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diff --git a/32020-h/32020-h.htm b/32020-h/32020-h.htm new file mode 100644 index 0000000..e02a3eb --- /dev/null +++ b/32020-h/32020-h.htm @@ -0,0 +1,4661 @@ +<!DOCTYPE HTML PUBLIC "-//W3C//DTD HTML 4.01 Transitional//EN" "http://www.w3.org/TR/html4/loose.dtd"> +<html> +<head> + <title>Serão Inquieto, por António Patricio</title> + <meta name="Author" content="António Patricio"> + <meta name="Edition" + content="2.ª Edição. Lisboa: Livrarias Aillaud e Bertrand, 1920."> + <meta http-equiv="content-type" content="text/html; charset=iso-8859-15"> + <style type="text/css"> + body{margin-left: 10%; + margin-right: 10%; + } + .pn { + text-indent: 0em; + position: absolute; + left: 92%; + font-size: smaller; + text-align: right; + color: silver; + } + #corpo p{text-align: justify; text-indent: 1em;} + h1, h2 {text-align: center; margin-top: 4em; margin-bottom: 3em;} + h1, h3 {text-align: center;} + #corpo p.sinopse {margin: 0; font-size: small; text-indent: 0;} + hr.dotted {border: 0; border-bottom: dotted 2px #000;} + hr {border: 0; border-bottom: solid 2px;} + blockquote {margin-left: 20%; font-size: small;} + a {text-decoration: none;} + .rodape { + font-size: 0.8em; + margin: 2em; + } + .direita {position: absolute; right: 10%;} + .errata {border-bottom: dotted 2px #aaaaaa;} + .typo {border-bottom: dotted 2px #77dd77;} + .fbox {border: solid black 1px; background-color: #FFFFCC; font-size: 0.8em; + margin-left: 10%; margin-right: 10%;} + </style> +</head> + +<body> + + +<pre> + +The Project Gutenberg EBook of Serão inquieto : contos, by Patrício António + +This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with +almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or +re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included +with this eBook or online at www.gutenberg.org + + +Title: Serão inquieto : contos + +Author: Patrício António + +Release Date: April 17, 2010 [EBook #32020] + +Language: Portuguese + +Character set encoding: ISO-8859-1 + +*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK SERÃO INQUIETO : CONTOS *** + + + + +Produced by Pedro Saborano (This file was produced from +images generously made available by The Internet Archive) + + + + + + +</pre> + + +<div class="fbox"> +<p><b>Notas de transcrição:</b></p> + +<p>O texto aqui transcrito, é uma cópia integral do livro impresso em 1920.</p> + +<p>No original havia uma errata. Nesta adição corrigimos os erros ali assinalados, e +marcámos as alterações colocando o texto originalmente impresso em comentário +como: <span class="errata" title="Errata: como no original">correcção</span>. +Outros erros detectados durante a transcrição, foram devidamente corrigidos e, +quando poderiam alterar a intenção do autor, foram assinalados como: <span +class="typo" title="no original: erro">correcção</span>.</p> +</div> + +<p> </p> + +<div style="text-align: center; border: double 10px #000;"> +<p><big>ANTÓNIO PATRÍCIO</big></p> + +<p><big>....</big></p> + +<p><big><big><big><big>SERÃO INQUIETO</big></big></big></big></p> + +<p><big>...</big></p> + +<p><big>CONTOS</big></p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p><br> +</p> + +<p><br> +</p> + +<p>LIVRARIAS AILLAUD E BERTRAND—PARIS-LISBOA</p> +</div> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p style="text-align: center;"><br> +</p> + +<p style="text-align: center;"><big><big><br> +SERÃO INQUIETO</big></big></p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p style="text-align: center;">DO AUCTOR</p> + +<p> </p> + +<p>OCEANO (versos).</p> + +<p>O FIM (história dramática em dois quadros).</p> + +<p>SERÃO INQUIETO (contos), 2.ª edição.</p> + +<p>PEDRO O CRU (drama em 4 actos), 2.ª edição. </p> + +<p>DINIS E ISABEL (Conto de primavera).</p> + +<p> </p> + +<p style="margin-left: 2em;"><em>Em preparação:</em></p> + +<p> </p> + +<p>POEMAS.</p> + +<p>O REI DE SEMPRE (Tragedia Nossa).</p> + +<p>SHEHÉREZADE (contos).</p> + +<p>CINCO DIÁLOGOS DE SONHO.<br> +</p> + +<p><br> +</p> + +<p><br> +</p> + +<p> </p> + +<p> </p> +<hr> + +<p style="text-align: center;"><small>Composto e impresso na Tip. da Empresa +Diário de Notícias<br> +Rua do Diário de Notícias, 78<br> +</small></p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<div style="text-align: center;"> +<p><big>ANTÓNIO PATRÍCIO</big></p> + +<p><big>...</big></p> + +<p><big><big><big><big>SERÃO</big></big></big></big></p> + +<p><big><big><big><big>INQUIETO</big></big></big></big></p> + +<p>CONTOS</p> + +<p><small>2.ª EDIÇÃO</small></p> + +<p> </p> + +<p><big>....</big></p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p><br> +<small>LIVRARIAS AILLAUD E BERTRAND<br> +PARIS—LISBOA<br> +LIVRARIA CHARDRON<br> +PORTO<br> +LIVRARIA FRANCISCO ALVES<br> +RIO DE JANEIRO<br> +1920</small></p> +</div> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p style="text-align: center;">A</p> + +<p> </p> + +<p style="text-align: center;">ANTÓNIO CÂNDIDO</p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<blockquote style="margin-left: 10em;"> + <p> Ecris avec du sang et tu apprendras que le sang est esprit.</p> + + <p style="margin-left: 2em;"><em>Ainsi parlait Zarathoustra.</em></p> + + <p style="text-align: right;">F. NIETZSCHE.</p> +</blockquote> + +<p><span class="pn">{9}</span></p> + +<p> </p> + +<div id="corpo"> +<h1><a name="SECTION00010">DIÁLOGO COM UMA ÁGUIA</a></h1> + +<p> </p> + +<h2><a name="SECTION00011">Diálogo com uma águia</a></h2> + +<p>Fui jantar hontem ao palácio. Estava lindo! Felizmente ninguêm. Tudo +deserto. Quando eu desci do restaurante, a accender um Laferme com preguiça, +caía a tarde de outono em vitrais ricos p'ralêm das ramarias a despir-se. +Passeei algum tempo na avenida, e sem saber porquê, indo ao acaso, fui estacar +nesse recanto triste onde mora engaiolada uma águia velha. Há que tempos +conheço êste mostrengo, num abandono de asilo, de ar pedinte, com asas que +diríeis paralíticas, de um tom coçado e neutro de miséria!... Uma águia isto, +êste espantalho! A decadência reles de estas asas que tanta<span +class="pn">{12}</span> vez olhei com indiferença, nem eu sei bem porquê, +impressionou-me. Um animal de fábula, de mito, um ser que bebeu sol de olhos +abertos, curvava as garras frouxas num poleiro, e depois de carnagens e +aventuras, encolhido, misérrimo, com fome, acabava a aspirar a um meio-bife, +como um vadio à porta de um café. Coitada! Teve uma forma assim aquela águia +que saboreou Prometeu numa montanha!</p> + +<p>A <span class="typo" title="no original: goiola">gaiola</span> está sórdida, +está imunda. Antes estivesse empalhada num museu, ou no quarto de trabalho de +um zoólogo, sócio da Academia, homem de estudo, que ao voltar da rua ou da +glória, lhe pendurasse do bico o chapéu alto. Coitada! Coitada! E notei com um +calafrio, que pronunciara alto êste «coitada», com uma voz que a mim mesmo +surpreendeu pela inflexão perturbante de quinto acto. Olhei a águia. Vi-a +encolher-se tôda, contrair-se, enclavinhar as garras no poleiro, como a uma dor +aguda que a varasse. Encarou-me por fim, olhou-me todo, fazendo-me corar dos +pés ao côco,<span class="pn">{13}</span> e com uma voz que não era a voz da +fábula, sem nada de lendário, sem estranho, com uma voz normal de velha beata, +arrastada e roufenha, quasi gaga, cacarejou num tom de dor e mofa:</p> + +<p>—Ao que eu cheguei! Ao que eu cheguei! Já tem pena de mim +<em>isso</em> aí fora... Antes estar morta e podre, antes estar podre...</p> + +<p>Estarreci. Não era o impossível realizado dessa carcassa de águia a falar +alto, a falar como eu, que me empedrava: nem sequer o estranhei naquele +instante; mas o dolorosíssimo desprêzo com que ela me chamou <em>isso aí +fora</em>, com que ella ouviu que um <em>isso</em> a lamentava. Deitei fora o +cigarro bruscamente, compus um momo frio de desdêm escondendo a irritação que +me excitava, e premindo a bengala contra o queixo, retorqui-lhe benévolo e +grosseiro:</p> + +<p>—Não percebo o seu desprêso, não me atinge. Eu não disse «coitada» +p'rá ofender. É sempre triste ver uma águia presa, mas numa gaiola, assim, é +lamentável. P'ra mais,<span class="pn">{14}</span> conforme vejo no letreiro, +foi um comendador que a ofereceu... E a gaiola...</p> + +<p>—Que tem? Falta de estilo?</p> + +<p>—Está cheia de excrementos. Está indecente.</p> + +<p>—Já não diria isso se os visse cair de alto, no deserto, sôbre o +granito cariado duma esfinge... Scenários, digo-lho eu, literatura...</p> + +<p>Eu então requintei de pedantismo, e perguntei-lhe a rir de que alta estirpe, +de que águias reais, de que família, ela veio a cair neste poleiro onde agora a +ouvia perorar num claro entardecer de intimidade, com idilios de guardas e +criadas, raros bebés jogando às escondidas e um homem a varrer as fôlhas sêcas. +Coçava-se a hesitar, com o bico baixo. Sacudio as longas asas poeirentas e com +uma voz de sono, começou:</p> + +<p>—De alta estirpe, sim, de uma família de águias antiquíssima. Uma das +minhas ancestrais, como agora se diz, fêz viagens épicas na Judeia, e num +crepúculo de assombros, abrindo com as garras uma cordilheira<span +class="pn">{15}</span> de nuvens, vio pregado na cruz o Hebreu Doce, e logo +desceu ao morro numa gula tão doida, que ensanguentou no ar de sêda as asas +bravas... Rasgou o peito magro do Homem-Deus, e ficou doida para sempre, doida, +doida, na alucinação dêsse manjar patético, de martírio divino e desespêro. +Porque ela ouviu a confidência do Heroi meigo... Mas não posso contar-lha, nem +mais pio! É um segrêdo de família, é o meu segrêdo.</p> + +<p>Amuei, retorqui num tom mimalho:</p> + +<p>—Mas então, se não podia contar, p'ra que me falou nisso? Eu sou de +uma curiosidade feminina. Já não saio daqui sem que mo diga.</p> + +<p>—Mau! O senhor é uma criança. Que tolice! Dezenas e dezenas de avós +meus, gerações e gerações de águias marinhas, levaram o segrêdo herdado e não +traído, que nem ao sol, que é o deus das águias, revelaram. E quere agora o +senhor com um papelzinho que lhe custou uns cobres (se o pagou) violar o +murmúrio que tem séculos,<span class="pn">{16}</span> e é a última vibração +daquele espírito que vestiu de nebulosas tôda a Vida... Sabe que mais? Estou já +arrependida de falar.</p> + +<p>—Não se zangue. Juro-lhe, juro-lhe que não digo nada a ninguêm. Se +soubesse o que eu sei!... Segredos de família, dramas... dramas...</p> + +<p>Esperei um instante ansiosamente. A águia inteiriçou-se, sem me olhar, +bicando longes de memória, de saudade:</p> + +<p>—Não sei que tenho hoje. Velhice, morte próxima talvez, +pressentimentos... Quando essa avó longínqua cravou as garras no peito d'êsse +Réu, e lhe bicou o coração e bebeu sangue, sentiu que enlouquecia, que era +outra... Como se ferisse uma irmã, teve remorsos; fixou os olhos bêbedos de sol +nos olhos d'Êle, refrescou-lhe com as asas a cabeça, empastada em suor, de um +verde lívido... </p> + +<p>A cruz que estremecia, ficou hirta. E foi então, foi então que Êle lho +disse...</p> + +<p>—Mas o quê? O quê? Diga depressa.</p> + +<p>—O segrêdo, senhor, o meu segrêdo.<span class="pn">{17}</span></p> + +<p>—Mas qual é afinal? Quere torturar-me...</p> + +<p>—Renegou-se a Si-mesmo. Retractou-se! Disse o remorso de não ter +vivido, a tristeza infinita, o desespero e o mal sem remédio de ser virgem, de +morrer no corpo morto de uma árvore, único corpo que sentiu, o de um cadáver... +As estrêlas que nasciam no céu dúbio eram pr'ó Moço Hebreu pólen doirado, e a +sua alma moribunda abria tôda como os hortos ideais da Galilea... O peito +arqueou-lhe mais, contracturado... Queria largar a cruz p'ra poder dar-se, à +terra dêsse cerro, a alguma forma, a um corpo de mulher, a alguêm, a alguêm... +</p> + +<p>A voz da multidão pela ravina era um marulho de ressaca mui confuso, e Êle +sentiu entre pragas e risadas, entre os lamentos e os insultos que silvavam, +sentia vozes de mulher... ouviu, ouviu-as... Só elas Êle ouviu, ouvia sempre... +Queria falar ainda, quis falar-lhes e pedir-lhes perdão do que lhes disse, com +parábolas mentirosas<span class="pn">{18}</span> de doçura e com olhos de lago +sem desejo... Esvaía-se em sangue, ia azulando. Foi então que a minha avó num +voo lento, lhe emmoldurou nas asas côncavas a Face... e que ela ouviu, senhor, +e que ela ouviu...</p> + +<p>Calou-se um instante imóvel no poleiro. Reparei. Era o guarda que passava. +</p> + +<p>—Já não sei onde ia. Estou com febre. Ah! No que ouviu a minha avó +naquele instante... Quando eu penso nisso, quando penso... Imagine, se pode, +ora imagine... Êle que era um Adivinho, Êle o Vidente, num dêsses instantes de +génio que abrem séculos, previu, previu bem claramente, como se mentiria à Vida +em nome d'Êle, a morte da Beleza e da Alegria, a Tristeza e a Doença em nome +d'Êle, séculos e séculos de vida envenenados por o sangue de amor que Êle +vertera, e iria embebedar os homens muito tempo, para sempre talvez, talvez +p'ra sempre. Sentiu então que a querer salvá-los, os perdera... Certo, êsse +instante de dor sempre ignorado<span class="pn">{19}</span> foi o maior de dor +que alguêm viveu. E como Êle a diria, como...</p> + +<p>—Em que língua falou? Foi em hebraico?</p> + +<p>—Foi na língua das asas que Êle o disse. Não lha posso ensinar, já me +não lembro. Quando me engaiolaram, esqueci-a. Mas que impressão lhe faz o meu +segrêdo? Se os homens o soubessem, seria Êle na verdade o Redentor...</p> + +<p>—Sim, sim. É bem justo o que me grasna. Shelley tê-lo-ia amado como +irmão, e Nietzsche, o próprio Nietzsche...</p> + +<p>—Bem sei. Êsse afirmou com pompa lá p'rò Norte, que Êle decerto se +teria retractado se tão cedo o não crucificassem. Foi minha mãe que o disse a +Zaratustra. Zaratustra ouviu mal, não disse tudo. A verdade é assim, como eu +lha conto. Parece que os homens riram do filósofo, acharam tudo isso uma +tolice...</p> + +<p>—Acharam...</p> + +<p>—E afinal êsse Hebreu crucificado, no instante supremo de tortura, +quando p'ralêm<span class="pn">{20}</span> das nuvens o esqueciam, chamava só +por Pan, o grande Pan! Se os homens soubessem isto e o entendessem, teria o +grande Pan ressuscitado. Seriam brancas estas pobres asas.</p> + +<p>—Brancas? Porquê?</p> + +<p>—Durante séculos tivemos asas brancas, todas nós, águias da minha +estirpe. Foi só depois que Pan morreu, que elas ficaram pretas, como luto. Quem +se lembra de Pan por êstes tempos?...</p> + +<p>—Os que sabem amar, os que ainda amam.</p> + +<p>—Os que sabem amar!... Êsse Hebreu mesmo só conheceu o Amor no alto da +cruz. Viveu como um fantasma transparente, com sonho nas artérias e nos +olhos... Só escoado em sangue, no madeiro, viu nos olhos da minha avó +sanguissedenta, dois espelhos do Amor, irmão do sangue...</p> + +<p>—<span class="errata" title="Errata: Colhecem">Conhecem</span> lá o +amor aves de presa!</p> + +<p>A águia crispou as garras no poleiro e casquinou um riso muito sêco, que +soava<span class="pn">{21}</span> sem timbre, como tosse. Depois mudou de +aspecto. Começou a tremer, tôda friorenta, as asas como andrajos mais pendidas, +e nos olhos de febre, muito fitos, uma grande saudade que varava.</p> + +<p>—O amor das águias... o amor das águias...</p> + +<p>—Que tem? Está comovida. Conte-me o seu amor. Sou todos ouvidos.</p> + +<p>—O meu amor... o meu amor... Já me não lembro. Já não posso dizer-lho. +Vai tão longe!... Sou uma velha tonta, sem memória, um farrapo de penas para +escárnio. Nem olho o sol em face há muito tempo. O meu amor... o meu amor... Já +me não lembro. Coisas sem forma... nuvens... nostalgias...</p> + +<p>Fêz uma pausa. Parecia mais adunca, mais mirrada.</p> + +<p>—No convés de um navio abandonado, amei no mar do Norte, aos +vagalhões, noites e noites, bêbeda de espuma... Havia a bordo um marinheiro +morto. Lembro-me bem. Que noites! Que mar alto!...<span +class="pn">{22}</span></p> + +<p>Tive um ninho e filhos pequeninos, num jardim vago, ao sol da meia-noite... +Que silêncio! Sentia-o a passar por entre as garras...</p> + +<p>Ensandeci de gôzo no deserto... Ouvi a Esfinge falar, ouvi a Esfinge, quando +o sol lhe fendeu todo o granito, pôs ranhuras de dor nos olhos átonos, e +escancarou a bôca em rictos duros... O que eu ouvi à pobre?</p> + +<p>Soluçava!... Eis o inigma afinal, o grande enigma, à hora das miragens, do +delírio, quando o sol enraivece, é só desejo, e o deserto urra no silêncio, e +as areias escaldam e o ar zune... Amei... amei... amei na terra tôda... +Desfraldei o desejo, cravei garras. Olhei o mar saciada e compreendi-o.</p> + +<p>—Tem saudades do mar, aí na gaiola?</p> + +<p>—Como um marinheiro preso... doidamente... O que eu viajei, o que eu +viajei por sôbre a espuma!... Sei as lendas do mar como ninguêm. Contou-mas +numa rocha um corvo antigo. Como sabe, os<span class="pn">{23}</span> corvos +vivem séculos... Sabia-as todas êsse velho amigo... naufrágios e terrores... +dramas da névoa... O mar! O mar! O que eu amei no mar! Mas o senhor não +compreende, o senhor não sabe. Que sabem do Amor os homens todos?... Foi êsse +Hebreu, sem querer, que os desgraçou. Fizeram ao Desejo o que fazem às águias +quando podem... Está como eu o Desejo: engaiolaram-no! Fizeram do Amor isto... +um dever! Um dever... um dever... um dever triste! Empalaram-no em leis, +codificaram-no. Até fizeram isso... o casamento! E vivem em gaiolas, os seus +lares! Raça de escravos! Se êsse Hebreu os visse...</p> + +<p>—A senhora é uma águia, não percebe... Eu não posso explicar-lhe a +Sociedade...</p> + +<p>A águia olhou-me com um desprêso frio.</p> + +<p>—O quê? Não sei? Sei mais do que Balzac. Eu li-o todo em casa de um +burguês. Vivi lá dez anos de amarguras. Estive presa primeiro no quintal. +Depois cortaram-me<span class="pn">{24}</span> as asas e soltaram-me. +Soltaram-me mutilada pelas salas... Canalha! O que eu odeio os homens... As +crianças, veja o senhor os anjos!... arrancavam-me as penas, <span class="typo" +title="no original: espetavam-ve">espetavam-me</span> o corpo com agulhas, e um +dia um criado, na cozinha, tentou picar-me os olhos às risadas, a rir, a rir... +como só riem homens. Sofri dez anos entre essa canalha. Era uma gente séria, +muito séria. Vi a Família, a Tradição, vi tudo. Não queira argumentar, não diga +nada. Sou uma águia, mas conheço os homens.</p> + +<p>—De acôrdo. Eu não duvido. Não quero discutir, não argumento. Mas +falamos do Amor, e apenas digo que há ainda quem ame sôbre a terra... gente da +minha espécie... homens... homens... O amor, há-de a senhora concordar, não é +um monopólio de asas nómades... Um bípede implume tambêm ama. É raro, eu sei, +amor genuíno, é raro. Mas existe ainda, afirmo-lho eu, existe ainda...</p> + +<p>—Que novidade! Pois não lhe disse já<span class="pn">{25}</span> que +li Balzac? E viajei, e vivi mais do que pensa.</p> + +<p>Parou um instante, o olhar scismático, sem foco:</p> + +<p>—... Uma vez, num céu da Andaluzia, vi num jardim mourisco dois +amantes. Senti o cio encrespar-me as asas largas e desci p'rós ver de perto na +luz de ouro... Era na paz de uma cidade morta. Pousei num dos ciprestes do +jardim. Tinha uma taça de alabastro esverdinhada, e uma água glauca que +cheirava a febre. Era junto da taça que se amavam, sob a garra do sol, loucos +de raiva. Fiquei quêda a aspirá-los muitas horas. Que corpos fortes! Eu +achava-os lindos. Dormi na torre da igreja, numa gárgula, e de manhã voltei +p'rós ver ainda. E assim dias e dias... Uma vez demorei-me, vim mais tarde, e +<span class="typo" title="no original: encontreio-os">encontrei-os</span> +imóveis e enlaçados. Tanto tempo os vi assim e tão imóveis, que pensei: +<em>estão talvez mais que adormecidos...</em> Desci. Bati-lhes com as azas nos +cabelos. Cravei as garras devagar nos seios dela... Estavam<span +class="pn">{26}</span> mortos! Julguei então enlouquecer de gula. Devorei, +devorei, até à noite... Lembro-me que sorvi os olhos dela. Estavam secos de +amor. Eram cinzentos...</p> + +<p>—Que horror! O que a senhora fêz!...</p> + +<p>A águia ergueu as asas num espanto e tornou a fechá-las lentamente. Depois, +com grande enfado, foi dizendo:</p> + +<p>—Que absurdos macacos são os homens! São os animais mais torpes que eu +conheço. Como tudo que vive, como todos, só pensam em gozar, gozar a vida... e +com esta obsessão a estorcegá-los, prendem-se os braços, castram os desejos, +adoentam-se, torcem-se... progridem. Querem morder, morder bem fundo... e +beijam-se; sentem calor e andam ao sol vestidos; amordaçam o instinto, os +imbecis!... Encerram o desejo nas alcovas, onde não entre sol, sombra de lua... +Tem estatutos, cláusulas, parágrafo. Não fecundam a amar, são fabricados: são +produtos de indústria os homens de hoje! Chamam a isto Civilisação. Não vivem +por viver: tem<span class="pn">{27}</span> deveres a cumprir, obrigações... E +tudo isto em códigos, sistemas, em religiões, teorias, em morais!... P'r'ós que +tentem ser homens a valer, há prisões, há leis, ha tôda a Ordem! Existem já na +terra há muitos séculos, e ainda não começaram a viver... ou, se viveram, foi +na Pre-História ou na Pre-Lenda! Que macacos absurdos! Que macacos!</p> + +<p>—Mas pare um instantinho, oiça, oiça...</p> + +<p>—Não me mace, senhor, não me interrompa... O que mais os consome e os +faz grotescos, e os enche de vaidade, é a Consciência, o Espelho, o Guia, o +grande Guia, que os levou a isso que são hoje...</p> + +<p>Atalhei, como quem aponta um cumplice:</p> + +<p>—A culpa foi dêsse Hebreu de quem falámos. Talvez se o seu segrêdo se +soubesse...</p> + +<p>—Não foi só d'Êle, foi de muitos outros... Antes d'Êle e depois..., de +muitos outros.</p> + +<p>Tremeu-lhe o corpo todo. Arrepanhavam-se-lhe<span class="pn">{28}</span> as +penas. Estava outra. Via-a transfigurar-se com espanto.</p> + +<p>—O senhor é bem um homem. Não se pode nutrir sem illusão. Quando há +pouco lhe disse o meu segrêdo, dei-lhe a entender que se êle se soubesse, havia +na verdade um Redentor, os homens viveriam sôbre a terra. Tive pena de si que é +um desgraçado. Sempre lho digo agora: era inútil! Conheço bem os homens por meu +mal. O segrêdo do Hebreu que lhe contei, não é um caso único: é de sempre. +<em>Á hora de morrer—a uma águia, aos lençois ou ao travesseiro, todos os +homens tem como êsse Hebreu, um segrêdo supremo a revelar. É apenas isto: a +confissão de que morrem sem viver.</em></p> + +<p>Continuou depois com o bico alto:</p> + +<p>—Os homens são uma espécie condenada. <em>São bastardos de planta e de +fantasma.</em><a name="tex2html1" href="#foot46"><sup>[1]</sup></a>Quem disse +isto? Não sei... estou sem memória. Raça de escravos vis,<span +class="pn">{29}</span> raça de escravos! E p'ra fugir à Vida o que inventaram! +Como trabalham, suam e tressuam!... Dissecam tudo, árvores e pedras, fecham-se +em quartos a estudar micróbios... E cada dia são mais desgraçados, mais fracos, +mais inquietos e mais tristes!... Cada dia se embrulham mais em roupas, põem +mais vidros nos olhos, tem mais mêdo... E cada dia fogem mais à vida! Que +imbecis! Que imbecis! Que espécie torpe!</p> + +<p>Sentia-me exaltado, nervosíssimo. A voz saíu-me estrangulada, rouca, em +sobressaltos, brusca, sem fluência:</p> + +<p>—A senhora diz coisas que me espantam, que por vezes são justas e +terríveis, mas há outras tambêm que não entende, que não pode entender, sim, +que não pode. É natural. A senhora é de outra espécie. Tem vivido com os homens +mas é águia... e águia ficará até morrer.</p> + +<p>Parei. Sentia-me vazio, em suores álgidos, quási incapaz de articular +palavras. Ela então, com a plumagem toda crespa, transfigurada<span +class="pn">{30}</span> agora, agora outra, já com metal na voz, interrogou-me: +</p> + +<p>—O quê? O quê? O que é que eu não entendo?</p> + +<p>Sem recursos, nulo, desvairado, atirei-lhe êste lugar comum, como se +estivesse a falar com um jornalista:</p> + +<p>—Por exemplo: o Sentimento, a Beleza moral que há no Universo!</p> + +<p>Vi-a saltar do poleiro, esvoaçar, bater asas de fúria nos arames, e recaír +depois na mesma pose, a arquejar, asmática de raiva. Ficou assim sem fala ainda +algum tempo. Apeteceu-me fugir. Tive vergonha. A voz dela por fim veio em +arestas, ferindo o meu orgulho já ulcerado:</p> + +<p>—A Beleza moral!... O Sentimento! Que fizeram com isso?... Que +fizeram? A Harmonia social, êsse concerto que é de rasgar os olhos e os +ouvidos. A fome, a revolta, o desespêro... A raiva de saber, de analisar, de +fechar em teorias toda a Vida... A Dúvida, a loucura metafísica, e o culto da +dor, êsse onanismo!... A impotência em<span class="pn">{31}</span> tudo, a +impotência... E por paródia à luta de viver, uma luta sem garras, enluvada, um +ódio triste e covarde, corrosivo; a intriga e a cilada pela fôrça; a caridade +que é o egoísmo doente, e o culto dos ídolos, os cultos, a escravidão aos +deuses e às ideias... A Harmonia social... essa gaiola onde vivem a uivar os +homens todos!</p> + +<p>Dava gritos estrídulos, sarcásticos: as penas erriçavam-se de fúria.</p> + +<p>—Oh! O ódio dos homens, que grotesco! E há classes opressoras e +oprimidas, com fórmulas, com cláusulas, com leis!