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| author | Roger Frank <rfrank@pglaf.org> | 2025-10-14 19:56:50 -0700 |
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Lisboa, 1903"> + <meta http-equiv="content-type" content="text/html; charset=iso-8859-15"> + <style type="text/css"> + body{margin-left: 10%; + margin-right: 10%; + } + .pn { + text-indent: 0em; + position: absolute; + left: 92%; + font-size: smaller; + text-align: right; + color: silver; + } + #corpo p{text-align: justify; text-indent: 1em;} + #corpo p.ni{text-align: justify; text-indent: 0;} + h1,h2,h3 {text-align: center; margin-top: 3em; margin-bottom: 2em;} + #corpo p.sinopse {margin: 0; font-size: small; text-indent: 0;} + hr.dotted {border: 0; border-bottom: dotted 2px #000;} + hr {border: 0; border-bottom: solid 2px;} + .rodape { + font-size: 0.8em; + margin: 2em; + } + .fbox {border: solid black 1px; background-color: #FFFFCC; font-size: +75%; margin-left: 10%; margin-right: 10%;} + </style> +</head> + +<body> + + +<pre> + +Project Gutenberg's A Chave do Enigma, by António Feliciano de Castilho + +This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with +almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or +re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included +with this eBook or online at www.gutenberg.org + + +Title: A Chave do Enigma + +Author: António Feliciano de Castilho + +Release Date: April 15, 2010 [EBook #32002] + +Language: Portuguese + +Character set encoding: ISO-8859-1 + +*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK A CHAVE DO ENIGMA *** + + + + +Produced by Pedro Saborano (produced from scanned images +of public domain material from Google Book Search) + + + + + + +</pre> + +<p> </p> +<p> </p> + +<div style="text-align: center;"> +<p style="font-size: 1.4em;">OBRAS COMPLETAS</p> + +<p>DE</p> + +<p style="font-size: 1.8em;">ANTONIO FELICIANO DE CASTILHO</p> + +<hr width="15%"> + +<p style="font-size: 1.6em;">VOLUME 2.º</p> +</div> + +<p> </p> +<p> </p> + +<blockquote> +<p style="font-size: 1.2em;">VOLUMES PUBLICADOS:</p> + +<p>I—Amor e melancolia.</p> + +<p>II—A chave do enigma.</p> + +<p>NO PRÉLO:</p> + +<p>III—Cartas de Ecco e Narciso.</p> +</blockquote> + +<p> </p> +<p> </p> +<p> </p> +<p> </p> + +<div style="text-align: center;"> + +<p><img src="images/castilho.png" alt="Retrato de Castilho" border="0"></p> + +<p>CASTILHO<br> + +<small>AOS CINCOENTA E NOVE ANNOS</small><br> + +<small>(Reproducção de uma litographia feita em Paris por Desmaisons sobre +photographia feita em Lisboa por Nasi)</small></p> +</div> + +<p> </p> +<p> </p> +<p> </p> +<p> </p> + +<div style="text-align:center;margin-left:auto;margin-right:auto;"> +<p style="font-size: 1.2em;">OBRAS COMPLETAS DE A. F. DE CASTILHO</p> + +<p style="font-size: 0.8em;">Revistas, annotadas, e prefaciadas por um de seus filhos</p> + +<p>======== 2.º ========</p> + +<p style="font-size: 3em;">A CHAVE DO ENIGMA</p> + +<hr width="15%"> + +<p style="font-size: 1.2em;">NOVA EDIÇÃO</p> + +<p> </p> +<p> </p> + +<p><img src="images/editor.png" alt="Logotipo do Editor" border="0"></p> + +<p> </p> +<p> </p> + +<p>LISBOA<br> + +E<small>MPREZA DA</small> H<small>ISTORIA DE</small> P<small>ORTUGAL</small><br> + +<small><em>Sociedade editora</em></small><br> + +<small>LIVRARIA MODERNA<br> + +<em>R. Augusta 95</em><br> + +TYPOGRAPHIA<br> + +<em>45, R. Ivens, 47</em></small><br> + +<p>1903<span class="pn"><a name="pag_5">{5}</a></span></p> +</div> + +<p> </p> +<p> </p> +<p> </p> +<p> </p> + +<div id="corpo"> +<h1><a name="SECTION00100000000000000000">ADVERTENCIA ESPECIAL Á «CHAVE DO +ENIGMA»</a></h1> + +<p>Quando sahiu em 1862 a nova edição do <em>Amor e melancolia</em>, entendeu o +poeta enriquecel-a com o precioso appenso que intitulou <em>A chave do +enigma</em>.</p> + +<p>N'essas paginas de brilhante prosa explicou ás legitimas curiosidades do +publico portuguez os seus amores com a incognita recolhida do mosteiro de +Vairão. Precedeu a narrativa d'esse caso com a historia da meninice, +illustrando as suas formosas paginas com esboços de retratos de familia: sua +Mãe, seu Pae, seu irmão querido, e outros, que servem de documentos +autobiographicos, entre descripções de sitios, e ricas digressões sobre +variados assumptos.</p> + +<p>A incognita de Vairão era a senhora D. Maria Isabel de Baêna Coimbra +Portugal, com quem o poeta ajustou casamento, sem ainda se conhecerem +pessoalmente, e com quem veio a casar na egreja do mosteiro a 29 de Novembro de +1834; filha de Francisco da Silva Coimbra de Carvalho, e de D. Maria Fortunata +Agostinha de Portugal.<span class="pn"><a name="pag_6">{6}</a></span></p> + +<p>Algumas rapidas annotações irão acompanhando o texto; no mais deixemos falar +o poeta. Melhor que ninguem nos saberá iniciar nos segredos da sua vida, que +n'este livro decorre desde 1800 até 1837; isto é: desde o berço d'elle até á +campa da sua virtuosa e digna primeira mulher, inspiradora, companheira, +confidente, e amiga.</p> + +<p>São paginas de saudade, em que elle a retrata, e se retrata a si.</p> + +<p> </p> + +<p style="text-align: right;">O<small>S EDITORES.</small></p> + +<p> </p> + +<p><em>Áquella que já não sente, pendura com mão tremula n'um ramo do seu +cipreste esta pequena corôa</em></p> + +<p> </p> + +<p style="text-align: right;"><em>O Autor.</em><span class="pn"><a +name="pag_9">{9}</a></span></p> + +<p> </p> + +<h1><a name="SECTION00200000000000000000">A CHAVE DO ENIGMA</a></h1> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p style="text-align: right;">Dezembro de 1861</p> + +<p> </p> + +<p>Digam embora que me biographei; vou escrever uma pagina da minha vida.</p> + +<p>Se mais ninguem a lêr, lêl-a-hão os meus amigos. Ella tambem, êrma de +interesses grandes, desenfeitada de estilo, e só attendivel, se o fôr, por +verdade e affecto, aspira unicamente a captivar a attenção dos poucos para quem +um murmurio de folhas n'um retiro de estio, e de vez em quando uns gorgeios ou +pios de duas aves que se entrereclamam emboscadas, supprem conversações, +leituras, e até pensar.</p> + +<p>Emfim, se nem para os meus intimos valer o que eu tenho de bosquejar, muito +saudoso de tempos que lá vão, ficará sendo só para mim, e para quem m'o +inspirou; ¡ah! quem m'o inspirou já m'o não póde lêr, mas por ventura o ouve. +Será um devaneio,<span class="pn"><a name="pag_10">{10}</a></span> e um +solilóquio; será uma folha sôlta de uma deliciosa arvore longinqua, hospedeira +minha ha muitos dias; folha que uma viração despegou, volveu nos ares, me +atirou á fronte, e me lançou aos pés, para ahi fenecer esquecida.</p> + +<p>Não vale a pena de mais prologo. Nem tanto me está parecendo agora que fosse +necessario.<span class="pn"><a name="pag_11">{11}</a></span></p> + +<h2><a name="SECTION00210000000000000000">I</a></h2> + +<p>Antes de tudo, releva conhecer o individuo. Não é empenho muito facil; mas +tentemos.</p> + +<p>Levanta-se logo a primeira difficuldade d'este capitulo na averiguação da +identidade:</p> + +<p>Reflicta cada um comsigo mesmo n'este grave ponto: ¿a repetição de nome, a +similhança das feições, a conservação, com mais ou menos mudanças, da indole +primitiva, dos gostos, e das relações activas e passivas com as pessoas e +coisas do mundo externo, bastarão para que, em boa philosophia, um homem +qualquer se repute unidade consoante, e unico indestructivel no meio da +metamorphose universal? ¡Embaraçoso problema!</p> + +<p>O espirito immaterial e immorredoiro quer, por instincto, por egoismo, por +fé, acredital-o; mas o estudo da Natureza, e a propria experiencia quotidiana, +desmentem em boa parte essa presumpção.</p> + +<p>O individuo não é só a alma; o corpo que a reveste, a serve, e tantas vezes +a domina, é mais que sujeito a continuas e espantosas variações; renova-se +incessantemente, perecendo e renascendo a cada instante; a sua carne de hoje +era ainda hontem vegetaes, ruminantes, aves, peixes, agua nas fontes, gazes na +atmosphera, calorico no sol, terra debaixo dos pés, e electricidade sabe Deus +por onde; congregaram-se<span class="pn"><a name="pag_12">{12}</a></span> essas +myriadas de particulas... existiu; ámanhan partirão, todas ellas destacadas +para novas combinações e destinos, sem que o espirito lhes haja sentido a fuga, +porque outras particulas, accorridas do universo, terão vindo rendel-as sem +estrondo nem abalo.</p> + +<p>N'este sentido cada individuo é simultaneamente filho, irmão, e pae, +influidor e influido, conservador, destruidor, modificador, herdeiro, +usufructuario, e testador, de quantos entes sensitivos, vegetativos, +inorganicos, imperceptiveis, imponderaveis, são, como elle, parcellas +componentes do planeta em que elle se proclama senhor e potentado.</p> + +<p>Mas se esta desidentificação incessante do corpo escapa ás nossas +percepções, por não apresentar de hora para hora mudanças apreciaveis no ser, +no sentir, e no pensar, já assim não é quando nos outros, e em nós mesmos, +confrontâmos a infancia com a puericia, a puericia com a adolescencia, a +adolescencia com a virilidade, a virilidade com a velhice, a velhice com a +decrepidez; ou, supprimindo os graus intermedios para maior evidencia, a +caducidade com a madureza, a madureza com o desabrochar no berço.</p> + +<p>¿Que ha ahi de commum?!</p> + +<p>Unicamente o nome, accidente impessoal, insignificativo, nullo.</p> + +<p>O corpo é manifestamente diversissimo, e em tudo outro; e com o corpo outro +e tão diverso, outras e diversas egualmente são as faculdades intimas, outro e +diverso o sentir, o querer, o recordar, o ambicionar.</p> + +<p>Não são épocas de uma vida; são vidas verdadeiramente distinctas, talvez +contrarias, que se encadeiaram por um trabalho simultaneo e occulto da Natureza +e da fortuna, dos successos e de nós mesmos.</p> + +<p>É por isso que o louvor ou vituperio, a recompensa ou o castigo, conferidos +tarde, conteem sempre mais ou menos, uma injustiça distributiva; e talvez duas: +preteriram aquelle que fez, e já não existe, e vão-se dar ao que existe mas não +fez. ¡Que de vezes se não haverá suppliciado um justo pelo malfeitor que annos +atraz o precedêra, e nada mais lhe legára que o seu nome e umas parecenças no +semblante!<span class="pn"><a name="pag_13">{13}</a></span></p> + +<p>A solidariedade do homem comsigo, em remotos prasos da existencia, é pois +tão infundada, como a de um individuo com outros, com quem nenhuns vinculos o +prendem, e que operam, independente cada um na sua esphera, como elle na sua +propria.</p> + +<p>D'aqui vem que, sendo altamente suspeita de romance toda e qualquer historia +que se escreva de um personagem, ou de um povo (ás vezes remotissimos em logar +e tempo), sobre tudo quando o narrador pretenda assignar como causas aos +successos o que se passou sem testemunha em tal ou tal coração, em tal ou tal +espirito, pouco menos se eximirá de similhantes suspeições a noticia que o +homem mais sincero pretenda transmittir-nos de si mesmo. «Escreve o seu +preterito»—dirão os benevolos; mas escrever o seu preterito ¿não é escrever já +de outrem?</p> + +<p>Demais: ¡quantas perplexidades! ¡quantas conjecturas temerarias! ¡quantas +supposições de boa fé, mas erroneas, quando ao clarão interrupto de +reminiscencias enfraquecidas pretender levantar do pó as flôres, e os espinhos +que n'elle se converteram, reedificar edificios, sobre os quaes se levantaram +edificios novos, insuflar vida a sombras, resuscitar o coração de outr'ora, e +achar a harpa interior com todas as suas cordas e a mesmissima afinação!</p> + +<p>São estas, para quem bem o pensar, umas difficuldades, e tambem uns +desenganos, e umas tristezas muito grandes. Nunca tão claro o senti, como ao +reler agora este pobre livro. Forcejarei todavia por trazer á vossa intimidade, +meus amigos, o autor d'elle, se ainda me fôr possivel, depois de tão apartados +um do outro.</p> + +<p>Um bem que ha n'esta desidentificação, n'este apartamento dos dois +<em>eus</em>, é que, se algum bem me fôr necessario dizer do que foi, já ao que +é se não poderá carregar em conta de vaidade.</p> + +<h2><a name="SECTION00220000000000000000">II</a></h2> + +<p>Presupposto, como bem é de razão, que a Providencia fada para um destino +especial a cada um dos que vimos a este mundo, ¿para que nasceria eleito,<span +class="pn"><a name="pag_14">{14}</a></span> ou precito, um menino que ha hoje +sessenta e um annos desabrochava em plena luz, e recebia um nome que havia de +ser meu? Cuido não me enganar muito affirmando, que simples e exclusivamente +para haver ahi lá para o diante mais um cantor de affectos.</p> + +<p>¿Que aproveita ao Pae da Natureza que haja mais um amante, mais um cantor? +Nada sem duvida, pois lá tem em roda de si, para o amarem e cantarem, os seus +Anjos; mas no seu systema de harmonias, entraram tambem os gorgeios dos +passaros cá em baixo, musica das florestas e do oceano, a voz suavissima da +mulher, e os canticos do poeta.</p> + +<p>Assim como nem tudo na terra são seáras e frutos, nem tudo na humanidade lhe +prouve a Elle que fosse laborioso e productivo no sentido grosseiro e restricto +da palavra, como presumem economistas.</p> + +<p>Emquanto o cavallo peleja, o boi lavra, a ovelha elabora o leite e a lan, um +insecto o mel, outro a seda, plantas a saude, minas os metaes, ha boninas que +só alegram e perfumam; ha murmurios no ar, e visões coloridas no ceo, que só +recreiam: ha pedrarias scintillantes, que só adornam; ha balsamos, que só +rescendem; ha o rouxinol para idealisar os mysterios da noite; ha no eremita a +oração muda que se exhala para as alturas como aroma; ha na alma que sonha, +miragens estereis, mas voluptuosas; e ha, no sonhar perenne do poeta, com que +pague de sobra a seus irmãos as poucas espigas que rebusca das ceifas, os +quatro palmos de solo em que se alberga, a agua da fonte commum em que se +dessedenta, e o ar de que aspira reclinado o seu quinhão, para o exhalar +convertido em melodias.</p> + +<p>Fadada vinha pois, segundo cuido, aquella creança só para poeta, e poeta +unicamente de branduras. Para a realisação do horóscopo se entendeu a Fortuna +com a Natureza, como para o diante vim a reconhecer, quando, passadas as +angustias da preparação, que assaz foram desabridas, e porventura insólitas, +pude, chegado ao alto, abranger com um relance todos os pontos percorridos, +vel-os, por effeito da distancia, aproximados, e descobrir-lhes então +finalmente o systema e a harmonia.<span class="pn"><a +name="pag_15">{15}</a></span></p> + +<h2><a name="SECTION00230000000000000000">III</a></h2> + +<p>Foi a infancia do innocente, que eu ainda me recordo bem de ter conhecido, +rosada, doirada, chilreada, alegrissima, como quasi todas as auroras. Mas os +penates do seu berço haviam sido na cidade; e os passaros cantores não se criam +e educam bem senão pelas amenidades tranquillas e scismadoras desses campos.</p> + +<p>A ser verdade que a sciencia, com a imposição das suas mãos escrutadoras +sobre uma cabeça, pode prognosticar o que a organisação interior contem de +germes intellectuaes e moraes, capazes de grande producção, se as +circumstancias lhes favorecem o desenvolvimento, parece-me que, desde que essa +previdente fada humana,—a sciencia—annunciasse uma indole poetica, a +sociedade mesma deveria tomar á sua conta essa nova indole privilegiada; e a +fim de a pôr no mais seguro caminho para os seus destinos, fazel-a crear, o +mais que possivel fosse, no seio da Natureza, sobre a terra larga que produz, +ri, e canta, e debaixo do ceo que inspira, brilha, enamora, e enleva.</p> + +<p>As forças do camponez, as graças de saude da camponeza, envergonham os +enxames de frivolos e ephemeros dos grandes focos de população, ¿E porquê? A +causa não deve ser outra senão, que das barreiras a fóra, longe do alcance do +immenso carcere, se vive mais conchegado com a Natureza, mais debaixo da Mão +invisivel, mas tepida e suave, do Creador.</p> + +<p>Tudo na cidade é artificial (¡e de quão ruim e desentoada artificialidade as +mais das vezes!). São prosaicas as occupações; prosaicos e arriscados os +projectos e os desejos; apertadas, escuras, doentias, as vivendas; tolhidos os +trajos; acanhadas as perspectivas. Se se escuta uma ave, é mais a queixar-se do +captiveiro em que definha, do que a chamar pela companheira, que não tem, para +fabricar berço a filhos, que nunca ha-de ter. Se se vê uma planta, uma d'estas +mudas filhas de Deus que tanto sabem e dizem, tão bem florescem e medram na sua +pacifica republica, é enfézada e triste na prisão de um vaso, debruçada<span +class="pn"><a name="pag_16">{16}</a></span> para uma encruzilhada immunda lá em +baixo, ou alando-se n'um saguão á espreita do sol quando elle atravessar +fugindo lá por cima pela estreita fita do céo, do céo immenso em toda a parte, +e aqui só aos retalhos e sumiticamente repartido, ¿Que é da viração balsamica +por estas ruas? ¿Que é da madrugada com os seus descantes? ¿o meio dia com os +seus guardasóes verdes e movediços de trinta braças? ¿o crepusculo com as suas +despedidas saudosas? ¿a noite com a sua orchestra suave tão grata ao amor, e +com que se dão tão bem os somnos, os sonhos, as vigilias? Tudo isto, e +infinitamente mais, tudo quanto era Natureza, desterrou-o a mão do homem quando +desarraigou as arvores para plantar os seus estirados colmeiaes de pedra; +desterrou as relvas, e as seáras, para assentar as praças; calçou as ruas, que +não despontasse olhinho verde; multiplicou as fabricas, o commercio, o +estrondo, para que os harmoniosos filhos do ar só muito por alto, e fugindo, se +aventurassem a atravessar tão desmedida e nevoenta cratéra de prosa, de +cuidados, de fadigas, e de desgostos.</p> + +<p>Longe de mim negar puerilmente ás cidades suas vantagens sociaes; digo só +que para a poesia se não fizeram ellas, e que, se n'essa frágoa algum engenho +poetico resiste, se ahi canta, nunca ha-de ser tanto, nem tão bom, nem tão +innocente, nem tão perfumado, como seria sem duvida nos campos; e apostaria eu +uma hora de vida aldean, e até casaleira, contra dez annos bem medidos de um +vegetar em côrte (apostaria e ganhava), que tudo quanto mais deliciosamente +cantaram poetas em cidades, se elles nol-o quizessem ou soubessem declarar, das +suas reminiscencias ruraes, porventura remotas e meio apagadas, lhes proveio.</p> + +<p>De Virgilio só tiraria eu provas sobejas, irrefragaveis, se para coisa tão +intuitiva fôssem ellas necessarias. Aquelle Virgilio, que florescia em Roma +para coroar de gloria Cesares e deuses, tinha as mais vivazes raizes do seu +genio, tão suavemente melancolico, longe e bem longe, onde ninguem lh'as +enxergava: pelos cômoros, de murtas da aldeia de Andes, pelas margens do Mincio +ciciadas de cannaviaes.</p> + +<p>Redescendâmos de tamanho homem ao pequenino de quem iamos... historiar não, +que lhe não sabemos historia, mas simplesmente conversar.<span class="pn"><a +name="pag_17">{17}</a></span></p> + +<h2><a name="SECTION00240000000000000000">IV</a></h2> + +<p>Importava que lhe chegasse com cedo a iniciação campestre. Com as impressões +iniciaes se cunha a feição caracteristica de muita alma, se não fôr de quasi +todas. Bem estreado aquelle, a quem as primeiras ideias do mundo exterior, +puras e amoraveis, advieram afinadas pelo instrumento que a Providencia lhe +armára dentro. Isso ao menos teve elle em seu favor.</p> + +<p>Uma queda, que por pouco lhe não destruiu a vida logo no começo, foi seguida +de resultados assustadores: pallido, descarnado, abatido, pareceu que poucos +passos mediria do berço á sepultura. Uma noite acorda suffocado; golfa sangue +em torrentes; sobresalta-se a casa; acredita-se que já não tornará a +amanhecer-lhe; acodem os medicos; resolve-se como ultimo e unico regresso fuga +precipitada para o campo.</p> + +<p>Ao rasgar do dia já transpunha as portas da Capital, reclinado no regaço +materno, rodando a carruagem tão vagarosa e precatada, que facil se adivinhava +ir depositaria de uma existencia que ao minimo abalo se esvahiria.</p> + +<p>Tanta coisa proxima e de vulto se me tem desluzido da lembrança, e ainda +aquella noite angustiosa, e aquella manhan suavissima, aquella morte pranteada, +e aquella resurreição de alleluia atravez de fragrancias, sombras verdes +bordadas de oiro pelo sol, e emboras dos passarinhos, me estão impressionando +como presentes. Não sei, nem ha já quem me diga, a quantos, nem em que mez, nem +em que anno, fôra aquillo; o que sei é que todas as copas estão folhudas, e +muitas floridas; que tudo quanto vem vindo para nós por um e outro lado do +caminho ri contente, como em domingo de festa: as casas de quinta com as suas +varandas e vidraças illuminadas do sol novo; bosques ociosos debruçando a +cabeça por cima de um muro amarello para nos espreitarem; a porta vermelha +entreaberta de uma horta viçosissima; aqui piteiras esguias e silvas recortadas +nos cômoros; adiante estatuas, e vasos de marmore lavrados; um oiteiro com o +seu rebanho a fluctuar,<span class="pn"><a name="pag_18">{18}</a></span> e lá +no cimo um moinho bracejando e cantando no trabalho, emquanto o dono á +janellinha escuta ocioso a viração de Deus que lhe está chovendo pão lá +dentro.</p> + +<p>Notava eu, em meio d'este paraizo, lagrimas nos olhos de minha mãe, e não as +comprehendia; deviam ser de commoção.</p> + +<p>Minha mãe tinha alma poetica; (lá coração poetico todas as mães o teem). Se +a tivessem apparelhado com educação e instrucção apropriadas, poderia ter +escripto deliciosamente; florejou sem cultura, e sem saber que florejava. Nos +festins de familia, quando a saude dos seus, a presença de quantos lhe eram +caros, e a prosperidade da casa, a exaltavam, improvisava versos faceis e +melodiosos, em que scintillavam faiscas de talento, e certa graça natural; +pareciam aquelles uns meros reflexos involuntarios do seu contentamento intimo; +e eram; mas o contentamento intimo só tem resplendores taes n'um espirito de +eleição.</p> + +<p>Meu pae, a quem a severidade da sciencia e a supremacia da razão não +deixavam logar para ser poeta, que não tinha sequer nascido com a organisação +propria para isso, mas que, pelo complexo de outras suas qualidades eminentes, +era uma das pessoas mais proprias que eu nunca vi para reconhecer, aquilatar, +criticar, e dirigir poetas; meu pae, costumava repetir que, se minha mãe não +tivera sido obrigada a repartir todas as suas horas pelas occupações +domesticas, e toda a sua poesia nativa pela educação dos filhos, se fôsse uma +cenobita, por exemplo, com poucos livros, muito remanso, e a Natureza, por +certo deixaria de si boa memoria para entre as escriptoras portuguezas.</p> + +<p>Deviam ser logo aquellas preciosas lagrimas, com que minha mãe me +rebaptisava renascido, menos causadas do manso alvoroço festival de terra e céo +em primavera, que da lucta em que lhe iam, no coração, o temor e a esperança.</p> + +<p>A immensa viagem, que não passou de uma legua, deveu lançar-me no espirito +delicado e absorvente, os primeiros germes dos meus, já agora indestructiveis, +amores, para com as lindezas do universo.<span class="pn"><a +name="pag_19">{19}</a></span></p> + +<h2><a name="SECTION00250000000000000000">V</a></h2> + +<p>¿Conheceis, para além do arvoredo do Campo Grande, no retirado sitio do Paço +do Lumiar, aquelle edificio, nobre sem fausto, que faz frente ao pequeno Largo +do Poço, e que talvez communicou á povoação o seu nome aristocratico? Eis ahi o +termo da piedosa peregrinação de minha mãe; eis ahi onde a reflorescencia me +aguardava, e com ella novas e abundantes sensações, das que a minha indole ia +absorver com avidez, e assimilar, para fructificar alguma poesia em vindo a +quadra.</p> + +<p>Recebeu-nos com alvoroço, e com affecto patriarchal nos hospedou, a familia, +ainda nossa parenta, a quem a vivenda pertencia, familia ainda mais ligada +comnosco por laços de amisade, e de leal e não interrompida convivencia. +Compunha-se de mãe, uma filha entre doze e treze annos, e seu irmão pouco mais +idoso.</p> + +<p>Amalia (era o nome da minha pequena prima) possuia, com o semblante mais +vivo e sympathico, a indole mais expansiva e carinhosa; os seus olhos, cujo +extraordinario brilho eu estou ainda admirando, eram dotados de um magnetismo +precoce; é tal, que até os de uma creancinha, como eu, se pasciam n'elles com +delicias; mas não era ainda assim nos olhos que estava o seu maior feitiço; a +sua voz tão suave, como nunca depois ouvi outra alguma, sahia por uma bocca tão +singularmente pequenina, que podéra quasi quasi haver tentação de a extranhar á +primeira vista, se não parecesse, com o seu sorriso habitual, uma rosinha das +mais pudibundas a entreabrir-se; era um ósculo perpetuo da innocencia.</p> + +<p>Amalia, com a superioridade que lhe conferia sobre mim a differença dos +annos, quiz tomar-me desde logo maternalmente sob a sua protecção, +prohibindo-me, por interesse na minha saude, o participar dos brincos +tumultuosos, para os quaes seu irmão me provocava. Meu primo era já então +militar por genio; a barretina empennachada, o boldrié lustroso, a espada de +madeira, as dragonas, e a banda de official, com que a si mesmo se despachára, +faziam-n-o<span class="pn"><a name="pag_20">{20}</a></span> preferir aos +passatempos sedentarios, mais conformes aos gostos de sua irman, e á minha +fraqueza, o estrondo e o movimento.</p> + +<p>D'ahi provinha que as mais das vezes, emquanto elle marchava a passo dobrado +ao som de um tambor imaginario, esgrimia contra uma estatua, ou degolava alguma +papoila trémula, Amalia e eu, pacificamente sentados muito mão por mão a uma +sombra do jardim, toucavamos de minhonetes e amores-perfeitos as suas bonecas, +emmolhavamos ramalhetinhos para nossas mães, e interrompiamos a cada momento a +esmerada tarefa, logo que uma abelha doirada, uma borboleta branca ou azul, ou +um pio de ave escondida, como que por malicia, entre as folhas, vinham suscitar +a minha curiosidade, e accender-me exclamações de maravilha e contentamento. +Minha prima gosava-se da minha alegria, e tinha vaidositamente o ar de ser ella +quem me estava fazendo as honras da primavera.</p> + +<p>Dissereis, se reparasseis, como eu, na complacencia com que ella +contemplava, ora o seu jardim tão formoso, ora o seu priminho tão attento, que +era uma poetisa desvanecida com o effeito do seu ultimo poema n'um ouvinte +encantadissimo; e que tudo aquillo que eu amava no seu jardim, os arbustos +enfeitados, os ninhos palreiros, os insectos volteantes, as aguas harmoniosas, +tudo ella tinha feito, ou pelo menos aconselhado e pedido a um Anjo feiticeiro, +feiticeiro como ella. Eu quasi que assim o acreditava; se me tivessem dito que +ao seu mando podiam rebentar das pedras lyrios e rosas, ia pedir-lhe esse +prodigio como a coisa mais natural de todo o mundo.</p> + +<p>Creio que nos amavamos; mais que no sentido da amisade; mais até que no +sentido do amor; ¡no sentido do paraizo terreal, quando a humanidade vinha +despontando resplandecente de innocencia!</p> + +<p>Amavamos de certo; posso affirmal-o pela viveza e saudade com que estou, +agora mesmo, sonhando tudo aquillo.</p> + +<p>Não sei se o coração me latejava; sei que me palpita agora com a maior +força; sei que dera eu hoje o throno do Celeste Imperio, e todos os thronos ao +mundo, e até a gloria de Homero, e de, todos os poetas, pelo revivimento para +mim de tal primavera<span class="pn"><a name="pag_21">{21}</a></span> com todas +suas circumstancias, embora com a certeza de vir eu proprio a murchar, e +destruir-me com a sua ultima flôr.</p> + +<h2><a name="SECTION00260000000000000000">VI</a></h2> + +<p>Todos os ridentes allegorisadores da antiguidade falaram de um Cupido filho +de Venus, armado de fogo e settas, cruel e suave ao mesmo tempo, incoercivel e +fugitivo como os sonhos. Existe esse, não ha duvida; mas ha outro amor, podéra +eu affirmar-lhes, que nasceu do casamento de uma açucena com o zephyro; que +mesmo suspirando está a rir; que sóbe em espiraes melodiosas para o ceo até se +perder de vista, mas não foge; reapparece, e redescende fiel ás mesmas +amenidades d'onde levantára o vôo. Não fere, nem envenena; encanta. Não accende +fogo para deixar cinzas; brilha na alma como sol. Não se rodeia de aves de +agoiro, nem de sonhos temerosos. Não desvela as noites, já com prazeres +instantaneos, já com delirios, e arrependimentos contumazes, mas se imbebe na +andorinha do beirado para nos acordar cada ante-manhan com as alegrias puras +que ella sabe. Não cura de ciumes; quizera que todos amassem como elle. Não é +um amor concentrado, exclusivo, incompleto, que só põe a mira n'um objecto +caduco; é outro amor profundo e infinito como a Creação, com cujas maravilhas, +maravilha elle proprio, se renova; a sua venda, se a tem, não escurece; é toda +de brilhantes diaphanos e prismaticos, que redobram os prestigios do Universo. +É o primogenito de todos os amores, e o que a todos sobrevive. É o que +serviram, adoraram, e nos ensinaram a adorar, sem nome, todos os grandes +poetas, desde Orpheu até o <em>Thomaz dos passarinhos</em>. É o que a virgem +mais ingenua está sonhando voluptuosa, quando absorta suspira, e parece triste. +É o que á mente do religioso levanta escadas floridas para o Empyrio. É o que +annuncia, como boa nova, ao caduco, uma arregaçada de saudades, um chorão, um +gorgeio estivo, e prateados raios da lua para cima da cova. É, em summa, o que +aos impotentes da infancia segreda tantas coisas ineffaveis que os alvoroçam, e +de que o outro amor, em chegando, ha-de receber porventura muita herança.<span +class="pn"><a name="pag_22">{22}</a></span> Tal era a mysteriosa divindade que +presidia aos nossos passatempos, sem que eu então a adivinhasse.</p> + +<p>Amavamos pois decididamente.</p> + +<h2><a name="SECTION00270000000000000000">VII</a></h2> + +<p>Vigiava-nos inquieta, suspeitosa, sollicita, a mãe de Amalia... Não riais: o +seu coração materno tinha razão; um coração materno tem razão sempre. Não era +um impossivel o que ella temia; apavorava-a um perigo real; e quanto a ella, +segundo todas as mostras, muito provavel, ¿Que perigo? o da communicação da +minha doença a um ente a quem ella sentia vinculada a sua existencia, e sem o +qual, ainda que o quizesse, não saberia já viver.</p> + +<p>O sangue que eu perdêra, a minha debilidade, todo o meu exterior, induziam a +crer que a enfermidade que trabalhava tão activa por dentro em me destruir, +¡era.... nada menos que a tysica! mal ainda então rarissimo, com que hoje pela +generalidade se vive familiarisado, mas do qual no começo d'este seculo nem +quasi se ousava proferir o nome senão em baixa voz.</p> + +<p>A familia, em cujo seio despontava tal phenomeno, forcejava pelo encobrir a +todo o custo aos de fóra, como um castigo divino e uma ignominia; e abria ella +mesma uma area de respeitoso terror, em cujo centro languescia, soccorrida, mas +desamparada, a pobre victima. A roupa, os moveis, até a loiça do seu serviço, +tinham marca, para que ninguem lhes tocasse. O confessor, o medico, o amigo, os +filhos, a esposa, não chegavam ao alcance do seu halito; era o leproso; era +quasi o damnado aquelle triste esqueleto vivo, envolto na sua pelle livida e +ardente, e a quem, para luxo de desgraça, a Natureza subtilisava a vista e o +ouvido, conservando-lhe inteiras a memoria e a intelligencia até á ultima. +Emfim, logo que o espelho apresentado aos labios por um braço estendido de +longe, e tremente, testemunhava com o seu cristal não empanado, que o ultimo +bafo se esvaecera, ainda a terra o não tinha recebido, quando já os seus +vestidos, o seu leito, a sua cadeira de martyrio, o livro das suas derradeiras +orações, tudo era entregue<span class="pn"><a name="pag_23">{23}</a></span> ás +chammas, e as mais prolixas ceremonias de lustração, tanto religiosas como +physicas, acudiam á poisada; acontecendo, muitas vezes, que nem depois de +picadas e renovadas as paredes, havia temerario que se aventurasse a +occupal-a.</p> + +<p>Deus louvado, o tempo não tardou em mostrar, pelas mais irrefragaveis +provas, que a minha enfermidade, com toda a sua carranca de profunda e fatal, +era passageira, e que d'aquella frágoa poderia sahir, como de feito sahiu, uma +constituição vigorosa e duradoira.</p> + +<p>Aos nossos amores, tão bem correspondidos de parte a parte, nem sequer +faltou pois o estimulo de uma quasi prohibição, e o sainete de terem de se +andar recatando, sobresaltados ao minimo rumor, como verdadeiros criminosos. Se +não fosse a presença de minha mãe, e o affecto e delicadeza com que sua prima a +tratava, ter-nos-hiam, provavelmente, separado, enclausurando na casa a amante, +e deixando livres, mas desertos, para mim, o jardim e a quinta, largo e formoso +banho dos ares balsamicos, de que eu então sobre tudo necessitava. Quem havia +de lucrar com isso era João, meu primo; o que sua irman perdia, ganhava-o elle; +era um namorado de menos, e um soldado de mais para o seu regimento, em que até +então era elle só a força e o commando, o porta-bandeira e o tambor.</p> + +<p>Havia muitas horas, entretanto, em que a mãe de Amalia, com a razão, ou com +o pretexto do estudo ou dos bordados de sua filha, a retinha no gyneceu da +casa; essas horas (bem o sabem todos os que amaram) deviam-me parecer +eternidades; para as abbreviar, ora ia sentar-me n'um banquinho ao pé do seu +bastidor, enlevado em vêr rebentar flôres debaixo dos seus dedos, e ouvindo os +contos, que ainda hoje me lembram, da velha e gorda cosinheira Escholastica; +ora me detinha encostado ao grande portão de grade de ferro no lado fronteiro +do pateo, com os olhos pregados na janella do quarto de lavor; feliz quando de +traz da vidraça me alvorecia a miude, saudando-me com um sorriso, aquella +pequena rosa que eu esperava, e que já de lá como que me estava ensaiando os +beijos que eu d'ali a pouco havia de colher ás escondidas no caramanchão, +especial asylo, e o mais seguro, dos nossos furtos.<span class="pn"><a +name="pag_24">{24}</a></span></p> + +<h2><a name="SECTION00280000000000000000">VIII</a></h2> + +<p>É uma grande pena que não saibam as creanças escrever, e não registem, para +depois as lerem, as suas memorias, e que a torrente caudalosa dos successos +ulteriores lh'as desgaste e confunda quasi todas; a sua historia poderia ser +muito mais gentil, muito mais elegante, muito mais instructiva, que as +historias e novellas de outras idades.</p> + +<p>Á mingoa de taes documentos, que bem preciosos me seriam agora, fui hontem +19 de Dezembro d'este 1861 visitar, ao cabo de tantos annos, logares tão +queridos, e evocar n'elles os phantasmas verdes dos arbustos do meu tempo, o +phantasma candido d'aquella que eu tantas vezes arraiei, como gentil Maia, á +custa d'elles, e o meu proprio phantasma pequenino, alegre, buliçoso, tão puro, +tão amante, e diante do qual, como diante d'ella, eu me ajoelharia, se o +encontrasse. Palpitava devéras ao approximar-me, como sem falta deve acontecer +a quem se acerca de um logar de mysterios, ou a quem excava um solo, de que +espera enthesoirar reliquias santas da antiguidade. Parecia-me que o mal +transparente veo, que, tanto ha, me collocou o mundo n'uma penumbra, de repente +se levantaria por um milagre da vontade e do affecto, e que eu ia rever tudo +tal como o levava no coração e na saudade.</p> + +<p>¡Ai ninho de tantas delicias! ¡quem se atreveu a desfazer-te! De tudo que +ali havia, e que era tantissimo, ¡quasi que só eu resto! Não importa: +profanados, perdidos mesmo, esses logares conservam, indelevel ainda para a +minha alma, a sua primitiva sagração. Tornarei a visital-os na proxima +primavera; talvez se me recordem então do que hontem só confusamente lhes +lembrava; encontrarei porventura valverdes florídos, rainunculos matizados, +quinquagesimos descendentes, e mais, dos que tão suavemente brilhavam no meu +tempo; e esses alguma coisa saberão relatar-me de tão antiga historia. O +portico viçoso, estrellado de jasmins, que bordava de sombras graciosas o +vestido branco de Amalia, quando, abrigados ali n'um meio dia de verão, +escutavamos as cigarras emboscadas, ha-de por força com a sua fragrancia +falar-me d'ella,<span class="pn"><a name="pag_25">{25}</a></span> e avivar-me +no espirito um cardume de sensações lyricas ineffaveis.</p> + +<p>Por agora, que estou dictando a uma legua de distancia estas paginas, talvez +indifferentes a todo o mundo, e frias como a estação em que nascem, que me acho +diante de outras arvores nuas, que aguardam, saudosas como eu, dias de festa, o +mais que posso dizer é que a primeira impressão photographica da bella +Natureza, toda esplendida e de uma admiravel nitidez, foi ali que a minha mente +a recebeu. Um tal quadro, que tinha de me ficar no sanctuario intimo para todo +sempre inspirativo, fecundo, milagroso, e contendo a synthese da galeria do +Universo real e imaginario, mal podéra haver tido tal perpetuidade e tal +virtude, se lá m'o não collocassem uma fada e um genio, uma mulher e um amor; +mulher recem-cahida das estrellas e ainda ignorante da sua destinação; amor +puro como o dos Anjos encarregados de enfeitar a Natureza, e que, terminada a +tarefa, dormitam entre os obeliscos que levantaram, e sonham céo.</p> + +<p>Assim, ao mesmo tempo que as minhas forças medravam a olhos vistos de dia +para dia, e que os diversos receios das duas mães diminuiam de manhan para +manhan ao alegre florir do meu aspecto, se foi a minha indole compondo com duas +religiões, que a final se reduzem a uma só: o culto das gemeas e eternas +amantes universaes,—a Natureza e a Mulher.</p> + +<h2><a name="SECTION00290000000000000000">IX</a></h2> + +<p>De tão ameno passeio na alva da vida chego de repente á escarpa de um +precipicio, d'onde é inevitavel o despenho para um abysmo.</p> + +<p>Encetava eu apenas a carreira do estudo, tão menino, tão menino, que o +ouvirem-me já ler, e verem-me formar caractéres, era (nunca a minha vaidade o +esqueceu) um thema de admirações e de felizes prognosticos para os parentes e +amigos da familia. De repente outra doença, mais terrivel que a primeira, e +menos esconjuravel do que ella, não paga com martyrisar-me, não contente de +balançar-me por um fio largos mezes entre a vida e a morte, me atira vivo para +um sepulcro! Eu respirava; mas os bellos olhos,<span class="pn"><a +name="pag_26">{26}</a></span> idolatras das flores e de Amalia, e vangloria de +minha mãe, não sabiam se havia ainda no ceo o sol de Deus! É impossivel +recordar-me d'esse prazo, prazo de não sei quantas eternidades, sem que ainda +agora o coração se me confranja.</p> + +<p>Imaginae um homem á hora em que se fosse embarcar n'um bergantim doirado, +por um mar de prata, com virações balsamicas dos vergeis da terra, cuidando já +velejar horizonte em fóra para um mundo de delicias... e lançado de improviso +no mais fundo subterraneo de uma torre. Esse homem tão desafortunado, e +desafortunado tão sem culpa, que nem ainda era homem, fui-o eu; e tanto mais +sem-ventura, quanto ninguem então, nem eu por conseguinte, me julgava possivel +a ressurreição, e a soltura.</p> + +<p>Convalesci; d'esta vez sem os soccorros do campo. Tinha as forças e a edade +para folgar, tinha o desejo e a precisão do movimento, da convivencia, da +fraternisação geral, da conquista, emfim, que pelos olhos se opera de continuo +nos inexhauriveis dominios da Natureza e da sociedade; não podia permanecer +immovel; mas o meu carcere sem lanterna me seguia por toda a parte. A ave da +poesia, que me pipilava dentro, debatia-se contra as grades, quando ouvia lá de +fóra estrondear a vida festival, e pelo ecco deshumano das suas vozes se lhe +revelava o sem numero de bellas coisas, que até os insectos e vermes +senhoreavam pela vista.