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diff --git a/31694-h/31694-h.htm b/31694-h/31694-h.htm new file mode 100644 index 0000000..5578abb --- /dev/null +++ b/31694-h/31694-h.htm @@ -0,0 +1,6473 @@ +<!DOCTYPE HTML PUBLIC "-//W3C//DTD HTML 4.0 Transitional//EN"> +<html lang="pt"> +<head> + <title>Estrellas Funestas, por Camilo Castelo Branco</title> + <meta name="Author" content="Camilo Castelo Branco"> + <meta name="Publisher" content="Parceria Antonio Maria Pereira"> + <meta name="Date" content="1906"> + <meta http-equiv="content-type" content="text/html; charset=iso-8859-15"> + <style type="text/css"> + body{margin-left: 10%; + margin-right: 10%; + } + .pn { + text-indent: 0em; + position: absolute; + left: 92%; + font-size: smaller; + text-align: right; + color: silver; + } + #corpo p{text-align: justify; text-indent: 1em;} + h1,h2,h3 {text-align: center; margin-top: 3em; margin-bottom: 2em;} + #corpo p.sinopse {margin: 0; font-size: small; text-indent: 0;} + hr.dotted {border: 0; border-bottom: dotted 2px #000;} + hr {border: 0; border-bottom: solid 2px;} + .rodape { + font-size: 0.8em; + margin: 2em; + } + .fbox {border: solid black 1px; background-color: #FFFFCC; font-size: +75%; margin-left: 10%; margin-right: 10%;} + </style> +</head> + +<body> + + +<pre> + +The Project Gutenberg EBook of Estrellas Funestas, by Camilo Castelo Branco + +This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with +almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or +re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included +with this eBook or online at www.gutenberg.org + + +Title: Estrellas Funestas + +Author: Camilo Castelo Branco + +Release Date: March 18, 2010 [EBook #31694] + +Language: Portuguese + +Character set encoding: ISO-8859-1 + +*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK ESTRELLAS FUNESTAS *** + + + + +Produced by Pedro Saborano and the Online Distributed +Proofreading Team at https://www.pgdp.net (This book was +produced from scanned images of public domain material +from the Google Print project.) + + + + + + +</pre> + +<p> </p> + +<div style="text-align: center;"> +<p style="font-size: 1.5em;">OBRAS</p> + +<p>DE</p> + +<p style="font-size: 1.2em;">CAMILLO CASTELLO BRANCO</p> + +<p>EDIÇÃO POPULAR</p> + +<p style="font-size: 1.4em;">L</p> + +<p style="font-size: 1.8em;">ESTRELLAS FUNESTAS</p> +</div> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<div style="font-size: 0.8em;"> +<p style="text-align: center;">VOLUMES PUBLICADOS </p> + +<blockquote> + N.º 1—Coisas espantosas. <br> + N.º 2—As tres irmans. <br> + N.º 3—A engeitada. <br> + N.º 4—Doze casamentos felizes. <br> + N.º 5—O esqueleto. <br> + N.º 6—O bem e o mal. <br> + N.º 7—O senhor do Paço de Ninães. <br> + N.º 8—Anathema. <br> + N.º 9—A mulher fatal. <br> + N.º 10—Cavar em ruinas. <br> + N.<sup>os</sup> 11 e 12—Correspondencia epistolar <br> + N.º 13—Divindade de Jesus. <br> + N.º 14—A doida do Candal. <br> + N.º 15—Duas horas de leitura. <br> + N.º 16—Fanny. <br> + N.<sup>os</sup> 17, 18 e 19—Novellas do Minho. <br> + N.<sup>os</sup> 20 e 21—Horas de paz. <br> + N.º 22—Agulha em palheiro. <br> + N.º 23—O olho de vidro. <br> + N.º 24—Annos de prosa. <br> + N.º 25—Os brilhantes do brasileiro. <br> + N.º 26—A bruxa do Monte-Cordova. <br> + N.º 27—Carlota Angela. <br> + N.º 28—Quatro horas innocentes. <br> + N.º 29—As virtudes antigas—Um poeta portuguez... rico! <br> + N.º 30—A filha do Doutor Negro. <br> + N.º 31—Estrellas propicias. <br> + N.º 32—A filha do regicida. <br> + N.<sup>os</sup> 33 e 34—O demonio do ouro. <br> + N.º 35—O regicida. <br> + N.º 36—A filha do arcediago. <br> + N.º 37—A neta do arcediago. <br> + N.º 38—Delictos da Mocidade. <br> + N.º 39—Onde está a felicidade? <br> + N.º 40—Um homem de brios. <br> + N.º 41—Memorias de Guilherme do Amaral. <br> + N.<sup>os</sup> 42, 43 e 44—Mysterios de Lisboa. <br> + N.<sup>os</sup> 45 e 46—Livro negro de padre Diniz. <br> + N.<sup>os</sup> 47 e 48—O judeu. <br> + N.º 49—Duas épocas da vida. <br> + N.º 50—Estrellas funestas.</blockquote> +</div> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<div style="text-align: center; border: solid 2px #000; padding: 1em;"> +<p style="font-size: 1.2em;"><em>CAMILLO CASTELLO BRANCO</em></p> + +<p style="font-size: 2em;">ESTRELLAS</p> + +<p style="font-size: 2.5em;">FUNESTAS</p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p style="font-size: 1.2em;">QUINTA EDIÇÃO</p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p>1906 <br> +P<small>ARCERIA </small>A<small>NTONIO </small>M<small>ARIA +</small>P<small>EREIRA</small> <br> +Livraria editora e Officinas Typographica e de Encadernação <br> +Movidas a electricidade <br> +<em>Rua Augusta—44 a 54</em> <br> +LISBOA</p> +</div> + +<p><span class="pn" id="pg_4" >{4}</span></p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<div style="text-align: center;"> +<hr> + +<p style="font-size: 0.8em;">1906 <br> +OFFICINAS TYPOGRAPHICA E DE ENCADERNAÇÃO <br> +Movidas a electricidade <br> +<strong>Da Parceria Antonio Maria Pereira</strong> <br> +<em>Rua Augusta, 44, 46 e 48, 1.º andar</em> <br> +LISBOA <span class="pn" id="pg_5" >{5}</span></p> + +<p> </p> +</div> + +<div id="corpo"> +<h2><a name="SECTION00100">A QUEM LER</a></h2> + +<p>Venho já a declarar que me desgosta o titulo d'este meu romance; mas não é +esta a primeira vez que meus actos, invenções e palavras me desgostam, embora +extranhos applaudam uns e outras.</p> + +<p>Tem uma certa graça, mixto de luz e escuridade, aquelle titulo: o que não +tem é verdade, verdade moral, acommodada á minha philosophia.</p> + +<p>No romance que publiquei, intitulado <small>AS TRES IRMÃS</small>, rematei +dizendo que não ha bons nem maus destinos, como se dissesse que o homem é o +responsavel, o agente, o motor arbitrario de suas acções, das quaes lhe advém o +socego ou a inquietação, a dita ou a desdita, a publica estima ou a +desprezadora abominação.</p> + +<p>Quem tal crê e disse, rejeita e desadora estrellas propicias ou funestas, +como cousa de agouros, de crendices, de poetas, e de vulgar superstição.</p> + +<p>O titulo, pois, tem muito com a fórma, e pouquissimo ou nada com a +substancia d'esta novella. Quem não quizer chamar-lhe <small>ESTRELLAS +FUNESTAS</small>, emende para os <small>MAUS CAMINHOS DA DESGRAÇA</small>, ou +outro titulo<span class="pn" id="pg_6" >{6}</span> de seu sabor, que +eu de tudo me contento, se o não denominarem <small>INVENÇÕES DO +AUCTOR</small>.</p> + +<p>Historia mais verdadeira nunca eu a escrevi. Por verdadeira de mais, +estiveram os apontamentos d'ella a olvidarem-se-me na escuridade para onde os +afastaram deferencias, appellidos e pessoas, umas que se prezam em si, outras, +menos em si, e muito em seus antepassados.</p> + +<p>Deliberei, depois de censurado por pessoa que, a meu instar, me cedera as +notas, a dar á estampa successos, que a bem merecem, por serem de lição a +infelizes, caidos em abysmos por suas proprias mãos abertos. Para me expôr á +somenos tacha de indiscreto, mudei nomes, sentindo não poder mudar localidades, +que então lá se ia abaixo, na rampa das chamadas conveniencias, o timbre da +verdade historica, a côr, a essencia, o melhor das obras de arte.</p> + +<p>Se, mesmo assim, muitos leitores, maiores de cincoenta annos, levantarem o +sendal com que lhes quiz encobrir algumas feições da verdade, e as divulgarem a +seus amigos, d'aqui me despeno da coima de linguareiro, offensor de cinzas +illustres, e assoprador d'ellas aos olhos de quem os fecha para não ver os +peccados de seus avós, contentando-se com ve'-los retratados na lona, e +ennobrecidos nos bens herdados.</p> + +<p>Dou-me pressa em destruir prevenções. Varram de sua idéa a perspectiva de +que eu vá quebrar lages e carneiros por essas egrejas e capellas, chamando a +juizo de homens as ossadas que, de muito, se ficaram esperando<span class="pn" +id="pg_7" >{7}</span> a volta do espirito para o supremo dia. Longe +d'isso. Tenho escassamente uma pobre penna de historiador; são leveiras de mais +as minhas mãos para sustentarem a balança dos julgamentos, cujo fiel, para +obedecer ao ouro fio, releva que penda em dedos, menos encodeados na cenosidade +dos vicios.</p> + +<p>Aquietem, pois, seus escrupulos os fieis á religião dos tumulos. Hão de ir +comigo ao longo de um salão, em cujas paredes, sob profundos tectos de castanho +armorejados, pende uma galeria de retratos, uns carrancudos como a philaucía, +outros sorrindo ironicos, como em desprezo da nossa contemplação. As arrogantes +effigies, ao cabo de contas, ficarão rindo; e nós bem póde ser que passemos +chorando, porque somos de uma geração que não póde, nem quer, fazer riso da +desgraça.</p> + +<p>Esta historia é innocente. Podem le'-la senhoras de imaginação +impressionavel, e os moços descontentes da vida incolor e monotona que a +sociedade lhes prescreve. O auctor, quando era capaz, não enganou alguem +escrevendo: ahi estão uns trinta volumes a defende'-lo da calumnia, se alguem o +argue de romancista corruptor. Agora, que está velho, dobrada obrigação lhe +corre de desvanecer preconceitos, que disparam em desordem da vida, e +sacrificam os thesouros da paz ao pobre do coração, que tão mal os paga, por +não ter cousa boa que dar por elles.</p> + +<p>Crê o auctor que ha, no caminho da vida, muitas paragens alegres, se o +caminheiro as sabe ver com os olhos já cançados de perseguir as fugitivas +visões. Nem<span class="pn" id="pg_8" >{8}</span> podia deixar de +ser assim, a menos que a verdade, filha do céo, não fosse um mal. E a verdade, +para uns temporã, e serôdea para outros, a final, a todos allumia, como o sol +do Senhor, que primeiro doura a colmada choça do montanhez, e depois desce os +flancos da serra, doura e lustra os zimborios dos palacios, e verte do seu +zenith um raio nas cavernas onde a formiga passeia por entre as unhas do leão. +</p> + +<p>Aquellas paragens verdadeiras do caminho da vida são hospedagem commum; +todavia, os mais dilectos do anjo bom, que alli recebe os peregrinos, são os +mais infelizes, os mais quebrantados da jornada, os que subiram até lá o +desfiladeiro das illusões, e bem mereceram a graça do anjo, rebaptisados na +agua de suas lagrimas.</p> + +<p>Sentado n'uma d'essas paragens é que eu conto esta historia ás pessoas que a +quizerem ouvir por complacencia com a minha velhice, e porque eu lhe assevero +que este e todos os meus romances, olham a prevenir o leitor contra os +infortunios procedentes da mentira do coração.<span class="pn" id="pg_9" +>{9}</span></p> + +<h1><a name="SECTION00200">ESTRELLAS FUNESTAS</a></h1> + +<h2><a name="SECTION00300">PRIMEIRA PARTE</a></h2> + +<h3><a name="SECTION00301">I</a></h3> + +<p>Alardeava em Lisboa suas pompas, liberalidades e desperdicios de rico +morgado da provincia, Gonçalo Malafaya, primogenito e unico de uma das tres +nobilissimas e mais opulentas casas do Porto.</p> + +<p>Ha muitos annos foi isto. Ahi por 1778 é que o fidalgo portuense dava +invejas aos da côrte, e a muitos namorados se atravessava, tentando a +constancia das damas, e saíndo com a victoria, de que elle se lograva por mera +ostentação, e nada mais que mareasse seu pundonor, ou o d'ellas.</p> + +<p>Algumas d'essas damas levavam-lhe vantagem em pureza de sangue, e pouco o +desegualavam em bens de fortuna. Admiravam-se os amigos de Gonçalo Malafaya que +elle rejeitasse allianças de bom partido, vistas as condições das donas. +Respondia elle que, desde menino,<span class="pn" id="pg_10" +>{10}</span> estava o seu casamento pactuado com D. Maria das +Dôres, sua prima carnal, tambem filha unica, e successora de grandes vinculos +nas provincias do norte.</p> + +<p>D. Maria das Dôres, menina de treze annos, saíra do convento de Arouca, onde +fôra educada com suas tias, e vestira o magestoso habito de aia da santa rainha +Mafalda, costumeira já esquecida n'aquelle mosteiro, fundado por uma rainha +portugueza d'aquelle nome.</p> + +<p>A joven aia saíu do mosteiro, com os seus bellos olhos menos levantados ao +céo que inclinados ao espelho, e viu-se bonita, por comparação com as feias. +Achou-se, ao mesmo tempo, na primavera da vida e na do anno.</p> + +<p>Parece que a natureza inteira lhe estava dando uma festa. Recordar-se do seu +quarto sombrio do convento, e das rabugentas admoestações e querellas de suas +tias, era-lhe um retrospecto enjoativo. Seus paes andavam como a amostra'-la de +casa em casa, maravilhados do juizo da morgadinha. O juizo de Maria das Dôres, +a olhos extranhos, teria antes nome de mau genio, pois não era mais que uma +desmesurada vaidade de sua pessoa, e altivez com que tratava mordomos, +caseiros, creados, e ainda pessoas independentes de sua casa, que a não +hombreavam em fidalguia. Esta prenda lhe incutiram as tias, freiras que +passavam por boas, e santas mesmo seriam; mas muitas vezes estariam a pique de +perderem suas almas, pela peccaminosa soberba com que disputavam primazias de +linhagem com as suas conventuaes. Na cella das duas senhoras ou se falava de +milagres ou de fidalguia; e era ordinario passarem da<span class="pn" +id="pg_11" >{11}</span> linguagem, edificativa de sua visionaria +crença em milagres, ao vanglorioso discurso de sua arvore genealogica, em +demerito de alguma illustre religiosa bernarda, que, por sua parte, mofava da +philaucía das nossas velhas senhoras, a quem Deus terá perdoado a fragilidade, +por ser a mais inoffensiva de quantas ha.</p> + +<p>O maior mal, proveniente d'isso, foi a vaidade da sobrinha; se, porém, seus +paes gostavam d'ella assim, póde dizer-se que a educação de Maria fôra +perfeita, á vontade dos paes.</p> + +<p>Soberba com os fidalgos, que a requestavam, é que ella não era, nem os seus +quatorze annos extranhavam a linguagem galanteadora. Já lá no convento a aia de +Santa Mafalda ouvira falar muito de coração ás religiosas que o traziam +exteriormente amortalhado no habito; presenceára por lá muitas borrascas +passageiras de ciumes; ouvia conversações pouco recatadas das freiras com as +noviças ácerca de certos primos que alli vinham de longes terras a estiarem +saudades nas grades, e banquetearem-se do refeitorio monastico. Era tudo ísto +de si tão trivial n'aquelles tempos, que um pae, impondo a suas filhas a +profissão, tacitamente lhes dava a partido poderem ellas violar o voto pela +mesma razão que elles lhes violavam as propensões. E, portanto, nenhuma +religiosa, em annos desculpaveis, se pejava de tratar questões de amor, quando +ia para o côro, ou voltava do côro, mixturando os psalmos de penitencia com os +alambicados conceitos em que, por via de regra, começavam e findavam aquelles +amores. E como ninguem se escandalisava<span class="pn" id="pg_12" +>{12}</span> de tal, quer-me parecer que o peccado seria +insignificante.</p> + +<p>Como disse, concorreram desde logo á mão da herdeira os mais nobres +appellidos d'estas provincias, uns tendo-a visto, outros não a vendo nunca; uns +amando-a de repente, outros aborrecendo-lhe as maneiras, e mesmo a boca +defeituosa. Maria das Dôres lá tinha no seu patrimonio tempero com que +adubar-se para todos os paladares; ella porém dizia a suas amigas, empenhadas a +favor de irmãos ou parentes, que o seu casamento estava justo desde o berço com +o primo Gonçalo Malafaya.</p> + +<p>N'aquelle tempo, semelhantes contractos entre duas familias, cujos +contrahentes eram dois meninos no berço, eram inquebrantaveis. As creanças, aos +sete annos, já se conheciam como esposos futuros; e, conforme iam crescendo e +ouvindo falar do casamento, não tinham mesmo tempo de córar um do outro, +quando, aos quatorze annos nupciaes, a esposada arrumava as bonecas para cuidar +do marido. Raras vezes acontecia rebellarem-se os filhos compromettidos, contra +a vontade dos paes. Se se amavam, era uma fortuna, tambem rara; se não se +amavam, o que fariam era mutilar o coração, atrophia'-lo á custa de lhe abafar +as pulsações, e deixa'-lo para ahi estar no peito, em lethargia, cujo +despertar, já fóra de tempo, trazia ás vezes grandes desgraças e inuteis +lições.</p> + +<p>A esta regra usual, quiz o acaso contrapôr uma excepção, incutindo no animo +de Gonçalo Malafaya extraordinarios<span class="pn" id="pg_13" +>{13}</span> affectos a uma dama lisbonense, e no de Maria das +Dôres imperiosa inclinação a um cavalheiro de Amarante.</p> + +<p>Pediu Gonçalo aos paes licença para casar com a menina, mandando-lhes um +traslado da arvore genealogica da sua amada. Os velhos responderam-lhe +negativamente, com muitas razões, sendo a primeira razão do casamento evitar a +demanda por causa dos vinculos de Freijoim e Aguas Santas; segunda razão, +andarem ligadas as duas familias, através de nove gerações desde 1530; terceira +razão, a palavra dada, entre fidalgos que a tinham em maior valia que a propria +vida. Seguiam-se outras razões, rematadas por esta paternal caricia: <em>Se +desobedeceres á honra, aos paes e aos deveres a que teus appellidos te obrigam, +conta com a nossa maldição.</em></p> + +<p>Gonçalo abafou os respiradouros do coração, e saíu de Lisboa, caminho de sua +casa. Muito sizo teve elle em conhecer o nenhum remedio do seu mau destino, e +fugir á presença da senhora, expediente unico de salvar-se, e salva'-la de +maiores dôres. Salvaria?...</p> + +<p>Alem de quê, o mancebo, para distrair saudades na jornada, ia pensando em +sua prima, que elle vira galantinha, aos oito annos, e acompanhára a Arouca, +tendo elle doze. Lembrava-se de lhe ter dado flores, e recebido, nas festas do +anno, umas bocetas de murcellas muito enfeitadas, com trama de papel dourado, e +as iniciaes da prima floreadas e entrelaçadas nas suas. Depois, uns versos, que +ella lhe mandára para Lisboa, escriptos naturalmente<span class="pn" id="pg_14" +>{14}</span> pelo capellão de Arouca, frade bernardo, que apanhára +as musas de surpresa.</p> + +<p>Com estas e outras imaginações, conseguira Gonçalo empanar o retrato da +fidalga da côrte, visão teimosa que ainda a revezes lhe apparecia n'algum +relance poetico da jornada, onde assombreavam arvores, ou herveciam prados, ou +murmuravam fontes. A saudade é a poesia de todo o homem. O que melhores poetas +teem dito, melhor o teem sentido pessoas que nunca fizeram versos. Onde virdes +um homem recolhido com a sua saudade, ahi está um poeta, porque a poesia não +quer dizer senão «enlevo doloroso».</p> + +<p>Entretanto Maria das Dôres, sobejamente senhora de seus olhos e palavras, ia +alimentando esperanças ao morgado de Amarante, e nutrindo as suas á sombra da +ostensiva indifferença dos paes. Estes, porém, avisados ou surprehendidos, +atalharam o pendor da filha, dizendo-lhe que bem sabiam que o seu galanteio era +um brinquedo; mas convinha pôr-lhe termo, porque estava a chegar de Lisboa o +primo Gonçalo. Maria, acostumada a dizer desassombradamente seus pensamentos, +declarou que antes queria casar com o de Amarante, a quem amava. Rebateram-lhe +os paes a frivola razão, com outras eguaes na substancia e na fórma ás que +demoveram Gonçalo, mas Maria, menos reflexiva ou mais animada, replicou com um +secco e desabrido «não quero», ousadia que deu em resultado ser a menina +ameaçada de entrar outra vez no mosteiro de Arouca, e esperar lá que o juizo +viesse.<span class="pn" id="pg_15" >{15}</span></p> + +<p>Maria, mediante os carinhosos conselhos da mãe, cedeu á vontade do pae; e +afastou-se do solarengo do Tamega, o qual, prezando-se de cavalheiro tambem se +retirou aos seus senhorios, respeitando a convenção feita entre as duas +familias sobre o consorcio dos seus representantes.</p> + +<p>Chegou Gonçalo de Malafaya, no remate d'este episodio.</p> + +<p>Viu sua prima, e reparou logo n'uma verruga que ella tinha a um canto da +bocca, e no desaire que lhe dava aos beiços. Achou-a mal ageitada de corpo, +desgraciosa nos meneios, rustica nas palavras, e com manifestas tendencias a +medrar muito em largura, e a não espigar mais. Assim devera ser. Se elle vinha +affeito ás gentilezas das damas da côrte, d'aquellas tantas que elle amára, +todas bem fallantes, discretas, esbeltas, apertadas de cinta, arrastando +soberanos donaires com muito garbo, dízendo tudo como quem canta, extendendo +aquelles gemebundos <em>ans</em>, como cauda das palavras, geito tão antigo em +Lisboa, que já, em 1650, D. Francisco Manuel, faz riso d'essas modulações +esquisitas, de que o nosso fidalgo portuense tinha tantas saudades! Em summa, +Gonçalo não gostou da prima.</p> + +<p>Ora Maria das Dôres, á primeira vista, achou que o primo Gonçalo vestia uma +casaca muito bonita de seda azul com bordados muito casquilhos nas portinholas, +e que tinha um pé pequenissimo, quasi todo coberto por uma fivella de ouro +rendilhado em galantes feitios. Ouviu-o falar com grande encarecimento das +fidalgas<span class="pn" id="pg_16" >{16}</span> de Lisboa, +especialmente de uma que era filha do conde de Miranda, a qual, para ser amada, +o falar era sobejo, que, mostrando-se, cego devia ser quem a não adorasse. O +pobre mancebo parece que assim estava desabafando a sua paixão, ou refrigerando +a saudade, que mais se assanhára, comparando a senhora de Lisboa com a prima do +Porto. Naturalmente, Maria das Dôres, resentiu-se dos gabos indelicados ás +meninas de Lisboa, e com intencional preferencia a uma filha do conde, cujo +nome Gonçalo pronunciava, suspirando, como pessoas beatas suspiram proferindo o +nome do santo ou santa de sua devoção. Desde ahi, a fidalguinha começou a +amuar-se, e a metter á galhofa o primo, ora arremedando-lhe a cantoria do +palavreado á lisboeta, ora tomando posturas comicas de pernas e de braços, +imitando-lhe as attitudes palacianas, que bem póde ser Gonçalo as exaggerasse +um pouco. O que certissimamente aconteceu foi Maria das Dôres não gostar de seu +primo.</p> + +<p>Aqui temos, pois, os dois noivos, face a face, quando o enxoval da esposada +está prompto, e o palacete do moço se preparava, e os primos de longe teem já +convite para dia designado.</p> + +<p>Maria das Dôres teve a innocente coragem de dizer a seus paes que aborrecia +o primo Gonçalo.</p> + +<p>—És tola!—disse-lhe o pae.</p> + +<p>—És uma creança!—accrescentou a mãe.</p> + +<p>E continuaram a azafama, para que tudo sobejasse nos festejos nupciaes, +excepto a alegria dos desposados. Gonçalo Malafaya ousou ainda contrariar a +vontade paternal,<span class="pn" id="pg_17" >{17}</span> dizendo a +medo, que um casamento assim não promettia senão desgraças. O velho rebateu +victoriosamente a frioleira do filho, contando-lhe em miudos a historia do seu +casamento, e do casamento de seu pae, e de seu avô. Eram tres historias, que o +leitor dispensa saber, e tem razão. A moralidade de todas era que tanto elle, +como seus illustres pae e avô, tinham casado com primas, sem amor nem vontade, +e com muita repugnancia; e, apesar de tudo, tinham vivido felizes, ou pelo +menos resignados, visto que, ajuntava o velho, o coração pouco tem que ver com +o casamento, e casamento será tudo quanto ha mau, mas escravidão de certo não +é. E a este proposito, discorreu o velho Malafaya alguns despropositos, que iam +mal a seus cabellos brancos, e bem podiam chamar-se o prefacio desmoralisador +de um casamento. Porém, como estas causas, postas em balança com a indisposição +matrimonial do filho, inclinassem para o peor lado o fiel, o velho cuidou +equilibrar os pratos lançando no mais leve os vinculos litigaveis de Freijoim e +Aguas Santas, os quaes rendiam seis mil cruzados, e estavam na casa com mui +duvidosa legalidade.</p> + +<p>Na ante-vespera do casamento, as duas familias, lavradas as escripturas para +segurança dos bens livres, foram de passeio, Douro acima, á Pedra Salgada, onde +um dos contrahentes tinha uma quinta.</p> + +<p>Era pelo tempo do savel. Os pescadores de Valbom carregavam nos barcos as +redadas da sua pescaria, Maria das Dôres entretinha-se a contemplar a labutação +dos<span class="pn" id="pg_18" >{18}</span> pescadores, e as rimas +de peixe extendidas no areal. Aguilhoada pelo appetite, exclamou:</p> + +<p>—Ó minha mãe! tenho vontade de comer savel; mande comprar um, que eu +tenho vontade de savel assado!</p> + +<p>Toda a gente riu urbanamente do appetite da menina, excepto Gonçalo que, em +sua consciencia, classificou de grosseirismo o desejo, e muito boçal a maneira +de o exprimir. Então, para seu maior flagello, lhe acudiu á idéa a recordação +de uma merenda a que assistira em Cintra com a filha do conde; na qual merenda +de indelevel saudade, a perfumada e espiritual menina escassamente comeu um +terço da aza de pombo, um olho de alface, e dois gomos de laranja, e, ainda +assim, a pedido do amantissimo Gonçalo; que, se elle não insta, áquella +compleição angelica bastaria o cheiro da madresilva. Se ao menos, Maria das +Dôres tivesse cobiça de savel, e o não comesse!... Seria um gosto pueril, sem o +desagradavel espectaculo da deglutição, em que ella era de todo o ponto +natural, sem ter na menor conta os preceitos da cerimonia, que mandam engulir +tão subtilmente que nos não ouçam o rumor do mastigar. Maria das Dôres +mastigava o savel com a presteza de mandibulas egual á impaciencia do seu +appetite. Comeu, antes de jantar, na presença do noivo e dos numerosos +parentes, duas grossas postas do pescado, como a filha do conde de Lisboa, em +identicas circumstancias, ouviria em delicias, duas odes anacreonticas, +recitadas pelo noivo á sombra dos arvoredos da sua Cintra.<span class="pn" +id="pg_19" >{19}</span></p> + +<p>Ora eu que, até certo ponto, não estabeleço estremas entre as mulheres, e as +julgo eguaes perante a lei do amor honesto, opponho-me á distincção, que +Gonçalo fazia entre as duas senhoras. O meu parecer é que se Maria das Dôres +amasse o primo, comeria apenas o terço da aza do pombo, e o olho da alface, e +os dois gomos de laranja; e que a filha do conde, se não amasse Gonçalo, +comeria as postas do savel fresco, se o tivesse em Cintra. A sciencia ha de +andar sempre ás aranhas n'estes mysterios do coração relacionados com o +funccionalismo do estomago.</p> + +<p>Depois do jantar, durante o qual a morgada demonstrou que o sável fôra um +prologo curto de um grande livro, Gonçalo retirou-se com a sua dôr a um recanto +da quinta, onde havia um tanque, em que nadavam patos, á sombra de copados +chorões. Indo Maria das Dôres vêr rebanharem-se os seus patos, deu de rosto com +o primo, que estava lendo umas cartas, já avincadas do muito uso.</p> + +<p>—Estavas aqui?!—disse ella, em ar de retroceder.</p> + +<p>—Vem cá, prima Maria das Dôres—disse elle emmassando as cartas +na carteira de marroquim.—Senta-te ao pé de mim.</p> + +<p>A menina foi sentar-se ao pé d'elle, atirando migalhas de cavacas de Arouca +aos patos.</p> + +<p>—Gosto tanto destas aves!—disse ella. Creei-as no convento, e +trouxe-as comigo. Olha como ellas me conhecem!...</p> + +<p>—Hei-de mandar vir de Lisboa—disse Gonçalo—um<span +class="pn" id="pg_20" >{20}</span> casal de patos reaes, para te +dar, prima, que são muito lindos.</p> + +<p>—Eu gosto mais d'estes—atalhou ella.</p> + +<p>—Mas, se eu te der outros, tambem has-de gostar d'elles, prima Maria +das Dôres?</p> + +<p>—Tambem, mas estes fui eu que os creei, e os outros já de lá vem +creados pela filha do conde provavelmente...</p> + +<p>Fez Gonçalo um gesto de espanto, e de zanga, vendo a ironia mais expressiva +no rosto que nas palavras da prima.</p> + +<p>—A que veiu aqui a filha do conde!?—disse elle com azedume.</p> + +<p>—É que tu estás sempre, a proposito de tudo, com a filha do conde ás +voltas. Ninguem veste, nem fala, nem anda como ella. Se a prima Peixoto faz um +rico vestido, a filha do conde tem um mais rico. Se eu compro um collar de +granadas, a filha do conde tinha um de esmeraldas. Se a prima de Simães vem á +cidade vestida de campo, como se vestem na França as damas da côrte, a filha do +conde é que sabia vestir-se a preceito, quando cavalgava por Cintra, com +admiração de toda a gente. É sempre a filha do conde para tudo! Por isso é que +pensei que os patos reaes tambem eram da filha do conde.</p> + +<p>Gonçalo Malafaya ficou atordoado, já pela affronta feita á mulher cujas +cartas apaixonadas estivera lendo, já pela extranheza que lhe causou o +desembaraço da menina, que, até áquella hora, simulára completa +indifferença,<span class="pn" id="pg_21" >{21}</span> ouvindo-o +falar da filha do conde de Miranda. Fez-se, porém, uma instantanea mudança no +espirito do noivo, saudavel mudança que lhe lisongeou a vaidade. Julgou elle +que Maria o accusava de desleal, e de puro ciume rompia n'aquella insolita +ironia contra a lisbonense. Isto, que parece nada, foi grande parte na +quietação de Gonçalo. O ciume da mulher, de quem se não espera nem pede amor, é +uma revelação agradavel, ainda mesmo que valha pouco para a felicidade do +coração.</p> + +<p>Depois de alguns instantes de silencio durante os quaes Maria continuava a +esmigalhar cavacas aos seus dilectos patos, disse Gonçalo:</p> + +<p>—Eu tenho falado na filha do conde de Miranda por que ella é o +ornamento da côrte e o modélo das fidalgas.</p> + +<p>—Deixa'-la ser...—atalhou Maria—Que tenho eu com isso? Eu +cá, visto, e ando, e falo como sei, ou como me ensinaram; e ella faz o mesmo; +se o faz melhor, seu proveito. Por que não casaste com ella, primo?</p> + +<p>—Por que nossos paes querem que eu case comtigo. E tu por que não +casaste com o Magalhães de Amarante?</p> + +<p>Maria córou, e deu graças ao seu anjo da guarda, quando viu entre as arvores +proximas um rancho de senhoras e homens que andavam em busca dos noivos.</p> + +<p>Gonçalo apenas teve tempo de lhe dizer:</p> + +<p>—Não te parece que a nossa união será uma grande desgraça?</p> + +<p>A prima não respondeu; levantou-se de golpe, e foi de<span class="pn" +id="pg_22" >{22}</span> corrida ao encontro das senhoras que +traziam abadas de rosas para espalharem sobre a noiva e Gonçalo que recebeu +friamente a graça.</p> + +<p>Seria ajuizado conjecturarmos que, depois d'aquelle desamoravel colloquio +dos primos, um ou ambos rompessem abertamente contra a submissão, fugindo ao +abysmo, que para elles nem sequer já se escondia debaixo de flores. Ambos o +estavam vendo em toda a sua profundeza. Nenhum d'elles fiava de sua indole a +resignação precisa para não blasphemar contra Deus ao despedaçarem-se na queda. +Nenhum acceitava a corôa do martyrio como necessaria. Maria se recusasse +formalmente, seria castigada com o convento. Quem não ha-de chamar paraizo +terreal a um convento, se o compara com as infernaes torturas da vida intima em +união indissoluvel? Gonçalo, desobedecendo a seu pae, que punição podia temer? +Dissabores domesticos, privações de recursos, a venda de seus cavallos, um +guarda-roupa menos recheado de sedas e velludos, prohibição de ir a Lisboa, +reclusão em alguma das quintas do Douro. Mas que monta isto, em confronto da +liberdade de gastar á larga, e chamar seu ao ouro que se atira por entre as +grades de um captiveiro? Que tem que a peçonha seja bebida por vaso de +relevante preço? E a peçonha das uniões odiosas e odientas, tragada gotta a +gotta, ha ahi morrer de mais lentas e espantosas dores, quando as victimas se +não buscam refrigerio na desvergonha e no crime?</p> + +<p>A estas perguntas a razão do homem oscilla, e cae<span class="pn" id="pg_23" +>{23}</span> em abusões injudiciosas. Então me lembra o destino, a +fatalidade e as estrellas funestas. Mas é tão avesso á minha razão dar de +barato ao nada a explicação dos mysterios da vida humana, que antes quero +acreditar que alguns paes infelicitam os filhos, por se acostumarem á +infelicidade propria; e alguns filhos, olhando de longe para o infortunio, +rebordam o ponto negro, que lá está, das cores variegadas e formosas que a +imaginação nova lhes empresta. Nos primeiros annos da vida, a idéa da desgraça +formamo'-la imperfeitamente. Tantos são os vagos bens que anhelamos, a tantas +miragens do deserto nos fogem os olhos namorados, que nunca o absoluto +infortunio, as plagas infinitas sem fonte de agua, nos parecem possiveis, nem +experimentadas pelos mais famosos infelizes. Os romances dão-nos espectáculos +de maxima desventura; as tragedias ensanguentam a pagina onde vertemos +lagrimas; a voz publica relata supplicios da vida particular denunciados pelo +gemido ou pelo escandalo. Que vale isso para imaginações juvenis? Ninguem se +crê talhado para o molde das miserias excepcionaes. Além de que, tal homem que +a sociedade considera desgraçado na vida intima, com sua esposa, vem ao mundo, +e sorri, e folga, e aporfia em prazeres com os mais felizes! tal esposa que tem +fama de martyr ou de algoz de seu marido, vem ao mundo e rejubila, e captiva os +olhares, que principiam piedosos e acabam por se desviarem descrentes de um +martyrio, que deixa sorrir a martyr, ou de uma crueza que tinge de amavel +brandura o semblante do algoz.<span class="pn" id="pg_24" +>{24}</span></p> + +<p>E assim é que a penetração de ler em almas, e ver no sorriso as lagrimas, e +no gesto meigo o arremesso do tigre, só póde da'-la muita experiencia de dores +proprias, muito estudar-se cada um em suas chagas e na industria com que as +escondeu de alheios reparos. Isto não o faz a mocidade, não o podia fazer +Gonçalo Malafaya, nem D. Maria das Dôres. No instante em que um ao outro +tacitamente se disseram ou podiam dizer: «ahi estão os pulsos para as algemas; +mas o coração é livre»—n'esse momento o anjo da desgraça matizou-lhe de +flores a garganta do despenhadeiro, e elles acintosamente se cegaram, pedindo +cada um á sua imaginação o segredo de desatar as algemas do pulso e acorrentar +com ellas as dos deveres.<span class="pn" id="pg_25" +>{25}</span></p> + +<h3><a name="SECTION00302">II</a></h3> + +<p>Casaram. As exterioridades, promptas sempre a mascarar hypocritas ou a +desmentir infelizes, esmeraram-se no esplendor do cortejo, nas festas +incansaveis de um mez, que apenas chegou a satisfazer a ancia de folias. Era +numerosa a parentella, derramada em tres provincias. Viera toda a felicitar os +noivos, e nenhuma voz amorosa lhes disse em que preceito assentava a felicidade +conjugal. Os emboras fundavam na certeza de se unirem duas familias, que +continuavam uma varonia ininterrupta de cinco seculos. Diriam mais que já não +havia medo que algum intruso viesse enxertar-se no tronco illustre dos +Malafayas e Azinheiros. Os velhos iam á sala dos retratos, e affirmavam que o +bispo de Leiria Lopo Azinheiro, e a Dona abbadessa de Lorvão Mafalda Azinheiro, +e o governador de Mombaça Heytor Malafaya se estavam sorrindo de contestes com +tal casamento. E os outros parentes iam ver a alegria dos retratos, e os +retratos em verdade pareciam sorrir da inepcia da sua posteridade; porque o +bispo fora um virtuoso prelado:<span class="pn" id="pg_26" +>{26}</span> a abbadessa morrera em cheiro de santidade; e o +governador de Mombaça, se não morreu santo—que o governar na India era +pouco azado molde para santos—era pelo menos esperto, consoante as +chronicas o descrevem.</p> + +<p>Não se persuada o leitor que lhe está imminente uma trovoada de escandalos e +offensas á moral. O infortunio da vida intima de dois casados existe sem +delictos, sem vergonhas nem aggravos, que resaltam em injurias ou insultos á +dignidade humana, das janellas para a rua. O marido póde ser desditoso, sem +deslustre de sua honra; a mulher póde ser má e intoleravel, sem enlamear sua +fama para sacudir o stigma á face do marido.</p> + +<p>Ha umas mulheres que D. Francisco Manuel, na sua preciosa <small>CARTA DE +GUIA DE CASADOS</small>, denomina <em>bravas</em>. É este o termo que friza a +primor em D. Maria. Das bravas, como a representante dos Azinheiros, diz assim +o citado philosopho:</p> + +<p>«Cuidam com falso discurso, algumas mulheres, que como ellas guardem a lei +devida á honra de seus maridos, em tudo o mais lhes devem elles de soffrer +quanto ellas quizerem que lhes soffram.»</p> + +<p>E accrescenta:</p> + +<p>«É este um mero engano, por duas razões; a primeira porque nada se lhes deve +ás honradas de guardarem a obrigação, em que Deus, a natureza, o mundo e o medo +as tem posto... A segunda...»</p> + +<p>A segunda razão desconcerta com o nosso proposito. Abaste-nos saber que +Maria das Dôres, ou porque não<span class="pn" id="pg_27" +>{27}</span> sentia o coração, ou porque lhe comprimia os impetos +com a sua indole soberba, ou finalmente porque se revia e estimava na pureza de +sua consciencia, é de todo o ponto averiguado que sobre sua memoria podem os +panegyristas afoutamente encarecer-lhe a lealdade sem macula.</p> + +<p>O mesmo quizera eu dizer de Gonçalo Malafaya; mas estão aqui ao meu lado os +apontamentos protestando contra as demasias da minha caridade, sendo certo que +as piedosas fraudes tamanha censura merecem no romance como na historia.</p> + +<p>Gonçalo era um homem amavel, cortezão, audacioso, e mestre em astucias, +aprendidas «heroicamente» na côrte, que era ainda, com pequenas cambiantes, a +mesma côrte de D. José I, successora da outra do nosso Luiz XIV. A piedade de +D. Maria I influira nas festas de egreja, nas pompas do culto, e apenas se +fizera reflectir na vida das salas. O impulso estava dado; a religiosidade da +soberana seria inefficaz a empecer-lhe o passo, ainda mesmo que a sentinella +inquisitorial não tivesse adormecido na sua guarita, de embriagada que estava +de sangue.</p> + +<p>Nenhum outro fidalgo portuense rivalisava em merito palaciano com Gonçalo +Malafaya. Amavam-n'o as mulheres pelas graças e chistes da sua conversação, +moldada sempre ás leis da cortezia e da elegante selecção das finezas. +Prezavam-n'o os mancebos, dado que o invejassem, pelas lições de phrase, e de +attitudes, e das mil insignificancias que n'uma sala completam o homem<span +class="pn" id="pg_28" >{28}</span> de primor. Os velhos fidalgos, +que, em Lisboa, tinham visto os Marialvas e os Vimiosos, diziam que o Porto +seria assombro da côrte, se os seus mancebos fidalgos fossem fadados de indole +tão prestante, como a de Gonçalo, para se affeiçoar aos grandes e raros +modelos, que, na capital, mantinham as tradições do bom seculo. O bom seculo +dos velhos é sempre o seculo em que elles foram rapazes, amados e requestados +das meninas coevas, as quaes, ao mesmo tempo, estão lamentando, do alto dos +seus setenta annos, a baixa condição em que a humanidade se vae degenerando. +</p> + +<p>No entanto, quem visse o festival cavalheiro nas salas do Porto, nas de +Lamego, nas de Amarante, amando, gracejando, planeando caçadas, bailes e +folguedos, quem diria as amarguras escondidas n'aquella alma? Sobre a ferida da +infinita saudade d'aquella filha do conde, suspirosa sempre d'elle e votada ao +claustro por seu amor, que travo de fel D. Maria das Dôres lhe espremia! Hora +de paz uma só lhe não dava em casa a esposa. Não era o coração alanceado por +ciumes, que sacudia a farpa; era já a phantasia engrandecendo o ultrage para +dar vulto ás queixas. Na vida intima, desvelava-se o desamor da esposa; mas +para materia da accusação tudo lhe vinha a talho, quer o marido revelasse +tristeza taciturna, quer se expandisse em simuladas alegrias. Se melancolico, +era o fastio d'ella que o entristecia; se alegre, eram as noticias da filha do +conde que tinham chegado. Se o acompanhava aos bailes, afeiava o aspecto de tão +má sombra, que, por contagio, diffundia tristeza em todas<span class="pn" +id="pg_29" >{29}</span> as physionomias, e mandava tirar a sege, +quando o marido se mostrava mais empenhado no jogo, na dança ou na conversação. +Em casa, compendiava os artigos do libello accusatorio, em que muitas vezes +eram calumniadas senhoras innocentes, e intenções de mera cortezia. Explicações +eram exasperar-lhe a sanha; o silencio era confirmação de suspeitas; um sorriso +em resposta era redobrar o ultrage pelo escarneo; um gesto desabrido, uma +ameaça á justiça do queixume. Quando os pretextos se demoravam na phantasia +fatigada de crea'-los, Maria das Dôres lançava mão de creancices. Deixava cair +de proposito uma porcellana, e gritava contra o marido que a tinha mudado do +seu local costumado. Gonçalo tinha dois partidos a seguir; ou confirmava com o +silencio a falsidade, e então o despeito recrescia com o supposto desprezo; ou +a contestava com acrimonia, e então sobrevinham altercações, que por parte +d'ella, terminavam em syncopes de raiva.