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+The Project Gutenberg EBook of Memorias de um pobre diabo, by
+Bruno Henriques de Almeida Seabra
+
+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.org
+
+
+Title: Memorias de um pobre diabo
+
+Author: Bruno Henriques de Almeida Seabra
+
+Release Date: April 6, 2010 [EBook #31906]
+
+Language: Portuguese
+
+Character set encoding: ISO-8859-1
+
+*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK MEMORIAS DE UM POBRE DIABO ***
+
+
+
+
+Produced by Pedro Saborano (produced from scanned images
+of public domain material from Google Book Search)
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+
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+
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+
+ MEMORIAS
+
+ DE
+
+ UM POBRE DIABO
+
+ POR
+
+ ARISTOTELES DE SOUSA.
+
+
+
+ RIO DE JANEIRO
+
+ LIVRARIA LUSO-BRASILEIRA
+
+ 30--RUA DA QUITANDA--30
+
+
+
+MEMORIAS DE UM POBRE DIABO.
+
+
+
+LIVRARIA BRAZILEIRA
+
+DE
+
+TANCREDO DE BARROS PAIVA
+
+132, Rua do Lavradio, 132
+
+Annuncia ás Terças-feiras no "Jornal do Commercio"
+
+
+
+Typographia--PERSEVERANÇA--rua do Hospicio n. 91
+
+1868
+
+
+
+MEMORIAS
+
+DE
+
+UM POBRE DIABO
+
+POR
+
+ARISTOTELES DE SOUSA.
+
+
+
+ ARISTOTELES DE SOUSA.
+
+ _Do autor._
+
+
+
+RIO DE JANEIRO
+
+LIVRARIA LUSO-BRASILEIRA
+
+30--RUA DA QUITANDA--30
+
+
+
+
+Prologo.
+
+Pobreza não é vileza. Aviados andariam os vicios se fizessem conta dos
+pobres. Por não ser a pobreza vicio, fogem della, até os...
+escriptores... E como esperar _um pobre diabo_ que outrem, que não elle,
+escreva _suas memorias_?
+
+Responda o respeitavel--Publico--, sujeito em quem nesta occasião não
+descarrego a mais tremenda das descomposturas por amor á vazão deste
+livrinho. Cá me fica ella, porém, de reserva para quando eu haja de
+escrever algum _juizo critico_ sobre alheia obra.
+
+Eis ahi o que é um _prologo_; em latim--_exordium_, em
+francez--_avant-propos_, no alemão--_Einleitung_, no inglez...
+_foolery_, e em as outras linguas como queiram, excepto no grego quê por
+fôrça será _pro-logos_, de _logos_ discurso, _pró_ antecipado, para se
+não dizer que embaço.
+
+Este prologo e os capitulos seguintes são escriptos em portuguez, com
+perdão do meu professor de grammatica.
+
+
+
+
+PRIMEIRA PARTE.
+
+
+CAPITULO I.
+
+Vim á luz ao pôr do sol, minutos antes do toque das Ave-Marias. Hora
+fresca. No anno em que nasci, não appareceu nenhum cometa por cima de
+mim. Não requeri para _vir á luz_ e, ai de nós! se o nascimento
+dependesse de um--_como requer!_--A esta hora meio mundo não teria feito
+a barba.
+
+Do dia do nascimento aos meus oito annos de idade, deram-se mil e uma
+circumstancias; notem que não digo--_pormenores_ e aprendam a evitar um
+_hespanholismo_.
+
+
+CAPITULO II.
+
+Aos doze annos lia, escrevia, contava e até _grammaticava_, se dou
+crédito ao attestado do meu professor, que, nesse tempo, escrevia deste
+modo--_proFeçôr_.
+
+Ainda noje não atinei como aprendi a lêr, a escrever, a contar e a
+grammaticar com um professor, que lia _Simeão da Nautica_ em vez de
+_Simão de Nantua_, orthographava professor d'aquelle modo, contando
+pelos dedos quando sommava 3+2+5?!
+
+Tambem já não tinha medo de almas do outro mundo.
+
+
+CAPITULO III.
+
+Ouçam isto:
+
+--Senhor meu sobrinho! abeire-se cá, sommemos as nossas contas. Ha dous
+mezes esteve vossê de cama, em risco de morrer entrevado, consequencias
+das suas sahidas de casa a deshoras; pondo novamente os pés na rua foi
+contrahir uma divida na importancia de oitenta e cinco mil e quinhentos
+réis; aqui tenho a nota:
+
+ 1 Vestido de cambraia de côr com babados... 15$000
+ 1 Chale de lã e sêda....................... 10$000
+ Dinheiro pedido........................... 6$000
+ Juros..................................... 2$000
+ 2 Pares de chinelas de saltinho............. 6$000
+ 1 Peça de morim francez..................... 8$000
+ 1 Vidro d'agua de Colonia................... 1$500
+ 1 Dito de Patchouly......................... 1$000
+ 1 Pente de tartaruga (imitação)............ 10$000
+ 1 Pote de pomada............................ 1$000
+ 1 Par de brincos (ouro de lei)............. 25$000
+ Rs..... 85$500
+
+pagos por mim ao Sr. Moreira, por honra das cinzas de meu irmão. Não
+satisfeito com esta compra, que vossê diz ter feito para seu uso, como
+se eu fosse algum pato, ave a mais estupida dos gallinheiros, tanto
+assim que sempre ouvi chamar _pato_ a quem se deixa levar, sobretudo,
+pelos _não me-deixes_ de certas mulheres; não satisfeito, dizia, ha oito
+dias recebeu vossê uma _sova de peias_, em resposta aos desaforados
+versos que dirigio á santa mulher do honrado visinho o Sr. Onofre. Somme
+as parcellas, subtrahindo a _sova a seu favor_, e veja quanto me resta?
+O embolso é a sua entrada para a escola de aprendizes marinheiros.... Vá
+aprender a ser homem....
+
+--E os meus estudos, tio? balbuciei.
+
+--Os seus estudos! replicou elle; o que estuda vossê?
+
+--Oh tio! o latim....
+
+--Sim, o latim.... ha quatro annos anda vossê estudando o latim; e o que
+sabe delle?
+
+--Já declino os _nominativos_, tio....
+
+Que vergonha! eu chegava aos 16 annos!
+
+
+CAPITULO IV.
+
+O excellente velho era homem de têmpera austera, não lia os jornaes. Se
+os lesse teria visto que eu, apezar de haver gasto quatro annos para no
+cabo chegar aos nominativos da _artinha_, por outro lado, dava provas do
+meu talento.
+
+N'aquella idade já o _Camarão_ e o _Lagarto_, periodicos _literarios_,
+_artisticos_, _politicos_ e _burlescos_ publicados então, chamavam a
+attenção dos leitores, o primeiro para o meu artigo intitulado _O homem
+deve ser sceptico_ e o outro sobre a minha poesia--_Ella_ (á qual meu
+tio alludio quando fallou na santa mulher do nosso honrado visinho o Sr.
+Onofre).
+
+O meu primeiro escripto que andou em letra redonda foi o artigo. Quem
+conhece o gigante pelo dedo, conhecerá o artigo inteiro por este
+começar:--«Eil-o cabisbaixo e taciturno fitando o horisonte da
+existencia... Esqueleto de crenças resequidas, elle descrê da luz e das
+trévas, de si e de todos, etc.»
+
+O _Camarão_, sem inquirir como póde a gente _cabisbaixa_ fitar o
+horisonte da existencia, e muito menos a que animal pertencera o
+_esqueleto de crenças resequidas_, rematava o encomio ao artigo com
+estas palavras de arromba:
+
+«É de crêr que o joven e talentoso escriptor com o andar do tempo
+modifique as doentias idéas, prematuramente bebidas nas fontes de
+Benedicto Spinosa, J. J. Rousseau, Claudio Helvecio, e outros
+materialistas. Asseveramos, no entanto, que se este artigo levasse o
+nome de um destes autores--seria uma faisca electrica lançada no meio da
+sociedade; tal é o vigor dos seus paradoxos...»
+
+Muito obrigado, aos Srs. Redactores do _Camarão_.
+
+
+CAPITULO V.
+
+Quando escrevi--_O homem deve ser sceptico_, eu sabia onde ficava a
+fonte de Helvecio, Rousseau, Spinosa e outros, que o _Camarão_ conhecia
+igualmente, como no Japão a esta hora se sabe que hontem chegou o vapor
+do Norte! Mas tal nomeada de literato consummado ganhei na opinião dos
+ledores do _Camarão_, que a redacção do _Lagarto_, receiando
+desequilibrar a prosperidade, poz logo á minha disposição todas as suas
+columnas.
+
+Respondi á offerta enviando a minha--_Ella_.
+
+Tres dias depois, corria ella o mundo, inserta na 1.ª columna do 1.º
+numero da 2.ª serie do periodico, levando na cabeça este chapelinho:
+
+«--A redacção do _Lagarto_ sente ineffavel satisfação dando aos seus
+assignantes a grata noticia de haver o muito talentoso, muito sympathico
+e já assaz conhecido autor do--_Homem deve ser sceptico_, honrado as
+humildes columnas do nosso periodico com o prestigio do seu invejavel
+nome. A poesia abaixo inserta, verdadeiro primor da imaginação, fôra o
+melhor padrão da gloria de Petrarcha, se Petrarcha a escrevesse.
+Felicitamo-nos, pois, reconhecendo que o mavioso poeta deste torrão,
+reune em si conjunctamente as qualidades dos cysnes do Senna, do Tejo,
+de Thebas, de Albião, de Torento, da Ausonia, etc.»
+
+Leiam a primeira estrophe _d'ella_:
+
+ --Não sei dizer se a flôr da larangeira
+ É tão formosa, tão gentil, tão bella,
+ Como a flôr do jardim da phantasia,
+ A flôr do meu amor, a minha--_Ella_...
+
+Quem souber, diga.
+
+Vim a saber mais tarde que cysne Ausonio queria dizer--Virgilio; cysne
+de Torento--Torquato Tasso; Cysne de Albião--Miltão; cysne de
+Thebas--Pindaro; cysne do Tejo--Camões; cysne do Senna--Lamartine; cysne
+da... n'uma palavra, que todos os poetas tem o seu _quê de pato_.
+
+
+CAPITULO VI.
+
+Peroremos: meu tio não tentára torcer a minha vocação se lesse os
+jornaes, ficando provado que se _ella_ fosse outra e não a pessoa da
+Sra. D. Balbina, santa mulher do Sr. Onofre, de memoria não saudosa para
+meus ossos, eu não teria levado a _sova de peias_ estreando na poesia.
+
+--Do berço á tumba só padece o genio!
+
+
+CAPITULO VII.
+
+O irmão de meu pai não faltava quando promettia.
+
+Era seu dizer de todos os dias que o _cumprimento devia andar nas ancas
+do prometter_, (ditado da maior embirração dos ministros).
+
+Prometteu-lhe no domingo, cumprio na segunda.
+
+Sahia-me eu lepido com a _artinha_ debaixo do braço.
+
+--Aonde vamos? pergunta.
+
+--A aula; respondo.
+
+--Não senhor, não é a aula, vamos para o arsenal de marinha... marche...
+
+--Eu juro ao tio... gaguejei, esfregando os olhos com as costas da mão,
+de ora em diante estudar, como se fosse um boi...
+
+Tinham-me contado que se os bois fossem homens seriam grandes letrados.
+
+--Para boi caminha vossê, replica elle, que para bezerro não lhe falta
+nada.
+
+Já estavamos no meio da rua. E a mulher do Sr. Onofre na janella.
