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+The Project Gutenberg EBook of O Oraculo do Passado, do presente e do
+Futuro (6/7), by Bento Serrano
+
+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.org
+
+
+Title: O Oraculo do Passado, do presente e do Futuro (6/7)
+ Parte Sexta: O oraculo da Magica
+
+Author: Bento Serrano
+
+Release Date: March 23, 2010 [EBook #31741]
+
+Language: Portuguese
+
+Character set encoding: ISO-8859-1
+
+*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK O ORACULO DO PASSADO (6/7) ***
+
+
+
+
+Produced by Mike Silva (produced from scanned images of
+public domain material from Google Book Search)
+
+
+
+
+
+O ORACULO
+
+DO
+
+PASSADO, DO PRESENTE E DO FUTURO
+
+OU O
+
+Verdadeiro modo de aprender no passado
+a prevenir o presente, e a adivinhar o futuro
+
+POR
+
+BENTO SERRANO
+
+ASTROLOGO DA SERRA DA ESTRELLA,
+
+_Onde reside ha perto de trinta annos, sendo a sua habitação uma estreita
+gruta que lhe serve de gabinete dos seus assiduos estudos astronomicos_
+
+
+OBRA DIVIDIDA EM SETE PARTES, CONTENDO CADA UMA O SEGUINTE:
+
+ Parte primeira--O ORACULO DA NOITE
+ Parte Segunda--O ORACULO DAS SALAS
+ Parte Terceira--O ORACULO DOS SEGREDOS
+ Parte Quarta--O ORACULO DAS FLORES
+ Parte Quinta--O ORACULO DAS SINAS
+ Parte Sexta--O ORACULO DA MAGICA
+ Parte Setima--O ORACULO DOS ASTROS
+
+
+PORTO
+LIVRARIA PORTUGUEZA--EDITORA
+55, Largo dos Loyos, 56
+1883
+
+
+
+PARTE SEXTA
+
+
+O ORACULO DA MAGICA
+
+OU
+
+O ESPELHO MAGICO DO ANÃO
+
+SEGUIDO DA INTERESSANTE DESCRIPÇÃO DE UM
+
+CASTELLO ENCANTADO
+
+OU O
+
+MONTE DO CASTELLO DAS FADAS
+
+
+
+PORTO
+LIVRARIA PORTUGUEZA--EDITORA
+55, Largo dos Loyos, 56
+1883
+
+
+
+Porto: 1883--Imprensa Commercial--Lavadouros, 16.
+
+
+
+
+O ESPELHO MAGICO DO ANÃO
+
+
+Thomé e Joanninha viviam quasi sós na sua pequena casinha, fóra do
+bosque, tão sós como nunca tinham vivido. O pai era couteiro e
+guarda-matas, e por isso, ou o tempo estivesse bom ou mau, passava
+muitos dias sem ir a casa, a guardar as florestas e a matar a caça
+silvestre que era para a mesa do senhor das terras. A mãi tinha morrido,
+e na choupana ninguem estava com os meninos senão a avó, que já via mal
+e ouvia pouco. A avó passava todo o dia assentada ao lar, menos quando
+andava coxeando pela cosinha para preparar a pobre comida para os
+pequenos, ou quando dormia. De dous em dous ou de tres em tres dias
+vinha Luiza, que morava na aldeia, trazer o leite, o pão e o que era
+mais necessario; mas passavam-se semanas sem entrar um homem na choupana.
+
+No verão pouco cuidado dava isso aos pequenos, porque iam todos os dias
+á escola da aldeia, e era isso para elles um divertimento. Os passaros
+faziam-lhes companhia cantando alegres; no caminho encontravam lirios ou
+morangos, que colhiam para venderem na aldeia ou para levarem ao mestre.
+Passadas as horas de aula, corriam á floresta, por onde andavam de um
+para outro lado com o pai, e espreitavam esquilos e cabritinhos
+montezes, e já uma vez tinham visto de longe um bello veado. E assim,
+lendo nos seus livros na escola ou colhendo avelans nas matas, não
+sabiam o que era aborrecimento em todo o verão.
+
+Mas no inverno era verdadeiramente triste, porque não podiam entrar na
+floresta, e tinham de estar em casa como dous ratinhos no seu buraco. O
+pai era obrigado a andar por fóra e levava comsigo Fiel, bonito
+perdigueiro, que era o compaheiro unico dos pequenos. Tambem, se o pai
+estava em casa era raro que dissesse alguma cousa; assentado á lareira,
+dormia ou limpava armas de caça. Em outro tempo contava a avó muitas
+historias bonitas, mas então já não contava nada, e se fallava era a
+meia voz e só comsigo. Joanninha assentava-se ao pé da avó com uma roca
+pequena e fiava; mas era um trabalho aborrecido por não haver quem
+conversasse. Thomé talhava em bocados de pau figuras de cães e de
+lebres; mas sahiam-lhe sempre mal feitas, e tantas vezes dava golpes nos
+dedos que perdia a paciencia e deixava a obra. O que mais o divertia era
+fazer casinhas com pedras e bocados de pau que ajuntava; mas as casas
+cahiam com grande barulho, e a avó dizia-lhe que não tinha geito nenhum
+para aquillo. Então dizia ás vezes Thomé com mau humor:
+
+--Ora, porque não havemos nós de ser como os filhos dos ricos, como o
+filho de um fidalgo que uma vez passou na aldeia, ou como os do balio,
+que podem comer tudo que quizerem, ou como os filhos dos ciganos que
+andam por onde querem?
+
+Em uma tarde, perto do Natal, tudo estava calado e triste. O azeite no
+candieiro estava quasi acabado, e o caminho para a aldeia estava tão
+cheio de neve que Luiza não tinha podido apparecer com as cousas
+precisas. Não havia com que fazer arder o candieiro. Por fortuna o luar
+era claro como o dia; mas os pequenos tinham medo das sombras exquisitas
+que o luar fazia.
+
+Joanninha chegava-se muito para a avó, e Thomé fez o mesmo e disse á
+velha avó em voz alta:
+
+--Avósinha, conte-nos hoje uma historia, ainda que seja pequenina: ainda
+ha-de saber alguma.
+
+--Não sei nenhuma, rapaz, resmungou a velha, mesmo nenhuma.
+Esqueceram-me todas.
+
+--Só uma, avósinha; conte do anão da pedreira.
+
+--Da pedreira, ah, sim, rapaz, espera; deixa vêr se me lembra. Onde está
+a grande pedreira, em baixo no barranco era em outro tempo uma rocha
+forte e a prumo como um muro, d'onde nunca tinha sahido nenhuma pedra, e
+defronte da rocha havia um pedaço de terreno coberto de viçosa verdura:
+por debaixo moravam os anões; descia-se por degraus ao pequenino
+castello da rainha dos anões, e debaixo da terra era uma cidade muito
+bonita. Na floresta não entravam caçadores nem cortadores de lenha nem
+montantes, e nos dias de sol subiam todos os anões e assoalhavam-se no
+musgo verde, e faziam banquetes e dançavam com muita alegria. Um dia
+começaram os homens de fóra a levantar casas na planicie, e entraram na
+floresta e cortaram arvores, e acarretaram grandes pedras para fóra.
+Ficou tudo cheio da entulho de redor do bello rochedo que ficava
+defronte do terreno cheio de verdura, e de redor da cidade dos anões.
+Para que os homens não podessem cortar mais pedras, foram os anões de
+noite todos juntos á floresta e cortaram pedras muito grandes e
+levaram-nas de rodo com toda a força até á entrada da mata. Os homens
+descontentes foram á rocha e fizeram saltar as pedras em pedaços, e
+ellas cahiam com grande estrondo no prado. Assim ficou toda arruinada a
+bonita cidade dos anões, e houve muitas lagrimas e sentimento: Os anões
+que não tinham sido mortos, escavaram um subterraneo fóra do bosque. Lá
+vivem agora, e se edificaram outra cidade é cousa que não se sabe. Desde
+então tem rodado para fóra muitas pedras de noite; mas estão sempre a
+cahir outras lá dentro, e todos os annos na noite de S. Thomé, sahem
+elles para verem se ainda ha muitas pedras no terreno, e a quem de lá
+tirar n'essa noite tres pedras, não negam os anões cousa nenhuma que
+lhes seja pedida.
+
+Assim contou a avó. Havia muito tempo que ella não tinha fallado tanto,
+e estava cançada. Joanninha estava cheia de medo e chegava-se muito para
+ella, mas Thomé, com as faces ardentes e olhos brilhantes, pensava na
+historia e bem quizera saber se os anões ainda appareciam.
+
+Então Fiel ladrou fóra, e entrou o pai, cançado, carrancudo e gelado;
+mesmo ás escuras procurou alguma coasa que podesse comer; mas a velha
+esquecia-se d'elle muitas vezes, e elle teve de deitar-se com fome. No
+inverno dormia a avó na alcova e Joanninha com ella, e o pai com Thomé
+na salinha proxima. O pai, depois de pegar a dormir, roncava toda a
+noite, e não havia nada n'este mundo que o acordasse, só se fosse algum
+tiro dado na mata.
+
+N'essa noite Thomé não podia dormir. Não era a primeira vez que elle
+ouvia contar a historia dos anões; mas nunca tinha sabido que estavam
+tão perto e que ainda appareciam. Batia-lhe o coração com desejos
+anciosos, pensando que podia com as riquezas dos anões alegrar aquella
+miseravel solidão dos bosques. E faltavam só dous dias para o S. Thomé!
+
+Não pôde calar-se que não dissesse na manhã seguinte ao ouvido de
+Joanninha:
+
+--Joanninha, depois de amanhã, é o dia de S. Thomé; vamos tirar pedras
+do territorio dos anões.
+
+Mas Joanninha olhou para elle com olhos espantados, e disse:
+
+--Ora essa! Tu não vês que é só uma historia do que já passou ha mais de
+cem annos? E demais, eu morreria de medo se sahisse de noite.
+
+Thomé ficou entendendo que nada faria com aquella maricas, apesar de
+Joanninha ser mais velha, e calou-se com o seu projecto.