</p> + +<p>Gonçalo recolhia regularmente á meia noite, e achava a esposa a passear na +antecamara, assoprando ás mãos, se fazia frio, e fingindo que tiritava. +Perguntava-lhe mansamente o marido porque não se tinha deitado. A resposta era +um descomposto aranzel de invectivas contra elle e contra as familias que lhe +tomavam o marido para lhe divertirem as noites de inverno. Deixou Gonçalo de ir +aos saraus. Maria das Dôres, á terceira noite de dolorosa abstenção, +perguntou-lhe se elle ficava em casa para dormir ao fogão, e se casára com ella +para lhe ensinar a brincar com as tenazes. Tornou-se Gonçalo<span class="pn" +id="pg_30" >{30}</span> aos habitos antigos, e conformou-se com a +dura pena de adormecer embalado pelos convicios revelhos e repisados, os mesmos +sempre na phrase e na toada, a monotonia nos queixumes, a mais horrivel de +quantas ha!</p> + +<p>Este viver durou um anno, cinco annos, dez annos, vinte e quatro annos.</p> + +<p>N'esse longo e penivel discorrer de dias concatenados, vejamos se algum +incidente nos convida a variar de linguagem e a descançarmos o espirito em +algum ameno remanso.</p> + +<p>Decorridos dois annos, nasceu uma menina, que foi chamada Maria Henriqueta. +Ácerca do nome, renhiram quinze dias os esposos, e sete mezes já tinham +disputado, antes d'ella nascer. Claro é que argumentaram em hypothese até ao +nascimento. Sendo menino queria ella que se chamasse <em>Ruy</em>, á semelhança +de seu vigesimo segundo avô; sendo menina, <em>Maria</em>, porque nos ultimos +quatro seculos, todas as senhoras morgadas da familia se chamavam Marias. +Gonçalo desejava que fosse <em>Heitor</em>, sendo rapaz, e <em>Beatriz</em>, ou +<em>Mafalda</em>, na outra hypothese.</p> + +<p>Venceu a mãe, e chamou-se a menina Maria Henriqueta.</p> + +<p>As formosuras que deu aos anjos a escola christã, vertendo á tela as côres e +os feitios desenhados de bello ideal, todas tinha Maria, aos oitos annos de +edade. Quem a via tão linda, e ao mesmo tempo melancolica e meiga, sem abrir +nos labios infantis o sorriso de seus annos, cuidava que, alguma hora, as azas +de anjo lhe<span class="pn" id="pg_31" >{31}</span> implumariam as +espádoas, e ella as desferiria em vôo para Deus, que a mandára á terra a +mostrar que bellezas povoam a bemaventurança, e como as almas lá andam +vestidas.</p> + +<p>Bem pudéra aquella pomba depôr no regaço maternal um raminho de oliveira, e +alumiar n'aquella casa o primeiro dia de paz. Por ventura, a tristeza do anjo +seria a magua de não ter o condão de conciliar seus paes. Póde ser que as +caricias fossem poucas no berço, e á mingua d'ellas, a menina crescesse como +orphanada de coração, e sedenta das meiguices, que ella andava mendigando a +troco das suas.</p> + +<p>Quantas vezes a pequenina acordava alvoroçada aos gritos de sua mãe, e ás +estrondosas disputações dos dois, em competencia de phrenesis! Quantas vezes a +sua ama de leite fugiu com ella para lhe reconciliar o somno, afugentado pelo +medo dos berros e das visagens da mãe!</p> + +<p>Raras vezes Gonçalo se entretinha com a filha, porque Maria das Dôres, á +falta de outros peguilhos, até das muitas caricias do pae á menina tirava +assumpto para bravezas de genio. Umas vezes por aperta'-la de mais; outras, por +atordoa'-la com os balanços; outras, porque a fazia chorar; outras vezes, +porque as cocegas a faziam rir, em risco de rebentar uma veia. O pae, afinal, +largava de enfadado a creança, e saía de casa com os dentes e punhos cerrados, +como se assim afogasse a serpente que lhe empeçonhava os mais innocentes gosos. +</p> + +<p>O amor de Maria das Dôres á filha tinha accessos de doudice. Acontecia +arrancar-lh'a dos braços a ama, quando<span class="pn" id="pg_32" +>{32}</span> receava que os boléos e tombos, em que a mãe a trazia +do seio para o regaço, lhe tolhessem a creança. A menina ganhára á mãe uns +medos taes, que dava a fugir, quando lhe podia cortar as voltas. Estes passos, +algumas vezes, lhe custavam castigos, que tornavam a innocente cada vez mais +assustadiça. Com o pae era differente o apego de Maria. Mal lhe ouvia a voz, +corria-lhe aos braços, e saltava-lhe n'elles, como se quizesse librar-se no ar, +e ir-se alando, de nuvem em nuvem, até esconder-se no céo! Se Deus te désse +então as tuas azas! D'este amor ao pae, eram mais que muito frequentes os +reparos de Maria das Dôres, que desfechavam em disparates de louco ciume, e +declamações contra a Providencia, que nem sequer lhe deixava os afagos de sua +filha. Gonçalo respondia acarinhando mais a creança, talvez com malicioso +prazer; mas cara lhe saía a malicia, que ouvia improperios sem conta nem +medida, e a muito custo salvava a menina da vingança da mãe, fula de raiva.</p> + +<p>Fez Maria nove annos, e já sobejavam luzes de razão para ver sua mãe, e +compara'-la, sem poder confundi'-la, com as outras senhoras. Sentia já uns +toques de compaixão, quando via o pae injustamente accusado, e devorado de +impaciencias, tanto mais dilacerantes quanto a prudencia as afoga nas lagrimas +intimas. Alguma vez ousou a menina pedir á mãe que cessasse de mortificar o pae +e humildemente offerecia o rosto á bofetada que lhe vinha em retorno da +supplica. E nem assim Maria se queixava ao extremoso pae. Escondia-se a<span +class="pn" id="pg_33" >{33}</span> chorar no seio da sua ama, a +quem ella muito de alma chamava mãe e pedia amparo nas occasiões em que a +irritabilidade de Maria das Dôres recrudescia contra quanto a rodeava, ou lhe +fugia ás sanhas.</p> + +<p>Avisado miudamente pela ama, que afinal fôra expulsa, determinou Gonçalo +Malafaya mandar educar sua filha n'um collegio inglez em Lisboa, não tanto para +prende'-la, como para subtrai'-la á mãe. Fôra plano d'elle chamar mestres a +casa, uns nacionaes, e outros extrangeiros, que era esse o usual systema da +fidalguia d'estes reinos; mas o pobre homem, levando a filha ao collegio, sobre +aparta'-la dos rigores da mãe, poupava-se a augmentar em casa as testemunhas do +seu desgraçado viver, que seriam tantas quantos fossem os mestres, e estes +deviam ser muitos, se andassem á caprichosa escolha de sua mulher. Disse elle +timidamente o seu intento a Maria das Dôres. Ocioso é dizer que foi contrariado +com estirados e repetidos discursos. Tal motivo deu fonte caudal para querellas +de algumas semanas. Gonçalo, feito o seu proposito, cogitou em machinar traças +para tirar a menina; mas nenhuma lhe dava azo a saír-se bem com o seu louvavel +intento. O que elle queria evitar era o ruido do facto, e a precisão de +explicar, em abono seu, os precedentes que o motivaram.</p> + +<p>A sociedade apenas desconfiava dos desgostos surdos de Gonçalo; e este por +vaidade ou por interesse de cousas menos louvaveis da sua vida exterior punha +todo o seu cuidado em desmentir ou affrouxar a curiosidade<span class="pn" +id="pg_34" >{34}</span> publica, sempre em ancias de escandalos, +para dessedentar-se das sequidões da vida quotidiana.</p> + +<p>Um successo, apparentemente casual, proporcionou o afanoso desejo de +Gonçalo. Os paes de Maria das Dôres tinham ido a vindimas ao Alto-Douro, e ali +adoeceu mortalmente a mãe. Vieram apressados portadores com liteira a buscar a +filha, por quem a moribunda chamava com incessantes brados. A tempo isto foi +que Maria Henriqueta estava de cama com leve mas febril doença. Sua mãe ainda +tentou leva'-la, se bem que não desconfiada da alegria occulta no animo do +marido; mas os medicos contravieram ao desarrasoado desejo. Saíu Maria das +Dôres a assistir á agonia de sua mãe, que foi demorada, e por lá se deteve até +ás honras da sepultura, uns trinta dias.</p> + +<p>Entretanto, a menina convalesceu, parece que só da alegria de se ver +convalescer nos braços do pae, com a ama querida ao seu lado. Gonçalo fizera +chamar a ama para ser no collegio a aia da filha. Deu-se pressa na partida para +Lisboa, e deixou aos paes o encargo de aquietar as iras da esposa, quando ella +voltasse do Douro.</p> + +<p>Então contou Gonçalo a seu pae as miudas scenas de sua desgraça. Carecia +este de sensibilidade para receber a revelação como castigo. Chegada a sua vez +de falar, o velho contou ao filho a longa historia de seus proprios +infortunios, soffridos uns com desprezo, outros com paciencia, e todos na +certeza de que não ha ninguem feliz. Caíu-lhe a proposito contar uma arrastada +historia<span class="pn" id="pg_35" >{35}</span> de um rei poderoso +da Asia que mandára chamar ao fim do mundo um philosopho para que este lhe +resuscitasse um amigo, e que o philosopho promettera dar vida ao morto, tirando +a concerto que o rei mandaria escrever no tumulo o nome de um homem de trinta +annos que nunca soffresse um desgosto. Mandou o rei procurar tal homem em todo +o mundo; e como o não achassem os enviados, o morto continuou a dormir o seu +somno eterno, e o rei mandou o philosopho para a sua terra.</p> + +<p>Ouviu Gonçalo o conto, e despediu-se do pae, promettendo dar a sua filha a +felicidade que perdera por obediencia, podendo ser ditoso com a mulher, que a +sua alma escolhera.</p> + +<p>—E os vinculos de Freijoim e Aguas Santas!—replicou +triumphantemente o velho.<span class="pn" id="pg_36" +>{36}</span></p> + +<p><span class="pn" id="pg_37" >{37}</span></p> + +<h3><a name="SECTION00303">III</a></h3> + +<p>Estava ainda no Douro Maria das Dôres, quando recebeu o inesperado golpe em +uma carta muito amoravel, que sua filha lhe escreveu do collegio, e outra, não +menos humilde, e mais reflectiva do marido. Então comprehendeu ella o silencio +de Gonçalo, tendo-lhe ella escripto para o Porto duas cartas, uma queixando-se +de passar mal as noites, e desejando que a mãe, a ter de morrer, abreviasse os +paroxismos; outra, raivosa, por ter escripto duas, sem receber, sequer, +resposta da primeira. Aquelle <em>sequer</em> denota que a snr.ª D. Maria das +Dôres queria receber resposta da segunda carta que estava escrevendo. E onde +póde chegar o mau genio!</p> + +<p>Esteve a senhora algumas horas arquejante de cólera sem saber que +deliberação tomar. Rompeu, depois, em queixas contra o pae que, a despeito da +vontade d'ella, a casára com o primo. O velho ouviu os clamores, e +disse:—«Se tua mãe vivesse, essa santa poderia contar-te o que me soffreu +a mim. Deus sabe com que remorsos eu cá fico chorando n'este mundo!... Eu +casei<span class="pn" id="pg_38" >{38}</span> por honra da familia, +e para me forrar a questões de vinculos e direitos de successão, que meu sogro +podia disputar-me vantajosamente. A casa ficou solida, e para ti foi, minha +filha. Soffri e fiz soffrer; mas quem é que não soffre n'este valle de +lagrimas, Maria?»</p> + +<p>Não sei se Christovão Azinheiro tambem sabia a historia do rei que mandou +chamar o philosopho; se a sabia, dispensou a filha de ouvi'-la, e esta, sem lhe +dar trela a dictames e conselhos, despediu-se, dizendo que a paciencia tinha +limites e a desgraça a tinha emancipado. Mal a entendeu o velho; mas sempre lhe +disse afinal:—«Lembra-te que és minha filha, e que tens dois santos na +familia, o snr. bispo de Leiria, e a snr.ª dona abbadessa de Lorvão.»</p> + +<p>Maria das Dôres, sem mesmo se encommendar aos santos familiares, torceu a +estrada a meio-caminho, e foi direita a Arouca, em cujo mosteiro ainda tinha +vivas suas tias, occupadas em deslindar as bastardias genealogicas das +conventuaes, e os ultimos milagres operados por algumas freiras que tinham +apparecido inteiras na claustra, depois de vinte annos de sepultura.</p> + +<p>Abriram-se as portarias á bem-vinda aia da santa rainha Mafalda, e todas as +religiosas a acharam mais bella, mais gorda e mais encantadora.</p> + +<p>—Vieste ver-nos, pomba;—disseram as tias, convulsivas de jubilo +e de velhice.</p> + +<p>—Vim ve'-las, e pedir-lhes a minha antiga cella.</p> + +<p>—Como assim? Tu queres tornar para o convento?</p> + +<p>—Sim, minhas senhoras; tornar para o convento, e<span class="pn" +id="pg_39" >{39}</span> morrer n'elle, se me deixarem. Meu marido +fugiu-me para Lisboa, roubando-me a minha filhinha, a luz dos meus olhos, o meu +coração, a minha alegria, tudo o que eu tinha n'este mundo. Casaram-me á força, +e agora querem á força matar-me. Pois sim, morrerei; mas hade ser aqui, onde +vivi os annos felizes da minha infancia, e á sombra de minhas tias, que me não +tolheram a felicidade. Não tenho, nem quero ter mais ninguem. Sou rica; mas da +minha riqueza tirarei sómente os alimentos necessarios. Sou rica do que é meu; +se o não fosse, pediria a minhas tias um quinhão da sua tença.</p> + +<p>—Oh! filha! exclamou a mais escorreita das velhas—Isto não sei o +que me parece! Em quanto a mim, essa veneta, que te deu, é desesperação de +ciume!... Olha lá, porque vens tu vestida de dó? Morreu-nos algum primo? Seria +o monsenhor da patriarchal D. Joaquim que deve estar muito velhinho? Seria o +sr. bispo da Guarda, que é nosso primo pela linha lateral dos Azeredos +Pita-Rellas? </p> + +<p>—Foi minha mãe que morreu—atalhou Maria das Dôres limpando uma +lagrima espremida pela raiva no afôgo declamatorio.</p> + +<p>Ouvida a infausta nova, as senhoras Moscosos Azeredos, que eram tias da mãe +de Maria, compuzeram um duo de alaridos roufenhos, que alarmou o mosteiro. +Confluiram todas as religiosas á cella, e cada uma garganteou o mais plangente +que poude uma escala chromatica de gemidos. As duas freiras anojadas +declararam-se em lucto rigoroso, e sentaram-se nas suas cadeiras de<span +class="pn" id="pg_40" >{40}</span> solla, a receber os pesames e as +visitas nocturnas.</p> + +<p>Maria mal podia esconder a sua zanga. O que ella queria era desabafar, +gritando e gesticulando; mas o silencio funeral, que pedia o caso, não se +compadecia com o seu desafôgo. Já arrependida de entrar no mosteiro, e incapaz +de reflectir no disparate da sahida abrupta, a desarvorada senhora, no dia +seguinte ao da entrada, mandou metter os machos á liteira e partiu para o +Porto, deixando confirmada a fama, que tinha de douda, no conceito de umas +senhoras, e a conjectura de que a perda da mãe a enlouquecera, na opinião de +outras. Em quanto ás venerandas Moscosos Azeredos, essas, com quanto estivessem +pasmadas, não se moveram das suas cadeiras, onde lhes impunha a praxe esperarem +a pé quedo que os tres dias do nojo expirassem.</p> + +<p>Na correnteza d'estes acontecimentos, estava Gonçalo Malafaya provando-a, +sobre todas, mais dorida porção da sua vida. Tentaram-n'o saudades a ir ao +mosteiro de Odivellas, onde sete annos antes professára Beatriz, filha do conde +de Miranda. Enganára-se com o seu coração o sensivel fidalgo, cuidando que +podia ver impunemente a mulher unica do seu amor, a recordação agridoce de sua +mocidade. Bem sabia elle que havia de chorar; mas esperava com as lagrimas +apagar o incendio, se as cinzas escondessem alguma faúla da antiga chamma.</p> + +<p>Foi a Odivellas, e chamou ao locutorio soror Beatriz dos Anjos. Acudiu ao +chamamento a esposa do Senhor, a pallida virgem, com as suas vestes magestosas +e tristes;<span class="pn" id="pg_41" >{41}</span> mas tristes a +olhos mortaes, que mais bellas não as podiam inventar homens para as noivas do +céo.</p> + +<p>Era ainda formosa, ou mais formosa era então a chorada Beatriz dos salões da +côrte, dos esplendorosos saráos, das invejas dos moços, e das mil brilhantes +esperanças, apagadas todas n'uma hora. Deus a chamára a si, dotando-a com a +perpetuidade da juvenil belleza. Tomou-lhe do coração os dons, que mal soubera +merecer-lhe o homem amado; e, em cambio d'elles bafejou-lhe de eterno maio as +flores da face e a juventude do espirito.</p> + +<p>Maravilhou-se Gonçalo de a ver tão gentil: e ella, mal recobrada da torvação +da surpresa, espantou-se da mudança do galhardo moço que ella amára.</p> + +<p>Quizera a religiosa fugir; mas o coração ia attraído para a doce voz, que +era a mesma em ternura, e para os olhos marejados das antigas lagrimas.</p> + +<p>—A que veiu aqui?!—perguntou Beatriz, com os olhos postos sobre +o escapulario.</p> + +<p>—Vim atormentar-me—respondeu Gonçalo—Vim procurar as +torturas, que faltavam ao meu martyrio.</p> + +<p>E contou Gonçalo com pueril sinceridade a historia da sua vida, como filho +amimado conta a sua mãe desgraças, que se vão consolando ao refrigerio dos +prantos d'elles.</p> + +<p>De instante a instante embargavam-lhe os suspiros a voz, e os vágados lhe +annuveavam as idéas. Com rosto socegado ouviu Beatriz as lastimas, os remorsos, +e as confessadas cobardias do seu arrebatado<span class="pn" id="pg_42" +>{42}</span> interlocutor; e, com immutavel rosto, respondeu por +estas memoraveis palavras:</p> + +<p>—Eu tambem tinha pae e mãe que me amavam muito, e cavalheiros que +muito me queriam. Fui pedida para esposa, e meus paes mandavam ao meu coração +que respondesse. Amei-o, senhor; e, se por si me perdera, Deus sabe que eu só +de mim havia de queixar-me. Preferi-o, e com a cega preferencia, que lhe dei, +esperei-o até á hora em que m'o disseram morto para mim. Se morreu tambem para +a felicidade, amargamente o sinto. Quem me dera ver toda a gente feliz, os meus +inimigos mesmo, se acaso os tenho! Depois é que eu lhe poderia dar um grande +exemplo de coragem; mas... para que? De sobejo me contento com ser exemplo de +infortunio. Meus paes não me queriam religiosa; meus parentes conspiraram todos +contra mim; e comtudo... sou religiosa, amortalhei-me, sepultei-me, e fiz da +chamma do meu amor a luz, que alumia sepulturas, e nem sequer aquece a lampada +que a encerra. Separados para sempre, sr. Gonçalo Malafaya! Não temos que +esperar um do outro, senão narrativas de lagrimas, que recrudescem a amargura, +e nada remedeiam. Peço-lhe pelo amor, que lhe tive, me não procure mais, nem me +desassocegue inutilmente. Eu achei aqui a paz, depois de muito a pedir a Deus. +Peça tambem; rogue, e faça da sua paciencia um direito á misericordia divina. +Viva para sua filha, se outra imagem não tem no coração. Adeus.</p> + +<p>Beatriz dos Anjos, inclinando de relance a vista embaciada<span class="pn" +id="pg_43" >{43}</span> ao locutorio, sumiu-se na escuridade dos +corredores, que vão da portaria para o interior do mosteiro. Gonçalo +tartamudeára palavras, sem sentido, e quedára-se estupefacto, com os olhos +fitos na lamina crivada do palratorio.</p> + +<p>Voltou a Lisboa o allucinado fidalgo, e de tamanha tristeza se entranhou, +que nem as caricias da filha o despenavam. Errou com a escandecida mente por +quantas absurdezas se offerecem ao desatino da paixão. Roubar ao mosteiro a +religiosa, e fugirem para remotos climas não foi o maior nem o mais original +dislate da sua phantasia. Rebelde aos preceitos recebidos, escreveu primeira e +segunda carta a Beatriz, e recebeu-as abertas, com a terceira fechada. Um frade +capellão ou confessor de Odivellas, lh'as entregou, e quiz asserenar-lhe os +transportes com os mais justos dictames, e piedosas reflexões que suggeria o +caso.</p> + +<p>Ouviu Gonçalo, uma hora, o apostolico varão, e sentiu despontarem-se os +espinhos de sua dôr, amollecidos pelos prantos a que o forçava suavemente a +compungitiva linguagem do monge. Não levantou mão d'elle o enviado de Beatriz. +Buscava-o a miudo na sua soledade, e cada dia lhe ministrava lenimentos novos, +hauridos da inexhaurivel fonte do Evangelho.</p> + +<p>Com o decurso de algumas semanas, Gonçalo Malafaya conformou-se com a +desgraça irremediavel, e habituou-se a invocar o auxilio do céo, se vergava, +alguma hora, ao confrangimento de desesperada saudade.</p> + +<p>Maria Henriqueta conheceu nos primeiros dias de collegio<span class="pn" +id="pg_44" >{44}</span> os mais saborosos instantes de sua +infancia, senão os primeiros. Tinha muitas meninas a ama'-la, as mestras á +competencia de meiguices, muitas creadas a servi'-la, e a sua ama querida a +inventar-lhe sempre as innocentes delicias, que a pobre menina desconhecera sob +o olhar severo e glacial de sua mãe.</p> + +<p>Custou-lhe lagrimas o adeus do pae; mas foram as primeiras e ultimas que +chorou alli.</p> + +<p>Depois de sessenta dias de ausencia, entrou Gonçalo em sua casa no Porto. +Avisára elle de antemão os paes para lá o esperarem, temendo o primeiro +encontro com a mulher. Recebeu-o a mãe nos braços, e disse-lhe ao ouvido:</p> + +<p>—Olha que Maria das Dôres está douda furiosa.</p> + +<p>Achegou-se o pae da outra orelha, e disse-lhe:</p> + +<p>—Talvez seja preciso amarra'-la.</p> + +<p>Gonçalo encarou em ambos, e respondeu:</p> + +<p>—É a felicidade que lhes devo, meus carinhosos paes.</p> + +<p>A mãe entendeu, sem merecer creditos de esperta, a ironia, e replicou +mansamente:</p> + +<p>—Tens razão, meu filho! tens razão...</p> + +<p>E o pae accrescentou em outro tom:</p> + +<p>—Ás vezes dois puxões de orelhas curam estas doudices.</p> + +<p>Maria das Dôres, com o seu feio costume de escutar, ouvira as palavras do +sogro e exclamára:</p> + +<p>—Dois puxões de orelhas!... Quero vêr se ha mão que se atreva a +isso!<span class="pn" id="pg_45" >{45}</span></p> + +<p>—Cala-te ahi!—bradou o velho.—Se fosses minha mulher, +havia de... esganar-te! Fizeste desgraçar meu filho, que é um anjo, todos o +respeitam e amam, menos tu que és uma vibora peçonhenta! Gonçalo, deixa +tudo!—exclamou, voltado ao filho—deixa tudo a essa mulher, e vem +para nossa casa. Poupa os teus dias; foge a esta diabolica creatura, e o mundo +saberá da minha bocca a razão porque lhe foges.</p> + +<p>Maria das Dôres tinha de ordinario uns deliquios de reserva para as crises +em que a palavra era menos significativa de sua consternação ou raiva. +Occasionou-se-lhe ensejo optimo para um. Desmaiou, caindo com toda a segurança +da sua pessoa n'um bufete da sala de espera.</p> + +<p>Gonçalo sentou-se extenuado em frente de sua mulher; pendeu a cabeça para o +seio, e, com as mãos na cabeça, parecia recurvar as unhas sobre o craneo.</p> + +<p>—Que inferno!—exclamou elle.—Que inferno este, meu pae! +Que vida tão escura a minha, agora, e sempre! Estou no vigor dos annos, e é +forçoso que os acabe por minhas mãos, ou que me deixe despedaçar hora a hora +por esta mulher! Tinha uma filha, que podia ser-me allivio, e fui obrigado a +separa'-la de mim para a furtar á influencia nefasta d'esta senhora, que nem +boa mãe é! Nem mãe, santo Deus! Nem a virtude das feras coube em partilha a +esta que me deram por esposa!</p> + +<p>Chorava a mãe de Gonçalo, e o velho estava passado menos da dôr, que do +arrebatamento do filho.<span class="pn" id="pg_46" >{46}</span></p> + +<p>Maria das Dôres ouvira tudo, e provavelmente descerrára as palpebras para +observar a gesticulação do marido. Abriu de todo os olhos esgazeados; affastou +da fronte os cabellos, como fazem nas tragedias as doudas, ou as arriscadas a +isso; levantou-se cambaleando, segundo a arte, e tirou-se do salão, assoprando +como serpente ferida na cauda.</p> + +<p>Vacilou Gonçalo entre ficar ou recolher-se á residencia de seus paes. A mãe +instava pela saída, conformando-se á primeira vontade do marido; este, porém, +reflectindo um pouco, disse que mais acertado seria o filho, depois de liquidar +contas com os caseiros e conhecer a fundo o estado de sua casa, cuidar em +separar-se judicialmente, allegando com o depoimento dos servos o genio +intractavel da mulher.</p> + +<p>—Fez-me o casamento, pae,—disse Gonçalo—e quer +desfazer-m'o agora!... Assim devia ser; mas o peior é eu hei de ser até á morte +um escravo d'ella, ou da ignominia da minha situação. A separação dá causa a +juizos vilipendiosos, meu pae; e eu, sobre todas as calamidades, não quero +affrontas. Já agora hei de soffrer e morrer aqui. Hão de regosijar-se da sua +obra... Quero que sintam o remorso de me acabarem lentamente a vida, que tão +feliz se me antolhava; matassem-me antes! antes a morte, que assim, ao menos, +poupar-me-iam a ser testemunha da outra infeliz, que tambem mataram! Ó alma do +céo, perdoa-me tu, pelas dores com que aqui estou expiando a minha +fraqueza!...</p> + +<p>Os velhos não entenderam cabalmente a apostrophe,<span class="pn" id="pg_47" +>{47}</span> e de si para si ficaram em que o filho estava menos +escorreito e são de seu juizo.</p> + +<p>Recolheu Gonçalo á sua camara, e n'ella passou alguns dias encerrado, sem +ver a mulher. Ahi recebia as visitas, que, prevenidas pelo velho Malafaya, +evitavam perguntar-lhe pela prima Maria das Dôres.</p> + +<p>Esta, encerrada tambem no seu quarto, apenas recebia a visita do medico, e a +do capellão, santo homem, que á mingua de eloquencia christã, se estava sempre +benzendo, sem dar a razão de tamanha prodigalidade do signal da cruz.</p> + +<p>N'este critico intervallo, Maria das Dôres absteve-se de governar a casa, e +de transmittir suas ordens aos creados. Os negocios do governo culinario +corriam sob a fiscalisação do padre, que mostrou sua especial vocação no +desempenho d'elles. Almoço, jantar e ceia, ás horas, nunca faltou, bemdito seja +o Senhor!</p> + +<p>Passados dias, foi o medico portador de uma carta de Maria das Dôres a seu +marido. Dizia em resumo o escripto que ella imperiosamente queria recolher-se a +casa de sua familia, por já não poder supportar o flagello, que seu pae lhe +apparelhara. Mais dizia, que se voltára do Douro alli, fôra causa d'essa +imprudencia querer ella entregar a seu marido as chaves de suas gavetas, e as +preciosidades, que elle trouxera dos seus. Posto isto, rematava dizendo que +fôra sempre uma esposa digna e sem mancha; ao passo que seu marido era um homem +de costumes estragados, merecedor de outra mulher, capaz de vingar-se, pagando +affronta com affronta.<span class="pn" id="pg_48" >{48}</span></p> + +<p>Gonçalo leu a carta e respondeu verbalmente ao doutor:</p> + +<p>—Que faça o que quizer. Que vá para o pae se lhe apraz; que se deixe +estar, se está bem; na certeza de que, lá ou aqui, a nossa separação está +resolvida para sempre.</p> + +<p>Maria das Dôres ouviu a resposta, pediu ao medico o favor de retirar-se, +saltou fóra do leito, vestiu-se em grutesco desalinho, e entrou, com furial +aspecto, no quarto do marido.</p> + +<p>Sentou-se Gonçalo no leito, como attonito da improvisa apparição.</p> + +<p>—Que quer, prima?—gaguejou elle.</p> + +<p>—Quero ouvi'-lo; quero ouvir da sua bocca as palavras que me disse o +doutor.</p> + +<p>—Se lh'as elle disse... que mais quer?</p> + +<p>—Diz-me o primo que vá para meu pae?</p> + +<p>—Se quizer.</p> + +<p>—Não quero!</p> + +<p>—Pois não vá.</p> + +<p>—Eu não ando ás suas ordens! Sou sua mulher. Entendeu?</p> + +<p>—Entendi.</p> + +<p>—E então?</p> + +<p>—Então o quê! Que é que me diz?</p> + +<p>—Que não saio d'esta casa que é minha.</p> + +<p>—Deixe-se estar.</p> + +<p>—Mas o senhor que disse mais?</p> + +<p>—Que a nossa separação está resolvida para sempre.<span class="pn" +id="pg_49" >{49}</span></p> + +<p>—Isso é se eu quizer.</p> + +<p>—Quer queira, quer não.</p> + +<p>—Eu allegarei as minhas razões em justiça.</p> + +<p>—Não temos que ver com a justiça. A prima Maria das Dôres tem os seus +aposentos n'esta casa, e eu tenho os meus. É n'este sentido que eu entendo a +separação.</p> + +<p>—Não quero!—exclamou ella, batendo com o pé rijamente no +tapete.</p> + +<p>—Em tal caso, obriga-me a sair d'esta casa.</p> + +<p>—E eu vou procura'-lo onde estiver.</p> + +<p>—A prima é uma senhora. Fio da sua nobreza que se poupará e me poupará +a vergonhosos alardes.</p> + +<p>—Qual nobreza, nem qual vergonha? Sou sua mulher! não é mais que +dizer—não me serves—e acabou-se tudo! Recorro ás leis. Quero saber +porque sou abandonada. Fui-lhe infiel, primo Gonçalo? Atraiçoei-o? Faltei aos +meus sagrados deveres de esposa?</p> + +<p>—Nunca o suspeitei.</p> + +<p>—E o primo faltou? Responda.</p> + +<p>—Não tem resposta.</p> + +<p>—Tem. Tem resposta. O senhor é que não tem alma nem vergonha. Quer ir +viver com outra? Diga-o francamente, que eu n'esse caso vou-lhe fazer presente +das joias, já que o senhor a faz proprietaria dos meus direitos. Escusa de +sair: póde traze'-la para aqui. Veja lá primo... se precisa de aia a dama, +estou eu aqui que lhe sirvo.</p> + +<p>—Cale-se, senhora!—bradou Gonçalo.—O despejo da<span +class="pn" id="pg_50" >{50}</span> phrase offende tanto como o +despejo da acção. Estão ahi as suas creadas a ouvi'-la. Felizmente que não está +aqui uma menina de onze annos para lhe decorar essas palavras, aprendidas não +sei onde, nem com quem. Prima Maria das Dôres! attenda-me com o seu silencio, +se póde. Este viver é impossivel. A senhora apurou-me a paciencia até ao +extremo. Soffri-a emquanto o facto da separação me pareceu desairoso. +Sacrifiquei-me á dignidade, que foi sempre o melhor timbre de nossas familias. +Baldei as dores surdas que padeci. Ninguem me compensa, nem a sua indole se +chegou a condoer de mim. Mudei, prima, mudei completamente. Quer saber a minha +deliberação final? Digo-lh'a livre de medo que m'a embarace. Em ultimo recurso, +fujo de Portugal, e deixo-a. Irei onde me não conheçam, nem me denunciem á sua +perseguição. Felizmente sou rico. Bom é que eu alguma vez conheça as vantagens +de ser rico. O que é meu basta e sobeja. Posso ainda viver alguns annos +tranquillos; em toda a parte hei de achar amigos.</p> + +<p>—E amigas...—atalhou ella.</p> + +<p>—E amigas, diz bem a prima; porque não.</p> + +<p>—Basta!—vociferou Maria das Dôres perfilando o dedo indicador +com o nariz.—Basta! não se envergonha agora que o estejam escutando as +creadas? Faça o que quizer. Abandone-me; mate-me; sacrifique-me aos seus +caprichos, primo, que eu deixo a minha causa á Providencia, e a sua alma ao +remorso.</p> + +<p>Gonçalo sorriu, e Maria das Dôres, atirando para o<span class="pn" +id="pg_51" >{51}</span> pescoço uma aba do gabão de castorina, saíu +com toda a magestade d'uma rainha colerica.</p> + +<p>O padre capellão, que tambem tinha o vêzo de escutar, já se tinha benzido +vezes sem conta com ambas as mãos.<span class="pn" id="pg_52" +>{52}</span></p> + +<p><span class="pn" id="pg_53" >{53}</span></p> + +<h3><a name="SECTION00304">IV</a></h3> + +<p>Poude muito comsigo Maria das Dôres, enfreando o genio; mas desmedrou a +olhos vistos. Ao cabo de tres semanas estava magra, secca e quebrada de +espirito, que era um pasmar das creadas. Sustentou Gonçalo dois mezes a sua +palavra. Saía por portas remotas do repartimento em que sua prima vivia. +Jantava raras vezes em casa, e sempre em separado. Seroava por salas de amigos +e parentes até noite alta. Recolhia a tempo que sua mulher dormia; e, +finalmente, recebia as visitas em salas distinctas das frequentadas pelas +senhoras.</p> + +<p>Este divorcio domestico teve longe soada, e deu ansa a muitas calumnias, +umas gravosas para a fama da senhora, outras a taxarem de cru e barbaro o +marido. O velho Azinheiro commentava o facto em abono da filha; o velho +Malafaya andava solicitando a canonisação de seu filho martyr. Deu-se a feliz +conjuncção de se encontrarem os dois velhos em casa de uma familia, empenhada +na reconciliação dos casados. Deram ambos amigavelmente as causas da desordem, +cederam-se mutuamente<span class="pn" id="pg_54" >{54}</span> as +sem-razões de parte a parte, e vieram ás boas, pactuando o afervorarem a +harmonia, na vespera do Natal, á mesa do amigo e parente commum, que lhes +proporcionára o encontro.</p> + +<p>Assim se fez.</p> + +<p>Gonçalo acceitou o convite, sem presumir o fim; Maria das Dôres, instada +pelo pae, accedeu tambem. A surpreza foi de ambos, quando se viram na mesma +sala da ceia. Achava-se presente o deão da Sé, sujeito de grandes lettras, e +abalisada prenda de bom-falador. Foi elle o encarregado do discurso, quinze +dias antes. Não foi discurso o que saíu da uberrima e caudal veia do +prebendado: foi uma homilia, como os santos padres a quereriam ter feito. Se +lhe mondarmos a exhuberancia dos textos latinos, á mixtura com os versos +gentilicos, era uma peça litteraria com que eu faria os meus creditos, se a +podesse reproduzir, e o leitor m'a attribuisse ao meu corcovado engenho. +Corcova-se o engenho, como a espinha dorsal, leitor amigo, quando frigidas e +geadas de infortunio regelam e abatem as altivezas do genio. Não assim ao +conspicuo deão da Sé portuense, que vivera cincoenta annos de vida folgada e de +côro, rindo com os vivos, cantando pelos mortos, e compondo, nas horas +feriadas, discursos attinentes a restabelecer a ordem perturbada nas familias, +em cujas casas jantava, uma vez por dia, ou duas, se caía a talho de fouce.</p> + +<p>Ia em meio o discurso, quando as senhoras edosas, lavadas em lagrimas como +punhos, começavam a perder o appetite das rabanadas e dos ovos de fio. Os +velhos<span class="pn" id="pg_55" >{55}</span> fidalgos, para em +tudo attingirem o sublime dos conceitos, até com acenos de cabeça confirmavam o +bem cabido e apropositado dos textos latinos, cousa de todo o ponto indigesta +ás capacidades d'elles. Rematou o discurso por este memorando periodo:</p> + +<p>«... Finalmente, é chegada a hora, a propicia hora de dois corações se +approximarem, quaes carinhosos e gemebundos rolos, que nos esgalhos de +longiquas arvores, se estão suspirosos namorando! Abra o mais forte os doces +braços, e cinja em meigo amplexo a fragil e quebradiça creatura, que senão fôra +toda amor, seria toda divindade. <em>Toto Dea, tota pulchra, tota vel +amor.</em> (Entre parenthesis: supponho que o latim era arranjo do imaginoso +deão: não me occorre ter lido cousa tão delambida na antiguidade). Finalmente, +tornou elle—se dois são os culpados, o reciproco perdão abra-se já em +perfumes de reciproco amor. Para enxugar as lagrimas, beijos; para delir +injurias, sorrisos; para cicatrizar chagas do peito, abraços. Vamos, felizes +esposos; renasça a paixão, o ardor da chamma antiga, <em>veteris flammæ</em>, +n'esta hora em que renasce para o amor e para a fé da humanidade o redemptor da +culpa, o redemptor das paixões más, aquelle que disse: a carne da minha carne, +o osso do meu osso: <em>caro ex carne mea, os ex ossibus meis</em>.» Disse.</p> + +<p>Heytor Azinheiro tomou a filha pela mão; Christovão Malafaya abarcou pela +cintura o filho, e deram alguns passos a encontrarem-se.</p> + +<p>Gonçalo beijou a esposa na fronte; Maria das Dôres<span class="pn" +id="pg_56" >{56}</span> cingiu o braço ao collo do esposo, e ficou +em duvida se devia desmaiar.</p> + +<p>Não teve tempo. Moviam-se e vozeavam todos a um tempo. O deão conservava +ainda a face escarlate do rescaldo da inspiração. Houve ahi fidalgo enthusiasta +da facundia, que beijou a face do orador, a face em que, uma hora depois, +cuidaria Sileno achar o espelho.</p> + +<p>Foi noite cheia, noite que vae contando, na chronica das familias, ás +provindouras proles, delicias nunca mais repetidas.</p> + +<p>Mas nos labios de Gonçalo não avoejára um riso em toda a noitada, que +prendeu com o dia; nem os de Maria das Dôres se abriram com palavra carinhosa +ao esposo.</p> + +<p>Voltaram de braço dado a casa; almoçaram juntos, e falaram de Maria +Henriqueta, elle choroso, e ella melancolica. Ao jantar falaram ainda da +menina, e combinaram em irem proximamente visita'-la a Lisboa.</p> + +<p>Decorreram dias serenos, se não felizes em comparação dos passados. Maria +queixava-se, mas com brandura: Gonçalo ia confessando suas demasias de +impaciencia; mas sem vontade nem consciencia de as ter dito. O padre capellão +continuava a benzer-se, mas já era de pasmado da mudança que o Senhor fizera +nos casados, mediante as orações d'elle. Modesta piedade!</p> + +<p>Foram a Lisboa, e fizeram contentes a jornada. Tiveram comsigo a filha em +Cintra, e visitaram os arrabaldes pittorescos da formosa Lisboa.</p> + +<p>Maria Henriqueta estava adiantada em cravo, dançava<span class="pn" +id="pg_57" >{57}</span> com muito garbo e limpeza o minuete, +arrastava com gracioso despejo a cauda do vestido, e levava o toucado a +maravilhosa altura, sem desluzir a graça. No tocante a linguagem, em poucos +mezes, todos a julgariam pura lisboeta. Um dizer morbido, preguiçoso e +indolente, como cortado de gemidos, cousa mais de enfeitiçar ouvidos nunca +Maria das Dôres imaginou que pudesse ouvir dos mellicos labios de sua filha. +</p> + +<p>No ponto de belleza, não ha ahi cousa que mais diga. Alteára-se, +desempenára-se, alargára de espádoas, mingoára de cintura, pisava tão geitosa +de mimo e movimentos, que parecia librar-se toda em cadencioso bater de +translucidas azas. Facil era divisar assomos de vaidade no olhar da mãe. Já +ella entre si dizia que mais amavel e perfeita fôra, se seus paes a tivessem +mandado educar á côrte, em vez de a soterrarem n'um brutificador convento, onde +as mulheres eram todas umas, e ridiculissimas as gaifonas monasticas, sem graça +nem calor. Cohibia-se Maria de communicar ao primo estes seus pensares, com +medo de relembrar-lhe cousas em que elle muitas vezes cogitaria, com desfalque +dos taes quaes merecimentos d'ella.</p> + +<p>Detiveram-se em Lisboa quatro mezes. Raras palavras enfadosas se trocaram, e +essas mesmas eram contendas por amor da menina, que a mãe quizera levar comsigo +para o Porto, desejo inepto que o marido impugnava, dizendo que a educação da +filha estava em principio.</p> + +<p>Na ante-vespera da partida, senhoreou-se do espirito de Maria o entojo de +vêr o mosteiro de Odivellas. Sabia<span class="pn" id="pg_58" +>{58}</span> ella que farte da profissão da filha do conde, e +anciava por ve'-la, curiosidade por vezes mui fatal a mulheres, que não sabem o +que fazem nem o que desejam. Recusou-se, primeiro, Gonçalo; meditando, porém, +que só uma casualidade traria ás janellas gradeadas do mosteiro Beatriz dos +Anjos, condescendeu. Fôra, porém, tão prompta a condescendencia, que D. Maria +fez pé atraz, e demudou do intento, resmuneando palavras ciosas, que fizeram +lembrar a esposa, antes de regenerada pelo discurso do deão, que santa gloria +haja.</p> + +<p>Azedou-se o marido da versatilidade da mulher e então iam pegando em +permutação de remoques, mui dispostos a despregarem em formal descompostura. +Espalharam-se as nuvens da imminente borrasca, e o azul sereno do provisorio +céo cobriu mais alguns dias de bonança.</p> + +<p>Ficou Maria Henriqueta em delicias, por se vêr livre do suborno da mãe, que +a induzia a pedir ao pae a saída do collegio. Se alguma vez por temor ou +respeito o fez, de tal geito relanceava os olhos ao pae, que o mesmo era +implorar-lhe piedade. Por de sobejo lhe adivinhava Gonçalo a vontade; e, +dilatando a resposta, foi ganhando tempo, e dispondo a saída, com promessas de +lá voltarem.</p> + +<p>Quando chegaram ao Porto, tangiam a finados os sinos da Sé. Estava sobre a +terra o sapientissimo deão. Ruim agouro!</p> + +<p>Aquelle dobre funeral, annunciando o trespasse do eloquente conciliador, era +o presagio de futuras discordias.<span class="pn" id="pg_59" +>{59}</span></p> + +<h3><a name="SECTION00305">V</a></h3> + +<p>A educação seria alguma cousa no genio de D. Maria; mas o temperamento era +tudo. Derrancava-se-lhe o sangue, se não girava desempedido, e resfolegava +pelas valvulas da altercação, da teima e do conflicto. Renhir era o principio +vital da sua compleição. Carecia de contrariar-se, quando não topava estorvos a +desafia'-la á disputa. Uma sua intima dizia que Maria das Dôres, em dias mal +humorados, chegava a beliscar-se para se irritar contra si propria. Isto será +de mais; cumpre, porém, duvidar em cousas mais disparatadas. A mulher, em +geral, é um complexo de bons e maus prodigios. Releva que tenhamos sempre +apontada a admiração ás multiplices fórmas de espirito, em que a mulher se +transfigura, segundo os varios incidentes de seu modo de ver e julgar.