</p> + +<p>Não é o ódio celular, contracturante; não é o ódio animal todo de instinto; +não é o ódio de todos quantos vivem! O ódio dos homens foi canalizado, por +seitas, por classes, por partidos, em dogmas, preconceitos, covardias. Nos +outros animais o ódio é orgânico! Todo o combate é sempre pela Vida. O dos +homens é anémico, missérrimo, e defende o dever, o preconceito, as taras de +domínio e servidão, e até mesmo na revolta é miserável, pautando a Vida, +sistematizando.<span class="pn">{32}</span> É o ódio da paródia de viver, do +fantasma de Vida que êles vivem!...</p> + +<p>Parou. Eu estava como tonto, desvairado. Tinha decerto endoidecido essa +águia velha, delirava, dizia só loucuras; mas eu não achei nada para opor-lhe, +p'rà aniquilar nêsse silêncio de fadiga. De súbito lembrei-me: a Arte, a Arte, +tôda a minha quimera de mãos postas!</p> + +<p>Sentindo-me desta vez irredutível, gritei-lhe p'rà gaiola:</p> + +<p>—E a Arte? A Arte? Consolação suprema de viver...</p> + +<p>Teve farpões de escárneo ao responder-me:</p> + +<p>—A Arte!... A Arte é a expressão da Vida. São os homens que o dizem, +não é assim? Ora se êles não vivem, se não vivem, se parodiam a Vida a cada +instante, se fogem mais e mais da grande Vida, a Arte é uma paródia de paródia, +um espectro de espectro... miserável! Querem com tintas imitar o céu, e +transcrevê-lo em lonas, em madeiras!... O céu bebe-se aos haustos,<span +class="pn">{33}</span> com os olhos; olha-se por olhar, sem intenção; recebe-se +nas pupilas extasiadas, que se alargam mais com sêde dêle... É o que faz um +sapo a olhar os astros! É o que os homens não compreendem nunca! Toda a terra é +feliz se o sol a doura; tudo germina, as pedras e as sementes... Só os homens +que se cobrem p'ra evitá-lo; que nas cidades gastam horas a vestir-se; que tem +por céu só um paninho côncavo a que chamam guarda-chuva ou guarda-sol; que o +filtram nas igrejas por vitrais, que usam lunetas, que o receiam sempre; que +tem medo da morte às suas garras, deslumbramento e orgulho de águias soltas; só +os homens, absurdíssimos macacos, querem copiá-lo em lonas, em madeiras, com +tintas, com carvões, com paus de côr!...</p> + +<p>Que macacos absurdos, que macacos!</p> + +<p>Bem quis interrompê-la, não podia. Vibrava de loucura negadora, hierática, +estranha, convulsiva.</p> + +<p>—E nem poupam o mar nem as searas, as penedias trágicas, as rosas! +Metem o<span class="pn">{34}</span> mar nuns centímetros de lona, e com medo +que as marés vão sufocá-los (a águia ria, ria como louca) mandam emoldurá-lo, +encaixilhá-lo!...</p> + +<p>Prendem-no assim nas salas, nas alcovas. Oh! A Arte dos homens! Coisa +imensa! A paródia da Vida... paralítica! Mas vá alguêm dizer-lho! Vão +dizer-lho! Ainda os antigos cegavam as estátuas... Êstes abrem-lhes olhos, bem +abertos, a reflectir... o quê? A vida dêles, a paródia de vida que êles vivem e +que andam a imitar ainda por cima!...</p> + +<p>A noite começava a entrar nas coisas. Um grito de pavão varou o parque, +assustou os jardins que adormeciam, e um instante no ar, teve saudades... Uma +angústia sem nome andava esparsa, caía das árvores grisalhas, que pareciam à +escuta, com terror. Em frente o chorão vergava mais, quási rasava a terra com +doçura, em curvas de um encanto nazareno. Uma sereia aguda de vapor, já a sair +a barra certamente, mugiu como um agouro de naufrágio. A treva ia afogar tôda a +gaiola. Não via bem<span class="pn">{35}</span> a águia, mal a via. Só os olhos +e as asas muito vagas... Era um fantasma de águia àquela hora, mas crescia em +mim desmesurada, como um ser de fábula e tragédia, oráculo sarcástico e +sinistro, lendo o horóscopo num poleiro reles, como se rasgasse a esperança com +as garras. Afinal era eu a sua presa, e ouvia-a passivo a torturar-me.</p> + +<p>—A Arte dos homens! Que mentira triste! Em vez de serem belos como +estátuas, derrancam mais os corpos para erguê-las! Até modelam sonhos e +quimeras!...</p> + +<p>Nunca olharam as nuvens, nunca as viram, esses mármores ao vento, +fluctuando... E o vento! O vento! Sabem lá ouvi-lo! Tanto não sabem que quando +êle prega, durante o inverno em que êle é todo génio, metem-se em casas +grandes, bem fechadas, p'ra ouvir sons, sons, imensos sons... Chamam a isso +Música. Conheço-a. Desde que vivo com os homens, perseguiu-me. Nem aqui na +gaiola eu lhe escapei. Toca aos domingos horas, no coreto. Enche-me mais de +raiva e de miséria. A música das<span class="pn">{36}</span> águias como é +outra!... Quem a ouviu como eu quando era águia, antes de ser esta carcassa +reles! Nas montanhas, no mar, na névoa móvel!... Sobretudo no mar, no grande +mar... O que eu viajei nos temporais a ouvi-la! Ás vezes partíamos no vento em +turbilhões, asas e asas, nómades, pairantes... Regougos de ondas, nuvens a +rasgar-se, e os nossos gritos, bêbedas de espuma!... E mil vozes de formas +nunca ouvidas, a voz de tudo, tudo, a voz de Pan! E o silêncio, o silêncio... +Certos instantes únicos, supremos, em que êle se ouve, o temporal hesita, e um +pânico arrepanha as asas todas... Como é agudo, agudo, êsse silêncio!... Nas +meias-noites de estio... o que eu gostava de despertar no éter melodias, +ferindo-lhe o teclado luminoso, numa alma de voo, sereníssima... Punha medo com +o rumor das minhas asas às nuvens que dormiam extasiadas, e auscultava a noite +pelo céu, até ouvir a manhã vibrando tôda, quando o ar é uma orquestra +miriadaria e os homens dormem nas alcovas mornas...<span class="pn">{37}</span> +</p> + +<p>Estendeu por minutos seculares o seu monólogo patético de velha, essa arenga +evocativa de fantasma, lapidando o meu ser com ironias, em que memórias épicas +passavam, como o granizo aos pobres em dezembro. Todo o meu senso crítico se +foi na rajada feroz dos seus desprezos: era uma fúria aguda de vingança, de +esfrangalhar essa carcassa oráculo, varar-lhe os olhos com a ponteira da +bengala, acabá-la de vez, estrangulá-la. Retorqui-lhe então com a voz dura, +pondo raivas de morte nas palavras:</p> + +<p>—Sim, sim... Diga ainda mais... o que quiser. Cante à sua vontade, +minha amiga! Insulte os homens, ria, desgraçada. Nem me dou ao trabalho de a +esmagar. Só lhe pergunto isto, apenas isto: quem a tem aí bem presa na gaiola? +A si e a êsse mocho seu vizinho? Ao leopardo, ao lobo, a essas feras? Quem lhe +dá por esmola bifes podres, e faz de si o riso das crianças, e a há-de empalhar +depois de morta?... Você é uma águia tonta, dementada, que a<span +class="pn">{38}</span> escravidão ensandeceu de vez. Melhor, melhor! Assim +faz-nos rir mais. Grasne p'raí; rebente a divertir-nos!...</p> + +<p>Parei pr'a tomar fôlego, cansado; mas o relevo imóvel dessa ave, a sua forma +heráldica de bronze, alheavam-na tanto desta cólera, do desespero besta em que +eu tremia, que me pareceu inútil continuar e me senti um títere grotesco. Era o +mais infernal dos casuístas, essa águia impossível de ferir, feita de sombra, +emoldurada em sombra, presa nessa gaiola e mais distante que se esgarçasse as +asas nas estrelas. Emquanto assim pensava, ei-la que fala:</p> + +<p>—Bem certo, sim, bem certo o que me diz! O Homem alastra pela terra +como um cancro, pervertendo a vida, corroendo. Reduziu-me a mim, asas e garras, +a um animal grotesco de capoeira, meio tonto de dor e de miséria. E as +feras!... Exibem-nas nas feiras e nos circos, em gaiolas de ferro, à luz +eléctrica, ante o pasmo alvar das multidões, rindo da força mutilada e doente. +Cortam as jubas aos leões, abrem-lhes risca,<span class="pn">{39}</span> +dão-lhes chicote e bifes, civilizam-nos! E quando os tem nas jaulas, +sonolentos, sem força e sem instinto, entorpecidos, com as pupilas de oiro +marasmadas, com as garras inúteis já sem preza, acham-se heróicos porque os +chicoteiam, mesmo quando êles tremem de sezões, mesmo quando êles morrem de +saudade!... Não há amor de asas num rochedo à névoa, que o terror dos homens +não errice!... Antes disto, porém, já os adoraram. No Egipto, em tardes de +colheita, o voo das íbis riscava no ar do Nilo curvas em que êles viam +profecias... E outros como Isis, como Anúbis, sucumbiram no tédio de ser +deuses, e depois das pompas rituais, de oferendas, de orações, de sacrifícios, +são os servos misérrimos do homem, domesticados já, civilizados!</p> + +<p>Mutilam as árvores, deformam-nas; exilam certas plantas nas estufas, com +saudades do húmus e do sol, e trazem na lapela rosas mártires, que abriam de +desejo como noivas, à espera do pólen bem-amado! Não entendem o sangue nem a +seiva: vão pervertendo<span class="pn">{40}</span> tudo, corroendo! Até que um +dia, não mais florestas, catedrais a Pan! A terra será calva como um sábio, e +cordilheiras, montes e ravinas serão assassinadas, cavacadas, p'ra que os +homens mobilem os palácios, p'ra que tenham poleiros nas gaiolas... Os areais, +as deserteiras ruivas onde o mar espadana e se extasia, terão motores, +instalações fabris p'ra utilizar a raiva das marés, em quê, deus-sol?... a +enriquecer indústrias... Todo o azul será viuvo de asas, e os filhos das águias +e das feras nascerão em gaiolas e em jaulas! Ah! Mas tambêm nada haverá mais +triste do que os filhos dos homens, as crianças... A inocência, essa graça +animal, de flôr e de ave, que êles chamam divina... os imbecis! não mais +existirá nos filhos dêles, reflectindo nos olhos já doentes, a farça de viver, +como nos velhos... Será assim um dia, será assim. Onde irão depois refugiar-se? +Nos braços do amor, do amor dêles, em que um olhar de mulher lembra um +naufrágio, e faz que, cada trança, por mais loira, venha a<span +class="pn">{41}</span> ser sempre a fôrca de um destino! A terra será a +catedral do sofrimento, fim da farça sinistra que êles vivem, a inventar +anestésicos e dores!</p> + +<p>Certo, o farrapo de penas que hoje sou, é bem obra dos homens. Certo, +certo... Mas aqui mesmo, num poleiro reles, garras em cotos, quási paralítica, +consola-me pensar que nenhum dêles será nunca o que eu fui, asas e garras, +vivendo pr'ó Desejo pelo instinto, e em nomaderias de vertigem, amando tudo, +tudo, a terra tôda, na luxúria suprema e inconsciente, de viver, de viver só +por viver!</p> + +<p>Fêz uma pausa. Tive a visão daquela vida fulgurante, evocada em gritos de +delírio, por essa pitonisa de asas longas que cortava com o bico o meu destino. +</p> + +<p>Foi então que eu ouvi estas palavras, que eram mais que um soluço, que um +crocito, uma espécie de guincho em que houve lágrimas.</p> + +<p>—Iriam cair nas mãos dos homens os meus filhos!...<span +class="pn">{42}</span></p> + +<p>Lambeu-me um calefrio de vertigem.</p> + +<p>Era demais, meu Deus, era de mais! Não era já o meu orgulho em chaga, +enovelado como um trapo nessas garras: o que eu agora queria, o que era +urgente, era mostrar a essa águia, a essa mãe, que o seu dolorosíssimo terror +era uma apreensão de louca, uma injustiça: o que eu agora queria de alma tôda, +era mostrar-lhe o coração dos homens p'ra que ela o visse bem e tão patente, +como se lhe pendesse a sangrar do bico curvo. Pr'à convencer daria tudo, tudo. +Procurava um meio, sem achar. Sentia a inanidade das palavras. Com uma idea +súbita falei-lhe:</p> + +<p>—Vou abrir-lhe a gaiola. Vai ser livre.</p> + +<p>Era decerto o pasmo que a gelava, porque não saiu da treva uma palavra. Eu +continuei numa emoção crescente em que vibrava a ânsia de a soltar:</p> + +<p>—Vai ser livre, livre como outrora. Acorde as suas asas esquecidas. +Diga adeus a essa gaiola imunda. Olhe mesmo daí: que encanto de hora! A noite +arqueia ao pêso<span class="pn">{43}</span> das estrelas... Uma palavra sua e +abro-lhe a porta. Não duvide. Sou forte. É num instante...</p> + +<p>O seu recorte altivo de águia em bronze amezendou: fôsse fadiga ou tédio. E +num becejo vago, interrogou-me:</p> + +<p>—Vai abrir-me a gaiola... mas p'ra quê?...</p> + +<p>—P'ra quê?! P'ra que antes de morrer domine o espaço... p'ra sentir a +vertigem do infinito...</p> + +<p>—Eu?!... repetiu numa fleugma desdenhosa. Eu?!... Saír dêste poleiro, +da gaiola? Não sou doida varrida por emquanto. Saír da minha casa, do conforto +pr'á incerteza da noite, p'rò mistério?... Sou uma águia mas vivi entre homens. +Já estou civilizada, meu senhor... E se o vento me arranca as asas velhas? E se +chover, e se chover? Já pensou nisso? Nem com as garras enluvadas eu me +atrevo... Nem que me cubra as asas de impermeáveis...</p> + +<p>Nem com um <em>water-proof</em>, nem assim...</p> + +<p>A águia ria, ria doidamente. Crispei as<span class="pn">{44}</span> mãos nos +arames, exasperado, e com uma voz enrouquecida fui dizendo, num tom de +confissão, quási febril:</p> + +<p>—Imagina talvez que a não entendo, que sou um homem como os outros, +imagina...</p> + +<p>É natural... é natural. Não me conhece... Mas eu quero dizer-lhe: oiça! +oiça!</p> + +<p>Há em mim um não sei quê de águia marinha. A sua sorte comove-me, acredite. +Quero tambêm dizer-lhe o meu segredo, quero desabafar, contar-lhe tudo...</p> + +<p>Bateu as asas com um ruído sêco, e num timbre fatídico de corvo, com uma voz +de sibila, crocitante, atirou-me estas palavras derradeiras:</p> + +<p>—<em>É cedo, é cedo ainda. Imite os outros. Diga isso ao morrer ao +travesseiro.</em></p> + +<p>Esse sarcasmo último transiu-me; e como quem se agarra ainda á esperança, +pus-me a gritar p'rà gaiola, tontamente:</p> + +<p>—É o convívio dos homens que nos perde. O seu destino é irmão do meu, +escute... Queria ser forte e belo, queria...</p> + +<p>Falei, falei, falei... Não sei que disse.<span class="pn">{45}</span></p> + +<p>Sandices e quimeras e desejos, larvas de ideas, raivas, desesperos. Parei +por fim.</p> + +<p>Já nem lhe via os olhos. Decerto cerrara as pálpebras com tédio. Só o vulto +de sombra sôbre a sombra se alongara mais, estava maior. Ouvi então uma sineta +banalíssima, a pôr-me fora sêcamente: era já tarde. Olhei ainda a gaiola, +despedi-me, atirei-lhe p'ra lá um «adeus» surdo. Ao passar na jaula do +leopardo, senti um cheiro mau a carne podre. Vi-lhe o vulto enigmático de +esfinge, a cabeça nas patas dianteiras, os olhos de oiro fulvo, fuzilando. Se +aquele me falasse, o que diria!... Atravessei o parque silencioso, como numa +balada, com terror. Vi nas acácias os pavões adormecidos, olhei o céu filtrado +por folhagens onde um langor de outono se esfolhava, e à saída já, p'ra me +calmar, molhei as mãos febris numa das taças e passei-as nas fontes consolado. +</p> + +<p>Achei-me emfim na rua, longe dela.</p> + +<p>Um rapaz namorava mesmo em frente, a patrulha descia compassada, disse-me +adeus<span class="pn">{46}</span> um côco conhecido: dobrava a esquina um +eléctrico apinhado. Tinha ainda no ouvido a voz da águia, quando saiu de uma +janela aberta uma ária roufenha de fonógrafo.</p> + +<p>Comuniquei feliz com a vida reles. Depois disto, é evidente, não posso mais +falar-lhe. Ainda bem! Levava-me ao suicídio essa águia velha.<span +class="pn">{47}</span></p> + +<p><span class="pn">{48}</span></p> + +<p> </p> + +<h1><a name="SECTION00020">O PRECOCE</a></h1> + +<p style="text-align: right;"><br> +A J<small>OÃO DE</small> B<small>ARROS</small></p> + +<p><span class="pn">{49}</span></p> + +<p> </p> + +<h1><a name="SECTION00030">O precoce</a></h1> + +<p>Desde que o Emílio estava doente, todos os dias, ao anoitecer, se reuniam no +seu quarto e assim ficavam algumas horas, numa intimidade meiga, como se dessa +cabeça de precoce, ungida de sossêgo, dos seus olhos de adivinho, de um veludo +grande e calmo, se exalasse paz, uma paz clara, em que tudo se perdoasse e se +esquecesse.</p> + +<p>Tinham já lugares marcados. A mãe à cabeceira, logo ao pé a tia Olívia, p'ra +contar histórias; os outros em redor, e aos pés da cama, em frente ao +doentinho, o busto nobre do tio Eduardo, já grisalho, a sua máscara fina um +pouco vaga, como a<span class="pn">{50}</span> de todos os que vivem no +silêncio como outrora se vivia num convento. O pequenino era assim uma +figurinha de mito familiar, e nas suas palavras lentas, de intuição e de +carícia, todos se ouviam como o mar nas conchas. Tinha uma voz de sombra amiga. +Adoravam-no. Mas agora, martirisado de dores, a consumir-se dia a dia, as +mãozitas transparentes, entravam no terror de o ver pior. E se um móvel +estalava, um farrapo de luar batia os vidros, ou ao cair da noite, a sombra +vinha,—tremiam no silêncio, tinham medo, como se disfarçadamente a Morte +entrasse, viesse de mansinho p'ra gelá-lo.</p> + +<p>Às vezes, nas pausas de algum conto ou da conversa, se alguêm se voltava, +logo os outros inquietos o seguiam; e era vulgar olharem a porta de soslaio, +como se esperassem alguêm, uma visita...</p> + +<p>Todos falavam em surdina, velando a voz um pouco opressa, e assim as coisas +mais banais tinham um não sei quê de estranho; as palavras caíam como fôlhas +sêcas e nos<span class="pn">{51}</span> olhos de todos havia uma expressão de +adeus. Nem todos, nem todos! A mãe radiava fé. Bastava ver-lhe as mãos correndo +a dobra do lençol, de veias altas, entumecidas de ternura, e poisarem numa +geada de beijos nas mãos do seu filhinho, para sentir a emoção louca, +religiosa, tendo ressurreições em cada gesto, sarando num olhar, numa oração. É +que essa creança era a sua própria alma, presa naquele leito como um passarito +enfêrmo, abrindo p'ra ela olhos enormes, como p'rá decorar bem, antes de +partir; e dizendo de quando em quando: «mamã, minha mamã», num rumor de asa +cansada.</p> + +<p>Era muito moreno, tinha a testa alta, um pouco bombeada, bôca de lábios +finos, mento curto, bosselado em covinhas, que a magreza já quási que delira. +Mesmo quando tinha saúde, ria pouco; não sabia brincar e qualquer coisa, o mais +simples aspecto, o distraía como numa visão inconsciente.</p> + +<p>Tinha um ar de quem se lembra. Uma vez foi ao colégio. Voltou com febre, +doente,<span class="pn">{52}</span> a tremer todo, e quando o pai o interrogou, +só pôde dizer «que não era nada, que não tinha nada». Mas à noite, quando a mãe +ia a deitá-lo, rompeu a beijar-lhe as mãos, num chôro brusco, e mal pôde pedir +entre soluços, de mãos postas, p'ra não voltar... p'ra não voltar mais ao +colégio.</p> + +<p>—Sossega, meu filhinho. Quem te fêz mal? Que te fizeram? Não voltas +mais, não voltas mais. Que te fizeram?...</p> + +<p>—Vi bater num menino.</p> + +<p>E outra vez o chôro o sufocou, em bagas grossas, torcendo o seu corpinho de +arbusto à ventania. Nessa noite teve febre, delirou, e os pais resolveram que +tão cedo não voltava. Pediu então à mãe que o ensinasse. Ao caír das tardes, +com a costura no regaço, ela dava-lhe lição, e em pouco tempo, por entre +confidências que eram beijos, êle aprendeu maravilhado a ler. O seu amor +cresceu ainda, como regado de gratidão. Dizia «mamã» como quem reza.</p> + +<p>Adorava-a. Nas tardes de sol, os irmãos brincavam no quintal; chamavam-no, e +como<span class="pn">{53}</span> êle era o mais pequeno, faziam-lhe mimos, numa +grande ternura protectora. Êle não ia, desculpava-se. Preferia ficar junto +dela, na varanda de pedra, a vê-la bordar.</p> + +<p>—Não queres brincar, Milinho? Vai, vai brincar com os manos.</p> + +<p>Êle erguia os seus olhos de veludo:</p> + +<p>—Deixe-me estar ao pé de si, mamã. Não há nada tão bom p'ra mim.</p> + +<p>Raro saíam. Ás vezes, com a mãe, ia às tardes à Foz p'ra ver o mar. Voltavam +ao anoitecer. Falavam pouco.</p> + +<p>—Gostas do mar, Milinho?</p> + +<p>—Muito, mamã, muito. É a coisa mais linda que há.</p> + +<p>Foi ao voltar de um passeio assim, numa tarde de novembro, que o pequenino +teve tosse e cuspiu sangue.</p> + +<p>—Que te dói? Dói-te o peito?</p> + +<p>—Pouco, mamã. Não se aflija. Não há-de ser nada.</p> + +<p>O médico veio, aconselhou cautela, receitou. Teve depois com o pai uma +conferência larga. E foi então que o terror abriu<span class="pn">{54}</span> +sôbre ela as asas concavas, geladas. Não podia dormir. Levantava-se a cada +instante, p'ra ver se estava bem coberto, se tomara o remédio, p'ra senti-lo. A +tosse dêle feria-lhe tambêm o peito; transia-a tôda, como um dobre. Vestia-se à +tôa, sem cuidado. Tudo o mais lhe era indiferente. Marido, os outros filhos, +família, governo da casa, visitas, os outros... que lhe importavam agora, se o +seu filhinho estava mal?</p> + +<p>E extenuada, adormecia às tardes à cabeceira do doentinho, que a olhava a +sorrir, muito feliz, como se fôsse um ser de conto preso num lindo +encantamento. Pouco a pouco, apesar de ninguem o achar melhor, foi-se esvaindo +o terror dela, e uma grande loucura, a loucura divina da esperança, +galvanizou-a de coragem, deu-lhe fé. Amava-o com tôda a carne e tôda a alma. +</p> + +<p>O casamento tinha sido, p'rá sua índole delicada de romântica, uma decepção +dolorosíssima a que pouco a pouco se adaptara. Não teve crises, não sofreu +violentamente. Foi um esperecer lento da ilusão;<span class="pn">{55}</span> +todo o seu sentimento que morria como uma planta à sêde; e ela curvara a +cabeça, aceitava a vida que lhe davam, com uma resignação de fraca que se +esquece. Teve dois filhos. Criou-os. E uma paz de maternidade um pouco animal, +foi-a calmando; o seu passado de sonho estava longe, nas águas mortas da +memória; e ia vivendo assim, anestesiada, sem os sobressaltos de nervos de +outros tempos, uma vida normal e clara, no seu lar, entre os seus. Era uma +renúncia sem tortura, inconsciente.</p> + +<p>Passaram alguns anos, uniformes, que só a doença de um filho ou do marido +vinham alvoroçar de longe a longe, e que por fim se sumiam na memória, na mesma +cinza neutra, pardamente. Vivia como se fôsse a própria sombra. Já não esperava +ter mais filhos. Quando soube que ia ser mãe ainda uma vez, teve a emoção maior +da sua vida. Certo, ela foi sempre boa mãe: amava os seus dois filhos muito e +muito. Mas agora era diferente, era outra coisa. O que viria era mais, bem mais +que os outros: era o<span class="pn">{56}</span> filho dela e do seu +<em>sonho</em>... Ressuscitou em si mesma: renasceu. O seu sangue resava nas +artérias promessas que antes não lhe ouvira, e começou a parecer-lhe que êsse +filho era a compensação que Deus lhe dava, quási um milagre, a flôr inesperada +em que o seu sonho redivivo iria abrir.</p> + +<p>A sua vida banal, desencantada, murchando dia a dia, sem interesse, num +automatismo frio e resignado, fôra uma provação, tinha passado: e os seus +nervos de histérica, despertos, com todo o amor que a vida sufocara, calcado em +resignação, morrendo à sêde, renasciam a vibrar de esperança, davam-lhe uma +beatitude transcendente.</p> + +<p>O seu filho (estava certa que era um filho) seria um pequenino abençoado, +com um destino que só ela e Deus sabiam, e no primeiro olhar que êle lhe desse, +pressentiria um evangelho novo como um beijo a correr-lhe tôda a alma... Tudo +mudou na vida dela, tudo. Mal falava aos filhos, ao marido, que interpretava a +estranheza dos seus modos como a mudança de carácter,<span +class="pn">{57}</span> os caprichos que muitas mulheres tem naquele estado. Se +a olhavam insistentemente ou lhe faziam perguntas, alusões, isolava-se, +desaparecia de repente, como alguêm que vive p'ra um segrêdo e receia que os +outros lho desvendem. Parecia mais alta, elanguescida, com grandes olhos sempre +a olhar p'ra dentro, como teem certas aves e os mármores.</p> + +<p>Em solteira, nunca fêz confidências às amigas. Tecia a sua teia no mistério. +Todos lhe achavam qualquer coisa de dormente: não compreendiam bem o seu +carácter. Mas como era modesta e era boa, esquecida de si mesma e sem vaidade, +deixavam-na viver no seu silêncio como um nelumbo de pureza à flôr de um lago. +Mesmo no seu isolamento da província, onde vivera com os pais até casar, lia +pouco e sempre os mesmos livros: vidas de santas, lendas de conventos. +Exaltava-se com êles, tinha fé em qualquer coisa que Deus lhe reservava. +Durante os serões lentos, costurando, scismava que nascera para freira. Toda a +sua energia,<span class="pn">{58}</span> a sua força, abrasava o seu sonho, era +interior: e quando batiam à porta da sua alma, ela saía distraída, resignada, a +obedecer aos seus passivamente. Esperava contudo <em>um não sei quê</em>. O +Destino dissera-lhe um segrêdo. E sem contar a ninguêm o que pensava, vivia +como uma eleita: estava à espera... Os seus vinte anos em flôr eram p'ra êle. +</p> + +<p>Foi debruçada a esta ogiva de mistério, que a vieram chamar para a casarem. +Depois a decepção, o sofrimento: mais tarde a renúncia, a anestesia na +sonolência banal dos seus cuidados.</p> + +<p>Apesar de não casarem por amor, outra qualquer, no seu lugar, era feliz. Êle +era forte, delicado e bom. A sua vida de engenheiro absorvia-o. Quando viu que +aquela rapariga, que conhecera na província vaga e meiga, continuava nos seus +braços abstraída, com um olhar desencantado e quási triste, compreendeu que +fizera mal em ir buscá-la como quem colhe um lindo fruto: erguendo o braço. +Tentou então insinuar-se<span class="pn">{59}</span> pouco a pouco, +interessá-la nas suas coisas, diverti-la. Por fim resignou-se, desistiu. Como +não era um sentimental, um romanesco, e a sua profissão o apaixonava, +contentou-se em ter nela uma amizade, um ser de lialdade e de doçura, +desdenhando teatros e convívios pela paz transparente do seu lar, e vivendo +p'ra êle, para os filhos, e para aquela vida inviolada que desfocava os seus +olhos noutros céus... Como porêm tudo mudara agora!