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+Project Gutenberg's A Chave do Enigma, by António Feliciano de Castilho
+
+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.org
+
+
+Title: A Chave do Enigma
+
+Author: António Feliciano de Castilho
+
+Release Date: April 15, 2010 [EBook #32002]
+
+Language: Portuguese
+
+Character set encoding: ISO-8859-1
+
+*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK A CHAVE DO ENIGMA ***
+
+
+
+
+Produced by Pedro Saborano (produced from scanned images
+of public domain material from Google Book Search)
+
+
+
+
+
+
+
+ OBRAS COMPLETAS
+
+ DE
+
+ ANTONIO FELICIANO DE CASTILHO
+
+ VOLUME 2.º
+
+
+
+
+VOLUMES PUBLICADOS:
+
+I--Amor e melancolia.
+
+II--A chave do enigma.
+
+NO PRÉLO:
+
+III--Cartas de Ecco e Narciso.
+
+
+
+[Ilustração]
+
+CASTILHO
+
+AOS CINCOENTA E NOVE ANNOS
+
+(Reproducção de uma litographia feita em Paris por Desmaisons sobre
+photographia feita em Lisboa por Nasi)
+
+
+
+ OBRAS COMPLETAS DE A. F. DE CASTILHO
+
+ Revistas, annotadas, e prefaciadas por um de seus filhos
+
+ 2.º
+
+ A CHAVE DO ENIGMA
+
+ NOVA EDIÇÃO
+
+
+ LISBOA
+ Empreza da Historia de Portugal
+ _Sociedade editora_
+ LIVRARIA MODERNA
+ _R. Augusta 95_
+ TYPOGRAPHIA
+ _45, R. Ivens, 47_
+ 1903
+
+
+
+
+ADVERTENCIA ESPECIAL Á «CHAVE DO ENIGMA»
+
+
+Quando sahiu em 1862 a nova edição do _Amor e melancolia_, entendeu o
+poeta enriquecel-a com o precioso appenso que intitulou _A chave do
+enigma_.
+
+N'essas paginas de brilhante prosa explicou ás legitimas curiosidades do
+publico portuguez os seus amores com a incognita recolhida do mosteiro
+de Vairão. Precedeu a narrativa d'esse caso com a historia da meninice,
+illustrando as suas formosas paginas com esboços de retratos de familia:
+sua Mãe, seu Pae, seu irmão querido, e outros, que servem de documentos
+autobiographicos, entre descripções de sitios, e ricas digressões sobre
+variados assumptos.
+
+A incognita de Vairão era a senhora D. Maria Isabel de Baêna Coimbra
+Portugal, com quem o poeta ajustou casamento, sem ainda se conhecerem
+pessoalmente, e com quem veio a casar na egreja do mosteiro a 29 de
+Novembro de 1834; filha de Francisco da Silva Coimbra de Carvalho, e de
+D. Maria Fortunata Agostinha de Portugal.
+
+Algumas rapidas annotações irão acompanhando o texto; no mais deixemos
+falar o poeta. Melhor que ninguem nos saberá iniciar nos segredos da sua
+vida, que n'este livro decorre desde 1800 até 1837; isto é: desde o
+berço d'elle até á campa da sua virtuosa e digna primeira mulher,
+inspiradora, companheira, confidente, e amiga.
+
+São paginas de saudade, em que elle a retrata, e se retrata a si.
+
+ OS EDITORES.
+
+
+
+
+_Áquella que já não sente, pendura com mão tremula n'um ramo do seu
+cipreste esta pequena corôa_
+
+ _O Autor._
+
+
+
+
+A CHAVE DO ENIGMA
+
+
+ Dezembro de 1861
+
+Digam embora que me biographei; vou escrever uma pagina da minha vida.
+
+Se mais ninguem a lêr, lêl-a-hão os meus amigos. Ella tambem, êrma de
+interesses grandes, desenfeitada de estilo, e só attendivel, se o fôr,
+por verdade e affecto, aspira unicamente a captivar a attenção dos
+poucos para quem um murmurio de folhas n'um retiro de estio, e de vez em
+quando uns gorgeios ou pios de duas aves que se entrereclamam
+emboscadas, supprem conversações, leituras, e até pensar.
+
+Emfim, se nem para os meus intimos valer o que eu tenho de bosquejar,
+muito saudoso de tempos que lá vão, ficará sendo só para mim, e para
+quem m'o inspirou; ¡ah! quem m'o inspirou já m'o não póde lêr, mas por
+ventura o ouve. Será um devaneio, e um solilóquio; será uma folha
+sôlta de uma deliciosa arvore longinqua, hospedeira minha ha muitos
+dias; folha que uma viração despegou, volveu nos ares, me atirou á
+fronte, e me lançou aos pés, para ahi fenecer esquecida.
+
+Não vale a pena de mais prologo. Nem tanto me está parecendo agora que
+fosse necessario.
+
+
+I
+
+Antes de tudo, releva conhecer o individuo. Não é empenho muito facil;
+mas tentemos.
+
+Levanta-se logo a primeira difficuldade d'este capitulo na averiguação
+da identidade:
+
+Reflicta cada um comsigo mesmo n'este grave ponto: ¿a repetição de nome,
+a similhança das feições, a conservação, com mais ou menos mudanças, da
+indole primitiva, dos gostos, e das relações activas e passivas com as
+pessoas e coisas do mundo externo, bastarão para que, em boa
+philosophia, um homem qualquer se repute unidade consoante, e unico
+indestructivel no meio da metamorphose universal? ¡Embaraçoso problema!
+
+O espirito immaterial e immorredoiro quer, por instincto, por egoismo,
+por fé, acredital-o; mas o estudo da Natureza, e a propria experiencia
+quotidiana, desmentem em boa parte essa presumpção.
+
+O individuo não é só a alma; o corpo que a reveste, a serve, e tantas
+vezes a domina, é mais que sujeito a continuas e espantosas variações;
+renova-se incessantemente, perecendo e renascendo a cada instante; a sua
+carne de hoje era ainda hontem vegetaes, ruminantes, aves, peixes, agua
+nas fontes, gazes na atmosphera, calorico no sol, terra debaixo dos pés,
+e electricidade sabe Deus por onde; congregaram-se essas myriadas de
+particulas... existiu; ámanhan partirão, todas ellas destacadas para
+novas combinações e destinos, sem que o espirito lhes haja sentido a
+fuga, porque outras particulas, accorridas do universo, terão vindo
+rendel-as sem estrondo nem abalo.
+
+N'este sentido cada individuo é simultaneamente filho, irmão, e pae,
+influidor e influido, conservador, destruidor, modificador, herdeiro,
+usufructuario, e testador, de quantos entes sensitivos, vegetativos,
+inorganicos, imperceptiveis, imponderaveis, são, como elle, parcellas
+componentes do planeta em que elle se proclama senhor e potentado.
+
+Mas se esta desidentificação incessante do corpo escapa ás nossas
+percepções, por não apresentar de hora para hora mudanças apreciaveis no
+ser, no sentir, e no pensar, já assim não é quando nos outros, e em nós
+mesmos, confrontâmos a infancia com a puericia, a puericia com a
+adolescencia, a adolescencia com a virilidade, a virilidade com a
+velhice, a velhice com a decrepidez; ou, supprimindo os graus
+intermedios para maior evidencia, a caducidade com a madureza, a
+madureza com o desabrochar no berço.
+
+¿Que ha ahi de commum?!
+
+Unicamente o nome, accidente impessoal, insignificativo, nullo.
+
+O corpo é manifestamente diversissimo, e em tudo outro; e com o corpo
+outro e tão diverso, outras e diversas egualmente são as faculdades
+intimas, outro e diverso o sentir, o querer, o recordar, o ambicionar.
+
+Não são épocas de uma vida; são vidas verdadeiramente distinctas, talvez
+contrarias, que se encadeiaram por um trabalho simultaneo e occulto da
+Natureza e da fortuna, dos successos e de nós mesmos.
+
+É por isso que o louvor ou vituperio, a recompensa ou o castigo,
+conferidos tarde, conteem sempre mais ou menos, uma injustiça
+distributiva; e talvez duas: preteriram aquelle que fez, e já não
+existe, e vão-se dar ao que existe mas não fez. ¡Que de vezes se não
+haverá suppliciado um justo pelo malfeitor que annos atraz o precedêra,
+e nada mais lhe legára que o seu nome e umas parecenças no semblante!
+
+A solidariedade do homem comsigo, em remotos prasos da existencia, é
+pois tão infundada, como a de um individuo com outros, com quem nenhuns
+vinculos o prendem, e que operam, independente cada um na sua esphera,
+como elle na sua propria.
+
+D'aqui vem que, sendo altamente suspeita de romance toda e qualquer
+historia que se escreva de um personagem, ou de um povo (ás vezes
+remotissimos em logar e tempo), sobre tudo quando o narrador pretenda
+assignar como causas aos successos o que se passou sem testemunha em tal
+ou tal coração, em tal ou tal espirito, pouco menos se eximirá de
+similhantes suspeições a noticia que o homem mais sincero pretenda
+transmittir-nos de si mesmo. «Escreve o seu preterito»--dirão os
+benevolos; mas escrever o seu preterito ¿não é escrever já de outrem?
+
+Demais: ¡quantas perplexidades! ¡quantas conjecturas temerarias!
+¡quantas supposições de boa fé, mas erroneas, quando ao clarão
+interrupto de reminiscencias enfraquecidas pretender levantar do pó as
+flôres, e os espinhos que n'elle se converteram, reedificar edificios,
+sobre os quaes se levantaram edificios novos, insuflar vida a sombras,
+resuscitar o coração de outr'ora, e achar a harpa interior com todas as
+suas cordas e a mesmissima afinação!
+
+São estas, para quem bem o pensar, umas difficuldades, e tambem uns
+desenganos, e umas tristezas muito grandes. Nunca tão claro o senti,
+como ao reler agora este pobre livro. Forcejarei todavia por trazer á
+vossa intimidade, meus amigos, o autor d'elle, se ainda me fôr possivel,
+depois de tão apartados um do outro.
+
+Um bem que ha n'esta desidentificação, n'este apartamento dos dois
+_eus_, é que, se algum bem me fôr necessario dizer do que foi, já ao que
+é se não poderá carregar em conta de vaidade.
+
+
+II
+
+Presupposto, como bem é de razão, que a Providencia fada para um destino
+especial a cada um dos que vimos a este mundo, ¿para que nasceria
+eleito, ou precito, um menino que ha hoje sessenta e um annos
+desabrochava em plena luz, e recebia um nome que havia de ser meu? Cuido
+não me enganar muito affirmando, que simples e exclusivamente para haver
+ahi lá para o diante mais um cantor de affectos.
+
+¿Que aproveita ao Pae da Natureza que haja mais um amante, mais um
+cantor? Nada sem duvida, pois lá tem em roda de si, para o amarem e
+cantarem, os seus Anjos; mas no seu systema de harmonias, entraram
+tambem os gorgeios dos passaros cá em baixo, musica das florestas e do
+oceano, a voz suavissima da mulher, e os canticos do poeta.
+
+Assim como nem tudo na terra são seáras e frutos, nem tudo na humanidade
+lhe prouve a Elle que fosse laborioso e productivo no sentido grosseiro
+e restricto da palavra, como presumem economistas.
+
+Emquanto o cavallo peleja, o boi lavra, a ovelha elabora o leite e a
+lan, um insecto o mel, outro a seda, plantas a saude, minas os metaes,
+ha boninas que só alegram e perfumam; ha murmurios no ar, e visões
+coloridas no ceo, que só recreiam: ha pedrarias scintillantes, que só
+adornam; ha balsamos, que só rescendem; ha o rouxinol para idealisar os
+mysterios da noite; ha no eremita a oração muda que se exhala para as
+alturas como aroma; ha na alma que sonha, miragens estereis, mas
+voluptuosas; e ha, no sonhar perenne do poeta, com que pague de sobra a
+seus irmãos as poucas espigas que rebusca das ceifas, os quatro palmos
+de solo em que se alberga, a agua da fonte commum em que se dessedenta,
+e o ar de que aspira reclinado o seu quinhão, para o exhalar convertido
+em melodias.
+
+Fadada vinha pois, segundo cuido, aquella creança só para poeta, e poeta
+unicamente de branduras. Para a realisação do horóscopo se entendeu a
+Fortuna com a Natureza, como para o diante vim a reconhecer, quando,
+passadas as angustias da preparação, que assaz foram desabridas, e
+porventura insólitas, pude, chegado ao alto, abranger com um relance
+todos os pontos percorridos, vel-os, por effeito da distancia,
+aproximados, e descobrir-lhes então finalmente o systema e a harmonia.
+
+
+III
+
+Foi a infancia do innocente, que eu ainda me recordo bem de ter
+conhecido, rosada, doirada, chilreada, alegrissima, como quasi todas as
+auroras. Mas os penates do seu berço haviam sido na cidade; e os
+passaros cantores não se criam e educam bem senão pelas amenidades
+tranquillas e scismadoras desses campos.
+
+A ser verdade que a sciencia, com a imposição das suas mãos escrutadoras
+sobre uma cabeça, pode prognosticar o que a organisação interior contem
+de germes intellectuaes e moraes, capazes de grande producção, se as
+circumstancias lhes favorecem o desenvolvimento, parece-me que, desde
+que essa previdente fada humana,--a sciencia--annunciasse uma indole
+poetica, a sociedade mesma deveria tomar á sua conta essa nova indole
+privilegiada; e a fim de a pôr no mais seguro caminho para os seus
+destinos, fazel-a crear, o mais que possivel fosse, no seio da Natureza,
+sobre a terra larga que produz, ri, e canta, e debaixo do ceo que
+inspira, brilha, enamora, e enleva.
+
+As forças do camponez, as graças de saude da camponeza, envergonham os
+enxames de frivolos e ephemeros dos grandes focos de população, ¿E
+porquê? A causa não deve ser outra senão, que das barreiras a fóra,
+longe do alcance do immenso carcere, se vive mais conchegado com a
+Natureza, mais debaixo da Mão invisivel, mas tepida e suave, do Creador.
+
+Tudo na cidade é artificial (¡e de quão ruim e desentoada
+artificialidade as mais das vezes!). São prosaicas as occupações;
+prosaicos e arriscados os projectos e os desejos; apertadas, escuras,
+doentias, as vivendas; tolhidos os trajos; acanhadas as perspectivas. Se
+se escuta uma ave, é mais a queixar-se do captiveiro em que definha, do
+que a chamar pela companheira, que não tem, para fabricar berço a
+filhos, que nunca ha-de ter. Se se vê uma planta, uma d'estas mudas
+filhas de Deus que tanto sabem e dizem, tão bem florescem e medram na
+sua pacifica republica, é enfézada e triste na prisão de um vaso,
+debruçada para uma encruzilhada immunda lá em baixo, ou alando-se
+n'um saguão á espreita do sol quando elle atravessar fugindo lá por cima
+pela estreita fita do céo, do céo immenso em toda a parte, e aqui só aos
+retalhos e sumiticamente repartido, ¿Que é da viração balsamica por
+estas ruas? ¿Que é da madrugada com os seus descantes? ¿o meio dia com
+os seus guardasóes verdes e movediços de trinta braças? ¿o crepusculo
+com as suas despedidas saudosas? ¿a noite com a sua orchestra suave tão
+grata ao amor, e com que se dão tão bem os somnos, os sonhos, as
+vigilias? Tudo isto, e infinitamente mais, tudo quanto era Natureza,
+desterrou-o a mão do homem quando desarraigou as arvores para plantar os
+seus estirados colmeiaes de pedra; desterrou as relvas, e as seáras,
+para assentar as praças; calçou as ruas, que não despontasse olhinho
+verde; multiplicou as fabricas, o commercio, o estrondo, para que os
+harmoniosos filhos do ar só muito por alto, e fugindo, se aventurassem a
+atravessar tão desmedida e nevoenta cratéra de prosa, de cuidados, de
+fadigas, e de desgostos.
+
+Longe de mim negar puerilmente ás cidades suas vantagens sociaes; digo
+só que para a poesia se não fizeram ellas, e que, se n'essa frágoa algum
+engenho poetico resiste, se ahi canta, nunca ha-de ser tanto, nem tão
+bom, nem tão innocente, nem tão perfumado, como seria sem duvida nos
+campos; e apostaria eu uma hora de vida aldean, e até casaleira, contra
+dez annos bem medidos de um vegetar em côrte (apostaria e ganhava), que
+tudo quanto mais deliciosamente cantaram poetas em cidades, se elles
+nol-o quizessem ou soubessem declarar, das suas reminiscencias ruraes,
+porventura remotas e meio apagadas, lhes proveio.
+
+De Virgilio só tiraria eu provas sobejas, irrefragaveis, se para coisa
+tão intuitiva fôssem ellas necessarias. Aquelle Virgilio, que florescia
+em Roma para coroar de gloria Cesares e deuses, tinha as mais vivazes
+raizes do seu genio, tão suavemente melancolico, longe e bem longe, onde
+ninguem lh'as enxergava: pelos cômoros, de murtas da aldeia de Andes,
+pelas margens do Mincio ciciadas de cannaviaes.
+
+Redescendâmos de tamanho homem ao pequenino de quem iamos... historiar
+não, que lhe não sabemos historia, mas simplesmente conversar.
+
+
+IV
+
+Importava que lhe chegasse com cedo a iniciação campestre. Com as
+impressões iniciaes se cunha a feição caracteristica de muita alma, se
+não fôr de quasi todas. Bem estreado aquelle, a quem as primeiras ideias
+do mundo exterior, puras e amoraveis, advieram afinadas pelo instrumento
+que a Providencia lhe armára dentro. Isso ao menos teve elle em seu favor.
+
+Uma queda, que por pouco lhe não destruiu a vida logo no começo, foi
+seguida de resultados assustadores: pallido, descarnado, abatido,
+pareceu que poucos passos mediria do berço á sepultura. Uma noite acorda
+suffocado; golfa sangue em torrentes; sobresalta-se a casa; acredita-se
+que já não tornará a amanhecer-lhe; acodem os medicos; resolve-se como
+ultimo e unico regresso fuga precipitada para o campo.
+
+Ao rasgar do dia já transpunha as portas da Capital, reclinado no regaço
+materno, rodando a carruagem tão vagarosa e precatada, que facil se
+adivinhava ir depositaria de uma existencia que ao minimo abalo se
+esvahiria.
+
+Tanta coisa proxima e de vulto se me tem desluzido da lembrança, e ainda
+aquella noite angustiosa, e aquella manhan suavissima, aquella morte
+pranteada, e aquella resurreição de alleluia atravez de fragrancias,
+sombras verdes bordadas de oiro pelo sol, e emboras dos passarinhos, me
+estão impressionando como presentes. Não sei, nem ha já quem me diga, a
+quantos, nem em que mez, nem em que anno, fôra aquillo; o que sei é que
+todas as copas estão folhudas, e muitas floridas; que tudo quanto vem
+vindo para nós por um e outro lado do caminho ri contente, como em
+domingo de festa: as casas de quinta com as suas varandas e vidraças
+illuminadas do sol novo; bosques ociosos debruçando a cabeça por cima de
+um muro amarello para nos espreitarem; a porta vermelha entreaberta de
+uma horta viçosissima; aqui piteiras esguias e silvas recortadas nos
+cômoros; adiante estatuas, e vasos de marmore lavrados; um oiteiro com o
+seu rebanho a fluctuar, e lá no cimo um moinho bracejando e cantando
+no trabalho, emquanto o dono á janellinha escuta ocioso a viração de
+Deus que lhe está chovendo pão lá dentro.
+
+Notava eu, em meio d'este paraizo, lagrimas nos olhos de minha mãe, e
+não as comprehendia; deviam ser de commoção.
+
+Minha mãe tinha alma poetica; (lá coração poetico todas as mães o teem).
+Se a tivessem apparelhado com educação e instrucção apropriadas, poderia
+ter escripto deliciosamente; florejou sem cultura, e sem saber que
+florejava. Nos festins de familia, quando a saude dos seus, a presença
+de quantos lhe eram caros, e a prosperidade da casa, a exaltavam,
+improvisava versos faceis e melodiosos, em que scintillavam faiscas de
+talento, e certa graça natural; pareciam aquelles uns meros reflexos
+involuntarios do seu contentamento intimo; e eram; mas o contentamento
+intimo só tem resplendores taes n'um espirito de eleição.
+
+Meu pae, a quem a severidade da sciencia e a supremacia da razão não
+deixavam logar para ser poeta, que não tinha sequer nascido com a
+organisação propria para isso, mas que, pelo complexo de outras suas
+qualidades eminentes, era uma das pessoas mais proprias que eu nunca vi
+para reconhecer, aquilatar, criticar, e dirigir poetas; meu pae,
+costumava repetir que, se minha mãe não tivera sido obrigada a repartir
+todas as suas horas pelas occupações domesticas, e toda a sua poesia
+nativa pela educação dos filhos, se fôsse uma cenobita, por exemplo, com
+poucos livros, muito remanso, e a Natureza, por certo deixaria de si boa
+memoria para entre as escriptoras portuguezas.
+
+Deviam ser logo aquellas preciosas lagrimas, com que minha mãe me
+rebaptisava renascido, menos causadas do manso alvoroço festival de
+terra e céo em primavera, que da lucta em que lhe iam, no coração, o
+temor e a esperança.
+
+A immensa viagem, que não passou de uma legua, deveu lançar-me no
+espirito delicado e absorvente, os primeiros germes dos meus, já agora
+indestructiveis, amores, para com as lindezas do universo.
+
+
+V
+
+¿Conheceis, para além do arvoredo do Campo Grande, no retirado sitio do
+Paço do Lumiar, aquelle edificio, nobre sem fausto, que faz frente ao
+pequeno Largo do Poço, e que talvez communicou á povoação o seu nome
+aristocratico? Eis ahi o termo da piedosa peregrinação de minha mãe; eis
+ahi onde a reflorescencia me aguardava, e com ella novas e abundantes
+sensações, das que a minha indole ia absorver com avidez, e assimilar,
+para fructificar alguma poesia em vindo a quadra.
+
+Recebeu-nos com alvoroço, e com affecto patriarchal nos hospedou, a
+familia, ainda nossa parenta, a quem a vivenda pertencia, familia ainda
+mais ligada comnosco por laços de amisade, e de leal e não interrompida
+convivencia. Compunha-se de mãe, uma filha entre doze e treze annos, e
+seu irmão pouco mais idoso.
+
+Amalia (era o nome da minha pequena prima) possuia, com o semblante mais
+vivo e sympathico, a indole mais expansiva e carinhosa; os seus olhos,
+cujo extraordinario brilho eu estou ainda admirando, eram dotados de um
+magnetismo precoce; é tal, que até os de uma creancinha, como eu, se
+pasciam n'elles com delicias; mas não era ainda assim nos olhos que
+estava o seu maior feitiço; a sua voz tão suave, como nunca depois ouvi
+outra alguma, sahia por uma bocca tão singularmente pequenina, que
+podéra quasi quasi haver tentação de a extranhar á primeira vista, se
+não parecesse, com o seu sorriso habitual, uma rosinha das mais
+pudibundas a entreabrir-se; era um ósculo perpetuo da innocencia.
+
+Amalia, com a superioridade que lhe conferia sobre mim a differença dos
+annos, quiz tomar-me desde logo maternalmente sob a sua protecção,
+prohibindo-me, por interesse na minha saude, o participar dos brincos
+tumultuosos, para os quaes seu irmão me provocava. Meu primo era já
+então militar por genio; a barretina empennachada, o boldrié lustroso, a
+espada de madeira, as dragonas, e a banda de official, com que a si
+mesmo se despachára, faziam-n-o preferir aos passatempos
+sedentarios, mais conformes aos gostos de sua irman, e á minha fraqueza,
+o estrondo e o movimento.
+
+D'ahi provinha que as mais das vezes, emquanto elle marchava a passo
+dobrado ao som de um tambor imaginario, esgrimia contra uma estatua, ou
+degolava alguma papoila trémula, Amalia e eu, pacificamente sentados
+muito mão por mão a uma sombra do jardim, toucavamos de minhonetes e
+amores-perfeitos as suas bonecas, emmolhavamos ramalhetinhos para nossas
+mães, e interrompiamos a cada momento a esmerada tarefa, logo que uma
+abelha doirada, uma borboleta branca ou azul, ou um pio de ave
+escondida, como que por malicia, entre as folhas, vinham suscitar a
+minha curiosidade, e accender-me exclamações de maravilha e
+contentamento. Minha prima gosava-se da minha alegria, e tinha
+vaidositamente o ar de ser ella quem me estava fazendo as honras da
+primavera.
+
+Dissereis, se reparasseis, como eu, na complacencia com que ella
+contemplava, ora o seu jardim tão formoso, ora o seu priminho tão
+attento, que era uma poetisa desvanecida com o effeito do seu ultimo
+poema n'um ouvinte encantadissimo; e que tudo aquillo que eu amava no
+seu jardim, os arbustos enfeitados, os ninhos palreiros, os insectos
+volteantes, as aguas harmoniosas, tudo ella tinha feito, ou pelo menos
+aconselhado e pedido a um Anjo feiticeiro, feiticeiro como ella. Eu
+quasi que assim o acreditava; se me tivessem dito que ao seu mando
+podiam rebentar das pedras lyrios e rosas, ia pedir-lhe esse prodigio
+como a coisa mais natural de todo o mundo.
+
+Creio que nos amavamos; mais que no sentido da amisade; mais até que no
+sentido do amor; ¡no sentido do paraizo terreal, quando a humanidade
+vinha despontando resplandecente de innocencia!
+
+Amavamos de certo; posso affirmal-o pela viveza e saudade com que estou,
+agora mesmo, sonhando tudo aquillo.
+
+Não sei se o coração me latejava; sei que me palpita agora com a maior
+força; sei que dera eu hoje o throno do Celeste Imperio, e todos os
+thronos ao mundo, e até a gloria de Homero, e de, todos os poetas, pelo
+revivimento para mim de tal primavera com todas suas circumstancias,
+embora com a certeza de vir eu proprio a murchar, e destruir-me com a
+sua ultima flôr.
+
+
+VI
+
+Todos os ridentes allegorisadores da antiguidade falaram de um Cupido
+filho de Venus, armado de fogo e settas, cruel e suave ao mesmo tempo,
+incoercivel e fugitivo como os sonhos. Existe esse, não ha duvida; mas
+ha outro amor, podéra eu affirmar-lhes, que nasceu do casamento de uma
+açucena com o zephyro; que mesmo suspirando está a rir; que sóbe em
+espiraes melodiosas para o ceo até se perder de vista, mas não foge;
+reapparece, e redescende fiel ás mesmas amenidades d'onde levantára o
+vôo. Não fere, nem envenena; encanta. Não accende fogo para deixar
+cinzas; brilha na alma como sol. Não se rodeia de aves de agoiro, nem de
+sonhos temerosos. Não desvela as noites, já com prazeres instantaneos,
+já com delirios, e arrependimentos contumazes, mas se imbebe na
+andorinha do beirado para nos acordar cada ante-manhan com as alegrias
+puras que ella sabe. Não cura de ciumes; quizera que todos amassem como
+elle. Não é um amor concentrado, exclusivo, incompleto, que só põe a
+mira n'um objecto caduco; é outro amor profundo e infinito como a
+Creação, com cujas maravilhas, maravilha elle proprio, se renova; a sua
+venda, se a tem, não escurece; é toda de brilhantes diaphanos e
+prismaticos, que redobram os prestigios do Universo. É o primogenito de
+todos os amores, e o que a todos sobrevive. É o que serviram, adoraram,
+e nos ensinaram a adorar, sem nome, todos os grandes poetas, desde
+Orpheu até o _Thomaz dos passarinhos_. É o que a virgem mais ingenua
+está sonhando voluptuosa, quando absorta suspira, e parece triste. É o
+que á mente do religioso levanta escadas floridas para o Empyrio. É o
+que annuncia, como boa nova, ao caduco, uma arregaçada de saudades, um
+chorão, um gorgeio estivo, e prateados raios da lua para cima da cova.
+É, em summa, o que aos impotentes da infancia segreda tantas coisas
+ineffaveis que os alvoroçam, e de que o outro amor, em chegando, ha-de
+receber porventura muita herança. Tal era a mysteriosa divindade que
+presidia aos nossos passatempos, sem que eu então a adivinhasse.
+
+Amavamos pois decididamente.
+
+
+VII
+
+Vigiava-nos inquieta, suspeitosa, sollicita, a mãe de Amalia... Não
+riais: o seu coração materno tinha razão; um coração materno tem razão
+sempre. Não era um impossivel o que ella temia; apavorava-a um perigo
+real; e quanto a ella, segundo todas as mostras, muito provavel, ¿Que
+perigo? o da communicação da minha doença a um ente a quem ella sentia
+vinculada a sua existencia, e sem o qual, ainda que o quizesse, não
+saberia já viver.
+
+O sangue que eu perdêra, a minha debilidade, todo o meu exterior,
+induziam a crer que a enfermidade que trabalhava tão activa por dentro
+em me destruir, ¡era.... nada menos que a tysica! mal ainda então
+rarissimo, com que hoje pela generalidade se vive familiarisado, mas do
+qual no começo d'este seculo nem quasi se ousava proferir o nome senão
+em baixa voz.
+
+A familia, em cujo seio despontava tal phenomeno, forcejava pelo
+encobrir a todo o custo aos de fóra, como um castigo divino e uma
+ignominia; e abria ella mesma uma area de respeitoso terror, em cujo
+centro languescia, soccorrida, mas desamparada, a pobre victima. A
+roupa, os moveis, até a loiça do seu serviço, tinham marca, para que
+ninguem lhes tocasse. O confessor, o medico, o amigo, os filhos, a
+esposa, não chegavam ao alcance do seu halito; era o leproso; era quasi
+o damnado aquelle triste esqueleto vivo, envolto na sua pelle livida e
+ardente, e a quem, para luxo de desgraça, a Natureza subtilisava a vista
+e o ouvido, conservando-lhe inteiras a memoria e a intelligencia até á
+ultima. Emfim, logo que o espelho apresentado aos labios por um braço
+estendido de longe, e tremente, testemunhava com o seu cristal não
+empanado, que o ultimo bafo se esvaecera, ainda a terra o não tinha
+recebido, quando já os seus vestidos, o seu leito, a sua cadeira de
+martyrio, o livro das suas derradeiras orações, tudo era entregue ás
+chammas, e as mais prolixas ceremonias de lustração, tanto religiosas
+como physicas, acudiam á poisada; acontecendo, muitas vezes, que nem
+depois de picadas e renovadas as paredes, havia temerario que se
+aventurasse a occupal-a.
+
+Deus louvado, o tempo não tardou em mostrar, pelas mais irrefragaveis
+provas, que a minha enfermidade, com toda a sua carranca de profunda e
+fatal, era passageira, e que d'aquella frágoa poderia sahir, como de
+feito sahiu, uma constituição vigorosa e duradoira.
+
+Aos nossos amores, tão bem correspondidos de parte a parte, nem sequer
+faltou pois o estimulo de uma quasi prohibição, e o sainete de terem de se
+andar recatando, sobresaltados ao minimo rumor, como verdadeiros
+criminosos. Se não fosse a presença de minha mãe, e o affecto e delicadeza
+com que sua prima a tratava, ter-nos-hiam, provavelmente, separado,
+enclausurando na casa a amante, e deixando livres, mas desertos, para mim,
+o jardim e a quinta, largo e formoso banho dos ares balsamicos, de que eu
+então sobre tudo necessitava. Quem havia de lucrar com isso era João, meu
+primo; o que sua irman perdia, ganhava-o elle; era um namorado de menos, e
+um soldado de mais para o seu regimento, em que até então era elle só a
+força e o commando, o porta-bandeira e o tambor.
+
+Havia muitas horas, entretanto, em que a mãe de Amalia, com a razão, ou
+com o pretexto do estudo ou dos bordados de sua filha, a retinha no
+gyneceu da casa; essas horas (bem o sabem todos os que amaram) deviam-me
+parecer eternidades; para as abbreviar, ora ia sentar-me n'um banquinho
+ao pé do seu bastidor, enlevado em vêr rebentar flôres debaixo dos seus
+dedos, e ouvindo os contos, que ainda hoje me lembram, da velha e gorda
+cosinheira Escholastica; ora me detinha encostado ao grande portão de
+grade de ferro no lado fronteiro do pateo, com os olhos pregados na
+janella do quarto de lavor; feliz quando de traz da vidraça me alvorecia
+a miude, saudando-me com um sorriso, aquella pequena rosa que eu
+esperava, e que já de lá como que me estava ensaiando os beijos que eu
+d'ali a pouco havia de colher ás escondidas no caramanchão, especial
+asylo, e o mais seguro, dos nossos furtos.
+
+
+VIII
+
+É uma grande pena que não saibam as creanças escrever, e não registem,
+para depois as lerem, as suas memorias, e que a torrente caudalosa dos
+successos ulteriores lh'as desgaste e confunda quasi todas; a sua
+historia poderia ser muito mais gentil, muito mais elegante, muito mais
+instructiva, que as historias e novellas de outras idades.
+
+Á mingoa de taes documentos, que bem preciosos me seriam agora, fui
+hontem 19 de Dezembro d'este 1861 visitar, ao cabo de tantos annos,
+logares tão queridos, e evocar n'elles os phantasmas verdes dos arbustos
+do meu tempo, o phantasma candido d'aquella que eu tantas vezes arraiei,
+como gentil Maia, á custa d'elles, e o meu proprio phantasma pequenino,
+alegre, buliçoso, tão puro, tão amante, e diante do qual, como diante
+d'ella, eu me ajoelharia, se o encontrasse. Palpitava devéras ao
+approximar-me, como sem falta deve acontecer a quem se acerca de um
+logar de mysterios, ou a quem excava um solo, de que espera enthesoirar
+reliquias santas da antiguidade. Parecia-me que o mal transparente veo,
+que, tanto ha, me collocou o mundo n'uma penumbra, de repente se
+levantaria por um milagre da vontade e do affecto, e que eu ia rever
+tudo tal como o levava no coração e na saudade.
+
+¡Ai ninho de tantas delicias! ¡quem se atreveu a desfazer-te! De tudo
+que ali havia, e que era tantissimo, ¡quasi que só eu resto! Não
+importa: profanados, perdidos mesmo, esses logares conservam, indelevel
+ainda para a minha alma, a sua primitiva sagração. Tornarei a visital-os
+na proxima primavera; talvez se me recordem então do que hontem só
+confusamente lhes lembrava; encontrarei porventura valverdes florídos,
+rainunculos matizados, quinquagesimos descendentes, e mais, dos que tão
+suavemente brilhavam no meu tempo; e esses alguma coisa saberão
+relatar-me de tão antiga historia. O portico viçoso, estrellado de
+jasmins, que bordava de sombras graciosas o vestido branco de Amalia,
+quando, abrigados ali n'um meio dia de verão, escutavamos as cigarras
+emboscadas, ha-de por força com a sua fragrancia falar-me d'ella, e
+avivar-me no espirito um cardume de sensações lyricas ineffaveis.
+
+Por agora, que estou dictando a uma legua de distancia estas paginas,
+talvez indifferentes a todo o mundo, e frias como a estação em que
+nascem, que me acho diante de outras arvores nuas, que aguardam,
+saudosas como eu, dias de festa, o mais que posso dizer é que a primeira
+impressão photographica da bella Natureza, toda esplendida e de uma
+admiravel nitidez, foi ali que a minha mente a recebeu. Um tal quadro,
+que tinha de me ficar no sanctuario intimo para todo sempre inspirativo,
+fecundo, milagroso, e contendo a synthese da galeria do Universo real e
+imaginario, mal podéra haver tido tal perpetuidade e tal virtude, se lá
+m'o não collocassem uma fada e um genio, uma mulher e um amor; mulher
+recem-cahida das estrellas e ainda ignorante da sua destinação; amor
+puro como o dos Anjos encarregados de enfeitar a Natureza, e que,
+terminada a tarefa, dormitam entre os obeliscos que levantaram, e sonham
+céo.
+
+Assim, ao mesmo tempo que as minhas forças medravam a olhos vistos de
+dia para dia, e que os diversos receios das duas mães diminuiam de
+manhan para manhan ao alegre florir do meu aspecto, se foi a minha
+indole compondo com duas religiões, que a final se reduzem a uma só: o
+culto das gemeas e eternas amantes universaes,--a Natureza e a Mulher.
+
+
+IX
+
+De tão ameno passeio na alva da vida chego de repente á escarpa de um
+precipicio, d'onde é inevitavel o despenho para um abysmo.
+
+Encetava eu apenas a carreira do estudo, tão menino, tão menino, que o
+ouvirem-me já ler, e verem-me formar caractéres, era (nunca a minha
+vaidade o esqueceu) um thema de admirações e de felizes prognosticos
+para os parentes e amigos da familia. De repente outra doença, mais
+terrivel que a primeira, e menos esconjuravel do que ella, não paga com
+martyrisar-me, não contente de balançar-me por um fio largos mezes entre
+a vida e a morte, me atira vivo para um sepulcro! Eu respirava; mas os
+bellos olhos, idolatras das flores e de Amalia, e vangloria de minha
+mãe, não sabiam se havia ainda no ceo o sol de Deus! É impossivel
+recordar-me d'esse prazo, prazo de não sei quantas eternidades, sem que
+ainda agora o coração se me confranja.
+
+Imaginae um homem á hora em que se fosse embarcar n'um bergantim
+doirado, por um mar de prata, com virações balsamicas dos vergeis da
+terra, cuidando já velejar horizonte em fóra para um mundo de
+delicias... e lançado de improviso no mais fundo subterraneo de uma
+torre. Esse homem tão desafortunado, e desafortunado tão sem culpa, que
+nem ainda era homem, fui-o eu; e tanto mais sem-ventura, quanto ninguem
+então, nem eu por conseguinte, me julgava possivel a ressurreição, e a
+soltura.
+
+Convalesci; d'esta vez sem os soccorros do campo. Tinha as forças e a
+edade para folgar, tinha o desejo e a precisão do movimento, da
+convivencia, da fraternisação geral, da conquista, emfim, que pelos
+olhos se opera de continuo nos inexhauriveis dominios da Natureza e da
+sociedade; não podia permanecer immovel; mas o meu carcere sem lanterna
+me seguia por toda a parte. A ave da poesia, que me pipilava dentro,
+debatia-se contra as grades, quando ouvia lá de fóra estrondear a vida
+festival, e pelo ecco deshumano das suas vozes se lhe revelava o sem
+numero de bellas coisas, que até os insectos e vermes senhoreavam pela
+vista.
+
+
+X
+
+Dera-me a Providencia, entre meus irmãos, um, dois annos mais novo do
+que eu, cuja indole sympathica inteiramente com a minha, cujos gostos em
+admiravel harmonia com os meus, nos constituiam mais que irmãos,--duas
+metades inseparaveis do mesmo todo. Ardia tambem n'elle a faisca
+sagrada. Não era tudo o palpitar o coração de cada um dentro no peito do
+outro; os nossos espiritos se adivinhavam de parte a parte; a nossa
+conversação tinha... (¿como hei-de dizer isto?) o que quer que fosse de
+um solilóquio, ou de um cantar ao ecco. Levava-lhe eu a vantagem de
+vinte e quatro mezes mais, elle me levava a de mais um sentido. Havia
+equilibrio, e compensação; cada um dava, e cada um recebia. Este mesmo
+interesse mutuo contribuia para a espontaneidade da nossa fuzão
+necessaria e suavissima.
+
+Chegou a edade dos estudos. Era tempo de aparelhar com as chamadas
+humanidades para as sciencias. ¡Que inveja e que tristeza, quando meus
+irmãos, ambos mais novos do que eu, sahiram pela primeira vez
+deixando-me só para se irem inscrever na classe de latim!
+Permittiu-se-me accompanhal-os; attendi; devorei; li pelos ouvidos;
+corri aposta com os mais applicados.
+
+O preceptor, bom e honrado velho, que, trinta annos havia, professava
+com devoção o idioma de Cicero e Virgilio, observa a minha attenção;
+interroga-me curioso; reconhece e declara não ter discipulo que mais em
+cheio haja absorvido as suas doutrinas.
+
+D'essa hora em deante fui eu o filho adoptivo, o predilecto, o mimoso, do
+seu enthusiastico romanismo. Não só erudito de amplos cabedaes, mas
+poeta, poeta elle mesmo, poeta _utriusque linguæ_, julgou reconhecer em
+mim, pelo modo como lhe eu traduzia as paginas inspiradas que elle me
+lia com fogo, e pela promptidão, sobre tudo, com que eu lhe restituia
+nos versos originaes os trechos que elle para isso me recitava das Musas
+cesáreas reduzidos a proza portugueza, julgou, digo, reconhecer uma
+indole fadada para a poesia; e pôz com generoso exforço peito a cultival-a.
+
+Tratar as Musas, e em particular as latinas, é desenvover a um tempo
+phantasia e sensibilidade:
+
+ _......lecto carmine doctus amet._
+
+O poeta que assim cantára, logo ali se apossou de mim para toda a vida.
+O seu estudo, que eu nunca mais interrompi, que depois alarguei, e que
+ainda agora me é delicias, entrou pois como elemento energico, tanto
+como as amenidades do Paço do Lumiar, e os amores infantis de minha
+prima, na composição mysteriosa e providencial do meu verdadeiro
+destino, que nunca foi desde o principio, nem já agora póde ser outro
+até ao fim, senão, repito, a poesia.
+
+Meus irmãos passaram-me dentro em pouco de condiscipulos a discipulos; e
+o mais novo, Augusto, de discipulo a inseparavel. ¡Que annos! ¡Que
+annos esses! ¿Quem, tendo-os uma vez desfructado, os esqueceria em
+nenhum tempo, em nenhuma fortuna?!
+
+Augusto e eu, que afinal já éramos um só, fanatisados deveras com as
+grandiosidades heroicas, com as fabulas ridentes e floridas que nos
+surdiam de continuo ao excavarmos por aquelle mundo fossil e classico,
+pode-se dizer que nos naturalisámos Romanos antes de sermos Portugueses;
+fomos antiquarios enthusiastas na puericia; os cobres, que os d'aquella
+edade desbaratam em doces e brinquedos, convertiamol-os nós em qualquer
+_alfarrabio_, que no frontispicio nos trouxesse um dos nomes Romanos
+immortaes, cuja ladainha sabiamos de cór, e recitavamos com veneração,
+desde o principio da _edade aurea_ até ao cabo da _edade ferrea_ e
+_lutea_, desde Livio Andronico até aos escriptores já christãos, ultimas
+reliquias do Imperio e da lingua a desfazerem-se. Devoravamos tudo
+aquillo sem guia, sem escolha, temerariamente, mas com uma perseverança,
+com um affecto, com um encantamento, inexplicaveis. Excusavamos,
+repelliamos qualquer outro passatempo; visitas, passeios, tudo nos era
+enfadonho, comparado com a delicia de vaguearmos pela Italia velha, de
+ouvirmos os seus heroes pela bocca de Tito Livio, de entrarmos com
+Virgilio familiarmente no palacio rustico d'el-Rei Evandro, de nos
+espairecermos com elle, Calpurnio, e Nemesiano, por entre as amenidades
+campestres, e ouvirmos cantar Horacio n'um pomar da sua Tibur:
+
+ _...... ad aquæ lene caput sacræ_
+
+coroando-nos como elle
+
+ _...flore, terræ quem ferunt solutæ_
+
+ou de escutarmos suspiros e galanteios de Tibullo, Propercio, Gallo,
+Catullo e Ovidio. Ovidio mais que todos nos levava traz si as vontades.
+(Não prégo moral; historío).
+
+A poder de lidarmos com aquella gente, aformosentada pela distancia, e
+tão ideal vista de cá; tudo gue não era ella, o seu viver, o seu pensar,
+o seu idioma, as suas festas, nos parecia mesquinho, insipido,
+repugnante; sonhavamos acordados.
+
+D'isso me adveio, cuido eu, e não podia deixar de ser em edade tão
+branda para receber cunho, uma confirmação não pouco efficaz para a poesia.
+
+
+XI
+
+E na verdade, já que estamos conversando desenfadados, sinceros, e sem
+armar a vanglorias, ou, por outra, já que me estou confessando dos meus
+peccados de poesia pratica, direi aqui (embora quebre o fio da narração,
+depois o atarei) que, estendendo a consideração por todo o longo e
+variado decurso da minha vida até hoje, não descortino em toda ella
+senão... (¿como direi isto que me não afronte em demasia?) senão um
+predominio constante da phantasia sobre a realidade; uma extranheza
+activa e passiva dos homens, successos e coisas do mundo, em que vivo
+como que emprestado, semi-pagão, semi-classico, semi-republicano dos
+Gracchos, semi-conviva de Mecenas, semi-Tityro, semi-captivo das
+Corinnas e Delias, e, com tudo isto, a esvoaçar-me sempre da poesia que
+foi, ou que se nos figura lá traz, para outra que lá adiante ri aos
+santos amigos da humanidade, aos utopistas.
+
+Sempre que o individuo, de quem falo, entrou, ou cuidou entrar, na politica
+(n'esta parte, Deus louvado, já escrevo o necrológio) foi sempre levado do
+enthusiasmo, ignorante da historia contemporanea, e da mesma politica, não
+ajuramentado a bandeira de côr alguma, não adstricto a tal ou tal plano de
+estadista, curando pouco de nomes, e menos ainda de interesses proprios;
+foi campeão sem divisa de uma causa apenas prophetisada, vaga, confusa,
+remotissima.--a civilisação pela moral, pelo amor, pelo trabalho, e pelo
+saber. Pueril e incorrigivelmente seduzido por miragens humanitarias e
+poeticas, nunca passou entre os politicos positivos de alvitrista
+chimerico, e homem para nada; pugnou com o ardor de quem reivindicasse
+algum morgado pingue, pugnou até vencer (¡vêde isto!) para que se fechasse
+aos tentados de suicidio a paragem vertiginosa que mais por seu contagio os
+attrahia; empenhou sabios em procurarem remedio, se o houvesse, que
+diminuisse as duas pestes:--duello, e infanticidio; incitou para o cultivo
+serio das Lettras quantos talentos esperançosos descobriu; foi de todos
+amigo sem inveja, pregoeiro sem restricções; propoz para os veteranos dos
+estudos e da poesia uma Runa gloriosa, abundante, e aprazivel, em vez do
+hospital que ainda não mandou queimar a enxerga de Camões, á espera dos que
+poderão vir; pediu, e tambem debalde (¡debalde até isto!) um Campo Elysio
+terrestre para os mortos memoraveis; suas effigies postas pelo publico
+agradecido nos passeios, e uma lamina commemorativa pregada pelo Municipio
+na frontaria de cada casa, testemunha do nascimento, dos trabalhos, ou do
+obito, de um benemerito; procurou e descobriu as reliquias do Cantor dos
+_Lusiadas_, para que as desagravassem; forcejou com a persuasão para que se
+desse á agricultura o seu apreço, á imprensa o mais amplo favor, premios
+reaes aos talentos operosos e productivos, subsistencia e honra aos
+educadores, ensino liberal, christão e ameno á puericia; pela puericia, que
+é a nação de amanhan, fez mais, muito mais, quanto poude e mais do que
+podia: invocou por ella ceo e terra, throno e plebe, sabios e ignorantes,
+ricos e miseraveis, o clero e as mulheres; foi na vanguarda dos consociados
+para se promover a educação popular; fez-se, a expensas de tudo seu,
+mestre-escola de plebeus e descalços; evangelisou de terra em terra o novo
+ensino, o ensino racional, a centenares de professores honestos; pelejou na
+imprensa, com o amor e com o odio, desde a supplica até á verrina, em prol
+dos calcados direitos da infancia, da maternidade, e da Patria; e
+convencido, pela evidencia dos factos, resposta eloquente e peremptoria aos
+negadores das vantagens da reforma, que riem, que riem da caridade, que
+riem da philosophia, que riem do progresso, que riem de seus filhos, que
+riem de si mesmos, deixou pendente a envelhecer por dez annos, desenfeitada
+e esquecida, a sua lyra (¡oh! ¡milagre summo de uma fé verdadeira!), para
+andar sollicitando a redempção e o baptismo de luz dos captivosinhos de
+sete e menos annos; foi levar o beneficio espontanea e gratuitamente ao
+Brazil; ambicionou que lh'o acceitassem do mesmo modo na Hespanha e na
+Italia. Se n'estes dois lustros de lidas obscuras, só pagas com desgostos,
+alguma hora se recordou de poetar, foi só para convidar com o exemplo
+e com o discurso talentos melhores que o seu a encetarem cantares
+de civilisação, a enxertarem nos loireiros estereis alguns ramos
+fructuosos; e não se levantou da cadeira de um ensino quasi ignobil aos
+olhos do mundo, senão para escrever livros sem vulto, mas necessarios ou
+uteis:--_Noções rudimentaes_;--_Guia pratica de mestres_;--_Tratado
+de Metrificação_;--_Tratado de Mnemonica_;--_Felicidade pela
+instrucção_;--_Felicidade pela agricultura_;--_Tentativas grammaticaes_--um
+_Curso de lingua latina_;--e, de envolta com tudo isso, requerimentos
+reiterados e instantes aos poderosos, ás sociedades, ás academias, aos
+principes, aos tribunaes de instrucção, para que o ajudassem.
+
+Quando um Rei _amigo dos que trabalhavam_, e cheio elle mesmo de nobres
+ambições, convidava ao poeta de outr'ora para ir colher fructos de oiro
+num ensino altamente litterario, ousou o poeta pedir-lhe commutação no
+serviço, offerecendo-se-lhe operario para a trasladação dos monumentos
+classicos romanos á lingua patria, por entender que ia n'isso muito
+maior vantagem aos estudos e á poesia, ainda que para elle menos lucro e
+menos brilho.
+
+Todos estes rasgos de loucura se provam e documentam d'aquelle pobre
+sonhador, a quem, deneguem tudo mais, coração e muitissimo não lh'o
+podem contestar.
+
+
+XII
+
+¡Que digo! ¿Esta mesma digressão aqui não é porventura uma sobreprova de
+quanto o amor, na sua mais vasta accepção, o amor que não suppre assim a
+poesia senão porque o é, constitue o caracter do pobre homem? Nem os
+desenganos o desenganam; nasceu affectivo; affectivo tem vindo
+caminhando pela vida fóra, da primavera para o estio, do estio para o
+outomno, que já se lhe desverdece, e nem os gêlos do inverno lograrão
+provavelmente resfrial-o.
+
+Na festa da Primavera, n'esses dias do amor só sensual e egoista, bem
+que innocente, ¿que pedia elle aos amigos para quando já não existisse?
+
+Deixae-me escutar n'um ecco d'alma aquelles versos:
+
+ Depois que entre os abraços delirantes
+ de todos os que amei findar meus dias,
+ sepultae-me n'um valle ignoto e fertil.
+ Para marcar da sepultura o sitio,
+ sobre o cadaver que vos foi tão caro
+ mangeronas plantae, cuja verdura
+ em roda fecham variados lirios.
+ Na raiz funda da soberba olaia
+ poise a minha cabeça, e o tronco amigo
+ sobre mim curve a copa florescente.
+ Mil piteiras unidas, ostentando
+ na hastea vaidosa as flores amarellas,
+ em quadrado não grande me defendam
+ das incursões das cabras roedoras.
+ Em meu tronco se escreva este epitaphio:
+
+ _Foi poeta amador da Natureza:_
+ _d'entre as sombras ancioso a procurava,_
+ _qual terno amante a bella fugitiva._
+
+ Sobre isto pendurae sonora flauta,
+ que se revolva á discreção do vento.
+ Não cerque os ossos meus, não m'os ensombre,
+ nem teixo nem cipreste; arvores quatro
+ quizera só no meu jardim de morte.
+ N'um canto a laranjeira graciosa,
+ que mescla util e doce, a flor e o fructo;
+ n'outro a figueira sob as amplas folhas
+ modesta occulte seus nectáreos mimos;
+ defronte um pecegueiro em fructos mostre
+ que amavel é pudor, quando enche faces
+ de penugem subtil inda cobertas;
+ no ultimo canto... (a escolha me confunde)
+ plantae no ultimo canto uma ginjeira;
+ é a arvore da infancia, até na altura;
+ d'esta por sua mão colhe um menino
+ a mui ridente baga, e ri de ufano.
+ Alguns tempos depois que a fria terra
+ meus restos encerrar, á minha olaia
+ vós, meus amigos, vós dareis meu nome,
+ pois de mim se nutriu, e eu serei n'ella.
+
+ Dos guerreiros nos tumulos afiem
+ faminta espada os barbaros guerreiros;
+ no sepulcro do sabio o sabio estude;
+ e dos Reis nos marmoreos monumentos
+ vá sonhar a ambição grandeza e pompas;
+ vós soltos de freneticas loucuras
+ aqui vireis mil vezes visitar-me,
+ na amizade pensar que nos unira,
+ e unir-nos deverá transposto o Lethes.
+ ¿Por que me interrompeis com taes suspiros?
+ ¡ah! deixae-me acabar. Quando sentados
+ em torno a mim na flórida alcatifa,
+ guardardes meditando alto silencio,
+ se d'entre as mangeronas que me cobrem
+ sahir acaso a borboleta errante,
+ ¿não vereis n'ella o espirito do amigo
+ que vem gozar do sol a claridade?
+ Quando o suave rouxinol de noite
+ da minha olaia gorgear nos ramos,
+ ¿não pensareis, de santo horror tranzidos,
+ que feito rouxinol, meus cantos sólto?
+ Sim, pensareis, e erguendo-se inspirado
+ algum lhe ha-de bradar: «¡Oh! ¡meu amigo!»
+ Responderão: «Oh meu amigo» os bosques;
+ e vós direis que o meu phantasma errante,
+ da argentea lua á muda claridade,
+ á conhecida voz d'alem responde,
+ e em tudo encontrareis a imagem minha.
+
+ Se inda então meus costumes vos lembrarem,
+ se vos lembrar meu coração piedoso,
+ velae que em meu retiro as bellas aves
+ de caçador cruel cantem seguras;
+ Amor, o leve Amor, com arco d'oiro,
+ só elle, e mais ninguem logre atirar-lhes;
+ careço de amorosa melodia
+ que me poetize o somno derradeiro;
+ morto que nada tem, preciza d'estas
+ pobres delicias rusticas, se folga
+ que a namorada moça, o terno amante,
+ juntos, ou sós, a visitál-o acudam.
+ Então ao som de languidos suspiros,
+ de alegres cantos, de amorosos versos,
+ de ternas queixas, de perdões suaves,
+ muitas vezes contente a minha sombra,
+ formando ao pôr do sol vermelha nuvem,
+ girará n'estes ares revolvendo
+ da passada existencia almas lembranças.
+
+Andaram tempos. Amores mais serios, mais vastos, mais duradoiros, mais
+uteis, ainda que menos entendidos das turbas a quem se referiam,
+inspiraram já outros desejos:
+
+ Ó terra de Colombo, um navio de esmola
+ do abysmo te evocou, e aurea brotaste á luz.
+ Por outra regia Heroina esmolada uma escola
+ vai transformar-te em ceos, terra de Santa Cruz.
+
+ E eu, que já uma vez, largando o patrio ninho,
+ romeiro do progresso em balde te busquei,
+ retomarei de novo o undívago caminho,
+ e irei juntar meu hymno ao seu triumpho; irei
+
+ pender na escola-templo os festões da poesia,
+ e, novo Simeão, findar a vida em paz.
+ Onde o homem que se humana affoito invoca o dia
+ direi:--«A patria é esta; aqui viver me apraz;
+
+ «apraz-me aqui morrer, onde as mães porventura
+ co'os filhos pela mão me hão-de vir visitar;
+ saudades esparzir na minha sepultura,
+ e dizer: _Este sim, que soube o que era amar._»
+
+Passaram tempos ainda, e até essa esperança consolativa se desfloriu.
+Ouvi o esmorecimento não já cantar, mas gemer, no seio da amizade:[1]
+
+«Depois vem a reparação, a rehabilitação, não ha duvida. Do sepulcro
+brota o loiro, e a posteridade amarra a elle os inimigos dos amigos dos
+homens, os areopagitas idolatras envenenadores dos Socrates crentes. Mas
+as cinzas não sentem; as estatuas não vêem nem ouvem.
+
+«O premio que eu devaneava a principio, quando via tão ás claras a
+bondade da obra que estava fazendo, era que os filhinhos, e as mães, me
+acompanhariam, chorando, ao cemiterio. A esse côro de amor imaginava que
+até o cadaver se me alegraria. Não dava aquelle triumpho posthumo pelas
+torrentes de carroagens e salvas funebres dos magnates. Pois nem já
+com isso conto. Conseguiu esta gente, não sei se invejosa, se quê,
+diffundir tão copiosamente os seus preconceitos, escurecer em tanta
+maneira a luz do beneficio, que nem já espero aquillo. As mães
+ver-me-hão passar, sem saberem quão grande amigo de seus filhos e netos
+ali vai; e d'estes só porventura me irão dar despedida os que n'esta
+hora estão cantando e amando por essa meia duzia de escolas regeneradas».
+
+
+XIII
+
+Saiamos d'aqui a toda a pressa, leitores amigos, antes que nos degenere
+em paginas de santa mas feia indignação, um escripto que eu vos prometti
+e destinei todo pacifico e amoravel. Torno-me pois á minha Arcadia da
+mocidade, como o soldado mal ferido das guerras, e ainda mais dos
+menoscabos que dos golpes, se acolhe á quieta poisada em que se creou.
+
+Apóz algumas tentativas incertas e incoherentes de lavor poetico, de que
+o publico se esqueceu, e eu quizera esquecer-me tambem, foi a fabula
+selvatica de Narciso e Ecco a primeira producção que me rebentou nativa,
+e verdadeiramente congénita áquella indole campestre e amoravel, que os
+successos e os estudos me tinham andado a preparar desde o principio.
+Nunca jámais essas singelas _Heroides_, impetuosamente e quasi de
+improviso brotadas (posso hoje dizer isto sem jactancia, e sem que os
+entendidos m'o descreiam) ousaram esperar o extraordinario, o excessivo
+favor com que foram recebidas, multiplicadas em edições sobre edições em
+Portugal e no Brazil.
+
+¡Ora, quem poderia jámais lembrar-se de que um livrinho assim, todo vão,
+todo fabuloso, uma especie de globo de espuma, nascido de um sopro para
+boiar nas virações por alguns instantes, espelhando os verdes da terra e
+o azul de cima, e apagar-se para sempre, filho do nada restituido ao
+nada, conteria o germen de uma historia muito real!
+
+Pois foi assim: Das _Cartas d'Ecco e Narciso_, sahiu, como de flôr
+ephemera um fructo, o _Amor e Melancolia_, este _Amor e Melancolia_, que
+já não era um devaneio e um canto, mas sim registo disfarçado de uma
+historia do coração: _lacrimæ rerum_.
+
+
+XIV
+
+Tres annos havia que tinham apparecido pela primeira vez as _Cartas
+d'Ecco_; e dois os poemetos da _Primavera_.
+
+Residia então o autor de ambas estas bagatellas nos sitios mesmos, que,
+em harmonia com os vinte e quatro annos d'elle, lh'as haviam inspirado.
+Repoisava, já fóra do estádio academico, nos ocios tão poeticos do seu
+Mondego. A casa da vivenda conheceil-a vós, desde que o mais poeta dos
+nossos prosadores[2] pela magia da sua penna, que é ao mesmo
+tempo varinha de condão, vol-a descobriu, vol-a franqueou, vos fez,
+queridos leitores meus, entrar n'ella a visitar-me.
+
+Pois bem: Era ali, n'aquella casa, ainda hoje lembrada do nosso nome,
+n'aquelle espaçoso e singular edificio, encostado, de uma parte á
+vertente de Subripas, de outra ao Arco moirisco de Almedina; dominando o
+rio convisinho e a margem ulterior, e dominado pelo castello de
+templarios, theatro do tragico fim de Maria Telles; era ali, n'aquella
+estancia, de aspecto meio senhoril, meio claustral, com seu pateo
+espaçoso, e escadarias de pedra, suas enormes laranjeiras enclausuradas,
+suas varandas ajardinadas, seus erguidos miradoiros; era ali, ali, para
+onde eu tantas vezes me recolho em espirito, ainda agora, a escutar os
+descendentes dos rouxinoes que festejavam, como nós, a _Lapa dos
+poetas_; ali, ali era, que os dias e as noites se nos devolviam, ao meu
+inseparavel e a mim, nas leituras amenas, nas conversações mais amenas
+ainda, com os bons engenhos juvenis, que a tão hospedeiro retiro nos
+acudiam de boa mente.
+
+Era o Setembro de 1824; um donoso Setembro na verdade: estio em cheio e
+sombras á farta. Liamos os dois, isto é o um; por outra: recitavamos de
+cór pela centesima vez as elegias de Tibullo, á sombra de uma laranjeira
+merecedora de as ouvir, e muito bem capaz de as ter ditado, se fôra
+em Italia, e para tanto lhe desse a velhice, que todavia não era pouca.
+(Nenhuma circumstancia d'aquelle tempo se me desbotou ainda da memoria).
+
+¡Chega uma carta! ¡lettra desconhecida!... Abre-se, reza assim:
+
+
+ «Azurara, pelo correio de Villa do Conde, 27 de «Setembro de 1824.--
+
+
+ _«Amar o mais perfeito é um dever:_
+ _«Virtudes tantas devem ser amadas:_
+
+
+ «Se vos apparecesse uma Ecco, imitarieis vós o vosso Narciso?
+
+ «A desconhecida
+
+ «_Maria da Expectação Silva e Carvalho._»
+
+
+¿Que significava, que podia significar aquillo? ¿Era uma pergunta
+candida? ¿era um brinco malicioso? ¿era masculina, era feminina, a mão
+que tal escrevêra? ¿como responder? ¿a quem responder? O coração, ou
+presago, ou desejoso, dizia uma coisa; a prudencia, outra. O Tibullo era
+do parecer do coração; todos os mais poetas votariam como o Tibullo. O
+sol, que observa ha tantos mil annos coisas de todas as castas, e de
+certo não ignorava o segredo d'aquella, espreitava-nos, e ria. A
+laranjeira, scismava calada; como aia e enfeitadeira de noivas, lá se
+inclinava para o sim; mas tambem, como velha, desconfiava. O Samsão de
+marmore do angulo do terrado, esse continuava a escachar pacificamente o
+seu leão, e não se intromettia na contenda.
+
+Por muitas vezes se releu a carta á espera sempre de algum subito
+reflexo revelador; ¡e o enigma cada vez mais fechado!
+
+Era caso para pesquizas, pois de qualquer dos oppostos lados que a
+verdade estivesse, não faltava que fazer, e tinha-se de lhe acudir com
+resposta.
+
+Armou-se uma verdadeira caçada; empenharam-se n'ella quantos visinhos e
+praticos de Villa do Conde e Azurara se puderam desencantar; ¡e o
+mysterio a cerrar-se cada vez mais! ¡e a curiosidade, o interesse, a
+recrescerem-me na mesma proporção!
+
+Respondi emfim ao meu phantasma:--«Que não ousava eu muito acreditar em
+apparições de Eccos para quem não fosse Narciso; mas que, se por milagre
+houvesse uma, nunca eu seria tão insensato como o filho de Liríope.»--
+
+Até aqui podia eu chegar com a resposta sem me comprometter; para diante
+fôra já arriscar-me. Partiu. Fiquei aguardando com certo dessocego pela
+réplica. Chegou, correio por correio.
+
+Era a mesma lettra sem disfarce, e a mesma assignatura supposta. Mas
+d'esta vez, em logar de linhas contrafeitas, paginas com todo o
+desartificio amavel e persuasivo, com toda aquella graça nativa feminil,
+que se não imita. Quasi com certeza andava ali mão e espirito de mulher.
+¿Era ella porém interprete solitaria de sentimentos proprios?; ou
+consocia e agente de uma conjuraçãosinha zombeteira? ¿Como
+descriminál-o? Não havia melhores razões para uma, que para outra
+supposição.
+
+A substancia d'aquella carta, que eu não devo nem quero tirar do
+sacrario em que a enthesoiro como reliquia, reduzia-se a querer-me
+convencer de quanto eu era injusto para comigo, e de quão mal conhecia o
+sexo amoravel, se o julgava todo unicamente sensivel aos encantos dos
+_Narcisos_; emfim: que o poeta, que tão verdadeiros affectos suspirára
+por uma deusa ideal,--a Primavera, merecia bem que uma mulher o
+procurasse para compôr a felicidade d'elle, e pela d'elle a sua propria.
+
+Isto, e muito mais a este modo, expunha a carta; mas por uns termos tão
+obsequiosos, tão lisonjeiros, e ao mesmo tempo tão naturaes, como os eu
+não saberia expor aqui em traducção.
+
+O inverosimil principiou ali a figurar-se-me provavel. Nas regiões
+imaginarias em que vivem os poetas, não ha extranhezas senão para o que
+é natural e corrente; o ordinario são os prodigios.
+
+
+XV
+
+Sem me atrever a confessar a minha nascente, ou já nascida, persuasão,
+senti ir-se-me levantando n'um recanto do animo um altarzinho todo verde
+e florido para uma divindade ainda invisivel, mas cuja aproximação já
+por um certo calor suave se me denunciava.
+
+Diz que muitas leguas ao largo de Ceylão já o gajeiro, embalado lá em
+cima no sol doirado do Mar Indico, percebe na fragrancia das virações
+tepidas as selvas de canelleiras da ilha, ainda occulta pela convexidade
+marinha, mas que vem correndo a encontrál-o. Assim me sentia eu levado
+para uma ilheta de amores, que, já aspirada, e ainda não descoberta,
+vinha por cima do seu mar de aljofares offertar-me, toda donosa e
+festiva, a hospedagem das suas sombras inebriativas. Um côro de sereias
+a meio caminho nos revelava, nos annunciava de parte a parte; e, assim
+como se vê tantas vezes no mar um navio pela acertada disposição das
+velas demandar a terra, com o mesmo vento que de lá sopra, a aura que me
+falava do meu porto, a mesma era que para lá me conduzia.
+
+«Não ha cubiça do que se não conhece,» dizia um antigo poeta; extranha
+sentença; e para de poeta, muito mais extranha. A mui veridica historia
+que vos narro, duas vezes a desmentiu: nem a que me buscava me conhecia,
+nem eu conhecia a que buscava.
+
+E nem por isso é a coisa tão para espantos como de fóra e á primeira
+vista se representa. ¡Que de consorcios se não teem celebrado, até com
+amor, entre ausentes, pela simples troca de retratos! ¿Que mancebo se
+poderá gabar de não ter sonhado muitas vezes, dormindo e acordado, com a
+heroina de um romance, ou com o invento prestigioso de um pintor? ¿Quem
+ha que não saiba o caso d'aquella moça franceza, que se finou de paixão
+pelo seu Telemaco? Ninguem o prediria a Fénelon, quando, accezo no santo
+amor do genero humano, compunha para a eternidade o seu homerico poema
+social. Temperae de um pouco de poesia a qualquer coração (o nosso
+era temperado de muitissima) e vel-o-heis palpitar todo credulo por um
+phantasma. Para uma Virginia, este phantasma será Paulo; para um Paulo,
+Virginia; para um astronomo, um planeta, que elle, em nome do seu
+calculo, intima aos abysmos celestes lhe apresentem; os phantasmas das
+religiosas, são os anjos; os dos cenobitas, virgens do Empyrio; o dos
+artistas inspirados, a gloria na posteridade; o meu, tinha sido com
+effeito a Primavera, continuava a sel-o, mas agora humanada em figura
+feminil.
+
+
+XVI
+
+Se eu me não temesse da gente em prosa, que só acredita no que se palpa,
+havia de dizer que a aspiração para o bello desconhecido, para a
+perfeição ideal, entresonhada onde quer que seja, e com qualquer dos
+milhões de fórmas em que ella se póde metamorphosear, tanto não é
+extranha á Natureza, que não são unicamente os individuos privilegiados
+da nossa especie, os que a experimentam.
+
+¿A rôla, a pomba, o rouxinol, a gemerem de saudade, a arrulharem de
+ternura, a gorgearem de immenso affecto, por que enlevam tanto, e tantas
+coisas inefaveis dizem aos animos devaneadores, senão porque os seus
+gemidos, suspiros, e canticos, almejam coisa diversa dos deleites faceis
+que os rodeiam, e que já possuem?
+
+E depois: o Pae Commum não é avaro de seus dons, e ha-de folgar quando
+cada uma de suas minimas creaturas, alando-se quanto póde e sabe pela
+esphera dos gosos puros, se aproxima cada vez mais a Elle, que é a Summa
+Belleza, o Summo Bem, de que todos os bens são emanações ou reflexos.
+
+¡O rouxinol, a pomba, e a rôla!... mas os insectos mesmos, ¿quem
+affirmará que não se pascem, como nós, ainda que muito longe de nós, á
+meza infinita, perenne, e perennemente renovada, do amor ideal?
+
+¿Quem sabe até o que irá de mysterios nas flores e nas arvores!? ¡que
+idyllios, que elegias, que divinos poemas não correrão nas florestas com
+o murmurinho dos ventos em estrophes de aromas, intelligiveis ás
+arvores congeneres, e ás flores da mesma especie!...
+
+A carta, que de algures levantára vôo para algum fim, a carta que eu
+tinha nas mãos, tão candida, tão vivida, tão palpitante e amoravel, tão
+segura e tão certa, podia ser portanto, e, se o podia ser, era-o, uma
+especie de borboleta, que sahira das flores de uma alma solitaria e
+longinqua, para vir fecundar as da minha com um polen ardente e
+inesperado. Os effeitos que ella em mim produzia (logica ordinaria dos
+desejos) eram, á mingua de outras provas, uma vehemente presumpção de
+que o bom do papel vinha mensageiro leal, e não explorador perfido da
+minha credulidade; e entretanto mal sabia eu como lhe respondesse.
+
+Deixar-me ir de vôo rasgado ao reclamo fôra temeridade indesculpavel;
+mas fôra tambem excesso de prudencia, repugnante a um sentir delicado,
+aventurar offensas, embora leves e disfarçadas, para rebater um aggravo
+só possivel; queria-se o meio termo; e esse era difficillimo; e
+difficillimo sobretudo como eu o desejava, que era propendendo mais para
+o coração, que para o espirito; para abraço, que para duello.
+
+Meditei todo o dia.
+
+O que eu nas falas gracejava por cautella, já no fôro intimo se me
+discutia como negocio.
+
+Empenhei todas as potencias da alma, como poderia fazer o Edipo deante
+da Esphinge. Levei o serão e a noite a sós, no laranjal, a interrogar a
+lua, antiga confidente de namorados.
+
+A lua, ou nada sabia no caso, ou, se o sabia, não o quiz dizer.
+
+Mas a noite, grande terceira e fautora n'isto de amores, segredava-me ao
+sabor do appetite, com umas taes razões, tão cheias de poesia, isto é de
+verdade, que o genio fogoso dos meus vinte e quatro annos fez sahir, sem
+grandes evocações, não sei se de algum tronco, se das nuvens, se d'entre
+as pedras e heras da varanda de D. Maria Telles, uma Sombra de mulher,
+uma Fada, uma Sylphide, com quem eu tive ali horas ineffaveis de
+colloquio, desabroxando e enramalhetando futuros em commum.
+
+Tenho pena de não poder já copiar aquellas praticas, nem as achar mesmo
+para mim bem inteiras na memoria.
+
+Se o leitor, ou leitora, tem a edade que eu tinha então, e é poeta, mas
+poeta verdadeiro, d'estes que não só lêem e escrevem a poesia, mas a
+vivem, lá rastreará por si aquella scena tão cheia, tão real, tão
+animada. Se bem a concebem, tenho-lhes inveja eu; digo como a Santa da
+lenda:--«Ai! ¡que saudades me não comem do tempo em que eu era tão
+infeliz!»--ou, como a outra, toda delirante de ternura:--«Tenho dó dos
+demónios; ¡pois se elles não amam!»--O meu Virgilio, tão poeta na voz,
+na alma, e no coração, exclamava saudoso:--«¡Oh! ¡quem me dera nos
+campos, lá pelas ribas do Sperchio; pelos cumes do Taygéte,
+bacchanalmente retoiçado das virgens lacedemonias! ¡Ai! ¡quem me pozera
+hoje nos valles, tão frescos, do Hemo, e com a sombra grande de suas
+ramarias me protegera!»--
+
+¡Que melhores Sperchio, Taygéte, e Hemo, que melhores campos, delicias,
+e feitiços, que a adolescencia com o amor, e o amor com os seus extasis
+e raptos!
+
+¡Que de coisas se não descortinam e ouvem então, que depois se calam e
+desvanecem!... engano-me: não se desvanecem, nem se calam; são vivazes e
+immortaes no seio da Natureza; mas nós, é que transpomos a paragem
+bemdita de reconcavos e eminencias, onde se recebem em eccos
+augmentativos todas aquellas vozes, d'onde se descortinam em cheio todas
+aquellas vistas maravilhosas.
+
+¡Oh! detende-vos ahi; detende-vos; abraçae-vos aos troncos floridos o
+mais pertinazmente que poderdes, que em principiando a descida... ¡adeus
+primavera! ¡adeus amores! ¡adeus sabedoria das loucuras! ¡adeus miragens
+e musicas da vida! ¡adeus de vós a vós mesmos! ¡e adeus esperanças de
+reascenderdes nunca mais! Os leitos de rosas e as corôas de violetas, já
+lá estão hospedando a outros viajantes que vos expulsaram. Resignae-vos,
+se podeis, á peregrinação, por sobre espinhos, e por entre saudades,
+cada vez mais espessas.
+
+¡Ah! ¡de quantas, e quantas não vou eu já carregado para o ciprestal que
+lá ao fundo me negreja! Tiremos d'elle os olhos, e deixemol-os ir ao que
+lá nos fica perdido, ¡perdido para todo sempre!...
+
+
+XVII
+
+Passeava eu pois com a minha apparição candida; sentava-a ao pé de mim;
+apertava-a nos meus braços; mostrava-a com ufania ao astro das noites,
+que não era mais puro, nem mais limpido; pedia-lhe, promettia-lhe uma
+ventura ainda não experimentada na terra; unificavamos pelas nossas
+confidencias o nosso passado; o nosso porvir entretecia-se n'um ser
+unico. O existir eu, era para mim, n'aquelles momentos extraordinarios,
+a mais solemne e convincente demonstração da existencia, da realidade,
+da indispensabilidade d'ella: ella existia, visto que eu existia.
+
+Não riais: eu amava perfeitamente. «¡A um espectro!» não: a uma mulher,
+a uma mulher, de quem só o corpo, talvez, ali faltava, e cuja entidade
+moral e espiritual me pertencia me acompanhava, me velava.
+
+¿Não me sentia eu repassado do calor das suas azas invisiveis? ¿não
+tirava a cada momento de cima do coração palpitante, para a rebeijar, a
+carta por onde tinham girado os seus olhos, em que poisára a sua mão,
+que aspirára tão de perto as exhalações do seu seio, do seu coração e da
+sua alma?
+
+Aquella carta exercia incontestavelmente em mim um influxo magnetico,
+dominador, prestigioso; eu não sabia, nem tentava, explicál-o; mas
+negál-o, por um scepticismo ingrato e mal philosophico, muito menos o
+podia, muito menos ainda o desejava.
+
+Sentia-me tão bem sob aquella dominação absoluta, era tão bom permanecer
+assim, que o meu voto summo seria que nunca mais amanhecesse, se as
+falsas alegrias da madrugada me haviam de dissipar tão afortunado Elysio.
+
+Mysterios intimos da grande Isis, religião do amor, ¡infeliz quem vos
+não conhece! ¡mais infeliz quem chegou a conhecer-vos e vos perdeu! Esse
+é como o tronco sêcco: vicejou, florejou cem annos, cantou com todas as
+aves debaixo do céo, mimoso da terra, familiar com o sol, confidente das
+estrellas, abrigo aos amantes, depositário dos seus nomes e votos,
+suspirando suave com elles, inebriando-os com suas exhalações,
+promettendo-lhes, e promettendo-se, primaveras sem numero e sem fim;
+depois, murchou; cortaram-n-o, cahiu; fizeram d'elle, se o não deixaram
+apodrecer, ou o não queimaram, um instrumento grosseiro para revolver o
+solo, um barco para transportar mercadorias; ou, quando mais bem
+livrado, um Satyro tosco, de quem riem os passageiros, ou uma apparencia
+de Bemaventurado para um altar. ¡Oh! ¡como aquelle arado, se podesse
+pensar, trocaria com alvoroço o seu prestimo, aquelle barco os seus
+serviços, aquelle Satyro o seu arremedo de riso, aquelle Santo a sua
+alampada e os incensos, por uma só das horas frivolas e sem historia, da
+arvore, que vivia, que amava, e que era amada!
+
+A minha visão, a minha mulher sem nome, nem fórma determinada, prestes
+para receber qualquer fórma, e qualquer nome, era, se me podem bem
+entender isto, uma cifra, um symbolo, e o ideal da feminidade. No seu
+ser se epilogavam para mim todas as perfeições, todos os encantos
+dispartidos por quantas existem, existiram, ou poderão jámais existir;
+por isso a minha ternura para com ella era sem limites; era um amor, que
+n'aquellas horas de enthusiasmo abrangia todos os amores, presentes e
+futuros.
+
+¡Oh! ¡O amor! ¡o amor! se ha n'este mundo coisa que nos possa dar ideia
+da grandeza da alma, da profundeza da adoração, do infinito da
+bemaventurança, é o amor.
+
+Contam que uma só noite de terror e angustia já cobrira de cans e rugas
+a um mancebo; uma só noite como esta no meu pomar de estio, abraçado,
+confundido com a minha invisivel, remoçaria a um Nestor.
+
+¿Que seriam todos os gosos materiaes comparados com aquella religiosa
+voluptuosidade?
+
+¿Onde ha ahi alcova de noivos, estreada apoz dez annos de suspiros, onde
+ha ahi harém de hurís circassianas sobre rosas, ao som dos epithalamios
+dos rouxinoes do Bósphoro, que se não trocasse por este noivado mystico,
+tão sem rumor, tão puramente celebrado debaixo do céo e no seio da
+Natureza estiva pela poesia e pelo amor?
+
+
+XVIII
+
+Em quanto assim me corriam ali horas de feitiço, ¿onde estava e que
+fazia realmente ella?
+
+Só muito depois o vim a saber: pela sympathia inexplicavel que nos
+attrahia mutuamente, sentia-me tambem comsigo na sua soledade. Eu era lá
+o seu phantasma carinhoso, como ella cá o meu; a lua que de cá e de lá
+contemplavamos em commum, observava lá e cá as mesmas scenas tão
+parecidas, tão eguaes, que a duplicidade lhes não tirava a identidade.
+Supprimam os accidentes de logar; era no mesmo ponto do oceano dos
+tempos um só ninho de duas alcyones, que, embaladas mollemente no seu
+bemquerer, ignoravam que houvesse mundo para fóra da esphera dos seus
+affectos. Assim, não eram já imaginarios os abraços que dava, os abraços
+que recebia cada um de nós; as nossas declarações, juras, e protestos,
+entravam nos ouvidos, desciam ao coração a que se dirigiam.
+
+O amor, a quem os milagres são naturalissimos, triumphava já da
+distancia, como havia de triumphar do tempo e da fortuna.
+
+O sol e o movimento mundano e prosaico do dia seguinte, enfraqueceram
+seu tanto as impressões do drama nocturno e intimo. Encerrei-me no meu
+quarto; fechei as janellas para revocar no remanso de trevas artificiaes
+a sombra magica; reappareceu-me, porém não já a mesma; faltava-lhe a
+animação que a vehemencia da minha fé lhe prestára; de tão real que
+tinha sido, tornava-se de novo problematica. As objecções da razão
+gelada e desabrida, oppunham-se outra vez á prophecia da vontade. A
+linguagem nativa e sincera da carta, era um protesto eloquente e
+energico da innocencia e do amor contra as suspeitas; mas as suspeitas
+murmuravam sempre; a vaidade (¿quem a não tem?) a vaidade, similhante
+áquelles rhetoricos subtis das escolas antigas, sustentava
+alternativamente o pró e o contra: ora pretendia se acreditasse n'um
+affecto, que enobreceria a quem lhe servia de objecto; ora repulsava uma
+crença, que, a sahir burlada, redundaria em vergonha muito grande e
+muito certa.
+
+N'estas alternativas passaram dias e noites; dias penosos, estirados, e
+ermos; noites acompanhadas, festivas, instantaneas. Só quando repoisava
+tudo, velava e vivia eu. Os meus pensamentos e as minhas alegrias, com
+as flores nocturnas se abriam, com as flores nocturnas se fechavam. Só
+as estrellas se podiam mirar n'elles, n'elles que tanto se lhes
+assimilhavam no brilho e na pureza.
+
+Quando, apagadas em casa as ultimas luzes, e reinando já profundo
+silencio ao longe por toda a cidade, cerca de meia noite, eu entrava com
+pé furtivo e o coração pulando, no aprazado arvoredo dos meus amores, já
+ali encontrava á minha espera a figura branca. Com mil beijos soffregos
+nos saudavamos, vingando-nos em minutos da eternidade do sol. Pedia-lhe
+de joelhos perdão de a ter renegado, de ter duvidado da sua existencia,
+durante as horas insipidamente allumiadas. Com um abraço restauravamos
+as pazes.
+
+Sentava-a ao meu lado, n'um banco rustico, afoufado para ella por minha
+mão com mangeronas, que as havia em grande espessura á sombra da
+laranjeira mais alta. Reclinava ella a sua cabeça languida para cima do
+meu hombro, ou eu a minha face ardente sobre o seu seio, a escutar-lhe e
+a interrogar-lhe o coração. Repetiamos os nossos incendidos dialogos da
+vespera, como novos. Misturavamos lagrimas de ternura e felicidade.
+Reviviamos antecipados os mais bellos futuros. A qualquer tenue rumor,
+d'estes com que a noite, maliciosa amiga dos namorados, se diverte a
+assustál-os, estremeciamos como dois culpados colhidos em flagrante;
+ella, forcejava por fugir; eu, escondia-a, rindo, com os meus braços
+contra o meu peito; guardava-a ali muito tempo como filha; embalava-a,
+adormecia-a, inspirava-lhe com beijos os sonhos que havia de sonhar,
+insinuava-me n'elles, e lhe repetia em voz baixinha as mais suaves
+coisas d'este mundo. Se um grillo cantava então, se um ramo ciciava lá
+por cima, impacientava-me de que m'a acordassem. Perguntava-lhe ao
+ouvido pelo seu nome, pela sua familia, pela terra da sua vivenda; não
+respondia. Inquiria-lhe, em tom ainda mais leve, se já porventura em
+algum tempo outro amor lhe sobresaltára o coração; levantava-se de
+repente, grande, sublime, aggravada da suspeita, prestes a
+desaparecer para sempre; e fal-o-hia, se ambos os meus braços a não
+retivessem pela cintura:--«Se eu não tivesse um coração ainda virgem,
+¡como ousaria offerecer-t'o! ¡offerecer-t'o espontanea! ¡a ti! ¡ao meu
+poeta!»--dizia ella com uma voz que não saberia mentir por mais que
+fizesse. Pedia-lhe outra vez perdão, agradecendo-lhe a ineffavel certeza
+que me dava da minha felicidade tambem no passado; outorgava-m'o
+generosa; mas impunha-me, como penitencia, que lhe improvisasse poesia.
+Era a poesia o que a fascinára? o que a attrahira para junto de mim; e
+eu (¡bemditos os vinte e quatro annos!) derramava, inspirado só por
+ella, poesia nova e fervente, por entre aquelles troncos mudos, como as
+Philomelas no seu enthusiasmo a esperdiçam pelos choupaes do seu Mondego.
+
+Como a das aves, se perdeu a minha; mas nunca a exhalei tão de dentro,
+nem tão para a alma, como então.
+
+
+XIX
+
+Agora caio eu de repente em mim, e me envergonho de tudo que tenho
+estado doidejando. ¿Tinha eu direito, ou necessidade, de fazer em
+publico similhantes confissões? ¿Não deixarei ahi violados dois pudores:
+um meu, outro alheio e mais que meu? ¿Haverá indulgencia que baste para
+devaneios tão frivolos e pueris? ¿Não me desdenharão até, como ficções
+inverosimeis, absurdas, impertinentes, estes idyllios elegiacos, tão
+verdadeiros todavia? São verdadeiros, e eu prometti historiar; eis aqui
+a minha unica defensa.
+
+De mais, eu confio em que os leitores, aliás benevolos, se não
+esqueceram do que se ponderou no principio d'este escripto; a
+saber:--que, nem em bem nem em mal, se póde carregar á minha conta o que
+fazia ha trinta e oito annos um que tinha o nome que eu hoje tenho; e
+que esse nascêra e se creára, unica, simples, e exclusivamente, para
+poeta, poeta de amores e delicias.
+
+Pressupposto isso, continuemos o pobre romancinho, que nunca o houve
+mais historico; e tornemo-nos á carta, que, tantos dias ha, espera uma
+resposta.
+
+Ignorava eu pois, e de nenhum modo podia conjecturar, d'onde procedêra,
+e que mão a havia escripto; mas propendia, por não sei que vaga
+revelação, para crêr que não era senão mulher, poetisa, enthusiasta, e
+muito superior ao vulgar pelo talento, quem assim me desafiava o
+coração, enamorando-me o espirito.
+
+¿Reflectistes alguma vez no que seja aquelle bichinho de Deus, que pelas
+noites de verão está scintillando do fundo de um relvado, sua immensa
+floresta? Pois aquillo é uma namorada. O seu resplendor, que allumia as
+hervas até á enorme distancia de um palmo em redondo, é a manifestação
+esplendida do vago e poetico amor em que ali se consome solitaria; é uma
+Hero, mais sublime, chamando e attrahindo com o seu facho um individuo
+da sua especie, que ella nunca viu, mas que adivinha ter-lhe sido
+predestinado pela Natureza. Deixae-o andar a elle saltitando
+inconstantemente pelo labyrinto dos silvados, nas chorêas aereas e
+loucas dos seus eguaes, como um cardume de pequenas faiscas
+intermittentes; deixae-o volitar tão altivo da sua liberdade, que a
+energia do luzeiro lá em baixo, tão formoso e mais vivido que o seu, o
+arrebatará em vindo a hora, e no leito de seda de uma florinha, sob o
+docel de uma folha verde, o amor e o hymeneu accenderão os seus fachos
+áquella duplice chamma confundida n'uma só.
+
+Tal se me affigurava a minha ingenua correspondente, irradiando
+d'aquelle modo até a mim, lá do interior do seu pacifico retiro, o
+poetico brilho dos seus affectos innocentes.
+
+Na carta refulgia, com effeito, um amor. Era como um carbunculo, que,
+trazido para o escuro, continua a expedir os raios de que o impregnou o
+sol.
+
+Respondi finalmente. Foi heroica a determinação; foi o salto fatal de
+Leucade; foi dar de cabeça para baixo na voragem, que, ou me havia de
+atirar arrogado e desconhecivel para cima do lodo, ou restituir-me ao
+dia, feliz, glorioso, coroado dos myrthos de Paphos pelas sereias.
+
+
+XX
+
+Entretanto, no meio da minha allucinação vaidosa, nunca me desamparou de
+todo o previdente instincto da dignidade; as minhas paginas confessavam,
+sim, o amor; amor profundo, amor immenso; mas este amor immenso e
+profundo, qual eu o emprestára á Nympha aerea dos montes, qual eu
+proprio o tributára á deidade phantastica da Primavera, e qual mulher
+nenhuma deixaria de o colher com avidez, se o encontrasse, apparecia
+aqui como um rico fructo do paraizo, ainda pendente no ramo, já maduro,
+já proximo a despegar-se, baloiçando-se a um lado e a outro, indeciso
+para onde haveria de cahir; era, na realidade, como fôra na fabula o
+ramo de oiro, passaporte para os campos ditosos de além mundo,
+mysterioso ramo que ninguem por força, nem por fraude, esgalharia da
+arvore, mas que por si se deixava tomar da mão chamada pelos destinos
+para o haver.