</p> + +<p>Gonçalo, capacitado da milagrosa reforma de sua consorte, ia relaxando o +proposito de emenda, que fizera, no tocante a certas culpas, de que D. Maria +estava mais que muito sabedora, para nunca as esquecer.<span class="pn" +id="pg_60" >{60}</span></p> + +<p>Durante o largo espaço do divorcio, represára ella enchentes de fel, que +ameaçavam com seu natural pendor romper os diques, logo que mão extranha +desconjunctasse uma pedrinha da levada, ou uma nova gotta cogulasse e +desbordasse a represa insoffrida.</p> + +<p>O indiscreto galã occasionou o desmancho da ordem, que se tinha, para o +assim dizer, em frageis arames. Constou a D. Maria que seu marido andava +enviscado de uma cantarina italiana, mulher de perigosas manhas e infernal +seducção, que trazia na sua carteira inscriptos em catalogo os homens que á sua +chamma fatidica se tinham abrazado, pagando com o ouro e com a honra, e alguns +com o futuro bem de suas familias, a gloria de morrerem á ponta de um florete +extranho, ou á bocca da propria pistola.</p> + +<p>A denuncia fôra vestida com o maravilhoso costumado por quem relata +historias d'esta natureza. A actriz era uma vulgar mulher, carecida mesmo da +singularidade da belleza, que, a meu ver, é singularidade de pouco momento, +quando alguma tragedia lhe não dá o relevo. Tragedias na vida da cantora havia +apenas as do libreto, em que ella mesmo assim figurava na parte inoffensiva dos +comparsas, e tinha sempre a cargo lamentar a prima-dona, que morria ás mãos do +tyranno, ou o galã que lhe pedia por grande mercê um pouco de verdete para se +matar, como traído ou desamado pela ama d'ella.</p> + +<p>Pobre Persini! (chamava-se ella Persini) se Deus te julgasse pelo depoimento +dos homens, em que caldeiras de bitume iriam ferver teus ossos!<span class="pn" +id="pg_61" >{61}</span></p> + +<p>Ossos é que ella tinha muito acotovellados por aquelle corpo acima, se +havemos de acreditar os oculos de alguns coevos. Concordam, porém, todos em ter +sido Gonçalo Malafaya um apaixonado idolatra de Persini, e um dos poucos +amadores que saíram vivos dos paços encantados d'aquella Armida.</p> + +<p>Como quer que fosse, D. Maria das Dôres estourou, conflagrou-se, reaccendeu +o antigo inferno, e constituiu-se o natural dragão da sua obra. Extranhou +Gonçalo as arremettidas, que o descostume tornára novas. Desaffeito de +soffre'-las, rebateu-as com virulencia, como corrido d'aquella docilidade com +que n'outr'ora ia aparando as frechas no escudo da paciencia, e fugindo. Agora, +adargou-se com uns modos despejados de impudor; e, no que dizia, dava a pensar +que a sua vontade era soberana, e os seus caprichos inviolaveis.</p> + +<p>D. Maria, bemfadada de acrisolada virtude conjugal, dado que os annos +orçassem já pelos trinta e dois, houve pejo de redarguir com indecorosas +ameaças, e até cuspiu a tentação de as dizer á cara do demonio tentador, que +está sempre de espia em conflictos d'esta especie.</p> + +<p>Gonçalo recalcitrou no vicioso amor á artista, e D. Maria na explosão dos +ciumes, se eram ciumes, que eu não me atino bem a dar-lhe o nome. Ciosas temos +nós visto esposas desamoraveis, e teimamos em denominar <em>ciume</em> o que é, +em boa definição, <em>vaidade</em>. Vaidade seja, ou, se quizerem, ciume a +indomavel raiva de D. Maria, o saír deshonrada em busca d'elle, o aldrabar á +porta da cantora, se lá farejava o marido, o alliciar<span class="pn" +id="pg_62" >{62}</span> lacaios para a espancarem á saída do +theatro, o induzir-lhe a creada a ministrar-lhe uns pós de ratos, que, de +fracos e revelhos, já as ratazanas do palacete os digeriam sem o menor symptoma +de dyspepsia.</p> + +<p>A guerra caseira chegou a termos de se ameaçarem no calor da refrega. Até +alli nunca o marido exorbitára das leis da delicadeza prescriptas a homem que +se estima em si e em sua esposa; mas, tanto ella lhe acrisolára a impaciencia, +que o desvariado Gonçalo chegou a abrir e vibrar a mão em direitura ás faces +intactas da mulher. Maria das Dôres correu a tirar pela gaveta de um toucador +de ebano, e saíu de lá com um punhal luzente, temeroso pela afouteza com que a +mão viril o brandia.</p> + +<p>Gonçalo riu; mas, a falar a verdade, o riso era fingido. Sobejava-lhe +colera, e medo tambem. Como quem pede treguas, o cavalheiro, pasmado do arrojo, +cruzou os braços, e disse:</p> + +<p>—Mulher de faca! pasmosa cousa!</p> + +<p>—Um cavalheiro de mão erguida para sua mulher! vergonhosa +cousa!—replicou D. Maria, imitando-lhe o sorriso, com vantagem de graça +para ella, e de mofa para elle.</p> + +<p>—Está, pois, demonstrado—redarguiu o pallido Malafaya—que +estou aqui á mercê do punhal da prima Maria das Dôres!... Extranho destino o +meu! Não basta matarem-me o coração, e o futuro?... estará escripto que o meu +corpo morra ás mãos mimosas da minha esposa?<span class="pn" id="pg_63" +>{63}</span></p> + +<p>—Não!—bradou ella—não em quanto o senhor, me respeitar +como senhora, se me não quizer respeitar como esposa. Convença-se porém de que +as affrontas de mãos hão de ser repellidas como as affrontas de palavras.</p> + +<p>—Que quer de mim, prima Maria das Dôres?</p> + +<p>—Quero que me respeite para que o mundo me respeite.</p> + +<p>—A senhora é que se enxovalha, dando indecorosas scenas em publico.</p> + +<p>—Forçada pelas suas devassidões, sr. Gonçalo! Basta de vexames! Temos +cada qual seu caminho a seguir.</p> + +<p>—Que quer dizer?</p> + +<p>—Que o abomino, que o desprezo, que acceito hoje o divorcio, proposto +ha dois annos; mas um divorcio de casal, de familia, de futuro e de tudo. Maria +Henriqueta... quero-a comigo.</p> + +<p>—A lei não lh'a concede.</p> + +<p>—Ha de conceder-m'a! Eu provarei aos juizes que Maria Henriqueta não +deve ser entregue a um pae, que não sabe ser marido. Veremos quem triumpha, sr. +Gonçalo! Veremos se uma mãe sabe advogar os interesses e a moralidade de sua +filha.</p> + +<p>Cedeu Gonçalo o campo e saío pensativo, a aconselhar-se. Aquietaram-lhe o +alvoroço os letrados, assegurando-lhe que a menina não podia ser disputada ao +patrio poder com allegações extranhas á moralisação d'ella.</p> + +<p>Quando n'essa noite voltou a casa, achou Gonçalo<span class="pn" id="pg_64" +>{64}</span> signaes de grande reboliço, e deparou-se-lhe o +capellão benzendo-se, e tartamudeando a nova da saída da fidalga, com os seus +bahus para casa de seu pae. Suspeitoso de um attentado maior, tramou Gonçalo +vigilante espionagem aos passos e designios da prima. Logo, na tarde do +seguinte dia, soube que D. Maria das Dôres ia a Lisboa, com o projecto de tirar +a filha do collegio.</p> + +<p>N'essa mesma noite partiu Gonçalo para a côrte, petrechado de boas +recommendações para debellar quaesquer ardis judiciarios da consorte, +favorecida pelos valiosos amigos de Heytor Azinheiro.</p> + +<p>Então se viu quanto sobreleva amor de pae a todas as affeições mesquinhas, +que muitas vezes armam ciladas e quedas mortaes, d'onde não ha ahi erguer-se um +homem para a honra.</p> + +<p>Esqueceu-lhe, n'um momento, a Persini, que o esperava com a ceia, lardeada +de convivas de sua estofa, e cavalheiros da tempera de Gonçalo. Nem chispa de +saudade lhe vislumbrou na longa e fadigosa jornada. Anceava-se em Lisboa, e +ante si não via senão a angelical figura de Maria Henriqueta extendendo-lhe os +braços, como a pedir-lhe resgate do captiveiro que a mãe lhe queria infligir. +Mal apeou do tressuado cavallo, que devorára leguas ao sabor do amo, foi +Gonçalo cuidar de requerer intimação judicial á directora do collegio para não +entregar a menina a sua mãe, sob qualquer pretexto, e com qualquer +auctorisação. Conseguido isto, em que cifrava tudo, o carinhoso pae +desfadigou-se em aturadas conversações com Maria Henriqueta, a qual viçava<span +class="pn" id="pg_65" >{65}</span> em formosura á competencia com +os dons do espirito.</p> + +<p>N'um d'aquelles dias, Gonçalo Malafaya, passando diante do palacio do conde +de Miranda, recordou as noites venturosas que alli passára, e recolheu-se +triste. Tristezas de coração, aos quarenta annos, se procedem de saudades da +bemaventurança dos vinte, são golpes que rasgam fundo, e curam em falso, por +não fecharem, digamo'-lo assim, cauterisados pelo ardor das lagrimas.</p> + +<p>Ao outro dia, Gonçalo acordava com a imagem de Beatriz dos Anjos a +esvaecer-se nos vapores de um sonho. Moribunda a tinha elle visto, e vozes de +perdão lhe colhera dos labios balbuciantes em crispações da agonia; mas agonia +de santa fôra a sua.</p> + +<p>Deu-se pressa no caminho de Odivellas, e parou indeciso no pateo do +convento, remirando as janellas onde entreviu rostos mimosos de buliçosas +noviças, enquadrados na touca do habito. A madre porteira chamou o estarrecido +cavalheiro, e perguntou-lhe se procurava alguem.</p> + +<p>—Alguem desejava ver, minha senhora.</p> + +<p>—Quem?</p> + +<p>—Uma religiosa... Beatriz dos Anjos.</p> + +<p>—Com os anjos está—disse a porteira.</p> + +<p>—Morta?!—exclamou Gonçalo.</p> + +<p>—Viva, eternamente viva para Deus... Era sua parenta, senhor?</p> + +<p>Gonçalo apoiára-se no rebordo da parede, contiguo á roda, e, encostando a +testa á pedra, chorou.<span class="pn" id="pg_66" >{66}</span></p> + +<p>A freira compadecida aventurou-se a espreitar por uma fresta da meia-porta, +e disse-lhe:</p> + +<p>—Se quer descançar, eu peço ao sr. capellão que lhe dê um quarto na +residencia.</p> + +<p>—Agradecido, minha senhora. Eu vou-me já embora. Queira dizer-me: +Beatriz morreu ha muitos mezes?</p> + +<p>—Ha dezoito.</p> + +<p>—Eu vi-a ha dois annos, e pareceu-me saudavel.</p> + +<p>—Seria o senhor um cavalheiro que aqui veio ha dois annos?</p> + +<p>—Fui, minha senhora.</p> + +<p>—É do Porto?</p> + +<p>—Sou do Porto.</p> + +<p>—Pois vá com a Virgem; e peça a Deus que lhe perdôe o mal que veiu +fazer á nossa desgraçada menina. Com sua licença.</p> + +<p>A madre fechou hermeticamente as portadas, e Gonçalo, a passo incerto e +vagaroso, saíu da alameda.</p> + +<p>A dor era sincera, porque necessitava confessar-se, e carpir-se.</p> + +<p>Lembrou-se da filha. Ai d'aquelles que soffrem e dizem: «Não ha quem me veja +as lagrimas!»</p> + +<p>Esporeou o cavallo, e descavalgou no collegio. Ia subindo as escadas, e +ouviu grande alarido de vozes. Parou no primeiro patamar, encostado ao mainel. +A mais aspera e aguda d'aquellas vozes era a de D. Maria das Dôres.</p> + +<p>—Em que momento, meu Deus!—exclamou Gonçalo,<span class="pn" +id="pg_67" >{67}</span> com tamanha dor, como se o peito se abrisse +para romper fóra o brado.</p> + +<p>Em que momento! digamos nós. Ei'-lo a buscar um coração que lhe entenda as +lagrimas vertidas por outro coração que a dor matára. E a mão terrivel da +mysteriosa Providencia, conduz-lhe aos olhos, tumidos de lagrimas, a mulher +que, n'aquelle instante, mais odiosa devia ser-lhe!<span class="pn" id="pg_68" +>{68}</span></p> + +<p><span class="pn" id="pg_69" >{69}</span> </p> + +<h3><a name="SECTION00306">VI</a></h3> + +<p>Se bem que desalentado para a lucta, Gonçalo Malafaya subiu ao terceiro +andar do predio, em que altercavam as vozes. Assomando á porta de uma sala, +onde estavam muitas meninas e algumas senhoras, fez-se um subito silencio. Do +grupo das senhoras apartou-se Maria Henriqueta, em transporte de jubilo, aos +braços do pae. Maria das Dôres tremia de ira como de frio, e mudou de côres até +permanecer n'um amarello de greda, que era a sua usual expressão de extremo +phrenesi.</p> + +<p>—Que vem a ser isto?—disse Gonçalo serenamente.</p> + +<p>A directora respondeu:</p> + +<p>—Vem a ser que a sr.ª D. Maria das Dôres quer levar a menina, e a +menina recusa ir. Eu disse á senhora que v. ex.ª estava em Lisboa e me não +prevenira da saída da sr.ª D. Maria Henriqueta, razão porque me opporia, ainda +mesmo que a menina quizesse saír. A senhora irritou-se contra mim, dizendo-me +insultos, que eu nunca ouvi, nem cuidei que fidalgas os soubessem dizer. Estava +agora s. ex.ª dizendo que ia buscar uma<span class="pn" id="pg_70" +>{70}</span> ordem regia, para levar a menina; e eu respondi-lhe +que sem aqui vir o pae, não dava por ordens regias, nem queria saber de mais +nada. Felizmente que v. ex.ª veio a tempo: agora resolvam o que quizerem.</p> + +<p>—Tenho resolvido—disse Gonçalo.—Minha filha continúa a +estar aqui. A prima Maria das Dôres é uma creatura sem alma, nem sombra de +juizo. Envergonhe-me e envergonhe-se á sua vontade; mas saiba que Maria +Henriqueta ha de ficar no collegio, apesar das suas imaginarias ordens +regias.</p> + +<p>—Visto isto, eu nada valho?—disse Maria das Dôres em tom +commovente.—Cuidei que perdendo o marido, podia ao menos ser mãe; mas, a +final, perdi mocidade, ventura, dignidade, marido, filha e tudo, não é verdade? +Muito bem. Ir-me-hei embora. Adeus, Maria Henriqueta, sê feliz. Primo Gonçalo, +folgue de me ter esmagado o coração até me lá não deixar nem sequer a imagem de +minha filha. É forçoso que eu viva em odio de todo o mundo, e que todo o mundo +me seja odioso. Faça-se a vontade de Deus. Eu verei se posso odiar-te, Maria +Henriqueta: ha de custar-me muitas lagrimas; mas n'este mundo miseravel tudo +que é mau e infame se consegue com a força de vontade. Adeus, minha filha. +Deixa-me olhar bem para ti; que é esta a ultima vez que te vejo. Tu amarás a +minha memoria, quando souberes que tua mãe podia ser boa, se alguem houvesse +misericordia das dores que lhe causa.</p> + +<p>Maria Henriqueta foi espontaneamente ao pé de sua mãe, e beijou-lhe a mão, +commovida. Apertou-a ao ceio<span class="pn" id="pg_71" +>{71}</span> com insolito estremecimento a mãe, e teve-a assim, até +que as lagrimas saíram aos olhos de ambas. Quebraram-se os animos das senhoras +hostis a Maria das Dôres. Movia o trance d'aquelle adeus. Era mãe e filha; e o +só titulo de mãe quer-se respeitado, que é santo, salvo se o cunho sacratissimo +d'elle foi delido com execrandas torpezas, que só de pensa'-las se doe e peja o +coração. Que ha ahi lances nas familias que seriam vilipendio do Creador, se a +creatura, despojada de religião, descaída de dignidade, atolada em abominações, +que desconhecem feras, não fosse a ultima, a espantosa hediondez da materia, +desaçamada em sua estupida fereza! Oh! quão triste é então o dizer-se «aquella +mulher é mãe! Aquella innocente menina foi levada ao eterno desdouro, e eterno +perdimento por aquell'outra mulher, que se diz sua mãe!» Ó leôa da Hyrcania, +que emancipas tua filha, quando lhe sondaste a força das garras, e da tua prêa +já lhe fortaleceste as unhas frageis, quão mais benigna tu és!...</p> + +<p>Maria Henriqueta, do seio materno, voltou o rosto ao semblante commovido do +pae. Que dizia ella no mavioso rogar de seus olhos? Pedia-lhe compadecimento +para sua mãe. Dizia mais que o discurso do defunto deão. Tirava por elle com +impulso celestial; como se Deus o estivesse mandando á beira da mãe a esposa +consternada, com mansas palavras, com perdões e amor.</p> + +<p>Gonçalo obedeceu ao impulso e acercou-se de sua mulher, a passo lento, mas +resoluto. Compreendeu-o<span class="pn" id="pg_72" >{72}</span> +Maria Henriqueta, e chegou das d'elle a mão submissa de sua mãe. Foi silenciosa +a scena, menos de suspiros e soluços, que durez de alma seria se os +circumstantes não se enternecessem.</p> + +<p>—Prima Maria das Dôres—disse Gonçalo—seja este anjo que +nos reconcilie. Queres tu a minha amizade? Queres a filha e o pae? Podes tu +amar-me por amor d'ella, e dar-nos a ambos a felicidade que só de nós pódes +gosar?</p> + +<p>Maria apertou a mão do esposo, e estreitou-se mais com o seio da filha.</p> + +<p>Radiou por todas as meninas e mestras um fulgor subitaneo de alegria. Aos +olhos de todas já Maria era esposa e mãe respeitavel. A reconciliação +rehabilitou-a, e o marido como que se prezou mais na dignidade de sua mulher. +</p> + +<p>Saíu Gonçalo Malafaya a procurar hospedagem condigna para mulher, filha, e +estado de servos e carruagens. De commum accordo com a esposa, resolveu residir +na corte. Estimou ella o alvitre; para desviar o marido da Persini, que, +áquella hora, se estaria lembrando de Gonçalo como de um amante, cujos traços +physionomicos, a custo, distinguia das feições dos successores. Chamava-lhe +tragica a opinião publica; e a pobre Persini não era senão a comedia humana +real e pessoalissima.</p> + +<p>Pelo que respeita a Maria das Dôres, o seu esquivo anjo de condição benigna +voltára a visita'-la, em quanto o demonio da travessura se ia em passeio ás +suas inflammadas<span class="pn" id="pg_73" >{73}</span> cavernas a +pedir conselho ao chefe das legiões, infernaes, que enxameavam d'antes nas +varas dos cevados da Judéa, e que nos nossos tempos fazem seu atascadeiro no +seio das familias.</p> + +<p>Correram dois annos de serena paz, arrevezada por dissabores de pouca monta. +Maria entrou na roda das fidalgas de Lisboa, e modelou-se, quanto seu natural +lhe permittiu, aos geitos agradaveis das senhoras estremadas em educação. Muito +lhe valeu isto para passatempo, e diversão de cuidados. O grande mal da sua +condição estava no scismar sósinha, e devanear por desconfianças e zelos, quasi +nunca injustos, diga-se a verdade secca e breve.</p> + +<p>Gonçalo, tambem por este lado, fatal quebra de seus bons costumes, estava +melhorado pela edade, e talvez por influxo do golpe que recebeu em Odivellas. +Sangrára pelas lagrimas o orgão que lhe era um aleijão sensivel, e a causa +efficiente dos seus maiores desgostos domesticos. Quero pensar que Malafaya +teria sido menos trabalhado de angustias, se fosse mais fiel marido, e menos +insoffrido nos acommettimentos da ciosa esposa.</p> + +<p>Ao fim de dois annos, imprevista borrasca lhe ia sossobrando a fragil taboa +da sua felicidade. É um caso que podia sobejar a um romance especial, que eu +vou dar pela summa.</p> + +<p>Beatriz de Noronha, acceitando o namoramento de Malafaya, regeitou os +galanteios de um fidalgo, que presumia ter-lhe merecido preferencias. O fidalgo +ferido da imaginada perfidia, quiz provocar a desafio o portuense;<span +class="pn" id="pg_74" >{74}</span> lembrou-se, porém, d'este +galhardo despique, a tempo que Malafaya vinha em jornada para o Porto.</p> + +<p>Desembaraçado do rival, o cavalheiro que tinha appellido Athayde, cuidou em +merecer de novo o affecto de Beatriz, contentando-se já com um coração +alanceado pelo despeito, embora contaminado pela saudade.</p> + +<p>Beatriz esquivou-se mais que nunca. Impunha-lh'o a paixão, a saude, e por +ventura a esperança. A pertinacia de Athayde era digna de premio; mas, em +geral, as mulheres, quando não ganham asco a quem as solicita importunamente, +são umas voluntarias doudas que se gosam no aviltamento dos logrados, e se +lastimam do assedio que soffrem.</p> + +<p>A filha do conde de Miranda nem se queixava da teima de Athayde, nem o +repellia da sua estima. Antes quiz a santa simplicidade!—attrahi'-lo a +confidenciosas relações. Contou-lhe o quilate de seu amor, e o plano de +professar, se Gonçalo não voltasse.</p> + +<p>E Gonçalo não voltou, nem o tempo desfez o que a paixão allucinada n'uma +hora designára.</p> + +<p>Decorridos dois annos, e publicada a nova do casamento de Malafaya, Beatriz +entrou em Odivellas; e, treze annos depois, como sabem, morreu.</p> + +<p>Athayde, perdidas as esperanças, exulara no extrangeiro, onde, muitas vezes +resolveu vestir o habito, e morrer ignorado. Passados vinte annos, e quasi +extinctos os fogos sob o gêlo dos quarenta e dois annos, voltou á patria o +fidalgo, e concentrou-se no seu quarto, golpeando<span class="pn" id="pg_75" +>{75}</span> sempre a chaga de saudade como quem não queria morrer +de outra.</p> + +<p>Acaso soubera elle que residia em Lisboa Gonçalo Malafaya, ao qual as +freiras de Odivellas arguiam de causa principal da breve morte de Beatriz dos +Anjos. Quer fosse effeito de um desvario, procedente da concentração, quer de +velho odio, Athayde phantasiou que Beatriz o encarregava de vinga'-la. N'este +presupposto, saíu á luz do dia o encanecido homem, que raros amigos tinham +visto. Indagou da residencia do fidalgo provinciano, e subiu afoutamente as +escadas em busca do inimigo para immola'-lo aos manes de Beatriz. Arrojo digno +da edade média! Relance de melodrama, que seria muito de vêr no palco! Em 1799 +era ja um desconcerto de juizo a tragica façanha!</p> + +<p>Gonçalo recebeu o incognito. Conhecera um gentil cavalheiro, chamado D. +Francisco de Athayde; mas aquelle que se dera tal nome era um velho de barbas +brancas, posto que nos meneios denunciava virilidade robusta.</p> + +<p>—Francisco de Athayde, justamente—replicou o vingador ás +delicadas duvidas do portuense.—Sou o Francisco de Athayde que tinha em +1778 vinte e tres annos. </p> + +<p>—Muito folgo de encontrar um amigo da mocidade—redarguiu +Gonçalo.</p> + +<p>—Amigo, não. Esse titulo affronta-me. Inimigo implacavel, hade +dizer.</p> + +<p>—Duvidarei te'-lo em tão extranha conta, emquanto<span class="pn" +id="pg_76" >{76}</span> v. ex.ª me não disser que fiz eu para +merecer-lhe tamanho odio.</p> + +<p>—Matou Beatriz dos Anjos.</p> + +<p>Gonçalo empallideceu, e como á luz de um sinistro relampago, viu aquelle +homem enxugando as lagrimas, ao lado de Beatriz de Noronha, debaixo de uma +arvore de Cintra.</p> + +<p>—O seu silencio quer dizer que se preza e gloria de ter assassinado a +mais formosa e digna creatura da nossa mocidade, sr. Malafaya?</p> + +<p>Gonçalo balbuciou:</p> + +<p>—Eu era indigno d'aquelle anjo. Deus a desviou de mim, porque a +escolhera para sua esposa, e a chamou ao céo, quando já bastava como conforto a +desgraçadas, o exemplo que ella dera.</p> + +<p>—Palavras, senhor! Não vim a ouvir palavras. Que tem v. ex.ª padecido +por expiação d'aquella morte?</p> + +<p>—Muito, sr. D. Francisco de Athayde.</p> + +<p>—Não o parece. Vejo-o vigoroso, o seu olhar ainda tem a luz da +mocidade, o timbre da sua voz é sonoro como nos tempos em que jurava paixões +que cavavam sepulturas. Tudo me diz que v. ex.ª vive para si, para sua esposa, +para sua filha, para as glorias do tempo e para uma velhice agradavel e +tranquilla.</p> + +<p>—Erra v. ex.ª o seu juizo. Tenho sido muito desgraçado, sou, e +se'-lo-hei sempre. A minha expiação é a vida. Mas quer-me parecer extranha a +intenção com que v. ex.ª me procura. Posso, em breves termos, saber a sua +missão?<span class="pn" id="pg_77" >{77}</span></p> + +<p>—Simples. Beatriz de Noronha não tem um irmão que lhe vingue a morte. +Resta-lhe no mundo um amigo, com pouca vida, mas com uma vaga recordação das +suas armas, e um braço, que póde com ellas.</p> + +<p>—Vem portanto, v. ex.ª desafiar-me?</p> + +<p>—Sim, senhor.</p> + +<p>—É uma pendencia melindrosa. Peço a v. ex.ª que medite tres dias.</p> + +<p>—Medito-a ha vinte e dois annos.</p> + +<p>—E crê que o derramamento do nosso sangue será agradavel á doce alma +de Beatriz dos Anjos?</p> + +<p>—É.</p> + +<p>—V. ex.ª está influenciado por uma visão. Beatriz dos Anjos +perdoou-me.</p> + +<p>—Eu não perdôo. A mim me vingo, se ella não quer vingar-se.</p> + +<p>—Isso é outro ponto. Muda de rosto a questão. V. ex.ª vem desafiar o +seu antigo rival. Esqueçamos, pois, o nome da senhora morta. O nosso duello +serve para mostrar que o ferido ou o morto era o mais digno ou indigno +d'ella?</p> + +<p>—Mostrará o que fôr de sua vontade.</p> + +<p>—Pois bem: queira nomear-me os cavalheiros de seu lado, para eu lhe +enviar os meus juizes e testemunhas.</p> + +<p>—Formalidades vans! Testemunhas, a honra. Juizes, a espada, o faim, a +arma de sua escolha.</p> + +<p>—Rejeito as condições e a escolha da arma. Duvido da regularidade do +seu juizo.</p> + +<p>—Ultraja-me?—bradou o Athayde em tremuras.<span class="pn" +id="pg_78" >{78}</span></p> + +<p>—Não quero ultraja'-lo, senhor. Propõe-me v. ex.ª um homicidio a +occultas de quem possa dar conta ao mundo da nossa carniceira inimisade. +Preciso de duas pessoas que me assegurem o bom juizo de v. ex.ª, na causa do +desafio, e nas condições propostas.</p> + +<p>—Em summa, não quer bater-se.</p> + +<p>—Entenda-o assim, se lhe apraz.</p> + +<p>—E sabe que desforra me fica?</p> + +<p>—A do insulto publico.</p> + +<p>—Estamos entendidos. Ver-nos-emos.</p> + +<p>—Quando v. ex.ª queira.</p> + +<p>Saíu D. Francisco de Athayde, e afadigou-se pouco em busca de Gonçalo +Malafaya. Encontraram-se, e tiraram dos fains em presença de um numeroso +publico, que saía da egreja dos Martyres. A pontada de Athayde vinha certeira +ao coração de Malafaya, e resvalou ao longo da lamina do seu florete. Repetidos +tiros de enfurecido ataque a sua mesma desordem os inutilisou. Athayde foi +segurado por pessoas que o julgaram furioso no ataque. Gonçalo Malafaya, +conhecido de alguns transeuntes, foi rodeado de povo, que se acotovellava para +escutar as razões da extranha briga de dois fidalgos, como em seu exterior se +mostravam. O portuense, ás reiteradas perguntas de conhecidos e desconhecidos, +respondia com inuteis esforços para desentalar-se da multidão. Prosperou-lhe a +ventura passar o corregedor do bairro do Rocio, seu amigo, de quem tomou o +braço, e por amor de quem o povoléo lhe deu passagem.</p> + +<p>Este successo turvou profundamente a paz que o pae<span class="pn" +id="pg_79" >{79}</span> de Maria Henriqueta se estava saboreando +entre a indulgente emenda da esposa e as caricias da filha.</p> + +<p>Fôra grande na capital a soada do acontecimento, e explicada pelos coevos +dos amores que levaram Beatriz á campa, e D. Francisco de Athayde á enfermaria +dos loucos.</p> + +<p>Este final e logico desastre do amador infeliz succedeu poucos dias depois. +Athayde saíu da sua modorra em accessos de furia pedindo uma victima para a +sepultura de Beatriz de Noronha.</p> + +<p>Racionalmente, sua familia inferiu dos precedentes a demencia do lastimavel +cavalheiro. Quizeram medica'-lo em casa; mas a sciencia rehabilitadora das +razões degeneradas estava no hospital de S. José, onde foi recolhido D. +Francisco, d'onde saíu seis mezes adiante, para o jazigo de seus maiores.</p> + +<p>Se aquella apaixonada e perdida alma se recobrou pela morte, quererá Deus +que ella contemple no paraizo a bemaventurada Beatriz? Sublimes arcanos que os +sublimes poetas, em seus malogrados arrobos, ousam descortinar! Permittisse o +grande do céo e da terra que alguma vez a poesia d'este baixo lodo se elevasse +á verdade eterna pelo raio da inspiração de cima!<span class="pn" id="pg_80" +>{80}</span></p> + +<p><span class="pn" id="pg_81" >{81}</span></p> + +<h3><a name="SECTION00307">VII</a></h3> + +<p>Alquebrado de espirito, e suspeitoso da malquerença da sociedade,—a +quem apiedaram as desventuras de Athayde, e erritára o proceder do amante +ditoso de D. Beatriz—saíu de Lisboa Gonçalo Malafaya e sua mulher, com +destino ao Porto. </p> + +<p>Ficou no collegio Maria Henriqueta, estudando a lingua franceza, rara prenda +na educação das senhoras d'aquelle tempo. Prometteu o mestre dá'-la prompta no +prazo de um anno; fiado na forte vontade e talento da discipula. Maria das +Dôres combateu a cedencia do marido, allegando a inutilidade de falar francez +n'uma terra onde ninguem sabia semelhante lingua. Gonçalo, porém, que se +prezava de a saber, contradictou a esposa com victoriosas razões.</p> + +<p>São pouco dignas de chronica as tempestades conjugaes decorridas no anno +seguinte. O fidalgo tinha envelhecido nos ultimos seis mezes da capital. +Velleidades de coração, antigo pomo de discordia, essas não voltaram mais. Da +triste sombra do amargurado homem, até<span class="pn" id="pg_82" +>{82}</span> os convidativos prazeres do vicio iam fugindo. Os +abysmos só se cavam aos pés de quem os anda palpando. Amores de alta sociedade, +amores de capricho, apavoram-se das cans, e querem pugnar com robustos +corações, e atrevidos emprehendedores, capazes de abrilhantarem o escandalo. +Ora, Gonçalo era a viva expiação do passado, a sombra baça do palaciano, que +vencia os rivaes com o só desprezo das praças em conquista. Viam aquelle homem +extenuado passar abstraído hombro a hombro das suas glorias de outro tempo, e +não as conhecer. O pasmo d'estas metamorphoses dura um dia; segue-o a +indifferença, e bem póde ser que a derradeira phase seja a irrisão. Esqueceu, +pois, Gonçalo Malafaya, o querido das damas, o mestre dos mancebos, o +«perfeito-fidalgo», epitheto antonomastico, e geralmente aceite, que lhe deram +as fidalgas edosas, que tinham visto a côrte de D. João V.</p> + +<p>Fechára-se, portanto, um respiradouro da contenciosa indole da sr.ª D. Maria +das Dôres. Os outros eram menos turbulentos, ou a tolerante apathia do marido +os supprimira temporariamente.</p> + +<p>Começou Gonçalo a frequentar conventos, e a palestrear com frades. O +guardião dos franciscanos era um sabio: os oratorianos eram-n'o todos; a +erudição do padre Theodoro de Almeida ficára largo tempo disseminada nos +espiritos dos congregados. Por estas casas, e pela benedictina das freiras e +dos monges, é que o transfigurado fidalgo matava o tempo, e armazenava +pharmacopêa religiosa para, no inverno da vida, se medicar em<span class="pn" +id="pg_83" >{83}</span> enfermidades geradas nos desvarios da +primavera. Com freiras era menos assiduo, mas muito estimado e desejado. +Denominavam-n'o as mysticas benedictinas «o fidalgo do milagre». Vinha a ser o +milagre a mudança que faz o tempo e a desgraça no homem, que em si mesmo +abrange mais milagres que todos os sabidos e contados nos credulos mosteiros +d'aquella época.</p> + +<p>N'aquelle redil do Senhor tinha o patriarcha S. Bento mui formosas filhas ao +começo d'este seculo. Vinham ellas algumas vezes á grade cumprimentar o fidalgo +do milagre, e ouvi'-lo discorrer em cousas do céo e da terra, ditas com tanta +unção e graça que nenhuma noviça ou freira nova as ouviu, que se não sentisse +mais conformada com a religião. E, tanto era assim, que já soltava a intriga +suas rasteiras serpes por entre as florinhas d'aquelles innocentes affectos. Se +o fidalgo chamava umas religiosas e esquecia outras, glosava-se o successo com +extranhos inventos, mas perdoaveis todos como desvios de espiritos frivolos +dentro dos limites da candura monastica.</p> + +<p>Recebia Gonçalo amiudados presentes de S. Bento, gulosinas fabricadas ou +enfeitadas por mãos de anjos.</p> + +<p>D. Maria das Dôres, quando esta novidade freiratica lhe entrou por casa em +bandejas de prata, não fez d'ella grande cabedal para altercar; mas, com a +repetição dos mimos, e a certeza de que seu marido, em vez de entrar no +convento dos congregados, torcia para o pateo das freiras bentas, bafejou-lhe o +seu demonio meridiano, e ahi começou ella a averiguar quem fosse a freira +perturbadora<span class="pn" id="pg_84" >{84}</span> da sua paz. +Deram em resultado as averiguações que eram todas, excepto as entrevadas, as +religiosas bemquistas de seu marido, desde a garrula noviça até á gottosa +abbadessa.</p> + +<p>Soou a temerosa trombeta da discordia, assoprada innocentemente pela +communidade benedictina.</p> + +<p>—Que andas tu a fazer por S. Bento, Gonçalo?! Deste agora em +freiratico?—perguntou entre grave e ironica a sr.ª D. Maria das Dôres.</p> + +<p>—Vou por alli espairecer algumas horas. Como sabes tenho alli parentas +e velhas amigas. Na mocidade não as visitava, senão de longe a longe; agora que +somos velhos todos, bom é que nos vamos despedindo na ante-camara da sepultura. +</p> + +<p>—E só procuras as velhas, primo?</p> + +<p>—Não, prima Maria das Dôres. Ha por lá umas senhoras novas filhas de +amigos velhos, que me fazem a honra de me visitar na grade.</p> + +<p>—Coitadinhas! e são umas santas: não é verdade?</p> + +<p>—Deus sabe se ellas são santas: eu sei apenas que são excellentes +creaturas.</p> + +<p>—Tu gostaste sempre muito das excellentes creaturas!...</p> + +<p>E n'este ponto, a sr.ª D. Maria das Dôres fez uma longa resenha de senhoras +que seu marido achára excellentes creaturas; depois, fechado o catalogo não +breve nem de todo imaginativo, espirrou uma risada aspera, que feriu +desagradavelmente o tympano do marido.<span class="pn" id="pg_85" +>{85}</span></p> + +<p>Ergueu-se Gonçalo e saíu murmurando:—<em>Amplius, amplius, +domine!</em> que em linguagem quer dizer: <em>Ainda mais, ainda mais, +Senhor!</em> como quem dizia que viesse do céo mais fel para o seu calix, +pequeno para tamanhas culpas.</p> + +<p>N'aquella tarde foi o fidalgo conversar com o guardião dos franciscanos, +politico de vasto alcance, e propheta da proxima invasão franceza. Tinha o +santo varão a gazeta de Lisboa que, em suas apreciações, era a epigraphe de +sumarentos discursos ácerca da liberdade, da politica europêa e de Napoleão. +Escutava-o Gonçalo aprazivelmente e maravilhava-se de tanta sciencia sob tão +humilde habito.</p> + +<p>Recolhendo a casa, alheado em combinações de politica fradesca, encontrou +sua mulher amuada e colorida de certa amarellidão, presagio infallivel de +tormenta. Uma palavra azada bastou para se conflagrar em relampagos e coriscos +de colera, espectaculo em que a paciencia do pobre homem se empedrou de susto. +Fugiu para o seu quarto, e de lá fitava o ouvido á trovoada que reboava fóra. +</p> + +<p>Deixou de ir a S. Bento o «fidalgo do milagre». As senhoras escreviam-lhe a +miudo, ou mandavam os capellães cumprimenta'-lo. Em uma das cartas de saudação +assignavam-se cinco freiras exemplarissimas. Foi Maria das Dôres, quem, ausente +o marido, abriu, por acinte, a carta. Leu-a, e escreveu debaixo das +assignaturas:</p> + +<p>«Não sejam tolas. Vão rezar. Tenham juizo. E, se<span class="pn" id="pg_86" +>{86}</span> não teem que fazer, façam camisas para os pobres, que +é isso o que faziam as antigas congregações de monjas benedictinas.»</p> + +<p>E devolveu a carta.</p> + +<p>As santas senhoras, quando tal viram, choraram muitas lagrimas; mas não me +consta que fizessem camisas aos pobres, cousa que me parece desnecessaria á +salvação.</p> + +<p>Alguma das cinco signatarias, menos paciente, ou amiga de deslindar meadas +em que andava embelinhada a sua fama, escreveu a Gonçalo contando o succedido. +Foi-lhe a carta entregue na rua por uma servente do mosteiro.</p> + +<p>Ficou tranzido o fidalgo; mas, reparando com mais tento na escripta de sua +prima, mal pôde suster o riso provocado pelo conselho de fazerem camisas para +os pobres. É muito bom ter graça ás vezes. Gonçalo perdoou a imprudencia á +mulher pelo pico de sal que achou. E, continuando a meditar no successo, +quiz-lhe parecer que andára menos evangelicamente a freira denunciante da +indiscrição de sua mulher.</p> + +<p>Certa a esposa de que seu primo deixára de frequentar grades, e vendo que +lhe faltava pedra onde mordessem os arpéos da sua indole, deixou-se ir em mar +de leite, afagando, a seu modo, as tristezas do marido e ralhando com os servos +para entreter o vicio, e com o capellão que continuava a benzer-se.</p> + +<p>Passou o anno aprazado para a vinda de Maria Henriqueta. Alvoroçou-se o pae +em preparativos de jornada,<span class="pn" id="pg_87" >{87}</span> +e D. Maria quiz acompanhá-lo, e foi, vencida curta resistencia.</p> + +<p>Já a menina traduzia correntemente o idioma francez, e o pronunciava mais +correcto que o pae. Pediu ella com muito encarecimento que a deixasse ficar +mais um anno para estudar o inglez. Foi este o primeiro caso em que as opiniões +dos paes se harmonisaram, negando a licença. Chorou a menina como quem fazia +consistir a sua felicidade na lingua ingleza; Gonçalo, porém, tão caprichosas +achou as lagrimas, que nem sequer curou de enxuga'-las com caricias.</p> + +<p>Maria das Dôres, de si pouco fagueira, consolou-lh'as com estas e outras +asperezas:</p> + +<p>—Não se envergonha de chorar uma senhora de dezenove annos! Estás bem +aviada comigo, se tens assim as lagrimas á bica para qualquer contrariedade! +Ahi está o que vem a ser educação de collegio! Muito mimo, um pouco de cravo, a +lingua franceza, bordar a matiz, e chorar por dá cá aquella palha! Bonita +educação, não tem duvida!</p> + +<p>—Está bom!—disse Gonçalo com mansidão.—Excedes-te nas +grandes e nas pequenas cousas. Não queremos que Maria Henriqueta estude inglez: +está dito tudo.</p> + +<p>—Então achas bonita aquella choradeira!</p> + +<p>—É uma creancice que não merece discussão. D'aqui a dias já ella se +não lembra de inglez, nem mesmo sabe para que aprendeu o francez. Em summa, +Maria Henriqueta, precisamos de ti, e tu hoje precisas mais de nós<span +class="pn" id="pg_88" >{88}</span> que de mestres. Se tua mãe +quizer iremos no anno que vem, se as guerras tiverem acabado, visitar as +capitaes de França e de Hespanha. Estudaste nos livros; agora é bom que estudes +nas magnificencias da arte e do engenho humano. Gostas do meu plano?</p> + +<p>—Gosto do que quizerem que eu goste—respondeu carrancuda Maria +Henriqueta. </p> + +<p>O pae encarou n'ella com tristeza, e disse no mais recondito de sua alma: +«Vê-se que foi creada sem mãe, mãe pelo carinho, e pelo castigo. Emquanto a +teve, observou os conflictos das desordens de todas as horas, e ganhou o +contagio das asperezas de genio. Depois, seguiu-se o apartamento dos naturaes +afagos e das censuras mesmo doces quando castigam. Tem gosado sempre louvores +mercenarios, e extranha que a contrariem seus paes...»</p> + +<p>Em quanto Gonçalo cogitava n'estas e n'outras razões, Maria das Dôres +discorria pelo theor das suas iracundas apostrophes. A filha fugiu de +encara'-la, e torcia os alamares do roupão, com simulada impaciencia. +Interveio, segunda vez, o pae nas desmedidas invectivas da mulher, e ficou +Maria Henriqueta como vexada de se baldarem suas lagrimas, e como aterrada do +seu futuro.</p> + +<p>Do seu futuro! Mal sabia ella que infinito de lances se encerra na palavra +<em>futuro</em>!</p> + +<p>Gonçalo Malafaya, a sós, com as suas previsões sinistras, dizia assim no +esconderijo do seu quarto e de sua consciencia:<span class="pn" id="pg_89" +>{89}</span></p> + +<p>—A minha desgraça está em meio caminho. Envelheci a soffrer quando +minha filha começa a viver para me prolongar o martyrio até á decrepidez! Alli +está uma filha de Maria das Dôres! Deixei-a sósinha com a natureza, não pude +corrigir-lhe as propensões: hei-de agora luctar com o genio de ambas, azedado +pela discordia em que vão viver. Como hei-de ser justo, se forem ambas +injustas? O que fará a raiva e o desespero no coração insoffrido de minha +filha? Porque é, meu Deus, que eu fiava o bem-estar da minha velhice dos +carinhos de Maria Henriqueta?</p> + +<p>Proseguiam as meditações de Gonçalo, quando sua mulher lhe entrou de golpe +no quarto, e disse com sobresalto:</p> + +<p>—Não sabes, primo Gonçalo?</p> + +<p>—O quê?</p> + +<p>—Estou espantada!</p> + +<p>—Que é? Fala...</p> + +<p>—Cheguei casualmente a uma janella, e vi... Santo Deus!</p> + +<p>—Que viste?!—exclamou Gonçalo, erguendo-se.</p> + +<p>—Vi Maria Henriqueta na janella do seu quarto...</p> + +<p>—Isso que tem de extraordinario?!</p> + +<p>—Tem muito! Não me interrompas! Vi-a lançar á rua uma carta, e vi um +militar apanha'-la.</p> + +<p>Gonçalo sentou-se como desfallecido. Levou as mãos á fronte, que previa suor +de afflicção. Ouviu longo tempo os commentarios de sua mulher, e com grande +esforço, disse:<span class="pn" id="pg_90" >{90}</span></p> + +<p>—Peço-te encarecidamente que te cales, Maria! Nem uma palavra a +tal respeito. Faz de conta que não viste nada. Sê prudente, se me desejas vida +a mim, e honestidade a tua filha...</p> + +<p>Maria das Dôres murmurou apenas:</p> + +<p>—Entendam lá o que diz elle na sua!... Boa maneira de velar a +honestidade de uma filha!...