</p> + +<p>Dia a dia, a exaltação dela ia crescendo. Uma noite mesmo teve febre, e o +médico lembrou que p'rà calmar, era melhor uma mudança de ares, uma temporada +na aldeia ou à beira-mar. Partiu então p'rò Minho, para a quinta, e como nem o +marido nem os filhos podiam nesse tempo acompanhá-la, levou consigo apenas as +criadas, dizendo que preferia ficar só na grande paz do campo, a sossegar.</p> + +<p>Era na Páscoa. Nessa ressurreição da primavera, ao abrir a janela do seu +quarto, aspirou no perfume dos lilases a esperança<span class="pn">{60}</span> +que subia com as seivas, vibrando já nas asas migradoras e no pólen que doirava +o ar.</p> + +<p>Enternecia-a tudo: as relvas novas, ver os rebanhos beberar às tardes quando +os montes violáceos se concentram, os pássaros felizes no pomar, e à hora das +regas, ao crepúsculo, a alegria das águas borbulhantes, quando as estrelas vem, +tudo descansa, pelos atalhos vão chiando carros, e nos paúis, pobres poetas +liricos, os sapos piam comovidamente. Nunca sentira tanto a natureza.</p> + +<p>E foi nesta atmosfera de pomar que ela esperou misticamente a hora suprema, +querendo sofrer, feliz, extasiada, como uma nuvem alta da manhã que o sol +rompesse p'ra descer aos homens...</p> + +<p> </p> + +<p>Davam Trindades. A tia Olívia contara um lindo conto. Ao sair dos palácios +de feeria por onde a voz dela o ia levando, o Emílio ficava a olhar as jóias, +os anéis, a<span class="pn">{61}</span> pedras preciosas esparsas na sua mesa +de doente e luzindo em sortilégio, na penumbra. Eram olhos de fadas, +encantados...</p> + +<p>Não tiveram remédio senão dar-lhos: por quanto tempo, meu Deus, por quanto +tempo?... P'rò distrair, há dias, o tio Eduardo tirou os anéis e deu-lhos, e +como o viram ficar muito contente, os outros deram-lhe tambêm os que traziam. +Mas quando iam nessa noite a despedir-se, êle ficou tão triste ao entregá-los, +que o tio Eduardo propôs que lhos deixassem e todos imediatamente consentiram. +</p> + +<p>—Fica com êles, Milinho, guarda-os, guarda-os.</p> + +<p>—Mas não são meus, não quero... Assim, não quero...</p> + +<p>—São todos teus, são todos teus, meu filho.</p> + +<p>Então em roda todos confirmaram a mentira damor que o alegrava.</p> + +<p>Daí por diante, sempre àquela hora, vivia num delírio de gandezas. Mas nesta +tarde, ou porque o conto mais o impressionasse,<span class="pn">{62}</span> ou +porque estava mais fraco e com mais febre, a excitação do Emílio era maior. Os +seus olhos de mago, muito abertos, dois veludos de febre ainda mais negros, +maguavam-se fitando as pedrarias, êsse baile de côres e de reflexos que +pareciam mais vivos na penumbra, e como se a febre dêle os contagiasse, tinham +fulgurações de um brilho agudo. Abria, abria os olhos fascinado.</p> + +<p>—Que lindo, mamã, veja que lindo!</p> + +<p>Toda a sua carita consumida desaparecia no clarão dos olhos, mais pretos que +asas de andorinhas, ao tremerem no ar em despedida. Outro sino mais longe deu +Trindades, numa voz de prata e de fadiga, como se lhe custasse a vibrar até ao +quarto. Todos estavam opressos, sem falar. E êle, erguendo os braços de +repente, deixou-os ir cahindo sôbre as jóias, cobriu-as com as palmas das +mãosinhas, puxando-as contra o peito avaramente:</p> + +<p>—São todas minhas, não é? São todas minhas...<span +class="pn">{63}</span> </p> + +<p>—Todas, Milinho, disse a mãe transida. Vergou-se então sôbre elas com +esfôrço, como se fôsse p'ràs beijar, branco de cera, e repetiu ainda extasiado: +</p> + +<p>—É lindo, lindo... lindo. Não dou nenhuma a ninguêm. São todas +minhas.</p> + +<p>Espalhou-as um pouco sôbre a mesa, pôs de parte os anéis, ficou a olhá-los, +e sorrindo à idea que tivera, disse baixinho:</p> + +<p>—Vou pô-los nos meus dedos. Começou a enfiá-los com cuidado nos +dedinhos ossudos, só falanges, mas deixava-os cair a cada instante, largos de +mais, em fugas de reflexos. Já ia na terceira tentativa, num desespero mudo, a +arfar cansado, quando o tio Eduardo e a mãe o ajudaram. Levantaram-lhe as mãos +quentes de febre, e enfiaram-lhe os anéis nos dedos ósseos, que êle ergueu +quanto pôde, deslumbrado.</p> + +<p>—Mamã! Estavam a dar Trindades. Vou rezar uma avé-maria, vou rezar.</p> + +<p>Na penumbra da alcova, de mãos postas, escorrendo em reflexos irisados, a +sua<span class="pn">{64}</span> vòsinha disse a avé-maria num timbre muito fino +de carícia, como um adeus que punha os olhos rasos, num veludo expirante de +palavras, dêsses que tem no outono, a horas mortas, certas fôlhas de arbusto a +despedir-se. Nem o tio Eduardo se conteve. Brilhavam-lhe já lágrimas nos olhos. +Ninguêm tinha coragem para falar.</p> + +<p>A lua, que agora vinha muito cedo, batia na varanda, brancacenta. Êle tirou +os anéis devagarinho, como um ser de conto, a sorrir sempre, e deitou-se p'ra +baixo fatigado.</p> + +<p>—Dê-me as suas mãos, mamã, quero senti-las.</p> + +<p>E ficou a beijar-lhas muito calmo. No enleio de uma emoção religiosa, todos +queriam quebrar êsse silêncio, feito de sonho e de apreensões de morte, que +avançava talvez na luz do luar. Foi o tio Eduardo que falou:</p> + +<p>—Esteve hoje um dia lindo, quási quente. Temos à porta a primavera. +Dentro em pouco, Milinho, estás mais forte; já podes dar à tarde o teu +passeio.<span class="pn">{65}</span></p> + +<p>—Logo que possa, mamã, vou ver o mar. Consigo, sim?</p> + +<p>—Se Deus quiser, meu filho, havemos de ir. E ainda antes, has-de ir +para o quintal brincar com os manos. Sabes que a <em>tua</em> árvore, a +magnólia, já está cheia de flores muito brancas?</p> + +<p>—Ó mamã, mamã, deixe-ma ver,—pediu êle erguendo a cabeça de +repente.</p> + +<p>—Mas vais apanhar frio, meu filhinho. Amanhã, amanhã, agora não.</p> + +<p>Tanto insistiu, que o levaram ao colo até à janela, embrulhado em +cobertores, muito contente, e ficou assim alguns instantes, a carinha colada +contra os vidros, no deslumbramento da magnólia, da <em>sua</em> árvore, +erguendo o tronco negro e lívido de lua, e nos ramos implorantes e afilados, as +flores mais brancas que há na terra.</p> + +<p>Deitaram-no. Deviam ser nove horas, pouco mais. E como sempre, levantaram-se +todos p'ra partir. Cada um então foi dar-lhe um beijo, e ao apertarem-lhe as +mãos—adeus Milinho!—êle olhou-os desta vez mais<span +class="pn">{66}</span> devagar, com um olhar que nunca mais lhe viram, em +longes de meiguice, de outro mundo, numa névoa de lágrimas contentes. E sorria +ao dizer:</p> + +<p>—Adeus, adeus. Tio Eduardo, tia Olívia, adeus, adeus...</p> + +<p>Essa creança assim, a despedir-se, com uma voz perlada de carícia, encheu-os +de aflição e de terror; e foi mordendo os soluços, sufocados, que saíram da +alcova, que partiram, ouvindo dentro dêles o crocito—nunca mais! para +sempre! <em>never more!</em>—dêsse corvo fatídico, de lutos, que Poé +revelou em versos trágicos. Qualquer coisa de lindo ia morrer. Qualquer coisa +de lindo ia morrer...</p> + +<p> </p> + +<p>No emtanto na alcova, o pequenino, alongava os bracitos para a mãe e dizia +feliz, como em segrêdo:</p> + +<p>—Que bom, mamã! Que bom estar só consigo! Sente-se aqui depressa, mais +pertinho...<span class="pn">{67}</span></p> + +<p>—Aqui me tens, Milinho, aqui me tens. E beijava-o na testa +longamente.</p> + +<p>—Como eu gosto de si, minha mamã! Quem me dera viver sempre ao pé de +si! </p> + +<p>—Deus há-de-te sarar. Verás, verás...</p> + +<p>—Bem sei que lhe faz pena, não se aflija: qualquer dia, mamã, eu vou +partir...</p> + +<p>—Nem digas isso, meu amor, nem digas isso.</p> + +<p>—Vou-me embora, vou, p'ra muito longe... Não faço falta a ninguêm. +Ficam-lhe os manos. Só lhe deixo a si muitas saudades...</p> + +<p>—Se tu gostas de mim, não digas isso.</p> + +<p>Êle tornou mais lento, resignado:</p> + +<p>—Por sua causa, mamã, queria viver ainda que fôsse assim... sempre +doente, sem saír do quarto, ao pé de si, mamã, ao pé de si...</p> + +<p>—Agora precisas de dormir, de descansar. Fecha os olhos, Milinho, +dorme, dorme...</p> + +<p>—Então dê-me as suas mãos. Quero dormir com as minhas mãos nas +suas.<span class="pn">{68}</span></p> + +<p>Dentro em pouco, serenamente, adormeceu. Ela tirou as mãos devagarinho, +aconchegou-lhe a roupa contra os ombros, e afastando-lhe dos olhos o cabelo, +deu-lhe um beijo na testa, muito leve.</p> + +<p>Já o luar escorria pelos vidros em lágrimas de opala e de mercúrio. A noite +vinha ver o seu filhinho e enchê-la de esperança e de coragem. Como o pai disse +recolher mais tarde (uma entrevista no <em>club</em> p'ra negócios) mandou +deitar as criadas, ficou só: esperá-lo-ia ali, junto ao seu filho. Como dormia +bem, tão sossegado! Deus era bom, havia de salva-lo. E numa exaltação, quási +feliz, encostou-se à vidraça a olhar a noite.</p> + +<p>A magnólia ao luar estava divina. Se o pequenino a visse, o pobresinho! Como +êle gostava das árvores, do mar! Não se lembrava de ter visto um luar assim. +Fazia-lhe tão bem: calmava-a tôda. Via ao longe, no rio, as mastreações, e +distinguia as vêrgas, o velame, a luz dos estais à pôpa, nictitando. Vila-Nova, +a casaria, os arvoredos, subiam do outro lado empoalhados, e a névoa que<span +class="pn">{69}</span> se erguera pouco a pouco, era já na colina ao luaceiro +uma via-láctea nova, avoejante, salpicada de luzes, muitas luzes, como se Deus +atirasse com amor, às mãos-cheias de estrêlas sôbre a terra. Toda a mole +granítica da Sé, galvanisada a lua, se animara: corria luar nas veias dessas +pedras, morenas do sol de tantos séculos, e tôda a catedral se eterizava como +se as gárgulas aladas das cimalhas acordassem p'ra tentar um voo último. A +casaria mesmo, estava absorta. Que lindo, meu Deus, como era lindo! Elfos de +lua, gnomos, rondas fluidas, andavam no ar com o pólen dos jardins, e as rosas +de toucar por sôbre o muro, fechando todo o quintal em trepadeiras, tinham +nuances de síncope, esmaiadas. A paisagem era um sonho deslumbrado, numa +assunção p'ra Deus, erguendo os caules, e os troncos, as torres das igrejas, e +os olhos das janelas: de mãos postas. Deus fundira-se em lua, andava esparso, +como um filtro de sonho, transcendente, propiciando, amando, perdoando.<span +class="pn">{70}</span></p> + +<p>Bem certo: o seu filhinho sararia. E nessa maré-cheia de luar, no +encantamento sortílego da noite, a esperança subia a aluciná-la despertando o +sonho místico de outrora. Aquella figurinha não mentia: os seus olhos de mago +eram proféticos. As suas mãos tocando adivinhavam, como naquela noite, há já +três meses, em que uniu, sob a bênção dos seus olhos, as mãos do tio Eduardo e +da tia Olívia, no silêncio que em roda se fizera. Assim os dois souberam que se +amavam, e ficaram a olhar o pequenino como numa liturgia nupcial... E não tinha +sete anos ainda então! Mesmo a sua conversa perturbava, com inflexões de +médium, reticentes, em que palavras de sempre, as mais comuns, se engastavam em +timbres de mistério. Nascera para amar, o seu filhinho. E tudo, a sua voz de +concha meiga, a sua palidez estiolada, os seus olhos de oráculo—criança, +diziam bem um ser predestinado, um guiador augusto de destinos, em cuja +atmosfera de carícia muita dor havia de acalmar-se, como<span +class="pn">{71}</span> um perfume de rosa, a certas horas, nos beija com uma +bôca de perdão.</p> + +<p>Toda a vida do seu filho ia passando. Descaíam-lhe as <span class="typo" +title="no original: pálpebres">pálpebras</span>, ao peso das quimeras +debruçadas. E de repente, estremeceu gelada. Sentiu o luar nas mãos, subiu-lhe +aos seios... Se a beleza da noite, transparente, êste aquário em que a lua +abria as veias e a vida da terra ia boiando num abandono de ninfeia aberta, +fôsse afinal uma cilada d'<em>Ela</em>, um disfarce da Morte p'ra +roubar-lho!?... Meu Deus, meu Deus! Era possível que ela viesse assim, essa +maldita, na feeria argêntea dessa noite, com a fouce escondida em musselinas, +silenciário carrasco sem memória, correndo em passos de êxtase e de opala, e +matando com um hálito de gelo, num aflorar de plumas hesitantes junto do qual +um beijo era grosseiro?... Um instante o terror alucinou-a. Não deixaria a lua +entrar na alcova! Ia fechar as portadas, e no escuro, colando o corpo contra o +seu filhinho, estaria mais segura, a defendê-lo. Num sobressalto, foi até +junto<span class="pn">{72}</span> dêle, ficou queda. Que imensa paz nessa +carinha meiga! Pôs-lhe a polpa dos dedos sôbre a testa. Estava muito suado como +sempre. Mas a sua respiração era tão calma, e na concha das pálpebras descidas +havia uma doçura tão profunda, que se sentia bem que o seu anjinho estava a +sonhar com as fadas de algum conto, onde, como êle às vezes lhe contava, a boa +fada tinha a cara dela, e olhava e beijava como ela. Tudo corria bem. P'ra que +assustar-se? Os seus nervos, afinal, só os seus nervos! E ao voltar-se de novo +para a noite, teve remorsos de ter medo dela, de ter desconfiado loucamente que +êsse luar de perdão espargelado fôsse um scenário infame de traição, contra +aquela flôr—a pobresinha! que era seu filho e Deus ia salvar.</p> + +<p>Voltou p'ra junto da vidraça, ainda trémula, a sossegar nesse esplendor +silente. O luar avançava sempre e sempre. Já lhe doirava agora os olhos razos, +o cabelo, a testa, o corpo todo. E com uma idea súbita rezou. Não podia dizer a +quem rezava, se<span class="pn">{73}</span> rezava a Deus ou ao luar... Mas +Deus era o luar, era o luar... E agora estava certa, estava certa de que êle +vinha p'ra curar o seu filhinho, e envolvê-lo todo p'ra sará-lo como um beijo +de Deus a essa criança.</p> + +<p>Pôs-se em bicos de pés o mais que pôde, e com um gesto feliz, misterioso, +corria os cortinados de mansinho, p'ra que êle chegasse mais depressa junto ao +leito, a sorrir e a chorar, tôda contente. Êle vinha, êle entrava sempre e +sempre. Estendia-lhe as mãos como a chamál-o, as suas mãos de mãe, de veias +altas, que um dilúvio de amor intumescera. Já despertava os móveis, seus +amigos, a que ela queria como a confidentes. E doida de feliz, quási riu alto +ao ver-se no espelho enluarado. Dizia-lhe baixinho: «entra, entra...» Já a +cadeira de braços estava empoada e a trama florida do tapete ressuscitava em +<span class="errata" title="Errata: gramas sonolontas">gamas sonolentas</span>. +Se até vitalizava as coisas mortas! Era Deus, era Deus êste luar... E que +sossêgo agora, que sossêgo!... Até a bica do tanque se calara. Havia uma +atmosfera de<span class="pn">{74}</span> milagre, o seu sonho de mística era +certo. Os seus pressentimentos não mentiram. Era um destino sagrado, o +pequenino. Por isso Deus descera no luar: era êle, era êle, estava ali... Isto +era bem verdade, era a verdade. Mas então o seu filho estava salvo! E desatou a +rir perdidamente, num timbre de histeria muito sêco.</p> + +<p>De repente lembrou-se: o luar era Deus: não devia pisál-o, era um pecado... +Fugiu então p'rà zona ainda escura, olhou o pequenino adormecido. Pareceu-lhe +que sorria extasiado. Sentiu uma alegria semi-louca, um excesso de esperança a +sufocál-a. Por fim ajoelhou-se junto ao leito, chamando-o com as mãos, lavada +em lágrimas; mas rindo sempre, sempre, a segredar-lhe: «Entra, entra, entra...» +Êle vinha, êle vinha, muito fluido, de cada vez mais branco, mais divino. +Debruçou-se então, beijou-lhe a orla. Ergueu-se a radiar, transfigurada, com os +olhos histéricos mais vítreos e um riso em aro, descobrindo os dentes, numa +beatitude arripiada. Foi esperar o luar do outro lado,<span +class="pn">{75}</span> as mãos nas grades da cama, à cabeceira. Êle dormia +sempre, o pequenino, uma mão escondida no pescoço, a outra sôbre a dobra do +lençol. Curvou-se para ver onde o luar vinha. Mal conteve um grito de ventura. +Tocava os pés da cama: ia subir!... «Sóbe, sóbe, sóbe» ia dizendo. O seu pobre +coração endoidecera: despedaçava-lhe o peito, de feliz. Premiu as fontes com as +mãos: «lá vem, lá vem. Bemdito seja Deus, sempre bemdito».</p> + +<p>Havia um clarão no <em>couvre-pieds</em> agora. Uma larga lágrima, redonda, +foi lá rolar como uma grande pérola. Nesse instante ouviu como um gemido. O +pequenido mexia-se, acordava. Levou as mãos ao peito, despertou. Mal se viu o +veludo dos seus olhos... Quis erguer a cabeça, descaíu-a. A mãe vergou-se sôbre +êle: «meu filhinho», pôs-lhe as mãos em caricia sôbre as fontes que um suor +muito frio perolava, e ia beijál-o, quando ouviu três vezes, como um fio de +voz, já muito longe: «mamã, mamã, mamã...» E fechou p'ra sempre os seus<span +class="pn">{76}</span> olhos febris de grande génio triste depois dessa palavra +suprema que era tôda a sua fé.</p> + +<p>O luar chegara emfim à cabeceira!</p> + +<p>Só quando êle esfriou sob os seus beijos, só quando viu os braços que lhe +erguera, para que Deus o visse de mãos postas, implorando-lhe vida, o +pequenino!—recaírem inertes sôbre a roupa, compreendeu o crime, o crime +imenso.</p> + +<p>—Vinha no luar a Morte... no luar...</p> + +<p>Voltou-se então num desespero último, p'ró expulsar, p'ró pisar sob os seus +pés: depois reanimaria o seu filhinho: dar-lhe-ia a beber todo o seu sangue. +Mas ficou paralítica de assombro. O luar alagara todo o quarto: água lustral de +lua, alma de lua, no chão, no ar, em tôda a parte... O seu sangue gelava-se nas +veias. Não podia lutar, era impossível. Êle invadira a alcova, asfixiara-a. +Estava tudo perdido, tudo, tudo... Abriu os braços, hirta, inteiriçada, e caiu +ao desamparo, sem sentidos.<span class="pn">{77}</span></p> + +<p> </p> + +<h1><a name="SECTION00040">O HOMEM DAS FONTES</a> </h1> + +<p style="text-align: right;"><br> +A J<small>USTINO DE</small> M<small>ONTALVÃO</small></p> + +<p><span class="pn">{78}</span></p> + +<p><span class="pn">{79}</span></p> + +<p> </p> + +<h2><a name="SECTION00041">O Homem das Fontes</a> </h2> + +<p>Chama-se Harry Young o homem das fontes. Vi-o a primeira vez em Granada no +Paseo de los Tristes, ao pé de uma fonte árabe já morta. É um rapaz alto, de um +loiro muito claro, maneiras simples que revelam raça, olhos de névoa calmos e +abstractos, e uma voz estranha, monocórdia, ou p'ra dizer melhor, uma voz de +água. Nasceu em Londres. É rico. Sem família e sem lar, vive em perpétua +viagem. Encontrei-o em Roma, em Constantinopla, em Florença, e, detalhe que me +feriu intensamente, desenhando, escrevendo ou só olhando, sempre junto a uma +fonte, concentrado,<span class="pn">{80}</span> como se fôsse a caricatura +fabulosa que o encantamento de uma ninfa ali prendesse.</p> + +<p>Harry Young chegou a obsidiar-me. Nunca porêm, pensei em ir falar-lhe, +recorrendo ao impudor tradicional que se tolera sempre aos que viajam.</p> + +<p>Uma manhã, em Florença, tive quási a impressão de que era um louco. Cedo +ainda, seriam cinco horas da manhã, fui p'rà Piazza dela Signoria encher-me de +sadismo estesiante a olhar na Loggia o Perseu de Benevenuto. Tem, como sabem +por centenas de gravuras, uma fonte desenhada por Vasári à sombra ameada do +Palazzo Vecchio. Caía uma luz melodiosa. Harry desenhava, um caderno de +apontamentos na mão fina. Um esbôço da fonte, era evidente.</p> + +<p>Àquela hora só havia pombas no silêncio irreal da praça. Discretamente, +pus-me a olhar tambêm a fonte. Ao centro, o Neptuno de mármore é boçal; há uma +ronda de ninfas alongadas num bronze de <em>patine</em> quási azul; os cavalos +marinhos saltam na água e os tritões que cercam tôda a taça<span +class="pn">{81}</span> tem a alegria de quem vive na água, uma beatitude cínica +e animal, espirrando das máscaras de bronze por fossetas de riso, bocas ébrias, +em <em>verve</em> muscular, em gestos vivos. Os dorsos luziam de água +esparrinhada, e de estátua p'ra estátua voavam pombas fazendo em roda aquele +adágio de asas que à pôpa dos navios, no mar alto, riscam os voos curvos das +gaivotas. Não podia saborear aquela paz, com um desejo único a morder-me: ver o +que Harry Young desenhava.</p> + +<p>Êle fixava a fonte alguns instantes, e antes de transcrever o que colhera, +quedava ainda imóvel, recolhido, numa aura de emoção mais do que estética, que +me parecia absurda, incompatível com um esbôço num álbum de viagem. Ao lado, em +frente à estátua de Cosme de Médicis, criados sonolentos iam dispondo as mesas +nas <em>terrasses</em>. Já havia dois cafés abertos onde gente apressada ia +beber. Harry, que continuou alheado ainda algum tempo, foi por fim sentar-se a +uma <em>terrasse</em>, e bebendo um copo de leite<span class="pn">{82.}</span> +lentamenle, tinha o álbum aberto sôbre a mesa dando os últimos retoques ao +desenho.</p> + +<p>Quem era esta criatura que só o encanto das fontes interessava, e que em +Florença, como em Granada, como em Córdova, nunca vi num museu ou numa igreja, +como se só o granito ou o mármore das fontes tivessem para os seus olhos +estesia? Que sensibilidade aberrante, que destino fadara p'rò convívio +enigmático, p'rò segrêdo embalador das fontes, êste rapaz, que não tinha ainda +trinta anos, era decerto rico, bem nascido, e nem via mulheres nem paisagens, +absorto neste claro misticismo?</p> + +<p>Sentei-me numa mesa perto dêle e pude ver à vontade o seu desenho. Nem um +traço da fonte nessa página onde bem claro, escrito a grandes letras, sob um +desenho singular de mulher nua, eu li: <em>Fonte Adamanti, em Florença.</em> O +quê?! A fonte concebida por Vasári era p'ra Harry Young aquele corpo?... E +buscando a relação possível com essa fonte mítica e ingénua,<span +class="pn">{83}</span> onde em torno a um Neptuno gigantesco farandolam ninfas +e tritões, ou fôsse sugestão da simpatia que desde que vira Harry eu senti, ou +porque de facto ela fôsse um claro simbolo, pareceu-me que essa forma musical, +êsse corpo de oceanide surprêsa esperando o tritão que a possuiria, era a +síntese poética flagrante da fonte que Vasári imaginou. Corria o risco de me +tornar suspeito na ânsia de ver melhor, de analisar. Harry ergueu-se. Vi-o +seguir pela galeria degli Uffizii e desaparecer ao fundo, lentamente, p'ra êsse +scenario onde se evoca Dante, feito de lindas pontes habitadas, da escultura +nobre das colinas e das águas do Arno romanescas.</p> + +<p>Depois voltei p'ra Roma, onde encontrara Harry meses antes.</p> + +<p>Muitas vezes me lembrava dêle, eu que tambêm adoro as fontes, com uma +simpatia persistente, cúmplice. Por êsse tempo ia eu às noites degustar o +rascante trágico da solidão na Piazza del Popolo, estirado no largo rebordo de +alabastro da fonte, fronteira<span class="pn">{84}</span> ao Pincio, +impregnando-me dessa alma sem memória, dessa crónica augusta de silêncio, que é +em Roma a atmosfera de magia das praças sem ninguêm, com vozes de água. Ficava +assim horas numa tristeza quási sensual, com uma espécie de delírio de +grandezas que me permitia dialogar com Roma, calmar a minha incerteza de +falhado na beleza sobrenatural da grande morta, e fundir com o dela o meu +destino como o de um herói num poema antigo.</p> + +<p>P'ra sentir esta luxúria psiquica é preciso ter vivido muito ou ter a +velhice precoce dos artistas, que em plena força e plena mocidade, agarrando +pelos cabelos a alegria, entristecem ao beijar-lhe os olhos. Era aquela em Roma +<em>a minha hora mais silenciosa</em>.</p> + +<p>Ao centro da praça os quatro leões golfavam água, guardando o obelisco +egípcio numa vigília de esfinges, sempiterna. Em Roma, à noite, vivem-se horas +de convento. É a cidade suprema p'ra viver com um sonho ou com uma idea, velada +por formas<span class="pn">{85}</span> milenárias que recebem exames de +consciência. Notei um vulto esguio, à quarta ou quinta noite, sentado aos pés +do obelisco, num degrau. Estava na sombra e, nem eu sei porquê, pensei em +Harry. Dentro em pouco, na embriaguez dessa auto-sugestão, nem já admitia +dúvidas: era Harry, era o <em>homem das fontes</em> que ali estava. E como uma +raiz fende um granito, brotou da minha solidão de quatro meses, viajando sem +sofrer um só convívio, um desejo furioso de falar-lhe.</p> + +<p>O lirismo imemorial dêsse silêncio levava-me p'ra aquela criatura, que uma +espécie de loucura poética instalara de vez no meu espírito, como p'ra um ser +afim, um quási irmão.</p> + +<p>Pareceu-me que êle mesmo se movera, olhara na minha direcção, como +esperando. E nessa hipertensão de nervos que dá aos imaginativos o silêncio, o +convívio calado e fascinante com as criaturas brancas dos museus, o meu desejo +de falar com Harry atingiu a plenitude, exasperou-se. Levantei-me.<span +class="pn">{86}</span> Sem me atrever a caminhar p'ra êle, fui-me timidamente +aproximando: dei a volta ao obelisco devagar e parei com ar distraído junto de +Harry, como se olhasse um dos leões golfando água. Fiquei assim nervosamente +alguns segundos.</p> + +<p>Quando por fim o olhei, vi nessa máscara glabra de tritão um desejo de me +falar igual ao meu. Não posso repetir o que lhe disse, as primeiras palavras +que trocámos. <span class="errata" title="Errata: Aludimos os">Aludimos +aos</span> nossos múltiplos encontros, em Espanha, na Itália, na Turquia, por +uma coincidência bem estranha, sempre junto de fontes...