+
+Tal foi, mas em phrase chan, e sem atavios de estylo, a substancia da
+minha resposta: enigma contra enigma, oraculo contra oraculo.
+
+N'este vago, de que um e outro, por motivos differentes, mas com egual
+cautella, evitavamos deslisar para o positivo, se foi continuando, cada
+vez mais frequente, mais ampla, mais amigavel, mais sincera, e mais
+interessante, a nossa correspondencia.
+
+Se quem escrevia era aquillo que eu desejava, devia estar contente de
+mim; se era outro, e mal benevolo, o empenho que dirigia aquella penna,
+esquivava-lhe eu escrupulosamente os azos para triumphos. Eu por minha
+parte estava satisfeito de mim, e encantado com tudo quanto se me ia de
+novo de dia a dia descobrindo de perfeições na minha Galatéa, que, ao
+exemplo da de Virgilio, me atirára a maçan refugiando-se para os
+salgueiros; entrevia-a eu por entre as ramas; não a chegava ainda a
+conhecer de todo, mas differençava já com evidencia, que não era satyro
+travesso, mas sim nympha, namorada e negaceadora como os passaros:
+
+ .............................._lasciva puella_.
+
+Não descontinuavam, no emtanto, diligencias para se descobrir o
+esconderijo, em que se homisiava sempre que se presumia ir-lhe já lançar
+a mão á ponta do veo. Com a obstinação do mysterio, recrescia o affinco
+das pesquizas.
+
+Apparece um fio no labyrinto: as minhas cartas vão por Villa do Conde
+para Azurara; mas ¿quem as toma em Azurara? Espia-se, colheu-se: é uma
+servente do proximo convento de Vairão. Está pois a caçada circumscripta
+a um pequeno recinto, d'onde já não ha fuga possivel para a pobre corça:
+agora é deixar-se tomar ás mãos rendida e envergonhada.
+
+
+XXI
+
+É Vairão um nobre mosteiro de Donas da Ordem Benedictina. Está situado
+quatro leguas ao norte do Porto, na terra da Maia (Palencia dos antigos)
+entre Douro e Minho; corre-lhe perto o formoso rio Ave, que, por entre
+as villas do Conde e de Azurara, entra, grosso de caudaes, e já
+senhoril, no mar. As convisinhanças do edificio o tornam grave e
+meditabundo: a uma parte, serranias altas e solitarias; a outra, o
+Oceano, que rumoreja resguardado da vista por immensidade de pinheiraes.
+
+É tão fidalga a antiguidade de Vairão, que ninguem, ha já muito, nem
+elle proprio, lhe conhece a origem. Fundal-o-hia, segundo uns, em 1148,
+D. Touris; segundo outros, na muito mais apartada era de 485, certa
+senhora nobre, Marispala, de quem se delettreia ainda o nome n'uma
+incompleta loisa grande, como campa de sepultura. Fôra, resam memorias,
+convento duplex de monjes e monjas da regra de S. Bento, que debaixo dos
+mesmos tectos tinham extremadas as clausuras, e communs no templo os
+exercicios religiosos. Exhala-se ainda agora d'aquellas paredes um
+grande e bonissimo cheiro poetico de seculos e santidade.
+
+Ali pois vivia desde a meninice, secular e educanda, a minha
+desconhecida. Não foi difficil adivinhál-a d'entre as companheiras; de
+sobejo a denunciavam a notoria superioridade da sua instrucção e
+talento, e as suas tendencias todas litterarias e poeticas, herdadas no
+sangue e nos exemplos domesticos.
+
+Constava por tradição ter sido uma das illustrações longinquas da
+familia o classico Doutor Antonio Ferreira, autor da primeira tragedia
+de Ignez de Castro, e particular amigo de Antonio de Castilho. O não
+menos classico Nicolau Tolentino de Almeida fôra irmão da avó da nossa
+educanda, senhora de virtudes tão iguaes aos seus altos espiritos, que o
+grande satyrico usava dizer que só se casaria, se o casamento com irman
+fôra permittido.
+
+Desappareceu a mascara: Maria da Expectação Silva e Carvalho é já,
+descoberta e confessa, D. Maria Isabel de Baêna Coimbra Portugal.
+
+O meu romancinho devia terminar n'aquelle ponto, ou proseguir
+transformado em historia; estava escripto que proseguiria.
+
+Tal era tambem, e fôra desde a primeira hora, a tenção resoluta e
+inabalavel da que viera despertar-me para a festa do coração.
+
+Assenti; deixei-me por ella conduzir, indifferente a calculos, adverso
+por natureza a previdencias; tão poeta no real, como no imaginario o
+tinha sido, e como o hei-de já agora ser até ao fim; em summa:
+verdadeiro crente na Providencia.
+
+
+XXII
+
+Parecia que eu e Maria tinhamos ouvido da propria bocca do Salvador o
+admiravel sermão da montanha; ¡tanto nos estava profundamente impressa
+dentro a sua doutrina! Eram com effeito evangelicas, ou de boa nova,
+estas palavras de Christo:
+
+--«Não hajais cuidado do vosso viver, d'onde comereis, d'onde bebereis,
+ou d'onde vos heis-de vestir.
+
+«Olhae-me para as avesinhas do céo; vêde lá se ellas semeiam, ou ceifam,
+ou encelleiram coisa alguma; quem as mantém é o vosso Pae Celeste. Pois
+vós sois para elle muito mais que as avesinhas do céo.
+
+«¡Vestido!... ¿A que vem o dessocegar-se por elle? Reparae no como
+crescem os lyrios dos valles: não trabalham, nem fiam.
+
+«E mais vos digo, em verdade, que o proprio Salomão nunca trajou galas
+como qualquer d'elles.
+
+«Ora: se Deus assim reveste umas hervas do campo, hoje viçosas,
+amanhan queimadas no forno, ¿não vos revestirá de muito melhor grado a
+vós, creaturas de apoucada fé?
+
+«Portanto, nada de vos inquietardes dizendo:--¿Que havemos de comer, que
+havemos de beber, que havemos de vestir?
+
+«Que se desvelem com isso os pagãos; o vosso Pae Celeste bem sabe que
+todas essas coisas vos são mistér.
+
+«Não vos atormenteis pelo amanhan; o amanhan lá curará do que lhe
+pertence: bem bastam a cada dia as suas penas.»--
+
+Não sei, nem nos importava saber, se Thomaz Roberto Malthus, o
+economista algoz dos casamentos pobres, approvaria, ou não, esta nossa
+fé tão commoda, e que a mesma Providencia tomou depois a si o justificar.
+
+Se quereis verdade ainda mais em cheio, e sem disfarces, nenhum de nós
+ambos se lembrava de pensar no futuro por esse lado; entre nós e o
+porvir material, mettia-se uma seve de affectos tão espessa, tão alta, e
+tão florída, que não nol-o deixava perceber. Era como o pinhal a
+cortinar o Oceano revolto de ante a vista do conventinho descançado.
+
+Olhae que eu não vos prégo ó sermão da montanha para que nos imiteis,
+mancebos e donzellas na febre aguda do amor, vós para quem uma cabana,
+uma fontinha, quatro raizes do monte, e para postre amoras de silva, e
+as glandes do filho prodigo assadas n'uma fogueirinha de gravetos, se
+figuram banquete em palacio, sobrando-lhe para salsas o bemquerer; não,
+Robinsons do affecto e da adolescencia descuidosa e credula; o que só
+faço é relatar-vos, sem apologias nem recommendações, o que por nós
+passou n'uns tempos de loucura, que (¡ainda mal!) não podem já voltar.
+Lêde muito nas boas horas, como nós a reliamos, a consolativa prégação
+dos passarinhos e dos lyrios; mas, se vos parecer, não deixeis de
+folhear tambem um poucochinho os economistas; não será mau. Os corvos da
+Thebaida acudiam, verdade seja, aos santos eremitas á hora do jantar com
+pães tomados sabe Deus d'onde; mas não ha muitos d'esses hoje em dia, cá
+pelas cidades. Corvos que vos empolguem o vosso pão da mesa, e até da
+mão, isso mais depressa.
+
+
+XXIII
+
+Maria conhecia-me pelos meus livros e pelas minhas cartas; alguma coisa
+era; mas os meus escrupulos melindrosos pediam mais: enviei-lhe o meu
+retrato, uma expressiva miniatura em marfim. A mão engenhosa do pintor,
+não paga de me reproduzir, enchera de um rosal florescente o fundo do
+seu painelinho; era o poeta da _Primavera_, rodeado dos seus preteritos
+amores. Guardo-o como preciosidade e reliquia; ¡se andou tanto tempo
+occulto no seio com que eu sonhava!... A carta em que ella me agradecia
+este pequeno penhor, repoisa, outra reliquia, no mesmo cofre junto
+d'elle; seria profanação o publicál-a. Fique ali a sonhar eternamente a
+immensa ternura de que a repassou a melhor, a mais carinhosa mão de
+quantas jamais pegaram na penna para revelar a uma alma a formosura de
+outra.
+
+É a este segundo periodo das nossas relações, começado ao desfazer-se a
+nuvem da divindade, deixando apparecer a mais sympathica das mulheres,
+que pertence inteiro o livro sobre que emprehendi derramar agora alguma
+luz.
+
+
+XXIV
+
+Lêstes sem duvida a historia de Pygmalião; então sabeis como aquelle
+phantasioso escultor, com a arte no coração, e a fé na alma, lavrou uma
+estatua, se ennamorou e endoideceu por ella.
+
+O sol da Grecia, que tantos portentos allumiou, nunca vira coisa assim
+formosa.
+
+O Real estatuario, pois era Soberano, esqueceu por ella mais que o seu
+throno de oiro, e os seus estados que o adoravam; esqueceu todas as
+beldades de umas regiões como aquellas, digno berço de Venus e das
+Graças, e onde os lacteos marmores e as ceras coloradas, para copiarem
+aos olhos as formosas do Olympo, e povoarem os templos com Hebes e
+Junos, Dianas e Minervas, de mais não precisavam que retratar os bandos
+vivos e buliçosos das filhas da terra. A todas offuscava para elle,
+para elle Jupiter do cinzel, a Pallas brotada da sua cabeça poetica
+e fogosa; assim a lua cheia, ao levantar-se de traz dos cumes selvaticos
+dos Dáctyles, desterra o scintillante cardume das estrellas.
+
+Não contente de a vêr todo o dia, vinte vezes se levantava cada noite
+para tornar a vêl-a, e de cada vez lhe descobria gentilezas novas. Com a
+alampada trémula na mão, erguendo-a, abaixando-a, ora de longe, ora de
+perto, a rodeava, scismando, palpitando, sorrindo, figurando-se-lhe
+vêl-a corresponder com a expressão do aspecto ás blandicias com que
+elle, mais poeta que Anacreonte, a affagava. ¡Oh! ¡que não daria elle
+por ter a lyra de Orpheu e de Amphião, cujos sons escutados pelas pedras
+as animavam!
+
+Ás plantas nuas da sua Galatéa, mil vezes rebeijadas, tomava as suas
+refeições, offerecendo-lhe sempre com suave convite as primicias de
+Baccho e Ceres, os mais perfeitos favos de Hybla e do Hymetto, e os mais
+delicados dons de Pomona, que em canistreis de vimes de prata lhe vinham
+pôr deante virgens, por quem o Pae dos numes se metamorphosearia vinte
+vezes.
+
+Cochichavam ellas entre si, e riam doidinhas á socapa os mais tentadores
+risos que sabiam, sem nunca lograrem que os olhos fitos nos da estatua
+se abaixassem, nem por descuido, para os d'ellas. Retirada a mesa,
+fechava o Principe as portas eburneas do aposento, incendia-se com
+segundas libações rituaes de Naxos e Chios; exhalava o seu fogo
+tresdobrado em abraços e beijos; cingia de perolas e diamantes o collo e
+os pulsos da effigie; banhava-a com essencias de nardo e dictamo;
+engrinaldava-lhe a fronte com as rosas mais frescas das emmolhadas em
+vasos aureos esculpidos, coroando-se com as restantes a si mesmo;
+tornava a encaral-a; e o reflexo das flôres de Amathunta, que Sapho
+algum dia havia de proclamar rainhas de todas as flôres, e a que a Mãe
+de Cupido fadára as mais extranhas seducções, quando as viu retintas com
+sangue do seu Adonis, aquelle reflexo purpurino no alvor das faces lhe
+parecia, no seu estatico enlevo, uns assomos do pudor virginal
+sobresaltado com a desnudez propria, com a solidão e voluptuoso
+desamparo do sitio, com o olhar a um tempo supplicante e audaz do
+adorador.
+
+Era então que, delirante, perdido de desejos impossiveis, elle se lhe
+pendia amorosamente ao pescoço, forcejava por animal-a com ósculos; e
+reconhecendo quanto eram baldados os seus desejos, imbebia o rosto
+ardente entre os arfantes seios, frios, de marmore, e os áljofrava com
+um chuveiro de lagrimas. Nestas porfias, sem victoria nem derrota, se
+lhe exhauriam as forças; deixava-se cahir esmorecido para cima do tapete
+de purpura de Tyro, cerrava os olhos, e um somno transparente, um
+meio-sonho, dando-lhe por momentos a posse da sua beldade, ouvindo-a,
+sentindo-lhe palpitar o coração, repassando-se do seu calor, o
+restaurava, para se tornar com mais vehemencia, em acordando, á sua
+adoração perpétua, ás suas cubiças insensatas.
+
+A deusa dos mil amores, que perscruta até ao intimo os corações dos
+mancebos, podia bem ter ciumes d'aquella pobre e insensivel beldade tão
+amada; mas foi generosa; generosa... não: antes muito justa. ¿Não era
+aquelle o mais solemne culto, o culto mais sincero e desinteressado que
+jámais se rendêra á sua divindade?
+
+Não odiou a Galatéa; sorriu-lhe como para uma irman mais nova; mirou-se
+n'ella complacente como n'um espelho. A filha das ondas do Egeu foi
+benigna para a filha dos marmores de Paros.
+
+--«¿O amor que nasceu de mim--dizia ella--não me tem a mim propria
+ferido e felicitado, tantas vezes? ¿Por que não farei eu que esse amor,
+não menos maravilhoso, que nasceu d'aquella, lhe dê tambem um quinhão
+nos céos que eu disfructo sem limite?»--
+
+Pygmalião, o Rei artista, havia afeiçoado para muitos altares os mais
+perfeitos, os mais adoraveis simulacros da Immortal; e se não se
+inflammára por elles, como agora por este de Galatéa, era só por que a
+santa majestade do ser divino lh'o prohibira; mas os templos, em que os
+milagres d'essa arte crente e inspirada resplandeciam alvejantes, eram
+sempre os mais frequentados, os mais servidos com offertas, sacrificios,
+e grinaldas. A officina mesma, em que avultava entre um povo de outras
+estatuas e grupos a estatua da sua rival em fascinações, era sympathica
+aos olhos da Omnipotente, e sollicitava o seu favor. As pombas, que a
+ella lhe vogam o carro aereo, jungidas com festões de murta, tinham
+ali entrada livre. Dos loireiros rosiflores, e das grutas dos jardins do
+palacio, esvoaçavam-se familiares até aos peitoris das janellas, sempre
+francas ás inspirações dos ceos diáphanos, do cicío das auras pela
+folhagem, e do estrépito das fontes, melodias como de nautas migdóneas.
+D'ali observavam, conversando umas com outras, a profusão que lá dentro
+ia, de coisas tão brancas, tão suaves: ¡tanta nympha! ¡umas, trajadas
+como para chorêas! ¡outras, despidas como para o banho! ¡e entre todas,
+e sobresahindo a todas, o vulto da propria deusa, tão sua conhecida, e o
+de Galatéa, não menos celeste, candida como ellas, e, a julgar pelo
+sorriso, como ellas affectuosa! Alguma das espreitadeiras aladas dizia
+então lá pela sua lingua ás companheiras:--«¡Olhae, olhae como está em
+ambas enlevado! os escravos chamam-lhe Rei, mas não é tal: é, como nós,
+um captivo do amor; ¡e de quão benigna condição!... é reparar-lhe no ar,
+nos movimentos. ¿Não vêdes como olha para nós, tão benevolo, e quasi
+invejoso, quando nos beijâmos? entremos sem medo, que nos não ha-de
+fazer mal. ¡Mal aquelle!... Apostaria eu que já foi pomba, antes de ser
+gente. Chôva-lhe a nossa rainha, como sobre nós, amores sem espinhos, e
+delicias renovadas de hora a hora.»--
+
+A estancia era então invadida pelo bando festivo. Pygmalião exultava,
+tomando por feliz agoiro ver as conductoras do coche de Dióne
+arraiarem-lhe a casa toda com os reflexos argenteos das suas azas
+irrequietas, e cobrirem de ternura, de voluptuosidade, de poesia, como
+um veo alvo, roto, e esvoaçado, as estatuas dos dois idolos do seu coração.
+
+¿Não era tudo isto mais que bastante para merecer á mãe do amor um
+prodigio sem exemplo, e que a ficasse glorificando nas lyras namoradas
+de todo o mundo?...
+
+Acabava um dia o Principe de queimar aos pés de Venus, segundo o seu
+costume de todas as manhans, uma copiosa oblação do mais puro incenso.
+Tinha regado o fogo, em que elle fumava n'uma amphora de bronze, com
+vinho amadurecido havia cem annos pelos oiteiros pampinosos de Chypre, e
+reservado em talhas de barro para sacrificios aos deuses maximos. Tomada
+respeitosamente venia da Immortal, transporta por suas mãos o vaso
+depositario do fogo para deante de Galatéa. Quer offerecer-lhe, ainda
+que em segundo logar, porção igual, tanto da rescendente massa, orgulho
+da Arabia, como do liquido generoso. Enganou-se-lhe a mão no incenso, e
+lançou nas brazas porção avantajada. Venus sorriu, e não se agastou. As
+distracções do amor, ninguem melhor do que ella as conhece por experiencia.
+
+Emquanto o veo alvacento do innebriante fumo, elevando-se d'ante o
+pedestal da nympha, a envolvia toda, e tornava a sua presença mais
+celestial, Pygmalião, acompanhando-se com a lyra de sete cordas, cantava
+de joelhos um hymno, que as pombas escutavam n'um silencio religioso;
+pareciam querer decorál-o para o repetirem á sua rainha, quando ella se
+jazesse em amoroso ocio, reclinada sobre as violetas em algum secreto
+pavilhão de rosaes da sua Paphos:
+
+ --Tu que exhalas de ti, qual vérte a rosa aromas,
+ effluvios de prazer, universal ternura,
+ Mãe das Graças e Amor, deusa da formosura,
+ que envolves a nudez co'o veo das aureas comas,
+
+ Venus; pois que são teus os ceos, a terra, os mares,
+ e até ás sombras do Orço abrange o teu poder,
+ lança um propício olhar, Venus, aos meus pezares;
+ do teu jugo me solta, ou dá-me emfim morrer.
+
+ Com tão cruel supplicio, ignoto á humanidade,
+ ria teu filho em vão, tu, deusa, és mais piedosa.
+ Ardo por uma pedra em chamma vergonhosa,
+ perdi a paz e a gloria, o siso e a liberdade.
+
+ Qualquer ente alardeia ufano os seus amores:
+ a ave, piando; o peixe, aos pulos pelo mar;
+ o rebanho, mugindo; em cantos os pastores;
+ e eu, Venus, só a ti ouso este ardor mostrar.
+
+ ¡Quão menos insensato o moço do Cephyso
+ se finou por si mesmo ao pé do espelho aquoso!
+ Suppoz a sombra nympha; espera ser ditoso;
+ cai no engano; perece; apiadas-te, é Narciso.
+
+ E eu, eu sei que a beldade, iman d'est'alma ardente,
+ só a mim deve o ser; nasceu de minha mão;
+ não me ouve, não me vê, não se condoe, não sente;
+ não lhe pude formar lá dentro um coração.
+
+ ¡Ó Venus! se ha mulher que eu possa crer retrato
+ do immenso que sonhei compondo a Galatéa,
+ revela-me onde habita a amavel Semidéa;
+ assim teu filho Amor jamais te offenda ingrato.
+
+ Seja embora pastora, obscura, humilde, escrava;
+ terá por choça um throno, e por captivo um Rei;
+ e eu, já salvo da insania, eu, que a teus pés chorava,
+ a ti uma hecatomba alegre immolarei.»--
+
+Ainda bem não findára a prece, quando lhe pareceu notar nos labios da
+Immortal um sorriso auspicioso. O Cupido, que junto d'ella estava em pé,
+e que era tambem obra de suas mãos, agitou as azas de marmore, soprou as
+labaredas petrificadas do facho, que instantaneamente coruscaram, e
+rompendo por entre a cortina do incenso, que ainda envolvia a nympha,
+lhe lustrou com o milagroso calor a fronte, os olhos, as faces, a bocca,
+o seio, o coração. Ao fogo d'este segundo e divino Prometheu, a estatua
+estremece; a pallida brancura se tinge da côr da vida; o peito palpita;
+os olhos se voltam para o céo da Grecia, que logo os embebe do seu mais
+brilhante azul; baixam sobre Venus; ¡parecem attonitos! descem;
+¡encontram-se com os de Pygmalião! duas rosas subitas se abrem nas
+faces; o sorriso, aurora de uma existencia de amores, alvorece em labios
+nacarados.
+
+--«¡Filha dos meus sonhos!» «¡Galatéa!--» exclama o artista delirante,
+correndo a tomál-a em braços, ao vel-a descer do pedestal. «Galatéa,
+¡filha dos meus sonhos! ¡se é esta uma nova illusão que Morpheu me
+envia, compassivo, mas cruel, possa eu não acordar jámais!»
+
+¿Vistes vós alguma vez rasgar um dia magnifico depois de uma noite
+profunda? ¿Notastes como então sahiam do nada as amenidades das terras e
+dos rios, a animação e o movimento dos campos e das cidades, as côres,
+os cantares e as esperanças? assim, repassada a subitas de calor e luz
+pelo sol dos espiritos, pelo amor, a alma recemnascida de Galatéa
+adivinhou para logo a adoração de que era alvo. Comprehendeu a turbação
+que inspirava, pela que sentia. Viu nas profundezas interiores do
+seu ser, diaphanas como um lago limpido, a sua pureza virginal, a sua
+magica-branca, a sua suavidade irresistivel, o seu destino de ser feliz
+felicitando.
+
+A turbação instinctiva de um pudor que a si proprio se ignorava, cobriu
+o rosto de Galatéa do mais amavel escarlata; abaixou a vista sobre si
+mesma, e não sabendo para onde se refugiar, mariposa attrahida da luz,
+voou para os braços do amante, escondendo o seio no peito d'elle,
+fechando os olhos para não ser vista.
+
+N'este momento a Philoméla, occulta na folhagem de um platano visinho,
+entoou um brilhante epithalamio, e o hymeneu fechou as cortinas
+purpureas do aposento.
+
+
+XXV
+
+Despidos os accessorios esplendidos e sobrenaturaes, a fabula de
+Pygmalião reproduziu-se na minha historia; o simulacro que eu incensára
+e servira, o simulacro filho da minha imaginação, era emfim mulher;
+mulher amante, capaz de bemaventurar-me, e desejosa de o fazer. Só a
+Philoméla do platano, e o hymeneu, andavam ainda tão longe e tão
+emboscados nas brenhas do futuro, que eu mesmo não ousava crer-lhes bem
+deveras na existencia.
+
+Entretanto, como a encarnação e os sentimentos do meu idolo para commigo
+eram innegaveis, começou logo a haver entre nós uma especie de
+semi-consorcio tacito; era já a communidade dos corações, se não era
+ainda a dos somnos, visto que o bom Ducis, chamou ao casamento
+
+ _Douce communauté de coeurs et de sommeils._
+
+As nossas mutuas confidencias passaram a ser, por minha parte, o que por
+parte d'ella desde o principio tinham sido: reservadas inteiramente de
+ouvidos extranhos e curiosos. Com isso lucraram muito maior affoiteza,
+e um novo encanto, que nos concitou a ampliál-as de dia a dia.
+
+Quanto é dado a ausentes conhecerem-se, conhecemo-nos. Pelas mutuas e
+circumstanciadas descripções que trocámos das nossas vivendas, dos
+nossos gostos, do emprego das nossas horas, e de todos os nossos
+pensamentos, podemos, como sylpho e sylphide, visitar-nos de continuo.
+Estavamos simultaneamente: eu junto d'ella, no seu mosteiro; ella
+commigo, no meu castello. Já não havia lá nem cá, ladrilho de pavimento,
+nem abobada, accidentes de luz ou sombra, movel ou planta, que nos não
+fosse familiar. Via ella gostosa ao meu lado, o irmão inseparavel que me
+excitava a querer-lhe, a amál-a, com a mesma espontaneidade com que me
+acompanhava nas outras excursões poeticas; eu, achava ao pé d'ella a
+Religiosa sua intima, que a vira crescer, que a estremecia como a filha
+e irman, que a ajudava com os seus conselhos, a protegia como Anjo da
+guarda, se revia na sua bondade e no seu talento, e que, apesar de não
+saber como viveria se a perdesse, nem por isso apressava menos com os
+seus votos o momento de m'a entregar.
+
+Assim mesmo, ¡grande era na verdade a minha solidão! mas tenho que a de
+Maria era ainda mais profunda, poetica, e enamorada.
+
+Ha uma natural propensão que nos leva sempre o desejo do que possuimos,
+para o que não temos, para o que muitas vezes não poderemos alcançar; a
+imagem de um ermo attrai o mundano; a do mundo dessocega ao eremita. São
+palpitações e adejos da alma captiva para o ideal. Somos assim. Se o não
+fôramos, ¿onde estariam os horizontes luminosos da alma? ¿Onde, como, e
+de quê, podéra crear-se poesia?
+
+Eu, que tinha em redor de mim uma cidade, e a liberdade de me expandir
+para toda a parte, punha as minhas mais cordeaes delicias em me ir
+encerrar não pressentido, nem presumivel, n'aquella remota clausura.
+Maria, costumada a ella, sem quasi conhecer outra coisa, e devendo
+estremecer só ao pensamento de trocar o seu pacifico viveiro pelas
+extranhezas e perigos do ar pleno e sem limites, Maria, compunha agora
+lá os seus melhores devaneios no phantasiar outro viver, outro sentir,
+outros deleites, e de todos os deleites o maior, dizia ella, o de gastar
+a sua existencia em amenisar outra; ambição verdadeiramente feminil: ¡a
+abnegação absoluta!
+
+Se viessem no futuro a citál-a como a socia, a guia, a auxiliar, a
+afinadora da lyra do poeta, e a serva ministra das suas festas, seria
+isso para ella um triumpho (mil vezes m'o repetiu). Mas, embora o seu
+nome viesse a esquecer de todo (acrescentava com uma effuzão de ternura
+encantadora), a certeza de haver obscuramente cumprido todo esse
+encargo, já lhe bastava para não trocar a sua dita pela de outra alguma.
+
+
+XXVI
+
+As abobadas de um claustro encobrem thesoiros de sensibilidade
+inapreciaveis, inexhauriveis, e bem mal avaliados dos profanos.
+
+Cada um considera aquelles encerros mysticos á luz dos seus proprios
+preconceitos. Um espiritual, vê ali um alfobre de plantas para o Céo;
+uma terra de Gessen allumiada de cima pelo sol, no meio de um Egypto
+ennoitecido; um paraizo passageiro sotoposto ao Paraiso perennal, com a
+mais curta e directa serventia de um para outro. Ao incredulo, figura-se
+um pantano antigo de fanatismo e superstições. Um economista, lhe chama
+desperdicio anachronico de riquezas, de forças productivas, e de
+população. Um naturalista, execra, em nome da Natureza, que se ousem e
+se permittam votos de a renunciar; e, propheta de infortunio, commina,
+em nome d'ella, como infalliveis penas do desacato, as tristezas, as
+enfermidades moraes e physicas, as allucinações, os delirios, o
+definhamento, o envelhecimento no incompleto dos annos, a morte
+prematura. Finalmente, um romancista licencioso sonha, e se arroja a
+escrever os seus sonhos como historia, que o amor, bannido em vão
+d'aquelles recintos, em parte nenhuma é tão despota, tão insensato e
+monstruoso como lá. Segundo esses moralistas de abominação, os mysterios
+vergonhosos da deusa Bona, ter-se-hiam perpetuado ao abrigo e no seguro
+inviolavel dos nossos asylos religiosos.
+
+Desprêso a tantos exageradores systematicos. Se um mosteiro não é Céo,
+porque o não ha nem cabe na terra, é um santo e bemdito refugio, onde
+muitas penas se atalham, e muitas se adormentam.
+
+¿O caracter de contranatural, que acintosamente se exprobra ao mosteiro,
+existirá porventura, como se comprazem de declamar os seus
+antagonistas? Não de certo; no mosteiro feminil principalmente.
+
+Se a felicidade terrestre, por outra, o contentamento, é o unico alvo
+racional, a que tendem por diversas vias todos os exforços humanos,
+¿quem affirmará com a mão na consciencia, que a mulher do nobre no seu
+solar, a do burguez na sua casa, a do artifice no seu sótão, a do
+rustico na sua cabana, a do pescador na sua choça, para não falarmos de
+tantas outras mulheres sem poisada certa, sem familia, e sem sociedade,
+disfructam maior quinhão de ventura que as Religiosas? ¿Será tudo, será
+mesmo o essencial para a felicidade, o ter um esposo e ter filhos, esses
+dois bens, essas duas ufanias tantas vezes descontadas pelos mais
+pungentes cuidados, pelos mais amargos desgostos, e não raro pelo
+encurtamento da existencia?
+
+«Possuem a liberdade,» dirão elles. ¡A liberdade!... ¿que liberdade?
+interrogae-as a uma e uma; não ousarão responder-vos; mas um
+involuntario sorriso triste vos responderá por ellas. ¿Quantas são das
+forçadas que remam n'esta galé mundana, as que não terão muita vez
+pensado com inveja no viver manso e sem estrondo d'aquellas solitarias,
+sem os cuidados do amanhan, sem as fadigas improbas do hoje, sem os
+arrependimentos e os pesares do hontem?...
+
+Cada uma d'estas diversas operarias do futuro, colhe, é verdade, aqui ou
+além, mais ou menos abundante, mais ou menos imperfeito, algum deleite
+que o mundo nega ás cenobitas; ¡mas quanto não compra ella caro esses
+deleites, essas escaças compensações dos seus pobres destinos, que vós,
+philosophos exclusivos da população e da riqueza publica, chamarieis
+naturaes, se vos atrevêsseis!
+
+A eremita, pelo contrário, privada d'estes gosos passageiros, está livre
+das sollicitudes que tantas vezes os precedem, os envolvem, os seguem,
+os descontam, os aniquilam.
+
+As faculdades amantes de que se compõe essencialmente o ser feminino,
+não se anihilaram entrando para o ermo; exaltar-se-hiam porventura; e,
+se lhes faltasse emprêgo e alimento, devorariam afinal miseravelmente, e
+com medonha rapidez, as miseras depositarias d'esses dons celestes.
+Felizmente não succede assim. Ellas amam tambem.--«¿Amam?!» ¡Oh! ¡e
+quanto! ¡e quão bem! ¡e quão satisfeitas! «¿Ellas?!!» Sem nenhuma
+dúvida. Os seus amores são melhores que paixões: são simplices affectos.
+
+Uma cultura especial, e o influxo dos ares que respiram, operaram
+n'ellas, sem as destruir, uma curiosa transformação: tinham nascido
+flores singelas para fructificarem vulgarmente; uma jardinagem milagrosa
+as converteu a pouco e pouco em flores dobradas, mais fragrantes, mais
+para cubiças. Do que originariamente havia de servir para a reproducção,
+fez petalas; fez viço; fez flor de flor: monstruosidade embora para o
+botanico e para o naturalista, mas ufania para a terra, e orgulho para a
+arte, que, sem destruir a natureza, logrou apresental-a com aspecto mais
+formoso. D'estas flores viventes póde coroar-se a Religião, que são
+dignas d'ella; póde inspirar-se a Poesia, que em nenhuma outra parte as
+encontrará tão celestiaes; e póde a Moral mesma comprazer-se, que tem
+n'ellas modelos perfeitos de virtudes, sempre raras, e cada vez mais
+recommendaveis.
+
+¿Mas teimais em perguntar que é o que realmente amam estas mulheres?
+Tenho medo de que não chegueis a entendêl-o bem, porque eu mesmo,
+grosseiro, carnal, mundano como vós, não cheguei ainda bem a
+explicar-m'o. Para isto, falta-nos a nós todos um sentido, sentido sem
+nome, que descobre mil coisas subtis no mundo moral; a metade mais
+delicada da nossa especie é que o possue; as mulheres é que o saberiam
+explanar.
+
+Se em espirito devassâmos a furto uma clausura, ¿que é com effeito o que
+descobrimos n'aquelle mundo tepido, tão suave, melodioso, e perfumado
+por dentro, como triste, áspero e mudo parece cá de fóra? A alteza dos
+muros, e as grades de ferro, têem razão: não estão ali para evitar a
+fuga; estão porventura para disfarçar a seducção do retiro, que, a ser
+conhecido, fascinava excessivamente; estão sobre tudo para rebater
+audacias de desejos impuros, qua a pureza mesma attrahiria, como o balir
+manso das ovelhas no aprisco está innocentemente chamando os lobos em
+seu damno.
+
+Por traz d'aquellas gradarias severas, d'aquellas muralhas ameaçadoras,
+está uma cidadinha toda feminina, sempre em paz e em festa; paz
+talvez com leves quebras, para melhor se apreciar; festa sem tumulto nem
+estrondo, sem custosos preparos, nem recordações afflictivas.
+
+Os dormitorios são bellas ruas direitas, calçadas de lageas polidas, e
+onde o silencio, amigo da meditação, se casa harmoniosamente com a
+sombra fresca, e deixa perceber o som dos proprios passos que vêem da
+extremidade opposta, como se até o andar tivesse ali a sua reflexão.
+
+Por ambos os lados d'estas ruas, abobadadas como hoje as de Herculanum,
+e condecoradas cada uma com o gracioso nome de uma Santa, se enfileiram
+os modestos palacios das habitantes. As portas sem chave, á primeira
+saudação affectiva, ao minimo toque, se descerram. Descobre-se no
+interior a riqueza da desambição; um sorriso hospedeiro, que illumina
+tudo como sol; o leito alvo para os alvos sonhos; os paineis
+meditabundos, que a musa da lenda explica, ora em idyllios, ora em
+phantasticos romances, ora em tragedias gloriosas. Sobre a mesa sem
+espelho, a jarra de flores entre duas velas de cera alvissima, e alguns
+livros, d'estes cuja leitura se interrompe a scismar, e se continua
+mentalmente por uns mundos nunca vistos, em que tudo são maravilhas. Um
+pintasilgo saltitando e scismando tambem n'alguma coisa do passado, do
+futuro, ou do possivel, alterna suspiros e cantares, pendente do tecto
+na sua thebaidasinha de arames, enfeitada de ramos frescos; vê de um
+lado a arqueta do seu pão sempre cheia, do outro a sua cisterna de
+vidro, em que se mira como Narciso, em que bebe como a Samaritana, ou se
+banha na sésta como odalisca; em baixo, vê a sua providencia, que em
+fórma de boa amiga o considera, lhe fala, e interrompe os seus lavores,
+ou orações, para lhe atirar beijos. Emfim: a janella completa as
+magnificencias do palacete, juntando-lhe, como dominios contiguos, o
+vergel proximo, e o ceo, que pouco mais distante se figura.
+
+Nas casas d'esta singular cidade, que o mundo não vê, e muito d'elle não
+quer ver, para mais a seu salvo a poder negar, ajuntam-se frequentemente
+assembléas, em que se não gosa por certo á moda de nós outros, mas se
+gosa não menos, e talvez mais, á moda do ermo: são conversações entre
+espiritos. Se as paixões vehementes as quizessem invadir,
+resvalavam-lhes pela superficie. Os affectos sim que as povoam, e
+constituem a sua essencia; é um papear como dos passarinhos n'um bosque
+ao principio e ao fim do dia; porque n'aquellas vozes meigas, ora
+transpiram os influxos de um crepusculo, que apoz as trevas se abre para
+um dia grande, ora os de outro crepusculo, que se vai a pouco e pouco
+fechando sobre as alegrias, para acabar na escuridão; mas, quer um, quer
+outro, todo o crepusculo tem rosas, todas as rosas teem amores.
+
+Não se discutem ali, nem as novidades do periodico, jornal das modas dos
+politicos, nem os caprichos dos enfeites, politica das mulheres. Os
+eccos dos espectaculos, dos motins, dos escandalos, das heroicidades,
+das demolições e das edificações das outras cidades, das grandes, das
+Babylonias, ou não chegam até esta povoação, ou lhe entram tão
+amortecidos e como de coisa tão extranha, que nada ou pouco desconcertam
+a immutabilidade do pensar, e nada absolutamente a do viver.
+
+O amor sensual é da Natureza, não ha duvida, e não entra ali;
+afugentam-n-o, exorcizam-n-o, como o demonio do meio dia e da meia
+noite; debalde o pobresinho se faz Protheu para as captar: agora
+cantando-lhes convites d'entre a copa de uma arvore, agora passando como
+viração que vem de ver namorados, e vai correndo por cima das hervas
+trémulas a espreitar outros; uma vez é som de flauta longinqua, que
+desperta suspiros por onde passa; outras, um nome de homem proferido ao
+acaso, palavra sem virtude onde elles abundam, mas ali occasionadora de
+devaneios; reveste a fórma de alguma coisa, de alguma pessoa, de algum
+sitio, de alguma scena, que se viu em quanto se andava lá por fóra, em
+que se ficou pensando, e que ainda na memoria do coração se não apagou.
+
+Sim, sim; não ha negál-o: o Amor, ladeado das Graças, deve espreitar bem
+a miude, trepado nas grades exteriores, para o que vai lá dentro, como
+os passeantes n'um jardim devoram com os olhos as flores e moveis de uma
+estufa, ou como as pombas de Pygmalião lhe consideravam as frias e
+ridentes estatuas da officina.
+
+¿Mas que mal faz isso? tambem as Amazonas haviam de ser salteadas,
+não raro, por vagas tentações voluptuosas. Todavia, a gloria de lhes
+resistirem, junto ás occupações que lhes enchiam a vida, as mantinha
+satisfeitas umas das outras, e ufanas do seu forçado celibato.
+
+Toda a differença é: que as heroinas do Thermodonte, cortando o seio
+direito para melhor pelejarem, como que despediam de si metade da sua
+feminidade, e, endurecidas com a prática das guerras, se indemnisavam
+com a alegria de vencer a inimigos, dos deleites de serem vencidas por
+amantes; ao mesmo passo que estas amazonas pacificas da Religião,
+conservando inteira toda a sua sensibilidade, a enganam, dispartindo-a,
+furtada aos impetos da natureza carnal, por um cardume de objectos qual
+a qual mais consentaneo á sua indole delicada: é o trato das flores, que
+são suas irmans; é a creação dos passarinhos, que são, voadores do ceo,
+os irmãos de suas almas; o canto, exercicio de Anjos; é a caridade,
+enlevo do Creador; são as miragens infinitas da esperança; são as
+perdoaveis altivezes de um estoicismo temperado; são tambem os
+entretenimentos manuaes: ora de vestir e ataviar a santa Imagem
+predilecta, que para o coração suppre uma filha, ora de coser o enxoval
+branco para a creança que está para nascer na cabana visinha, ora tambem
+de seroar na grinalda de flores de laranja, com que se ha-de enfeitar no
+seu dia grande uma noiva muito amiga.
+
+¿Que são os presentes que saem continuos d'aquelas portas, se não coisas
+todas formosas e suaves como a cera e o mel das colmeias? laminas
+devotas e scintillantes; doces de mil gostos, de mil côres, de mil
+fórmas; flores e fructos artificiaes, com que as abelhas se enganariam;
+aromas para toucadores e festas; cartas, mensagens, e convites quasi
+pueris na simpleza, e sempre rescendendo á innocencia mais sympathica e
+mais alegre.
+
+O segredo de tantas e tamanhas branduras, por si mesmo se descobre: a
+mulher no trafego do mundo, se infiltra suavidade para o sexo forte, com
+quem convive, recebe d'elle em troca o que quer que seja de mais grave,
+que não quero dizer de menos extremoso; e uma beneficiação mutua e
+perenne, que a Providencia ideou quando partiu em duas metades a nossa
+especie; mas a mulher na convivencia exclusiva do seu sexo, mantem
+inteiras, completas, e no mais perfeito estado de graça original, todas
+as suas disposições nativas; é como a violeta, que emboscadinha á sombra
+conserva o cheiro subtil e o frescor virginal, que as mãos e o sol lhe
+estragariam.
+
+A mulher aqui não é esposa nem mãe, porém não deixa de ser mulher, se
+não que o é em muito maior auge.
+
+¿Não vos basta? ¿deplorais a encantada cidadinha por estar carecente de
+praças, de passeios, de espectaculos? Outro engano; outro engano
+manifesto: ¿pois não são donosas praças aquellas crastas arborisadas,
+com suas sonorosas fontes de repuxo no centro, e á volta majestosas
+arcarias á romana? ¿claustros guarnecidos de baixo a cima com azulejos
+de biblica erudição, não recordam os Porticos, em que os antigos
+senhores do mundo se espaireciam das calmas por entre estatuas e
+pinturas de suas fabulas? ¿não são passeios publicos, e mais apraziveis
+por libertos de constrangimentos, os jardins, os pomares, as frescas
+hortas da cerca? ¿theatro de espectaculos augustos, não o será o templo
+aos olhos da fé e da piedade? ¿não se representam ali em seus dias
+prefixos todos os lances da vida do Salvador, desde o Presepio até ao
+Calvario, desde o Calvario até á Ascensão? ¿todos os passos da Rainha
+das Virgens, desde a sua Natividade até á sua Assumpção? ¿todas as
+glorias dos principaes Bemaventurados? ¿Não é ali, no magnifico
+santuario, que entre a profusão de marmore, luzes, oiros, sedas, flores,
+incenso, resoam em musicas solemnes, que só o orgam é digno de
+acompanhar, os mais graves e poeticos pensamentos dos Prophetas, dos
+Apostolos e dos Doutores, e que, inspirando-se de todos elles, a
+eloquencia sagrada derrama a doutrina para a ignorancia, a esperança
+para os afflictos, os desenganos para os vaidosos? aos pobres annuncia
+thesoiros, thronos aos conculcados, festins eternos aos famintos,
+sobrecorôa aos Santos, invoca luz perpetua para os finados, e vôa, como
+o Dante, por uma espiral infinita, do fundo dos abysmos até ao cume do
+firmamento.
+
+Cada festividade é precedida de longe pela ancia de a ver chegar, e
+deixa apoz si recordações para muitos dias.
+
+As donzellas dos salões, que revolvam e troquem entre si memorias
+das contradanças, do valsador infatigavel, do discreto que as entreteve,
+dos trajos e penteados que se distinguiram, do novo duetto que se
+executou, do romance ou das poesias que se annunciaram de autor querido,
+de uma inclinação encoberta de que já todos segredavam, do baile
+estrondoso que se ia ter, de uma regata, de um duello, de um passeio a
+Cintra, de uma lua de mel, ou de uma exposição de bellas-artes. As
+virgens do que se cuida solidão, não acham para si menor nem menos
+attractivo assumpto, o revolverem na conversação, o repastarem no
+espirito, as circumstancias, os minimos accidentes, de que se acompanhou
+o dia festivo do seu templo; os enfeites e a elegancia de cada altar, o
+inesperado primor d'esta ou d'aquella cantora, a maviosidade com que o
+orgão gemeu na Adoração, o como a ponto acudiram de fóra o repique e a
+girandola, o rasgo de pintura, ou de affecto, com que o orador
+maravilhou o auditorio, a multidão e a variedade de vestidos que
+affluiram á egreja, as largas distancias d'onde accorreu povo a ella, a
+satisfação com que todos sahiram, e o bello e saudoso effeito que fazia
+aquella torrente ondeante de cabeças, ao engolfar-se e desapparecer da
+nave para o terreiro, por baixo do côro, como um rio fugaz por baixo de
+uma ponte inabalavel.
+
+Direis que ha um travo particular de tristeza em tudo isto. ¿E quaes são
+os prazeres do seculo em que esse resaibo se não mistura? denunciae-me
+um unico, se o descobristes.
+
+Murmurais que em tudo isto é sempre mais ou menos a contemplação inerte
+e passiva, e que a vida fraudada de todo o movimento proprio e
+espontaneo não é vida.
+
+¡Mas então não sabeis que n'aquelle povoado ha tambem, a seu modo, uma
+Paschoa de flores, estreias de anno bom, fogueiras de S. João, dias
+duplices para regosijos, banquetes e alegrias de abbadessados, visitas
+ao locutorio, quanto mais raras tanto mais bem vindas, e em que o ermo e
+o mundo se confrontam de perto! e não é por certo o ermo o que mais se
+póde queixar do seu quinhão.
+
+¿Que dirieis vós da monja, que negasse existirem passatempos nas nossas
+cidades, só porque os não via, e descriptos os não imaginava? Pois outro
+tanto podia ella dizer, se o não diz, de vós outros, que descredes
+da bemaventurança da sua cidadinha.
+
+O cenobio, tal como o esboçamos aqui, existe em realidade; e contra os
+d'esta especie não aventamos que séria objecção possa pôr a philosophia
+humanitaria. São refugios para corações feridos, que em nenhuma outra
+parte o encontrariam; são asylos para muito desamparo da fortuna; são
+taboa de salvação para muito naufragio; repoiso para muito cançaço;
+gruta mysteriosa para muito animo poetico; seguro para muita innocencia;
+e se a Liberdade os não pode proscrever sem contradicção, sem a si
+propria se annullar, a philosophia, mãe, filha, e socia, da mesma
+Liberdade, o que só pode contra taes mosteiros, ou antes em favor
+d'elles, é exigir que os severos votos, aliás licitos em si mesmos,
+sejam soluveis, e se desatem apenas finde a vontade que os dictou; e que
+a prepotencia, a ambição barbara, calculos ou vinganças, não atirem para
+os pés do altar victimas consternadas, em vez de sacerdotisas radiosas.
+
+Franca a entrada, franca a sahida, o mosteiro não ficará sendo senão a
+séde do contentamento, da virtude, da perfeição, e até da Liberdade mais
+ampla, mais inoffensiva, mais formosa, mais completa.
+
+Apressemo-nos em confessar, que nem todas as clausuras se assimelham a
+esta que entrevimos, de que já existe metade, e de que a outra metade
+hade vir por certo, quando ressentimentos politicos emmudecerem, e a
+razão dos povos, desassombrada de todo o genero de preconceitos, for
+adulta e governar.
+
+Não; nem todas as clausuras são assim; e contra as que assim não são,
+pouco nos magôa que a Philosophia troveje, e que a Liberdade se levante.
+O convento que amamos e defendemos, o convento que o bom senso applaude,
+que a natureza approva, que a cidade deve acarinhar, e o Céo cobrir com
+benção de prosperidades, está equidistante do convento fanatico,
+suicida, e assassino, e do convento relaxado, vicioso, onde impera, em
+odio aos ceos e á terra, o monstro execrado sob o titulo de _crasta_ na
+linguagem mesma das chronicas monasticas.
+
+Estes ultimos (¡ainda bem!) dissolve-os a podridão interna; passam, e a
+sua memoria só fica subsistindo nos contos asquerosos da escola de
+Bocaccio e La-Fontaine; mas a vida d'aquelles, mais dura, mais
+resequida, mais resguardada, não se gasta senão muito lentamente.
+
+A Religião e a Humanidade caminham sorrindo uma para a outra; logo que
+se encontrem n'um abraço estreito de irmans, para nunca mais se
+dividirem, aquelles institutos, que nem uma nem outra reconhecem por
+seus, ou hão-de desapparecer com todas as suas sevicias, como
+desappareceu a Inquisição, ou se hão-de converter á Natureza, cujas
+branduras licitas e bonissimas rejeitavam. Nunca mais uma triste mãe
+sentirá estalar-se-lhe o coração a fibra e fibra, vendo sumir-se-lhe
+para a catacumba de um claustro a filha mimosa das suas entranhas,
+creada com o seu leite, crescida entre os afagos, ufania dos seus olhos,
+bordão florido para a sua velhice. ¡Velhice! Que mãe, verdadeira mãe,
+poderia chegar até lá, dizendo-se a cada hora do dia:--«¡Nunca mais a
+posso ver!, ¡nunca mais a hei-de ouvir, se não fôr por sonhos! quando eu
+acabar de morrer, dir-se-ha no meio da communidade, silenciosa como
+espectros pallidos, e tremulos todos: _Resemos pela alma da mãe de uma
+de nossas irmans_; e nada mais, senão chorarem todas, suppondo-se todas
+orphans na orphandade que só é de uma.»--Á mesa, onde não vê sua filha,
+salgará com lagrimas o pão, porque a sua innocente, defecada da
+penitencia e dos jejuns, não terá, para matar a fome, no seu canto
+escuro e solitario, senão um pedaço de pão negro e duro, que o mendigo e
+o cão esfaimado de tres dias recusariam. Não poderá encarar com donzella
+alheia coberta de galas, e trocando risos de alma com toda a Natureza,
+sem logo se atirar de mãos postas, e debulhada em lagrimas, aos pés da
+imagem da sua ingrata, coberta de burel sêcco e mordente nas calmas do
+estio, descalça, apertada n'um cilicio, cortada das disciplinas,
+entregue aos mistéres mais trabalhosos e obscuros, definhando-se de
+semana para semana, com o coração já morto, com a alma já meio morta a
+pezar dentro na fronte pendida e despojada, ¡que não ha reconhecel-a! ¡e
+os olhos sempre no chão, á procura do sepulcro, que assim tarda! ¡Como
+dormirá e mãe, quando, encarnada pelo amor na pessoa da filha, cogitar
+(e cogita sempre) que a pobresinha nem tem, como a ovelha, um feno
+em que descance, mas pernoita vestida, ora n'uma taboa nua com uma pedra
+por cabeceira, ora prostrada em oração sobre as lageas regeladas do
+pavimento!
+
+Arredemos d'ali os olhos; mas isto existe. O proprio Martyr Sublime, não
+n-o póde ver sem pena do alto da sua Cruz, Elle que proclamou que o seu
+jugo era suave, e que fez do amar a pae e mãe o primeiro dos seus
+mandamentos em relação ao proximo.
+
+
+XXVII
+
+Vairão era de antigos tempos uma das casas religiosas da especie média
+entre os dois extremos, uma das poucas em que as familias piedosas e
+discretas punham confiadamente suas filhas a educar, para depois as
+reconduzirem ao mundo, graves sem fanatismo, puras sem mingua na
+sensibilidade, mulheres emfim, quanto mulheres o podem sêr, anjos
+perfumados em paraizo.
+
+Havia em Vairão outras educandas e seculares. Todas ellas, assim como as
+religiosas, davam a Maria a preferencia do seu affecto, sem que uma
+unica pensasse em lh'o invejar. É porque a doçura da sua indole fazia
+esquecer a superioridade do seu espirito.
+
+Ás prendas manuaes, em que primava, reunia o gôsto da leitura, até algum
+tanto o do estudo, e a meditação reflexiva, que extrema em cada
+escripto, como em cada conversação, o verdadeiro do supposto, e o
+proficuo do prejudicial:
+
+ _Florigeros ut apes per saltus......_
+
+Entretanto, dotada de um tacto verdadeiramente feminino, possuia a
+grande e difficil arte de se mostrar ao nivel do commum do seu sexo,
+quando mesmo as ideias que expunha desciam o vôo de mais alta esfera. Um
+veo de modestia, que ás vezes chegava a parecer timidez e acanhamento,
+temperava, por assim dizer, o brilho do seu saber, da sua imaginação, e
+do seu juizo, para não offender a miopía dos espiritos vulgares. Era-lhe
+até facil e usual o calar-se, simulando ignorar as coisas que melhor
+sabia, quando se arreceiava de humilhar a vaidade de quem quer que
+fosse; o que não tolhia que até as mais edosas a tomassem por
+conselheira, convencidas, pela experiencia, de que ninguem calculava com
+mais acerto do que ella, de que ninguem poderia guiar por mais seguro
+caminho a um alvo honesto e proveitoso.
+
+O melhor da herança de sua avó e de seu tio, o poeta, reduzira-se a uma
+boa porção de livros, francezes, hespanhoes, e italianos, quasi todos
+escolhidos e de substancia, e classicos portuguezes. Devorára, relêra
+tudo, comparando, assignalando o que tinha por mais ou menos bom, e
+enthesoirando o optimo em volumosos cadernos de excerptos, que,
+folheados por um litterato de lei, para logo lhe revelariam o apurado
+gôsto da collectora. O francez, o italiano e o hespanhol, se lhe
+tornaram d'esta sorte familiares. Quanto á lingua patria, essa, tradição
+e gloria de sua familia, foi a que sempre lhe attrahiu particulares
+desvelos; e em verdade, que ninguem a conhecia mais por dentro; ninguem
+a tratava com mais acerto, graça, e facilidade. Não é louvor pequeno
+este, mesmo para dama, e dama em provincia; em nossos dias sobre tudo.
+
+Sem pejo declararia eu aqui, se tal noticia podesse a alguem interessar,
+que do meu trato com ella é que principalmente se originou o meu
+empenho, não digo de classicismo, mas de vernaculidade em todo o caso.
+Não ha estudo, nem mais apetitoso, nem mais aproveitado, que o da fala
+da nossa terra, quando se tem por mestra uma mulher a quem se ama.
+
+Ahi me ia eu agora desviando por um atalho que não convém. Tornemo-nos á
+educanda de Vairão.
+
+
+XXVIII
+
+Cuido que não haverá ledor que não tenha lá o seu livro predilecto, para
+o qual de todos os outros se aparte por natural tendencia. O escriptor
+mais do nosso peito pode variar, e varia, com as transformações da
+edade, da saude, da fortuna, das circumstancias; mas ha sempre um, com
+quem melhor nos entendemos; com quem nos parece conversarmos; com quem
+permutâmos o nosso espirito, porque nos entende, e o entendemos, porque
+nos parece vivo e presente, e o qual por derradeiro chega a
+encarnar-se em nós, e a influir nos nossos actos e na nossa vida.
+
+A preferencia de Maria para as suas leituras, começadas n'uma pagina, e
+continuadas quasi sempre nos espaços imaginarios, não acertava porém
+n'uma só obra: pendia indecisa entre Petrarcha e Santa Theresa de Jesus.
+Eram dois caudaes brilhantes, ainda que tristes, que iam, patentes ao
+Céo um e outro, parar ambos n'um mar de affecto.
+
+¿Que alma houve jámais tão namorada como a da formosa de Burgos, a não
+ter sido a do cysne de Arezzo? ¿ou que espirito sé haveria de equiparar,
+na doce melancolia da adoração, ao segundo Dante, mais sympathico, se
+menos colossal, ao poeta, não já do _Inferno_, mas do _Purgatorio_ e do
+_Céo_ do amor, ao bom Petrarcha emfim, se a Hespanha, est'outra Italia
+das graças e das paixões, se esquecesse de procrear a Matriarcha das
+Carmelitas?
+
+¡Que espantosa similhança entre ella e elle!
+
+São dois corações desmedidamente grandes, a quem não basta para os
+encher qualquer affeição terrestre e vulgar, e que só em flôres e
+fructos de paraizo poderão achar confôrto.
+
+_Fulcite me floribus, stipate me malis, quia amore langueo. Loeva ejus
+sub capite meo, et dextera illius amplexabitur me._[3]
+
+O Cantor tão religioso, e a Religiosa tão cantora, como que só teem de
+corpo e sentidos quanto baste para os reter na terra dos deleites
+ephemeros, e retardar a sua fuga para regiões de affectos sem limite.
+
+Um e outro amam no intimo, pela delicia do amar, pela necessidade de
+amar, e sem pedirem mercê nem recompensa.
+
+Um e outro fabricam da sua ternura, religiões attractivas, dominadoras,
+perduraveis: elle, a dos trovadores mysticos e fervorosos; ella, a das
+noivas para a eternidade.
+
+Petrarcha tinha-se criado com as poesias voluptuarias da Roma classica:
+mas, de amavel pagão, que o estudo o podéra ter feito, se converteu em
+eremita namorado.
+
+Theresa, segundo ella mesma se nos historía, seduzida nos primeiros
+annos pelos feitiços do mundo, dominada da turbulencia da phantasia, e
+escandecida pelos fogos da juventude, só muito a poder de exforços, só
+depois de muito bafejada pela Graça, logrou desenlear-se das vaidades,
+pegar e lançar raizes no retiro.
+
+Ella e elle podem exclamar como S. Bernardo:--_¡O beata solitudo! ¡o
+sola beatitudo!_--porque para um e para a outra o ermo é egualmente
+povoado por um phantasma luminoso: lá, pela imagem de Laura; cá, pela de
+Jesus; dois verdadeiros ideaes dos amores ao mesmo tempo mais ferventes
+e mais castos.
+
+Petrarcha, sabe que não ha-de gosar Laura em toda a vida; espera e
+anceia, como Theresa, pelas bodas celestes.
+
+Theresa, desafoga a sua impaciencia, como Petrarcha, em jaculatorias tão
+mimosas, que a Esposa dos cantares se deteria para lh'as ouvir.
+
+ O POETA
+
+ Tennemi Amor anni ventuno ardendo
+ Lieto nel foco, e nel duol pien di speme,
+ Poi che Madonna, e'l mio cor seco insieme
+ Saliro al Ciel, dieci altri anni piangendo.
+
+ Ornai son stanco, e mia vita riprendo
+ Di tanto error; che di virtute il seme
+ Ha quasi spento; e le mie parti estreme,
+ Alto Dio, a te divotamente rendo.
+
+ Pentito e tristo de' miei si spesi anni,
+ Che spender si doveano in miglior uso,
+ In cercar pace, ed in fuggir affanni,
+
+ Signor, che 'n questo carcer m' hai rinchiuso,
+ Trammene salvo dagli eterni danni,
+ Ch'i 'conosco 'l mio fallo, e non lo scuso.
+
+
+ A RELIGIOSA
+
+ ¡Ay! ¡que larga es esta vida!
+ ¡que duros estos destierros,
+ esta carcel, y estos hierros,
+ en que está el alma metida!
+ solo esperar la salida
+ me causa un dolor tan fiero,
+ que muero porque no muero.
+
+ Acaba yà de dexarme,
+ vida, no me seas molesta;
+ porque muriendo, ¿que resta,
+ sino vivir, y gozarme?
+ No dexes de consolarme,
+ muerte, que assi te requiero,
+ que muero porque no muero.
+
+
+ O POETA
+
+ Io vo piangendo i miei passati tempi,
+ I quai posi in amar cosa mortale,
+ Senza levarmi a volo, avend' io l' ale,
+ Per dar forse di me non bassi esempi.
+
+ Tu, che vedi i miei mali indegni, ed empi,
+ Rè del Cielo invisibile, immortale,
+ Soccorri all'alma disviata, e frale,
+ Él suo difetto di tua grazia adempi.
+
+ Sicchè, s' io vissi in guerra, ed in tempesta,
+ Mora in pace, ed in porto; e se la stanza
+ Fu vana, almen sia la partita onesta.
+
+ A quel poço di viver che m' avanza,
+ Ed al morir, degni esser tua man presta:
+ Tu sai ben, che 'n altrui non ho speranza.
+
+
+ A RELIGIOSA
+
+ Ay! que vida tan amarga
+ dò no se goza el Señor!
+ Y si es dulce el amor,
+ no lo es la esperanza larga.
+ Quiteme Dios esta carga,
+ mas pesada que de azero,
+ que muero porque no muero.
+
+ Solo con la confianza
+ vivo de que he de morir:
+ porque muriendo el vivir
+ me assegura mi esperanza.
+ Muerte, dó el vivir se alcanza,
+ no te tardes, que te espero,
+ que muero porque no muero.
+
+¿Não parecem duas rôlas melancolicas respondendo-se lá do fundo de suas
+apartadas espessuras? E ainda n'este momento foi mais o cançaço da vida
+que lhes escutastes, do que verdadeiramente o impeto dos seus amores;
+esse é tal, que a muitos periodos da prosa da Hespanhola só falta
+mudar-se o nome de Jesus no de Saint-Preux, por exemplo, para se
+imaginar que se está ouvindo Julia de Wolmar; ao mesmo passo que muitos
+sonetos e canções do Italiano, trocado o nome de Laura no da Rainha dos
+Anjos, e encorporando-se n'um horario, muitos olhos devotos os regariam
+com lagrimas.
+
+_Valchiusa_ ou, como dizem, _Voclusa_, onde Petrarcha passa tantos annos
+sonhando com o espectro, primeiro de uma viva, que não vive para elle, e
+depois, de uma defuncta que nunca para elle morrerá, Valchiusa é para
+todos brenha alpestre, cavernosa, brava, despovoada, mas é vergel e
+universo para elle, e o casebre do seu refugio, palacio oriental.
+
+Outro tanto se figuram aos olhos de Theresa o escuro, o desconforto, a
+austeridade do seu mosteiro, e da sua cella.
+
+Aos eccos da voz italiana sahida d'aquelle esconderijo, como de um vaso
+rustico um perfume precioso, todos os espiritos poeticos se innebriam, e
+lhe respondem, imitando-a; o Camões cá no Tejo é um d'elles. Ás melodias
+da Castelhana, cardumes de almas suspiram de toda a parte, e vão
+procurar nos cenobios as voluptuosidades da penitencia.
+
+Ambos ficam sendo mythos: um, da perfeita idolatria tributada á mulher;
+a outra, da adoração perfeita, offerecida ao Salvador.
+
+Petrarcha, emfim, apparece á nossa imaginação, qual Roma o applaudiu em
+realidade, cingido no Capitolio com triplice coroa; _ter geminis
+honoribus_; a corôa de hera, como poeta; a de loiro, como triumphador; a
+de murta, como amante.
+
+Santa Theresa tambem a não concebemos senão tres vezes coroada: como
+escriptora e poetisa, pelos estudiosos; como virgem, pela Rainha das
+Virgens; como Santa, pela Egreja Romana.
+
+Não maravilha que a leitura assidua de taes obras, e então n'uns sitios
+e edificios tão moldados para as fazerem resoar em cheio, elevasse a
+alma poetica de Maria até ao enthusiasmo. Não admiraria mesmo se tivesse
+feito d'ella uma fanatica. Felizmente não succedeu assim, porque a
+absorpção ascetica da Bem-aventurada diluiu o que tinha de excessivo e
+perigoso, nas tendencias mais suaves e humanas do Visionario de _Laureta_.
+
+
+XXIX
+
+A secular amava o convento pacifico onde se criára, e que era, por que
+assim o digâmos, a sua patria, e o seu mundo; amava-o sim, mas nem por
+isso deixava de se inclinar insensivelmente para outro viver mais
+liberto e amplo, sobretudo mais natural, mais completo para o coração,
+mais conforme aos instinctos femininos. De tudo isto é que resultou o
+ennamorar-se, sem saber como, de um phantasma de poeta, que se lhe
+revelára como dotado de uma grande faculdade de amar, e cujos gostos
+amenos, e facillimos de preencher, tanto com os seus se harmonisavam.
+
+D. Anna Lucinda, a sua inseparavel e confidente (repisemos embora isto
+que ha pouco tocáramos) não se animou a contrariar-lhe a inclinação. Era
+freira, mas de grande juizo casado com grande virtude; não se
+assimilhava ás que parecem querer vingar-se do seu captiveiro, retendo
+n'elle, e attrahindo para elle com seducções de todo o genero, a
+incautas; portanto secundava, se não com exhortações, ao menos com o
+benevolo sorriso de amiga desinteressada, as visões mundanas de Maria.
+Autorisara-lhe a primeira carta; felicitara-a pelo exito que lhe ella
+surtira; deixara-a progredir; e fôra vendo com satisfação, ainda que não
+sem alguns longes de cuidado pelas incertezas do futuro, os progressos
+de um primeiro affecto, que de dia para dia se foi activando, até que
+chegou a verdadeiro amor, apaixonado e invencivel.
+
+Ora, em quanto Maria, de quem eu por então ignorava quasi todos estes
+pormenores, vivia, sem que as outras lh'a suspeitassem, vida tão
+romantica no seu mosteiro, outro tanto, pouco mais ou menos, acontecia
+ao que tinha a gloria de lhe occupar os pensamentos. Se ella se havia
+comprazido de crear nos dominios da phantasia uma especie de Ossian, sem
+cans na fronte nem rugas no coração, e disfructava o nobre prazer de ser
+apontada como a sua companheira, a sua guia até aos cumes de Morven, a
+aurora da sua alma, a interprete da Natureza para com elle, e d'elle
+para com os homens; eu da minha parte queria-lhe como á minha Malvina, e
+não dava já um passo na existencia sem me acompanhar do meu phantasma
+candido.
+
+Nunca então pensei em que d'esses meus sonhos acordados se podesse
+jámais fazer um livro, e muito menos que o houvesse eu em tempo algum de
+explicar, como agora estou fazendo.
+
+
+XXX
+
+¿Onde, quando, e como o compuz? ao acaso; por toda a parte; e sem me
+sentir. Não o poetei, trovei-o; menos ainda que isso: trovou-se-me elle,
+e eu colhi-o.
+
+Em realidade, e em mais de um sentido, reconheço eu ao presente que
+estes versos se aparentam muito menos com obra de poeta, que de trovador.
+
+¿Que eram com effeito, e que faziam, esses filhos prodigos do undecimo,
+duodecimo e decimo terceiro seculo, a que chamamos trovadores?
+
+Era o trovador pelo commum um moço de phantasia e arrojados espiritos,
+nascido as mais das vezes n'uma choupana entre a floresta e o castello
+feudal. Ainda no berço uma cigana lhe lêra a _buena-dicha_, em que
+ninguem creu.
+
+O unico livro em que solettrou foi a Natureza. O rouxinol, veio de
+proposito, mandado por Deus, um mez em cada anno, para lhe ensinar o
+canto; e quando elle repetia mais ou menos imperfeitamente essas lições
+selvaticas, a andorinha do seu beirado debruçava a cabeça fóra do ninho
+para o ouvir, e o animava a ir por diante; de cantigas de ternura,
+entende a andorinha como ninguem. Depois, a fonte prateada nas
+noites de luar o instruia nas sonatas argentinas da mandora; e as
+virações, depois de se terem detido no cimo dos carvalhos a
+escutar-lh'as, proseguiam o seu caminho aereo, comprazendo-se de as
+diffundir. Isto nos annos a crescer, mas ainda mancebinho, e ainda não
+trovador.
+
+Trovador, sagrava-o de repente um dia a dama do castello, sem attentar
+n'elle nem lhe saber da existencia. Foi elle, que do fundo da sua
+humildade a enxergou na capella á Missa por manhan cedo, ou na caça,
+montada no seu palafrem branco, ou á tardinha, entre as aias, no vergel.
+Desde essa hora perdeu liberdade e alegria; fez voto de não querer a
+alguma outra; pediu á fortuna, a todos os Santos e a Virgem, não que lhe
+obtivessem mercê de correspondencia, que fôra temeridade e loucura o
+esperál-a, mas unicamente o fazer-se d'ella conhecido por seus cantares
+nas _côrtes de amor_, quando já não fosse por seu denodo contra
+inimigos. Este voto secreto, sem testemunhas na terra, ignorado
+d'aquella mesma a quem se referia, improvisava algumas vezes um heroe;
+mas quasi sempre um poeta, em quem o fogo da paixão suppria a sciencia e
+a arte, duas coisas que faltavam ambas n'aquelles Orpheus da Provença,
+obscuros fundadores da poesia de toda a Europa.
+
+O ecco dos applausos, que lá em baixo no burgo animavam a nova musa
+elegiaca, pouco tardava que penetrasse até ao salão onde cavalleiros e
+damas se reuniam.
+
+O castellão desejava conhecer o talento seu vassallo, que algum dia
+porventura lhe immortalisaria as proezas; o villão, não sem pasmo seu e
+inveja dos visinhos, era chamado para vir com a sua mandora entreter uma
+hora do serão de inverno. Na enorme chaminé, estralava a fogueira; de
+seus espaldares lavrados, as nobres o consideravam curiosas; ¿quem
+poderia dizer a cada uma d'ellas se lhe não estava destinado um papel na
+historia, ainda sem titulo, que por acaso se ia abrir?
+
+O mancebo, em pé, de olhos baixos, na postura de um peregrino devoto
+perante um mausoleo de esculturas nobiliarias sob uma abobada de
+cathedral, começava a sua primeira recitação; se o effeito correspondia
+nos ouvintes á espectativa, o serão seguinte já lhe dava assento n'um
+escabello; tão insigne favor, redobrava-lhe posses ao talento;
+excedia os prestigios da vespera.
+
+Ao terceiro dia abria-se-lhe inesperadamente o Capitolio; era proclamado
+pelo marido, pagem, ou escudeiro da senhora, que muitas vezes era ella
+propria trovadora tambem, como Azalais Porcairagues.
+
+D'ahi ávante progrediam as coisas pelo seu álveo natural. A senhora era
+sensivel; a proximidade, tentadora; a poesia e uma gloria a nascer, mais
+tentadoras ainda que a proximidade. O pagem, a principio, contemplára
+com terror o abysmo que separava as duas situações. Voar da profundeza
+do seu valle natal até á altura vertiginosa em que se via, fôra um
+milagre; mas para se despenhar, sobrava a minima imprudencia. Era-lhe
+mister cantar o amor, sem denunciar a amada, nem a ella mesma. Mais e
+peior: era-lhe forçoso dizer muito, calando tudo; desconcertar ou
+prevenir suspeitas de rivaes, de invejosos, de cortezãos, e de soberbos;
+arrastar cadeias de bronze; como quem passeasse sôlto e alegre pelo
+relvado de um parque; ter a mira interior n'um ponto fixo, e a pontaria
+da bésta sempre n'outro.
+
+Tão desinteressado, tão heroico servir, não escapava á perspicacia de
+quem o inspirára. É a gratidão uma ternura, que sem custo fermenta e se
+faz amor.
+
+Um dia, não sei em que estação... talvez no estio, que é fogo; talvez no
+inverno, que é frio; no outono, que é melancolia; ou na primavera, que é
+amores; n'uma certa hora, d'aquellas em que uma estrella cai do ceo sem
+se entender como, um olhar da castellan baixava sobre o pagem, e lhe
+revelava a sua dita. D'ahi avante, eram dois segredos para esconder, em
+logar de um; eram dois infortunios occultos, fundidos n'uma felicidade
+ainda mais occulta. ¡Occulta! Nem sempre. ¡Que de tragedias, como a de
+Faiel, se não misturam com as festivas delicias na historia dos
+trovadores! ¡laudas de sangue por entre paginas doiradas!
+
+Alguma vez, ainda que rara, era a dama que tomava n'estas difficeis
+declarações a iniciativa: Margarida, mulher de Raymundo, senhor do
+Castello de Roussillon, fez a primeira proposta ao trovador, seu pagem
+Guilherme de Cabestaing.
+
+¿A que veem sorrisos de estranheza? a dama era tanto, e o servo tão
+pouco, na estimativa da sociedade de então, e a Natureza tendia tanto
+por todos os modos, pela magia do amor sobretudo, para a realisação do
+seu bemdito sonho da igualdade humana, que onde ao villão falleciam azas
+de atrevimento para se remontar até á esphera da castellan, emprestava o
+amor as suas á castellan, para ella baixar até á cabana do trovador.
+D'ali subiam juntos á felicidade. A abelha rainha da colmeia, e o
+insecto que ella escolhe d'entre os seus adoradores, vão, dizem os
+naturalistas, consummar nos ares, longe do alcance d'olhos, o mysterio
+por onde o enxame se regenera.
+
+Assim se ajudava com estas mui frequentes descidas das aristocratas a
+fusão das castas, e a restauração da dignidade humana. Talvez se possa
+presumir sem temeridade, que as fraquezas das grandes senhoras para com
+os seus subditos mais distinctos por gentileza, valentia ou talentos,
+não concorreriam menos para a demolição do feudalismo, que os
+monstruosos direitos dos senhores, ás primicias nos casamentos das
+villans suas vassallas.
+
+Deixemos porém philosophias tamanhas, que não cabem em tão pequena
+historia, e tornemo-nos a ella. Só digo que a humilde consciencia que eu
+tinha de mim, nunca me haveria permittido abalançar vôo até á eminencia
+moral onde habitava Maria; e que, se a minha alma era, como talvez
+fosse, a que Deus talhara para a sua, muito bem fez ella em vir provocar
+o seu trovador.
+
+Trovador, repito, e não cuido haver presumpção, nem modestia, se não
+verdade muito chan e muito clara, em appellidar assim o autor d'esta
+collecção; quando não, consideremol-a, se vale a pena, e comparemos.
+
+¿Que era com effeito o nativo e desartificioso trovar da edade média?
+falo do trovar namorado, e não do guerreiro, nem do satyrico; falo do
+que se comprehendia sob a denominação de _gaia sciencia_, e que dava
+assumpto ás discussões e sentenças das famigeradas _côrtes de amor_: era
+um verdadeiro trovar; uma caçada á ventura, sem guia nem itinerario,
+pelos campos da phantasia e do sentimento.
+
+A elegia dos Gregos e dos Romanos, começára chorosa, e passára, sem
+mudar de nome, a interpretar igualmente os desejos bem succedidos; e as
+festas do coração. A _gaia_, ou folgasan, _sciencia_, pelo contrario,
+tendo devido começar, como o seu nome o inculca, por celebrar as boas
+fortunas, foi por natural pendor descahindo a pouco e pouco para a
+tristeza, para a saudade, para a desesperança, que vieram por derradeiro
+a constituir o habito e principal caracter da poesia da edade média.
+
+O cantor apaixonado era o proprio heroe dos seus cantos. A historia que
+celebrava, em termos vagos, mysteriosos, sem referencia a nomes certos
+de pessoas nem logares, não era d'estas que podem ser vistas em quanto
+se operam; não se compunha de actos exteriores; corria toda no mundo dos
+espiritos; entrevia-se apenas sob um veo de mysticismo, muito similhante
+áquelle com que a linguagem theologica obumbrava os mysterios da
+Religião; percebia-se sempre pelo fundo da scena ir e vir uma figura de
+mulher, encarregada de algum papel singular. ¿Mas quem era ella? Ninguem
+o affirmaria. ¿Amava? sabia-se que era adorada; sabia-se que o merecia;
+nada mais.
+
+O espirito do adorador attrahido, mas ao mesmo tempo intimidado, pela
+auréola, esvoaçava-se-lhe em roda, ora mais perto, ora mais longe,
+esperando e desesperando, impondo silencio aos sentidos, e cilicio aos
+appetites, sem de todo os poder domar; feliz como um anjo, infeliz como
+um demonio; invejando toda a especie de glorias para merecer, invejando
+a paz dos mortos para descançar; maldizendo e apertando os laços;
+misturando, como as creanças, o riso com as lagrimas; e não admittindo
+para confidente senão as arvores e o vento, os rios, as flores, e as
+estrellas.
+
+Tal foi o trovar nas eras juvenis dos enthusiasmos, quando os homens que
+não eram cavalleiros eram poetas, os que não eram poetas eram
+menestreis; quando a mulher na Europa tinha um altar, e Christo na Asia
+um sepulcro, e a devoção d'aquelle sepulcro e a d'este altar traziam em
+fluxo e refluxo contínuo as povoações. ¡Extraordinarios tempos, em que a
+heroicidade era lyrica, e as fraquezas heroicas! tempos extraordinarios,
+resumidos em dois versos pelo seu chronista epico, o Ariosto:
+
+ _Le donne, i cavalier, l'arme, gl'amori,_
+ _Le cortesie, l'audaci imprese io canto._
+
+Abstrahi do que se referia ás guerras dos Logares santos; recordae só os
+cantares de galanteio ascetico, e, sincera paixão do fim do seculo
+undecimo, do duodecimo, e do principio do decimo terceiro, se porventura
+os lestes; sentireis isto mesmo que eu vos confesso: que toda a presente
+poesia não parece senão um ecco tardio do cantar nativo e ainda inculto
+dos Provençaes. Não os conhecia eu ainda quando a compuz, nem me parece
+que se os conhecesse os tomaria para exemplares; mas o certo é que os
+meus amores se assimilhavam aos de muitos d'elles em mais de um ponto; e
+portanto, sendo eu sincero, como elles o tinham sido, era impossivel que
+a lyra em que eu improvisava, não gemesse, sem o cuidar, no estylo da
+mandora, da mandora pendurada ha mais de seiscentos annos no cemiterio
+das litteraturas.
+
+Maria continuava a ser portanto para mim, ainda depois de convencida de
+existir, a minha nobre dama encantada no seu solar remoto e
+inaccessivel; e eu, o servo seu poeta, cantando-a só pelo gosto e pela
+necessidade de a cantar.
+
+
+XXXI
+
+A maior parte dos meus versos não lhe chegava ás mãos, nem mesmo
+apparecia ao publico, ou se revelava aos amigos. Recatava-os a ella,
+parte, porque os sentia inferiores ás continuas, tão gentis e tão
+admiraveis paginas das suas cartas; parte, porque aqui ou acolá
+desdiziam d'aquella virginal e santa pureza, de que a minha imaginação e
+a sombra do mosteiro m'a revestiam, e que realmente era, e foi sempre,
+um dos seus maiores attractivos; então aos olhos extranhos sonegava-os,
+e mesmo aos ouvidos dos intimos, porque me repugnava poder outrem
+espreitar para dentro do ninho das nossas almas. Amava só para mim;
+poetava só para mim; e poetava como amava: sem premeditação, sem
+esforço, sem reconsiderações, e sem emendas.
+
+¿Bons tempos, que tão verdadeiros fostes, como vos desvanecestes?
+¿como passastes vós, eternidades voluptuosas?
+
+Compunha eu tudo isto como as arvores ora murmuram, ora rugem, ora gemem
+varrendo o pó com as ramas, segundo passam por ellas os zephyros ou os
+furacões. Toda a differença era: que a mim, as bonanças e as tempestades
+não me vinham de fóra; formavam-se umas e outras inesperadamente na
+phantasia.
+
+
+XXXII
+
+Aqui uma voz imperiosa da consciencia me intíma que não demore por mais
+tempo uma solemne reparação. Faço-a de joelhos abraçado a um cipreste.
+Concluida ella, espero que me levantarei da terra alliviado.
+
+Os ciumes que obscurecem a ultima parte d'estes cantos, existiram sim;
+
+ _........quis enim securus amavit?_
+
+mas causa, mas pretexto, mas sombra de pretexto para as suspeitas, nunca
+jámais a encontrei no pobre Anjo que eu flagellava. ¿Mentia eu pois?
+¿Calumniava para ser algoz? ¡Longe tão infame supposição!
+
+Houve delirios na minha alma, e reproduziram-se nos meus versos. Eis ahi
+tudo.
+
+O meu amor era verdadeiro; e todo o verdadeiro amor é visionario, é
+supersticioso, é pessimista; e, similhante áquelles enfermos que
+preferem aos alimentos sãos e agradaveis, substancias amargas e nocivas,
+procura por uma tendencia irresistivel, desencanta, cria para si
+tormentos reaes, e com aquillo mesmo que o devêra destruir se vai cevando.
+
+Se eu ouvia o caso de uma infiel, de uma enganadora qualquer, de que
+tantas se nos deparam nas historias, nos romances, nos poemas, nos
+dramas, e na vida contemporanea, perguntava-me logo, com terror, ¿quem
+me affiançava a lealdade de Maria? ninguem, senão as suas cartas. Então,
+esquecendo que a assiduidade, e sobretudo o estylo d'ellas, excluiam
+toda a razão de desconfiança, a poder de meditar no possivel,
+convertia-o em provavel, e do provavel me abortava o certo. ¿A
+paixão com que eu me lisonjeára nas horas desanuveadas e alegres,
+merecia-a eu porventura? Sabia que não. ¡Logo, que insensatez no contar
+com ella! ¡depois, a distancia! ¡depois, as suggestões da solidão, mais
+tentadora ás vezes que o povoado! ¡depois, annos preteritos que podiam
+ter semeado tanta coisa! por ultimo, ¡uma indole tão manifestamente
+inflammavel! Tudo, até as suas cartas mais ardentes, até a sua insolita
+deliberação de se me offerecer, tudo então depunha conteste contra ella
+no tribunal tumultuoso da minha alma. Os sonhos se me tingiam na cor dos
+pensamentos lugubres de todo o dia; e eu, carecente de noticias reaes e
+positivas com que os rebater, acceitava os seus embustes como revelações
+vindas, fosse d'onde fosse, mandadas não sabia por quem nem para quê,
+mas nem por isso menos attendiveis.
+
+Sonhos, acceitos como prophecias, e meditações extravagantes como os
+sonhos, ahi tendes as unicas fontes d'onde rebentaram essas elegias
+tormentosas, que eu haveria queimado quando acordei e volvi a mim, se já
+então se não tivessem derramado por esse mundo.
+
+Desabafei-me de um peccado horrendo; levanto-me, e prosigo.
+
+
+XXXIII
+
+O mais do volume dimanou puro e sereno do coração namorado, mas em paz.
+A essa procedencia é que eu lhe attribuo, conforme toquei no prologo, a
+boa fortuna que logrou; que outros merecimentos não lh'os posso
+descobrir, por mais que lh'os procure. Como eram taes affectos os que
+n'elle predominavam, por isso levou, e conserva, o titulo de _Amor e
+Melancolia_; _Melancolia_ não ha separal-a do _Amor_.
+
+Affirma a Baroneza de Staël, com razão, que amor verdadeiro e alegre não
+cabe n'este mundo. Aos que levianamente a contradissessem,
+responderiamos com palavras tambem d'ella:--que ha mais gente habilitada
+para entender Newton, que para tratar a fundo d'esta paixão.
+
+Eu por mim cuido ter sido do escaço numero: o amor pareceu-me sempre um
+prado florescente de primavera, mas coberto de um ceo triste. O
+mesmo se representava a Maria, e isso explica a variante do titulo da
+obra _Novissima Heloisa_, designação que n'estas alturas já dispensa
+outros commentarios.
+
+O mais d'esta poesia, e muita outra a este modo, que depois se
+desaproveitou, (_trovas_, _tenções_, _solaus_, ou como melhor se lhe
+possa chamar) germinou com intervallos, ás vezes largos: que não foram
+tão poucos os annos que duraram estas relações. Ao longo d'elles,
+confesso que a intensidade do meu fogo não foi sempre a mesma. Não pode
+haver amor platonico sem um certo exforço da vontade; e exforços teem
+sempre isso comsigo: que o fragil da nossa natureza os obriga a
+remittirem a sua energia de vez em quando. Confessarei até que, se a
+minha vestal invisivel não fosse tão assidua em me velar a chamma, e
+alimental-a quando a pressentia enfraquecer-se, já póde ser que tivesse
+alguma vez chegado a apagar-se-me.
+
+Emquanto o coração estava em férias, emmudecia a Musa; mal que elle a um
+suave toque despertava em sobresalto, recomeçava ella os seus cantares;
+e o amor n'estas ressurreições não era menos vehemente do que a
+principio o tinha sido. Quem não dissimulou aquelle vicio, adquiriu
+algum jus a gloriar-se d'este pequeno merito.
+
+
+XXXIV
+
+¡Os arredores tão poeticos da minha Coimbra conspiraram com o amor para
+se me florirem estes improvisos! O Penedo da Saudade, a Lapa dos Poetas,
+a Fonte das Lagrimas, o Ó da Ponte, os sinceiraes do Mondego, tudo sabia
+dos meus segredos; tudo, em me vendo chegar, me perguntava por ella e
+m'a pedia. Mas era especialmente o Real cenobio de Santa Cruz o meu
+grande manancial.
+
+¡Quantos domingos de verão não voava eu sosinho para ali, a gosar curtas
+horas, mas tantas, que ás vezes se mettiam pela noite, tendo começado
+antes do meio dia! parecia-me que era para mim que D. Affonso, o
+Conquistador, e D. Sancho, o Povoador, que lá dormem como em casa sua,
+tinham edificado aquelle refugio; para mim só, e não para os Conegos
+regrantes, que D. Manuel e D. João III o engrandeceram e aformosentaram
+com tão regia, com tão prodiga bizarria.
+
+Ainda hoje, como no meu tempo (ainda no meu tempo, como em seculos
+atraz), pombas, pardaes, e outros passarinhos, se aninham, contubernaes
+e familiares com os carcomidos Santos de pedra, pelos nichos da alterosa
+frontaria exterior, como em poisadas tambem proprias e muito suas, e
+amollecem com a sua presença amante e festiva a austeridade do
+monumento; emquanto os orgãos gemiam lá dentro, cantavam elles cá por
+fóra. Quando as rezas matutinas começavam a espertar eccos pelos desvãos
+das abobadas sobre as campas de marmore brunido, já elles tinham dado as
+alvoradas ás virações do Mondego seu visinho. O rebentar estrondoso das
+horas na torre proxima, não os assustava; os sinos eram para elles aves
+de outra especie, inoffensivas tambem, só com a differença de se estarem
+captivas n'uma gaiola alta, e cantarem mais elevadas coisas, e para mais
+longe, pela terra fóra e pelos ares acima, caminho do Ceo.
+
+Na lyrica dos antigos poetas mesclava-se commummente com o folgar de
+festins e amores, quanto bastava do pensamento da brevidade da vida para
+mais avidamente se colherem as rosas ephemereas das voluptuosidades;
+aqui o fundo do poema era pelo contrario a melancolia saudavel, e as
+delicias mimosas da Natureza o seu accessorio.
+
+Isto, que em breve sigla se lia no rosto do convento dos quatro Reis, ia
+depois encontrar-se em copiosissima profusão no interior e nos vastos
+dominios campestres da vivenda. É assim que n'um esmerado volume
+biblico, paciente lavor de algum obscuro Raphael da edade media, o
+frontispicio floreteado e doirado annuncia logo as maravilhosas paginas,
+em que o texto devoto irá manando todo por entre um perpetuo paraizo de
+primaveras, animaes, sonhos, e devaneios. É assim tambem, que no sorrir
+de um bom velho se resumem os castos alvoroços que lhe abundam pelo animo.
+
+N'um festim opiparo toma cada um d'entre as iguarias e licores o que
+mais lhe desafia o paladar; a mim não me chamavam para Santa Cruz nem o
+templo, que deu brado em S. Pedro de Roma, e que Paulo III cubiçou
+conhecer; nem o santuario, orgulhoso museu de reliquias; nem a
+bibliotheca, assoberbada de sciencias sacras e profanas: ia girar á toa,
+e inebriar-me, sem ninguem saber, no dormitorio do _Silencio_; depois no
+da _Manga_, aviventado do estrépito de cascatas, que um sultão de
+Granada cubiçaria para os pateos da Alhambra. D'ali, escadarias de
+marmore, bem minhas conhecidas, me subiam para o meu passeio de
+predilecção: era o dormitorio de Nossa Senhora do Pilar.