</p> + +<h3><a name="SECTION0030710">FIM DA PRIMEIRA PARTE</a></h3> + +<p><span class="pn" id="pg_91" >{91}</span></p> + +<h2><a name="SECTION00400">SEGUNDA PARTE</a></h2> + +<h3><a name="SECTION00401">I</a></h3> + +<p>Não fôra o anhelo de saber linguas que ensinára a Maria Henriqueta a +fagueira eloquencia com que venceu o pae, e conseguiu estudar francez. Deus +sabe com que repugnancia ella decorava as declinações e os verbos, e com que +enfados velava as noites para dar lições diarias, com applauso do mestre. +Cuidava a educanda que, fazendo prodigios no conhecimento do francez +conseguiria do pae licença para deter-se mais um anno em Lisboa, com o ensino +de outro idioma.</p> + +<p>Vamos á explicação natural d'estas maravilhas de estudo e sede de saber.</p> + +<p>Desde os seus quinze annos que Maria se inclinára aos sorrisos de um cadete +de cavallaria, galhardo mancebo de cabellos louros, cintura fabulosa, e +maneiras de summa elegancia.<span class="pn" id="pg_92" +>{92}</span></p> + +<p>Era o cadete da provincia de Traz-os-Montes, filho segundo de uma nobre casa +de Mirandella, aparentado com illustes familias de Entre-Douro e Minho e +chamava-se elle Filippe Osorio Guedes da Fonseca. Abundavam ao moço as sobras +de sua mezada, e converteu-as todas ao seu noviciado de amor. Primeiro alliciou +a creada do collegio para receber as cartas da mão do creado, alliciado tambem. +A educanda correspondeu á fogosa e sincera declaração do amante, com os mais +apaixonados termos, que lhe ensinou uma companheira mais velha e já +experimentada nas excellencias do estylo epistolar.</p> + +<p>O cadete, não satisfeito plenamente com as cartas, alugou, na visinhança do +collegio, um andar de casas, que tinham saguão commum e janellas fronteiras. +Maria, sabedora do expediente amoroso do moço querido, classificou o feito de +suprema prova de amor, e deliciou-se em embriaguez de ternura n'aquelles vagos +anceios dos dezeseis annos, que tanto levantam a mulher a foros de anjo, como +dão com ella em razo, desenfeitada de todos os prestigios.</p> + +<p>Não era para isso o amor de Filippe Osorio. Amavam-se como duas creanças +pela innocencia do seu amor, e como dois noivos pelo alcance de suas +esperanças. Era o enlevo a subi'-los ao céo, e o instincto a baixa'-los á +terra. Mas que instinctos tão humanos, tão legaes, tão christãos! Casarem-se! +Companheiros de uma longa vida, começada em duas formosas e explendidissimas +primaveras! Que bonitos amores, e quem nos dera a todos nós amar assim vinte +vezes na vida!<span class="pn" id="pg_93" >{93}</span></p> + +<p>Deu fé a directora do collegio do namoro. Admoestou suavemente Maria +Henriqueta, e a candida menina respondeu-lhe;</p> + +<p>—Olhe, minha senhora, leia as cartas de Filippe; eu lh'as leio todas, +se quer!...</p> + +<p>A directora montou os oculos, e leu, com admiravel pronuncia e conhecimento +de toada dramatica, um massete de cartas, que era um coração em prosa!</p> + +<p>Em uma das primeiras dizia elle quem era, o seu nome, o nome de seus avós, +os seus parentes, o seu destino, os seus anhelos á gloria, a sua gloria de ser +amado. Vinha portanto Filippe Osorio a ser um dos primeiros nobres de uma +provincia, e um dos mais finos amantes do globo.</p> + +<p>A directora dobrou as fartas hastes dos oculos, embocetou-os, escutou o +oraculo de uma pitada de esturrinho, e disse;</p> + +<p>—Mas seu pae não a mandou para aqui com o intento de a menina arranjar +marido. Concordo nas boas intenções do seu joven namorado; mas é necessario que +seu pae concorde n'ellas.</p> + +<p>—Mas que precisão tem meu pae de ser chamado já para isto, que é um +brinquedo? Se algum dia eu me resolver a ser esposa de Filippe, então +consultaremos meu pae, e eu farei o que elle ordenar.</p> + +<p>Ouviu a directora um amigo antigo da casa, homem maduro e previdente. O +consultado respondeu:</p> + +<p>—Deixe divertir-se a pequena, minha senhora. Namorar n'aquella edade é +como abrirem-se as flores em<span class="pn" id="pg_94" +>{94}</span> abril. (Sobre ser amigo da casa, era o sujeito o poeta +dos annos da familia). Se avisam o pae, sabe o que acontece? É elle tira'-la de +cá, e a senhora perde trezentos mil réis annuaes que recebe, afora os presentes +dos presuntos, dos chouriços, dos paios e das murcellas de Arouca: Minha +senhora! tome o meu conselho. Emquanto a janella do visinho não atravessar o +saguão, e se lhe metter em casa, deixe-os conversar, deixe-os perfumar os ares +com a recendencia dos seus innocentes amores.</p> + +<p>Silvou uma pitada a matrona, e disse:</p> + +<p>—Tambem me parece... a janella cá não entra, sem ser por arte +magica.</p> + +<p>—Tambem me parece—redarguio o amigo da casa—e a magia é +uma mentira... </p> + +<p>—Isso é conforme, meu caro amigo! A gente tem visto cousas!...</p> + +<p>E ficaram n'isto, porque um e outro tinham visto cousas admiraveis em magia +no theatro do Bairro Alto, no da rua dos Condes, e mesmo fóra do theatro.</p> + +<p>Continuaram os doces colloquios. Nunca tão immaculada paixão se nutriu de +puros desejos através de dois, tres, quatro, cinco annos.</p> + +<p>Filippe, no decurso d'este tempo, foi promovido a alferes e já ostentava as +divisas de tenente de cavallaria, quando D. Maria das Dôres o viu levantar a +carta.</p> + +<p>Tudo o mais que eu dissesse para esclarecer o mysterioso desejo de linguas, +que Maria Henriqueta exprimia com lagrimas, seria uma impertinencia.<span +class="pn" id="pg_95" >{95}</span></p> + +<p>Agora sabem o porquê d'aquelles prantos, e digam-me se ella não tinha rasão, +amante cinco annos, cinco annos embalada pela esperança de cada noite, ditosa +pela realidade querida de cada dia, afeita áquelles olhos negros, áquelles +cabellos louros, áquella melodia de palavras, que pareciam cantadas a um arpejo +de anjos! Nunca ninguem chorou com mais amargura intima, penso eu!</p> + +<p>Se ella dissesse ao pae que amava Filippe!... Porque lh'o não disse? Porque +se não confessou em tão innocente culpa?</p> + +<p>Não o saberei eu bem dizer. Um instincto adivinhador do animo paterno? Não. +Foi uma razão menos nebulosa. É que o pae lhe havia dito um anno antes: «Eu +medito em te casar com um dos primeiros titulares da provincia; é um conde, +minha filha, não mais nobre que nós, mas egualmente antigo, e... conde! Com que +legitima soberba te verei condessa, minha filha!...</p> + +<p>Maria Henriqueta ouviu em alvoroço, e disfarçava a dôr da lançada com um +sorriso. Notou o pae que ella se purpureava; e disse entre si: «como o pudor é +lindo!»</p> + +<p>A carta expedida pela janella, devia ser um partir-se o coração de lê'-la. +Despedia-se Maria de Filippe Osorio, emprazando-o para encontrar-se com ella no +céo, a não querer elle commetter algum desesperado arrojo que a salvasse.</p> + +<p>Houve-se com ella de modo o pae, que nem uma só palavra equivoca lhe disse. +D. Maria das Dôres, incapaz de reprimir-se, alguns remoques aventurou, +provocando-a<span class="pn" id="pg_96" >{96}</span> a revelações +que ella não fez. Como a casual chegada da mãe á janella lhe foi despercebida, +Maria Henriqueta deu pouco valor a umas ironias, que de leve lhe apalpavam o +seu segredo.</p> + +<p>Triste como a saudade sem desafogo, entrou Maria no sombrio palacio de seu +pae. Em redor de si eram tudo cortezãos enjoativos, fidalgos de muita edade, +perguntando-lhe se vira D. Carlota Joaquina, e meninas de sua edade, que se +agrupavam a um lado ciciando segredinhos, allusivos ao ar enfatuado de Maria, +com o que, de puro respeito, se estavam sorrindo.</p> + +<p>Concorria tudo, pois, a exasperar a tristeza da morgadinha. As mesmas +caricias do pae a enfastiavam; o semblante aspero da mãe recordava-lhe os +repellões que soffrera em menina, e os annos dourados que deixára no collegio. +Saltavam-lhe involuntarias as lagrimas dos olhos, em presença das familias que +a visitaram, em todas as noites da primeira semana. Fugia das salas, +encerrava-se no seu quarto, e rompia em gritos, em que a irritabilidade nervosa +tinha maior acção. As noites desvelava-as a lêr as cartas de Filippe, escriptas +em cinco annos. Estas leituras, longe de socegar-lhe o animo, aguilhoavam-n'a a +impetuosos transportes do leito para as janellas, sorvendo a anciados haustos o +ar da noite. Sentava-se constrangida á mesa, e raro alimento aceitava da mão +carinhosa do pae. Pedia frequentes licenças para levantar-se, e buscava, em +secreto, o seio de sua ama, para chorar com desafogo, falando em Filippe.</p> + +<p>Em nome da ama vinham as cartas d'elle. Digno de<span class="pn" id="pg_97" +>{97}</span> tanto amor nenhum outro homem o seria mais. Atrevia-se +de frente com as difficuldades, e promettia-lhe a redempção, se ella +permanecesse constante. O seu primeiro triumpho consistia em conseguir passagem +do seu regimento para a guarnição do Porto. Era concessão difficil, n'aquelle +tempo em que o prospecto de proxima guerra punha em sobresalto conselheiros da +corôa, que só curavam de organisar o exercito. Venceu o moço, com o patrocinio +de poderosos amigos de seu pae, os obstaculos da transferencia, e avisou Maria +Henriqueta, marcando-lhe o dia de sua chegada ao Porto.</p> + +<p>Cobrou animo a menina, já enferma, e apostada a morrer. A vida do coração +radiou a todos os órgãos exanimes e desconcertados. Nem mesmo o estomago foi +extranho áquella festa das visceras.</p> + +<p>Maravilhou-se da mudança o pae; e Maria das Dôres ficou de sobreaviso para +espionar o motivo de tão breve como extranha conformidade.</p> + +<p>Gonçalo, menos atilado ou malicioso que sua mulher, attribuiu a mutação á +ordem natural das cousas e das pessoas. «Maria Henriqueta +esqueceu-se—dizia elle á consorte suspeitosa e incredula.—São assim +as mulheres em geral e o coração gasta-se como tudo que é susceptivel de +consumpção.» O philosophico entono com que o aphorismo foi atirado á circulação +das idéas, não impressionou vivamente D. Maria, que era uma senhora de mean +habilidade para digerir a sciencia occulta dos aphorismos.</p> + +<p>No dia anterior ao da chegada de Filippe Osorio, annunciou<span class="pn" +id="pg_98" >{98}</span> Gonçalo a sua filha a visita do conde de +Monção, inquerindo ella a causa do grande reboliço que ia em casa com a +innovação de tapetes, de cortinados, e de moveis, chegados da capital.</p> + +<p>—Vem ser nosso hospede alguns dias;—accrescentou o +pae—Cuida tu, minha filha, em tirar dos bahús os teus melhores vestidos e +enfeites para que elle, n'um relance de olhos, conheça em ti uma senhora +educada na côrte. Pódes falar-lhe em francez, que elle viveu em Pariz. Verás +que homem de côrte, que ar de quem tratou face a face com Luiz XVI e com Maria +Antoinette! Feliz serias se, como creio que ha-de succeder, lhe tocasses o +coração!</p> + +<p>—Eu!... disse Maria com tregeito de espantada.</p> + +<p>—Tu, sim, minha filha!—respondeu o pae, cuidando que o espanto +era a natural expressão de quem se julgava indigna de tão egregio +esposo—Não te disse eu, ha um anno, que projectava casar-te com um +conde?</p> + +<p>—Disse, meu pae.</p> + +<p>—Então, já vês que me não esqueci da promessa. Favor, em ligar-se á +nossa estirpe, não me faz nenhum. A sua origem foi a nossa. Todos viemos da +Cantabria; procedemos todos dos heroes de Covadonga, capitaneados por Pelagio. +Alli se ajuntaram as reliquias dos reis godos, e d'essas são oriundas as nossas +familias, posto que seus avós fossem meros fidalgos acantoados em seus solares +quando de Hespanha veio a infeliz rainha Ignez de Castro, de um ramo da commum +arvore que bracejou mui honradas e nobilissimas frondes por Castella.<span +class="pn" id="pg_99" >{99}</span></p> + +<p>Maria Henriqueta não ouvia nada d'estas maravilhas. Estava como morta nos +sentidos exteriores.</p> + +<p>Gonçalo exclamou com affectuosa vehemencia:</p> + +<p>—Tu descóras, Maria!? Que tens? Desagrada-te o meu plano!? +Responde...</p> + +<p>Não respondeu, nem desmaiou.</p> + +<p>Sacudiu-a com brandura o pae, tomando-a para o seio, e osculando-a na +fronte.</p> + +<p>—Fala, minha filha! Que sentes tu?</p> + +<p>Maria pôde falar, quando os soluços lhe desembargaram a voz, e disse:</p> + +<p>—Lembre-se, meu pae, do seu casamento. Queira a minha felicidade...</p> + +<p>—Pois não quero, filha? Que maior prova posso dar-te que esta? Cuidar +em fazer-te condessa de Monção!...</p> + +<p>—Não posso acceitar tal marido, meu pae...</p> + +<p>—Não pódes?!—atalhou, em tom menos suave.</p> + +<p>—Não posso ama'-lo... e não amar um esposo deve ser a maior das +desgraças...</p> + +<p>Maria das Dôres entrou n'este momento, e ouviu as ultimas palavras da filha, +que tremeu ao ve'-la.</p> + +<p>—E como sabes tu que não hasde amar o conde, se o não viste +ainda?!—replicou o pae.</p> + +<p>—Sei que me é impossivel ama'-lo... Póde ser um anjo do céo, que eu +não o amarei... Casar sem affecto, meu pae, sacrificar-me por toda a minha +vida, estando eu tão nova, deve ser muito triste. Antes um mosteiro; eu de boa +vontade professo, e me irei esconder<span class="pn" id="pg_100" +>{100}</span> e penar como filha desobediente; mas não me obriguem +a casar, que eu tenho animo para me matar no dia seguinte.</p> + +<p>—Tens razão, filha!—exclamou Maria das Dôres—Tens razão! +Casamentos á força, em quanto eu fôr viva, não os tolero na minha casa. O homem +vem ahi ámanhã. Se gostares d'elle, e elle gostar de ti, casem-se; se não, +passe por lá muito bem o snr. conde, e tu deixa-te estar, que estás bem na tua +casa.</p> + +<p>—Que conselhos maternaes são esses, prima Maria das +Dôres!—interrompeu Gonçalo.</p> + +<p>—São conselhos, que minha mãe me não deu, primo Gonçalo. Repito: Maria +Henriqueta não hade casar obrigada. Minha mãe, á hora da morte, pediu-me perdão +de me ter obrigado a casar; e eu não quero nem heide pedir o mesmo perdão a +minha filha.</p> + +<p>—Temos uma grande lucta, Maria das Dôres!—exclamou o marido.</p> + +<p>—Pois luctaremos—respondeu ella, esgrimindo com os braços e com +a cabeça.—Maria Henriqueta! tu tens por ti a razão, e tua mãe... Veremos +de quem é a victoria.</p> + +<p>—Eu não queria que meus paes se indispozessem por minha +causa—atalhou a menina—O que peço a ambos é que me queiram na sua +companhia, e me deixem gosar o resto da minha mocidade. Sinto-me aqui feliz; +para que heide eu ir procurar a felicidade onde eu sei que ella não está?</p> + +<p>—Maria!—tornou severamente Gonçalo—Eu sei que<span +class="pn" id="pg_101" >{101}</span> saíste de Lisboa apaixonada. +Calei-me, cuidando que o teu brinquedo ficaria por lá esquecido com os +devaneios da mocidade; e calei-me porque um pae deve fingir-se extranho a +creancices sem resultado. Agora vejo que é grave o teu desvario, e aceito a +obrigação de t'o corrigir. Vamos a perguntas, que te devia ter feito. Quem é o +militar, que levantou da calçada uma carta lançada por ti?</p> + +<p>Respondeu Maria passando da pallidez ao escarlate, e vibrando toda n'uma +convulsão afflictiva.</p> + +<p>—Responda, senhora!—repetiu o pae com o aspecto mal +assombrado.</p> + +<p>—Responde, Maria Henriqueta, diz a verdade—ajuntou a mãe, em tom +de mansidão, e modos protectores.</p> + +<p>Maria murmurou:</p> + +<p>—Era um tenente de cavallaria... Chama-se Filippe Osorio Guedes da +Fonseca... É de Mirandella, e é fidalgo...</p> + +<p>Gonçalo expediu uma casquinada de riso, e disse:</p> + +<p>—Fidalgo!... tenente de cavallaria!... fidalgo de +Mirandella!—quem são n'este mundo os Fonsecas de Mirandella?... Hei de +perguntar por isso ao meu mordomo de Lamego, que é de Mirandella, e chama-se +Melchior Fonseca. Precisamente é tio do sr. Filippe, tenente de +cavallaria!...</p> + +<p>E deu segunda casquinada, com uns tregeitos mal cabidos nos seus nobres +ademanes.</p> + +<p>Maria das Dôres não ria; nem via com bons olhos os sarcasmos do marido. Por +espirito de contradicção, ou<span class="pn" id="pg_102" +>{102}</span> por pena da filha, tomou-a pelo braço, e disse-lhe: +</p> + +<p>—Vem d'ahi, Maria Henriqueta.</p> + +<p>—Onde a leva? disse irritado o marido.</p> + +<p>—Onde hei de eu leval'-a?—redarguiu a esposa na mesma +entonação.</p> + +<p>—Quero que ella me responda!</p> + +<p>—Pois faça-lhe as perguntas com geito e modos. Que quer perguntar-lhe? +Vamos, ella aqui está para responder. Diga lá.</p> + +<p>—Tudo que tenho a dizer—retorquiu Gonçalo Malafaya exasperado +contra mãe e filha—é que eu defendo a honra dos meus, e deixo de ser pae, +quando é necessario ser juiz.</p> + +<p>—Não quer mais nada?—concluiu D. Maria das Dôres.—Anda +d'ahi, menina!</p> + +<p>E saíram. Maria Henriqueta, com os olhos turvos de lagrimas, mal via o chão +que pisava.</p> + +<p>Gonçalo atirou-se sobre um canapé, e exclamou:</p> + +<p>—Castigado até ao fim! Nem a submissão d'esta filha que eu amo +tanto!... É de mais, ó meu Deus!</p> + +<p>Entraram os creados a pedir ordens para a localisação das alfayas vindas da +capital. Gonçalo saltou enfurecido do canapé com as mãos enclavinhadas nos +cabellos, e exclamou:</p> + +<p>—Peguem incendio a esta casa, e morra eu dentro della!</p> + +<p>Os servos fizeram pé atraz e encontraram, ao saírem espavoridos, o capellão, +que se estava persignando, com os olhos postos no tecto, á mingua de céo.<span +class="pn" id="pg_103" >{103}</span></p> + +<h3><a name="SECTION00402">II</a></h3> + +<p>Era aquelle o dia em que devia entrar no Porto o conde de Monção. As +carruagens da fidalguia, convidada por Malafaya a esperar o seu illustre +hospede, estacionaram á porta do palacio, condemnado ás chammas, esperando que +o dono descesse. Gonçalo, quando a parentella ia entrando, compoz o semblante, +vestiu-se a primor, e saíu a entrar na sua melhor equipagem. Era tarde para +sacudir a carga, que tão vaidosa e jubilosamente tomára.</p> + +<p>O conde vinha pela estrada de Coimbra, onde passára alguns dias, visitando +quintas suas nos arrabaldes d'aquella cidade. A comitiva chegou aos Carvalhos e +esperou.</p> + +<p>Era o conde de Monção um fidalgo creado em côrtes, e conhecido nas +extrangeiras; mas, em todas, o mais graduado titulo de sua recommendação era a +tolice, o dom de engranzar parvoiçadas, que relevavam de chiste por serem ditas +n'uma algaravia de linguas, só perceptiveis por alguns vocabulos irrisoriamente +pronunciados. Fôra menos exacto, ou nimiamente credulo Gonçalo<span class="pn" +id="pg_104" >{104}</span> Malafaya, dizendo que o conde de Monção +sabia falar francez, por ter estado em França. O conde era refractario aos +idiomas, e com o seu, propriamente, andava tão desavindo, que os fidalgos de +Lisboa não o entendiam melhor que os de Pariz. A visinhança de Galliza, que +defronta com Monção, introduzira na linguagem familiar do conde muitos termos +espurios, cuja versão fiel só os aguadeiros de Lisboa podiam faze'-la +competentemente. Galhofavam d'elle muito na côrte as damas e os moços +intolerantes. A mim me quer parecer que a pecha de agallegados, que os de +Lisboa gratuitamente nos põem, data das visitas do conde áquella cultivissima +terra, que tem lá tambem os seus dizeres ridiculos, mas no proferi'-los vae +tanta graça e tal affectação que não ha ahi cousa que mais diga!</p> + +<p>Saía o conde de Coimbra em direitura ao Porto, quando ouviu tropel de +cavallos que o seguiam. Olhou, e viu um cavalheiro com insignias militares, +acompanhado de seu lacaio. Ao perpassar por elle o açodado cavalleiro, +perguntou-lhe o conde:</p> + +<p>—Vae para o Porto?</p> + +<p>—Sim, senhor.</p> + +<p>—Então podemos ir de camaradas.</p> + +<p>—Com o maior prazer, se o cavalheiro esporear o seu bello alazão.</p> + +<p>—Se não é mais do que isso, ahi vamos—disse o conde, atirando o +acicate aos ilhaes do cavallo.</p> + +<p>Filippe Osorio riu-se d'aquelle verbo—<em>vamos</em>, se é que Filippe +Osorio podia rir.<span class="pn" id="pg_105" >{105}</span></p> + +<p>Praticaram largamente n'aquelle dia de jornada, sobre diversos assumptos. As +damas tiveram grande parte, como de direito deviam ter, nas palestras dos +cavalleiros. Dizia o conde que as francezas tinham grande pancada na mola, e as +inglezas costumavam cheirar os homens de longe, antes de lhes apertarem a mão. +O tenente de cavallaria aventou logo que falava com um inepto, e cavou +solicitamente na materia em que elle mais necedades dizia. Se alguma vez o +conde revelou intervallo lucido de sensatez, foi quando disse que as senhoras +do Porto eram muito formosas. Mencionou as que conhecia, e ajuntou que ia +hospedar-se em casa de uma, cujo retrato possuia em marfim, e que era a mais +linda mulher que seus olhos enxergaram na Europa. Proseguiu no mesmo theor +esperando que o seu companheiro lhe perguntasse quem era a mulher mais linda da +Europa; mas Filippe tão abstraído ia que nem a curiosidade o espertou.</p> + +<p>—O meu nobre amigo, disse o conde arrebentando por dizer o nome da +dama, talvez tenha ouvido falar na familia dos Malafayas...</p> + +<p>—Tenho...—disse Filippe, empertigando-se na sella, como se uma +barra de ferro lhe batesse no peito.</p> + +<p>—Tem? pois a menina de que lhe falo é d'esta familia.</p> + +<p>—Conheço um fidalgo chamado Gonçalo Malafaya.</p> + +<p>—Sem tirar nem pôr. É o pae d'ella.</p> + +<p>—Pae d'ella!... Como veio ás suas mãos o retrato de...<span class="pn" +id="pg_106" >{106}</span></p> + +<p>Susteve-se Filippe tão bruscamente, que só o conde de Monção deixaria de +notar as perturbadas perguntas de companheiro.</p> + +<p>—O retrato d'ella mostrou-m'o o pae, aqui ha um anno, quando veio de +Lisboa, onde a mandou pintar. De mais a mais, a menina foi lá ensinada n'um +collegio, e fala o francez perfeitamente.</p> + +<p>Filippe, com quanto alvoroçado, estava longe de presentir o desfecho de taes +revelações, e proseguia no inquirimento d'ellas para se recrear falando de +Maria, quando mais não fosse.</p> + +<p>—Mas,—insistiu elle—com que fim o sr. Gonçalo Malafaya +mostrou ao meu amigo o retrato d'essa menina?</p> + +<p>—Isso são contos largos; mas lá vae a historia. Em primeiro logar, o +senhor não me conhece?</p> + +<p>—Não tenho a honra...</p> + +<p>—Eu sou o conde de Monção.</p> + +<p>Filippe, d'esta feita, devia de sentir duas barras de ferro, uma ao peito, e +outra nas costas, porque ficou hirto e rijo sobre o selim.</p> + +<p>—Nunca ouviu falar de mim?—tornou o conde, notando a nenhuma +reverencia com que o militar ouvira o seu nome.</p> + +<p>—Ouvi, sim, senhor.</p> + +<p>—Agora, se lhe não custa, diga-me o senhor quem é.</p> + +<p>—Sou um official de patente; mas os meus appellidos são populares, e +escuso de os dizer a v. ex.ª como recommendação.<span class="pn" id="pg_107" +>{107}</span></p> + +<p>—Isso que tem? Se não é fidalgo ainda o póde ser, que d'essa massa se +fazem. Armas ou lettras, diz lá o ditado dos velhos. De cá se vae a lá. Meus +avós tambem foram da militança, e eu ainda conheci na minha casa tres generaes +velhos como a Sé de Braga.</p> + +<p>—Mas vamos á historia, se lhe não custa—disse Filippe com +simulado e affectuoso sorriso.</p> + +<p>—Vamos á historia... Vinha-lhe eu dizendo que sou conde; mas, a +falar-lhe a verdade, com as viagens estraguei um pouquito a minha casa, porque +lá por fóra era umas mãos rotas. Aquellas francezas foram os meus peccados, meu +caro senhor! Dei lá jantares a duquezas que era um pasmar! E olhe que em Pariz +um jantar, que faz pasmo, já ha de ser de um tal tamanho!... Como lhe vinha +contando, quando voltei a Portugal, e vi o empenho em que estava a minha casa, +resolvi tomar estado com menina rica, ainda que me ficasse a perder de vista em +fidalguia. Não póde ser tudo, meu amigo! Aquelle maldito pombal deu-nos cresta +ás regalias, e fez com que o dinheiro se espalhasse por todas as mãos. No +inferno esteja elle, e mais as suas leis!... Andava eu a cogitar n'isto, quando +o negocio me saíu mesmo ao pintar, ainda melhor do que eu queria! Botei as +minhas vistas ás ricas herdeiras da provincia, e soube que o melhor morgadio +era o de Gonçalo Malafaya, por ter só uma filha. Fui até ao Porto, ha tres +annos, assim como quem não quer a cousa, e fiz por me encontrar com o Malafaya. +Comecei a tirar nabos do pucaro, como o outro que diz, e deixei-me dizer que +me<span class="pn" id="pg_108" >{108}</span> não desconviria ligar +á minha casa uma menina que fosse tão nobre e tão boa herdeira como a filha +d'elle. Não arranjei bem o palavreado?</p> + +<p>—Perfeitamente—disse Filippe ancioso pelo remate, como se o não +tivesse adivinhado, desde que soube que falava com <em>um conde</em>, que +tantas lagrimas custára a Maria Henriqueta:</p> + +<p>Continuou o conde:</p> + +<p>—O Malafaya esteve a conversar muito tempo comigo, levou-me a casa, +deu-me um bom jantar, e disse-me ao outro dia:—Deixemos completar a +educação de minha filha, e depois falaremos.—Passados quasi dois annos, +recebi em Monsão uma carta do Malafaya com o retrato da menina. Ó meu amigo! +confesso-lhe que fiquei de bocca aberta! Era a cousa mais perfeita que cobre a +roda do sol! Sabe o senhor o que é apaixonar-se um homem, não atinar mais com a +cabeça? Foi o que me aconteceu a mim! Vim logo ao Porto, e disse a meu futuro +sogro! «Eu quero a sua filha, mesmo sem nada, se é possivel!» Elle entrou a +rir, e disse-me: «A minha filha, além da riqueza e da formosura, tem o melhor +coração que Deus formou em peito de mulher.» Nunca me esqueceram estas +palavras!...</p> + +<p>Andei com o negocio de afogadilho para que o casamento se fizesse logo: mas +metteram-se umas desordens tamanhas entre elle e a mulher—que é o diabo +de saias segundo ouço—de modo que foram para Lisboa um por cada vez, e +por lá se deixaram estar até ha pouco, que vieram para o Porto. Ha de haver +quinze dias que o<span class="pn" id="pg_109" >{109}</span> +Gonçalo me escreveu, dizendo-me que era chegado o tempo de eu ser apresentado á +minha noiva, e effectuar-se o casamento. Ora aqui tem a historia com todos os +pontos e virgulas. Vou casar-me. Acabam-se as rapaziadas e as viagens; mas fico +senhor de uma grande casa e da mulher mais bonita da Europa... Que diz o senhor +a isto?</p> + +<p>—Digo que faz muito bem; mas se me dá licença—continuou Felippe +com a mais destra e bem fingida serenidade—farei uma advertencia.</p> + +<p>—Diga lá sem cerimonia.</p> + +<p>—Tem o senhor conde a certeza de ser amado pela sr.ª D... Chama-se +ella? </p> + +<p>—É Maria.</p> + +<p>—Pela sr.ª D. Maria?</p> + +<p>—Se tenho certeza de ser amado? Eu sei cá! Ella ainda me não viu.</p> + +<p>—Pois por isso mesmo. Que certeza tem v. ex.ª de que ella o ame, +vendo-o? </p> + +<p>—O senhor está muito enganado comigo. Saiba que todas as mulheres +gostam de mim. Ponto é que eu as metta á bulha! Diziam lá os meus caseiros, +quando eu fazia em rapaz muitas travessuras, que eu tinha o besouro diabolico. +Em França, onde eu estivesse, conhecia-se logo. Olhe que estive para me bater +muitas vezes por causa de namoros muito serios com as açafatas da côrte.</p> + +<p>—Tudo creio, porque reconheço em v. ex.ª meritos para tudo; mas +supponha por um momento que D. Maria o não ama?<span class="pn" id="pg_110" +>{110}</span></p> + +<p>—Porque não ha de amar-me? Essa é fina!</p> + +<p>—Supponha que ella ama outro homem?</p> + +<p>—Se ama outro homem, faz de conta que nunca o viu.</p> + +<p>—E v. ex.ª tambem faz de conta que o não sabe.</p> + +<p>—Está claro.</p> + +<p>—E se ella dér a esse homem a preferencia para casar com elle? Queira +desculpar esta pergunta.</p> + +<p>—Diz o senhor que ella póde rejeitar-me para casar com outro?</p> + +<p>—É uma supposição...</p> + +<p>—Ora deixe-se d'isso!... Nem o pae a deixava, nem eu era homem para +essas brincadeiras. Ou eu ou elle.</p> + +<p>—Iria v. ex.ª disputar a vida ao sujeito que D. Maria amasse?</p> + +<p>—Se elle fosse fidalgo ia; senão, mandava-o varrer do meu caminho +pelos meus lacaios.</p> + +<p>Filippe, se outro fosse o interlocutor, tinha-se denunciado, quando soltou +uma franca e estridula risada. O conde, afeito a provocar o riso, entendeu que +a sua ameaça afidalgada dos lacaios tivera muito chiste. E riu tambem, em prova +de que sabia avaliar o quilate do seu espirito.</p> + +<p>Nunca mais o tenente de cavallaria pôde encarar no seu companheiro de +jornada. Respondia-lhe sem fita'-lo; e de proposito se retardava ou adiantava +para não emparelhar com elle.</p> + +<p>Pernoitaram em Albergaria. Cada qual recolheu ao seu quarto depois da ceia, +durante a qual o conde esteve em ferias de palavreado. Filippe chamou á +meia<span class="pn" id="pg_111" >{111}</span> noite o seu lacaio, +e mandou arrear os cavallos. Cavalgou, e partiu para o Porto, deixando o conde +no seu primeiro somno, o somno da felicidade estupida que lhe derramára nas +palpebras as suas narcoticas urnas, e lhe instillava, talvez, na alma as +dulcissimas visões de um noivo da mais formosa mulher da Europa.</p> + +<p>Quando, pois, as carruagens dos fidalgos subiam a encosta de Gaya, descia a +trote Filippe Osorio. De longe, conheceu que a primeira carruagem era de +Malafaya, por ser das mais luxuosas que se ostentavam em Lisboa. Conheceu-lhe +os creados da libré, tudo reconheceu, porque em tudo se atavam recordações de +Maria Henriqueta. Desviou-se da estrada larga para uma travessa marginal, e +deixou passar o prestito. Desempedida a estrada, ganhou o Porto em poucos +minutos, apeou, e subiu a procurar o palacio de Malafaya. Parou diante do +portão indicado, e ousou entra'-lo, e perguntar ao guarda, revestido de rica +libré, se podia falar a uma mulher chamada Eugenia.</p> + +<p>Eugenia era a ama de Maria Henriqueta. Nenhuma duvida lhe estorvou falar com +a creada no seu proprio aposento, que distava muito das camaras das senhoras. A +ama fez apavoradas visagens de espanto; mas ouviu-o. Urgia elle, lançando-lhe +dinheiro em ouro ao regaço, que Maria alli viesse. Da negativa passou Eugenia á +hesitação e d'ahi, movida pela angustia do moço—angustia com liga de +ouro—foi disfarçadamente procurar a menina.</p> + +<p>E a menina entrou no quarto da ama, e a ama com ella.<span class="pn" +id="pg_112" >{112}</span></p> + +<p><span class="pn" id="pg_113" >{113}</span></p> + +<h3><a name="SECTION00403">III</a></h3> + +<p>Maria Henriqueta ouvira a confidencia sobresaltada de sua ama, e ficou como +estupida de alegria. Eugenia, temendo que D. Maria das Dôres a encontrasse +n'aquelle extranho transporte, accelerou a ida, recommendando-lhe curta demora. +</p> + +<p>Á entrada do quarto, a menina, encarando em Filippe, soltou um grito, como +se fosse inadvertida, e por surpresa, a apparição. O melhor recosto para um +vágado era certamente o dos braços, que se abriram a recebe'-la: mas o +accidente foi instantaneo: o coração predominou o espasmo nervoso.</p> + +<p>Estava Eugenia, a um lado, contemplando com aguados olhos a scena pathetica; +porém, o medo tinha-a tolhida. Apenas o prefacio de suspiros e lagrimas iria em +meio, quando a ama acudiu pedindo que dissessem depressa o que tinham a dizer, +antes que a senhora perguntasse pela menina.</p> + +<p>—Não tenhas medo, disse Maria Henriqueta, que a mãe está dirigindo o +arranjo dos aposentos do conde—E,<span class="pn" id="pg_114" +>{114}</span> voltando-se a Filippe, continuou:—Já podes +imaginar quem é este infernal conde, que se espera...</p> + +<p>Em breves termos contou o tenente as passagens que o leitor já teve a +complacencia de ouvir; mas eu contei-lh'as a sorrir, e elle disse-as com +tormenta desfeita de lagrimas a Maria Henriqueta.</p> + +<p>Respondeu ella, relatando a lucta, que tivera com o pae, suavisada por ter +captado em seu favor a mãe, cuja vontade era mais efficaz e prestante que a +d'elle.</p> + +<p>Passaram a combinações de futuro, prevendo hypotheses desgraçadas, como +violencias de convento, maus tratos, divorcio de familia, que tudo era de +antever, arvoradas as bandeiras hostis na casa.</p> + +<p>Disse Maria que fiava muito de sua mãe, mas muito mais de si propria.</p> + +<p>«Se a perseguição fôr tal, que me não deixem respirar—disse a +menina—em tal extremo, fujo para ti, e depois... Deus se compadeça de +nós, e da grandeza do nosso amor. Iremos ajoelhar a um padre para que abençoe a +nossa eterna união, e assim unidos, sem vergonha do mundo, arrostaremos com +todos os revéses.»</p> + +<p>Filippe ouviu de joelhos esta celestial musica dos labios de Maria, e +julgou-se superior a homem na felicidade que o embriagava. Para cumular o +contentamento do coração da amada, contou-lhe que seu pae o protegia +declaradamente com todo o dinheiro preciso para affectuar o seu casamento; e +ajuntou que, sendo mister fugirem para o estrangeiro, em toda a parte +encontrariam a abundancia para que a sua ventura fosse perfeita.<span +class="pn" id="pg_115" >{115}</span></p> + +<p>Maria Henriqueta deu insignificante valor a esta ninharia da abundancia no +extrangeiro. Amor, amor, é que ella anhelava, como as aves do céo que avoejavam +de horisonte a horisonte, e dobram as serras, e cortam a cupula dos mares, sem +cuidarem de pedir á terra ou ás aguas um poucochinho de alimento.</p> + +<p>Estas cousas, de si tão simples, ditas por amantes, embeberam duas rapidas +horas, que pareceram annos á timorata Eugenia. Já D. Maria procurava a filha, +quando Filippe Osorio descia ao pateo, seguido da ama, que lhe chamou sobrinho, +ao despedir-se, na presença do guarda-portão.</p> + +<p>Reparou a mãe no rubor febril da menina, e inquietou-se na supposição de que +ella adoecesse, por effeito do susto em que a deixára o pae.</p> + +<p>—Maria Henriqueta—disse D. Maria das Dôres—eu quero-te +mais animada. Já te disse que á força não te casa teu pae. Conta commigo, e +verás que tudo ha de ir por onde deve ir. Com isto não te quero dizer que cases +com o militar; mas, mal por mal, antes d'elle que de um marido detestado.</p> + +<p>Maria abraçou a mãe com tanta effusão de reconhecimento, que, para assim +dizer, foi esta a primeira vez que Maria das Dôres sentiu arfar o coração de +sua filha, e tão estranha e dôce lhe fôra a sensação, que poude n'esse instante +ajuizar da ternura maternal.</p> + +<p>Noite fechada, ouviu-se o estrepito das carruagens, passando sob o arco de +Nossa Senhora de Vandoma. Maria tremeu e fugiu para o seu quarto, pedindo +á<span class="pn" id="pg_116" >{116}</span> mãe que a desculpasse +de ir á sala por estar doente.</p> + +<p>—Quero que vás á sala;—disse Maria das Dôres—Escusam-se +fingimentos, quando as contas estão lançadas, eu sou por ti com a minha vontade +de ferro. </p> + +<p>Gonçalo Malafaya entrára carrancudo. Já elle presumia que o tenente de +cavallos estivesse no Porto, ouvindo a relação que o pasmado conde fizera do +militar, que o deixára a dormir em Albergaria despedindo-se em latim. Instou +Malafaya em meudas averiguações, ás quaes o conde respondera sinceramente, +dizendo mesmo as duvidas, que elle puzera, no tocante ao amor de Maria +Henriqueta.</p> + +<p>Isto bastou á desconfiança e penetração de um pae precavido.</p> + +<p>O conde foi apresentado a D. Maria das Dôres, e teve o infortunio de acarear +desde logo a mais formal das antipathias. A fidalga tinha odio a homens ruivos +e baixos: e o conde era baixo e ruivo. Não detestava menos os pés grandes e o +simonte; e o conde, sobre ter pés grandes, aspirava com desgraciosa pretenção o +aroma do simonte de uma caixa de ouro com um relevo de cupido, a desfechar +dardos, de dentro de uma mouta de flôres, sobre umas pastorinhas que teciam +grinaldas de rosas. Foi a caixa muito admirada da numerosa turba dos +convidados, e passou ás mãos de D. Maria.</p> + +<p>—Essa caixa, minha senhora—disse o conde—esteve já nas +mãos mais lindas de França. <em>Madame la duchesse de Choiseul</em> honrou-me +muitas vezes tomando pitadas da minha caixa.<span class="pn" id="pg_117" +>{117}</span></p> + +<p>—Quem?—disse D. Maria.</p> + +<p>—A senhora duqueza de Choiseul.</p> + +<p>—Tem as mãos muitos lindas?—replicou a fidalga.</p> + +<p>—Lindissimas, minha senhora.</p> + +<p>—Mas o nariz, se toma tabaco, não póde ser muito lindo... Aqui tem a +sua caixinha, com o seu Cupido e as suas pastorinhas, sr. conde. É um traste +muito bonito; mas o tabaco dá-lhe ares de um deposito de immundicie com paredes +de ouro.</p> + +<p>—Que grosseria!—murmurou Gonçalo ao ouvido da senhora.</p> + +<p>D. Maria das Dôres olhou de través o marido e disse:</p> + +<p>—Temos historia....</p> + +<p>Gonçalo, inimigo das historias de sua mulher, voltou-lhe as costas, e +prendeu a attenção ás variadas conversações dos fidalgos. D. Maria pediu +licença, saíu da sala, e foi ajudar a vestir a filha com o mais roçagante e +pomposo vestido de veludo escarlate, que trouxera de Lisboa.</p> + +<p>—Quero que te admirem!—dizia ella pregando-lhe as suas melhores +joias, e estrellando-lhe o toucado de pedras, e coalhando-lhe o seio de +scintillantes colares.</p> + +<p>Fez-se um silencio de egreja em festa de paixão, quando Henriqueta assomou +ao limiar da sala. Era da etiqueta que os cavalheiros se adiantassem, em +meia-lua, a recebe'-la ao centro do recinto; mas o espasmo collára aos tapetes +os velhos e os novos fidalgos. O conde, a quem maior obrigação de cumprimento +impunha o seu especial logar entre todos, deu alguns passos, como quem rompe um +minuete, e acurvou-se com o braço direito<span class="pn" id="pg_118" +>{118}</span> afastado do tronco e a mão esquerda sobre o coração, +que lhe dava corcovos no peito. Maria baixou ao chão os olhos, inclinou-se um +pouco, e esperou que seu pae a conduzisse aos coxins do canapé. A garbosidade +com que ella sacudiu a cauda para sentar-se de golpe, fez que muitos velhos +puzessem os olhos no céo e os mancebos relanceassem olhares rancorosos sobre o +conde. Offereceu Gonçalo ao hospede a cadeira mais nobre das quatro que +ladeavam o canapé, e o fidalgo, que tratára duquezas de mano a mano, viu-se em +apertos de acanhamento, antes de sentar-se milagrosamente no rebordo, da +cadeira baixa, em que a seda do calção, que vestira nos Carvalhos, parecia +rebentar pelas costuras repuxadas.</p> + +<p>—Tive dois dias de boa jornada, minha senhora,—disse o conde +gaguejando. </p> + +<p>—Sim?—respondeu Maria—muito estimo que não tivesse +incommodo.</p> + +<p>—E falei muito a respeito de v. ex.ª com um companheiro de +jornada...</p> + +<p>—A meu respeito?... Agradecida ao sr. conde por se lembrar de uma +pessoa que não conhecia.</p> + +<p>—Ora se conhecia!</p> + +<p>—A mim? Pensei que nunca me vira...</p> + +<p>—Mas vi o retrato que é o mesmo; só não é tão lindo.</p> + +<p>Ficou satisfeito de si: cuidou que nos salões de Versailles nunca se dissera +fineza mais acrisolada no bom gosto.<span class="pn" id="pg_119" +>{119}</span></p> + +<p>—O meu retrato!—redarguiu Maria—Não cuidei que lhe fosse +conhecido...</p> + +<p>—Aqui o tenho sobre o coração em caixilho de ouro e perolas. Foi seu +excellentissimo pae que m'o deu, e não podia dar-me melhor cousa senão o +objecto amado de que me deu a copia.</p> + +<p>Outra fineza subtil que o poz em admiração de si proprio! No semblante de +Maria relampagueou um rubor de ira, que passou, deixando, como vestigio, uma +visagem de tedio, que não mais se desfez nas tres horas que durou seu +supplicio.</p> + +<p>Da sala passaram á casa da ceia.</p> + +<p>Maria das Dôres que, por acinte, se assentára ao pé da filha, durante o +colloquio da sala, ouviu o conde e condoeu-se entranhadamente d'ella, +protestando resgata'-la da continuação do seu inferno n'aquella noite. Estavam +os cavalheiros em pé ao redor da mesa, esperando que as senhoras viessem tomar +logar, quando D. Maria das Dôres entrou, dizendo que sua filha, além de estar +habituada a não cear, sentia um leve incommodo que a privava de vir á mesa, e +fazia por isso os seus cumprimentos respeitosos ao sr. conde e mais +cavalheiros, recolhendo-se á sua camara.