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+ <title>Estrellas Funestas, por Camilo Castelo Branco</title>
+ <meta name="Author" content="Camilo Castelo Branco">
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+<pre>
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+The Project Gutenberg EBook of Estrellas Funestas, by Camilo Castelo Branco
+
+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.org
+
+
+Title: Estrellas Funestas
+
+Author: Camilo Castelo Branco
+
+Release Date: March 18, 2010 [EBook #31694]
+
+Language: Portuguese
+
+Character set encoding: ISO-8859-1
+
+*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK ESTRELLAS FUNESTAS ***
+
+
+
+
+Produced by Pedro Saborano and the Online Distributed
+Proofreading Team at https://www.pgdp.net (This book was
+produced from scanned images of public domain material
+from the Google Print project.)
+
+
+
+
+
+
+</pre>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<div style="text-align: center;">
+<p style="font-size: 1.5em;">OBRAS</p>
+
+<p>DE</p>
+
+<p style="font-size: 1.2em;">CAMILLO CASTELLO BRANCO</p>
+
+<p>EDIÇÃO POPULAR</p>
+
+<p style="font-size: 1.4em;">L</p>
+
+<p style="font-size: 1.8em;">ESTRELLAS FUNESTAS</p>
+</div>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<div style="font-size: 0.8em;">
+<p style="text-align: center;">VOLUMES PUBLICADOS </p>
+
+<blockquote>
+ N.º 1&mdash;Coisas espantosas. <br>
+ N.º 2&mdash;As tres irmans. <br>
+ N.º 3&mdash;A engeitada. <br>
+ N.º 4&mdash;Doze casamentos felizes. <br>
+ N.º 5&mdash;O esqueleto. <br>
+ N.º 6&mdash;O bem e o mal. <br>
+ N.º 7&mdash;O senhor do Paço de Ninães. <br>
+ N.º 8&mdash;Anathema. <br>
+ N.º 9&mdash;A mulher fatal. <br>
+ N.º 10&mdash;Cavar em ruinas. <br>
+ N.<sup>os</sup> 11 e 12&mdash;Correspondencia epistolar <br>
+ N.º 13&mdash;Divindade de Jesus. <br>
+ N.º 14&mdash;A doida do Candal. <br>
+ N.º 15&mdash;Duas horas de leitura. <br>
+ N.º 16&mdash;Fanny. <br>
+ N.<sup>os</sup> 17, 18 e 19&mdash;Novellas do Minho. <br>
+ N.<sup>os</sup> 20 e 21&mdash;Horas de paz. <br>
+ N.º 22&mdash;Agulha em palheiro. <br>
+ N.º 23&mdash;O olho de vidro. <br>
+ N.º 24&mdash;Annos de prosa. <br>
+ N.º 25&mdash;Os brilhantes do brasileiro. <br>
+ N.º 26&mdash;A bruxa do Monte-Cordova. <br>
+ N.º 27&mdash;Carlota Angela. <br>
+ N.º 28&mdash;Quatro horas innocentes. <br>
+ N.º 29&mdash;As virtudes antigas&mdash;Um poeta portuguez... rico! <br>
+ N.º 30&mdash;A filha do Doutor Negro. <br>
+ N.º 31&mdash;Estrellas propicias. <br>
+ N.º 32&mdash;A filha do regicida. <br>
+ N.<sup>os</sup> 33 e 34&mdash;O demonio do ouro. <br>
+ N.º 35&mdash;O regicida. <br>
+ N.º 36&mdash;A filha do arcediago. <br>
+ N.º 37&mdash;A neta do arcediago. <br>
+ N.º 38&mdash;Delictos da Mocidade. <br>
+ N.º 39&mdash;Onde está a felicidade? <br>
+ N.º 40&mdash;Um homem de brios. <br>
+ N.º 41&mdash;Memorias de Guilherme do Amaral. <br>
+ N.<sup>os</sup> 42, 43 e 44&mdash;Mysterios de Lisboa. <br>
+ N.<sup>os</sup> 45 e 46&mdash;Livro negro de padre Diniz. <br>
+ N.<sup>os</sup> 47 e 48&mdash;O judeu. <br>
+ N.º 49&mdash;Duas épocas da vida. <br>
+ N.º 50&mdash;Estrellas funestas.</blockquote>
+</div>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<div style="text-align: center; border: solid 2px #000; padding: 1em;">
+<p style="font-size: 1.2em;"><em>CAMILLO CASTELLO BRANCO</em></p>
+
+<p style="font-size: 2em;">ESTRELLAS</p>
+
+<p style="font-size: 2.5em;">FUNESTAS</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p style="font-size: 1.2em;">QUINTA EDIÇÃO</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>1906 <br>
+P<small>ARCERIA </small>A<small>NTONIO </small>M<small>ARIA
+</small>P<small>EREIRA</small> <br>
+Livraria editora e Officinas Typographica e de Encadernação <br>
+Movidas a electricidade <br>
+<em>Rua Augusta&mdash;44 a 54</em> <br>
+LISBOA</p>
+</div>
+
+<p><span class="pn" id="pg_4" >{4}</span></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<div style="text-align: center;">
+<hr>
+
+<p style="font-size: 0.8em;">1906 <br>
+OFFICINAS TYPOGRAPHICA E DE ENCADERNAÇÃO <br>
+Movidas a electricidade <br>
+<strong>Da Parceria Antonio Maria Pereira</strong> <br>
+<em>Rua Augusta, 44, 46 e 48, 1.º andar</em> <br>
+LISBOA <span class="pn" id="pg_5" >{5}</span></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+</div>
+
+<div id="corpo">
+<h2><a name="SECTION00100">A QUEM LER</a></h2>
+
+<p>Venho já a declarar que me desgosta o titulo d'este meu romance; mas não é
+esta a primeira vez que meus actos, invenções e palavras me desgostam, embora
+extranhos applaudam uns e outras.</p>
+
+<p>Tem uma certa graça, mixto de luz e escuridade, aquelle titulo: o que não
+tem é verdade, verdade moral, acommodada á minha philosophia.</p>
+
+<p>No romance que publiquei, intitulado <small>AS TRES IRMÃS</small>, rematei
+dizendo que não ha bons nem maus destinos, como se dissesse que o homem é o
+responsavel, o agente, o motor arbitrario de suas acções, das quaes lhe advém o
+socego ou a inquietação, a dita ou a desdita, a publica estima ou a
+desprezadora abominação.</p>
+
+<p>Quem tal crê e disse, rejeita e desadora estrellas propicias ou funestas,
+como cousa de agouros, de crendices, de poetas, e de vulgar superstição.</p>
+
+<p>O titulo, pois, tem muito com a fórma, e pouquissimo ou nada com a
+substancia d'esta novella. Quem não quizer chamar-lhe <small>ESTRELLAS
+FUNESTAS</small>, emende para os <small>MAUS CAMINHOS DA DESGRAÇA</small>, ou
+outro titulo<span class="pn" id="pg_6" >{6}</span> de seu sabor, que
+eu de tudo me contento, se o não denominarem <small>INVENÇÕES DO
+AUCTOR</small>.</p>
+
+<p>Historia mais verdadeira nunca eu a escrevi. Por verdadeira de mais,
+estiveram os apontamentos d'ella a olvidarem-se-me na escuridade para onde os
+afastaram deferencias, appellidos e pessoas, umas que se prezam em si, outras,
+menos em si, e muito em seus antepassados.</p>
+
+<p>Deliberei, depois de censurado por pessoa que, a meu instar, me cedera as
+notas, a dar á estampa successos, que a bem merecem, por serem de lição a
+infelizes, caidos em abysmos por suas proprias mãos abertos. Para me expôr á
+somenos tacha de indiscreto, mudei nomes, sentindo não poder mudar localidades,
+que então lá se ia abaixo, na rampa das chamadas conveniencias, o timbre da
+verdade historica, a côr, a essencia, o melhor das obras de arte.</p>
+
+<p>Se, mesmo assim, muitos leitores, maiores de cincoenta annos, levantarem o
+sendal com que lhes quiz encobrir algumas feições da verdade, e as divulgarem a
+seus amigos, d'aqui me despeno da coima de linguareiro, offensor de cinzas
+illustres, e assoprador d'ellas aos olhos de quem os fecha para não ver os
+peccados de seus avós, contentando-se com ve'-los retratados na lona, e
+ennobrecidos nos bens herdados.</p>
+
+<p>Dou-me pressa em destruir prevenções. Varram de sua idéa a perspectiva de
+que eu vá quebrar lages e carneiros por essas egrejas e capellas, chamando a
+juizo de homens as ossadas que, de muito, se ficaram esperando<span class="pn"
+id="pg_7" >{7}</span> a volta do espirito para o supremo dia. Longe
+d'isso. Tenho escassamente uma pobre penna de historiador; são leveiras de mais
+as minhas mãos para sustentarem a balança dos julgamentos, cujo fiel, para
+obedecer ao ouro fio, releva que penda em dedos, menos encodeados na cenosidade
+dos vicios.</p>
+
+<p>Aquietem, pois, seus escrupulos os fieis á religião dos tumulos. Hão de ir
+comigo ao longo de um salão, em cujas paredes, sob profundos tectos de castanho
+armorejados, pende uma galeria de retratos, uns carrancudos como a philaucía,
+outros sorrindo ironicos, como em desprezo da nossa contemplação. As arrogantes
+effigies, ao cabo de contas, ficarão rindo; e nós bem póde ser que passemos
+chorando, porque somos de uma geração que não póde, nem quer, fazer riso da
+desgraça.</p>
+
+<p>Esta historia é innocente. Podem le'-la senhoras de imaginação
+impressionavel, e os moços descontentes da vida incolor e monotona que a
+sociedade lhes prescreve. O auctor, quando era capaz, não enganou alguem
+escrevendo: ahi estão uns trinta volumes a defende'-lo da calumnia, se alguem o
+argue de romancista corruptor. Agora, que está velho, dobrada obrigação lhe
+corre de desvanecer preconceitos, que disparam em desordem da vida, e
+sacrificam os thesouros da paz ao pobre do coração, que tão mal os paga, por
+não ter cousa boa que dar por elles.</p>
+
+<p>Crê o auctor que ha, no caminho da vida, muitas paragens alegres, se o
+caminheiro as sabe ver com os olhos já cançados de perseguir as fugitivas
+visões. Nem<span class="pn" id="pg_8" >{8}</span> podia deixar de
+ser assim, a menos que a verdade, filha do céo, não fosse um mal. E a verdade,
+para uns temporã, e serôdea para outros, a final, a todos allumia, como o sol
+do Senhor, que primeiro doura a colmada choça do montanhez, e depois desce os
+flancos da serra, doura e lustra os zimborios dos palacios, e verte do seu
+zenith um raio nas cavernas onde a formiga passeia por entre as unhas do leão.
+</p>
+
+<p>Aquellas paragens verdadeiras do caminho da vida são hospedagem commum;
+todavia, os mais dilectos do anjo bom, que alli recebe os peregrinos, são os
+mais infelizes, os mais quebrantados da jornada, os que subiram até lá o
+desfiladeiro das illusões, e bem mereceram a graça do anjo, rebaptisados na
+agua de suas lagrimas.</p>
+
+<p>Sentado n'uma d'essas paragens é que eu conto esta historia ás pessoas que a
+quizerem ouvir por complacencia com a minha velhice, e porque eu lhe assevero
+que este e todos os meus romances, olham a prevenir o leitor contra os
+infortunios procedentes da mentira do coração.<span class="pn" id="pg_9"
+>{9}</span></p>
+
+<h1><a name="SECTION00200">ESTRELLAS FUNESTAS</a></h1>
+
+<h2><a name="SECTION00300">PRIMEIRA PARTE</a></h2>
+
+<h3><a name="SECTION00301">I</a></h3>
+
+<p>Alardeava em Lisboa suas pompas, liberalidades e desperdicios de rico
+morgado da provincia, Gonçalo Malafaya, primogenito e unico de uma das tres
+nobilissimas e mais opulentas casas do Porto.</p>
+
+<p>Ha muitos annos foi isto. Ahi por 1778 é que o fidalgo portuense dava
+invejas aos da côrte, e a muitos namorados se atravessava, tentando a
+constancia das damas, e saíndo com a victoria, de que elle se lograva por mera
+ostentação, e nada mais que mareasse seu pundonor, ou o d'ellas.</p>
+
+<p>Algumas d'essas damas levavam-lhe vantagem em pureza de sangue, e pouco o
+desegualavam em bens de fortuna. Admiravam-se os amigos de Gonçalo Malafaya que
+elle rejeitasse allianças de bom partido, vistas as condições das donas.
+Respondia elle que, desde menino,<span class="pn" id="pg_10"
+>{10}</span> estava o seu casamento pactuado com D. Maria das
+Dôres, sua prima carnal, tambem filha unica, e successora de grandes vinculos
+nas provincias do norte.</p>
+
+<p>D. Maria das Dôres, menina de treze annos, saíra do convento de Arouca, onde
+fôra educada com suas tias, e vestira o magestoso habito de aia da santa rainha
+Mafalda, costumeira já esquecida n'aquelle mosteiro, fundado por uma rainha
+portugueza d'aquelle nome.</p>
+
+<p>A joven aia saíu do mosteiro, com os seus bellos olhos menos levantados ao
+céo que inclinados ao espelho, e viu-se bonita, por comparação com as feias.
+Achou-se, ao mesmo tempo, na primavera da vida e na do anno.</p>
+
+<p>Parece que a natureza inteira lhe estava dando uma festa. Recordar-se do seu
+quarto sombrio do convento, e das rabugentas admoestações e querellas de suas
+tias, era-lhe um retrospecto enjoativo. Seus paes andavam como a amostra'-la de
+casa em casa, maravilhados do juizo da morgadinha. O juizo de Maria das Dôres,
+a olhos extranhos, teria antes nome de mau genio, pois não era mais que uma
+desmesurada vaidade de sua pessoa, e altivez com que tratava mordomos,
+caseiros, creados, e ainda pessoas independentes de sua casa, que a não
+hombreavam em fidalguia. Esta prenda lhe incutiram as tias, freiras que
+passavam por boas, e santas mesmo seriam; mas muitas vezes estariam a pique de
+perderem suas almas, pela peccaminosa soberba com que disputavam primazias de
+linhagem com as suas conventuaes. Na cella das duas senhoras ou se falava de
+milagres ou de fidalguia; e era ordinario passarem da<span class="pn"
+id="pg_11" >{11}</span> linguagem, edificativa de sua visionaria
+crença em milagres, ao vanglorioso discurso de sua arvore genealogica, em
+demerito de alguma illustre religiosa bernarda, que, por sua parte, mofava da
+philaucía das nossas velhas senhoras, a quem Deus terá perdoado a fragilidade,
+por ser a mais inoffensiva de quantas ha.</p>
+
+<p>O maior mal, proveniente d'isso, foi a vaidade da sobrinha; se, porém, seus
+paes gostavam d'ella assim, póde dizer-se que a educação de Maria fôra
+perfeita, á vontade dos paes.</p>
+
+<p>Soberba com os fidalgos, que a requestavam, é que ella não era, nem os seus
+quatorze annos extranhavam a linguagem galanteadora. Já lá no convento a aia de
+Santa Mafalda ouvira falar muito de coração ás religiosas que o traziam
+exteriormente amortalhado no habito; presenceára por lá muitas borrascas
+passageiras de ciumes; ouvia conversações pouco recatadas das freiras com as
+noviças ácerca de certos primos que alli vinham de longes terras a estiarem
+saudades nas grades, e banquetearem-se do refeitorio monastico. Era tudo ísto
+de si tão trivial n'aquelles tempos, que um pae, impondo a suas filhas a
+profissão, tacitamente lhes dava a partido poderem ellas violar o voto pela
+mesma razão que elles lhes violavam as propensões. E, portanto, nenhuma
+religiosa, em annos desculpaveis, se pejava de tratar questões de amor, quando
+ia para o côro, ou voltava do côro, mixturando os psalmos de penitencia com os
+alambicados conceitos em que, por via de regra, começavam e findavam aquelles
+amores. E como ninguem se escandalisava<span class="pn" id="pg_12"
+>{12}</span> de tal, quer-me parecer que o peccado seria
+insignificante.</p>
+
+<p>Como disse, concorreram desde logo á mão da herdeira os mais nobres
+appellidos d'estas provincias, uns tendo-a visto, outros não a vendo nunca; uns
+amando-a de repente, outros aborrecendo-lhe as maneiras, e mesmo a boca
+defeituosa. Maria das Dôres lá tinha no seu patrimonio tempero com que
+adubar-se para todos os paladares; ella porém dizia a suas amigas, empenhadas a
+favor de irmãos ou parentes, que o seu casamento estava justo desde o berço com
+o primo Gonçalo Malafaya.</p>
+
+<p>N'aquelle tempo, semelhantes contractos entre duas familias, cujos
+contrahentes eram dois meninos no berço, eram inquebrantaveis. As creanças, aos
+sete annos, já se conheciam como esposos futuros; e, conforme iam crescendo e
+ouvindo falar do casamento, não tinham mesmo tempo de córar um do outro,
+quando, aos quatorze annos nupciaes, a esposada arrumava as bonecas para cuidar
+do marido. Raras vezes acontecia rebellarem-se os filhos compromettidos, contra
+a vontade dos paes. Se se amavam, era uma fortuna, tambem rara; se não se
+amavam, o que fariam era mutilar o coração, atrophia'-lo á custa de lhe abafar
+as pulsações, e deixa'-lo para ahi estar no peito, em lethargia, cujo
+despertar, já fóra de tempo, trazia ás vezes grandes desgraças e inuteis
+lições.</p>
+
+<p>A esta regra usual, quiz o acaso contrapôr uma excepção, incutindo no animo
+de Gonçalo Malafaya extraordinarios<span class="pn" id="pg_13"
+>{13}</span> affectos a uma dama lisbonense, e no de Maria das
+Dôres imperiosa inclinação a um cavalheiro de Amarante.</p>
+
+<p>Pediu Gonçalo aos paes licença para casar com a menina, mandando-lhes um
+traslado da arvore genealogica da sua amada. Os velhos responderam-lhe
+negativamente, com muitas razões, sendo a primeira razão do casamento evitar a
+demanda por causa dos vinculos de Freijoim e Aguas Santas; segunda razão,
+andarem ligadas as duas familias, através de nove gerações desde 1530; terceira
+razão, a palavra dada, entre fidalgos que a tinham em maior valia que a propria
+vida. Seguiam-se outras razões, rematadas por esta paternal caricia: <em>Se
+desobedeceres á honra, aos paes e aos deveres a que teus appellidos te obrigam,
+conta com a nossa maldição.</em></p>
+
+<p>Gonçalo abafou os respiradouros do coração, e saíu de Lisboa, caminho de sua
+casa. Muito sizo teve elle em conhecer o nenhum remedio do seu mau destino, e
+fugir á presença da senhora, expediente unico de salvar-se, e salva'-la de
+maiores dôres. Salvaria?...</p>
+
+<p>Alem de quê, o mancebo, para distrair saudades na jornada, ia pensando em
+sua prima, que elle vira galantinha, aos oito annos, e acompanhára a Arouca,
+tendo elle doze. Lembrava-se de lhe ter dado flores, e recebido, nas festas do
+anno, umas bocetas de murcellas muito enfeitadas, com trama de papel dourado, e
+as iniciaes da prima floreadas e entrelaçadas nas suas. Depois, uns versos, que
+ella lhe mandára para Lisboa, escriptos naturalmente<span class="pn" id="pg_14"
+>{14}</span> pelo capellão de Arouca, frade bernardo, que apanhára
+as musas de surpresa.</p>
+
+<p>Com estas e outras imaginações, conseguira Gonçalo empanar o retrato da
+fidalga da côrte, visão teimosa que ainda a revezes lhe apparecia n'algum
+relance poetico da jornada, onde assombreavam arvores, ou herveciam prados, ou
+murmuravam fontes. A saudade é a poesia de todo o homem. O que melhores poetas
+teem dito, melhor o teem sentido pessoas que nunca fizeram versos. Onde virdes
+um homem recolhido com a sua saudade, ahi está um poeta, porque a poesia não
+quer dizer senão «enlevo doloroso».</p>
+
+<p>Entretanto Maria das Dôres, sobejamente senhora de seus olhos e palavras, ia
+alimentando esperanças ao morgado de Amarante, e nutrindo as suas á sombra da
+ostensiva indifferença dos paes. Estes, porém, avisados ou surprehendidos,
+atalharam o pendor da filha, dizendo-lhe que bem sabiam que o seu galanteio era
+um brinquedo; mas convinha pôr-lhe termo, porque estava a chegar de Lisboa o
+primo Gonçalo. Maria, acostumada a dizer desassombradamente seus pensamentos,
+declarou que antes queria casar com o de Amarante, a quem amava. Rebateram-lhe
+os paes a frivola razão, com outras eguaes na substancia e na fórma ás que
+demoveram Gonçalo, mas Maria, menos reflexiva ou mais animada, replicou com um
+secco e desabrido «não quero», ousadia que deu em resultado ser a menina
+ameaçada de entrar outra vez no mosteiro de Arouca, e esperar lá que o juizo
+viesse.<span class="pn" id="pg_15" >{15}</span></p>
+
+<p>Maria, mediante os carinhosos conselhos da mãe, cedeu á vontade do pae; e
+afastou-se do solarengo do Tamega, o qual, prezando-se de cavalheiro tambem se
+retirou aos seus senhorios, respeitando a convenção feita entre as duas
+familias sobre o consorcio dos seus representantes.</p>
+
+<p>Chegou Gonçalo de Malafaya, no remate d'este episodio.</p>
+
+<p>Viu sua prima, e reparou logo n'uma verruga que ella tinha a um canto da
+bocca, e no desaire que lhe dava aos beiços. Achou-a mal ageitada de corpo,
+desgraciosa nos meneios, rustica nas palavras, e com manifestas tendencias a
+medrar muito em largura, e a não espigar mais. Assim devera ser. Se elle vinha
+affeito ás gentilezas das damas da côrte, d'aquellas tantas que elle amára,
+todas bem fallantes, discretas, esbeltas, apertadas de cinta, arrastando
+soberanos donaires com muito garbo, dízendo tudo como quem canta, extendendo
+aquelles gemebundos <em>ans</em>, como cauda das palavras, geito tão antigo em
+Lisboa, que já, em 1650, D. Francisco Manuel, faz riso d'essas modulações
+esquisitas, de que o nosso fidalgo portuense tinha tantas saudades! Em summa,
+Gonçalo não gostou da prima.</p>
+
+<p>Ora Maria das Dôres, á primeira vista, achou que o primo Gonçalo vestia uma
+casaca muito bonita de seda azul com bordados muito casquilhos nas portinholas,
+e que tinha um pé pequenissimo, quasi todo coberto por uma fivella de ouro
+rendilhado em galantes feitios. Ouviu-o falar com grande encarecimento das
+fidalgas<span class="pn" id="pg_16" >{16}</span> de Lisboa,
+especialmente de uma que era filha do conde de Miranda, a qual, para ser amada,
+o falar era sobejo, que, mostrando-se, cego devia ser quem a não adorasse. O
+pobre mancebo parece que assim estava desabafando a sua paixão, ou refrigerando
+a saudade, que mais se assanhára, comparando a senhora de Lisboa com a prima do
+Porto. Naturalmente, Maria das Dôres, resentiu-se dos gabos indelicados ás
+meninas de Lisboa, e com intencional preferencia a uma filha do conde, cujo
+nome Gonçalo pronunciava, suspirando, como pessoas beatas suspiram proferindo o
+nome do santo ou santa de sua devoção. Desde ahi, a fidalguinha começou a
+amuar-se, e a metter á galhofa o primo, ora arremedando-lhe a cantoria do
+palavreado á lisboeta, ora tomando posturas comicas de pernas e de braços,
+imitando-lhe as attitudes palacianas, que bem póde ser Gonçalo as exaggerasse
+um pouco. O que certissimamente aconteceu foi Maria das Dôres não gostar de seu
+primo.</p>
+
+<p>Aqui temos, pois, os dois noivos, face a face, quando o enxoval da esposada
+está prompto, e o palacete do moço se preparava, e os primos de longe teem já
+convite para dia designado.</p>
+
+<p>Maria das Dôres teve a innocente coragem de dizer a seus paes que aborrecia
+o primo Gonçalo.</p>
+
+<p>&mdash;És tola!&mdash;disse-lhe o pae.</p>
+
+<p>&mdash;És uma creança!&mdash;accrescentou a mãe.</p>
+
+<p>E continuaram a azafama, para que tudo sobejasse nos festejos nupciaes,
+excepto a alegria dos desposados. Gonçalo Malafaya ousou ainda contrariar a
+vontade paternal,<span class="pn" id="pg_17" >{17}</span> dizendo a
+medo, que um casamento assim não promettia senão desgraças. O velho rebateu
+victoriosamente a frioleira do filho, contando-lhe em miudos a historia do seu
+casamento, e do casamento de seu pae, e de seu avô. Eram tres historias, que o
+leitor dispensa saber, e tem razão. A moralidade de todas era que tanto elle,
+como seus illustres pae e avô, tinham casado com primas, sem amor nem vontade,
+e com muita repugnancia; e, apesar de tudo, tinham vivido felizes, ou pelo
+menos resignados, visto que, ajuntava o velho, o coração pouco tem que ver com
+o casamento, e casamento será tudo quanto ha mau, mas escravidão de certo não
+é. E a este proposito, discorreu o velho Malafaya alguns despropositos, que iam
+mal a seus cabellos brancos, e bem podiam chamar-se o prefacio desmoralisador
+de um casamento. Porém, como estas causas, postas em balança com a indisposição
+matrimonial do filho, inclinassem para o peor lado o fiel, o velho cuidou
+equilibrar os pratos lançando no mais leve os vinculos litigaveis de Freijoim e
+Aguas Santas, os quaes rendiam seis mil cruzados, e estavam na casa com mui
+duvidosa legalidade.</p>
+
+<p>Na ante-vespera do casamento, as duas familias, lavradas as escripturas para
+segurança dos bens livres, foram de passeio, Douro acima, á Pedra Salgada, onde
+um dos contrahentes tinha uma quinta.</p>
+
+<p>Era pelo tempo do savel. Os pescadores de Valbom carregavam nos barcos as
+redadas da sua pescaria, Maria das Dôres entretinha-se a contemplar a labutação
+dos<span class="pn" id="pg_18" >{18}</span> pescadores, e as rimas
+de peixe extendidas no areal. Aguilhoada pelo appetite, exclamou:</p>
+
+<p>&mdash;Ó minha mãe! tenho vontade de comer savel; mande comprar um, que eu
+tenho vontade de savel assado!</p>
+
+<p>Toda a gente riu urbanamente do appetite da menina, excepto Gonçalo que, em
+sua consciencia, classificou de grosseirismo o desejo, e muito boçal a maneira
+de o exprimir. Então, para seu maior flagello, lhe acudiu á idéa a recordação
+de uma merenda a que assistira em Cintra com a filha do conde; na qual merenda
+de indelevel saudade, a perfumada e espiritual menina escassamente comeu um
+terço da aza de pombo, um olho de alface, e dois gomos de laranja, e, ainda
+assim, a pedido do amantissimo Gonçalo; que, se elle não insta, áquella
+compleição angelica bastaria o cheiro da madresilva. Se ao menos, Maria das
+Dôres tivesse cobiça de savel, e o não comesse!... Seria um gosto pueril, sem o
+desagradavel espectaculo da deglutição, em que ella era de todo o ponto
+natural, sem ter na menor conta os preceitos da cerimonia, que mandam engulir
+tão subtilmente que nos não ouçam o rumor do mastigar. Maria das Dôres
+mastigava o savel com a presteza de mandibulas egual á impaciencia do seu
+appetite. Comeu, antes de jantar, na presença do noivo e dos numerosos
+parentes, duas grossas postas do pescado, como a filha do conde de Lisboa, em
+identicas circumstancias, ouviria em delicias, duas odes anacreonticas,
+recitadas pelo noivo á sombra dos arvoredos da sua Cintra.<span class="pn"
+id="pg_19" >{19}</span></p>
+
+<p>Ora eu que, até certo ponto, não estabeleço estremas entre as mulheres, e as
+julgo eguaes perante a lei do amor honesto, opponho-me á distincção, que
+Gonçalo fazia entre as duas senhoras. O meu parecer é que se Maria das Dôres
+amasse o primo, comeria apenas o terço da aza do pombo, e o olho da alface, e
+os dois gomos de laranja; e que a filha do conde, se não amasse Gonçalo,
+comeria as postas do savel fresco, se o tivesse em Cintra. A sciencia ha de
+andar sempre ás aranhas n'estes mysterios do coração relacionados com o
+funccionalismo do estomago.</p>
+
+<p>Depois do jantar, durante o qual a morgada demonstrou que o sável fôra um
+prologo curto de um grande livro, Gonçalo retirou-se com a sua dôr a um recanto
+da quinta, onde havia um tanque, em que nadavam patos, á sombra de copados
+chorões. Indo Maria das Dôres vêr rebanharem-se os seus patos, deu de rosto com
+o primo, que estava lendo umas cartas, já avincadas do muito uso.</p>
+
+<p>&mdash;Estavas aqui?!&mdash;disse ella, em ar de retroceder.</p>
+
+<p>&mdash;Vem cá, prima Maria das Dôres&mdash;disse elle emmassando as cartas
+na carteira de marroquim.&mdash;Senta-te ao pé de mim.</p>
+
+<p>A menina foi sentar-se ao pé d'elle, atirando migalhas de cavacas de Arouca
+aos patos.</p>
+
+<p>&mdash;Gosto tanto destas aves!&mdash;disse ella. Creei-as no convento, e
+trouxe-as comigo. Olha como ellas me conhecem!...</p>
+
+<p>&mdash;Hei-de mandar vir de Lisboa&mdash;disse Gonçalo&mdash;um<span
+class="pn" id="pg_20" >{20}</span> casal de patos reaes, para te
+dar, prima, que são muito lindos.</p>
+
+<p>&mdash;Eu gosto mais d'estes&mdash;atalhou ella.</p>
+
+<p>&mdash;Mas, se eu te der outros, tambem has-de gostar d'elles, prima Maria
+das Dôres?</p>
+
+<p>&mdash;Tambem, mas estes fui eu que os creei, e os outros já de lá vem
+creados pela filha do conde provavelmente...</p>
+
+<p>Fez Gonçalo um gesto de espanto, e de zanga, vendo a ironia mais expressiva
+no rosto que nas palavras da prima.</p>
+
+<p>&mdash;A que veiu aqui a filha do conde!?&mdash;disse elle com azedume.</p>
+
+<p>&mdash;É que tu estás sempre, a proposito de tudo, com a filha do conde ás
+voltas. Ninguem veste, nem fala, nem anda como ella. Se a prima Peixoto faz um
+rico vestido, a filha do conde tem um mais rico. Se eu compro um collar de
+granadas, a filha do conde tinha um de esmeraldas. Se a prima de Simães vem á
+cidade vestida de campo, como se vestem na França as damas da côrte, a filha do
+conde é que sabia vestir-se a preceito, quando cavalgava por Cintra, com
+admiração de toda a gente. É sempre a filha do conde para tudo! Por isso é que
+pensei que os patos reaes tambem eram da filha do conde.</p>
+
+<p>Gonçalo Malafaya ficou atordoado, já pela affronta feita á mulher cujas
+cartas apaixonadas estivera lendo, já pela extranheza que lhe causou o
+desembaraço da menina, que, até áquella hora, simulára completa
+indifferença,<span class="pn" id="pg_21" >{21}</span> ouvindo-o
+falar da filha do conde de Miranda. Fez-se, porém, uma instantanea mudança no
+espirito do noivo, saudavel mudança que lhe lisongeou a vaidade. Julgou elle
+que Maria o accusava de desleal, e de puro ciume rompia n'aquella insolita
+ironia contra a lisbonense. Isto, que parece nada, foi grande parte na
+quietação de Gonçalo. O ciume da mulher, de quem se não espera nem pede amor, é
+uma revelação agradavel, ainda mesmo que valha pouco para a felicidade do
+coração.</p>
+
+<p>Depois de alguns instantes de silencio durante os quaes Maria continuava a
+esmigalhar cavacas aos seus dilectos patos, disse Gonçalo:</p>
+
+<p>&mdash;Eu tenho falado na filha do conde de Miranda por que ella é o
+ornamento da côrte e o modélo das fidalgas.</p>
+
+<p>&mdash;Deixa'-la ser...&mdash;atalhou Maria&mdash;Que tenho eu com isso? Eu
+cá, visto, e ando, e falo como sei, ou como me ensinaram; e ella faz o mesmo;
+se o faz melhor, seu proveito. Por que não casaste com ella, primo?</p>
+
+<p>&mdash;Por que nossos paes querem que eu case comtigo. E tu por que não
+casaste com o Magalhães de Amarante?</p>
+
+<p>Maria córou, e deu graças ao seu anjo da guarda, quando viu entre as arvores
+proximas um rancho de senhoras e homens que andavam em busca dos noivos.</p>
+
+<p>Gonçalo apenas teve tempo de lhe dizer:</p>
+
+<p>&mdash;Não te parece que a nossa união será uma grande desgraça?</p>
+
+<p>A prima não respondeu; levantou-se de golpe, e foi de<span class="pn"
+id="pg_22" >{22}</span> corrida ao encontro das senhoras que
+traziam abadas de rosas para espalharem sobre a noiva e Gonçalo que recebeu
+friamente a graça.</p>
+
+<p>Seria ajuizado conjecturarmos que, depois d'aquelle desamoravel colloquio
+dos primos, um ou ambos rompessem abertamente contra a submissão, fugindo ao
+abysmo, que para elles nem sequer já se escondia debaixo de flores. Ambos o
+estavam vendo em toda a sua profundeza. Nenhum d'elles fiava de sua indole a
+resignação precisa para não blasphemar contra Deus ao despedaçarem-se na queda.
+Nenhum acceitava a corôa do martyrio como necessaria. Maria se recusasse
+formalmente, seria castigada com o convento. Quem não ha-de chamar paraizo
+terreal a um convento, se o compara com as infernaes torturas da vida intima em
+união indissoluvel? Gonçalo, desobedecendo a seu pae, que punição podia temer?
+Dissabores domesticos, privações de recursos, a venda de seus cavallos, um
+guarda-roupa menos recheado de sedas e velludos, prohibição de ir a Lisboa,
+reclusão em alguma das quintas do Douro. Mas que monta isto, em confronto da
+liberdade de gastar á larga, e chamar seu ao ouro que se atira por entre as
+grades de um captiveiro? Que tem que a peçonha seja bebida por vaso de
+relevante preço? E a peçonha das uniões odiosas e odientas, tragada gotta a
+gotta, ha ahi morrer de mais lentas e espantosas dores, quando as victimas se
+não buscam refrigerio na desvergonha e no crime?</p>
+
+<p>A estas perguntas a razão do homem oscilla, e cae<span class="pn" id="pg_23"
+>{23}</span> em abusões injudiciosas. Então me lembra o destino, a
+fatalidade e as estrellas funestas. Mas é tão avesso á minha razão dar de
+barato ao nada a explicação dos mysterios da vida humana, que antes quero
+acreditar que alguns paes infelicitam os filhos, por se acostumarem á
+infelicidade propria; e alguns filhos, olhando de longe para o infortunio,
+rebordam o ponto negro, que lá está, das cores variegadas e formosas que a
+imaginação nova lhes empresta. Nos primeiros annos da vida, a idéa da desgraça
+formamo'-la imperfeitamente. Tantos são os vagos bens que anhelamos, a tantas
+miragens do deserto nos fogem os olhos namorados, que nunca o absoluto
+infortunio, as plagas infinitas sem fonte de agua, nos parecem possiveis, nem
+experimentadas pelos mais famosos infelizes. Os romances dão-nos espectáculos
+de maxima desventura; as tragedias ensanguentam a pagina onde vertemos
+lagrimas; a voz publica relata supplicios da vida particular denunciados pelo
+gemido ou pelo escandalo. Que vale isso para imaginações juvenis? Ninguem se
+crê talhado para o molde das miserias excepcionaes. Além de que, tal homem que
+a sociedade considera desgraçado na vida intima, com sua esposa, vem ao mundo,
+e sorri, e folga, e aporfia em prazeres com os mais felizes! tal esposa que tem
+fama de martyr ou de algoz de seu marido, vem ao mundo e rejubila, e captiva os
+olhares, que principiam piedosos e acabam por se desviarem descrentes de um
+martyrio, que deixa sorrir a martyr, ou de uma crueza que tinge de amavel
+brandura o semblante do algoz.<span class="pn" id="pg_24"
+>{24}</span></p>
+
+<p>E assim é que a penetração de ler em almas, e ver no sorriso as lagrimas, e
+no gesto meigo o arremesso do tigre, só póde da'-la muita experiencia de dores
+proprias, muito estudar-se cada um em suas chagas e na industria com que as
+escondeu de alheios reparos. Isto não o faz a mocidade, não o podia fazer
+Gonçalo Malafaya, nem D. Maria das Dôres. No instante em que um ao outro
+tacitamente se disseram ou podiam dizer: «ahi estão os pulsos para as algemas;
+mas o coração é livre»&mdash;n'esse momento o anjo da desgraça matizou-lhe de
+flores a garganta do despenhadeiro, e elles acintosamente se cegaram, pedindo
+cada um á sua imaginação o segredo de desatar as algemas do pulso e acorrentar
+com ellas as dos deveres.<span class="pn" id="pg_25"
+>{25}</span></p>
+
+<h3><a name="SECTION00302">II</a></h3>
+
+<p>Casaram. As exterioridades, promptas sempre a mascarar hypocritas ou a
+desmentir infelizes, esmeraram-se no esplendor do cortejo, nas festas
+incansaveis de um mez, que apenas chegou a satisfazer a ancia de folias. Era
+numerosa a parentella, derramada em tres provincias. Viera toda a felicitar os
+noivos, e nenhuma voz amorosa lhes disse em que preceito assentava a felicidade
+conjugal. Os emboras fundavam na certeza de se unirem duas familias, que
+continuavam uma varonia ininterrupta de cinco seculos. Diriam mais que já não
+havia medo que algum intruso viesse enxertar-se no tronco illustre dos
+Malafayas e Azinheiros. Os velhos iam á sala dos retratos, e affirmavam que o
+bispo de Leiria Lopo Azinheiro, e a Dona abbadessa de Lorvão Mafalda Azinheiro,
+e o governador de Mombaça Heytor Malafaya se estavam sorrindo de contestes com
+tal casamento. E os outros parentes iam ver a alegria dos retratos, e os
+retratos em verdade pareciam sorrir da inepcia da sua posteridade; porque o
+bispo fora um virtuoso prelado:<span class="pn" id="pg_26"
+>{26}</span> a abbadessa morrera em cheiro de santidade; e o
+governador de Mombaça, se não morreu santo&mdash;que o governar na India era
+pouco azado molde para santos&mdash;era pelo menos esperto, consoante as
+chronicas o descrevem.</p>
+
+<p>Não se persuada o leitor que lhe está imminente uma trovoada de escandalos e
+offensas á moral. O infortunio da vida intima de dois casados existe sem
+delictos, sem vergonhas nem aggravos, que resaltam em injurias ou insultos á
+dignidade humana, das janellas para a rua. O marido póde ser desditoso, sem
+deslustre de sua honra; a mulher póde ser má e intoleravel, sem enlamear sua
+fama para sacudir o stigma á face do marido.</p>
+
+<p>Ha umas mulheres que D. Francisco Manuel, na sua preciosa <small>CARTA DE
+GUIA DE CASADOS</small>, denomina <em>bravas</em>. É este o termo que friza a
+primor em D. Maria. Das bravas, como a representante dos Azinheiros, diz assim
+o citado philosopho:</p>
+
+<p>«Cuidam com falso discurso, algumas mulheres, que como ellas guardem a lei
+devida á honra de seus maridos, em tudo o mais lhes devem elles de soffrer
+quanto ellas quizerem que lhes soffram.»</p>
+
+<p>E accrescenta:</p>
+
+<p>«É este um mero engano, por duas razões; a primeira porque nada se lhes deve
+ás honradas de guardarem a obrigação, em que Deus, a natureza, o mundo e o medo
+as tem posto... A segunda...»</p>
+
+<p>A segunda razão desconcerta com o nosso proposito. Abaste-nos saber que
+Maria das Dôres, ou porque não<span class="pn" id="pg_27"
+>{27}</span> sentia o coração, ou porque lhe comprimia os impetos
+com a sua indole soberba, ou finalmente porque se revia e estimava na pureza de
+sua consciencia, é de todo o ponto averiguado que sobre sua memoria podem os
+panegyristas afoutamente encarecer-lhe a lealdade sem macula.</p>
+
+<p>O mesmo quizera eu dizer de Gonçalo Malafaya; mas estão aqui ao meu lado os
+apontamentos protestando contra as demasias da minha caridade, sendo certo que
+as piedosas fraudes tamanha censura merecem no romance como na historia.</p>
+
+<p>Gonçalo era um homem amavel, cortezão, audacioso, e mestre em astucias,
+aprendidas «heroicamente» na côrte, que era ainda, com pequenas cambiantes, a
+mesma côrte de D. José I, successora da outra do nosso Luiz XIV. A piedade de
+D. Maria I influira nas festas de egreja, nas pompas do culto, e apenas se
+fizera reflectir na vida das salas. O impulso estava dado; a religiosidade da
+soberana seria inefficaz a empecer-lhe o passo, ainda mesmo que a sentinella
+inquisitorial não tivesse adormecido na sua guarita, de embriagada que estava
+de sangue.</p>
+
+<p>Nenhum outro fidalgo portuense rivalisava em merito palaciano com Gonçalo
+Malafaya. Amavam-n'o as mulheres pelas graças e chistes da sua conversação,
+moldada sempre ás leis da cortezia e da elegante selecção das finezas.
+Prezavam-n'o os mancebos, dado que o invejassem, pelas lições de phrase, e de
+attitudes, e das mil insignificancias que n'uma sala completam o homem<span
+class="pn" id="pg_28" >{28}</span> de primor. Os velhos fidalgos,
+que, em Lisboa, tinham visto os Marialvas e os Vimiosos, diziam que o Porto
+seria assombro da côrte, se os seus mancebos fidalgos fossem fadados de indole
+tão prestante, como a de Gonçalo, para se affeiçoar aos grandes e raros
+modelos, que, na capital, mantinham as tradições do bom seculo. O bom seculo
+dos velhos é sempre o seculo em que elles foram rapazes, amados e requestados
+das meninas coevas, as quaes, ao mesmo tempo, estão lamentando, do alto dos
+seus setenta annos, a baixa condição em que a humanidade se vae degenerando.
+</p>
+
+<p>No entanto, quem visse o festival cavalheiro nas salas do Porto, nas de
+Lamego, nas de Amarante, amando, gracejando, planeando caçadas, bailes e
+folguedos, quem diria as amarguras escondidas n'aquella alma? Sobre a ferida da
+infinita saudade d'aquella filha do conde, suspirosa sempre d'elle e votada ao
+claustro por seu amor, que travo de fel D. Maria das Dôres lhe espremia! Hora
+de paz uma só lhe não dava em casa a esposa. Não era o coração alanceado por
+ciumes, que sacudia a farpa; era já a phantasia engrandecendo o ultrage para
+dar vulto ás queixas. Na vida intima, desvelava-se o desamor da esposa; mas
+para materia da accusação tudo lhe vinha a talho, quer o marido revelasse
+tristeza taciturna, quer se expandisse em simuladas alegrias. Se melancolico,
+era o fastio d'ella que o entristecia; se alegre, eram as noticias da filha do
+conde que tinham chegado. Se o acompanhava aos bailes, afeiava o aspecto de tão
+má sombra, que, por contagio, diffundia tristeza em todas<span class="pn"
+id="pg_29" >{29}</span> as physionomias, e mandava tirar a sege,
+quando o marido se mostrava mais empenhado no jogo, na dança ou na conversação.
+Em casa, compendiava os artigos do libello accusatorio, em que muitas vezes
+eram calumniadas senhoras innocentes, e intenções de mera cortezia. Explicações
+eram exasperar-lhe a sanha; o silencio era confirmação de suspeitas; um sorriso
+em resposta era redobrar o ultrage pelo escarneo; um gesto desabrido, uma
+ameaça á justiça do queixume. Quando os pretextos se demoravam na phantasia
+fatigada de crea'-los, Maria das Dôres lançava mão de creancices. Deixava cair
+de proposito uma porcellana, e gritava contra o marido que a tinha mudado do
+seu local costumado. Gonçalo tinha dois partidos a seguir; ou confirmava com o
+silencio a falsidade, e então o despeito recrescia com o supposto desprezo; ou
+a contestava com acrimonia, e então sobrevinham altercações, que por parte
+d'ella, terminavam em syncopes de raiva.</p>
+
+<p>Gonçalo recolhia regularmente á meia noite, e achava a esposa a passear na
+antecamara, assoprando ás mãos, se fazia frio, e fingindo que tiritava.
+Perguntava-lhe mansamente o marido porque não se tinha deitado. A resposta era
+um descomposto aranzel de invectivas contra elle e contra as familias que lhe
+tomavam o marido para lhe divertirem as noites de inverno. Deixou Gonçalo de ir
+aos saraus. Maria das Dôres, á terceira noite de dolorosa abstenção,
+perguntou-lhe se elle ficava em casa para dormir ao fogão, e se casára com ella
+para lhe ensinar a brincar com as tenazes. Tornou-se Gonçalo<span class="pn"
+id="pg_30" >{30}</span> aos habitos antigos, e conformou-se com a
+dura pena de adormecer embalado pelos convicios revelhos e repisados, os mesmos
+sempre na phrase e na toada, a monotonia nos queixumes, a mais horrivel de
+quantas ha!</p>
+
+<p>Este viver durou um anno, cinco annos, dez annos, vinte e quatro annos.</p>
+
+<p>N'esse longo e penivel discorrer de dias concatenados, vejamos se algum
+incidente nos convida a variar de linguagem e a descançarmos o espirito em
+algum ameno remanso.</p>
+
+<p>Decorridos dois annos, nasceu uma menina, que foi chamada Maria Henriqueta.
+Ácerca do nome, renhiram quinze dias os esposos, e sete mezes já tinham
+disputado, antes d'ella nascer. Claro é que argumentaram em hypothese até ao
+nascimento. Sendo menino queria ella que se chamasse <em>Ruy</em>, á semelhança
+de seu vigesimo segundo avô; sendo menina, <em>Maria</em>, porque nos ultimos
+quatro seculos, todas as senhoras morgadas da familia se chamavam Marias.