+
+Pintae na ideia um corredor immenso, largo, alto, abobadado, pavimento
+de lagedo, paredes alvas, luz copiosa por zimborios no tecto, e janellas
+amplas ao comprido de um dos lados; do lado fronteiro, enfileirae portas
+de cellas; ponde n'um dos extremos uma grandiosa sala vaga; no outro,
+rasgae um portão bipatente que dê sem subida nem descida para um
+terreiro ajardinado; postae á direita do portão, como porteira
+obsequiosa, uma agigantada magnólia a emborcar das suas enormes urnas de
+prata reviradas, olores americanos, que Marco Antonio pagaria por um
+milhão de sestercios para a sua Cleópatra; moldae todo o terreiro, á
+direita com arvores, á esquerda com um extenso e levantado viveiro
+gradeado, compartido em republicas de aves de toda a especie. Ahi tendes
+o passeio amores dos meus amores; ahi tendes o foco mais activo das
+minhas inspirações.
+
+Eram as cellas habitadas; mas o corredor permanecia quasi sempre deserto
+e mudo, o que deixava as minhas phantasias em completa liberdade. Por
+mais de uma vez se me deu occasião de travar conhecimento com alguns dos
+religiosos; esquivei-a sempre. ¿Que tinha eu com elles, ou elles comigo?
+pelo contrario: necessitava de que nada me recordasse que elles
+existiam. Todos os seus cubiculos os tinha eu melhor empregado n'outras
+tantas virgens do Senhor. N'um dos mais centraes, fronteiro a uma
+janella de assentos, habitava Maria; D. Anna Lucinda á direita, no
+immediato. Voltado de costas para a janella, ou passeando por diante
+d'aquellas portas, distinguia, ora n'uma ora n'outra cella, as praticas
+de ambas; ouvia as suas conversações em voz baixa; deliciava-me com a
+doçura das suas falas, que eu não conhecia.
+
+[Ilustração]
+
+QUINTA DOS AZULEJOS (no Paço do Lumiar)
+Tal como era ainda em 1862
+
+Das innumeraveis cartas de ambas, que eu sabia de cór, me raiavam para
+dentro da alma as intuições de tudo que estavam de parte a parte
+pensando, sentindo, dizendo. Era o meu nome o centro fixo, em torno do
+qual volteavam todas as suas ideias, como um turbilhão de planetas de
+Venus, scintillantes, mas celestialmente immaculados. Tinham-me comsigo,
+como eu as tinha commigo. Maria e a sua satellite se animavam com meu
+fogo, e m'o reflectiam virginisado; irradiação argentina e mysteriosa,
+de que se formam sonhos candidos, transpirações de um coração que se
+coagulam em rosas, sobre as quaes logo outro se reclina.
+
+Eram estas visões tão claras, e estes extasis tão reaes, que bem
+provavam haver no mundo, como diz Shakspeare, alguma coisa mais do que
+os philosophos presumem; havia por força uma corrente e contra corrente
+de affectos sympathicos e harmonicos d'ella para mim, e de mim para
+ella; fluidos ethereos e celestes, que a Sciencia ainda não descobriu,
+mas que pelos effeitos se manifestam.
+
+Dizem que entre o Mediterraneo e o Atlantico, por baixo das aguas que
+passam contínuas pelo estreito, repassam encobertas outras tantas; são
+oppostas as direcções; mas os impetos caudalosos são eguaes, e não se
+contrariam. Cada mar toma quanto enviára, e restitue quanto recebêra. As
+columnas do _non plus ultra_ ficam desmentidas. Os dois mares, graças a
+esta corrente e subcorrente, não são mais do que um só com dois álveos e
+duas denominações.
+
+¿Estava Maria n'aquelle quarto? ¿ou n'outro, bem, bem longe? ¿Que
+importava esse accidente fortuito e impessoal? Longe ou perto, ali ou
+n'outra parte, estavamos, e sentiamos estar, em communicação directa. A
+corrente superior e clara, era para ella a dos meus transportes; para
+mim, a dos transportes--d'ella; mas ella e eu percebiamos não menos que
+enviavamos affagos, e que elles chegavam aonde se dirigiam.
+
+¡Ai, hora incendida e imperiosa de um meio dia de verão! ¡hora em que os
+passaros se calam a dormitar a sesta debaixo das folhas mais espêssas, e
+as cortinas das alcovas se fecham! via-a eu estar-se recreando n'um
+crystallino banho de affectos, que eu mesmo lhe andára enchendo, que
+a sua amiga lhe toldára de confidentes sombras, e onde a vigilancia de
+ambas não deixava penetrar olhos extranhos. Aquelle deleite, de que eu
+era tambem autor, me endeusava.
+
+Estava fóra de mim, sem saber onde. Por uma d'essas incoherencias que
+tão frequentes são nos sonhos, o logar era muitos logares ao mesmo
+tempo: era Vairão; era a Capital; agora, uma sala entre uma bibliotheca
+e um jardim; logo, um refugio campestre; e os moradores de cada um
+d'estes paraizos, sempre os mesmos dois, e mais ninguem. O phantasma das
+primeiras noites do laranjal de Almedina, era agora uma verdadeira
+donzella, vivente como eu, incontestavel como eu, que me falava, que me
+respondia em voz humana, a quem eu apertava e beijava com fogo a mão
+elastica e macia.
+
+Se algum som inesperado me quebrava a allucinação, e eu, reconhecendo o
+dormitorio, advertia na imprudencia de permanecer tão pertinazmente no
+mesmo pequeno espaço, retomava triste o meu passeio longo e solitario da
+porta do terreiro até a da sala vaga, e d'esta até á magnolia.
+
+A pouco e pouco me revertiam as fugidas illusões; as duas cellas
+tornavam a ser o meu sacrario, o meu palacio, a minha Cythéra. Mais
+cauteloso então o somnambulo, em vez de parar, afrouxava e emmudecia,
+quanto lhe era possivel, o passo por diante do asylo dos seus mysterios;
+applicava o ouvido da alma, e tornava a perceber, em termos sempre
+novos, e com circumstancias sempre diversas, as mesmas confidencias que
+o enlevavam.
+
+Mais de uma vez aconteceu abrir-se inopinadamente uma porta no corredor,
+e sair... ¡um Religioso! Áquella apparição mal agoirada, dissipava-se
+todo o mundo phantastico; ¡era como se um abutre se tivesse precipitado
+sobre um bando de pombas! As sombras de Maria e Anna recebiam um suspiro
+saudoso já a vinte leguas de distancia; e eu sahía pelo terrado dos
+viveiros, subia o arvoredo da quinta, e ia procurar junto ao Lago dos
+Cedros refrigerio contra os ardores da febre, que indubitavelmente me
+abrazava.
+
+
+XXXV
+
+O Lago dos Cedros de Santa Cruz de Coimbra era (não sei se o será ainda
+hoje) uma das mais donosas curiosidades de Portugal. Parece impossivel
+que o riscassem assim para Conegos regrantes de Santo Agostinho, para
+successores de S. Theotonio. Que o traçasse D. João V para uma cêrca de
+freiras de Odivellas, ou Luiz o grande, de França, para se estar com
+Racine ou Molière, ou com as gentis collaboradoras dos seus romances,
+nada mais natural.
+
+Era no cimo de um suave oiteiro, uma esplanada espaçosa, toda em
+derredor cerrada de uma alta muralha de cedros, tão a prumo, tão massiça
+e de tão renteada superficie, que não parecia senão muro solido pintado
+de verdenegro por algum Cinatti. Portas arqueadas, rotas na muralha a
+distancias eguaes, mettiam para alamedas seculares, que, descendo, e
+dispartindo-se, todas ennoitecidas, murmurantes, gorgeadas, cheirosas e
+ermas, iam buscar por outros pontos da cêrca novas amenidades, ou
+taboleiros de flores, ou fontes e repuxos, ou obeliscos de murta, ou
+estatuas devotas, ou inscripções meditabundas. Aos pés da muralha dos
+cedros corre um canapé rustico de porta a porta. O chão, atapetado de
+fina relva, abre-se no meio em um lago amplo e redondo, com sua ilheta
+ao centro, toucada de laranjeiras viçosissimas, a namorarem-se com toda
+a razão, verdes e doiradas, como o ceo azul, nas aguas crystalinas. Duas
+bateiras sem dono, mas que o amor e o prazer podiam com iguaes direitos
+reivindicar, são a flotilha d'este pequeno mediterraneo, d'onde, por
+mais que faça a circumfusa mystica do ermo, não logra desterrar umas não
+sei que lembranças e saudades da ilha de Chypre, e das nymphas que a
+imaginação grega enxergava por entre as ondas do Egeu. Ali ao menos é
+que eu ideára o _Banho das Graças_, descripto por Narciso n'uma das suas
+cartas; e ali é que eu devaneei o _Barquinho do lago encantado_, que vós
+lestes n'este livro.
+
+Nos assentos de cortiça, ou no velludo do relvado, folgava de me estirar
+a sós com o coração ainda agitado das scenas do dormitorio do Pilar.
+¡A taciturnidade do sitio, todavia tão melodiosa, vinha tão de molde aos
+soliloquios da Musa interior! Eu não pensava: borboleteava: deixava-me
+boiar na viração pelos dominios infinitos da alma, ora tocando n'um
+espinho e fugindo, ora poisando n'um jasmim e adormecendo.
+
+Ha horas d'estas em que a gente senhoreia o planeta, e não é d'elle; em
+que tudo quanto é solido, isto é, duro,--fixo, isto é, estorvo,--temido,
+isto é, tirannia,--elementos de que se nos compõe a vida real a todos
+quantos somos, se afunde a pouco e pouco e desapparece, e um relampago
+de bemaventurança nos envolve com a sua luz visionaria. N'estas horas,
+em que nos vingamos dos positivistas, recambiando-lhes o titulo de
+doidos com que elles nos calumniam, forçamos nós o destino a servir-nos,
+como escravo docil aos nossos minimos desejos.
+
+Fundia eu o possivel e o impossivel; corporificava-os; disfructava-os.
+Dos raios do sol fabricava palacios de oiro para Maria; das balsamicas
+exhalações dos cedros, mocidade perpetua para ambos nós. Conversávamos
+com os nossos irmãos passaros, perguntando-lhes se os seus ninhos
+continham tanta ternura como os nossos berços.
+
+¡E haver quem deplore a vida como breve, guando n'ella cabem d'estas
+immensidades! ¡Grande ingratidão! ¡profundissimo desconhecimento!
+
+«¡Delicias são, mas delicias que passam!» vocifera um incontentado. ¡Oh,
+que não passam! quando se cuidam idas, nol-as vem restituir a saudade.
+As proprias lagrimas, com que então as acolhemos, nol-as reverdecem;
+outra vez as gozamos, porventura mais formosas que no seu primeiro ser;
+e mais formosas e mais queridas sempre, de apparição em reapparição.
+Negue-o quem quizer; não se lhe inveja a philosophia. Eu por mim sei que
+tudo isto é muito verdade.
+
+N'esta propria hora, já tão remota, me estou eu ainda saboreando, como
+presente, nos feitiços do meu Lago dos Cedros; sou um espelho que
+embebeu a visão, e já não a perde.
+
+¡_O meu Lago_, disse eu! ¿e por que não? ¡se eu possui a pleno tudo
+aquillo, o possuo, e não ha força nem jurisprudencia que de tal me
+possam despojar! ¡Imaginavam os bons dos Conegos regrantes que eram
+elles os senhores d'aquelles dominios, _mea regna_!... e um sopro, que
+se levantou da parte do seculo, lhes sumiu todos os titulos de
+propriedade. Os meus não se escreveram em pergaminhos, e existem; e
+estão-se rindo de revoluções do mundo: _mea regnas_. ¿Sabeis porquê?
+porque a mim foi a Natureza, e seu filho o Amor, quem me fez a doação; e
+a elles, tinha-lh'a feito um chimerico direito regio sobre todo o solo,
+bens, e futuros, de nossa terra.
+
+No dia em que os despediram, como illegitimos detentores de uma
+propriedade commum, perderem um gozo material; e nada mais perderam,
+porque posse espiritual, comparavel á minha, nunca elles a chegaram a
+tomar. Não era para elles que as aves cantavam contentamentos, que as
+arvores vicejavam esperanças, que as fontes murmuravam nomes de
+ausentes, que as virações calidas exhalavam phyltros, que os effluvios
+das flores namoravam, e que a solidão era povoada; tudo isto, quem o
+disfructava era o poeta, que o está ainda disfructando.
+
+
+XXXVI
+
+¡Que grande erro social, que nefando peccado de prosa, não foi: que na
+hora audaz, em que se arrancaram do solo os troncos seculares carcomidos
+e sêccos das Ordens religiosas, se não mettessem logo para o logar
+d'elles plantações novas, de optima qualidade, que tão bem haveriam
+pegado! Extirpavam um preterito que ensombrava e assombrava; bem era;
+¡mas quantos queixumes e clamores se não teriam afogado á nascença, se
+logo semeassem, ali mesmo, futuros apropriados ás necessidades já
+conhecidas da presente edade, e das edades ulteriores!
+
+¿Estes conventos-palacios, estas cêrcas-principados e paraizos, estas
+grossas rendas, por que se não applicaram a abrigar e manter, isto é, a
+salvar, recompensar, e aproveitar, poetas, artistas, e sabios, que são,
+cada um a seu modo, outros tantos solitarios por vocação, e que do fundo
+dos seus ermos encantam o mundo com prodigios? Não ha Religiosos que
+mais deveras honrem e manifestem a Potencia Creadora. ¡Como a
+convivencia quotidiana, de todas as horas, diurna e nocturna, com
+tantos engenhos e talentos variadissimos, fecundaria a cada um com o
+polen de todos! ¡Como o pintor influiria no poeta, o poeta no musico, o
+musico no estatuario, o estatuario no historiador, o historiador no
+philosopho, o philosopho no moralista! ¡Como os bisonhos reaqueceriam
+com o seu fogo aos veteranos! ¡e os invalidos, se os lá houvesse,
+encaminhariam com a sua experiencia ás aguias no seu primeiro adejar á
+borda do ninho!
+
+Então sim, que todo este maravilhoso poema de Deus, chamado Creação, no
+qual todas as artes se travam e permutam em harmoniosa competencia,
+seria lido se traduzido em voz alta ás multidões; e em quanto o mundo
+physico se dilatasse em riquezas e commodidades palpaveis, haveria, aqui
+e acolá, grupos seriamente religiosos, que lhe estariam elaborando ares
+mais respiraveis para o espirito.
+
+Não é, não é utopia; que o digam, e infinitamente _a fortiori_, os
+caudaes litterarios e scientificos, de que foi matriz a ordem Benedictina.
+
+Depois de cahido o colosso monacal, sepultado no desprêso, quasi no
+esquecimento, e recoberto com montanhas de odios como o Typheu sob os
+promontorios da Sicilia, fôra valentia covarde hoje em dia, zêlo
+superfluo, e actividade ociosa e ridicula, restaurar o processo
+condemnatorio das Ordens religiosas, já trancado. Permitta-se-nos
+entretanto ponderar em proveito da ideia que aventavamos: ¡quão inuteis,
+comparados com estas congregações de sabios, de artistas, de poetas, não
+eram, por exemplo, aquelles reclusos de Santa Cruz de Coimbra! ¿Que
+beneficios lhes deveu o mundo em tantos seculos? ¿que vestigio deixaram
+da sua existencia? ¿que tradição, ao menos, de santidade? ¿Alcançámos
+nós ali algum successor de S. Theotonio, ou de Santo Antonio, d'este
+sympathico e popular Santo Antonio, que experimentou Santa Cruz e a
+refugiu por mal conforme ao seu espirito humilde e penitente? De todo em
+todo, nada.
+
+Estava sendo um feixe de homens absolutamente negativos:--nem
+illustrados, nem ignaros; nem aristocratas, nem democratas; nem
+beneficos, nem maleficos; nem do povoado, nem do ermo; nem
+desconsolados, nem contentes; nem escandalosos, nem edificativos.
+Apenas tinham de vida quanto bastava para não serem enterrados. O seu
+Prior subia uma vez por anno á Universidade, a abrir como Cancellario a
+sala dos exames privados, e voltava para a hybernação. Mostravam a sua
+livraria, como os tumulos dos dois Monarchas: sem tomarem d'elles, nem
+d'ella, coisa alguma; mostravam o seu santuario, como a espada de D.
+Affonso I: tudo reliquias sem virtude excitativa; mostravam as suas
+quintas com desvanecimento, mas bocejando. As Imagens de pedra, lá fóra,
+na frontaria da egreja, geladas e immoveis entre ninhos e hervinhas
+floridas, não eram menos insensiveis do que elles n'este banho da
+Natureza tão viva e voluptuosa. Tanto lhes diziam já a elles as harpas
+eólias das ramadas, como os vultos de marmore dos quatro Evangelistas,
+ou das tres Virtudes theologaes, o do seu Patriarcha Santo Agostinho, ou
+os conceitos mysticos estampados pelos azulejos. Indifferença para o
+Céo, indifferença para a terra.--Viver tal não valia a pena.
+
+Quando o anjo da espada de fogo os pôz fóra do eden, só poderam levar
+saudades do ocio descuidoso e farto que se lhes acabava; mas que
+deixasse nenhum vacuo a sua ausencia.... não deixou de certo. Não houve
+perda; mas podéra ter havido lucro, se, como vinhamos conversando,
+áquelle solipsismo de todo o ponto esteril, tivera succedido uma
+congregação nova:--a dos crentes no bello, a dos devotos das artes, das
+sciencias, da poesia; e dos que tecem coroas de luz para a civilisação.
+
+¿Mas que digo eu _não houve perda_? assim mesmo a houve, e, se bem se
+considerar, não tão pequena.
+
+Estes dominios arrancados ás Ordens religiosas, que lhes mantinham o seu
+cunho de perpetuidade, e os facultavam ao usofruto de toda a gente,
+passaram, pelo engôdo de quatro cobres, com que nem a pedra dos
+alicerces se pagaria, para a mão de um particular qualquer: um Silva, um
+Guimarães, ou um Vianna, que apeteceu palacio, hortas, e parque para a
+sua familia. Desde logo, trancados os portões a poetas, a amantes, a
+meditativos, dispersos os livros e os quadros, o espirito burguez
+começou por dentro a desfigurar tudo, a compartir, a amesquinhar, á sua
+imagem e similhança. Os Evangelistas, que escreviam tão attentos os seus
+livros havia tantos seculos, no estio á sombra das copas, no inverno
+á dos troncos, foram talvez dormir para algum recanto. O arvoredo, que
+só produzia meditações, produziu taboado ou carvão, e deixou livre a
+terra para crear mais algum moio de milho; o Maio levou tambem d'ali os
+seus ermitães, os rouxinoes, para onde houvesse menos especuladores e
+mais sombras, menos estrondo e mais Natureza, menos mundanidades e mais
+ninho.
+
+Inuteis por inuteis, excusados por excusados, antes aquelles semimortos,
+a quem acabámos de matar, do que estes taes vivos; e antes mil vezes que
+todos elles, a nossa ideal republica de talentos e de genios.
+
+¡Dá gosto a quem sabe dizer, como Christo ao Diabo, que o homem não vive
+só de pão, phantasiar o que haviam de dar de si estas novas colmeias,
+estes mixtos de gymnasios de exercitação, e Runas de repoiso! ¡os favos
+que ali se espessariam de poemas, de operas, de musicas populares, de
+romances, de historias, de philosophia, de sciencias, de tudo quanto ha
+de mais saboroso e nutritivo para a alma! ¡Como o soldado dos _Lusiadas_
+seria feliz, e quão mais copioso testamento de versos de oiro houvera
+deixado, a ter existido no seu tempo um tal refugio! Poupava-se ao amigo
+Jáu o trabalho de mendigar para elle, e á velha Barbara o vexame de lhe
+esmolar da sua pobreza
+
+¡E de Camões para cá, quantos até hoje, da sua familia poetica, que
+morreram á nascença ou se extraviaram e perderam, não estariam agora por
+cima das nossas cabeças a resplandecer!
+
+¡A terra e o ar a criarem-nos sempre n'esta região de benção, e nós
+sempre n'esta plaga de maldição a desperdiçarmos! Só tres seculos depois
+de mortos advertimos em que ainda não morreram, e nos lembramos de lhes
+ir buscar uma pedra para monumento. A honra aos ossos, essa que espere
+mais dois seculos; não tem pressa; agora descança-se.
+
+¡Pobre Camões! se a tua Santa Cruz, esse torrão inspirativo, onde tu
+mesmo havias poetado tambem nos dias da tua mocidade, fosse já então
+isto que lhe eu cubiçava nos meus entresonhos á beira do Lago dos
+Cedros, e te hospedasse com orgulho nas suas sombras, abastado, seguro,
+escutado, e applaudido de outros cysnes, não saberias ter suspirado
+no teu ultimo canto aquelle triste verso
+
+ _o gôsto de escrever que vou perdendo;_
+
+nem aquella estancia, que ainda nos faz córar por nossos bisavós:
+
+ Vão os annos descendo, e já do estio
+ há pouco que passar até o outono;
+ a fortuna me faz o engenho frio,
+ do qual já me não jacto, nem me abono;
+ os desgostos me vão levando ao rio
+ do negro esquecimento, e eterno sono;
+ mas tu me dá que cumpra, ó grão Rainha
+ das Musas, co'o que quero á Nação minha.
+
+O que tu pedias á Rainha fabulosa das Musas, haver-t'o-hia liberalisado,
+sem rogos, a esclarecida previdencia da Nação, então devéras tua, e de
+todos os que, como tu, se desvelam pela engrandecer.
+
+
+XXXVII
+
+Assaz e de sobra tenho sonhado; levantemo-nos, que são horas de nos
+irmos chegando ao fim da nossa jornada.
+
+Além de Santa Cruz, outros muitos sitios, onde o acaso me levou pelos
+arredores de Coimbra, e mais longe, vieram entretecer na tela do meu
+permanente affecto os bordados das suas peculiares inspirações.
+
+As _Ruinas do Mosteiro_, por exemplo, nasceram da contemplação
+melancolica dos restos do convento de Santa Clara, á beira do
+Mondego[4], e de uma visita de passagem aos destroços de um
+cenobio de monjas, não sei já de que Ordem, em Moimenta da Beira.
+
+As _Duas Palmeiras_, colhi-as n'uma excursão á magnifica matta do
+Bussaco.
+
+A _Rega dos pomares_, deu-m'a ao descahir de um dia de verão a quinta
+suburbana das Setes Fontes.
+
+A _Noite do estio_, passou-se me tal em realidade na quinta de Santa
+Margarida, n'um cedral que lá havia n'esse tempo, e já não ha, bem ao
+rés do Mondego. Era a noite (¡se podiam esquecer coisas d'estas!) era a
+classica noite da romaria annual do Senhor da Serra, quando bandos de
+peregrinos e peregrinas de longe, de muito longe, trajados de gala á
+moda de suas terras, enramados de verde, seguindo as violas, e
+alternando nas cantigas a devoção e os amores, veem pernoitar na cidade,
+pelas varzeas, pela ponte, pelas quintas, para seguirem juntos para a
+serra em começando o primeiro desmaiar de estrella na antemanhan.
+
+Até a _Feiticeira_ (¡quem o crêra! crel-o-hão agora, porque de vergonhas
+ficticias ninguem se jacta) a _Feiticeira_ mesma teve, sob os enfeitos
+ou disfarces da poesia, o seu fundo de realidade. Morava a boa da velha
+n'um casebre escuro da rua da Figueirinha; tinha fama, n'esse tempo, de
+ser uma das sibyllas que melhor atinavam com os futuros, e com mais
+certeira mão pescavam o perdido nos abysmos do passado. Rira-me eu
+sempre de gente d'esse lote, e espanto-me hoje de quem se não ri d'ella;
+mas poeta, criado com os supersticiosos Romanos, amante e com tão poucas
+certezas fixas a que me apegar, disse um dia entre mim:
+
+ _................... quid tentasse nocebit?_
+
+e dirigi-me para a nova Cumas, como podéra ter ido á tôa para outro
+qualquer passeio. Colhi prognosticos ruins; não lhes dei fé, mas sahi
+triste. O tempo (bem haja elle) os desmentiu de todo o ponto.
+
+
+XXXVIII
+
+Abraçára meu irmão, por muito livre e muito reflectida escolha sua, o
+estado ecclesiastico. Pelos meus gostos imaginais os seus; o parochiar
+nos campos, bem vedes se lhe não seria incentivo de ambições.
+
+Não ha viver mais poetico para um espirito amante do remanso e do
+estudo, e avido de bemquerenças, nem mais talhado para dar largas a
+uma actividade bemfazeja; diziam-lhe que era enterrar o seu talento e
+saber; respondia que antes era pôl-os, se porventura os possuia, onde,
+embora entre humildes, melhor poderiam resplandecer; e que, assim como
+uma egreja entre mattos e casaes era mais egreja, que cercada de ruas e
+tráfego, tambem a eloquencia podia ser impunemente mais viva, mais
+caudalosa, mais remontada e mais pathetica, e sobre mais formosa mais
+efficaz, e mais eloquencia em todo o caso, entre os singelos filhos dos
+campos, do que entre os zombeteiros moradores das cidades.
+
+A todas estas razões lhe acrescia outra, que elle não declarava, mas que
+eu bem sabia ser-lhe a principal: n'um presbyterio rustico, se o
+conseguisse, se nos devolveriam em commum dias, á feição d'aquelles que
+a leitura dos nossos poetas nos havia costumado a cubiçar.
+
+Cumpriram-se-lhe os votos. A senhora Infanta Regente D. Isabel Maria o
+proveu no Priorado de S. Mamede da Castanheira do Vouga.
+
+
+XXXIX
+
+A 23 de Outubro de 1826 entravamos, com o alvoroço da novidade, e cheios
+de vagos projectos não pequenos, pela alpestre região ás abas da serra
+do Caramulo.
+
+¡Nada mais avêsso ás amenidades que nos ficavam em Coimbra! ¡solo magro,
+ondado, mattagoso, ermo, roto de quebradas e algares, selvoso por
+intervallos, salpicado a longe e longe de alguma escassa póvoa recoberta
+de loisas ou de feno, e retalhado de rios e ribeiros profundos e
+pedregosos! ¡No descampado um passal, antiga quinta das Limeiras dos
+Condes da Feira, que ali se iam pelos verões montear javardos! ¡Ao
+centro do passal, e á beira da via publica, o templo de S. Mamede com
+seu adro arrelvado cingido de cerejeiras, platanos e nogueiras! ¡Por
+detraz do templo, emboscada, a residencia parochial! ¡Por detraz d'ella
+despenhadeiros até um rio, que o sol não avista em cada dia por mais de
+uma hora!
+
+Repicavam os sinos dando as boas vindas ao novo Pastor.
+
+--«¿Onde está a freguezia?» perguntavamos nós maravilhados:
+
+
+
+_¿Qui teneant (nam inculta videt) hominesne, feræne?_
+
+
+
+--«Dispersa, escondida pelos oiteiros, a uma parte e a outra, distancias
+muito largas.» O unico visinho proximo da egreja e do presbyterio era,
+lá para a orla do passal, S. Sebastião na capellinha branca, como que
+posto de guarda á sua profusa e rumorosa matta de sobreiros.
+
+Solidão silvestre mais caracterisada, não quero que a haja. A poesia e
+as festas da serra (que nada ha tão desamparado que não tenha suas
+festas e poesia) só depois e com o tempo é que tinham de nos vir
+apparecendo.
+
+Entrança tão desabrida infundiu-me tristeza; e o alvoroço em que o
+movimento e variedade da jornada nos trouxera, breve me degenerou em
+esmorecimento. ¡Se me vinham tão frescas e presentes as memorias, não só
+da cidade do Mondego, senão tambem da minha Lisboa natal, d'onde tão
+poucas semanas havia que eu sahira! ¡Vermo-nos agora de improviso
+sequestrados de todo o trato humano, em paragem na qual não havia porquê
+nem para quê numerar as horas, e onde a carranca dos sitios tinha um
+cunho tão profundo de immutabilidade, que o espirito se confrangia, e se
+gelava o coração!
+
+Pela primeira vez ali o namorado da Natureza se amuou, e teve com ella
+os seus arrufos.
+
+Se o permittis, ouvir-lhe-heis versos em que procurou desabafar:
+
+ A PRIMEIRA NOITE NA SERRA
+
+ _.................ibi hæc incondita solus_
+ _Montibus et silvis studio jactabat inani._
+
+ ¿Vélo? ¿Sonho? ¿Deliro?! Em solitario monte,
+ que se espanta de ver-me, e cuja austéra fronte
+ nada avistou jamais no amplissimo horizonte
+ do mundo a tumultuar, de cidades a rir...
+ n'este ermo ignaro, frio? mudo...
+ aqui... (¿deliro? ¿ou sonho?) aqui meu lar, meu tudo,
+ ¡o meu presente e o meu porvir!
+ Genio invisivel da montanha,
+ de astros, de sol, o ceo te banha;
+ o mar de longe te acompanha
+ no livre cantico sem fim.
+ Escada de Jacob da terra ao firmamento,
+ a mansão tua é monumento
+ da potencia, do amor, das glorias d'Eloïm.
+
+ Emquanto, em derredor do solio teu sublime,
+ a baixa terra vil que a instavel sorte opprime,
+ se volve, se transforma, e sua angustia exprime
+ n'um continuo anhelar, n'um confuso clamor,
+ a variedades sobranceiro
+ mantens-te qual surgiste, e do cahos primeiro,
+ e do diluvio assolador.
+
+ Silencio e paz comtigo habita;
+ o ermo é como o eremita;
+ loucas vaidades não cogita;
+ ama o seu rustico trajar;
+ em apparente inercia ama que ferva occulto
+ de seus affectos o tumulto,
+ seus extasis, seus ais, seus gostos, seu orar.
+
+ Sim, Genio da montanha, Archanjo de poesia:
+ eu creio em ti; eu creio em que alma ingenua, pia,
+ póde ouvir de tua harpa a casta melodia,
+ e abrazar-se de amor e endoidecer por ti;
+ sim; mas eu, frivolo, profano,
+ á solidão extranho, affeito ao mundo insano,
+ ¿que hei de esperar? ¿que tenho aqui?
+
+ ¿Toda a minh'alma se entristece,
+ e se confrange, e se ennoitece,
+ ao ver que a sorte lhe destece
+ de um sopro os aureos sonhos seus.
+ Sonhava applausos, gloria... ¡em desterro desperto!
+ sonhava mundo... ¡acho um deserto!
+ sonhava inda illusões... ¡e escuto-lhes o adeus!
+
+ Náufrago, perco a lyra em meio da viagem.
+ ¡Desço vivo ao sepulcro! ¡Em ti, fatal paragem,
+ quem me resurgirá! Dos montes a linguagem...
+ oiço... escuto... medito... e em vão quero entender;
+ é como uns sons d'ignota fala;
+ qual ás penhas o mar, me inunda e me resvala,
+ sem me abalar, nem me embeber.
+
+ ¡Oh! ¿á minh'alma taciturna
+ que importa, ó montanha soturna,
+ que de perfumes sejas urna
+ da terra erguida sobre o altar?
+ ¿que o ceo te ria azul, mais amplo e mais de perto,
+ que o sol doirado, ao teu deserto
+ mais cedo suba, e á tarde o desça com pesar?
+
+ Vir mais tardia a noite, a aurora vir mais cedo,
+ ¿que me aproveita? Inerte entre o immovel fraguedo,
+ só ouvindo os tufões e os corvos no arvoredo,
+ bramirei:--«¡Cresce o tempo! ¡oh! ¡supplicio cruel!
+ ¡são mais pesares, mais saudades,
+ mais estro a arder em vão, mais visões de cidades,
+ mais tentações a dar-me fel!...»--
+
+ ¡Ai! ¡mundo! ¡ai! ¡eccos seductores!
+ ¡Tanto vate a ceifar louvores!...
+ ¡Tanto moço a colher amores!...
+ ¡Tantos loireiros e rosaes...
+ E eu n'esta solidão a torcer-me arraigado,
+ qual roble que geme indignado,
+ vendo ao longe no Oceano os lenhos triumphaes!
+
+ Assim ruge, baldão de vingativo nume,
+ esse que a argilla outr'ora encheu de ethereo lume;
+ assim nos gelos sua, agrilhoado ao cume
+ do caucáseo alcantil, seu cadafalso atroz.
+ Só o abutre de eterna fome,
+ que o grande coração algoz sem fim lhe come,
+ responde em ais á sua voz.
+
+ Fenece o dia. ¡Hora jocunda,
+ que eu tanto amava! ¡hora fecunda
+ dos cantos meus! ¿porque me inunda
+ nova amargura o coração?
+ ¿Sino crepuscular, tôas funéreo dobre?
+ a serra em luto se me encobre;
+ a nocturna mudez duplica a solidão.
+
+ Nenhuma luz scintilla; humana voz não sôa.
+ De estrellas a accender-se o Empyrio se povôa;
+ tal a fada Coimbra, a senhoril Lisboa,
+ nest'hora a quem as olha, entram no escuro a abrir
+ de luzeiros um labyrinto.
+ ¡Ceos! ¡Não oiço eu troar... seus coches!... O que sinto
+ é vento em selvas a rugir.
+
+ Calae, fugi, ventos agrestes;
+ sumi-vos, lampadas celestes;
+ n'um seio a delirios já prestes
+ não susciteis mais tentações.
+ Ou antes... aturdi-me, Euros bravos; ou antes...
+ vós, astros, cifras de diamantes,
+ O arcano me aclarae lá d'essas regiões.
+
+ ¡Oh! se á minha razão, contradictoria, altiva,
+ que ás trevas sente horror, e á clara Fé se esquiva,
+ de vós, faroes do Geo, baixasse a crença viva,
+ que aos moradores do ermo inspira a vossa luz!...
+ ¡se me volvesseis as ditosas
+ esp'ranças que hei perdido, alvas, ethereas rosas,
+ com que se enfeita e esconde a Cruz!...
+
+ Tornar-se-me-hiam de improviso
+ a solidão, em paraizo;
+ a magua, em perenne sorriso;
+ em alto cantico, a mudez;
+ a mallograda lyra, o não colhido loiro,
+ em harpa augusta, em palmas d'oiro;
+ e o monte, solio então, veria o mundo aos pés.
+
+ Delirios sempre vãos, fugi d'um peito enfermo;
+ tu, só tu, negra morte, has-de ao meu mal pôr termo;
+ ermo para ambições, e inferno, e não ermo;
+ para a humilde piedade é que elle espelha o Ceo.
+ Gentis phantasmas de cidades,
+ vinde, escondei-me o ermo em vossas claridades,
+ como um esquife em aureo veo.
+
+ ¡Vinde, cercae-me, endoidecei-me,
+ (embora em saudades me eu queime)!
+ O somno, as vigilias enchei-me
+ da vossa esplendida vizão.
+ ¿Val o riso choroso as festas da loucura?
+ vinde, guiae-me á sepultura,
+ crente no amor, na gloria, e rindo á solidão.
+
+ ¡Eu blasphemo, eu desvairo! Aos encontrados votos,
+ nem ecco respondeu n'estes covões ignotos.
+ Não, cumes glaciaes, tão outros, tão remotos
+ dos sitios que eu amava, e em que esperei morrer;
+ não, no silvestre seio vosso,
+ nem de amenas ficções apascentar-me posso,
+ nem menos as posso esquecer.
+
+ ¡Valor! ¡valor! ¿Quem do futuro
+ sondou jamais o abysmo escuro?
+ ¡Apenas chego e já murmuro!
+ ¿O de que tremo acaso sei?
+ Esperemos: talvez que inglorios, mas doirados,
+ aqui me aguardem, recatados,
+ dias de estro e de paz, quaes nunca disfructei.
+
+ Se além, no presbyterio, humillima choupana,
+ (Vaticano, e Queluz da pobre grei serrana)
+ mais que fraterno amor sollicito se afana
+ em me afofar o ninho, a vida em me inflorar;
+ se n'um retiro verde e mudo,
+ por elle tenho o leito, a mesa, o doce estudo,
+ sombras no estio, o inverno ao lar;
+
+ se a solidão que me apavora,
+ sómente o fôr vista de fóra;
+ se em seus recôncavos demora
+ gente feliz, povo de irmãos;
+ se do antigo viver, das crenças de outra edade,
+ vestigios guarda a soledade;
+ se poesia se vive entre estes aldeãos;
+
+ se a alegria, serena, isenta de pesares,
+ como a fresca saude, habita os puros ares;
+ se em toda a parte ha Deus, em ceos, em terra, e mares,
+ se Deus em toda a parte a Natureza ri...
+ coração meu, não desanimes,
+ gozos que não prevês, e cantos mais sublimes
+ encontrarás talvez aqui.
+
+ ¡Ah! sendo assim, que importa a fama!
+ Tambem philomela derrama
+ sua harmonia ás selvas que ama
+ longe de ouvintes e do sol.
+ Cantarei. ¿Meu cantar mais ambições teria
+ que a viva, a lustrosa poesia
+ de perolas que a flux borbóta o rouxinol?
+
+Sete annos se nos gastaram por ali, menos estranhos em verdade, menos
+difficeis e arrastados, do que o eu temêra, ao trocar, tão a subitas,
+cidades e amenidades por brenhas alpestres, tão desconversaveis á primeira
+vista. Tivemos tempo de sobra para nos irmos aclimando e afazendo, e
+haurindo poesia mesmo dos penedos, e estillas de mel mesmo dos urzaes. Mas
+tudo isso pertence a outro livro, onde algum dia folgarei de hospedar os
+meus leitores; chama-se por signal _O Presbyterio da Montanha_.
+
+
+XL
+
+Tem a solidão isto de commum com o silencio e a escuridade: espanta e
+aturde a quem n'ella cái; mas logo que o ouvido, desadormentado dos sons
+fortes, aprende a conversar com a mudez; tanto que os olhos,
+desoffuscados dos luzeiros intensos, se exercitam em caçar espectros de
+raios, phosphorescencias indecisas, que são como que os infusorios das
+trevas, descerrou-se o negrume em brilhantismo; a calada aviventou-se de
+dialogos; a solidão, que parecia o nada, é o theatro com o seu drama; é
+um mundo novo com um systema completo de existencias imprevistas e
+apropriadas.
+
+¡Que admira! A solidão medita, e a meditação cria.
+
+Os sentidos pastam só no que lhes offerecem a Natureza, a fortuna, o
+acaso; a divindade interior, a alma, tem commercios ineffaveis com o
+intimo e ignorado. S. João, entre os nevoeiros de Pathmos, divisa uma
+Jerusalem celeste; nas cogitações de Socrates, apparece o Omnipotente:
+nos extasis de Platão, reflexos da Trindade; nos calculos taciturnos de
+Galileu, firma-se o sol, volteiam os planetas; Colombo faz surgir do
+fundo dos mares a America; Leverrier, mais globos no espaço; Fulton, o
+hypogripho, o pégaso do vapor, magia, poesia, potencia escrava do homem,
+e dominadora, primeiro dos oceanos, depois dos continentes, e amanhan
+talvez dos ares; a solidão cismadora, dá a Eneida a Virgilio; mostra a
+Linneu os amores e o somno das plantas; a Dante, o inferno; a
+Fourier, o paraizo terrestre; a Newton e a Laplace, o codigo dos astros;
+a Daguerre, os talentos artisticos do sol; ao Gama, o caminho do
+Oriente; ao soldado Camões, o da immortalidade; põe na mão de Guttemberg
+a chave do cofre das sciencias; na de Vicente de Paulo, a da caridade;
+na de Say, a da riqueza publica; na de Pestalozi e Froebel, a da escola
+séria e fecunda.
+
+Assim como na associação está a potencia do effectuar, está na solidão a
+potencia ao descobrir, e a ideia germen do facto. Na solidão, a
+meditação; a acção, na sociedade. O progresso e a vida do mundo dependem
+da cooperação d'estes dois elementos antagonistas, como da attracção e
+repulsão a marcha das espheras; e tão fanatico é o fanatico do ermo,
+Brahmane, Esseno, ou Monje, que cifra tudo no espirito, como o fanatico
+da actividade material, que tudo cifra na materia. Este ultimo é
+elemento visivel e palpavel; aquelle, elemento imponderavel dos destinos
+humanos; e tão imponderavel e subtil, que muitos lhe contestam de boa fé
+a existencia, os influxos, a importancia.
+
+Archimedes, a sós com a Natureza e com o seu genio, descobre os meios de
+destruir e incendiar a frota romana. Absorto em suas reflexões
+criadoras, no seu gabinete, como n'um antro, não sente o estrondo da
+cidade, já senhoreada dos inimigos; não acorda á voz do soldado de
+Marcello, que, de espada em punho, lhe ordena que o siga; sem o sentir é
+degolado. Cai a grande cabeça, irman entre irmans, no meio das espheras
+celestes que está architectando. Só de tão extraordinaria concentração
+podiam brotar os seus tão extraordinarios inventos e descobrimentos.
+
+Lavoisier, outro dos martyrisados pelo materialismo descrente e brutal,
+depois de haver testado ao mundo a mais opulenta herança scientifica,
+condemnado ingrata e cegamente á guilhotina, ¿que é o que pede aos
+verdugos revolucionarios seus juizes? uma dilação de quinze dias. ¡Só
+uma dilação! ¡só de quinze dias! ¿para quê? para concluir trabalhos
+uteis á humanidade, que n'este momento o desconhece; rematados elles, já
+não terá pena de morrer. Recusam-lh'a; então caminha sereno a depôr no
+cadafalso uma cabeça maior talvez que a de Archimedes, e ainda na
+vespera coroada de loiros pelo Lyceu.
+
+Tanto a actividade fecundante, recolhida por instincto para os penetraes
+mais sagrados do animo, d'onde se conversa em extasis com Deus e com a
+Natureza, com e Pae Omnipotente e com a Filha Formosissima, nossa irman,
+fica inaccessivel aos maiores cataclysmos externos, ás catastrophes das
+Syracusas, ao cahos, providencial porém medonho, de uma revolução franceza.
+
+O homem que nasce pertencente á escassa familia d'este naturalista pae
+da Chimica, e d'aquelle geómetra pae da Mechanica, mesmo com os braços
+cruzados sobre o peito, mesmo com os olhos fechados, mesmo dormindo e
+sonhando, está servindo como operario; mas abaixo d'elle ha ainda, não
+menos veneraveis, os prestigiosos scismadores do mundo da Arte, mundo
+não menor, nem talvez, em ultima analyse, menos util que o da Sciencia.
+
+André Chénier, especie de Lavoisier da Poesia, convocado tambem para o
+festim da morte, não é dos prazeres ephemeros da existencia que leva
+saudades;--bate apaixonadamente raivoso na fronte, porque sente se lhe
+estava ali dentro formando, como em cerebro olympico, uma nova Musa
+gentilissima. ¿Quem lh'a revelára? A meditação solitaria, que sabe tudo,
+e tudo prophetisa.
+
+¡Bonissima solidão! Tu és para a sociedade o que as tuas montanhas são
+para os valles: nas tuas entranhas se filtram, dos teus reconcavos
+rebentam, os genios possantes e profundos que vão derramar por longe a
+fertilidade. Mas tu não és só mãe ás torrentes caudaes; uma fontinha
+entre lapas, desconhecida, não se goza menos do teu favor. Sobre o pouco
+liberalisas dons, como sobre o muito; próvida para o immenso, próvida
+para o limitado. ¡Solidão, Egeria das almas eleitas! ¡solidão, buscada
+por Christo, abraçada por Jocelyn, adorada por Petrarcha, explorada em
+tuas minas de oiro por Zimmermann, inspiradora de Volney, de Rousseau,
+do Infante de Sagres, de todos os videntes, de todos os descobridores,
+de todos os inventores, de todos os Baptistas! ¡Solidão, ninho das rolas
+como das aguias, perdôa, se eu não sabia ainda apreciar-te.
+
+Só agora, depois de arrancado d'ella ha tantos annos que já a
+podéra ter esquecido, só agora é que decifro (se porventura não é
+miragem do amor proprio), que a seriedade austera e o sorrir melancolico
+da montanha vieram tão de proposito entremear-se na minha vida poetica e
+amoravel, como a primavera do Paço do Lumiar e as do Mondego.
+
+
+XLI
+
+Os meus sete annos da serra, só de longe a longe interrompidos por
+algumas breves excursões a Coimbra, e uma a Lisboa, contiveram forçados
+e sobejos ocios para eu pensar em alguma coisa mais duradoira e menos
+egoista que as rosas e os amores; direi melhor:--iniciaram-me um tanto
+nos segredos de outra esphera menos baixa, na qual ha flores tambem, mas
+que não murcham; ha tambem ternuras, mas que abraçam o genero humano.
+
+O presbyterio, com a nossa bibliotheca semi-pagan, homiziava-se á sombra
+do templo do pastorinho S. Mamede. O campanario só chamava para a oração
+e para festas um povo que se não via, e que aos eccos d'aquelles
+repiques parecia rebentar da terra. Relogio, não o tinha; contentava-se
+de pregoar a saudação angelica nos dois crepusculos e ao meio dia. As
+horas, que são do tempo, desdenhava-as como alheias ao pensamento da
+immortalidade. O silencio era profundo e geral; seria sem quebra, se o
+não interrompessem as musicas da Natureza no ermo: os passarinhos por
+fóra das duas portas abertas da egreja, as cigarras nas oliveiras do
+passal regaladas no seu banho de sol, as rolas e os cucos no sobreiral
+de S. Sebastião, as aves domesticas no nosso pateo espaçoso, os grillos
+pelos silvados, os álertas dos gallos, os uivos dos lobos, os pios dos
+mochos pelas noites, o frémito do vento pelos pincaros do pomar,
+enclausurado e protegido com o tugurio no recinto de muros altos, e ás
+vezes tambem nos temporaes, pela montanha de heras de que se toucava
+entre platanos o portão hospitaleiro da vivenda.
+
+N'este intermundio o que passava lá ao longe pelo Reino era quasi tão
+desconhecido como as occupações dos moradores dos outros planetas. Das
+raias da serra a fóra só tres nomes nos constavam ao certo, porque
+nol-os dava a collecta da Missa: de um Papa, de um Bispo, de um Rei; os
+parochianos que não sabiam o latim, nem a tanto chegavam, cuido eu; o
+que lhes não vedava serem muito boa gente, muito bons christãos e amigos
+da Patria, em que lhes constava achar-se encravada a sua montanha.
+
+Povos de tão benigna condição, facil era, e gostoso, pastoreál-os.
+Homens tão montesinhos e sáfaros, mas ao mesmo tempo doceis,
+intelligentes e activos, grande obrigação era, além de dever civico,
+humano, e religioso, arroteál-os para um pouco de civilisação, ou para
+muito, se possivel fosse.
+
+Agras e agerrimas são de si as entreprêzas d'este genero; mas por isso
+mesmo é que alliciam almas generosas.
+
+¡Grande era, e excellente, a alma do mancebo Parocho!
+
+Novas leituras, novos estudos, em razão de seu officio, se houveram de
+enxertar nos nossos anteriores conhecimentos, só poeticos pelo de mais.
+Pegaram ás mil maravilhas; ganharam extraordinaria força em razão da
+seiva que já encontraram prevenida.
+
+Pelas suavidades da Litteratura vai bom caminho e muito direito para a
+Philosophia e para a Moral; por isso não sem razão lhe chamaram estudos
+humanos, ou humanidades. Devorámos com avidez de poetas as eloquencias
+de Bossuet, de Bourdaloue, e de Massillon; as obras dos Santos Padres, e
+á mistura as de quantos escriptores sociaes, civilisadores, iniciadores,
+e alvitristas sinceros, nos occorreram.
+
+Uma vez lançado o espirito por este caminho, não pára; nascem-lhe as
+cubiças umas de outras; ambiciona e parece-lhe que ha-de abarcar infinitos:
+
+ _Jam modo non possum contentus vivere parvo._
+
+
+XLII
+
+¡Que poesia deliciosa não ha-de ser a que referve na cabeça e no peito
+de um colonisador humano: Cadmo, Amphião, Dido, Romulo, ou Cabet!
+¡Que sonhos magnificos não havia de sonhar toda essa gente!
+
+¡Pois um Fénelon a planejar Salentos!
+
+¡Pois um Voltaire a fazer homens dos seus serranos do Jurá!
+
+¡Pois um Goldsmith a conviver com o seu vigario de Wakefield!
+
+¡Pois um Daniel de Foë a trabalhar com o seu _Robinson Crusoé_, e um
+Wyss com o seu ainda mais util _Robinson suisso_!
+
+¡Pois o _Medico da aldeia_, o _Vigario das Ardennas_ e o _Cura
+campestre_ de Balzac!
+
+¡Pois Bernardin de Saint Pierre com a sua _Arcadia_ e a sua républica de
+felizes!
+
+¡Pois os Jesuitas domesticando os selvagens do Paraguay!
+
+¡Pois um Henrique IV a scismar com a gallinha na panella de todos os
+seus subditos!
+
+¡Pois Olivier de Serres a transformar com as amoreiras a selvajaria do
+Vivaret em vergel de afortunados!
+
+¡Pois a parochia de Jocelyn!
+
+¡E muito mais e melhor que a parochia de Jocelyn, o Bispado do nosso D.
+Francisco Gomes do Avellar!
+
+Meu irmão sonhou tambem, e eu com elle por conseguinte, na procura da
+felicidade alheia; e parece-me que o nosso affinco perseverado em certos
+projectos competentemente amadurecidos, e de prestimo indubitavel,
+alguns effeitos plausiveis haveria dado de si; porque lá n'aquellas
+terras ainda hoje é grande a autoridade moral e a força persuasiva de um
+Parocho, sobretudo quando sabem e sentem que é bom homem; ser bom homem
+é em seu conceito a primeira das sabedorias.
+
+Entraram-se porém dentro em pouco os tempos a cerrar; cresceram
+desconfianças no futuro; vieram-se avisinhando temporaes, que por
+derradeiro nos arrancaram tambem a nós, depois de dispersas pelos ares
+as nossas utopias.
+
+Uma d'ellas, que de certo se teria realizado, sem contradicções nem
+bulha, era: que nenhum morador da serra, menino, nem velho, nem adulto,
+nem lavradora, nem ovelheira, deixaria de aprender as primeiras lettras;
+para o que, lh'as iriamos levar ás suas proprias aldeias em cursos
+nómadas e temporarios, concertados com as estações, e em harmonia
+com as lidas agrarias. Instruida a primeira camada, facil era, ou facil
+nos parecia a nós que seria, colhêr de entre ella mestres e mestras que
+pela modica recompensa de alguns punhados de grãos, uns arméos de linho,
+ou um tudo-nada de cobres, continuassem o ensino em suas terras.
+
+¿O saber ler de que serviria, faltando que se lesse, e que valesse a
+pena de ser lido? Tinha-se assentado portanto em escolhermos,
+resumirmos, traduzirmos, simplificarmos, humanarmos, e, se tanto fosse
+necessario, compôrmos, opusculos destinados a darem aos nossos neophytos
+da religião da luz noções claras e exactas das coisas mais importantes
+da natureza physica, da religião, da moral e deveres mutuos; quanto
+bastasse de historia, e o mais que possivel fosse de carta de guia para
+cada uma das culturas, para cada um dos mistéres, já por ali
+empyricamente costumados, ou dos que se podessem com a boa vontade
+introduzir.
+
+Uma typographia modesta, de um só prelo, bastava, e com um só
+compositor, que podia até ser um clerigo, para se não distrahirem os
+trabalhadores, facilitaria esta sementeira de industria e civilisação.
+Os pisões dos bureis, as mós dos moinhos, as galgas do azeite, e os
+fusos dos lagares do vinho, lá poderiam extranhar nos primeiros dias,
+verem levantar-se por entre elles um engenho que não deitava nem comida,
+nem bebida, nem vestido; mas não tardaria que descobrissem como tudo
+isso, e muito mais, dimanava milagrosamente da bemdita machina, a mais
+serviçal amiga de todas as machinas, de todas as artes, de todas as
+sciencias, de todos os melhoramentos, de todos os progressos, de todas
+as alegrias, de todas as verdades, de todas as consolações, de todas as
+glorias, de todos os arroteamentos, de todos os aperfeiçoamentos, de
+todas as conquistas.
+
+A imprensa no ermo, a imprensa na Residencia parochial, especie de
+cabana disfarçada com limeiras e rosas, não podia deixar de ser uma
+imprensa util, séria, e dadivosa; e ¡lembrasse-se ella de o não ser!
+Gostava eu de ver como se avinha para isso com o pastorinho S. Mamede,
+seu visinho paredes meias, com a pia dos baptisados tão limpida, com a
+matta além tão inoffensiva, com as sepulturas aos pés a exhalarem
+paz e bom conselho, com os passarinhos a cantarem festa, com o sol
+franco por cima da cabeça a proclamar: «Vivei e amae: vede o mundo que
+eu vos mostro como é formoso; aproveitae-o, e glorificae ao nosso Creador.»
+
+Os livrinhos de tal officina talvez não alongassem vôo até ás cidades
+(flôres de urze e amoras de silva não se levam ao mercado); mas
+abundariam gratuitos, inspirativos, e bemquistos, por todas as casinhas
+da parochia: por baixo dos tectos de palha ou lageas, como por baixo da
+riqueza das telhas rubras de valladío, ou da opulencia fabulosa dos tres
+ou quatro telhados moiriscados.
+
+A estante do Ecclesiastico hospedaria fraternalmente entre os
+breviarios, o _Flos Sanctorum_, e as folhinhas de reza, estes opusculos
+do seculo. Os paes de familias os depositariam, depois de lidos, para se
+tornarem muitas vezes a reler, na papeleira por baixo do seu oratorio. O
+pastor os folhearia, ruminando elle tambem nos campos do espirito, no
+meio do rebanho mais bem tratado. O operario na sua officina mostraria
+com satisfação, entre a sua ferramenta, estes instrumentos novos,
+aperfeiçoadores dos artefactos e do artifice. As séstas de verão, os
+serões do inverno, ganhariam encantos com as leituras em commum; nos
+testamentos figurariam como verba, a par com maiores haveres, os
+volumes, que assim se iriam accumulando multiplicados pelos filhos e
+netos pelos tempos fóra.
+
+Depois, os domingos, os dias santos, e os tempos mortos para a lavoira,
+¡quão bem se não empregariam na cosinha, na sala da Residencia, ou na
+sacristia por mais espaçosa, explicando á boa gente, já avida de saber,
+e que affluiria a esses passatempos como ás romarias, o que elles não
+tivessem podido por si mesmos explicar! que para isso ali estava á mão
+como auxiliar, ao pé do prelo uma livraria copiosa, e continuamente
+acrescentada.
+
+Aos ambiciosos do latim, do francez, da historia, das viagens, das
+noticias do mundo, ou mesmo da poesia, ali se dariam tambem com a melhor
+vontade licções, livros, conselhos.
+
+¡Quem sabe o que em trinta, quarenta ou cincoenta annos, se não crearia
+por ali, onde tão pouco em tantos seculos se adiantára! ¡Que novos e
+prosperrimas culturas pelos valles e cabeços escalvados! ¡que
+fabricas, talvez, servidas por aquelles rios, por emquanto ociosos! ¡que
+augmento nos haveres, na população, na civilidade, na convivencia! ¡que
+festas novas entre estes montanhezes! ¡Quantas á imitação
+d'aquell'outras da Suissa em honra da velhice, da virtude e dos serviços
+prestados á communidade pelos corações bons, pelos espiritos eleitos!
+
+O nosso amor proprio, tanto como a nossa consciencia, aspirava a peito
+cheio virações de Eden, calculando e preparando tantas venturas, e tão
+faceis de si, quando deveras se desejam.
+
+Até já previamos, como consequencia summamente provavel de toda esta
+excitação, que umas terras assim, de que nunca se ouvira soar um unico
+nome distincto para além do seu ultimo tojal, viriam a contribuir como
+as outras para o lustre futuro da Patria, com talentos aproveitados em
+sciencias, em artes, em litteratura, em poesia.
+
+Dilatei-me agora n'isto, porque me pareceu que não fazia mal ficar para
+ahi este pequeno rebate aos curas d'almas, que para a civilisação podem
+mais e muito mais do que se imagina, e do que presumem elles proprios.
+Assim se tratasse de os criar bem, de os instruir muito, de os escolher
+com escrupulo, e distribuil-os com acerto pelas parochias fóra de mão,
+em que tudo, ou quasi tudo, jaz ainda por tentar[5].
+
+
+XLIII
+
+Ora pois : estas meditações sociaes, a que só falleceu o tempo
+indispensavel para frutificarem em obras exteriores, que, ainda que não
+viessem a ser muitas, sempre seriam algumas, produziram todavia seu
+effeito benefico em nós mesmos. Tão boa coisa é de si a caridade, que,
+mesmo não aproveitando para fóra, unge e fortalece a alma em que se
+hospéda.
+
+Aqui está como a brenha contribuiu tambem para me temperar com amores
+novos a indole poetica originaria; d'ali é que me tomaram raizes as
+temerarias resoluções, que muitos annos depois se haviam de manifestar,
+na criação de um Methodo humano de ensino elementar, e nos esforços para
+o diffundir e estabelecer.
+
+Em summa: todas quantas aspirações benevolas eu vim a patentear nos dois
+livrinhos, que ainda hoje amo, _Felicidade pela Agricultura_, e
+_Felicidade pela Instrucção_, não foram talvez senão reminiscencias
+d'aquelle prazo da minha vida.
+
+
+XLIV
+
+Ora eu, como os leitores sabem, não vim com este escripto representar de
+grande homem, que ninguem o é menos do que eu, nem menos do que eu o
+podia ser; o meu unico intuito foi expôr lisamente e com verdade os
+factos, de que a mim me parece poder-se concluir com verosimilhança: que
+a fortuna e a natureza andaram concordes em sequestrarem da multidão,
+para o deixarem só e exclusivamente poeta e amante, o individuo de quem
+eu fui herdeiro, e de que agora em parte sou biographo desapaixonado;
+por isso declaro com igual sinceridade:--que a par com estas utopias
+beneficas e civilisadoras, a que o espirito de meu irmão se dava todo,
+cá no meu nunca deixaram de vicejar os outros generos de poesia menos
+alta e mais egoista, de que a indole e o costume me tinham feito
+necessidade.
+
+A esses annos da serra pertencem pois, como já n'outras partes declarei,
+as traducções das _Metamorphoses_ e dos _Amores_ de Ovidio, muitas das
+bagatellas encorporadas nas _Excavações Poeticas_, a _Noite do
+Castello_, e os _Ciumes do Bardo_, ciumes que, dilo-hei agora de
+passagem, nada tiveram absolutamente que ver com os ideaes amores de que
+venho conversando.
+
+D'esses annos a primeira parte permittia ainda largos horizontes de
+esperanças, que depois se apoucaram e denegriram com as vicissitudes
+politicas, as guerras civis, e as perseguições que lá mesmo nos alcançaram.
+
+Meu irmão, tão devaneador de venturas para extranhos, e que para algumas
+logrou de feito contribuir, claro está que da minha se não
+descuidaria. Assim como elle o era para mim, era eu para elle
+transparente. Ainda que algum de nós pretendesse jamais ter para o outro
+uma sombra de segredo, baldaria todo o seu empenho.
+
+Sabia elle pois, tão bem como eu, e sem eu lh'o dizer, que o meu
+espirito poetico no meio de tantas poesias anciava ainda por outra mais
+especial, que volteava á superficie de todas, como a mariposa que vai e
+vem de flores para flores, e, mostrando-se contente de as possuir, deixa
+todavia suspeitar que ainda não encontrou aquella em cujo seio ha-de
+cerrar as azas, aninhar-se, e permanecer.
+
+
+XLV
+
+Uma tarde de verão, que me eu estava acompanhado só de minhas
+cogitações, no que chamavam meu _Templo das Musas_, veio elle ter
+comigo, trazendo com alegria uma carta recemchegada de Vairão.
+
+Era o meu afamado _Templo das Musas_ uma barraca engenhada de cannas,
+vimes e feno, quadrada, alta que se podia estar em pé, ampla que se
+cabia reclinado ao comprido nos bancos de cortiça que por tres lados lhe
+guarneciam o interior; ao meio de cada uma das tres paredes, uma janella
+de um só vidro, e outra egual na porta, davam entrada ao dia, á lua, ás
+viraçoes frescas, e aos rumores proximos ou longinquos da vasta natureza
+exterior. Pompeava esta solitaria e majestosa fabrica junto a um alto
+denominado da _Pedra Branca_, fóra do passal, e á beira do sobreiral de
+S. Sebastião; desafrontado posto, donde se descortinavam terras de
+quatro Bispados, com horizontes até onde olhos de aguia podiam ir. Era
+miradoiro, e era escuta tudo junto. ¡Quantas vezes d'ali não captavamos
+nós, poucos annos depois, o rolar dos trovões da artilheria na acção da
+Ponte do Marnel, e lá muito mais a longe, no cerco do Porto! ¡sons
+lugubres que vinham resaltando de cabeço em cabeço encher de enigmas e
+sustos a nossa descuidosa solidão!
+
+Apezar de tudo, conservo saudades da boa da palhoça. Não havendo guerras
+civis, conversava sim tristezas, mas tristezas todas mansas, e com
+seus furta-côres de deleites e alegrias. Estava-se bem ali; e se
+occorria desejar-se por entre sonhos alguma outra coisa, era antes para
+que ella viesse enfeitar o deserto, do que não para se ir procurál-a
+fóra d'elle.
+
+¡Tempos! ¡tempos! Tornei-me lá vinte annos depois; faz agora oito;
+mudanças até nas brenhas! Existia a mata e a capellinha; existia a
+Egreja e a Residencia; mas do meu _Templo das Musas_, nem vestigio: os
+invernos e os estios tinham-lhe devorado até o minimo colmo. Onde eu
+dormia ou scismava deleites, dominando do meu castello rosado pela
+aurora, doirado pelo sol, prateado pela lua, espaços infinitos...
+estavam outra vez as queirozes em pacifica posse do seu torrão, a
+vangloriarem-se talvez, com as abelhas, de terem afinal triumphado de
+quem as desterrára; e as ovelhas, vigesimas descendentes de um rebanho
+que pastava á roda de mim sem me ver, nem ideia vaga tinham já de tal
+edificação; sumia-se-lhe na noite dos tempos.
+
+Antonita, a pastorinha que o guardava, já por ali não era. ¡Que linda
+voz que não tinha, aquella prima donna dos oiteiros! ¡que poesia de anjo
+que não desperdiçava só para a sua roca, e para os carvalhos! que a mim
+não me via ella, ainda que tão de perto me rondava o tugurio, nem eu me
+denunciava, com medo de intimidar o rouxinol; o mais que fazia era
+entreabrir subtilmente a vidracinha da parte onde ella cantava, para lhe
+estar por ali furtando melodias para os meus devaneios.
+
+Perguntei por ella; quando cresceu, cresceram-lhe ambições, deixou o
+mato e as ovelhas; fez-se tecedeira; ao tear, cantava ainda tão alegre e
+innocente, como tinha cantado á sua roca de lan nos descampados; depois,
+um bello dia, convidou-a o seu anjo para ir cantar no Ceo; e desappareceu.
+
+¡De todo aquelle idyllio tão vivo, só eu resto! Guardadora, choça,
+rebanho, passou tudo... Mal ficou este pequeno reflexo mortiço na pagina
+que estou dictando, e que tambem, ella mesma, d'aqui a alguns annos se
+ha-de apagar.
+
+Leu-se a carta; era um suave queixume pela quebra já mui longa da nossa
+correspondencia; e era em tudo uma confirmação evidente de que Maria não
+deslisava apice da que se manifestára e fôra desde todo o
+principio; e encerrava realmente no seu complexo todos os requisitos
+para a felicidade de um homem, que, possuindo paz e amores, já não
+cançaria o Ceo com grandes votos.
+
+--«Vamos--exclamou meu irmão, abraçando-me;--tenho promovido tantos
+casamentos por estes arredores, e regala-me sempre tanto administrar o
+setimo sacramento, folgasão preambulo dos baptisados, que desejo e
+mereço ver tambem alegrias d'essas na Residencia. Venha a tua solitaria
+amenisar emfim a nossa Thebaida. Havemos de fazer um jardim de proposito
+para ella por baixo da fonte do passal, com bastantes narcisos, que lhe
+recordem a primeira revelação que te ella fez da sua ternura.
+
+«Quando as obrigações do meu ministerio me demorarem por fóra (a sua
+merecida fama de prégador começava a não lhe deixar dia nem hora livre;
+não havia festa grande nos quatro Bispados para que não fosse rogado),
+quando os meus especiaes estudos me privarem de cultivar comtigo a nossa
+cara Poesia, terás uma leitora e secretaria, que te coadjuve, e ao mesmo
+tempo te exalte a inspiração; a sua voz tornar-te-ha a Poesia mais
+poetica; os versos dictados para mão tão delicada, sahir-te-hão mais bem
+nascidos.
+
+«Podiamos edificar aqui desde já uma casinha aprazivel, um verdadeiro
+ninho de andorinhas para o novo casal; mas possivel é, bem sabes, que
+não seja esta a terra que nos ha-de comer os ossos; e n'esse caso, o
+havermos lançado aqui raizes mais fundas, teria sido tornarmo-nos mais
+doloroso o arrancamento. Para gente sobria e simples, como nós, é de
+sobra o presbyterio; bastará guarnecermol-o de mais roseiras,
+abrirmos-lhe no meio do pateo o luxo de um tanque para espelho, e para
+pompa erigirmos ao fundo das laranjeiras o elegante pombal candido que
+projectavamos, e de cujas moradoras hade ella ser a providencia e a
+alegria, como de toda a vivenda.
+
+«Em summa; os nossos haveres permittem-nos, sem taxa de temeridade, a
+realisação d'esta encantadora utopia, que talvez nos abra passo á
+realisação das tantas outras que planejâmos! Para obras de beneficencia,
+de humanidade e de civilisação, nunca é de mais uma conselheira, e então
+de tão alto juizo, de coração tão amante, e amadurecida pelos
+livros e pela solidão.»--
+
+Era musica celestial tudo isto que lhe eu escutava; apertál-o bem
+apertado ao peito, foi toda a minha resposta de assentimento.
+
+Verdade verdade:--está-me vexando, apesar do que estabeleci no começo
+d'estas confidencias, tão diffuso falar sobre tão apoucado sujeito, que,
+por mais que eu diga, saiba e sinta, não ser eu, sempre hão-de tomar por
+mim; e portanto, dobrada censura: sobre importuno, immodesto. Paciencia.
+Os mal affeiçoados muito ha já que hão-de ter dado a sua curiosidade por
+satisfeita, e cerrado o livro; os outros, que vieram commigo até aqui,
+são mais soffridos de genio, e são amigos; hão-de-me acompanhar já agora
+com indulgencia até ao fim; e se a esses mesmo enfado, fique o restante
+da narração como soliloquio de um saudoso, ou dialogo de memorias
+tristes entre um vivo e dois finados.
+
+
+XLVI
+
+Tinha-me a Real munificencia do Senhor D. João VI, já em 1819, collocado
+em posição de fortuna, para entre poetas, e poetas portuguezes, muito
+invejavel: dera-me a propriedade sem onus de um dos mais pingues
+officios de Justiça na Correição de Coimbra. Com essa renda vitalicia,
+que ainda hoje durára, se não fossem as uteis refórmas introduzidas no
+fôro depois de 34, podia eu ter folgadamente realisado desde todo o
+principio o meu consorcio com Maria; mas eu tinha feito voto anterior de
+mim para mim, e não queria quebral-o, de deixar sempre na casa paterna,
+integral e incondicionado, o usufruto d'aquelle rendimento. Não era
+generosidade; era simples dever. Tendo pois, como se não tivesse,
+facilmente se imagina ¡como eu ficaria por dentro com este raiar subito
+da Providencia, da Providencia encarnada em amor fraterno! A chave
+d'oiro do meu paraizo tinha-a eu posto d'onde a não podia retomar; meu
+irmão acabava de me entregar outra; e com tal melindre de affecto, como
+tudo que d'elle vinha para mim, que recusar-lh'a eu, fôra magoal-o mais
+a elle, do que a mim proprio.
+
+A casinha parecia-me transfigurada em albergue de fadas.
+
+Respondeu-se ali mesmo á carta. Antonita estava cantando uma cantiga de
+amores a vinte passos de distancia; a alegria e a amizade cantava no
+coração de Augusto; no meu, cantavam o alvoroço, o enternecimento, a
+amizade. Era uma hora d'aquellas de que o Céo não empresta mais de uma
+ás existencias afortunadas.
+
+A carta que eu então dictei para mensageira de tão boa nova, e a que
+tres dias depois se lia mysteriosamente no mesmo logar aos ultimos raios
+de um sol magnifico, existem ainda hoje, mas não pódem ser relidas;
+doer-me-hiam excessivamente; hão-de ser pelo contrario queimadas com
+todas as outras d'este romance intimo e sagrado, logo que eu tenha
+concluido o presente escripto. Se alguem não comprehender por si este
+melindre, paciencia; eu é que me não atrevo a explicar-lh'o.
+
+A elegia _Ermitagem da montanha_ tinha sido poucos dias antes
+phantasiada ali mesmo. Junto ao convento havia tambem serras, como já
+vos disse:
+
+ _Sola eris, et solos spectabis, Cynthia, montes._
+
+Na desesperança, ou, quando menos, incerteza de conseguirmos jámais
+posse real um do outro, ¿não eram bem naturaes aquelles desejos,
+aquellas visões do poeta solitario no meio dos seus bosques, pensando na
+poetisa solitaria á sombra do seu mosteiro? ¿Que amante deixou de sonhar
+alguma vez que a felicidade o aguardava n'uma caverna sonegada aos olhos
+de todo o mundo?
+
+A mutação maravilhosa que se me acabava de operar nas perspectivas da
+alma, fez rebentar o meu ultimo canto--_A Esperança._
+
+¡Ah! ¡a esperança! ¿quem? não sendo amante, ou louco, póde fiar-se nos
+sorrisos de tal phantasma? Os gozos, que tão proximos se me antolhavam,
+ainda vinham longe. ¡Ha tantas illusões d'estas na vida! teem-se os
+olhos fitos n'uma ventura que já se vê e se ouve tão perto, que se
+figura alcançavel com dois passos... e não se repara em que entre ella e
+nós pode haver duas ribanceiras escarpadas, e até de permeio um rio
+sem ponte, profundo, vertiginoso, mortifero!
+
+
+XLVII
+
+Em 1828 sahia pela primeira vez á luz, mais por desejos de meu irmao que
+meus, o _Amor e Melancolia_.
+
+Aos que já então o tomassem por historia poetisada, como agora se vê que
+era, figurou-se de certo, como a mim proprio, que estava ella chegada ao
+seu desenlace ultimo. Era miragem de deserto; o verdadeiro lago para a
+sêde, jazia ainda bem remoto.
+
+Vieram-se carregando cada vez mais as trevas do horizonte politico; ¡os
+receios e os sobresaltos, os perigos mui reaes a crescerem e a
+amiudarem-se!
+
+O presbyterio queria ser arca de salvação; mas até elle, em tamanha
+altura, fluctuava já, e estremecia sobre o diluvio. Se se mandava fóra
+ave exploradora, voltava atemorisada sem nos trazer folhinha de
+oliveira. Recerrava-se o postigo, e ficava-se inerte á espera de
+melhores dias. Entretanto os trovões, ora mais ora menos longinquos, não
+despegavam, e os relampagos espreitavam ferozes por todas as fendas.
+
+¡Foram tempos bem tristes! Nem o viver benefico de um bom Parocho, nem o
+viver innocente de um poeta, nem o concentrado de ambos n'uns reconcavos
+silvestres só vistos de cima pelo que vê tudo, nos aproveitaram para
+immunidade.
+
+¡Que de refeições interrompidas por uma noticia de denuncia, e de
+encarceração meditada, proxima, infallivel! ¡que de noites mal dormidas,
+ou veladas pelos matos, ou por poisadas alheias! ¡que sumir de livros
+nos vãos dos altares! ¡que enterrar os objectos preciosos! ¡que abrazar
+papeis! ¡que vigiar do alto do campanario! ¡que fugir a subitas do
+ninho, para regressar a elle palpitando, e refugir de novo! ¡e tudo isto
+por quão longo tempo! até que, levantado já quasi o cerco do Porto,
+atterrados com o ultimo e inevitavel perigo de sermos monteados e
+perdidos, commettemos á desesperação o salvamento e, atravessando ainda
+por entre os cercadores n'uma ante manhan escura e chuvosa, lográmos
+acolher-nos á Cidade eterna.
+
+E se vê, se um passaro assim combatido dos temporaes podia
+lembrar-se de construir e pendurar em ramos que todos rangiam e
+estalavam, cestinha de amores para onde chamasse companheira. Não podia
+ser, por mais temerario, por mais imprevidente que elle fosse.
+
+Estes mesmos trabalhos e transes, que então me pareciam encobrir a
+Providencia, como as nuvens encobrem ao sol, pode ser que me viessem
+mandados tambem por ella a trazer-me germes que ainda me faltassem, de
+poesia affectuosa. Isso teem de seu, se me não engano, as perseguições
+revolucionarias: assolam, para fecundar; chovem odios, que em se
+evaporando terão feito desabrolhar bemquerenças. Alma que padeceu,
+condoe-se:
+
+ _Non ignara mali..............._
+
+Só de longe é que isto se conhece bem, e como tudo no mundo é por
+melhor. Agora nem áquella quadra tormentosa quero mal.
+
+Ella tambem, se hei-de dizer toda a verdade, posto que me retardasse
+projectos mui queridos, não me foi tão completamente negra como se
+poderia imaginar pelo que deixo exposto. O animo, pelo menos o dos
+poetas, pelo menos o meu, tem não sei que elasticidade com que resiste
+ás quedas e ás durezas mais asperas dos precipicios: torce-se, e não
+quebra; cai, e resurge; comprimem-n-o adversidades, e logo depois, elle
+por si mesmo se dilata. Apenas tinha passado um sobresalto, um terror,
+um homizio, ou uma fuga, e os ares se serenavam um tanto, voltava a
+bemdita imprevidencia, e com ella o contentamento, e com elle o viver
+semi-fabuloso com todo o seu cortejo de visões poeticas, accorridas de
+todos os pontos do horizonte, de todos os recantos do coração, de todos
+os esconderijos da memoria, de todas as grutas amenas da vontade, de
+todas as profundezas do discurso; como ao reapparecer do sol depois da
+trovoada, voltam á festa duplex da Natureza os insectos, as aves, os
+rebanhos, os pastores, o viço, a musica, o alvoroço.
+
+¡Que de versos não devi eu a esses luminosos intervallos! Foi n'um
+d'elles que meu irmão e eu plantámos no pateo da Residencia um cedro,
+que eu mesmo trouxera recemnascido da matta do Bussaco, e que, ha
+já annos, cobre com a sua sombra balsamica o telhado hervoso da casinha,
+pradaria das pombas domesticas, e alem do telhado boa metade do terreiro.
+
+Oito primaveras se teem devolvido desde que o visitei pela ultima vez.
+
+¡Deve ser hoje a mais fastosa arvore da cercania!
+
+
+XLVIII
+
+Sentae-vos em espirito debaixo da sua copa, se vos apraz, e ouvireis o
+que lhe eu cantava ao firmarmol-o tenrinho n'aquella terra benta.
+
+Adverti porém desde já, em que não ides escutar maravilhas de poeta. São
+versos faceis e descuidados, como os eu então fazia para matar o tempo,
+e esquecido de que havia mundo.
+
+Podéra agora tel-os retocado; ¿mas para quê? ¿e que é do valor para
+estar desconcertando por mera vaidade litteraria umas saudades d'estas?
+Hão-de ir e hão-de ficar já agora singelos e montesinhos como
+nasceram.--Ouvida a primeira duzia d'elles, quem lhe parecer, que deixe
+os outros.
+
+ ¡Ó cedro, ó joven principe dos bosques,
+ eis-te já no teu novo domicilio,
+ eis-te vaidoso em pé, do sól á espera!
+ Gente do presbyterio, afervorae-vos,
+ entrançae danças, coroae-vos todos,
+ cantae-lhe bençãos, tumultuae-lhe em roda.
+
+ ¡Gloria a Deus! ¡Como o dia vem formoso!
+ Anjos que protejeis a Natureza
+ vossa amavel irman filha do Eterno,
+ que entre vós repartistes as montanhas,
+ o arvoredo das Dryades palreiras,
+ e a urna fresca das occultas Náyades,
+ vinde, adoptae no seu primeiro dia
+ do filho de David a arvore antiga.
+ D'entre os ramosos tufos elevado
+ seu cume se remonte á patria vossa,
+ e aponte os Ceos ao pensamento humilde.
+ Praza o carvalho a Jove; o loiro a Phebo;
+ a vós o cedro; o cedro, inda saudoso
+ e altivo do seu Libano, inda cheio
+ das lembranças da Biblia, inda soberbo
+ de hospedar em jardins, palacios, templos,
+ Adonai, o Rei Sabio, o Povo Eleito.
+ Assim glorioso e mistico, o bom cedro,
+ o cedro-rei, viu supplice prostrar-se
+ Israel ora a Deus, ora á fortuna,
+ aos ceos e ao mundo, á eternidade e ao tempo.
+
+ ¡Oh! ¡venerando! ¡oh! ¡cresce em nossa terra!
+ co'a verdenegra copa não desdenhes
+ acoitar o singelo presbyterio.
+ Premeia o generoso desint'resse
+ do plantador que desce todo á campa.
+ Sagradas são as dividas do affecto;
+ os cuidados que assiduos te protegem,
+ invoca o tempo de os pagar co'as sombras.
+ Dias virão nos teus crescentes dias,
+ em que nobre ante a porta da virtude
+ com ternura e respeito hão-de saudar-te
+ os montanhezes descobrindo a fronte.
+ Lembrarás os antigos patriarchas,
+ que ao-pé da movel tenda no deserto
+ pertenciam aos Ceos pela esperança,
+ e ao patrio mundo pelo amor dos homens.
+ --Ali--dirão--na sésta reclinado
+ o pobre ancião, pastor d'estas aldeias,
+ ao circulo inquieto dos meninos
+ ensina a amar a Deus, a si, aos outros,
+ ás lettras, ao saber, á patria, á gloria;
+ e, abraçando-os risonho á despedida,
+ distribue co'a mão tremula aos melhores
+ em premio doce disputados frutos.--
+ --Ali--dirão tambem--sentou-se um dia,
+ e gabou a frescura das ramadas,
+ um Bispo antigo e santo; ali tomava
+ o seu café, resando o breviario;
+ meu avô, bem que rustico e indigente,
+ falou-lhe ali, beijou-lhe o annel e ouviu-o.
+ ¡Que apostolo! ¡que amor! ¡que urbanidade!
+ essa arvore o cobriu, ficou sagrada.--
+
+ Hospede e amigo do adoptado albergue,
+ firma-te ao solo com raizes promptas;
+ exalça a fronte aerea, alto, gigante;
+ abre os cem braços co'os tufões em lucta.
+ Piedoso Briarêu, não temas raio;
+ o raio atrôe as serras, cegue, abraze
+ o altivo topo ás arvores soberbas;
+ tu, não tremas; eu quero no futuro
+ que um novo talisman te adorne e ampare,
+ possante contra furias de elementos,
+ contra o machado algoz, contra demonios:
+
+ Se dos teus annos na madura força
+ a mão que ora te planta inda for viva,
+ essa mesma, já tremula e inda amiga,
+ inda meiga ao seu cedro, e já caduca,
+ no tronco te abrirá com tardo exforço
+ graciosa capellinha, onde sorria
+ um San-João, o Santo alegre do ermo:
+ trajo de pelles, juvenil frescura,
+ olhos nos Ceos, aos pés cordeiro branco.
+
+ N'essa noite poetica e devota,
+ em que o prazer, centuplicando aspectos,
+ povoa, anima, encanta o mundo inteiro;
+ agua e terra, ar e ceo, tudo é macio;
+ em que a velhice, a mocidade, a infancia,
+ sympathisam no vago da alegria;
+ em que n'alma insaciavel de delicias
+ se juntam com mistura inexplicavel
+ o saudoso passado, os bens presentes,
+ ao contente futuro ebrio de esp'ranças;
+ em que n'um laço mystico se aggregam
+ da vida e eternidade os pensamentos,
+ gozos, superstições, fraquezas, cultos,
+ como um ramo de rosas e ciprestes
+ na caprichosa mão das feiticeiras;
+ n'essa noite das noites invejada,
+ té dos casaes lá do ultimo horizonte
+ a ti concorrerão por toda a parte
+ dançantes bandos que a viola impéra.
+ Verás girar seus bailes rebatidos
+ em redor das estridulas fogueiras;
+ ouvirás os seus canticos em coro
+ devoto e namorado; a bomba foge,
+ zune fugindo, e solapada estoira;
+ o buscapé no ar caracolando
+ morde n'um, morde n'outro, ameaça a todos,
+ dispersa os grupos, gasta-se raivando,
+ e entre os risos rebenta atroando os ares;
+ aqui, circula em vertice perenne
+ a roda leve espadanando incendios,
+ chovendo oiro luzente e estrellas alvas;
+ ali, floreia o fulgido valverde,
+ vulcão sonoro que arremette ás nuvens;
+ vôa, remonta impaciente aos astros
+ o ignívomo foguete estrepitoso.
+ ¡E a musica entretanto! ¡e as doces falas!
+ ¡e os segredos d'amor! ¡e a prece occulta!
+ e essa mão dada a furto, e a furto acceita!
+ ¡e esse olhar falador! ¡e essas virtudes
+ da meia noite em ponto! e a flôr crestada!
+ ¡e as sortes que a fortuna extrai ás vezes,
+ e muitas mais a próvida malicia!
+ ¡e a fonte que amanhece entre descantes,
+ e pasma rindo de se ver c'roada
+ de festões verdes e enlaçadas flores!...
+ ¡Que noite! ¡que prazeres! ¡que triumphos
+ te aguardam no porvir, me estão na mente!
+
+ Mas se ao neto do Libano silvestre,
+ se á arvore do templo, ao cedro antigo,
+ mais contenta sublime austeridade,
+ religioso é o chão que te sustenta,
+ santa e severa a muda visinhança.
+
+ D'esse lado, essa relva avelludada
+ foi chão d'egreja outr'ora, e esconde os mortos;
+ onde a oliveira está, surgia a torre;
+ bradava aos eccos dos remotos cumes
+ o sino da oração, lá onde agora
+ está cantando o melro; e pasce a ovelha,
+ balando o seu amor ao filho ausente,
+ onde a moça aldeana ajoelhada
+ em noite do Natal, ante o presepio
+ acalentava em côro o Deus Menino.
+ Nem portas, nem degraus, nem muros restam!
+ ¡Um saxeo altar! ¡por tecto uma parreira!
+ ¡e um San-Jorge musgoso entre silvados!
+ D'aqui, filho do antigo, o novo templo
+ te alveja em face. Em fundo de sepulcros
+ por ossos vãos enredarás raizes.
+
+ ¡Que vezes para o ceo voarão juntos
+ o perfume do incenso e o teu perfume,
+ o teu sussurro e os canticos da Biblia!
+ Escutarás por baixo do teu cume
+ os mysterios, a supplica chorosa,
+ as lições da moral, do Eterno as glorias,
+ o voto humilde, a gratidão serena,
+ o tom pesado dos funereos Psalmos,
+ a infancia d'entre as aguas renascida,
+ os protestos do amor que acceita e córa;
+ e o mais que o mal previne e o mal espia,
+ gera, vigora o bem e o bem premeia,
+ suavisa as dores, o prazer modera,
+ adoça a vida, aperfeiçoa os homens,
+ e por c'roa da paz a paz promette.
+
+ Assim, quasi debaixo de teus ramos,
+ juntarás o que a mil faria illustres:
+ a raça que milita, e a que triumpha;
+ os cultos da saudade, e os cultos vivos.
+
+ Cresce pois outra vez, cem vezes cresce.
+ Alto, em frente do humilde presbyterio,
+ torna-te a sentinella das montanhas.
+
+ Se o peregrino, attonito, espantado,
+ errar nos cumes alongando os olhos;
+ se vires muito ao longe os passos frouxos,
+ o curvo dorso, o pallido semblante,
+ e as cans sem honra do ancião mendigo;
+ indica-lhes a senda hospitaleira,
+ mostra-lhes em teu lar os seus penates;
+ e dize ao peregrino:--Eis a poisada;--
+ e ao mendigo:--Bom velho, andas perdido;
+ reconhece o teu fumo, a tua porta,
+ teu leito, os teus irmãos, teu pae, teus filhos.--
+
+ ¡Oh! ¡que viver, que almo viver te aguarda!
+ beneficencia, paz, respeito, gozos,
+ ¡quantos bens! ¡e esses bens quão longas eras!
+ Mas nós... ¡ah! nossos dias fugitivos
+ seculos são se á rosa se comparam,
+ mas passam como a rosa a par dos cedros.
+ Para ti, de anno em anno a primavera
+ virá com pompa nova e novas galas;
+ para nós, menos flores de anno em anno
+ lhe virão no regaço; menos fogo
+ nos olhos, no sorrir menos ternura.
+ Eu, que outr'ora a cantei, que ardi por ella,
+ para quem toda a alegre Natureza
+ era animada, meiga, inspiradora;
+ que doce delirava entre as violetas,
+ entendia o favonio e a voz das fontes,
+ entrava co'a andorinha em seus prazeres,
+ co'o rouxinol em seus segredos ternos;
+ que do meu estro nas visões formosas
+ arvoredos, oiteiros, grutas, rios,
+ povoava das priscas divindades,
+ e n'um mundo só meu, vivia todo...
+ hoje, ¡quão frouxa pela mente nua
+ sinto raiar a inspiração que imploro!
+ Do genio a seiva, a primavera da alma,
+ langue; raro floresce, a longe, a longe.
+
+ ¡Como! ¡tão novo ainda, é já forçoso
+ que a grinalda poetica se esfolhe!
+ ¡Lyra que apenas entoou preludios,
+ já desafina, e jazerá sem honra!
+ ¿Serão estes os canticos do cysne?
+
+ Ó meus delirios, nuncios meus de gloria
+ ¿mentieis vós? ¿ir-se-hiam para sempre
+ lagrimas, illusões, ternura, cantos?!
+ ¡Ah! ¡sentir-se morrer, que acerba morte!
+
+ E tu tambem, tu morrerás um dia.
+ As raizes cançadas de nutrir-te
+ não pedirão mais succo á larga terra.
+ ¡Adeus, ninhos d'outr'ora! adeus frescura,
+ sombras, sussurro ameno e cheiro alegre!
+ A copa verde que hospedava as nuvens,
+ ludibrio d'auras, arida esvoaça.
+ Mas ao menos feliz impresciencia,
+ don melhor que mil dons, te coube em sorte.
+ Dominas vastamente o ar e a terra,
+ sobes vaidoso aos ceos, á Estyge afundas,
+ e baqueias sonhando eternidades.
+
+ ¡Ó arvore, alevanta-te! ¡desata
+ em nossos dias tua umbrosa pompa!
+
+ Emquanto a raça ephemera dos homens
+ vai e vem, faz, desfaz, se eleva, desce,
+ tu, fixa, tu do sabio exemplo inutil,
+ medra pelo descanço; igual hospéda,
+ sorrindo sempre, as estações oppostas;
+ presta-te aos soes e ás luas, que sem conto
+ volverão sobre ti; sê caro asylo
+ ao favonio que em braços te adormeça,
+ e ás aves que em teu seio se aninharem,
+ e soffre ou goza o teu destino immenso.
+
+ ¡Ai, nunca de teus ares dominando
+ pela terra de Luso oiças ou vejas
+ da civil guerra as armas fratricidas!
+ Inda agora nos eccos d'estes montes
+ os seus trovões sacrilegos retroam.
+ Inda em nossos ouvidos estremecem
+ quadrupedante estrepito, relinchos,
+ retinir d'armas, rufos de tambores,
+ rolar de carros, vozear de chefes,
+ e os gritos do clarim, pregões da morte,
+ ¡Que esposas inda agora estão carpindo!
