapas». +<span class="pagenum">[63]</span> +<br /> + +<br /> + +O exame fisio-pedagógico que o ano passado +se começou a praticar nesta Escola, deve +ser ainda mais ampliado do que foi êste ano, +e quando êste assunto, a <em>visão +das côres</em>, não +fôsse julgado como de maior importância, para +servir de mais a mais de tema a uma lição +de abertura de curso, bastaria para justificar-me +e dar-lhe o valor que lhe contestassem, o +tomá-lo como pretexto para chamar a +atenção +para êste capítulo importante e quási +virgem +entre nós, do exame das aptidões. +<br /> + +<br /> + +Hoje, minhas senhoras e meus senhores, a +fisiologia e a psicologia, não são apenas +sciências +de gabinete, simples curiosidades, domínios +de investigação scientífica +desinteressada, +ramos de conhecimentos sem maior aplicação +e utilidade. Não. O fisiologista e o psicólogo +têm hoje o seu lugar até na oficina, +até na +fábrica. A êles se recorre não +só para julgar +das aptidões do operário, mas até para +regular +a própria técnica. Opera-se neste momento +uma profunda reforma nas indústrias, visando +a levar ao máximo o rendimento de cada operário, +recorrendo-se para isso à fisiologia e à +psicologia. É o +<em>tailorismo</em> que avança, +é a +organisação scientífica do trabalho. +<br /> + +<br /> + +A fisiologia e a psicologia são tam úteis, +mesmo fora dos domínios da Medicina, que +neste momento, até em plena guerra elas figuram, +sendo os seus processos de análise regular +e obrigatóriamente praticados no exame +dos candidatos a aviadores, êsses heróicos +soldados, +que nesta guerra, formidável pela sciência +e pela barbaría, tanto influem na estratégia. +<span class="pagenum">[64]</span> +Na nossa legislação militar, a +propósito +da inspecção médica dos candidatos a +aviadores, +já se fala do exame das reacções +psico-motrizes. +Mas mais ainda. A <em>psico-fisiologia</em>, +de que em suas proveitosas lições muitas vezes +vos fala o Sr. professor Dr. <span class="smallcaps">Alberto +Pimentel</span>, +logrou até encontrar aplicação em +pleno +campo da refrega, onde por exemplo, M. +<span class="smallcaps">Lahy</span>, chefe dos +trabalhos +práticos de psicologia +experimental na Escola de Altos Estudos +de Paris, e actualmente mobilizado como oficial, +teve ocasião de com notável utilidade +aplicar os seus métodos de estudo a gloriosos +soldados da Argonne, durante a tremenda +campanha de Verdun. +<br /> + +<br /> + +E, minhas senhoras e meus senhores, se a +psico-fisiologia presta já tantos serviços na +escolha dos candidatos a operários e em soldados, +porque não há-de ela ter tambêm o seu +lugar no exame dos candidatos à profissão de +professor?! Pensai nisto, que é nesta arte que +andais a aprender: a arte de educar, que é +mais necessário rigorosamente escolher os mesteirais, +porque são êles que lidam com a mais +preciosa e delicada das nossas matérias primas: +a criança, e se ocupam da mais importante +de tôdas as indústrias: a indústria da +formação de cidadãos úteis, +prestimosos na +sua profissão, excelentes nas suas virtudes +físicas e morais, e no seu amor à +Pátria! +<span class="pagenum">[65]</span> +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="smallcaps signature">Meus Alunos:</div> + +<br /> + +<br /> + +A visão das côres e a aptidão a +discriminá-las +não se revela logo após a nascença, +nos +primeiros dias. Factos que a sciência regista +levam a supor que essa faculdade visual se +manifesta <em>claramente</em> e +<em>indiscutívelmente</em> +só +ao fim de alguns meses. Ao poder de discriminação +das côres, segue-se o de nomeá-las. +É interessante fazer notar o facto de que a +criança aprende mais fácilmente os nomes das +cousas do que os das côres. Citam-se casos +em que crianças de dois anos e mais, conhecendo +perfeitamente os nomes de certos frutos +bem característicos, pela sua fórma e pela sua +côr, uvas, morangos e laranjas, não sabem no +entanto apropriadamente aplicar-lhes os nomes +das côres que ostentam. +<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Trace</span>, professor da +Universidade +de Toronto, +que examinou vários vocabulários infantis, +da língua inglesa, chama a atenção +para o +facto de ter encontrado apenas perto de trinta +nomes de côres num vocabulário de mil e cem +palavras. E várias vezes, diz êle, não +encontrou, +em vocabulários de crianças de dois anos, +um só nome de côr, não obstante essas +crianças +possuirem já de trezentos a quinhentos +vocábulos. +<br /> + +<br /> + +Um outro facto a pôr em destaque é o de +que a criança pode discriminar as côres, possuir +vocábulos para as nomear, mas não associar +correctamente a côr ao seu nome. Parece +<span class="pagenum">[66]</span> +que é esta a principal dificuldade que a criança +tem no reconhecimento das côres. +<br /> + +<br /> + +Creio que foi o professor <span class="smallcaps">Monroe</span>, +professor +de Psicologia em Westfield, quem realizou +o maior número de experiências sôbre o +sentido +cromático de crianças, de três a sete +anos +de idade. São curiosas as conclusões a que +chegou. As meninas distinguem, em geral, mais +fácilmente, as côres, e reteem mais +fácilmente +tambêm os nomes destas. Esta superioridade +no sentido cromático é mais acentuada dos +cinco aos sete anos do que antes, e está de +acôrdo com a superioridade do sentido cromático +que as estatísticas dos defeitos de visão +das côres levam a atribuir à mulher, onde +êles são menos freqùentes. E como essa +superioridade +se revela mesmo nas idades em que +as crianças dos diversos sexos têm as mesmas +ocupações, pode-se atribui-la a uma +diferença +sexual inata, em que talvez se possa tambêm, +como alguns fazem, encontrar a causa do coquetismo, +da garridice das côres dos trajos da +mulher. +<br /> + +<br /> + +As experiências sôbre a visão das cores +nas crianças, são muito delicadas, por serem +difíceis e muito sujeitas a erros. Para se fazerem, +ou se lhes mostram côres e se lhes perguntam +os nomes, determinando a percentagem +dos erros cometidos, ou se nomeiam côres +e se pede à criança que as vá +indicando ou +escolhendo numa colecção de objectos, iguais +ou diferentes, diversamente coloridos, ou se +lhes mostra uma côr e se pede para dentre +muitas diferentes escolher uma igual, ou, e +<span class="pagenum">[67]</span> +êste é o processo de escolha na criancinha de +tenra idade, se observa a sua expressão +fisionómica +e a sua mímica, vendo se ella sorri ou +chora, ou se assusta, ou se aproxima, ou se +afasta ou, mais precisamente, medindo, contando +como faz <span class="smallcaps">Baldwin</span>, +que considera +como a +melhor maneira de julgar do valor dos estímulos +sensoriais na criança, o estudo das +reacções +motrizes que êles provocam, e principalmente +os movimentos da mão, contando, como +eu dizia, o número de movimentos de +aproximação +ou atracção, e o dos de recúo ou +repulsa, +que as diferentes côres provocam, quando +mostradas a distâncias diferentes. +<br /> + +<br /> + +Para terminar esta parte da minha lição, +dar-lhes hei conta ainda de dois factos mais, +que interessam muito ao estudo da visão das +côres na criança. +<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Lehman</span> notou que as +côres que a criança +reconhece mais fácilmente são aquelas cujos +nomes melhor sabe, e notou mais ainda que +os tons que não têm nomes especiais não +são +por elas reconhecidos. +<br /> + +<br /> + +Outro facto tambêm de que vale a pena +tomar conhecimento e fixar é de que experiências +de diversos levam a considerar como +côres de maior predilecção na +criança, o vermelho +e o azul. +<br /> + +<br /> + +Assim como há diferenças individuais na +sensibilidade à luz, que permitem discriminar +diferentes graus de intensidade luminosa, assim +como há diferenças individuais na sensibilidade +visual que permitem discriminar, pela +fórma, os objectos a distância, assim +há diferenças +<span class="pagenum">[68]</span> +individuais na sensibilidade visual que +permitem discriminar as côres e perceber as +variações de tonalidade de cada uma delas. E do +mesmo modo que há cégos que sentem a luz +mas não vêem os objectos, há +cégos que vêem +os objectos mas não lhes vêem as côres. +Há de +facto indivíduos, raros é verdade, que +vêem +os quadros mesmo os mais ricos em colorido, +os mais variegados, como se fôssem pintados +em cinzento, de vários tons. +<br /> + +<br /> + +Há tambêm indivíduos, e estes na +percentagem +aproximada de 3 a 4% no homem e 1 +a 2% na mulher, que discriminando algumas +côres como o azul e o amarelo, não distinguem +o verde do vermelho e vice-versa. +<br /> + +<br /> + +Para alguns dêstes indivíduos, como dizia +<span class="smallcaps">Arago</span>, as cerejas +nunca +estão maduras. E +neles compreende-se que possa suceder, como +diz M.<sup>elle</sup> <span class="smallcaps">Yoteyko</span>, +que +não vejam os morangos, +num morangueiro carregado dêles, ou não +descubram um lápis de lacre, em cima de um +relvado. É a êste grupo de cegos +cromáticos +ou indivíduos daltónicos, que pertencia aquele +de que <span class="smallcaps">Fuchs</span> por +exemplo fala no +seu <em>Manual +de Oftalmologia</em>, que queria remendar um +fato preto com um pedaço de pano encarnado, +julgando que êste era preto! +<br /> + +<br /> + +A cegueira total para as côres ou +<em>acromatopsia +total</em>, a cegueira parcial para as côres +ou <em>acromatopsia parcial</em>, a cegueira +especial +para o vermelho, ou <em>aneritropsia</em>, e +outros +defeitos cromáticos de menor vulto ou +<em>discromatopsias</em>, +denominam-se muitas vezes, em +globo, <em>daltonismo</em>, termo que mais +própriamente +<span class="pagenum">[69]</span> +se deve empregar nos casos de +<em>aneritropsia</em>, +ou cegueira para o vermelho. +<br /> + +<br /> + +A palavra <em>daltonismo</em> deriva de +<span class="smallcaps">Dalton</span>, +nome do célebre físico inglês, que +vendo que +confundia as côres das flôres, examinou o espectro +solar e constatou que a parte do espectro +que se chama vermelha, lhe parecia apenas +quási uma sombra, quási um feixe sem +luz (vid. sôbre êste assunto da visão +das côres +um livrinho excelente que muito vos recomendo: +o livrinho de M.<sup>elle</sup> Dr.<sup>a</sup> +<span class="smallcaps">Yoteyko</span>, +<em>Aide-mémoire +de psychologie expérimentale et de +pédologie</em>, vol. 1, <em>Les +sensations</em>, pág. 309). +<br /> + +<br /> + +Há indivíduos que confundem os nomes +das côres e que no entanto não sofrem de +discromatopsia, pois discriminam bem as côres +e os seus tons; são apenas ignorantes. Assim, +por exemplo, sucedia a um doente do Hospital +de S. José, examinado pelo meu prezado +amigo e distinto oftalmologista Dr. <span class="smallcaps">Costa +Santos</span>, +hoje director daquele Hospital, que lhe +falava de um «azulinho côr de alface», +não +obstante distinguir bem os tons azuis e verdes. +<br /> + +<br /> + +Em contraposição há +<em>daltónicos</em> que com +tôda a propriedade chamam vermelhas as cerejas +e verdes as fôlhas, mas que não distinguem +o vermelho do verde; empregam os +qualificativos verde e vermelho, por os ouvirem +empregar aos outros. Há mesmo mais: +há <em>daltónicos</em>, +que distinguem um objecto +verde de outro igual, mas em vermelho, não +própriamente porque a +<em>qualidade</em> da côr os +impressione, mas sim pela <em>quantidade</em> +da côr, +<span class="pagenum">[70]</span> +pelo seu pêso, pela quantidade de pigmento +que contêem. Se êsses objectos fôssem um +vermelho e outro verde, mas de tons da mesma +quantidade, igualmente leves ou igualmente +carregados, então não os distinguiriam, +confundi-los-iam, +achá-los-iam perfeitamente iguais. +<br /> + +<br /> + +Está-me lembrando neste momento um dos +nossos mais notáveis oftalmologistas e até por +sinal grande apreciador de quadros, que me +confessou e por fórma bem sincera e brilhante, +que sentia mais ou menos o vermelho, mas +quási não via o verde; para êle o verde +e o +vermelho são tão distintos como o azul e o +amarelo. E na mesma ocasião em que isto +ouvia, um colega que assistia à conversa, informou-me +de que um dos nossos melhores +paisagistas não distingue fácilmente os tons +de certos objectos que vê e está pintando. +Sofre da dúvida das côres. +<br /> + +<br /> + +As discromatopsias ou defeitos da visão +cromática, passam por vezes desapercebidas +aos indivíduos que deles sofrem. Assim como +há <em>míopes +inconscientes</em>, de que o ano passado +por exemplo falei na minha lição de abertura +sôbre a <em>agudeza visual e auditiva, sob o +ponto de vista pedagógico</em>, há +<em>daltónicos inconscientes</em>. +E um dos mais notáveis exemplos +que dêles se pode apresentar é o que +<span class="smallcaps">Fuchs</span> +menciona no seu <em>Manual</em>: um +médico de uma +companhia de caminhos de ferro, médico encarregado +de examinar o sentido cromático +dos candidatos a empregados da companhia, +que o procurou para lhe pedir algumas instruções +sôbre os métodos dêsse exame, e que +<span class="pagenum">[71]</span> +<span class="smallcaps">Fuchs</span> no decurso da +conversa e em +vista dos +erros que notou que êle cometia no exame +das provas, verificou ser um daltónico, e nem +mais nem menos do que cego para o vermelho! +<br /> + +<br /> + +A cegueira ou a simples diminuìção da +agudeza cromática pode ser congénita ou +adquirida. +Há lesões oculares que a determinam +e discromatopsias há que são +atribuíveis a +intoxicações, pelo álcool ou pelo +tabaco. +<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Van Biervliet</span> atribui +certas +discromatopsias +congénitas a uma acção resultante de +hereditariedade +por falta de treino do sentido cromático +nos ascendentes. +<br /> + +<br /> + +Interpretando, como em regra se interpreta, +a diferença séxual notável que existe +entre +a percentagem das discromatopsias no homem +e na mulher, com vantagem para esta, ao +maior uso que esta faz do seu sentido cromático, +notávelmente aplicado em certos trabalhos +como os trabalhos de bordadora e de +modista, profissões muito espalhadas entre os +indivíduos do sexo feminino, generaliza e diz +que os visuais, cujos pais eram pintores, iluminadores, +mosaístas, etc., nascem, graças ao +treino realizado pelos seus ascendentes, com +uma retina e centros visuais mais sensíveis às +côres. É uma opinião, de resto +discutível. +<br /> + +<br /> + +Tendo examinado todos os candidatos à +matrícula no 1.º ano desta Escola Normal, +pela fórma que adiante descreverei, àparte +uma ou outra hesitação, discromatopsias +própriamente +ditas só em dois candidatos, senhoras, +encontrei, verificando uma confusão notável +<span class="pagenum">[72]</span> +de tons do amarelo, com que experimentámos, +amarelo canário claro, e amarelo gema +de ôvo. +<br /> + +<br /> + +A visão das côres tem sido particularmente +estudada nos escolares anormais. +<span class="smallcaps">Zihen</span> cita +casos de atardados de doze a quinze anos, +com suficientes conhecimentos escolares, podendo +sustentar uma conversa sôbre assunto +simples, mas incapazes de reconhecer as côres. +<span class="smallcaps">Ley</span>, cujo trabalho +sôbre +o <em>atraso mental</em>, em +escolares é o mais bem documentado que conheço, +e que observou 110 crianças da escola +especial para atardados, de Antuérpia, que +tive o prazer de com o maior proveito e na +companhia do seu director o Sr. professor +<span class="smallcaps">Yack</span>, tive o prazer, +dizia, de +visitar, por sinal +um mês antes de rebentar a guerra, +<span class="smallcaps">Ley</span> encontrou +23 crianças com graves defeitos da +visão das côres, e 45 reagindo normalmente, +correctamente, seriando de cinco a seis tons +de oito côres diferentes. Pode haver, portanto, +em face de tudo o que dissemos, crianças inteligentes +com fraca visão das côres ou mesmo +cegueira, e inferiores mentais com boa visão +cromática. +<br /> + +<br /> + +Vale a pena citar tambêm, nesta altura, o +facto mencionado por vários e verificado por +M.<sup>lle</sup> <span class="smallcaps">Descoeudres</span>, +de Genebra, +de que as côres +mais vulgarmente confundidas pelos anormais +são o azul e o violeta. M.<sup>lle</sup> +<span class="smallcaps">Descoeudres</span> +cita tambêm no seu <em>Manual</em> +para a educação +de anormais, como notável, o caso de um rapaz +epiléptico, que desde os oito aos treze +anos, apesar de tempos a tempos se lhe mostrar +<span class="pagenum">[73]</span> +uma série de fichas ou tentos, de côr azul +ferrete com uma ficha de côr violeta, de permeio, +pedindo-se-lhe que indicasse aquela ficha +que não era como as outras, êle não a +encontrava, +não obstante compreender bem a pergunta. +Êste rapaz confundia tambêm o verde-malva +com o azul claro. +<br /> + +<br /> + +Há na visão das côres um elemento que +importa muito considerar: é a atenção. +A falta +de atenção explica muitas vezes erros da +visão +das côres, que à primeira vista se poderiam +ter como sinais de daltonismo. Ao lado do +daltonismo verdadeiro, há um falso daltonismo, +uma cegueira de distracção, que não +própriamente +cegueira ou incapacidade de visão +das côres. +<br /> + +<br /> + +Numa série de rapazes da Casa Pia, principalmente +entre aqueles atardados, que com +onze, doze e treze anos de idade, ainda freqùentam +a primeira classe de instrução +primária, +tendo dois a três anos de casa, observei +eu que alguns, quási todos, cometiam erros +graves na visão das côres, mas erros que variavam +com a natureza do <em>test</em> e com a hora +do exame. O aluno 4.337 que de manhã, antes +de começar as aulas, apenas confundia o verde +claro com o azul claro, e alguns tons de verde, +entre si, à tarde, logo em seguida à quarta +hora da aula, confundia alguns <em>tons verdes +com tons vermelhos</em>, como se se tivesse tornado +daltónico de manhã para a tarde. Era a +fadiga que lhe diminuia a atenção, e o levava +a cometer erros dêstes. O aluno 305, êsse ainda +mais claramente mostrava que os erros que +<span class="pagenum">[74]</span> +cometia na visão das côres resultavam de falta +de atenção, pois que quási +não cometendo +erros no exame discriminativo de vários tons +do vermelho, verde, azul e amarelo, na mesma +sessão cometeu erros tais que confundia roxo +com vermelho, alaranjado com amarelo claro +e azul com verde, simplesmente porque tinha +de atender de cada vez a duas côres, que se +mostravam ao mesmo tempo. Olhava só para +uma, a que cobria uma maior extensão, e que +êle distinguia perfeitamente, não se importando +no entanto com a outra, para que aliás se lhe +chamava tambêm a atenção. Bem diz +M.