+Gonçalo desejava que fosse <em>Heitor</em>, sendo rapaz, e <em>Beatriz</em>, ou
+<em>Mafalda</em>, na outra hypothese.</p>
+
+<p>Venceu a mãe, e chamou-se a menina Maria Henriqueta.</p>
+
+<p>As formosuras que deu aos anjos a escola christã, vertendo á tela as côres e
+os feitios desenhados de bello ideal, todas tinha Maria, aos oitos annos de
+edade. Quem a via tão linda, e ao mesmo tempo melancolica e meiga, sem abrir
+nos labios infantis o sorriso de seus annos, cuidava que, alguma hora, as azas
+de anjo lhe<span class="pn" id="pg_31" >{31}</span> implumariam as
+espádoas, e ella as desferiria em vôo para Deus, que a mandára á terra a
+mostrar que bellezas povoam a bemaventurança, e como as almas lá andam
+vestidas.</p>
+
+<p>Bem pudéra aquella pomba depôr no regaço maternal um raminho de oliveira, e
+alumiar n'aquella casa o primeiro dia de paz. Por ventura, a tristeza do anjo
+seria a magua de não ter o condão de conciliar seus paes. Póde ser que as
+caricias fossem poucas no berço, e á mingua d'ellas, a menina crescesse como
+orphanada de coração, e sedenta das meiguices, que ella andava mendigando a
+troco das suas.</p>
+
+<p>Quantas vezes a pequenina acordava alvoroçada aos gritos de sua mãe, e ás
+estrondosas disputações dos dois, em competencia de phrenesis! Quantas vezes a
+sua ama de leite fugiu com ella para lhe reconciliar o somno, afugentado pelo
+medo dos berros e das visagens da mãe!</p>
+
+<p>Raras vezes Gonçalo se entretinha com a filha, porque Maria das Dôres, á
+falta de outros peguilhos, até das muitas caricias do pae á menina tirava
+assumpto para bravezas de genio. Umas vezes por aperta'-la de mais; outras, por
+atordoa'-la com os balanços; outras, porque a fazia chorar; outras vezes,
+porque as cocegas a faziam rir, em risco de rebentar uma veia. O pae, afinal,
+largava de enfadado a creança, e saía de casa com os dentes e punhos cerrados,
+como se assim afogasse a serpente que lhe empeçonhava os mais innocentes gosos.
+</p>
+
+<p>O amor de Maria das Dôres á filha tinha accessos de doudice. Acontecia
+arrancar-lh'a dos braços a ama, quando<span class="pn" id="pg_32"
+>{32}</span> receava que os boléos e tombos, em que a mãe a trazia
+do seio para o regaço, lhe tolhessem a creança. A menina ganhára á mãe uns
+medos taes, que dava a fugir, quando lhe podia cortar as voltas. Estes passos,
+algumas vezes, lhe custavam castigos, que tornavam a innocente cada vez mais
+assustadiça. Com o pae era differente o apego de Maria. Mal lhe ouvia a voz,
+corria-lhe aos braços, e saltava-lhe n'elles, como se quizesse librar-se no ar,
+e ir-se alando, de nuvem em nuvem, até esconder-se no céo! Se Deus te désse
+então as tuas azas! D'este amor ao pae, eram mais que muito frequentes os
+reparos de Maria das Dôres, que desfechavam em disparates de louco ciume, e
+declamações contra a Providencia, que nem sequer lhe deixava os afagos de sua
+filha. Gonçalo respondia acarinhando mais a creança, talvez com malicioso
+prazer; mas cara lhe saía a malicia, que ouvia improperios sem conta nem
+medida, e a muito custo salvava a menina da vingança da mãe, fula de raiva.</p>
+
+<p>Fez Maria nove annos, e já sobejavam luzes de razão para ver sua mãe, e
+compara'-la, sem poder confundi'-la, com as outras senhoras. Sentia já uns
+toques de compaixão, quando via o pae injustamente accusado, e devorado de
+impaciencias, tanto mais dilacerantes quanto a prudencia as afoga nas lagrimas
+intimas. Alguma vez ousou a menina pedir á mãe que cessasse de mortificar o pae
+e humildemente offerecia o rosto á bofetada que lhe vinha em retorno da
+supplica. E nem assim Maria se queixava ao extremoso pae. Escondia-se a<span
+class="pn" id="pg_33" >{33}</span> chorar no seio da sua ama, a
+quem ella muito de alma chamava mãe e pedia amparo nas occasiões em que a
+irritabilidade de Maria das Dôres recrudescia contra quanto a rodeava, ou lhe
+fugia ás sanhas.</p>
+
+<p>Avisado miudamente pela ama, que afinal fôra expulsa, determinou Gonçalo
+Malafaya mandar educar sua filha n'um collegio inglez em Lisboa, não tanto para
+prende'-la, como para subtrai'-la á mãe. Fôra plano d'elle chamar mestres a
+casa, uns nacionaes, e outros extrangeiros, que era esse o usual systema da
+fidalguia d'estes reinos; mas o pobre homem, levando a filha ao collegio, sobre
+aparta'-la dos rigores da mãe, poupava-se a augmentar em casa as testemunhas do
+seu desgraçado viver, que seriam tantas quantos fossem os mestres, e estes
+deviam ser muitos, se andassem á caprichosa escolha de sua mulher. Disse elle
+timidamente o seu intento a Maria das Dôres. Ocioso é dizer que foi contrariado
+com estirados e repetidos discursos. Tal motivo deu fonte caudal para querellas
+de algumas semanas. Gonçalo, feito o seu proposito, cogitou em machinar traças
+para tirar a menina; mas nenhuma lhe dava azo a saír-se bem com o seu louvavel
+intento. O que elle queria evitar era o ruido do facto, e a precisão de
+explicar, em abono seu, os precedentes que o motivaram.</p>
+
+<p>A sociedade apenas desconfiava dos desgostos surdos de Gonçalo; e este por
+vaidade ou por interesse de cousas menos louvaveis da sua vida exterior punha
+todo o seu cuidado em desmentir ou affrouxar a curiosidade<span class="pn"
+id="pg_34" >{34}</span> publica, sempre em ancias de escandalos,
+para dessedentar-se das sequidões da vida quotidiana.</p>
+
+<p>Um successo, apparentemente casual, proporcionou o afanoso desejo de
+Gonçalo. Os paes de Maria das Dôres tinham ido a vindimas ao Alto-Douro, e ali
+adoeceu mortalmente a mãe. Vieram apressados portadores com liteira a buscar a
+filha, por quem a moribunda chamava com incessantes brados. A tempo isto foi
+que Maria Henriqueta estava de cama com leve mas febril doença. Sua mãe ainda
+tentou leva'-la, se bem que não desconfiada da alegria occulta no animo do
+marido; mas os medicos contravieram ao desarrasoado desejo. Saíu Maria das
+Dôres a assistir á agonia de sua mãe, que foi demorada, e por lá se deteve até
+ás honras da sepultura, uns trinta dias.</p>
+
+<p>Entretanto, a menina convalesceu, parece que só da alegria de se ver
+convalescer nos braços do pae, com a ama querida ao seu lado. Gonçalo fizera
+chamar a ama para ser no collegio a aia da filha. Deu-se pressa na partida para
+Lisboa, e deixou aos paes o encargo de aquietar as iras da esposa, quando ella
+voltasse do Douro.</p>
+
+<p>Então contou Gonçalo a seu pae as miudas scenas de sua desgraça. Carecia
+este de sensibilidade para receber a revelação como castigo. Chegada a sua vez
+de falar, o velho contou ao filho a longa historia de seus proprios
+infortunios, soffridos uns com desprezo, outros com paciencia, e todos na
+certeza de que não ha ninguem feliz. Caíu-lhe a proposito contar uma arrastada
+historia<span class="pn" id="pg_35" >{35}</span> de um rei poderoso
+da Asia que mandára chamar ao fim do mundo um philosopho para que este lhe
+resuscitasse um amigo, e que o philosopho promettera dar vida ao morto, tirando
+a concerto que o rei mandaria escrever no tumulo o nome de um homem de trinta
+annos que nunca soffresse um desgosto. Mandou o rei procurar tal homem em todo
+o mundo; e como o não achassem os enviados, o morto continuou a dormir o seu
+somno eterno, e o rei mandou o philosopho para a sua terra.</p>
+
+<p>Ouviu Gonçalo o conto, e despediu-se do pae, promettendo dar a sua filha a
+felicidade que perdera por obediencia, podendo ser ditoso com a mulher, que a
+sua alma escolhera.</p>
+
+<p>&mdash;E os vinculos de Freijoim e Aguas Santas!&mdash;replicou
+triumphantemente o velho.<span class="pn" id="pg_36"
+>{36}</span></p>
+
+<p><span class="pn" id="pg_37" >{37}</span></p>
+
+<h3><a name="SECTION00303">III</a></h3>
+
+<p>Estava ainda no Douro Maria das Dôres, quando recebeu o inesperado golpe em
+uma carta muito amoravel, que sua filha lhe escreveu do collegio, e outra, não
+menos humilde, e mais reflectiva do marido. Então comprehendeu ella o silencio
+de Gonçalo, tendo-lhe ella escripto para o Porto duas cartas, uma queixando-se
+de passar mal as noites, e desejando que a mãe, a ter de morrer, abreviasse os
+paroxismos; outra, raivosa, por ter escripto duas, sem receber, sequer,
+resposta da primeira. Aquelle <em>sequer</em> denota que a snr.ª D. Maria das
+Dôres queria receber resposta da segunda carta que estava escrevendo. E onde
+póde chegar o mau genio!</p>
+
+<p>Esteve a senhora algumas horas arquejante de cólera sem saber que
+deliberação tomar. Rompeu, depois, em queixas contra o pae que, a despeito da
+vontade d'ella, a casára com o primo. O velho ouviu os clamores, e
+disse:&mdash;«Se tua mãe vivesse, essa santa poderia contar-te o que me soffreu
+a mim. Deus sabe com que remorsos eu cá fico chorando n'este mundo!... Eu
+casei<span class="pn" id="pg_38" >{38}</span> por honra da familia,
+e para me forrar a questões de vinculos e direitos de successão, que meu sogro
+podia disputar-me vantajosamente. A casa ficou solida, e para ti foi, minha
+filha. Soffri e fiz soffrer; mas quem é que não soffre n'este valle de
+lagrimas, Maria?»</p>
+
+<p>Não sei se Christovão Azinheiro tambem sabia a historia do rei que mandou
+chamar o philosopho; se a sabia, dispensou a filha de ouvi'-la, e esta, sem lhe
+dar trela a dictames e conselhos, despediu-se, dizendo que a paciencia tinha
+limites e a desgraça a tinha emancipado. Mal a entendeu o velho; mas sempre lhe
+disse afinal:&mdash;«Lembra-te que és minha filha, e que tens dois santos na
+familia, o snr. bispo de Leiria, e a snr.ª dona abbadessa de Lorvão.»</p>
+
+<p>Maria das Dôres, sem mesmo se encommendar aos santos familiares, torceu a
+estrada a meio-caminho, e foi direita a Arouca, em cujo mosteiro ainda tinha
+vivas suas tias, occupadas em deslindar as bastardias genealogicas das
+conventuaes, e os ultimos milagres operados por algumas freiras que tinham
+apparecido inteiras na claustra, depois de vinte annos de sepultura.</p>
+
+<p>Abriram-se as portarias á bem-vinda aia da santa rainha Mafalda, e todas as
+religiosas a acharam mais bella, mais gorda e mais encantadora.</p>
+
+<p>&mdash;Vieste ver-nos, pomba;&mdash;disseram as tias, convulsivas de jubilo
+e de velhice.</p>
+
+<p>&mdash;Vim ve'-las, e pedir-lhes a minha antiga cella.</p>
+
+<p>&mdash;Como assim? Tu queres tornar para o convento?</p>
+
+<p>&mdash;Sim, minhas senhoras; tornar para o convento, e<span class="pn"
+id="pg_39" >{39}</span> morrer n'elle, se me deixarem. Meu marido
+fugiu-me para Lisboa, roubando-me a minha filhinha, a luz dos meus olhos, o meu
+coração, a minha alegria, tudo o que eu tinha n'este mundo. Casaram-me á força,
+e agora querem á força matar-me. Pois sim, morrerei; mas hade ser aqui, onde
+vivi os annos felizes da minha infancia, e á sombra de minhas tias, que me não
+tolheram a felicidade. Não tenho, nem quero ter mais ninguem. Sou rica; mas da
+minha riqueza tirarei sómente os alimentos necessarios. Sou rica do que é meu;
+se o não fosse, pediria a minhas tias um quinhão da sua tença.</p>
+
+<p>&mdash;Oh! filha! exclamou a mais escorreita das velhas&mdash;Isto não sei o
+que me parece! Em quanto a mim, essa veneta, que te deu, é desesperação de
+ciume!... Olha lá, porque vens tu vestida de dó? Morreu-nos algum primo? Seria
+o monsenhor da patriarchal D. Joaquim que deve estar muito velhinho? Seria o
+sr. bispo da Guarda, que é nosso primo pela linha lateral dos Azeredos
+Pita-Rellas? </p>
+
+<p>&mdash;Foi minha mãe que morreu&mdash;atalhou Maria das Dôres limpando uma
+lagrima espremida pela raiva no afôgo declamatorio.</p>
+
+<p>Ouvida a infausta nova, as senhoras Moscosos Azeredos, que eram tias da mãe
+de Maria, compuzeram um duo de alaridos roufenhos, que alarmou o mosteiro.
+Confluiram todas as religiosas á cella, e cada uma garganteou o mais plangente
+que poude uma escala chromatica de gemidos. As duas freiras anojadas
+declararam-se em lucto rigoroso, e sentaram-se nas suas cadeiras de<span
+class="pn" id="pg_40" >{40}</span> solla, a receber os pesames e as
+visitas nocturnas.</p>
+
+<p>Maria mal podia esconder a sua zanga. O que ella queria era desabafar,
+gritando e gesticulando; mas o silencio funeral, que pedia o caso, não se
+compadecia com o seu desafôgo. Já arrependida de entrar no mosteiro, e incapaz
+de reflectir no disparate da sahida abrupta, a desarvorada senhora, no dia
+seguinte ao da entrada, mandou metter os machos á liteira e partiu para o
+Porto, deixando confirmada a fama, que tinha de douda, no conceito de umas
+senhoras, e a conjectura de que a perda da mãe a enlouquecera, na opinião de
+outras. Em quanto ás venerandas Moscosos Azeredos, essas, com quanto estivessem
+pasmadas, não se moveram das suas cadeiras, onde lhes impunha a praxe esperarem
+a pé quedo que os tres dias do nojo expirassem.</p>
+
+<p>Na correnteza d'estes acontecimentos, estava Gonçalo Malafaya provando-a,
+sobre todas, mais dorida porção da sua vida. Tentaram-n'o saudades a ir ao
+mosteiro de Odivellas, onde sete annos antes professára Beatriz, filha do conde
+de Miranda. Enganára-se com o seu coração o sensivel fidalgo, cuidando que
+podia ver impunemente a mulher unica do seu amor, a recordação agridoce de sua
+mocidade. Bem sabia elle que havia de chorar; mas esperava com as lagrimas
+apagar o incendio, se as cinzas escondessem alguma faúla da antiga chamma.</p>
+
+<p>Foi a Odivellas, e chamou ao locutorio soror Beatriz dos Anjos. Acudiu ao
+chamamento a esposa do Senhor, a pallida virgem, com as suas vestes magestosas
+e tristes;<span class="pn" id="pg_41" >{41}</span> mas tristes a
+olhos mortaes, que mais bellas não as podiam inventar homens para as noivas do
+céo.</p>
+
+<p>Era ainda formosa, ou mais formosa era então a chorada Beatriz dos salões da
+côrte, dos esplendorosos saráos, das invejas dos moços, e das mil brilhantes
+esperanças, apagadas todas n'uma hora. Deus a chamára a si, dotando-a com a
+perpetuidade da juvenil belleza. Tomou-lhe do coração os dons, que mal soubera
+merecer-lhe o homem amado; e, em cambio d'elles bafejou-lhe de eterno maio as
+flores da face e a juventude do espirito.</p>
+
+<p>Maravilhou-se Gonçalo de a ver tão gentil: e ella, mal recobrada da torvação
+da surpresa, espantou-se da mudança do galhardo moço que ella amára.</p>
+
+<p>Quizera a religiosa fugir; mas o coração ia attraído para a doce voz, que
+era a mesma em ternura, e para os olhos marejados das antigas lagrimas.</p>
+
+<p>&mdash;A que veiu aqui?!&mdash;perguntou Beatriz, com os olhos postos sobre
+o escapulario.</p>
+
+<p>&mdash;Vim atormentar-me&mdash;respondeu Gonçalo&mdash;Vim procurar as
+torturas, que faltavam ao meu martyrio.</p>
+
+<p>E contou Gonçalo com pueril sinceridade a historia da sua vida, como filho
+amimado conta a sua mãe desgraças, que se vão consolando ao refrigerio dos
+prantos d'elles.</p>
+
+<p>De instante a instante embargavam-lhe os suspiros a voz, e os vágados lhe
+annuveavam as idéas. Com rosto socegado ouviu Beatriz as lastimas, os remorsos,
+e as confessadas cobardias do seu arrebatado<span class="pn" id="pg_42"
+>{42}</span> interlocutor; e, com immutavel rosto, respondeu por
+estas memoraveis palavras:</p>
+
+<p>&mdash;Eu tambem tinha pae e mãe que me amavam muito, e cavalheiros que
+muito me queriam. Fui pedida para esposa, e meus paes mandavam ao meu coração
+que respondesse. Amei-o, senhor; e, se por si me perdera, Deus sabe que eu só
+de mim havia de queixar-me. Preferi-o, e com a cega preferencia, que lhe dei,
+esperei-o até á hora em que m'o disseram morto para mim. Se morreu tambem para
+a felicidade, amargamente o sinto. Quem me dera ver toda a gente feliz, os meus
+inimigos mesmo, se acaso os tenho! Depois é que eu lhe poderia dar um grande
+exemplo de coragem; mas... para que? De sobejo me contento com ser exemplo de
+infortunio. Meus paes não me queriam religiosa; meus parentes conspiraram todos
+contra mim; e comtudo... sou religiosa, amortalhei-me, sepultei-me, e fiz da
+chamma do meu amor a luz, que alumia sepulturas, e nem sequer aquece a lampada
+que a encerra. Separados para sempre, sr. Gonçalo Malafaya! Não temos que
+esperar um do outro, senão narrativas de lagrimas, que recrudescem a amargura,
+e nada remedeiam. Peço-lhe pelo amor, que lhe tive, me não procure mais, nem me
+desassocegue inutilmente. Eu achei aqui a paz, depois de muito a pedir a Deus.
+Peça tambem; rogue, e faça da sua paciencia um direito á misericordia divina.
+Viva para sua filha, se outra imagem não tem no coração. Adeus.</p>
+
+<p>Beatriz dos Anjos, inclinando de relance a vista embaciada<span class="pn"
+id="pg_43" >{43}</span> ao locutorio, sumiu-se na escuridade dos
+corredores, que vão da portaria para o interior do mosteiro. Gonçalo
+tartamudeára palavras, sem sentido, e quedára-se estupefacto, com os olhos
+fitos na lamina crivada do palratorio.</p>
+
+<p>Voltou a Lisboa o allucinado fidalgo, e de tamanha tristeza se entranhou,
+que nem as caricias da filha o despenavam. Errou com a escandecida mente por
+quantas absurdezas se offerecem ao desatino da paixão. Roubar ao mosteiro a
+religiosa, e fugirem para remotos climas não foi o maior nem o mais original
+dislate da sua phantasia. Rebelde aos preceitos recebidos, escreveu primeira e
+segunda carta a Beatriz, e recebeu-as abertas, com a terceira fechada. Um frade
+capellão ou confessor de Odivellas, lh'as entregou, e quiz asserenar-lhe os
+transportes com os mais justos dictames, e piedosas reflexões que suggeria o
+caso.</p>
+
+<p>Ouviu Gonçalo, uma hora, o apostolico varão, e sentiu despontarem-se os
+espinhos de sua dôr, amollecidos pelos prantos a que o forçava suavemente a
+compungitiva linguagem do monge. Não levantou mão d'elle o enviado de Beatriz.
+Buscava-o a miudo na sua soledade, e cada dia lhe ministrava lenimentos novos,
+hauridos da inexhaurivel fonte do Evangelho.</p>
+
+<p>Com o decurso de algumas semanas, Gonçalo Malafaya conformou-se com a
+desgraça irremediavel, e habituou-se a invocar o auxilio do céo, se vergava,
+alguma hora, ao confrangimento de desesperada saudade.</p>
+
+<p>Maria Henriqueta conheceu nos primeiros dias de collegio<span class="pn"
+id="pg_44" >{44}</span> os mais saborosos instantes de sua
+infancia, senão os primeiros. Tinha muitas meninas a ama'-la, as mestras á
+competencia de meiguices, muitas creadas a servi'-la, e a sua ama querida a
+inventar-lhe sempre as innocentes delicias, que a pobre menina desconhecera sob
+o olhar severo e glacial de sua mãe.</p>
+
+<p>Custou-lhe lagrimas o adeus do pae; mas foram as primeiras e ultimas que
+chorou alli.</p>
+
+<p>Depois de sessenta dias de ausencia, entrou Gonçalo em sua casa no Porto.
+Avisára elle de antemão os paes para lá o esperarem, temendo o primeiro
+encontro com a mulher. Recebeu-o a mãe nos braços, e disse-lhe ao ouvido:</p>
+
+<p>&mdash;Olha que Maria das Dôres está douda furiosa.</p>
+
+<p>Achegou-se o pae da outra orelha, e disse-lhe:</p>
+
+<p>&mdash;Talvez seja preciso amarra'-la.</p>
+
+<p>Gonçalo encarou em ambos, e respondeu:</p>
+
+<p>&mdash;É a felicidade que lhes devo, meus carinhosos paes.</p>
+
+<p>A mãe entendeu, sem merecer creditos de esperta, a ironia, e replicou
+mansamente:</p>
+
+<p>&mdash;Tens razão, meu filho! tens razão...</p>
+
+<p>E o pae accrescentou em outro tom:</p>
+
+<p>&mdash;Ás vezes dois puxões de orelhas curam estas doudices.</p>
+
+<p>Maria das Dôres, com o seu feio costume de escutar, ouvira as palavras do
+sogro e exclamára:</p>
+
+<p>&mdash;Dois puxões de orelhas!... Quero vêr se ha mão que se atreva a
+isso!<span class="pn" id="pg_45" >{45}</span></p>
+
+<p>&mdash;Cala-te ahi!&mdash;bradou o velho.&mdash;Se fosses minha mulher,
+havia de... esganar-te! Fizeste desgraçar meu filho, que é um anjo, todos o
+respeitam e amam, menos tu que és uma vibora peçonhenta! Gonçalo, deixa
+tudo!&mdash;exclamou, voltado ao filho&mdash;deixa tudo a essa mulher, e vem
+para nossa casa. Poupa os teus dias; foge a esta diabolica creatura, e o mundo
+saberá da minha bocca a razão porque lhe foges.</p>
+
+<p>Maria das Dôres tinha de ordinario uns deliquios de reserva para as crises
+em que a palavra era menos significativa de sua consternação ou raiva.
+Occasionou-se-lhe ensejo optimo para um. Desmaiou, caindo com toda a segurança
+da sua pessoa n'um bufete da sala de espera.</p>
+
+<p>Gonçalo sentou-se extenuado em frente de sua mulher; pendeu a cabeça para o
+seio, e, com as mãos na cabeça, parecia recurvar as unhas sobre o craneo.</p>
+
+<p>&mdash;Que inferno!&mdash;exclamou elle.&mdash;Que inferno este, meu pae!
+Que vida tão escura a minha, agora, e sempre! Estou no vigor dos annos, e é
+forçoso que os acabe por minhas mãos, ou que me deixe despedaçar hora a hora
+por esta mulher! Tinha uma filha, que podia ser-me allivio, e fui obrigado a
+separa'-la de mim para a furtar á influencia nefasta d'esta senhora, que nem
+boa mãe é! Nem mãe, santo Deus! Nem a virtude das feras coube em partilha a
+esta que me deram por esposa!</p>
+
+<p>Chorava a mãe de Gonçalo, e o velho estava passado menos da dôr, que do
+arrebatamento do filho.<span class="pn" id="pg_46" >{46}</span></p>
+
+<p>Maria das Dôres ouvira tudo, e provavelmente descerrára as palpebras para
+observar a gesticulação do marido. Abriu de todo os olhos esgazeados; affastou
+da fronte os cabellos, como fazem nas tragedias as doudas, ou as arriscadas a
+isso; levantou-se cambaleando, segundo a arte, e tirou-se do salão, assoprando
+como serpente ferida na cauda.</p>
+
+<p>Vacilou Gonçalo entre ficar ou recolher-se á residencia de seus paes. A mãe
+instava pela saída, conformando-se á primeira vontade do marido; este, porém,
+reflectindo um pouco, disse que mais acertado seria o filho, depois de liquidar
+contas com os caseiros e conhecer a fundo o estado de sua casa, cuidar em
+separar-se judicialmente, allegando com o depoimento dos servos o genio
+intractavel da mulher.</p>
+
+<p>&mdash;Fez-me o casamento, pae,&mdash;disse Gonçalo&mdash;e quer
+desfazer-m'o agora!... Assim devia ser; mas o peior é eu hei de ser até á morte
+um escravo d'ella, ou da ignominia da minha situação. A separação dá causa a
+juizos vilipendiosos, meu pae; e eu, sobre todas as calamidades, não quero
+affrontas. Já agora hei de soffrer e morrer aqui. Hão de regosijar-se da sua
+obra... Quero que sintam o remorso de me acabarem lentamente a vida, que tão
+feliz se me antolhava; matassem-me antes! antes a morte, que assim, ao menos,
+poupar-me-iam a ser testemunha da outra infeliz, que tambem mataram! Ó alma do
+céo, perdoa-me tu, pelas dores com que aqui estou expiando a minha
+fraqueza!...</p>
+
+<p>Os velhos não entenderam cabalmente a apostrophe,<span class="pn" id="pg_47"
+>{47}</span> e de si para si ficaram em que o filho estava menos
+escorreito e são de seu juizo.</p>
+
+<p>Recolheu Gonçalo á sua camara, e n'ella passou alguns dias encerrado, sem
+ver a mulher. Ahi recebia as visitas, que, prevenidas pelo velho Malafaya,
+evitavam perguntar-lhe pela prima Maria das Dôres.</p>
+
+<p>Esta, encerrada tambem no seu quarto, apenas recebia a visita do medico, e a
+do capellão, santo homem, que á mingua de eloquencia christã, se estava sempre
+benzendo, sem dar a razão de tamanha prodigalidade do signal da cruz.</p>
+
+<p>N'este critico intervallo, Maria das Dôres absteve-se de governar a casa, e
+de transmittir suas ordens aos creados. Os negocios do governo culinario
+corriam sob a fiscalisação do padre, que mostrou sua especial vocação no
+desempenho d'elles. Almoço, jantar e ceia, ás horas, nunca faltou, bemdito seja
+o Senhor!</p>
+
+<p>Passados dias, foi o medico portador de uma carta de Maria das Dôres a seu
+marido. Dizia em resumo o escripto que ella imperiosamente queria recolher-se a
+casa de sua familia, por já não poder supportar o flagello, que seu pae lhe
+apparelhara. Mais dizia, que se voltára do Douro alli, fôra causa d'essa
+imprudencia querer ella entregar a seu marido as chaves de suas gavetas, e as
+preciosidades, que elle trouxera dos seus. Posto isto, rematava dizendo que
+fôra sempre uma esposa digna e sem mancha; ao passo que seu marido era um homem
+de costumes estragados, merecedor de outra mulher, capaz de vingar-se, pagando
+affronta com affronta.<span class="pn" id="pg_48" >{48}</span></p>
+
+<p>Gonçalo leu a carta e respondeu verbalmente ao doutor:</p>
+
+<p>&mdash;Que faça o que quizer. Que vá para o pae se lhe apraz; que se deixe
+estar, se está bem; na certeza de que, lá ou aqui, a nossa separação está
+resolvida para sempre.</p>
+
+<p>Maria das Dôres ouviu a resposta, pediu ao medico o favor de retirar-se,
+saltou fóra do leito, vestiu-se em grutesco desalinho, e entrou, com furial
+aspecto, no quarto do marido.</p>
+
+<p>Sentou-se Gonçalo no leito, como attonito da improvisa apparição.</p>
+
+<p>&mdash;Que quer, prima?&mdash;gaguejou elle.</p>
+
+<p>&mdash;Quero ouvi'-lo; quero ouvir da sua bocca as palavras que me disse o
+doutor.</p>
+
+<p>&mdash;Se lh'as elle disse... que mais quer?</p>
+
+<p>&mdash;Diz-me o primo que vá para meu pae?</p>
+
+<p>&mdash;Se quizer.</p>
+
+<p>&mdash;Não quero!</p>
+
+<p>&mdash;Pois não vá.</p>
+
+<p>&mdash;Eu não ando ás suas ordens! Sou sua mulher. Entendeu?</p>
+
+<p>&mdash;Entendi.</p>
+
+<p>&mdash;E então?</p>
+
+<p>&mdash;Então o quê! Que é que me diz?</p>
+
+<p>&mdash;Que não saio d'esta casa que é minha.</p>
+
+<p>&mdash;Deixe-se estar.</p>
+
+<p>&mdash;Mas o senhor que disse mais?</p>
+
+<p>&mdash;Que a nossa separação está resolvida para sempre.<span class="pn"
+id="pg_49" >{49}</span></p>
+
+<p>&mdash;Isso é se eu quizer.</p>
+
+<p>&mdash;Quer queira, quer não.</p>
+
+<p>&mdash;Eu allegarei as minhas razões em justiça.</p>
+
+<p>&mdash;Não temos que ver com a justiça. A prima Maria das Dôres tem os seus
+aposentos n'esta casa, e eu tenho os meus. É n'este sentido que eu entendo a
+separação.</p>
+
+<p>&mdash;Não quero!&mdash;exclamou ella, batendo com o pé rijamente no
+tapete.</p>
+
+<p>&mdash;Em tal caso, obriga-me a sair d'esta casa.</p>
+
+<p>&mdash;E eu vou procura'-lo onde estiver.</p>
+
+<p>&mdash;A prima é uma senhora. Fio da sua nobreza que se poupará e me poupará
+a vergonhosos alardes.</p>
+
+<p>&mdash;Qual nobreza, nem qual vergonha? Sou sua mulher! não é mais que
+dizer&mdash;não me serves&mdash;e acabou-se tudo! Recorro ás leis. Quero saber
+porque sou abandonada. Fui-lhe infiel, primo Gonçalo? Atraiçoei-o? Faltei aos
+meus sagrados deveres de esposa?</p>
+
+<p>&mdash;Nunca o suspeitei.</p>
+
+<p>&mdash;E o primo faltou? Responda.</p>
+
+<p>&mdash;Não tem resposta.</p>
+
+<p>&mdash;Tem. Tem resposta. O senhor é que não tem alma nem vergonha. Quer ir
+viver com outra? Diga-o francamente, que eu n'esse caso vou-lhe fazer presente
+das joias, já que o senhor a faz proprietaria dos meus direitos. Escusa de
+sair: póde traze'-la para aqui. Veja lá primo... se precisa de aia a dama,
+estou eu aqui que lhe sirvo.</p>
+
+<p>&mdash;Cale-se, senhora!&mdash;bradou Gonçalo.&mdash;O despejo da<span
+class="pn" id="pg_50" >{50}</span> phrase offende tanto como o
+despejo da acção. Estão ahi as suas creadas a ouvi'-la. Felizmente que não está
+aqui uma menina de onze annos para lhe decorar essas palavras, aprendidas não
+sei onde, nem com quem. Prima Maria das Dôres! attenda-me com o seu silencio,
+se póde. Este viver é impossivel. A senhora apurou-me a paciencia até ao
+extremo. Soffri-a emquanto o facto da separação me pareceu desairoso.
+Sacrifiquei-me á dignidade, que foi sempre o melhor timbre de nossas familias.
+Baldei as dores surdas que padeci. Ninguem me compensa, nem a sua indole se
+chegou a condoer de mim. Mudei, prima, mudei completamente. Quer saber a minha
+deliberação final? Digo-lh'a livre de medo que m'a embarace. Em ultimo recurso,
+fujo de Portugal, e deixo-a. Irei onde me não conheçam, nem me denunciem á sua
+perseguição. Felizmente sou rico. Bom é que eu alguma vez conheça as vantagens
+de ser rico. O que é meu basta e sobeja. Posso ainda viver alguns annos
+tranquillos; em toda a parte hei de achar amigos.</p>
+
+<p>&mdash;E amigas...&mdash;atalhou ella.</p>
+
+<p>&mdash;E amigas, diz bem a prima; porque não.</p>
+
+<p>&mdash;Basta!&mdash;vociferou Maria das Dôres perfilando o dedo indicador
+com o nariz.&mdash;Basta! não se envergonha agora que o estejam escutando as
+creadas? Faça o que quizer. Abandone-me; mate-me; sacrifique-me aos seus
+caprichos, primo, que eu deixo a minha causa á Providencia, e a sua alma ao
+remorso.</p>
+
+<p>Gonçalo sorriu, e Maria das Dôres, atirando para o<span class="pn"
+id="pg_51" >{51}</span> pescoço uma aba do gabão de castorina, saíu
+com toda a magestade d'uma rainha colerica.</p>
+
+<p>O padre capellão, que tambem tinha o vêzo de escutar, já se tinha benzido
+vezes sem conta com ambas as mãos.<span class="pn" id="pg_52"
+>{52}</span></p>
+
+<p><span class="pn" id="pg_53" >{53}</span></p>
+
+<h3><a name="SECTION00304">IV</a></h3>
+
+<p>Poude muito comsigo Maria das Dôres, enfreando o genio; mas desmedrou a
+olhos vistos. Ao cabo de tres semanas estava magra, secca e quebrada de
+espirito, que era um pasmar das creadas. Sustentou Gonçalo dois mezes a sua
+palavra. Saía por portas remotas do repartimento em que sua prima vivia.
+Jantava raras vezes em casa, e sempre em separado. Seroava por salas de amigos
+e parentes até noite alta. Recolhia a tempo que sua mulher dormia; e,
+finalmente, recebia as visitas em salas distinctas das frequentadas pelas
+senhoras.</p>
+
+<p>Este divorcio domestico teve longe soada, e deu ansa a muitas calumnias,
+umas gravosas para a fama da senhora, outras a taxarem de cru e barbaro o
+marido. O velho Azinheiro commentava o facto em abono da filha; o velho
+Malafaya andava solicitando a canonisação de seu filho martyr. Deu-se a feliz
+conjuncção de se encontrarem os dois velhos em casa de uma familia, empenhada
+na reconciliação dos casados. Deram ambos amigavelmente as causas da desordem,
+cederam-se mutuamente<span class="pn" id="pg_54" >{54}</span> as
+sem-razões de parte a parte, e vieram ás boas, pactuando o afervorarem a
+harmonia, na vespera do Natal, á mesa do amigo e parente commum, que lhes
+proporcionára o encontro.</p>
+
+<p>Assim se fez.</p>
+
+<p>Gonçalo acceitou o convite, sem presumir o fim; Maria das Dôres, instada
+pelo pae, accedeu tambem. A surpreza foi de ambos, quando se viram na mesma
+sala da ceia. Achava-se presente o deão da Sé, sujeito de grandes lettras, e
+abalisada prenda de bom-falador. Foi elle o encarregado do discurso, quinze
+dias antes. Não foi discurso o que saíu da uberrima e caudal veia do
+prebendado: foi uma homilia, como os santos padres a quereriam ter feito. Se
+lhe mondarmos a exhuberancia dos textos latinos, á mixtura com os versos
+gentilicos, era uma peça litteraria com que eu faria os meus creditos, se a
+podesse reproduzir, e o leitor m'a attribuisse ao meu corcovado engenho.
+Corcova-se o engenho, como a espinha dorsal, leitor amigo, quando frigidas e
+geadas de infortunio regelam e abatem as altivezas do genio. Não assim ao
+conspicuo deão da Sé portuense, que vivera cincoenta annos de vida folgada e de
+côro, rindo com os vivos, cantando pelos mortos, e compondo, nas horas
+feriadas, discursos attinentes a restabelecer a ordem perturbada nas familias,
+em cujas casas jantava, uma vez por dia, ou duas, se caía a talho de fouce.</p>
+
+<p>Ia em meio o discurso, quando as senhoras edosas, lavadas em lagrimas como
+punhos, começavam a perder o appetite das rabanadas e dos ovos de fio. Os
+velhos<span class="pn" id="pg_55" >{55}</span> fidalgos, para em
+tudo attingirem o sublime dos conceitos, até com acenos de cabeça confirmavam o
+bem cabido e apropositado dos textos latinos, cousa de todo o ponto indigesta
+ás capacidades d'elles. Rematou o discurso por este memorando periodo:</p>
+
+<p>«... Finalmente, é chegada a hora, a propicia hora de dois corações se
+approximarem, quaes carinhosos e gemebundos rolos, que nos esgalhos de
+longiquas arvores, se estão suspirosos namorando! Abra o mais forte os doces
+braços, e cinja em meigo amplexo a fragil e quebradiça creatura, que senão fôra
+toda amor, seria toda divindade. <em>Toto Dea, tota pulchra, tota vel
+amor.</em> (Entre parenthesis: supponho que o latim era arranjo do imaginoso
+deão: não me occorre ter lido cousa tão delambida na antiguidade). Finalmente,
+tornou elle&mdash;se dois são os culpados, o reciproco perdão abra-se já em
+perfumes de reciproco amor. Para enxugar as lagrimas, beijos; para delir
+injurias, sorrisos; para cicatrizar chagas do peito, abraços. Vamos, felizes
+esposos; renasça a paixão, o ardor da chamma antiga, <em>veteris flammæ</em>,
+n'esta hora em que renasce para o amor e para a fé da humanidade o redemptor da
+culpa, o redemptor das paixões más, aquelle que disse: a carne da minha carne,
+o osso do meu osso: <em>caro ex carne mea, os ex ossibus meis</em>.» Disse.</p>
+
+<p>Heytor Azinheiro tomou a filha pela mão; Christovão Malafaya abarcou pela
+cintura o filho, e deram alguns passos a encontrarem-se.</p>
+
+<p>Gonçalo beijou a esposa na fronte; Maria das Dôres<span class="pn"
+id="pg_56" >{56}</span> cingiu o braço ao collo do esposo, e ficou
+em duvida se devia desmaiar.</p>
+
+<p>Não teve tempo. Moviam-se e vozeavam todos a um tempo. O deão conservava
+ainda a face escarlate do rescaldo da inspiração. Houve ahi fidalgo enthusiasta
+da facundia, que beijou a face do orador, a face em que, uma hora depois,
+cuidaria Sileno achar o espelho.</p>
+
+<p>Foi noite cheia, noite que vae contando, na chronica das familias, ás
+provindouras proles, delicias nunca mais repetidas.</p>
+
+<p>Mas nos labios de Gonçalo não avoejára um riso em toda a noitada, que
+prendeu com o dia; nem os de Maria das Dôres se abriram com palavra carinhosa
+ao esposo.</p>
+
+<p>Voltaram de braço dado a casa; almoçaram juntos, e falaram de Maria
+Henriqueta, elle choroso, e ella melancolica. Ao jantar falaram ainda da
+menina, e combinaram em irem proximamente visita'-la a Lisboa.</p>
+
+<p>Decorreram dias serenos, se não felizes em comparação dos passados. Maria
+queixava-se, mas com brandura: Gonçalo ia confessando suas demasias de
+impaciencia; mas sem vontade nem consciencia de as ter dito. O padre capellão
+continuava a benzer-se, mas já era de pasmado da mudança que o Senhor fizera
+nos casados, mediante as orações d'elle. Modesta piedade!</p>
+
+<p>Foram a Lisboa, e fizeram contentes a jornada. Tiveram comsigo a filha em
+Cintra, e visitaram os arrabaldes pittorescos da formosa Lisboa.</p>
+
+<p>Maria Henriqueta estava adiantada em cravo, dançava<span class="pn"
+id="pg_57" >{57}</span> com muito garbo e limpeza o minuete,
+arrastava com gracioso despejo a cauda do vestido, e levava o toucado a
+maravilhosa altura, sem desluzir a graça. No tocante a linguagem, em poucos
+mezes, todos a julgariam pura lisboeta. Um dizer morbido, preguiçoso e
+indolente, como cortado de gemidos, cousa mais de enfeitiçar ouvidos nunca
+Maria das Dôres imaginou que pudesse ouvir dos mellicos labios de sua filha.
+</p>
+
+<p>No ponto de belleza, não ha ahi cousa que mais diga. Alteára-se,
+desempenára-se, alargára de espádoas, mingoára de cintura, pisava tão geitosa
+de mimo e movimentos, que parecia librar-se toda em cadencioso bater de
+translucidas azas. Facil era divisar assomos de vaidade no olhar da mãe. Já
+ella entre si dizia que mais amavel e perfeita fôra, se seus paes a tivessem
+mandado educar á côrte, em vez de a soterrarem n'um brutificador convento, onde
+as mulheres eram todas umas, e ridiculissimas as gaifonas monasticas, sem graça
+nem calor. Cohibia-se Maria de communicar ao primo estes seus pensares, com
+medo de relembrar-lhe cousas em que elle muitas vezes cogitaria, com desfalque
+dos taes quaes merecimentos d'ella.</p>
+
+<p>Detiveram-se em Lisboa quatro mezes. Raras palavras enfadosas se trocaram, e
+essas mesmas eram contendas por amor da menina, que a mãe quizera levar comsigo
+para o Porto, desejo inepto que o marido impugnava, dizendo que a educação da
+filha estava em principio.</p>
+
+<p>Na ante-vespera da partida, senhoreou-se do espirito de Maria o entojo de
+vêr o mosteiro de Odivellas. Sabia<span class="pn" id="pg_58"
+>{58}</span> ella que farte da profissão da filha do conde, e
+anciava por ve'-la, curiosidade por vezes mui fatal a mulheres, que não sabem o
+que fazem nem o que desejam. Recusou-se, primeiro, Gonçalo; meditando, porém,
+que só uma casualidade traria ás janellas gradeadas do mosteiro Beatriz dos
+Anjos, condescendeu. Fôra, porém, tão prompta a condescendencia, que D. Maria
+fez pé atraz, e demudou do intento, resmuneando palavras ciosas, que fizeram
+lembrar a esposa, antes de regenerada pelo discurso do deão, que santa gloria
+haja.</p>
+
+<p>Azedou-se o marido da versatilidade da mulher e então iam pegando em
+permutação de remoques, mui dispostos a despregarem em formal descompostura.
+Espalharam-se as nuvens da imminente borrasca, e o azul sereno do provisorio
+céo cobriu mais alguns dias de bonança.</p>
+
+<p>Ficou Maria Henriqueta em delicias, por se vêr livre do suborno da mãe, que
+a induzia a pedir ao pae a saída do collegio. Se alguma vez por temor ou
+respeito o fez, de tal geito relanceava os olhos ao pae, que o mesmo era
+implorar-lhe piedade. Por de sobejo lhe adivinhava Gonçalo a vontade; e,
+dilatando a resposta, foi ganhando tempo, e dispondo a saída, com promessas de
+lá voltarem.</p>
+
+<p>Quando chegaram ao Porto, tangiam a finados os sinos da Sé. Estava sobre a
+terra o sapientissimo deão. Ruim agouro!</p>
+
+<p>Aquelle dobre funeral, annunciando o trespasse do eloquente conciliador, era
+o presagio de futuras discordias.<span class="pn" id="pg_59"
+>{59}</span></p>
+
+<h3><a name="SECTION00305">V</a></h3>
+
+<p>A educação seria alguma cousa no genio de D. Maria; mas o temperamento era
+tudo. Derrancava-se-lhe o sangue, se não girava desempedido, e resfolegava
+pelas valvulas da altercação, da teima e do conflicto. Renhir era o principio
+vital da sua compleição. Carecia de contrariar-se, quando não topava estorvos a
+desafia'-la á disputa. Uma sua intima dizia que Maria das Dôres, em dias mal
+humorados, chegava a beliscar-se para se irritar contra si propria. Isto será
+de mais; cumpre, porém, duvidar em cousas mais disparatadas. A mulher, em
+geral, é um complexo de bons e maus prodigios. Releva que tenhamos sempre
+apontada a admiração ás multiplices fórmas de espirito, em que a mulher se
+transfigura, segundo os varios incidentes de seu modo de ver e julgar.</p>
+
+<p>Gonçalo, capacitado da milagrosa reforma de sua consorte, ia relaxando o
+proposito de emenda, que fizera, no tocante a certas culpas, de que D. Maria
+estava mais que muito sabedora, para nunca as esquecer.<span class="pn"
+id="pg_60" >{60}</span></p>
+
+<p>Durante o largo espaço do divorcio, represára ella enchentes de fel, que
+ameaçavam com seu natural pendor romper os diques, logo que mão extranha
+desconjunctasse uma pedrinha da levada, ou uma nova gotta cogulasse e
+desbordasse a represa insoffrida.</p>
+
+<p>O indiscreto galã occasionou o desmancho da ordem, que se tinha, para o
+assim dizer, em frageis arames. Constou a D. Maria que seu marido andava
+enviscado de uma cantarina italiana, mulher de perigosas manhas e infernal
+seducção, que trazia na sua carteira inscriptos em catalogo os homens que á sua
+chamma fatidica se tinham abrazado, pagando com o ouro e com a honra, e alguns
+com o futuro bem de suas familias, a gloria de morrerem á ponta de um florete
+extranho, ou á bocca da propria pistola.</p>
+
+<p>A denuncia fôra vestida com o maravilhoso costumado por quem relata
+historias d'esta natureza. A actriz era uma vulgar mulher, carecida mesmo da
+singularidade da belleza, que, a meu ver, é singularidade de pouco momento,
+quando alguma tragedia lhe não dá o relevo. Tragedias na vida da cantora havia
+apenas as do libreto, em que ella mesmo assim figurava na parte inoffensiva dos
+comparsas, e tinha sempre a cargo lamentar a prima-dona, que morria ás mãos do
+tyranno, ou o galã que lhe pedia por grande mercê um pouco de verdete para se
+matar, como traído ou desamado pela ama d'ella.</p>
+
+<p>Pobre Persini! (chamava-se ella Persini) se Deus te julgasse pelo depoimento
+dos homens, em que caldeiras de bitume iriam ferver teus ossos!<span class="pn"
+id="pg_61" >{61}</span></p>
+
+<p>Ossos é que ella tinha muito acotovellados por aquelle corpo acima, se
+havemos de acreditar os oculos de alguns coevos. Concordam, porém, todos em ter
+sido Gonçalo Malafaya um apaixonado idolatra de Persini, e um dos poucos
+amadores que saíram vivos dos paços encantados d'aquella Armida.</p>
+
+<p>Como quer que fosse, D. Maria das Dôres estourou, conflagrou-se, reaccendeu
+o antigo inferno, e constituiu-se o natural dragão da sua obra. Extranhou
+Gonçalo as arremettidas, que o descostume tornára novas. Desaffeito de
+soffre'-las, rebateu-as com virulencia, como corrido d'aquella docilidade com
+que n'outr'ora ia aparando as frechas no escudo da paciencia, e fugindo. Agora,
+adargou-se com uns modos despejados de impudor; e, no que dizia, dava a pensar
+que a sua vontade era soberana, e os seus caprichos inviolaveis.</p>
+
+<p>D. Maria, bemfadada de acrisolada virtude conjugal, dado que os annos
+orçassem já pelos trinta e dois, houve pejo de redarguir com indecorosas
+ameaças, e até cuspiu a tentação de as dizer á cara do demonio tentador, que
+está sempre de espia em conflictos d'esta especie.</p>
+
+<p>Gonçalo recalcitrou no vicioso amor á artista, e D. Maria na explosão dos
+ciumes, se eram ciumes, que eu não me atino bem a dar-lhe o nome. Ciosas temos
+nós visto esposas desamoraveis, e teimamos em denominar <em>ciume</em> o que é,
+em boa definição, <em>vaidade</em>. Vaidade seja, ou, se quizerem, ciume a
+indomavel raiva de D. Maria, o saír deshonrada em busca d'elle, o aldrabar á
+porta da cantora, se lá farejava o marido, o alliciar<span class="pn"
+id="pg_62" >{62}</span> lacaios para a espancarem á saída do
+theatro, o induzir-lhe a creada a ministrar-lhe uns pós de ratos, que, de
+fracos e revelhos, já as ratazanas do palacete os digeriam sem o menor symptoma
+de dyspepsia.</p>
+
+<p>A guerra caseira chegou a termos de se ameaçarem no calor da refrega. Até
+alli nunca o marido exorbitára das leis da delicadeza prescriptas a homem que
+se estima em si e em sua esposa; mas, tanto ella lhe acrisolára a impaciencia,
+que o desvariado Gonçalo chegou a abrir e vibrar a mão em direitura ás faces
+intactas da mulher. Maria das Dôres correu a tirar pela gaveta de um toucador
+de ebano, e saíu de lá com um punhal luzente, temeroso pela afouteza com que a
+mão viril o brandia.</p>
+
+<p>Gonçalo riu; mas, a falar a verdade, o riso era fingido. Sobejava-lhe
+colera, e medo tambem. Como quem pede treguas, o cavalheiro, pasmado do arrojo,
+cruzou os braços, e disse:</p>
+
+<p>&mdash;Mulher de faca! pasmosa cousa!</p>
+
+<p>&mdash;Um cavalheiro de mão erguida para sua mulher! vergonhosa
+cousa!&mdash;replicou D. Maria, imitando-lhe o sorriso, com vantagem de graça
+para ella, e de mofa para elle.</p>
+
+<p>&mdash;Está, pois, demonstrado&mdash;redarguiu o pallido Malafaya&mdash;que
+estou aqui á mercê do punhal da prima Maria das Dôres!... Extranho destino o
+meu! Não basta matarem-me o coração, e o futuro?... estará escripto que o meu
+corpo morra ás mãos mimosas da minha esposa?<span class="pn" id="pg_63"
+>{63}</span></p>
+
+<p>&mdash;Não!&mdash;bradou ella&mdash;não em quanto o senhor, me respeitar
+como senhora, se me não quizer respeitar como esposa. Convença-se porém de que
+as affrontas de mãos hão de ser repellidas como as affrontas de palavras.</p>
+
+<p>&mdash;Que quer de mim, prima Maria das Dôres?</p>
+
+<p>&mdash;Quero que me respeite para que o mundo me respeite.</p>
+
+<p>&mdash;A senhora é que se enxovalha, dando indecorosas scenas em publico.</p>
+
+<p>&mdash;Forçada pelas suas devassidões, sr. Gonçalo! Basta de vexames! Temos
+cada qual seu caminho a seguir.</p>
+
+<p>&mdash;Que quer dizer?</p>
+
+<p>&mdash;Que o abomino, que o desprezo, que acceito hoje o divorcio, proposto
+ha dois annos; mas um divorcio de casal, de familia, de futuro e de tudo. Maria
+Henriqueta... quero-a comigo.</p>
+
+<p>&mdash;A lei não lh'a concede.</p>
+
+<p>&mdash;Ha de conceder-m'a! Eu provarei aos juizes que Maria Henriqueta não
+deve ser entregue a um pae, que não sabe ser marido. Veremos quem triumpha, sr.