</p> + +<h2><a name="SECTION002100000000000000000">X</a></h2> + +<p>Dera-me a Providencia, entre meus irmãos, um, dois annos mais novo do que +eu, cuja indole sympathica inteiramente com a minha, cujos gostos em admiravel +harmonia com os meus, nos constituiam mais que irmãos,—duas metades +inseparaveis do mesmo todo. Ardia tambem n'elle a faisca sagrada. Não era tudo +o palpitar o coração de cada um dentro no peito do outro; os nossos espiritos +se adivinhavam de parte a parte; a nossa conversação tinha... (¿como hei-de +dizer isto?) o que quer que fosse de um solilóquio, ou de um cantar ao ecco. +Levava-lhe eu a vantagem de vinte e quatro mezes mais, elle me levava a de mais +um sentido. Havia equilibrio, e compensação; cada um dava, e cada um recebia. +Este mesmo interesse<span class="pn"><a name="pag_27">{27}</a></span> mutuo +contribuia para a espontaneidade da nossa fuzão necessaria e suavissima.</p> + +<p>Chegou a edade dos estudos. Era tempo de aparelhar com as chamadas +humanidades para as sciencias. ¡Que inveja e que tristeza, quando meus irmãos, +ambos mais novos do que eu, sahiram pela primeira vez deixando-me só para se +irem inscrever na classe de latim! Permittiu-se-me accompanhal-os; attendi; +devorei; li pelos ouvidos; corri aposta com os mais applicados.</p> + +<p>O preceptor, bom e honrado velho, que, trinta annos havia, professava com +devoção o idioma de Cicero e Virgilio, observa a minha attenção; interroga-me +curioso; reconhece e declara não ter discipulo que mais em cheio haja absorvido +as suas doutrinas.</p> + +<p>D'essa hora em deante fui eu o filho adoptivo, o predilecto, o mimoso, do seu +enthusiastico romanismo. Não só erudito de amplos cabedaes, mas poeta, poeta +elle mesmo, poeta <em>utriusque linguæ</em>, julgou reconhecer em mim, pelo +modo como lhe eu traduzia as paginas inspiradas que elle me lia com fogo, e +pela promptidão, sobre tudo, com que eu lhe restituia nos versos originaes os +trechos que elle para isso me recitava das Musas cesáreas reduzidos a proza +portugueza, julgou, digo, reconhecer uma indole fadada para a poesia; e pôz com +generoso exforço peito a cultival-a.</p> + +<p>Tratar as Musas, e em particular as latinas, é desenvover a um tempo +phantasia e sensibilidade:</p> + +<blockquote> + <em>......lecto carmine doctus amet.</em></blockquote> + +<p>O poeta que assim cantára, logo ali se apossou de mim para toda a vida. O +seu estudo, que eu nunca mais interrompi, que depois alarguei, e que ainda +agora me é delicias, entrou pois como elemento energico, tanto como as +amenidades do Paço do Lumiar, e os amores infantis de minha prima, na +composição mysteriosa e providencial do meu verdadeiro destino, que nunca foi +desde o principio, nem já agora póde ser outro até ao fim, senão, repito, a +poesia.</p> + +<p>Meus irmãos passaram-me dentro em pouco de condiscipulos a discipulos; e o +mais novo, Augusto, de discipulo a inseparavel. ¡Que annos! ¡Que annos<span +class="pn"><a name="pag_28">{28}</a></span> esses! ¿Quem, tendo-os uma vez +desfructado, os esqueceria em nenhum tempo, em nenhuma fortuna?!</p> + +<p>Augusto e eu, que afinal já éramos um só, fanatisados deveras com as +grandiosidades heroicas, com as fabulas ridentes e floridas que nos surdiam de +continuo ao excavarmos por aquelle mundo fossil e classico, pode-se dizer que +nos naturalisámos Romanos antes de sermos Portugueses; fomos antiquarios +enthusiastas na puericia; os cobres, que os d'aquella edade desbaratam em doces +e brinquedos, convertiamol-os nós em qualquer <em>alfarrabio</em>, que no +frontispicio nos trouxesse um dos nomes Romanos immortaes, cuja ladainha +sabiamos de cór, e recitavamos com veneração, desde o principio da <em>edade +aurea</em> até ao cabo da <em>edade ferrea</em> e <em>lutea</em>, desde Livio +Andronico até aos escriptores já christãos, ultimas reliquias do Imperio e da +lingua a desfazerem-se. Devoravamos tudo aquillo sem guia, sem escolha, +temerariamente, mas com uma perseverança, com um affecto, com um encantamento, +inexplicaveis. Excusavamos, repelliamos qualquer outro passatempo; visitas, +passeios, tudo nos era enfadonho, comparado com a delicia de vaguearmos pela +Italia velha, de ouvirmos os seus heroes pela bocca de Tito Livio, de entrarmos +com Virgilio familiarmente no palacio rustico d'el-Rei Evandro, de nos +espairecermos com elle, Calpurnio, e Nemesiano, por entre as amenidades +campestres, e ouvirmos cantar Horacio n'um pomar da sua Tibur:</p> + +<blockquote> + <em>...... ad aquæ lene caput sacræ</em></blockquote> + +<p class="ni">coroando-nos como elle</p> + +<blockquote> + <em>...flore, terræ quem ferunt solutæ</em> </blockquote> + +<p class="ni">ou de escutarmos suspiros e galanteios de Tibullo, Propercio, +Gallo, Catullo e Ovidio. Ovidio mais que todos nos levava traz si as vontades. +(Não prégo moral; historío).</p> + +<p>A poder de lidarmos com aquella gente, aformosentada pela distancia, e tão +ideal vista de cá; tudo gue não era ella, o seu viver, o seu pensar, o seu +idioma, as suas festas, nos parecia mesquinho, insipido, repugnante; sonhavamos +acordados.<span class="pn"><a name="pag_29">{29}</a></span></p> + +<p>D'isso me adveio, cuido eu, e não podia deixar de ser em edade tão branda +para receber cunho, uma confirmação não pouco efficaz para a poesia.</p> + +<h2><a name="SECTION002110000000000000000">XI</a></h2> + +<p>E na verdade, já que estamos conversando desenfadados, sinceros, e sem armar +a vanglorias, ou, por outra, já que me estou confessando dos meus peccados de +poesia pratica, direi aqui (embora quebre o fio da narração, depois o atarei) +que, estendendo a consideração por todo o longo e variado decurso da minha vida +até hoje, não descortino em toda ella senão... (¿como direi isto que me não +afronte em demasia?) senão um predominio constante da phantasia sobre a +realidade; uma extranheza activa e passiva dos homens, successos e coisas do +mundo, em que vivo como que emprestado, semi-pagão, semi-classico, +semi-republicano dos Gracchos, semi-conviva de Mecenas, semi-Tityro, +semi-captivo das Corinnas e Delias, e, com tudo isto, a esvoaçar-me sempre da +poesia que foi, ou que se nos figura lá traz, para outra que lá adiante ri aos +santos amigos da humanidade, aos utopistas.</p> + +<p>Sempre que o individuo, de quem falo, entrou, ou cuidou entrar, na politica +(n'esta parte, Deus louvado, já escrevo o necrológio) foi sempre levado do +enthusiasmo, ignorante da historia contemporanea, e da mesma politica, não +ajuramentado a bandeira de côr alguma, não adstricto a tal ou tal plano de +estadista, curando pouco de nomes, e menos ainda de interesses proprios; foi +campeão sem divisa de uma causa apenas prophetisada, vaga, confusa, +remotissima.—a civilisação pela moral, pelo amor, pelo trabalho, e pelo saber. +Pueril e incorrigivelmente seduzido por miragens humanitarias e poeticas, nunca +passou entre os politicos positivos de alvitrista chimerico, e homem para nada; +pugnou com o ardor de quem reivindicasse algum morgado pingue, pugnou até +vencer (¡vêde isto!) para que se fechasse aos tentados de suicidio a paragem +vertiginosa que mais por seu contagio os attrahia; empenhou sabios em +procurarem remedio, se o houvesse, que diminuisse as duas pestes:—duello, e +infanticidio; incitou<span class="pn"><a name="pag_30">{30}</a></span> para o +cultivo serio das Lettras quantos talentos esperançosos descobriu; foi de todos +amigo sem inveja, pregoeiro sem restricções; propoz para os veteranos dos +estudos e da poesia uma Runa gloriosa, abundante, e aprazivel, em vez do +hospital que ainda não mandou queimar a enxerga de Camões, á espera dos que +poderão vir; pediu, e tambem debalde (¡debalde até isto!) um Campo Elysio +terrestre para os mortos memoraveis; suas effigies postas pelo publico +agradecido nos passeios, e uma lamina commemorativa pregada pelo Municipio na +frontaria de cada casa, testemunha do nascimento, dos trabalhos, ou do obito, +de um benemerito; procurou e descobriu as reliquias do Cantor dos +<em>Lusiadas</em>, para que as desagravassem; forcejou com a persuasão para que +se desse á agricultura o seu apreço, á imprensa o mais amplo favor, premios +reaes aos talentos operosos e productivos, subsistencia e honra aos educadores, +ensino liberal, christão e ameno á puericia; pela puericia, que é a nação de +amanhan, fez mais, muito mais, quanto poude e mais do que podia: invocou por +ella ceo e terra, throno e plebe, sabios e ignorantes, ricos e miseraveis, o +clero e as mulheres; foi na vanguarda dos consociados para se promover a +educação popular; fez-se, a expensas de tudo seu, mestre-escola de plebeus e +descalços; evangelisou de terra em terra o novo ensino, o ensino racional, a +centenares de professores honestos; pelejou na imprensa, com o amor e com o +odio, desde a supplica até á verrina, em prol dos calcados direitos da +infancia, da maternidade, e da Patria; e convencido, pela evidencia dos factos, +resposta eloquente e peremptoria aos negadores das vantagens da reforma, que +riem, que riem da caridade, que riem da philosophia, que riem do progresso, que +riem de seus filhos, que riem de si mesmos, deixou pendente a envelhecer por +dez annos, desenfeitada e esquecida, a sua lyra (¡oh! ¡milagre summo de uma fé +verdadeira!), para andar sollicitando a redempção e o baptismo de luz dos +captivosinhos de sete e menos annos; foi levar o beneficio espontanea e +gratuitamente ao Brazil; ambicionou que lh'o acceitassem do mesmo modo na +Hespanha e na Italia. Se n'estes dois lustros de lidas obscuras, só pagas com +desgostos, alguma hora se recordou de poetar, foi só para convidar<span +class="pn"><a name="pag_31">{31}</a></span> com o exemplo e com o discurso +talentos melhores que o seu a encetarem cantares de civilisação, a enxertarem +nos loireiros estereis alguns ramos fructuosos; e não se levantou da cadeira de +um ensino quasi ignobil aos olhos do mundo, senão para escrever livros sem +vulto, mas necessarios ou uteis:—<em>Noções rudimentaes</em>;—<em>Guia +pratica de mestres</em>;—<em>Tratado de Metrificação</em>;—<em>Tratado de +Mnemonica</em>;—<em>Felicidade pela instrucção</em>;—<em>Felicidade pela +agricultura</em>;—<em>Tentativas grammaticaes</em>—um <em>Curso de lingua +latina</em>;—e, de envolta com tudo isso, requerimentos reiterados e instantes +aos poderosos, ás sociedades, ás academias, aos principes, aos tribunaes de +instrucção, para que o ajudassem.</p> + +<p>Quando um Rei <em>amigo dos que trabalhavam</em>, e cheio elle mesmo de +nobres ambições, convidava ao poeta de outr'ora para ir colher fructos de oiro +num ensino altamente litterario, ousou o poeta pedir-lhe commutação no serviço, +offerecendo-se-lhe operario para a trasladação dos monumentos classicos romanos +á lingua patria, por entender que ia n'isso muito maior vantagem aos estudos e +á poesia, ainda que para elle menos lucro e menos brilho.</p> + +<p>Todos estes rasgos de loucura se provam e documentam d'aquelle pobre +sonhador, a quem, deneguem tudo mais, coração e muitissimo não lh'o podem +contestar.</p> + +<h2><a name="SECTION002120000000000000000">XII</a></h2> + +<p>¡Que digo! ¿Esta mesma digressão aqui não é porventura uma sobreprova de +quanto o amor, na sua mais vasta accepção, o amor que não suppre assim a poesia +senão porque o é, constitue o caracter do pobre homem? Nem os desenganos o +desenganam; nasceu affectivo; affectivo tem vindo caminhando pela vida fóra, da +primavera para o estio, do estio para o outomno, que já se lhe desverdece, e +nem os gêlos do inverno lograrão provavelmente resfrial-o.</p> + +<p>Na festa da Primavera, n'esses dias do amor só sensual e egoista, bem que +innocente, ¿que pedia elle aos amigos para quando já não existisse?</p> + +<p>Deixae-me escutar n'um ecco d'alma aquelles versos:<span class="pn"><a +name="pag_32">{32}</a></span></p> + +<blockquote> + Depois que entre os abraços delirantes<br> + de todos os que amei findar meus dias,<br> + sepultae-me n'um valle ignoto e fertil.<br> + Para marcar da sepultura o sitio,<br> + sobre o cadaver que vos foi tão caro<br> + mangeronas plantae, cuja verdura<br> + em roda fecham variados lirios.<br> + Na raiz funda da soberba olaia<br> + poise a minha cabeça, e o tronco amigo<br> + sobre mim curve a copa florescente.<br> + Mil piteiras unidas, ostentando<br> + na hastea vaidosa as flores amarellas,<br> + em quadrado não grande me defendam<br> + das incursões das cabras roedoras.<br> + Em meu tronco se escreva este epitaphio:<br> + <br> + <em> Foi poeta amador da Natureza:</em><br> + <em> d'entre as sombras ancioso a procurava,</em><br> + <em> qual terno amante a bella fugitiva.</em><br> + <br> + Sobre isto pendurae sonora flauta,<br> + que se revolva á discreção do vento.<br> + Não cerque os ossos meus, não m'os ensombre,<br> + nem teixo nem cipreste; arvores quatro<br> + quizera só no meu jardim de morte.<br> + N'um canto a laranjeira graciosa,<br> + que mescla util e doce, a flor e o fructo;<br> + n'outro a figueira sob as amplas folhas<br> + modesta occulte seus nectáreos mimos;<br> + defronte um pecegueiro em fructos mostre<br> + que amavel é pudor, quando enche faces<br> + de penugem subtil inda cobertas;<br> + no ultimo canto... (a escolha me confunde)<br> + plantae no ultimo canto uma ginjeira;<br> + é a arvore da infancia, até na altura;<br> + d'esta por sua mão colhe um menino<br> + a mui ridente baga, e ri de ufano.<br> + Alguns tempos depois que a fria terra<br> + meus restos encerrar, á minha olaia<br> + vós, meus amigos, vós dareis meu nome,<br> + pois de mim se nutriu, e eu serei n'ella.<br> + <br> + Dos guerreiros nos tumulos afiem<br> + faminta espada os barbaros guerreiros;<br> + no sepulcro do sabio o sabio estude;<span class="pn"><a + name="pag_33">{33}</a></span> <br> + e dos Reis nos marmoreos monumentos<br> + vá sonhar a ambição grandeza e pompas;<br> + vós soltos de freneticas loucuras<br> + aqui vireis mil vezes visitar-me,<br> + na amizade pensar que nos unira,<br> + e unir-nos deverá transposto o Lethes.<br> + ¿Por que me interrompeis com taes suspiros?<br> + ¡ah! deixae-me acabar. Quando sentados<br> + em torno a mim na flórida alcatifa,<br> + guardardes meditando alto silencio,<br> + se d'entre as mangeronas que me cobrem<br> + sahir acaso a borboleta errante,<br> + ¿não vereis n'ella o espirito do amigo<br> + que vem gozar do sol a claridade?<br> + Quando o suave rouxinol de noite<br> + da minha olaia gorgear nos ramos,<br> + ¿não pensareis, de santo horror tranzidos,<br> + que feito rouxinol, meus cantos sólto?<br> + Sim, pensareis, e erguendo-se inspirado<br> + algum lhe ha-de bradar: «¡Oh! ¡meu amigo!»<br> + Responderão: «Oh meu amigo» os bosques;<br> + e vós direis que o meu phantasma errante,<br> + da argentea lua á muda claridade,<br> + á conhecida voz d'alem responde,<br> + e em tudo encontrareis a imagem minha.<br> + <br> + Se inda então meus costumes vos lembrarem,<br> + se vos lembrar meu coração piedoso,<br> + velae que em meu retiro as bellas aves<br> + de caçador cruel cantem seguras;<br> + Amor, o leve Amor, com arco d'oiro,<br> + só elle, e mais ninguem logre atirar-lhes;<br> + careço de amorosa melodia<br> + que me poetize o somno derradeiro;<br> + morto que nada tem, preciza d'estas<br> + pobres delicias rusticas, se folga<br> + que a namorada moça, o terno amante,<br> + juntos, ou sós, a visitál-o acudam.<br> + Então ao som de languidos suspiros,<br> + de alegres cantos, de amorosos versos,<br> + de ternas queixas, de perdões suaves,<br> + muitas vezes contente a minha sombra,<br> + formando ao pôr do sol vermelha nuvem,<br> + girará n'estes ares revolvendo<br> + da passada existencia almas lembranças.<span class="pn"><a + name="pag_34">{34}</a></span> </blockquote> + +<p>Andaram tempos. Amores mais serios, mais vastos, mais duradoiros, mais +uteis, ainda que menos entendidos das turbas a quem se referiam, inspiraram já +outros desejos:</p> + +<blockquote> + Ó terra de Colombo, um navio de esmola<br> + do abysmo te evocou, e aurea brotaste á luz.<br> + Por outra regia Heroina esmolada uma escola<br> + vai transformar-te em ceos, terra de Santa Cruz.<br> + <br> + E eu, que já uma vez, largando o patrio ninho,<br> + romeiro do progresso em balde te busquei,<br> + retomarei de novo o undívago caminho,<br> + e irei juntar meu hymno ao seu triumpho; irei<br> + <br> + pender na escola-templo os festões da poesia,<br> + e, novo Simeão, findar a vida em paz.<br> + Onde o homem que se humana affoito invoca o dia<br> + direi:—«A patria é esta; aqui viver me apraz;<br> + <br> + «apraz-me aqui morrer, onde as mães porventura<br> + co'os filhos pela mão me hão-de vir visitar;<br> + saudades esparzir na minha sepultura,<br> + e dizer: <em>Este sim, que soube o que era amar.</em>» </blockquote> + +<p>Passaram tempos ainda, e até essa esperança consolativa se desfloriu. Ouvi o +esmorecimento não já cantar, mas gemer, no seio da amizade:<a name="tex2html1" +href="#foot538"><sup>[1]</sup></a></p> + +<p>«Depois vem a reparação, a rehabilitação, não ha duvida. Do sepulcro brota o +loiro, e a posteridade amarra a elle os inimigos dos amigos dos homens, os +areopagitas idolatras envenenadores dos Socrates crentes. Mas as cinzas não +sentem; as estatuas não vêem nem ouvem.</p> + +<p>«O premio que eu devaneava a principio, quando via tão ás claras a bondade +da obra que estava fazendo, era que os filhinhos, e as mães, me acompanhariam, +chorando, ao cemiterio. A esse côro de amor imaginava que até o cadaver se me +alegraria. Não dava aquelle triumpho posthumo pelas torrentes de carroagens e +salvas funebres dos magnates.<span class="pn"><a name="pag_35">{35}</a></span> +Pois nem já com isso conto. Conseguiu esta gente, não sei se invejosa, se quê, +diffundir tão copiosamente os seus preconceitos, escurecer em tanta maneira a +luz do beneficio, que nem já espero aquillo. As mães ver-me-hão passar, sem +saberem quão grande amigo de seus filhos e netos ali vai; e d'estes só +porventura me irão dar despedida os que n'esta hora estão cantando e amando por +essa meia duzia de escolas regeneradas».</p> + +<h2><a name="SECTION002130000000000000000">XIII</a></h2> + +<p>Saiamos d'aqui a toda a pressa, leitores amigos, antes que nos degenere em +paginas de santa mas feia indignação, um escripto que eu vos prometti e +destinei todo pacifico e amoravel. Torno-me pois á minha Arcadia da mocidade, +como o soldado mal ferido das guerras, e ainda mais dos menoscabos que dos +golpes, se acolhe á quieta poisada em que se creou.</p> + +<p>Apóz algumas tentativas incertas e incoherentes de lavor poetico, de que o +publico se esqueceu, e eu quizera esquecer-me tambem, foi a fabula selvatica de +Narciso e Ecco a primeira producção que me rebentou nativa, e verdadeiramente +congénita áquella indole campestre e amoravel, que os successos e os estudos me +tinham andado a preparar desde o principio. Nunca jámais essas singelas +<em>Heroides</em>, impetuosamente e quasi de improviso brotadas (posso hoje +dizer isto sem jactancia, e sem que os entendidos m'o descreiam) ousaram +esperar o extraordinario, o excessivo favor com que foram recebidas, +multiplicadas em edições sobre edições em Portugal e no Brazil.</p> + +<p>¡Ora, quem poderia jámais lembrar-se de que um livrinho assim, todo vão, +todo fabuloso, uma especie de globo de espuma, nascido de um sopro para boiar +nas virações por alguns instantes, espelhando os verdes da terra e o azul de +cima, e apagar-se para sempre, filho do nada restituido ao nada, conteria o +germen de uma historia muito real!</p> + +<p>Pois foi assim: Das <em>Cartas d'Ecco e Narciso</em>, sahiu, como de flôr +ephemera um fructo, o <em>Amor e Melancolia</em>, este <em>Amor e +Melancolia</em>, que já não era<span class="pn"><a +name="pag_36">{36}</a></span> um devaneio e um canto, mas sim registo +disfarçado de uma historia do coração: <em>lacrimæ rerum</em>.</p> + +<h2><a name="SECTION002140000000000000000">XIV</a></h2> + +<p>Tres annos havia que tinham apparecido pela primeira vez as <em>Cartas +d'Ecco</em>; e dois os poemetos da <em>Primavera</em>.</p> + +<p>Residia então o autor de ambas estas bagatellas nos sitios mesmos, que, em +harmonia com os vinte e quatro annos d'elle, lh'as haviam inspirado. Repoisava, +já fóra do estádio academico, nos ocios tão poeticos do seu Mondego. A casa da +vivenda conheceil-a vós, desde que o mais poeta dos nossos prosadores<a +name="tex2html2" href="#foot529"><sup>[2]</sup></a> pela magia da sua penna, +que é ao mesmo tempo varinha de condão, vol-a descobriu, vol-a franqueou, vos +fez, queridos leitores meus, entrar n'ella a visitar-me.</p> + +<p>Pois bem: Era ali, n'aquella casa, ainda hoje lembrada do nosso nome, +n'aquelle espaçoso e singular edificio, encostado, de uma parte á vertente de +Subripas, de outra ao Arco moirisco de Almedina; dominando o rio convisinho e a +margem ulterior, e dominado pelo castello de templarios, theatro do tragico fim +de Maria Telles; era ali, n'aquella estancia, de aspecto meio senhoril, meio +claustral, com seu pateo espaçoso, e escadarias de pedra, suas enormes +laranjeiras enclausuradas, suas varandas ajardinadas, seus erguidos miradoiros; +era ali, ali, para onde eu tantas vezes me recolho em espirito, ainda agora, a +escutar os descendentes dos rouxinoes que festejavam, como nós, a <em>Lapa dos +poetas</em>; ali, ali era, que os dias e as noites se nos devolviam, ao meu +inseparavel e a mim, nas leituras amenas, nas conversações mais amenas ainda, +com os bons engenhos juvenis, que a tão hospedeiro retiro nos acudiam de boa +mente.</p> + +<p>Era o Setembro de 1824; um donoso Setembro na verdade: estio em cheio e +sombras á farta. Liamos os dois, isto é o um; por outra: recitavamos de cór +pela centesima vez as elegias de Tibullo, á sombra de uma laranjeira merecedora +de as ouvir, e muito<span class="pn"><a name="pag_37">{37}</a></span> bem capaz +de as ter ditado, se fôra em Italia, e para tanto lhe desse a velhice, que +todavia não era pouca. (Nenhuma circumstancia d'aquelle tempo se me desbotou +ainda da memoria).</p> + +<p>¡Chega uma carta! ¡lettra desconhecida!... Abre-se, reza assim:</p> + +<p> </p> + +<blockquote> + <p>«Azurara, pelo correio de Villa do Conde, 27 de «Setembro de 1824.—</p> + + <p> </p> + + <p class="ni"><em>«Amar o mais perfeito é um dever:</em><br> + <em>«Virtudes tantas devem ser amadas:</em></p> + + <p> </p> + + <p>«Se vos apparecesse uma Ecco, imitarieis vós o vosso Narciso? </p> + + <p style="text-align: right; margin-right: 15%;">«A desconhecida</p> + + <p style="text-align: right;">«<em>Maria da Expectação Silva e + Carvalho.</em>»</p> +</blockquote> + +<p> </p> + +<p>¿Que significava, que podia significar aquillo? ¿Era uma pergunta candida? +¿era um brinco malicioso? ¿era masculina, era feminina, a mão que tal +escrevêra? ¿como responder? ¿a quem responder? O coração, ou presago, ou +desejoso, dizia uma coisa; a prudencia, outra. O Tibullo era do parecer do +coração; todos os mais poetas votariam como o Tibullo. O sol, que observa ha +tantos mil annos coisas de todas as castas, e de certo não ignorava o segredo +d'aquella, espreitava-nos, e ria. A laranjeira, scismava calada; como aia e +enfeitadeira de noivas, lá se inclinava para o sim; mas tambem, como velha, +desconfiava. O Samsão de marmore do angulo do terrado, esse continuava a +escachar pacificamente o seu leão, e não se intromettia na contenda.</p> + +<p>Por muitas vezes se releu a carta á espera sempre de algum subito reflexo +revelador; ¡e o enigma cada vez mais fechado!</p> + +<p>Era caso para pesquizas, pois de qualquer dos oppostos lados que a verdade +estivesse, não faltava que fazer, e tinha-se de lhe acudir com resposta.</p> + +<p>Armou-se uma verdadeira caçada; empenharam-se n'ella quantos visinhos e +praticos de Villa do<span class="pn"><a name="pag_38">{38}</a></span> Conde e +Azurara se puderam desencantar; ¡e o mysterio a cerrar-se cada vez mais! ¡e a +curiosidade, o interesse, a recrescerem-me na mesma proporção!</p> + +<p>Respondi emfim ao meu phantasma:—«Que não ousava eu muito acreditar em +apparições de Eccos para quem não fosse Narciso; mas que, se por milagre +houvesse uma, nunca eu seria tão insensato como o filho de Liríope.»—</p> + +<p>Até aqui podia eu chegar com a resposta sem me comprometter; para diante +fôra já arriscar-me. Partiu. Fiquei aguardando com certo dessocego pela +réplica. Chegou, correio por correio.</p> + +<p>Era a mesma lettra sem disfarce, e a mesma assignatura supposta. Mas d'esta +vez, em logar de linhas contrafeitas, paginas com todo o desartificio amavel e +persuasivo, com toda aquella graça nativa feminil, que se não imita. Quasi com +certeza andava ali mão e espirito de mulher. ¿Era ella porém interprete +solitaria de sentimentos proprios?; ou consocia e agente de uma conjuraçãosinha +zombeteira? ¿Como descriminál-o? Não havia melhores razões para uma, que para +outra supposição.</p> + +<p>A substancia d'aquella carta, que eu não devo nem quero tirar do sacrario em +que a enthesoiro como reliquia, reduzia-se a querer-me convencer de quanto eu +era injusto para comigo, e de quão mal conhecia o sexo amoravel, se o julgava +todo unicamente sensivel aos encantos dos <em>Narcisos</em>; emfim: que o +poeta, que tão verdadeiros affectos suspirára por uma deusa ideal,—a +Primavera, merecia bem que uma mulher o procurasse para compôr a felicidade +d'elle, e pela d'elle a sua propria.</p> + +<p>Isto, e muito mais a este modo, expunha a carta; mas por uns termos tão +obsequiosos, tão lisonjeiros, e ao mesmo tempo tão naturaes, como os eu não +saberia expor aqui em traducção.</p> + +<p>O inverosimil principiou ali a figurar-se-me provavel. Nas regiões +imaginarias em que vivem os poetas, não ha extranhezas senão para o que é +natural e corrente; o ordinario são os prodigios.<span class="pn"><a +name="pag_39">{39}</a></span></p> + +<h2><a name="SECTION002150000000000000000">XV</a></h2> + +<p>Sem me atrever a confessar a minha nascente, ou já nascida, persuasão, senti +ir-se-me levantando n'um recanto do animo um altarzinho todo verde e florido +para uma divindade ainda invisivel, mas cuja aproximação já por um certo calor +suave se me denunciava.</p> + +<p>Diz que muitas leguas ao largo de Ceylão já o gajeiro, embalado lá em cima +no sol doirado do Mar Indico, percebe na fragrancia das virações tepidas as +selvas de canelleiras da ilha, ainda occulta pela convexidade marinha, mas que +vem correndo a encontrál-o. Assim me sentia eu levado para uma ilheta de +amores, que, já aspirada, e ainda não descoberta, vinha por cima do seu mar de +aljofares offertar-me, toda donosa e festiva, a hospedagem das suas sombras +inebriativas. Um côro de sereias a meio caminho nos revelava, nos annunciava de +parte a parte; e, assim como se vê tantas vezes no mar um navio pela acertada +disposição das velas demandar a terra, com o mesmo vento que de lá sopra, a +aura que me falava do meu porto, a mesma era que para lá me conduzia.</p> + +<p>«Não ha cubiça do que se não conhece,» dizia um antigo poeta; extranha +sentença; e para de poeta, muito mais extranha. A mui veridica historia que vos +narro, duas vezes a desmentiu: nem a que me buscava me conhecia, nem eu +conhecia a que buscava.</p> + +<p>E nem por isso é a coisa tão para espantos como de fóra e á primeira vista +se representa. ¡Que de consorcios se não teem celebrado, até com amor, entre +ausentes, pela simples troca de retratos! ¿Que mancebo se poderá gabar de não +ter sonhado muitas vezes, dormindo e acordado, com a heroina de um romance, ou +com o invento prestigioso de um pintor? ¿Quem ha que não saiba o caso d'aquella +moça franceza, que se finou de paixão pelo seu Telemaco? Ninguem o prediria a +Fénelon, quando, accezo no santo amor do genero humano, compunha para a +eternidade o seu homerico poema social. Temperae de um pouco de poesia a +qualquer coração<span class="pn"><a name="pag_40">{40}</a></span> (o nosso era +temperado de muitissima) e vel-o-heis palpitar todo credulo por um phantasma. +Para uma Virginia, este phantasma será Paulo; para um Paulo, Virginia; para um +astronomo, um planeta, que elle, em nome do seu calculo, intima aos abysmos +celestes lhe apresentem; os phantasmas das religiosas, são os anjos; os dos +cenobitas, virgens do Empyrio; o dos artistas inspirados, a gloria na +posteridade; o meu, tinha sido com effeito a Primavera, continuava a sel-o, mas +agora humanada em figura feminil.</p> + +<h2><a name="SECTION002160000000000000000">XVI</a></h2> + +<p>Se eu me não temesse da gente em prosa, que só acredita no que se palpa, +havia de dizer que a aspiração para o bello desconhecido, para a perfeição +ideal, entresonhada onde quer que seja, e com qualquer dos milhões de fórmas em +que ella se póde metamorphosear, tanto não é extranha á Natureza, que não são +unicamente os individuos privilegiados da nossa especie, os que a experimentam.</p> + +<p>¿A rôla, a pomba, o rouxinol, a gemerem de saudade, a arrulharem de ternura, +a gorgearem de immenso affecto, por que enlevam tanto, e tantas coisas +inefaveis dizem aos animos devaneadores, senão porque os seus gemidos, +suspiros, e canticos, almejam coisa diversa dos deleites faceis que os rodeiam, +e que já possuem?</p> + +<p>E depois: o Pae Commum não é avaro de seus dons, e ha-de folgar quando cada +uma de suas minimas creaturas, alando-se quanto póde e sabe pela esphera dos +gosos puros, se aproxima cada vez mais a Elle, que é a Summa Belleza, o Summo +Bem, de que todos os bens são emanações ou reflexos.</p> + +<p>¡O rouxinol, a pomba, e a rôla!... mas os insectos mesmos, ¿quem affirmará +que não se pascem, como nós, ainda que muito longe de nós, á meza infinita, +perenne, e perennemente renovada, do amor ideal?</p> + +<p>¿Quem sabe até o que irá de mysterios nas flores e nas arvores!? ¡que +idyllios, que elegias, que divinos poemas não correrão nas florestas com o +murmurinho dos ventos em estrophes de aromas, intelligiveis<span class="pn"><a +name="pag_41">{41}</a></span> ás arvores congeneres, e ás flores da mesma +especie!... </p> + +<p>A carta, que de algures levantára vôo para algum fim, a carta que eu tinha +nas mãos, tão candida, tão vivida, tão palpitante e amoravel, tão segura e tão +certa, podia ser portanto, e, se o podia ser, era-o, uma especie de borboleta, +que sahira das flores de uma alma solitaria e longinqua, para vir fecundar as +da minha com um polen ardente e inesperado. Os effeitos que ella em mim +produzia (logica ordinaria dos desejos) eram, á mingua de outras provas, uma +vehemente presumpção de que o bom do papel vinha mensageiro leal, e não +explorador perfido da minha credulidade; e entretanto mal sabia eu como lhe +respondesse.</p> + +<p>Deixar-me ir de vôo rasgado ao reclamo fôra temeridade indesculpavel; mas +fôra tambem excesso de prudencia, repugnante a um sentir delicado, aventurar +offensas, embora leves e disfarçadas, para rebater um aggravo só possivel; +queria-se o meio termo; e esse era difficillimo; e difficillimo sobretudo como +eu o desejava, que era propendendo mais para o coração, que para o espirito; +para abraço, que para duello.</p> + +<p>Meditei todo o dia.</p> + +<p>O que eu nas falas gracejava por cautella, já no fôro intimo se me discutia +como negocio.</p> + +<p>Empenhei todas as potencias da alma, como poderia fazer o Edipo deante da +Esphinge. Levei o serão e a noite a sós, no laranjal, a interrogar a lua, +antiga confidente de namorados.</p> + +<p>A lua, ou nada sabia no caso, ou, se o sabia, não o quiz dizer.</p> + +<p>Mas a noite, grande terceira e fautora n'isto de amores, segredava-me ao +sabor do appetite, com umas taes razões, tão cheias de poesia, isto é de +verdade, que o genio fogoso dos meus vinte e quatro annos fez sahir, sem +grandes evocações, não sei se de algum tronco, se das nuvens, se d'entre as +pedras e heras da varanda de D. Maria Telles, uma Sombra de mulher, uma Fada, +uma Sylphide, com quem eu tive ali horas ineffaveis de colloquio, desabroxando +e enramalhetando futuros em commum.</p> + +<p>Tenho pena de não poder já copiar aquellas praticas, nem as achar mesmo para +mim bem inteiras na memoria.<span class="pn"><a +name="pag_42">{42}</a></span></p> + +<p>Se o leitor, ou leitora, tem a edade que eu tinha então, e é poeta, mas +poeta verdadeiro, d'estes que não só lêem e escrevem a poesia, mas a vivem, lá +rastreará por si aquella scena tão cheia, tão real, tão animada. Se bem a +concebem, tenho-lhes inveja eu; digo como a Santa da lenda:—«Ai! ¡que saudades +me não comem do tempo em que eu era tão infeliz!»—ou, como a outra, toda +delirante de ternura:—«Tenho dó dos demónios; ¡pois se elles não amam!»—O meu +Virgilio, tão poeta na voz, na alma, e no coração, exclamava saudoso:—«¡Oh! +¡quem me dera nos campos, lá pelas ribas do Sperchio; pelos cumes do Taygéte, +bacchanalmente retoiçado das virgens lacedemonias! ¡Ai! ¡quem me pozera hoje +nos valles, tão frescos, do Hemo, e com a sombra grande de suas ramarias me +protegera!»—</p> + +<p>¡Que melhores Sperchio, Taygéte, e Hemo, que melhores campos, delicias, e +feitiços, que a adolescencia com o amor, e o amor com os seus extasis e raptos!</p> + +<p>¡Que de coisas se não descortinam e ouvem então, que depois se calam e +desvanecem!... engano-me: não se desvanecem, nem se calam; são vivazes e +immortaes no seio da Natureza; mas nós, é que transpomos a paragem bemdita de +reconcavos e eminencias, onde se recebem em eccos augmentativos todas aquellas +vozes, d'onde se descortinam em cheio todas aquellas vistas maravilhosas.</p> + +<p>¡Oh! detende-vos ahi; detende-vos; abraçae-vos aos troncos floridos o mais +pertinazmente que poderdes, que em principiando a descida... ¡adeus primavera! +¡adeus amores! ¡adeus sabedoria das loucuras! ¡adeus miragens e musicas da +vida! ¡adeus de vós a vós mesmos! ¡e adeus esperanças de reascenderdes nunca +mais! Os leitos de rosas e as corôas de violetas, já lá estão hospedando a +outros viajantes que vos expulsaram. Resignae-vos, se podeis, á peregrinação, +por sobre espinhos, e por entre saudades, cada vez mais espessas.</p> + +<p>¡Ah! ide quantas, e quantas não vou eu já carregado para o ciprestal que lá +ao fundo me negreja! Tiremos d'elle os olhos, e deixemol-os ir ao que lá nos +fica perdido, ¡perdido para todo sempre!...<span class="pn"><a +name="pag_43">{43}</a></span></p> + +<h2><a name="SECTION002170000000000000000">XVII</a></h2> + +<p>Passeava eu pois com a minha apparição candida; sentava-a ao pé de mim; +apertava-a nos meus braços; mostrava-a com ufania ao astro das noites, que não +era mais puro, nem mais limpido; pedia-lhe, promettia-lhe uma ventura ainda não +experimentada na terra; unificavamos pelas nossas confidencias o nosso passado; +o nosso porvir entretecia-se n'um ser unico. O existir eu, era para mim, +n'aquelles momentos extraordinarios, a mais solemne e convincente demonstração +da existencia, da realidade, da indispensabilidade d'ella: ella existia, visto +que eu existia.</p> + +<p>Não riais: eu amava perfeitamente. «¡A um espectro!» não: a uma mulher, a +uma mulher, de quem só o corpo, talvez, ali faltava, e cuja entidade moral e +espiritual me pertencia me acompanhava, me velava.</p> + +<p>¿Não me sentia eu repassado do calor das suas azas invisiveis? ¿não tirava a +cada momento de cima do coração palpitante, para a rebeijar, a carta por onde +tinham girado os seus olhos, em que poisára a sua mão, que aspirára tão de +perto as exhalações do seu seio, do seu coração e da sua alma?</p> + +<p>Aquella carta exercia incontestavelmente em mim um influxo magnetico, +dominador, prestigioso; eu não sabia, nem tentava, explicál-o; mas negál-o, por +um scepticismo ingrato e mal philosophico, muito menos o podia, muito menos +ainda o desejava.</p> + +<p>Sentia-me tão bem sob aquella dominação absoluta, era tão bom permanecer +assim, que o meu voto summo seria que nunca mais amanhecesse, se as falsas +alegrias da madrugada me haviam de dissipar tão afortunado Elysio.</p> + +<p>Mysterios intimos da grande Isis, religião do amor, ¡infeliz quem vos não +conhece! ¡mais infeliz quem chegou a conhecer-vos e vos perdeu! Esse é como o +tronco sêcco: vicejou, florejou cem annos, cantou com todas as aves debaixo do +céo, mimoso da terra, familiar com o sol, confidente das estrellas, abrigo aos +amantes, depositário dos seus nomes e votos, suspirando suave com elles, +inebriando-os com suas exhalações, promettendo-lhes, e promettendo-se, +primaveras<span class="pn"><a name="pag_44">{44}</a></span> sem numero e sem +fim; depois, murchou; cortaram-n-o, cahiu; fizeram d'elle, se o não deixaram +apodrecer, ou o não queimaram, um instrumento grosseiro para revolver o solo, +um barco para transportar mercadorias; ou, quando mais bem livrado, um Satyro +tosco, de quem riem os passageiros, ou uma apparencia de Bemaventurado para um +altar. ¡Oh! ¡como aquelle arado, se podesse pensar, trocaria com alvoroço o seu +prestimo, aquelle barco os seus serviços, aquelle Satyro o seu arremedo de +riso, aquelle Santo a sua alampada e os incensos, por uma só das horas frivolas +e sem historia, da arvore, que vivia, que amava, e que era amada!</p> + +<p>A minha visão, a minha mulher sem nome, nem fórma determinada, prestes para +receber qualquer fórma, e qualquer nome, era, se me podem bem entender isto, +uma cifra, um symbolo, e o ideal da feminidade. No seu ser se epilogavam para +mim todas as perfeições, todos os encantos dispartidos por quantas existem, +existiram, ou poderão jámais existir; por isso a minha ternura para com ella +era sem limites; era um amor, que n'aquellas horas de enthusiasmo abrangia +todos os amores, presentes e futuros.</p> + +<p>¡Oh! ¡O amor! ¡o amor! se ha n'este mundo coisa que nos possa dar ideia da +grandeza da alma, da profundeza da adoração, do infinito da bemaventurança, é o +amor.</p> + +<p>Contam que uma só noite de terror e angustia já cobrira de cans e rugas a um +mancebo; uma só noite como esta no meu pomar de estio, abraçado, confundido com +a minha invisivel, remoçaria a um Nestor.</p> + +<p>¿Que seriam todos os gosos materiaes comparados com aquella religiosa +voluptuosidade?</p> + +<p>¿Onde ha ahi alcova de noivos, estreada apoz dez annos de suspiros, onde ha +ahi harém de hurís circassianas sobre rosas, ao som dos epithalamios dos +rouxinoes do Bósphoro, que se não trocasse por este noivado mystico, tão sem +rumor, tão puramente celebrado debaixo do céo e no seio da Natureza estiva pela +poesia e pelo amor?<span class="pn"><a name="pag_45">{45}</a></span></p> + +<h2><a name="SECTION002180000000000000000">XVIII</a></h2> + +<p>Em quanto assim me corriam ali horas de feitiço, ¿onde estava e que fazia +realmente ella?</p> + +<p>Só muito depois o vim a saber: pela sympathia inexplicavel que nos attrahia +mutuamente, sentia-me tambem comsigo na sua soledade. Eu era lá o seu phantasma +carinhoso, como ella cá o meu; a lua que de cá e de lá contemplavamos em +commum, observava lá e cá as mesmas scenas tão parecidas, tão eguaes, que a +duplicidade lhes não tirava a identidade. Supprimam os accidentes de logar; era +no mesmo ponto do oceano dos tempos um só ninho de duas alcyones, que, +embaladas mollemente no seu bemquerer, ignoravam que houvesse mundo para fóra +da esphera dos seus affectos. Assim, não eram já imaginarios os abraços que +dava, os abraços que recebia cada um de nós; as nossas declarações, juras, e +protestos, entravam nos ouvidos, desciam ao coração a que se dirigiam.</p> + +<p>O amor, a quem os milagres são naturalissimos, triumphava já da distancia, +como havia de triumphar do tempo e da fortuna.