+
+ * * * * *
+
+Na noite de S. Thomé foi o pai cedo para casa, e antes de ter a avó
+apagado o candieiro já elle dormia como uma pedra. Thomé esperou que
+Joanninha tambem adormecesse; a avó sabia elle que não o ouviria ainda
+que estivesse acordada. Não tardou muito que tudo fosse silencio: elle
+não se tinha despido, puxou o barrete de pelles para as orelhas e sahiu.
+Fiel não estava acostumado a vêr sahir Thomé sosinho; e ficou muito
+espantado e resmungou quando Thomé lhe poz a mão pela cabeça.
+
+A lua ainda brilhava clara, e no bosque havia um silencio de cemiterio
+que assustava Thomé; mas tomou animo, e metteu-se com passos ligeiros e
+firmes ao bem conhecido caminho da grande pedreira. Não se ouvia o mais
+leve murmurio quando elle entrou no barranco, e então estremeceu vendo a
+rocha escavada em que mal entrava um raio da lua. Com passos tremulos
+foi andando até ao lugar onde tinha sido o territorio dos anões, e onde
+só havia então uma grande quantidade de pedras grandes e pequenas. Com
+as mãos a tremer, agarrou nas maiores que pôde levantar, e levou-as para
+fóra.
+
+--Quem está ahi? perguntou uma voz fina, quando elle deitava fóra a ultima.
+
+No unico lugar que a lua alumiava no barranco estava um homem muito
+pequeno vestido de verde, que era o que perguntava a Thomé:
+
+--Quem está ahi?
+
+--Sou o Thomé do guarda-matas, disse elle muito embaraçado, e tirando
+com todo o respeito o barrete.
+
+--Que queres d'aqui?
+
+--Só queria tirar pedras para que os senhores podessem viver aqui debaixo.
+
+--Pouco podes fazer, disse o anão com tristeza, mas é uma boa obra que
+deve ser recompensada. O que é que desejas mais?
+
+Thomé já tinha pensado em muitas cousas, mas n'aquella occasião não lhe
+lembrava quasi nada. Lembrou-se de um cavallo em que elle podesse ir á
+escola, de uma pipa cheia de azeite para que sempre houvesse que arder
+no candieiro, e de um sacco cheio de maçans e de nozes; mas nada d'isso
+valia o que elle tinha feito. Por fim disse gaguejando:
+
+--Uma sacca de dinheiro.
+
+O anão perguntou-lhe:
+
+--Então já sabes o que isso é? Que queres fazer com o dinheiro?
+
+Thomé respondeu um pouco animado:
+
+--Em lugar da nossa choupana, fazia uma casa grande, muito grande, ainda
+maior que é na aldeia a casa do monteiro; e uma cavallariça cheia de
+bellos cavallos em que eu podesse correr, quando tudo estivesse cheio
+de neve; e comprava á Joanninha um vestido novo, e um barril de azeite
+para não estarmos ás escuras.
+
+--E que mais? disse o anão sorrindo; has-de fazer uma casa, mas não
+n'este escuro bosque; andarás por fóra da tua terra, mas para isso não
+precisas de cavallo; Joanninha poderá ter o vestido novo sem ser dado
+por ti, e quando quizeres ter azeite bastante, vai com a tua cestinha á
+pedreira onde acharás com que faças azeite sufficiente para arder no
+candieiro em dous annos. Entendo que a sacca de dinheiro não te serve de
+nada; ainda és muito pequeno.
+
+--Ah, disse Thomé desanimado, a nossa vida não seria tão miseravel e tão
+aborrecida nas grandes noites de inverno, se tivessemos algum bonito
+livro de estampas.
+
+--Lá isso, disse o anão, é cousa que póde ter bom remedio; vai
+descançado que depois da noite do Natal irei ter comtigo e cuidarei no
+modo de nunca mais te parecerem longas as noites de inverno. Alegra-te,
+os anões sabem pagar o bem que lhes fazem.
+
+O anão desappareceu, Thomé ficou a tremer, e foi-se embora muito mais
+inquieto do que tinha sahido. Sem que ninguem ouvisse, levantou a
+aldrava de pau, entrou em casa, foi ao seu quarto, deitou-se, e toda a
+noite sonhou com o anão. Não quiz dizer nada a Joanninha, porque elle
+mesmo não sabia bem o que o anão faria, apesar de esperar com anciedade
+a chegada do Natal.
+
+Chegou a noite de Natal, e não faltava alegria na cabaninha da floresta.
+O pai tinha trazido da aldeia grande quantidade de maçans e de nozes, a
+avó tinha dado aos pequenos duas bonitas estampas que ainda achou na
+sua Biblia, e na manhã do dia de festa, chegou a criada da senhora do
+monteiro, que era madrinha de Thomé e de Joanninha, e trouxe dous
+bonitos corações de pão doce, um lindo gibão novo para Joanninha, e uma
+jaqueta bem forrada e quente para Thomé. O pai não sahiu de casa e
+cozinhou uma lebre. Havia muito tempo que elles não tinham vivido tão
+bem; mas Thomé não estava tão contente como nos outros annos, porque não
+sabia se o melhor ainda havia de vir.
+
+ * * * * *
+
+Veio a noite e todos adormeceram, menos Thomé que se assentou na cama
+vestido, e pensava no que poderia trazer-lhe o seu novo amigo para
+passar o tempo enfadonho do sombrio inverno, quando ouviu bater de leve
+á porta de casa. Com algum susto e temor, mas a toda a pressa saltou da
+cama, e abriu ao homem pequenino vestido de verde, que não levava nada
+comsigo senão um vidro redondo, muito brilhante e de muitas côres.
+
+--Leva-me ao teu quarto, disse o anão, entrando e andando mais ligeiro
+do que Thomé.
+
+Foram ao quarto de dormir em que se via tudo claramente com a luz que o
+vidro dava. O que lá se via era um leito velho, uma mesa manca com tres
+pés, e duas cadeiras. O traste maior era uma alta e larga caixa, mettida
+na parede, ennegrecida pelo tempo, e que muitas vezes tinha sido um bom
+lugar para o jogo das escondidas. Nas costas da caixa havia um grande
+buraco redondo por onde Joanninha tinha medo de espreitar porque via
+tudo escuro.
+
+Esta caixa foi o que deu mais nos olhos ao anão, que entrou n'ella pela
+tampa meio aberta e esteve a trabalhar e a bater lá dentro algum, tempo.
+
+--Agora, disse elle, depois que sahiu, já não haveis de passar o tempo
+com aborrecimento; quando as horas parecerem muito compridas, olhem pelo
+buraco redondo que está na caixa, seja de manhã ou seja de tarde, quando
+estejam sós. Adeus, rapaz; Deus te dê da sua graça.
+
+--E antes de Thomé saber o que havia de novo, já o anão tinha sahido.
+Thomé não entendeu bem o que tudo aquillo queria dizer, e não se atreveu
+a ir logo vêr á caixa. Foi deitar-se ao pé de seu pai, e pensando e
+scismando se o anão fallaria seriamente ou a gracejar, adormeceu.
+
+Na manhã seguinte o pai sahiu cedo, e Thomé não pôde calar-se, e ao pé
+da surda avó contou baixinho á irmã toda a sua aventura, de que ella se
+riu sem lhe dar credito, mas tremendo de susto. Por fim resolveu-a a ir
+de tarde com elle fazer a primeira visita á caixa, e como esperavam
+alguma cousa, não souberam n'esse dia o que era aborrecimento.
+
+Á noite, ainda o pai não tinha entrado e a avó cabeceava com somno,
+quando ambos se metteram na caixa cheios de anciedade. Thomé, que era
+mais animoso, foi o primeiro que olhou pelo buraco onde brilhava o vidro
+do anão. Ah! que resplendor lhe veio bater nos olhos! Puxou logo
+Joanninha para si, porque a abertura era bastante larga para poderem vêr
+ambos ao mesmo tempo. Eram maravilhas o que elles viam, e mal se podiam
+conter para não darem altos gritos de espanto. Viam uma grande sala,
+muito grande, alumiada de um modo magestoso por lustres dourados, com
+muitos centos de velas de côres. E uma mesa estava carregada com as
+cousas mais maravilhosas: soldados, de pé e de cavallo, regimentos
+inteiros com peças e armas, e uma cavallariça cheia de cavallos pequenos
+de todas as raças, e livros com ricas pinturas, e uma grande quantidade
+de objectos de brinquedo, que elles nunca tinham visto, e pequenas
+esporas de prata, e uma espingarda e espada, e um soberbo vestuario de
+velludo bordado a ouro. Todas estas cousas magnificas estavam dispostas
+sobre a mesa na melhor ordem, e ao pé havia açafatinhos e pratos com os
+dôces mais finos.
+
+--Ah, de quem será isto! disseram os dous irmãos suspirando.
+
+A porta abriu-se, e entrou um rapaz esguio e pallido, que teria dez
+annos, e atraz d'elle muitas senhoras e homens da nobreza vistosamente
+vestidos. Thomé e Joanninha pensavam que aquellas riquezas deviam
+pertencer a muitos meninos, e olhavam para todos os que iam entrando na
+sala; mas não havia outro menino senão o que entrou primeiro, e que
+passou por todas aquellas cousas tão ricas sem fazer muito caso d'ellas,
+em quanto que Thomé e Joanninha pregavam no vidro os olhos afogueados e
+parecia que queriam devorar todas aquellas maravilhas.
+
+--Rapazes, onde estaes vós? gritou fóra a voz da avó.
+
+Voltaram a cabeça assustados, e viram tudo ás escuras, como era nos
+outros dias, e a velha caixa estava sem luz como se nada tivesse
+acontecido. Aos dous irmãos ainda parecia tudo um sonho quando se
+assentaram ao pé do candieiro no quarto velho e defumado. N'essa noite
+chegaram a sentir quasi alegria por a avó ser surda, porque podiam
+fallar á vontade nas maravilhas que viram, e a cada um lembrava
+alguma cousa muito bonita em que o outro não tinha reparado.
+
+--Ai, diziam elles suspirando, que boas cousas tem aquelle menino
+fidalgo! Se nós tambem tivessemos cousas assim!