+Gonçalo! Veremos se uma mãe sabe advogar os interesses e a moralidade de sua
+filha.</p>
+
+<p>Cedeu Gonçalo o campo e saío pensativo, a aconselhar-se. Aquietaram-lhe o
+alvoroço os letrados, assegurando-lhe que a menina não podia ser disputada ao
+patrio poder com allegações extranhas á moralisação d'ella.</p>
+
+<p>Quando n'essa noite voltou a casa, achou Gonçalo<span class="pn" id="pg_64"
+>{64}</span> signaes de grande reboliço, e deparou-se-lhe o
+capellão benzendo-se, e tartamudeando a nova da saída da fidalga, com os seus
+bahus para casa de seu pae. Suspeitoso de um attentado maior, tramou Gonçalo
+vigilante espionagem aos passos e designios da prima. Logo, na tarde do
+seguinte dia, soube que D. Maria das Dôres ia a Lisboa, com o projecto de tirar
+a filha do collegio.</p>
+
+<p>N'essa mesma noite partiu Gonçalo para a côrte, petrechado de boas
+recommendações para debellar quaesquer ardis judiciarios da consorte,
+favorecida pelos valiosos amigos de Heytor Azinheiro.</p>
+
+<p>Então se viu quanto sobreleva amor de pae a todas as affeições mesquinhas,
+que muitas vezes armam ciladas e quedas mortaes, d'onde não ha ahi erguer-se um
+homem para a honra.</p>
+
+<p>Esqueceu-lhe, n'um momento, a Persini, que o esperava com a ceia, lardeada
+de convivas de sua estofa, e cavalheiros da tempera de Gonçalo. Nem chispa de
+saudade lhe vislumbrou na longa e fadigosa jornada. Anceava-se em Lisboa, e
+ante si não via senão a angelical figura de Maria Henriqueta extendendo-lhe os
+braços, como a pedir-lhe resgate do captiveiro que a mãe lhe queria infligir.
+Mal apeou do tressuado cavallo, que devorára leguas ao sabor do amo, foi
+Gonçalo cuidar de requerer intimação judicial á directora do collegio para não
+entregar a menina a sua mãe, sob qualquer pretexto, e com qualquer
+auctorisação. Conseguido isto, em que cifrava tudo, o carinhoso pae
+desfadigou-se em aturadas conversações com Maria Henriqueta, a qual viçava<span
+class="pn" id="pg_65" >{65}</span> em formosura á competencia com
+os dons do espirito.</p>
+
+<p>N'um d'aquelles dias, Gonçalo Malafaya, passando diante do palacio do conde
+de Miranda, recordou as noites venturosas que alli passára, e recolheu-se
+triste. Tristezas de coração, aos quarenta annos, se procedem de saudades da
+bemaventurança dos vinte, são golpes que rasgam fundo, e curam em falso, por
+não fecharem, digamo'-lo assim, cauterisados pelo ardor das lagrimas.</p>
+
+<p>Ao outro dia, Gonçalo acordava com a imagem de Beatriz dos Anjos a
+esvaecer-se nos vapores de um sonho. Moribunda a tinha elle visto, e vozes de
+perdão lhe colhera dos labios balbuciantes em crispações da agonia; mas agonia
+de santa fôra a sua.</p>
+
+<p>Deu-se pressa no caminho de Odivellas, e parou indeciso no pateo do
+convento, remirando as janellas onde entreviu rostos mimosos de buliçosas
+noviças, enquadrados na touca do habito. A madre porteira chamou o estarrecido
+cavalheiro, e perguntou-lhe se procurava alguem.</p>
+
+<p>&mdash;Alguem desejava ver, minha senhora.</p>
+
+<p>&mdash;Quem?</p>
+
+<p>&mdash;Uma religiosa... Beatriz dos Anjos.</p>
+
+<p>&mdash;Com os anjos está&mdash;disse a porteira.</p>
+
+<p>&mdash;Morta?!&mdash;exclamou Gonçalo.</p>
+
+<p>&mdash;Viva, eternamente viva para Deus... Era sua parenta, senhor?</p>
+
+<p>Gonçalo apoiára-se no rebordo da parede, contiguo á roda, e, encostando a
+testa á pedra, chorou.<span class="pn" id="pg_66" >{66}</span></p>
+
+<p>A freira compadecida aventurou-se a espreitar por uma fresta da meia-porta,
+e disse-lhe:</p>
+
+<p>&mdash;Se quer descançar, eu peço ao sr. capellão que lhe dê um quarto na
+residencia.</p>
+
+<p>&mdash;Agradecido, minha senhora. Eu vou-me já embora. Queira dizer-me:
+Beatriz morreu ha muitos mezes?</p>
+
+<p>&mdash;Ha dezoito.</p>
+
+<p>&mdash;Eu vi-a ha dois annos, e pareceu-me saudavel.</p>
+
+<p>&mdash;Seria o senhor um cavalheiro que aqui veio ha dois annos?</p>
+
+<p>&mdash;Fui, minha senhora.</p>
+
+<p>&mdash;É do Porto?</p>
+
+<p>&mdash;Sou do Porto.</p>
+
+<p>&mdash;Pois vá com a Virgem; e peça a Deus que lhe perdôe o mal que veiu
+fazer á nossa desgraçada menina. Com sua licença.</p>
+
+<p>A madre fechou hermeticamente as portadas, e Gonçalo, a passo incerto e
+vagaroso, saíu da alameda.</p>
+
+<p>A dor era sincera, porque necessitava confessar-se, e carpir-se.</p>
+
+<p>Lembrou-se da filha. Ai d'aquelles que soffrem e dizem: «Não ha quem me veja
+as lagrimas!»</p>
+
+<p>Esporeou o cavallo, e descavalgou no collegio. Ia subindo as escadas, e
+ouviu grande alarido de vozes. Parou no primeiro patamar, encostado ao mainel.
+A mais aspera e aguda d'aquellas vozes era a de D. Maria das Dôres.</p>
+
+<p>&mdash;Em que momento, meu Deus!&mdash;exclamou Gonçalo,<span class="pn"
+id="pg_67" >{67}</span> com tamanha dor, como se o peito se abrisse
+para romper fóra o brado.</p>
+
+<p>Em que momento! digamos nós. Ei'-lo a buscar um coração que lhe entenda as
+lagrimas vertidas por outro coração que a dor matára. E a mão terrivel da
+mysteriosa Providencia, conduz-lhe aos olhos, tumidos de lagrimas, a mulher
+que, n'aquelle instante, mais odiosa devia ser-lhe!<span class="pn" id="pg_68"
+>{68}</span></p>
+
+<p><span class="pn" id="pg_69" >{69}</span> </p>
+
+<h3><a name="SECTION00306">VI</a></h3>
+
+<p>Se bem que desalentado para a lucta, Gonçalo Malafaya subiu ao terceiro
+andar do predio, em que altercavam as vozes. Assomando á porta de uma sala,
+onde estavam muitas meninas e algumas senhoras, fez-se um subito silencio. Do
+grupo das senhoras apartou-se Maria Henriqueta, em transporte de jubilo, aos
+braços do pae. Maria das Dôres tremia de ira como de frio, e mudou de côres até
+permanecer n'um amarello de greda, que era a sua usual expressão de extremo
+phrenesi.</p>
+
+<p>&mdash;Que vem a ser isto?&mdash;disse Gonçalo serenamente.</p>
+
+<p>A directora respondeu:</p>
+
+<p>&mdash;Vem a ser que a sr.ª D. Maria das Dôres quer levar a menina, e a
+menina recusa ir. Eu disse á senhora que v. ex.ª estava em Lisboa e me não
+prevenira da saída da sr.ª D. Maria Henriqueta, razão porque me opporia, ainda
+mesmo que a menina quizesse saír. A senhora irritou-se contra mim, dizendo-me
+insultos, que eu nunca ouvi, nem cuidei que fidalgas os soubessem dizer. Estava
+agora s. ex.ª dizendo que ia buscar uma<span class="pn" id="pg_70"
+>{70}</span> ordem regia, para levar a menina; e eu respondi-lhe
+que sem aqui vir o pae, não dava por ordens regias, nem queria saber de mais
+nada. Felizmente que v. ex.ª veio a tempo: agora resolvam o que quizerem.</p>
+
+<p>&mdash;Tenho resolvido&mdash;disse Gonçalo.&mdash;Minha filha continúa a
+estar aqui. A prima Maria das Dôres é uma creatura sem alma, nem sombra de
+juizo. Envergonhe-me e envergonhe-se á sua vontade; mas saiba que Maria
+Henriqueta ha de ficar no collegio, apesar das suas imaginarias ordens
+regias.</p>
+
+<p>&mdash;Visto isto, eu nada valho?&mdash;disse Maria das Dôres em tom
+commovente.&mdash;Cuidei que perdendo o marido, podia ao menos ser mãe; mas, a
+final, perdi mocidade, ventura, dignidade, marido, filha e tudo, não é verdade?
+Muito bem. Ir-me-hei embora. Adeus, Maria Henriqueta, sê feliz. Primo Gonçalo,
+folgue de me ter esmagado o coração até me lá não deixar nem sequer a imagem de
+minha filha. É forçoso que eu viva em odio de todo o mundo, e que todo o mundo
+me seja odioso. Faça-se a vontade de Deus. Eu verei se posso odiar-te, Maria
+Henriqueta: ha de custar-me muitas lagrimas; mas n'este mundo miseravel tudo
+que é mau e infame se consegue com a força de vontade. Adeus, minha filha.
+Deixa-me olhar bem para ti; que é esta a ultima vez que te vejo. Tu amarás a
+minha memoria, quando souberes que tua mãe podia ser boa, se alguem houvesse
+misericordia das dores que lhe causa.</p>
+
+<p>Maria Henriqueta foi espontaneamente ao pé de sua mãe, e beijou-lhe a mão,
+commovida. Apertou-a ao ceio<span class="pn" id="pg_71"
+>{71}</span> com insolito estremecimento a mãe, e teve-a assim, até
+que as lagrimas saíram aos olhos de ambas. Quebraram-se os animos das senhoras
+hostis a Maria das Dôres. Movia o trance d'aquelle adeus. Era mãe e filha; e o
+só titulo de mãe quer-se respeitado, que é santo, salvo se o cunho sacratissimo
+d'elle foi delido com execrandas torpezas, que só de pensa'-las se doe e peja o
+coração. Que ha ahi lances nas familias que seriam vilipendio do Creador, se a
+creatura, despojada de religião, descaída de dignidade, atolada em abominações,
+que desconhecem feras, não fosse a ultima, a espantosa hediondez da materia,
+desaçamada em sua estupida fereza! Oh! quão triste é então o dizer-se «aquella
+mulher é mãe! Aquella innocente menina foi levada ao eterno desdouro, e eterno
+perdimento por aquell'outra mulher, que se diz sua mãe!» Ó leôa da Hyrcania,
+que emancipas tua filha, quando lhe sondaste a força das garras, e da tua prêa
+já lhe fortaleceste as unhas frageis, quão mais benigna tu és!...</p>
+
+<p>Maria Henriqueta, do seio materno, voltou o rosto ao semblante commovido do
+pae. Que dizia ella no mavioso rogar de seus olhos? Pedia-lhe compadecimento
+para sua mãe. Dizia mais que o discurso do defunto deão. Tirava por elle com
+impulso celestial; como se Deus o estivesse mandando á beira da mãe a esposa
+consternada, com mansas palavras, com perdões e amor.</p>
+
+<p>Gonçalo obedeceu ao impulso e acercou-se de sua mulher, a passo lento, mas
+resoluto. Compreendeu-o<span class="pn" id="pg_72" >{72}</span>
+Maria Henriqueta, e chegou das d'elle a mão submissa de sua mãe. Foi silenciosa
+a scena, menos de suspiros e soluços, que durez de alma seria se os
+circumstantes não se enternecessem.</p>
+
+<p>&mdash;Prima Maria das Dôres&mdash;disse Gonçalo&mdash;seja este anjo que
+nos reconcilie. Queres tu a minha amizade? Queres a filha e o pae? Podes tu
+amar-me por amor d'ella, e dar-nos a ambos a felicidade que só de nós pódes
+gosar?</p>
+
+<p>Maria apertou a mão do esposo, e estreitou-se mais com o seio da filha.</p>
+
+<p>Radiou por todas as meninas e mestras um fulgor subitaneo de alegria. Aos
+olhos de todas já Maria era esposa e mãe respeitavel. A reconciliação
+rehabilitou-a, e o marido como que se prezou mais na dignidade de sua mulher.
+</p>
+
+<p>Saíu Gonçalo Malafaya a procurar hospedagem condigna para mulher, filha, e
+estado de servos e carruagens. De commum accordo com a esposa, resolveu residir
+na corte. Estimou ella o alvitre; para desviar o marido da Persini, que,
+áquella hora, se estaria lembrando de Gonçalo como de um amante, cujos traços
+physionomicos, a custo, distinguia das feições dos successores. Chamava-lhe
+tragica a opinião publica; e a pobre Persini não era senão a comedia humana
+real e pessoalissima.</p>
+
+<p>Pelo que respeita a Maria das Dôres, o seu esquivo anjo de condição benigna
+voltára a visita'-la, em quanto o demonio da travessura se ia em passeio ás
+suas inflammadas<span class="pn" id="pg_73" >{73}</span> cavernas a
+pedir conselho ao chefe das legiões, infernaes, que enxameavam d'antes nas
+varas dos cevados da Judéa, e que nos nossos tempos fazem seu atascadeiro no
+seio das familias.</p>
+
+<p>Correram dois annos de serena paz, arrevezada por dissabores de pouca monta.
+Maria entrou na roda das fidalgas de Lisboa, e modelou-se, quanto seu natural
+lhe permittiu, aos geitos agradaveis das senhoras estremadas em educação. Muito
+lhe valeu isto para passatempo, e diversão de cuidados. O grande mal da sua
+condição estava no scismar sósinha, e devanear por desconfianças e zelos, quasi
+nunca injustos, diga-se a verdade secca e breve.</p>
+
+<p>Gonçalo, tambem por este lado, fatal quebra de seus bons costumes, estava
+melhorado pela edade, e talvez por influxo do golpe que recebeu em Odivellas.
+Sangrára pelas lagrimas o orgão que lhe era um aleijão sensivel, e a causa
+efficiente dos seus maiores desgostos domesticos. Quero pensar que Malafaya
+teria sido menos trabalhado de angustias, se fosse mais fiel marido, e menos
+insoffrido nos acommettimentos da ciosa esposa.</p>
+
+<p>Ao fim de dois annos, imprevista borrasca lhe ia sossobrando a fragil taboa
+da sua felicidade. É um caso que podia sobejar a um romance especial, que eu
+vou dar pela summa.</p>
+
+<p>Beatriz de Noronha, acceitando o namoramento de Malafaya, regeitou os
+galanteios de um fidalgo, que presumia ter-lhe merecido preferencias. O fidalgo
+ferido da imaginada perfidia, quiz provocar a desafio o portuense;<span
+class="pn" id="pg_74" >{74}</span> lembrou-se, porém, d'este
+galhardo despique, a tempo que Malafaya vinha em jornada para o Porto.</p>
+
+<p>Desembaraçado do rival, o cavalheiro que tinha appellido Athayde, cuidou em
+merecer de novo o affecto de Beatriz, contentando-se já com um coração
+alanceado pelo despeito, embora contaminado pela saudade.</p>
+
+<p>Beatriz esquivou-se mais que nunca. Impunha-lh'o a paixão, a saude, e por
+ventura a esperança. A pertinacia de Athayde era digna de premio; mas, em
+geral, as mulheres, quando não ganham asco a quem as solicita importunamente,
+são umas voluntarias doudas que se gosam no aviltamento dos logrados, e se
+lastimam do assedio que soffrem.</p>
+
+<p>A filha do conde de Miranda nem se queixava da teima de Athayde, nem o
+repellia da sua estima. Antes quiz a santa simplicidade!&mdash;attrahi'-lo a
+confidenciosas relações. Contou-lhe o quilate de seu amor, e o plano de
+professar, se Gonçalo não voltasse.</p>
+
+<p>E Gonçalo não voltou, nem o tempo desfez o que a paixão allucinada n'uma
+hora designára.</p>
+
+<p>Decorridos dois annos, e publicada a nova do casamento de Malafaya, Beatriz
+entrou em Odivellas; e, treze annos depois, como sabem, morreu.</p>
+
+<p>Athayde, perdidas as esperanças, exulara no extrangeiro, onde, muitas vezes
+resolveu vestir o habito, e morrer ignorado. Passados vinte annos, e quasi
+extinctos os fogos sob o gêlo dos quarenta e dois annos, voltou á patria o
+fidalgo, e concentrou-se no seu quarto, golpeando<span class="pn" id="pg_75"
+>{75}</span> sempre a chaga de saudade como quem não queria morrer
+de outra.</p>
+
+<p>Acaso soubera elle que residia em Lisboa Gonçalo Malafaya, ao qual as
+freiras de Odivellas arguiam de causa principal da breve morte de Beatriz dos
+Anjos. Quer fosse effeito de um desvario, procedente da concentração, quer de
+velho odio, Athayde phantasiou que Beatriz o encarregava de vinga'-la. N'este
+presupposto, saíu á luz do dia o encanecido homem, que raros amigos tinham
+visto. Indagou da residencia do fidalgo provinciano, e subiu afoutamente as
+escadas em busca do inimigo para immola'-lo aos manes de Beatriz. Arrojo digno
+da edade média! Relance de melodrama, que seria muito de vêr no palco! Em 1799
+era ja um desconcerto de juizo a tragica façanha!</p>
+
+<p>Gonçalo recebeu o incognito. Conhecera um gentil cavalheiro, chamado D.
+Francisco de Athayde; mas aquelle que se dera tal nome era um velho de barbas
+brancas, posto que nos meneios denunciava virilidade robusta.</p>
+
+<p>&mdash;Francisco de Athayde, justamente&mdash;replicou o vingador ás
+delicadas duvidas do portuense.&mdash;Sou o Francisco de Athayde que tinha em
+1778 vinte e tres annos. </p>
+
+<p>&mdash;Muito folgo de encontrar um amigo da mocidade&mdash;redarguiu
+Gonçalo.</p>
+
+<p>&mdash;Amigo, não. Esse titulo affronta-me. Inimigo implacavel, hade
+dizer.</p>
+
+<p>&mdash;Duvidarei te'-lo em tão extranha conta, emquanto<span class="pn"
+id="pg_76" >{76}</span> v. ex.ª me não disser que fiz eu para
+merecer-lhe tamanho odio.</p>
+
+<p>&mdash;Matou Beatriz dos Anjos.</p>
+
+<p>Gonçalo empallideceu, e como á luz de um sinistro relampago, viu aquelle
+homem enxugando as lagrimas, ao lado de Beatriz de Noronha, debaixo de uma
+arvore de Cintra.</p>
+
+<p>&mdash;O seu silencio quer dizer que se preza e gloria de ter assassinado a
+mais formosa e digna creatura da nossa mocidade, sr. Malafaya?</p>
+
+<p>Gonçalo balbuciou:</p>
+
+<p>&mdash;Eu era indigno d'aquelle anjo. Deus a desviou de mim, porque a
+escolhera para sua esposa, e a chamou ao céo, quando já bastava como conforto a
+desgraçadas, o exemplo que ella dera.</p>
+
+<p>&mdash;Palavras, senhor! Não vim a ouvir palavras. Que tem v. ex.ª padecido
+por expiação d'aquella morte?</p>
+
+<p>&mdash;Muito, sr. D. Francisco de Athayde.</p>
+
+<p>&mdash;Não o parece. Vejo-o vigoroso, o seu olhar ainda tem a luz da
+mocidade, o timbre da sua voz é sonoro como nos tempos em que jurava paixões
+que cavavam sepulturas. Tudo me diz que v. ex.ª vive para si, para sua esposa,
+para sua filha, para as glorias do tempo e para uma velhice agradavel e
+tranquilla.</p>
+
+<p>&mdash;Erra v. ex.ª o seu juizo. Tenho sido muito desgraçado, sou, e
+se'-lo-hei sempre. A minha expiação é a vida. Mas quer-me parecer extranha a
+intenção com que v. ex.ª me procura. Posso, em breves termos, saber a sua
+missão?<span class="pn" id="pg_77" >{77}</span></p>
+
+<p>&mdash;Simples. Beatriz de Noronha não tem um irmão que lhe vingue a morte.
+Resta-lhe no mundo um amigo, com pouca vida, mas com uma vaga recordação das
+suas armas, e um braço, que póde com ellas.</p>
+
+<p>&mdash;Vem portanto, v. ex.ª desafiar-me?</p>
+
+<p>&mdash;Sim, senhor.</p>
+
+<p>&mdash;É uma pendencia melindrosa. Peço a v. ex.ª que medite tres dias.</p>
+
+<p>&mdash;Medito-a ha vinte e dois annos.</p>
+
+<p>&mdash;E crê que o derramamento do nosso sangue será agradavel á doce alma
+de Beatriz dos Anjos?</p>
+
+<p>&mdash;É.</p>
+
+<p>&mdash;V. ex.ª está influenciado por uma visão. Beatriz dos Anjos
+perdoou-me.</p>
+
+<p>&mdash;Eu não perdôo. A mim me vingo, se ella não quer vingar-se.</p>
+
+<p>&mdash;Isso é outro ponto. Muda de rosto a questão. V. ex.ª vem desafiar o
+seu antigo rival. Esqueçamos, pois, o nome da senhora morta. O nosso duello
+serve para mostrar que o ferido ou o morto era o mais digno ou indigno
+d'ella?</p>
+
+<p>&mdash;Mostrará o que fôr de sua vontade.</p>
+
+<p>&mdash;Pois bem: queira nomear-me os cavalheiros de seu lado, para eu lhe
+enviar os meus juizes e testemunhas.</p>
+
+<p>&mdash;Formalidades vans! Testemunhas, a honra. Juizes, a espada, o faim, a
+arma de sua escolha.</p>
+
+<p>&mdash;Rejeito as condições e a escolha da arma. Duvido da regularidade do
+seu juizo.</p>
+
+<p>&mdash;Ultraja-me?&mdash;bradou o Athayde em tremuras.<span class="pn"
+id="pg_78" >{78}</span></p>
+
+<p>&mdash;Não quero ultraja'-lo, senhor. Propõe-me v. ex.ª um homicidio a
+occultas de quem possa dar conta ao mundo da nossa carniceira inimisade.
+Preciso de duas pessoas que me assegurem o bom juizo de v. ex.ª, na causa do
+desafio, e nas condições propostas.</p>
+
+<p>&mdash;Em summa, não quer bater-se.</p>
+
+<p>&mdash;Entenda-o assim, se lhe apraz.</p>
+
+<p>&mdash;E sabe que desforra me fica?</p>
+
+<p>&mdash;A do insulto publico.</p>
+
+<p>&mdash;Estamos entendidos. Ver-nos-emos.</p>
+
+<p>&mdash;Quando v. ex.ª queira.</p>
+
+<p>Saíu D. Francisco de Athayde, e afadigou-se pouco em busca de Gonçalo
+Malafaya. Encontraram-se, e tiraram dos fains em presença de um numeroso
+publico, que saía da egreja dos Martyres. A pontada de Athayde vinha certeira
+ao coração de Malafaya, e resvalou ao longo da lamina do seu florete. Repetidos
+tiros de enfurecido ataque a sua mesma desordem os inutilisou. Athayde foi
+segurado por pessoas que o julgaram furioso no ataque. Gonçalo Malafaya,
+conhecido de alguns transeuntes, foi rodeado de povo, que se acotovellava para
+escutar as razões da extranha briga de dois fidalgos, como em seu exterior se
+mostravam. O portuense, ás reiteradas perguntas de conhecidos e desconhecidos,
+respondia com inuteis esforços para desentalar-se da multidão. Prosperou-lhe a
+ventura passar o corregedor do bairro do Rocio, seu amigo, de quem tomou o
+braço, e por amor de quem o povoléo lhe deu passagem.</p>
+
+<p>Este successo turvou profundamente a paz que o pae<span class="pn"
+id="pg_79" >{79}</span> de Maria Henriqueta se estava saboreando
+entre a indulgente emenda da esposa e as caricias da filha.</p>
+
+<p>Fôra grande na capital a soada do acontecimento, e explicada pelos coevos
+dos amores que levaram Beatriz á campa, e D. Francisco de Athayde á enfermaria
+dos loucos.</p>
+
+<p>Este final e logico desastre do amador infeliz succedeu poucos dias depois.
+Athayde saíu da sua modorra em accessos de furia pedindo uma victima para a
+sepultura de Beatriz de Noronha.</p>
+
+<p>Racionalmente, sua familia inferiu dos precedentes a demencia do lastimavel
+cavalheiro. Quizeram medica'-lo em casa; mas a sciencia rehabilitadora das
+razões degeneradas estava no hospital de S. José, onde foi recolhido D.
+Francisco, d'onde saíu seis mezes adiante, para o jazigo de seus maiores.</p>
+
+<p>Se aquella apaixonada e perdida alma se recobrou pela morte, quererá Deus
+que ella contemple no paraizo a bemaventurada Beatriz? Sublimes arcanos que os
+sublimes poetas, em seus malogrados arrobos, ousam descortinar! Permittisse o
+grande do céo e da terra que alguma vez a poesia d'este baixo lodo se elevasse
+á verdade eterna pelo raio da inspiração de cima!<span class="pn" id="pg_80"
+>{80}</span></p>
+
+<p><span class="pn" id="pg_81" >{81}</span></p>
+
+<h3><a name="SECTION00307">VII</a></h3>
+
+<p>Alquebrado de espirito, e suspeitoso da malquerença da sociedade,&mdash;a
+quem apiedaram as desventuras de Athayde, e erritára o proceder do amante
+ditoso de D. Beatriz&mdash;saíu de Lisboa Gonçalo Malafaya e sua mulher, com
+destino ao Porto. </p>
+
+<p>Ficou no collegio Maria Henriqueta, estudando a lingua franceza, rara prenda
+na educação das senhoras d'aquelle tempo. Prometteu o mestre dá'-la prompta no
+prazo de um anno; fiado na forte vontade e talento da discipula. Maria das
+Dôres combateu a cedencia do marido, allegando a inutilidade de falar francez
+n'uma terra onde ninguem sabia semelhante lingua. Gonçalo, porém, que se
+prezava de a saber, contradictou a esposa com victoriosas razões.</p>
+
+<p>São pouco dignas de chronica as tempestades conjugaes decorridas no anno
+seguinte. O fidalgo tinha envelhecido nos ultimos seis mezes da capital.
+Velleidades de coração, antigo pomo de discordia, essas não voltaram mais. Da
+triste sombra do amargurado homem, até<span class="pn" id="pg_82"
+>{82}</span> os convidativos prazeres do vicio iam fugindo. Os
+abysmos só se cavam aos pés de quem os anda palpando. Amores de alta sociedade,
+amores de capricho, apavoram-se das cans, e querem pugnar com robustos
+corações, e atrevidos emprehendedores, capazes de abrilhantarem o escandalo.
+Ora, Gonçalo era a viva expiação do passado, a sombra baça do palaciano, que
+vencia os rivaes com o só desprezo das praças em conquista. Viam aquelle homem
+extenuado passar abstraído hombro a hombro das suas glorias de outro tempo, e
+não as conhecer. O pasmo d'estas metamorphoses dura um dia; segue-o a
+indifferença, e bem póde ser que a derradeira phase seja a irrisão. Esqueceu,
+pois, Gonçalo Malafaya, o querido das damas, o mestre dos mancebos, o
+«perfeito-fidalgo», epitheto antonomastico, e geralmente aceite, que lhe deram
+as fidalgas edosas, que tinham visto a côrte de D. João V.</p>
+
+<p>Fechára-se, portanto, um respiradouro da contenciosa indole da sr.ª D. Maria
+das Dôres. Os outros eram menos turbulentos, ou a tolerante apathia do marido
+os supprimira temporariamente.</p>
+
+<p>Começou Gonçalo a frequentar conventos, e a palestrear com frades. O
+guardião dos franciscanos era um sabio: os oratorianos eram-n'o todos; a
+erudição do padre Theodoro de Almeida ficára largo tempo disseminada nos
+espiritos dos congregados. Por estas casas, e pela benedictina das freiras e
+dos monges, é que o transfigurado fidalgo matava o tempo, e armazenava
+pharmacopêa religiosa para, no inverno da vida, se medicar em<span class="pn"
+id="pg_83" >{83}</span> enfermidades geradas nos desvarios da
+primavera. Com freiras era menos assiduo, mas muito estimado e desejado.
+Denominavam-n'o as mysticas benedictinas «o fidalgo do milagre». Vinha a ser o
+milagre a mudança que faz o tempo e a desgraça no homem, que em si mesmo
+abrange mais milagres que todos os sabidos e contados nos credulos mosteiros
+d'aquella época.</p>
+
+<p>N'aquelle redil do Senhor tinha o patriarcha S. Bento mui formosas filhas ao
+começo d'este seculo. Vinham ellas algumas vezes á grade cumprimentar o fidalgo
+do milagre, e ouvi'-lo discorrer em cousas do céo e da terra, ditas com tanta
+unção e graça que nenhuma noviça ou freira nova as ouviu, que se não sentisse
+mais conformada com a religião. E, tanto era assim, que já soltava a intriga
+suas rasteiras serpes por entre as florinhas d'aquelles innocentes affectos. Se
+o fidalgo chamava umas religiosas e esquecia outras, glosava-se o successo com
+extranhos inventos, mas perdoaveis todos como desvios de espiritos frivolos
+dentro dos limites da candura monastica.</p>
+
+<p>Recebia Gonçalo amiudados presentes de S. Bento, gulosinas fabricadas ou
+enfeitadas por mãos de anjos.</p>
+
+<p>D. Maria das Dôres, quando esta novidade freiratica lhe entrou por casa em
+bandejas de prata, não fez d'ella grande cabedal para altercar; mas, com a
+repetição dos mimos, e a certeza de que seu marido, em vez de entrar no
+convento dos congregados, torcia para o pateo das freiras bentas, bafejou-lhe o
+seu demonio meridiano, e ahi começou ella a averiguar quem fosse a freira
+perturbadora<span class="pn" id="pg_84" >{84}</span> da sua paz.
+Deram em resultado as averiguações que eram todas, excepto as entrevadas, as
+religiosas bemquistas de seu marido, desde a garrula noviça até á gottosa
+abbadessa.</p>
+
+<p>Soou a temerosa trombeta da discordia, assoprada innocentemente pela
+communidade benedictina.</p>
+
+<p>&mdash;Que andas tu a fazer por S. Bento, Gonçalo?! Deste agora em
+freiratico?&mdash;perguntou entre grave e ironica a sr.ª D. Maria das Dôres.</p>
+
+<p>&mdash;Vou por alli espairecer algumas horas. Como sabes tenho alli parentas
+e velhas amigas. Na mocidade não as visitava, senão de longe a longe; agora que
+somos velhos todos, bom é que nos vamos despedindo na ante-camara da sepultura.
+</p>
+
+<p>&mdash;E só procuras as velhas, primo?</p>
+
+<p>&mdash;Não, prima Maria das Dôres. Ha por lá umas senhoras novas filhas de
+amigos velhos, que me fazem a honra de me visitar na grade.</p>
+
+<p>&mdash;Coitadinhas! e são umas santas: não é verdade?</p>
+
+<p>&mdash;Deus sabe se ellas são santas: eu sei apenas que são excellentes
+creaturas.</p>
+
+<p>&mdash;Tu gostaste sempre muito das excellentes creaturas!...</p>
+
+<p>E n'este ponto, a sr.ª D. Maria das Dôres fez uma longa resenha de senhoras
+que seu marido achára excellentes creaturas; depois, fechado o catalogo não
+breve nem de todo imaginativo, espirrou uma risada aspera, que feriu
+desagradavelmente o tympano do marido.<span class="pn" id="pg_85"
+>{85}</span></p>
+
+<p>Ergueu-se Gonçalo e saíu murmurando:&mdash;<em>Amplius, amplius,
+domine!</em> que em linguagem quer dizer: <em>Ainda mais, ainda mais,
+Senhor!</em> como quem dizia que viesse do céo mais fel para o seu calix,
+pequeno para tamanhas culpas.</p>
+
+<p>N'aquella tarde foi o fidalgo conversar com o guardião dos franciscanos,
+politico de vasto alcance, e propheta da proxima invasão franceza. Tinha o
+santo varão a gazeta de Lisboa que, em suas apreciações, era a epigraphe de
+sumarentos discursos ácerca da liberdade, da politica europêa e de Napoleão.
+Escutava-o Gonçalo aprazivelmente e maravilhava-se de tanta sciencia sob tão
+humilde habito.</p>
+
+<p>Recolhendo a casa, alheado em combinações de politica fradesca, encontrou
+sua mulher amuada e colorida de certa amarellidão, presagio infallivel de
+tormenta. Uma palavra azada bastou para se conflagrar em relampagos e coriscos
+de colera, espectaculo em que a paciencia do pobre homem se empedrou de susto.
+Fugiu para o seu quarto, e de lá fitava o ouvido á trovoada que reboava fóra.
+</p>
+
+<p>Deixou de ir a S. Bento o «fidalgo do milagre». As senhoras escreviam-lhe a
+miudo, ou mandavam os capellães cumprimenta'-lo. Em uma das cartas de saudação
+assignavam-se cinco freiras exemplarissimas. Foi Maria das Dôres, quem, ausente
+o marido, abriu, por acinte, a carta. Leu-a, e escreveu debaixo das
+assignaturas:</p>
+
+<p>«Não sejam tolas. Vão rezar. Tenham juizo. E, se<span class="pn" id="pg_86"
+>{86}</span> não teem que fazer, façam camisas para os pobres, que
+é isso o que faziam as antigas congregações de monjas benedictinas.»</p>
+
+<p>E devolveu a carta.</p>
+
+<p>As santas senhoras, quando tal viram, choraram muitas lagrimas; mas não me
+consta que fizessem camisas aos pobres, cousa que me parece desnecessaria á
+salvação.</p>
+
+<p>Alguma das cinco signatarias, menos paciente, ou amiga de deslindar meadas
+em que andava embelinhada a sua fama, escreveu a Gonçalo contando o succedido.
+Foi-lhe a carta entregue na rua por uma servente do mosteiro.</p>
+
+<p>Ficou tranzido o fidalgo; mas, reparando com mais tento na escripta de sua
+prima, mal pôde suster o riso provocado pelo conselho de fazerem camisas para
+os pobres. É muito bom ter graça ás vezes. Gonçalo perdoou a imprudencia á
+mulher pelo pico de sal que achou. E, continuando a meditar no successo,
+quiz-lhe parecer que andára menos evangelicamente a freira denunciante da
+indiscrição de sua mulher.</p>
+
+<p>Certa a esposa de que seu primo deixára de frequentar grades, e vendo que
+lhe faltava pedra onde mordessem os arpéos da sua indole, deixou-se ir em mar
+de leite, afagando, a seu modo, as tristezas do marido e ralhando com os servos
+para entreter o vicio, e com o capellão que continuava a benzer-se.</p>
+
+<p>Passou o anno aprazado para a vinda de Maria Henriqueta. Alvoroçou-se o pae
+em preparativos de jornada,<span class="pn" id="pg_87" >{87}</span>
+e D. Maria quiz acompanhá-lo, e foi, vencida curta resistencia.</p>
+
+<p>Já a menina traduzia correntemente o idioma francez, e o pronunciava mais
+correcto que o pae. Pediu ella com muito encarecimento que a deixasse ficar
+mais um anno para estudar o inglez. Foi este o primeiro caso em que as opiniões
+dos paes se harmonisaram, negando a licença. Chorou a menina como quem fazia
+consistir a sua felicidade na lingua ingleza; Gonçalo, porém, tão caprichosas
+achou as lagrimas, que nem sequer curou de enxuga'-las com caricias.</p>
+
+<p>Maria das Dôres, de si pouco fagueira, consolou-lh'as com estas e outras
+asperezas:</p>
+
+<p>&mdash;Não se envergonha de chorar uma senhora de dezenove annos! Estás bem
+aviada comigo, se tens assim as lagrimas á bica para qualquer contrariedade!
+Ahi está o que vem a ser educação de collegio! Muito mimo, um pouco de cravo, a
+lingua franceza, bordar a matiz, e chorar por dá cá aquella palha! Bonita
+educação, não tem duvida!</p>
+
+<p>&mdash;Está bom!&mdash;disse Gonçalo com mansidão.&mdash;Excedes-te nas
+grandes e nas pequenas cousas. Não queremos que Maria Henriqueta estude inglez:
+está dito tudo.</p>
+
+<p>&mdash;Então achas bonita aquella choradeira!</p>
+
+<p>&mdash;É uma creancice que não merece discussão. D'aqui a dias já ella se
+não lembra de inglez, nem mesmo sabe para que aprendeu o francez. Em summa,
+Maria Henriqueta, precisamos de ti, e tu hoje precisas mais de nós<span
+class="pn" id="pg_88" >{88}</span> que de mestres. Se tua mãe
+quizer iremos no anno que vem, se as guerras tiverem acabado, visitar as
+capitaes de França e de Hespanha. Estudaste nos livros; agora é bom que estudes
+nas magnificencias da arte e do engenho humano. Gostas do meu plano?</p>
+
+<p>&mdash;Gosto do que quizerem que eu goste&mdash;respondeu carrancuda Maria
+Henriqueta. </p>
+
+<p>O pae encarou n'ella com tristeza, e disse no mais recondito de sua alma:
+«Vê-se que foi creada sem mãe, mãe pelo carinho, e pelo castigo. Emquanto a
+teve, observou os conflictos das desordens de todas as horas, e ganhou o
+contagio das asperezas de genio. Depois, seguiu-se o apartamento dos naturaes
+afagos e das censuras mesmo doces quando castigam. Tem gosado sempre louvores
+mercenarios, e extranha que a contrariem seus paes...»</p>
+
+<p>Em quanto Gonçalo cogitava n'estas e n'outras razões, Maria das Dôres
+discorria pelo theor das suas iracundas apostrophes. A filha fugiu de
+encara'-la, e torcia os alamares do roupão, com simulada impaciencia.
+Interveio, segunda vez, o pae nas desmedidas invectivas da mulher, e ficou
+Maria Henriqueta como vexada de se baldarem suas lagrimas, e como aterrada do
+seu futuro.</p>
+
+<p>Do seu futuro! Mal sabia ella que infinito de lances se encerra na palavra
+<em>futuro</em>!</p>
+
+<p>Gonçalo Malafaya, a sós, com as suas previsões sinistras, dizia assim no
+esconderijo do seu quarto e de sua consciencia:<span class="pn" id="pg_89"
+>{89}</span></p>
+
+<p>&mdash;A minha desgraça está em meio caminho. Envelheci a soffrer quando
+minha filha começa a viver para me prolongar o martyrio até á decrepidez! Alli
+está uma filha de Maria das Dôres! Deixei-a sósinha com a natureza, não pude
+corrigir-lhe as propensões: hei-de agora luctar com o genio de ambas, azedado
+pela discordia em que vão viver. Como hei-de ser justo, se forem ambas
+injustas? O que fará a raiva e o desespero no coração insoffrido de minha
+filha? Porque é, meu Deus, que eu fiava o bem-estar da minha velhice dos
+carinhos de Maria Henriqueta?</p>
+
+<p>Proseguiam as meditações de Gonçalo, quando sua mulher lhe entrou de golpe
+no quarto, e disse com sobresalto:</p>
+
+<p>&mdash;Não sabes, primo Gonçalo?</p>
+
+<p>&mdash;O quê?</p>
+
+<p>&mdash;Estou espantada!</p>
+
+<p>&mdash;Que é? Fala...</p>
+
+<p>&mdash;Cheguei casualmente a uma janella, e vi... Santo Deus!</p>
+
+<p>&mdash;Que viste?!&mdash;exclamou Gonçalo, erguendo-se.</p>
+
+<p>&mdash;Vi Maria Henriqueta na janella do seu quarto...</p>
+
+<p>&mdash;Isso que tem de extraordinario?!</p>
+
+<p>&mdash;Tem muito! Não me interrompas! Vi-a lançar á rua uma carta, e vi um
+militar apanha'-la.</p>
+
+<p>Gonçalo sentou-se como desfallecido. Levou as mãos á fronte, que previa suor
+de afflicção. Ouviu longo tempo os commentarios de sua mulher, e com grande
+esforço, disse:<span class="pn" id="pg_90" >{90}</span></p>
+
+<p>&mdash;Peço-te encarecidamente que te cales, Maria! Nem uma palavra a
+tal respeito. Faz de conta que não viste nada. Sê prudente, se me desejas vida
+a mim, e honestidade a tua filha...</p>
+
+<p>Maria das Dôres murmurou apenas:</p>
+
+<p>&mdash;Entendam lá o que diz elle na sua!... Boa maneira de velar a
+honestidade de uma filha!...</p>
+
+<h3><a name="SECTION0030710">FIM DA PRIMEIRA PARTE</a></h3>
+
+<p><span class="pn" id="pg_91" >{91}</span></p>
+
+<h2><a name="SECTION00400">SEGUNDA PARTE</a></h2>
+
+<h3><a name="SECTION00401">I</a></h3>
+
+<p>Não fôra o anhelo de saber linguas que ensinára a Maria Henriqueta a
+fagueira eloquencia com que venceu o pae, e conseguiu estudar francez. Deus
+sabe com que repugnancia ella decorava as declinações e os verbos, e com que
+enfados velava as noites para dar lições diarias, com applauso do mestre.
+Cuidava a educanda que, fazendo prodigios no conhecimento do francez
+conseguiria do pae licença para deter-se mais um anno em Lisboa, com o ensino
+de outro idioma.</p>
+
+<p>Vamos á explicação natural d'estas maravilhas de estudo e sede de saber.</p>
+
+<p>Desde os seus quinze annos que Maria se inclinára aos sorrisos de um cadete
+de cavallaria, galhardo mancebo de cabellos louros, cintura fabulosa, e
+maneiras de summa elegancia.<span class="pn" id="pg_92"
+>{92}</span></p>
+
+<p>Era o cadete da provincia de Traz-os-Montes, filho segundo de uma nobre casa
+de Mirandella, aparentado com illustes familias de Entre-Douro e Minho e
+chamava-se elle Filippe Osorio Guedes da Fonseca. Abundavam ao moço as sobras
+de sua mezada, e converteu-as todas ao seu noviciado de amor. Primeiro alliciou
+a creada do collegio para receber as cartas da mão do creado, alliciado tambem.