</p> + +<p>O sol e o movimento mundano e prosaico do dia seguinte, enfraqueceram seu +tanto as impressões do drama nocturno e intimo. Encerrei-me no meu quarto; +fechei as janellas para revocar no remanso de trevas artificiaes a sombra +magica; reappareceu-me, porém não já a mesma; faltava-lhe a animação que a +vehemencia da minha fé lhe prestára; de tão real que tinha sido, tornava-se de +novo problematica. As objecções da razão gelada e desabrida, oppunham-se outra +vez á prophecia da vontade. A linguagem nativa e sincera da carta, era um +protesto eloquente e energico da innocencia e do amor contra as suspeitas; mas +as suspeitas murmuravam sempre; a vaidade (¿quem a não tem?) a vaidade, +similhante áquelles rhetoricos subtis das escolas antigas, sustentava +alternativamente o pró e o contra: ora pretendia se acreditasse n'um affecto, +que enobreceria a quem lhe servia de objecto; ora repulsava uma crença, que, a +sahir burlada, redundaria em vergonha muito grande e muito certa.<span +class="pn"><a name="pag_46">{46}</a></span></p> + +<p>N'estas alternativas passaram dias e noites; dias penosos, estirados, e +ermos; noites acompanhadas, festivas, instantaneas. Só quando repoisava tudo, +velava e vivia eu. Os meus pensamentos e as minhas alegrias, com as flores +nocturnas se abriam, com as flores nocturnas se fechavam. Só as estrellas se +podiam mirar n'elles, n'elles que tanto se lhes assimilhavam no brilho e na +pureza.</p> + +<p>Quando, apagadas em casa as ultimas luzes, e reinando já profundo silencio +ao longe por toda a cidade, cerca de meia noite, eu entrava com pé furtivo e o +coração pulando, no aprazado arvoredo dos meus amores, já ali encontrava á +minha espera a figura branca. Com mil beijos soffregos nos saudavamos, +vingando-nos em minutos da eternidade do sol. Pedia-lhe de joelhos perdão de a +ter renegado, de ter duvidado da sua existencia, durante as horas insipidamente +allumiadas. Com um abraço restauravamos as pazes.</p> + +<p>Sentava-a ao meu lado, n'um banco rustico, afoufado para ella por minha mão +com mangeronas, que as havia em grande espessura á sombra da laranjeira mais +alta. Reclinava ella a sua cabeça languida para cima do meu hombro, ou eu a +minha face ardente sobre o seu seio, a escutar-lhe e a interrogar-lhe o +coração. Repetiamos os nossos incendidos dialogos da vespera, como novos. +Misturavamos lagrimas de ternura e felicidade. Reviviamos antecipados os mais +bellos futuros. A qualquer tenue rumor, d'estes com que a noite, maliciosa +amiga dos namorados, se diverte a assustál-os, estremeciamos como dois culpados +colhidos em flagrante; ella, forcejava por fugir; eu, escondia-a, rindo, com os +meus braços contra o meu peito; guardava-a ali muito tempo como filha; +embalava-a, adormecia-a, inspirava-lhe com beijos os sonhos que havia de +sonhar, insinuava-me n'elles, e lhe repetia em voz baixinha as mais suaves +coisas d'este mundo. Se um grillo cantava então, se um ramo ciciava lá por +cima, impacientava-me de que m'a acordassem. Perguntava-lhe ao ouvido pelo seu +nome, pela sua familia, pela terra da sua vivenda; não respondia. Inquiria-lhe, +em tom ainda mais leve, se já porventura em algum tempo outro amor lhe +sobresaltára o coração; levantava-se de repente, grande, sublime, aggravada da +suspeita, prestes a desaparecer<span class="pn"><a +name="pag_47">{47}</a></span> para sempre; e fal-o-hia, se ambos os meus braços +a não retivessem pela cintura:—«Se eu não tivesse um coração ainda virgem, +¡como ousaria offerecer-t'o! ¡offerecer-t'o espontanea! ¡a ti! ¡ao meu +poeta!»—dizia ella com uma voz que não saberia mentir por mais que fizesse. +Pedia-lhe outra vez perdão, agradecendo-lhe a ineffavel certeza que me dava da +minha felicidade tambem no passado; outorgava-m'o generosa; mas impunha-me, +como penitencia, que lhe improvisasse poesia. Era a poesia o que a fascinára? o +que a attrahira para junto de mim; e eu (¡bemditos os vinte e quatro annos!) +derramava, inspirado só por ella, poesia nova e fervente, por entre aquelles +troncos mudos, como as Philomelas no seu enthusiasmo a esperdiçam pelos +choupaes do seu Mondego.</p> + +<p>Como a das aves, se perdeu a minha; mas nunca a exhalei tão de dentro, nem +tão para a alma, como então.</p> + +<h2><a name="SECTION002190000000000000000">XIX</a></h2> + +<p>Agora caio eu de repente em mim, e me envergonho de tudo que tenho estado +doidejando. ¿Tinha eu direito, ou necessidade, de fazer em publico similhantes +confissões? ¿Não deixarei ahi violados dois pudores: um meu, outro alheio e +mais que meu? ¿Haverá indulgencia que baste para devaneios tão frivolos e +pueris? ¿Não me desdenharão até, como ficções inverosimeis, absurdas, +impertinentes, estes idyllios elegiacos, tão verdadeiros todavia? São +verdadeiros, e eu prometti historiar; eis aqui a minha unica defensa.</p> + +<p>De mais, eu confio em que os leitores, aliás benevolos, se não esqueceram do +que se ponderou no principio d'este escripto; a saber:—que, nem em bem nem em +mal, se póde carregar á minha conta o que fazia ha trinta e oito annos um que +tinha o nome que eu hoje tenho; e que esse nascêra e se creára, unica, simples, +e exclusivamente, para poeta, poeta de amores e delicias.</p> + +<p>Pressupposto isso, continuemos o pobre romancinho, que nunca o houve mais +historico; e tornemo-nos á carta, que, tantos dias ha, espera uma +resposta.<span class="pn"><a name="pag_48">{48}</a></span></p> + +<p>Ignorava eu pois, e de nenhum modo podia conjecturar, d'onde procedêra, e +que mão a havia escripto; mas propendia, por não sei que vaga revelação, para +crêr que não era senão mulher, poetisa, enthusiasta, e muito superior ao vulgar +pelo talento, quem assim me desafiava o coração, enamorando-me o espirito.</p> + +<p>¿Reflectistes alguma vez no que seja aquelle bichinho de Deus, que pelas +noites de verão está scintillando do fundo de um relvado, sua immensa floresta? +Pois aquillo é uma namorada. O seu resplendor, que allumia as hervas até á +enorme distancia de um palmo em redondo, é a manifestação esplendida do vago e +poetico amor em que ali se consome solitaria; é uma Hero, mais sublime, +chamando e attrahindo com o seu facho um individuo da sua especie, que ella +nunca viu, mas que adivinha ter-lhe sido predestinado pela Natureza. Deixae-o +andar a elle saltitando inconstantemente pelo labyrinto dos silvados, nas +chorêas aereas e loucas dos seus eguaes, como um cardume de pequenas faiscas +intermittentes; deixae-o volitar tão altivo da sua liberdade, que a energia do +luzeiro lá em baixo, tão formoso e mais vivido que o seu, o arrebatará em vindo +a hora, e no leito de seda de uma florinha, sob o docel de uma folha verde, o +amor e o hymeneu accenderão os seus fachos áquella duplice chamma confundida +n'uma só.</p> + +<p>Tal se me affigurava a minha ingenua correspondente, irradiando d'aquelle +modo até a mim, lá do interior do seu pacifico retiro, o poetico brilho dos +seus affectos innocentes.</p> + +<p>Na carta refulgia, com effeito, um amor. Era como um carbunculo, que, +trazido para o escuro, continua a expedir os raios de que o impregnou o sol.</p> + +<p>Respondi finalmente. Foi heroica a determinação; foi o salto fatal de +Leucade; foi dar de cabeça para baixo na voragem, que, ou me havia de atirar +arrogado e desconhecivel para cima do lodo, ou restituir-me ao dia, feliz, +glorioso, coroado dos myrthos de Paphos pelas sereias.<span class="pn"><a +name="pag_49">{49}</a></span></p> + +<h2><a name="SECTION002200000000000000000">XX</a></h2> + +<p>Entretanto, no meio da minha allucinação vaidosa, nunca me desamparou de +todo o previdente instincto da dignidade; as minhas paginas confessavam, sim, o +amor; amor profundo, amor immenso; mas este amor immenso e profundo, qual eu o +emprestára á Nympha aerea dos montes, qual eu proprio o tributára á deidade +phantastica da Primavera, e qual mulher nenhuma deixaria de o colher com +avidez, se o encontrasse, apparecia aqui como um rico fructo do paraizo, ainda +pendente no ramo, já maduro, já proximo a despegar-se, baloiçando-se a um lado +e a outro, indeciso para onde haveria de cahir; era, na realidade, como fôra na +fabula o ramo de oiro, passaporte para os campos ditosos de além mundo, +mysterioso ramo que ninguem por força, nem por fraude, esgalharia da arvore, +mas que por si se deixava tomar da mão chamada pelos destinos para o haver.</p> + +<p>Tal foi, mas em phrase chan, e sem atavios de estylo, a substancia da minha +resposta: enigma contra enigma, oraculo contra oraculo.</p> + +<p>N'este vago, de que um e outro, por motivos differentes, mas com egual +cautella, evitavamos deslisar para o positivo, se foi continuando, cada vez +mais frequente, mais ampla, mais amigavel, mais sincera, e mais interessante, a +nossa correspondencia.</p> + +<p>Se quem escrevia era aquillo que eu desejava, devia estar contente de mim; +se era outro, e mal benevolo, o empenho que dirigia aquella penna, +esquivava-lhe eu escrupulosamente os azos para triumphos. Eu por minha parte +estava satisfeito de mim, e encantado com tudo quanto se me ia de novo de dia a +dia descobrindo de perfeições na minha Galatéa, que, ao exemplo da de Virgilio, +me atirára a maçan refugiando-se para os salgueiros; entrevia-a eu por entre as +ramas; não a chegava ainda a conhecer de todo, mas differençava já com +evidencia, que não era satyro travesso, mas sim nympha, namorada e negaceadora +como os passaros:</p> + +<blockquote> + ..............................<em>lasciva puella</em>.<span class="pn"><a + name="pag_50">{50}</a></span> </blockquote> + +<p>Não descontinuavam, no emtanto, diligencias para se descobrir o esconderijo, +em que se homisiava sempre que se presumia ir-lhe já lançar a mão á ponta do +veo. Com a obstinação do mysterio, recrescia o affinco das pesquizas.</p> + +<p>Apparece um fio no labyrinto: as minhas cartas vão por Villa do Conde para +Azurara; mas ¿quem as toma em Azurara? Espia-se, colheu-se: é uma servente do +proximo convento de Vairão. Está pois a caçada circumscripta a um pequeno +recinto, d'onde já não ha fuga possivel para a pobre corça: agora é deixar-se +tomar ás mãos rendida e envergonhada.</p> + +<h2><a name="SECTION002210000000000000000">XXI</a></h2> + +<p>É Vairão um nobre mosteiro de Donas da Ordem Benedictina. Está situado +quatro leguas ao norte do Porto, na terra da Maia (Palencia dos antigos) entre +Douro e Minho; corre-lhe perto o formoso rio Ave, que, por entre as villas do +Conde e de Azurara, entra, grosso de caudaes, e já senhoril, no mar. As +convisinhanças do edificio o tornam grave e meditabundo: a uma parte, serranias +altas e solitarias; a outra, o Oceano, que rumoreja resguardado da vista por +immensidade de pinheiraes.</p> + +<p>É tão fidalga a antiguidade de Vairão, que ninguem, ha já muito, nem elle +proprio, lhe conhece a origem. Fundal-o-hia, segundo uns, em 1148, D. Touris; +segundo outros, na muito mais apartada era de 485, certa senhora nobre, +Marispala, de quem se delettreia ainda o nome n'uma incompleta loisa grande, +como campa de sepultura. Fôra, resam memorias, convento duplex de monjes e +monjas da regra de S. Bento, que debaixo dos mesmos tectos tinham extremadas as +clausuras, e communs no templo os exercicios religiosos. Exhala-se ainda agora +d'aquellas paredes um grande e bonissimo cheiro poetico de seculos e santidade.</p> + +<p>Ali pois vivia desde a meninice, secular e educanda, a minha desconhecida. +Não foi difficil adivinhál-a d'entre as companheiras; de sobejo a denunciavam a +notoria superioridade da sua instrucção e talento, e as suas tendencias todas +litterarias e poeticas, herdadas no sangue e nos exemplos domesticos.<span +class="pn"><a name="pag_51">{51}</a></span></p> + +<p>Constava por tradição ter sido uma das illustrações longinquas da familia o +classico Doutor Antonio Ferreira, autor da primeira tragedia de Ignez de +Castro, e particular amigo de Antonio de Castilho. O não menos classico Nicolau +Tolentino de Almeida fôra irmão da avó da nossa educanda, senhora de virtudes +tão iguaes aos seus altos espiritos, que o grande satyrico usava dizer que só +se casaria, se o casamento com irman fôra permittido.</p> + +<p>Desappareceu a mascara: Maria da Expectação Silva e Carvalho é já, +descoberta e confessa, D. Maria Isabel de Baêna Coimbra Portugal.</p> + +<p>O meu romancinho devia terminar n'aquelle ponto, ou proseguir transformado +em historia; estava escripto que proseguiria.</p> + +<p>Tal era tambem, e fôra desde a primeira hora, a tenção resoluta e inabalavel +da que viera despertar-me para a festa do coração.</p> + +<p>Assenti; deixei-me por ella conduzir, indifferente a calculos, adverso por +natureza a previdencias; tão poeta no real, como no imaginario o tinha sido, e +como o hei-de já agora ser até ao fim; em summa: verdadeiro crente na +Providencia.</p> + +<h2><a name="SECTION002220000000000000000">XXII</a></h2> + +<p>Parecia que eu e Maria tinhamos ouvido da propria bocca do Salvador o +admiravel sermão da montanha; ¡tanto nos estava profundamente impressa dentro a +sua doutrina! Eram com effeito evangelicas, ou de boa nova, estas palavras de +Christo:</p> + +<p>—«Não hajais cuidado do vosso viver, d'onde comereis, d'onde bebereis, ou +d'onde vos heis-de vestir.</p> + +<p>«Olhae-me para as avesinhas do céo; vêde lá se ellas semeiam, ou ceifam, ou +encelleiram coisa alguma; quem as mantém é o vosso Pae Celeste. Pois vós sois +para elle muito mais que as avesinhas do céo.</p> + +<p>«¡Vestido!... ¿A que vem o dessocegar-se por elle? Reparae no como crescem +os lyrios dos valles: não trabalham, nem fiam.</p> + +<p>«E mais vos digo, em verdade, que o proprio Salomão nunca trajou galas como +qualquer d'elles.</p> + +<p>«Ora: se Deus assim reveste umas hervas do campo,<span class="pn"><a +name="pag_52">{52}</a></span> hoje viçosas, amanhan queimadas no forno, ¿não +vos revestirá de muito melhor grado a vós, creaturas de apoucada fé?</p> + +<p>«Portanto, nada de vos inquietardes dizendo:—¿Que havemos de comer, que +havemos de beber, que havemos de vestir?</p> + +<p>«Que se desvelem com isso os pagãos; o vosso Pae Celeste bem sabe que todas +essas coisas vos são mistér.</p> + +<p>«Não vos atormenteis pelo amanhan; o amanhan lá curará do que lhe pertence: +bem bastam a cada dia as suas penas.»—</p> + +<p>Não sei, nem nos importava saber, se Thomaz Roberto Malthus, o economista +algoz dos casamentos pobres, approvaria, ou não, esta nossa fé tão commoda, e +que a mesma Providencia tomou depois a si o justificar.</p> + +<p>Se quereis verdade ainda mais em cheio, e sem disfarces, nenhum de nós ambos +se lembrava de pensar no futuro por esse lado; entre nós e o porvir material, +mettia-se uma seve de affectos tão espessa, tão alta, e tão florída, que não +nol-o deixava perceber. Era como o pinhal a cortinar o Oceano revolto de ante a +vista do conventinho descançado.</p> + +<p>Olhae que eu não vos prégo ó sermão da montanha para que nos imiteis, +mancebos e donzellas na febre aguda do amor, vós para quem uma cabana, uma +fontinha, quatro raizes do monte, e para postre amoras de silva, e as glandes +do filho prodigo assadas n'uma fogueirinha de gravetos, se figuram banquete em +palacio, sobrando-lhe para salsas o bemquerer; não, Robinsons do affecto e da +adolescencia descuidosa e credula; o que só faço é relatar-vos, sem apologias +nem recommendações, o que por nós passou n'uns tempos de loucura, que (¡ainda +mal!) não podem já voltar. Lêde muito nas boas horas, como nós a reliamos, a +consolativa prégação dos passarinhos e dos lyrios; mas, se vos parecer, não +deixeis de folhear tambem um poucochinho os economistas; não será mau. Os +corvos da Thebaida acudiam, verdade seja, aos santos eremitas á hora do jantar +com pães tomados sabe Deus d'onde; mas não ha muitos d'esses hoje em dia, cá +pelas cidades. Corvos que vos empolguem o vosso pão da mesa, e até da mão, isso +mais depressa.<span class="pn"><a name="pag_53">{53}</a></span></p> + +<h2><a name="SECTION002230000000000000000">XXIII</a></h2> + +<p>Maria conhecia-me pelos meus livros e pelas minhas cartas; alguma coisa era; +mas os meus escrupulos melindrosos pediam mais: enviei-lhe o meu retrato, uma +expressiva miniatura em marfim. A mão engenhosa do pintor, não paga de me +reproduzir, enchera de um rosal florescente o fundo do seu painelinho; era o +poeta da <em>Primavera</em>, rodeado dos seus preteritos amores. Guardo-o como +preciosidade e reliquia; ¡se andou tanto tempo occulto no seio com que eu +sonhava!... A carta em que ella me agradecia este pequeno penhor, repoisa, +outra reliquia, no mesmo cofre junto d'elle; seria profanação o publicál-a. +Fique ali a sonhar eternamente a immensa ternura de que a repassou a melhor, a +mais carinhosa mão de quantas jamais pegaram na penna para revelar a uma alma a +formosura de outra.</p> + +<p>É a este segundo periodo das nossas relações, começado ao desfazer-se a +nuvem da divindade, deixando apparecer a mais sympathica das mulheres, que +pertence inteiro o livro sobre que emprehendi derramar agora alguma luz.</p> + +<h2><a name="SECTION002240000000000000000">XXIV</a></h2> + +<p>Lêstes sem duvida a historia de Pygmalião; então sabeis como aquelle +phantasioso escultor, com a arte no coração, e a fé na alma, lavrou uma +estatua, se ennamorou e endoideceu por ella.</p> + +<p>O sol da Grecia, que tantos portentos allumiou, nunca vira coisa assim +formosa.</p> + +<p>O Real estatuario, pois era Soberano, esqueceu por ella mais que o seu +throno de oiro, e os seus estados que o adoravam; esqueceu todas as beldades de +umas regiões como aquellas, digno berço de Venus e das Graças, e onde os +lacteos marmores e as ceras coloradas, para copiarem aos olhos as formosas do +Olympo, e povoarem os templos com Hebes e Junos, Dianas e Minervas, de mais não +precisavam que retratar os bandos vivos e buliçosos das filhas da terra. A +todas offuscava para elle, para<span class="pn"><a +name="pag_54">{54}</a></span> elle Jupiter do cinzel, a Pallas brotada da sua +cabeça poetica e fogosa; assim a lua cheia, ao levantar-se de traz dos cumes +selvaticos dos Dáctyles, desterra o scintillante cardume das estrellas.</p> + +<p>Não contente de a vêr todo o dia, vinte vezes se levantava cada noite para +tornar a vêl-a, e de cada vez lhe descobria gentilezas novas. Com a alampada +trémula na mão, erguendo-a, abaixando-a, ora de longe, ora de perto, a rodeava, +scismando, palpitando, sorrindo, figurando-se-lhe vêl-a corresponder com a +expressão do aspecto ás blandicias com que elle, mais poeta que Anacreonte, a +affagava. ¡Oh! ¡que não daria elle por ter a lyra de Orpheu e de Amphião, cujos +sons escutados pelas pedras as animavam!</p> + +<p>Ás plantas nuas da sua Galatéa, mil vezes rebeijadas, tomava as suas +refeições, offerecendo-lhe sempre com suave convite as primicias de Baccho e +Ceres, os mais perfeitos favos de Hybla e do Hymetto, e os mais delicados dons +de Pomona, que em canistreis de vimes de prata lhe vinham pôr deante virgens, +por quem o Pae dos numes se metamorphosearia vinte vezes.</p> + +<p>Cochichavam ellas entre si, e riam doidinhas á socapa os mais tentadores +risos que sabiam, sem nunca lograrem que os olhos fitos nos da estatua se +abaixassem, nem por descuido, para os d'ellas. Retirada a mesa, fechava o +Principe as portas eburneas do aposento, incendia-se com segundas libações +rituaes de Naxos e Chios; exhalava o seu fogo tresdobrado em abraços e beijos; +cingia de perolas e diamantes o collo e os pulsos da effigie; banhava-a com +essencias de nardo e dictamo; engrinaldava-lhe a fronte com as rosas mais +frescas das emmolhadas em vasos aureos esculpidos, coroando-se com as restantes +a si mesmo; tornava a encaral-a; e o reflexo das flôres de Amathunta, que Sapho +algum dia havia de proclamar rainhas de todas as flôres, e a que a Mãe de +Cupido fadára as mais extranhas seducções, quando as viu retintas com sangue do +seu Adonis, aquelle reflexo purpurino no alvor das faces lhe parecia, no seu +estatico enlevo, uns assomos do pudor virginal sobresaltado com a desnudez +propria, com a solidão e voluptuoso desamparo do sitio, com o olhar a um tempo +supplicante e audaz do adorador.<span class="pn"><a +name="pag_55">{55}</a></span></p> + +<p>Era então que, delirante, perdido de desejos impossiveis, elle se lhe pendia +amorosamente ao pescoço, forcejava por animal-a com ósculos; e reconhecendo +quanto eram baldados os seus desejos, imbebia o rosto ardente entre os arfantes +seios, frios, de marmore, e os áljofrava com um chuveiro de lagrimas. Nestas +porfias, sem victoria nem derrota, se lhe exhauriam as forças; deixava-se cahir +esmorecido para cima do tapete de purpura de Tyro, cerrava os olhos, e um somno +transparente, um meio-sonho, dando-lhe por momentos a posse da sua beldade, +ouvindo-a, sentindo-lhe palpitar o coração, repassando-se do seu calor, o +restaurava, para se tornar com mais vehemencia, em acordando, á sua adoração +perpétua, ás suas cubiças insensatas.</p> + +<p>A deusa dos mil amores, que perscruta até ao intimo os corações dos +mancebos, podia bem ter ciumes d'aquella pobre e insensivel beldade tão amada; +mas foi generosa; generosa... não: antes muito justa. ¿Não era aquelle o mais +solemne culto, o culto mais sincero e desinteressado que jámais se rendêra á +sua divindade?</p> + +<p>Não odiou a Galatéa; sorriu-lhe como para uma irman mais nova; mirou-se +n'ella complacente como n'um espelho. A filha das ondas do Egeu foi benigna +para a filha dos marmores de Paros.</p> + +<p>—«¿O amor que nasceu de mim—dizia ella—não me tem a mim propria ferido e +felicitado, tantas vezes? ¿Por que não farei eu que esse amor, não menos +maravilhoso, que nasceu d'aquella, lhe dê tambem um quinhão nos céos que eu +disfructo sem limite?»—</p> + +<p>Pygmalião, o Rei artista, havia afeiçoado para muitos altares os mais +perfeitos, os mais adoraveis simulacros da Immortal; e se não se inflammára por +elles, como agora por este de Galatéa, era só por que a santa majestade do ser +divino lh'o prohibira; mas os templos, em que os milagres d'essa arte crente e +inspirada resplandeciam alvejantes, eram sempre os mais frequentados, os mais +servidos com offertas, sacrificios, e grinaldas. A officina mesma, em que +avultava entre um povo de outras estatuas e grupos a estatua da sua rival em +fascinações, era sympathica aos olhos da Omnipotente, e sollicitava o seu +favor. As pombas, que a ella lhe vogam o carro aereo, jungidas<span +class="pn"><a name="pag_56">{56}</a></span> com festões de murta, tinham ali +entrada livre. Dos loireiros rosiflores, e das grutas dos jardins do palacio, +esvoaçavam-se familiares até aos peitoris das janellas, sempre francas ás +inspirações dos ceos diáphanos, do cicío das auras pela folhagem, e do +estrépito das fontes, melodias como de nautas migdóneas. D'ali observavam, +conversando umas com outras, a profusão que lá dentro ia, de coisas tão +brancas, tão suaves: ¡tanta nympha! ¡umas, trajadas como para chorêas! ¡outras, +despidas como para o banho! ¡e entre todas, e sobresahindo a todas, o vulto da +propria deusa, tão sua conhecida, e o de Galatéa, não menos celeste, candida +como ellas, e, a julgar pelo sorriso, como ellas affectuosa! Alguma das +espreitadeiras aladas dizia então lá pela sua lingua ás companheiras:—«¡Olhae, +olhae como está em ambas enlevado! os escravos chamam-lhe Rei, mas não é tal: +é, como nós, um captivo do amor; ¡e de quão benigna condição!... é reparar-lhe +no ar, nos movimentos. ¿Não vêdes como olha para nós, tão benevolo, e quasi +invejoso, quando nos beijâmos? entremos sem medo, que nos não ha-de fazer mal. +¡Mal aquelle!... Apostaria eu que já foi pomba, antes de ser gente. Chôva-lhe a +nossa rainha, como sobre nós, amores sem espinhos, e delicias renovadas de hora +a hora.»—</p> + +<p>A estancia era então invadida pelo bando festivo. Pygmalião exultava, +tomando por feliz agoiro ver as conductoras do coche de Dióne arraiarem-lhe a +casa toda com os reflexos argenteos das suas azas irrequietas, e cobrirem de +ternura, de voluptuosidade, de poesia, como um veo alvo, roto, e esvoaçado, as +estatuas dos dois idolos do seu coração.</p> + +<p>¿Não era tudo isto mais que bastante para merecer á mãe do amor um prodigio +sem exemplo, e que a ficasse glorificando nas lyras namoradas de todo o +mundo?...</p> + +<p>Acabava um dia o Principe de queimar aos pés de Venus, segundo o seu costume +de todas as manhans, uma copiosa oblação do mais puro incenso. Tinha regado o +fogo, em que elle fumava n'uma amphora de bronze, com vinho amadurecido havia +cem annos pelos oiteiros pampinosos de Chypre, e reservado em talhas de barro +para sacrificios aos deuses maximos. Tomada respeitosamente venia da +Immortal,<span class="pn"><a name="pag_57">{57}</a></span> transporta por suas +mãos o vaso depositario do fogo para deante de Galatéa. Quer offerecer-lhe, +ainda que em segundo logar, porção igual, tanto da rescendente massa, orgulho +da Arabia, como do liquido generoso. Enganou-se-lhe a mão no incenso, e lançou +nas brazas porção avantajada. Venus sorriu, e não se agastou. As distracções do +amor, ninguem melhor do que ella as conhece por experiencia.</p> + +<p>Emquanto o veo alvacento do innebriante fumo, elevando-se d'ante o pedestal +da nympha, a envolvia toda, e tornava a sua presença mais celestial, Pygmalião, +acompanhando-se com a lyra de sete cordas, cantava de joelhos um hymno, que as +pombas escutavam n'um silencio religioso; pareciam querer decorál-o para o +repetirem á sua rainha, quando ella se jazesse em amoroso ocio, reclinada sobre +as violetas em algum secreto pavilhão de rosaes da sua Paphos:</p> + +<blockquote> + —Tu que exhalas de ti, qual vérte a rosa aromas,<br> + effluvios de prazer, universal ternura,<br> + Mãe das Graças e Amor, deusa da formosura,<br> + que envolves a nudez co'o veo das aureas comas,<br> + <br> + Venus; pois que são teus os ceos, a terra, os mares,<br> + e até ás sombras do Orço abrange o teu poder,<br> + lança um propício olhar, Venus, aos meus pezares;<br> + do teu jugo me solta, ou dá-me emfim morrer.<br> + <br> + Com tão cruel supplicio, ignoto á humanidade,<br> + ria teu filho em vão, tu, deusa, és mais piedosa.<br> + Ardo por uma pedra em chamma vergonhosa,<br> + perdi a paz e a gloria, o siso e a liberdade.<br> + <br> + Qualquer ente alardeia ufano os seus amores:<br> + a ave, piando; o peixe, aos pulos pelo mar;<br> + o rebanho, mugindo; em cantos os pastores;<br> + e eu, Venus, só a ti ouso este ardor mostrar.<br> + <br> + ¡Quão menos insensato o moço do Cephyso<br> + se finou por si mesmo ao pé do espelho aquoso!<br> + Suppoz a sombra nympha; espera ser ditoso;<br> + cai no engano; perece; apiadas-te, é Narciso.<br> + <br> + E eu, eu sei que a beldade, iman d'est'alma ardente,<br> + só a mim deve o ser; nasceu de minha mão;<span class="pn"><a + name="pag_58">{58}</a></span><br> + não me ouve, não me vê, não se condoe, não sente;<br> + não lhe pude formar lá dentro um coração.<br> + <br> + ¡Ó Venus! se ha mulher que eu possa crer retrato<br> + do immenso que sonhei compondo a Galatéa,<br> + revela-me onde habita a amavel Semidéa;<br> + assim teu filho Amor jamais te offenda ingrato.<br> + <br> + Seja embora pastora, obscura, humilde, escrava;<br> + terá por choça um throno, e por captivo um Rei;<br> + e eu, já salvo da insania, eu, que a teus pés chorava,<br> + a ti uma hecatomba alegre immolarei.»— </blockquote> + +<p>Ainda bem não findára a prece, quando lhe pareceu notar nos labios da +Immortal um sorriso auspicioso. O Cupido, que junto d'ella estava em pé, e que +era tambem obra de suas mãos, agitou as azas de marmore, soprou as labaredas +petrificadas do facho, que instantaneamente coruscaram, e rompendo por entre a +cortina do incenso, que ainda envolvia a nympha, lhe lustrou com o milagroso +calor a fronte, os olhos, as faces, a bocca, o seio, o coração. Ao fogo d'este +segundo e divino Prometheu, a estatua estremece; a pallida brancura se tinge da +côr da vida; o peito palpita; os olhos se voltam para o céo da Grecia, que logo +os embebe do seu mais brilhante azul; baixam sobre Venus; ¡parecem attonitos! +descem; ¡encontram-se com os de Pygmalião! duas rosas subitas se abrem nas +faces; o sorriso, aurora de uma existencia de amores, alvorece em labios +nacarados.</p> + +<p>—«¡Filha dos meus sonhos!» «¡Galatéa!—» exclama o artista delirante, +correndo a tomál-a em braços, ao vel-a descer do pedestal. «Galatéa, ¡filha dos +meus sonhos! ¡se é esta uma nova illusão que Morpheu me envia, compassivo, mas +cruel, possa eu não acordar jámais!»</p> + +<p>¿Vistes vós alguma vez rasgar um dia magnifico depois de uma noite profunda? +¿Notastes como então sahiam do nada as amenidades das terras e dos rios, a +animação e o movimento dos campos e das cidades, as côres, os cantares e as +esperanças? assim, repassada a subitas de calor e luz pelo sol dos espiritos, +pelo amor, a alma recemnascida de Galatéa adivinhou para logo a adoração de que +era alvo. Comprehendeu a turbação que inspirava, pela que<span class="pn"><a +name="pag_59">{59}</a></span> sentia. Viu nas profundezas interiores do seu +ser, diaphanas como um lago limpido, a sua pureza virginal, a sua +magica-branca, a sua suavidade irresistivel, o seu destino de ser feliz +felicitando.</p> + +<p>A turbação instinctiva de um pudor que a si proprio se ignorava, cobriu o +rosto de Galatéa do mais amavel escarlata; abaixou a vista sobre si mesma, e +não sabendo para onde se refugiar, mariposa attrahida da luz, voou para os +braços do amante, escondendo o seio no peito d'elle, fechando os olhos para não +ser vista.</p> + +<p>N'este momento a Philoméla, occulta na folhagem de um platano visinho, +entoou um brilhante epithalamio, e o hymeneu fechou as cortinas purpureas do +aposento.</p> + +<h2><a name="SECTION002250000000000000000">XXV</a></h2> + +<p>Despidos os accessorios esplendidos e sobrenaturaes, a fabula de Pygmalião +reproduziu-se na minha historia; o simulacro que eu incensára e servira, o +simulacro filho da minha imaginação, era emfim mulher; mulher amante, capaz de +bemaventurar-me, e desejosa de o fazer. Só a Philoméla do platano, e o hymeneu, +andavam ainda tão longe e tão emboscados nas brenhas do futuro, que eu mesmo +não ousava crer-lhes bem deveras na existencia.</p> + +<p>Entretanto, como a encarnação e os sentimentos do meu idolo para commigo +eram innegaveis, começou logo a haver entre nós uma especie de semi-consorcio +tacito; era já a communidade dos corações, se não era ainda a dos somnos, visto +que o bom Ducis, chamou ao casamento</p> + +<blockquote> + <em>Douce communauté de cœurs et de sommeils.</em> </blockquote> + +<p> </p> + +<p>As nossas mutuas confidencias passaram a ser, por minha parte, o que por +parte d'ella desde o principio tinham sido: reservadas inteiramente de ouvidos +extranhos e curiosos. Com isso lucraram muito maior affoiteza, e um novo +encanto, que nos concitou a ampliál-as de dia a dia.</p> + +<p>Quanto é dado a ausentes conhecerem-se, conhecemo-nos. Pelas mutuas e +circumstanciadas descripções<span class="pn"><a name="pag_60">{60}</a></span> +que trocámos das nossas vivendas, dos nossos gostos, do emprego das nossas +horas, e de todos os nossos pensamentos, podemos, como sylpho e sylphide, +visitar-nos de continuo. Estavamos simultaneamente: eu junto d'ella, no seu +mosteiro; ella commigo, no meu castello. Já não havia lá nem cá, ladrilho de +pavimento, nem abobada, accidentes de luz ou sombra, movel ou planta, que nos +não fosse familiar. Via ella gostosa ao meu lado, o irmão inseparavel que me +excitava a querer-lhe, a amál-a, com a mesma espontaneidade com que me +acompanhava nas outras excursões poeticas; eu, achava ao pé d'ella a Religiosa +sua intima, que a vira crescer, que a estremecia como a filha e irman, que a +ajudava com os seus conselhos, a protegia como Anjo da guarda, se revia na sua +bondade e no seu talento, e que, apesar de não saber como viveria se a +perdesse, nem por isso apressava menos com os seus votos o momento de m'a +entregar.</p> + +<p>Assim mesmo, ¡grande era na verdade a minha solidão! mas tenho que a de +Maria era ainda mais profunda, poetica, e enamorada.</p> + +<p>Ha uma natural propensão que nos leva sempre o desejo do que possuimos, para +o que não temos, para o que muitas vezes não poderemos alcançar; a imagem de um +ermo attrai o mundano; a do mundo dessocega ao eremita. São palpitações e +adejos da alma captiva para o ideal. Somos assim. Se o não fôramos, ¿onde +estariam os horizontes luminosos da alma? ¿Onde, como, e de quê, podéra +crear-se poesia?</p> + +<p>Eu, que tinha em redor de mim uma cidade, e a liberdade de me expandir para +toda a parte, punha as minhas mais cordeaes delicias em me ir encerrar não +pressentido, nem presumivel, n'aquella remota clausura. Maria, costumada a +ella, sem quasi conhecer outra coisa, e devendo estremecer só ao pensamento de +trocar o seu pacifico viveiro pelas extranhezas e perigos do ar pleno e sem +limites, Maria, compunha agora lá os seus melhores devaneios no phantasiar +outro viver, outro sentir, outros deleites, e de todos os deleites o maior, +dizia ella, o de gastar a sua existencia em amenisar outra; ambição +verdadeiramente feminil: ¡a abnegação absoluta!</p> + +<p>Se viessem no futuro a citál-a como a socia, a<span class="pn"><a +name="pag_61">{61}</a></span> guia, a auxiliar, a afinadora da lyra do poeta, e +a serva ministra das suas festas, seria isso para ella um triumpho (mil vezes +m'o repetiu). Mas, embora o seu nome viesse a esquecer de todo (acrescentava +com uma effuzão de ternura encantadora), a certeza de haver obscuramente +cumprido todo esse encargo, já lhe bastava para não trocar a sua dita pela de +outra alguma.</p> + +<h2><a name="SECTION002260000000000000000">XXVI</a></h2> + +<p>As abobadas de um claustro encobrem thesoiros de sensibilidade +inapreciaveis, inexhauriveis, e bem mal avaliados dos profanos.</p> + +<p>Cada um considera aquelles encerros mysticos á luz dos seus proprios +preconceitos. Um espiritual, vê ali um alfobre de plantas para o Céo; uma terra +de Gessen allumiada de cima pelo sol, no meio de um Egypto ennoitecido; um +paraizo passageiro sotoposto ao Paraiso perennal, com a mais curta e directa +serventia de um para outro. Ao incredulo, figura-se um pantano antigo de +fanatismo e superstições. Um economista, lhe chama desperdicio anachronico de +riquezas, de forças productivas, e de população. Um naturalista, execra, em +nome da Natureza, que se ousem e se permittam votos de a renunciar; e, propheta +de infortunio, commina, em nome d'ella, como infalliveis penas do desacato, as +tristezas, as enfermidades moraes e physicas, as allucinações, os delirios, o +definhamento, o envelhecimento no incompleto dos annos, a morte prematura. +Finalmente, um romancista licencioso sonha, e se arroja a escrever os seus +sonhos como historia, que o amor, bannido em vão d'aquelles recintos, em parte +nenhuma é tão despota, tão insensato e monstruoso como lá. Segundo esses +moralistas de abominação, os mysterios vergonhosos da deusa Bona, ter-se-hiam +perpetuado ao abrigo e no seguro inviolavel dos nossos asylos religiosos.</p> + +<p>Desprêso a tantos exageradores systematicos. Se um mosteiro não é Céo, +porque o não ha nem cabe na terra, é um santo e bemdito refugio, onde muitas +penas se atalham, e muitas se adormentam.</p> + +<p>¿O caracter de contranatural, que acintosamente se exprobra ao mosteiro, +existirá porventura, como se<span class="pn"><a name="pag_62">{62}</a></span> +comprazem de declamar os seus antagonistas? Não de certo; no mosteiro feminil +principalmente.</p> + +<p>Se a felicidade terrestre, por outra, o contentamento, é o unico alvo +racional, a que tendem por diversas vias todos os exforços humanos, ¿quem +affirmará com a mão na consciencia, que a mulher do nobre no seu solar, a do +burguez na sua casa, a do artifice no seu sótão, a do rustico na sua cabana, a +do pescador na sua choça, para não falarmos de tantas outras mulheres sem +poisada certa, sem familia, e sem sociedade, disfructam maior quinhão de +ventura que as Religiosas? ¿Será tudo, será mesmo o essencial para a +felicidade, o ter um esposo e ter filhos, esses dois bens, essas duas ufanias +tantas vezes descontadas pelos mais pungentes cuidados, pelos mais amargos +desgostos, e não raro pelo encurtamento da existencia?</p> + +<p>«Possuem a liberdade,» dirão elles. ¡A liberdade!... ¿que liberdade? +interrogae-as a uma e uma; não ousarão responder-vos; mas um involuntario +sorriso triste vos responderá por ellas. ¿Quantas são das forçadas que remam +n'esta galé mundana, as que não terão muita vez pensado com inveja no viver +manso e sem estrondo d'aquellas solitarias, sem os cuidados do amanhan, sem as +fadigas improbas do hoje, sem os arrependimentos e os pesares do hontem?...</p> + +<p>Cada uma d'estas diversas operarias do futuro, colhe, é verdade, aqui ou +além, mais ou menos abundante, mais ou menos imperfeito, algum deleite que o +mundo nega ás cenobitas; ¡mas quanto não compra ella caro esses deleites, essas +escaças compensações dos seus pobres destinos, que vós, philosophos exclusivos +da população e da riqueza publica, chamarieis naturaes, se vos atrevêsseis!</p> + +<p>A eremita, pelo contrário, privada d'estes gosos passageiros, está livre das +sollicitudes que tantas vezes os precedem, os envolvem, os seguem, os +descontam, os aniquilam.</p> + +<p>As faculdades amantes de que se compõe essencialmente o ser feminino, não se +anihilaram entrando para o ermo; exaltar-se-hiam porventura; e, se lhes +faltasse emprêgo e alimento, devorariam afinal miseravelmente, e com medonha +rapidez, as miseras depositarias d'esses dons celestes. Felizmente não<span +class="pn"><a name="pag_63">{63}</a></span> succede assim. Ellas amam +tambem.—«¿Amam?!» ¡Oh! ¡e quanto! ¡e quão bem! ¡e quão satisfeitas! +«¿Ellas?!!» Sem nenhuma dúvida. Os seus amores são melhores que paixões: são +simplices affectos.</p> + +<p>Uma cultura especial, e o influxo dos ares que respiram, operaram n'ellas, +sem as destruir, uma curiosa transformação: tinham nascido flores singelas para +fructificarem vulgarmente; uma jardinagem milagrosa as converteu a pouco e +pouco em flores dobradas, mais fragrantes, mais para cubiças. Do que +originariamente havia de servir para a reproducção, fez petalas; fez viço; fez +flor de flor: monstruosidade embora para o botanico e para o naturalista, mas +ufania para a terra, e orgulho para a arte, que, sem destruir a natureza, +logrou apresental-a com aspecto mais formoso. D'estas flores viventes póde +coroar-se a Religião, que são dignas d'ella; póde inspirar-se a Poesia, que em +nenhuma outra parte as encontrará tão celestiaes; e póde a Moral mesma +comprazer-se, que tem n'ellas modelos perfeitos de virtudes, sempre raras, e +cada vez mais recommendaveis.</p> + +<p>¿Mas teimais em perguntar que é o que realmente amam estas mulheres? Tenho +medo de que não chegueis a entendêl-o bem, porque eu mesmo, grosseiro, carnal, +mundano como vós, não cheguei ainda bem a explicar-m'o. Para isto, falta-nos a +nós todos um sentido, sentido sem nome, que descobre mil coisas subtis no mundo +moral; a metade mais delicada da nossa especie é que o possue; as mulheres é +que o saberiam explanar.</p> + +<p>Se em espirito devassâmos a furto uma clausura, ¿que é com effeito o que +descobrimos n'aquelle mundo tepido, tão suave, melodioso, e perfumado por +dentro, como triste, áspero e mudo parece cá de fóra? A alteza dos muros, e as +grades de ferro, têem razão: não estão ali para evitar a fuga; estão porventura +para disfarçar a seducção do retiro, que, a ser conhecido, fascinava +excessivamente; estão sobre tudo para rebater audacias de desejos impuros, qua +a pureza mesma attrahiria, como o balir manso das ovelhas no aprisco está +innocentemente chamando os lobos em seu damno.