</p> + +<p>Ninguém passava. Ouvia-se o vento a arrastar no Pincio fôlhas sêcas. +Lembrei-lhe a manhã em Florença, na Piazza dela Signoria, o desenho da fonte de +Vasári que eu vira na <em>terrasse</em> por trás dêle. Harry calava-se +surpreendido. Perguntei-lhe se viajava como artista, p'ra pintar.</p> + +<p>—Não sou pintor. Gosto muito das fontes, perdidamente. São o grande +interesse da minha vida...<span class="pn">{87}</span></p> + +<p>Disse-me então o seu amor às fontes, baixando um pouco a voz, quàsi em +segrêdo.</p> + +<p>Era órfão. Nunca quis conviver com os seus parentes, onde, por razões que +depois soube, só encontrou um acolhimento frio, como se fôsse um estranho, sem +ternura.</p> + +<p>Tinha uns nervos doentios que o isolavam. Dos seus tempos de colégio não +guardava saudades mas só ódios, à grosseria vulgar dos camaradas, à <span +class="typo" title="no original: promuscuidade">promiscuidade</span> forçada e +torturante p'ra uma sensibilidade como a sua. Logo que chegou à maioridade, +rico e só, foi visitar nos arredores de Londres o castelo em que seus pais +viveram. Correu o parque, as salas, as estufas. Viu ainda o seu berço, os seus +brinquedos, onde um pó sem saudade ia caindo, como sôbre coisas velhas num +museu.</p> + +<p>Passou no quarto de sua mãe algumas horas... Sentiu uma tristeza imensa em +que tudo lhe parecia hostil: os móveis, o ar, um cheiro a morte, até os olhos +fitos dos retratos... O seu primeiro desejo de homem livre fôra essa visita com +que tanta<span class="pn">{88}</span> vez sonhara, e saía de lá desamparado, +com uma espécie de desespêro inerte que tôda a casa lhe contagiara: a velhice +das coisas sem beleza onde viveu alguêm que nos foi querido e que perdem com a +côr tôda a memória. Esses muros sem alma angustiavam-no. Já atravessava o +parque p'ra sair quando ouviu a chamá-lo uma voz de agua. Era ali perto e +pareceu-lhe bem distante, vinda da sua infância já tão longe. Emfim alguêm +amigo, acolhedor! Foi p'ra ela como iria p'ra sua mãe ressuscitada, e ficou a +ouvi-la até à noite. Abrira-a o jardineiro emquanto êle percorria as salas. +Harry contou-me:</p> + +<p>—Tive a visão de um lar naquele instante. Aquela pobre fonte sem +beleza consolou-me como uma mãe, beijou-me os olhos.</p> + +<p>Acarinhou-me como a irmã... que nunca tive, como a noiva que decerto não +terei...</p> + +<p>A sua água encheu-me de saudades. E ao pensar nas salas que deixara, tudo me +comoveu, ali, a ouvi-la: os olhos dos retratos já me olhavam... os tapetes, os +móveis, as paredes, tinham linguagem agora: compreendiam-me.<span +class="pn">{89}</span> As janelas á névoa, eram olhos tão rasos como os meus. E +como poisavam pássaros na pedra, eu mesmo fui buscar pão p'ra lhes dar, +espalhei muitas migalhas pela fonte... Senti a vida tôda no meu peito. Vem +dessa hora o meu amor às fontes.</p> + +<p>Harry erguera-se. Seguíamos pelo <em>Corso</em> lentamente. Pedi-lhe então +que me mostrasse os seus desenhos, os símbolos de fontes que creara.</p> + +<p>—Só se quiser vir comigo ao meu hotel.</p> + +<p>Já tenho as malas feitas p'ra partir. Vou p'ra Veneza. Veneza é um hospital +de águas... Faz-me triste.</p> + +<p> </p> + +<p>O quarto de Harry no hotel de Londres, Piazza d'Espagnia, tinha entre duas +janelas um piano. Estavam abertas à noite, que em Roma parece mais arqueada, +como p'ra receber melhor as confidências. A torre della Trinitá del Monte deu +onze horas. Naquela paz não éramos só dois, porque subia da praça, propiciando, +a voz da fonte<span class="pn">{90}</span> de Bernini, <em>la Borcáccia</em>, a +escoar-se sem jactos, brandamente. Harry acendeu as serpentinas sôbre a mesa. +Vi então dois álbuns grandes de viagem, e alguns pequenos mais esguios.</p> + +<p>Começámos a folhear num dos primeiros a imaginosa notação das fontes árabes: +de Córdova, de Granada <em>la vieja</em>, a terra andaluza de +<em>mors-amor</em>. A fonte morta do Paseo de los Tristes, onde pela primeira +vez eu vira Harry, era um cadáver de almeia; e havia ainda outra de Granada, +que eu toquei no jardim de Lindaraja, onde a princesa agarena vive ainda com +uma côrte calada de ciprestes...</p> + +<p>O desenho de Harry dava-me dela uma visão patética. Evocava-a nova, musical, +nesse jardim interior da Alhambra—jaula feérica da luxúria árabe, onde os +corpos morenos das almeias elanguesciam nos mármores dos pátios, e nas salas de +jóias lapidadas dormiam com os perfumes dos jardins as grandes séstas tórridas, +de cópula...</p> + +<p>Desenhára o mirador de Lindaraja, com<span class="pn">{91}</span> as suas +gelosias marchetadas que ela entreabria um pouco, debruçando-se, como p'ra +ouvir melhor a voz da fonte. E a fonte falava de desejo, porque ela tinha nos +olhos, nos cabelos, na bôca a entumescer, nas linhas sôfregas, a expressão de +uma corola ao cair do pólen... Dos desenhos que vi das fontes turcas, um entre +todos me maravilhou: a do sultão Ahmed, em Stambul, no coração da praça do +Serralho. É um lindo harém de grades redoiradas, arabescado de oiro e +lápis-lazuli, de que a água é sultana única.</p> + +<p>Harry representara Schehèrezade, a noveleira das <em>Mil noites e uma +noite</em>. Essa era bem um símbolo de fonte, que durante <em>mil noites e uma +noite</em>, a contar histórias sôbre histórias, adormeceu o califa que a matava +se a sua voz lhe não fechasse os olhos... Foi um destino de fonte Schehèrezade. +</p> + +<p>Havia fontes de parques e de claustros: a primeira era uma <em>Belle au bois +dormant</em> que um pavão heráldico velava; e entre as imagens místicas que vi, +apenas lembro uma<span class="pn">{92}</span> carmelitana, lendo sob uma ogiva, +côr de cera, decerto Santa Theresa, <em>Las moradas</em>... A última, porém, a +mais estranha, de não sei que vila romana ao abandono, era uma grande esfinge +tumular com asas mortuárias de falena. Recordo ainda páginas isoladas: a fonte +dos cavalos marinhos da vila Borghése era um Pégaso de crinas alagadas, uma +cabeça de cavalo grego, dêsses que nos versos de Homero viviam irmãmente com os +heróis. E não sei que fonte mitológica—uma estátua de Juno, sereníssima, +a cabeça nimbada de andorinhas.</p> + +<p>O outro álbum era de esboços—desenhos e <em>maquettes</em>,—tôda +uma arquitectura fragmentária p'ra um palácio quimérico da água, num poético +parque, inverosímil como o de Poë no <em>Domínio de Arnheim</em>.</p> + +<p>A maior parte dos desenhos eram vagos, dizendo a embriogenia dêsse templo +que Harry erguia à Água Padroeira, com beatitudes de arquitecto místico, em +linhas-versículos de sonho.<span class="pn">{93}</span></p> + +<p>Perguntei-lhe se tencionava construi-lo. Harry sorriu.</p> + +<p>—Construi-lo e habitá-lo... Com <em><span class="errata" +title="Errata: miss Foutain">Miss Fountain</span></em>... se a encontrar um +dia.</p> + +<p>O desenho mais minucioso era a fachada, feita de duas arquiteturas +sobrepostas: uma estável, de mármores rosados; outra móvel, música, espumante, +de milhares de tranças de água de essas fontes, cavadas em motivos decorais no +sonoro frontão religioso que viveria um dia tão beijado como as asas do mar no +temporal.</p> + +<p>É impossível descrever-lhe as linhas, como é impossível descrever a +Alhambra. A fachada de mármore era subsidiária da segunda, a real, a litúrgica, +a <em>aquática</em>; era o seu esqueleto quási oculto, e por milhares de +ranhuras invisíveis, de declives matematicamente calculados, por bôcas +inflectindo em curvas gráceis, por biliões de crivos capilares donde cairiam +chorões de prata fluida, destinada a dar vazão a essa segunda, arquitectura +sinfónica, hino vivo, que o meu tritão exilado ia criar.<span +class="pn">{94}</span></p> + +<p>O mármore apparecia, sob a trama arquitectural da água golfante, como +através de rendas de Burano um colo ou uma nuca de mulher, e intumescia às +vezes como um seio no bôjo de uma ânfora sveltíssima ou na escultura de uma +planta de água.</p> + +<p>Oh! que feliz a carne dêsse mármore, escrava de uma fluida arquitectura, +cantada e beijada todo o sempre! Jactos cruzavam-se como na argentaria solar de +uma panóplia, caíam numa taça canelada, donde escorriam molemente, em lágrimas, +p'ra renascer vivendo noutros sulcos, donde espirravam como flores se esfolham, +em graças <em>platerescas</em>, em sorrisos.</p> + +<p>Contra o sol, as janelas, os balcões, tinham estores de longos fios de água, +tamisando a luz pr'ò interior em irisações fantásticas de nave. Mas, como Harry +me fêz logo notar, o seu projecto, perfeitamente realizável, era um <em>ensaio +de arquitetura musical</em>. A euritmia dessas linhas de água, tantas volutas +líquidas que eu via no amoroso desenho daquele álbum, não tinham só<span +class="pn">{95}</span> um fim arquitetónico, antes eram a consequência +imediata, o instrumento de beleza necessário, pr'á ópera da Água revelada por +um arquitecto-músico de génio. Mostrou-me então a <em>partitura</em> do +palácio. Sentou-se ao piano e tocou-me alguns motivos.</p> + +<p>Como tôda a gente no hotel dormia, executava em surdina, emocionado. +Primeiro o <em>leit-motiv</em> da entrada, cantado no peristilo por três +fontes, com três taças de prata cada uma. Era a ogiva elegantíssima da entrada +(duas curvas angulares de água jorrante em conchas de alabastro quási ocultas) +que acompanhava as três vozes argentinas. Harry chamava-lhe: <em>o motivo de +saudação</em>.</p> + +<p>Depois tocou-me a sinfonia da fachada. E foi então que ouvi a alma +transcendente dêsse tristão-poeta desterrado! E Harry dizia, crispando as mãos +numa impotência de nervoso, que era impossível mimar sôbre um piano a fluidez +dionisíaca das frases. Os <em>graves</em> e os <em>agudos</em> conseguiam-se +por diferenças de calibres, indo de uma tenuidade<span class="pn">{96}</span> +capilar até aos cilindros de maior diâmetro, às bocas, divertículos, ampolas, +com recôncavos e inflexões previstas, num duplo intuito ornamental e acústico. +</p> + +<p>A gama das resonâncias era imensa, indo dos acordes dos mármores e +alabastros até aos timbres dos metais mais ricos, dos bronzes, pratas foscas, +claros oiros, com espessuras várias nuançando, imbutidos nos mármores da +fachada, enriquecida assim com côres de jóia e os tons sobrenaturais de um +órgão de água. Oh! essa sinfonia! Reouvi-la e, meu Deus! prazer supremo, +ouvi-la e vê-la, se um dia o templo da Água fôsse vida!</p> + +<p>Três melodias <em>fugadas</em> corriam a fachada sem cessar. A que vibrava +ao centro tinha timbres mais finos e mais altos, os jactos erguiam-se mais, +implorativos, antes de recaírem em vertigem, nos dois focos de resonância +decoral. Era uma prece indefinida e dava ao templo como uma aspiração de +agulhas góticas, a expressão decantada, musical, que teem as mãos erguidas +das<span class="pn">{97}</span> Ogivas. Harry chamava-lhe: <em>a ânsia de ser +nuvem</em>.</p> + +<p>Os outros dois, visualmente, fundiam-se em sinuosidades expressivas, em +caprichos de linhas reticentes, e fiando a mesma clara rêde, eram, +musicalmente, bem diversos. Harry chamava-lhes: <em>a alegria de morrer +sorrindo: a saudade dos rios, das nascentes</em>. E os três deliam-se numa +polifonia liquescente em que a <em>ânsia de ser nuvem</em> tinha o patético de +umas mãos erguidas; <em>a alegria de morrer sorrindo</em> lembrava a vida e +morte das espumas; e <em>a saudade dos rios, das nascentes</em>, nas conchas e +recôncavos de mármore revestidos dos bronzes mais espessos, dizia em acordes +quasi cavos o desespero da água outrora livre, domada e orquestrada sabiamente: +a nostalgia do coração das rochas vivas, dos açudes, dos campos cultivados que +ela regava a chalrar nos sulcos largos.</p> + +<p>Nos três lados restantes, a decoração musical era mais simples: baladas de +ecos sem memória instilando um esquecimento<span class="pn">{98}</span> de +magia. Inútil descrevê-las: impossível. Ante o imprevisto desta arquitectura, +Harry compreendendo o meu espanto, mostrou-me, em cadernos atulhados, a notação +musical minuciosa, em que as vozes de milhares de fontes tinham sido por êle +copiadas, e outras de ensaios que realizara até poder compor a +<em>partitura</em> dêsse palácio feérico da Água.</p> + +<p>O seu esfôrço agora, a sua obsessão de cada instante, era, estudando a +hidráulica e a acústica, chegar a harmonizar a arquitetura, que lhe parecia +pouco bela ainda no mármore, com a beleza musical e plástica da arquitetura +líquida exterior. Trabalhava com febre, dia e noite.</p> + +<p>Mostrou-me ainda detalhes interiores. A <em>Galeria da Meditação</em> tinha +vitrais historiando os mitos da Água: ao largo da laguna veneziana, o casamento +do Doge com o Adriático na galera de sonho o <em>Bucentauro</em>; Ophélia +louca, o cabelo como um chorão de fios de oiro, apartando com mãos de prata +fosca os canaviais orando à<span class="pn">{99}</span> beira-rio: sereias +penteando-se ao luar com medusas nos seios gotejantes...</p> + +<p>No chão de pórfiro, um tapete esmaecido de reflexos. E nas paredes nuas, +como se pendurasse as telas de algum mestre, Harry cavara duas fontes +pequeninas, num tingling lacrimal, beijante, clepsidras a viver fora do +tempo... Ali iria meditar e ler.</p> + +<p>Era evidente porém que o seu palácio só podia existir no isolamento.</p> + +<p>Disse-me então como teria de murá-lo, defendendo-o do vento, concentrando-o. +Alêm das grades balizando o parque, cinco muros de árvores concêntricas, por +ordem de alturas decrescente: a grisalha colossal dos eucaliptos, o veludo dos +cedros, choupos góticos, ciprestes tutelares, e em vagas meigas, as cabeleiras +sôltas dos chorões... E seria num vale agasalhado.</p> + +<p>Harry empalidecia de emoção. Detestava viajar, o convívio forçado dos +expressos, a promiscuidade dos hotéis, dos restaurantes. Só por as fontes se +fizera vagabundo, para as ver, pr'às ouvir assimilando-as, e poder<span +class="pn">{100}</span> executar um dia o seu palácio—síntese de +todas.</p> + +<p>O entusiasmo de Harry contagiou-me. É possível que amanhã não seja assim, +que dêste plano de arquitectura musical que antevejo e anteoiço emocionado, no +contágio febril que me vem de Harry, me fique a idea de um projecto fruste, de +uma alucinação de hiperacústico, com uma forma de loucura poética só como +documento, interessante.</p> + +<p>O templo da Água é para a vida dêste sensitivo, sob uma forma íntima e +discreta, a minúscula visão quási infantil, a creancice lírica encantada em que +êste poeta semi-louco e ingénuo tenta exprimir em linguagem de arte, com a +arquitectura e a música por meios, tudo quanto na terra deslumbrou a sua alma +de tritão éxul.</p> + +<p>Se amanhã analisar êste projecto longe do seu contacto perturbante, talvez +eu reconheça a inanidade de todo o seu amorosíssimo trabalho, mas sempre com +emoção hei-de admirá-lo, porque teve uma paixão e se lhe entrega, sem nenhuma +restricção,<span class="pn">{101}</span> de todo o corpo, e arde nessa febre +dia a dia, abandonando tudo, belo e rico, por uma vida nómade, de acaso, que o +fará morrer ao desamparo no hotel dálguma terra onde haja fontes, ainda fiel a +essa visão de sempre, sorrindo ao seu palácio em cristais múrmuros...</p> + +<p>O palácio da Água!... «Construi-lo e habitá-lo com <em>miss Fountain</em> se +a encontrar um dia...» Eu cuido ver essa beleza de água tal como vive nas +pupilas de Harry. Tem uma voz de água, os olhos de água, uma alma de água, +clara, imperturbada, e um desejo, um sensualismo de água, envolvente, fluido, +esquecedor, como um nirvana de água inexgotável.</p> + +<p>Sem o fermento de nevrose que o desvaira, com faculdades criadoras +coordenadas, Harry seria talvez um grande músico, um encantador, um mystico dos +sons, como fragmentariamente o revelaram as estranhas composições que agora +ouvi. Ou, quem sabe! um arquitecto novo, musical pela assunção das linhas, sem +recorrer, vesánico, quimérico,<span class="pn">{102}</span> às impossíveis +sinfonias da água onde os seus olhos pálidos, de névoa, cuidaram descobrir todo +o destino.</p> + +<p>Ao ouvir-lhe a voz meíga, monocórdia, já começo aqui mesmo a duvidar, e +penso no que seria o desespero, a irremissível catástrofe dêste homem, sem +família, sem noiva, sem amigos, condenado a um absoluto isolamento por uma +sensibilidade hiperaguda, se viesse um dia a convencer-se de que era uma +loucura essa chimera onde fechou o futuro a sete chaves.</p> + +<p>É certo, é natural que isso suceda. Que sabe êle de hidráulica, de acústica? +Nem sequer tem uma educação profissional, e era forçoso, p'ra admitir como +exequível êsse plano, que êle fôsse um arquitecto extraordinário, um músico +revelador de novos meios e um engenheiro único, de génio.</p> + +<p>E assim mesmo, pois que o drama musical de Wagner é, na sua beleza de +vertigem, a mais victoriosa das derrotas, condenando pela voz dêsse homem-deus +tentativas quaisquer de fusão de artes, não era mais que<span +class="pn">{103}</span> certa, irrevocável, a falência total do sonho de Harry? +</p> + +<p>Êsse supremo aro de unidade, fervorosa obsessão de todo o artista, é um +prodígio <em>interior</em>, não se exterioriza, e só com uma genialidade +adivinhante, se realiza por um meio único (literatura, música, pintura) a +obra-prima contendo em potencial, englobando em sugestões latentes, domínios +que pareciam de outras artes.</p> + +<p>Se ao menos pudesse conviver com êle e canalizar tão bellas qualidades p'ra +qualquer coisa de viável, de fecundo! Queria evitar que a sua vida se partisse +como uma lufada de vento quebraria aquela arquitectura em pratas de água, como +um sistema arterial de sonho. Mas é esta a primeira noite que falamos e é +decerto a última tambêm.</p> + +<p>E depois, como poderia desviá-lo, por que paixão substituir esta paixão, +êste culto das fontes religioso?...</p> + +<p>Lembrei-me então do mar, todo o meu culto. E voltando à sinfonia da fachada, +comecei a dizer que um dos motivos—<em>a alegria de morrer +sorrindo</em>—me<span class="pn">{104}</span> fizera, ali na paz de Roma, +uma saudade imensa do meu mar. Harry fixou-me. Parecia constrangido.</p> + +<p>—Gosta muito do mar, não é verdade?</p> + +<p>Harry calava-se, interdito. Senti então entrar pelas janelas, como uma onda +de silêncio que arrolasse, a paz de Roma prenhe de memórias... A fonte de +Bernini ouviu-se mais: dir-se-hia uma voz de ama milenária a acalentar +fantasmas com terror...</p> + +<p>Ao ver Harry perplexo, hesitante, arrependia-me da pergunta que lhe fiz, mas +elle viu com certeza nos meus olhos a minha curiosidade, a minha ância. A +sôbre-excitação daquele instante, até o facto de eu ser quási um estranho, a +quem se faz mais facilmente confidências do que mesmo a um amigo ou a um +conhecido, forçaram-no a falar, violentaram-no.</p> + +<p>Respondeu-me com agitação de um modo brusco:</p> + +<p>—O mar?!... Não posso suportá-lo, odeio-o, porque foi êle que perdeu +os meus...<span class="pn">{105}</span> Compreendo-lhe a beleza, que é divina, +mas não o posso ver, atterra-me, detesto-o...</p> + +<p>Ainda hesitou. Depois, sem interrupção, <em>vivendo</em> as frases:</p> + +<p>—Meu pai, que era um homem do povo, viveu doze anos com <em>êle</em> e +adorava-o. Era piloto. Viajava p'rò Norte quási sempre. Filho de marinheiros, +tinha nas veias o amor do mar. Foi de volta da Islândia, a bordo do +<em>Baltic</em>, que pela primeira vez viu minha mãe. Teria ela então dezassete +anos.</p> + +<p>Meu pai, ruivo e forte, tinha uma beleza viril, impressionante. Ela, já +então órfã, viajava com meu tio, um velho estranho, que só as viagens por mar +interessavam. Era bela (tirou uma fotografia da carteira) imensamente bela, não +é verdade?</p> + +<p>Tinha uma índole exaltada, romanesca, que o hábito de realizar todos os +caprichos levou a um despotismo singular, de perversão nervosa, de histeria, e +ao menor obstaculo, com acessos de chôro e grandes febres. Meu tio era o tutor, +e longe de a reprimir, estimulava-a mais, lisonjeando-a, com<span +class="pn">{106}</span> uma adoração de spleenético alcoólico por aquela +andorinha semi-louca. Mesmo a bordo, quando começou a amar meu pai, ela ia +fazer-lhe confidências, contar-lhe os sobresaltos dos seus nervos, e êle +ouvia-a com uma indulgência de ternura e talvez mesmo com uma ponta de sadismo. +Mas não quero aborrecê-lo com detalhes.</p> + +<p>Contra a vontade de todos, apenas ajudados por meu tio, cujo spleen se +comprazia neste drama, os dois casaram, depois de uma côrte romanesca que +alucinara de paixão meu pai. Minha mãe teve uma exigência única, mas que era +para êle a mais cruel: <em>abandonar a vida de bordo para sempre</em>. Estava +tão doido, que a aceitou sem compreender, pálido como se lhe arrancassem tôda a +alma...</p> + +<p>Na véspera do casamento, foi a bordo do <em>Baltic</em> despedir-se. Abraçou +os companheiros um a um, e andou horas a bordo, como um náufrago, como um cão +sem dono, os olhos rasos, a dizer adeus ao seu navio. Toda essa noite passou-a +a errar no pôrto.<span class="pn">{107}</span> Ninguém diria que aquele +vagabundo tinha uma noiva aristocrata, bela e rica, e ia casar já na manhã +seguinte.</p> + +<p>A caminho da igreja, sentia uma alegria lúgubre, uma felicidade exasperada, +como um travo de remorso do mar longe...</p> + +<p>Depois veio a vertigem. Durante dois anos, esqueceu o mar, esqueceu tudo nos +olhos verdes de minha mãe como num álcool. Viviam um do outro, sem convívio, +num castelo dos arredores de Londres, que meu tio, ainda em vida, lhes doou. +Havia no amor dêle a minha mãe devoções de plebeu por um ser de raça, e o +sensualismo de um marinheiro, moço e forte, com longos períodos de abstinência +no mar largo, por um corpo de pétala, serpentino, enlaçando com braços e +perfumes...</p> + +<p>No amor de minha mãe havia bastante de perversão histérica. Sabia como êle +evitava falar do mar com uma espécie de pudor religioso. Um dia mesmo êle +pediu-lhe de joelhos que não lhe lembrasse a promessa que fizera, que não +falasse do mar<span class="pn">{108}</span> diante dêle. E a cada instante, em +horas íntimas, quando passeavam no parque, nas estufas, nas grandes noites de +invernia e chuva, ela aludia em frases reticentes onde adejava o espectro do +mar longe. Tinha a volúpia de o martirizar. E quando o via bem amarfanhado, +caído como uma coisa ao desamparo, p'ra cima de um estofo, a mascar raivas, +erguia-se mais linda que um <em>tanagra</em> e ia beijar-lhe os olhos, dar-lhe +a bôca, endoidecê-lo de amor e de luxúria.</p> + +<p>E viviam assim meses e meses. Nem uma visita. Ninguêm. Raro saíam. A vida +mundana não interessava minha mãe. Tinha-a vivido febrilmente e esgotou-a com +uma precocidade de nervosa, que tudo interessa e aborrece em pouco tempo. +Depois, ainda por orgulho. Tendo feito um casamento desigual, não queria +humilhar meu pai nem humilhar-se.</p> + +<p>Havia nesta vida de desejo de dois seres tão diferentes e isolados qualquer +coisa de feroz, de criminoso. Dois instintos presos por amor, na mesma jaula de +oiro, dia e noite...<span class="pn">{109}</span> Enervavam-se um ao outro. +Enlouqueciam-se.</p> + +<p>Tenho em Londres uma fotografia de minha mãe por êsse tempo. Emagrecera. +Lembrava um ser patético de Shakespeare. O seu temperamento de histérica +requintava, em perversões subtis, quási em loucuras. Torturava meu pai +continuamente, dando-lhe a visão do mar a cada instante, por sugestões que iam +atormentá-lo, evitando contudo falar dêle, com uma hipocrisia que era mais +cruel do que seria uma alusão bem clara. Nas salas havia paisagens de mar por +tôda a parte... E por cima das mesas, dos sofás, como uma obsessão de crime, +sempre e sempre, livros, romances e gravuras, com narrações de mar, sempre com +o mar...</p> + +<p>Até as músicas que tocava ao piano. Dizia-lhe: anda «ouvir como isto é +lindo!» E êle encostado ao piano, junto dela, via os <em>Lieder</em> de +Schubert já abertos numa página marcada. E lia: <em>O mar!...</em></p> + +<p>Depois que eu nasci, a nevrose de minha<span class="pn">{110}</span> mãe, +longe de se calmar na maternidade, exasperou-se. Os dias para os dois eram +enormes. Passavam horas junto do meu berço, inventando-me encantos, a +adorar-me. E como me dizia a velha Jenny, por quem eu soube tudo o que lhe +conto, dir-se-ia, naquela solidão envenenada, que cada vez se desejavam mais, +se bebiam com olhos mais sedentos, com um amor que era uma espécie de ódio.</p> + +<p>Tudo isto passava-se sem gestos, sem levantarem a voz uma só vez.</p> + +<p>A virilidade impulsiva de meu pae caía dominada ao ouvir-lhe o andar. O +ruge-ruge dos vestidos dela fazia-lhe um terror voluptuoso. Estirava-se aos pés +dela muito tempo a beijar-lhe os sapatos, marasmado...</p> + +<p>Os criados achavam-nos estranhos, cada vez mais pálidos, mais magros. Eles +mesmos pressentiam—no silêncio augural daquela casa onde os viam +enlaçados, de olhos loucos—qualquer coisa de trágico, de mau...<span +class="pn">{111}</span> </p> + +<p>Meu pai, que a bordo fôra sempre sóbrio, bebia agora imenso, embebedava-se. +Depois, com a idea do mar cravada nele, ia esmoer essa obsessão, calado. +Viam-no às vezes falar só, baixinho, escondido nas salas afastadas, dizendo por +entre dentes, sufocado, coisas de bordo, vozes de comando, com as mãos em +porta-voz, olhando o tecto, como se fitasse os mastros, o velame...