+A educanda correspondeu á fogosa e sincera declaração do amante, com os mais
+apaixonados termos, que lhe ensinou uma companheira mais velha e já
+experimentada nas excellencias do estylo epistolar.</p>
+
+<p>O cadete, não satisfeito plenamente com as cartas, alugou, na visinhança do
+collegio, um andar de casas, que tinham saguão commum e janellas fronteiras.
+Maria, sabedora do expediente amoroso do moço querido, classificou o feito de
+suprema prova de amor, e deliciou-se em embriaguez de ternura n'aquelles vagos
+anceios dos dezeseis annos, que tanto levantam a mulher a foros de anjo, como
+dão com ella em razo, desenfeitada de todos os prestigios.</p>
+
+<p>Não era para isso o amor de Filippe Osorio. Amavam-se como duas creanças
+pela innocencia do seu amor, e como dois noivos pelo alcance de suas
+esperanças. Era o enlevo a subi'-los ao céo, e o instincto a baixa'-los á
+terra. Mas que instinctos tão humanos, tão legaes, tão christãos! Casarem-se!
+Companheiros de uma longa vida, começada em duas formosas e explendidissimas
+primaveras! Que bonitos amores, e quem nos dera a todos nós amar assim vinte
+vezes na vida!<span class="pn" id="pg_93" >{93}</span></p>
+
+<p>Deu fé a directora do collegio do namoro. Admoestou suavemente Maria
+Henriqueta, e a candida menina respondeu-lhe;</p>
+
+<p>&mdash;Olhe, minha senhora, leia as cartas de Filippe; eu lh'as leio todas,
+se quer!...</p>
+
+<p>A directora montou os oculos, e leu, com admiravel pronuncia e conhecimento
+de toada dramatica, um massete de cartas, que era um coração em prosa!</p>
+
+<p>Em uma das primeiras dizia elle quem era, o seu nome, o nome de seus avós,
+os seus parentes, o seu destino, os seus anhelos á gloria, a sua gloria de ser
+amado. Vinha portanto Filippe Osorio a ser um dos primeiros nobres de uma
+provincia, e um dos mais finos amantes do globo.</p>
+
+<p>A directora dobrou as fartas hastes dos oculos, embocetou-os, escutou o
+oraculo de uma pitada de esturrinho, e disse;</p>
+
+<p>&mdash;Mas seu pae não a mandou para aqui com o intento de a menina arranjar
+marido. Concordo nas boas intenções do seu joven namorado; mas é necessario que
+seu pae concorde n'ellas.</p>
+
+<p>&mdash;Mas que precisão tem meu pae de ser chamado já para isto, que é um
+brinquedo? Se algum dia eu me resolver a ser esposa de Filippe, então
+consultaremos meu pae, e eu farei o que elle ordenar.</p>
+
+<p>Ouviu a directora um amigo antigo da casa, homem maduro e previdente. O
+consultado respondeu:</p>
+
+<p>&mdash;Deixe divertir-se a pequena, minha senhora. Namorar n'aquella edade é
+como abrirem-se as flores em<span class="pn" id="pg_94"
+>{94}</span> abril. (Sobre ser amigo da casa, era o sujeito o poeta
+dos annos da familia). Se avisam o pae, sabe o que acontece? É elle tira'-la de
+cá, e a senhora perde trezentos mil réis annuaes que recebe, afora os presentes
+dos presuntos, dos chouriços, dos paios e das murcellas de Arouca: Minha
+senhora! tome o meu conselho. Emquanto a janella do visinho não atravessar o
+saguão, e se lhe metter em casa, deixe-os conversar, deixe-os perfumar os ares
+com a recendencia dos seus innocentes amores.</p>
+
+<p>Silvou uma pitada a matrona, e disse:</p>
+
+<p>&mdash;Tambem me parece... a janella cá não entra, sem ser por arte
+magica.</p>
+
+<p>&mdash;Tambem me parece&mdash;redarguio o amigo da casa&mdash;e a magia é
+uma mentira... </p>
+
+<p>&mdash;Isso é conforme, meu caro amigo! A gente tem visto cousas!...</p>
+
+<p>E ficaram n'isto, porque um e outro tinham visto cousas admiraveis em magia
+no theatro do Bairro Alto, no da rua dos Condes, e mesmo fóra do theatro.</p>
+
+<p>Continuaram os doces colloquios. Nunca tão immaculada paixão se nutriu de
+puros desejos através de dois, tres, quatro, cinco annos.</p>
+
+<p>Filippe, no decurso d'este tempo, foi promovido a alferes e já ostentava as
+divisas de tenente de cavallaria, quando D. Maria das Dôres o viu levantar a
+carta.</p>
+
+<p>Tudo o mais que eu dissesse para esclarecer o mysterioso desejo de linguas,
+que Maria Henriqueta exprimia com lagrimas, seria uma impertinencia.<span
+class="pn" id="pg_95" >{95}</span></p>
+
+<p>Agora sabem o porquê d'aquelles prantos, e digam-me se ella não tinha rasão,
+amante cinco annos, cinco annos embalada pela esperança de cada noite, ditosa
+pela realidade querida de cada dia, afeita áquelles olhos negros, áquelles
+cabellos louros, áquella melodia de palavras, que pareciam cantadas a um arpejo
+de anjos! Nunca ninguem chorou com mais amargura intima, penso eu!</p>
+
+<p>Se ella dissesse ao pae que amava Filippe!... Porque lh'o não disse? Porque
+se não confessou em tão innocente culpa?</p>
+
+<p>Não o saberei eu bem dizer. Um instincto adivinhador do animo paterno? Não.
+Foi uma razão menos nebulosa. É que o pae lhe havia dito um anno antes: «Eu
+medito em te casar com um dos primeiros titulares da provincia; é um conde,
+minha filha, não mais nobre que nós, mas egualmente antigo, e... conde! Com que
+legitima soberba te verei condessa, minha filha!...</p>
+
+<p>Maria Henriqueta ouviu em alvoroço, e disfarçava a dôr da lançada com um
+sorriso. Notou o pae que ella se purpureava; e disse entre si: «como o pudor é
+lindo!»</p>
+
+<p>A carta expedida pela janella, devia ser um partir-se o coração de lê'-la.
+Despedia-se Maria de Filippe Osorio, emprazando-o para encontrar-se com ella no
+céo, a não querer elle commetter algum desesperado arrojo que a salvasse.</p>
+
+<p>Houve-se com ella de modo o pae, que nem uma só palavra equivoca lhe disse.
+D. Maria das Dôres, incapaz de reprimir-se, alguns remoques aventurou,
+provocando-a<span class="pn" id="pg_96" >{96}</span> a revelações
+que ella não fez. Como a casual chegada da mãe á janella lhe foi despercebida,
+Maria Henriqueta deu pouco valor a umas ironias, que de leve lhe apalpavam o
+seu segredo.</p>
+
+<p>Triste como a saudade sem desafogo, entrou Maria no sombrio palacio de seu
+pae. Em redor de si eram tudo cortezãos enjoativos, fidalgos de muita edade,
+perguntando-lhe se vira D. Carlota Joaquina, e meninas de sua edade, que se
+agrupavam a um lado ciciando segredinhos, allusivos ao ar enfatuado de Maria,
+com o que, de puro respeito, se estavam sorrindo.</p>
+
+<p>Concorria tudo, pois, a exasperar a tristeza da morgadinha. As mesmas
+caricias do pae a enfastiavam; o semblante aspero da mãe recordava-lhe os
+repellões que soffrera em menina, e os annos dourados que deixára no collegio.
+Saltavam-lhe involuntarias as lagrimas dos olhos, em presença das familias que
+a visitaram, em todas as noites da primeira semana. Fugia das salas,
+encerrava-se no seu quarto, e rompia em gritos, em que a irritabilidade nervosa
+tinha maior acção. As noites desvelava-as a lêr as cartas de Filippe, escriptas
+em cinco annos. Estas leituras, longe de socegar-lhe o animo, aguilhoavam-n'a a
+impetuosos transportes do leito para as janellas, sorvendo a anciados haustos o
+ar da noite. Sentava-se constrangida á mesa, e raro alimento aceitava da mão
+carinhosa do pae. Pedia frequentes licenças para levantar-se, e buscava, em
+secreto, o seio de sua ama, para chorar com desafogo, falando em Filippe.</p>
+
+<p>Em nome da ama vinham as cartas d'elle. Digno de<span class="pn" id="pg_97"
+>{97}</span> tanto amor nenhum outro homem o seria mais. Atrevia-se
+de frente com as difficuldades, e promettia-lhe a redempção, se ella
+permanecesse constante. O seu primeiro triumpho consistia em conseguir passagem
+do seu regimento para a guarnição do Porto. Era concessão difficil, n'aquelle
+tempo em que o prospecto de proxima guerra punha em sobresalto conselheiros da
+corôa, que só curavam de organisar o exercito. Venceu o moço, com o patrocinio
+de poderosos amigos de seu pae, os obstaculos da transferencia, e avisou Maria
+Henriqueta, marcando-lhe o dia de sua chegada ao Porto.</p>
+
+<p>Cobrou animo a menina, já enferma, e apostada a morrer. A vida do coração
+radiou a todos os órgãos exanimes e desconcertados. Nem mesmo o estomago foi
+extranho áquella festa das visceras.</p>
+
+<p>Maravilhou-se da mudança o pae; e Maria das Dôres ficou de sobreaviso para
+espionar o motivo de tão breve como extranha conformidade.</p>
+
+<p>Gonçalo, menos atilado ou malicioso que sua mulher, attribuiu a mutação á
+ordem natural das cousas e das pessoas. «Maria Henriqueta
+esqueceu-se&mdash;dizia elle á consorte suspeitosa e incredula.&mdash;São assim
+as mulheres em geral e o coração gasta-se como tudo que é susceptivel de
+consumpção.» O philosophico entono com que o aphorismo foi atirado á circulação
+das idéas, não impressionou vivamente D. Maria, que era uma senhora de mean
+habilidade para digerir a sciencia occulta dos aphorismos.</p>
+
+<p>No dia anterior ao da chegada de Filippe Osorio, annunciou<span class="pn"
+id="pg_98" >{98}</span> Gonçalo a sua filha a visita do conde de
+Monção, inquerindo ella a causa do grande reboliço que ia em casa com a
+innovação de tapetes, de cortinados, e de moveis, chegados da capital.</p>
+
+<p>&mdash;Vem ser nosso hospede alguns dias;&mdash;accrescentou o
+pae&mdash;Cuida tu, minha filha, em tirar dos bahús os teus melhores vestidos e
+enfeites para que elle, n'um relance de olhos, conheça em ti uma senhora
+educada na côrte. Pódes falar-lhe em francez, que elle viveu em Pariz. Verás
+que homem de côrte, que ar de quem tratou face a face com Luiz XVI e com Maria
+Antoinette! Feliz serias se, como creio que ha-de succeder, lhe tocasses o
+coração!</p>
+
+<p>&mdash;Eu!... disse Maria com tregeito de espantada.</p>
+
+<p>&mdash;Tu, sim, minha filha!&mdash;respondeu o pae, cuidando que o espanto
+era a natural expressão de quem se julgava indigna de tão egregio
+esposo&mdash;Não te disse eu, ha um anno, que projectava casar-te com um
+conde?</p>
+
+<p>&mdash;Disse, meu pae.</p>
+
+<p>&mdash;Então, já vês que me não esqueci da promessa. Favor, em ligar-se á
+nossa estirpe, não me faz nenhum. A sua origem foi a nossa. Todos viemos da
+Cantabria; procedemos todos dos heroes de Covadonga, capitaneados por Pelagio.
+Alli se ajuntaram as reliquias dos reis godos, e d'essas são oriundas as nossas
+familias, posto que seus avós fossem meros fidalgos acantoados em seus solares
+quando de Hespanha veio a infeliz rainha Ignez de Castro, de um ramo da commum
+arvore que bracejou mui honradas e nobilissimas frondes por Castella.<span
+class="pn" id="pg_99" >{99}</span></p>
+
+<p>Maria Henriqueta não ouvia nada d'estas maravilhas. Estava como morta nos
+sentidos exteriores.</p>
+
+<p>Gonçalo exclamou com affectuosa vehemencia:</p>
+
+<p>&mdash;Tu descóras, Maria!? Que tens? Desagrada-te o meu plano!?
+Responde...</p>
+
+<p>Não respondeu, nem desmaiou.</p>
+
+<p>Sacudiu-a com brandura o pae, tomando-a para o seio, e osculando-a na
+fronte.</p>
+
+<p>&mdash;Fala, minha filha! Que sentes tu?</p>
+
+<p>Maria pôde falar, quando os soluços lhe desembargaram a voz, e disse:</p>
+
+<p>&mdash;Lembre-se, meu pae, do seu casamento. Queira a minha felicidade...</p>
+
+<p>&mdash;Pois não quero, filha? Que maior prova posso dar-te que esta? Cuidar
+em fazer-te condessa de Monção!...</p>
+
+<p>&mdash;Não posso acceitar tal marido, meu pae...</p>
+
+<p>&mdash;Não pódes?!&mdash;atalhou, em tom menos suave.</p>
+
+<p>&mdash;Não posso ama'-lo... e não amar um esposo deve ser a maior das
+desgraças...</p>
+
+<p>Maria das Dôres entrou n'este momento, e ouviu as ultimas palavras da filha,
+que tremeu ao ve'-la.</p>
+
+<p>&mdash;E como sabes tu que não hasde amar o conde, se o não viste
+ainda?!&mdash;replicou o pae.</p>
+
+<p>&mdash;Sei que me é impossivel ama'-lo... Póde ser um anjo do céo, que eu
+não o amarei... Casar sem affecto, meu pae, sacrificar-me por toda a minha
+vida, estando eu tão nova, deve ser muito triste. Antes um mosteiro; eu de boa
+vontade professo, e me irei esconder<span class="pn" id="pg_100"
+>{100}</span> e penar como filha desobediente; mas não me obriguem
+a casar, que eu tenho animo para me matar no dia seguinte.</p>
+
+<p>&mdash;Tens razão, filha!&mdash;exclamou Maria das Dôres&mdash;Tens razão!
+Casamentos á força, em quanto eu fôr viva, não os tolero na minha casa. O homem
+vem ahi ámanhã. Se gostares d'elle, e elle gostar de ti, casem-se; se não,
+passe por lá muito bem o snr. conde, e tu deixa-te estar, que estás bem na tua
+casa.</p>
+
+<p>&mdash;Que conselhos maternaes são esses, prima Maria das
+Dôres!&mdash;interrompeu Gonçalo.</p>
+
+<p>&mdash;São conselhos, que minha mãe me não deu, primo Gonçalo. Repito: Maria
+Henriqueta não hade casar obrigada. Minha mãe, á hora da morte, pediu-me perdão
+de me ter obrigado a casar; e eu não quero nem heide pedir o mesmo perdão a
+minha filha.</p>
+
+<p>&mdash;Temos uma grande lucta, Maria das Dôres!&mdash;exclamou o marido.</p>
+
+<p>&mdash;Pois luctaremos&mdash;respondeu ella, esgrimindo com os braços e com
+a cabeça.&mdash;Maria Henriqueta! tu tens por ti a razão, e tua mãe... Veremos
+de quem é a victoria.</p>
+
+<p>&mdash;Eu não queria que meus paes se indispozessem por minha
+causa&mdash;atalhou a menina&mdash;O que peço a ambos é que me queiram na sua
+companhia, e me deixem gosar o resto da minha mocidade. Sinto-me aqui feliz;
+para que heide eu ir procurar a felicidade onde eu sei que ella não está?</p>
+
+<p>&mdash;Maria!&mdash;tornou severamente Gonçalo&mdash;Eu sei que<span
+class="pn" id="pg_101" >{101}</span> saíste de Lisboa apaixonada.
+Calei-me, cuidando que o teu brinquedo ficaria por lá esquecido com os
+devaneios da mocidade; e calei-me porque um pae deve fingir-se extranho a
+creancices sem resultado. Agora vejo que é grave o teu desvario, e aceito a
+obrigação de t'o corrigir. Vamos a perguntas, que te devia ter feito. Quem é o
+militar, que levantou da calçada uma carta lançada por ti?</p>
+
+<p>Respondeu Maria passando da pallidez ao escarlate, e vibrando toda n'uma
+convulsão afflictiva.</p>
+
+<p>&mdash;Responda, senhora!&mdash;repetiu o pae com o aspecto mal
+assombrado.</p>
+
+<p>&mdash;Responde, Maria Henriqueta, diz a verdade&mdash;ajuntou a mãe, em tom
+de mansidão, e modos protectores.</p>
+
+<p>Maria murmurou:</p>
+
+<p>&mdash;Era um tenente de cavallaria... Chama-se Filippe Osorio Guedes da
+Fonseca... É de Mirandella, e é fidalgo...</p>
+
+<p>Gonçalo expediu uma casquinada de riso, e disse:</p>
+
+<p>&mdash;Fidalgo!... tenente de cavallaria!... fidalgo de
+Mirandella!&mdash;quem são n'este mundo os Fonsecas de Mirandella?... Hei de
+perguntar por isso ao meu mordomo de Lamego, que é de Mirandella, e chama-se
+Melchior Fonseca. Precisamente é tio do sr. Filippe, tenente de
+cavallaria!...</p>
+
+<p>E deu segunda casquinada, com uns tregeitos mal cabidos nos seus nobres
+ademanes.</p>
+
+<p>Maria das Dôres não ria; nem via com bons olhos os sarcasmos do marido. Por
+espirito de contradicção, ou<span class="pn" id="pg_102"
+>{102}</span> por pena da filha, tomou-a pelo braço, e disse-lhe:
+</p>
+
+<p>&mdash;Vem d'ahi, Maria Henriqueta.</p>
+
+<p>&mdash;Onde a leva? disse irritado o marido.</p>
+
+<p>&mdash;Onde hei de eu leval'-a?&mdash;redarguiu a esposa na mesma
+entonação.</p>
+
+<p>&mdash;Quero que ella me responda!</p>
+
+<p>&mdash;Pois faça-lhe as perguntas com geito e modos. Que quer perguntar-lhe?
+Vamos, ella aqui está para responder. Diga lá.</p>
+
+<p>&mdash;Tudo que tenho a dizer&mdash;retorquiu Gonçalo Malafaya exasperado
+contra mãe e filha&mdash;é que eu defendo a honra dos meus, e deixo de ser pae,
+quando é necessario ser juiz.</p>
+
+<p>&mdash;Não quer mais nada?&mdash;concluiu D. Maria das Dôres.&mdash;Anda
+d'ahi, menina!</p>
+
+<p>E saíram. Maria Henriqueta, com os olhos turvos de lagrimas, mal via o chão
+que pisava.</p>
+
+<p>Gonçalo atirou-se sobre um canapé, e exclamou:</p>
+
+<p>&mdash;Castigado até ao fim! Nem a submissão d'esta filha que eu amo
+tanto!... É de mais, ó meu Deus!</p>
+
+<p>Entraram os creados a pedir ordens para a localisação das alfayas vindas da
+capital. Gonçalo saltou enfurecido do canapé com as mãos enclavinhadas nos
+cabellos, e exclamou:</p>
+
+<p>&mdash;Peguem incendio a esta casa, e morra eu dentro della!</p>
+
+<p>Os servos fizeram pé atraz e encontraram, ao saírem espavoridos, o capellão,
+que se estava persignando, com os olhos postos no tecto, á mingua de céo.<span
+class="pn" id="pg_103" >{103}</span></p>
+
+<h3><a name="SECTION00402">II</a></h3>
+
+<p>Era aquelle o dia em que devia entrar no Porto o conde de Monção. As
+carruagens da fidalguia, convidada por Malafaya a esperar o seu illustre
+hospede, estacionaram á porta do palacio, condemnado ás chammas, esperando que
+o dono descesse. Gonçalo, quando a parentella ia entrando, compoz o semblante,
+vestiu-se a primor, e saíu a entrar na sua melhor equipagem. Era tarde para
+sacudir a carga, que tão vaidosa e jubilosamente tomára.</p>
+
+<p>O conde vinha pela estrada de Coimbra, onde passára alguns dias, visitando
+quintas suas nos arrabaldes d'aquella cidade. A comitiva chegou aos Carvalhos e
+esperou.</p>
+
+<p>Era o conde de Monção um fidalgo creado em côrtes, e conhecido nas
+extrangeiras; mas, em todas, o mais graduado titulo de sua recommendação era a
+tolice, o dom de engranzar parvoiçadas, que relevavam de chiste por serem ditas
+n'uma algaravia de linguas, só perceptiveis por alguns vocabulos irrisoriamente
+pronunciados. Fôra menos exacto, ou nimiamente credulo Gonçalo<span class="pn"
+id="pg_104" >{104}</span> Malafaya, dizendo que o conde de Monção
+sabia falar francez, por ter estado em França. O conde era refractario aos
+idiomas, e com o seu, propriamente, andava tão desavindo, que os fidalgos de
+Lisboa não o entendiam melhor que os de Pariz. A visinhança de Galliza, que
+defronta com Monção, introduzira na linguagem familiar do conde muitos termos
+espurios, cuja versão fiel só os aguadeiros de Lisboa podiam faze'-la
+competentemente. Galhofavam d'elle muito na côrte as damas e os moços
+intolerantes. A mim me quer parecer que a pecha de agallegados, que os de
+Lisboa gratuitamente nos põem, data das visitas do conde áquella cultivissima
+terra, que tem lá tambem os seus dizeres ridiculos, mas no proferi'-los vae
+tanta graça e tal affectação que não ha ahi cousa que mais diga!</p>
+
+<p>Saía o conde de Coimbra em direitura ao Porto, quando ouviu tropel de
+cavallos que o seguiam. Olhou, e viu um cavalheiro com insignias militares,
+acompanhado de seu lacaio. Ao perpassar por elle o açodado cavalleiro,
+perguntou-lhe o conde:</p>
+
+<p>&mdash;Vae para o Porto?</p>
+
+<p>&mdash;Sim, senhor.</p>
+
+<p>&mdash;Então podemos ir de camaradas.</p>
+
+<p>&mdash;Com o maior prazer, se o cavalheiro esporear o seu bello alazão.</p>
+
+<p>&mdash;Se não é mais do que isso, ahi vamos&mdash;disse o conde, atirando o
+acicate aos ilhaes do cavallo.</p>
+
+<p>Filippe Osorio riu-se d'aquelle verbo&mdash;<em>vamos</em>, se é que Filippe
+Osorio podia rir.<span class="pn" id="pg_105" >{105}</span></p>
+
+<p>Praticaram largamente n'aquelle dia de jornada, sobre diversos assumptos. As
+damas tiveram grande parte, como de direito deviam ter, nas palestras dos
+cavalleiros. Dizia o conde que as francezas tinham grande pancada na mola, e as
+inglezas costumavam cheirar os homens de longe, antes de lhes apertarem a mão.
+O tenente de cavallaria aventou logo que falava com um inepto, e cavou
+solicitamente na materia em que elle mais necedades dizia. Se alguma vez o
+conde revelou intervallo lucido de sensatez, foi quando disse que as senhoras
+do Porto eram muito formosas. Mencionou as que conhecia, e ajuntou que ia
+hospedar-se em casa de uma, cujo retrato possuia em marfim, e que era a mais
+linda mulher que seus olhos enxergaram na Europa. Proseguiu no mesmo theor
+esperando que o seu companheiro lhe perguntasse quem era a mulher mais linda da
+Europa; mas Filippe tão abstraído ia que nem a curiosidade o espertou.</p>
+
+<p>&mdash;O meu nobre amigo, disse o conde arrebentando por dizer o nome da
+dama, talvez tenha ouvido falar na familia dos Malafayas...</p>
+
+<p>&mdash;Tenho...&mdash;disse Filippe, empertigando-se na sella, como se uma
+barra de ferro lhe batesse no peito.</p>
+
+<p>&mdash;Tem? pois a menina de que lhe falo é d'esta familia.</p>
+
+<p>&mdash;Conheço um fidalgo chamado Gonçalo Malafaya.</p>
+
+<p>&mdash;Sem tirar nem pôr. É o pae d'ella.</p>
+
+<p>&mdash;Pae d'ella!... Como veio ás suas mãos o retrato de...<span class="pn"
+id="pg_106" >{106}</span></p>
+
+<p>Susteve-se Filippe tão bruscamente, que só o conde de Monção deixaria de
+notar as perturbadas perguntas de companheiro.</p>
+
+<p>&mdash;O retrato d'ella mostrou-m'o o pae, aqui ha um anno, quando veio de
+Lisboa, onde a mandou pintar. De mais a mais, a menina foi lá ensinada n'um
+collegio, e fala o francez perfeitamente.</p>
+
+<p>Filippe, com quanto alvoroçado, estava longe de presentir o desfecho de taes
+revelações, e proseguia no inquirimento d'ellas para se recrear falando de
+Maria, quando mais não fosse.</p>
+
+<p>&mdash;Mas,&mdash;insistiu elle&mdash;com que fim o sr. Gonçalo Malafaya
+mostrou ao meu amigo o retrato d'essa menina?</p>
+
+<p>&mdash;Isso são contos largos; mas lá vae a historia. Em primeiro logar, o
+senhor não me conhece?</p>
+
+<p>&mdash;Não tenho a honra...</p>
+
+<p>&mdash;Eu sou o conde de Monção.</p>
+
+<p>Filippe, d'esta feita, devia de sentir duas barras de ferro, uma ao peito, e
+outra nas costas, porque ficou hirto e rijo sobre o selim.</p>
+
+<p>&mdash;Nunca ouviu falar de mim?&mdash;tornou o conde, notando a nenhuma
+reverencia com que o militar ouvira o seu nome.</p>
+
+<p>&mdash;Ouvi, sim, senhor.</p>
+
+<p>&mdash;Agora, se lhe não custa, diga-me o senhor quem é.</p>
+
+<p>&mdash;Sou um official de patente; mas os meus appellidos são populares, e
+escuso de os dizer a v. ex.ª como recommendação.<span class="pn" id="pg_107"
+>{107}</span></p>
+
+<p>&mdash;Isso que tem? Se não é fidalgo ainda o póde ser, que d'essa massa se
+fazem. Armas ou lettras, diz lá o ditado dos velhos. De cá se vae a lá. Meus
+avós tambem foram da militança, e eu ainda conheci na minha casa tres generaes
+velhos como a Sé de Braga.</p>
+
+<p>&mdash;Mas vamos á historia, se lhe não custa&mdash;disse Filippe com
+simulado e affectuoso sorriso.</p>
+
+<p>&mdash;Vamos á historia... Vinha-lhe eu dizendo que sou conde; mas, a
+falar-lhe a verdade, com as viagens estraguei um pouquito a minha casa, porque
+lá por fóra era umas mãos rotas. Aquellas francezas foram os meus peccados, meu
+caro senhor! Dei lá jantares a duquezas que era um pasmar! E olhe que em Pariz
+um jantar, que faz pasmo, já ha de ser de um tal tamanho!... Como lhe vinha
+contando, quando voltei a Portugal, e vi o empenho em que estava a minha casa,
+resolvi tomar estado com menina rica, ainda que me ficasse a perder de vista em
+fidalguia. Não póde ser tudo, meu amigo! Aquelle maldito pombal deu-nos cresta
+ás regalias, e fez com que o dinheiro se espalhasse por todas as mãos. No
+inferno esteja elle, e mais as suas leis!... Andava eu a cogitar n'isto, quando
+o negocio me saíu mesmo ao pintar, ainda melhor do que eu queria! Botei as
+minhas vistas ás ricas herdeiras da provincia, e soube que o melhor morgadio
+era o de Gonçalo Malafaya, por ter só uma filha. Fui até ao Porto, ha tres
+annos, assim como quem não quer a cousa, e fiz por me encontrar com o Malafaya.
+Comecei a tirar nabos do pucaro, como o outro que diz, e deixei-me dizer que
+me<span class="pn" id="pg_108" >{108}</span> não desconviria ligar
+á minha casa uma menina que fosse tão nobre e tão boa herdeira como a filha
+d'elle. Não arranjei bem o palavreado?</p>
+
+<p>&mdash;Perfeitamente&mdash;disse Filippe ancioso pelo remate, como se o não
+tivesse adivinhado, desde que soube que falava com <em>um conde</em>, que
+tantas lagrimas custára a Maria Henriqueta:</p>
+
+<p>Continuou o conde:</p>
+
+<p>&mdash;O Malafaya esteve a conversar muito tempo comigo, levou-me a casa,
+deu-me um bom jantar, e disse-me ao outro dia:&mdash;Deixemos completar a
+educação de minha filha, e depois falaremos.&mdash;Passados quasi dois annos,
+recebi em Monsão uma carta do Malafaya com o retrato da menina. Ó meu amigo!
+confesso-lhe que fiquei de bocca aberta! Era a cousa mais perfeita que cobre a
+roda do sol! Sabe o senhor o que é apaixonar-se um homem, não atinar mais com a
+cabeça? Foi o que me aconteceu a mim! Vim logo ao Porto, e disse a meu futuro
+sogro! «Eu quero a sua filha, mesmo sem nada, se é possivel!» Elle entrou a
+rir, e disse-me: «A minha filha, além da riqueza e da formosura, tem o melhor
+coração que Deus formou em peito de mulher.» Nunca me esqueceram estas
+palavras!...</p>
+
+<p>Andei com o negocio de afogadilho para que o casamento se fizesse logo: mas
+metteram-se umas desordens tamanhas entre elle e a mulher&mdash;que é o diabo
+de saias segundo ouço&mdash;de modo que foram para Lisboa um por cada vez, e
+por lá se deixaram estar até ha pouco, que vieram para o Porto. Ha de haver
+quinze dias que o<span class="pn" id="pg_109" >{109}</span>
+Gonçalo me escreveu, dizendo-me que era chegado o tempo de eu ser apresentado á
+minha noiva, e effectuar-se o casamento. Ora aqui tem a historia com todos os
+pontos e virgulas. Vou casar-me. Acabam-se as rapaziadas e as viagens; mas fico
+senhor de uma grande casa e da mulher mais bonita da Europa... Que diz o senhor
+a isto?</p>
+
+<p>&mdash;Digo que faz muito bem; mas se me dá licença&mdash;continuou Felippe
+com a mais destra e bem fingida serenidade&mdash;farei uma advertencia.</p>
+
+<p>&mdash;Diga lá sem cerimonia.</p>
+
+<p>&mdash;Tem o senhor conde a certeza de ser amado pela sr.ª D... Chama-se
+ella? </p>
+
+<p>&mdash;É Maria.</p>
+
+<p>&mdash;Pela sr.ª D. Maria?</p>
+
+<p>&mdash;Se tenho certeza de ser amado? Eu sei cá! Ella ainda me não viu.</p>
+
+<p>&mdash;Pois por isso mesmo. Que certeza tem v. ex.ª de que ella o ame,
+vendo-o? </p>
+
+<p>&mdash;O senhor está muito enganado comigo. Saiba que todas as mulheres
+gostam de mim. Ponto é que eu as metta á bulha! Diziam lá os meus caseiros,
+quando eu fazia em rapaz muitas travessuras, que eu tinha o besouro diabolico.
+Em França, onde eu estivesse, conhecia-se logo. Olhe que estive para me bater
+muitas vezes por causa de namoros muito serios com as açafatas da côrte.</p>
+
+<p>&mdash;Tudo creio, porque reconheço em v. ex.ª meritos para tudo; mas
+supponha por um momento que D. Maria o não ama?<span class="pn" id="pg_110"
+>{110}</span></p>
+
+<p>&mdash;Porque não ha de amar-me? Essa é fina!</p>
+
+<p>&mdash;Supponha que ella ama outro homem?</p>
+
+<p>&mdash;Se ama outro homem, faz de conta que nunca o viu.</p>
+
+<p>&mdash;E v. ex.ª tambem faz de conta que o não sabe.</p>
+
+<p>&mdash;Está claro.</p>
+
+<p>&mdash;E se ella dér a esse homem a preferencia para casar com elle? Queira
+desculpar esta pergunta.</p>
+
+<p>&mdash;Diz o senhor que ella póde rejeitar-me para casar com outro?</p>
+
+<p>&mdash;É uma supposição...</p>
+
+<p>&mdash;Ora deixe-se d'isso!... Nem o pae a deixava, nem eu era homem para
+essas brincadeiras. Ou eu ou elle.</p>
+
+<p>&mdash;Iria v. ex.ª disputar a vida ao sujeito que D. Maria amasse?</p>
+
+<p>&mdash;Se elle fosse fidalgo ia; senão, mandava-o varrer do meu caminho
+pelos meus lacaios.</p>
+
+<p>Filippe, se outro fosse o interlocutor, tinha-se denunciado, quando soltou
+uma franca e estridula risada. O conde, afeito a provocar o riso, entendeu que
+a sua ameaça afidalgada dos lacaios tivera muito chiste. E riu tambem, em prova
+de que sabia avaliar o quilate do seu espirito.</p>
+
+<p>Nunca mais o tenente de cavallaria pôde encarar no seu companheiro de
+jornada. Respondia-lhe sem fita'-lo; e de proposito se retardava ou adiantava
+para não emparelhar com elle.</p>
+
+<p>Pernoitaram em Albergaria. Cada qual recolheu ao seu quarto depois da ceia,
+durante a qual o conde esteve em ferias de palavreado. Filippe chamou á
+meia<span class="pn" id="pg_111" >{111}</span> noite o seu lacaio,
+e mandou arrear os cavallos. Cavalgou, e partiu para o Porto, deixando o conde
+no seu primeiro somno, o somno da felicidade estupida que lhe derramára nas
+palpebras as suas narcoticas urnas, e lhe instillava, talvez, na alma as
+dulcissimas visões de um noivo da mais formosa mulher da Europa.</p>
+
+<p>Quando, pois, as carruagens dos fidalgos subiam a encosta de Gaya, descia a
+trote Filippe Osorio. De longe, conheceu que a primeira carruagem era de
+Malafaya, por ser das mais luxuosas que se ostentavam em Lisboa. Conheceu-lhe
+os creados da libré, tudo reconheceu, porque em tudo se atavam recordações de
+Maria Henriqueta. Desviou-se da estrada larga para uma travessa marginal, e
+deixou passar o prestito. Desempedida a estrada, ganhou o Porto em poucos
+minutos, apeou, e subiu a procurar o palacio de Malafaya. Parou diante do
+portão indicado, e ousou entra'-lo, e perguntar ao guarda, revestido de rica
+libré, se podia falar a uma mulher chamada Eugenia.</p>
+
+<p>Eugenia era a ama de Maria Henriqueta. Nenhuma duvida lhe estorvou falar com
+a creada no seu proprio aposento, que distava muito das camaras das senhoras. A
+ama fez apavoradas visagens de espanto; mas ouviu-o. Urgia elle, lançando-lhe
+dinheiro em ouro ao regaço, que Maria alli viesse. Da negativa passou Eugenia á
+hesitação e d'ahi, movida pela angustia do moço&mdash;angustia com liga de
+ouro&mdash;foi disfarçadamente procurar a menina.</p>
+
+<p>E a menina entrou no quarto da ama, e a ama com ella.<span class="pn"
+id="pg_112" >{112}</span></p>
+
+<p><span class="pn" id="pg_113" >{113}</span></p>
+
+<h3><a name="SECTION00403">III</a></h3>
+
+<p>Maria Henriqueta ouvira a confidencia sobresaltada de sua ama, e ficou como
+estupida de alegria. Eugenia, temendo que D. Maria das Dôres a encontrasse
+n'aquelle extranho transporte, accelerou a ida, recommendando-lhe curta demora.
+</p>
+
+<p>Á entrada do quarto, a menina, encarando em Filippe, soltou um grito, como
+se fosse inadvertida, e por surpresa, a apparição. O melhor recosto para um
+vágado era certamente o dos braços, que se abriram a recebe'-la: mas o
+accidente foi instantaneo: o coração predominou o espasmo nervoso.</p>
+
+<p>Estava Eugenia, a um lado, contemplando com aguados olhos a scena pathetica;
+porém, o medo tinha-a tolhida. Apenas o prefacio de suspiros e lagrimas iria em
+meio, quando a ama acudiu pedindo que dissessem depressa o que tinham a dizer,
+antes que a senhora perguntasse pela menina.</p>
+
+<p>&mdash;Não tenhas medo, disse Maria Henriqueta, que a mãe está dirigindo o
+arranjo dos aposentos do conde&mdash;E,<span class="pn" id="pg_114"
+>{114}</span> voltando-se a Filippe, continuou:&mdash;Já podes
+imaginar quem é este infernal conde, que se espera...</p>
+
+<p>Em breves termos contou o tenente as passagens que o leitor já teve a
+complacencia de ouvir; mas eu contei-lh'as a sorrir, e elle disse-as com
+tormenta desfeita de lagrimas a Maria Henriqueta.</p>
+
+<p>Respondeu ella, relatando a lucta, que tivera com o pae, suavisada por ter
+captado em seu favor a mãe, cuja vontade era mais efficaz e prestante que a
+d'elle.</p>
+
+<p>Passaram a combinações de futuro, prevendo hypotheses desgraçadas, como
+violencias de convento, maus tratos, divorcio de familia, que tudo era de
+antever, arvoradas as bandeiras hostis na casa.</p>
+
+<p>Disse Maria que fiava muito de sua mãe, mas muito mais de si propria.</p>
+
+<p>«Se a perseguição fôr tal, que me não deixem respirar&mdash;disse a
+menina&mdash;em tal extremo, fujo para ti, e depois... Deus se compadeça de
+nós, e da grandeza do nosso amor. Iremos ajoelhar a um padre para que abençoe a
+nossa eterna união, e assim unidos, sem vergonha do mundo, arrostaremos com
+todos os revéses.»</p>
+
+<p>Filippe ouviu de joelhos esta celestial musica dos labios de Maria, e
+julgou-se superior a homem na felicidade que o embriagava. Para cumular o
+contentamento do coração da amada, contou-lhe que seu pae o protegia
+declaradamente com todo o dinheiro preciso para affectuar o seu casamento; e
+ajuntou que, sendo mister fugirem para o estrangeiro, em toda a parte
+encontrariam a abundancia para que a sua ventura fosse perfeita.<span
+class="pn" id="pg_115" >{115}</span></p>
+
+<p>Maria Henriqueta deu insignificante valor a esta ninharia da abundancia no
+extrangeiro. Amor, amor, é que ella anhelava, como as aves do céo que avoejavam
+de horisonte a horisonte, e dobram as serras, e cortam a cupula dos mares, sem
+cuidarem de pedir á terra ou ás aguas um poucochinho de alimento.</p>
+
+<p>Estas cousas, de si tão simples, ditas por amantes, embeberam duas rapidas
+horas, que pareceram annos á timorata Eugenia. Já D. Maria procurava a filha,
+quando Filippe Osorio descia ao pateo, seguido da ama, que lhe chamou sobrinho,
+ao despedir-se, na presença do guarda-portão.</p>
+
+<p>Reparou a mãe no rubor febril da menina, e inquietou-se na supposição de que
+ella adoecesse, por effeito do susto em que a deixára o pae.</p>
+
+<p>&mdash;Maria Henriqueta&mdash;disse D. Maria das Dôres&mdash;eu quero-te
+mais animada. Já te disse que á força não te casa teu pae. Conta commigo, e
+verás que tudo ha de ir por onde deve ir. Com isto não te quero dizer que cases
+com o militar; mas, mal por mal, antes d'elle que de um marido detestado.</p>
+
+<p>Maria abraçou a mãe com tanta effusão de reconhecimento, que, para assim
+dizer, foi esta a primeira vez que Maria das Dôres sentiu arfar o coração de
+sua filha, e tão estranha e dôce lhe fôra a sensação, que poude n'esse instante
+ajuizar da ternura maternal.</p>
+
+<p>Noite fechada, ouviu-se o estrepito das carruagens, passando sob o arco de
+Nossa Senhora de Vandoma. Maria tremeu e fugiu para o seu quarto, pedindo
+á<span class="pn" id="pg_116" >{116}</span> mãe que a desculpasse
+de ir á sala por estar doente.</p>
+
+<p>&mdash;Quero que vás á sala;&mdash;disse Maria das Dôres&mdash;Escusam-se
+fingimentos, quando as contas estão lançadas, eu sou por ti com a minha vontade
+de ferro. </p>
+
+<p>Gonçalo Malafaya entrára carrancudo. Já elle presumia que o tenente de
+cavallos estivesse no Porto, ouvindo a relação que o pasmado conde fizera do
+militar, que o deixára a dormir em Albergaria despedindo-se em latim. Instou
+Malafaya em meudas averiguações, ás quaes o conde respondera sinceramente,
+dizendo mesmo as duvidas, que elle puzera, no tocante ao amor de Maria
+Henriqueta.</p>
+
+<p>Isto bastou á desconfiança e penetração de um pae precavido.</p>
+
+<p>O conde foi apresentado a D. Maria das Dôres, e teve o infortunio de acarear
+desde logo a mais formal das antipathias. A fidalga tinha odio a homens ruivos
+e baixos: e o conde era baixo e ruivo. Não detestava menos os pés grandes e o
+simonte; e o conde, sobre ter pés grandes, aspirava com desgraciosa pretenção o
+aroma do simonte de uma caixa de ouro com um relevo de cupido, a desfechar
+dardos, de dentro de uma mouta de flôres, sobre umas pastorinhas que teciam
+grinaldas de rosas. Foi a caixa muito admirada da numerosa turba dos
+convidados, e passou ás mãos de D. Maria.</p>
+
+<p>&mdash;Essa caixa, minha senhora&mdash;disse o conde&mdash;esteve já nas
+mãos mais lindas de França. <em>Madame la duchesse de Choiseul</em> honrou-me
+muitas vezes tomando pitadas da minha caixa.<span class="pn" id="pg_117"
+>{117}</span></p>
+
+<p>&mdash;Quem?&mdash;disse D. Maria.</p>
+
+<p>&mdash;A senhora duqueza de Choiseul.</p>
+
+<p>&mdash;Tem as mãos muitos lindas?&mdash;replicou a fidalga.</p>
+
+<p>&mdash;Lindissimas, minha senhora.</p>
+
+<p>&mdash;Mas o nariz, se toma tabaco, não póde ser muito lindo... Aqui tem a
+sua caixinha, com o seu Cupido e as suas pastorinhas, sr. conde. É um traste
+muito bonito; mas o tabaco dá-lhe ares de um deposito de immundicie com paredes
+de ouro.</p>
+
+<p>&mdash;Que grosseria!&mdash;murmurou Gonçalo ao ouvido da senhora.</p>
+
+<p>D. Maria das Dôres olhou de través o marido e disse:</p>
+
+<p>&mdash;Temos historia....</p>
+
+<p>Gonçalo, inimigo das historias de sua mulher, voltou-lhe as costas, e
+prendeu a attenção ás variadas conversações dos fidalgos. D. Maria pediu
+licença, saíu da sala, e foi ajudar a vestir a filha com o mais roçagante e
+pomposo vestido de veludo escarlate, que trouxera de Lisboa.</p>
+
+<p>&mdash;Quero que te admirem!&mdash;dizia ella pregando-lhe as suas melhores
+joias, e estrellando-lhe o toucado de pedras, e coalhando-lhe o seio de
+scintillantes colares.</p>
+
+<p>Fez-se um silencio de egreja em festa de paixão, quando Henriqueta assomou
+ao limiar da sala. Era da etiqueta que os cavalheiros se adiantassem, em
+meia-lua, a recebe'-la ao centro do recinto; mas o espasmo collára aos tapetes
+os velhos e os novos fidalgos. O conde, a quem maior obrigação de cumprimento
+impunha o seu especial logar entre todos, deu alguns passos, como quem rompe um
+minuete, e acurvou-se com o braço direito<span class="pn" id="pg_118"
+>{118}</span> afastado do tronco e a mão esquerda sobre o coração,
+que lhe dava corcovos no peito. Maria baixou ao chão os olhos, inclinou-se um
+pouco, e esperou que seu pae a conduzisse aos coxins do canapé. A garbosidade
+com que ella sacudiu a cauda para sentar-se de golpe, fez que muitos velhos
+puzessem os olhos no céo e os mancebos relanceassem olhares rancorosos sobre o
+conde. Offereceu Gonçalo ao hospede a cadeira mais nobre das quatro que
+ladeavam o canapé, e o fidalgo, que tratára duquezas de mano a mano, viu-se em
+apertos de acanhamento, antes de sentar-se milagrosamente no rebordo, da
+cadeira baixa, em que a seda do calção, que vestira nos Carvalhos, parecia
+rebentar pelas costuras repuxadas.</p>
+
+<p>&mdash;Tive dois dias de boa jornada, minha senhora,&mdash;disse o conde
+gaguejando. </p>
+
+<p>&mdash;Sim?&mdash;respondeu Maria&mdash;muito estimo que não tivesse
+incommodo.</p>
+
+<p>&mdash;E falei muito a respeito de v. ex.ª com um companheiro de
+jornada...</p>
+
+<p>&mdash;A meu respeito?... Agradecida ao sr. conde por se lembrar de uma
+pessoa que não conhecia.</p>
+
+<p>&mdash;Ora se conhecia!</p>
+
+<p>&mdash;A mim? Pensei que nunca me vira...</p>
+
+<p>&mdash;Mas vi o retrato que é o mesmo; só não é tão lindo.</p>
+
+<p>Ficou satisfeito de si: cuidou que nos salões de Versailles nunca se dissera
+fineza mais acrisolada no bom gosto.<span class="pn" id="pg_119"
+>{119}</span></p>
+
+<p>&mdash;O meu retrato!&mdash;redarguiu Maria&mdash;Não cuidei que lhe fosse
+conhecido...</p>
+
+<p>&mdash;Aqui o tenho sobre o coração em caixilho de ouro e perolas. Foi seu
+excellentissimo pae que m'o deu, e não podia dar-me melhor cousa senão o
+objecto amado de que me deu a copia.</p>
+
+<p>Outra fineza subtil que o poz em admiração de si proprio! No semblante de
+Maria relampagueou um rubor de ira, que passou, deixando, como vestigio, uma
+visagem de tedio, que não mais se desfez nas tres horas que durou seu
+supplicio.</p>
+
+<p>Da sala passaram á casa da ceia.</p>
+
+<p>Maria das Dôres que, por acinte, se assentára ao pé da filha, durante o
+colloquio da sala, ouviu o conde e condoeu-se entranhadamente d'ella,
+protestando resgata'-la da continuação do seu inferno n'aquella noite. Estavam
+os cavalheiros em pé ao redor da mesa, esperando que as senhoras viessem tomar
+logar, quando D. Maria das Dôres entrou, dizendo que sua filha, além de estar
+habituada a não cear, sentia um leve incommodo que a privava de vir á mesa, e
+fazia por isso os seus cumprimentos respeitosos ao sr. conde e mais
+cavalheiros, recolhendo-se á sua camara.</p>
+
+<p>Gonçalo reclinou a vista á esposa, como quem diz:</p>
+
+<p>&mdash;Bem vos percebo, a ti e mais a ella... Quem diria?</p>
+
+<p>O conde de Monção não provou bocado. Vinham-lhe á garganta uns suspiros tão
+dos seios d'alma, que, reduzidos a verso endecassyllabo, dariam mais sonetos
+que<span class="pn" id="pg_120" >{120}</span> os de Petrarcha.