</p> + +<p>Por traz d'aquellas gradarias severas, d'aquellas muralhas ameaçadoras, está +uma cidadinha toda feminina,<span class="pn"><a name="pag_64">{64}</a></span> +sempre em paz e em festa; paz talvez com leves quebras, para melhor se +apreciar; festa sem tumulto nem estrondo, sem custosos preparos, nem +recordações afflictivas. </p> + +<p>Os dormitorios são bellas ruas direitas, calçadas de lageas polidas, e onde +o silencio, amigo da meditação, se casa harmoniosamente com a sombra fresca, e +deixa perceber o som dos proprios passos que vêem da extremidade opposta, como +se até o andar tivesse ali a sua reflexão.</p> + +<p>Por ambos os lados d'estas ruas, abobadadas como hoje as de Herculanum, e +condecoradas cada uma com o gracioso nome de uma Santa, se enfileiram os +modestos palacios das habitantes. As portas sem chave, á primeira saudação +affectiva, ao minimo toque, se descerram. Descobre-se no interior a riqueza da +desambição; um sorriso hospedeiro, que illumina tudo como sol; o leito alvo +para os alvos sonhos; os paineis meditabundos, que a musa da lenda explica, ora +em idyllios, ora em phantasticos romances, ora em tragedias gloriosas. Sobre a +mesa sem espelho, a jarra de flores entre duas velas de cera alvissima, e +alguns livros, d'estes cuja leitura se interrompe a scismar, e se continua +mentalmente por uns mundos nunca vistos, em que tudo são maravilhas. Um +pintasilgo saltitando e scismando tambem n'alguma coisa do passado, do futuro, +ou do possivel, alterna suspiros e cantares, pendente do tecto na sua +thebaidasinha de arames, enfeitada de ramos frescos; vê de um lado a arqueta do +seu pão sempre cheia, do outro a sua cisterna de vidro, em que se mira como +Narciso, em que bebe como a Samaritana, ou se banha na sésta como odalisca; em +baixo, vê a sua providencia, que em fórma de boa amiga o considera, lhe fala, e +interrompe os seus lavores, ou orações, para lhe atirar beijos. Emfim: a +janella completa as magnificencias do palacete, juntando-lhe, como dominios +contiguos, o vergel proximo, e o ceo, que pouco mais distante se figura.</p> + +<p>Nas casas d'esta singular cidade, que o mundo não vê, e muito d'elle não +quer ver, para mais a seu salvo a poder negar, ajuntam-se frequentemente +assembléas, em que se não gosa por certo á moda de nós outros, mas se gosa não +menos, e talvez mais, á moda do ermo: são conversações entre espiritos. Se as +paixões<span class="pn"><a name="pag_65">{65}</a></span> vehementes as +quizessem invadir, resvalavam-lhes pela superficie. Os affectos sim que as +povoam, e constituem a sua essencia; é um papear como dos passarinhos n'um +bosque ao principio e ao fim do dia; porque n'aquellas vozes meigas, ora +transpiram os influxos de um crepusculo, que apoz as trevas se abre para um dia +grande, ora os de outro crepusculo, que se vai a pouco e pouco fechando sobre +as alegrias, para acabar na escuridão; mas, quer um, quer outro, todo o +crepusculo tem rosas, todas as rosas teem amores.</p> + +<p>Não se discutem ali, nem as novidades do periodico, jornal das modas dos +politicos, nem os caprichos dos enfeites, politica das mulheres. Os eccos dos +espectaculos, dos motins, dos escandalos, das heroicidades, das demolições e +das edificações das outras cidades, das grandes, das Babylonias, ou não chegam +até esta povoação, ou lhe entram tão amortecidos e como de coisa tão extranha, +que nada ou pouco desconcertam a immutabilidade do pensar, e nada absolutamente +a do viver.</p> + +<p>O amor sensual é da Natureza, não ha duvida, e não entra ali; afugentam-n-o, +exorcizam-n-o, como o demonio do meio dia e da meia noite; debalde o pobresinho +se faz Protheu para as captar: agora cantando-lhes convites d'entre a copa de +uma arvore, agora passando como viração que vem de ver namorados, e vai +correndo por cima das hervas trémulas a espreitar outros; uma vez é som de +flauta longinqua, que desperta suspiros por onde passa; outras, um nome de +homem proferido ao acaso, palavra sem virtude onde elles abundam, mas ali +occasionadora de devaneios; reveste a fórma de alguma coisa, de alguma pessoa, +de algum sitio, de alguma scena, que se viu em quanto se andava lá por fóra, em +que se ficou pensando, e que ainda na memoria do coração se não apagou.</p> + +<p>Sim, sim; não ha negál-o: o Amor, ladeado das Graças, deve espreitar bem a +miude, trepado nas grades exteriores, para o que vai lá dentro, como os +passeantes n'um jardim devoram com os olhos as flores e moveis de uma estufa, +ou como as pombas de Pygmalião lhe consideravam as frias e ridentes estatuas da +officina.</p> + +<p>¿Mas que mal faz isso? tambem as Amazonas haviam<span class="pn"><a +name="pag_66">{66}</a></span> de ser salteadas, não raro, por vagas tentações +voluptuosas. Todavia, a gloria de lhes resistirem, junto ás occupações que lhes +enchiam a vida, as mantinha satisfeitas umas das outras, e ufanas do seu +forçado celibato.</p> + +<p>Toda a differença é: que as heroinas do Thermodonte, cortando o seio direito +para melhor pelejarem, como que despediam de si metade da sua feminidade, e, +endurecidas com a prática das guerras, se indemnisavam com a alegria de vencer +a inimigos, dos deleites de serem vencidas por amantes; ao mesmo passo que +estas amazonas pacificas da Religião, conservando inteira toda a sua +sensibilidade, a enganam, dispartindo-a, furtada aos impetos da natureza +carnal, por um cardume de objectos qual a qual mais consentaneo á sua indole +delicada: é o trato das flores, que são suas irmans; é a creação dos +passarinhos, que são, voadores do ceo, os irmãos de suas almas; o canto, +exercicio de Anjos; é a caridade, enlevo do Creador; são as miragens infinitas +da esperança; são as perdoaveis altivezes de um estoicismo temperado; são +tambem os entretenimentos manuaes: ora de vestir e ataviar a santa Imagem +predilecta, que para o coração suppre uma filha, ora de coser o enxoval branco +para a creança que está para nascer na cabana visinha, ora tambem de seroar na +grinalda de flores de laranja, com que se ha-de enfeitar no seu dia grande uma +noiva muito amiga.</p> + +<p>¿Que são os presentes que saem continuos d'aquelas portas, se não coisas +todas formosas e suaves como a cera e o mel das colmeias? laminas devotas e +scintillantes; doces de mil gostos, de mil côres, de mil fórmas; flores e +fructos artificiaes, com que as abelhas se enganariam; aromas para toucadores e +festas; cartas, mensagens, e convites quasi pueris na simpleza, e sempre +rescendendo á innocencia mais sympathica e mais alegre.</p> + +<p>O segredo de tantas e tamanhas branduras, por si mesmo se descobre: a mulher +no trafego do mundo, se infiltra suavidade para o sexo forte, com quem convive, +recebe d'elle em troca o que quer que seja de mais grave, que não quero dizer +de menos extremoso; e uma beneficiação mutua e perenne, que a Providencia ideou +quando partiu em duas metades a nossa especie; mas a mulher na convivencia +exclusiva<span class="pn"><a name="pag_67">{67}</a></span> do seu sexo, mantem +inteiras, completas, e no mais perfeito estado de graça original, todas as suas +disposições nativas; é como a violeta, que emboscadinha á sombra conserva o +cheiro subtil e o frescor virginal, que as mãos e o sol lhe estragariam.</p> + +<p>A mulher aqui não é esposa nem mãe, porém não deixa de ser mulher, se não +que o é em muito maior auge.</p> + +<p>¿Não vos basta? ¿deplorais a encantada cidadinha por estar carecente de +praças, de passeios, de espectaculos? Outro engano; outro engano manifesto: +¿pois não são donosas praças aquellas crastas arborisadas, com suas sonorosas +fontes de repuxo no centro, e á volta majestosas arcarias á romana? ¿claustros +guarnecidos de baixo a cima com azulejos de biblica erudição, não recordam os +Porticos, em que os antigos senhores do mundo se espaireciam das calmas por +entre estatuas e pinturas de suas fabulas? ¿não são passeios publicos, e mais +apraziveis por libertos de constrangimentos, os jardins, os pomares, as frescas +hortas da cerca? ¿theatro de espectaculos augustos, não o será o templo aos +olhos da fé e da piedade? ¿não se representam ali em seus dias prefixos todos +os lances da vida do Salvador, desde o Presepio até ao Calvario, desde o +Calvario até á Ascensão? ¿todos os passos da Rainha das Virgens, desde a sua +Natividade até á sua Assumpção? ¿todas as glorias dos principaes +Bemaventurados? ¿Não é ali, no magnifico santuario, que entre a profusão de +marmore, luzes, oiros, sedas, flores, incenso, resoam em musicas solemnes, que +só o orgam é digno de acompanhar, os mais graves e poeticos pensamentos dos +Prophetas, dos Apostolos e dos Doutores, e que, inspirando-se de todos elles, a +eloquencia sagrada derrama a doutrina para a ignorancia, a esperança para os +afflictos, os desenganos para os vaidosos? aos pobres annuncia thesoiros, +thronos aos conculcados, festins eternos aos famintos, sobrecorôa aos Santos, +invoca luz perpetua para os finados, e vôa, como o Dante, por uma espiral +infinita, do fundo dos abysmos até ao cume do firmamento.</p> + +<p>Cada festividade é precedida de longe pela ancia de a ver chegar, e deixa +apoz si recordações para muitos dias.</p> + +<p>As donzellas dos salões, que revolvam e troquem<span class="pn"><a +name="pag_68">{68}</a></span> entre si memorias das contradanças, do valsador +infatigavel, do discreto que as entreteve, dos trajos e penteados que se +distinguiram, do novo duetto que se executou, do romance ou das poesias que se +annunciaram de autor querido, de uma inclinação encoberta de que já todos +segredavam, do baile estrondoso que se ia ter, de uma regata, de um duello, de +um passeio a Cintra, de uma lua de mel, ou de uma exposição de bellas-artes. As +virgens do que se cuida solidão, não acham para si menor nem menos attractivo +assumpto, o revolverem na conversação, o repastarem no espirito, as +circumstancias, os minimos accidentes, de que se acompanhou o dia festivo do +seu templo; os enfeites e a elegancia de cada altar, o inesperado primor d'esta +ou d'aquella cantora, a maviosidade com que o orgão gemeu na Adoração, o como a +ponto acudiram de fóra o repique e a girandola, o rasgo de pintura, ou de +affecto, com que o orador maravilhou o auditorio, a multidão e a variedade de +vestidos que affluiram á egreja, as largas distancias d'onde accorreu povo a +ella, a satisfação com que todos sahiram, e o bello e saudoso effeito que fazia +aquella torrente ondeante de cabeças, ao engolfar-se e desapparecer da nave +para o terreiro, por baixo do côro, como um rio fugaz por baixo de uma ponte +inabalavel.</p> + +<p>Direis que ha um travo particular de tristeza em tudo isto. ¿E quaes são os +prazeres do seculo em que esse resaibo se não mistura? denunciae-me um unico, +se o descobristes.</p> + +<p>Murmurais que em tudo isto é sempre mais ou menos a contemplação inerte e +passiva, e que a vida fraudada de todo o movimento proprio e espontaneo não é +vida.</p> + +<p>¡Mas então não sabeis que n'aquelle povoado ha tambem, a seu modo, uma +Paschoa de flores, estreias de anno bom, fogueiras de S. João, dias duplices +para regosijos, banquetes e alegrias de abbadessados, visitas ao locutorio, +quanto mais raras tanto mais bem vindas, e em que o ermo e o mundo se +confrontam de perto! e não é por certo o ermo o que mais se póde queixar do seu +quinhão.</p> + +<p>¿Que dirieis vós da monja, que negasse existirem passatempos nas nossas +cidades, só porque os não via, e descriptos os não imaginava? Pois outro +tanto<span class="pn"><a name="pag_69">{69}</a></span> podia ella dizer, se o +não diz, de vós outros, que descredes da bemaventurança da sua cidadinha.</p> + +<p>O cenobio, tal como o esboçamos aqui, existe em realidade; e contra os +d'esta especie não aventamos que séria objecção possa pôr a philosophia +humanitaria. São refugios para corações feridos, que em nenhuma outra parte o +encontrariam; são asylos para muito desamparo da fortuna; são taboa de salvação +para muito naufragio; repoiso para muito cançaço; gruta mysteriosa para muito +animo poetico; seguro para muita innocencia; e se a Liberdade os não pode +proscrever sem contradicção, sem a si propria se annullar, a philosophia, mãe, +filha, e socia, da mesma Liberdade, o que só pode contra taes mosteiros, ou +antes em favor d'elles, é exigir que os severos votos, aliás licitos em si +mesmos, sejam soluveis, e se desatem apenas finde a vontade que os dictou; e +que a prepotencia, a ambição barbara, calculos ou vinganças, não atirem para os +pés do altar victimas consternadas, em vez de sacerdotisas radiosas.</p> + +<p>Franca a entrada, franca a sahida, o mosteiro não ficará sendo senão a séde +do contentamento, da virtude, da perfeição, e até da Liberdade mais ampla, mais +inoffensiva, mais formosa, mais completa.</p> + +<p>Apressemo-nos em confessar, que nem todas as clausuras se assimelham a esta +que entrevimos, de que já existe metade, e de que a outra metade hade vir por +certo, quando ressentimentos politicos emmudecerem, e a razão dos povos, +desassombrada de todo o genero de preconceitos, for adulta e governar.</p> + +<p>Não; nem todas as clausuras são assim; e contra as que assim não são, pouco +nos magôa que a Philosophia troveje, e que a Liberdade se levante. O convento +que amamos e defendemos, o convento que o bom senso applaude, que a natureza +approva, que a cidade deve acarinhar, e o Céo cobrir com benção de +prosperidades, está equidistante do convento fanatico, suicida, e assassino, e +do convento relaxado, vicioso, onde impera, em odio aos ceos e á terra, o +monstro execrado sob o titulo de <em>crasta</em> na linguagem mesma das +chronicas monasticas.</p> + +<p>Estes ultimos (¡ainda bem!) dissolve-os a podridão interna; passam, e a sua +memoria só fica subsistindo<span class="pn"><a name="pag_70">{70}</a></span> +nos contos asquerosos da escola de Bocaccio e La-Fontaine; mas a vida +d'aquelles, mais dura, mais resequida, mais resguardada, não se gasta senão +muito lentamente. </p> + +<p>A Religião e a Humanidade caminham sorrindo uma para a outra; logo que se +encontrem n'um abraço estreito de irmans, para nunca mais se dividirem, +aquelles institutos, que nem uma nem outra reconhecem por seus, ou hão-de +desapparecer com todas as suas sevicias, como desappareceu a Inquisição, ou se +hão-de converter á Natureza, cujas branduras licitas e bonissimas rejeitavam. +Nunca mais uma triste mãe sentirá estalar-se-lhe o coração a fibra e fibra, +vendo sumir-se-lhe para a catacumba de um claustro a filha mimosa das suas +entranhas, creada com o seu leite, crescida entre os afagos, ufania dos seus +olhos, bordão florido para a sua velhice. ¡Velhice! Que mãe, verdadeira mãe, +poderia chegar até lá, dizendo-se a cada hora do dia:—«¡Nunca mais a posso +ver!, ¡nunca mais a hei-de ouvir, se não fôr por sonhos! quando eu acabar de +morrer, dir-se-ha no meio da communidade, silenciosa como espectros pallidos, e +tremulos todos: <em>Resemos pela alma da mãe de uma de nossas irmans</em>; e +nada mais, senão chorarem todas, suppondo-se todas orphans na orphandade que só +é de uma.»—Á mesa, onde não vê sua filha, salgará com lagrimas o pão, porque a +sua innocente, defecada da penitencia e dos jejuns, não terá, para matar a +fome, no seu canto escuro e solitario, senão um pedaço de pão negro e duro, que +o mendigo e o cão esfaimado de tres dias recusariam. Não poderá encarar com +donzella alheia coberta de galas, e trocando risos de alma com toda a Natureza, +sem logo se atirar de mãos postas, e debulhada em lagrimas, aos pés da imagem +da sua ingrata, coberta de burel sêcco e mordente nas calmas do estio, +descalça, apertada n'um cilicio, cortada das disciplinas, entregue aos mistéres +mais trabalhosos e obscuros, definhando-se de semana para semana, com o coração +já morto, com a alma já meio morta a pezar dentro na fronte pendida e +despojada, ¡que não ha reconhecel-a! ¡e os olhos sempre no chão, á procura do +sepulcro, que assim tarda! ¡Como dormirá e mãe, quando, encarnada pelo amor na +pessoa da filha, cogitar (e cogita sempre) que a pobresinha<span class="pn"><a +name="pag_71">{71}</a></span> nem tem, como a ovelha, um feno em que descance, +mas pernoita vestida, ora n'uma taboa nua com uma pedra por cabeceira, ora +prostrada em oração sobre as lageas regeladas do pavimento!</p> + +<p>Arredemos d'ali os olhos; mas isto existe. O proprio Martyr Sublime, não n-o +póde ver sem pena do alto da sua Cruz, Elle que proclamou que o seu jugo era +suave, e que fez do amar a pae e mãe o primeiro dos seus mandamentos em relação +ao proximo.</p> + +<h2><a name="SECTION002270000000000000000">XXVII</a></h2> + +<p>Vairão era de antigos tempos uma das casas religiosas da especie média entre +os dois extremos, uma das poucas em que as familias piedosas e discretas punham +confiadamente suas filhas a educar, para depois as reconduzirem ao mundo, +graves sem fanatismo, puras sem mingua na sensibilidade, mulheres emfim, quanto +mulheres o podem sêr, anjos perfumados em paraizo.</p> + +<p>Havia em Vairão outras educandas e seculares. Todas ellas, assim como as +religiosas, davam a Maria a preferencia do seu affecto, sem que uma unica +pensasse em lh'o invejar. É porque a doçura da sua indole fazia esquecer a +superioridade do seu espirito.</p> + +<p>Ás prendas manuaes, em que primava, reunia o gôsto da leitura, até algum +tanto o do estudo, e a meditação reflexiva, que extrema em cada escripto, como +em cada conversação, o verdadeiro do supposto, e o proficuo do prejudicial:</p> + +<blockquote> + <em>Florigeros ut apes per saltus......</em> </blockquote> + +<p>Entretanto, dotada de um tacto verdadeiramente feminino, possuia a grande e +difficil arte de se mostrar ao nivel do commum do seu sexo, quando mesmo as +ideias que expunha desciam o vôo de mais alta esfera. Um veo de modestia, que +ás vezes chegava a parecer timidez e acanhamento, temperava, por assim dizer, o +brilho do seu saber, da sua imaginação, e do seu juizo, para não offender a +miopía dos espiritos vulgares. Era-lhe até facil e usual o calar-se, simulando +ignorar as coisas que melhor sabia, quando se arreceiava de humilhar a vaidade +de quem quer que<span class="pn"><a name="pag_72">{72}</a></span> fosse; o que +não tolhia que até as mais edosas a tomassem por conselheira, convencidas, pela +experiencia, de que ninguem calculava com mais acerto do que ella, de que +ninguem poderia guiar por mais seguro caminho a um alvo honesto e proveitoso.</p> + +<p>O melhor da herança de sua avó e de seu tio, o poeta, reduzira-se a uma boa +porção de livros, francezes, hespanhoes, e italianos, quasi todos escolhidos e +de substancia, e classicos portuguezes. Devorára, relêra tudo, comparando, +assignalando o que tinha por mais ou menos bom, e enthesoirando o optimo em +volumosos cadernos de excerptos, que, folheados por um litterato de lei, para +logo lhe revelariam o apurado gôsto da collectora. O francez, o italiano e o +hespanhol, se lhe tornaram d'esta sorte familiares. Quanto á lingua patria, +essa, tradição e gloria de sua familia, foi a que sempre lhe attrahiu +particulares desvelos; e em verdade, que ninguem a conhecia mais por dentro; +ninguem a tratava com mais acerto, graça, e facilidade. Não é louvor pequeno +este, mesmo para dama, e dama em provincia; em nossos dias sobre tudo.</p> + +<p>Sem pejo declararia eu aqui, se tal noticia podesse a alguem interessar, que +do meu trato com ella é que principalmente se originou o meu empenho, não digo +de classicismo, mas de vernaculidade em todo o caso. Não ha estudo, nem mais +apetitoso, nem mais aproveitado, que o da fala da nossa terra, quando se tem +por mestra uma mulher a quem se ama.</p> + +<p>Ahi me ia eu agora desviando por um atalho que não convém. Tornemo-nos á +educanda de Vairão.</p> + +<h2><a name="SECTION002280000000000000000">XXVIII</a></h2> + +<p>Cuido que não haverá ledor que não tenha lá o seu livro predilecto, para o +qual de todos os outros se aparte por natural tendencia. O escriptor mais do +nosso peito pode variar, e varia, com as transformações da edade, da saude, da +fortuna, das circumstancias; mas ha sempre um, com quem melhor nos entendemos; +com quem nos parece conversarmos; com quem permutâmos o nosso espirito, porque +nos entende, e o entendemos, porque nos parece vivo e presente, e o qual por +derradeiro chega a encarnar-se<span class="pn"><a name="pag_73">{73}</a></span> +em nós, e a influir nos nossos actos e na nossa vida.</p> + +<p>A preferencia de Maria para as suas leituras, começadas n'uma pagina, e +continuadas quasi sempre nos espaços imaginarios, não acertava porém n'uma só +obra: pendia indecisa entre Petrarcha e Santa Theresa de Jesus. Eram dois +caudaes brilhantes, ainda que tristes, que iam, patentes ao Céo um e outro, +parar ambos n'um mar de affecto.</p> + +<p>¿Que alma houve jámais tão namorada como a da formosa de Burgos, a não ter +sido a do cysne de Arezzo? ¿ou que espirito sé haveria de equiparar, na doce +melancolia da adoração, ao segundo Dante, mais sympathico, se menos colossal, +ao poeta, não já do <em>Inferno</em>, mas do <em>Purgatorio</em> e do +<em>Céo</em> do amor, ao bom Petrarcha emfim, se a Hespanha, est'outra Italia +das graças e das paixões, se esquecesse de procrear a Matriarcha das +Carmelitas?</p> + +<p>¡Que espantosa similhança entre ella e elle!</p> + +<p>São dois corações desmedidamente grandes, a quem não basta para os encher +qualquer affeição terrestre e vulgar, e que só em flôres e fructos de paraizo +poderão achar confôrto.</p> + +<p><em>Fulcite me floribus, stipate me malis, quia amore langueo. Lœva ejus +sub capite meo, et dextera illius amplexabitur me.</em><a name="tex2html3" +href="#foot235"><sup>[3]</sup></a></p> + +<p>O Cantor tão religioso, e a Religiosa tão cantora, como que só teem de corpo +e sentidos quanto baste para os reter na terra dos deleites ephemeros, e +retardar a sua fuga para regiões de affectos sem limite.</p> + +<p>Um e outro amam no intimo, pela delicia do amar, pela necessidade de amar, e +sem pedirem mercê nem recompensa.</p> + +<p>Um e outro fabricam da sua ternura, religiões attractivas, dominadoras, +perduraveis: elle, a dos trovadores mysticos e fervorosos; ella, a das noivas +para a eternidade.</p> + +<p>Petrarcha tinha-se criado com as poesias voluptuarias da Roma classica: mas, +de amavel pagão, que o estudo o podéra ter feito, se converteu em eremita +namorado.</p> + +<p>Theresa, segundo ella mesma se nos historía, seduzida<span class="pn"><a +name="pag_74">{74}</a></span> nos primeiros annos pelos feitiços do mundo, +dominada da turbulencia da phantasia, e escandecida pelos fogos da juventude, +só muito a poder de exforços, só depois de muito bafejada pela Graça, logrou +desenlear-se das vaidades, pegar e lançar raizes no retiro.</p> + +<p>Ella e elle podem exclamar como S. Bernardo:—<em>¡O beata solitudo! ¡o sola +beatitudo!</em>—porque para um e para a outra o ermo é egualmente povoado por +um phantasma luminoso: lá, pela imagem de Laura; cá, pela de Jesus; dois +verdadeiros ideaes dos amores ao mesmo tempo mais ferventes e mais castos.</p> + +<p>Petrarcha, sabe que não ha-de gosar Laura em toda a vida; espera e anceia, +como Theresa, pelas bodas celestes.</p> + +<p>Theresa, desafoga a sua impaciencia, como Petrarcha, em jaculatorias tão +mimosas, que a Esposa dos cantares se deteria para lh'as ouvir.</p> + +<blockquote> + O POETA<br> + <br> + Tennemi Amor anni ventuno ardendo<br> + Lieto nel foco, e nel duol pien di speme,<br> + Poi che Madonna, e'l mio cor seco insieme<br> + Saliro al Ciel, dieci altri anni piangendo. <br> + <br> + Ornai son stanco, e mia vita riprendo<br> + Di tanto error; che di virtute il seme<br> + Ha quasi spento; e le mie parti estreme,<br> + Alto Dio, a te divotamente rendo. <br> + <br> + Pentito e tristo de' miei si spesi anni,<br> + Che spender si doveano in miglior uso,<br> + In cercar pace, ed in fuggir affanni, <br> + <br> + Signor, che 'n questo carcer m' hai rinchiuso,<br> + Trammene salvo dagli eterni danni,<br> + Ch'i 'conosco 'l mio fallo, e non lo scuso. <br> + <br> + <br> + A RELIGIOSA <br> + <br> + ¡Ay! ¡que larga es esta vida!<br> + ¡que duros estos destierros,<span class="pn"><a + name="pag_75">{75}</a></span><br> + esta carcel, y estos hierros,<br> + en que está el alma metida!<br> + solo esperar la salida<br> + me causa un dolor tan fiero,<br> + que muero porque no muero. <br> + <br> + Acaba yà de dexarme,<br> + vida, no me seas molesta;<br> + porque muriendo, ¿que resta,<br> + sino vivir, y gozarme?<br> + No dexes de consolarme,<br> + muerte, que assi te requiero,<br> + que muero porque no muero. <br> + <br> + <br> + O POETA <br> + <br> + Io vo piangendo i miei passati tempi,<br> + I quai posi in amar cosa mortale,<br> + Senza levarmi a volo, avend' io l' ale,<br> + Per dar forse di me non bassi esempi. <br> + <br> + Tu, che vedi i miei mali indegni, ed empi,<br> + Rè del Cielo invisibile, immortale,<br> + Soccorri all'alma disviata, e frale,<br> + Él suo difetto di tua grazia adempi. <br> + <br> + Sicchè, s' io vissi in guerra, ed in tempesta,<br> + Mora in pace, ed in porto; e se la stanza<br> + Fu vana, almen sia la partita onesta.<br> + <br> + A quel poço di viver che m' avanza,<br> + Ed al morir, degni esser tua man presta:<br> + Tu sai ben, che 'n altrui non ho speranza. <br> + <br> + <br> + A RELIGIOSA <br> + <br> + Ay! que vida tan amarga<br> + dò no se goza el Señor!<br> + Y si es dulce el amor,<br> + no lo es la esperanza larga.<br> + Quiteme Dios esta carga,<br> + mas pesada que de azero,<br> + que muero porque no muero.<span class="pn"><a + name="pag_76">{76}</a></span><br> + <br> + Solo con la confianza<br> + vivo de que he de morir:<br> + porque muriendo el vivir<br> + me assegura mi esperanza.<br> + Muerte, dó el vivir se alcanza,<br> + no te tardes, que te espero,<br> + que muero porque no muero. </blockquote> + +<p>¿Não parecem duas rôlas melancolicas respondendo-se lá do fundo de suas +apartadas espessuras? E ainda n'este momento foi mais o cançaço da vida que +lhes escutastes, do que verdadeiramente o impeto dos seus amores; esse é tal, +que a muitos periodos da prosa da Hespanhola só falta mudar-se o nome de Jesus +no de Saint-Preux, por exemplo, para se imaginar que se está ouvindo Julia de +Wolmar; ao mesmo passo que muitos sonetos e canções do Italiano, trocado o nome +de Laura no da Rainha dos Anjos, e encorporando-se n'um horario, muitos olhos +devotos os regariam com lagrimas.</p> + +<p><em>Valchiusa</em> ou, como dizem, <em>Voclusa</em>, onde Petrarcha passa +tantos annos sonhando com o espectro, primeiro de uma viva, que não vive para +elle, e depois, de uma defuncta que nunca para elle morrerá, Valchiusa é para +todos brenha alpestre, cavernosa, brava, despovoada, mas é vergel e universo +para elle, e o casebre do seu refugio, palacio oriental.</p> + +<p>Outro tanto se figuram aos olhos de Theresa o escuro, o desconforto, a +austeridade do seu mosteiro, e da sua cella.</p> + +<p>Aos eccos da voz italiana sahida d'aquelle esconderijo, como de um vaso +rustico um perfume precioso, todos os espiritos poeticos se innebriam, e lhe +respondem, imitando-a; o Camões cá no Tejo é um d'elles. Ás melodias da +Castelhana, cardumes de almas suspiram de toda a parte, e vão procurar nos +cenobios as voluptuosidades da penitencia.</p> + +<p>Ambos ficam sendo mythos: um, da perfeita idolatria tributada á mulher; a +outra, da adoração perfeita, offerecida ao Salvador.</p> + +<p>Petrarcha, emfim, apparece á nossa imaginação, qual Roma o applaudiu em +realidade, cingido no Capitolio com triplice coroa; <em>ter geminis +honoribus</em>; a corôa de hera, como poeta; a de loiro, como triumphador; a de +murta, como amante.<span class="pn"><a name="pag_77">{77}</a></span></p> + +<p>Santa Theresa tambem a não concebemos senão tres vezes coroada: como +escriptora e poetisa, pelos estudiosos; como virgem, pela Rainha das Virgens; +como Santa, pela Egreja Romana.</p> + +<p>Não maravilha que a leitura assidua de taes obras, e então n'uns sitios e +edificios tão moldados para as fazerem resoar em cheio, elevasse a alma poetica +de Maria até ao enthusiasmo. Não admiraria mesmo se tivesse feito d'ella uma +fanatica. Felizmente não succedeu assim, porque a absorpção ascetica da +Bem-aventurada diluiu o que tinha de excessivo e perigoso, nas tendencias mais +suaves e humanas do Visionario de <em>Laureta</em>.</p> + +<h2><a name="SECTION002290000000000000000">XXIX</a></h2> + +<p>A secular amava o convento pacifico onde se criára, e que era, por que assim +o digâmos, a sua patria, e o seu mundo; amava-o sim, mas nem por isso deixava +de se inclinar insensivelmente para outro viver mais liberto e amplo, sobretudo +mais natural, mais completo para o coração, mais conforme aos instinctos +femininos. De tudo isto é que resultou o ennamorar-se, sem saber como, de um +phantasma de poeta, que se lhe revelára como dotado de uma grande faculdade de +amar, e cujos gostos amenos, e facillimos de preencher, tanto com os seus se +harmonisavam.</p> + +<p>D. Anna Lucinda, a sua inseparavel e confidente (repisemos embora isto que +ha pouco tocáramos) não se animou a contrariar-lhe a inclinação. Era freira, +mas de grande juizo casado com grande virtude; não se assimilhava ás que +parecem querer vingar-se do seu captiveiro, retendo n'elle, e attrahindo para +elle com seducções de todo o genero, a incautas; portanto secundava, se não com +exhortações, ao menos com o benevolo sorriso de amiga desinteressada, as visões +mundanas de Maria. Autorisara-lhe a primeira carta; felicitara-a pelo exito que +lhe ella surtira; deixara-a progredir; e fôra vendo com satisfação, ainda que +não sem alguns longes de cuidado pelas incertezas do futuro, os progressos de +um primeiro affecto, que de dia para dia se foi activando, até que chegou a +verdadeiro amor, apaixonado e invencivel.<span class="pn"><a +name="pag_78">{78}</a></span></p> + +<p>Ora, em quanto Maria, de quem eu por então ignorava quasi todos estes +pormenores, vivia, sem que as outras lh'a suspeitassem, vida tão romantica no +seu mosteiro, outro tanto, pouco mais ou menos, acontecia ao que tinha a gloria +de lhe occupar os pensamentos. Se ella se havia comprazido de crear nos +dominios da phantasia uma especie de Ossian, sem cans na fronte nem rugas no +coração, e disfructava o nobre prazer de ser apontada como a sua companheira, a +sua guia até aos cumes de Morven, a aurora da sua alma, a interprete da +Natureza para com elle, e d'elle para com os homens; eu da minha parte +queria-lhe como á minha Malvina, e não dava já um passo na existencia sem me +acompanhar do meu phantasma candido.</p> + +<p>Nunca então pensei em que d'esses meus sonhos acordados se podesse jámais +fazer um livro, e muito menos que o houvesse eu em tempo algum de explicar, +como agora estou fazendo.</p> + +<h2><a name="SECTION002300000000000000000">XXX</a></h2> + +<p>¿Onde, quando, e como o compuz? ao acaso; por toda a parte; e sem me sentir. +Não o poetei, trovei-o; menos ainda que isso: trovou-se-me elle, e eu colhi-o.</p> + +<p>Em realidade, e em mais de um sentido, reconheço eu ao presente que estes +versos se aparentam muito menos com obra de poeta, que de trovador.</p> + +<p>¿Que eram com effeito, e que faziam, esses filhos prodigos do undecimo, +duodecimo e decimo terceiro seculo, a que chamamos trovadores?</p> + +<p>Era o trovador pelo commum um moço de phantasia e arrojados espiritos, +nascido as mais das vezes n'uma choupana entre a floresta e o castello feudal. +Ainda no berço uma cigana lhe lêra a <em>buena-dicha</em>, em que ninguem creu.</p> + +<p>O unico livro em que solettrou foi a Natureza. O rouxinol, veio de +proposito, mandado por Deus, um mez em cada anno, para lhe ensinar o canto; e +quando elle repetia mais ou menos imperfeitamente essas lições selvaticas, a +andorinha do seu beirado debruçava a cabeça fóra do ninho para o ouvir, e o +animava a ir por diante; de cantigas de ternura, entende a andorinha como +ninguem. Depois, a fonte prateada<span class="pn"><a +name="pag_79">{79}</a></span> nas noites de luar o instruia nas sonatas +argentinas da mandora; e as virações, depois de se terem detido no cimo dos +carvalhos a escutar-lh'as, proseguiam o seu caminho aereo, comprazendo-se de as +diffundir. Isto nos annos a crescer, mas ainda mancebinho, e ainda não +trovador.</p> + +<p>Trovador, sagrava-o de repente um dia a dama do castello, sem attentar +n'elle nem lhe saber da existencia. Foi elle, que do fundo da sua humildade a +enxergou na capella á Missa por manhan cedo, ou na caça, montada no seu +palafrem branco, ou á tardinha, entre as aias, no vergel. Desde essa hora +perdeu liberdade e alegria; fez voto de não querer a alguma outra; pediu á +fortuna, a todos os Santos e a Virgem, não que lhe obtivessem mercê de +correspondencia, que fôra temeridade e loucura o esperál-a, mas unicamente o +fazer-se d'ella conhecido por seus cantares nas <em>côrtes de amor</em>, quando +já não fosse por seu denodo contra inimigos. Este voto secreto, sem testemunhas +na terra, ignorado d'aquella mesma a quem se referia, improvisava algumas vezes +um heroe; mas quasi sempre um poeta, em quem o fogo da paixão suppria a +sciencia e a arte, duas coisas que faltavam ambas n'aquelles Orpheus da +Provença, obscuros fundadores da poesia de toda a Europa.</p> + +<p>O ecco dos applausos, que lá em baixo no burgo animavam a nova musa +elegiaca, pouco tardava que penetrasse até ao salão onde cavalleiros e damas se +reuniam.</p> + +<p>O castellão desejava conhecer o talento seu vassallo, que algum dia +porventura lhe immortalisaria as proezas; o villão, não sem pasmo seu e inveja +dos visinhos, era chamado para vir com a sua mandora entreter uma hora do serão +de inverno. Na enorme chaminé, estralava a fogueira; de seus espaldares +lavrados, as nobres o consideravam curiosas; ¿quem poderia dizer a cada uma +d'ellas se lhe não estava destinado um papel na historia, ainda sem titulo, que +por acaso se ia abrir?</p> + +<p>O mancebo, em pé, de olhos baixos, na postura de um peregrino devoto perante +um mausoleo de esculturas nobiliarias sob uma abobada de cathedral, começava a +sua primeira recitação; se o effeito correspondia nos ouvintes á espectativa, o +serão seguinte já lhe dava assento n'um escabello; tão insigne<span +class="pn"><a name="pag_80">{80}</a></span> favor, redobrava-lhe posses ao +talento; excedia os prestigios da vespera.</p> + +<p>Ao terceiro dia abria-se-lhe inesperadamente o Capitolio; era proclamado +pelo marido, pagem, ou escudeiro da senhora, que muitas vezes era ella propria +trovadora tambem, como Azalais Porcairagues.</p> + +<p>D'ahi ávante progrediam as coisas pelo seu álveo natural. A senhora era +sensivel; a proximidade, tentadora; a poesia e uma gloria a nascer, mais +tentadoras ainda que a proximidade. O pagem, a principio, contemplára com +terror o abysmo que separava as duas situações. Voar da profundeza do seu valle +natal até á altura vertiginosa em que se via, fôra um milagre; mas para se +despenhar, sobrava a minima imprudencia. Era-lhe mister cantar o amor, sem +denunciar a amada, nem a ella mesma. Mais e peior: era-lhe forçoso dizer muito, +calando tudo; desconcertar ou prevenir suspeitas de rivaes, de invejosos, de +cortezãos, e de soberbos; arrastar cadeias de bronze; como quem passeasse sôlto +e alegre pelo relvado de um parque; ter a mira interior n'um ponto fixo, e a +pontaria da bésta sempre n'outro.</p> + +<p>Tão desinteressado, tão heroico servir, não escapava á perspicacia de quem o +inspirára. É a gratidão uma ternura, que sem custo fermenta e se faz amor.</p> + +<p>Um dia, não sei em que estação... talvez no estio, que é fogo; talvez no +inverno, que é frio; no outono, que é melancolia; ou na primavera, que é +amores; n'uma certa hora, d'aquellas em que uma estrella cai do ceo sem se +entender como, um olhar da castellan baixava sobre o pagem, e lhe revelava a +sua dita. D'ahi avante, eram dois segredos para esconder, em logar de um; eram +dois infortunios occultos, fundidos n'uma felicidade ainda mais occulta. +¡Occulta! Nem sempre. ¡Que de tragedias, como a de Faiel, se não misturam com +as festivas delicias na historia dos trovadores! ¡laudas de sangue por entre +paginas doiradas!</p> + +<p>Alguma vez, ainda que rara, era a dama que tomava n'estas difficeis +declarações a iniciativa: Margarida, mulher de Raymundo, senhor do Castello de +Roussillon, fez a primeira proposta ao trovador, seu pagem Guilherme de +Cabestaing.<span class="pn"><a name="pag_81">{81}</a></span></p> + +<p>¿A que veem sorrisos de estranheza? a dama era tanto, e o servo tão pouco, +na estimativa da sociedade de então, e a Natureza tendia tanto por todos os +modos, pela magia do amor sobretudo, para a realisação do seu bemdito sonho da +igualdade humana, que onde ao villão falleciam azas de atrevimento para se +remontar até á esphera da castellan, emprestava o amor as suas á castellan, +para ella baixar até á cabana do trovador. D'ali subiam juntos á felicidade. A +abelha rainha da colmeia, e o insecto que ella escolhe d'entre os seus +adoradores, vão, dizem os naturalistas, consummar nos ares, longe do alcance +d'olhos, o mysterio por onde o enxame se regenera.</p> + +<p>Assim se ajudava com estas mui frequentes descidas das aristocratas a fusão +das castas, e a restauração da dignidade humana. Talvez se possa presumir sem +temeridade, que as fraquezas das grandes senhoras para com os seus subditos +mais distinctos por gentileza, valentia ou talentos, não concorreriam menos +para a demolição do feudalismo, que os monstruosos direitos dos senhores, ás +primicias nos casamentos das villans suas vassallas.</p> + +<p>Deixemos porém philosophias tamanhas, que não cabem em tão pequena historia, +e tornemo-nos a ella. Só digo que a humilde consciencia que eu tinha de mim, +nunca me haveria permittido abalançar vôo até á eminencia moral onde habitava +Maria; e que, se a minha alma era, como talvez fosse, a que Deus talhara para a +sua, muito bem fez ella em vir provocar o seu trovador.</p> + +<p>Trovador, repito, e não cuido haver presumpção, nem modestia, se não verdade +muito chan e muito clara, em appellidar assim o autor d'esta collecção; quando +não, consideremol-a, se vale a pena, e comparemos.</p> + +<p>¿Que era com effeito o nativo e desartificioso trovar da edade média? falo +do trovar namorado, e não do guerreiro, nem do satyrico; falo do que se +comprehendia sob a denominação de <em>gaia sciencia</em>, e que dava assumpto +ás discussões e sentenças das famigeradas <em>côrtes de amor</em>: era um +verdadeiro trovar; uma caçada á ventura, sem guia nem itinerario, pelos campos +da phantasia e do sentimento.</p> + +<p>A elegia dos Gregos e dos Romanos, começára chorosa,<span class="pn"><a +name="pag_82">{82}</a></span> e passára, sem mudar de nome, a interpretar +igualmente os desejos bem succedidos; e as festas do coração. A <em>gaia</em>, +ou folgasan, <em>sciencia</em>, pelo contrario, tendo devido começar, como o +seu nome o inculca, por celebrar as boas fortunas, foi por natural pendor +descahindo a pouco e pouco para a tristeza, para a saudade, para a +desesperança, que vieram por derradeiro a constituir o habito e principal +caracter da poesia da edade média.</p> + +<p>O cantor apaixonado era o proprio heroe dos seus cantos. A historia que +celebrava, em termos vagos, mysteriosos, sem referencia a nomes certos de +pessoas nem logares, não era d'estas que podem ser vistas em quanto se operam; +não se compunha de actos exteriores; corria toda no mundo dos espiritos; +entrevia-se apenas sob um veo de mysticismo, muito similhante áquelle com que a +linguagem theologica obumbrava os mysterios da Religião; percebia-se sempre +pelo fundo da scena ir e vir uma figura de mulher, encarregada de algum papel +singular. ¿Mas quem era ella? Ninguem o affirmaria. ¿Amava? sabia-se que era +adorada; sabia-se que o merecia; nada mais.