<sup>lle</sup> +<span class="smallcaps">Descoeudres</span> a +propósito +da visão das côres +nos anormais: «é preciso sempre entrar em +linha de conta com o factor atenção, por causa +da qual se torna difícil o pronunciarmo-nos +sôbre as noções de côr nos +anormais.» +<br /> + +<br /> + +Não basta para explicar as anomalias da +visão das côres invocar por exemplo uma das +duas teorias clássicas da visão +cromática: a +de <span class="smallcaps">Yung-helmholtz</span> ou +a de +<span class="smallcaps">Hering</span>. +Não +basta explicar, como se faz na primeira destas +teorias, explicar, por exemplo, a cegueira para +o vermelho, pela ausência, na estrutura da +retina, de uns elementos que são mais particularmente +sensíveis ao vermelho e nos dão +esta sensação, e dizer que, faltando +êles, a luz +vermelha impressiona os elementos principalmente +sensíveis à luz verde, e que nos dão a +sensação do verde, fazendo assim com que o +vermelho nos impressione como se fôsse apenas +um tom daquela côr. Não basta explicar, +como se faz na teoria de <span class="smallcaps">Hering</span>, +a +cegueira +<span class="pagenum">[75]</span> +para o vermelho e para o verde, pela falta +de uma substância foto-química, +alterável pela +acção da luz vermelha e da luz verde, e que +conforme o sentido da alteração origina a +sensação +do verde ou do vermelho. Não. É +necessário +lembrarmo-nos que a atenção é elemento +muito importante, a considerar tambêm +na visão das côres, podendo só por si +dar +origem à confusão delas, sem que haja +própriamente +incapacidade orgânica para a +visão. +<br /> + +<br /> + +Há uma concepção filosófica +da visão, devida +a <span class="smallcaps">Tscherning</span> (vid. +<em>Année psichologique,</em> +1914, pág. 43), que permite compreender bem +a influência que a atenção pode ter na +visão. +<span class="smallcaps">Tscherning</span> +compára a +sensibilidade visual à +sensibilidade táctil e diz que se pode considerar +os raios luminosos, que dimanam do exterior +para a retina, como uma espécie de antenas +invisíveis, presas ao fundo dos olhos e +que com êles se movem, antenas com que nós +examinamos os objectos. São o que êle chama +os <em>fotóforos</em>. Se +tivessemos um só fotóforo +estariamos nas condições de um cego, que se +guia com a ponteira da bengala; como, porêm, +temos vários fotóforos, quando olhamos para +os objectos, como que passeamos sôbre êles +esta espécie de retina aparente, como que os +apalpamos, examinando-os atentamente, tal +como sucede quando julgamos do paladar de +uma substância, saboreando-a com +atenção. É +uma concepção interessante, que me parece +permitir muito bem fazer uma idea da influência +que a atenção pode e deve ter na +<span class="pagenum">[76]</span> +apreciação das qualidades dos corpos pela +vista, e entre elas a côr. +<br /> + +<br /> + +O exame da visão das côres na escola pode +permitir explicar insucessos que se dão no +ensino por meio dos mapas e das estampas +nas lições de cousas, e nos lavores, mas, +àparte +êste préstimo, tem tambêm o de por vezes +servir para orientar o aluno na escolha da +profissão. O professor deve sempre preocupar-se +com o futuro do aluno. Ao daltónico são +vedadas certas profissões, principalmente nas +carreiras marítima e militar e na de maquinista, +onde se é obrigado a guiar-se, como +sucede nos caminhos de ferro e nas embarcações, +interpretando sinais de côres diferentes. +Esta questão tem tanta importância que num +excelente manual inglês de higiene escolar se +consagram, no capítulo que trata dos olhos e +da vista, bastantes linhas à questão do exame +da visão das côres nos que deixam a escola, +por terem terminado o seu ensino (<em>the +leavers</em>). +<br /> + +<br /> + +São muitos os processos adoptados no exame +da visão das côres, e pode-se dizer que +não são de mais, visto que muitas vezes +é +necessário sujeitar o indivíduo a +vários exames, +para descobrir-lhes os defeitos ou melhor +para verificar o defeito. Aquele que pretende +ingressar em carreira em que se liga grande +importância à visão das +côres, serve-se de vários +meios ardilosos, tendentes a vencer a barreira +que se lhe põe do exame rigoroso a que +são sujeitos; chegam a estudar os +<em>tests</em>, a +habilitarem-se para o exame médico. Aprendem +<span class="pagenum">[77]</span> +a ser observados, e a enganar. E compreende-se +que possam chegar a fazê-lo, visto +que, como já tive ocasião de dizer nesta +lição, +o daltónico pode distinguir as côres, sem as +vêr, atendendo únicamente à quantidade +e não +à qualidade da côr, e pode apropriadamente +aplicar-lhes os nomes. Na criança é preciso +contar sobretudo com os erros que comete +por ignorância e falta de atenção. Uns +e +outros podem levar a considerar como daltónico, +quem o não seja. Não é bom o processo +de perguntar os nomes das côres à +criança, +para julgar da sua visão. O melhor é mostrar, +sem nomear, um tom de uma certa côr e mandar +escolher entre muitas uma côr e tom +igual. +<br /> + +<br /> + +Os processos mais comummente empregados +são os das lãs de +<span class="smallcaps">Holmgren</span>, os dos +quadros +pseudo-isocromáticos, como os de +<span class="smallcaps">Stilling</span>, +e os das luzes de lanterna, como o de +<span class="smallcaps">Edridge Green</span>, por +exemplo. +<br /> + +<br /> + +Com as lãs, escolhe-se no meio de muitas +meadas, de várias côres e tons, uma de certa +côr e tom, e manda-se procurar uma meada +que lhe seja perfeitamente igual. Pode-se tambêm +escolher, por exemplo, meadas de três +côres diferentes, mostrá-las, +misturá-las depois +com as outras, e mandá-las procurar, ou ainda +mandar separar as meadas por côres, e seriá-las +para cada côr, segundo os tons. Nos quadros +pseudo-isocromáticos há letras ou outros +sinais de côres diferentes sôbre fundos coloridos +por tal fórma que um daltónico não os +possa distinguir. +<span class="pagenum">[78]</span> +<br /> + +<br /> + +Com a lanterna mostra-se, a distâncias diferentes, +luzes cuja côr e tom se faz variar +por meio de vidros apropriados. Etc. +<br /> + +<br /> + +A agudeza da sensibilidade cromática mede-se +por fórma semelhante àquela por que se +mede a agudeza visual própriamente dita. Empregam-se, +para isso, quadros especiais, com +sinais de diferentes côres, e de determinado +tamanho, e escolhidos por maneira a que se +saiba de antemão as distâncias a que +são ordináriamente +vistos por normais. No exame +da agudeza cromática vê-se a que +distância +são vistos pelo examinando e compára-se esta +com aquela a que normalmente elas se vêem. +<br /> + +<br /> + +No exame dos escolares da classe especial +de Antuérpia, a que no decurso desta +lição já +tive ocasião de me referir, +<span class="smallcaps">Ley</span> empregou uma +colecção de meadas de lã, de oito +côres diferentes +e cinco a seis tons por cada côr. Examinou +<em>isoladamente</em> cada um dos escolares +(e +esta precaução é importante porque +evita os +erros por imitação), e para +examiná-los apresentava-lhes +uma meada de lã verde-pálido, e +<em>sem lhes nomear a côr</em>, +mandava-lhes escolher, +entre as meadas, todas as que fossem da +mesma côr, tanto as de tom mais leve, como +as de tom mais carregado. Esta prova era +seguida de uma outra semelhante em que em +vez de uma meada verde-pálido, se lhe dava +uma côr de rosa, muito clara. +<br /> + +<br /> + +No exame sumário que pratiquei em alunos +desta Escola, empreguei, em vez de meadas, +carrinhos de retrós, de quatro côres: vermelho, +verde, azul e amarelo, e para cada uma destas +<span class="pagenum">[79]</span> +côres escolhi dois tons, um muito carregado e +outro muito leve. De cada tom havia dois carrinhos, +e os tons das diferentes côres foram +escolhidos por fórma que a quantidade da côr +fôsse a mesma para os tons correspondentes, +carregados ou leves, de cada uma delas. +<br /> + +<br /> + +O <em>test</em> consistia em agrupar dois a +dois os +carrinhos do mesmo tom e côr. Não foi +só a +falta de material, mas tambêm o desejo de +lhes indicar um processo muito simples e económico, +que me levou a improvisar êste processo, +em que as côres se sujam menos e se +pode fácilmente renovar. Fora de uso, é preciso +conservar as côres ao abrigo da luz. +<br /> + +<br /> + +Nas experiências que fiz na Casa Pia utilizei +um dos <em>jogos educativos</em> do Dr. +<span class="smallcaps">Decroly</span> +e de M.<sup>lle</sup> <span class="smallcaps">Mochamp</span>. +Êste jôgo é formado por +quatro cartões, como os cartões do +lôto, cada +um dêles tendo pintado sôbre papel, que lhe +está colado, uma série de figuras todas do +mesmo tamanho, representando bandeiras de +côres e tons diferentes, cada uma delas de seu +tom e côr. As bandeiras são quatro por +cartão, +tôdas da mesma côr, no mesmo cartão, e +em cada um dêstes dispostas pela ordem de +quantidade de côr, sendo a primeira a mais +carregada e a última a mais leve. Num dos +cartões as bandeiras são de côr azul, +noutro +de côr verde, noutro de côr vermelha e noutro +de côr amarela. Alêm dêstes +cartões há uma +série de cartões pequenos, cada um com sua +bandeira, de sua côr e tom, a que corresponde +uma igual nos cartões grandes. Utilizei êste +jôgo, dando a cada aluno, e de cada vez, um +<span class="pagenum">[80]</span> +cartão grande, sôbre o qual deviam colocar os +cartões pequenos correspondentes. Após o exame +de cada cartão grande, misturavam-se os +cartões pequenos, os cartões já +aplicados e os +que restava aplicar. É um verdadeiro lôto. +<br /> + +<br /> + +Numerando nas costas os cartões pequenos, +pode exprimir-se o êrro, por confusão, indicando-o +por meio de uma expressão semelhante +a um quebrado, em cujo numerador se escreva +abreviadamente a côr e indique o número +do tom do cartão grande, e em cujo +denominador se escreva abreviadamente tambêm +a côr e se indique o número do tom do +cartão pequeno, que erradamente sôbre o primeiro +se colocou. +<br /> + +<br /> + +Alêm desta prova sujeitei tambêm os alunos +da Casa Pia, que examinei, a uma outra, +que consistia no aproveitamento de um outro +lôto de côres da colecção do +Dr. <span class="smallcaps">Decroly</span> e +M.<sup>lle</sup> <span class="smallcaps">Mochamp</span>. +Nesse +lôto há quatro cartões, +em cada um dos quais figuram quatro homens +jogando a bola. Cada um deles figura vestido +de certa côr, e cada uma das bolas com que +está jogando tem a sua côr tambêm, mas +diferente +daquela. Alêm dos quatro cartões grandes, +há uma série de cartões pequenos com +figuras correspondentes à do primeiro. +<br /> + +<br /> + +A criança tem que colocar um pequeno +cartão no lugar do cartão grande, que lhe +corresponder. Como se vê, tem de fazer +simultâneamente +a identificação de duas côres. +É +um verdadeiro <em>test</em> de +atenção. +<br /> + +<br /> + +Estes lôtos ou lôtos semelhantes podem +fabricar-se na própria escola, e constituem +<span class="pagenum">[81]</span> +meios, muito interessantes para a criança, de +lhe testificar a visão das côres e, como se +verá mais para diante, de lhe educar a +atenção +e de a instruir. +<br /> + +<br /> + +Ao médico interessam principalmente as +discromatopsias adquiridas, não só porque +algumas são curáveis, visto serem de natureza +tóxica, mas sobretudo porque são muitas vezes +um sinal importante e precoce de graves +lesões ópticas. +<br /> + +<br /> + +Ao educador, porêm, importam particularmente +as discromatopsias resultantes da falta +de atenção. Tive já ocasião +de vos dizer que +a instrução supre muitas vezes, até +certo ponto, +a cegueira das côres, o que faz com que o +daltónico não só ignore a sua +cegueira, mas +até engane os outros, por distinguir objectos +de côres diferentes e apropriadamente denominar +diferentes côres que aliás não +vê. +<br /> + +<br /> + +Mas é principalmente nos falsos daltónicos, +naqueles que trocam os nomes às côres, por +ignorância, e nos que as não distinguem por +falta de atenção e exercício, que o +educador +tem muito a lucrar, ensinando a denominar +apropriadamente as côres e sobretudo a discriminar-lhes +as nuances. Os exercícios que se +empregam na chamada educação dos sentidos +e que mais própriamente a meu vêr se deve +chamar a educação da +atenção dos sentidos, +porque o que se educa e aperfeiçoa principalmente +não é o sentido em si, mas a maneira +de o aplicar, êsses exercícios têm +tambêm, +áparte a sua acção sôbre a +atenção, esta faculdade +que é a base do que vulgarmente se +<span class="pagenum">[82]</span> +chama inteligência escolar, a faculdade de +aprender, êsses exercícios, repito, têm +tambêm +uma acção notável na +educação do poder discriminativo, +que é o que regula, e torna mais +seguros e exactos, os juízos. Mas mais ainda. +Como as côres têm um poder emocional, umas +excitando e outras deprimindo, o que até em +terapêutica se utiliza, elas podem servir para +a educação do sentimento estético, +preparando +a criança para a emoção pelas obras da +Arte +e pelas da Natureza, o que tudo tem um +grande valor moral. A criança é muito +sensível +a êste poder emocionante das côres e nele +afinal está a razão da +aplicação dos velhos +estimulantes escolares: as condecorações e os +cromos, e do útil aproveitamento no ensino +das estampas coloridas. E a propósito vos +chamarei a atenção para um livrinho muito +interessante, intitulado: <em>O nosso +Portugal</em>, trabalho +do distinto professor da Casa Pia e +meu dedicado amigo e colaborador, o Sr. professor +<span class="smallcaps">Fernando Palyart Pinto Ferreira</span>, +de mais a mais discípulo desta Escola, livrinho +que tive o prazer de prefaciar, e que é, +entre nós, assim o julgo, a primeira +aplicação +consciente dos princípios fundamentais da psicologia +visual infantil. +<br /> + +<br /> + +No <em>Método +Montessóri</em>, de que agora tanto +se fala, e que, vai para um ano, a Câmara +Municipal de Lisboa mandou dois dos seus +mais distintos professores, um discípulo desta +Escola, o Sr. professor <span class="smallcaps">Rosa y +Alberty</span>, da +Casa Pia, e sua esposa a Ex.<sup>ma</sup> Sr.<sup>a</sup> +D. <span class="smallcaps">Pulcena +Estrela da Costa</span>, antiga aluna da +<span class="pagenum"><a name="p83" id="p83">[83]</a></span> +Escola de Ponta Delgada, mandou, dizia, estudar +êsse método com a sua própria autora, +que se encontrava em Barcelona, no <em>Método +Montessóri</em>, a +educação da visão das côres +tem +um lugar importantíssimo. Nêle se faz uma +inteligente aplicação pedagógica do +processo +de diagnóstico de que vos falei, o processo +das lãs de <span class="smallcaps">Holmgren</span>. +Dá-se uma amostra de +lã ou de retrós, de uma certa côr e +tom, e +manda-se a criança procurar uma igual, entre +muitas outras de diversas côres e tons; mostra-se-lhe +duas ou três côres e manda-se depois +a criança ir procurá-las, de cor, de +memória; +ensina-se a criança a nomear as côres e +os tons; a própria professora mostra-lhas, nomeando-as, +dizendo-lhes os nomes por fórma +a atrair a sua atenção, usando de tom e maneiras +que seduzam a criança, e por vezes +finalmente se organiza com as crianças da +escola um jôgo em que cada uma por sua vez +é encarregada de ir fornecendo às outras as +côres e os tons que estas lhe vão pedindo, e +que depois cada uma tem de agrupar e seriar. +<br /> + +<br /> + +Êste <em>Método +<a href="#e2">Montessóri</a></em>, +de que tanto agora +se fala e que vai avassalando os jardins de +infância e as escolas primárias de todo o mundo, +não é bem uma novidade pedagógica, +nem, +como alguns supõem, uma simples moda, uma +fantasia. Nem novidade porque nele se encontra +a aplicação e por vezes a +reprodução, +pura e simples, de métodos de outros, nem +simples e inútil moda ou fantasia, porque +assenta nas mais sólidas bases da psicologia +da criança. +<span class="pagenum">[84]</span> +<br /> + +<br /> + +A Sr.<sup>a</sup> <span class="smallcaps">Montessóri</span> +teve +o condão de com +estranha eloqùência fazer a propaganda do +método de educação dos sentidos de +<span class="smallcaps">Froebel</span> +e principalmente das variantes adoptadas pelos +médicos e professores dos asilos de crianças +anormais. Fez e faz uma inteligente propaganda +da aplicação dos métodos adoptados +na educação dos que sofrem de +insuficiência +mental de origem patológica, àqueles em que +apenas existe a insuficiência fisio-psicológica, +própria da sua idade, aqueles em que por +assim dizer existe um atrazo normal. E a Sr.<sup>a</sup> +<span class="smallcaps">Montessóri</span>, +médica e antropologista como é, +encontrou meios excelentes de fazer essa +aplicação. +É sobretudo o notável aproveitamento +que faz do <em>instinto +dramático</em> da criança, +procurando educá-la pela emoção e por +isso, +ou deixando-a representar, e guiando-a na +representação, ou tornando-a um espectador +interessado, atento e entusiasta, que ouve bem +o que propositadamente diante dêle se faz, e +que depois reproduz por imitação. +<br /> + +<br /> + +Há porêm, na escola Montessóri, e +principalmente +na exposição dos métodos da Sr.<sup>a</sup> +<span class="smallcaps">Montessóri</span>, +misticismo +a mais e froebelianismo +a mais tambêm. E quando digo froebelianismo, +quero referir-me ao êrro pedagógico do +método froebeliano: à confusão da +simplicidade +lógica com a simplicidade pedagógica. +Aos olhos da criança as formas que nós chamamos +simples, as fórmas abstractas, não são +as fórmas mais simples; no concreto e no complexo +está muitas vezes o que parece mais simples +à criança, porque a interessa mais. +<span class="pagenum">[85]</span> +<br /> + +<br /> + +Em português têm as senhoras e os senhores +um livrinho interessante e bom para +fazer uma idea do método Montessóri; é +o +livrinho da Sr.<sup>a</sup> D. <span class="smallcaps">Luiza +Sérgio</span>, intitulado +<em>Método +Montessóri</em>; e se quizerem conhecer, +alêm de uma apologia, uma severa censura e +crítica à Sr.<sup>a</sup> +<span class="smallcaps">Montessóri</span> +e ao chamado +seu +método, leiam um artigo de <span class="smallcaps">Guido +della +Valle</span> no n.º 6 de Janeiro de 1911, da +<em>Rivista +pedagogica</em>, revista italiana. +<br /> + +<br /> + +Nos jogos educativos do Dr. +<span class="smallcaps">Decroly</span> e +de M.<sup>lle</sup> <span class="smallcaps">Mochamp</span>, +a +educação do sentido cromático +tem tambêm um lugar importante. +Alêm dos lôtos de que falei a propósito +do +exame do sentido cromático em rapazes da +Casa Pia, há outros lôtos, e um dominó +curioso, +que muito interessa os pequeninos (já o +tenho experimentado em meus filhos), um jôgo +de dominó constituido por uma série de pequenos +cartões, aproximadamente do tamanho +das pedras do dominó vulgar, cartões a cada +um dos quais estão, num dos lados, colados, +lado a lado, dois papéis, cada um de sua côr. +Joga-se como se joga o dominó. O aspecto, +que a série dos cartões toma no fim do +jôgo, +interessa muito as crianças. E já que de novo +falei nos jogos educativos do Dr. +<span class="smallcaps">Decroly</span> e +de M.<sup>lle</sup> <span class="smallcaps">Mochamp</span>, +dir-vos hei +que cada um de +vós terá muito que lucrar, lendo o pequeno +folheto que acompanha a colecção daqueles +jogos que o Instituto Jean Jacques Rousseau, +de Genebra, costuma vender, folheto intitulado +<em>Jeux educatifs</em>, e onde todos +encontrarão compendiadas +excelentes sugestões, úteis não +só +<span class="pagenum">[86]</span> +para improvisar processos de educação dos +sentidos e de instrução tambêm, mas +até material +de ensino, que, pode-se dizer, qualquer +pode fabricar. Inspirados naqueles jogos se +pode dizer que são os processos e o material +que se empregam na classe de anormais que +no Instituto médico-pedagógico da Casa Pia +de Lisboa, à Travessa das Terras de Santa +Ana (a Santa Isabel), funciona sob a direcção +do professor <span class="smallcaps">Fernando Palyart +Pinto +Ferreira</span> +e de sua esposa a Sr.<sup>a</sup> D. <span class="smallcaps">Lucila +Carmina +Lopes de Santa Clara</span>, distinta professora +oficial, antiga aluna tambêm da Escola +Normal de Lisboa, que com o Sr. professor +<span class="smallcaps">Cruz Filipe</span>, da +classe de +ortofonia, e o Sr. +<span class="smallcaps">Joaquim Almada</span>, da +classe de +dizer, comigo +ali trabalham. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="smallcaps signature">Minhas Senhoras e meus +Senhores<br /> +Meus Alunos</div> + +<br /> + +<br /> + +Agora mais do que nunca é preciso organizar +os serviços de instrução por +fórma que +na educação se vise o aproveitamento de todos, +a valorização de cada um, ao máximo, +aumentando o mais possível o rendimento de +suas faculdades. A guerra pede-nos os mais +fortes e os melhores. Na paz só nos poderemos +salvar, compensando o sacrifício que fizemos, +valorizando ao máximo os que restarem, +os que escaparem, e os novos. Temos infelizmente +<span class="pagenum">[87]</span> +não só que suprir as faltas de todos +os dias, as faltas triviais, mas alêm destas as +formidáveis perdas que por certo resultarão +dêste monstruoso acidente da vida do mundo: +a actual guerra. Por isso há que tratar cada +um dêstes homens embrionários, dêstes +cidadãos +<em>in herbis</em>, que nos confiam, +há que tratá-los +por fórma a bem medirmos o valor das +suas faculdades e préstimos incipientes, e por +meio da sciência, e com tôda a arte, +aproveitar-lhas +e desenvolvê-las e encaminhá-las o +melhor possível. Não. Não podemos nem +devemos +como até aqui limitar-nos a aprender +métodos de ensino, quási na ignorância +e desprendimento +do conhecimento da natureza e +características da criança. +<br /> + +<br /> + +¿Que se diria de um alfaiate que nos quizesse +fazer um fato, sem medida? ¿E sobretudo +que se diria ao ver que o fato que nos +destinava não nos servia, não se ajustava ao +nosso corpo e ou nos tolhia os movimentos +ou nos cobria de ridículo? ¿E com mais +razão, +que se diria do educador, que no desconhecimento +da natureza da criança, a educasse, +deformando-lhe a mente, prejudicando-lhe o +carácter, e obstinando-se em adoptar processos +os menos conformes com o seu temperamento, +os menos convenientes para um inteligente +aproveitamento da sua personalidade, e os +menos conducentes à sua felicidade e afinal à +nossa própria, porque são as crianças +de hoje +quem amanhã nos há-de governar e julgar? +Vós respondereis. +<br /> + +<br /> + +Para vos ensinar a conhecer a criança e +<span class="pagenum">[88]</span> +para vos ensinar a pelo seu conhecimento melhor +aplicar e escolher os métodos que os +vossos professores de pedagogia e de prática +vos ensinam, para isso aqui estou. +<br /> + +<br /> + +Ajudai-me com a vossa atenção e eu vos +ajudarei com a minha experiência, com o meu +modesto saber e com a minha dedicação a +mais sincera. +<br /> + +<br /> + +Está aberto o nosso curso dêste ano.