</p> + +<p>Se alguêm o via, disfarçava, com uma expressão de terror quási idiota. Ia +endoidecendo pouco a pouco.</p> + +<p>Minha mãe sabia tudo, tudo. A pobre Jenny, sobressaltada, ia contar-lhe; +pedia-lhes que se distraíssem, viajassem, que fizesse um esfôrço p'rò salvar. +Ela, porêm, só tinha curiosidade p'ra saber se meu pai bebia muito, se falava +só, o que dizia...</p> + +<p>Ás vezes vinham cartas dos camaradas, dos portos em que o <em>Baltic</em> +tocava, falando-lhe de bordo com saudades. Êle lia-as e relia-as muitas vezes. +Trazia-as sempre consigo, decorava-as. Mas logo que minha mãe aparecia, mudava +de figura, era já outro. O<span class="pn">{112}</span> olhar babava adoração. +E se um instante se abandonava nos seus braços, pegava nela ao colo como um +doido, levava-a p'rà alcova aos tropeções, sem se importar com os criados, com +ninguêm.</p> + +<p>Afinal minha mãe gostava disto. Era ela que o enlouquecia pouco a pouco. +Cada vez mais, sem falar dêle, a propósito das coisas mais triviais, aludia ao +mar, com pausas bruscas, em que os ouvidos dêle, alucinados, ouviam o rumor, a +voz do largo...</p> + +<p>Evocado a todos os pretextos, por essa linda torcionária histérica, +<em>êle</em> acabou por ser uma presença: o Espírito do Mar viveu com êles!... +Eram três agora no castelo. Passava o inverno com êles, a seu lado. Vivia nas +marinhas das paredes, nos livros e no vento, nos ruídos... E mais e melhor: na +alma dêles...</p> + +<p>Sós, à noite, a ouvir o vento, olhavam-se... E em ambas as bôcas, bem +cerradas, cada um lia: «Ouves o mar? É <em>êle</em>...» E depois de suspensos +um instante p'rò sentirem correr-lhes a medula, afogavam-se nos<span +class="pn">{113}</span> braços um do outro, com uma fúria sensual desesperada. +Foi minha mãe que provocou tudo isto, e acabou por se enredar tambêm, por +acreditar como êle, contagiada. Numa cama de amor, dois amorosos, partilham as +loucuras como os corpos...</p> + +<p>O Espirito do Mar estava com êles. Ainda lhe não tinham pronunciado o nome, +mas calavam-se muitas vezes para ouvi-lo, conversavam sôbre <em>êle</em> por +olhares...</p> + +<p>Uma noite de inverno—ia a fazer três anos que casaram—recebeu do +Norte um telegrama.</p> + +<p>Era dum camarada íntimo de bordo. Toda a tripulação o abraçava; mandavam-lhe +do <em>Baltic</em> saudades... Pareceu-lhe então que o seu navio, o seu pano +que tanta vez ferrára, vinha naquela noite de Janeiro, dizer-lhe o ultimo adeus +da vida a bordo, das grandes rotas pelos mares de névoa, das veladas na ponte a +todo o tempo, dos sonos bons depois no seu beliche, pequenino e estreito como +um berço... Rolavam-lhe as lagrimas dos olhos.<span class="pn">{114}</span></p> + +<p>A Jenny, que andava inquieta e os vigiava, muita vez me contou essa noite +ultima.</p> + +<p>Chovia imenso. Ela mesma lhes serviu o chá. Meu pai, como de costume, bebeu +<em>gin</em>. Mas nessa noite foi brutal o que bebeu. Minha mãe, com uns olhos +de aura histérica, dava-lhe as mãos a beijar, encorajava-o...</p> + +<p>Já tarde, ergueram-se. Jenny foi ajudar a despir-se minha mãe. Êle seguiu +devagar pelo corredor e abriu a janela tôda à noite negra... Ficou assim algum +tempo a olhar o vago, com a cabeça nua, à chuva e ao vento...</p> + +<p>Depois, bruscamente, foi pr'ò quarto. Com um tremor de alcoólico nas mãos, +foi a um armário de que nunca se servia, e começou a tirar roupas de bordo, +atiradas há três anos para ali como coisas inúteis para sempre. Pôs-se então a +vesti-las febrilmente: japona de oleado, botas altas, na cabeça o sueste... +Como a bordo. Viu-se ao espelho. E ia a sair, quando voltou p'ra trás.<span +class="pn">{115}</span> Qualquer coisa lhe faltava. Procurou no armário, +procurou... Era a faca de bordo, numa bainha de coiro já puído. Pô-la â cinta e +partiu com um andar mais firme, resoluto, como se a bordo, fôsse fazer um +<em>quarto</em> em noite má.</p> + +<p>Outra vez seguiu pelo corredor, até ao quarto de minha mãe, que o esperava. +Sem bater, entrou: parou a olha-la. Tinha os cabelos desfeitos, muito branca, +num <em>robe-de-chambre</em> que abriu ao vê-lo entrar. E com o colo nu +perdeu-se a rir...</p> + +<p>«Vaes p'r'ò mar, meu amor? Deixas-me só?...»</p> + +<p><em>P'rò mar! P'rò mar!...</em> Pela primeira vez há já três annos, +espantado de se ouvir, da sua voz, repetia o nome sortílego, supremo: «<em>P'rò +mar!</em>» com uma inflexão pueril, quasi idiota.</p> + +<p>A lenha crepitava no fogão. Ouvia-se chover cada vez mais.</p> + +<p>—«Estás vestido p'ra bordo... Estás já pronto...»</p> + +<p>De súbito, ela viu-o demudar-se. Com<span class="pn">{116}</span> uma +inflexão rouca, de bêbedo, tornou; «Está mau... está mau... Está um temporal +desfeito. Como querias tu que eu me vestisse?» Ela sentiu terror e +aproximou-se. «Ouves a chuva?» dizia êle. «Ouves a noite?... Ouves?... Ih! Ih! +Que vento! Que maldito!...» Num lindo gesto meteu-se-lhe nos braços, colando-se +contra ele, abandonando-se. O <em>robe-de-chambre</em> descaía-lhe nos ombros. +«O pano incha, o pano incha... Ferrar pano! gritou com voz de comando: Ferrar +pano!»—Tomou-lhe o corpo nos braços ennovelado. E Jenny, que ao ouvir-lhe +a voz correra, ouviu ainda aterrada; «Não aguenta o pano! Cortar cabos!...» +Tirou a faca de bordo da cintura, prendeu a bainha nos dentes p'rà arrancar, e +cravou-lha no colo até à raiz. Era curva. Dir-se-ia que tinha a inflexão dos +seios dela.</p> +<hr class="dotted"> + +<p>Harry contou-me ainda o processo, o julgamento, e como êle no tribunal +acusou o Mar... A opinião dos médicos legistas, foi<span +class="pn">{117}</span> que êle estava doido irresponsável. Apesar disso, +porêm, foi enforcado. A opinião pública, os jornais, eram contra êle.</p> + +<p>Harry estava lívido.</p> + +<p>—Compreende agora porque odeio o mar.<span class="pn">{118}</span></p> + +<p><span class="pn">{119}</span></p> + +<p> </p> + +<h1><a name="SECTION00050">SUZE</a> </h1> + +<p style="text-align: right;"><br> +A P<small>AULO</small> O<small>SÓRIO</small></p> + +<p><span class="pn">{120}</span></p> + +<p><span class="pn">{121}</span></p> + +<p> </p> + +<h2><a name="SECTION00051">Suze</a> </h2> + +<p> </p> + +<blockquote style="margin-left: 12em;"> + Oh! dolce, <br> + della soglia del lupanare <br> + mirar le vergini stelle! + + <p>—<em>La meretrice di Pirgo</em>—GABRIELE D'ANNUNZIO. </p> +</blockquote> + +<p> </p> + +<p>Não posso dormir. Como há mais de oito dias não recebi carta da Suze, e a +minha absurda vaidade se recusa a crer que ela me esqueça, ponho-me a pensar, +com uma perversidade triste, que tenho escrito loucuras a um cadáver.</p> + +<p>Na última contava ela com uma coragem simples, como o mais fútil incidente, +que ia entrar p'rò hospital p'ra ser operada. Anunciava-me isto, entre um +projecto de vestido <em>gris-taupe</em>, que iria bem à sua tinta de viciosa +pálida, e uma chuva de detalhes sôbre<span class="pn">{122}</span> a gata, a +amar com romance e com luxúria um gato magro do terceiro andar.</p> + +<p>Se tivesse sido operada e convalescesse, já decerto me teria mandado um +telegrama.</p> + +<p>É pois forçoso convencer-me que a minha pobre Suze—«era uma vez»...</p> + +<p>Repito alto p'ra mim mesmo: está morta, está morta a Suze! Logo que o disse +alto, todo o meu temperamento de actor o acreditou, e em todo o meu ser, essa +auto-sugestão ressoou em dobres, agudamente, por essa rapariga de vinte e três +anos com quem vivi dois meses.</p> + +<p>A morta (é certo, é positivo que morreu) era alta e magra.</p> + +<p>Aqui mesmo, no meu quarto, onde certa noite ela tomou chá entre os meus +livros, a vejo atirar o chapeu de rendas caras, em que havia heráldicas +tulipas, acender com um gesto fino um dos Laferme, correr a mão na testa com o +gesto da Duse nas catastrofes supremas, e dar-me fumo e destino e sonho. Aqui +mesmo.</p> + +<p>Naquele espelho prolongou com um traço<span class="pn">{123}</span> de +crayon os olhos vagos, ali palpou as molas do divan, e no <em>toilette</em> +atou horas depois, <em>im memoriam</em>, as fitas de sêda azul que lhe prendiam +a camisa nas espaduas...</p> + +<p>(Mas assim, não consigo dizer o que ela foi. Preciso calmar a minha febre e +começar pelo comêço).</p> + +<p>Vi-a a primeira vez êste verão, no teatro, e logo a destaquei.</p> + +<p>Os seus cabelos de criança escandinava, loiro cendrado e sêda palha em que +havia reflexos quási brancos, tufavam na testa sob o chapéu preto, descaíam à +esquerda, subiam à direita recortando a têmpora em ogiva; inverosímeis como +raios de um sol de vício, quimicos, absurdos... Só depois me convenci que eram +autênticos.</p> + +<p>Os olhos eram claros, cinzento de agua em névoa; a máscara alongava-se num +focinhito sonâmbulo; nariz incorrecto, quási grosseiro; bôca grande, +acolhedora, de comissuras em pontos de interrogação; e o mento perdia-se na +nuvem de tule de um<span class="pn">{124}</span> laço, esparso na gola +impecavel de um <em>costume tailleur</em> azul.</p> + +<p>Tinha muito da Sarah em nova: a cabeça de uma madona <em>quatrocento</em> em +que vivesse a alma de Montmartre.</p> + +<p>Acompanhava-a outra que mal vi, fisgado pelo estranho do seu tipo. Toda a +noite, ferozmente, a encarcerei no meu binoculo e ela, exibindo atitudes de +indiferença numa galeria intérmina, nem sequer teve o ar de ver-me.</p> + +<p>Aborrecia-se com complacência, olhando sem fitar, cumprindo com resignação +êsse destino de, sôbre uma platea do Pôrto, num barracão de +<em>Folies</em>-Brégeiras, esfolhar a carícia exangue e lambedora das suas mãos +de raça.</p> + +<p>No meu grupo faziam-se hipóteses. Cocotte? Cançonetista? Talvez seja essa +que se estreia amanhã.</p> + +<p>Todos a achavam imensamente estranha e alguma coisa feia.</p> + +<p>Quando à saída ela passou, compondo um ar abstracto e um passo ondeante de +serpente-fantasma,<span class="pn">{125}</span> excitado e burro, disse não sei +que frase escória e ouvi numa voz de sêda que range, esta coisa justa: +<em>imbécile!</em></p> + +<p>Deixei de ir ao teatro. Achei a vida tôda tão imbecil como eu.</p> + +<p>Até que uma manhã Just irrompe no meu quarto e preludia felicíssimo: «Foste +um doido em não aparecer». Contou então: o empresário F. apresentára-o, e como +eram duas e eu continuava incógnito, apresentou por sua vez o conde C., que ao +menos não se arranjava mal.—«A tua, a do conde, chama-se Suzanne. A +outra, a minha, é Gaby d'Anjou, é perfeita. Não sei se reparaste: um corpo +grego. Ha uns poucos de dias que isto nem parece o Pôrto—».</p> + +<p>E partiu num turbilhão de <em>chance</em>, dizendo apenas quási à porta, que +a Suzanne era finíssima, e se tolerava o conde é porque não via melhor, e +porque emfim, o Amieiro o não vestia mal.</p> + +<p>Como mesmo escrevendo, estou morto por chegar ao quarto dela, direi já que +almoçamos a sós dias depois, e nem sei mesmo<span class="pn">{126}</span> se +comi, porque estendia as mãos em concha aos seus pés magros, p'ròs sentir +crispar-se com luxúria ao ranger da sêda em fôlha sêca...</p> + +<p>Foi rapido e simples. O meu amigo apresentou-me: o conde é lorpa, eu sou +fino, ela é fina e... <em>voilà</em>!</p> + +<p>Aqui começa a feitiçaria, o encantamento em que essa serpentina bruxa me +colheu, polarizando o meu desejo p'rò seu corpo elástico e felino, como se as +suas mãos de pianista me corressem na medula, e os seus olhos de névoa me +perdessem em hipnose.</p> + +<p>De corpo e espírito era flexivel como uma chama ao vento.</p> + +<p>Horas e horas, com febre, com riso, com desespero, vasculho na memória, +recomponho o complexo encanto dessa rapariga que sabia de cór tôda a +<em>Comédia Humana</em>; tinha um vício pessoal, erudito, arqui-subtil; +cinicamente ingénua, ingenuamente cínica; amoral e heróica, e que caminhava +p'rò seu leito de <em>cocotte</em> com o ar redolente de Desdemona na +<em>canção do salgueiro</em>...<span class="pn">{127}</span></p> + +<p>Oh! A sua <em>canção do salgueiro</em>, musica e versos de Bruant, como eu a +trauteio ainda exasperado:</p> + +<blockquote> + Les ch' veux frisés, <br> + Les seins blasés, <br> + Les reins brisés, <br> + Les pieds usés. <br> + <br> + Pierreuses, <br> + Trotteuses, <br> + Ás marchent l'soir <br> + Quand il fait noir <br> + Sur le trottoir.<br> +</blockquote> + +<p>Os cabelos impossíveis, abusivos, excessivos, caíam-lhe nos ombros; a +<em>robe empire</em> era ampla e branca, as mangas vibravam em asas de serafim +profissional... Era uma aparição de lenda rociada de agua Lubin—orvalho +caro...</p> + +<p>Quando depois mais de perto a detalhei, achei-lhe um não sei quê de +transido, de parado, espécie de kakemono, espécie de bébé enorme, enigmatico, +aflictivo, como só um<span class="pn">{128}</span> caricaturista-poeta criaria, +num instante de emoção e febre, de quimera e riso. Pobre Suze!</p> + +<p>Era pálida, pálida, no seu roupão de noite, sem as rosas do +<em>maquillage</em> que ela tão subtilmente esmaecia. Pobre Suze!</p> + +<p>Nenhum pintor português, desde o Grão Vasco, viu para além do real como tu +viste, nem como tu transfigurou uma mascara de gêsso, patinada a lua, numa +obra-prima irradiante.</p> + +<p>Tu que eu agora vejo como um mármore de desgraça, arripiado, vestido à toa, +sem <em>maillot</em> de sêda, sôbre uma mesa misérrima de <em>morgue</em>; tu +que tens já talvez no ventre aberto o esverdear levíssimo com que a Morte agora +te maquilha; tu que depois de tanto te venderes, cada vez eras mais <em>tu</em> +e mais perfeita,—ninguêm irá junto do teu cadáver pôr-te o colar da Ordem +do Desprêzo que na vida te deu beleza e estilo.</p> + +<p>Foste um génio incompreendido, Suze. É o único ponto de contacto que tiveste +com dezenas de idiotas que eu admiro.<span class="pn">{129}</span></p> + +<p>Mas não é isto o que me aflige, pois sei bem que se da Morte me ouvisses e +se da Morte me falasses, mais uma vez me dirias a tua grande frase, a +frase-medalhão, a frase-refrem, que tão sinteticamente define a tua graça, o +teu <em>génio</em>, o teu vicio, o teu desdem:</p> + +<p>—<em>Tu sais, ça, c'est un détail.</em></p> + +<p> </p> + +<p>P'rà Suze, tudo na vida era um <em>detalhe</em>.</p> + +<p>Ela que se deu a saborear a tantos homens, duvido bem que conhecesse um +<em>ensaiista</em>, espírito de síntese, à Carlyle, que emquanto eu nesta noite +de insomnia a recomponho, com uma saudade sem esperança, friamente medite um +grosso tomo, que deveria assim chamar-se:—<em>A Filosofia de Suze</em> +(livro postumo).</p> + +<p>E em sub-título, dum chic transcendente:—<em>ensaio sôbre a +supra-mulher</em>. Dir-se-ia no futuro:—<em>isso é um detalhe</em>, como +outrora se disse:—<em>penso, logo existo</em>, como hoje se +diz:—<em>o homem é uma ponte p'ró Sôbrehumano</em>.<span +class="pn">{130}</span></p> + +<p>Se Eça de Queiroz fôsse ainda vivo, eu que nunca o conheci, havia de +apresentar-lhe a Suze, e juro, juro, que a acharia bem mais subtil, bem mais +complexa e humanamente fascinante, que o seu extraordinário +figurino—Carlos Fradique, dandy e epistológrafo.</p> + +<p>Fialho, mais feliz, pôde falar-lhe; viu-lhe gestos que valiam maximas, e +ouviu-lhe memórias e anedotas bem mais significativas que parábolas. Mas por +mais que insistentemente lho pedisse, nunca escreveu sôbre ela: recusou-se.</p> + +<p>Não posso eu, como quem empalha uma asa, amortalhar o génio da Suze em +frases sabias, articular-lhe em sistema as formas tipicas, erguer emfim essa +arquitectura metafísica, que ficaria na névoa das idades, como um farol p'ra +sempre...</p> + +<p>Não, não posso. Sinto ainda correr-me o corpo todo, em ondas lentas, o afago +dos seus cabelos, dos seus dedos, que eram vivos, enervantes como línguas... +</p> + +<p>E não é assim, a arder em desejo postumo, que eu posso lançá-la à +posteridade...<span class="pn">{131}</span> De resto, Suze, que era p'ra ti a +posteridade? Um <em>detalhe</em>, um <em>detalhe</em> apenas...</p> + +<p>Mas quero afirmar que nessa frase—que nem sequer p'ra muitos que a +beijaram, foi mais que uma ironia sem estílo—se condensa o estoicismo, o +galbo heroico, que fez desta parisiense tão estranha na sua vida de +<em>cocotte</em> nobilíssima, uma neta espiritual de Marco Aurelio.</p> + +<p>Foi nobre e foi cocotte. Não estranhem.</p> + +<p>Viver, p'ra uma mulher, na sociedade de hoje, é qúasi sempre prostituir-se. +Mesmo as que casam, e que casando amavam os maridos, quantas vezes não sofrem +sem desejo, um cio incontinente, numa humilhação de prostitutas, até que tôda a +emoção se lhes estanque e o hábito lhes embote o corpo e o espírito?...</p> + +<p>Depois da primeira frase, em que a sêde de amor lhes doira a vida, quantas +não reconhecem no convívio que o seu ídolo moral é um canalha, e que o amoroso +é só o macho sordido, sem delicadeza, sem ternura—contundente, +ferocíssimo, legal...<span class="pn">{132}</span></p> + +<p>As outras, são apenas fêmeas broncas presas à canga do lar animalmente, ou +semi-loucas resignadas que um catolicismo castrador perdeu, ou índoles lunares +de amorosas esperecendo de martírio e tédio. E consciente ou inconscientemente, +todas vão afinal prostituir-se. Só a <em>moeda</em> diferere: nada mais.</p> + +<p>Mas se viver, p'ra uma mulher, é quási sempre prostituir-se, não o é menos +afinal p'ra um homem.</p> + +<p>Prostituir-se é deformar, ou anular mesmo, o que em nós há de individual e +caracterisante, pela necessidade de captar alguêm, patrão ou mestre, rico ou +superior hierarquico, e até mesmo o pobre, que nos dá a ilusão de sermos bons e +a consideração hipocrita dos outros.</p> + +<p>Cada um de nós, ao entrar na aula ou na oficina, no escriptorio ou na +repartição, no salão ou na taberna, é postiço, é convencional, é um +<em>outro</em>; ao princípio confrangídamente, através de mil torturas; depois +inconscientemente: mecanizado, deformado,<span class="pn">{133}</span> +quinquilharia andante e cérebro de lixos, contribuindo assim para êsse ideal +que nos empala, e os moralistas chamam—solidariedade humana.</p> + +<p>Era fácil mostrar como, violentando o temperamento, esta prostituição se +repercute até nos gestos, na nossa maneira de andar e de vestir. E isto em +todas as classes, porque ninguêm é suficientemente forte p'ra se bastar a si +mesmo; todos precisam da consideração dos outros, da opinião pública, e vão +vivendo sob a garra do preconceito, que os desengonça e deforma, que os +raquitiza e anula, como os saltinbancos às crianças.</p> + +<p>Quantos resistem íntegros ao regímen penitenciário que é a vida de hoje em +sociedade? Alguns pelo isolamento;—bem poucos dos que ficam.</p> + +<p>Não riam portanto ao ouvir que a Suze, a minha pobre Suze, foi nobre e foi +cocotte. Cocotte, sim. Como nós todos. Porque, em summa, eu sou cocotte, tu és +cocotte, êle é cocotte...<span class="pn">{134}</span></p> + +<p>Que horas serão? Deve ser quási madrugada.</p> + +<p>Eu bem queria nestas palavras de febre, silhuetar a Suze, ter um pouco de +método, monografá-la. Mas não posso, não posso.</p> + +<p>Tenho aqui na minha mesa de trabalho o seu retrato, e nem sei como tenho +coragem p'ra escrever, como posso desviar os olhos da névoa abysmal dos seus, +que me transem de irremediável e me enlouquecem de desejo. Desejo absurdo, que +o impossível hiperestesia, e me impregnou celula a celula.</p> + +<p>Sinto no corpo todo a carícia opiada dos seus dedos, a sua carne sortílega, +embruxada; a sua pele afim da minha, e que com ela dialogava em silêncio, nas +horas de esgotamento, rememorando sensações agudas, fulgurantes...</p> + +<p>Vejo-a, vejo-a!</p> + +<p>Passa a teoria das nossas noites (em que os seus tics profissionais me +confrangiam) e ela era sempre duma envolvência fluida, de uma estesia de actriz +inconsciente, uma<span class="pn">{135}</span> viciosa triste, insaciada, e uma +boa e uma pobre rapariga.</p> + +<p>De comêço podiam julgá-la artificial, tão estilizada era a sua graça, tanto +o seu requinte parecia consciente e erudito, traindo-se em tudo: no andar +elástico, no dandismo sóbrio, e até no ruge-ruge da sua voz de alcova e +confidência. Mas não: viam-na mal. Ela era assim sem esfôrço, naturalmente: ela +nascera uma obra de arte. E todo o meu trabalho de esta noite me parece o de um +doido que quisesse com poeira reconstruir uma obra prima...</p> + +<p>Muitas vezes já, aludi ao seu cinismo. Mas entendam-me: cinismo, disse-o o +forçado genial de Reading—é a coragem de dizer as coisas como são e não +como deviam ser. E a Suze era assim, quando falava a alguêm que a +compreendia.</p> + +<p>Êsses porém, eram raros, muito raros. Com uma intuição divinatória, +balzaquiana, a Suze adivinhava às primeiras palavras o seu caso, lisonjeava-lhe +os instintos, e assim durante o dia era, conforme o macho em<span +class="pn">{136}</span> catequese, canalha ou ducal, obscena ou protocolar.</p> + +<p>Um dêles, com quem viveu muito tempo, não via na Suze um animal de vício em +quintessência, e, estúpido, não lhe sentia a graça esparrinhando génio: era +apenas sentimental e jogador.</p> + +<p>Outra qualquer, para o prender, faria comédias românticas, e decerto +orientaria o seu comércio por êsse fundo fadista e namorisquento. A Suze não. +Parecia-lhe demasiado reles, insuportávelmente folhetim. E foi por o jôgo que o +laçou.</p> + +<p>Pouco a pouco, por sugestões dominadoras, foi-o convencendo de que ganhava +sempre quando cedia passivamente aos seus caprichos, quando lhe dava mais +vestidos, mais dinheiro: e em pouco tempo, ela era p'ra êsse jogador +supersticioso, um ícone sagrado, tutelar,—Nossa Senhora da Sorte ao seu +alcance...</p> + +<p>Dominava-o por completo. Se o traía, explicava-lhe com um ar vago e +superior... que era para lhe dar <em>chance</em>; e todas as<span +class="pn">{137}</span> noites o desgraçado vinha implorar da Suze, aninhada +num divan, com um pequenino ar de sibila delfica, um pouco de sorte por amor de +Deus!...</p> + +<p>Teve êste espectáculo hiper-dantesco: os Poderes Constituidos—em +cuecas!... Ella os viu, aos redentores da patria: viu como era piloso o sacro +onde teem o fogo os oradores: foi caloteada por economistas: sofreu contra a +pele fina a camisola de flanela dos guerreiros. Mas o que mais magoou o seu +desprezo, foi a secura e a egolatria dos artistas.</p> + +<p>P'ra todos a sua arte era perfeita, radiando ilusão, hipnotisando.</p> + +<p>Mais flexível que as nuvens são p'ró vento, o seu proteísmo teatral de +prostituta mimava a cada um o seu <em>ideal</em>...</p> + +<p>Ah! Mas como ela ficava, a minha Suze, a sua fadiga nervosa aniquilante, o +seu imenso tédio neurasténico, querendo desertar de si, da sua alma e da sua +pele enojada, para sempre!...</p> + +<p>E caída num estôfo, amarfanhada, era às<span class="pn">{138}</span> vezes +triste como uma coisa morta, como uma asa ferida nalgum charco... Curtia assim +consigo mesma horas de miseria moral e de exaspêro, sem uma queixa, sem uma +lágrima, num orgulho de sózinha, donde só resumava o sofrimento, num gesto, num +olhar, numa ironia.</p> + +<p>Uma manhã em Lisboa, acabavamos de almoçar no nosso quarto, com a janella +aberta p'rà Avenida.</p> + +<p>Ela fumava um Laferme, devagar, no prazer subtil de soprar nuvens. E de +repente, como a uma lembrança súbita, disse-me isto baixinho, num tom que nunca +esquecerei:</p> + +<p>—Tu sabes: não gosto de falar da minha vida. Nunca me queixei. Se +agora te falo, é porque é p'ra dizer bem... Neste horror, tenho tido dias de +uma volupia imensa. Nem sei como te diga. Começo por me sentir doente, +exasperada, sem poder mais... Eles vêem e eu penso que vou morrer de nojo. Vem +um, vêem muitos... vêem todos... Então, não sei porquê, sinto<span +class="pn">{139}</span> um bem-estar, um gôso doido; acho prazer a que me +humilhem; parece-me que nasci p'ra isto, que não há destino melhor... e gozo... +gozo.</p> + +<p>Depois, num riso sêco:</p> + +<p>—Sinto a volúpia de um cristão ás feras...</p> + +<p>Parou. Eu recebi num beijo o fumo do Laferme, e a Suze concluiu:</p> + +<p>—Que importa isto! É um <em>detalhe</em>...</p> + +<p>As outras, as vulgares, bestializavam-se; passada a crise horrível de +adaptação, vendiam beijos, como um mercieiro vende arroz, um advogado +eloquência, ou um diplomata uma colonia. A Suze não; era esculptada em lava: +era <em>alguêm</em>. Prostituta ou esposa, seria sempre infeliz, seria sempre +<em>ela</em>, seria sempre só. Pobre Suze!</p> + +<p>Alma apolínea, foi esboteada por fadistas que teem o nome em crónicas +heróicas; sofreu-lhes, em noites de orgia besta, o suor e o vomito; e com uma +clarividência trágica, presentiu muita vez os haustos da manhã subindo, a olhar +com a pele arrepiada a máscara boçal de algum cliente.<span +class="pn">{140}</span></p> + +<p>Teve amantes ricos, equipagens, e as suas melhores horas eram quando +sozinha, abandonada a si mesma, ouvia numa noite de inverno, como uma +confidência, o crepitar da lenha num fogão...</p> + +<p>Teve paixões sensuais que a torturaram, foi roubada impunemente muitas +vezes, e uma noite em Moscou—cahia neve—velando uma companheira +moribunda, sem nada p'ra empenhar e sem recursos, foi pôr no prego, jóia +grotesquíssima!