+ ¡que mães, filhas, e irmans, inda hoje em lucto!
+ Do sangue a côr maldita inda denigre
+ esses campos de horror; e as sepulturas
+ dos sem numero extinctos nos combates,
+ não florirão inda esta primavera.
+ Do raio o fumo a Lusitania assombra.
+
+ Ó Paz, filha do Ceo, mãe da abundancia,
+ da innocencia e do amor irman e amiga,
+ alma Paz, volve a nós, que assaz é tempo.
+ De opulentos avós mesquinhos netos,
+ já não pedimos bens: aos descendentes
+ do povo infesto a Roma e Rei do mundo,
+ basta um pouco de pão em paz comido.
+ Sobre os antigos loiros desfolhados
+ caiba-lhe ao menos respirar dormindo,
+ ¡Que ideia tão inhospita e gelada!...
+
+ ¡Aguas! ¡aguas! ¡reguemos o bom cedro!
+ ¡lá se vai por o sol! ¡cá nasce a lua!
+ Ó lua, vem propicia á joven planta;
+ e tu, doirado sol, propicio volta.
+
+ ¿Quem bate?... ¡parabens! dançae, folguemos?
+ ¡eis o pobre! ¡eil-o! ¡é Deus que a nós o envia!
+ ¡sim! da parte de Deus vem sempre o pobre.
+ Entrou á rega; ¡é fausto o agoiro! ¡é fausto!
+ enchei-lhe a taça, beberemos todos.
+
+ Conduziram-n-o ao lar; da farta ceia
+ leval-o-hão consolado á foufa cama.
+ Agora, que estou só, que apenas oiço
+ o mui longe cantar das fiandeiras
+ na aldeia d'alem-rio, ¡oh! vem... ¡sentemo-nos
+ ao-pé do que algum dia ha-de abrigar-nos,
+ candida imagem de Maria ausente!
+ segredarás aquella de que és sombra,
+ que para ella está guardada a gloria
+ de casar algum dia uma roseira
+ ao já seguro tronco. ¡Ai, doce emblema
+ da quêda e flórea vida, enlevo de ambos!
+
+
+XLIX
+
+Versos a este modo, e até somenos, brotaram por ali muitos nas
+temporadas luminosas, ou menos escuras; e em quasi todos elles brilhava,
+ou se entrevia, a estrellinha polar, para onde apontava o meu coração
+magnetisado.
+
+¡Podera não! Todo o solitario tem lá sua visão de que se não desapega
+por mais que faça.
+
+O poeta das tristezas não sonhava senão Roma no Ponto Euxino.
+
+S. Jeronymo, na sua cova, batia com a pedra nos peitos, a ver se matava
+lá dentro seductores phantasmas de mulheres.
+
+Eremitas na Thebaida, invocando Anjos do Ceo, eram tentados de demonios
+terrestres formosissimos.
+
+Petrarca, em Valchiusa, tinha Laura morta engrinaldada sobre um altar a
+escutál-o.
+
+Camões na gruta de Macau não estava sem Natercia.
+
+Maria, nos fraguedos do Caramulo, não podia deixar de raiar-me a cada
+passo, como a lua, que, entre fagueira e melancolica, se encobre e
+descobre de continuo ao que transita por moitas e bosques; e, ou
+elle vá, ou pare, ou retroceda, o acompanha sempre, e lhe dá a
+sentir, com enternecido agradecimento, que não vai só.
+
+O mais e o melhor da minha poesia inculta dirigida a ella, não era porém
+o que se escrevia; era sim o que se me ia
+
+ _de noite em leves sonhos que mentiam,_
+ _de dia em pensamentos que voavam;_
+
+lyrica interior, que todos, cuido eu, conhecerão, ou conheceriam alguma
+vez; bafagens que veem direitas do paraizo á alma, e da alma se tornam
+para d'onde vieram, sem deixarem cá em baixo vestigio, mais que um
+frémito voluptuoso no coração, que de fóra se não percebe. Vêem-se manar
+lagrimas sem dôr, errar pelos labios uns sorrisos não alegres, mudar
+cores o semblante, despegar-se dos seios um suspiro, as mãos
+estenderem-se á procura do que quer que seja; vê-se tudo isto, e
+diz-se:--É um visionario, ou está sonhando;--e não é senão um poeta, que
+está lendo em si o mais celestial poema que nunca houve, mas que nem
+elle tornará a abrir, nem outrem jámais adivinhará.
+
+D'esses poemas fiz eu, e perdi, innumeraveis.
+
+Fazia-os ao pendurar ritualmente no crepusculo da tarde de cada sabbado
+uma capella de murtas nos ramos do meu cedro, consagrado a ella, e que
+me parecia tão desejoso de festejál-a como eu proprio; fazia-os deitado
+nos povaes de tijolo de S. Sebastião, ao ramalhar das carvalheiras,
+pelas séstas; fazia-os regando o jardimsinho de narcisos, gradeado de
+canas, por baixo da fonte do passal; fazia-os encostado sosinho a
+deshoras pela noite velha á janella do meu quarto, que deitava para a
+banda do horizonte, onde devia ficar o d'ella; fazia-os ouvindo ler
+versos apaixonados, que todos no espirito se me traduziam, e se
+combinavam na minha historia, muito mais apaixonada que elles todos;
+fazia-os escutando lá de um oiteiro o sino das Ave-Marias, ao cessarem
+os trabalhos da terra, na hora em que o ceo accende, como lampada para
+infinitos amores, a estrella magnifica de Venus; mas sobre tudo os fazia
+fechado por dentro na minha Villa Viçosa de palha, junto á _Pedra
+Branca_, ao abrigo das chuvas e frios, do sol e dos ventos, de
+rumores e distracções, livre de olhos, de ouvidos e de pensamentos
+extranhos, só por só com a minha ausente. Para ella renovava as flores e
+a agua na urna de barro sobre a mesa entre os sophás de cortiça. Ouvia-a
+cantar ao som da sua viola franceza; dizia-lhe extremos de brandura, que
+nenhuma linguagem humana traduzira; perdia-me pelos mysteriosos
+labyrinthos da sua sensibilidade, nunca dantes franqueados; escutava o
+meu nome tornado musica pelos seus labios; recostava-a n'um coxim de
+rosmaninho; ajoelhava-lhe aos pés em adoração; voava-lhe aos braços, e
+anciava morrer ali assim, porém com ella, que eu sou o irmão mais novo
+de Propercio:
+
+ _Tunc ego, sed tecum, mortuus esse velim._
+
+Nada me inspirava tanto como a boa da casinha, tão depressa e tão sem
+custo edificada, que parecera improviso de Sylphides e Sylphos, e na
+qual se dissera terem elles ficado; ¡que assim era prestigiosa!
+
+Fôra sempre a minha ambição mais levantada, e algumas vezes me chegou a
+ser esperança tambem, o possuir vivenda minha em torrão meu, por mim
+delineada, feita aos meus gostos, sem visinhos mas respirando
+hospitalidade; solitaria, mas ridente; sem fausto, mas abundante em
+commodidades, em graças profusissima. Aquillo de poder um homem dizer
+que tem a sua cama, a sua meza, a sua lareira, e os seus livros, entre
+paredes e debaixo de telhas muito suas; que vive e pernoita com raizes
+no solo; que emfim é dono, para fruir e testar, de uma porção do
+terceiro planeta vindo do sol, ainda que não sejam senão poucas braças;
+e que o Imperador de França não é mais senhor, nem porventura tanto, das
+suas Tulherias... deve ser umas delicias muito grandes. Nunca as
+experimentei, nem experimentarei já agora; mas imagino-as; e pode-se
+dizer que as sonhei, sem dormir, no meu aureo salãosinho de feno.
+
+¡Como eu ampliava tudo aquillo com a varinha de condão da phantasia! a
+um lado, a alcova nupcial, com suas janellas cortinadas de verde pela
+frondosidade do pomar contiguo; a outra parte, a saleta do fogão para o
+inverno, dominado aos bustos de Sapho e Anacreonte, a olharem para
+as estatuas de Homero e de Virgilio; aqui, a livraria com a mesa para a
+escripta, e dois espaldares de braços; a casa de jantar com sua fonte e
+viveiro de aves, e a porta larga e envidraçada aberta para a horta
+ajardinada; e a voz de Maria, a presença de Maria, a musica do seu
+vestido, o calor da sua bondade alegre e vigilante, por toda a parte.
+
+Basta, basta já de pisar folhas d'outomno que murmuravam viçosas e
+rescendentes por cima e em derredor, e agora me estalam pallidas e
+seccas por baixo de cada passo.
+
+
+L
+
+Ahi fica entregue ao publico da minha terra, pelo ter em conta de amigo,
+a Chave do meu Enigma, assim como se põe nas mãos do melhor e mais
+proximo parente a do caixão doirado e funebre que desappareceu.
+
+Como de hoje ávante nunca mais havemos de tornar a este assumpto,
+acrescentarei ainda algumas palavras, e as derradeiras, destinadas a
+acclarar outro supposto mysterio com que as trevas d'este se duplicavam.
+
+O immortal autor da _Epopeia naval portuguesa_, o meu bom e velho amigo
+Joaquim Pedro Celestino Soares, fazendo-me a honra de me dedicar este
+seu recente monumento de glorias portuguezas, mostra-se maravilhado de
+que eu pinte, sem os ver, tantos quadros da Natureza. Muitas pessoas
+antes d'elle tinham manifestado egual admiração, para mim obsequiosa, e
+mais que obsequiosa--lisonjeira.
+
+Suppondo que as minhas descripções de objectos visiveis, desde as
+_Cartas d'Ecco_, _Primavera_, _Amor e Melancolia_, até ás presentes
+paginas, conteem algum longe d'esse merito que tão benevolamente se lhes
+attribue, aqui está a explicação que eu posso dar d'esse phenomeno
+simplicissimo.
+
+Teve a nossa criança, emquanto o foi, e segundo já vos disse, uns olhos
+de formoso brilho, vividos, buliçosos perscrutadores insaciaveis, e de
+um alcance desmedido. Mais de uma vez ouviu dizer a sua mãe, que
+pareciam duas janellas armadas de festa, onde a alma vinha contente lá
+de dentro espairecer mirando-se no Universo.
+
+Por volta dos seis annos, a segunda enfermidade, de que já vos falei,
+enfermidade peior que a imaginaria tysica, fechou inopinadamente
+aquellas janellas, deixando passar apenas, atravez, uns reflexos
+duvidosos de claridade, frios, desvestidos de côres, desertos,
+importunos; clarões, que, em vez de trazerem alimento a percepções e
+alegrias, só occasionavam pelo contrario dores physicas no orgão, por
+então só vivo para padecer. Este mesmo inutil e violento crepusculo, foi
+portanto necessario repulsal-o; um veo de seda negro foi lançado sobre a
+innocente cabeça; fecharam-se-lhe profundissimas as trevas; a victima, o
+meio-morto, descançou; ouvia chorar, não sabia por quê.
+
+Se um cadaver no sepulcro podesse pensar, ¿sobre que pensaria? Sem
+duvida sobre o anterior viver que se lhe acabára; revolveria, combinaria
+de mil maneiras as ideias do preterito, como um avaro, debruçado sobre o
+thesoiro, mergulha os braços até aos cotovelos, e o coração até ás
+auriculas, no seu charco inutil de oiro e prata. A pobre criança
+ruminava ás escuras as visões em que se pascêra na claridade; ia-as
+convertendo de vagar em substancia propria. Como por fóra fazia noite,
+illuminava-se por dentro com quantas luzes se lhe tinham prevenido a
+tempo, e que ella instinctivamente espertava de continuo. O seu espirito
+era como a lamina photographica, ainda não inventada: recebêra as
+imagens; fechara-se-lhe depois a camara obscura; agora estava-as fixando
+em si próprio por uma chymica natural; fôra espelho, era estampa.
+
+Passaram annos; levantou-se o veo negro; Deus apiedado tinha outra vez
+dito: «Faça-se a luz.» Reappareceu o dia.
+
+¿Reappareceu? não; veio novo, diverso, de natureza extranha; uma especie
+de dia crepuscular; entre ledo e saudoso; mixto de realidades,
+verosimilhanças, conjecturas, sonhos; comparavel por ventura, sem grande
+impropriedade, ao que são algumas das phantasticas noites de lua cheia
+no estio, ou ao alvor espalhado no Elysio pelos poetas.
+
+Pensando bem n'isto, não posso deixar de render graças á Providencia, e
+de descobrir n'esta sua liberalidade, e mesmo nos precedentes rigores,
+novas inducções para acreditar, entre mim, que toda a minha
+predestinação era, como desde o principio me aventurei a dizer-vol-o,
+que não fosse eu jamais outra coisa senão cantor, e não fosse cantor
+senão de ternuras.
+
+Vós, que ledes pelos vossos proprios olhos isto que vos eu escrevo por
+mão alheia, vós, que disfrutaes, sem a aproveitardes assaz, a dita de
+possuirdes uma excellente vista, sentireis por ventura alguma
+difficuldade em conceber aqui o fundo do meu pensamento. Ora vejamos se
+vol-o decifro.
+
+
+LI
+
+Com ser a luz uma communhão universal do Amor Divino, meza infinita em
+que os soes aos milhares ministram aos planetas sem conto; e aos entes
+sem limite de que os povoou o Omnipotente, é comtudo certo, que, assim
+como vão desiguaes os quinhões de luz de cada sol aos planetas e
+satellites que a distancias entre si diversas o rodeiam, assim tambem na
+esphera que habitâmos, por exemplo, a luz vem medida aos sitios, ás
+estações e ás horas, ás especies, aos individuos, ás edades e ás
+circumstancias, em proporções diversissimas, todas calculadas, todas
+certas, e todas em harmonia com as complicadas precisões de um systema
+geral e perfeitissimo.
+
+Comparae a claridade das cinco zonas; em cada zona, a das quatro
+estações; e em cada estação, a das montanhas, dos valles, dos bosques, e
+das cavernas; a da manhan, do meio dia, da tarde e da noite. Depois em
+cada logar e á mesma hora, considerae no como a luz, banhando e tingindo
+unicamente a superficie dos corpos inorganicos, incapazes de a sentir,
+vai abraçar com as suas caricias os entes organisados, que n'ella, e no
+calor seu companheiro, parecem aspirar a vida, o amor, a alegria; a
+adoração, como sectarios de Zoroastro. Os vegetaes, sem olhos, a bebem,
+se inebriam, riem-lhe em flores, com murmurios lhe falam, com
+fragrancias a lisonjeiam; brincam-lhe com os raios, decompondo-os na
+folhagem buliçosa, resurtindo-os; alvoroçam-se com a aurora, pendem-se e
+fecham-se ao escurecer; despem galas no inverno; na primavera
+retoucam-se e amam; no estio pompeiam e triumpham. Mas n'esta mesma
+generalidade ¡que differenças e quasi excepções! Para todos a luz é
+condição do ser e felicidade; mas o musgo que prospera na penumbra da
+Islandia, pereceria fulminado como Sémele, se o ardente sol dos tropicos
+o visitasse; as plantas magnificas dos tropicos, nas nossas latitudes,
+só temperadas, morreriam cegas á mingua de esplendores. Uma herva ala-se
+do fundo do fojo para o celeste amante, a quem o girasol no seu jardim
+vai tambem seguindo com a larga fronte doirada, que parece um retrato
+ephemero do bello astro, explica a fabula de Clície, e dá razão aos dois
+versos do Camões:
+
+ _Transforma-se o amador na coisa amada_
+ _por virtude do muito imaginar._
+
+Entretanto as grutas e os subterraneos lá teem não menos seus jardins
+umbrátiles, onde mil especies vegetaes, com uma só gotta de luz diluida
+nas trevas, alimentam e aditam a existencia.
+
+Os animaes, se exceptuarmos algumas raras especies mais baixas na
+gerarchia, que parecem não ver, dado se voltem para a luz como as
+plantas, os animaes absorvem-n-a com delicias.
+
+Os seus olhos são os vasos de gemmas finissimas por onde os seus
+espiritos a bebem; mas n'estes vasos sem conto, ¡que differenças nos
+tamanhos, nos feitios, nas cores, nas propriedades! Todos se enchem á
+immensa cascata de luz que jorra inexhaurivel: quaes em golfadas
+copiosas, quaes em estillas diminutas; estes, sombria, que fôra trevas
+para aquelles; aquelles, tão luxuosa, que cegaria a estes. A aguia
+devassa do alto os pormenores da campina; o insecto perscruta, com
+inveja dos sabios, o ignorado mundo dos infinitamente pequenos; e
+eximindo-se por sua tenuidade á perspicacia humana, é ainda por ventura
+condor, elephante, e lince para universos vivos, nem por nós sonhados, e
+de mil vezes mais espantosa exiguidade. Ha olhos-telescopios, ha
+olhos-microscopios, olhos que aproximam, olhos que afastam, olhos que
+alternativamente afastam e aproximam, olhos que se fitam rectos n'um só
+ponto, olhos que miram para todas as partes ao mesmo tempo, olhos para o
+dia, olhos para a noite, olhos unicos, olhos multiplices, olhos, em
+summa, que só a Sabedoria de Quem os ideou e perfez poderia
+discriminar e abranger em descripção ou cómputo.
+
+No meio d'estas myriades de orgãos destinados a pascer-se nas lindezas e
+magnificencias exteriores da Natureza, foi ao homem, seu filho
+predilecto, que ella deu com a razão e o engenho os mais admiraveis de
+todos os olhos. Emquanto os dos outros viventes, afinados pelas
+precisões circumscriptas dos que os possuem, não transpõem limites
+relativos e determinados, os do homem, pelos milagres da Arte, tornam-se
+mais que de aguia no alcance longinquo; rivalisam com os dos insectos,
+mergulhando profundamente pelos abysmos da pequenez; vão buscar para o
+dominio da Sciencia astros sumidos nas profundezas do espaço, arcanos de
+anatomia nos vermes imperceptiveis, nos globulos do polen das florinhas
+mais tenues, nos atomos da poeira impalpavel; e dominadores da luz,
+pelos instrumentos com que se completam, a refrangem á vontade, e a
+decompõem, como a divina Iris no firmamento.
+
+¡Entretanto a vista humana, assim mesmo dotada, quão pobre não é para
+saciar o animo curioso! ¡e então no seu estado natural, que myopia! ¡que
+imperfeição! ¡que fallibilidade! Aquelles mesmos objectos, que pelo seu
+volume e proximidade mais parecem estar em relação activa, passiva,
+necessaria, quotidiana, com o espectador, não passam de uns mascarados e
+uns fingidos, que, divertindo-o e ajudando-o, zombam d'elle continuamente.
+
+¿Que é ver uma rosa, uma arvore, um edificio, um monte, o Oceano, mesmo
+com os olhos mais perspicazes e attentos? É receber de cada coisa
+d'estas uma ideia vaga, superficial, imperfeita, diminutissima, falsa.
+Quando não, acuda a lente a averiguar uma só petala da rosa, uma só
+folha da arvore, uma só pollegada do edificio, um só grão da terra do
+monte, uma só gotta do Oceano (mas ainda a lente não diz tudo); para
+logo se reconhecer com espanto que isso que se chamára ver, não passava
+de illusão; era um andar palpando em grosso e ás cegas alguns vultos
+grandes; nada mais. Se o mundo moral e intellectual nos estão inçados de
+mysterios, erros, e ignorancias, os aspectos do mundo physico não são
+menos enganosos; representa-se a comedia da vida n'um theatro já para
+ella de proposito armado pela Natureza, com o mais ficticio de
+todos os scenarios: _Mundum tradidit Deus disputationi hominum._
+
+N'este cahos universal de enigmas e chimeras, o instincto de saber
+impacienta-se, agita-se, barafusta, sonda, investiga, conjectura;
+adivinha ás vezes; aspira a matar a grande esphinge, que se ri d'elle, e
+que não morre.
+
+O instincto da Arte, menos ambicioso, mais pacato e mais philosophico a
+seu modo que o ardor scientifico, contenta-se com as brilhantes
+apparencias; estuda-as, sem pensar em as dissecar; e, como de todas lhe
+resultam harmonias, todas falam ao espirito e ao coração, sobre todas
+paira o ideal, de todas se reflecte o amor e a sabedoria, não precisa,
+nem pede mais, posto o deseje, e o aproveite quando a Sciencia o
+desencanta e lh'o ministra.
+
+Reflectindo nas verdades incontestaveis e vulgares que deixâmos
+indicadas, tem-se logo de reconhecer que os poetas, na sua qualidade de
+pintores, só reproduzem apparencias, perseguem sombras; e, combinando-as
+e variando-as ao sabor da phantasia e do gosto, aquecendo-as de affecto,
+e arraiando-as de idealidade, criam para a alma, dentro n'um mundo
+phantastico, outro mundo ainda mais phantastico. ¿Não é assim?
+
+Ora pois: a criança tão nossa conhecida recebêra, nos annos das
+primeiras e fortissimas impressões, as ideias, como vós em egual edade
+as recebestes, e as continuais a receber, dos objectos que aos olhos se
+offerecem em multidão; depois, fechada a sós com essas ideias, não as
+destruiu: fortaleceu-as, confirmou-as; depois finalmente, quando entre
+ella e o espectaculo se ergueu de novo o panno, e a scena lhe appareceu
+transfigurada, isto é, quando reviu menos vividos e distinctos os mesmos
+objectos, tirou das suas reminiscencias com que os completar.
+
+
+LII
+
+--¿Mas como é--insistem--que, distinguindo apenas, e a curta distancia,
+os vultos grandes e as côres, consegue descrever, não sem alguma
+verdade, quadros da Natureza vastos e minuciosos, cujos originaes sem
+duvida lhe escapam?--Do mesmo modo, pouco mais ou menos, como
+qualquer leitor por uma descripção poetica debuxa no seu espirito um
+objecto, cujo total nunca viu, mas cujas partes componentes a uma e uma
+lhe são todas familiares. Variando os elementos que possuo, vou compondo
+os quadros a meu gosto.
+
+Mas o que sobre isto vos poderia amiudar, já versos meus o disseram,
+agradecendo a um pintor amigo, a Sendim, o ter-me retratado. Se os
+lestes, saltae as seguintes paginas; se os não lestes, e vos interessa
+tal investigação, aqui os tendes. A mim apraz-me reproduzil-os; são já
+hoje saudades de vinte e tantos annos.
+
+ Já desde Homero, em tráficos do Pindo,
+ amigo meu Sendim, não roda o oiro.
+ Versos, bustos, paineis, primor das graças,
+ pague-os sêcco Bretão por sommas brutas,
+ se muito ha que do autor deu cabo a fome.
+ Lisonja em metro, em marmores, em côres,
+ encommende-a o mimoso da fortuna;
+ pague com seus dobrões a gloria alheia.
+ Nós que, longe da terra, ao vulgo extranhos,
+ vivemos facil vida anachoreta
+ por solidões de imaginario mundo;
+ que os loiros para nós por nós plantados
+ ouvimos sussurrar por sobre o colmo
+ da ermidinha onde as musas nos visitam;
+ nós, nós, a quem deu alma a Natureza,
+ não terrea, não mortal, não simples alma,
+ de instinctos animaes fugaz composto,
+ mas generosa, esplendida, sublime,
+ mixto da etherea luz, do olor das rosas,
+ do gorgeio do cysne, e do profundo
+ bramir do Oceano, e do beijar das rolas,
+ e do albor melancolico da lua,
+ e da calma do estio, e das sonoras
+ bafagens tuas, Héspero, e do lume
+ trémulo e scismador dos longes astros,
+ não pomos preço vil ao que é sem preço.
+
+ Como lá n'outra edade, entre homens simplices,
+ colono, pescador, monteiro, artifice,
+ de mão a mão seus commodos trocavam,
+ tal dura e durará commercio nosso.
+ Irmans, e não rivaes, as artes-bellas
+ apertem mais e mais seus mutuos laços;
+ sua origem commum, seus fins os mesmos,
+ impõem-lhes lei de amar-se, unir esforços,
+ umas ás outras realçar o encanto.
+ Mais, muito mais que irmans, são todas uma;
+ em nome, em fórma varia, é uma a essencia:
+ a belleza, a verdade, anceiam todas.
+
+ Pinta o Meónio, poetisa Apelles,
+ Phydias derrama em marmore a harmonia,
+ Orpheu nos magos sons esculpe os deuses.
+ Não ha mais que um só Deus, uma verdade,
+ uma belleza só; mostral-a em côres,
+ em figuras, em sons, em phrases podes;
+ são cultos de um só nume em linguas várias.
+ A amendoeira em flôr é primavera,
+ primavera é como ella o ceo macio,
+ primavera a violeta, os ninhos novos.
+ Unica e pura a eterna luz do engenho
+ dos sentidos no prisma se refrange,
+ e sai cambiada em fulgidos matizes.
+ Como as côres são luz, são estro as artes.
+
+ De nossa industria os fructos permutemos.
+ O mago teu pincel doou-me aos evos;
+ se os versos meus aos evos resistirem,
+ nos versos meus reflorirá teu nome.
+
+ ¡Ah! ¡não poder eu mais! qual tu meu todo
+ á estampadora pedra o confiaste,
+ capaz de confundir maternos olhos,
+ ¡não poder eu tambem pintar no metro
+ genio, vida, expressão, physionomia
+ de quadros, onde a mente aos olhos fala!
+ Desegual foi comnosco a Natureza:
+ amante seu feliz tu gozas d'ella,
+ abráçal-a com extasi, sorri-te,
+ descobre-te um a um seus mil encantos;
+ e, como se um tal bem não fosse immenso,
+ diz-te:--«Eis-me aqui, retrata-me, ó ditoso;
+ d'onde os gostos extrais, extrae a gloria.»--
+ ¡Não assim eu! eu busco-a... ella se occulta;
+ chamo-a, invoco... ou não vem, ou só de longe
+ fugaz e esquiva se entremostra, e passa;
+ como visão por sonhos vaporosos;
+ como scena confusa e namorada
+ de já perdido livro; como ideia
+ da mui longinqua infancia, que inda a medo
+ por sob as cans revôa ao pé das urnas;
+ ou como o astro da noite em selva umbrosa;
+ ou como as vozes de um serão do estio,
+ quando da aldeia as virações as levam
+ soltas e vagas ao curioso ouvido
+ de erradio viandante; ou como o vulto
+ de ingrata amada em vão, que evita encontros,
+ leve atravez das arvores refoge,
+ sem deixar mais de si que a viva imagem
+ de alva roupa esvoaçada e gostos idos!
+ Realiso as que a Grecia fabulára
+ impaciencias do Alpheu, quando entre as nevoas,
+ doido de amor, frenetico, debalde
+ a vedada Arethusa andou buscando:
+ «Nympha, vi-te--clamava--¡ai! ¡quero ver-te!»
+ e o _ai_, com que as florestas apiedava,
+ não apiedava o coração da isenta.
+ Á beira de suas aguas fugitivas
+ depois cançado e triste ia encostar-se,
+ a procurar pelo animo saudoso
+ que feições enxergou, quaes poderiam
+ ser as mais que não viu; compunha-a toda,
+ linda sim, mas phantastica; e por ella
+ com longo affecto os eccos entretinha.
+
+ Por isso ninguem peça inteiro canto
+ na harpa quebrada. A voz de outros poetas
+ que o solte; não me assombra: a solfa inteira
+ perante os olhos seus se desenrola.
+ Minha harpa incerta, em solidões, por noite,
+ não apontados sons pendente exhala,
+ a capricho de um zephyro que adeja.
+ De Achilles, dos Jardins, do Eden os vates,
+ e dos Bardos o Bardo, Ossian, o altivo,
+ (pelo seu estro o juro; ¡immensa jura!)
+ taes não subiram, se ás geladas trevas
+ desde a infancia atro genio os condemnára.
+
+ Manhan da alma existencia. ¡Oh! ¡como alegre
+ me alvoreceste! ¡oh! plena luz, enlevo
+ de que o minimo insecto ignaro goza,
+ riqueza de que é rico o mundo todo,
+ luz, com pródiga mão dos céos lançada,
+ vida, belleza, luz! palavra etherea,
+ a unica de um Deus no grão momento,
+ em que ao formado mundo erguia o panno...
+ ¡luz! ¡luz! ¡eu te gozei na infancia minha!
+ ¿gozei?... ¿quem te possue goza-te acaso?
+ não; pródigo, indiff'rente, como todos,
+ vi-te, desperdicei te ¡Ah! ¡quem me dera
+ d'essas horas doiradas um minuto,
+ uma só gotta d'essas fontes amplas
+ por este areal tão sêcco! ¡Oh! ¡com que sede
+ n'um só momento me vingára de annos!
+ ¡que joias no poetico thesoiro
+ avido para um seculo ajuntára!
+ ¡Como ás imagens pallidas, que á força
+ te arranco, ó Natureza, como arranca
+ o oiro entre fezes duro escravo á mina,
+ como a tantas imagens desbotadas,
+ rico legado do menino ao homem,
+ revivêra o matiz, o fogo, o lustre!
+ Então, para pintar florestas, mares,
+ não precisára de espreitar confuso
+ um ramo a folha e folha, ou já no copo,
+ agil movido, o rutilar da lympha.
+ Se ouvisse descrever a majestade
+ de um rosto varonil, de uma formosa
+ o encanto, de um menino as graças lindas,
+ tudo isso o variára a mente facil.
+ O aspecto do varão nem sempre fôra
+ a paterna presença. Além de Amalia,
+ de meus brincos pueris ligeira socia,
+ mais formosas houvera, e mais formosos
+ anjos mortaes que o meu gentil do espelho,
+ de olhos tão vivos, tão córado aspecto,
+ riso tão doce, e que eu amava tanto!
+ ¡Saudades vans; desejos vãos e acerbos!
+ Se o mar, se o céo, se os campos se me esquivam,
+ róla a mente em seu mundo infindos mares,
+ campos lhe alastra de opulencia extranha,
+ circumvolve-o de céos fervendo em astros.
+ Tal de Agenor o filho a patria perde;
+ mas se lei deshumana o lança em fuga,
+ oraculo phebêu condul-o a thronos;
+ por Tyro que perdeu lá funda Thebas,
+ a de cem portas nos canoros muros.
+ Mas a patria... era a patria; aquella Tyro...
+ era a Tyro da infancia; o solio, Thebas,
+ o Elysio, o Olympo mesmo, a não valeram.
+
+ ¡Feliz o para quem da vida as portas
+ já se abriram sem luz! Só tem metade
+ do humano apego ao mundo e horror á morte:
+ não viu, chupando o leite, o seio amigo,
+ o sorrir brando, os olhos, e nos olhos
+ o coração materno; as irmans suas
+ não foram mais que uns sons; a rosa, um cheiro;
+ movimento, o passeio; o sol, quentura;
+ um monte, a estiva noite; as Graças... nada.
+ ¡Longe outra vez, e para sempre longe,
+ saudades vans, desejos vãos e acerbos!
+ ¿Que me importam canções? ¿que outrem descreva
+ com mais proprio matiz do mundo os quadros?
+ ¿que tenha ou não mais azas para um voo?
+ ¿que importa que um volume de poesia
+ seja um thesoiro para mim sem chave?
+ ¿e que dos seios do animo rebentem
+ meus versos caudalosos, sem que eu possa
+ co'a propria dextra abrir-lhes a passagem,
+ por onde ávidas paginas inundem?
+ ¿Não me rege inda a luz os cautos passos?
+ ¿não me tinge inda ao perto as varias fórmas?
+ livros... pluma... olhos meus e dextra minha
+ quando jámais n'outro _eu_ me falleceram,
+ n'outro _eu_ onde os amei e os amo em dobro?
+ ¡Graças a amor, á Natureza graças!
+ logrei constante, e lograrei perpétuo
+ nos laços fraternaes consorcio d'almas,
+ nos de hymeneu fraternidade nova;
+ meu ente n'estes entes se completa,
+ já bardo sou tambem... sahi, meus versos;
+ pura mão, don dos céos que eu pago em beijos
+ sollícita vos abre ao mundo estrada;
+ sahi, voae! da gratidão fervente
+ aos olhos de Sendim levae meus votos!
+
+
+LIII
+
+Completemos estas explicações melancolicas.
+
+Aquelles em quem o amor entrou só, ou principalmente, pelos olhos, acham
+custo em comprehender, como desservido da vista se possa na alma
+accender este fogo maravilhoso. A sua mesma ventura é que os torna assim
+pouco philosophos.
+
+Examinemos.
+
+Reuniu Deus para compôr a mulher--remate, corôa, e epilogo da Creação--a
+quinta essencia de tudo quanto derramára de melhor no paraizo, onde a
+collocou, e do qual, ainda depois de perdido, as descendentes de Eva
+ficariam avivando recordações. Quiz Elle, o Summo Factor, fundir-lhe o
+espirito brilhante e suave de um raio de oiro do sol, e de um raio
+prateado da lua. Deu-lhe a pureza da cecem, a alvura do lyrio, o pudor e
+a graça da rosa, a modestia da violeta; accendeu-lhe no olhar brilho de
+estrellas; descerrou-lhe auroras de carmim e perolas no sorrir; para
+fala, concentrou todas as melodias, balbuciadas no frémito das virações,
+no murmurinho das fontes, e nos canticos das aves; modelou-lhe a
+estatura pela dos arbustos mais esbeltos e mimosos; arredondou-lhe as
+fórmas, que lembrassem os frutos mais gentis e apetecidos; diffundiu-lhe
+os cabellos como as ramas pendentes e movediças do salgueiro aquatico;
+impregnou-lh'os de electricidade; embebeu-os de um aroma que fala;
+revestiu-os de brilhantismo; tão esmerado e prodigo os dotou, que o oiro
+e as perolas, as pedrarias, os perfumes, as sedas e as flores,
+ambicionando realçal-os, recebessem d'elles novo preço.
+
+Este ente, meio positivo, meio aereo, meio terrestre, meio ceo, que
+volteia por entre nós como anjo desterrado, saudoso, mas contente, tendo
+por fala um canto, a sujeição e a humildade por imperio; em que a
+fraqueza é graça, e a graça omnipotencia; cujo encargo é mais que
+eternisar a especie,--é entretecel-a, domesticál-a, refinar-lhe o gosto,
+os instinctos do bello, os arrojos para o bom e para o sublime; a mulher
+em summa, fadada de alguma sorte a ser mãe e mestra, guia, arrimo,
+lampada, conselheira, prophetisa, esforçadora, modelo e premio, não só
+de seus filhos, mas de seus irmãos tambem, de seu consorte, de seu
+proprio pae, de todos que de perto ou de longe lhe podessem receber
+directas ou reflexas as influições; a mulher, a mulher--da qual, depois
+de tantos mil volumes de panegyrico, depois de uma idolatria universal
+de seis mil annos, ainda se não exhauriram louvores, nem jámais se hão
+de exhaurir--não seria a vice-providencia, que devia ser, e que é, no
+meio da sociedade, se não possuisse este complexo ineffavel de seducções
+para toda a especie de indoles, de espiritos, de gostos; um laço
+infallivel para cada sentido; um milagre para cada incredulidade; para
+cada infortunio, seu balsamo; para cada edade, seu ramalhete; sua
+estrella para cada noite; mão inesperada e macia para cada desamparo;
+para cada fronte que se despedaçaria ao cahir, a almofada subita de um
+braço todo extremos, de um seio todo suspiros, de um coração todo
+divindade.
+
+Parece que está aqui o animo a nadar á sombra de uma sagrada Paphos n'um
+pego verde e azul, aureo e argentino, embalado pelos mais ridentes
+genios das ficções; e não está senão folheando, ebrio de gratidão, o
+Génesis ineffavel da creatura em quem mais evidentes se revelam as
+perfeições do Creador. O que pareceria um hymno, é, para quem o souber
+meditar, uma succinta e desenfeitada pagina de historia natural.
+
+Ao homem grosseiro, pervertido, gasto, embrutecido, represente-se muito
+embora que a mulher, brotada para seus prazeres ephemeros, como as
+flores, não pode penetrar dentro em nós senão pelos olhos; feche-os, e
+escute: lá está ainda ella com a sua magia. Furte-lhe tambem os ouvidos,
+como Ulysses ás sereias; não a destruiu; o calor, os abraços, e os
+beijos, lhe revelarão completos os seus encantos. Não ouse ou não possa
+tocál-a; um halito, uma fragrancia subtil, que não é de flores, mas de
+vida,--que é mais que de vida, pois é do amor,--lhe dirá: aqui está o
+fruto para a tua avidez e para a tua sêde.
+
+É porque a mulher, communhão perfeita do affecto, é toda para todos, e
+toda para cada um. Triumpha na luz, como n'uma auréola; enleva nos sons,
+como n'um cantico; insinua-se por cada sentido; infiltra-se por cada
+póro; não ha porta na alma que se lhe não franqueie. É a chamma
+electrica, para a qual não ha resistencia nem muralhas. Fugi-lhe;
+esquivae-vos; sumi-vos nas entranhas da terra; lá mesmo sereis d'ella;
+vel-a-heis sorrir-vos, aquecer o vosso jazigo, bafejar cubiças ao vosso
+coração, fazer do vosso nada um universo, reerguer-vos para o Ceo, de
+que blasphemaveis.
+
+Pelo que pertence em particular ao homem da nossa historia, eis aqui
+chãmente o que eu sei, e que não é muito.
+
+Comprehendestes, cuido eu, como a grande Isis, a Natureza, a qual para
+nenhum de vós se despe de todos os seus veos, quiz ser ainda mais
+esquiva, mais recatada, mais avára para com elle, para com elle seu
+fervoroso adorador. Não se lhe furtou de todo; não apagou entre si e
+elle o sol, como já fizera com o seu Homero; mas annuveou-lh'o como para
+a solemnidade de um mysterio magico; e, mesclando trevas com luz,
+benigna e ainda mãe no seu rigor, lhe ensinou a adivinhál-a, a
+completar-lhe as lacunas das realidades com as phantasias, a estudar a
+um e um os seus pontos mais frisantes, e de inducção em inducção, de
+analogia em analogia, de probabilidade em probabilidade, a recompol-a,
+ou a creal-a, não verdadeira nem falsa, chimera organisada de certezas,
+hypothetica nos accessorios, incontestavel no essencial; retrato seu,
+imperfeito, mas reconhecivel, mas formoso, mas sympathico, mas
+inspirativo, mas sufficiente e sobejo para idolatrias.
+
+Qual a Natureza lhe apparece e lhe poisa para modelo diante da lyra, tal
+lhe assoma diante do coração esta florida cifra da mãe Universal, o
+archétypo das perfeições: a mulher.
+
+
+LIV
+
+Mancebo, que me has-de ler curioso e condoido: ¿conheces tu porventura
+aquella que te embelleza e te fascina? não te pergunto pelos arcanos do
+seu interior, que ella propria não decifra; falo só do que só porventura
+te seduziu; falo da sua fórma externa; falo mesmo d'aquella porção
+exclusivamente que a arte não some em nuvens de tecidos preciosos, em
+auroras de mil cores, em espumas de rendas, em cascatas de oiro, de
+aljofares, de diamantes, cahos esplendido que sonega um mundo de
+gentilezas a attrahir-te e a repulsar-te; falo unicamente do semblante;
+do semblante que emerge livre, dominador e risonho, por cima de tamanha
+cerração de enigmas. ¿Vês tu em realidade esse rosto que te encara com
+tão seductora franqueza, que para ti se banha nu em ondas de luz sob os
+lustres e sob o sol? ¡Pobre illudido! ¡Se o vidro augmentativo t'o
+averiguasse, talvez recuarias de espanto! a tez mimosa e córada, a tez
+que ambicionavas beijar tão lisa e tão perfeita, reconhecêral-a vasto
+mappa de cavernas e montanhas, de torrentes mal cobertas, de espessuras,
+homizio e pastagens de viventes, para quem mais que para ti foram
+fabricadas aquellas regiões incognitas. Com a apparição d'esse mundo de
+lindezas microscopicas, evocadas por um crystalzinho convexo,
+desappareceria a beldade que a Natureza, benignamente enganadora, te
+inculcava; o que a tua sciencia ganhava, o enthusiasmo do teu amor o
+perdia sem remedio. Decomposta em mil formosuras, aniquilára-se a
+formosura, que só á providencial, á calculada imperfeição dos teus
+orgãos tinha devido a existencia.
+
+¡Bemdita sempre e em tudo a Bondade Infinita do Creador! ¡Que philosopho
+insensato se afoitaria a tomar-lhe contas para o censurar! Nem eu, nem
+eu proprio, tenho que murmurar de ser menor que o de outros muitos
+convivas o quinhão que o Pae da luz me concedeu no seu festim.
+
+Cada qual vê a mulher pelo seu prisma, prismas todos differentes e todos
+illusorios. O meu, fundido de um crystal mais turvo, decifra-a,
+individua-a muito menos, é verdade; mas em compensação permitte-me á
+phantasia o completal-a com todos quantos primores sabe, que são infinitos.
+
+¿Querereis dizer-me que são ficticios, que não são ella, esses primores?
+ficticios embora o sejam na origem; mas tornam-se d'ella, são ella mesma
+perante a alma e o coração que lh'os prestaram; é a mulher sem-senão, a
+mulher idealisada, a mulher só assim ascendida a grau de divindade,
+mulher exterior mais parecida por ventura com o espirito gentilissimo
+que lhe mora dentro, que o bando de máscaras femininas, mais ou menos
+imperfeitas, que enxameiam por esse mundo á procura sempre de homenagens
+convictas e duradoiras.
+
+Logo que eu, alchimista combinador e attento, senti uma voz suave, em
+que outros, distrahidos com o olhar não attentariam, e que me desceu do
+ouvido ao seio, distillo d'ella ao brando calor do sangue quanto succo
+ella continha de imaginação ou de Juizo, de melancolia, de prazer, de
+bondade, de innocencia, de sentimento. O perfume que d'ali se exhala, já
+annuncia a deusa. Entrevejo-a; branquejou-me o rosto, d'onde sahira
+tanta melodia e tanta alma. Doto-o, fado-o, opulento-o como podéra fazer
+o Oberon mais carinhoso, ou a Titania mais amante. O phantasma, já meio
+filho da minha adopção, passa por diante e perto de mim; reconheço-lhe,
+ou attribuo-lhe, como Virgilio á divina mãe de Enêas, a estatura, o
+movimento, o andar, que para ser adorada se lhe não dispensa:
+
+ _Et vera incessu patuit dea........._
+
+e não accrescento, porque o não penso:
+
+ _...............tu quoque falsis _
+ _Ludis imaginibus..............._
+
+Beldade assim composta não é só perfeita,--é inaccessivel aos estragos
+do tempo, é rosa que poderá morrer, mas não murcha, não desmaia, não se
+desfolha; quando por fatalidade desapparece, desapparece toda de uma vez.
+
+O commum das mulheres produz o commum dos amores: fogos-fatuos
+fluctuantes, frouxos, passageiros; para a minha, arde o fogo de Vesta.
+
+A par d'esta vantagem, que sem duvida o é para a poesia namorada, um
+terrivel desconto se apresenta logo:
+
+Os olhos fazem mais que descortinar a formosura: dizem aos d'ella o
+effeito que ella produziu; supplicam, exoram, convencem, triumpham;
+possuem uma linguagem innata e universal, instantanea e completa,
+electrica, divina, intraduzivel em sons humanos. Carecer d'esta
+ineffavel faculdade, gozando-se embora da luz para disfructar e amar a
+vida, é vagar surdo-mudo pelo crepusculo n'uma região verde e florida,
+sem tratar com os moradores.
+
+¡Grande e horrorosa verdade! Mas outra vez acudiu aqui maternal a
+Providencia. Assim como outorgára á phantasia uma intuição especial,
+concedeu á linguagem da poesia, encarregada de supprir a do olhar, um
+accrescimo de viveza, uma força de convicção, de sentimento, de
+lealdade, que podesse aspirar, a persuadir.
+
+Os olhos commerceiam o amor, como opulentos, em moedas do mais fino
+oiro, ou em lettras que as sommam e as cifram n'um relance. A fala,
+embora poetica, mais pobre e mais humilde, vai contando os pagamentos do
+coração a real e real, em cobres gastos de uso, em pratas suspeitas de
+liga e falso cunho; moedas de baixo preço, que mil vezes se lhe recusam;
+mas afinal tambem salda a sua conta.
+
+Não me affoito a dizer, nem quasi a pensar, que a diminuição do primeiro
+sentido fosse cabalmente compensada com um accrescimo proporcional na
+faculdade de exprimir pela palavra o sentimento; creio todavia, que
+alguma coisa com isso parecida se deu em realidade; com o que, já pode
+ser que o peculio poetico se augmentaria; nova e suprema prova do que
+assentáramos como fundamento no principio d'este escripto, a saber:--Que
+a Natureza e a fortuna andaram concertadas em preparar por todos os
+meios, com os favores e com as sevicias, um cantor, embora inutil para
+tudo mais.
+
+
+LV
+
+Sobre o livro e sua historia, nada me resta para accrescentar; narrei
+tudo como o tinha na lembrança; forcejei pelo explicar sem vaidade nem
+modestia.
+
+É um pobre escripto, que as almas de bem hão-de tomar á boa parte.
+
+Presumpções litterarias, não as tem.
+
+Quem, obedecendo a instinctos maus, exercesse n'elle critica malevola, e
+até por facillima não muito nobre, juro-lhe eu, sobre minha honra e
+vida, que perpetraria uma feia acção. Deixem aos chacaes o revolverem
+sepulturas, e cevarem-se em ossos.
+
+Sei que ha indoles hostis, que ao tomarem um livro novo, levam já o fito
+em dilaceral-o; e a essas por demais seria o requerer-lhes
+misericordia.
+
+Permittam-me comtudo rogar-lhes que esperem para entrarem na censura
+d'este, que o autor haja tambem desapparecido como o assumpto da obra.
+No intervallo, que não poderá já ser muito longo, aggridam, vulnerem,
+destruam muito embora qualquer outro dos seus escriptos, e todos; não
+lhes exceptua nem um só, a não ser o livrinho do ensino primario pelo
+amor, porque esse não é d'elle; é propriedade inauferivel da puericia,
+da Patria e da posteridade.
+
+
+LVI
+
+A collecção de mais de setecentas cartas, de que sahiu como summario a
+_Chave do Enigma_, existia completa ha poucos momentos ainda; daria tres
+volumes que poderiam interessar, se não como historia, como romance
+intimo certamente; ardeu até ao minimo fragmento, ali, debaixo das
+arvores do meu jardim; eu proprio lhe puz o fogo, velei a pyra em quanto
+se não extinguiu, enterrei as cinzas; davam na torre do palacio das
+Necessidades as quatro da tarde d'este dia 25 de Agosto de 1862.
+
+As razões que me induziram a este sacrificio, rastreiam-n-as todos; o
+que n'elle soffri, tambem o calo, que não importa a pessoa alguma.
+
+A pedra que o ha-de ficar commemorando, e que algum poeta ou alguma
+poetisa lá para o futuro em estio ou outono de amores folgará porventura
+de visitar com este livrinho na mão, dir-lhe-ha isto:
+
+ AQUI JAZEM AS CINZAS
+ DA CORRESPONDENCIA
+ DE
+ D. M. I. DE BAÊNA
+ COIMBRA PORTUGAL
+ E
+ A. F. DE CASTILHO
+ QUEIMADA N'ESTE MESMO LOGAR
+ AOS 25 DE AGOSTO
+ DE 1862
+
+
+LVII
+
+Mais uma ou duas paginas para responder já agora ás ultimas curiosidades.
+
+A 29 de Novembro de 1834, na parochial egreja do Salvador do mosteiro de
+Vairão, recebia eu emfim por minha legitima esposa a D. Maria Isabel de
+Baêna Coimbra Portugal. O orgão cantava não sei que jubilos tristes; as
+Religiosas choravam a perda da sua mais espirituosa, mais suave, e mais
+amavel companheira de tantos annos. A mão d'ella, tremia na minha; o
+alvoroço do seu interior, exhalava-se baixinho em monosyllabos humidos
+de lagrimas; eu padecia e gozava como homem que ia fugir com um thesoiro
+furtado. A boa D. Anna Lucinda não podéra assistir á ceremonia; ¡tanto a
+desejára em quanto só a vira no futuro! e agora... desamparavam-n-a as
+forças para a encarar; jazia doente na sua cella deserta. Maria tomou-o
+por agoiro. ¡Nunca ceo sem nuvem sobre alegrias humanas!
+
+Dois annos, pouco mais, durou a nossa união sempre harmoniosa e intima;
+sempre tal, qual m'a haviam promettido os meus devaneios poeticos tão
+ambiciosos.
+
+Ao longo d'esse breve praso, de que nunca me poderei esquecer, foi
+sempre Maria a melhor metade da minha alma; os olhos e voz para a minha
+leitura; a mão para a minha escripta; a inspiradora para os meus versos;
+a conselheira nas minhas incertezas; a vestal para o fogo das minhas
+pequenas ambições; a socia, a luz, a explicação dos meus passeios; o
+calor, a fragrancia e a musica da minha poisada; um enxerto da arvore da
+vida no meu teixo; o ecco do meu coração; o meu estro fóra de mim a
+mostrar-se-me, a abraçar-me, a não me perder hora nem minuto de dia nem
+de noite; ella, ufana, de mim como de uma gloria; eu, d'ella encantado
+como de uma felicidade.
+
+Filhos são nós que apertam os vinculos naturaes entre o homem e a
+mulher. Teve o Céo por superfluo dar-nos filhos; estreitar-nos mais era
+impossivel. ¡Grande misericordia foi aquella! a pobre assim, levou para
+o Céo uma saudade unica.
+
+Uma enfermidade longa, durante a qual a sensibilidade de Maria, como
+clarão de alampada que se quer extinguir, me pareceu ainda mais viva, a
+pouco e pouco a arrastou até á borda dos desenganos, desenganos para
+ella e para todos; para mim não, que por instincto de vida, repulso
+constantemente, e até ultima, o crer na desgraça, o admittir-lhe mesmo a
+possibilidade.
+
+
+LVIII
+
+N'um dos dias de Janeiro do anno de 1837 (os que hoje contam menos de
+vinte e cinco annos não eram ainda nascidos) Lisboa toda branquejava
+amortalhada em neve profundamente (as memorias meteorologicas poderão
+dizer a quantos foi; eu esqueci-o, ou nunca o soube); sei que nem os
+velhos se lembravam de ter jámais visto por aqui espectaculo assim
+alpestre; nem de então para cá se renovou. Era um dia pallido e lugubre,
+que gelava o coração e as esperanças,--um d'aquelles dias, não sei se
+amigos se adversos, não sei se verdadeiros se mentirosos, mas bons para
+se fecharem os olhos e se expirar com mais desapego da terra.
+
+O quarto da resignada e valorosa victima, que repartia, sorrindo,
+esperanças que ella mesma para si já não queria, tinha a janella fechada
+ás tristezas de fóra; as do interior lhe sobejavam; uma lamparina aos
+pés da Imagem em vulto da _Senhora Mãe dos Homens_,--madrinha de Maria,
+e objecto da sua devoção de toda a vida,--attrahia, como um reflexo
+precursor da luz perpetua, a vista perturbada da paciente, indo e vindo
+da Imagem, que parecia chamal-a, para o amante, que, recostada a fronte
+sobre o seu travesseiro, e apertando-lhe a mão, lhe supplicava mudamente
+o não deixasse.
+
+Reconcentrou emfim, por um supremo exfôrço feminil os remanescentes do
+seu vigor exhausto; e mandando chamar meu irmão, que na proxima sala
+chorava por ambos nós, nos disse: que sentia já a sua existencia na
+vasante, e era tempo de apparelhar a alma para as bodas eternas; em
+quanto lhe restava entendimento e fala, queria dirigir a cada um de nós
+um rogo que de proposito reservára para aquelle momento em que nada se
+recusa.
+
+Cada um jurou cumpril-o, fosse qual fosse.
+
+--«Tenho pena de ti, ¡meu pobre poeta!--proseguiu ella apoz alguns
+momentos de concentração.--Sei que deixo um grande vazio na tua vida. Se
+Anna Lucinda não fosse freira, essa conhecia-te como eu, amava-te quasi
+tanto como eu, podia continuar como tua esposa a obra da tua
+felicitação, que eu deixo incompleta. Se jámais a ventura te deparar
+outra mulher de alma, e capaz de comprehender a tua, instruida, amante,
+superior ao vulgo dos espiritos, apta emfim para te servir e consolar,
+offerece-lhe o logar que eu deixo ermo nos teus destinos; eu mesma
+abençoarei lá de cima a vossa união.»
+
+Vim a cumprir-lhe o seu desejo testamentario; ella desempenhou-se da
+promessa.
+
+Então, voltando-se para o nosso querido irmão, e depois de lhe agradecer
+todas as melindrosas manifestações de affecto, que tantos annos havia
+nos liberalisára, sem cançaço nem quebra, lhe supplicou, doce e graciosa
+como um anjo, cujas azas de prata já começavam a despontar, lhe
+outorgasse emfim a casinha candida com que tantas vezes lhe fizera
+sonhar; agora, para a erigir bastava uma só pedra; que lhe puzesse uma
+inscripção, na qual ao nome d'ella se ajuntasse o dos seus tres poetas:
+o meu, e o dos seus gloriosos parentes--Ferreira e Tolentino.
+
+
+A bella alma partiu.
+
+
+LIX
+
+No cemiterio de Nossa Senhora dos Prazeres o tumulo N.º 48, convisinho á
+ermida da Virgem, deixa ler este epitaphio:
+
+
+ MONUMENTO
+ DE PERPETUA SAUDADE,
+ CONSAGRADO POR
+ ANTONIO FELICIANO DE CASTILHO
+ A
+ SUA MULHER
+ D. MARIA IZABEL DE BAÊNA
+ COIMBRA PORTUGAL,
+ DIGNA SOBRINHA DE
+ NICOLAU TOLENTINO DE ALMEIDA,
+ E
+ DESCENDENTE DO ANTIGO
+ POETA ANTONIO FERREIRA.
+ NASCÊO NO PORTO A 2 DE JULHO
+ DE
+ 1796
+ E FALLECÊO EM LISBOA A 1 DE FEVEREIRO
+ DE
+ 1837
+
+
+
+
+NOTAS
+
+
+Pag. 17, lin. 10--*Primeiros desastres de Castilho*
+
+Tendo 1 anno de edade cahiu Castilho em casa, dos braços da ama, por uma
+escada de pedra, e quebrou o osso sterno, onde conservou sempre defeito.
+Ficou tão abalado, que chegaram os paes a recear se lhe extinguisse a
+vida. Aos 4 annos teve tosse convulsa, e deitou muito sangue pela bocca.
+O estado em que ficou, obrigou sua mãe a leval-o para o campo. Isto tudo
+(note-se) foi antes do ataque de sarampo que o cegou aos 6 annos.
+
+
+Pag. 10, lin. 5--*Quinta dos Azulejos*
+
+Sobre a _quinta dos Azulejos_ (tambem outr'ora chamada do _Principe_),
+no largo do Poço, no logarejo do Paço do Lumiar, junto a Lisboa, veja-se
+o que vem nas _Memorias de Castilho_, por Julio de Castilho, tomo I. O
+poço que se via no meio do tal resumido largo já não existe. Engana-se
+Castilho attribuindo a esta quinta, por conjectura vaga, a honra de ter
+communicado ao logarejo o seu nome de Paço. Essa gloria, segundo o
+erudito Vilhena Barbosa, pertence talvez á quinta dos Duques de Palmella.
+
+É ainda hoje a quinta dos Azulejos um bellissimo especimen dos jardins
+nobres e ricos do seculo XVIII. Pena e grande pena foi, que os modernos
+proprietarios destruissem o arvoredo antigo, os buxos aparados, as
+murtas, etc., dos jardins em estylo velho, para substituir essas
+regradas opulencias vegetaes por outras invenções pertencentes ao
+chamado jardim inglez. Estas serão muito bellas, mas desdizem dos
+azulejos primitivos, que lá campeiam ainda, e são dos mais vistosos, dos
+mais correctos, dos mais agradaveis que podem ver-se.
+
+Quando, na muitos annos, visitou essa quinta o Poeta, ainda o estado
+antigo da parte rustica do predio se conservava intacto. É lastima que o
+alterassem.
+
+
+Pag. 19, lin. 13--*Antigos donos da quinta dos Azulejos*
+
+Não se conhece (se é que existiu) parentesco da familia do Poeta com os
+donos da _quinta dos Azulejos_ (ou do _Principe_). Pelo lado Castilho
+não seria de certo. A ter existido, deve ter provindo da familia
+materna, que era de Lisboa e seus arredores, ao passo que a do Doutor
+José Feliciano de Castilho era de Coimbra, Aveiro, S. Lourenço, e
+Bairrada. Sem haver consanguinidade, bem pode ser que as duas familias,
+que parece eram bastante intimas, se tratassem por parentas, a principio
+por gracejo, depois por costume. Não sabemos dizer quem hoje representa
+a familia de Amalia.
+
+
+Pag. 21, lin. 33--*Thomaz dos passarinhos*
+
+_Thomaz dos passarinhos_ é o personagem de um dos contos do fallecido e
+talentoso Rodrigo Paganino no seu lindo livro _Contos do tio Joaquim_,
+livro que muito agradou a Castilho, e que elle ouviu com gosto ler umas
+poucas de vezes.
+
+
+Pag. 25, lin. 3--*O Paço do Lumiar a uma legua de Lisboa*
+
+«Estou dictando a uma legua de distancia»--dizia Castilho e bem. _A
+Chave do Enigma_ foi escripta na casa que o poeta habitava, na rua Nova
+de S. Francisco de Paula, n.os 25, 27 e 29. D'esta casa apenas existe
+hoje menos de metade.
+
+
+Pag. 27, lin. 11--*José Peixoto do Valle*
+
+Era o nome d'esse abalisado professor no Geral do Cunhal das Bolas.
+Coube-lhe a gloria de mestre de Castilho; este mencionou-o mais de uma
+vez em varios livros.
+
+
+Pag. 30, lin. 8--*Cemiterio de honra*
+
+Castilho propoz e advogou a creação de um cemiterio de honra para mortos
+celebres e benemeritos da Patria. Não os queria encerrados n'um
+Pantheon; queria-os n'um vasto jardim cheio de sombras, zumbidos, e
+vozes de passaros, á sombra da Cruz. Nas notas do seu _Camões_ tratou
+largamente o assumpto. Não foi ouvido.
+
+
+Pag. 30, lin. 9--*Bustos de homens notaveis*
+
+Castilho propoz mais de uma vez que nos passeios publicos se collocassem
+bustos de Portuguezes notaveis.
+
+
+Pag. 30, lin. 14--*Camões*
+
+Em 1836 propoz Castilho, na assemblêa geral da Sociedade dos Amigos das
+Lettras, em Lisboa, se buscassem os ossos de Camões, e se lhes prestasse
+homenagem nacional, solemne e publica, segundo o programma que
+apresentou. Procurou os ossos, e achou-os, dirigindo uma Commissão
+especial nomeada expressamente pela mesma Sociedade. A nova Commissão de
+1854 discordou da argumentação de Castilho, e deu outros ossos como
+sendo os do Epico. Entretanto Castilho conservou sempre a convicção de
+que o seu raciocinio na busca era o verdadeiro.
+
+Castilho tinha a maior ufania e satisfação em escutar á sua consciencia
+dizer-lhe que em 1836 tinha elle procurado (e achado) na egreja de
+Sant'Anna os restos mortaes de Camões. Sobre todo esse complicado
+assumpto pode ler-se o que se trata detidamente nas _Memorias de
+Castilho_, Livro III, no _Instituto de Coimbra_. Não fizeram caso dos
+argumentos, e levaram para os Jeronymos uns ossos quaesquer. Consulte-se
+o consciencioso livro do illustrado sr. Padre Sebastião de Almeida
+Viegas _A verdade acerca dos ossos de Luiz de Camões_.
+
+
+Pag. 36, lin. 7--*Palacio do Arco de Almedina*
+
+A casa do Arco de Almedina, em Coimbra, ainda hoje é denominada _dos
+Castilhos_ pela ter habitado esta familia muitos annos. A vista do pateo
+foi reproduzida no volume antecedente a este.
+
+
+Pag. 36, lin. 22--*Maria Telles*
+
+Julgava Castilho, com muitos seus contemporaneos, que o tristissimo caso
+do assassinio da infeliz D. Maria Telles se tinha dado no casarão velho,
+ou Torre, junto ao Arco de Almedina. Era engano; sabe-se hoje que não
+foi ahi.
+
+
+Pag. 37, lin. 14--*A educanda*
+
+O nome adoptado pela educanda, _Maria da Expectação Silva e Carvalho_,
+não era o que usava, mas tinha forma symbolica. _Maria_ era com effeito
+o seu nome proprio. A _Expectação_ allude á expectativa, em que ella se
+achava, de ser, ou não, correspondida pelo Poeta. _Silva_ e _Carvalho_
+eram appellidos da Casa de seu pae; Francisco da Silva Coimbra de
+Carvalho, Cavalleiro professo na Ordem de Christo, Fidalgo da Casa Real,
+casado na freguezia das Mercês a 27 de Outubro de 1785 com D. Maria
+Fortunata Agostinha de Portugal, nascida em 12 de Outubro de 1766 na
+freguezia dos Anjos. O nome exacto da _incognita_ era D. Maria Isabel de
+Baêna Coimbra Portugal.
+
+
+Pag. 50, lin. 28--*D. Tourís*
+
+Esse D. Tourís, ou Turís Sarna, é, segundo os nossos antigos
+linhagistas, progenitor da nobre familia dos Barbudos, á qual pertenceu
+o senhorio da villa de Barbudo, concelho de Villa-Chan, comarca de Pico
+de Regalados (hoje freguezia de Parada, concelho de Villa Verde). D.
+Leonor de Barbudo, natural de Odemira, filha unica e herdeira de Ruy
+Filippe de Barbudo e de Isabel Rebello Falcão, casou com D. Francisco de
+Baêna, vereador da camara de Odemira, e filho de D. Hernando de Baêna, o
+primeiro que de Sevilha se passou para Portugal, e teve em 30 de Outubro
+de 1501 o foro de Escudeiro fidalgo.
+
+Foram primeiros avós do Desembargador do Paço João Sanches de Baêna, que
+na sua mocidade usou tambem o appellido de Barbudo, 5.º avô da educanda
+de Vairão. ¿Quem diria ao fundador, que passados seculos ali tinha de
+habitar uma sua descendente?
+
+
+Pag. 50, lin. 38--*Os Sanches de Baêna*
+
+Vivia essa senhora recolhida em Vairão, com sua irman D. Maria do Carmo
+(mãe do actual Visconde de Sanches de Baêna). Tinham um irmão Luiz
+da Silva Coimbra de Carvalho, cadete, fallecido novo em resultado de
+feridas recebidas na guerra peninsular.
+
+
+Pag. 53, lin. 24--*Pygmalião*
+
+Parece haver entre os antiquarios mythologos certa confusão entre dois
+Pygmaliões, um esculptor insigne, e um rei de Tyro; Castilho (como
+alguns outros) fez dos dois um só.
+
+
+Pag. 131, lin. 34--*O Imperador de França*
+
+Referencia a S. M. Napoleão III, que em 1861 reinava, sem que ninguem
+podesse presagiar a sua desastrosa queda oito annos andados.
+
+
+Pag. 149, lin. 28--*Cinzas da correspondencia do Poeta*
+
+O sr. Ernesto Loureiro, comprando o predio de S. Francisco de Paula,
+depois da sahida de Castilho em 1871, determinou edificar ahi um predio
+novo para sua habitação. A metade septentrional da casa velha foi
+arrazada, e n'esse sitio e em parte do jardim se levanta hoje um
+_chalet_. O sr. Loureiro, cujo fino espirito e cujo affectuoso coração
+se compraz no culto do passado, quiz respeitar a lapide posta pelo
+Poeta; mas sendo necessario removel-a, fel-o com cuidado, com carinho,
+com amor, e pôl-a com o cofre das cinzas n'outra parte do mesmo jardim,
+juntando-lhe um pedestal por accessorio, e o busto de Castilho. Tudo
+isso consta minuciosamente de um auto ali celebrado, e que se acha
+intercalado no logar respectivo das _Memorias_. O que praticou o sr.
+Ernesto Loureiro honra sobremodo o seu caracter.
+
+
+ [1] Carta ao Ex.mo Sr. Casal Ribeiro datada em 1 de Março
+ de 1859, publicada pela Associação Promotora da Educação Popular.
+
+ [2] J. M. Latino Coelho: Biographia de A. F. de Castilho
+ na _Revista Comtemporanea_.
+
+ [3] Cant. dos Cant., cap. II.
+
+ [4] Pode-se ler a interessante descripção do que resta d'esta casa
+ tão religiosa como historica no formoso livro _Bellezas de Coimbra_,
+ impresso n'aquella mesma cidade em 1831 pelo sr. Antonio Moniz
+ Barreto Corte Real.
+
+ [5] Pode-se ver na _Felicidade pela Agricultura_ o artigo
+ intitulado--_O Clero, e as Mulheres_.
+
+
+
+
+
+
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+including obsolete, old, middle-aged and new computers. It exists
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+people in all walks of life.
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+Volunteers and financial support to provide volunteers with the
+assistance they need are critical to reaching Project Gutenberg-tm's
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+remain freely available for generations to come. In 2001, the Project
+Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
+and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
+To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
+and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
+and the Foundation web page at https://www.pglaf.org.
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+Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive
+Foundation
+
+The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
+501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
+state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
+Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification
+number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at
+https://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
+permitted by U.S. federal laws and your state's laws.
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+The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
+Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
+throughout numerous locations. Its business office is located at
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+business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact
+information can be found at the Foundation's web site and official
+page at https://pglaf.org
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+For additional contact information:
+ Dr. Gregory B. Newby
+ Chief Executive and Director
+ gbnewby@pglaf.org
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+
+Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation
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+Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
+spread public support and donations to carry out its mission of
+increasing the number of public domain and licensed works that can be
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+array of equipment including outdated equipment. Many small donations
+($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
+status with the IRS.
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+The Foundation is committed to complying with the laws regulating
+charities and charitable donations in all 50 states of the United
+States. Compliance requirements are not uniform and it takes a
+considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
+with these requirements. We do not solicit donations in locations
+where we have not received written confirmation of compliance. To
+SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
+particular state visit https://pglaf.org
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+While we cannot and do not solicit contributions from states where we
+have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
+against accepting unsolicited donations from donors in such states who
+approach us with offers to donate.
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+any statements concerning tax treatment of donations received from
+outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff.
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+methods and addresses. Donations are accepted in a number of other
+ways including including checks, online payments and credit card
+donations. To donate, please visit: https://pglaf.org/donate
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+
+Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic
+works.
+
+Professor Michael S. Hart was the originator of the Project Gutenberg-tm
+concept of a library of electronic works that could be freely shared
+with anyone. For thirty years, he produced and distributed Project
+Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.
+
+
+Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
+editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
+unless a copyright notice is included. Thus, we do not necessarily
+keep eBooks in compliance with any particular paper edition.
+
+
+Most people start at our Web site which has the main PG search facility:
+
+ https://www.gutenberg.org
+
+This Web site includes information about Project Gutenberg-tm,
+including how to make donations to the Project Gutenberg Literary
+Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to
+subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks.
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+<!DOCTYPE HTML PUBLIC "-//W3C//DTD HTML 4.0 Transitional//EN">
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+ <title>A Chave do Enigma, por António Feliciano de Castilho</title>
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+
+<pre>
+
+Project Gutenberg's A Chave do Enigma, by António Feliciano de Castilho
+
+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.org
+
+
+Title: A Chave do Enigma
+
+Author: António Feliciano de Castilho
+
+Release Date: April 15, 2010 [EBook #32002]
+
+Language: Portuguese
+
+Character set encoding: ISO-8859-1
+
+*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK A CHAVE DO ENIGMA ***
+
+
+
+
+Produced by Pedro Saborano (produced from scanned images
+of public domain material from Google Book Search)
+
+
+
+
+
+
+</pre>
+
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+
+<div style="text-align: center;">
+<p style="font-size: 1.4em;">OBRAS COMPLETAS</p>
+
+<p>DE</p>
+
+<p style="font-size: 1.8em;">ANTONIO FELICIANO DE CASTILHO</p>
+
+<hr width="15%">
+
+<p style="font-size: 1.6em;">VOLUME 2.º</p>
+</div>
+
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+
+<blockquote>
+<p style="font-size: 1.2em;">VOLUMES PUBLICADOS:</p>
+
+<p>I&mdash;Amor e melancolia.</p>
+
+<p>II&mdash;A chave do enigma.</p>
+
+<p>NO PRÉLO:</p>
+
+<p>III&mdash;Cartas de Ecco e Narciso.</p>
+</blockquote>
+
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+
+<div style="text-align: center;">
+
+<p><img src="images/castilho.png" alt="Retrato de Castilho" border="0"></p>
+
+<p>CASTILHO<br>
+
+<small>AOS CINCOENTA E NOVE ANNOS</small><br>
+
+<small>(Reproducção de uma litographia feita em Paris por Desmaisons sobre
+photographia feita em Lisboa por Nasi)</small></p>
+</div>
+
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+
+<div style="text-align:center;margin-left:auto;margin-right:auto;">
+<p style="font-size: 1.2em;">OBRAS COMPLETAS DE A. F. DE CASTILHO</p>
+
+<p style="font-size: 0.8em;">Revistas, annotadas, e prefaciadas por um de seus filhos</p>
+
+<p>======== 2.º ========</p>
+
+<p style="font-size: 3em;">A CHAVE DO ENIGMA</p>
+
+<hr width="15%">
+
+<p style="font-size: 1.2em;">NOVA EDIÇÃO</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p><img src="images/editor.png" alt="Logotipo do Editor" border="0"></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>LISBOA<br>
+
+E<small>MPREZA DA</small> H<small>ISTORIA DE</small> P<small>ORTUGAL</small><br>
+
+<small><em>Sociedade editora</em></small><br>
+
+<small>LIVRARIA MODERNA<br>
+
+<em>R. Augusta 95</em><br>
+
+TYPOGRAPHIA<br>
+
+<em>45, R. Ivens, 47</em></small><br>
+
+<p>1903<span class="pn"><a name="pag_5">{5}</a></span></p>
+</div>
+
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+
+<div id="corpo">
+<h1><a name="SECTION00100000000000000000">ADVERTENCIA ESPECIAL Á «CHAVE DO
+ENIGMA»</a></h1>
+
+<p>Quando sahiu em 1862 a nova edição do <em>Amor e melancolia</em>, entendeu o
+poeta enriquecel-a com o precioso appenso que intitulou <em>A chave do
+enigma</em>.</p>
+
+<p>N'essas paginas de brilhante prosa explicou ás legitimas curiosidades do
+publico portuguez os seus amores com a incognita recolhida do mosteiro de
+Vairão. Precedeu a narrativa d'esse caso com a historia da meninice,
+illustrando as suas formosas paginas com esboços de retratos de familia: sua
+Mãe, seu Pae, seu irmão querido, e outros, que servem de documentos
+autobiographicos, entre descripções de sitios, e ricas digressões sobre
+variados assumptos.</p>
+
+<p>A incognita de Vairão era a senhora D. Maria Isabel de Baêna Coimbra
+Portugal, com quem o poeta ajustou casamento, sem ainda se conhecerem
+pessoalmente, e com quem veio a casar na egreja do mosteiro a 29 de Novembro de
+1834; filha de Francisco da Silva Coimbra de Carvalho, e de D. Maria Fortunata
+Agostinha de Portugal.<span class="pn"><a name="pag_6">{6}</a></span></p>
+
+<p>Algumas rapidas annotações irão acompanhando o texto; no mais deixemos falar
+o poeta. Melhor que ninguem nos saberá iniciar nos segredos da sua vida, que
+n'este livro decorre desde 1800 até 1837; isto é: desde o berço d'elle até á
+campa da sua virtuosa e digna primeira mulher, inspiradora, companheira,
+confidente, e amiga.</p>
+
+<p>São paginas de saudade, em que elle a retrata, e se retrata a si.</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p style="text-align: right;">O<small>S EDITORES.</small></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p><em>Áquella que já não sente, pendura com mão tremula n'um ramo do seu
+cipreste esta pequena corôa</em></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p style="text-align: right;"><em>O Autor.</em><span class="pn"><a
+name="pag_9">{9}</a></span></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h1><a name="SECTION00200000000000000000">A CHAVE DO ENIGMA</a></h1>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p style="text-align: right;">Dezembro de 1861</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>Digam embora que me biographei; vou escrever uma pagina da minha vida.</p>
+
+<p>Se mais ninguem a lêr, lêl-a-hão os meus amigos. Ella tambem, êrma de
+interesses grandes, desenfeitada de estilo, e só attendivel, se o fôr, por
+verdade e affecto, aspira unicamente a captivar a attenção dos poucos para quem
+um murmurio de folhas n'um retiro de estio, e de vez em quando uns gorgeios ou
+pios de duas aves que se entrereclamam emboscadas, supprem conversações,
+leituras, e até pensar.</p>
+
+<p>Emfim, se nem para os meus intimos valer o que eu tenho de bosquejar, muito
+saudoso de tempos que lá vão, ficará sendo só para mim, e para quem m'o
+inspirou; ¡ah! quem m'o inspirou já m'o não póde lêr, mas por ventura o ouve.
+Será um devaneio,<span class="pn"><a name="pag_10">{10}</a></span> e um
+solilóquio; será uma folha sôlta de uma deliciosa arvore longinqua, hospedeira
+minha ha muitos dias; folha que uma viração despegou, volveu nos ares, me
+atirou á fronte, e me lançou aos pés, para ahi fenecer esquecida.</p>
+
+<p>Não vale a pena de mais prologo. Nem tanto me está parecendo agora que fosse
+necessario.<span class="pn"><a name="pag_11">{11}</a></span></p>
+
+<h2><a name="SECTION00210000000000000000">I</a></h2>
+
+<p>Antes de tudo, releva conhecer o individuo. Não é empenho muito facil; mas
+tentemos.</p>
+
+<p>Levanta-se logo a primeira difficuldade d'este capitulo na averiguação da
+identidade:</p>
+
+<p>Reflicta cada um comsigo mesmo n'este grave ponto: ¿a repetição de nome, a
+similhança das feições, a conservação, com mais ou menos mudanças, da indole
+primitiva, dos gostos, e das relações activas e passivas com as pessoas e
+coisas do mundo externo, bastarão para que, em boa philosophia, um homem
+qualquer se repute unidade consoante, e unico indestructivel no meio da
+metamorphose universal? ¡Embaraçoso problema!</p>
+
+<p>O espirito immaterial e immorredoiro quer, por instincto, por egoismo, por
+fé, acredital-o; mas o estudo da Natureza, e a propria experiencia quotidiana,
+desmentem em boa parte essa presumpção.</p>
+
+<p>O individuo não é só a alma; o corpo que a reveste, a serve, e tantas vezes
+a domina, é mais que sujeito a continuas e espantosas variações; renova-se
+incessantemente, perecendo e renascendo a cada instante; a sua carne de hoje
+era ainda hontem vegetaes, ruminantes, aves, peixes, agua nas fontes, gazes na
+atmosphera, calorico no sol, terra debaixo dos pés, e electricidade sabe Deus
+por onde; congregaram-se<span class="pn"><a name="pag_12">{12}</a></span> essas
+myriadas de particulas... existiu; ámanhan partirão, todas ellas destacadas
+para novas combinações e destinos, sem que o espirito lhes haja sentido a fuga,
+porque outras particulas, accorridas do universo, terão vindo rendel-as sem
+estrondo nem abalo.</p>
+
+<p>N'este sentido cada individuo é simultaneamente filho, irmão, e pae,
+influidor e influido, conservador, destruidor, modificador, herdeiro,
+usufructuario, e testador, de quantos entes sensitivos, vegetativos,
+inorganicos, imperceptiveis, imponderaveis, são, como elle, parcellas
+componentes do planeta em que elle se proclama senhor e potentado.</p>
+
+<p>Mas se esta desidentificação incessante do corpo escapa ás nossas
+percepções, por não apresentar de hora para hora mudanças apreciaveis no ser,
+no sentir, e no pensar, já assim não é quando nos outros, e em nós mesmos,
+confrontâmos a infancia com a puericia, a puericia com a adolescencia, a
+adolescencia com a virilidade, a virilidade com a velhice, a velhice com a
+decrepidez; ou, supprimindo os graus intermedios para maior evidencia, a
+caducidade com a madureza, a madureza com o desabrochar no berço.</p>
+
+<p>¿Que ha ahi de commum?!</p>
+
+<p>Unicamente o nome, accidente impessoal, insignificativo, nullo.</p>
+
+<p>O corpo é manifestamente diversissimo, e em tudo outro; e com o corpo outro
+e tão diverso, outras e diversas egualmente são as faculdades intimas, outro e
+diverso o sentir, o querer, o recordar, o ambicionar.</p>
+
+<p>Não são épocas de uma vida; são vidas verdadeiramente distinctas, talvez
+contrarias, que se encadeiaram por um trabalho simultaneo e occulto da Natureza
+e da fortuna, dos successos e de nós mesmos.</p>
+
+<p>É por isso que o louvor ou vituperio, a recompensa ou o castigo, conferidos
+tarde, conteem sempre mais ou menos, uma injustiça distributiva; e talvez duas:
+preteriram aquelle que fez, e já não existe, e vão-se dar ao que existe mas não
+fez. ¡Que de vezes se não haverá suppliciado um justo pelo malfeitor que annos
+atraz o precedêra, e nada mais lhe legára que o seu nome e umas parecenças no
+semblante!<span class="pn"><a name="pag_13">{13}</a></span></p>
+
+<p>A solidariedade do homem comsigo, em remotos prasos da existencia, é pois
+tão infundada, como a de um individuo com outros, com quem nenhuns vinculos o
+prendem, e que operam, independente cada um na sua esphera, como elle na sua
+propria.</p>
+
+<p>D'aqui vem que, sendo altamente suspeita de romance toda e qualquer historia
+que se escreva de um personagem, ou de um povo (ás vezes remotissimos em logar
+e tempo), sobre tudo quando o narrador pretenda assignar como causas aos
+successos o que se passou sem testemunha em tal ou tal coração, em tal ou tal
+espirito, pouco menos se eximirá de similhantes suspeições a noticia que o
+homem mais sincero pretenda transmittir-nos de si mesmo. «Escreve o seu
+preterito»&mdash;dirão os benevolos; mas escrever o seu preterito ¿não é escrever já
+de outrem?</p>
+
+<p>Demais: ¡quantas perplexidades! ¡quantas conjecturas temerarias! ¡quantas
+supposições de boa fé, mas erroneas, quando ao clarão interrupto de
+reminiscencias enfraquecidas pretender levantar do pó as flôres, e os espinhos
+que n'elle se converteram, reedificar edificios, sobre os quaes se levantaram
+edificios novos, insuflar vida a sombras, resuscitar o coração de outr'ora, e
+achar a harpa interior com todas as suas cordas e a mesmissima afinação!</p>
+
+<p>São estas, para quem bem o pensar, umas difficuldades, e tambem uns
+desenganos, e umas tristezas muito grandes. Nunca tão claro o senti, como ao
+reler agora este pobre livro. Forcejarei todavia por trazer á vossa intimidade,
+meus amigos, o autor d'elle, se ainda me fôr possivel, depois de tão apartados
+um do outro.</p>
+
+<p>Um bem que ha n'esta desidentificação, n'este apartamento dos dois
+<em>eus</em>, é que, se algum bem me fôr necessario dizer do que foi, já ao que
+é se não poderá carregar em conta de vaidade.</p>
+
+<h2><a name="SECTION00220000000000000000">II</a></h2>
+
+<p>Presupposto, como bem é de razão, que a Providencia fada para um destino
+especial a cada um dos que vimos a este mundo, ¿para que nasceria eleito,<span
+class="pn"><a name="pag_14">{14}</a></span> ou precito, um menino que ha hoje
+sessenta e um annos desabrochava em plena luz, e recebia um nome que havia de
+ser meu? Cuido não me enganar muito affirmando, que simples e exclusivamente
+para haver ahi lá para o diante mais um cantor de affectos.</p>
+
+<p>¿Que aproveita ao Pae da Natureza que haja mais um amante, mais um cantor?
+Nada sem duvida, pois lá tem em roda de si, para o amarem e cantarem, os seus
+Anjos; mas no seu systema de harmonias, entraram tambem os gorgeios dos
+passaros cá em baixo, musica das florestas e do oceano, a voz suavissima da
+mulher, e os canticos do poeta.</p>
+
+<p>Assim como nem tudo na terra são seáras e frutos, nem tudo na humanidade lhe
+prouve a Elle que fosse laborioso e productivo no sentido grosseiro e restricto
+da palavra, como presumem economistas.</p>
+
+<p>Emquanto o cavallo peleja, o boi lavra, a ovelha elabora o leite e a lan, um
+insecto o mel, outro a seda, plantas a saude, minas os metaes, ha boninas que
+só alegram e perfumam; ha murmurios no ar, e visões coloridas no ceo, que só
+recreiam: ha pedrarias scintillantes, que só adornam; ha balsamos, que só
+rescendem; ha o rouxinol para idealisar os mysterios da noite; ha no eremita a
+oração muda que se exhala para as alturas como aroma; ha na alma que sonha,
+miragens estereis, mas voluptuosas; e ha, no sonhar perenne do poeta, com que
+pague de sobra a seus irmãos as poucas espigas que rebusca das ceifas, os
+quatro palmos de solo em que se alberga, a agua da fonte commum em que se
+dessedenta, e o ar de que aspira reclinado o seu quinhão, para o exhalar
+convertido em melodias.</p>
+
+<p>Fadada vinha pois, segundo cuido, aquella creança só para poeta, e poeta
+unicamente de branduras. Para a realisação do horóscopo se entendeu a Fortuna
+com a Natureza, como para o diante vim a reconhecer, quando, passadas as
+angustias da preparação, que assaz foram desabridas, e porventura insólitas,
+pude, chegado ao alto, abranger com um relance todos os pontos percorridos,
+vel-os, por effeito da distancia, aproximados, e descobrir-lhes então
+finalmente o systema e a harmonia.<span class="pn"><a
+name="pag_15">{15}</a></span></p>
+
+<h2><a name="SECTION00230000000000000000">III</a></h2>
+
+<p>Foi a infancia do innocente, que eu ainda me recordo bem de ter conhecido,
+rosada, doirada, chilreada, alegrissima, como quasi todas as auroras. Mas os
+penates do seu berço haviam sido na cidade; e os passaros cantores não se criam
+e educam bem senão pelas amenidades tranquillas e scismadoras desses campos.</p>
+
+<p>A ser verdade que a sciencia, com a imposição das suas mãos escrutadoras
+sobre uma cabeça, pode prognosticar o que a organisação interior contem de
+germes intellectuaes e moraes, capazes de grande producção, se as
+circumstancias lhes favorecem o desenvolvimento, parece-me que, desde que essa
+previdente fada humana,&mdash;a sciencia&mdash;annunciasse uma indole poetica, a
+sociedade mesma deveria tomar á sua conta essa nova indole privilegiada; e a
+fim de a pôr no mais seguro caminho para os seus destinos, fazel-a crear, o
+mais que possivel fosse, no seio da Natureza, sobre a terra larga que produz,
+ri, e canta, e debaixo do ceo que inspira, brilha, enamora, e enleva.</p>
+
+<p>As forças do camponez, as graças de saude da camponeza, envergonham os
+enxames de frivolos e ephemeros dos grandes focos de população, ¿E porquê? A
+causa não deve ser outra senão, que das barreiras a fóra, longe do alcance do
+immenso carcere, se vive mais conchegado com a Natureza, mais debaixo da Mão
+invisivel, mas tepida e suave, do Creador.</p>
+
+<p>Tudo na cidade é artificial (¡e de quão ruim e desentoada artificialidade as
+mais das vezes!). São prosaicas as occupações; prosaicos e arriscados os
+projectos e os desejos; apertadas, escuras, doentias, as vivendas; tolhidos os
+trajos; acanhadas as perspectivas. Se se escuta uma ave, é mais a queixar-se do
+captiveiro em que definha, do que a chamar pela companheira, que não tem, para
+fabricar berço a filhos, que nunca ha-de ter. Se se vê uma planta, uma d'estas
+mudas filhas de Deus que tanto sabem e dizem, tão bem florescem e medram na sua
+pacifica republica, é enfézada e triste na prisão de um vaso, debruçada<span
+class="pn"><a name="pag_16">{16}</a></span> para uma encruzilhada immunda lá em
+baixo, ou alando-se n'um saguão á espreita do sol quando elle atravessar
+fugindo lá por cima pela estreita fita do céo, do céo immenso em toda a parte,
+e aqui só aos retalhos e sumiticamente repartido, ¿Que é da viração balsamica
+por estas ruas? ¿Que é da madrugada com os seus descantes? ¿o meio dia com os
+seus guardasóes verdes e movediços de trinta braças? ¿o crepusculo com as suas
+despedidas saudosas? ¿a noite com a sua orchestra suave tão grata ao amor, e
+com que se dão tão bem os somnos, os sonhos, as vigilias? Tudo isto, e
+infinitamente mais, tudo quanto era Natureza, desterrou-o a mão do homem quando
+desarraigou as arvores para plantar os seus estirados colmeiaes de pedra;
+desterrou as relvas, e as seáras, para assentar as praças; calçou as ruas, que
+não despontasse olhinho verde; multiplicou as fabricas, o commercio, o
+estrondo, para que os harmoniosos filhos do ar só muito por alto, e fugindo, se
+aventurassem a atravessar tão desmedida e nevoenta cratéra de prosa, de
+cuidados, de fadigas, e de desgostos.</p>
+
+<p>Longe de mim negar puerilmente ás cidades suas vantagens sociaes; digo só
+que para a poesia se não fizeram ellas, e que, se n'essa frágoa algum engenho
+poetico resiste, se ahi canta, nunca ha-de ser tanto, nem tão bom, nem tão
+innocente, nem tão perfumado, como seria sem duvida nos campos; e apostaria eu
+uma hora de vida aldean, e até casaleira, contra dez annos bem medidos de um
+vegetar em côrte (apostaria e ganhava), que tudo quanto mais deliciosamente
+cantaram poetas em cidades, se elles nol-o quizessem ou soubessem declarar, das
+suas reminiscencias ruraes, porventura remotas e meio apagadas, lhes proveio.</p>
+
+<p>De Virgilio só tiraria eu provas sobejas, irrefragaveis, se para coisa tão
+intuitiva fôssem ellas necessarias. Aquelle Virgilio, que florescia em Roma
+para coroar de gloria Cesares e deuses, tinha as mais vivazes raizes do seu
+genio, tão suavemente melancolico, longe e bem longe, onde ninguem lh'as
+enxergava: pelos cômoros, de murtas da aldeia de Andes, pelas margens do Mincio
+ciciadas de cannaviaes.</p>
+
+<p>Redescendâmos de tamanho homem ao pequenino de quem iamos... historiar não,
+que lhe não sabemos historia, mas simplesmente conversar.<span class="pn"><a
+name="pag_17">{17}</a></span></p>
+
+<h2><a name="SECTION00240000000000000000">IV</a></h2>
+
+<p>Importava que lhe chegasse com cedo a iniciação campestre. Com as impressões
+iniciaes se cunha a feição caracteristica de muita alma, se não fôr de quasi
+todas. Bem estreado aquelle, a quem as primeiras ideias do mundo exterior,
+puras e amoraveis, advieram afinadas pelo instrumento que a Providencia lhe
+armára dentro. Isso ao menos teve elle em seu favor.</p>
+
+<p>Uma queda, que por pouco lhe não destruiu a vida logo no começo, foi seguida
+de resultados assustadores: pallido, descarnado, abatido, pareceu que poucos
+passos mediria do berço á sepultura. Uma noite acorda suffocado; golfa sangue
+em torrentes; sobresalta-se a casa; acredita-se que já não tornará a
+amanhecer-lhe; acodem os medicos; resolve-se como ultimo e unico regresso fuga
+precipitada para o campo.</p>
+
+<p>Ao rasgar do dia já transpunha as portas da Capital, reclinado no regaço
+materno, rodando a carruagem tão vagarosa e precatada, que facil se adivinhava
+ir depositaria de uma existencia que ao minimo abalo se esvahiria.</p>
+
+<p>Tanta coisa proxima e de vulto se me tem desluzido da lembrança, e ainda
+aquella noite angustiosa, e aquella manhan suavissima, aquella morte pranteada,
+e aquella resurreição de alleluia atravez de fragrancias, sombras verdes
+bordadas de oiro pelo sol, e emboras dos passarinhos, me estão impressionando
+como presentes. Não sei, nem ha já quem me diga, a quantos, nem em que mez, nem
+em que anno, fôra aquillo; o que sei é que todas as copas estão folhudas, e
+muitas floridas; que tudo quanto vem vindo para nós por um e outro lado do
+caminho ri contente, como em domingo de festa: as casas de quinta com as suas
+varandas e vidraças illuminadas do sol novo; bosques ociosos debruçando a
+cabeça por cima de um muro amarello para nos espreitarem; a porta vermelha
+entreaberta de uma horta viçosissima; aqui piteiras esguias e silvas recortadas
+nos cômoros; adiante estatuas, e vasos de marmore lavrados; um oiteiro com o
+seu rebanho a fluctuar,<span class="pn"><a name="pag_18">{18}</a></span> e lá
+no cimo um moinho bracejando e cantando no trabalho, emquanto o dono á
+janellinha escuta ocioso a viração de Deus que lhe está chovendo pão lá
+dentro.</p>
+
+<p>Notava eu, em meio d'este paraizo, lagrimas nos olhos de minha mãe, e não as
+comprehendia; deviam ser de commoção.</p>
+
+<p>Minha mãe tinha alma poetica; (lá coração poetico todas as mães o teem). Se
+a tivessem apparelhado com educação e instrucção apropriadas, poderia ter
+escripto deliciosamente; florejou sem cultura, e sem saber que florejava. Nos
+festins de familia, quando a saude dos seus, a presença de quantos lhe eram
+caros, e a prosperidade da casa, a exaltavam, improvisava versos faceis e
+melodiosos, em que scintillavam faiscas de talento, e certa graça natural;
+pareciam aquelles uns meros reflexos involuntarios do seu contentamento intimo;
+e eram; mas o contentamento intimo só tem resplendores taes n'um espirito de
+eleição.</p>
+
+<p>Meu pae, a quem a severidade da sciencia e a supremacia da razão não
+deixavam logar para ser poeta, que não tinha sequer nascido com a organisação
+propria para isso, mas que, pelo complexo de outras suas qualidades eminentes,
+era uma das pessoas mais proprias que eu nunca vi para reconhecer, aquilatar,
+criticar, e dirigir poetas; meu pae, costumava repetir que, se minha mãe não
+tivera sido obrigada a repartir todas as suas horas pelas occupações
+domesticas, e toda a sua poesia nativa pela educação dos filhos, se fôsse uma
+cenobita, por exemplo, com poucos livros, muito remanso, e a Natureza, por
+certo deixaria de si boa memoria para entre as escriptoras portuguezas.</p>
+
+<p>Deviam ser logo aquellas preciosas lagrimas, com que minha mãe me
+rebaptisava renascido, menos causadas do manso alvoroço festival de terra e céo
+em primavera, que da lucta em que lhe iam, no coração, o temor e a esperança.</p>
+
+<p>A immensa viagem, que não passou de uma legua, deveu lançar-me no espirito
+delicado e absorvente, os primeiros germes dos meus, já agora indestructiveis,
+amores, para com as lindezas do universo.<span class="pn"><a
+name="pag_19">{19}</a></span></p>
+
+<h2><a name="SECTION00250000000000000000">V</a></h2>
+
+<p>¿Conheceis, para além do arvoredo do Campo Grande, no retirado sitio do Paço
+do Lumiar, aquelle edificio, nobre sem fausto, que faz frente ao pequeno Largo
+do Poço, e que talvez communicou á povoação o seu nome aristocratico? Eis ahi o
+termo da piedosa peregrinação de minha mãe; eis ahi onde a reflorescencia me
+aguardava, e com ella novas e abundantes sensações, das que a minha indole ia
+absorver com avidez, e assimilar, para fructificar alguma poesia em vindo a
+quadra.</p>
+
+<p>Recebeu-nos com alvoroço, e com affecto patriarchal nos hospedou, a familia,
+ainda nossa parenta, a quem a vivenda pertencia, familia ainda mais ligada
+comnosco por laços de amisade, e de leal e não interrompida convivencia.