<br /> + +<br /> + +<div class="quote"> +Belêm, 3 de Dezembro de 1916. +</div> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<a name="c7" id="c7"></a> +<h3>SÔBRE UMAS PROVAS DE EXAME +DA ATENÇÃO VOLUNTÁRIA VISUAL<sup><a href="#n10">[10]</a></sup> +</h3> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="smallcaps signature">Minhas Senhoras e Meus +Senhores:</div> + +<br /> + +<br /> + +Havia eu prometido ocupar-me na série de +<em>conferências +pedagógicas</em> organizada na +última +gerência ministerial do senhor professor +<span class="smallcaps">Ferreira +de Simas</span>, havia eu prometido, ocupar-me, +dizia, do ponto: <em>A pedologia prática e a +prática do ensino na escola +primária</em>, e prometera +tambêm que essa minha conferência +serviria êste ano de lição de +encerramento do +curso de Pedologia que tenho tido a honra +<span class="pagenum">[90]</span> +de reger na Escola Normal de Lisboa. Sucede, +porêm, que o meu último trabalho dêste +ano +foi industriar os meus alunos na prática da +medida da atenção voluntária visual, e +sendo +assim pareceu-me poder conciliar o compromisso +tomado com a necessidade de comentar +as observações que, sôbre aquela +fórma de +atenção periférica, fizemos na escola +anexa à +Normal Primária de Lisboa, pareceu-me poder +conciliar o compromisso com a necessidade do +comentário, aproveitando as +observações feitas +para, por uma maneira mais concreta, dizer o +que tencionava dizer sôbre o ponto que escolhera +e a que a princípio pensára dar uma +fórma mais teórica e geral. +<br /> + +<br /> + +O assunto: <em>a atenção e a sua +medida</em> é +um ponto capital de pedologia psíquica aplicada +à educação. +<br /> + +<br /> + +A atenção é a base do que +<span class="smallcaps">Binet</span> chamou +a <em>faculdade escolar</em>, a faculdade de +aprender +na escola, a faculdade de assimilar o ensino +nela ministrado, pelos métodos mais usuais. +Para ser bem sucedido nos estudos são precisas, +diz com razão ainda +<span class="smallcaps">Binet</span>, qualidades +que dependem sobretudo da atenção, da vontade +e do carácter. E «saber manter a +atenção +dos escolares, apropriar o grau de atenção +à dificuldade e à importância do +trabalho a +realizar é quási tôda a arte do +professor», +diz <span class="smallcaps">Van Biervliet</span>. +Portanto, +debaixo do ponto +de vista da importância, creio ter escolhido +um ponto excelente. E quanto ao que queria +principalmente demonstrar na minha conferência: +a possibilidade de praticar estudos pedológicos, +<span class="pagenum">[91]</span> +sem perturbação nem prejuízo das +funções e obrigações +didácticas, nenhum melhor +assunto serviria para defender esta tese +do que êste: a atenção e a sua medida. +Alunos +meus tiveram ocasião de ver que, em alguns +minutos, se poderia sem perturbar a +classe, nem alterar o ensino, fazer importantes +experiências que entre outras coisas podem +ser aproveitadas para conhecer os alunos +debaixo do ponto de vista da atenção, descobrir +anormais, medir a fadiga, julgar horários, +programas, métodos de ensino, e até ensinar +a estar atento. +<br /> + +<br /> + +Tem sido sempre minha principal preocupação +o professar pedologia que possa directamente +aproveitar ao ensino primário, não +aconselhando senão processos de +observação +e experiência, fáceis, compatíveis com +a preparação +dos alunos da Escola Normal Primária, +e que não distraíam os mestres das +obrigações +didácticas, e antes pelo contrário contribuam +para que melhor as cumpram, fazendo +sempre lembrar-lhes que, mais do que ministrar +noções, lhes compete preparar o +espírito +dos alunos para as receber, e para isso é +indispensável +saber conhecer os alunos, saber o +que são, conhecer a personalidade de cada +um, e saber-lhes aproveitar o feitio. Esta tem +sido de facto a preocupação principal e a +orientação com que tenho preparado as minhas +lições e elas claramente se notam nas +três lições que já +publiquei:—<em>O ensino da +pedologia, na Escola Normal Primária</em>, +<em>O +pêso do corpo da criança</em>, e +<em>A agudeza visual</em> +<span class="pagenum">[92]</span> +<em>e a auditiva, debaixo do ponto de vista +pedagógico</em>. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="smallcaps signature">Minhas Senhoras e meus +Senhores:</div> + +<br /> + +<br /> + +No ensino ordinário da escola primária +utiliza-se e treina-se muito a atenção +voluntária +visual verbal, isto é, utiliza-se e exige-se +um estado de espírito em que o aluno +voluntáriamente +toma a atitude que mais convêm +para receber as estimulações visuais determinadas +pelas palavras escritas. Não será a +fórma de atenção mais útil +para a vida, porque +no mundo ambiente, como diz <span class="smallcaps">Van +Biervliet</span>, +a atenção não tem que dirigir-se, +orientar-se, +concentrar-se sôbre as fórmas verbais +das cousas, sôbre a descrição dos +factos, sôbre +os resumos dos acontecimentos, mas sim sôbre +as próprias cousas, sôbre os próprios +factos, +sôbre os próprios acontecimentos; não +será +portanto a fórma mais útil para a vida, mas +é uma das mais úteis para o sucesso na escola. +Alêm disso, por meio da sua medida, se +podem resolver vários problemas escolares, +principalmente porque por meio dela se pode +medir a fadiga escolar. Aqui têm, pois, V. +Ex.<sup>as</sup> mais uma razão, e afinal a +principal, da +escolha que fiz do tema da minha lição de +encerramento, que vai versar: <em>sôbre umas +provas de exame da atenção voluntária +visual,</em> +<span class="pagenum">[93]</span> +<em>colhidas em alunos da, escola anexa, à +Normal Primária de Lisboa</em>. +<br /> + +<br /> + +Mediu-se a atenção pelo método da +<em>correcção +de provas</em> (método de +<span class="smallcaps">Bourdon</span>), utilizando +umas vezes o <em>test</em> de +<span class="smallcaps">Toulouse</span> e +<span class="smallcaps">Vaschide</span>, +uma fôlha impressa com 1.600 sinais, figurando +cada um deles um pequeno quadrado +com um traço do mesmo tamanho, dirigido +para fora, e orientado segundo 8 direcções, o +que dá lugar a 8 sinais diferentes, fôlha que +obtivemos mandando reproduzir a que acompanha +o vol. II da <em>Técnica de psicologia +experimental</em> +de <span class="smallcaps">Toulouse</span> e +<span class="smallcaps">Piéron</span> +(edição de +1911), outras vezes utilizando trechos do livro +de leitura habitual dos alunos da 4.ª classe +da escola anexa, mandando nele riscar determinadas +letras, uma ou duas, num tempo determinado +(cinco minutos em regra) ou riscá-las, +cortando-as numa certa porção de trecho, +em que de antemão tinhamos verificado qual +o número de letras escolhidas que nela havia, +número que a criança, riscando as letras, deveria +verificar, recomeçando o trabalho tantas +vezes quantas fôssem precisas para alcançar o +número de letras que no trecho existiam e +que nós lhe haviamos préviamente indicado +(processo de <span class="smallcaps">Van Biervliet</span>). +Mediamos assim +a atenção pela correcção ou +pela velocidade +ou pela correcção e velocidade com que as +crianças suprimiam sinais do +<em>test</em> de +<span class="smallcaps">Toulouse</span> +e <span class="smallcaps">Vaschide</span> ou letras +dum trecho do +seu livro +de leitura. +<br /> + +<br /> + +O método que empregámos é aquele que +permitiu a <span class="smallcaps">Binet</span> +verificar, numa +escola primária +<span class="pagenum">[94]</span> +de Paris, a coincidência da +classificação +dos alunos, debaixo do ponto de vista da +atenção, feita por meio dos +<em>tests</em> colhidos em +alguns minutos de experiência, com a +classificação +dos mesmos alunos feita pelas notas do +professor, notas resultantes duma apreciação +longa e demorada. E a propósito vale a pena +lembrar que, citando estes factos, +<span class="smallcaps">Binet</span> acentuou +que o êxito escolar resulta mais da +atenção +do que da inteligência, que o aluno mais +atento pode não ser o mais inteligente e que +por isso não é de estranhar que as +crianças, +que os <em>tests</em> levam a considerar como +inteligentes, +não sejam sempre as mais adiantadas, +as que mais aproveitam, as que dão melhores +<em>tests</em> da +atenção. +<br /> + +<br /> + +O mesmo método de medida da atenção +que pratiquei e fiz praticar aos meus alunos +é um dos que permitiu a +<span class="smallcaps">Ley</span> demonstrar que +os movimentos respiratórios lentos e amplos, +dilatando vagarosamente e largamente o torax, +com as espáduas bem aproximadas, sem +elevação +dos braços nem elevação do corpo +sôbre +as pontas dos pés, são um excitante da +atenção +voluntária, e foi êle que com o método +dos <em>tempos de +reacção</em> tambêm +permitiu a <span class="smallcaps">Ley</span> +verificar que um repouso de quatro minutos, +sem execução dêsses +exercícios respiratórios, +actua muito menos benéficamente sôbre a +atenção +do que quando durante o mesmo tempo +se executam movimentos respiratórios pela +fórma que acima precisei. +<br /> + +<br /> + +Foi tambêm empregando êste método da +<em>correcção de +provas</em> que eu obtive +<em>tests</em> da +<span class="pagenum">[95]</span> +atenção em alunos da escola primária +oficial +de Belêm, sem classe de trabalhos manuais, e +em alunos do mesmo grau escolar, da Casa +Pia, com bastante prática de trabalhos manuais, +<em>tests</em> que me permitiram sustentar e +demonstrar no meu discurso: <em>Da influência +dos trabalhos manuais no desenvolvimento do +espírito</em>, que os trabalhos manuais treinam +a +atenção, melhoram a +atenção. +<br /> + +<br /> + +As primeiras experiências que fizemos na +escola anexa foram praticadas utilizando o +<em>test</em> de +<span class="smallcaps">Toulouse</span> e +<span class="smallcaps">Vaschide</span>. +<br /> + +<br /> + +A medida da atenção por meio da +supressão +de letras ou sinais equivalentes funda-se +no facto de numa série de percepções +análogas, +monótonas, tenderem essas percepções a +alterar-se, a enfraquecer, a apagar-se, sendo +necessário para evitar essa alteração +e fazer +com que as percepções continuem a efectuar-se +correctamente, que a atenção +voluntária intervenha, +procurando assim fazer manter a intensidade +inicial dos fenómenos sensoriais. Se +a atenção voluntária tende a +enfraquecer, a +baixar, as percepções deixam de se efectuar +uma ou outra vez, ou efectuam-se incorrectamente, +e nós podemos medir essa baixa, o +gráu de atenção, examinando os erros e +a variação +da velocidade do exame, durante um +certo lapso de tempo, em que o examinando +colhe uma série de percepções da mesma +espécie +e gráu (percepções +monótonas). +<br /> + +<br /> + +Mandando riscar as letras num trecho em +língua conhecida, o exame pode ser perturbado +pela influência da leitura do texto, pela +<span class="pagenum">[96]</span> +compreensão do texto, pelo sentido das palavras, +sendo muito difícil, se não +impossível, a +quem não está habituado a abstrair, fazer +com que só se procurem letras e não se leiam +as palavras. +<br /> + +<br /> + +Tem-se procurado evitar êste inconveniente +ou dando trechos em língua estranha ou empregando +<em>tests</em> como o de +<span class="smallcaps">Henrotin</span> +(<em>Contribution +à l'étude de l'atention visuelle chez les +enfants</em>, in <em>Rév. de +Pédotechnie</em>, n.<sup>os</sup> 2 e 3, +1914), em que a prova é constitùida por uma +fôlha com 832 letras, repartidas em 26 linhas +de 82 caracteres de imprensa bem separados +e muito nítidos, de maneira a evitar confusões, +letras que, como por exemplo o <em>a</em>, o +<em>e</em> e +o <em>u</em>, se encontram repartidas duma +maneira +irregular e por fórma tal que nada há que +possa indicar ao examinando nem o lugar, +nem o número das letras cuja supressão ou +indicação se pede. Sucede, porêm, que +nem +tôdas as letras do alfabeto são igualmente +visíveis, nem tôdas chamam igualmente a +atenção, +como o faz notar <span class="smallcaps">Van Biervliet</span>; +umas, +como êle diz, o <em>x</em> por +exemplo, atraem pela +sua raridade, outras como o <em>f</em> e o +<em>b</em>, letras ao +alto, extensas, chamam mais a atenção do que +as letras baixas <em>e</em> e +<em>r</em>, por exemplo. Entre +estas, umas há bastante largas como o +<em>m</em>, que +nos impressionam mais, outras mais altas do +que largas, outras tão largas como altas, etc. +Para evitar estas diferenças que podem perturbar +o exame, a medida da atenção, é que +<span class="smallcaps">Toulouse</span> e +<span class="smallcaps">Vaschide</span> propuzeram a +sua prova, +uma prova de sinais igualmente interessantes, +<span class="pagenum">[97]</span> +que podem servir mesmo para os que +não sabem ler; tem alêm disso a vantagem +de evitar a influência do hábito da leitura e +revisão de provas. +<br /> + +<br /> + +O emprêgo da prova de +<span class="smallcaps">Toulouse</span> e +<span class="smallcaps">Vaschide</span> +na escola anexa revelou-nos factos interessantes +para que chamo a vossa atenção. +Em primeiro lugar:—examinando a atitude +dos alunos da 4.ª classe durante o tempo em +que riscavam sinais, alguns vimos que pelo +cuidado com que examinavam pareciam prestar +grande atenção, mas cujas provas vinham +cheias de erros. Sucede isso muitas vezes. São +criaturas apáticas, cuja lentidão habitual os +faz confundir com aqueles que, não sendo +apáticos, se imobilizam, ou tornam lentos, pelo +esfôrço da atenção. Os +primeiros não são atentos, +assemelham-se aos atentos. +<br /> + +<br /> + +Pode suceder tambêm que apareçam alunos +que não compreendam a prova, que cortem a +êsmo, que cometam muitos erros, riscando sinais +e letras ao acaso. Sucede isso com atardados +profundos, e essa prova serve-me muitas +vezes no <em>Instituto Pedagógico da Casa +Pia</em>, como meio de reconhecer o gráu de +anormalidade +dos anormais que ali vão. +<br /> + +<br /> + +Anormal que não compreende o +<em>test</em>, é +anormal médico, é anormal profundo, é, +em +regra, o idiota. Para mim êste sinal vale como +o de <span class="smallcaps">Demoor</span>. +<br /> + +<br /> + +Outro facto curioso que observámos é o +de na primeira experiência termos chegado +pelos <em>tests</em> a considerar como +atentos alunos +que a Sr.<sup>a</sup> professora da escola anexa indicava +<span class="pagenum">[98]</span> +como desatentos e grandes desatentos. +Um facto semelhante sucedeu a +<span class="smallcaps">Binet</span>, que, +com grande surpresa, verificou uma vez, examinando +alunos de uma classe de anormais +pedagógicos, que êsses anormais afinal riscavam +tantas letras como os normais. O facto +resultava das condições em que primeiro +experimentára: +os alunos tinham sido observados +isoladamente e na sua presença. A +acção da +presença do observador foi uma verdadeira +acção estimulante. Postos os alunos à +vontade, +trabalhando sem estar sujeitos a vigilância, +diferenças, e grandes, logo se mostraram. +<br /> + +<br /> + +O resultado das discordâncias que observámos +no nosso primeiro exame deve provir, +em primeiro lugar, da acção da curiosidade +despertada por aquele exercício completamente +novo; em segundo lugar da minha presença e +do ar solene que a prova tomou; em terceiro +lugar talvez de nesta altura do ano se encontrarem +mais fatigados os bons alunos, os alunos +aplicados, que mais trabalharam, do que +os desatentos habituais, preguiçosos, menos +aplicados, que menos se esforçaram. +<br /> + +<br /> + +A lição a tirar é de que +não devemos procurar +formar um juízo sôbre a +atenção por +um só exame por meio de +<em>tests</em>. É +necessário +repetir e sempre ter o aluno à vontade, sem +estar sujeito a uma vigilância severa, nem às +nossas estimulações por +acção intimidante ou +reconfortante, como diz <span class="smallcaps">Binet</span>. +<br /> + +<br /> + +Em regra, fizemos cortar um só sinal. Há +vantagem, quando se quer acentuar as diferenças +individuais, em empregar dois. +<span class="smallcaps">Toulouse</span> +<span class="pagenum">[99]</span> +e <span class="smallcaps">Piéron</span>, +na sua +<em>Técnica</em>, dizem obter-se +por esta fórma, em condições normais, +um +óptimo de diferença individual. Outro facto +importante e interessante que observámos, no +dia da primeira experiência, foi o de, ao +contrário +do que era de esperar, ver que as provas +da tarde foram, em geral, superiores em +velocidade e correcção às provas da +manhã. +Nos mesmos cinco minutos, os alunos, na sua +maioria, percorreram uma maior extensão de +<em>test</em>, e cometeram menos erros. Ora +era de +esperar que, depois de quatro horas de trabalho, +a atenção tivesse baixado, em virtude de +fadiga, que era natural que houvesse. Êste +paradoxo resulta em primeiro lugar da surprêsa, +da emoção que deve ter causado a +experiência +da manhã. Os alunos nunca tinham +sido sujeitos a ela; nunca tinham visto o +<em>test</em>. +Deviam estar em estado emocional semelhante +àquele em que nos coloca um exame, de que +nos arreceamos. Á tarde estavam mais calmos, +e de mais a mais vim a saber que se lhes +tinha explicado o fim da experiência e se os +tinha animado. Alêm disso, nestes exames, o +aluno treina-se, aperfeiçoa-se, aprende a fazer +o <em>test</em>. +<br /> + +<br /> + +E esta influência do treino deve entrar em +linha de conta na interpretação dos resultados +das experiências. Para anular a influência do +exercício, aconselha-se a prática do +<em>método +das repetições</em>, que consiste em +«fazer um +grande número de experiências preliminares +até que o exercício tenha produzido todo o +seu efeito», até que o examinando tenha adquirido +<span class="pagenum">[100]</span> +todo o treino. Podem tomar um conhecimento +suficiente dêste método lendo o que +sôbre êle diz +<span class="smallcaps">Claparède</span> +no livro +<em>Psychologie +de l'enfant</em>, que conjuntamente com o livro +de <span class="smallcaps">Binet</span>, <em>Les +idées modernes sur les enfants</em>, +não me canso de aconselhar, e a que por mais +de uma vez tenho com razão chamado +<em>breviários +do educador</em>. +<br /> + +<br /> + +Para terminar o que desejava dizer sôbre +as nossas primeiras experiências, apontarei o +facto curioso de termos observado duas alunas +da 4.