+
+E ainda diziam o mesmo quando o somno lhes fechou os olhos, para ainda
+lhes mostrar em sonho tanta grandeza.
+
+Antes de ser bem dia, foi Joanninha á sala da caixa. O pai não estava em
+casa, e por isso podiam á vontade ir olhar pelo vidro maravilhoso. Como
+elles desejavam ver ainda uma vez a bella sala de hontem! Agora era á
+luz clara do dia, mas, era quasi tão bonito como com os centos de luzes
+de côr: ainda havia todas as cousas ricas de hontem, mas não estavam em
+tão boa ordem, o menino que tinham visto estava vestido de sêda deitado
+sobre o sophá, com alguns dos bonitos livros espalhados de redor d'elle,
+e parecia estar muito aborrecido.
+
+Quando Thomé e Joanninha se mostravam admirados de que podesse haver
+alguem que não estivesse contente com tão maravilhosas cousas, abriu-se
+uma porta da sala, e entrou um senhor de idade. Os meninos ouviram
+fallar como muito ao longe, mas entendiam bem o que se dizia. O velho
+perguntou:
+
+--Já está enfastiado, meu caro principe, de tantas cousas que fariam
+felizes outros meninos?
+
+--Outros meninos! disse o principe; os outros meninos não estão sós, e
+eu já vi todas as minhas cousas que me deram.
+
+--Mas vossa alteza bem sabe que se lhe dá companhia quando a quer ter.
+
+--Que companhia! Vem um, e diz: «Bons dias, principe»; e diz outro: «Que
+tem principe?»; e brincam com o que eu tenho e conversam e riem uns com
+os outros; e quando lhes chega o aborrecimento, vão-se embora e eu fico
+só. Quem me dera sahir como sahem os outros meninos!
+
+--Mas se vossa alteza quer, póde ir passear ou viajar
+
+--Ah, sim, ir passear na sua companhia, ou andar em carro ou a cavallo
+acompanhado por camaristas. Que grande alegria! o que quizera era ir só
+e para onde me parecesse. Antes queria ser filho de ciganos do que
+principe.
+
+Antes que Thomé e Joanninha podessem ouvir mais nada, chamou por elles a
+avó. Sahiram da caixa e o buraco ficou ás escuras.
+
+ * * * * *
+
+Muito tinham os dous irmãos que dizer um ao outro! O que elles não
+podiam entender era porque estava o principe tão impertinente.
+
+--Ah, como nós estariamos contentes com aquellas cousas tão bonitas!
+dizia Thomé suspirando.
+
+--Sim, mas nós não estamos sós, dizia Joanninha.
+
+--É verdade que os meninos ricos quando não estão sós, tambem estão
+contentes, dizia Thomé para si.
+
+--Havemos de vêr, dizia Joanninha, se o principe ainda lá está hoje á
+noite.
+
+Com grande alegria passaram elles todo o dia a conversar, e a anciedade
+não podia ser maior quando outra vez olharam pelo vidro.
+
+Já não era a sala, mas sim um bosque, quasi como aquelle em que elles
+moravam, e havia no bosque um grande pedaço de terreno sem arvores onde
+ardia uma fogueira; em que estava estendida uma bella peça de caça
+brava, e de redor da fogueira muita gente esfarrapada e enfarruscada, e
+alguns tocadores de instrumentos que tocavam uma musica alegre, e uma
+multidão de creanças que dançavam e saltavam com uma alegria de
+selvagens.
+
+--Ah, isto é muito divertido, dizia Thomé.
+
+Mas Joanninha abanava a cabeça porque não lhe agradava o que via. Um
+rapaz d'aquelles ciganos chegou com um grande sacco cheio de fructas
+seccas, e todos os pequenos o receberam com gritos de alegria, e elle
+despejou o sacco no chão. Todos se atiraram ás fructas seccas como quem
+tinha fome e comeram a bom comer. Depois começaram outra vez a saltar e
+a cantar desentoados, e Thomé começava a sentir desejos de tambem ir
+saltar com elles, quando o pai que chegava de fora os chamou para o quarto.
+
+Toda a noute teve Thomé os ciganos na imaginação, de maneira que deu
+cuidado a Joanninha que pensava que Thomé podia muito bem sahir de casa
+de noite e fugir para os ciganos. Mesmo a dormir cantava Thomé o que
+tinha ouvido tocar aos ciganos.
+
+Muito cedo, antes de acordar o pai, foi Thomé olhar pelo vidro, sem
+esperar por Joanninha, que só passado algum tempo é que foi ter com
+elle. O que viram era ainda o verde prado do bosque, mas já não havia
+festa. Era de manhã, a fogueira estava apagada, e os ciganos corriam
+para todos os lados muito afflictos e desvairados. Chegaram soldados e
+todo aquelle barulho e desordem acabou pela prisão dos ciganos que eram
+accusados de roubos. Com agudos gritos viram os pequenos dos ciganos que
+os soldados levavam á força seus pais e suas mãis, e que outros soldados
+os levavam a elles para outra parte. Thomé e Joanninha não tiveram animo
+para vêr mais e desviaram os olhos do vidro. Joanninha disse depois a
+Thomé:
+
+--Ainda querias ser filho de cigano para ter aquella vida livre que
+elles tem?
+
+--É verdade, disse Thomé desanimado, quem rouba não pode ter uma vida
+livre.
+
+--Os meninos ricos, tornou Joanninha, de certo passariam melhor vida, se
+não vivessem tão sósinhos como o principe.
+
+ * * * * *
+
+Á noite não poderam ir para a caixa das vistas maravilhosas porque a avó
+nunca lhes deu tempo de sahirem da cozinha, e o pai foi para casa muito
+cedo. Por isso ainda mais desejavam que chegasse a occasião de poderem
+lá tornar.
+
+Quando essa occasião chegou, viram um quarto muito bonito, não tão
+admiravel como a sala do principe, mas muito mais bonito do que o quarto
+da madrinha, com alcatifas de varias côres e bellos quadros nas paredes.
+O quarto estava cheio de lindas cousas para brincarem meninos e meninas.
+Um bonito quarto de bonecas, com senhoras e senhores muito bem vestidos,
+com sophás, cadeiras e caminhas pequenas, e uma cozinha cheia de louças
+brancas, panellas e pratos, muito mais do que havia na cozinha da avó;
+bonecas pequenas e grandes, quasi da altura de Joanninha, berços e
+cadeirinhas; e de outro lado um castello com soldados, e uma loja muito
+enfeitada com uvas seccas, amendoas, confeitos e figos, e um carro
+com bahús e saccos, e lindos livros de estampas; em uma palavra, eram
+quasi tantas cousas como tinha o principe. Thomé e Joanninha não cabiam
+em si de contentamento e admiração.
+
+Então entraram no quarto os donos de todas aquellas riquezas, que eram
+duas meninas e um menino. Parecia que vinham de passear. As meninas
+correram para as bonecas e o menino para a loja. Uma foi com um dinheiro
+pequenino e brilhante comprar dôces ao irmão, a outra começou a vestir
+as suas bonecas de uma caixinha cheia de ricos vestidos e chapelinhos.
+
+Ah, como ficaram tristes Thomé e Joanninha quando a avó os chamou para a
+ceia, e como sonhavam, a dormir e acordados, com aquellas bonitas
+cousas, e como correram na manhã seguinte á caixa para continuarem a vêr
+como eram felizes os tres irmãos!
+
+Mas já não era tudo tão bonito no quarto; as bonecas estavam no chão, e
+uma das meninas estava a chorar e a gritar; tinha deixado de noite as
+bonecas no chão e a porta do quarto aberta; a gata tinha entrado, tinha
+brincado com a boneca, e rasgou-lhe os vestidos de sêda e estragou-lhe
+as côres.
+
+--A culpa é tua, gritou um dos meninos, porque não pozeste as cousas em
+ordem.
+
+--Eu é que não tive culpa nenhuma, gritou a outra.
+
+E n'isto correram aos empurrões para a loja, e entraram em desordem por
+causa de um pão de assucar que as meninas queriam ter na sua cozinha e o
+irmão não queria que se tirasse da loja. A questionar e a gritar
+entraram as meninas na loja, e muitos dos vidros do dôce foram deitados
+ao chão: o menino cheio de colera correu á cozinha e deitou tudo ao
+chão, e quebrou a bonita louça que lá havia. Então foram tantos os
+gritos e queixas que Thomé e Joanninha não quizeram vêr mais.
+
+ * * * * *
+
+Tardou muito tempo que elles podessem tornar a vêr pelo vidro. Quando
+chegou a occasião, o que viram foi um lindo quarto e uma mesa com
+quinquilherias, bolos dôces, uma bella torta, confeitos e pasteis.
+Estavam lá duas meninas, e parecia que era o dia dos annos de uma, que
+era a que tinha recebido todas aquellas cousas. Não ralhavam nem se
+zangavam uma com a outra como tinham feito os outros meninos, mas tambem
+não se podia dizer que tinham boa saude e que estavam satisfeitas. Dizia
+uma:
+
+--Que te parece, Emma, vamos comer um bocadinho da tua torta?
+
+--Eu não, Sophia; antes queria maçans.
+
+--Maçans! pois tu não sabes que o senhor doutor prohibiu que comessemos
+fructa?
+
+--Ah! tambem a torta me faz mal, e a avó foi que m'a mandou; e os dôces
+fazem-me doer os dentes e foram mandados pela tia.
+
+--Então vamos brincar para o jardim, tornou Sophia.
+
+--Pois sim, vamos; e levo o meu chapéo novo. Iam para sahir quando
+appareceu a mãi e perguntou:
+
+--As meninas onde querem ir?
+
+--Vamos só um bocadinho para o jardim, maman.
+
+--Deus nos livre d'isso: no jardim está um vento muito frio e a terra
+muito humida. Nada, nada. Emma viria de lá com dôres de dentes e Sophia
+com a tosse. Deixem-se estar aqui. Eu vou levar d'aqui para fóra todas
+estas cousas, porque já comeram muito, e Sophia devia agora tomar o seu
+remedio.
+
+A menina Sophia fez uma careta de enjôo quando ouviu fallar no remedio.
