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diff --git a/31654-8.txt b/31654-8.txt new file mode 100644 index 0000000..dd14fcf --- /dev/null +++ b/31654-8.txt @@ -0,0 +1,1623 @@ +The Project Gutenberg EBook of Oliveira Martins, by Anthero de Quental + +This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with +almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or +re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included +with this eBook or online at www.gutenberg.org + + +Title: Oliveira Martins + +Author: Anthero de Quental + +Release Date: March 15, 2010 [EBook #31654] + +Language: Portuguese + +Character set encoding: ISO-8859-1 + +*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK OLIVEIRA MARTINS *** + + + + +Produced by Pedro Saborano (produced from scanned images +of public domain material from Google Book Search) + + + + + + + ANTHERO DE QUENTAL + + OLIVEIRA MARTINS + +O critico litterario--O economista--O historiador--O publicista--O politico + + + LISBOA + TYPOGRAPHIA DA COMPANHIA NACIONAL EDITORA + _50, Largo do Conde Barão, 50_ + 1894 + + + +OLIVEIRA MARTINS + + + +ANTHERO DE QUENTAL + +OLIVEIRA MARTINS + +O critico litterario--O economista--O historiador--O publicista--O politico + + +LISBOA +TYPOGRAPHIA DA COMPANHIA NACIONAL EDITORA +_50, Largo do Conde Barão, 50_ +1894 + + + + +Os Luziadas, ensaio sobre Camões a sua obra, em relação á sociedade +portugueza e ao movimento da Renascença, por J. P. de Oliveira +Martins. Porto, 1872. + + +Se a escóla ethnologica está representada, entre os escriptores novos, +pelo sr. Theophilo Braga, a escóla social e historica--a unica, talvez, +a que propriamente se devêra dar o nome de philosophica--acaba de achar +igualmente entre nós um digno representante num escriptor moço e do +maior futuro, o sr. Oliveira Martins, que num livro recente estudou, a +proposito de Camões (e para nos explicar Camões), a litteratura +portugueza do seculo XVI, no ponto de vista largo e comprehensivo, ao +mesmo tempo politico e psychologico, que caracterisa esta ultima escóla. + +Neste ponto de vista, a litteratura de um povo, considerada como um todo +symetrico, uma obra gigantesca e collectiva, apresenta-se como a +expressão do seu espirito nacional, determinado não por tal ou tal +elemento primitivo e, por assim dizer, physiologico, mas pelos +elementos complexos, uns fataes outros livres, uns criados outros +herdados, cuja synthese constitue a _idéa_ da sua nacionalidade--raça, +instituições, religião, tradição historica e vocação politica e +economica no meio dos outros povos. A idéa nacional, na sua evolução, +determina gradualmente o que se póde chamar o temperamento da nação; e, +se esta surda fermentação se manifesta em tudo, nos seus actos e nos +seus pensamentos, revela-se sobretudo na sua imaginação, isto é, no seu +ideal, cuja expressão mais livre é a arte e a litteratura. Nesta +invisivel circulação da seiva interior ha periodos, periodos de +revolução, de progresso, de retrocesso, de incubação ou de plenitude de +forças: a estes correspondem invariavelmente os periodos artisticos e +litterarios, com suas variações de intensidade, lenta formação de +escólas, morbidos estacionamentos, subitas e inflammadas florescencias. +E, como nesta vegetação collectiva, cada ramo, cada folha, cada fructo, +se alimenta com a seiva commum e tem uma vitalidade proporcional á força +que trabalha o grande tronco, o espirito individual acompanha o espirito +nacional nas suas evoluções, gradua pela delle a sua intensidade: a sua +liberdade interior tem por limites, realisando-se, as condições do meio +em que se desenvolve, e o genio do artista, do poeta, ainda quando +protesta e se revolta, é sempre _adequado_ ao genio do seu povo e da sua +época. É por aqui que a historia litteraria se liga á philosophia da +historia, ou antes, que faz parte della. As grandes épocas litterarias +coincidem com as épocas de plenitude do sentimento nacional, aquellas +em que esse sentimento, tomando consciencia de si, se revela em obras +harmonicas e complexas, que são como que o fructo definitivo da lenta +elaboração das instituições, dos costumes, dos pensamentos. Reaes e +juntamente ideaes, essas obras supremas dizem-nos ao mesmo tempo o que +um povo _foi_ e o que _quiz ser_, descobrem-nos a sua _aspiração_ intima +e marcam os _limites_ dentro dos quaes lhe foi dado realisal-a. São o +commentario moral das revoluções politicas e sociaes, e como que os +annaes da consciencia nacional: e, para a philosophia, é na consciencia +que a historia encontra a sua explicação definitiva e a sua final +justificação. + +O que diz Camões a quem, depois de o ter lido com olhos de homem de +gosto, o relê com olhos de philosopho? Camões, responde o snr. Oliveira +Martins, diz-nos o _segredo_ da nacionalidade portugueza. Houve, com +effeito, uma nacionalidade portugueza--por mais estranha que esta +affirmação nos pareça, a nós portuguezes do seculo XIX, que não atinamos +a encontrar no presente uma _causa vivendi_: houve uma razão de ser +tanto para as instituições como para os individuos, e uma idéa nacional, +espalhada como a alma collectiva por todo este corpo, então vivo e agil. +E não só houve uma nacionalidade portugueza, mas essa nacionalidade, +superior aos impulsos cegos da raça e á fatalidade da geographia, +produziu-se como uma obra do esforço e da vontade, não resultado de +obscuros instinctos primitivos, como um facto politico e moral, não como +um facto ethnologico. Quando em Hespanha não havia ainda senão catalães, +castelhanos, leonezes e navarros; em França provençaes, gascões, +borguinhões, bretões; em Allemanha suabos, austriacos, saxões, +hanoverianos; em Italia tantos pequenos estados rivaes quantas cidades, +e não se fazia bem idéa do que fosse ser hespanhol, francez, allemão, +italiano, porque estas palavras França, Hespanha, Allemanha, Italia +designavam apenas vagas agrupações naturaes e não grupos organisados--em +Portugal havia só portuguezes, e ser portuguez tinha uma significação +definida e precisa. Este é o grande facto, diz o sr. Oliveira Martins, +que faz delle o seu ponto de partida: daqui, a cohesão politica da +nação; daqui a sua physionomia moral. Essa cohesão é a unidade; essa +physionomia é o patriotismo. O patriotismo, pondera acertadamente o sr. +Oliveira Martins, é cousa muito distincta do amor da terra: e o +patriotismo, como os portuguezes dos seculos XV e XVI o conceberam, foi +um phenomeno moral quasi unico na Europa de então, e que os tornou muito +mais parecidos com os romanos antigos do que com os povos seus +contemporaneos. O patriotismo é uma idéa abstracta, que excede a +capacidade toda sentimental da raça; o instincto naturalista da raça dá +o amor da terra; não vai mais além: só a idéa nacional póde dar o +patriotismo, comprehendido á romana e á portugueza. O Cid batalha mais +de uma vez contra os castelhanos, ao lado dos arabes; o condestavel de +Bourbon vira a sua espada aventureira contra a França que o viu nascer; +nem por isso deixa o Cid de ser um typo de bravura idealisado pelos +hespanhoes, e o condestavel de Bourbon um leal cavalleiro para todos os +cavalleiros de França; mas os Pereiras, combatendo ao lado dos +castelhanos em Aljubarrota, são malditos, _arrenegados_; e, mais tarde o +Magalhães será _portuguez no feito, porém não na lealdade_: apostataram +da idéa nacional. Eis a grande differença. Esta noção do patriotismo +cria uma ordem de sentimentos particulares dos individuos para com a +nação, um modo de ser moral peculiar. É o dever patriotico, como o +comprehenderam, em Roma, Fabricio, Regulo, Catão, em Portugal Castro, +Albuquerque--o dever patriotico, cuja expressão suprema é o heroismo. +Leia-se a historia da Europa até ao seculo XVI: abundam os _bravos_, mas +difficilmente se encontrarão os _heroes_, segundo o typo magnanimo que a +antiguidade realisou, e que de novo e no seu ponto de vista realisou +Portugal durante os seculos XV e XVI. No _peito illustre lusitano_ havia +então alguma cousa de grande e transcendente, que impellia a nação para +um destino extraordinario e suscitava no meio della os heroes, que +deviam servir a idéa nacional com a abnegação tenaz e superior com que +se serve uma idéa religiosa. É que o patriotismo é uma especie de +religião civil. Foi por essa religião que, durante tres seculos, nos +erguemos no mundo, para realisar um sonho gigantesco e quasi +sobre-humano: foi por ella tambem que cahimos exangues e desilludidos, +porque a realidade faltou ao sonho, porque todo o sonho, com o seu +idealismo, se exalta primeiro, perturba depois, transvia, endoudece +aquelles que envolve nas suas nevoas phantasticamente luminosas, mas +sempre enganadoras. + +A época nacional portugueza, por excellencia, é o seculo XVI. Tudo +concorre então para dar ao espirito dos portuguezes aquelle summo grau +de tensão, que produz os grandes movimentos nacionaes. A nacionalidade +rompe com impulso irresistivel os seus limites tradicionaes, transborda +fremente como um rio caudaloso, e affirma-se na sua plenitude pelas +descobertas e pelas conquistas. Dentro, a sua força é o resultado da sua +concentração: pela reforma dos foraes, pela monarchia absoluta, pela +expulsão dos judeus, attinge o maximo de unidade politica, social, +religiosa, isto é, o maximo de poder sobre si mesma. Esta energica +cohesão depura o sentimento nacional, dá-lhe uma segura consciencia de +si, e leva-o áquelle grau de tensão em que o patriotismo, exaltando-se, +se transforma numa especie de heroismo universal. A nação faz-se heroe: +o heroismo é a sua atmosphera ordinaria, e todos participam mais ou +menos desse contagio sublimador. Daqui, uma concepção particular da vida +social, do direito, do dever, tanto para a nação como para os +individuos. _Ser portuguez_ é alguma cousa de especial, um typo _sui +generis_ de virilidade e nobreza, que todos procuram realisar, e que a +litteratura idealisa, de que ella se inspira na phase nova em que então +entra. Com effeito, a esta evolução moral corresponde uma evolução +litteraria. Á escóla provençal-castelhana, lyrica, aventureira e +romanesca, succede a grave escóla italiana, com a feição nova que o +espirito portuguez lhe deu, adoptando-a, isto é, moral e épica. Ao +trovador Bernardim Ribeiro, ao popular Gil Vicente succedem Sá de +Miranda e Ferreira, dous romanos. O velho typo cavalheiresco, +phantasioso e sentimental, empallidece diante desse outro que surge, +nobre e digno, quasi severo, o homem do dever, não da sensibilidade, que +João de Barros, Ferreira e Miranda vão levantando, e que Camões virá +collocar sobre o sublime pedestal épico. + +Este typo, o verdadeiro typo portuguez do seculo XVI, como se revela nos +_Lusiadas_, não é com effeito uma mera invenção do genio de Camões: é +uma genuina criação nacional, um ideal do sentimento collectivo, que se +foi gradualmente formando e depurando, até encontrar no grande poeta +quem lhe désse uma expressão definitiva. É por isso mesmo que elle +domina, de toda a sua altura, o pensamento e a obra de Camões. O que o +poeta canta é o heroismo portuguez: _o peito illustre lusitano_: e todo +o seu poema se resume nisto, como nesse poema se resume toda a vida +moral portugueza durante um seculo. A razão intima dos acontecimentos, +dos costumes, das opiniões encontra-se alli: explicam-se por elle, e só +elles tambem o explicam completamente. O poema e a sociedade são, por +seu turno, texto e glosa que mutuamente se commentam. + +Neste ponto de vista, historico e psycologico, não no ponto de vista +meramente litterario de uma esteril poetica de convenção, é que os +_Lusiadas_ devem ser estudados e comprehendidos--e cabe ao sr. Oliveira +Martins a gloria de ter sido o primeiro a fazel-o, a gloria de ter +_commentado_ philosophicamente os _Lusiadas_. A esta luz tudo se explica +na concepção do poema e na substancia moral delle: percebe-se a razão +deste estranho phenomeno, estranho e unico, do apparecimento de um +verdadeiro poema epico nacional em plena idade moderna. + +Isto em quanto á concepção. Em quanto, porém, a certa ordem de +sentimentos, que, no ponto de vista épico, são secundarios, mas que +occupam um grande logar no poema, para os comprehender faz-nos o sr. +Oliveira Martins considerar outro lado da physionomia tão complexa de +Camões e da sua época. Com effeito, se Camões é um portuguez do seculo +XVI, é ao mesmo tempo um artista da Renascença; daqui todo um lado dos +_Lusiadas_, que excede a idéa nacional, e por onde este profundo poema +se liga, não já á vida necessariamente estreita de um simples povo, mas +ao vasto movimento do espirito humano nos tempos modernos. Sem este +lado, a significação dos _Lusiadas_ seria meramente nacional e local, +não europêa e universal: teriam só um valor historico e não philosophico +tambem. Mas Camões, portuguez pelo caracter e pelo coração, era pela +intelligencia mais do que portuguez sómente. Respirava a atmosphera +subtil e vivificante da Renascença: no seu vasto espirito, como no dos +grandes artistas desse tempo, havia um lado mysterioso e profundo que se +virava, não para o passado ou para o presente, mas para o illimitado +futuro, presentindo já a revolução moral dos seculos XVIII e XIX. Se +Camões, como portuguez é patriota e heroico, como homem da Renascença é +pantheista; pantheista platonico e idealista, já se vê, como Miguel +Angelo, Leonardo de Vinci, Shakespeare. Portuguez, exalta os feitos por +onde o seu povo conquista entre as nações um logar proeminente: homem da +Renascença, sente e interpreta a natureza com um naturalismo impregnado +de idealidade, que é mais ainda o presentimento de um mundo moral +novo, do que uma imitação da antiguidade pagan. O sentimento pantheista +da natureza, sentimento todo moderno, e que devia mais tarde chegar á +plenitude em Rousseau, Goethe, Hugo, appareceu pela primeira vez em +Camões. Daqui, o caracter do seu espanto em face dos grandes phenomenos +maritimos; daqui, a concepção do Adamastor; daqui, o sensualismo da +primeira parte do canto XI e o idealismo da ultima. É por este lado que +Camões toma logar entre os grandes espiritos, os _Lusiadas_ entre as +grandes obras dos tempos modernos. A imaginação prophetica do poeta +anticipa tres seculos na historia psycologica da humanidade. Com todos +estes elementos, uns portuguezes, outros europeus, uns locaes, outros +universaes, recompõe o sr. Oliveira Martins a physionomia complexa de +Camões e dos _Lusiadas_, com uma lucidez e segurança de critica +verdadeiramente surprehendentes para quem considerar a completa novidade +do seu trabalho. A sua luminosa synthese abraça o poeta, a obra e a +época: e pela épocha, pelo poeta e pela obra faz-nos sentir a intima +realidade da nação e a sua razão de ser historica. E nessa mesma +synthese comprehende-se tambem a sua decadencia; triplice decadencia, +politica, moral, litteraria. Como? pela decadencia da idéa nacional. Com +effeito, o patriotismo heroico do Portugal do seculo XVI continha em si +mesmo os germens da propria dissolução. Era grande, mas não era justo: +ora nada dura no mundo senão pela justiça. Tinha fatalmente de se +corromper essa orgulhosa idéa nacional, fundada na violencia da +conquista, na intolerancia religiosa e no despotismo politico. Os +vicios interiores do organismo nacional appareceram bem depressa: +appareciam já no tempo de Camões: nos _Lusiadas_ encontram-se de vez em +quando, estrophes sombrias, que são como um lugubre _cras enim moriemur_ +lançado no meio das alegrias daquelle festim heroico. Era o futuro +velado e lutuoso que o poeta entrevia num deslumbramento prophetico. A +nação estava, com effeito, condemnada. O heroismo que tem de durar, +lança as suas raizes na região mais inalteravel, mais incorruptivel da +consciencia humana, e as do nosso não chegaram lá: foi uma especie de +_sezão nacional_; não foi um acto reflectido, filho da liberdade moral, +um esforço supremo pela justiça; foi apenas um egoismo sublime. Por +isso, martyres da propria obra, a nossa quéda foi cheia de tristeza e +confusão, nem nos ficou no rosto a serenidade luminosa dos verdadeiros +martyres. + +As paginas austeras em que o sr. Oliveira Martins estabelece esta +distincção entre o heroismo da consciencia e o da fatalidade, e mostra +Portugal condemnado por aquillo mesmo que fizera a sua virtude e a sua +grandeza, são das mais gravemente pensadas que se teem escripto na nossa +lingua. É a verdadeira philosophia da historia aquella sua, que reduz e +subordina toda a actividade humana á consciencia e á justiça. A +injustiça da idéa nacional, como os portuguezes então a conceberam, +corrompeu gradualmente as instituições, infiltrou-se nos espiritos e +perverteu os costumes: a sociedade, minada interiormente, vacillou, em +despeito do esplendor mentiroso que exteriormente a vestia, e começou a +desabar. O sr. Oliveira Martins desenhou com mão segura e vivissimo +colorido o quadro das implacaveis realidades, que, produzidas pelo +heroico idealismo portuguez, se viraram contra elle, o viciaram e +acabaram por destruil-o. A nação, atacada deste modo nos seus orgãos +mais vitaes e na mesma alma, que podia produzir no mundo do espirito, da +arte, da litteratura? A decadencia social e moral tinha necessariamente +de corresponder a decadencia litteraria. Um desregramento doentio das +imaginações privadas de ideal, depois um estreito classicismo e uma +poetica de academias, succederam á livre e fecunda expansão do genio +portuguez no mundo do sentimento e da phantasia. A idéa nacional levou +comsigo para a cova o segredo das criações poeticas. Do seculo XVI até +hoje não produziu Portugal uma unica obra artistica ou litteraria +verdadeiramente nacional. De vez em quando, nalguns momentos +excepcionaes, o genio dalguns homens tem-se levantado como um protesto, +e tem-se visto ainda uma ou outra obra viva. Mas essa inspiração é toda +individual, não é nacional: é um producto natural que póde demonstrar +que a raça não morreu com a nacionalidade, não é filha de um sentimento +commum e como que organico da sociedade portugueza. A decadencia +nacional é o grande facto inexoravel da nossa historia, vai em tres +seculos: a decadencia litteraria é uma fórma della, nada mais. + +Decadencia irremediavel? pergunta o sr. Oliveira Martins, nas ultimas +paginas do seu livro. Não! responde-lhe a philosophia revolucionaria. A +nossa renovação moral e litteraria será possivel no dia em que, pela +reforma das instituições sociaes, por uma nova e melhor comprehensão da +justiça, comece outra vez o espirito a circular neste grande corpo, mais +inerte ainda do que acabado, volte a animal-o uma alma, um ideal +collectivo. Então Portugal terá de novo uma razão de ser, e a idéa +nacional, mais brilhante e mais quente depois do seu eclipse secular, +fará rebentar outra vez fructos e flores deste chão endurecido sim, mas +debaixo do qual ha ainda (embora a grande profundidade) fontes vivas em +abundancia. As grandes acções serão outra vez possiveis, e um melhor e +mais alto heroismo; por elle serão não só possiveis, mas quasi +inevitaveis os grandes pensamentos poeticos. A renovação litteraria de +Portugal é correlativa com a sua renovação social e está dependente +della: é a conclusão do livro do sr. Oliveira Martins, conclusão que +todos devemos aceitar, não como uma vaga esperança, mas como uma verdade +philosophica cuja realisação não depende senão do nosso esforço, da +energia do nosso sentimento moral. Somos os operarios do nosso proprio +destino, e desde já as nossas mãos o vão aperfeiçoando: terá a fórma que +lhe dermos. + +Neste trabalho solemne da renovação nacional, grande é a tarefa que está +talhada para a geração nova, e immensa a sua responsabilidade! Estará +ella, pela intelligencia e pelo coração, pela sciencia e pela virtude, á +altura desta obra austera e formidavel? Muitos o duvidam, vendo-lhe no +rosto uma pallidez de mau agouro... Não me cabe a mim decidil-o: direi +sómente que (quaesquer que tenham de ser os nossos destinos) para +darem testemunho das intenções sérias de uma parte consideravel da nossa +geração, do seu espirito renovador, da sua aspiração a uma melhor +sciencia, bastarão em todo o tempo obras como a _Historia da litteratura +portugueza_, do sr. Theophilo Braga, e o _Ensaio sobre Camões_, do sr. +Oliveira Martins. + +9 de maio de 1872. + + + + +Theoria do socialismo, evolução politica e economica das sociedades +da Europa: por J. P. de Oliveira Martins. Lisboa, 1872. + + +I + +Pelo assumpto do livro, pela maneira porque nelle se resolvem as +questões que o assumpto envolve, e pela muita amizade, além da +affinidade de crença philosophica e politica, que me liga ao autor, +estava eu obrigado a fallar publicamente desta recente e por tantos +lados notavel obra do sr. Oliveira Martins. Se o não tenho ainda feito, +contando o livro perto já de tres mezes depois de publicado, é porque +preoccupações de outra natureza, envolvendo dispendio de tempo e de +attenção para coisas bastante differentes, me teem totalmente impedido. +Agora mesmo, só lhe poderei consagrar uma rapida noticia, expondo apenas +a impressão geral, que uma primeira leitura, por varias occasiões +interrompida, me deixou, tanto dos defeitos como das sérias qualidades, +que avultam na _Theoria do Socialismo_. + +Comecemos pelos defeitos, e pelos pontos em que discordo (sem +pretender por modo algum incluir estas divergencias no numero dos +defeitos) da maneira de vêr do autor. Depois, mais desassombrados, +apreciaremos o pensamento essencial da obra. + +Os defeitos são, me parece, exclusivamente de fórma e composição. Ha uma +idéa fundamental no livro, que determina uma linha logica, +desenvolvendo-se sem soluções de continuidade da primeira até á ultima +pagina; ha, nos pontos que essa linha percorre, uma successão natural +correspondente ao encadeamento normal dos principios e dos factos na +sciencia e na historia. O que falta, porém, é uma definição +_cathegorica_ da idéa geradora, e uma exposição precisa e desenvolvida +dos principios, de tal sorte que estes não se entrevejam sómente, mas +appareçam de facto como a _razão sufficiente_ dos phenomenos historicos +e a elles _adequados_. É a esta falta que se deve attribuir a +difficuldade e obscuridade que encontram as intelligencias não +preparadas por uma conveniente educação philosophica (e são muitas, +desgraçadamente) em certas partes desta obra, aliás methodica e bem +deduzida. Quero com isto dizer que não é da idéa que provém a +obscuridade, mas da composição e do estilo. Bastava que o autor tivesse +dado ás _theses_, que precedem cada um dos seus capitulos, um +desenvolvimento proporcional, em vez de as encerrar em formulas, ás +vezes um tanto algebricas, e que nas suas exposições de principios +_arejasse_ um pouco o estilo, tornando-o mais ductil e menos technico, +para que as abstrações philosophicas se tornassem accessiveis ao +simples senso-commum, a que se reduz o criterio de 90 por cento dos +leitores portuguezes. + +Faço estes reparos, não só para que as pessoas que não comprehenderam +bem certas paginas do livro do sr. Martins se convençam de que essa +obscuridade nada depõe contra a verdade e lucidez da idéa fundamental +delle, como tambem por entender que o estilo nas obras não litterarias, +e até nas de sciencia pura, não deve ser considerado como coisa +accessoria e secundaria. Certamente que não aconselho aos homens de +sciencia que _façam estilo_; mas é que tal conselho não o daria tambem +aos literatos e aos poetas. Para mim, entre ter bom estilo e _fazer +estilo_ ha uma differença essencial: ter bom estilo significa ter o +estilo proprio e conveniente das idéas que se expõem; _fazer estilo_ +significa encobrir a falta de idéas com phrases redundantes e +apparatosas, com aquelles _persicos apparatus_ que já Horacio queria +banidos dos festins e, com maior razão ainda, do discurso. Póde haver, e +ha effectivamente, bom estilo até nas sciencias mais rigorosas, +naquellas a que os espiritos vasios, que querem campar de poeticos, +chamam aridas: ha bom estilo em mathematica, por exemplo, e em chimica: +Lagrange passa por ter escripto algebra com uma elegancia e belleza +verdadeiramente classicas; em chimica, gosa hoje de igual reputação o +illustre Wurtz. Mas deixemos isto, porque não é sobre esthetica que me +propuz escrever. Direi sómente que o sr. O. Martins nunca _faz estilo_, +exactamente porque tem muitas idéas; mas que, por não dispôr ás +vezes convenientemente as suas idéas, consoante os respectivos valores, +_cum pondere, numero et mensura_, deixa passar certas paginas, que, sem +injustiça, podemos acoimar por não terem bom estilo. + +Tomarei tambem nota de alguns pontos em que não concordo com o modo de +vêr do autor da _Theoria_. Não é que essas divergencias de opinião sejam +muito profundas, quero dizer, que versem sobre pontos essenciaes da +doutrina do livro: são, pelo contrario, exotericas, e versam +exclusivamente sobre certas apreciações historicas, indifferentes em +grande parte á conclusão geral que o autor tira da evolução das +sociedades na Europa desde a época romana. Essa conclusão é a minha +tambem, como o leitor verá: e se tomo nota destas divergencias, é porque +não me apraz estar completamente de accordo com quem quer que seja, +maximamente com aquelles cuja intelligencia préso e respeito--e desejo +deixal-o registado. Custar-me-hia tanto não concordar em ponto algum com +o sr. O. Martins, como concordar em todos absolutamente. Espero que o +leitor comprehenderá, sem mais explicações, o que quero dizer. + +Discordo pois, da maneira porque o sr. Martins encara, na sua +generalidade, a Idade-media, considerando-a como um periodo de +retrocesso em relação á civilisação greco-romana, durante o qual os +elementos evolutivos dessa civilisação estacionassem (experimentando +alguma coisa analoga áquillo a que em physiologia se chama _interrupção +de desenvolvimento_), em virtude das sabidas causas ethnologicas, +sociaes e moraes que determinaram a dissolução do mundo antigo, de +tal sorte que todo o movimento europeu, durante aquelles nove a dez +seculos, se reduzisse, de um lado, á tradicção greco-romana, no que ella +tinha de _já definitivo_ e _não evolutivo_, isto é, o Cristianismo e o +Imperio, e do outro lado, ao reapparecimento de elementos primitivos, os +Barbaros, que apenas repetem extemporaneamente phases sociaes, que a +civilisação antiga, havia já seculos, tinha atravessado. Daqui parece o +autor concluir que a evolução normal da civilisação foi perturbada, +durante um certo periodo, pela introducção violenta de elementos +estranhos, constituindo uma como massa indigesta, cuja laboriosa +digestão produzindo uma lethargia secular, explica sufficientemente a +_interrupção de desenvolvimento_ que descobre na idade-media. Esses +elementos anormaes, que a civilisação teve de digerir durante mil annos, +para poder reatar os termos logicos da sua evolução (seculo 5.º, seculo +16.º), foram, de um lado, o Cristianismo com o seu Santo Imperio, do +outro lado os Barbaros com o seu sistema feudal. Ora, de mais de uma +pagina da _Theoria_ concluo eu que, no pensar do sr. Martins, nenhum +destes dois phenomenos é inherente á evolução, pois que vê nas invasões +barbaras só um phenomeno ethnologico e como que uma fatalidade natural, +e no Christianismo uma mera reacção religiosa, um recrudescimento +anomalo de transcendentalismo, quando já pelo Estoicismo, de um lado, e +do outro pelo Epicurismo, entrava o espirito humano na larga estrada da +philosophia natural, e entrevia no horisonte a luz salvadora da +Immanencia. A conclusão a tirar é que, sem estes elementos +perturbadores, não teria havido _interrupção de desenvolvimento_, seriam +poupadas á Humanidade as agonias da sua _paixão_ (como Michelet chama á +Idade-media), o seculo 16.º teria caído no seculo 6.º, e nós hoje +estariamos já aonde só estaremos no seculo 30.º + +Se estas conclusões que não estão explicitas no livro do sr. Martins se +contêem realmente nos seus principios, tenho a objectar-lhe, antes de +tudo, que implicam até certo ponto contradicção com a sua idéa +fundamental, isto é, a Evolução como lei primeira da Civilisação. Que +uma circumstancia ou uma serie de circumstancias exteriores e fataes +possam produzir numa civilisação não sómente uma _interrupção do +desenvolvimento_, mas ainda uma atrophia permanente, comprehende-se e em +nada contradiz a idéa da Evolução. Mas o que a contradiz e o que não se +comprehende é que essa atrophia temporária ou permanente possa ser +expontanea, e saia como um termo necessario da mesma evolução, cuja +essencia é o desenvolvimento. Ora, ainda concedendo que os Barbaros +estejam no primeiro caso (e não me parece que estejam absolutamente, +porque que se as invasões barbaras são um phenomeno natural e fatal, e +um agente exterior, a fraqueza interna de uma civilisação, que succumbe +á barbaria, tem por força de ter uma causa tambem interna, que é preciso +determinar), o Cristianismo é que necessariamente estaria no segundo, e +teriamos assim, neste ponto, a evolução embaraçando-se e +contradizendo-se a si mesma. + +Logo, uma de duas: ou a evolução, em determinados casos, póde +suspender-se expontaneamente, e não só suspender-se, mas até +retroceder e annullar-se a si mesma, o que é contradictorio com a sua +idéa essencial; ou não houve realmente na Idade-media um _retrocesso +geral_ e atrophia dos elementos evolutivos, e é necessario procurar no +estudo comparativo dos elementos immediatamente anteriores e posteriores +a essa idade a existencia de um _quid intimum_, cujo desenvolvimento, +assegurando o resultado total da evolução, como sendo-lhe essencial, +póde ao mesmo tempo, pela sua particular natureza, _suspendel-a +parcialmente_, durante um certo tempo e em determinados pontos. + +Regeitando a primeira hypothese, como envolvendo um absurdo, fica-nos a +segunda, que não só tem a plasticidade sufficiente para se accommodar á +explicação dos phenomenos divergentes e apparentemente contradictorios +de um periodo tão complexo e revolto como a Idade-media, mas encerra +além disso um real valor philosophico, fazendo entrar na historia uma +das idéas fundamentaes das sciencias da organisação, a idéa de _crise_, +e estabelecendo assim entre o mundo da vida e o do espirito uma +concordancia de bastante alcance. + +Nestes termos, diremos que não se deu na Idade-media uma _interrupção +do desenvolvimento_, mas sim uma de aquellas _crises organicas_ +que são proprias e expontaneas na evolução dentro do mundo dos +organismos--fazendo entrar neste a historia, como uma fórma organica +superior e transcendente. Crises taes são um resultado do mesmo +desenvolvimento dessa ordem de forças complexas (que não são +independentes e apenas paralelas, mas convergentes e solidarias) que +actuam segundo leis analogas, tanto nos organismos como nas sociedades e +no espirito. + +Vê-se claramente como desta solidariedade e convergencia, combinadas com +a acção desigual das circumstancias exteriores sobre cada uma dessas +forças, resultem para muitas dellas desencontros e periodos de +estacionamento, em quanto umas esperam para se desenvolverem que outras +tenham attingido um dado grau de desenvolvimento, sem se realisar o qual +ellas mesmas não podem continuar a sua evolução. + +É assim que o sabio paleontologista G. de Saporta (_Origens da vida +sobre o globo_), comparando a evolução solidaria dos reinos animal e +vegetal nas idades primitivas, nos mostra o primeiro, depois de ter +percorrido successivamente uma serie ascendente de typos, estacionar +durante muitos milhares de annos, á espera que o secundo, cujo +desenvolvimento, por causas em parte desconhecidas, fôra mais demorado, +attingisse aquelle termo de ascensão, sem se realisar o qual não podia o +reino animal continuar o seu progresso especifico. Se considerarmos (com +depois dos trabalhos de Darwin e Haekel não podemos deixar de +considerar) que os chamados reinos animal e vegetal não são sómente +paralelos mas solidarios, e constituem realmente um só mundo organico, +teremos um facto consideravel, que a paleontologia nos aponta, o exemplo +de uma immensa e prolongadissima crise, que esse mundo atravessou, a +maior porventura que elle tem atravessado. + +Ora é exactamente uma crise analoga que eu sustento ter soffrido a +sociedade europea durante o periodo da Idade-media: o _reino_ social +e politico, depois de rapido e ininterrupto progresso realisado desde +Homero até aos Antoninos, teve de estacionar, esperando que o _reino_ +moral, atravez das varias _especies_ do cristianismo e da philosophia +escolastica, chegasse a um grau de desenvolvimento paralelo ao seu, que +lhe tornasse possivel continuar a progredir. A solidariedade entre o +progresso social e moral da humanidade, de um lado e do outro o desigual +desenvolvimento destes dois elementos, bem patente no facto singular +(que aliás se explica) de ter o mundo antigo produzido o direito romano +sem sair do polytheismo, dão cabalmente, me parece, a razão sufficiente +deste _desencontro_ de forças, cujo resultado foi a grande crise da +Idade-media. + +É por tudo isto que, a meu ver, a Idade-media não póde ser reduzida, +como parece fazel-o o sr. Martins, a uma simples _tradicção_ e a um +periodo de _atrophia_ dos elementos verdadeiramente evolutivos do mundo +greco-romano. Para mim, são verdadeiramente evolutivos _todos_ os +elementos da idade-media, e a idade-media contém _todos_ os elementos +evolutivos da civilisação antiga: sómente o grande desenvolvimento e as +posições respectivas é que são differentes. Considero o cristianismo +como essencial á evolução; mais, como o termo necessario de todo o +movimento moral da antiguidade: para mim, não só não foi elle um +_incidente_ perturbador, mas não foi de modo algum um incidente. A +_transcendencia_, preparada e organisada por todas as escolas +philosophicas desde Socrates até aos Alexandrinos, incluindo os Estoicos +e até os Espicuristas (cuja metaphisica era tão idealista e a moral +tão mystica como as das outras escolas, e que não foram, como a alguns +tem parecido, os precursores _incompris_ dos racionalistas e +naturalistas modernos), a _transcendencia_, phase necessaria do +pensamento humano, tinha forçosamente de produzir uma religião analoga +na essencia ao Cristianismo; ainda quando lhe faltassem os elementos, +quanto a mim puramente morphologicos, da lenda oriental. Uma prova bem +clara desta ultima asserção, encontro-a na reacção de Juliano, chamado o +Apostata, cuja religião-philosophica não era menos transcendentalistica +e mystica do que a cristan, e que, a ter vingado, haveria produzido uma +theologia e uma igreja exactamente como o Cristianismo. Quero dizer que, +dado o estado moral da humanidade na ultima época do periodo +greco-romano, se o cristianismo não era inevitavel, o que era inevitavel +era uma religião na essencia cristan, isto é, mystica. A exaltação +mystica, que então se apossou do espirito humano, se foi um mal (e não +creio que o fosse absolutamente), foi um mal necessario. Era um termo +logico da Evolução; e a Idade-media, que foi o desenvolvimento desse +termo, não póde por esse lado ser considerada como uma simples _tradicção_. + +Em quanto aos Barbaros, bastar-me-ha dizer que não creio que fossem +elles os destruidores da unidade romana, por si não só prestes a +desfazer-se, mas já meia desfeita nos seculos 5.º e 4.º; que sem elles o +imperio ter-se-hia igualmente desmembrado; que elles não impediram a +extincção da escravidão antiga nem a formação da burguezia; que +independentemente da influencia germanica, já o feudalismo tendia a +formar-se espontaneamente no imperio em dissolução, desde o seculo 4.º; +que finalmente, muito antes das invasões já as sciencias e as lettras +tinham decaido, e começára um entenebrecimento intellectual, de que os +barbaros não devem ser responsaveis; bastar-me-ha dizer isto para que o +sr. Martins aprecie as razões por que, ainda por este lado, nada +encontro de anormal e de perturbador no curso da evolução geral da +civilisação durante a Idade-media, nem vejo que houvesse _interrupção de +desenvolvimento_ produzida por causas estranhas e fortuitas. + +É este o ponto principal da minha divergencia com o autor da _Theoria_ e +por isso o expuz mais detidamente. Os outros, que são ainda mais +indifferentes á idéa geral do livro, sacrifico-os, para entrar quanto +antes na apreciação dessa idéa. + + +II + +Feitas estas reservas, passo a dizer alguma coisa sobre a idéa +fundamental da obra. Obra, ponho eu aqui intencionalmente, porque é +verdadeiramente _uma obra_, e não apenas _um livro_, a "_Theoria do +Socialismo_" Não é uma simples exposição de factos historicos, mais ou +menos curiosos, acompanhada de juizos e considerações, mais ou menos +rasoaveis ou eloquentes: é um todo ordenado e systematico, em que os +factos e as idéas se encadeam logicamente, convergindo para um +centro commum, que é o ponto de vista superior que os abrange e explica +a todos. É um trabalho conjunctamente philosophico e scientifico, em que +as generalizações formuladas pela sciencia historica recebem a sua +sancção final dos principios racionaes em que assenta a philosophia da +historia--tentativa semelhante na essencia e no methodo, embora diversa +nas conclusões e inferior na execução, á que realizou Guizot na sua +"_Historia da Civilisação na Europa_" e Michelet naquella admiravel +"_Introducção á historia universal_". O sr. Martins não é um erudito, +nem um philosopho de profissão: mostrou porém ter sciencia bastante e +sufficiente elevação de pensamento para nunca ser inferior ao que um tal +plano requeria. Ora, tentar isto, e realisal-o, apesar de muitos +defeitos parciaes, com exito feliz na generalidade, é raro merecimento e +que sobejamente justifica, me parece, esta particular designação de +_obra_ que dei ao livro. Escriptos desta natureza e alcance em nenhuma +litteratura são frequentes: o do sr. O. Martins affigura-se-me que é por +ora unico entre nós. Ainda assim, não é bem por isso que me congratulo, +mas por ver na "_Theoria do Socialismo_" um symptoma animador de franca +e séria adopção da idéa nova pelo espirito portuguez: é isto o que me +faz saudar fraternalmente a obra e o autor. + +Socialismo é para muitas pessoas uma palavra aterradora, exactamente +porque não é para essas pessoas mais do que uma palavra. É para outras +um symbolo magico e omnipotente abracadabra, a quem tudo se póde pedir, +de quem tudo se deve esperar, dotado sobrenaturalmente de uma +virtude palingenesica para operar nas coisas humanas uma renovação total +e universal, uma regeneração instantanea e absoluta: estes são os +enthusiastas, que encarnam na palavra socialismo os seus sonhos +individuaes de felicidade, em vez de simplesmente a considerarem como a +expressão de uma ordem de phenomenos objectivos, independente das +imaginações sentimentaes de cada qual, e só adequada á natureza das +sociedades no seu desenvolvimento necessario. Apesar do que ha de +respeitavel nos sentimentos desses crentes, estão elles tão longe como +os outros de saberem o que realmente se deve entender por socialismo. A +uns e outros recommendo o livro do sr. Martins, como muito proprio para +lhes fazer perder tanto as esperanças como os terrores apocalypticos. + +O socialismo não é nem a subversão violenta das instituições e dos +costumes, nem a palingenesia messianica milagrosamente revelada, para +acabar para sempre com os males humanos, por este ou aquelle inspirado +propheta de tal ou qual cenaculo de crentes: e não é uma coisa, +exactamente porque não é a outra. Não ha nisto paradoxo. Quero dizer que +o socialismo não ameaça as instituições e os costumes, que constituem o +organismo e a tradição da humanidade, precisamente porque não é uma +invenção do pensamento individual um systema sem raizes historicas, +exterior á realidade social, mas sáe, pelo contrario, da tradicção e da +historia, é a propria historia e tradicção num periodo das suas +transformações continuas, um parto da razão collectiva e um fructo +natural do mesmo desenvolvimento da sociedade. É por isso que a não +ameaça, porque a sociedade não se destroe a si mesma: desenvolve-se e +transforma-se; o socialismo não é mais do que a palavra que quadra ao +grau de transformação e desenvolvimento do momento actual. O que foi no +primeiro quartel deste seculo o liberalismo, o que tres ou quatro +seculos antes havia sido a monarchia, e antes cinco ou seis as communas +e o feudalismo, é o que será ámanhan (e já hoje começa a ser) o +socialismo: um novo periodo e uma nova fórma no organismo das sociedades +europeas. Tão inevitavel como aquelles, será como elles tão benefico e +tão pouco subversivo, sendo, como elles foram, não um resultado fortuito +de opiniões e interesses de individuos, mas um facto necessario da +Providencia immanente na historia. + +Em que consista esse facto é o que o sr. Martins, fazendo-se interprete +dos phenomenos sociaes, se propôz explicar, e é o que nós, em companhia +delle, vamos examinar. + +Logo na primeira pagina do livro, formula o autor a sua idéa deste modo: +a theoria do socialismo é a evolução.--Desculpe-me o meu amigo se lhe +faço ainda questão duma palavra, mas o rigor nos termos não é +indifferente. Duma maneira geral, a theoria do socialismo é certamente a +evolução, mas a evolução dentro da historia e das coisas sociaes tem um +nome mais particular e consagrado: o Progresso, que é a evolução na +série da humanidade. A evolução abrange todas as séries do +desenvolvimento no universo, cosmologico, geologico, organico, etc., e +por isso inclue a humanidade; mas dentro desta é particularmente o +Progresso. Diriamos, pois, com mais rigor: a theoria do socialismo é +o Progresso. Quizera tambem que o autor, nessa sua primeira _these_, +tivesse definido com mais clareza e explicado com mais extensão esta +idéa. Mas não importa: o que não se define totalmente nas primeiras +paginas, torna-se bem patente pelo livro adiante, e isso é o essencial. +O que o autor não diz mostra-o no encadeamento dos factos sociaes e na +successão das doutrinas através da historia, de sorte que o seu livro +representa-nos em relevo essa grande lei do progresso nas suas phases +verdadeiramente significativas. + +Ora, qual é o termo actual do Progresso? o socialismo, responde o sr. +Martins, com a historia na mão. Mas que socialismo? o de Babeuf, o de +Fourier, de Saint-Simon, desta escola, daquella seita, não: simplesmente +o da humanidade. É nesta resposta que está a originalidade e a segura +verdade do livro. O socialismo não sáe de uma escola ou de uma seita: +sáe do mais fundo da consciencia humana, affeiçoada por tres mil annos +de progresso. Não é uma experiencia; é um resultado. + +Resultado de que? Do triplo movimento moral, politico e economico das +sociedades. Abraça o homem todo, e corresponde a uma nova concepção +systhematica (uma _affirmação synthetica_, como dizem os positivistas) +do Universo, da vida humana e das relações sociaes. Neste momento, a +evolução das doutrinas philosophicas, moraes e juridicas, da sciencia +economica, dos phenomenos politicos e dos phenomenos economicos, +converge para um ponto central. A esse ponto chamamos nós Socialismo, +não porque coincida (note-se bem isto) com este ou aquelle systema +dos que inventaram a palavra, mas simplesmente porque vem satisfazer a +aspiração commum a todos elles, que os produziu e de que eram meros +symptomas: de tal sorte que até com alguns desses systemas póde estar em +completa opposição o Socialismo positivo, como está, por exemplo, com o +Communismo. + +Desta tripla evolução moral, politica e economica resultam tres grandes +conclusões. Da evolução no mundo moral resulta a autonomia absoluta da +consciencia humana, independente das pretendidas revelações +sobrenaturaes para descobrir a verdade e determinar a justiça; +independente de qualquer auctoridade, além da sua propria, para conhecer +e praticar a lei moral. Da evolução no mundo politico resulta a +concepção da liberdade como o unico agente organisador e director da +sociedade, com exclusão de qualquer principio anterior ou exterior ao +direito individual, de qualquer auctoridade que não seja a da propria +liberdade sobre si mesma. Da evolução no mundo economico resulta a +affirmação do trabalho como a base unica justa do valor, tendo por +consequencias, de um lado a egualdade dos trabalhadores perante o +capital, mero instrumento do trabalho e a elle sobordinado e garantido +pelo credito e a mutualidade, do outro lado a egualdade dos +trabalhadores entre si, pela divisão do trabalho, que os torna +solidarios e substitue á anarchia da concorrencia individual a +organisação das forças collectivas da producção--e tendo como +resultados, com a annullação dos privilegios capitalista e proprietario, +a consagração da propriedade e do capital individuaes, e a extincção +da lucta das duas classes actuaes, pela conversão de ambas numa unica de +trabalhadores eguaes e livres. + +São estas as tres grandes conclusões, que desentranhando-se de um lento +progresso secular, começam a patentear-se no estado actual das doutrinas +e dos phenomenos moraes, politicos e economicos das sociedades +contemporaneas. + +As phases desse progresso, isto é, o caminho seguido pela intelligencia +humana e pelos factos sociaes para chegarem a estas conclusões, é o que +o sr. Martins historía com muita lucidez e sciencia no seu livro, boa +metade do qual é consagrado a este trabalho de alta critica historica. + +Eu é que, nos limites estreitos deste esboço nem poderei sequer indicar, +com alguns nomes, culminantes, os principaes marcos miliarios no caminho +deste jornadear da humanidade em busca dos seus proprios destinos. Mas +que magestosa _via crucis_! + +Desde a doutrina da Graça, com S. Paulo e S. Agostinho, atravez dos +meandros da Escolastica, depois da inspirada philosophia da renascença e +da philosophia mais scientifica do seculo XVII, chega o espirito humano +a entrever com Vico e os encyclopedistas a doutrina emancipadora da +immanencia, que no seculo XIX formulou de um modo cada vez mais positivo +as escolas de Hegel, Feuerbach, Comte, Proudhon. Evolução paralela +seguem as doutrinas politicas: desde o _omnis potestas a Deo_ e a +_Civitas Dei_, atravez da politica theocratica de S. Thomaz e da +politica Cesarista de Dante, atravez do absolutismo da monarchia +civil de Savedra e Bodin e do despotismo naturalista de Machiavello e +Hobbes, vae o principio tradicional da auctoridade recuando cada vez +mais, com Grotius, Locke, Rousseau, Kant, depois com Fichte, +Rittinghaussen, Proudon, diante do principio racional e humano da +liberdade, até ser por elle absorvido, até só ficar de pé a consciencia +juridica do homem, tendo em si mesma a sua propria e absoluta sancção. +As doutrinas economicas, que só no seculo XVIII se desembaraçam das +politicas, galgam de um salto a distancia que vae da auctoridade +(proteccionismo) á liberdade, e pela bocca de Smith, Rossi, Bastiat, +Stuart Mill, proclamam esta ultima, completa, universal. + +Ideas! theorias! sonhos! dirão alguns. Não! realidades, porque os factos +vão seguindo, par e passo o desenvolvimento das doutrinas. A +secularisação cada vez mais definida do estado e da sociedade; a +transformação das monarchias de direito divino em monarchias temperadas, +depois em democraticas, depois em republicas populares; os direitos +individuaes inscriptos nas constituições; a egualdade civil; a liberdade +da industria; o nivelamento constante das classes; a importancia +crescente do povo trabalhador e das questões do trabalho; o privilegio +capitalista que por toda a parte recúa, batido já nos seus ultimos +intrincheiramentos; o capital que se faz povo, que se faz multidão, e +vae já passando para as mãos do proletariado; um novo mundo economico +que emerge com força do antigo cahos social:--são factos e não utopias, +e esses factos trazem comsigo a sua lição, a sua doutrina. Não sois +vós, conservadores, que tendes por vós a tradição da humanidade, somos +nós revolucionarios, que temos, com o futuro, o passado por nosso lado, +o passado no que elle teve de melhor: a aspiração da liberdade, da +igualdade, da justiça. + +Mas que immenso caminho andado! Eis-nos á porta de um mundo novo! novo e +todavia feito todo com elementos, que os tempos vieram lentamente +accumulando. Organisar esse mundo é a obra do socialismo. Não é de +destruição, essa obra; é de edificação e de consolidação. Não ameaça um +unico direito; define-os a todos e dá-lhes os seus justos logares. Numa +palavra se encerra o socialismo: organisação espontanea. Livre +organisação da industria, do trabalho, do credito, do capital, do +estado; federação juridica e economica, tudo pela liberdade e tudo para +a egualdade; ou como diz, com expressiva concisão, o sr. Oliveira +Martins "uma unica lei, o trabalho, e uma unica norma, a justiça"; eis +ahi como á luz da philosophia da historia se deve comprehender o +socialismo. + +Terei depois disto logrado fazer perceber ao leitor a essencial +differença que existe entre a theoria historica e positiva do socialismo +e o socialismo utupista das seitas? Ao mesmo tempo que sae da historia +como uma natural evolução, perde elle para logo o caracter +contradictorio, problematico e, para tudo dizer, assustador, com que a +principio se apresentou no mundo. Alarga tambem o seu horisonte, deixa +de abraçar sómente uma ordem parcial de phenomenos sociaes, para +abranger todo o movimento renovador da humanidade contemporanea, na +philosophia, na sociedade, no estado e nas consciencias. Filho legitimo +da historia, deixa tambem de a contradizer no que ella tem de essencial, +a familia, a propriedade, a herança, bases da sociedade, duplamente +consagradas pela razão e pela pratica e veneração das gerações. Não +propõe uma construcção arbitraria e artificial da sociedade, mas +pretende sómente ajudal-a no seu desenvolvimento organico, segundo uma +theoria estudada nella mesma, nos seus antecedentes. É, numa palavra, +verdadeiramente conservador o socialismo, por isso mesmo que é +verdadeiramente progressista. E se eu tivesse algum direito de em nome +delle dar um conselho aos homens e aos partidos que, por se julgarem +conservadores, entendem ter obrigação de combater uma philosophia +social, que não conhecem, ou diria a esses illudidos: Fazei-vos +socialistas, se quereis realmente merecer o nome de conservadores, que +por ora não tendes sufficientemente justificado: passae para este lado, +que é onde estão os representantes da verdadeira tradição da humanidade, +tradição não de entenebrecimento e oppressão, de odio e lucta +systematica, mas de luz e liberdade, de paz e conciliação: ou, senão, +examinae pelo menos antes de condemnar, informae-vos antes de +amaldiçoar, aliás teremos de dizer que sois só conservadores da vossa +propria ignorancia e obsecada paixão. + +Mas eu nao tenho direito de dar conselhos a quem não m'os pede nem me +julga auctorisado a dal-os. Depois, talvez este meu candido appello, +para a conciliação e a tolerancia, seja ainda uma daquellas muitas +utopias que só merecem um sorriso de desdenhosa compaixão dos homens +_praticos_ encanecidos no trato das coisas reaes do mundo... Talvez! + +Paciencia. Veremos o que o tempo _praticamente_ responde a tudo isto. + +Fevereiro-Março, 1873. + + + + +Le Portugal contemporain--Oliveira Martins + + +En dehors de la littérature proprement dite, le Portugal ne possède +aujourd'hui qu'un seul écrivain réellement supérieur: c'est M. Oliveira +Martins, l'auteur de la _Bibliotheca das Sciencias sociaes_. Définir son +genre et le classer d'un mot me semble chose presque impossible, par la +simple raison que ce mot n'existe pas encore: _socialiste_ a un sens en +même temps étroit et vague; _sociologiste_ serait un barbarisme. Si, +depuis les Grecs on a toujours écrit l'histoire, disserté sur la +politique et plus ou moins observé l'économie et les moeurs des +nations, ce n'est que depuis un demi-siècle à peine qu'on a été amené à +étudier scientifiquement la Société, en la considérant comme un tout +naturel et réel, dont les phénomènes sont susceptibles d'être ramenés à +des relations générales et fixes, c'est-à-dire à des lois. De là la +constitution d'un nouveau et dernier groupe de sciences, qui est venu +s'ajouter à celles qui existaient déjà: le groupe des sciences morales. + +M. Oliveira Martins (_socialiste_ ou _sociologiste_, comme on voudra) +s'occupe donc de sciences sociales, et, quoique jeune encore, mérite, +par la profondeur de ses recherches, l'originalité et l'ampleur de +ses vues et la fermeté de sa méthode, d'être rangé parmi les mâitres et +promoteurs de ces études nouvelles. En outre, son estyle, par ses +qualités de vigueur, de vie et d'élévation, quoique trop souvent +incorrect et déparé parfois par le mauvais goût, fait de l'auteur de la +_Bibliotheca das Sciencias_ un écrivain de premier ordre. + +Les premiers ouvrages de M. Oliveira Martins (_Theoria do Socialismo_ et +_Portugal e o socialismo_), parus à Lisbonne vers 1873 et 1874, +appelèrent sur les lèvres du petit nombre de personnes en état de les +juger un _Tu Marcellus cris!_ prophétique. Touffus d'idées hardies, mais +encore mal définies, et auxquelles manquait une base solide de +connaissances positives, obscurs et confus par le style, ces deux livres +dénonçaient pourtant les maîtresses qualités qui font le penseur et +l'écrivain d'ordre supérieur. + +En effet, le germe des doctrines exposées plus tard dans la +_Bibliotheca_ s'y trouvait déjà formulé dès la première page dans ces +mots: "La théorie du socialisme c'est l'évolution.", Depuis, la pensée +laborieuse de notre auteur n'a fait qu'approfondir et développer cette +idée, en l'étayant de solides études économiques, politiques et +historiques. + +Laissant là la manière sèche et étroite des économistes et leur méthode +tout abstraite, M. Oliveira Martins conçoit la société comme un tout +vivant, un être collectif qui, comme l'homme lui-même, est à la fois +naturel et rationnel, sujet dans son développement à la double action +des lois de la nature, auxquelles se rattache la sociabilité elle-même +dans ses formes primordiales, et des principes juridiques et moraux qui +sont le domaine propre et exclusif de l'humanité. La lutte, +l'équilibre, la pénétration et l'opposition de ces deux éléments +constituent, aux yeux de nôtre auteur, l'être même de la société, dont +le développement, changeant et variable comme celui de toute chose +vivante, peut présenter des aspects très dissemblables et impropres: +rien n'y est absolu, rien n'y est nécessaire, hormis les lois générales +de la nature et l'essence rationnelle et morale de l'homme. La méthode +des sciences sociales ne peut donc pas être abstraite: elle doit être, +avant tout, historique. + +C'est à ce point de vue, et non pas seulement en naturaliste et +économiste, mais encore en juriste et moraliste, que M. Oliveira Martins +s'est placé pour étudier dans sa _Bibliotheca_ l'ensemble des +phénomènes,--travail, distribution, propriété, classes, gouvernement, +juridiction, culte, etc.,--qui constituent le vaste domaine, encore +imparfaitement jalonné, des sciences sociales. La _Bibliotheca_ comprend +déjà 12 volumes. En outre, M. Oliveira Martins a publié un Mémoire sur +la _Circulation fiduciaire_ et diverses brochures se rattachant toutes +aux questions sociales. L'espace nous manque pour donner même une courte +analyse de chacun des volumes déjà parus de la _Bibliotheca_, et il faut +que je me borne à l'exposition sommaire que je viens de faire des idées +culminantes et de la méthode de l'auteur. Mais je dois au moins appeller +l'attention des personnes compétentes sur deux de ces volumes (_Quadro +das instituições primitivas_ et _O Regime das riquezas_), qui, par leur +grande originalité de vues et de forme, mériteraient bien d'être +traduits en français ou en allemand. + +La fécondité de la méthode historique de l'auteur y devient évidente. A +l'encontre des économistes orthodoxes, qui dessèchent la réalité humaine +dans leurs formules et prétendent réduire la vie de la société à une +espèce d'algèbre inflexible, M. Oliveira Martins, plongeant en pleine +réalité, nous montre l'origine variable et les formes multiples des +institutions sociales assujeties dans leur développement non à des lois +purement naturelles, comme le prétendent les économistes, mais avant +tout à des raisons intimes et _humaines_. Jamais les fatalités +naturelles n'y étouffent complètement l'être moral de l'humanité, et, +même dans ses formes premières et plus rudes, la société apparaît comme +le domaine de la liberté. La concurrence y joue un grand rôle, sans +doute, mais contrecarré ou endigué par des forces juridiques et morales. +La pure mécanique sociale, telle que la rêvent les économistes, n'y +triomphe jamais non plus que cet individualisme abstrait qui serait +plutôt l'idéal de la sauvagerie que celui de la civilisation. Celle-ci, +loin de marcher de plus en plus dans le sens des fameuses "lois +naturelles", tend au contraire à s'en affranchir, et la société, dont +l'idéal est la justice et non la nécessité, va graduellement se +rapprochant de ce type de raison et de liberté qui est l'être même de +l'homme. + +On voit, par ce rapide aperçu, que M. Oliveira Martins se rattache à +l'école appelé en Allemagne des _Katheder-Socialisten_: il doit beaucoup +aussi à ce puissant penseur, si mal compris encore aujourd'hui, P.-J. +Proudhon. Mais, socialiste doublé d'un historien, il projette sur toutes +ces questions une lumière qui les fait voir sous des aspects +nouveaux en dehors du terrain forcément étroit des écoles et des +discussions, et dans les larges perspectives de la réalité. Là est, à +mon avis, sa principale originalité. + +Je voudrais être bref; mais je dois pourtant dire encore quelque chose +des deux ouvrages (_Historia de Portugal_ et _Portugal contemporaneo_), +qui M. Oliveira Martins a consacrés à l'histoire de notre pays, et qui +se rattachent à la _Bibliotheca_, plutôt qu'ils n'en font partie. A +première vue, ces livres semblent ne devoir interesser que les seuls +Portugais; on verra qu'ils ont une portée bien plus générale. + +Le Portugal contemporain est une énigme que personne en Europe ne +comprend et dont, même chez nous, bien peu de gens savent le mot. On +cite généralement le Portugal comme un modèle des petits pays libres et +sages: pas de révolutions ni de luttes de classes; la paix, le +fonctionnement régulier du régime parlamentaire; on l'oppose souvent à +l'Espagne, périodiquement convulsionée. Et pourtant ce pays modèle +est--la Turquie exceptée--le plus mal administré qui soit en Europe. +Après 50 ans de paix, sa dette publique est une des plus écrasantes et +elle s'accroît tous les jours, car le budget portugais se solde +régulièrement en déficit. L'esprit publique est nul en dépit d'une +multitude de journaux ordinairement éphémères et tous plus insignifiants +les uns que les autres, et la politique est devenue l'apanage, de haut +en bas et de droite à gauche, d'une classe de gens à peu près ignares et +tenus généralement en estime médiocre. Quant à l'armée, le moins qu'on +en puisse dire est qu'elle est aussi fantastique que coûteuse, +tandis que l'instruction populaire est lamentable et que l'enseignement +supérieur (a l'excepction de deux ou trois écoles spéciales) est +souverainemente pedantesque ou vide[1]. Le seul sentiment +national un peu perceptible est une espèce de haine sourde et +instinctive contre l'Espagne, qu'on ne connaît pas, et, dans les classes +cultivées, l'admiration béate de tout ce qui est français, qu'on suige à +tort et à travers, dans les lois, les moeurs, la litterature et la +langue même, qui va s'adultérant de plus en plus. + +Voilà, on en conviendra, pour une nation réputée "le modèle des petits +pays sages et libres", des aspects singulièrement imprévus! + +La raison de ce remarquable phénomène de pathologie sociale est que +Portugal est la seule nation en Europe _qui soit réellement vieille et +caduque_. On peut lui appliquer les constitutions, les lois, les +règlements et les phrases qu'on voudra; rien n'y fait, car il n'y a pas +de stimulants pour la décrepitude. Elle acceptera les libertés comme les +coups, les constitutions comme les épidemies, avec le calme indifférent +de l'insensibilité et de l'inconscience. De là sa paix profonde et son +étonnante sagesse; de là aussi un irrémédiable affaissement. Les +contradictions sans nombre qui présente notre état social, politique +et intellectuel, et qui déroutent l'observateur (pas un voyageur en +Portugal n'a compris ce pays), n'ont pas d'autre raison. Les mots ne +répondent plus aux choses, et les meilleurs lois ne sont que de petits +chiffons de papier emportés de France. C'est un système de mensonge naïf +et inconscient. La réalité, c'est cet affaissement irrémédiable d'un +organisme national arrivé à l'extrême limite de ses forces vitales. + +L'étiologie historique de ce cas remarquable a été faite, pour la +première fois, et supérieurement, par M. Oliveira Martins, dans son +_Historia de Portugal_, tandis que son _Portugal Contemporaneo_ fait +toucher du doigt les contradictions incurables de la situation actuelle, +issue, non de la raison consciente e d'un effort viril de toute la +nation, mais des illusions plus au moins généreuses d'un petit nombre de +révolutionnaires et de l'atonie des masses, sur lesquelles on faisait +cette expérience doctrinaire: _in anima vili_. On y apprend à connaître +le _quid_ spécial de la Révolution portugaise de 1834, la fatalité qui y +menait et qui changeant tout à coup d'aspect, allait présider aux +convulsions d'abord, puis aux mécomptes, aux désillusions, aux compromis +lâches, et finalement au marasme actuel. Le _Portugal Contemporaneo_ est +l'histoire cruelle de cet avortement. L'auteur y fait, pièces en main et +pas a pas, le procès de ce libéralisme bourgeois, en même temps abstrait +et utilitaire qui, après 50 ans de domination incontestée, aboutit à une +situation inextricable et de la débâcle imminente. Comme description +détaillée d'un cas de pathologie sociale, ce livre, qui, sous d'autres +rapports, n'interesse que les Portugais, peut offrir un intérêt +spécial à toux ceux qui s'occupent, en hommes de science et en +philosophes, des choses de la société. + +Les causes premières de cette maladie profonde à laquelle succombe +actuellement la nation portugaise ont été mises en lumière par M. +Oliveira Martins, dans son _Historia de Portugal_. + +Em 1580, après la catastrophe d'Alcacer-Kibir, le Portugal était +réellement mort. L'oeuvre féconde et glorieuse de sa vie historique +était accomplie; mais l'ouvrier héroïque gisait exténué. L'application +en grand, pendant trois quarts de siècle, d'un faux système +d'exploitation coloniale avait ruiné le pays et troublé profondement sa +constitution sociale: le jésuitisme, d'un autre côté, avait épaissi ou +perverti son intelligence, brisé son ressort moral, faussé son libre +génie, et, en étouffant tous les germes de l'esprit moderne que la +Renaissance avait si abondamment semés, paralysé tout développement +ulterieur et tué l'avenir. Philippe II, en réunissant le Portugal à la +couronne d'Espagne, n'a donc fait que cueillir un fruit mûr. L'histoire +du Portugal aurait dû finir à cette époque-là. La restauration nationale +de 1640 a été un fait en grande partie artificiel, possible seulement +par l'abbatement de l'Espagne, qui avait perdu sa force d'attraction. + +Le nouveau Portugal, qui commence à cette date-là, n'a rien de l'autre, +rien de sa force noble, de son hardi génie. Ce n'est qu'un triste +bâtard, un être malingre et malvenu, le produit artificiel de la +diplomatie, que son grand ami, l'Anglais hérétique, protège, rudoye, +amuse et exploite. De sa seule force, il ne tiendrait pas debout: il +est donc juste qu'il paye celui qui le soutient. Il le payera des +restes de son noble héritage, de ses colonies, qui s'en iront l'une +après l'autre grossir l'empire de la nouvelle reine des mers; il le +payera encore en traités de commerce, qui le ruineront au profit de son +loyal protecteur. Cela s'appella la glorieuse restauration portugaise de +1640--oeuvre néfaste entre toutes, qui démembra l'Espagne et compromit +pour des siècles, peut-être pour toujours, l'avenir de la peninsule +ibérique. + +Mais, à côté de l'Anglais hérétique, le jésuite aussi avait travaillé à +cette oeuvre glorieuse: il reçut sa paye. On lui abandonna +complètement l'éducation, l'âme de la nation. Le Portugal a été, pendant +deux siècles, plus encore que le Paraguay, le véritable paradis des +jésuites. Leur produit spécial, leur oeuvre de prédilection, le cagot, +y arriva à la plus merveilleuse perfection. Le cagotisme a été +véritablement le trait, le signe particulier du nouveau Portugal: c'est +par là qu'il acquit une physionomie. Comme état de psychologie +collective, il survécut à la destruction des jésuites, il a traversé les +révolutions: il s'est accommodé du libéralisme, et, chose surprenante, +de l'incrédulité elle-même! Il dure toujours, et la situation trouble, +maladive, énigmatique d'aujourd'hui est avant tout son oeuvre. + +Voilà, aussi brièvement que possible, la vérité sur le Portugal moderne. +Cette vérité n'était pas inconnue avant les livres de M. Oliveira +Martins: on la pressentait plus au moins, en tâtonnant à travers le +brouillard d'illusions séculaires et officielles: quelques-uns même +avaient osé la formuler. Mais, seuls, les livres de M. Oliveira +Martins l'on déduite historiquement, c'est-à-dire, en présentant +nettement les faits et en les ramenant à leurs causes. Dans ces livres +si vivants, si incisifs, la forme est narrative et pittoresque, le fond +est philosophique. C'est de la très ferme étiologie historique. En +suivant l'histoire à travers la variété animée des scènes et des +personnages, le lecteur s'aperçoit tout-à-coup qu'on lui a fait une +démonstration en règle. Ce n'est pas là une des moindres originalités de +la manière de M. Oliveira Martins. + +Du reste, pour nous autres, tout est original dans ces livres, l'idée +comme la forme, le point de vue critique comme la manière réaliste. Le +Portugal, depuis sa Révolution, n'avait encore eu qu'un seul homme +supérieurement doué et fortement préparé pour le travail de l'histoire: +A. Herculano. Mais, outre que Herculano ne s'est jamais occupé que de +l'histoire anterieure à 1580 (qu'on peut considerer comme l'histoire +d'une autre nation) il était trop dogmatique dans ses vues et trop raide +et guindé dans son estyle, pour qu'on puisse trouver dans ses livres la +vie et la philosophie, c'est-à-dire l'âme et la forme de l'histoire. Son +oeuvre puissant d'effort et de savoir, souvent éloquente, a suivi +toutefois une direction trop particulière. + +Pour les autres qui se sont occupés de l'histoire moderne du Portugal, +Rebello da Silva, en dépit de son admirable talent litteraire, n'a été +qu'un médiocre rhéteur: Pinheiro Chagas n'est qu'un compilateur dénué de +toute critique et même de toute idée. Ceux qui ont osé affronter les +livres de M. Theophilo Braga ont eu quelquefois la consolation d'y +rencontrer l'ombre d'une idée neuve et juste et quelques aperçus hardis +ou ingénieux, trop vite noyés dans le fatras babylonien d'une +érudition en délire. Les ouvrages historiques de M. Oliveira Martins +restent donc originaux au premier chef et sans précédents dans nôtre +litterature. Dans les litteratures étrangères, ils se rattachent surtout +à Michelet et Carlyle--avec moins d'imagination et d'intention poétique, +mais avec plus de fermeté et de largeur dans les vues. + +Vous allez croire maintenant que l'homme audacieux qui a osé dire à son +pays les vérités les plus cruelles et les plus humiliantes pour sa +vanité, doit être chez nous une espèce de paria, un lépreux tenu à +distance par le monde officiel, quelque chose comme Proudhon l'a été en +France sa vie durant? + +Rassurez-vous. M. Oliveira Martins est membre de l'Académie Royale de +Lisbonne et de l'Institut universitaire de Coimbra. + +Il a vu un de ses livres, et non pas des moins sévères (_A circulação +fiduciaria_), couronné par cette même Académie Royale. Le monde officiel +le fête, le choye, l'aime de tout son coeur. Les ministres sont très +heureux quand il veut bien se charger de quelque travail qui demande +beaucoup de savoir et beaucoup de désinteressement. Je ne sache pas non +plus que ces terribles livres aient eu de contradicteurs. En un mot, il +ne tiendrait qu'a lui d'être l'homme du jour dans le pays qu'il a si +malmené. + +Etonnant, n'est-ce pas?--Pour qui sait comprendre, ce simple fait en dit +plus long que de gros volumes! + +1884. + + [1] Un seul fait suffira. A l'Ecole des hautes études litteraires + (_curso superior de lettras_) de Lisbonne, la chaire de litterature + ancienne est occupé par un monsieur qui ne ne sait pas un mot de + grec--et, chose plus curieuse encore, parmi les membres du jury de + concours qui l'a reçu (composé de professeurs du dit _Curso + superior_ et de membres délégués de l'Académie royale de Lisbonne), + _pas un seul non plus ne connaissait le grec_! + + + + +Oliveira Martins e o partido progressista + + +CARTA A SEBASTIÃO D'ARRUDA DA COSTA BOTELHO + + +Villa do Conde, 1 de agosto de 1885 + + _Meu Sebastião_ + +....................................................................... + +Mando-te esses numeros da _Provincia_ para veres o caracter imponente, +que teve a manifestação do Porto e o tom a que o O. Martins tem sabido +levantar o Progressismo, que tão desafinado andava. Verás tambem que +elle não renegou, nem se desdiz. A bandeira que desfralda é a do +Socialismo, como até aqui. Convencido como está, e estão todos os que +sabem observar os factos, da incapacidade actual, (e que o será ainda +por muito tempo), do partido republicano para fundar seja o que fôr e +vendo ao mesmo tempo a imminencia de uma crise pavorosa, o O. Martins +fez acto verdadeiro de patriotismo, procurando aquelles elementos, que +bem dirigidos e transformados, poderão por ventura fornecer ainda um +ponto de apoio no meio do naufragio. Um homem como O. Martins, não dá um +passo destes, nem toma posição de tamanha responsabilidade, sem ter +visto bem as cousas e estudado o melhor caminho. Tem sido approvado por +muita da melhor gente. O O. Martins é o unico homem politico superior +que temos, pois reune a um elevado caracter um saber vasto e não só +theorico mas technico e um poder de trabalho incomparavel. Quando um tal +homem dá um passo, como elle deu, o dever da gente seria, ainda quando o +não approve, é não o estorvar na sua tentativa, reconhecendo a pureza +das suas intenções. Os republicanos, porém, cobriram-n'o de insultos e +imputações as mais baixas--e no dia seguinte o que fizeram? foram +alliar-se com os regeneradores, para combater o movimento por elle +iniciado, movimento que pode falhar, mas que é sem duvida sério e +exprime o sentir nacional, pelo menos neste ponto de querer acabar com +essa alliança da burocracia com a finança, que é a fatalidade do partido +regenerador, origem da corrupção politica e de um systematico +desgoverno. Destruir essa oligarchia burocratico-financeira, que nos +domina e desmoralisa, ha tantos annos, e impedir por meio de leis +convenientes que ella possa de futuro tornar a formar-se, parece-me +coisa muito mais importante do que uma simples alteração no caracter do +poder executivo, cousa que deve ficar para depois, pois só as reformas +economicas e financeiras tornarão aquella outra puramente politica, não +só possivel, mas fecunda e duradoura. Isto tanto mais, quanto está +imminente a bancarrota e uma tremenda crise social; a proclamação da +Republica, não só não remediaria esses grandes males, (pois que +influencia póde ter uma reforma só politica nos elementos +financeiros e economicos?) mas traria mais uma complicação e +elemento de desordem, como ainda em 1873 se viu em Hespanha. Convém, +pelo contrario, addiar essa questão, visto que não é urgente, e não +complicar com ella a outra, urgentissima. É de boa politica, como é de +boa logica, dividir as questões para as resolver, e começar por +aquellas, que resolvidas, podem facilitar a resolução das outras. +Impedir que tudo venha a baixo parece ser a cousa mais urgente. Depois +reformar a constituição economica, de modo a impedir que um tal estado +de cousas possa vir a repetir-se. E só depois organisar a constituição +politica, tanto no que toca ao legislativo, como ao executivo, de modo a +dar estabilidade e duração aos progressos realisados. Pódes crêr que +estas são hoje, como sempre foram, as aspirações do O. Martins, que +continúa sendo tão bom socialista e republicano como era dantes. Eu, por +mim, approvo-o inteiramente na marcha que vae seguindo, e desejava que +toda a gente séria lhe désse o apoio indispensavel, ainda aos maiores +politicos, para fazerem qualquer cousa. Se todos começarem a +hostilisal-o, é claro que nada poderá fazer. Virá a terra, e com elle a +ultima esperança deste pobre Portugal. Então teremos o diluvio. + +Adeus, meu Sebastião. Do teu de c. + + _A. de Q._ + + + + +INDICE + +Os Lusiadas, ensaio sobre Camões e a sua obra, em relação á sociedade +portugueza e ao movimento da Renascença, por J. P. de Oliveira Martins. +Porto, 1872 (Folhetim do _Primeiro de Janeiro_) ... 5 + +Theoria do socialismo, evolução politica e economica das Sociedades da +Europa, por J. P. de Oliveira Martins. Lisboa, 1872 (Artigos do _Diario +Popular_) ... 18 + +Le Portugal contemporain--Oliveira Martins (Estudo publicado na _Revue +Universelle et Internationale_). Paris, 1884 ... 39 + +Oliveira Martins e o partido progressista, carta a Sebastião de Arruda +da Costa Botelho, testamenteiro do grande poeta-philosopho ... 50 + + + + +NOTA + + +O presente opusculo constitue a mais respeitosa homenagem dos +testamenteiros de Anthero de Quental á memoria do glorioso escriptor +Oliveira Martins. + + +PREÇO 300 réis + + + + + +End of the Project Gutenberg EBook of Oliveira Martins, by Anthero de Quental + +*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK OLIVEIRA MARTINS *** + +***** This file should be named 31654-8.txt or 31654-8.zip ***** +This and all associated files of various formats will be found in: + https://www.gutenberg.org/3/1/6/5/31654/ + +Produced by Pedro Saborano (produced from scanned images +of public domain material from Google Book Search) + + +Updated editions will replace the previous one--the old editions +will be renamed. + +Creating the works from public domain print editions means that no +one owns a United States copyright in these works, so the Foundation +(and you!) can copy and distribute it in the United States without +permission and without paying copyright royalties. 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