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+The Project Gutenberg EBook of Oliveira Martins, by Anthero de Quental
+
+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.org
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+
+Title: Oliveira Martins
+
+Author: Anthero de Quental
+
+Release Date: March 15, 2010 [EBook #31654]
+
+Language: Portuguese
+
+Character set encoding: ISO-8859-1
+
+*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK OLIVEIRA MARTINS ***
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+
+Produced by Pedro Saborano (produced from scanned images
+of public domain material from Google Book Search)
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+ ANTHERO DE QUENTAL
+
+ OLIVEIRA MARTINS
+
+O critico litterario--O economista--O historiador--O publicista--O politico
+
+
+ LISBOA
+ TYPOGRAPHIA DA COMPANHIA NACIONAL EDITORA
+ _50, Largo do Conde Barão, 50_
+ 1894
+
+
+
+OLIVEIRA MARTINS
+
+
+
+ANTHERO DE QUENTAL
+
+OLIVEIRA MARTINS
+
+O critico litterario--O economista--O historiador--O publicista--O politico
+
+
+LISBOA
+TYPOGRAPHIA DA COMPANHIA NACIONAL EDITORA
+_50, Largo do Conde Barão, 50_
+1894
+
+
+
+
+Os Luziadas, ensaio sobre Camões a sua obra, em relação á sociedade
+portugueza e ao movimento da Renascença, por J. P. de Oliveira
+Martins. Porto, 1872.
+
+
+Se a escóla ethnologica está representada, entre os escriptores novos,
+pelo sr. Theophilo Braga, a escóla social e historica--a unica, talvez,
+a que propriamente se devêra dar o nome de philosophica--acaba de achar
+igualmente entre nós um digno representante num escriptor moço e do
+maior futuro, o sr. Oliveira Martins, que num livro recente estudou, a
+proposito de Camões (e para nos explicar Camões), a litteratura
+portugueza do seculo XVI, no ponto de vista largo e comprehensivo, ao
+mesmo tempo politico e psychologico, que caracterisa esta ultima escóla.
+
+Neste ponto de vista, a litteratura de um povo, considerada como um todo
+symetrico, uma obra gigantesca e collectiva, apresenta-se como a
+expressão do seu espirito nacional, determinado não por tal ou tal
+elemento primitivo e, por assim dizer, physiologico, mas pelos
+elementos complexos, uns fataes outros livres, uns criados outros
+herdados, cuja synthese constitue a _idéa_ da sua nacionalidade--raça,
+instituições, religião, tradição historica e vocação politica e
+economica no meio dos outros povos. A idéa nacional, na sua evolução,
+determina gradualmente o que se póde chamar o temperamento da nação; e,
+se esta surda fermentação se manifesta em tudo, nos seus actos e nos
+seus pensamentos, revela-se sobretudo na sua imaginação, isto é, no seu
+ideal, cuja expressão mais livre é a arte e a litteratura. Nesta
+invisivel circulação da seiva interior ha periodos, periodos de
+revolução, de progresso, de retrocesso, de incubação ou de plenitude de
+forças: a estes correspondem invariavelmente os periodos artisticos e
+litterarios, com suas variações de intensidade, lenta formação de
+escólas, morbidos estacionamentos, subitas e inflammadas florescencias.
+E, como nesta vegetação collectiva, cada ramo, cada folha, cada fructo,
+se alimenta com a seiva commum e tem uma vitalidade proporcional á força
+que trabalha o grande tronco, o espirito individual acompanha o espirito
+nacional nas suas evoluções, gradua pela delle a sua intensidade: a sua
+liberdade interior tem por limites, realisando-se, as condições do meio
+em que se desenvolve, e o genio do artista, do poeta, ainda quando
+protesta e se revolta, é sempre _adequado_ ao genio do seu povo e da sua
+época. É por aqui que a historia litteraria se liga á philosophia da
+historia, ou antes, que faz parte della. As grandes épocas litterarias
+coincidem com as épocas de plenitude do sentimento nacional, aquellas
+em que esse sentimento, tomando consciencia de si, se revela em obras
+harmonicas e complexas, que são como que o fructo definitivo da lenta
+elaboração das instituições, dos costumes, dos pensamentos. Reaes e
+juntamente ideaes, essas obras supremas dizem-nos ao mesmo tempo o que
+um povo _foi_ e o que _quiz ser_, descobrem-nos a sua _aspiração_ intima
+e marcam os _limites_ dentro dos quaes lhe foi dado realisal-a. São o
+commentario moral das revoluções politicas e sociaes, e como que os
+annaes da consciencia nacional: e, para a philosophia, é na consciencia
+que a historia encontra a sua explicação definitiva e a sua final
+justificação.
+
+O que diz Camões a quem, depois de o ter lido com olhos de homem de
+gosto, o relê com olhos de philosopho? Camões, responde o snr. Oliveira
+Martins, diz-nos o _segredo_ da nacionalidade portugueza. Houve, com
+effeito, uma nacionalidade portugueza--por mais estranha que esta
+affirmação nos pareça, a nós portuguezes do seculo XIX, que não atinamos
+a encontrar no presente uma _causa vivendi_: houve uma razão de ser
+tanto para as instituições como para os individuos, e uma idéa nacional,
+espalhada como a alma collectiva por todo este corpo, então vivo e agil.
+E não só houve uma nacionalidade portugueza, mas essa nacionalidade,
+superior aos impulsos cegos da raça e á fatalidade da geographia,
+produziu-se como uma obra do esforço e da vontade, não resultado de
+obscuros instinctos primitivos, como um facto politico e moral, não como
+um facto ethnologico. Quando em Hespanha não havia ainda senão catalães,
+castelhanos, leonezes e navarros; em França provençaes, gascões,
+borguinhões, bretões; em Allemanha suabos, austriacos, saxões,
+hanoverianos; em Italia tantos pequenos estados rivaes quantas cidades,
+e não se fazia bem idéa do que fosse ser hespanhol, francez, allemão,
+italiano, porque estas palavras França, Hespanha, Allemanha, Italia
+designavam apenas vagas agrupações naturaes e não grupos organisados--em
+Portugal havia só portuguezes, e ser portuguez tinha uma significação
+definida e precisa. Este é o grande facto, diz o sr. Oliveira Martins,
+que faz delle o seu ponto de partida: daqui, a cohesão politica da
+nação; daqui a sua physionomia moral. Essa cohesão é a unidade; essa
+physionomia é o patriotismo. O patriotismo, pondera acertadamente o sr.
+Oliveira Martins, é cousa muito distincta do amor da terra: e o
+patriotismo, como os portuguezes dos seculos XV e XVI o conceberam, foi
+um phenomeno moral quasi unico na Europa de então, e que os tornou muito
+mais parecidos com os romanos antigos do que com os povos seus
+contemporaneos. O patriotismo é uma idéa abstracta, que excede a
+capacidade toda sentimental da raça; o instincto naturalista da raça dá
+o amor da terra; não vai mais além: só a idéa nacional póde dar o
+patriotismo, comprehendido á romana e á portugueza. O Cid batalha mais
+de uma vez contra os castelhanos, ao lado dos arabes; o condestavel de
+Bourbon vira a sua espada aventureira contra a França que o viu nascer;
+nem por isso deixa o Cid de ser um typo de bravura idealisado pelos
+hespanhoes, e o condestavel de Bourbon um leal cavalleiro para todos os
+cavalleiros de França; mas os Pereiras, combatendo ao lado dos
+castelhanos em Aljubarrota, são malditos, _arrenegados_; e, mais tarde o
+Magalhães será _portuguez no feito, porém não na lealdade_: apostataram
+da idéa nacional. Eis a grande differença. Esta noção do patriotismo
+cria uma ordem de sentimentos particulares dos individuos para com a
+nação, um modo de ser moral peculiar. É o dever patriotico, como o
+comprehenderam, em Roma, Fabricio, Regulo, Catão, em Portugal Castro,
+Albuquerque--o dever patriotico, cuja expressão suprema é o heroismo.
+Leia-se a historia da Europa até ao seculo XVI: abundam os _bravos_, mas
+difficilmente se encontrarão os _heroes_, segundo o typo magnanimo que a
+antiguidade realisou, e que de novo e no seu ponto de vista realisou
+Portugal durante os seculos XV e XVI. No _peito illustre lusitano_ havia
+então alguma cousa de grande e transcendente, que impellia a nação para
+um destino extraordinario e suscitava no meio della os heroes, que
+deviam servir a idéa nacional com a abnegação tenaz e superior com que
+se serve uma idéa religiosa. É que o patriotismo é uma especie de
+religião civil. Foi por essa religião que, durante tres seculos, nos
+erguemos no mundo, para realisar um sonho gigantesco e quasi
+sobre-humano: foi por ella tambem que cahimos exangues e desilludidos,
+porque a realidade faltou ao sonho, porque todo o sonho, com o seu
+idealismo, se exalta primeiro, perturba depois, transvia, endoudece
+aquelles que envolve nas suas nevoas phantasticamente luminosas, mas
+sempre enganadoras.
+
+A época nacional portugueza, por excellencia, é o seculo XVI. Tudo
+concorre então para dar ao espirito dos portuguezes aquelle summo grau
+de tensão, que produz os grandes movimentos nacionaes. A nacionalidade
+rompe com impulso irresistivel os seus limites tradicionaes, transborda
+fremente como um rio caudaloso, e affirma-se na sua plenitude pelas
+descobertas e pelas conquistas. Dentro, a sua força é o resultado da sua
+concentração: pela reforma dos foraes, pela monarchia absoluta, pela
+expulsão dos judeus, attinge o maximo de unidade politica, social,
+religiosa, isto é, o maximo de poder sobre si mesma. Esta energica
+cohesão depura o sentimento nacional, dá-lhe uma segura consciencia de
+si, e leva-o áquelle grau de tensão em que o patriotismo, exaltando-se,
+se transforma numa especie de heroismo universal. A nação faz-se heroe:
+o heroismo é a sua atmosphera ordinaria, e todos participam mais ou
+menos desse contagio sublimador. Daqui, uma concepção particular da vida
+social, do direito, do dever, tanto para a nação como para os
+individuos. _Ser portuguez_ é alguma cousa de especial, um typo _sui
+generis_ de virilidade e nobreza, que todos procuram realisar, e que a
+litteratura idealisa, de que ella se inspira na phase nova em que então
+entra. Com effeito, a esta evolução moral corresponde uma evolução
+litteraria. Á escóla provençal-castelhana, lyrica, aventureira e
+romanesca, succede a grave escóla italiana, com a feição nova que o
+espirito portuguez lhe deu, adoptando-a, isto é, moral e épica. Ao
+trovador Bernardim Ribeiro, ao popular Gil Vicente succedem Sá de
+Miranda e Ferreira, dous romanos. O velho typo cavalheiresco,
+phantasioso e sentimental, empallidece diante desse outro que surge,
+nobre e digno, quasi severo, o homem do dever, não da sensibilidade, que
+João de Barros, Ferreira e Miranda vão levantando, e que Camões virá
+collocar sobre o sublime pedestal épico.
+
+Este typo, o verdadeiro typo portuguez do seculo XVI, como se revela nos
+_Lusiadas_, não é com effeito uma mera invenção do genio de Camões: é
+uma genuina criação nacional, um ideal do sentimento collectivo, que se
+foi gradualmente formando e depurando, até encontrar no grande poeta
+quem lhe désse uma expressão definitiva. É por isso mesmo que elle
+domina, de toda a sua altura, o pensamento e a obra de Camões. O que o
+poeta canta é o heroismo portuguez: _o peito illustre lusitano_: e todo
+o seu poema se resume nisto, como nesse poema se resume toda a vida
+moral portugueza durante um seculo. A razão intima dos acontecimentos,
+dos costumes, das opiniões encontra-se alli: explicam-se por elle, e só
+elles tambem o explicam completamente. O poema e a sociedade são, por
+seu turno, texto e glosa que mutuamente se commentam.
+
+Neste ponto de vista, historico e psycologico, não no ponto de vista
+meramente litterario de uma esteril poetica de convenção, é que os
+_Lusiadas_ devem ser estudados e comprehendidos--e cabe ao sr. Oliveira
+Martins a gloria de ter sido o primeiro a fazel-o, a gloria de ter
+_commentado_ philosophicamente os _Lusiadas_. A esta luz tudo se explica
+na concepção do poema e na substancia moral delle: percebe-se a razão
+deste estranho phenomeno, estranho e unico, do apparecimento de um
+verdadeiro poema epico nacional em plena idade moderna.
+
+Isto em quanto á concepção. Em quanto, porém, a certa ordem de
+sentimentos, que, no ponto de vista épico, são secundarios, mas que
+occupam um grande logar no poema, para os comprehender faz-nos o sr.
+Oliveira Martins considerar outro lado da physionomia tão complexa de
+Camões e da sua época. Com effeito, se Camões é um portuguez do seculo
+XVI, é ao mesmo tempo um artista da Renascença; daqui todo um lado dos
+_Lusiadas_, que excede a idéa nacional, e por onde este profundo poema
+se liga, não já á vida necessariamente estreita de um simples povo, mas
+ao vasto movimento do espirito humano nos tempos modernos. Sem este
+lado, a significação dos _Lusiadas_ seria meramente nacional e local,
+não europêa e universal: teriam só um valor historico e não philosophico
+tambem. Mas Camões, portuguez pelo caracter e pelo coração, era pela
+intelligencia mais do que portuguez sómente. Respirava a atmosphera
+subtil e vivificante da Renascença: no seu vasto espirito, como no dos
+grandes artistas desse tempo, havia um lado mysterioso e profundo que se
+virava, não para o passado ou para o presente, mas para o illimitado
+futuro, presentindo já a revolução moral dos seculos XVIII e XIX. Se
+Camões, como portuguez é patriota e heroico, como homem da Renascença é
+pantheista; pantheista platonico e idealista, já se vê, como Miguel
+Angelo, Leonardo de Vinci, Shakespeare. Portuguez, exalta os feitos por
+onde o seu povo conquista entre as nações um logar proeminente: homem da
+Renascença, sente e interpreta a natureza com um naturalismo impregnado
+de idealidade, que é mais ainda o presentimento de um mundo moral
+novo, do que uma imitação da antiguidade pagan. O sentimento pantheista
+da natureza, sentimento todo moderno, e que devia mais tarde chegar á
+plenitude em Rousseau, Goethe, Hugo, appareceu pela primeira vez em
+Camões. Daqui, o caracter do seu espanto em face dos grandes phenomenos
+maritimos; daqui, a concepção do Adamastor; daqui, o sensualismo da
+primeira parte do canto XI e o idealismo da ultima. É por este lado que
+Camões toma logar entre os grandes espiritos, os _Lusiadas_ entre as
+grandes obras dos tempos modernos. A imaginação prophetica do poeta
+anticipa tres seculos na historia psycologica da humanidade. Com todos
+estes elementos, uns portuguezes, outros europeus, uns locaes, outros
+universaes, recompõe o sr. Oliveira Martins a physionomia complexa de
+Camões e dos _Lusiadas_, com uma lucidez e segurança de critica
+verdadeiramente surprehendentes para quem considerar a completa novidade
+do seu trabalho. A sua luminosa synthese abraça o poeta, a obra e a
+época: e pela épocha, pelo poeta e pela obra faz-nos sentir a intima
+realidade da nação e a sua razão de ser historica. E nessa mesma
+synthese comprehende-se tambem a sua decadencia; triplice decadencia,
+politica, moral, litteraria. Como? pela decadencia da idéa nacional. Com
+effeito, o patriotismo heroico do Portugal do seculo XVI continha em si
+mesmo os germens da propria dissolução. Era grande, mas não era justo:
+ora nada dura no mundo senão pela justiça. Tinha fatalmente de se
+corromper essa orgulhosa idéa nacional, fundada na violencia da
+conquista, na intolerancia religiosa e no despotismo politico. Os
+vicios interiores do organismo nacional appareceram bem depressa:
+appareciam já no tempo de Camões: nos _Lusiadas_ encontram-se de vez em
+quando, estrophes sombrias, que são como um lugubre _cras enim moriemur_
+lançado no meio das alegrias daquelle festim heroico. Era o futuro
+velado e lutuoso que o poeta entrevia num deslumbramento prophetico. A
+nação estava, com effeito, condemnada. O heroismo que tem de durar,
+lança as suas raizes na região mais inalteravel, mais incorruptivel da
+consciencia humana, e as do nosso não chegaram lá: foi uma especie de
+_sezão nacional_; não foi um acto reflectido, filho da liberdade moral,
+um esforço supremo pela justiça; foi apenas um egoismo sublime. Por
+isso, martyres da propria obra, a nossa quéda foi cheia de tristeza e
+confusão, nem nos ficou no rosto a serenidade luminosa dos verdadeiros
+martyres.
+
+As paginas austeras em que o sr. Oliveira Martins estabelece esta
+distincção entre o heroismo da consciencia e o da fatalidade, e mostra
+Portugal condemnado por aquillo mesmo que fizera a sua virtude e a sua
+grandeza, são das mais gravemente pensadas que se teem escripto na nossa
+lingua. É a verdadeira philosophia da historia aquella sua, que reduz e
+subordina toda a actividade humana á consciencia e á justiça. A
+injustiça da idéa nacional, como os portuguezes então a conceberam,
+corrompeu gradualmente as instituições, infiltrou-se nos espiritos e
+perverteu os costumes: a sociedade, minada interiormente, vacillou, em
+despeito do esplendor mentiroso que exteriormente a vestia, e começou a
+desabar. O sr. Oliveira Martins desenhou com mão segura e vivissimo
+colorido o quadro das implacaveis realidades, que, produzidas pelo
+heroico idealismo portuguez, se viraram contra elle, o viciaram e
+acabaram por destruil-o. A nação, atacada deste modo nos seus orgãos
+mais vitaes e na mesma alma, que podia produzir no mundo do espirito, da
+arte, da litteratura? A decadencia social e moral tinha necessariamente
+de corresponder a decadencia litteraria. Um desregramento doentio das
+imaginações privadas de ideal, depois um estreito classicismo e uma
+poetica de academias, succederam á livre e fecunda expansão do genio
+portuguez no mundo do sentimento e da phantasia. A idéa nacional levou
+comsigo para a cova o segredo das criações poeticas. Do seculo XVI até
+hoje não produziu Portugal uma unica obra artistica ou litteraria
+verdadeiramente nacional. De vez em quando, nalguns momentos
+excepcionaes, o genio dalguns homens tem-se levantado como um protesto,
+e tem-se visto ainda uma ou outra obra viva. Mas essa inspiração é toda
+individual, não é nacional: é um producto natural que póde demonstrar
+que a raça não morreu com a nacionalidade, não é filha de um sentimento
+commum e como que organico da sociedade portugueza. A decadencia
+nacional é o grande facto inexoravel da nossa historia, vai em tres
+seculos: a decadencia litteraria é uma fórma della, nada mais.
+
+Decadencia irremediavel? pergunta o sr. Oliveira Martins, nas ultimas
+paginas do seu livro. Não! responde-lhe a philosophia revolucionaria. A
+nossa renovação moral e litteraria será possivel no dia em que, pela
+reforma das instituições sociaes, por uma nova e melhor comprehensão da
+justiça, comece outra vez o espirito a circular neste grande corpo, mais
+inerte ainda do que acabado, volte a animal-o uma alma, um ideal
+collectivo. Então Portugal terá de novo uma razão de ser, e a idéa
+nacional, mais brilhante e mais quente depois do seu eclipse secular,
+fará rebentar outra vez fructos e flores deste chão endurecido sim, mas
+debaixo do qual ha ainda (embora a grande profundidade) fontes vivas em
+abundancia. As grandes acções serão outra vez possiveis, e um melhor e
+mais alto heroismo; por elle serão não só possiveis, mas quasi
+inevitaveis os grandes pensamentos poeticos. A renovação litteraria de
+Portugal é correlativa com a sua renovação social e está dependente
+della: é a conclusão do livro do sr. Oliveira Martins, conclusão que
+todos devemos aceitar, não como uma vaga esperança, mas como uma verdade
+philosophica cuja realisação não depende senão do nosso esforço, da
+energia do nosso sentimento moral. Somos os operarios do nosso proprio
+destino, e desde já as nossas mãos o vão aperfeiçoando: terá a fórma que
+lhe dermos.
+
+Neste trabalho solemne da renovação nacional, grande é a tarefa que está
+talhada para a geração nova, e immensa a sua responsabilidade! Estará
+ella, pela intelligencia e pelo coração, pela sciencia e pela virtude, á
+altura desta obra austera e formidavel? Muitos o duvidam, vendo-lhe no
+rosto uma pallidez de mau agouro... Não me cabe a mim decidil-o: direi
+sómente que (quaesquer que tenham de ser os nossos destinos) para
+darem testemunho das intenções sérias de uma parte consideravel da nossa
+geração, do seu espirito renovador, da sua aspiração a uma melhor
+sciencia, bastarão em todo o tempo obras como a _Historia da litteratura
+portugueza_, do sr. Theophilo Braga, e o _Ensaio sobre Camões_, do sr.
+Oliveira Martins.
+
+9 de maio de 1872.
+
+
+
+
+Theoria do socialismo, evolução politica e economica das sociedades
+da Europa: por J. P. de Oliveira Martins. Lisboa, 1872.
+
+
+I
+
+Pelo assumpto do livro, pela maneira porque nelle se resolvem as
+questões que o assumpto envolve, e pela muita amizade, além da
+affinidade de crença philosophica e politica, que me liga ao autor,
+estava eu obrigado a fallar publicamente desta recente e por tantos
+lados notavel obra do sr. Oliveira Martins. Se o não tenho ainda feito,
+contando o livro perto já de tres mezes depois de publicado, é porque
+preoccupações de outra natureza, envolvendo dispendio de tempo e de
+attenção para coisas bastante differentes, me teem totalmente impedido.
+Agora mesmo, só lhe poderei consagrar uma rapida noticia, expondo apenas
+a impressão geral, que uma primeira leitura, por varias occasiões
+interrompida, me deixou, tanto dos defeitos como das sérias qualidades,
+que avultam na _Theoria do Socialismo_.
+
+Comecemos pelos defeitos, e pelos pontos em que discordo (sem
+pretender por modo algum incluir estas divergencias no numero dos
+defeitos) da maneira de vêr do autor. Depois, mais desassombrados,
+apreciaremos o pensamento essencial da obra.
+
+Os defeitos são, me parece, exclusivamente de fórma e composição. Ha uma
+idéa fundamental no livro, que determina uma linha logica,
+desenvolvendo-se sem soluções de continuidade da primeira até á ultima
+pagina; ha, nos pontos que essa linha percorre, uma successão natural
+correspondente ao encadeamento normal dos principios e dos factos na
+sciencia e na historia. O que falta, porém, é uma definição
+_cathegorica_ da idéa geradora, e uma exposição precisa e desenvolvida
+dos principios, de tal sorte que estes não se entrevejam sómente, mas
+appareçam de facto como a _razão sufficiente_ dos phenomenos historicos
+e a elles _adequados_. É a esta falta que se deve attribuir a
+difficuldade e obscuridade que encontram as intelligencias não
+preparadas por uma conveniente educação philosophica (e são muitas,
+desgraçadamente) em certas partes desta obra, aliás methodica e bem
+deduzida. Quero com isto dizer que não é da idéa que provém a
+obscuridade, mas da composição e do estilo. Bastava que o autor tivesse
+dado ás _theses_, que precedem cada um dos seus capitulos, um
+desenvolvimento proporcional, em vez de as encerrar em formulas, ás
+vezes um tanto algebricas, e que nas suas exposições de principios
+_arejasse_ um pouco o estilo, tornando-o mais ductil e menos technico,
+para que as abstrações philosophicas se tornassem accessiveis ao
+simples senso-commum, a que se reduz o criterio de 90 por cento dos
+leitores portuguezes.
+
+Faço estes reparos, não só para que as pessoas que não comprehenderam
+bem certas paginas do livro do sr. Martins se convençam de que essa
+obscuridade nada depõe contra a verdade e lucidez da idéa fundamental
+delle, como tambem por entender que o estilo nas obras não litterarias,
+e até nas de sciencia pura, não deve ser considerado como coisa
+accessoria e secundaria. Certamente que não aconselho aos homens de
+sciencia que _façam estilo_; mas é que tal conselho não o daria tambem
+aos literatos e aos poetas. Para mim, entre ter bom estilo e _fazer
+estilo_ ha uma differença essencial: ter bom estilo significa ter o
+estilo proprio e conveniente das idéas que se expõem; _fazer estilo_
+significa encobrir a falta de idéas com phrases redundantes e
+apparatosas, com aquelles _persicos apparatus_ que já Horacio queria
+banidos dos festins e, com maior razão ainda, do discurso. Póde haver, e
+ha effectivamente, bom estilo até nas sciencias mais rigorosas,
+naquellas a que os espiritos vasios, que querem campar de poeticos,
+chamam aridas: ha bom estilo em mathematica, por exemplo, e em chimica:
+Lagrange passa por ter escripto algebra com uma elegancia e belleza
+verdadeiramente classicas; em chimica, gosa hoje de igual reputação o
+illustre Wurtz. Mas deixemos isto, porque não é sobre esthetica que me
+propuz escrever. Direi sómente que o sr. O. Martins nunca _faz estilo_,
+exactamente porque tem muitas idéas; mas que, por não dispôr ás
+vezes convenientemente as suas idéas, consoante os respectivos valores,
+_cum pondere, numero et mensura_, deixa passar certas paginas, que, sem
+injustiça, podemos acoimar por não terem bom estilo.
+
+Tomarei tambem nota de alguns pontos em que não concordo com o modo de
+vêr do autor da _Theoria_. Não é que essas divergencias de opinião sejam
+muito profundas, quero dizer, que versem sobre pontos essenciaes da
+doutrina do livro: são, pelo contrario, exotericas, e versam
+exclusivamente sobre certas apreciações historicas, indifferentes em
+grande parte á conclusão geral que o autor tira da evolução das
+sociedades na Europa desde a época romana. Essa conclusão é a minha
+tambem, como o leitor verá: e se tomo nota destas divergencias, é porque
+não me apraz estar completamente de accordo com quem quer que seja,
+maximamente com aquelles cuja intelligencia préso e respeito--e desejo
+deixal-o registado. Custar-me-hia tanto não concordar em ponto algum com
+o sr. O. Martins, como concordar em todos absolutamente. Espero que o
+leitor comprehenderá, sem mais explicações, o que quero dizer.
+
+Discordo pois, da maneira porque o sr. Martins encara, na sua
+generalidade, a Idade-media, considerando-a como um periodo de
+retrocesso em relação á civilisação greco-romana, durante o qual os
+elementos evolutivos dessa civilisação estacionassem (experimentando
+alguma coisa analoga áquillo a que em physiologia se chama _interrupção
+de desenvolvimento_), em virtude das sabidas causas ethnologicas,
+sociaes e moraes que determinaram a dissolução do mundo antigo, de
+tal sorte que todo o movimento europeu, durante aquelles nove a dez
+seculos, se reduzisse, de um lado, á tradicção greco-romana, no que ella
+tinha de _já definitivo_ e _não evolutivo_, isto é, o Cristianismo e o
+Imperio, e do outro lado, ao reapparecimento de elementos primitivos, os
+Barbaros, que apenas repetem extemporaneamente phases sociaes, que a
+civilisação antiga, havia já seculos, tinha atravessado. Daqui parece o
+autor concluir que a evolução normal da civilisação foi perturbada,
+durante um certo periodo, pela introducção violenta de elementos
+estranhos, constituindo uma como massa indigesta, cuja laboriosa
+digestão produzindo uma lethargia secular, explica sufficientemente a
+_interrupção de desenvolvimento_ que descobre na idade-media. Esses
+elementos anormaes, que a civilisação teve de digerir durante mil annos,
+para poder reatar os termos logicos da sua evolução (seculo 5.º, seculo
+16.º), foram, de um lado, o Cristianismo com o seu Santo Imperio, do
+outro lado os Barbaros com o seu sistema feudal. Ora, de mais de uma
+pagina da _Theoria_ concluo eu que, no pensar do sr. Martins, nenhum
+destes dois phenomenos é inherente á evolução, pois que vê nas invasões
+barbaras só um phenomeno ethnologico e como que uma fatalidade natural,
+e no Christianismo uma mera reacção religiosa, um recrudescimento
+anomalo de transcendentalismo, quando já pelo Estoicismo, de um lado, e
+do outro pelo Epicurismo, entrava o espirito humano na larga estrada da
+philosophia natural, e entrevia no horisonte a luz salvadora da
+Immanencia. A conclusão a tirar é que, sem estes elementos
+perturbadores, não teria havido _interrupção de desenvolvimento_, seriam
+poupadas á Humanidade as agonias da sua _paixão_ (como Michelet chama á
+Idade-media), o seculo 16.º teria caído no seculo 6.º, e nós hoje
+estariamos já aonde só estaremos no seculo 30.º
+
+Se estas conclusões que não estão explicitas no livro do sr. Martins se
+contêem realmente nos seus principios, tenho a objectar-lhe, antes de
+tudo, que implicam até certo ponto contradicção com a sua idéa
+fundamental, isto é, a Evolução como lei primeira da Civilisação. Que
+uma circumstancia ou uma serie de circumstancias exteriores e fataes
+possam produzir numa civilisação não sómente uma _interrupção do
+desenvolvimento_, mas ainda uma atrophia permanente, comprehende-se e em
+nada contradiz a idéa da Evolução. Mas o que a contradiz e o que não se
+comprehende é que essa atrophia temporária ou permanente possa ser
+expontanea, e saia como um termo necessario da mesma evolução, cuja
+essencia é o desenvolvimento. Ora, ainda concedendo que os Barbaros
+estejam no primeiro caso (e não me parece que estejam absolutamente,
+porque que se as invasões barbaras são um phenomeno natural e fatal, e
+um agente exterior, a fraqueza interna de uma civilisação, que succumbe
+á barbaria, tem por força de ter uma causa tambem interna, que é preciso
+determinar), o Cristianismo é que necessariamente estaria no segundo, e
+teriamos assim, neste ponto, a evolução embaraçando-se e
+contradizendo-se a si mesma.
+
+Logo, uma de duas: ou a evolução, em determinados casos, póde
+suspender-se expontaneamente, e não só suspender-se, mas até
+retroceder e annullar-se a si mesma, o que é contradictorio com a sua
+idéa essencial; ou não houve realmente na Idade-media um _retrocesso
+geral_ e atrophia dos elementos evolutivos, e é necessario procurar no
+estudo comparativo dos elementos immediatamente anteriores e posteriores
+a essa idade a existencia de um _quid intimum_, cujo desenvolvimento,
+assegurando o resultado total da evolução, como sendo-lhe essencial,
+póde ao mesmo tempo, pela sua particular natureza, _suspendel-a
+parcialmente_, durante um certo tempo e em determinados pontos.
+
+Regeitando a primeira hypothese, como envolvendo um absurdo, fica-nos a
+segunda, que não só tem a plasticidade sufficiente para se accommodar á
+explicação dos phenomenos divergentes e apparentemente contradictorios
+de um periodo tão complexo e revolto como a Idade-media, mas encerra
+além disso um real valor philosophico, fazendo entrar na historia uma
+das idéas fundamentaes das sciencias da organisação, a idéa de _crise_,
+e estabelecendo assim entre o mundo da vida e o do espirito uma
+concordancia de bastante alcance.
+
+Nestes termos, diremos que não se deu na Idade-media uma _interrupção
+do desenvolvimento_, mas sim uma de aquellas _crises organicas_
+que são proprias e expontaneas na evolução dentro do mundo dos
+organismos--fazendo entrar neste a historia, como uma fórma organica
+superior e transcendente. Crises taes são um resultado do mesmo
+desenvolvimento dessa ordem de forças complexas (que não são
+independentes e apenas paralelas, mas convergentes e solidarias) que
+actuam segundo leis analogas, tanto nos organismos como nas sociedades e
+no espirito.
+
+Vê-se claramente como desta solidariedade e convergencia, combinadas com
+a acção desigual das circumstancias exteriores sobre cada uma dessas
+forças, resultem para muitas dellas desencontros e periodos de
+estacionamento, em quanto umas esperam para se desenvolverem que outras
+tenham attingido um dado grau de desenvolvimento, sem se realisar o qual
+ellas mesmas não podem continuar a sua evolução.
+
+É assim que o sabio paleontologista G. de Saporta (_Origens da vida
+sobre o globo_), comparando a evolução solidaria dos reinos animal e
+vegetal nas idades primitivas, nos mostra o primeiro, depois de ter
+percorrido successivamente uma serie ascendente de typos, estacionar
+durante muitos milhares de annos, á espera que o secundo, cujo
+desenvolvimento, por causas em parte desconhecidas, fôra mais demorado,
+attingisse aquelle termo de ascensão, sem se realisar o qual não podia o
+reino animal continuar o seu progresso especifico. Se considerarmos (com
+depois dos trabalhos de Darwin e Haekel não podemos deixar de
+considerar) que os chamados reinos animal e vegetal não são sómente
+paralelos mas solidarios, e constituem realmente um só mundo organico,
+teremos um facto consideravel, que a paleontologia nos aponta, o exemplo
+de uma immensa e prolongadissima crise, que esse mundo atravessou, a
+maior porventura que elle tem atravessado.
+
+Ora é exactamente uma crise analoga que eu sustento ter soffrido a
+sociedade europea durante o periodo da Idade-media: o _reino_ social
+e politico, depois de rapido e ininterrupto progresso realisado desde
+Homero até aos Antoninos, teve de estacionar, esperando que o _reino_
+moral, atravez das varias _especies_ do cristianismo e da philosophia
+escolastica, chegasse a um grau de desenvolvimento paralelo ao seu, que
+lhe tornasse possivel continuar a progredir. A solidariedade entre o
+progresso social e moral da humanidade, de um lado e do outro o desigual
+desenvolvimento destes dois elementos, bem patente no facto singular
+(que aliás se explica) de ter o mundo antigo produzido o direito romano
+sem sair do polytheismo, dão cabalmente, me parece, a razão sufficiente
+deste _desencontro_ de forças, cujo resultado foi a grande crise da
+Idade-media.
+
+É por tudo isto que, a meu ver, a Idade-media não póde ser reduzida,
+como parece fazel-o o sr. Martins, a uma simples _tradicção_ e a um
+periodo de _atrophia_ dos elementos verdadeiramente evolutivos do mundo
+greco-romano. Para mim, são verdadeiramente evolutivos _todos_ os
+elementos da idade-media, e a idade-media contém _todos_ os elementos
+evolutivos da civilisação antiga: sómente o grande desenvolvimento e as
+posições respectivas é que são differentes. Considero o cristianismo
+como essencial á evolução; mais, como o termo necessario de todo o
+movimento moral da antiguidade: para mim, não só não foi elle um
+_incidente_ perturbador, mas não foi de modo algum um incidente. A
+_transcendencia_, preparada e organisada por todas as escolas
+philosophicas desde Socrates até aos Alexandrinos, incluindo os Estoicos
+e até os Espicuristas (cuja metaphisica era tão idealista e a moral
+tão mystica como as das outras escolas, e que não foram, como a alguns
+tem parecido, os precursores _incompris_ dos racionalistas e
+naturalistas modernos), a _transcendencia_, phase necessaria do
+pensamento humano, tinha forçosamente de produzir uma religião analoga
+na essencia ao Cristianismo; ainda quando lhe faltassem os elementos,
+quanto a mim puramente morphologicos, da lenda oriental. Uma prova bem
+clara desta ultima asserção, encontro-a na reacção de Juliano, chamado o
+Apostata, cuja religião-philosophica não era menos transcendentalistica
+e mystica do que a cristan, e que, a ter vingado, haveria produzido uma
+theologia e uma igreja exactamente como o Cristianismo. Quero dizer que,
+dado o estado moral da humanidade na ultima época do periodo
+greco-romano, se o cristianismo não era inevitavel, o que era inevitavel
+era uma religião na essencia cristan, isto é, mystica. A exaltação
+mystica, que então se apossou do espirito humano, se foi um mal (e não
+creio que o fosse absolutamente), foi um mal necessario. Era um termo
+logico da Evolução; e a Idade-media, que foi o desenvolvimento desse
+termo, não póde por esse lado ser considerada como uma simples _tradicção_.
+
+Em quanto aos Barbaros, bastar-me-ha dizer que não creio que fossem
+elles os destruidores da unidade romana, por si não só prestes a
+desfazer-se, mas já meia desfeita nos seculos 5.º e 4.º; que sem elles o
+imperio ter-se-hia igualmente desmembrado; que elles não impediram a
+extincção da escravidão antiga nem a formação da burguezia; que
+independentemente da influencia germanica, já o feudalismo tendia a
+formar-se espontaneamente no imperio em dissolução, desde o seculo 4.º;
+que finalmente, muito antes das invasões já as sciencias e as lettras
+tinham decaido, e começára um entenebrecimento intellectual, de que os
+barbaros não devem ser responsaveis; bastar-me-ha dizer isto para que o
+sr. Martins aprecie as razões por que, ainda por este lado, nada
+encontro de anormal e de perturbador no curso da evolução geral da
+civilisação durante a Idade-media, nem vejo que houvesse _interrupção de
+desenvolvimento_ produzida por causas estranhas e fortuitas.
+
+É este o ponto principal da minha divergencia com o autor da _Theoria_ e
+por isso o expuz mais detidamente. Os outros, que são ainda mais
+indifferentes á idéa geral do livro, sacrifico-os, para entrar quanto
+antes na apreciação dessa idéa.
+
+
+II
+
+Feitas estas reservas, passo a dizer alguma coisa sobre a idéa
+fundamental da obra. Obra, ponho eu aqui intencionalmente, porque é
+verdadeiramente _uma obra_, e não apenas _um livro_, a "_Theoria do
+Socialismo_" Não é uma simples exposição de factos historicos, mais ou
+menos curiosos, acompanhada de juizos e considerações, mais ou menos
+rasoaveis ou eloquentes: é um todo ordenado e systematico, em que os
+factos e as idéas se encadeam logicamente, convergindo para um
+centro commum, que é o ponto de vista superior que os abrange e explica
+a todos. É um trabalho conjunctamente philosophico e scientifico, em que
+as generalizações formuladas pela sciencia historica recebem a sua
+sancção final dos principios racionaes em que assenta a philosophia da
+historia--tentativa semelhante na essencia e no methodo, embora diversa
+nas conclusões e inferior na execução, á que realizou Guizot na sua
+"_Historia da Civilisação na Europa_" e Michelet naquella admiravel
+"_Introducção á historia universal_". O sr. Martins não é um erudito,
+nem um philosopho de profissão: mostrou porém ter sciencia bastante e
+sufficiente elevação de pensamento para nunca ser inferior ao que um tal
+plano requeria. Ora, tentar isto, e realisal-o, apesar de muitos
+defeitos parciaes, com exito feliz na generalidade, é raro merecimento e
+que sobejamente justifica, me parece, esta particular designação de
+_obra_ que dei ao livro. Escriptos desta natureza e alcance em nenhuma
+litteratura são frequentes: o do sr. O. Martins affigura-se-me que é por
+ora unico entre nós. Ainda assim, não é bem por isso que me congratulo,
+mas por ver na "_Theoria do Socialismo_" um symptoma animador de franca
+e séria adopção da idéa nova pelo espirito portuguez: é isto o que me
+faz saudar fraternalmente a obra e o autor.
+
+Socialismo é para muitas pessoas uma palavra aterradora, exactamente
+porque não é para essas pessoas mais do que uma palavra. É para outras
+um symbolo magico e omnipotente abracadabra, a quem tudo se póde pedir,
+de quem tudo se deve esperar, dotado sobrenaturalmente de uma
+virtude palingenesica para operar nas coisas humanas uma renovação total
+e universal, uma regeneração instantanea e absoluta: estes são os
+enthusiastas, que encarnam na palavra socialismo os seus sonhos
+individuaes de felicidade, em vez de simplesmente a considerarem como a
+expressão de uma ordem de phenomenos objectivos, independente das
+imaginações sentimentaes de cada qual, e só adequada á natureza das
+sociedades no seu desenvolvimento necessario. Apesar do que ha de
+respeitavel nos sentimentos desses crentes, estão elles tão longe como
+os outros de saberem o que realmente se deve entender por socialismo. A
+uns e outros recommendo o livro do sr. Martins, como muito proprio para
+lhes fazer perder tanto as esperanças como os terrores apocalypticos.
+
+O socialismo não é nem a subversão violenta das instituições e dos
+costumes, nem a palingenesia messianica milagrosamente revelada, para
+acabar para sempre com os males humanos, por este ou aquelle inspirado
+propheta de tal ou qual cenaculo de crentes: e não é uma coisa,
+exactamente porque não é a outra. Não ha nisto paradoxo. Quero dizer que
+o socialismo não ameaça as instituições e os costumes, que constituem o
+organismo e a tradição da humanidade, precisamente porque não é uma
+invenção do pensamento individual um systema sem raizes historicas,
+exterior á realidade social, mas sáe, pelo contrario, da tradicção e da
+historia, é a propria historia e tradicção num periodo das suas
+transformações continuas, um parto da razão collectiva e um fructo
+natural do mesmo desenvolvimento da sociedade. É por isso que a não
+ameaça, porque a sociedade não se destroe a si mesma: desenvolve-se e
+transforma-se; o socialismo não é mais do que a palavra que quadra ao
+grau de transformação e desenvolvimento do momento actual. O que foi no
+primeiro quartel deste seculo o liberalismo, o que tres ou quatro
+seculos antes havia sido a monarchia, e antes cinco ou seis as communas
+e o feudalismo, é o que será ámanhan (e já hoje começa a ser) o
+socialismo: um novo periodo e uma nova fórma no organismo das sociedades
+europeas. Tão inevitavel como aquelles, será como elles tão benefico e
+tão pouco subversivo, sendo, como elles foram, não um resultado fortuito
+de opiniões e interesses de individuos, mas um facto necessario da
+Providencia immanente na historia.
+
+Em que consista esse facto é o que o sr. Martins, fazendo-se interprete
+dos phenomenos sociaes, se propôz explicar, e é o que nós, em companhia
+delle, vamos examinar.
+
+Logo na primeira pagina do livro, formula o autor a sua idéa deste modo:
+a theoria do socialismo é a evolução.--Desculpe-me o meu amigo se lhe
+faço ainda questão duma palavra, mas o rigor nos termos não é
+indifferente. Duma maneira geral, a theoria do socialismo é certamente a
+evolução, mas a evolução dentro da historia e das coisas sociaes tem um
+nome mais particular e consagrado: o Progresso, que é a evolução na
+série da humanidade. A evolução abrange todas as séries do
+desenvolvimento no universo, cosmologico, geologico, organico, etc., e
+por isso inclue a humanidade; mas dentro desta é particularmente o
+Progresso. Diriamos, pois, com mais rigor: a theoria do socialismo é
+o Progresso. Quizera tambem que o autor, nessa sua primeira _these_,
+tivesse definido com mais clareza e explicado com mais extensão esta
+idéa. Mas não importa: o que não se define totalmente nas primeiras
+paginas, torna-se bem patente pelo livro adiante, e isso é o essencial.
+O que o autor não diz mostra-o no encadeamento dos factos sociaes e na
+successão das doutrinas através da historia, de sorte que o seu livro
+representa-nos em relevo essa grande lei do progresso nas suas phases
+verdadeiramente significativas.
+
+Ora, qual é o termo actual do Progresso? o socialismo, responde o sr.
+Martins, com a historia na mão. Mas que socialismo? o de Babeuf, o de
+Fourier, de Saint-Simon, desta escola, daquella seita, não: simplesmente
+o da humanidade. É nesta resposta que está a originalidade e a segura
+verdade do livro. O socialismo não sáe de uma escola ou de uma seita:
+sáe do mais fundo da consciencia humana, affeiçoada por tres mil annos
+de progresso. Não é uma experiencia; é um resultado.
+
+Resultado de que? Do triplo movimento moral, politico e economico das
+sociedades. Abraça o homem todo, e corresponde a uma nova concepção
+systhematica (uma _affirmação synthetica_, como dizem os positivistas)
+do Universo, da vida humana e das relações sociaes. Neste momento, a
+evolução das doutrinas philosophicas, moraes e juridicas, da sciencia
+economica, dos phenomenos politicos e dos phenomenos economicos,
+converge para um ponto central. A esse ponto chamamos nós Socialismo,
+não porque coincida (note-se bem isto) com este ou aquelle systema
+dos que inventaram a palavra, mas simplesmente porque vem satisfazer a
+aspiração commum a todos elles, que os produziu e de que eram meros
+symptomas: de tal sorte que até com alguns desses systemas póde estar em
+completa opposição o Socialismo positivo, como está, por exemplo, com o
+Communismo.
+
+Desta tripla evolução moral, politica e economica resultam tres grandes
+conclusões. Da evolução no mundo moral resulta a autonomia absoluta da
+consciencia humana, independente das pretendidas revelações
+sobrenaturaes para descobrir a verdade e determinar a justiça;
+independente de qualquer auctoridade, além da sua propria, para conhecer
+e praticar a lei moral. Da evolução no mundo politico resulta a
+concepção da liberdade como o unico agente organisador e director da
+sociedade, com exclusão de qualquer principio anterior ou exterior ao
+direito individual, de qualquer auctoridade que não seja a da propria
+liberdade sobre si mesma. Da evolução no mundo economico resulta a
+affirmação do trabalho como a base unica justa do valor, tendo por
+consequencias, de um lado a egualdade dos trabalhadores perante o
+capital, mero instrumento do trabalho e a elle sobordinado e garantido
+pelo credito e a mutualidade, do outro lado a egualdade dos
+trabalhadores entre si, pela divisão do trabalho, que os torna
+solidarios e substitue á anarchia da concorrencia individual a
+organisação das forças collectivas da producção--e tendo como
+resultados, com a annullação dos privilegios capitalista e proprietario,
+a consagração da propriedade e do capital individuaes, e a extincção
+da lucta das duas classes actuaes, pela conversão de ambas numa unica de
+trabalhadores eguaes e livres.
+
+São estas as tres grandes conclusões, que desentranhando-se de um lento
+progresso secular, começam a patentear-se no estado actual das doutrinas
+e dos phenomenos moraes, politicos e economicos das sociedades
+contemporaneas.
+
+As phases desse progresso, isto é, o caminho seguido pela intelligencia
+humana e pelos factos sociaes para chegarem a estas conclusões, é o que
+o sr. Martins historía com muita lucidez e sciencia no seu livro, boa
+metade do qual é consagrado a este trabalho de alta critica historica.
+
+Eu é que, nos limites estreitos deste esboço nem poderei sequer indicar,
+com alguns nomes, culminantes, os principaes marcos miliarios no caminho
+deste jornadear da humanidade em busca dos seus proprios destinos. Mas
+que magestosa _via crucis_!
+
+Desde a doutrina da Graça, com S. Paulo e S. Agostinho, atravez dos
+meandros da Escolastica, depois da inspirada philosophia da renascença e
+da philosophia mais scientifica do seculo XVII, chega o espirito humano
+a entrever com Vico e os encyclopedistas a doutrina emancipadora da
+immanencia, que no seculo XIX formulou de um modo cada vez mais positivo
+as escolas de Hegel, Feuerbach, Comte, Proudhon. Evolução paralela
+seguem as doutrinas politicas: desde o _omnis potestas a Deo_ e a
+_Civitas Dei_, atravez da politica theocratica de S. Thomaz e da
+politica Cesarista de Dante, atravez do absolutismo da monarchia
+civil de Savedra e Bodin e do despotismo naturalista de Machiavello e
+Hobbes, vae o principio tradicional da auctoridade recuando cada vez
+mais, com Grotius, Locke, Rousseau, Kant, depois com Fichte,
+Rittinghaussen, Proudon, diante do principio racional e humano da
+liberdade, até ser por elle absorvido, até só ficar de pé a consciencia
+juridica do homem, tendo em si mesma a sua propria e absoluta sancção.
+As doutrinas economicas, que só no seculo XVIII se desembaraçam das
+politicas, galgam de um salto a distancia que vae da auctoridade
+(proteccionismo) á liberdade, e pela bocca de Smith, Rossi, Bastiat,
+Stuart Mill, proclamam esta ultima, completa, universal.
+
+Ideas! theorias! sonhos! dirão alguns. Não! realidades, porque os factos
+vão seguindo, par e passo o desenvolvimento das doutrinas. A
+secularisação cada vez mais definida do estado e da sociedade; a
+transformação das monarchias de direito divino em monarchias temperadas,
+depois em democraticas, depois em republicas populares; os direitos
+individuaes inscriptos nas constituições; a egualdade civil; a liberdade
+da industria; o nivelamento constante das classes; a importancia
+crescente do povo trabalhador e das questões do trabalho; o privilegio
+capitalista que por toda a parte recúa, batido já nos seus ultimos
+intrincheiramentos; o capital que se faz povo, que se faz multidão, e
+vae já passando para as mãos do proletariado; um novo mundo economico
+que emerge com força do antigo cahos social:--são factos e não utopias,
+e esses factos trazem comsigo a sua lição, a sua doutrina. Não sois
+vós, conservadores, que tendes por vós a tradição da humanidade, somos
+nós revolucionarios, que temos, com o futuro, o passado por nosso lado,
+o passado no que elle teve de melhor: a aspiração da liberdade, da
+igualdade, da justiça.
+
+Mas que immenso caminho andado! Eis-nos á porta de um mundo novo! novo e
+todavia feito todo com elementos, que os tempos vieram lentamente
+accumulando. Organisar esse mundo é a obra do socialismo. Não é de
+destruição, essa obra; é de edificação e de consolidação. Não ameaça um
+unico direito; define-os a todos e dá-lhes os seus justos logares. Numa
+palavra se encerra o socialismo: organisação espontanea. Livre
+organisação da industria, do trabalho, do credito, do capital, do
+estado; federação juridica e economica, tudo pela liberdade e tudo para
+a egualdade; ou como diz, com expressiva concisão, o sr. Oliveira
+Martins "uma unica lei, o trabalho, e uma unica norma, a justiça"; eis
+ahi como á luz da philosophia da historia se deve comprehender o
+socialismo.
+
+Terei depois disto logrado fazer perceber ao leitor a essencial
+differença que existe entre a theoria historica e positiva do socialismo
+e o socialismo utupista das seitas? Ao mesmo tempo que sae da historia
+como uma natural evolução, perde elle para logo o caracter
+contradictorio, problematico e, para tudo dizer, assustador, com que a
+principio se apresentou no mundo. Alarga tambem o seu horisonte, deixa
+de abraçar sómente uma ordem parcial de phenomenos sociaes, para
+abranger todo o movimento renovador da humanidade contemporanea, na
+philosophia, na sociedade, no estado e nas consciencias. Filho legitimo
+da historia, deixa tambem de a contradizer no que ella tem de essencial,
+a familia, a propriedade, a herança, bases da sociedade, duplamente
+consagradas pela razão e pela pratica e veneração das gerações. Não
+propõe uma construcção arbitraria e artificial da sociedade, mas
+pretende sómente ajudal-a no seu desenvolvimento organico, segundo uma
+theoria estudada nella mesma, nos seus antecedentes. É, numa palavra,
+verdadeiramente conservador o socialismo, por isso mesmo que é
+verdadeiramente progressista. E se eu tivesse algum direito de em nome
+delle dar um conselho aos homens e aos partidos que, por se julgarem
+conservadores, entendem ter obrigação de combater uma philosophia
+social, que não conhecem, ou diria a esses illudidos: Fazei-vos
+socialistas, se quereis realmente merecer o nome de conservadores, que
+por ora não tendes sufficientemente justificado: passae para este lado,
+que é onde estão os representantes da verdadeira tradição da humanidade,
+tradição não de entenebrecimento e oppressão, de odio e lucta
+systematica, mas de luz e liberdade, de paz e conciliação: ou, senão,
+examinae pelo menos antes de condemnar, informae-vos antes de
+amaldiçoar, aliás teremos de dizer que sois só conservadores da vossa
+propria ignorancia e obsecada paixão.
+
+Mas eu nao tenho direito de dar conselhos a quem não m'os pede nem me
+julga auctorisado a dal-os. Depois, talvez este meu candido appello,
+para a conciliação e a tolerancia, seja ainda uma daquellas muitas
+utopias que só merecem um sorriso de desdenhosa compaixão dos homens
+_praticos_ encanecidos no trato das coisas reaes do mundo... Talvez!
+
+Paciencia. Veremos o que o tempo _praticamente_ responde a tudo isto.
+
+Fevereiro-Março, 1873.
+
+
+
+
+Le Portugal contemporain--Oliveira Martins
+
+
+En dehors de la littérature proprement dite, le Portugal ne possède
+aujourd'hui qu'un seul écrivain réellement supérieur: c'est M. Oliveira
+Martins, l'auteur de la _Bibliotheca das Sciencias sociaes_. Définir son
+genre et le classer d'un mot me semble chose presque impossible, par la
+simple raison que ce mot n'existe pas encore: _socialiste_ a un sens en
+même temps étroit et vague; _sociologiste_ serait un barbarisme. Si,
+depuis les Grecs on a toujours écrit l'histoire, disserté sur la
+politique et plus ou moins observé l'économie et les moeurs des
+nations, ce n'est que depuis un demi-siècle à peine qu'on a été amené à
+étudier scientifiquement la Société, en la considérant comme un tout
+naturel et réel, dont les phénomènes sont susceptibles d'être ramenés à
+des relations générales et fixes, c'est-à-dire à des lois. De là la
+constitution d'un nouveau et dernier groupe de sciences, qui est venu
+s'ajouter à celles qui existaient déjà: le groupe des sciences morales.
+
+M. Oliveira Martins (_socialiste_ ou _sociologiste_, comme on voudra)
+s'occupe donc de sciences sociales, et, quoique jeune encore, mérite,
+par la profondeur de ses recherches, l'originalité et l'ampleur de
+ses vues et la fermeté de sa méthode, d'être rangé parmi les mâitres et
+promoteurs de ces études nouvelles. En outre, son estyle, par ses
+qualités de vigueur, de vie et d'élévation, quoique trop souvent
+incorrect et déparé parfois par le mauvais goût, fait de l'auteur de la
+_Bibliotheca das Sciencias_ un écrivain de premier ordre.
+
+Les premiers ouvrages de M. Oliveira Martins (_Theoria do Socialismo_ et
+_Portugal e o socialismo_), parus à Lisbonne vers 1873 et 1874,
+appelèrent sur les lèvres du petit nombre de personnes en état de les
+juger un _Tu Marcellus cris!_ prophétique. Touffus d'idées hardies, mais
+encore mal définies, et auxquelles manquait une base solide de
+connaissances positives, obscurs et confus par le style, ces deux livres
+dénonçaient pourtant les maîtresses qualités qui font le penseur et
+l'écrivain d'ordre supérieur.
+
+En effet, le germe des doctrines exposées plus tard dans la
+_Bibliotheca_ s'y trouvait déjà formulé dès la première page dans ces
+mots: "La théorie du socialisme c'est l'évolution.", Depuis, la pensée
+laborieuse de notre auteur n'a fait qu'approfondir et développer cette
+idée, en l'étayant de solides études économiques, politiques et
+historiques.
+
+Laissant là la manière sèche et étroite des économistes et leur méthode
+tout abstraite, M. Oliveira Martins conçoit la société comme un tout
+vivant, un être collectif qui, comme l'homme lui-même, est à la fois
+naturel et rationnel, sujet dans son développement à la double action
+des lois de la nature, auxquelles se rattache la sociabilité elle-même
+dans ses formes primordiales, et des principes juridiques et moraux qui
+sont le domaine propre et exclusif de l'humanité. La lutte,
+l'équilibre, la pénétration et l'opposition de ces deux éléments
+constituent, aux yeux de nôtre auteur, l'être même de la société, dont
+le développement, changeant et variable comme celui de toute chose
+vivante, peut présenter des aspects très dissemblables et impropres:
+rien n'y est absolu, rien n'y est nécessaire, hormis les lois générales
+de la nature et l'essence rationnelle et morale de l'homme. La méthode
+des sciences sociales ne peut donc pas être abstraite: elle doit être,
+avant tout, historique.
+
+C'est à ce point de vue, et non pas seulement en naturaliste et
+économiste, mais encore en juriste et moraliste, que M. Oliveira Martins
+s'est placé pour étudier dans sa _Bibliotheca_ l'ensemble des
+phénomènes,--travail, distribution, propriété, classes, gouvernement,
+juridiction, culte, etc.,--qui constituent le vaste domaine, encore
+imparfaitement jalonné, des sciences sociales. La _Bibliotheca_ comprend
+déjà 12 volumes. En outre, M. Oliveira Martins a publié un Mémoire sur
+la _Circulation fiduciaire_ et diverses brochures se rattachant toutes
+aux questions sociales. L'espace nous manque pour donner même une courte
+analyse de chacun des volumes déjà parus de la _Bibliotheca_, et il faut
+que je me borne à l'exposition sommaire que je viens de faire des idées
+culminantes et de la méthode de l'auteur. Mais je dois au moins appeller
+l'attention des personnes compétentes sur deux de ces volumes (_Quadro
+das instituições primitivas_ et _O Regime das riquezas_), qui, par leur
+grande originalité de vues et de forme, mériteraient bien d'être
+traduits en français ou en allemand.
+
+La fécondité de la méthode historique de l'auteur y devient évidente. A
+l'encontre des économistes orthodoxes, qui dessèchent la réalité humaine
+dans leurs formules et prétendent réduire la vie de la société à une
+espèce d'algèbre inflexible, M. Oliveira Martins, plongeant en pleine
+réalité, nous montre l'origine variable et les formes multiples des
+institutions sociales assujeties dans leur développement non à des lois
+purement naturelles, comme le prétendent les économistes, mais avant
+tout à des raisons intimes et _humaines_. Jamais les fatalités
+naturelles n'y étouffent complètement l'être moral de l'humanité, et,
+même dans ses formes premières et plus rudes, la société apparaît comme
+le domaine de la liberté. La concurrence y joue un grand rôle, sans
+doute, mais contrecarré ou endigué par des forces juridiques et morales.
+La pure mécanique sociale, telle que la rêvent les économistes, n'y
+triomphe jamais non plus que cet individualisme abstrait qui serait
+plutôt l'idéal de la sauvagerie que celui de la civilisation. Celle-ci,
+loin de marcher de plus en plus dans le sens des fameuses "lois
+naturelles", tend au contraire à s'en affranchir, et la société, dont
+l'idéal est la justice et non la nécessité, va graduellement se
+rapprochant de ce type de raison et de liberté qui est l'être même de
+l'homme.
+
+On voit, par ce rapide aperçu, que M. Oliveira Martins se rattache à
+l'école appelé en Allemagne des _Katheder-Socialisten_: il doit beaucoup
+aussi à ce puissant penseur, si mal compris encore aujourd'hui, P.-J.
+Proudhon. Mais, socialiste doublé d'un historien, il projette sur toutes
+ces questions une lumière qui les fait voir sous des aspects
+nouveaux en dehors du terrain forcément étroit des écoles et des
+discussions, et dans les larges perspectives de la réalité. Là est, à
+mon avis, sa principale originalité.
+
+Je voudrais être bref; mais je dois pourtant dire encore quelque chose
+des deux ouvrages (_Historia de Portugal_ et _Portugal contemporaneo_),
+qui M. Oliveira Martins a consacrés à l'histoire de notre pays, et qui
+se rattachent à la _Bibliotheca_, plutôt qu'ils n'en font partie. A
+première vue, ces livres semblent ne devoir interesser que les seuls
+Portugais; on verra qu'ils ont une portée bien plus générale.
+
+Le Portugal contemporain est une énigme que personne en Europe ne
+comprend et dont, même chez nous, bien peu de gens savent le mot. On
+cite généralement le Portugal comme un modèle des petits pays libres et
+sages: pas de révolutions ni de luttes de classes; la paix, le
+fonctionnement régulier du régime parlamentaire; on l'oppose souvent à
+l'Espagne, périodiquement convulsionée. Et pourtant ce pays modèle
+est--la Turquie exceptée--le plus mal administré qui soit en Europe.
+Après 50 ans de paix, sa dette publique est une des plus écrasantes et
+elle s'accroît tous les jours, car le budget portugais se solde
+régulièrement en déficit. L'esprit publique est nul en dépit d'une
+multitude de journaux ordinairement éphémères et tous plus insignifiants
+les uns que les autres, et la politique est devenue l'apanage, de haut
+en bas et de droite à gauche, d'une classe de gens à peu près ignares et
+tenus généralement en estime médiocre. Quant à l'armée, le moins qu'on
+en puisse dire est qu'elle est aussi fantastique que coûteuse,
+tandis que l'instruction populaire est lamentable et que l'enseignement
+supérieur (a l'excepction de deux ou trois écoles spéciales) est
+souverainemente pedantesque ou vide[1]. Le seul sentiment
+national un peu perceptible est une espèce de haine sourde et
+instinctive contre l'Espagne, qu'on ne connaît pas, et, dans les classes
+cultivées, l'admiration béate de tout ce qui est français, qu'on suige à
+tort et à travers, dans les lois, les moeurs, la litterature et la
+langue même, qui va s'adultérant de plus en plus.
+
+Voilà, on en conviendra, pour une nation réputée "le modèle des petits
+pays sages et libres", des aspects singulièrement imprévus!
+
+La raison de ce remarquable phénomène de pathologie sociale est que
+Portugal est la seule nation en Europe _qui soit réellement vieille et
+caduque_. On peut lui appliquer les constitutions, les lois, les
+règlements et les phrases qu'on voudra; rien n'y fait, car il n'y a pas
+de stimulants pour la décrepitude. Elle acceptera les libertés comme les
+coups, les constitutions comme les épidemies, avec le calme indifférent
+de l'insensibilité et de l'inconscience. De là sa paix profonde et son
+étonnante sagesse; de là aussi un irrémédiable affaissement. Les
+contradictions sans nombre qui présente notre état social, politique
+et intellectuel, et qui déroutent l'observateur (pas un voyageur en
+Portugal n'a compris ce pays), n'ont pas d'autre raison. Les mots ne
+répondent plus aux choses, et les meilleurs lois ne sont que de petits
+chiffons de papier emportés de France. C'est un système de mensonge naïf
+et inconscient. La réalité, c'est cet affaissement irrémédiable d'un
+organisme national arrivé à l'extrême limite de ses forces vitales.
+
+L'étiologie historique de ce cas remarquable a été faite, pour la
+première fois, et supérieurement, par M. Oliveira Martins, dans son
+_Historia de Portugal_, tandis que son _Portugal Contemporaneo_ fait
+toucher du doigt les contradictions incurables de la situation actuelle,
+issue, non de la raison consciente e d'un effort viril de toute la
+nation, mais des illusions plus au moins généreuses d'un petit nombre de
+révolutionnaires et de l'atonie des masses, sur lesquelles on faisait
+cette expérience doctrinaire: _in anima vili_. On y apprend à connaître
+le _quid_ spécial de la Révolution portugaise de 1834, la fatalité qui y
+menait et qui changeant tout à coup d'aspect, allait présider aux
+convulsions d'abord, puis aux mécomptes, aux désillusions, aux compromis
+lâches, et finalement au marasme actuel. Le _Portugal Contemporaneo_ est
+l'histoire cruelle de cet avortement. L'auteur y fait, pièces en main et
+pas a pas, le procès de ce libéralisme bourgeois, en même temps abstrait
+et utilitaire qui, après 50 ans de domination incontestée, aboutit à une
+situation inextricable et de la débâcle imminente. Comme description
+détaillée d'un cas de pathologie sociale, ce livre, qui, sous d'autres
+rapports, n'interesse que les Portugais, peut offrir un intérêt
+spécial à toux ceux qui s'occupent, en hommes de science et en
+philosophes, des choses de la société.
+
+Les causes premières de cette maladie profonde à laquelle succombe
+actuellement la nation portugaise ont été mises en lumière par M.
+Oliveira Martins, dans son _Historia de Portugal_.
+
+Em 1580, après la catastrophe d'Alcacer-Kibir, le Portugal était
+réellement mort. L'oeuvre féconde et glorieuse de sa vie historique
+était accomplie; mais l'ouvrier héroïque gisait exténué. L'application
+en grand, pendant trois quarts de siècle, d'un faux système
+d'exploitation coloniale avait ruiné le pays et troublé profondement sa
+constitution sociale: le jésuitisme, d'un autre côté, avait épaissi ou
+perverti son intelligence, brisé son ressort moral, faussé son libre
+génie, et, en étouffant tous les germes de l'esprit moderne que la
+Renaissance avait si abondamment semés, paralysé tout développement
+ulterieur et tué l'avenir. Philippe II, en réunissant le Portugal à la
+couronne d'Espagne, n'a donc fait que cueillir un fruit mûr. L'histoire
+du Portugal aurait dû finir à cette époque-là. La restauration nationale
+de 1640 a été un fait en grande partie artificiel, possible seulement
+par l'abbatement de l'Espagne, qui avait perdu sa force d'attraction.
+
+Le nouveau Portugal, qui commence à cette date-là, n'a rien de l'autre,
+rien de sa force noble, de son hardi génie. Ce n'est qu'un triste
+bâtard, un être malingre et malvenu, le produit artificiel de la
+diplomatie, que son grand ami, l'Anglais hérétique, protège, rudoye,
+amuse et exploite. De sa seule force, il ne tiendrait pas debout: il
+est donc juste qu'il paye celui qui le soutient. Il le payera des
+restes de son noble héritage, de ses colonies, qui s'en iront l'une
+après l'autre grossir l'empire de la nouvelle reine des mers; il le
+payera encore en traités de commerce, qui le ruineront au profit de son
+loyal protecteur. Cela s'appella la glorieuse restauration portugaise de
+1640--oeuvre néfaste entre toutes, qui démembra l'Espagne et compromit
+pour des siècles, peut-être pour toujours, l'avenir de la peninsule
+ibérique.
+
+Mais, à côté de l'Anglais hérétique, le jésuite aussi avait travaillé à
+cette oeuvre glorieuse: il reçut sa paye. On lui abandonna
+complètement l'éducation, l'âme de la nation. Le Portugal a été, pendant
+deux siècles, plus encore que le Paraguay, le véritable paradis des
+jésuites. Leur produit spécial, leur oeuvre de prédilection, le cagot,
+y arriva à la plus merveilleuse perfection. Le cagotisme a été
+véritablement le trait, le signe particulier du nouveau Portugal: c'est
+par là qu'il acquit une physionomie. Comme état de psychologie
+collective, il survécut à la destruction des jésuites, il a traversé les
+révolutions: il s'est accommodé du libéralisme, et, chose surprenante,
+de l'incrédulité elle-même! Il dure toujours, et la situation trouble,
+maladive, énigmatique d'aujourd'hui est avant tout son oeuvre.
+
+Voilà, aussi brièvement que possible, la vérité sur le Portugal moderne.
+Cette vérité n'était pas inconnue avant les livres de M. Oliveira
+Martins: on la pressentait plus au moins, en tâtonnant à travers le
+brouillard d'illusions séculaires et officielles: quelques-uns même
+avaient osé la formuler. Mais, seuls, les livres de M. Oliveira
+Martins l'on déduite historiquement, c'est-à-dire, en présentant
+nettement les faits et en les ramenant à leurs causes. Dans ces livres
+si vivants, si incisifs, la forme est narrative et pittoresque, le fond
+est philosophique. C'est de la très ferme étiologie historique. En
+suivant l'histoire à travers la variété animée des scènes et des
+personnages, le lecteur s'aperçoit tout-à-coup qu'on lui a fait une
+démonstration en règle. Ce n'est pas là une des moindres originalités de
+la manière de M. Oliveira Martins.
+
+Du reste, pour nous autres, tout est original dans ces livres, l'idée
+comme la forme, le point de vue critique comme la manière réaliste. Le
+Portugal, depuis sa Révolution, n'avait encore eu qu'un seul homme
+supérieurement doué et fortement préparé pour le travail de l'histoire:
+A. Herculano. Mais, outre que Herculano ne s'est jamais occupé que de
+l'histoire anterieure à 1580 (qu'on peut considerer comme l'histoire
+d'une autre nation) il était trop dogmatique dans ses vues et trop raide
+et guindé dans son estyle, pour qu'on puisse trouver dans ses livres la
+vie et la philosophie, c'est-à-dire l'âme et la forme de l'histoire. Son
+oeuvre puissant d'effort et de savoir, souvent éloquente, a suivi
+toutefois une direction trop particulière.
+
+Pour les autres qui se sont occupés de l'histoire moderne du Portugal,
+Rebello da Silva, en dépit de son admirable talent litteraire, n'a été
+qu'un médiocre rhéteur: Pinheiro Chagas n'est qu'un compilateur dénué de
+toute critique et même de toute idée. Ceux qui ont osé affronter les
+livres de M. Theophilo Braga ont eu quelquefois la consolation d'y
+rencontrer l'ombre d'une idée neuve et juste et quelques aperçus hardis
+ou ingénieux, trop vite noyés dans le fatras babylonien d'une
+érudition en délire. Les ouvrages historiques de M. Oliveira Martins
+restent donc originaux au premier chef et sans précédents dans nôtre
+litterature. Dans les litteratures étrangères, ils se rattachent surtout
+à Michelet et Carlyle--avec moins d'imagination et d'intention poétique,
+mais avec plus de fermeté et de largeur dans les vues.
+
+Vous allez croire maintenant que l'homme audacieux qui a osé dire à son
+pays les vérités les plus cruelles et les plus humiliantes pour sa
+vanité, doit être chez nous une espèce de paria, un lépreux tenu à
+distance par le monde officiel, quelque chose comme Proudhon l'a été en
+France sa vie durant?
+
+Rassurez-vous. M. Oliveira Martins est membre de l'Académie Royale de
+Lisbonne et de l'Institut universitaire de Coimbra.
+
+Il a vu un de ses livres, et non pas des moins sévères (_A circulação
+fiduciaria_), couronné par cette même Académie Royale. Le monde officiel
+le fête, le choye, l'aime de tout son coeur. Les ministres sont très
+heureux quand il veut bien se charger de quelque travail qui demande
+beaucoup de savoir et beaucoup de désinteressement. Je ne sache pas non
+plus que ces terribles livres aient eu de contradicteurs. En un mot, il
+ne tiendrait qu'a lui d'être l'homme du jour dans le pays qu'il a si
+malmené.
+
+Etonnant, n'est-ce pas?--Pour qui sait comprendre, ce simple fait en dit
+plus long que de gros volumes!
+
+1884.
+
+ [1] Un seul fait suffira. A l'Ecole des hautes études litteraires
+ (_curso superior de lettras_) de Lisbonne, la chaire de litterature
+ ancienne est occupé par un monsieur qui ne ne sait pas un mot de
+ grec--et, chose plus curieuse encore, parmi les membres du jury de
+ concours qui l'a reçu (composé de professeurs du dit _Curso
+ superior_ et de membres délégués de l'Académie royale de Lisbonne),
+ _pas un seul non plus ne connaissait le grec_!
+
+
+
+
+Oliveira Martins e o partido progressista
+
+
+CARTA A SEBASTIÃO D'ARRUDA DA COSTA BOTELHO
+
+
+Villa do Conde, 1 de agosto de 1885
+
+ _Meu Sebastião_
+
+.......................................................................
+
+Mando-te esses numeros da _Provincia_ para veres o caracter imponente,
+que teve a manifestação do Porto e o tom a que o O. Martins tem sabido
+levantar o Progressismo, que tão desafinado andava. Verás tambem que
+elle não renegou, nem se desdiz. A bandeira que desfralda é a do
+Socialismo, como até aqui. Convencido como está, e estão todos os que
+sabem observar os factos, da incapacidade actual, (e que o será ainda
+por muito tempo), do partido republicano para fundar seja o que fôr e
+vendo ao mesmo tempo a imminencia de uma crise pavorosa, o O. Martins
+fez acto verdadeiro de patriotismo, procurando aquelles elementos, que
+bem dirigidos e transformados, poderão por ventura fornecer ainda um
+ponto de apoio no meio do naufragio. Um homem como O. Martins, não dá um
+passo destes, nem toma posição de tamanha responsabilidade, sem ter
+visto bem as cousas e estudado o melhor caminho. Tem sido approvado por
+muita da melhor gente. O O. Martins é o unico homem politico superior
+que temos, pois reune a um elevado caracter um saber vasto e não só
+theorico mas technico e um poder de trabalho incomparavel. Quando um tal
+homem dá um passo, como elle deu, o dever da gente seria, ainda quando o
+não approve, é não o estorvar na sua tentativa, reconhecendo a pureza
+das suas intenções. Os republicanos, porém, cobriram-n'o de insultos e
+imputações as mais baixas--e no dia seguinte o que fizeram? foram
+alliar-se com os regeneradores, para combater o movimento por elle
+iniciado, movimento que pode falhar, mas que é sem duvida sério e
+exprime o sentir nacional, pelo menos neste ponto de querer acabar com
+essa alliança da burocracia com a finança, que é a fatalidade do partido
+regenerador, origem da corrupção politica e de um systematico
+desgoverno. Destruir essa oligarchia burocratico-financeira, que nos
+domina e desmoralisa, ha tantos annos, e impedir por meio de leis
+convenientes que ella possa de futuro tornar a formar-se, parece-me
+coisa muito mais importante do que uma simples alteração no caracter do
+poder executivo, cousa que deve ficar para depois, pois só as reformas
+economicas e financeiras tornarão aquella outra puramente politica, não
+só possivel, mas fecunda e duradoura. Isto tanto mais, quanto está
+imminente a bancarrota e uma tremenda crise social; a proclamação da
+Republica, não só não remediaria esses grandes males, (pois que
+influencia póde ter uma reforma só politica nos elementos
+financeiros e economicos?) mas traria mais uma complicação e
+elemento de desordem, como ainda em 1873 se viu em Hespanha. Convém,
+pelo contrario, addiar essa questão, visto que não é urgente, e não
+complicar com ella a outra, urgentissima. É de boa politica, como é de
+boa logica, dividir as questões para as resolver, e começar por
+aquellas, que resolvidas, podem facilitar a resolução das outras.
+Impedir que tudo venha a baixo parece ser a cousa mais urgente. Depois
+reformar a constituição economica, de modo a impedir que um tal estado
+de cousas possa vir a repetir-se. E só depois organisar a constituição
+politica, tanto no que toca ao legislativo, como ao executivo, de modo a
+dar estabilidade e duração aos progressos realisados. Pódes crêr que
+estas são hoje, como sempre foram, as aspirações do O. Martins, que
+continúa sendo tão bom socialista e republicano como era dantes. Eu, por
+mim, approvo-o inteiramente na marcha que vae seguindo, e desejava que
+toda a gente séria lhe désse o apoio indispensavel, ainda aos maiores
+politicos, para fazerem qualquer cousa. Se todos começarem a
+hostilisal-o, é claro que nada poderá fazer. Virá a terra, e com elle a
+ultima esperança deste pobre Portugal. Então teremos o diluvio.
+
+Adeus, meu Sebastião. Do teu de c.
+
+ _A. de Q._
+
+
+
+
+INDICE
+
+Os Lusiadas, ensaio sobre Camões e a sua obra, em relação á sociedade
+portugueza e ao movimento da Renascença, por J. P. de Oliveira Martins.
+Porto, 1872 (Folhetim do _Primeiro de Janeiro_) ... 5
+
+Theoria do socialismo, evolução politica e economica das Sociedades da
+Europa, por J. P. de Oliveira Martins. Lisboa, 1872 (Artigos do _Diario
+Popular_) ... 18
+
+Le Portugal contemporain--Oliveira Martins (Estudo publicado na _Revue
+Universelle et Internationale_). Paris, 1884 ... 39
+
+Oliveira Martins e o partido progressista, carta a Sebastião de Arruda
+da Costa Botelho, testamenteiro do grande poeta-philosopho ... 50
+
+
+
+
+NOTA
+
+
+O presente opusculo constitue a mais respeitosa homenagem dos
+testamenteiros de Anthero de Quental á memoria do glorioso escriptor
+Oliveira Martins.
+
+
+PREÇO 300 réis
+
+
+
+
+
+End of the Project Gutenberg EBook of Oliveira Martins, by Anthero de Quental
+
+*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK OLIVEIRA MARTINS ***
+
+***** This file should be named 31654-8.txt or 31654-8.zip *****
+This and all associated files of various formats will be found in:
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+
+Produced by Pedro Saborano (produced from scanned images
+of public domain material from Google Book Search)
+
+
+Updated editions will replace the previous one--the old editions
+will be renamed.
+
+Creating the works from public domain print editions means that no
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+(and you!) can copy and distribute it in the United States without
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+things that you can do with most Project Gutenberg-tm electronic works
+even without complying with the full terms of this agreement. See
+paragraph 1.C below. There are a lot of things you can do with Project
+Gutenberg-tm electronic works if you follow the terms of this agreement
+and help preserve free future access to Project Gutenberg-tm electronic
+works. See paragraph 1.E below.
+
+1.C. The Project Gutenberg Literary Archive Foundation ("the Foundation"
+or PGLAF), owns a compilation copyright in the collection of Project
+Gutenberg-tm electronic works. Nearly all the individual works in the
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+Foundation as set forth in Section 3 below.
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+Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
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+including obsolete, old, middle-aged and new computers. It exists
+because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
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+
+Volunteers and financial support to provide volunteers with the
+assistance they need are critical to reaching Project Gutenberg-tm's
+goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
+remain freely available for generations to come. In 2001, the Project
+Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
+and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
+To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
+and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
+and the Foundation web page at https://www.pglaf.org.
+
+
+Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive
+Foundation
+
+The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
+501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
+state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
+Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification
+number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at
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+information can be found at the Foundation's web site and official
+page at https://pglaf.org
+
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+ Chief Executive and Director
+ gbnewby@pglaf.org
+
+
+Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation
+
+Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
+spread public support and donations to carry out its mission of
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+freely distributed in machine readable form accessible by the widest
+array of equipment including outdated equipment. Many small donations
+($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
+status with the IRS.
+
+The Foundation is committed to complying with the laws regulating
+charities and charitable donations in all 50 states of the United
+States. Compliance requirements are not uniform and it takes a
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+with these requirements. We do not solicit donations in locations
+where we have not received written confirmation of compliance. To
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+approach us with offers to donate.
+
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+any statements concerning tax treatment of donations received from
+outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff.
+
+Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
+methods and addresses. Donations are accepted in a number of other
+ways including including checks, online payments and credit card
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+
+Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic
+works.
+
+Professor Michael S. Hart was the originator of the Project Gutenberg-tm
+concept of a library of electronic works that could be freely shared
+with anyone. For thirty years, he produced and distributed Project
+Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.
+
+
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