+Compunha-se de mãe, uma filha entre doze e treze annos, e seu irmão pouco mais
+idoso.</p>
+
+<p>Amalia (era o nome da minha pequena prima) possuia, com o semblante mais
+vivo e sympathico, a indole mais expansiva e carinhosa; os seus olhos, cujo
+extraordinario brilho eu estou ainda admirando, eram dotados de um magnetismo
+precoce; é tal, que até os de uma creancinha, como eu, se pasciam n'elles com
+delicias; mas não era ainda assim nos olhos que estava o seu maior feitiço; a
+sua voz tão suave, como nunca depois ouvi outra alguma, sahia por uma bocca tão
+singularmente pequenina, que podéra quasi quasi haver tentação de a extranhar á
+primeira vista, se não parecesse, com o seu sorriso habitual, uma rosinha das
+mais pudibundas a entreabrir-se; era um ósculo perpetuo da innocencia.</p>
+
+<p>Amalia, com a superioridade que lhe conferia sobre mim a differença dos
+annos, quiz tomar-me desde logo maternalmente sob a sua protecção,
+prohibindo-me, por interesse na minha saude, o participar dos brincos
+tumultuosos, para os quaes seu irmão me provocava. Meu primo era já então
+militar por genio; a barretina empennachada, o boldrié lustroso, a espada de
+madeira, as dragonas, e a banda de official, com que a si mesmo se despachára,
+faziam-n-o<span class="pn"><a name="pag_20">{20}</a></span> preferir aos
+passatempos sedentarios, mais conformes aos gostos de sua irman, e á minha
+fraqueza, o estrondo e o movimento.</p>
+
+<p>D'ahi provinha que as mais das vezes, emquanto elle marchava a passo dobrado
+ao som de um tambor imaginario, esgrimia contra uma estatua, ou degolava alguma
+papoila trémula, Amalia e eu, pacificamente sentados muito mão por mão a uma
+sombra do jardim, toucavamos de minhonetes e amores-perfeitos as suas bonecas,
+emmolhavamos ramalhetinhos para nossas mães, e interrompiamos a cada momento a
+esmerada tarefa, logo que uma abelha doirada, uma borboleta branca ou azul, ou
+um pio de ave escondida, como que por malicia, entre as folhas, vinham suscitar
+a minha curiosidade, e accender-me exclamações de maravilha e contentamento.
+Minha prima gosava-se da minha alegria, e tinha vaidositamente o ar de ser ella
+quem me estava fazendo as honras da primavera.</p>
+
+<p>Dissereis, se reparasseis, como eu, na complacencia com que ella
+contemplava, ora o seu jardim tão formoso, ora o seu priminho tão attento, que
+era uma poetisa desvanecida com o effeito do seu ultimo poema n'um ouvinte
+encantadissimo; e que tudo aquillo que eu amava no seu jardim, os arbustos
+enfeitados, os ninhos palreiros, os insectos volteantes, as aguas harmoniosas,
+tudo ella tinha feito, ou pelo menos aconselhado e pedido a um Anjo feiticeiro,
+feiticeiro como ella. Eu quasi que assim o acreditava; se me tivessem dito que
+ao seu mando podiam rebentar das pedras lyrios e rosas, ia pedir-lhe esse
+prodigio como a coisa mais natural de todo o mundo.</p>
+
+<p>Creio que nos amavamos; mais que no sentido da amisade; mais até que no
+sentido do amor; ¡no sentido do paraizo terreal, quando a humanidade vinha
+despontando resplandecente de innocencia!</p>
+
+<p>Amavamos de certo; posso affirmal-o pela viveza e saudade com que estou,
+agora mesmo, sonhando tudo aquillo.</p>
+
+<p>Não sei se o coração me latejava; sei que me palpita agora com a maior
+força; sei que dera eu hoje o throno do Celeste Imperio, e todos os thronos ao
+mundo, e até a gloria de Homero, e de, todos os poetas, pelo revivimento para
+mim de tal primavera<span class="pn"><a name="pag_21">{21}</a></span> com todas
+suas circumstancias, embora com a certeza de vir eu proprio a murchar, e
+destruir-me com a sua ultima flôr.</p>
+
+<h2><a name="SECTION00260000000000000000">VI</a></h2>
+
+<p>Todos os ridentes allegorisadores da antiguidade falaram de um Cupido filho
+de Venus, armado de fogo e settas, cruel e suave ao mesmo tempo, incoercivel e
+fugitivo como os sonhos. Existe esse, não ha duvida; mas ha outro amor, podéra
+eu affirmar-lhes, que nasceu do casamento de uma açucena com o zephyro; que
+mesmo suspirando está a rir; que sóbe em espiraes melodiosas para o ceo até se
+perder de vista, mas não foge; reapparece, e redescende fiel ás mesmas
+amenidades d'onde levantára o vôo. Não fere, nem envenena; encanta. Não accende
+fogo para deixar cinzas; brilha na alma como sol. Não se rodeia de aves de
+agoiro, nem de sonhos temerosos. Não desvela as noites, já com prazeres
+instantaneos, já com delirios, e arrependimentos contumazes, mas se imbebe na
+andorinha do beirado para nos acordar cada ante-manhan com as alegrias puras
+que ella sabe. Não cura de ciumes; quizera que todos amassem como elle. Não é
+um amor concentrado, exclusivo, incompleto, que só põe a mira n'um objecto
+caduco; é outro amor profundo e infinito como a Creação, com cujas maravilhas,
+maravilha elle proprio, se renova; a sua venda, se a tem, não escurece; é toda
+de brilhantes diaphanos e prismaticos, que redobram os prestigios do Universo.
+É o primogenito de todos os amores, e o que a todos sobrevive. É o que
+serviram, adoraram, e nos ensinaram a adorar, sem nome, todos os grandes
+poetas, desde Orpheu até o <em>Thomaz dos passarinhos</em>. É o que a virgem
+mais ingenua está sonhando voluptuosa, quando absorta suspira, e parece triste.
+É o que á mente do religioso levanta escadas floridas para o Empyrio. É o que
+annuncia, como boa nova, ao caduco, uma arregaçada de saudades, um chorão, um
+gorgeio estivo, e prateados raios da lua para cima da cova. É, em summa, o que
+aos impotentes da infancia segreda tantas coisas ineffaveis que os alvoroçam, e
+de que o outro amor, em chegando, ha-de receber porventura muita herança.<span
+class="pn"><a name="pag_22">{22}</a></span> Tal era a mysteriosa divindade que
+presidia aos nossos passatempos, sem que eu então a adivinhasse.</p>
+
+<p>Amavamos pois decididamente.</p>
+
+<h2><a name="SECTION00270000000000000000">VII</a></h2>
+
+<p>Vigiava-nos inquieta, suspeitosa, sollicita, a mãe de Amalia... Não riais: o
+seu coração materno tinha razão; um coração materno tem razão sempre. Não era
+um impossivel o que ella temia; apavorava-a um perigo real; e quanto a ella,
+segundo todas as mostras, muito provavel, ¿Que perigo? o da communicação da
+minha doença a um ente a quem ella sentia vinculada a sua existencia, e sem o
+qual, ainda que o quizesse, não saberia já viver.</p>
+
+<p>O sangue que eu perdêra, a minha debilidade, todo o meu exterior, induziam a
+crer que a enfermidade que trabalhava tão activa por dentro em me destruir,
+¡era.... nada menos que a tysica! mal ainda então rarissimo, com que hoje pela
+generalidade se vive familiarisado, mas do qual no começo d'este seculo nem
+quasi se ousava proferir o nome senão em baixa voz.</p>
+
+<p>A familia, em cujo seio despontava tal phenomeno, forcejava pelo encobrir a
+todo o custo aos de fóra, como um castigo divino e uma ignominia; e abria ella
+mesma uma area de respeitoso terror, em cujo centro languescia, soccorrida, mas
+desamparada, a pobre victima. A roupa, os moveis, até a loiça do seu serviço,
+tinham marca, para que ninguem lhes tocasse. O confessor, o medico, o amigo, os
+filhos, a esposa, não chegavam ao alcance do seu halito; era o leproso; era
+quasi o damnado aquelle triste esqueleto vivo, envolto na sua pelle livida e
+ardente, e a quem, para luxo de desgraça, a Natureza subtilisava a vista e o
+ouvido, conservando-lhe inteiras a memoria e a intelligencia até á ultima.
+Emfim, logo que o espelho apresentado aos labios por um braço estendido de
+longe, e tremente, testemunhava com o seu cristal não empanado, que o ultimo
+bafo se esvaecera, ainda a terra o não tinha recebido, quando já os seus
+vestidos, o seu leito, a sua cadeira de martyrio, o livro das suas derradeiras
+orações, tudo era entregue<span class="pn"><a name="pag_23">{23}</a></span> ás
+chammas, e as mais prolixas ceremonias de lustração, tanto religiosas como
+physicas, acudiam á poisada; acontecendo, muitas vezes, que nem depois de
+picadas e renovadas as paredes, havia temerario que se aventurasse a
+occupal-a.</p>
+
+<p>Deus louvado, o tempo não tardou em mostrar, pelas mais irrefragaveis
+provas, que a minha enfermidade, com toda a sua carranca de profunda e fatal,
+era passageira, e que d'aquella frágoa poderia sahir, como de feito sahiu, uma
+constituição vigorosa e duradoira.</p>
+
+<p>Aos nossos amores, tão bem correspondidos de parte a parte, nem sequer
+faltou pois o estimulo de uma quasi prohibição, e o sainete de terem de se
+andar recatando, sobresaltados ao minimo rumor, como verdadeiros criminosos. Se
+não fosse a presença de minha mãe, e o affecto e delicadeza com que sua prima a
+tratava, ter-nos-hiam, provavelmente, separado, enclausurando na casa a amante,
+e deixando livres, mas desertos, para mim, o jardim e a quinta, largo e formoso
+banho dos ares balsamicos, de que eu então sobre tudo necessitava. Quem havia
+de lucrar com isso era João, meu primo; o que sua irman perdia, ganhava-o elle;
+era um namorado de menos, e um soldado de mais para o seu regimento, em que até
+então era elle só a força e o commando, o porta-bandeira e o tambor.</p>
+
+<p>Havia muitas horas, entretanto, em que a mãe de Amalia, com a razão, ou com
+o pretexto do estudo ou dos bordados de sua filha, a retinha no gyneceu da
+casa; essas horas (bem o sabem todos os que amaram) deviam-me parecer
+eternidades; para as abbreviar, ora ia sentar-me n'um banquinho ao pé do seu
+bastidor, enlevado em vêr rebentar flôres debaixo dos seus dedos, e ouvindo os
+contos, que ainda hoje me lembram, da velha e gorda cosinheira Escholastica;
+ora me detinha encostado ao grande portão de grade de ferro no lado fronteiro
+do pateo, com os olhos pregados na janella do quarto de lavor; feliz quando de
+traz da vidraça me alvorecia a miude, saudando-me com um sorriso, aquella
+pequena rosa que eu esperava, e que já de lá como que me estava ensaiando os
+beijos que eu d'ali a pouco havia de colher ás escondidas no caramanchão,
+especial asylo, e o mais seguro, dos nossos furtos.<span class="pn"><a
+name="pag_24">{24}</a></span></p>
+
+<h2><a name="SECTION00280000000000000000">VIII</a></h2>
+
+<p>É uma grande pena que não saibam as creanças escrever, e não registem, para
+depois as lerem, as suas memorias, e que a torrente caudalosa dos successos
+ulteriores lh'as desgaste e confunda quasi todas; a sua historia poderia ser
+muito mais gentil, muito mais elegante, muito mais instructiva, que as
+historias e novellas de outras idades.</p>
+
+<p>Á mingoa de taes documentos, que bem preciosos me seriam agora, fui hontem
+19 de Dezembro d'este 1861 visitar, ao cabo de tantos annos, logares tão
+queridos, e evocar n'elles os phantasmas verdes dos arbustos do meu tempo, o
+phantasma candido d'aquella que eu tantas vezes arraiei, como gentil Maia, á
+custa d'elles, e o meu proprio phantasma pequenino, alegre, buliçoso, tão puro,
+tão amante, e diante do qual, como diante d'ella, eu me ajoelharia, se o
+encontrasse. Palpitava devéras ao approximar-me, como sem falta deve acontecer
+a quem se acerca de um logar de mysterios, ou a quem excava um solo, de que
+espera enthesoirar reliquias santas da antiguidade. Parecia-me que o mal
+transparente veo, que, tanto ha, me collocou o mundo n'uma penumbra, de repente
+se levantaria por um milagre da vontade e do affecto, e que eu ia rever tudo
+tal como o levava no coração e na saudade.</p>
+
+<p>¡Ai ninho de tantas delicias! ¡quem se atreveu a desfazer-te! De tudo que
+ali havia, e que era tantissimo, ¡quasi que só eu resto! Não importa:
+profanados, perdidos mesmo, esses logares conservam, indelevel ainda para a
+minha alma, a sua primitiva sagração. Tornarei a visital-os na proxima
+primavera; talvez se me recordem então do que hontem só confusamente lhes
+lembrava; encontrarei porventura valverdes florídos, rainunculos matizados,
+quinquagesimos descendentes, e mais, dos que tão suavemente brilhavam no meu
+tempo; e esses alguma coisa saberão relatar-me de tão antiga historia. O
+portico viçoso, estrellado de jasmins, que bordava de sombras graciosas o
+vestido branco de Amalia, quando, abrigados ali n'um meio dia de verão,
+escutavamos as cigarras emboscadas, ha-de por força com a sua fragrancia
+falar-me d'ella,<span class="pn"><a name="pag_25">{25}</a></span> e avivar-me
+no espirito um cardume de sensações lyricas ineffaveis.</p>
+
+<p>Por agora, que estou dictando a uma legua de distancia estas paginas, talvez
+indifferentes a todo o mundo, e frias como a estação em que nascem, que me acho
+diante de outras arvores nuas, que aguardam, saudosas como eu, dias de festa, o
+mais que posso dizer é que a primeira impressão photographica da bella
+Natureza, toda esplendida e de uma admiravel nitidez, foi ali que a minha mente
+a recebeu. Um tal quadro, que tinha de me ficar no sanctuario intimo para todo
+sempre inspirativo, fecundo, milagroso, e contendo a synthese da galeria do
+Universo real e imaginario, mal podéra haver tido tal perpetuidade e tal
+virtude, se lá m'o não collocassem uma fada e um genio, uma mulher e um amor;
+mulher recem-cahida das estrellas e ainda ignorante da sua destinação; amor
+puro como o dos Anjos encarregados de enfeitar a Natureza, e que, terminada a
+tarefa, dormitam entre os obeliscos que levantaram, e sonham céo.</p>
+
+<p>Assim, ao mesmo tempo que as minhas forças medravam a olhos vistos de dia
+para dia, e que os diversos receios das duas mães diminuiam de manhan para
+manhan ao alegre florir do meu aspecto, se foi a minha indole compondo com duas
+religiões, que a final se reduzem a uma só: o culto das gemeas e eternas
+amantes universaes,&mdash;a Natureza e a Mulher.</p>
+
+<h2><a name="SECTION00290000000000000000">IX</a></h2>
+
+<p>De tão ameno passeio na alva da vida chego de repente á escarpa de um
+precipicio, d'onde é inevitavel o despenho para um abysmo.</p>
+
+<p>Encetava eu apenas a carreira do estudo, tão menino, tão menino, que o
+ouvirem-me já ler, e verem-me formar caractéres, era (nunca a minha vaidade o
+esqueceu) um thema de admirações e de felizes prognosticos para os parentes e
+amigos da familia. De repente outra doença, mais terrivel que a primeira, e
+menos esconjuravel do que ella, não paga com martyrisar-me, não contente de
+balançar-me por um fio largos mezes entre a vida e a morte, me atira vivo para
+um sepulcro! Eu respirava; mas os bellos olhos,<span class="pn"><a
+name="pag_26">{26}</a></span> idolatras das flores e de Amalia, e vangloria de
+minha mãe, não sabiam se havia ainda no ceo o sol de Deus! É impossivel
+recordar-me d'esse prazo, prazo de não sei quantas eternidades, sem que ainda
+agora o coração se me confranja.</p>
+
+<p>Imaginae um homem á hora em que se fosse embarcar n'um bergantim doirado,
+por um mar de prata, com virações balsamicas dos vergeis da terra, cuidando já
+velejar horizonte em fóra para um mundo de delicias... e lançado de improviso
+no mais fundo subterraneo de uma torre. Esse homem tão desafortunado, e
+desafortunado tão sem culpa, que nem ainda era homem, fui-o eu; e tanto mais
+sem-ventura, quanto ninguem então, nem eu por conseguinte, me julgava possivel
+a ressurreição, e a soltura.</p>
+
+<p>Convalesci; d'esta vez sem os soccorros do campo. Tinha as forças e a edade
+para folgar, tinha o desejo e a precisão do movimento, da convivencia, da
+fraternisação geral, da conquista, emfim, que pelos olhos se opera de continuo
+nos inexhauriveis dominios da Natureza e da sociedade; não podia permanecer
+immovel; mas o meu carcere sem lanterna me seguia por toda a parte. A ave da
+poesia, que me pipilava dentro, debatia-se contra as grades, quando ouvia lá de
+fóra estrondear a vida festival, e pelo ecco deshumano das suas vozes se lhe
+revelava o sem numero de bellas coisas, que até os insectos e vermes
+senhoreavam pela vista.</p>
+
+<h2><a name="SECTION002100000000000000000">X</a></h2>
+
+<p>Dera-me a Providencia, entre meus irmãos, um, dois annos mais novo do que
+eu, cuja indole sympathica inteiramente com a minha, cujos gostos em admiravel
+harmonia com os meus, nos constituiam mais que irmãos,&mdash;duas metades
+inseparaveis do mesmo todo. Ardia tambem n'elle a faisca sagrada. Não era tudo
+o palpitar o coração de cada um dentro no peito do outro; os nossos espiritos
+se adivinhavam de parte a parte; a nossa conversação tinha... (¿como hei-de
+dizer isto?) o que quer que fosse de um solilóquio, ou de um cantar ao ecco.
+Levava-lhe eu a vantagem de vinte e quatro mezes mais, elle me levava a de mais
+um sentido. Havia equilibrio, e compensação; cada um dava, e cada um recebia.
+Este mesmo interesse<span class="pn"><a name="pag_27">{27}</a></span> mutuo
+contribuia para a espontaneidade da nossa fuzão necessaria e suavissima.</p>
+
+<p>Chegou a edade dos estudos. Era tempo de aparelhar com as chamadas
+humanidades para as sciencias. ¡Que inveja e que tristeza, quando meus irmãos,
+ambos mais novos do que eu, sahiram pela primeira vez deixando-me só para se
+irem inscrever na classe de latim! Permittiu-se-me accompanhal-os; attendi;
+devorei; li pelos ouvidos; corri aposta com os mais applicados.</p>
+
+<p>O preceptor, bom e honrado velho, que, trinta annos havia, professava com
+devoção o idioma de Cicero e Virgilio, observa a minha attenção; interroga-me
+curioso; reconhece e declara não ter discipulo que mais em cheio haja absorvido
+as suas doutrinas.</p>
+
+<p>D'essa hora em deante fui eu o filho adoptivo, o predilecto, o mimoso, do seu
+enthusiastico romanismo. Não só erudito de amplos cabedaes, mas poeta, poeta
+elle mesmo, poeta <em>utriusque linguæ</em>, julgou reconhecer em mim, pelo
+modo como lhe eu traduzia as paginas inspiradas que elle me lia com fogo, e
+pela promptidão, sobre tudo, com que eu lhe restituia nos versos originaes os
+trechos que elle para isso me recitava das Musas cesáreas reduzidos a proza
+portugueza, julgou, digo, reconhecer uma indole fadada para a poesia; e pôz com
+generoso exforço peito a cultival-a.</p>
+
+<p>Tratar as Musas, e em particular as latinas, é desenvover a um tempo
+phantasia e sensibilidade:</p>
+
+<blockquote>
+ <em>......lecto carmine doctus amet.</em></blockquote>
+
+<p>O poeta que assim cantára, logo ali se apossou de mim para toda a vida. O
+seu estudo, que eu nunca mais interrompi, que depois alarguei, e que ainda
+agora me é delicias, entrou pois como elemento energico, tanto como as
+amenidades do Paço do Lumiar, e os amores infantis de minha prima, na
+composição mysteriosa e providencial do meu verdadeiro destino, que nunca foi
+desde o principio, nem já agora póde ser outro até ao fim, senão, repito, a
+poesia.</p>
+
+<p>Meus irmãos passaram-me dentro em pouco de condiscipulos a discipulos; e o
+mais novo, Augusto, de discipulo a inseparavel. ¡Que annos! ¡Que annos<span
+class="pn"><a name="pag_28">{28}</a></span> esses! ¿Quem, tendo-os uma vez
+desfructado, os esqueceria em nenhum tempo, em nenhuma fortuna?!</p>
+
+<p>Augusto e eu, que afinal já éramos um só, fanatisados deveras com as
+grandiosidades heroicas, com as fabulas ridentes e floridas que nos surdiam de
+continuo ao excavarmos por aquelle mundo fossil e classico, pode-se dizer que
+nos naturalisámos Romanos antes de sermos Portugueses; fomos antiquarios
+enthusiastas na puericia; os cobres, que os d'aquella edade desbaratam em doces
+e brinquedos, convertiamol-os nós em qualquer <em>alfarrabio</em>, que no
+frontispicio nos trouxesse um dos nomes Romanos immortaes, cuja ladainha
+sabiamos de cór, e recitavamos com veneração, desde o principio da <em>edade
+aurea</em> até ao cabo da <em>edade ferrea</em> e <em>lutea</em>, desde Livio
+Andronico até aos escriptores já christãos, ultimas reliquias do Imperio e da
+lingua a desfazerem-se. Devoravamos tudo aquillo sem guia, sem escolha,
+temerariamente, mas com uma perseverança, com um affecto, com um encantamento,
+inexplicaveis. Excusavamos, repelliamos qualquer outro passatempo; visitas,
+passeios, tudo nos era enfadonho, comparado com a delicia de vaguearmos pela
+Italia velha, de ouvirmos os seus heroes pela bocca de Tito Livio, de entrarmos
+com Virgilio familiarmente no palacio rustico d'el-Rei Evandro, de nos
+espairecermos com elle, Calpurnio, e Nemesiano, por entre as amenidades
+campestres, e ouvirmos cantar Horacio n'um pomar da sua Tibur:</p>
+
+<blockquote>
+ <em>...... ad aquæ lene caput sacræ</em></blockquote>
+
+<p class="ni">coroando-nos como elle</p>
+
+<blockquote>
+ <em>...flore, terræ quem ferunt solutæ</em> </blockquote>
+
+<p class="ni">ou de escutarmos suspiros e galanteios de Tibullo, Propercio,
+Gallo, Catullo e Ovidio. Ovidio mais que todos nos levava traz si as vontades.
+(Não prégo moral; historío).</p>
+
+<p>A poder de lidarmos com aquella gente, aformosentada pela distancia, e tão
+ideal vista de cá; tudo gue não era ella, o seu viver, o seu pensar, o seu
+idioma, as suas festas, nos parecia mesquinho, insipido, repugnante; sonhavamos
+acordados.<span class="pn"><a name="pag_29">{29}</a></span></p>
+
+<p>D'isso me adveio, cuido eu, e não podia deixar de ser em edade tão branda
+para receber cunho, uma confirmação não pouco efficaz para a poesia.</p>
+
+<h2><a name="SECTION002110000000000000000">XI</a></h2>
+
+<p>E na verdade, já que estamos conversando desenfadados, sinceros, e sem armar
+a vanglorias, ou, por outra, já que me estou confessando dos meus peccados de
+poesia pratica, direi aqui (embora quebre o fio da narração, depois o atarei)
+que, estendendo a consideração por todo o longo e variado decurso da minha vida
+até hoje, não descortino em toda ella senão... (¿como direi isto que me não
+afronte em demasia?) senão um predominio constante da phantasia sobre a
+realidade; uma extranheza activa e passiva dos homens, successos e coisas do
+mundo, em que vivo como que emprestado, semi-pagão, semi-classico,
+semi-republicano dos Gracchos, semi-conviva de Mecenas, semi-Tityro,
+semi-captivo das Corinnas e Delias, e, com tudo isto, a esvoaçar-me sempre da
+poesia que foi, ou que se nos figura lá traz, para outra que lá adiante ri aos
+santos amigos da humanidade, aos utopistas.</p>
+
+<p>Sempre que o individuo, de quem falo, entrou, ou cuidou entrar, na politica
+(n'esta parte, Deus louvado, já escrevo o necrológio) foi sempre levado do
+enthusiasmo, ignorante da historia contemporanea, e da mesma politica, não
+ajuramentado a bandeira de côr alguma, não adstricto a tal ou tal plano de
+estadista, curando pouco de nomes, e menos ainda de interesses proprios; foi
+campeão sem divisa de uma causa apenas prophetisada, vaga, confusa,
+remotissima.&mdash;a civilisação pela moral, pelo amor, pelo trabalho, e pelo saber.
+Pueril e incorrigivelmente seduzido por miragens humanitarias e poeticas, nunca
+passou entre os politicos positivos de alvitrista chimerico, e homem para nada;
+pugnou com o ardor de quem reivindicasse algum morgado pingue, pugnou até
+vencer (¡vêde isto!) para que se fechasse aos tentados de suicidio a paragem
+vertiginosa que mais por seu contagio os attrahia; empenhou sabios em
+procurarem remedio, se o houvesse, que diminuisse as duas pestes:&mdash;duello, e
+infanticidio; incitou<span class="pn"><a name="pag_30">{30}</a></span> para o
+cultivo serio das Lettras quantos talentos esperançosos descobriu; foi de todos
+amigo sem inveja, pregoeiro sem restricções; propoz para os veteranos dos
+estudos e da poesia uma Runa gloriosa, abundante, e aprazivel, em vez do
+hospital que ainda não mandou queimar a enxerga de Camões, á espera dos que
+poderão vir; pediu, e tambem debalde (¡debalde até isto!) um Campo Elysio
+terrestre para os mortos memoraveis; suas effigies postas pelo publico
+agradecido nos passeios, e uma lamina commemorativa pregada pelo Municipio na
+frontaria de cada casa, testemunha do nascimento, dos trabalhos, ou do obito,
+de um benemerito; procurou e descobriu as reliquias do Cantor dos
+<em>Lusiadas</em>, para que as desagravassem; forcejou com a persuasão para que
+se desse á agricultura o seu apreço, á imprensa o mais amplo favor, premios
+reaes aos talentos operosos e productivos, subsistencia e honra aos educadores,
+ensino liberal, christão e ameno á puericia; pela puericia, que é a nação de
+amanhan, fez mais, muito mais, quanto poude e mais do que podia: invocou por
+ella ceo e terra, throno e plebe, sabios e ignorantes, ricos e miseraveis, o
+clero e as mulheres; foi na vanguarda dos consociados para se promover a
+educação popular; fez-se, a expensas de tudo seu, mestre-escola de plebeus e
+descalços; evangelisou de terra em terra o novo ensino, o ensino racional, a
+centenares de professores honestos; pelejou na imprensa, com o amor e com o
+odio, desde a supplica até á verrina, em prol dos calcados direitos da
+infancia, da maternidade, e da Patria; e convencido, pela evidencia dos factos,
+resposta eloquente e peremptoria aos negadores das vantagens da reforma, que
+riem, que riem da caridade, que riem da philosophia, que riem do progresso, que
+riem de seus filhos, que riem de si mesmos, deixou pendente a envelhecer por
+dez annos, desenfeitada e esquecida, a sua lyra (¡oh! ¡milagre summo de uma fé
+verdadeira!), para andar sollicitando a redempção e o baptismo de luz dos
+captivosinhos de sete e menos annos; foi levar o beneficio espontanea e
+gratuitamente ao Brazil; ambicionou que lh'o acceitassem do mesmo modo na
+Hespanha e na Italia. Se n'estes dois lustros de lidas obscuras, só pagas com
+desgostos, alguma hora se recordou de poetar, foi só para convidar<span
+class="pn"><a name="pag_31">{31}</a></span> com o exemplo e com o discurso
+talentos melhores que o seu a encetarem cantares de civilisação, a enxertarem
+nos loireiros estereis alguns ramos fructuosos; e não se levantou da cadeira de
+um ensino quasi ignobil aos olhos do mundo, senão para escrever livros sem
+vulto, mas necessarios ou uteis:&mdash;<em>Noções rudimentaes</em>;&mdash;<em>Guia
+pratica de mestres</em>;&mdash;<em>Tratado de Metrificação</em>;&mdash;<em>Tratado de
+Mnemonica</em>;&mdash;<em>Felicidade pela instrucção</em>;&mdash;<em>Felicidade pela
+agricultura</em>;&mdash;<em>Tentativas grammaticaes</em>&mdash;um <em>Curso de lingua
+latina</em>;&mdash;e, de envolta com tudo isso, requerimentos reiterados e instantes
+aos poderosos, ás sociedades, ás academias, aos principes, aos tribunaes de
+instrucção, para que o ajudassem.</p>
+
+<p>Quando um Rei <em>amigo dos que trabalhavam</em>, e cheio elle mesmo de
+nobres ambições, convidava ao poeta de outr'ora para ir colher fructos de oiro
+num ensino altamente litterario, ousou o poeta pedir-lhe commutação no serviço,
+offerecendo-se-lhe operario para a trasladação dos monumentos classicos romanos
+á lingua patria, por entender que ia n'isso muito maior vantagem aos estudos e
+á poesia, ainda que para elle menos lucro e menos brilho.</p>
+
+<p>Todos estes rasgos de loucura se provam e documentam d'aquelle pobre
+sonhador, a quem, deneguem tudo mais, coração e muitissimo não lh'o podem
+contestar.</p>
+
+<h2><a name="SECTION002120000000000000000">XII</a></h2>
+
+<p>¡Que digo! ¿Esta mesma digressão aqui não é porventura uma sobreprova de
+quanto o amor, na sua mais vasta accepção, o amor que não suppre assim a poesia
+senão porque o é, constitue o caracter do pobre homem? Nem os desenganos o
+desenganam; nasceu affectivo; affectivo tem vindo caminhando pela vida fóra, da
+primavera para o estio, do estio para o outomno, que já se lhe desverdece, e
+nem os gêlos do inverno lograrão provavelmente resfrial-o.</p>
+
+<p>Na festa da Primavera, n'esses dias do amor só sensual e egoista, bem que
+innocente, ¿que pedia elle aos amigos para quando já não existisse?</p>
+
+<p>Deixae-me escutar n'um ecco d'alma aquelles versos:<span class="pn"><a
+name="pag_32">{32}</a></span></p>
+
+<blockquote>
+ Depois que entre os abraços delirantes<br>
+ de todos os que amei findar meus dias,<br>
+ sepultae-me n'um valle ignoto e fertil.<br>
+ Para marcar da sepultura o sitio,<br>
+ sobre o cadaver que vos foi tão caro<br>
+ mangeronas plantae, cuja verdura<br>
+ em roda fecham variados lirios.<br>
+ Na raiz funda da soberba olaia<br>
+ poise a minha cabeça, e o tronco amigo<br>
+ sobre mim curve a copa florescente.<br>
+ Mil piteiras unidas, ostentando<br>
+ na hastea vaidosa as flores amarellas,<br>
+ em quadrado não grande me defendam<br>
+ das incursões das cabras roedoras.<br>
+ Em meu tronco se escreva este epitaphio:<br>
+ <br>
+ <em>   Foi poeta amador da Natureza:</em><br>
+ <em>   d'entre as sombras ancioso a procurava,</em><br>
+ <em>   qual terno amante a bella fugitiva.</em><br>
+ <br>
+ Sobre isto pendurae sonora flauta,<br>
+ que se revolva á discreção do vento.<br>
+ Não cerque os ossos meus, não m'os ensombre,<br>
+ nem teixo nem cipreste; arvores quatro<br>
+ quizera só no meu jardim de morte.<br>
+ N'um canto a laranjeira graciosa,<br>
+ que mescla util e doce, a flor e o fructo;<br>
+ n'outro a figueira sob as amplas folhas<br>
+ modesta occulte seus nectáreos mimos;<br>
+ defronte um pecegueiro em fructos mostre<br>
+ que amavel é pudor, quando enche faces<br>
+ de penugem subtil inda cobertas;<br>
+ no ultimo canto... (a escolha me confunde)<br>
+ plantae no ultimo canto uma ginjeira;<br>
+ é a arvore da infancia, até na altura;<br>
+ d'esta por sua mão colhe um menino<br>
+ a mui ridente baga, e ri de ufano.<br>
+ Alguns tempos depois que a fria terra<br>
+ meus restos encerrar, á minha olaia<br>
+ vós, meus amigos, vós dareis meu nome,<br>
+ pois de mim se nutriu, e eu serei n'ella.<br>
+ <br>
+ Dos guerreiros nos tumulos afiem<br>
+ faminta espada os barbaros guerreiros;<br>
+ no sepulcro do sabio o sabio estude;<span class="pn"><a
+ name="pag_33">{33}</a></span> <br>
+ e dos Reis nos marmoreos monumentos<br>
+ vá sonhar a ambição grandeza e pompas;<br>
+ vós soltos de freneticas loucuras<br>
+ aqui vireis mil vezes visitar-me,<br>
+ na amizade pensar que nos unira,<br>
+ e unir-nos deverá transposto o Lethes.<br>
+ ¿Por que me interrompeis com taes suspiros?<br>
+ ¡ah! deixae-me acabar. Quando sentados<br>
+ em torno a mim na flórida alcatifa,<br>
+ guardardes meditando alto silencio,<br>
+ se d'entre as mangeronas que me cobrem<br>
+ sahir acaso a borboleta errante,<br>
+ ¿não vereis n'ella o espirito do amigo<br>
+ que vem gozar do sol a claridade?<br>
+ Quando o suave rouxinol de noite<br>
+ da minha olaia gorgear nos ramos,<br>
+ ¿não pensareis, de santo horror tranzidos,<br>
+ que feito rouxinol, meus cantos sólto?<br>
+ Sim, pensareis, e erguendo-se inspirado<br>
+ algum lhe ha-de bradar: «¡Oh! ¡meu amigo!»<br>
+ Responderão: «Oh meu amigo» os bosques;<br>
+ e vós direis que o meu phantasma errante,<br>
+ da argentea lua á muda claridade,<br>
+ á conhecida voz d'alem responde,<br>
+ e em tudo encontrareis a imagem minha.<br>
+ <br>
+ Se inda então meus costumes vos lembrarem,<br>
+ se vos lembrar meu coração piedoso,<br>
+ velae que em meu retiro as bellas aves<br>
+ de caçador cruel cantem seguras;<br>
+ Amor, o leve Amor, com arco d'oiro,<br>
+ só elle, e mais ninguem logre atirar-lhes;<br>
+ careço de amorosa melodia<br>
+ que me poetize o somno derradeiro;<br>
+ morto que nada tem, preciza d'estas<br>
+ pobres delicias rusticas, se folga<br>
+ que a namorada moça, o terno amante,<br>
+ juntos, ou sós, a visitál-o acudam.<br>
+ Então ao som de languidos suspiros,<br>
+ de alegres cantos, de amorosos versos,<br>
+ de ternas queixas, de perdões suaves,<br>
+ muitas vezes contente a minha sombra,<br>
+ formando ao pôr do sol vermelha nuvem,<br>
+ girará n'estes ares revolvendo<br>
+ da passada existencia almas lembranças.<span class="pn"><a
+ name="pag_34">{34}</a></span> </blockquote>
+
+<p>Andaram tempos. Amores mais serios, mais vastos, mais duradoiros, mais
+uteis, ainda que menos entendidos das turbas a quem se referiam, inspiraram já
+outros desejos:</p>
+
+<blockquote>
+ Ó terra de Colombo, um navio de esmola<br>
+ do abysmo te evocou, e aurea brotaste á luz.<br>
+ Por outra regia Heroina esmolada uma escola<br>
+ vai transformar-te em ceos, terra de Santa Cruz.<br>
+ <br>
+ E eu, que já uma vez, largando o patrio ninho,<br>
+ romeiro do progresso em balde te busquei,<br>
+ retomarei de novo o undívago caminho,<br>
+ e irei juntar meu hymno ao seu triumpho; irei<br>
+ <br>
+ pender na escola-templo os festões da poesia,<br>
+ e, novo Simeão, findar a vida em paz.<br>
+ Onde o homem que se humana affoito invoca o dia<br>
+ direi:&mdash;«A patria é esta; aqui viver me apraz;<br>
+ <br>
+ «apraz-me aqui morrer, onde as mães porventura<br>
+ co'os filhos pela mão me hão-de vir visitar;<br>
+ saudades esparzir na minha sepultura,<br>
+ e dizer: <em>Este sim, que soube o que era amar.</em>» </blockquote>
+
+<p>Passaram tempos ainda, e até essa esperança consolativa se desfloriu. Ouvi o
+esmorecimento não já cantar, mas gemer, no seio da amizade:<a name="tex2html1"
+href="#foot538"><sup>[1]</sup></a></p>
+
+<p>«Depois vem a reparação, a rehabilitação, não ha duvida. Do sepulcro brota o
+loiro, e a posteridade amarra a elle os inimigos dos amigos dos homens, os
+areopagitas idolatras envenenadores dos Socrates crentes. Mas as cinzas não
+sentem; as estatuas não vêem nem ouvem.</p>
+
+<p>«O premio que eu devaneava a principio, quando via tão ás claras a bondade
+da obra que estava fazendo, era que os filhinhos, e as mães, me acompanhariam,
+chorando, ao cemiterio. A esse côro de amor imaginava que até o cadaver se me
+alegraria. Não dava aquelle triumpho posthumo pelas torrentes de carroagens e
+salvas funebres dos magnates.<span class="pn"><a name="pag_35">{35}</a></span>
+Pois nem já com isso conto. Conseguiu esta gente, não sei se invejosa, se quê,
+diffundir tão copiosamente os seus preconceitos, escurecer em tanta maneira a
+luz do beneficio, que nem já espero aquillo. As mães ver-me-hão passar, sem
+saberem quão grande amigo de seus filhos e netos ali vai; e d'estes só
+porventura me irão dar despedida os que n'esta hora estão cantando e amando por
+essa meia duzia de escolas regeneradas».</p>
+
+<h2><a name="SECTION002130000000000000000">XIII</a></h2>
+
+<p>Saiamos d'aqui a toda a pressa, leitores amigos, antes que nos degenere em
+paginas de santa mas feia indignação, um escripto que eu vos prometti e
+destinei todo pacifico e amoravel. Torno-me pois á minha Arcadia da mocidade,
+como o soldado mal ferido das guerras, e ainda mais dos menoscabos que dos
+golpes, se acolhe á quieta poisada em que se creou.</p>
+
+<p>Apóz algumas tentativas incertas e incoherentes de lavor poetico, de que o
+publico se esqueceu, e eu quizera esquecer-me tambem, foi a fabula selvatica de
+Narciso e Ecco a primeira producção que me rebentou nativa, e verdadeiramente
+congénita áquella indole campestre e amoravel, que os successos e os estudos me
+tinham andado a preparar desde o principio. Nunca jámais essas singelas
+<em>Heroides</em>, impetuosamente e quasi de improviso brotadas (posso hoje
+dizer isto sem jactancia, e sem que os entendidos m'o descreiam) ousaram
+esperar o extraordinario, o excessivo favor com que foram recebidas,
+multiplicadas em edições sobre edições em Portugal e no Brazil.</p>
+
+<p>¡Ora, quem poderia jámais lembrar-se de que um livrinho assim, todo vão,
+todo fabuloso, uma especie de globo de espuma, nascido de um sopro para boiar
+nas virações por alguns instantes, espelhando os verdes da terra e o azul de
+cima, e apagar-se para sempre, filho do nada restituido ao nada, conteria o
+germen de uma historia muito real!</p>
+
+<p>Pois foi assim: Das <em>Cartas d'Ecco e Narciso</em>, sahiu, como de flôr
+ephemera um fructo, o <em>Amor e Melancolia</em>, este <em>Amor e
+Melancolia</em>, que já não era<span class="pn"><a
+name="pag_36">{36}</a></span> um devaneio e um canto, mas sim registo
+disfarçado de uma historia do coração: <em>lacrimæ rerum</em>.</p>
+
+<h2><a name="SECTION002140000000000000000">XIV</a></h2>
+
+<p>Tres annos havia que tinham apparecido pela primeira vez as <em>Cartas
+d'Ecco</em>; e dois os poemetos da <em>Primavera</em>.</p>
+
+<p>Residia então o autor de ambas estas bagatellas nos sitios mesmos, que, em
+harmonia com os vinte e quatro annos d'elle, lh'as haviam inspirado. Repoisava,
+já fóra do estádio academico, nos ocios tão poeticos do seu Mondego. A casa da
+vivenda conheceil-a vós, desde que o mais poeta dos nossos prosadores<a
+name="tex2html2" href="#foot529"><sup>[2]</sup></a> pela magia da sua penna,
+que é ao mesmo tempo varinha de condão, vol-a descobriu, vol-a franqueou, vos
+fez, queridos leitores meus, entrar n'ella a visitar-me.</p>
+
+<p>Pois bem: Era ali, n'aquella casa, ainda hoje lembrada do nosso nome,
+n'aquelle espaçoso e singular edificio, encostado, de uma parte á vertente de
+Subripas, de outra ao Arco moirisco de Almedina; dominando o rio convisinho e a
+margem ulterior, e dominado pelo castello de templarios, theatro do tragico fim
+de Maria Telles; era ali, n'aquella estancia, de aspecto meio senhoril, meio
+claustral, com seu pateo espaçoso, e escadarias de pedra, suas enormes
+laranjeiras enclausuradas, suas varandas ajardinadas, seus erguidos miradoiros;
+era ali, ali, para onde eu tantas vezes me recolho em espirito, ainda agora, a
+escutar os descendentes dos rouxinoes que festejavam, como nós, a <em>Lapa dos
+poetas</em>; ali, ali era, que os dias e as noites se nos devolviam, ao meu
+inseparavel e a mim, nas leituras amenas, nas conversações mais amenas ainda,
+com os bons engenhos juvenis, que a tão hospedeiro retiro nos acudiam de boa
+mente.</p>
+
+<p>Era o Setembro de 1824; um donoso Setembro na verdade: estio em cheio e
+sombras á farta. Liamos os dois, isto é o um; por outra: recitavamos de cór
+pela centesima vez as elegias de Tibullo, á sombra de uma laranjeira merecedora
+de as ouvir, e muito<span class="pn"><a name="pag_37">{37}</a></span> bem capaz
+de as ter ditado, se fôra em Italia, e para tanto lhe desse a velhice, que
+todavia não era pouca. (Nenhuma circumstancia d'aquelle tempo se me desbotou
+ainda da memoria).</p>
+
+<p>¡Chega uma carta! ¡lettra desconhecida!... Abre-se, reza assim:</p>
+
+<p> </p>
+
+<blockquote>
+ <p>«Azurara, pelo correio de Villa do Conde, 27 de «Setembro de 1824.&mdash;</p>
+
+ <p>&nbsp;</p>
+
+ <p class="ni"><em>«Amar o mais perfeito é um dever:</em><br>
+ <em>«Virtudes tantas devem ser amadas:</em></p>
+
+ <p>&nbsp;</p>
+
+ <p>«Se vos apparecesse uma Ecco, imitarieis vós o vosso Narciso? </p>
+
+ <p style="text-align: right; margin-right: 15%;">«A desconhecida</p>
+
+ <p style="text-align: right;">«<em>Maria da Expectação Silva e
+ Carvalho.</em>»</p>
+</blockquote>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>¿Que significava, que podia significar aquillo? ¿Era uma pergunta candida?
+¿era um brinco malicioso? ¿era masculina, era feminina, a mão que tal
+escrevêra? ¿como responder? ¿a quem responder? O coração, ou presago, ou
+desejoso, dizia uma coisa; a prudencia, outra. O Tibullo era do parecer do
+coração; todos os mais poetas votariam como o Tibullo. O sol, que observa ha
+tantos mil annos coisas de todas as castas, e de certo não ignorava o segredo
+d'aquella, espreitava-nos, e ria. A laranjeira, scismava calada; como aia e
+enfeitadeira de noivas, lá se inclinava para o sim; mas tambem, como velha,
+desconfiava. O Samsão de marmore do angulo do terrado, esse continuava a
+escachar pacificamente o seu leão, e não se intromettia na contenda.</p>
+
+<p>Por muitas vezes se releu a carta á espera sempre de algum subito reflexo
+revelador; ¡e o enigma cada vez mais fechado!</p>
+
+<p>Era caso para pesquizas, pois de qualquer dos oppostos lados que a verdade
+estivesse, não faltava que fazer, e tinha-se de lhe acudir com resposta.</p>
+
+<p>Armou-se uma verdadeira caçada; empenharam-se n'ella quantos visinhos e
+praticos de Villa do<span class="pn"><a name="pag_38">{38}</a></span> Conde e
+Azurara se puderam desencantar; ¡e o mysterio a cerrar-se cada vez mais! ¡e a
+curiosidade, o interesse, a recrescerem-me na mesma proporção!</p>
+
+<p>Respondi emfim ao meu phantasma:&mdash;«Que não ousava eu muito acreditar em
+apparições de Eccos para quem não fosse Narciso; mas que, se por milagre
+houvesse uma, nunca eu seria tão insensato como o filho de Liríope.»&mdash;</p>
+
+<p>Até aqui podia eu chegar com a resposta sem me comprometter; para diante
+fôra já arriscar-me. Partiu. Fiquei aguardando com certo dessocego pela
+réplica. Chegou, correio por correio.</p>
+
+<p>Era a mesma lettra sem disfarce, e a mesma assignatura supposta. Mas d'esta
+vez, em logar de linhas contrafeitas, paginas com todo o desartificio amavel e
+persuasivo, com toda aquella graça nativa feminil, que se não imita. Quasi com
+certeza andava ali mão e espirito de mulher. ¿Era ella porém interprete
+solitaria de sentimentos proprios?; ou consocia e agente de uma conjuraçãosinha
+zombeteira? ¿Como descriminál-o? Não havia melhores razões para uma, que para
+outra supposição.</p>
+
+<p>A substancia d'aquella carta, que eu não devo nem quero tirar do sacrario em
+que a enthesoiro como reliquia, reduzia-se a querer-me convencer de quanto eu
+era injusto para comigo, e de quão mal conhecia o sexo amoravel, se o julgava
+todo unicamente sensivel aos encantos dos <em>Narcisos</em>; emfim: que o
+poeta, que tão verdadeiros affectos suspirára por uma deusa ideal,&mdash;a
+Primavera, merecia bem que uma mulher o procurasse para compôr a felicidade
+d'elle, e pela d'elle a sua propria.</p>
+
+<p>Isto, e muito mais a este modo, expunha a carta; mas por uns termos tão
+obsequiosos, tão lisonjeiros, e ao mesmo tempo tão naturaes, como os eu não
+saberia expor aqui em traducção.</p>
+
+<p>O inverosimil principiou ali a figurar-se-me provavel. Nas regiões
+imaginarias em que vivem os poetas, não ha extranhezas senão para o que é
+natural e corrente; o ordinario são os prodigios.<span class="pn"><a
+name="pag_39">{39}</a></span></p>
+
+<h2><a name="SECTION002150000000000000000">XV</a></h2>
+
+<p>Sem me atrever a confessar a minha nascente, ou já nascida, persuasão, senti
+ir-se-me levantando n'um recanto do animo um altarzinho todo verde e florido
+para uma divindade ainda invisivel, mas cuja aproximação já por um certo calor
+suave se me denunciava.</p>
+
+<p>Diz que muitas leguas ao largo de Ceylão já o gajeiro, embalado lá em cima
+no sol doirado do Mar Indico, percebe na fragrancia das virações tepidas as
+selvas de canelleiras da ilha, ainda occulta pela convexidade marinha, mas que
+vem correndo a encontrál-o. Assim me sentia eu levado para uma ilheta de
+amores, que, já aspirada, e ainda não descoberta, vinha por cima do seu mar de
+aljofares offertar-me, toda donosa e festiva, a hospedagem das suas sombras
+inebriativas. Um côro de sereias a meio caminho nos revelava, nos annunciava de
+parte a parte; e, assim como se vê tantas vezes no mar um navio pela acertada
+disposição das velas demandar a terra, com o mesmo vento que de lá sopra, a
+aura que me falava do meu porto, a mesma era que para lá me conduzia.</p>
+
+<p>«Não ha cubiça do que se não conhece,» dizia um antigo poeta; extranha
+sentença; e para de poeta, muito mais extranha. A mui veridica historia que vos
+narro, duas vezes a desmentiu: nem a que me buscava me conhecia, nem eu
+conhecia a que buscava.</p>
+
+<p>E nem por isso é a coisa tão para espantos como de fóra e á primeira vista
+se representa. ¡Que de consorcios se não teem celebrado, até com amor, entre
+ausentes, pela simples troca de retratos! ¿Que mancebo se poderá gabar de não
+ter sonhado muitas vezes, dormindo e acordado, com a heroina de um romance, ou
+com o invento prestigioso de um pintor? ¿Quem ha que não saiba o caso d'aquella
+moça franceza, que se finou de paixão pelo seu Telemaco? Ninguem o prediria a
+Fénelon, quando, accezo no santo amor do genero humano, compunha para a
+eternidade o seu homerico poema social. Temperae de um pouco de poesia a
+qualquer coração<span class="pn"><a name="pag_40">{40}</a></span> (o nosso era
+temperado de muitissima) e vel-o-heis palpitar todo credulo por um phantasma.
+Para uma Virginia, este phantasma será Paulo; para um Paulo, Virginia; para um
+astronomo, um planeta, que elle, em nome do seu calculo, intima aos abysmos
+celestes lhe apresentem; os phantasmas das religiosas, são os anjos; os dos
+cenobitas, virgens do Empyrio; o dos artistas inspirados, a gloria na
+posteridade; o meu, tinha sido com effeito a Primavera, continuava a sel-o, mas
+agora humanada em figura feminil.</p>
+
+<h2><a name="SECTION002160000000000000000">XVI</a></h2>
+
+<p>Se eu me não temesse da gente em prosa, que só acredita no que se palpa,
+havia de dizer que a aspiração para o bello desconhecido, para a perfeição
+ideal, entresonhada onde quer que seja, e com qualquer dos milhões de fórmas em
+que ella se póde metamorphosear, tanto não é extranha á Natureza, que não são
+unicamente os individuos privilegiados da nossa especie, os que a experimentam.</p>
+
+<p>¿A rôla, a pomba, o rouxinol, a gemerem de saudade, a arrulharem de ternura,
+a gorgearem de immenso affecto, por que enlevam tanto, e tantas coisas
+inefaveis dizem aos animos devaneadores, senão porque os seus gemidos,
+suspiros, e canticos, almejam coisa diversa dos deleites faceis que os rodeiam,
+e que já possuem?</p>
+
+<p>E depois: o Pae Commum não é avaro de seus dons, e ha-de folgar quando cada
+uma de suas minimas creaturas, alando-se quanto póde e sabe pela esphera dos
+gosos puros, se aproxima cada vez mais a Elle, que é a Summa Belleza, o Summo
+Bem, de que todos os bens são emanações ou reflexos.</p>
+
+<p>¡O rouxinol, a pomba, e a rôla!... mas os insectos mesmos, ¿quem affirmará
+que não se pascem, como nós, ainda que muito longe de nós, á meza infinita,
+perenne, e perennemente renovada, do amor ideal?</p>
+
+<p>¿Quem sabe até o que irá de mysterios nas flores e nas arvores!? ¡que
+idyllios, que elegias, que divinos poemas não correrão nas florestas com o
+murmurinho dos ventos em estrophes de aromas, intelligiveis<span class="pn"><a
+name="pag_41">{41}</a></span> ás arvores congeneres, e ás flores da mesma
+especie!... </p>
+
+<p>A carta, que de algures levantára vôo para algum fim, a carta que eu tinha
+nas mãos, tão candida, tão vivida, tão palpitante e amoravel, tão segura e tão
+certa, podia ser portanto, e, se o podia ser, era-o, uma especie de borboleta,
+que sahira das flores de uma alma solitaria e longinqua, para vir fecundar as
+da minha com um polen ardente e inesperado. Os effeitos que ella em mim
+produzia (logica ordinaria dos desejos) eram, á mingua de outras provas, uma
+vehemente presumpção de que o bom do papel vinha mensageiro leal, e não
+explorador perfido da minha credulidade; e entretanto mal sabia eu como lhe
+respondesse.</p>
+
+<p>Deixar-me ir de vôo rasgado ao reclamo fôra temeridade indesculpavel; mas
+fôra tambem excesso de prudencia, repugnante a um sentir delicado, aventurar
+offensas, embora leves e disfarçadas, para rebater um aggravo só possivel;
+queria-se o meio termo; e esse era difficillimo; e difficillimo sobretudo como
+eu o desejava, que era propendendo mais para o coração, que para o espirito;
+para abraço, que para duello.</p>
+
+<p>Meditei todo o dia.</p>
+
+<p>O que eu nas falas gracejava por cautella, já no fôro intimo se me discutia
+como negocio.</p>
+
+<p>Empenhei todas as potencias da alma, como poderia fazer o Edipo deante da
+Esphinge. Levei o serão e a noite a sós, no laranjal, a interrogar a lua,
+antiga confidente de namorados.</p>
+
+<p>A lua, ou nada sabia no caso, ou, se o sabia, não o quiz dizer.</p>
+
+<p>Mas a noite, grande terceira e fautora n'isto de amores, segredava-me ao
+sabor do appetite, com umas taes razões, tão cheias de poesia, isto é de
+verdade, que o genio fogoso dos meus vinte e quatro annos fez sahir, sem
+grandes evocações, não sei se de algum tronco, se das nuvens, se d'entre as
+pedras e heras da varanda de D. Maria Telles, uma Sombra de mulher, uma Fada,
+uma Sylphide, com quem eu tive ali horas ineffaveis de colloquio, desabroxando
+e enramalhetando futuros em commum.</p>
+
+<p>Tenho pena de não poder já copiar aquellas praticas, nem as achar mesmo para
+mim bem inteiras na memoria.<span class="pn"><a
+name="pag_42">{42}</a></span></p>
+
+<p>Se o leitor, ou leitora, tem a edade que eu tinha então, e é poeta, mas
+poeta verdadeiro, d'estes que não só lêem e escrevem a poesia, mas a vivem, lá
+rastreará por si aquella scena tão cheia, tão real, tão animada. Se bem a
+concebem, tenho-lhes inveja eu; digo como a Santa da lenda:&mdash;«Ai! ¡que saudades
+me não comem do tempo em que eu era tão infeliz!»&mdash;ou, como a outra, toda
+delirante de ternura:&mdash;«Tenho dó dos demónios; ¡pois se elles não amam!»&mdash;O meu
+Virgilio, tão poeta na voz, na alma, e no coração, exclamava saudoso:&mdash;«¡Oh!
+¡quem me dera nos campos, lá pelas ribas do Sperchio; pelos cumes do Taygéte,
+bacchanalmente retoiçado das virgens lacedemonias! ¡Ai! ¡quem me pozera hoje
+nos valles, tão frescos, do Hemo, e com a sombra grande de suas ramarias me
+protegera!»&mdash;</p>
+
+<p>¡Que melhores Sperchio, Taygéte, e Hemo, que melhores campos, delicias, e
+feitiços, que a adolescencia com o amor, e o amor com os seus extasis e raptos!</p>
+
+<p>¡Que de coisas se não descortinam e ouvem então, que depois se calam e
+desvanecem!... engano-me: não se desvanecem, nem se calam; são vivazes e
+immortaes no seio da Natureza; mas nós, é que transpomos a paragem bemdita de
+reconcavos e eminencias, onde se recebem em eccos augmentativos todas aquellas
+vozes, d'onde se descortinam em cheio todas aquellas vistas maravilhosas.</p>
+
+<p>¡Oh! detende-vos ahi; detende-vos; abraçae-vos aos troncos floridos o mais
+pertinazmente que poderdes, que em principiando a descida... ¡adeus primavera!
+¡adeus amores! ¡adeus sabedoria das loucuras! ¡adeus miragens e musicas da
+vida! ¡adeus de vós a vós mesmos! ¡e adeus esperanças de reascenderdes nunca
+mais! Os leitos de rosas e as corôas de violetas, já lá estão hospedando a
+outros viajantes que vos expulsaram. Resignae-vos, se podeis, á peregrinação,
+por sobre espinhos, e por entre saudades, cada vez mais espessas.</p>
+
+<p>¡Ah! ide quantas, e quantas não vou eu já carregado para o ciprestal que lá
+ao fundo me negreja! Tiremos d'elle os olhos, e deixemol-os ir ao que lá nos
+fica perdido, ¡perdido para todo sempre!...<span class="pn"><a
+name="pag_43">{43}</a></span></p>
+
+<h2><a name="SECTION002170000000000000000">XVII</a></h2>
+
+<p>Passeava eu pois com a minha apparição candida; sentava-a ao pé de mim;
+apertava-a nos meus braços; mostrava-a com ufania ao astro das noites, que não
+era mais puro, nem mais limpido; pedia-lhe, promettia-lhe uma ventura ainda não
+experimentada na terra; unificavamos pelas nossas confidencias o nosso passado;
+o nosso porvir entretecia-se n'um ser unico. O existir eu, era para mim,
+n'aquelles momentos extraordinarios, a mais solemne e convincente demonstração
+da existencia, da realidade, da indispensabilidade d'ella: ella existia, visto
+que eu existia.</p>
+
+<p>Não riais: eu amava perfeitamente. «¡A um espectro!» não: a uma mulher, a
+uma mulher, de quem só o corpo, talvez, ali faltava, e cuja entidade moral e
+espiritual me pertencia me acompanhava, me velava.</p>
+
+<p>¿Não me sentia eu repassado do calor das suas azas invisiveis? ¿não tirava a
+cada momento de cima do coração palpitante, para a rebeijar, a carta por onde
+tinham girado os seus olhos, em que poisára a sua mão, que aspirára tão de
+perto as exhalações do seu seio, do seu coração e da sua alma?</p>
+
+<p>Aquella carta exercia incontestavelmente em mim um influxo magnetico,
+dominador, prestigioso; eu não sabia, nem tentava, explicál-o; mas negál-o, por
+um scepticismo ingrato e mal philosophico, muito menos o podia, muito menos
+ainda o desejava.</p>
+
+<p>Sentia-me tão bem sob aquella dominação absoluta, era tão bom permanecer
+assim, que o meu voto summo seria que nunca mais amanhecesse, se as falsas
+alegrias da madrugada me haviam de dissipar tão afortunado Elysio.</p>
+
+<p>Mysterios intimos da grande Isis, religião do amor, ¡infeliz quem vos não
+conhece! ¡mais infeliz quem chegou a conhecer-vos e vos perdeu! Esse é como o
+tronco sêcco: vicejou, florejou cem annos, cantou com todas as aves debaixo do
+céo, mimoso da terra, familiar com o sol, confidente das estrellas, abrigo aos
+amantes, depositário dos seus nomes e votos, suspirando suave com elles,
+inebriando-os com suas exhalações, promettendo-lhes, e promettendo-se,
+primaveras<span class="pn"><a name="pag_44">{44}</a></span> sem numero e sem
+fim; depois, murchou; cortaram-n-o, cahiu; fizeram d'elle, se o não deixaram
+apodrecer, ou o não queimaram, um instrumento grosseiro para revolver o solo,
+um barco para transportar mercadorias; ou, quando mais bem livrado, um Satyro
+tosco, de quem riem os passageiros, ou uma apparencia de Bemaventurado para um
+altar. ¡Oh! ¡como aquelle arado, se podesse pensar, trocaria com alvoroço o seu
+prestimo, aquelle barco os seus serviços, aquelle Satyro o seu arremedo de
+riso, aquelle Santo a sua alampada e os incensos, por uma só das horas frivolas
+e sem historia, da arvore, que vivia, que amava, e que era amada!</p>
+
+<p>A minha visão, a minha mulher sem nome, nem fórma determinada, prestes para
+receber qualquer fórma, e qualquer nome, era, se me podem bem entender isto,
+uma cifra, um symbolo, e o ideal da feminidade. No seu ser se epilogavam para
+mim todas as perfeições, todos os encantos dispartidos por quantas existem,
+existiram, ou poderão jámais existir; por isso a minha ternura para com ella
+era sem limites; era um amor, que n'aquellas horas de enthusiasmo abrangia
+todos os amores, presentes e futuros.</p>
+
+<p>¡Oh! ¡O amor! ¡o amor! se ha n'este mundo coisa que nos possa dar ideia da
+grandeza da alma, da profundeza da adoração, do infinito da bemaventurança, é o
+amor.</p>
+
+<p>Contam que uma só noite de terror e angustia já cobrira de cans e rugas a um
+mancebo; uma só noite como esta no meu pomar de estio, abraçado, confundido com
+a minha invisivel, remoçaria a um Nestor.</p>
+
+<p>¿Que seriam todos os gosos materiaes comparados com aquella religiosa
+voluptuosidade?</p>
+
+<p>¿Onde ha ahi alcova de noivos, estreada apoz dez annos de suspiros, onde ha
+ahi harém de hurís circassianas sobre rosas, ao som dos epithalamios dos
+rouxinoes do Bósphoro, que se não trocasse por este noivado mystico, tão sem
+rumor, tão puramente celebrado debaixo do céo e no seio da Natureza estiva pela
+poesia e pelo amor?<span class="pn"><a name="pag_45">{45}</a></span></p>
+
+<h2><a name="SECTION002180000000000000000">XVIII</a></h2>
+
+<p>Em quanto assim me corriam ali horas de feitiço, ¿onde estava e que fazia
+realmente ella?</p>
+
+<p>Só muito depois o vim a saber: pela sympathia inexplicavel que nos attrahia
+mutuamente, sentia-me tambem comsigo na sua soledade. Eu era lá o seu phantasma
+carinhoso, como ella cá o meu; a lua que de cá e de lá contemplavamos em
+commum, observava lá e cá as mesmas scenas tão parecidas, tão eguaes, que a
+duplicidade lhes não tirava a identidade. Supprimam os accidentes de logar; era
+no mesmo ponto do oceano dos tempos um só ninho de duas alcyones, que,
+embaladas mollemente no seu bemquerer, ignoravam que houvesse mundo para fóra
+da esphera dos seus affectos. Assim, não eram já imaginarios os abraços que
+dava, os abraços que recebia cada um de nós; as nossas declarações, juras, e
+protestos, entravam nos ouvidos, desciam ao coração a que se dirigiam.</p>
+
+<p>O amor, a quem os milagres são naturalissimos, triumphava já da distancia,
+como havia de triumphar do tempo e da fortuna.</p>
+
+<p>O sol e o movimento mundano e prosaico do dia seguinte, enfraqueceram seu
+tanto as impressões do drama nocturno e intimo. Encerrei-me no meu quarto;
+fechei as janellas para revocar no remanso de trevas artificiaes a sombra
+magica; reappareceu-me, porém não já a mesma; faltava-lhe a animação que a
+vehemencia da minha fé lhe prestára; de tão real que tinha sido, tornava-se de
+novo problematica. As objecções da razão gelada e desabrida, oppunham-se outra
+vez á prophecia da vontade. A linguagem nativa e sincera da carta, era um
+protesto eloquente e energico da innocencia e do amor contra as suspeitas; mas
+as suspeitas murmuravam sempre; a vaidade (¿quem a não tem?) a vaidade,
+similhante áquelles rhetoricos subtis das escolas antigas, sustentava
+alternativamente o pró e o contra: ora pretendia se acreditasse n'um affecto,
+que enobreceria a quem lhe servia de objecto; ora repulsava uma crença, que, a
+sahir burlada, redundaria em vergonha muito grande e muito certa.<span
+class="pn"><a name="pag_46">{46}</a></span></p>
+
+<p>N'estas alternativas passaram dias e noites; dias penosos, estirados, e
+ermos; noites acompanhadas, festivas, instantaneas. Só quando repoisava tudo,
+velava e vivia eu. Os meus pensamentos e as minhas alegrias, com as flores
+nocturnas se abriam, com as flores nocturnas se fechavam. Só as estrellas se
+podiam mirar n'elles, n'elles que tanto se lhes assimilhavam no brilho e na
+pureza.</p>
+
+<p>Quando, apagadas em casa as ultimas luzes, e reinando já profundo silencio
+ao longe por toda a cidade, cerca de meia noite, eu entrava com pé furtivo e o
+coração pulando, no aprazado arvoredo dos meus amores, já ali encontrava á
+minha espera a figura branca. Com mil beijos soffregos nos saudavamos,
+vingando-nos em minutos da eternidade do sol. Pedia-lhe de joelhos perdão de a
+ter renegado, de ter duvidado da sua existencia, durante as horas insipidamente
+allumiadas. Com um abraço restauravamos as pazes.</p>
+
+<p>Sentava-a ao meu lado, n'um banco rustico, afoufado para ella por minha mão
+com mangeronas, que as havia em grande espessura á sombra da laranjeira mais
+alta. Reclinava ella a sua cabeça languida para cima do meu hombro, ou eu a
+minha face ardente sobre o seu seio, a escutar-lhe e a interrogar-lhe o
+coração. Repetiamos os nossos incendidos dialogos da vespera, como novos.
+Misturavamos lagrimas de ternura e felicidade. Reviviamos antecipados os mais
+bellos futuros. A qualquer tenue rumor, d'estes com que a noite, maliciosa
+amiga dos namorados, se diverte a assustál-os, estremeciamos como dois culpados
+colhidos em flagrante; ella, forcejava por fugir; eu, escondia-a, rindo, com os
+meus braços contra o meu peito; guardava-a ali muito tempo como filha;
+embalava-a, adormecia-a, inspirava-lhe com beijos os sonhos que havia de
+sonhar, insinuava-me n'elles, e lhe repetia em voz baixinha as mais suaves
+coisas d'este mundo. Se um grillo cantava então, se um ramo ciciava lá por
+cima, impacientava-me de que m'a acordassem. Perguntava-lhe ao ouvido pelo seu
+nome, pela sua familia, pela terra da sua vivenda; não respondia. Inquiria-lhe,
+em tom ainda mais leve, se já porventura em algum tempo outro amor lhe
+sobresaltára o coração; levantava-se de repente, grande, sublime, aggravada da
+suspeita, prestes a desaparecer<span class="pn"><a
+name="pag_47">{47}</a></span> para sempre; e fal-o-hia, se ambos os meus braços
+a não retivessem pela cintura:&mdash;«Se eu não tivesse um coração ainda virgem,
+¡como ousaria offerecer-t'o! ¡offerecer-t'o espontanea! ¡a ti! ¡ao meu
+poeta!»&mdash;dizia ella com uma voz que não saberia mentir por mais que fizesse.
+Pedia-lhe outra vez perdão, agradecendo-lhe a ineffavel certeza que me dava da
+minha felicidade tambem no passado; outorgava-m'o generosa; mas impunha-me,
+como penitencia, que lhe improvisasse poesia. Era a poesia o que a fascinára? o
+que a attrahira para junto de mim; e eu (¡bemditos os vinte e quatro annos!)
+derramava, inspirado só por ella, poesia nova e fervente, por entre aquelles
+troncos mudos, como as Philomelas no seu enthusiasmo a esperdiçam pelos
+choupaes do seu Mondego.</p>
+
+<p>Como a das aves, se perdeu a minha; mas nunca a exhalei tão de dentro, nem
+tão para a alma, como então.</p>
+
+<h2><a name="SECTION002190000000000000000">XIX</a></h2>
+
+<p>Agora caio eu de repente em mim, e me envergonho de tudo que tenho estado
+doidejando. ¿Tinha eu direito, ou necessidade, de fazer em publico similhantes
+confissões? ¿Não deixarei ahi violados dois pudores: um meu, outro alheio e
+mais que meu? ¿Haverá indulgencia que baste para devaneios tão frivolos e
+pueris? ¿Não me desdenharão até, como ficções inverosimeis, absurdas,
+impertinentes, estes idyllios elegiacos, tão verdadeiros todavia? São
+verdadeiros, e eu prometti historiar; eis aqui a minha unica defensa.</p>
+
+<p>De mais, eu confio em que os leitores, aliás benevolos, se não esqueceram do
+que se ponderou no principio d'este escripto; a saber:&mdash;que, nem em bem nem em
+mal, se póde carregar á minha conta o que fazia ha trinta e oito annos um que
+tinha o nome que eu hoje tenho; e que esse nascêra e se creára, unica, simples,
+e exclusivamente, para poeta, poeta de amores e delicias.</p>
+
+<p>Pressupposto isso, continuemos o pobre romancinho, que nunca o houve mais
+historico; e tornemo-nos á carta, que, tantos dias ha, espera uma
+resposta.<span class="pn"><a name="pag_48">{48}</a></span></p>
+
+<p>Ignorava eu pois, e de nenhum modo podia conjecturar, d'onde procedêra, e
+que mão a havia escripto; mas propendia, por não sei que vaga revelação, para
+crêr que não era senão mulher, poetisa, enthusiasta, e muito superior ao vulgar
+pelo talento, quem assim me desafiava o coração, enamorando-me o espirito.</p>
+
+<p>¿Reflectistes alguma vez no que seja aquelle bichinho de Deus, que pelas
+noites de verão está scintillando do fundo de um relvado, sua immensa floresta?
+Pois aquillo é uma namorada. O seu resplendor, que allumia as hervas até á
+enorme distancia de um palmo em redondo, é a manifestação esplendida do vago e
+poetico amor em que ali se consome solitaria; é uma Hero, mais sublime,
+chamando e attrahindo com o seu facho um individuo da sua especie, que ella
+nunca viu, mas que adivinha ter-lhe sido predestinado pela Natureza. Deixae-o
+andar a elle saltitando inconstantemente pelo labyrinto dos silvados, nas
+chorêas aereas e loucas dos seus eguaes, como um cardume de pequenas faiscas
+intermittentes; deixae-o volitar tão altivo da sua liberdade, que a energia do
+luzeiro lá em baixo, tão formoso e mais vivido que o seu, o arrebatará em vindo
+a hora, e no leito de seda de uma florinha, sob o docel de uma folha verde, o
+amor e o hymeneu accenderão os seus fachos áquella duplice chamma confundida
+n'uma só.</p>
+
+<p>Tal se me affigurava a minha ingenua correspondente, irradiando d'aquelle
+modo até a mim, lá do interior do seu pacifico retiro, o poetico brilho dos
+seus affectos innocentes.</p>
+
+<p>Na carta refulgia, com effeito, um amor. Era como um carbunculo, que,
+trazido para o escuro, continua a expedir os raios de que o impregnou o sol.</p>
+
+<p>Respondi finalmente. Foi heroica a determinação; foi o salto fatal de
+Leucade; foi dar de cabeça para baixo na voragem, que, ou me havia de atirar
+arrogado e desconhecivel para cima do lodo, ou restituir-me ao dia, feliz,
+glorioso, coroado dos myrthos de Paphos pelas sereias.<span class="pn"><a
+name="pag_49">{49}</a></span></p>
+
+<h2><a name="SECTION002200000000000000000">XX</a></h2>
+
+<p>Entretanto, no meio da minha allucinação vaidosa, nunca me desamparou de
+todo o previdente instincto da dignidade; as minhas paginas confessavam, sim, o
+amor; amor profundo, amor immenso; mas este amor immenso e profundo, qual eu o
+emprestára á Nympha aerea dos montes, qual eu proprio o tributára á deidade
+phantastica da Primavera, e qual mulher nenhuma deixaria de o colher com
+avidez, se o encontrasse, apparecia aqui como um rico fructo do paraizo, ainda
+pendente no ramo, já maduro, já proximo a despegar-se, baloiçando-se a um lado
+e a outro, indeciso para onde haveria de cahir; era, na realidade, como fôra na
+fabula o ramo de oiro, passaporte para os campos ditosos de além mundo,
+mysterioso ramo que ninguem por força, nem por fraude, esgalharia da arvore,
+mas que por si se deixava tomar da mão chamada pelos destinos para o haver.</p>
+
+<p>Tal foi, mas em phrase chan, e sem atavios de estylo, a substancia da minha
+resposta: enigma contra enigma, oraculo contra oraculo.</p>
+
+<p>N'este vago, de que um e outro, por motivos differentes, mas com egual
+cautella, evitavamos deslisar para o positivo, se foi continuando, cada vez
+mais frequente, mais ampla, mais amigavel, mais sincera, e mais interessante, a
+nossa correspondencia.</p>
+
+<p>Se quem escrevia era aquillo que eu desejava, devia estar contente de mim;
+se era outro, e mal benevolo, o empenho que dirigia aquella penna,
+esquivava-lhe eu escrupulosamente os azos para triumphos. Eu por minha parte
+estava satisfeito de mim, e encantado com tudo quanto se me ia de novo de dia a
+dia descobrindo de perfeições na minha Galatéa, que, ao exemplo da de Virgilio,
+me atirára a maçan refugiando-se para os salgueiros; entrevia-a eu por entre as
+ramas; não a chegava ainda a conhecer de todo, mas differençava já com
+evidencia, que não era satyro travesso, mas sim nympha, namorada e negaceadora
+como os passaros:</p>
+
+<blockquote>
+ ..............................<em>lasciva puella</em>.<span class="pn"><a
+ name="pag_50">{50}</a></span> </blockquote>
+
+<p>Não descontinuavam, no emtanto, diligencias para se descobrir o esconderijo,
+em que se homisiava sempre que se presumia ir-lhe já lançar a mão á ponta do
+veo. Com a obstinação do mysterio, recrescia o affinco das pesquizas.</p>
+
+<p>Apparece um fio no labyrinto: as minhas cartas vão por Villa do Conde para
+Azurara; mas ¿quem as toma em Azurara? Espia-se, colheu-se: é uma servente do
+proximo convento de Vairão. Está pois a caçada circumscripta a um pequeno
+recinto, d'onde já não ha fuga possivel para a pobre corça: agora é deixar-se
+tomar ás mãos rendida e envergonhada.</p>
+
+<h2><a name="SECTION002210000000000000000">XXI</a></h2>
+
+<p>É Vairão um nobre mosteiro de Donas da Ordem Benedictina. Está situado
+quatro leguas ao norte do Porto, na terra da Maia (Palencia dos antigos) entre
+Douro e Minho; corre-lhe perto o formoso rio Ave, que, por entre as villas do
+Conde e de Azurara, entra, grosso de caudaes, e já senhoril, no mar. As
+convisinhanças do edificio o tornam grave e meditabundo: a uma parte, serranias
+altas e solitarias; a outra, o Oceano, que rumoreja resguardado da vista por
+immensidade de pinheiraes.</p>
+
+<p>É tão fidalga a antiguidade de Vairão, que ninguem, ha já muito, nem elle
+proprio, lhe conhece a origem. Fundal-o-hia, segundo uns, em 1148, D. Touris;
+segundo outros, na muito mais apartada era de 485, certa senhora nobre,
+Marispala, de quem se delettreia ainda o nome n'uma incompleta loisa grande,
+como campa de sepultura. Fôra, resam memorias, convento duplex de monjes e
+monjas da regra de S. Bento, que debaixo dos mesmos tectos tinham extremadas as
+clausuras, e communs no templo os exercicios religiosos. Exhala-se ainda agora
+d'aquellas paredes um grande e bonissimo cheiro poetico de seculos e santidade.</p>
+
+<p>Ali pois vivia desde a meninice, secular e educanda, a minha desconhecida.
+Não foi difficil adivinhál-a d'entre as companheiras; de sobejo a denunciavam a
+notoria superioridade da sua instrucção e talento, e as suas tendencias todas
+litterarias e poeticas, herdadas no sangue e nos exemplos domesticos.<span
+class="pn"><a name="pag_51">{51}</a></span></p>
+
+<p>Constava por tradição ter sido uma das illustrações longinquas da familia o
+classico Doutor Antonio Ferreira, autor da primeira tragedia de Ignez de
+Castro, e particular amigo de Antonio de Castilho. O não menos classico Nicolau
+Tolentino de Almeida fôra irmão da avó da nossa educanda, senhora de virtudes
+tão iguaes aos seus altos espiritos, que o grande satyrico usava dizer que só
+se casaria, se o casamento com irman fôra permittido.</p>
+
+<p>Desappareceu a mascara: Maria da Expectação Silva e Carvalho é já,
+descoberta e confessa, D. Maria Isabel de Baêna Coimbra Portugal.</p>
+
+<p>O meu romancinho devia terminar n'aquelle ponto, ou proseguir transformado
+em historia; estava escripto que proseguiria.</p>
+
+<p>Tal era tambem, e fôra desde a primeira hora, a tenção resoluta e inabalavel
+da que viera despertar-me para a festa do coração.</p>
+
+<p>Assenti; deixei-me por ella conduzir, indifferente a calculos, adverso por
+natureza a previdencias; tão poeta no real, como no imaginario o tinha sido, e
+como o hei-de já agora ser até ao fim; em summa: verdadeiro crente na
+Providencia.</p>
+
+<h2><a name="SECTION002220000000000000000">XXII</a></h2>
+
+<p>Parecia que eu e Maria tinhamos ouvido da propria bocca do Salvador o
+admiravel sermão da montanha; ¡tanto nos estava profundamente impressa dentro a
+sua doutrina! Eram com effeito evangelicas, ou de boa nova, estas palavras de
+Christo:</p>
+
+<p>&mdash;«Não hajais cuidado do vosso viver, d'onde comereis, d'onde bebereis, ou
+d'onde vos heis-de vestir.</p>
+
+<p>«Olhae-me para as avesinhas do céo; vêde lá se ellas semeiam, ou ceifam, ou
+encelleiram coisa alguma; quem as mantém é o vosso Pae Celeste. Pois vós sois
+para elle muito mais que as avesinhas do céo.</p>
+
+<p>«¡Vestido!... ¿A que vem o dessocegar-se por elle? Reparae no como crescem
+os lyrios dos valles: não trabalham, nem fiam.</p>
+
+<p>«E mais vos digo, em verdade, que o proprio Salomão nunca trajou galas como
+qualquer d'elles.</p>
+
+<p>«Ora: se Deus assim reveste umas hervas do campo,<span class="pn"><a
+name="pag_52">{52}</a></span> hoje viçosas, amanhan queimadas no forno, ¿não
+vos revestirá de muito melhor grado a vós, creaturas de apoucada fé?</p>
+
+<p>«Portanto, nada de vos inquietardes dizendo:&mdash;¿Que havemos de comer, que
+havemos de beber, que havemos de vestir?</p>
+
+<p>«Que se desvelem com isso os pagãos; o vosso Pae Celeste bem sabe que todas
+essas coisas vos são mistér.</p>
+
+<p>«Não vos atormenteis pelo amanhan; o amanhan lá curará do que lhe pertence:
+bem bastam a cada dia as suas penas.»&mdash;</p>
+
+<p>Não sei, nem nos importava saber, se Thomaz Roberto Malthus, o economista
+algoz dos casamentos pobres, approvaria, ou não, esta nossa fé tão commoda, e
+que a mesma Providencia tomou depois a si o justificar.</p>
+
+<p>Se quereis verdade ainda mais em cheio, e sem disfarces, nenhum de nós ambos
+se lembrava de pensar no futuro por esse lado; entre nós e o porvir material,
+mettia-se uma seve de affectos tão espessa, tão alta, e tão florída, que não
+nol-o deixava perceber. Era como o pinhal a cortinar o Oceano revolto de ante a
+vista do conventinho descançado.</p>
+
+<p>Olhae que eu não vos prégo ó sermão da montanha para que nos imiteis,
+mancebos e donzellas na febre aguda do amor, vós para quem uma cabana, uma
+fontinha, quatro raizes do monte, e para postre amoras de silva, e as glandes
+do filho prodigo assadas n'uma fogueirinha de gravetos, se figuram banquete em
+palacio, sobrando-lhe para salsas o bemquerer; não, Robinsons do affecto e da
+adolescencia descuidosa e credula; o que só faço é relatar-vos, sem apologias
+nem recommendações, o que por nós passou n'uns tempos de loucura, que (¡ainda
+mal!) não podem já voltar. Lêde muito nas boas horas, como nós a reliamos, a
+consolativa prégação dos passarinhos e dos lyrios; mas, se vos parecer, não
+deixeis de folhear tambem um poucochinho os economistas; não será mau. Os
+corvos da Thebaida acudiam, verdade seja, aos santos eremitas á hora do jantar
+com pães tomados sabe Deus d'onde; mas não ha muitos d'esses hoje em dia, cá
+pelas cidades. Corvos que vos empolguem o vosso pão da mesa, e até da mão, isso
+mais depressa.<span class="pn"><a name="pag_53">{53}</a></span></p>
+
+<h2><a name="SECTION002230000000000000000">XXIII</a></h2>
+
+<p>Maria conhecia-me pelos meus livros e pelas minhas cartas; alguma coisa era;
+mas os meus escrupulos melindrosos pediam mais: enviei-lhe o meu retrato, uma
+expressiva miniatura em marfim. A mão engenhosa do pintor, não paga de me
+reproduzir, enchera de um rosal florescente o fundo do seu painelinho; era o
+poeta da <em>Primavera</em>, rodeado dos seus preteritos amores. Guardo-o como
+preciosidade e reliquia; ¡se andou tanto tempo occulto no seio com que eu
+sonhava!... A carta em que ella me agradecia este pequeno penhor, repoisa,
+outra reliquia, no mesmo cofre junto d'elle; seria profanação o publicál-a.