—a propria dentadura da doente que. Deus louvado, era +montada em oiro... Assim puderam comer aquela noite.</p> + +<p>É de estoirar a rir—não lhes parece?...</p> + +<p>Sabia de cor tôda a <em>Comédia humana</em>: viveu tôda a comédia humana. +Pobre Suze!</p> + +<p> </p> + +<p>Tu ao menos, não precisaste de ser louca p'ra sêres santa: ergueste-te +sempre corajosa e simples, sem um abatimento ou uma queixa; e através de +insultos e torpezas,<span class="pn">{141}</span> conservaste puríssima, +apolínea, uma alma aberta ao sol como uma rosa!</p> + +<p>Quantas vezes, calçada de verniz, tiveste fome, e com teu passo elástico de +espectro, nem um só Cireneu topaste que ao estender-te a mão, te não pedisse +gôzo...</p> + +<p>Tu, Suze, sabias bem tôda a piedade humana e como ela é antes... e depois. +Se algum principe Nekhuladoff tentasse redimir-te, como a tua palidez riria de +alto ao pobre místico, a êle que te falava de perdão e arrependimento, quando +os teus olhos de névoa viam claro, com um determinismo lúcido, fatal, que a tua +vida era assim, irremediável, e nem tinhas ódios nem sêde de justiça, pois bem +sabias que é inútil tê-la p'ra morrer à sêde...</p> + +<p>Conheceste príncipes, é certo, mas nem um místico: só mais ou menos +imbecis... Não te fossem falar do ceu,—a ti que tantos viras de platina +na bôca de gozadores com avarias.</p> + +<p>Por isso não tiveste gritos, não te estorceste: nem sei mesmo se +choraste.<span class="pn">{142}</span></p> + +<p>Posta em teatro, não farias uivar as galerias nessa paródia de circo tão +grotesca que é um quinto acto p'ra burgueses e povinho; eras p'ròs <em>raros +apenas</em> como o matoidismo poético da minha terra. Na tua voz de fôlha seca, +dizias de todo o teu calvário apenas isto: <em>é um detalhe</em>.</p> + +<p>Mas para mim, Suze, o teu corpo serpertino, que ora começa a decompor-se, o +teu génio a fagulhar num incêndio murmuro de elitros e, sobretudo, o supremo +encanto da tua dor heróica, sem desfalências e sem queixas, para sempre ficarão +no meu espírito, como qualquer coisa de belo, de perfeito, pois que correste os +bastidores da vida, todo o egoísmo, tôda a lama, tôda a infâmia, em vítima +serena—tão serena como essas que na Grécia iam hirtas de dor entre +colunas... </p> + +<p>E amaste sempre o sol! E amaste sempre o sol!</p> + +<p> </p> + +<p>Deixa-me lembrar-te: é a última carta que te escrevo. Desta vez serei +sincero,<span class="pn">{143}</span> porque estás morta, porque a não lerás... +</p> + +<p>Espera!... As nossas tardes no Rio Doce, em Leça... Os olhos dos mortos +ainda reflectem, ainda <em>vêem</em>... Pudesse eu ir arrancar-tos, trazê-los +nas mãos com cautela, como dois pássaros mortos, e dar-lhes ainda a beber, +pobrezinhos!—sol, mar, areias ruivas, aguas correntes...</p> + +<p>Pudesse eu beijar-te os olhos mortos!</p> + +<p>Chamava-se <em>Sol</em> o nosso barco. Eu levava-o à vara, lentamente. +Tiravas o chapéu, estendias-te à pôpa e nem falavas. De quando em quando, ia +colar à tua a minha bôca: beijava-te as pálpebras de manso.</p> + +<p>Parava sob um chorão, à sombra dos seus cabelos verdes. Cingia-te. Poisava a +cabeça nos teus seios, que eram lindos, tersos como de virgem. Todo o teu corpo +desfalecia, se humilhava no teu vestido de sêda crua como o duma criança +adormecida... E era então que eu sentia, que eu palpava, que eu vivia a vida +divina do silêncio.<span class="pn">{144}</span></p> + +<p>Era mais vago o marulhar da ramaria e fazia mais silêncio, como faz mais +silêncio, à noite, o acorde das ondas numa praia...</p> + +<p>Sentia-se cair silêncio como se sente cair névoa.</p> + +<p>As nossas bôcas colavam-se num beijo húmido, calado, duma volúpia +tristíssima, confrangida. Era como uma despedida sem palavras, muito lenta, de +dois suicidas...</p> + +<p>Eu não te via os olhos, mas adivinhava-os: estavam maiores, mais nevoentos, +como janelas deitando p'rò silencio que se cavava em torno, fazendo leito ao +nosso pensamento pelo espaço...</p> + +<p>E confusamente sentíamos que o tempo passava, passava sempre entre os nossos +corpos enlaçados....</p> + +<p>Por fim—era à bôca da noite—voltávamos.</p> + +<p>Devagarinho, dizias tu, devagarinho...</p> + +<p>Eu ia levando o <em>Sol</em> na agua mortuária, e à nossa passagem, partiam +sempre, iam partindo, pássaros mal adormecidos nos salgueirais das margens, +reflectiam-se no rio<span class="pn">{145}</span> em fugas de asas, e era tudo +mais triste como se êsse vôo fôsse o adeus de tudo...</p> + +<p>Quantas vezes te olhei com os olhos rasos! Disfarçava, não queria nunca que +mos visses. E de repente, apertava-te os braços, sacudia-te p'ra me aturdir, +p'ra espancar a emoção que me afogava numa maré de lágrimas reprêsas.</p> + +<p>Queria gritar, queria chamar-te meu amor e... odiava-te. Queria beijar-te as +mãos, vestir-te de meiguice, e dizer-te a ância, o sonho doido de viver contigo +sem palavras—como as estátuas dos túmulos nas criptas...</p> + +<p>Queria bater-te, cuspir-te, demolir-te, como faz um tufão a uma árvore +sozinha, e a puxar-te os cabelos de creança, ir gritando, gritando sempre: +prostituta... prostituta...</p> + +<p>Hoje tenho remorsos. Mas tu compreendes, tu bem sabes: era <span +class="typo" title="no original: quési">quási</span> loucura. </p> + +<p>Não podia perdoar à tua graça ter-se deixado poluir, não podia perdoar ao +teu génio a tua derrota, não podia perdoar-te, Suze, que fosses vítima.<span +class="pn">{146}</span></p> + +<p>Ah! ter piedade, ter piedade... Mas isso é pouco, muito pouco: é um +sentimento consolador só para eunucos. E eu queria amar-te ao sol, Suze, +olhando as árvores irmãmente, todo o nosso desejo a escorrer luz...</p> + +<p>A noite vinha. Seguíamos enlaçados, e eu cansava-me no esfôrço imenso de te +não magoar... Tu bem sabias, tu bem sabias... Segundo a segundo, o meu martírio +pesava o tempo como se uns ponteiros de relógio me ferissem os nervos... Tu bem +sabias. Tanto sabias, que por fim me beijavas na testa, quási maternal, e a tua +voz de fôlha seca rangia êste refrem de outono: «Isso passa. E um instante, +<em>é um detalhe</em>.</p> + +<p>Minha pobre Suze, como tu eras justa, como tu adivinhavas, bruxa de vinte +ânos, p'ralêm da hora que passa, o nada que virá.</p> + +<p>A tua desgraça era suprema, porque tu eras <em>aquela que não se ilude +nunca</em>.</p> + +<p>Ainda assim, penso comigo: quem sabe! quem sabe! Se ela me visse como eu +sou,<span class="pn">{147}</span> se eu não fôsse com ela sempre actor, se eu +não fôsse o ser falso, o clown scéptico mascarrando com riso o sentimento; se +eu não me amordaçasse a cada instante, e tivesse podido ser eu mesmo... Se +visses, Suze, a creatura que eu escondo; se soubesses que afinal eu sou bem +simples e como eu amo a vida tôda de mãos postas...</p> + +<p>Se em vez de analisar, eu me entregasse; se eu esquecesse os livros e os +outros e te falasse tão naturalmente como o meu sangue fala nas artérias... +Quem sabe!... Talvez, Suze, se eu fôsse o que não viste, o que te fala agora... +Porque eu lembro-me, eu lembro-me. Duas horas houve que nós vivemos um no +outro, fora do espaço, fora do tempo... Tu bem sabes, tu lembras-te.</p> + +<p>Era madrugada. Estávamos deitados.</p> + +<p>Todo o meu ser vivia de ti, morria em ti. O nosso desejo ardera, estava +morto. Que fadiga a nossa, que fadiga!...</p> + +<p>A rua despertava, ouviam-se pregões, o sol luzia nas frinchas: eu tinha a +cabeça<span class="pn">{148}</span> contra o teu peito, perdidamente, como +contra a esperança, como contra o futuro...</p> + +<p>Embebia-me em ti, aspirava o teu corpo, a tua carne, a sua tristeza imensa, +a sua saudade de tudo o que não teve, de tudo o que não foi... e juro—que +em nenhum jardim, em nenhuma aurora, uma flôr com orvalho me ungiu assim de +sonho, me fêz assim vibrar no impossível dum amor perfeito.</p> + +<p>Levantámo-nos, saímos, e logo a rua, os outros, a vida dos outros, se +apossou de mim, me perverteu, me obrigou a mentir, a torcer-me... e eu ri, eu +ri imbecilmente, de nós, da nossa vida, e dessas horas em que auscultei contra +o teu peito—o impossível de um sonho sempre erguido!...</p> + +<p>Pois se esta noite mesmo, ao começar a escrever, ao pensar em ti—na +tua morte, Suze!—eu fui palhaço, eu quebrei em esgares a emoção, e mimei +um ar gelado, irónico, impossível, quando queria chorar perdidamente, quando +queria beijar os pés ao teu cadáver... É que tinha medo, um medo<span +class="pn">{149}</span> horrivel de que os outros me vissem, porque p'ra êles é +uma torpeza amar-te assim...</p> + +<p>Eu podia dormir contigo, dar-te dinheiro... só não podia amar-te. P'ra todos +os crimes há uma indulgência feita de cumplicidade, menos p'ra um crime assim: +não tem remissão: é imoral e é grotesco.</p> + +<p>É preciso que a dor me abale todo, me fite bem de frente, e me hipnotize o +seu olhar de chama, p'ra eu poder dizer como te amava, como te amo.</p> + +<p>Perdoa, perdoa. Aqui me tens aos pés do teu cadáver.</p> + +<p>Tôda a vida morreu p'ra mim: a seiva gelou nas veias das árvores; o mar que +eu amei tanto, não me importa.</p> + +<p>A vida agora é êste horror: uma sala de <em>morgue</em>, mesas ovais de +mármore, cadáveres sem nome, já esquecidos, e entre êles, Suze, o teu cadáver. +</p> + +<p>Como irás tu p'rà cova? Quem te vestiu?... Foram mãos sem carinho, +mercenárias.</p> + +<p>Vejo-te, digo-te adeus, Suze... O teu cadáver<span class="pn">{150}</span> +transe, empedra de martírio. Pareces mais alta, mais comprida. Não te souberam +pentear; deixaram-te o cabelo em desalinho e, não sei porquê, está mais claro, +de uma sêda mais pura, mais de infância...</p> + +<p>Tens um vestido preto (com que me foste esperar: há quanto tempo?...) +sapatos de verniz, ponteagudos... fivelas de oiro... meias de sêda nos teus +artelhos finos de cegonha.</p> + +<p>Cruzaram-te de certo as mãos no peito, mas escorregaram, descaíram, e +amarelas, outonais, dizem ainda: «é um <em>detalhe</em> apenas, um +<em>detalhe</em>...»</p> + +<p>E o que mais me entristece é que tens frio: as mãos da podridão vão-te +gelando. Oh! As tuas noites na cova, Suze!...</p> + +<p>Abriram-te o ventre no hospital. Suturaram-to àpressa, sem cuidado. Se te +tirassem os nervos... Bem sei que é doido, mas que querem?... Ficava assim mais +socegado.</p> + +<p>É amanhã que te enterram?... Hoje mesmo? Deve ser quási dia, minha +Suze.<span class="pn">{151}</span></p> + +<p>Deixa beijar-te as mãos geladas, de mansinho, enquanto falo... Assim. A +minha febre aquece-tas: verás...</p> + +<p>Não te descerro as pálpebras. P'ra quê? Está ainda escuro.</p> + +<p>Tens saudades do sol, minha pobrinha?... A última vez, quando almoçámos na +praia, ao pé de Leça, olhaste-o tanto que logo pensei que ias morrer... Todo o +teu corpo diz adeus ao sol. A mais ninguêm.</p> + +<p>Família?... Nunca quis saber de ti: contaste-mo sem queixa, simplesmente. +Disseste como sempre: <em>é um detalhe...</em></p> + +<p>Que fica de ti, Suze? A memória da pele é passageira, e é muito incerto que +a tua graça vá dourar uma saudade.</p> + +<p>Ninguêm irá ao teu enterro, e ainda bem!</p> + +<p>Por tua causa, ninguêm se irritará jantando à pressa; ninguêm irá, de +sobrecasaca e mau humor, fazer-te o necrológio ao cemitério.</p> + +<p>Não terás latim grunhido por um clérigo,<span class="pn">{152}</span> nem +essa coisa triste e tão grotesca—um círio laico em ar solemne, com +fungagá e arenga humanitária.</p> + +<p>Vais p'rà cova só, como viveste; e depois de te teres dado a tantos homens, +vai parecer-te natural que te amem vermes... Até na morte és discreta, minha +Suze, pois nem sequer virás numa gazeta.</p> + +<p>Foste perfeita: és perfeita. Amaste a beleza sempre com loucura: nas nuvens, +nos <em>maquereaux</em>, nas pupilas das jóias, nos crepúsculos...</p> + +<p>Ensinaste-me o desprêso sem palavras, a dor sem confidência, feita orgulho. +Deixa beijar-te ainda as mãos geladas.</p> + +<p>Quem mas dera guardar p'ra sempre, em mármore; suspendê-las como um +<em>ex-voto</em> à cabeceira, as tuas pobres mãos tão humilhadas, esfolhando +eternamente sôbre a vida, o perdão dos que a entendem:—o desprêzo.</p> + +<p>... Oiço horas. Uma, duas... oito. Oito horas! Se eu pudesse dormir!</p> + +<p>E agora mesmo, ao enfiar-me na cama<span class="pn">{153}</span> extenuado, +eu oiço a voz da Suze, voz de sêda que range, a segredar-me:</p> + +<p>—<em>Mon pauvre ami! Quoi?! Qu'est-ce qui t'attriste? Ma mort?... +Mais, tu sais, ça c'est un detail.</em></p> + +<p>Sim, um <em>detalhe</em>... como tudo, terminando no mármore frio de uma +<em>morgue</em>, ou a uma esquina de rua banalmente. Como tudo.<span +class="pn">{154}</span></p> + +<p><span class="pn">{155}</span></p> + +<p> </p> + +<h1><a name="SECTION00060">O VEIGA</a> </h1> + +<p style="text-align: right;"><br> +A R<small>AMIRO</small> M<small>OURÃO.</small></p> + +<p><span class="pn">{156}</span></p> + +<p><span class="pn">{157}</span></p> + +<p> </p> + +<h2><a name="SECTION00061">O VEIGA</a> </h2> + +<p>É o tipo mais estranho que eu conheço. Que anos terá? Deve ter trinta ou +mais. Magríssimo, êsse lúgubre cabide que é o seu corpo, traz enfiadas roupas +de outros, muito largas: sobrecasacas, fraks, vestes ricas, esverdeando, já em +plena decomposição, e mais vexadas nesse esqueleto curvo de pedinte que numa +loja de adelo ou num palhaço.</p> + +<p>Decerto o conhecem. Decerto já, cerimonioso e gago, lhes pediu esmola. É um +pobre diabo e é doido: o Veiga.</p> + +<p>Caricatura das ruas, conselheiral e poética, encontro-o sempre com vagar e +ritmo,<span class="pn">{158}</span> num abandono corcova de vadio, que daria +dandismo a um diplomata.</p> + +<p>Pois bem: é só mendigo. Mas não como nós todos, a uma esquina de rua ou a +uma porta banal de ministério, a pedir emprêgo ou noiva rica, dez reis ou +participação num monopólio. Não é assim: é outro género, é paradoxal, é único! +</p> + +<p>Pede para comer, mas não come como nós todos: por comer. É p'ra viver a +Vida, a Vida toda! Esperem um instantinho: é extraordinário.</p> + +<p>Deixem-me antes contar-lhes como êle era.</p> + +<p>O Veiga, quando eu dei por êle, era empregado num cartório. Às dez, todas as +manhãs, enfiava com unção manga de alpaca. Assim ficava até às três, todo +curvado, cumprindo religiosamente, riscando o papel selado com uma letra +estilada e redondinha, tão correcta e tão banal que faria o desespêro de um +grafólogo.</p> + +<p>Tipo neutro, <em>nem vou lá, nem faço minga</em>, gozava em todo o tribunal +uma simpatia<span class="pn">{159}</span> benevolente e desdenhosa. O escrivão, +os colegas diziam dêle: é um pobre diabo.</p> + +<p>Era bem um pobre diabo.</p> + +<p>Sofriam os seus nervos destrambilhados com o drama quotidiano do tribunal, +êsse espectáculo de miséria em carne viva, explorada pelos outros que viam nela +a melhor posta, extra-oficial e lucrativa, o verdadeiro emprêgo.</p> + +<p>O Veiga, coitado, não explorava: sofria. Às vezes, copiando interrogatórios, +mandados de captura ou de penhora, tinha os olhos rasos, e umas rovoltas +frustes de nervoso crispavam-lhe as mãos magras na caneta, perturbando em +trémulos sem arte o seu lindo e banalíssimo cursivo.</p> + +<p>Em muitas dessas prosas rígidas, onde se amortalha em formulas destinos, ia +o gráfico da sua emoção romantisada, o patético mapa dos seus nervos.</p> + +<p>No cartório, melhor do que nos livros, sem gangas literárias, sem imagens, o +Veiga ouviu a maré rouca da desgraça: a sua caneta atenta correu-lhe os sete +círculos fatídicos;<span class="pn">{160}</span> soube-a de cor, como um +folhetim vivo, gritado aos seus ouvidos, que êle recolhia em papel selado a +20$000 réis por mês.</p> + +<p>Naquelas laudas oficiais folheava a vida social como num índice; lia como +numa partitura, tôda a harmonia humana. E que harmonia, Santo Deus!</p> + +<p>Tinha vontade de fugir, de tapar os ouvidos, de se meter sòzinho num buraco. +Ali roçou, mais encolhido, aspirações, quimeras ulceradas. Como era um fraco, +de uma nervosidade romanesca, sentiu terror: tinha vontade de chorar. Não +embotava como os outros num cinismo comodista: cada vez destrambilhava mais. +</p> + +<p>Claro que não podia ter amigos: era ridículo, era diferente, era um sòzinho. +Riam-se dêle com benevolência, estendiam-lhe a mão com um ar de obséquio.</p> + +<p>Quando se afastava de algum grupo, sob as arcadas conventuais do tribunal, +ia aflito, a querer sumir-se, com vontade de morrer, pois bem sabia que se riam +dêle, das palhetas desafinadas, da gaguez.<span class="pn">{161}</span></p> + +<p>Vivia com a mãe <span class="errata" title="Errata: e mais">e sem +mais</span> parentes. Mal chegava a casa, ia esquecer, queimar no braseiro +interior essas misérias, e com a luz de tão má lenha, fazia nimbos p'ro seu +sonho.</p> + +<p>Com que sonhava êle? Com o Amor.</p> + +<p>Vira-o nu, reduzido a autos; ouviu-o debater-se bem imundo na +camisa-de-fôrças que é a Lei; acotovelou-o no cartório, em todas as formas, da +prostituta de viela ao adultério rico; e assim mesmo, persistiu em amar +imbecilmente, convencido,—o desgraçado! de não sei que sarcástico destino +que o talhara p'ra amoroso, com uma carcassa humilhante de fantoche.</p> + +<p>Amou.</p> + +<p>Era uma loira muito chromo, filha da loja de miudezas lá da rua. +Escreveu-lhe em insónias de delírio, cartas imensas em papel azul. Chamou-lhe +tudo e ela respondeu-lhe. Durante umas semanas viu cor de oiro, andava +estonteado, como em sonho, suspenso dos fios dessa trança, pairando à altura de +um terceiro andar.<span class="pn">{162}</span></p> + +<p>E mesmo na saleta do cartório, se o deixavam só alguns instantes, fechava +como os misticos os olhos, para forrar as pálpebras com ela, sussurando +baixinho devoções.</p> + +<p>Que lhe importava agora o tribunal, essa tragédia amorfa, sem estilo, tantas +palavras que condensam dramas e que êle por ofício, copiava! Escrevia a pensar +nela, envolto em vago, como numa nebulosa redentora, e já não via no papel um +mar pautado, em que bóiam cadáveres de destinos, frangalhos de esperanças, +vidas podres...</p> + +<p>Há muitos dias, o Veiga era quási um ser de sonho. Dizia à mãe em casa +coisas vagas, comia talvez menos, mas radiava.</p> + +<p>Tinha grandes cuidados de <em>toilette</em>. Mandou brunir o seu antigo +frak, que agora sem pêlo era espelhento, e arranjou ainda um côco preto que o +magoava pouco na cabeça. P'ra ser em segunda mão, era magnifico. Vendera-lho um +colega no cartório. Andava cheio de felicidade como um ovo. Era uma vontade +doida de sorrir, de beijar<span class="pn">{163}</span> as crianças, dar +esmolas, de agradecer a Deus o sol e a chuva, e de dizer a todos que era amado. +</p> + +<p>Tinha ido apreçar um anel de oiro, e fazia economias prodigiosas para lhe +dar em breve essa <em>aliança</em>. P'ra ele o anel era um símbolo supremo: +fundiria p'ra sempre os seus destinos.</p> + +<p>Só iria falar-lhe, gritando-lhe da rua o seu amor, quando pudesse levar êsse +aro liso, que ela enfiaria olhando-o perturbada, como numa liturgia nupcial. +</p> + +<p>Chegou o dia. O Veiga nem comeu. Meteu o anel no bôlso, pôs o côco, beijou a +mão à mãe comovidíssimo, e partiu rítmico e mudo, mui solemne, como se pisasse +a aresta do destino.</p> + +<p>Era ainda cedo. Vadiou nas ruas, braços pendentes, lânguido, scismático, a +construir projectos de futuro: outra casa melhor e em poucos anos—um lar +com ela, imortalmente loira.</p> + +<p>Caminhava, alheado, fluctuando, sem olhar, sem perceber aspectos, fumando o +seu monólogo<span class="pn">{164}</span> de sonho, sentindo com prazer que a +noite vinha.</p> + +<p>Parou por fim, cravando olhos de febre nessa varanda do terceiro andar.</p> + +<p>Esperou... esperou e ela não vinha!... Há quanto tempo olhava êle a varanda? +Há cinco minutos talvez, talvez há uma hora. Perdera a noção do tempo. Não +sabia. Súbito moveu-se o transparente... Era ela. Olhou um instante, viu-o, e +retirou depois de um modo brusco.</p> + +<p>«Coitadinha! Não pode vir agora. Talvez gente de fora... +Esperarei»—pensava o Veiga com as pernas a tremer. E esperou, esperou, +numa agonia.</p> + +<p>Por fim deram dez horas muito fortes, badalando-lhe dentro da cabeça. Ergueu +os olhos. Não podia mais. Batia os vidros um luar de opalas fluidas, e ela +apareceu na claridade, muito branca, ao mesmo tempo que lhe deu um encontrão um +caixeiro ajanotado que passava.</p> + +<p>«Foi decerto sem querer»,—pensou o Veiga, mas viu-o logo voltar-se a +provoca-lo.<span class="pn">{165}</span></p> + +<p>«Que tem êle comigo? Que lhe fiz?» E interrogava-se assim ingenuamente, +quando o viu fazer sinais p'rò andar dela e opontá-lo a rir, com um ar de +troça.</p> + +<p>Cessou em torno dêle tôda a vida. Deixou de ver, deixou de ouvir, ficou +imóvel, numa aura de vertigem que o lambia, cara p'rò alto, lívido, +inconsciente. O outro então aproximou-se dêle, fisgou-o pela gola, muito têso, +e com bruscos sacões foi-lhe dizendo:</p> + +<p>—Que faz você alí, seu grande lorpa? Não percebeu ainda que o +troçaram? As suas cartas trago-as eu aqui, p'ràs ler aos meus amigos, p'ra me +rir. Você sempre é um ponto de primeira... Você ouve ou não ouve?...</p> + +<p>E deu-lhe um sacão último mais forte.</p> + +<p>—Não há que ver. É mouco como um muro.</p> + +<p>O Veiga olhou-o atónito, sem gestos. Não teve uma palavra. Empedrou todo. +Vergava de fraqueza, mal ouvia, e nos olhos de febre, muito abertos, um +desencanto imenso,<span class="pn">{166}</span> emparvecido, um vazio de +assombro, semi-louco... Estava em frente do outro sem o ver. Todo o seu corpo +magro de humilhado corcovava ainda mais de decepção, como se o esfrangalhasse +uma rajada. Parecia esperar uns braços p'ra cair. O outro olhou-o num desprêzo +besta, e rematou com o punho em murro junto dêle:</p> + +<p>—Agora rode! Senão parto-lhe a cara.</p> + +<p>O Veiga nem buliu. Ficou inerte.</p> + +<p>—Não ouviu, seu burro, não ouviu?</p> + +<p>E como êle não tinha um movimento, deu-lhe uma bofetada que o virou. Depois, +gozando muito o seu triunfo, encheu-lhe de pontapés o corpo todo, teve-o nas +patas ennovelado como um trapo, até que farto, resolveu larga-lo, soltando-lhe +magnânimo o perdão:</p> + +<p>—Já basta. Tomou p'rò seu tabaco...</p> + +<p>Havia um luar de espasmo, amorosissímo, e o imbecil, trepando a rua +derreado, abafava os soluços contra o lenço, cerrava a bôca seca como em +trismus, e só tinha uma ância a empurra-lo: ir despertar a<span +class="pn">{167}</span> mãe na alcova escura para chorar baixinho junto dela, +como em petiz quando o troçavam no colegio.</p> + +<p>Só isto poderia consola-lo: ouvir-lhe a voz, palavras de ternura, sentir-lhe +as mãos rugosas nos cabelos...</p> + +<p>Fêz um último esfôrço, dominou-se. Foi em bicos de pés até ao quarto, e caíu +de bruços sôbre a cama, como se fôsse a cova, p'ra acabar, na humilhação +suprema de sovado diante do seu ídolo tão loiro.</p> + +<p>Crispou no travesseiro mãos de náufrago, como na carne de alguêm que o +acolhesse, um amigo pr'a ouvir-lhe a confidência; disse coisas baixinho, o nome +dela, chorou horas e horas, gemeu alto, diluindo nas lágrimas a angústia, +sentindo contra o corpo extenuado a moleza da moinha a consolá-lo.</p> + +<p>Por vezes chorou quási com prazer, desdobrou-se, assistiu ao seu martírio, +como nas melhores noites de teatro, quando ouvia os quintos actos soluçantes, +apertado num logar das galerias.<span class="pn">{168}</span></p> + +<p>Esteve assim de bruços muito tempo, amolentado, estúpido, pastoso. Não podia +dormir: era impossível. E com um grande esfôrço, quis erguer-se. Mas doeram-lhe +então as pisaduras, e numa raiva fruste de impotente, feriu a paz do quarto com +patadas, com rangidos de dentes e com murros, torcendo-se num ódio corrosivo, +menos contra o caixeiro que o tosara, que contra êle, Veiga, gago e reles, +sempre curvado em cumprimentos torpes, entre troças e adeuses de desprêzo, sem +coragem pr'a um murro ou uma insolência.</p> + +<p>Sentiu-se trapo, lôdo, coisa imunda. Teve mesmo prazer em deprimir-se; +rolou-se na humilhação quási com gôzo, como outros na glória ou na luxúria, e +arrancou do seu misérrimo grotesco, da sua covardia tão cuspida, êste consôlo +cristão para aureolar-se:</p> + +<p>—Sou uma vítima, uma vítima do Amor e do Destino!</p> + +<p>Tinha ainda na cara as bofetadas, ouvia ainda a voz boçal do caixeirola: «Já +basta. Tomou p'rò seu tabaco»; mas a única realidade<span +class="pn">{169}</span> bem tangível, ao sentir-se chorar, assim, de bruços, de +côco para a nuca e sobretudo, era esta coisa mágica e inefável:—«Sou uma +vítima do Amor, tenho romance!» E com a cara a arder, era um herói.</p> + +<p>Já quási madrugada, adormeceu. Acordou-o o sol vindo até êle, e ia voltar-se +contra a luz covardemente, p'ra se escoar no sono, p'ra esquecer, quando ouviu +passos da mãe que vinha entrando.