ª classe da escola anexa, que percorreram +o <em>test</em>, não deslocando o +olhar horizontalmente, +seguindo as linhas, mas sim verticalmente, +seguindo as colunas. A propósito lembra-me +dizer-lhes que há quem tenha recomendado, +como convindo mais à leitura, o +dispor as palavras em linhas verticais e não +em horizontais, como fazem os japoneses, por +exemplo. Com o esfôrço e o movimento dos +olhos que se executam percorrendo uma palavra +horizontalmente, pode-se, com a disposição +em linhas verticais, atravessar umas poucas +de palavras e abreviar a leitura. +<br /> + +<br /> + +O facto que se deu mostra que antes de +iniciar a experiência com a prova de +<span class="smallcaps">Toulouse</span> +e <span class="smallcaps">Vaschide</span> se deve +explicar a +maneira +de proceder. +<br /> + +<br /> + +Habitualmente costumo destinar cinco minutos +para a experiência e contar no fim o +número total de sinais existentes no trecho +do <em>test</em> que cada um observou, +contando depois +o número de erros, conjuntamente os +erros de omissão ou falta de supressão, e os +<span class="pagenum">[101]</span> +de troca de sinal, ou erros de reconhecimento. +<br /> + +<br /> + +O número total de sinais existentes no +trecho <em>visto em cinco minutos</em> +indica-nos, para +cada um, a velocidade; a percentagem dos +erros indica-nos o grau de correcção. +<br /> + +<br /> + +Como os futuros professores, na sua escola, +não vão ter naturalmente à sua +disposição +fôlhas com os sinais de +<span class="smallcaps">Toulouse</span> e +<span class="smallcaps">Vaschide</span>, +fiz praticar alguns exames da atenção, +pelo método de correcção de provas, +utilizando +trechos do próprio livro de leitura dos alunos, +fazendo-os cortar duas letras igualmente visíveis, +e atraindo igualmente a atenção, +<em>b</em> e +<em>d</em>, +<em>b</em> e +<em>t</em> por exemplo, mudando de letras de +experiência +para experiência, para evitar a influência +do treino. Fazia tambêm com que +todos os alunos cortassem letras no mesmo +tempo (cinco minutos, em regra, como já disse) +e no fim recolhia os livros de leitura para +tomar nota do número total de letras escolhidas +existentes no trecho examinado em cinco +minutos, e estabelecia a proporção por cento +das faltas que tivessem cometido. +<br /> + +<br /> + +Dos processos que praticámos aquele que +particularmente aconselharei é o de <span class="smallcaps">Van +Biervliet</span>, +que já descrevi, e em que se mede a +atenção visual pela velocidade da +correcção +de provas, indicando para isso ao aluno um +trecho com um determinado número de uma +ou duas letras escolhidas (todos os +<em>b</em> e +<em>d</em> por +exemplo) e fazendo-o verificar êsse número, +devendo recomeçar tantas vezes o trabalho +quantas as necessárias para encontrar o número +<span class="pagenum">[102]</span> +indicado. A velocidade é expressa pelo +tempo de duração da prova, para cada um. +Êste <em>test</em> +obtêm-se em regra em dois ou três +minutos, e os meus alunos que assistiram às +experiências viram como êle com facilidade +permite comparar a atenção visual dos alunos +de uma classe, e agrupá-los debaixo do ponto +de vista da atenção. As experiências em +que +praticámos êste processo mostram-nos bem a +influência que a fadiga tem sôbre a +atenção. +Comparando os resultados obtidos nas experiências +da manhã, antes de começarem as +aulas, com os obtidos à tarde, ao fim delas, +verificou-se com facilidade que o número de +alunos do primeiro grupo, o dos que realizaram +a prova com mais rapidez, diminuiu: e +mais se viu que, naqueles que na segunda +vez ainda figuravam entre os primeiros, a velocidade +era menor à tarde do que de manhã; +a prova durava mais. O processo que <span class="smallcaps">Van +Biervliet</span> recomenda, e que é aquele de +que +estou falando, tem o inconveniente de exigir +para uma fácil verificação da +duração da prova, +e evitar que nos enganem, exigir, dizia, o +exame dos alunos por pequenos grupos, de +quatro a cinco. Para tirar conclusões é, como +em todos os de que falei, necessário repetir +as experiências. Como questão capital, mais +uma vez direi que estas experiências psicométricas +que se aconselham aos professores, não +têm em vista, como muitos supõem, distraindo-os +das suas funções de professores, pô-los +na situação de investigadores ao +serviço da +sciência, a perscrutar leis, ou descobrir novos +<span class="pagenum">[103]</span> +factos, ou verificar observações daqueles que +com uma preparação, profunda e especial, se +consagram a estudos pedológicos. O professor +deve fazer a pedologia necessária para praticar +o ensino que lhe pertence e praticá-lo nas +melhores condições, e no maior acôrdo +possível +com o feitio do seu educando, e com as +regras pedagógicas induzidas pelos pedologistas +de profissão, por aqueles que especialmente +se preparam para investigações +scientíficas +na criança, tendo em vista as suas +aplicações +pedagógicas. +<br /> + +<br /> + +Os processos de medida da atenção visual +de que falei podem ser praticados pelo professor, +sem que lhe tomem muito tempo, e +podem servir-lhe, desde que se não esqueça +de certas precauções, tendo em vista evitar a +influência de factores que perturbam os resultados +ou a interpretação dos resultados destas +experiências fáceis, mas não simples, +podem +servir-lhe, dizia, para orientar convenientemente +o seu ensino, e verificar, como por +exemplo <span class="smallcaps">Van Biervliet</span> +diz a +propósito da +medida da fadiga escolar, verificar o valor, o +interêsse da sua própria maneira de ensinar. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="sbreak"> +<hr /></div> + +<br /> + +<br /> + +Os <em>tests</em> não servem +só para julgar, por +exemplo no nosso caso, do valor da atenção e +do gráu da fadiga; servem tambêm como +meios excelentes para educar, para treinar a +<span class="pagenum">[104]</span> +própria atenção do aluno. Demais +êles têm +para o aluno o caracter, que mais lhes prende +e chama a atenção, de verdadeiros jogos, e +como tal podem ser aproveitados. Com o fim +de treinar a atenção podereis, sem inconveniente +nem perturbação do ensino, mandar de +vez em quando, durante alguns minutos, mesmo +no decurso da própria lição, mandar +cortar +certas letras, uma, duas, três, etc, e estimular +os alunos para ver quem mais correctamente +e rápidamente as corta. Ensinareis +assim os vossos alunos a orientar a sua atenção, +e a fixá-la. É uma verdadeira +lição de +vontade. E o exame dos <em>tests</em> e a sua +apreciação +contribuem tambêm muito para a educação +do professor; experimenta-lhe e disciplina-lhe +a sua própria atenção e +paciência e +dá-lhe, pelas conclusões a que leva, ensinamentos +muito úteis à pratica do ensino. Cria-lhes, +alêm disso, um utilíssimo hábito +scientífico: +o hábito de experimentar. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="sbreak"> +<hr /></div> + +<br /> + +<br /> + +É das Universidades e dos seus cursos de +psicologia e de pedologia, dos seus laboratórios +especiais, e da sciência livre e desinteressada +e pura que muitas vezes nelas exclusivamente +se professa, que têm saído os ensinamentos +que transformam dia a dia a arte de +ensinar e revolucionam a sciência pedagógica. +<br /> + +<br /> + +Se não se quere ir até fazer com que a +<span class="pagenum">[105]</span> +preparação do professor primário se +faça na +própria Universidade, como nalgumas partes +sucede, é indispensável aproximar o mais +possível +a <em>escola dos mestres</em> da +Universidade, +para que ela sofra a benéfica influência desta +<em>alma mater</em>, onde se deve professar +com todo +o desenvolvimento a sciência da criança, a +antropologia da criança, a pedologia, a base +da pedagogia nova, da pedagogia scientífica, +da pedagogia natural, da pedagogia moderna, +da verdadeira pedagogia. +<br /> + +<br /> + +Que ao menos, como Credaro fez em Itália, +se crie junto às Universidades <em>escolas +pedagógicas</em>, +cursos de aperfeiçoamento para os futuros +professores, e mesmo para os actuais. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="smallcaps signature">Senhores:</div> + +<br /> + +<br /> + +Na Universidade é que se deve apurar no +maior gráu possível o espírito +scientífico, o +espírito de investigação e de +crítica tolerante, +o bom senso, aquele que permite descobrir a +realidade e as possibilidades. E em nenhuma +arte, mais do que na do mestre-escola, é +necessário +êsse bom-senso, o excelente hábito de +observar e experimentar, que leva ao tacto e +à paciência, indispensáveis para +proveitosamente +se lidar com crianças e saber conhecê-las +para saber ensiná-las. +<br /> + +<br /> + +A aproximação do mestre primário da +Universidade +<span class="pagenum">[106]</span> +tem ainda outras vantagens. O espírito +da Universidade deve ser o verdadeiro +espírito democrático; difundir a cultura por +todos, criar uma atmosfera em que se encontrem +misturadas tôdas as ideas, todos os sentimentos +que irradiam de todos os ramos da +cultura e que contribuem, como diz +<span class="smallcaps">Lanson</span>, +«para abrir no espírito dos novos, antes da +hora da especialização inevitável, o +espectáculo +total da sciência, a fim de fazer com que +cada um seja mais do que um simples artífice +intelectual, para que todos compreendam a +dignidade da tarefa que a cada um pertence, +sabendo que laços a prendem ao todo.» +<br /> + +<br /> + +Á Universidade compete (e é nela que é +mais fácil isso fazer-se), compete formar a +própria nacionalidade e a própria democracia. +Juntando-se todos dentro dela e sofrendo-lhe +a influência, poderá mais fácilmente +fazer-se, +do que nas escolas especiais se faz, fazer-se, +dizia, com que desapareçam os preconceitos +de origem, de classe e de profissão. «De certo, +como diz o Dr. <span class="smallcaps">Bernardino Machado</span>, +na sua +célebre oração de sapiência, +<em>A Universidade e +a nação</em>, de certo que entre os +diversos ramos +da actividade humana há classificação, +mas +reversível, à semelhança do que +acontece com +a própria árvore natural, onde até os +ramos +se podem transmudar em raízes e as raízes +em ramos. O que não há é +subordinação deprimente, +do maior para o menor; como a não +há, de um para outro ramo, entre os profissionais +que os cultivam. São todos homólogos, +todos irmãos». Êste espírito +de fraternidade +<span class="pagenum">[107]</span> +ninguem melhor o pode incutir do que +o ensino universitário. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +Meus senhores e particularmente meus alunos: +não sofram da ilusão do diploma, a mais +perigosa de tôdas as ilusões das escolas da +nossa terra. Não imaginem que o número de +valores com que no fim do seu curso a Escola +Normal os brinda, e lhes premeia o seu esfôrço, +significa que são professores, aptos e prontos, +cujo <em>valor profissional</em>, +profissional repito, +se pode medir exclusivamente, ou principalmente, +olhando para um papel e para uma +cifra. +<br /> + +<br /> + +Um diploma distinto de uma das nossas +escolas normais significa apenas que o aluno +estudou e se apresentou distintamente na +freqùência +das disciplinas dessas escolas. As nossas +escolas normais são, como me parece que +disse <span class="smallcaps">Guex</span>, o +autorizado professor +suiço, simples +escolas primárias superiores com a cadeira +de pedagogia. Nos valores da carta do normalista +não influi ainda o curso de pedologia, +nem a pedagogia tem um maior coeficiente do +que o das disciplinas de cultura geral. Está-me +a lembrar o que há dois anos me sucedeu +com um candidato a professor da Casa Pia, +que calorosamente defendia a sua pretensão, +insistindo em que devia ser preferido só porque +tinha 20 valores; muito simplesmente lhe +retorqui:—<em>Imagine o senhor que não tem +paciência, +nem calma. ¿Dizem os seus valores +alguma cousa sôbre isso? ¿Quem o +quererá +para professor de seus filhos, se não +tiver</em> +<span class="pagenum">[108]</span> +<em>aquelas qualidades? Professe, ensine primeiro; +depois se verá se é professor</em>. +E, a propósito +ainda, me lembro de uma outra anedota +que uma vez ouvi contar, na aula de obstetrícia +da Universidade de Coimbra, ao querido +e sábio professor Dr. <span class="smallcaps">Daniel +de +Matos</span>. Contava +êle que um parteiro notável com quem +uma vez conversára, falando-lhe dum grande +êrro profissional cometido por um médico, +começou assim a sua narrativa:—<em>Un jour, +un collégue, pardon, un +médecin</em>...» Há na +realidade muitas vezes uma grande distância +entre um diplomado distinto e um distinto +profissional. +<br /> + +<br /> + +O professor primário precisa de ter uma +sólida cultura geral, e conhecer bem os métodos +de ensinar, e o ser que tem a ensinar, +mas não menos do que da erudição, deve +tratar +da sua educação scientífica, do +hábito de +investigação, adestrar a paciência, +apurar o +bom senso, e criar e fortalecer e desenvolver +a fé e o entusiásmo pela sua +profissão. +<br /> + +<br /> + +Aproximá-lo da Universidade e nela pô-lo +em contacto com aqueles que mais provávelmente +subirão e alcançarão os mais elevados +lugares, os de dirigentes da sociedade, é contribuir +não só para lhe ampliar a cultura e +para lhe desenvolver o espírito scientífico, +mas tambêm para o dignificar, e fazer estimar +mais a sua profissão, a sua nobilíssima e +importantíssima +missão de educador primário, +primário em todos os sentidos da palavra. +<br /> + +<br /> + +Bem haja quem organizou esta série de +conferências, de que a minha é êste ano +a última +<span class="pagenum">[109]</span> +em número e em mérito e bem haja a +nobre Universidade de Lisboa por não ter duvidado +abrir as suas salas aos professores primários +e permitir-lhes até que das suas cátedras +falassem. +<br /> + +<br /> + +<em>Escolas, escolas, construí +escolas</em>, se grita +à maneira de Sarmiento, na crença de que elas +por si transformarão e melhorarão a sociedade. +<br /> + +<br /> + +<em>Professores, professores, bons +professores</em>, +exclamarei eu, <em>porque êles são +indispensáveis +para fazer as boas escolas</em>. E antes talvez de +melhorar os processos da sua formação, talvez +que antes disso seja preferível fazer o que estamos +aqui a fazer: dignificar a profissão, fomentar +a consideração por ela, atrair os mais +aptos e criar o entusiásmo e a fé, que nesta +modesta mas fundamental profissão ou, melhor, +sacerdócio do professor primário, mais do que +em nenhuma são precisos. +<br /> + +<br /> + +Proteger o professor, honrar o professor, e +fazer com que êle seja o que deve ser e saiba +honrar a sua profissão é contribuir para a +valorização +da nossa terra. Êles tudo têm em suas +mãos, porque, como já uma vez eu mesmo +disse, nelas têm a Patria e os seus soldados. +<br /> + +<br /> + +A vitalidade de uma nação pode julgar-se +pela maneira por que ela prepara e considera +e paga os seus professores. +<br /> + +<br /> + +¡Senhoras e senhores! ¡Honrai o professor! +<br /> + +<br /> + +Disse. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<a name="c8" id="c8"></a> +<h3>DA INTELIGÊNCIA DO ESCOLAR +E DA SUA AVALIAÇÃO<sup><a href="#n11">[11]</a></sup></h3> + +<br /> + +<br /> + +<div class="intro1"> +«<em>Vuota di sentimento e di azione +l'intelligenza è una forma +inconcepibile.</em>» +<br /> + +<br /> + +<div class="signature">Prof. <span class="smallcaps">Saffiotti</span>. +</div> + +</div> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +Á semelhança do que têm feito outros +paises +em que a politica da Educação é +politica +dominante e onde, portanto, a arte de governar +os homens se prende íntimamente e depende +intencionalmente da de governar as crianças, +à semelhança de algum dêstes +países onde +a felicidade da Nação se trabalha e +fórma +principalmente na escola, abriu-se êste ano entre +nós um curso de aperfeiçoamento para professores +primários, em que eu tenho a honra +de inaugurar o curso de Psicologia experimental. +Em bôa hora o seja. +<br /> + +<br /> + +Longe de me poder considerar à altura dos +<span class="pagenum">[112]</span> +Mestres, a quem lá fóra se tem confiado +êsse +ensino de aperfeiçoamento, extensivo até aos +professores de escolas normais e aos inspectores +primários, esforçar-me hei no entanto por +me pôr ao par deles no desejo de, segundo os +seus ensinamentos, fazer com que as senhoras +e os senhores adquiram o mais rápidamente +possível noções e hábitos +que se possam traduzir +num imediato melhoramento do ensino +pelo melhoramento dos mestres. Não pretendo +tanto aumentar-lhes a cultura, como sobretudo +aperfeiçoar a arte de aproveitar a cultura e +as aptidões que já têm, em grande parte +até, +graças à sua experiência profissional. +<br /> + +<br /> + +Não farei o que costumo fazer no meu curso +regular, agora de dois anos completos e +onde insistentemente, minuciosamente, eu principalmente +procuro: 1.º <em>Arreigar a +convicção +de que os fenómenos psíquicos são +fenómenos +de reação nervosa, susceptíveis de +serem estudados +por métodos objectivos, e portanto de +que a Psicologia é uma sciência +biológica, +uma sciência do quadro das sciências +naturais</em>; +2.º <em>de que a educabilidade é uma +propriedade +do sistema nervoso</em>; 3.º <em>de que +essa, +propriedade se pode estudar e cultivar segundo +as normas habituais das experiências +scientíficas</em>; +4.º <em>de que a avaliação da +educabilidade +é o problêma, psicológico fundamental +do professor</em>. +<br /> + +<br /> + +Quási saltarei sôbre os três primeiros +números +do meu programa habitual e caírei sôbre +o quarto, e estudarei, em sua companhia, +aquilo para que os julgo mais habilitados e +<span class="pagenum">[113]</span> +que mais rápidamente se poderá traduzir num +melhoramento pedagógico, de origem puramente +psicológica: <em>A inteligência do +escolar e +a sua avaliação</em>; tanto mais que +para êsse +estudo se encontram prontos a serem utilizados +pelos mestres dois pequenos volumes ao +alcance de todos: <em>La medida del desarollo de +la intelligencia en los niños</em> de +<span class="smallcaps">Binet</span> e +<span class="smallcaps">Simon</span>, +tradução espanhola do professor do Instituto +nacional de surdos mudos, cégos e anormais, +de Madrid, sr. <span class="smallcaps">Orellana</span>, +publicado +em 1918, e a +<em>Contribuição para o +estabelecimento de uma +escala de pontos dos níveis mentais das crianças +portuguêsas</em>, publicada por dois ilustres +compatriotas nossos, a quem a bibliografia pedagógica +moderna portuguêsa já bastante +deve: o sr. <span class="smallcaps">Antonio Sergio</span> +e sua +esposa a Sr.<sup>a</sup> +D. <span class="smallcaps">Luiza Sergio</span>, +contribuição publicada em +volume, em junho de 1919. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="sbreak"> +<hr /></div> + +<br /> + +<br /> + +Num curso de psicologia objectiva, os fenómenos +psíquicos são considerados como +<em>reflexos +cerebrais</em>, como lhe chama +<span class="smallcaps">Bechterew</span>, +reacções exteriores que dependem da +experiência +de cada indivíduo, durante a sua vida. +Estudam-se as reacções do indivíduo em +relação +com o meio ambiente, incluindo nêste o +meio social e a própria escola. +<br /> + +<br /> + +As reacções que particularmente estudamos, +os fenómenos que constituem o objecto da +<span class="pagenum">[114]</span> +Psicologia objectiva, e que nela os procuramos +estudar como se estudam os outros fenómenos +da Natureza, dependem não só da estrutura +do indivíduo e da acção da +ocasião, mas tambêm +de acções e reacções +anteriores a essa +ocasião. +<br /> + +<br /> + +A acção de ocasião junta-se, +<em>associa-se</em> nos +seus efeitos aos efeitos das acções anteriores, +de maneira que a reacção é +influída e regulada +por estas. Eis a essência do fenómeno +mental. +<br /> + +<br /> + +A educação não é mais do +que o aproveitamento +desta propriedade do sistema nervoso, +ou mais precisamente dos hemisférios cerebrais, +desta <em>memória associativa</em> +(<span class="smallcaps">Loeb</span>), com +o fim de, por meio dela, regular a actividade, +o procedimento, a acção do indivíduo. +<br /> + +<br /> + +A educação é a +utilização da <em>memória +associativa</em>, +é o regulamento intencional da experiência +do indivíduo, é a formação, +a cultura, +em obediência a certos princípios e +interêsses, +do poder da sua <em>memória +associativa</em>. +<br /> + +<br /> + +Será esta a +<em>Inteligência</em>? +<br /> + +<br /> + +Variadas e, por vezes, discordes são as +definições +que se dão, e as significações que se +atribuem a esta palavra. +<br /> + +<br /> + +A inteligência talvez se possa definir, em +psicologia objectiva, como uma manifestação +externa da memória associativa, que se caracteriza +por actos de adaptação às +variações das +circunstâncias. É, até certo ponto +isto, se +assim se pode dizer, uma tradução em linguagem +fisiológica da concepção que +<span class="smallcaps">Bergson</span> exprime +quando diz que a «função essencial da +<span class="pagenum">[115]</span> +inteligência consiste em encontrar em quaisquer +circunstâncias os meios de se tirar de +dificuldades.» +<br /> + +<br /> + +É a inteligência uma +utilização da memória +associativa. É a propriedade de ajustar os +traços das reacções anteriores, isto +é, a experiência +individual anterior, à experiência da +ocasião, para uma adaptação a novas +circunstâncias, +por meio de reacções reguladas pela +experiência anterior do indivíduo, repito. +<br /> + +<br /> + +A inteligência sob este ponto de vista, é +uma manifestação externa, global, da +memória +associativa, e que se avalia pela sua finalidade, +pelo valor do ajustamento, em rapidez e +perfeição, às +variações quantitativas e qualitativas +das circunstâncias. +<br /> + +<br /> + +Ora esta fórma de actividade mental deve +depender não só dos conhecimentos +própriamente +ditos, das ideas, mas tambêm do sentimento +de prazer ou de dôr que acompanhou +as experiências anteriores e acompanha as +actuais, isto é, da +<em>afecção</em>, se se +quizer adoptar +o termo que o sr. <span class="smallcaps">Antonio Sergio</span> +emprega +para designar o <em>elemento sentimental</em> +(<em>Da +Natureza da afecção</em>, separata +da «<span class="smallcaps">Revista +Americana</span>», 1913, pág. 8.) +<br /> + +<br /> + +A inteligência revela-se, portanto, em actos +em que as ideas e os sentimentos influem, como +nos <em>tropismos</em> influem certas +substâncias. +<br /> + +<br /> + +A inteligência depende do interêsse, das +tendências, que, por sua vez, são +funções da +estrutura do indivíduo, da natureza da sua +experiência anterior e da natureza da experiência +de ocasião. +<span class="pagenum">[116]</span> +<br /> + +<br /> + +Sendo assim, fácil é compreender porque +é que se podem considerar como não inteligentes, +certos indivíduos cuja fórma de +reacção +mental de adaptação se revela dificiente +em determinadas circunstâncias, em certos +meios. +<br /> + +<br /> + +Percebe-se que, com <span class="smallcaps">Binet</span>, +se +distinga a +inteligência escolar da inteligência extra-escolar, +se porventura as circunstâncias da escola +são muito diferentes das de fóra da escola e +os interêsses que a escola desperta são diferentes +do que a vida ordinária ou o meio extra-escolar +despertam. +<br /> + +<br /> + +Há inteligências que se não revelam na +escola. +<br /> + +<br /> + +Verdadeiramente, completamente inteligente, +porêm, é o que se ajusta a quaisquer +circunstâncias, +é o que se mostra inteligente em qualquer +meio. +<br /> + +<br /> + +A inteligência não é apenas a +inteligência +que consiste em adaptar respostas a preguntas, +na escola, falando, escrevendo ou calculando, +mas tambêm a que se revela por actos e gestos +de outra ordem, em circunstâncias de tôda +a ordem. +<br /> + +<br /> + +A inteligência julga-se pelo valor adaptivo +do gesto ou do acto considerado debaixo do +ponto de vista da sua prontidão, rapidez, +exactidão +e perfeição. +<br /> + +<br /> + +A inteligência não tem um significado cognoscitivo +apenas, revelação e +utilização de +conhecimentos; tem tambêm um significado moral +e um significado estético, que se revelam +na reacção às +variações das condições +morais +<span class="pagenum">[117]</span> +e estéticas do meio, no condicionalismo ético e +estético da experiência. +<br /> + +<br /> + +Compreende-se, pelo que lhes vou dizendo, +que por exemplo, como faz <span class="smallcaps">Van +Biervliet</span>, +se classifique a inteligência em espécies: +<em>inteligência +clássica</em>, isto é, +inteligência que se +revela principalmente nos trabalhos da classe, +<em>inteligência prática e +inteligência estética</em>. +<br /> + +<br /> + +Compreende-se tambêm que com propriedade +se possa dizer que há uma imbecilidade intelectual, +uma imbecilidade estética e uma imbecilidade +moral. +<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Kirckpatrick</span> +considerando a +inteligência, +ou melhor a actividade intelectual, não +própriamente +sob o ponto de vista da sua finalidade, +mas no do seu mecanismo, descreve, quatro +tipos de inteligência, tendo como inteligência +tudo aquilo que constitui acto de adaptação +individual, e assim descreve: um tipo +de <em>inteligência +fisiológica</em>, um tipo de +<em>inteligência +senso-motriz</em> ou +<em>perceptiva</em>, um tipo de +<em>inteligência +representativa</em> e um tipo de +<em>inteligência +conceptual</em> ou +<em>conceptiva</em>. +<br /> + +<br /> + +A primeira excluo-a eu aqui, porque não +depende de fenómenos da <em>memória +associativa</em>. +São fenómenos de adaptação +de outra ordem, +pura adaptação fisiológica, em que a +própria +imunização tem o seu lugar. +<br /> + +<br /> + +Dos outros tipos convem dar-lhes hoje uma +noção. +<br /> + +<br /> + +Na <em>inteligência +senso-motriz</em> ou +<em>perceptiva</em> +o que há, o que a caracteriza é uma +adaptação +imediata de movimentos e sensações de +ocasião. +Estes actos não se manifestam, não se repetem +<span class="pagenum">[118]</span> +senão quando estímulos da mesma natureza +actuam em circunstâncias semelhantes. +<br /> + +<br /> + +Por exemplo certos movimentos que se executam +no decurso do jôgo do +<em>foot-ball</em>, movimentos +de equilíbrio, de ataque, de defesa ou +melhor os movimentos que, quando tropeçamos +e vamos a cair, fazemos para nos equilibrarmos. +<br /> + +<br /> + +São as próprias sensações +que experimentamos, +que <em>directamente</em> provocam e regulam +os actos de adaptação. De factos em +relação com +esta espécie de inteligência tratei eu num artigo +sôbre mutilados da mão, que publiquei +na <em>Medicina Moderna</em> do +Pôrto, com o título +<em>Inteligência motriz</em>. +<br /> + +<br /> + +Na <em>Inteligência +representativa</em> os actos da +adaptação podem ser provocados e regulados +apenas por símbolos que se tenham associado +a sensações anteriores. O acto pode executar-se +em virtude duma experiência anterior regulada +por acções semelhantes que víssemos +executar ou que nos fôssem descritas. É a +experiência +anterior de outros a regular a nossa. +<br /> + +<br /> + +Na <em>conceptual</em> ou +<em>conceptiva</em> o acto de +adaptação +revela-se não só na ausência de uma +experiência +<em>do mesmo tipo</em>, feita pelo +próprio ou +por outrem, vista ou descrita, como se dando +nas mesmas circunstâncias, mas em resultado +de experiências <em>várias e +diferentes</em>, do próprio +e de outros. +<br /> + +<br /> + +Uma pessoa quando salta dum carro em +movimento, pode fazê-lo com sucesso ou porque +já o tenha feito outras vezes, e portanto +associe as acções sensoriais de momento +às +<span class="pagenum">[119]</span> +reacções anteriores +(<em>inteligência +senso-motriz</em>), +ou porque já tenha visto saltar outrem ou +lhe tenham dito como se deve saltar +(<em>inteligência +representativa</em>), ou porque +reacções diferentes +que tenha por si mesmo experimentado, +observado ou visto descritas por outros, +se tenham associado e combinado por forma a +gerar o conhecimento das leis dos corpos em +movimento, o que associado às acções +do momento +regula o acto de adaptação +(<em>inteligência +conceptual</em>). +<br /> + +<br /> + +Em tôdas estas formas de inteligência se +verifica a associação dos resultados das +experiências +anteriores aos das experiências do +momento, da mesma natureza ou não. O acto intelectual +é um acto de adaptação e de +revelação +da memória associativa. +<br /> + +<br /> + +Na escola, onde se governa e conduz a +experiência do indivíduo, em +atenção ao futuro, +se utilizam ou devem utilizar e cultivar +todos os três tipos de inteligência, e, para a +instrução, principalmente os dois +últimos. +<br /> + +<br /> + +Mas nem tôdas as idades, nem em todos os +indivíduos da mesma idade a +<em>inteligência</em> tem +o mesmo valor. Compreende-se, portanto, bem +o interesse que para o professor tem o saber +e o poder analisar os actos intelectuais, por +forma a, se assim se pode dizer, obter a +<em>fórmula +qualitativa e quantitativa</em> da inteligência +de cada um. +<br /> + +<br /> + +Pode calcular-se essa fórmula? Pode analisar-se +a inteligência? Pode esta avaliar-se? +Pode ser medida? Pode. +<br /> + +<br /> + +A inteligência é, se quizerem empregar os +<span class="pagenum">[120]</span> +termos de <span class="smallcaps">Saffiotti</span>: +«<em>a capacidade de estabelecer +novas relações entre a própria +personalidade +e as novas condições; é a capacidade +de tirar destas relações +interpretação adequada +e conformar com ela a sua +reacção</em>». +<br /> + +<br /> + +A inteligência, perante isto e perante o que +lhes tenho dito, deve depender da estrutura do +indivíduo, das propriedades inatas, do momento +do seu desenvolvimento, e tambêm da natureza +e valor da sua experiência anterior, da +sua cultura, regulada ou não intencionalmente +por outrem. +<br /> + +<br /> + +Ora sendo assim poderá alguma coisa prever-se +sôbre a inteligência, estudando a estrutura, +as características biológicas do +indivíduo, +como se pode até certo ponto julgar do +valor de um motor, das suas capacidades, pelo +estudo do maquinismo, da sua organização, +da sua anatomia, da sua estrutura, como se +podem prever certas propriedades químicas, +certas reacções, observando caracteres +organo-nolépticos +e físicos de certos corpos. É esta a +base da avaliação da inteligência nos +métodos +que assentam no estudo das correlações +psico-somáticas +e psico-fisiológicas. +<br /> + +<br /> + +A inteligência pode ser avaliada tambêm +analisando a forma, o mecanismo de certas +reacções psíquicas elementares, +sujeitando o indivíduo +a <em>provas</em> psíquicas de +diferente tipo e +natureza em que sobretudo influi a maneira +da actividade intelectual, o tipo ou a espécie +da inteligência. +<br /> + +<br /> + +Pode mesmo usar-se provas experimentadas +em muitos, usando o que se chamam +<em>tests</em>, +<span class="pagenum">[121]</span> +que não são outra cousa do que verdadeiros +<em>reagentes mentais titulados</em>, ou, se +quizerem +tambêm verdadeiros <em>padrões, tipos +de reacção</em>, +em que a forma desta e a sua velocidade, +foi préviamente <em>observada e medida em +muitos</em>. +<br /> + +<br /> + +É um tipo de avaliação em que se +estuda +ou analisa principalmente o mecanismo do +acto intelectual, decomposto em elementos. É a +base dos métodos de avaliação fundados +no +estudo das correlações +psico-analíticas. Mas +assim como na apreciação ou na +classificação +de um tipo de vinho não basta a analise +própriamente +dita; há que proceder a uma apreciação +global, tendo em vista o fim comercial, +por exemplo, a que visa a apreciação, assim +tambêm no exame de inteligência é por +vezes +necessário recorrer a um exame global, em +que não se atende apenas ao mecanismo do +acto, mas tambêm à sua finalidade e à +finalidade +da sua avaliação. +<br /> + +<br /> + +Ora o educador não deve apenas preocupar-se +com o mecanismo do acto intelectual +do aluno, para o caracterizar e escolher o método +de ensino que mais convenha. O educador +não toma o aluno <em>em +branco</em>, se assim +se pode dizer. Os actos intelectuais que êle tem +de regular, a experiência intelectual que êle +tem de conduzir, tem um passado que influi +e está em estreitas relações com os +fins educativos. +A experiência anterior do aluno tem +uma grande importância e valor, e está dependente +da sua idade e do meio em que viveu +e vive. +<span class="pagenum">[122]</span> +<br /> + +<br /> + +Ao professor, no exame escolar da inteligência, +convêm-lhe <em>reagentes</em>, +<em>tests</em>, que precipitem +em globo, em massa, se assim se pode dizer, a +inteligência e dêem a forma e a natureza desta, +e tambêm a da sua experiência anterior. +<br /> + +<br /> + +Se há questão pedagógica em que se +possa +falar de criança portuguesa, e duma maneira +geral de um tipo ou tipos nacionais de criança, +é a proposito da inteligência. +<br /> + +<br /> + +O momento histórico regula a inteligência +e deve regular a sua formação. +<br /> + +<br /> + +A psicologia de que carece o educador não +pode nem deve viver afastada da ética. E se +há questão psicológica em que +há que atender +aos fins da educação, é a da +inteligência. +<br /> + +<br /> + +Recordo-me da profunda emoção que me +causou a leitura das palavras de um formoso +livro, um dos que mais podem contribuir para +a cultura do entusiasmo pela carreira de professor, +o livro de <span class="smallcaps">Münsterberg</span>: +<em>A psicologia +e o mestre</em>. Recordo-me. Diz êle e eu +repito: +<br /> + +<br /> + +«<em>Agora é evidente que o estudo +dos meios +psicológicos póde ser útil +sómente quando as +aspirações do mestre tenham sido determinadas +pela investigação ética independente +do filósofo. +Porêm tão prontamente com estes fins, +os resultados cada, vez mais ricos da psicologia +experimental, devem ser levados ao mestre +de tal modo que êste possa conhecer e escolher +os meios úteis para a satisfação das +suas aspirações.</em>» +<br /> + +<br /> + +A Educação é uma das artes em que a +Psicologia serve a Ética. +<br /> + +<br /> + +Está aberto o curso de Psicologia. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<a name="c9" id="c9"></a> +<h3>INTELIGÊNCIA E APERCEPÇÃO<sup><a href="#n12">[12]</a></sup></h3> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="intro1">«Notre +réprésentation de la +matiére +est la mesure de notre action +possible sur les corps; ele résulte +de l'élimination de ce qui n'interesse +pas nos besoins et plus géneralemente +nos fonctions». +<br /> + +<br /> + +<div class="signature"><span class="smallcaps">Bergson</span>: +<em>Matiére et +mémoire</em></div> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +«Il faut respecter en nous les +lois de la nature, acepter les devoires +nés de l'organisme, acomplir +les fonctions pour lesquelles on est +fait, avec le pouvoir énergétique +que l'on posséde. Le but de la vie +c'est tout le <em>perfectionement</em> +possible, +physique ou psychique, par la méthode +et la discipline». +<br /> + +<br /> + +<div class="signature"><span class="smallcaps">Albert +Deschamps</span>: +<em>Les maladies de l'esprit et les +asthénies</em>.</div> + +<br /> + +<br /> + +«Non seulement une conception +mécanique de la vie est compatible +avec l'ethique; ele semble être la +seule conception de la vie, qui puisse +amener á comprendre oú est la +source de l'éthique». +<br /> + +<br /> + +<div class="signature"><span class="smallcaps">Loeb</span>: +<em>La +conception mécanique de la +vie </em>(tradução francesa).</div> + +</div> + +<br /> + +<br /> + +Viver é essencialmente adaptar-se; é a luta +pela adaptação, é o +esfôrço para o ajustamento +<span class="pagenum">[124]</span> +do sêr ao meio, acomodando-se, ajustando-se a +êle, ou ajustando-o a si próprio. Educar +é favorecer, +conduzir intencionalmente, metódicamente +êsse ajustamento, essa adaptação. +<br /> + +<br /> + +Ora o indivíduo possui em si faculdades, +capacidades de adaptação, de ajustamento, de +assimilação, de utilização +do meio em que vive. +Essas possibilidades revelam-se na sua actividade, +na maneira porque procede, e desta actividade +uma parte, uma forma há que é herdada, +que nasce com o indivíduo, que é inata, +que não é determinada pela experiência +individual, +que não é aprendida e outra que é +adquirida, que resulta da experiência de cada +um, dirigida ou não por outrem. +<br /> + +<br /> + +Por vezes, quási sempre, a forma da actividade +inata é favorável ao ajustamento do +indivíduo ao meio, à +adaptação, às +condições +em que nasce e ordináriamente se encontra, e +a maior parte das vezes tambêm a forma de +actividade adquirida é como esta favorável ao +ajustamento. +<br /> + +<br /> + +As condições mantendo-se as mesmas, a +adaptação verifica-se, as necessidades +são conformes +à capacidade de utilização dos +recursos. +O indivíduo está adaptado ou adapta-se por +instinto ou por hábito. Se, porêm, as +circunstâncias +em que vive o indivíduo são muito +variáveis, se se rompe o ajustamento, se há +conflito entre o instinto ou o hábito e as +circunstâncias, +o indivíduo pode ou não readaptar-se, +pode ou não assimilar o meio, utilizando-o, +adaptando-o ou adaptando-se. +<br /> + +<br /> + +Concebe-se que haja seres que se adaptem, +<span class="pagenum">[125]</span> +independentemente da experiência, seres que +nascem pode dizer-se, adaptados a certos meios, +e só neles e em precisas circunstâncias podem +viver: seres instintivos, ineducaveis, mas sôbre +que o educador pode ainda assim influir, colocando-os +em meios os mais conformes com +os seus instintos, e pela forma mais conveniente +à sociedade. +<br /> + +<br /> + +Concebe-se que haja seres que, alêm de +se ajustarem por instinto a certas circunstâncias +possam em virtude da experiência, conduzida +ou não intencionalmente, adaptarem-se +a ela, adquirindo estas formas de actividade +que se chamam hábitos, seres educáveis +sôbre +que o educador pode actuar criando os hábitos +que mais convenha, e que, como tive +ocasião de lhes dizer, mostrar e demonstrar o +ano passado, deve fazer-se segundo certas +leis induzidas de experiências scientíficas que +se têm realizado. +<br /> + +<br /> + +Concebe-se finalmente que haja seres que +não só se adaptem por instinto, ou por +hábito, +que não só se adaptem a precisas +circunstâncias, +mas se adaptem tambêm fácilmente a novas +circunstâncias, encontrando nelas sempre +maneiras de se ajustar, de com elas viver em +concordância, sêres inteligentes, sôbre +que o +educador deve actuar variando o mais possível +as condições da experiência educativa, +para +que o mais possível tambêm se apure este dom +sublime da inteligência, do poder de utilizar o +meio, que é a base da felicidade e do progresso. +<br /> + +<br /> + +Só é verdadeiramente livre, quem é +suficientemente +inteligente. +<span class="pagenum">[126]</span> +<br /> + +<br /> + +Na lição da abertura do curso de +aperfeiçoamento +do ano passado, lição que intitulei +<em>Da inteligência do escolar e da sua +avaliação</em>, +lição que devem ler, citei e adoptei, para certos +casos, a definição de inteligência do +Professor +<span class="smallcaps">Saffiotti</span>: +<br /> + +<br /> + +«Inteligência é a capacidade de +estabelecer +novas relações entre a própria +personalidade +e as novas condições; é a capacidade +de tirar +destas relações, +<em>interpretação</em> +adequada e conformar +com elas a sua reacção». +<br /> + +<br /> + +A inteligência é função +portanto da interpretação +e só se revela quando a interpretação +é adequada e a reacção a que a +interpretação +conduz por sua vez se revela em actos +de adaptação. +<br /> + +<br /> + +Ora é êste poder de +<em>interpretação</em> +que se +chama a apercepção. A inteligência +depende +da apercepção, da maneira porque se interpreta. +Quem interpreta por uma maneira inadequada +às conveniências da sua +adaptação, +não se adapta, reage por forma desfavorável, +não procede com inteligência. +<br /> + +<br /> + +Vêem já portanto quanto interessa o estudo +da apercepção. Leiam particularmente +sôbre +esta o que vem da pág. 430 à 434 da +tradução +francêsa do compêndio de Psicologia, +de <span class="smallcaps">William James</span>, +4.ª +edição. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="sbreak"> +<hr /></div> + +<br /> + +<br /> + +A interpretação ou +apercepção depende de +uma série de condições que, como +verão em +<span class="pagenum">[127]</span> +<span class="smallcaps">James</span>, +<span class="smallcaps">Lewes</span> denominou <em>a +soma das condições +psicoestáticas</em>: a natureza do +indivíduo, o +seu carácter, a sua experiência, a sua +educação, +os seus hábitos, o seu humor, etc. A +apercepção +é uma faculdade intelectual contingente, +que depende dos mais variados factores, desde, +os mais materiais aos mais espirituais, desde +as necessidades do corpo às necessidades do +espírito (usando a linguagem corrente), e sôbre +que, tanto pode actuar o médico como o +professor, tanto o gimnasta como o filósofo. +<br /> + +<br /> + +O aspecto físico, a forma do corpo por si +indicam tendências, certas aptidões +psicológicas, +certas necessidades, certos interêsses que +conduzem a experiência do indivíduo por +forma a ele entrar em contacto com o meio +em que vive, e que por sua vez conduz a +determinada interpretação dele, e portanto o +leva a reagir e proceder e adaptar-se por determinada +forma. O psicólogo se quere descobrir +a alma tem muito a ganhar em conhecer +o corpo. Se quere prever a fórma de +reacção +do indivíduo tem que estudar os orgãos dessa +reacção; se quere ser psicólogo a +valer tem que +ser antropólogo. O que tudo quere dizer que: +psicólogo e antropólogo, psicologia da +criança +e pedologia física, se devem entrelaçar, se podem +e se devem estudar conjuntamente. +<br /> + +<br /> + +As anomalias mentais da criança explicam-se +por vezes fácilmente se se estudar a +forma, os caracteres do seu corpo, se se julgar +do grau do seu desenvolvimento físico, +se se vê se o crescimento nela é normal ou +não. +<br /> + +<br /> + +Há caracteres mentais que são sintomas de +<span class="pagenum">[128]</span> +alterações orgânicas, e +perturbações do crescimento +que o médico pode corrigir para o professor +depois aproveitar. +<br /> + +<br /> + +Há no nosso corpo um órgão +até cuja influência +sôbre a inteligência é tal que alguem +já o chamou <em>a glândula da +inteligência</em> +(<span class="smallcaps">Pende</span>). +<br /> + +<br /> + +É tal a importância que o estudo da anatomia +e da psicologia tem para o psicólogo +que nos modernos trabalhos sôbre as astenias, +defeitos ou insuficiências da energia orgânica, +vícios de funcionamento orgânico, se se +caracterizam +êsses defeitos pela insuficiência revelada +nos actos de adaptação social, e se vai +até a explicar a moral e a filosofia de muitos +por essa insuficiência de origem fisiológica, +aparecendo-nos +a moral como um ramo da biologia +e a filosofia como uma arte dos psicasténicos. +<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Pierre Janet</span>, um dos +maiores +psicólogos +da nossa época, foi até a afirmar que talvez +a filosofia não passasse duma doença do +espírito. +A filosofia, de facto, parece a consequência, +a revelação duma actividade interpretativa +filha de uma atitude mental, duma +tendência anciosa para a procura de +relações +entre as cousas e os factos que nos cercam +e se passam no meio que nos circunda, e que +as dificuldades de adaptação, e a +insuficiência +da adaptação em certos gera. +<br /> + +<br /> + +Seja como fôr, o que lhes quero acentuar +é que o estudo da psicologia e em particular o +da <em>apercepção</em>, +que será o objecto principal +do nosso curso dêste ano, tem muito a ganhar +iniciando-se pelo estudo da influência +<span class="pagenum">[129]</span> +das condições orgânicas neste +fenómeno, e +mais particularmente ainda pelo estudo da +influência que tanto na forma do processo +aperceptivo, como na maneira por que se interpreta, +como na natureza dos conhecimentos +que se utilizam, influi o tipo fisiológico da +criança, as suas tendências inatas, a sua +constituição, +o seu temperamento, e a fase do +crescimento em que se encontra. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="sbreak"> +<hr /></div> + +<br /> + +<br /> + +Esta influência do organismo na +apercepção, +de que lhes tenho estado a falar, esta +influência do condicionalismo fisiológico na +interpretação das circunstâncias e na +adaptação +a elas, é já uma influência do passado +no presente, é a hereditariedade a comandar-nos, +é, pode dizer-se a tradução +fisiológica do +mote que tantos têm já glosado: +<em>os mortos +mandam</em>. +<br /> + +<br /> + +Mas não é só por esta forma que o +passado +se mistura com o presente e nos governa, +nos impõe até certo ponto uma +interpretação +do presente, e nos regula, a nossa +adaptação às novas +condições. É tambêm, e +talvez ainda mais, pelo resultado da nossa +própria experiência, regulada, intencionalmente +ou não, pelos outros, resultado das +modificações +que nas nossas reacções vai introduzindo +o contacto diário com o meio em que +se vive, com a natureza e com a sociedade, +<span class="pagenum">[130]</span> +resultado da interferência das acções +desta +com as nossas reacções. +<br /> + +<br /> + +Dia a dia as nossas tendências, os nossos +interêsses, o nosso saber, o nosso carácter, a +nossa experiência, são postos à prova, +e dia +a dia nos vamos consumindo na emprêsa do +ajustamento das nossas reacções às +circunstâncias. +<br /> + +<br /> + +Impressiona-nos mais não o que é +própriamente +mais forte ou mais novo, mais estranho, +mas o que é mais forte e estranho para +nós, aquilo que é novo para o ponto de vista +dos nossos interêsses, que cahe na zona do +nosso saber e das nossas necessidades e que +nós nos esforçamos naturalmente por assimilar +na tendência vital, orgânica, da nossa +adaptação. O que não sabemos, +não vêmos; +o que não experimentamos não sabemos. +<br /> + +<br /> + +Palavras estranhas ou letras associadas +mesmo ao acaso, tendemos a interpretá-las e a +lê-las, em nossa língua. Desenhos informes, +nuvens que o acaso amontuou, manchas que +o acaso estampa, borrões de tinta, tudo tendemos +a interpretar como se fossem formas +conhecidas e segundo os nossos conhecimentos +e até certo ponto os nossos interêsses. +Sempre o passado a mandar; sempre segundo +a nossa mentalidade e a nossa experiência! +<br /> + +<br /> + +O mundo, a interpretação do que nos +cerca, é função do nosso organismo e +da +nossa experiência ou saber. +<br /> + +<br /> + +A realidade é uma interpretação, +consoante +os nossos interêsses, e os nossos interêsses +expressão da nossa organização e da +nossa +<span class="pagenum">[131]</span> +experiência, experiência livre, ou intencionalmente +condicionada, como sucede na educação. +<br /> + +<br /> + +Meditem as palavras de <span class="smallcaps">Bergson</span> +que, livremente +mas fielmente, julgo, assim poder +traduzir: +<br /> + +<br /> + +«...O nosso carácter, sempre presente a +tôdas as nossas decisões é bem a +síntese +actual de todos os estados por que já passámos. +Sob esta forma condensada, a nossa vida +psicológica anterior existe para nós mesmo +mais do que o próprio mundo externo, porque +dêste apercebemos apenas uma muito pequena +parte, enquanto que pelo contrário utilizámos +a totalidade da nossa experiência vivida +já, experimentada e feita.» +<br /> + +<br /> + +Como que há, como +<span class="smallcaps">Bergson</span> +tambêm diz, +uma tendência constante do passado a reconquistar +a sua influência, actualizando-se. +<br /> + +<br /> + +Dir-se-ia que só o génio não tem +passado. +<br /> + +<br /> + +Vejam quão longe nos leva, e interessante +e vasto é êste tema da inteligência e da +apercepção.<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="sbreak"> +<hr /></div> + +<br /> + +<br /> + +Não imaginem, porêm, que apesar da +<em>linguagem +de subjectivo</em> que venho empregando, +se não pode tambêm em <em>linguagem +de objectivo</em>, +ia dizer em linguagem scientífica, em +termos das sciências experimentais, não imaginem +que se não podem tambêm interpretar, +adoptando uma concepção mecânica da +vida, +estes fenómenos da apercepção e da +inteligência, +própriamente dita. +<br /> + +<br /> + +Reportando-nos a um notável trabalho de +<span class="pagenum">[132]</span> +<span class="smallcaps">Bohn</span> sôbre +a +<em>dinâmica, cerebral</em>, +(<em>Rev. Philosophique</em>, +março-abril de 1919) adoptemos a +concepção +que êle defende de que nos fenómenos +psíquicos se verifica uma das grandes leis da +sciência física, <em>a lei dos +fenómenos recíprocos</em>. +Quando se comprime um cristal de turmalina +o cristal por êste facto electriza-se e a +electrização +desenvolve fôrças que se opõem ao +encurtamento +do cristal. +<br /> + +<br /> + +Quando se aquece um cristal de turmalina +o cristal electriza-se tambêm; a +electrização +traz consigo um arrefecimento do cristal. +<br /> + +<br /> + +Dir-se-ia que o cristal que se electriza, apercebe +a variação das circunstâncias e tende a +reagir de acôrdo com a interpretação +adequada. +Afinal é um sistema de fôrças, +orientado +segundo um certo plano, que caracteriza +o cristal e que reage contra as acções que +tendem a perturbar-lhe o equilíbrio ou alterar-lhe +o plano. +<br /> + +<br /> + +Pode conceber-se tambêm o indivíduo como +um sistema de fôrças organizado segundo um +plano hereditário, tendendo a reagir às +acções +externas ou internas por maneira a opôr-se +ao desiquilíbrio do plano da sua +organização, +caracterizado por certas propriedades vectoriais, +isto é que se manifestam em determinadas +direcções ou segundo certos vectores (instintos, +tendências, interêsses). +<br /> + +<br /> + +A cada acção vectorial ou polarizante +corresponde, +segundo <span class="smallcaps">Bohn</span>, uma +acção recíproca +inversa, despolarizante. +<br /> + +<br /> + +Quando se excitam os sentidos, a excitação +que é transmitida ao cérebro e dirigida depois +<span class="pagenum">[133]</span> +aos músculos, às glândulas e +às diferentes +vísceras provoca excitações em sentido +contrário, que provêm de todos estes +domínios +e vem por sua vez depois a reagir sôbre os +primeiros receptores. Os centros nervosos são +excitados pelos sentidos e estes excitados pelos +centros nervosos. A interferência destas duas +espécies de ondas nervosas, daria a memória +associativa, revelando-se na apercepção e nos +actos que a exteriorizam. +<br /> + +<br /> + +Estas concepções mecânicas +têm a vantagem +de lhes mostrar que afinal os fenómenos +que estudamos são fenómenos naturais que +podem condicionar-se e utilizar-se como os +outros. +<br /> + +<br /> + +Quando o professor conheça bem esta mecânica +poderá ser tão seguramente útil como +o engenheiro que lida com as outras máquinas. +<br /> + +<br /> + +Vêem tambêm como com estas +concepções +mecânicas se pode fácilmente compreender +como cuidando do corpo e educando-o se pode +influir na educação intelectual e moral, na +maneira de interpretar o mundo e a sociedade +e de com êles harmonizar o indivíduo e +fazê-lo viver em inteligência. +<br /> + +<br /> + +Não imaginem que como muitos supõem se +despreza, nestas concepções, o valor das ideas, +não. Simplesmente intrepretamos a +acção destas +e utilizamo-las como no estudo dos tropismos +se interpreta a acção e se utilizam as +substâncias sensibilizadoras. +<br /> + +<br /> + +Tudo que impressiona os nossos sentidos +tem repercussão sôbre as nossas +vísceras, tem +um coeficiente emocional que muito influi na +<span class="pagenum">[134]</span> +interpretação das circunstâncias e na +nossa +maneira de proceder, na nossa actividade ou +reactividade. +<br /> + +<br /> + +Os orgãos da circulação são +fortemente impressionados +e influem no <em>tonus</em> nervoso, na +energia nervosa de que muito depende a nossa +inteligência. Glândulas há que, segundo +a impressão +ou excitação que sofrem, segregam +mais ou menos substâncias +(<em>hormonas</em>) que +muito influem no <em>tonus</em> nervoso e nos +fenómenos +gerais da nutrição, o que se pode vir a +observar em alterações ou certa +orientação dos +fenómenos de apercepção e +inteligência. +<br /> + +<br /> + +O problema do educador é essencialmente +um problema psicológico: tornar o real aceitável, +e, conforme a natureza do indivíduo, pôr +esta em equilíbrio com a sociedade. Para isso +carece de saber de que depende a apercepção +e como nela se pode influir; como afinal dar +ao indivíduo a noção mais conforme com +a +natureza do meio social. O problema do educador +é o problema da felicidade, que como +diz <span class="smallcaps">Deschamps</span> se +pode chamar uma +«harmonia +psico-social, uma adaptação completa dos +desejos aos poderes e dos poderes ao meio.» +<br /> + +<br /> + +É afinal um problema de conciliação, e +esta deve ser o fim de tudo. +<br /> + +<br /> + +Está aberto o nosso curso de psicologia +experimental em que este ano particularmente +me ocuparei dos fenómenos e estudo experimental +da apercepção, sobretudo debaixo do +ponto de vista da genética.<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="quote">Lisbôa, 8-10-920.</div> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<a name="c10" id="c10"></a> +<h3>SÔBRE PSICOLOGIA, ESTÉTICA +E PEDAGOGIA DO GESTO +<sup><a href="#n13">[13]</a></sup></h3> + +<br /> + +<br /> + +<div class="intro1">«qu'il +soit +permis à l'école d'insister +sur ce qui nous rapproche.» +<br /> + +<br /> + +<div class="smallcaps signature">Buisson.</div> + +<br /> + +<br /> + +«O fim da arte é unir as almas, associando-as +num mesmo sentimento...» +<br /> + +<br /> + +<div class="smallcaps signature">Tolstoi.</div> + +<br /> + +<br /> + +«A simples cortezia de palavra, de +expressão e de maneiras é já uma +revelação +de delicadeza estética.» +<br /> + +<br /> + +<div class="smallcaps signature">Bernardino +Machado.</div> + +<br /> + +<br /> + +«...si le geste est à la base de tous +les arts, le principe de toute éducation +esthétique (et même de toute éducation +intégrale) ne sera-t-il pas la culture et +le développement du sens créateur des +attitudes?» +<br /> + +<br /> + +<div class="smallcaps signature">Lalo.</div> + +<br /> + +<br /> + +«Deve pois ser a mímica a base de +todo o ensino.» +<br /> + +<br /> + +<div class="smallcaps signature">Júlio +Dantas.</div> + +</div> + +<br /> + +<br /> + +A Arte na escola não deve apenas ter em +mira a cultura do sentimento estético; deve +<span class="pagenum">[136]</span> +principalmente ter em vista o aumentar a +apetência escolar, o gôsto pela escola, +não só +para chamar para ela, mas sobretudo para +facilitar a assimilação dos conhecimentos, o +aproveitamento escolar, tal como sucede com +a arte na mesa, que visa principalmente a facilitar +a digestão dos vários e complicados +cozinhados que nela se servem. +<br /> + +<br /> + +Decorar a escola, por decorá-la, cobrir as +paredes das salas da classe com quadros vistosos, +embora dos melhores, enfeitar essas salas +levando para elas flores, peixes, avezinhas, +etc., será útil para a cultura +estética, mas contribui +para distrair do fim principal da escola, +a não ser que as lições versem +sôbre ou a +propósito das decorações, o que nem +sempre é +possível, nem prático. <span class="smallcaps">Van +Biervliet</span>, a propósito +da atenção visual, dizia, numa das suas +lições, que as salas das classes deveriam ser +como a sala do teatro de Bayreuth: não distrair +do palco, da scena, do principal; os alunos +não deveriam ver mais do que os +<em>tests</em> +utilizados na lição. Nada os deveria distrair +das estimulações que o professor procura +directamente +praticar, para ensinar-lhes o que +lhes quere ensinar. +<br /> + +<br /> + +Mas, minhas senhoras e meus senhores, +embora mesmo que na arquitectura, na decoração +interior, no mobiliário, nos livros, a arte +que em tudo isso se ponha vise não só a +educação +artística, mas principalmente o atraír o +aluno, o prender-lhe a atenção, o tornar-lhe +agradável a escola, sem o distrair das +lições, +mesmo que assim seja, se uma vez nela o +<span class="pagenum">[137]</span> +aluno se defronta com um professor, que por +seus gestos e atitudes se torna ridículo, +antipático +ou temido, um professor que não saiba +nem ritmar convenientemente a sua voz, nem +compor agradávelmente a sua fisionomia, nem +servir-se das expressões, dos gestos e das atitudes +que mais atraem e prendem a criança e +tornam mais clara e interessante a lição, se +êsse professor desconhece a influência que a +mímica tem nos alunos, a importância que as +atitudes e a maneira de tratar e de falar têm +na educação, se êsse professor +não tiver por +intùição nem por cultura o +conhecimento do +valor pedagógico das estimulações +motrizes +atraentes, não será só o professor que +será +mau, a própria escola, apesar de tôda a sua +arte, passará a ser uma escola má, porque +deixará de atrair e a falta de senso e de +estética +do professor tornará assim essa escola, a +que me refiro, pior do que uma outra, cuja +arquitectura, cuja decoração, cujo +mobiliário +seja menos artístico, seja mesmo inferior. +<br /> + +<br /> + +A atitude, o gesto, a expressão fisionómica +do professor actua directa e fortemente sôbre +o aluno, levando-o a tomar atitudes, a esboçar +gestos e a usar de uma expressão fisionómica +que são o reflexo da atitude e da mímica do +professor. Mas não deve o professor apenas +lembrar-se disto, e por isso cuidar da sua atitude +e expressão, deve lembrar-se tambêm +que, como diz <span class="smallcaps">Baldwin</span>, +deve +lembrar-se que +o ver expressões emotivas noutrem não +só +provoca directamente aquele que as vê a colocar-se +em atitudes semelhantes, levando-o a +<span class="pagenum">[138]</span> +reproduzir essas expressões, mas tambêm faz +com que, uma vez esboçados os movimentos +provocados e assim iniciada a imitação muscular, +faz com que, dizia, os movimentos esboçados +despertem ou levem aos estados de +consciência que ordináriamente precedem essas +reacções emocionais. É por isso, e +ainda mais +do que por meu feitio afectivo, que eu, na +casa de educação, cuja +direcção me está confiada, +tanto uso da cortezia, procurando nunca +esquecer-me de cumprimentar e de pôr na +minha expressão e nos meus gestos uma grande +afabilidade. +<br /> + +<br /> + +Há-de sempre lembrar-me o que comigo se +passou, quando eu tinha quinze anos e havia +pouco tempo que freqùentava a minha Universidade: +a Universidade de Coimbra. Encontrei-me +uma vez com um cavalheiro de figura +grave, todo êle de preto, longas barbas brancas, +que eu nunca tinha visto, que completamente +desconhecia e que com grande espanto +e comoção minha, sendo eu a única +pessoa +que na ocasião com êle na rua se cruzava, +se descobriu, cumprimentando-me grave e afectuosamente, +logo me obrigando a mim a curvar +num grande gesto e com um grande sentimento +de respeito. Era o Reitor da Universidade, +o ilustre e venerando professor Dr. +<span class="smallcaps">Costa Simões</span>, +cuja +figura vim depois a conhecer +e que hoje ainda, ao falar nela, me +desperta uma emoção fortíssima. Era o +Reitor +que me ensinava a respeitá-lo. +<br /> + +<br /> + +Ás vezes, minhas senhoras e meus senhores, +me sorrio, me sorrio sim, mas com pezar, +<span class="pagenum">[139]</span> +quando vejo por exemplo, alguns dos meus +prefeitos virem procurar-me, pálidos com um +ar de cólera mal contida, queixar-se de alunos +que lhes faltaram ao respeito e satisfeito comigo +fico, quando consigo logo, mostrando-me +aos alunos com expressão um pouco diferente +da habitual, consigo, dizia, levá-los imediatamente +a mudar a sua atitude de cólera tambêm, +como a do prefeito, e a tomarem uma +atitude antagónica, de obediência, de pezar e +de desgôsto. Há, por vezes, na vida escolar, +alguns episódios, que se passam entre educadores +e educandos, que me lembram a scena +dum animal investindo furioso contra um espelho, +por nele ver reproduzida uma atitude +de hostilidade que cresce e aumenta à maneira +que êle mais se encoleriza. Enfurece-se, sem o +saber, contra si mesmo. +<br /> + +<br /> + +Estou certo de que o facto de freqùentemente +se verem professores, pessoas aliás de +fino trato, tomarem nas aulas atitudes grosseiras +e hostis, como o de políticos ostentarem +no govêrno atitudes completamente opostas +aos sentimentos que mostravam fora dele, resulta +da imitação inconsciente de atitudes que +viram na sua infância, ou na sua mocidade, +nos que ensinavam e governavam. +<br /> + +<br /> + +O professor é como o actor. O estado emocional +do público é um reflexo do seu próprio +estado emocional, é uma reacção +simpática, +provocada pela sua atitude, pelo seu gesto, +pela sua expressão. E se o actor tem de cuidar +e tem de estudar a estética da expressão, +o professor quási tanto como êle a deveria +<span class="pagenum">[140]</span> +estudar. Compreende-se bem porque é que +<span class="smallcaps">Van Biervliet</span> diz, +como disse: +«<em>todo o mestre, +e principalmente todo o professor primário, +deveria passar por um curso semelhante, +aos dos conservatórios, a fim de aprender a +falar belamente (califasia) e expressivamente, +ou melhor, direi, esculturalmente</em>.» +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="smallcaps signature">Minhas +Senhoras e meus +Senhores:</div> + +<br /> + +<br /> + +A atenção, como V. Ex.