+
+Nem de caso pensado, meu tio foi em direitura. Eu tinha desejado o
+contrario... n'aquelle dia bastava eu desejar, para succeder ás avessas,
+fosse o que fosse.
+
+
+CAPITULO VIII.
+
+--Bom dia, vizinha; disse elle parando a um metro de distancia.
+
+--Deus lhe dê o mesmo; respondeu ella.
+
+--O vizinho Onofre, está?
+
+--Sahio.
+
+--Tinha a dar-lhe boa noticia.
+
+--Que noticia é, então?
+
+--A da entrada deste _meco_ para a companhia de aprendizes
+marinheiros... além de outros, pelo atrevimento... a vizinha bem sabe...
+
+Para encobrir o pudor, que me colorio as faces, abri a artinha fingindo
+declinar o _servus servi_, observando de esguelha a vizinha.
+
+--Por isso não vá agora o vizinho, acudio ella medindo as palavras,
+desencaminhar o moço dos estudos.... sabe que... repelli o
+atrevimento... Disse--_repelli_--em tom menor.
+
+--Desencaminhado anda elle, ha muito tempo, tornou meu tio... Ainda
+hontem, fui saber no mercado que o nome deste madraço já corre em
+_letras_ de _fórma_.
+
+O Sr. Onofre apontou na esquina.
+
+Patife!
+
+
+CAPITULO IX.
+
+--Perguntava pelo vizinho.
+
+--Apre! diz o Sr. Onofre, já não se póde em dias de hoje comer
+farinha... cára como o assucar... Como vai o rapazete? (continua,
+dirigindo-me a palavra).
+
+Não me pude conter. Tudo quanto quizesse, menos rapazete diante da
+mulher.
+
+--Sr. Onofre, investi, veja como falla!... Rapazete foi o senhor quando
+tinha 16 annos; eu aos 16 annos não sou rapazete, sou um homem de muito
+talento e escriptor de boa nota e como tal reconhecido pelo _Camarão_ e
+pelo _Lagarto_, fique sabendo, se não sabe lêr. Se o senhor me chama
+rapazete porque não tenho barbas, saiba que não faço caso de cabellos,
+desses distinctivos do toucinho ordinario, e que não tenho barbas porque
+não as quero ter. E de mais, assim como ha mulheres as quaes não sendo
+do genero masculino têm barbas, de igual modo, ha homens os quaes não
+sendo do genero feminino não as têm...
+
+Os circumstantes pasmaram.
+
+De relance, pensei que meu tio gostara da resposta, quando... zás...
+atira-me uma tapona, verdadeira tapona, tapona com todos os ff e rr e
+mais esta addenda:
+
+--Leve, malcriado, para môlho do _Camarão_ mais do seu _Lagarto_.
+
+
+CAPITULO X.
+
+Atirando o Antonio Pereira pelos ares, deixando voar o chapéo, deitei a
+correr pela rua fóra, enfiando-me pelo primeiro becco, como navio
+fugindo do temporal pela primeira enseada.
+
+Abençoado becco!
+
+Abençoadas pernas!
+
+Abençoados oitenta e cinco mil e quinhentos réis, pagos por meu tio ao
+Sr. Moreira!
+
+Abençoado tambem seja o dito Sr. Moreira, pelo bom conceito, que fez do
+meu credito!
+
+Bem empregados oitenta e cinco mil e quinhentos réis dispendidos
+comtigo,--Aurora!
+
+
+CAPITULO XI.
+
+Na aurora da vida, ao alvorecer do amor, a primeira mulher que amei
+chamava-se--Aurora!
+
+Como é poetica esta coincidencia, e como ficou bem phraseada! Quando eu
+for homem celebre ahi fica o thema para uma Epopéa.
+
+Aurora morava no becco!
+
+Relatei-lhe a occurrencia, guardando reserva ácerca da tapona.
+
+Para ganhar mais no seu coração, fallei nos oitenta e cinco mil e
+quinhentos réis, acrescentando, se eu tal adivinhára houvera empenhado
+na loja do Sr. Moreira todos os teres e haveres de meu tio.
+
+O galanteio influe naturalmente no coração da mulher, soube aos 16
+annos, antes de saber latim, e, conseguintemente, antes de lêr Ovidio.
+
+O numero do _Camarão_ onde vinha inserto o meu artigo _O homem deve ser
+sceptico_, e o do _Lagarto_ onde vinha a _Ella_, andavam comigo como
+talismans. Tirei do bolso o _Lagarto_ e dei a Aurora para lêr os versos,
+declarando serem feitos quando pensava n'ella.
+
+A rapariga ainda ignorava mais essa prova de amor, (que tão cara me
+sahira quando a dei á visinha).
+
+A ultima quadra commoveu-a de uma vez: tambem era o _sentimentalismo_
+metrificado.
+
+Que peito de mulher não commoverá esta quadra:
+
+ «Sê minha? Serei teu.... abre-me os braços....
+ Voemos deste mundo.... Sacuras
+ Fujamos do paul.... vamos, querida,
+ Fazer o nosso ninho nas alturas?!
+
+Aurora lia soletrando palavra por palavra. Quando acabou de lêr eu
+estava com fome. Davam tres horas da tarde:
+
+
+CAPITULO XII.
+
+Eu contava 16 annos.
+
+Aurora cerca de 26.
+
+Meu tio ignorava o rumo, que eu tomara, em seguida a tapona; Aurora não
+tinha a quem désse contas do rumo e nem quem lhe désse taponas.
+
+Eu precisava de _credito_ no coração de Aurora; Aurora _creditava_ meu
+amor...
+
+N'uma palavra, se me afiançam dous dias, tão saudosos, como os que
+passei ao abrigo de Aurora, vá feito, aceito uma tapona de tres em tres
+dias... Não posso ser mais rasoavel.
+
+
+CAPITULO XIII.
+
+Verdade lizas diziam os antigos, diziam elles: _hospede ao terceiro dia
+fede._
+
+Na casa do proprio amor, tres dias depois, não cheira o hospede.
+
+Ao quarto dia, me disse Aurora:
+
+--Não te amuas comigo?
+
+--Porque? perguntei.
+
+--Se eu te disser a verdade?
+
+--Não.
+
+--És um _empecilho_...
+
+--Só?
+
+--E é pouco?
+
+Era de facto assaz. Puz-me a pensar.
+
+--No que pensas? tornou ella.
+
+--Na cousa mais simples deste mundo.
+
+--Qual?
+
+--N'um chapéo...
+
+--Por fallares em chapéo, de quem será um, que anda pelo sotão?
+
+--Poderá ser meu... anda vêr...
+
+A rapariga não se deixou rogar. Lesta foi, lesta voltou.
+
+--É justamente meu, clamei, antes de pôr o chapéo na cabeça.
+
+O chapéo era tanto meu como de quem me ouve. Ficava-me na cabeça por
+muito obsequio.
+
+--Acautela-te, acudio Aurora, olha que elle quer subir...
+
+--Aurora, lhe disse com seriedade, toma um beijo... é tudo quanto posso
+dar-te, como lembrança de minha gratidão...
+
+Ao proferir a palavra gratidão--cresceu-me o nó da garganta.
+
+--Não me deves nada, meu querido, respondeu a meia voz. Eu sinto muito
+mas... tu sabes...
+
+--Sei... tens razão... adeus...
+
+Beijamo-nos...
+
+--Tornas ao tio?
+
+--Torno.
+
+Sahi.
+
+--Pois, se tornares ao tio, rematou ella fechando a porta, apparece por
+aqui de quando em quando...
+
+--Se tornares ao tio, repeti a mim mesmo, sim! se tornares ao tio, isto
+é, quando tiveres casa, a minha estará as tuas ordens... Agradecido,
+Aurora.
+
+No entanto, Aurora tinha coração.
+
+Assim houvesse ella juizo.
+
+
+CAPITULO XIV.
+
+Entrei em casa com cara de quem voltava da missa.
+
+Meu tio estava almoçando.
+
+--Quem é? perguntou ouvindo os meus passos, e sem volver os olhos.
+
+--Sou eu... tio... respondi, entre dentes.
+
+--Quem?
+
+--O Sr. moço; respondeu por mim Nicoláo.
+
+--Senta-te, meu filho; o almoço não se diminuio, nem o jantar... nem o
+amor. Disse com natural bondade.
+
+A minha cadeira estava como d'antes á sua esquerda, o talher e o prato
+no lugar do costume.
+
+Sentei-me e cruzei os braços como um penitente.
+
+Meu tio continuou a almoçar sem dar palavra.
+
+Eu tinha almoçado no becco...
+
+Nicoláo trouxe a nata, sobremesa que meu tio nunca dispensava ao almoço.
+Regeitou-a. O preto carregou as sobrancelhas admirado. Pôz-lhe o café na
+chicara; sorveu-o e, emfim, levantou-se.
+
+Levantei-me tambem.
+
+--Agora venha esta sobremesa, melhor que todas as natas, disse abrindo
+os braços.
+
+Atirei-me n'elles como o prodigo nos de seu pae.
+
+Solucei devéras, pela primeira vez em dias de minha vida.
+
+Tambem pela primeira vez a modo que vi lagrimas nos olhos de meu tio.
+
+Este capitulo ia tomando fórma de _eça_?
+
+
+CAPITULO XV.
+
+Nasceram-me n'aquelle dia os dentes do siso.
+
+Oito mezes depois, fui examinado e aprovado _cum laude_ em latim e
+francez. Após dous annos, em geographia e historia, philosophia,
+rhetorica e lingua tupy. Presidio aos exames um bispo.
+
+As pitadas de algebra e geometria, inglez, physica e chimica, tomei-as
+mais tarde aqui no Rio de Janeiro.
+
+Reunindo tudo o que sei, fico sabendo conscienciosamente que careço
+aprender tudo de novo, menos o methodo de passar por sabio.
+
+
+EPILOGO DA PRIMEIRA PARTE.
+
+Os ultimos dias dos meus dezenove annos correram nesta côrte.
+
+Meu tio já havia fallecido quando deixei o torrão natal:
+
+A santa mulher do Sr. Onofre enviuvado segunda vez:
+
+O redactor em chefe do _Camarão_, pedido demissão de supplente de
+delegado de policia, por desaccordo politico com o redactor do
+_Lagarto_, que se fizera genro do delegado.
+
+Se as cousas não pararam alli, a esta hora o delegado está avô de alguns
+netos, estes inspectores de quarteirão e a Sra. Balbina viuva pela
+quinta vez.
+
+Mulher de nome Balbina, perca as esperanças, comigo não casa.
+
+
+
+
+SEGUNDA PARTE.
+
+
+CAPITULO I.
+
+Devo muito ao Rio de Janeiro, não é por estar na sua presença.
+
+Ha um sentimento que eleva o cão acima de muitos homens: o
+reconhecimento do bem que se lhe faz.
+
+Verdade, verdade; por esse lado, corro parelhas com a parentella de
+Pythagoras, cada vez mais numerosa, apezar das _bolas_.
+
+Quando cheguei a esta capital, contava ella apenas _seis peccados
+mortaes_; dias depois, prefazia o numero dos indicados na cartilha.
+
+Não vim prefazer o setimo, como já pensaram; foi o ministerio n. 7, que
+se criou depois da minha chegada.
+
+De haver a minha estrella influido para essa _criação_, é que não é
+nenhum juizo temerario, caipora depois de mim, só eu mesmo.
+
+Isto não é politica.
+
+Lembro-me que o programma do _Camarão_ rematava assim (_vide esse
+periodico n. 1, I.ª colum. ultimas linhas_).