+Desvelava-se em servi'-lo Gonçalo Malafaya, e nem com a mais loura aza de
+perdiz lhe aguçou o appetite! Os brindes eram todos em honra d'elle, e elle
+agradecia humedecendo os labios no rebordo do calix, e suspirando como quem dá
+o que póde na muda eloquencia do coração.</p>
+
+<p>E Maria das Dôres levava o lenço branco aos labios para sorrir; e o padre
+capellão benzia-se da abstinencia do conde, e benzia-se tambem mentalmente da
+gulodice de alguns commensaes.</p>
+
+<p>Entrou o conde no seu aposento, e passou a noite em claro, em mudas
+exclamações ao retrato de Maria. Ergueu-se ao romper d'alva, e correu uma de
+suas janellas, que se abriam de face com o ridentissimo panorama de Gaya, S.
+Christovão e Candal, posto que o templo da Sé lhe cortasse um retalho das
+bellezas. Estava elle de pouco encostado ao peitoril da janella, quando viu
+assomar na extrema da rua um sujeito de mui boa presença, e logo reconheceu
+n'elle o companheiro de meia jornada. Esperou que se avisinhasse para lhe
+falar; mas o tenente que, de longe o vira, cortou para a primeira travessa,
+contente de a ter topado na má conjunctura de ser conhecido.</p>
+
+<p>Visitou Gonçalo Malafaya o conde na ante-camara, e este, trocadas as
+saudações do estylo, disse:</p>
+
+<p>&mdash;Ora, dou-lhe parte que vi o sujeito, que me deixou em Albergaria!</p>
+
+<p>&mdash;Viu?! Está bem certo d'isso? Onde o viu?</p>
+
+<p>&mdash;Vinha na direitura d'esta casa; mas metteu alli<span class="pn"
+id="pg_121" >{121}</span> por outra rua, e não me deu tempo de
+perguntar-lhe por que diabo me deixou. Em quanto a mim o homem ia para o
+quartel!</p>
+
+<p>&mdash;Aqui, atraz da Sé, não ha quarteis...&mdash;disse Gonçalo com
+meditativa anciedade.</p>
+
+<p>&mdash;Em que está v. ex.ª a cogitar? Parece que ficou assim a modo de
+pensativo! </p>
+
+<p>&mdash;Não, sr. conde. Eu tenho estes modos distraídos; mas nada
+significam.</p>
+
+<p>&mdash;Vamos a falar&mdash;tornou o conde&mdash;a respeito do casamento.
+Pela minha parte, meu prezado amigo, está o negocio feito. Veja v. ex.ª se quer
+que eu trate d'isso, para se abreviar, quanto antes. Sua filha é uma deusa.
+Acredite que ella ha de ser feliz a não poder ser mais. Hei de adora'-la toda a
+minha vida, e morrer por ella, sendo necessario. O grande caso é saber se ella
+gosta de mim; mas achei-a que me ouvia com muito agradaveis olhos, e que estava
+contente ao pé de mim. Depois lá me affligiu que ella não fosse á ceia! Olhe
+que tinha aqui na garganta um talo, sr. Malafaya! Bem viu que estive sempre a
+pensar n'ella!</p>
+
+<p>Era sincero o conde. Por onde quer que andou, as mulheres que viu, e a quem
+deu horas de folgada farça, nenhuma o impressionou. A sua primeira paixão era
+Maria Henriqueta, paixão que rompeu violenta e inopinada como as irrupções das
+crateras, como o corisco das calmas de agosto. Desde que a vira, perdeu a
+consciencia de seus meritos, o que elle denominava o seu besouro diabolico para
+fascinar mulheres. O suspirar á<span class="pn" id="pg_122"
+>{122}</span> ceia, e o velar no leito era a duvida, a excruciante
+duvida, unico besouro infernal e roedor, que se apascenta em coração humano,
+semelhante ao ciume na peçonha. Tinha trinta e cinco annos o conde de Monção,
+edade critica, em que os fructos do amor ou vingam, ou apodrecem. Se vingam, a
+vida futura do homem está definida para sempre; se apodrecem, as particulas
+corrompidas giram no sangue, gangrenam o coração, segregam rios de lagrimas, e
+ahi é então o morrerem afogadas todas as esperanças, e o caminhar do homem ao
+seu fim com o peso, o enormissimo peso de um cadaver moral. E as compleições
+sem o sexto sentido do ideal, desmelindradas, rusticas, e avessas a toda a
+poesia, são por igual sujeitas á lei commum do amor, que levanta á gloria, e
+engolfa nos tremedaes do crime. Terrivel é esta raia que nivella o talento com
+a estolidez! Parece que está na materia a faisca universal, que pega os grandes
+incendios: e os poetas&mdash;bem hajam elles!&mdash;tão aporfiados andam em nos
+persuadirem da espiritualidade do amor! Deus sabe o que é. O conde de Monsão é
+que não sabia dizer ao certo que tenazes candentes lhe apertavam no seio os
+pulmões suspirosos e que unhas de abutre lhe arregaçaram as palpebras
+veladoras! Então lhe acudiu á memoria, para flagela'-lo, o dialogo com o
+militar; e vieram apprehensões, e os retraços dos menores gestos do
+companheiro, e a significação mysteriosa de palavras, então ouvidas
+desattentamente. Estas combinações cresceram de ponto, quando viu no rosto de
+Gonçalo signaes de assustadora suspeita, com referencia<span class="pn"
+id="pg_123" >{123}</span> á apparição do militar. Recolhido em si,
+engrandeceu o vulto das desconfianças, e enterrando no seio o estilete das
+peores conjecturas achou lá o pensamento sanguinario de matar seu rival, fosse
+elle quem fosse.</p>
+
+<p>Quando os nossos rivaes acham isto no peito, é prudente teme'-los.<span
+class="pn" id="pg_124" >{124}</span></p>
+
+<p><span class="pn" id="pg_125" >{125}</span></p>
+
+<h3><a name="SECTION00404">IV</a></h3>
+
+<p>Gonçalo disse a Maria das Dôres:</p>
+
+<p>&mdash;Tenho quasi a certeza de que está no Porto o tal bigorrilhas de
+Mirandella.</p>
+
+<p>&mdash;Deixá-lo estar. Cada qual póde estar onde quizer.</p>
+
+<p>&mdash;Assim é; mas eu receio que elle viesse chamado por Maria Henriqueta.
+Acompanhou até meio caminho o conde, e já hoje esteve perto d'esta casa.</p>
+
+<p>&mdash;Póde muito bem ser. E d'ahi? que queres tu que se lhe faça?</p>
+
+<p>&mdash;Quero que se realise com a maior brevidade o casamento de Maria com o
+conde.</p>
+
+<p>&mdash;Pergunta-lh'o a ella, e vamos a isso. Casar é muito simples. Temos
+aqui o abbade á porta, e a egreja defronte.</p>
+
+<p>&mdash;Isso não é responder. Tu já sabes que Maria não quer o conde.</p>
+
+<p>&mdash;Pois se o não quer, tambem eu não. Diz ao conde que trate de sua
+vida.</p>
+
+<p>&mdash;Mas a minha palavra está dada.<span class="pn" id="pg_126"
+>{126}</span></p>
+
+<p>&mdash;Déste o que não podias. Deixa-me a mim o encargo de responder pela
+tua palavra. Eu falarei com elle.</p>
+
+<p>&mdash;É melhor que fales com tua filha, e a convenças.</p>
+
+<p>&mdash;Deus me livre d'isso... Eu é que estou convencida de que minha filha
+iria ser desgraçadissima com o conde, a mais embirrenta creatura que eu tenho
+visto! Como descobriste tu aquelle palerma? Tens dedo, realmente! Faz vontade
+de lhe offerecer a cabeça de um macho para enfeitar a corôa de conde!... Cousa
+assim!... E, sobre tudo, ruivo, pés grandes, anão dos assobios, e tabaqueiro!
+Deus me defenda de tal genro!</p>
+
+<p>&mdash;Tenho entendido...&mdash;disse Gonçalo com resignada
+amargura&mdash;Estragaste-me Maria Henriqueta!</p>
+
+<p>&mdash;Estraguei-t'a?... Estragado tens tu o juizo!... Eu logo vi que os
+frades e as freirinhas te davam cabo da razão! Se fosses rapaz, e visses um
+homem da laia do conde, escarnecia'-lo; como estás a envelhecer, entendes que
+está alli um marido pintado para a tua filha!... Deixa a menina, deixa-a viver,
+não lhe tolhas o seu futuro com os teus calculos de a engrandeceres! Dá-lhe
+alegria, não lhe dês titulos... N'uma palavra, diz tu, ou deixa-me dizer ao
+homem que Maria Henriqueta não o ama.</p>
+
+<p>&mdash;Diz muito embora; mas fica sabendo que ha de entrar n'um convento tua
+filha.</p>
+
+<p>&mdash;Pois sim; o que tu quizeres, que ella tudo acceita menos semelhante
+marido. Irá para um convento, e póde ser que eu vá com ella. Vês-te assim livre
+de ambas: e<span class="pn" id="pg_127" >{127}</span> depois vae
+para as grades entreter-te com as delambidas santinhas, que nós havemos de
+louvar a Deus o favor de uma cella onde não chegam figurões da laia do teu
+conde.</p>
+
+<p>E terminou, por esta vez, o ternissimo colloquio.</p>
+
+<p>Maria Henriqueta faltou ao almoço, e foi desculpada por sua mãe, sendo por
+falta de saude que faltava. O conde, industriado pelo coração, que é um grande
+mestre de cerimonias, pediu a Gonçalo Malafaya licença para mandar saber
+directamente da menina, pela creada grave d'ella. Tomou o comprimento D. Maria
+das Dôres, e voltou, em nome de sua filha, muito penhorada das attenções do
+illustre hospede. Tinham que vêr e de que rir estas etiquetas pausadas,
+pautadas e mesuradas como um ritual de officio de defuntos.</p>
+
+<p>Em quanto D. Maria das Dôres, depois do almoço, ficou á mesa conversando com
+o conde, Gonçalo aproveitou o azo de entrar ao quarto da filha, que por um
+cabello não foi surprehendida a escrever a oitava pagina de uma carta a Filippe
+Osorio. Compuzera-se o pae de boa sombra, e proposito de melhores palavras.
+Simulou acreditar nas queixas que a privaram de ir á mesa, e d'ahi derivou a
+mostrar que as inquietações do espirito eram muito nas molestias do corpo. Fez
+o elogio da paz, e da voluntaria deixação das velleidades do animo as quaes
+vinham a ser liberalmente compensadas com os doces cuidados domesticos, sob os
+olhos carinhosos de um marido, que, ao mesmo tempo, abrange a ternura de pae, e
+a profunda estima de irmão. D'aqui saltou,<span class="pn" id="pg_128"
+>{128}</span> pouco methodico, para os gabos enthusiastas, que o
+bondoso conde lhe estivera fazendo da formosura d'ella. Deteve-se n'este
+assumpto, sem adivinhar a duplicante nausea com que a filha o estava ouvindo.
+Era logico o repisar de novo na materia odiosa do casamento. Vestiu com quantos
+enfeites soube de sentenças e moralidades as suas intenções. Realçou os brilhos
+de uma alta posição na sociedade, e de uma corôa de condessa. Matizou-lhe as
+delicias da côrte, para onde o conde resolvia mudar sua residencia, e assumir
+no paço as brilhantes occupações de seu pae e avós, podendo sua esposa
+considerar-se desde logo primeira dama da rainha, afóra a vantagem e gloria de
+educar e elevar seus filhos á sombra de reaes telhas.</p>
+
+<p>Ouviu Maria a estirada parlenda em silencio, silencio agro de represadas
+lagrimas, ancias de lançar-se de joelhos aos pés do pae e abrir-lhe a alma, e
+deixar lá ver a imagem do homem, que para todo sempre a maniatara ao seu
+destino.</p>
+
+<p>&mdash;Que respondes, Maria Henriqueta? Não conseguiu teu pae mover-te?
+Resistes aos rogos que te faz o teu bom e sempre extremoso amigo?</p>
+
+<p>Maria respirou em pranto, e exclamou quanto os soluços lhe permittiam:</p>
+
+<p>&mdash;Não posso, meu pae, não posso... Deus sabe que eu lhe tenho pedido
+desde hontem a morte!...</p>
+
+<p>&mdash;Basta;&mdash;disse severamente o pae. Sabes o teu destino? Sabes que
+has de entrar no mosteiro de Arouca?<span class="pn" id="pg_129"
+>{129}</span></p>
+
+<p>&mdash;Entrarei, meu pae.</p>
+
+<p>&mdash;E que has de lá estar emquanto eu for vivo?</p>
+
+<p>&mdash;Estou prompta, se é sua vontade que eu vá.</p>
+
+<p>&mdash;Não é vontade: é violencia que fazes ao meu coração. Pensas que eu
+poderia ver em redor de minha casa o homem de Mirandella? Cuidas que o rosto de
+um pae é insensivel ás ignominias do coração de sua filha? Não coras de tal
+namoro; mas coro eu por ti, coram em ti meus avós, uma série de senhoras
+soberbas de seu nascimento, que casaram com eguaes por não poderem elevar-se
+mais alto. Sei que está no Porto esse aventureiro. Toda a minha prudencia será
+necessaria para o não mandar chibatar pelos meus creados. Não o farei, porque
+eu arrisco muito no escandalo, arrisco a tua dignidade, que é a minha.</p>
+
+<p>E, baixando a voz, continuou com resguardo:</p>
+
+<p>&mdash;Contas com a protecção de tua mãe? Estás bem aviada! Verás por que
+estradas ella te conduz á desgraça. Ia a aborrecer-te, com pejo o digo, e
+fugiste d'ella para o meu coração, que te acceitou. Agora foges de mim para
+ella. Deixa-te ir. Cavae ambas o abysmo da minha vida e da tua felicidade.</p>
+
+<p>Saindo em direitura á sala do almoço, onde a fidalga ficára conversando com
+o hospede, parou Gonçalo para ouvir o que diziam, temendo que sua mulher
+estivesse aniquilando as esperanças do noivo. Desconfiou com acerto. Eis aqui a
+parte do dialogo que elle ouviu:</p>
+
+<p>&mdash;São cousas muito melindrosas, sr. conde&mdash;Dizia D. Maria das
+Dôres respondendo ao titular.&mdash;O amor não<span class="pn" id="pg_130"
+>{130}</span> vem depois, se não tem já vindo antes do casamento.
+Está v. ex.ª enganado pela inexperiencia. Os experimentados é que sabem o que é
+casar na esperança de alcançarem do tempo o milagre, que não fez o coração. Tão
+infeliz seria v. ex.ª como a minha filha. O desagrado de uma situação contra
+vontade, é que faz as impaciencias do genio, as irritações que são o fel de
+quem o dá aos outros. Meu marido casou violentado comigo; e eu fui violentada a
+casar com elle. O resultado poderia elle dizer-lh'o, sr. conde, se não
+houvessem uns certos infortunios, que os maridos se pejam de confessar, ao
+mesmo tempo que se mostram de todo despreoccupados de outros infortunios, que
+são as verdadeiras vergonhas. Se sou infeliz porque fui casada á força, ou por
+obediencia, que culpa tenho eu de o ser? Porque não hei de eu dizer bem alto
+que o sou, a fim de ser exemplo aos paes, e torna'-los brandos, se as filhas,
+n'este ponto do casamento, lhes não obedecerem cegamente? A desgraça ha de ser
+util a alguem, penso eu, sr. conde; e por isso bom é que a minha desgraça seja
+util a minha filha, e a v. ex.ª. Renuncie á idéa de casar com Maria Henriqueta.
+O conde de Monção ha de achar uma digna mulher onde a desejar, formosa, rica, e
+nobilissima.</p>
+
+<p>Esteve o conde pensativo alguns segundos, e respondeu desempenadamente:</p>
+
+<p>&mdash;Não póde ser.</p>
+
+<p>&mdash;Não póde ser o quê?!&mdash;redarguiu D. Maria, com a fronte
+avincada.<span class="pn" id="pg_131" >{131}</span></p>
+
+<p>&mdash;Hei de casar com a menina, porque a vontade do sr. Gonçalo Malafaya é
+que ella case comigo.</p>
+
+<p>Era muito affrontosa para Maria das Dôres esta brutal saída. Levantou-se
+ella de um salto e exclamou:</p>
+
+<p>&mdash;Não casará, sr. conde, porque é vontade minha que Maria Henriqueta
+faça a sua vontade.</p>
+
+<p>&mdash;V. ex.ª tem um genio dos meus peccados!&mdash;atalhou o conde com um
+comedimento que, em outro individuo, parecera zombaria.&mdash;Ora queira
+sentar-se, minha senhora... Isto não vae a ralhar.</p>
+
+<p>&mdash;Sr. conde, eu tenho ordens a dar no governo da minha casa. Vou
+mandar-lhe meu marido, e peço desculpa.</p>
+
+<p>Gonçalo estava como a querer esconder-se de si proprio, no escuro de um
+corredor, onde as palavras sonoras da prima lhe iam apertar a alma. O homem
+tinha pejo de mostrar-se ao conde, e repugnancia em confirmar o que sua prima
+tinha asseverado. Era, porém, improrogavel a demora, desde que o hospede ficou
+sósinho, sentado á mesa, a contar os palitos de rama, que crivavam um javali de
+prata, imagem do coração d'elle, na analogia dos espinhos, e talvez na brava
+natureza da alimaria.</p>
+
+<p>Entrou Gonçalo com aspecto de réo, se não era antes o exterior de grande
+amargura.</p>
+
+<p>&mdash;Pelo que vejo&mdash;disse o conde&mdash;sua senhora oppõe-se ao
+casamento! V. ex.ª fez mal em m'o propôr antes de saber, se era vontade...</p>
+
+<p>&mdash;Minha prima&mdash;respondeu urbanamente o
+fidalgo&mdash;verdadeiramente<span class="pn" id="pg_132"
+>{132}</span> não se oppõe; é que sentiu, melhor que eu, a
+indisposição de Maria Henriqueta para o casamento, e...</p>
+
+<p>&mdash;Então é a menina que me rejeita?</p>
+
+<p>&mdash;Não o rejeita, sr. conde; recusa casar por emquanto.</p>
+
+<p>&mdash;E v. ex.ª porque m'o não disse ha mais tempo?! Eu fui chamado para
+isso; e só agora é que sua filha acha cedo para casar?! Entre homens da nossa
+qualidade, estas cousas tratam-se mais pontualmente.</p>
+
+<p>&mdash;Recebo com humildade as censuras, que v. ex.ª me fez&mdash;tornou
+Gonçalo, ferido nos seus brios; mas soffrendo a offensa, em castigo da leveza
+com que decidira do destino da filha&mdash;Pensei que Maria Henriqueta via o
+mundo pelos meus olhos e sentia pelo meu coração. Enganou-me o amor de pae, e o
+desejo de lhe dar esposo superior aos seus merecimentos d'ella. Minha filha vae
+entrar n'um mosteiro; é a satisfação que eu posso unicamente dar a v. ex.ª.</p>
+
+<p>&mdash;Deixe-se d'isso!&mdash;atalhou o conde&mdash;Nada de mosteiros! Se a
+duvida do casamento está na vontade da menina, deixe-a ao tempo, que ella
+mudará de idéas a meu respeito. Ponto é que fale com ella, e lhe vá ganhando o
+coração pouco e pouco. Pois se a menina só me viu uma vez, hontem á noite, como
+ha-de ella já gostar de mim?! Deixe-me conversar com sua filha mais algumas
+vezes, sr. Malafaya, e o resto cá fica por minha conta.</p>
+
+<p>&mdash;Da melhor vontade, sr. conde. Agora mesmo eu<span class="pn"
+id="pg_133" >{133}</span> dou ordem a minha filha para ir á sala.
+Queira v. ex.ª vir lá espera'-la.</p>
+
+<p>Quando Gonçalo voltava de acompanhar o conde á sala, saíu-lhe a esposa ao
+encontro, e disse-lhe:</p>
+
+<p>&mdash;És tolo, meu querido primo! Desconheço o teu antigo entendimento e
+desembaraço!</p>
+
+<p>&mdash;Que queres dizer n'isso?</p>
+
+<p>&mdash;Quero dizer que reduzes tua filha a achar-se a si mesma ridicula! Que
+vae ella a fazer á sala? Que tem ella que dizer a esse homem, que eu não lhe
+dissesse já?</p>
+
+<p>&mdash;Que o despersuada ella mesma.</p>
+
+<p>&mdash;Se ella o não persuadiu de cousa nenhuma, com que razão a forças a ir
+despersuadil'-o? Tu desces da tua posição, e obrigas a descer tua filha!...</p>
+
+<p>Gonçalo sacudia vertiginosamente os braços, de enraivecido contra si
+proprio, e de angustiado na cinta de ferro, que lhe tolhia todos os
+expedientes.</p>
+
+<p>Maria das Dôres condoeu-se do marido, e ajuntou:</p>
+
+<p>&mdash;Maria irá á sala, se assim o queres; mas hei de eu ordenar-lhe que
+vá, e tu has de confirmar o que ella disser com o teu silencio. D'esta
+irrisoria situação só a franqueza nos póde salvar depressa.</p>
+
+<p>Annuiu Gonçalo, indo para o seu quarto, e fechando-se para poder chorar sem
+testemunhas.</p>
+
+<p>Foi Maria das Dôres ao quarto da filha, onde se deteve alguns minutos. O
+conde acabava de encanellar os bofes do peitilho ao alteroso espelho do tremó
+dourado, quando Maria Henriqueta entrou de rosto alto e o afogueamento de uma
+colera expansiva no rosto.<span class="pn" id="pg_134"
+>{134}</span></p>
+
+<p>Sentou-se, e esperou que falasse o conde.</p>
+
+<p>&mdash;Está melhor, minha querida senhora?&mdash;disse elle titubiando.</p>
+
+<p>&mdash;Estou boa, sr. conde, e v. ex.ª parece-me excelentemente saudavel.</p>
+
+<p>&mdash;Não dormi cinco minutos, com o cuidado que me deu o seu incommodo de
+hontem á noite.</p>
+
+<p>&mdash;Mal empregado cuidado!... mas muito mais por isso lhe agradeço a
+prova de estima.</p>
+
+<p>&mdash;E de amor apaixonado, minha senhora.</p>
+
+<p>&mdash;Esse sentimento é que eu de todo desmereço, por que não lh'o posso
+retribuir. Devo dizer a v. ex.ª que vou entrar n'um mosteiro, em satisfação á
+vontade de meu pae. É aprazivel para mim satisfaze'-lo de um modo, quando me é
+de todo impossivel satisfaze'-lo por outro. Meu pae deve merecer a benevolencia
+do sr. conde pelos esforços que empregou em convencer-me a ser esposa de v.
+ex.ª. Resisti, por que não posso. A dignidade de meu pae está salva; e eu salva
+me considero da responsabilidade de fazer desgraçado o sr. conde, por
+condescendencia com a vontade de meu pae.</p>
+
+<p>&mdash;Ahi ha outra cousa, minha senhora...&mdash;atalhou o fidalgo.</p>
+
+<p>&mdash;Que póde haver?</p>
+
+<p>&mdash;V. ex.ª ama outro homem.</p>
+
+<p>&mdash;Amo.</p>
+
+<p>&mdash;Ah!... diga-me isso... Provavelmente é mais rico e mais fidalgo que
+eu? </p>
+
+<p>&mdash;É um homem. Que lucra v. ex.ª em saber-lhe as<span class="pn"
+id="pg_135" >{135}</span> qualidades, que o meu coração não
+discute? É um homem, que eu amo, ha cinco annos, e que amarei até á morte.</p>
+
+<p>&mdash;Isso ha-de passar com a reflexão, minha senhora. Póde ser que elle
+não seja tão digno de v. ex.ª como eu, nem a ame com tanto fogo.</p>
+
+<p>&mdash;Será minha a infelicidade; basta-me, porém, ser amada como sou.</p>
+
+<p>&mdash;Pois eu queria ter o gosto de conhecer o meu ditoso rival...</p>
+
+<p>&mdash;Com que fim?</p>
+
+<p>&mdash;Queria ver-lhe a cara... Desconfio que elle seja um militar que...</p>
+
+<p>&mdash;Que o acompanhou algumas leguas? É esse de certo.</p>
+
+<p>&mdash;Está bom; fico sciente... Escolheu bem, a senhora, não tem duvida...
+É um homem sem nascimento, um militar de fortuna pelos modos...</p>
+
+<p>&mdash;É um militar que começou por onde começam os generaes mais nobres.
+Quando eu o conheci e amei era cadete; e os cadetes teem nascimento; não o
+pódem ser sem justificarem a nobreza de quatro avós. E de mais, sr. conde, são
+cousas escusadas estas. Eu retiro-me agradecida ao sentimento que lhe causou a
+minha pouca valia, e desejo que v. ex.ª encontre n'outra esposa a fortuna que
+eu de certo não posso dar-lhe.</p>
+
+<p>Levantou-se, fez uma mesura de espavento, como era estylo, e saíu magestosa,
+afastando a cauda com garbosa arrogancia, cujas tradições ainda se
+vislumbram<span class="pn" id="pg_136" >{136}</span> nas grandes
+tragicas sobre o tablado, em que a vida, e a mulher, e os ademanes se conservam
+nos sublimes moldes dos antigos tempos.</p>
+
+<p>Vae agora o mundo tão deslavado e peco, a dignidade senhoril está pautada
+por esquadria tão arrazada, que, em caso identico, a menina mandada a uma sala
+entender-se com um conde ácerca da impossibilidade de ser d'elle, ou não ia lá,
+ou era necessario ir lá busca'-la desmaiada n'um insulto flatulento.<span
+class="pn" id="pg_137" >{137}</span></p>
+
+<h3><a name="SECTION00405">V</a></h3>
+
+<p>N'essa mesma hora, o conde de Monção, digno de si e de seus avoengos, mandou
+fechar as malas, e carregar a bagagem; vestiu-se apressadamente de jornada e
+saíu da camara á sala para despedir-se de Gonçalo Malafaya, e das duas
+senhoras. Soube o fidalgo, ainda encerrado no quarto, os aprestos de partida do
+hospede, e nem animo teve de lh'os estorvar: tamanha era sua vergonha que já o
+consolava a saída do conde, vexado por elle. Tanto, porém, crescia o sentimento
+do seu despundonor, quanto, augmentava o da aversão á mãe e á filha.</p>
+
+<p>Chamado segunda vez, foi Gonçalo receber as despedidas do hospede de vinte e
+quatro horas incompletas. Já encontrou na sala a prima, com prazenteiro
+sorriso, e a filha de tranquilla apparencia, recebendo os agradecimentos do
+infeliz fidalgo, que movia mais á piedade que á irrisão.</p>
+
+<p>Á piedade!... Quereria o conde, por ventura, a piedade de alguem? Os amores
+desditosos só acareiam dó<span class="pn" id="pg_138"
+>{138}</span> para as victimas resignadas. Umas ha que de antemão
+se desopprimem em traças de vingança, e essas mais são para incutir malquerença
+que pena.</p>
+
+<p>O adeus de Gonçalo Malafaya foi um aperto de mão convulso. O conde, para
+mostrar-lhe intelligencia de muda expressão, disse com sombra de riso:</p>
+
+<p>&mdash;Não tem duvida, sr. Malafaya... O mundo dá suas voltas; veremos onde
+isto pára!...</p>
+
+<p>Teria o repudiado noivo caminhado uma legua na direcção do seu solar no
+Alto-Minho, quando o coração lhe transmittiu ao pulso esquerdo raivoso impeto
+de sustar as redeas, e revirar a cabeça do cavallo para o Porto. Os dois
+mochilas deram praça ao galope desapoderado do ginete, e seguiram, notando mais
+uma das extravagancias do amo.</p>
+
+<p>Foi o conde apear n'uma estalagem, e d'alli avisou um fidalgo, seu primo,
+que lhe preparasse aposentadoria em sua casa. Este successo, na pequena roda
+dos fidalgos do pequeno Porto de então, fez grande ruido, e chegou aos ouvidos
+de Malafaya como se por elles entrasse um dardo a ferí-lo em seu pundonor.
+Inexgotavel calix o do atormentado fidalgo! Nem esposa, nem filha, nem a
+sociedade! Todos e tudo conjurado a levá-lo ao apuro da desesperação!</p>
+
+<p>Ao outro dia, contavam umas ás outras as familias nobres que os Malafayas
+tinham vexado o conde de Monção, despedindo-o na ante-vespera do seu projectado
+e decidido casamento com Maria Henriqueta. Vingou a geral opinião de que o
+conde fôra indignamente ultrajado,<span class="pn" id="pg_139"
+>{139}</span> e Gonçalo um baixo offensor para tão alto
+personagem. Ninguem inquiria, nem queria saber se Maria Henriqueta rejeitára o
+marido. Era pormenor, que humilhava e desauctorava os paes diante de suas
+filhas, uma semelhante causa. Buscaram-se, inventaram-se outras, todas falsas,
+e em menoscabo de Gonçalo e de D. Maria das Dôres.</p>
+
+<p>Resolveu o fidalgo saír do Porto com sua familia a residir temporariamente
+em uma quinta do Douro, e de lá enviar a filha ao convento de Arouca.</p>
+
+<p>Empeceu Maria das Dôres o plano, contradizendo-o com a precisão de mostrar
+aos seus detractores que alli estavam a pé quedo recebendo os tiros da
+calumnia; ajuntava ella que o mundo, vendo-os fugir, diria que elles tinham ido
+esconder a sua indignidade na provincia. E rematou d'este theor:</p>
+
+<p>&mdash;Se te julgas bem condemnado pela opinião dos nossos <em>amigos e
+parentes</em>, vae tu para o Douro. Eu e Maria Henriqueta não damos o campo á
+inveja diffamadora. Ficaremos; e quando elles se calarem, iremos para onde
+quizeres. Em quanto á ida de tua filha para Arouca, esse é o desejo d'ella; mas
+é preciso que penses se a honra de Maria Henriqueta será mordida na sombra por
+estes rafeiros e rafeiras, dando tu a isso occasião, com encerrá-la por castigo
+n'um convento. Castigá-la, porquê? perguntará o mundo; e, se tu disseres que a
+encarceras por rejeitar a mão do conde, o mundo fará os seus commentarios de
+modo que o tal desdouro caia sobre ella como sobre ti. Pensa, Gonçalo, e não
+precipites<span class="pn" id="pg_140" >{140}</span> uma
+resolução, em que temos muito a perder; e a ganhar não sei o quê. Um convento é
+uma casa com umas portas muito grossas; mas as portas abrem-se de par em par
+quando as pessoas, que não fizeram votos de lá estar, querem sair.</p>
+
+<p>A força moral de Gonçalo estava exhaurida. O homem, desvirtuado ante si
+mesmo, deixava-se já ir no pendor da fatalidade. Não contrariou a mulher: não
+quiz mesmo ser ouvido em nada; prohibiu até que ao seu quarto entrasse o som
+dos boatos affrontosos, que avultava de dia para dia.</p>
+
+<p>O conde de Monção não voltára ao Porto para deshonrar Gonçalo nem assoalhar
+o seu desdouro.</p>
+
+<p>Procurou de saber em que quartel ou casa encontraria um tenente de cavallos,
+vindo de Lisboa tres dias antes. As pessoas, empenhadas n'esta averiguação,
+disseram-lhe que, no troço de cavallaria 6, destacado no Porto, entrára um
+tenente transferido de Lisboa, moço nobre de Traz-os-Montes. Deram-lhe o nome,
+a residencia e as miudezas desnecessarias.</p>
+
+<p>Filippe Osorio descia as escadas do seu quartel, e viu o conde em attitude
+de entrar no pateo.</p>
+
+<p>&mdash;O sr. conde!&mdash;disse Filippe com amigo sorriso.</p>
+
+<p>&mdash;É verdade, meu caro sr. tenente; sou eu mesmo em pessoa que venho
+contar-lhe o resto da historia, se é que a não sabe.</p>
+
+<p>Peço ao leitor que marque á margem do livro, com uma cruz, este dizer do
+conde, porque não acha outro, que valha a nota.<span class="pn" id="pg_141"
+>{141}</span></p>
+
+<p>&mdash;O resto da historia?!... Refere-se v. ex.ª áquelle casamento, que fez
+favor de me contar ha dias?</p>
+
+<p>&mdash;Pois então!</p>
+
+<p>&mdash;Ah! agradeço extremamente a confidencia. Queira subir.</p>
+
+<p>&mdash;Não subo.</p>
+
+<p>&mdash;Como lhe aprouver, meu caro sr. conde de Monção. Não teimo, porque a
+minha casa é uma barraca de campanha, e tenho cadeira e meia como ornato. Se o
+não molesta a minha companhia, vamos andando e conversando até ao quartel, que
+tenho obrigações a cumprir.</p>
+
+<p>O conde encarou-o com arremesso e disse:</p>
+
+<p>&mdash;O senhor está certo de eu lhe dizer, quando o senhor me falou n'um
+amante da filha de Gonçalo Malafaya, <em>que ou eu ou elle</em>?</p>
+
+<p>&mdash;Lembra-me d'isso, nem era possivel esquecer-me cousa de tanto porte,
+dita por v. ex.ª.</p>
+
+<p>&mdash;Não esteja a brincar comigo, sr. tenente! Parece-me que zomba!</p>
+
+<p>&mdash;Eu!... O sr. conde é exquisito! Zombar eu de cousa que não merece a
+zombaria!</p>
+
+<p>&mdash;O senhor é o homem que D. Maria Henriqueta ama. Não o negue, que, m'o
+disse ella.</p>
+
+<p>&mdash;Mesmo sem lh'o ella dizer, eu não o negaria. Adiante.</p>
+
+<p>&mdash;Adiante o que?</p>
+
+<p>&mdash;Vamos ao fim da historia, que eu tenho urgencia do tempo.<span
+class="pn" id="pg_142" >{142}</span></p>
+
+<p>A historia acabou-se. Agora venho dizer-lhe que não será minha nem sua Maria
+Henriqueta. Juro-lh'o pelo meu sangue e pelo meu nome. Um de nós ha-de morrer.
+</p>
+
+<p>&mdash;E o que viver póde casar com ella, não é assim? Eu cuidei que v. ex.ª
+tratava de a matar a ella, o que seria muito mais feio e triste. Em quanto a
+mim, sr. conde, posto que me sinta um pouco amante da vida, se fôr sua vontade
+arrisca'-la-hei contra a sua espada, por lhe dar gosto. V. ex.ª já fez favor de
+me dizer que teve em França muitos duellos, e eu sinceramente lhe digo que não
+tive ainda nenhum. Todas as vantagens são do meu contedor. Estou ás ordens,
+depois de cumpridas as do meu regimento. Está satisfeito?</p>
+
+<p>&mdash;Os seus fóros?</p>
+
+<p>&mdash;Os meus fóros de fidalgo, pergunta?</p>
+
+<p>&mdash;Sim.</p>
+
+<p>&mdash;Quer v. ex.ª saber se me ha de matar como fidalgo ou como peão?</p>
+
+<p>&mdash;Não me meço com peões.</p>
+
+<p>&mdash;Isso agora é uma impertinencia, sr. conde! Afflige-me esse seu zelo
+de gentil-homem, e por lhe conhecer a boa vontade que me tem, usarei a
+immodestia de lhe dizer que v. ex.ª sabe quem eu sou, nem eu creio que denegue
+fé á dama, que lhe disse meu nascimento e educação. Agora é minha vez de lhe
+perguntar pelos seus fóros, sr. conde de Monsão.</p>
+
+<p>&mdash;Os meus... fóros? pergunta-me o senhor a mim...</p>
+
+<p>&mdash;Pelos seus fóros de honra, os fóros da sua dignidade,<span class="pn"
+id="pg_143" >{143}</span> os fóros da sua vergonha. Pergunto a um
+homem vil com que direito me vem pedir contas a mim do desprezo com que foi
+recebido por Maria Henriqueta. Pergunto ao desprezivel conde de Monção, se é
+mais estupido que abjecto, vindo provocar a duello um homem, que mal conhece,
+por que me vê entre si e uma senhora, que lhe repelle a philaucia e as
+grosseiras tentativas de a fazer perjura. A tal provocador é natural que eu
+pergunte pelos seus fóros de honra, de dignidade, e de vergonha. Se me elle
+responder com o espadim, hei de sacudir-lh'o das mãos e deshonrar-lh'o debaixo
+dos pés. Sr. conde, um miseravel da sua qualidade não péde contas a homens de
+bem; mata-se, e vae da'-las a Deus, quando a ignominia do mundo lhe pesa no
+vacuo da cabeça. Agora, meu fidalgo, deixe-me ir trabalhar no meu cargo, porque
+eu sirvo o rei, sirvo a patria, e poderei dar ámanhã o sangue por ella, em
+quanto v. ex.ª, cevando na inercia os seus estupidos orgulhos, quer
+desenfadar-se brincando com o credito e com o socego de uma senhora, que eu
+prezo como irmã, e v. ex.ª deseja como mulher, para desempenhar a sua casa
+destruida em dissipações. Nem este supremo desaire lhe falta! Até á vista!</p>
+
+<p>O conde de Monção estava pertencendo ao dominio da farça. Olhos arregalados
+e queixo pendido é a maxima expressão do espanto. No conde era pavor a
+ridiculissima compostura ou descompostura de feições. A cada palavra da
+crescente apostrophe, os brios de duellista europeu derretiam-se em frigido
+sangue que lhe arripiava<span class="pn" id="pg_144" >{144}</span>
+as arterias. Tinha razão o homem, que os olhos de Filippe Osorio afuzilavam
+raios, e os labios tremiam em crispações, que pareciam ascuas de lume. O conde
+ignorava que as idéas se podessem expressar d'aquelle modo, em bocca de um
+simples tenente. Ante si nunca elle vira um inimigo, jogando contra elle as
+armas do escarneo, e amostrando ao mesmo tempo outras, capazes de servirem á
+ferocidade. «Isto é um assassino!» dizia no fôro da sua consciencia o conde
+para cohonestar a cobardia do silencio. Cobardia não é o termo proprio.
+Cobardes são aquelles que sossobram na defeza de sua justiça. Outros, que
+atacam direitos d'outrem, e fogem aos aggredidos, que lhes fazem rosto, esses
+são apenas infames na aggressão; e, quando fogem, prestam involuntaria
+homenagem á justiça. Pode-se jurar que o conde de Monção não meditava n'estas
+distincções, ao retirar-se do local em que o deixára petrificado Filippe
+Osorio. Circumvagou os olhos, como a certificar-se de que ninguem presenceára o
+insulto, e foi seu caminho murmurando por entre os dentes cerrados:</p>
+
+<p>&mdash;Tu m'as pagarás, ou eu não seja quem sou!<span class="pn" id="pg_145"
+>{145}</span></p>
+
+<h3><a name="SECTION00406">VI</a></h3>
+
+<p>Correspondiam-se, diariamente Maria Henriqueta e Filippe. Bafejava-os a
+fortuna na pessoa de Eugenia, que a certa hora da noite dava e recebia as
+cartas pelo muro do jardim. Eram felizes porque amavam, esperavam, e confiavam
+nos milagres da sua constancia.</p>
+
+<p>O pae de Filippe era pessoa de grandes relações com a fidalguia
+transmontana. Os mais superciliosos cavalheiros prezavam-se de o chamarem
+primo. Todos se lhe prestavam a cooperar para persuadir a Gonçalo Malafaya o
+acerto do casamento com um moço tão bem prosperado em sua carreira militar, e
+de nascimento assaz illustre para emparelhar, sem desaire, com os mais
+qualificados no reino.</p>
+
+<p>A fidalguia empenhada acertou de chamar a si os parentes de D. Maria das
+Dôres, que eram tambem os de Gonçalo; mas preponderavam n'ella mais. Confluiram
+á mãe de Henriqueta cartas de muitas senhoras suas amigas da mocidade, e das
+suas mais intimas no mosteiro de Arouca. Uma açafata de D. Carlota Joaquina
+escreveu-lhe<span class="pn" id="pg_146" >{146}</span> em nome de
+sua ama. É onde podia chegar a influencia do fidalgo de Mirandella, mais por
+amor do filho que da riqueza da noiva.</p>
+
+<p>Maria das Dôres inclinou-se a favor de Filippe, e mostrou ao marido a
+petição da açafata. Gonçalo Malafaya, quando tal viu, soffreu um accesso de
+vertigem furiosa, e rasgou a carta entre os dentes. D. Maria teve medo dos
+arremessos do marido, e deixou-o bravejar e urrar contra a conjuração dos seus
+matadores.</p>
+
+<p>Maria Henriqueta, amoravel com seu pae por que tinha a trasbordar o amor do
+peito, affrontou-se com o medo, e foi supplicante aquietar-lhe os impetos. O
+velho repelliu-a com arrebatada virulencia.</p>
+
+<p>Velho lhe chamei eu pela primeira vez: estava-o deveras; sem um cabello
+negro, e não tinha ainda quarenta e oito annos! Fibra no rosto uma só não tinha
+lisa do arar do fogo interior. Abaixo do rebordo das orbitas parece que o
+absyntho das lagrimas lhe calcinára a pelle. Inclinava-se já para o chão, como
+a pedir á terra que o acolhesse e escondesse do seu mau anjo! Nas horas de
+solidão, poderiam ouvi'-lo exclamar muitas vezes: «Ó Beatriz de Noronha!
+tira-me este calix dos labios, ou verte-m'o de uma vez no coração, para que eu
+morra de uma só agonia!»</p>
+
+<p>Que flagello de vida no seio da riqueza! que inferno n'aquelle palacio,
+arreado de sedas, de librés, de equipagens, de tudo que morde a inveja, e
+conjura a pobreza contra a caprichosa partilha de Deus!</p>
+
+<p>Ergueu-se um dia Gonçalo Malafaya, ao cabo de uma<span class="pn"
+id="pg_147" >{147}</span> noite infinita de calculos dilacerantes.
+Alumiava-lhe o rosto o clarão sinistro da demencia. Viram-n'o esposa e filha, e
+gelaram de medo. Era a horas de almoço, ao qual desde muito o fidalgo não
+assistia. Entrou inesperado, cruzou os braços, e exclamou com energica
+vehemencia:</p>
+
+<p>&mdash;É ámanhã!</p>
+
+<p>&mdash;Ámanhã o quê, primo Gonçalo?</p>
+
+<p>&mdash;Que a má filha ha de entrar no convento de Arouca, senão hei de
+dar-te um punhal para que m'o enterres no peito.</p>
+
+<p>&mdash;Irei, meu pae, irei hoje mesmo, se v. ex.ª o determina.</p>
+
+<p>&mdash;É ámanhã&mdash;bradou elle.&mdash;Eu morrerei depois de ámanhã.
+Quando eu estiver sobre terra, sáe do convento, cospe na minha cara, e
+levanta-te com a herança da casa de teus avós e com a minha maldição.</p>
+
+<p>Maria Henriqueta encostou o peito ao bordo da mesa, e cobriu o rosto com as
+mãos. Chorava; e o pae sentiu-se mais desopprimido com as lagrimas da filha.
+Deu alguns passos até defrontar com ella, e disse:</p>
+
+<p>&mdash;Essas são as menos amargas que tu choras. Outras virão... tenho aqui
+na alma o presagio de outras, que has de verter sobre o cadaver do homem que me
+aponta ao peito o ferro, com o braço guiado pela mão de minha mulher.</p>
+
+<p>&mdash;Penso que enlouqueceste, primo!&mdash;disse Maria das Dôres.</p>
+
+<p>&mdash;Emmudece, serpente!&mdash;exclamou em furia o transfigurado<span
+class="pn" id="pg_148" >{148}</span> velho.&mdash;Enroscaste-te á
+minha mocidade, mataste aquella creatura divina, mataste a minha alegria,
+empeçonhaste o coração de tua filha, e estás agora minando-me a sepultura para
+esconderes de ti este phantasma de remorsos!...</p>
+
+<p>A syncope, em que desfechou a desarrazoada apostrophe, delatava que os
+receios da loucura não eram de todo panicos. N'aquellas accusações era
+manifesta a injustiça.</p>
+
+<p>Bem viram que Maria das Dôres foi de todo alheia ás desventuras de Beatriz
+de Noronha, sobre ser obrigada a acceitar o marido, proposto desde a sua
+infancia. O leitor póde negar sua sympathia ao caracter de Maria das Dôres;
+mas, se a punir com o seu odio, é injusto. Pender, em bem da filha, contra a
+imposição do casamento, é virtude para muitos louvores. Se o fez por animo
+contradictorio, feliz culpa a sua; se por experiencia de sua desgraça,
+abençoada defesa da pobre menina, e abençoada sempre, embora estes infelizes
+todos se venham a abismar guiados por suas estrellas funestas.</p>
+
+<p>&mdash;Vae para o convento, Maria&mdash;disse a fidalga á filha.&mdash;Fia
+de mim que pouco tempo lá estarás. Eu hei de vencer teu pae, com habilidade e
+paciencia. Vou fazer, por teu amor, o sacrificio da humildade. Mas agora é
+preciso que vás. Se teu pae morre, tens de soffrer remorsos, e remorsos que hão
+de assaltar-te os dias todos da vida, embora os goses com o homem que amas. Com
+tempo, serás esposa d'elle; mas faz muito pelo seres com a consciencia
+tranquilla.<span class="pn" id="pg_149" >{149}</span></p>
+
+<p>Maria Henriqueta rompeu em choro nos braços de sua mãe, e foi d'alli
+escrever a Filippe, contando-lhe o seu destino, e as promessas da mãe. O tão
+apaixonado como generoso moço incitou-lhe a coragem do sacrificio, pedindo-lhe
+que o offerecesse a Deus como merecimento para ambos lhe merecerem mais tarde a
+sua benção.</p>
+
+<p>Ao outro día, Maria entrou n'uma liteira com sua mãe, seguidas do simples
+prestito do capellão, a ama, creadas e lacaios.</p>
+
+<p>Maria das Dôres, a antiga aia da Santa rainha Mafalda, entrou no seu quarto
+de infancia, e no de suas defuntas tias; e os dias de então, e só esses do seu
+passado, lhe vieram á memoria e amolleceram o coração até ás lagrimas.</p>
+
+<p>A reclusa menina, ao ver-se alli, no calado dos claustros, debaixo dos
+profundos firmamentos, n'um dia em que os sinos dobravam á agonia de uma
+religiosa, e quando outra recebia as ultimas honras da sepultura, Maria
+Henriqueta pensou que ia morrer, e assim o disse na primeira carta, enviada a
+Filippe.</p>
+
+<p>Demorou-se a mãe alguns dias no mosteiro, e apressou a saída, quando receou
+pelos dias de Maria Henriqueta. Foi o seu proposito, ao retirar-se, mover o pae
+a consentir no casamento, ou romper abertamente com elle e com o mundo,
+protegendo a fuga da filha, se outro expediente não viesse em redempção d'ella.