<sup>as</sup> +sabem, é a +faculdade +base, é a faculdade mãe, é a +mãe do +que vulgarmente se chama a inteligência. +Quem ensina, quem educa deve ter antes de +mais nada em vista provocar a atenção, prender +a atenção. Ora a atenção +depende intimamente +do interêsse. É indispensável que o +professor saiba estimular agradávelmente os +sentidos que tem de utilizar no ensino. Se a +sua atitude, se os seus gestos, se a sua expressão +são de molde a repelir, o aluno não presta +atenção, desvia a atenção. +Mas não é ainda só +por isto que o professor se deve preocupar +com a sua atitude, com os seus gestos, com a +sua maneira de falar; não é só para +chamar +a atenção e para a prender. É que o +gesto, a +expressão fisionómica, a maneira de nos +apresentarmos +aos alunos durante a lição, quando +falamos ou quando mostramos, ajudam a compreender +o que dizemos e o que mostramos. +Sabem V. Ex.<sup>as</sup> muito bem que se se fechar +<span class="pagenum">[141]</span> +os olhos, emquanto se ouve um discurso, se +tem de fazer um maior esfôrço para segui-lo, +para o ouvir, para o interpretar. Os míopes +que assistam a um espectáculo sem as suas +lunetas, e verão como parece que ouvem menos, +e como o espectáculo se lhes torna inferior, +menos interessante, menos agradável, mais +difícil de seguir. O gesto auxilia imensamente +a expressão verbal, e tanto que um gesto mal +adequado, ao que se diz, pode transtornar +completamente o sentido da palavra. +<br /> + +<br /> + +A mímica auxilia tambêm a memória. +Inconscientemente +está provado isto), quando +se ouve ou se vê alguem, tendemos a imitar-lhe, +quando mais não seja, +<em>interiormente</em>, a +expressão. As palavras que ouvimos articulam-se +na nossa linguagem interior e tanto +mais fácilmente as compreendemos, quanto +melhor elas forem articuladas. É mais fácil +reter o que se diz lentamente e rítmicamente, +do que aquilo que se diz rápidamente e com +má expressão. O ver esboçar um gesto +é por +vezes bastante para antever um pensamento, +e para nos recordarmos. +<br /> + +<br /> + +E tanto a mímica influi na memória que +hoje, em pedagogia moderna, se aconselha +muito o emprêgo da mímica como auxiliar +importantíssimo +do ensino. Está demonstrado +que é mais fácil fazer fixar a um aluno o que +se disse, gesticulando nós e fazendo-o gesticular +a êle, quando repete, por forma apropriada, +é claro, do que dizendo monótonamente e +sem gesto e fazendo-o repetir sem gesto e +sem expressão, papagueando. +<span class="pagenum">[142]</span> +<br /> + +<br /> + +Estou cêrto (a minha experiência que já +não é pequena me autoriza a dizê-lo), +que os +gagos até certo ponto não gaguejam quando +cantam, porque as imagens motrizes, no canto, +são mais bem desenhadas, mais perfeitas, +fixam-se melhor, esquecem-se menos, deformam-se +menos. De resto o canto tem hoje um +papel importante no ensino da articulação, no +ensino das línguas, mesmo nos normais. O +gago, estou convencido, diga-se de passagem, +é um doente da atenção, por excesso de +emotividade. +<br /> + +<br /> + +E agora, para resumir: <em>um professor que +gesticule com propriedade, que fale com +correcção, +que articule perfeitamente, que diga +com arte, que gesticule com arte, que se exprima +com arte, não é só +agradável, não é +apenas um artista, é um excelente +professor</em>. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="smallcaps signature">Minhas +Senhoras e meus +Senhores:</div> + +<br /> + +<br /> + +O estudo do gesto, da atitude, da expressão +tem ainda uma outra importância, uma +outra vantagem pedagógica de que ainda não +falei: é a de servir excelentemente para conhecermos +o aluno. +<br /> + +<br /> + +Deixem-me assistir, sem ser visto, ao recreio, +numa escola, e eu poderei, sem errar +muito, fazer alguns juízos sôbre o feitio mental +dos alunos. A criança até aos onze anos +é, +<span class="pagenum">[143]</span> +como diz <span class="smallcaps">Waynbaum</span>, +uma +espécie de alienado +sem freio social, ou um grande actor. As suas +atitudes, os seus gestos são francamente a +expressão do seu estado afectivo. A vontade, +a astúcia, o cálculo, o interêsse, as +conveniências, +os hábitos não são ainda freios +tão poderosos +que lhe dominem, que lhe mutilem ou +deformem o estado afectivo, que no-lo ocultem +ou o tornem difícil de descobrir: a expressão +é sincera, é a tradução +exacta do seu estado +e, até certo ponto, do seu carácter habitual. +<br /> + +<br /> + +A mímica é duma eloqùência +impressionante. +Examinai-a bem, examinai os gestos, +as atitudes, a expressão fisionómica e podereis +com facilidade fazer um juízo sôbre o feitio +mental, e principalmente sôbre o estado afectivo +na ocasião. Mandai, por exemplo, abrir a +boca a uma criança de menos de onze anos, +para lhe examinar a garganta, e notai bem a +expressão, a atitude, os gestos, a maneira de +reagir: fácilmente vereis qual é o grau de +eloqùência +da fisionomia na criança, e em grande +parte verificareis a verdade do que digo. +<br /> + +<br /> + +Dos onze anos para diante e mais tarde na +puberdade, o gesto, a expressão, a atitude já +enganam mais; o exame é mais sujeito a erros. +<br /> + +<br /> + +Nessa idade recorro muitas vezes ao exame +do olhar, emquanto falo, e sobretudo ao do +apêrto de mão, dêsse gesto de quem +<span class="smallcaps">Vaschide</span>, +num monumental trabalho de psicologia, disse +ser um gesto em aparência banal, mas revelador +de tôda a nossa vida mental sub-consciente +e a propósito do qual disse mais: «há +tôda +uma psicologia e da maior importância neste +<span class="pagenum">[144]</span> +contacto musculo-táctil que eu chamarei mental.» +O mesmo ilustre psicólogo francês, que a +morte tão cedo roubou, examinando alienados +do Asilo Villejuif, chegou à conclusão de que +aquele gesto tão trivial pode fornecer importantes +elementos para julgar da mentalidade +dos internados, o que, até certo ponto, confirma +a opinião do velho médico da +Salpetrière, +<span class="smallcaps">Falret</span>, que pelo +exame da +mão pretendia +apreciar o estado mental dos seus +doentes. +<br /> + +<br /> + +Mas não querendo em pedologia utilizar o +exame do apêrto de mão, o professor pode +recorrer com facilidade e êxito ao exame de +outros gestos, com o fim de colher alguns elementos +de ordem psíquica. +<br /> + +<br /> + +Na lição de abertura do meu curso de Pedologia +dêste ano, a propósito da medida da +agudeza visual e da auditiva, debaixo do +ponto de vista pedagógico, disse eu: «O exame +da agudeza visual e da auditiva presta-se +tambêm a permitir-nos julgar até certo ponto +de certas qualidades de ordem psíquica, que +ao educador muito interessam conhecer. A +maneira por que o aluno se apresenta, a rapidez, +a lentidão dos seus movimentos, a rapidez +ou a lentidão na leitura do quadro optométrico, +a maneira agitada ou, pelo contrário, +lenta e dócil por que se comporta, a precisão +ou a decisão na compreensão e +execução das +nossas ordens, tudo permite, com grande probabilidade +de acêrto, formar um juízo, útil e +necessário para o educador, sôbre o grau de +emotividade, ou sôbre a <em>potencialidade +nervosa</em> +<span class="pagenum">[145]</span> +de cada aluno, destrinçando particularmente +os dois tipos extremos, o do +<em>hipersténico</em>, +agitado, e o do +<em>hiposténico</em>, tardo nas +suas reacções. O educador encontrará +nesse +exame elementos importantes para calcular +possibilidades na educação, e tirar +indicações +muito úteis para a escolha dos meios educativos +a empregar». +<br /> + +<br /> + +E, como o exame da agudeza visual e da +auditiva, há outros que se podem praticar na +escola e que permittem examinar com rigor +os gestos, e por estes com certo êxito julgar +da mentalidade do aluno. +<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Ley</span>, a +propósito de um +estudo dinamométrico +dos alunos atardados da escola especial +de Antuérpia, fez notar que a +observação das +atitudes durante o exame da fôrça de +pressão, +lhe permitiram verificar: 1.º—que os nervosos +e indisciplinados, habitualmente atingem o +máximo, dum jacto, bruscamente; 2.º—que +nos apáticos a agulha do dinamómetro caminha +para o máximo, com regularidade e lentidão; +e finalmente, 3.º—que nos apáticos mais +acentuados, nos apáticos profundos, o máximo +ordináriamente era atingido depois de uma +contracção lenta, seguida de uma pausa, a que +por sua vez se seguiam algumas outras lentas +e mais pequenas contracções. +<br /> + +<br /> + +Mas mais ainda. A título de exemplo, apresentarei +a V. Ex.<sup>as</sup>, sob forma resumida, a +parte mais interessante do resultado dum exame +a que procedi, a fim de surpreender as +características do apêrto de mão em +rapazes +da Casa Pia, de 16 anos para cima, tomados +<span class="pagenum">[146]</span> +ao acaso, e chamados à minha presença, sem +saber para quê. Á medida que chegavam, e +entravam isoladamente no meu gabinete, cumprimentava-os +naturalmente estendendo-lhes a +minha mão; depois fazia-lhes algumas perguntas +de pouca importância para êles, como era +por exemplo, <em>qual o curso em que estavam? +se tinham frequentado a oficina?</em> etc, +inspeccionava-lhes +a mão, e media-lhes finalmente +com um dinamómetro +<span class="smallcaps">Mathieu</span> a +fôrça à pressão +da mão direita, procurando assim sugerir-lhes +a idea de que eu o que desejava era estabelecer +alguma relação entre a profissão e +as características das mãos. Terminando +êste +exame, despedia-os naturalmente, estendendo-lhes, +como no principio, a minha mão. Várias +<em>nuances</em> surpreendi na maneira por +que as +mãos dos alunos se comportavam durante o +cumprimento, mas fácilmente as pude agrupar, +distribuindo-as por três tipos +característicos:—1.º—o +dos que cumprimentam <em>entregando</em> a +mão, <em>sem apertar, +abandonando-a</em>; 2.º—o +dos que apertam a mão, mais ou menos fortemente, +sem tentar rápidamente fugir com +ela; 3.º—o dos que quási que não +<em>apertam</em>, e +que rápidamente a procuram retirar após o +contacto (<em>mãos que fogem, mãos +furtivas</em>). +<br /> + +<br /> + +Dias depois de feita a minha observação, +inesperadamente e sem dizer para que queria +informações, apenas dizendo que era para um +estudo, consultei separadamente o chefe dos +prefeitos e o professor de curso freqùentado +pelos alunos, que mais em contacto e durante +mais tempo está com êles. Foram tambêm +consultados +<span class="pagenum">[147]</span> +alguns mestres de oficinas, daqueles +poucos alunos entre os que eu examinei, que +nelas andavam. +<br /> + +<br /> + +O pedido da minha informação visava sobretudo +saber se na opinião das pessoas que +eu consultava, os alunos eram ou não disciplinados, +se se acomodavam ou não fácilmente +ao regimen habitual da Casa, e tambêm se +eram considerados sinceros ou pelo contrário +dissimulados. Ora, coisa interessante: no grupo +dos que mal apertam a mão, que rápidamente +a procuram furtar ao contacto da nossa, figuram +os alunos que na lista das informações +do professor e do prefeito têm as notas de dificeis +de disciplinar, dissimulados, reservados, +pouco sinceros; os que tem a nota firme de +disciplinados, exemplares, sinceros, aparentando +o que são, não dissimulando, estão no +grupo +dos que cumprimentam apertando a mão, e +não fugindo; finalmente no grupo dos que +não apertam e abandonam a mão, dos que +têm um aperto de mão insignificativo, figura +a maioria daqueles sôbre que professor e prefeito +tiveram dúvida em informar e traduziram +o seu juízo por um ponto de +interrogação. +<br /> + +<br /> + +Isto a meu ver basta para acabar de ilustrar +e documentar a tese de que a <em>simples +observação dum gesto tão trivial, como +é por +exemplo um apêrto de mão, pode servir ao +educador para fazer um rápido e útil exame +psicológico</em>. +<span class="pagenum">[148]</span><br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="smallcaps signature">Minhas +Senhoras e meus +Senhores:</div> + +<br /> + +<br /> + +Mas na escola, o gesto, a atitude, a fisionomia +servem ainda para alguma cousa mais. +<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Séguin</span>, no +seu afamado +livro sôbre o <em>tratamento +moral dos idiotas</em>, consagra +<em>páginas</em> +ao estudo e à preparação, no +professor, do +gesto, «desta forma oratória, como êle +diz, que +tôda a gente usa mais ou menos, mas muito +mal e sem o saber», e do olhar e da fisionomia, +«meios, como êle diz tambêm, de dirigir +e possuir o aluno». +<br /> + +<br /> + +A criança compreende mais a nossa fisionomia +e os nossos gestos do que a nossa palavra. +De resto, a palavra é mais para mentir. +O olhar e as mãos é que são as +verdadeiras +janelas da alma. É difícil dissimular com o +olhar e com o gesto, e estes melhores do que +nada se prestam a traduzir com tôda a verdade +o estado do nosso espírito. +<br /> + +<br /> + +Fixai o olhar do vosso educando, aprendei +a usar de gestos apropriados, a traduzir pela +expressão do olhar e pela maneira de gesticular +a vossa intenção e com facilidade podereis +socegar o agitado, disciplinar o indisciplinado, +tornar atento o distraído, despertar o apático, +imobilizar quando quizerdes imobilizar, agir +quando quizerdes que se movam, castigar +quando quizerdes castigar, premiar quando +quizerdes premiar, e por êles mais fácilmente +do que com os vossos discursos podereis conseguir +<span class="pagenum">[149]</span> +o que constitui, tanto no ensino de +anormais como de normais, o principal segredo +da arte do educador: saber fazer do educando +um amigo, saber apossar-se do aluno. +<br /> + +<br /> + +Educai não só com a alma; educai com +alma. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="smallcaps signature">Minhas +Senhoras e meus +Senhores:</div> + +<br /> + +<br /> + +O gesto, a atitude, não são apenas a +expressão +do estado afectivo, são por vezes a +própria causa do estado afectivo. Segundo +<span class="smallcaps">William James</span>, o +grande +psicólogo americano, +o estado emocional não é que determina a +expressão emocional. A percepção dum +objecto, +ou dum acto capaz de nos emocionar, provoca, +como por reflexo, reacções corporais, +reacções nervosas, que geram atitudes, +expressões, +gestos, perturbações orgânicas e +são +estas reacções corporais que, impressionando-nos, +geram os estados afectivos. Como corolário +desta tese, <span class="smallcaps">James</span> +sustenta que +tôda a produção, +voluntária e a sangue frio, das chamadas +manifestações duma emoção +determina +essa emoção. Para comover-nos basta colocarmo-nos +em atitude de comoção. Entristecereis +se persistirdes em tomar atitudes de tristeza; +cultivai as atitudes recolhidas, em flexão, +próprias +dos humildes e tornar-vos heis humildes; +curvai-vos em adoração e acabareis por adorar; +preparai-vos para admirar e admirareis. +Se, pelo contrário, cuidardes principalmente de +<span class="pagenum">[150]</span> +atitudes abertas, em extensão, próprias para +exprimir a alegria ou a fôrça, tornar-vos heis +alegres, fortes, destemidos, senhores de vós, e, +se exagerardes, revoltados. +<br /> + +<br /> + +Antes de James, pode-se dizer que os educadores +haviam descoberto a teoria; pelo menos +a experiência os levara a proceder de +acôrdo com ela. A importância que muitos +dão +ao ensino da civilidade demonstra-o, e demonstra-o +sobretudo o cuidado com que nos manuais +de civilidade, nos livros que muitos chamam +de educação, própriamente dita, e +principalmente +nos das casas de educação religiosa, +demonstra-o sobretudo, dizia, o cuidado com +que neles se prescrevem as regras que devem +pautar o gesto, o tratamento, a atitude, a expressão +do olhar, etc., tôdas visando, nas casas +de educação religiosa, a modéstia, o +ar humilde, +recolhido, obediente, por vezes servil, que +leva ao estado de espírito que principalmente +se tem em vista criar. Vale a pena ler, por +exemplo, para verificar o que digo, vale a +pena ler por exemplo o <em>Regulamento para as +casas da Pia Sociedade de S. Francisco de +Sales</em>. +<br /> + +<br /> + +Compreende-se bem agora porque é que +eu tanto me preocupo, quando falo com os +meus alunos, ou quando êles falam comigo, +em aconselhar-lhes ou sugestionar-lhes uma +atitude recta, firme, simples, afectuosa, forçando-os +a fitarem-me naturalmente, serenamente, +modestamente, e a falar sem cochichar, mas +tambêm sem levantar demasiado a voz, procurando +sempre regular-lhes a palavra e o gesto, +<span class="pagenum">[151]</span> +e dar-lhes um ar disciplinado e simpático. E +se tanto me dá prazer ver a harmonia no andar, +no falar, no gesticular, se tanto às vezes +me comovo, quando vejo desfilar ordenadamente +e nobremente os rapazes da nossa Casa +Pia, não é só por simples +emoção estética, é +porque por aqueles sinais externos eu julgo +do estado interno da nossa Casa. Vai bem. +<br /> + +<br /> + +<em>Educadores, educai o corpo, que educareis +o espírito</em>. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="smallcaps signature">Minhas +Senhoras e meus +Senhores:</div> + +<br /> + +<br /> + +Os nossos gestos, as nossas expressões, +constituem um dinamismo afectivo que não só +actua sôbre os nossos próprios sentimentos, e +exprimem o que nós sentimos, mas tambêm +actua sôbre os sentimentos dos outros, inflùindo +fortemente neles. Os gestos, as atitudes, +as expressões fisionómicas são +factores +sociais importantíssimos. A sociedade é um +verdadeiro campo de fôrças afectivas. E a +maneira de ser de cada um de nós, e a maneira +de nos exprimirmos, e de nos comportarmos +actuam no meio em que vivemos como +fôrças orientadoras ou perturbadoras da ordem +social. +<br /> + +<br /> + +Habituar os nossos educandos às atitudes +e gestos de respeito, gestos de uma cortezia +simples, mas atraente, é trabalhar pela +<em>tolerância</em>, +<span class="pagenum">[152]</span> +pela «aceitação serena das +diferenças +que existem entre os homens», como diz +<span class="smallcaps">Lanson</span>. +Procedendo assim aumentar-se há a fôrça +da solidariedade, criar-se há a atmosfera mais +favorável à descoberta da verdade, ao amor +do belo e à prática do bem, e vencer-se +há +um dos nossos maiores inimigos internos:—«a +intolerância, que, como a ignorância, ainda +na expressão de <span class="smallcaps">Lanson</span>, +é um instrumento de +despotismo», e de divisão, acrescentarei eu. +<br /> + +<br /> + +Como vêdes, a educação do gesto +até tem +um alcance político. Como vêdes até +pode contribuir +para a solução do nosso maior problema: +o problema da <em>unidade nacional</em>. +<br /> + +<br /> + +Mais uma vez me convenço de que os nossos +maiores problemas são problemas pedagógicos. +Mais uma vez me convenço de que a +educação +é a maior das fôrças +políticas. Mais uma +vez compreendo o sublime paradoxo, a que +nos momentos mais difíceis da sua vida histórica +com êxito recorreram as duas grandes +nações +europeias, centros dos dois poderosíssimos +sistemas de civilização, que neste grandioso +e aflitivo momento da vida da Europa, +se batem e formidávelmente lutam; sim, mais +uma vez compreendo porque «se foi pedir a +salvação da Pátria à +força em aparéncia a +menos feita para isso, aquela cuja acção +é, por +definição mesma, a mais modesta, a mais doce, +a mais longínqua—a +educação»<sup><a href="#n14">[14]</a></sup>. +<span class="pagenum">[153]</span> +<br /> + +<br /> + +Recorramos tambêm nós a ela. +<em>Eduquemo-nos +e eduquemos</em>. +<br /> + +<br /> + +Que a arte entre na escola e que o fim da +escola seja como o da própria arte no dizer +de <span class="smallcaps">Tolstoi</span>:—«unir +as +almas, associando-as +num mesmo sentimento». E que nesta ocasião +de perigo, e sempre, todos os meios, todos os +pretextos sirvam, como me está servindo esta +minha leitura, sirvam para cultivar o sentimento +supremo e utilíssimo do amor da +Pátria. +<br /> + +<br /> + +Disse. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h3>ALGUMAS PUBLICAÇÕES +DO AUTOR, SÔBRE ASSUNTOS +PEDAGÓGICOS<sup><a href="#n15">[15]</a></sup> +</h3> + +<br /> + +<br /> + +<em>Antropometria +escolar</em>—Relatório apresentado ao IV +Congresso Nacional da Liga Contra a Tuberculose, 1907. +<br /> + +<br /> + +<em>Uma colónia de +férias</em>—Apontamentos de antropometria +médica publicados no <em>Boletim da +Assistência +Nacional aos Tuberculosos</em> e na +<em>Clinique infantile</em>, 1908. +<br /> + +<br /> + +<em>Instrução e política +em Portugal</em>—Artigo publicado +na <em>Alma Nacional</em>, 1909. +<br /> + +<br /> + +<em>A educação intelectual e moral +da mocidade nos +colégios dos +jesuítas</em>—Conferência, 1910. +<br /> + +<br /> + +<em>Carta dirigida ao Grão-Mestre da +Maçonaria Portuguesa, +no dia do Centenário do nascimento de José +Estêvão</em>, 1910. +<br /> + +<br /> + +<em>O ensino das sciências fisico-naturais na +escola primária +portuguesa</em>—Artigo publicado na +<em>Revista de +Educação</em> +e no <em>Éducateur Moderne</em>, +1910. +<br /> + +<br /> + +Casa Pia de Lisboa—<em>Algumas +observações sôbre alunos +gagos</em>—Artigo publicado na <em>Escola +Nova</em>, 1912. +<br /> + +<br /> + +<em>Refeições +escolares</em>—Artigo publicado na +<em>Medicina +Moderna</em>, 1912. +<br /> + +<br /> + +<em>A bem da +República</em>—Discurso lido na Casa Pia de +Lisboa e publicado na <em>Revista de +Educação Geral e +Técnica</em>, 1916. +<br /> + +<br /> + +<em>Pneumogrames de bégues—Contribution +à l'étude de +l'emotivité</em>, publicado no +<em>Boletim da Sociedade Portuguesa +de Sciências Naturais</em>, 1916. +<br /> + +<br /> + +<em>Gimnástica—escola de moral e de +civismo</em>—Discurso +proferido na Casa Pia, por ocasião da +recepção de +Sua Ex.<sup>a</sup> o Presidente da República e +dos membros do +Congresso de Educação Física, +publicado na <em>Revista de +Educação</em>, 1916. +<br /> + +<br /> + +<em>Entre dois Congressos</em>—Artigo +publicado no jornal +<em>A República</em>, 1908. +<br /> + +<br /> + +<em>Elementos para a elaboração de +um projecto de distribuição</em> +<span class="pagenum">[156]</span> +<em>de água esterelizada aos alunos do Liceu de +Camões</em>—Artigo publicado na +<em>Medicina Moderna</em>, 1911. +<br /> + +<br /> + +<em>Ensino útil e ensino +utilitário</em>—Artigo publicado no +<em>Tempo</em>, de Lisboa, 1911. +<br /> + +<br /> + +<em>Cantinas escolares</em>—Carta ao Snr. +Presidente da República, +publicada no jornal +<em>República</em>, 1911. +<br /> + +<br /> + +<em>Numa festa da Casa Pia</em>, trechos dum +discurso, publicado +na <em>Revista de +Educação</em>, 1913. +<br /> + +<br /> + +Casa Pia de Lisboa—<em>Sôbre uns acidentes no +recreio</em>—Artigo +publicado no <em>Movimento +médico</em>, 1913. +<br /> + +<br /> + +<em>Ensino dos surdos-mudos</em>—Discurso +proferido por +ocasião da abertura dum curso para +habilitação de professores +de surdos-mudos, discurso publicado na +<em>Educação</em>, +1913. +<br /> + +<br /> + +<em>A spirometria em antropometria +escolar</em>—Artigo publicado +na revista <em>A Tutoria</em>, de Lisboa, +1913. +<br /> + +<br /> + +Educação +física—<em>Elogio do Dr. Jaime Mauperrin +dos Santos</em>, lido na Sociedade de Geografia e +publicado +no <em>Sport de Lisboa</em>, 1914. +<br /> + +<br /> + +<em>Dois documentos para a +Historia</em>—Duas cartas a +propósito de uma conferência sôbre a +educação nos colégios +de jesuítas, publicadas na +<em>República</em>, 1914. +<br /> + +<br /> + +<em>Da influência dos trabalhos manuais no +desenvolvimento +do espírito</em>—Discurso lido na Casa Pia de +Lisboa, +por ocasião do Congresso Pedagógico, e publicado +no <em>Diário de Noticias</em> e +em parte na <em>Medicina Contemporanea</em>, +onde se encontram tabelas que o documentam, +1914. +<br /> + +<br /> + +<em>Uma ilusão +muscular</em>—Artigo publicado na +<em>Medicina +Contemporanea</em>, 1914. +<br /> + +<br /> + +<em>Algumas considerações +sôbre um calão escolar</em>—O +calão da Casa Pia—Artigo publicado de +colaboração com +Canuto Soares, na revista <em>A Aguia</em>, +do Porto, 1914. +<br /> + +<br /> + +<em>Arte e democracia</em>, Discurso, in +<em>Atlantida</em>, 1918. +<br /> + +<br /> + +<em>Como educar o operário e seus +filhos</em>, Tese Nacional +do Livre Pensamento, in <em>Actas do +Congresso</em>, 1918. +<br /> + +<br /> + +<em>No Lactário</em>, Discurso, in +<em>A Aguia</em>, 1919. +<br /> + +<br /> + +<em>Inteligência motriz</em>, in +<em>A Medicina Moderna</em>, 1919. +<br /> + +<br /> + +<em>Morfologia e educação +física</em>, in <em>Medicina +Contenporanea</em>, +1920. +<br /> + +<br /> + +<em>O foot-ball e as curvas do crescimento na Casa Pia +de Lisboa</em>, in jornal +<em>Football</em>, 1920. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="bbox"><br /> + +<table style="text-align: left; width: 100%;" border="0" cellpadding="2" cellspacing="2"> + + <tbody> + + <tr> + + <td style="text-align: left; vertical-align: middle;"><big><big><big>LVMEN</big></big></big></td> + + <td style="text-align: center;" valign="top">EMPRESA +INTERNACIONAL EDITORA <br /> + + <br /> + +Lisboa—Porto—Coimbra—Rio de Janeiro</td> + + </tr> + + </tbody> +</table> + +<br /> + +</div> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<table style="text-align: left; width: 100%;" border="0" cellpadding="2" cellspacing="2"> + + <tbody> + + <tr> + + <td style="text-align: center;" valign="top"><img style="width: 100px; height: 114px;" alt="" src="images/fig03.png" /></td> + + <td style="text-align: center; vertical-align: middle;"> + <h3>ULTIMAS PUBLICAÇÕES</h3> + + </td> + + </tr> + + </tbody> +</table> + +<br /> + +<br /> + +<table style="text-align: left; width: 100%;" class="tinyl" border="0" cellpadding="2" cellspacing="2"> + + <tbody> + + <tr> + + <td><span class="smallcaps">Dr. Mendes dos +Remedios</span></td> + + <td>—</td> + + <td><b>Historia +da Literatura +Portuguesa</b>, 5.ª edição</td> + + </tr> + + <tr> + + <td><span class="smallcaps">Dr. Eugenio de +Castro</span></td> + + <td>—</td> + + <td><b>Camafeus +Romanos</b>—<em>Versos</em></td> + + </tr> + + <tr> + + <td><span class="smallcaps">Teixeira de +Pascoais</span></td> + + <td>—</td> + + <td><b>Maranos</b>, +2.ª +edição—<em>Versos</em></td> + + </tr> + + <tr> + + <td></td> + + <td></td> + + <td><b>As Sombras</b>, 2.ª +Edição—<em>Versos</em></td> + + </tr> + + <tr> + + <td></td> + + <td></td> + + <td><b>Cantos Indecisos</b>, 1.ª +edição—<em>Versos</em></td> + + </tr> + + <tr> + + <td><span class="smallcaps">Dr. Antonio +Cabral</span></td> + + <td>—</td> + + <td><b>Terras +Longinquas</b>—<em>Viagens</em></td> + + </tr> + + <tr> + + <td><span class="smallcaps">Manuel da Silva +Gaio</span></td> + + <td>—</td> + + <td><b>Eça de +Queiroz</b>—<em>Carta</em></td> + + </tr> + + <tr> + + <td><span class="smallcaps">João +Ameal</span></td> + + <td>—</td> + + <td><b>Em voz alta e em voz +baixa</b>—<em>Dialogos</em></td> + + </tr> + + <tr> + + <td><span class="smallcaps">Rui +Gomes</span></td> + + <td>—</td> + + <td><b>Elementos de Teoria de +Comércio</b>, 1.ª parte</td> + + </tr> + + <tr> + + <td><span class="smallcaps">Dr. Pedro +Fazenda</span></td> + + <td>—</td> + + <td><b>A Crise Politica em +Portugal</b></td> + + </tr> + + </tbody> +</table> + +<span class="smallcaps"></span><br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<b>Notas:</b> +<br /> + +<br /> + +<a name="n1" id="n1"></a><sup>[1]</sup> +Lição de abertura do curso de Pedologia na +antiga +Escola Normal de Lisboa. Lida em 19 de Janeiro +de 1915. Publicada no jornal da <em>Tutoria da +Infância</em> e +no <em>Anuário da Casa Pia de +Lisboa</em>. +<br /> + +<br /> + +<a name="n2" id="n2"></a><sup>[2]</sup> +Lição de abertura do Curso de Psicologia +Experimental +da Escola Normal de Bemfica, no 2.º semestre +do ano lectivo de 1919-20. Publicada no <em>Boletim +Bibliográfico +da Bibliotéca da Universidade de Coimbra</em> +e no <em>Anuário da Casa Pia de +Lisboa</em>. +<br /> + +<br /> + +<a name="n3" id="n3"></a><sup>[3]</sup> +Lição de encerramento do Curso de Pedologia +na Escola Normal de Lisboa no ano lectivo de 1914-15. +Publicada no <em>Arquivo de Anatomia e +Antropologia</em> do +Instituto de Anatomia da Faculdade de Medicina de Lisboa, +e no <em>Anuário da Casa Pia</em>. +<br /> + +<br /> + +<a name="n4" id="n4"></a><sup>[4]</sup> +Ao lado das tabelas e curvas do Dr. <span class="smallcaps">Mascarenhas +de Melo</span> devem citar-se as tabelas e curvas de cuja +existência só hoje tive conhecimento e que foram +elaboradas +pelo ilustre professor de gimnástica desta Escola +Normal, o Sr. <span class="smallcaps">Pedro Ferreira</span>, +quando professor no extinto +Colégio de Campolide. Êsses trabalhos foram +publicados +num folheto intitulado—<em>La gymnastique +médicale +au Collége de Campolide</em>,—que foi +apresentado, +segundo me informa aquele meu venerando colega, seu +autor, no Congresso de Higiéne Escolar, realizado em +Paris em 1910. Os dados colhidos pelo Sr. professor +<span class="smallcaps">Pedro +Ferreira</span> poderão servir, particularmente, +para um +estudo das crianças da aristocracia portuguesa, visto que +era sobretudo às camadas aristocráticas da nossa +sociedade +que pertenciam os alunos de Campolide. +<br /> + +<br /> + +<a name="n5" id="n5"></a><sup>[5]</sup> +Esta curva figura tambêm no último +relatório +da <em>Escola-oficina n.º 1</em>, +onde o Dr. <span class="smallcaps">Manchego</span> +tem feito +observações antropométricas. +<br /> + +<br /> + +<a name="n6" id="n6"></a><sup>[6]</sup> +Ainda há minutos o sr. professor <span class="smallcaps">Pedro +Ferreira</span>, +ao ter conhecimento desta passagem da minha +lição, me informou de que tem verificado o facto +nesta +Escola e no Liceu Maria Pia, onde tem procedido a +mensurações. +Há dias, neste nosso curso, entre as senhoras, +me disse ter observado casos bem demonstrativos. +<br /> + +<br /> + +<a name="n7" id="n7"></a><sup>[7]</sup> +Vd. sobre o assumpto desta lição o livro do +Snr. Dr. <span class="smallcaps">Alves dos +Santos</span>:—<em>Educação +Nova</em>—As +bases—I—O <em>Corpo da +criança</em> (1919) e a conferência +que preparei para a Escola de oficiais médicos milicianos +e publiquei em 1917 no <em>Arquivo de Anatomia e +Antropologia</em>, com o título: +<em>Auxanometria militar</em>.<br /> + +<br /> + +<a name="n8" id="n8"></a><sup>[8]</sup> +Lição de abertura do Curso de Pedologia da +Escola Normal de Lisboa no ano lectivo de 1915-1916. +Lida em 20 de Janeiro de 1916.<br /> + +<br /> + +<a name="n9" id="n9"></a><sup>[9]</sup> +Lição de abertura do Curso de Pedologia na +Escola Normal de Lisboa, no anno lectivo de 1916-1917. +Lida e explicada, em 26 de Fevereiro de 1917. Publicada +no <em>Boletim do Ministério da +Instrução Pública</em>.<br /> + +<br /> + +<a name="n10" id="n10"></a><sup>[10]</sup> +Lição de encerramento do curso de pedologia +da +Escola Normal de Lisboa, no ano lectivo de 1915-1916, +lida na sala de Física da Faculdade de Sciências +de +Lisboa e publicada, como as duas anteriores, no +<em>Boletim +do Ministério da Instrução +Pública</em> e no +<em>Anuário da +Casa Pia de Lisboa</em>.<br /> + +<br /> + +<a name="n11" id="n11"></a><sup>[11]</sup> +Lição de abertura dum curso de +aperfeiçoamento +na Escola Normal Primária de Lisboa (Bemfica), no ano +lectivo de 1919-1920. Publicada na <em>Medicina +Contemporanea</em>.<br /> + +<br /> + +<a name="n12" id="n12"></a><sup>[12]</sup> +Lição de abertura do Curso de Psicologia +experimental +no ano lectivo de 1920-1921, publicada na +<em>Medicina Contemporanea</em>.<br /> + +<br /> + +<a name="n13" id="n13"></a><sup>[13]</sup> +Conferência realizada no dia 17 de Abril de 1916, +no Salão do Conservatório, e publicada em +separata pela +Sociedade de Estudos Pedagógicos.<br /> + +<br /> + +<a name="n14" id="n14"></a><sup>[14]</sup> +Palavras de <span class="smallcaps">Ferdinand Buisson</span>.<br /> + +<br /> + +<a name="n15" id="n15"></a><sup>[15]</sup> +Excluem-se as publicações que vão +reproduzidas e reunidas +neste volume e alguns outros trabalhos publicados nos +anuários da +Casa Pia.<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="fbox"> +<h2>Lista de erros +corrigidos</h2> + +<div style="text-align: center;">Aqui +encontram-se +listados todos os erros encontrados e corrigidos:</div> + +<br /> + +<br /> + +<table style="width: 80%; text-align: left; margin-left: auto; margin-right: auto;" border="0" cellpadding="4" cellspacing="4"> + + <tbody> + + <tr align="right"> + + <td style="width: 61px;"></td> + + <td style="font-weight: bold; text-align: center; width: 121px;">Original</td> + + <td style="text-align: center; width: 5px;"></td> + + <td style="font-weight: bold; text-align: center; width: 135px;">Correcção</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right; width: 61px;"><a name="e1" id="e1"></a><a href="#p56">#pág. +56</a></td> + + <td style="text-align: center; width: 121px;">infra-normais</td> + + <td style="text-align: center; width: 5px;">...</td> + + <td style="text-align: center; width: 135px;">supra-normais</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right; width: 61px;"><a name="e2" id="e2"></a><a href="#p83">#pág. +83</a></td> + + <td style="text-align: center; width: 121px;"><em>Montesssóri</em></td> + + <td style="text-align: center; width: 5px;">...</td> + + <td style="text-align: center; width: 135px;"><em>Montessóri</em></td> + + </tr> + + </tbody> +</table> + +<br /> + +<br /> + +</div> + +</div> + + + + + + + + +<pre> + + + + + +End of the Project Gutenberg EBook of Algumas lições de psicologia e +pedologia, by António Aurélio da Costa Ferreira + +*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK ALGUMAS LIÇÕES DE PSICOLOGIA *** + +***** This file should be named 32072-h.htm or 32072-h.zip ***** +This and all associated files of various formats will be found in: + https://www.gutenberg.org/3/2/0/7/32072/ + +Produced by Rita Farinha and the Online Distributed +Proofreading Team at https://www.pgdp.net (This file was +produced from images generously made available by National +Library of Portugal (Biblioteca Nacional de Portugal).) + + +Updated editions will replace the previous one--the old editions +will be renamed. + +Creating the works from public domain print editions means that no +one owns a United States copyright in these works, so the Foundation +(and you!) can copy and distribute it in the United States without +permission and without paying copyright royalties. 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Redistribution is +subject to the trademark license, especially commercial +redistribution. + + + +*** START: FULL LICENSE *** + +THE FULL PROJECT GUTENBERG LICENSE +PLEASE READ THIS BEFORE YOU DISTRIBUTE OR USE THIS WORK + +To protect the Project Gutenberg-tm mission of promoting the free +distribution of electronic works, by using or distributing this work +(or any other work associated in any way with the phrase "Project +Gutenberg"), you agree to comply with all the terms of the Full Project +Gutenberg-tm License (available with this file or online at +https://gutenberg.org/license). + + +Section 1. General Terms of Use and Redistributing Project Gutenberg-tm +electronic works + +1.A. By reading or using any part of this Project Gutenberg-tm +electronic work, you indicate that you have read, understand, agree to +and accept all the terms of this license and intellectual property +(trademark/copyright) agreement. If you do not agree to abide by all +the terms of this agreement, you must cease using and return or destroy +all copies of Project Gutenberg-tm electronic works in your possession. +If you paid a fee for obtaining a copy of or access to a Project +Gutenberg-tm electronic work and you do not agree to be bound by the +terms of this agreement, you may obtain a refund from the person or +entity to whom you paid the fee as set forth in paragraph 1.E.8. + +1.B. "Project Gutenberg" is a registered trademark. It may only be +used on or associated in any way with an electronic work by people who +agree to be bound by the terms of this agreement. There are a few +things that you can do with most Project Gutenberg-tm electronic works +even without complying with the full terms of this agreement. See +paragraph 1.C below. 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It exists +because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from +people in all walks of life. + +Volunteers and financial support to provide volunteers with the +assistance they need are critical to reaching Project Gutenberg-tm's +goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will +remain freely available for generations to come. In 2001, the Project +Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure +and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations. +To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation +and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4 +and the Foundation web page at https://www.pglaf.org. + + +Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive +Foundation + +The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit +501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the +state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal +Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification +number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at +https://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg +Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent +permitted by U.S. federal laws and your state's laws. + +The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S. +Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered +throughout numerous locations. Its business office is located at +809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email +business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact +information can be found at the Foundation's web site and official +page at https://pglaf.org + +For additional contact information: + Dr. Gregory B. Newby + Chief Executive and Director + gbnewby@pglaf.org + + +Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg +Literary Archive Foundation + +Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide +spread public support and donations to carry out its mission of +increasing the number of public domain and licensed works that can be +freely distributed in machine readable form accessible by the widest +array of equipment including outdated equipment. Many small donations +($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt +status with the IRS. + +The Foundation is committed to complying with the laws regulating +charities and charitable donations in all 50 states of the United +States. 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Donations are accepted in a number of other +ways including including checks, online payments and credit card +donations. To donate, please visit: https://pglaf.org/donate + + +Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic +works. + +Professor Michael S. Hart was the originator of the Project Gutenberg-tm +concept of a library of electronic works that could be freely shared +with anyone. For thirty years, he produced and distributed Project +Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support. + + +Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed +editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S. +unless a copyright notice is included. Thus, we do not necessarily +keep eBooks in compliance with any particular paper edition. + + +Most people start at our Web site which has the main PG search facility: + + https://www.gutenberg.org + +This Web site includes information about Project Gutenberg-tm, +including how to make donations to the Project Gutenberg Literary +Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to +subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks. + + +</pre> + +</body> +</html> diff --git a/32072-h/images/fig01.png b/32072-h/images/fig01.png Binary files differnew file mode 100644 index 0000000..ec00eb3 --- /dev/null +++ b/32072-h/images/fig01.png diff --git a/32072-h/images/fig02.png b/32072-h/images/fig02.png Binary files differnew file mode 100644 index 0000000..c05e4cc --- /dev/null +++ b/32072-h/images/fig02.png diff --git a/32072-h/images/fig03.png b/32072-h/images/fig03.png Binary files differnew file mode 100644 index 0000000..8f2f506 --- /dev/null +++ b/32072-h/images/fig03.png |