+
+«Não somos politicos; a politica é uma escada; os _tolos_ são os degráos
+por onde os _ladinos_ sobem....»
+
+Bem bonita definição.
+
+«Não somos _tão tolos_, continuava a rezar o programma, que de nós
+deixemos fazer degráos, nem _tão ladinos_ que queiramos subir.»
+
+Linda epigraphe para a testa de um _jornal_ intitulado _O modesto_.
+
+E, pois, nunca fui _tão tolo_ nem _tão ladino_, isto é, _politico_.
+
+O que eu aspirava _ex-corde_, dos _seios da alma_, como hoje dizem,
+dando a alma a propriedade de _amas de leite_, era ser _literato_.
+
+
+CAPITULO II.
+
+Ser literato... fosse como fosse, custasse o que custasse, desse no que
+desse, era o meu diuturno desejo.
+
+Sahi do torrão natal no firme proposito de estudar _mathematicas_ e os
+primeiros livros que comprei nesta côrte foram o _Diccionario poetico_,
+por Candido Lusitano e o das _Rimas_ por Beltrano de Tal Guerreiro.
+
+Eu era um _montão de poetas_ a um só tempo, não se enganara o _Lagarto_.
+
+Todas as paixões me ferviam dentro da alma, como a um tempo fervem
+muitas panellas n'um só fogão.
+
+Na segunda feira, eu era poeta sceptico e crente; na terça, ascetico e
+materialista; na quarta, pudico e licencioso, e d'ahi até o domingo,
+mais seis poetas extremamente oppostos.
+
+Animações choviam.
+
+Os _jornaes diarios_ e _periodicos_, a partir dos mais rispidos e
+terminando na benevolentissima _Marmota Fluminense_, me gritavam
+_avante_!
+
+Se eu dava á luz uma poesia recendendo scepticismo--é Byron, é
+Voltaire... diziam elles; se asceticismo--é o novo padre Caldas, é
+Racine (pai e filho), é o nosso David... se materialismo--é, outra vez,
+Byron, Piron, Parny... se tristeza--André Chénier e mais quatro; se
+facecia--é Bocage, Diniz e não sei quaes mais... se pudicicia e amor,
+não tem que vêr,--é Bernardim Ribeiro e até Sapho! se epigramma--é
+Juvenal, é Marcial, é Nicoláo Tolentino e mais tres vivos, sendo um
+destes o meu amigo Faustino Xavier de Novaes... se... o menos que me
+chamaram foi Homero!
+
+E o echo repercutia pelos angulos do imperio--Homero!
+
+Estavam cumpridas as prophecias do _Camarão_ mais do _Lagarto_: na minha
+vanguarda não se via outro literato mais consummado.
+
+E quando ao por do sol, do postigo das minhas aguas-furtadas, eu
+percorria in mente as paginas da literatura de todas as nações partindo
+do 1.º até o 19.º seculos, eu desdenhava os genios com a sobranceria do
+Pão d'Assucar contemplando as microscopicas ilhas dispersas pelo oceano,
+como pés de repolhos á tona d'agua.
+
+
+CAPITULO III.
+
+Aos vinte e dous annos colleccionei meus manuscritos que, impressos,
+dariam tres volumes, inclusive versos e prosas, romances e dramas,
+comedias e algumas maximas.
+
+Dirigia-me ao prélo com os originaes do primeiro volume (poesias),
+quando encontrei o maior enthusiasta e admirador do genio que o céo
+cobre, moço de 25 annos de idade, bacharelado em letras pelo collegio de
+Pedro II.
+
+--Que andas fazendo, meu poeta? perguntou elle.
+
+--Vou á typographia, respondi.
+
+--O que estás imprimindo?
+
+--As minhas obras, disse enchendo a bocca....
+
+--Meus parabens, a ti e ao Brazil. Ora, graças a Deus! vamos ter uma
+literatura patria.
+
+Enguli a pilula sem difficuldade, como outros muitos a--tem engulido
+depois de mim.
+
+--Quantos volumes?
+
+--Tres.
+
+--Só?! clamou admirado.
+
+Como se aos vinte e dous annos de idade tres volumes de asneiras não
+bastassem.
+
+--E quando sahem?
+
+--Breve, aqui levo os originaes do primeiro volume.
+
+--Permittes?....
+
+--Pódes vêr.
+
+O bacharel, meu amigo e enthusiasta, depois de varrer duas vezes com os
+olhos os originaes, assim se exprimio, como quem entendia do riscado.
+
+--O titulo abrange o _totum_; direi até--este titulo foi inspirado e
+leu.
+
+ «_Horas incertas
+ Versos, prosas e comedias,
+ Dramas, maximas e pensamentos
+ do
+ Exilio._»
+
+--É como digo, proseguio; isto que é saber achar um titulo. Horas
+incertas! quanta profundeza nestas duas palavras _horas incertas!..._ Se
+as horas da vida são incertas, mais incertas são as horas do genio....
+
+(Sim, porque o genio não tem horas certas, é da sua indole não saber
+nunca a quantas anda.)
+
+--Concedes-me uma observação.
+
+--Faze-a.
+
+--Gósto de tudo isto, tudo isto é grande, menos a epigraphe. Esta
+epigraphe não cabe nas obras de um genio.... E leu a epigraphe:
+
+ «Joios da adolescencia levados á praça pela precisão.»
+
+--Joios! chamar joios a um celeiro de trigo são! e depois, levados á
+praça pela precisão! que significa isto?
+
+--Eu te explico....
+
+--Não pergunto por ignorar o teu pensamento; sinto-lhe a essencia; sei o
+que tu queres dizer: levados á praça pela precisão, todos entenderão a
+elipse, pela precisão de... voar... sim, de voar, porque o genio precisa
+voar como a aguia, como o condor. Os malevolos, porém e invejosos cujas
+linguas não poupam os genios, esses dirão ser a precisão de dinheiro,
+apezar de todos saberem que tu de dinheiro não precisas...
+
+Estavam adiantados! era justamente do que eu mais precisava[1].
+
+--Ou precisas? perguntou com ar de quem responderia sentir muito não me
+poder servir na occasião, se lhe eu respondesse pela affirmativa.
+
+--Ora... desdenhei. Eu lá careço de dinheiro!
+
+--Se precisas, tornou animadamente, não faças ceremonia comigo.
+
+E sem esperar pelo _muito obrigado_, continuou.
+
+--O estylo é o homem, disse Buffon; por minha vez tambem digo: o nome do
+autor é a epigraphe do seu livro; tu não te deves rebaixar deitando
+outra epigraphe nas tuas obras que não teu proprio nome.
+
+Á vista disto, chegando ao prélo borrei a epigraphe.
+
+
+CAPITULO IV.
+
+Já se achava quasi finda a impressão do primeiro volume, quando em um
+bom dia recebi este bilhete traçado a lapis:
+
+«Illm. Sr.--Vou suspender a impressão das suas poesias, até que V. S.
+satisfaça a importancia de 113$500 das ultimas folhas impressas.»
+
+Subi ás nuvens. O recadinho vinha escripto no reverso da prova de uma
+das minhas mais mimosas poesias.
+
+Tomei a penna e desanquei o recado com esta resposta:
+
+«Illm. Sr.--Que eu deva não admira, todos os autores celebres têm
+contrahido dividas com a imprensa, e sabem todos que a machina inventada
+por Guttemberg não é simplesmente machina de imprimir, é tambem _machina
+de abonar o credito dos homens_. O que, porém, admira até os calcanhares
+é um sectario de Guttemberg menospresar a seiva, digamos assim, de que
+se nutre a imprensa, isto é, os fructos da intelligencia. V. S. é um
+renegado, queira perdoar. Commetteu crime de leza-literattura-nacional
+traçando o seu recado nas costas, digo, no reverso da prova da minha
+poesia intitulada a _Piroga_! Suspenda, portanto, a continuação da
+impressão do meu volume, até minha segunda ordem.»
+
+Levou a lição!
+
+
+CAPITULO V.
+
+Em verdade, eu devia ao prélo cento e treze mil e quinhentos réis.
+
+Do que me gabo hoje é que, actualmente nas typographias, o credito dos
+escriptores não monta áquella quantia.
+
+--Diabo!.. ruminei, alguns jornaes já annunciaram o proximo
+apparecimento de minhas poesias: se não satisfaço a conta pára a
+impressão; se a impressão pára, começam os typographos a decorar os
+versos impressos... elles então que são _cantadores de modinhas_! e
+decorados, adeus novidade! Ruminando na solucção do imprevisto embaraço,
+fui interrompido pelo padre Severino. Conhecem-o?
+
+Eu tambem já o-conhecia.
+
+O reverendo entrou pelo meu habitaculo clamando:
+
+ --Leva-me preso comtigo
+ N'um fio dos teus cabellos!
+
+--Glose este motte, meu poeta.
+
+Nós já nos não respeitavamos.
+
+--Ouça isto, foi proseguindo:
+
+ Não se sabe apartar quem ama e pena,
+ E quem nisto é mais fraco, este é mais forte;
+ A dôr da mesma morte é mais pequena,
+ Que quem morre melhora muito a sorte;
+ Quem morre acaba o mal, quê toda a pena
+ Dura co'a vida sem passar da morte:
+ Maior pena padece o que está ausente,
+ Pois morre de saudade e morto sente.
+
+--O que acha?
+
+--Que li algures...
+
+--Onde homem? isto é meu e muito meu. Pensa vossê que só faz versos? Por
+mais prosa que a gente seja, batendo-lhe devéras o coração, torna-se
+poeta. Adivinhe o que me succedeu?
+
+--Suspenderam-lhe as ordens...
+
+--Assim fosse; cousa mais seria; partio para a Bahia a Mariquinhas...
+
+--Qual dellas? o padre falla em tantas...
+
+--A da rua da Lapa, a unica Mariquinhas, que tenho confessado, de olhos
+azúes. O marido foi removido.
+
+--Coitado do homem!
+
+--Faça idéa do meu pezar ao receber esta noticia, chegando hontem de
+Petropolis.
+
+--Avalio!
+
+--Vossê, deve escrever um artigo contra o ministerio, tosando a valer o
+ministro da fazenda. Isso é cousa que se pratique, remover d'aqui para
+alli e sem porquê um pobre empregado publico?
+
+--E de mais a mais casado!...
+
+--E querem moralidade, e exigem honradez da pobreza obrigando-a a fazer
+sacrificios... escreva o artigo, mostre tambem saber prosa.
+
+--Mas, padre, porque não o-escreve vossê, que é o interessado?
+
+--Muito obrigado! então vossê porque não é padre, não se interessa pelos
+seus semelhantes?
+
+ _Non sibi soli se natum homo_
+ _Meminerit..._
+
+Seja menos egoista meu poeta, e glose o motte:
+
+ Leva-me preso comtigo
+ N'um fio dos teus cabellos,
+
+que é para eu remetter com aquella oitava a Mariquinhas. Quero uma
+decima triste, triste como o _miserere_.
+
+--Temos outra. Pois se o padre é quem está triste, porque não compõe a
+glosa?
+
+--Porque tenho que pregar um sermão na quinta-feira, o vapor sahe amanhã
+para a Bahia e hoje é terça.
+
+--Pois eu, reverendo, não terei cabeça para glosar motte algum, emquanto
+não resolver este problema: cento e treze mil e quinhentos réis, que
+devo, estão para o que tenho, como o que tenho está para X...
+
+E ficamos a olhar um para o outro, durante cinco minutos.
+
+
+CAPITULO VI.