</p> + +<p>Embrulhou-se nos cobertores num gesto brusco, para que ela o não visse por +despir; encolheu-se na roupa o mais que pôde, mas ainda assim ficou com os pés +de fora, com as botas de elástico enlameadas e o côco amolgado em travesseira. +</p> + +<p>A mãe entrou no quarto devagar, foi abrir as janelas de mansinho, supondo-o +a dormir, bem sossegado. Quando o viu vestido sôbre a cama, com uma palidez +desfeita e olheiras fundas, correu p'ra êle, pôs-lhe a mão na testa, e +perguntou branca de susto, a tremer tôda:<span class="pn">{170}</span></p> + +<p>—Que tens tu, meu filho? Estás doente? Porque dormiste assim todo +vestido?!...</p> + +<p>O Veiga olhou-a lorpa, emburrecido. Não soube que dizer, não quis +contar-lhe; e como se a morte da ilusão o acanalhasse, como se viesse de nascer +nêle um outro ser, de secura e vaidade, um reles cínico, levantou-se da cama, +espreguiçou-se, e sem olhar a mãe, sem a beijar, foi eructando estas mentiras +torpes, surpreendido êle mesmo de as ouvir, travando relações com um novo +Veiga:</p> + +<p>—Que quer?... Nem eu sei já como isto foi. Uma noitada... mulheres... +foi um pagode. Carreguei-lhe no vinho. Ora aí tem...</p> + +<p>Meteu as mãos nos bolsos do colete, e de pernas abertas, bamboleando-se, +vomitou aos puxões o seu programa:</p> + +<p>—Isto vai mudar muito de figura. Estou farto de ser burro, vou mudar. +De ora avante é outra coisa, é outra vida... Previno-a já. Não tem mais que +estranhar...</p> + +<p>E apontava-lhe a porta:<span class="pn">{171}</span></p> + +<p>—O almôço está pronto? Vamos a isso já. Não quero esperar.</p> + +<p>Quási nem gaguejava, o imbecil. Sem as asas-muletas da ilusão, que erguiam +êste orango a céus de sonho, êle ficava um tiranete bufo, com um rancor covarde +de falhado, a farejar na sua raiva de impotente, uma vítima, alguêm para +expiar. Pasmada, a pobre criatura saíu limpando ao avental os olhos. E começou +nessa hora o seu martírio.</p> + +<p> </p> + +<p>Nova fase do Veiga.</p> + +<p>Iniciou-se então no botequim e com o olhar envernizado de genebra, ouvindo +as <em>mayonnaises</em> de ópera que um sexteto melodramático lhe servia, ia +pagando bebidas aos amigos...</p> + +<p>Foi um ex-colega, que se alcançara havia meses, p'ra fundar um semanário +clandestino, que o apresentou aos rapazes do cavaco. Depois, extorquindo-lhe os +cobres<span class="pn">{172}</span> da bebida, empreenderam tambêm o +apostolado.</p> + +<p>—E o nosso amigo tem... a <em>ideia</em>?</p> + +<p>O Veiga não a tinha. Forneceram-lha copiosamente, em noites de catequese +desvairante. Era agora um iniciado o meu idiota. As necedades que os outros lhe +gosmavam, como uma bíblia obscena de revolta, acolhia-as o Veiga com fervor: o +caixeiro agora era o <em>burguês</em>, e o seu ídolo loiro o +<em>preconceito</em>!</p> + +<p>Perdia as noites num delírio gago, a proclamar no botequim o <em>amor +livre</em>. Faltava ao cartório muitas vezes. Inconscientemente, como rezava +com devoção até há pouco, absorvia brochuras anarquistas, e tinha à cabeceira, +como uma espécie de <em>Flos sanctorum</em> laico, um agiológio patético, +ilustrado, com um Ravachol de auréola, hiper-cristo, e os mártires de Chicago +nimbados.</p> + +<p>Recolhia de madrugada ou noite morta. Nem já tinha horas certas de comer. +Alimentava-se de pastéis e álcool. Só ia a casa para insultar a mãe e p'ra +dormir.<span class="pn">{173}</span></p> + +<p>Mal lhe dava dinheiro p'ra comer. A pobre criatura envelhecia anos cada dia. +Por fim já nem falava: tinha por êle uma espécie de terror. Ouvia-o arengar +coisas tremendas: a revindita social a dinamite, o «ódio ao burguês», trapos de +frases feitas que êle moía e remoía muitas vezes, numa espécie de automatismo +cerebral.</p> + +<p>—Porque, fique-o sabeado, Deus é o crime... o crime, sim senhor, +digo-lho eu... Hei-de dar que falar. Verá, verá...</p> + +<p>—Não hei-de ver, meu filho, que eu não tardo... Deus há-de me levar. É +grande esmola...</p> + +<p>E lá ia a chorar muito baixinho.</p> + +<p>Com as noites de álcool e vadiagem, numa exaltação agudíssima e imbecil, a +loucura do Veiga emparedou-o.</p> + +<p>Não podia dormir o meu fantoche. E depois das palestras de café, em que os +outros disparavam burramente trechos de artigos de fundo e anecdotas, vagueava +monologando, em falla-só, repetindo na excitação da bebedeira as escórias que +mais o impressionaram,<span class="pn">{174}</span> e o que era pior, +sugestionando-se, desdobrando-se num Veiga que ameaçava, e noutro que o terror +lambia todo.</p> + +<p>A Sociedade, a Religião, o Estado, eram os inimigos do meu títere.</p> + +<p>Ao recolher a casa, noite morta, tomava precauções, dava mais voltas, e era +em suores de angústia, em calefrios, que dobrava, na névoa, cada esquina.</p> + +<p>Andavam a preparar-lhe uma cilada... Quàsi tinha terror do novo ser que se +instalara nêle, inquietante, atulhado de fluído de revolta, como uma garrafa de +Leyde subversiva.</p> + +<p>Certo, êle não fizera nada, era um pobre diabo inofensivo, mas vivia agora o +<em>outro</em> dentro dêle, como uma mina de dinamite, subterrânea, que a Ordem +poderia farejar... E entrou a ter medo da polícia.</p> + +<p>Ao recolher, logo que via um guarda, nem sequer dissimulava o seu terror, +rodava nos calcanhares, voltava logo, de uma forma tão flagrante e tão +grotesca, que se fazia notar ao mais boçal.<span class="pn">{175}</span></p> + +<p>Às vezes esperava o sol, porque de dia não <em>lhes</em> tinha medo, e era +na luz lial da madrugada que se esgueirava p'ra casa, rente às portas.</p> + +<p>Uma noite em que bebera mais, desengonçou-se em tão cómicos tregeitos ante o +primeiro guarda que avistou, que o santo homem resolveu deitar-lhe a luva, e +regenerá-lo com parasitas no Aljube.</p> + +<p>Lá passou o resto da noite, sem falar, meio sonâmbulo de medo e de genebra, +e a única impressão nítida que teve, foi a de ouvir, pouco antes de o soltarem, +um fado soluçado como nunca, por um gatuno que dormira ao lado dêle:</p> + +<blockquote> + Já que eu te não dou o pão, <br> + dá-te nua a quem to der; <br> + mas guarda-me o coração, <br> + a alma que ninguêm quer.</blockquote> + +<p>Foi por êste tempo, que êle fez parte do grupo dramático <em>Luz e +Esperança</em>. Gago e solene, estava a calhar p'ra conde e p'ra <em>pai +nobre</em>.<span class="pn">{176}</span></p> + +<p>Teve triunfos colossais nos arredores. Declamava às noites pelas ruas, +corrigia nos espelhos das vitrines a expressão dramática da tromba, e muita vez +contrascenou com os candieiros, à hora espectral dos varredores... Fazia, é +claro, teatro de combate, peças de intuitos sociais, dramas de tese, e como +todos os colegas lá na <em>troupe</em>, considerava-se um +<em>actor-apóstolo</em>. Recolhia cada vez mais tarde, trespassado de frio e de +patético.</p> + +<p>Uma manhã, chegando ao patamar, procurava a chave pelos bolsos, quando viu +um vulto enrodilhado contra a porta. Estacou, varado de terror. O seu primeiro +movimento foi de fuga. Quem seria?!... A mãe não,—dormia àquela hora. +Mas, olhando melhor, viu que era ela... Estremeceu. Meu Deus! Estaria morta?... +Não, não: adormecera ali. P'ra quê?... Não podia perceber.</p> + +<p>—Deu-lhe talvez alguma coisa... Coitadinha!</p> + +<p>Sacudiu-a de manso, despertou-a. Pela<span class="pn">{177}</span> primeira +vez há muito tempo, teve um gesto de filho, de piedade: ajudou-a com ternura a +levantar-se. A pobre criatura erguia uma cara de espanto, de terror. Vê-lo +outra vez meigo p'ra ela como dantes, inquietava-a mais que ouvir-lhe insultos. +E ali no patamar, sem gestos, fitaram-se, como dois náufragos, segundos. Não se +viam já há muitos dias...</p> + +<p>A expressão da cara dela ia mudando à medida que o fitava:—<em>era o +seu filho!</em> Aquele rapaz cheio de rugas como um velho, com um tremor nas +mãos, no corpo todo, aquele pobrezinho—<em>era o seu filho!...</em></p> + +<p>Sempre a olhá-lo, ergueu as mãos que tanto o abençoaram; a sua máscara +desfeita iluminou-se, tanto a piedade ardia dentro dela; e com uma voz de +misericórdia e de carícia, pôde ainda dizer-lhe:</p> + +<p>—Ó meu filhinho!...</p> + +<p>E caíu-lhe, tôda em lágrimas, no peito. Entraram abraçados pelo quarto. Lá +estava a cama aberta, a dobra feita—como uma carícia dela a recebê-lo... +Através das frinchas<span class="pn">{178}</span> das portadas, a manhã estava +a sorrir no travesseiro...</p> + +<p>Então na alma dêste trapo humano o remorso dobrou como um mau sino, +fazendo-lhe vêr quanto de bom era possível: a vida antiga com a mãe, a vida +calma... Sentia bem que fôra torpe para ela; viu-a com a cova ao lado p'ra +tragá-la: e numa lufada de desespero ajoelhou com lágrimas rolando quatro a +quatro; gaguejou como uma creança a quem bateram:</p> + +<p>—Ó mãesinha... ó minha mãe... perdão</p> + +<p>Ficou assim alguns instantes; levantou-se. Ainda outra vez fitaram-se nos +olhos—como se um dêles acabasse de chegar, com uma sacola de dor, de +muito longe... E agora, entre lágrimas, sorriam. Êle pôz-se a dizer-lhe muito +baixo: </p> + +<p>—Juro por Deus, minha mãe, juro por si, que ainda a hei-de fazer muito +feliz... Hei-de pagar-lhe com amor, com muito amor, os meses de martírio que +lhe dei. Verá, verá. Vou ser outra vez o seu filho, vou ser outro...<span +class="pn">{179}</span></p> + +<p>—Sim, sim, meu filho, tu és bom. Deus trouxe-te outra vez. Pedi-lho +muito. Eram as más companhias... os malvados... Por pouco te matavam, meu +filhinho. Matavam-nos a ambos, Manoel. A tua mãe já não podia mais. E tu... e +tu... estás tão magrinho!...</p> + +<p>—Hoje começa vida nova. Não se aflija. Hei-de ser forte outra vez, vou +trabalhar...</p> + +<p>Interrompeu-se de repente, como se uma ideia de terror viesse gelá-lo. A +mãe, sem compreender, continuava:</p> + +<p>—Trabalhar... ora ahi está, é o que é preciso. Foi por isso que te +esperei deitada à porta, com mêdo que entrasses e saísses sem te eu +ver—como nos últimos dias sucedera... E eu, pobre de mim, que tinha medo, +não sabia como to havia de dizer!... E afinal tu mesmo o reconheces. Louvado +Deus! Tudo é pelo melhor. Ora vê tu—mas que cabeça a minha!—pus-me +p'raqui a falar e nem to disse... Esta tarde, o senhor Sousa esteve cá...</p> + +<p>—Quem?<span class="pn">{180}</span></p> + +<p>—O snr. Sousa escrivão... êle... o teu chefe.</p> + +<p>—Ah! disse o Veiga e pôs-se cor de cal.</p> + +<p>A mãe, sem reparar, dizia sempre:</p> + +<p>—Devo-lhe muito, é muito nosso amigo. Que outro no seu lugar—tu +bem o sabes—tinha-te posto fora do emprêgo. Mas êle não. Só quer que tu +te emendes. Diz que te espera hoje sem falta, às dez em ponto. Verás, Manoel, +tudo se arranja bem...</p> + +<p>Êle olhava-a com os beiços a tremer:</p> + +<p>—Estás contente com isto? An! Manoel?...</p> + +<p>—Não, minha mãe, não volto ao tribunal. Não posso mais... não posso +mais lá ir...</p> + +<p>—Ora essa, meu filho, tu que dizes?!...</p> + +<p>—Não, minha mãe, não posso mais lá ir...</p> + +<p>Por mais que perguntasse, que insistisse, sempre a mesma resposta em voz +sumida, como a última decisão de um agonisante:</p> + +<p>—Não posso... não posso... É-me impossível</p> + +<p>E de repente, chegando-se p'ra ela como<span class="pn">{181}</span> um +petiz com terror, pôs-se a dizer baixinho:</p> + +<p>—Quem sabe se não é uma cilada... O Sousa quere-me lá p'ra me +prender... Sabe que sou um anarquista... quere vingar-se...</p> + +<p>Continuou neste tom ainda algum tempo. Ouvindo-o sem poder interrompê-lo, +com o coração a desfazer-lhe o peito, a mãe era forçada a perceber que aquele +desgraçado que ali tinha, guardado nos seus braços outra vez, precisava mais de +si que em pequenino, porque Deus lhe tirara o entendimento.</p> + +<p>Quando êle lhe contava as suas noites, como na rua a polícia o perseguia, o +que havia na nèvoa, a certas horas,—interrompeu-se bruscamente e ainda +mais baixo, transido de pavor, colado a ela, pediu-lhe que fôsse ver ao +patamar... tinha ouvido passos... era alguêm... Para o tranquilizar, ela fechou +a porta à chave, com os olhos rasos, a conter-se, e pôs-se então a ver se o +adormecia.<span class="pn">{182}</span></p> + +<p>—O que precisas, Manoel, é de dormir, tens mesmo os teus olhos a +fechar-se...</p> + +<p>Êle não queria dormir. Era impossível. Podia vir o Sousa... alguêm +prendê-lo... Só se ela ficasse ao lado, de vigia.</p> + +<p>—Eu fico, eu fico ao pé de ti. Sossega. Despiu-o então como em +pequeno. Tirava-lhe a roupa devagar, ia-o beijando com meiguice, em despedida: +e deitou-o por fim sem resistência, como se fôsse uma criança sonolenta. +Aconchegou-lhe o cobertor bem contra os hombros—tão magrinho, Senhor, um +esqueleto!—e à beira da cama, de joelhos, sentindo-o adormecer, ia +dizendo: </p> + +<p>—Dorme, meu filho. Dorme... dorme... dorme...</p> + +<p>Quando o sentiu adormecido, ergueu-se.</p> + +<p>—E agora?!... perguntou no quarto escuro. O filho doido... a morte em +tôrno dela... e ninguêm, ninguêm que lhe valesse...</p> + +<p>Lá fora a manhã subia, com pregões. Mas neste quarto, para a pobre velha, o +silêncio era doloroso como um uivo.<span class="pn">{183}</span></p> + +<p>Meses depois, encontrei-o uma manhã em Nevogilde, sob um grande castanheiro +a desfolhar-se.</p> + +<p>Intrigou-me ver o Veiga em pleno campo, saturando-se de outono e solidão. +Que podia fazer ali aquele idiota?</p> + +<p>Mas quando me aproximei e o vi de perto, espantou-me a mudança que fizera. +Era outro: era um pedinte louco, de olhos meigos...</p> + +<p>Parei a olhá-lo. Êle cumprimentou-me com maneiras untuosas de prelado... E +ficou a sorrir, chapéu na mão, como à espera de que eu fôsse falar-lhe.</p> + +<p>—Linda manhã, senhor Veiga, não é verdade?</p> + +<p>—Diz Vossa Excelência muito bem... Está linda.</p> + +<p>—Então mora por aqui—por Nevogilde?</p> + +<p>—Não, senhor... Eu não tenho casa. Gosto disto... aqui. Ha campo e +mar... </p> + +<p>—Não tem casa!... Desculpe esta pergunta: e onde dorme o +senhor?...<span class="pn">{184}</span></p> + +<p>Esteve um pedaço a fitar-me, olhos em olhos. Depois—em confidência +misteriosa:</p> + +<p>—A Vossa Excelência sempre o digo. Eu nunca durmo...</p> + +<p>—An?!...</p> + +<p>—Eu nunca durmo. Não tenho tempo p'ra dormir. Quero viver! viver!... +Não posso perder nem uma manhã nem uma noite. A gente sabe lá quando tem de +deixar isto... Sabe-o Deus! Eu já perdi muito. Tenho remorsos. Quando penso +nisso... tenho remorsos... Quando eu era empregado, passava dias inteiros sem +olhar p'rò céu. Só via gente e ruas... E as noites... tambêm as perdia. Ia +p'ròs teatros, p'ròs cafés. Foi só depois—quando morreu a minha +mãe—que eu compreendi que ia mal... e resolvi viver. Passei dias de +desespero, a pensar que não gostei dela como devia... que a não acarinhei... +que a deixei ficar sozinha muitas vezes... Ia dando comigo em doido. Depois +lembrei-me—que o que me sucedeu com a minha mãe me podia suceder com a +vida toda.<span class="pn">{185}</span> E mudei de rumo... Deixei o emprêgo. +Fiquei assim... pus-me a viver. Agora, se adormeço num banco uma hora ou duas, +zango-me comigo...</p> + +<p>Por muito tempo, em palavras de gago, bipartidas, sussurou as razões da sua +vida, a sua exegese moral de vagabundo, a sua felicidade e... os seus recursos. +</p> + +<p>Tinha amigos, pessoas que o conheceram noutro tempo, <em>antes de êle saber +o que era a vida</em>... E quando precisava de dinheiro (êle afinal de pouco +precisava: nutria-se de frutos e de pão) era muito raro recusarem-lho: só se de +todo em todo não podiam.</p> + +<p>Notou que eu lhe fixava a andaina rôta e sorriu com meiguice desdenhosa:</p> + +<p>—Ando assim... todo rôto. Que me importa! E podia andar bem... isso +podia. Muitas pessoas me teem dado roupa. Até fatos inteiros... e em bom uso. +Pode V. Ex.ª acreditar. Mas às vezes, de noite, pelas ruas, vêem ter comigo às +escondidas da polícia, desgraçados com fome... todos<span +class="pn">{186}</span> rotos... E por boas maneiras ou à fôrça, tenho de +trocar a minha roupa pela dêles...</p> + +<p>—Imaginam, coitados, que me roubam... Que pode isso fazer-me!... Que +me importa!...</p> + +<p>Teve uma expressão de piedade em tôda a máscara, e gaguejou com outra voz, +comovidíssimo:</p> + +<p>—Tenho tanta pena dêles... tanta... tanta... de todos os que foram +como eu.... No fundo... é mais triste que a fome e que a miséria... ver como +andam na vida <em>sem viver</em>... V. Ex.ª perdoe o que eu lhe digo...</p> + +<p>Assim, nessa manhã de outono, eu conheci um outro Veiga—o que me +interessa. </p> + +<p>Perguntei-lhe, almofadando a oferta, se precisava algum dinheiro. Recusou. +Tinha já almoçado há algumas horas... Mas como eu insistia, tirou do bolso uma +mãocheia de migalhas, e mostrou-mas como um último argumento:</p> + +<p>—Ficou-me ainda isto... pr'òs pardais...</p> + +<p>Depois, com um gesto lento, precioso,<span class="pn">{187}</span> em que as +taras do amador dramático automaticamente se traíam, tirou do outro bolso +muitas pétalas, e ofereceu-me algumas:</p> + +<p>—Faz... favor. São de uma roseira que o vento desfolhou...</p> + +<p>Ficou curvado a aspirá-las uns segundos:</p> + +<p>—Certas manhãs de outono... os perfumes dão vontade de chorar...</p> + +<p>Datam daqui as nossas relações. Cultivo nele com estima, com ternura, o +único panteísta que eu conheço. E tal qual o vêem pelas ruas, êste pobre +mendigo alienado anda «bêbedo de Deus», como Spinosa.</p> + +<p>Encontrei-o ontem à noite: conversámos. E as poucas palavras que me disse, +cravaram garra em mim: não as esqueço. Êle anda agora esquelético, a cair: o +seu boemianismo panteísta tomou uma forma aguda, convulsiva: é uma espécie de +delírio ambulatório.</p> + +<p>Como eu aludia ao seu cansaço, pedindo-lhe que não andasse dia e noite nessa +lufa em que agora o via sempre, êle, que era<span class="pn">{188}</span> mais +meigo de que um cão, deitou-me bruscamente as mãos aos braços, e com uma +indizível voz de raiva e súplica:</p> + +<p>—Por o amor de Deus... não diga isso! Olhe que eu não duro muito. Eu +sei... eu sei... E tenho fome... fome de adorar... Eu quero como a um filho, à +terra tôda...</p> + +<p>E falou-me das árvores, do mar.</p> + +<p>Disse-me que queria acompanhar a Noite, sem perder um segundo, um só +segundo, caminhando com ela, caminhando;—e logo, logo ao despedir-se +dela, abrir bem os seus olhos, bem abertos, ao primeiro araiar da madrugada... +E seguir depois o sol até à morte, ele e a sua sombra que era triste—como +se fôsse já uma saudade...</p> + +<p>Era num jardim público, deserto. Caíam dos plátanos fôlhas sêcas... Êle +baixou-se, apanhou algumas com cuidado, como se fossem borboletas +estonteadas...</p> + +<p>—Veja V. Ex.ª veja... Como estão encarquilhadas... tão sequinhas! A +minha hora chegou como a hora delas...<span class="pn">{189}</span></p> + +<p>E como o vento as fazia redemoinhar, estremeceu e disse bruscamente:</p> + +<p>—Passe Vossa Excelêcia muito bem... Queira perdoar... Não posso perder +tempo...</p> + +<p>E o amante da terra o meu pedinte; não tem tempo p'rá amar, por isso sofre; +sente que ela lhe foge a cada instante, e não quer adormecer p'rà sentir +sempre, contra o seu corpo de fantoche mártir, com sobrecasacas doutros, +fraques doutros, por cujos rasgões entra o sol ao luzir dalva, até que a noite +por sua vez se engolfe neles, correndo-lhe a carne de miséria, sensitiva, e +amando-o sem nojo horas e horas...</p> + +<p>A Morte, quando vier, vai comover-se, ouvindo-lhe na gaguez frémitos de +asas, vendo-lhe abrir os braços de esqueleto como p'ra agasalhar a vida tôda, e +oferecer-lhe nas mãos roxas e ósseas—pétalas murchas e folhagens +sêcas...</p> + +<p>Não pode durar muito: é impossível.</p> + +<p>Mas nas pedras da rua onde morrer, terá em torno dêle a despedir-se, o Mar, +as Árvores,<span class="pn">{190}</span> a Aurora, tôda a vida da +terra—sua amante...</p> + +<p>Apercebia com uma acuidade visionária a orquestração da noite, dita em +surdina nas janelas, nas folhagens, e decompunha essa penumbra de ruídos, +complexíssima, a que chamamos vulgarmente as «horas mortas».</p> + +<p>Quási madrugada, em Dezembro, recolhia eu estugando o passo, porque fazia +uma névoa frigidíssima, quando o cruzei numa ruela íngreme. Levei a mão ao +chapéu e fui andando, mas instantes depois êle atracou-me, a tiritar de frio, +soleníssimo, o côco erguido e o busto em reverência. Era ainda polidez, +diplomacia:</p> + +<p>—Desculpe V. Ex.ª Teve agora a bondade de saudar-me e eu não pude +corresponder... Só depois me voltei e o conheci. É que eu ia distraído, a +trautear...</p> + +<p>—Nada mais natural, senhor Veiga, nada mais natural...</p> + +<p>E p'rò não despedir com brusqueria, fiz-lhe ainda esta pergunta +estúpida:<span class="pn">{191}</span></p> + +<p>—E que trauteava o senhor com êste frio?</p> + +<p>Fixou-me. Depois com um gesto curvo, muito vago:</p> + +<p>—Isto... o silêncio... a névoa...</p> + +<p>Sem frauta rústica, pobre fauno de quico e butes rotos, o Veiga não imitava, +como colegas seus de longes tempos, quando a Terra era ainda uma criança, o +rumor claro das levadas rindo espuma, mas apenas o esgarçar dolorosíssimo de +uma névoa mendiga de dezembro, que o vento ia rasgando aos empuxões, nos +beirais dos telhados, nas esquinas, esquecida talvez de que foi mar ou o chôro +das nuvens vagabundas...</p> + +<p>E lá foi sob a grisalha a desfazer-se, ouvindo música inédita p'ra todos, +êsse mísero fauno arripiado que eu vi uma só vez com uma ninfa...</p> + +<p>Foi à beira do rio, em Massarellos. Como era tarde e não havia eléctrico, eu +ia a pé p'rà Foz, na noite calma.</p> + +<p>No cais, sentado em toros de pinheiro,—madeira para embarque, +certamente—havia<span class="pn">{192}</span> um par em idílio, muito +unido, onde fui descobrir com grande espanto, a silhueta cómica do Veiga.</p> + +<p>Por trás, junto a uma faia sonolenta, detive-me um instante a escutar. Era o +Veiga que falava à creatura, na sua voz gaguejada e um pouco emfática, em que +eu sentia o ex-amador dramático sob uma névoa de lágrimas molhando-a:</p> + +<p>—Não se aflija. Eu tenho relações. Ha-de tornar a entrar p'rà fábrica, +descanse. De que serve chorar?... Torna a entrar, torna a entrar, digo-lho eu. +</p> + +<p>E uma voz de timbre fino, adolescente, respondia num chôro sem esperança: +</p> + +<p>—Não me querem lá mais. Que hei-de eu fazer?...</p> + +<p>—Qual não querem! Olha a grande coisa! Mas porque foi que andaram à +pancada?</p> + +<p>A outra voz choramingava, aos haustos:</p> + +<p>—Eu andava na descarga do carvão... Nunca chegávamos à barca ao mesmo +tempo. Quando eu trazia o cêsto carregado,<span class="pn">{193}</span> voltava +ela sempre de o largar... e dava-me encontrões e más palavras. Eu calava-me, +mas já não podia mais. Tudo isto, já se vê, por causa dum rapaz que é da +Afurada e anda a passar o povo p'rá outra banda. Hoje deu-me um encontrão com +tanta força, que me voltou o cesto na cabeça e chamou-me... ainda por cima. Foi +então que me atirei a ela como cega—que até lhe cuspi de raiva no +cabelo... Depois o inspector veio e poz-me fora. E agora... agora...</p> + +<p>Desatou a chorar de encontro ao Veiga. Corria um leste morno de carícia, e +êle passando-lhe as mãos magras na cabeça, gaguejava consolações, mui comovido: +</p> + +<p>—Não chore, não chore, torna a entrar. E há-de voltar p'ra casa ainda +esta noite... Eu mesmo vou acompanhá-la... Não tenho nada que fazer. Não me faz +monta... Eu falo à sua mãe, conto-lhe tudo. Já ela lhe não bate... então... não +vê? Depois volta p'rà fábrica, verá. Eu tenho relações, trato-lhe disso. Amanhã +pela manhã...<span class="pn">{194}</span></p> + +<p>Não ouvi mais. Nem um sôpro de desejo nessa arenga: apenas o amor por um ser +vivo, a ânsia de o erguer que êle teria, vendo um caule partido num caminho ou +uma rosa ao abandono, a desfolhar-se.</p> + +<p>É que os nervos do Veiga, como os de certos artistas que teem génio, +vibravam de amor egual por tôda a Vida, e sentiam nas rosas e na névoa, nas +crianças e nos pobres e nas almas, a mesma ância inconsciente de Unidade, o +mesmo erguer de mãos para a Beleza.</p> + +<p>Vi-o depois na Cordoaria uma manhã de inverno, sob o tufo scismático dos +cedros, grisalhos de névoa e de geada.</p> + +<p>Debatia-se com grandes gestos aflitos, entre um grupo de garotos que +gritavam. Trazia um frak imenso, parecendo ter sido acastanhado, côco preto que +a grenha intonsa levantava, e na cara chorinca e acriançada, davam-lhe os olhos +rasos, mais que nunca, um ar de melodrama pífio, um cómico angustioso de +careta.<span class="pn">{195}</span></p> + +<p>Não me sentiu aproximar. Ouvi-lhe a arenga gaguejada: compreendi.</p> + +<p>Um dos garotos apanhara, fisgando-o à pedra, um pobre pássaro que outro +tinha nas mãos agonizante. O Veiga que passeava, interviera, e entre insultos e +risadas, reclamava com palavras patéticas, o pássaro—<em>para que o não +matassem.</em></p> + +<p>—Se o quer, dê-me um vintém por êle, dizia brusco um dos pequenos.</p> + +<p>—Quem?! Olha o peneira! gritava outro às gargalhadas.</p> + +<p>Dei o vintém, mandei que lho entregassem.</p> + +<p>Foi ao ouvir-me a voz que se voltou. Riam-lhe as lágrimas nos olhos. +Tirou-me o côco, curvado em reverência. Depois, como o garoto lhe entregava o +passarito, recebeu-o com carícia no côncavo das mãos arroxeadas, e hirto, +solene, sacerdotal, veio entregar-mo, erguendo muito os braços, como se levasse +uma píxide sacrosanta.