</p> + +<p>O espirito do adorador attrahido, mas ao mesmo tempo intimidado, pela +auréola, esvoaçava-se-lhe em roda, ora mais perto, ora mais longe, esperando e +desesperando, impondo silencio aos sentidos, e cilicio aos appetites, sem de +todo os poder domar; feliz como um anjo, infeliz como um demonio; invejando +toda a especie de glorias para merecer, invejando a paz dos mortos para +descançar; maldizendo e apertando os laços; misturando, como as creanças, o +riso com as lagrimas; e não admittindo para confidente senão as arvores e o +vento, os rios, as flores, e as estrellas.</p> + +<p>Tal foi o trovar nas eras juvenis dos enthusiasmos, quando os homens que não +eram cavalleiros eram poetas, os que não eram poetas eram menestreis; quando a +mulher na Europa tinha um altar, e Christo na Asia um sepulcro, e a devoção +d'aquelle sepulcro e a d'este altar traziam em fluxo e refluxo contínuo as +povoações. ¡Extraordinarios tempos, em que a heroicidade era lyrica, e as +fraquezas heroicas! tempos extraordinarios, resumidos em dois versos pelo seu +chronista epico, o Ariosto:<span class="pn"><a name="pag_83">{83}</a></span></p> + +<blockquote> + <em>Le donne, i cavalier, l'arme, gl'amori,</em><br> + <em>Le cortesie, l'audaci imprese io canto.</em></blockquote> + +<p>Abstrahi do que se referia ás guerras dos Logares santos; recordae só os +cantares de galanteio ascetico, e, sincera paixão do fim do seculo undecimo, do +duodecimo, e do principio do decimo terceiro, se porventura os lestes; +sentireis isto mesmo que eu vos confesso: que toda a presente poesia não parece +senão um ecco tardio do cantar nativo e ainda inculto dos Provençaes. Não os +conhecia eu ainda quando a compuz, nem me parece que se os conhecesse os +tomaria para exemplares; mas o certo é que os meus amores se assimilhavam aos +de muitos d'elles em mais de um ponto; e portanto, sendo eu sincero, como elles +o tinham sido, era impossivel que a lyra em que eu improvisava, não gemesse, +sem o cuidar, no estylo da mandora, da mandora pendurada ha mais de seiscentos +annos no cemiterio das litteraturas.</p> + +<p>Maria continuava a ser portanto para mim, ainda depois de convencida de +existir, a minha nobre dama encantada no seu solar remoto e inaccessivel; e eu, +o servo seu poeta, cantando-a só pelo gosto e pela necessidade de a cantar.</p> + +<h2><a name="SECTION002310000000000000000">XXXI</a></h2> + +<p>A maior parte dos meus versos não lhe chegava ás mãos, nem mesmo apparecia +ao publico, ou se revelava aos amigos. Recatava-os a ella, parte, porque os +sentia inferiores ás continuas, tão gentis e tão admiraveis paginas das suas +cartas; parte, porque aqui ou acolá desdiziam d'aquella virginal e santa +pureza, de que a minha imaginação e a sombra do mosteiro m'a revestiam, e que +realmente era, e foi sempre, um dos seus maiores attractivos; então aos olhos +extranhos sonegava-os, e mesmo aos ouvidos dos intimos, porque me repugnava +poder outrem espreitar para dentro do ninho das nossas almas. Amava só para +mim; poetava só para mim; e poetava como amava: sem premeditação, sem esforço, +sem reconsiderações, e sem emendas.</p> + +<p>¿Bons tempos, que tão verdadeiros fostes, como<span class="pn"><a +name="pag_84">{84}</a></span> vos desvanecestes? ¿como passastes vós, +eternidades voluptuosas?</p> + +<p>Compunha eu tudo isto como as arvores ora murmuram, ora rugem, ora gemem +varrendo o pó com as ramas, segundo passam por ellas os zephyros ou os +furacões. Toda a differença era: que a mim, as bonanças e as tempestades não me +vinham de fóra; formavam-se umas e outras inesperadamente na phantasia.</p> + +<h2><a name="SECTION002320000000000000000">XXXII</a></h2> + +<p>Aqui uma voz imperiosa da consciencia me intíma que não demore por mais +tempo uma solemne reparação. Faço-a de joelhos abraçado a um cipreste. +Concluida ella, espero que me levantarei da terra alliviado.</p> + +<p>Os ciumes que obscurecem a ultima parte d'estes cantos, existiram sim;</p> + +<blockquote> + <em>........quis enim securus amavit?</em> </blockquote> + +<p class="ni">mas causa, mas pretexto, mas sombra de pretexto para as +suspeitas, nunca jámais a encontrei no pobre Anjo que eu flagellava. ¿Mentia eu +pois? ¿Calumniava para ser algoz? ¡Longe tão infame supposição!</p> + +<p>Houve delirios na minha alma, e reproduziram-se nos meus versos. Eis ahi +tudo.</p> + +<p>O meu amor era verdadeiro; e todo o verdadeiro amor é visionario, é +supersticioso, é pessimista; e, similhante áquelles enfermos que preferem aos +alimentos sãos e agradaveis, substancias amargas e nocivas, procura por uma +tendencia irresistivel, desencanta, cria para si tormentos reaes, e com aquillo +mesmo que o devêra destruir se vai cevando.</p> + +<p>Se eu ouvia o caso de uma infiel, de uma enganadora qualquer, de que tantas +se nos deparam nas historias, nos romances, nos poemas, nos dramas, e na vida +contemporanea, perguntava-me logo, com terror, ¿quem me affiançava a lealdade +de Maria? ninguem, senão as suas cartas. Então, esquecendo que a assiduidade, e +sobretudo o estylo d'ellas, excluiam toda a razão de desconfiança, a poder de +meditar no possivel, convertia-o em provavel, e do provavel me<span +class="pn"><a name="pag_85">{85}</a></span> abortava o certo. ¿A paixão com que +eu me lisonjeára nas horas desanuveadas e alegres, merecia-a eu porventura? +Sabia que não. ¡Logo, que insensatez no contar com ella! ¡depois, a distancia! +¡depois, as suggestões da solidão, mais tentadora ás vezes que o povoado! +¡depois, annos preteritos que podiam ter semeado tanta coisa! por ultimo, ¡uma +indole tão manifestamente inflammavel! Tudo, até as suas cartas mais ardentes, +até a sua insolita deliberação de se me offerecer, tudo então depunha conteste +contra ella no tribunal tumultuoso da minha alma. Os sonhos se me tingiam na +cor dos pensamentos lugubres de todo o dia; e eu, carecente de noticias reaes e +positivas com que os rebater, acceitava os seus embustes como revelações +vindas, fosse d'onde fosse, mandadas não sabia por quem nem para quê, mas nem +por isso menos attendiveis.</p> + +<p>Sonhos, acceitos como prophecias, e meditações extravagantes como os sonhos, +ahi tendes as unicas fontes d'onde rebentaram essas elegias tormentosas, que eu +haveria queimado quando acordei e volvi a mim, se já então se não tivessem +derramado por esse mundo.</p> + +<p>Desabafei-me de um peccado horrendo; levanto-me, e prosigo.</p> + +<h2><a name="SECTION002330000000000000000">XXXIII</a></h2> + +<p>O mais do volume dimanou puro e sereno do coração namorado, mas em paz. A +essa procedencia é que eu lhe attribuo, conforme toquei no prologo, a boa +fortuna que logrou; que outros merecimentos não lh'os posso descobrir, por mais +que lh'os procure. Como eram taes affectos os que n'elle predominavam, por isso +levou, e conserva, o titulo de <em>Amor e Melancolia</em>; <em>Melancolia</em> +não ha separal-a do <em>Amor</em>.</p> + +<p>Affirma a Baroneza de Staël, com razão, que amor verdadeiro e alegre não +cabe n'este mundo. Aos que levianamente a contradissessem, responderiamos com +palavras tambem d'ella:—que ha mais gente habilitada para entender Newton, que +para tratar a fundo d'esta paixão.</p> + +<p>Eu por mim cuido ter sido do escaço numero: o amor pareceu-me sempre um +prado florescente de<span class="pn"><a name="pag_86">{86}</a></span> +primavera, mas coberto de um ceo triste. O mesmo se representava a Maria, e +isso explica a variante do titulo da obra <em>Novissima Heloisa</em>, +designação que n'estas alturas já dispensa outros commentarios.</p> + +<p>O mais d'esta poesia, e muita outra a este modo, que depois se +desaproveitou, (<em>trovas</em>, <em>tenções</em>, <em>solaus</em>, ou como +melhor se lhe possa chamar) germinou com intervallos, ás vezes largos: que não +foram tão poucos os annos que duraram estas relações. Ao longo d'elles, +confesso que a intensidade do meu fogo não foi sempre a mesma. Não pode haver +amor platonico sem um certo exforço da vontade; e exforços teem sempre isso +comsigo: que o fragil da nossa natureza os obriga a remittirem a sua energia de +vez em quando. Confessarei até que, se a minha vestal invisivel não fosse tão +assidua em me velar a chamma, e alimental-a quando a pressentia enfraquecer-se, +já póde ser que tivesse alguma vez chegado a apagar-se-me.</p> + +<p>Emquanto o coração estava em férias, emmudecia a Musa; mal que elle a um +suave toque despertava em sobresalto, recomeçava ella os seus cantares; e o +amor n'estas ressurreições não era menos vehemente do que a principio o tinha +sido. Quem não dissimulou aquelle vicio, adquiriu algum jus a gloriar-se d'este +pequeno merito.</p> + +<h2><a name="SECTION002340000000000000000">XXXIV</a></h2> + +<p>¡Os arredores tão poeticos da minha Coimbra conspiraram com o amor para se +me florirem estes improvisos! O Penedo da Saudade, a Lapa dos Poetas, a Fonte +das Lagrimas, o Ó da Ponte, os sinceiraes do Mondego, tudo sabia dos meus +segredos; tudo, em me vendo chegar, me perguntava por ella e m'a pedia. Mas era +especialmente o Real cenobio de Santa Cruz o meu grande manancial.</p> + +<p>¡Quantos domingos de verão não voava eu sosinho para ali, a gosar curtas +horas, mas tantas, que ás vezes se mettiam pela noite, tendo começado antes do +meio dia! parecia-me que era para mim que D. Affonso, o Conquistador, e D. +Sancho, o Povoador, que lá dormem como em casa sua, tinham edificado aquelle +refugio; para mim só, e não para os Conegos<span class="pn"><a +name="pag_87">{87}</a></span> regrantes, que D. Manuel e D. João III o +engrandeceram e aformosentaram com tão regia, com tão prodiga bizarria.</p> + +<p>Ainda hoje, como no meu tempo (ainda no meu tempo, como em seculos atraz), +pombas, pardaes, e outros passarinhos, se aninham, contubernaes e familiares +com os carcomidos Santos de pedra, pelos nichos da alterosa frontaria exterior, +como em poisadas tambem proprias e muito suas, e amollecem com a sua presença +amante e festiva a austeridade do monumento; emquanto os orgãos gemiam lá +dentro, cantavam elles cá por fóra. Quando as rezas matutinas começavam a +espertar eccos pelos desvãos das abobadas sobre as campas de marmore brunido, +já elles tinham dado as alvoradas ás virações do Mondego seu visinho. O +rebentar estrondoso das horas na torre proxima, não os assustava; os sinos eram +para elles aves de outra especie, inoffensivas tambem, só com a differença de +se estarem captivas n'uma gaiola alta, e cantarem mais elevadas coisas, e para +mais longe, pela terra fóra e pelos ares acima, caminho do Ceo.</p> + +<p>Na lyrica dos antigos poetas mesclava-se commummente com o folgar de festins +e amores, quanto bastava do pensamento da brevidade da vida para mais +avidamente se colherem as rosas ephemereas das voluptuosidades; aqui o fundo do +poema era pelo contrario a melancolia saudavel, e as delicias mimosas da +Natureza o seu accessorio.</p> + +<p>Isto, que em breve sigla se lia no rosto do convento dos quatro Reis, ia +depois encontrar-se em copiosissima profusão no interior e nos vastos dominios +campestres da vivenda. É assim que n'um esmerado volume biblico, paciente lavor +de algum obscuro Raphael da edade media, o frontispicio floreteado e doirado +annuncia logo as maravilhosas paginas, em que o texto devoto irá manando todo +por entre um perpetuo paraizo de primaveras, animaes, sonhos, e devaneios. É +assim tambem, que no sorrir de um bom velho se resumem os castos alvoroços que +lhe abundam pelo animo.</p> + +<p>N'um festim opiparo toma cada um d'entre as iguarias e licores o que mais +lhe desafia o paladar; a mim não me chamavam para Santa Cruz nem o templo, que +deu brado em S. Pedro de Roma, e que<span class="pn"><a +name="pag_88">{88}</a></span> Paulo III cubiçou conhecer; nem o santuario, +orgulhoso museu de reliquias; nem a bibliotheca, assoberbada de sciencias +sacras e profanas: ia girar á toa, e inebriar-me, sem ninguem saber, no +dormitorio do <em>Silencio</em>; depois no da <em>Manga</em>, aviventado do +estrépito de cascatas, que um sultão de Granada cubiçaria para os pateos da +Alhambra. D'ali, escadarias de marmore, bem minhas conhecidas, me subiam para o +meu passeio de predilecção: era o dormitorio de Nossa Senhora do Pilar.</p> + +<p>Pintae na ideia um corredor immenso, largo, alto, abobadado, pavimento de +lagedo, paredes alvas, luz copiosa por zimborios no tecto, e janellas amplas ao +comprido de um dos lados; do lado fronteiro, enfileirae portas de cellas; ponde +n'um dos extremos uma grandiosa sala vaga; no outro, rasgae um portão bipatente +que dê sem subida nem descida para um terreiro ajardinado; postae á direita do +portão, como porteira obsequiosa, uma agigantada magnólia a emborcar das suas +enormes urnas de prata reviradas, olores americanos, que Marco Antonio pagaria +por um milhão de sestercios para a sua Cleópatra; moldae todo o terreiro, á +direita com arvores, á esquerda com um extenso e levantado viveiro gradeado, +compartido em republicas de aves de toda a especie. Ahi tendes o passeio amores +dos meus amores; ahi tendes o foco mais activo das minhas inspirações.</p> + +<p>Eram as cellas habitadas; mas o corredor permanecia quasi sempre deserto e +mudo, o que deixava as minhas phantasias em completa liberdade. Por mais de uma +vez se me deu occasião de travar conhecimento com alguns dos religiosos; +esquivei-a sempre. ¿Que tinha eu com elles, ou elles comigo? pelo contrario: +necessitava de que nada me recordasse que elles existiam. Todos os seus +cubiculos os tinha eu melhor empregado n'outras tantas virgens do Senhor. N'um +dos mais centraes, fronteiro a uma janella de assentos, habitava Maria; D. Anna +Lucinda á direita, no immediato. Voltado de costas para a janella, ou passeando +por diante d'aquellas portas, distinguia, ora n'uma ora n'outra cella, as +praticas de ambas; ouvia as suas conversações em voz baixa; deliciava-me com a +doçura das suas falas, que eu não conhecia.<span class="pn"><a +name="pag_89">{89}</a></span></p> + +<div style="text-align: center;"> +<p style="text-align:center;"><img src="images/quinta.png" alt="QUINTA DOS AZULEJOS" border="0"></p> + +<p style="text-align:center;">QUINTA DOS AZULEJOS (no Paço do Lumiar)<br> +Tal como era ainda em 1862</p> +</div> + +<p>Das innumeraveis cartas de ambas, que eu sabia de cór, me raiavam para +dentro da alma as intuições de tudo que estavam de parte a parte pensando, +sentindo, dizendo. Era o meu nome o centro fixo, em torno do qual volteavam +todas as suas ideias, como um turbilhão de planetas de Venus, scintillantes, +mas celestialmente immaculados. Tinham-me comsigo, como eu as tinha commigo. +Maria e a sua satellite se animavam com meu fogo, e m'o reflectiam virginisado; +irradiação argentina e mysteriosa, de que se formam sonhos candidos, +transpirações de um coração que se coagulam em rosas, sobre as quaes logo outro +se reclina.</p> + +<p>Eram estas visões tão claras, e estes extasis tão reaes, que bem provavam +haver no mundo, como diz Shakspeare, alguma coisa mais do que os philosophos +presumem; havia por força uma corrente e contra corrente de affectos +sympathicos e harmonicos d'ella para mim, e de mim para ella; fluidos ethereos +e celestes, que a Sciencia ainda não descobriu, mas que pelos effeitos se +manifestam.</p> + +<p>Dizem que entre o Mediterraneo e o Atlantico, por baixo das aguas que passam +contínuas pelo estreito, repassam encobertas outras tantas; são oppostas as +direcções; mas os impetos caudalosos são eguaes, e não se contrariam. Cada mar +toma quanto enviára, e restitue quanto recebêra. As columnas do <em>non plus +ultra</em> ficam desmentidas. Os dois mares, graças a esta corrente e +subcorrente, não são mais do que um só com dois álveos e duas denominações.</p> + +<p>¿Estava Maria n'aquelle quarto? ¿ou n'outro, bem, bem longe? ¿Que importava +esse accidente fortuito e impessoal? Longe ou perto, ali ou n'outra parte, +estavamos, e sentiamos estar, em communicação directa. A corrente superior e +clara, era para ella a dos meus transportes; para mim, a dos +transportes—d'ella; mas ella e eu percebiamos não menos que enviavamos +affagos, e que elles chegavam aonde se dirigiam.</p> + +<p>¡Ai, hora incendida e imperiosa de um meio dia de verão! ¡hora em que os +passaros se calam a dormitar a sesta debaixo das folhas mais espêssas, e as +cortinas das alcovas se fecham! via-a eu estar-se recreando n'um crystallino +banho de affectos, que eu<span class="pn"><a name="pag_90">{90}</a></span> +mesmo lhe andára enchendo, que a sua amiga lhe toldára de confidentes sombras, +e onde a vigilancia de ambas não deixava penetrar olhos extranhos. Aquelle +deleite, de que eu era tambem autor, me endeusava.</p> + +<p>Estava fóra de mim, sem saber onde. Por uma d'essas incoherencias que tão +frequentes são nos sonhos, o logar era muitos logares ao mesmo tempo: era +Vairão; era a Capital; agora, uma sala entre uma bibliotheca e um jardim; logo, +um refugio campestre; e os moradores de cada um d'estes paraizos, sempre os +mesmos dois, e mais ninguem. O phantasma das primeiras noites do laranjal de +Almedina, era agora uma verdadeira donzella, vivente como eu, incontestavel +como eu, que me falava, que me respondia em voz humana, a quem eu apertava e +beijava com fogo a mão elastica e macia.</p> + +<p>Se algum som inesperado me quebrava a allucinação, e eu, reconhecendo o +dormitorio, advertia na imprudencia de permanecer tão pertinazmente no mesmo +pequeno espaço, retomava triste o meu passeio longo e solitario da porta do +terreiro até a da sala vaga, e d'esta até á magnolia.</p> + +<p>A pouco e pouco me revertiam as fugidas illusões; as duas cellas tornavam a +ser o meu sacrario, o meu palacio, a minha Cythéra. Mais cauteloso então o +somnambulo, em vez de parar, afrouxava e emmudecia, quanto lhe era possivel, o +passo por diante do asylo dos seus mysterios; applicava o ouvido da alma, e +tornava a perceber, em termos sempre novos, e com circumstancias sempre +diversas, as mesmas confidencias que o enlevavam.</p> + +<p>Mais de uma vez aconteceu abrir-se inopinadamente uma porta no corredor, e +sair... ¡um Religioso! Áquella apparição mal agoirada, dissipava-se todo o +mundo phantastico; ¡era como se um abutre se tivesse precipitado sobre um bando +de pombas! As sombras de Maria e Anna recebiam um suspiro saudoso já a vinte +leguas de distancia; e eu sahía pelo terrado dos viveiros, subia o arvoredo da +quinta, e ia procurar junto ao Lago dos Cedros refrigerio contra os ardores da +febre, que indubitavelmente me abrazava.<span class="pn"><a +name="pag_91">{91}</a></span></p> + +<h2><a name="SECTION002350000000000000000">XXXV</a></h2> + +<p>O Lago dos Cedros de Santa Cruz de Coimbra era (não sei se o será ainda +hoje) uma das mais donosas curiosidades de Portugal. Parece impossivel que o +riscassem assim para Conegos regrantes de Santo Agostinho, para successores de +S. Theotonio. Que o traçasse D. João V para uma cêrca de freiras de Odivellas, +ou Luiz o grande, de França, para se estar com Racine ou Molière, ou com as +gentis collaboradoras dos seus romances, nada mais natural.</p> + +<p>Era no cimo de um suave oiteiro, uma esplanada espaçosa, toda em derredor +cerrada de uma alta muralha de cedros, tão a prumo, tão massiça e de tão +renteada superficie, que não parecia senão muro solido pintado de verdenegro +por algum Cinatti. Portas arqueadas, rotas na muralha a distancias eguaes, +mettiam para alamedas seculares, que, descendo, e dispartindo-se, todas +ennoitecidas, murmurantes, gorgeadas, cheirosas e ermas, iam buscar por outros +pontos da cêrca novas amenidades, ou taboleiros de flores, ou fontes e repuxos, +ou obeliscos de murta, ou estatuas devotas, ou inscripções meditabundas. Aos +pés da muralha dos cedros corre um canapé rustico de porta a porta. O chão, +atapetado de fina relva, abre-se no meio em um lago amplo e redondo, com sua +ilheta ao centro, toucada de laranjeiras viçosissimas, a namorarem-se com toda +a razão, verdes e doiradas, como o ceo azul, nas aguas crystalinas. Duas +bateiras sem dono, mas que o amor e o prazer podiam com iguaes direitos +reivindicar, são a flotilha d'este pequeno mediterraneo, d'onde, por mais que +faça a circumfusa mystica do ermo, não logra desterrar umas não sei que +lembranças e saudades da ilha de Chypre, e das nymphas que a imaginação grega +enxergava por entre as ondas do Egeu. Ali ao menos é que eu ideára o <em>Banho +das Graças</em>, descripto por Narciso n'uma das suas cartas; e ali é que eu +devaneei o <em>Barquinho do lago encantado</em>, que vós lestes n'este livro.</p> + +<p>Nos assentos de cortiça, ou no velludo do relvado, folgava de me estirar a +sós com o coração ainda<span class="pn"><a name="pag_92">{92}</a></span> +agitado das scenas do dormitorio do Pilar. ¡A taciturnidade do sitio, todavia +tão melodiosa, vinha tão de molde aos soliloquios da Musa interior! Eu não +pensava: borboleteava: deixava-me boiar na viração pelos dominios infinitos da +alma, ora tocando n'um espinho e fugindo, ora poisando n'um jasmim e +adormecendo.</p> + +<p>Ha horas d'estas em que a gente senhoreia o planeta, e não é d'elle; em que +tudo quanto é solido, isto é, duro,—fixo, isto é, estorvo,—temido, isto é, +tirannia,—elementos de que se nos compõe a vida real a todos quantos somos, se +afunde a pouco e pouco e desapparece, e um relampago de bemaventurança nos +envolve com a sua luz visionaria. N'estas horas, em que nos vingamos dos +positivistas, recambiando-lhes o titulo de doidos com que elles nos calumniam, +forçamos nós o destino a servir-nos, como escravo docil aos nossos minimos +desejos.</p> + +<p>Fundia eu o possivel e o impossivel; corporificava-os; disfructava-os. Dos +raios do sol fabricava palacios de oiro para Maria; das balsamicas exhalações +dos cedros, mocidade perpetua para ambos nós. Conversávamos com os nossos +irmãos passaros, perguntando-lhes se os seus ninhos continham tanta ternura +como os nossos berços.</p> + +<p>¡E haver quem deplore a vida como breve, guando n'ella cabem d'estas +immensidades! ¡Grande ingratidão! ¡profundissimo desconhecimento!</p> + +<p>«¡Delicias são, mas delicias que passam!» vocifera um incontentado. ¡Oh, que +não passam! quando se cuidam idas, nol-as vem restituir a saudade. As proprias +lagrimas, com que então as acolhemos, nol-as reverdecem; outra vez as gozamos, +porventura mais formosas que no seu primeiro ser; e mais formosas e mais +queridas sempre, de apparição em reapparição. Negue-o quem quizer; não se lhe +inveja a philosophia. Eu por mim sei que tudo isto é muito verdade.</p> + +<p>N'esta propria hora, já tão remota, me estou eu ainda saboreando, como +presente, nos feitiços do meu Lago dos Cedros; sou um espelho que embebeu a +visão, e já não a perde.</p> + +<p>¡<em>O meu Lago</em>, disse eu! ¿e por que não? ¡se eu possui a pleno tudo +aquillo, o possuo, e não ha força nem jurisprudencia que de tal me possam +despojar!<span class="pn"><a name="pag_93">{93}</a></span> ¡Imaginavam os bons +dos Conegos regrantes que eram elles os senhores d'aquelles dominios, <em>mea +regna</em>!... e um sopro, que se levantou da parte do seculo, lhes sumiu todos +os titulos de propriedade. Os meus não se escreveram em pergaminhos, e existem; +e estão-se rindo de revoluções do mundo: <em>mea regnas</em>. ¿Sabeis porquê? +porque a mim foi a Natureza, e seu filho o Amor, quem me fez a doação; e a +elles, tinha-lh'a feito um chimerico direito regio sobre todo o solo, bens, e +futuros, de nossa terra.</p> + +<p>No dia em que os despediram, como illegitimos detentores de uma propriedade +commum, perderem um gozo material; e nada mais perderam, porque posse +espiritual, comparavel á minha, nunca elles a chegaram a tomar. Não era para +elles que as aves cantavam contentamentos, que as arvores vicejavam esperanças, +que as fontes murmuravam nomes de ausentes, que as virações calidas exhalavam +phyltros, que os effluvios das flores namoravam, e que a solidão era povoada; +tudo isto, quem o disfructava era o poeta, que o está ainda disfructando.</p> + +<h2><a name="SECTION002360000000000000000">XXXVI</a></h2> + +<p>¡Que grande erro social, que nefando peccado de prosa, não foi: que na hora +audaz, em que se arrancaram do solo os troncos seculares carcomidos e sêccos +das Ordens religiosas, se não mettessem logo para o logar d'elles plantações +novas, de optima qualidade, que tão bem haveriam pegado! Extirpavam um +preterito que ensombrava e assombrava; bem era; ¡mas quantos queixumes e +clamores se não teriam afogado á nascença, se logo semeassem, ali mesmo, +futuros apropriados ás necessidades já conhecidas da presente edade, e das +edades ulteriores!</p> + +<p>¿Estes conventos-palacios, estas cêrcas-principados e paraizos, estas +grossas rendas, por que se não applicaram a abrigar e manter, isto é, a salvar, +recompensar, e aproveitar, poetas, artistas, e sabios, que são, cada um a seu +modo, outros tantos solitarios por vocação, e que do fundo dos seus ermos +encantam o mundo com prodigios? Não ha Religiosos que mais deveras honrem e +manifestem a Potencia Creadora. ¡Como a convivencia quotidiana,<span +class="pn"><a name="pag_94">{94}</a></span> de todas as horas, diurna e +nocturna, com tantos engenhos e talentos variadissimos, fecundaria a cada um +com o polen de todos! ¡Como o pintor influiria no poeta, o poeta no musico, o +musico no estatuario, o estatuario no historiador, o historiador no philosopho, +o philosopho no moralista! ¡Como os bisonhos reaqueceriam com o seu fogo aos +veteranos! ¡e os invalidos, se os lá houvesse, encaminhariam com a sua +experiencia ás aguias no seu primeiro adejar á borda do ninho!</p> + +<p>Então sim, que todo este maravilhoso poema de Deus, chamado Creação, no qual +todas as artes se travam e permutam em harmoniosa competencia, seria lido se +traduzido em voz alta ás multidões; e em quanto o mundo physico se dilatasse em +riquezas e commodidades palpaveis, haveria, aqui e acolá, grupos seriamente +religiosos, que lhe estariam elaborando ares mais respiraveis para o espirito.</p> + +<p>Não é, não é utopia; que o digam, e infinitamente <em>a fortiori</em>, os +caudaes litterarios e scientificos, de que foi matriz a ordem Benedictina.</p> + +<p>Depois de cahido o colosso monacal, sepultado no desprêso, quasi no +esquecimento, e recoberto com montanhas de odios como o Typheu sob os +promontorios da Sicilia, fôra valentia covarde hoje em dia, zêlo superfluo, e +actividade ociosa e ridicula, restaurar o processo condemnatorio das Ordens +religiosas, já trancado. Permitta-se-nos entretanto ponderar em proveito da +ideia que aventavamos: ¡quão inuteis, comparados com estas congregações de +sabios, de artistas, de poetas, não eram, por exemplo, aquelles reclusos de +Santa Cruz de Coimbra! ¿Que beneficios lhes deveu o mundo em tantos seculos? +¿que vestigio deixaram da sua existencia? ¿que tradição, ao menos, de +santidade? ¿Alcançámos nós ali algum successor de S. Theotonio, ou de Santo +Antonio, d'este sympathico e popular Santo Antonio, que experimentou Santa Cruz +e a refugiu por mal conforme ao seu espirito humilde e penitente? De todo em +todo, nada.</p> + +<p>Estava sendo um feixe de homens absolutamente negativos:—nem illustrados, +nem ignaros; nem aristocratas, nem democratas; nem beneficos, nem maleficos; +nem do povoado, nem do ermo; nem desconsolados, nem contentes; nem +escandalosos, nem<span class="pn"><a name="pag_95">{95}</a></span> +edificativos. Apenas tinham de vida quanto bastava para não serem enterrados. O +seu Prior subia uma vez por anno á Universidade, a abrir como Cancellario a +sala dos exames privados, e voltava para a hybernação. Mostravam a sua +livraria, como os tumulos dos dois Monarchas: sem tomarem d'elles, nem d'ella, +coisa alguma; mostravam o seu santuario, como a espada de D. Affonso I: tudo +reliquias sem virtude excitativa; mostravam as suas quintas com desvanecimento, +mas bocejando. As Imagens de pedra, lá fóra, na frontaria da egreja, geladas e +immoveis entre ninhos e hervinhas floridas, não eram menos insensiveis do que +elles n'este banho da Natureza tão viva e voluptuosa. Tanto lhes diziam já a +elles as harpas eólias das ramadas, como os vultos de marmore dos quatro +Evangelistas, ou das tres Virtudes theologaes, o do seu Patriarcha Santo +Agostinho, ou os conceitos mysticos estampados pelos azulejos. Indifferença +para o Céo, indifferença para a terra.—Viver tal não valia a pena.</p> + +<p>Quando o anjo da espada de fogo os pôz fóra do eden, só poderam levar +saudades do ocio descuidoso e farto que se lhes acabava; mas que deixasse +nenhum vacuo a sua ausencia.... não deixou de certo. Não houve perda; mas +podéra ter havido lucro, se, como vinhamos conversando, áquelle solipsismo de +todo o ponto esteril, tivera succedido uma congregação nova:—a dos crentes no +bello, a dos devotos das artes, das sciencias, da poesia; e dos que tecem +coroas de luz para a civilisação.</p> + +<p>¿Mas que digo eu <em>não houve perda</em>? assim mesmo a houve, e, se bem se +considerar, não tão pequena.</p> + +<p>Estes dominios arrancados ás Ordens religiosas, que lhes mantinham o seu +cunho de perpetuidade, e os facultavam ao usofruto de toda a gente, passaram, +pelo engôdo de quatro cobres, com que nem a pedra dos alicerces se pagaria, +para a mão de um particular qualquer: um Silva, um Guimarães, ou um Vianna, que +apeteceu palacio, hortas, e parque para a sua familia. Desde logo, trancados os +portões a poetas, a amantes, a meditativos, dispersos os livros e os quadros, o +espirito burguez começou por dentro a desfigurar tudo, a compartir, a +amesquinhar, á sua imagem e similhança. Os Evangelistas, que escreviam tão +attentos os seus livros havia tantos<span class="pn"><a +name="pag_96">{96}</a></span> seculos, no estio á sombra das copas, no inverno +á dos troncos, foram talvez dormir para algum recanto. O arvoredo, que só +produzia meditações, produziu taboado ou carvão, e deixou livre a terra para +crear mais algum moio de milho; o Maio levou tambem d'ali os seus ermitães, os +rouxinoes, para onde houvesse menos especuladores e mais sombras, menos +estrondo e mais Natureza, menos mundanidades e mais ninho.</p> + +<p>Inuteis por inuteis, excusados por excusados, antes aquelles semimortos, a +quem acabámos de matar, do que estes taes vivos; e antes mil vezes que todos +elles, a nossa ideal republica de talentos e de genios.</p> + +<p>¡Dá gosto a quem sabe dizer, como Christo ao Diabo, que o homem não vive só +de pão, phantasiar o que haviam de dar de si estas novas colmeias, estes mixtos +de gymnasios de exercitação, e Runas de repoiso! ¡os favos que ali se +espessariam de poemas, de operas, de musicas populares, de romances, de +historias, de philosophia, de sciencias, de tudo quanto ha de mais saboroso e +nutritivo para a alma! ¡Como o soldado dos <em>Lusiadas</em> seria feliz, e +quão mais copioso testamento de versos de oiro houvera deixado, a ter existido +no seu tempo um tal refugio! Poupava-se ao amigo Jáu o trabalho de mendigar +para elle, e á velha Barbara o vexame de lhe esmolar da sua pobreza</p> + +<p>¡E de Camões para cá, quantos até hoje, da sua familia poetica, que morreram +á nascença ou se extraviaram e perderam, não estariam agora por cima das nossas +cabeças a resplandecer!</p> + +<p>¡A terra e o ar a criarem-nos sempre n'esta região de benção, e nós sempre +n'esta plaga de maldição a desperdiçarmos! Só tres seculos depois de mortos +advertimos em que ainda não morreram, e nos lembramos de lhes ir buscar uma +pedra para monumento. A honra aos ossos, essa que espere mais dois seculos; não +tem pressa; agora descança-se.</p> + +<p>¡Pobre Camões! se a tua Santa Cruz, esse torrão inspirativo, onde tu mesmo +havias poetado tambem nos dias da tua mocidade, fosse já então isto que lhe eu +cubiçava nos meus entresonhos á beira do Lago dos Cedros, e te hospedasse com +orgulho nas suas sombras, abastado, seguro, escutado, e applaudido<span +class="pn"><a name="pag_97">{97}</a></span> de outros cysnes, não saberias ter +suspirado no teu ultimo canto aquelle triste verso</p> + +<blockquote> + <em>o gôsto de escrever que vou perdendo;</em> </blockquote> + +<p class="ni">nem aquella estancia, que ainda nos faz córar por nossos +bisavós:</p> + +<blockquote> + Vão os annos descendo, e já do estio<br> + há pouco que passar até o outono;<br> + a fortuna me faz o engenho frio,<br> + do qual já me não jacto, nem me abono;<br> + os desgostos me vão levando ao rio<br> + do negro esquecimento, e eterno sono;<br> + mas tu me dá que cumpra, ó grão Rainha<br> + das Musas, co'o que quero á Nação minha.</blockquote> + +<p>O que tu pedias á Rainha fabulosa das Musas, haver-t'o-hia liberalisado, sem +rogos, a esclarecida previdencia da Nação, então devéras tua, e de todos os +que, como tu, se desvelam pela engrandecer.</p> + +<h2><a name="SECTION002370000000000000000">XXXVII</a></h2> + +<p>Assaz e de sobra tenho sonhado; levantemo-nos, que são horas de nos irmos +chegando ao fim da nossa jornada.</p> + +<p>Além de Santa Cruz, outros muitos sitios, onde o acaso me levou pelos +arredores de Coimbra, e mais longe, vieram entretecer na tela do meu permanente +affecto os bordados das suas peculiares inspirações.</p> + +<p>As <em>Ruinas do Mosteiro</em>, por exemplo, nasceram da contemplação +melancolica dos restos do convento de Santa Clara, á beira do Mondego<a +name="tex2html4" href="#foot532"><sup>[4]</sup></a>, e de uma visita de +passagem aos destroços de um cenobio de monjas, não sei já de que Ordem, em +Moimenta da Beira.</p> + +<p>As <em>Duas Palmeiras</em>, colhi-as n'uma excursão á magnifica matta do +Bussaco.<span class="pn"><a name="pag_98">{98}</a></span></p> + +<p>A <em>Rega dos pomares</em>, deu-m'a ao descahir de um dia de verão a quinta +suburbana das Setes Fontes.</p> + +<p>A <em>Noite do estio</em>, passou-se me tal em realidade na quinta de Santa +Margarida, n'um cedral que lá havia n'esse tempo, e já não ha, bem ao rés do +Mondego. Era a noite (¡se podiam esquecer coisas d'estas!) era a classica noite +da romaria annual do Senhor da Serra, quando bandos de peregrinos e peregrinas +de longe, de muito longe, trajados de gala á moda de suas terras, enramados de +verde, seguindo as violas, e alternando nas cantigas a devoção e os amores, +veem pernoitar na cidade, pelas varzeas, pela ponte, pelas quintas, para +seguirem juntos para a serra em começando o primeiro desmaiar de estrella na +antemanhan.</p> + +<p>Até a <em>Feiticeira</em> (¡quem o crêra! crel-o-hão agora, porque de +vergonhas ficticias ninguem se jacta) a <em>Feiticeira</em> mesma teve, sob os +enfeitos ou disfarces da poesia, o seu fundo de realidade. Morava a boa da +velha n'um casebre escuro da rua da Figueirinha; tinha fama, n'esse tempo, de +ser uma das sibyllas que melhor atinavam com os futuros, e com mais certeira +mão pescavam o perdido nos abysmos do passado. Rira-me eu sempre de gente +d'esse lote, e espanto-me hoje de quem se não ri d'ella; mas poeta, criado com +os supersticiosos Romanos, amante e com tão poucas certezas fixas a que me +apegar, disse um dia entre mim:</p> + +<blockquote> + <em>................... quid tentasse nocebit?</em></blockquote> + +<p class="ni">e dirigi-me para a nova Cumas, como podéra ter ido á tôa para +outro qualquer passeio. Colhi prognosticos ruins; não lhes dei fé, mas sahi +triste. O tempo (bem haja elle) os desmentiu de todo o ponto.</p> + +<h2><a name="SECTION002380000000000000000">XXXVIII</a></h2> + +<p>Abraçára meu irmão, por muito livre e muito reflectida escolha sua, o estado +ecclesiastico. Pelos meus gostos imaginais os seus; o parochiar nos campos, bem +vedes se lhe não seria incentivo de ambições.</p> + +<p>Não ha viver mais poetico para um espirito amante do remanso e do estudo, e +avido de bemquerenças,<span class="pn"><a name="pag_99">{99}</a></span> nem +mais talhado para dar largas a uma actividade bemfazeja; diziam-lhe que era +enterrar o seu talento e saber; respondia que antes era pôl-os, se porventura +os possuia, onde, embora entre humildes, melhor poderiam resplandecer; e que, +assim como uma egreja entre mattos e casaes era mais egreja, que cercada de +ruas e tráfego, tambem a eloquencia podia ser impunemente mais viva, mais +caudalosa, mais remontada e mais pathetica, e sobre mais formosa mais efficaz, +e mais eloquencia em todo o caso, entre os singelos filhos dos campos, do que +entre os zombeteiros moradores das cidades.</p> + +<p>A todas estas razões lhe acrescia outra, que elle não declarava, mas que eu +bem sabia ser-lhe a principal: n'um presbyterio rustico, se o conseguisse, se +nos devolveriam em commum dias, á feição d'aquelles que a leitura dos nossos +poetas nos havia costumado a cubiçar.</p> + +<p>Cumpriram-se-lhe os votos. A senhora Infanta Regente D. Isabel Maria o +proveu no Priorado de S. Mamede da Castanheira do Vouga.</p> + +<h2><a name="SECTION002390000000000000000">XXXIX</a></h2> + +<p>A 23 de Outubro de 1826 entravamos, com o alvoroço da novidade, e cheios de +vagos projectos não pequenos, pela alpestre região ás abas da serra do +Caramulo.</p> + +<p>¡Nada mais avêsso ás amenidades que nos ficavam em Coimbra! ¡solo magro, +ondado, mattagoso, ermo, roto de quebradas e algares, selvoso por intervallos, +salpicado a longe e longe de alguma escassa póvoa recoberta de loisas ou de +feno, e retalhado de rios e ribeiros profundos e pedregosos! ¡No descampado um +passal, antiga quinta das Limeiras dos Condes da Feira, que ali se iam pelos +verões montear javardos! ¡Ao centro do passal, e á beira da via publica, o +templo de S. Mamede com seu adro arrelvado cingido de cerejeiras, platanos e +nogueiras! ¡Por detraz do templo, emboscada, a residencia parochial! ¡Por +detraz d'ella despenhadeiros até um rio, que o sol não avista em cada dia por +mais de uma hora!</p> + +<p>Repicavam os sinos dando as boas vindas ao novo Pastor.<span class="pn"><a +name="pag_100">{100}</a></span></p> + +<p>—«¿Onde está a freguezia?» perguntavamos nós maravilhados:</p> + +<p> </p> + +<p><em>¿Qui teneant (nam inculta videt) hominesne, feræne?</em></p> + +<p> </p> + +<p>—«Dispersa, escondida pelos oiteiros, a uma parte e a outra, distancias +muito largas.» O unico visinho proximo da egreja e do presbyterio era, lá para +a orla do passal, S. Sebastião na capellinha branca, como que posto de guarda á +sua profusa e rumorosa matta de sobreiros.</p> + +<p>Solidão silvestre mais caracterisada, não quero que a haja. A poesia e as +festas da serra (que nada ha tão desamparado que não tenha suas festas e +poesia) só depois e com o tempo é que tinham de nos vir apparecendo.</p> + +<p>Entrança tão desabrida infundiu-me tristeza; e o alvoroço em que o movimento +e variedade da jornada nos trouxera, breve me degenerou em esmorecimento. ¡Se +me vinham tão frescas e presentes as memorias, não só da cidade do Mondego, +senão tambem da minha Lisboa natal, d'onde tão poucas semanas havia que eu +sahira! ¡Vermo-nos agora de improviso sequestrados de todo o trato humano, em +paragem na qual não havia porquê nem para quê numerar as horas, e onde a +carranca dos sitios tinha um cunho tão profundo de immutabilidade, que o +espirito se confrangia, e se gelava o coração!</p> + +<p>Pela primeira vez ali o namorado da Natureza se amuou, e teve com ella os +seus arrufos.</p> + +<p>Se o permittis, ouvir-lhe-heis versos em que procurou desabafar:</p> + +<blockquote> + A <small>PRIMEIRA NOITE NA SERRA</small><br> + <br> + <em>.................ibi hæc incondita solus</em><br> + <em>Montibus et silvis studio jactabat inani.</em><br> + <br> + ¿Vélo? ¿Sonho? ¿Deliro?! Em solitario monte,<br> + que se espanta de ver-me, e cuja austéra fronte<br> + nada avistou jamais no amplissimo horizonte<br> + do mundo a tumultuar, de cidades a rir...<br> + n'este ermo ignaro, frio? mudo...<br> + aqui... (¿deliro? ¿ou sonho?) aqui meu lar, meu tudo,<br> + ¡o meu presente e o meu porvir!<span class="pn"><a name="pag_101" + id="pag_101">{101}</a></span><br> + Genio invisivel da montanha,<br> + de astros, de sol, o ceo te banha;<br> + o mar de longe te acompanha<br> + no livre cantico sem fim.