+
+--É como conto, tornei interrompendo o silencio, devo cento e treze mil
+e quinhentos réis e não possuo um real para chamariz dos outros.
+
+--A quem deve?
+
+--Á typographia onde estou imprimindo as minhas poesias.
+
+--Vossê ha de ter algum amigo, que lhe empreste essa quantia, nem por
+isso é grande.
+
+--Empresta-m'a o padre?
+
+--Eu? pobre de mim! Meu caro, nós os padres não ganhamos, como
+vulgarmente se pensa, mundos e fundos. Quantas vezes tenho, em vez de
+encommendar á Deus, encommendado ao diabo algumas almas... uma
+encommendação por dous mil réis só feita ao diabo! Já não se póde viver
+nesta côrte, acredite-me, encommendando; e por fallar nisto, vou vêr se
+fallo ao vigario capitular, quero conseguir ao menos, a nomeação de
+vigario encommendado. Até breve, meu poeta. Tomára já vêl-o em outra
+posição.
+
+E sahio.
+
+E que me dizem?...
+
+
+CAPITULO VII.
+
+Suggerio-me á mente uma ideia a visita do padre. Havia elle, dias antes,
+publicado um estirado artigo relativamente á instrucção publica e com
+particularidade á _desmoralisação do clero_. Quanto a esta não sei se
+fallou de cadeira, lá quanto á instrucção deixou impressas mil
+barbaridades.
+
+--Se o conselho da instrucção publica, pensei, mandasse admittir nas
+escolas as minhas maximas? E porque não? As de La Rochefoucauld são
+muito sediças; as do marquez de Maricá inadmissiveis por extensas; as de
+Vauvenargues ninguem ainda leu; as do conselheiro Bastos ultramontanas
+exageradas; as de Montesquieu são carapuças politicas; as... as minhas
+são modernas... e, approvadas pelo conselho da instrucção publica,
+editores não faltarão.
+
+Estava dada solução ao embaraço dos cento e treze mil e quinhentos;
+vendi, in-mente, a primeira edição das maximas.
+
+Nesse mesmo dia fiz o requerimento ao conselho da instrucção publica
+remettendo os originaes. As sommas das maximas montava ao numero 1250,
+sendo algumas rimadas e outras anotadas--entre parenthesis.
+
+Apreciem-me por esse lado, emquanto avio a lavadeira, que chega a pello.
+
+
+CAPITULO VIII.
+
+A VIDA:--A vida é um _pique-nique_, e nós, ainda os mais refinados
+caloteiros, havemos de pagar o nosso _escote_ á morte.
+
+(Para these dos sermões de quarta feira de cinza não conheço outra. O
+_memento homo_ já não produz nada...)
+
+
+VERDADE:--Uma verdade é uma mentira ás avessas.
+
+(Difinição a mais clara possivel).
+
+
+DISPENSA:--[2] A mulher que pensa
+ Engorda a dispensa.
+
+(E a familia toda. Na casa das minhas avós até as baratas da dispensa
+eram gordas, não fallando nos ratos).
+
+
+AMOR:--O amôr
+ Não tem côr.
+
+(Neguem, se são capazes).
+
+
+AMAR:--Quem ama perdoa,
+ E não vive á toa.
+
+
+CIDADÃO:--O cidadão deve ser para a patria o que o menino é para a escola.
+
+(Conhecem moralista mais governista?)
+
+
+FALLAR:--Quanto menos fallares ao jantar,
+ Menos fome terás ao ceiar.
+
+(Lição altamente economica).
+
+
+CHÁ DO VISINHO:--Ha pessoas que tem quebrado muitas abas de chapéo fino
+e sujado muitas luvas de pellica--pela obrigação de uma chicara de chá
+do visinho.
+
+(Conheço tres duzias).
+
+
+PROSPERIDADE HUMANA:--Prosperaria mais a humanidade, se os padres
+semeassem trigo em vez de absurdos.
+
+(Não creio nisso; escrevi a maxima para bolir com o padre Ventura, que
+então ainda vivia.)
+
+
+CONDECORAÇÕES:--Se as condecorações estimulassem o caracter para o bem,
+a esta hora no Brasil não haveria máos caracteres.
+
+(Negarei a paternidade desta maxima, quando fôr commendador).
+
+
+BAPTISMO:--O baptismo só é util pelo lado da estatistica.
+
+(Esta é para bolir com o padre Severino.)
+
+
+ATHEO:--O atheo é um ente tão desprezivel, que, não achando entre os
+homens quem queira ser seu inimigo, faz-se inimigo de Deus.
+
+(Esta salva as memorias da condemnação do index).
+
+& & & & & & & & & & & &
+
+
+CAPITULO IX.
+
+Primeiro que as maximas obtivessem despacho, recebi da minha terra uma
+carta do muito probo Sr. Silva, cognominado pelo vulgo o _tira pelle_,
+negociante com armazem de _seccos e molhados_ na travessa da Forquilha.
+
+Recommendo este estabelecimento aos que procuram do bom e barato.
+
+O vulgo, que sempre ha de mostrar ser vulgo, cousa baixa e vil e mais
+baixa e mais vil depois das eleições concluidas, cognominára _tira
+pelle_ a esse honrado cavalheiro por um facto, que, em seu nome,
+justificarei.
+
+O Sr. Silva nunca tirou nem pretendeu tirar o couro, quanto mais a
+pelle, á ninguem.... obrigaram-o a isso.
+
+O meu amigo, actualmente negociante matriculado, começou a vida
+refinando assucar. Honra lhe seja feita, antes principiar a vida
+refinando assucar do que leval-a ao cabo na qualidade de refinado vadio,
+ou refinadissimo velhaco.
+
+Achava-se certa vez na sua labutação, quando apparece na cosinha um
+individuo, que entrou pela casa como se fosse o dono.
+
+--Sr. Silva! diz o individuo com má catadura.
+
+--Bom dia, Sr. Alves, acode o laborioso refinador; e foi continuando a
+mecher o tacho com a grande escumadeira.
+
+--Não temos cá bons dias! replica Alves. Quero que diga, quantas arrobas
+de mascavo-claro mandei refinar.
+
+--Cinco, respondeu o refinador.
+
+--Justas, cinco; e quantas enviou?
+
+--Quatro e meia.
+
+--Justas, quatro e meia. Quatro e meia, sim, quatro e meia.... porém,
+duas e meia de assucar e as outras do que, Sr. Silva?
+
+--Tambem de assucar, está claro.
+
+--De assucar.... de assucar, êim, Sr. Silva? Digo-lhe, todavia, que
+entendo de refinação....
+
+--Não duvido.
+
+--Duvide ou não duvide, o que digo, digo. E quando digo que cinco
+arrobas de assucar são cento e sessenta libras, é porque sei que uma
+arroba, seja lá do que fôr, tem trinta e duas libras. Ora, sendo certo,
+como é incontestavel, que cada arroba de mascavo-claro perde na
+refinação, quando muito cinco libras, é porque tambem sei que em cinco
+arrobas perderá vinte e cinco, já que a taboada quer que cinco vezes
+cinco sejam vinte e cinco.
+
+--Noves fóra sete, diz rindo-se Silva.
+
+--Não preciso que o senhor me ensine a tirar os _noves fóra_, o que
+preciso é saber como é isto....
+
+--O que? pergunta o outro.
+
+--Que devendo eu, por consequencia, receber quatro arrobas e sete libras
+de assucar refinado, recebi quatro arrobas e meia?
+
+--Está-se mettendo pelos olhos; é que mandei nove libras de mais,
+segundo a sua taboada.
+
+--A taboada não é minha, Sr. Silva! brada Alves, enfurecendo-se mais. A
+taboada é de todo o mundo, entendeu?
+
+--Entendi... entendi... responde o meu amigo com santa calma.
+
+--O que é meu é o calculo, e, conforme calculei, entre as quatro e meia
+arrobas de assucar, foram duas de arêa, fique sabendo de arêa...
+
+--De arêa? acode o refinador cahindo das estrelas; essa agora é sua...
+ou então o portador...
+
+--Não temos aqui portador nem portadores. Os meus caixeiros são homens
+de bem, e o senhor devia saber que, sendo meu freguez o presidente da
+camara, mais dia menos dia, eu seria multado pela sua... e engulio a
+palavra.
+
+--Solte a palavra... brada Silva.
+
+--A palavra é ladroeira, responde Alves.
+
+--Então sou ladrão? Diga, se é capaz, sou ou não sou?
+
+Alves não se intimidou e asseverou;
+
+--É, é, e é ladrão, e ladrão refinado...
+
+O meu amigo não podia ser mais prudente do que o foi até alli. A
+prudencia, porém, tem o seu termo. Alves não previu que, obrigando o
+honrado refinador a sahir fóra do termo da prudencia uma pollegada,
+sugeitava-se a receber, como recebeu, na cara a escumadeira impregnada
+de assucar em calda a ferver. Sem esperar repetição da dóse, Alves sahio
+vendendo mel ás canadas.
+
+Quinze dias depois tinha a mesma cara, menos a pelle.
+
+Propalado o caso, deu-se ao meu amigo o cognome citado, que nada teve
+com a substituição do assucar trocado por arêa, como prova a carta a
+qual me repórto.
+
+
+CAPITULO X.
+
+Eis a carta em capitulo separado.
+
+«Illm. Sr. (_Historica._)
+
+ Presadissimo amigo.
+
+«Inclusa remetto a V. S. uma letra saccada a seu favor sobre a casa
+Souto & C., dessa côrte, obsequio que faço a sua madrinha de baptismo,
+viuva do seu padrinho, ultimamente fallecido. Sendo-lhe deixada em
+testamento pelo dito fallecido, pelo que aceite os meus pezames, a
+quantia de 450$000, a letra vai saccada no valor de 437$820 por
+_subtração_ a que tenho direito de 12$180, sendo:
+
+ Direito de confiança, 2%.............. 9$000
+ Sello e seguro desta.................. 1$180
+ Papel e expediente.................... 2$000
+ Somma.................... 12$180
+
+«Poupe o seu dinheiro, meu amigo, olhe que muito custa _havel-o_.
+
+ «Sou seu amigo e criado.»
+
+Não foi elle quem grifou a palavra subtracção.
+
+
+CAPITULO XI.
+
+Quando o conselho da instrucção publica deu este despacho ao meu
+requerimento: «_Junte o supplicante folhas corridas_», eu já não
+precisava de editor para as maximas.--Resgatado da imprensa o meu 1.º
+volume já corria pelo mundo.
+
+Estava saboreando a leitura do mais pomposo elogio, que jámais se teceu
+a nenhum outro homem de letras, quando entrou o Sr. Gusmão. O Sr. Gusmão
+era typographo e trabalhava na officina onde se imprimio o volume. Vinha
+buscar os originaes do segundo.
+
+--Meu caro Sr. Gusmão, assente-se, então como vai?
+
+--Remendando a vida.
+
+--Já leu o meu livro?
+
+--Sim, senhor.
+
+--Francamente, como o-acha?
+
+--Volumoso...
+
+--Volumoso, sim, quasi que abrange trezentas paginas. Já comecei a urdir
+um poema heroico.
+
+--Que titulo?
+
+--Homem, ainda não sei; talvez lhe ponha o titulo em lingua indigena,
+quero vêr se desperto a literatura nacional.
+
+--É muito preciso.
+
+--Se o-é. O Sr. Gusmão entende de poesias?
+
+--Gosto de lêr, sim, senhor.
+
+--De qual genero gosta mais?
+
+--De todos, sendo a poesia boa.
+
+--Gosta do meu genero?
+
+--Qual é?