+Fique ali a sonhar eternamente a immensa ternura de que a repassou a melhor, a
+mais carinhosa mão de quantas jamais pegaram na penna para revelar a uma alma a
+formosura de outra.</p>
+
+<p>É a este segundo periodo das nossas relações, começado ao desfazer-se a
+nuvem da divindade, deixando apparecer a mais sympathica das mulheres, que
+pertence inteiro o livro sobre que emprehendi derramar agora alguma luz.</p>
+
+<h2><a name="SECTION002240000000000000000">XXIV</a></h2>
+
+<p>Lêstes sem duvida a historia de Pygmalião; então sabeis como aquelle
+phantasioso escultor, com a arte no coração, e a fé na alma, lavrou uma
+estatua, se ennamorou e endoideceu por ella.</p>
+
+<p>O sol da Grecia, que tantos portentos allumiou, nunca vira coisa assim
+formosa.</p>
+
+<p>O Real estatuario, pois era Soberano, esqueceu por ella mais que o seu
+throno de oiro, e os seus estados que o adoravam; esqueceu todas as beldades de
+umas regiões como aquellas, digno berço de Venus e das Graças, e onde os
+lacteos marmores e as ceras coloradas, para copiarem aos olhos as formosas do
+Olympo, e povoarem os templos com Hebes e Junos, Dianas e Minervas, de mais não
+precisavam que retratar os bandos vivos e buliçosos das filhas da terra. A
+todas offuscava para elle, para<span class="pn"><a
+name="pag_54">{54}</a></span> elle Jupiter do cinzel, a Pallas brotada da sua
+cabeça poetica e fogosa; assim a lua cheia, ao levantar-se de traz dos cumes
+selvaticos dos Dáctyles, desterra o scintillante cardume das estrellas.</p>
+
+<p>Não contente de a vêr todo o dia, vinte vezes se levantava cada noite para
+tornar a vêl-a, e de cada vez lhe descobria gentilezas novas. Com a alampada
+trémula na mão, erguendo-a, abaixando-a, ora de longe, ora de perto, a rodeava,
+scismando, palpitando, sorrindo, figurando-se-lhe vêl-a corresponder com a
+expressão do aspecto ás blandicias com que elle, mais poeta que Anacreonte, a
+affagava. ¡Oh! ¡que não daria elle por ter a lyra de Orpheu e de Amphião, cujos
+sons escutados pelas pedras as animavam!</p>
+
+<p>Ás plantas nuas da sua Galatéa, mil vezes rebeijadas, tomava as suas
+refeições, offerecendo-lhe sempre com suave convite as primicias de Baccho e
+Ceres, os mais perfeitos favos de Hybla e do Hymetto, e os mais delicados dons
+de Pomona, que em canistreis de vimes de prata lhe vinham pôr deante virgens,
+por quem o Pae dos numes se metamorphosearia vinte vezes.</p>
+
+<p>Cochichavam ellas entre si, e riam doidinhas á socapa os mais tentadores
+risos que sabiam, sem nunca lograrem que os olhos fitos nos da estatua se
+abaixassem, nem por descuido, para os d'ellas. Retirada a mesa, fechava o
+Principe as portas eburneas do aposento, incendia-se com segundas libações
+rituaes de Naxos e Chios; exhalava o seu fogo tresdobrado em abraços e beijos;
+cingia de perolas e diamantes o collo e os pulsos da effigie; banhava-a com
+essencias de nardo e dictamo; engrinaldava-lhe a fronte com as rosas mais
+frescas das emmolhadas em vasos aureos esculpidos, coroando-se com as restantes
+a si mesmo; tornava a encaral-a; e o reflexo das flôres de Amathunta, que Sapho
+algum dia havia de proclamar rainhas de todas as flôres, e a que a Mãe de
+Cupido fadára as mais extranhas seducções, quando as viu retintas com sangue do
+seu Adonis, aquelle reflexo purpurino no alvor das faces lhe parecia, no seu
+estatico enlevo, uns assomos do pudor virginal sobresaltado com a desnudez
+propria, com a solidão e voluptuoso desamparo do sitio, com o olhar a um tempo
+supplicante e audaz do adorador.<span class="pn"><a
+name="pag_55">{55}</a></span></p>
+
+<p>Era então que, delirante, perdido de desejos impossiveis, elle se lhe pendia
+amorosamente ao pescoço, forcejava por animal-a com ósculos; e reconhecendo
+quanto eram baldados os seus desejos, imbebia o rosto ardente entre os arfantes
+seios, frios, de marmore, e os áljofrava com um chuveiro de lagrimas. Nestas
+porfias, sem victoria nem derrota, se lhe exhauriam as forças; deixava-se cahir
+esmorecido para cima do tapete de purpura de Tyro, cerrava os olhos, e um somno
+transparente, um meio-sonho, dando-lhe por momentos a posse da sua beldade,
+ouvindo-a, sentindo-lhe palpitar o coração, repassando-se do seu calor, o
+restaurava, para se tornar com mais vehemencia, em acordando, á sua adoração
+perpétua, ás suas cubiças insensatas.</p>
+
+<p>A deusa dos mil amores, que perscruta até ao intimo os corações dos
+mancebos, podia bem ter ciumes d'aquella pobre e insensivel beldade tão amada;
+mas foi generosa; generosa... não: antes muito justa. ¿Não era aquelle o mais
+solemne culto, o culto mais sincero e desinteressado que jámais se rendêra á
+sua divindade?</p>
+
+<p>Não odiou a Galatéa; sorriu-lhe como para uma irman mais nova; mirou-se
+n'ella complacente como n'um espelho. A filha das ondas do Egeu foi benigna
+para a filha dos marmores de Paros.</p>
+
+<p>&mdash;«¿O amor que nasceu de mim&mdash;dizia ella&mdash;não me tem a mim propria ferido e
+felicitado, tantas vezes? ¿Por que não farei eu que esse amor, não menos
+maravilhoso, que nasceu d'aquella, lhe dê tambem um quinhão nos céos que eu
+disfructo sem limite?»&mdash;</p>
+
+<p>Pygmalião, o Rei artista, havia afeiçoado para muitos altares os mais
+perfeitos, os mais adoraveis simulacros da Immortal; e se não se inflammára por
+elles, como agora por este de Galatéa, era só por que a santa majestade do ser
+divino lh'o prohibira; mas os templos, em que os milagres d'essa arte crente e
+inspirada resplandeciam alvejantes, eram sempre os mais frequentados, os mais
+servidos com offertas, sacrificios, e grinaldas. A officina mesma, em que
+avultava entre um povo de outras estatuas e grupos a estatua da sua rival em
+fascinações, era sympathica aos olhos da Omnipotente, e sollicitava o seu
+favor. As pombas, que a ella lhe vogam o carro aereo, jungidas<span
+class="pn"><a name="pag_56">{56}</a></span> com festões de murta, tinham ali
+entrada livre. Dos loireiros rosiflores, e das grutas dos jardins do palacio,
+esvoaçavam-se familiares até aos peitoris das janellas, sempre francas ás
+inspirações dos ceos diáphanos, do cicío das auras pela folhagem, e do
+estrépito das fontes, melodias como de nautas migdóneas. D'ali observavam,
+conversando umas com outras, a profusão que lá dentro ia, de coisas tão
+brancas, tão suaves: ¡tanta nympha! ¡umas, trajadas como para chorêas! ¡outras,
+despidas como para o banho! ¡e entre todas, e sobresahindo a todas, o vulto da
+propria deusa, tão sua conhecida, e o de Galatéa, não menos celeste, candida
+como ellas, e, a julgar pelo sorriso, como ellas affectuosa! Alguma das
+espreitadeiras aladas dizia então lá pela sua lingua ás companheiras:&mdash;«¡Olhae,
+olhae como está em ambas enlevado! os escravos chamam-lhe Rei, mas não é tal:
+é, como nós, um captivo do amor; ¡e de quão benigna condição!... é reparar-lhe
+no ar, nos movimentos. ¿Não vêdes como olha para nós, tão benevolo, e quasi
+invejoso, quando nos beijâmos? entremos sem medo, que nos não ha-de fazer mal.
+¡Mal aquelle!... Apostaria eu que já foi pomba, antes de ser gente. Chôva-lhe a
+nossa rainha, como sobre nós, amores sem espinhos, e delicias renovadas de hora
+a hora.»&mdash;</p>
+
+<p>A estancia era então invadida pelo bando festivo. Pygmalião exultava,
+tomando por feliz agoiro ver as conductoras do coche de Dióne arraiarem-lhe a
+casa toda com os reflexos argenteos das suas azas irrequietas, e cobrirem de
+ternura, de voluptuosidade, de poesia, como um veo alvo, roto, e esvoaçado, as
+estatuas dos dois idolos do seu coração.</p>
+
+<p>¿Não era tudo isto mais que bastante para merecer á mãe do amor um prodigio
+sem exemplo, e que a ficasse glorificando nas lyras namoradas de todo o
+mundo?...</p>
+
+<p>Acabava um dia o Principe de queimar aos pés de Venus, segundo o seu costume
+de todas as manhans, uma copiosa oblação do mais puro incenso. Tinha regado o
+fogo, em que elle fumava n'uma amphora de bronze, com vinho amadurecido havia
+cem annos pelos oiteiros pampinosos de Chypre, e reservado em talhas de barro
+para sacrificios aos deuses maximos. Tomada respeitosamente venia da
+Immortal,<span class="pn"><a name="pag_57">{57}</a></span> transporta por suas
+mãos o vaso depositario do fogo para deante de Galatéa. Quer offerecer-lhe,
+ainda que em segundo logar, porção igual, tanto da rescendente massa, orgulho
+da Arabia, como do liquido generoso. Enganou-se-lhe a mão no incenso, e lançou
+nas brazas porção avantajada. Venus sorriu, e não se agastou. As distracções do
+amor, ninguem melhor do que ella as conhece por experiencia.</p>
+
+<p>Emquanto o veo alvacento do innebriante fumo, elevando-se d'ante o pedestal
+da nympha, a envolvia toda, e tornava a sua presença mais celestial, Pygmalião,
+acompanhando-se com a lyra de sete cordas, cantava de joelhos um hymno, que as
+pombas escutavam n'um silencio religioso; pareciam querer decorál-o para o
+repetirem á sua rainha, quando ella se jazesse em amoroso ocio, reclinada sobre
+as violetas em algum secreto pavilhão de rosaes da sua Paphos:</p>
+
+<blockquote>
+ &mdash;Tu que exhalas de ti, qual vérte a rosa aromas,<br>
+ effluvios de prazer, universal ternura,<br>
+ Mãe das Graças e Amor, deusa da formosura,<br>
+ que envolves a nudez co'o veo das aureas comas,<br>
+ <br>
+ Venus; pois que são teus os ceos, a terra, os mares,<br>
+ e até ás sombras do Orço abrange o teu poder,<br>
+ lança um propício olhar, Venus, aos meus pezares;<br>
+ do teu jugo me solta, ou dá-me emfim morrer.<br>
+ <br>
+ Com tão cruel supplicio, ignoto á humanidade,<br>
+ ria teu filho em vão, tu, deusa, és mais piedosa.<br>
+ Ardo por uma pedra em chamma vergonhosa,<br>
+ perdi a paz e a gloria, o siso e a liberdade.<br>
+ <br>
+ Qualquer ente alardeia ufano os seus amores:<br>
+ a ave, piando; o peixe, aos pulos pelo mar;<br>
+ o rebanho, mugindo; em cantos os pastores;<br>
+ e eu, Venus, só a ti ouso este ardor mostrar.<br>
+ <br>
+ ¡Quão menos insensato o moço do Cephyso<br>
+ se finou por si mesmo ao pé do espelho aquoso!<br>
+ Suppoz a sombra nympha; espera ser ditoso;<br>
+ cai no engano; perece; apiadas-te, é Narciso.<br>
+ <br>
+ E eu, eu sei que a beldade, iman d'est'alma ardente,<br>
+ só a mim deve o ser; nasceu de minha mão;<span class="pn"><a
+ name="pag_58">{58}</a></span><br>
+ não me ouve, não me vê, não se condoe, não sente;<br>
+ não lhe pude formar lá dentro um coração.<br>
+ <br>
+ ¡Ó Venus! se ha mulher que eu possa crer retrato<br>
+ do immenso que sonhei compondo a Galatéa,<br>
+ revela-me onde habita a amavel Semidéa;<br>
+ assim teu filho Amor jamais te offenda ingrato.<br>
+ <br>
+ Seja embora pastora, obscura, humilde, escrava;<br>
+ terá por choça um throno, e por captivo um Rei;<br>
+ e eu, já salvo da insania, eu, que a teus pés chorava,<br>
+ a ti uma hecatomba alegre immolarei.»&mdash; </blockquote>
+
+<p>Ainda bem não findára a prece, quando lhe pareceu notar nos labios da
+Immortal um sorriso auspicioso. O Cupido, que junto d'ella estava em pé, e que
+era tambem obra de suas mãos, agitou as azas de marmore, soprou as labaredas
+petrificadas do facho, que instantaneamente coruscaram, e rompendo por entre a
+cortina do incenso, que ainda envolvia a nympha, lhe lustrou com o milagroso
+calor a fronte, os olhos, as faces, a bocca, o seio, o coração. Ao fogo d'este
+segundo e divino Prometheu, a estatua estremece; a pallida brancura se tinge da
+côr da vida; o peito palpita; os olhos se voltam para o céo da Grecia, que logo
+os embebe do seu mais brilhante azul; baixam sobre Venus; ¡parecem attonitos!
+descem; ¡encontram-se com os de Pygmalião! duas rosas subitas se abrem nas
+faces; o sorriso, aurora de uma existencia de amores, alvorece em labios
+nacarados.</p>
+
+<p>&mdash;«¡Filha dos meus sonhos!» «¡Galatéa!&mdash;» exclama o artista delirante,
+correndo a tomál-a em braços, ao vel-a descer do pedestal. «Galatéa, ¡filha dos
+meus sonhos! ¡se é esta uma nova illusão que Morpheu me envia, compassivo, mas
+cruel, possa eu não acordar jámais!»</p>
+
+<p>¿Vistes vós alguma vez rasgar um dia magnifico depois de uma noite profunda?
+¿Notastes como então sahiam do nada as amenidades das terras e dos rios, a
+animação e o movimento dos campos e das cidades, as côres, os cantares e as
+esperanças? assim, repassada a subitas de calor e luz pelo sol dos espiritos,
+pelo amor, a alma recemnascida de Galatéa adivinhou para logo a adoração de que
+era alvo. Comprehendeu a turbação que inspirava, pela que<span class="pn"><a
+name="pag_59">{59}</a></span> sentia. Viu nas profundezas interiores do seu
+ser, diaphanas como um lago limpido, a sua pureza virginal, a sua
+magica-branca, a sua suavidade irresistivel, o seu destino de ser feliz
+felicitando.</p>
+
+<p>A turbação instinctiva de um pudor que a si proprio se ignorava, cobriu o
+rosto de Galatéa do mais amavel escarlata; abaixou a vista sobre si mesma, e
+não sabendo para onde se refugiar, mariposa attrahida da luz, voou para os
+braços do amante, escondendo o seio no peito d'elle, fechando os olhos para não
+ser vista.</p>
+
+<p>N'este momento a Philoméla, occulta na folhagem de um platano visinho,
+entoou um brilhante epithalamio, e o hymeneu fechou as cortinas purpureas do
+aposento.</p>
+
+<h2><a name="SECTION002250000000000000000">XXV</a></h2>
+
+<p>Despidos os accessorios esplendidos e sobrenaturaes, a fabula de Pygmalião
+reproduziu-se na minha historia; o simulacro que eu incensára e servira, o
+simulacro filho da minha imaginação, era emfim mulher; mulher amante, capaz de
+bemaventurar-me, e desejosa de o fazer. Só a Philoméla do platano, e o hymeneu,
+andavam ainda tão longe e tão emboscados nas brenhas do futuro, que eu mesmo
+não ousava crer-lhes bem deveras na existencia.</p>
+
+<p>Entretanto, como a encarnação e os sentimentos do meu idolo para commigo
+eram innegaveis, começou logo a haver entre nós uma especie de semi-consorcio
+tacito; era já a communidade dos corações, se não era ainda a dos somnos, visto
+que o bom Ducis, chamou ao casamento</p>
+
+<blockquote>
+ <em>Douce communauté de c&oelig;urs et de sommeils.</em> </blockquote>
+
+<p> </p>
+
+<p>As nossas mutuas confidencias passaram a ser, por minha parte, o que por
+parte d'ella desde o principio tinham sido: reservadas inteiramente de ouvidos
+extranhos e curiosos. Com isso lucraram muito maior affoiteza, e um novo
+encanto, que nos concitou a ampliál-as de dia a dia.</p>
+
+<p>Quanto é dado a ausentes conhecerem-se, conhecemo-nos. Pelas mutuas e
+circumstanciadas descripções<span class="pn"><a name="pag_60">{60}</a></span>
+que trocámos das nossas vivendas, dos nossos gostos, do emprego das nossas
+horas, e de todos os nossos pensamentos, podemos, como sylpho e sylphide,
+visitar-nos de continuo. Estavamos simultaneamente: eu junto d'ella, no seu
+mosteiro; ella commigo, no meu castello. Já não havia lá nem cá, ladrilho de
+pavimento, nem abobada, accidentes de luz ou sombra, movel ou planta, que nos
+não fosse familiar. Via ella gostosa ao meu lado, o irmão inseparavel que me
+excitava a querer-lhe, a amál-a, com a mesma espontaneidade com que me
+acompanhava nas outras excursões poeticas; eu, achava ao pé d'ella a Religiosa
+sua intima, que a vira crescer, que a estremecia como a filha e irman, que a
+ajudava com os seus conselhos, a protegia como Anjo da guarda, se revia na sua
+bondade e no seu talento, e que, apesar de não saber como viveria se a
+perdesse, nem por isso apressava menos com os seus votos o momento de m'a
+entregar.</p>
+
+<p>Assim mesmo, ¡grande era na verdade a minha solidão! mas tenho que a de
+Maria era ainda mais profunda, poetica, e enamorada.</p>
+
+<p>Ha uma natural propensão que nos leva sempre o desejo do que possuimos, para
+o que não temos, para o que muitas vezes não poderemos alcançar; a imagem de um
+ermo attrai o mundano; a do mundo dessocega ao eremita. São palpitações e
+adejos da alma captiva para o ideal. Somos assim. Se o não fôramos, ¿onde
+estariam os horizontes luminosos da alma? ¿Onde, como, e de quê, podéra
+crear-se poesia?</p>
+
+<p>Eu, que tinha em redor de mim uma cidade, e a liberdade de me expandir para
+toda a parte, punha as minhas mais cordeaes delicias em me ir encerrar não
+pressentido, nem presumivel, n'aquella remota clausura. Maria, costumada a
+ella, sem quasi conhecer outra coisa, e devendo estremecer só ao pensamento de
+trocar o seu pacifico viveiro pelas extranhezas e perigos do ar pleno e sem
+limites, Maria, compunha agora lá os seus melhores devaneios no phantasiar
+outro viver, outro sentir, outros deleites, e de todos os deleites o maior,
+dizia ella, o de gastar a sua existencia em amenisar outra; ambição
+verdadeiramente feminil: ¡a abnegação absoluta!</p>
+
+<p>Se viessem no futuro a citál-a como a socia, a<span class="pn"><a
+name="pag_61">{61}</a></span> guia, a auxiliar, a afinadora da lyra do poeta, e
+a serva ministra das suas festas, seria isso para ella um triumpho (mil vezes
+m'o repetiu). Mas, embora o seu nome viesse a esquecer de todo (acrescentava
+com uma effuzão de ternura encantadora), a certeza de haver obscuramente
+cumprido todo esse encargo, já lhe bastava para não trocar a sua dita pela de
+outra alguma.</p>
+
+<h2><a name="SECTION002260000000000000000">XXVI</a></h2>
+
+<p>As abobadas de um claustro encobrem thesoiros de sensibilidade
+inapreciaveis, inexhauriveis, e bem mal avaliados dos profanos.</p>
+
+<p>Cada um considera aquelles encerros mysticos á luz dos seus proprios
+preconceitos. Um espiritual, vê ali um alfobre de plantas para o Céo; uma terra
+de Gessen allumiada de cima pelo sol, no meio de um Egypto ennoitecido; um
+paraizo passageiro sotoposto ao Paraiso perennal, com a mais curta e directa
+serventia de um para outro. Ao incredulo, figura-se um pantano antigo de
+fanatismo e superstições. Um economista, lhe chama desperdicio anachronico de
+riquezas, de forças productivas, e de população. Um naturalista, execra, em
+nome da Natureza, que se ousem e se permittam votos de a renunciar; e, propheta
+de infortunio, commina, em nome d'ella, como infalliveis penas do desacato, as
+tristezas, as enfermidades moraes e physicas, as allucinações, os delirios, o
+definhamento, o envelhecimento no incompleto dos annos, a morte prematura.
+Finalmente, um romancista licencioso sonha, e se arroja a escrever os seus
+sonhos como historia, que o amor, bannido em vão d'aquelles recintos, em parte
+nenhuma é tão despota, tão insensato e monstruoso como lá. Segundo esses
+moralistas de abominação, os mysterios vergonhosos da deusa Bona, ter-se-hiam
+perpetuado ao abrigo e no seguro inviolavel dos nossos asylos religiosos.</p>
+
+<p>Desprêso a tantos exageradores systematicos. Se um mosteiro não é Céo,
+porque o não ha nem cabe na terra, é um santo e bemdito refugio, onde muitas
+penas se atalham, e muitas se adormentam.</p>
+
+<p>¿O caracter de contranatural, que acintosamente se exprobra ao mosteiro,
+existirá porventura, como se<span class="pn"><a name="pag_62">{62}</a></span>
+comprazem de declamar os seus antagonistas? Não de certo; no mosteiro feminil
+principalmente.</p>
+
+<p>Se a felicidade terrestre, por outra, o contentamento, é o unico alvo
+racional, a que tendem por diversas vias todos os exforços humanos, ¿quem
+affirmará com a mão na consciencia, que a mulher do nobre no seu solar, a do
+burguez na sua casa, a do artifice no seu sótão, a do rustico na sua cabana, a
+do pescador na sua choça, para não falarmos de tantas outras mulheres sem
+poisada certa, sem familia, e sem sociedade, disfructam maior quinhão de
+ventura que as Religiosas? ¿Será tudo, será mesmo o essencial para a
+felicidade, o ter um esposo e ter filhos, esses dois bens, essas duas ufanias
+tantas vezes descontadas pelos mais pungentes cuidados, pelos mais amargos
+desgostos, e não raro pelo encurtamento da existencia?</p>
+
+<p>«Possuem a liberdade,» dirão elles. ¡A liberdade!... ¿que liberdade?
+interrogae-as a uma e uma; não ousarão responder-vos; mas um involuntario
+sorriso triste vos responderá por ellas. ¿Quantas são das forçadas que remam
+n'esta galé mundana, as que não terão muita vez pensado com inveja no viver
+manso e sem estrondo d'aquellas solitarias, sem os cuidados do amanhan, sem as
+fadigas improbas do hoje, sem os arrependimentos e os pesares do hontem?...</p>
+
+<p>Cada uma d'estas diversas operarias do futuro, colhe, é verdade, aqui ou
+além, mais ou menos abundante, mais ou menos imperfeito, algum deleite que o
+mundo nega ás cenobitas; ¡mas quanto não compra ella caro esses deleites, essas
+escaças compensações dos seus pobres destinos, que vós, philosophos exclusivos
+da população e da riqueza publica, chamarieis naturaes, se vos atrevêsseis!</p>
+
+<p>A eremita, pelo contrário, privada d'estes gosos passageiros, está livre das
+sollicitudes que tantas vezes os precedem, os envolvem, os seguem, os
+descontam, os aniquilam.</p>
+
+<p>As faculdades amantes de que se compõe essencialmente o ser feminino, não se
+anihilaram entrando para o ermo; exaltar-se-hiam porventura; e, se lhes
+faltasse emprêgo e alimento, devorariam afinal miseravelmente, e com medonha
+rapidez, as miseras depositarias d'esses dons celestes. Felizmente não<span
+class="pn"><a name="pag_63">{63}</a></span> succede assim. Ellas amam
+tambem.&mdash;«¿Amam?!» ¡Oh! ¡e quanto! ¡e quão bem! ¡e quão satisfeitas!
+«¿Ellas?!!» Sem nenhuma dúvida. Os seus amores são melhores que paixões: são
+simplices affectos.</p>
+
+<p>Uma cultura especial, e o influxo dos ares que respiram, operaram n'ellas,
+sem as destruir, uma curiosa transformação: tinham nascido flores singelas para
+fructificarem vulgarmente; uma jardinagem milagrosa as converteu a pouco e
+pouco em flores dobradas, mais fragrantes, mais para cubiças. Do que
+originariamente havia de servir para a reproducção, fez petalas; fez viço; fez
+flor de flor: monstruosidade embora para o botanico e para o naturalista, mas
+ufania para a terra, e orgulho para a arte, que, sem destruir a natureza,
+logrou apresental-a com aspecto mais formoso. D'estas flores viventes póde
+coroar-se a Religião, que são dignas d'ella; póde inspirar-se a Poesia, que em
+nenhuma outra parte as encontrará tão celestiaes; e póde a Moral mesma
+comprazer-se, que tem n'ellas modelos perfeitos de virtudes, sempre raras, e
+cada vez mais recommendaveis.</p>
+
+<p>¿Mas teimais em perguntar que é o que realmente amam estas mulheres? Tenho
+medo de que não chegueis a entendêl-o bem, porque eu mesmo, grosseiro, carnal,
+mundano como vós, não cheguei ainda bem a explicar-m'o. Para isto, falta-nos a
+nós todos um sentido, sentido sem nome, que descobre mil coisas subtis no mundo
+moral; a metade mais delicada da nossa especie é que o possue; as mulheres é
+que o saberiam explanar.</p>
+
+<p>Se em espirito devassâmos a furto uma clausura, ¿que é com effeito o que
+descobrimos n'aquelle mundo tepido, tão suave, melodioso, e perfumado por
+dentro, como triste, áspero e mudo parece cá de fóra? A alteza dos muros, e as
+grades de ferro, têem razão: não estão ali para evitar a fuga; estão porventura
+para disfarçar a seducção do retiro, que, a ser conhecido, fascinava
+excessivamente; estão sobre tudo para rebater audacias de desejos impuros, qua
+a pureza mesma attrahiria, como o balir manso das ovelhas no aprisco está
+innocentemente chamando os lobos em seu damno.</p>
+
+<p>Por traz d'aquellas gradarias severas, d'aquellas muralhas ameaçadoras, está
+uma cidadinha toda feminina,<span class="pn"><a name="pag_64">{64}</a></span>
+sempre em paz e em festa; paz talvez com leves quebras, para melhor se
+apreciar; festa sem tumulto nem estrondo, sem custosos preparos, nem
+recordações afflictivas. </p>
+
+<p>Os dormitorios são bellas ruas direitas, calçadas de lageas polidas, e onde
+o silencio, amigo da meditação, se casa harmoniosamente com a sombra fresca, e
+deixa perceber o som dos proprios passos que vêem da extremidade opposta, como
+se até o andar tivesse ali a sua reflexão.</p>
+
+<p>Por ambos os lados d'estas ruas, abobadadas como hoje as de Herculanum, e
+condecoradas cada uma com o gracioso nome de uma Santa, se enfileiram os
+modestos palacios das habitantes. As portas sem chave, á primeira saudação
+affectiva, ao minimo toque, se descerram. Descobre-se no interior a riqueza da
+desambição; um sorriso hospedeiro, que illumina tudo como sol; o leito alvo
+para os alvos sonhos; os paineis meditabundos, que a musa da lenda explica, ora
+em idyllios, ora em phantasticos romances, ora em tragedias gloriosas. Sobre a
+mesa sem espelho, a jarra de flores entre duas velas de cera alvissima, e
+alguns livros, d'estes cuja leitura se interrompe a scismar, e se continua
+mentalmente por uns mundos nunca vistos, em que tudo são maravilhas. Um
+pintasilgo saltitando e scismando tambem n'alguma coisa do passado, do futuro,
+ou do possivel, alterna suspiros e cantares, pendente do tecto na sua
+thebaidasinha de arames, enfeitada de ramos frescos; vê de um lado a arqueta do
+seu pão sempre cheia, do outro a sua cisterna de vidro, em que se mira como
+Narciso, em que bebe como a Samaritana, ou se banha na sésta como odalisca; em
+baixo, vê a sua providencia, que em fórma de boa amiga o considera, lhe fala, e
+interrompe os seus lavores, ou orações, para lhe atirar beijos. Emfim: a
+janella completa as magnificencias do palacete, juntando-lhe, como dominios
+contiguos, o vergel proximo, e o ceo, que pouco mais distante se figura.</p>
+
+<p>Nas casas d'esta singular cidade, que o mundo não vê, e muito d'elle não
+quer ver, para mais a seu salvo a poder negar, ajuntam-se frequentemente
+assembléas, em que se não gosa por certo á moda de nós outros, mas se gosa não
+menos, e talvez mais, á moda do ermo: são conversações entre espiritos. Se as
+paixões<span class="pn"><a name="pag_65">{65}</a></span> vehementes as
+quizessem invadir, resvalavam-lhes pela superficie. Os affectos sim que as
+povoam, e constituem a sua essencia; é um papear como dos passarinhos n'um
+bosque ao principio e ao fim do dia; porque n'aquellas vozes meigas, ora
+transpiram os influxos de um crepusculo, que apoz as trevas se abre para um dia
+grande, ora os de outro crepusculo, que se vai a pouco e pouco fechando sobre
+as alegrias, para acabar na escuridão; mas, quer um, quer outro, todo o
+crepusculo tem rosas, todas as rosas teem amores.</p>
+
+<p>Não se discutem ali, nem as novidades do periodico, jornal das modas dos
+politicos, nem os caprichos dos enfeites, politica das mulheres. Os eccos dos
+espectaculos, dos motins, dos escandalos, das heroicidades, das demolições e
+das edificações das outras cidades, das grandes, das Babylonias, ou não chegam
+até esta povoação, ou lhe entram tão amortecidos e como de coisa tão extranha,
+que nada ou pouco desconcertam a immutabilidade do pensar, e nada absolutamente
+a do viver.</p>
+
+<p>O amor sensual é da Natureza, não ha duvida, e não entra ali; afugentam-n-o,
+exorcizam-n-o, como o demonio do meio dia e da meia noite; debalde o pobresinho
+se faz Protheu para as captar: agora cantando-lhes convites d'entre a copa de
+uma arvore, agora passando como viração que vem de ver namorados, e vai
+correndo por cima das hervas trémulas a espreitar outros; uma vez é som de
+flauta longinqua, que desperta suspiros por onde passa; outras, um nome de
+homem proferido ao acaso, palavra sem virtude onde elles abundam, mas ali
+occasionadora de devaneios; reveste a fórma de alguma coisa, de alguma pessoa,
+de algum sitio, de alguma scena, que se viu em quanto se andava lá por fóra, em
+que se ficou pensando, e que ainda na memoria do coração se não apagou.</p>
+
+<p>Sim, sim; não ha negál-o: o Amor, ladeado das Graças, deve espreitar bem a
+miude, trepado nas grades exteriores, para o que vai lá dentro, como os
+passeantes n'um jardim devoram com os olhos as flores e moveis de uma estufa,
+ou como as pombas de Pygmalião lhe consideravam as frias e ridentes estatuas da
+officina.</p>
+
+<p>¿Mas que mal faz isso? tambem as Amazonas haviam<span class="pn"><a
+name="pag_66">{66}</a></span> de ser salteadas, não raro, por vagas tentações
+voluptuosas. Todavia, a gloria de lhes resistirem, junto ás occupações que lhes
+enchiam a vida, as mantinha satisfeitas umas das outras, e ufanas do seu
+forçado celibato.</p>
+
+<p>Toda a differença é: que as heroinas do Thermodonte, cortando o seio direito
+para melhor pelejarem, como que despediam de si metade da sua feminidade, e,
+endurecidas com a prática das guerras, se indemnisavam com a alegria de vencer
+a inimigos, dos deleites de serem vencidas por amantes; ao mesmo passo que
+estas amazonas pacificas da Religião, conservando inteira toda a sua
+sensibilidade, a enganam, dispartindo-a, furtada aos impetos da natureza
+carnal, por um cardume de objectos qual a qual mais consentaneo á sua indole
+delicada: é o trato das flores, que são suas irmans; é a creação dos
+passarinhos, que são, voadores do ceo, os irmãos de suas almas; o canto,
+exercicio de Anjos; é a caridade, enlevo do Creador; são as miragens infinitas
+da esperança; são as perdoaveis altivezes de um estoicismo temperado; são
+tambem os entretenimentos manuaes: ora de vestir e ataviar a santa Imagem
+predilecta, que para o coração suppre uma filha, ora de coser o enxoval branco
+para a creança que está para nascer na cabana visinha, ora tambem de seroar na
+grinalda de flores de laranja, com que se ha-de enfeitar no seu dia grande uma
+noiva muito amiga.</p>
+
+<p>¿Que são os presentes que saem continuos d'aquelas portas, se não coisas
+todas formosas e suaves como a cera e o mel das colmeias? laminas devotas e
+scintillantes; doces de mil gostos, de mil côres, de mil fórmas; flores e
+fructos artificiaes, com que as abelhas se enganariam; aromas para toucadores e
+festas; cartas, mensagens, e convites quasi pueris na simpleza, e sempre
+rescendendo á innocencia mais sympathica e mais alegre.</p>
+
+<p>O segredo de tantas e tamanhas branduras, por si mesmo se descobre: a mulher
+no trafego do mundo, se infiltra suavidade para o sexo forte, com quem convive,
+recebe d'elle em troca o que quer que seja de mais grave, que não quero dizer
+de menos extremoso; e uma beneficiação mutua e perenne, que a Providencia ideou
+quando partiu em duas metades a nossa especie; mas a mulher na convivencia
+exclusiva<span class="pn"><a name="pag_67">{67}</a></span> do seu sexo, mantem
+inteiras, completas, e no mais perfeito estado de graça original, todas as suas
+disposições nativas; é como a violeta, que emboscadinha á sombra conserva o
+cheiro subtil e o frescor virginal, que as mãos e o sol lhe estragariam.</p>
+
+<p>A mulher aqui não é esposa nem mãe, porém não deixa de ser mulher, se não
+que o é em muito maior auge.</p>
+
+<p>¿Não vos basta? ¿deplorais a encantada cidadinha por estar carecente de
+praças, de passeios, de espectaculos? Outro engano; outro engano manifesto:
+¿pois não são donosas praças aquellas crastas arborisadas, com suas sonorosas
+fontes de repuxo no centro, e á volta majestosas arcarias á romana? ¿claustros
+guarnecidos de baixo a cima com azulejos de biblica erudição, não recordam os
+Porticos, em que os antigos senhores do mundo se espaireciam das calmas por
+entre estatuas e pinturas de suas fabulas? ¿não são passeios publicos, e mais
+apraziveis por libertos de constrangimentos, os jardins, os pomares, as frescas
+hortas da cerca? ¿theatro de espectaculos augustos, não o será o templo aos
+olhos da fé e da piedade? ¿não se representam ali em seus dias prefixos todos
+os lances da vida do Salvador, desde o Presepio até ao Calvario, desde o
+Calvario até á Ascensão? ¿todos os passos da Rainha das Virgens, desde a sua
+Natividade até á sua Assumpção? ¿todas as glorias dos principaes
+Bemaventurados? ¿Não é ali, no magnifico santuario, que entre a profusão de
+marmore, luzes, oiros, sedas, flores, incenso, resoam em musicas solemnes, que
+só o orgam é digno de acompanhar, os mais graves e poeticos pensamentos dos
+Prophetas, dos Apostolos e dos Doutores, e que, inspirando-se de todos elles, a
+eloquencia sagrada derrama a doutrina para a ignorancia, a esperança para os
+afflictos, os desenganos para os vaidosos? aos pobres annuncia thesoiros,
+thronos aos conculcados, festins eternos aos famintos, sobrecorôa aos Santos,
+invoca luz perpetua para os finados, e vôa, como o Dante, por uma espiral
+infinita, do fundo dos abysmos até ao cume do firmamento.</p>
+
+<p>Cada festividade é precedida de longe pela ancia de a ver chegar, e deixa
+apoz si recordações para muitos dias.</p>
+
+<p>As donzellas dos salões, que revolvam e troquem<span class="pn"><a
+name="pag_68">{68}</a></span> entre si memorias das contradanças, do valsador
+infatigavel, do discreto que as entreteve, dos trajos e penteados que se
+distinguiram, do novo duetto que se executou, do romance ou das poesias que se
+annunciaram de autor querido, de uma inclinação encoberta de que já todos
+segredavam, do baile estrondoso que se ia ter, de uma regata, de um duello, de
+um passeio a Cintra, de uma lua de mel, ou de uma exposição de bellas-artes. As
+virgens do que se cuida solidão, não acham para si menor nem menos attractivo
+assumpto, o revolverem na conversação, o repastarem no espirito, as
+circumstancias, os minimos accidentes, de que se acompanhou o dia festivo do
+seu templo; os enfeites e a elegancia de cada altar, o inesperado primor d'esta
+ou d'aquella cantora, a maviosidade com que o orgão gemeu na Adoração, o como a
+ponto acudiram de fóra o repique e a girandola, o rasgo de pintura, ou de
+affecto, com que o orador maravilhou o auditorio, a multidão e a variedade de
+vestidos que affluiram á egreja, as largas distancias d'onde accorreu povo a
+ella, a satisfação com que todos sahiram, e o bello e saudoso effeito que fazia
+aquella torrente ondeante de cabeças, ao engolfar-se e desapparecer da nave
+para o terreiro, por baixo do côro, como um rio fugaz por baixo de uma ponte
+inabalavel.</p>
+
+<p>Direis que ha um travo particular de tristeza em tudo isto. ¿E quaes são os
+prazeres do seculo em que esse resaibo se não mistura? denunciae-me um unico,
+se o descobristes.</p>
+
+<p>Murmurais que em tudo isto é sempre mais ou menos a contemplação inerte e
+passiva, e que a vida fraudada de todo o movimento proprio e espontaneo não é
+vida.</p>
+
+<p>¡Mas então não sabeis que n'aquelle povoado ha tambem, a seu modo, uma
+Paschoa de flores, estreias de anno bom, fogueiras de S. João, dias duplices
+para regosijos, banquetes e alegrias de abbadessados, visitas ao locutorio,
+quanto mais raras tanto mais bem vindas, e em que o ermo e o mundo se
+confrontam de perto! e não é por certo o ermo o que mais se póde queixar do seu
+quinhão.</p>
+
+<p>¿Que dirieis vós da monja, que negasse existirem passatempos nas nossas
+cidades, só porque os não via, e descriptos os não imaginava? Pois outro
+tanto<span class="pn"><a name="pag_69">{69}</a></span> podia ella dizer, se o
+não diz, de vós outros, que descredes da bemaventurança da sua cidadinha.</p>
+
+<p>O cenobio, tal como o esboçamos aqui, existe em realidade; e contra os
+d'esta especie não aventamos que séria objecção possa pôr a philosophia
+humanitaria. São refugios para corações feridos, que em nenhuma outra parte o
+encontrariam; são asylos para muito desamparo da fortuna; são taboa de salvação
+para muito naufragio; repoiso para muito cançaço; gruta mysteriosa para muito
+animo poetico; seguro para muita innocencia; e se a Liberdade os não pode
+proscrever sem contradicção, sem a si propria se annullar, a philosophia, mãe,
+filha, e socia, da mesma Liberdade, o que só pode contra taes mosteiros, ou
+antes em favor d'elles, é exigir que os severos votos, aliás licitos em si
+mesmos, sejam soluveis, e se desatem apenas finde a vontade que os dictou; e
+que a prepotencia, a ambição barbara, calculos ou vinganças, não atirem para os
+pés do altar victimas consternadas, em vez de sacerdotisas radiosas.</p>
+
+<p>Franca a entrada, franca a sahida, o mosteiro não ficará sendo senão a séde
+do contentamento, da virtude, da perfeição, e até da Liberdade mais ampla, mais
+inoffensiva, mais formosa, mais completa.</p>
+
+<p>Apressemo-nos em confessar, que nem todas as clausuras se assimelham a esta
+que entrevimos, de que já existe metade, e de que a outra metade hade vir por
+certo, quando ressentimentos politicos emmudecerem, e a razão dos povos,
+desassombrada de todo o genero de preconceitos, for adulta e governar.</p>
+
+<p>Não; nem todas as clausuras são assim; e contra as que assim não são, pouco
+nos magôa que a Philosophia troveje, e que a Liberdade se levante. O convento
+que amamos e defendemos, o convento que o bom senso applaude, que a natureza
+approva, que a cidade deve acarinhar, e o Céo cobrir com benção de
+prosperidades, está equidistante do convento fanatico, suicida, e assassino, e
+do convento relaxado, vicioso, onde impera, em odio aos ceos e á terra, o
+monstro execrado sob o titulo de <em>crasta</em> na linguagem mesma das
+chronicas monasticas.</p>
+
+<p>Estes ultimos (¡ainda bem!) dissolve-os a podridão interna; passam, e a sua
+memoria só fica subsistindo<span class="pn"><a name="pag_70">{70}</a></span>
+nos contos asquerosos da escola de Bocaccio e La-Fontaine; mas a vida
+d'aquelles, mais dura, mais resequida, mais resguardada, não se gasta senão
+muito lentamente. </p>
+
+<p>A Religião e a Humanidade caminham sorrindo uma para a outra; logo que se
+encontrem n'um abraço estreito de irmans, para nunca mais se dividirem,
+aquelles institutos, que nem uma nem outra reconhecem por seus, ou hão-de
+desapparecer com todas as suas sevicias, como desappareceu a Inquisição, ou se
+hão-de converter á Natureza, cujas branduras licitas e bonissimas rejeitavam.
+Nunca mais uma triste mãe sentirá estalar-se-lhe o coração a fibra e fibra,
+vendo sumir-se-lhe para a catacumba de um claustro a filha mimosa das suas
+entranhas, creada com o seu leite, crescida entre os afagos, ufania dos seus
+olhos, bordão florido para a sua velhice. ¡Velhice! Que mãe, verdadeira mãe,
+poderia chegar até lá, dizendo-se a cada hora do dia:&mdash;«¡Nunca mais a posso
+ver!, ¡nunca mais a hei-de ouvir, se não fôr por sonhos! quando eu acabar de
+morrer, dir-se-ha no meio da communidade, silenciosa como espectros pallidos, e
+tremulos todos: <em>Resemos pela alma da mãe de uma de nossas irmans</em>; e
+nada mais, senão chorarem todas, suppondo-se todas orphans na orphandade que só
+é de uma.»&mdash;Á mesa, onde não vê sua filha, salgará com lagrimas o pão, porque a
+sua innocente, defecada da penitencia e dos jejuns, não terá, para matar a
+fome, no seu canto escuro e solitario, senão um pedaço de pão negro e duro, que
+o mendigo e o cão esfaimado de tres dias recusariam. Não poderá encarar com
+donzella alheia coberta de galas, e trocando risos de alma com toda a Natureza,
+sem logo se atirar de mãos postas, e debulhada em lagrimas, aos pés da imagem
+da sua ingrata, coberta de burel sêcco e mordente nas calmas do estio,
+descalça, apertada n'um cilicio, cortada das disciplinas, entregue aos mistéres
+mais trabalhosos e obscuros, definhando-se de semana para semana, com o coração
+já morto, com a alma já meio morta a pezar dentro na fronte pendida e
+despojada, ¡que não ha reconhecel-a! ¡e os olhos sempre no chão, á procura do
+sepulcro, que assim tarda! ¡Como dormirá e mãe, quando, encarnada pelo amor na
+pessoa da filha, cogitar (e cogita sempre) que a pobresinha<span class="pn"><a
+name="pag_71">{71}</a></span> nem tem, como a ovelha, um feno em que descance,
+mas pernoita vestida, ora n'uma taboa nua com uma pedra por cabeceira, ora
+prostrada em oração sobre as lageas regeladas do pavimento!</p>
+
+<p>Arredemos d'ali os olhos; mas isto existe. O proprio Martyr Sublime, não n-o
+póde ver sem pena do alto da sua Cruz, Elle que proclamou que o seu jugo era
+suave, e que fez do amar a pae e mãe o primeiro dos seus mandamentos em relação
+ao proximo.</p>
+
+<h2><a name="SECTION002270000000000000000">XXVII</a></h2>
+
+<p>Vairão era de antigos tempos uma das casas religiosas da especie média entre
+os dois extremos, uma das poucas em que as familias piedosas e discretas punham
+confiadamente suas filhas a educar, para depois as reconduzirem ao mundo,
+graves sem fanatismo, puras sem mingua na sensibilidade, mulheres emfim, quanto
+mulheres o podem sêr, anjos perfumados em paraizo.</p>
+
+<p>Havia em Vairão outras educandas e seculares. Todas ellas, assim como as
+religiosas, davam a Maria a preferencia do seu affecto, sem que uma unica
+pensasse em lh'o invejar. É porque a doçura da sua indole fazia esquecer a
+superioridade do seu espirito.</p>
+
+<p>Ás prendas manuaes, em que primava, reunia o gôsto da leitura, até algum
+tanto o do estudo, e a meditação reflexiva, que extrema em cada escripto, como
+em cada conversação, o verdadeiro do supposto, e o proficuo do prejudicial:</p>
+
+<blockquote>
+ <em>Florigeros ut apes per saltus......</em> </blockquote>
+
+<p>Entretanto, dotada de um tacto verdadeiramente feminino, possuia a grande e
+difficil arte de se mostrar ao nivel do commum do seu sexo, quando mesmo as
+ideias que expunha desciam o vôo de mais alta esfera. Um veo de modestia, que
+ás vezes chegava a parecer timidez e acanhamento, temperava, por assim dizer, o
+brilho do seu saber, da sua imaginação, e do seu juizo, para não offender a
+miopía dos espiritos vulgares. Era-lhe até facil e usual o calar-se, simulando
+ignorar as coisas que melhor sabia, quando se arreceiava de humilhar a vaidade
+de quem quer que<span class="pn"><a name="pag_72">{72}</a></span> fosse; o que
+não tolhia que até as mais edosas a tomassem por conselheira, convencidas, pela
+experiencia, de que ninguem calculava com mais acerto do que ella, de que
+ninguem poderia guiar por mais seguro caminho a um alvo honesto e proveitoso.</p>
+
+<p>O melhor da herança de sua avó e de seu tio, o poeta, reduzira-se a uma boa
+porção de livros, francezes, hespanhoes, e italianos, quasi todos escolhidos e
+de substancia, e classicos portuguezes. Devorára, relêra tudo, comparando,
+assignalando o que tinha por mais ou menos bom, e enthesoirando o optimo em
+volumosos cadernos de excerptos, que, folheados por um litterato de lei, para
+logo lhe revelariam o apurado gôsto da collectora. O francez, o italiano e o
+hespanhol, se lhe tornaram d'esta sorte familiares. Quanto á lingua patria,
+essa, tradição e gloria de sua familia, foi a que sempre lhe attrahiu
+particulares desvelos; e em verdade, que ninguem a conhecia mais por dentro;
+ninguem a tratava com mais acerto, graça, e facilidade. Não é louvor pequeno
+este, mesmo para dama, e dama em provincia; em nossos dias sobre tudo.</p>
+
+<p>Sem pejo declararia eu aqui, se tal noticia podesse a alguem interessar, que
+do meu trato com ella é que principalmente se originou o meu empenho, não digo
+de classicismo, mas de vernaculidade em todo o caso. Não ha estudo, nem mais
+apetitoso, nem mais aproveitado, que o da fala da nossa terra, quando se tem
+por mestra uma mulher a quem se ama.</p>
+
+<p>Ahi me ia eu agora desviando por um atalho que não convém. Tornemo-nos á
+educanda de Vairão.</p>
+
+<h2><a name="SECTION002280000000000000000">XXVIII</a></h2>
+
+<p>Cuido que não haverá ledor que não tenha lá o seu livro predilecto, para o
+qual de todos os outros se aparte por natural tendencia. O escriptor mais do
+nosso peito pode variar, e varia, com as transformações da edade, da saude, da
+fortuna, das circumstancias; mas ha sempre um, com quem melhor nos entendemos;
+com quem nos parece conversarmos; com quem permutâmos o nosso espirito, porque
+nos entende, e o entendemos, porque nos parece vivo e presente, e o qual por
+derradeiro chega a encarnar-se<span class="pn"><a name="pag_73">{73}</a></span>
+em nós, e a influir nos nossos actos e na nossa vida.</p>
+
+<p>A preferencia de Maria para as suas leituras, começadas n'uma pagina, e
+continuadas quasi sempre nos espaços imaginarios, não acertava porém n'uma só
+obra: pendia indecisa entre Petrarcha e Santa Theresa de Jesus. Eram dois
+caudaes brilhantes, ainda que tristes, que iam, patentes ao Céo um e outro,
+parar ambos n'um mar de affecto.</p>
+
+<p>¿Que alma houve jámais tão namorada como a da formosa de Burgos, a não ter
+sido a do cysne de Arezzo? ¿ou que espirito sé haveria de equiparar, na doce
+melancolia da adoração, ao segundo Dante, mais sympathico, se menos colossal,
+ao poeta, não já do <em>Inferno</em>, mas do <em>Purgatorio</em> e do
+<em>Céo</em> do amor, ao bom Petrarcha emfim, se a Hespanha, est'outra Italia
+das graças e das paixões, se esquecesse de procrear a Matriarcha das
+Carmelitas?</p>
+
+<p>¡Que espantosa similhança entre ella e elle!</p>
+
+<p>São dois corações desmedidamente grandes, a quem não basta para os encher
+qualquer affeição terrestre e vulgar, e que só em flôres e fructos de paraizo
+poderão achar confôrto.</p>
+
+<p><em>Fulcite me floribus, stipate me malis, quia amore langueo. L&oelig;va ejus
+sub capite meo, et dextera illius amplexabitur me.</em><a name="tex2html3"
+href="#foot235"><sup>[3]</sup></a></p>
+
+<p>O Cantor tão religioso, e a Religiosa tão cantora, como que só teem de corpo
+e sentidos quanto baste para os reter na terra dos deleites ephemeros, e
+retardar a sua fuga para regiões de affectos sem limite.</p>
+
+<p>Um e outro amam no intimo, pela delicia do amar, pela necessidade de amar, e
+sem pedirem mercê nem recompensa.</p>
+
+<p>Um e outro fabricam da sua ternura, religiões attractivas, dominadoras,
+perduraveis: elle, a dos trovadores mysticos e fervorosos; ella, a das noivas
+para a eternidade.</p>
+
+<p>Petrarcha tinha-se criado com as poesias voluptuarias da Roma classica: mas,
+de amavel pagão, que o estudo o podéra ter feito, se converteu em eremita
+namorado.</p>
+
+<p>Theresa, segundo ella mesma se nos historía, seduzida<span class="pn"><a
+name="pag_74">{74}</a></span> nos primeiros annos pelos feitiços do mundo,
+dominada da turbulencia da phantasia, e escandecida pelos fogos da juventude,
+só muito a poder de exforços, só depois de muito bafejada pela Graça, logrou
+desenlear-se das vaidades, pegar e lançar raizes no retiro.</p>
+
+<p>Ella e elle podem exclamar como S. Bernardo:&mdash;<em>¡O beata solitudo! ¡o sola
+beatitudo!</em>&mdash;porque para um e para a outra o ermo é egualmente povoado por
+um phantasma luminoso: lá, pela imagem de Laura; cá, pela de Jesus; dois
+verdadeiros ideaes dos amores ao mesmo tempo mais ferventes e mais castos.</p>
+
+<p>Petrarcha, sabe que não ha-de gosar Laura em toda a vida; espera e anceia,
+como Theresa, pelas bodas celestes.</p>
+
+<p>Theresa, desafoga a sua impaciencia, como Petrarcha, em jaculatorias tão
+mimosas, que a Esposa dos cantares se deteria para lh'as ouvir.</p>
+
+<blockquote>
+       O POETA<br>
+ <br>
+   Tennemi Amor anni ventuno ardendo<br>
+ Lieto nel foco, e nel duol pien di speme,<br>
+ Poi che Madonna, e'l mio cor seco insieme<br>
+ Saliro al Ciel, dieci altri anni piangendo. <br>
+ <br>
+   Ornai son stanco, e mia vita riprendo<br>
+ Di tanto error; che di virtute il seme<br>
+ Ha quasi spento; e le mie parti estreme,<br>
+ Alto Dio, a te divotamente rendo. <br>
+ <br>
+   Pentito e tristo de' miei si spesi anni,<br>
+ Che spender si doveano in miglior uso,<br>
+ In cercar pace, ed in fuggir affanni, <br>
+ <br>
+   Signor, che 'n questo carcer m' hai rinchiuso,<br>
+ Trammene salvo dagli eterni danni,<br>
+ Ch'i 'conosco 'l mio fallo, e non lo scuso. <br>
+ <br>
+ <br>
+         A RELIGIOSA <br>
+ <br>
+   ¡Ay! ¡que larga es esta vida!<br>
+ ¡que duros estos destierros,<span class="pn"><a
+ name="pag_75">{75}</a></span><br>
+ esta carcel, y estos hierros,<br>
+ en que está el alma metida!<br>
+ solo esperar la salida<br>
+ me causa un dolor tan fiero,<br>
+ que muero porque no muero. <br>
+ <br>
+   Acaba yà de dexarme,<br>
+ vida, no me seas molesta;<br>
+ porque muriendo, ¿que resta,<br>
+ sino vivir, y gozarme?<br>
+ No dexes de consolarme,<br>
+ muerte, que assi te requiero,<br>
+ que muero porque no muero. <br>
+ <br>
+ <br>
+         O POETA <br>
+ <br>
+   Io vo piangendo i miei passati tempi,<br>
+ I quai posi in amar cosa mortale,<br>
+ Senza levarmi a volo, avend' io l' ale,<br>
+ Per dar forse di me non bassi esempi. <br>
+ <br>
+   Tu, che vedi i miei mali indegni, ed empi,<br>
+ Rè del Cielo invisibile, immortale,<br>
+ Soccorri all'alma disviata, e frale,<br>
+ Él suo difetto di tua grazia adempi. <br>
+ <br>
+   Sicchè, s' io vissi in guerra, ed in tempesta,<br>
+ Mora in pace, ed in porto; e se la stanza<br>
+ Fu vana, almen sia la partita onesta.<br>
+ <br>
+   A quel poço di viver che m' avanza,<br>
+ Ed al morir, degni esser tua man presta:<br>
+ Tu sai ben, che 'n altrui non ho speranza. <br>
+ <br>
+ <br>
+         A RELIGIOSA <br>
+ <br>
+   Ay! que vida tan amarga<br>
+ dò no se goza el Señor!<br>
+ Y si es dulce el amor,<br>
+ no lo es la esperanza larga.<br>
+ Quiteme Dios esta carga,<br>
+ mas pesada que de azero,<br>
+ que muero porque no muero.<span class="pn"><a
+ name="pag_76">{76}</a></span><br>
+ <br>
+   Solo con la confianza<br>
+ vivo de que he de morir:<br>
+ porque muriendo el vivir<br>
+ me assegura mi esperanza.<br>
+ Muerte, dó el vivir se alcanza,<br>
+ no te tardes, que te espero,<br>
+ que muero porque no muero. </blockquote>
+
+<p>¿Não parecem duas rôlas melancolicas respondendo-se lá do fundo de suas
+apartadas espessuras? E ainda n'este momento foi mais o cançaço da vida que
+lhes escutastes, do que verdadeiramente o impeto dos seus amores; esse é tal,
+que a muitos periodos da prosa da Hespanhola só falta mudar-se o nome de Jesus
+no de Saint-Preux, por exemplo, para se imaginar que se está ouvindo Julia de
+Wolmar; ao mesmo passo que muitos sonetos e canções do Italiano, trocado o nome
+de Laura no da Rainha dos Anjos, e encorporando-se n'um horario, muitos olhos
+devotos os regariam com lagrimas.</p>
+
+<p><em>Valchiusa</em> ou, como dizem, <em>Voclusa</em>, onde Petrarcha passa
+tantos annos sonhando com o espectro, primeiro de uma viva, que não vive para
+elle, e depois, de uma defuncta que nunca para elle morrerá, Valchiusa é para
+todos brenha alpestre, cavernosa, brava, despovoada, mas é vergel e universo
+para elle, e o casebre do seu refugio, palacio oriental.</p>
+
+<p>Outro tanto se figuram aos olhos de Theresa o escuro, o desconforto, a
+austeridade do seu mosteiro, e da sua cella.</p>
+
+<p>Aos eccos da voz italiana sahida d'aquelle esconderijo, como de um vaso
+rustico um perfume precioso, todos os espiritos poeticos se innebriam, e lhe
+respondem, imitando-a; o Camões cá no Tejo é um d'elles. Ás melodias da
+Castelhana, cardumes de almas suspiram de toda a parte, e vão procurar nos
+cenobios as voluptuosidades da penitencia.</p>
+
+<p>Ambos ficam sendo mythos: um, da perfeita idolatria tributada á mulher; a
+outra, da adoração perfeita, offerecida ao Salvador.</p>
+
+<p>Petrarcha, emfim, apparece á nossa imaginação, qual Roma o applaudiu em
+realidade, cingido no Capitolio com triplice coroa; <em>ter geminis
+honoribus</em>; a corôa de hera, como poeta; a de loiro, como triumphador; a de
+murta, como amante.<span class="pn"><a name="pag_77">{77}</a></span></p>
+
+<p>Santa Theresa tambem a não concebemos senão tres vezes coroada: como
+escriptora e poetisa, pelos estudiosos; como virgem, pela Rainha das Virgens;
+como Santa, pela Egreja Romana.</p>
+
+<p>Não maravilha que a leitura assidua de taes obras, e então n'uns sitios e
+edificios tão moldados para as fazerem resoar em cheio, elevasse a alma poetica
+de Maria até ao enthusiasmo. Não admiraria mesmo se tivesse feito d'ella uma
+fanatica. Felizmente não succedeu assim, porque a absorpção ascetica da
+Bem-aventurada diluiu o que tinha de excessivo e perigoso, nas tendencias mais
+suaves e humanas do Visionario de <em>Laureta</em>.</p>
+
+<h2><a name="SECTION002290000000000000000">XXIX</a></h2>
+
+<p>A secular amava o convento pacifico onde se criára, e que era, por que assim
+o digâmos, a sua patria, e o seu mundo; amava-o sim, mas nem por isso deixava
+de se inclinar insensivelmente para outro viver mais liberto e amplo, sobretudo
+mais natural, mais completo para o coração, mais conforme aos instinctos
+femininos. De tudo isto é que resultou o ennamorar-se, sem saber como, de um
+phantasma de poeta, que se lhe revelára como dotado de uma grande faculdade de
+amar, e cujos gostos amenos, e facillimos de preencher, tanto com os seus se
+harmonisavam.</p>
+
+<p>D. Anna Lucinda, a sua inseparavel e confidente (repisemos embora isto que
+ha pouco tocáramos) não se animou a contrariar-lhe a inclinação. Era freira,
+mas de grande juizo casado com grande virtude; não se assimilhava ás que
+parecem querer vingar-se do seu captiveiro, retendo n'elle, e attrahindo para
+elle com seducções de todo o genero, a incautas; portanto secundava, se não com
+exhortações, ao menos com o benevolo sorriso de amiga desinteressada, as visões
+mundanas de Maria. Autorisara-lhe a primeira carta; felicitara-a pelo exito que
+lhe ella surtira; deixara-a progredir; e fôra vendo com satisfação, ainda que
+não sem alguns longes de cuidado pelas incertezas do futuro, os progressos de
+um primeiro affecto, que de dia para dia se foi activando, até que chegou a
+verdadeiro amor, apaixonado e invencivel.<span class="pn"><a
+name="pag_78">{78}</a></span></p>
+
+<p>Ora, em quanto Maria, de quem eu por então ignorava quasi todos estes
+pormenores, vivia, sem que as outras lh'a suspeitassem, vida tão romantica no
+seu mosteiro, outro tanto, pouco mais ou menos, acontecia ao que tinha a gloria
+de lhe occupar os pensamentos. Se ella se havia comprazido de crear nos
+dominios da phantasia uma especie de Ossian, sem cans na fronte nem rugas no
+coração, e disfructava o nobre prazer de ser apontada como a sua companheira, a
+sua guia até aos cumes de Morven, a aurora da sua alma, a interprete da
+Natureza para com elle, e d'elle para com os homens; eu da minha parte
+queria-lhe como á minha Malvina, e não dava já um passo na existencia sem me
+acompanhar do meu phantasma candido.</p>
+
+<p>Nunca então pensei em que d'esses meus sonhos acordados se podesse jámais
+fazer um livro, e muito menos que o houvesse eu em tempo algum de explicar,
+como agora estou fazendo.</p>
+
+<h2><a name="SECTION002300000000000000000">XXX</a></h2>
+
+<p>¿Onde, quando, e como o compuz? ao acaso; por toda a parte; e sem me sentir.
+Não o poetei, trovei-o; menos ainda que isso: trovou-se-me elle, e eu colhi-o.</p>
+
+<p>Em realidade, e em mais de um sentido, reconheço eu ao presente que estes
+versos se aparentam muito menos com obra de poeta, que de trovador.</p>
+
+<p>¿Que eram com effeito, e que faziam, esses filhos prodigos do undecimo,
+duodecimo e decimo terceiro seculo, a que chamamos trovadores?</p>
+
+<p>Era o trovador pelo commum um moço de phantasia e arrojados espiritos,
+nascido as mais das vezes n'uma choupana entre a floresta e o castello feudal.
+Ainda no berço uma cigana lhe lêra a <em>buena-dicha</em>, em que ninguem creu.</p>
+
+<p>O unico livro em que solettrou foi a Natureza. O rouxinol, veio de
+proposito, mandado por Deus, um mez em cada anno, para lhe ensinar o canto; e
+quando elle repetia mais ou menos imperfeitamente essas lições selvaticas, a
+andorinha do seu beirado debruçava a cabeça fóra do ninho para o ouvir, e o
+animava a ir por diante; de cantigas de ternura, entende a andorinha como
+ninguem. Depois, a fonte prateada<span class="pn"><a
+name="pag_79">{79}</a></span> nas noites de luar o instruia nas sonatas
+argentinas da mandora; e as virações, depois de se terem detido no cimo dos
+carvalhos a escutar-lh'as, proseguiam o seu caminho aereo, comprazendo-se de as
+diffundir. Isto nos annos a crescer, mas ainda mancebinho, e ainda não
+trovador.</p>
+
+<p>Trovador, sagrava-o de repente um dia a dama do castello, sem attentar
+n'elle nem lhe saber da existencia. Foi elle, que do fundo da sua humildade a
+enxergou na capella á Missa por manhan cedo, ou na caça, montada no seu
+palafrem branco, ou á tardinha, entre as aias, no vergel. Desde essa hora
+perdeu liberdade e alegria; fez voto de não querer a alguma outra; pediu á
+fortuna, a todos os Santos e a Virgem, não que lhe obtivessem mercê de
+correspondencia, que fôra temeridade e loucura o esperál-a, mas unicamente o
+fazer-se d'ella conhecido por seus cantares nas <em>côrtes de amor</em>, quando
+já não fosse por seu denodo contra inimigos. Este voto secreto, sem testemunhas
+na terra, ignorado d'aquella mesma a quem se referia, improvisava algumas vezes
+um heroe; mas quasi sempre um poeta, em quem o fogo da paixão suppria a
+sciencia e a arte, duas coisas que faltavam ambas n'aquelles Orpheus da
+Provença, obscuros fundadores da poesia de toda a Europa.</p>
+
+<p>O ecco dos applausos, que lá em baixo no burgo animavam a nova musa
+elegiaca, pouco tardava que penetrasse até ao salão onde cavalleiros e damas se
+reuniam.</p>
+
+<p>O castellão desejava conhecer o talento seu vassallo, que algum dia
+porventura lhe immortalisaria as proezas; o villão, não sem pasmo seu e inveja
+dos visinhos, era chamado para vir com a sua mandora entreter uma hora do serão
+de inverno. Na enorme chaminé, estralava a fogueira; de seus espaldares
+lavrados, as nobres o consideravam curiosas; ¿quem poderia dizer a cada uma
+d'ellas se lhe não estava destinado um papel na historia, ainda sem titulo, que
+por acaso se ia abrir?</p>
+
+<p>O mancebo, em pé, de olhos baixos, na postura de um peregrino devoto perante
+um mausoleo de esculturas nobiliarias sob uma abobada de cathedral, começava a
+sua primeira recitação; se o effeito correspondia nos ouvintes á espectativa, o
+serão seguinte já lhe dava assento n'um escabello; tão insigne<span
+class="pn"><a name="pag_80">{80}</a></span> favor, redobrava-lhe posses ao
+talento; excedia os prestigios da vespera.</p>
+
+<p>Ao terceiro dia abria-se-lhe inesperadamente o Capitolio; era proclamado
+pelo marido, pagem, ou escudeiro da senhora, que muitas vezes era ella propria
+trovadora tambem, como Azalais Porcairagues.</p>
+
+<p>D'ahi ávante progrediam as coisas pelo seu álveo natural. A senhora era
+sensivel; a proximidade, tentadora; a poesia e uma gloria a nascer, mais
+tentadoras ainda que a proximidade. O pagem, a principio, contemplára com
+terror o abysmo que separava as duas situações. Voar da profundeza do seu valle
+natal até á altura vertiginosa em que se via, fôra um milagre; mas para se
+despenhar, sobrava a minima imprudencia. Era-lhe mister cantar o amor, sem
+denunciar a amada, nem a ella mesma. Mais e peior: era-lhe forçoso dizer muito,
+calando tudo; desconcertar ou prevenir suspeitas de rivaes, de invejosos, de
+cortezãos, e de soberbos; arrastar cadeias de bronze; como quem passeasse sôlto
+e alegre pelo relvado de um parque; ter a mira interior n'um ponto fixo, e a
+pontaria da bésta sempre n'outro.</p>
+
+<p>Tão desinteressado, tão heroico servir, não escapava á perspicacia de quem o
+inspirára. É a gratidão uma ternura, que sem custo fermenta e se faz amor.</p>
+
+<p>Um dia, não sei em que estação... talvez no estio, que é fogo; talvez no
+inverno, que é frio; no outono, que é melancolia; ou na primavera, que é
+amores; n'uma certa hora, d'aquellas em que uma estrella cai do ceo sem se
+entender como, um olhar da castellan baixava sobre o pagem, e lhe revelava a
+sua dita. D'ahi avante, eram dois segredos para esconder, em logar de um; eram
+dois infortunios occultos, fundidos n'uma felicidade ainda mais occulta.
+¡Occulta! Nem sempre. ¡Que de tragedias, como a de Faiel, se não misturam com
+as festivas delicias na historia dos trovadores! ¡laudas de sangue por entre
+paginas doiradas!</p>
+
+<p>Alguma vez, ainda que rara, era a dama que tomava n'estas difficeis
+declarações a iniciativa: Margarida, mulher de Raymundo, senhor do Castello de
+Roussillon, fez a primeira proposta ao trovador, seu pagem Guilherme de
+Cabestaing.<span class="pn"><a name="pag_81">{81}</a></span></p>
+
+<p>¿A que veem sorrisos de estranheza? a dama era tanto, e o servo tão pouco,
+na estimativa da sociedade de então, e a Natureza tendia tanto por todos os
+modos, pela magia do amor sobretudo, para a realisação do seu bemdito sonho da
+igualdade humana, que onde ao villão falleciam azas de atrevimento para se
+remontar até á esphera da castellan, emprestava o amor as suas á castellan,
+para ella baixar até á cabana do trovador. D'ali subiam juntos á felicidade. A
+abelha rainha da colmeia, e o insecto que ella escolhe d'entre os seus
+adoradores, vão, dizem os naturalistas, consummar nos ares, longe do alcance
+d'olhos, o mysterio por onde o enxame se regenera.</p>
+
+<p>Assim se ajudava com estas mui frequentes descidas das aristocratas a fusão
+das castas, e a restauração da dignidade humana. Talvez se possa presumir sem
+temeridade, que as fraquezas das grandes senhoras para com os seus subditos
+mais distinctos por gentileza, valentia ou talentos, não concorreriam menos
+para a demolição do feudalismo, que os monstruosos direitos dos senhores, ás
+primicias nos casamentos das villans suas vassallas.</p>
+
+<p>Deixemos porém philosophias tamanhas, que não cabem em tão pequena historia,
+e tornemo-nos a ella. Só digo que a humilde consciencia que eu tinha de mim,
+nunca me haveria permittido abalançar vôo até á eminencia moral onde habitava
+Maria; e que, se a minha alma era, como talvez fosse, a que Deus talhara para a
+sua, muito bem fez ella em vir provocar o seu trovador.</p>
+
+<p>Trovador, repito, e não cuido haver presumpção, nem modestia, se não verdade
+muito chan e muito clara, em appellidar assim o autor d'esta collecção; quando
+não, consideremol-a, se vale a pena, e comparemos.</p>
+
+<p>¿Que era com effeito o nativo e desartificioso trovar da edade média? falo
+do trovar namorado, e não do guerreiro, nem do satyrico; falo do que se
+comprehendia sob a denominação de <em>gaia sciencia</em>, e que dava assumpto
+ás discussões e sentenças das famigeradas <em>côrtes de amor</em>: era um
+verdadeiro trovar; uma caçada á ventura, sem guia nem itinerario, pelos campos
+da phantasia e do sentimento.</p>
+
+<p>A elegia dos Gregos e dos Romanos, começára chorosa,<span class="pn"><a
+name="pag_82">{82}</a></span> e passára, sem mudar de nome, a interpretar
+igualmente os desejos bem succedidos; e as festas do coração. A <em>gaia</em>,
+ou folgasan, <em>sciencia</em>, pelo contrario, tendo devido começar, como o
+seu nome o inculca, por celebrar as boas fortunas, foi por natural pendor
+descahindo a pouco e pouco para a tristeza, para a saudade, para a
+desesperança, que vieram por derradeiro a constituir o habito e principal
+caracter da poesia da edade média.</p>
+
+<p>O cantor apaixonado era o proprio heroe dos seus cantos. A historia que
+celebrava, em termos vagos, mysteriosos, sem referencia a nomes certos de
+pessoas nem logares, não era d'estas que podem ser vistas em quanto se operam;
+não se compunha de actos exteriores; corria toda no mundo dos espiritos;
+entrevia-se apenas sob um veo de mysticismo, muito similhante áquelle com que a
+linguagem theologica obumbrava os mysterios da Religião; percebia-se sempre
+pelo fundo da scena ir e vir uma figura de mulher, encarregada de algum papel
+singular. ¿Mas quem era ella? Ninguem o affirmaria. ¿Amava? sabia-se que era
+adorada; sabia-se que o merecia; nada mais.</p>
+
+<p>O espirito do adorador attrahido, mas ao mesmo tempo intimidado, pela
+auréola, esvoaçava-se-lhe em roda, ora mais perto, ora mais longe, esperando e
+desesperando, impondo silencio aos sentidos, e cilicio aos appetites, sem de
+todo os poder domar; feliz como um anjo, infeliz como um demonio; invejando
+toda a especie de glorias para merecer, invejando a paz dos mortos para
+descançar; maldizendo e apertando os laços; misturando, como as creanças, o
+riso com as lagrimas; e não admittindo para confidente senão as arvores e o
+vento, os rios, as flores, e as estrellas.</p>
+
+<p>Tal foi o trovar nas eras juvenis dos enthusiasmos, quando os homens que não
+eram cavalleiros eram poetas, os que não eram poetas eram menestreis; quando a
+mulher na Europa tinha um altar, e Christo na Asia um sepulcro, e a devoção
+d'aquelle sepulcro e a d'este altar traziam em fluxo e refluxo contínuo as
+povoações. ¡Extraordinarios tempos, em que a heroicidade era lyrica, e as
+fraquezas heroicas! tempos extraordinarios, resumidos em dois versos pelo seu
+chronista epico, o Ariosto:<span class="pn"><a name="pag_83">{83}</a></span></p>
+
+<blockquote>
+ <em>Le donne, i cavalier, l'arme, gl'amori,</em><br>
+ <em>Le cortesie, l'audaci imprese io canto.</em></blockquote>
+
+<p>Abstrahi do que se referia ás guerras dos Logares santos; recordae só os
+cantares de galanteio ascetico, e, sincera paixão do fim do seculo undecimo, do
+duodecimo, e do principio do decimo terceiro, se porventura os lestes;
+sentireis isto mesmo que eu vos confesso: que toda a presente poesia não parece
+senão um ecco tardio do cantar nativo e ainda inculto dos Provençaes. Não os
+conhecia eu ainda quando a compuz, nem me parece que se os conhecesse os
+tomaria para exemplares; mas o certo é que os meus amores se assimilhavam aos
+de muitos d'elles em mais de um ponto; e portanto, sendo eu sincero, como elles
+o tinham sido, era impossivel que a lyra em que eu improvisava, não gemesse,
+sem o cuidar, no estylo da mandora, da mandora pendurada ha mais de seiscentos
+annos no cemiterio das litteraturas.</p>
+
+<p>Maria continuava a ser portanto para mim, ainda depois de convencida de
+existir, a minha nobre dama encantada no seu solar remoto e inaccessivel; e eu,
+o servo seu poeta, cantando-a só pelo gosto e pela necessidade de a cantar.</p>
+
+<h2><a name="SECTION002310000000000000000">XXXI</a></h2>
+
+<p>A maior parte dos meus versos não lhe chegava ás mãos, nem mesmo apparecia
+ao publico, ou se revelava aos amigos. Recatava-os a ella, parte, porque os
+sentia inferiores ás continuas, tão gentis e tão admiraveis paginas das suas
+cartas; parte, porque aqui ou acolá desdiziam d'aquella virginal e santa
+pureza, de que a minha imaginação e a sombra do mosteiro m'a revestiam, e que
+realmente era, e foi sempre, um dos seus maiores attractivos; então aos olhos
+extranhos sonegava-os, e mesmo aos ouvidos dos intimos, porque me repugnava
+poder outrem espreitar para dentro do ninho das nossas almas. Amava só para
+mim; poetava só para mim; e poetava como amava: sem premeditação, sem esforço,
+sem reconsiderações, e sem emendas.</p>
+
+<p>¿Bons tempos, que tão verdadeiros fostes, como<span class="pn"><a
+name="pag_84">{84}</a></span> vos desvanecestes? ¿como passastes vós,
+eternidades voluptuosas?</p>
+
+<p>Compunha eu tudo isto como as arvores ora murmuram, ora rugem, ora gemem
+varrendo o pó com as ramas, segundo passam por ellas os zephyros ou os
+furacões. Toda a differença era: que a mim, as bonanças e as tempestades não me
+vinham de fóra; formavam-se umas e outras inesperadamente na phantasia.</p>
+
+<h2><a name="SECTION002320000000000000000">XXXII</a></h2>
+
+<p>Aqui uma voz imperiosa da consciencia me intíma que não demore por mais
+tempo uma solemne reparação. Faço-a de joelhos abraçado a um cipreste.
+Concluida ella, espero que me levantarei da terra alliviado.</p>
+
+<p>Os ciumes que obscurecem a ultima parte d'estes cantos, existiram sim;</p>
+
+<blockquote>
+ <em>........quis enim securus amavit?</em> </blockquote>
+
+<p class="ni">mas causa, mas pretexto, mas sombra de pretexto para as
+suspeitas, nunca jámais a encontrei no pobre Anjo que eu flagellava. ¿Mentia eu
+pois? ¿Calumniava para ser algoz? ¡Longe tão infame supposição!</p>
+
+<p>Houve delirios na minha alma, e reproduziram-se nos meus versos. Eis ahi
+tudo.</p>
+
+<p>O meu amor era verdadeiro; e todo o verdadeiro amor é visionario, é
+supersticioso, é pessimista; e, similhante áquelles enfermos que preferem aos
+alimentos sãos e agradaveis, substancias amargas e nocivas, procura por uma
+tendencia irresistivel, desencanta, cria para si tormentos reaes, e com aquillo
+mesmo que o devêra destruir se vai cevando.</p>
+
+<p>Se eu ouvia o caso de uma infiel, de uma enganadora qualquer, de que tantas
+se nos deparam nas historias, nos romances, nos poemas, nos dramas, e na vida
+contemporanea, perguntava-me logo, com terror, ¿quem me affiançava a lealdade
+de Maria? ninguem, senão as suas cartas. Então, esquecendo que a assiduidade, e
+sobretudo o estylo d'ellas, excluiam toda a razão de desconfiança, a poder de
+meditar no possivel, convertia-o em provavel, e do provavel me<span
+class="pn"><a name="pag_85">{85}</a></span> abortava o certo. ¿A paixão com que
+eu me lisonjeára nas horas desanuveadas e alegres, merecia-a eu porventura?
+Sabia que não. ¡Logo, que insensatez no contar com ella! ¡depois, a distancia!
+¡depois, as suggestões da solidão, mais tentadora ás vezes que o povoado!
+¡depois, annos preteritos que podiam ter semeado tanta coisa! por ultimo, ¡uma
+indole tão manifestamente inflammavel! Tudo, até as suas cartas mais ardentes,
+até a sua insolita deliberação de se me offerecer, tudo então depunha conteste
+contra ella no tribunal tumultuoso da minha alma. Os sonhos se me tingiam na
+cor dos pensamentos lugubres de todo o dia; e eu, carecente de noticias reaes e
+positivas com que os rebater, acceitava os seus embustes como revelações
+vindas, fosse d'onde fosse, mandadas não sabia por quem nem para quê, mas nem
+por isso menos attendiveis.</p>
+
+<p>Sonhos, acceitos como prophecias, e meditações extravagantes como os sonhos,
+ahi tendes as unicas fontes d'onde rebentaram essas elegias tormentosas, que eu
+haveria queimado quando acordei e volvi a mim, se já então se não tivessem
+derramado por esse mundo.</p>
+
+<p>Desabafei-me de um peccado horrendo; levanto-me, e prosigo.</p>
+
+<h2><a name="SECTION002330000000000000000">XXXIII</a></h2>
+
+<p>O mais do volume dimanou puro e sereno do coração namorado, mas em paz. A
+essa procedencia é que eu lhe attribuo, conforme toquei no prologo, a boa
+fortuna que logrou; que outros merecimentos não lh'os posso descobrir, por mais
+que lh'os procure. Como eram taes affectos os que n'elle predominavam, por isso
+levou, e conserva, o titulo de <em>Amor e Melancolia</em>; <em>Melancolia</em>
+não ha separal-a do <em>Amor</em>.</p>
+
+<p>Affirma a Baroneza de Staël, com razão, que amor verdadeiro e alegre não
+cabe n'este mundo. Aos que levianamente a contradissessem, responderiamos com
+palavras tambem d'ella:&mdash;que ha mais gente habilitada para entender Newton, que
+para tratar a fundo d'esta paixão.</p>
+
+<p>Eu por mim cuido ter sido do escaço numero: o amor pareceu-me sempre um
+prado florescente de<span class="pn"><a name="pag_86">{86}</a></span>
+primavera, mas coberto de um ceo triste. O mesmo se representava a Maria, e
+isso explica a variante do titulo da obra <em>Novissima Heloisa</em>,
+designação que n'estas alturas já dispensa outros commentarios.</p>
+
+<p>O mais d'esta poesia, e muita outra a este modo, que depois se
+desaproveitou, (<em>trovas</em>, <em>tenções</em>, <em>solaus</em>, ou como
+melhor se lhe possa chamar) germinou com intervallos, ás vezes largos: que não
+foram tão poucos os annos que duraram estas relações. Ao longo d'elles,
+confesso que a intensidade do meu fogo não foi sempre a mesma. Não pode haver
+amor platonico sem um certo exforço da vontade; e exforços teem sempre isso
+comsigo: que o fragil da nossa natureza os obriga a remittirem a sua energia de
+vez em quando. Confessarei até que, se a minha vestal invisivel não fosse tão
+assidua em me velar a chamma, e alimental-a quando a pressentia enfraquecer-se,
+já póde ser que tivesse alguma vez chegado a apagar-se-me.</p>
+
+<p>Emquanto o coração estava em férias, emmudecia a Musa; mal que elle a um
+suave toque despertava em sobresalto, recomeçava ella os seus cantares; e o
+amor n'estas ressurreições não era menos vehemente do que a principio o tinha
+sido. Quem não dissimulou aquelle vicio, adquiriu algum jus a gloriar-se d'este
+pequeno merito.</p>
+
+<h2><a name="SECTION002340000000000000000">XXXIV</a></h2>
+
+<p>¡Os arredores tão poeticos da minha Coimbra conspiraram com o amor para se
+me florirem estes improvisos! O Penedo da Saudade, a Lapa dos Poetas, a Fonte
+das Lagrimas, o Ó da Ponte, os sinceiraes do Mondego, tudo sabia dos meus
+segredos; tudo, em me vendo chegar, me perguntava por ella e m'a pedia. Mas era
+especialmente o Real cenobio de Santa Cruz o meu grande manancial.</p>
+
+<p>¡Quantos domingos de verão não voava eu sosinho para ali, a gosar curtas
+horas, mas tantas, que ás vezes se mettiam pela noite, tendo começado antes do
+meio dia! parecia-me que era para mim que D. Affonso, o Conquistador, e D.
+Sancho, o Povoador, que lá dormem como em casa sua, tinham edificado aquelle
+refugio; para mim só, e não para os Conegos<span class="pn"><a
+name="pag_87">{87}</a></span> regrantes, que D. Manuel e D. João III o
+engrandeceram e aformosentaram com tão regia, com tão prodiga bizarria.</p>
+
+<p>Ainda hoje, como no meu tempo (ainda no meu tempo, como em seculos atraz),
+pombas, pardaes, e outros passarinhos, se aninham, contubernaes e familiares
+com os carcomidos Santos de pedra, pelos nichos da alterosa frontaria exterior,
+como em poisadas tambem proprias e muito suas, e amollecem com a sua presença
+amante e festiva a austeridade do monumento; emquanto os orgãos gemiam lá
+dentro, cantavam elles cá por fóra. Quando as rezas matutinas começavam a
+espertar eccos pelos desvãos das abobadas sobre as campas de marmore brunido,
+já elles tinham dado as alvoradas ás virações do Mondego seu visinho. O
+rebentar estrondoso das horas na torre proxima, não os assustava; os sinos eram
+para elles aves de outra especie, inoffensivas tambem, só com a differença de
+se estarem captivas n'uma gaiola alta, e cantarem mais elevadas coisas, e para
+mais longe, pela terra fóra e pelos ares acima, caminho do Ceo.</p>
+
+<p>Na lyrica dos antigos poetas mesclava-se commummente com o folgar de festins
+e amores, quanto bastava do pensamento da brevidade da vida para mais
+avidamente se colherem as rosas ephemereas das voluptuosidades; aqui o fundo do
+poema era pelo contrario a melancolia saudavel, e as delicias mimosas da
+Natureza o seu accessorio.</p>
+
+<p>Isto, que em breve sigla se lia no rosto do convento dos quatro Reis, ia
+depois encontrar-se em copiosissima profusão no interior e nos vastos dominios
+campestres da vivenda. É assim que n'um esmerado volume biblico, paciente lavor
+de algum obscuro Raphael da edade media, o frontispicio floreteado e doirado
+annuncia logo as maravilhosas paginas, em que o texto devoto irá manando todo
+por entre um perpetuo paraizo de primaveras, animaes, sonhos, e devaneios. É
+assim tambem, que no sorrir de um bom velho se resumem os castos alvoroços que
+lhe abundam pelo animo.</p>
+
+<p>N'um festim opiparo toma cada um d'entre as iguarias e licores o que mais
+lhe desafia o paladar; a mim não me chamavam para Santa Cruz nem o templo, que
+deu brado em S. Pedro de Roma, e que<span class="pn"><a
+name="pag_88">{88}</a></span> Paulo III cubiçou conhecer; nem o santuario,
+orgulhoso museu de reliquias; nem a bibliotheca, assoberbada de sciencias
+sacras e profanas: ia girar á toa, e inebriar-me, sem ninguem saber, no
+dormitorio do <em>Silencio</em>; depois no da <em>Manga</em>, aviventado do
+estrépito de cascatas, que um sultão de Granada cubiçaria para os pateos da
+Alhambra. D'ali, escadarias de marmore, bem minhas conhecidas, me subiam para o
+meu passeio de predilecção: era o dormitorio de Nossa Senhora do Pilar.</p>
+
+<p>Pintae na ideia um corredor immenso, largo, alto, abobadado, pavimento de
+lagedo, paredes alvas, luz copiosa por zimborios no tecto, e janellas amplas ao
+comprido de um dos lados; do lado fronteiro, enfileirae portas de cellas; ponde
+n'um dos extremos uma grandiosa sala vaga; no outro, rasgae um portão bipatente
+que dê sem subida nem descida para um terreiro ajardinado; postae á direita do
+portão, como porteira obsequiosa, uma agigantada magnólia a emborcar das suas
+enormes urnas de prata reviradas, olores americanos, que Marco Antonio pagaria
+por um milhão de sestercios para a sua Cleópatra; moldae todo o terreiro, á
+direita com arvores, á esquerda com um extenso e levantado viveiro gradeado,
+compartido em republicas de aves de toda a especie. Ahi tendes o passeio amores
+dos meus amores; ahi tendes o foco mais activo das minhas inspirações.</p>
+
+<p>Eram as cellas habitadas; mas o corredor permanecia quasi sempre deserto e
+mudo, o que deixava as minhas phantasias em completa liberdade. Por mais de uma
+vez se me deu occasião de travar conhecimento com alguns dos religiosos;
+esquivei-a sempre. ¿Que tinha eu com elles, ou elles comigo? pelo contrario:
+necessitava de que nada me recordasse que elles existiam. Todos os seus
+cubiculos os tinha eu melhor empregado n'outras tantas virgens do Senhor. N'um
+dos mais centraes, fronteiro a uma janella de assentos, habitava Maria; D. Anna
+Lucinda á direita, no immediato. Voltado de costas para a janella, ou passeando
+por diante d'aquellas portas, distinguia, ora n'uma ora n'outra cella, as
+praticas de ambas; ouvia as suas conversações em voz baixa; deliciava-me com a
+doçura das suas falas, que eu não conhecia.<span class="pn"><a
+name="pag_89">{89}</a></span></p>
+
+<div style="text-align: center;">
+<p style="text-align:center;"><img src="images/quinta.png" alt="QUINTA DOS AZULEJOS" border="0"></p>
+
+<p style="text-align:center;">QUINTA DOS AZULEJOS (no Paço do Lumiar)<br>
+Tal como era ainda em 1862</p>
+</div>
+
+<p>Das innumeraveis cartas de ambas, que eu sabia de cór, me raiavam para
+dentro da alma as intuições de tudo que estavam de parte a parte pensando,
+sentindo, dizendo. Era o meu nome o centro fixo, em torno do qual volteavam
+todas as suas ideias, como um turbilhão de planetas de Venus, scintillantes,
+mas celestialmente immaculados. Tinham-me comsigo, como eu as tinha commigo.