<br> + Escada de Jacob da terra ao firmamento,<br> + a mansão tua é monumento<br> + da potencia, do amor, das glorias d'Eloïm.<br> + <br> + Emquanto, em derredor do solio teu sublime,<br> + a baixa terra vil que a instavel sorte opprime,<br> + se volve, se transforma, e sua angustia exprime<br> + n'um continuo anhelar, n'um confuso clamor,<br> + a variedades sobranceiro<br> + mantens-te qual surgiste, e do cahos primeiro,<br> + e do diluvio assolador.<br> + <br> + Silencio e paz comtigo habita;<br> + o ermo é como o eremita;<br> + loucas vaidades não cogita;<br> + ama o seu rustico trajar;<br> + em apparente inercia ama que ferva occulto<br> + de seus affectos o tumulto,<br> + seus extasis, seus ais, seus gostos, seu orar.<br> + <br> + Sim, Genio da montanha, Archanjo de poesia:<br> + eu creio em ti; eu creio em que alma ingenua, pia,<br> + póde ouvir de tua harpa a casta melodia,<br> + e abrazar-se de amor e endoidecer por ti;<br> + sim; mas eu, frivolo, profano,<br> + á solidão extranho, affeito ao mundo insano,<br> + ¿que hei de esperar? ¿que tenho aqui?<br> + <br> + ¿Toda a minh'alma se entristece,<br> + e se confrange, e se ennoitece,<br> + ao ver que a sorte lhe destece<br> + de um sopro os aureos sonhos seus.<br> + Sonhava applausos, gloria... ¡em desterro desperto!<br> + sonhava mundo... ¡acho um deserto!<br> + sonhava inda illusões... ¡e escuto-lhes o adeus!<br> + <br> + Náufrago, perco a lyra em meio da viagem.<br> + ¡Desço vivo ao sepulcro! ¡Em ti, fatal paragem,<br> + quem me resurgirá! Dos montes a linguagem...<br> + oiço... escuto... medito... e em vão quero entender;<br> + é como uns sons d'ignota fala;<span class="pn"><a name="pag_102" + id="pag_102">{102}</a></span><br> + qual ás penhas o mar, me inunda e me resvala,<br> + sem me abalar, nem me embeber.<br> + <br> + ¡Oh! ¿á minh'alma taciturna<br> + que importa, ó montanha soturna,<br> + que de perfumes sejas urna<br> + da terra erguida sobre o altar?<br> + ¿que o ceo te ria azul, mais amplo e mais de perto,<br> + que o sol doirado, ao teu deserto<br> + mais cedo suba, e á tarde o desça com pesar?<br> + <br> + Vir mais tardia a noite, a aurora vir mais cedo,<br> + ¿que me aproveita? Inerte entre o immovel fraguedo,<br> + só ouvindo os tufões e os corvos no arvoredo,<br> + bramirei:—«¡Cresce o tempo! ¡oh! ¡supplicio cruel!<br> + ¡são mais pesares, mais saudades,<br> + mais estro a arder em vão, mais visões de cidades,<br> + mais tentações a dar-me fel!...»—<br> + <br> + ¡Ai! ¡mundo! ¡ai! ¡eccos seductores!<br> + ¡Tanto vate a ceifar louvores!...<br> + ¡Tanto moço a colher amores!...<br> + ¡Tantos loireiros e rosaes...<br> + E eu n'esta solidão a torcer-me arraigado,<br> + qual roble que geme indignado,<br> + vendo ao longe no Oceano os lenhos triumphaes!<br> + <br> + Assim ruge, baldão de vingativo nume,<br> + esse que a argilla outr'ora encheu de ethereo lume;<br> + assim nos gelos sua, agrilhoado ao cume<br> + do caucáseo alcantil, seu cadafalso atroz.<br> + Só o abutre de eterna fome,<br> + que o grande coração algoz sem fim lhe come,<br> + responde em ais á sua voz.<br> + <br> + Fenece o dia. ¡Hora jocunda,<br> + que eu tanto amava! ¡hora fecunda<br> + dos cantos meus! ¿porque me inunda<br> + nova amargura o coração?<br> + ¿Sino crepuscular, tôas funéreo dobre?<br> + a serra em luto se me encobre;<br> + a nocturna mudez duplica a solidão.<br> + <br> + Nenhuma luz scintilla; humana voz não sôa.<br> + De estrellas a accender-se o Empyrio se povôa;<span class="pn"><a + name="pag_103" id="pag_103">{103}</a></span><br> + tal a fada Coimbra, a senhoril Lisboa,<br> + nest'hora a quem as olha, entram no escuro a abrir<br> + de luzeiros um labyrinto.<br> + ¡Ceos! ¡Não oiço eu troar... seus coches!... O que sinto<br> + é vento em selvas a rugir.<br> + <br> + Calae, fugi, ventos agrestes;<br> + sumi-vos, lampadas celestes;<br> + n'um seio a delirios já prestes<br> + não susciteis mais tentações.<br> + Ou antes... aturdi-me, Euros bravos; ou antes...<br> + vós, astros, cifras de diamantes,<br> + O arcano me aclarae lá d'essas regiões.<br> + <br> + ¡Oh! se á minha razão, contradictoria, altiva,<br> + que ás trevas sente horror, e á clara Fé se esquiva,<br> + de vós, faroes do Geo, baixasse a crença viva,<br> + que aos moradores do ermo inspira a vossa luz!...<br> + ¡se me volvesseis as ditosas<br> + esp'ranças que hei perdido, alvas, ethereas rosas,<br> + com que se enfeita e esconde a Cruz!...<br> + <br> + Tornar-se-me-hiam de improviso<br> + a solidão, em paraizo;<br> + a magua, em perenne sorriso;<br> + em alto cantico, a mudez;<br> + a mallograda lyra, o não colhido loiro,<br> + em harpa augusta, em palmas d'oiro;<br> + e o monte, solio então, veria o mundo aos pés.<br> + <br> + Delirios sempre vãos, fugi d'um peito enfermo;<br> + tu, só tu, negra morte, has-de ao meu mal pôr termo;<br> + ermo para ambições, e inferno, e não ermo;<br> + para a humilde piedade é que elle espelha o Ceo.<br> + Gentis phantasmas de cidades,<br> + vinde, escondei-me o ermo em vossas claridades,<br> + como um esquife em aureo veo.<br> + <br> + ¡Vinde, cercae-me, endoidecei-me,<br> + (embora em saudades me eu queime)!<br> + O somno, as vigilias enchei-me<br> + da vossa esplendida vizão.<br> + ¿Val o riso choroso as festas da loucura?<br> + vinde, guiae-me á sepultura,<br> + crente no amor, na gloria, e rindo á solidão.<span class="pn"><a + name="pag_104" id="pag_104">{104}</a></span><br> + <br> + ¡Eu blasphemo, eu desvairo! Aos encontrados votos,<br> + nem ecco respondeu n'estes covões ignotos.<br> + Não, cumes glaciaes, tão outros, tão remotos<br> + dos sitios que eu amava, e em que esperei morrer;<br> + não, no silvestre seio vosso,<br> + nem de amenas ficções apascentar-me posso,<br> + nem menos as posso esquecer.<br> + <br> + ¡Valor! ¡valor! ¿Quem do futuro<br> + sondou jamais o abysmo escuro?<br> + ¡Apenas chego e já murmuro!<br> + ¿O de que tremo acaso sei?<br> + Esperemos: talvez que inglorios, mas doirados,<br> + aqui me aguardem, recatados,<br> + dias de estro e de paz, quaes nunca disfructei.<br> + <br> + Se além, no presbyterio, humillima choupana,<br> + (Vaticano, e Queluz da pobre grei serrana)<br> + mais que fraterno amor sollicito se afana<br> + em me afofar o ninho, a vida em me inflorar;<br> + se n'um retiro verde e mudo,<br> + por elle tenho o leito, a mesa, o doce estudo,<br> + sombras no estio, o inverno ao lar;<br> + <br> + se a solidão que me apavora,<br> + sómente o fôr vista de fóra;<br> + se em seus recôncavos demora<br> + gente feliz, povo de irmãos;<br> + se do antigo viver, das crenças de outra edade,<br> + vestigios guarda a soledade;<br> + se poesia se vive entre estes aldeãos;<br> + <br> + se a alegria, serena, isenta de pesares,<br> + como a fresca saude, habita os puros ares;<br> + se em toda a parte ha Deus, em ceos, em terra, e mares,<br> + se Deus em toda a parte a Natureza ri...<br> + coração meu, não desanimes,<br> + gozos que não prevês, e cantos mais sublimes<br> + encontrarás talvez aqui.<br> + <br> + ¡Ah! sendo assim, que importa a fama!<br> + Tambem philomela derrama<br> + sua harmonia ás selvas que ama<br> + longe de ouvintes e do sol.<br> + Cantarei. ¿Meu cantar mais ambições teria<span class="pn"><a name="pag_105" + id="pag_105">{105}</a></span><br> + que a viva, a lustrosa poesia<br> + de perolas que a flux borbóta o rouxinol?</blockquote> + +<p>Sete annos se nos gastaram por ali, menos estranhos em verdade, menos +difficeis e arrastados, do que o eu temêra, ao trocar, tão a subitas, cidades e +amenidades por brenhas alpestres, tão desconversaveis á primeira vista. Tivemos +tempo de sobra para nos irmos aclimando e afazendo, e haurindo poesia mesmo dos +penedos, e estillas de mel mesmo dos urzaes. Mas tudo isso pertence a outro +livro, onde algum dia folgarei de hospedar os meus leitores; chama-se por +signal <em>O Presbyterio da Montanha</em>.</p> + +<h2><a name="SECTION002400000000000000000">XL</a></h2> + +<p>Tem a solidão isto de commum com o silencio e a escuridade: espanta e aturde +a quem n'ella cái; mas logo que o ouvido, desadormentado dos sons fortes, +aprende a conversar com a mudez; tanto que os olhos, desoffuscados dos luzeiros +intensos, se exercitam em caçar espectros de raios, phosphorescencias +indecisas, que são como que os infusorios das trevas, descerrou-se o negrume em +brilhantismo; a calada aviventou-se de dialogos; a solidão, que parecia o nada, +é o theatro com o seu drama; é um mundo novo com um systema completo de +existencias imprevistas e apropriadas.</p> + +<p>¡Que admira! A solidão medita, e a meditação cria.</p> + +<p>Os sentidos pastam só no que lhes offerecem a Natureza, a fortuna, o acaso; +a divindade interior, a alma, tem commercios ineffaveis com o intimo e +ignorado. S. João, entre os nevoeiros de Pathmos, divisa uma Jerusalem celeste; +nas cogitações de Socrates, apparece o Omnipotente: nos extasis de Platão, +reflexos da Trindade; nos calculos taciturnos de Galileu, firma-se o sol, +volteiam os planetas; Colombo faz surgir do fundo dos mares a America; +Leverrier, mais globos no espaço; Fulton, o hypogripho, o pégaso do vapor, +magia, poesia, potencia escrava do homem, e dominadora, primeiro dos oceanos, +depois dos continentes, e amanhan talvez dos ares; a solidão cismadora, dá a +Eneida a Virgilio; mostra a Linneu<span class="pn"><a +name="pag_106">{106}</a></span> os amores e o somno das plantas; a Dante, o +inferno; a Fourier, o paraizo terrestre; a Newton e a Laplace, o codigo dos +astros; a Daguerre, os talentos artisticos do sol; ao Gama, o caminho do +Oriente; ao soldado Camões, o da immortalidade; põe na mão de Guttemberg a +chave do cofre das sciencias; na de Vicente de Paulo, a da caridade; na de Say, +a da riqueza publica; na de Pestalozi e Froebel, a da escola séria e +fecunda.</p> + +<p>Assim como na associação está a potencia do effectuar, está na solidão a +potencia ao descobrir, e a ideia germen do facto. Na solidão, a meditação; a +acção, na sociedade. O progresso e a vida do mundo dependem da cooperação +d'estes dois elementos antagonistas, como da attracção e repulsão a marcha das +espheras; e tão fanatico é o fanatico do ermo, Brahmane, Esseno, ou Monje, que +cifra tudo no espirito, como o fanatico da actividade material, que tudo cifra +na materia. Este ultimo é elemento visivel e palpavel; aquelle, elemento +imponderavel dos destinos humanos; e tão imponderavel e subtil, que muitos lhe +contestam de boa fé a existencia, os influxos, a importancia.</p> + +<p>Archimedes, a sós com a Natureza e com o seu genio, descobre os meios de +destruir e incendiar a frota romana. Absorto em suas reflexões criadoras, no +seu gabinete, como n'um antro, não sente o estrondo da cidade, já senhoreada +dos inimigos; não acorda á voz do soldado de Marcello, que, de espada em punho, +lhe ordena que o siga; sem o sentir é degolado. Cai a grande cabeça, irman +entre irmans, no meio das espheras celestes que está architectando. Só de tão +extraordinaria concentração podiam brotar os seus tão extraordinarios inventos +e descobrimentos.</p> + +<p>Lavoisier, outro dos martyrisados pelo materialismo descrente e brutal, +depois de haver testado ao mundo a mais opulenta herança scientifica, +condemnado ingrata e cegamente á guilhotina, ¿que é o que pede aos verdugos +revolucionarios seus juizes? uma dilação de quinze dias. ¡Só uma dilação! ¡só +de quinze dias! ¿para quê? para concluir trabalhos uteis á humanidade, que +n'este momento o desconhece; rematados elles, já não terá pena de morrer. +Recusam-lh'a; então caminha sereno a depôr no cadafalso<span class="pn"><a +name="pag_107">{107}</a></span> uma cabeça maior talvez que a de Archimedes, e +ainda na vespera coroada de loiros pelo Lyceu.</p> + +<p>Tanto a actividade fecundante, recolhida por instincto para os penetraes +mais sagrados do animo, d'onde se conversa em extasis com Deus e com a +Natureza, com e Pae Omnipotente e com a Filha Formosissima, nossa irman, fica +inaccessivel aos maiores cataclysmos externos, ás catastrophes das Syracusas, +ao cahos, providencial porém medonho, de uma revolução franceza.</p> + +<p>O homem que nasce pertencente á escassa familia d'este naturalista pae da +Chimica, e d'aquelle geómetra pae da Mechanica, mesmo com os braços cruzados +sobre o peito, mesmo com os olhos fechados, mesmo dormindo e sonhando, está +servindo como operario; mas abaixo d'elle ha ainda, não menos veneraveis, os +prestigiosos scismadores do mundo da Arte, mundo não menor, nem talvez, em +ultima analyse, menos util que o da Sciencia.</p> + +<p>André Chénier, especie de Lavoisier da Poesia, convocado tambem para o +festim da morte, não é dos prazeres ephemeros da existencia que leva +saudades;—bate apaixonadamente raivoso na fronte, porque sente se lhe estava +ali dentro formando, como em cerebro olympico, uma nova Musa gentilissima. +¿Quem lh'a revelára? A meditação solitaria, que sabe tudo, e tudo prophetisa.</p> + +<p>¡Bonissima solidão! Tu és para a sociedade o que as tuas montanhas são para +os valles: nas tuas entranhas se filtram, dos teus reconcavos rebentam, os +genios possantes e profundos que vão derramar por longe a fertilidade. Mas tu +não és só mãe ás torrentes caudaes; uma fontinha entre lapas, desconhecida, não +se goza menos do teu favor. Sobre o pouco liberalisas dons, como sobre o muito; +próvida para o immenso, próvida para o limitado. ¡Solidão, Egeria das almas +eleitas! ¡solidão, buscada por Christo, abraçada por Jocelyn, adorada por +Petrarcha, explorada em tuas minas de oiro por Zimmermann, inspiradora de +Volney, de Rousseau, do Infante de Sagres, de todos os videntes, de todos os +descobridores, de todos os inventores, de todos os Baptistas! ¡Solidão, ninho +das rolas como das aguias, perdôa, se eu não sabia ainda apreciar-te.</p> + +<p>Só agora, depois de arrancado d'ella ha tantos annos<span class="pn"><a +name="pag_108">{108}</a></span> que já a podéra ter esquecido, só agora é que +decifro (se porventura não é miragem do amor proprio), que a seriedade austera +e o sorrir melancolico da montanha vieram tão de proposito entremear-se na +minha vida poetica e amoravel, como a primavera do Paço do Lumiar e as do +Mondego. </p> + +<h2><a name="SECTION002410000000000000000">XLI</a></h2> + +<p>Os meus sete annos da serra, só de longe a longe interrompidos por algumas +breves excursões a Coimbra, e uma a Lisboa, contiveram forçados e sobejos ocios +para eu pensar em alguma coisa mais duradoira e menos egoista que as rosas e os +amores; direi melhor:—iniciaram-me um tanto nos segredos de outra esphera +menos baixa, na qual ha flores tambem, mas que não murcham; ha tambem ternuras, +mas que abraçam o genero humano.</p> + +<p>O presbyterio, com a nossa bibliotheca semi-pagan, homiziava-se á sombra do +templo do pastorinho S. Mamede. O campanario só chamava para a oração e para +festas um povo que se não via, e que aos eccos d'aquelles repiques parecia +rebentar da terra. Relogio, não o tinha; contentava-se de pregoar a saudação +angelica nos dois crepusculos e ao meio dia. As horas, que são do tempo, +desdenhava-as como alheias ao pensamento da immortalidade. O silencio era +profundo e geral; seria sem quebra, se o não interrompessem as musicas da +Natureza no ermo: os passarinhos por fóra das duas portas abertas da egreja, as +cigarras nas oliveiras do passal regaladas no seu banho de sol, as rolas e os +cucos no sobreiral de S. Sebastião, as aves domesticas no nosso pateo espaçoso, +os grillos pelos silvados, os álertas dos gallos, os uivos dos lobos, os pios +dos mochos pelas noites, o frémito do vento pelos pincaros do pomar, +enclausurado e protegido com o tugurio no recinto de muros altos, e ás vezes +tambem nos temporaes, pela montanha de heras de que se toucava entre platanos o +portão hospitaleiro da vivenda.</p> + +<p>N'este intermundio o que passava lá ao longe pelo Reino era quasi tão +desconhecido como as occupações dos moradores dos outros planetas. Das +raias<span class="pn"><a name="pag_109">{109}</a></span> da serra a fóra só +tres nomes nos constavam ao certo, porque nol-os dava a collecta da Missa: de +um Papa, de um Bispo, de um Rei; os parochianos que não sabiam o latim, nem a +tanto chegavam, cuido eu; o que lhes não vedava serem muito boa gente, muito +bons christãos e amigos da Patria, em que lhes constava achar-se encravada a +sua montanha.</p> + +<p>Povos de tão benigna condição, facil era, e gostoso, pastoreál-os. Homens +tão montesinhos e sáfaros, mas ao mesmo tempo doceis, intelligentes e activos, +grande obrigação era, além de dever civico, humano, e religioso, arroteál-os +para um pouco de civilisação, ou para muito, se possivel fosse.</p> + +<p>Agras e agerrimas são de si as entreprêzas d'este genero; mas por isso mesmo +é que alliciam almas generosas.</p> + +<p>¡Grande era, e excellente, a alma do mancebo Parocho!</p> + +<p>Novas leituras, novos estudos, em razão de seu officio, se houveram de +enxertar nos nossos anteriores conhecimentos, só poeticos pelo de mais. Pegaram +ás mil maravilhas; ganharam extraordinaria força em razão da seiva que já +encontraram prevenida.</p> + +<p>Pelas suavidades da Litteratura vai bom caminho e muito direito para a +Philosophia e para a Moral; por isso não sem razão lhe chamaram estudos +humanos, ou humanidades. Devorámos com avidez de poetas as eloquencias de +Bossuet, de Bourdaloue, e de Massillon; as obras dos Santos Padres, e á mistura +as de quantos escriptores sociaes, civilisadores, iniciadores, e alvitristas +sinceros, nos occorreram.</p> + +<p>Uma vez lançado o espirito por este caminho, não pára; nascem-lhe as cubiças +umas de outras; ambiciona e parece-lhe que ha-de abarcar infinitos:</p> + +<blockquote> + <em>Jam modo non possum contentus vivere parvo.</em></blockquote> + +<h2><a name="SECTION002420000000000000000">XLII</a></h2> + +<p>¡Que poesia deliciosa não ha-de ser a que referve na cabeça e no peito de um +colonisador humano: Cadmo, Amphião, Dido, Romulo, ou Cabet! ¡Que<span +class="pn"><a name="pag_110">{110}</a></span> sonhos magnificos não havia +de sonhar toda essa gente!</p> + +<p>¡Pois um Fénelon a planejar Salentos!</p> + +<p>¡Pois um Voltaire a fazer homens dos seus serranos do Jurá!</p> + +<p>¡Pois um Goldsmith a conviver com o seu vigario de Wakefield!</p> + +<p>¡Pois um Daniel de Foë a trabalhar com o seu <em>Robinson Crusoé</em>, e um +Wyss com o seu ainda mais util <em>Robinson suisso</em>!</p> + +<p>¡Pois o <em>Medico da aldeia</em>, o <em>Vigario das Ardennas</em> e o +<em>Cura campestre</em> de Balzac!</p> + +<p>¡Pois Bernardin de Saint Pierre com a sua <em>Arcadia</em> e a sua républica +de felizes!</p> + +<p>¡Pois os Jesuitas domesticando os selvagens do Paraguay!</p> + +<p>¡Pois um Henrique IV a scismar com a gallinha na panella de todos os seus +subditos!</p> + +<p>¡Pois Olivier de Serres a transformar com as amoreiras a selvajaria do +Vivaret em vergel de afortunados!</p> + +<p>¡Pois a parochia de Jocelyn!</p> + +<p>¡E muito mais e melhor que a parochia de Jocelyn, o Bispado do nosso D. +Francisco Gomes do Avellar!</p> + +<p>Meu irmão sonhou tambem, e eu com elle por conseguinte, na procura da +felicidade alheia; e parece-me que o nosso affinco perseverado em certos +projectos competentemente amadurecidos, e de prestimo indubitavel, alguns +effeitos plausiveis haveria dado de si; porque lá n'aquellas terras ainda hoje +é grande a autoridade moral e a força persuasiva de um Parocho, sobretudo +quando sabem e sentem que é bom homem; ser bom homem é em seu conceito a +primeira das sabedorias.</p> + +<p>Entraram-se porém dentro em pouco os tempos a cerrar; cresceram +desconfianças no futuro; vieram-se avisinhando temporaes, que por derradeiro +nos arrancaram tambem a nós, depois de dispersas pelos ares as nossas utopias.</p> + +<p>Uma d'ellas, que de certo se teria realizado, sem contradicções nem bulha, +era: que nenhum morador da serra, menino, nem velho, nem adulto, nem lavradora, +nem ovelheira, deixaria de aprender as primeiras lettras; para o que, lh'as +iriamos levar ás suas proprias aldeias em cursos nómadas e temporarios, +concertados<span class="pn"><a name="pag_111">{111}</a></span> com as estações, +e em harmonia com as lidas agrarias. Instruida a primeira camada, facil era, ou +facil nos parecia a nós que seria, colhêr de entre ella mestres e mestras que +pela modica recompensa de alguns punhados de grãos, uns arméos de linho, ou um +tudo-nada de cobres, continuassem o ensino em suas terras.</p> + +<p>¿O saber ler de que serviria, faltando que se lesse, e que valesse a pena de +ser lido? Tinha-se assentado portanto em escolhermos, resumirmos, traduzirmos, +simplificarmos, humanarmos, e, se tanto fosse necessario, compôrmos, opusculos +destinados a darem aos nossos neophytos da religião da luz noções claras e +exactas das coisas mais importantes da natureza physica, da religião, da moral +e deveres mutuos; quanto bastasse de historia, e o mais que possivel fosse de +carta de guia para cada uma das culturas, para cada um dos mistéres, já por ali +empyricamente costumados, ou dos que se podessem com a boa vontade introduzir.</p> + +<p>Uma typographia modesta, de um só prelo, bastava, e com um só compositor, +que podia até ser um clerigo, para se não distrahirem os trabalhadores, +facilitaria esta sementeira de industria e civilisação. Os pisões dos bureis, +as mós dos moinhos, as galgas do azeite, e os fusos dos lagares do vinho, lá +poderiam extranhar nos primeiros dias, verem levantar-se por entre elles um +engenho que não deitava nem comida, nem bebida, nem vestido; mas não tardaria +que descobrissem como tudo isso, e muito mais, dimanava milagrosamente da +bemdita machina, a mais serviçal amiga de todas as machinas, de todas as artes, +de todas as sciencias, de todos os melhoramentos, de todos os progressos, de +todas as alegrias, de todas as verdades, de todas as consolações, de todas as +glorias, de todos os arroteamentos, de todos os aperfeiçoamentos, de todas as +conquistas.</p> + +<p>A imprensa no ermo, a imprensa na Residencia parochial, especie de cabana +disfarçada com limeiras e rosas, não podia deixar de ser uma imprensa util, +séria, e dadivosa; e ¡lembrasse-se ella de o não ser! Gostava eu de ver como se +avinha para isso com o pastorinho S. Mamede, seu visinho paredes meias, com a +pia dos baptisados tão limpida, com a matta além tão inoffensiva, com as +sepulturas aos pés a exhalarem<span class="pn"><a +name="pag_112">{112}</a></span> paz e bom conselho, com os passarinhos a +cantarem festa, com o sol franco por cima da cabeça a proclamar: «Vivei e amae: +vede o mundo que eu vos mostro como é formoso; aproveitae-o, e glorificae ao +nosso Creador.»</p> + +<p>Os livrinhos de tal officina talvez não alongassem vôo até ás cidades +(flôres de urze e amoras de silva não se levam ao mercado); mas abundariam +gratuitos, inspirativos, e bemquistos, por todas as casinhas da parochia: por +baixo dos tectos de palha ou lageas, como por baixo da riqueza das telhas +rubras de valladío, ou da opulencia fabulosa dos tres ou quatro telhados +moiriscados.</p> + +<p>A estante do Ecclesiastico hospedaria fraternalmente entre os breviarios, o +<em>Flos Sanctorum</em>, e as folhinhas de reza, estes opusculos do seculo. Os +paes de familias os depositariam, depois de lidos, para se tornarem muitas +vezes a reler, na papeleira por baixo do seu oratorio. O pastor os folhearia, +ruminando elle tambem nos campos do espirito, no meio do rebanho mais bem +tratado. O operario na sua officina mostraria com satisfação, entre a sua +ferramenta, estes instrumentos novos, aperfeiçoadores dos artefactos e do +artifice. As séstas de verão, os serões do inverno, ganhariam encantos com as +leituras em commum; nos testamentos figurariam como verba, a par com maiores +haveres, os volumes, que assim se iriam accumulando multiplicados pelos filhos +e netos pelos tempos fóra.</p> + +<p>Depois, os domingos, os dias santos, e os tempos mortos para a lavoira, +¡quão bem se não empregariam na cosinha, na sala da Residencia, ou na sacristia +por mais espaçosa, explicando á boa gente, já avida de saber, e que affluiria a +esses passatempos como ás romarias, o que elles não tivessem podido por si +mesmos explicar! que para isso ali estava á mão como auxiliar, ao pé do prelo +uma livraria copiosa, e continuamente acrescentada.</p> + +<p>Aos ambiciosos do latim, do francez, da historia, das viagens, das noticias +do mundo, ou mesmo da poesia, ali se dariam tambem com a melhor vontade +licções, livros, conselhos.</p> + +<p>¡Quem sabe o que em trinta, quarenta ou cincoenta annos, se não crearia por +ali, onde tão pouco em tantos seculos se adiantára! ¡Que novos e +prosperrimas<span class="pn"><a name="pag_113">{113}</a></span> culturas pelos +valles e cabeços escalvados! ¡que fabricas, talvez, servidas por aquelles rios, +por emquanto ociosos! ¡que augmento nos haveres, na população, na civilidade, +na convivencia! ¡que festas novas entre estes montanhezes! ¡Quantas á imitação +d'aquell'outras da Suissa em honra da velhice, da virtude e dos serviços +prestados á communidade pelos corações bons, pelos espiritos eleitos!</p> + +<p>O nosso amor proprio, tanto como a nossa consciencia, aspirava a peito cheio +virações de Eden, calculando e preparando tantas venturas, e tão faceis de si, +quando deveras se desejam.</p> + +<p>Até já previamos, como consequencia summamente provavel de toda esta +excitação, que umas terras assim, de que nunca se ouvira soar um unico nome +distincto para além do seu ultimo tojal, viriam a contribuir como as outras +para o lustre futuro da Patria, com talentos aproveitados em sciencias, em +artes, em litteratura, em poesia.</p> + +<p>Dilatei-me agora n'isto, porque me pareceu que não fazia mal ficar para ahi +este pequeno rebate aos curas d'almas, que para a civilisação podem mais e +muito mais do que se imagina, e do que presumem elles proprios. Assim se +tratasse de os criar bem, de os instruir muito, de os escolher com escrupulo, e +distribuil-os com acerto pelas parochias fóra de mão, em que tudo, ou quasi +tudo, jaz ainda por tentar<a name="tex2html5" +href="#foot534"><sup>[5]</sup></a>.</p> + +<h2><a name="SECTION002430000000000000000">XLIII</a></h2> + +<p>Ora pois : estas meditações sociaes, a que só falleceu o tempo indispensavel +para frutificarem em obras exteriores, que, ainda que não viessem a ser muitas, +sempre seriam algumas, produziram todavia seu effeito benefico em nós mesmos. +Tão boa coisa é de si a caridade, que, mesmo não aproveitando para fóra, unge e +fortalece a alma em que se hospéda.</p> + +<p>Aqui está como a brenha contribuiu tambem para me temperar com amores novos +a indole poetica originaria; d'ali é que me tomaram raizes as temerarias<span +class="pn"><a name="pag_114">{114}</a></span> resoluções, que muitos annos +depois se haviam de manifestar, na criação de um Methodo humano de ensino +elementar, e nos esforços para o diffundir e estabelecer.</p> + +<p>Em summa: todas quantas aspirações benevolas eu vim a patentear nos dois +livrinhos, que ainda hoje amo, <em>Felicidade pela Agricultura</em>, e +<em>Felicidade pela Instrucção</em>, não foram talvez senão reminiscencias +d'aquelle prazo da minha vida.</p> + +<h2><a name="SECTION002440000000000000000">XLIV</a></h2> + +<p>Ora eu, como os leitores sabem, não vim com este escripto representar de +grande homem, que ninguem o é menos do que eu, nem menos do que eu o podia ser; +o meu unico intuito foi expôr lisamente e com verdade os factos, de que a mim +me parece poder-se concluir com verosimilhança: que a fortuna e a natureza +andaram concordes em sequestrarem da multidão, para o deixarem só e +exclusivamente poeta e amante, o individuo de quem eu fui herdeiro, e de que +agora em parte sou biographo desapaixonado; por isso declaro com igual +sinceridade:—que a par com estas utopias beneficas e civilisadoras, a que o +espirito de meu irmão se dava todo, cá no meu nunca deixaram de vicejar os +outros generos de poesia menos alta e mais egoista, de que a indole e o costume +me tinham feito necessidade.</p> + +<p>A esses annos da serra pertencem pois, como já n'outras partes declarei, as +traducções das <em>Metamorphoses</em> e dos <em>Amores</em> de Ovidio, muitas +das bagatellas encorporadas nas <em>Excavações Poeticas</em>, a <em>Noite do +Castello</em>, e os <em>Ciumes do Bardo</em>, ciumes que, dilo-hei agora de +passagem, nada tiveram absolutamente que ver com os ideaes amores de que venho +conversando.</p> + +<p>D'esses annos a primeira parte permittia ainda largos horizontes de +esperanças, que depois se apoucaram e denegriram com as vicissitudes politicas, +as guerras civis, e as perseguições que lá mesmo nos alcançaram.</p> + +<p>Meu irmão, tão devaneador de venturas para extranhos, e que para algumas +logrou de feito contribuir, claro está que da minha se não descuidaria.<span +class="pn"><a name="pag_115">{115}</a></span> Assim como elle o era para mim, +era eu para elle transparente. Ainda que algum de nós pretendesse jamais ter +para o outro uma sombra de segredo, baldaria todo o seu empenho.</p> + +<p>Sabia elle pois, tão bem como eu, e sem eu lh'o dizer, que o meu espirito +poetico no meio de tantas poesias anciava ainda por outra mais especial, que +volteava á superficie de todas, como a mariposa que vai e vem de flores para +flores, e, mostrando-se contente de as possuir, deixa todavia suspeitar que +ainda não encontrou aquella em cujo seio ha-de cerrar as azas, aninhar-se, e +permanecer.</p> + +<h2><a name="SECTION002450000000000000000">XLV</a></h2> + +<p>Uma tarde de verão, que me eu estava acompanhado só de minhas cogitações, no +que chamavam meu <em>Templo das Musas</em>, veio elle ter comigo, trazendo com +alegria uma carta recemchegada de Vairão.</p> + +<p>Era o meu afamado <em>Templo das Musas</em> uma barraca engenhada de cannas, +vimes e feno, quadrada, alta que se podia estar em pé, ampla que se cabia +reclinado ao comprido nos bancos de cortiça que por tres lados lhe guarneciam o +interior; ao meio de cada uma das tres paredes, uma janella de um só vidro, e +outra egual na porta, davam entrada ao dia, á lua, ás viraçoes frescas, e aos +rumores proximos ou longinquos da vasta natureza exterior. Pompeava esta +solitaria e majestosa fabrica junto a um alto denominado da <em>Pedra +Branca</em>, fóra do passal, e á beira do sobreiral de S. Sebastião; +desafrontado posto, donde se descortinavam terras de quatro Bispados, com +horizontes até onde olhos de aguia podiam ir. Era miradoiro, e era escuta tudo +junto. ¡Quantas vezes d'ali não captavamos nós, poucos annos depois, o rolar +dos trovões da artilheria na acção da Ponte do Marnel, e lá muito mais a longe, +no cerco do Porto! ¡sons lugubres que vinham resaltando de cabeço em cabeço +encher de enigmas e sustos a nossa descuidosa solidão!</p> + +<p>Apezar de tudo, conservo saudades da boa da palhoça. Não havendo guerras +civis, conversava sim tristezas, mas tristezas todas mansas, e com seus<span +class="pn"><a name="pag_116">{116}</a></span> furta-côres de deleites e +alegrias. Estava-se bem ali; e se occorria desejar-se por entre sonhos alguma +outra coisa, era antes para que ella viesse enfeitar o deserto, do que não para +se ir procurál-a fóra d'elle.</p> + +<p>¡Tempos! ¡tempos! Tornei-me lá vinte annos depois; faz agora oito; mudanças +até nas brenhas! Existia a mata e a capellinha; existia a Egreja e a +Residencia; mas do meu <em>Templo das Musas</em>, nem vestigio: os invernos e +os estios tinham-lhe devorado até o minimo colmo. Onde eu dormia ou scismava +deleites, dominando do meu castello rosado pela aurora, doirado pelo sol, +prateado pela lua, espaços infinitos... estavam outra vez as queirozes em +pacifica posse do seu torrão, a vangloriarem-se talvez, com as abelhas, de +terem afinal triumphado de quem as desterrára; e as ovelhas, vigesimas +descendentes de um rebanho que pastava á roda de mim sem me ver, nem ideia vaga +tinham já de tal edificação; sumia-se-lhe na noite dos tempos.</p> + +<p>Antonita, a pastorinha que o guardava, já por ali não era. ¡Que linda voz +que não tinha, aquella prima donna dos oiteiros! ¡que poesia de anjo que não +desperdiçava só para a sua roca, e para os carvalhos! que a mim não me via +ella, ainda que tão de perto me rondava o tugurio, nem eu me denunciava, com +medo de intimidar o rouxinol; o mais que fazia era entreabrir subtilmente a +vidracinha da parte onde ella cantava, para lhe estar por ali furtando melodias +para os meus devaneios.</p> + +<p>Perguntei por ella; quando cresceu, cresceram-lhe ambições, deixou o mato e +as ovelhas; fez-se tecedeira; ao tear, cantava ainda tão alegre e innocente, +como tinha cantado á sua roca de lan nos descampados; depois, um bello dia, +convidou-a o seu anjo para ir cantar no Ceo; e desappareceu.</p> + +<p>¡De todo aquelle idyllio tão vivo, só eu resto! Guardadora, choça, rebanho, +passou tudo... Mal ficou este pequeno reflexo mortiço na pagina que estou +dictando, e que tambem, ella mesma, d'aqui a alguns annos se ha-de apagar.</p> + +<p>Leu-se a carta; era um suave queixume pela quebra já mui longa da nossa +correspondencia; e era em tudo uma confirmação evidente de que Maria não +deslisava apice da que se manifestára e fôra<span class="pn"><a +name="pag_117">{117}</a></span> desde todo o principio; e encerrava realmente +no seu complexo todos os requisitos para a felicidade de um homem, que, +possuindo paz e amores, já não cançaria o Ceo com grandes votos.</p> + +<p>—«Vamos—exclamou meu irmão, abraçando-me;—tenho promovido tantos +casamentos por estes arredores, e regala-me sempre tanto administrar o setimo +sacramento, folgasão preambulo dos baptisados, que desejo e mereço ver tambem +alegrias d'essas na Residencia. Venha a tua solitaria amenisar emfim a nossa +Thebaida. Havemos de fazer um jardim de proposito para ella por baixo da fonte +do passal, com bastantes narcisos, que lhe recordem a primeira revelação que te +ella fez da sua ternura.</p> + +<p>«Quando as obrigações do meu ministerio me demorarem por fóra (a sua +merecida fama de prégador começava a não lhe deixar dia nem hora livre; não +havia festa grande nos quatro Bispados para que não fosse rogado), quando os +meus especiaes estudos me privarem de cultivar comtigo a nossa cara Poesia, +terás uma leitora e secretaria, que te coadjuve, e ao mesmo tempo te exalte a +inspiração; a sua voz tornar-te-ha a Poesia mais poetica; os versos dictados +para mão tão delicada, sahir-te-hão mais bem nascidos.</p> + +<p>«Podiamos edificar aqui desde já uma casinha aprazivel, um verdadeiro ninho +de andorinhas para o novo casal; mas possivel é, bem sabes, que não seja esta a +terra que nos ha-de comer os ossos; e n'esse caso, o havermos lançado aqui +raizes mais fundas, teria sido tornarmo-nos mais doloroso o arrancamento. Para +gente sobria e simples, como nós, é de sobra o presbyterio; bastará +guarnecermol-o de mais roseiras, abrirmos-lhe no meio do pateo o luxo de um +tanque para espelho, e para pompa erigirmos ao fundo das laranjeiras o elegante +pombal candido que projectavamos, e de cujas moradoras hade ella ser a +providencia e a alegria, como de toda a vivenda.</p> + +<p>«Em summa; os nossos haveres permittem-nos, sem taxa de temeridade, a +realisação d'esta encantadora utopia, que talvez nos abra passo á realisação +das tantas outras que planejâmos! Para obras de beneficencia, de humanidade e +de civilisação, nunca é de mais uma conselheira, e então de tão alto +juizo,<span class="pn"><a name="pag_118">{118}</a></span> de coração tão +amante, e amadurecida pelos livros e pela solidão.»—</p> + +<p>Era musica celestial tudo isto que lhe eu escutava; apertál-o bem apertado +ao peito, foi toda a minha resposta de assentimento.</p> + +<p>Verdade verdade:—está-me vexando, apesar do que estabeleci no começo +d'estas confidencias, tão diffuso falar sobre tão apoucado sujeito, que, por +mais que eu diga, saiba e sinta, não ser eu, sempre hão-de tomar por mim; e +portanto, dobrada censura: sobre importuno, immodesto. Paciencia. Os mal +affeiçoados muito ha já que hão-de ter dado a sua curiosidade por satisfeita, e +cerrado o livro; os outros, que vieram commigo até aqui, são mais soffridos de +genio, e são amigos; hão-de-me acompanhar já agora com indulgencia até ao fim; +e se a esses mesmo enfado, fique o restante da narração como soliloquio de um +saudoso, ou dialogo de memorias tristes entre um vivo e dois finados.</p> + +<h2><a name="SECTION002460000000000000000">XLVI</a></h2> + +<p>Tinha-me a Real munificencia do Senhor D. João VI, já em 1819, collocado em +posição de fortuna, para entre poetas, e poetas portuguezes, muito invejavel: +dera-me a propriedade sem onus de um dos mais pingues officios de Justiça na +Correição de Coimbra. Com essa renda vitalicia, que ainda hoje durára, se não +fossem as uteis refórmas introduzidas no fôro depois de 34, podia eu ter +folgadamente realisado desde todo o principio o meu consorcio com Maria; mas eu +tinha feito voto anterior de mim para mim, e não queria quebral-o, de deixar +sempre na casa paterna, integral e incondicionado, o usufruto d'aquelle +rendimento. Não era generosidade; era simples dever. Tendo pois, como se não +tivesse, facilmente se imagina ¡como eu ficaria por dentro com este raiar +subito da Providencia, da Providencia encarnada em amor fraterno! A chave +d'oiro do meu paraizo tinha-a eu posto d'onde a não podia retomar; meu irmão +acabava de me entregar outra; e com tal melindre de affecto, como tudo que +d'elle vinha para mim, que recusar-lh'a eu, fôra magoal-o mais a elle, do que a +mim proprio.<span class="pn"><a name="pag_119">{119}</a></span></p> + +<p>A casinha parecia-me transfigurada em albergue de fadas.</p> + +<p>Respondeu-se ali mesmo á carta. Antonita estava cantando uma cantiga de +amores a vinte passos de distancia; a alegria e a amizade cantava no coração de +Augusto; no meu, cantavam o alvoroço, o enternecimento, a amizade. Era uma hora +d'aquellas de que o Céo não empresta mais de uma ás existencias afortunadas.</p> + +<p>A carta que eu então dictei para mensageira de tão boa nova, e a que tres +dias depois se lia mysteriosamente no mesmo logar aos ultimos raios de um sol +magnifico, existem ainda hoje, mas não pódem ser relidas; doer-me-hiam +excessivamente; hão-de ser pelo contrario queimadas com todas as outras d'este +romance intimo e sagrado, logo que eu tenha concluido o presente escripto. Se +alguem não comprehender por si este melindre, paciencia; eu é que me não atrevo +a explicar-lh'o.</p> + +<p>A elegia <em>Ermitagem da montanha</em> tinha sido poucos dias antes +phantasiada ali mesmo. Junto ao convento havia tambem serras, como já vos +disse:</p> + +<blockquote> + <em>Sola eris, et solos spectabis, Cynthia, montes.</em></blockquote> + +<p>Na desesperança, ou, quando menos, incerteza de conseguirmos jámais posse +real um do outro, ¿não eram bem naturaes aquelles desejos, aquellas visões do +poeta solitario no meio dos seus bosques, pensando na poetisa solitaria á +sombra do seu mosteiro? ¿Que amante deixou de sonhar alguma vez que a +felicidade o aguardava n'uma caverna sonegada aos olhos de todo o mundo?</p> + +<p>A mutação maravilhosa que se me acabava de operar nas perspectivas da alma, +fez rebentar o meu ultimo canto—<em>A Esperança.</em></p> + +<p>¡Ah! ¡a esperança! ¿quem? não sendo amante, ou louco, póde fiar-se nos +sorrisos de tal phantasma? Os gozos, que tão proximos se me antolhavam, ainda +vinham longe. ¡Ha tantas illusões d'estas na vida! teem-se os olhos fitos n'uma +ventura que já se vê e se ouve tão perto, que se figura alcançavel com dois +passos... e não se repara em que entre ella e nós pode haver duas ribanceiras +escarpadas, e até de permeio<span class="pn"><a name="pag_120">{120}</a></span> +um rio sem ponte, profundo, vertiginoso, mortifero!