+Joanninha não quiz esperar até que elle chegasse e deixaram tristes o
+vidro e a caixa.
+
+Não faltava a Thomé e a Joanninha que dizer e em que pensar a respeito
+do que tinham visto.
+
+--Diz-me cá, Thomé, perguntou Joanninha, parece-te que são infelizes
+todos os meninos que vivem no mundo?
+
+--Não, acudiu logo Thomé, eu acho que não póde ser. Se o principe não
+vivesse tão só...
+
+--Isso sim; e se os filhos dos ciganos tivessem bons pais; e se os tres
+irmãos não tivessem tão mau genio; e se as meninas não fossem doentes...
+Olha, quem é bom e de bom genio e tem saude, vive contente.
+
+--Mas quem é pobre e só como nós? perguntou Thomé.
+
+E Joanninha não soube o que havia de responder-lhe.
+
+ * * * * *
+
+Á noite a avó adormeceu cedo, mas elles mal se atreviam a ir ao vidro
+receando que acabasse por cousas tristes. Comtudo sempre foram.
+D'esta vez chegaram a gritar ambos ao mesmo tempo em voz um pouco alta:
+Isto é o nosso quarto e nós n'elle!
+
+E na verdade assim era, mas o quarto era mais alumiado e mais alegre,
+estava com mais ordem e mais aceio e limpeza, as vidraças sujas estavam
+bem lavadas, na janella havia em vasos um par de plantasinhas da
+floresta, como Joanninha as conhecia bem, de umas que nasciam mesmo com
+a neve; em uma gaiola de vimes, como Thomé já tinha visto fazer aos
+rapazes da aldeia, saltava um passarinho, que parecia estar melhor
+n'aquelle quarto agasalhado do que estaria livre ao ar frio, porque
+cantava e trinava que era um gosto ouvil-o. E a avó assentou-se á roda
+de fiar e Joanninha ao pé d'ella e Thomé a pequena distancia e não
+estavam aborrecidos e tristes como era d'antes; e cantavam uma bonita
+canção que já tinham aprendido na escóla e que nunca se tinham lembrado
+de cantar em casa. Cantavam tão suavemente que a avó, que percebia
+alguma cousa, piscava os olhos de contentamento. Por fim quando acabaram
+de cantar, o Thomé que elles viam lá dentro pegou em um grande livro que
+já ha muito tempo estava cheio de pó no sobrecéo da cama da avó, desde
+que ella nem com as lunetas podia lêr. Thomé e Joanninha olhavam
+espantados, porque era verdade que sabiam lêr, mas lêr em casa era cousa
+em que nunca tinham pensado. O Thomé do vidro começou a lêr em voz alta
+de maneira que a avó o ouvia; ao principio não foi tão correntemente
+como o verdadeiro Thomé teria lido, mas não tardou que fosse melhor. Era
+a historia de S. José, que os meninos já tinham ouvido, mas já ha muito
+tempo, e agora parecia-lhe tão cheia de novidade e de belleza que ao
+Thomé do vidro escutavam com toda a attenção, até que se ouviu um
+latido de cão. Era tambem exactamente como o latir do Fiel.
+
+E a Joanninha que se via lá dentro levantou-se, poz um par de sapatos
+velhos ao calor do lume e dependurou tambem ao calor do lar uma jaqueta
+velha do pai, e quando o pai entrou com Fiel, tirou-lhe Thomé a jaqueta
+molhada e pegou-lhe na espingarda, e Joanninha deu-lhe os sapatos
+quentes e a jaqueta bem enxuta.
+
+Thomé e Joanninha olhavam pasmados para aquelles cuidados com que
+trabalhavam as suas imagens dentro do vidro. Até então tinham visto o
+pai entrar e sahir sem ao menos pensarem em cuidar d'elle. O pai que
+elles viam pelo vidro estava muito admirado d'aquelles cuidados de seus
+filhos e mostrava-se muito mais meigo do que o verdadeiro pai costumava
+ser. Elle assentou-se á mesa, e Joanninha tinha uma ceia bem quente no
+lar, cousa que nunca lhe tinha lembrado, porque tambem a avó nunca
+pensava n'isso, e o pai batia-lhes no hombro, o que elle nunca tinha
+feito, e começou a fallar da mãi que Deus tinha levado para si, e que
+tambem cuidava muito d'elle; e tudo isso encantava tanto Joanninha e
+Thomé que não tinham vontade de tirar os olhos do vidro: mas a avó
+chamou por elles para se deitarem.
+
+ * * * * *
+
+Na manhã seguinte começaram Thomé e Joanninha a viver uma vida muito
+differente. Joanninha limpava e espanava, punha tudo em ordem e
+lavava a janella, de maneira que a avó, a quem aquillo parecia um sonho,
+perguntava: Então isto agora é uma igreja?--Como ainda não era tempo de
+flôres, Thomé levou do bosque alguns ramos verdes de faia, com os quaes
+adornou muito bem a sala. Depois ajudaram de boa vontade a avó a fazer o
+almoço, cousa que nunca tinham feito, e quando o comeram soube-lhes
+melhor do que nos outros dias. Depois assentou-se Joanninha com a roca
+ao pé da avó, e Thomé subiu a uma cadeira e abriu a Biblia, que estava
+cheia de pó como a que viram pelo vidro, e começou a soletrar. A avó
+escutou com muita attenção, e quando elle começou a lêr correntemente e
+ella ouviu pela primeira vez da bocca de seu neto a palavra de Deus, o
+seu coração cheio de annos sentiu-se mais novo, e ella ergueu as mãos ao
+céo, e não tirava de Thomé os seus olhos arrasados de lagrimas de
+alegria. Thomé ficou muito contente vendo o effeito da sua leitura e lia
+cada vez com mais fogo, e Joanninha escutava e fiava e não reparava como
+a manhã se passava depressa, até que a avó, que tinha o relogio na
+cabeça, se levantou para cozer as batatas. Então levantou-se Thomé e
+disse: Espere, avosinha, que eu ajudo-a.
+
+Foram ambos os netos tirar agua ao poço e a avó não cabia em si de
+alegria. Nunca tinham comido tão boas batatas. De tarde lembrou-lhes
+cantar, e começaram baixinho, e depois foram subindo a voz, e a avó
+escutava ao principio como se sonhasse, e sorria com um contentamento
+como ha muitos annos não tinha tido.
+
+Como passaram satisfeitos até que o pai chegou! E como elle se mostrou
+admirado d'aquelles cuidados que via nos filhos e que nunca mais vira
+desde que sua mulher fôra para a sepultura. Aqueceu-se com o fato
+que elles lhe deram, e encantado com aquellas meiguices dos meninos
+começou a contar muitas cousas da sua querida Margarida que estava no
+céo. A avó escutava com grande alegria e de tempos a tempos dizia alguma
+cousa. Antes de irem deitar-se disse ella ao pai: Tu deves vêr como
+Thomé lê bem.
+
+E foi buscar o seu velho livro de orações da noite. O pai, que já ha
+muitos annos não se lembrava de orações, escutou com viva alegria, e a
+voz de Thomé levava-lhe as santas palavras ao coração, que se abria para
+Deus. Quando Thomé fechou o livro, ergueu o pai as mãos ao céo e rezou.
+
+Thomé e Joanninha nunca dormiram um somno tão dôce como n'essa noite.
+
+Depois a mocidade foi passando, mas as boas obras davam alegria ao
+coração, o bom anjo da oração tinha entrado em casa, e fazia d'aquella
+socegada choupaninha um templo da paz e do amor.
+
+Os meninos não tinham desejos de tornar a olhar para o espelho do anão,
+porque entendiam que não lhes podia mostrar cousas melhores do que
+aquella sua vida caseira, principalmente quando veio a branda primavera,
+e elles pensaram como haviam de dar alegria á sua casinha no proximo
+inverno.
+
+Disseram-me que Thomé, passados annos, quando o pai e a avó já eram
+mortos, tinham corrido algumas terras, e veio a ser um habil e robusto
+carpinteiro que ajudou a construir muito bonitas casas e fez para si uma
+casinha muito aprazivel. Joanninha tinha ido para casa do padrinho, e
+veio a ser uma menina muito prendada e depois uma esperta aldean e boa
+mãi de filhos saudaveis.
+
+Os dous irmãos viveram sempre contentes com a sorte que Deus lhes deu, e
+quando viam de longe casas ricas, ou ricos vestidos ou custosas
+golosices, diziam comsigo: Aquillo talvez seja de um pobre principe, ou
+de algum menino de mau genio ou de alguma Emma doente.
+
+
+
+
+O CASTELLO ENCANTADO
+
+OU
+
+O MONTE DO CASTELLO DAS FADAS
+
+
+TRADIÇÃO PRUSSIANA
+
+Ao pé do rio Memer, e não longe da cidade de Tilsit, levanta-se um monte
+alto e redondo que se chama o monte do castello. Ha muitos e muitos
+annos houve alli um grande castello, como ainda hoje se póde vêr pelas
+ruinas das paredes, e por um fosso muito fundo e duas linhas de muralhas
+que estão de redor. A quem pertence e quem agora lá mora, é cousa de que
+ninguem sabe dar noticia, mas corre na terra uma tradição que reza que
+elle se aluiu de repente, e ainda hoje se mostra no cume do monte, mesmo
+no meio d'elle, um largo e escuro boqueirão, cujo fundo ainda ninguem
+pôde achar com cordas: diz-se que deve ter sido a chaminé do antigo
+castello. N'esses muros derribados reza a mesma tradição que é guardado
+um thesouro immenso por um porteiro, velhinho de cabellos brancos, que
+já tem sido visto muitas vezes pelos viajantes que sobem ao monte, e que
+ninguem até hoje tem podido ir aproveitar-se d'elle.
+
+Um dia andavam muitos rapazes de uma aldeia proxima de Tilsit a
+pastorear gado no monte do castello. O dia ia em mais de meio, o sol
+queimava e os rapazes deitaram-se á sombra de um rosal bravo e
+pozeram-se a contar historias. Entre outras cousas fallaram no muito
+ouro que estava no monte por debaixo d'elles, e mostraram desejos de que
+lhes apparecesse o porteiro do castello para irem atraz d'elle e
+deitarem mão ao thesouro. Mas mostravam esse animo por ser dia claro,
+porque nenhum d'elles era capaz de se deixar ficar só no monte do
+castello depois de escurecer.