+Maria e a sua satellite se animavam com meu fogo, e m'o reflectiam virginisado;
+irradiação argentina e mysteriosa, de que se formam sonhos candidos,
+transpirações de um coração que se coagulam em rosas, sobre as quaes logo outro
+se reclina.</p>
+
+<p>Eram estas visões tão claras, e estes extasis tão reaes, que bem provavam
+haver no mundo, como diz Shakspeare, alguma coisa mais do que os philosophos
+presumem; havia por força uma corrente e contra corrente de affectos
+sympathicos e harmonicos d'ella para mim, e de mim para ella; fluidos ethereos
+e celestes, que a Sciencia ainda não descobriu, mas que pelos effeitos se
+manifestam.</p>
+
+<p>Dizem que entre o Mediterraneo e o Atlantico, por baixo das aguas que passam
+contínuas pelo estreito, repassam encobertas outras tantas; são oppostas as
+direcções; mas os impetos caudalosos são eguaes, e não se contrariam. Cada mar
+toma quanto enviára, e restitue quanto recebêra. As columnas do <em>non plus
+ultra</em> ficam desmentidas. Os dois mares, graças a esta corrente e
+subcorrente, não são mais do que um só com dois álveos e duas denominações.</p>
+
+<p>¿Estava Maria n'aquelle quarto? ¿ou n'outro, bem, bem longe? ¿Que importava
+esse accidente fortuito e impessoal? Longe ou perto, ali ou n'outra parte,
+estavamos, e sentiamos estar, em communicação directa. A corrente superior e
+clara, era para ella a dos meus transportes; para mim, a dos
+transportes&mdash;d'ella; mas ella e eu percebiamos não menos que enviavamos
+affagos, e que elles chegavam aonde se dirigiam.</p>
+
+<p>¡Ai, hora incendida e imperiosa de um meio dia de verão! ¡hora em que os
+passaros se calam a dormitar a sesta debaixo das folhas mais espêssas, e as
+cortinas das alcovas se fecham! via-a eu estar-se recreando n'um crystallino
+banho de affectos, que eu<span class="pn"><a name="pag_90">{90}</a></span>
+mesmo lhe andára enchendo, que a sua amiga lhe toldára de confidentes sombras,
+e onde a vigilancia de ambas não deixava penetrar olhos extranhos. Aquelle
+deleite, de que eu era tambem autor, me endeusava.</p>
+
+<p>Estava fóra de mim, sem saber onde. Por uma d'essas incoherencias que tão
+frequentes são nos sonhos, o logar era muitos logares ao mesmo tempo: era
+Vairão; era a Capital; agora, uma sala entre uma bibliotheca e um jardim; logo,
+um refugio campestre; e os moradores de cada um d'estes paraizos, sempre os
+mesmos dois, e mais ninguem. O phantasma das primeiras noites do laranjal de
+Almedina, era agora uma verdadeira donzella, vivente como eu, incontestavel
+como eu, que me falava, que me respondia em voz humana, a quem eu apertava e
+beijava com fogo a mão elastica e macia.</p>
+
+<p>Se algum som inesperado me quebrava a allucinação, e eu, reconhecendo o
+dormitorio, advertia na imprudencia de permanecer tão pertinazmente no mesmo
+pequeno espaço, retomava triste o meu passeio longo e solitario da porta do
+terreiro até a da sala vaga, e d'esta até á magnolia.</p>
+
+<p>A pouco e pouco me revertiam as fugidas illusões; as duas cellas tornavam a
+ser o meu sacrario, o meu palacio, a minha Cythéra. Mais cauteloso então o
+somnambulo, em vez de parar, afrouxava e emmudecia, quanto lhe era possivel, o
+passo por diante do asylo dos seus mysterios; applicava o ouvido da alma, e
+tornava a perceber, em termos sempre novos, e com circumstancias sempre
+diversas, as mesmas confidencias que o enlevavam.</p>
+
+<p>Mais de uma vez aconteceu abrir-se inopinadamente uma porta no corredor, e
+sair... ¡um Religioso! Áquella apparição mal agoirada, dissipava-se todo o
+mundo phantastico; ¡era como se um abutre se tivesse precipitado sobre um bando
+de pombas! As sombras de Maria e Anna recebiam um suspiro saudoso já a vinte
+leguas de distancia; e eu sahía pelo terrado dos viveiros, subia o arvoredo da
+quinta, e ia procurar junto ao Lago dos Cedros refrigerio contra os ardores da
+febre, que indubitavelmente me abrazava.<span class="pn"><a
+name="pag_91">{91}</a></span></p>
+
+<h2><a name="SECTION002350000000000000000">XXXV</a></h2>
+
+<p>O Lago dos Cedros de Santa Cruz de Coimbra era (não sei se o será ainda
+hoje) uma das mais donosas curiosidades de Portugal. Parece impossivel que o
+riscassem assim para Conegos regrantes de Santo Agostinho, para successores de
+S. Theotonio. Que o traçasse D. João V para uma cêrca de freiras de Odivellas,
+ou Luiz o grande, de França, para se estar com Racine ou Molière, ou com as
+gentis collaboradoras dos seus romances, nada mais natural.</p>
+
+<p>Era no cimo de um suave oiteiro, uma esplanada espaçosa, toda em derredor
+cerrada de uma alta muralha de cedros, tão a prumo, tão massiça e de tão
+renteada superficie, que não parecia senão muro solido pintado de verdenegro
+por algum Cinatti. Portas arqueadas, rotas na muralha a distancias eguaes,
+mettiam para alamedas seculares, que, descendo, e dispartindo-se, todas
+ennoitecidas, murmurantes, gorgeadas, cheirosas e ermas, iam buscar por outros
+pontos da cêrca novas amenidades, ou taboleiros de flores, ou fontes e repuxos,
+ou obeliscos de murta, ou estatuas devotas, ou inscripções meditabundas. Aos
+pés da muralha dos cedros corre um canapé rustico de porta a porta. O chão,
+atapetado de fina relva, abre-se no meio em um lago amplo e redondo, com sua
+ilheta ao centro, toucada de laranjeiras viçosissimas, a namorarem-se com toda
+a razão, verdes e doiradas, como o ceo azul, nas aguas crystalinas. Duas
+bateiras sem dono, mas que o amor e o prazer podiam com iguaes direitos
+reivindicar, são a flotilha d'este pequeno mediterraneo, d'onde, por mais que
+faça a circumfusa mystica do ermo, não logra desterrar umas não sei que
+lembranças e saudades da ilha de Chypre, e das nymphas que a imaginação grega
+enxergava por entre as ondas do Egeu. Ali ao menos é que eu ideára o <em>Banho
+das Graças</em>, descripto por Narciso n'uma das suas cartas; e ali é que eu
+devaneei o <em>Barquinho do lago encantado</em>, que vós lestes n'este livro.</p>
+
+<p>Nos assentos de cortiça, ou no velludo do relvado, folgava de me estirar a
+sós com o coração ainda<span class="pn"><a name="pag_92">{92}</a></span>
+agitado das scenas do dormitorio do Pilar. ¡A taciturnidade do sitio, todavia
+tão melodiosa, vinha tão de molde aos soliloquios da Musa interior! Eu não
+pensava: borboleteava: deixava-me boiar na viração pelos dominios infinitos da
+alma, ora tocando n'um espinho e fugindo, ora poisando n'um jasmim e
+adormecendo.</p>
+
+<p>Ha horas d'estas em que a gente senhoreia o planeta, e não é d'elle; em que
+tudo quanto é solido, isto é, duro,&mdash;fixo, isto é, estorvo,&mdash;temido, isto é,
+tirannia,&mdash;elementos de que se nos compõe a vida real a todos quantos somos, se
+afunde a pouco e pouco e desapparece, e um relampago de bemaventurança nos
+envolve com a sua luz visionaria. N'estas horas, em que nos vingamos dos
+positivistas, recambiando-lhes o titulo de doidos com que elles nos calumniam,
+forçamos nós o destino a servir-nos, como escravo docil aos nossos minimos
+desejos.</p>
+
+<p>Fundia eu o possivel e o impossivel; corporificava-os; disfructava-os. Dos
+raios do sol fabricava palacios de oiro para Maria; das balsamicas exhalações
+dos cedros, mocidade perpetua para ambos nós. Conversávamos com os nossos
+irmãos passaros, perguntando-lhes se os seus ninhos continham tanta ternura
+como os nossos berços.</p>
+
+<p>¡E haver quem deplore a vida como breve, guando n'ella cabem d'estas
+immensidades! ¡Grande ingratidão! ¡profundissimo desconhecimento!</p>
+
+<p>«¡Delicias são, mas delicias que passam!» vocifera um incontentado. ¡Oh, que
+não passam! quando se cuidam idas, nol-as vem restituir a saudade. As proprias
+lagrimas, com que então as acolhemos, nol-as reverdecem; outra vez as gozamos,
+porventura mais formosas que no seu primeiro ser; e mais formosas e mais
+queridas sempre, de apparição em reapparição. Negue-o quem quizer; não se lhe
+inveja a philosophia. Eu por mim sei que tudo isto é muito verdade.</p>
+
+<p>N'esta propria hora, já tão remota, me estou eu ainda saboreando, como
+presente, nos feitiços do meu Lago dos Cedros; sou um espelho que embebeu a
+visão, e já não a perde.</p>
+
+<p>¡<em>O meu Lago</em>, disse eu! ¿e por que não? ¡se eu possui a pleno tudo
+aquillo, o possuo, e não ha força nem jurisprudencia que de tal me possam
+despojar!<span class="pn"><a name="pag_93">{93}</a></span> ¡Imaginavam os bons
+dos Conegos regrantes que eram elles os senhores d'aquelles dominios, <em>mea
+regna</em>!... e um sopro, que se levantou da parte do seculo, lhes sumiu todos
+os titulos de propriedade. Os meus não se escreveram em pergaminhos, e existem;
+e estão-se rindo de revoluções do mundo: <em>mea regnas</em>. ¿Sabeis porquê?
+porque a mim foi a Natureza, e seu filho o Amor, quem me fez a doação; e a
+elles, tinha-lh'a feito um chimerico direito regio sobre todo o solo, bens, e
+futuros, de nossa terra.</p>
+
+<p>No dia em que os despediram, como illegitimos detentores de uma propriedade
+commum, perderem um gozo material; e nada mais perderam, porque posse
+espiritual, comparavel á minha, nunca elles a chegaram a tomar. Não era para
+elles que as aves cantavam contentamentos, que as arvores vicejavam esperanças,
+que as fontes murmuravam nomes de ausentes, que as virações calidas exhalavam
+phyltros, que os effluvios das flores namoravam, e que a solidão era povoada;
+tudo isto, quem o disfructava era o poeta, que o está ainda disfructando.</p>
+
+<h2><a name="SECTION002360000000000000000">XXXVI</a></h2>
+
+<p>¡Que grande erro social, que nefando peccado de prosa, não foi: que na hora
+audaz, em que se arrancaram do solo os troncos seculares carcomidos e sêccos
+das Ordens religiosas, se não mettessem logo para o logar d'elles plantações
+novas, de optima qualidade, que tão bem haveriam pegado! Extirpavam um
+preterito que ensombrava e assombrava; bem era; ¡mas quantos queixumes e
+clamores se não teriam afogado á nascença, se logo semeassem, ali mesmo,
+futuros apropriados ás necessidades já conhecidas da presente edade, e das
+edades ulteriores!</p>
+
+<p>¿Estes conventos-palacios, estas cêrcas-principados e paraizos, estas
+grossas rendas, por que se não applicaram a abrigar e manter, isto é, a salvar,
+recompensar, e aproveitar, poetas, artistas, e sabios, que são, cada um a seu
+modo, outros tantos solitarios por vocação, e que do fundo dos seus ermos
+encantam o mundo com prodigios? Não ha Religiosos que mais deveras honrem e
+manifestem a Potencia Creadora. ¡Como a convivencia quotidiana,<span
+class="pn"><a name="pag_94">{94}</a></span> de todas as horas, diurna e
+nocturna, com tantos engenhos e talentos variadissimos, fecundaria a cada um
+com o polen de todos! ¡Como o pintor influiria no poeta, o poeta no musico, o
+musico no estatuario, o estatuario no historiador, o historiador no philosopho,
+o philosopho no moralista! ¡Como os bisonhos reaqueceriam com o seu fogo aos
+veteranos! ¡e os invalidos, se os lá houvesse, encaminhariam com a sua
+experiencia ás aguias no seu primeiro adejar á borda do ninho!</p>
+
+<p>Então sim, que todo este maravilhoso poema de Deus, chamado Creação, no qual
+todas as artes se travam e permutam em harmoniosa competencia, seria lido se
+traduzido em voz alta ás multidões; e em quanto o mundo physico se dilatasse em
+riquezas e commodidades palpaveis, haveria, aqui e acolá, grupos seriamente
+religiosos, que lhe estariam elaborando ares mais respiraveis para o espirito.</p>
+
+<p>Não é, não é utopia; que o digam, e infinitamente <em>a fortiori</em>, os
+caudaes litterarios e scientificos, de que foi matriz a ordem Benedictina.</p>
+
+<p>Depois de cahido o colosso monacal, sepultado no desprêso, quasi no
+esquecimento, e recoberto com montanhas de odios como o Typheu sob os
+promontorios da Sicilia, fôra valentia covarde hoje em dia, zêlo superfluo, e
+actividade ociosa e ridicula, restaurar o processo condemnatorio das Ordens
+religiosas, já trancado. Permitta-se-nos entretanto ponderar em proveito da
+ideia que aventavamos: ¡quão inuteis, comparados com estas congregações de
+sabios, de artistas, de poetas, não eram, por exemplo, aquelles reclusos de
+Santa Cruz de Coimbra! ¿Que beneficios lhes deveu o mundo em tantos seculos?
+¿que vestigio deixaram da sua existencia? ¿que tradição, ao menos, de
+santidade? ¿Alcançámos nós ali algum successor de S. Theotonio, ou de Santo
+Antonio, d'este sympathico e popular Santo Antonio, que experimentou Santa Cruz
+e a refugiu por mal conforme ao seu espirito humilde e penitente? De todo em
+todo, nada.</p>
+
+<p>Estava sendo um feixe de homens absolutamente negativos:&mdash;nem illustrados,
+nem ignaros; nem aristocratas, nem democratas; nem beneficos, nem maleficos;
+nem do povoado, nem do ermo; nem desconsolados, nem contentes; nem
+escandalosos, nem<span class="pn"><a name="pag_95">{95}</a></span>
+edificativos. Apenas tinham de vida quanto bastava para não serem enterrados. O
+seu Prior subia uma vez por anno á Universidade, a abrir como Cancellario a
+sala dos exames privados, e voltava para a hybernação. Mostravam a sua
+livraria, como os tumulos dos dois Monarchas: sem tomarem d'elles, nem d'ella,
+coisa alguma; mostravam o seu santuario, como a espada de D. Affonso I: tudo
+reliquias sem virtude excitativa; mostravam as suas quintas com desvanecimento,
+mas bocejando. As Imagens de pedra, lá fóra, na frontaria da egreja, geladas e
+immoveis entre ninhos e hervinhas floridas, não eram menos insensiveis do que
+elles n'este banho da Natureza tão viva e voluptuosa. Tanto lhes diziam já a
+elles as harpas eólias das ramadas, como os vultos de marmore dos quatro
+Evangelistas, ou das tres Virtudes theologaes, o do seu Patriarcha Santo
+Agostinho, ou os conceitos mysticos estampados pelos azulejos. Indifferença
+para o Céo, indifferença para a terra.&mdash;Viver tal não valia a pena.</p>
+
+<p>Quando o anjo da espada de fogo os pôz fóra do eden, só poderam levar
+saudades do ocio descuidoso e farto que se lhes acabava; mas que deixasse
+nenhum vacuo a sua ausencia.... não deixou de certo. Não houve perda; mas
+podéra ter havido lucro, se, como vinhamos conversando, áquelle solipsismo de
+todo o ponto esteril, tivera succedido uma congregação nova:&mdash;a dos crentes no
+bello, a dos devotos das artes, das sciencias, da poesia; e dos que tecem
+coroas de luz para a civilisação.</p>
+
+<p>¿Mas que digo eu <em>não houve perda</em>? assim mesmo a houve, e, se bem se
+considerar, não tão pequena.</p>
+
+<p>Estes dominios arrancados ás Ordens religiosas, que lhes mantinham o seu
+cunho de perpetuidade, e os facultavam ao usofruto de toda a gente, passaram,
+pelo engôdo de quatro cobres, com que nem a pedra dos alicerces se pagaria,
+para a mão de um particular qualquer: um Silva, um Guimarães, ou um Vianna, que
+apeteceu palacio, hortas, e parque para a sua familia. Desde logo, trancados os
+portões a poetas, a amantes, a meditativos, dispersos os livros e os quadros, o
+espirito burguez começou por dentro a desfigurar tudo, a compartir, a
+amesquinhar, á sua imagem e similhança. Os Evangelistas, que escreviam tão
+attentos os seus livros havia tantos<span class="pn"><a
+name="pag_96">{96}</a></span> seculos, no estio á sombra das copas, no inverno
+á dos troncos, foram talvez dormir para algum recanto. O arvoredo, que só
+produzia meditações, produziu taboado ou carvão, e deixou livre a terra para
+crear mais algum moio de milho; o Maio levou tambem d'ali os seus ermitães, os
+rouxinoes, para onde houvesse menos especuladores e mais sombras, menos
+estrondo e mais Natureza, menos mundanidades e mais ninho.</p>
+
+<p>Inuteis por inuteis, excusados por excusados, antes aquelles semimortos, a
+quem acabámos de matar, do que estes taes vivos; e antes mil vezes que todos
+elles, a nossa ideal republica de talentos e de genios.</p>
+
+<p>¡Dá gosto a quem sabe dizer, como Christo ao Diabo, que o homem não vive só
+de pão, phantasiar o que haviam de dar de si estas novas colmeias, estes mixtos
+de gymnasios de exercitação, e Runas de repoiso! ¡os favos que ali se
+espessariam de poemas, de operas, de musicas populares, de romances, de
+historias, de philosophia, de sciencias, de tudo quanto ha de mais saboroso e
+nutritivo para a alma! ¡Como o soldado dos <em>Lusiadas</em> seria feliz, e
+quão mais copioso testamento de versos de oiro houvera deixado, a ter existido
+no seu tempo um tal refugio! Poupava-se ao amigo Jáu o trabalho de mendigar
+para elle, e á velha Barbara o vexame de lhe esmolar da sua pobreza</p>
+
+<p>¡E de Camões para cá, quantos até hoje, da sua familia poetica, que morreram
+á nascença ou se extraviaram e perderam, não estariam agora por cima das nossas
+cabeças a resplandecer!</p>
+
+<p>¡A terra e o ar a criarem-nos sempre n'esta região de benção, e nós sempre
+n'esta plaga de maldição a desperdiçarmos! Só tres seculos depois de mortos
+advertimos em que ainda não morreram, e nos lembramos de lhes ir buscar uma
+pedra para monumento. A honra aos ossos, essa que espere mais dois seculos; não
+tem pressa; agora descança-se.</p>
+
+<p>¡Pobre Camões! se a tua Santa Cruz, esse torrão inspirativo, onde tu mesmo
+havias poetado tambem nos dias da tua mocidade, fosse já então isto que lhe eu
+cubiçava nos meus entresonhos á beira do Lago dos Cedros, e te hospedasse com
+orgulho nas suas sombras, abastado, seguro, escutado, e applaudido<span
+class="pn"><a name="pag_97">{97}</a></span> de outros cysnes, não saberias ter
+suspirado no teu ultimo canto aquelle triste verso</p>
+
+<blockquote>
+ <em>o gôsto de escrever que vou perdendo;</em> </blockquote>
+
+<p class="ni">nem aquella estancia, que ainda nos faz córar por nossos
+bisavós:</p>
+
+<blockquote>
+ Vão os annos descendo, e já do estio<br>
+ há pouco que passar até o outono;<br>
+ a fortuna me faz o engenho frio,<br>
+ do qual já me não jacto, nem me abono;<br>
+ os desgostos me vão levando ao rio<br>
+ do negro esquecimento, e eterno sono;<br>
+ mas tu me dá que cumpra, ó grão Rainha<br>
+ das Musas, co'o que quero á Nação minha.</blockquote>
+
+<p>O que tu pedias á Rainha fabulosa das Musas, haver-t'o-hia liberalisado, sem
+rogos, a esclarecida previdencia da Nação, então devéras tua, e de todos os
+que, como tu, se desvelam pela engrandecer.</p>
+
+<h2><a name="SECTION002370000000000000000">XXXVII</a></h2>
+
+<p>Assaz e de sobra tenho sonhado; levantemo-nos, que são horas de nos irmos
+chegando ao fim da nossa jornada.</p>
+
+<p>Além de Santa Cruz, outros muitos sitios, onde o acaso me levou pelos
+arredores de Coimbra, e mais longe, vieram entretecer na tela do meu permanente
+affecto os bordados das suas peculiares inspirações.</p>
+
+<p>As <em>Ruinas do Mosteiro</em>, por exemplo, nasceram da contemplação
+melancolica dos restos do convento de Santa Clara, á beira do Mondego<a
+name="tex2html4" href="#foot532"><sup>[4]</sup></a>, e de uma visita de
+passagem aos destroços de um cenobio de monjas, não sei já de que Ordem, em
+Moimenta da Beira.</p>
+
+<p>As <em>Duas Palmeiras</em>, colhi-as n'uma excursão á magnifica matta do
+Bussaco.<span class="pn"><a name="pag_98">{98}</a></span></p>
+
+<p>A <em>Rega dos pomares</em>, deu-m'a ao descahir de um dia de verão a quinta
+suburbana das Setes Fontes.</p>
+
+<p>A <em>Noite do estio</em>, passou-se me tal em realidade na quinta de Santa
+Margarida, n'um cedral que lá havia n'esse tempo, e já não ha, bem ao rés do
+Mondego. Era a noite (¡se podiam esquecer coisas d'estas!) era a classica noite
+da romaria annual do Senhor da Serra, quando bandos de peregrinos e peregrinas
+de longe, de muito longe, trajados de gala á moda de suas terras, enramados de
+verde, seguindo as violas, e alternando nas cantigas a devoção e os amores,
+veem pernoitar na cidade, pelas varzeas, pela ponte, pelas quintas, para
+seguirem juntos para a serra em começando o primeiro desmaiar de estrella na
+antemanhan.</p>
+
+<p>Até a <em>Feiticeira</em> (¡quem o crêra! crel-o-hão agora, porque de
+vergonhas ficticias ninguem se jacta) a <em>Feiticeira</em> mesma teve, sob os
+enfeitos ou disfarces da poesia, o seu fundo de realidade. Morava a boa da
+velha n'um casebre escuro da rua da Figueirinha; tinha fama, n'esse tempo, de
+ser uma das sibyllas que melhor atinavam com os futuros, e com mais certeira
+mão pescavam o perdido nos abysmos do passado. Rira-me eu sempre de gente
+d'esse lote, e espanto-me hoje de quem se não ri d'ella; mas poeta, criado com
+os supersticiosos Romanos, amante e com tão poucas certezas fixas a que me
+apegar, disse um dia entre mim:</p>
+
+<blockquote>
+ <em>................... quid tentasse nocebit?</em></blockquote>
+
+<p class="ni">e dirigi-me para a nova Cumas, como podéra ter ido á tôa para
+outro qualquer passeio. Colhi prognosticos ruins; não lhes dei fé, mas sahi
+triste. O tempo (bem haja elle) os desmentiu de todo o ponto.</p>
+
+<h2><a name="SECTION002380000000000000000">XXXVIII</a></h2>
+
+<p>Abraçára meu irmão, por muito livre e muito reflectida escolha sua, o estado
+ecclesiastico. Pelos meus gostos imaginais os seus; o parochiar nos campos, bem
+vedes se lhe não seria incentivo de ambições.</p>
+
+<p>Não ha viver mais poetico para um espirito amante do remanso e do estudo, e
+avido de bemquerenças,<span class="pn"><a name="pag_99">{99}</a></span> nem
+mais talhado para dar largas a uma actividade bemfazeja; diziam-lhe que era
+enterrar o seu talento e saber; respondia que antes era pôl-os, se porventura
+os possuia, onde, embora entre humildes, melhor poderiam resplandecer; e que,
+assim como uma egreja entre mattos e casaes era mais egreja, que cercada de
+ruas e tráfego, tambem a eloquencia podia ser impunemente mais viva, mais
+caudalosa, mais remontada e mais pathetica, e sobre mais formosa mais efficaz,
+e mais eloquencia em todo o caso, entre os singelos filhos dos campos, do que
+entre os zombeteiros moradores das cidades.</p>
+
+<p>A todas estas razões lhe acrescia outra, que elle não declarava, mas que eu
+bem sabia ser-lhe a principal: n'um presbyterio rustico, se o conseguisse, se
+nos devolveriam em commum dias, á feição d'aquelles que a leitura dos nossos
+poetas nos havia costumado a cubiçar.</p>
+
+<p>Cumpriram-se-lhe os votos. A senhora Infanta Regente D. Isabel Maria o
+proveu no Priorado de S. Mamede da Castanheira do Vouga.</p>
+
+<h2><a name="SECTION002390000000000000000">XXXIX</a></h2>
+
+<p>A 23 de Outubro de 1826 entravamos, com o alvoroço da novidade, e cheios de
+vagos projectos não pequenos, pela alpestre região ás abas da serra do
+Caramulo.</p>
+
+<p>¡Nada mais avêsso ás amenidades que nos ficavam em Coimbra! ¡solo magro,
+ondado, mattagoso, ermo, roto de quebradas e algares, selvoso por intervallos,
+salpicado a longe e longe de alguma escassa póvoa recoberta de loisas ou de
+feno, e retalhado de rios e ribeiros profundos e pedregosos! ¡No descampado um
+passal, antiga quinta das Limeiras dos Condes da Feira, que ali se iam pelos
+verões montear javardos! ¡Ao centro do passal, e á beira da via publica, o
+templo de S. Mamede com seu adro arrelvado cingido de cerejeiras, platanos e
+nogueiras! ¡Por detraz do templo, emboscada, a residencia parochial! ¡Por
+detraz d'ella despenhadeiros até um rio, que o sol não avista em cada dia por
+mais de uma hora!</p>
+
+<p>Repicavam os sinos dando as boas vindas ao novo Pastor.<span class="pn"><a
+name="pag_100">{100}</a></span></p>
+
+<p>&mdash;«¿Onde está a freguezia?» perguntavamos nós maravilhados:</p>
+
+<p> </p>
+
+<p><em>¿Qui teneant (nam inculta videt) hominesne, feræne?</em></p>
+
+<p> </p>
+
+<p>&mdash;«Dispersa, escondida pelos oiteiros, a uma parte e a outra, distancias
+muito largas.» O unico visinho proximo da egreja e do presbyterio era, lá para
+a orla do passal, S. Sebastião na capellinha branca, como que posto de guarda á
+sua profusa e rumorosa matta de sobreiros.</p>
+
+<p>Solidão silvestre mais caracterisada, não quero que a haja. A poesia e as
+festas da serra (que nada ha tão desamparado que não tenha suas festas e
+poesia) só depois e com o tempo é que tinham de nos vir apparecendo.</p>
+
+<p>Entrança tão desabrida infundiu-me tristeza; e o alvoroço em que o movimento
+e variedade da jornada nos trouxera, breve me degenerou em esmorecimento. ¡Se
+me vinham tão frescas e presentes as memorias, não só da cidade do Mondego,
+senão tambem da minha Lisboa natal, d'onde tão poucas semanas havia que eu
+sahira! ¡Vermo-nos agora de improviso sequestrados de todo o trato humano, em
+paragem na qual não havia porquê nem para quê numerar as horas, e onde a
+carranca dos sitios tinha um cunho tão profundo de immutabilidade, que o
+espirito se confrangia, e se gelava o coração!</p>
+
+<p>Pela primeira vez ali o namorado da Natureza se amuou, e teve com ella os
+seus arrufos.</p>
+
+<p>Se o permittis, ouvir-lhe-heis versos em que procurou desabafar:</p>
+
+<blockquote>
+                 A <small>PRIMEIRA NOITE NA SERRA</small><br>
+ <br>
+         <em>.................ibi hæc incondita solus</em><br>
+         <em>Montibus et silvis studio jactabat inani.</em><br>
+ <br>
+ ¿Vélo? ¿Sonho? ¿Deliro?! Em solitario monte,<br>
+ que se espanta de ver-me, e cuja austéra fronte<br>
+ nada avistou jamais no amplissimo horizonte<br>
+ do mundo a tumultuar, de cidades a rir...<br>
+         n'este ermo ignaro, frio? mudo...<br>
+ aqui... (¿deliro? ¿ou sonho?) aqui meu lar, meu tudo,<br>
+         ¡o meu presente e o meu porvir!<span class="pn"><a name="pag_101"
+ id="pag_101">{101}</a></span><br>
+         Genio invisivel da montanha,<br>
+         de astros, de sol, o ceo te banha;<br>
+         o mar de longe te acompanha<br>
+         no livre cantico sem fim.<br>
+ Escada de Jacob da terra ao firmamento,<br>
+         a mansão tua é monumento<br>
+ da potencia, do amor, das glorias d'Eloïm.<br>
+  <br>
+ Emquanto, em derredor do solio teu sublime,<br>
+ a baixa terra vil que a instavel sorte opprime,<br>
+ se volve, se transforma, e sua angustia exprime<br>
+ n'um continuo anhelar, n'um confuso clamor,<br>
+         a variedades sobranceiro<br>
+ mantens-te qual surgiste, e do cahos primeiro,<br>
+         e do diluvio assolador.<br>
+  <br>
+         Silencio e paz comtigo habita;<br>
+         o ermo é como o eremita;<br>
+         loucas vaidades não cogita;<br>
+         ama o seu rustico trajar;<br>
+ em apparente inercia ama que ferva occulto<br>
+         de seus affectos o tumulto,<br>
+ seus extasis, seus ais, seus gostos, seu orar.<br>
+  <br>
+ Sim, Genio da montanha, Archanjo de poesia:<br>
+ eu creio em ti; eu creio em que alma ingenua, pia,<br>
+ póde ouvir de tua harpa a casta melodia,<br>
+ e abrazar-se de amor e endoidecer por ti;<br>
+         sim; mas eu, frivolo, profano,<br>
+ á solidão extranho, affeito ao mundo insano,<br>
+         ¿que hei de esperar? ¿que tenho aqui?<br>
+  <br>
+         ¿Toda a minh'alma se entristece,<br>
+         e se confrange, e se ennoitece,<br>
+         ao ver que a sorte lhe destece<br>
+         de um sopro os aureos sonhos seus.<br>
+ Sonhava applausos, gloria... ¡em desterro desperto!<br>
+         sonhava mundo... ¡acho um deserto!<br>
+ sonhava inda illusões... ¡e escuto-lhes o adeus!<br>
+  <br>
+ Náufrago, perco a lyra em meio da viagem.<br>
+ ¡Desço vivo ao sepulcro! ¡Em ti, fatal paragem,<br>
+ quem me resurgirá! Dos montes a linguagem...<br>
+ oiço... escuto... medito... e em vão quero entender;<br>
+         é como uns sons d'ignota fala;<span class="pn"><a name="pag_102"
+ id="pag_102">{102}</a></span><br>
+ qual ás penhas o mar, me inunda e me resvala,<br>
+         sem me abalar, nem me embeber.<br>
+  <br>
+         ¡Oh! ¿á minh'alma taciturna<br>
+         que importa, ó montanha soturna,<br>
+         que de perfumes sejas urna<br>
+         da terra erguida sobre o altar?<br>
+ ¿que o ceo te ria azul, mais amplo e mais de perto,<br>
+         que o sol doirado, ao teu deserto<br>
+ mais cedo suba, e á tarde o desça com pesar?<br>
+  <br>
+ Vir mais tardia a noite, a aurora vir mais cedo,<br>
+ ¿que me aproveita? Inerte entre o immovel fraguedo,<br>
+ só ouvindo os tufões e os corvos no arvoredo,<br>
+ bramirei:&mdash;«¡Cresce o tempo! ¡oh! ¡supplicio cruel!<br>
+         ¡são mais pesares, mais saudades,<br>
+ mais estro a arder em vão, mais visões de cidades,<br>
+         mais tentações a dar-me fel!...»&mdash;<br>
+  <br>
+         ¡Ai! ¡mundo! ¡ai! ¡eccos seductores!<br>
+         ¡Tanto vate a ceifar louvores!...<br>
+         ¡Tanto moço a colher amores!...<br>
+         ¡Tantos loireiros e rosaes...<br>
+ E eu n'esta solidão a torcer-me arraigado,<br>
+         qual roble que geme indignado,<br>
+ vendo ao longe no Oceano os lenhos triumphaes!<br>
+  <br>
+ Assim ruge, baldão de vingativo nume,<br>
+ esse que a argilla outr'ora encheu de ethereo lume;<br>
+ assim nos gelos sua, agrilhoado ao cume<br>
+ do caucáseo alcantil, seu cadafalso atroz.<br>
+         Só o abutre de eterna fome,<br>
+ que o grande coração algoz sem fim lhe come,<br>
+         responde em ais á sua voz.<br>
+  <br>
+         Fenece o dia. ¡Hora jocunda,<br>
+         que eu tanto amava! ¡hora fecunda<br>
+         dos cantos meus! ¿porque me inunda<br>
+         nova amargura o coração?<br>
+ ¿Sino crepuscular, tôas funéreo dobre?<br>
+         a serra em luto se me encobre;<br>
+ a nocturna mudez duplica a solidão.<br>
+  <br>
+ Nenhuma luz scintilla; humana voz não sôa.<br>
+ De estrellas a accender-se o Empyrio se povôa;<span class="pn"><a
+ name="pag_103" id="pag_103">{103}</a></span><br>
+ tal a fada Coimbra, a senhoril Lisboa,<br>
+ nest'hora a quem as olha, entram no escuro a abrir<br>
+         de luzeiros um labyrinto.<br>
+ ¡Ceos! ¡Não oiço eu troar... seus coches!... O que sinto<br>
+         é vento em selvas a rugir.<br>
+  <br>
+         Calae, fugi, ventos agrestes;<br>
+         sumi-vos, lampadas celestes;<br>
+         n'um seio a delirios já prestes<br>
+         não susciteis mais tentações.<br>
+ Ou antes... aturdi-me, Euros bravos; ou antes...<br>
+         vós, astros, cifras de diamantes,<br>
+ O arcano me aclarae lá d'essas regiões.<br>
+  <br>
+ ¡Oh! se á minha razão, contradictoria, altiva,<br>
+ que ás trevas sente horror, e á clara Fé se esquiva,<br>
+ de vós, faroes do Geo, baixasse a crença viva,<br>
+ que aos moradores do ermo inspira a vossa luz!...<br>
+         ¡se me volvesseis as ditosas<br>
+ esp'ranças que hei perdido, alvas, ethereas rosas,<br>
+         com que se enfeita e esconde a Cruz!...<br>
+  <br>
+         Tornar-se-me-hiam de improviso<br>
+         a solidão, em paraizo;<br>
+         a magua, em perenne sorriso;<br>
+         em alto cantico, a mudez;<br>
+ a mallograda lyra, o não colhido loiro,<br>
+         em harpa augusta, em palmas d'oiro;<br>
+ e o monte, solio então, veria o mundo aos pés.<br>
+  <br>
+ Delirios sempre vãos, fugi d'um peito enfermo;<br>
+ tu, só tu, negra morte, has-de ao meu mal pôr termo;<br>
+ ermo para ambições, e inferno, e não ermo;<br>
+ para a humilde piedade é que elle espelha o Ceo.<br>
+         Gentis phantasmas de cidades,<br>
+ vinde, escondei-me o ermo em vossas claridades,<br>
+         como um esquife em aureo veo.<br>
+  <br>
+         ¡Vinde, cercae-me, endoidecei-me,<br>
+         (embora em saudades me eu queime)!<br>
+         O somno, as vigilias enchei-me<br>
+         da vossa esplendida vizão.<br>
+ ¿Val o riso choroso as festas da loucura?<br>
+         vinde, guiae-me á sepultura,<br>
+ crente no amor, na gloria, e rindo á solidão.<span class="pn"><a
+ name="pag_104" id="pag_104">{104}</a></span><br>
+  <br>
+ ¡Eu blasphemo, eu desvairo! Aos encontrados votos,<br>
+ nem ecco respondeu n'estes covões ignotos.<br>
+ Não, cumes glaciaes, tão outros, tão remotos<br>
+ dos sitios que eu amava, e em que esperei morrer;<br>
+         não, no silvestre seio vosso,<br>
+ nem de amenas ficções apascentar-me posso,<br>
+         nem menos as posso esquecer.<br>
+  <br>
+         ¡Valor! ¡valor! ¿Quem do futuro<br>
+         sondou jamais o abysmo escuro?<br>
+         ¡Apenas chego e já murmuro!<br>
+         ¿O de que tremo acaso sei?<br>
+ Esperemos: talvez que inglorios, mas doirados,<br>
+         aqui me aguardem, recatados,<br>
+ dias de estro e de paz, quaes nunca disfructei.<br>
+  <br>
+ Se além, no presbyterio, humillima choupana,<br>
+ (Vaticano, e Queluz da pobre grei serrana)<br>
+ mais que fraterno amor sollicito se afana<br>
+ em me afofar o ninho, a vida em me inflorar;<br>
+         se n'um retiro verde e mudo,<br>
+ por elle tenho o leito, a mesa, o doce estudo,<br>
+         sombras no estio, o inverno ao lar;<br>
+  <br>
+         se a solidão que me apavora,<br>
+         sómente o fôr vista de fóra;<br>
+         se em seus recôncavos demora<br>
+         gente feliz, povo de irmãos;<br>
+ se do antigo viver, das crenças de outra edade,<br>
+         vestigios guarda a soledade;<br>
+ se poesia se vive entre estes aldeãos;<br>
+  <br>
+ se a alegria, serena, isenta de pesares,<br>
+ como a fresca saude, habita os puros ares;<br>
+ se em toda a parte ha Deus, em ceos, em terra, e mares,<br>
+ se Deus em toda a parte a Natureza ri...<br>
+         coração meu, não desanimes,<br>
+ gozos que não prevês, e cantos mais sublimes<br>
+         encontrarás talvez aqui.<br>
+  <br>
+         ¡Ah! sendo assim, que importa a fama!<br>
+         Tambem philomela derrama<br>
+         sua harmonia ás selvas que ama<br>
+         longe de ouvintes e do sol.<br>
+ Cantarei. ¿Meu cantar mais ambições teria<span class="pn"><a name="pag_105"
+ id="pag_105">{105}</a></span><br>
+         que a viva, a lustrosa poesia<br>
+ de perolas que a flux borbóta o rouxinol?</blockquote>
+
+<p>Sete annos se nos gastaram por ali, menos estranhos em verdade, menos
+difficeis e arrastados, do que o eu temêra, ao trocar, tão a subitas, cidades e
+amenidades por brenhas alpestres, tão desconversaveis á primeira vista. Tivemos
+tempo de sobra para nos irmos aclimando e afazendo, e haurindo poesia mesmo dos
+penedos, e estillas de mel mesmo dos urzaes. Mas tudo isso pertence a outro
+livro, onde algum dia folgarei de hospedar os meus leitores; chama-se por
+signal <em>O Presbyterio da Montanha</em>.</p>
+
+<h2><a name="SECTION002400000000000000000">XL</a></h2>
+
+<p>Tem a solidão isto de commum com o silencio e a escuridade: espanta e aturde
+a quem n'ella cái; mas logo que o ouvido, desadormentado dos sons fortes,
+aprende a conversar com a mudez; tanto que os olhos, desoffuscados dos luzeiros
+intensos, se exercitam em caçar espectros de raios, phosphorescencias
+indecisas, que são como que os infusorios das trevas, descerrou-se o negrume em
+brilhantismo; a calada aviventou-se de dialogos; a solidão, que parecia o nada,
+é o theatro com o seu drama; é um mundo novo com um systema completo de
+existencias imprevistas e apropriadas.</p>
+
+<p>¡Que admira! A solidão medita, e a meditação cria.</p>
+
+<p>Os sentidos pastam só no que lhes offerecem a Natureza, a fortuna, o acaso;
+a divindade interior, a alma, tem commercios ineffaveis com o intimo e
+ignorado. S. João, entre os nevoeiros de Pathmos, divisa uma Jerusalem celeste;
+nas cogitações de Socrates, apparece o Omnipotente: nos extasis de Platão,
+reflexos da Trindade; nos calculos taciturnos de Galileu, firma-se o sol,
+volteiam os planetas; Colombo faz surgir do fundo dos mares a America;
+Leverrier, mais globos no espaço; Fulton, o hypogripho, o pégaso do vapor,
+magia, poesia, potencia escrava do homem, e dominadora, primeiro dos oceanos,
+depois dos continentes, e amanhan talvez dos ares; a solidão cismadora, dá a
+Eneida a Virgilio; mostra a Linneu<span class="pn"><a
+name="pag_106">{106}</a></span> os amores e o somno das plantas; a Dante, o
+inferno; a Fourier, o paraizo terrestre; a Newton e a Laplace, o codigo dos
+astros; a Daguerre, os talentos artisticos do sol; ao Gama, o caminho do
+Oriente; ao soldado Camões, o da immortalidade; põe na mão de Guttemberg a
+chave do cofre das sciencias; na de Vicente de Paulo, a da caridade; na de Say,
+a da riqueza publica; na de Pestalozi e Froebel, a da escola séria e
+fecunda.</p>
+
+<p>Assim como na associação está a potencia do effectuar, está na solidão a
+potencia ao descobrir, e a ideia germen do facto. Na solidão, a meditação; a
+acção, na sociedade. O progresso e a vida do mundo dependem da cooperação
+d'estes dois elementos antagonistas, como da attracção e repulsão a marcha das
+espheras; e tão fanatico é o fanatico do ermo, Brahmane, Esseno, ou Monje, que
+cifra tudo no espirito, como o fanatico da actividade material, que tudo cifra
+na materia. Este ultimo é elemento visivel e palpavel; aquelle, elemento
+imponderavel dos destinos humanos; e tão imponderavel e subtil, que muitos lhe
+contestam de boa fé a existencia, os influxos, a importancia.</p>
+
+<p>Archimedes, a sós com a Natureza e com o seu genio, descobre os meios de
+destruir e incendiar a frota romana. Absorto em suas reflexões criadoras, no
+seu gabinete, como n'um antro, não sente o estrondo da cidade, já senhoreada
+dos inimigos; não acorda á voz do soldado de Marcello, que, de espada em punho,
+lhe ordena que o siga; sem o sentir é degolado. Cai a grande cabeça, irman
+entre irmans, no meio das espheras celestes que está architectando. Só de tão
+extraordinaria concentração podiam brotar os seus tão extraordinarios inventos
+e descobrimentos.</p>
+
+<p>Lavoisier, outro dos martyrisados pelo materialismo descrente e brutal,
+depois de haver testado ao mundo a mais opulenta herança scientifica,
+condemnado ingrata e cegamente á guilhotina, ¿que é o que pede aos verdugos
+revolucionarios seus juizes? uma dilação de quinze dias. ¡Só uma dilação! ¡só
+de quinze dias! ¿para quê? para concluir trabalhos uteis á humanidade, que
+n'este momento o desconhece; rematados elles, já não terá pena de morrer.
+Recusam-lh'a; então caminha sereno a depôr no cadafalso<span class="pn"><a
+name="pag_107">{107}</a></span> uma cabeça maior talvez que a de Archimedes, e
+ainda na vespera coroada de loiros pelo Lyceu.</p>
+
+<p>Tanto a actividade fecundante, recolhida por instincto para os penetraes
+mais sagrados do animo, d'onde se conversa em extasis com Deus e com a
+Natureza, com e Pae Omnipotente e com a Filha Formosissima, nossa irman, fica
+inaccessivel aos maiores cataclysmos externos, ás catastrophes das Syracusas,
+ao cahos, providencial porém medonho, de uma revolução franceza.</p>
+
+<p>O homem que nasce pertencente á escassa familia d'este naturalista pae da
+Chimica, e d'aquelle geómetra pae da Mechanica, mesmo com os braços cruzados
+sobre o peito, mesmo com os olhos fechados, mesmo dormindo e sonhando, está
+servindo como operario; mas abaixo d'elle ha ainda, não menos veneraveis, os
+prestigiosos scismadores do mundo da Arte, mundo não menor, nem talvez, em
+ultima analyse, menos util que o da Sciencia.</p>
+
+<p>André Chénier, especie de Lavoisier da Poesia, convocado tambem para o
+festim da morte, não é dos prazeres ephemeros da existencia que leva
+saudades;&mdash;bate apaixonadamente raivoso na fronte, porque sente se lhe estava
+ali dentro formando, como em cerebro olympico, uma nova Musa gentilissima.
+¿Quem lh'a revelára? A meditação solitaria, que sabe tudo, e tudo prophetisa.</p>
+
+<p>¡Bonissima solidão! Tu és para a sociedade o que as tuas montanhas são para
+os valles: nas tuas entranhas se filtram, dos teus reconcavos rebentam, os
+genios possantes e profundos que vão derramar por longe a fertilidade. Mas tu
+não és só mãe ás torrentes caudaes; uma fontinha entre lapas, desconhecida, não
+se goza menos do teu favor. Sobre o pouco liberalisas dons, como sobre o muito;
+próvida para o immenso, próvida para o limitado. ¡Solidão, Egeria das almas
+eleitas! ¡solidão, buscada por Christo, abraçada por Jocelyn, adorada por
+Petrarcha, explorada em tuas minas de oiro por Zimmermann, inspiradora de
+Volney, de Rousseau, do Infante de Sagres, de todos os videntes, de todos os
+descobridores, de todos os inventores, de todos os Baptistas! ¡Solidão, ninho
+das rolas como das aguias, perdôa, se eu não sabia ainda apreciar-te.</p>
+
+<p>Só agora, depois de arrancado d'ella ha tantos annos<span class="pn"><a
+name="pag_108">{108}</a></span> que já a podéra ter esquecido, só agora é que
+decifro (se porventura não é miragem do amor proprio), que a seriedade austera
+e o sorrir melancolico da montanha vieram tão de proposito entremear-se na
+minha vida poetica e amoravel, como a primavera do Paço do Lumiar e as do
+Mondego. </p>
+
+<h2><a name="SECTION002410000000000000000">XLI</a></h2>
+
+<p>Os meus sete annos da serra, só de longe a longe interrompidos por algumas
+breves excursões a Coimbra, e uma a Lisboa, contiveram forçados e sobejos ocios
+para eu pensar em alguma coisa mais duradoira e menos egoista que as rosas e os
+amores; direi melhor:&mdash;iniciaram-me um tanto nos segredos de outra esphera
+menos baixa, na qual ha flores tambem, mas que não murcham; ha tambem ternuras,
+mas que abraçam o genero humano.</p>
+
+<p>O presbyterio, com a nossa bibliotheca semi-pagan, homiziava-se á sombra do
+templo do pastorinho S. Mamede. O campanario só chamava para a oração e para
+festas um povo que se não via, e que aos eccos d'aquelles repiques parecia
+rebentar da terra. Relogio, não o tinha; contentava-se de pregoar a saudação
+angelica nos dois crepusculos e ao meio dia. As horas, que são do tempo,
+desdenhava-as como alheias ao pensamento da immortalidade. O silencio era
+profundo e geral; seria sem quebra, se o não interrompessem as musicas da
+Natureza no ermo: os passarinhos por fóra das duas portas abertas da egreja, as
+cigarras nas oliveiras do passal regaladas no seu banho de sol, as rolas e os
+cucos no sobreiral de S. Sebastião, as aves domesticas no nosso pateo espaçoso,
+os grillos pelos silvados, os álertas dos gallos, os uivos dos lobos, os pios
+dos mochos pelas noites, o frémito do vento pelos pincaros do pomar,
+enclausurado e protegido com o tugurio no recinto de muros altos, e ás vezes
+tambem nos temporaes, pela montanha de heras de que se toucava entre platanos o
+portão hospitaleiro da vivenda.</p>
+
+<p>N'este intermundio o que passava lá ao longe pelo Reino era quasi tão
+desconhecido como as occupações dos moradores dos outros planetas. Das
+raias<span class="pn"><a name="pag_109">{109}</a></span> da serra a fóra só
+tres nomes nos constavam ao certo, porque nol-os dava a collecta da Missa: de
+um Papa, de um Bispo, de um Rei; os parochianos que não sabiam o latim, nem a
+tanto chegavam, cuido eu; o que lhes não vedava serem muito boa gente, muito
+bons christãos e amigos da Patria, em que lhes constava achar-se encravada a
+sua montanha.</p>
+
+<p>Povos de tão benigna condição, facil era, e gostoso, pastoreál-os. Homens
+tão montesinhos e sáfaros, mas ao mesmo tempo doceis, intelligentes e activos,
+grande obrigação era, além de dever civico, humano, e religioso, arroteál-os
+para um pouco de civilisação, ou para muito, se possivel fosse.</p>
+
+<p>Agras e agerrimas são de si as entreprêzas d'este genero; mas por isso mesmo
+é que alliciam almas generosas.</p>
+
+<p>¡Grande era, e excellente, a alma do mancebo Parocho!</p>
+
+<p>Novas leituras, novos estudos, em razão de seu officio, se houveram de
+enxertar nos nossos anteriores conhecimentos, só poeticos pelo de mais. Pegaram
+ás mil maravilhas; ganharam extraordinaria força em razão da seiva que já
+encontraram prevenida.</p>
+
+<p>Pelas suavidades da Litteratura vai bom caminho e muito direito para a
+Philosophia e para a Moral; por isso não sem razão lhe chamaram estudos
+humanos, ou humanidades. Devorámos com avidez de poetas as eloquencias de
+Bossuet, de Bourdaloue, e de Massillon; as obras dos Santos Padres, e á mistura
+as de quantos escriptores sociaes, civilisadores, iniciadores, e alvitristas
+sinceros, nos occorreram.</p>
+
+<p>Uma vez lançado o espirito por este caminho, não pára; nascem-lhe as cubiças
+umas de outras; ambiciona e parece-lhe que ha-de abarcar infinitos:</p>
+
+<blockquote>
+ <em>Jam modo non possum contentus vivere parvo.</em></blockquote>
+
+<h2><a name="SECTION002420000000000000000">XLII</a></h2>
+
+<p>¡Que poesia deliciosa não ha-de ser a que referve na cabeça e no peito de um
+colonisador humano: Cadmo, Amphião, Dido, Romulo, ou Cabet! ¡Que<span
+class="pn"><a name="pag_110">{110}</a></span> sonhos magnificos não havia
+de sonhar toda essa gente!</p>
+
+<p>¡Pois um Fénelon a planejar Salentos!</p>
+
+<p>¡Pois um Voltaire a fazer homens dos seus serranos do Jurá!</p>
+
+<p>¡Pois um Goldsmith a conviver com o seu vigario de Wakefield!</p>
+
+<p>¡Pois um Daniel de Foë a trabalhar com o seu <em>Robinson Crusoé</em>, e um
+Wyss com o seu ainda mais util <em>Robinson suisso</em>!</p>
+
+<p>¡Pois o <em>Medico da aldeia</em>, o <em>Vigario das Ardennas</em> e o
+<em>Cura campestre</em> de Balzac!</p>
+
+<p>¡Pois Bernardin de Saint Pierre com a sua <em>Arcadia</em> e a sua républica
+de felizes!</p>
+
+<p>¡Pois os Jesuitas domesticando os selvagens do Paraguay!</p>
+
+<p>¡Pois um Henrique IV a scismar com a gallinha na panella de todos os seus
+subditos!</p>
+
+<p>¡Pois Olivier de Serres a transformar com as amoreiras a selvajaria do
+Vivaret em vergel de afortunados!</p>
+
+<p>¡Pois a parochia de Jocelyn!</p>
+
+<p>¡E muito mais e melhor que a parochia de Jocelyn, o Bispado do nosso D.
+Francisco Gomes do Avellar!</p>
+
+<p>Meu irmão sonhou tambem, e eu com elle por conseguinte, na procura da
+felicidade alheia; e parece-me que o nosso affinco perseverado em certos
+projectos competentemente amadurecidos, e de prestimo indubitavel, alguns
+effeitos plausiveis haveria dado de si; porque lá n'aquellas terras ainda hoje
+é grande a autoridade moral e a força persuasiva de um Parocho, sobretudo
+quando sabem e sentem que é bom homem; ser bom homem é em seu conceito a
+primeira das sabedorias.</p>
+
+<p>Entraram-se porém dentro em pouco os tempos a cerrar; cresceram
+desconfianças no futuro; vieram-se avisinhando temporaes, que por derradeiro
+nos arrancaram tambem a nós, depois de dispersas pelos ares as nossas utopias.</p>
+
+<p>Uma d'ellas, que de certo se teria realizado, sem contradicções nem bulha,
+era: que nenhum morador da serra, menino, nem velho, nem adulto, nem lavradora,
+nem ovelheira, deixaria de aprender as primeiras lettras; para o que, lh'as
+iriamos levar ás suas proprias aldeias em cursos nómadas e temporarios,
+concertados<span class="pn"><a name="pag_111">{111}</a></span> com as estações,
+e em harmonia com as lidas agrarias. Instruida a primeira camada, facil era, ou
+facil nos parecia a nós que seria, colhêr de entre ella mestres e mestras que
+pela modica recompensa de alguns punhados de grãos, uns arméos de linho, ou um
+tudo-nada de cobres, continuassem o ensino em suas terras.</p>
+
+<p>¿O saber ler de que serviria, faltando que se lesse, e que valesse a pena de
+ser lido? Tinha-se assentado portanto em escolhermos, resumirmos, traduzirmos,
+simplificarmos, humanarmos, e, se tanto fosse necessario, compôrmos, opusculos
+destinados a darem aos nossos neophytos da religião da luz noções claras e
+exactas das coisas mais importantes da natureza physica, da religião, da moral
+e deveres mutuos; quanto bastasse de historia, e o mais que possivel fosse de
+carta de guia para cada uma das culturas, para cada um dos mistéres, já por ali
+empyricamente costumados, ou dos que se podessem com a boa vontade introduzir.</p>
+
+<p>Uma typographia modesta, de um só prelo, bastava, e com um só compositor,
+que podia até ser um clerigo, para se não distrahirem os trabalhadores,
+facilitaria esta sementeira de industria e civilisação. Os pisões dos bureis,
+as mós dos moinhos, as galgas do azeite, e os fusos dos lagares do vinho, lá
+poderiam extranhar nos primeiros dias, verem levantar-se por entre elles um
+engenho que não deitava nem comida, nem bebida, nem vestido; mas não tardaria
+que descobrissem como tudo isso, e muito mais, dimanava milagrosamente da
+bemdita machina, a mais serviçal amiga de todas as machinas, de todas as artes,
+de todas as sciencias, de todos os melhoramentos, de todos os progressos, de
+todas as alegrias, de todas as verdades, de todas as consolações, de todas as
+glorias, de todos os arroteamentos, de todos os aperfeiçoamentos, de todas as
+conquistas.</p>
+
+<p>A imprensa no ermo, a imprensa na Residencia parochial, especie de cabana
+disfarçada com limeiras e rosas, não podia deixar de ser uma imprensa util,
+séria, e dadivosa; e ¡lembrasse-se ella de o não ser! Gostava eu de ver como se
+avinha para isso com o pastorinho S. Mamede, seu visinho paredes meias, com a
+pia dos baptisados tão limpida, com a matta além tão inoffensiva, com as
+sepulturas aos pés a exhalarem<span class="pn"><a
+name="pag_112">{112}</a></span> paz e bom conselho, com os passarinhos a
+cantarem festa, com o sol franco por cima da cabeça a proclamar: «Vivei e amae:
+vede o mundo que eu vos mostro como é formoso; aproveitae-o, e glorificae ao
+nosso Creador.»</p>
+
+<p>Os livrinhos de tal officina talvez não alongassem vôo até ás cidades
+(flôres de urze e amoras de silva não se levam ao mercado); mas abundariam
+gratuitos, inspirativos, e bemquistos, por todas as casinhas da parochia: por
+baixo dos tectos de palha ou lageas, como por baixo da riqueza das telhas
+rubras de valladío, ou da opulencia fabulosa dos tres ou quatro telhados
+moiriscados.</p>
+
+<p>A estante do Ecclesiastico hospedaria fraternalmente entre os breviarios, o
+<em>Flos Sanctorum</em>, e as folhinhas de reza, estes opusculos do seculo. Os
+paes de familias os depositariam, depois de lidos, para se tornarem muitas
+vezes a reler, na papeleira por baixo do seu oratorio. O pastor os folhearia,
+ruminando elle tambem nos campos do espirito, no meio do rebanho mais bem
+tratado. O operario na sua officina mostraria com satisfação, entre a sua
+ferramenta, estes instrumentos novos, aperfeiçoadores dos artefactos e do
+artifice. As séstas de verão, os serões do inverno, ganhariam encantos com as
+leituras em commum; nos testamentos figurariam como verba, a par com maiores
+haveres, os volumes, que assim se iriam accumulando multiplicados pelos filhos
+e netos pelos tempos fóra.</p>
+
+<p>Depois, os domingos, os dias santos, e os tempos mortos para a lavoira,
+¡quão bem se não empregariam na cosinha, na sala da Residencia, ou na sacristia
+por mais espaçosa, explicando á boa gente, já avida de saber, e que affluiria a
+esses passatempos como ás romarias, o que elles não tivessem podido por si
+mesmos explicar! que para isso ali estava á mão como auxiliar, ao pé do prelo
+uma livraria copiosa, e continuamente acrescentada.</p>
+
+<p>Aos ambiciosos do latim, do francez, da historia, das viagens, das noticias
+do mundo, ou mesmo da poesia, ali se dariam tambem com a melhor vontade
+licções, livros, conselhos.</p>
+
+<p>¡Quem sabe o que em trinta, quarenta ou cincoenta annos, se não crearia por
+ali, onde tão pouco em tantos seculos se adiantára! ¡Que novos e
+prosperrimas<span class="pn"><a name="pag_113">{113}</a></span> culturas pelos
+valles e cabeços escalvados! ¡que fabricas, talvez, servidas por aquelles rios,
+por emquanto ociosos! ¡que augmento nos haveres, na população, na civilidade,
+na convivencia! ¡que festas novas entre estes montanhezes! ¡Quantas á imitação
+d'aquell'outras da Suissa em honra da velhice, da virtude e dos serviços
+prestados á communidade pelos corações bons, pelos espiritos eleitos!</p>
+
+<p>O nosso amor proprio, tanto como a nossa consciencia, aspirava a peito cheio
+virações de Eden, calculando e preparando tantas venturas, e tão faceis de si,
+quando deveras se desejam.</p>
+
+<p>Até já previamos, como consequencia summamente provavel de toda esta
+excitação, que umas terras assim, de que nunca se ouvira soar um unico nome
+distincto para além do seu ultimo tojal, viriam a contribuir como as outras
+para o lustre futuro da Patria, com talentos aproveitados em sciencias, em
+artes, em litteratura, em poesia.</p>
+
+<p>Dilatei-me agora n'isto, porque me pareceu que não fazia mal ficar para ahi
+este pequeno rebate aos curas d'almas, que para a civilisação podem mais e
+muito mais do que se imagina, e do que presumem elles proprios. Assim se
+tratasse de os criar bem, de os instruir muito, de os escolher com escrupulo, e
+distribuil-os com acerto pelas parochias fóra de mão, em que tudo, ou quasi
+tudo, jaz ainda por tentar<a name="tex2html5"
+href="#foot534"><sup>[5]</sup></a>.</p>
+
+<h2><a name="SECTION002430000000000000000">XLIII</a></h2>
+
+<p>Ora pois : estas meditações sociaes, a que só falleceu o tempo indispensavel
+para frutificarem em obras exteriores, que, ainda que não viessem a ser muitas,
+sempre seriam algumas, produziram todavia seu effeito benefico em nós mesmos.
+Tão boa coisa é de si a caridade, que, mesmo não aproveitando para fóra, unge e
+fortalece a alma em que se hospéda.</p>
+
+<p>Aqui está como a brenha contribuiu tambem para me temperar com amores novos
+a indole poetica originaria; d'ali é que me tomaram raizes as temerarias<span
+class="pn"><a name="pag_114">{114}</a></span> resoluções, que muitos annos
+depois se haviam de manifestar, na criação de um Methodo humano de ensino
+elementar, e nos esforços para o diffundir e estabelecer.</p>
+
+<p>Em summa: todas quantas aspirações benevolas eu vim a patentear nos dois
+livrinhos, que ainda hoje amo, <em>Felicidade pela Agricultura</em>, e
+<em>Felicidade pela Instrucção</em>, não foram talvez senão reminiscencias
+d'aquelle prazo da minha vida.</p>
+
+<h2><a name="SECTION002440000000000000000">XLIV</a></h2>
+
+<p>Ora eu, como os leitores sabem, não vim com este escripto representar de
+grande homem, que ninguem o é menos do que eu, nem menos do que eu o podia ser;
+o meu unico intuito foi expôr lisamente e com verdade os factos, de que a mim
+me parece poder-se concluir com verosimilhança: que a fortuna e a natureza
+andaram concordes em sequestrarem da multidão, para o deixarem só e
+exclusivamente poeta e amante, o individuo de quem eu fui herdeiro, e de que
+agora em parte sou biographo desapaixonado; por isso declaro com igual
+sinceridade:&mdash;que a par com estas utopias beneficas e civilisadoras, a que o
+espirito de meu irmão se dava todo, cá no meu nunca deixaram de vicejar os
+outros generos de poesia menos alta e mais egoista, de que a indole e o costume
+me tinham feito necessidade.</p>
+
+<p>A esses annos da serra pertencem pois, como já n'outras partes declarei, as
+traducções das <em>Metamorphoses</em> e dos <em>Amores</em> de Ovidio, muitas
+das bagatellas encorporadas nas <em>Excavações Poeticas</em>, a <em>Noite do
+Castello</em>, e os <em>Ciumes do Bardo</em>, ciumes que, dilo-hei agora de
+passagem, nada tiveram absolutamente que ver com os ideaes amores de que venho
+conversando.</p>
+
+<p>D'esses annos a primeira parte permittia ainda largos horizontes de
+esperanças, que depois se apoucaram e denegriram com as vicissitudes politicas,
+as guerras civis, e as perseguições que lá mesmo nos alcançaram.</p>
+
+<p>Meu irmão, tão devaneador de venturas para extranhos, e que para algumas
+logrou de feito contribuir, claro está que da minha se não descuidaria.<span
+class="pn"><a name="pag_115">{115}</a></span> Assim como elle o era para mim,
+era eu para elle transparente. Ainda que algum de nós pretendesse jamais ter
+para o outro uma sombra de segredo, baldaria todo o seu empenho.</p>
+
+<p>Sabia elle pois, tão bem como eu, e sem eu lh'o dizer, que o meu espirito
+poetico no meio de tantas poesias anciava ainda por outra mais especial, que
+volteava á superficie de todas, como a mariposa que vai e vem de flores para
+flores, e, mostrando-se contente de as possuir, deixa todavia suspeitar que
+ainda não encontrou aquella em cujo seio ha-de cerrar as azas, aninhar-se, e
+permanecer.</p>
+
+<h2><a name="SECTION002450000000000000000">XLV</a></h2>
+
+<p>Uma tarde de verão, que me eu estava acompanhado só de minhas cogitações, no
+que chamavam meu <em>Templo das Musas</em>, veio elle ter comigo, trazendo com
+alegria uma carta recemchegada de Vairão.</p>
+
+<p>Era o meu afamado <em>Templo das Musas</em> uma barraca engenhada de cannas,
+vimes e feno, quadrada, alta que se podia estar em pé, ampla que se cabia
+reclinado ao comprido nos bancos de cortiça que por tres lados lhe guarneciam o
+interior; ao meio de cada uma das tres paredes, uma janella de um só vidro, e
+outra egual na porta, davam entrada ao dia, á lua, ás viraçoes frescas, e aos
+rumores proximos ou longinquos da vasta natureza exterior. Pompeava esta
+solitaria e majestosa fabrica junto a um alto denominado da <em>Pedra
+Branca</em>, fóra do passal, e á beira do sobreiral de S. Sebastião;
+desafrontado posto, donde se descortinavam terras de quatro Bispados, com
+horizontes até onde olhos de aguia podiam ir. Era miradoiro, e era escuta tudo
+junto. ¡Quantas vezes d'ali não captavamos nós, poucos annos depois, o rolar
+dos trovões da artilheria na acção da Ponte do Marnel, e lá muito mais a longe,
+no cerco do Porto! ¡sons lugubres que vinham resaltando de cabeço em cabeço
+encher de enigmas e sustos a nossa descuidosa solidão!</p>
+
+<p>Apezar de tudo, conservo saudades da boa da palhoça. Não havendo guerras
+civis, conversava sim tristezas, mas tristezas todas mansas, e com seus<span
+class="pn"><a name="pag_116">{116}</a></span> furta-côres de deleites e
+alegrias. Estava-se bem ali; e se occorria desejar-se por entre sonhos alguma
+outra coisa, era antes para que ella viesse enfeitar o deserto, do que não para
+se ir procurál-a fóra d'elle.</p>
+
+<p>¡Tempos! ¡tempos! Tornei-me lá vinte annos depois; faz agora oito; mudanças
+até nas brenhas! Existia a mata e a capellinha; existia a Egreja e a
+Residencia; mas do meu <em>Templo das Musas</em>, nem vestigio: os invernos e
+os estios tinham-lhe devorado até o minimo colmo. Onde eu dormia ou scismava
+deleites, dominando do meu castello rosado pela aurora, doirado pelo sol,
+prateado pela lua, espaços infinitos... estavam outra vez as queirozes em
+pacifica posse do seu torrão, a vangloriarem-se talvez, com as abelhas, de
+terem afinal triumphado de quem as desterrára; e as ovelhas, vigesimas
+descendentes de um rebanho que pastava á roda de mim sem me ver, nem ideia vaga
+tinham já de tal edificação; sumia-se-lhe na noite dos tempos.</p>
+
+<p>Antonita, a pastorinha que o guardava, já por ali não era. ¡Que linda voz
+que não tinha, aquella prima donna dos oiteiros! ¡que poesia de anjo que não
+desperdiçava só para a sua roca, e para os carvalhos! que a mim não me via
+ella, ainda que tão de perto me rondava o tugurio, nem eu me denunciava, com
+medo de intimidar o rouxinol; o mais que fazia era entreabrir subtilmente a
+vidracinha da parte onde ella cantava, para lhe estar por ali furtando melodias
+para os meus devaneios.</p>
+
+<p>Perguntei por ella; quando cresceu, cresceram-lhe ambições, deixou o mato e
+as ovelhas; fez-se tecedeira; ao tear, cantava ainda tão alegre e innocente,
+como tinha cantado á sua roca de lan nos descampados; depois, um bello dia,
+convidou-a o seu anjo para ir cantar no Ceo; e desappareceu.</p>
+
+<p>¡De todo aquelle idyllio tão vivo, só eu resto! Guardadora, choça, rebanho,
+passou tudo... Mal ficou este pequeno reflexo mortiço na pagina que estou
+dictando, e que tambem, ella mesma, d'aqui a alguns annos se ha-de apagar.</p>
+
+<p>Leu-se a carta; era um suave queixume pela quebra já mui longa da nossa
+correspondencia; e era em tudo uma confirmação evidente de que Maria não
+deslisava apice da que se manifestára e fôra<span class="pn"><a
+name="pag_117">{117}</a></span> desde todo o principio; e encerrava realmente
+no seu complexo todos os requisitos para a felicidade de um homem, que,
+possuindo paz e amores, já não cançaria o Ceo com grandes votos.</p>
+
+<p>&mdash;«Vamos&mdash;exclamou meu irmão, abraçando-me;&mdash;tenho promovido tantos
+casamentos por estes arredores, e regala-me sempre tanto administrar o setimo
+sacramento, folgasão preambulo dos baptisados, que desejo e mereço ver tambem
+alegrias d'essas na Residencia. Venha a tua solitaria amenisar emfim a nossa
+Thebaida. Havemos de fazer um jardim de proposito para ella por baixo da fonte
+do passal, com bastantes narcisos, que lhe recordem a primeira revelação que te
+ella fez da sua ternura.</p>
+
+<p>«Quando as obrigações do meu ministerio me demorarem por fóra (a sua
+merecida fama de prégador começava a não lhe deixar dia nem hora livre; não
+havia festa grande nos quatro Bispados para que não fosse rogado), quando os
+meus especiaes estudos me privarem de cultivar comtigo a nossa cara Poesia,
+terás uma leitora e secretaria, que te coadjuve, e ao mesmo tempo te exalte a
+inspiração; a sua voz tornar-te-ha a Poesia mais poetica; os versos dictados
+para mão tão delicada, sahir-te-hão mais bem nascidos.</p>
+
+<p>«Podiamos edificar aqui desde já uma casinha aprazivel, um verdadeiro ninho
+de andorinhas para o novo casal; mas possivel é, bem sabes, que não seja esta a
+terra que nos ha-de comer os ossos; e n'esse caso, o havermos lançado aqui
+raizes mais fundas, teria sido tornarmo-nos mais doloroso o arrancamento. Para
+gente sobria e simples, como nós, é de sobra o presbyterio; bastará
+guarnecermol-o de mais roseiras, abrirmos-lhe no meio do pateo o luxo de um
+tanque para espelho, e para pompa erigirmos ao fundo das laranjeiras o elegante
+pombal candido que projectavamos, e de cujas moradoras hade ella ser a
+providencia e a alegria, como de toda a vivenda.</p>
+
+<p>«Em summa; os nossos haveres permittem-nos, sem taxa de temeridade, a
+realisação d'esta encantadora utopia, que talvez nos abra passo á realisação
+das tantas outras que planejâmos! Para obras de beneficencia, de humanidade e
+de civilisação, nunca é de mais uma conselheira, e então de tão alto
+juizo,<span class="pn"><a name="pag_118">{118}</a></span> de coração tão
+amante, e amadurecida pelos livros e pela solidão.»&mdash;</p>
+
+<p>Era musica celestial tudo isto que lhe eu escutava; apertál-o bem apertado
+ao peito, foi toda a minha resposta de assentimento.</p>
+
+<p>Verdade verdade:&mdash;está-me vexando, apesar do que estabeleci no começo
+d'estas confidencias, tão diffuso falar sobre tão apoucado sujeito, que, por
+mais que eu diga, saiba e sinta, não ser eu, sempre hão-de tomar por mim; e
+portanto, dobrada censura: sobre importuno, immodesto. Paciencia. Os mal
+affeiçoados muito ha já que hão-de ter dado a sua curiosidade por satisfeita, e
+cerrado o livro; os outros, que vieram commigo até aqui, são mais soffridos de
+genio, e são amigos; hão-de-me acompanhar já agora com indulgencia até ao fim;
+e se a esses mesmo enfado, fique o restante da narração como soliloquio de um
+saudoso, ou dialogo de memorias tristes entre um vivo e dois finados.</p>
+
+<h2><a name="SECTION002460000000000000000">XLVI</a></h2>
+
+<p>Tinha-me a Real munificencia do Senhor D. João VI, já em 1819, collocado em
+posição de fortuna, para entre poetas, e poetas portuguezes, muito invejavel:
+dera-me a propriedade sem onus de um dos mais pingues officios de Justiça na
+Correição de Coimbra. Com essa renda vitalicia, que ainda hoje durára, se não
+fossem as uteis refórmas introduzidas no fôro depois de 34, podia eu ter
+folgadamente realisado desde todo o principio o meu consorcio com Maria; mas eu
+tinha feito voto anterior de mim para mim, e não queria quebral-o, de deixar
+sempre na casa paterna, integral e incondicionado, o usufruto d'aquelle
+rendimento. Não era generosidade; era simples dever. Tendo pois, como se não
+tivesse, facilmente se imagina ¡como eu ficaria por dentro com este raiar
+subito da Providencia, da Providencia encarnada em amor fraterno! A chave
+d'oiro do meu paraizo tinha-a eu posto d'onde a não podia retomar; meu irmão
+acabava de me entregar outra; e com tal melindre de affecto, como tudo que
+d'elle vinha para mim, que recusar-lh'a eu, fôra magoal-o mais a elle, do que a
+mim proprio.<span class="pn"><a name="pag_119">{119}</a></span></p>
+
+<p>A casinha parecia-me transfigurada em albergue de fadas.</p>
+
+<p>Respondeu-se ali mesmo á carta. Antonita estava cantando uma cantiga de
+amores a vinte passos de distancia; a alegria e a amizade cantava no coração de
+Augusto; no meu, cantavam o alvoroço, o enternecimento, a amizade. Era uma hora
+d'aquellas de que o Céo não empresta mais de uma ás existencias afortunadas.</p>
+
+<p>A carta que eu então dictei para mensageira de tão boa nova, e a que tres
+dias depois se lia mysteriosamente no mesmo logar aos ultimos raios de um sol
+magnifico, existem ainda hoje, mas não pódem ser relidas; doer-me-hiam
+excessivamente; hão-de ser pelo contrario queimadas com todas as outras d'este
+romance intimo e sagrado, logo que eu tenha concluido o presente escripto. Se
+alguem não comprehender por si este melindre, paciencia; eu é que me não atrevo
+a explicar-lh'o.</p>
+
+<p>A elegia <em>Ermitagem da montanha</em> tinha sido poucos dias antes
+phantasiada ali mesmo. Junto ao convento havia tambem serras, como já vos
+disse:</p>
+
+<blockquote>
+ <em>Sola eris, et solos spectabis, Cynthia, montes.</em></blockquote>
+
+<p>Na desesperança, ou, quando menos, incerteza de conseguirmos jámais posse
+real um do outro, ¿não eram bem naturaes aquelles desejos, aquellas visões do
+poeta solitario no meio dos seus bosques, pensando na poetisa solitaria á
+sombra do seu mosteiro? ¿Que amante deixou de sonhar alguma vez que a
+felicidade o aguardava n'uma caverna sonegada aos olhos de todo o mundo?</p>
+
+<p>A mutação maravilhosa que se me acabava de operar nas perspectivas da alma,
+fez rebentar o meu ultimo canto&mdash;<em>A Esperança.</em></p>
+
+<p>¡Ah! ¡a esperança! ¿quem? não sendo amante, ou louco, póde fiar-se nos
+sorrisos de tal phantasma? Os gozos, que tão proximos se me antolhavam, ainda
+vinham longe. ¡Ha tantas illusões d'estas na vida! teem-se os olhos fitos n'uma
+ventura que já se vê e se ouve tão perto, que se figura alcançavel com dois
+passos... e não se repara em que entre ella e nós pode haver duas ribanceiras
+escarpadas, e até de permeio<span class="pn"><a name="pag_120">{120}</a></span>
+um rio sem ponte, profundo, vertiginoso, mortifero!</p>
+
+<h2><a name="SECTION002470000000000000000">XLVII</a></h2>
+
+<p>Em 1828 sahia pela primeira vez á luz, mais por desejos de meu irmao que
+meus, o <em>Amor e Melancolia</em>.</p>
+
+<p>Aos que já então o tomassem por historia poetisada, como agora se vê que
+era, figurou-se de certo, como a mim proprio, que estava ella chegada ao seu
+desenlace ultimo. Era miragem de deserto; o verdadeiro lago para a sêde, jazia
+ainda bem remoto.</p>
+
+<p>Vieram-se carregando cada vez mais as trevas do horizonte politico; ¡os
+receios e os sobresaltos, os perigos mui reaes a crescerem e a amiudarem-se!</p>
+
+<p>O presbyterio queria ser arca de salvação; mas até elle, em tamanha altura,
+fluctuava já, e estremecia sobre o diluvio. Se se mandava fóra ave exploradora,
+voltava atemorisada sem nos trazer folhinha de oliveira. Recerrava-se o
+postigo, e ficava-se inerte á espera de melhores dias. Entretanto os trovões,
+ora mais ora menos longinquos, não despegavam, e os relampagos espreitavam
+ferozes por todas as fendas.</p>
+
+<p>¡Foram tempos bem tristes! Nem o viver benefico de um bom Parocho, nem o
+viver innocente de um poeta, nem o concentrado de ambos n'uns reconcavos
+silvestres só vistos de cima pelo que vê tudo, nos aproveitaram para
+immunidade.</p>
+
+<p>¡Que de refeições interrompidas por uma noticia de denuncia, e de
+encarceração meditada, proxima, infallivel! ¡que de noites mal dormidas, ou
+veladas pelos matos, ou por poisadas alheias! ¡que sumir de livros nos vãos dos
+altares! ¡que enterrar os objectos preciosos! ¡que abrazar papeis! ¡que vigiar
+do alto do campanario! ¡que fugir a subitas do ninho, para regressar a elle
+palpitando, e refugir de novo! ¡e tudo isto por quão longo tempo! até que,
+levantado já quasi o cerco do Porto, atterrados com o ultimo e inevitavel
+perigo de sermos monteados e perdidos, commettemos á desesperação o salvamento
+e, atravessando ainda por entre os cercadores n'uma ante manhan escura e
+chuvosa, lográmos acolher-nos á Cidade eterna.</p>
+
+<p>E se vê, se um passaro assim combatido dos temporaes<span class="pn"><a
+name="pag_121">{121}</a></span> podia lembrar-se de construir e pendurar em
+ramos que todos rangiam e estalavam, cestinha de amores para onde chamasse
+companheira. Não podia ser, por mais temerario, por mais imprevidente que elle
+fosse.</p>
+
+<p>Estes mesmos trabalhos e transes, que então me pareciam encobrir a
+Providencia, como as nuvens encobrem ao sol, pode ser que me viessem mandados
+tambem por ella a trazer-me germes que ainda me faltassem, de poesia
+affectuosa. Isso teem de seu, se me não engano, as perseguições
+revolucionarias: assolam, para fecundar; chovem odios, que em se evaporando
+terão feito desabrolhar bemquerenças. Alma que padeceu, condoe-se:</p>
+
+<blockquote>
+ <em>Non ignara mali...............</em></blockquote>
+
+<p>Só de longe é que isto se conhece bem, e como tudo no mundo é por melhor.