+</p>
+
+<p>Ausente a mãe, augmentaram os terrores de Maria, e as lastimas nas cartas
+escriptas a Filippe. Em algumas,<span class="pn" id="pg_150"
+>{150}</span> pedia-lhe ella que a salvasse, pelo muito que ella o
+amára, e pelas muitas dôres com que quizera merecel'-o. Salval'-a era
+arrebata'-la do convento, fugir com ella, cumprir o juramento que lhe tinha
+feito, quando a chamou ao quarto da ama. Ao mesmo tempo, contava-lhe as
+nenhumas esperanças que a mãe lhe dava, e as diligencias que o pae fazia, para
+o remover para o ultramar, e tirar-lhes a possibilidade de se cartearem. D'isto
+lhe déra aviso a mãe, assegurando-lhe que as cartas de Filippe, apesar do
+suborno tentado no correio, haviam de chegar-lhe sempre á mão.</p>
+
+<p>Enganára-se Maria das Dôres com as promessas do empregado na transmissão das
+cartas. Maria Henriqueta, ao fim de tres afflictivas semanas, enviou um proprio
+a Filippe, perguntando-lhe a razão porque a desamparára.</p>
+
+<p>O tenente de cavallaria tinha de marchar n'aquelle dia com o regimento para
+Lisboa, onde se estava resenhando o exercito para começar a lucta com a França,
+cujos generaes se avisinhavam das fronteiras.</p>
+
+<p>Pediu licença o tenente por dois dias: foi-lhe negada. Empenhou por si os
+seus amigos, senhores do segredo da sua vida; baldaram-se as solicitações.
+Filippe Osorio, á ultima hora, quando os clarins já tocavam a reunir á porta do
+quartel, viu a imagem de Maria Henriqueta, e ouviu um como gemido de moribunda,
+e um falar assim de quem se despede: «Vae, e volta alguma vez á minha
+sepultura!»</p>
+
+<p>O tenente tomou as redeas do cavallo que o auxiliar<span class="pn"
+id="pg_151" >{151}</span> lhe offerecia, passou por diante dos
+clarins que o chamavam, viu ao longe, no occidente das esperanças da gloria,
+sumir-se a sua estrella, e fitou os olhos n'outra, que o chamava sobre um leito
+de agonia.</p>
+
+<p>Desertou.</p>
+
+<p>A mancha era negra; mas o disco resplendoroso, que lhe alumiava o coração e
+o ar em que ia aspirando a liberdade louca de amante, não lhe deixava ver a
+negridão da deshonra militar.</p>
+
+<p>Na primeira terra em que pôde escrever liberalisou estipendio a um portador
+que levasse uma carta a Mirandella. Era um aviso a seu pae. Noticiava-lhe a
+deserção e o intento de roubar Maria ao convento e á morte. Pedia-lhe que
+estivesse um clerigo prestes a recebe'-los, logo que alli chegassem, e o
+dinheiro necessario para se refugiarem em Hespanha ás penas militares, e á
+perseguição de Gonçalo Malafaya.</p>
+
+<p>Apeou em Arouca, e procurou Maria. Nenhum impedimento lhe estorvou
+falar-lhe. Acolheram-no na aposentadoria monacal, como primo da fidalga, que as
+religiosas amavam pelo muito que a viam padecer. Deu ella o plano da fuga, não
+facil, nem talvez exequivel. Maria devia transpor um muro, que seria morte
+certa, se o pé lhe resvalasse de um galho de arvore, em que fiava o apoio para
+segundo salto á estrada. Impugnou-lhe o plano o susto de Filippe; e ella, para
+aquieta'-lo, prometteu pensar em menos perigosa evasiva; mas pediu-lhe que
+tivesse os cavallos arreados na seguinte noite.</p>
+
+<p>A lua banhava de livido alvor as paredes do templo.<span class="pn"
+id="pg_152" >{152}</span> O derradeiro nocturno tinha soado no
+campanario, alteroso vigia, como posto alli em guarda das esposas do Senhor. As
+paixões e as virtudes dormiam ou pareciam dormir lá dentro do mesmo somno. Cá
+fóra ramalhavam os arvoredos, e o norte assobiava nos agulheiros das torres.
+</p>
+
+<p>Maria Henriqueta occupava um quarto sem rexas nem rotulos, logar
+privilegiado das reclusas, que inspiravam á prelada inteira confiança. O salto
+á cerca era facil e seguro, com o poderoso auxilio de um telhado de ermida
+contigua á parede. D'este ao jardim, só mulher que não amasse acharia perigoso
+o descer. Maria nem de leve sentiu o baque. Ficou sentada na relva, e ergueu-se
+logo, correndo para o muro, e procurando, entre as gabellas de varas podadas
+das videiras, uma escada de mão, que encostou á parede. Escalando o muro,
+tremeu da altura exterior, e viu que se enganára na distancia da arvore, que
+devia ajuda'-la na descida. Fincou os joelhos ao cume da parede, e foi-se
+arrastando até ao ponto da arvore, que o vento sacudia. Este inesperado
+incidente desalentou-a; só estando queda a arvore ella poderia aferrar-se aos
+ramos mais robustos, e verga'-los até tomar pé no galho chapotado. Estava ella
+assim aterrada e immovel com a vista desarmada a um e outro lado, quando,
+d'entre as arvores da outra orla do caminho, surgiu um vulto, que a gelára de
+medo, se a voz o não denunciasse ao mesmo tempo.</p>
+
+<p>&mdash;Eu esperava isto...&mdash;disse Filippe.</p>
+
+<p>&mdash;Já tenho animo!&mdash;exclamou ella.<span class="pn" id="pg_153"
+>{153}</span></p>
+
+<p>&mdash;Espera!</p>
+
+<p>Filippe, tirando o manto e a farda, que lhe empeciam os movimentos, marinhou
+pelo tronco da arvore até fincar o pé no rebento que dava sobejo e seguro apoio
+a maior peso. Depois cingiu com o braço esquerdo o tronco, e disse a Maria que
+se pendurasse no ramo mais forte, e eminente á cabeça d'elle. Maria correu as
+mãos mimosas por sobre as asperezas da ramagem, e recurvou os dedos no mais
+afastado e grosso ramo que poude. Deixou o corpo ao seu natural pendor,
+impellindo-se com o pé fóra do muro. O despenho seria infallivel, se Filippe a
+não repuxasse a si, apertando-a ao peito com o braço direito.</p>
+
+<p>Maria Henriqueta ria n'esta situação, e dizia:</p>
+
+<p>&mdash;E se caímos abraçados?!</p>
+
+<p>&mdash;Firma-te!&mdash;disse serenamente Filippe.&mdash;Apega-te ao tronco
+da arvore, que eu vou descer. Passa os teus pés devagar para o logar dos
+meus... Assim... Agora, larga-me, e segura-te... Bem... espera um pouco.</p>
+
+<p>Disse, e saltou ao caminho; mas não se susteve em pé porque era grande o
+salto. Maria sobresaltou-se, e quiz resvalar agarrada ao tronco; mas Filippe já
+estava erguido, rindo da sua queda para serenar Maria.</p>
+
+<p>Encostou-se á arvore, e disse:</p>
+
+<p>&mdash;Desce, até encontrares os meus hombros com os pés. Depois, sem largar
+o tronco, deixa-te descer conforme eu me fôr abaixando, e salta quando eu te
+disser.</p>
+
+<p>A execução da facil manobra foi feliz. Elles ahi vão,<span class="pn"
+id="pg_154" >{154}</span> embrulhados no mesmo manto. Maria está
+vestida de branco, e Filippe receia que o ar picante da noite a moleste.
+Coração em labaredas levam elles; mas o fogo intimo não basta a retemperar a
+temperatura da atmosphera. Os catarrhos são pensão de amadores nocturnos.</p>
+
+<p>Estão os cavallos arreados na aldeia proxima, á mão do velho e leal creado
+de Filippe. Maria vê o velho, e chora pela sua ama, a quem não deu o ultimo
+abraço para a não ver morrer. Filippe quer consola'-la, mas não sabe. O creado
+velho sabe a razão das lagrimas, e diz:</p>
+
+<p>&mdash;Quando chegarmos a terra segura, eu volto a buscar a velha.
+Arranja-se tudo; a morte é que não tem remedio.</p>
+
+<p>Maria consolou-se.</p>
+
+<p>Cavalgaram, e partiram. Ao dobrarem o primeiro outeirinho, Maria apontou
+para a torre do mosteiro, e disse:</p>
+
+<p>&mdash;Que medo me faz aquillo! parece um phantasma! Que horriveis horas
+aquelle sino marcou na minha vida, ó Filippe!</p>
+
+<p>&mdash;Deixa-o agora marcar annos de felicidade, minha esposa.</p>
+
+<p>&mdash;Quantos marcará, ó Filippe?!!...</p>
+
+<p>Soaram tres badaladas.</p>
+
+<p>&mdash;Só?!&mdash;exclamou ella com supersticioso terror.</p>
+
+<p>&mdash;Não sejas creança, Maria! disse Filippe.&mdash;Aquillo quer dizer que
+são tres horas.</p>
+
+<p>Caminharam.<span class="pn" id="pg_155" >{155}</span></p>
+
+<p>O frio da manhã golpeava o rosto de Maria, e as redeas caíam-lhe dos dedos
+entrezilhados.</p>
+
+<p>Filippe sentou-a sobre as capas dos coldres, apertou-a ao seio, e
+aqueceu-lhe as mãos no acolchoado da farda. E assim caminharam, até que o sol
+dourou o melhor dia d'aquellas duas existencias.<span class="pn" id="pg_156"
+>{156}</span></p>
+
+<p><span class="pn" id="pg_157" >{157}</span></p>
+
+<h3><a name="SECTION00407">VII</a></h3>
+
+<p>Entraram ao romper d'alva em Mirandella, a hora em que os irmãos de Filippe,
+desconfiados da demora do irmão, saíam a procura'-lo no caminho de Arouca. Ás
+dez horas da manhã d'esse dia, celebrou-se o casamento na capella da casa, por
+ministerio de um abbade parente do noivo, homem que não lera no Evangelho o
+preceito do consentimento paterno para a validade do sacramento. Foram
+testemunhas os irmãos do esposado, e padrinhos os paes.</p>
+
+<p>Ao outro dia chegou a Mirandella a ditosa Eugenia, que o fiel creado fôra
+buscar, deixando em Amarante os amos. Contou ella que na tarde d'aquelle dia da
+fuga chegaram a Arouca alguns soldados de cavallaria, com um commandante,
+pedindo novas de um tenente, que desertára; e que n'essa mesma tarde tinham
+saído para outros sitios.</p>
+
+<p>Comprehendeu Filippe o perigo da sua situação, e quiz fugir, antes que a
+Bragança, quartel do seu regimento, chegassem ordens para a sua captura. A
+parentella<span class="pn" id="pg_158" >{158}</span> votou unanime
+pela resistencia, confiada no poderio que exercia sobre o povo. Filippe
+combateu o denodo inopportuno, por amor de sua esposa, a quem tristes festas de
+nupcias seria uma briga sanguinaria do povo com a tropa.</p>
+
+<p>Muniu-se o desertor de basto dinheiro para dois annos de desterro, e
+internou-se em Hespanha, com os dois velhos creados, que entre si se queriam
+por terem sido, em seis annos, os confidentes dos infelizes amores de seus
+amos, já agora unidos sagradamente para sempre.</p>
+
+<p>Deixemo'-los em Hespanha procurar o remançoso eden de seus anhelos. Irão a
+Sevilha? a Granada? a Cordova? Irão a toda a parte, hão de encontrar as
+delicias reflectidas do céo que levam na alma.</p>
+
+<p>Deixa'-los, que é delicadeza não irmos de pós elles. A suprema felicidade de
+dois noivos tem o seu pudor, que se quer resguardado de olhos alheios.</p>
+
+<p>Vamos ao Porto, e entremos em casa de Gonçalo Malafaya.</p>
+
+<p>Ao amanhecer do dia immediato ao da fuga, chegou de Arouca o enviado da má
+nova. O fidalgo, que já sabia da deserção do tenente, e incitára a saída do
+destacamento para captura'-lo em Arouca, nem por isso ficou menos
+surprehendido. Correu ao quarto de Maria das Dôres, e exclamou:</p>
+
+<p>&mdash;Maria Henriqueta fugiu do convento!</p>
+
+<p>&mdash;Estás a sonhar, ou sou eu que sonho?!&mdash;disse a esposa.</p>
+
+<p>&mdash;Alli está o portador de Arouca! Fugiu sua filha,<span class="pn"
+id="pg_159" >{159}</span> senhora! Ahi tem a sua obra! Faltava-me
+esta deshonra: devo-lh'a, senhora, devo-lh'a, como ultimo golpe, que me ha de
+matar!</p>
+
+<p>Disse, e refugiu para o seu quarto, tropeçando nos corredores, não aclarados
+ainda pela luz da manhã. Pouco depois, voltou á camara da esposa, e bradou:</p>
+
+<p>&mdash;A senhora está na cama?! Levante-se que é preciso protestar contra a
+ignominia que pesa sobre nós! Levante-se, que d'aqui a pouco seremos insultados
+pela canalha! Vista-se de lucto, e quero que todos os meus brazões de armas, em
+todas as minhas casas e quintas, sejam cobertos de negro! Maldita seja a mãe
+que perdeu sua filha!</p>
+
+<p>D. Maria agitou com força a campainha, e disse ao marido:</p>
+
+<p>&mdash;Queira retirar-se, que vem as creadas vestir-me.</p>
+
+<p>Entraram as creadas de baldão, quantas havia na casa, e a senhora disse a
+uma d'ellas:</p>
+
+<p>&mdash;Vae dizer ao capellão que procure os primos Mellos e os primos
+Peixotos, e lhes diga que venham cá ter mão no sr. Gonçalo que foi atacado de
+um accesso de demencia.</p>
+
+<p>Foi a creada dar o recado. O capellão ouviu-o, e benzeu-se com a mão
+direita; saíu do quarto e benzeu-se com a esquerda; e ao transmittir a infausta
+noticia a Mellos e Peixotos, benzia-se com ambas as mãos.</p>
+
+<p>Acudiram os primos e Gonçalo recusou-se a recebe'-los, cuidando que vinham
+ao cêvo do escandalo para ultraja'-lo com fingidas caramunhas. Ouviram a
+prima<span class="pn" id="pg_160" >{160}</span> Maria, e convieram
+em que a fuga de Maria Henriqueta para casar com Filippe Osorio Vaz Guedes da
+Fonseca, tão fidalgo como ella, não merecia tamanhos alvorotos, nem a loucura
+do primo Gonçalo, por tal motivo, captivaria a compaixão publica.</p>
+
+<p>Repellidos do quarto do velho, segunda e terceira vez, os fidalgos saíram a
+divulgar o caso sem o classificarem de deshonra, imputando, porém, a culpa
+d'ella, se culpa havia, ao pyrronismo de Gonçalo Malafaya, que sonhava com
+enxertar um conde na familia, ainda que o conde fosse um tolo e um perdulario.
+</p>
+
+<p>Ao meio dia estava Gonçalo vestido de rigoroso lucto, e os lacaios de lucto
+tambem.</p>
+
+<p>D. Maria das Dôres vestia de azul claro e ordenava ás suas creadas que se
+escusassem de completar a irrisão da casa.</p>
+
+<p>Entrou o fidalgo na sua carruagem, e foi a casa de todos os magistrados do
+crime pedir justiça. Acolheram-n'o com respeitosa compaixão, e prometteram
+precatorias para os fugitivos serem presos, onde quer que a policia os
+descobrisse. Gonçalo a todos disse que dava os seus haveres pela captura de
+Filippe, e a si proprio se venderia para pagar os ultimos ceitis aos esbirros.
+</p>
+
+<p>As cartas precatorias saíram desde logo para differentes pontos do reino, e
+algumas para Hespanha. E, ao mesmo tempo, as justiças militares tiravam
+summario despacho para a captura do desertor.</p>
+
+<p>Maria das Dôres, sciente dos mandados judiciarios, enviou pessoa de sua
+confiança a Mirandella, avisando<span class="pn" id="pg_161"
+>{161}</span> o pae de Filippe Osorio, e escrevendo a sua filha
+uma carta mais de indulgencia que de recriminação. «O mal está
+feito,&mdash;dizia-lhe ella&mdash;mas em parte considero-o sanado pelo
+casamento. Escondei-vos cautellosamente, em quanto a tempestade ameaça
+fulminar-vos com a vergonha de uma prisão. Não entreis em Portugal sem que eu
+vo'-lo diga; nem vos mostreis em Hespanha, porque as ordens hão de lá chegar,
+em mãos de quem primeiro as encheu de ouro nos cofres de teu pae, etc.»</p>
+
+<p>A carta foi dar ás mãos de Maria Henriqueta, que a essa hora trajava de
+homem, e se chamava em Hespanha D. Luiz de Castro, irmão de D. Pedro de Castro,
+nomes inscriptos no passaporte de Filippe Osorio.</p>
+
+<p>Estavam então em Sevilha, e tão descuidados, tão ebrios de seu amor, que nem
+a carta os alvoroçou. «N'esse tempo (dizem os apontamentos que tenho á vista)
+figurando ella de lindissimo moço, deu-lhe que fazer o amor das hespanholas,
+que morriam por elle; e <em>D. Luiz de Castro</em> sustentava os namoros, para
+rir com o marido, mas sem saber que saída a final lhes daria.»</p>
+
+<p>Pernoitavam os ditosos esposos em Segovia, onde os anteciparam cartas da
+capital da provincia, recommendando os dois <em>Castros</em>, cavalheiros
+portuguezes. Convidou-os o alcaide para uma tertulia, e banqueteou-os no dia
+seguinte, a pedido das filhas, que eram duas, e cada qual se apaixonára do seu
+Castro. Praticaram-se cousas de Portugal, e caíu a proposito perguntar o
+alcaide aos<span class="pn" id="pg_162" >{162}</span> seus
+hospedes se conheciam um Filippe Osorio Vaz Guedes da Fonseca, desertor de
+cavallaria 6, que havia roubado de um mosteiro a filha de um <em>fidalgo</em>
+de linhagem, solarengo no Porto.</p>
+
+<p>Disse <em>D. Pedro de Castro</em> que sobejamente conhecia o desertor.
+Contou miudamente a historia triste dos seus amores com a filha do fidalgo, e
+tão a enternecer o disse que as sensiveis hespanholas choraram de ouvi'-la, e o
+alcaide jurou que rasgaria a ordem, que tinha, de prende'-los se alguma vez
+reconhecesse os sympathicos fugitivos no seu districto. A intimidade cresceu
+tanto entre a auctoridade e os hospedes, que, decorridos alguns dias, Luiz de
+Castro appareceu vestido de Maria Henriqueta ao alcaide e ás filhas, que
+ouviram d'ella a historia, repetida com mais graça e affectuosa tristeza, dos
+seus amores com Filippe Osorio.</p>
+
+<p>Desde essa hora, o magistrado hespanhol não velaria com mais zelo a
+segurança de seus filhos. Onde quer que iam, lá os antecipava a influencia do
+alcaide, de modo que se viam em toda a parte festejados os dois cavalheiros
+portuguezes, e requestados de quantas damas os abrasavam com os olhos e com o
+chocolate.</p>
+
+<p>Segovia era o logar onde iam a desfadigar-se das excursões ás provincias, e
+onde as cartas do reino iam dar com elles.</p>
+
+<p>Na casa do alcaide deu á luz Maria Henriqueta uma menina, findo o primeiro
+anno de casada. E então acabaram as excursões, e retiraram-se a uma quinta dos
+arrabaldes para, a salvo de suspeitas, se despirem das<span class="pn"
+id="pg_163" >{163}</span> ficções, e viverem em toda a ingenuidade
+de esposos e paes. Lá lhes eram assidua companhia as duas filhas do generoso
+hespanhol, proprietario da quinta. Alli vieram os irmãos de Mirandella visitar
+o irmão, e dar-lhe a boa nova de quasi esquecimento em que estava sua deserção.
+N'este ensejo foram elles portadores de carta de D. Maria das Dôres, que, em
+resumo, dizia: estarem mais benignos os ares; mais brando o coração do pae,
+tendo já dito que antes queria ver a filha e perdoar-lhe, que receber a noticia
+da morte d'ella. Accrescentava que este dizer não a auctorisava a chamar a
+filha; porque o pae tinha intercadencias de prostração, quando perdoava, e de
+cólera quando pedia vingança aos céos, e insultava os magistrados como inertes.
+Terminava, recommendando-lhe que se tivesse sempre em guarda, e se fiasse só de
+sua mãe, quando a chamasse.</p>
+
+<p>Decorreram seis mezes. Sempre o céo claro sem nevoa; sempre a ventura
+candida e pura como o sorriso da creancinha, que dissereis vinda do céo a
+completar o grupo da suprema bemaventurança na terra. Para cumulo de
+felicidade, chegou a Segovia uma carta de D. Maria das Dôres, dizendo á filha:
+</p>
+
+<p>«Vem, agora sem receio. Venci teu pae, com as armas da humildade. Só por
+amor de ti as empregaria. Perdoa-te, recebe-vos, quer-vos para filhos. Sabe que
+tem uma neta. Disse-lh'o eu, quando o vi tão bom! Perguntou-me estupefacto como
+eu o sabia. Occultei-lhe os promenores; disse-lhe em suma, que eu fôra sempre
+mãe. Fitou-me de um certo modo, que me incutiu<span class="pn" id="pg_164"
+>{164}</span> receios de me ter enganado: mas, em seguida, voltou
+á sua segunda natureza compadecida. O peor, filha, será o crime de teu marido,
+que o força a livrar-se, e agora as leis militares inglezas creio que são
+severas para desertores. Se vês que teu marido tem grandes trabalhos a vencer,
+antes o desterro com a liberdade; e mais ao diante valeremos mais com as leis
+se teu pae quizer protege'-lo etc.»</p>
+
+<p>Ao mesmo tempo, o fidalgo de Mirandella dizia a seu filho que andava
+dispondo as cousas para elle ser julgado e absolvido. Que alcançára promessas
+favoraveis, e esperava em breve manda'-lo recolher á patria, com a certeza da
+absolvição.</p>
+
+<p>Que luz tão formosa as estrellas funestas irradiam ás vezes! Como a desgraça
+negaceia com as suas victimas dilectas! Que pena me faz ir d'aqui através
+cincoenta annos, e por entre o pó de uma geração dispersa no ar, áquella quinta
+suburbana de Segovia, e contemplar aquelles dois esposos com a filhinha entre
+os peitos de ambos, arrobados de alegria, dando-se os parabens da sua final
+victoria, e saudando as alegrias da patria, só inferiores ás alegrias de dois
+corações triumphantes sem infamia, felizes sem remorsos! Com que vontade eu
+quebraria aqui a penna, se tenho de tirar d'ella paginas negras da vida dos
+dois tão dignos, tão abençoados, tão bemquistos da leitora que amou ou ama, do
+pae que perdoou ou tem de perdoar um dia, do mundo que sentenceia, ou já
+sentenciou paixões, que exorbitam do estadio commum! Ai! eu antes queria
+inventar, antes<span class="pn" id="pg_165" >{165}</span> mentir,
+antes lançar de mim com asco estes apontamentos!</p>
+
+<p>Eu sei como a vida podia ter lances de contentar a phantasia. Quantas vezes,
+em historias imaginadas, eu levo posto o fito n'uma caverna onde os meus
+personagens vão caír; e já perto, já com elles á borda do despenhadeiro,
+sustenho-me, chamo-os, acaricio-os, salvo-os, e dou-lhes a gloria, em vez do
+inferno que lhes fôra talhado! Como eu fico então contente de mim, e o leitor
+contente d'elles! Só n'estes conflictos é que eu avalio os thesouros da
+imaginação, e o segundo <em>fiat</em> de mundos moraes que a magnanimidade
+divina concede aos romancistas.</p>
+
+<p>N'esta historia queria, e não posso. Estou coacto e maniatado ás
+gramalheiras da noticia, que me foi ministrada por pessoa, que me obrigou o
+juramento de não falsear a verdade.</p>
+
+<p>E, de mais, se eu conseguir levar ao tumulo dos meus infelizes uma lagrima
+da leitora; se alguma hora, subir da terra um pensamento ao céo dos martyres,
+não será esse favor da piedade um bem tão consolativo para elles? A quem hão de
+elles agradecer o pensamento e a lagrima se não a mim, que lhes contei os
+infortunios, e, em vez de um epitaphio, lhes colloquei uma urna para os que lá
+quizessem chorar, e a mais triste pagina d'este livro para quem quizer
+consolar-se das suas nas desventuras alheias?</p>
+
+<h3><a name="SECTION0040710">FIM DA SEGUNDA PARTE</a></h3>
+
+<p><span class="pn" id="pg_166" >{166}</span></p>
+
+<p><span class="pn" id="pg_167" >{167}</span></p>
+
+<h2><a name="SECTION00500">TERCEIRA PARTE</a></h2>
+
+<h3><a name="SECTION00501">I</a></h3>
+
+<p>Vieram os esposos acompanhados até á fronteira pelo alcaide e suas filhas.
+Ahi se despediram com muitas saudades e esperanças de se encontrarem, passados
+dois annos, no Porto. O cavalheiroso hespanhol disse a Filippe Osorio e á
+consorte: «Se alguma vez fordes desgraçados na patria, lembrae-vos do céo de
+Hespanha, e do vosso segundo pae, e de vossas irmãs. Em nossa casa sois familia
+nossa; e já sabeis que em toda a Castella sois como bons filhos da nossa boa
+terra. Seja a nossa amizade um modelo do que deviam ser os irmãos da peninsula,
+os que se apartaram eternamente odientos em Aljubarrota e Montes-Claros. Se
+fordes felizes, nem por isso nos esqueçaes.»</p>
+
+<p>Chegaram a Mirandella. D'ahi escreveu Maria Henriqueta a sua mãe
+perguntando-lhe se podia ir para o Porto confiada no perdão do pae. A resposta
+carecia de<span class="pn" id="pg_168" >{168}</span> inteira
+affirmativa; mas accedia ao desejo da filha. «Teu pae, ponderava D.
+Maria&mdash;diz e desdiz; ora condemna, ora perdôa; todavia, eu conto comigo e
+tu com a tua filhinha. Por mais mal que te faça, serão só palavras: e palavras
+o vento as leva, e outras te dirá depois que te compensem algum dissabor. Em
+todo o caso, vem, que eu vou dar o ultimo assalto, e segurar o lanço.</p>
+
+<p>Escripta esta carta, D. Maria das Dôres convidou o marido a passar duas
+horas em seu quarto, antes de recolher-se. Gonçalo accedeu ao geito blandicioso
+da esquiva prima, raras vezes meiga. A soledade, a tristeza, a velhice, e o
+quasi desamparo em que o deixaram amigos e parentes, crearam n'elle a precisão
+dos carinhos.</p>
+
+<p>Foi Gonçalo ao quarto de sua mulher, e encontrou-a lendo a carta de sua
+filha.</p>
+
+<p>&mdash;Quem te escreveu, prima?&mdash;disse elle.</p>
+
+<p>&mdash;Foi a nossa pobre Maria Henriqueta.</p>
+
+<p>&mdash;Tem fome por lá? O amante abandonou-a?</p>
+
+<p>&mdash;Não digas «amante», primo. Marido é o nome que tem.</p>
+
+<p>&mdash;Marido, sem o meu consentimento! As leis não me dispensam de ser
+ouvido. </p>
+
+<p>&mdash;Dispensa-te a lei de Deus, meu Gonçalo. Estão casados, e eternamente
+casados.</p>
+
+<p>&mdash;Pois que sejam felizes.</p>
+
+<p>&mdash;A nossa filha só póde ser feliz com o teu perdão.</p>
+
+<p>&mdash;Tu ahi tornas!...</p>
+
+<p>&mdash;E tornarei sempre; quer Deus que eu seja a sua voz ao teu bom
+coração. Perdoa-lhe, primo!<span class="pn" id="pg_169"
+>{169}</span></p>
+
+<p>&mdash;Foi para isto que me chamaste?! Eu logo vi que era demencia esperar
+allivios... Se ella tem fome, manda-lhe dinheiro; se está abandonada, diz-lhe
+que torne para o convento, e lá terá abundancia.</p>
+
+<p>&mdash;Nem fome, nem abandono, Gonçalo! Parece que dás mui baixo preço a tua
+filha! Aquella menina tão linda e prendada, haveria homem que a abandonasse?
+</p>
+
+<p>&mdash;Linda era a outra que...</p>
+
+<p>&mdash;A outra qual?</p>
+
+<p>&mdash;Nada...&mdash;disse Gonçalo, sacudindo a visão de Beatriz de
+Noronha.</p>
+
+<p>&mdash;Ignoras tu&mdash;proseguiu D. Maria&mdash;que o pae de Filippe é
+rico, e extremoso pelo filho? Eu sei que os esposos viveram em Hespanha com
+todas as commodidades, e nunca Maria me pediu a menor cousa, nem as suas joias,
+nem os seus vestidos. O que ella pede é a estima de seu pae, e quer pedir-te
+perdão pela bocca de sua filhinha, que tem sete mezes. Não se te alegra o
+coração com a esperança de teres nos braços uma creancinha, filha de nossa
+filha?</p>
+
+<p>&mdash;Que fatalidade!... Mais uma mulher!...&mdash;exclamou elle com
+entonação pouco abonatoria do seu bom siso.&mdash;Então isto é uma cadeia de
+desgraças? Melhor lhe fôra á mãe desobediente esmagar a filha no berço, para
+não crear ao seio a vibora que me ha de vingar!</p>
+
+<p>&mdash;Cala-te, meu primo, meu querido Gonçalo! Que sombrios vaticinios os
+teus! Quando te alumiará a Providencia Divina essa escuridade em que vives?</p>
+
+<p>&mdash;Ha de alumiar-m'a a lampada da sepultura. Isto<span class="pn"
+id="pg_170" >{170}</span> em mim é o horror das trevas eternas,
+sem mais luz nem esperança!</p>
+
+<p>&mdash;Ora, vem cá, filho!&mdash;tornou com extrema maviosidade a esposa,
+tomando-lhe as mãos, e aconchegando-as do peito&mdash;Não desprezes a luz que o
+céo te manda nos olhos carinhosos da tua netinha. Verás que vida nova se nos
+faz na velhice. Has de sentir o que é consolar-se a alma perdoando. Sabes tu
+quantas penas terá curtido nossa filha, desterrada, por terras extranhas,
+mudando de nome para não sacrificar o marido...</p>
+
+<p>&mdash;O marido! atalhou em voz soturna Gonçalo&mdash;O marido! Se ella
+podesse convencer-me de que não casou... perdoava-lhe!</p>
+
+<p>&mdash;Não digas tal, primo, por dignidade nossa e d'ella! Pois tu negas
+perdão á esposa, e da'-lo-ias á concubina?! Cala-te, que desvarias; a tua razão
+e coração devem contradizer esse desatino, que é uma doença do teu espirito. Eu
+sou mulher, e mãe, e não perdoaria á filha, que, contra nossos conselhos, se
+tivesse sacrificado a um infame seductor. Torna em ti, meu primo, e convence-me
+de que estás bem com a tua consciencia, perdoando o mal, que te fez a
+desgraçada, que só por amor invencivel poude desobedecer-te. Aqui tens a carta
+que me ella escreve de Mirandella; olha estas expressões: <em>Ás vezes penso
+que meu pae ha de amar muito esta creancinha, que tem já no rosto signaes de
+vir a ser muito parecida com elle. Se eu podesse mandar este anjo adiante de
+mim, seria elle quem me abrisse as portas do paraizo de minha familia</em>: Vês
+tu? É a tua Maria<span class="pn" id="pg_171" >{171}</span>
+Henriqueta que fala assim ao teu coração. Tu já lhe perdoaste, não é
+verdade?&mdash;continuou a esposa com transporte, beijando-lhe as mãos e o
+rosto&mdash;Posso dizer-lhe que venha afouta beijar estas mãos, que eu beijo
+tão reconhecida como ella?</p>
+
+<p>Gonçalo caíu sobre a cadeira d'onde, momentos antes, se levantára na tenção
+de fugir do quarto. Escondeu o rosto no seio, e passados anciosos instantes,
+murmurou:</p>
+
+<p>&mdash;Que venha; mas que eu a não veja.</p>
+
+<p>Saiu Maria das Dôres vaidosa do seu triumpho. As ultimas palavras do marido
+equivaliam ao perdão. Não querer ve'-la seria a transição para ve'-la, e
+ama'-la. N'este presupposto, deu como rehabilitada a filha e participou ufana
+aos seus parentes e visitas o ter ella congraçado Gonçalo com seu genro. Os
+parentes, alegres com a nova, iam da sala ao quarto do fidalgo felicita'-lo,
+com grandes louvores de seu juizo e nobreza d'alma, censurando ao mesmo tempo,
+que tardiamente o fizesse. Estes emboras irritaram o velho, por partirem de
+pessoas, que elle tinha em odio á conta de lhe molestarem os brios,
+chasqueando-o agramente por ter querido, á fina força, casar a filha com o
+conde de Monção.</p>
+
+<p>&mdash;Eu não disse ainda que perdoava!&mdash;redarguia o fidalgo
+irado&mdash;A prima Maria das Dôres está brincando com a minha decrepitude. Não
+me arrependo do que fiz; hei-de ter brios até ao fim da vida, e muito desprezo
+para quem duvidar se eu os tenho.</p>
+
+<p>Isto era pungentemente allusivo.</p>
+
+<p>Os primos iam ter com a fidalga, e diziam-lhe que<span class="pn"
+id="pg_172" >{172}</span> acautelasse a filha dos primeiros
+impetos do pae, cuja alma estava ainda muito crúa, e a soberba muito inflamada.
+</p>
+
+<p>Debaixo da má impressão dos parabens, que elle imaginou ironicos e
+offensivos, saíu Gonçalo Malafaya a prevenir o chanceller, o regedor das
+justiças, e o juiz do crime de que sua filha estava em Mirandella com direcção
+ao Porto, e que vinha com ella o desertor. Os magistrados responderam-lhe que
+os crimes militares não entendiam com elles, executores da justiça civil. No
+que tocava a Maria Henriqueta, ajuntaram que, estando ella legitimamente
+casada, a lei lhes vedava aceitarem a intempestiva querella de pae.</p>
+
+<p>&mdash;Mas eu hei de provar a nullidade do casamento&mdash;redarguia
+Gonçalo.</p>
+
+<p>&mdash;É possivel&mdash;replicavam os magistrados&mdash;mas a prisão não
+póde antecipar-se á prova que v. ex.ª quer dar.</p>
+
+<p>Mallogrado o mau intento voltou-se aquelle espirito enfermo para melhor
+paragem. Foi ao governador militar e denunciou estar no reino o desertor
+tenente de cavallaria Filippe Osorio. Disse-lhe o governador militar que já
+sabia da sua vinda com o proposito de responder e ser julgado;
+mas&mdash;accrescentou&mdash;admiro que a denuncia me seja feita pelo pae da
+esposa de Filippe Osorio! Que outrem o delatasse!... mas v. ex.ª denunciante de
+seu genro, que perdeu a carreira por amor de sua filha, que hoje é mulher
+d'elle e já mãe de uma menina!... É espantosa aberração!<span class="pn"
+id="pg_173" >{173}</span></p>
+
+<p>&mdash;Eu hei de provar a nullidade do casamento de minha
+filha!&mdash;redarguiu Gonçalo Malafaya.</p>
+
+<p>&mdash;Prove v. ex.ª tudo; mas abstenha-se de provar que todas as vinganças
+desairosas lhe servem. Eu conheci Filippe cadete do regimento em que eu era
+major, ha sete annos. Tive-o sempre no preço mais avantajado da intelligencia e
+decoro militar. Se eu fosse principe, dera-lhe a minha unica filha; e, sendo
+Gonçalo Malafaya, dera-lhe a filha, o coração, e o sangue todo de meus avós por
+um abraço.</p>
+
+<p>Gonçalo abafava de raiva, e saíu convulsivo de ameaças de furia. Entrou em
+casa, e rompeu em alaridos descompostos contra Maria das Dôres, contra a filha,
+contra a justiça, e contra Deus. A mulher, fallecida de paciencia, perguntou ao
+capellão se seria prudente segurar o marido no seu quarto, antes que elle
+passasse a espancar a gente da casa.</p>
+
+<p>Benzeu-se tres vezes o padre e disse:</p>
+
+<p>&mdash;Seria bom segura'-lo antes que elle espancasse a gente da casa; mas
+eu não me metto n'isso, porque diz lá o ditado, com doudos nem para o céo,
+senhora fidalga!</p>
+
+<p>Passados dois dias, chegaram ao Porto Filippe Osorio, Maria Henriqueta, a
+filhinha nos braços da ama, e os dois velhos creados.</p>
+
+<p>Maria Henriqueta escreveu da hospedaria a sua mãe, noticiando-lhe a chegada.
+«Em que má hora!&mdash;dizia a mãe na resposta.&mdash;Está mais furioso que
+nunca teu pae. Ha dois dias que sae a mover contra teu marido os<span
+class="pn" id="pg_174" >{174}</span> poucos amigos, que se condoem
+d'elle. Esteve tudo muito bem disposto; mas agora me consta que teu marido tem
+de responder da prisão pelo crime; e teu pae, aconselhado por vis letrados, que
+o exploram, vae intentar uma acção de nullidade de casamento. A tua vinda para
+aqui é imprudentissima.</p>
+
+<p>Temos que combater um mentecapto em furias. Parecia-me que o melhor seria
+entrares no recolhimento de S. Lazaro, em quanto se não decide o julgamento de
+teu marido. A outra demanda póde levar tempo a decidir; mas o resultado ha de
+ser o que nós desejamos, se com effeito o teu casamento está legal, como cuido.
+Pensa n'isto, e dá-me resposta para meu governo. Se convieres em te recolheres
+a S. Lazaro, desarmarás d'esse modo a colera de teu pae, e terás meio caminho
+andado para a reconciliação.»</p>
+
+<p>Lida esta desconsoladora carta, Filippe bebeu as lagrimas da esposa, e
+empenhou as mais seductoras ficções de seu espirito em persuadi'-la a
+recolher-se a S. Lazaro, em quanto elle respondia ao conselho de guerra.</p>
+
+<p>&mdash;Apartar-me de ti!&mdash;exclamava ella.</p>
+
+<p>&mdash;Por alguns dias, dias derradeiros da nossa tormenta de oito annos,
+sacrificio necessario para ganharmos a quietação, que virá mais cedo do que
+podemos espera'-la com a nossa desconfiança de infelizes. Escreve a tua mãe,
+que eu vou apresentar-me ao governo militar.</p>
+
+<p>Filippe deixou sua mulher estupefacta, e escondeu-se a chorar. Se elle
+succumbisse, quem daria alentos á pobre<span class="pn" id="pg_175"
+>{175}</span> esposa e mãe? Se o coração fosse sincero n'aquella
+hora, quantas torturas inuteis para ambos!</p>
+
+<p>E Maria Henriqueta, como se voluptuosamente se estivesse dilacerando os seis
+d'alma, dizia entre si:</p>
+
+<p>&mdash;A serenidade com que Filippe se aparta de mim! A frieza dos seus
+conselhos! Ó meu Deus! serei eu já aborrecida! Estará elle arrependido de se
+ter lançado na carreira da desgraça por minha causa, deixando a outra que
+tantas venturas lhe promettia! Mas, se me não ama, poderá despedir-se d'este
+anjinho com os olhos seccos?!</p>
+
+<p>E abraçava com arrebatada ternura a menina.</p>
+
+<p>Filippe apresentou-se ao governador militar. Foi esta a branda e animadora
+linguagem da auctoridade:</p>
+
+<p>&mdash;É forçoso que se recolha ao castello da Foz. Escuso dizer-lhe que
+será absolvido, porque a Regencia quer que o seja. Espero que em menos de tres
+mezes esteja livre. Sua esposa tem licença para viver comsigo no castello.</p>
+
+<p>&mdash;Não póde ser.</p>
+
+<p>&mdash;Porque não póde ser?</p>
+
+<p>&mdash;Meu sogro vae litigar a validade do meu casamento, as leis mandam que
+minha mulher seja judicialmente depositada, até á decisão. Por conselho de
+minha sogra, e meu, vae minha mulher entrar no recolhimento de S. Lazaro.
+Ámanhã vou entregar-me á prisão.</p>
+
+<p>Voltou com risonho vulto o preso a casa, e disse a Maria que estavam unidos,
+passados tres mezes.</p>
+
+<p>D. Maria das Dôres saltou de sua carruagem á porta<span class="pn"
+id="pg_176" >{176}</span> da hospedaria, abraçou a filha e o
+genro, chorou de ternura beijando a neta, emprestou da sua instantanea alegria
+á contristada familia, e disse que o marido era contente com a resolução da
+filha, e fôra elle pessoalmente falar ao provedor da Misericordia para se
+mobilarem os melhores aposentos do recolhimento para ella. De tudo, inferia
+Maria das Dôres que as pazes se fariam brevemente, os desgostos a passar seriam
+curtos, em comparação dos futuros contentamentos.</p>
+
+<p>Maria Henriqueta reanimou-se, e mais ainda quando encontrou o marido, em
+secreto, enxugando as lagrimas. A mulher que ama precisa ver chorar, para crear
+alentos. A coragem do homem que se despede parece uma offensa, ainda que o não
+seja; simula desamor, ainda mesmo que as lagrimas saiam do coração como gottas
+de ferro candente, e se derramem nas chagas do peito antes de chegarem aos
+olhos. A mulher amante quer, ao separar-se, levar a certeza de que deixa uma
+saudade, bastante a matar o coração que a ama. Isso é que lhe dá força para
+luctar e soffrer. A suprema desgraça é o desalento da duvida, quando a infeliz
+já por si não tem, contra o mundo e contra a desgraça, senão a certeza de ser
+amada. Por isso, Maria Henriqueta achou em si a antiga força, quando
+surprehendeu Filippe a chorar.</p>
+
+<p>Na seguinte manhã, o preso ajoelhou aos pés de sua mulher, e disse-lhe:</p>
+
+<p>&mdash;Não te peço amor, minha esposa; peço-te coragem, mulher. Aqui te
+deixo minha filha: fala-lhe de mim, e ella será o anjo mensageiro das minhas
+atribulações.<span class="pn" id="pg_177" >{177}</span> Quanta
+mais força tiveres, mais digna serás do teu esposo. Mulher que tanto soffreu, e
+a tanto se arrostou, não póde fraquear agora em tres mezes de ausencia. Maria,
+eu não me engano com a tua alma, não? Has de viver e luctar com os desgostos
+por amor do teu Filippe, que ainda se não julga desgraçado?</p>
+
+<p>Não lhe respondeu Maria. Lançou-se-lhe soluçante aos braços, e arquejou em
+convulsões sobre o peito em que lavrava um fogo occulto de morte, ao qual
+parece que as lagrimas da mulher amada se reseccam.</p>
+
+<p>Tomou Filippe a filhinha dos braços da ama. Contemplou-a, e deteve-se até
+que a mãe lh'a tirou dos braços. É que da face d'elle se esvaíra lentamente a
+côr; o brilho dos olhos apagára-se subito; um tremor lhe correra os braços; o
+corpo ia inclinando, e a menina resvalava-lhe das mãos.</p>
+
+<p>&mdash;Filippe! exclamou Maria&mdash;essa é a tua força, Filippe! Por Deus,
+reanima-te, que me tiras a coragem!</p>
+
+<p>Sorriu-se o marido, beijou-a na face, e murmurou:</p>
+
+<p>&mdash;Parecia-me que era a ultima vez que via nossa filha... O amor de pae
+tem estas visões passageiras. Deus me defenda de as ter a teu respeito
+semelhantes, minha esposa!<span class="pn" id="pg_178"
+>{178}</span></p>
+
+<p><span class="pn" id="pg_179" >{179}</span></p>
+
+<h3><a name="SECTION00502">II</a></h3>
+
+<p>Maria Henriqueta, aceitando o recolhimento de S. Lazaro, mal sabia a
+grandeza e o travor do calix que punha aos labios! Tantos mosteiros havia ahi
+no Porto, com tanta liberdade e regalias, e senhoras boas para amigas, e
+preladas menos austeras com as dores do coração, e mais contrictas, por isso
+mesmo, das suas!</p>
+
+<p>Era o recolhimento de S. Lazaro um vasto recinto sem ar nem luz, um
+congresso de meninas pobres, que reflectiam a sua miseria, e castigos, e
+forçadas penitencias, nas pensionistas abastadas, e alli reclusas pela
+violencia paternal. Não se abria um sorriso nos labios de nenhuma. As pobres
+anhelavam a sua indigencia ao ar livre, as ricas estorciam-se nos phrenesis da
+sua irremediavel reclusão. As de boa indole que para alli entravam, espicaçadas
+pela severidade rude das regentes, tornavam-se iracundas, e umas contra outras
+se enraiveciam, a ponto de ser rara a convivencia de duas pensionistas ricas.
+Era o desespero que as fazia de condição bravia e intractavel. Maria, apenas
+teria uma hora de convento, que maldisse a sua cedencia á vontade da<span
+class="pn" id="pg_180" >{180}</span> mãe, e aos conselhos do
+esposo. Perguntou logo indiscretamente se podia mudar-se para outro deposito, e
+a regente respondeu que ella não era senhora sua, em quanto se não provasse que
+estava legitimamente casada; que a seu pae incumbia romove'-la, por que fôra
+elle quem apresentára ao senhor provedor o mandado do deposito.</p>
+
+<p>Esta resposta, seccamente dada, foi motivo a que Maria Henriqueta ganhasse
+profunda aversão á regente.</p>
+
+<p>Era-lhe licito escrever a seu marido. N'esse respiro gastava ella as horas
+do dia e muitas da noite; mas pequena consolação é essa, quando as cartas são
+como cauterio á chaga, sem o beneficio da cura. Respondia-lhe Filippe, fingindo
+animo, e inventando lenitivos de paciencia, sendo unicamente sincero nos da
+esperança. Baldado intento! A saudade e a desesperação recrudesciam. Tomava a
+filhinha nos braços, como taboa de naufragado, e nem assim, nem á luz dos olhos
+d'ella via ao longe a redempção.</p>
+
+<p>Uma só menina das orphãs pobres ella chamára á sua intimidade: era Rita de
+Cassia, illustre de nascimento, mas desamparada de pae e mãe, que a lançaram de
+si como vergonhoso testemunho de a trazerem á vida n'uma epoca de desdourados
+amores. Affrontaram o escandalo, e fugiram affrontados ao dever!</p>
+
+<p>O pae, que escondia o titulo, para livrar-se d'ella, e salvar o nome de sua
+mãe, calou a consciencia entregando-a á caridade da Santa Casa, e para isso
+declarou que a menina não tinha pae nem mãe. Antes elle falasse<span class="pn"
+id="pg_181" >{181}</span> a verdade, e o genero humano teria de
+menos um estygma.</p>
+
+<p>Rita era commensal de Maria Henriqueta, e consolação de muitas agonias, se o
+chorar com quem chora é consolar. Que provas a orphã deu, passados mezes, do
+seu reconhecimento e cega amisade á fidalga e infeliz!</p>
+
+<p>Depois de um mez de reclusão, Rosalinda, a filhinha de Maria Henriqueta,
+adoeceu de garrotilho, e expirou no termo de quarenta e oito horas. Durante o
+curto prazo da doença e da agonia, era geral no recolhimento o receio de que a
+mãe enlouquecesse, morrendo a creancinha. Nos braços d'ella passou a menina os
+paroxismos, aquella estortorosa respiração, que é uma lenta asphyxia, e acaba
+por agudissimo arranco. Tiraram dos braços de Maria o inanimado corpo, o
+envoltorio macerado do anjo. A mãe correu ao longo dos corredores, soltando
+gritos, sem destino, sem paragem, fechando os ouvidos, quando lhe falavam,
+arrancando-se enfurecida dos braços, que a detinham. Poderam Eugenia e Ritta de
+Cassia leva'-la ao seu quarto, e excita'-la a chorar, como remedio unico. Uma e
+outra lhe falavam de Filippe; e, como lhe dissessem que o marido morreria,
+sabendo a morte da filha, já Maria Henriqueta, aterrada de dôr maior, pediu
+forças a Deus para mitigar com rogos de conformidade a consternação do esposo.