+
+--Sim, dizia o mais novo, fazia-me boa conta o ouro, e ainda mais a
+minha mãi que está velha, corcovada e trôpega e ainda se assenta á roda
+de fiar, ganhando assim com muito trabalho mas honestamente o escasso
+pão de cada dia; que alegria não seria a d'ella se eu podesse levar-lhe
+para casa uma boa mão cheia de dinheiro! Mas eu não quero nada com o tal
+phantasma do homem pequenino.
+
+--Tolo! disseram os outros, elle não faz mal a ninguem; provavelmente
+descançaria e não lhe seria preciso andar a vaguear pelo monte, se
+alguem achasse o thesouro, porque então não teria mais que guardar.
+
+Assim palravam elles até que um se lembrou de irem todos ao boqueirão e
+atirarem pedras para baixo. Mas por maiores que fossem as pedras que
+arrastassem até ao buraco e lançassem dentro, não ouviam cahir nenhuma
+no fundo.
+
+--Se houvesse uma corda bem comprida, disse Fernando que era o mais
+velho, e rapaz forte e animoso, poderia um de nós descer um bom pedaço,
+e vêr se acharia alguma porta ou cousa semelhante que fosse dar onde
+está o ouro.
+
+--Em casa de meu amo, disse outro, ha um poço, e está uma corda no
+guindaste que com certeza é duas vezes tão comprida como este monte.
+Querem que a vá buscar? Em casa não está agora ninguem porque meu amo e
+minha ama sahiram para longe para um baptisado.
+
+A proposta foi bem recebida por todos, menos pelo pequeno Theophilo.
+
+--Nós, disse Fernando com os olhos afogueados, podemos talvez ser ricos
+com pouco custo, não precisando mais de guardar gado pelo ardor do sol;
+podemos mesmo comprar casa e campos e ter moços para o gado, se
+enchermos bem os bolsos lá em baixo. Vai buscar a corda, depois
+tiraremos á sorte quem ha-de descer á cova; os outros ficarão a segurar
+a corda em cima, e o que descer será içado logo que dê signal puxando
+por ella.
+
+Todos estavam muito contentes, menos o pequeno Theophilo, que como
+medroso se oppunha áquella resolução, mas foi escarnecido pelos
+camaradas. Quando chegou a corda e foram lançadas as sortes, a quem
+tocou a vez foi justamente ao timorato Theophilo, que bem fugiria d'alli
+para longe se os camaradas não o segurassem e não o atassem á força com
+a corda. Gritando e bracejando, com grandes risadas dos companheiros foi
+lançado no boqueirão redondo e descido devagar. A ponta da corda foi
+atada com muita segurança ao tronco de uma arvore, e pouco a pouco foram
+os rapazes deixando ir cada vez mais para o fundo o seu pequeno
+camarada. Passados alguns minutos curvaram-se na borda do buraco e
+disseram: «Que vês lá embaixo, Theophilo?» Mas Theophilo só pedia que o
+puxassem para fóra.
+
+A final já não se entendia o que elle dizia: a corda, que era mais
+comprida do que a altura da torre da igreja de Tilsit, estava já a
+chegar ao fim, e ainda se sentia retesada e pesada, signal certo de que
+Theophilo ainda não tinha chegado ao fundo. Mas de repente viu-se que
+estava bamba. Os moços do gado deram gritos de alegria, vendo que por
+fim estava Theophilo em terra firme: estenderam meio corpo por sobre a
+borda do boqueirão; chamaram e pozeram-se a escutar, mas o silencio era
+de mortos. Assim esperaram muito tempo, uma hora e ainda mais; agora,
+diziam elles, já Theophilo tem tido tempo de ver tudo e de encher os
+bolsos com ouro e prata. Puxaram a corda para cima, mas a corda não
+trazia nada. Como esperassem ainda uma hora e outra hora sem que a corda
+trouxesse alguma cousa acima, começaram a affligir-se e a inquietar-se.
+Depois correram muito pezarosos á aldeia, e com medo de castigo disseram
+á velha mãi doente do seu camarada perdido que Theophilo tinha trepado
+sósinho ás ruinas do monte do castello e de repente tinha desapparecido.
+
+Foi grande a angustia da pobre mãi do rapaz, cuja alegria unica era o
+seu Theophilo. Chorou e gemeu toda a noite, não houve somno que lhe
+fechasse os olhos, e bem quizera ella morrer para ir ter com seu filho
+ao céo, porque elle de certo tinha cahido no fundo do boqueirão do monte
+do castello, e lá estava despedaçado e morto.
+
+Quando na manhã seguinte Fernando e os outros moços do gado levavam
+outra vez os rebanhos para o pasto da vespera, ainda afflictos pelo que
+tinha acontecido, correu Theophilo ao encontro d'elles na raiz do monte.
+Todos os seus bolsos, e o barrete, e mesmo as mãos, estavam cheias de
+ouro, e elle com grande alegria contou aos camaradas como tudo lhe tinha
+corrido bem. Disse elle:
+
+--Logo que me senti em chão firme e que me desatei da corda, vi uma
+porta diante de mim e por ella entrei em uma cozinha muito grande. Ardia
+no lar uma grande fogueira que não fazia fumo nenhum, e em toda a parte
+não se via senão cousas de ouro e de prata. De repente veio direito a
+mim um velhinho pequeno, pegou-me na mão com muito bons modos e me disse
+que não tivesse medo porque me assegurava que não havia alli ninguem que
+me fizesse mal. Então perdi o medo, e atravessei com o bom velho muitas
+salas cada vez mais bonitas, onde havia montes de ouro. Então deu-me o
+castellão differentes iguarias muito boas para comer, e mostrou-me uma
+cama em que eu podia dormir. O vinho muito dôce que bebi pesou-me na
+cabeça, e eu dormi como um morto até que o mesmo velho pequenino me foi
+acordar. Então encheu-me de ouro o barrete e os bolsos tanto quanto
+podiam levar, e disse-me: «Guarda isto em lembrança do porteiro do
+castello e tracta de tua velha mãi.» E pegando-me em uma mão, abriu uma
+porta pequena, e quando puz os pés fora, vi o céo azul e o sol da manhã,
+e ouvi o sino da aldeia que tocava ás ave-marias. Elle não sahiu,
+disse-me adeus com a mão, e desappareceu. A porta por onde tinha sahido
+não a tornei a vêr. Graças a Deus, tudo foi bem até ao fim. Como minha
+mãi vai ficar contente!
+
+E Theophilo correu logo á aldeia, sem dar mais ouvidos aos seus
+camaradas que bem queriam ouvir contar mais alguma cousa.
+
+--Agora, disseram elles uns para os outros quando viram as grandes
+riquezas com que Theophilo appareceu, devemos ir tambem ao bom porteiro
+velho e trazer alguma cousa do seu thesouro. Vamos vêr a quem por sorte
+caberá a vez de ir lá abaixo.
+
+--Para que ha-de ser á sorte? disse Fernando; eu sou o mais velho de
+todos, e hei-de ser o primeiro a descer. A quem não estiver pelo que
+digo, provarei que está do meu lado o direito do mais forte.
+
+Os camaradas resmungaram, mas não se atreveram a resistir ao robusto
+rapaz, e por isso foi Fernando descido ao boqueirão, depois de ter
+primeiro tirado o seu pão da saccola pastoril, para ter onde deitar
+muito ouro que esperava receber do porteiro do arruinado castello. De
+novo se mostrou a corda retesada quasi até ao fim, e os outros a
+colheram sem que trouxesse nada, mas não esperaram que o camarada
+sahisse para fóra n'aquelle mesmo dia, porque sabiam que elle tinha lá
+em baixo boas cousas para comer e uma cama bem fofa para passar a noite,
+e que lhes appareceria de manhã muito alegre, como o pequeno Theophilo,
+ao pé do monte. A ausencia de Fernando foi pouco notada na aldeia; os
+companheiros levaram-lhe a casa o gado, e elle não tinha uma mãi que o
+chorasse.
+
+Na manhã seguinte todos os outros cheios de impaciencia sahiram com o
+gado mais cedo do que costumavam, mas não encontraram Fernando.
+Esperaram um pouco, depois correram ao alto do monte, deitaram a corda
+ao boqueirão, e inquietos chamaram o camarada pelo nome. Mas não houve
+resposta. Depois ninguem tornou a ver Fernando, nem appareceu ninguem
+que tivesse animo para descer ao fundo do monte do castello, e apanhar o
+thesouro que lá está enterrado.
+
+
+
+
+GRATIDÃO DE UM FILHO
+
+E
+
+INGRATIDÃO DE OUTRO
+
+(Hebel.)
+
+
+Quem reparar um pouco, ha de ver muitas vezes que o homem na velhice é
+tratado por seus filhos exactamente do mesmo modo, como elle havia
+tratado seus paes, quando erão velhos e já sem forças. E isto
+comprehende-se bem. Os filhos aprendem com os paes; não veem nem ouvem
+mais ninguem, e por isso seguem o seu exemplo. Assim se verifica
+naturalmente o que tantas vezes se diz, e está escripto: «a benção e a
+maldição dos paes vem cair sobre os filhos.»
+
+Ouçamos agora duas historias que se contão a proposito d'isto: a
+primeira é digna de imitação; a segunda merece ser muito meditada.
+
+Uma vez um certo principe foi dar um passeio a cavallo, encontrou-se com
+um camponez diligente e alegre, que andava a trabalhar em um campo, e
+poz-se a conversar com elle.
+
+D'alli a alguns dias soube o principe que o campo não era propriedade
+d'aquelle homem, o qual não passava d'um jornaleiro que pela modica
+quantia de tres tostões por dia cuidava do seu amanho. O principe, que
+para os pesados encargos do governo precisava de enormissimas
+sommas, não podia comprehender como tres tostões diarios erão meios
+bastantes para o nosso homem viver, e de mais a mais de rosto tão
+alegre. Este porém respondeu-lhe: «Nada me faltaria, se eu pudesse
+dispôr de todo esse dinheiro: a terça parte chega-me bem; com um terço
+pago as minhas dividas e a terça parte restante pertence ás minhas
+economias.» O bom do principe ficou ainda mais admirado. Mas o camponez
+continuou: «O que tenho, reparto-o com meus paes, que são velhos e já
+não podem trabalhar, e com meus filhos, que andão por ora a aprender;
+áquelles pago-lhes o amor com que me tratárão na minha infancia, e
+d'estes espero que não me abandonarão tambem na minha cansada velhice.»
+Não é verdade que tudo isto foi muito bem dito, é ainda melhor pensado,
+e ainda muito melhor executado? O principe recompensou aquelle homem de
+bem, olhou com desvelo pelos filhos, e a benção que os paes lhe lançárão
+ao morrer, foi-lhe retribuida pelos filhos agradecidos com amor e amparo.
+
+Havia porém outro homem que tratava tão mal seu pae, a quem a edade e as
+doenças tinhão na verdade tornado impertinente, que o velhinho mostrou
+desejos de entrar em um hospital de pobres, que havia na mesma aldeia.
+Alli esperava elle, apesar do pouco affecto, pelo menos vêr-se livre das
+reprehensões que em casa lhe amarguravão os ultimos dias da vida. O
+filho ingrato saltou de contente apenas soube dos desejos do pobre
+velho, e ainda antes de o sol se esconder por detraz das montanhas
+visinhas, já elles estavão satisfeitos. Mas no hospital não encontrou
+elle tudo quanto desejava, e passado algum tempo pedíu ao filho, como
+ultimo favor, que lhe mandasse dois lençoes, para não ter de dormir toda
+a noite na palha estreme. Procurou este os peores que tinha, e
+chamando seu filho, creanca de dez annos, ordenou-lhe que os levasse ao
+hospital.
+
+Ficou porém admirado ao vêr que o pequeno escondia a um canto um dos
+lençoes e só levava ao avô o outro; e apenas elle veio, perguntou-lhe
+porque tinha feito aquillo. O filho respondeu friamente que tinha
+guardado um dos lençoes para o dar ao pae, quando mais tarde o mandasse
+para o hospital.
+
+Que lição tiramos d'aqui?
+
+_Honra teu pae e tua mãe, para que sejas feliz._
+
+
+
+
+O CHAPELINHO VERMELHO
+
+OU
+
+A FADA E O LOBO
+
+
+Era uma vez uma rapariguinha da aldeia, a mais bonita que-podia haver:
+sua mãe adorava-a, e sua avó, que era a _Fada dos jasmim_, ainda mais.
+Esta boa mulher deu-lhe de presente um chapelinho vermelho, que lhe
+ficava tão bem, que a chamaram o Chapelinho Vermelho.
+
+Um dia sua mãe, tendo feito alguns bolos, disse-lhe:--Vae ver como está
+tua avó, pois que me disseram que ella estava doente; leva-lhe este bolo
+e este pote de manteiga. O Chapelinho Vermelho partiu logo para casa de
+sua avó, que morava n'outra aldeia. Passando n'um bosque, encontrou um
+lobo com cara de gente, que tinha boa vontade de a comer; mas não ousou
+fazel-o, por temor de alguns carvoeiros que estavam na floresta.
+Perguntou-lhe onde ella ia; e a pobre pequena, que não sabia que era
+perigoso dar attenção a um lobo, respondeu:--Vou ver minha avó, e
+levar-lhe um bolo com um pote de manteiga, que minha mãe lhe
+manda.--Ella mora muito longe? perguntou o lobo.--Não, senhor, respondeu
+o Chapelinho, é além d'aquelle moinho, que vossê vê lá ao longe, na
+primeira casa da aldeia.--Pois bem, disse o lobo, eu tambem quero ir
+vel-a, vou por este caminho, tu irás por aquelle, e veremos quem chega
+lá primeiro. O lobo poz-se a correr a toda a pressa pelo caminho mais
+curto; e a pequenina foi pelo caminho mais comprido, divertindo-se a
+colher avelãs, a correr atraz das borboletas, e a fazer ramalhetes das
+flores que via. O lobo não tardou muito a chegar a casa da avó, e bateu
+á porta: truz, truz, mas ninguem respondeu, porque a _Fada dos jasmins_,
+sabendo quem era, quiz fazel-o persuadir que não havia gente em casa.
+
+Tendo o lobo batido mais duas vezes, sem que lhe respondessem, suppôz
+que a avó do Chapelinho Vermelho havia saido, e resolveu entrar na casa,
+para esperar as duas e comel-as. Assim resolvido, levantou a aldraba, e
+abrindo-se a porta, entrou na casa, onde não viu ninguem; porque a
+_Fada_ se havia escondido em um armario, que estava á cabeceira da cama,
+d'onde via e observava tudo. O lobo deu duas voltas pela casa, e,
+vendo-a sósinha, fechou a porta com a aldraba e foi deitar-se na cama da
+avó, á espera da primeira que apparecesse. Pouco tempo depois chegou o
+Chapelinho Vermelho, que bateu á porta: _truz, truz,_--Quem está ahi?--O
+Chapelinho Vermelho, que ouviu a voz grossa do lobo, teve medo ao
+principio; mas pensando que sua avó estava rouca, respondeu:--É sua neta
+Chapelinho Vermelho, que lhe traz um bolo e um potesinho de manteiga,
+que minha mãe lhe manda. O lobo gritou-lhe, amaciando a voz:--Levanta a
+aldraba. A pequenina levantou a aldraba, e a porta abriu-se. O lobo,
+vendo-a entrar, lhe disse, escondendo a cabeça debaixo dos lençoes:--Põe
+o bolo e o potesinho de manteiga em cima da mesa, e vem-te deitar
+commigo. O Chapelinho Vermelho foi-se metter na cama; mas ficou muito
+admirada de ver sua avó despida. A pequenina lhe disse:--Ó minha avó!
+como os seus braços são compridos!--É para melhor te abraçar, minha
+neta.--Ó minha avó! como as suas pernas são grandes!--É para correr
+melhor, minha neta.--Minha avó! as suas orelhas são bem compridas!--É
+para escutar melhor, minha neta.--Minha avó! que olhos tem tão
+grandes!--É para ver melhor, minha neta.--Minha avó! para que tem dentes
+tamanhos!?--É para te comer. E dizendo estas palavras, este mau lobo
+lançou-se sobre Chapelinho Vermelho para comel-a; mas estacou de
+repente, ficando sem movimento, porque a _Fada_, saindo do escondrijo,
+lhe tocou com a sua _varinha de condão_. O Chapelinho Vermelho deu um
+grito de alegria ao ver sua avó, que tirou a netinha de ao pé do lobo,
+mais morta que viva, pelo susto que tivera. Então disse a _Fada_
+para a netinha:--Que castigo se ha de dar áquelle malvado lobo, que te
+queria devorar?--Dê-lhe, minha avósinha, o castigo que quizer, respondeu
+o Chapelinho Vermelho.--Pois então vae para a janella, que verás o que
+nunca viste. Estando o Chapelinho Vermelho á janella, viu saír de casa o
+lobo, todo coberto de _busca-pés_ (é d'este tempo que data o
+descobrimento da polvora) desde a ponta do rabo até á do focinho, e
+ouviu dizer a sua avó:--Vae, malvado, correndo por ahi fóra até que vás
+apagar o fogo no poço do moinho, onde morrerás afogado. Isto dito,
+começaram os _busca-pés_ a arder, dando tiros tão medonhos, que o lobo
+fugiu espavorido, e julgando apagar o fogo com agua, foi lançar-se ao
+rio, que corria perto, afogando-se justamente no _poço do moinho_, que
+desde então ficou sendo o _poço do lobo_.
+
+Depois d'isto disse a _Fada_ para o Chapelinho Vermelho:--has de
+prometter-me que de hoje em diante, quando tua mãe te mandar a algum
+recado, não te has de demorar pelo caminho, nem conversar com quem não
+conheces, dizendo-lhe o que vaes fazer; e se assim o fizeres, dou-te por
+_dom_ que serás mui formosa e casarás com um grande fidalgo.
+
+E assim foi: pois crescendo o Chapelinho Vermelho, fez-se tão discreta e
+tão formosa, que foi pedida em casamento por um grande fidalgo da
+visinhança, com o qual casou e viveu muito feliz.
+
+
+
+
+O FATO NOVO DO REI
+
+(Anderson).
+
+
+Era uma vez um rei que gostava tanto de roupas novas, que empregava em
+se vestir todo o dinheiro que tinha.
+
+Se passava revista aos seus soldados, se apparecia nos espectaculos ou
+passeios publicos, não tinha outro fim em vista que não fosse mostrar
+como ia vestido. Era um fato para cada hora do dia; de maneira que assim
+como é costume dizer-se de qualquer rei: «Sua magestade está em conselho
+de ministros», a respeito d'este dizia-se: «Sua magestade está no seu
+guarda-roupa».
+
+A capital em que elle vivia, era uma cidade alegre, principalmente pelo
+grande numero de estrangeiros que alli concorrião. Um dia chegárão
+áquella cidade dois impostores que se annunciárão como tecelões, dizendo
+que sabião tecer um panno como nunca se vira. Era um estofo notavel, não
+só pela belleza das côres e do desenho, mas sobretudo porque tinha a
+maravilhosa qualidade de se tornar invisivel para quem não exercesse,
+como devia, o seu emprego, ou fosse demasiadamente estupido.
+
+--Uma roupa d'esse panno deve ser impagavel--disse comsigo o rei;--por
+meio d'ella chegarei a conhecer quaes são os homens incapazes do meu
+reino, e poderei distinguir os intelligentes dos estupidos. Um fato
+assim é uma cousa indispensavel.--Em seguida mandou adeantar aos homens
+muito dinheiro para poderem desde logo dar começo á obra.