+Agora nem áquella quadra tormentosa quero mal.</p>
+
+<p>Ella tambem, se hei-de dizer toda a verdade, posto que me retardasse
+projectos mui queridos, não me foi tão completamente negra como se poderia
+imaginar pelo que deixo exposto. O animo, pelo menos o dos poetas, pelo menos o
+meu, tem não sei que elasticidade com que resiste ás quedas e ás durezas mais
+asperas dos precipicios: torce-se, e não quebra; cai, e resurge; comprimem-n-o
+adversidades, e logo depois, elle por si mesmo se dilata. Apenas tinha passado
+um sobresalto, um terror, um homizio, ou uma fuga, e os ares se serenavam um
+tanto, voltava a bemdita imprevidencia, e com ella o contentamento, e com elle
+o viver semi-fabuloso com todo o seu cortejo de visões poeticas, accorridas de
+todos os pontos do horizonte, de todos os recantos do coração, de todos os
+esconderijos da memoria, de todas as grutas amenas da vontade, de todas as
+profundezas do discurso; como ao reapparecer do sol depois da trovoada, voltam
+á festa duplex da Natureza os insectos, as aves, os rebanhos, os pastores, o
+viço, a musica, o alvoroço.</p>
+
+<p>¡Que de versos não devi eu a esses luminosos intervallos! Foi n'um d'elles
+que meu irmão e eu plantámos no pateo da Residencia um cedro, que eu mesmo
+trouxera recemnascido da matta do Bussaco, e<span class="pn"><a
+name="pag_122">{122}</a></span> que, ha já annos, cobre com a sua sombra
+balsamica o telhado hervoso da casinha, pradaria das pombas domesticas, e alem
+do telhado boa metade do terreiro.</p>
+
+<p>Oito primaveras se teem devolvido desde que o visitei pela ultima vez.</p>
+
+<p>¡Deve ser hoje a mais fastosa arvore da cercania!</p>
+
+<h2><a name="SECTION002480000000000000000">XLVIII</a></h2>
+
+<p>Sentae-vos em espirito debaixo da sua copa, se vos apraz, e ouvireis o que
+lhe eu cantava ao firmarmol-o tenrinho n'aquella terra benta.</p>
+
+<p>Adverti porém desde já, em que não ides escutar maravilhas de poeta. São
+versos faceis e descuidados, como os eu então fazia para matar o tempo, e
+esquecido de que havia mundo.</p>
+
+<p>Podéra agora tel-os retocado; ¿mas para quê? ¿e que é do valor para estar
+desconcertando por mera vaidade litteraria umas saudades d'estas? Hão-de ir e
+hão-de ficar já agora singelos e montesinhos como nasceram.&mdash;Ouvida a primeira
+duzia d'elles, quem lhe parecer, que deixe os outros.</p>
+
+<blockquote>
+   ¡Ó cedro, ó joven principe dos bosques,<br>
+ eis-te já no teu novo domicilio,<br>
+ eis-te vaidoso em pé, do sól á espera!<br>
+ Gente do presbyterio, afervorae-vos,<br>
+ entrançae danças, coroae-vos todos,<br>
+ cantae-lhe bençãos, tumultuae-lhe em roda.<br>
+  <br>
+   ¡Gloria a Deus! ¡Como o dia vem formoso!<br>
+ Anjos que protejeis a Natureza<br>
+ vossa amavel irman filha do Eterno,<br>
+ que entre vós repartistes as montanhas,<br>
+ o arvoredo das Dryades palreiras,<br>
+ e a urna fresca das occultas Náyades,<br>
+ vinde, adoptae no seu primeiro dia<br>
+ do filho de David a arvore antiga.<br>
+ D'entre os ramosos tufos elevado<br>
+ seu cume se remonte á patria vossa,<br>
+ e aponte os Ceos ao pensamento humilde.<br>
+ Praza o carvalho a Jove; o loiro a Phebo;<br>
+ a vós o cedro; o cedro, inda saudoso<span class="pn"><a
+ name="pag_123">{123}</a></span><br>
+ e altivo do seu Libano, inda cheio<br>
+ das lembranças da Biblia, inda soberbo<br>
+ de hospedar em jardins, palacios, templos,<br>
+ Adonai, o Rei Sabio, o Povo Eleito.<br>
+ Assim glorioso e mistico, o bom cedro,<br>
+ o cedro-rei, viu supplice prostrar-se<br>
+ Israel ora a Deus, ora á fortuna,<br>
+ aos ceos e ao mundo, á eternidade e ao tempo.<br>
+  <br>
+ ¡Oh! ¡venerando! ¡oh! ¡cresce em nossa terra!<br>
+ co'a verdenegra copa não desdenhes<br>
+ acoitar o singelo presbyterio.<br>
+ Premeia o generoso desint'resse<br>
+ do plantador que desce todo á campa.<br>
+ Sagradas são as dividas do affecto;<br>
+ os cuidados que assiduos te protegem,<br>
+ invoca o tempo de os pagar co'as sombras.<br>
+ Dias virão nos teus crescentes dias,<br>
+ em que nobre ante a porta da virtude<br>
+ com ternura e respeito hão-de saudar-te<br>
+ os montanhezes descobrindo a fronte.<br>
+ Lembrarás os antigos patriarchas,<br>
+ que ao-pé da movel tenda no deserto<br>
+ pertenciam aos Ceos pela esperança,<br>
+ e ao patrio mundo pelo amor dos homens.<br>
+ &mdash;Ali&mdash;dirão&mdash;na sésta reclinado<br>
+ o pobre ancião, pastor d'estas aldeias,<br>
+ ao circulo inquieto dos meninos<br>
+ ensina a amar a Deus, a si, aos outros,<br>
+ ás lettras, ao saber, á patria, á gloria;<br>
+ e, abraçando-os risonho á despedida,<br>
+ distribue co'a mão tremula aos melhores<br>
+ em premio doce disputados frutos.&mdash;<br>
+ &mdash;Ali&mdash;dirão tambem&mdash;sentou-se um dia,<br>
+ e gabou a frescura das ramadas,<br>
+ um Bispo antigo e santo; ali tomava<br>
+ o seu café, resando o breviario;<br>
+ meu avô, bem que rustico e indigente,<br>
+ falou-lhe ali, beijou-lhe o annel e ouviu-o.<br>
+ ¡Que apostolo! ¡que amor! ¡que urbanidade!<br>
+ essa arvore o cobriu, ficou sagrada.&mdash;<br>
+  <br>
+   Hospede e amigo do adoptado albergue,<br>
+ firma-te ao solo com raizes promptas;<br>
+ exalça a fronte aerea, alto, gigante;<span class="pn"><a
+ name="pag_124">{124}</a></span><br>
+ abre os cem braços co'os tufões em lucta.<br>
+ Piedoso Briarêu, não temas raio;<br>
+ o raio atrôe as serras, cegue, abraze<br>
+ o altivo topo ás arvores soberbas;<br>
+ tu, não tremas; eu quero no futuro<br>
+ que um novo talisman te adorne e ampare,<br>
+ possante contra furias de elementos,<br>
+ contra o machado algoz, contra demonios:<br>
+  <br>
+   Se dos teus annos na madura força<br>
+ a mão que ora te planta inda for viva,<br>
+ essa mesma, já tremula e inda amiga,<br>
+ inda meiga ao seu cedro, e já caduca,<br>
+ no tronco te abrirá com tardo exforço<br>
+ graciosa capellinha, onde sorria<br>
+ um San-João, o Santo alegre do ermo:<br>
+ trajo de pelles, juvenil frescura,<br>
+ olhos nos Ceos, aos pés cordeiro branco.<br>
+  <br>
+   N'essa noite poetica e devota,<br>
+ em que o prazer, centuplicando aspectos,<br>
+ povoa, anima, encanta o mundo inteiro;<br>
+ agua e terra, ar e ceo, tudo é macio;<br>
+ em que a velhice, a mocidade, a infancia,<br>
+ sympathisam no vago da alegria;<br>
+ em que n'alma insaciavel de delicias<br>
+ se juntam com mistura inexplicavel<br>
+ o saudoso passado, os bens presentes,<br>
+ ao contente futuro ebrio de esp'ranças;<br>
+ em que n'um laço mystico se aggregam<br>
+ da vida e eternidade os pensamentos,<br>
+ gozos, superstições, fraquezas, cultos,<br>
+ como um ramo de rosas e ciprestes<br>
+ na caprichosa mão das feiticeiras;<br>
+ n'essa noite das noites invejada,<br>
+ té dos casaes lá do ultimo horizonte<br>
+ a ti concorrerão por toda a parte<br>
+ dançantes bandos que a viola impéra.<br>
+ Verás girar seus bailes rebatidos<br>
+ em redor das estridulas fogueiras;<br>
+ ouvirás os seus canticos em coro<br>
+ devoto e namorado; a bomba foge,<br>
+ zune fugindo, e solapada estoira;<br>
+ o buscapé no ar caracolando<br>
+ morde n'um, morde n'outro, ameaça a todos,<span class="pn"><a
+ name="pag_125">{125}</a></span><br>
+ dispersa os grupos, gasta-se raivando,<br>
+ e entre os risos rebenta atroando os ares;<br>
+ aqui, circula em vertice perenne<br>
+ a roda leve espadanando incendios,<br>
+ chovendo oiro luzente e estrellas alvas;<br>
+ ali, floreia o fulgido valverde,<br>
+ vulcão sonoro que arremette ás nuvens;<br>
+ vôa, remonta impaciente aos astros<br>
+ o ignívomo foguete estrepitoso.<br>
+ ¡E a musica entretanto! ¡e as doces falas!<br>
+ ¡e os segredos d'amor! ¡e a prece occulta!<br>
+ e essa mão dada a furto, e a furto acceita!<br>
+ ¡e esse olhar falador! ¡e essas virtudes<br>
+ da meia noite em ponto! e a flôr crestada!<br>
+ ¡e as sortes que a fortuna extrai ás vezes,<br>
+ e muitas mais a próvida malicia!<br>
+ ¡e a fonte que amanhece entre descantes,<br>
+ e pasma rindo de se ver c'roada<br>
+ de festões verdes e enlaçadas flores!...<br>
+ ¡Que noite! ¡que prazeres! ¡que triumphos<br>
+ te aguardam no porvir, me estão na mente!<br>
+  <br>
+   Mas se ao neto do Libano silvestre,<br>
+ se á arvore do templo, ao cedro antigo,<br>
+ mais contenta sublime austeridade,<br>
+ religioso é o chão que te sustenta,<br>
+ santa e severa a muda visinhança.<br>
+  <br>
+   D'esse lado, essa relva avelludada<br>
+ foi chão d'egreja outr'ora, e esconde os mortos;<br>
+ onde a oliveira está, surgia a torre;<br>
+ bradava aos eccos dos remotos cumes<br>
+ o sino da oração, lá onde agora<br>
+ está cantando o melro; e pasce a ovelha,<br>
+ balando o seu amor ao filho ausente,<br>
+ onde a moça aldeana ajoelhada<br>
+ em noite do Natal, ante o presepio<br>
+ acalentava em côro o Deus Menino.<br>
+ Nem portas, nem degraus, nem muros restam!<br>
+ ¡Um saxeo altar! ¡por tecto uma parreira!<br>
+ ¡e um San-Jorge musgoso entre silvados!<br>
+ D'aqui, filho do antigo, o novo templo<br>
+ te alveja em face. Em fundo de sepulcros<br>
+ por ossos vãos enredarás raizes.<span class="pn"><a
+ name="pag_126">{126}</a></span> <br>
+  <br>
+   ¡Que vezes para o ceo voarão juntos<br>
+ o perfume do incenso e o teu perfume,<br>
+ o teu sussurro e os canticos da Biblia!<br>
+ Escutarás por baixo do teu cume<br>
+ os mysterios, a supplica chorosa,<br>
+ as lições da moral, do Eterno as glorias,<br>
+ o voto humilde, a gratidão serena,<br>
+ o tom pesado dos funereos Psalmos,<br>
+ a infancia d'entre as aguas renascida,<br>
+ os protestos do amor que acceita e córa;<br>
+ e o mais que o mal previne e o mal espia,<br>
+ gera, vigora o bem e o bem premeia,<br>
+ suavisa as dores, o prazer modera,<br>
+ adoça a vida, aperfeiçoa os homens,<br>
+ e por c'roa da paz a paz promette.<br>
+  <br>
+   Assim, quasi debaixo de teus ramos,<br>
+ juntarás o que a mil faria illustres:<br>
+ a raça que milita, e a que triumpha;<br>
+ os cultos da saudade, e os cultos vivos.<br>
+  <br>
+   Cresce pois outra vez, cem vezes cresce.<br>
+ Alto, em frente do humilde presbyterio,<br>
+ torna-te a sentinella das montanhas.<br>
+  <br>
+   Se o peregrino, attonito, espantado,<br>
+ errar nos cumes alongando os olhos;<br>
+ se vires muito ao longe os passos frouxos,<br>
+ o curvo dorso, o pallido semblante,<br>
+ e as cans sem honra do ancião mendigo;<br>
+ indica-lhes a senda hospitaleira,<br>
+ mostra-lhes em teu lar os seus penates;<br>
+ e dize ao peregrino:&mdash;Eis a poisada;&mdash;<br>
+ e ao mendigo:&mdash;Bom velho, andas perdido;<br>
+ reconhece o teu fumo, a tua porta,<br>
+ teu leito, os teus irmãos, teu pae, teus filhos.&mdash;<br>
+  <br>
+ ¡Oh! ¡que viver, que almo viver te aguarda!<br>
+ beneficencia, paz, respeito, gozos,<br>
+ ¡quantos bens! ¡e esses bens quão longas eras!<br>
+ Mas nós... ¡ah! nossos dias fugitivos<br>
+ seculos são se á rosa se comparam,<br>
+ mas passam como a rosa a par dos cedros.<br>
+ Para ti, de anno em anno a primavera<br>
+ virá com pompa nova e novas galas;<span class="pn"><a
+ name="pag_127">{127}</a></span> <br>
+ para nós, menos flores de anno em anno<br>
+ lhe virão no regaço; menos fogo<br>
+ nos olhos, no sorrir menos ternura.<br>
+ Eu, que outr'ora a cantei, que ardi por ella,<br>
+ para quem toda a alegre Natureza<br>
+ era animada, meiga, inspiradora;<br>
+ que doce delirava entre as violetas,<br>
+ entendia o favonio e a voz das fontes,<br>
+ entrava co'a andorinha em seus prazeres,<br>
+ co'o rouxinol em seus segredos ternos;<br>
+ que do meu estro nas visões formosas<br>
+ arvoredos, oiteiros, grutas, rios,<br>
+ povoava das priscas divindades,<br>
+ e n'um mundo só meu, vivia todo...<br>
+ hoje, ¡quão frouxa pela mente nua<br>
+ sinto raiar a inspiração que imploro!<br>
+ Do genio a seiva, a primavera da alma,<br>
+ langue; raro floresce, a longe, a longe.<br>
+  <br>
+   ¡Como! ¡tão novo ainda, é já forçoso<br>
+ que a grinalda poetica se esfolhe!<br>
+ ¡Lyra que apenas entoou preludios,<br>
+ já desafina, e jazerá sem honra!<br>
+ ¿Serão estes os canticos do cysne?<br>
+  <br>
+   Ó meus delirios, nuncios meus de gloria<br>
+ ¿mentieis vós? ¿ir-se-hiam para sempre<br>
+ lagrimas, illusões, ternura, cantos?!<br>
+ ¡Ah! ¡sentir-se morrer, que acerba morte!<br>
+  <br>
+   E tu tambem, tu morrerás um dia.<br>
+ As raizes cançadas de nutrir-te<br>
+ não pedirão mais succo á larga terra.<br>
+ ¡Adeus, ninhos d'outr'ora! adeus frescura,<br>
+ sombras, sussurro ameno e cheiro alegre!<br>
+ A copa verde que hospedava as nuvens,<br>
+ ludibrio d'auras, arida esvoaça.<br>
+ Mas ao menos feliz impresciencia,<br>
+ don melhor que mil dons, te coube em sorte.<br>
+ Dominas vastamente o ar e a terra,<br>
+ sobes vaidoso aos ceos, á Estyge afundas,<br>
+ e baqueias sonhando eternidades.<br>
+  <br>
+   ¡Ó arvore, alevanta-te! ¡desata<br>
+ em nossos dias tua umbrosa pompa!<span class="pn"><a
+ name="pag_128">{128}</a></span> <br>
+  <br>
+   Emquanto a raça ephemera dos homens<br>
+ vai e vem, faz, desfaz, se eleva, desce,<br>
+ tu, fixa, tu do sabio exemplo inutil,<br>
+ medra pelo descanço; igual hospéda,<br>
+ sorrindo sempre, as estações oppostas;<br>
+ presta-te aos soes e ás luas, que sem conto<br>
+ volverão sobre ti; sê caro asylo<br>
+ ao favonio que em braços te adormeça,<br>
+ e ás aves que em teu seio se aninharem,<br>
+ e soffre ou goza o teu destino immenso.<br>
+  <br>
+   ¡Ai, nunca de teus ares dominando<br>
+ pela terra de Luso oiças ou vejas<br>
+ da civil guerra as armas fratricidas!<br>
+ Inda agora nos eccos d'estes montes<br>
+ os seus trovões sacrilegos retroam.<br>
+ Inda em nossos ouvidos estremecem<br>
+ quadrupedante estrepito, relinchos,<br>
+ retinir d'armas, rufos de tambores,<br>
+ rolar de carros, vozear de chefes,<br>
+ e os gritos do clarim, pregões da morte,<br>
+ ¡Que esposas inda agora estão carpindo!<br>
+ ¡que mães, filhas, e irmans, inda hoje em lucto!<br>
+ Do sangue a côr maldita inda denigre<br>
+ esses campos de horror; e as sepulturas<br>
+ dos sem numero extinctos nos combates,<br>
+ não florirão inda esta primavera.<br>
+ Do raio o fumo a Lusitania assombra.<br>
+  <br>
+   Ó Paz, filha do Ceo, mãe da abundancia,<br>
+ da innocencia e do amor irman e amiga,<br>
+ alma Paz, volve a nós, que assaz é tempo.<br>
+ De opulentos avós mesquinhos netos,<br>
+ já não pedimos bens: aos descendentes<br>
+ do povo infesto a Roma e Rei do mundo,<br>
+ basta um pouco de pão em paz comido.<br>
+ Sobre os antigos loiros desfolhados<br>
+ caiba-lhe ao menos respirar dormindo,<br>
+ ¡Que ideia tão inhospita e gelada!...<br>
+  <br>
+   ¡Aguas! ¡aguas! ¡reguemos o bom cedro!<br>
+ ¡lá se vai por o sol! ¡cá nasce a lua!<br>
+ Ó lua, vem propicia á joven planta;<br>
+ e tu, doirado sol, propicio volta.<span class="pn"><a
+ name="pag_129">{129}</a></span> <br>
+  <br>
+   ¿Quem bate?... ¡parabens! dançae, folguemos?<br>
+ ¡eis o pobre! ¡eil-o! ¡é Deus que a nós o envia!<br>
+ ¡sim! da parte de Deus vem sempre o pobre.<br>
+ Entrou á rega; ¡é fausto o agoiro! ¡é fausto!<br>
+ enchei-lhe a taça, beberemos todos.<br>
+  <br>
+   Conduziram-n-o ao lar; da farta ceia<br>
+ leval-o-hão consolado á foufa cama.<br>
+ Agora, que estou só, que apenas oiço<br>
+ o mui longe cantar das fiandeiras<br>
+ na aldeia d'alem-rio, ¡oh! vem... ¡sentemo-nos<br>
+ ao-pé do que algum dia ha-de abrigar-nos,<br>
+ candida imagem de Maria ausente!<br>
+ segredarás aquella de que és sombra,<br>
+ que para ella está guardada a gloria<br>
+ de casar algum dia uma roseira<br>
+ ao já seguro tronco. ¡Ai, doce emblema<br>
+ da quêda e flórea vida, enlevo de ambos!</blockquote>
+
+<h2><a name="SECTION002490000000000000000">XLIX</a></h2>
+
+<p>Versos a este modo, e até somenos, brotaram por ali muitos nas temporadas
+luminosas, ou menos escuras; e em quasi todos elles brilhava, ou se entrevia, a
+estrellinha polar, para onde apontava o meu coração magnetisado.</p>
+
+<p>¡Podera não! Todo o solitario tem lá sua visão de que se não desapega por
+mais que faça.</p>
+
+<p>O poeta das tristezas não sonhava senão Roma no Ponto Euxino.</p>
+
+<p>S. Jeronymo, na sua cova, batia com a pedra nos peitos, a ver se matava lá
+dentro seductores phantasmas de mulheres.</p>
+
+<p>Eremitas na Thebaida, invocando Anjos do Ceo, eram tentados de demonios
+terrestres formosissimos.</p>
+
+<p>Petrarca, em Valchiusa, tinha Laura morta engrinaldada sobre um altar a
+escutál-o.</p>
+
+<p>Camões na gruta de Macau não estava sem Natercia.</p>
+
+<p>Maria, nos fraguedos do Caramulo, não podia deixar de raiar-me a cada passo,
+como a lua, que, entre fagueira e melancolica, se encobre e descobre de
+continuo ao que transita por moitas e bosques; e, ou elle<span class="pn"><a
+name="pag_130">{130}</a></span> vá, ou pare, ou retroceda, o acompanha sempre,
+e lhe dá a sentir, com enternecido agradecimento, que não vai só.</p>
+
+<p>O mais e o melhor da minha poesia inculta dirigida a ella, não era porém o
+que se escrevia; era sim o que se me ia</p>
+
+<blockquote>
+ <em>de noite em leves sonhos que mentiam,</em><br>
+ <em>de dia em pensamentos que voavam;</em></blockquote>
+
+<p class="ni">lyrica interior, que todos, cuido eu, conhecerão, ou conheceriam
+alguma vez; bafagens que veem direitas do paraizo á alma, e da alma se tornam
+para d'onde vieram, sem deixarem cá em baixo vestigio, mais que um frémito
+voluptuoso no coração, que de fóra se não percebe. Vêem-se manar lagrimas sem
+dôr, errar pelos labios uns sorrisos não alegres, mudar cores o semblante,
+despegar-se dos seios um suspiro, as mãos estenderem-se á procura do que quer
+que seja; vê-se tudo isto, e diz-se:&mdash;É um visionario, ou está sonhando;&mdash;e não
+é senão um poeta, que está lendo em si o mais celestial poema que nunca houve,
+mas que nem elle tornará a abrir, nem outrem jámais adivinhará. </p>
+
+<p>D'esses poemas fiz eu, e perdi, innumeraveis.</p>
+
+<p>Fazia-os ao pendurar ritualmente no crepusculo da tarde de cada sabbado uma
+capella de murtas nos ramos do meu cedro, consagrado a ella, e que me parecia
+tão desejoso de festejál-a como eu proprio; fazia-os deitado nos povaes de
+tijolo de S. Sebastião, ao ramalhar das carvalheiras, pelas séstas; fazia-os
+regando o jardimsinho de narcisos, gradeado de canas, por baixo da fonte do
+passal; fazia-os encostado sosinho a deshoras pela noite velha á janella do meu
+quarto, que deitava para a banda do horizonte, onde devia ficar o d'ella;
+fazia-os ouvindo ler versos apaixonados, que todos no espirito se me traduziam,
+e se combinavam na minha historia, muito mais apaixonada que elles todos;
+fazia-os escutando lá de um oiteiro o sino das Ave-Marias, ao cessarem os
+trabalhos da terra, na hora em que o ceo accende, como lampada para infinitos
+amores, a estrella magnifica de Venus; mas sobre tudo os fazia fechado por
+dentro na minha Villa Viçosa de palha, junto á <em>Pedra Branca</em>, ao abrigo
+das chuvas e frios, do sol e dos<span class="pn"><a
+name="pag_131">{131}</a></span> ventos, de rumores e distracções, livre de
+olhos, de ouvidos e de pensamentos extranhos, só por só com a minha ausente.
+Para ella renovava as flores e a agua na urna de barro sobre a mesa entre os
+sophás de cortiça. Ouvia-a cantar ao som da sua viola franceza; dizia-lhe
+extremos de brandura, que nenhuma linguagem humana traduzira; perdia-me pelos
+mysteriosos labyrinthos da sua sensibilidade, nunca dantes franqueados;
+escutava o meu nome tornado musica pelos seus labios; recostava-a n'um coxim de
+rosmaninho; ajoelhava-lhe aos pés em adoração; voava-lhe aos braços, e anciava
+morrer ali assim, porém com ella, que eu sou o irmão mais novo de Propercio:</p>
+
+<blockquote>
+ <em>Tunc ego, sed tecum, mortuus esse velim.</em></blockquote>
+
+<p>Nada me inspirava tanto como a boa da casinha, tão depressa e tão sem custo
+edificada, que parecera improviso de Sylphides e Sylphos, e na qual se dissera
+terem elles ficado; ¡que assim era prestigiosa!</p>
+
+<p>Fôra sempre a minha ambição mais levantada, e algumas vezes me chegou a ser
+esperança tambem, o possuir vivenda minha em torrão meu, por mim delineada,
+feita aos meus gostos, sem visinhos mas respirando hospitalidade; solitaria,
+mas ridente; sem fausto, mas abundante em commodidades, em graças profusissima.
+Aquillo de poder um homem dizer que tem a sua cama, a sua meza, a sua lareira,
+e os seus livros, entre paredes e debaixo de telhas muito suas; que vive e
+pernoita com raizes no solo; que emfim é dono, para fruir e testar, de uma
+porção do terceiro planeta vindo do sol, ainda que não sejam senão poucas
+braças; e que o Imperador de França não é mais senhor, nem porventura tanto,
+das suas Tulherias... deve ser umas delicias muito grandes. Nunca as
+experimentei, nem experimentarei já agora; mas imagino-as; e pode-se dizer que
+as sonhei, sem dormir, no meu aureo salãosinho de feno.</p>
+
+<p>¡Como eu ampliava tudo aquillo com a varinha de condão da phantasia! a um
+lado, a alcova nupcial, com suas janellas cortinadas de verde pela frondosidade
+do pomar contiguo; a outra parte, a saleta do fogão para o inverno, dominado
+aos bustos de Sapho<span class="pn"><a name="pag_132">{132}</a></span> e
+Anacreonte, a olharem para as estatuas de Homero e de Virgilio; aqui, a
+livraria com a mesa para a escripta, e dois espaldares de braços; a casa de
+jantar com sua fonte e viveiro de aves, e a porta larga e envidraçada aberta
+para a horta ajardinada; e a voz de Maria, a presença de Maria, a musica do seu
+vestido, o calor da sua bondade alegre e vigilante, por toda a parte.</p>
+
+<p>Basta, basta já de pisar folhas d'outomno que murmuravam viçosas e
+rescendentes por cima e em derredor, e agora me estalam pallidas e seccas por
+baixo de cada passo.</p>
+
+<h2><a name="SECTION002500000000000000000">L</a></h2>
+
+<p>Ahi fica entregue ao publico da minha terra, pelo ter em conta de amigo, a
+Chave do meu Enigma, assim como se põe nas mãos do melhor e mais proximo
+parente a do caixão doirado e funebre que desappareceu.</p>
+
+<p>Como de hoje ávante nunca mais havemos de tornar a este assumpto,
+acrescentarei ainda algumas palavras, e as derradeiras, destinadas a acclarar
+outro supposto mysterio com que as trevas d'este se duplicavam.</p>
+
+<p>O immortal autor da <em>Epopeia naval portuguesa</em>, o meu bom e velho
+amigo Joaquim Pedro Celestino Soares, fazendo-me a honra de me dedicar este seu
+recente monumento de glorias portuguezas, mostra-se maravilhado de que eu
+pinte, sem os ver, tantos quadros da Natureza. Muitas pessoas antes d'elle
+tinham manifestado egual admiração, para mim obsequiosa, e mais que
+obsequiosa&mdash;lisonjeira.</p>
+
+<p>Suppondo que as minhas descripções de objectos visiveis, desde as <em>Cartas
+d'Ecco</em>, <em>Primavera</em>, <em>Amor e Melancolia</em>, até ás presentes
+paginas, conteem algum longe d'esse merito que tão benevolamente se lhes
+attribue, aqui está a explicação que eu posso dar d'esse phenomeno
+simplicissimo.</p>
+
+<p>Teve a nossa criança, emquanto o foi, e segundo já vos disse, uns olhos de
+formoso brilho, vividos, buliçosos perscrutadores insaciaveis, e de um alcance
+desmedido. Mais de uma vez ouviu dizer a sua mãe, que pareciam duas janellas
+armadas de festa, onde a alma vinha contente lá de dentro espairecer mirando-se
+no Universo.<span class="pn"><a name="pag_133">{133}</a></span></p>
+
+<p>Por volta dos seis annos, a segunda enfermidade, de que já vos falei,
+enfermidade peior que a imaginaria tysica, fechou inopinadamente aquellas
+janellas, deixando passar apenas, atravez, uns reflexos duvidosos de claridade,
+frios, desvestidos de côres, desertos, importunos; clarões, que, em vez de
+trazerem alimento a percepções e alegrias, só occasionavam pelo contrario dores
+physicas no orgão, por então só vivo para padecer. Este mesmo inutil e violento
+crepusculo, foi portanto necessario repulsal-o; um veo de seda negro foi
+lançado sobre a innocente cabeça; fecharam-se-lhe profundissimas as trevas; a
+victima, o meio-morto, descançou; ouvia chorar, não sabia por quê.</p>
+
+<p>Se um cadaver no sepulcro podesse pensar, ¿sobre que pensaria? Sem duvida
+sobre o anterior viver que se lhe acabára; revolveria, combinaria de mil
+maneiras as ideias do preterito, como um avaro, debruçado sobre o thesoiro,
+mergulha os braços até aos cotovelos, e o coração até ás auriculas, no seu
+charco inutil de oiro e prata. A pobre criança ruminava ás escuras as visões em
+que se pascêra na claridade; ia-as convertendo de vagar em substancia propria.
+Como por fóra fazia noite, illuminava-se por dentro com quantas luzes se lhe
+tinham prevenido a tempo, e que ella instinctivamente espertava de continuo. O
+seu espirito era como a lamina photographica, ainda não inventada: recebêra as
+imagens; fechara-se-lhe depois a camara obscura; agora estava-as fixando em si
+próprio por uma chymica natural; fôra espelho, era estampa.</p>
+
+<p>Passaram annos; levantou-se o veo negro; Deus apiedado tinha outra vez dito:
+«Faça-se a luz.» Reappareceu o dia.</p>
+
+<p>¿Reappareceu? não; veio novo, diverso, de natureza extranha; uma especie de
+dia crepuscular; entre ledo e saudoso; mixto de realidades, verosimilhanças,
+conjecturas, sonhos; comparavel por ventura, sem grande impropriedade, ao que
+são algumas das phantasticas noites de lua cheia no estio, ou ao alvor
+espalhado no Elysio pelos poetas.</p>
+
+<p>Pensando bem n'isto, não posso deixar de render graças á Providencia, e de
+descobrir n'esta sua liberalidade, e mesmo nos precedentes rigores, novas
+inducções para acreditar, entre mim, que toda a minha<span class="pn"><a
+name="pag_134">{134}</a></span> predestinação era, como desde o principio me
+aventurei a dizer-vol-o, que não fosse eu jamais outra coisa senão cantor, e
+não fosse cantor senão de ternuras.</p>
+
+<p>Vós, que ledes pelos vossos proprios olhos isto que vos eu escrevo por mão
+alheia, vós, que disfrutaes, sem a aproveitardes assaz, a dita de possuirdes
+uma excellente vista, sentireis por ventura alguma difficuldade em conceber
+aqui o fundo do meu pensamento. Ora vejamos se vol-o decifro.</p>
+
+<h2><a name="SECTION002510000000000000000">LI</a></h2>
+
+<p>Com ser a luz uma communhão universal do Amor Divino, meza infinita em que
+os soes aos milhares ministram aos planetas sem conto; e aos entes sem limite
+de que os povoou o Omnipotente, é comtudo certo, que, assim como vão desiguaes
+os quinhões de luz de cada sol aos planetas e satellites que a distancias entre
+si diversas o rodeiam, assim tambem na esphera que habitâmos, por exemplo, a
+luz vem medida aos sitios, ás estações e ás horas, ás especies, aos individuos,
+ás edades e ás circumstancias, em proporções diversissimas, todas calculadas,
+todas certas, e todas em harmonia com as complicadas precisões de um systema
+geral e perfeitissimo.</p>
+
+<p>Comparae a claridade das cinco zonas; em cada zona, a das quatro estações; e
+em cada estação, a das montanhas, dos valles, dos bosques, e das cavernas; a da
+manhan, do meio dia, da tarde e da noite. Depois em cada logar e á mesma hora,
+considerae no como a luz, banhando e tingindo unicamente a superficie dos
+corpos inorganicos, incapazes de a sentir, vai abraçar com as suas caricias os
+entes organisados, que n'ella, e no calor seu companheiro, parecem aspirar a
+vida, o amor, a alegria; a adoração, como sectarios de Zoroastro. Os vegetaes,
+sem olhos, a bebem, se inebriam, riem-lhe em flores, com murmurios lhe falam,
+com fragrancias a lisonjeiam; brincam-lhe com os raios, decompondo-os na
+folhagem buliçosa, resurtindo-os; alvoroçam-se com a aurora, pendem-se e
+fecham-se ao escurecer; despem galas no inverno; na primavera retoucam-se e
+amam; no estio pompeiam e triumpham. Mas n'esta mesma generalidade<span
+class="pn"><a name="pag_135">{135}</a></span> ¡que differenças e quasi
+excepções! Para todos a luz é condição do ser e felicidade; mas o musgo que
+prospera na penumbra da Islandia, pereceria fulminado como Sémele, se o ardente
+sol dos tropicos o visitasse; as plantas magnificas dos tropicos, nas nossas
+latitudes, só temperadas, morreriam cegas á mingua de esplendores. Uma herva
+ala-se do fundo do fojo para o celeste amante, a quem o girasol no seu jardim
+vai tambem seguindo com a larga fronte doirada, que parece um retrato ephemero
+do bello astro, explica a fabula de Clície, e dá razão aos dois versos do
+Camões:</p>
+
+<blockquote>
+ <em>Transforma-se o amador na coisa amada</em><br>
+ <em>por virtude do muito imaginar.</em></blockquote>
+
+<p>Entretanto as grutas e os subterraneos lá teem não menos seus jardins
+umbrátiles, onde mil especies vegetaes, com uma só gotta de luz diluida nas
+trevas, alimentam e aditam a existencia.</p>
+
+<p>Os animaes, se exceptuarmos algumas raras especies mais baixas na gerarchia,
+que parecem não ver, dado se voltem para a luz como as plantas, os animaes
+absorvem-n-a com delicias.</p>
+
+<p>Os seus olhos são os vasos de gemmas finissimas por onde os seus espiritos a
+bebem; mas n'estes vasos sem conto, ¡que differenças nos tamanhos, nos feitios,
+nas cores, nas propriedades! Todos se enchem á immensa cascata de luz que jorra
+inexhaurivel: quaes em golfadas copiosas, quaes em estillas diminutas; estes,
+sombria, que fôra trevas para aquelles; aquelles, tão luxuosa, que cegaria a
+estes. A aguia devassa do alto os pormenores da campina; o insecto perscruta,
+com inveja dos sabios, o ignorado mundo dos infinitamente pequenos; e
+eximindo-se por sua tenuidade á perspicacia humana, é ainda por ventura condor,
+elephante, e lince para universos vivos, nem por nós sonhados, e de mil vezes
+mais espantosa exiguidade. Ha olhos-telescopios, ha olhos-microscopios, olhos
+que aproximam, olhos que afastam, olhos que alternativamente afastam e
+aproximam, olhos que se fitam rectos n'um só ponto, olhos que miram para todas
+as partes ao mesmo tempo, olhos para o dia, olhos para a noite, olhos unicos,
+olhos multiplices, olhos, em summa, que só a Sabedoria<span class="pn"><a
+name="pag_136">{136}</a></span> de Quem os ideou e perfez poderia discriminar e
+abranger em descripção ou cómputo.</p>
+
+<p>No meio d'estas myriades de orgãos destinados a pascer-se nas lindezas e
+magnificencias exteriores da Natureza, foi ao homem, seu filho predilecto, que
+ella deu com a razão e o engenho os mais admiraveis de todos os olhos. Emquanto
+os dos outros viventes, afinados pelas precisões circumscriptas dos que os
+possuem, não transpõem limites relativos e determinados, os do homem, pelos
+milagres da Arte, tornam-se mais que de aguia no alcance longinquo; rivalisam
+com os dos insectos, mergulhando profundamente pelos abysmos da pequenez; vão
+buscar para o dominio da Sciencia astros sumidos nas profundezas do espaço,
+arcanos de anatomia nos vermes imperceptiveis, nos globulos do polen das
+florinhas mais tenues, nos atomos da poeira impalpavel; e dominadores da luz,
+pelos instrumentos com que se completam, a refrangem á vontade, e a decompõem,
+como a divina Iris no firmamento.</p>
+
+<p>¡Entretanto a vista humana, assim mesmo dotada, quão pobre não é para saciar
+o animo curioso! ¡e então no seu estado natural, que myopia! ¡que imperfeição!
+¡que fallibilidade! Aquelles mesmos objectos, que pelo seu volume e proximidade
+mais parecem estar em relação activa, passiva, necessaria, quotidiana, com o
+espectador, não passam de uns mascarados e uns fingidos, que, divertindo-o e
+ajudando-o, zombam d'elle continuamente.</p>
+
+<p>¿Que é ver uma rosa, uma arvore, um edificio, um monte, o Oceano, mesmo com
+os olhos mais perspicazes e attentos? É receber de cada coisa d'estas uma ideia
+vaga, superficial, imperfeita, diminutissima, falsa. Quando não, acuda a lente
+a averiguar uma só petala da rosa, uma só folha da arvore, uma só pollegada do
+edificio, um só grão da terra do monte, uma só gotta do Oceano (mas ainda a
+lente não diz tudo); para logo se reconhecer com espanto que isso que se
+chamára ver, não passava de illusão; era um andar palpando em grosso e ás cegas
+alguns vultos grandes; nada mais. Se o mundo moral e intellectual nos estão
+inçados de mysterios, erros, e ignorancias, os aspectos do mundo physico não
+são menos enganosos; representa-se a comedia da vida n'um theatro já para ella
+de proposito armado pela<span class="pn"><a name="pag_137">{137}</a></span>
+Natureza, com o mais ficticio de todos os scenarios: <em>Mundum tradidit Deus
+disputationi hominum.</em></p>
+
+<p>N'este cahos universal de enigmas e chimeras, o instincto de saber
+impacienta-se, agita-se, barafusta, sonda, investiga, conjectura; adivinha ás
+vezes; aspira a matar a grande esphinge, que se ri d'elle, e que não morre.</p>
+
+<p>O instincto da Arte, menos ambicioso, mais pacato e mais philosophico a seu
+modo que o ardor scientifico, contenta-se com as brilhantes apparencias;
+estuda-as, sem pensar em as dissecar; e, como de todas lhe resultam harmonias,
+todas falam ao espirito e ao coração, sobre todas paira o ideal, de todas se
+reflecte o amor e a sabedoria, não precisa, nem pede mais, posto o deseje, e o
+aproveite quando a Sciencia o desencanta e lh'o ministra.</p>
+
+<p>Reflectindo nas verdades incontestaveis e vulgares que deixâmos indicadas,
+tem-se logo de reconhecer que os poetas, na sua qualidade de pintores, só
+reproduzem apparencias, perseguem sombras; e, combinando-as e variando-as ao
+sabor da phantasia e do gosto, aquecendo-as de affecto, e arraiando-as de
+idealidade, criam para a alma, dentro n'um mundo phantastico, outro mundo ainda
+mais phantastico. ¿Não é assim?</p>
+
+<p>Ora pois: a criança tão nossa conhecida recebêra, nos annos das primeiras e
+fortissimas impressões, as ideias, como vós em egual edade as recebestes, e as
+continuais a receber, dos objectos que aos olhos se offerecem em multidão;
+depois, fechada a sós com essas ideias, não as destruiu: fortaleceu-as,
+confirmou-as; depois finalmente, quando entre ella e o espectaculo se ergueu de
+novo o panno, e a scena lhe appareceu transfigurada, isto é, quando reviu menos
+vividos e distinctos os mesmos objectos, tirou das suas reminiscencias com que
+os completar.</p>
+
+<h2><a name="SECTION002520000000000000000">LII</a></h2>
+
+<p>&mdash;¿Mas como é&mdash;insistem&mdash;que, distinguindo apenas, e a curta distancia, os
+vultos grandes e as côres, consegue descrever, não sem alguma verdade, quadros
+da Natureza vastos e minuciosos, cujos originaes sem duvida lhe escapam?&mdash;Do
+mesmo modo,<span class="pn"><a name="pag_138">{138}</a></span> pouco mais ou
+menos, como qualquer leitor por uma descripção poetica debuxa no seu espirito
+um objecto, cujo total nunca viu, mas cujas partes componentes a uma e uma lhe
+são todas familiares. Variando os elementos que possuo, vou compondo os quadros
+a meu gosto.</p>
+
+<p>Mas o que sobre isto vos poderia amiudar, já versos meus o disseram,
+agradecendo a um pintor amigo, a Sendim, o ter-me retratado. Se os lestes,
+saltae as seguintes paginas; se os não lestes, e vos interessa tal
+investigação, aqui os tendes. A mim apraz-me reproduzil-os; são já hoje
+saudades de vinte e tantos annos.</p>
+
+<blockquote>
+   Já desde Homero, em tráficos do Pindo,<br>
+ amigo meu Sendim, não roda o oiro.<br>
+ Versos, bustos, paineis, primor das graças,<br>
+ pague-os sêcco Bretão por sommas brutas,<br>
+ se muito ha que do autor deu cabo a fome.<br>
+ Lisonja em metro, em marmores, em côres,<br>
+ encommende-a o mimoso da fortuna;<br>
+ pague com seus dobrões a gloria alheia.<br>
+ Nós que, longe da terra, ao vulgo extranhos,<br>
+ vivemos facil vida anachoreta<br>
+ por solidões de imaginario mundo;<br>
+ que os loiros para nós por nós plantados<br>
+ ouvimos sussurrar por sobre o colmo<br>
+ da ermidinha onde as musas nos visitam;<br>
+ nós, nós, a quem deu alma a Natureza,<br>
+ não terrea, não mortal, não simples alma,<br>
+ de instinctos animaes fugaz composto,<br>
+ mas generosa, esplendida, sublime,<br>
+ mixto da etherea luz, do olor das rosas,<br>
+ do gorgeio do cysne, e do profundo<br>
+ bramir do Oceano, e do beijar das rolas,<br>
+ e do albor melancolico da lua,<br>
+ e da calma do estio, e das sonoras<br>
+ bafagens tuas, Héspero, e do lume<br>
+ trémulo e scismador dos longes astros,<br>
+ não pomos preço vil ao que é sem preço.<br>
+  <br>
+   Como lá n'outra edade, entre homens simplices,<br>
+ colono, pescador, monteiro, artifice,<br>
+ de mão a mão seus commodos trocavam,<br>
+ tal dura e durará commercio nosso.<span class="pn"><a
+ name="pag_139">{139}</a></span> <br>
+ Irmans, e não rivaes, as artes-bellas<br>
+ apertem mais e mais seus mutuos laços;<br>
+ sua origem commum, seus fins os mesmos,<br>
+ impõem-lhes lei de amar-se, unir esforços,<br>
+ umas ás outras realçar o encanto.<br>
+ Mais, muito mais que irmans, são todas uma;<br>
+ em nome, em fórma varia, é uma a essencia:<br>
+ a belleza, a verdade, anceiam todas.<br>
+  <br>
+   Pinta o Meónio, poetisa Apelles,<br>
+ Phydias derrama em marmore a harmonia,<br>
+ Orpheu nos magos sons esculpe os deuses.<br>
+ Não ha mais que um só Deus, uma verdade,<br>
+ uma belleza só; mostral-a em côres,<br>
+ em figuras, em sons, em phrases podes;<br>
+ são cultos de um só nume em linguas várias.<br>
+ A amendoeira em flôr é primavera,<br>
+ primavera é como ella o ceo macio,<br>
+ primavera a violeta, os ninhos novos.<br>
+ Unica e pura a eterna luz do engenho<br>
+ dos sentidos no prisma se refrange,<br>
+ e sai cambiada em fulgidos matizes.<br>
+ Como as côres são luz, são estro as artes.<br>
+  <br>
+   De nossa industria os fructos permutemos.<br>
+ O mago teu pincel doou-me aos evos;<br>
+ se os versos meus aos evos resistirem,<br>
+ nos versos meus reflorirá teu nome.<br>
+  <br>
+   ¡Ah! ¡não poder eu mais! qual tu meu todo<br>
+ á estampadora pedra o confiaste,<br>
+ capaz de confundir maternos olhos,<br>
+ ¡não poder eu tambem pintar no metro<br>
+ genio, vida, expressão, physionomia<br>
+ de quadros, onde a mente aos olhos fala!<br>
+ Desegual foi comnosco a Natureza:<br>
+ amante seu feliz tu gozas d'ella,<br>
+ abráçal-a com extasi, sorri-te,<br>
+ descobre-te um a um seus mil encantos;<br>
+ e, como se um tal bem não fosse immenso,<br>
+ diz-te:&mdash;«Eis-me aqui, retrata-me, ó ditoso;<br>
+ d'onde os gostos extrais, extrae a gloria.»&mdash;<br>
+ ¡Não assim eu! eu busco-a... ella se occulta;<br>
+ chamo-a, invoco... ou não vem, ou só de longe<br>
+ fugaz e esquiva se entremostra, e passa;<span class="pn"><a
+ name="pag_140">{140}</a></span><br>
+ como visão por sonhos vaporosos;<br>
+ como scena confusa e namorada<br>
+ de já perdido livro; como ideia<br>
+ da mui longinqua infancia, que inda a medo<br>
+ por sob as cans revôa ao pé das urnas;<br>
+ ou como o astro da noite em selva umbrosa;<br>
+ ou como as vozes de um serão do estio,<br>
+ quando da aldeia as virações as levam<br>
+ soltas e vagas ao curioso ouvido<br>
+ de erradio viandante; ou como o vulto<br>
+ de ingrata amada em vão, que evita encontros,<br>
+ leve atravez das arvores refoge,<br>
+ sem deixar mais de si que a viva imagem<br>
+ de alva roupa esvoaçada e gostos idos!<br>
+ Realiso as que a Grecia fabulára<br>
+ impaciencias do Alpheu, quando entre as nevoas,<br>
+ doido de amor, frenetico, debalde<br>
+ a vedada Arethusa andou buscando:<br>
+ «Nympha, vi-te&mdash;clamava&mdash;¡ai! ¡quero ver-te!»<br>
+ e o <em>ai</em>, com que as florestas apiedava,<br>
+ não apiedava o coração da isenta.<br>
+ Á beira de suas aguas fugitivas<br>
+ depois cançado e triste ia encostar-se,<br>
+ a procurar pelo animo saudoso<br>
+ que feições enxergou, quaes poderiam<br>
+ ser as mais que não viu; compunha-a toda,<br>
+ linda sim, mas phantastica; e por ella<br>
+ com longo affecto os eccos entretinha.<br>
+  <br>
+   Por isso ninguem peça inteiro canto<br>
+ na harpa quebrada. A voz de outros poetas<br>
+ que o solte; não me assombra: a solfa inteira<br>
+ perante os olhos seus se desenrola.<br>
+ Minha harpa incerta, em solidões, por noite,<br>
+ não apontados sons pendente exhala,<br>
+ a capricho de um zephyro que adeja.<br>
+ De Achilles, dos Jardins, do Eden os vates,<br>
+ e dos Bardos o Bardo, Ossian, o altivo,<br>
+ (pelo seu estro o juro; ¡immensa jura!)<br>
+ taes não subiram, se ás geladas trevas<br>
+ desde a infancia atro genio os condemnára.<br>
+  <br>
+   Manhan da alma existencia. ¡Oh! ¡como alegre<br>
+ me alvoreceste! ¡oh! plena luz, enlevo<br>
+ de que o minimo insecto ignaro goza,<span class="pn"><a
+ name="pag_141">{141}</a></span><br>
+ riqueza de que é rico o mundo todo,<br>
+ luz, com pródiga mão dos céos lançada,<br>
+ vida, belleza, luz! palavra etherea,<br>
+ a unica de um Deus no grão momento,<br>
+ em que ao formado mundo erguia o panno...<br>
+ ¡luz! ¡luz! ¡eu te gozei na infancia minha!<br>
+ ¿gozei?... ¿quem te possue goza-te acaso?<br>
+ não; pródigo, indiff'rente, como todos,<br>
+ vi-te, desperdicei te ¡Ah! ¡quem me dera<br>
+ d'essas horas doiradas um minuto,<br>
+ uma só gotta d'essas fontes amplas<br>
+ por este areal tão sêcco! ¡Oh! ¡com que sede<br>
+ n'um só momento me vingára de annos!<br>
+ ¡que joias no poetico thesoiro<br>
+ avido para um seculo ajuntára!<br>
+ ¡Como ás imagens pallidas, que á força<br>
+ te arranco, ó Natureza, como arranca<br>
+ o oiro entre fezes duro escravo á mina,<br>
+ como a tantas imagens desbotadas,<br>
+ rico legado do menino ao homem,<br>
+ revivêra o matiz, o fogo, o lustre!<br>
+ Então, para pintar florestas, mares,<br>
+ não precisára de espreitar confuso<br>
+ um ramo a folha e folha, ou já no copo,<br>
+ agil movido, o rutilar da lympha.<br>
+ Se ouvisse descrever a majestade<br>
+ de um rosto varonil, de uma formosa<br>
+ o encanto, de um menino as graças lindas,<br>
+ tudo isso o variára a mente facil.<br>
+ O aspecto do varão nem sempre fôra<br>
+ a paterna presença. Além de Amalia,<br>
+ de meus brincos pueris ligeira socia,<br>
+ mais formosas houvera, e mais formosos<br>
+ anjos mortaes que o meu gentil do espelho,<br>
+ de olhos tão vivos, tão córado aspecto,<br>
+ riso tão doce, e que eu amava tanto!<br>
+ ¡Saudades vans; desejos vãos e acerbos!<br>
+ Se o mar, se o céo, se os campos se me esquivam,<br>
+ róla a mente em seu mundo infindos mares,<br>
+ campos lhe alastra de opulencia extranha,<br>
+ circumvolve-o de céos fervendo em astros.<br>
+ Tal de Agenor o filho a patria perde;<br>
+ mas se lei deshumana o lança em fuga,<br>
+ oraculo phebêu condul-o a thronos;<br>
+ por Tyro que perdeu lá funda Thebas,<span class="pn"><a
+ name="pag_142">{142}</a></span><br>
+ a de cem portas nos canoros muros.<br>
+ Mas a patria... era a patria; aquella Tyro...<br>
+ era a Tyro da infancia; o solio, Thebas,<br>
+ o Elysio, o Olympo mesmo, a não valeram.<br>
+  <br>
+   ¡Feliz o para quem da vida as portas<br>
+ já se abriram sem luz! Só tem metade<br>
+ do humano apego ao mundo e horror á morte:<br>
+ não viu, chupando o leite, o seio amigo,<br>
+ o sorrir brando, os olhos, e nos olhos<br>
+ o coração materno; as irmans suas<br>
+ não foram mais que uns sons; a rosa, um cheiro;<br>
+ movimento, o passeio; o sol, quentura;<br>
+ um monte, a estiva noite; as Graças... nada.<br>
+ ¡Longe outra vez, e para sempre longe,<br>
+ saudades vans, desejos vãos e acerbos!<br>
+ ¿Que me importam canções? ¿que outrem descreva<br>
+ com mais proprio matiz do mundo os quadros?<br>
+ ¿que tenha ou não mais azas para um voo?<br>
+ ¿que importa que um volume de poesia<br>
+ seja um thesoiro para mim sem chave?<br>
+ ¿e que dos seios do animo rebentem<br>
+ meus versos caudalosos, sem que eu possa<br>
+ co'a propria dextra abrir-lhes a passagem,<br>
+ por onde ávidas paginas inundem?<br>
+ ¿Não me rege inda a luz os cautos passos?<br>
+ ¿não me tinge inda ao perto as varias fórmas?<br>
+ livros... pluma... olhos meus e dextra minha<br>
+ quando jámais n'outro <em>eu</em> me falleceram,<br>
+ n'outro <em>eu</em> onde os amei e os amo em dobro?<br>
+ ¡Graças a amor, á Natureza graças!<br>
+ logrei constante, e lograrei perpétuo<br>
+ nos laços fraternaes consorcio d'almas,<br>
+ nos de hymeneu fraternidade nova;<br>
+ meu ente n'estes entes se completa,<br>
+ já bardo sou tambem... sahi, meus versos;<br>
+ pura mão, don dos céos que eu pago em beijos<br>
+ sollícita vos abre ao mundo estrada;<br>
+ sahi, voae! da gratidão fervente<br>
+ aos olhos de Sendim levae meus votos!<span class="pn"><a
+ name="pag_143">{143}</a></span></blockquote>
+
+<h2><a name="SECTION002530000000000000000">LIII</a></h2>
+
+<p>Completemos estas explicações melancolicas.</p>
+
+<p>Aquelles em quem o amor entrou só, ou principalmente, pelos olhos, acham
+custo em comprehender, como desservido da vista se possa na alma accender este
+fogo maravilhoso. A sua mesma ventura é que os torna assim pouco philosophos.</p>
+
+<p>Examinemos.</p>
+
+<p>Reuniu Deus para compôr a mulher&mdash;remate, corôa, e epilogo da Creação&mdash;a
+quinta essencia de tudo quanto derramára de melhor no paraizo, onde a collocou,
+e do qual, ainda depois de perdido, as descendentes de Eva ficariam avivando
+recordações. Quiz Elle, o Summo Factor, fundir-lhe o espirito brilhante e suave
+de um raio de oiro do sol, e de um raio prateado da lua. Deu-lhe a pureza da
+cecem, a alvura do lyrio, o pudor e a graça da rosa, a modestia da violeta;
+accendeu-lhe no olhar brilho de estrellas; descerrou-lhe auroras de carmim e
+perolas no sorrir; para fala, concentrou todas as melodias, balbuciadas no
+frémito das virações, no murmurinho das fontes, e nos canticos das aves;
+modelou-lhe a estatura pela dos arbustos mais esbeltos e mimosos;
+arredondou-lhe as fórmas, que lembrassem os frutos mais gentis e apetecidos;
+diffundiu-lhe os cabellos como as ramas pendentes e movediças do salgueiro
+aquatico; impregnou-lh'os de electricidade; embebeu-os de um aroma que fala;
+revestiu-os de brilhantismo; tão esmerado e prodigo os dotou, que o oiro e as
+perolas, as pedrarias, os perfumes, as sedas e as flores, ambicionando
+realçal-os, recebessem d'elles novo preço.</p>
+
+<p>Este ente, meio positivo, meio aereo, meio terrestre, meio ceo, que volteia
+por entre nós como anjo desterrado, saudoso, mas contente, tendo por fala um
+canto, a sujeição e a humildade por imperio; em que a fraqueza é graça, e a
+graça omnipotencia; cujo encargo é mais que eternisar a especie,&mdash;é
+entretecel-a, domesticál-a, refinar-lhe o gosto, os instinctos do bello, os
+arrojos para o bom e para o sublime; a mulher em summa, fadada de alguma sorte
+a ser mãe e mestra, guia, arrimo, lampada, conselheira, prophetisa,
+esforçadora, modelo e premio, não só de seus<span class="pn"><a
+name="pag_144">{144}</a></span> filhos, mas de seus irmãos tambem, de seu
+consorte, de seu proprio pae, de todos que de perto ou de longe lhe podessem
+receber directas ou reflexas as influições; a mulher, a mulher&mdash;da qual, depois
+de tantos mil volumes de panegyrico, depois de uma idolatria universal de seis
+mil annos, ainda se não exhauriram louvores, nem jámais se hão de exhaurir&mdash;não
+seria a vice-providencia, que devia ser, e que é, no meio da sociedade, se não
+possuisse este complexo ineffavel de seducções para toda a especie de indoles,
+de espiritos, de gostos; um laço infallivel para cada sentido; um milagre para
+cada incredulidade; para cada infortunio, seu balsamo; para cada edade, seu
+ramalhete; sua estrella para cada noite; mão inesperada e macia para cada
+desamparo; para cada fronte que se despedaçaria ao cahir, a almofada subita de
+um braço todo extremos, de um seio todo suspiros, de um coração todo divindade.</p>
+
+<p>Parece que está aqui o animo a nadar á sombra de uma sagrada Paphos n'um
+pego verde e azul, aureo e argentino, embalado pelos mais ridentes genios das
+ficções; e não está senão folheando, ebrio de gratidão, o Génesis ineffavel da
+creatura em quem mais evidentes se revelam as perfeições do Creador. O que
+pareceria um hymno, é, para quem o souber meditar, uma succinta e desenfeitada
+pagina de historia natural.</p>
+
+<p>Ao homem grosseiro, pervertido, gasto, embrutecido, represente-se muito
+embora que a mulher, brotada para seus prazeres ephemeros, como as flores, não
+pode penetrar dentro em nós senão pelos olhos; feche-os, e escute: lá está
+ainda ella com a sua magia. Furte-lhe tambem os ouvidos, como Ulysses ás
+sereias; não a destruiu; o calor, os abraços, e os beijos, lhe revelarão
+completos os seus encantos. Não ouse ou não possa tocál-a; um halito, uma
+fragrancia subtil, que não é de flores, mas de vida,&mdash;que é mais que de vida,
+pois é do amor,&mdash;lhe dirá: aqui está o fruto para a tua avidez e para a tua
+sêde.</p>
+
+<p>É porque a mulher, communhão perfeita do affecto, é toda para todos, e toda
+para cada um. Triumpha na luz, como n'uma auréola; enleva nos sons, como n'um
+cantico; insinua-se por cada sentido; infiltra-se por cada póro; não ha porta
+na alma que se lhe não franqueie. É a chamma electrica, para a qual não<span
+class="pn"><a name="pag_145">{145}</a></span> ha resistencia nem muralhas.
+Fugi-lhe; esquivae-vos; sumi-vos nas entranhas da terra; lá mesmo sereis
+d'ella; vel-a-heis sorrir-vos, aquecer o vosso jazigo, bafejar cubiças ao vosso
+coração, fazer do vosso nada um universo, reerguer-vos para o Ceo, de que
+blasphemaveis.</p>
+
+<p>Pelo que pertence em particular ao homem da nossa historia, eis aqui
+chãmente o que eu sei, e que não é muito.</p>
+
+<p>Comprehendestes, cuido eu, como a grande Isis, a Natureza, a qual para
+nenhum de vós se despe de todos os seus veos, quiz ser ainda mais esquiva, mais
+recatada, mais avára para com elle, para com elle seu fervoroso adorador. Não
+se lhe furtou de todo; não apagou entre si e elle o sol, como já fizera com o
+seu Homero; mas annuveou-lh'o como para a solemnidade de um mysterio magico; e,
+mesclando trevas com luz, benigna e ainda mãe no seu rigor, lhe ensinou a
+adivinhál-a, a completar-lhe as lacunas das realidades com as phantasias, a
+estudar a um e um os seus pontos mais frisantes, e de inducção em inducção, de
+analogia em analogia, de probabilidade em probabilidade, a recompol-a, ou a
+creal-a, não verdadeira nem falsa, chimera organisada de certezas, hypothetica
+nos accessorios, incontestavel no essencial; retrato seu, imperfeito, mas
+reconhecivel, mas formoso, mas sympathico, mas inspirativo, mas sufficiente e
+sobejo para idolatrias.</p>
+
+<p>Qual a Natureza lhe apparece e lhe poisa para modelo diante da lyra, tal lhe
+assoma diante do coração esta florida cifra da mãe Universal, o archétypo das
+perfeições: a mulher.</p>
+
+<h2><a name="SECTION002540000000000000000">LIV</a></h2>
+
+<p>Mancebo, que me has-de ler curioso e condoido: ¿conheces tu porventura
+aquella que te embelleza e te fascina? não te pergunto pelos arcanos do seu
+interior, que ella propria não decifra; falo só do que só porventura te
+seduziu; falo da sua fórma externa; falo mesmo d'aquella porção exclusivamente
+que a arte não some em nuvens de tecidos preciosos, em auroras de mil cores, em
+espumas de rendas, em cascatas de oiro, de aljofares, de diamantes, cahos<span
+class="pn"><a name="pag_146">{146}</a></span> esplendido que sonega um mundo de
+gentilezas a attrahir-te e a repulsar-te; falo unicamente do semblante; do
+semblante que emerge livre, dominador e risonho, por cima de tamanha cerração
+de enigmas. ¿Vês tu em realidade esse rosto que te encara com tão seductora
+franqueza, que para ti se banha nu em ondas de luz sob os lustres e sob o sol?
+¡Pobre illudido! ¡Se o vidro augmentativo t'o averiguasse, talvez recuarias de
+espanto! a tez mimosa e córada, a tez que ambicionavas beijar tão lisa e tão
+perfeita, reconhecêral-a vasto mappa de cavernas e montanhas, de torrentes mal
+cobertas, de espessuras, homizio e pastagens de viventes, para quem mais que
+para ti foram fabricadas aquellas regiões incognitas. Com a apparição d'esse
+mundo de lindezas microscopicas, evocadas por um crystalzinho convexo,
+desappareceria a beldade que a Natureza, benignamente enganadora, te inculcava;
+o que a tua sciencia ganhava, o enthusiasmo do teu amor o perdia sem remedio.
+Decomposta em mil formosuras, aniquilára-se a formosura, que só á providencial,
+á calculada imperfeição dos teus orgãos tinha devido a existencia.</p>
+
+<p>¡Bemdita sempre e em tudo a Bondade Infinita do Creador! ¡Que philosopho
+insensato se afoitaria a tomar-lhe contas para o censurar! Nem eu, nem eu
+proprio, tenho que murmurar de ser menor que o de outros muitos convivas o
+quinhão que o Pae da luz me concedeu no seu festim.</p>
+
+<p>Cada qual vê a mulher pelo seu prisma, prismas todos differentes e todos
+illusorios. O meu, fundido de um crystal mais turvo, decifra-a, individua-a
+muito menos, é verdade; mas em compensação permitte-me á phantasia o
+completal-a com todos quantos primores sabe, que são infinitos.</p>
+
+<p>¿Querereis dizer-me que são ficticios, que não são ella, esses primores?
+ficticios embora o sejam na origem; mas tornam-se d'ella, são ella mesma
+perante a alma e o coração que lh'os prestaram; é a mulher sem-senão, a mulher
+idealisada, a mulher só assim ascendida a grau de divindade, mulher exterior
+mais parecida por ventura com o espirito gentilissimo que lhe mora dentro, que
+o bando de máscaras femininas, mais ou menos imperfeitas, que enxameiam por
+esse mundo á procura sempre de homenagens convictas e duradoiras.<span
+class="pn"><a name="pag_147">{147}</a></span></p>
+
+<p>Logo que eu, alchimista combinador e attento, senti uma voz suave, em que
+outros, distrahidos com o olhar não attentariam, e que me desceu do ouvido ao
+seio, distillo d'ella ao brando calor do sangue quanto succo ella continha de
+imaginação ou de Juizo, de melancolia, de prazer, de bondade, de innocencia, de
+sentimento. O perfume que d'ali se exhala, já annuncia a deusa. Entrevejo-a;
+branquejou-me o rosto, d'onde sahira tanta melodia e tanta alma. Doto-o,
+fado-o, opulento-o como podéra fazer o Oberon mais carinhoso, ou a Titania mais
+amante. O phantasma, já meio filho da minha adopção, passa por diante e perto
+de mim; reconheço-lhe, ou attribuo-lhe, como Virgilio á divina mãe de Enêas, a
+estatura, o movimento, o andar, que para ser adorada se lhe não dispensa:</p>
+
+<blockquote>
+ <em>Et vera incessu patuit dea.........</em> </blockquote>
+
+<p class="ni">e não accrescento, porque o não penso: </p>
+
+<blockquote>
+ <em>...............tu quoque falsis </em><br>
+ <em>Ludis imaginibus...............</em></blockquote>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>Beldade assim composta não é só perfeita,&mdash;é inaccessivel aos estragos do
+tempo, é rosa que poderá morrer, mas não murcha, não desmaia, não se desfolha;
+quando por fatalidade desapparece, desapparece toda de uma vez.</p>
+
+<p>O commum das mulheres produz o commum dos amores: fogos-fatuos fluctuantes,
+frouxos, passageiros; para a minha, arde o fogo de Vesta.</p>
+
+<p>A par d'esta vantagem, que sem duvida o é para a poesia namorada, um
+terrivel desconto se apresenta logo:</p>
+
+<p>Os olhos fazem mais que descortinar a formosura: dizem aos d'ella o effeito
+que ella produziu; supplicam, exoram, convencem, triumpham; possuem uma
+linguagem innata e universal, instantanea e completa, electrica, divina,
+intraduzivel em sons humanos. Carecer d'esta ineffavel faculdade, gozando-se
+embora da luz para disfructar e amar a vida, é vagar surdo-mudo pelo crepusculo
+n'uma região verde e florida, sem tratar com os moradores.<span class="pn"><a
+name="pag_148">{148}</a></span></p>
+
+<p>¡Grande e horrorosa verdade! Mas outra vez acudiu aqui maternal a
+Providencia. Assim como outorgára á phantasia uma intuição especial, concedeu á
+linguagem da poesia, encarregada de supprir a do olhar, um accrescimo de
+viveza, uma força de convicção, de sentimento, de lealdade, que podesse
+aspirar, a persuadir.</p>
+
+<p>Os olhos commerceiam o amor, como opulentos, em moedas do mais fino oiro, ou
+em lettras que as sommam e as cifram n'um relance. A fala, embora poetica, mais
+pobre e mais humilde, vai contando os pagamentos do coração a real e real, em
+cobres gastos de uso, em pratas suspeitas de liga e falso cunho; moedas de
+baixo preço, que mil vezes se lhe recusam; mas afinal tambem salda a sua conta.</p>
+
+<p>Não me affoito a dizer, nem quasi a pensar, que a diminuição do primeiro
+sentido fosse cabalmente compensada com um accrescimo proporcional na faculdade
+de exprimir pela palavra o sentimento; creio todavia, que alguma coisa com isso
+parecida se deu em realidade; com o que, já pode ser que o peculio poetico se
+augmentaria; nova e suprema prova do que assentáramos como fundamento no
+principio d'este escripto, a saber:&mdash;Que a Natureza e a fortuna andaram
+concertadas em preparar por todos os meios, com os favores e com as sevicias,
+um cantor, embora inutil para tudo mais.</p>
+
+<h2><a name="SECTION002550000000000000000">LV</a></h2>
+
+<p>Sobre o livro e sua historia, nada me resta para accrescentar; narrei tudo
+como o tinha na lembrança; forcejei pelo explicar sem vaidade nem modestia.</p>
+
+<p>É um pobre escripto, que as almas de bem hão-de tomar á boa parte.</p>
+
+<p>Presumpções litterarias, não as tem.</p>
+
+<p>Quem, obedecendo a instinctos maus, exercesse n'elle critica malevola, e até
+por facillima não muito nobre, juro-lhe eu, sobre minha honra e vida, que
+perpetraria uma feia acção. Deixem aos chacaes o revolverem sepulturas, e
+cevarem-se em ossos.</p>
+
+<p>Sei que ha indoles hostis, que ao tomarem um livro novo, levam já o fito em
+dilaceral-o; e a essas por demais seria o requerer-lhes misericordia.<span
+class="pn"><a name="pag_149">{149}</a></span></p>
+
+<p>Permittam-me comtudo rogar-lhes que esperem para entrarem na censura d'este,
+que o autor haja tambem desapparecido como o assumpto da obra. No intervallo,
+que não poderá já ser muito longo, aggridam, vulnerem, destruam muito embora
+qualquer outro dos seus escriptos, e todos; não lhes exceptua nem um só, a não
+ser o livrinho do ensino primario pelo amor, porque esse não é d'elle; é
+propriedade inauferivel da puericia, da Patria e da posteridade.</p>
+
+<h2><a name="SECTION002560000000000000000">LVI</a></h2>
+
+<p>A collecção de mais de setecentas cartas, de que sahiu como summario a
+<em>Chave do Enigma</em>, existia completa ha poucos momentos ainda; daria tres
+volumes que poderiam interessar, se não como historia, como romance intimo
+certamente; ardeu até ao minimo fragmento, ali, debaixo das arvores do meu
+jardim; eu proprio lhe puz o fogo, velei a pyra em quanto se não extinguiu,
+enterrei as cinzas; davam na torre do palacio das Necessidades as quatro da
+tarde d'este dia 25 de Agosto de 1862.</p>
+
+<p>As razões que me induziram a este sacrificio, rastreiam-n-as todos; o que
+n'elle soffri, tambem o calo, que não importa a pessoa alguma.</p>
+
+<p>A pedra que o ha-de ficar commemorando, e que algum poeta ou alguma poetisa
+lá para o futuro em estio ou outono de amores folgará porventura de visitar com
+este livrinho na mão, dir-lhe-ha isto:</p>
+
+<div>
+</div>
+
+<div>
+<p
+style="margin-left: 10%; margin-right: 10%; border: 5px solid #000; text-align: center; padding: 1em; font-size: small;"
+class="ni">AQUI JAZEM AS CINZAS<br>
+DA CORRESPONDENCIA<br>
+DE<br>
+D. M. I. DE BAÊNA<br>
+COIMBRA PORTUGAL<br>
+E<br>
+A. F. DE CASTILHO<br>
+QUEIMADA N'ESTE MESMO LOGAR<br>
+AOS 25 DE AGOSTO<br>
+DE 1862<span class="pn"><a name="pag_150">{150}</a></span></p>
+</div>
+
+<h2><a name="SECTION002570000000000000000">LVII</a></h2>
+
+<p>Mais uma ou duas paginas para responder já agora ás ultimas curiosidades.</p>
+
+<p>A 29 de Novembro de 1834, na parochial egreja do Salvador do mosteiro de
+Vairão, recebia eu emfim por minha legitima esposa a D. Maria Isabel de Baêna
+Coimbra Portugal. O orgão cantava não sei que jubilos tristes; as Religiosas
+choravam a perda da sua mais espirituosa, mais suave, e mais amavel companheira
+de tantos annos. A mão d'ella, tremia na minha; o alvoroço do seu interior,
+exhalava-se baixinho em monosyllabos humidos de lagrimas; eu padecia e gozava
+como homem que ia fugir com um thesoiro furtado. A boa D. Anna Lucinda não
+podéra assistir á ceremonia; ¡tanto a desejára em quanto só a vira no futuro! e
+agora... desamparavam-n-a as forças para a encarar; jazia doente na sua cella
+deserta. Maria tomou-o por agoiro. ¡Nunca ceo sem nuvem sobre alegrias humanas!</p>
+
+<p>Dois annos, pouco mais, durou a nossa união sempre harmoniosa e intima;
+sempre tal, qual m'a haviam promettido os meus devaneios poeticos tão
+ambiciosos.</p>
+
+<p>Ao longo d'esse breve praso, de que nunca me poderei esquecer, foi sempre
+Maria a melhor metade da minha alma; os olhos e voz para a minha leitura; a mão
+para a minha escripta; a inspiradora para os meus versos; a conselheira nas
+minhas incertezas; a vestal para o fogo das minhas pequenas ambições; a socia,
+a luz, a explicação dos meus passeios; o calor, a fragrancia e a musica da
+minha poisada; um enxerto da arvore da vida no meu teixo; o ecco do meu
+coração; o meu estro fóra de mim a mostrar-se-me, a abraçar-me, a não me perder
+hora nem minuto de dia nem de noite; ella, ufana, de mim como de uma gloria;
+eu, d'ella encantado como de uma felicidade.</p>
+
+<p>Filhos são nós que apertam os vinculos naturaes entre o homem e a mulher.
+Teve o Céo por superfluo dar-nos filhos; estreitar-nos mais era impossivel.
+¡Grande misericordia foi aquella! a pobre assim, levou para o Céo uma saudade
+unica.<span class="pn"><a name="pag_151">{151}</a></span></p>
+
+<p>Uma enfermidade longa, durante a qual a sensibilidade de Maria, como clarão
+de alampada que se quer extinguir, me pareceu ainda mais viva, a pouco e pouco
+a arrastou até á borda dos desenganos, desenganos para ella e para todos; para
+mim não, que por instincto de vida, repulso constantemente, e até ultima, o
+crer na desgraça, o admittir-lhe mesmo a possibilidade.</p>
+
+<h2><a name="SECTION002580000000000000000">LVIII</a></h2>
+
+<p>N'um dos dias de Janeiro do anno de 1837 (os que hoje contam menos de vinte
+e cinco annos não eram ainda nascidos) Lisboa toda branquejava amortalhada em
+neve profundamente (as memorias meteorologicas poderão dizer a quantos foi; eu
+esqueci-o, ou nunca o soube); sei que nem os velhos se lembravam de ter jámais
+visto por aqui espectaculo assim alpestre; nem de então para cá se renovou. Era
+um dia pallido e lugubre, que gelava o coração e as esperanças,&mdash;um d'aquelles
+dias, não sei se amigos se adversos, não sei se verdadeiros se mentirosos, mas
+bons para se fecharem os olhos e se expirar com mais desapego da terra.</p>
+
+<p>O quarto da resignada e valorosa victima, que repartia, sorrindo, esperanças
+que ella mesma para si já não queria, tinha a janella fechada ás tristezas de
+fóra; as do interior lhe sobejavam; uma lamparina aos pés da Imagem em vulto da
+<em>Senhora Mãe dos Homens</em>,&mdash;madrinha de Maria, e objecto da sua devoção
+de toda a vida,&mdash;attrahia, como um reflexo precursor da luz perpetua, a vista
+perturbada da paciente, indo e vindo da Imagem, que parecia chamal-a, para o
+amante, que, recostada a fronte sobre o seu travesseiro, e apertando-lhe a mão,
+lhe supplicava mudamente o não deixasse.</p>
+
+<p>Reconcentrou emfim, por um supremo exfôrço feminil os remanescentes do seu
+vigor exhausto; e mandando chamar meu irmão, que na proxima sala chorava por
+ambos nós, nos disse: que sentia já a sua existencia na vasante, e era tempo de
+apparelhar a alma para as bodas eternas; em quanto lhe restava entendimento e
+fala, queria dirigir a cada um de nós um rogo que de proposito reservára para
+aquelle momento em que nada se recusa.<span class="pn"><a
+name="pag_152">{152}</a></span></p>
+
+<p>Cada um jurou cumpril-o, fosse qual fosse.</p>
+
+<p>&mdash;«Tenho pena de ti, ¡meu pobre poeta!&mdash;proseguiu ella apoz alguns momentos
+de concentração.&mdash;Sei que deixo um grande vazio na tua vida. Se Anna Lucinda
+não fosse freira, essa conhecia-te como eu, amava-te quasi tanto como eu, podia
+continuar como tua esposa a obra da tua felicitação, que eu deixo incompleta.
+Se jámais a ventura te deparar outra mulher de alma, e capaz de comprehender a
+tua, instruida, amante, superior ao vulgo dos espiritos, apta emfim para te
+servir e consolar, offerece-lhe o logar que eu deixo ermo nos teus destinos; eu
+mesma abençoarei lá de cima a vossa união.»</p>
+
+<p>Vim a cumprir-lhe o seu desejo testamentario; ella desempenhou-se da
+promessa.</p>
+
+<p>Então, voltando-se para o nosso querido irmão, e depois de lhe agradecer
+todas as melindrosas manifestações de affecto, que tantos annos havia nos
+liberalisára, sem cançaço nem quebra, lhe supplicou, doce e graciosa como um
+anjo, cujas azas de prata já começavam a despontar, lhe outorgasse emfim a
+casinha candida com que tantas vezes lhe fizera sonhar; agora, para a erigir
+bastava uma só pedra; que lhe puzesse uma inscripção, na qual ao nome d'ella se
+ajuntasse o dos seus tres poetas: o meu, e o dos seus gloriosos
+parentes&mdash;Ferreira e Tolentino.</p>
+
+<p> </p>
+
+<p>A bella alma partiu.<span class="pn"><a name="pag_153">{153}</a></span></p>
+
+<h2><a name="SECTION002590000000000000000">LIX</a></h2>
+
+<p>No cemiterio de Nossa Senhora dos Prazeres o tumulo N.º 48, convisinho á
+ermida da Virgem, deixa ler este epitaphio:</p>
+
+<p> </p>
+
+<p style="text-align:center; font-size: small;">MONUMENTO<br>
+DE PERPETUA SAUDADE,<br>
+CONSAGRADO POR<br>
+ANTONIO FELICIANO DE CASTILHO<br>
+A<br>
+SUA MULHER<br>
+D. MARIA IZABEL DE BAÊNA<br>
+COIMBRA PORTUGAL,<br>
+DIGNA SOBRINHA DE<br>
+NICOLAU TOLENTINO DE ALMEIDA,<br>
+E<br>
+DESCENDENTE DO ANTIGO<br>
+POETA ANTONIO FERREIRA.<br>
+NASCÊO NO PORTO A 2 DE JULHO<br>
+DE<br>
+1796<br>
+E FALLECÊO EM LISBOA A 1 DE FEVEREIRO<br>
+DE<br>
+1837<span class="pn"><a name="pag_154">{154}</a></span></p>
+
+<h1><a name="SECTION002600000000000000000">NOTAS</a></h1>
+
+<p>Pag. 17, lin. 10&mdash;<strong>Primeiros desastres de Castilho</strong></p>
+
+<p>Tendo 1 anno de edade cahiu Castilho em casa, dos braços da ama, por uma
+escada de pedra, e quebrou o osso sterno, onde conservou sempre defeito. Ficou
+tão abalado, que chegaram os paes a recear se lhe extinguisse a vida. Aos 4
+annos teve tosse convulsa, e deitou muito sangue pela bocca. O estado em que
+ficou, obrigou sua mãe a leval-o para o campo. Isto tudo (note-se) foi antes do
+ataque de sarampo que o cegou aos 6 annos.</p>
+
+<p>Pag. 10, lin. 5&mdash;<strong>Quinta dos Azulejos</strong></p>
+
+<p>Sobre a <em>quinta dos Azulejos</em> (tambem outr'ora chamada do
+<em>Principe</em>), no largo do Poço, no logarejo do Paço do Lumiar, junto a
+Lisboa, veja-se o que vem nas <em>Memorias de Castilho</em>, por Julio de
+Castilho, tomo I. O poço que se via no meio do tal resumido largo já não
+existe. Engana-se Castilho attribuindo a esta quinta, por conjectura vaga, a
+honra de ter communicado ao logarejo o seu nome de Paço. Essa gloria, segundo o
+erudito Vilhena Barbosa, pertence talvez á quinta dos Duques de Palmella.</p>
+
+<p>É ainda hoje a quinta dos Azulejos um bellissimo especimen dos jardins
+nobres e ricos do seculo XVIII. Pena e grande pena foi, que os modernos
+proprietarios destruissem o arvoredo antigo, os buxos aparados, as murtas,
+etc., dos jardins em estylo velho, para substituir essas regradas opulencias
+vegetaes<span class="pn"><a name="pag_156">{156}</a></span> por outras
+invenções pertencentes ao chamado jardim inglez. Estas serão muito bellas, mas
+desdizem dos azulejos primitivos, que lá campeiam ainda, e são dos mais
+vistosos, dos mais correctos, dos mais agradaveis que podem ver-se.</p>
+
+<p>Quando, na muitos annos, visitou essa quinta o Poeta, ainda o estado antigo
+da parte rustica do predio se conservava intacto. É lastima que o alterassem.</p>
+
+<p>Pag. 19, lin. 13&mdash;<strong>Antigos donos da quinta dos Azulejos</strong></p>
+
+<p>Não se conhece (se é que existiu) parentesco da familia do Poeta com os
+donos da <em>quinta dos Azulejos</em> (ou do <em>Principe</em>). Pelo lado
+Castilho não seria de certo. A ter existido, deve ter provindo da familia
+materna, que era de Lisboa e seus arredores, ao passo que a do Doutor José
+Feliciano de Castilho era de Coimbra, Aveiro, S. Lourenço, e Bairrada. Sem
+haver consanguinidade, bem pode ser que as duas familias, que parece eram
+bastante intimas, se tratassem por parentas, a principio por gracejo, depois
+por costume. Não sabemos dizer quem hoje representa a familia de Amalia.</p>
+
+<p>Pag. 21, lin. 33&mdash;<strong>Thomaz dos passarinhos</strong></p>
+
+<p><em>Thomaz dos passarinhos</em> é o personagem de um dos contos do fallecido
+e talentoso Rodrigo Paganino no seu lindo livro <em>Contos do tio Joaquim</em>,
+livro que muito agradou a Castilho, e que elle ouviu com gosto ler umas poucas
+de vezes.</p>
+
+<p>Pag. 25, lin. 3&mdash;<strong>O Paço do Lumiar a uma legua de Lisboa</strong></p>
+
+<p>«Estou dictando a uma legua de distancia»&mdash;dizia Castilho e bem. <em>A Chave
+do Enigma</em> foi escripta na casa que o poeta habitava, na rua Nova de S.
+Francisco de Paula, n.<sup>os</sup> 25, 27 e 29. D'esta casa apenas existe hoje menos de
+metade.</p>
+
+<p>Pag. 27, lin. 11&mdash;<strong>José Peixoto do Valle</strong></p>
+
+<p>Era o nome d'esse abalisado professor no Geral do Cunhal das Bolas.
+Coube-lhe a gloria de mestre de Castilho; este mencionou-o mais de uma vez em
+varios livros.<span class="pn"><a name="pag_157">{157}</a></span></p>
+
+<p>Pag. 30, lin. 8&mdash;<strong>Cemiterio de honra</strong></p>
+
+<p>Castilho propoz e advogou a creação de um cemiterio de honra para mortos
+celebres e benemeritos da Patria. Não os queria encerrados n'um Pantheon;
+queria-os n'um vasto jardim cheio de sombras, zumbidos, e vozes de passaros, á
+sombra da Cruz. Nas notas do seu <em>Camões</em> tratou largamente o assumpto.
+Não foi ouvido.</p>
+
+<p>Pag. 30, lin. 9&mdash;<strong>Bustos de homens notaveis</strong></p>
+
+<p>Castilho propoz mais de uma vez que nos passeios publicos se collocassem
+bustos de Portuguezes notaveis.</p>
+
+<p>Pag. 30, lin. 14&mdash;<strong>Camões</strong></p>
+
+<p>Em 1836 propoz Castilho, na assemblêa geral da Sociedade dos Amigos das
+Lettras, em Lisboa, se buscassem os ossos de Camões, e se lhes prestasse
+homenagem nacional, solemne e publica, segundo o programma que apresentou.
+Procurou os ossos, e achou-os, dirigindo uma Commissão especial nomeada
+expressamente pela mesma Sociedade. A nova Commissão de 1854 discordou da
+argumentação de Castilho, e deu outros ossos como sendo os do Epico. Entretanto
+Castilho conservou sempre a convicção de que o seu raciocinio na busca era o
+verdadeiro.</p>
+
+<p>Castilho tinha a maior ufania e satisfação em escutar á sua consciencia
+dizer-lhe que em 1836 tinha elle procurado (e achado) na egreja de Sant'Anna os
+restos mortaes de Camões. Sobre todo esse complicado assumpto pode ler-se o que
+se trata detidamente nas <em>Memorias de Castilho</em>, Livro III, no
+<em>Instituto de Coimbra</em>. Não fizeram caso dos argumentos, e levaram para
+os Jeronymos uns ossos quaesquer. Consulte-se o consciencioso livro do
+illustrado sr. Padre Sebastião de Almeida Viegas <em>A verdade acerca dos ossos
+de Luiz de Camões</em>.</p>
+
+<p>Pag. 36, lin. 7&mdash;<strong>Palacio do Arco de Almedina</strong></p>
+
+<p>A casa do Arco de Almedina, em Coimbra, ainda hoje é denominada <em>dos
+Castilhos</em> pela ter habitado esta familia muitos annos. A vista do pateo
+foi reproduzida no volume antecedente a este.<span class="pn"><a
+name="pag_158">{158}</a></span></p>
+
+<p>Pag. 36, lin. 22&mdash;<strong>Maria Telles</strong></p>
+
+<p>Julgava Castilho, com muitos seus contemporaneos, que o tristissimo caso do
+assassinio da infeliz D. Maria Telles se tinha dado no casarão velho, ou Torre,
+junto ao Arco de Almedina. Era engano; sabe-se hoje que não foi ahi.</p>
+
+<p>Pag. 37, lin. 14&mdash;<strong>A educanda</strong></p>
+
+<p>O nome adoptado pela educanda, <em>Maria da Expectação Silva e
+Carvalho</em>, não era o que usava, mas tinha forma symbolica. <em>Maria</em>
+era com effeito o seu nome proprio. A <em>Expectação</em> allude á expectativa,
+em que ella se achava, de ser, ou não, correspondida pelo Poeta. <em>Silva</em>
+e <em>Carvalho</em> eram appellidos da Casa de seu pae; Francisco da Silva
+Coimbra de Carvalho, Cavalleiro professo na Ordem de Christo, Fidalgo da Casa
+Real, casado na freguezia das Mercês a 27 de Outubro de 1785 com D. Maria
+Fortunata Agostinha de Portugal, nascida em 12 de Outubro de 1766 na freguezia
+dos Anjos. O nome exacto da <em>incognita</em> era D. Maria Isabel de Baêna
+Coimbra Portugal.</p>
+
+<p>Pag. 50, lin. 28&mdash;<strong>D. Tourís</strong></p>
+
+<p>Esse D. Tourís, ou Turís Sarna, é, segundo os nossos antigos linhagistas,
+progenitor da nobre familia dos Barbudos, á qual pertenceu o senhorio da villa
+de Barbudo, concelho de Villa-Chan, comarca de Pico de Regalados (hoje
+freguezia de Parada, concelho de Villa Verde). D. Leonor de Barbudo, natural de
+Odemira, filha unica e herdeira de Ruy Filippe de Barbudo e de Isabel Rebello
+Falcão, casou com D. Francisco de Baêna, vereador da camara de Odemira, e filho
+de D. Hernando de Baêna, o primeiro que de Sevilha se passou para Portugal, e
+teve em 30 de Outubro de 1501 o foro de Escudeiro fidalgo.</p>
+
+<p>Foram primeiros avós do Desembargador do Paço João Sanches de Baêna, que na
+sua mocidade usou tambem o appellido de Barbudo, 5.º avô da educanda de Vairão.
+¿Quem diria ao fundador, que passados seculos ali tinha de habitar uma sua
+descendente?</p>
+
+<p>Pag. 50, lin. 38&mdash;<strong>Os Sanches de Baêna</strong></p>
+
+<p>Vivia essa senhora recolhida em Vairão, com sua irman D. Maria do Carmo (mãe
+do actual Visconde<span class="pn"><a name="pag_159">{159}</a></span> de
+Sanches de Baêna). Tinham um irmão Luiz da Silva Coimbra de Carvalho, cadete,
+fallecido novo em resultado de feridas recebidas na guerra peninsular.</p>
+
+<p>Pag. 53, lin. 24&mdash;<strong>Pygmalião</strong></p>
+
+<p>Parece haver entre os antiquarios mythologos certa confusão entre dois
+Pygmaliões, um esculptor insigne, e um rei de Tyro; Castilho (como alguns
+outros) fez dos dois um só.</p>
+
+<p>Pag. 131, lin. 34&mdash;<strong>O Imperador de França</strong></p>
+
+<p>Referencia a S. M. Napoleão III, que em 1861 reinava, sem que ninguem
+podesse presagiar a sua desastrosa queda oito annos andados.</p>
+
+<p>Pag. 149, lin. 28&mdash;<strong>Cinzas da correspondencia do Poeta</strong></p>
+
+<p>O sr. Ernesto Loureiro, comprando o predio de S. Francisco de Paula, depois
+da sahida de Castilho em 1871, determinou edificar ahi um predio novo para sua
+habitação. A metade septentrional da casa velha foi arrazada, e n'esse sitio e
+em parte do jardim se levanta hoje um <em>chalet</em>. O sr. Loureiro, cujo
+fino espirito e cujo affectuoso coração se compraz no culto do passado, quiz
+respeitar a lapide posta pelo Poeta; mas sendo necessario removel-a, fel-o com
+cuidado, com carinho, com amor, e pôl-a com o cofre das cinzas n'outra parte do
+mesmo jardim, juntando-lhe um pedestal por accessorio, e o busto de Castilho.
+Tudo isso consta minuciosamente de um auto ali celebrado, e que se acha
+intercalado no logar respectivo das <em>Memorias</em>. O que praticou o sr.
+Ernesto Loureiro honra sobremodo o seu caracter.</p>
+</div>
+
+<div class="rodape">
+<p><a name="foot538" href="#tex2html1"><sup>[1]</sup></a> Carta ao
+Ex.<sup>mo</sup> Sr. Casal Ribeiro datada em 1 de Março de 1859, publicada pela
+Associação Promotora da Educação Popular.</p>
+
+<p><a name="foot529" href="#tex2html2"><sup>[2]</sup></a> J. M. Latino Coelho:
+Biographia de A. F. de Castilho na <em>Revista Comtemporanea</em>.</p>
+
+<p><a name="foot235" href="#tex2html3"><sup>[3]</sup></a> Cant. dos Cant., cap.
+II.</p>
+
+<p><a name="foot532" href="#tex2html4"><sup>[4]</sup></a> Pode-se ler a
+interessante descripção do que resta d'esta casa tão religiosa como historica
+no formoso livro <em>Bellezas de Coimbra</em>, impresso n'aquella mesma cidade
+em 1831 pelo sr. Antonio Moniz Barreto Corte Real.</p>
+
+<p><a name="foot534" href="#tex2html5"><sup>[5]</sup></a> Pode-se ver na
+<em>Felicidade pela Agricultura</em> o artigo intitulado&mdash;<em>O Clero, e as
+Mulheres</em>.</p>
+</div>
+
+
+
+
+
+
+
+<pre>
+
+
+
+
+
+End of Project Gutenberg's A Chave do Enigma, by António Feliciano de Castilho
+
+*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK A CHAVE DO ENIGMA ***
+
+***** This file should be named 32002-h.htm or 32002-h.zip *****
+This and all associated files of various formats will be found in:
+ https://www.gutenberg.org/3/2/0/0/32002/
+
+Produced by Pedro Saborano (produced from scanned images
+of public domain material from Google Book Search)
+
+
+Updated editions will replace the previous one--the old editions
+will be renamed.
+
+Creating the works from public domain print editions means that no
+one owns a United States copyright in these works, so the Foundation
+(and you!) can copy and distribute it in the United States without
+permission and without paying copyright royalties. Special rules,
+set forth in the General Terms of Use part of this license, apply to
+copying and distributing Project Gutenberg-tm electronic works to
+protect the PROJECT GUTENBERG-tm concept and trademark. Project
+Gutenberg is a registered trademark, and may not be used if you
+charge for the eBooks, unless you receive specific permission. If you
+do not charge anything for copies of this eBook, complying with the
+rules is very easy. You may use this eBook for nearly any purpose
+such as creation of derivative works, reports, performances and
+research. They may be modified and printed and given away--you may do
+practically ANYTHING with public domain eBooks. Redistribution is
+subject to the trademark license, especially commercial
+redistribution.
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+*** START: FULL LICENSE ***
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+THE FULL PROJECT GUTENBERG LICENSE
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+1.B. "Project Gutenberg" is a registered trademark. It may only be
+used on or associated in any way with an electronic work by people who
+agree to be bound by the terms of this agreement. There are a few
+things that you can do with most Project Gutenberg-tm electronic works
+even without complying with the full terms of this agreement. See
+paragraph 1.C below. There are a lot of things you can do with Project
+Gutenberg-tm electronic works if you follow the terms of this agreement
+and help preserve free future access to Project Gutenberg-tm electronic
+works. See paragraph 1.E below.
+
+1.C. The Project Gutenberg Literary Archive Foundation ("the Foundation"
+or PGLAF), owns a compilation copyright in the collection of Project
+Gutenberg-tm electronic works. Nearly all the individual works in the
+collection are in the public domain in the United States. If an
+individual work is in the public domain in the United States and you are
+located in the United States, we do not claim a right to prevent you from
+copying, distributing, performing, displaying or creating derivative
+works based on the work as long as all references to Project Gutenberg
+are removed. Of course, we hope that you will support the Project
+Gutenberg-tm mission of promoting free access to electronic works by
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+the work. You can easily comply with the terms of this agreement by
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+Gutenberg-tm License when you share it without charge with others.
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+1.D. The copyright laws of the place where you are located also govern
+what you can do with this work. Copyright laws in most countries are in
+a constant state of change. If you are outside the United States, check
+the laws of your country in addition to the terms of this agreement
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+Gutenberg-tm License.
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+compressed, marked up, nonproprietary or proprietary form, including any
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+- You pay a royalty fee of 20% of the gross profits you derive from
+ the use of Project Gutenberg-tm works calculated using the method
+ you already use to calculate your applicable taxes. The fee is
+ owed to the owner of the Project Gutenberg-tm trademark, but he
+ has agreed to donate royalties under this paragraph to the
+ Project Gutenberg Literary Archive Foundation. Royalty payments
+ must be paid within 60 days following each date on which you
+ prepare (or are legally required to prepare) your periodic tax
+ returns. Royalty payments should be clearly marked as such and
+ sent to the Project Gutenberg Literary Archive Foundation at the
+ address specified in Section 4, "Information about donations to
+ the Project Gutenberg Literary Archive Foundation."
+
+- You provide a full refund of any money paid by a user who notifies
+ you in writing (or by e-mail) within 30 days of receipt that s/he
+ does not agree to the terms of the full Project Gutenberg-tm
+ License. You must require such a user to return or
+ destroy all copies of the works possessed in a physical medium
+ and discontinue all use of and all access to other copies of
+ Project Gutenberg-tm works.
+
+- You provide, in accordance with paragraph 1.F.3, a full refund of any
+ money paid for a work or a replacement copy, if a defect in the
+ electronic work is discovered and reported to you within 90 days
+ of receipt of the work.
+
+- You comply with all other terms of this agreement for free
+ distribution of Project Gutenberg-tm works.
+
+1.E.9. If you wish to charge a fee or distribute a Project Gutenberg-tm
+electronic work or group of works on different terms than are set
+forth in this agreement, you must obtain permission in writing from
+both the Project Gutenberg Literary Archive Foundation and Michael
+Hart, the owner of the Project Gutenberg-tm trademark. Contact the
+Foundation as set forth in Section 3 below.
+
+1.F.
+
+1.F.1. Project Gutenberg volunteers and employees expend considerable
+effort to identify, do copyright research on, transcribe and proofread
+public domain works in creating the Project Gutenberg-tm
+collection. Despite these efforts, Project Gutenberg-tm electronic
+works, and the medium on which they may be stored, may contain
+"Defects," such as, but not limited to, incomplete, inaccurate or
+corrupt data, transcription errors, a copyright or other intellectual
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+is also defective, you may demand a refund in writing without further
+opportunities to fix the problem.
+
+1.F.4. Except for the limited right of replacement or refund set forth
+in paragraph 1.F.3, this work is provided to you 'AS-IS' WITH NO OTHER
+WARRANTIES OF ANY KIND, EXPRESS OR IMPLIED, INCLUDING BUT NOT LIMITED TO
+WARRANTIES OF MERCHANTIBILITY OR FITNESS FOR ANY PURPOSE.
+
+1.F.5. Some states do not allow disclaimers of certain implied
+warranties or the exclusion or limitation of certain types of damages.
+If any disclaimer or limitation set forth in this agreement violates the
+law of the state applicable to this agreement, the agreement shall be
+interpreted to make the maximum disclaimer or limitation permitted by
+the applicable state law. The invalidity or unenforceability of any
+provision of this agreement shall not void the remaining provisions.
+
+1.F.6. INDEMNITY - You agree to indemnify and hold the Foundation, the
+trademark owner, any agent or employee of the Foundation, anyone
+providing copies of Project Gutenberg-tm electronic works in accordance
+with this agreement, and any volunteers associated with the production,
+promotion and distribution of Project Gutenberg-tm electronic works,
+harmless from all liability, costs and expenses, including legal fees,
+that arise directly or indirectly from any of the following which you do
+or cause to occur: (a) distribution of this or any Project Gutenberg-tm
+work, (b) alteration, modification, or additions or deletions to any
+Project Gutenberg-tm work, and (c) any Defect you cause.
+
+
+Section 2. Information about the Mission of Project Gutenberg-tm
+
+Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
+electronic works in formats readable by the widest variety of computers
+including obsolete, old, middle-aged and new computers. It exists
+because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
+people in all walks of life.
+
+Volunteers and financial support to provide volunteers with the
+assistance they need are critical to reaching Project Gutenberg-tm's
+goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
+remain freely available for generations to come. In 2001, the Project
+Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
+and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
+To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
+and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
+and the Foundation web page at https://www.pglaf.org.
+
+
+Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive
+Foundation
+
+The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
+501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
+state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
+Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification
+number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at
+https://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
+permitted by U.S. federal laws and your state's laws.
+
+The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
+Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
+throughout numerous locations. Its business office is located at
+809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
+business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact
+information can be found at the Foundation's web site and official
+page at https://pglaf.org
+
+For additional contact information:
+ Dr. Gregory B. Newby
+ Chief Executive and Director
+ gbnewby@pglaf.org
+
+
+Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation
+
+Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
+spread public support and donations to carry out its mission of
+increasing the number of public domain and licensed works that can be
+freely distributed in machine readable form accessible by the widest
+array of equipment including outdated equipment. Many small donations
+($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
+status with the IRS.
+
+The Foundation is committed to complying with the laws regulating
+charities and charitable donations in all 50 states of the United
+States. Compliance requirements are not uniform and it takes a
+considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
+with these requirements. We do not solicit donations in locations
+where we have not received written confirmation of compliance. To
+SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
+particular state visit https://pglaf.org
+
+While we cannot and do not solicit contributions from states where we
+have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
+against accepting unsolicited donations from donors in such states who
+approach us with offers to donate.
+
+International donations are gratefully accepted, but we cannot make
+any statements concerning tax treatment of donations received from
+outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff.
+
+Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
+methods and addresses. Donations are accepted in a number of other
+ways including including checks, online payments and credit card
+donations. To donate, please visit: https://pglaf.org/donate
+
+
+Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic
+works.
+
+Professor Michael S. Hart was the originator of the Project Gutenberg-tm
+concept of a library of electronic works that could be freely shared
+with anyone. For thirty years, he produced and distributed Project
+Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.
+
+
+Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
+editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
+unless a copyright notice is included. Thus, we do not necessarily
+keep eBooks in compliance with any particular paper edition.
+
+
+Most people start at our Web site which has the main PG search facility:
+
+ https://www.gutenberg.org
+
+This Web site includes information about Project Gutenberg-tm,
+including how to make donations to the Project Gutenberg Literary
+Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to
+subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks.
+
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