+</p>
+
+<p>Lembrou-se então do desmaio do marido ao abraçar a menina, e das palavras
+com que explicou o seu desalento: «Parecia-me que era a ultima vez que via a
+nossa filha.»<span class="pn" id="pg_182" >{182}</span></p>
+
+<p>Os apontamentos de uma senhora, que foi coeva de Maria Henriqueta no
+recolhimento<a name="tex2html1" href="#foot355"><sup>[1]</sup></a>, dizem
+singelamente:</p>
+
+<p>«A sua consolação unica lhe foi roubada; morreu-lhe a adorada filhinha.
+Andava Maria Henriqueta de noite em gritos pelos dormitorios. Todas choravam
+com ella, e eu tambem, com quanto então tivesse nove annos.&mdash;Falta-me um
+pedaço de minha alma!&mdash;gritava a pobre mãe. Que formosa era a menina!
+Teria um anno. Foi enterrada em Santo Ildefonso. Veiu alli busca'-la o abbade
+n'uma locomotiva que era como os carrinhos de agora, pouco mais ou menos.
+Dizia-se que ella ajoelhára ao pé da filhinha, quando lh'a tiraram ultimamente,
+já amortalhada, e dissera:&mdash;Vae pedir ao Senhor a liberdade de teu pae,
+meu anjinho!»</p>
+
+<p>Ao outro dia, tinha ella de responder á carta do marido, que parecia
+esquecer-se de sua situação, para falar da menina. «Dá-me cuidado&mdash;dizia
+elle&mdash;a doença de nossa filha; mas espero que Deus nos poupe ao golpe de a
+perder. Não merecemos tamanha dor, Maria; a bondade divina, a querer levar para
+si o anjo, esperaria que estivessemos unidos para valermos um ao outro.»</p>
+
+<p>E havia de responder a esta carta a pobre mãe, quando a filha já estava
+sepultada! Qual outro coração<span class="pn" id="pg_183"
+>{183}</span> se abriria a recolher-lhe as lagrimas? Como havia de
+fingir ella uma linguagem socegada? Como abafar sua paixão, em quanto escrevia
+a resposta? Que dôres a vida tem!</p>
+
+<p>E respondeu; mas, sem determinar a nova causa de sua afflicção, obedeceu ao
+impulso do desespero, amaldiçoando o pae, o destino, e Deus. As blasphemias era
+a carta do marido que lh'as incitava, no periodo trasladado. Deus lhe levára a
+filha, no momento em que o carcere, a separação do marido, e a solidão, alguma
+vez teriam desafogo, nos afagos da creança. A misericordia do céo lhe
+descontaria na balança das impiedades o punhal agudissimo, que lh'as faria
+resaltar do coração, e jámais da consciencia. Na carta, falando da filha,
+apenas disse: «Se ella hoje fosse do céo, pediria ao Senhor a tua liberdade.»
+</p>
+
+<p>Porém, o silencio de Maria Henriqueta conseguiu apenas retardar algumas
+horas a infausta nova.</p>
+
+<p>Estavam no Porto os irmãos de Filippe Osorio, e esses lh'a levaram.</p>
+
+<p>Succumbiu aquella forte alma, e pensou em aniquilar-se. A sinistra idéa
+cedeu ao primeiro accesso de febre.</p>
+
+<p>Faltaram a Maria Henriqueta as cartas em dois dias. Mandou ella directamente
+ao castello da Foz, e soube que o marido estava perigosamente enfermo. Fez-se
+uma terrivel explosão no animo varonil de Maria. Tremeu a regente da investida
+vertiginosa, que ella lhe fez no quarto, exigindo que lhe abrissem as portas.
+Diz a minudenciosa<span class="pn" id="pg_184" >{184}</span>
+noticia d'estes successos, dada pela indicada senhora, que mais alguma vez
+citarei: «Nas crises de maior exasperação Maria Henriqueta parecia possessa.
+Com todas se travava de razões, e trazia na mão uma chibata de junco, que
+vergava, e sacudia, em ar ameaçador, principalmente entrando na cella da
+regente; e a regente tremia d'ella, e da chibata, por amor á sua pelle, que já
+tinha então oitenta e um annos, e era estimavel pelle por ser de dura.» No
+final d'este faceto periodo se denota a má vontade que a minha illustre
+informadora ainda conserva á sua regente de ha cincoenta annos!</p>
+
+<p>Estava pois, a octogenaria regente alapada no seu cubiculo, quando Maria
+Henriqueta lhe surgiu de sobresalto no limiar da porta, com a chibata em punho,
+ordenando que se lhe facultasse a saída, para visitar seu marido, que estava
+doente. Cuidou morrer de pasmo a velhinha; mas recobrou animo, quando viu a
+sub-regente, a sachristã, e outras funccionarias da casa deliberadas a
+defende'-la. Com suaves maneiras, conseguiram todas que Maria Henriqueta
+espaçasse até ao dia seguinte a saída, para se legalisar o facto com a licença
+do provedor da Santa Casa.</p>
+
+<p>A fidalga não insistia muito tempo n'uma mesma idéa. Andava a baldões de sua
+afflicção, ora abraçada a Eugenia, ora a Rita de Cassia, ora repellindo-as
+ambas desabridamente.</p>
+
+<p>Foi aquella noite de tormenta no recolhimento. Maria declamou, chorou,
+delirou em corridas de uma a outra extrema<span class="pn" id="pg_185"
+>{185}</span> da casa. Na seguinte madrugada, mandou a regente
+informar o provedor, e este á frente da mesa da Santa Casa, foi a S. Lazaro, e
+chamou ao locutorio Maria Henriqueta, com o intento de reprehender-lhe as
+impaciencias, e conforta'-la com palavras esperançosas de breve saída. Veiu a
+enclausurada, cuidando que ia receber a licença; mas, ouvidas as primeiras
+palavras, azedou-se-lhe tanto a dôr e a colera que o provedor suava de
+ouvi'-la, e os da mesa estavam como que passados de tamanha ousadia, affronta
+original n'aquella casa de humillimas victimas.</p>
+
+<p>Fatigada de exprobrar a tyrannia do pae e a impiedade dos verdugos, que lhe
+mataram a filha e queriam matar o marido, Maria Henriqueta deixou-os na grade,
+entrou na cella esbofada e arquejante, chegou ao ouvido de Rita, e disse-lhe
+com a seriedade de um proposito de demente:</p>
+
+<p>&mdash;Havemos de fugir hoje d'aqui: tu vaes comigo, Rita, se tiveres
+coragem. </p>
+
+<p>A orphã temeu que a sua infeliz amiga estivesse louca; mas, para se
+confirmar em suas suspeitas, ainda lhe disse:</p>
+
+<p>&mdash;Por onde fugiremos nós, minha senhora?!</p>
+
+<p>&mdash;Cala-te, que eu sei por onde se póde fugir. Queres ir?</p>
+
+<p>&mdash;Vou, vou, mas diga-me por onde, que me parece um sonho podermos fugir
+d'estas paredes, que nem janellas teem.</p>
+
+<p>Dito isto, Maria recebeu uma carta de Filippe, escripta<span class="pn"
+id="pg_186" >{186}</span> por extranho pulso, e assignada por
+elle. Era animadora; a razão estava normal; a filhinha pedira por seu pae a
+Deus; elle mesmo se deleitava n'esta doce persuasão; e os irmãos, que o
+rodeavam, queriam salva'-lo com ella.</p>
+
+<p>Aquietou-se algum tempo o espirito da esposa; e ao voltar a intermittencia
+do desespero vinha já menos descomposta. O plano da fuga prevaleceu ás
+melhoradas novas.</p>
+
+<p>De tarde, saiu sósinha Maria e foi orar para o côro; depois disse que queria
+descer á egreja para resar de perto aos altares, e teve a licença, com grande
+aprazimento da regente, que tirou do devoto acto bons auspicios. Foi á egreja,
+e quiz estar a sós com Deus. Relanceou os olhos a todos os lados, esperou que
+saíssem do côro algumas orphãs que a observavam, e deteve-se a reparar n'um
+postigo chamado a <em>ministra</em>, por onde as recolhidas recebiam a
+communhão, espaço com dois palmos de largo sobre palmo e meio de altura. Feito
+o rapido exame, saíu da egreja, e recolheu-se á sua cella com semblante
+socegado, e um brilho de extranha alegria nos olhos. Contou a Eugenia a sua
+tenção. Chorava a pobre mulher, ouvindo-a, e contrapunha-lhe muitos obstaculos,
+aos quaes Maria respondia sempre vencedora.</p>
+
+<p>Vamos ver os prodigios de elasticidade, obrados pelo coração sobre o corpo
+de Maria Henriqueta.<span class="pn" id="pg_187" >{187}</span></p>
+
+<h3><a name="SECTION00503">III</a></h3>
+
+<p>É parte d'este capitulo trasladado dos apontamentos. Quem presenceou o
+successo mais fielmente lhe dará as côres:</p>
+
+<p>«A porta da egreja era costume deixa'-la fechada por dentro, e a chave
+ficava na porta, ficando a cargo da escrivã abri'-la de madrugada.</p>
+
+<p>«A porta do commungatorio ficava aberta, porque parecia cousa impraticavel o
+poder alguem, que não fosse puro espirito, evadir-se pela <em>ministra</em>.
+</p>
+
+<p>«Escolheram para a fugida a hora em que a communidade, depois do côro, se
+ajuntava no refeitorio.</p>
+
+<p>«A primeira que saíu foi a fidalga, mas, segundo eu depois soube, passou
+torturas para enfiar os largos hombros por entre o estreito postigo; e do
+ultimo e já desesperado repuxão, que fez, foi bater com a face nos degraus do
+altar-mór, e feriu-se grandemente na testa.</p>
+
+<p>«A orphã, como era muito delgadinha, saíu com menos custo.</p>
+
+<p>«Depois, Maria Henriqueta, limpando o sangue da ferida, abriu a porta da
+egreja, e saíram.<span class="pn" id="pg_188" >{188}</span></p>
+
+<p>«Ás dez horas da noite, conforme o costume, foi a sachristã temperar a
+lampada do Santissimo Sacramento, e viu aberta a porta do commungatorio, e as
+portinholas da <em>ministra</em> tambem abertas.</p>
+
+<p>«Antes de mais averiguações, começou a gritar a sachritã. Desceram algumas
+pensionistas á egreja e viram a porta da egreja cerrada.</p>
+
+<p>«Todas, a uma voz, disseram que Maria Henriqueta fugira. Foram ao quarto
+d'ella procura'-la, e d'ahi passaram ao de Rita de Cassia.</p>
+
+<p>«Deu-se então no recolhimento de S. Lazaro uma amostra do dia de juizo. A
+regente, com as mais senhoras da governança, ajuntaram-se em consistorio, para
+deliberarem.</p>
+
+<p>«As meninas já de razão e juizo andavam afflictas: eu, porém, e as outras de
+minha edade nunca nos divertimos tanto; porque andavamos ás ondas por entre as
+velhas, fingindo que estavamos assombradas do geral terror.</p>
+
+<p>«Ás onze horas da noite foi chamado meu pae,<a name="tex2html2"
+href="#foot366"><sup>[2]</sup></a> e reprehendeu severamente as auctoridades da
+casa, porque deixaram aberta a porta do commungatorio.</p>
+
+<p>«As providencias foram dadas com tão desgraçado acerto que, ao outro dia,
+seriam onze horas...»</p>
+
+<p>Suspendemos a copia, que nos não dá n'este ponto os promenores da fuga,
+vencidas as principaes difficuldades, que n'este infausto caso, foram as
+menores.<span class="pn" id="pg_189" >{189}</span></p>
+
+<p>Caminharam as fugitivas na direcção das Fontainhas. Maria Henriqueta não
+sabia um passo da cidade, e Rita de Cassia, reclusa desde menina, era
+egualmente ignorante. Foram á ventura até encontrarem uma rampa de pedregulho
+que descia da rua do Sol.</p>
+
+<p>No alto da rampa viram dois vultos quietos; tomaram-lhes medo, e sem se
+consultarem fugiram. Os dois vultos eram os «nocturnos» que faziam a policia, e
+obedeciam a apertadas ordens, n'aquelles tempos revoltos de jacobinos, e
+malfeitores, que os pretextavam para rebuçarem sua malvadez.</p>
+
+<p>Os nocturnos correram sobre as duas fugitivas, e travaram d'ellas como quem
+aferra duas amazonas das que antigamente espostejavam exercitos de barbados
+persas. Interrogaram-as com a brandura de nocturnos. Maria Henriqueta declarou
+ser creada de servir, e a respeito do seu destino disse que ia para a Foz, onde
+tinha seus patrões. Rita, para não inventar outra profissão e destino, disse
+que era tambem creada de servir, e que ia para a Foz.</p>
+
+<p>Interrogadas ácerca dos nomes dos amos, e outras miudezas, responderam
+disparates, que infundiram suspeitas, se não de jacobinas, ao menos de pessoas
+que se serviam da noite para obras pouco louvaveis, como fuga de casa,
+ladroeira, ou alguma das mil hypotheses, que cabiam na cabeça dos dois
+nocturnos.</p>
+
+<p>&mdash;Vocemecês&mdash;disse um d'elles, amoldando o tratamento aos trajos
+limpos das presas&mdash;hão de vir ao almotacé, e lá dirão quem são, e o
+destino que levam.<span class="pn" id="pg_190" >{190}</span></p>
+
+<p>Rita, para confirmar suspeitas, levantou um choro, que valeu muito a
+prejudica'-las no conceito dos policias. Maria Henriqueta, mandando-a calar,
+via menos carregado o futuro, que a esperava em casa do almotacé.</p>
+
+<p>Foram, e entraram á presença do funccionario, que fez um tregeito de
+espantadiço quando viu a formosa cara de Maria. Repetiu as perguntas, e inferiu
+as mesmas suspeitas dos nocturnos, que eram emanações da alma d'elle, e
+recebiam todas as mesmas impressões no mesmo orgão sensorio.</p>
+
+<p>Cuidou a incauta Maria Henriqueta que a verdade a podia salvar d'aquelle
+passo difficil. Disse quem era, proferiu o nome de seu pae, e de seu marido. O
+almotacé curvou a cabeça inflexivel á illustre dama; disse-lhe, porém, que a
+obrigação d'elle era rete'-las até dar aviso; e, em obsequio ao sr. Gonçalo
+Malafaya, as teria em sua casa até ser dia.</p>
+
+<p>Conformou-se Maria, pedindo papel para escrever a sua mãe; e escreveu uma
+carta de que foi portador o proprio funccionario.</p>
+
+<p>Estava já recolhida D. Maria das Dôres; perguntou o almotacé se lhe era
+permittido falar para negocio urgentissimo com o fidalgo.</p>
+
+<p>Malafaya não tinha ainda recolhido de casa dos primos Mellos, e para lá se
+dirigiu o portador da missiva. Contou elle ao velho o acontecimento, dando-lhe
+a carta, que ia endereçada a D. Maria das Dôres. Gonçalo leu-a com agitado
+aspecto, e disse colerico:</p>
+
+<p>&mdash;Conserve essa desgraçada em sua casa até ámanhã.<span class="pn"
+id="pg_191" >{191}</span> Eu me encarrego de entregar a carta a
+minha mulher. Tenha-me todo o cuidado em minha filha.</p>
+
+<p>Voltou o almotacé a dar conta da sua commissão, e produziu em Maria
+Henriqueta um insulto de nervos.</p>
+
+<p>&mdash;Foi entregar a carta ao algoz!&mdash;exclamava ella:&mdash;Agora é
+que eu vou ser mais desgraçada! Deixe-me saír, que eu não espero as ordens de
+meu pae!</p>
+
+<p>&mdash;Não tem remedio senão espera'-las&mdash;Disse friamente o
+aguazil-mór.</p>
+
+<p>&mdash;Não tenho remedio?!&mdash;bradou Maria&mdash;Tenho o remedio que dá a
+desesperação! Conduza-me já á rua, quando não, grito que me querem matar!</p>
+
+<p>O homem, por piedade ou por medo de passar uma noite turbulenta, esgotou os
+recursos da persuasão para conter a fidalga, promettendo-lhe obstar a que seu
+pae lhe fizesse alguma violencia. Para ser coadjuvado nos seus ordeiros
+discursos, fez levantar as senhoras da familia, e trouxe-as á sala, onde
+estavam as retidas. As senhoras eram ternas, e compadeceram-se da atribulada
+esposa, que chorava esposo e filha. Uma dellas encarregou-se de fazer
+pessoalmente entregar de manhã uma carta á fidalga mãe. Confortada com esta
+esperança, Maria Henriqueta socegou, e conseguiu aplacar as vertigens da pobre
+Rita, que era fraca e timida como quem, desde a infancia, andou sempre sovada
+aos pés da desgraça.</p>
+
+<p>De manhã, saiu uma creada do almotacé a entregar a carta, recommendando-se
+como enviada da sr.ª D. Maria Henriqueta, e bem ensaiada por esta. Quizera
+o<span class="pn" id="pg_192" >{192}</span> guarda-portão
+impedir-lhe o accesso, antes das nove horas; mas a destra portadora rompeu
+escada acima, chamando a fidalga a altas vozes.</p>
+
+<p>Conduzida ao quarto da senhora, entrou a um tempo com ella Gonçalo Malafaya,
+querendo arrancar-lhe a carta das mãos. D. Maria saltou assanhada do leito, e
+levou o marido a empurrões para fóra do quarto.</p>
+
+<p>Leu anciosa a carta, vestiu-se acceleradamente, e saíu com o seu capellão a
+encontrar-se com a filha.</p>
+
+<p>A primeira victima de sua ira foi o almotacé a quem ella chamou os nomes,
+que dava aos seus infimos creados. Pensava o inviolavel funccionario em
+autua'-la; mas pareceu-lhe mais prudente desarmar-lhe a cólera, porque receava
+ser demittido do officio no dia seguinte. O principal artigo de accusação da
+fidalga era ter o <em>vil esbirro</em> (amabilidade que muito offendeu o
+almotacé) era ter elle entregue ao pae a carta, que ia para a mãe. Graças á
+pacifica eloquencia do capellão, a fidalga desceu-se da sua raiva, e entrou em
+pensamentos mais moderados, tendentes a salvar a filha das garras, que o pae
+estava aguçando.</p>
+
+<p>Tardias combinações! Tinham soado dez horas, quando á porta do almotacé,
+pararam duas cadeirinhas e seis soldados nocturnos, e um alcaide com ordem de
+reconduzir ao recolhimento de S. Lazaro as fugitivas.</p>
+
+<p>D. Maria das Dôres, quando tal ouviu, teve um vágado, que os impetos de
+raiva não deixaram durar muito. Ao recobrar-se das convulsões, abraçou-se á
+filha, exclamando:<span class="pn" id="pg_193" >{193}</span></p>
+
+<p>&mdash;De hoje em diante serei mais que tua mãe, Maria! Serei tua cumplice,
+se és criminosa! Eu é que te hei de entregar a teu marido. Vae! Soffre mais
+alguns dias. Eu vou consolar teu esposo; vou trabalhar a favor d'elle, serei
+mesmo a sua enfermeira; e, de volta da Foz, irei falar-te ao recolhimento.
+Conta comigo, Maria. Leva a certeza de que os teus tormentos acabam d'aqui a
+poucos dias, se a minha vida não acabar antes!</p>
+
+<p>Maria reanimou-se, que eram para dar muita alma as promessas da energica e
+vindicativa senhora.</p>
+
+<p>Agora, prosegue o traslado dos apontamentos:</p>
+
+<p>«Entraram duas cadeirinhas na portaria do recolhimento, escoltadas por seis
+soldados nocturnos. Vinha em uma a fidalga: e na outra a sua amiga.</p>
+
+<p>«A todos pareceu escandalo a barbaridade que o pae escolhesse tal hora, para
+reconduzir duas senhoras a uma casa de educação, cercadas de tropa, e rodeadas
+de populaça!</p>
+
+<p>«Meu pae appareceu logo na portaria, e auctorisou a regente a castigar
+asperamente a fidalga, como pensionista; e Rita como orphã pobre. Á primeira
+decretou o tronco de cima, e á segunda o chamado tronco de baixo.</p>
+
+<p>«O tronco de cima era uma cella, sem differença sensivel das outras, a não
+ser que a luz se coava de uma fresta muito alta, e era fechada com duas portas,
+cujas chaves tinha a regente, e recebia os alimentos por um postigo. O maior
+castigo era a privação de falar com outras meninas.<span class="pn" id="pg_194"
+>{194}</span></p>
+
+<p>«O tronco de baixo era um subterraneo, sem minima claridade. Continha um
+leito de ferro, que hoje é moda, e era então ignominia. Fôra construida, alguns
+annos antes, esta caverna para castigo de uma menina, que havia fugido, e lá
+esteve em paroxismos, até que a deixaram sair e morrer com a pouca mais luz da
+sua cella. Eu tal horror lhe tinha, que só de passar sobre o alçapão da
+masmorra, me sentia tremer. Este era o supplicio destinado a Rita de Cassia.
+</p>
+
+<p>«Condoeu-se meu pae da fidalga, posto que ella não solicitasse compaixão de
+ninguem. Dizia ella á regente que o vexame de ser trazida entre soldados lhe
+era bastante expiação. A pobre Rita, porém, que não tinha pae nem pão, senão o
+da caridade, foi a victima expiatoria, <em>para exemplo das outras</em>, dizia
+a senhora regente, que Deus tem. Ainda assim, houveram com ella piedade,
+mandando-a para o tronco de cima.</p>
+
+<p>«Ao outro dia, quando lhe levaram os primeiros alimentos, acharam-na sem
+sentidos e banhada em sangue. Pensaram que ella se teria rasgado alguma veia;
+mas o sangue era lançado pela bocca. Julgaram-na morta, e era geral a
+consternação na casa. A angustia de D. Henriqueta sobrelevava a de todas; mas á
+orphã castigada era-lhe prohibido ver a sua amiga, a amiga por quem morria ou
+estava morta.</p>
+
+<p>«Deu signaes de vida.</p>
+
+<p>«Estavam no recolhimento duas meninas muito ricas e por isso muito
+respeitadas: eram D. Innocencia Pereira de Castilho, e D. Gertrudes Pereira de
+Castilho.<a name="tex2html3" href="#foot375"><sup>[3]</sup></a><span class="pn"
+id="pg_195" >{195}</span> Foram estas duas irmãs lavadas em
+lagrimas, pedir á regente, que as deixasse tomar á sua custa o tratamento da
+orphã, na sua cella. A regente era de cêra aos desejos das ricas pensionistas.
+Cedeu-lhes a doente moribunda. Tantos foram os carinhos, os medicamentos, e os
+desvelos, que a menina chegou a restaurar-se. Depois das melhoras, solicitaram
+as Castilhos o perdão da menina, e conseguiram-o.</p>
+
+<p>«D. Maria esteve tambem doentissima n'esta epoca, mas de muito menor
+cuidado, e prompto restabelecimento. Para lhe não faltar afflicção alguma, até
+lhe prohibiram á dedicada Rita ver a fidalga que, apesar dos soffrimentos
+passados, ella amava com o coração de um anjo.»</p>
+
+<p>Ninguem infira dos successos descriptos, em desabono da caridade e
+humanidade do recolhimento de S. Lazaro, ha cincoenta annos, o que hoje possa
+ser aquelle pio estabelecimento. Nenhuma analogia approxima os costumes de
+então com os de hoje. O raio benefico do facho civilisador lá foi alumiar
+tambem aquelle recinto; os homens que o fiscalisam, são os filhos d'este
+seculo, os que sabem irmanar com a doutrina do bem uma prudente severidade. Se
+alguma vez, em nossos dias, sairam arguições em desfavor do regimen d'aquella
+casa de caridade para meninas orphãs, e de educação<span class="pn" id="pg_196"
+>{196}</span> social e religiosa para pensionistas, convém que se
+descontem n'essas arguições causas deshonestas, e portanto injustas, que a
+promoveram. Não sabemos que haja outro recolhimento no paiz mais dignamente
+mantido sobre bases de piedade, morigeração e ensinamento de prendas, com que
+d'alli sáem adornadas muitas donzellas, que as mostram na sociedade, como
+esposas e mestras de seus filhos. Sirvam estas linhas de anteparo á censura
+irreflectida de alguem, que folgue de afiar no auctor os dentes da calumnia.
+</p>
+
+<p>D. Maria das Dôres cumprira integralmente sua palavra. Foi ao castello da
+Foz: contou a Filippe Osorio a parte menos pungitiva da aventura de sua filha.
+Egualou-o na consolação das promessas e das esperanças. Chamou-lhe filho com
+toda a effusão da sinceridade. Chorou com elle ao falarem de Rosalinda, e d'ali
+voltou ao recolhimento a aviventar a filha.</p>
+
+<p>N'esse mesmo dia, sobre tarde, recebeu a regente ordem do provedor para
+impedir que Maria Henriqueta falasse com sua mãe. Quando esta, ao outro dia,
+apeou no pateo, saiu-lhe á portaria a regente, mostrando lacrimosa a ordem, que
+recebera. D. Maria das Dôres recolheu-se a casa, esperou que o marido entrasse,
+lançou-se a elle de insultos e improperios tão novos, que o velho cuidou ganhar
+a bemaventurança fechando-se no seu quarto. No dia seguinte, o mordomo da casa,
+creatura particular da fidalga, partia para Lisboa a ganhar horas, com uma
+carta a um dos membros do governo; e nove dias depois, depunha em mãos de
+sua<span class="pn" id="pg_197" >{197}</span> ama, uma ordem da
+regencia, para que as portas do recolhimento de S. Lazaro se abrissem a D.
+Maria das Dôres, a qualquer hora do dia que ella quizesse visitar sua filha.
+</p>
+
+<p>Gonçalo Malafaya, quando tal soube, soffreu o primeiro ataque de paralysia
+n'uma perna.<span class="pn" id="pg_198" >{198}</span></p>
+
+<p><span class="pn" id="pg_199" >{199}</span></p>
+
+<h3><a name="SECTION00504">IV</a></h3>
+
+<p>A convalescença de Maria foi velada por sua mãe. Passava a fidalga os dias,
+e grande parte das noites, no recolhimento. Abriam-se e fechavam-se portas com
+grande escandalo dos mesarios, a horas em que era dos estatutos o silencio
+obrigatorio.</p>
+
+<p>D. Maria das Dôres levou, a pouco e pouco, o que tinha em casa, pertencente
+ao guarda-roupa de sua filha. As suas mesmas joias lhe deu, receando morrer a
+tempo de as não poder confiar do marido como legado á filha. Quando não estava
+no convento passava grande parte do dia com o genro, pactuando com elle a fuga
+de ambos, logo que o conselho de guerra o restituisse á liberdade.</p>
+
+<p>Fugir para quê, se estavam legitimamente unidos, se deviam vencer o
+cerebrino pleito instaurado por Gonçalo Malafaya?</p>
+
+<p>Assim o parece: mas do que é ao que deve ser, corre uma distancia infinita.
+</p>
+
+<p>Provar a nullidade do casamento era impossivel, mas<span class="pn"
+id="pg_200" >{200}</span> dilatar a prova com os estorvos, que a
+justiça faculta aos que a emmascaram e trazem em ludibrio por sentinas
+douradas, é cousa de todo o ponto facil. Contra a legalidade do matrimonio de
+sua filha allegava Gonçalo a negação do consentimento, e a falsidade da
+certidão, em que o ministro do sacramento era tio do contrahente e as
+testemunhas sobrinhos do abbade, e irmãos de Filippe. Absurdos argumentos que
+tentavam a rir a justiça, porém, um sacerdote d'ella, em primeira instancia,
+por odio inveterado á familia de Mirandella, lavrara uma sentença iniquissima,
+fundada... nos alicerces de ouro, em que levantou poste de vilipendio á sua
+integridade.</p>
+
+<p>Subiu o processo á relação do Porto. Andou o indecoroso auctor captando a
+piedade dos desembargadores com lagrimas que o não lavavam das manchas. Os
+juizes, para honrarem o pae, e a filha, estabeleceram a legalidade canonica e
+civil do casamento, censurando o ignaro juiz, que inventára a deshonra como
+remedio aos despeitos de um pae. Faltava o recurso de superiores instancias.
+Foram para a supplicação os feitos, sem esperanças de bom exito para Malafaya:
+mas, na delonga da sentença final empenhára o fidalgo os cabedaes e os amigos,
+para com os amigos dos cabedaes:&mdash;desculpem a safada elegancia d'este
+trocadilho.</p>
+
+<p>Claro é, pois, que o deposito da esposa tinha de ser prorogado até á final
+sentença, que, sem milagre, podia ser empecida dois annos na supplicação e
+baixar de lá com alguma nullidade ao tribunal onde principiára. Assim<span
+class="pn" id="pg_201" >{201}</span> se explica a premeditação de
+Maria das Dôres na fuga da filha, logo que Filippe Osorio saísse do castello da
+Foz.</p>
+
+<p>Antes de completo segundo mez de prisão, foi o desertor julgado e absolvido,
+com grande assombro de Gonçalo Malafaya. Repetiu-se então o ataque de
+paralysia, ramificando-se ao braço direito. Era a peçonha do rancor que o ia
+matando, pedaço a pedaço.</p>
+
+<p>Apresentou-se Filippe ao provedor da Misericordia, o doutor João Pedro,
+velho que vivera, até envelhecer, vida de rapaz, e fizera do seu palacete o
+berço da <em>civilisação dos costumes</em>, má civilisação, que é o synonymo de
+<em>extrema liberdade</em>, a qual muito tarde será adulta no Porto. Quem hoje
+passa no Reimão diante do palacete que pertence ao sr. Joaquim de Sousa
+Guimarães, póde, se quizer, imaginar que alli, durante os ultimos trinta annos
+do seu antigo proprietario, se fizeram romances praticos de alta moralidade, os
+quaes é muito de esperar que eu venha a dar em livro. Uma das scenas lá
+passadas, a mais simples de todas é a seguinte:</p>
+
+<p>Entrou Filippe Osorio, procurando o doutor Pedro, que saíu a recebe-lo na
+primeira sala. Disse o visitante quem era, e o doutor sentiu-se incommodado do
+coração, que parece ser o orgão do amor e do medo.</p>
+
+<p>Feita a apresentação, com militar seccura, ajuntou o apresentante que era
+marido legitimo de D. Maria Henriqueta.</p>
+
+<p>Tossiu o doutor uma tosse peculiar de susto quando não é de velhacaria. No
+doutor era susto; e o susto não<span class="pn" id="pg_202"
+>{202}</span> deshonra ninguem, mórmente quando o assustado se
+defronta com os trinta annos de um homem de grandes barbas e possante estatura.
+</p>
+
+<p>Estas declarações eram o proemio a uma outra, sobre todas, inquietadora para
+o doutor.</p>
+
+<p>&mdash;Quero ver minha mulher&mdash;disse Filippe.</p>
+
+<p>&mdash;Parece-me que a lei se oppõe&mdash;disse o doutor&mdash;em quanto v.
+s.ª tiver pendente das decisões juridico-canonicas a validade do seu
+casamento.</p>
+
+<p>&mdash;Não venho perguntar a v. s.ª se a lei faculta, se nega: o que eu lhe
+digo é que quero ver minha legitima esposa, agora, logo, ámanhã, sempre.</p>
+
+<p>&mdash;Então queira requerer a juiz competente.</p>
+
+<p>&mdash;Não venho pedir conselhos. Entenda-me, senhor provedor; é ao provedor
+da Misericordia que eu reclamo auctorisação para ser recebido na grade do
+recolhimento por minha mulher.</p>
+
+<p>&mdash;Isso é impossivel, senhor!</p>
+
+<p>&mdash;Que são impossiveis, senhor doutor? Talvez que a v. s.ª pareça
+impossivel haver um homem que lhe corte uma orelha; e, comtudo, affirmo-lhe que
+poucas cousas haverá tão faceis!...</p>
+
+<p>Isto fôra dito com um sorriso de cortar a orelha sem auxilio de ferro. O
+doutor abriu a bocca e regougou:</p>
+
+<p>&mdash;Oh!</p>
+
+<p>Mas este <em>oh</em> foi surdo como um rugido intestinal.</p>
+
+<p>Filippe cruzou os braços, e disse:</p>
+
+<p>&mdash;No que fica?</p>
+
+<p>O provedor refez-se de animo, e respondeu:<span class="pn" id="pg_203"
+>{203}</span></p>
+
+<p>&mdash;Com que então v. s.ª vem ameaçar um velho?</p>
+
+<p>&mdash;O látego da tyrannia deve ser arrancado das mãos dos velhos como dos
+novos. Os annos não santificam a prepotencia, senhor doutor. Nada de maximas.
+Eu não posso demorar-me.</p>
+
+<p>&mdash;E v. s.ª é de certo legitimamente casado á face de Deus?</p>
+
+<p>&mdash;Veja esta certidão.</p>
+
+<p>João Pedro leu attentamente, e disse:</p>
+
+<p>&mdash;Parece-me legal. Como se explica, em tal caso, a guerra que lhe faz o
+meu nobre amigo Gonçalo Malafaya?</p>
+
+<p>&mdash;Não sei, senhor. É um odio injusto: é um pae que diffama sua virtuosa
+filha.</p>
+
+<p>&mdash;Pois bem, sr. Filippe Osorio, eu vou consultar a mesa, e depois lhe
+darei a resposta.</p>
+
+<p>&mdash;Consulte a sua consciencia, e deixe a mesa para mais importantes
+consultas. Eu quero já d'aqui ir em direitura ao recolhimento. Uma ordem de v.
+s.ª basta.</p>
+
+<p>Entrou o doutor João Pedro no seu escriptorio; e, mais levado da consciencia
+que do medo, dado que um pouco de tudo o impellisse á obra meritoria, escreveu
+a ordem, auctorisando a regente.</p>
+
+<p>Filippe saiu com mudado semblante de affectuosa gratidão, e entrou no
+portico do recolhimento. Chamou a regente, passou-lhe a ordem pela roda, e
+esperou impaciente a resposta.</p>
+
+<p>Mandaram-n'o entrar n'uma grade, onde já estavam D. Maria das Dôres e a
+filha, esperando-o. A esposa<span class="pn" id="pg_204"
+>{204}</span> enfiou por entre as rêxas os braços, que
+difficilmente passavam.</p>
+
+<p>&mdash;Que mudada estás!&mdash;exclamou Filippe.&mdash;Que maceração de
+rosto, minha pobre Maria! O que tens penado n'estes dois mezes!</p>
+
+<p>Era pungente ver chorar aquelle homem, na contemplação da magreza cadaverica
+de sua mulher!</p>
+
+<p>Nem um riso de contentamento n'aquelle primeiro encontro!</p>
+
+<p>&mdash;Falta-me a filhinha!&mdash;dizia Filippe&mdash;Onde está o nosso
+anjo, ó Maria! Porque nos privou o céo da nossa filha, que devia n'este momento
+sorrir-nos a bonança, e accusar estas lagrimas como ingratidão aos beneficios
+de Deus?</p>
+
+<p>Retirou Maria das Dôres ao anoitecer, e Filippe passeou até altas horas,
+defronte, e em roda do carcere da esposa.</p>
+
+<p>A fidalga velha, confiada no valimento que tinha com a marqueza de Angêja,
+senhora que a movera a favor de Filippe Osorio, mandou a Lisboa o seu fiel
+mordomo a solicitar uma ordem de levantamento de deposito da filha em
+contravenção das leis. Foi a ordem arrancada de subito ao ministro competente,
+por engenho da marqueza. Correu com ella o portador; Maria das Dôres nunca se
+levantou a tão alto na presumpção de sua valia! Mas Gonçalo Malafaya tinha
+amigos e cabedaes em Lisboa. Horas depois de passada a ordem, fôra revogada, a
+requerimento do procurador do auctor; e outro emissario vinha ao Porto embargar
+o effeito da primeira. Copiemos<span class="pn" id="pg_205"
+>{205}</span> dos apontamentos o facto, presenceado pela educanda
+a que os devo:</p>
+
+<p>«Logo ao amanhecer vinha Filippe para a grade, e Maria Henriqueta já lá o
+estava esperando. Por mais que extendessem os braços, era-lhes impossivel
+apertarem as mãos. Alli almoçavam juntos, e ficavam até ao meio dia. Elle saía,
+quando as portas se fechavam, e ella ia para a sua cella chorar. Ás duas horas
+voltava o infeliz, e jantavam. Havia de grade a grade um carrinho com duas
+roldanas lateraes em que ella lhe passava os pratos.<a name="tex2html4"
+href="#foot391"><sup>[4]</sup></a></p>
+
+<p>«Ao anoitecer separavam-se. N'esta mixtura de alegrias e amarguras, viveram
+algum tempo, até que de Lisboa chegou ordem para ella sair do recolhimento. Já
+elle a estava esperando com uma sege na portaria; já ella tinha pedido ás
+mestras para nos darem sueto n'esse dia; despedia-se já de todas. Que formosa
+ella estava então! Como um instante de felicidade a transfigurara! Vestia de
+setim branco, e sapato da mesma droga. Nos olhos e no rosto resplandecia-lhe o
+clarão da alma. Não sei que possa imaginar melhor um anjo! Fomos todos com ella
+á portaria. Já estava a porta franca, e o marido com os braços abertos para a
+receber e um sorriso<span class="pn" id="pg_206" >{206}</span> de
+alegria desvairada nos labios. Eis que todo afadigado entra na portaria um
+mensageiro do inferno, com uma contra-ordem á regente! O desespero dos dois
+desgraçados não sei eu palavras que o exprimam! Filippe Osorio rompeu em
+imprecações. Maria Henriqueta fez-se primeiro escarlate, depois da côr do
+vestido, marmore na frialdade, e caíu sem sentidos nos braços da regente e da
+porteira. Choravamos todas; até as mais novas se commoveram áquella scena, cujo
+alcance mal podiamos compreender. Então é que ella adoeceu perigosamente, e
+cuidámos que não vencia o ultimo golpe. A mãe era incansavel de amor e de
+consolações ao lado d'ella. As cartas do marido foram talvez a principal
+medicina do seu restabelecimento. Passado um mez tornou á grade Maria
+Henriqueta: parecia desenterrada; e Filippe, que tão galhardo mancebo era,
+pouco tinha já que o distinguisse de um homem de cincoenta annos.»</p>
+
+<p>Renasceu em toda a força da ira o plano da fuga, maquinada por D. Maria das
+Dôres. Frequentes vezes se encontrava com Filippe na grade, a fazerem
+combinações, que concertavam todas n'um arrojo de desespero, cuja
+responsabilidade a fidalga tomava sobre si.</p>
+
+<p>Vejamo'-lo descripto pela companheira de Maria Henriqueta:</p>
+
+<p>«Um dia de tarde chegou D. Maria das Dôres á grade com o genro, e ahi se
+demoraram até ás quatro horas. Mandou a fidalga dizer á regente que precisava
+de ir ao quarto de sua filha. Foi-lhe aberta a porta sem a menor hesitação.
+Entrou D. Maria das Dôres, e Filippe ficou<span class="pn" id="pg_207"
+>{207}</span> na portaria, como esperando a sogra. Disse a mãe á
+filha que precisava de arejar-lhe os vestidos. Começaram a sair taboleiros de
+riquissimos velludos, setins, e sedas de differentes côres, e debaixo do chale
+escondeu a fidalga um cofre de joias, em que estavam as da filha, e as suas,
+que eram muitas e de subido quilate. Afóra isto, passou D. Maria das Dôres para
+as mãos do genro um outro cofre muito pesado, que continha, segundo disseram,
+dinheiro em ouro. A regente estava desconfiada, e mais desconfiou, quando a
+fidalga velha lhe disse: «V. s.ª ha de permittir que minha filha dê um abraço
+em seu marido.» A regente respondeu: «V. ex.ª não me faça alguma, sr.ª D. Maria
+das Dôres!...» Tornou a fidalga: «Ha nada mais licito que uma senhora abraçar
+seu marido?» Disseram-me algumas meninas que a regente cedera ao terror, porque
+vira nas mãos de Maria Henriqueta, sumidas no chale, luzir o marfim do cabo de
+um punhal.</p>
+
+<p>«Mandou a regente á porteira que abrisse a porta. Saíu D. Maria das Dôres, e
+postou-se á porta principal da portaria. Chegou o marido a abraçar a esposa, e
+tal abraço foi que a levou como arrebatada nos braços, e Eugenia seguiu a ama.
+Porteira e regente emparveceram a olhar uma para a outra; e a creada, que fôra
+alumiar, de tal riso se tomou que deixou caír o castiçal.</p>
+
+<p>«Occorreram outras scenas que muito nos alegraram, sobre o geral jubilo de
+vermos Maria Henriqueta livre de ferros.</p>
+
+<p>«Passados os momentos da estupefacção, quiz a regente<span class="pn"
+id="pg_208" >{208}</span> ir pessoalmente a casa do provedor
+contar o succedido.</p>
+
+<p>&mdash;Saír eu de oitenta e um annos á rua! exclamava ella.&mdash;Que dirá o
+mundo?&mdash;Tinha ella uma creada de dezoito annos, que morria por se ver a
+passear na rua, e estava contentissima de saír com a ama. Passou acaso um
+estudante de clerigo, que acudiu ao motim, e mais ainda porque era namoro da
+porteira, elegante matronaça, que não guardava quanto devia as portas do seu
+coração. Pensou o estudante que a porteira iria com a regente a casa do
+provedor, e offereceu-se a acompanha'-las, mas a velhinha, para poupar ás
+estrellas o escandalo de a verem na atmosphera corrupta do mundo, pediu ao
+embuçado estudante que fosse elle avisar o provedor, o que elle não fez por
+commiseração com a fugitiva.»</p>
+
+<p>A curta distancia do recolhimento, estavam tres rijas mulas, e dois creados
+de cavallo. Maria Henriqueta deu o ultimo abraço em sua mãe, e saltou para as
+andilhas. Filippe dobrou o joelho beijando a mão da sogra, e cavalgou. Eugenia,
+a chorar de alegria, nem deu fé de que a encarapitavam os dois creados na
+terceira cavalgadura. Concertaram-se rapidamente as malas da bagagem, e partiu
+açodada a cavalgata, caminho de Villa do Conde.</p>
+
+<p>D. Maria das Dôres entrou ovante em sua casa; esperou que o marido
+recolhesse á meia noite; saíu-lhe ao encontro, com um riso de sarcastica
+vingança, e disse:<span class="pn" id="pg_209" >{209}</span></p>
+
+<p>&mdash;A regencia não poude vencer o teu ouro; mas uma fraca mulher o
+venceu. Maria Henriqueta está na companhia de seu marido. Fui eu que lhe abri
+as portas do carcere, e fiz saír d'alli a pobre victima de tua crueza, que
+estava sendo tambem um pregão de tua ignominia. Querias que a justiça a
+infamasse, e eu quero que ella gose os direitos das esposas honradas e
+virtuosas, porque os tem, e os merece. Diz aos teus amigos de Lisboa, aos
+canaes de teu dinheiro, que ha um ente que se não corrompe, é uma mãe.</p>
+
+<p>Gonçalo Malafaya caíu prostrado n'um canapé, e bramiu:</p>
+
+<p>&mdash;Maldita sejas tu!</p>
+
+<p>&mdash;O céo não ouve as vozes do mau amante de Beatriz de Noronha, do mau
+marido de Maria das Dôres, e do mau pae de Maria Henriqueta! Morre impenitente,
+homem tres vezes abominavel!<span class="pn" id="pg_210"
+>{210}</span> <span class="pn" id="pg_211"
+>{211}</span></p>
+
+<h3><a name="SECTION00505">V</a></h3>
+
+<p>Na descripção da desgraça ha engenhos habilissimos. Em pintar a felicidade é
+grande a penuria de phrases: parece que as linguas são pobres do que é tão
+pouco e passageiro na humanidade!</p>
+
+<p>Assim é que eu me esquivo a dizer como era a alegria dos fugitivos, com
+receio de me perder em nevoentas chimeras; ou&mdash;di'-lo-hei com quanta
+sinceridade posso&mdash;o descostume de a sentir estragou-me a palheta com
+cujas tintas, alguma hora, pintei venturas.</p>
+
+<p>Entraram por Hespanha, com destino ao alcaide de Segovia, cujas condolentes
+cartas Filippe recebera na prisão, e Maria no recolhimento. Da primeira terra
+de Hespanha escreveram para o amigo, que lhes chamára filhos. Abalaram de
+Segovia o alcaide e as senhoras a esperarem, em terra muitas leguas distante,
+os esposos. Em sua casa se hospedaram algumas semanas, e d'alli passaram para a
+quinta, onde os attraíam saudades do passado, e esperanças de o reviverem mais
+tranquillo e desassustado.<span class="pn" id="pg_212"
+>{212}</span></p>
+
+<p>Encontrou Maria refloridas as flores que plantára, um anno antes. Lá estava
+a roseira que ella consagrára a sua filha, denominando-a <em>Rosalinda</em>.
+Ahi orvalharam lagrimas as faces de ambos; mas, seio contra seio, as ancias do
+coração não podiam ser duradouras.</p>
+
+<p>Queriam-se solitarios os esposos ditosos; porém, seu mesmo infortunio lhes
+dera uma attrahente celebridade. Concorriam á graciosa vivenda os curiosos de
+Velha-Castella, e saíam para voltarem amigos dos que outr'ora prenderam
+corações com os nomes de Luiz e Pedro de Castro. A este proposito, até poemas
+se escreviam com o chiste das musas castelhanas, e os prelos contaram em
+commoventes prosas a historia infeliz dos esposos.</p>
+
+<p>Uma noite, caíndo a ponto falar-se na pertinacia boçal do conde de Monção,
+disse o alcaide o seguinte:</p>
+
+<p>&mdash;Traz-me esse nome á memoria um successo, que se deu, depois da vossa
+ida para Portugal. Fui eu avisado de que dois homens suspeitos tinham chegado a
+Segovia, e saíam de madrugada a fazer excursões pelos arrabaldes. Mandei-os
+espionar, e soube que elles estanceavam por estes sitios, indagando dos aldeãos
+qual terra vós terieis ido habitar. Com esta informação fiz prender os homens.
+Pedi-lhes os passaportes, e vi que os viandantes eram portuguezes, naturaes de
+Melgaço, e contractadores de carneiros. Não sei por que instincto, retive-os
+até me darem abono. Não conheciam ninguem em Segovia; mas deram-se pressa em
+escrever para Portugal. No entanto, perguntei-lhes o que tinham elles vindo
+fazer nos arredores d'esta quinta. Responderam<span class="pn" id="pg_213"
+>{213}</span> que andavam em cata de gado para comprarem.
+Redobraram as minhas suspeitas. Inquiri que tinham elles com uma familia, que
+se alojava n'esta quinta. Tartamudearam e confirmaram a certeza de seus máos
+intentos. Quinze dias depois, recebi ordem do governo madrilense para dar
+soltura aos presos. Não tinha outro remedio: soltei-os. Escrevi para Madrid,
+pedindo que se averiguasse na repartição competente quem afiançára aquelles
+dois presos. Tive em resposta que o ministro recebera directamente uma carta de
+seu parente, o conde de Monção. De proposito vos occultei este episodio em
+minhas cartas, cuidando em não vos aggravar as desgraçadas apprehensões. Agora
+vos digo que isto me fez apprehender muito a mim. Segundo o que Filippe me
+contou, o aviltado conde, a meu parecer, aprazou a vingança de cobarde.
+Aquelles homens eram sicarios enviados por elle. Já passou um anno, e
+naturalmente o conde está esquecido da affronta e da vingança; mas, ainda
+assim, recommendo-vos toda a cautela, que o mais temivel dos inimigos é aquelle
+que nos foge. Não me oppuz; porém, não approvo a vossa vinda para logar tão
+ermo. Antes queria ver-vos na cidade, onde as emboscadas traiçoeiras são menos
+possiveis, e a minha vigilancia mais apontada.</p>
+
+<p>Filippe Osorio sorriu á prudencia demasiada do alcaide; e Maria Henriqueta
+estremeceu, e descorou desde que a historia pendeu ao assustador desfecho.
+Cuidaram damas e cavalheiros em tranquillisa'-la, e, mais que todos, o marido,
+inventando argumentos falsos a favor<span class="pn" id="pg_214"
+>{214}</span> de sua segurança. Pediu-lhe a esposa que
+abandonassem o local, e seguissem sua jornada até aos confins da Hespanha, ou
+passassem a França ou Italia. Filippe socegou-a com a cedencia á sua vontade,
+tirando a partido que descançariam mais algum mez entre a sua segunda familia,
+e velados pela guarda de tantos amigos.</p>
+
+<p>Desde esta noite, eram de instantes os intervallos serenos de Maria
+Henriqueta. A cada rumor interno ou exterior se alvoroçava; e se ouvia um tiro
+remoto, não tendo junto de si o marido, soltava um grito, e corria como
+desatinada a procura'-lo. Então cresciam de fervor os rogos de se afastarem
+para mais longe; e o marido, que nunca se deixou vergar ao susto, promettia por
+complacencia abreviar a partida.</p>
+
+<p>As cartas idas de Portugal davam Gonçalo Malafaya a descair rapidamente na
+formal demencia. D. Maria dizia á filha que se vira obrigada a sair de casa, e
+estava vivendo com as suas creadas n'um velho palacio de seus paes, com os
+alimentos, que lhe arbitraram. A razão do divorcio fôra os accessos de furiosa
+loucura do marido, que, algumas vezes, investira contra ella, armado de um
+espadim. Passando a miudezas da demencia, dizia que o primo muitas vezes fugia
+aterrado de uma visão que elle denominava <em>D. Francisco de Athayde</em>,
+exclamando: <em>Deixa-me, vingador, deixa-me, que Beatriz já me perdoou!</em>
+N'este estado, dizia a fidalga, o successo da fuga parecia cousa indifferente
+ao marido; e a julga'-lo, nas horas lucidas, mostrava elle ouvir com dó a vida
+trabalhosa da filha, e, sem contrariar, a affirmação<span class="pn"
+id="pg_215" >{215}</span> da legitimidade do casamento. A todos
+consentia falarem-lhe em Maria Henriqueta, menos á esposa; e contra ella é que
+mais o acirrava a loucura, a ponto, como disse, de a querer matar.</p>
+
+<p>Esperavam, pois, os Osorios de Mirandella que o infortunio de seu filho e
+irmão terminasse de todo com a morte de Gonçalo Malafaya.</p>
+
+<p>Um portuense, amigo de Filippe, e seu protector no julgamento, escreveu-lhe
+para Hespanha. Uma pagina da carta dizia assim:</p>
+
+<p>&mdash;Tive occasião de vêr aqui no Porto o conde de Monção, de volta de
+Lisboa, onde foi procurar uma herdeira rica, e d'onde voltou com a casa mais
+deteriorada. Falou-se de ti na presença do conde, e elle fez-se roxo.
+Contaram-se os teus infortunios, e a tua temeridade em arrancar a esposa do
+convento, e elle mordeu os beiços até espirrarem sangue gothico e suevo. Um dos
+presentes cavalheiros, sabedor do teu dialogo com elle, porque eu o contei em
+pleno auditorio, para lhe cravar a garrocha, falou na tua coragem, e de
+industria derivou o discurso até contar uma historia acontecida entre ti e um
+dos próceres de Portugal. A historia era exactissimamente a tua com elle. Não
+tirei os olhos da lorpa faceira do conde, e vi todos os demonios que elle tinha
+na alma, se tem alma. No estomago juro eu que elle tinha uma legião de
+espiritos immundos. Palavra não lhe despegou os dentes. Bebeu o calix até ás
+fezes, e saíu, quando furtivamente poude escapar-se ao imprudente sorriso e ao
+dos outros. No dia seguinte foi para Monção,<span class="pn" id="pg_216"
+>{216}</span> d'onde eu sei que elle mandou aqui pessoa de sua
+confiança averiguar a tua residencia em Hespanha. Eu julgo o conde incapaz de
+tirar desforra pessoal; vil ia eu jurar que elle a premedita. E, senão, que lhe
+importa a elle a tua residencia?! Previne-te: confia menos na tua bravura; e
+veste as armas da prudencia contra os tiros da cobardia insidiosa. Estás em
+terra onde o sangue salta em espadanas, e ninguem se espanta d'isso. Os
+assassinos lavam as mãos, quando as lavam, e vão pedir a absolvição aos seus
+frades. Cautella, meu Filippe. O meu parecer é que vás para Italia, e esperes
+lá que saia de casa de teu sogro uma tumba, para tu entrares na tua verdadeira
+paragem dos trabalhos, e dos receios. Só então cuido eu que não chegará a ti o
+fulgor da tua funesta estrella.</p>
+
+<p>Occultou Filippe esta carta de Maria Henriqueta; mas o que elle mal podia
+era occultar-lhe a inquietação. Pressurosamente cuidou em retirar-se da quinta,
+e estabeleceu a sua residencia temporaria em Segovia, com grande aprazimento do
+alcaide. Queria a presentida esposa que levantassem d'alli a sua barraca de
+peregrinos, e se avisinhassem da França. Sonhava ella a sua inteira seguridade
+na Italia; era para lá que a meiga senhora estava sempre impellindo o animo do
+marido. Tinha elle annuido, quando Maria Henriqueta adoeceu de um movito,
+procedido dos quotidianos abalos, causados por insignificantes incidentes, que
+a traziam em permanente sobre-salto.</p>
+
+<p>Reservadamente mostrou Filippe a carta do seu amigo<span class="pn"
+id="pg_217" >{217}</span> ao alcaide, sem esconder o receio que
+tal nova, combinada com os precedentes, lhe causava. Providenciou o delicado
+fidalgo hespanhol as rigorosas vigilancias que a sua amizade e dever lhe
+impunham. Inuteis foram todas no decurso de dois mezes. Nem uma só pessoa
+suspeita pernoitou nas estalagens da cidade.</p>
+
+<p>Restaurou-se Maria Henriqueta, e cuidou nos aprestos da jornada; mas
+metteu-se a rigorosa invernada de 1813, e foi deferida para a seguinte
+primavera a saida. Além de quê, a assidua espionagem era infructuosa, e as
+averiguações, destras e insuspeitas do alcaide, deram o conde de Monção no
+Alem-Tejo tratando de casar-se com uma rica herdeira.</p>
+
+<p>Ao mesmo tempo, o amigo do Porto, dizia o seguinte em resposta a uma carta
+de Filippe Osorio:</p>
+
+<p>«... Tambem se me vão desvanecendo os receios. O conde passou aqui ha dias
+com direcção a Estremoz, onde o levam as probabilidades de poder casar com uma
+opulenta moçoila, cujo bis-avô fazia pucaros do barro da terra, cujo avô foi
+creado da casa de Bragança em Villa Viçosa, e cujo pae pirateou na Africa, se
+não mentem as chronicas dos visinhos. Não me parece que caiba odio em coração
+tão cheio de amor á bis-neta do oleiro. Isto está longe de te dizer que vivas
+descuidado. Aquella cara do conde é um alçapão do inferno. Lá dentro devem
+existir</p>
+
+<blockquote>
+ Ferro, veneno, vibora traidora <br>
+ Cartas da mão de Machivello escriptas, </blockquote>
+
+<p style="text-indent: 0;">como diz o Tolentino no soneto.<span class="pn"
+id="pg_218" >{218}</span></p>
+
+<p>«Precavém-te sempre, meu Filippe.»</p>
+
+<p>Esta carta achou já banida a desconfiança, e quasi esquecidas as cautelas,
+afóra as do alcaide, posto que menos solicitas.</p>
+
+<p>Maria, contente das relações que adquirira, e da serenidade do esposo,
+jámais lhe lembrou o projecto de jornadearem na primavera. Embeberam-se na sua
+felicidade, e confiaram-se ao seu bom anjo.</p>
+
+<p>No concernente ao estado de Gonçalo, as noticias confirmavam a approximação
+de sua morte. Acamára por ultimo, e nem já forças tinha para lançar-se fóra do
+leito.</p>
+
+<p>Maria das Dôres, fiada na inercia do marido, e movida pela compaixão,
+recolheu á casa conjugal conquistando assim a aura publica, e o bem estar da
+sua consciencia. Gonçalo acolheu-a com indifferença, e chegou a apertar-lhe a
+mão, graças aos seraficos esforços de dois franciscanos e um carmelita, que lhe
+assistiam á doença. Alguma vez, a esposa se aventurou a falar em sua filha na
+presença dos fradinhos e estes santos varões achavam justo que a menina viesse
+pedir perdão a seu pae da filial desobediencia. O fidalgo trejeitava
+negativamente, e os homens evangelicos encolhiam os hombros, e diziam:
+«Fidalgo, nosso Senhor Jesus Christo perdoou a quem o matou.»</p>
+
+<p>Observava-lhes D. Maria das Dôres que seria mais piedoso, e conforme aos
+preceitos de Jesus, dizer ao enfermo, que sua filha não praticára crime,
+comparavel ao dos matadores de Christo, nem a alma do enfermo se<span
+class="pn" id="pg_219" >{219}</span> salvaria, negando-se a
+perdoar em desconto dos martyrios, que fizera soffrer a sua filha. Os monges
+receavam estomagar o fidalgo, e privar os seus conventos da esmola promettida
+pelo doente.</p>
+
+<p>Na correnteza d'estas lastimaveis miserias da humanidade, as estrellas
+funestas d'esta familia alumiavam com luz sepulchral a vida dos nossos
+desditosos de Hespanha.</p>
+
+<p>Já nem o alcaide espreitava que homens pernoitavam ou passeavam em Segovia,
+quando, a convite de Maria Henriqueta, Filippe Osorio foi passar um dia á
+quinta dos arrabaldes. A cariciosa esposa tinha sede de solidão com seu marido.
+Era abril, e queria vêr as <em>Rosas-lindas</em>, o florido monumento de sua
+filhinha. Vinha-lhe do campo o acre das florestas, e a juvenil Maria, que
+volvera aos desoito annos, renovado e aquecido o sangue ao calor da felicidade,
+anceou o campo, as flores, a sombra, os regatos, as paginas de sua vida que em
+tudo aquillo se liam. Passaram um dia de paraiso terreal. Brincaram como
+creanças, por entre as murtas e os jasmineiros, e as cilindras. O sol
+transmontava as serras, quando Maria disse:&mdash;Agora, vamos, filho! e
+agradeçamos a Deus este dia, que foi um dos mais completamente felizes da minha
+vida.</p>
+
+<p>Filippe sentou-a no selim do cavallo, e beijou-a com o fervor d'aquelle
+beijo, que lhe dera, n'aquella noite da fugida de Arouca.</p>
+
+<p>Caminharam, conversando. O lacaio seguia-os vagaroso, com discreta
+distancia.<span class="pn" id="pg_220" >{220}</span></p>
+
+<p>Recordava Maria os cinco annos de Lisboa, a apparição infernal do conde, as
+saudades angustiosas de Arouca, as delicias loucas dos seus primeiros mezes de
+casada, as torturas inexprimiveis do recolhimento, a louca alegria da segunda
+fuga, o interrogatorio e o desespero em casa do almotacé, a terceira fuga, o
+delirio com que lhe correu aos braços, as venturas que devia a sua mãe, e os
+terrores que lhe denegriram a felicidade nos ultimos mezes. Filippe ia com ella
+ao céo n'estas memorias, e de lá se despenhava no abysmo de outras. Assim lhes
+voára o tempo, até entrarem n'um carvalhal, que fórma um como anteparo da
+cidade.</p>
+
+<p>&mdash;Este sitio&mdash;disse Filippe&mdash;tem uma belleza terrivel. Eu
+gostei sempre muito d'elle; mas nunca passei aqui sem pensar na facilidade com
+que se póde ser assaltado d'entre estas furnas de arvores.</p>
+
+<p>&mdash;Vamos depressa, Filippe, dá de esporas ao cavallo&mdash;disse ella
+vibrando a chibata na anca de ambos os cavallos.</p>
+
+<p>&mdash;Assustei-te com as minha apprehensões?&mdash;accudiu
+Filippe&mdash;Tolinha, vai devagar, que perdemos esta formosa scena... Olha os
+rouxinoes como cantam lá em baixo nas margens do rio... São acções de graças
+Deus. Agradecem comnosco ao Senhor a nossa felicidade!...</p>
+
+<p>Proferidas estas palavras, saíram dois tiros de entre uma moita de arvores.
+Maria Henriqueta soltou um grito estridulo.</p>
+
+<p>Filippe inclinou o peito sobre o pescoço do cavallo<span class="pn"
+id="pg_221" >{221}</span> que se ergueu de frente, espavorido pelo
+estrondo.</p>
+
+<p>&mdash;Creio que estou morto!.... disse elle. Maria saltou a terra, deu dois
+passos para o marido, que fincára os braços no pescoço do cavallo. Extendeu-lhe
+ella os seus, invocando-o com uma voz que era já um como derradeiro grito. Caíu
+fulminada a tempo que o cadaver de Filippe resvalava aos braços do lacaio.</p>
+
+<p>Oh! não vos dizia eu, leitores?</p>
+
+<p><em>Com que vontade eu quebraria a penna, se tenho de tirar d'ella paginas
+negras da vida dos dois tão dignos, tão abençoados, tão bem quistos da leitora,
+que amou ou ama, do pae que perdoou, ou tem de perdoar um dia, do mundo que
+sentenceia ou já sentenceiou paixões, que que exorbitam do estadio commum! Ai!
+eu antes queria inventar, antes mentir, antes de lançar de mim com asco estes
+apontamentos.</em></p>
+
+<p>E os apontamentos dizem com acerba simplicidade:</p>
+
+<p>«Viveram, em Hespanha; mas pouco tempo juntos.</p>
+
+<p>O desgraçado Osorio foi assassinado por um tiro, quando se recolhia de
+passeio com sua mulher».</p>
+
+<p>Quão pouco sabia dos promenores d'este assassinio a educanda de S. Lazaro!
+outras informações de mais recordados amigos de Filippe, e papeis que se
+desfariam nunca lidos na papelleira de um nobre, levaram o meu espirito até á
+catastrophe sanguinolenta d'esta tragedia.</p>
+
+<p>A catastrophe? Ainda não. A justiça de Deus é uma a justiça do mundo é
+outra.<span class="pn" id="pg_222" >{222}</span></p>
+
+<p><span class="pn" id="pg_223" >{223}</span></p>
+
+<h3><a name="SECTION00506">VI</a></h3>
+
+<p>O cadaver de Filippe foi n'uma maca para Segovia. O quasi cadaver de Maria
+Henriqueta foi transportado em braços.</p>
+
+<p>A viuva não ouviu o dobre dos sinos, nem o psalmear dos clerigos ao
+levantarem o esquife, nem os responsos na egreja proxima.</p>
+
+<p>Onde estava a alma d'aquella mulher, que não se assignalava nos sentidos
+externos? Iria acompanhar a do esposo? Ficaria no céo, ou voltaria ao supplicio
+do corpo?</p>
+
+<p>Quem diria, vendo-a extactica, esgazeados os olhos, ora arrobada, ora
+risonha, e nunca lagrimosa, quem diria se ella se recordava que tivera um
+marido, um marido amado, um esteio unico, e para sempre quebrado, na sua vida,
+alli assassinado ao fechar de um dia que ella dissera o mais completamente
+feliz da sua vida!</p>
+
+<p>Viram-n'a, ao fim de tres dias, saltar do leito aos braços das senhoras, e
+exclamar:<span class="pn" id="pg_224" >{224}</span></p>
+
+<p>&mdash;Filippe! Filippe! o seu corpo ao menos, deixem-me ve'-lo uma só
+vez.</p>
+
+<p>Sabia, pois, que tinha sido morto o seu amado. Agora, se a Providencia lhe
+não destina alguma missão espantosa, vesti esse cadaver d'uma mortalha, e
+dae-lhe na campa de seu esposo um logar, dae-lhe as nupcias ditosas do tumulo,
+piedosas senhoras, que a quereis aviventar com o ardor de vossos beijos e de
+vossos prantos!</p>
+
+<p>Deixae-a viver, que Deus quer essa vida. Amparae-a nos braços, que ella de
+per si se erguerá e clamará:</p>
+
+<p>&mdash;Estou viva: deixae passar a viuva do assassinado! O sangue que elle
+derramou, gelou-se em bronze, e pesa-me no coração. Deixae-me e vereis se eu
+era digna d'elle!</p>
+
+<p>Maria ergueu-se uma noite, e falou de seu marido. As idéas embaralhavam-se
+desconcertadas; mas eram idéas do passado, do presente e do futuro. Pediu,
+instantemente, com as mãos erguidas, que a levassem á campa de seu marido.</p>
+
+<p>&mdash;Deixem-n'a ir&mdash;disse o alcaide&mdash;e seja já. Vamos com ella.
+Quanto mais cedo rebentarem as lagrimas, mais depressa nos voltará a razão da
+infeliz.</p>
+
+<p>Foi aberta a egreja. Maria ajoelhou sobre a fisga de uma campa, que lhe
+indicaram. Debruçou-se até collar os labios na lagem. Disse uma palavra, uma
+só, e nenhuma lagrima verteu.</p>
+
+<p>Palavra tremenda, que o futuro disse depois qual era.</p>
+
+<p>&mdash;Mas não chorou!&mdash;disseram as consternadas senhoras.<span
+class="pn" id="pg_225" >{225}</span></p>
+
+<p>&mdash;Ha de chorar&mdash;respondeu o pae.</p>
+
+<p>N'essa mesma noite, disse Maria:</p>
+
+<p>&mdash;Deixem-me ver a roupa que meu marido vestia quando o mataram.</p>
+
+<p>As senhoras encararam-se indecisas, e o pae murmurou:</p>
+
+<p>&mdash;Mostrem-lh'a.</p>
+
+<p>Junto com o casaco de castorina amellada, vinha uma camisa cortada de laivos
+de sangue. Maria beijou o sangue, e disse:</p>
+
+<p>&mdash;É minha: guarda'la-hei.</p>
+
+<p>E enrolou a camisa, e aconchegou-a do seio, sem a menor visagem de demencia.
+</p>
+
+<p>&mdash;Mas não chora!&mdash;diziam as meninas, em segredo, a seu pae.</p>
+
+<p>&mdash;Se não chora, morre.</p>
+
+<p>No dia seguinte, chegou D. Maria das Dôres, chamada a Segovia por um creado
+do alcaide, que partira horas depois do assassinio.</p>
+
+<p>A filha deixou-se apertar ao seio arquejante da mãe; viu-a chorar e soluçar;
+ouviu-lhe as exclamações ora piedosas, ora colericas; tudo viu e ouviu
+impassivel.</p>
+
+<p>&mdash;Iremos ámanhã&mdash;disse ella á mãe.</p>
+
+<p>&mdash;Se pódes, vamos, minha filha!&mdash;respondeu Maria das Dôres,
+pensando que o afasta'-la d'alli era um passo para salva'-la.</p>
+
+<p>Despediu-se das meninas e do alcaide. A todos, e a cada um disse:</p>
+
+<p>&mdash;Até á eternidade!</p>
+
+<p>Entrou n'uma liteira, com sua mãe.<span class="pn" id="pg_226"
+>{226}</span></p>
+
+<p>Perguntou-lhe Maria das Dôres que levava ella enrolado debaixo do braço.</p>
+
+<p>&mdash;É o sangue de meu marido&mdash;respondeu.</p>
+
+<p>Tinha dito o alcaide a D. Maria:</p>
+
+<p>&mdash;Excite-lhe as lagrimas, se a quer salvar. Leia-lhe as cartas que um
+amigo do marido lhe escreveu do Porto. Quer-se um abalo energico, seja qual
+fôr. Accenda-lhe o furor do odio ao assassino. Para esse eu lhe darei um
+espectaculo no caminho.</p>
+
+<p>Ao segundo dia de jornada, D. Maria das Dôres ouviu ler as cartas,
+concludentes para a certeza de ser ordenada a morte pelo conde de Monção.</p>
+
+<p>&mdash;Eu já li essas cartas&mdash;disse Maria.&mdash;Sei tudo.</p>
+
+<p>Entravam na provincia de Valhadolid, quando viram ante si uma escolta de
+soldados equestres, com dois presos manietados. Parou a escolta n'uma chan, e
+parou a liteira, embargado o caminho.</p>
+
+<p>Maria via tudo indifferente.</p>
+
+<p>Chegou o alcaide á portinhola da liteira, e disse:</p>
+
+<p>&mdash;Sr.ª D. Maria Henriqueta, eu vingo Filippe tanto quanto posso.</p>
+
+<p>Approximou-se do commandante da escolta, e exclamou:</p>
+
+<p>&mdash;Póde seguir com os seus soldados. Os presos ficam entregues á minha
+guarda. Maria olhava e parecia não compreender.</p>
+
+<p>Os cavallarias ladearam a liteira e passaram ávante, dando o passo a
+soldados de pé, que alinharam em frente da liteira.<span class="pn" id="pg_227"
+>{227}</span></p>
+
+<p>&mdash;Justiça de Hespanha!&mdash;disse o alcaide.&mdash;De joelhos,
+assassinos de Filippe Osorio! Ha-de pesar-vos na consciencia mais o ferro que o
+ouro do conde de Monção. Depressa, em quanto eu não ponho a tormentos estes
+infames; depressa, rapazes!</p>
+
+<p>Arderam doze escorvas; o estrondo fez levemente tremer Maria Henriqueta; o
+vento rijo sacudiu depressa uma nuvem de fumo, e o estertor dos cadaveres
+passára com o fumo da polvora.</p>
+
+<p>O alcaide avisinhou-se da liteira, e disse com risonho aspecto:</p>
+
+<p>&mdash;É incompleta a vingança: mas não está mais em minha mão.</p>
+
+<p>E apertou a de Maria Henriqueta, que respondeu:</p>
+
+<p>&mdash;O resto... eu!</p>
+
+<p>Os liteireiros afastaram com o pé os cadaveres do caminho, e o prestito
+caminhou devagar, esperando que Eugenia recuperasse os sentidos aturdidos pelo
+incidente.</p>
+
+<p>Ao decimo dia de jornada, chegaram os viajantes ao Porto.</p>
+
+<p>Maria Henriqueta subiu serena as escadas da casa onde nascera. Perguntou por
+seu pae, e disseram-lhe que estava gravemente enfermo, e sacramentado. Entrou
+na camara, que já espirava o fetido tábido da morte. Approximou-se do leito,
+ajoelhou, e disse:</p>
+
+<p>&mdash;Venho a tempo de lhe pedir perdão, meu pae.</p>
+
+<p>O velho fez um gesto de indignação.</p>
+
+<p>Maria desenrolou a camisa do marido, e murmurou.<span class="pn" id="pg_228"
+>{228}</span></p>
+
+<p>&mdash;Em nome d'este sangue lhe peço perdão.</p>
+
+<p>&mdash;Sangue!&mdash;exclamou o velho.</p>
+
+<p>&mdash;Sangue de meu marido, de meu marido assassinado pelo conde. Para nos
+encontrarmos todos na eternidade, perdoe-me, meu pae. Este sangue era
+innocente, e pede perdão para o nobre coração que o tinha, e para mim.</p>
+
+<p>Gonçalo quiz sentar-se no leito: esforço vão! Pediu por acenos, que o
+sentassem. Obedeceram-lhe. Chamou a filha a si, approximou-a do peito, e
+balbuciou:</p>
+
+<p>&mdash;Perdôa-me tu, perdôa-me tu, desgraçada!...</p>
+
+<p>E continuava a querer aperta'-la entre os braços convulsos, quando a face,
+pendida para o seio, encontrou a cabeça de Maria, e esteve assim instantes.
+Eram os ultimos. Os braços, ao descaírem, inteiriçaram-se e os dedos
+recurvaram-se um pouco.</p>
+
+<p>Maria retirou a cabeça humida do sôro que corria dos cantos dos beiços do
+defunto. Fitou os olhos na face morta de seu pae, e disse:</p>
+
+<p>&mdash;Perdôo-lhe, meu Deus! Perdoae-me vós a mim, quando eu fôr á vossa
+presença!</p>
+
+<p>No dia seguinte, a sociedade illustre do Porto pejava as salas funeraes do
+palacio de Gonçalo. Ninguem vira Maria Henriqueta. As damas intimas de D. Maria
+das Dôres poderam apenas saber que a viuva tinha saído á meia noite acompanhada
+de um lacaio.</p>
+
+<p>Assim fôra; e quizera ella acompanhar-se do lacaio do marido, o fiel creado
+de vinte annos; mas ninguem dera novas d'elle, desde que entraram no
+Porto.<span class="pn" id="pg_229" >{229}</span></p>
+
+<p>D. Maria das Dôres tentou estorvar-lhe o mysterioso designio; mas a filha
+respondia-lhe:</p>
+
+<p>&mdash;Seja piedosa! não me mate! deixe-me, em signal de compaixão das
+minhas infernaes penas.</p>
+
+<p>Só a violencia podia embargar-lhe a saída. Aconselharam-na á fidalga os
+familiares e parentes; mas quebrou de animo para tanto.</p>
+
+<p>Maria Henriqueta saíu.</p>
+
+<p>E cinco dias depois anoiteceu-lhe em Lisboa; e no dia seguinte atravessou o
+Tejo, e foi caminho de Extremoz.</p>
+
+<p>Correm rapidas estas scenas, porque Maria não murmurava mais palavras que as
+urgentes para o cumprimento de suas ordens ao creado. Os dias eram os mesmos;
+brida solta em quanto os cavallos podiam; novos cavallos quando caíam de fadiga
+os outros. Os viandantes que a encontravam entre nuvens de pó, diziam: «Que
+extravagante mulher! É alguma fidalga, que não sabe como hade consumir o vigor
+dos annos, espicaçados pela riqueza!»</p>
+
+<p>Outros achavam-lhe um bello rosto alumiado por sinistra auréola, e paravam a
+comtempla'-la nos curtos intervallos em que pousavam nas estalagens, ou
+alugavam cavallos nas grandes povoações. Em algumas estalagens, os passageiros
+curiosos, ao romper do dia, perguntavam ao lacaio: «Que tem sua ama, que
+soluçou e gemeu no quarto toda a noite?»</p>
+
+<p>A duas leguas áquem de Extremoz, apeou Maria Henriqueta, a esperar que
+anoitecesse para entrar na cidade.<span class="pn" id="pg_230"
+>{230}</span></p>
+
+<p>Ao caír da tarde, entraram na estalagem uns homens vindos da feira de
+Extremoz, e contaram ao estalajadeiro o seguinte:</p>
+
+<p>«Seriam duas horas da tarde quando saía de se receber n'uma egreja um sr.
+conde com uma menina, que lá diziam ser a mais rica da provincia. Estava muito
+povo no adro, e muito fidalgo, que já não cabia na egreja. Saíram os casados já
+recebidos, e o noivo vinha que parecia um rei, e a noiva era mesmo um palmito,
+com tantos brilhantes como as estrellas do céo. E vae n'isto, quando o conde ia
+a dar a mão á noiva para entrar no coche, um homem que eu não cheguei a ver,
+mas que me disseram que era já avelhado, chega ao pé do conde cara a cara,
+diz-lhe não sei que, e enterra-lhe tres vezes no peito uma faca!»</p>
+
+<p>Maria Henriqueta expediu um grito que chamou a attenção de todos, para o
+repartimento do tabique, além do qual estava a saleta, que lhe deram. Movera-se
+o estalajadeiro a saber o que tinha a fidalga, quando ella abriu a porta, e
+perguntou:</p>
+
+<p>&mdash;E ouviram dizer quem fosse o homem que matou o conde?</p>
+
+<p>&mdash;Ninguem lá soube dizer quem era, fidalga!</p>
+
+<p>&mdash;Prenderam-no?</p>
+
+<p>&mdash;Ora! isso foi como o senhor sol. Lá ficou na cadeia. Eu bem quiz
+ver-lhe os focinhos; mas era tanto o povo, que ninguem lhe chegava á beira. Uns
+diziam que era mandado por outro que queria casar com a menina; outros contavam
+lá a cousa como queriam; o caso é que<span class="pn" id="pg_231"
+>{231}</span> ao certo ninguem sabe dizer quem é. Ámanhã é que
+pelas perguntas se ha de saber.</p>
+
+<p>Não se deteve Maria Henriqueta. Chegou a Extremoz, e viu no primeiro
+palacete as portas cobertas de crepe com franja de prata. Sem perguntar, soube
+que d'alli havia de sair o cadaver do conde de Monção.</p>
+
+<p>Apeou-se na estalagem, e pediu guia para a cadeia. Como a julgassem curiosa
+de conhecer o assassino do conde, disseram-lhe que elle estava a perguntas em
+casa do juiz de fóra. Foi Maria a casa do juiz de fóra, e conseguiu entrar até
+ao salão de espera. Era prohibido o accesso ao gabinete do ministro, onde
+estava o interrogado.</p>
+
+<p>Esperou que elle saísse, viu-o, e conheceu o creado de Filippe Osorio, o seu
+amigo de nove annos. Viu-a tambem elle, e parou, abriu ainda a bocca para
+exclamar; mas logo viu que a fidalga tinha sobre o nariz o dedo, em gesto de
+silencio.</p>
+
+<p>Passou o preso, e Maria Henriqueta, escutando os rumores, que vinham do
+gabinete, ouviu dizer que o assassino do conde confessára quem era, e a causa
+por que praticára o homicidio, mostrando suprema coragem para morrer, vingado o
+amo, que ás ordens do conde fôra assassinado.</p>
+
+<p>Decorridos dois dias, Maria Henriqueta vestiu uma velha roupa, alinhavada ao
+uso do Minho, e pediu ao carcereiro licença para falar com o preso, que era seu
+irmão. Foi-lhe concedida, como cousa usual. O preso, ao ve'-la, lançou-se-lhe a
+chorar aos pés, e disse:<span class="pn" id="pg_232" >{232}</span>
+</p>
+
+<p>&mdash;Perdôe-me v. ex.ª...</p>
+
+<p>Maria susteve-o, porque o carcereiro estava ainda perto, e, baixando a voz,
+disse:</p>
+
+<p>&mdash;Entrei aqui como tua irmã, fala baixo... De que me pedes perdão?</p>
+
+<p>&mdash;Tirei-lhe a vingança que era de v. ex.ª... mas não pude mais com a
+minha paixão. Eu adivinhava que a fidalga vinha; e a minha vontade era
+espera'-la e guia'-la na sua vingança; mas n'aquelle momento em que o maldito
+saía da egreja, não pude ter mão em mim; cheguei-me ao pé d'elle, e disse-lhe:
+«Sou o lacaio do sr. Filippe Osorio» e matei-o a facadas. Estou contente,
+palavra de fiel amigo! Agora, que me enforquem quando tiverem occasião, que eu
+cá fiz trinta annos á justa ha mais de vinte. Não podia empregar melhor a
+vida!</p>
+
+<p>&mdash;Não has-de ser enforcado, João&mdash;disse Maria.</p>
+
+<p>Hei-de salvar-te; irás d'aqui para Hespanha.</p>
+
+<p>&mdash;Salvar-me?! Deixe-se d'isso, fidalga; não vale a pena andar a minha
+ama n'esses arranjos, sem geito nem saída. Vá v. ex.ª para sua casa, e deixe-me
+cá com a minha consciencia, que estamos de boas avenças, eu e mais ella, assim
+me Deus salve a minha alma.</p>
+
+<p>&mdash;Cala-te, e obedece-me, João. Vê em mim teu amo. Vêr-me-has mais
+vezes.</p>
+
+<p>Maria voltou ao dia seguinte, e ao outro. O creado que a seguira, já tinha
+voltado ao Porto, com uma carta a D. Maria das Dôres. Resava assim o periodo
+final:</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>«Mande-me, pois, quanto possa, quanto v. ex.ª daria<span class="pn"
+id="pg_233" >{233}</span> para o resgate de sua filha. É a minha
+vida que salva da forca. As suas joias valiam mil cruzados: dê-m'as, que eu não
+quero mais nada da herança de meus paes, senão uma mortalha, e um tumulo para
+os ossos de meu marido e para os meus.»</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>Á quarta visita que Maria Henriqueta fez ao preso, deteve-se a falar com o
+carcereiro. Era um homem pobrissimo, bondoso, dado com os presos, que o
+sustentavam. N'um relance da conversação, Maria assumiu o tom natural de
+senhora, e disse-lhe:</p>
+
+<p>&mdash;Dê-me o preso, que matou o conde, e eu dou-lhe por elle quinze mil
+cruzados. V. mercê recebe os quinze mil cruzados, foge para Hespanha com o
+preso, e vae viver feliz e na abundancia onde quizer viver fóra de Portugal.
+Repare que não é a irmã do preso que lhe fala, é uma mulher que lhe dá,
+passados alguns dias, quinze mil cruzados.</p>
+
+<p>O carcereiro mediu-a de alto a baixo, e murmurou:</p>
+
+<p>&mdash;Isso é mangação? Eu não sei com quem falo.</p>
+
+<p>&mdash;Que lhe importa saber com quem fala? Resolva-se n'este momento.
+Aceite a independencia onde a quizer gosar. Que responde?</p>
+
+<p>&mdash;Nós falaremos, senhora; mas se me prendem...</p>
+
+<p>&mdash;Siga o preso, que elle vae recommendado a pessoa de Hespanha, que
+dará a ambos completa segurança, e passagem para o exercito francez, se a
+quizerem. </p>
+
+<p>O carcereiro annuiu, sem grandes oscillações de consciencia. Esperava Maria
+a resposta de sua mãe com<span class="pn" id="pg_234"
+>{234}</span> anciedade. Ao fim de sete dias chegou o mordomo, a
+quem D. Maria das Dôres confiára dinheiro excedente ao valor das joias.</p>
+
+<p>O carcereiro foi chamado á sua presença, e viu o dinheiro.</p>
+
+<p>&mdash;Traga por aqui o preso esta noite. Venham de roupas mudadas para não
+serem conhecidos. Aqui recebe vocemecê o dinheiro, e elle uma carta. Depois,
+sigam o caminho mais seguro que tiverem.</p>
+
+<p>&mdash;Eu sei os atalhos aos palmos até á fronteira&mdash;disse o
+carcereiro.</p>
+
+<p>Ás onze horas da noite d'esse dia, apresentou-se na prisão o carcereiro,
+dizendo que o juiz de fóra mandava remover da prisão commum o preso matador do
+conde, e mette'-lo em segredo. Os companheiros lastimaram o destino do infeliz.
+</p>
+
+<p>Dado este passo, o creado de Filippe Osorio vestiu, na residencia do
+carcereiro, a roupa que este lhe deu, e passou por deante das sentinellas, que
+o julgaram amigo ou familiar do carcereiro.</p>
+
+<p>Maria Henriqueta esperava-os no seu quarto da estalagem. Recebeu o creado
+entre os braços, que se não pejaram de estreitar ao coração o vingador de seu
+marido. Deu ao homem vendido a quantia estipulada. Deu basto dinheiro ao amigo,
+e uma carta para o alcaide de Segovia. O servo beijou-lhe as mãos, banhou-lh'as
+de lagrimas, e partiram.</p>
+
+<p>&mdash;Não tenho mais que fazer aqui&mdash;disse Maria Henriqueta.<span
+class="pn" id="pg_235" >{235}</span></p>
+
+<p>E, n'essa mesma hora, saíram para Lisboa, e seguiram viagem para o Porto.</p>
+
+<p>O sangue da infeliz tinha estuado, arrefecido nas veias. Apagada a flamma da
+vingança, um leve sopro lhe levaria o espirito vital. No caminho, succumbira
+muitas vezes ao cançaço, e fizera a jornada de liteira.</p>
+
+<p>Entrou em casa de sua mãe, e disse:</p>
+
+<p>&mdash;Agora venho pedir a mortalha.</p>
+
+<p>Rodearam-na as consolações frivolas, e o maravilhoso da vingança que lhe
+attribuiam os já sabidos na morte tragica do conde.</p>
+
+<p>&mdash;O creado fiel&mdash;dizia ella á mãe&mdash;não me deixou cumprir a
+promessa que fiz sobre a sepultura de meu marido. V<small>INGAR-TE-HEI</small>,
+disse eu; mas eram tantos a ama'-lo, que me roubaram a gloria de ver o sangue
+do algoz! Agora, Deus que me julgue!<span class="pn" id="pg_236"
+>{236}</span></p>
+
+<p><span class="pn" id="pg_237" >{237}</span></p>
+
+<h2><a name="SECTION00600">CONCLUSÃO</a></h2>
+
+<h3><a name="SECTION00601">UMA CARTA</a></h3>
+
+<p>Fiz quanto pude em serviço do seu romance, e obtive o essencial da sua
+incumbencia, posto que o esquecimento de pessoas desgraçadas é uma das muitas
+corcundas do aleijado genero humano, se não é antes providencial o esquecimento
+para que cada homem, cada infeliz, digo, cuide egoistamente de si.</p>
+
+<p>Passo sem mais preambulos, a dar-lhe conta do meu encargo.</p>
+
+<p>Maria Henriqueta Osorio da Fonseca viveu cinco mezes em companhia de D.
+Maria das Dôres. Disse-me alguem que ella nunca saía do seu quarto, nem
+recebera n'elle pessoas, senão sua mãe e a ama, que a creára. N'este espaço de
+cinco mezes, quizera ella chamar ao Porto os ossos de seu marido; porém, o
+alcaide respondeu que as carnes vestiam ainda os ossos. Não alcancei a rasão
+por que Maria Henriqueta, no fim d'aquelle<span class="pn" id="pg_238"
+>{238}</span> tempo, se recolheu a Arouca e ao quarto onde
+residia, quando Filippe Osorio a foi buscar. Soube que ella, emquanto as forças
+a deixaram, ia todos os dias ao muro, onde ficava a olhar largo tempo para o
+galho da arvore a que subira Filippe.</p>
+
+<p>A final faleceram-lhe as forças para estas saidas, e pouco tempo desejou
+te'-las, porque morreu, dois mezes depois da sua entrada no mosteiro. Jaz
+enterrada na claustra de Arouca, sem epitaphio, nem data do nascimento ou
+morte.</p>
+
+<p>D. Maria das Dôres viveu ainda doze annos, se não contente, com apparencias
+de resignada. Para o fim da vida foi muito devota e esmoler. Jaz no seu jazigo,
+em uma capellinha da cathedral.</p>
+
+<p>Eugenia morreu em Arouca nos braços de Maria Henriqueta, a quem estava
+decretado que todos os golpes lhe acertassem no coração já moribundo.</p>
+
+<p>O vingador de Filippe Osorio, com o carcereiro, chegaram sãos e salvos a
+Segovia; apresentaram-se ao alcaide com a carta de D. Maria Henriqueta, e
+receberam passaportes até encontrarem o exercito francez, que abandonava as
+praças hespanholas. O ex-carcereiro lá se estabeleceu por França com os seus
+quinze mil cruzados, e póde ser que deixasse prole abastada. João, o lacaio,
+alistou-se no exercito, negociou no commissariado, e appareceu em 1852 no
+Porto, onde ninguem o conheceu. Como achasse morta sua ama, foi a Segovia, e
+achou tambem morto o alcaide. Tornou para França, e não chegaram ao meu
+conhecimento outras memorias d'elle.<span class="pn" id="pg_239"
+>{239}</span></p>
+
+<p>Aqui tem o mais que pude esquadrinhar, depois das informações que lhe dei.
+De umas e outras faça um uso conveniente, conveniente, digo, desejando eu que o
+seu romance tenda a escarmentar, e avisar.</p>
+
+<p>Reflexionando eu muitas vezes na vida dos desgraçados personagens d'esta
+esquecida historia, tenho formado um juizo mal seguro ácerca da moralidade
+d'ella; differentes illações me combatem; mas uma ha que as outras não
+derribam, e é: que um pae não deve ser o supremo arbitro do coração de sua
+filha. Illustra'-la, guia'-la, é uma cousa; arrasta'-la pelos cabellos d'um
+supposto abysmo para despenha'-la n'um abysmo certo, é outra cousa.</p>
+
+<p>Além d'isto reconheci a mão da Providencia carregando sobre Gonçalo
+Malafaya, que fizera da obediencia filial um pretexto para cobrir sua ambição
+de haveres. Aquelles vinculos de Freijoim e Aguas-Santas foram a causa
+efficiente da morte de Beatriz de Noronha, da demencia de D. Francisco de
+Athayde, e das mil desgraças consecutivas. Não é de desprezar este aspecto de
+moralidade que offerece o seu romance.</p>
+
+<p>Desculpe os conselhos do seu velho amigo, se os tem n'essa conta: eu quiz
+apenas dizer-lhe em pouco o muito que tenho pensado nos desastres de uma
+infeliz familia, em cuja casa tomei chá, quando era menino. Que
+«F<small>UNESTAS ESTRELLAS</small>!»</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h3><a name="SECTION0060110">FIM</a></h3>
+</div>
+
+<p><span class="pn" id="pg_240" >{240}</span></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<div class="rodape">
+<p><a name="foot355" href="#tex2html1"><sup>[1]</sup></a> A sr. D. Ermelinda
+Pinto de Magalhães, filha do dr. João Pedro Gomes de Abreu, então provedor da
+Misericordia e fiscal do recolhimento de S. Lazaro.</p>
+
+<p><a name="foot366" href="#tex2html2"><sup>[2]</sup></a> O já citado
+vice-provedor da Misericordia.</p>
+
+<p><a name="foot375" href="#tex2html3"><sup>[3]</sup></a> Póde ser que ainda
+vivam; e a ellas ou a quem as conheça chegue a reminiscencia ou a noticia
+d'este honroso episodio de sua mocidade.</p>
+
+<p><a name="foot391" href="#tex2html4"><sup>[4]</sup></a> Confessa o auctor que
+é dissaborida cousa, em romance, duas pessoas, que se amam, comerem, ás suas
+horas, como o restante da humanidade. Abjuro os preceitos da arte em reverencia
+á verdade. Aqui o auctor escreve historia e não o romance.</p>
+</div>
+
+
+
+
+
+
+
+<pre>
+
+
+
+
+
+End of Project Gutenberg's Estrellas Funestas, by Camilo Castelo Branco
+
+*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK ESTRELLAS FUNESTAS ***
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+Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
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+including obsolete, old, middle-aged and new computers. It exists
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+people in all walks of life.
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+Volunteers and financial support to provide volunteers with the
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+goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
+remain freely available for generations to come. In 2001, the Project
+Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
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+To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
+and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
+and the Foundation web page at https://www.pglaf.org.
+
+
+Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive
+Foundation
+
+The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
+501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
+state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
+Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification
+number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at
+https://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
+permitted by U.S. federal laws and your state's laws.
+
+The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
+Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
+throughout numerous locations. Its business office is located at
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+business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact
+information can be found at the Foundation's web site and official
+page at https://pglaf.org
+
+For additional contact information:
+ Dr. Gregory B. Newby
+ Chief Executive and Director
+ gbnewby@pglaf.org
+
+
+Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation
+
+Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
+spread public support and donations to carry out its mission of
+increasing the number of public domain and licensed works that can be
+freely distributed in machine readable form accessible by the widest
+array of equipment including outdated equipment. Many small donations
+($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
+status with the IRS.
+
+The Foundation is committed to complying with the laws regulating
+charities and charitable donations in all 50 states of the United
+States. Compliance requirements are not uniform and it takes a
+considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
+with these requirements. We do not solicit donations in locations
+where we have not received written confirmation of compliance. To
+SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
+particular state visit https://pglaf.org
+
+While we cannot and do not solicit contributions from states where we
+have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
+against accepting unsolicited donations from donors in such states who
+approach us with offers to donate.
+
+International donations are gratefully accepted, but we cannot make
+any statements concerning tax treatment of donations received from
+outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff.
+
+Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
+methods and addresses. Donations are accepted in a number of other
+ways including including checks, online payments and credit card
+donations. To donate, please visit: https://pglaf.org/donate
+
+
+Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic
+works.
+
+Professor Michael S. Hart was the originator of the Project Gutenberg-tm
+concept of a library of electronic works that could be freely shared
+with anyone. For thirty years, he produced and distributed Project
+Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.
+
+
+Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
+editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
+unless a copyright notice is included. Thus, we do not necessarily
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+
+
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