+
+Os aventureiros armárão effectivamente dois teares e pozerão-se a fingir
+que trabalhavão, embora nas lançadeiras não houvesse nem sombra de
+fiado. A cada passo estavão a pedir seda da mais fina e ouro do melhor
+quilate, que ião ensacando, sem todavia deixarem de trabalhar nos teares
+vasios até alta noite.
+
+Passado algum tempo, lembrou-se o rei de sair para ver em que altura ia
+o artefacto. Sentiu-se porém seriamente embaraçado, quando se recordou
+de que o estofo não podia ser visto por quem fosse tolo ou não exercesse
+condignamente o seu mister. Não era porque duvidasse de si; em todo o
+caso julgou prudente, pelo sim, pelo não, mandar adeante alguem que
+examinasse o estofo. Toda a cidade sabia da qualidade maravilhosa que
+elle tinha; cada um estava ancioso por saber se o seu vizinho era idiota
+ou inhabil.
+
+--Vou mandar o meu velho e honrado ministro,--disse comsigo o
+rei.--Ninguem, como elle, para avaliar a obra, porque alem de ser um
+homem fino, é irreprehensivel no desempenho das suas funcções.
+
+O ministro entrou na sala onde trabalhavão os dois impostores, e
+arregalando muito os olhos, disse de si para si:--Meu Deos, não vejo
+nada!--Mas, nem palavra. Os dois tecelões pedirão-lhe que se
+approximasse, e perguntárão que tal achava o desenho, e se as côres erão
+ou não magnificas. Ao mesmo tempo apontavão-lhe para os teares, onde o
+velho ministro tinha os olhos pregados, mas onde não via nada, pela
+simples razão de não haver lá nada que vêr.
+
+--Pois na realidade, serei eu tambem um asno?--perguntava elle a si
+mesmo.--É preciso que ninguem o suspeite. Serei eu incapaz de
+exercer o meu cargo? Não! não darei a saber a ninguem que não vi o tecido.
+
+--Então, que dizeis?--perguntou um dos tecelões.
+
+--Admiravel, é uma cousa surprehendente!--respondeu o ministro, pondo os
+oculos.--Este desenho, estas côres... vou immediatamente participar ao
+rei que fiquei satisfeitissimo.
+
+--Isso é uma grande honra para nós,--disserão os dois tecelões, e
+começarão a chamar-lhe a attenção sobre as côres e desenhos imaginarios,
+aos quaes elles tinhão o cuidado de ir dando um nome. O ministro ouviu
+attentamente, para repetir deante do rei tudo quanto elles dizião.
+
+Alguns dias depois o rei mandou outro funccionario honesto examinar o
+estofo e vêr se estava prompto. Aconteceu a este o que tinha acontecido
+já ao ministro: por mais que olhasse, não via nada.
+
+--Não é verdade que isto é um tecido admiravel?--perguntavam os dois
+impostores, e ião mostrando as côres e desenhos que não existião.
+
+--Pois eu não sou tolo!--pensava o homem.--Dar-se-ha o caso que eu não
+seja digno de exercer o meu emprego? Isso é singular; mas eu farei por o
+não perder.--E em seguida elogiou muito o tecido, e louvou sobretudo a
+escolha das côres e do desenho. Foi dizer ao rei que o estôfo era
+magnifico, e d'ahi a pouco não havia ninguem que não fallasse nelle.
+
+Por ultimo quiz o rei ir vê-lo pessoalmente, emquanto estava ainda no
+tear, e acompanhado d'um grande sequito de pessoas escolhidas, entre as
+quaes se encontravão os dois funccionarios honestos, dirigiu-se ao logar
+onde os dois trapaceiros continuavão a trabalhar com todo o cuidado,
+mas sem fio de seda ou de ouro, nem especie de fiado algum.
+
+--Então não é excellente?--perguntárão os dois ministros.--O desenho e
+as côres são dignas de vossa magestade.--E apontavão para os teares
+vasios, como se os outros pudessem ver ahi alguma cousa.
+
+--Que é isto?--disse comsigo o rei--eu não vejo nada. Acaso serei eu
+imbecil?! Não serei digno de ser rei? Esta é a maior infelicidade que me
+podia acontecer.--Depois exclamou de repente:--Magnifico! Declaro-me
+completamente satisfeito.
+
+Abanou a cabeça em signal de approvação, e contemplou o tear sem se
+atrever a dizer a verdade. Todos os do sequito contemplarão tambem, sem
+comtudo nada verem, e disserão com o rei:--É magnifico!--Depois
+aconselhárão-no que estreasse o fato novo numa procissão que devia sair
+d'ahi a pouco.--É magnifico! admiravel! excellente!--dizião todos á uma;
+e a alegria era indescriptivel.
+
+Os dois impostores forão condecorados, e recebêrão o titulo de tecelões
+da casa real. Na vespera da procissão trabalharão toda a noite á luz de
+dezeseis velas.
+
+A final fingirão tirar a peça do tear; cortárão, no ar, com grandes
+tesouras; coserão com agulhas desenfiadas, e depois de tudo isto
+disserão que estava prompto o fato.
+
+Veio o rei em pessoa, acompanhado dos seus ajudantes de campo, e os dois
+trapaceiros com os braços levantados como se segurassem alguma cousa,
+disserão:--Aqui tem vossa magestade a calça, a casaca e o manto. Tudo
+isto é leve como uma teia de aranha. Ha-de parecer a vossa magestade que
+não traz nada sobre o corpo, mas é justamente nisto que está a
+principal qualidade do tecido.
+
+--É verdade,--respondêrão os ajudantes de campo, mas sem verem nada.
+
+Em seguida os tecelões pedirão ao rei que se collocasse deante d'um
+espelho, afim de lhe provarem o fato, e depois de o despirem todo,
+fingirão que lhe vestião uma por uma as differentes peças. O rei ia-se
+mirando e remirando ao espelho.
+
+--Que bem lhe fica! que bem talhado!--exclamavão todos os
+cortezãos.--Que desenhos! E as côres? É um fato precioso!
+
+--Está lá fora o pallio, debaixo do qual vossa magestade tem de ir na
+procissão,--disse o mestre de ceremonias.
+
+--Bom, eu estou prompto--respondeu o rei;--penso que assim não vou
+mal.--E viu-se ainda uma vez ao espelho, para contemplar o esplendor em
+que ia.
+
+Os caudatarios apalpárão o chão, como se quizessem levantar a cauda do
+manto, e caminhárão com os braços estendidos como se segurassem alguma
+cousa, não querendo dar a entender que não vião nada.
+
+Assim caminhava o rei debaixo do magnifico pallio, e toda a gente da rua
+e das janellas exclamava:--Que sumptuoso vestido! que bella cauda tem o
+manto! o feitio é irreprehensivel!--Ninguem queria dar a conhecer que
+não via nada, para não ser taxado de estupido ou incapaz de exercer o
+seu emprego. Nunca fato algum do rei tinha dado tanto na vista.
+
+--Mas o rei vae nú;--gritou uma creancinha.
+
+--Meu Deus! escutae a voz da innocencia--disse o pae.
+
+Immediatamente correu por toda a multidão, que uma creança dissera
+que o rei ia nú; e a final exclamárão todos á uma:--O rei vae nú!
+
+Este sentiu-se extremamente mortificado, porque lhe parecia que tinha
+razão; mas cobrou animo e disse comsigo:--Seja o que for, é
+indispensavel que eu fique até ao fim.--Depois tomou uns ares ainda mais
+magestosos, e os caudatarios continuarão a segurar, com todo o respeito,
+a cauda que não existia.
+
+
+
+
+AS FADAS
+
+OU
+
+A MENINA BEM CREADA
+
+
+Era uma vez uma viuva, que tinha duas filhas; a mais velha parecia-se
+tanto no genio e na cara com a mãe, que quem via uma, via a outra. Ambas
+eram tão orgulhosas e tão desagradaveis, que se não podia viver com
+ellas. A mais moça, que era o retrato de seu pae, pela bondade, era ao
+mesmo tempo uma das mais lindas raparigas que se podiam ver. Como
+naturalmente se ama o seu similhante, esta mãe era douda por sua
+filha mais velha, e ao mesmo tempo tinha uma forte aversão para a mais
+nova, que mandava comer na cozinha, e trabalhar continuamente.
+
+Entre outras cousas era preciso que esta menina fosse duas vezes por dia
+buscar, a uma meia legua grande de sua casa, um grande cantaro cheio de
+agua. Um dia, que a infeliz creança estava n'esta fonte, chegou-se a
+ella uma pobre mulher, e lhe pediu que a deixasse beber.--Pois não!
+minha senhora, disse esta bella menina; e dizendo estas palavras, tomou
+agua no melhor sitio da fonte, e lh'a apresentou, sustendo o seu
+cantaro, para que ella podesse beber mais facilmente. A boa mulher,
+tendo bebido, lhe disse:--A menina é tão bonita, tão boa, é tão bem
+creiada, que não posso deixar de lhe fazer um _dom_. (Era uma Fada, que
+tinha tomado figura de uma pobre aldeã, para ver até onde iria a boa
+educação d'esta menina.) Eu dou-lhe por _dom_, continuou a fada, que a
+cada palavra que disser, sair-lhe-ha da bôca uma flor e uma pedra
+preciosa. Quando esta boa menina chegou a casa, a mãe ralhou-lhe por
+haver tardado tanto tempo.--Perdoe-me, minha mãe, por ter tardado. E
+dizendo estas palavras, deitou pela bôca duas rosas, duas perolas, e
+tres bons diamantes.--Que é isto? disse a mãe, admirada. Quem te deu
+isto, minha filha? (Era a primeira vez que a tratava por sua filha.) A
+pobre menina contou-lhe tudo o que lhe tinha acontecido, não sem deitar
+pela bôca uma infinidade de diamantes.--Realmente, disse a mãe, vou
+mandar lá tua irmã. Vem cá, Mariquinhas, vem ver o que sáe da bôca de
+tua irmã quando ella falla; queres tu ter o mesmo dom? Vae buscar agua á
+fonte, e quando uma pobre mulher te pedir de beber, dá-lh'a com
+muita civilidade.--Pois não! respondeu a mal-creada; eu ir á
+fonte!--Quero que lá vás, disse a mãe, e já. Maria foi, mas resmungando.