</p> + +<p>—É... é de Vossa Excelência... Muito... muito obrigado...<span +class="pn">{196}</span></p> + +<p>E sem que eu tivesse tempo p'ra fugir-lhe, beijou-me as mãos e deu-mo +ensanguentado.</p> + +<p>Encontrei-o muitas vezes de passagem: de manhã, de noite, a tôda a hora.</p> + +<p>Às vezes, esquecia-se a olhar muros de quinta, quando caem braçadas de +glicínias, e era dêstes p'ra quem o musgo núma pedra é um afago de veludo que +comove.</p> + +<p>Uma noite, vi-o sair com um embrulho de um bazar. Vinha radiante. Viu-me, +flectiu em parábola numa vénia, e foi andando.</p> + +<p>Cruzei-o horas depois ao vir do teatro. Seguiu-me. Vi que queria falar-me e +esperei-o numa esquina, a acender um cigarro. Abordou-me com o cerimonial de +mandarim que êle usa sempre. Supus que ia pedir dinheiro. Mas não: era outra +coisa.</p> + +<p>—V. Ex.ª desculpe... Está frio e eu venho demorá-lo. Vem decerto do S. +João... é só um instante. É que eu devo uma satisfação a V. Ex.ª. Viu-me hoje +sair do <em>Bazar dos tres vintens</em>, não é verdade? Decerto<span +class="pn">{197}</span> imaginou que eu fui lá comprar p'ra mim alguma coisa... +Não fui: quero contar-lhe...</p> + +<p>—Ó senhor Veiga, que idea! Nem pensei nisso.</p> + +<p>—V. Ex.ª consente? Eu vou dizer. Fui lá comprar uma boneca p'rà +Mariinha... Perdão. V. Ex.ª não sabe quem ela é. É a filhita duma pobre que eu +conheço... Tem cinco anos... É um amor de pequenina. Sou muito amigo dela. Até +me chama padrinho... A mãe ensinou-lhe. Já V. Ex.ª vê... Era p'ra ela...</p> + +<p>—Não era preciso dizer, eu nem notei...</p> + +<p>—Era o meu dever. Pela consideração que V. Ex.ª me merece. Queira V. +Ex.ª perdoar. Não o importuno mais. Está fria... está muito fria a noite!</p> + +<p>Ainda uma reverência e lá partiu.</p> + +<p>Estranho Veiga! Como se desentranhou êste ser de hoje, do grotesco banal que +eu conheci?</p> + +<p>Como dêsse reles títere, amoroso sovado, trapo humano, ex-amador dramático e +ex-poetrasto,<span class="pn">{198}</span> saiu o panteísta vagabundo, o louco +duma misericórdia tão sentida, que eu vi salvar com os olhos rasos um pobre +passarito moribundo?...</p> + +<p>A pobre velha, morrendo, <em>iniciou-o</em>. Nasceu da sua dor segunda +vez...</p> + +<p>Uma manhã, em Carreiros, junto à praia, depois das cortesias do costume, +pediu-me uns cobres para ir almoçar. E quando eu ia já a despedir-me, reteve-me +com um gesto, e gaguejou esta oferta, muito lento:</p> + +<p>—Peço licença... p'ra uma pequena lembrança a V. Ex.ª Mas antes +prometa-me que a aceita... É uma insignificância, mas cuido que V. Ex.ª a +estimará...</p> + +<p>Prometi.</p> + +<p>Enfiou solene a mão ossuda no bolso da sobrecasaca coçadíssima, que vestia +sem camisa, contra a pele, e tirou com infinitas precauções, um asterídeo ainda +húmido, perfeito.</p> + +<p>—Como sei que V. Ex.ª gosta do mar, pensei em dar-lha. É uma estrela +do mar... Perdoe o atrevimento...<span class="pn">{199}</span></p> + +<p>E partiu quando eu lha agradeci, com os olhos loucos rasos de alegria.</p> + +<p>Nunca, porém, me feriu tão fundamente o seu amor de louco à Natureza, como +nessa madrugada em que eu o vi numa rua afastada de arrabalde.</p> + +<p>Fazia já um calor asfixiante. Estava em cabelo junto a um muro de quintal, +revestido de rosas de toucar, madre-silvas em flôr e clematites.</p> + +<p>Todo em gestos litúrgicos, mui lentos, punha rosas a abrir na grenha imunda, +perfumava as mãos com madre-silvas, e passava-as nas fontes, extasiado.</p> + +<p>De quando em quando descaía os braços, descansava assim alguns instantes, e +na cara sugada, pele e osso, os olhos puros riam, muito calmos, numa beatitude +transcendente.</p> + +<p>Havia já um grupo em torno dêle, de leiteiras que vinham p'rà cidade, de +moços de lavoura que estacavam. Olhavam-no a rir perdidamente.</p> + +<p>Eu pensava em Ophélia, no Rei Lear, nas<span class="pn">{200}</span> +loucuras patéticas de Shakespeare, ao ver êsse alienado vagabundo, êsse +estranho pedinte de olhos meigos, que trazia só pétalas nos bolsos, e em plena +luz polínica de estio, oficiava a Pan, de butes rotos, aspirando perfumes +voluptuado...<span class="pn">{201}</span></p> + +<p> </p> + +<h1><a name="SECTION00070">WORDS...</a></h1> + +<p><span class="pn">{202}</span></p> + +<p><span class="pn">{203}</span></p> + +<p> </p> + +<h2><a name="SECTION00071">Words...</a></h2> + +<p style="text-align: center;">(<small>DUM CADERNO DE NOTAS DE</small> C. F.)<a +name="tex2html2" href="#foot441"><sup>[2]</sup></a></p> + +<p> </p> + +<p>—Ao morrer, cada um de nós deve dizer à Morte: «Deixe-me estar ainda +um bocadinho. Esquecia-me por completo de viver...»</p> + +<p> </p> + +<p>—Xerxes chicoteou o Helesponto. Quando nós nos queixamos do Destino, +somos tão pueris como êsse rei.<span class="pn">{204}</span></p> + +<p> </p> + +<p>—A dôr deve ser como um amante—que nos faz sofrer e em quem +batemos.</p> + +<p> </p> + +<p>—Nietzsche definiu a glória «a falta de pudor na admiração». No meu +país, é a falta de pudor na incompreensão.</p> + +<p> </p> + +<p>—No silêncio, nascem em nós sentidos: os sentidos p'rà vida do +mistério... </p> + +<p> </p> + +<p>—Obsessão a brocar um moribundo:</p> + +<p>«Nunca olhei, <em>sem outra idéa</em>, para o sol...</p> + +<p> </p> + +<p>—Só a verdade é inverosimil.</p> + +<p> </p> + +<p>—A amizade é uma hipótese divina que só os grosseiros cuidam ter +vivido.<span class="pn">{205}</span></p> + +<p> </p> + +<p>—Avaliamos quási sempre os outros pelas opiniões que teem de nós. É +por isso que conhecemos menos—aqueles que mais julgam conhecer-nos.</p> + +<p> </p> + +<p>—Os artistas procuram no amor, além da satisfação do instincto, a +glória,—na admiração de mãos postas da mulher. Compensa-os de não terem +público, e só tarde percebem—que quanto mais beijados... mais +inéditos.</p> + +<p> </p> + +<p>—É preciso ser feliz em família p'ra compreender a volúpia de estar +só.</p> + +<p> </p> + +<p>—Porque é que os ciprestes entristecem?... Porque, p'ra nós, são um +soluço<span class="pn">{206}</span> alongado e verde-escuro. É bem possível que +êles sejam muito alegres... É por motivos dêstes que muitas coisas nos parecem +tristes.</p> + +<p> </p> + +<p>—Alguns dizem: publicar um livro é prostituir-se. Pedantes! O mar +recebe nêle os vossos corpos...</p> + +<p> </p> + +<p>—Quem mais injustamente julga um crime? Primeiro o criminoso, que +estava <em>fora de si</em>, que já não sabe; depois os julgadores +oficiais—que estão <em>fóra de si</em> profissionalmente.</p> + +<p> </p> + +<p>—<em>Aut César aut nihil.</em> Podes ser um mendigo e ter na tua vida +interior êste brazão.</p> + +<p> </p> + +<p>—Sou por tal fórma talhado para amar—que o meu amor cresce com o +meu desprêso.</p> + +<p> </p> + +<p>—A maior parte da gente é <em>honesta</em>—em virtude da lei do +menor esfôrço.<span class="pn">{207}</span></p> + +<p> </p> + +<p>—Há um instante na vida em que cada um de nós se julga um deus: com +uma doutrina a revelar, um calvário nos longes e um profeta...</p> + +<p> </p> + +<p>—Quando depois de lamentar alguêm o vemos salvo, sentimo-nos +<em>roubados</em>.</p> + +<p> </p> + +<p>—A arte é o refúgio dos que não podem viver integralmente. E muitas +vezes tambêm, uma vingança.</p> + +<p> </p> + +<p>—A mentira e o dever são irmãos gémeos.</p> + +<p>Quando naturalmente, por instinto, nós fugimos ao código e à moral, ela +apareceu-nos, máscara doirada, para esconder a responsabilidade. Mas há outra, +a mentira criadora, que é a asa do Sonho e da Beleza. Os filósofos +chamam-lhe:—<em>Verdade</em>...</p> + +<p> </p> + +<p>—Umas mãos, um gesto de mulher, um perfume de flôr, ou um velho +estofo, consolam bem melhor que Marco Aurélio...<span +class="pn">{208}</span></p> + +<p> </p> + +<p>—As mulheres não falam só ao nosso instinto. Falam mais: sem se +ouvirem, sem saberem... São quási sempre vazias ou banais. Mas para alêm da +frivolidade e do desejo, são verdadeiras fontes de inconsciente. Numas +pálpebras descidas, num olhar, no misterioso de milhares de <em>nadas</em>, há +sonhos e sonhos revelados, a expressão do <em>irredutível a palavras</em>.</p> + +<p>Elas são na sua vida interior, como crianças a assistir a uma tragédia... +Soube lá nunca a Mona Lisa que tinha tudo o que Vinci copiou!...</p> + +<p> </p> + +<p>—Um perfume na sombra tem uma voz de aparição.</p> + +<p> </p> + +<p>—A renúncia é uma doença do desejo. Vem com a velhice quási sempre.</p> + +<p> </p> + +<p>—A humildade corresponde no homem ao mimetismo dos insectos.</p> + +<p> </p> + +<p>—Certas preferências—que nem o raciocínio nem a estesia +explicam—despertam<span class="pn">{209}</span> em nós sensações de vidas +anteriores: um certo perfume, uma paisagem p'ra outros sem encanto, certa feia, +uns versos medíocres, um acorde banal...</p> + +<p> </p> + +<p>—Recusei ontem uma apresentação a um «homem de princípios». P'ra quê? +Um «homem de princípios» é um homem conhecido: está impresso.</p> + +<p> </p> + +<p>—<em>Música do mar</em>—Aquele violinista meu amigo foi viver, +por conselho meu, p'rà beira mar. Ia com uma grande febre de compor. Levava um +quarteto inacabado, um esbôço de sinfonia, outros projectos... Encontrei-o na +praia ontem à noite.—Então... êsse quarteto? a sinfonia?...—Nem +quarteto... nem sinfonia... nem violino... Eu já não faço música. Pus-me a +ouvir a do mar bem simplesmente.</p> + +<p> </p> + +<p>—A moral é um lastro. Deita-se fora p'ra subir...<span +class="pn">{210}</span></p> + +<p> </p> + +<p>—Todos dizem adeus com o mesmo gesto. E êsse gesto é o das asas... +Subir é ficar só.</p> + +<p> </p> + +<p>—Quando duas criaturas se amam, não pensam um instante em +compreender-se. Uma vaga de inconsciente submergiu-as. Só mais tarde, morto o +desejo, se reconhecem com espanto, dois estranhos.</p> + +<p>Dizem com desespero: «Um de nós mudou. Já não somos os mesmos».</p> + +<p> </p> + +<p>—De uma maneira geral, temos mais pontos de contacto com os nossos +inimigos do que com os nossos amigos.</p> + +<p>Amar uma mulher, querer conseguir o mesmo fim, são causas de ódio.</p> + +<p> </p> + +<p>—O nosso inimigo é o nosso cúmplice.</p> + +<p> </p> + +<p>—Os programas de governo estão para a política, como os dogmas para as +religiões. Nem os primeiros interessam os partidários, nem os segundos os +crentes.<span class="pn">{211}</span></p> + +<p>—A liturgia obliterou-se, é de uma teatralidade já sem símbolo. +Corresponde à retórica—ou arte de hipnotizar imbecis com gestos e +palavras em que se sacrifica à idea ausente.</p> + +<p> </p> + +<p>—Não há esculturas como as nuvens.</p> + +<p> </p> + +<p>—Os homens que construem um sistema, fazem a própria jaula em que se +fecham.</p> + +<p> </p> + +<p>—A grande indústria humana—a específica—é a fabricação de +deuses.</p> + +<p> </p> + +<p>—P'ra viver puro é preciso durar como as espumas: um instante.</p> + +<p> </p> + +<p>—A tragédia de D. João está no supremo poder de seduzir, de que êle +próprio foi a maior vítima. Em nenhum amor matou a sêde.</p> + +<p>De mulher em mulher, como outros de idea em idea, êle era, essencialmente, +um homem <em>bêbedo de Deus</em>, como Spinosa.<span class="pn">{212}</span> +</p> + +<p> </p> + +<p>—Um perfume é uma confidência: é tambêm o olhar das flôres, e, segundo +Hello, o seu estilo.</p> + +<p> </p> + +<p>—Viajar é a arte de saborear decepções.</p> + +<p> </p> + +<p>—A magia da viagem, tão grande como a do amor, começa no instante do +regresso. A do amor chama-se—saúdade, a da viagem—evocação.</p> + +<p> </p> + +<p>—Se na morte tivéssemos consciência—gozaríamos emfim a viagem da +vida.</p> + +<p> </p> + +<p>—Um artista numa terra nova tem a sensação de nascer segunda vez.</p> + +<p> </p> + +<p>—As escólas literárias são verdadeiras cooperativas de consumo. É só +matricular-se... e cozinhar.</p> + +<p> </p> + +<p>—Os génios são inclassificáveis: são a promessa falhada de outra +espécie. </p> + +<p> </p> + +<p>—A garra do génio é a sinceridade.—Falar<span +class="pn">{213}</span> <em>por la bocca de su herida</em> é um acto +heróico.</p> + +<p> </p> + +<p>—Só são coerentes os factícios.</p> + +<p> </p> + +<p>—Os que se conhecem, são vazios.</p> + +<p> </p> + +<p>—A palavra de honra é uma gazua. Força a credulidade dos ingénuos +quando não temos força moral p'ròs convencer.</p> + +<p> </p> + +<p>—A música é o médium do mistério.</p> + +<p> </p> + +<p>—A eternidade é a sensação de <em>alguns</em> instantes...</p> + +<p>Às vezes é num grande perigo que a sentimos: certos segundos lúcidos da +agonia em que se faz o supremo exame de consciência; antes duma operação grave, +quando cada gesto tem um fervor de despedida; nos últimos minutos dum condenado +à morte.</p> + +<p>Outras vezes, é num grande gôzo que a entrevemos: no espasmo da cópula; na +aura do ataque epiléptico (que Dostoïevski diviniza); nos primeiros momentos de +admiração<span class="pn">{214}</span> por uma obra-prima; na vertigem da +criação sub-consciente; e finalmente os místicos, na absorção em Deus, ou, +segundo a expressão de Dante, quando «partem do século».</p> + +<p> </p> + +<p>—Uma vez, tomando nas mãos uma cabeça de mulher, disse-lhe baixo, com +a vontade perdida nos seus olhos: «Podes fazer de mim o que quiseres».</p> + +<p>É isto que eu agora digo à Vida.</p> + +<p> </p> + +<p>—<em>Testamento dum pobre</em>—Se eu morrer na primavera, +envolvam em feno aromático meu cadaver nu, cubram-me de lilases e de rosas, +deixem-me decompor assim—com tantos vermes como borboletas!</p> + +<p>Enterrem nos meus olhos de morto já gomosos, pecíolos de rosas de veludo. +Não me embalsamem. Que eu seja uma podridão bem petalada!</p> + +<p>Ponham-me sob uma árvore florida, p'ra que um vento de cópula passando, +sacuda o pólen sôbre o meu cabelo! Depois no<span class="pn">{215}</span> roxo +outono, morto, o mais feliz dos mortos, cada corvo que vier +grasnando—há-de partir de gula o bico curvo contra o meu crânio em que há +pétalas murchas... </p> + +<p> </p> + +<p>—O sacrifício é a selecção natural invertida: os fortes servem de +degrau aos fracos.</p> + +<p> </p> + +<p>—A incoerência instintiva, absolutamente sincera, tem uma lógica +interior—a própria lógica da vida—que os psicólogos profissionais +nunca auscultaram. Os personagens de Dostoïevski, por exemplo, ganham tanto +mais em unidade e em verdade, quanto mais, p'ra olhos vulgares, se contradizem. +Bourget é o psicólogo da coerência...</p> + +<p> </p> + +<p>—O grito de Oswald Alving no último acto dos «Espectros»: «Mãe, dá-me +o sol», é o grito que a morte gela em muitas bocas.</p> + +<p> </p> + +<p>—Portugal é um navio naufragado em que a tripulação espera há +séculos...<span class="pn">{216}</span></p> + +<p> </p> + +<p>—A arquitectura que eu mais amo é a dos navios.</p> + +<p>Os mastros aspiram como agulhas góticas, mas emquanto a catedral se queda em +êxtase, as velas seguem entre adágios de asas...</p> + +<p> </p> + +<p>—Adoro o mar. Ando a ensinar ao meu desejo um ritmo de ondas, e à +minha dor a arquear de desespero como as vagas—mas a sorrir por fim em pó +de espumas. </p> + +<p> </p> + +<p>—A. é um místico (medievalite e hidrofobia), B. vê tudo Wateau (é um +requintado...), C. é um grego do tempo de Pericles; eu, tal qual tu me vês, sou +um romano...</p> + +<p>Quantos homens da Renascença tu conheces!...</p> + +<p>O visconde L., por exemplo, é um Medícis...</p> + +<p>Como quási ninguêm está nesta época—é bem de ver—quási ninguêm +existe. Os que tu vês—são só sobreviventes... almas fósseis...<span +class="pn">{217}</span></p> + +<p> </p> + +<p>—Uma estátua mutilada humilha menos a nossa imperfeição: está mais +perto de nós, comove mais.</p> + +<p> </p> + +<p>—Conheci um poeta que escreveu a «Imitação do Mar», paralelo á +«Imitação de Cristo».</p> + +<p>Durante semanas viveu num quarto—só—uma vida de vaga. Encrespou, +arqueou num grande esfôrço, foi um côncavo glauco cheio de asas, e explodiu a +rir—todo espumante...</p> + +<p>Só eu sei que se matou por não poder reviver aquela vida.</p> + +<p> </p> + +<p>—Um livro tem p'rò autor uma outra voz: a do seu sangue a correr pelas +palavras.</p> + +<p> </p> + +<p>—O ritmo é o anestésico mais forte.</p> + +<p> </p> + +<p>—O sarcasmo é um soluço que despreza.</p> + +<p> </p> + +<p>—Alguns escritores publicam os retratos nos seus livros. Ignoram, +decerto, que a <em>vera efigie</em> de um artista é o estilo.<span +class="pn">{218}</span></p> + +<p> </p> + +<p>—Há no fundo do panfletário mais violento, um pobre diabo ingénuo, +fascinado, que aspira a <em>conselheiro</em>—sem saber...</p> + +<p> </p> + +<p>—Receita p'ra fazer sucesso: condensar a banalidade, dar-lhe êmfase e +imprimi-la com maiúsculas...</p> + +<p> </p> + +<p>—Alguns condenam as corridas de toiros e proclamam como uma +obrigação—o sacrifício...</p> + +<p> </p> + +<p>—A procurar o sentido da vida, esquece-se muita gente de viver.</p> + +<p> </p> + +<p>—Conheço muita gente que só olha a natureza... emoldurada.</p> + +<p> </p> + +<p>—O processo, em arte, é o <em>maquillage</em> do talento.</p> + +<p> </p> + +<p>—O sucesso faz-se nos jornais:—a glória no silêncio.</p> + +<p> </p> + +<p>—Quando um homem superior é célebre,<span class="pn">{219}</span> ou é +admirado por defeitos, ou então por qualidades que não tem...</p> + +<p> </p> + +<p>—As metafísicas são a <em>Belle au bois dormant</em> contada em +ideas.</p> + +<p> </p> + +<p>—Que frio! Deito ao lume os meus deuses p'ra aquecer... É bom ouvil-os +crepitar: lenha divina!</p> + +<p>Mas da cinza dos deuses—nascem deuses. Pela janela aberta vejo uma +estátua na névoa: o super-homem!</p> + +<p>Criar deuses é a mais estranha função da nossa espécie. Nem podemos aspirar +as rosas: vivemos asfixiados de divino...</p> + +<p> </p> + +<p>—Já viste uma ave livre—adormecida?... Tem nas asas fechadas +todo o ceu. Antes de te deitares, bebe à janela a noite, até caíres...</p> + +<p> </p> + +<p>—A civilização é uma camisa de forças. Há duas maneiras de a rasgar: a +arte e o crime.<span class="pn">{220}</span></p> + +<p> </p> + +<p>—A sociedade perfeita é a de Narciso: a própria imagem reflectida numa +fonte. É o máximo e o mínimo de convívio.</p> + +<p> </p> + +<p>—A alegria é a pérola dos mergulhadores. Só se descobre com muitas +atmosferas de dôr por sôbre os ombros.</p> + +<p> </p> + +<p>—Meditar é viajar através de nós mesmos.</p> + +<p> </p> + +<p>—A lei faz isto: que um homem passe com fome num pomar sem cravar os +dentes num só fruto...</p> + +<p> </p> + +<p>—As academias são o <em>trust</em> da glória. Às vezes, são tambêm o +asilo...</p> + +<p> </p> + +<p>—P'ra saberes a expressão que teem as rochas, encomenda uma a um +escultor. Nenhum ta poderá executar. São mil máscaras fundidas numa máscara.</p> + +<p> </p> + +<p>—A melhor maneira de admirar um escritor é viver segundo o ritmo da +sua obra.<span class="pn">{221}</span></p> + +<p> </p> + +<p>—Viver é adorar com o corpo todo. A suprema oração é o desejo, a +linguagem—a arte, que é o esfôrço heróico p'rà Beleza.</p> + +<p> </p> + +<p>—Morte! És p'ra mim o sal da vida...</p> + +<p>O teu silêncio grita:—andem depressa! Deita mais lenha na ambição, +ambicioso; decifrador de enigmas, parte a esfinge; corpo a corpo, amorosos, +sonho em sonho; e tu, maníaco de teorias, bom filósofo, coze depressa o teu +sistema—anda depressa!...</p> + +<p>O teu silêncio excita como uma dança de baiaderas: dá vertigem...</p> + +<p>P'ra exasperar em nós a sagrada loucura de viver, para que os homens não +percam um instante—ergam-te estátuas nos jardins, nas praças, na cimalha +das academias e dos templos, Musagéta da Vida, grande Morte, com a lira de +Apolo e olhos vazios...</p> + +<p> </p> + +<p>—O que é o mar para o meu corpo, é a dôr para a minha alma.</p> + +<p> </p> + +<p>—A solidão, <em>beata solitudo</em>, é o palácio encantado dos +espelhos. Ó alma, corre as<span class="pn">{222}</span> tuas galerias. Myríades +de retratos, de obras-primas, no dédalo dos corredores, nas salas lúcidas, +echoando em reflexos, irisando-se, como a palavra de Deus de estrela em +estrela. É o teu povo; és tu, alma: és tu mesma.</p> + +<p> </p> + +<p>—O tacto da alma é a evocação.</p> + +<p> </p> + +<p>—Outono: idílio da Natureza com a Morte.</p> + +<p> </p> + +<p>—O amor é o génio do desejo: um instinto espiritualisado.</p> + +<p> </p> + +<p>—A arte é uma espécie de alchimia: mesmo do crime, extrai o oiro mais +puro.</p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<div class="rodape"> +<p><a name="foot46" href="#tex2html1" id="foot46"><sup>[1]</sup></a> +Nietzsche.</p> + +<p><a name="foot441" href="#tex2html2" id="foot441"><sup>[2]</sup></a> C. F., +meu ex-condiscípulo, despediu-se de mim para casar, como outros se despedem +para morrer. Casou depois de ter vivido intensamente,—como outros se +fazem morfinomanos ou alcoólicos: p'ra anular a sua inquietação, a sua febre, +na sedativa estupidez da vida séria. Sentia-se sem saúde e sem coragem, quer +p'ra viver a vida com nobreza, quer p'ra ir ao encontro ao seu outono, morrendo +a tempo—como manda o meu filósofo. Foi há três anos. Nunca mais nos +vimos. Soube depois, por os jornais, que é deputado e, o que é melhor... ou +pior, que vai ser par. Não sei se o meu amigo conseguiu a paz no anulamento, ou +se é o actor duma comédia lúgubre—mascarando de banalidade o seu +espírito. Deixou-me à hora da morte (à hora da vida social, da vida +<em>séria</em>) os seus cadernos de notas—e uma obra de humorismo lírico, +de ironia comovida e filosófica:—<em>A Metafísica de uma +borboleta.</em>—Estas notas, que transcrevo de um dos seus cadernos, de +entre as que não ferem sensivelmente a moral pública, são talvez—os +senhores dirão—curiosas.</p> +</div> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<h3>ÍNDICE</h3> + +<table align="center" border="0" summary="Índice"> + <col> + <col> + <tbody> + <tr> + <td><br> + </td> + <td style="text-align: right;">PAG.</td> + </tr> + <tr> + <td><a href="#SECTION00010">Diálogo com uma águia...</a></td> + <td style="text-align: right;"><a href="#SECTION00010">9</a></td> + </tr> + <tr> + <td><a href="#SECTION00020">O precoce...</a></td> + <td style="text-align: right;"><a href="#SECTION00020">47</a></td> + </tr> + <tr> + <td><a href="#SECTION00040">O homem das fontes...</a></td> + <td style="text-align: right;"><a href="#SECTION00040">77</a></td> + </tr> + <tr> + <td><a href="#SECTION00050">Suze...</a></td> + <td style="text-align: right;"><a href="#SECTION00050">119</a></td> + </tr> + <tr> + <td><a href="#SECTION00060">O Veiga...</a></td> + <td style="text-align: right;"><a href="#SECTION00060">155</a></td> + </tr> + <tr> + <td><a href="#SECTION00070">Words...</a></td> + <td style="text-align: right;"><a href="#SECTION00070">201</a></td> + </tr> + </tbody> +</table> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p style="text-align: center;">ACABOU DE SE IMPRIMIR ÊSTE LIVRO A QUINZE DE +JUNHO DE MIL NOVECENTOS E VINTE NA IMPRENSA DA EMPRÊSA DO «DIARIO DE NOTICIAS» +PARA AS LIVRARIAS AILLAUD E BERTRAND</p> + +<p> </p> + +<h1><a name="SECTION00080">ERRATA</a> </h1> + +<p>A pag. 2, onde se lê: «Colhecem lá o amor etc.», deve lêr-se: «Conhecem lá o +amor etc.»</p> + +<p>A pag. 73, onde se lê: «... ressuscitava em gramas sonolontas.», deve +lêr-se: «... ressuscitava em gamas sonolentas.»</p> + +<p>A pag. 86, onde se lê: «Aludimos os», deve lêr-se: «Aludimos aos».</p> + +<p>A pag. 93, onde se lê: «Com miss Foutain», deve lêr-se: «Com Miss Fountain». +</p> + +<p>A pag. 161, onde se lê: «Vivia com a mãe e sem mais parentes.», deve lêr-se: +Vivia com a mãe sem mais parentes.»</p> + +<p> </p> +</div> + + + + + + + +<pre> + + + + + +End of Project Gutenberg's Serão inquieto : contos, by Patrício António + +*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK SERÃO INQUIETO : CONTOS *** + +***** This file should be named 32020-h.htm or 32020-h.zip ***** +This and all associated files of various formats will be found in: + http://www.gutenberg.org/3/2/0/2/32020/ + +Produced by Pedro Saborano (This file was produced from +images generously made available by The Internet Archive) + + +Updated editions will replace the previous one--the old editions +will be renamed. + +Creating the works from public domain print editions means that no +one owns a United States copyright in these works, so the Foundation +(and you!) can copy and distribute it in the United States without +permission and without paying copyright royalties. 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It exists +because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from +people in all walks of life. + +Volunteers and financial support to provide volunteers with the +assistance they need, are critical to reaching Project Gutenberg-tm's +goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will +remain freely available for generations to come. In 2001, the Project +Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure +and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations. +To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation +and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4 +and the Foundation web page at http://www.pglaf.org. + + +Section 3. 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