+
+--São todos, pois os jornaes não disseram que eu primo em todos os
+generos? Então não leu o meu livro?
+
+--O senhor sabe, lêr é um caso e compôr é outro. Na qualidade de
+compositor li-o quando o-compunha, na qualidade, de leitor, propriamente
+dito, ainda não o-li.
+
+--Então não sabe dizer se os versos são bons, se as rimas ricas, se é
+corrente a grammatica, se ha ideia...
+
+--Mas V. S. deve estar contente com a opinião dos jornaes.
+
+--Contentissimo. De cada vez que leio um elogio releio o volume, e
+quando acabo de relêr a este tenho vontade de escrever outro.
+
+--Lá isso ha de ter.
+
+--Diga com franqueza, nem de passagem notou tal ou qual defeito?
+
+--Ninguem anda isento delles.
+
+--Nos versos?
+
+--A sua metrificação é regular.
+
+--Nas rimas?
+
+--As rimas são toleraveis, excepto algumas como, por exemplo, _nuvem_
+com _houve_...
+
+--E que diz da dicção?
+
+--A dicção...
+
+--Seja franco, eu não sou parente daquelle cura, que foi amo de
+Gil-Braz.
+
+--Como pede franqueza direi que, se não fosse a grammatica, o livrinho
+podia passar incolume, mas a sua grammatica é muito differente d'aquella
+por onde aprendi.
+
+--Aprendi pela do Lobato.
+
+--Então é a mesma. Queira vêr os originaes do segundo volume.
+
+--Ainda não os-reuni todos, volte amanhã, se não fôr incommodo. Quer
+fumar, offereço-lhe um charuto de Havana.
+
+--Não senhor, obrigado, eu não fumo se não charutos de vintem.
+
+Eu fiquei _fumando_...
+
+
+CAPITULO XII.
+
+De que lado estava a verdade, do Sr. Gusmão ou dos jornaes? Afinal de
+contas, o typographo tinha razão. Entretanto, a primeira parte do meu
+_celeiro de bom trigo_, no conceito do meu amigo bacharel, estava
+esgotada!
+
+Hoje, quando corro os olhos pelo exemplar que, por castigo, releio uma
+vez na semana, dirijo ao creador este acto de contricção: «Meu Deus e
+meu Senhor! por serdes vós, quem sois, permitti que os irmãos deste
+exemplar caiam todos n'uma padaria e passem para as fornalhas como
+auxiliares da lenha, que nesse dia cosinhe os pães! São elhas por elhas,
+Senhor, trigo cosinhando trigo. Amen.»
+
+
+CAPITULO XIII.
+
+Ao outro dia recebi o Sr. Gusmão entre os braços.
+
+--Entre, meu amigo, assente-se e conversemos. Ainda aqui está o charuto
+de Havana, aceite-o.
+
+--Obrigado, mas não aceito, insistio o homem. Penso diversamente dos
+outros; o que não posso sustentar todos os dias, não alardeio uma vez.
+Demais, habituado a fumar charutos de vintem, sabem-me a _pessimos_ os
+de tostão para cima.
+
+--Respeito o seu modo de pensar. Dou-lhe parte que suspendo a publicação
+das minhas obras.
+
+--Então tomou a peito a opinião de um typographo?
+
+--E o typographo não póde ter opinião aceitavel, não póde saber
+grammatica?
+
+--Que opinião póde ter o homem, que anda de ventanilha? Lá quanto a
+grammatica devia saber. Onde me vê, com o pouco que entendo della, tenho
+salvo a reputação futura de muitos escriptores, aliás intelligencias
+brilhantes, emendando-lhes, quando componho seus originaes, erros de
+tirar couro e cabello...
+
+--Ora, Sr. Gusmão, porque não emendou os meus?
+
+--O senhor desejava um volume de trezentas paginas e se eu corrigisse os
+seus descuidos não ficava o livro com cem....
+
+Apre! tambem esta foi de tirar couro e cabello!
+
+
+EPILOGO DA SEGUNDA PARTE.
+
+Ahi vai em italico o que devo ao Rio de Janeiro; saiba o Imperio todo:
+
+--Devo o conhecimento do Sr. Gusmão,--que me mandou
+aprender--grammatica--depois dos jornaes me haverem--chamado--Homero--!
+
+Cautela com as reputações.
+
+
+
+
+TERCEIRA PARTE.
+
+
+CAPITULO I.
+
+Cheguei ao estado de dizer com o philosopho grego:
+
+ «_Omnia mea mecum porto._»
+
+Ignoro se os gregos fallavam latim no tempo de Bias.
+
+Cifravam-se as minhas posses em 25 annos de idade e na roupa do corpo,
+sendo que essa já estava fóra da moda.
+
+O melhor excitante para o fastio do espirito é, incontestavelmente, a
+privação. Essa é a razão porque no vigor da idade não são os desejos
+vehementissimos, como aos 90 annos, na decrepitude, quando já se não
+póde com um gato morto, para não dizer _gata_... e isso por ser a
+privação, em todos os sentidos, irreparavel. Induza-se d'ahi o gráo da
+minha excitação, privado de meios com os quaes satisfizesse desejos,
+que, como vespas damnadas, me agrilhoavam por todos os modos e em todos
+os sentidos?!
+
+Silencio, bocca!...
+
+
+CAPITULO II.
+
+Sem credito literario diante dos meus proprios olhos--abertos pelo bom
+senso do typographo Gusmão; sem abono-monetario diante de todos os olhos
+fechados pelas minhas circumstancias; eu andava a pleno ar a procura de
+um meio, que me arredasse do precipicio para cujas bordas já me
+encaminhava--o jogo. Eu teria calado no fundo desse abysmo, se houvesse
+tido para a primeira parada.
+
+Capitulos da altura deste não indigestam. Digerem como sorvas, e fazem
+render um livro...
+
+
+CAPITULO III.
+
+Todas as mulheres deviam collocar na alcova de orações um nicho, e
+dentro delle o busto de Aristophanes. Ao mordaz atheniense são ellas
+obrigadas pela reforma do meu juizo a seu respeito. Antes de lêr
+_Lysistrata_, meu pensar era que as mulheres rezavam pela cartilha da
+Sra. Balbina.
+
+Emendei-me, dando rédeas ao amor.
+
+Amei com impeto! como o leão seria capaz de amar, se as leôas das
+brenhas soubessem como as das cidades--encarentar favores...
+
+O amor! o amor! Dizem que não come! se não comesse não se alojaria no
+coração--que fica ás portas do estomago.
+
+Montaigne já o-chamava _sêde da mocidade_.
+
+Da sêde á fome vai só um passo.
+
+
+CAPITULO IV.
+
+ «Eu sempre ouvi dizer:--frade nem vivo,
+ Nem morto e nem pintado na parede.--
+ A rasão deste dito salta aos olhos;
+ O que frades, outr'ora, não fizessem
+ Incumbir ao diabo era debalde:
+ E as chronicas referem muitos casos
+ De quináos, que ao diabo os frades deram.
+ Mas verdade verdade, o frade de hoje,
+ Labéo das frias cinzas de Epicuro,
+ Não chega ao calcanhar do velho frade.»
+
+ Repetindo em voz alta estas blasphemias,
+ Os olhos affinquei n'um poento quadro,
+ Meu fiel companheiro no deserto
+ Em que a mão da fortuna me lançára.
+
+ O quadro figurava um frei Rotundo,
+ Nutrido e nédio, rindo-se á sorrélfa
+ Da feia carantonha do diabo,
+ Que raivoso mordia um par de dados.
+
+ Mingúa a humanidade a pouco e pouco!
+ Já se não topa mais um frei Bojudo
+ Estillando gordura ao sol em pino.
+ Que ditosa panella, a de outros tempos,
+ Onde cahisse o lenço de Alcobaça
+ Que limpasse o cachaço de algum frade!
+ Sahia a olha convertida em banha.
+ Hoje o frade, sequer, sabe o Larraga
+ Ou Brillat-Savarin. Dantes o frade
+ Era um poço ambulante de sciencias.
+ E os costumes? e o lar? se bem me lembro,
+ Algures li que, vós, ditosos monges,
+ Fostes, nas priscas eras dos conventos,
+ Pesadelo de todos os maridos,
+ E horror! horror! horror! das raparigas!
+
+ «Illustre Guardião (clamo inspirado)
+ Tu mais que Belphegor sagaz nos tramas,
+ Mais roliço e mais sabio, tu me ensina
+ O meio de sahir destes apuros!»
+
+ Avalie-se agora o que eram frades
+ Em tempos que lá vão,--que desenhados
+ Inda fazem milagres. Repentino
+ Me occorre um pensamento de alta monta.
+
+
+CAPITULO V.
+
+Escrevi esta epistola:
+
+«Senhora.--Vós sois a belleza, de mimosos contornos; eu sou o bello, de
+rudes musculos. Vós sois a bonina, que murcha ao primeiro raio do sol;
+eu sou o sol, que o diluvio não apagou. Vós sois a debil pastorinha
+avergada ao peso dos trevos com que se enfeita; eu sou o vigoroso
+camponez, que leva as costas um boi sem lhe sentir o peso. Senhora!
+meditai nestas parabolicas palavras! e se julgardes ser a força o amparo
+da fraqueza, respondei em carta fechada com endereço a ***, que eu mesmo
+a-irei tirar da latinha do escriptorio do _Jornal do Commercio_.»
+
+O remate estragou a epistola.
+
+
+CAPITULO VI.
+
+Eram oito horas e meia da noite, subi e desci a rua do Ouvidor.
+
+Nenhum _ignotus Deus!_ nenhuma mulher com cara de entender a epistola!
+
+Mas eu confiava na inspiração!
+
+As transeuntes levavam todas a reboque um marido ou cousa com semelhança
+disso.
+
+Eram nove e meia. Ainda nada.
+
+Mas o frade não me sahia da mente!
+
+--Dar-se-ha o caso, reflecti, que hoje seja a noite tão sómente dos
+casados?
+
+Entendamo-nos. Queria dizer, a noite de sómente passeiarem os casados;
+nós sabemos que todas as noites são delles, _quand-même_...
+
+Puz-me a olhar através dos vidros os livros expostos á venda na casa
+Garnier.
+
+D'ahi a pouco, chega e pára a outra vidraça uma mulher _só_... Só digo
+eu, não contando o cãosinho felpudo, que a-seguia.
+
+Era um animalsinho com ar inoffensivo e prasenteiro e cara de quem não
+aceitaria, se lhe mandassem, um cartel. Começa a mão do frade!
+
+Olhou... olhou... (ella e não o cão), e entrou na livraria. Ouvi-a dizer
+em francez de Racine:
+
+--_Les Femmes, par Alphonse Karr?_
+
+--É justamente a mulher, que eu sonhava, disse a mim mesmo; mulher que
+lêsse o autor de _La pêche.... en eau douce... et en eau salée...._
+Abeirei-me á porta.
+
+Deram-lhe o livro; folheou-o, pagou-o sem questionar o preço, deu
+boa-noite e sahio.
+
+Fóra da loja, tomei-lhe a frente, comprimentei-a com acatamento,
+rogando-lhe aceitasse a carta.
+
+--Quem é o senhor? e donde vem essa carta? perguntou meio desdenhosa.
+
+--É tudo um mysterio, respondi. Lendo a carta saberá.
+
+--Ah! cheira a mysterio? pois sim, dê-m'a, eu gosto dos mysterios.
+
+Tomou-a e partio com ar senhoril. E viva o frade!
+
+Ao desapparecer na turbamulta, aproximou-se-me um permanente pedindo-me
+o charuto para acender um cigarro.