+Pegou no mais bonito jarro de prata que havia na casa, e chegou á fonte.
+Viu logo sair da floresta uma dama magnificamente vestida, que lhe pediu
+agua para beber. Era a mesma Fada que tinha apparecido a sua irmã, mas
+que tinha tomado a figura e os vestidos de uma princeza, para ver até
+onde iria a má creação d'esta rapariga. Porventura eu vim cá para lhe
+dar de beber? disse a mal-creada orgulhosa. Era o que me faltava trazer
+eu um jarro de prata para dar de beber á senhora: ora beba na fonte, se
+quizer.--Sois bem pouco politica! replicou a Fada, sem se encolerisar.
+Pois bem, já que é tão mal-creada dou-lhe por _dom_, que a cada palavra
+que disser, sair-lhe-ha da bôca uma serpente e um sapo. Voltou a casa, e
+sua mãe gritou:--Minha filha! minha filha! então que ha?--Nada, minha
+mãe! respondeu ella, deitando pela bôca duas serpentes e um sapo.--Oh
+céos! exclamou a mãe; que vejo! É tua irmã que tem a culpa; ha de
+pagar-m'o. E dizendo estas palavras, correu a ella para lhe bater.
+
+A pobre menina fugiu para a floresta visinha. O filho do rei, que
+voltava da caça, encontrou-a, e vendo-a tão linda, perguntou-lhe o que
+ella fazia alli sósinha, e porque chorava!--Oh! meu senhor, é porque
+minha mãe pôz-me fóra de casa. O filho do rei, que viu sair-lhe da bôca
+seis perolas e seis diamantes, pediu-lhe que lhe dissesse d'onde isto
+vinha. Ella contou toda a sua historia. O filho do rei ficou namorado
+d'ella; e considerando que um tal dom valia mais que tudo o que se podia
+dar em dote a uma princeza, levou-a para o palacio de el-rei seu
+pae, onde casou com ella. Sua irmã fez-se aborrecer tanto, que sua
+propria mãe a pôz fóra de casa; e esta desgraçada, depois de ter corrido
+bastante sem achar ninguem que quizesse recolhel-a, morreu no meio de um
+bosque.
+
+
+
+
+A RAPARIGUINHA DOS LUMES PROMPTOS
+
+(_Andersen_--traducção de José Joaquim Rodrigues de Freitas.)
+
+
+Estava horrivelmente frio, geava, e era quasi noite escura, a ultima do
+anno.
+
+Estava assim escuro e frio, quando caminhava pela rua uma rapariguinha
+com os pés nús e a cabeça descoberta. Tinha calçado chinelas ao sair de
+casa, mas de que lhe servírão? Erão muito grandes, e tanto, que a mãe as
+tinha usado até então; demais, a pequena perdeu-as ao atravessar á
+pressa uma rua, fugindo de dois carros que rodávão com velocidade de pôr
+medo. Uma das chinelas não a poude tornar a achar; e a outra apanhou-a
+um rapaz, e lá foi a correr com ella; até se lembrou que lhe serviria de
+berço, caso viesse a ter filhos.
+
+Assim caminhou a rapariguinha com os pésinhos nús e rôxos de frio.
+Trazia num avental velho uma porção de lumes promptos, e na mão um maço
+d'elles. Ninguem lhe comprára nada todo o dia, ninguem lhe fizera
+presente de cinco réis.
+
+Imagem da miseria, a pobre pequena ia-se arrastando a tremer de frio e
+fome!
+
+Os flocos de neve cobrião-lhe o cabello comprido e louro, que em
+formosos anneis lhe caía pelo collo abaixo; mas, em verdade, n'isto
+pensava ella!
+
+De todas as janellas brilhavão luzes; e vinha de lá um delicioso cheiro
+a ganso assado; era a noite de S. Silvestre; e n'isto pensava ella!
+
+A um canto formado por duas casas, uma das quaes era mais saliente do
+que a outra, sentou-se ella, e, como poude, conchegou-se; metteu bem
+para dentro os pésinhos, mas ainda mais lhe arrefecêrão; e não ousava ir
+para casa por não ter vendido phosphoros, nem arranjado dinheiro.
+
+Bem sabia que o pae lhe havia de bater, e em casa tambem estava frio;
+cobria-a só o telhado, pelo qual o vento assobiava, ainda quando se
+tapavão os buracos maiores com palha e farrapos.
+
+O frio quasi lhe não deixava mover as mãos.
+
+Ah! um lume prompto podia fazer-lhe bem; se tirasse um do mólho, se o
+accendesse na parede, e se aquecesse a elle os dedos!
+
+Tirou um. Zahs! Como scintillava, como ardia! Era uma chamma quente e
+brilhante, era uma luzinha; poz sobre ella as mãos, era uma luzinha
+maravilhosa. Á rapariguinha pareceu que estava deante de um grande fogão
+de ferro todo guarnecido de latão polido. Abençoado fogo, que tão bem
+aquecia! Mas a chammasinha apaga-se, o fogão desapparece, ficárão-lhe na
+mão só os restos do lume prompto que ardêra.
+
+Accendeu outro na parede, este alumiava e tornava transparentes como um
+véo os logares da parede em que os seus raios incidião: podia assim vêr
+para dentro da sala.
+
+A mesa tinha uma toalha branca de neve, sobre a qual luzia louça de
+porcellana; o ganso assado, cheio de maçãs e ameixas sêcas, exhalava
+deliciosos vapores. E o que ainda era mais bello: o ganso saltava do
+prato abaixo, cambaleava pelo chão adeante, e vinha até á pobre creança,
+trazendo no peito a faca e o garfo.
+
+Lá se apagou o lume prompto, e só ficou a parede, espessa, fria e humida.
+
+Ella accendeu ainda um phosphoro. E eis que lhe pareceu estar sob a
+magestosa arvore do Natal, ainda maior e mais adornada, que a outra que
+vira ao travéz da janella da casa d'um rico negociante. Milhares de
+luzes ardiam nos ramos verdes; e imagens variegadas, como numa vitrina,
+olhavão para a rapariga. A pequena estendeu para ellas as mãos; e eis
+que se apagou o lume prompto.
+
+As luzes do Natal subirão mais e mais; parecião-lhe estrellas no céo;
+uma d'ellas caiu formando longo rasto luminoso.
+
+Alguem que morre, disse comsigo a rapariguinha; porque a avó, unica que
+lhe tivera amor, e que já era fallecida, lhe contára que uma alma sobe
+para Deos, quando uma estrella cáe para a terra.
+
+Accendeu mais outro phosphoro; a luz fêz-se de novo, e no meio do brilho
+d'ella erguia-se a velha avó, tão resplendente e pura, tão cheia de
+doçura e de amor!
+
+Minha avó, exclamou a pequena. Oh! leva-me comtigo. Eu sei que tu
+desapparecerás quando o phosphoro se apagar. Has-de passar como o fogão
+quente, como o delicioso ganso assado, e como a grande e magestosa
+arvore do Natal!
+
+E rapidamente accendeu todo o mólho de phosphoros, a fim de ter alli a
+avó bem segura.
+
+E os phosphoros fulgurárão com tal brilho, que havia luz mais viva do
+que em pleno dia; a avó nunca fôra tão alta nem tão formosa: tomou nos
+braços a rapariguinha, e ambas voárão pelas regiões da luz e da alegria
+até muito alto, muito alto; não havia lá nem frio, nem fome, nem
+angustia: erão perto de Deos.
+
+Mas encostada ao canto da parede, quando veio o frio amanhecer, estava a
+pobre rapariga com as faces vermelhas e um sorriso nos labios; matou-a o
+gêlo na ultima noite do anno velho.
+
+E o sol do anno novo passou sobre o seu cadaversinho.
+
+Immovel estava a rapariguinha: alli estava ella com os phosphoros, dos
+quaes havia queimado um maço.
+
+Ninguem suspeitava quanto ella vira de bello, e em que brilhante região
+entrára com a avó no dia de anno novo.
+
+
+FIM DA SEXTA PARTE
+
+
+
+
+
+End of the Project Gutenberg EBook of O Oraculo do Passado, do presente e do
+Futuro (6/7), by Bento Serrano
+
+*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK O ORACULO DO PASSADO (6/7) ***
+
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+goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
+remain freely available for generations to come. In 2001, the Project
+Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
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+To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
+and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
+and the Foundation web page at https://www.pglaf.org.
+
+
+Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive
+Foundation
+
+The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
+501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
+state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
+Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification
+number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at
+https://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
+permitted by U.S. federal laws and your state's laws.
+
+The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
+Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
+throughout numerous locations. Its business office is located at
+809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
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+information can be found at the Foundation's web site and official
+page at https://pglaf.org
+
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+ Chief Executive and Director
+ gbnewby@pglaf.org
+
+
+Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation
+
+Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
+spread public support and donations to carry out its mission of
+increasing the number of public domain and licensed works that can be
+freely distributed in machine readable form accessible by the widest
+array of equipment including outdated equipment. Many small donations
+($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
+status with the IRS.
+
+The Foundation is committed to complying with the laws regulating
+charities and charitable donations in all 50 states of the United
+States. Compliance requirements are not uniform and it takes a
+considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
+with these requirements. We do not solicit donations in locations
+where we have not received written confirmation of compliance. To
+SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
+particular state visit https://pglaf.org
+
+While we cannot and do not solicit contributions from states where we
+have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
+against accepting unsolicited donations from donors in such states who
+approach us with offers to donate.
+
+International donations are gratefully accepted, but we cannot make
+any statements concerning tax treatment of donations received from
+outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff.
+
+Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
+methods and addresses. Donations are accepted in a number of other
+ways including including checks, online payments and credit card
+donations. To donate, please visit: https://pglaf.org/donate
+
+
+Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic
+works.
+
+Professor Michael S. Hart was the originator of the Project Gutenberg-tm
+concept of a library of electronic works that could be freely shared
+with anyone. For thirty years, he produced and distributed Project
+Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.
+
+
+Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
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+unless a copyright notice is included. Thus, we do not necessarily
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