</p> + +<h2><a name="SECTION002470000000000000000">XLVII</a></h2> + +<p>Em 1828 sahia pela primeira vez á luz, mais por desejos de meu irmao que +meus, o <em>Amor e Melancolia</em>.</p> + +<p>Aos que já então o tomassem por historia poetisada, como agora se vê que +era, figurou-se de certo, como a mim proprio, que estava ella chegada ao seu +desenlace ultimo. Era miragem de deserto; o verdadeiro lago para a sêde, jazia +ainda bem remoto.</p> + +<p>Vieram-se carregando cada vez mais as trevas do horizonte politico; ¡os +receios e os sobresaltos, os perigos mui reaes a crescerem e a amiudarem-se!</p> + +<p>O presbyterio queria ser arca de salvação; mas até elle, em tamanha altura, +fluctuava já, e estremecia sobre o diluvio. Se se mandava fóra ave exploradora, +voltava atemorisada sem nos trazer folhinha de oliveira. Recerrava-se o +postigo, e ficava-se inerte á espera de melhores dias. Entretanto os trovões, +ora mais ora menos longinquos, não despegavam, e os relampagos espreitavam +ferozes por todas as fendas.</p> + +<p>¡Foram tempos bem tristes! Nem o viver benefico de um bom Parocho, nem o +viver innocente de um poeta, nem o concentrado de ambos n'uns reconcavos +silvestres só vistos de cima pelo que vê tudo, nos aproveitaram para +immunidade.</p> + +<p>¡Que de refeições interrompidas por uma noticia de denuncia, e de +encarceração meditada, proxima, infallivel! ¡que de noites mal dormidas, ou +veladas pelos matos, ou por poisadas alheias! ¡que sumir de livros nos vãos dos +altares! ¡que enterrar os objectos preciosos! ¡que abrazar papeis! ¡que vigiar +do alto do campanario! ¡que fugir a subitas do ninho, para regressar a elle +palpitando, e refugir de novo! ¡e tudo isto por quão longo tempo! até que, +levantado já quasi o cerco do Porto, atterrados com o ultimo e inevitavel +perigo de sermos monteados e perdidos, commettemos á desesperação o salvamento +e, atravessando ainda por entre os cercadores n'uma ante manhan escura e +chuvosa, lográmos acolher-nos á Cidade eterna.</p> + +<p>E se vê, se um passaro assim combatido dos temporaes<span class="pn"><a +name="pag_121">{121}</a></span> podia lembrar-se de construir e pendurar em +ramos que todos rangiam e estalavam, cestinha de amores para onde chamasse +companheira. Não podia ser, por mais temerario, por mais imprevidente que elle +fosse.</p> + +<p>Estes mesmos trabalhos e transes, que então me pareciam encobrir a +Providencia, como as nuvens encobrem ao sol, pode ser que me viessem mandados +tambem por ella a trazer-me germes que ainda me faltassem, de poesia +affectuosa. Isso teem de seu, se me não engano, as perseguições +revolucionarias: assolam, para fecundar; chovem odios, que em se evaporando +terão feito desabrolhar bemquerenças. Alma que padeceu, condoe-se:</p> + +<blockquote> + <em>Non ignara mali...............</em></blockquote> + +<p>Só de longe é que isto se conhece bem, e como tudo no mundo é por melhor. +Agora nem áquella quadra tormentosa quero mal.</p> + +<p>Ella tambem, se hei-de dizer toda a verdade, posto que me retardasse +projectos mui queridos, não me foi tão completamente negra como se poderia +imaginar pelo que deixo exposto. O animo, pelo menos o dos poetas, pelo menos o +meu, tem não sei que elasticidade com que resiste ás quedas e ás durezas mais +asperas dos precipicios: torce-se, e não quebra; cai, e resurge; comprimem-n-o +adversidades, e logo depois, elle por si mesmo se dilata. Apenas tinha passado +um sobresalto, um terror, um homizio, ou uma fuga, e os ares se serenavam um +tanto, voltava a bemdita imprevidencia, e com ella o contentamento, e com elle +o viver semi-fabuloso com todo o seu cortejo de visões poeticas, accorridas de +todos os pontos do horizonte, de todos os recantos do coração, de todos os +esconderijos da memoria, de todas as grutas amenas da vontade, de todas as +profundezas do discurso; como ao reapparecer do sol depois da trovoada, voltam +á festa duplex da Natureza os insectos, as aves, os rebanhos, os pastores, o +viço, a musica, o alvoroço.</p> + +<p>¡Que de versos não devi eu a esses luminosos intervallos! Foi n'um d'elles +que meu irmão e eu plantámos no pateo da Residencia um cedro, que eu mesmo +trouxera recemnascido da matta do Bussaco, e<span class="pn"><a +name="pag_122">{122}</a></span> que, ha já annos, cobre com a sua sombra +balsamica o telhado hervoso da casinha, pradaria das pombas domesticas, e alem +do telhado boa metade do terreiro.</p> + +<p>Oito primaveras se teem devolvido desde que o visitei pela ultima vez.</p> + +<p>¡Deve ser hoje a mais fastosa arvore da cercania!</p> + +<h2><a name="SECTION002480000000000000000">XLVIII</a></h2> + +<p>Sentae-vos em espirito debaixo da sua copa, se vos apraz, e ouvireis o que +lhe eu cantava ao firmarmol-o tenrinho n'aquella terra benta.</p> + +<p>Adverti porém desde já, em que não ides escutar maravilhas de poeta. São +versos faceis e descuidados, como os eu então fazia para matar o tempo, e +esquecido de que havia mundo.</p> + +<p>Podéra agora tel-os retocado; ¿mas para quê? ¿e que é do valor para estar +desconcertando por mera vaidade litteraria umas saudades d'estas? Hão-de ir e +hão-de ficar já agora singelos e montesinhos como nasceram.—Ouvida a primeira +duzia d'elles, quem lhe parecer, que deixe os outros.</p> + +<blockquote> + ¡Ó cedro, ó joven principe dos bosques,<br> + eis-te já no teu novo domicilio,<br> + eis-te vaidoso em pé, do sól á espera!<br> + Gente do presbyterio, afervorae-vos,<br> + entrançae danças, coroae-vos todos,<br> + cantae-lhe bençãos, tumultuae-lhe em roda.<br> + <br> + ¡Gloria a Deus! ¡Como o dia vem formoso!<br> + Anjos que protejeis a Natureza<br> + vossa amavel irman filha do Eterno,<br> + que entre vós repartistes as montanhas,<br> + o arvoredo das Dryades palreiras,<br> + e a urna fresca das occultas Náyades,<br> + vinde, adoptae no seu primeiro dia<br> + do filho de David a arvore antiga.<br> + D'entre os ramosos tufos elevado<br> + seu cume se remonte á patria vossa,<br> + e aponte os Ceos ao pensamento humilde.<br> + Praza o carvalho a Jove; o loiro a Phebo;<br> + a vós o cedro; o cedro, inda saudoso<span class="pn"><a + name="pag_123">{123}</a></span><br> + e altivo do seu Libano, inda cheio<br> + das lembranças da Biblia, inda soberbo<br> + de hospedar em jardins, palacios, templos,<br> + Adonai, o Rei Sabio, o Povo Eleito.<br> + Assim glorioso e mistico, o bom cedro,<br> + o cedro-rei, viu supplice prostrar-se<br> + Israel ora a Deus, ora á fortuna,<br> + aos ceos e ao mundo, á eternidade e ao tempo.<br> + <br> + ¡Oh! ¡venerando! ¡oh! ¡cresce em nossa terra!<br> + co'a verdenegra copa não desdenhes<br> + acoitar o singelo presbyterio.<br> + Premeia o generoso desint'resse<br> + do plantador que desce todo á campa.<br> + Sagradas são as dividas do affecto;<br> + os cuidados que assiduos te protegem,<br> + invoca o tempo de os pagar co'as sombras.<br> + Dias virão nos teus crescentes dias,<br> + em que nobre ante a porta da virtude<br> + com ternura e respeito hão-de saudar-te<br> + os montanhezes descobrindo a fronte.<br> + Lembrarás os antigos patriarchas,<br> + que ao-pé da movel tenda no deserto<br> + pertenciam aos Ceos pela esperança,<br> + e ao patrio mundo pelo amor dos homens.<br> + —Ali—dirão—na sésta reclinado<br> + o pobre ancião, pastor d'estas aldeias,<br> + ao circulo inquieto dos meninos<br> + ensina a amar a Deus, a si, aos outros,<br> + ás lettras, ao saber, á patria, á gloria;<br> + e, abraçando-os risonho á despedida,<br> + distribue co'a mão tremula aos melhores<br> + em premio doce disputados frutos.—<br> + —Ali—dirão tambem—sentou-se um dia,<br> + e gabou a frescura das ramadas,<br> + um Bispo antigo e santo; ali tomava<br> + o seu café, resando o breviario;<br> + meu avô, bem que rustico e indigente,<br> + falou-lhe ali, beijou-lhe o annel e ouviu-o.<br> + ¡Que apostolo! ¡que amor! ¡que urbanidade!<br> + essa arvore o cobriu, ficou sagrada.—<br> + <br> + Hospede e amigo do adoptado albergue,<br> + firma-te ao solo com raizes promptas;<br> + exalça a fronte aerea, alto, gigante;<span class="pn"><a + name="pag_124">{124}</a></span><br> + abre os cem braços co'os tufões em lucta.<br> + Piedoso Briarêu, não temas raio;<br> + o raio atrôe as serras, cegue, abraze<br> + o altivo topo ás arvores soberbas;<br> + tu, não tremas; eu quero no futuro<br> + que um novo talisman te adorne e ampare,<br> + possante contra furias de elementos,<br> + contra o machado algoz, contra demonios:<br> + <br> + Se dos teus annos na madura força<br> + a mão que ora te planta inda for viva,<br> + essa mesma, já tremula e inda amiga,<br> + inda meiga ao seu cedro, e já caduca,<br> + no tronco te abrirá com tardo exforço<br> + graciosa capellinha, onde sorria<br> + um San-João, o Santo alegre do ermo:<br> + trajo de pelles, juvenil frescura,<br> + olhos nos Ceos, aos pés cordeiro branco.<br> + <br> + N'essa noite poetica e devota,<br> + em que o prazer, centuplicando aspectos,<br> + povoa, anima, encanta o mundo inteiro;<br> + agua e terra, ar e ceo, tudo é macio;<br> + em que a velhice, a mocidade, a infancia,<br> + sympathisam no vago da alegria;<br> + em que n'alma insaciavel de delicias<br> + se juntam com mistura inexplicavel<br> + o saudoso passado, os bens presentes,<br> + ao contente futuro ebrio de esp'ranças;<br> + em que n'um laço mystico se aggregam<br> + da vida e eternidade os pensamentos,<br> + gozos, superstições, fraquezas, cultos,<br> + como um ramo de rosas e ciprestes<br> + na caprichosa mão das feiticeiras;<br> + n'essa noite das noites invejada,<br> + té dos casaes lá do ultimo horizonte<br> + a ti concorrerão por toda a parte<br> + dançantes bandos que a viola impéra.<br> + Verás girar seus bailes rebatidos<br> + em redor das estridulas fogueiras;<br> + ouvirás os seus canticos em coro<br> + devoto e namorado; a bomba foge,<br> + zune fugindo, e solapada estoira;<br> + o buscapé no ar caracolando<br> + morde n'um, morde n'outro, ameaça a todos,<span class="pn"><a + name="pag_125">{125}</a></span><br> + dispersa os grupos, gasta-se raivando,<br> + e entre os risos rebenta atroando os ares;<br> + aqui, circula em vertice perenne<br> + a roda leve espadanando incendios,<br> + chovendo oiro luzente e estrellas alvas;<br> + ali, floreia o fulgido valverde,<br> + vulcão sonoro que arremette ás nuvens;<br> + vôa, remonta impaciente aos astros<br> + o ignívomo foguete estrepitoso.<br> + ¡E a musica entretanto! ¡e as doces falas!<br> + ¡e os segredos d'amor! ¡e a prece occulta!<br> + e essa mão dada a furto, e a furto acceita!<br> + ¡e esse olhar falador! ¡e essas virtudes<br> + da meia noite em ponto! e a flôr crestada!<br> + ¡e as sortes que a fortuna extrai ás vezes,<br> + e muitas mais a próvida malicia!<br> + ¡e a fonte que amanhece entre descantes,<br> + e pasma rindo de se ver c'roada<br> + de festões verdes e enlaçadas flores!...<br> + ¡Que noite! ¡que prazeres! ¡que triumphos<br> + te aguardam no porvir, me estão na mente!<br> + <br> + Mas se ao neto do Libano silvestre,<br> + se á arvore do templo, ao cedro antigo,<br> + mais contenta sublime austeridade,<br> + religioso é o chão que te sustenta,<br> + santa e severa a muda visinhança.<br> + <br> + D'esse lado, essa relva avelludada<br> + foi chão d'egreja outr'ora, e esconde os mortos;<br> + onde a oliveira está, surgia a torre;<br> + bradava aos eccos dos remotos cumes<br> + o sino da oração, lá onde agora<br> + está cantando o melro; e pasce a ovelha,<br> + balando o seu amor ao filho ausente,<br> + onde a moça aldeana ajoelhada<br> + em noite do Natal, ante o presepio<br> + acalentava em côro o Deus Menino.<br> + Nem portas, nem degraus, nem muros restam!<br> + ¡Um saxeo altar! ¡por tecto uma parreira!<br> + ¡e um San-Jorge musgoso entre silvados!<br> + D'aqui, filho do antigo, o novo templo<br> + te alveja em face. Em fundo de sepulcros<br> + por ossos vãos enredarás raizes.<span class="pn"><a + name="pag_126">{126}</a></span> <br> + <br> + ¡Que vezes para o ceo voarão juntos<br> + o perfume do incenso e o teu perfume,<br> + o teu sussurro e os canticos da Biblia!<br> + Escutarás por baixo do teu cume<br> + os mysterios, a supplica chorosa,<br> + as lições da moral, do Eterno as glorias,<br> + o voto humilde, a gratidão serena,<br> + o tom pesado dos funereos Psalmos,<br> + a infancia d'entre as aguas renascida,<br> + os protestos do amor que acceita e córa;<br> + e o mais que o mal previne e o mal espia,<br> + gera, vigora o bem e o bem premeia,<br> + suavisa as dores, o prazer modera,<br> + adoça a vida, aperfeiçoa os homens,<br> + e por c'roa da paz a paz promette.<br> + <br> + Assim, quasi debaixo de teus ramos,<br> + juntarás o que a mil faria illustres:<br> + a raça que milita, e a que triumpha;<br> + os cultos da saudade, e os cultos vivos.<br> + <br> + Cresce pois outra vez, cem vezes cresce.<br> + Alto, em frente do humilde presbyterio,<br> + torna-te a sentinella das montanhas.<br> + <br> + Se o peregrino, attonito, espantado,<br> + errar nos cumes alongando os olhos;<br> + se vires muito ao longe os passos frouxos,<br> + o curvo dorso, o pallido semblante,<br> + e as cans sem honra do ancião mendigo;<br> + indica-lhes a senda hospitaleira,<br> + mostra-lhes em teu lar os seus penates;<br> + e dize ao peregrino:—Eis a poisada;—<br> + e ao mendigo:—Bom velho, andas perdido;<br> + reconhece o teu fumo, a tua porta,<br> + teu leito, os teus irmãos, teu pae, teus filhos.—<br> + <br> + ¡Oh! ¡que viver, que almo viver te aguarda!<br> + beneficencia, paz, respeito, gozos,<br> + ¡quantos bens! ¡e esses bens quão longas eras!<br> + Mas nós... ¡ah! nossos dias fugitivos<br> + seculos são se á rosa se comparam,<br> + mas passam como a rosa a par dos cedros.<br> + Para ti, de anno em anno a primavera<br> + virá com pompa nova e novas galas;<span class="pn"><a + name="pag_127">{127}</a></span> <br> + para nós, menos flores de anno em anno<br> + lhe virão no regaço; menos fogo<br> + nos olhos, no sorrir menos ternura.<br> + Eu, que outr'ora a cantei, que ardi por ella,<br> + para quem toda a alegre Natureza<br> + era animada, meiga, inspiradora;<br> + que doce delirava entre as violetas,<br> + entendia o favonio e a voz das fontes,<br> + entrava co'a andorinha em seus prazeres,<br> + co'o rouxinol em seus segredos ternos;<br> + que do meu estro nas visões formosas<br> + arvoredos, oiteiros, grutas, rios,<br> + povoava das priscas divindades,<br> + e n'um mundo só meu, vivia todo...<br> + hoje, ¡quão frouxa pela mente nua<br> + sinto raiar a inspiração que imploro!<br> + Do genio a seiva, a primavera da alma,<br> + langue; raro floresce, a longe, a longe.<br> + <br> + ¡Como! ¡tão novo ainda, é já forçoso<br> + que a grinalda poetica se esfolhe!<br> + ¡Lyra que apenas entoou preludios,<br> + já desafina, e jazerá sem honra!<br> + ¿Serão estes os canticos do cysne?<br> + <br> + Ó meus delirios, nuncios meus de gloria<br> + ¿mentieis vós? ¿ir-se-hiam para sempre<br> + lagrimas, illusões, ternura, cantos?!<br> + ¡Ah! ¡sentir-se morrer, que acerba morte!<br> + <br> + E tu tambem, tu morrerás um dia.<br> + As raizes cançadas de nutrir-te<br> + não pedirão mais succo á larga terra.<br> + ¡Adeus, ninhos d'outr'ora! adeus frescura,<br> + sombras, sussurro ameno e cheiro alegre!<br> + A copa verde que hospedava as nuvens,<br> + ludibrio d'auras, arida esvoaça.<br> + Mas ao menos feliz impresciencia,<br> + don melhor que mil dons, te coube em sorte.<br> + Dominas vastamente o ar e a terra,<br> + sobes vaidoso aos ceos, á Estyge afundas,<br> + e baqueias sonhando eternidades.<br> + <br> + ¡Ó arvore, alevanta-te! ¡desata<br> + em nossos dias tua umbrosa pompa!<span class="pn"><a + name="pag_128">{128}</a></span> <br> + <br> + Emquanto a raça ephemera dos homens<br> + vai e vem, faz, desfaz, se eleva, desce,<br> + tu, fixa, tu do sabio exemplo inutil,<br> + medra pelo descanço; igual hospéda,<br> + sorrindo sempre, as estações oppostas;<br> + presta-te aos soes e ás luas, que sem conto<br> + volverão sobre ti; sê caro asylo<br> + ao favonio que em braços te adormeça,<br> + e ás aves que em teu seio se aninharem,<br> + e soffre ou goza o teu destino immenso.<br> + <br> + ¡Ai, nunca de teus ares dominando<br> + pela terra de Luso oiças ou vejas<br> + da civil guerra as armas fratricidas!<br> + Inda agora nos eccos d'estes montes<br> + os seus trovões sacrilegos retroam.<br> + Inda em nossos ouvidos estremecem<br> + quadrupedante estrepito, relinchos,<br> + retinir d'armas, rufos de tambores,<br> + rolar de carros, vozear de chefes,<br> + e os gritos do clarim, pregões da morte,<br> + ¡Que esposas inda agora estão carpindo!<br> + ¡que mães, filhas, e irmans, inda hoje em lucto!<br> + Do sangue a côr maldita inda denigre<br> + esses campos de horror; e as sepulturas<br> + dos sem numero extinctos nos combates,<br> + não florirão inda esta primavera.<br> + Do raio o fumo a Lusitania assombra.<br> + <br> + Ó Paz, filha do Ceo, mãe da abundancia,<br> + da innocencia e do amor irman e amiga,<br> + alma Paz, volve a nós, que assaz é tempo.<br> + De opulentos avós mesquinhos netos,<br> + já não pedimos bens: aos descendentes<br> + do povo infesto a Roma e Rei do mundo,<br> + basta um pouco de pão em paz comido.<br> + Sobre os antigos loiros desfolhados<br> + caiba-lhe ao menos respirar dormindo,<br> + ¡Que ideia tão inhospita e gelada!...<br> + <br> + ¡Aguas! ¡aguas! ¡reguemos o bom cedro!<br> + ¡lá se vai por o sol! ¡cá nasce a lua!<br> + Ó lua, vem propicia á joven planta;<br> + e tu, doirado sol, propicio volta.<span class="pn"><a + name="pag_129">{129}</a></span> <br> + <br> + ¿Quem bate?... ¡parabens! dançae, folguemos?<br> + ¡eis o pobre! ¡eil-o! ¡é Deus que a nós o envia!<br> + ¡sim! da parte de Deus vem sempre o pobre.<br> + Entrou á rega; ¡é fausto o agoiro! ¡é fausto!<br> + enchei-lhe a taça, beberemos todos.<br> + <br> + Conduziram-n-o ao lar; da farta ceia<br> + leval-o-hão consolado á foufa cama.<br> + Agora, que estou só, que apenas oiço<br> + o mui longe cantar das fiandeiras<br> + na aldeia d'alem-rio, ¡oh! vem... ¡sentemo-nos<br> + ao-pé do que algum dia ha-de abrigar-nos,<br> + candida imagem de Maria ausente!<br> + segredarás aquella de que és sombra,<br> + que para ella está guardada a gloria<br> + de casar algum dia uma roseira<br> + ao já seguro tronco. ¡Ai, doce emblema<br> + da quêda e flórea vida, enlevo de ambos!</blockquote> + +<h2><a name="SECTION002490000000000000000">XLIX</a></h2> + +<p>Versos a este modo, e até somenos, brotaram por ali muitos nas temporadas +luminosas, ou menos escuras; e em quasi todos elles brilhava, ou se entrevia, a +estrellinha polar, para onde apontava o meu coração magnetisado.</p> + +<p>¡Podera não! Todo o solitario tem lá sua visão de que se não desapega por +mais que faça.</p> + +<p>O poeta das tristezas não sonhava senão Roma no Ponto Euxino.</p> + +<p>S. Jeronymo, na sua cova, batia com a pedra nos peitos, a ver se matava lá +dentro seductores phantasmas de mulheres.</p> + +<p>Eremitas na Thebaida, invocando Anjos do Ceo, eram tentados de demonios +terrestres formosissimos.</p> + +<p>Petrarca, em Valchiusa, tinha Laura morta engrinaldada sobre um altar a +escutál-o.</p> + +<p>Camões na gruta de Macau não estava sem Natercia.</p> + +<p>Maria, nos fraguedos do Caramulo, não podia deixar de raiar-me a cada passo, +como a lua, que, entre fagueira e melancolica, se encobre e descobre de +continuo ao que transita por moitas e bosques; e, ou elle<span class="pn"><a +name="pag_130">{130}</a></span> vá, ou pare, ou retroceda, o acompanha sempre, +e lhe dá a sentir, com enternecido agradecimento, que não vai só.</p> + +<p>O mais e o melhor da minha poesia inculta dirigida a ella, não era porém o +que se escrevia; era sim o que se me ia</p> + +<blockquote> + <em>de noite em leves sonhos que mentiam,</em><br> + <em>de dia em pensamentos que voavam;</em></blockquote> + +<p class="ni">lyrica interior, que todos, cuido eu, conhecerão, ou conheceriam +alguma vez; bafagens que veem direitas do paraizo á alma, e da alma se tornam +para d'onde vieram, sem deixarem cá em baixo vestigio, mais que um frémito +voluptuoso no coração, que de fóra se não percebe. Vêem-se manar lagrimas sem +dôr, errar pelos labios uns sorrisos não alegres, mudar cores o semblante, +despegar-se dos seios um suspiro, as mãos estenderem-se á procura do que quer +que seja; vê-se tudo isto, e diz-se:—É um visionario, ou está sonhando;—e não +é senão um poeta, que está lendo em si o mais celestial poema que nunca houve, +mas que nem elle tornará a abrir, nem outrem jámais adivinhará. </p> + +<p>D'esses poemas fiz eu, e perdi, innumeraveis.</p> + +<p>Fazia-os ao pendurar ritualmente no crepusculo da tarde de cada sabbado uma +capella de murtas nos ramos do meu cedro, consagrado a ella, e que me parecia +tão desejoso de festejál-a como eu proprio; fazia-os deitado nos povaes de +tijolo de S. Sebastião, ao ramalhar das carvalheiras, pelas séstas; fazia-os +regando o jardimsinho de narcisos, gradeado de canas, por baixo da fonte do +passal; fazia-os encostado sosinho a deshoras pela noite velha á janella do meu +quarto, que deitava para a banda do horizonte, onde devia ficar o d'ella; +fazia-os ouvindo ler versos apaixonados, que todos no espirito se me traduziam, +e se combinavam na minha historia, muito mais apaixonada que elles todos; +fazia-os escutando lá de um oiteiro o sino das Ave-Marias, ao cessarem os +trabalhos da terra, na hora em que o ceo accende, como lampada para infinitos +amores, a estrella magnifica de Venus; mas sobre tudo os fazia fechado por +dentro na minha Villa Viçosa de palha, junto á <em>Pedra Branca</em>, ao abrigo +das chuvas e frios, do sol e dos<span class="pn"><a +name="pag_131">{131}</a></span> ventos, de rumores e distracções, livre de +olhos, de ouvidos e de pensamentos extranhos, só por só com a minha ausente. +Para ella renovava as flores e a agua na urna de barro sobre a mesa entre os +sophás de cortiça. Ouvia-a cantar ao som da sua viola franceza; dizia-lhe +extremos de brandura, que nenhuma linguagem humana traduzira; perdia-me pelos +mysteriosos labyrinthos da sua sensibilidade, nunca dantes franqueados; +escutava o meu nome tornado musica pelos seus labios; recostava-a n'um coxim de +rosmaninho; ajoelhava-lhe aos pés em adoração; voava-lhe aos braços, e anciava +morrer ali assim, porém com ella, que eu sou o irmão mais novo de Propercio:</p> + +<blockquote> + <em>Tunc ego, sed tecum, mortuus esse velim.</em></blockquote> + +<p>Nada me inspirava tanto como a boa da casinha, tão depressa e tão sem custo +edificada, que parecera improviso de Sylphides e Sylphos, e na qual se dissera +terem elles ficado; ¡que assim era prestigiosa!</p> + +<p>Fôra sempre a minha ambição mais levantada, e algumas vezes me chegou a ser +esperança tambem, o possuir vivenda minha em torrão meu, por mim delineada, +feita aos meus gostos, sem visinhos mas respirando hospitalidade; solitaria, +mas ridente; sem fausto, mas abundante em commodidades, em graças profusissima. +Aquillo de poder um homem dizer que tem a sua cama, a sua meza, a sua lareira, +e os seus livros, entre paredes e debaixo de telhas muito suas; que vive e +pernoita com raizes no solo; que emfim é dono, para fruir e testar, de uma +porção do terceiro planeta vindo do sol, ainda que não sejam senão poucas +braças; e que o Imperador de França não é mais senhor, nem porventura tanto, +das suas Tulherias... deve ser umas delicias muito grandes. Nunca as +experimentei, nem experimentarei já agora; mas imagino-as; e pode-se dizer que +as sonhei, sem dormir, no meu aureo salãosinho de feno.</p> + +<p>¡Como eu ampliava tudo aquillo com a varinha de condão da phantasia! a um +lado, a alcova nupcial, com suas janellas cortinadas de verde pela frondosidade +do pomar contiguo; a outra parte, a saleta do fogão para o inverno, dominado +aos bustos de Sapho<span class="pn"><a name="pag_132">{132}</a></span> e +Anacreonte, a olharem para as estatuas de Homero e de Virgilio; aqui, a +livraria com a mesa para a escripta, e dois espaldares de braços; a casa de +jantar com sua fonte e viveiro de aves, e a porta larga e envidraçada aberta +para a horta ajardinada; e a voz de Maria, a presença de Maria, a musica do seu +vestido, o calor da sua bondade alegre e vigilante, por toda a parte.</p> + +<p>Basta, basta já de pisar folhas d'outomno que murmuravam viçosas e +rescendentes por cima e em derredor, e agora me estalam pallidas e seccas por +baixo de cada passo.</p> + +<h2><a name="SECTION002500000000000000000">L</a></h2> + +<p>Ahi fica entregue ao publico da minha terra, pelo ter em conta de amigo, a +Chave do meu Enigma, assim como se põe nas mãos do melhor e mais proximo +parente a do caixão doirado e funebre que desappareceu.</p> + +<p>Como de hoje ávante nunca mais havemos de tornar a este assumpto, +acrescentarei ainda algumas palavras, e as derradeiras, destinadas a acclarar +outro supposto mysterio com que as trevas d'este se duplicavam.</p> + +<p>O immortal autor da <em>Epopeia naval portuguesa</em>, o meu bom e velho +amigo Joaquim Pedro Celestino Soares, fazendo-me a honra de me dedicar este seu +recente monumento de glorias portuguezas, mostra-se maravilhado de que eu +pinte, sem os ver, tantos quadros da Natureza. Muitas pessoas antes d'elle +tinham manifestado egual admiração, para mim obsequiosa, e mais que +obsequiosa—lisonjeira.</p> + +<p>Suppondo que as minhas descripções de objectos visiveis, desde as <em>Cartas +d'Ecco</em>, <em>Primavera</em>, <em>Amor e Melancolia</em>, até ás presentes +paginas, conteem algum longe d'esse merito que tão benevolamente se lhes +attribue, aqui está a explicação que eu posso dar d'esse phenomeno +simplicissimo.</p> + +<p>Teve a nossa criança, emquanto o foi, e segundo já vos disse, uns olhos de +formoso brilho, vividos, buliçosos perscrutadores insaciaveis, e de um alcance +desmedido. Mais de uma vez ouviu dizer a sua mãe, que pareciam duas janellas +armadas de festa, onde a alma vinha contente lá de dentro espairecer mirando-se +no Universo.<span class="pn"><a name="pag_133">{133}</a></span></p> + +<p>Por volta dos seis annos, a segunda enfermidade, de que já vos falei, +enfermidade peior que a imaginaria tysica, fechou inopinadamente aquellas +janellas, deixando passar apenas, atravez, uns reflexos duvidosos de claridade, +frios, desvestidos de côres, desertos, importunos; clarões, que, em vez de +trazerem alimento a percepções e alegrias, só occasionavam pelo contrario dores +physicas no orgão, por então só vivo para padecer. Este mesmo inutil e violento +crepusculo, foi portanto necessario repulsal-o; um veo de seda negro foi +lançado sobre a innocente cabeça; fecharam-se-lhe profundissimas as trevas; a +victima, o meio-morto, descançou; ouvia chorar, não sabia por quê.</p> + +<p>Se um cadaver no sepulcro podesse pensar, ¿sobre que pensaria? Sem duvida +sobre o anterior viver que se lhe acabára; revolveria, combinaria de mil +maneiras as ideias do preterito, como um avaro, debruçado sobre o thesoiro, +mergulha os braços até aos cotovelos, e o coração até ás auriculas, no seu +charco inutil de oiro e prata. A pobre criança ruminava ás escuras as visões em +que se pascêra na claridade; ia-as convertendo de vagar em substancia propria. +Como por fóra fazia noite, illuminava-se por dentro com quantas luzes se lhe +tinham prevenido a tempo, e que ella instinctivamente espertava de continuo. O +seu espirito era como a lamina photographica, ainda não inventada: recebêra as +imagens; fechara-se-lhe depois a camara obscura; agora estava-as fixando em si +próprio por uma chymica natural; fôra espelho, era estampa.</p> + +<p>Passaram annos; levantou-se o veo negro; Deus apiedado tinha outra vez dito: +«Faça-se a luz.» Reappareceu o dia.</p> + +<p>¿Reappareceu? não; veio novo, diverso, de natureza extranha; uma especie de +dia crepuscular; entre ledo e saudoso; mixto de realidades, verosimilhanças, +conjecturas, sonhos; comparavel por ventura, sem grande impropriedade, ao que +são algumas das phantasticas noites de lua cheia no estio, ou ao alvor +espalhado no Elysio pelos poetas.</p> + +<p>Pensando bem n'isto, não posso deixar de render graças á Providencia, e de +descobrir n'esta sua liberalidade, e mesmo nos precedentes rigores, novas +inducções para acreditar, entre mim, que toda a minha<span class="pn"><a +name="pag_134">{134}</a></span> predestinação era, como desde o principio me +aventurei a dizer-vol-o, que não fosse eu jamais outra coisa senão cantor, e +não fosse cantor senão de ternuras.</p> + +<p>Vós, que ledes pelos vossos proprios olhos isto que vos eu escrevo por mão +alheia, vós, que disfrutaes, sem a aproveitardes assaz, a dita de possuirdes +uma excellente vista, sentireis por ventura alguma difficuldade em conceber +aqui o fundo do meu pensamento. Ora vejamos se vol-o decifro.</p> + +<h2><a name="SECTION002510000000000000000">LI</a></h2> + +<p>Com ser a luz uma communhão universal do Amor Divino, meza infinita em que +os soes aos milhares ministram aos planetas sem conto; e aos entes sem limite +de que os povoou o Omnipotente, é comtudo certo, que, assim como vão desiguaes +os quinhões de luz de cada sol aos planetas e satellites que a distancias entre +si diversas o rodeiam, assim tambem na esphera que habitâmos, por exemplo, a +luz vem medida aos sitios, ás estações e ás horas, ás especies, aos individuos, +ás edades e ás circumstancias, em proporções diversissimas, todas calculadas, +todas certas, e todas em harmonia com as complicadas precisões de um systema +geral e perfeitissimo.</p> + +<p>Comparae a claridade das cinco zonas; em cada zona, a das quatro estações; e +em cada estação, a das montanhas, dos valles, dos bosques, e das cavernas; a da +manhan, do meio dia, da tarde e da noite. Depois em cada logar e á mesma hora, +considerae no como a luz, banhando e tingindo unicamente a superficie dos +corpos inorganicos, incapazes de a sentir, vai abraçar com as suas caricias os +entes organisados, que n'ella, e no calor seu companheiro, parecem aspirar a +vida, o amor, a alegria; a adoração, como sectarios de Zoroastro. Os vegetaes, +sem olhos, a bebem, se inebriam, riem-lhe em flores, com murmurios lhe falam, +com fragrancias a lisonjeiam; brincam-lhe com os raios, decompondo-os na +folhagem buliçosa, resurtindo-os; alvoroçam-se com a aurora, pendem-se e +fecham-se ao escurecer; despem galas no inverno; na primavera retoucam-se e +amam; no estio pompeiam e triumpham. Mas n'esta mesma generalidade<span +class="pn"><a name="pag_135">{135}</a></span> ¡que differenças e quasi +excepções! Para todos a luz é condição do ser e felicidade; mas o musgo que +prospera na penumbra da Islandia, pereceria fulminado como Sémele, se o ardente +sol dos tropicos o visitasse; as plantas magnificas dos tropicos, nas nossas +latitudes, só temperadas, morreriam cegas á mingua de esplendores. Uma herva +ala-se do fundo do fojo para o celeste amante, a quem o girasol no seu jardim +vai tambem seguindo com a larga fronte doirada, que parece um retrato ephemero +do bello astro, explica a fabula de Clície, e dá razão aos dois versos do +Camões:</p> + +<blockquote> + <em>Transforma-se o amador na coisa amada</em><br> + <em>por virtude do muito imaginar.</em></blockquote> + +<p>Entretanto as grutas e os subterraneos lá teem não menos seus jardins +umbrátiles, onde mil especies vegetaes, com uma só gotta de luz diluida nas +trevas, alimentam e aditam a existencia.</p> + +<p>Os animaes, se exceptuarmos algumas raras especies mais baixas na gerarchia, +que parecem não ver, dado se voltem para a luz como as plantas, os animaes +absorvem-n-a com delicias.</p> + +<p>Os seus olhos são os vasos de gemmas finissimas por onde os seus espiritos a +bebem; mas n'estes vasos sem conto, ¡que differenças nos tamanhos, nos feitios, +nas cores, nas propriedades! Todos se enchem á immensa cascata de luz que jorra +inexhaurivel: quaes em golfadas copiosas, quaes em estillas diminutas; estes, +sombria, que fôra trevas para aquelles; aquelles, tão luxuosa, que cegaria a +estes. A aguia devassa do alto os pormenores da campina; o insecto perscruta, +com inveja dos sabios, o ignorado mundo dos infinitamente pequenos; e +eximindo-se por sua tenuidade á perspicacia humana, é ainda por ventura condor, +elephante, e lince para universos vivos, nem por nós sonhados, e de mil vezes +mais espantosa exiguidade. Ha olhos-telescopios, ha olhos-microscopios, olhos +que aproximam, olhos que afastam, olhos que alternativamente afastam e +aproximam, olhos que se fitam rectos n'um só ponto, olhos que miram para todas +as partes ao mesmo tempo, olhos para o dia, olhos para a noite, olhos unicos, +olhos multiplices, olhos, em summa, que só a Sabedoria<span class="pn"><a +name="pag_136">{136}</a></span> de Quem os ideou e perfez poderia discriminar e +abranger em descripção ou cómputo.</p> + +<p>No meio d'estas myriades de orgãos destinados a pascer-se nas lindezas e +magnificencias exteriores da Natureza, foi ao homem, seu filho predilecto, que +ella deu com a razão e o engenho os mais admiraveis de todos os olhos. Emquanto +os dos outros viventes, afinados pelas precisões circumscriptas dos que os +possuem, não transpõem limites relativos e determinados, os do homem, pelos +milagres da Arte, tornam-se mais que de aguia no alcance longinquo; rivalisam +com os dos insectos, mergulhando profundamente pelos abysmos da pequenez; vão +buscar para o dominio da Sciencia astros sumidos nas profundezas do espaço, +arcanos de anatomia nos vermes imperceptiveis, nos globulos do polen das +florinhas mais tenues, nos atomos da poeira impalpavel; e dominadores da luz, +pelos instrumentos com que se completam, a refrangem á vontade, e a decompõem, +como a divina Iris no firmamento.</p> + +<p>¡Entretanto a vista humana, assim mesmo dotada, quão pobre não é para saciar +o animo curioso! ¡e então no seu estado natural, que myopia! ¡que imperfeição! +¡que fallibilidade! Aquelles mesmos objectos, que pelo seu volume e proximidade +mais parecem estar em relação activa, passiva, necessaria, quotidiana, com o +espectador, não passam de uns mascarados e uns fingidos, que, divertindo-o e +ajudando-o, zombam d'elle continuamente.</p> + +<p>¿Que é ver uma rosa, uma arvore, um edificio, um monte, o Oceano, mesmo com +os olhos mais perspicazes e attentos? É receber de cada coisa d'estas uma ideia +vaga, superficial, imperfeita, diminutissima, falsa. Quando não, acuda a lente +a averiguar uma só petala da rosa, uma só folha da arvore, uma só pollegada do +edificio, um só grão da terra do monte, uma só gotta do Oceano (mas ainda a +lente não diz tudo); para logo se reconhecer com espanto que isso que se +chamára ver, não passava de illusão; era um andar palpando em grosso e ás cegas +alguns vultos grandes; nada mais. Se o mundo moral e intellectual nos estão +inçados de mysterios, erros, e ignorancias, os aspectos do mundo physico não +são menos enganosos; representa-se a comedia da vida n'um theatro já para ella +de proposito armado pela<span class="pn"><a name="pag_137">{137}</a></span> +Natureza, com o mais ficticio de todos os scenarios: <em>Mundum tradidit Deus +disputationi hominum.</em></p> + +<p>N'este cahos universal de enigmas e chimeras, o instincto de saber +impacienta-se, agita-se, barafusta, sonda, investiga, conjectura; adivinha ás +vezes; aspira a matar a grande esphinge, que se ri d'elle, e que não morre.</p> + +<p>O instincto da Arte, menos ambicioso, mais pacato e mais philosophico a seu +modo que o ardor scientifico, contenta-se com as brilhantes apparencias; +estuda-as, sem pensar em as dissecar; e, como de todas lhe resultam harmonias, +todas falam ao espirito e ao coração, sobre todas paira o ideal, de todas se +reflecte o amor e a sabedoria, não precisa, nem pede mais, posto o deseje, e o +aproveite quando a Sciencia o desencanta e lh'o ministra.</p> + +<p>Reflectindo nas verdades incontestaveis e vulgares que deixâmos indicadas, +tem-se logo de reconhecer que os poetas, na sua qualidade de pintores, só +reproduzem apparencias, perseguem sombras; e, combinando-as e variando-as ao +sabor da phantasia e do gosto, aquecendo-as de affecto, e arraiando-as de +idealidade, criam para a alma, dentro n'um mundo phantastico, outro mundo ainda +mais phantastico. ¿Não é assim?</p> + +<p>Ora pois: a criança tão nossa conhecida recebêra, nos annos das primeiras e +fortissimas impressões, as ideias, como vós em egual edade as recebestes, e as +continuais a receber, dos objectos que aos olhos se offerecem em multidão; +depois, fechada a sós com essas ideias, não as destruiu: fortaleceu-as, +confirmou-as; depois finalmente, quando entre ella e o espectaculo se ergueu de +novo o panno, e a scena lhe appareceu transfigurada, isto é, quando reviu menos +vividos e distinctos os mesmos objectos, tirou das suas reminiscencias com que +os completar.</p> + +<h2><a name="SECTION002520000000000000000">LII</a></h2> + +<p>—¿Mas como é—insistem—que, distinguindo apenas, e a curta distancia, os +vultos grandes e as côres, consegue descrever, não sem alguma verdade, quadros +da Natureza vastos e minuciosos, cujos originaes sem duvida lhe escapam?—Do +mesmo modo,<span class="pn"><a name="pag_138">{138}</a></span> pouco mais ou +menos, como qualquer leitor por uma descripção poetica debuxa no seu espirito +um objecto, cujo total nunca viu, mas cujas partes componentes a uma e uma lhe +são todas familiares. Variando os elementos que possuo, vou compondo os quadros +a meu gosto.</p> + +<p>Mas o que sobre isto vos poderia amiudar, já versos meus o disseram, +agradecendo a um pintor amigo, a Sendim, o ter-me retratado. Se os lestes, +saltae as seguintes paginas; se os não lestes, e vos interessa tal +investigação, aqui os tendes. A mim apraz-me reproduzil-os; são já hoje +saudades de vinte e tantos annos.</p> + +<blockquote> + Já desde Homero, em tráficos do Pindo,<br> + amigo meu Sendim, não roda o oiro.<br> + Versos, bustos, paineis, primor das graças,<br> + pague-os sêcco Bretão por sommas brutas,<br> + se muito ha que do autor deu cabo a fome.<br> + Lisonja em metro, em marmores, em côres,<br> + encommende-a o mimoso da fortuna;<br> + pague com seus dobrões a gloria alheia.<br> + Nós que, longe da terra, ao vulgo extranhos,<br> + vivemos facil vida anachoreta<br> + por solidões de imaginario mundo;<br> + que os loiros para nós por nós plantados<br> + ouvimos sussurrar por sobre o colmo<br> + da ermidinha onde as musas nos visitam;<br> + nós, nós, a quem deu alma a Natureza,<br> + não terrea, não mortal, não simples alma,<br> + de instinctos animaes fugaz composto,<br> + mas generosa, esplendida, sublime,<br> + mixto da etherea luz, do olor das rosas,<br> + do gorgeio do cysne, e do profundo<br> + bramir do Oceano, e do beijar das rolas,<br> + e do albor melancolico da lua,<br> + e da calma do estio, e das sonoras<br> + bafagens tuas, Héspero, e do lume<br> + trémulo e scismador dos longes astros,<br> + não pomos preço vil ao que é sem preço.<br> + <br> + Como lá n'outra edade, entre homens simplices,<br> + colono, pescador, monteiro, artifice,<br> + de mão a mão seus commodos trocavam,<br> + tal dura e durará commercio nosso.<span class="pn"><a + name="pag_139">{139}</a></span> <br> + Irmans, e não rivaes, as artes-bellas<br> + apertem mais e mais seus mutuos laços;<br> + sua origem commum, seus fins os mesmos,<br> + impõem-lhes lei de amar-se, unir esforços,<br> + umas ás outras realçar o encanto.<br> + Mais, muito mais que irmans, são todas uma;<br> + em nome, em fórma varia, é uma a essencia:<br> + a belleza, a verdade, anceiam todas.<br> + <br> + Pinta o Meónio, poetisa Apelles,<br> + Phydias derrama em marmore a harmonia,<br> + Orpheu nos magos sons esculpe os deuses.<br> + Não ha mais que um só Deus, uma verdade,<br> + uma belleza só; mostral-a em côres,<br> + em figuras, em sons, em phrases podes;<br> + são cultos de um só nume em linguas várias.<br> + A amendoeira em flôr é primavera,<br> + primavera é como ella o ceo macio,<br> + primavera a violeta, os ninhos novos.<br> + Unica e pura a eterna luz do engenho<br> + dos sentidos no prisma se refrange,<br> + e sai cambiada em fulgidos matizes.<br> + Como as côres são luz, são estro as artes.<br> + <br> + De nossa industria os fructos permutemos.<br> + O mago teu pincel doou-me aos evos;<br> + se os versos meus aos evos resistirem,<br> + nos versos meus reflorirá teu nome.<br> + <br> + ¡Ah! ¡não poder eu mais! qual tu meu todo<br> + á estampadora pedra o confiaste,<br> + capaz de confundir maternos olhos,<br> + ¡não poder eu tambem pintar no metro<br> + genio, vida, expressão, physionomia<br> + de quadros, onde a mente aos olhos fala!<br> + Desegual foi comnosco a Natureza:<br> + amante seu feliz tu gozas d'ella,<br> + abráçal-a com extasi, sorri-te,<br> + descobre-te um a um seus mil encantos;<br> + e, como se um tal bem não fosse immenso,<br> + diz-te:—«Eis-me aqui, retrata-me, ó ditoso;<br> + d'onde os gostos extrais, extrae a gloria.»—<br> + ¡Não assim eu! eu busco-a... ella se occulta;<br> + chamo-a, invoco... ou não vem, ou só de longe<br> + fugaz e esquiva se entremostra, e passa;<span class="pn"><a + name="pag_140">{140}</a></span><br> + como visão por sonhos vaporosos;<br> + como scena confusa e namorada<br> + de já perdido livro; como ideia<br> + da mui longinqua infancia, que inda a medo<br> + por sob as cans revôa ao pé das urnas;<br> + ou como o astro da noite em selva umbrosa;<br> + ou como as vozes de um serão do estio,<br> + quando da aldeia as virações as levam<br> + soltas e vagas ao curioso ouvido<br> + de erradio viandante; ou como o vulto<br> + de ingrata amada em vão, que evita encontros,<br> + leve atravez das arvores refoge,<br> + sem deixar mais de si que a viva imagem<br> + de alva roupa esvoaçada e gostos idos!<br> + Realiso as que a Grecia fabulára<br> + impaciencias do Alpheu, quando entre as nevoas,<br> + doido de amor, frenetico, debalde<br> + a vedada Arethusa andou buscando:<br> + «Nympha, vi-te—clamava—¡ai! ¡quero ver-te!»<br> + e o <em>ai</em>, com que as florestas apiedava,<br> + não apiedava o coração da isenta.<br> + Á beira de suas aguas fugitivas<br> + depois cançado e triste ia encostar-se,<br> + a procurar pelo animo saudoso<br> + que feições enxergou, quaes poderiam<br> + ser as mais que não viu; compunha-a toda,<br> + linda sim, mas phantastica; e por ella<br> + com longo affecto os eccos entretinha.<br> + <br> + Por isso ninguem peça inteiro canto<br> + na harpa quebrada. A voz de outros poetas<br> + que o solte; não me assombra: a solfa inteira<br> + perante os olhos seus se desenrola.<br> + Minha harpa incerta, em solidões, por noite,<br> + não apontados sons pendente exhala,<br> + a capricho de um zephyro que adeja.<br> + De Achilles, dos Jardins, do Eden os vates,<br> + e dos Bardos o Bardo, Ossian, o altivo,<br> + (pelo seu estro o juro; ¡immensa jura!)<br> + taes não subiram, se ás geladas trevas<br> + desde a infancia atro genio os condemnára.<br> + <br> + Manhan da alma existencia. ¡Oh! ¡como alegre<br> + me alvoreceste! ¡oh! plena luz, enlevo<br> + de que o minimo insecto ignaro goza,<span class="pn"><a + name="pag_141">{141}</a></span><br> + riqueza de que é rico o mundo todo,<br> + luz, com pródiga mão dos céos lançada,<br> + vida, belleza, luz! palavra etherea,<br> + a unica de um Deus no grão momento,<br> + em que ao formado mundo erguia o panno...<br> + ¡luz! ¡luz! ¡eu te gozei na infancia minha!<br> + ¿gozei?... ¿quem te possue goza-te acaso?<br> + não; pródigo, indiff'rente, como todos,<br> + vi-te, desperdicei te ¡Ah! ¡quem me dera<br> + d'essas horas doiradas um minuto,<br> + uma só gotta d'essas fontes amplas<br> + por este areal tão sêcco! ¡Oh! ¡com que sede<br> + n'um só momento me vingára de annos!<br> + ¡que joias no poetico thesoiro<br> + avido para um seculo ajuntára!<br> + ¡Como ás imagens pallidas, que á força<br> + te arranco, ó Natureza, como arranca<br> + o oiro entre fezes duro escravo á mina,<br> + como a tantas imagens desbotadas,<br> + rico legado do menino ao homem,<br> + revivêra o matiz, o fogo, o lustre!<br> + Então, para pintar florestas, mares,<br> + não precisára de espreitar confuso<br> + um ramo a folha e folha, ou já no copo,<br> + agil movido, o rutilar da lympha.<br> + Se ouvisse descrever a majestade<br> + de um rosto varonil, de uma formosa<br> + o encanto, de um menino as graças lindas,<br> + tudo isso o variára a mente facil.<br> + O aspecto do varão nem sempre fôra<br> + a paterna presença. Além de Amalia,<br> + de meus brincos pueris ligeira socia,<br> + mais formosas houvera, e mais formosos<br> + anjos mortaes que o meu gentil do espelho,<br> + de olhos tão vivos, tão córado aspecto,<br> + riso tão doce, e que eu amava tanto!<br> + ¡Saudades vans; desejos vãos e acerbos!<br> + Se o mar, se o céo, se os campos se me esquivam,<br> + róla a mente em seu mundo infindos mares,<br> + campos lhe alastra de opulencia extranha,<br> + circumvolve-o de céos fervendo em astros.<br> + Tal de Agenor o filho a patria perde;<br> + mas se lei deshumana o lança em fuga,<br> + oraculo phebêu condul-o a thronos;<br> + por Tyro que perdeu lá funda Thebas,<span class="pn"><a + name="pag_142">{142}</a></span><br> + a de cem portas nos canoros muros.<br> + Mas a patria... era a patria; aquella Tyro...<br> + era a Tyro da infancia; o solio, Thebas,<br> + o Elysio, o Olympo mesmo, a não valeram.<br> + <br> + ¡Feliz o para quem da vida as portas<br> + já se abriram sem luz! Só tem metade<br> + do humano apego ao mundo e horror á morte:<br> + não viu, chupando o leite, o seio amigo,<br> + o sorrir brando, os olhos, e nos olhos<br> + o coração materno; as irmans suas<br> + não foram mais que uns sons; a rosa, um cheiro;<br> + movimento, o passeio; o sol, quentura;<br> + um monte, a estiva noite; as Graças... nada.<br> + ¡Longe outra vez, e para sempre longe,<br> + saudades vans, desejos vãos e acerbos!<br> + ¿Que me importam canções? ¿que outrem descreva<br> + com mais proprio matiz do mundo os quadros?<br> + ¿que tenha ou não mais azas para um voo?<br> + ¿que importa que um volume de poesia<br> + seja um thesoiro para mim sem chave?<br> + ¿e que dos seios do animo rebentem<br> + meus versos caudalosos, sem que eu possa<br> + co'a propria dextra abrir-lhes a passagem,<br> + por onde ávidas paginas inundem?<br> + ¿Não me rege inda a luz os cautos passos?<br> + ¿não me tinge inda ao perto as varias fórmas?<br> + livros... pluma... olhos meus e dextra minha<br> + quando jámais n'outro <em>eu</em> me falleceram,<br> + n'outro <em>eu</em> onde os amei e os amo em dobro?<br> + ¡Graças a amor, á Natureza graças!<br> + logrei constante, e lograrei perpétuo<br> + nos laços fraternaes consorcio d'almas,<br> + nos de hymeneu fraternidade nova;<br> + meu ente n'estes entes se completa,<br> + já bardo sou tambem... sahi, meus versos;<br> + pura mão, don dos céos que eu pago em beijos<br> + sollícita vos abre ao mundo estrada;<br> + sahi, voae! da gratidão fervente<br> + aos olhos de Sendim levae meus votos!<span class="pn"><a + name="pag_143">{143}</a></span></blockquote> + +<h2><a name="SECTION002530000000000000000">LIII</a></h2> + +<p>Completemos estas explicações melancolicas.</p> + +<p>Aquelles em quem o amor entrou só, ou principalmente, pelos olhos, acham +custo em comprehender, como desservido da vista se possa na alma accender este +fogo maravilhoso. A sua mesma ventura é que os torna assim pouco philosophos.</p> + +<p>Examinemos.</p> + +<p>Reuniu Deus para compôr a mulher—remate, corôa, e epilogo da Creação—a +quinta essencia de tudo quanto derramára de melhor no paraizo, onde a collocou, +e do qual, ainda depois de perdido, as descendentes de Eva ficariam avivando +recordações. Quiz Elle, o Summo Factor, fundir-lhe o espirito brilhante e suave +de um raio de oiro do sol, e de um raio prateado da lua. Deu-lhe a pureza da +cecem, a alvura do lyrio, o pudor e a graça da rosa, a modestia da violeta; +accendeu-lhe no olhar brilho de estrellas; descerrou-lhe auroras de carmim e +perolas no sorrir; para fala, concentrou todas as melodias, balbuciadas no +frémito das virações, no murmurinho das fontes, e nos canticos das aves; +modelou-lhe a estatura pela dos arbustos mais esbeltos e mimosos; +arredondou-lhe as fórmas, que lembrassem os frutos mais gentis e apetecidos; +diffundiu-lhe os cabellos como as ramas pendentes e movediças do salgueiro +aquatico; impregnou-lh'os de electricidade; embebeu-os de um aroma que fala; +revestiu-os de brilhantismo; tão esmerado e prodigo os dotou, que o oiro e as +perolas, as pedrarias, os perfumes, as sedas e as flores, ambicionando +realçal-os, recebessem d'elles novo preço.</p> + +<p>Este ente, meio positivo, meio aereo, meio terrestre, meio ceo, que volteia +por entre nós como anjo desterrado, saudoso, mas contente, tendo por fala um +canto, a sujeição e a humildade por imperio; em que a fraqueza é graça, e a +graça omnipotencia; cujo encargo é mais que eternisar a especie,—é +entretecel-a, domesticál-a, refinar-lhe o gosto, os instinctos do bello, os +arrojos para o bom e para o sublime; a mulher em summa, fadada de alguma sorte +a ser mãe e mestra, guia, arrimo, lampada, conselheira, prophetisa, +esforçadora, modelo e premio, não só de seus<span class="pn"><a +name="pag_144">{144}</a></span> filhos, mas de seus irmãos tambem, de seu +consorte, de seu proprio pae, de todos que de perto ou de longe lhe podessem +receber directas ou reflexas as influições; a mulher, a mulher—da qual, depois +de tantos mil volumes de panegyrico, depois de uma idolatria universal de seis +mil annos, ainda se não exhauriram louvores, nem jámais se hão de exhaurir—não +seria a vice-providencia, que devia ser, e que é, no meio da sociedade, se não +possuisse este complexo ineffavel de seducções para toda a especie de indoles, +de espiritos, de gostos; um laço infallivel para cada sentido; um milagre para +cada incredulidade; para cada infortunio, seu balsamo; para cada edade, seu +ramalhete; sua estrella para cada noite; mão inesperada e macia para cada +desamparo; para cada fronte que se despedaçaria ao cahir, a almofada subita de +um braço todo extremos, de um seio todo suspiros, de um coração todo divindade.</p> + +<p>Parece que está aqui o animo a nadar á sombra de uma sagrada Paphos n'um +pego verde e azul, aureo e argentino, embalado pelos mais ridentes genios das +ficções; e não está senão folheando, ebrio de gratidão, o Génesis ineffavel da +creatura em quem mais evidentes se revelam as perfeições do Creador. O que +pareceria um hymno, é, para quem o souber meditar, uma succinta e desenfeitada +pagina de historia natural.</p> + +<p>Ao homem grosseiro, pervertido, gasto, embrutecido, represente-se muito +embora que a mulher, brotada para seus prazeres ephemeros, como as flores, não +pode penetrar dentro em nós senão pelos olhos; feche-os, e escute: lá está +ainda ella com a sua magia. Furte-lhe tambem os ouvidos, como Ulysses ás +sereias; não a destruiu; o calor, os abraços, e os beijos, lhe revelarão +completos os seus encantos. Não ouse ou não possa tocál-a; um halito, uma +fragrancia subtil, que não é de flores, mas de vida,—que é mais que de vida, +pois é do amor,—lhe dirá: aqui está o fruto para a tua avidez e para a tua +sêde.</p> + +<p>É porque a mulher, communhão perfeita do affecto, é toda para todos, e toda +para cada um. Triumpha na luz, como n'uma auréola; enleva nos sons, como n'um +cantico; insinua-se por cada sentido; infiltra-se por cada póro; não ha porta +na alma que se lhe não franqueie. É a chamma electrica, para a qual não<span +class="pn"><a name="pag_145">{145}</a></span> ha resistencia nem muralhas. +Fugi-lhe; esquivae-vos; sumi-vos nas entranhas da terra; lá mesmo sereis +d'ella; vel-a-heis sorrir-vos, aquecer o vosso jazigo, bafejar cubiças ao vosso +coração, fazer do vosso nada um universo, reerguer-vos para o Ceo, de que +blasphemaveis.</p> + +<p>Pelo que pertence em particular ao homem da nossa historia, eis aqui +chãmente o que eu sei, e que não é muito.</p> + +<p>Comprehendestes, cuido eu, como a grande Isis, a Natureza, a qual para +nenhum de vós se despe de todos os seus veos, quiz ser ainda mais esquiva, mais +recatada, mais avára para com elle, para com elle seu fervoroso adorador. Não +se lhe furtou de todo; não apagou entre si e elle o sol, como já fizera com o +seu Homero; mas annuveou-lh'o como para a solemnidade de um mysterio magico; e, +mesclando trevas com luz, benigna e ainda mãe no seu rigor, lhe ensinou a +adivinhál-a, a completar-lhe as lacunas das realidades com as phantasias, a +estudar a um e um os seus pontos mais frisantes, e de inducção em inducção, de +analogia em analogia, de probabilidade em probabilidade, a recompol-a, ou a +creal-a, não verdadeira nem falsa, chimera organisada de certezas, hypothetica +nos accessorios, incontestavel no essencial; retrato seu, imperfeito, mas +reconhecivel, mas formoso, mas sympathico, mas inspirativo, mas sufficiente e +sobejo para idolatrias.</p> + +<p>Qual a Natureza lhe apparece e lhe poisa para modelo diante da lyra, tal lhe +assoma diante do coração esta florida cifra da mãe Universal, o archétypo das +perfeições: a mulher.</p> + +<h2><a name="SECTION002540000000000000000">LIV</a></h2> + +<p>Mancebo, que me has-de ler curioso e condoido: ¿conheces tu porventura +aquella que te embelleza e te fascina? não te pergunto pelos arcanos do seu +interior, que ella propria não decifra; falo só do que só porventura te +seduziu; falo da sua fórma externa; falo mesmo d'aquella porção exclusivamente +que a arte não some em nuvens de tecidos preciosos, em auroras de mil cores, em +espumas de rendas, em cascatas de oiro, de aljofares, de diamantes, cahos<span +class="pn"><a name="pag_146">{146}</a></span> esplendido que sonega um mundo de +gentilezas a attrahir-te e a repulsar-te; falo unicamente do semblante; do +semblante que emerge livre, dominador e risonho, por cima de tamanha cerração +de enigmas. ¿Vês tu em realidade esse rosto que te encara com tão seductora +franqueza, que para ti se banha nu em ondas de luz sob os lustres e sob o sol? +¡Pobre illudido! ¡Se o vidro augmentativo t'o averiguasse, talvez recuarias de +espanto! a tez mimosa e córada, a tez que ambicionavas beijar tão lisa e tão +perfeita, reconhecêral-a vasto mappa de cavernas e montanhas, de torrentes mal +cobertas, de espessuras, homizio e pastagens de viventes, para quem mais que +para ti foram fabricadas aquellas regiões incognitas. Com a apparição d'esse +mundo de lindezas microscopicas, evocadas por um crystalzinho convexo, +desappareceria a beldade que a Natureza, benignamente enganadora, te inculcava; +o que a tua sciencia ganhava, o enthusiasmo do teu amor o perdia sem remedio. +Decomposta em mil formosuras, aniquilára-se a formosura, que só á providencial, +á calculada imperfeição dos teus orgãos tinha devido a existencia.</p> + +<p>¡Bemdita sempre e em tudo a Bondade Infinita do Creador! ¡Que philosopho +insensato se afoitaria a tomar-lhe contas para o censurar! Nem eu, nem eu +proprio, tenho que murmurar de ser menor que o de outros muitos convivas o +quinhão que o Pae da luz me concedeu no seu festim.</p> + +<p>Cada qual vê a mulher pelo seu prisma, prismas todos differentes e todos +illusorios. O meu, fundido de um crystal mais turvo, decifra-a, individua-a +muito menos, é verdade; mas em compensação permitte-me á phantasia o +completal-a com todos quantos primores sabe, que são infinitos.</p> + +<p>¿Querereis dizer-me que são ficticios, que não são ella, esses primores? +ficticios embora o sejam na origem; mas tornam-se d'ella, são ella mesma +perante a alma e o coração que lh'os prestaram; é a mulher sem-senão, a mulher +idealisada, a mulher só assim ascendida a grau de divindade, mulher exterior +mais parecida por ventura com o espirito gentilissimo que lhe mora dentro, que +o bando de máscaras femininas, mais ou menos imperfeitas, que enxameiam por +esse mundo á procura sempre de homenagens convictas e duradoiras.<span +class="pn"><a name="pag_147">{147}</a></span></p> + +<p>Logo que eu, alchimista combinador e attento, senti uma voz suave, em que +outros, distrahidos com o olhar não attentariam, e que me desceu do ouvido ao +seio, distillo d'ella ao brando calor do sangue quanto succo ella continha de +imaginação ou de Juizo, de melancolia, de prazer, de bondade, de innocencia, de +sentimento. O perfume que d'ali se exhala, já annuncia a deusa. Entrevejo-a; +branquejou-me o rosto, d'onde sahira tanta melodia e tanta alma. Doto-o, +fado-o, opulento-o como podéra fazer o Oberon mais carinhoso, ou a Titania mais +amante. O phantasma, já meio filho da minha adopção, passa por diante e perto +de mim; reconheço-lhe, ou attribuo-lhe, como Virgilio á divina mãe de Enêas, a +estatura, o movimento, o andar, que para ser adorada se lhe não dispensa:</p> + +<blockquote> + <em>Et vera incessu patuit dea.........</em> </blockquote> + +<p class="ni">e não accrescento, porque o não penso: </p> + +<blockquote> + <em>...............tu quoque falsis </em><br> + <em>Ludis imaginibus...............</em></blockquote> + +<p> </p> + +<p>Beldade assim composta não é só perfeita,—é inaccessivel aos estragos do +tempo, é rosa que poderá morrer, mas não murcha, não desmaia, não se desfolha; +quando por fatalidade desapparece, desapparece toda de uma vez.</p> + +<p>O commum das mulheres produz o commum dos amores: fogos-fatuos fluctuantes, +frouxos, passageiros; para a minha, arde o fogo de Vesta.</p> + +<p>A par d'esta vantagem, que sem duvida o é para a poesia namorada, um +terrivel desconto se apresenta logo:</p> + +<p>Os olhos fazem mais que descortinar a formosura: dizem aos d'ella o effeito +que ella produziu; supplicam, exoram, convencem, triumpham; possuem uma +linguagem innata e universal, instantanea e completa, electrica, divina, +intraduzivel em sons humanos. Carecer d'esta ineffavel faculdade, gozando-se +embora da luz para disfructar e amar a vida, é vagar surdo-mudo pelo crepusculo +n'uma região verde e florida, sem tratar com os moradores.<span class="pn"><a +name="pag_148">{148}</a></span></p> + +<p>¡Grande e horrorosa verdade! Mas outra vez acudiu aqui maternal a +Providencia. Assim como outorgára á phantasia uma intuição especial, concedeu á +linguagem da poesia, encarregada de supprir a do olhar, um accrescimo de +viveza, uma força de convicção, de sentimento, de lealdade, que podesse +aspirar, a persuadir.</p> + +<p>Os olhos commerceiam o amor, como opulentos, em moedas do mais fino oiro, ou +em lettras que as sommam e as cifram n'um relance. A fala, embora poetica, mais +pobre e mais humilde, vai contando os pagamentos do coração a real e real, em +cobres gastos de uso, em pratas suspeitas de liga e falso cunho; moedas de +baixo preço, que mil vezes se lhe recusam; mas afinal tambem salda a sua conta.</p> + +<p>Não me affoito a dizer, nem quasi a pensar, que a diminuição do primeiro +sentido fosse cabalmente compensada com um accrescimo proporcional na faculdade +de exprimir pela palavra o sentimento; creio todavia, que alguma coisa com isso +parecida se deu em realidade; com o que, já pode ser que o peculio poetico se +augmentaria; nova e suprema prova do que assentáramos como fundamento no +principio d'este escripto, a saber:—Que a Natureza e a fortuna andaram +concertadas em preparar por todos os meios, com os favores e com as sevicias, +um cantor, embora inutil para tudo mais.</p> + +<h2><a name="SECTION002550000000000000000">LV</a></h2> + +<p>Sobre o livro e sua historia, nada me resta para accrescentar; narrei tudo +como o tinha na lembrança; forcejei pelo explicar sem vaidade nem modestia.</p> + +<p>É um pobre escripto, que as almas de bem hão-de tomar á boa parte.</p> + +<p>Presumpções litterarias, não as tem.</p> + +<p>Quem, obedecendo a instinctos maus, exercesse n'elle critica malevola, e até +por facillima não muito nobre, juro-lhe eu, sobre minha honra e vida, que +perpetraria uma feia acção. Deixem aos chacaes o revolverem sepulturas, e +cevarem-se em ossos.</p> + +<p>Sei que ha indoles hostis, que ao tomarem um livro novo, levam já o fito em +dilaceral-o; e a essas por demais seria o requerer-lhes misericordia.<span +class="pn"><a name="pag_149">{149}</a></span></p> + +<p>Permittam-me comtudo rogar-lhes que esperem para entrarem na censura d'este, +que o autor haja tambem desapparecido como o assumpto da obra. No intervallo, +que não poderá já ser muito longo, aggridam, vulnerem, destruam muito embora +qualquer outro dos seus escriptos, e todos; não lhes exceptua nem um só, a não +ser o livrinho do ensino primario pelo amor, porque esse não é d'elle; é +propriedade inauferivel da puericia, da Patria e da posteridade.</p> + +<h2><a name="SECTION002560000000000000000">LVI</a></h2> + +<p>A collecção de mais de setecentas cartas, de que sahiu como summario a +<em>Chave do Enigma</em>, existia completa ha poucos momentos ainda; daria tres +volumes que poderiam interessar, se não como historia, como romance intimo +certamente; ardeu até ao minimo fragmento, ali, debaixo das arvores do meu +jardim; eu proprio lhe puz o fogo, velei a pyra em quanto se não extinguiu, +enterrei as cinzas; davam na torre do palacio das Necessidades as quatro da +tarde d'este dia 25 de Agosto de 1862.</p> + +<p>As razões que me induziram a este sacrificio, rastreiam-n-as todos; o que +n'elle soffri, tambem o calo, que não importa a pessoa alguma.</p> + +<p>A pedra que o ha-de ficar commemorando, e que algum poeta ou alguma poetisa +lá para o futuro em estio ou outono de amores folgará porventura de visitar com +este livrinho na mão, dir-lhe-ha isto:</p> + +<div> +</div> + +<div> +<p +style="margin-left: 10%; margin-right: 10%; border: 5px solid #000; text-align: center; padding: 1em; font-size: small;" +class="ni">AQUI JAZEM AS CINZAS<br> +DA CORRESPONDENCIA<br> +DE<br> +D. M. I. DE BAÊNA<br> +COIMBRA PORTUGAL<br> +E<br> +A. F. DE CASTILHO<br> +QUEIMADA N'ESTE MESMO LOGAR<br> +AOS 25 DE AGOSTO<br> +DE 1862<span class="pn"><a name="pag_150">{150}</a></span></p> +</div> + +<h2><a name="SECTION002570000000000000000">LVII</a></h2> + +<p>Mais uma ou duas paginas para responder já agora ás ultimas curiosidades.</p> + +<p>A 29 de Novembro de 1834, na parochial egreja do Salvador do mosteiro de +Vairão, recebia eu emfim por minha legitima esposa a D. Maria Isabel de Baêna +Coimbra Portugal. O orgão cantava não sei que jubilos tristes; as Religiosas +choravam a perda da sua mais espirituosa, mais suave, e mais amavel companheira +de tantos annos. A mão d'ella, tremia na minha; o alvoroço do seu interior, +exhalava-se baixinho em monosyllabos humidos de lagrimas; eu padecia e gozava +como homem que ia fugir com um thesoiro furtado. A boa D. Anna Lucinda não +podéra assistir á ceremonia; ¡tanto a desejára em quanto só a vira no futuro! e +agora... desamparavam-n-a as forças para a encarar; jazia doente na sua cella +deserta. Maria tomou-o por agoiro. ¡Nunca ceo sem nuvem sobre alegrias humanas!</p> + +<p>Dois annos, pouco mais, durou a nossa união sempre harmoniosa e intima; +sempre tal, qual m'a haviam promettido os meus devaneios poeticos tão +ambiciosos.</p> + +<p>Ao longo d'esse breve praso, de que nunca me poderei esquecer, foi sempre +Maria a melhor metade da minha alma; os olhos e voz para a minha leitura; a mão +para a minha escripta; a inspiradora para os meus versos; a conselheira nas +minhas incertezas; a vestal para o fogo das minhas pequenas ambições; a socia, +a luz, a explicação dos meus passeios; o calor, a fragrancia e a musica da +minha poisada; um enxerto da arvore da vida no meu teixo; o ecco do meu +coração; o meu estro fóra de mim a mostrar-se-me, a abraçar-me, a não me perder +hora nem minuto de dia nem de noite; ella, ufana, de mim como de uma gloria; +eu, d'ella encantado como de uma felicidade.</p> + +<p>Filhos são nós que apertam os vinculos naturaes entre o homem e a mulher. +Teve o Céo por superfluo dar-nos filhos; estreitar-nos mais era impossivel. +¡Grande misericordia foi aquella! a pobre assim, levou para o Céo uma saudade +unica.<span class="pn"><a name="pag_151">{151}</a></span></p> + +<p>Uma enfermidade longa, durante a qual a sensibilidade de Maria, como clarão +de alampada que se quer extinguir, me pareceu ainda mais viva, a pouco e pouco +a arrastou até á borda dos desenganos, desenganos para ella e para todos; para +mim não, que por instincto de vida, repulso constantemente, e até ultima, o +crer na desgraça, o admittir-lhe mesmo a possibilidade.</p> + +<h2><a name="SECTION002580000000000000000">LVIII</a></h2> + +<p>N'um dos dias de Janeiro do anno de 1837 (os que hoje contam menos de vinte +e cinco annos não eram ainda nascidos) Lisboa toda branquejava amortalhada em +neve profundamente (as memorias meteorologicas poderão dizer a quantos foi; eu +esqueci-o, ou nunca o soube); sei que nem os velhos se lembravam de ter jámais +visto por aqui espectaculo assim alpestre; nem de então para cá se renovou. Era +um dia pallido e lugubre, que gelava o coração e as esperanças,—um d'aquelles +dias, não sei se amigos se adversos, não sei se verdadeiros se mentirosos, mas +bons para se fecharem os olhos e se expirar com mais desapego da terra.</p> + +<p>O quarto da resignada e valorosa victima, que repartia, sorrindo, esperanças +que ella mesma para si já não queria, tinha a janella fechada ás tristezas de +fóra; as do interior lhe sobejavam; uma lamparina aos pés da Imagem em vulto da +<em>Senhora Mãe dos Homens</em>,—madrinha de Maria, e objecto da sua devoção +de toda a vida,—attrahia, como um reflexo precursor da luz perpetua, a vista +perturbada da paciente, indo e vindo da Imagem, que parecia chamal-a, para o +amante, que, recostada a fronte sobre o seu travesseiro, e apertando-lhe a mão, +lhe supplicava mudamente o não deixasse.</p> + +<p>Reconcentrou emfim, por um supremo exfôrço feminil os remanescentes do seu +vigor exhausto; e mandando chamar meu irmão, que na proxima sala chorava por +ambos nós, nos disse: que sentia já a sua existencia na vasante, e era tempo de +apparelhar a alma para as bodas eternas; em quanto lhe restava entendimento e +fala, queria dirigir a cada um de nós um rogo que de proposito reservára para +aquelle momento em que nada se recusa.<span class="pn"><a +name="pag_152">{152}</a></span></p> + +<p>Cada um jurou cumpril-o, fosse qual fosse.</p> + +<p>—«Tenho pena de ti, ¡meu pobre poeta!—proseguiu ella apoz alguns momentos +de concentração.—Sei que deixo um grande vazio na tua vida. Se Anna Lucinda +não fosse freira, essa conhecia-te como eu, amava-te quasi tanto como eu, podia +continuar como tua esposa a obra da tua felicitação, que eu deixo incompleta. +Se jámais a ventura te deparar outra mulher de alma, e capaz de comprehender a +tua, instruida, amante, superior ao vulgo dos espiritos, apta emfim para te +servir e consolar, offerece-lhe o logar que eu deixo ermo nos teus destinos; eu +mesma abençoarei lá de cima a vossa união.»</p> + +<p>Vim a cumprir-lhe o seu desejo testamentario; ella desempenhou-se da +promessa.</p> + +<p>Então, voltando-se para o nosso querido irmão, e depois de lhe agradecer +todas as melindrosas manifestações de affecto, que tantos annos havia nos +liberalisára, sem cançaço nem quebra, lhe supplicou, doce e graciosa como um +anjo, cujas azas de prata já começavam a despontar, lhe outorgasse emfim a +casinha candida com que tantas vezes lhe fizera sonhar; agora, para a erigir +bastava uma só pedra; que lhe puzesse uma inscripção, na qual ao nome d'ella se +ajuntasse o dos seus tres poetas: o meu, e o dos seus gloriosos +parentes—Ferreira e Tolentino.</p> + +<p> </p> + +<p>A bella alma partiu.<span class="pn"><a name="pag_153">{153}</a></span></p> + +<h2><a name="SECTION002590000000000000000">LIX</a></h2> + +<p>No cemiterio de Nossa Senhora dos Prazeres o tumulo N.º 48, convisinho á +ermida da Virgem, deixa ler este epitaphio:</p> + +<p> </p> + +<p style="text-align:center; font-size: small;">MONUMENTO<br> +DE PERPETUA SAUDADE,<br> +CONSAGRADO POR<br> +ANTONIO FELICIANO DE CASTILHO<br> +A<br> +SUA MULHER<br> +D. MARIA IZABEL DE BAÊNA<br> +COIMBRA PORTUGAL,<br> +DIGNA SOBRINHA DE<br> +NICOLAU TOLENTINO DE ALMEIDA,<br> +E<br> +DESCENDENTE DO ANTIGO<br> +POETA ANTONIO FERREIRA.<br> +NASCÊO NO PORTO A 2 DE JULHO<br> +DE<br> +1796<br> +E FALLECÊO EM LISBOA A 1 DE FEVEREIRO<br> +DE<br> +1837<span class="pn"><a name="pag_154">{154}</a></span></p> + +<h1><a name="SECTION002600000000000000000">NOTAS</a></h1> + +<p>Pag. 17, lin. 10—<strong>Primeiros desastres de Castilho</strong></p> + +<p>Tendo 1 anno de edade cahiu Castilho em casa, dos braços da ama, por uma +escada de pedra, e quebrou o osso sterno, onde conservou sempre defeito. Ficou +tão abalado, que chegaram os paes a recear se lhe extinguisse a vida. Aos 4 +annos teve tosse convulsa, e deitou muito sangue pela bocca. O estado em que +ficou, obrigou sua mãe a leval-o para o campo. Isto tudo (note-se) foi antes do +ataque de sarampo que o cegou aos 6 annos.</p> + +<p>Pag. 10, lin. 5—<strong>Quinta dos Azulejos</strong></p> + +<p>Sobre a <em>quinta dos Azulejos</em> (tambem outr'ora chamada do +<em>Principe</em>), no largo do Poço, no logarejo do Paço do Lumiar, junto a +Lisboa, veja-se o que vem nas <em>Memorias de Castilho</em>, por Julio de +Castilho, tomo I. O poço que se via no meio do tal resumido largo já não +existe. Engana-se Castilho attribuindo a esta quinta, por conjectura vaga, a +honra de ter communicado ao logarejo o seu nome de Paço. Essa gloria, segundo o +erudito Vilhena Barbosa, pertence talvez á quinta dos Duques de Palmella.</p> + +<p>É ainda hoje a quinta dos Azulejos um bellissimo especimen dos jardins +nobres e ricos do seculo XVIII. Pena e grande pena foi, que os modernos +proprietarios destruissem o arvoredo antigo, os buxos aparados, as murtas, +etc., dos jardins em estylo velho, para substituir essas regradas opulencias +vegetaes<span class="pn"><a name="pag_156">{156}</a></span> por outras +invenções pertencentes ao chamado jardim inglez. Estas serão muito bellas, mas +desdizem dos azulejos primitivos, que lá campeiam ainda, e são dos mais +vistosos, dos mais correctos, dos mais agradaveis que podem ver-se.</p> + +<p>Quando, na muitos annos, visitou essa quinta o Poeta, ainda o estado antigo +da parte rustica do predio se conservava intacto. É lastima que o alterassem.</p> + +<p>Pag. 19, lin. 13—<strong>Antigos donos da quinta dos Azulejos</strong></p> + +<p>Não se conhece (se é que existiu) parentesco da familia do Poeta com os +donos da <em>quinta dos Azulejos</em> (ou do <em>Principe</em>). Pelo lado +Castilho não seria de certo. A ter existido, deve ter provindo da familia +materna, que era de Lisboa e seus arredores, ao passo que a do Doutor José +Feliciano de Castilho era de Coimbra, Aveiro, S. Lourenço, e Bairrada. Sem +haver consanguinidade, bem pode ser que as duas familias, que parece eram +bastante intimas, se tratassem por parentas, a principio por gracejo, depois +por costume. Não sabemos dizer quem hoje representa a familia de Amalia.</p> + +<p>Pag. 21, lin. 33—<strong>Thomaz dos passarinhos</strong></p> + +<p><em>Thomaz dos passarinhos</em> é o personagem de um dos contos do fallecido +e talentoso Rodrigo Paganino no seu lindo livro <em>Contos do tio Joaquim</em>, +livro que muito agradou a Castilho, e que elle ouviu com gosto ler umas poucas +de vezes.</p> + +<p>Pag. 25, lin. 3—<strong>O Paço do Lumiar a uma legua de Lisboa</strong></p> + +<p>«Estou dictando a uma legua de distancia»—dizia Castilho e bem. <em>A Chave +do Enigma</em> foi escripta na casa que o poeta habitava, na rua Nova de S. +Francisco de Paula, n.<sup>os</sup> 25, 27 e 29. D'esta casa apenas existe hoje menos de +metade.</p> + +<p>Pag. 27, lin. 11—<strong>José Peixoto do Valle</strong></p> + +<p>Era o nome d'esse abalisado professor no Geral do Cunhal das Bolas. +Coube-lhe a gloria de mestre de Castilho; este mencionou-o mais de uma vez em +varios livros.<span class="pn"><a name="pag_157">{157}</a></span></p> + +<p>Pag. 30, lin. 8—<strong>Cemiterio de honra</strong></p> + +<p>Castilho propoz e advogou a creação de um cemiterio de honra para mortos +celebres e benemeritos da Patria. Não os queria encerrados n'um Pantheon; +queria-os n'um vasto jardim cheio de sombras, zumbidos, e vozes de passaros, á +sombra da Cruz. Nas notas do seu <em>Camões</em> tratou largamente o assumpto. +Não foi ouvido.</p> + +<p>Pag. 30, lin. 9—<strong>Bustos de homens notaveis</strong></p> + +<p>Castilho propoz mais de uma vez que nos passeios publicos se collocassem +bustos de Portuguezes notaveis.</p> + +<p>Pag. 30, lin. 14—<strong>Camões</strong></p> + +<p>Em 1836 propoz Castilho, na assemblêa geral da Sociedade dos Amigos das +Lettras, em Lisboa, se buscassem os ossos de Camões, e se lhes prestasse +homenagem nacional, solemne e publica, segundo o programma que apresentou. +Procurou os ossos, e achou-os, dirigindo uma Commissão especial nomeada +expressamente pela mesma Sociedade. A nova Commissão de 1854 discordou da +argumentação de Castilho, e deu outros ossos como sendo os do Epico. Entretanto +Castilho conservou sempre a convicção de que o seu raciocinio na busca era o +verdadeiro.</p> + +<p>Castilho tinha a maior ufania e satisfação em escutar á sua consciencia +dizer-lhe que em 1836 tinha elle procurado (e achado) na egreja de Sant'Anna os +restos mortaes de Camões. Sobre todo esse complicado assumpto pode ler-se o que +se trata detidamente nas <em>Memorias de Castilho</em>, Livro III, no +<em>Instituto de Coimbra</em>. Não fizeram caso dos argumentos, e levaram para +os Jeronymos uns ossos quaesquer. Consulte-se o consciencioso livro do +illustrado sr. Padre Sebastião de Almeida Viegas <em>A verdade acerca dos ossos +de Luiz de Camões</em>.</p> + +<p>Pag. 36, lin. 7—<strong>Palacio do Arco de Almedina</strong></p> + +<p>A casa do Arco de Almedina, em Coimbra, ainda hoje é denominada <em>dos +Castilhos</em> pela ter habitado esta familia muitos annos. A vista do pateo +foi reproduzida no volume antecedente a este.<span class="pn"><a +name="pag_158">{158}</a></span></p> + +<p>Pag. 36, lin. 22—<strong>Maria Telles</strong></p> + +<p>Julgava Castilho, com muitos seus contemporaneos, que o tristissimo caso do +assassinio da infeliz D. Maria Telles se tinha dado no casarão velho, ou Torre, +junto ao Arco de Almedina. Era engano; sabe-se hoje que não foi ahi.</p> + +<p>Pag. 37, lin. 14—<strong>A educanda</strong></p> + +<p>O nome adoptado pela educanda, <em>Maria da Expectação Silva e +Carvalho</em>, não era o que usava, mas tinha forma symbolica. <em>Maria</em> +era com effeito o seu nome proprio. A <em>Expectação</em> allude á expectativa, +em que ella se achava, de ser, ou não, correspondida pelo Poeta. <em>Silva</em> +e <em>Carvalho</em> eram appellidos da Casa de seu pae; Francisco da Silva +Coimbra de Carvalho, Cavalleiro professo na Ordem de Christo, Fidalgo da Casa +Real, casado na freguezia das Mercês a 27 de Outubro de 1785 com D. Maria +Fortunata Agostinha de Portugal, nascida em 12 de Outubro de 1766 na freguezia +dos Anjos. O nome exacto da <em>incognita</em> era D. Maria Isabel de Baêna +Coimbra Portugal.</p> + +<p>Pag. 50, lin. 28—<strong>D. Tourís</strong></p> + +<p>Esse D. Tourís, ou Turís Sarna, é, segundo os nossos antigos linhagistas, +progenitor da nobre familia dos Barbudos, á qual pertenceu o senhorio da villa +de Barbudo, concelho de Villa-Chan, comarca de Pico de Regalados (hoje +freguezia de Parada, concelho de Villa Verde). D. Leonor de Barbudo, natural de +Odemira, filha unica e herdeira de Ruy Filippe de Barbudo e de Isabel Rebello +Falcão, casou com D. Francisco de Baêna, vereador da camara de Odemira, e filho +de D. Hernando de Baêna, o primeiro que de Sevilha se passou para Portugal, e +teve em 30 de Outubro de 1501 o foro de Escudeiro fidalgo.</p> + +<p>Foram primeiros avós do Desembargador do Paço João Sanches de Baêna, que na +sua mocidade usou tambem o appellido de Barbudo, 5.º avô da educanda de Vairão. +¿Quem diria ao fundador, que passados seculos ali tinha de habitar uma sua +descendente?</p> + +<p>Pag. 50, lin. 38—<strong>Os Sanches de Baêna</strong></p> + +<p>Vivia essa senhora recolhida em Vairão, com sua irman D. Maria do Carmo (mãe +do actual Visconde<span class="pn"><a name="pag_159">{159}</a></span> de +Sanches de Baêna). Tinham um irmão Luiz da Silva Coimbra de Carvalho, cadete, +fallecido novo em resultado de feridas recebidas na guerra peninsular.</p> + +<p>Pag. 53, lin. 24—<strong>Pygmalião</strong></p> + +<p>Parece haver entre os antiquarios mythologos certa confusão entre dois +Pygmaliões, um esculptor insigne, e um rei de Tyro; Castilho (como alguns +outros) fez dos dois um só.</p> + +<p>Pag. 131, lin. 34—<strong>O Imperador de França</strong></p> + +<p>Referencia a S. M. Napoleão III, que em 1861 reinava, sem que ninguem +podesse presagiar a sua desastrosa queda oito annos andados.</p> + +<p>Pag. 149, lin. 28—<strong>Cinzas da correspondencia do Poeta</strong></p> + +<p>O sr. Ernesto Loureiro, comprando o predio de S. Francisco de Paula, depois +da sahida de Castilho em 1871, determinou edificar ahi um predio novo para sua +habitação. A metade septentrional da casa velha foi arrazada, e n'esse sitio e +em parte do jardim se levanta hoje um <em>chalet</em>. O sr. Loureiro, cujo +fino espirito e cujo affectuoso coração se compraz no culto do passado, quiz +respeitar a lapide posta pelo Poeta; mas sendo necessario removel-a, fel-o com +cuidado, com carinho, com amor, e pôl-a com o cofre das cinzas n'outra parte do +mesmo jardim, juntando-lhe um pedestal por accessorio, e o busto de Castilho. +Tudo isso consta minuciosamente de um auto ali celebrado, e que se acha +intercalado no logar respectivo das <em>Memorias</em>. O que praticou o sr. +Ernesto Loureiro honra sobremodo o seu caracter.</p> +</div> + +<div class="rodape"> +<p><a name="foot538" href="#tex2html1"><sup>[1]</sup></a> Carta ao +Ex.<sup>mo</sup> Sr. Casal Ribeiro datada em 1 de Março de 1859, publicada pela +Associação Promotora da Educação Popular.</p> + +<p><a name="foot529" href="#tex2html2"><sup>[2]</sup></a> J. M. Latino Coelho: +Biographia de A. F. de Castilho na <em>Revista Comtemporanea</em>.</p> + +<p><a name="foot235" href="#tex2html3"><sup>[3]</sup></a> Cant. dos Cant., cap. +II.</p> + +<p><a name="foot532" href="#tex2html4"><sup>[4]</sup></a> Pode-se ler a +interessante descripção do que resta d'esta casa tão religiosa como historica +no formoso livro <em>Bellezas de Coimbra</em>, impresso n'aquella mesma cidade +em 1831 pelo sr. Antonio Moniz Barreto Corte Real.</p> + +<p><a name="foot534" href="#tex2html5"><sup>[5]</sup></a> Pode-se ver na +<em>Felicidade pela Agricultura</em> o artigo intitulado—<em>O Clero, e as +Mulheres</em>.</p> +</div> + + + + + + + +<pre> + + + + + +End of Project Gutenberg's A Chave do Enigma, by António Feliciano de Castilho + +*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK A CHAVE DO ENIGMA *** + +***** This file should be named 32002-h.htm or 32002-h.zip ***** +This and all associated files of various formats will be found in: + https://www.gutenberg.org/3/2/0/0/32002/ + +Produced by Pedro Saborano (produced from scanned images +of public domain material from Google Book Search) + + +Updated editions will replace the previous one--the old editions +will be renamed. + +Creating the works from public domain print editions means that no +one owns a United States copyright in these works, so the Foundation +(and you!) can copy and distribute it in the United States without +permission and without paying copyright royalties. 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