</p> + +<p>Gonçalo reclinou a vista á esposa, como quem diz:</p> + +<p>—Bem vos percebo, a ti e mais a ella... Quem diria?</p> + +<p>O conde de Monção não provou bocado. Vinham-lhe á garganta uns suspiros tão +dos seios d'alma, que, reduzidos a verso endecassyllabo, dariam mais sonetos +que<span class="pn" id="pg_120" >{120}</span> os de Petrarcha. +Desvelava-se em servi'-lo Gonçalo Malafaya, e nem com a mais loura aza de +perdiz lhe aguçou o appetite! Os brindes eram todos em honra d'elle, e elle +agradecia humedecendo os labios no rebordo do calix, e suspirando como quem dá +o que póde na muda eloquencia do coração.</p> + +<p>E Maria das Dôres levava o lenço branco aos labios para sorrir; e o padre +capellão benzia-se da abstinencia do conde, e benzia-se tambem mentalmente da +gulodice de alguns commensaes.</p> + +<p>Entrou o conde no seu aposento, e passou a noite em claro, em mudas +exclamações ao retrato de Maria. Ergueu-se ao romper d'alva, e correu uma de +suas janellas, que se abriam de face com o ridentissimo panorama de Gaya, S. +Christovão e Candal, posto que o templo da Sé lhe cortasse um retalho das +bellezas. Estava elle de pouco encostado ao peitoril da janella, quando viu +assomar na extrema da rua um sujeito de mui boa presença, e logo reconheceu +n'elle o companheiro de meia jornada. Esperou que se avisinhasse para lhe +falar; mas o tenente que, de longe o vira, cortou para a primeira travessa, +contente de a ter topado na má conjunctura de ser conhecido.</p> + +<p>Visitou Gonçalo Malafaya o conde na ante-camara, e este, trocadas as +saudações do estylo, disse:</p> + +<p>—Ora, dou-lhe parte que vi o sujeito, que me deixou em Albergaria!</p> + +<p>—Viu?! Está bem certo d'isso? Onde o viu?</p> + +<p>—Vinha na direitura d'esta casa; mas metteu alli<span class="pn" +id="pg_121" >{121}</span> por outra rua, e não me deu tempo de +perguntar-lhe por que diabo me deixou. Em quanto a mim o homem ia para o +quartel!</p> + +<p>—Aqui, atraz da Sé, não ha quarteis...—disse Gonçalo com +meditativa anciedade.</p> + +<p>—Em que está v. ex.ª a cogitar? Parece que ficou assim a modo de +pensativo! </p> + +<p>—Não, sr. conde. Eu tenho estes modos distraídos; mas nada +significam.</p> + +<p>—Vamos a falar—tornou o conde—a respeito do casamento. +Pela minha parte, meu prezado amigo, está o negocio feito. Veja v. ex.ª se quer +que eu trate d'isso, para se abreviar, quanto antes. Sua filha é uma deusa. +Acredite que ella ha de ser feliz a não poder ser mais. Hei de adora'-la toda a +minha vida, e morrer por ella, sendo necessario. O grande caso é saber se ella +gosta de mim; mas achei-a que me ouvia com muito agradaveis olhos, e que estava +contente ao pé de mim. Depois lá me affligiu que ella não fosse á ceia! Olhe +que tinha aqui na garganta um talo, sr. Malafaya! Bem viu que estive sempre a +pensar n'ella!</p> + +<p>Era sincero o conde. Por onde quer que andou, as mulheres que viu, e a quem +deu horas de folgada farça, nenhuma o impressionou. A sua primeira paixão era +Maria Henriqueta, paixão que rompeu violenta e inopinada como as irrupções das +crateras, como o corisco das calmas de agosto. Desde que a vira, perdeu a +consciencia de seus meritos, o que elle denominava o seu besouro diabolico para +fascinar mulheres. O suspirar á<span class="pn" id="pg_122" +>{122}</span> ceia, e o velar no leito era a duvida, a excruciante +duvida, unico besouro infernal e roedor, que se apascenta em coração humano, +semelhante ao ciume na peçonha. Tinha trinta e cinco annos o conde de Monção, +edade critica, em que os fructos do amor ou vingam, ou apodrecem. Se vingam, a +vida futura do homem está definida para sempre; se apodrecem, as particulas +corrompidas giram no sangue, gangrenam o coração, segregam rios de lagrimas, e +ahi é então o morrerem afogadas todas as esperanças, e o caminhar do homem ao +seu fim com o peso, o enormissimo peso de um cadaver moral. E as compleições +sem o sexto sentido do ideal, desmelindradas, rusticas, e avessas a toda a +poesia, são por igual sujeitas á lei commum do amor, que levanta á gloria, e +engolfa nos tremedaes do crime. Terrivel é esta raia que nivella o talento com +a estolidez! Parece que está na materia a faisca universal, que pega os grandes +incendios: e os poetas—bem hajam elles!—tão aporfiados andam em nos +persuadirem da espiritualidade do amor! Deus sabe o que é. O conde de Monsão é +que não sabia dizer ao certo que tenazes candentes lhe apertavam no seio os +pulmões suspirosos e que unhas de abutre lhe arregaçaram as palpebras +veladoras! Então lhe acudiu á memoria, para flagela'-lo, o dialogo com o +militar; e vieram apprehensões, e os retraços dos menores gestos do +companheiro, e a significação mysteriosa de palavras, então ouvidas +desattentamente. Estas combinações cresceram de ponto, quando viu no rosto de +Gonçalo signaes de assustadora suspeita, com referencia<span class="pn" +id="pg_123" >{123}</span> á apparição do militar. Recolhido em si, +engrandeceu o vulto das desconfianças, e enterrando no seio o estilete das +peores conjecturas achou lá o pensamento sanguinario de matar seu rival, fosse +elle quem fosse.</p> + +<p>Quando os nossos rivaes acham isto no peito, é prudente teme'-los.<span +class="pn" id="pg_124" >{124}</span></p> + +<p><span class="pn" id="pg_125" >{125}</span></p> + +<h3><a name="SECTION00404">IV</a></h3> + +<p>Gonçalo disse a Maria das Dôres:</p> + +<p>—Tenho quasi a certeza de que está no Porto o tal bigorrilhas de +Mirandella.</p> + +<p>—Deixá-lo estar. Cada qual póde estar onde quizer.</p> + +<p>—Assim é; mas eu receio que elle viesse chamado por Maria Henriqueta. +Acompanhou até meio caminho o conde, e já hoje esteve perto d'esta casa.</p> + +<p>—Póde muito bem ser. E d'ahi? que queres tu que se lhe faça?</p> + +<p>—Quero que se realise com a maior brevidade o casamento de Maria com o +conde.</p> + +<p>—Pergunta-lh'o a ella, e vamos a isso. Casar é muito simples. Temos +aqui o abbade á porta, e a egreja defronte.</p> + +<p>—Isso não é responder. Tu já sabes que Maria não quer o conde.</p> + +<p>—Pois se o não quer, tambem eu não. Diz ao conde que trate de sua +vida.</p> + +<p>—Mas a minha palavra está dada.<span class="pn" id="pg_126" +>{126}</span></p> + +<p>—Déste o que não podias. Deixa-me a mim o encargo de responder pela +tua palavra. Eu falarei com elle.</p> + +<p>—É melhor que fales com tua filha, e a convenças.</p> + +<p>—Deus me livre d'isso... Eu é que estou convencida de que minha filha +iria ser desgraçadissima com o conde, a mais embirrenta creatura que eu tenho +visto! Como descobriste tu aquelle palerma? Tens dedo, realmente! Faz vontade +de lhe offerecer a cabeça de um macho para enfeitar a corôa de conde!... Cousa +assim!... E, sobre tudo, ruivo, pés grandes, anão dos assobios, e tabaqueiro! +Deus me defenda de tal genro!</p> + +<p>—Tenho entendido...—disse Gonçalo com resignada +amargura—Estragaste-me Maria Henriqueta!</p> + +<p>—Estraguei-t'a?... Estragado tens tu o juizo!... Eu logo vi que os +frades e as freirinhas te davam cabo da razão! Se fosses rapaz, e visses um +homem da laia do conde, escarnecia'-lo; como estás a envelhecer, entendes que +está alli um marido pintado para a tua filha!... Deixa a menina, deixa-a viver, +não lhe tolhas o seu futuro com os teus calculos de a engrandeceres! Dá-lhe +alegria, não lhe dês titulos... N'uma palavra, diz tu, ou deixa-me dizer ao +homem que Maria Henriqueta não o ama.</p> + +<p>—Diz muito embora; mas fica sabendo que ha de entrar n'um convento tua +filha.</p> + +<p>—Pois sim; o que tu quizeres, que ella tudo acceita menos semelhante +marido. Irá para um convento, e póde ser que eu vá com ella. Vês-te assim livre +de ambas: e<span class="pn" id="pg_127" >{127}</span> depois vae +para as grades entreter-te com as delambidas santinhas, que nós havemos de +louvar a Deus o favor de uma cella onde não chegam figurões da laia do teu +conde.</p> + +<p>E terminou, por esta vez, o ternissimo colloquio.</p> + +<p>Maria Henriqueta faltou ao almoço, e foi desculpada por sua mãe, sendo por +falta de saude que faltava. O conde, industriado pelo coração, que é um grande +mestre de cerimonias, pediu a Gonçalo Malafaya licença para mandar saber +directamente da menina, pela creada grave d'ella. Tomou o comprimento D. Maria +das Dôres, e voltou, em nome de sua filha, muito penhorada das attenções do +illustre hospede. Tinham que vêr e de que rir estas etiquetas pausadas, +pautadas e mesuradas como um ritual de officio de defuntos.</p> + +<p>Em quanto D. Maria das Dôres, depois do almoço, ficou á mesa conversando com +o conde, Gonçalo aproveitou o azo de entrar ao quarto da filha, que por um +cabello não foi surprehendida a escrever a oitava pagina de uma carta a Filippe +Osorio. Compuzera-se o pae de boa sombra, e proposito de melhores palavras. +Simulou acreditar nas queixas que a privaram de ir á mesa, e d'ahi derivou a +mostrar que as inquietações do espirito eram muito nas molestias do corpo. Fez +o elogio da paz, e da voluntaria deixação das velleidades do animo as quaes +vinham a ser liberalmente compensadas com os doces cuidados domesticos, sob os +olhos carinhosos de um marido, que, ao mesmo tempo, abrange a ternura de pae, e +a profunda estima de irmão. D'aqui saltou,<span class="pn" id="pg_128" +>{128}</span> pouco methodico, para os gabos enthusiastas, que o +bondoso conde lhe estivera fazendo da formosura d'ella. Deteve-se n'este +assumpto, sem adivinhar a duplicante nausea com que a filha o estava ouvindo. +Era logico o repisar de novo na materia odiosa do casamento. Vestiu com quantos +enfeites soube de sentenças e moralidades as suas intenções. Realçou os brilhos +de uma alta posição na sociedade, e de uma corôa de condessa. Matizou-lhe as +delicias da côrte, para onde o conde resolvia mudar sua residencia, e assumir +no paço as brilhantes occupações de seu pae e avós, podendo sua esposa +considerar-se desde logo primeira dama da rainha, afóra a vantagem e gloria de +educar e elevar seus filhos á sombra de reaes telhas.</p> + +<p>Ouviu Maria a estirada parlenda em silencio, silencio agro de represadas +lagrimas, ancias de lançar-se de joelhos aos pés do pae e abrir-lhe a alma, e +deixar lá ver a imagem do homem, que para todo sempre a maniatara ao seu +destino.</p> + +<p>—Que respondes, Maria Henriqueta? Não conseguiu teu pae mover-te? +Resistes aos rogos que te faz o teu bom e sempre extremoso amigo?</p> + +<p>Maria respirou em pranto, e exclamou quanto os soluços lhe permittiam:</p> + +<p>—Não posso, meu pae, não posso... Deus sabe que eu lhe tenho pedido +desde hontem a morte!...</p> + +<p>—Basta;—disse severamente o pae. Sabes o teu destino? Sabes que +has de entrar no mosteiro de Arouca?<span class="pn" id="pg_129" +>{129}</span></p> + +<p>—Entrarei, meu pae.</p> + +<p>—E que has de lá estar emquanto eu for vivo?</p> + +<p>—Estou prompta, se é sua vontade que eu vá.</p> + +<p>—Não é vontade: é violencia que fazes ao meu coração. Pensas que eu +poderia ver em redor de minha casa o homem de Mirandella? Cuidas que o rosto de +um pae é insensivel ás ignominias do coração de sua filha? Não coras de tal +namoro; mas coro eu por ti, coram em ti meus avós, uma série de senhoras +soberbas de seu nascimento, que casaram com eguaes por não poderem elevar-se +mais alto. Sei que está no Porto esse aventureiro. Toda a minha prudencia será +necessaria para o não mandar chibatar pelos meus creados. Não o farei, porque +eu arrisco muito no escandalo, arrisco a tua dignidade, que é a minha.</p> + +<p>E, baixando a voz, continuou com resguardo:</p> + +<p>—Contas com a protecção de tua mãe? Estás bem aviada! Verás por que +estradas ella te conduz á desgraça. Ia a aborrecer-te, com pejo o digo, e +fugiste d'ella para o meu coração, que te acceitou. Agora foges de mim para +ella. Deixa-te ir. Cavae ambas o abysmo da minha vida e da tua felicidade.</p> + +<p>Saindo em direitura á sala do almoço, onde a fidalga ficára conversando com +o hospede, parou Gonçalo para ouvir o que diziam, temendo que sua mulher +estivesse aniquilando as esperanças do noivo. Desconfiou com acerto. Eis aqui a +parte do dialogo que elle ouviu:</p> + +<p>—São cousas muito melindrosas, sr. conde—Dizia D. Maria das +Dôres respondendo ao titular.—O amor não<span class="pn" id="pg_130" +>{130}</span> vem depois, se não tem já vindo antes do casamento. +Está v. ex.ª enganado pela inexperiencia. Os experimentados é que sabem o que é +casar na esperança de alcançarem do tempo o milagre, que não fez o coração. Tão +infeliz seria v. ex.ª como a minha filha. O desagrado de uma situação contra +vontade, é que faz as impaciencias do genio, as irritações que são o fel de +quem o dá aos outros. Meu marido casou violentado comigo; e eu fui violentada a +casar com elle. O resultado poderia elle dizer-lh'o, sr. conde, se não +houvessem uns certos infortunios, que os maridos se pejam de confessar, ao +mesmo tempo que se mostram de todo despreoccupados de outros infortunios, que +são as verdadeiras vergonhas. Se sou infeliz porque fui casada á força, ou por +obediencia, que culpa tenho eu de o ser? Porque não hei de eu dizer bem alto +que o sou, a fim de ser exemplo aos paes, e torna'-los brandos, se as filhas, +n'este ponto do casamento, lhes não obedecerem cegamente? A desgraça ha de ser +util a alguem, penso eu, sr. conde; e por isso bom é que a minha desgraça seja +util a minha filha, e a v. ex.ª. Renuncie á idéa de casar com Maria Henriqueta. +O conde de Monção ha de achar uma digna mulher onde a desejar, formosa, rica, e +nobilissima.</p> + +<p>Esteve o conde pensativo alguns segundos, e respondeu desempenadamente:</p> + +<p>—Não póde ser.</p> + +<p>—Não póde ser o quê?!—redarguiu D. Maria, com a fronte +avincada.<span class="pn" id="pg_131" >{131}</span></p> + +<p>—Hei de casar com a menina, porque a vontade do sr. Gonçalo Malafaya é +que ella case comigo.</p> + +<p>Era muito affrontosa para Maria das Dôres esta brutal saída. Levantou-se +ella de um salto e exclamou:</p> + +<p>—Não casará, sr. conde, porque é vontade minha que Maria Henriqueta +faça a sua vontade.</p> + +<p>—V. ex.ª tem um genio dos meus peccados!—atalhou o conde com um +comedimento que, em outro individuo, parecera zombaria.—Ora queira +sentar-se, minha senhora... Isto não vae a ralhar.</p> + +<p>—Sr. conde, eu tenho ordens a dar no governo da minha casa. Vou +mandar-lhe meu marido, e peço desculpa.</p> + +<p>Gonçalo estava como a querer esconder-se de si proprio, no escuro de um +corredor, onde as palavras sonoras da prima lhe iam apertar a alma. O homem +tinha pejo de mostrar-se ao conde, e repugnancia em confirmar o que sua prima +tinha asseverado. Era, porém, improrogavel a demora, desde que o hospede ficou +sósinho, sentado á mesa, a contar os palitos de rama, que crivavam um javali de +prata, imagem do coração d'elle, na analogia dos espinhos, e talvez na brava +natureza da alimaria.</p> + +<p>Entrou Gonçalo com aspecto de réo, se não era antes o exterior de grande +amargura.</p> + +<p>—Pelo que vejo—disse o conde—sua senhora oppõe-se ao +casamento! V. ex.ª fez mal em m'o propôr antes de saber, se era vontade...</p> + +<p>—Minha prima—respondeu urbanamente o +fidalgo—verdadeiramente<span class="pn" id="pg_132" +>{132}</span> não se oppõe; é que sentiu, melhor que eu, a +indisposição de Maria Henriqueta para o casamento, e...</p> + +<p>—Então é a menina que me rejeita?</p> + +<p>—Não o rejeita, sr. conde; recusa casar por emquanto.</p> + +<p>—E v. ex.ª porque m'o não disse ha mais tempo?! Eu fui chamado para +isso; e só agora é que sua filha acha cedo para casar?! Entre homens da nossa +qualidade, estas cousas tratam-se mais pontualmente.</p> + +<p>—Recebo com humildade as censuras, que v. ex.ª me fez—tornou +Gonçalo, ferido nos seus brios; mas soffrendo a offensa, em castigo da leveza +com que decidira do destino da filha—Pensei que Maria Henriqueta via o +mundo pelos meus olhos e sentia pelo meu coração. Enganou-me o amor de pae, e o +desejo de lhe dar esposo superior aos seus merecimentos d'ella. Minha filha vae +entrar n'um mosteiro; é a satisfação que eu posso unicamente dar a v. ex.ª.</p> + +<p>—Deixe-se d'isso!—atalhou o conde—Nada de mosteiros! Se a +duvida do casamento está na vontade da menina, deixe-a ao tempo, que ella +mudará de idéas a meu respeito. Ponto é que fale com ella, e lhe vá ganhando o +coração pouco e pouco. Pois se a menina só me viu uma vez, hontem á noite, como +ha-de ella já gostar de mim?! Deixe-me conversar com sua filha mais algumas +vezes, sr. Malafaya, e o resto cá fica por minha conta.</p> + +<p>—Da melhor vontade, sr. conde. Agora mesmo eu<span class="pn" +id="pg_133" >{133}</span> dou ordem a minha filha para ir á sala. +Queira v. ex.ª vir lá espera'-la.</p> + +<p>Quando Gonçalo voltava de acompanhar o conde á sala, saíu-lhe a esposa ao +encontro, e disse-lhe:</p> + +<p>—És tolo, meu querido primo! Desconheço o teu antigo entendimento e +desembaraço!</p> + +<p>—Que queres dizer n'isso?</p> + +<p>—Quero dizer que reduzes tua filha a achar-se a si mesma ridicula! Que +vae ella a fazer á sala? Que tem ella que dizer a esse homem, que eu não lhe +dissesse já?</p> + +<p>—Que o despersuada ella mesma.</p> + +<p>—Se ella o não persuadiu de cousa nenhuma, com que razão a forças a ir +despersuadil'-o? Tu desces da tua posição, e obrigas a descer tua filha!...</p> + +<p>Gonçalo sacudia vertiginosamente os braços, de enraivecido contra si +proprio, e de angustiado na cinta de ferro, que lhe tolhia todos os +expedientes.</p> + +<p>Maria das Dôres condoeu-se do marido, e ajuntou:</p> + +<p>—Maria irá á sala, se assim o queres; mas hei de eu ordenar-lhe que +vá, e tu has de confirmar o que ella disser com o teu silencio. D'esta +irrisoria situação só a franqueza nos póde salvar depressa.</p> + +<p>Annuiu Gonçalo, indo para o seu quarto, e fechando-se para poder chorar sem +testemunhas.</p> + +<p>Foi Maria das Dôres ao quarto da filha, onde se deteve alguns minutos. O +conde acabava de encanellar os bofes do peitilho ao alteroso espelho do tremó +dourado, quando Maria Henriqueta entrou de rosto alto e o afogueamento de uma +colera expansiva no rosto.<span class="pn" id="pg_134" +>{134}</span></p> + +<p>Sentou-se, e esperou que falasse o conde.</p> + +<p>—Está melhor, minha querida senhora?—disse elle titubiando.</p> + +<p>—Estou boa, sr. conde, e v. ex.ª parece-me excelentemente saudavel.</p> + +<p>—Não dormi cinco minutos, com o cuidado que me deu o seu incommodo de +hontem á noite.</p> + +<p>—Mal empregado cuidado!... mas muito mais por isso lhe agradeço a +prova de estima.</p> + +<p>—E de amor apaixonado, minha senhora.</p> + +<p>—Esse sentimento é que eu de todo desmereço, por que não lh'o posso +retribuir. Devo dizer a v. ex.ª que vou entrar n'um mosteiro, em satisfação á +vontade de meu pae. É aprazivel para mim satisfaze'-lo de um modo, quando me é +de todo impossivel satisfaze'-lo por outro. Meu pae deve merecer a benevolencia +do sr. conde pelos esforços que empregou em convencer-me a ser esposa de v. +ex.ª. Resisti, por que não posso. A dignidade de meu pae está salva; e eu salva +me considero da responsabilidade de fazer desgraçado o sr. conde, por +condescendencia com a vontade de meu pae.</p> + +<p>—Ahi ha outra cousa, minha senhora...—atalhou o fidalgo.</p> + +<p>—Que póde haver?</p> + +<p>—V. ex.ª ama outro homem.</p> + +<p>—Amo.</p> + +<p>—Ah!... diga-me isso... Provavelmente é mais rico e mais fidalgo que +eu? </p> + +<p>—É um homem. Que lucra v. ex.ª em saber-lhe as<span class="pn" +id="pg_135" >{135}</span> qualidades, que o meu coração não +discute? É um homem, que eu amo, ha cinco annos, e que amarei até á morte.</p> + +<p>—Isso ha-de passar com a reflexão, minha senhora. Póde ser que elle +não seja tão digno de v. ex.ª como eu, nem a ame com tanto fogo.</p> + +<p>—Será minha a infelicidade; basta-me, porém, ser amada como sou.</p> + +<p>—Pois eu queria ter o gosto de conhecer o meu ditoso rival...</p> + +<p>—Com que fim?</p> + +<p>—Queria ver-lhe a cara... Desconfio que elle seja um militar que...</p> + +<p>—Que o acompanhou algumas leguas? É esse de certo.</p> + +<p>—Está bom; fico sciente... Escolheu bem, a senhora, não tem duvida... +É um homem sem nascimento, um militar de fortuna pelos modos...</p> + +<p>—É um militar que começou por onde começam os generaes mais nobres. +Quando eu o conheci e amei era cadete; e os cadetes teem nascimento; não o +pódem ser sem justificarem a nobreza de quatro avós. E de mais, sr. conde, são +cousas escusadas estas. Eu retiro-me agradecida ao sentimento que lhe causou a +minha pouca valia, e desejo que v. ex.ª encontre n'outra esposa a fortuna que +eu de certo não posso dar-lhe.</p> + +<p>Levantou-se, fez uma mesura de espavento, como era estylo, e saíu magestosa, +afastando a cauda com garbosa arrogancia, cujas tradições ainda se +vislumbram<span class="pn" id="pg_136" >{136}</span> nas grandes +tragicas sobre o tablado, em que a vida, e a mulher, e os ademanes se conservam +nos sublimes moldes dos antigos tempos.</p> + +<p>Vae agora o mundo tão deslavado e peco, a dignidade senhoril está pautada +por esquadria tão arrazada, que, em caso identico, a menina mandada a uma sala +entender-se com um conde ácerca da impossibilidade de ser d'elle, ou não ia lá, +ou era necessario ir lá busca'-la desmaiada n'um insulto flatulento.<span +class="pn" id="pg_137" >{137}</span></p> + +<h3><a name="SECTION00405">V</a></h3> + +<p>N'essa mesma hora, o conde de Monção, digno de si e de seus avoengos, mandou +fechar as malas, e carregar a bagagem; vestiu-se apressadamente de jornada e +saíu da camara á sala para despedir-se de Gonçalo Malafaya, e das duas +senhoras. Soube o fidalgo, ainda encerrado no quarto, os aprestos de partida do +hospede, e nem animo teve de lh'os estorvar: tamanha era sua vergonha que já o +consolava a saída do conde, vexado por elle. Tanto, porém, crescia o sentimento +do seu despundonor, quanto, augmentava o da aversão á mãe e á filha.</p> + +<p>Chamado segunda vez, foi Gonçalo receber as despedidas do hospede de vinte e +quatro horas incompletas. Já encontrou na sala a prima, com prazenteiro +sorriso, e a filha de tranquilla apparencia, recebendo os agradecimentos do +infeliz fidalgo, que movia mais á piedade que á irrisão.</p> + +<p>Á piedade!... Quereria o conde, por ventura, a piedade de alguem? Os amores +desditosos só acareiam dó<span class="pn" id="pg_138" +>{138}</span> para as victimas resignadas. Umas ha que de antemão +se desopprimem em traças de vingança, e essas mais são para incutir malquerença +que pena.</p> + +<p>O adeus de Gonçalo Malafaya foi um aperto de mão convulso. O conde, para +mostrar-lhe intelligencia de muda expressão, disse com sombra de riso:</p> + +<p>—Não tem duvida, sr. Malafaya... O mundo dá suas voltas; veremos onde +isto pára!...</p> + +<p>Teria o repudiado noivo caminhado uma legua na direcção do seu solar no +Alto-Minho, quando o coração lhe transmittiu ao pulso esquerdo raivoso impeto +de sustar as redeas, e revirar a cabeça do cavallo para o Porto. Os dois +mochilas deram praça ao galope desapoderado do ginete, e seguiram, notando mais +uma das extravagancias do amo.</p> + +<p>Foi o conde apear n'uma estalagem, e d'alli avisou um fidalgo, seu primo, +que lhe preparasse aposentadoria em sua casa. Este successo, na pequena roda +dos fidalgos do pequeno Porto de então, fez grande ruido, e chegou aos ouvidos +de Malafaya como se por elles entrasse um dardo a ferí-lo em seu pundonor. +Inexgotavel calix o do atormentado fidalgo! Nem esposa, nem filha, nem a +sociedade! Todos e tudo conjurado a levá-lo ao apuro da desesperação!</p> + +<p>Ao outro dia, contavam umas ás outras as familias nobres que os Malafayas +tinham vexado o conde de Monção, despedindo-o na ante-vespera do seu projectado +e decidido casamento com Maria Henriqueta. Vingou a geral opinião de que o +conde fôra indignamente ultrajado,<span class="pn" id="pg_139" +>{139}</span> e Gonçalo um baixo offensor para tão alto +personagem. Ninguem inquiria, nem queria saber se Maria Henriqueta rejeitára o +marido. Era pormenor, que humilhava e desauctorava os paes diante de suas +filhas, uma semelhante causa. Buscaram-se, inventaram-se outras, todas falsas, +e em menoscabo de Gonçalo e de D. Maria das Dôres.</p> + +<p>Resolveu o fidalgo saír do Porto com sua familia a residir temporariamente +em uma quinta do Douro, e de lá enviar a filha ao convento de Arouca.</p> + +<p>Empeceu Maria das Dôres o plano, contradizendo-o com a precisão de mostrar +aos seus detractores que alli estavam a pé quedo recebendo os tiros da +calumnia; ajuntava ella que o mundo, vendo-os fugir, diria que elles tinham ido +esconder a sua indignidade na provincia. E rematou d'este theor:</p> + +<p>—Se te julgas bem condemnado pela opinião dos nossos <em>amigos e +parentes</em>, vae tu para o Douro. Eu e Maria Henriqueta não damos o campo á +inveja diffamadora. Ficaremos; e quando elles se calarem, iremos para onde +quizeres. Em quanto á ida de tua filha para Arouca, esse é o desejo d'ella; mas +é preciso que penses se a honra de Maria Henriqueta será mordida na sombra por +estes rafeiros e rafeiras, dando tu a isso occasião, com encerrá-la por castigo +n'um convento. Castigá-la, porquê? perguntará o mundo; e, se tu disseres que a +encarceras por rejeitar a mão do conde, o mundo fará os seus commentarios de +modo que o tal desdouro caia sobre ella como sobre ti. Pensa, Gonçalo, e não +precipites<span class="pn" id="pg_140" >{140}</span> uma +resolução, em que temos muito a perder; e a ganhar não sei o quê. Um convento é +uma casa com umas portas muito grossas; mas as portas abrem-se de par em par +quando as pessoas, que não fizeram votos de lá estar, querem sair.</p> + +<p>A força moral de Gonçalo estava exhaurida. O homem, desvirtuado ante si +mesmo, deixava-se já ir no pendor da fatalidade. Não contrariou a mulher: não +quiz mesmo ser ouvido em nada; prohibiu até que ao seu quarto entrasse o som +dos boatos affrontosos, que avultava de dia para dia.</p> + +<p>O conde de Monção não voltára ao Porto para deshonrar Gonçalo nem assoalhar +o seu desdouro.</p> + +<p>Procurou de saber em que quartel ou casa encontraria um tenente de cavallos, +vindo de Lisboa tres dias antes. As pessoas, empenhadas n'esta averiguação, +disseram-lhe que, no troço de cavallaria 6, destacado no Porto, entrára um +tenente transferido de Lisboa, moço nobre de Traz-os-Montes. Deram-lhe o nome, +a residencia e as miudezas desnecessarias.</p> + +<p>Filippe Osorio descia as escadas do seu quartel, e viu o conde em attitude +de entrar no pateo.</p> + +<p>—O sr. conde!—disse Filippe com amigo sorriso.</p> + +<p>—É verdade, meu caro sr. tenente; sou eu mesmo em pessoa que venho +contar-lhe o resto da historia, se é que a não sabe.</p> + +<p>Peço ao leitor que marque á margem do livro, com uma cruz, este dizer do +conde, porque não acha outro, que valha a nota.<span class="pn" id="pg_141" +>{141}</span></p> + +<p>—O resto da historia?!... Refere-se v. ex.ª áquelle casamento, que fez +favor de me contar ha dias?</p> + +<p>—Pois então!</p> + +<p>—Ah! agradeço extremamente a confidencia. Queira subir.</p> + +<p>—Não subo.</p> + +<p>—Como lhe aprouver, meu caro sr. conde de Monção. Não teimo, porque a +minha casa é uma barraca de campanha, e tenho cadeira e meia como ornato. Se o +não molesta a minha companhia, vamos andando e conversando até ao quartel, que +tenho obrigações a cumprir.</p> + +<p>O conde encarou-o com arremesso e disse:</p> + +<p>—O senhor está certo de eu lhe dizer, quando o senhor me falou n'um +amante da filha de Gonçalo Malafaya, <em>que ou eu ou elle</em>?</p> + +<p>—Lembra-me d'isso, nem era possivel esquecer-me cousa de tanto porte, +dita por v. ex.ª.</p> + +<p>—Não esteja a brincar comigo, sr. tenente! Parece-me que zomba!</p> + +<p>—Eu!... O sr. conde é exquisito! Zombar eu de cousa que não merece a +zombaria!</p> + +<p>—O senhor é o homem que D. Maria Henriqueta ama. Não o negue, que, m'o +disse ella.</p> + +<p>—Mesmo sem lh'o ella dizer, eu não o negaria. Adiante.</p> + +<p>—Adiante o que?</p> + +<p>—Vamos ao fim da historia, que eu tenho urgencia do tempo.<span +class="pn" id="pg_142" >{142}</span></p> + +<p>A historia acabou-se. Agora venho dizer-lhe que não será minha nem sua Maria +Henriqueta. Juro-lh'o pelo meu sangue e pelo meu nome. Um de nós ha-de morrer. +</p> + +<p>—E o que viver póde casar com ella, não é assim? Eu cuidei que v. ex.ª +tratava de a matar a ella, o que seria muito mais feio e triste. Em quanto a +mim, sr. conde, posto que me sinta um pouco amante da vida, se fôr sua vontade +arrisca'-la-hei contra a sua espada, por lhe dar gosto. V. ex.ª já fez favor de +me dizer que teve em França muitos duellos, e eu sinceramente lhe digo que não +tive ainda nenhum. Todas as vantagens são do meu contedor. Estou ás ordens, +depois de cumpridas as do meu regimento. Está satisfeito?</p> + +<p>—Os seus fóros?</p> + +<p>—Os meus fóros de fidalgo, pergunta?</p> + +<p>—Sim.</p> + +<p>—Quer v. ex.ª saber se me ha de matar como fidalgo ou como peão?</p> + +<p>—Não me meço com peões.</p> + +<p>—Isso agora é uma impertinencia, sr. conde! Afflige-me esse seu zelo +de gentil-homem, e por lhe conhecer a boa vontade que me tem, usarei a +immodestia de lhe dizer que v. ex.ª sabe quem eu sou, nem eu creio que denegue +fé á dama, que lhe disse meu nascimento e educação. Agora é minha vez de lhe +perguntar pelos seus fóros, sr. conde de Monsão.</p> + +<p>—Os meus... fóros? pergunta-me o senhor a mim...</p> + +<p>—Pelos seus fóros de honra, os fóros da sua dignidade,<span class="pn" +id="pg_143" >{143}</span> os fóros da sua vergonha. Pergunto a um +homem vil com que direito me vem pedir contas a mim do desprezo com que foi +recebido por Maria Henriqueta. Pergunto ao desprezivel conde de Monção, se é +mais estupido que abjecto, vindo provocar a duello um homem, que mal conhece, +por que me vê entre si e uma senhora, que lhe repelle a philaucia e as +grosseiras tentativas de a fazer perjura. A tal provocador é natural que eu +pergunte pelos seus fóros de honra, de dignidade, e de vergonha. Se me elle +responder com o espadim, hei de sacudir-lh'o das mãos e deshonrar-lh'o debaixo +dos pés. Sr. conde, um miseravel da sua qualidade não péde contas a homens de +bem; mata-se, e vae da'-las a Deus, quando a ignominia do mundo lhe pesa no +vacuo da cabeça. Agora, meu fidalgo, deixe-me ir trabalhar no meu cargo, porque +eu sirvo o rei, sirvo a patria, e poderei dar ámanhã o sangue por ella, em +quanto v. ex.ª, cevando na inercia os seus estupidos orgulhos, quer +desenfadar-se brincando com o credito e com o socego de uma senhora, que eu +prezo como irmã, e v. ex.ª deseja como mulher, para desempenhar a sua casa +destruida em dissipações. Nem este supremo desaire lhe falta! Até á vista!</p> + +<p>O conde de Monção estava pertencendo ao dominio da farça. Olhos arregalados +e queixo pendido é a maxima expressão do espanto. No conde era pavor a +ridiculissima compostura ou descompostura de feições. A cada palavra da +crescente apostrophe, os brios de duellista europeu derretiam-se em frigido +sangue que lhe arripiava<span class="pn" id="pg_144" >{144}</span> +as arterias. Tinha razão o homem, que os olhos de Filippe Osorio afuzilavam +raios, e os labios tremiam em crispações, que pareciam ascuas de lume. O conde +ignorava que as idéas se podessem expressar d'aquelle modo, em bocca de um +simples tenente. Ante si nunca elle vira um inimigo, jogando contra elle as +armas do escarneo, e amostrando ao mesmo tempo outras, capazes de servirem á +ferocidade. «Isto é um assassino!» dizia no fôro da sua consciencia o conde +para cohonestar a cobardia do silencio. Cobardia não é o termo proprio. +Cobardes são aquelles que sossobram na defeza de sua justiça. Outros, que +atacam direitos d'outrem, e fogem aos aggredidos, que lhes fazem rosto, esses +são apenas infames na aggressão; e, quando fogem, prestam involuntaria +homenagem á justiça. Pode-se jurar que o conde de Monção não meditava n'estas +distincções, ao retirar-se do local em que o deixára petrificado Filippe +Osorio. Circumvagou os olhos, como a certificar-se de que ninguem presenceára o +insulto, e foi seu caminho murmurando por entre os dentes cerrados:</p> + +<p>—Tu m'as pagarás, ou eu não seja quem sou!<span class="pn" id="pg_145" +>{145}</span></p> + +<h3><a name="SECTION00406">VI</a></h3> + +<p>Correspondiam-se, diariamente Maria Henriqueta e Filippe. Bafejava-os a +fortuna na pessoa de Eugenia, que a certa hora da noite dava e recebia as +cartas pelo muro do jardim. Eram felizes porque amavam, esperavam, e confiavam +nos milagres da sua constancia.</p> + +<p>O pae de Filippe era pessoa de grandes relações com a fidalguia +transmontana. Os mais superciliosos cavalheiros prezavam-se de o chamarem +primo. Todos se lhe prestavam a cooperar para persuadir a Gonçalo Malafaya o +acerto do casamento com um moço tão bem prosperado em sua carreira militar, e +de nascimento assaz illustre para emparelhar, sem desaire, com os mais +qualificados no reino.</p> + +<p>A fidalguia empenhada acertou de chamar a si os parentes de D. Maria das +Dôres, que eram tambem os de Gonçalo; mas preponderavam n'ella mais. Confluiram +á mãe de Henriqueta cartas de muitas senhoras suas amigas da mocidade, e das +suas mais intimas no mosteiro de Arouca. Uma açafata de D. Carlota Joaquina +escreveu-lhe<span class="pn" id="pg_146" >{146}</span> em nome de +sua ama. É onde podia chegar a influencia do fidalgo de Mirandella, mais por +amor do filho que da riqueza da noiva.</p> + +<p>Maria das Dôres inclinou-se a favor de Filippe, e mostrou ao marido a +petição da açafata. Gonçalo Malafaya, quando tal viu, soffreu um accesso de +vertigem furiosa, e rasgou a carta entre os dentes. D. Maria teve medo dos +arremessos do marido, e deixou-o bravejar e urrar contra a conjuração dos seus +matadores.</p> + +<p>Maria Henriqueta, amoravel com seu pae por que tinha a trasbordar o amor do +peito, affrontou-se com o medo, e foi supplicante aquietar-lhe os impetos. O +velho repelliu-a com arrebatada virulencia.</p> + +<p>Velho lhe chamei eu pela primeira vez: estava-o deveras; sem um cabello +negro, e não tinha ainda quarenta e oito annos! Fibra no rosto uma só não tinha +lisa do arar do fogo interior. Abaixo do rebordo das orbitas parece que o +absyntho das lagrimas lhe calcinára a pelle. Inclinava-se já para o chão, como +a pedir á terra que o acolhesse e escondesse do seu mau anjo! Nas horas de +solidão, poderiam ouvi'-lo exclamar muitas vezes: «Ó Beatriz de Noronha! +tira-me este calix dos labios, ou verte-m'o de uma vez no coração, para que eu +morra de uma só agonia!»</p> + +<p>Que flagello de vida no seio da riqueza! que inferno n'aquelle palacio, +arreado de sedas, de librés, de equipagens, de tudo que morde a inveja, e +conjura a pobreza contra a caprichosa partilha de Deus!</p> + +<p>Ergueu-se um dia Gonçalo Malafaya, ao cabo de uma<span class="pn" +id="pg_147" >{147}</span> noite infinita de calculos dilacerantes. +Alumiava-lhe o rosto o clarão sinistro da demencia. Viram-n'o esposa e filha, e +gelaram de medo. Era a horas de almoço, ao qual desde muito o fidalgo não +assistia. Entrou inesperado, cruzou os braços, e exclamou com energica +vehemencia:</p> + +<p>—É ámanhã!</p> + +<p>—Ámanhã o quê, primo Gonçalo?</p> + +<p>—Que a má filha ha de entrar no convento de Arouca, senão hei de +dar-te um punhal para que m'o enterres no peito.</p> + +<p>—Irei, meu pae, irei hoje mesmo, se v. ex.ª o determina.</p> + +<p>—É ámanhã—bradou elle.—Eu morrerei depois de ámanhã. +Quando eu estiver sobre terra, sáe do convento, cospe na minha cara, e +levanta-te com a herança da casa de teus avós e com a minha maldição.</p> + +<p>Maria Henriqueta encostou o peito ao bordo da mesa, e cobriu o rosto com as +mãos. Chorava; e o pae sentiu-se mais desopprimido com as lagrimas da filha. +Deu alguns passos até defrontar com ella, e disse:</p> + +<p>—Essas são as menos amargas que tu choras. Outras virão... tenho aqui +na alma o presagio de outras, que has de verter sobre o cadaver do homem que me +aponta ao peito o ferro, com o braço guiado pela mão de minha mulher.</p> + +<p>—Penso que enlouqueceste, primo!—disse Maria das Dôres.</p> + +<p>—Emmudece, serpente!—exclamou em furia o transfigurado<span +class="pn" id="pg_148" >{148}</span> velho.—Enroscaste-te á +minha mocidade, mataste aquella creatura divina, mataste a minha alegria, +empeçonhaste o coração de tua filha, e estás agora minando-me a sepultura para +esconderes de ti este phantasma de remorsos!...</p> + +<p>A syncope, em que desfechou a desarrazoada apostrophe, delatava que os +receios da loucura não eram de todo panicos. N'aquellas accusações era +manifesta a injustiça.</p> + +<p>Bem viram que Maria das Dôres foi de todo alheia ás desventuras de Beatriz +de Noronha, sobre ser obrigada a acceitar o marido, proposto desde a sua +infancia. O leitor póde negar sua sympathia ao caracter de Maria das Dôres; +mas, se a punir com o seu odio, é injusto. Pender, em bem da filha, contra a +imposição do casamento, é virtude para muitos louvores. Se o fez por animo +contradictorio, feliz culpa a sua; se por experiencia de sua desgraça, +abençoada defesa da pobre menina, e abençoada sempre, embora estes infelizes +todos se venham a abismar guiados por suas estrellas funestas.</p> + +<p>—Vae para o convento, Maria—disse a fidalga á filha.—Fia +de mim que pouco tempo lá estarás. Eu hei de vencer teu pae, com habilidade e +paciencia. Vou fazer, por teu amor, o sacrificio da humildade. Mas agora é +preciso que vás. Se teu pae morre, tens de soffrer remorsos, e remorsos que hão +de assaltar-te os dias todos da vida, embora os goses com o homem que amas. Com +tempo, serás esposa d'elle; mas faz muito pelo seres com a consciencia +tranquilla.<span class="pn" id="pg_149" >{149}</span></p> + +<p>Maria Henriqueta rompeu em choro nos braços de sua mãe, e foi d'alli +escrever a Filippe, contando-lhe o seu destino, e as promessas da mãe. O tão +apaixonado como generoso moço incitou-lhe a coragem do sacrificio, pedindo-lhe +que o offerecesse a Deus como merecimento para ambos lhe merecerem mais tarde a +sua benção.</p> + +<p>Ao outro día, Maria entrou n'uma liteira com sua mãe, seguidas do simples +prestito do capellão, a ama, creadas e lacaios.</p> + +<p>Maria das Dôres, a antiga aia da Santa rainha Mafalda, entrou no seu quarto +de infancia, e no de suas defuntas tias; e os dias de então, e só esses do seu +passado, lhe vieram á memoria e amolleceram o coração até ás lagrimas.</p> + +<p>A reclusa menina, ao ver-se alli, no calado dos claustros, debaixo dos +profundos firmamentos, n'um dia em que os sinos dobravam á agonia de uma +religiosa, e quando outra recebia as ultimas honras da sepultura, Maria +Henriqueta pensou que ia morrer, e assim o disse na primeira carta, enviada a +Filippe.</p> + +<p>Demorou-se a mãe alguns dias no mosteiro, e apressou a saída, quando receou +pelos dias de Maria Henriqueta. Foi o seu proposito, ao retirar-se, mover o pae +a consentir no casamento, ou romper abertamente com elle e com o mundo, +protegendo a fuga da filha, se outro expediente não viesse em redempção d'ella. +</p> + +<p>Ausente a mãe, augmentaram os terrores de Maria, e as lastimas nas cartas +escriptas a Filippe. Em algumas,<span class="pn" id="pg_150" +>{150}</span> pedia-lhe ella que a salvasse, pelo muito que ella o +amára, e pelas muitas dôres com que quizera merecel'-o. Salval'-a era +arrebata'-la do convento, fugir com ella, cumprir o juramento que lhe tinha +feito, quando a chamou ao quarto da ama. Ao mesmo tempo, contava-lhe as +nenhumas esperanças que a mãe lhe dava, e as diligencias que o pae fazia, para +o remover para o ultramar, e tirar-lhes a possibilidade de se cartearem. D'isto +lhe déra aviso a mãe, assegurando-lhe que as cartas de Filippe, apesar do +suborno tentado no correio, haviam de chegar-lhe sempre á mão.</p> + +<p>Enganára-se Maria das Dôres com as promessas do empregado na transmissão das +cartas. Maria Henriqueta, ao fim de tres afflictivas semanas, enviou um proprio +a Filippe, perguntando-lhe a razão porque a desamparára.</p> + +<p>O tenente de cavallaria tinha de marchar n'aquelle dia com o regimento para +Lisboa, onde se estava resenhando o exercito para começar a lucta com a França, +cujos generaes se avisinhavam das fronteiras.</p> + +<p>Pediu licença o tenente por dois dias: foi-lhe negada. Empenhou por si os +seus amigos, senhores do segredo da sua vida; baldaram-se as solicitações. +Filippe Osorio, á ultima hora, quando os clarins já tocavam a reunir á porta do +quartel, viu a imagem de Maria Henriqueta, e ouviu um como gemido de moribunda, +e um falar assim de quem se despede: «Vae, e volta alguma vez á minha +sepultura!»</p> + +<p>O tenente tomou as redeas do cavallo que o auxiliar<span class="pn" +id="pg_151" >{151}</span> lhe offerecia, passou por diante dos +clarins que o chamavam, viu ao longe, no occidente das esperanças da gloria, +sumir-se a sua estrella, e fitou os olhos n'outra, que o chamava sobre um leito +de agonia.</p> + +<p>Desertou.</p> + +<p>A mancha era negra; mas o disco resplendoroso, que lhe alumiava o coração e +o ar em que ia aspirando a liberdade louca de amante, não lhe deixava ver a +negridão da deshonra militar.</p> + +<p>Na primeira terra em que pôde escrever liberalisou estipendio a um portador +que levasse uma carta a Mirandella. Era um aviso a seu pae. Noticiava-lhe a +deserção e o intento de roubar Maria ao convento e á morte. Pedia-lhe que +estivesse um clerigo prestes a recebe'-los, logo que alli chegassem, e o +dinheiro necessario para se refugiarem em Hespanha ás penas militares, e á +perseguição de Gonçalo Malafaya.</p> + +<p>Apeou em Arouca, e procurou Maria. Nenhum impedimento lhe estorvou +falar-lhe. Acolheram-no na aposentadoria monacal, como primo da fidalga, que as +religiosas amavam pelo muito que a viam padecer. Deu ella o plano da fuga, não +facil, nem talvez exequivel. Maria devia transpor um muro, que seria morte +certa, se o pé lhe resvalasse de um galho de arvore, em que fiava o apoio para +segundo salto á estrada. Impugnou-lhe o plano o susto de Filippe; e ella, para +aquieta'-lo, prometteu pensar em menos perigosa evasiva; mas pediu-lhe que +tivesse os cavallos arreados na seguinte noite.</p> + +<p>A lua banhava de livido alvor as paredes do templo.<span class="pn" +id="pg_152" >{152}</span> O derradeiro nocturno tinha soado no +campanario, alteroso vigia, como posto alli em guarda das esposas do Senhor. As +paixões e as virtudes dormiam ou pareciam dormir lá dentro do mesmo somno. Cá +fóra ramalhavam os arvoredos, e o norte assobiava nos agulheiros das torres. +</p> + +<p>Maria Henriqueta occupava um quarto sem rexas nem rotulos, logar +privilegiado das reclusas, que inspiravam á prelada inteira confiança. O salto +á cerca era facil e seguro, com o poderoso auxilio de um telhado de ermida +contigua á parede. D'este ao jardim, só mulher que não amasse acharia perigoso +o descer. Maria nem de leve sentiu o baque. Ficou sentada na relva, e ergueu-se +logo, correndo para o muro, e procurando, entre as gabellas de varas podadas +das videiras, uma escada de mão, que encostou á parede. Escalando o muro, +tremeu da altura exterior, e viu que se enganára na distancia da arvore, que +devia ajuda'-la na descida. Fincou os joelhos ao cume da parede, e foi-se +arrastando até ao ponto da arvore, que o vento sacudia. Este inesperado +incidente desalentou-a; só estando queda a arvore ella poderia aferrar-se aos +ramos mais robustos, e verga'-los até tomar pé no galho chapotado. Estava ella +assim aterrada e immovel com a vista desarmada a um e outro lado, quando, +d'entre as arvores da outra orla do caminho, surgiu um vulto, que a gelára de +medo, se a voz o não denunciasse ao mesmo tempo.</p> + +<p>—Eu esperava isto...—disse Filippe.</p> + +<p>—Já tenho animo!—exclamou ella.<span class="pn" id="pg_153" +>{153}</span></p> + +<p>—Espera!</p> + +<p>Filippe, tirando o manto e a farda, que lhe empeciam os movimentos, marinhou +pelo tronco da arvore até fincar o pé no rebento que dava sobejo e seguro apoio +a maior peso. Depois cingiu com o braço esquerdo o tronco, e disse a Maria que +se pendurasse no ramo mais forte, e eminente á cabeça d'elle. Maria correu as +mãos mimosas por sobre as asperezas da ramagem, e recurvou os dedos no mais +afastado e grosso ramo que poude. Deixou o corpo ao seu natural pendor, +impellindo-se com o pé fóra do muro. O despenho seria infallivel, se Filippe a +não repuxasse a si, apertando-a ao peito com o braço direito.</p> + +<p>Maria Henriqueta ria n'esta situação, e dizia:</p> + +<p>—E se caímos abraçados?!</p> + +<p>—Firma-te!—disse serenamente Filippe.—Apega-te ao tronco +da arvore, que eu vou descer. Passa os teus pés devagar para o logar dos +meus... Assim... Agora, larga-me, e segura-te... Bem... espera um pouco.</p> + +<p>Disse, e saltou ao caminho; mas não se susteve em pé porque era grande o +salto. Maria sobresaltou-se, e quiz resvalar agarrada ao tronco; mas Filippe já +estava erguido, rindo da sua queda para serenar Maria.</p> + +<p>Encostou-se á arvore, e disse:</p> + +<p>—Desce, até encontrares os meus hombros com os pés. Depois, sem largar +o tronco, deixa-te descer conforme eu me fôr abaixando, e salta quando eu te +disser.</p> + +<p>A execução da facil manobra foi feliz. Elles ahi vão,<span class="pn" +id="pg_154" >{154}</span> embrulhados no mesmo manto. Maria está +vestida de branco, e Filippe receia que o ar picante da noite a moleste. +Coração em labaredas levam elles; mas o fogo intimo não basta a retemperar a +temperatura da atmosphera. Os catarrhos são pensão de amadores nocturnos.</p> + +<p>Estão os cavallos arreados na aldeia proxima, á mão do velho e leal creado +de Filippe. Maria vê o velho, e chora pela sua ama, a quem não deu o ultimo +abraço para a não ver morrer. Filippe quer consola'-la, mas não sabe. O creado +velho sabe a razão das lagrimas, e diz:</p> + +<p>—Quando chegarmos a terra segura, eu volto a buscar a velha. +Arranja-se tudo; a morte é que não tem remedio.</p> + +<p>Maria consolou-se.</p> + +<p>Cavalgaram, e partiram. Ao dobrarem o primeiro outeirinho, Maria apontou +para a torre do mosteiro, e disse:</p> + +<p>—Que medo me faz aquillo! parece um phantasma! Que horriveis horas +aquelle sino marcou na minha vida, ó Filippe!</p> + +<p>—Deixa-o agora marcar annos de felicidade, minha esposa.</p> + +<p>—Quantos marcará, ó Filippe?!!...</p> + +<p>Soaram tres badaladas.</p> + +<p>—Só?!—exclamou ella com supersticioso terror.</p> + +<p>—Não sejas creança, Maria! disse Filippe.—Aquillo quer dizer que +são tres horas.</p> + +<p>Caminharam.<span class="pn" id="pg_155" >{155}</span></p> + +<p>O frio da manhã golpeava o rosto de Maria, e as redeas caíam-lhe dos dedos +entrezilhados.</p> + +<p>Filippe sentou-a sobre as capas dos coldres, apertou-a ao seio, e +aqueceu-lhe as mãos no acolchoado da farda. E assim caminharam, até que o sol +dourou o melhor dia d'aquellas duas existencias.<span class="pn" id="pg_156" +>{156}</span></p> + +<p><span class="pn" id="pg_157" >{157}</span></p> + +<h3><a name="SECTION00407">VII</a></h3> + +<p>Entraram ao romper d'alva em Mirandella, a hora em que os irmãos de Filippe, +desconfiados da demora do irmão, saíam a procura'-lo no caminho de Arouca. Ás +dez horas da manhã d'esse dia, celebrou-se o casamento na capella da casa, por +ministerio de um abbade parente do noivo, homem que não lera no Evangelho o +preceito do consentimento paterno para a validade do sacramento. Foram +testemunhas os irmãos do esposado, e padrinhos os paes.</p> + +<p>Ao outro dia chegou a Mirandella a ditosa Eugenia, que o fiel creado fôra +buscar, deixando em Amarante os amos. Contou ella que na tarde d'aquelle dia da +fuga chegaram a Arouca alguns soldados de cavallaria, com um commandante, +pedindo novas de um tenente, que desertára; e que n'essa mesma tarde tinham +saído para outros sitios.</p> + +<p>Comprehendeu Filippe o perigo da sua situação, e quiz fugir, antes que a +Bragança, quartel do seu regimento, chegassem ordens para a sua captura. A +parentella<span class="pn" id="pg_158" >{158}</span> votou unanime +pela resistencia, confiada no poderio que exercia sobre o povo. Filippe +combateu o denodo inopportuno, por amor de sua esposa, a quem tristes festas de +nupcias seria uma briga sanguinaria do povo com a tropa.</p> + +<p>Muniu-se o desertor de basto dinheiro para dois annos de desterro, e +internou-se em Hespanha, com os dois velhos creados, que entre si se queriam +por terem sido, em seis annos, os confidentes dos infelizes amores de seus +amos, já agora unidos sagradamente para sempre.</p> + +<p>Deixemo'-los em Hespanha procurar o remançoso eden de seus anhelos. Irão a +Sevilha? a Granada? a Cordova? Irão a toda a parte, hão de encontrar as +delicias reflectidas do céo que levam na alma.</p> + +<p>Deixa'-los, que é delicadeza não irmos de pós elles. A suprema felicidade de +dois noivos tem o seu pudor, que se quer resguardado de olhos alheios.</p> + +<p>Vamos ao Porto, e entremos em casa de Gonçalo Malafaya.</p> + +<p>Ao amanhecer do dia immediato ao da fuga, chegou de Arouca o enviado da má +nova. O fidalgo, que já sabia da deserção do tenente, e incitára a saída do +destacamento para captura'-lo em Arouca, nem por isso ficou menos +surprehendido. Correu ao quarto de Maria das Dôres, e exclamou:</p> + +<p>—Maria Henriqueta fugiu do convento!</p> + +<p>—Estás a sonhar, ou sou eu que sonho?!—disse a esposa.</p> + +<p>—Alli está o portador de Arouca! Fugiu sua filha,<span class="pn" +id="pg_159" >{159}</span> senhora! Ahi tem a sua obra! Faltava-me +esta deshonra: devo-lh'a, senhora, devo-lh'a, como ultimo golpe, que me ha de +matar!</p> + +<p>Disse, e refugiu para o seu quarto, tropeçando nos corredores, não aclarados +ainda pela luz da manhã. Pouco depois, voltou á camara da esposa, e bradou:</p> + +<p>—A senhora está na cama?! Levante-se que é preciso protestar contra a +ignominia que pesa sobre nós! Levante-se, que d'aqui a pouco seremos insultados +pela canalha! Vista-se de lucto, e quero que todos os meus brazões de armas, em +todas as minhas casas e quintas, sejam cobertos de negro! Maldita seja a mãe +que perdeu sua filha!</p> + +<p>D. Maria agitou com força a campainha, e disse ao marido:</p> + +<p>—Queira retirar-se, que vem as creadas vestir-me.</p> + +<p>Entraram as creadas de baldão, quantas havia na casa, e a senhora disse a +uma d'ellas:</p> + +<p>—Vae dizer ao capellão que procure os primos Mellos e os primos +Peixotos, e lhes diga que venham cá ter mão no sr. Gonçalo que foi atacado de +um accesso de demencia.</p> + +<p>Foi a creada dar o recado. O capellão ouviu-o, e benzeu-se com a mão +direita; saíu do quarto e benzeu-se com a esquerda; e ao transmittir a infausta +noticia a Mellos e Peixotos, benzia-se com ambas as mãos.</p> + +<p>Acudiram os primos e Gonçalo recusou-se a recebe'-los, cuidando que vinham +ao cêvo do escandalo para ultraja'-lo com fingidas caramunhas. Ouviram a +prima<span class="pn" id="pg_160" >{160}</span> Maria, e convieram +em que a fuga de Maria Henriqueta para casar com Filippe Osorio Vaz Guedes da +Fonseca, tão fidalgo como ella, não merecia tamanhos alvorotos, nem a loucura +do primo Gonçalo, por tal motivo, captivaria a compaixão publica.</p> + +<p>Repellidos do quarto do velho, segunda e terceira vez, os fidalgos saíram a +divulgar o caso sem o classificarem de deshonra, imputando, porém, a culpa +d'ella, se culpa havia, ao pyrronismo de Gonçalo Malafaya, que sonhava com +enxertar um conde na familia, ainda que o conde fosse um tolo e um perdulario. +</p> + +<p>Ao meio dia estava Gonçalo vestido de rigoroso lucto, e os lacaios de lucto +tambem.</p> + +<p>D. Maria das Dôres vestia de azul claro e ordenava ás suas creadas que se +escusassem de completar a irrisão da casa.</p> + +<p>Entrou o fidalgo na sua carruagem, e foi a casa de todos os magistrados do +crime pedir justiça. Acolheram-n'o com respeitosa compaixão, e prometteram +precatorias para os fugitivos serem presos, onde quer que a policia os +descobrisse. Gonçalo a todos disse que dava os seus haveres pela captura de +Filippe, e a si proprio se venderia para pagar os ultimos ceitis aos esbirros. +</p> + +<p>As cartas precatorias saíram desde logo para differentes pontos do reino, e +algumas para Hespanha. E, ao mesmo tempo, as justiças militares tiravam +summario despacho para a captura do desertor.</p> + +<p>Maria das Dôres, sciente dos mandados judiciarios, enviou pessoa de sua +confiança a Mirandella, avisando<span class="pn" id="pg_161" +>{161}</span> o pae de Filippe Osorio, e escrevendo a sua filha +uma carta mais de indulgencia que de recriminação. «O mal está +feito,—dizia-lhe ella—mas em parte considero-o sanado pelo +casamento. Escondei-vos cautellosamente, em quanto a tempestade ameaça +fulminar-vos com a vergonha de uma prisão. Não entreis em Portugal sem que eu +vo'-lo diga; nem vos mostreis em Hespanha, porque as ordens hão de lá chegar, +em mãos de quem primeiro as encheu de ouro nos cofres de teu pae, etc.»</p> + +<p>A carta foi dar ás mãos de Maria Henriqueta, que a essa hora trajava de +homem, e se chamava em Hespanha D. Luiz de Castro, irmão de D. Pedro de Castro, +nomes inscriptos no passaporte de Filippe Osorio.</p> + +<p>Estavam então em Sevilha, e tão descuidados, tão ebrios de seu amor, que nem +a carta os alvoroçou. «N'esse tempo (dizem os apontamentos que tenho á vista) +figurando ella de lindissimo moço, deu-lhe que fazer o amor das hespanholas, +que morriam por elle; e <em>D. Luiz de Castro</em> sustentava os namoros, para +rir com o marido, mas sem saber que saída a final lhes daria.»</p> + +<p>Pernoitavam os ditosos esposos em Segovia, onde os anteciparam cartas da +capital da provincia, recommendando os dois <em>Castros</em>, cavalheiros +portuguezes. Convidou-os o alcaide para uma tertulia, e banqueteou-os no dia +seguinte, a pedido das filhas, que eram duas, e cada qual se apaixonára do seu +Castro. Praticaram-se cousas de Portugal, e caíu a proposito perguntar o +alcaide aos<span class="pn" id="pg_162" >{162}</span> seus +hospedes se conheciam um Filippe Osorio Vaz Guedes da Fonseca, desertor de +cavallaria 6, que havia roubado de um mosteiro a filha de um <em>fidalgo</em> +de linhagem, solarengo no Porto.</p> + +<p>Disse <em>D. Pedro de Castro</em> que sobejamente conhecia o desertor. +Contou miudamente a historia triste dos seus amores com a filha do fidalgo, e +tão a enternecer o disse que as sensiveis hespanholas choraram de ouvi'-la, e o +alcaide jurou que rasgaria a ordem, que tinha, de prende'-los se alguma vez +reconhecesse os sympathicos fugitivos no seu districto. A intimidade cresceu +tanto entre a auctoridade e os hospedes, que, decorridos alguns dias, Luiz de +Castro appareceu vestido de Maria Henriqueta ao alcaide e ás filhas, que +ouviram d'ella a historia, repetida com mais graça e affectuosa tristeza, dos +seus amores com Filippe Osorio.</p> + +<p>Desde essa hora, o magistrado hespanhol não velaria com mais zelo a +segurança de seus filhos. Onde quer que iam, lá os antecipava a influencia do +alcaide, de modo que se viam em toda a parte festejados os dois cavalheiros +portuguezes, e requestados de quantas damas os abrasavam com os olhos e com o +chocolate.</p> + +<p>Segovia era o logar onde iam a desfadigar-se das excursões ás provincias, e +onde as cartas do reino iam dar com elles.</p> + +<p>Na casa do alcaide deu á luz Maria Henriqueta uma menina, findo o primeiro +anno de casada. E então acabaram as excursões, e retiraram-se a uma quinta dos +arrabaldes para, a salvo de suspeitas, se despirem das<span class="pn" +id="pg_163" >{163}</span> ficções, e viverem em toda a ingenuidade +de esposos e paes. Lá lhes eram assidua companhia as duas filhas do generoso +hespanhol, proprietario da quinta. Alli vieram os irmãos de Mirandella visitar +o irmão, e dar-lhe a boa nova de quasi esquecimento em que estava sua deserção. +N'este ensejo foram elles portadores de carta de D. Maria das Dôres, que, em +resumo, dizia: estarem mais benignos os ares; mais brando o coração do pae, +tendo já dito que antes queria ver a filha e perdoar-lhe, que receber a noticia +da morte d'ella. Accrescentava que este dizer não a auctorisava a chamar a +filha; porque o pae tinha intercadencias de prostração, quando perdoava, e de +cólera quando pedia vingança aos céos, e insultava os magistrados como inertes. +Terminava, recommendando-lhe que se tivesse sempre em guarda, e se fiasse só de +sua mãe, quando a chamasse.</p> + +<p>Decorreram seis mezes. Sempre o céo claro sem nevoa; sempre a ventura +candida e pura como o sorriso da creancinha, que dissereis vinda do céo a +completar o grupo da suprema bemaventurança na terra. Para cumulo de +felicidade, chegou a Segovia uma carta de D. Maria das Dôres, dizendo á filha: +</p> + +<p>«Vem, agora sem receio. Venci teu pae, com as armas da humildade. Só por +amor de ti as empregaria. Perdoa-te, recebe-vos, quer-vos para filhos. Sabe que +tem uma neta. Disse-lh'o eu, quando o vi tão bom! Perguntou-me estupefacto como +eu o sabia. Occultei-lhe os promenores; disse-lhe em suma, que eu fôra sempre +mãe. Fitou-me de um certo modo, que me incutiu<span class="pn" id="pg_164" +>{164}</span> receios de me ter enganado: mas, em seguida, voltou +á sua segunda natureza compadecida. O peor, filha, será o crime de teu marido, +que o força a livrar-se, e agora as leis militares inglezas creio que são +severas para desertores. Se vês que teu marido tem grandes trabalhos a vencer, +antes o desterro com a liberdade; e mais ao diante valeremos mais com as leis +se teu pae quizer protege'-lo etc.»</p> + +<p>Ao mesmo tempo, o fidalgo de Mirandella dizia a seu filho que andava +dispondo as cousas para elle ser julgado e absolvido. Que alcançára promessas +favoraveis, e esperava em breve manda'-lo recolher á patria, com a certeza da +absolvição.</p> + +<p>Que luz tão formosa as estrellas funestas irradiam ás vezes! Como a desgraça +negaceia com as suas victimas dilectas! Que pena me faz ir d'aqui através +cincoenta annos, e por entre o pó de uma geração dispersa no ar, áquella quinta +suburbana de Segovia, e contemplar aquelles dois esposos com a filhinha entre +os peitos de ambos, arrobados de alegria, dando-se os parabens da sua final +victoria, e saudando as alegrias da patria, só inferiores ás alegrias de dois +corações triumphantes sem infamia, felizes sem remorsos! Com que vontade eu +quebraria aqui a penna, se tenho de tirar d'ella paginas negras da vida dos +dois tão dignos, tão abençoados, tão bemquistos da leitora que amou ou ama, do +pae que perdoou ou tem de perdoar um dia, do mundo que sentenceia, ou já +sentenciou paixões, que exorbitam do estadio commum! Ai! eu antes queria +inventar, antes<span class="pn" id="pg_165" >{165}</span> mentir, +antes lançar de mim com asco estes apontamentos!</p> + +<p>Eu sei como a vida podia ter lances de contentar a phantasia. Quantas vezes, +em historias imaginadas, eu levo posto o fito n'uma caverna onde os meus +personagens vão caír; e já perto, já com elles á borda do despenhadeiro, +sustenho-me, chamo-os, acaricio-os, salvo-os, e dou-lhes a gloria, em vez do +inferno que lhes fôra talhado! Como eu fico então contente de mim, e o leitor +contente d'elles! Só n'estes conflictos é que eu avalio os thesouros da +imaginação, e o segundo <em>fiat</em> de mundos moraes que a magnanimidade +divina concede aos romancistas.</p> + +<p>N'esta historia queria, e não posso. Estou coacto e maniatado ás +gramalheiras da noticia, que me foi ministrada por pessoa, que me obrigou o +juramento de não falsear a verdade.</p> + +<p>E, de mais, se eu conseguir levar ao tumulo dos meus infelizes uma lagrima +da leitora; se alguma hora, subir da terra um pensamento ao céo dos martyres, +não será esse favor da piedade um bem tão consolativo para elles? A quem hão de +elles agradecer o pensamento e a lagrima se não a mim, que lhes contei os +infortunios, e, em vez de um epitaphio, lhes colloquei uma urna para os que lá +quizessem chorar, e a mais triste pagina d'este livro para quem quizer +consolar-se das suas nas desventuras alheias?</p> + +<h3><a name="SECTION0040710">FIM DA SEGUNDA PARTE</a></h3> + +<p><span class="pn" id="pg_166" >{166}</span></p> + +<p><span class="pn" id="pg_167" >{167}</span></p> + +<h2><a name="SECTION00500">TERCEIRA PARTE</a></h2> + +<h3><a name="SECTION00501">I</a></h3> + +<p>Vieram os esposos acompanhados até á fronteira pelo alcaide e suas filhas. +Ahi se despediram com muitas saudades e esperanças de se encontrarem, passados +dois annos, no Porto. O cavalheiroso hespanhol disse a Filippe Osorio e á +consorte: «Se alguma vez fordes desgraçados na patria, lembrae-vos do céo de +Hespanha, e do vosso segundo pae, e de vossas irmãs. Em nossa casa sois familia +nossa; e já sabeis que em toda a Castella sois como bons filhos da nossa boa +terra. Seja a nossa amizade um modelo do que deviam ser os irmãos da peninsula, +os que se apartaram eternamente odientos em Aljubarrota e Montes-Claros. Se +fordes felizes, nem por isso nos esqueçaes.»</p> + +<p>Chegaram a Mirandella. D'ahi escreveu Maria Henriqueta a sua mãe +perguntando-lhe se podia ir para o Porto confiada no perdão do pae. A resposta +carecia de<span class="pn" id="pg_168" >{168}</span> inteira +affirmativa; mas accedia ao desejo da filha. «Teu pae, ponderava D. +Maria—diz e desdiz; ora condemna, ora perdôa; todavia, eu conto comigo e +tu com a tua filhinha. Por mais mal que te faça, serão só palavras: e palavras +o vento as leva, e outras te dirá depois que te compensem algum dissabor. Em +todo o caso, vem, que eu vou dar o ultimo assalto, e segurar o lanço.</p> + +<p>Escripta esta carta, D. Maria das Dôres convidou o marido a passar duas +horas em seu quarto, antes de recolher-se. Gonçalo accedeu ao geito blandicioso +da esquiva prima, raras vezes meiga. A soledade, a tristeza, a velhice, e o +quasi desamparo em que o deixaram amigos e parentes, crearam n'elle a precisão +dos carinhos.</p> + +<p>Foi Gonçalo ao quarto de sua mulher, e encontrou-a lendo a carta de sua +filha.</p> + +<p>—Quem te escreveu, prima?—disse elle.</p> + +<p>—Foi a nossa pobre Maria Henriqueta.</p> + +<p>—Tem fome por lá? O amante abandonou-a?</p> + +<p>—Não digas «amante», primo. Marido é o nome que tem.</p> + +<p>—Marido, sem o meu consentimento! As leis não me dispensam de ser +ouvido. </p> + +<p>—Dispensa-te a lei de Deus, meu Gonçalo. Estão casados, e eternamente +casados.</p> + +<p>—Pois que sejam felizes.</p> + +<p>—A nossa filha só póde ser feliz com o teu perdão.</p> + +<p>—Tu ahi tornas!...</p> + +<p>—E tornarei sempre; quer Deus que eu seja a sua voz ao teu bom +coração. Perdoa-lhe, primo!<span class="pn" id="pg_169" +>{169}</span></p> + +<p>—Foi para isto que me chamaste?! Eu logo vi que era demencia esperar +allivios... Se ella tem fome, manda-lhe dinheiro; se está abandonada, diz-lhe +que torne para o convento, e lá terá abundancia.</p> + +<p>—Nem fome, nem abandono, Gonçalo! Parece que dás mui baixo preço a tua +filha! Aquella menina tão linda e prendada, haveria homem que a abandonasse? +</p> + +<p>—Linda era a outra que...</p> + +<p>—A outra qual?</p> + +<p>—Nada...—disse Gonçalo, sacudindo a visão de Beatriz de +Noronha.</p> + +<p>—Ignoras tu—proseguiu D. Maria—que o pae de Filippe é +rico, e extremoso pelo filho? Eu sei que os esposos viveram em Hespanha com +todas as commodidades, e nunca Maria me pediu a menor cousa, nem as suas joias, +nem os seus vestidos. O que ella pede é a estima de seu pae, e quer pedir-te +perdão pela bocca de sua filhinha, que tem sete mezes. Não se te alegra o +coração com a esperança de teres nos braços uma creancinha, filha de nossa +filha?</p> + +<p>—Que fatalidade!... Mais uma mulher!...—exclamou elle com +entonação pouco abonatoria do seu bom siso.—Então isto é uma cadeia de +desgraças? Melhor lhe fôra á mãe desobediente esmagar a filha no berço, para +não crear ao seio a vibora que me ha de vingar!</p> + +<p>—Cala-te, meu primo, meu querido Gonçalo! Que sombrios vaticinios os +teus! Quando te alumiará a Providencia Divina essa escuridade em que vives?</p> + +<p>—Ha de alumiar-m'a a lampada da sepultura. Isto<span class="pn" +id="pg_170" >{170}</span> em mim é o horror das trevas eternas, +sem mais luz nem esperança!</p> + +<p>—Ora, vem cá, filho!—tornou com extrema maviosidade a esposa, +tomando-lhe as mãos, e aconchegando-as do peito—Não desprezes a luz que o +céo te manda nos olhos carinhosos da tua netinha. Verás que vida nova se nos +faz na velhice. Has de sentir o que é consolar-se a alma perdoando. Sabes tu +quantas penas terá curtido nossa filha, desterrada, por terras extranhas, +mudando de nome para não sacrificar o marido...</p> + +<p>—O marido! atalhou em voz soturna Gonçalo—O marido! Se ella +podesse convencer-me de que não casou... perdoava-lhe!</p> + +<p>—Não digas tal, primo, por dignidade nossa e d'ella! Pois tu negas +perdão á esposa, e da'-lo-ias á concubina?! Cala-te, que desvarias; a tua razão +e coração devem contradizer esse desatino, que é uma doença do teu espirito. Eu +sou mulher, e mãe, e não perdoaria á filha, que, contra nossos conselhos, se +tivesse sacrificado a um infame seductor. Torna em ti, meu primo, e convence-me +de que estás bem com a tua consciencia, perdoando o mal, que te fez a +desgraçada, que só por amor invencivel poude desobedecer-te. Aqui tens a carta +que me ella escreve de Mirandella; olha estas expressões: <em>Ás vezes penso +que meu pae ha de amar muito esta creancinha, que tem já no rosto signaes de +vir a ser muito parecida com elle. Se eu podesse mandar este anjo adiante de +mim, seria elle quem me abrisse as portas do paraizo de minha familia</em>: Vês +tu? É a tua Maria<span class="pn" id="pg_171" >{171}</span> +Henriqueta que fala assim ao teu coração. Tu já lhe perdoaste, não é +verdade?—continuou a esposa com transporte, beijando-lhe as mãos e o +rosto—Posso dizer-lhe que venha afouta beijar estas mãos, que eu beijo +tão reconhecida como ella?</p> + +<p>Gonçalo caíu sobre a cadeira d'onde, momentos antes, se levantára na tenção +de fugir do quarto. Escondeu o rosto no seio, e passados anciosos instantes, +murmurou:</p> + +<p>—Que venha; mas que eu a não veja.</p> + +<p>Saiu Maria das Dôres vaidosa do seu triumpho. As ultimas palavras do marido +equivaliam ao perdão. Não querer ve'-la seria a transição para ve'-la, e +ama'-la. N'este presupposto, deu como rehabilitada a filha e participou ufana +aos seus parentes e visitas o ter ella congraçado Gonçalo com seu genro. Os +parentes, alegres com a nova, iam da sala ao quarto do fidalgo felicita'-lo, +com grandes louvores de seu juizo e nobreza d'alma, censurando ao mesmo tempo, +que tardiamente o fizesse. Estes emboras irritaram o velho, por partirem de +pessoas, que elle tinha em odio á conta de lhe molestarem os brios, +chasqueando-o agramente por ter querido, á fina força, casar a filha com o +conde de Monção.</p> + +<p>—Eu não disse ainda que perdoava!—redarguia o fidalgo +irado—A prima Maria das Dôres está brincando com a minha decrepitude. Não +me arrependo do que fiz; hei-de ter brios até ao fim da vida, e muito desprezo +para quem duvidar se eu os tenho.</p> + +<p>Isto era pungentemente allusivo.</p> + +<p>Os primos iam ter com a fidalga, e diziam-lhe que<span class="pn" +id="pg_172" >{172}</span> acautelasse a filha dos primeiros +impetos do pae, cuja alma estava ainda muito crúa, e a soberba muito inflamada. +</p> + +<p>Debaixo da má impressão dos parabens, que elle imaginou ironicos e +offensivos, saíu Gonçalo Malafaya a prevenir o chanceller, o regedor das +justiças, e o juiz do crime de que sua filha estava em Mirandella com direcção +ao Porto, e que vinha com ella o desertor. Os magistrados responderam-lhe que +os crimes militares não entendiam com elles, executores da justiça civil. No +que tocava a Maria Henriqueta, ajuntaram que, estando ella legitimamente +casada, a lei lhes vedava aceitarem a intempestiva querella de pae.</p> + +<p>—Mas eu hei de provar a nullidade do casamento—redarguia +Gonçalo.</p> + +<p>—É possivel—replicavam os magistrados—mas a prisão não +póde antecipar-se á prova que v. ex.ª quer dar.</p> + +<p>Mallogrado o mau intento voltou-se aquelle espirito enfermo para melhor +paragem. Foi ao governador militar e denunciou estar no reino o desertor +tenente de cavallaria Filippe Osorio. Disse-lhe o governador militar que já +sabia da sua vinda com o proposito de responder e ser julgado; +mas—accrescentou—admiro que a denuncia me seja feita pelo pae da +esposa de Filippe Osorio! Que outrem o delatasse!... mas v. ex.ª denunciante de +seu genro, que perdeu a carreira por amor de sua filha, que hoje é mulher +d'elle e já mãe de uma menina!... É espantosa aberração!<span class="pn" +id="pg_173" >{173}</span></p> + +<p>—Eu hei de provar a nullidade do casamento de minha +filha!—redarguiu Gonçalo Malafaya.</p> + +<p>—Prove v. ex.ª tudo; mas abstenha-se de provar que todas as vinganças +desairosas lhe servem. Eu conheci Filippe cadete do regimento em que eu era +major, ha sete annos. Tive-o sempre no preço mais avantajado da intelligencia e +decoro militar. Se eu fosse principe, dera-lhe a minha unica filha; e, sendo +Gonçalo Malafaya, dera-lhe a filha, o coração, e o sangue todo de meus avós por +um abraço.</p> + +<p>Gonçalo abafava de raiva, e saíu convulsivo de ameaças de furia. Entrou em +casa, e rompeu em alaridos descompostos contra Maria das Dôres, contra a filha, +contra a justiça, e contra Deus. A mulher, fallecida de paciencia, perguntou ao +capellão se seria prudente segurar o marido no seu quarto, antes que elle +passasse a espancar a gente da casa.</p> + +<p>Benzeu-se tres vezes o padre e disse:</p> + +<p>—Seria bom segura'-lo antes que elle espancasse a gente da casa; mas +eu não me metto n'isso, porque diz lá o ditado, com doudos nem para o céo, +senhora fidalga!</p> + +<p>Passados dois dias, chegaram ao Porto Filippe Osorio, Maria Henriqueta, a +filhinha nos braços da ama, e os dois velhos creados.</p> + +<p>Maria Henriqueta escreveu da hospedaria a sua mãe, noticiando-lhe a chegada. +«Em que má hora!—dizia a mãe na resposta.—Está mais furioso que +nunca teu pae. Ha dois dias que sae a mover contra teu marido os<span +class="pn" id="pg_174" >{174}</span> poucos amigos, que se condoem +d'elle. Esteve tudo muito bem disposto; mas agora me consta que teu marido tem +de responder da prisão pelo crime; e teu pae, aconselhado por vis letrados, que +o exploram, vae intentar uma acção de nullidade de casamento. A tua vinda para +aqui é imprudentissima.</p> + +<p>Temos que combater um mentecapto em furias. Parecia-me que o melhor seria +entrares no recolhimento de S. Lazaro, em quanto se não decide o julgamento de +teu marido. A outra demanda póde levar tempo a decidir; mas o resultado ha de +ser o que nós desejamos, se com effeito o teu casamento está legal, como cuido. +Pensa n'isto, e dá-me resposta para meu governo. Se convieres em te recolheres +a S. Lazaro, desarmarás d'esse modo a colera de teu pae, e terás meio caminho +andado para a reconciliação.»</p> + +<p>Lida esta desconsoladora carta, Filippe bebeu as lagrimas da esposa, e +empenhou as mais seductoras ficções de seu espirito em persuadi'-la a +recolher-se a S. Lazaro, em quanto elle respondia ao conselho de guerra.</p> + +<p>—Apartar-me de ti!—exclamava ella.</p> + +<p>—Por alguns dias, dias derradeiros da nossa tormenta de oito annos, +sacrificio necessario para ganharmos a quietação, que virá mais cedo do que +podemos espera'-la com a nossa desconfiança de infelizes. Escreve a tua mãe, +que eu vou apresentar-me ao governo militar.</p> + +<p>Filippe deixou sua mulher estupefacta, e escondeu-se a chorar. Se elle +succumbisse, quem daria alentos á pobre<span class="pn" id="pg_175" +>{175}</span> esposa e mãe? Se o coração fosse sincero n'aquella +hora, quantas torturas inuteis para ambos!</p> + +<p>E Maria Henriqueta, como se voluptuosamente se estivesse dilacerando os seis +d'alma, dizia entre si:</p> + +<p>—A serenidade com que Filippe se aparta de mim! A frieza dos seus +conselhos! Ó meu Deus! serei eu já aborrecida! Estará elle arrependido de se +ter lançado na carreira da desgraça por minha causa, deixando a outra que +tantas venturas lhe promettia! Mas, se me não ama, poderá despedir-se d'este +anjinho com os olhos seccos?!</p> + +<p>E abraçava com arrebatada ternura a menina.</p> + +<p>Filippe apresentou-se ao governador militar. Foi esta a branda e animadora +linguagem da auctoridade:</p> + +<p>—É forçoso que se recolha ao castello da Foz. Escuso dizer-lhe que +será absolvido, porque a Regencia quer que o seja. Espero que em menos de tres +mezes esteja livre. Sua esposa tem licença para viver comsigo no castello.</p> + +<p>—Não póde ser.</p> + +<p>—Porque não póde ser?</p> + +<p>—Meu sogro vae litigar a validade do meu casamento, as leis mandam que +minha mulher seja judicialmente depositada, até á decisão. Por conselho de +minha sogra, e meu, vae minha mulher entrar no recolhimento de S. Lazaro. +Ámanhã vou entregar-me á prisão.</p> + +<p>Voltou com risonho vulto o preso a casa, e disse a Maria que estavam unidos, +passados tres mezes.</p> + +<p>D. Maria das Dôres saltou de sua carruagem á porta<span class="pn" +id="pg_176" >{176}</span> da hospedaria, abraçou a filha e o +genro, chorou de ternura beijando a neta, emprestou da sua instantanea alegria +á contristada familia, e disse que o marido era contente com a resolução da +filha, e fôra elle pessoalmente falar ao provedor da Misericordia para se +mobilarem os melhores aposentos do recolhimento para ella. De tudo, inferia +Maria das Dôres que as pazes se fariam brevemente, os desgostos a passar seriam +curtos, em comparação dos futuros contentamentos.</p> + +<p>Maria Henriqueta reanimou-se, e mais ainda quando encontrou o marido, em +secreto, enxugando as lagrimas. A mulher que ama precisa ver chorar, para crear +alentos. A coragem do homem que se despede parece uma offensa, ainda que o não +seja; simula desamor, ainda mesmo que as lagrimas saiam do coração como gottas +de ferro candente, e se derramem nas chagas do peito antes de chegarem aos +olhos. A mulher amante quer, ao separar-se, levar a certeza de que deixa uma +saudade, bastante a matar o coração que a ama. Isso é que lhe dá força para +luctar e soffrer. A suprema desgraça é o desalento da duvida, quando a infeliz +já por si não tem, contra o mundo e contra a desgraça, senão a certeza de ser +amada. Por isso, Maria Henriqueta achou em si a antiga força, quando +surprehendeu Filippe a chorar.</p> + +<p>Na seguinte manhã, o preso ajoelhou aos pés de sua mulher, e disse-lhe:</p> + +<p>—Não te peço amor, minha esposa; peço-te coragem, mulher. Aqui te +deixo minha filha: fala-lhe de mim, e ella será o anjo mensageiro das minhas +atribulações.<span class="pn" id="pg_177" >{177}</span> Quanta +mais força tiveres, mais digna serás do teu esposo. Mulher que tanto soffreu, e +a tanto se arrostou, não póde fraquear agora em tres mezes de ausencia. Maria, +eu não me engano com a tua alma, não? Has de viver e luctar com os desgostos +por amor do teu Filippe, que ainda se não julga desgraçado?</p> + +<p>Não lhe respondeu Maria. Lançou-se-lhe soluçante aos braços, e arquejou em +convulsões sobre o peito em que lavrava um fogo occulto de morte, ao qual +parece que as lagrimas da mulher amada se reseccam.</p> + +<p>Tomou Filippe a filhinha dos braços da ama. Contemplou-a, e deteve-se até +que a mãe lh'a tirou dos braços. É que da face d'elle se esvaíra lentamente a +côr; o brilho dos olhos apagára-se subito; um tremor lhe correra os braços; o +corpo ia inclinando, e a menina resvalava-lhe das mãos.</p> + +<p>—Filippe! exclamou Maria—essa é a tua força, Filippe! Por Deus, +reanima-te, que me tiras a coragem!</p> + +<p>Sorriu-se o marido, beijou-a na face, e murmurou:</p> + +<p>—Parecia-me que era a ultima vez que via nossa filha... O amor de pae +tem estas visões passageiras. Deus me defenda de as ter a teu respeito +semelhantes, minha esposa!<span class="pn" id="pg_178" +>{178}</span></p> + +<p><span class="pn" id="pg_179" >{179}</span></p> + +<h3><a name="SECTION00502">II</a></h3> + +<p>Maria Henriqueta, aceitando o recolhimento de S. Lazaro, mal sabia a +grandeza e o travor do calix que punha aos labios! Tantos mosteiros havia ahi +no Porto, com tanta liberdade e regalias, e senhoras boas para amigas, e +preladas menos austeras com as dores do coração, e mais contrictas, por isso +mesmo, das suas!</p> + +<p>Era o recolhimento de S. Lazaro um vasto recinto sem ar nem luz, um +congresso de meninas pobres, que reflectiam a sua miseria, e castigos, e +forçadas penitencias, nas pensionistas abastadas, e alli reclusas pela +violencia paternal. Não se abria um sorriso nos labios de nenhuma. As pobres +anhelavam a sua indigencia ao ar livre, as ricas estorciam-se nos phrenesis da +sua irremediavel reclusão. As de boa indole que para alli entravam, espicaçadas +pela severidade rude das regentes, tornavam-se iracundas, e umas contra outras +se enraiveciam, a ponto de ser rara a convivencia de duas pensionistas ricas. +Era o desespero que as fazia de condição bravia e intractavel. Maria, apenas +teria uma hora de convento, que maldisse a sua cedencia á vontade da<span +class="pn" id="pg_180" >{180}</span> mãe, e aos conselhos do +esposo. Perguntou logo indiscretamente se podia mudar-se para outro deposito, e +a regente respondeu que ella não era senhora sua, em quanto se não provasse que +estava legitimamente casada; que a seu pae incumbia romove'-la, por que fôra +elle quem apresentára ao senhor provedor o mandado do deposito.</p> + +<p>Esta resposta, seccamente dada, foi motivo a que Maria Henriqueta ganhasse +profunda aversão á regente.</p> + +<p>Era-lhe licito escrever a seu marido. N'esse respiro gastava ella as horas +do dia e muitas da noite; mas pequena consolação é essa, quando as cartas são +como cauterio á chaga, sem o beneficio da cura. Respondia-lhe Filippe, fingindo +animo, e inventando lenitivos de paciencia, sendo unicamente sincero nos da +esperança. Baldado intento! A saudade e a desesperação recrudesciam. Tomava a +filhinha nos braços, como taboa de naufragado, e nem assim, nem á luz dos olhos +d'ella via ao longe a redempção.</p> + +<p>Uma só menina das orphãs pobres ella chamára á sua intimidade: era Rita de +Cassia, illustre de nascimento, mas desamparada de pae e mãe, que a lançaram de +si como vergonhoso testemunho de a trazerem á vida n'uma epoca de desdourados +amores. Affrontaram o escandalo, e fugiram affrontados ao dever!</p> + +<p>O pae, que escondia o titulo, para livrar-se d'ella, e salvar o nome de sua +mãe, calou a consciencia entregando-a á caridade da Santa Casa, e para isso +declarou que a menina não tinha pae nem mãe. Antes elle falasse<span class="pn" +id="pg_181" >{181}</span> a verdade, e o genero humano teria de +menos um estygma.</p> + +<p>Rita era commensal de Maria Henriqueta, e consolação de muitas agonias, se o +chorar com quem chora é consolar. Que provas a orphã deu, passados mezes, do +seu reconhecimento e cega amisade á fidalga e infeliz!</p> + +<p>Depois de um mez de reclusão, Rosalinda, a filhinha de Maria Henriqueta, +adoeceu de garrotilho, e expirou no termo de quarenta e oito horas. Durante o +curto prazo da doença e da agonia, era geral no recolhimento o receio de que a +mãe enlouquecesse, morrendo a creancinha. Nos braços d'ella passou a menina os +paroxismos, aquella estortorosa respiração, que é uma lenta asphyxia, e acaba +por agudissimo arranco. Tiraram dos braços de Maria o inanimado corpo, o +envoltorio macerado do anjo. A mãe correu ao longo dos corredores, soltando +gritos, sem destino, sem paragem, fechando os ouvidos, quando lhe falavam, +arrancando-se enfurecida dos braços, que a detinham. Poderam Eugenia e Ritta de +Cassia leva'-la ao seu quarto, e excita'-la a chorar, como remedio unico. Uma e +outra lhe falavam de Filippe; e, como lhe dissessem que o marido morreria, +sabendo a morte da filha, já Maria Henriqueta, aterrada de dôr maior, pediu +forças a Deus para mitigar com rogos de conformidade a consternação do esposo. +</p> + +<p>Lembrou-se então do desmaio do marido ao abraçar a menina, e das palavras +com que explicou o seu desalento: «Parecia-me que era a ultima vez que via a +nossa filha.»<span class="pn" id="pg_182" >{182}</span></p> + +<p>Os apontamentos de uma senhora, que foi coeva de Maria Henriqueta no +recolhimento<a name="tex2html1" href="#foot355"><sup>[1]</sup></a>, dizem +singelamente:</p> + +<p>«A sua consolação unica lhe foi roubada; morreu-lhe a adorada filhinha. +Andava Maria Henriqueta de noite em gritos pelos dormitorios. Todas choravam +com ella, e eu tambem, com quanto então tivesse nove annos.—Falta-me um +pedaço de minha alma!—gritava a pobre mãe. Que formosa era a menina! +Teria um anno. Foi enterrada em Santo Ildefonso. Veiu alli busca'-la o abbade +n'uma locomotiva que era como os carrinhos de agora, pouco mais ou menos. +Dizia-se que ella ajoelhára ao pé da filhinha, quando lh'a tiraram ultimamente, +já amortalhada, e dissera:—Vae pedir ao Senhor a liberdade de teu pae, +meu anjinho!»</p> + +<p>Ao outro dia, tinha ella de responder á carta do marido, que parecia +esquecer-se de sua situação, para falar da menina. «Dá-me cuidado—dizia +elle—a doença de nossa filha; mas espero que Deus nos poupe ao golpe de a +perder. Não merecemos tamanha dor, Maria; a bondade divina, a querer levar para +si o anjo, esperaria que estivessemos unidos para valermos um ao outro.»</p> + +<p>E havia de responder a esta carta a pobre mãe, quando a filha já estava +sepultada! Qual outro coração<span class="pn" id="pg_183" +>{183}</span> se abriria a recolher-lhe as lagrimas? Como havia de +fingir ella uma linguagem socegada? Como abafar sua paixão, em quanto escrevia +a resposta? Que dôres a vida tem!</p> + +<p>E respondeu; mas, sem determinar a nova causa de sua afflicção, obedeceu ao +impulso do desespero, amaldiçoando o pae, o destino, e Deus. As blasphemias era +a carta do marido que lh'as incitava, no periodo trasladado. Deus lhe levára a +filha, no momento em que o carcere, a separação do marido, e a solidão, alguma +vez teriam desafogo, nos afagos da creança. A misericordia do céo lhe +descontaria na balança das impiedades o punhal agudissimo, que lh'as faria +resaltar do coração, e jámais da consciencia. Na carta, falando da filha, +apenas disse: «Se ella hoje fosse do céo, pediria ao Senhor a tua liberdade.» +</p> + +<p>Porém, o silencio de Maria Henriqueta conseguiu apenas retardar algumas +horas a infausta nova.</p> + +<p>Estavam no Porto os irmãos de Filippe Osorio, e esses lh'a levaram.</p> + +<p>Succumbiu aquella forte alma, e pensou em aniquilar-se. A sinistra idéa +cedeu ao primeiro accesso de febre.</p> + +<p>Faltaram a Maria Henriqueta as cartas em dois dias. Mandou ella directamente +ao castello da Foz, e soube que o marido estava perigosamente enfermo. Fez-se +uma terrivel explosão no animo varonil de Maria. Tremeu a regente da investida +vertiginosa, que ella lhe fez no quarto, exigindo que lhe abrissem as portas. +Diz a minudenciosa<span class="pn" id="pg_184" >{184}</span> +noticia d'estes successos, dada pela indicada senhora, que mais alguma vez +citarei: «Nas crises de maior exasperação Maria Henriqueta parecia possessa. +Com todas se travava de razões, e trazia na mão uma chibata de junco, que +vergava, e sacudia, em ar ameaçador, principalmente entrando na cella da +regente; e a regente tremia d'ella, e da chibata, por amor á sua pelle, que já +tinha então oitenta e um annos, e era estimavel pelle por ser de dura.» No +final d'este faceto periodo se denota a má vontade que a minha illustre +informadora ainda conserva á sua regente de ha cincoenta annos!</p> + +<p>Estava pois, a octogenaria regente alapada no seu cubiculo, quando Maria +Henriqueta lhe surgiu de sobresalto no limiar da porta, com a chibata em punho, +ordenando que se lhe facultasse a saída, para visitar seu marido, que estava +doente. Cuidou morrer de pasmo a velhinha; mas recobrou animo, quando viu a +sub-regente, a sachristã, e outras funccionarias da casa deliberadas a +defende'-la. Com suaves maneiras, conseguiram todas que Maria Henriqueta +espaçasse até ao dia seguinte a saída, para se legalisar o facto com a licença +do provedor da Santa Casa.</p> + +<p>A fidalga não insistia muito tempo n'uma mesma idéa. Andava a baldões de sua +afflicção, ora abraçada a Eugenia, ora a Rita de Cassia, ora repellindo-as +ambas desabridamente.</p> + +<p>Foi aquella noite de tormenta no recolhimento. Maria declamou, chorou, +delirou em corridas de uma a outra extrema<span class="pn" id="pg_185" +>{185}</span> da casa. Na seguinte madrugada, mandou a regente +informar o provedor, e este á frente da mesa da Santa Casa, foi a S. Lazaro, e +chamou ao locutorio Maria Henriqueta, com o intento de reprehender-lhe as +impaciencias, e conforta'-la com palavras esperançosas de breve saída. Veiu a +enclausurada, cuidando que ia receber a licença; mas, ouvidas as primeiras +palavras, azedou-se-lhe tanto a dôr e a colera que o provedor suava de +ouvi'-la, e os da mesa estavam como que passados de tamanha ousadia, affronta +original n'aquella casa de humillimas victimas.</p> + +<p>Fatigada de exprobrar a tyrannia do pae e a impiedade dos verdugos, que lhe +mataram a filha e queriam matar o marido, Maria Henriqueta deixou-os na grade, +entrou na cella esbofada e arquejante, chegou ao ouvido de Rita, e disse-lhe +com a seriedade de um proposito de demente:</p> + +<p>—Havemos de fugir hoje d'aqui: tu vaes comigo, Rita, se tiveres +coragem. </p> + +<p>A orphã temeu que a sua infeliz amiga estivesse louca; mas, para se +confirmar em suas suspeitas, ainda lhe disse:</p> + +<p>—Por onde fugiremos nós, minha senhora?!</p> + +<p>—Cala-te, que eu sei por onde se póde fugir. Queres ir?</p> + +<p>—Vou, vou, mas diga-me por onde, que me parece um sonho podermos fugir +d'estas paredes, que nem janellas teem.</p> + +<p>Dito isto, Maria recebeu uma carta de Filippe, escripta<span class="pn" +id="pg_186" >{186}</span> por extranho pulso, e assignada por +elle. Era animadora; a razão estava normal; a filhinha pedira por seu pae a +Deus; elle mesmo se deleitava n'esta doce persuasão; e os irmãos, que o +rodeavam, queriam salva'-lo com ella.</p> + +<p>Aquietou-se algum tempo o espirito da esposa; e ao voltar a intermittencia +do desespero vinha já menos descomposta. O plano da fuga prevaleceu ás +melhoradas novas.</p> + +<p>De tarde, saiu sósinha Maria e foi orar para o côro; depois disse que queria +descer á egreja para resar de perto aos altares, e teve a licença, com grande +aprazimento da regente, que tirou do devoto acto bons auspicios. Foi á egreja, +e quiz estar a sós com Deus. Relanceou os olhos a todos os lados, esperou que +saíssem do côro algumas orphãs que a observavam, e deteve-se a reparar n'um +postigo chamado a <em>ministra</em>, por onde as recolhidas recebiam a +communhão, espaço com dois palmos de largo sobre palmo e meio de altura. Feito +o rapido exame, saíu da egreja, e recolheu-se á sua cella com semblante +socegado, e um brilho de extranha alegria nos olhos. Contou a Eugenia a sua +tenção. Chorava a pobre mulher, ouvindo-a, e contrapunha-lhe muitos obstaculos, +aos quaes Maria respondia sempre vencedora.</p> + +<p>Vamos ver os prodigios de elasticidade, obrados pelo coração sobre o corpo +de Maria Henriqueta.<span class="pn" id="pg_187" >{187}</span></p> + +<h3><a name="SECTION00503">III</a></h3> + +<p>É parte d'este capitulo trasladado dos apontamentos. Quem presenceou o +successo mais fielmente lhe dará as côres:</p> + +<p>«A porta da egreja era costume deixa'-la fechada por dentro, e a chave +ficava na porta, ficando a cargo da escrivã abri'-la de madrugada.</p> + +<p>«A porta do commungatorio ficava aberta, porque parecia cousa impraticavel o +poder alguem, que não fosse puro espirito, evadir-se pela <em>ministra</em>. +</p> + +<p>«Escolheram para a fugida a hora em que a communidade, depois do côro, se +ajuntava no refeitorio.</p> + +<p>«A primeira que saíu foi a fidalga, mas, segundo eu depois soube, passou +torturas para enfiar os largos hombros por entre o estreito postigo; e do +ultimo e já desesperado repuxão, que fez, foi bater com a face nos degraus do +altar-mór, e feriu-se grandemente na testa.</p> + +<p>«A orphã, como era muito delgadinha, saíu com menos custo.</p> + +<p>«Depois, Maria Henriqueta, limpando o sangue da ferida, abriu a porta da +egreja, e saíram.<span class="pn" id="pg_188" >{188}</span></p> + +<p>«Ás dez horas da noite, conforme o costume, foi a sachristã temperar a +lampada do Santissimo Sacramento, e viu aberta a porta do commungatorio, e as +portinholas da <em>ministra</em> tambem abertas.</p> + +<p>«Antes de mais averiguações, começou a gritar a sachritã. Desceram algumas +pensionistas á egreja e viram a porta da egreja cerrada.</p> + +<p>«Todas, a uma voz, disseram que Maria Henriqueta fugira. Foram ao quarto +d'ella procura'-la, e d'ahi passaram ao de Rita de Cassia.</p> + +<p>«Deu-se então no recolhimento de S. Lazaro uma amostra do dia de juizo. A +regente, com as mais senhoras da governança, ajuntaram-se em consistorio, para +deliberarem.</p> + +<p>«As meninas já de razão e juizo andavam afflictas: eu, porém, e as outras de +minha edade nunca nos divertimos tanto; porque andavamos ás ondas por entre as +velhas, fingindo que estavamos assombradas do geral terror.</p> + +<p>«Ás onze horas da noite foi chamado meu pae,<a name="tex2html2" +href="#foot366"><sup>[2]</sup></a> e reprehendeu severamente as auctoridades da +casa, porque deixaram aberta a porta do commungatorio.</p> + +<p>«As providencias foram dadas com tão desgraçado acerto que, ao outro dia, +seriam onze horas...»</p> + +<p>Suspendemos a copia, que nos não dá n'este ponto os promenores da fuga, +vencidas as principaes difficuldades, que n'este infausto caso, foram as +menores.<span class="pn" id="pg_189" >{189}</span></p> + +<p>Caminharam as fugitivas na direcção das Fontainhas. Maria Henriqueta não +sabia um passo da cidade, e Rita de Cassia, reclusa desde menina, era +egualmente ignorante. Foram á ventura até encontrarem uma rampa de pedregulho +que descia da rua do Sol.</p> + +<p>No alto da rampa viram dois vultos quietos; tomaram-lhes medo, e sem se +consultarem fugiram. Os dois vultos eram os «nocturnos» que faziam a policia, e +obedeciam a apertadas ordens, n'aquelles tempos revoltos de jacobinos, e +malfeitores, que os pretextavam para rebuçarem sua malvadez.</p> + +<p>Os nocturnos correram sobre as duas fugitivas, e travaram d'ellas como quem +aferra duas amazonas das que antigamente espostejavam exercitos de barbados +persas. Interrogaram-as com a brandura de nocturnos. Maria Henriqueta declarou +ser creada de servir, e a respeito do seu destino disse que ia para a Foz, onde +tinha seus patrões. Rita, para não inventar outra profissão e destino, disse +que era tambem creada de servir, e que ia para a Foz.</p> + +<p>Interrogadas ácerca dos nomes dos amos, e outras miudezas, responderam +disparates, que infundiram suspeitas, se não de jacobinas, ao menos de pessoas +que se serviam da noite para obras pouco louvaveis, como fuga de casa, +ladroeira, ou alguma das mil hypotheses, que cabiam na cabeça dos dois +nocturnos.</p> + +<p>—Vocemecês—disse um d'elles, amoldando o tratamento aos trajos +limpos das presas—hão de vir ao almotacé, e lá dirão quem são, e o +destino que levam.<span class="pn" id="pg_190" >{190}</span></p> + +<p>Rita, para confirmar suspeitas, levantou um choro, que valeu muito a +prejudica'-las no conceito dos policias. Maria Henriqueta, mandando-a calar, +via menos carregado o futuro, que a esperava em casa do almotacé.</p> + +<p>Foram, e entraram á presença do funccionario, que fez um tregeito de +espantadiço quando viu a formosa cara de Maria. Repetiu as perguntas, e inferiu +as mesmas suspeitas dos nocturnos, que eram emanações da alma d'elle, e +recebiam todas as mesmas impressões no mesmo orgão sensorio.</p> + +<p>Cuidou a incauta Maria Henriqueta que a verdade a podia salvar d'aquelle +passo difficil. Disse quem era, proferiu o nome de seu pae, e de seu marido. O +almotacé curvou a cabeça inflexivel á illustre dama; disse-lhe, porém, que a +obrigação d'elle era rete'-las até dar aviso; e, em obsequio ao sr. Gonçalo +Malafaya, as teria em sua casa até ser dia.</p> + +<p>Conformou-se Maria, pedindo papel para escrever a sua mãe; e escreveu uma +carta de que foi portador o proprio funccionario.</p> + +<p>Estava já recolhida D. Maria das Dôres; perguntou o almotacé se lhe era +permittido falar para negocio urgentissimo com o fidalgo.</p> + +<p>Malafaya não tinha ainda recolhido de casa dos primos Mellos, e para lá se +dirigiu o portador da missiva. Contou elle ao velho o acontecimento, dando-lhe +a carta, que ia endereçada a D. Maria das Dôres. Gonçalo leu-a com agitado +aspecto, e disse colerico:</p> + +<p>—Conserve essa desgraçada em sua casa até ámanhã.<span class="pn" +id="pg_191" >{191}</span> Eu me encarrego de entregar a carta a +minha mulher. Tenha-me todo o cuidado em minha filha.</p> + +<p>Voltou o almotacé a dar conta da sua commissão, e produziu em Maria +Henriqueta um insulto de nervos.</p> + +<p>—Foi entregar a carta ao algoz!—exclamava ella:—Agora é +que eu vou ser mais desgraçada! Deixe-me saír, que eu não espero as ordens de +meu pae!</p> + +<p>—Não tem remedio senão espera'-las—Disse friamente o +aguazil-mór.</p> + +<p>—Não tenho remedio?!—bradou Maria—Tenho o remedio que dá a +desesperação! Conduza-me já á rua, quando não, grito que me querem matar!</p> + +<p>O homem, por piedade ou por medo de passar uma noite turbulenta, esgotou os +recursos da persuasão para conter a fidalga, promettendo-lhe obstar a que seu +pae lhe fizesse alguma violencia. Para ser coadjuvado nos seus ordeiros +discursos, fez levantar as senhoras da familia, e trouxe-as á sala, onde +estavam as retidas. As senhoras eram ternas, e compadeceram-se da atribulada +esposa, que chorava esposo e filha. Uma dellas encarregou-se de fazer +pessoalmente entregar de manhã uma carta á fidalga mãe. Confortada com esta +esperança, Maria Henriqueta socegou, e conseguiu aplacar as vertigens da pobre +Rita, que era fraca e timida como quem, desde a infancia, andou sempre sovada +aos pés da desgraça.</p> + +<p>De manhã, saiu uma creada do almotacé a entregar a carta, recommendando-se +como enviada da sr.ª D. Maria Henriqueta, e bem ensaiada por esta. Quizera +o<span class="pn" id="pg_192" >{192}</span> guarda-portão +impedir-lhe o accesso, antes das nove horas; mas a destra portadora rompeu +escada acima, chamando a fidalga a altas vozes.</p> + +<p>Conduzida ao quarto da senhora, entrou a um tempo com ella Gonçalo Malafaya, +querendo arrancar-lhe a carta das mãos. D. Maria saltou assanhada do leito, e +levou o marido a empurrões para fóra do quarto.</p> + +<p>Leu anciosa a carta, vestiu-se acceleradamente, e saíu com o seu capellão a +encontrar-se com a filha.</p> + +<p>A primeira victima de sua ira foi o almotacé a quem ella chamou os nomes, +que dava aos seus infimos creados. Pensava o inviolavel funccionario em +autua'-la; mas pareceu-lhe mais prudente desarmar-lhe a cólera, porque receava +ser demittido do officio no dia seguinte. O principal artigo de accusação da +fidalga era ter o <em>vil esbirro</em> (amabilidade que muito offendeu o +almotacé) era ter elle entregue ao pae a carta, que ia para a mãe. Graças á +pacifica eloquencia do capellão, a fidalga desceu-se da sua raiva, e entrou em +pensamentos mais moderados, tendentes a salvar a filha das garras, que o pae +estava aguçando.</p> + +<p>Tardias combinações! Tinham soado dez horas, quando á porta do almotacé, +pararam duas cadeirinhas e seis soldados nocturnos, e um alcaide com ordem de +reconduzir ao recolhimento de S. Lazaro as fugitivas.</p> + +<p>D. Maria das Dôres, quando tal ouviu, teve um vágado, que os impetos de +raiva não deixaram durar muito. Ao recobrar-se das convulsões, abraçou-se á +filha, exclamando:<span class="pn" id="pg_193" >{193}</span></p> + +<p>—De hoje em diante serei mais que tua mãe, Maria! Serei tua cumplice, +se és criminosa! Eu é que te hei de entregar a teu marido. Vae! Soffre mais +alguns dias. Eu vou consolar teu esposo; vou trabalhar a favor d'elle, serei +mesmo a sua enfermeira; e, de volta da Foz, irei falar-te ao recolhimento. +Conta comigo, Maria. Leva a certeza de que os teus tormentos acabam d'aqui a +poucos dias, se a minha vida não acabar antes!</p> + +<p>Maria reanimou-se, que eram para dar muita alma as promessas da energica e +vindicativa senhora.</p> + +<p>Agora, prosegue o traslado dos apontamentos:</p> + +<p>«Entraram duas cadeirinhas na portaria do recolhimento, escoltadas por seis +soldados nocturnos. Vinha em uma a fidalga: e na outra a sua amiga.</p> + +<p>«A todos pareceu escandalo a barbaridade que o pae escolhesse tal hora, para +reconduzir duas senhoras a uma casa de educação, cercadas de tropa, e rodeadas +de populaça!</p> + +<p>«Meu pae appareceu logo na portaria, e auctorisou a regente a castigar +asperamente a fidalga, como pensionista; e Rita como orphã pobre. Á primeira +decretou o tronco de cima, e á segunda o chamado tronco de baixo.</p> + +<p>«O tronco de cima era uma cella, sem differença sensivel das outras, a não +ser que a luz se coava de uma fresta muito alta, e era fechada com duas portas, +cujas chaves tinha a regente, e recebia os alimentos por um postigo. O maior +castigo era a privação de falar com outras meninas.<span class="pn" id="pg_194" +>{194}</span></p> + +<p>«O tronco de baixo era um subterraneo, sem minima claridade. Continha um +leito de ferro, que hoje é moda, e era então ignominia. Fôra construida, alguns +annos antes, esta caverna para castigo de uma menina, que havia fugido, e lá +esteve em paroxismos, até que a deixaram sair e morrer com a pouca mais luz da +sua cella. Eu tal horror lhe tinha, que só de passar sobre o alçapão da +masmorra, me sentia tremer. Este era o supplicio destinado a Rita de Cassia. +</p> + +<p>«Condoeu-se meu pae da fidalga, posto que ella não solicitasse compaixão de +ninguem. Dizia ella á regente que o vexame de ser trazida entre soldados lhe +era bastante expiação. A pobre Rita, porém, que não tinha pae nem pão, senão o +da caridade, foi a victima expiatoria, <em>para exemplo das outras</em>, dizia +a senhora regente, que Deus tem. Ainda assim, houveram com ella piedade, +mandando-a para o tronco de cima.</p> + +<p>«Ao outro dia, quando lhe levaram os primeiros alimentos, acharam-na sem +sentidos e banhada em sangue. Pensaram que ella se teria rasgado alguma veia; +mas o sangue era lançado pela bocca. Julgaram-na morta, e era geral a +consternação na casa. A angustia de D. Henriqueta sobrelevava a de todas; mas á +orphã castigada era-lhe prohibido ver a sua amiga, a amiga por quem morria ou +estava morta.</p> + +<p>«Deu signaes de vida.</p> + +<p>«Estavam no recolhimento duas meninas muito ricas e por isso muito +respeitadas: eram D. Innocencia Pereira de Castilho, e D. Gertrudes Pereira de +Castilho.<a name="tex2html3" href="#foot375"><sup>[3]</sup></a><span class="pn" +id="pg_195" >{195}</span> Foram estas duas irmãs lavadas em +lagrimas, pedir á regente, que as deixasse tomar á sua custa o tratamento da +orphã, na sua cella. A regente era de cêra aos desejos das ricas pensionistas. +Cedeu-lhes a doente moribunda. Tantos foram os carinhos, os medicamentos, e os +desvelos, que a menina chegou a restaurar-se. Depois das melhoras, solicitaram +as Castilhos o perdão da menina, e conseguiram-o.</p> + +<p>«D. Maria esteve tambem doentissima n'esta epoca, mas de muito menor +cuidado, e prompto restabelecimento. Para lhe não faltar afflicção alguma, até +lhe prohibiram á dedicada Rita ver a fidalga que, apesar dos soffrimentos +passados, ella amava com o coração de um anjo.»</p> + +<p>Ninguem infira dos successos descriptos, em desabono da caridade e +humanidade do recolhimento de S. Lazaro, ha cincoenta annos, o que hoje possa +ser aquelle pio estabelecimento. Nenhuma analogia approxima os costumes de +então com os de hoje. O raio benefico do facho civilisador lá foi alumiar +tambem aquelle recinto; os homens que o fiscalisam, são os filhos d'este +seculo, os que sabem irmanar com a doutrina do bem uma prudente severidade. Se +alguma vez, em nossos dias, sairam arguições em desfavor do regimen d'aquella +casa de caridade para meninas orphãs, e de educação<span class="pn" id="pg_196" +>{196}</span> social e religiosa para pensionistas, convém que se +descontem n'essas arguições causas deshonestas, e portanto injustas, que a +promoveram. Não sabemos que haja outro recolhimento no paiz mais dignamente +mantido sobre bases de piedade, morigeração e ensinamento de prendas, com que +d'alli sáem adornadas muitas donzellas, que as mostram na sociedade, como +esposas e mestras de seus filhos. Sirvam estas linhas de anteparo á censura +irreflectida de alguem, que folgue de afiar no auctor os dentes da calumnia. +</p> + +<p>D. Maria das Dôres cumprira integralmente sua palavra. Foi ao castello da +Foz: contou a Filippe Osorio a parte menos pungitiva da aventura de sua filha. +Egualou-o na consolação das promessas e das esperanças. Chamou-lhe filho com +toda a effusão da sinceridade. Chorou com elle ao falarem de Rosalinda, e d'ali +voltou ao recolhimento a aviventar a filha.</p> + +<p>N'esse mesmo dia, sobre tarde, recebeu a regente ordem do provedor para +impedir que Maria Henriqueta falasse com sua mãe. Quando esta, ao outro dia, +apeou no pateo, saiu-lhe á portaria a regente, mostrando lacrimosa a ordem, que +recebera. D. Maria das Dôres recolheu-se a casa, esperou que o marido entrasse, +lançou-se a elle de insultos e improperios tão novos, que o velho cuidou ganhar +a bemaventurança fechando-se no seu quarto. No dia seguinte, o mordomo da casa, +creatura particular da fidalga, partia para Lisboa a ganhar horas, com uma +carta a um dos membros do governo; e nove dias depois, depunha em mãos de +sua<span class="pn" id="pg_197" >{197}</span> ama, uma ordem da +regencia, para que as portas do recolhimento de S. Lazaro se abrissem a D. +Maria das Dôres, a qualquer hora do dia que ella quizesse visitar sua filha. +</p> + +<p>Gonçalo Malafaya, quando tal soube, soffreu o primeiro ataque de paralysia +n'uma perna.<span class="pn" id="pg_198" >{198}</span></p> + +<p><span class="pn" id="pg_199" >{199}</span></p> + +<h3><a name="SECTION00504">IV</a></h3> + +<p>A convalescença de Maria foi velada por sua mãe. Passava a fidalga os dias, +e grande parte das noites, no recolhimento. Abriam-se e fechavam-se portas com +grande escandalo dos mesarios, a horas em que era dos estatutos o silencio +obrigatorio.</p> + +<p>D. Maria das Dôres levou, a pouco e pouco, o que tinha em casa, pertencente +ao guarda-roupa de sua filha. As suas mesmas joias lhe deu, receando morrer a +tempo de as não poder confiar do marido como legado á filha. Quando não estava +no convento passava grande parte do dia com o genro, pactuando com elle a fuga +de ambos, logo que o conselho de guerra o restituisse á liberdade.</p> + +<p>Fugir para quê, se estavam legitimamente unidos, se deviam vencer o +cerebrino pleito instaurado por Gonçalo Malafaya?</p> + +<p>Assim o parece: mas do que é ao que deve ser, corre uma distancia infinita. +</p> + +<p>Provar a nullidade do casamento era impossivel, mas<span class="pn" +id="pg_200" >{200}</span> dilatar a prova com os estorvos, que a +justiça faculta aos que a emmascaram e trazem em ludibrio por sentinas +douradas, é cousa de todo o ponto facil. Contra a legalidade do matrimonio de +sua filha allegava Gonçalo a negação do consentimento, e a falsidade da +certidão, em que o ministro do sacramento era tio do contrahente e as +testemunhas sobrinhos do abbade, e irmãos de Filippe. Absurdos argumentos que +tentavam a rir a justiça, porém, um sacerdote d'ella, em primeira instancia, +por odio inveterado á familia de Mirandella, lavrara uma sentença iniquissima, +fundada... nos alicerces de ouro, em que levantou poste de vilipendio á sua +integridade.</p> + +<p>Subiu o processo á relação do Porto. Andou o indecoroso auctor captando a +piedade dos desembargadores com lagrimas que o não lavavam das manchas. Os +juizes, para honrarem o pae, e a filha, estabeleceram a legalidade canonica e +civil do casamento, censurando o ignaro juiz, que inventára a deshonra como +remedio aos despeitos de um pae. Faltava o recurso de superiores instancias. +Foram para a supplicação os feitos, sem esperanças de bom exito para Malafaya: +mas, na delonga da sentença final empenhára o fidalgo os cabedaes e os amigos, +para com os amigos dos cabedaes:—desculpem a safada elegancia d'este +trocadilho.</p> + +<p>Claro é, pois, que o deposito da esposa tinha de ser prorogado até á final +sentença, que, sem milagre, podia ser empecida dois annos na supplicação e +baixar de lá com alguma nullidade ao tribunal onde principiára. Assim<span +class="pn" id="pg_201" >{201}</span> se explica a premeditação de +Maria das Dôres na fuga da filha, logo que Filippe Osorio saísse do castello da +Foz.</p> + +<p>Antes de completo segundo mez de prisão, foi o desertor julgado e absolvido, +com grande assombro de Gonçalo Malafaya. Repetiu-se então o ataque de +paralysia, ramificando-se ao braço direito. Era a peçonha do rancor que o ia +matando, pedaço a pedaço.</p> + +<p>Apresentou-se Filippe ao provedor da Misericordia, o doutor João Pedro, +velho que vivera, até envelhecer, vida de rapaz, e fizera do seu palacete o +berço da <em>civilisação dos costumes</em>, má civilisação, que é o synonymo de +<em>extrema liberdade</em>, a qual muito tarde será adulta no Porto. Quem hoje +passa no Reimão diante do palacete que pertence ao sr. Joaquim de Sousa +Guimarães, póde, se quizer, imaginar que alli, durante os ultimos trinta annos +do seu antigo proprietario, se fizeram romances praticos de alta moralidade, os +quaes é muito de esperar que eu venha a dar em livro. Uma das scenas lá +passadas, a mais simples de todas é a seguinte:</p> + +<p>Entrou Filippe Osorio, procurando o doutor Pedro, que saíu a recebe-lo na +primeira sala. Disse o visitante quem era, e o doutor sentiu-se incommodado do +coração, que parece ser o orgão do amor e do medo.</p> + +<p>Feita a apresentação, com militar seccura, ajuntou o apresentante que era +marido legitimo de D. Maria Henriqueta.</p> + +<p>Tossiu o doutor uma tosse peculiar de susto quando não é de velhacaria. No +doutor era susto; e o susto não<span class="pn" id="pg_202" +>{202}</span> deshonra ninguem, mórmente quando o assustado se +defronta com os trinta annos de um homem de grandes barbas e possante estatura. +</p> + +<p>Estas declarações eram o proemio a uma outra, sobre todas, inquietadora para +o doutor.</p> + +<p>—Quero ver minha mulher—disse Filippe.</p> + +<p>—Parece-me que a lei se oppõe—disse o doutor—em quanto v. +s.ª tiver pendente das decisões juridico-canonicas a validade do seu +casamento.</p> + +<p>—Não venho perguntar a v. s.ª se a lei faculta, se nega: o que eu lhe +digo é que quero ver minha legitima esposa, agora, logo, ámanhã, sempre.</p> + +<p>—Então queira requerer a juiz competente.</p> + +<p>—Não venho pedir conselhos. Entenda-me, senhor provedor; é ao provedor +da Misericordia que eu reclamo auctorisação para ser recebido na grade do +recolhimento por minha mulher.</p> + +<p>—Isso é impossivel, senhor!</p> + +<p>—Que são impossiveis, senhor doutor? Talvez que a v. s.ª pareça +impossivel haver um homem que lhe corte uma orelha; e, comtudo, affirmo-lhe que +poucas cousas haverá tão faceis!...</p> + +<p>Isto fôra dito com um sorriso de cortar a orelha sem auxilio de ferro. O +doutor abriu a bocca e regougou:</p> + +<p>—Oh!</p> + +<p>Mas este <em>oh</em> foi surdo como um rugido intestinal.</p> + +<p>Filippe cruzou os braços, e disse:</p> + +<p>—No que fica?</p> + +<p>O provedor refez-se de animo, e respondeu:<span class="pn" id="pg_203" +>{203}</span></p> + +<p>—Com que então v. s.ª vem ameaçar um velho?</p> + +<p>—O látego da tyrannia deve ser arrancado das mãos dos velhos como dos +novos. Os annos não santificam a prepotencia, senhor doutor. Nada de maximas. +Eu não posso demorar-me.</p> + +<p>—E v. s.ª é de certo legitimamente casado á face de Deus?</p> + +<p>—Veja esta certidão.</p> + +<p>João Pedro leu attentamente, e disse:</p> + +<p>—Parece-me legal. Como se explica, em tal caso, a guerra que lhe faz o +meu nobre amigo Gonçalo Malafaya?</p> + +<p>—Não sei, senhor. É um odio injusto: é um pae que diffama sua virtuosa +filha.</p> + +<p>—Pois bem, sr. Filippe Osorio, eu vou consultar a mesa, e depois lhe +darei a resposta.</p> + +<p>—Consulte a sua consciencia, e deixe a mesa para mais importantes +consultas. Eu quero já d'aqui ir em direitura ao recolhimento. Uma ordem de v. +s.ª basta.</p> + +<p>Entrou o doutor João Pedro no seu escriptorio; e, mais levado da consciencia +que do medo, dado que um pouco de tudo o impellisse á obra meritoria, escreveu +a ordem, auctorisando a regente.</p> + +<p>Filippe saiu com mudado semblante de affectuosa gratidão, e entrou no +portico do recolhimento. Chamou a regente, passou-lhe a ordem pela roda, e +esperou impaciente a resposta.</p> + +<p>Mandaram-n'o entrar n'uma grade, onde já estavam D. Maria das Dôres e a +filha, esperando-o. A esposa<span class="pn" id="pg_204" +>{204}</span> enfiou por entre as rêxas os braços, que +difficilmente passavam.</p> + +<p>—Que mudada estás!—exclamou Filippe.—Que maceração de +rosto, minha pobre Maria! O que tens penado n'estes dois mezes!</p> + +<p>Era pungente ver chorar aquelle homem, na contemplação da magreza cadaverica +de sua mulher!</p> + +<p>Nem um riso de contentamento n'aquelle primeiro encontro!</p> + +<p>—Falta-me a filhinha!—dizia Filippe—Onde está o nosso +anjo, ó Maria! Porque nos privou o céo da nossa filha, que devia n'este momento +sorrir-nos a bonança, e accusar estas lagrimas como ingratidão aos beneficios +de Deus?</p> + +<p>Retirou Maria das Dôres ao anoitecer, e Filippe passeou até altas horas, +defronte, e em roda do carcere da esposa.</p> + +<p>A fidalga velha, confiada no valimento que tinha com a marqueza de Angêja, +senhora que a movera a favor de Filippe Osorio, mandou a Lisboa o seu fiel +mordomo a solicitar uma ordem de levantamento de deposito da filha em +contravenção das leis. Foi a ordem arrancada de subito ao ministro competente, +por engenho da marqueza. Correu com ella o portador; Maria das Dôres nunca se +levantou a tão alto na presumpção de sua valia! Mas Gonçalo Malafaya tinha +amigos e cabedaes em Lisboa. Horas depois de passada a ordem, fôra revogada, a +requerimento do procurador do auctor; e outro emissario vinha ao Porto embargar +o effeito da primeira. Copiemos<span class="pn" id="pg_205" +>{205}</span> dos apontamentos o facto, presenceado pela educanda +a que os devo:</p> + +<p>«Logo ao amanhecer vinha Filippe para a grade, e Maria Henriqueta já lá o +estava esperando. Por mais que extendessem os braços, era-lhes impossivel +apertarem as mãos. Alli almoçavam juntos, e ficavam até ao meio dia. Elle saía, +quando as portas se fechavam, e ella ia para a sua cella chorar. Ás duas horas +voltava o infeliz, e jantavam. Havia de grade a grade um carrinho com duas +roldanas lateraes em que ella lhe passava os pratos.<a name="tex2html4" +href="#foot391"><sup>[4]</sup></a></p> + +<p>«Ao anoitecer separavam-se. N'esta mixtura de alegrias e amarguras, viveram +algum tempo, até que de Lisboa chegou ordem para ella sair do recolhimento. Já +elle a estava esperando com uma sege na portaria; já ella tinha pedido ás +mestras para nos darem sueto n'esse dia; despedia-se já de todas. Que formosa +ella estava então! Como um instante de felicidade a transfigurara! Vestia de +setim branco, e sapato da mesma droga. Nos olhos e no rosto resplandecia-lhe o +clarão da alma. Não sei que possa imaginar melhor um anjo! Fomos todos com ella +á portaria. Já estava a porta franca, e o marido com os braços abertos para a +receber e um sorriso<span class="pn" id="pg_206" >{206}</span> de +alegria desvairada nos labios. Eis que todo afadigado entra na portaria um +mensageiro do inferno, com uma contra-ordem á regente! O desespero dos dois +desgraçados não sei eu palavras que o exprimam! Filippe Osorio rompeu em +imprecações. Maria Henriqueta fez-se primeiro escarlate, depois da côr do +vestido, marmore na frialdade, e caíu sem sentidos nos braços da regente e da +porteira. Choravamos todas; até as mais novas se commoveram áquella scena, cujo +alcance mal podiamos compreender. Então é que ella adoeceu perigosamente, e +cuidámos que não vencia o ultimo golpe. A mãe era incansavel de amor e de +consolações ao lado d'ella. As cartas do marido foram talvez a principal +medicina do seu restabelecimento. Passado um mez tornou á grade Maria +Henriqueta: parecia desenterrada; e Filippe, que tão galhardo mancebo era, +pouco tinha já que o distinguisse de um homem de cincoenta annos.»</p> + +<p>Renasceu em toda a força da ira o plano da fuga, maquinada por D. Maria das +Dôres. Frequentes vezes se encontrava com Filippe na grade, a fazerem +combinações, que concertavam todas n'um arrojo de desespero, cuja +responsabilidade a fidalga tomava sobre si.</p> + +<p>Vejamo'-lo descripto pela companheira de Maria Henriqueta:</p> + +<p>«Um dia de tarde chegou D. Maria das Dôres á grade com o genro, e ahi se +demoraram até ás quatro horas. Mandou a fidalga dizer á regente que precisava +de ir ao quarto de sua filha. Foi-lhe aberta a porta sem a menor hesitação. +Entrou D. Maria das Dôres, e Filippe ficou<span class="pn" id="pg_207" +>{207}</span> na portaria, como esperando a sogra. Disse a mãe á +filha que precisava de arejar-lhe os vestidos. Começaram a sair taboleiros de +riquissimos velludos, setins, e sedas de differentes côres, e debaixo do chale +escondeu a fidalga um cofre de joias, em que estavam as da filha, e as suas, +que eram muitas e de subido quilate. Afóra isto, passou D. Maria das Dôres para +as mãos do genro um outro cofre muito pesado, que continha, segundo disseram, +dinheiro em ouro. A regente estava desconfiada, e mais desconfiou, quando a +fidalga velha lhe disse: «V. s.ª ha de permittir que minha filha dê um abraço +em seu marido.» A regente respondeu: «V. ex.ª não me faça alguma, sr.ª D. Maria +das Dôres!...» Tornou a fidalga: «Ha nada mais licito que uma senhora abraçar +seu marido?» Disseram-me algumas meninas que a regente cedera ao terror, porque +vira nas mãos de Maria Henriqueta, sumidas no chale, luzir o marfim do cabo de +um punhal.</p> + +<p>«Mandou a regente á porteira que abrisse a porta. Saíu D. Maria das Dôres, e +postou-se á porta principal da portaria. Chegou o marido a abraçar a esposa, e +tal abraço foi que a levou como arrebatada nos braços, e Eugenia seguiu a ama. +Porteira e regente emparveceram a olhar uma para a outra; e a creada, que fôra +alumiar, de tal riso se tomou que deixou caír o castiçal.</p> + +<p>«Occorreram outras scenas que muito nos alegraram, sobre o geral jubilo de +vermos Maria Henriqueta livre de ferros.</p> + +<p>«Passados os momentos da estupefacção, quiz a regente<span class="pn" +id="pg_208" >{208}</span> ir pessoalmente a casa do provedor +contar o succedido.</p> + +<p>—Saír eu de oitenta e um annos á rua! exclamava ella.—Que dirá o +mundo?—Tinha ella uma creada de dezoito annos, que morria por se ver a +passear na rua, e estava contentissima de saír com a ama. Passou acaso um +estudante de clerigo, que acudiu ao motim, e mais ainda porque era namoro da +porteira, elegante matronaça, que não guardava quanto devia as portas do seu +coração. Pensou o estudante que a porteira iria com a regente a casa do +provedor, e offereceu-se a acompanha'-las, mas a velhinha, para poupar ás +estrellas o escandalo de a verem na atmosphera corrupta do mundo, pediu ao +embuçado estudante que fosse elle avisar o provedor, o que elle não fez por +commiseração com a fugitiva.»</p> + +<p>A curta distancia do recolhimento, estavam tres rijas mulas, e dois creados +de cavallo. Maria Henriqueta deu o ultimo abraço em sua mãe, e saltou para as +andilhas. Filippe dobrou o joelho beijando a mão da sogra, e cavalgou. Eugenia, +a chorar de alegria, nem deu fé de que a encarapitavam os dois creados na +terceira cavalgadura. Concertaram-se rapidamente as malas da bagagem, e partiu +açodada a cavalgata, caminho de Villa do Conde.</p> + +<p>D. Maria das Dôres entrou ovante em sua casa; esperou que o marido +recolhesse á meia noite; saíu-lhe ao encontro, com um riso de sarcastica +vingança, e disse:<span class="pn" id="pg_209" >{209}</span></p> + +<p>—A regencia não poude vencer o teu ouro; mas uma fraca mulher o +venceu. Maria Henriqueta está na companhia de seu marido. Fui eu que lhe abri +as portas do carcere, e fiz saír d'alli a pobre victima de tua crueza, que +estava sendo tambem um pregão de tua ignominia. Querias que a justiça a +infamasse, e eu quero que ella gose os direitos das esposas honradas e +virtuosas, porque os tem, e os merece. Diz aos teus amigos de Lisboa, aos +canaes de teu dinheiro, que ha um ente que se não corrompe, é uma mãe.</p> + +<p>Gonçalo Malafaya caíu prostrado n'um canapé, e bramiu:</p> + +<p>—Maldita sejas tu!</p> + +<p>—O céo não ouve as vozes do mau amante de Beatriz de Noronha, do mau +marido de Maria das Dôres, e do mau pae de Maria Henriqueta! Morre impenitente, +homem tres vezes abominavel!<span class="pn" id="pg_210" +>{210}</span> <span class="pn" id="pg_211" +>{211}</span></p> + +<h3><a name="SECTION00505">V</a></h3> + +<p>Na descripção da desgraça ha engenhos habilissimos. Em pintar a felicidade é +grande a penuria de phrases: parece que as linguas são pobres do que é tão +pouco e passageiro na humanidade!</p> + +<p>Assim é que eu me esquivo a dizer como era a alegria dos fugitivos, com +receio de me perder em nevoentas chimeras; ou—di'-lo-hei com quanta +sinceridade posso—o descostume de a sentir estragou-me a palheta com +cujas tintas, alguma hora, pintei venturas.</p> + +<p>Entraram por Hespanha, com destino ao alcaide de Segovia, cujas condolentes +cartas Filippe recebera na prisão, e Maria no recolhimento. Da primeira terra +de Hespanha escreveram para o amigo, que lhes chamára filhos. Abalaram de +Segovia o alcaide e as senhoras a esperarem, em terra muitas leguas distante, +os esposos. Em sua casa se hospedaram algumas semanas, e d'alli passaram para a +quinta, onde os attraíam saudades do passado, e esperanças de o reviverem mais +tranquillo e desassustado.<span class="pn" id="pg_212" +>{212}</span></p> + +<p>Encontrou Maria refloridas as flores que plantára, um anno antes. Lá estava +a roseira que ella consagrára a sua filha, denominando-a <em>Rosalinda</em>. +Ahi orvalharam lagrimas as faces de ambos; mas, seio contra seio, as ancias do +coração não podiam ser duradouras.</p> + +<p>Queriam-se solitarios os esposos ditosos; porém, seu mesmo infortunio lhes +dera uma attrahente celebridade. Concorriam á graciosa vivenda os curiosos de +Velha-Castella, e saíam para voltarem amigos dos que outr'ora prenderam +corações com os nomes de Luiz e Pedro de Castro. A este proposito, até poemas +se escreviam com o chiste das musas castelhanas, e os prelos contaram em +commoventes prosas a historia infeliz dos esposos.</p> + +<p>Uma noite, caíndo a ponto falar-se na pertinacia boçal do conde de Monção, +disse o alcaide o seguinte:</p> + +<p>—Traz-me esse nome á memoria um successo, que se deu, depois da vossa +ida para Portugal. Fui eu avisado de que dois homens suspeitos tinham chegado a +Segovia, e saíam de madrugada a fazer excursões pelos arrabaldes. Mandei-os +espionar, e soube que elles estanceavam por estes sitios, indagando dos aldeãos +qual terra vós terieis ido habitar. Com esta informação fiz prender os homens. +Pedi-lhes os passaportes, e vi que os viandantes eram portuguezes, naturaes de +Melgaço, e contractadores de carneiros. Não sei por que instincto, retive-os +até me darem abono. Não conheciam ninguem em Segovia; mas deram-se pressa em +escrever para Portugal. No entanto, perguntei-lhes o que tinham elles vindo +fazer nos arredores d'esta quinta. Responderam<span class="pn" id="pg_213" +>{213}</span> que andavam em cata de gado para comprarem. +Redobraram as minhas suspeitas. Inquiri que tinham elles com uma familia, que +se alojava n'esta quinta. Tartamudearam e confirmaram a certeza de seus máos +intentos. Quinze dias depois, recebi ordem do governo madrilense para dar +soltura aos presos. Não tinha outro remedio: soltei-os. Escrevi para Madrid, +pedindo que se averiguasse na repartição competente quem afiançára aquelles +dois presos. Tive em resposta que o ministro recebera directamente uma carta de +seu parente, o conde de Monção. De proposito vos occultei este episodio em +minhas cartas, cuidando em não vos aggravar as desgraçadas apprehensões. Agora +vos digo que isto me fez apprehender muito a mim. Segundo o que Filippe me +contou, o aviltado conde, a meu parecer, aprazou a vingança de cobarde. +Aquelles homens eram sicarios enviados por elle. Já passou um anno, e +naturalmente o conde está esquecido da affronta e da vingança; mas, ainda +assim, recommendo-vos toda a cautela, que o mais temivel dos inimigos é aquelle +que nos foge. Não me oppuz; porém, não approvo a vossa vinda para logar tão +ermo. Antes queria ver-vos na cidade, onde as emboscadas traiçoeiras são menos +possiveis, e a minha vigilancia mais apontada.</p> + +<p>Filippe Osorio sorriu á prudencia demasiada do alcaide; e Maria Henriqueta +estremeceu, e descorou desde que a historia pendeu ao assustador desfecho. +Cuidaram damas e cavalheiros em tranquillisa'-la, e, mais que todos, o marido, +inventando argumentos falsos a favor<span class="pn" id="pg_214" +>{214}</span> de sua segurança. Pediu-lhe a esposa que +abandonassem o local, e seguissem sua jornada até aos confins da Hespanha, ou +passassem a França ou Italia. Filippe socegou-a com a cedencia á sua vontade, +tirando a partido que descançariam mais algum mez entre a sua segunda familia, +e velados pela guarda de tantos amigos.</p> + +<p>Desde esta noite, eram de instantes os intervallos serenos de Maria +Henriqueta. A cada rumor interno ou exterior se alvoroçava; e se ouvia um tiro +remoto, não tendo junto de si o marido, soltava um grito, e corria como +desatinada a procura'-lo. Então cresciam de fervor os rogos de se afastarem +para mais longe; e o marido, que nunca se deixou vergar ao susto, promettia por +complacencia abreviar a partida.</p> + +<p>As cartas idas de Portugal davam Gonçalo Malafaya a descair rapidamente na +formal demencia. D. Maria dizia á filha que se vira obrigada a sair de casa, e +estava vivendo com as suas creadas n'um velho palacio de seus paes, com os +alimentos, que lhe arbitraram. A razão do divorcio fôra os accessos de furiosa +loucura do marido, que, algumas vezes, investira contra ella, armado de um +espadim. Passando a miudezas da demencia, dizia que o primo muitas vezes fugia +aterrado de uma visão que elle denominava <em>D. Francisco de Athayde</em>, +exclamando: <em>Deixa-me, vingador, deixa-me, que Beatriz já me perdoou!</em> +N'este estado, dizia a fidalga, o successo da fuga parecia cousa indifferente +ao marido; e a julga'-lo, nas horas lucidas, mostrava elle ouvir com dó a vida +trabalhosa da filha, e, sem contrariar, a affirmação<span class="pn" +id="pg_215" >{215}</span> da legitimidade do casamento. A todos +consentia falarem-lhe em Maria Henriqueta, menos á esposa; e contra ella é que +mais o acirrava a loucura, a ponto, como disse, de a querer matar.</p> + +<p>Esperavam, pois, os Osorios de Mirandella que o infortunio de seu filho e +irmão terminasse de todo com a morte de Gonçalo Malafaya.</p> + +<p>Um portuense, amigo de Filippe, e seu protector no julgamento, escreveu-lhe +para Hespanha. Uma pagina da carta dizia assim:</p> + +<p>—Tive occasião de vêr aqui no Porto o conde de Monção, de volta de +Lisboa, onde foi procurar uma herdeira rica, e d'onde voltou com a casa mais +deteriorada. Falou-se de ti na presença do conde, e elle fez-se roxo. +Contaram-se os teus infortunios, e a tua temeridade em arrancar a esposa do +convento, e elle mordeu os beiços até espirrarem sangue gothico e suevo. Um dos +presentes cavalheiros, sabedor do teu dialogo com elle, porque eu o contei em +pleno auditorio, para lhe cravar a garrocha, falou na tua coragem, e de +industria derivou o discurso até contar uma historia acontecida entre ti e um +dos próceres de Portugal. A historia era exactissimamente a tua com elle. Não +tirei os olhos da lorpa faceira do conde, e vi todos os demonios que elle tinha +na alma, se tem alma. No estomago juro eu que elle tinha uma legião de +espiritos immundos. Palavra não lhe despegou os dentes. Bebeu o calix até ás +fezes, e saíu, quando furtivamente poude escapar-se ao imprudente sorriso e ao +dos outros. No dia seguinte foi para Monção,<span class="pn" id="pg_216" +>{216}</span> d'onde eu sei que elle mandou aqui pessoa de sua +confiança averiguar a tua residencia em Hespanha. Eu julgo o conde incapaz de +tirar desforra pessoal; vil ia eu jurar que elle a premedita. E, senão, que lhe +importa a elle a tua residencia?! Previne-te: confia menos na tua bravura; e +veste as armas da prudencia contra os tiros da cobardia insidiosa. Estás em +terra onde o sangue salta em espadanas, e ninguem se espanta d'isso. Os +assassinos lavam as mãos, quando as lavam, e vão pedir a absolvição aos seus +frades. Cautella, meu Filippe. O meu parecer é que vás para Italia, e esperes +lá que saia de casa de teu sogro uma tumba, para tu entrares na tua verdadeira +paragem dos trabalhos, e dos receios. Só então cuido eu que não chegará a ti o +fulgor da tua funesta estrella.</p> + +<p>Occultou Filippe esta carta de Maria Henriqueta; mas o que elle mal podia +era occultar-lhe a inquietação. Pressurosamente cuidou em retirar-se da quinta, +e estabeleceu a sua residencia temporaria em Segovia, com grande aprazimento do +alcaide. Queria a presentida esposa que levantassem d'alli a sua barraca de +peregrinos, e se avisinhassem da França. Sonhava ella a sua inteira seguridade +na Italia; era para lá que a meiga senhora estava sempre impellindo o animo do +marido. Tinha elle annuido, quando Maria Henriqueta adoeceu de um movito, +procedido dos quotidianos abalos, causados por insignificantes incidentes, que +a traziam em permanente sobre-salto.</p> + +<p>Reservadamente mostrou Filippe a carta do seu amigo<span class="pn" +id="pg_217" >{217}</span> ao alcaide, sem esconder o receio que +tal nova, combinada com os precedentes, lhe causava. Providenciou o delicado +fidalgo hespanhol as rigorosas vigilancias que a sua amizade e dever lhe +impunham. Inuteis foram todas no decurso de dois mezes. Nem uma só pessoa +suspeita pernoitou nas estalagens da cidade.</p> + +<p>Restaurou-se Maria Henriqueta, e cuidou nos aprestos da jornada; mas +metteu-se a rigorosa invernada de 1813, e foi deferida para a seguinte +primavera a saida. Além de quê, a assidua espionagem era infructuosa, e as +averiguações, destras e insuspeitas do alcaide, deram o conde de Monção no +Alem-Tejo tratando de casar-se com uma rica herdeira.</p> + +<p>Ao mesmo tempo, o amigo do Porto, dizia o seguinte em resposta a uma carta +de Filippe Osorio:</p> + +<p>«... Tambem se me vão desvanecendo os receios. O conde passou aqui ha dias +com direcção a Estremoz, onde o levam as probabilidades de poder casar com uma +opulenta moçoila, cujo bis-avô fazia pucaros do barro da terra, cujo avô foi +creado da casa de Bragança em Villa Viçosa, e cujo pae pirateou na Africa, se +não mentem as chronicas dos visinhos. Não me parece que caiba odio em coração +tão cheio de amor á bis-neta do oleiro. Isto está longe de te dizer que vivas +descuidado. Aquella cara do conde é um alçapão do inferno. Lá dentro devem +existir</p> + +<blockquote> + Ferro, veneno, vibora traidora <br> + Cartas da mão de Machivello escriptas, </blockquote> + +<p style="text-indent: 0;">como diz o Tolentino no soneto.<span class="pn" +id="pg_218" >{218}</span></p> + +<p>«Precavém-te sempre, meu Filippe.»</p> + +<p>Esta carta achou já banida a desconfiança, e quasi esquecidas as cautelas, +afóra as do alcaide, posto que menos solicitas.</p> + +<p>Maria, contente das relações que adquirira, e da serenidade do esposo, +jámais lhe lembrou o projecto de jornadearem na primavera. Embeberam-se na sua +felicidade, e confiaram-se ao seu bom anjo.</p> + +<p>No concernente ao estado de Gonçalo, as noticias confirmavam a approximação +de sua morte. Acamára por ultimo, e nem já forças tinha para lançar-se fóra do +leito.</p> + +<p>Maria das Dôres, fiada na inercia do marido, e movida pela compaixão, +recolheu á casa conjugal conquistando assim a aura publica, e o bem estar da +sua consciencia. Gonçalo acolheu-a com indifferença, e chegou a apertar-lhe a +mão, graças aos seraficos esforços de dois franciscanos e um carmelita, que lhe +assistiam á doença. Alguma vez, a esposa se aventurou a falar em sua filha na +presença dos fradinhos e estes santos varões achavam justo que a menina viesse +pedir perdão a seu pae da filial desobediencia. O fidalgo trejeitava +negativamente, e os homens evangelicos encolhiam os hombros, e diziam: +«Fidalgo, nosso Senhor Jesus Christo perdoou a quem o matou.»</p> + +<p>Observava-lhes D. Maria das Dôres que seria mais piedoso, e conforme aos +preceitos de Jesus, dizer ao enfermo, que sua filha não praticára crime, +comparavel ao dos matadores de Christo, nem a alma do enfermo se<span +class="pn" id="pg_219" >{219}</span> salvaria, negando-se a +perdoar em desconto dos martyrios, que fizera soffrer a sua filha. Os monges +receavam estomagar o fidalgo, e privar os seus conventos da esmola promettida +pelo doente.</p> + +<p>Na correnteza d'estas lastimaveis miserias da humanidade, as estrellas +funestas d'esta familia alumiavam com luz sepulchral a vida dos nossos +desditosos de Hespanha.</p> + +<p>Já nem o alcaide espreitava que homens pernoitavam ou passeavam em Segovia, +quando, a convite de Maria Henriqueta, Filippe Osorio foi passar um dia á +quinta dos arrabaldes. A cariciosa esposa tinha sede de solidão com seu marido. +Era abril, e queria vêr as <em>Rosas-lindas</em>, o florido monumento de sua +filhinha. Vinha-lhe do campo o acre das florestas, e a juvenil Maria, que +volvera aos desoito annos, renovado e aquecido o sangue ao calor da felicidade, +anceou o campo, as flores, a sombra, os regatos, as paginas de sua vida que em +tudo aquillo se liam. Passaram um dia de paraiso terreal. Brincaram como +creanças, por entre as murtas e os jasmineiros, e as cilindras. O sol +transmontava as serras, quando Maria disse:—Agora, vamos, filho! e +agradeçamos a Deus este dia, que foi um dos mais completamente felizes da minha +vida.</p> + +<p>Filippe sentou-a no selim do cavallo, e beijou-a com o fervor d'aquelle +beijo, que lhe dera, n'aquella noite da fugida de Arouca.</p> + +<p>Caminharam, conversando. O lacaio seguia-os vagaroso, com discreta +distancia.<span class="pn" id="pg_220" >{220}</span></p> + +<p>Recordava Maria os cinco annos de Lisboa, a apparição infernal do conde, as +saudades angustiosas de Arouca, as delicias loucas dos seus primeiros mezes de +casada, as torturas inexprimiveis do recolhimento, a louca alegria da segunda +fuga, o interrogatorio e o desespero em casa do almotacé, a terceira fuga, o +delirio com que lhe correu aos braços, as venturas que devia a sua mãe, e os +terrores que lhe denegriram a felicidade nos ultimos mezes. Filippe ia com ella +ao céo n'estas memorias, e de lá se despenhava no abysmo de outras. Assim lhes +voára o tempo, até entrarem n'um carvalhal, que fórma um como anteparo da +cidade.</p> + +<p>—Este sitio—disse Filippe—tem uma belleza terrivel. Eu +gostei sempre muito d'elle; mas nunca passei aqui sem pensar na facilidade com +que se póde ser assaltado d'entre estas furnas de arvores.</p> + +<p>—Vamos depressa, Filippe, dá de esporas ao cavallo—disse ella +vibrando a chibata na anca de ambos os cavallos.</p> + +<p>—Assustei-te com as minha apprehensões?—accudiu +Filippe—Tolinha, vai devagar, que perdemos esta formosa scena... Olha os +rouxinoes como cantam lá em baixo nas margens do rio... São acções de graças +Deus. Agradecem comnosco ao Senhor a nossa felicidade!...</p> + +<p>Proferidas estas palavras, saíram dois tiros de entre uma moita de arvores. +Maria Henriqueta soltou um grito estridulo.</p> + +<p>Filippe inclinou o peito sobre o pescoço do cavallo<span class="pn" +id="pg_221" >{221}</span> que se ergueu de frente, espavorido pelo +estrondo.</p> + +<p>—Creio que estou morto!.... disse elle. Maria saltou a terra, deu dois +passos para o marido, que fincára os braços no pescoço do cavallo. Extendeu-lhe +ella os seus, invocando-o com uma voz que era já um como derradeiro grito. Caíu +fulminada a tempo que o cadaver de Filippe resvalava aos braços do lacaio.</p> + +<p>Oh! não vos dizia eu, leitores?</p> + +<p><em>Com que vontade eu quebraria a penna, se tenho de tirar d'ella paginas +negras da vida dos dois tão dignos, tão abençoados, tão bem quistos da leitora, +que amou ou ama, do pae que perdoou, ou tem de perdoar um dia, do mundo que +sentenceia ou já sentenceiou paixões, que que exorbitam do estadio commum! Ai! +eu antes queria inventar, antes mentir, antes de lançar de mim com asco estes +apontamentos.</em></p> + +<p>E os apontamentos dizem com acerba simplicidade:</p> + +<p>«Viveram, em Hespanha; mas pouco tempo juntos.</p> + +<p>O desgraçado Osorio foi assassinado por um tiro, quando se recolhia de +passeio com sua mulher».</p> + +<p>Quão pouco sabia dos promenores d'este assassinio a educanda de S. Lazaro! +outras informações de mais recordados amigos de Filippe, e papeis que se +desfariam nunca lidos na papelleira de um nobre, levaram o meu espirito até á +catastrophe sanguinolenta d'esta tragedia.</p> + +<p>A catastrophe? Ainda não. A justiça de Deus é uma a justiça do mundo é +outra.<span class="pn" id="pg_222" >{222}</span></p> + +<p><span class="pn" id="pg_223" >{223}</span></p> + +<h3><a name="SECTION00506">VI</a></h3> + +<p>O cadaver de Filippe foi n'uma maca para Segovia. O quasi cadaver de Maria +Henriqueta foi transportado em braços.</p> + +<p>A viuva não ouviu o dobre dos sinos, nem o psalmear dos clerigos ao +levantarem o esquife, nem os responsos na egreja proxima.</p> + +<p>Onde estava a alma d'aquella mulher, que não se assignalava nos sentidos +externos? Iria acompanhar a do esposo? Ficaria no céo, ou voltaria ao supplicio +do corpo?</p> + +<p>Quem diria, vendo-a extactica, esgazeados os olhos, ora arrobada, ora +risonha, e nunca lagrimosa, quem diria se ella se recordava que tivera um +marido, um marido amado, um esteio unico, e para sempre quebrado, na sua vida, +alli assassinado ao fechar de um dia que ella dissera o mais completamente +feliz da sua vida!</p> + +<p>Viram-n'a, ao fim de tres dias, saltar do leito aos braços das senhoras, e +exclamar:<span class="pn" id="pg_224" >{224}</span></p> + +<p>—Filippe! Filippe! o seu corpo ao menos, deixem-me ve'-lo uma só +vez.</p> + +<p>Sabia, pois, que tinha sido morto o seu amado. Agora, se a Providencia lhe +não destina alguma missão espantosa, vesti esse cadaver d'uma mortalha, e +dae-lhe na campa de seu esposo um logar, dae-lhe as nupcias ditosas do tumulo, +piedosas senhoras, que a quereis aviventar com o ardor de vossos beijos e de +vossos prantos!</p> + +<p>Deixae-a viver, que Deus quer essa vida. Amparae-a nos braços, que ella de +per si se erguerá e clamará:</p> + +<p>—Estou viva: deixae passar a viuva do assassinado! O sangue que elle +derramou, gelou-se em bronze, e pesa-me no coração. Deixae-me e vereis se eu +era digna d'elle!</p> + +<p>Maria ergueu-se uma noite, e falou de seu marido. As idéas embaralhavam-se +desconcertadas; mas eram idéas do passado, do presente e do futuro. Pediu, +instantemente, com as mãos erguidas, que a levassem á campa de seu marido.</p> + +<p>—Deixem-n'a ir—disse o alcaide—e seja já. Vamos com ella. +Quanto mais cedo rebentarem as lagrimas, mais depressa nos voltará a razão da +infeliz.</p> + +<p>Foi aberta a egreja. Maria ajoelhou sobre a fisga de uma campa, que lhe +indicaram. Debruçou-se até collar os labios na lagem. Disse uma palavra, uma +só, e nenhuma lagrima verteu.</p> + +<p>Palavra tremenda, que o futuro disse depois qual era.</p> + +<p>—Mas não chorou!—disseram as consternadas senhoras.<span +class="pn" id="pg_225" >{225}</span></p> + +<p>—Ha de chorar—respondeu o pae.</p> + +<p>N'essa mesma noite, disse Maria:</p> + +<p>—Deixem-me ver a roupa que meu marido vestia quando o mataram.</p> + +<p>As senhoras encararam-se indecisas, e o pae murmurou:</p> + +<p>—Mostrem-lh'a.</p> + +<p>Junto com o casaco de castorina amellada, vinha uma camisa cortada de laivos +de sangue. Maria beijou o sangue, e disse:</p> + +<p>—É minha: guarda'la-hei.</p> + +<p>E enrolou a camisa, e aconchegou-a do seio, sem a menor visagem de demencia. +</p> + +<p>—Mas não chora!—diziam as meninas, em segredo, a seu pae.</p> + +<p>—Se não chora, morre.</p> + +<p>No dia seguinte, chegou D. Maria das Dôres, chamada a Segovia por um creado +do alcaide, que partira horas depois do assassinio.</p> + +<p>A filha deixou-se apertar ao seio arquejante da mãe; viu-a chorar e soluçar; +ouviu-lhe as exclamações ora piedosas, ora colericas; tudo viu e ouviu +impassivel.</p> + +<p>—Iremos ámanhã—disse ella á mãe.</p> + +<p>—Se pódes, vamos, minha filha!—respondeu Maria das Dôres, +pensando que o afasta'-la d'alli era um passo para salva'-la.</p> + +<p>Despediu-se das meninas e do alcaide. A todos, e a cada um disse:</p> + +<p>—Até á eternidade!</p> + +<p>Entrou n'uma liteira, com sua mãe.<span class="pn" id="pg_226" +>{226}</span></p> + +<p>Perguntou-lhe Maria das Dôres que levava ella enrolado debaixo do braço.</p> + +<p>—É o sangue de meu marido—respondeu.</p> + +<p>Tinha dito o alcaide a D. Maria:</p> + +<p>—Excite-lhe as lagrimas, se a quer salvar. Leia-lhe as cartas que um +amigo do marido lhe escreveu do Porto. Quer-se um abalo energico, seja qual +fôr. Accenda-lhe o furor do odio ao assassino. Para esse eu lhe darei um +espectaculo no caminho.</p> + +<p>Ao segundo dia de jornada, D. Maria das Dôres ouviu ler as cartas, +concludentes para a certeza de ser ordenada a morte pelo conde de Monção.</p> + +<p>—Eu já li essas cartas—disse Maria.—Sei tudo.</p> + +<p>Entravam na provincia de Valhadolid, quando viram ante si uma escolta de +soldados equestres, com dois presos manietados. Parou a escolta n'uma chan, e +parou a liteira, embargado o caminho.</p> + +<p>Maria via tudo indifferente.</p> + +<p>Chegou o alcaide á portinhola da liteira, e disse:</p> + +<p>—Sr.ª D. Maria Henriqueta, eu vingo Filippe tanto quanto posso.</p> + +<p>Approximou-se do commandante da escolta, e exclamou:</p> + +<p>—Póde seguir com os seus soldados. Os presos ficam entregues á minha +guarda. Maria olhava e parecia não compreender.</p> + +<p>Os cavallarias ladearam a liteira e passaram ávante, dando o passo a +soldados de pé, que alinharam em frente da liteira.<span class="pn" id="pg_227" +>{227}</span></p> + +<p>—Justiça de Hespanha!—disse o alcaide.—De joelhos, +assassinos de Filippe Osorio! Ha-de pesar-vos na consciencia mais o ferro que o +ouro do conde de Monção. Depressa, em quanto eu não ponho a tormentos estes +infames; depressa, rapazes!</p> + +<p>Arderam doze escorvas; o estrondo fez levemente tremer Maria Henriqueta; o +vento rijo sacudiu depressa uma nuvem de fumo, e o estertor dos cadaveres +passára com o fumo da polvora.</p> + +<p>O alcaide avisinhou-se da liteira, e disse com risonho aspecto:</p> + +<p>—É incompleta a vingança: mas não está mais em minha mão.</p> + +<p>E apertou a de Maria Henriqueta, que respondeu:</p> + +<p>—O resto... eu!</p> + +<p>Os liteireiros afastaram com o pé os cadaveres do caminho, e o prestito +caminhou devagar, esperando que Eugenia recuperasse os sentidos aturdidos pelo +incidente.</p> + +<p>Ao decimo dia de jornada, chegaram os viajantes ao Porto.</p> + +<p>Maria Henriqueta subiu serena as escadas da casa onde nascera. Perguntou por +seu pae, e disseram-lhe que estava gravemente enfermo, e sacramentado. Entrou +na camara, que já espirava o fetido tábido da morte. Approximou-se do leito, +ajoelhou, e disse:</p> + +<p>—Venho a tempo de lhe pedir perdão, meu pae.</p> + +<p>O velho fez um gesto de indignação.</p> + +<p>Maria desenrolou a camisa do marido, e murmurou.<span class="pn" id="pg_228" +>{228}</span></p> + +<p>—Em nome d'este sangue lhe peço perdão.</p> + +<p>—Sangue!—exclamou o velho.</p> + +<p>—Sangue de meu marido, de meu marido assassinado pelo conde. Para nos +encontrarmos todos na eternidade, perdoe-me, meu pae. Este sangue era +innocente, e pede perdão para o nobre coração que o tinha, e para mim.</p> + +<p>Gonçalo quiz sentar-se no leito: esforço vão! Pediu por acenos, que o +sentassem. Obedeceram-lhe. Chamou a filha a si, approximou-a do peito, e +balbuciou:</p> + +<p>—Perdôa-me tu, perdôa-me tu, desgraçada!...</p> + +<p>E continuava a querer aperta'-la entre os braços convulsos, quando a face, +pendida para o seio, encontrou a cabeça de Maria, e esteve assim instantes. +Eram os ultimos. Os braços, ao descaírem, inteiriçaram-se e os dedos +recurvaram-se um pouco.</p> + +<p>Maria retirou a cabeça humida do sôro que corria dos cantos dos beiços do +defunto. Fitou os olhos na face morta de seu pae, e disse:</p> + +<p>—Perdôo-lhe, meu Deus! Perdoae-me vós a mim, quando eu fôr á vossa +presença!</p> + +<p>No dia seguinte, a sociedade illustre do Porto pejava as salas funeraes do +palacio de Gonçalo. Ninguem vira Maria Henriqueta. As damas intimas de D. Maria +das Dôres poderam apenas saber que a viuva tinha saído á meia noite acompanhada +de um lacaio.</p> + +<p>Assim fôra; e quizera ella acompanhar-se do lacaio do marido, o fiel creado +de vinte annos; mas ninguem dera novas d'elle, desde que entraram no +Porto.<span class="pn" id="pg_229" >{229}</span></p> + +<p>D. Maria das Dôres tentou estorvar-lhe o mysterioso designio; mas a filha +respondia-lhe:</p> + +<p>—Seja piedosa! não me mate! deixe-me, em signal de compaixão das +minhas infernaes penas.</p> + +<p>Só a violencia podia embargar-lhe a saída. Aconselharam-na á fidalga os +familiares e parentes; mas quebrou de animo para tanto.</p> + +<p>Maria Henriqueta saíu.</p> + +<p>E cinco dias depois anoiteceu-lhe em Lisboa; e no dia seguinte atravessou o +Tejo, e foi caminho de Extremoz.</p> + +<p>Correm rapidas estas scenas, porque Maria não murmurava mais palavras que as +urgentes para o cumprimento de suas ordens ao creado. Os dias eram os mesmos; +brida solta em quanto os cavallos podiam; novos cavallos quando caíam de fadiga +os outros. Os viandantes que a encontravam entre nuvens de pó, diziam: «Que +extravagante mulher! É alguma fidalga, que não sabe como hade consumir o vigor +dos annos, espicaçados pela riqueza!»</p> + +<p>Outros achavam-lhe um bello rosto alumiado por sinistra auréola, e paravam a +comtempla'-la nos curtos intervallos em que pousavam nas estalagens, ou +alugavam cavallos nas grandes povoações. Em algumas estalagens, os passageiros +curiosos, ao romper do dia, perguntavam ao lacaio: «Que tem sua ama, que +soluçou e gemeu no quarto toda a noite?»</p> + +<p>A duas leguas áquem de Extremoz, apeou Maria Henriqueta, a esperar que +anoitecesse para entrar na cidade.<span class="pn" id="pg_230" +>{230}</span></p> + +<p>Ao caír da tarde, entraram na estalagem uns homens vindos da feira de +Extremoz, e contaram ao estalajadeiro o seguinte:</p> + +<p>«Seriam duas horas da tarde quando saía de se receber n'uma egreja um sr. +conde com uma menina, que lá diziam ser a mais rica da provincia. Estava muito +povo no adro, e muito fidalgo, que já não cabia na egreja. Saíram os casados já +recebidos, e o noivo vinha que parecia um rei, e a noiva era mesmo um palmito, +com tantos brilhantes como as estrellas do céo. E vae n'isto, quando o conde ia +a dar a mão á noiva para entrar no coche, um homem que eu não cheguei a ver, +mas que me disseram que era já avelhado, chega ao pé do conde cara a cara, +diz-lhe não sei que, e enterra-lhe tres vezes no peito uma faca!»</p> + +<p>Maria Henriqueta expediu um grito que chamou a attenção de todos, para o +repartimento do tabique, além do qual estava a saleta, que lhe deram. Movera-se +o estalajadeiro a saber o que tinha a fidalga, quando ella abriu a porta, e +perguntou:</p> + +<p>—E ouviram dizer quem fosse o homem que matou o conde?</p> + +<p>—Ninguem lá soube dizer quem era, fidalga!</p> + +<p>—Prenderam-no?</p> + +<p>—Ora! isso foi como o senhor sol. Lá ficou na cadeia. Eu bem quiz +ver-lhe os focinhos; mas era tanto o povo, que ninguem lhe chegava á beira. Uns +diziam que era mandado por outro que queria casar com a menina; outros contavam +lá a cousa como queriam; o caso é que<span class="pn" id="pg_231" +>{231}</span> ao certo ninguem sabe dizer quem é. Ámanhã é que +pelas perguntas se ha de saber.</p> + +<p>Não se deteve Maria Henriqueta. Chegou a Extremoz, e viu no primeiro +palacete as portas cobertas de crepe com franja de prata. Sem perguntar, soube +que d'alli havia de sair o cadaver do conde de Monção.</p> + +<p>Apeou-se na estalagem, e pediu guia para a cadeia. Como a julgassem curiosa +de conhecer o assassino do conde, disseram-lhe que elle estava a perguntas em +casa do juiz de fóra. Foi Maria a casa do juiz de fóra, e conseguiu entrar até +ao salão de espera. Era prohibido o accesso ao gabinete do ministro, onde +estava o interrogado.</p> + +<p>Esperou que elle saísse, viu-o, e conheceu o creado de Filippe Osorio, o seu +amigo de nove annos. Viu-a tambem elle, e parou, abriu ainda a bocca para +exclamar; mas logo viu que a fidalga tinha sobre o nariz o dedo, em gesto de +silencio.</p> + +<p>Passou o preso, e Maria Henriqueta, escutando os rumores, que vinham do +gabinete, ouviu dizer que o assassino do conde confessára quem era, e a causa +por que praticára o homicidio, mostrando suprema coragem para morrer, vingado o +amo, que ás ordens do conde fôra assassinado.</p> + +<p>Decorridos dois dias, Maria Henriqueta vestiu uma velha roupa, alinhavada ao +uso do Minho, e pediu ao carcereiro licença para falar com o preso, que era seu +irmão. Foi-lhe concedida, como cousa usual. O preso, ao ve'-la, lançou-se-lhe a +chorar aos pés, e disse:<span class="pn" id="pg_232" >{232}</span> +</p> + +<p>—Perdôe-me v. ex.ª...</p> + +<p>Maria susteve-o, porque o carcereiro estava ainda perto, e, baixando a voz, +disse:</p> + +<p>—Entrei aqui como tua irmã, fala baixo... De que me pedes perdão?</p> + +<p>—Tirei-lhe a vingança que era de v. ex.ª... mas não pude mais com a +minha paixão. Eu adivinhava que a fidalga vinha; e a minha vontade era +espera'-la e guia'-la na sua vingança; mas n'aquelle momento em que o maldito +saía da egreja, não pude ter mão em mim; cheguei-me ao pé d'elle, e disse-lhe: +«Sou o lacaio do sr. Filippe Osorio» e matei-o a facadas. Estou contente, +palavra de fiel amigo! Agora, que me enforquem quando tiverem occasião, que eu +cá fiz trinta annos á justa ha mais de vinte. Não podia empregar melhor a +vida!</p> + +<p>—Não has-de ser enforcado, João—disse Maria.</p> + +<p>Hei-de salvar-te; irás d'aqui para Hespanha.</p> + +<p>—Salvar-me?! Deixe-se d'isso, fidalga; não vale a pena andar a minha +ama n'esses arranjos, sem geito nem saída. Vá v. ex.ª para sua casa, e deixe-me +cá com a minha consciencia, que estamos de boas avenças, eu e mais ella, assim +me Deus salve a minha alma.</p> + +<p>—Cala-te, e obedece-me, João. Vê em mim teu amo. Vêr-me-has mais +vezes.</p> + +<p>Maria voltou ao dia seguinte, e ao outro. O creado que a seguira, já tinha +voltado ao Porto, com uma carta a D. Maria das Dôres. Resava assim o periodo +final:</p> + +<p> </p> + +<p>«Mande-me, pois, quanto possa, quanto v. ex.ª daria<span class="pn" +id="pg_233" >{233}</span> para o resgate de sua filha. É a minha +vida que salva da forca. As suas joias valiam mil cruzados: dê-m'as, que eu não +quero mais nada da herança de meus paes, senão uma mortalha, e um tumulo para +os ossos de meu marido e para os meus.»</p> + +<p> </p> + +<p>Á quarta visita que Maria Henriqueta fez ao preso, deteve-se a falar com o +carcereiro. Era um homem pobrissimo, bondoso, dado com os presos, que o +sustentavam. N'um relance da conversação, Maria assumiu o tom natural de +senhora, e disse-lhe:</p> + +<p>—Dê-me o preso, que matou o conde, e eu dou-lhe por elle quinze mil +cruzados. V. mercê recebe os quinze mil cruzados, foge para Hespanha com o +preso, e vae viver feliz e na abundancia onde quizer viver fóra de Portugal. +Repare que não é a irmã do preso que lhe fala, é uma mulher que lhe dá, +passados alguns dias, quinze mil cruzados.</p> + +<p>O carcereiro mediu-a de alto a baixo, e murmurou:</p> + +<p>—Isso é mangação? Eu não sei com quem falo.</p> + +<p>—Que lhe importa saber com quem fala? Resolva-se n'este momento. +Aceite a independencia onde a quizer gosar. Que responde?</p> + +<p>—Nós falaremos, senhora; mas se me prendem...</p> + +<p>—Siga o preso, que elle vae recommendado a pessoa de Hespanha, que +dará a ambos completa segurança, e passagem para o exercito francez, se a +quizerem. </p> + +<p>O carcereiro annuiu, sem grandes oscillações de consciencia. Esperava Maria +a resposta de sua mãe com<span class="pn" id="pg_234" +>{234}</span> anciedade. Ao fim de sete dias chegou o mordomo, a +quem D. Maria das Dôres confiára dinheiro excedente ao valor das joias.</p> + +<p>O carcereiro foi chamado á sua presença, e viu o dinheiro.</p> + +<p>—Traga por aqui o preso esta noite. Venham de roupas mudadas para não +serem conhecidos. Aqui recebe vocemecê o dinheiro, e elle uma carta. Depois, +sigam o caminho mais seguro que tiverem.</p> + +<p>—Eu sei os atalhos aos palmos até á fronteira—disse o +carcereiro.</p> + +<p>Ás onze horas da noite d'esse dia, apresentou-se na prisão o carcereiro, +dizendo que o juiz de fóra mandava remover da prisão commum o preso matador do +conde, e mette'-lo em segredo. Os companheiros lastimaram o destino do infeliz. +</p> + +<p>Dado este passo, o creado de Filippe Osorio vestiu, na residencia do +carcereiro, a roupa que este lhe deu, e passou por deante das sentinellas, que +o julgaram amigo ou familiar do carcereiro.</p> + +<p>Maria Henriqueta esperava-os no seu quarto da estalagem. Recebeu o creado +entre os braços, que se não pejaram de estreitar ao coração o vingador de seu +marido. Deu ao homem vendido a quantia estipulada. Deu basto dinheiro ao amigo, +e uma carta para o alcaide de Segovia. O servo beijou-lhe as mãos, banhou-lh'as +de lagrimas, e partiram.</p> + +<p>—Não tenho mais que fazer aqui—disse Maria Henriqueta.<span +class="pn" id="pg_235" >{235}</span></p> + +<p>E, n'essa mesma hora, saíram para Lisboa, e seguiram viagem para o Porto.</p> + +<p>O sangue da infeliz tinha estuado, arrefecido nas veias. Apagada a flamma da +vingança, um leve sopro lhe levaria o espirito vital. No caminho, succumbira +muitas vezes ao cançaço, e fizera a jornada de liteira.</p> + +<p>Entrou em casa de sua mãe, e disse:</p> + +<p>—Agora venho pedir a mortalha.</p> + +<p>Rodearam-na as consolações frivolas, e o maravilhoso da vingança que lhe +attribuiam os já sabidos na morte tragica do conde.</p> + +<p>—O creado fiel—dizia ella á mãe—não me deixou cumprir a +promessa que fiz sobre a sepultura de meu marido. V<small>INGAR-TE-HEI</small>, +disse eu; mas eram tantos a ama'-lo, que me roubaram a gloria de ver o sangue +do algoz! Agora, Deus que me julgue!<span class="pn" id="pg_236" +>{236}</span></p> + +<p><span class="pn" id="pg_237" >{237}</span></p> + +<h2><a name="SECTION00600">CONCLUSÃO</a></h2> + +<h3><a name="SECTION00601">UMA CARTA</a></h3> + +<p>Fiz quanto pude em serviço do seu romance, e obtive o essencial da sua +incumbencia, posto que o esquecimento de pessoas desgraçadas é uma das muitas +corcundas do aleijado genero humano, se não é antes providencial o esquecimento +para que cada homem, cada infeliz, digo, cuide egoistamente de si.</p> + +<p>Passo sem mais preambulos, a dar-lhe conta do meu encargo.</p> + +<p>Maria Henriqueta Osorio da Fonseca viveu cinco mezes em companhia de D. +Maria das Dôres. Disse-me alguem que ella nunca saía do seu quarto, nem +recebera n'elle pessoas, senão sua mãe e a ama, que a creára. N'este espaço de +cinco mezes, quizera ella chamar ao Porto os ossos de seu marido; porém, o +alcaide respondeu que as carnes vestiam ainda os ossos. Não alcancei a rasão +por que Maria Henriqueta, no fim d'aquelle<span class="pn" id="pg_238" +>{238}</span> tempo, se recolheu a Arouca e ao quarto onde +residia, quando Filippe Osorio a foi buscar. Soube que ella, emquanto as forças +a deixaram, ia todos os dias ao muro, onde ficava a olhar largo tempo para o +galho da arvore a que subira Filippe.</p> + +<p>A final faleceram-lhe as forças para estas saidas, e pouco tempo desejou +te'-las, porque morreu, dois mezes depois da sua entrada no mosteiro. Jaz +enterrada na claustra de Arouca, sem epitaphio, nem data do nascimento ou +morte.</p> + +<p>D. Maria das Dôres viveu ainda doze annos, se não contente, com apparencias +de resignada. Para o fim da vida foi muito devota e esmoler. Jaz no seu jazigo, +em uma capellinha da cathedral.</p> + +<p>Eugenia morreu em Arouca nos braços de Maria Henriqueta, a quem estava +decretado que todos os golpes lhe acertassem no coração já moribundo.</p> + +<p>O vingador de Filippe Osorio, com o carcereiro, chegaram sãos e salvos a +Segovia; apresentaram-se ao alcaide com a carta de D. Maria Henriqueta, e +receberam passaportes até encontrarem o exercito francez, que abandonava as +praças hespanholas. O ex-carcereiro lá se estabeleceu por França com os seus +quinze mil cruzados, e póde ser que deixasse prole abastada. João, o lacaio, +alistou-se no exercito, negociou no commissariado, e appareceu em 1852 no +Porto, onde ninguem o conheceu. Como achasse morta sua ama, foi a Segovia, e +achou tambem morto o alcaide. Tornou para França, e não chegaram ao meu +conhecimento outras memorias d'elle.<span class="pn" id="pg_239" +>{239}</span></p> + +<p>Aqui tem o mais que pude esquadrinhar, depois das informações que lhe dei. +De umas e outras faça um uso conveniente, conveniente, digo, desejando eu que o +seu romance tenda a escarmentar, e avisar.</p> + +<p>Reflexionando eu muitas vezes na vida dos desgraçados personagens d'esta +esquecida historia, tenho formado um juizo mal seguro ácerca da moralidade +d'ella; differentes illações me combatem; mas uma ha que as outras não +derribam, e é: que um pae não deve ser o supremo arbitro do coração de sua +filha. Illustra'-la, guia'-la, é uma cousa; arrasta'-la pelos cabellos d'um +supposto abysmo para despenha'-la n'um abysmo certo, é outra cousa.</p> + +<p>Além d'isto reconheci a mão da Providencia carregando sobre Gonçalo +Malafaya, que fizera da obediencia filial um pretexto para cobrir sua ambição +de haveres. Aquelles vinculos de Freijoim e Aguas-Santas foram a causa +efficiente da morte de Beatriz de Noronha, da demencia de D. Francisco de +Athayde, e das mil desgraças consecutivas. Não é de desprezar este aspecto de +moralidade que offerece o seu romance.</p> + +<p>Desculpe os conselhos do seu velho amigo, se os tem n'essa conta: eu quiz +apenas dizer-lhe em pouco o muito que tenho pensado nos desastres de uma +infeliz familia, em cuja casa tomei chá, quando era menino. Que +«F<small>UNESTAS ESTRELLAS</small>!»</p> + +<p> </p> + +<h3><a name="SECTION0060110">FIM</a></h3> +</div> + +<p><span class="pn" id="pg_240" >{240}</span></p> + +<p> </p> + +<div class="rodape"> +<p><a name="foot355" href="#tex2html1"><sup>[1]</sup></a> A sr. D. Ermelinda +Pinto de Magalhães, filha do dr. João Pedro Gomes de Abreu, então provedor da +Misericordia e fiscal do recolhimento de S. Lazaro.</p> + +<p><a name="foot366" href="#tex2html2"><sup>[2]</sup></a> O já citado +vice-provedor da Misericordia.</p> + +<p><a name="foot375" href="#tex2html3"><sup>[3]</sup></a> Póde ser que ainda +vivam; e a ellas ou a quem as conheça chegue a reminiscencia ou a noticia +d'este honroso episodio de sua mocidade.</p> + +<p><a name="foot391" href="#tex2html4"><sup>[4]</sup></a> Confessa o auctor que +é dissaborida cousa, em romance, duas pessoas, que se amam, comerem, ás suas +horas, como o restante da humanidade. Abjuro os preceitos da arte em reverencia +á verdade. Aqui o auctor escreve historia e não o romance.</p> +</div> + + + + + + + +<pre> + + + + + +End of Project Gutenberg's Estrellas Funestas, by Camilo Castelo Branco + +*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK ESTRELLAS FUNESTAS *** + +***** This file should be named 31694-h.htm or 31694-h.zip ***** +This and all associated files of various formats will be found in: + https://www.gutenberg.org/3/1/6/9/31694/ + +Produced by Pedro Saborano and the Online Distributed +Proofreading Team at https://www.pgdp.net (This book was +produced from scanned images of public domain material +from the Google Print project.) + + +Updated editions will replace the previous one--the old editions +will be renamed. + +Creating the works from public domain print editions means that no +one owns a United States copyright in these works, so the Foundation +(and you!) can copy and distribute it in the United States without +permission and without paying copyright royalties. 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It exists +because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from +people in all walks of life. + +Volunteers and financial support to provide volunteers with the +assistance they need are critical to reaching Project Gutenberg-tm's +goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will +remain freely available for generations to come. In 2001, the Project +Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure +and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations. +To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation +and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4 +and the Foundation web page at https://www.pglaf.org. + + +Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive +Foundation + +The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit +501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the +state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal +Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification +number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at +https://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg +Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent +permitted by U.S. federal laws and your state's laws. + +The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S. +Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered +throughout numerous locations. Its business office is located at +809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email +business@pglaf.org. 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