+
+--Camarada, lhe disse, eu não inventei a polvora, porque nasci depois
+della inventada.
+
+Elle concordou, rosnando:
+
+--Polvora! polvora! que diabo é polvora?
+
+
+CAPITULO VII.
+
+Doze horas depois fui ao escriptorio do _Jornal_; lá estava uma cartinha
+com a minha senha. Constava de duas linhas bem traçadas, quanto á
+essencia; quanto á calligraphia, nunca vi peóres gregotins.
+
+«Sr. ***.--Ora queira Deus e Deus queira vos não mettais em camisa de
+onze varas! Rua do Conde n....»
+
+Resposta mais laconica e expressiva, só um couce, mal comparada.
+
+Sem perder os estribos da confiança, em presença de tamanha ameaça, fui.
+
+Eram onze horas da manhã, duas horas depois de feita a digestão dos que
+almoçam ás nove.
+
+
+CAPITULO VIII.
+
+Ha trinta minutos.
+
+--Que idade tendes? pergunta ella.
+
+--Vinte e cinco annos; respondo.
+
+--Como sois moço!... Meu marido morreu dessa idade.
+
+--É lei da natureza, que se morra de toda idade.
+
+Proferi o axioma na intenção de afugentar qualquer idéa negra, que, por
+ventura, viesse perturbar a interlocução.
+
+--É facto, concordou, accrescentando, como quem a si propria dava
+desculpa: tambem elle era muito franzino...
+
+E de esguelha, pela oitava vez, medio-me com os olhos de alto a baixo.
+
+Neste ensejo, tomei-me o pulso. Deitava 105 pulsações por minuto. Eu na
+vespera almoçára mão de vacca.
+
+
+CAPITULO IX.
+
+ Ha dous mezes.
+ Deu-se garrote á prudencia.
+ Reina o commumnismo.
+ Folga Épicuro.
+ Vai tudo de afogadilho.
+ O trem assovia.
+ Tenha o leitor paciencia.
+ Escasseiam-me trégoas.
+
+Isto é prosa.
+
+
+CAPITULO X.
+
+Chamava-se Monica; nome que não anda na bocca de todos, e a essa
+vantagem reune a de ser esdruxulo.
+
+Casára aos vinte nove annos de idade com um rapaz de vinte e quatro; e
+enviuvou no anno seguinte. Tudo isto foi muito natural, sendo mais
+natural a morte do rapaz.
+
+Não era bonita, era sympathica. Não era sabia como D. Maria Caetana
+Agnezi, mas era intelligente; e mais _espiritada_ do que espirituosa.
+Neste ponto trivialissima.
+
+Lia o portuguez corrente como um juiz de paz, e trazia o francez em
+sarilho. Tocava a _saloia_ ao piano, e nutria a presumpção de saber
+contar.
+
+Quando a-conheci seus progenitores já haviam levado a breca.
+
+Pretendeu-a na viuvez um capitalista, tambem viuvo.
+
+Monica accedeu á licita pretenção. Nas vesperas das bodas,
+revelou-se-lhe o noivo com queda para a literatura-_funda_, ao lêr um
+artigo, inserto não sei em qual periodico, onde, _ad-rem_, o escriptor
+citava este aphorismo de Balzac:
+
+
+«_Un mari ne doit jamais s'endormir le premier ni se réveiller le
+dernier._»
+
+
+Seguia-se a traducção, o pomo da discordia: «_O marido não deve pegar no
+somno antes da mulher e nem acordar depois della._»
+
+--Como isto é fundo! exclamou o capitalista, chamando a attenção da
+noiva para o conselho em portuguez.
+
+--E o senhor, perguntou Monica, no seu tempo de casado seguio isso á
+risca?
+
+--Como seguiria, se é agora que sei disto?! Ah! se eu em outro tempo
+adivinhára... e engasgou-se com o resto. Mas, proseguio, cá me fica no
+canhenho; conselhos como estes não se perdem.
+
+Confessemos, o capitalista não andava corrente com o _Codigo do
+Bom-Tom_. Declarar á noiva que um aphorismo de tal jaez lhe ficava no
+canhenho, foi falta de tino imperdoavel.
+
+Monica, que lia Alphonse Karr e tencionava dar um pulo até á França para
+comprimentar o autor das _Guêpes_, com o que o Sr. Alphonse Karr, por
+sem duvida, muito se lisongearia, não contendeu.
+
+Na manhã do dia seguinte pespegou ao capitalista em carta este
+_bofetão_:
+
+«Senhor.--Toda a noite considerei no conselho de hontem e não me
+convenci que seja o marido quem deva pegar no somno depois da mulher e
+acordar antes della, por muitas e longas razões com as quaes eu encheria
+uma resma de papel, se quizesse argumentar. Tendo V. S. no seu canhenho,
+tomado nota do conselho, pol-o-ha em pratica depois de casado;
+achando-me em opposição a semelhante pratica, desisto do meu
+compromisso. V. S. está livre, disponha do seu coração. Prefiro a
+_monogamia_ ás desavenças do lar.
+
+ «Sua criada
+
+ «MONICA.»
+
+Quando um homem recebe nas bochechas um recado destes, é mister que
+saibam todos o seu nome.
+
+O capitalista chamava-se Joaquim.
+
+
+CAPITULO XI.
+
+O Sr. Joaquim leu, releu e treleu a carta. Ao depois chamou o
+guarda-livros.
+
+--Sô Pinto? chegue-se, faça favor.
+
+Pinto aproxima-se.
+
+--Que palavra é esta? pergunta mostrando a Pinto a segunda palavra do
+remate da carta.
+
+Pinto arregalou os olhos, soletrou a palavra e leu--_monógámia_... e
+repetio separando as syllabas: Mo-nó-gá-mi-a... Isto não é palavra,
+decidio.
+
+--A mim tambem me parece que não é, concordou o Sr. Joaquim, cuja
+intelligencia dava pelo estalão da do outro.
+
+Pinto voltou aos livros.
+
+O Sr. Joaquim garatujou;
+
+
+«Senhora.--Eu quando digo as cousas é porque sei. Não é debalde que sou
+viuvo. O meu pezar é ter aberto os olhos quando a mulher fechou os seus.
+O conselho do periodico é fundo como um poço, e os periodicos quando
+dizem as cousas--são como eu--sabem o que dizem. Estou no mesmo pé. A
+mulher ha de pegar no somno antes do marido e acordar depois delle, sem
+esta condição saia não me torna a entrar em casa. A palavrinha monogamia
+não leva a resposta devida por não ser palavra.
+
+«E temos conversado.»
+
+
+Monica revelou-me este episódio uma vez quando lhe disse andar perto de
+querer casar com ella.
+
+No fim da narração, pendi para a opinião do Sr. Joaquim.
+
+Não sei porque, mais tarde, fizeram barão a este homem, que tanto senso
+parecia ter!
+
+
+CAPITULO XII.
+
+Não fui eu, propriamente dito, que cahi na graça da viuva.
+
+Disse-me ella:
+
+--Á primeira vista antipathisei com o teu focinho. Cahio-me no gôto o
+teu singular modo de amar. Fui sempre enfermiça do desejo de ser amada
+por um _exquisito_, um original fosse em que fosse. Meu marido foi um
+homem como os mais, media pela bitola geral. Não se lhe notava
+particularidade alguma, que o destacasse do _chavão_ commum. Tu me
+pareceste um homem raro, a julgar pela tua carta.
+
+E case-se um homem _commum_?!
+
+--Tenho desmentido a tua espectativa? perguntei.
+
+--Vais descahindo... vais... ha dias a esta parte: respondeu.
+
+De facto, eu descahia a ôlho.
+
+Que querem?
+
+_L'amour use vite les hommes; il soutient longtemps les femmes..._
+
+Aphorismo é isto.
+
+
+CAPITULO XIII.
+
+Balzac limpe as mãos á parede.
+
+«É mais facil, diz elle, ser-se amante do que marido, por isso que é
+mais difficil ter-se espirito todos os dias do que, de quando em quando,
+amabilidades para dizer».
+
+E quando o amante, meu caro Sr. Balzac, no meu caso, á guisa de marido,
+cohabita com a amante, é facil ter espirito todos os dias?
+
+Nem uma nem outra cousa. Eu já não tenho que dizer a Monica.
+
+No capitulo passado não briguei com ella por evitar a descripção da
+queréla. E se não fosse o medico, a botica, o padre, a confissão e
+depois o enterro, e em seguida as missas e no fim, tres dias de
+nôjo--matava-a neste.
+
+
+CAPITULO XIV.
+
+Uma tarde, no largo de S. Francisco de Paula, no espaço onde plantaram o
+actual lampeão, que lá existe com ar de vedeta desarmada, encontrando-me
+com o meu velho amigo Simphoriano, o unico que possuo com este nome, me
+disse elle:
+
+--Que tens tu? estás pallido como uma abobora?
+
+Simphoriano é filho de uma provincia do Norte, cujos naturaes chamam
+_pallidas_ ás aboboras _maduras_.
+
+--Falta de sangue, meu caro; o sangue se me aguou todo, depois da
+ictericia, respondi.
+
+Elle sabia que essa doença me acommettera havia dous annos.
+
+--E a magreza? replicou.
+
+--Que queres? transpira-se muito neste Rio de Janeiro... o sol
+derrete...
+
+--Fosse essa a causa...
+
+--Não sei de outra.
+
+--Disse-me o Patricio (Patricio era um _trocatintas_ do meu
+conhecimento), que tu _sacrificas em demazia ás graças_...
+
+--És tu quem sacrifica a verdade á peta, trepliquei, pelo gostinho de
+alardeares certa illustração. Quem ainda não sabe que Platão aconselhava
+ao discipulo Xenócrates, austero, como Newton, nos costumes, a
+sacrificar ás graças? Ouve o que do mesmo Xenócrates disse o padre José
+Agostinho na _Viagem extatica_:
+
+ «Da belleza inimigo e da ternura,
+ Xenócrates descubro austero e triste,
+ Vergonhoso baldão da especie humana,
+ Que nem ao vivo scintilar de uns olhos,
+ Nem ao mago sorriso deslizado
+ De um labio, côr de purpura, ou de rosas,
+ Ou aos aureos anneis de tranças de ouro,
+ Da natureza escuta a voz suave,
+ E sopro avivador, que atêa o fogo,
+ Tão grato ao coração, que é delle a vida;
+ Fogo, que até do mar no abysmo fundo
+ Sujeita a seu imperio equóreos monstros,
+ E a sanguinario tigre, indocil sempre,
+ Amar ensina, e conhecer ternura.»
+
+--Isto disse o padre, como entendedor que era, na _Viagem extatica_ que,
+ao depois, crismou com o nome de _Newton_ emendando entre outros, este
+verso, que tu nem ninguem recitará sem ao principio latir o seu pouco:
+
+ OU AOS AUREOS--anneis de tranças de ouro.
+
+--Concorda, prosegui, não me achaste descalço. Agora o suppores que
+abuso do _sacrificio_ é outro engano. O _nequid nimis_--equivalente ao
+preceito de Hippocrates:
+
+«_Omne nimium naturae inimicum est_» foi sempre a minha divisa.
+
+Houve excepção....
+
+Simphoriano ia tomando a mão.
+
+Atalhei-o, já esquentado.
+
+--Andas sempre a prasmar contra os que sacrificam ás graças. Quererás
+ser tido na conta dos ditos Xenócrates e Newton ou de Kan, Vico, W. Pitt
+ou Carlos XII?
+
+Pensas que ignoro que Mirabeau morreu aos quarenta e dous annos em
+consequencia do abuso desse sacrificio e que pela mesma consequencia
+morreria Bichat, a quem Bourg levantou uma estatua, se não morresse em
+1802 aos trinta e um annos, da queda que deu descendo as escadas do
+_Hotel de Dieu_ cujo medico era? Vês que ás apalpadellas não ando nos
+factos da historia, e será bom que percas o sestro de _literato á la
+violeta_.
+
+Com effeito, Simphoriano era boa creatura, mas não soltava tres palavras
+sem citar dous ditos ou nomes de homens celebres, seus conhecidos--pelos
+catalagos dos livros.
+
+E eu sem saber o cabo que darei a Monica?!
+
+
+CAPITULO XV.
+
+--Estás sufficientemente barbado, proseguia de outra feita o meu amigo.
+A ultima de mão que a natureza dá ao homem são as barbas....
+
+Isto dito em francez--passava a proverbio.
+
+--Portanto, continuava elle, és homem feito, em todos os sentidos.
+
+--Em sentido algum, nunca deixei....
+
+--Não me atrapalhes e nem comeces a zombar, senão, calo-me. Trata-se de
+cousa séria; sou mais velho, sou teu amigo, ouve-me.
+
+--Sou todo ouvidos, falla.
+
+--Bem. Estás perto dos trinta annos...
+
+--Cinco annos distante...
+
+--Aos vinte e cinco já se tem andado quazi meio caminho da vida. Na
+outra metade precisamos pôr todo o cuidado. D'aqui a vinte e cinco annos
+serás velho, e esse espaço de tempo, além de curto, passa com a
+velocidade do vento. Em que te occupas presentemente? Dás pasto á
+ociosidade abusando da tua compleição.... vives, portas a dentro, com
+uma desgraçada, que te suga a seiva da mocidade e até os brios...
+
+--Alto lá....
+
+--E os brios, sim. Que esperas do futuro? o menospreço publico--a mais
+digna herança dos _chichisbéos_....
+
+--Perdôa-me, atalhei-o, senão arrebento. De accordo com o _Diccionario
+do amor_, chichisbéo é, commummente, um celibatario maduro, namorador
+assiduo, servo de uma mulher casada com todos os _onus_ do marido,
+excepto os _lucros_... Ora;--não me deves metter na conta dos
+celibatarios, por que, ha dous dias, posso dizer, cheguei á idade
+rébora, juridicamente fallando; e quanto á _graça_ a quem _sacrifico_ é
+viuva e o homem, que foi seu marido, já está livre dos onus...
+Applica-me outro substantivo, menos esse.
+
+--Como enxergas tudo, rematou Simphoriano murchamente, pelo prisma da
+facecia, tua alma--tua palma, adeus.
+
+E desappareceu na primeira esquina da rua o unico amigo, que eu possuia
+com aquelle nome.
+
+
+CAPITULO XVI.
+
+Cocegaram-me o arrependimento aquellas palavras.
+
+Cocegar era o unico verbo cuja falta se sentia na lingua portugueza.
+Criei-o, ahi fica. Não m'o-estraguem.
+
+Percorri com os olhos o horizonte do meu futuro. Trevas e só trevas...
+nenhum vagalume, no espaço!
+
+Cheguei a casa com vontade de brigar.
+
+Monica, que não levou ainda a breca, estava risonha, como um dia de
+primavera.
+
+Eu levava o inverno dentro d'alma.
+
+--Chegas a proposito, disse acariciando-me; lê esta cartinha.
+
+Tomei-a e li sem desfranzir as sobrancelhas:
+
+
+«Senhora Dona Monica.
+
+«Participo-lhe, para seu castigo, que tirei o _diploma_ de barão,
+ficando a senhora sem ser barôa por querer pegar no somno depois de
+mim...»
+
+
+--De quem é esta carta? bufei, arremessando-a precipitadamente ao
+soalho, sem terminar a leitura.
+
+--De quem ha de ser? do Joaquim, respondeu Monica.
+
+--Qual Joaquim?
+
+--O Joaquim do aphorismo, aquelle capitalista... mas estás pallido e a
+ranger os dentes! que tens?
+
+--Remorsos, senhora! respondi já de cothurnos. Remorsos, perfida, tres
+vezes perfida! Era assim que tu correspondias ao meu amor! era assim!
+entretendo relações pela surdina com esse Sr. Joaquim, que já é barão!
+Com que cara hei de sahir á rua?!
+
+--Vossê endoideceu, homem! diz ella, rindo-se a bandeiras despregadas.
+
+--Doido!... sim, mulher, endoideci... com um _endoideceu_ é que se
+desculpa o escandalo!! Mulheres! mulheres! todas são a mesma estampa...
+
+ --Com flores o punhal disfarçam rindo!
+
+--Ande vêr a minha mala, senhora, quero sahir desta casa...
+
+--Qual mala nem pêra mala! objectou com despreso ironico; vossê quando
+entrou nesta casa não trouxe a mala, se é que algum dia a-teve.
+
+Tolerei a vergalhada sem replicar.
+
+--Quer sahir, saia, proseguio, ingrato de um dardo! não me deixa
+saudades; e saiba que já não estou em Paris por sua causa; ainda tenho
+com que pagar a passagem.
+
+--Pois, não a-demorarei mais. O paquete parte a vinte e cinco, estamos a
+dezoito, sobejam-lhe sete dias para arrumar os bahús. Boa-viagem. Se
+encontrar no Mabille o Alphonse Karr, dê-lhe lembranças minhas.
+
+E sahi.
+
+E lá vai a Monica...
+
+
+CAPITULO XVII.
+
+Cahia a noite e a chuva.
+
+Não se me dava a queda da noite, importava-me a queda da agua.
+
+Eu não tinha guarda-chuva.
+
+Identificando o corpo com as paredes das casas, cheguei ao _Restaurant_
+do Mangini ensopado como uma garoupa de escabeche, pois que fallei em
+restaurant.
+
+Por felicidade das tres quatro partes do genero humano, se a agua da
+chuva tem a propriedade de ensopar o facto, este tem a de enxugar
+passado o preciso tempo. Panno para mangas tinha eu aqui, se quizesse
+mostrar até onde chego em physica.
+
+Assentei-me junto a uma meza, onde não dava em cheio a luz.
+
+Nenhum dos caixeiros do estabelecimento fez conta da minha
+_humida-individualidade_.
+
+Cheguei no momento em que um sujeito, galhardamente vestido á moderna,
+travava razões com um dos caixeiros. Dizia elle, calçando as luvas e
+olhando de travez para a nota da despeza, que fizera:
+
+--Oh! senhor! esta conta está exacta? em que despendi essa enorme somma?
+nem no hotel da Europa.
+
+--V. S. veja a lista, acodia o caixeiro.
+
+--Vêr o que, homem? pois eu quando como, olho lá o preço das iguarias?
+peço o que quero, porque não venho a estas casas comer de graça, fique
+sabendo, mas isto é um roubo.
+
+--Confira pela lista e verá que lhe não levamos um vintem de mais...
+
+--Não sou conferente de casas de pasto, ouvio? bradou o homem com nobre
+altivez. Confira vossê.
+
+O proprietario do estabelecimento que se achava ao balcão, dirige-se ao
+cavalheiro, e com bons modos, lhe disse que se não amofinasse, que a
+conta estava exacta, mas se não queria pagar--seria o mesmo.
+
+--Tenho muito dinheiro, alardeou o freguez; não preciso do seu jantar.
+Nem ando comendo nos _botequins_; se entrei neste, antes foi para
+esperar que passasse a chuva do que para outro fim. Almoço, janto e ceio
+no hotel da Europa, porém, não quero ser roubado, não estamos na
+Siberia.
+
+Ein, Siberia?
+
+--Pois, senhor, a chuva já passou, V. S. não deve nada, respondeu o
+proprietario.
+
+--Então, não reforma a conta?
+
+--Está exacta.
+
+--Ah! está exacta! pois sim, já disse que não estamos na Siberia, adeus.
+
+E partio.
+
+O dono da casa aproximou-se-me dizendo;
+
+--Veja isto; um homem, que calça luvas de pellica, almoça, janta e ceia
+no hotel da Europa, sahe d'aqui deixando o debito de dous mil setecentos
+e sessenta réis. Ha de vêr que é sustentado por alguma...
+
+Não o-deixei acabar, todo o corpo se me arrepiou...
+
+--Um calix de cognac!
+
+
+CAPITULO XVIII.
+
+Sorvendo a ultima gota do licor, affigurou-se-me Monica arrumando as
+malas.
+
+--Monica vai para Paris, disse entre mim. O Sr, Joaquim já é barão... e
+eu aqui fico, sem eira nem beira... nem ao menos sou commendador!...
+Paris! todos fallam em Paris e eu mesmo já o-descrevi em verso, sem
+ainda lá ter ido:
+
+ Paris! Paris! Paris! terra de encantos,
+ Eterno, ebri-festante paraiso,
+ Aonde os risos de prazer são tantos,
+ Que só é sério quem não tem juizo!...
+
+As melhores descripções são devidas aos que pintam lugares, que nunca
+viram. Isto já passa em julgado e, passará a anexim, quando apparecer o
+meu romance passado om Djirjeh, no alto Egypto, aonde não pretendo
+jámais pizar.
+
+
+CAPITULO XIX.
+
+Decidido a mudar de rumo, fui levar essa nova a Simphoriano.
+
+Entrei pé ante pé. O meu amigo estudava. Simphoriano ainda acreditava
+que, para se saber alguma cousa, fosse mister--queimar as pestanas.
+Toleirão por esse lado.
+
+Não se convencia que a _sapience-moufle_ do filho de Gargantua é a que
+mais _apanha_ neste abençoado torrão, aonde de meia em meia braça se
+esbarra a gente com um Dr. Tubal Holoferne.
+
+Isto não offende a ninguem... É pura inveja.
+
+
+CAPITULO XX.
+
+--Boa noite, Simphoriano!
+
+--Ah!... Sê bem vindo.
+
+--Deus te pague. O que fazes?
+
+--Nada; estou lendo.
+
+--A _Historia de Cezar_, por Napoleão?
+
+--Leio Humboldt.
+
+--Perdes o tempo: Humboldt não sabia nada, foi um pessimo copista de
+Plinio.
+
+--Sim? quando leste Plinio?
+
+--Nunca, e nem Humboldt e nem precisava para formar o meu juizo.
+
+--Achaste a pedra philosophal?
+
+--Nem nada. Ouvi dizer que Plinio estudava a natureza; depois me
+disseram que o mesmo fez Humboldt. Logo, tudo quanto este fez copiou do
+outro, isto é logico. Seja lá no que fôr, segue este methodo e farás
+figura, passando por sabio. Ideias associadas, Humboldt foi barão e o
+Sr. Joaquim tambem já o-é. E, passando a inscrever o nome na
+nobiliarchia deste Imperio, julgou-se com direito de enviar um epigramma
+á _graça_ á qual não _sacrificarei_ mais, o que te participo, sob a
+condição de uma hospedagem por esta noite, senão vou dormir ao relento.
+
+E narrei o succedido.
+
+Simphoriano pulou de contentamento.
+
+Fallou em _regeneração_ (palavrinha a mais elastica dos tempos
+modernos), citando todos os moralistas das cinco partes do globo,
+inclusive um poeta de nome Sadi ou Saadi, que elle jurou ser perso e eu
+suppunha italiano, por acabar o nome em--_i._--
+
+Prasmou contra o meu passado aconselhando-me a cuidar do futuro.
+
+--Vejo por ahi muitos futuros á feição do meu desejo, mas os homens não
+me protegem.
+
+--Homem, sentenciou o meu amigo, é aquelle que é o que quer ser e não o
+que os outros querem que elle seja. Toma nota disto. Arrima-te na
+perseverança; faze della bastão e caminha. Caminha... e se encontrares
+obstaculos, que te empeçam os passos, desanda-lhes a perseverança.
+Tornam a apparecer adiante? torna a dar. Dá, dá de rijo, dá a valer, não
+te doam os pulsos e verás se chegas a ser o que quizeres.
+
+Copiei a receita para matar os obstaculos, mas em vez de bastão comprei
+um guarda sol, que tambem guarda da chuva e serve de bengala sendo
+preciso.
+
+
+CAPITULO XXI.
+
+Por desobriga de minha consciencia, respondi á mofa do Sr. Joaquim.
+Exigia a lembrança do passado que eu vingasse a viuva da affronta do
+capitalista. Mandei-lhe a resposta. Ignoro se elle a-recebeu e se Monica
+chegou a ter conhecimento da remessa feita em seu nome.
+
+Disse-lhe:
+
+
+ _Illm. e Exm. Sr. Joaquim, barão._
+
+«E tenho observado que, ha trinta annos a esta parte, essa molestia
+(_empanturração_) só aos burros cançados e a _certos barões_
+acommette... (Dr. Gomez d'Eça. Art. Veterinaria; cap. XXV, § II--;
+edição de Simão Thadeo Ferreira. Lisboa 1718)»
+
+ Sua criada
+
+ «MONICA.»
+
+E ficamos, de uma vez para sempre, livres della e do barão, que já se me
+ia apegando.
+
+Abrenuntio!
+
+
+CAPITULO XXII.
+
+Até esta data, comigo ainda não se verificou a sentença _si vis potes_.
+Ha quatro annos--_quero_--succeder na herança de uma velha rica e
+nenhuma ainda morreu, que se lembrasse de mim. Isto é o menos.
+
+_Quero_--que o tabellião, em cujo cartorio sou _copista_,--augmente _dez
+vintens_ no meu salario de mil réis e em vão tenho querido isto--ha
+quarenta e oito mezes.
+
+Não obstante, vislumbro ainda muitas esperanças, mormente, quando
+considero que o mesmo Simphoriano _quiz_ ser e _foi_ condecorado pelos
+relevantes serviços, que prestou ao Brazil no Paraguay aonde nunca poz
+os pés!... (É facto).
+
+Tambem o padre Severino _quiz_ ser vigario e _foi_,--e a população da
+freguezia... _cresce_...
+
+
+EPILOGO DA TERCEIRA E ULTIMA PARTE.
+
+Agua vai!
+
+Quem em dias de sua vida não pregou um calote?
+
+Esperava o leitor que os meus conhecidos morressem apunhalados, e,
+sabidas as contas, apenas falleceram dous, em consequencia dos remedios
+das boticas!
+
+Fallei em bodas e o Sr. Joaquim roeu-nos a corda.
+
+Moraes no seu diccionario, a proposito da palavra--_boi_, cita estes
+versos:
+
+ Coisas ha hi que passam sem ser cridas,
+ E coisas cridas ha nunca passadas...
+
+E eu, a proposito do amor, fui mais laconico que o _veni, vidi, vici_;
+tantas vezes citado e nem uma só comprehendido!
+
+Puz em scena um enthusiasta do genio e não me referi ao--_stultorum
+infinitus est numerus_ de Salomão!
+
+Abiquei o Parnaso e não arenguei á cerca da impropriedade deste
+decasyllabo de Francisco Manoel:
+
+ _Capri-barbi-corní-pedes-felpudos!_
+
+Agatanhei Plinio e não trouxe á balha o livro 7.º cap. 9.º onde diz que
+a--_gloria para uma mulher é suspender das orelhas duas perolas_!
+
+Notei Pantagruel e não aproveitei este remate de um discurso, (vai a um
+de fundo):
+
+ _dos
+ poros
+ dos
+ nossos
+ corações,
+ transuda
+ a
+ mais
+ pura
+ essencia,
+ que
+ póde
+ ser
+ respirada
+ pelo
+ olfacto
+ da
+ patria;_[3]
+
+para analysar o _Tratado do Sublime_ do conselheiro da rainha Zenobia!
+
+Embarquei Monica para a França e não lhe besuntei os labios com o adeus
+de Scipião ao sahir de Roma:
+
+_Ingrata patria, non possidebis ossa mea!_
+
+Tropecei no _commumnismo_ e nem patavina com referencia á _Republica_ de
+Platão, ou á _Utopia_ do Moro, ou á _Civitas solis_ de Thomaz de
+Campanella, o Calabrez, que nunca li.
+
+Obviei... É tarde.
+
+Ah! se não fosse tarde! Só na applicação, que Monica fez da palavra
+_monogamia_ (que não é palavra, conforme decidiram o capitalista e o seu
+guarda-livros), tinhamos materia para um in-folio, se, ácinte, eu
+pretendesse revoltar contra mim trezentos e sessenta e cinco doutores,
+pelo minimo. Mas é que tenho teiró ás inimizades.
+
+E os plagiatos? Neste ponto o reverendo padre Severino fôra como um
+Potosi. Tem-lhe custado caro alguns! Rendeu-lhe, por exemplo, tres mezes
+de cama esta odesinha copiada, assignada e enviada a quem não a
+inspirara.
+
+ A M....
+ (_O original dizia--A R...._)
+
+ Não cumpriste o promettido,
+ Teu marido,
+ Teu marido t'o-privou!
+ Não te salva essa desculpa...
+ Teve a culpa,
+ Teve a culpa--quem faltou.
+ ---
+ Teu marido... oh que embaraço
+ Erro crasso;
+ Erro crasso, e provo-o já;
+ Elle velava ou dormia:
+ Que fazia?
+ Que fazia, dize lá?
+ ---
+ Se velava e... cobiçoso...
+ Desejoso...
+ Desejoso em... te ameigar...
+ Entre os braços te-prendia;
+ Não podia,
+ Não te-podia... _obrigar_...
+ ---
+ Se dormia--estava morto.
+ Franco o _porto_...
+ Franco o porto estava então...
+ Mas, não dormia; velava,
+ Devorava...
+ Devorava o meu _quinhão_...
+ ---
+ Adormeceste cançada,
+ Fatigada,
+ Fatigada... Deus do Céo!
+ Elle tambem--fatigado,
+ Do seu lado,
+ A teu lado adormeceu!
+ ---
+ E eu? lá ao sereno exposto!
+ Dando o gôsto,
+ Dando o gosto ao meu rival,
+ De me vêr magro... e desfeito,
+ Pelo effeito,
+ Effeito... da catarrhal!
+ ---
+ Não cumpriste o promettido!
+ Teu marido,
+ Teu marido t'o-privou;
+ Não te salva essa desculpa:
+ Teve a culpa
+ Quem com elle se _fartou_...
+
+Pobre pastor!
+
+Verificou-se-lhe no lombo o rifão--guardado está o bocado para quem o
+hade comer.
+
+Eu compuz as estrophes e elle comeu a... sova!
+
+Antes assim! que lhe faça bom proveito.
+
+ ...........
+
+Leitor!... talvez não acredites e no entanto assim é: vou passar a limpo
+uma escriptura!
+
+Se alguma vez eu escrever as minhas aventuras, abarrotar-te-hei de
+_pasteis_....
+
+
+_P. S._
+
+POSTERIDADE!
+
+--Fallei a puro esmo em quanto disse.... da minha pessoa. Quando
+escreveres a minha biographia procura em outra fonte os apontamentos,
+senão irás de gatinhas como até esta data em todas as mais... tens ido.
+
+
+FIM.
+
+
+ [1] E se ha ahi quem saiba de algum remedio, que repare essa doença,
+ annuncie pelos jornaes, por especial favor a uma creatura sugeita,
+ desde aquella época até hoje, aos seus accessos.
+
+ [2] Quartinho escuro onde se guardam viveres. Em a dona da casa
+ sendo desconfiada é difficil perder a chave.
+
+ [3] Vide supplemento do _Jornal do Commercio_ de 16 de maio de 1866,
+ _correspondencias do Norte_.
+
+
+
+
+
+
+End of the Project Gutenberg EBook of Memorias de um pobre diabo, by
+Bruno Henriques de Almeida Seabra
+
+*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK MEMORIAS DE UM POBRE DIABO ***
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+paragraph 1.C below. There are a lot of things you can do with Project
+Gutenberg-tm electronic works if you follow the terms of this agreement
+and help preserve free future access to Project Gutenberg-tm electronic
+works. See paragraph 1.E below.
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+Gutenberg-tm electronic works. Nearly all the individual works in the
+collection are in the public domain in the United States. If an
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+that arise directly or indirectly from any of the following which you do
+or cause to occur: (a) distribution of this or any Project Gutenberg-tm
+work, (b) alteration, modification, or additions or deletions to any
+Project Gutenberg-tm work, and (c) any Defect you cause.
+
+
+Section 2. Information about the Mission of Project Gutenberg-tm
+
+Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
+electronic works in formats readable by the widest variety of computers
+including obsolete, old, middle-aged and new computers. It exists
+because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
+people in all walks of life.
+
+Volunteers and financial support to provide volunteers with the
+assistance they need are critical to reaching Project Gutenberg-tm's
+goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
+remain freely available for generations to come. In 2001, the Project
+Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
+and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
+To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
+and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
+and the Foundation web page at https://www.pglaf.org.
+
+
+Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive
+Foundation
+
+The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
+501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
+state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
+Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification
+number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at
+https://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
+permitted by U.S. federal laws and your state's laws.
+
+The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
+Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
+throughout numerous locations. Its business office is located at
+809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
+business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact
+information can be found at the Foundation's web site and official
+page at https://pglaf.org
+
+For additional contact information:
+ Dr. Gregory B. Newby
+ Chief Executive and Director
+ gbnewby@pglaf.org
+
+
+Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation
+
+Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
+spread public support and donations to carry out its mission of
+increasing the number of public domain and licensed works that can be
+freely distributed in machine readable form accessible by the widest
+array of equipment including outdated equipment. Many small donations
+($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
+status with the IRS.
+
+The Foundation is committed to complying with the laws regulating
+charities and charitable donations in all 50 states of the United
+States. Compliance requirements are not uniform and it takes a
+considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
+with these requirements. We do not solicit donations in locations
+where we have not received written confirmation of compliance. To
+SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
+particular state visit https://pglaf.org
+
+While we cannot and do not solicit contributions from states where we
+have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
+against accepting unsolicited donations from donors in such states who
+approach us with offers to donate.
+
+International donations are gratefully accepted, but we cannot make
+any statements concerning tax treatment of donations received from
+outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff.
+
+Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
+methods and addresses. Donations are accepted in a number of other
+ways including including checks, online payments and credit card
+donations. To donate, please visit: https://pglaf.org/donate
+
+
+Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic
+works.
+
+Professor Michael S. Hart was the originator of the Project Gutenberg-tm
+concept of a library of electronic works that could be freely shared
+with anyone. For thirty years, he produced and distributed Project
+Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.
+
+
+Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
+editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
+unless a copyright notice is included. Thus, we do not necessarily
+keep eBooks in compliance with any particular paper edition.
+
+
+Most people start at our Web site which has the main PG search facility:
+
+ https://www.gutenberg.org
+
+This Web site includes information about Project Gutenberg-tm,
+including how to make donations to the Project Gutenberg Literary
+Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to
+subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks.