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+The Project Gutenberg EBook of Oliveira Martins: Estudo de Psychologia, by
+Guilherme Moniz Barreto
+
+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.org
+
+
+Title: Oliveira Martins: Estudo de Psychologia
+
+Author: Guilherme Moniz Barreto
+
+Release Date: February 24, 2010 [EBook #31379]
+
+Language: Portuguese
+
+Character set encoding: ISO-8859-1
+
+*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK OLIVEIRA MARTINS ***
+
+
+
+
+Produced by Pedro Saborano (produced from scanned images
+of public domain material from Google Book Search)
+
+
+
+
+
+
+ OLIVEIRA MARTINS
+
+ ESTUDO DE PSYCHOLOGIA
+
+ POR
+
+ G. MONIZ BARRETO
+
+ SEGUNDA EDIÇÃO
+
+
+
+ PARIS
+ GUILLARD, AILLAUD & C.ª
+ 47, Rue St. André des Arts, Paris
+ 242, Rua Aurea--1.º, LISBOA
+ 1892
+
+
+
+
+OLIVEIRA MARTINS
+
+
+
+
+OLIVEIRA MARTINS
+
+ESTUDO DE PSYCHOLOGIA
+
+POR
+
+G. MONIZ BARRETO
+
+
+PARIS
+GUILLARD, AILLAUD & C.ª
+47, Rue St. André des Arts, 47
+
+
+
+
+I
+
+OS CARACTERES
+
+
+A peça mestra da intelligencia do Sr. Oliveira Martins é a imaginação
+psychologica, isto é, o dom de ver e descrever interiores de alma.--É
+esta a faculdade que já apparece claramente nos seus primeiros
+trabalhos, atravez das leviandades e temeridades da sua estreia, e que
+crescendo, avulta eminente nos seus ultimos livros.--É ella quem faz a
+sua força de historiador e o seu encanto de escriptor.--É ella quem
+muitas vezes o ampara nas correrias da sua improvisação e suppre as
+lacunas visiveis da sua cultura. É ella finalmente quem, habilitando-o a
+decifrar os compostos sociaes pelos compostos individuaes o mune da
+capacidade pratica, e o arma com a aptidão politica.
+
+Em que consiste essa faculdade? Consiste na representação minuciosa e
+exacta dos estados da sensibilidade e da intelligencia alheia, e na
+intuição precisa e completa dos phenomenos da propria intelligencia e
+sensibilidade. Todos possuem a primeira d'estas aptidões em grau
+sufficiente para se adequarem ao meio social em que vivem; e a segunda,
+para se perceberem como um todo distincto e individual. Mas em certos
+espiritos essa faculdade existe em grau desmedido, e os homens que a
+possuem são capazes de notar as mais delicadas e fugitivas impressões da
+sua alma e da alma alheia, de observar os sentimentos e os pensamentos
+mais incoerciveis, de conservar a sua curiosidade attenta e activa mesmo
+sob a acção ardente da dor e do prazer physico, ou sob o surdo encanto
+da comprehensão e da invenção. Quando ella attinge o seu maximo, as
+intelligencias culminantes em que apparece, Balzac e Shakespeare por
+exemplo, podem transformar-se nas suas creações e viver nos seus
+personnagens com uma intensidade adequada á realidade; e como essa
+imaginação é n'elles tão extensa como exacta, a sua obra será egual á
+natureza em quantidade e qualidade: o analysta francez escreverá a
+_Comedia humana_ e fará passar na tela do romance em tropel vivo,
+cortezãs, forçados, magistrados, sacerdotes, industriaes, poetas, todos
+os estados da vontade desde a indecisão até ao crime, todas as
+modalidades da intelligencia desde a inepcia até ao genio: o poeta
+inglez comporá o seu theatro e dará a theoria completa das paixões e das
+imagens tal como a construem laboriosamente a psychologia e a
+clinica. Esta especie de imaginação é a mais preciosa entre todas; o
+espirito que a possue transforma-se por sympathia nos objectos que
+descreve; é ella quem faz do romance uma autopsia e da historia um
+confessionario. É o dom dos avataras, e o seu nome é legião.
+
+O Sr. Oliveira Martins possue em grau raro esta faculdade rara entre
+nós. Os exemplos abundam na sua obra, e tão numerosos que constituem
+prova. Tomal-os-ei d'aquelles livros em que não é visivel uma influencia
+extranha, e onde a sua originalidade é incontestavel. Á portada da sua
+Historia de Portugal está o parallelo das duas nações peninsulares,
+pagina veridica e profunda que abre com esplendor essa galeria magnifica
+de retratos.
+
+
+«Ha no genio portuguez o que quer que é de vago e fugitivo, que
+contrasta com a terminante affirmativa do castelhano; ha no heroismo
+lusitano uma nobreza que differe da furia dos nossos vizinhos; ha nas
+nossas lettras e no nosso pensamento uma nota profunda ou sentimental,
+ironica ou meiga, que em vão se buscaria na historia da cultura
+hispanhola, violenta sem profundidade, apaixonada mas sem entranhas,
+capaz d'invectivas, mas alheia a toda a ironia, amante sem meiguice,
+magnanima sem caridade, mais que humana muitas vezes, outras abaixo da
+craveira do homem a entestar com as feras. Tragica e ardente sempre,
+a historia hispanhola differe da portugueza, mais propriamente
+epica; e as differenças da historia traduzem as dissemelhanças do
+caracter. Confronte-se Calderon com Camões, Garrett com Espronceda;
+ver-se-á a verdade da affirmação e a sagacidade do historiador.»
+
+
+Tão lucido na psychologia do individuo como na dos povos, leia-se o
+retrato do primeiro rei: dissipadas com o clarão da critica as nevoas do
+patriotismo, superada com o alcance da vista a grandeza da distancia, o
+vulto do fundador da monarchia apparece vivo, alumiado de frente, na
+plena resurreição da historia.
+
+
+«Quem era Affonso Henriques? Já amestrado no officio de reinar, á
+maneira porque então se entendia um tal officio, o moço principe reunia
+as condições necessarias para consolidar uma independencia até ahi
+precaria. Era audaz, temerario até, pessoalmente bravo, qualidade nem
+tão commum no tempo, como a muitos acaso pareça. Fraco general, ao que
+se vê, porque as batalhas feridas com as tropas leonezas perdeu-as
+sempre, era feliz guerrilheiro. Capitaneando um troço de soldados, cahia
+d'improviso sobre um logar, e a furia irresistivel do ataque deu-lhe a
+maior parte das suas victorias. Nem a grandeza das empresas o assustava,
+nem as distancias o impediam de acudir, a um tempo, do extremo norte
+quasi ao extremo sul do paiz. A estes dotes militares reunia outros não
+menos valiosos, dada a precaria situação em que se apossara do reino.
+Era secco, astuto, friamente ambicioso, sem chimeras nem illusões. Era
+um espirito mediocremente pratico, e isso fazia boa parte da sua força:
+mal dos politicos ao mesmo tempo apostolos! Como a tenra haste que verga
+á mais leve briza do cannavial, assim Affonso Henriques, sem rebuços
+obedecia, logo que a sorte lhe era adversa. Passada a tormenta
+erguia-se; e á facilidade astuta com que se humilhara, respondia logo a
+teima perfida com que se rebellava. Isto fazia-o indomavel. Ubiquo
+militarmente, era nos negocios um Proteu. Os seus inimigos, leonezes,
+sarracenos, não achavam por onde prendel-o. Submisso e humilde quando se
+achava vencido, subscrevia a todas as condições, acceitava todas as
+durezas, para logo mentir a todas as promessas, rasgar todos os
+tratados, com uma franqueza ingenua, uma simplicidade natural que
+chegaram a espantar a propria Edade-média. Nem brios cavalleirosos, nem
+sentimentos de familia, nem odios pessoaes, nem vinganças estupendas:
+nenhuma chimera, nenhuma grande ambição, nenhum poetico sentimento
+enchiam a sua cabeça estreita e inteiramente occupada pela idéia fixa de
+consolidar a sua independencia. O predominio absoluto d'uma idéia
+pratica, servida por uma intelligencia lucida, por um caracter sem
+grandeza e por uma valentia provada, tornavam-no invencivel, ainda mesmo
+quando era batido. A sua teima fazia-o semelhante a uma lamina de aço:
+um instante vergada por um esforço momentaneo, logo estendida e livre;
+impossivel de manter curvada desde que foi solta. O seu pensamento tinha
+a tenacidade da mola, e não a rijeza do bronze nem o peso do chumbo.
+Vivia dentro do seu Portugal como um javardo no seu refojo: assaltado,
+investia, despedaçando tudo com as suas fortes presas. Perseguido,
+fugia. Não tinha a nobreza do leão, nem a ferina astucia do tigre:
+possuia só a brava e bronca tenacidade do javali. Um fraco apenas lhe
+notam, embora os actos da sua vida não denunciem que esse defeito o
+prejudicasse muito: gostava de ser adulado.»
+
+
+Mais interressante ainda é o retrato do primeiro Pedro. O psychologo
+multiplicou aqui os pormenores e os casos da vida privada, porque o
+vulto que quiz descrever tem um alcance mais social do que politico.
+Para o comprehender abandona os habitos intellectuaes modernos, a
+reflexão pautada e a emoção equilibrada; e em presença do velho rei faz
+resurgir em si a visão concreta e os sentimentos de terror e amor que
+elle devia provocar n'um camponez ou n'um burguez do seculo XIV. Para
+ver e fazer ver esse vulto tão pittoresco, não compõe uma
+dissertação, pinta um quadro. O historiador faz-se subdito do rei que
+historía, e fechando os olhos vê surgir na tela interior a apparição
+colorida e nitida, dotada de vida e capaz de viver. Leiam-se essas
+paginas singulares, attente-se n'este retrato do rei gago e feio, temido
+e amado do seu povo; uma palavra acode á mente: é uma allucinação; uma
+allucinação auditiva e visual completada pela resurreição das emoções
+correspondentes.
+
+
+«D. Pedro tinha a paixão da justiça: era n'elle uma mania como em seu
+avô o fora a guerra. Não prescindia de julgar todos os delictos. Os
+criminosos vinham á côrte, desde os remotos confins do reino. Quando
+algum chegava, manietado, e o rei comia, levantava-se pressuroso da
+mesa, e trocava a vianda pela tortura. Prazia-se em ajudar e dirigir os
+algozes; indicava os expedientes e processos para obter a confissão dos
+reos. Nunca abandonnava o açoute enrolado á cinta em viagem, tomava
+d'elle, e por suas mãos castigava o facinora que no caminho lhe traziam.
+Os adulteros mereciam-lhe um odio especial; jámais lhes perdoava. D.
+Pedro tinha um escudeiro, Affonso Madeira, _luitador e travador de
+grandes ligeirices_, a quem, embora o amasse _mais que se deve aqui de
+dizer_, o rei mandou castrar, porque peccou com Catarina Tosse:--o rapaz
+engrossou, e morreu depois _da sua natural door_. Certa mulher era
+infiel ao marido, que nem por isso se offendia: offendeu-se o rei, e
+mandou-a queimar; ao esposo desolado respondeu que lhe devia alviçaras
+pelo ter vingado. Havia um homem casado, com filhos, mas que antes da
+boda forçara a mulher. Roussou? Morra. Enforcou-o entre os choros e
+supplicas da esposa e dos filhos. O seu odio aos peccados da carne
+perseguia com furor as alcouvetas, e as feiticeiras não lhe mereciam
+menos cuidados.
+
+«Quando o tomavam os ataques da furia justiceira, a gaguez fazia ainda
+mais terrivel a expressão da sua physionomia. A fala não lhe deixava
+traduzir bem as coleras, e rubro, grosso, agitando o latego, n'um
+delirio, mettia espanto. Os gagos, porém, tem isto de particular: tanto
+o defeito accrescenta ao horror da furia, como põe nas horas mansas o
+que quer que é de bonhomia quasi ironica. Era assim D. Pedro. Caçador
+tenaz, descançava do officio de juiz nas corridas do monte, seguido
+pelos moços com os nebris e falcões, e pelas matilhas de cães. Então, o
+seu rosto aplacava-se, e era benigno, bemfajezo, liberal, folgazão. _Foi
+grande criador de fidalgos._ Glotão, passava horas esquecidas á meza,
+onde a vianda era em grande abastança.
+
+«Assim como a sua justiça era destituida de majestade, assim eram as
+suas folganças. Dir-se-ia um rustico feito rei; e acaso por isso o povo
+o amava tanto. Não tinha distincções, nem delicadezas no sentimento,
+nem no trato, sendo em tudo brutal. Se confundia em si o juiz e o algoz,
+as suas festas eram kermesses extravagantes e plebéias. Os instinctos
+aristocraticos e as fórmas da cortezia nobre, torneios, lanças e outros,
+não tinham n'elle um amigo. Era um democrata, um tyranno á antiga, em
+cujo espirito toda a brutalidade popular encarnara: por isso mesmo era
+adorado! Os seus castigos terriveis, passando de bocca em bocca,
+faziam-lhe um pedestal de força; e as suas continuas folganças populares
+cimentavam essa força com o amor intimo que nos merece o que tem
+comnosco a irmandade de gostos. O povo via-se rei na pessoa de D. Pedro.
+
+«Quando voltava em batéis de Almada para Lisboa, a plebe lisboeta sahia
+a recebel-o com danças e trebelhos. Desembarcava, e ia á frente da
+turba, dançando ao som das _longas_ (trombetas), como um rei David.
+Estas folias apaixonavam-no quasi tanto como o seu cargo de juiz. Por
+ellas chegava a fazer loucuras. Certas noutes, no paço, a insomnia
+perseguia-o: levantava-se, chamava os trombeteiros, mandava accender
+tochas; e eil-o pelas ruas, dançando e atroando com os berros das
+_longas_. As gentes, que dormiam, sahiam com espanto ás janellas, a ver
+o que era. Era o rei. Ainda bem! ainda bem! que prazer vel-o assim tão
+ledo! Vestiam-se todos á pressa, desciam ainda tontos de somno; e as
+ruas, uns momentos antes silenciosas e negras, brilhavam com as luzes e
+tinham o clamor da multidão em vivas, o movimento das danças universaes.»
+
+
+Não só as ruas, mas tambem estas paginas. Como para o seu mestre
+Michelet, a historia é para elle uma resurreição, e como no seu mestre
+Michelet o poder de evocação é acompanhado n'elle pelo dom da
+comprehensão. N'este mesmo retrato que analysei, se os pormenores e
+anecdotas que fazem _ver_ os objectos abundam, não escasseiam os juizos
+geraes que os fazem _perceber_. Assim depois de ter pintado o velho rei
+em corpo e alma, localisa-o na sua epocha e no seu meio, e indica as
+causas da sua força, que são os motivos da sua influencia. Poder-se-iam
+definir as suas narrações e descripções, como uma serie de allucinações
+com integridade da razão.
+
+
+«D. Pedro é a viva imagem da Edade-média, politica e domestica. Todos os
+vicios e todas as virtudes, a fereza e a ingenuidade, os odios terriveis
+e as amizades espontaneas, sommadas n'um caracter primitivo, onde acaso
+alguma lepra dos vicios civilisados antigos punha nodoas novas, formavam
+a pessoa d'esse rei que é verdadeiramente um symbolo: por isso o povo,
+vendo-se n'elle re-tratado, o adorou.»
+
+
+N'este retrato, como em todos os trabalhos do Sr. Oliveira Martins, a
+cor e a vida abundam; o que não abunda é a proporção e a ordem. E ainda
+assim não transcrevi senão o que convinha. Se o fizesse na integra,
+ver-se-ia que o nosso auctor, na furia da inspiração improvisadora,
+repisa e baralha. Se ordenasse e concentrasse, o effeito seria
+fulminante e a critica batida recuaria até á admiração.
+
+
+Mesmo assim é nos retratos que elle triumpha; vastos como quadros, ou
+concisos como medalhas vêem-se pendurados a todos os cantos da sua obra.
+Pinta-os ás dezenas, cunha-os aos centos. Na _Historia da Civilização
+Iberica_ é Camões, é Colombo, é Loyola; na _Historia de Portugal_ são
+Affonso Henriques, Pedro o Cru, o Condestavel, o Infante D. Henrique,
+Albuquerque, D. Francisco de Almeida, D. João de Castro, o Principe
+perfeito, D. Sebastião, o Restaurador, o Rei magnanimo, o pobre D. João
+VI; no _Portugal Contemporaneo_, Saldanha, Palmella, D. Miguel e o
+Telles Jordão, Mousinho, Rodrigo, Cabral, os Passos e tantos. Com dois
+traços ou com duzentos, o personnagem apparece sempre vivo, n'um escorço
+fugitivo ou n'uma longa analyse, com uma verosimilhança que garante a
+veracidade. E não só esta imaginação é psychologica, mas realista: ella
+se compraz não só na pintura das opiniões e paixões, mas tambem na
+representação dos pormenores corporaes e das circunstancias triviaes.
+Como psychologo, elle sabe que as grandes forças presentes em cada
+individuo, e que lhe determinam a biographia, se revelam não só no
+mechanismo das idéias e no jogo das tendencias, mas ainda nas pregas do
+vestuario e nas rugas do sorriso; como escriptor conhece que só o traço
+sensivel provoca a visão, e que a arte de pintar com a palavra, é a arte
+de evocar com a palavra. Assim elle verá a gaguez de D. Pedro, a surdez
+de Mousinho, a cabeça felina de D. João II; o peito constellado de
+Saldanha, a face quadrada de Rodrigo, o eterno charuto de Palmella; os
+habitos, as doenças, as idiosyncrasias mais furtivas apparecem
+daguerreotypadas por uma imaginação e estampadas n'uma prosa que tem a
+complexidade e a velocidade das operações vitaes.
+
+
+Psychologica e realista, esta imaginação é completa? Um romancista como
+o Sr. Eça de Queiroz prima na pintura das sensações corporaes e das
+paixões animaes: o cio, a gula, o egoismo brutal e a intriga trivial, a
+cobiça e a vaidade, a bondade ingenua e a maldade machinal, quasi que
+exgottam o seu reportorio; a população dos seus romances é composta de
+personnagens medios; se uma vez n'um livro que é uma confidencia elle
+pintou uma alma fóra do commum, foi procedendo á maneira dos
+lyricos, transcrevendo as suas proprias emoções; Carmen Puebla é o
+proprio romancista com o vibrar pungente dos seus nervos, e os fremitos
+da sua furiosa e dolorosa sensibilidade; mas o auctor do _Primo Bazilio_
+nunca escreveu um romance como _Louis Lambert_; para um vôo tal são
+precisas as azas musculosas do genio cosmopolita e androgyno de Balzac.
+
+O Sr. Oliveira Martins conhece perfeitamente as raizes inconscientes e
+physicas da vida superior do espirito, e mostra-as sempre que precisa,
+bem que sem as minudencias do romance, porque pinta a fresco sobre a
+parede da historia; mas vê com lucidez egual a florescencia culminante
+da razão e da moralidade. Elle retrata tão bem o fundador do jesuitismo,
+como o filho da lavadeira. O genio é-lhe tão familiar como o instincto;
+e não vejo melhor maneira de cerrar esta analyse da face mais importante
+do seu espirito, senão transcrever as paginas magnificas que elle
+escreveu sobre Herculano, e reproduzir, depois da figura do rei que com
+o punhal nos fundou a nacionalidade, o vulto do escriptor que com o seu
+genio, incompleto mas poderoso, nos iniciou a historia.
+
+
+«.... A palavra que o retrata é o Caracter, porque n'elle a vida moral e
+a intellectual eram uma e unica,--o contrario do sceptico, não raro
+santo, o proprio do estoico, não raro obtuso.
+
+«Dizemos pois Caracter no sentido e valor que a palavra teve na
+Antiguidade, e não na vaga accepção moderna. Não é a intemerata vida,
+não é o desprezo dos bens mundanos, o odio, a ostentação vã, a desabrida
+recusa de titulos, de honras, de logares que em si constituem o
+Caracter; embora a repugnancia pelas cousas mesquinhas seja consequencia
+indispensavel d'esse modo d'existir que essencialmente consiste na
+afinação perfeita das regras da moral e dos principios da intelligencia,
+da vida do cidadão e da existencia do philosopho. O typo do caracter á
+antiga é o estoico, e este é o nome que propriamente define a
+physionomia de Herculano; este é o typo que passo a passo veiu crescendo
+até dominar nos ultimos annos,--quando as licções successivas do mundo,
+nunca estoico e muito menos do que nunca em nossos dias, e muito menos
+do que em parte alguma em Portugal; quando os desenganos do mundo o
+degradaram para o exilio,--não como um martyr, mas como um homem, que
+protestando sempre, se não converte, nem se corrompe.
+
+«Por isso o estoico é por natureza austero e duro; e na pessoa de
+Herculano esse genero aggravava-se com effeito por varios motivos: já
+pelo seu temperamento lusitano, já pela deploravel baixeza do nivel
+moral da sociedade portugueza, já pelo saber consideravel systematisado
+pelo philosopho, e sem duvida alguma desproporcionado para a
+illustração media do paiz em que vivia. Olhando as miserias alheias e a
+alheia ignorancia, por modesto que fosse--e não o era--via-se muito
+acima como homem e como sabedor. Isto, e não a cohorte dos aduladores
+ineptos a quem não dava importancia, embora a sua bondade os não
+fustigasse, o fazia inconscientemente orgulhoso: porque nenhum orgulho
+nem pedantismo tinha para com todos os que via crédores de attenção e
+respeito.
+
+«Do accordo da intelligencia e da moral vem ao estoico um pensamento bem
+diverso e até opposto ao dos santos, que do antagonismo sentido partem
+para as soluções mysticas. Esse pensamento e o individualismo, cujo
+traço fundamental consiste na idéia de que o homem é em si um todo
+indiviso e completo, e a unica verdadeira realidade da sociedade; a
+idéia de que a razão humana é a fonte do conhecimento certo e absoluto,
+a consciencia a origem da moral imperativa,--a liberdade, portanto, a
+formula da existencia social. D'este modo de ver as cousas nasce aquillo
+a que podemos chamar o orgulho transcendente,--que os antigos estoicos
+disseram Caracter, quando pela primeira vez essa fórma do pensamento
+appareceu systematisada em doutrina.
+
+«No revolver da agitada vida, em que se achara, iam pouco a pouco
+reunindo-se, como que crystallizando, os elementos da futura, distincta
+e typica individualidade. A nobreza e a ideal rectidão do seu
+espirito tinham na sua profundidade o motivo d'uma systematica cegueira
+para pesar e medir as cousas reaes com a fria imparcialidade d'um
+critico, ou com a caridade do santo. Com o seu metro absoluto e integro,
+Herculano, na agitação do mundo, corria atraz da chimera de achar
+aquelles homens que o seu estoicismo desenhava, aquelles raros, dos
+quaes elle era em Portugal um e unico. O critico, se é politico, manobra
+com os homens como um general com um exercito, auscultando as vontades e
+caprichos, dirigindo as forças direito a um fim, sem attenção pelos
+instrumentos d'elle. Perante os homens, o santo tem na piedade uma
+intima força: a coragem que não abranda; tem o enthusiasmo que o move, e
+a caridade que explica e lhe faz comprehender, em Deus, as fraquezas e
+as miserias da terra. Combate, pois, sem recuar, levando nos labios a
+palavra de uncção, e o sorriso d'uma ironia boa, ao mesmo tempo cauterio
+e balsamo. O estoico, porém, ferido, pára. O mundo era elle e nada mais
+além da sua razão, da sua consciencia, da sua liberdade. E quando as
+feridas, as perseguições, os ataques, os ultrajes são profundos e agudos
+como os que expulsaram da politica,--e tambem das letras,--Alexandre
+Herculano, o estoico repetindo a historica phrase do Africano,
+suicida-se. É então que vivamente nasce, pois só então o Caracter
+apparece em toda a sua pureza.
+
+«Não o mata o scepticismo, mata-o o excesso de uma incompleta doutrina.
+Não descrê, e é por cada vez mais acreditar em si, que foge a um mundo
+rebelde a ouvir a verdade. A morte não é pois um acto de desespero, é um
+acto de fé. Só a differença dos tempos fez com que no suicidio de
+Herculano não entrasse o ferro como entrou nos suicidios estoicos da
+Antiguidade. A vida assim coroada, o homem assim transfigurado n'um
+typo, e a sua palavra e o seu exemplo n'um protesto, superior ao mundo e
+ás suas fraquezas, ficam aureolados com o forte clarão dos heroes, lume
+que aos navegantes, errando no mar escuro da vida, guia a derrota e
+indica o porto.»
+
+
+Marcado com firmeza e analysado com perspicacia o facto capital d'este
+espirito, o critico passa a estudar-lhe as origens, porque sabe que nos
+homens cultos a educação é uma segunda natureza. E no caso presente,
+como succede quasi sempre na historia dos homens fóra do commum, a
+cultura concorda com o temperamento e exalta o valor das qualidades
+innatas. O estoicismo ingenito, exasperado pelo kantismo apprendido,
+determinam o corpo das suas opiniões sociaes, politicas, religiosas e
+economicas, e depois de fundir as idéias ao pensador, fabricam o estylo
+ao escriptor. O Sr. Oliveira Martins considera-o sob todos estes pontos
+de vista com uma lucidez de expressão e uma nitidez de comprehensão,
+que surprehendem tanto mais que o nosso critico discorda do auctor que
+explica, a ponto de combatel-o. Esta sagacidade é ainda mais notavel no
+curto juizo sobre as qualidades da prosa de Herculano, quando se pensa
+que elle é emittido por um homem que não prima pela posse d'aquillo a
+que cabe rigorosamente o nome de dotes litterarios.
+
+
+«O racionalismo kantista foi o molde onde se vasaram em systema
+as tendencias naturaes do espirito de Herculano,--um D. João de
+Castro da burguezia e do seculo XIX. O antigo stoicismo portuguez era
+catholico e monarchico; o estoico de agora foi romantico e
+individualista,--exprimindo a reacção, geral na Europa, contra a
+religião dos jesuitas a contra a doutrina da Razão-de-Estado que depois
+de ter feito as monarchias absolutas, fizera a Convenção e Napoleão.
+
+«O kantismo como philosophia, o individualismo como politica, o
+livre-cambio como economia,--eis ahi as tres phases da doutrina que, por
+ser um philosopho, Herculano media em todo o seu alcance.»
+
+
+Mas a aptidão superior que o leva a marcar n'um espirito o facto capital
+é acompanhada pelo tino da realidade que lhe impede de fazer derivar
+tudo d'este unico facto; ao lado d'esta causa primordial o Sr.
+Oliveira Martins restabelece os principios subsidiarios que a modificam,
+limitando-a, e combinando-se com ella originam uma alma real, capaz de
+viver entre cousas reaes e de produzir obras reaes. Por este sentimento
+intenso do concreto o Sr. Oliveira Martins nos apparece como um
+verdadeiro artista, e não como um simples combinador de abstracções.
+
+
+«.... Não basta o principio individualista para explicar a physionomia
+intellectual de Herculano. Varias causas concorriam para o temperar ou
+desviar das suas logicas conclusões. O saber é uma d'essas, mas a
+principal é o seu temperamento estoico. Para Herculano, e em geral para
+o estoicismo, uma doutrina não é um producto da intelligencia pura, que
+póde ser ou não amado e _vivido_. O estoico vive com o que pensa; o seu
+pensamento está no seu coração: é a carne da sua carne, o sangue do seu
+sangue; é uma fé, não é apenas uma opinião. Eminentemente forte, é por
+isso mesmo positivo e pratico. As doutrinas são para elle realidades,
+não são abstracções; e nada valem quando nada representam na esphera da
+consciencia e da moral, quando nada valham na do direito e da economia.
+Por isso as extremas conclusões do individualismo, irrealisaveis,
+praticamente absurdas, immoraes até, repugnantes para o proprio
+instincto, contradictadas pelo saber mais mesquinho, essas
+conclusões, delicia d'espiritos seccos, de philosophos abstrusos, de
+ingenuos ignorantes,--não podia Herculano, sabio e estoico, abraçal-as.
+Parava, pois, afim de conciliar a sua opinião com o seu sentimento; e se
+em resultado sahiam inconsequencias, ellas não fazem senão demonstrar a
+verdadeira nobreza da sua alma e a tempera rija da sua intelligencia.
+
+«Lado algum das suas idéias mostra isso mais do que o economico. Tão
+livre-cambista como individualista: ou ainda mais, porque o socialismo,
+cujo crescer sentia e temia, vendo ahi um positivo e declarado inimigo,
+e o vivo problema do futuro, ou ainda mais, dizemos, porque não parava,
+nem limitava as conclusões ultimas, Herculano era radical no
+_free-trade_, pois firmemente acreditava n'elle como numa panacia.
+Estoico sempre, a doutrina da concorrencia apparecia-lhe principalmente
+por um lado,--secundario para os economistas. O livre-cambio, proclamado
+como a melhor receita para crear a riqueza, era para Herculano sobre
+tudo a melhor fórma de a distribuir. Queria que as leis pulverisassem o
+solo, no qual não reconhecia outro valor senão o que o trabalho
+consolidava n'elle, e esperava que a concorrencia, desembaraçada de
+todas as peias, creasse uma sociedade proudhoniana, em que todos fossem
+capitalistas e proprietarios. Como estoico, era um socialista; mas o seu
+socialismo realisar-se-ia pela liberdade, pela concorrencia. E quando se
+lhe contavam os casos repetidos, actuaes, do sem numero de
+monopolios de facto, nascidos, não das leis, mas sim da guerra natural
+economica,--elle parava, scismava e não respondia.
+
+«Via-se que lá dentro luctavam a doutrina e a lucidez; em se convencer,
+sem mudar, apparecia o moralista invectivando os vencedores d'essa lucta
+donde elle esperava a justiça e donde apenas sahia o dolo. Ninguem o
+excedia então; e ao ouvil-o, dir-se-ia algum fugido de Paris, dos tempos
+da Communa,--porque nos referimos agora aos seus ultimos annos, ás
+vesperas da sua morte, quando a agiotagem _livre_ de Lisboa e Porto
+provocou uma crise bancaria. Quiz então o governo cohibir a liberdade de
+emissão, mas não o pôde.»
+
+
+E transcriptos uns trechos de carta em que o individualista defende a
+sua doutrina, mesmo contra argumentos tirados d'um campo, em que as
+consequencias d'ella são promptas e fulminantes, o critico prosegue.
+
+
+«Mas se essa liberdade, expressa na concorrencia economica,--e na franca
+emissão de notas, no caso especial tomado para exemplo; mas se essa
+liberdade conduz a taes resultados, sendo em si excellente, força é que
+haja um vicio no mechanismo das instituições. E ha, sem duvida, diz
+Herculano,--é o anonymato.
+
+«Na essencia, a _bank-note_ é a expressão do credito que o individuo
+attribue a si. Que se reunam 7, 70 ou 700 individuos para sommarem essas
+avaliações; que se chame banco e que exprimam collectivamente o total,
+isso não muda a essencia da cousa. Supprimia todas as responsabilidades
+_limitadas_. A responsabilidade é de sua natureza _illimitada_ até onde
+chegam os recursos e pessoa do responsavel. _Non habet in posse, dicat
+in corpore_, é maxima que se não devia desprezar n'esta questão do abuso
+do credito. Note-se que eu desejaria supprimidas todas as
+responsabilidades limitadas, tacitas ou expressas, manifestas ou
+disfarçadas.»
+
+«Nós vimos antes como o espirito do erudito historiador corrigia em
+certo ponto a doutrina individualista; vemos aqui o jurista a corrigir o
+livre-cambio; vamos ver o canonista a corrigir para a direita o
+ultramontanismo, para a esquerda o atheismo. A educação do homem
+temperava os principios do philosopho; e essas correcções eram-lhe
+indispensaveis para que os seus pensamentos se mantivessem de accordo
+com os seus rectos instinctos, com as suas bellas aspirações,--eram-lhe
+indispensaveis, porque o estoico não admitte divergencias entre a
+intelligencia e a moral, entre o mundo das idéias e o das realidades.
+
+«Com fundado motivo dizia Herculano que perante os principios,--liberal
+e socialista, ou individualista e collectivista,--era indifferente a
+questão das fórmas do governo: «pouco me incommoda que outrem se sente
+n'um throno, n'uma poltrona, ou n'uma tripeça». Mas essa questão da
+republica ou da monarchia, é para elle um problema não só historico, mas
+tambem religioso.
+
+«Pondo de parte a questão de opportunidade no momento d'uma crise, a
+republica não parecia a Herculano adequada «á velha Europa, sobretudo a
+estas sociedades meio-germanicas na indole e celto-romanas na raça que
+estanceiam ao occidente educadas pelo catholicismo que na pureza da sua
+indole é o typo da monarchia representativa.»
+
+«A tradição religiosa--ou antes aquella tradição religiosa d'um
+catholicismo liberal inventada pelo romantismo,--servia, pois, ao
+philosopho para temperar o seu individualismo, para o conciliar com um
+resto de auctoridade social consagrada nas prerogativas do throno
+representativo. De tal modo se combinava o racionalismo, e este traço é
+o que dá a Herculano, ou antes á sua doutrina um caracter
+d'individualidade original, depois do ensino, apenas racionalista de
+Mousinho da Silveira.
+
+«Tambem entrava ao lado da educação, o temperamento para acabar de
+afeiçoar a physionomia religiosa de Herculano. O mechanismo do frio Deus
+kantista não bastava á sua indole peninsular. A imaginação pedia-lhe
+a antiga historia tradicional; o sentimento reclamava que quer que é
+d'affectuoso e meigo,--a doce caridade catholica; e o bom-senso exigia o
+culto e a pompa que impressionam as massas. O protestantismo, alvo das
+suas acerbas satyras, não satisfazia a sua alma, nem as suas exigencias
+de canonista. Nada propenso ao mysticismo, e até rebelde a
+comprehendel-o fóra da caridade pratica, não via na religião mais do que
+uma Egreja,--instituição e disciplina....
+
+«A Liberdade, supposto principio que para elle resumia a essencia d'um
+espirito racional e absolutamente consciente, era afinal o seu
+verdadeiro e intimo deus. É essa a religião do estoico; e o Deus da
+_Harpa do Crente_ é um ser eminentemente livre que por um acto de
+vontade absoluta creou tudo o que existe: o deus do estoico é a
+divinisação do estoicismo. E como todos sabem por quanto esta antiga
+philosophia entrou na formação do christianismo, é desnecessario mostrar
+desenvolvidamente como e até que ponto Deus era para Herculano o Deus
+christão.
+
+«Obras de tres naturezas diversas nos revelam pelo estylo tres
+phisionomias. A primeira, official e grave, são os seus trabalhos
+historicos, onde o periodo redondo e classico, mas sem affectação
+quinhentista, se desenvolve alimentado pelos _caldos de Vieira_ que nos
+receitava a nós os moços, para educar a mão; a segunda são os seus
+romances e escriptos humoristicos, onde mal ataviado o periodo
+jesuitico, ás vezes combinado com fórmas e _tours_ estrangeirados,
+transparece sempre o _goût du terroir_, o cunho do portuguezismo duro e
+pesado, mais aggressivo do que de comedia. Na terceira, finalmente, em
+nossa opinião a mais bella, nos escriptos de polemista a phrase rotunda
+é quente, a aggressão é viva, as palavras tem calor, e a dureza do genio
+lusitano acha nos sentimentos expressos em orações duras, uma convicção,
+uma independencia que a ennobrecem. Ouve-se a voz do estoico, e ha uma
+harmonia perfeita entre o pensamento profundo, grave e forte, e o estylo
+redondo, sobrio e nobre. A rethorica classica é o molde proprio do
+classico pensamento estoico. Mas entre estas obras ha uma, uma unica
+(_Carta á Academia das Sciencias_), onde apparece o homem intimo,
+sensivel, caridoso e simples, esse homem que nós esboçamos
+fugitivamente, porque a vida, a educação, o temperamento, de mãos dadas
+concorriam para o subalternisar ao homem estoico; ha uma dizemos, em que
+as palavras não falam apenas, choram e vociferam, tem lagrimas e
+imprecações e ironias. Ferido no vivo coração da sua existencia, o homem
+poz no papel o melhor do seu sangue. O que o genio do artista obtem com
+a intuição, consegue-o o poeta com a emoção. A _Carta á Academia_ é tão
+bella como as melhores das poesias intimas de Herculano.
+
+«Para elle que, como lusitano, nada tinha de artista (prova, os seus
+romances), a litteratura era uma missão e não um dilletantismo. O
+universo, a historia, a sociedade, não se lhe apresentavam como assumpto
+de estudos subtis e curiosos, de observações finas ou profundas, de
+quadros brilhantes, vivos ou commoventes; mas como objecto de
+affirmações ou negações inspiradas pela convicção estoica. Nos seus
+livros póde seguir-se ao mesmo tempo o desenvolvimento do seu pensamento
+e a historia da sua consciencia. São o retrato da alma do auctor, ora
+apaixonada, ora melancholica, quasi sempre triste, raras vezes contente,
+mas sempre convicta, energica e franca.
+
+«As _Poesias_ e o _Eurico_ revelam-nos o crente na providente liberdade
+d'um poderoso e justo Deus; a alma rijamente temperada contra o funesto
+acaso; o coração aberto ás emoções da natureza que se lhe manifesta com
+o caracter d'uma fatalidade cruel e d'um cego desabrimento. Deus, a
+Natureza, o Homem, são, n'essas obras, personnagens d'uma tragedia
+biblica, com a tempestade rouca por musicas e por fundos de scena
+bulcões de opacas nuvens cobrindo o azul do ceo.
+
+«Vem depois as obras polemicas, vasta e riquissima collecção que
+patenteia a omnimoda actividade do pensamento de Herculano, e lhe dá o
+caracter d'um philosopho, cujo pensamento em vez de se manifestar em
+tratados, se exprime em controversias. Profissionalmente, era
+historiador. A _Historia de Portugal_ e os trabalhos que com ella formam
+o corpo dos estudos do erudito são a obra mais importante do escriptor e
+solido fundamento do seu immorredouro nome na historia litteraria
+portugueza. Reunindo a um vasto e forte saber geral a paciencia do
+erudito e o escrupulo do critico, esses trabalhos não respiram a pedante
+seccura do especialismo, e se não constituem, nem podem constituir uma
+historia nacional, fizeram com que os problemas das origens sociaes e
+politicas da nação portugueza fossem por uma vez resolvidos. A
+historiographia peninsular tem em Herculano o seu mais illustre nome: um
+nome que se conservará ao lado do de Guizot, de quem tinha os golpes de
+vista comprehensivos, e do de Thierry, a quem acompanhava na faculdade
+de representar vivas, nos seus habitos, costumes e leis (senão em sua
+alma como um Michelet) as passadas gerações,--avantajando-se a ambos na
+coragem com que arcou com o trabalho improbo de colligir, coordenar,
+traduzir, interpretar os monumentos historicos d'um povo que não tivera
+benidictinos eruditos. Robinson de nova especie, Herculano achou-se como
+n'um paiz deserto e teve de descobrir os materiaes antes que pudesse pôr
+mãos á obra.
+
+«Prodigio de trabalho, de saber, de paciencia, de talento, a _Historia
+de Portugal_, é um monumento; entretanto,--devemos dizel-o, se
+quizermos ser inteiramente justos.--mais de uma cousa lhe falta, para
+poder ser considerada um typo, e o seu auctor um grande historiador como
+Ranke. Falta-lhe ar na contextura sobrecarregada de eruditas discussões;
+falta-lhe, sobre tudo, aquella alta e serena imparcialidade, aquelle
+ponto de vista rigorosamente objectivo, aquella isenção critica,
+impassivel perante as escholas, os systemas, os partidos; e sem a qual a
+historia deixa de o ser.
+
+«Além d'isto, ha uma falta de nexo na _Historia de Portugal_, resultado
+do modo como primeiro foi concebido.... as duas faces do livro se não
+ligam,... os factos e os homens nos apparecem como um appendice,
+subalterno, indifferente, dando a impressão de que se tivessem sido
+outros e diversos, nem por isso a vida anonyma das sociedades poderia
+ter seguido rumo differente. E se nem a acção dos elementos
+voluntario-individuaes e dos fortuitos, sobre os elementos sociaes, nem
+a inversa, nos apparece, tirando assim á historia o seu caracter
+eminente de realidade; juxtapondo artificialmente a uma chronica,
+veridica, desinçada dos erros e das invenções fradescas, uma dissertação
+erudita sobre o desenvolvimento das instituições: tambem a apreciação
+dos elementos moraes,--crenças individuaes, phenomenos de psychologica
+collectiva,--é feita á luz de doutrinas quasi voltaireanas; e no avaliar
+das lendas religiosas, da acção do clero, o historiador prescinde de
+profundar os motivos moraes, ou cede a palavra ao sectario que nos
+bispos e em Roma não vê outra cousa mais do que sacerdotes da astucia e
+uma Babylonia de perversão.».
+
+
+N'este magnifico retrato se vê em alto relevo todos os recursos do
+auctor. No arcar com uma empresa difficil se mede toda a força
+disponivel. Tendo de estudar uma natureza complexa e eminente, o
+psychologo desenvolveu n'esse trabalho todos os recursos do seu eminente
+e complexo espirito. Eminente e differente, o espirito estudado vê-se
+que quem o estuda, nem philosopho por officio, nem stoico por
+temperamento, é capaz de, pela imaginação psychologica, perceber as
+idéias geraes e as paixões moraes. Quiz transcrever quasi na integra,
+estas paginas numerosas, mas que se lêem d'um fôlego, porque um bom
+exemplo se não é um ramo legitimo de prova, é um instrumento optimo de
+exposição, e convem expor com a lucidez maxima, aquella que reputo a
+faculdade matriz do espirito que analyso, e que nenhum escriptor
+portuguez contemporaneo possue em tão alto grau como o Sr. Oliveira
+Martins.
+
+
+
+
+II
+
+AS PAIZAGENS
+
+
+Com a imaginação psychologica, possue elle a imaginação physica? O exame
+das suas paizagens o dirá. Um escriptor como o Sr. Ramalho Ortigão, por
+exemplo, em quem o dom da representação visual, apparece completo e
+permanece intacto, procederá nas suas descripções pela transcripção
+minuciosa, exacta e methodica das impressões taes como foram recebidas,
+ou antes taes como foram enviadas dos objectos. Se elle descreve um
+trecho qualquer da realidade, supponhamos uma rua de Amsterdam, começará
+por calcular-lhe a largura, 3 metros; verá os predios de tres e quatro
+andares, em tijolo; notará em seguida a côr do tijolo, preto, e a nuance
+particular, preto côr de sombra ou vermelho tostado; falará das varas
+pintadas de verde dos enxugadouros, onde pendem riscados brancos, azues
+e vermelhos; observará as pranchas com vasos, as taboletas sobre as
+portas, vinte objectos miudos ou dispersos, um gallo branco de
+crista encarnada, o pão de assucar da tenda, uma chave de broca para o
+ar, tres queijos sobrepostos, um branco, um dourado, um preto; uma
+lanterna, um barril, um tamanco; nas janellas, os espelhos quadrados de
+caixilho de ferro; no chão comprido e varrido da rua, arrumados á parede
+uma vassoura, baldes, gigas, celhas, o pincel das lavagens, uma roda
+desembuchada do eixo, uma lança de corvo, uma gaiola de frangos, e n'uma
+casota, um sapateiro velho, de oculos, sobre a tripeça, curvado a
+trabalhar, com o tecto em cima do seu _bonnet_ de lontra. E os objectos
+virão descriptos com uma tão vehemente fidelidade, que enumerando-os
+parecerá, não que elle redige um rol mas que estampa uma visão. E as
+manchas da côr, a direcção das linhas, a obtusidade ou a agudeza dos
+angulos, a disposição e o recuo dos planos visuaes, o systema das
+apparições corporaes dadas na adaptação dos seus elementos intestinos, e
+nas combinações ou contrastes com as apparições adjacentes, o peso, a
+forma, a proveniencia e a utilidade das cousas vistas, serão dictas
+n'uma prosa de tal sorte adequada pela sua provada firmeza e estructural
+precisão ao genero de trabalho a que a submettem, que o leitor se lá
+esteve, sem querer, exclama: S. Nicolas Straat! repetindo o nome que leu
+e a rua por que passou.
+
+São assim as descripções do Sr. Oliveira Martins? Não são. Na sua
+Historia Romana, no livro das guerras punicas, encontram-se descripções
+admiraveis que rivalisam em colorido e nitidez com as melhores do Sr.
+Ramalho Ortigão; mas a influencia litteraria é visivel n'ellas, são
+reminiscencias intelligentes da _Salammbo_ de Flaubert. Ha porém nos
+seus livros paizagens vistas cuja originalidade é incontestavel. N'essas
+o processo descriptivo é bem diverso. O Sr. Oliveira Martins não nos diz
+o que observou, mas o que sentiu. Os aspectos physicos não lhe apparecem
+senão como signaes de forças e fontes de emoções. E a emoção que elle
+procura e acha na visão. Se elle observa uma arvore não lhe vê a côr das
+folhas nem os contornos dos troncos, e se o faz é com intenção e
+esforço; nota-lhe a expressão moral: «Os campos sobem em terraços
+viçosos, assombrados pela oliveira _doce e pallida_, dando com a sua
+folhagem minuscula, _um tom aereo, um tom grego_ á paizagem.....» Ou
+ainda «o aloés orgulhoso levantando _com imperio_ o seu pennacho de
+carmim». Falando com precisão elle não reproduz o aspecto das cousas,
+mas a sua physionomia. As suas paizagens são retratos. Um pedaço
+qualquer da realidade corporea não é para elle mais que um afloramento
+de energias latentes e uma causa de sentimentos presentes. O pensamento
+de Amiel, que uma paizagem é um estado da alma, inexacto para os
+escriptores de imaginação physica, é absolutamente verdadeiro para
+os escriptores de imaginação psychologica, como o Sr. Oliveira Martins.
+Elle encara a natureza não como um pintor mas como um poeta.
+
+Precisemos ainda mais esta analyse. Uma paizagem é um conjuncto de
+elementos materiaes coordenados de um certo modo no espaço e reflectido
+de um certo modo no espirito. Dos diversos factos em que ella póde ser
+resolvida, uns são propriamente objectivos como a grandeza e a figura,
+outros uma pura sensação individual, como a côr, ou uma fonte directa de
+emoção como o movimento. D'aqui nascem duas ordens de paizagens, uma a
+que chamarei descriptiva, outra a que cabe o nome de expressiva. As do
+Sr. Oliveira Martins são expressivas, como convem a um escriptor de
+imaginação psychologica. Isto explica tambem porque elle prima na
+pintura de certas scenas e claudica na descripção de outras. Descreve
+muito melhor uma batalha do que um assedio, e um naufragio do que uma
+viagem. As tumultuosas descripções, motins, cavalhadas, procissões,
+triumphos, combates e festas abundam nos seus livros e são excellentes.
+Não assim as scenas tranquillas que demandam a lucidez de memoria e
+segurança de traço e que não provocam senão uma emoção pacifica e
+duravel. Uma viva preoccupação da força é visivel nas suas grandes
+descripções e em nenhuma ella se manifesta tão energica como nas
+magnificas paginas sobre o terremoto.
+
+
+«Na manhã do 1º de novembro a cidade estremeceu, abalada profundamente e
+começou a desabar. Eram nove horas, dia de Todos-os-Santos: nas casas
+ardiam as velas nos oratorios, e as egrejas regorgitavam povo a ouvir
+missas. Toda a gente, n'uma onda, correu ás praias; mas, rolando em
+massa, estacou perante a onda que vinha do rio, galgando a inundar as
+ruas, invadindo as casas. Por sobre este encontro ruidoso, uma nuvem de
+pó que toldava os ares e escurecia o sol, pairava, formada já pelos
+detritos das construcções e das mobilias, que o abalo interno da terra
+vasculhava, e os desabamentos enviavam, em estilhas, para o ar. A onda
+do povo afflicto, retrocedendo, a fugir do mar, tropeçava nas ruinas; e
+as quedas, e a metralha dos muros que tombavam, abriam na floresta viva,
+agitada pelo vento da desgraça, clareiras de morte, montões de cadaveres
+e poças de sangue dos membros decepados com manchas brancas dos cerebros
+derramados contra as esquinas. E as casas erguiam se com as paredes
+desabadas, os tectos abertos sobre o esqueleto dos tabiques, mostrando a
+nú todos os interiores funestos, n'este dia em que, para muitos, Deus
+julgara e condemnara Lisboa, como outr'ora fizera a Sodoma. Por isso o
+rouco trovão dos desabamentos se ouvia cortado pelos ais dos moribundos,
+e pelos gritos dos homens e das mulheres, abraçadas ás cruzes, aos
+santos, ás reliquias, soluçando ladainhas, ungindo moribundos,
+parando esgazeados a cada novo abalo da terra que não cessava de tremer,
+arrastando-se pelo chão, de joelhos, com as mãos postas a face em
+lagrimas, a clamar: Misericordia! Misericordia!
+
+«Casas, palacios, conventos, mosteiros, hospitaes, egrejas, campanarios,
+theatros, fortalezas, porticos, tudo, tudo cahia. «Se visses sómente o
+palacio real, diz uma testemunha, que singular espectaculo, meu irmão!»
+Os varões de ferro torcidos como vimes, as cantarias estaladas como
+vidro! A onda do rio sorvia n'um momento o caes do Terreiro-do-Paço, com
+os barcos atracados coalhados de gente. Dos andares altos
+precipitavam-se sobre as lages das ruas. O medo crescia, vinha a
+loucura; viam-se mortos arrastados pelos vivos, viam-se mutilados
+coxeando, gente correndo desgrenhada, semi-nua, homens e mulheres,
+velhos e crianças, dilacerados, sangrentos, arrastando uma perna
+fracturada, esvahindo-se em sangue por algum membro decepado. Gritos,
+choros, clamores, imprecações, ais, preces, um borborinho de vozes
+desvairadas acompanhava os gemidos comprimidos dos soterrados nos
+escombros. No turbilhão das ruas havia quedas e mortos, abraços e
+agonias. A mesma loucura dos homens era o desvairamento dos brutos: os
+machos, desbocados, arrastavam os cavalleiros e as caleças,
+precipitando-se nos despenhadeiros da cidade montuosa; e as massas
+de gente viva, moribunda e morta, de envolta com os entulhos,
+rolavam nas ruas ladeadas pelos esqueletos das casas como uma imagem
+desolada do que seria o cahos. Quando a terra se subvertia, quando o mar
+vinha subindo afogar a terra, quando no ar faiscavam as linguas
+flammiferas rutilantes, que lembrança podia haver das invenções humanas?
+Abraçados, confundidos, na communidade do pranto, fidalgas e freiras,
+meretrizes e mães, mendigos e senhores, villões e cavalheiros,
+traçavam-se na communidade da fome, do frio, da nudez, do terror. De
+rastos a cidade inteira, sacudida pelo abalo formidando, reunia toda a
+sua eloquencia numa palavra unica--Misericordia! Misericordia!
+
+«Mas vinha o clarão das chammas com a sua luz sinistra; vinha a labareda
+fustigar com o lume a pobre gente semi-nua, tiritando sob o açoute de um
+nordeste frigido; gelava-se e ardia-se a um tempo; suffocava-se em fumo
+e pó! E as labaredas cresciam, e o incendio lavrava, e aos gritos
+desvairados dos infelizes ajuntava-se o crepitar das madeiras o estalar
+das cantarias, a cascalhada dos espelhos, dos crystaes e dos charões,
+que o fogo devorava. A densa nuvem de pó que escurecia tudo,
+illuminava-se com os clarões vermelhos que rebentavam por toda a parte,
+porque Lisboa inteira derrocada era um brazeiro. As linguas orgulhosas
+das chammas subiam emproadas para o ceo, juntando ás preces
+lacrimosas dos habitantes como um protesto satanico dos elementos.
+Outros protestos, mais positivos e egualmente horriveis, atroavam agora
+os ares: os escravos vingavam-se da sua escravidão, os mendigos da sua
+pobreza, os maus da sua maldade. O assassinato, o estupro, o roubo, como
+n'uma terra posta a saque, rolavam de envolta com as ruinas e o fogo: e
+por entre os destroços ainda apagados, viam-se os perfis negros dos
+escravos, rindo infernalmente, com os olhos injectados, os dentes
+brancos, a atiçar tições ardentes para cima das ruinas, augmentando o
+incendio, acclamando a chamma vingadora!... Misericordia! Misericordia!»
+
+
+Estas paginas tem o encanto da desordem e a majestade da força. O que
+seria defeito na descripção de scenas calmas e de objectos regulares é
+virtude na pintura de paysagens revoltas e de figuras desmedidas e
+informes. A violencia extrema da imaginação é adequada ao caracter
+terrivel do quadro. O sentimento vivo da energia que abunda nos
+trabalhos do Sr. Oliveira Martins, não podia ter melhor emprego do que
+na representação dos estragos produzidos pelo desencadeamento da
+energia. Ajunte-se a estas paginas que transcrevo, outras que calo.
+Leiam-se as suas descripções de incendios, batalhas, execuções,
+matanças, sedições populares, tumultos parlamentares. Observe-se que
+a poesia é a arte que tem por instrumento a palavra, e que a
+palavra, pela sua origem provavel e pela sua ligação certa com a paixão,
+é uma expressão natural dos movimentos da alma, que a obra litteraria
+tem antes um alcance moral do que um valor plastico, e ver-se-á que tive
+razão quando disse que o Sr. Oliveira Martins procedia na composição das
+suas paizagens não como um pintor mas como um poeta.
+
+
+Como um poeta e como um geographo. Não só as suas paizagens são
+sentidas, mas ainda pensadas. Ellas são para elle não só fontes de
+emoção, mas resultados de forças, constituidas em systemas naturaes pela
+communidade das causas que as determinam, e pela identidade de effeitos
+que provocam nos espiritos sobre que actuam. São poemas que se leem,
+effeitos que resultam, e meios em que se vive. Assim, depois, de ter
+descripto a largos traços a paizagem italiana, resume: «Ao sul da Italia
+reinam os vulcões, ao norte imperam os rios; além o constructor da terra
+é o fogo, aqui a agua.» Leia-se na _Historia de Portugal_ esta
+descripção do littoral alemtejano.
+
+
+«As aguas estagnam ou escasseiam nos baixos, as populações definham. Ou
+torradas pelo arido suão que os areaes ardentes não podem suavisar, e
+sem montanhas que obriguem os vapores do mar a condensarem-se, ou
+envenenadas pelos miasmas dos paúes que o sol de fogo põe numa
+fermentação permanente, as populações amarellidas e magras definham,
+curvadas pelo mortifero trabalho das marinhas de sal, ou da cultura do
+arroz. São o contraste das baixas do norte do paiz, estas baixas do sul.
+Além, copiosas chuvas e uma humidade criadora; aqui, o ar secco (500 a
+700 mill. annuaes, 30 a 50 no estio; humidade 30 a 80%), duro e
+carregado de emanações mephiticas. Além uma temperatura branda, aqui um
+calor excessivo (med. 17°). Além uma população exuberante; aqui as
+solidões e os areaes nus, matisados pela traiçoeira cevadilha, e pelo
+aloés orgulhoso, levantando com imperio o seu pennacho de carmim. Além
+homens laboriosos e familias; aqui esfarrapadas tribus em choupanas,
+tiritando com o frio das sezões n'uma atmosphera de fogo, mulheres
+esqualidas, crianças verde-negras, homens na indifferença da desolação,
+ou na vertigem do crime!» Eil-o que penetra na paizagem fazendo
+reflexões de geographia e meteorologia, munido de um udometro e de um
+hygrometro. A imaginação não fica abafada sob os dados numericos e
+technicos, e o quadro com ser instructivo não deixa de ser artistico.
+
+Dos dois caracteres que notamos nas paizagens do Sr. Oliveira Martins, o
+ser uma transcripção de emoções e o ser a explicação de um mechanismo
+o ultimo predomina no trecho que acabamos de citar, o primeiro no
+que antes citaramos; ambas apparecem n'um justo equilibrio no que
+passamos a citar.
+
+
+«Aquem Tamega o scenario muda. A humidade cria em toda a parte
+vegetações abundantes; não ha um palmo de terra d'onde não brote um
+enxame de plantas; mas como o solo é breve, como a rocha afflora em toda
+a parte, e os campos nascem do terreno vegetal formados nas
+anfractuosidades do granito pelas folhas e ramos decompostos e nos
+estuarios dos rios pelos sedimentos das cheias, a vegetação é rasteira e
+humilde, o pinho maritimo de uma constituição debil, o carvalho um
+pygmeu, enleado ainda pelas varas das vides suspensas. A densidade da
+população completa a obra da natureza, numa região onde o vinho não
+amadurece: o acido picante dá-lhe uma semelhança das bebidas fermentadas
+do norte, cidra ou cerveja, e com ella, ao genio do povo caracteres
+tambem semelhantes aos dos bretões e flamengos. A vegetação de si
+mesquinha, é amesquinhada ainda pela mão dos homens; as necessidades
+implacaveis da população abundante, produzem uma cultura que é mais
+horticola do que agricola: pequeninos campos circumdados por pequeninos
+valles, orlados de carvalhos pygmeus decotados, onde se penduram os
+cachos das uvas verdes. No meio d'isto formiga a familia: o pae, a
+mãe, os filhos, immundos atraz d'uns boisinhos anões que lavram uma
+amostra de campo, ou puxam a miniatura de um carro. Sob um ceu ennevoado
+quasi sempre, pisando um chão quasi sempre alagado, encerrado n'um valle
+abafado em milhos, dominado em torno por florestas de pinheiros
+sombrios, sem ar vivificante, nem abundante luz, nem largos horizontes,
+o formigueiro dos minhotos não podendo despegar-se da terra como que se
+confunde com ella; e com os seus bois, os seus arados e enxadas forma um
+todo, donde se não ergue uma voz de independencia moral, embora a miude
+se levante o grito da resistencia utilitaria. A paizagem é rural não é
+agricola; a poesia dos campos é naturalista, não é idealmente
+pantheista. Quem uma vez subiu a qualquer das montanhas do Minho e
+dominou d'ahi as lombadas espessas d'arvoredo, sem contornos definidos,
+e os valles quadriculados de muros e renques de carvalhos recortados,
+sentiu de certo a ausencia de um largo folgo de ideal, de uma viva
+inspiração de luz: apenas aqui e acolá, no meio da monotonia da côr dos
+milhos, um canto do alegre verde do linho, vem lembrar que tambem no
+coração do minhoto ha um logar para o idyllio infantil do amor.»
+
+
+Se eu quizesse resumir o que penso das paizagens do Sr. Oliveira
+Martins, diria que ellas revelam uma percepção mediocre da linha, e uma
+percepção maior da côr, um sentimento vivo dos movimentos, uma visivel
+tendencia para traduzir os aspectos physicos em impressões moraes, e uma
+aptidão activa para explicar os aspectos physicos como mechanismos
+naturaes; traços estes que dão ás suas paizagens o valor de um elemento
+da Historia. Ellas são productos da imaginação psychologica e da razão
+abstracta do auctor, e depois de termos largamente examinado a primeira
+estudando os seus retratos, vamos analysar a segunda, estudando as suas
+theorias.
+
+
+
+
+III
+
+AS THEORIAS
+
+
+Qual é a sua concepção do mundo? qual o seu processo de invenção? qual o
+seu methodo de prova? qual a quantidade a qualidade e a ligação das suas
+idéias geraes? Eis as perguntas que um critico deve fazer sempre que
+queira ter uma percepção clara da razão do escriptor que analysa.
+
+Á portada do seu livro _O Hellenismo e a Civilisação christã_ ha uma
+theoria digna de attenção, menos pelo seu valor intrinseco de verdade ou
+novidade do que pela sua importancia como indicio do espirito que a
+formulou. É a theoria do Acaso. Em presença da realidade historica, como
+em presença da realidade natural, o Sr. Oliveira Martins é ferido pelo
+caracter eminentemente _concreto_ que ella apresenta. A infinita
+complexidade propria das cousas e que imprime a cada uma um caracter de
+individualidade, não escapa á sua observação. Na sciencia, pensa
+elle, o necessario e o fortuito tem uma funcção igualmente inevitavel. É
+certo que o Sr. Oliveira Martins não confunde o fortuito com o
+milagroso, que justamente regeita como irracional. Mas admittindo ser
+impossivel explicar um caso qualquer na sua totalidade, elle introduz um
+elemento d'ignorancia mesmo n'aquella porção da Realidade que é
+confessadamente do dominio da sciencia positiva. É isto que a sua
+notavel theoria do Acaso enuncia com a lucidez propria das operações
+abstractas. Os factos apparecem-lhe certamente formando series e ligados
+entre si pelo nexo da causalidade. Mas o encontro d'essas series
+determina nos pontos de intersecção a apparição de novas formas de
+realidade, cuja existencia a sciencia não póde explicar, visto o
+encontro das series não ser necessario, e cujos aspectos o investigador
+se deve limitar a descrever, abandonando aqui a razão abstracta,
+instrumento adequado á descoberta das leis geraes, pela imaginação
+poetica, visão sufficiente da existencia concreta.
+
+Sem entrar na discussão desenvolvida d'esta theoria, a meu ver inexacta,
+não posso deixar de me demorar um instante com ella. A introducção da
+noção de Acaso como elemento constitutivo da Realidade, quer se
+considere o Acaso como ausencia de leis, quer seja apenas synonymo de
+contingencia no encontro das series naturaes expressas por essas
+leis, significa sempre uma abdicação confessada ou tacita da Razão. A
+previsão dos casos futuros, aferidora da solidez das verdades
+adquiridas, torna-se tão impossivel n'um universo em que a ausencia de
+causalidade implica uma constitucional e incuravel anarchia, como n'um
+mundo em que os factos apparecem, sim, ligados por um nexo abstracto de
+causalidade, mas em que as cousas são aggregados contingentes,
+resultantes da intercorrencia de series independentes. A coherencia
+parcial representada pela existencia d'essas series é inutilisada pela
+ausencia de uma connexão natural que ligue as series n'um systema,
+resultando d'ahi uma incoherencia effectiva como a que torna um cahos o
+mundo concebido pela philosophia de Stuart Mill. Os resultados de uma
+tal doutrina fazem-se sentir logo; e não é difficil dizer porque
+occorrem ás vezes á penna do Sr. Oliveira Martins expressões singulares,
+que levariam a suspeital-o de scepticismo intellectual, se o corpo das
+suas opiniões não desmentisse uma tal hypothese, e se o proprio auctor
+não corrigisse o que as suas expressões possam conter de excessivo.
+Copiarei do prefacio do _Portugal contemporaneo_ estas linhas para
+exemplo: «O profundo e inabalavel reconhecimento das causas que fazem
+dos homens os instrumentos do acaso ou do destino!...» N'este trecho
+está como que visivel toda a theoria. A affirmação das causas não exclue
+a admissão do Acaso e uma extranha reserva coexiste com um
+dogmatismo energico.
+
+A theoria acima exposta contém certamente alguma cousa de verdadeiro;
+para que fosse absolutamente exacta seria preciso completal-a pela
+affirmação de uma solidariedade estructural entre as partes e de uma
+unidade systematica no todo universal. Affirmação esta que tem o seu
+fundamento quer na doutrina da communidade d'origem e identidade latente
+dos elementos da Realidade, quer na philosophia que vê na idéia de
+Systema como no conceito de Causa formas condicionaes do pensamento.
+Admittindo qualquer d'estas hypotheses, o Sr. Oliveira Martins não se
+privava do direito de se conservar n'uma prudente reserva em frente da
+esmagadora complexidade das cousas concretas, antes lhe seria facil
+motivar a sua abstenção com a impossibilidade em que se acha o espirito
+de exgottar por analyses successivas a quantidade infinita de elementos
+que entram na formação do mais insignificante phenomeno. De maneira que
+esta impossibilidade de explicação completa proviria não de uma falta de
+coherencia entre as series causaes, mas de um excesso d'ella. Fundada
+nestas duas idéias, o Universo e o Individuo, é possivel proceder á
+construcção da sciencia positiva. Para conseguil-o deve-se ainda
+recorrer a principios subsidiarios. Não entra no programma d'este estudo
+enuncial-os. Diga-se porém que a noção de jerarchia de causas e a
+comparação entre grandezas de forças são instrumentos adequados á
+resolução do problema.
+
+Seja porém qual for o valor doutrinal d'esta theoria, ella nos interessa
+como documento do espirito que analysamos. Vê-se que o Sr. Oliveira
+Martins encontra na realidade dois principios, um necessario, outro
+fortuito. Quanto ao primeiro o nosso auctor exprime-se categoricamente;
+e investe-o de certeza absoluta; e no fim do seu livro a _Anthropologia_
+escreve o seguinte: «A logica dipensa os prolegomenos da physiologia; e
+todos os progressos passados ou vindouros da anatomia do cerebro não
+alteraram, nem alterarão uma linha só do systema das suas leis. Podemos
+affirmar com afouteza que o que torna certa para nós uma proposição, a
+tornaria egualmente certa para intelligencias tão bem munidas de
+conhecimentos como a nossa: embora com a indispensavel capacidade
+organica, tivessem uma constituição physiologica differente. Com algumas
+circumvoluções mais ou menos no cerebro talvez se não seja capaz de
+comprehender a geometria; mas, sendo-se, a geometria não poderá ser
+diversa da que nos ensinaram Euclides ou Archimedes.» Esta peremptoria
+affirmativa nos revela uma intelligencia que por natureza ou por
+systema, se não deixa immergir nas nevoas da duvida. Quanto á admissão
+de um elemento fortuito na realidade, é conveniente observar que o
+Sr. Oliveira Martins não só o confessa mas ainda o pratica. Com effeito
+nas suas narrações e deducções elle foge ás explicações que se contentam
+com uma só causa; as suas previsões são cheias de restricções. Pegar
+n'um trecho da realidade, despil-o de tudo quanto for accessorio,
+decompol-o n'um pequeno numero de elementos constitucionaes, referil-os
+a um pequeno numero de causas simples, subordinar todas estas causas a
+um só principio explicativo que é razão sufficiente de todo o grupo
+estudado, partir do trabalho feito para formular previsões imperiosas
+semelhantes a ordens dadas ao futuro, são actos proprios das
+intelligencias simplistas e centralistas, de que offerecem um excellente
+exemplo entre nós os primeiros escriptos do Sr. Theophilo Braga. O Sr.
+Oliveira Martins procede de um modo bem diverso. Elle multiplica os
+pontos de vista, não poupa principios novos para explicar novas formas
+de existencia, foge de theorias demasiado simples, e quando formula uma
+lei só admitte a sua futura realisação sob certas condições, abstendo-se
+de uma excessiva confiança na sciencia como explicação do presente ou
+previsão do porvir. Sem tomar as interminaveis precauções, nem ter a
+delicadeza infinita de um Ernesto Renan, por que lh'o não permitte o
+temperamento nimiamente apaixonado da raça, a sua prudencia é grande e
+seria efficaz, se a não prejudicasse o seu exaggerado e contumaz
+espirito de improvisação. Assim como é, não se torna porém difficil
+mostrar a relação que prende os seus habitos d'intelligencia á sua
+concepção da realidade.
+
+
+Nem é menos facil apontar o nexo logico que liga a concepção exposta e
+as tendencias indicadas ao seu habitual e confessado processo de
+indagação. «Não bastam á historia, diz elle, a observação e o systema
+classificador, assim como á sua lingua, não bastam a precisão e a
+clareza; é mister sentir e adivinhar e por no estylo a vida e o calor
+proprios das cousas moraes». E accrescenta: «O historiador não
+reproduzirá a sociedade, se não poder combinar no seu espirito o
+raciocinio que descreve, a intuição que vê a alma que sente.» É mister
+sentir e adivinhar diz o Sr. Oliveira Martins e é o que elle faz de
+preferencia. Alguns verão n'estas palavras um paradoxo ou uma ironia.
+Mas as pessoas versadas no assumpto sabem que ha duas maneiras de
+inventar: Ou se parte da observação das causas e por um laborioso
+processo de raciocinio se sobe aos principios mais geraes que as
+explicam, ou por uma immediata e impetuosa improvisação se descobrem
+estes mesmos principios sem passar por todas as intermediarias logicas
+que são os seus antecedentes naturaes. D'estas duas classes de
+intelligencias, uma fadada para a grande descoberta inconsciente, outra
+predestinada para a perfeita prova efficaz, e que mutuamente se
+completam, porque se uma é a invenção, a outra é a demonstração, o Sr.
+Oliveira Martins pertence á primeira, isto é, apparece-nos antes como um
+poeta, do que como um orador. Certamente elle estuda os assumptos de que
+trata, mas vê-se que as suas theorias derivam menos da erudição que da
+intuição. Póde-se dizer que elle adivinha, se entendermos por
+adivinhação, não uma milagrosa apprehensão de principios impossiveis de
+descobrir por meios naturaes, mas uma veloz e certeira descoberta de
+verdades que seria lento e penoso investigar pelo raciocinio ordinario.
+O nosso auctor pertence, salvo as differenças de grandeza, a essa classe
+d'espiritos, de que são excellentes exemplares Michelet na França,
+Carlyle na Inglaterra, e na Allemanha tantos Allemães. É antes um poeta,
+do que um orador. Porque os attributos proprios da razão oratoria, o
+instincto da ordem, o habito da symetria, o emprego das verdades claras
+e equidistantes, a contextura equilibrada e a velocidade uniforme do
+discurso, a abundancia de argumentos e a efficacia de provas, não são
+visiveis nos seus livros. Pelo contrario, os dons propriamente poeticos,
+a veracidade e a intensidade da visão concreta, a energia da imaginação
+instantanea e intermittente, o vôo desigual e tortuoso do raciocinio, o
+emprego da inspiração, e da paixão como processos de descoberta e
+exposição, saltam aos olhos de quem o estuda. Este genero de
+espirito é fadado, pela sua estructura, ás verdades importantes e aos
+erros frequentes, e nem umas, nem os outros faltam nos trabalhos do Sr.
+Oliveira Martins.
+
+
+D'entre os dotes oratorios acima indicados, e cuja falta notei no Sr.
+Oliveira Martins, um dos mais importantes é certamente o talento e o
+gosto da prova; qualidade esta cuja importancia sobe de ponto, se
+observarmos que a prova é não sómente um instrumento da eloquencia, mas
+ainda um elemento da sciencia. Quem o leu, observou de certo, que elle
+se contenta com expor as idéias, muitas vezes novas, sempre
+interessantes, que lhe occorrem nas suas explorações atravez da
+Historia, sem procurar fundamentar as suas theorias, e tornar evidente
+aquillo que considera como verdadeiro. E não só esta ausencia de provas
+é visivel em questões theoricas, mas ainda em materia de factos.
+Certamente as narrações do Sr. Oliveira Martins tem um cunho d'extrema
+verosimilhança. Artista pela visão das massas e pelo sentimento dos
+conjunctos, elle sabe adequar os pequenos factos que escolhe ao effeito
+final que deseja, e nos seus livros a harmonia do todo garante a
+veracidade das partes. Mas salvo esta garantia que é commum ao romance
+que se imagina, como á historia que se narra, nada merece nas suas obras
+o nome de demonstrado. Nem a immensa accumulação dos factos
+averiguados, nem a enumeração completa dos documentos compulsados, nem a
+discussão e a critica das fontes exploradas, vem dar á sua narração o
+cunho da certeza. Entrando num assumpto vai direito ao amago d'elle, e
+depois de traduzir a viva impressão recebida, com uma abundancia extrema
+de pormenores sensiveis, n'um quadro que se grava na memoria, passa a
+atacar outro assumpto e a pintar outro quadro, sem procurar convencer o
+leitor da efficacia da analyse e da fidelidade da pintura. No seu desdem
+de artista e no seu orgulho de inventor, parece crer que a evidencia é a
+atmosphera da intelligencia e repelle a prova como um pleonasmo. Nenhum
+dos nossos escriptores merece mais ser lido, nem carece mais de ser lido
+com cautela.
+
+
+
+
+IV
+
+OS SENTIMENTOS
+
+
+Estudada a sua intelligencia passemos a estudar a sua sensibilidade;
+esta não é menos interessante do que aquella.
+
+Qual é o numero, a força, a especie das suas emoções? Certamente ellas
+são numerosas. A emoção é um estado habitual da sua alma. Qualquer que
+seja o assumpto de que se occupa, a paixão abunda. Isto é visivel
+sobretudo pelo tom do seu estylo. Historia ou critica, jornal ou
+theoria, tudo quanto escreve é animado por um sopro quente de commoção
+sincera. Nenhuma idéia lhe apparece como um simples objecto de
+comprehensão, mas como uma verdadeira fonte de impulsões.
+
+Frequentes e intensas. Basta percorrermos os seus livros, mesmo de
+relance, para nos convencermos que a força das suas emoções é tão grande
+como a sua constancia é perfeita. Vehementes sempre, violentas
+muitas vezes, ellas constituem pela sua multiplicidade e continuidade um
+estado habitual de exaltação da sensibilidade. Dotes estes, que ligados
+á sua capacidade de visão, concreta e ao seu vivo sentimento dos totaes,
+dão a este historiador um alcance de artista e fazem d'este publicista
+um verdadeiro poeta.
+
+Ardentes e frequentes. Até aqui não vimos das suas emoções senão a
+quantidade, e isso mesmo dentro d'aquelles limites de imperfeita
+approximação que não é dado á Psychologia transpor. Vejamos agora a sua
+qualidade, isto é a especie dos sentimentos, e ordem dos agrupamentos.
+
+Sem duvida essas emoções são tristes. O bem estar em frente da
+realidade, a alegria de viver, não são sentimentos proprios do seu
+espirito. A gravidade e a tristeza que elle considera como qualidades da
+alma portugueza, são-no tambem da sua mesma alma. Se a dor é um maximum
+de sensação, a extrema sensibilidade é um principio de soffrimento.
+
+Capaz de emoções frequentes e vehementes, e propenso a emoções graves e
+tristes, vejamos que sentimentos são despertados n'elle ao contacto dos
+objectos, como elles se combinam com as ideias, quaes d'entre elles se
+transformam em paixões, e são capazes pela sua persistencia e efficacia
+de lhe governarem a actividade.
+
+Certamente não é a belleza physica que se impõe á sua admiração.
+Escriptor de imaginação psychologica, a harmonia das linhas e o
+esplendor das côres deixa-o insensivel. Nós só nos commovemos com
+aquillo que percebemos, e a nossa sensibilidade é solidaria com a nossa
+intelligencia. Por isso no espirito que analyso, o enthusiasmo franco em
+frente da magnificencia da materia, a sympathia ardente pelo livre jogo
+das forças naturaes, não são visiveis. Se o Paganismo significa o amor
+da vida corporal e o predominio da actividade instinctiva, em
+contraposição com o Christianismo, considerado como uma reacção
+espiritualista, e uma repressão systematica das paixões organicas, não
+se lhe poderia chamar pagão. Mas a solidez da sua razão prática e a
+energia das suas tendencias moraes prohibe que o consideremos christão.
+Não é christão porque é mais largamente humano.
+
+Em parte nenhuma isto se verifica melhor do que na sua concepção do
+amor. A psychologia das paixões mostra que este sentimento é o mais
+complexo, e portanto o mais instructivo documento que se póde explorar
+para a intelligencia de um coração. Não temos do Sr. Oliveira Martins
+uma colleccão de poesias lyricas onde possamos estudar todos os
+cambiantes, de que um tal sentimento se reveste ao passar pelo seu
+espirito. Mas n'essas admiraveis paginas finaes da Historia romana, em
+que o philosopho resumiu as suas idéias sobre a Vida, e o poeta poz
+a nú a sua alma, a confissão involuntaria vale por um documento
+especial. Ora de todos os elementos que podem entrar na composição
+d'esta paixão, elle só vê dois: o instincto animal e a compaixão. A
+energia dos seus instinctos moraes regeita o primeiro como inferior, e a
+mulher apparece-lhe não como um arrebatamento dos sentidos, uma
+satisfação do orgulho, um objecto de posse, um assumpto de analyse, uma
+visão divina imposta á admiração do artista, mas como um ente digno de
+piedade e necessitado de protecção. Alguma coisa de viril e triste
+caracterisa esta concepção. Ella é propria dos homens em que o dom da
+analyse perspicaz está ligado a vigorosos instinctos moraes.
+
+É que a energia da affirmação moral dá a chave d'este caracter. Esta
+energia de affirmação é tanto maior quanto no espirito de que nos
+occupamos ella não é uma força cega, mas coexiste com a vasta
+intelligencia comprehensiva e a grande curiosidade activa. Sentimentos e
+idéias tudo está nelle submettido a uma forte disciplina e subordinado a
+um plano determinado por uma livre resolução. Um vivo sentimento da
+dignidade humana, um amor apaixonado da justiça, brilha na sua Historia.
+Em balde a sua penetrante intelligencia lhe mostra o mechanismo dos
+factos sociaes e a majestade das causas permanentes. A energia da sua
+sensibilidade persiste a despeito da efficacia da analyse, e n'elle
+a philosophia não annulla o sentimento moral. Vinte vezes nas suas
+narrativas os movimentos de admiração ou colera, de indignação ou
+compaixão, cortam a exposição dos successos. Bem que veja a fatalidade
+do curso dos acontecimentos, não pode resignar-se á exposição
+desinteressada e calma. Padece e triumpha com os seus personnagens e
+sobre tudo admira com vehemencia os seus heroes. É preciso ler no
+_Portugal Contemporaneo_ a historia de Manoel Passos para ver como a
+energia de uma qualidade estructural resiste a toda a acção da cultura,
+e reapparece nos momentos decisivos. Este profundo psychologo, este
+historiador que explica os conjunctos pelas causas, pára de repente,
+soltando um applauso ou lançando um sarcasmo. A grande curiosidade
+indifferente que considera as almas como theoremas, e as sociedades como
+systemas, e que não vê no mundo senão um mechanismo a explicar, não é a
+forma propria da sua actividade mental. O Sr. Oliveira Martins está
+isento d'esta magnifica e perigosa exageração, pela sua robusta saude
+moral, pelo equilibrio estavel das suas faculdades. Incapaz de ver no
+Universo um ser divino a adorar, ou um simples mechanismo a
+comprehender, igualmente afastado da sensibilidade religiosa como da
+sensibilidade philosophica, escapa ás duvidas e incertezas inherentes á
+falta de solução do problema da Vida, pela energia da vontade e pelo
+habito da acção. E em quanto o seu amigo Anthero de Quental,
+impellido pela intemperança desmedida dos seus desejos, pela grandeza e
+incoherencia dos seus instinctos metaphysicos, rolava pela ladeira do
+pessimismo ao abysmo da negação, o Sr. Oliveira Martins não mais feliz
+do que elle na solução dos problemas da Existencia, appellava para a
+força intima da sua alma, e resignava-se a acceitar a vida sem protestos
+vãos nem gigantescas indignações.
+
+Comtudo seria um erro consideral-o um stoico. Para sel-o, falta-lhe
+aquella perfeita afinação da intelligencia com a vontade, que segundo a
+sua propria definição constitue o caracter. Herculano, poeta da Energia,
+pôde sel-o; não o Sr. Oliveira Martins, psychologo por officio e que tem
+visto a vida e a historia com olhos de philosopho. A capacidade de fazer
+reviver em si os alheios sentimentos e paixões, e o habito de os
+comprehender e explicar como factos naturaes, determinados por causas,
+se não é bastante para abafar n'elle os movimentos do coração, e leval-o
+a observar o mundo com a indifferença immoral dos artistas, impedem
+contudo a faculdade da convicta approvação ou reprovação que constitue o
+fundo do estoicismo. A Justiça é para elle um amor, não um dogma.
+
+A palavra que define a alma do estoico, é o orgulho, diz o Sr. Oliveira
+Martins. O orgulho transcendente, isto é, o sentimento proprio de quem
+julga possuir a verdade absoluta e resolve applical-a com um rigor
+absoluto. Bem diversa é a palavra que resume um caracter como o do Sr.
+Oliveira Martins. Esta é a Ironia, resultado natural da superioridade
+intelligente. A Ironia é tambem uma especie de orgulho, mas bem
+differente do estoico, porque é temperado pela piedade e pelo desdem.
+São estes os sentimentos que apparecem cada vez mais claros nos seus
+ultimos livros e tem a sua mais perfeita expressão no retrato
+maravilhoso de Cesar. É a Ironia aquelle estado da alma, que nelle
+provocam e confirmam dia a dia a experiencia e a cultura, o sentimento
+com que elle se mune para a travessia da Historia e para a campanha da
+vida. Foi este o sentimento que lhe dictou estas linhas á portada do seu
+livro mais original e que mais apaixonou a critica: «O exame dos nossos
+tempos apenas lhe provocou (ao auctor) expressões d'aquelles sentimentos
+que são compativeis com a serenidade da critica: uma ironia sem maldade,
+uma compaixão sem orgulho, pelas repetidas miserias dos homens; ás
+vezes, uma sympathia e um respeito singulares por certos individuos
+excepcionaes. Ironia, compaixão, sympathia, respeito,--moderadas
+commoções, com que é licito acompanhar o estudo, sem prejudicar a
+lucidez da vista--não impedem comtudo, que acima d'estas impressões
+fugitivas se colloque o profundo, inabalavel reconhecimento das causas
+que fazem dos homens os instrumentos do acaso ou do destino.»
+
+
+A estructura do nosso espirito revela-se na especie do nosso ideal, e a
+nossa concepção da ventura deriva da nossa concepção da vida. Todos os
+sentimentos que no Sr. Oliveira Martins desperta a realidade e todas as
+opiniões que elle tem sobre as cousas, estão resumidas nas paginas
+finaes do seu ultimo livro (_Historia Romana_). É alli visivel o que ha
+de mais importante na sua alma, posto a nú por um psychologo, mestre na
+arte de pintar caracteres. O que elle pensa da paixão e do dever, da
+sciencia e da acção, do Universo e do eu, a sua idéia da vida e o seu
+ideal da vida, está expresso nesta curta pagina, em traços breves e
+profundos, a que a concisão do escorço exalta a energia. E não vejo
+melhor modo de fechar esta analyse, que é uma tentativa de autopsia
+moral, do que copiar este retrato que equivale a uma confissão espontanea.
+
+
+«Aquelle que, sem ter de esmagar desapiedadamente os sentimentos e
+paixões da sua natureza, sem ter de partir a mola interior que o torna
+um ser vivo, consegue mitigar, moderar, ponderar ou equilibrar os
+impulsos do seu sangue com os dictames das suas idéias, sanccionando
+paixões e pensamentos com a luz inextinguivel dos instinctos moraes e do
+senso esthetico; olhando para si proprio e para as angustias, para as
+dores e para as feridas da sua vida com uma commiseração vizinha do
+desdem; olhando para o proximo e para o mundo, sem desprezo nem orgulho,
+mas com a ironia caridosa que se deve a todas as cousas
+involuntariamente inferiores; contemplando finalmente com uma
+curiosidade placida e discreta o nevoeiro dos mysterios e problemas que,
+sondados, endoudecem, e de que é mister fugir, como dos abysmos cujas
+vertigens hallucinam ou embrutecem; esse homem, por fóra activo, por
+dentro como que apathico, por vezes, e só por vezes, atacado de tedio,
+mas sabendo que não deve nem póde aborrecer a vida: esse homem é o unico
+verdadeiramente feliz.... Ser feliz depende de um acto da intelligencia
+e da vontade, independentemente das circumstancias exteriores da
+vida.»
+
+
+
+
+V
+
+O ESCRIPTOR
+
+
+Habitos de intelligencia e movimentos de sensibilidade, tudo se reflecte
+nos seus processos de escriptor. Como um cardiographo delicado que
+regista e conta as mais imperceptiveis pulsações do espirito, assim é o
+estylo. Tão sómente pela analyse d'elle podiamos chegar ás conclusões a
+que nos levou o exame directo das opiniões e paixões; feito este, as
+paginas que se seguem só podem confirmar as verdades que se enunciaram e
+este capitulo, é menos uma indagação do que uma prova.
+
+Que especie de estylo é esse? Um escriptor de imaginação oratoria e
+gostos decorativos como o Sr. Latino Coelho, exprime-se n'uma linguagem
+adequada pela sua regularidade e sumptuosidade ás aptidões e tendencias
+do espirito que a emprega, e ás necessidades e utilidades do fim para
+que se destina. Leia-se o seu derradeiro discurso. Os vocabulos graves
+como fidalgos e compostos como hallabardeiros, as immensas phrases
+roçagantes comparaveis a reposteiros de damasco, a amplitude e
+disciplina da syntaxe, a abundancia e efficacia das incidentes, a
+extensão e o aprumo dos periodos, o predominio do pensamento abstracto
+sobre a imaginação pittoresca, a perpetua representação do thema e a
+perfeita convergencia das provas, a unidade no todo, a proporção nas
+partes, a equidistancia nos termos, e a uniformidade na marcha do
+raciocinio, a majestade curul e a graça talar do discurso, revelam um
+homem apto e propenso para a prosa regular, a dissertação erudita, o
+elogio historico, a oração academica, e para todos os generos que
+requerem o gosto da pompa e o sentimento da gravidade, a correcção, a
+riqueza e a ordem, o respeito continuo de si e dos outros, uma especie
+de prodigalidade elegante e de arte sem nervos, a preferencia dada á
+erudição sobre a sciencia, e á rethorica sobre a poesia, a capacidade
+das idéias geraes exercendo-se em logares communs, qualidades que
+manejadas por um talento superior e postas ao serviço de um grande
+interesse, podem produzir verdadeiros monumentos litterarios.
+
+Bem diverso é o estylo do Sr. Oliveira Martins. Nada de menos grave, de
+menos pomposo e respeitoso. Elle escreve como fala, e fala como acha. O
+seu processo é a notação directa dos sentimentos presentes; a sua
+linguagem, a algebra nua da paixão. Rapida, irregular, tortuosa, brusca,
+insolente e indecente, burlesca e sublime, composta de palavras que
+se empinam por se verem juntas, feita de phrases de todos os tamanhos e
+feitios, galopa ou vôa a sua prosa. Nada de mais agil e vivo. Ás vezes,
+a suppressão dos elementos grammaticaes produz extranhos escorços, e a
+phrase contrae-se como um musculo. Outras os pleonasmos batem o pé, e a
+repetição encrava a convicção, como um martello percutindo um prego. Ás
+vezes a inversão dá extranhas posturas á linguaguem, e os periodos
+rugem, crucificados com os pés para cima. A grammatica violada debate-se
+n'um tetano. As imagens soberbas ou ignobeis pullulam de todos os lados,
+trazidas dos palacios ou das tabernas, como um rebanho de conscritos
+arrastados para a batalha. E todo o livro avança, semelhante a um
+couraçado de combate, replecto do convez ao porão, n'um turbilhão de
+estrondo e espuma, precipitado pela massa e armado da velocidade, e
+levando na caldeira abrazada um foco de força e um perigo de explosão.
+
+Esta é a primeira impressão; profundemol-a, completando o juizo
+litterario pela analyse critica, e substituindo a linguagem imaginosa
+pela notação exacta, instrumento condigno do trabalho scientifico.
+
+Tres pontos ha a considerar na analyse de um estylo; o vocabulario, isto
+é, o conjuncto de elementos ultimos do discurso; a syntaxe, isto é,
+a ordem em que estes elementos estão dispostos para constituirem o
+organismo da expressão; e as figuras, isto é, os expedientes necessarios
+para supprir as lacunas do vocabulario ordinario e da syntaxe regular.
+
+Mas antes de mais nada, observemos que o Sr. Oliveira Martins não possue
+o genio verbal, isto é, aquella facilidade de imitação e invenção de
+formas da linguagem, que em alguns dos nossos escriptores substitue e
+simula a intelligencia e a sensibilidade ausentes. Supponho que como os
+dois grandes historiadores a que o tenho comparado, Michelet e Carlyle,
+elle teve uma extrema difficuldade de exposição, no principio da sua
+carreira litteraria; pelo menos esteve muito longe de possuir aquella
+segurança e nitidez da palavra, aquella capacidade de adequar
+exactamente a expressão á intenção que caracterisa os verdadeiros
+temperamentos de escriptor. É porem justo dizer-se que sob este ponto de
+vista, como sob todos os mais, os livros do Sr. Oliveira Martins
+manifestam um progresso consideravel. A sua _Historia Romana_ é um
+monumento litterario. Mas essa lacuna constitucional e o habito da
+improvisação impedem que as paginas perfeitas abundem nos seus
+escriptos; e possuindo em alto grau a força e a vida, carece de
+majestade e graça.
+
+Em primeiro logar, o seu vocabulario não é numeroso; não se manifesta
+nos seus livros aquella abundancia, que no Sr. Ramalho Ortigão
+provém de um forte estudo do lexicon, e no Sr. Camillo Castello Branco
+de uma memoria verbal extremamente feliz. As palavras vagas não
+escasseiam nos seus escriptos mesmo exprimindo ideias precisas. Com as
+palavras vagas, os termos improprios que falseiam a expressão e tornam
+necessaria a decifração. Os vocabulos extrangeiros ou mesmo nacionaes
+tomados n'uma accepção extranha á lingua lançam manchas desagradaveis na
+tela do discurso. As expressões synonimicas e as emendas que elle faz
+seguir ás expressões originaes, parecem indicar que o proprio auctor
+sente que não exprimiu cabalmente o seu pensamento; e se muitas vezes a
+accumulação de expressões novas para formular a mesma idéia, manifesta a
+paixão obstinada e a convicção activa, muitas outras significa sómente a
+consciente escassez de recursos do escriptor.
+
+Dois typos syntacticos se notam nos escriptos do Sr. Oliveira Martins.
+Um é o grande periodo regular, de que elle se serve ordinariamente nos
+seus trabalhos didacticos, e de que se póde observar um bom exemplo no
+prefacio do _Hellenismo e a Civilisação christã_. A ausencia de aptidões
+e gostos oratorios impede que o Sr. Oliveira Martins prime n'esta forma
+de discurso. E diga-se a verdade, poderiamos percorrer os escriptores
+portuguezes antigos ou contemporaneos sem encontrarmos muitos exemplares
+de prosa perfeita, taes como abundam na litteratura franceza. O ar
+latino da nossa prosa classica póde illudir á primeira vista. Mas quem a
+submetter á analyse verá que não encontra nella aquelle habito de
+decompor as idéias e passar gradualmente por todos os seus elementos,
+que constitue um dos caracteristicos principaes da prosa franceza.
+
+O outro typo syntactico é o inciso, a phrase curta e entrecortada,
+offegante. Ella se obtem suspendendo continuamente o pensamento,
+supprimindo os desenvolvimentos das idéias, e até as particulas
+grammaticaes, pronomes, artigos e conjucções. A phrase elliptica tem
+movimentos convulsivos de ave decapitada, e os elementos do discurso
+trocam vivamente os logares como os raios de uma roda. Esta é a forma
+adequada a um temperamento litterario como o Sr. Oliveira Martins. É
+nesta forma que elle vasa as suas descripções e narrações. As ellipses,
+as repetições, as inversões, a ausencia completa de todas as figuras de
+symetria, conspiram no mesmo sentido, e não é difficil mostrar como
+sendo os sobresaltos da machina nervosa irregulares e instantaneos, é
+esta a prosa que convem ao escriptor e á obra que analysamos. Leia-se
+esta descripção do incendio nos armazens de Gaya. «Posto o fogo ao
+rastilho, começou breve a pyrotechnia, allumiando a noute. Começou por
+uma explosão tremenda, donde sahiram labaredas e rolos de fumo rapido. O
+vento animado impellia a chamma. E as pipas estalando troavam como
+canhões. Singular batalha! O vinho rolava em cachões, da praia sobre o
+rio que ia tinto de vermelho como sangue. As labaredas subiam e a vasta
+seara de fogo batida pela aragem, ondeando, crescia, andava.
+Incendiados, como lavas de um vulcão, desciam ao Douro, os liquidos
+espirituosos e chocando as aguas repelliam-nas, entrando nellas como um
+cabo. Parecia uma tempestade geologica. A agua do rio fervia, fumava; e
+fluctuando sobre a agua, vogava á mercê da corrente um lançol de chammas
+rubras.» A phrase tem a velocidade, a mobilidade, a plasticidade da
+chamma, e o foco moral donde ella brota não é menos ardente e vivo.
+
+
+Os outros expedientes litterarios convergem no mesmo sentido. E antes de
+mais nada, a ausencia das figuras de dicção, que estabelecem uma
+symetria visivel e um equilibrio extrinseco do discurso, revela um
+espirito pouco sensivel á harmonia verbal e ás seducções da rhetorica. O
+epitheto, esse instrumento de que tanto se abusa, é raro, e quasi sempre
+pittoresco e novo. Mas os tropos abundam, como convem a um estylo que é
+a manifestação de uma alma audaciosa e ferida vivamente pelos aspectos
+das cousas. Ás vezes n'uma fria dissertação de direito publico ou de
+economia politica uma imagem fulgura magnificamente, como uma
+papoula n'um trigal. Assim depois de expor o admiravel regimen de
+federação municipal que consolidava e completava a conquista romana,
+exclama num rapto de poeta: «Roma é a capital: está no pincaro da
+montanha ideal em cujas encostas por estradas espiraes se desenrola a
+procissão das gentes e cidades que sobem». Assim depois de pintar a
+angustiosa situação do paiz na primavera de 47, escreve referindo-se ao
+abuso da emissão fiduciaria, «Havia em Lisboa uma grande miseria, uma
+carestia excessiva de tudo, um doloroso mal-estar, perseguições e
+recrutamentos, os batalhões sempre em armas, e fluctuando, as notas,
+como os trapos de neve caindo, cobrindo tudo, nos dias mornos que
+precedem o desencadear da tormenta.» E as metaphoras como estas abundam
+ou magnificamente desenvolvidas n'uma pagina, ou ardendo concentradas
+n'um verbo e n'um epitheto.
+
+A mesma vehemencia de imaginação e paixão produz e explica as
+apostrophes ao leitor e aos personnagens da sua historia, as
+interrogações, as exclamações, as reticencias, as prosopopéias, os
+bruscos saltos, a falta de clareza, as referencias a factos que se calam
+e que o escriptor julga conhecidos. Esta energia de habitos vai tão
+longe, que se exerce sobre porções dos seus livros que parece deveriam
+escapar a ella. Copio do _Portugal contemporaneo_ estes titulos de
+livros e capitulos: _Fuit homo missus a Deo; Sic itur ad astra; O
+principio do fim; Væ victis; Os impenitentes; A raposa e suas
+manhas._ Quando lança um olhar retrospectivo sobre o conjuncto da sua
+obra, não encontra uma serie de idéias precisas, mas um tumulto de
+visões inflammadas. Por isso escasseiam os summarios, os resumos e todos
+os expedientes destinados a precisar as doutrinas e fixal-as na memoria.
+Este escriptor faz imagens e sarcasmos até nos indices.
+
+Tal é esse estylo: irregular, tortuoso, familiar, apaixonado e vivo.
+Para o conhecermos cabalmente não recuamos perante a minuciosa analyse
+das formas grammaticaes e dos expedientes litterarios, mas fizemol-a
+como psychologo e não como rhetorico. O espirito philosophico é o dom da
+analyse e da synthese, e a sciencia deve reunir como a aguia as garras
+penetrantes ás largas azas.
+
+
+
+
+VI
+
+O HISTORIADOR
+
+
+Composto assim o seu espirito só resta a deduzir a sua obra e demonstrar
+a solidariedade que prende aquelle a esta, considerando-o
+successivamente como historiador e como politico.
+
+Se ha trabalho que pela sua complexidade e difficuldade assoberbe a
+imaginação de quem o intenta, e exija a maxima energia da parte de quem
+o realisa, é certamente o trabalho historico. Só examinando esta
+complexidade e difficuldade poderemos fazer idéia da variedade dos
+recursos empregados e da quantidade de força dispendida pelos grandes
+historiadores.
+
+Para isto, basta considerar que a Historia é a visão intelligente dos
+phenomenos sociaes. Toda a formidavel complicação dos trabalhos
+historicos deriva do simples exame d'esta formula.
+
+E antes de tudo, observemos que o aggregado social é dado em relação a
+um meio physico e constituido por unidades vivas, o que torna
+necessario o conhecimento das sciencias inorganicas e organicas. A
+posição da sociologia na serie gerarchica das sciencias exige, nos que a
+cultivam, a posse das verdades que logicamente a condicionam. E desde os
+principios mais abstractos da Quantidade e da Forma até os factos
+relativamente menos simples da Anthropologia, tudo concorre para a
+explicação dos phenomenos sociaes. Os exemplos abundam e são faceis de
+adduzir. A doutrina da população não se póde constituir sem a theoria
+algebrica das series e o calculo arithmetico dos logarithmos. A relação
+geometrica que n'uma dada figura prende a grandeza da area ao valor do
+perimetro, é um elemento a considerar na comprehensão do engrandecimento
+d'um territorio. As leis que ligam o crescimento do organismo á massa do
+planeta e regem a distribuição do calor, da luz e porventura da
+electricidade á superficie da terra, forçosamente exercem uma
+intervenção activa no curso da Historia. Os dados geologicos que
+enunciam a natureza actual e as transformações futuras da crosta
+terrestre, não são indifferentes á explicação dos phenomenos que a tem
+por theatro; a theoria dos ventos interessa á historia da navegação de
+muitos povos, e a dos terremotos á vida d'alguns. Finalmente as leis que
+regem á existencia dos seres vivos, influem profundamente no corpo
+social, visto o homem ser um animal, e fazem do conhecimento da Biologia
+a condicção immediata e indispensavel do estudo da Sociologia. Assim
+toda a massa das verdades adquiridas pela Sciencia vem illuminar directa
+ou indirectamente o caminho que o historiador tem de percorrer. (V.
+Spencer, Intr. á sciencia social; A. Comte, Curso de Philosophia positiva.)
+
+A todas estas difficuldades que resultam da variada e completa
+preparação em que se deve basear o historiador, é preciso juntar ás
+difficuldades intrinsecas, as que provém da natureza intima da Historia.
+
+Em primeiro logar, a Historia é uma sciencia moral, isto é, versa em
+ultima analyse sobre factos mentaes, sentimentos e idéias. O ser um
+estudo da alma humana é a primeira e mais grave fonte das difficuldades
+inherentes a esta ordem de investigações. Com effeito os phenomenos
+mentaes, quer os propriamente intellectuaes, quer os puramente
+emocionaes, se apresentam investidos de um duplo caracter que os torna
+eminentemente rebeldes a uma exacta observação. De um lado, a sua mesma
+natureza de phenomenos interiores, do dominio da consciencia, exige um
+dom especial, um sentido que nem todos possuem sufficientemente
+desenvolvido. D'outro lado, o composto mental é extremamente complicado
+e cada phenomeno de que se compõe se resolve por seu turno n'um numero
+enorme de elementos, que como taes caem fora do campo da consciencia,
+onde só apparecem os totaes. A velocidade extrema das reacções
+cerebraes, corresponde a esta complexidade formidavel de que dão apenas
+uma vaga ideia os phenomenos que constituem as funcções propriamente
+biologicas.
+
+Accrescentem-se a estas difficuldades resultantes da natureza do
+individuo, as provenientes da natureza do aggregado social. Se é certo
+que em ultima analyse a Sociologia se reduz á Psychologia, é tambem
+certo que as opiniões e paixões individuaes são continua e vigorosamente
+modificadas pelas paixões e opiniões adjacentes, e que o espirito de
+cada um apparece como um espelho da sociedade inteira de que faz parte.
+Quando o aggregado social é bastante extenso a complicação resultante da
+sua grandeza é tal que parece desafiar o poder da analyse.
+
+Junte-se ainda a difficuldade que resulta de se considerar uma sociedade
+não num momento dado, mas na sua evolução atravez de muitos seculos.
+Seguir um aggregado tão multiplo nas suas continuas e imperceptiveis
+transformações de momento para momento, determinar as causas
+variadissimas e occultas d'essas transformações, marcar as forças
+superiores cuja permanencia determina a identidade de um povo atravez de
+todas as suas metamorphoses, produzindo essa consciencia social bem mais
+difficil de se estabelecer e bem mais facil de se destruir do que a
+individual, é uma empresa comparada á qual, qualquer trabalho
+scientifico é relativamente facil.
+
+Considere-se finalmente que a Historia é uma sciencia concreta, isto e,
+descriptiva e narrativa. Este derradeiro traço é origem de grandes
+difficuldades na indagação e sobretudo na exposição das verdades
+historicas. Mesmo nas sciencias inferiores essas difficuldades são
+grandes. Por exemplo, em Astronomia é relativamente facil indicar as
+forças que determinam a harmonia do nosso systema solar; mas mostrar a
+evolução, pela qual elle se veiu transformando até se constituir como
+existe actualmente, é uma tarefa d'outra ordem que não comporta o mesmo
+grau de precisão; a hypothese da nebulosa está privada da certeza de que
+se acha investida a theoria da gravitação, e a hypothese das
+agglomerações meteoricas inventada por Julio-Roberto Meyer, prova a
+necessidade de tornar a doutrina de Laplace mais adequada á realidade
+completando-a com principios subsidiarios. Semelhantemente nas sciencias
+inorganicas, o methodo experimental permitte demonstrar com efficacia
+uma lei de barologia ou thermologia; mas a applicação d'essas leis para
+a explicação da historia passada e constituição actual do globo, não tem
+a mesma segurança; a Geologia está longe de attingir o estado de
+adeantamento da Physica e da Chimica, sciencias em que ella se baseia; a
+doutrina das geleiras não se acha constituida com a mesma perfeição
+que a theoria da irradiação do calor. Em Biologia verifica-se o mesmo.
+Em quanto se tratam de indagar as leis abstractas da morphologia e da
+physiologia vegetal e animal, as difficuldades são grandes mas
+superaveis graças ao emprego da observação, da experimentação e da
+comparação; mas quando se trata de explicar a existencia das plantas e
+animaes taes como realmente são, as difficuldades crescem de ponto e
+inversamente diminue a precisão e certeza das doutrinas enunciadas; a
+hypothese de Darwin sobre a evolução dos organismos não póde aspirar á
+mesma convicta adhesão que o principio de Milne Edwards sobre a divisão
+do trabalho physiologico. Semelhantemente as difficuldades de
+investigação inherentes á natureza e complicação dos phenomenos sociaes,
+com serem enormes, são pequenas, comparadas com as que apresenta o
+estudo da Historia propriamente dicta. E abaixo dos philosophos nenhuma
+classe de espiritos arca com tamanhas difficuldades, incorre em tão
+graves responsabilidades, nem se reveste de uma tão alta dignidade
+scientifica como os historiadores.
+
+Para vencer tão grandes difficuldades, o historiador deve fecundar por
+uma vasta preparação geral e technica um espirito extremamente complexo
+e profundo. Qual seja essa preparação geral deriva da indicação acima
+feita dos estudos subsidiarios que condicionam o conhecimento da
+Sciencia social. A preparação technica resulta semelhantemente da
+propria natureza da Sciencia social. Elle suppõe o conhecimento exacto
+dos factos adduzidos e a sua classificação methodica em grupos naturaes.
+Quanto aos dotes de espirito o historiador deve conter um sabio e um
+artista. A capacidade de observação exacta dos factos particulares deve
+estar ligada á faculdade das idéias geraes; e além d'isso a imaginação
+pittoresca que permitte a representação nitida e colorida das paysagens
+que constituem o palco da Historia, ha de ser completada pela imaginação
+psychologica que faz a alma dos individuos e povos que são os
+protogonistas da Historia. Finalmente o grande historiador deve ser um
+grande escriptor e empregar um estylo que reuna á precisão propria do
+trabalho scientifico, o colorido proprio das descripções, e o movimento
+proprio das narrações.
+
+Comparemos este modelo do historiador ideal com o retrato já traçado do
+Sr. Oliveira Martins e veremos o que elle tem e o que lhe falta.
+
+O seu saber é vasto inda que incompleto. Os volumes publicados da sua
+_Bibliotheca das Sciencias sociaes_ e os annunciados no programma,
+revelam que o Sr. Oliveira Martins tem consciencia da importancia e
+largueza de estudos com que se deve preparar para o trabalho historico.
+Comtudo seria para desejar que o auctor conservasse ineditos os livros
+em que a sua originalidade e competencia são contestaveis, e
+estudando convenientemente os assumptos sobre que elles versam, se
+abstivesse de tratar publicamente sciencias de que só se podem occupar
+com auctoridade os especialistas.
+
+No que toca á exactidão dos factos enunciados nos seus tratados de
+historia nacional, constituidos pela _Historia da Civilisação Iberica_,
+a _Historia de Portugal_, e o _Portugal Contemporaneo_, o Sr. Oliveira
+Martins não tem o habito de enumerar os documentos compulsados e
+discutir as fontes exploradas. As notas, que nas grandes historias
+classicas acompanham e comprovam as affirmações feitas no texto, não
+apparecem na sua obra. É verdade que historiadores como Mommsen e
+Curtius supprimiram nos seus livros monumentaes a bagagem das
+demonstrações; mas esses historiadores já tinham assignalado a sua
+actividade de investigadores em numerosas dissertações especiaes, e
+accumulado materiaes que serviam de base ao auctor e de garantia ao
+leitor. Considere-se ainda que escreviam sobre assumptos largamente
+explorados. O Sr. Oliveira Martins occupando-se da historia de Portugal,
+deveria redobrar de precauções no que toca ás provas. Mas acceitando-a
+tal como está escripta, e lastimando que ella não seja mais extensa,
+observaremos que a conhecida assiduidade ao trabalho e a sinceridade
+certa do Sr. Oliveira Martins, são consideraveis garantias da veracidade
+das suas asserções.
+
+Quanto as aptidões cujo conjuncto constitue o seu espirito, já vimos que
+o Sr. Oliveira Martins possue a imaginação dos movimentos, das massas,
+das forças e que as suas paysagens representam as expressões moraes dos
+aspectos physicos; e que além d'isso possue a capacidade e o habito de
+explicar os aspectos physicos como mechanismos naturaes. Se reflectirmos
+que estas duas aptidões exgottam a noção do scenario historico,
+considerado como um conjuncto de causas efficazes actuando sobre
+espiritos, veremos que o Sr. Oliveira Martins está apto pela imaginação
+pittoresca e pela razão abstracta a descrever e explicar o _meio_ dos
+successos que narra. Semelhantemente e ainda melhor a sua admiravel
+imaginação psychologica habilita-o a ver o interior das almas
+individuaes e collectivas que põe em scena. Essa imaginação, integral e
+intensa, prima na representação das emoções, e como a maioria das acções
+é determinada por emoções, resulta d'ahi que o Sr. Oliveira Martins está
+apto para representar o _agente_ da _Historia_, como representara o seu
+_meio_. E o mesmo poder de abstracção que lhe permittira comprehender as
+relações geraes entre os factos physicos, lhe faz ver o nexo logico que
+determina as coexistencias e as sequencias dos factos moraes.
+
+Vimos que o seu estylo era destituido de ordem, precisão e clareza, e
+que abundava em movimento, força e vida. A ausencia das primeiras
+qualidades prejudica a sua Historia considerada como obra de
+sciencia, e impede que ella se possa considerar como obra de
+vulgarisação. A presença dos outros dotes dá-lhe um valor raro como obra
+de arte. O seu vocabulario trivial, technico, fornecido em todos os
+recantos da vida, permittir-lhe-á fazer descripções coloridas e supprir
+pela abundancia de pormenores concretos a nitidez ausente que lhe daria
+a ordem que não possue. A syntaxe rapida e tortuosa permittir-lhe-á
+fazer narrações dramaticas e vivas e acompanhar pela marcha offegante e
+irregular dos periodos a successão precipitada e sempre nova dos
+acontecimentos. Finalmente todos os outros expedientes de composição
+revelando o sentimento do real e a paixão intensa convergem no mesmo
+sentido; e a mesma solidariedade que prende a sua obra á sua imaginação
+e á sua sensibilidade, liga a ella o seu estylo.
+
+
+
+
+VII
+
+O POLITICO
+
+
+Tendo escripto a Historia de Portugal, o Sr. Oliveira Martins resolveu
+continual-a e naturalmente o pensamento conduziu-o á acção.
+
+Não entra no programma d'este estudo occupar-me de assumptos de politica
+contemporanea, sobretudo quando trato de um homem cuja carreira publica
+apenas começa. Mas fazendo um trabalho de psychologia e não de simples
+critica litteraria, não me é licito calar uma das manifestações mais
+importantes do espirito que analyso. Porém indicarei apenas o valor dos
+seus recursos e a tendencia geral das suas idéias como homem d'Estado.
+
+As faculdades que fazem o homem de acção em cada esphera da actividade
+humana, são essas mesmas que fazem o homem de sciencia, mais o tino das
+circumstancias particulares. As do estadista são as do historiador; digo
+as do historiador e não as do sociologista, porque o conhecimento das
+leis abstractas que regem o equilibrio e o movimento das sociedades,
+não é sufficiente para dirigir a acção conservadora ou modificadora dos
+governantes; é preciso reunir-lhe o vivo sentimento do concreto, a visão
+plena dos innumeraveis factos particulares que dão a um povo um caracter
+individual e fazem que nenhuma deducção abstracta o possa adivinhar.
+Pense-se na immensa complexidade do organismo collectivo, no caracter
+profundamente individual que uma sociedade reveste em virtude das
+circumstancias de raça, meio e momento, na obrigação de conhecer
+plenamente a força e a direcção das vontades, a energia e a profundidade
+dos instinctos, a vitalidade e a duração dos preconceitos, as
+necessitades materiaes ou moraes, reaes ou ficticias dos seus membros,
+reflicta-se na obrigação de conhecer essas forças na sua quantidade
+exacta e na sua direcção certa, nas proporções variadas em que ellas se
+combinam e nos systemas complicados que d'ellas resultam, medite-se que
+cada um dos factos presentes tem profundas raizes no passado e
+consequencias inevitaveis no futuro ainda o mais remoto, e ver-se-á que
+essa improvisação maravilhosa e certeira que se chama a arte de
+governar, consiste na visão adequada e perpetua, retrospectiva e
+prophetica das almas sobre que ella se exerce, e que a politica é
+psychologia activa e em ponto grande. Note-se emfim que o habito da
+representação concreta degenera facilmente no empirismo e que a
+habilidade technica descamba no especialismo estreito, para se admirar
+ainda mais a plasticidade mental dos que conservam intacto sob a acção
+das questões quotidianas o sentimento dos interesses geraes e caminham
+atravez dos expedientes com olhos fitos nas idéias.
+
+Estas qualidades parecem reunir-se no Sr. Oliveira Martins. Essa visão
+poderosa e plena, essa representação veridica e intensa dos caracteres,
+esse golpe de vista sagaz e profundo mergulhado no intimo dos corações,
+que faz o encanto e a força dos seus livros, podem guial-o nos seus
+actos; as mãos acostumadas a fazer a autopsia das almas no amphitheatro
+da Historia, não são improprias para jogar os lances da politica. O
+habito de ver as cousas de alto, proprio do historiador, arrancão aos
+trilhos mesquinhos em que se perde o espirito da rotina e do expediente.
+Artista pela visão colorida e palpavel da realidade, é-o tambem pela
+intuição magnifica do ideal. A imaginação constructiva anda n'elle
+ligada ao sentimento do real e do exequivel. E tendo aquelle exacto
+bom-senso e aquella efficaz percepção do possivel, que resulta da
+pratica dos homens e da vida, possue comtudo aquella largueza de vistas
+e aquelle desejo do melhor, que provém da convivencia das ideias e do
+trato dos livros.
+
+Será esse ideal realisavel e esse tino pratico sufficiente? Os successos
+dil-o-ão. Não é porém difficil apontar desde já no sentimento da
+força propria e no generoso instincto do dever civico as causas que o
+fizeram passar do pensamento á acção, e mostrar a clara coherencia que
+liga as suas opiniões de hontem aos seus actos de hoje, e os seus vinte
+annos de historia aos seus dois annos de politica.
+
+
+Tal é essa figura interessante e rara. Homem interior, isto é, dotado de
+imaginação psychologica, admiravel na representação dos accidentes do
+apparelho mental e dos sobresaltos da machina sensivel, toda a sua obra
+se resente e vive d'esta aptidão primordial, que constella os seus
+livros de retratos veridicos e profundos, de paizagens vivas de
+narrações dramaticas. Capaz de operações abstractas, a razão scientifica
+completa n'elle a imaginação poetica, e a analyse explicativa anda
+ligada ao colorido intenso. Sujeito ás emoções vehementes e frequentes,
+sobre tudo ás de ordem moral, isto é, a compaixão, a admiração, a
+indignação, e o desprezo, a sua obra, dramatica pela logica e pela vida,
+sel-o-á tambem pela paixão; mas a intuição do psychologo e a reflexão do
+philosopho hão de envolvel-o n'um nimbo de indulgencia, de ironia e de
+tristeza. Empregando um estylo em que parecem reviver e encarnar todas
+as qualidades da sua alma, successivamente energico e suave, enthusiasta
+e sarcastico, e cujo tecido fluctuante e agil acompanha como uma purpura
+amarrotada e resplandecente os movimentos bruscos do seu espirito.
+Lançado na politica pela energia do sentimento moral e importando para a
+Acção a elevação do philosopho e a perspicacia do homem pratico, e pondo
+ao serviço das aspirações do moralista a habilidade do psychologo. Uma
+relação intima liga entre si todas as partes do seu talento e faz
+derivar d'elle todos os aspectos da sua obra.
+
+
+Lisboa, Abril de 1887.
+
+
+
+
+INDICE
+
+I. OS CARACTERES--Que a sua imaginação é psychologica--Que ella é
+realista--Comparação com a de Eça de Queiroz--O caracter portuguez e o
+hespanhol--Retrato de D. Affonso Henriquez--Retrato de D. Pedro
+I--Retrato de Herculano--Que essa imaginação é completa.
+
+II. AS PAIZAGENS--A imaginação physica: exemplo, Ramalho
+Ortigão--Caracter das paizagens em Oliveira Martins--Que ellas são
+transcrições moraes dos aspectos physicos--Que ellas são a explicação de
+um mecanismo.--Descripção do littoral alemtejano--Descripção da paizagem
+minhota--O terremoto.
+
+III. AS THEORIAS--A theoria do Acaso--Concepção do Universo e da
+sciencia--Ausencia de razão oratoria--Falta da amplificação e da
+prova--Caracter artistico da sua intelligencia--Comparação com as
+intelligencias simplistas: os primeiros escriptos de T. Braga--A
+inspiração e a intuição.
+
+IV. OS SENTIMENTOS--Abundancia e energia das suas emoções--Que ellas são
+de ordem moral--Sua concepção do Amor--Sua concepção da Vida e da
+Ventura--Acção mutua entre o seu caracter e a sua intelligencia.
+
+V. O ESCRIPTOR--Valor do estylo como documento--O estylo oratorio: o
+sñr. Latino Coelho--O estylo de Oliveira Martins--O vocabulario, a
+syntaxe, as figuras, a composição dos livros, os indices.
+
+VI. O HISTORIADOR--Vastidão complexidade difficuldade dos estudos
+historicos--Qualidades e lacunas da sua Historia.
+
+VII. O POLITICO--Retrato ideal do Politico--Oliveira Martins como politico.
+
+Composição do seu espirito e deducção da sua obra.
+
+
+
+Paris.--GUILLARD, AILLAUD E Cª.
+
+
+
+
+
+End of the Project Gutenberg EBook of Oliveira Martins: Estudo de Psychologia, by
+Guilherme Moniz Barreto
+
+*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK OLIVEIRA MARTINS ***
+
+***** This file should be named 31379-8.txt or 31379-8.zip *****
+This and all associated files of various formats will be found in:
+ https://www.gutenberg.org/3/1/3/7/31379/
+
+Produced by Pedro Saborano (produced from scanned images
+of public domain material from Google Book Search)
+
+
+Updated editions will replace the previous one--the old editions
+will be renamed.
+
+Creating the works from public domain print editions means that no
+one owns a United States copyright in these works, so the Foundation
+(and you!) can copy and distribute it in the United States without
+permission and without paying copyright royalties. Special rules,
+set forth in the General Terms of Use part of this license, apply to
+copying and distributing Project Gutenberg-tm electronic works to
+protect the PROJECT GUTENBERG-tm concept and trademark. Project
+Gutenberg is a registered trademark, and may not be used if you
+charge for the eBooks, unless you receive specific permission. If you
+do not charge anything for copies of this eBook, complying with the
+rules is very easy. You may use this eBook for nearly any purpose
+such as creation of derivative works, reports, performances and
+research. They may be modified and printed and given away--you may do
+practically ANYTHING with public domain eBooks. Redistribution is
+subject to the trademark license, especially commercial
+redistribution.
+
+
+
+*** START: FULL LICENSE ***
+
+THE FULL PROJECT GUTENBERG LICENSE
+PLEASE READ THIS BEFORE YOU DISTRIBUTE OR USE THIS WORK
+
+To protect the Project Gutenberg-tm mission of promoting the free
+distribution of electronic works, by using or distributing this work
+(or any other work associated in any way with the phrase "Project
+Gutenberg"), you agree to comply with all the terms of the Full Project
+Gutenberg-tm License (available with this file or online at
+https://gutenberg.org/license).
+
+
+Section 1. General Terms of Use and Redistributing Project Gutenberg-tm
+electronic works
+
+1.A. By reading or using any part of this Project Gutenberg-tm
+electronic work, you indicate that you have read, understand, agree to
+and accept all the terms of this license and intellectual property
+(trademark/copyright) agreement. If you do not agree to abide by all
+the terms of this agreement, you must cease using and return or destroy
+all copies of Project Gutenberg-tm electronic works in your possession.
+If you paid a fee for obtaining a copy of or access to a Project
+Gutenberg-tm electronic work and you do not agree to be bound by the
+terms of this agreement, you may obtain a refund from the person or
+entity to whom you paid the fee as set forth in paragraph 1.E.8.
+
+1.B. "Project Gutenberg" is a registered trademark. It may only be
+used on or associated in any way with an electronic work by people who
+agree to be bound by the terms of this agreement. There are a few
+things that you can do with most Project Gutenberg-tm electronic works
+even without complying with the full terms of this agreement. See
+paragraph 1.C below. There are a lot of things you can do with Project
+Gutenberg-tm electronic works if you follow the terms of this agreement
+and help preserve free future access to Project Gutenberg-tm electronic
+works. See paragraph 1.E below.
+
+1.C. The Project Gutenberg Literary Archive Foundation ("the Foundation"
+or PGLAF), owns a compilation copyright in the collection of Project
+Gutenberg-tm electronic works. Nearly all the individual works in the
+collection are in the public domain in the United States. If an
+individual work is in the public domain in the United States and you are
+located in the United States, we do not claim a right to prevent you from
+copying, distributing, performing, displaying or creating derivative
+works based on the work as long as all references to Project Gutenberg
+are removed. Of course, we hope that you will support the Project
+Gutenberg-tm mission of promoting free access to electronic works by
+freely sharing Project Gutenberg-tm works in compliance with the terms of
+this agreement for keeping the Project Gutenberg-tm name associated with
+the work. You can easily comply with the terms of this agreement by
+keeping this work in the same format with its attached full Project
+Gutenberg-tm License when you share it without charge with others.
+
+1.D. The copyright laws of the place where you are located also govern
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+the laws of your country in addition to the terms of this agreement
+before downloading, copying, displaying, performing, distributing or
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+
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+Gutenberg" is associated) is accessed, displayed, performed, viewed,
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+
+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.org
+
+1.E.2. If an individual Project Gutenberg-tm electronic work is derived
+from the public domain (does not contain a notice indicating that it is
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+and distributed to anyone in the United States without paying any fees
+or charges. If you are redistributing or providing access to a work
+with the phrase "Project Gutenberg" associated with or appearing on the
+work, you must comply either with the requirements of paragraphs 1.E.1
+through 1.E.7 or obtain permission for the use of the work and the
+Project Gutenberg-tm trademark as set forth in paragraphs 1.E.8 or
+1.E.9.
+
+1.E.3. If an individual Project Gutenberg-tm electronic work is posted
+with the permission of the copyright holder, your use and distribution
+must comply with both paragraphs 1.E.1 through 1.E.7 and any additional
+terms imposed by the copyright holder. Additional terms will be linked
+to the Project Gutenberg-tm License for all works posted with the
+permission of the copyright holder found at the beginning of this work.
+
+1.E.4. Do not unlink or detach or remove the full Project Gutenberg-tm
+License terms from this work, or any files containing a part of this
+work or any other work associated with Project Gutenberg-tm.
+
+1.E.5. Do not copy, display, perform, distribute or redistribute this
+electronic work, or any part of this electronic work, without
+prominently displaying the sentence set forth in paragraph 1.E.1 with
+active links or immediate access to the full terms of the Project
+Gutenberg-tm License.
+
+1.E.6. You may convert to and distribute this work in any binary,
+compressed, marked up, nonproprietary or proprietary form, including any
+word processing or hypertext form. However, if you provide access to or
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+"Plain Vanilla ASCII" or other format used in the official version
+posted on the official Project Gutenberg-tm web site (www.gutenberg.org),
+you must, at no additional cost, fee or expense to the user, provide a
+copy, a means of exporting a copy, or a means of obtaining a copy upon
+request, of the work in its original "Plain Vanilla ASCII" or other
+form. Any alternate format must include the full Project Gutenberg-tm
+License as specified in paragraph 1.E.1.
+
+1.E.7. Do not charge a fee for access to, viewing, displaying,
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+unless you comply with paragraph 1.E.8 or 1.E.9.
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+1.E.8. You may charge a reasonable fee for copies of or providing
+access to or distributing Project Gutenberg-tm electronic works provided
+that
+
+- You pay a royalty fee of 20% of the gross profits you derive from
+ the use of Project Gutenberg-tm works calculated using the method
+ you already use to calculate your applicable taxes. The fee is
+ owed to the owner of the Project Gutenberg-tm trademark, but he
+ has agreed to donate royalties under this paragraph to the
+ Project Gutenberg Literary Archive Foundation. Royalty payments
+ must be paid within 60 days following each date on which you
+ prepare (or are legally required to prepare) your periodic tax
+ returns. Royalty payments should be clearly marked as such and
+ sent to the Project Gutenberg Literary Archive Foundation at the
+ address specified in Section 4, "Information about donations to
+ the Project Gutenberg Literary Archive Foundation."
+
+- You provide a full refund of any money paid by a user who notifies
+ you in writing (or by e-mail) within 30 days of receipt that s/he
+ does not agree to the terms of the full Project Gutenberg-tm
+ License. You must require such a user to return or
+ destroy all copies of the works possessed in a physical medium
+ and discontinue all use of and all access to other copies of
+ Project Gutenberg-tm works.
+
+- You provide, in accordance with paragraph 1.F.3, a full refund of any
+ money paid for a work or a replacement copy, if a defect in the
+ electronic work is discovered and reported to you within 90 days
+ of receipt of the work.
+
+- You comply with all other terms of this agreement for free
+ distribution of Project Gutenberg-tm works.
+
+1.E.9. If you wish to charge a fee or distribute a Project Gutenberg-tm
+electronic work or group of works on different terms than are set
+forth in this agreement, you must obtain permission in writing from
+both the Project Gutenberg Literary Archive Foundation and Michael
+Hart, the owner of the Project Gutenberg-tm trademark. Contact the
+Foundation as set forth in Section 3 below.
+
+1.F.
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+effort to identify, do copyright research on, transcribe and proofread
+public domain works in creating the Project Gutenberg-tm
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+PROVIDED IN PARAGRAPH F3. YOU AGREE THAT THE FOUNDATION, THE
+TRADEMARK OWNER, AND ANY DISTRIBUTOR UNDER THIS AGREEMENT WILL NOT BE
+LIABLE TO YOU FOR ACTUAL, DIRECT, INDIRECT, CONSEQUENTIAL, PUNITIVE OR
+INCIDENTAL DAMAGES EVEN IF YOU GIVE NOTICE OF THE POSSIBILITY OF SUCH
+DAMAGE.
+
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+defect in this electronic work within 90 days of receiving it, you can
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+the defective work may elect to provide a replacement copy in lieu of a
+refund. If you received the work electronically, the person or entity
+providing it to you may choose to give you a second opportunity to
+receive the work electronically in lieu of a refund. If the second copy
+is also defective, you may demand a refund in writing without further
+opportunities to fix the problem.
+
+1.F.4. Except for the limited right of replacement or refund set forth
+in paragraph 1.F.3, this work is provided to you 'AS-IS' WITH NO OTHER
+WARRANTIES OF ANY KIND, EXPRESS OR IMPLIED, INCLUDING BUT NOT LIMITED TO
+WARRANTIES OF MERCHANTIBILITY OR FITNESS FOR ANY PURPOSE.
+
+1.F.5. Some states do not allow disclaimers of certain implied
+warranties or the exclusion or limitation of certain types of damages.
+If any disclaimer or limitation set forth in this agreement violates the
+law of the state applicable to this agreement, the agreement shall be
+interpreted to make the maximum disclaimer or limitation permitted by
+the applicable state law. The invalidity or unenforceability of any
+provision of this agreement shall not void the remaining provisions.
+
+1.F.6. INDEMNITY - You agree to indemnify and hold the Foundation, the
+trademark owner, any agent or employee of the Foundation, anyone
+providing copies of Project Gutenberg-tm electronic works in accordance
+with this agreement, and any volunteers associated with the production,
+promotion and distribution of Project Gutenberg-tm electronic works,
+harmless from all liability, costs and expenses, including legal fees,
+that arise directly or indirectly from any of the following which you do
+or cause to occur: (a) distribution of this or any Project Gutenberg-tm
+work, (b) alteration, modification, or additions or deletions to any
+Project Gutenberg-tm work, and (c) any Defect you cause.
+
+
+Section 2. Information about the Mission of Project Gutenberg-tm
+
+Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
+electronic works in formats readable by the widest variety of computers
+including obsolete, old, middle-aged and new computers. It exists
+because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
+people in all walks of life.
+
+Volunteers and financial support to provide volunteers with the
+assistance they need are critical to reaching Project Gutenberg-tm's
+goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
+remain freely available for generations to come. In 2001, the Project
+Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
+and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
+To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
+and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
+and the Foundation web page at https://www.pglaf.org.
+
+
+Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive
+Foundation
+
+The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
+501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
+state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
+Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification
+number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at
+https://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
+permitted by U.S. federal laws and your state's laws.
+
+The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
+Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
+throughout numerous locations. Its business office is located at
+809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
+business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact
+information can be found at the Foundation's web site and official
+page at https://pglaf.org
+
+For additional contact information:
+ Dr. Gregory B. Newby
+ Chief Executive and Director
+ gbnewby@pglaf.org
+
+
+Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation
+
+Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
+spread public support and donations to carry out its mission of
+increasing the number of public domain and licensed works that can be
+freely distributed in machine readable form accessible by the widest
+array of equipment including outdated equipment. Many small donations
+($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
+status with the IRS.
+
+The Foundation is committed to complying with the laws regulating
+charities and charitable donations in all 50 states of the United
+States. Compliance requirements are not uniform and it takes a
+considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
+with these requirements. We do not solicit donations in locations
+where we have not received written confirmation of compliance. To
+SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
+particular state visit https://pglaf.org
+
+While we cannot and do not solicit contributions from states where we
+have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
+against accepting unsolicited donations from donors in such states who
+approach us with offers to donate.
+
+International donations are gratefully accepted, but we cannot make
+any statements concerning tax treatment of donations received from
+outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff.
+
+Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
+methods and addresses. Donations are accepted in a number of other
+ways including including checks, online payments and credit card
+donations. To donate, please visit: https://pglaf.org/donate
+
+
+Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic
+works.
+
+Professor Michael S. Hart was the originator of the Project Gutenberg-tm
+concept of a library of electronic works that could be freely shared
+with anyone. For thirty years, he produced and distributed Project
+Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.
+
+
+Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
+editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
+unless a copyright notice is included. Thus, we do not necessarily
+keep eBooks in compliance with any particular paper edition.
+
+
+Most people start at our Web site which has the main PG search facility:
+
+ https://www.gutenberg.org
+
+This Web site includes information about Project Gutenberg-tm,
+including how to make donations to the Project Gutenberg Literary
+Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to
+subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks.
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+<!DOCTYPE HTML PUBLIC "-//W3C//DTD HTML 4.0 Transitional//EN">
+<html lang="pt">
+<head>
+ <title>Oliveira Martins: Estudo de psychologia, por G. Moniz Barreto</title>
+ <meta name="Author" content="Barreto, Guilherme Moniz, 1865-1896">
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+</head>
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+
+<pre>
+
+The Project Gutenberg EBook of Oliveira Martins: Estudo de Psychologia, by
+Guilherme Moniz Barreto
+
+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.org
+
+
+Title: Oliveira Martins: Estudo de Psychologia
+
+Author: Guilherme Moniz Barreto
+
+Release Date: February 24, 2010 [EBook #31379]
+
+Language: Portuguese
+
+Character set encoding: ISO-8859-1
+
+*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK OLIVEIRA MARTINS ***
+
+
+
+
+Produced by Pedro Saborano (produced from scanned images
+of public domain material from Google Book Search)
+
+
+
+
+
+
+</pre>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<div style="text-align: center; border: solid 2px #000;">
+<p style="font-size: 2em;">OLIVEIRA MARTINS</p>
+
+<p style="font-size: 1.2em;">ESTUDO DE PSYCHOLOGIA</p>
+
+<p>POR</p>
+
+<p style="font-size: 1.2em;">G. MONIZ BARRETO</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>SEGUNDA EDIÇÃO</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p><big>PARIS</big><br>
+GUILLARD, AILLAUD &amp; C.ª<br>
+<small>47, Rue St. André des Arts, Paris</small><br>
+<small>242, Rua Aurea&mdash;1.º, LISBOA</small><br>
+1892</p>
+</div>
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p style="text-align: center;font-size: 1.8em;">OLIVEIRA MARTINS</p>
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+<p style="text-align: center;"><img src="images/om.png" alt="Oliveira Martins de Perfil"></p>
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+
+<div style="text-align: center;">
+<p style="font-size: 2em;">OLIVEIRA MARTINS</p>
+
+<p style="font-size: 1.2em;">ESTUDO DE PSYCHOLOGIA</p>
+
+<p>POR</p>
+
+<p style="font-size: 1.2em;">G. MONIZ BARRETO</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p><img src="images/aillaud.png" alt="Logotipo editor"></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>PARIS <br>
+GUILLARD, AILLAUD &amp; C.ª <br>
+<small>47, Rue St. André des Arts, 47</small></p>
+
+</div>
+
+<p><span class="pn">{7}</span></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<div id="corpo">
+<h1><a name="SECTION000100">I <br>
+OS CARACTERES</a> </h1>
+
+<p>A peça mestra da intelligencia do Sr. Oliveira Martins é a imaginação
+psychologica, isto é, o dom de ver e descrever interiores de alma.&mdash;É esta a
+faculdade que já apparece claramente nos seus primeiros trabalhos, atravez das
+leviandades e temeridades da sua estreia, e que crescendo, avulta eminente nos
+seus ultimos livros.&mdash;É ella quem faz a sua força de historiador e o seu
+encanto de escriptor.&mdash;É ella quem muitas vezes o ampara nas correrias da sua
+improvisação e suppre as lacunas visiveis da sua cultura. É ella finalmente
+quem, habilitando-o a decifrar os compostos sociaes pelos compostos individuaes
+o mune da capacidade pratica, e o arma com a aptidão politica.</p>
+
+<p>Em que consiste essa faculdade? Consiste na representação minuciosa e exacta
+dos estados da sensibilidade e da intelligencia alheia, e na intuição precisa e
+completa dos phenomenos da propria<span class="pn">{8}</span> intelligencia e
+sensibilidade. Todos possuem a primeira d'estas aptidões em grau sufficiente
+para se adequarem ao meio social em que vivem; e a segunda, para se perceberem
+como um todo distincto e individual. Mas em certos espiritos essa faculdade
+existe em grau desmedido, e os homens que a possuem são capazes de notar as
+mais delicadas e fugitivas impressões da sua alma e da alma alheia, de observar
+os sentimentos e os pensamentos mais incoerciveis, de conservar a sua
+curiosidade attenta e activa mesmo sob a acção ardente da dor e do prazer
+physico, ou sob o surdo encanto da comprehensão e da invenção. Quando ella
+attinge o seu maximo, as intelligencias culminantes em que apparece, Balzac e
+Shakespeare por exemplo, podem transformar-se nas suas creações e viver nos
+seus personnagens com uma intensidade adequada á realidade; e como essa
+imaginação é n'elles tão extensa como exacta, a sua obra será egual á natureza
+em quantidade e qualidade: o analysta francez escreverá a <em>Comedia
+humana</em> e fará passar na tela do romance em tropel vivo, cortezãs,
+forçados, magistrados, sacerdotes, industriaes, poetas, todos os estados da
+vontade desde a indecisão até ao crime, todas as modalidades da intelligencia
+desde a inepcia até ao genio: o poeta inglez comporá o seu theatro e dará a
+theoria completa das paixões e das imagens tal como a construem
+laboriosamente<span class="pn">{9}</span> a psychologia e a clinica. Esta
+especie de imaginação é a mais preciosa entre todas; o espirito que a possue
+transforma-se por sympathia nos objectos que descreve; é ella quem faz do
+romance uma autopsia e da historia um confessionario. É o dom dos avataras, e o
+seu nome é legião.</p>
+
+<p>O Sr. Oliveira Martins possue em grau raro esta faculdade rara entre nós. Os
+exemplos abundam na sua obra, e tão numerosos que constituem prova. Tomal-os-ei
+d'aquelles livros em que não é visivel uma influencia extranha, e onde a sua
+originalidade é incontestavel. Á portada da sua Historia de Portugal está o
+parallelo das duas nações peninsulares, pagina veridica e profunda que abre com
+esplendor essa galeria magnifica de retratos.</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>«Ha no genio portuguez o que quer que é de vago e fugitivo, que contrasta
+com a terminante affirmativa do castelhano; ha no heroismo lusitano uma nobreza
+que differe da furia dos nossos vizinhos; ha nas nossas lettras e no nosso
+pensamento uma nota profunda ou sentimental, ironica ou meiga, que em vão se
+buscaria na historia da cultura hispanhola, violenta sem profundidade,
+apaixonada mas sem entranhas, capaz d'invectivas, mas alheia a toda a ironia,
+amante sem meiguice, magnanima sem caridade, mais que humana muitas vezes,
+outras abaixo da craveira do homem a entestar com as feras. Tragica e ardente
+sempre, a<span class="pn">{10}</span> historia hispanhola differe da
+portugueza, mais propriamente epica; e as differenças da historia traduzem as
+dissemelhanças do caracter. Confronte-se Calderon com Camões, Garrett com
+Espronceda; ver-se-á a verdade da affirmação e a sagacidade do historiador.»
+</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>Tão lucido na psychologia do individuo como na dos povos, leia-se o retrato
+do primeiro rei: dissipadas com o clarão da critica as nevoas do patriotismo,
+superada com o alcance da vista a grandeza da distancia, o vulto do fundador da
+monarchia apparece vivo, alumiado de frente, na plena resurreição da historia.
+</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>«Quem era Affonso Henriques? Já amestrado no officio de reinar, á maneira
+porque então se entendia um tal officio, o moço principe reunia as condições
+necessarias para consolidar uma independencia até ahi precaria. Era audaz,
+temerario até, pessoalmente bravo, qualidade nem tão commum no tempo, como a
+muitos acaso pareça. Fraco general, ao que se vê, porque as batalhas feridas
+com as tropas leonezas perdeu-as sempre, era feliz guerrilheiro. Capitaneando
+um troço de soldados, cahia d'improviso sobre um logar, e a furia irresistivel
+do ataque deu-lhe a maior parte das suas victorias. Nem a grandeza das empresas
+o assustava, nem as distancias o impediam de acudir,<span
+class="pn">{11}</span> a um tempo, do extremo norte quasi ao extremo sul do
+paiz. A estes dotes militares reunia outros não menos valiosos, dada a precaria
+situação em que se apossara do reino. Era secco, astuto, friamente ambicioso,
+sem chimeras nem illusões. Era um espirito mediocremente pratico, e isso fazia
+boa parte da sua força: mal dos politicos ao mesmo tempo apostolos! Como a
+tenra haste que verga á mais leve briza do cannavial, assim Affonso Henriques,
+sem rebuços obedecia, logo que a sorte lhe era adversa. Passada a tormenta
+erguia-se; e á facilidade astuta com que se humilhara, respondia logo a teima
+perfida com que se rebellava. Isto fazia-o indomavel. Ubiquo militarmente, era
+nos negocios um Proteu. Os seus inimigos, leonezes, sarracenos, não achavam por
+onde prendel-o. Submisso e humilde quando se achava vencido, subscrevia a todas
+as condições, acceitava todas as durezas, para logo mentir a todas as
+promessas, rasgar todos os tratados, com uma franqueza ingenua, uma
+simplicidade natural que chegaram a espantar a propria Edade-média. Nem brios
+cavalleirosos, nem sentimentos de familia, nem odios pessoaes, nem vinganças
+estupendas: nenhuma chimera, nenhuma grande ambição, nenhum poetico sentimento
+enchiam a sua cabeça estreita e inteiramente occupada pela idéia fixa de
+consolidar a sua independencia. O predominio absoluto d'uma idéia pratica,
+servida por uma intelligencia<span class="pn">{12}</span> lucida, por um
+caracter sem grandeza e por uma valentia provada, tornavam-no invencivel, ainda
+mesmo quando era batido. A sua teima fazia-o semelhante a uma lamina de aço: um
+instante vergada por um esforço momentaneo, logo estendida e livre; impossivel
+de manter curvada desde que foi solta. O seu pensamento tinha a tenacidade da
+mola, e não a rijeza do bronze nem o peso do chumbo. Vivia dentro do seu
+Portugal como um javardo no seu refojo: assaltado, investia, despedaçando tudo
+com as suas fortes presas. Perseguido, fugia. Não tinha a nobreza do leão, nem
+a ferina astucia do tigre: possuia só a brava e bronca tenacidade do javali. Um
+fraco apenas lhe notam, embora os actos da sua vida não denunciem que esse
+defeito o prejudicasse muito: gostava de ser adulado.»</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>Mais interressante ainda é o retrato do primeiro Pedro. O psychologo
+multiplicou aqui os pormenores e os casos da vida privada, porque o vulto que
+quiz descrever tem um alcance mais social do que politico. Para o comprehender
+abandona os habitos intellectuaes modernos, a reflexão pautada e a emoção
+equilibrada; e em presença do velho rei faz resurgir em si a visão concreta e
+os sentimentos de terror e amor que elle devia provocar n'um camponez ou n'um
+burguez do seculo <small>XIV</small>. Para ver e fazer ver esse vulto tão
+pittoresco, não compõe<span class="pn">{13}</span> uma dissertação, pinta um
+quadro. O historiador faz-se subdito do rei que historía, e fechando os olhos
+vê surgir na tela interior a apparição colorida e nitida, dotada de vida e
+capaz de viver. Leiam-se essas paginas singulares, attente-se n'este retrato do
+rei gago e feio, temido e amado do seu povo; uma palavra acode á mente: é uma
+allucinação; uma allucinação auditiva e visual completada pela resurreição das
+emoções correspondentes.</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>«D. Pedro tinha a paixão da justiça: era n'elle uma mania como em seu avô o
+fora a guerra. Não prescindia de julgar todos os delictos. Os criminosos vinham
+á côrte, desde os remotos confins do reino. Quando algum chegava, manietado, e
+o rei comia, levantava-se pressuroso da mesa, e trocava a vianda pela tortura.
+Prazia-se em ajudar e dirigir os algozes; indicava os expedientes e processos
+para obter a confissão dos reos. Nunca abandonnava o açoute enrolado á cinta em
+viagem, tomava d'elle, e por suas mãos castigava o facinora que no caminho lhe
+traziam. Os adulteros mereciam-lhe um odio especial; jámais lhes perdoava. D.
+Pedro tinha um escudeiro, Affonso Madeira, <em>luitador e travador de grandes
+ligeirices</em>, a quem, embora o amasse <em>mais que se deve aqui de
+dizer</em>, o rei mandou castrar, porque peccou com Catarina Tosse:&mdash;o rapaz
+engrossou, e morreu depois <em>da sua natural door</em>. Certa mulher<span
+class="pn">{14}</span> era infiel ao marido, que nem por isso se offendia:
+offendeu-se o rei, e mandou-a queimar; ao esposo desolado respondeu que lhe
+devia alviçaras pelo ter vingado. Havia um homem casado, com filhos, mas que
+antes da boda forçara a mulher. Roussou? Morra. Enforcou-o entre os choros e
+supplicas da esposa e dos filhos. O seu odio aos peccados da carne perseguia
+com furor as alcouvetas, e as feiticeiras não lhe mereciam menos cuidados.</p>
+
+<p>«Quando o tomavam os ataques da furia justiceira, a gaguez fazia ainda mais
+terrivel a expressão da sua physionomia. A fala não lhe deixava traduzir bem as
+coleras, e rubro, grosso, agitando o latego, n'um delirio, mettia espanto. Os
+gagos, porém, tem isto de particular: tanto o defeito accrescenta ao horror da
+furia, como põe nas horas mansas o que quer que é de bonhomia quasi ironica.
+Era assim D. Pedro. Caçador tenaz, descançava do officio de juiz nas corridas
+do monte, seguido pelos moços com os nebris e falcões, e pelas matilhas de
+cães. Então, o seu rosto aplacava-se, e era benigno, bemfajezo, liberal,
+folgazão. <em>Foi grande criador de fidalgos.</em> Glotão, passava horas
+esquecidas á meza, onde a vianda era em grande abastança.</p>
+
+<p>«Assim como a sua justiça era destituida de majestade, assim eram as suas
+folganças. Dir-se-ia um rustico feito rei; e acaso por isso o povo o<span
+class="pn">{15}</span> amava tanto. Não tinha distincções, nem delicadezas no
+sentimento, nem no trato, sendo em tudo brutal. Se confundia em si o juiz e o
+algoz, as suas festas eram kermesses extravagantes e plebéias. Os instinctos
+aristocraticos e as fórmas da cortezia nobre, torneios, lanças e outros, não
+tinham n'elle um amigo. Era um democrata, um tyranno á antiga, em cujo espirito
+toda a brutalidade popular encarnara: por isso mesmo era adorado! Os seus
+castigos terriveis, passando de bocca em bocca, faziam-lhe um pedestal de
+força; e as suas continuas folganças populares cimentavam essa força com o amor
+intimo que nos merece o que tem comnosco a irmandade de gostos. O povo via-se
+rei na pessoa de D. Pedro.</p>
+
+<p>«Quando voltava em batéis de Almada para Lisboa, a plebe lisboeta sahia a
+recebel-o com danças e trebelhos. Desembarcava, e ia á frente da turba,
+dançando ao som das <em>longas</em> (trombetas), como um rei David. Estas
+folias apaixonavam-no quasi tanto como o seu cargo de juiz. Por ellas chegava a
+fazer loucuras. Certas noutes, no paço, a insomnia perseguia-o: levantava-se,
+chamava os trombeteiros, mandava accender tochas; e eil-o pelas ruas, dançando
+e atroando com os berros das <em>longas</em>. As gentes, que dormiam, sahiam
+com espanto ás janellas, a ver o que era. Era o rei. Ainda bem! ainda bem! que
+prazer vel-o assim tão ledo! Vestiam-se todos á pressa, desciam<span
+class="pn">{16}</span> ainda tontos de somno; e as ruas, uns momentos antes
+silenciosas e negras, brilhavam com as luzes e tinham o clamor da multidão em
+vivas, o movimento das danças universaes.»</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>Não só as ruas, mas tambem estas paginas. Como para o seu mestre Michelet, a
+historia é para elle uma resurreição, e como no seu mestre Michelet o poder de
+evocação é acompanhado n'elle pelo dom da comprehensão. N'este mesmo retrato
+que analysei, se os pormenores e anecdotas que fazem <em>ver</em> os objectos
+abundam, não escasseiam os juizos geraes que os fazem <em>perceber</em>. Assim
+depois de ter pintado o velho rei em corpo e alma, localisa-o na sua epocha e
+no seu meio, e indica as causas da sua força, que são os motivos da sua
+influencia. Poder-se-iam definir as suas narrações e descripções, como uma
+serie de allucinações com integridade da razão.</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>«D. Pedro é a viva imagem da Edade-média, politica e domestica. Todos os
+vicios e todas as virtudes, a fereza e a ingenuidade, os odios terriveis e as
+amizades espontaneas, sommadas n'um caracter primitivo, onde acaso alguma lepra
+dos vicios civilisados antigos punha nodoas novas, formavam a pessoa d'esse rei
+que é verdadeiramente um symbolo: por isso o povo, vendo-se n'elle re-tratado,
+o adorou.»<span class="pn">{17}</span></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>N'este retrato, como em todos os trabalhos do Sr. Oliveira Martins, a cor e
+a vida abundam; o que não abunda é a proporção e a ordem. E ainda assim não
+transcrevi senão o que convinha. Se o fizesse na integra, ver-se-ia que o nosso
+auctor, na furia da inspiração improvisadora, repisa e baralha. Se ordenasse e
+concentrasse, o effeito seria fulminante e a critica batida recuaria até á
+admiração.</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>Mesmo assim é nos retratos que elle triumpha; vastos como quadros, ou
+concisos como medalhas vêem-se pendurados a todos os cantos da sua obra.
+Pinta-os ás dezenas, cunha-os aos centos. Na <em>Historia da Civilização
+Iberica</em> é Camões, é Colombo, é Loyola; na <em>Historia de Portugal</em>
+são Affonso Henriques, Pedro o Cru, o Condestavel, o Infante D. Henrique,
+Albuquerque, D. Francisco de Almeida, D. João de Castro, o Principe perfeito,
+D. Sebastião, o Restaurador, o Rei magnanimo, o pobre D. João VI; no
+<em>Portugal Contemporaneo</em>, Saldanha, Palmella, D. Miguel e o Telles
+Jordão, Mousinho, Rodrigo, Cabral, os Passos e tantos. Com dois traços ou com
+duzentos, o personnagem apparece sempre vivo, n'um escorço fugitivo ou n'uma
+longa analyse, com uma verosimilhança que garante a veracidade. E não só esta
+imaginação é psychologica, mas realista: ella se compraz não só na pintura das
+opiniões e paixões, mas tambem na<span class="pn">{18}</span> representação dos
+pormenores corporaes e das circunstancias triviaes. Como psychologo, elle sabe
+que as grandes forças presentes em cada individuo, e que lhe determinam a
+biographia, se revelam não só no mechanismo das idéias e no jogo das
+tendencias, mas ainda nas pregas do vestuario e nas rugas do sorriso; como
+escriptor conhece que só o traço sensivel provoca a visão, e que a arte de
+pintar com a palavra, é a arte de evocar com a palavra. Assim elle verá a
+gaguez de D. Pedro, a surdez de Mousinho, a cabeça felina de D. João II; o
+peito constellado de Saldanha, a face quadrada de Rodrigo, o eterno charuto de
+Palmella; os habitos, as doenças, as idiosyncrasias mais furtivas apparecem
+daguerreotypadas por uma imaginação e estampadas n'uma prosa que tem a
+complexidade e a velocidade das operações vitaes.</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>Psychologica e realista, esta imaginação é completa? Um romancista como o
+Sr. Eça de Queiroz prima na pintura das sensações corporaes e das paixões
+animaes: o cio, a gula, o egoismo brutal e a intriga trivial, a cobiça e a
+vaidade, a bondade ingenua e a maldade machinal, quasi que exgottam o seu
+reportorio; a população dos seus romances é composta de personnagens medios; se
+uma vez n'um livro que é uma confidencia elle pintou uma alma fóra do commum,
+foi procedendo á maneira dos lyricos,<span class="pn">{19}</span> transcrevendo
+as suas proprias emoções; Carmen Puebla é o proprio romancista com o vibrar
+pungente dos seus nervos, e os fremitos da sua furiosa e dolorosa
+sensibilidade; mas o auctor do <em>Primo Bazilio</em> nunca escreveu um romance
+como <em>Louis Lambert</em>; para um vôo tal são precisas as azas musculosas do
+genio cosmopolita e androgyno de Balzac.</p>
+
+<p>O Sr. Oliveira Martins conhece perfeitamente as raizes inconscientes e
+physicas da vida superior do espirito, e mostra-as sempre que precisa, bem que
+sem as minudencias do romance, porque pinta a fresco sobre a parede da
+historia; mas vê com lucidez egual a florescencia culminante da razão e da
+moralidade. Elle retrata tão bem o fundador do jesuitismo, como o filho da
+lavadeira. O genio é-lhe tão familiar como o instincto; e não vejo melhor
+maneira de cerrar esta analyse da face mais importante do seu espirito, senão
+transcrever as paginas magnificas que elle escreveu sobre Herculano, e
+reproduzir, depois da figura do rei que com o punhal nos fundou a
+nacionalidade, o vulto do escriptor que com o seu genio, incompleto mas
+poderoso, nos iniciou a historia.</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>«.... A palavra que o retrata é o Caracter, porque n'elle a vida moral e a
+intellectual eram uma e unica,&mdash;o contrario do sceptico, não raro santo, o
+proprio do estoico, não raro obtuso.<span class="pn">{20}</span></p>
+
+<p>«Dizemos pois Caracter no sentido e valor que a palavra teve na Antiguidade,
+e não na vaga accepção moderna. Não é a intemerata vida, não é o desprezo dos
+bens mundanos, o odio, a ostentação vã, a desabrida recusa de titulos, de
+honras, de logares que em si constituem o Caracter; embora a repugnancia pelas
+cousas mesquinhas seja consequencia indispensavel d'esse modo d'existir que
+essencialmente consiste na afinação perfeita das regras da moral e dos
+principios da intelligencia, da vida do cidadão e da existencia do philosopho.
+O typo do caracter á antiga é o estoico, e este é o nome que propriamente
+define a physionomia de Herculano; este é o typo que passo a passo veiu
+crescendo até dominar nos ultimos annos,&mdash;quando as licções successivas do
+mundo, nunca estoico e muito menos do que nunca em nossos dias, e muito menos
+do que em parte alguma em Portugal; quando os desenganos do mundo o degradaram
+para o exilio,&mdash;não como um martyr, mas como um homem, que protestando sempre,
+se não converte, nem se corrompe.</p>
+
+<p>«Por isso o estoico é por natureza austero e duro; e na pessoa de Herculano
+esse genero aggravava-se com effeito por varios motivos: já pelo seu
+temperamento lusitano, já pela deploravel baixeza do nivel moral da sociedade
+portugueza, já pelo saber consideravel systematisado pelo philosopho, e sem
+duvida alguma desproporcionado para a<span class="pn">{21}</span> illustração
+media do paiz em que vivia. Olhando as miserias alheias e a alheia ignorancia,
+por modesto que fosse&mdash;e não o era&mdash;via-se muito acima como homem e como
+sabedor. Isto, e não a cohorte dos aduladores ineptos a quem não dava
+importancia, embora a sua bondade os não fustigasse, o fazia inconscientemente
+orgulhoso: porque nenhum orgulho nem pedantismo tinha para com todos os que via
+crédores de attenção e respeito.</p>
+
+<p>«Do accordo da intelligencia e da moral vem ao estoico um pensamento bem
+diverso e até opposto ao dos santos, que do antagonismo sentido partem para as
+soluções mysticas. Esse pensamento e o individualismo, cujo traço fundamental
+consiste na idéia de que o homem é em si um todo indiviso e completo, e a unica
+verdadeira realidade da sociedade; a idéia de que a razão humana é a fonte do
+conhecimento certo e absoluto, a consciencia a origem da moral imperativa,&mdash;a
+liberdade, portanto, a formula da existencia social. D'este modo de ver as
+cousas nasce aquillo a que podemos chamar o orgulho transcendente,&mdash;que os
+antigos estoicos disseram Caracter, quando pela primeira vez essa fórma do
+pensamento appareceu systematisada em doutrina.</p>
+
+<p>«No revolver da agitada vida, em que se achara, iam pouco a pouco
+reunindo-se, como que crystallizando, os elementos da futura, distincta e
+typica individualidade. A nobreza e a ideal rectidão<span
+class="pn">{22}</span> do seu espirito tinham na sua profundidade o motivo
+d'uma systematica cegueira para pesar e medir as cousas reaes com a fria
+imparcialidade d'um critico, ou com a caridade do santo. Com o seu metro
+absoluto e integro, Herculano, na agitação do mundo, corria atraz da chimera de
+achar aquelles homens que o seu estoicismo desenhava, aquelles raros, dos quaes
+elle era em Portugal um e unico. O critico, se é politico, manobra com os
+homens como um general com um exercito, auscultando as vontades e caprichos,
+dirigindo as forças direito a um fim, sem attenção pelos instrumentos d'elle.
+Perante os homens, o santo tem na piedade uma intima força: a coragem que não
+abranda; tem o enthusiasmo que o move, e a caridade que explica e lhe faz
+comprehender, em Deus, as fraquezas e as miserias da terra. Combate, pois, sem
+recuar, levando nos labios a palavra de uncção, e o sorriso d'uma ironia boa,
+ao mesmo tempo cauterio e balsamo. O estoico, porém, ferido, pára. O mundo era
+elle e nada mais além da sua razão, da sua consciencia, da sua liberdade. E
+quando as feridas, as perseguições, os ataques, os ultrajes são profundos e
+agudos como os que expulsaram da politica,&mdash;e tambem das letras,&mdash;Alexandre
+Herculano, o estoico repetindo a historica phrase do Africano, suicida-se. É
+então que vivamente nasce, pois só então o Caracter apparece em toda a sua
+pureza.<span class="pn">{23}</span></p>
+
+<p>«Não o mata o scepticismo, mata-o o excesso de uma incompleta doutrina. Não
+descrê, e é por cada vez mais acreditar em si, que foge a um mundo rebelde a
+ouvir a verdade. A morte não é pois um acto de desespero, é um acto de fé. Só a
+differença dos tempos fez com que no suicidio de Herculano não entrasse o ferro
+como entrou nos suicidios estoicos da Antiguidade. A vida assim coroada, o
+homem assim transfigurado n'um typo, e a sua palavra e o seu exemplo n'um
+protesto, superior ao mundo e ás suas fraquezas, ficam aureolados com o forte
+clarão dos heroes, lume que aos navegantes, errando no mar escuro da vida, guia
+a derrota e indica o porto.»</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>Marcado com firmeza e analysado com perspicacia o facto capital d'este
+espirito, o critico passa a estudar-lhe as origens, porque sabe que nos homens
+cultos a educação é uma segunda natureza. E no caso presente, como succede
+quasi sempre na historia dos homens fóra do commum, a cultura concorda com o
+temperamento e exalta o valor das qualidades innatas. O estoicismo ingenito,
+exasperado pelo kantismo apprendido, determinam o corpo das suas opiniões
+sociaes, politicas, religiosas e economicas, e depois de fundir as idéias ao
+pensador, fabricam o estylo ao escriptor. O Sr. Oliveira Martins considera-o
+sob todos estes pontos de vista com uma lucidez de expressão e uma<span
+class="pn">{24}</span> nitidez de comprehensão, que surprehendem tanto mais que
+o nosso critico discorda do auctor que explica, a ponto de combatel-o. Esta
+sagacidade é ainda mais notavel no curto juizo sobre as qualidades da prosa de
+Herculano, quando se pensa que elle é emittido por um homem que não prima pela
+posse d'aquillo a que cabe rigorosamente o nome de dotes litterarios.</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>«O racionalismo kantista foi o molde onde se vasaram em systema as
+tendencias naturaes do espirito de Herculano,&mdash;um D. João de Castro da
+burguezia e do seculo <small>XIX</small>. O antigo stoicismo portuguez era
+catholico e monarchico; o estoico de agora foi romantico e
+individualista,&mdash;exprimindo a reacção, geral na Europa, contra a religião dos
+jesuitas a contra a doutrina da Razão-de-Estado que depois de ter feito as
+monarchias absolutas, fizera a Convenção e Napoleão.</p>
+
+<p>«O kantismo como philosophia, o individualismo como politica, o livre-cambio
+como economia,&mdash;eis ahi as tres phases da doutrina que, por ser um philosopho,
+Herculano media em todo o seu alcance.»</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>Mas a aptidão superior que o leva a marcar n'um espirito o facto capital é
+acompanhada pelo tino da realidade que lhe impede de fazer derivar tudo d'este
+unico facto; ao lado d'esta causa primordial<span class="pn">{25}</span> o Sr.
+Oliveira Martins restabelece os principios subsidiarios que a modificam,
+limitando-a, e combinando-se com ella originam uma alma real, capaz de viver
+entre cousas reaes e de produzir obras reaes. Por este sentimento intenso do
+concreto o Sr. Oliveira Martins nos apparece como um verdadeiro artista, e não
+como um simples combinador de abstracções.</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>«.... Não basta o principio individualista para explicar a physionomia
+intellectual de Herculano. Varias causas concorriam para o temperar ou desviar
+das suas logicas conclusões. O saber é uma d'essas, mas a principal é o seu
+temperamento estoico. Para Herculano, e em geral para o estoicismo, uma
+doutrina não é um producto da intelligencia pura, que póde ser ou não amado e
+<em>vivido</em>. O estoico vive com o que pensa; o seu pensamento está no seu
+coração: é a carne da sua carne, o sangue do seu sangue; é uma fé, não é apenas
+uma opinião. Eminentemente forte, é por isso mesmo positivo e pratico. As
+doutrinas são para elle realidades, não são abstracções; e nada valem quando
+nada representam na esphera da consciencia e da moral, quando nada valham na do
+direito e da economia. Por isso as extremas conclusões do individualismo,
+irrealisaveis, praticamente absurdas, immoraes até, repugnantes para o proprio
+instincto, contradictadas pelo saber mais mesquinho, essas conclusões,<span
+class="pn">{26}</span> delicia d'espiritos seccos, de philosophos abstrusos, de
+ingenuos ignorantes,&mdash;não podia Herculano, sabio e estoico, abraçal-as. Parava,
+pois, afim de conciliar a sua opinião com o seu sentimento; e se em resultado
+sahiam inconsequencias, ellas não fazem senão demonstrar a verdadeira nobreza
+da sua alma e a tempera rija da sua intelligencia.</p>
+
+<p>«Lado algum das suas idéias mostra isso mais do que o economico. Tão
+livre-cambista como individualista: ou ainda mais, porque o socialismo, cujo
+crescer sentia e temia, vendo ahi um positivo e declarado inimigo, e o vivo
+problema do futuro, ou ainda mais, dizemos, porque não parava, nem limitava as
+conclusões ultimas, Herculano era radical no <em>free-trade</em>, pois
+firmemente acreditava n'elle como numa panacia. Estoico sempre, a doutrina da
+concorrencia apparecia-lhe principalmente por um lado,&mdash;secundario para os
+economistas. O livre-cambio, proclamado como a melhor receita para crear a
+riqueza, era para Herculano sobre tudo a melhor fórma de a distribuir. Queria
+que as leis pulverisassem o solo, no qual não reconhecia outro valor senão o
+que o trabalho consolidava n'elle, e esperava que a concorrencia, desembaraçada
+de todas as peias, creasse uma sociedade proudhoniana, em que todos fossem
+capitalistas e proprietarios. Como estoico, era um socialista; mas o seu
+socialismo realisar-se-ia pela liberdade, pela concorrencia. E quando se lhe
+contavam os<span class="pn">{27}</span> casos repetidos, actuaes, do sem numero
+de monopolios de facto, nascidos, não das leis, mas sim da guerra natural
+economica,&mdash;elle parava, scismava e não respondia.</p>
+
+<p>«Via-se que lá dentro luctavam a doutrina e a lucidez; em se convencer, sem
+mudar, apparecia o moralista invectivando os vencedores d'essa lucta donde elle
+esperava a justiça e donde apenas sahia o dolo. Ninguem o excedia então; e ao
+ouvil-o, dir-se-ia algum fugido de Paris, dos tempos da Communa,&mdash;porque nos
+referimos agora aos seus ultimos annos, ás vesperas da sua morte, quando a
+agiotagem <em>livre</em> de Lisboa e Porto provocou uma crise bancaria. Quiz
+então o governo cohibir a liberdade de emissão, mas não o pôde.»</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>E transcriptos uns trechos de carta em que o individualista defende a sua
+doutrina, mesmo contra argumentos tirados d'um campo, em que as consequencias
+d'ella são promptas e fulminantes, o critico prosegue.</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>«Mas se essa liberdade, expressa na concorrencia economica,&mdash;e na franca
+emissão de notas, no caso especial tomado para exemplo; mas se essa liberdade
+conduz a taes resultados, sendo em si excellente, força é que haja um vicio no
+mechanismo das instituições. E ha, sem duvida, diz Herculano,&mdash;é o
+anonymato.<span class="pn">{28}</span></p>
+
+<p>«Na essencia, a <em>bank-note</em> é a expressão do credito que o individuo
+attribue a si. Que se reunam 7, 70 ou 700 individuos para sommarem essas
+avaliações; que se chame banco e que exprimam collectivamente o total, isso não
+muda a essencia da cousa. Supprimia todas as responsabilidades
+<em>limitadas</em>. A responsabilidade é de sua natureza <em>illimitada</em>
+até onde chegam os recursos e pessoa do responsavel. <em>Non habet in posse,
+dicat in corpore</em>, é maxima que se não devia desprezar n'esta questão do
+abuso do credito. Note-se que eu desejaria supprimidas todas as
+responsabilidades limitadas, tacitas ou expressas, manifestas ou disfarçadas.»
+</p>
+
+<p>«Nós vimos antes como o espirito do erudito historiador corrigia em certo
+ponto a doutrina individualista; vemos aqui o jurista a corrigir o
+livre-cambio; vamos ver o canonista a corrigir para a direita o
+ultramontanismo, para a esquerda o atheismo. A educação do homem temperava os
+principios do philosopho; e essas correcções eram-lhe indispensaveis para que
+os seus pensamentos se mantivessem de accordo com os seus rectos instinctos,
+com as suas bellas aspirações,&mdash;eram-lhe indispensaveis, porque o estoico não
+admitte divergencias entre a intelligencia e a moral, entre o mundo das idéias
+e o das realidades.</p>
+
+<p>«Com fundado motivo dizia Herculano que perante os principios,&mdash;liberal e
+socialista, ou<span class="pn">{29}</span> individualista e collectivista,&mdash;era
+indifferente a questão das fórmas do governo: «pouco me incommoda que outrem se
+sente n'um throno, n'uma poltrona, ou n'uma tripeça». Mas essa questão da
+republica ou da monarchia, é para elle um problema não só historico, mas tambem
+religioso.</p>
+
+<p>«Pondo de parte a questão de opportunidade no momento d'uma crise, a
+republica não parecia a Herculano adequada «á velha Europa, sobretudo a estas
+sociedades meio-germanicas na indole e celto-romanas na raça que estanceiam ao
+occidente educadas pelo catholicismo que na pureza da sua indole é o typo da
+monarchia representativa.»</p>
+
+<p>«A tradição religiosa&mdash;ou antes aquella tradição religiosa d'um catholicismo
+liberal inventada pelo romantismo,&mdash;servia, pois, ao philosopho para temperar o
+seu individualismo, para o conciliar com um resto de auctoridade social
+consagrada nas prerogativas do throno representativo. De tal modo se combinava
+o racionalismo, e este traço é o que dá a Herculano, ou antes á sua doutrina um
+caracter d'individualidade original, depois do ensino, apenas racionalista de
+Mousinho da Silveira.</p>
+
+<p>«Tambem entrava ao lado da educação, o temperamento para acabar de afeiçoar
+a physionomia religiosa de Herculano. O mechanismo do frio Deus kantista não
+bastava á sua indole peninsular.<span class="pn">{30}</span> A imaginação
+pedia-lhe a antiga historia tradicional; o sentimento reclamava que quer que é
+d'affectuoso e meigo,&mdash;a doce caridade catholica; e o bom-senso exigia o culto
+e a pompa que impressionam as massas. O protestantismo, alvo das suas acerbas
+satyras, não satisfazia a sua alma, nem as suas exigencias de canonista. Nada
+propenso ao mysticismo, e até rebelde a comprehendel-o fóra da caridade
+pratica, não via na religião mais do que uma Egreja,&mdash;instituição e
+disciplina....</p>
+
+<p>«A Liberdade, supposto principio que para elle resumia a essencia d'um
+espirito racional e absolutamente consciente, era afinal o seu verdadeiro e
+intimo deus. É essa a religião do estoico; e o Deus da <em>Harpa do Crente</em>
+é um ser eminentemente livre que por um acto de vontade absoluta creou tudo o
+que existe: o deus do estoico é a divinisação do estoicismo. E como todos sabem
+por quanto esta antiga philosophia entrou na formação do christianismo, é
+desnecessario mostrar desenvolvidamente como e até que ponto Deus era para
+Herculano o Deus christão.</p>
+
+<p>«Obras de tres naturezas diversas nos revelam pelo estylo tres phisionomias.
+A primeira, official e grave, são os seus trabalhos historicos, onde o periodo
+redondo e classico, mas sem affectação quinhentista, se desenvolve alimentado
+pelos <em>caldos de Vieira</em> que nos receitava a nós os moços, para educar a
+mão; a segunda são os seus romances<span class="pn">{31}</span> e escriptos
+humoristicos, onde mal ataviado o periodo jesuitico, ás vezes combinado com
+fórmas e <em>tours</em> estrangeirados, transparece sempre o <em>goût du
+terroir</em>, o cunho do portuguezismo duro e pesado, mais aggressivo do que de
+comedia. Na terceira, finalmente, em nossa opinião a mais bella, nos escriptos
+de polemista a phrase rotunda é quente, a aggressão é viva, as palavras tem
+calor, e a dureza do genio lusitano acha nos sentimentos expressos em orações
+duras, uma convicção, uma independencia que a ennobrecem. Ouve-se a voz do
+estoico, e ha uma harmonia perfeita entre o pensamento profundo, grave e forte,
+e o estylo redondo, sobrio e nobre. A rethorica classica é o molde proprio do
+classico pensamento estoico. Mas entre estas obras ha uma, uma unica (<em>Carta
+á Academia das Sciencias</em>), onde apparece o homem intimo, sensivel,
+caridoso e simples, esse homem que nós esboçamos fugitivamente, porque a vida,
+a educação, o temperamento, de mãos dadas concorriam para o subalternisar ao
+homem estoico; ha uma dizemos, em que as palavras não falam apenas, choram e
+vociferam, tem lagrimas e imprecações e ironias. Ferido no vivo coração da sua
+existencia, o homem poz no papel o melhor do seu sangue. O que o genio do
+artista obtem com a intuição, consegue-o o poeta com a emoção. A <em>Carta á
+Academia</em> é tão bella como as melhores das poesias intimas de
+Herculano.<span class="pn">{32}</span></p>
+
+<p>«Para elle que, como lusitano, nada tinha de artista (prova, os seus
+romances), a litteratura era uma missão e não um dilletantismo. O universo, a
+historia, a sociedade, não se lhe apresentavam como assumpto de estudos subtis
+e curiosos, de observações finas ou profundas, de quadros brilhantes, vivos ou
+commoventes; mas como objecto de affirmações ou negações inspiradas pela
+convicção estoica. Nos seus livros póde seguir-se ao mesmo tempo o
+desenvolvimento do seu pensamento e a historia da sua consciencia. São o
+retrato da alma do auctor, ora apaixonada, ora melancholica, quasi sempre
+triste, raras vezes contente, mas sempre convicta, energica e franca.</p>
+
+<p>«As <em>Poesias</em> e o <em>Eurico</em> revelam-nos o crente na providente
+liberdade d'um poderoso e justo Deus; a alma rijamente temperada contra o
+funesto acaso; o coração aberto ás emoções da natureza que se lhe manifesta com
+o caracter d'uma fatalidade cruel e d'um cego desabrimento. Deus, a Natureza, o
+Homem, são, n'essas obras, personnagens d'uma tragedia biblica, com a
+tempestade rouca por musicas e por fundos de scena bulcões de opacas nuvens
+cobrindo o azul do ceo.</p>
+
+<p>«Vem depois as obras polemicas, vasta e riquissima collecção que patenteia a
+omnimoda actividade do pensamento de Herculano, e lhe dá o caracter d'um
+philosopho, cujo pensamento em vez de se manifestar em tratados, se exprime em
+controversias.<span class="pn">{33}</span> Profissionalmente, era historiador.
+A <em>Historia de Portugal</em> e os trabalhos que com ella formam o corpo dos
+estudos do erudito são a obra mais importante do escriptor e solido fundamento
+do seu immorredouro nome na historia litteraria portugueza. Reunindo a um vasto
+e forte saber geral a paciencia do erudito e o escrupulo do critico, esses
+trabalhos não respiram a pedante seccura do especialismo, e se não constituem,
+nem podem constituir uma historia nacional, fizeram com que os problemas das
+origens sociaes e politicas da nação portugueza fossem por uma vez resolvidos.
+A historiographia peninsular tem em Herculano o seu mais illustre nome: um nome
+que se conservará ao lado do de Guizot, de quem tinha os golpes de vista
+comprehensivos, e do de Thierry, a quem acompanhava na faculdade de representar
+vivas, nos seus habitos, costumes e leis (senão em sua alma como um Michelet)
+as passadas gerações,&mdash;avantajando-se a ambos na coragem com que arcou com o
+trabalho improbo de colligir, coordenar, traduzir, interpretar os monumentos
+historicos d'um povo que não tivera benidictinos eruditos. Robinson de nova
+especie, Herculano achou-se como n'um paiz deserto e teve de descobrir os
+materiaes antes que pudesse pôr mãos á obra.</p>
+
+<p>«Prodigio de trabalho, de saber, de paciencia, de talento, a <em>Historia de
+Portugal</em>, é um monumento;<span class="pn">{34}</span> entretanto,&mdash;devemos
+dizel-o, se quizermos ser inteiramente justos.&mdash;mais de uma cousa lhe falta,
+para poder ser considerada um typo, e o seu auctor um grande historiador como
+Ranke. Falta-lhe ar na contextura sobrecarregada de eruditas discussões;
+falta-lhe, sobre tudo, aquella alta e serena imparcialidade, aquelle ponto de
+vista rigorosamente objectivo, aquella isenção critica, impassivel perante as
+escholas, os systemas, os partidos; e sem a qual a historia deixa de o ser.</p>
+
+<p>«Além d'isto, ha uma falta de nexo na <em>Historia de Portugal</em>,
+resultado do modo como primeiro foi concebido.... as duas faces do livro se não
+ligam,... os factos e os homens nos apparecem como um appendice, subalterno,
+indifferente, dando a impressão de que se tivessem sido outros e diversos, nem
+por isso a vida anonyma das sociedades poderia ter seguido rumo differente. E
+se nem a acção dos elementos voluntario-individuaes e dos fortuitos, sobre os
+elementos sociaes, nem a inversa, nos apparece, tirando assim á historia o seu
+caracter eminente de realidade; juxtapondo artificialmente a uma chronica,
+veridica, desinçada dos erros e das invenções fradescas, uma dissertação
+erudita sobre o desenvolvimento das instituições: tambem a apreciação dos
+elementos moraes,&mdash;crenças individuaes, phenomenos de psychologica
+collectiva,&mdash;é feita á luz de doutrinas quasi voltaireanas; e no avaliar das
+lendas religiosas,<span class="pn">{35}</span> da acção do clero, o historiador
+prescinde de profundar os motivos moraes, ou cede a palavra ao sectario que nos
+bispos e em Roma não vê outra cousa mais do que sacerdotes da astucia e uma
+Babylonia de perversão.».</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>N'este magnifico retrato se vê em alto relevo todos os recursos do auctor.
+No arcar com uma empresa difficil se mede toda a força disponivel. Tendo de
+estudar uma natureza complexa e eminente, o psychologo desenvolveu n'esse
+trabalho todos os recursos do seu eminente e complexo espirito. Eminente e
+differente, o espirito estudado vê-se que quem o estuda, nem philosopho por
+officio, nem stoico por temperamento, é capaz de, pela imaginação psychologica,
+perceber as idéias geraes e as paixões moraes. Quiz transcrever quasi na
+integra, estas paginas numerosas, mas que se lêem d'um fôlego, porque um bom
+exemplo se não é um ramo legitimo de prova, é um instrumento optimo de
+exposição, e convem expor com a lucidez maxima, aquella que reputo a faculdade
+matriz do espirito que analyso, e que nenhum escriptor portuguez contemporaneo
+possue em tão alto grau como o Sr. Oliveira Martins.<span
+class="pn">{36}</span> <span class="pn">{37}</span></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h1><a name="SECTION000200">II <br>
+AS PAIZAGENS</a> </h1>
+
+<p>Com a imaginação psychologica, possue elle a imaginação physica? O exame das
+suas paizagens o dirá. Um escriptor como o Sr. Ramalho Ortigão, por exemplo, em
+quem o dom da representação visual, apparece completo e permanece intacto,
+procederá nas suas descripções pela transcripção minuciosa, exacta e methodica
+das impressões taes como foram recebidas, ou antes taes como foram enviadas dos
+objectos. Se elle descreve um trecho qualquer da realidade, supponhamos uma rua
+de Amsterdam, começará por calcular-lhe a largura, 3 metros; verá os predios de
+tres e quatro andares, em tijolo; notará em seguida a côr do tijolo, preto, e a
+nuance particular, preto côr de sombra ou vermelho tostado; falará das varas
+pintadas de verde dos enxugadouros, onde pendem riscados brancos, azues e
+vermelhos; observará as pranchas com vasos, as taboletas sobre as portas,<span
+class="pn">{38}</span> vinte objectos miudos ou dispersos, um gallo branco de
+crista encarnada, o pão de assucar da tenda, uma chave de broca para o ar, tres
+queijos sobrepostos, um branco, um dourado, um preto; uma lanterna, um barril,
+um tamanco; nas janellas, os espelhos quadrados de caixilho de ferro; no chão
+comprido e varrido da rua, arrumados á parede uma vassoura, baldes, gigas,
+celhas, o pincel das lavagens, uma roda desembuchada do eixo, uma lança de
+corvo, uma gaiola de frangos, e n'uma casota, um sapateiro velho, de oculos,
+sobre a tripeça, curvado a trabalhar, com o tecto em cima do seu
+<em>bonnet</em> de lontra. E os objectos virão descriptos com uma tão vehemente
+fidelidade, que enumerando-os parecerá, não que elle redige um rol mas que
+estampa uma visão. E as manchas da côr, a direcção das linhas, a obtusidade ou
+a agudeza dos angulos, a disposição e o recuo dos planos visuaes, o systema das
+apparições corporaes dadas na adaptação dos seus elementos intestinos, e nas
+combinações ou contrastes com as apparições adjacentes, o peso, a forma, a
+proveniencia e a utilidade das cousas vistas, serão dictas n'uma prosa de tal
+sorte adequada pela sua provada firmeza e estructural precisão ao genero de
+trabalho a que a submettem, que o leitor se lá esteve, sem querer, exclama: S.
+Nicolas Straat! repetindo o nome que leu e a rua por que passou.</p>
+
+<p>São assim as descripções do Sr. Oliveira Martins?<span
+class="pn">{39}</span> Não são. Na sua Historia Romana, no livro das guerras
+punicas, encontram-se descripções admiraveis que rivalisam em colorido e
+nitidez com as melhores do Sr. Ramalho Ortigão; mas a influencia litteraria é
+visivel n'ellas, são reminiscencias intelligentes da <em>Salammbo</em> de
+Flaubert. Ha porém nos seus livros paizagens vistas cuja originalidade é
+incontestavel. N'essas o processo descriptivo é bem diverso. O Sr. Oliveira
+Martins não nos diz o que observou, mas o que sentiu. Os aspectos physicos não
+lhe apparecem senão como signaes de forças e fontes de emoções. E a emoção que
+elle procura e acha na visão. Se elle observa uma arvore não lhe vê a côr das
+folhas nem os contornos dos troncos, e se o faz é com intenção e esforço;
+nota-lhe a expressão moral: «Os campos sobem em terraços viçosos, assombrados
+pela oliveira <em>doce e pallida</em>, dando com a sua folhagem minuscula,
+<em>um tom aereo, um tom grego</em> á paizagem.....» Ou ainda «o aloés
+orgulhoso levantando <em>com imperio</em> o seu pennacho de carmim». Falando
+com precisão elle não reproduz o aspecto das cousas, mas a sua physionomia. As
+suas paizagens são retratos. Um pedaço qualquer da realidade corporea não é
+para elle mais que um afloramento de energias latentes e uma causa de
+sentimentos presentes. O pensamento de Amiel, que uma paizagem é um estado da
+alma, inexacto para os escriptores de imaginação physica, é absolutamente
+verdadeiro para<span class="pn">{40}</span> os escriptores de imaginação
+psychologica, como o Sr. Oliveira Martins. Elle encara a natureza não como um
+pintor mas como um poeta.</p>
+
+<p>Precisemos ainda mais esta analyse. Uma paizagem é um conjuncto de elementos
+materiaes coordenados de um certo modo no espaço e reflectido de um certo modo
+no espirito. Dos diversos factos em que ella póde ser resolvida, uns são
+propriamente objectivos como a grandeza e a figura, outros uma pura sensação
+individual, como a côr, ou uma fonte directa de emoção como o movimento. D'aqui
+nascem duas ordens de paizagens, uma a que chamarei descriptiva, outra a que
+cabe o nome de expressiva. As do Sr. Oliveira Martins são expressivas, como
+convem a um escriptor de imaginação psychologica. Isto explica tambem porque
+elle prima na pintura de certas scenas e claudica na descripção de outras.
+Descreve muito melhor uma batalha do que um assedio, e um naufragio do que uma
+viagem. As tumultuosas descripções, motins, cavalhadas, procissões, triumphos,
+combates e festas abundam nos seus livros e são excellentes. Não assim as
+scenas tranquillas que demandam a lucidez de memoria e segurança de traço e que
+não provocam senão uma emoção pacifica e duravel. Uma viva preoccupação da
+força é visivel nas suas grandes descripções e em nenhuma ella se manifesta tão
+energica como nas magnificas paginas sobre o terremoto.<span
+class="pn">{41}</span></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>«Na manhã do 1º de novembro a cidade estremeceu, abalada profundamente e
+começou a desabar. Eram nove horas, dia de Todos-os-Santos: nas casas ardiam as
+velas nos oratorios, e as egrejas regorgitavam povo a ouvir missas. Toda a
+gente, n'uma onda, correu ás praias; mas, rolando em massa, estacou perante a
+onda que vinha do rio, galgando a inundar as ruas, invadindo as casas. Por
+sobre este encontro ruidoso, uma nuvem de pó que toldava os ares e escurecia o
+sol, pairava, formada já pelos detritos das construcções e das mobilias, que o
+abalo interno da terra vasculhava, e os desabamentos enviavam, em estilhas,
+para o ar. A onda do povo afflicto, retrocedendo, a fugir do mar, tropeçava nas
+ruinas; e as quedas, e a metralha dos muros que tombavam, abriam na floresta
+viva, agitada pelo vento da desgraça, clareiras de morte, montões de cadaveres
+e poças de sangue dos membros decepados com manchas brancas dos cerebros
+derramados contra as esquinas. E as casas erguiam se com as paredes desabadas,
+os tectos abertos sobre o esqueleto dos tabiques, mostrando a nú todos os
+interiores funestos, n'este dia em que, para muitos, Deus julgara e condemnara
+Lisboa, como outr'ora fizera a Sodoma. Por isso o rouco trovão dos desabamentos
+se ouvia cortado pelos ais dos moribundos, e pelos gritos dos homens e das
+mulheres, abraçadas ás cruzes, aos santos, ás reliquias, soluçando ladainhas,
+ungindo<span class="pn">{42}</span> moribundos, parando esgazeados a cada novo
+abalo da terra que não cessava de tremer, arrastando-se pelo chão, de joelhos,
+com as mãos postas a face em lagrimas, a clamar: Misericordia! Misericordia!
+</p>
+
+<p>«Casas, palacios, conventos, mosteiros, hospitaes, egrejas, campanarios,
+theatros, fortalezas, porticos, tudo, tudo cahia. «Se visses sómente o palacio
+real, diz uma testemunha, que singular espectaculo, meu irmão!» Os varões de
+ferro torcidos como vimes, as cantarias estaladas como vidro! A onda do rio
+sorvia n'um momento o caes do Terreiro-do-Paço, com os barcos atracados
+coalhados de gente. Dos andares altos precipitavam-se sobre as lages das ruas.
+O medo crescia, vinha a loucura; viam-se mortos arrastados pelos vivos, viam-se
+mutilados coxeando, gente correndo desgrenhada, semi-nua, homens e mulheres,
+velhos e crianças, dilacerados, sangrentos, arrastando uma perna fracturada,
+esvahindo-se em sangue por algum membro decepado. Gritos, choros, clamores,
+imprecações, ais, preces, um borborinho de vozes desvairadas acompanhava os
+gemidos comprimidos dos soterrados nos escombros. No turbilhão das ruas havia
+quedas e mortos, abraços e agonias. A mesma loucura dos homens era o
+desvairamento dos brutos: os machos, desbocados, arrastavam os cavalleiros e as
+caleças, precipitando-se nos despenhadeiros da cidade montuosa; e as massas
+de<span class="pn">{43}</span> gente viva, moribunda e morta, de envolta com os
+entulhos, rolavam nas ruas ladeadas pelos esqueletos das casas como uma imagem
+desolada do que seria o cahos. Quando a terra se subvertia, quando o mar vinha
+subindo afogar a terra, quando no ar faiscavam as linguas flammiferas
+rutilantes, que lembrança podia haver das invenções humanas? Abraçados,
+confundidos, na communidade do pranto, fidalgas e freiras, meretrizes e mães,
+mendigos e senhores, villões e cavalheiros, traçavam-se na communidade da fome,
+do frio, da nudez, do terror. De rastos a cidade inteira, sacudida pelo abalo
+formidando, reunia toda a sua eloquencia numa palavra unica&mdash;Misericordia!
+Misericordia!</p>
+
+<p>«Mas vinha o clarão das chammas com a sua luz sinistra; vinha a labareda
+fustigar com o lume a pobre gente semi-nua, tiritando sob o açoute de um
+nordeste frigido; gelava-se e ardia-se a um tempo; suffocava-se em fumo e pó! E
+as labaredas cresciam, e o incendio lavrava, e aos gritos desvairados dos
+infelizes ajuntava-se o crepitar das madeiras o estalar das cantarias, a
+cascalhada dos espelhos, dos crystaes e dos charões, que o fogo devorava. A
+densa nuvem de pó que escurecia tudo, illuminava-se com os clarões vermelhos
+que rebentavam por toda a parte, porque Lisboa inteira derrocada era um
+brazeiro. As linguas orgulhosas das chammas subiam emproadas para o ceo,
+juntando<span class="pn">{44}</span> ás preces lacrimosas dos habitantes como
+um protesto satanico dos elementos. Outros protestos, mais positivos e
+egualmente horriveis, atroavam agora os ares: os escravos vingavam-se da sua
+escravidão, os mendigos da sua pobreza, os maus da sua maldade. O assassinato,
+o estupro, o roubo, como n'uma terra posta a saque, rolavam de envolta com as
+ruinas e o fogo: e por entre os destroços ainda apagados, viam-se os perfis
+negros dos escravos, rindo infernalmente, com os olhos injectados, os dentes
+brancos, a atiçar tições ardentes para cima das ruinas, augmentando o incendio,
+acclamando a chamma vingadora!... Misericordia! Misericordia!»</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>Estas paginas tem o encanto da desordem e a majestade da força. O que seria
+defeito na descripção de scenas calmas e de objectos regulares é virtude na
+pintura de paysagens revoltas e de figuras desmedidas e informes. A violencia
+extrema da imaginação é adequada ao caracter terrivel do quadro. O sentimento
+vivo da energia que abunda nos trabalhos do Sr. Oliveira Martins, não podia ter
+melhor emprego do que na representação dos estragos produzidos pelo
+desencadeamento da energia. Ajunte-se a estas paginas que transcrevo, outras
+que calo. Leiam-se as suas descripções de incendios, batalhas, execuções,
+matanças, sedições populares, tumultos parlamentares. Observe-se que a<span
+class="pn">{45}</span> poesia é a arte que tem por instrumento a palavra, e que
+a palavra, pela sua origem provavel e pela sua ligação certa com a paixão, é
+uma expressão natural dos movimentos da alma, que a obra litteraria tem antes
+um alcance moral do que um valor plastico, e ver-se-á que tive razão quando
+disse que o Sr. Oliveira Martins procedia na composição das suas paizagens não
+como um pintor mas como um poeta.</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>Como um poeta e como um geographo. Não só as suas paizagens são sentidas,
+mas ainda pensadas. Ellas são para elle não só fontes de emoção, mas resultados
+de forças, constituidas em systemas naturaes pela communidade das causas que as
+determinam, e pela identidade de effeitos que provocam nos espiritos sobre que
+actuam. São poemas que se leem, effeitos que resultam, e meios em que se vive.
+Assim, depois, de ter descripto a largos traços a paizagem italiana, resume:
+«Ao sul da Italia reinam os vulcões, ao norte imperam os rios; além o
+constructor da terra é o fogo, aqui a agua.» Leia-se na <em>Historia de
+Portugal</em> esta descripção do littoral alemtejano.</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>«As aguas estagnam ou escasseiam nos baixos, as populações definham. Ou
+torradas pelo arido suão que os areaes ardentes não podem suavisar, e sem
+montanhas que obriguem os vapores do mar<span class="pn">{46}</span> a
+condensarem-se, ou envenenadas pelos miasmas dos paúes que o sol de fogo põe
+numa fermentação permanente, as populações amarellidas e magras definham,
+curvadas pelo mortifero trabalho das marinhas de sal, ou da cultura do arroz.
+São o contraste das baixas do norte do paiz, estas baixas do sul. Além,
+copiosas chuvas e uma humidade criadora; aqui, o ar secco (500 a 700 mill.
+annuaes, 30 a 50 no estio; humidade 30 a 80%), duro e carregado de emanações
+mephiticas. Além uma temperatura branda, aqui um calor excessivo (med. 17°).
+Além uma população exuberante; aqui as solidões e os areaes nus, matisados pela
+traiçoeira cevadilha, e pelo aloés orgulhoso, levantando com imperio o seu
+pennacho de carmim. Além homens laboriosos e familias; aqui esfarrapadas tribus
+em choupanas, tiritando com o frio das sezões n'uma atmosphera de fogo,
+mulheres esqualidas, crianças verde-negras, homens na indifferença da
+desolação, ou na vertigem do crime!» Eil-o que penetra na paizagem fazendo
+reflexões de geographia e meteorologia, munido de um udometro e de um
+hygrometro. A imaginação não fica abafada sob os dados numericos e technicos, e
+o quadro com ser instructivo não deixa de ser artistico.</p>
+
+<p>Dos dois caracteres que notamos nas paizagens do Sr. Oliveira Martins, o ser
+uma transcripção de emoções e o ser a explicação de um mechanismo o<span
+class="pn">{47}</span> ultimo predomina no trecho que acabamos de citar, o
+primeiro no que antes citaramos; ambas apparecem n'um justo equilibrio no que
+passamos a citar.</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>«Aquem Tamega o scenario muda. A humidade cria em toda a parte vegetações
+abundantes; não ha um palmo de terra d'onde não brote um enxame de plantas; mas
+como o solo é breve, como a rocha afflora em toda a parte, e os campos nascem
+do terreno vegetal formados nas anfractuosidades do granito pelas folhas e
+ramos decompostos e nos estuarios dos rios pelos sedimentos das cheias, a
+vegetação é rasteira e humilde, o pinho maritimo de uma constituição debil, o
+carvalho um pygmeu, enleado ainda pelas varas das vides suspensas. A densidade
+da população completa a obra da natureza, numa região onde o vinho não
+amadurece: o acido picante dá-lhe uma semelhança das bebidas fermentadas do
+norte, cidra ou cerveja, e com ella, ao genio do povo caracteres tambem
+semelhantes aos dos bretões e flamengos. A vegetação de si mesquinha, é
+amesquinhada ainda pela mão dos homens; as necessidades implacaveis da
+população abundante, produzem uma cultura que é mais horticola do que agricola:
+pequeninos campos circumdados por pequeninos valles, orlados de carvalhos
+pygmeus decotados, onde se penduram os cachos das uvas verdes. No<span
+class="pn">{48}</span> meio d'isto formiga a familia: o pae, a mãe, os filhos,
+immundos atraz d'uns boisinhos anões que lavram uma amostra de campo, ou puxam
+a miniatura de um carro. Sob um ceu ennevoado quasi sempre, pisando um chão
+quasi sempre alagado, encerrado n'um valle abafado em milhos, dominado em torno
+por florestas de pinheiros sombrios, sem ar vivificante, nem abundante luz, nem
+largos horizontes, o formigueiro dos minhotos não podendo despegar-se da terra
+como que se confunde com ella; e com os seus bois, os seus arados e enxadas
+forma um todo, donde se não ergue uma voz de independencia moral, embora a
+miude se levante o grito da resistencia utilitaria. A paizagem é rural não é
+agricola; a poesia dos campos é naturalista, não é idealmente pantheista. Quem
+uma vez subiu a qualquer das montanhas do Minho e dominou d'ahi as lombadas
+espessas d'arvoredo, sem contornos definidos, e os valles quadriculados de
+muros e renques de carvalhos recortados, sentiu de certo a ausencia de um largo
+folgo de ideal, de uma viva inspiração de luz: apenas aqui e acolá, no meio da
+monotonia da côr dos milhos, um canto do alegre verde do linho, vem lembrar que
+tambem no coração do minhoto ha um logar para o idyllio infantil do amor.»</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>Se eu quizesse resumir o que penso das paizagens<span class="pn">{49}</span>
+do Sr. Oliveira Martins, diria que ellas revelam uma percepção mediocre da
+linha, e uma percepção maior da côr, um sentimento vivo dos movimentos, uma
+visivel tendencia para traduzir os aspectos physicos em impressões moraes, e
+uma aptidão activa para explicar os aspectos physicos como mechanismos
+naturaes; traços estes que dão ás suas paizagens o valor de um elemento da
+Historia. Ellas são productos da imaginação psychologica e da razão abstracta
+do auctor, e depois de termos largamente examinado a primeira estudando os seus
+retratos, vamos analysar a segunda, estudando as suas theorias.<span
+class="pn">{50}</span> <span class="pn">{51}</span></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h1><a name="SECTION000300">III <br>
+AS THEORIAS</a> </h1>
+
+<p>Qual é a sua concepção do mundo? qual o seu processo de invenção? qual o seu
+methodo de prova? qual a quantidade a qualidade e a ligação das suas idéias
+geraes? Eis as perguntas que um critico deve fazer sempre que queira ter uma
+percepção clara da razão do escriptor que analysa.</p>
+
+<p>Á portada do seu livro <em>O Hellenismo e a Civilisação christã</em> ha uma
+theoria digna de attenção, menos pelo seu valor intrinseco de verdade ou
+novidade do que pela sua importancia como indicio do espirito que a formulou. É
+a theoria do Acaso. Em presença da realidade historica, como em presença da
+realidade natural, o Sr. Oliveira Martins é ferido pelo caracter eminentemente
+<em>concreto</em> que ella apresenta. A infinita complexidade propria das
+cousas e que imprime a cada uma um caracter de individualidade, não escapa á
+sua observação.<span class="pn">{52}</span> Na sciencia, pensa elle, o
+necessario e o fortuito tem uma funcção igualmente inevitavel. É certo que o
+Sr. Oliveira Martins não confunde o fortuito com o milagroso, que justamente
+regeita como irracional. Mas admittindo ser impossivel explicar um caso
+qualquer na sua totalidade, elle introduz um elemento d'ignorancia mesmo
+n'aquella porção da Realidade que é confessadamente do dominio da sciencia
+positiva. É isto que a sua notavel theoria do Acaso enuncia com a lucidez
+propria das operações abstractas. Os factos apparecem-lhe certamente formando
+series e ligados entre si pelo nexo da causalidade. Mas o encontro d'essas
+series determina nos pontos de intersecção a apparição de novas formas de
+realidade, cuja existencia a sciencia não póde explicar, visto o encontro das
+series não ser necessario, e cujos aspectos o investigador se deve limitar a
+descrever, abandonando aqui a razão abstracta, instrumento adequado á
+descoberta das leis geraes, pela imaginação poetica, visão sufficiente da
+existencia concreta.</p>
+
+<p>Sem entrar na discussão desenvolvida d'esta theoria, a meu ver inexacta, não
+posso deixar de me demorar um instante com ella. A introducção da noção de
+Acaso como elemento constitutivo da Realidade, quer se considere o Acaso como
+ausencia de leis, quer seja apenas synonymo de contingencia no encontro das
+series naturaes expressas<span class="pn">{53}</span> por essas leis, significa
+sempre uma abdicação confessada ou tacita da Razão. A previsão dos casos
+futuros, aferidora da solidez das verdades adquiridas, torna-se tão impossivel
+n'um universo em que a ausencia de causalidade implica uma constitucional e
+incuravel anarchia, como n'um mundo em que os factos apparecem, sim, ligados
+por um nexo abstracto de causalidade, mas em que as cousas são aggregados
+contingentes, resultantes da intercorrencia de series independentes. A
+coherencia parcial representada pela existencia d'essas series é inutilisada
+pela ausencia de uma connexão natural que ligue as series n'um systema,
+resultando d'ahi uma incoherencia effectiva como a que torna um cahos o mundo
+concebido pela philosophia de Stuart Mill. Os resultados de uma tal doutrina
+fazem-se sentir logo; e não é difficil dizer porque occorrem ás vezes á penna
+do Sr. Oliveira Martins expressões singulares, que levariam a suspeital-o de
+scepticismo intellectual, se o corpo das suas opiniões não desmentisse uma tal
+hypothese, e se o proprio auctor não corrigisse o que as suas expressões possam
+conter de excessivo. Copiarei do prefacio do <em>Portugal contemporaneo</em>
+estas linhas para exemplo: «O profundo e inabalavel reconhecimento das causas
+que fazem dos homens os instrumentos do acaso ou do destino!...» N'este trecho
+está como que visivel toda a theoria. A affirmação das causas não exclue a<span
+class="pn">{54}</span> admissão do Acaso e uma extranha reserva coexiste com um
+dogmatismo energico.</p>
+
+<p>A theoria acima exposta contém certamente alguma cousa de verdadeiro; para
+que fosse absolutamente exacta seria preciso completal-a pela affirmação de uma
+solidariedade estructural entre as partes e de uma unidade systematica no todo
+universal. Affirmação esta que tem o seu fundamento quer na doutrina da
+communidade d'origem e identidade latente dos elementos da Realidade, quer na
+philosophia que vê na idéia de Systema como no conceito de Causa formas
+condicionaes do pensamento. Admittindo qualquer d'estas hypotheses, o Sr.
+Oliveira Martins não se privava do direito de se conservar n'uma prudente
+reserva em frente da esmagadora complexidade das cousas concretas, antes lhe
+seria facil motivar a sua abstenção com a impossibilidade em que se acha o
+espirito de exgottar por analyses successivas a quantidade infinita de
+elementos que entram na formação do mais insignificante phenomeno. De maneira
+que esta impossibilidade de explicação completa proviria não de uma falta de
+coherencia entre as series causaes, mas de um excesso d'ella. Fundada nestas
+duas idéias, o Universo e o Individuo, é possivel proceder á construcção da
+sciencia positiva. Para conseguil-o deve-se ainda recorrer a principios
+subsidiarios. Não entra no programma d'este estudo enuncial-os. Diga-se porém
+que a<span class="pn">{55}</span> noção de jerarchia de causas e a comparação
+entre grandezas de forças são instrumentos adequados á resolução do problema.
+</p>
+
+<p>Seja porém qual for o valor doutrinal d'esta theoria, ella nos interessa
+como documento do espirito que analysamos. Vê-se que o Sr. Oliveira Martins
+encontra na realidade dois principios, um necessario, outro fortuito. Quanto ao
+primeiro o nosso auctor exprime-se categoricamente; e investe-o de certeza
+absoluta; e no fim do seu livro a <em>Anthropologia</em> escreve o seguinte: «A
+logica dipensa os prolegomenos da physiologia; e todos os progressos passados
+ou vindouros da anatomia do cerebro não alteraram, nem alterarão uma linha só
+do systema das suas leis. Podemos affirmar com afouteza que o que torna certa
+para nós uma proposição, a tornaria egualmente certa para intelligencias tão
+bem munidas de conhecimentos como a nossa: embora com a indispensavel
+capacidade organica, tivessem uma constituição physiologica differente. Com
+algumas circumvoluções mais ou menos no cerebro talvez se não seja capaz de
+comprehender a geometria; mas, sendo-se, a geometria não poderá ser diversa da
+que nos ensinaram Euclides ou Archimedes.» Esta peremptoria affirmativa nos
+revela uma intelligencia que por natureza ou por systema, se não deixa immergir
+nas nevoas da duvida. Quanto á admissão de um elemento fortuito na realidade, é
+conveniente observar que<span class="pn">{56}</span> o Sr. Oliveira Martins não
+só o confessa mas ainda o pratica. Com effeito nas suas narrações e deducções
+elle foge ás explicações que se contentam com uma só causa; as suas previsões
+são cheias de restricções. Pegar n'um trecho da realidade, despil-o de tudo
+quanto for accessorio, decompol-o n'um pequeno numero de elementos
+constitucionaes, referil-os a um pequeno numero de causas simples, subordinar
+todas estas causas a um só principio explicativo que é razão sufficiente de
+todo o grupo estudado, partir do trabalho feito para formular previsões
+imperiosas semelhantes a ordens dadas ao futuro, são actos proprios das
+intelligencias simplistas e centralistas, de que offerecem um excellente
+exemplo entre nós os primeiros escriptos do Sr. Theophilo Braga. O Sr. Oliveira
+Martins procede de um modo bem diverso. Elle multiplica os pontos de vista, não
+poupa principios novos para explicar novas formas de existencia, foge de
+theorias demasiado simples, e quando formula uma lei só admitte a sua futura
+realisação sob certas condições, abstendo-se de uma excessiva confiança na
+sciencia como explicação do presente ou previsão do porvir. Sem tomar as
+interminaveis precauções, nem ter a delicadeza infinita de um Ernesto Renan,
+por que lh'o não permitte o temperamento nimiamente apaixonado da raça, a sua
+prudencia é grande e seria efficaz, se a não prejudicasse o seu exaggerado e
+contumaz<span class="pn">{57}</span> espirito de improvisação. Assim como é,
+não se torna porém difficil mostrar a relação que prende os seus habitos
+d'intelligencia á sua concepção da realidade.</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>Nem é menos facil apontar o nexo logico que liga a concepção exposta e as
+tendencias indicadas ao seu habitual e confessado processo de indagação. «Não
+bastam á historia, diz elle, a observação e o systema classificador, assim como
+á sua lingua, não bastam a precisão e a clareza; é mister sentir e adivinhar e
+por no estylo a vida e o calor proprios das cousas moraes». E accrescenta: «O
+historiador não reproduzirá a sociedade, se não poder combinar no seu espirito
+o raciocinio que descreve, a intuição que vê a alma que sente.» É mister sentir
+e adivinhar diz o Sr. Oliveira Martins e é o que elle faz de preferencia.
+Alguns verão n'estas palavras um paradoxo ou uma ironia. Mas as pessoas
+versadas no assumpto sabem que ha duas maneiras de inventar: Ou se parte da
+observação das causas e por um laborioso processo de raciocinio se sobe aos
+principios mais geraes que as explicam, ou por uma immediata e impetuosa
+improvisação se descobrem estes mesmos principios sem passar por todas as
+intermediarias logicas que são os seus antecedentes naturaes. D'estas duas
+classes de intelligencias, uma fadada para a grande descoberta inconsciente,
+outra predestinada para a perfeita<span class="pn">{58}</span> prova efficaz, e
+que mutuamente se completam, porque se uma é a invenção, a outra é a
+demonstração, o Sr. Oliveira Martins pertence á primeira, isto é, apparece-nos
+antes como um poeta, do que como um orador. Certamente elle estuda os assumptos
+de que trata, mas vê-se que as suas theorias derivam menos da erudição que da
+intuição. Póde-se dizer que elle adivinha, se entendermos por adivinhação, não
+uma milagrosa apprehensão de principios impossiveis de descobrir por meios
+naturaes, mas uma veloz e certeira descoberta de verdades que seria lento e
+penoso investigar pelo raciocinio ordinario. O nosso auctor pertence, salvo as
+differenças de grandeza, a essa classe d'espiritos, de que são excellentes
+exemplares Michelet na França, Carlyle na Inglaterra, e na Allemanha tantos
+Allemães. É antes um poeta, do que um orador. Porque os attributos proprios da
+razão oratoria, o instincto da ordem, o habito da symetria, o emprego das
+verdades claras e equidistantes, a contextura equilibrada e a velocidade
+uniforme do discurso, a abundancia de argumentos e a efficacia de provas, não
+são visiveis nos seus livros. Pelo contrario, os dons propriamente poeticos, a
+veracidade e a intensidade da visão concreta, a energia da imaginação
+instantanea e intermittente, o vôo desigual e tortuoso do raciocinio, o emprego
+da inspiração, e da paixão como processos de descoberta e exposição, saltam aos
+olhos de quem o<span class="pn">{59}</span> estuda. Este genero de espirito é
+fadado, pela sua estructura, ás verdades importantes e aos erros frequentes, e
+nem umas, nem os outros faltam nos trabalhos do Sr. Oliveira Martins.</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>D'entre os dotes oratorios acima indicados, e cuja falta notei no Sr.
+Oliveira Martins, um dos mais importantes é certamente o talento e o gosto da
+prova; qualidade esta cuja importancia sobe de ponto, se observarmos que a
+prova é não sómente um instrumento da eloquencia, mas ainda um elemento da
+sciencia. Quem o leu, observou de certo, que elle se contenta com expor as
+idéias, muitas vezes novas, sempre interessantes, que lhe occorrem nas suas
+explorações atravez da Historia, sem procurar fundamentar as suas theorias, e
+tornar evidente aquillo que considera como verdadeiro. E não só esta ausencia
+de provas é visivel em questões theoricas, mas ainda em materia de factos.
+Certamente as narrações do Sr. Oliveira Martins tem um cunho d'extrema
+verosimilhança. Artista pela visão das massas e pelo sentimento dos conjunctos,
+elle sabe adequar os pequenos factos que escolhe ao effeito final que deseja, e
+nos seus livros a harmonia do todo garante a veracidade das partes. Mas salvo
+esta garantia que é commum ao romance que se imagina, como á historia que se
+narra, nada merece nas suas obras o nome de demonstrado. Nem a immensa
+accumulação dos factos<span class="pn">{60}</span> averiguados, nem a
+enumeração completa dos documentos compulsados, nem a discussão e a critica das
+fontes exploradas, vem dar á sua narração o cunho da certeza. Entrando num
+assumpto vai direito ao amago d'elle, e depois de traduzir a viva impressão
+recebida, com uma abundancia extrema de pormenores sensiveis, n'um quadro que
+se grava na memoria, passa a atacar outro assumpto e a pintar outro quadro, sem
+procurar convencer o leitor da efficacia da analyse e da fidelidade da pintura.
+No seu desdem de artista e no seu orgulho de inventor, parece crer que a
+evidencia é a atmosphera da intelligencia e repelle a prova como um pleonasmo.
+Nenhum dos nossos escriptores merece mais ser lido, nem carece mais de ser lido
+com cautela.<span class="pn">{61}</span></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h1><a name="SECTION000400">IV <br>
+OS SENTIMENTOS</a> </h1>
+
+<p>Estudada a sua intelligencia passemos a estudar a sua sensibilidade; esta
+não é menos interessante do que aquella.</p>
+
+<p>Qual é o numero, a força, a especie das suas emoções? Certamente ellas são
+numerosas. A emoção é um estado habitual da sua alma. Qualquer que seja o
+assumpto de que se occupa, a paixão abunda. Isto é visivel sobretudo pelo tom
+do seu estylo. Historia ou critica, jornal ou theoria, tudo quanto escreve é
+animado por um sopro quente de commoção sincera. Nenhuma idéia lhe apparece
+como um simples objecto de comprehensão, mas como uma verdadeira fonte de
+impulsões.</p>
+
+<p>Frequentes e intensas. Basta percorrermos os seus livros, mesmo de relance,
+para nos convencermos que a força das suas emoções é tão grande como a sua
+constancia é perfeita. Vehementes sempre,<span class="pn">{62}</span> violentas
+muitas vezes, ellas constituem pela sua multiplicidade e continuidade um estado
+habitual de exaltação da sensibilidade. Dotes estes, que ligados á sua
+capacidade de visão, concreta e ao seu vivo sentimento dos totaes, dão a este
+historiador um alcance de artista e fazem d'este publicista um verdadeiro
+poeta.</p>
+
+<p>Ardentes e frequentes. Até aqui não vimos das suas emoções senão a
+quantidade, e isso mesmo dentro d'aquelles limites de imperfeita approximação
+que não é dado á Psychologia transpor. Vejamos agora a sua qualidade, isto é a
+especie dos sentimentos, e ordem dos agrupamentos.</p>
+
+<p>Sem duvida essas emoções são tristes. O bem estar em frente da realidade, a
+alegria de viver, não são sentimentos proprios do seu espirito. A gravidade e a
+tristeza que elle considera como qualidades da alma portugueza, são-no tambem
+da sua mesma alma. Se a dor é um maximum de sensação, a extrema sensibilidade é
+um principio de soffrimento.</p>
+
+<p>Capaz de emoções frequentes e vehementes, e propenso a emoções graves e
+tristes, vejamos que sentimentos são despertados n'elle ao contacto dos
+objectos, como elles se combinam com as ideias, quaes d'entre elles se
+transformam em paixões, e são capazes pela sua persistencia e efficacia de lhe
+governarem a actividade.</p>
+
+<p>Certamente não é a belleza physica que se impõe<span class="pn">{63}</span>
+á sua admiração. Escriptor de imaginação psychologica, a harmonia das linhas e
+o esplendor das côres deixa-o insensivel. Nós só nos commovemos com aquillo que
+percebemos, e a nossa sensibilidade é solidaria com a nossa intelligencia. Por
+isso no espirito que analyso, o enthusiasmo franco em frente da magnificencia
+da materia, a sympathia ardente pelo livre jogo das forças naturaes, não são
+visiveis. Se o Paganismo significa o amor da vida corporal e o predominio da
+actividade instinctiva, em contraposição com o Christianismo, considerado como
+uma reacção espiritualista, e uma repressão systematica das paixões organicas,
+não se lhe poderia chamar pagão. Mas a solidez da sua razão prática e a energia
+das suas tendencias moraes prohibe que o consideremos christão. Não é christão
+porque é mais largamente humano.</p>
+
+<p>Em parte nenhuma isto se verifica melhor do que na sua concepção do amor. A
+psychologia das paixões mostra que este sentimento é o mais complexo, e
+portanto o mais instructivo documento que se póde explorar para a intelligencia
+de um coração. Não temos do Sr. Oliveira Martins uma colleccão de poesias
+lyricas onde possamos estudar todos os cambiantes, de que um tal sentimento se
+reveste ao passar pelo seu espirito. Mas n'essas admiraveis paginas finaes da
+Historia romana, em que o philosopho resumiu as suas idéias sobre a<span
+class="pn">{64}</span> Vida, e o poeta poz a nú a sua alma, a confissão
+involuntaria vale por um documento especial. Ora de todos os elementos que
+podem entrar na composição d'esta paixão, elle só vê dois: o instincto animal e
+a compaixão. A energia dos seus instinctos moraes regeita o primeiro como
+inferior, e a mulher apparece-lhe não como um arrebatamento dos sentidos, uma
+satisfação do orgulho, um objecto de posse, um assumpto de analyse, uma visão
+divina imposta á admiração do artista, mas como um ente digno de piedade e
+necessitado de protecção. Alguma coisa de viril e triste caracterisa esta
+concepção. Ella é propria dos homens em que o dom da analyse perspicaz está
+ligado a vigorosos instinctos moraes.</p>
+
+<p>É que a energia da affirmação moral dá a chave d'este caracter. Esta energia
+de affirmação é tanto maior quanto no espirito de que nos occupamos ella não é
+uma força cega, mas coexiste com a vasta intelligencia comprehensiva e a grande
+curiosidade activa. Sentimentos e idéias tudo está nelle submettido a uma forte
+disciplina e subordinado a um plano determinado por uma livre resolução. Um
+vivo sentimento da dignidade humana, um amor apaixonado da justiça, brilha na
+sua Historia. Em balde a sua penetrante intelligencia lhe mostra o mechanismo
+dos factos sociaes e a majestade das causas permanentes. A energia da sua
+sensibilidade persiste a despeito da efficacia da analyse, e n'elle a<span
+class="pn">{65}</span> philosophia não annulla o sentimento moral. Vinte vezes
+nas suas narrativas os movimentos de admiração ou colera, de indignação ou
+compaixão, cortam a exposição dos successos. Bem que veja a fatalidade do curso
+dos acontecimentos, não pode resignar-se á exposição desinteressada e calma.
+Padece e triumpha com os seus personnagens e sobre tudo admira com vehemencia
+os seus heroes. É preciso ler no <em>Portugal Contemporaneo</em> a historia de
+Manoel Passos para ver como a energia de uma qualidade estructural resiste a
+toda a acção da cultura, e reapparece nos momentos decisivos. Este profundo
+psychologo, este historiador que explica os conjunctos pelas causas, pára de
+repente, soltando um applauso ou lançando um sarcasmo. A grande curiosidade
+indifferente que considera as almas como theoremas, e as sociedades como
+systemas, e que não vê no mundo senão um mechanismo a explicar, não é a forma
+propria da sua actividade mental. O Sr. Oliveira Martins está isento d'esta
+magnifica e perigosa exageração, pela sua robusta saude moral, pelo equilibrio
+estavel das suas faculdades. Incapaz de ver no Universo um ser divino a adorar,
+ou um simples mechanismo a comprehender, igualmente afastado da sensibilidade
+religiosa como da sensibilidade philosophica, escapa ás duvidas e incertezas
+inherentes á falta de solução do problema da Vida, pela energia da vontade e
+pelo habito da acção. E em quanto o<span class="pn">{66}</span> seu amigo
+Anthero de Quental, impellido pela intemperança desmedida dos seus desejos,
+pela grandeza e incoherencia dos seus instinctos metaphysicos, rolava pela
+ladeira do pessimismo ao abysmo da negação, o Sr. Oliveira Martins não mais
+feliz do que elle na solução dos problemas da Existencia, appellava para a
+força intima da sua alma, e resignava-se a acceitar a vida sem protestos vãos
+nem gigantescas indignações.</p>
+
+<p>Comtudo seria um erro consideral-o um stoico. Para sel-o, falta-lhe aquella
+perfeita afinação da intelligencia com a vontade, que segundo a sua propria
+definição constitue o caracter. Herculano, poeta da Energia, pôde sel-o; não o
+Sr. Oliveira Martins, psychologo por officio e que tem visto a vida e a
+historia com olhos de philosopho. A capacidade de fazer reviver em si os
+alheios sentimentos e paixões, e o habito de os comprehender e explicar como
+factos naturaes, determinados por causas, se não é bastante para abafar n'elle
+os movimentos do coração, e leval-o a observar o mundo com a indifferença
+immoral dos artistas, impedem contudo a faculdade da convicta approvação ou
+reprovação que constitue o fundo do estoicismo. A Justiça é para elle um amor,
+não um dogma.</p>
+
+<p>A palavra que define a alma do estoico, é o orgulho, diz o Sr. Oliveira
+Martins. O orgulho transcendente, isto é, o sentimento proprio de quem julga
+possuir a verdade absoluta e resolve applical-a<span class="pn">{67}</span> com
+um rigor absoluto. Bem diversa é a palavra que resume um caracter como o do Sr.
+Oliveira Martins. Esta é a Ironia, resultado natural da superioridade
+intelligente. A Ironia é tambem uma especie de orgulho, mas bem differente do
+estoico, porque é temperado pela piedade e pelo desdem. São estes os
+sentimentos que apparecem cada vez mais claros nos seus ultimos livros e tem a
+sua mais perfeita expressão no retrato maravilhoso de Cesar. É a Ironia aquelle
+estado da alma, que nelle provocam e confirmam dia a dia a experiencia e a
+cultura, o sentimento com que elle se mune para a travessia da Historia e para
+a campanha da vida. Foi este o sentimento que lhe dictou estas linhas á portada
+do seu livro mais original e que mais apaixonou a critica: «O exame dos nossos
+tempos apenas lhe provocou (ao auctor) expressões d'aquelles sentimentos que
+são compativeis com a serenidade da critica: uma ironia sem maldade, uma
+compaixão sem orgulho, pelas repetidas miserias dos homens; ás vezes, uma
+sympathia e um respeito singulares por certos individuos excepcionaes. Ironia,
+compaixão, sympathia, respeito,&mdash;moderadas commoções, com que é licito
+acompanhar o estudo, sem prejudicar a lucidez da vista&mdash;não impedem comtudo,
+que acima d'estas impressões fugitivas se colloque o profundo, inabalavel
+reconhecimento das causas que fazem dos homens os instrumentos do acaso ou do
+destino.»<span class="pn">{68}</span></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>A estructura do nosso espirito revela-se na especie do nosso ideal, e a
+nossa concepção da ventura deriva da nossa concepção da vida. Todos os
+sentimentos que no Sr. Oliveira Martins desperta a realidade e todas as
+opiniões que elle tem sobre as cousas, estão resumidas nas paginas finaes do
+seu ultimo livro (<em>Historia Romana</em>). É alli visivel o que ha de mais
+importante na sua alma, posto a nú por um psychologo, mestre na arte de pintar
+caracteres. O que elle pensa da paixão e do dever, da sciencia e da acção, do
+Universo e do eu, a sua idéia da vida e o seu ideal da vida, está expresso
+nesta curta pagina, em traços breves e profundos, a que a concisão do escorço
+exalta a energia. E não vejo melhor modo de fechar esta analyse, que é uma
+tentativa de autopsia moral, do que copiar este retrato que equivale a uma
+confissão espontanea.</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>«Aquelle que, sem ter de esmagar desapiedadamente os sentimentos e paixões
+da sua natureza, sem ter de partir a mola interior que o torna um ser vivo,
+consegue mitigar, moderar, ponderar ou equilibrar os impulsos do seu sangue com
+os dictames das suas idéias, sanccionando paixões e pensamentos com a luz
+inextinguivel dos instinctos moraes e do senso esthetico; olhando para si
+proprio e para as angustias, para as dores e para as feridas da sua vida com
+uma commiseração vizinha<span class="pn">{69}</span> do desdem; olhando para o
+proximo e para o mundo, sem desprezo nem orgulho, mas com a ironia caridosa que
+se deve a todas as cousas involuntariamente inferiores; contemplando finalmente
+com uma curiosidade placida e discreta o nevoeiro dos mysterios e problemas
+que, sondados, endoudecem, e de que é mister fugir, como dos abysmos cujas
+vertigens hallucinam ou embrutecem; esse homem, por fóra activo, por dentro
+como que apathico, por vezes, e só por vezes, atacado de tedio, mas sabendo que
+não deve nem póde aborrecer a vida: esse homem é o unico verdadeiramente
+feliz.... Ser feliz depende de um acto da intelligencia e da vontade,
+independentemente das circumstancias exteriores da vida.»<span
+class="pn">{70}</span> <span class="pn">{71}</span></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h1><a name="SECTION000500">V <br>
+O ESCRIPTOR</a> </h1>
+
+<p>Habitos de intelligencia e movimentos de sensibilidade, tudo se reflecte nos
+seus processos de escriptor. Como um cardiographo delicado que regista e conta
+as mais imperceptiveis pulsações do espirito, assim é o estylo. Tão sómente
+pela analyse d'elle podiamos chegar ás conclusões a que nos levou o exame
+directo das opiniões e paixões; feito este, as paginas que se seguem só podem
+confirmar as verdades que se enunciaram e este capitulo, é menos uma indagação
+do que uma prova.</p>
+
+<p>Que especie de estylo é esse? Um escriptor de imaginação oratoria e gostos
+decorativos como o Sr. Latino Coelho, exprime-se n'uma linguagem adequada pela
+sua regularidade e sumptuosidade ás aptidões e tendencias do espirito que a
+emprega, e ás necessidades e utilidades do fim para que se destina. Leia-se o
+seu derradeiro discurso. Os vocabulos graves como fidalgos e compostos
+como<span class="pn">{72}</span> hallabardeiros, as immensas phrases roçagantes
+comparaveis a reposteiros de damasco, a amplitude e disciplina da syntaxe, a
+abundancia e efficacia das incidentes, a extensão e o aprumo dos periodos, o
+predominio do pensamento abstracto sobre a imaginação pittoresca, a perpetua
+representação do thema e a perfeita convergencia das provas, a unidade no todo,
+a proporção nas partes, a equidistancia nos termos, e a uniformidade na marcha
+do raciocinio, a majestade curul e a graça talar do discurso, revelam um homem
+apto e propenso para a prosa regular, a dissertação erudita, o elogio
+historico, a oração academica, e para todos os generos que requerem o gosto da
+pompa e o sentimento da gravidade, a correcção, a riqueza e a ordem, o respeito
+continuo de si e dos outros, uma especie de prodigalidade elegante e de arte
+sem nervos, a preferencia dada á erudição sobre a sciencia, e á rethorica sobre
+a poesia, a capacidade das idéias geraes exercendo-se em logares communs,
+qualidades que manejadas por um talento superior e postas ao serviço de um
+grande interesse, podem produzir verdadeiros monumentos litterarios.</p>
+
+<p>Bem diverso é o estylo do Sr. Oliveira Martins. Nada de menos grave, de
+menos pomposo e respeitoso. Elle escreve como fala, e fala como acha. O seu
+processo é a notação directa dos sentimentos presentes; a sua linguagem, a
+algebra nua da paixão. Rapida, irregular, tortuosa, brusca, insolente<span
+class="pn">{73}</span> e indecente, burlesca e sublime, composta de palavras
+que se empinam por se verem juntas, feita de phrases de todos os tamanhos e
+feitios, galopa ou vôa a sua prosa. Nada de mais agil e vivo. Ás vezes, a
+suppressão dos elementos grammaticaes produz extranhos escorços, e a phrase
+contrae-se como um musculo. Outras os pleonasmos batem o pé, e a repetição
+encrava a convicção, como um martello percutindo um prego. Ás vezes a inversão
+dá extranhas posturas á linguaguem, e os periodos rugem, crucificados com os
+pés para cima. A grammatica violada debate-se n'um tetano. As imagens soberbas
+ou ignobeis pullulam de todos os lados, trazidas dos palacios ou das tabernas,
+como um rebanho de conscritos arrastados para a batalha. E todo o livro avança,
+semelhante a um couraçado de combate, replecto do convez ao porão, n'um
+turbilhão de estrondo e espuma, precipitado pela massa e armado da velocidade,
+e levando na caldeira abrazada um foco de força e um perigo de explosão.</p>
+
+<p>Esta é a primeira impressão; profundemol-a, completando o juizo litterario
+pela analyse critica, e substituindo a linguagem imaginosa pela notação exacta,
+instrumento condigno do trabalho scientifico.</p>
+
+<p>Tres pontos ha a considerar na analyse de um estylo; o vocabulario, isto é,
+o conjuncto de elementos ultimos do discurso; a syntaxe, isto é, a<span
+class="pn">{74}</span> ordem em que estes elementos estão dispostos para
+constituirem o organismo da expressão; e as figuras, isto é, os expedientes
+necessarios para supprir as lacunas do vocabulario ordinario e da syntaxe
+regular.</p>
+
+<p>Mas antes de mais nada, observemos que o Sr. Oliveira Martins não possue o
+genio verbal, isto é, aquella facilidade de imitação e invenção de formas da
+linguagem, que em alguns dos nossos escriptores substitue e simula a
+intelligencia e a sensibilidade ausentes. Supponho que como os dois grandes
+historiadores a que o tenho comparado, Michelet e Carlyle, elle teve uma
+extrema difficuldade de exposição, no principio da sua carreira litteraria;
+pelo menos esteve muito longe de possuir aquella segurança e nitidez da
+palavra, aquella capacidade de adequar exactamente a expressão á intenção que
+caracterisa os verdadeiros temperamentos de escriptor. É porem justo dizer-se
+que sob este ponto de vista, como sob todos os mais, os livros do Sr. Oliveira
+Martins manifestam um progresso consideravel. A sua <em>Historia Romana</em> é
+um monumento litterario. Mas essa lacuna constitucional e o habito da
+improvisação impedem que as paginas perfeitas abundem nos seus escriptos; e
+possuindo em alto grau a força e a vida, carece de majestade e graça.</p>
+
+<p>Em primeiro logar, o seu vocabulario não é numeroso; não se manifesta nos
+seus livros aquella<span class="pn">{75}</span> abundancia, que no Sr. Ramalho
+Ortigão provém de um forte estudo do lexicon, e no Sr. Camillo Castello Branco
+de uma memoria verbal extremamente feliz. As palavras vagas não escasseiam nos
+seus escriptos mesmo exprimindo ideias precisas. Com as palavras vagas, os
+termos improprios que falseiam a expressão e tornam necessaria a decifração. Os
+vocabulos extrangeiros ou mesmo nacionaes tomados n'uma accepção extranha á
+lingua lançam manchas desagradaveis na tela do discurso. As expressões
+synonimicas e as emendas que elle faz seguir ás expressões originaes, parecem
+indicar que o proprio auctor sente que não exprimiu cabalmente o seu
+pensamento; e se muitas vezes a accumulação de expressões novas para formular a
+mesma idéia, manifesta a paixão obstinada e a convicção activa, muitas outras
+significa sómente a consciente escassez de recursos do escriptor.</p>
+
+<p>Dois typos syntacticos se notam nos escriptos do Sr. Oliveira Martins. Um é
+o grande periodo regular, de que elle se serve ordinariamente nos seus
+trabalhos didacticos, e de que se póde observar um bom exemplo no prefacio do
+<em>Hellenismo e a Civilisação christã</em>. A ausencia de aptidões e gostos
+oratorios impede que o Sr. Oliveira Martins prime n'esta forma de discurso. E
+diga-se a verdade, poderiamos percorrer os escriptores portuguezes antigos ou
+contemporaneos sem encontrarmos muitos exemplares de prosa perfeita, taes como
+abundam<span class="pn">{76}</span> na litteratura franceza. O ar latino da
+nossa prosa classica póde illudir á primeira vista. Mas quem a submetter á
+analyse verá que não encontra nella aquelle habito de decompor as idéias e
+passar gradualmente por todos os seus elementos, que constitue um dos
+caracteristicos principaes da prosa franceza.</p>
+
+<p>O outro typo syntactico é o inciso, a phrase curta e entrecortada,
+offegante. Ella se obtem suspendendo continuamente o pensamento, supprimindo os
+desenvolvimentos das idéias, e até as particulas grammaticaes, pronomes,
+artigos e conjucções. A phrase elliptica tem movimentos convulsivos de ave
+decapitada, e os elementos do discurso trocam vivamente os logares como os
+raios de uma roda. Esta é a forma adequada a um temperamento litterario como o
+Sr. Oliveira Martins. É nesta forma que elle vasa as suas descripções e
+narrações. As ellipses, as repetições, as inversões, a ausencia completa de
+todas as figuras de symetria, conspiram no mesmo sentido, e não é difficil
+mostrar como sendo os sobresaltos da machina nervosa irregulares e
+instantaneos, é esta a prosa que convem ao escriptor e á obra que analysamos.
+Leia-se esta descripção do incendio nos armazens de Gaya. «Posto o fogo ao
+rastilho, começou breve a pyrotechnia, allumiando a noute. Começou por uma
+explosão tremenda, donde sahiram labaredas e rolos de fumo rapido. O vento
+animado impellia a<span class="pn">{77}</span> chamma. E as pipas estalando
+troavam como canhões. Singular batalha! O vinho rolava em cachões, da praia
+sobre o rio que ia tinto de vermelho como sangue. As labaredas subiam e a vasta
+seara de fogo batida pela aragem, ondeando, crescia, andava. Incendiados, como
+lavas de um vulcão, desciam ao Douro, os liquidos espirituosos e chocando as
+aguas repelliam-nas, entrando nellas como um cabo. Parecia uma tempestade
+geologica. A agua do rio fervia, fumava; e fluctuando sobre a agua, vogava á
+mercê da corrente um lançol de chammas rubras.» A phrase tem a velocidade, a
+mobilidade, a plasticidade da chamma, e o foco moral donde ella brota não é
+menos ardente e vivo.</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>Os outros expedientes litterarios convergem no mesmo sentido. E antes de
+mais nada, a ausencia das figuras de dicção, que estabelecem uma symetria
+visivel e um equilibrio extrinseco do discurso, revela um espirito pouco
+sensivel á harmonia verbal e ás seducções da rhetorica. O epitheto, esse
+instrumento de que tanto se abusa, é raro, e quasi sempre pittoresco e novo.
+Mas os tropos abundam, como convem a um estylo que é a manifestação de uma alma
+audaciosa e ferida vivamente pelos aspectos das cousas. Ás vezes n'uma fria
+dissertação de direito publico ou de economia politica uma imagem fulgura
+magnificamente, como uma papoula<span class="pn">{78}</span> n'um trigal. Assim
+depois de expor o admiravel regimen de federação municipal que consolidava e
+completava a conquista romana, exclama num rapto de poeta: «Roma é a capital:
+está no pincaro da montanha ideal em cujas encostas por estradas espiraes se
+desenrola a procissão das gentes e cidades que sobem». Assim depois de pintar a
+angustiosa situação do paiz na primavera de 47, escreve referindo-se ao abuso
+da emissão fiduciaria, «Havia em Lisboa uma grande miseria, uma carestia
+excessiva de tudo, um doloroso mal-estar, perseguições e recrutamentos, os
+batalhões sempre em armas, e fluctuando, as notas, como os trapos de neve
+caindo, cobrindo tudo, nos dias mornos que precedem o desencadear da tormenta.»
+E as metaphoras como estas abundam ou magnificamente desenvolvidas n'uma
+pagina, ou ardendo concentradas n'um verbo e n'um epitheto.</p>
+
+<p>A mesma vehemencia de imaginação e paixão produz e explica as apostrophes ao
+leitor e aos personnagens da sua historia, as interrogações, as exclamações, as
+reticencias, as prosopopéias, os bruscos saltos, a falta de clareza, as
+referencias a factos que se calam e que o escriptor julga conhecidos. Esta
+energia de habitos vai tão longe, que se exerce sobre porções dos seus livros
+que parece deveriam escapar a ella. Copio do <em>Portugal contemporaneo</em>
+estes titulos de livros e capitulos: <em>Fuit homo missus a Deo; Sic itur ad
+astra; O principio do fim;<span class="pn">{79}</span> Væ victis; Os
+impenitentes; A raposa e suas manhas.</em> Quando lança um olhar retrospectivo
+sobre o conjuncto da sua obra, não encontra uma serie de idéias precisas, mas
+um tumulto de visões inflammadas. Por isso escasseiam os summarios, os resumos
+e todos os expedientes destinados a precisar as doutrinas e fixal-as na
+memoria. Este escriptor faz imagens e sarcasmos até nos indices.</p>
+
+<p>Tal é esse estylo: irregular, tortuoso, familiar, apaixonado e vivo. Para o
+conhecermos cabalmente não recuamos perante a minuciosa analyse das formas
+grammaticaes e dos expedientes litterarios, mas fizemol-a como psychologo e não
+como rhetorico. O espirito philosophico é o dom da analyse e da synthese, e a
+sciencia deve reunir como a aguia as garras penetrantes ás largas azas.<span
+class="pn">{80}</span> <span class="pn">{81}</span></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h1><a name="SECTION000600">VI <br>
+O HISTORIADOR</a> </h1>
+
+<p>Composto assim o seu espirito só resta a deduzir a sua obra e demonstrar a
+solidariedade que prende aquelle a esta, considerando-o successivamente como
+historiador e como politico.</p>
+
+<p>Se ha trabalho que pela sua complexidade e difficuldade assoberbe a
+imaginação de quem o intenta, e exija a maxima energia da parte de quem o
+realisa, é certamente o trabalho historico. Só examinando esta complexidade e
+difficuldade poderemos fazer idéia da variedade dos recursos empregados e da
+quantidade de força dispendida pelos grandes historiadores.</p>
+
+<p>Para isto, basta considerar que a Historia é a visão intelligente dos
+phenomenos sociaes. Toda a formidavel complicação dos trabalhos historicos
+deriva do simples exame d'esta formula.</p>
+
+<p>E antes de tudo, observemos que o aggregado social é dado em relação a um
+meio physico e constituido<span class="pn">{82}</span> por unidades vivas, o
+que torna necessario o conhecimento das sciencias inorganicas e organicas. A
+posição da sociologia na serie gerarchica das sciencias exige, nos que a
+cultivam, a posse das verdades que logicamente a condicionam. E desde os
+principios mais abstractos da Quantidade e da Forma até os factos relativamente
+menos simples da Anthropologia, tudo concorre para a explicação dos phenomenos
+sociaes. Os exemplos abundam e são faceis de adduzir. A doutrina da população
+não se póde constituir sem a theoria algebrica das series e o calculo
+arithmetico dos logarithmos. A relação geometrica que n'uma dada figura prende
+a grandeza da area ao valor do perimetro, é um elemento a considerar na
+comprehensão do engrandecimento d'um territorio. As leis que ligam o
+crescimento do organismo á massa do planeta e regem a distribuição do calor, da
+luz e porventura da electricidade á superficie da terra, forçosamente exercem
+uma intervenção activa no curso da Historia. Os dados geologicos que enunciam a
+natureza actual e as transformações futuras da crosta terrestre, não são
+indifferentes á explicação dos phenomenos que a tem por theatro; a theoria dos
+ventos interessa á historia da navegação de muitos povos, e a dos terremotos á
+vida d'alguns. Finalmente as leis que regem á existencia dos seres vivos,
+influem profundamente no corpo social, visto o homem ser um animal, e fazem do
+conhecimento da Biologia a<span class="pn">{83}</span> condicção immediata e
+indispensavel do estudo da Sociologia. Assim toda a massa das verdades
+adquiridas pela Sciencia vem illuminar directa ou indirectamente o caminho que
+o historiador tem de percorrer. (V. Spencer, Intr. á sciencia social; A. Comte,
+Curso de Philosophia positiva.)</p>
+
+<p>A todas estas difficuldades que resultam da variada e completa preparação em
+que se deve basear o historiador, é preciso juntar ás difficuldades
+intrinsecas, as que provém da natureza intima da Historia.</p>
+
+<p>Em primeiro logar, a Historia é uma sciencia moral, isto é, versa em ultima
+analyse sobre factos mentaes, sentimentos e idéias. O ser um estudo da alma
+humana é a primeira e mais grave fonte das difficuldades inherentes a esta
+ordem de investigações. Com effeito os phenomenos mentaes, quer os propriamente
+intellectuaes, quer os puramente emocionaes, se apresentam investidos de um
+duplo caracter que os torna eminentemente rebeldes a uma exacta observação. De
+um lado, a sua mesma natureza de phenomenos interiores, do dominio da
+consciencia, exige um dom especial, um sentido que nem todos possuem
+sufficientemente desenvolvido. D'outro lado, o composto mental é extremamente
+complicado e cada phenomeno de que se compõe se resolve por seu turno n'um
+numero enorme de elementos, que como taes caem fora do campo da consciencia,
+onde só apparecem os totaes.<span class="pn">{84}</span> A velocidade extrema
+das reacções cerebraes, corresponde a esta complexidade formidavel de que dão
+apenas uma vaga ideia os phenomenos que constituem as funcções propriamente
+biologicas.</p>
+
+<p>Accrescentem-se a estas difficuldades resultantes da natureza do individuo,
+as provenientes da natureza do aggregado social. Se é certo que em ultima
+analyse a Sociologia se reduz á Psychologia, é tambem certo que as opiniões e
+paixões individuaes são continua e vigorosamente modificadas pelas paixões e
+opiniões adjacentes, e que o espirito de cada um apparece como um espelho da
+sociedade inteira de que faz parte. Quando o aggregado social é bastante
+extenso a complicação resultante da sua grandeza é tal que parece desafiar o
+poder da analyse.</p>
+
+<p>Junte-se ainda a difficuldade que resulta de se considerar uma sociedade não
+num momento dado, mas na sua evolução atravez de muitos seculos. Seguir um
+aggregado tão multiplo nas suas continuas e imperceptiveis transformações de
+momento para momento, determinar as causas variadissimas e occultas d'essas
+transformações, marcar as forças superiores cuja permanencia determina a
+identidade de um povo atravez de todas as suas metamorphoses, produzindo essa
+consciencia social bem mais difficil de se estabelecer e bem mais facil de se
+destruir do que a individual, é<span class="pn">{85}</span> uma empresa
+comparada á qual, qualquer trabalho scientifico é relativamente facil.</p>
+
+<p>Considere-se finalmente que a Historia é uma sciencia concreta, isto e,
+descriptiva e narrativa. Este derradeiro traço é origem de grandes
+difficuldades na indagação e sobretudo na exposição das verdades historicas.
+Mesmo nas sciencias inferiores essas difficuldades são grandes. Por exemplo, em
+Astronomia é relativamente facil indicar as forças que determinam a harmonia do
+nosso systema solar; mas mostrar a evolução, pela qual elle se veiu
+transformando até se constituir como existe actualmente, é uma tarefa d'outra
+ordem que não comporta o mesmo grau de precisão; a hypothese da nebulosa está
+privada da certeza de que se acha investida a theoria da gravitação, e a
+hypothese das agglomerações meteoricas inventada por Julio-Roberto Meyer, prova
+a necessidade de tornar a doutrina de Laplace mais adequada á realidade
+completando-a com principios subsidiarios. Semelhantemente nas sciencias
+inorganicas, o methodo experimental permitte demonstrar com efficacia uma lei
+de barologia ou thermologia; mas a applicação d'essas leis para a explicação da
+historia passada e constituição actual do globo, não tem a mesma segurança; a
+Geologia está longe de attingir o estado de adeantamento da Physica e da
+Chimica, sciencias em que ella se baseia; a doutrina das geleiras não se acha
+constituida com a mesma perfeição<span class="pn">{86}</span> que a theoria da
+irradiação do calor. Em Biologia verifica-se o mesmo. Em quanto se tratam de
+indagar as leis abstractas da morphologia e da physiologia vegetal e animal, as
+difficuldades são grandes mas superaveis graças ao emprego da observação, da
+experimentação e da comparação; mas quando se trata de explicar a existencia
+das plantas e animaes taes como realmente são, as difficuldades crescem de
+ponto e inversamente diminue a precisão e certeza das doutrinas enunciadas; a
+hypothese de Darwin sobre a evolução dos organismos não póde aspirar á mesma
+convicta adhesão que o principio de Milne Edwards sobre a divisão do trabalho
+physiologico. Semelhantemente as difficuldades de investigação inherentes á
+natureza e complicação dos phenomenos sociaes, com serem enormes, são pequenas,
+comparadas com as que apresenta o estudo da Historia propriamente dicta. E
+abaixo dos philosophos nenhuma classe de espiritos arca com tamanhas
+difficuldades, incorre em tão graves responsabilidades, nem se reveste de uma
+tão alta dignidade scientifica como os historiadores.</p>
+
+<p>Para vencer tão grandes difficuldades, o historiador deve fecundar por uma
+vasta preparação geral e technica um espirito extremamente complexo e profundo.
+Qual seja essa preparação geral deriva da indicação acima feita dos estudos
+subsidiarios que condicionam o conhecimento da Sciencia<span
+class="pn">{87}</span> social. A preparação technica resulta semelhantemente da
+propria natureza da Sciencia social. Elle suppõe o conhecimento exacto dos
+factos adduzidos e a sua classificação methodica em grupos naturaes. Quanto aos
+dotes de espirito o historiador deve conter um sabio e um artista. A capacidade
+de observação exacta dos factos particulares deve estar ligada á faculdade das
+idéias geraes; e além d'isso a imaginação pittoresca que permitte a
+representação nitida e colorida das paysagens que constituem o palco da
+Historia, ha de ser completada pela imaginação psychologica que faz a alma dos
+individuos e povos que são os protogonistas da Historia. Finalmente o grande
+historiador deve ser um grande escriptor e empregar um estylo que reuna á
+precisão propria do trabalho scientifico, o colorido proprio das descripções, e
+o movimento proprio das narrações.</p>
+
+<p>Comparemos este modelo do historiador ideal com o retrato já traçado do Sr.
+Oliveira Martins e veremos o que elle tem e o que lhe falta.</p>
+
+<p>O seu saber é vasto inda que incompleto. Os volumes publicados da sua
+<em>Bibliotheca das Sciencias sociaes</em> e os annunciados no programma,
+revelam que o Sr. Oliveira Martins tem consciencia da importancia e largueza de
+estudos com que se deve preparar para o trabalho historico. Comtudo seria para
+desejar que o auctor conservasse ineditos os livros em que a sua originalidade
+e competencia<span class="pn">{88}</span> são contestaveis, e estudando
+convenientemente os assumptos sobre que elles versam, se abstivesse de tratar
+publicamente sciencias de que só se podem occupar com auctoridade os
+especialistas.</p>
+
+<p>No que toca á exactidão dos factos enunciados nos seus tratados de historia
+nacional, constituidos pela <em>Historia da Civilisação Iberica</em>, a
+<em>Historia de Portugal</em>, e o <em>Portugal Contemporaneo</em>, o Sr.
+Oliveira Martins não tem o habito de enumerar os documentos compulsados e
+discutir as fontes exploradas. As notas, que nas grandes historias classicas
+acompanham e comprovam as affirmações feitas no texto, não apparecem na sua
+obra. É verdade que historiadores como Mommsen e Curtius supprimiram nos seus
+livros monumentaes a bagagem das demonstrações; mas esses historiadores já
+tinham assignalado a sua actividade de investigadores em numerosas dissertações
+especiaes, e accumulado materiaes que serviam de base ao auctor e de garantia
+ao leitor. Considere-se ainda que escreviam sobre assumptos largamente
+explorados. O Sr. Oliveira Martins occupando-se da historia de Portugal,
+deveria redobrar de precauções no que toca ás provas. Mas acceitando-a tal como
+está escripta, e lastimando que ella não seja mais extensa, observaremos que a
+conhecida assiduidade ao trabalho e a sinceridade certa do Sr. Oliveira
+Martins, são consideraveis garantias da veracidade das suas asserções.<span
+class="pn">{89}</span></p>
+
+<p>Quanto as aptidões cujo conjuncto constitue o seu espirito, já vimos que o
+Sr. Oliveira Martins possue a imaginação dos movimentos, das massas, das forças
+e que as suas paysagens representam as expressões moraes dos aspectos physicos;
+e que além d'isso possue a capacidade e o habito de explicar os aspectos
+physicos como mechanismos naturaes. Se reflectirmos que estas duas aptidões
+exgottam a noção do scenario historico, considerado como um conjuncto de causas
+efficazes actuando sobre espiritos, veremos que o Sr. Oliveira Martins está
+apto pela imaginação pittoresca e pela razão abstracta a descrever e explicar o
+<em>meio</em> dos successos que narra. Semelhantemente e ainda melhor a sua
+admiravel imaginação psychologica habilita-o a ver o interior das almas
+individuaes e collectivas que põe em scena. Essa imaginação, integral e
+intensa, prima na representação das emoções, e como a maioria das acções é
+determinada por emoções, resulta d'ahi que o Sr. Oliveira Martins está apto
+para representar o <em>agente</em> da <em>Historia</em>, como representara o
+seu <em>meio</em>. E o mesmo poder de abstracção que lhe permittira
+comprehender as relações geraes entre os factos physicos, lhe faz ver o nexo
+logico que determina as coexistencias e as sequencias dos factos moraes.</p>
+
+<p>Vimos que o seu estylo era destituido de ordem, precisão e clareza, e que
+abundava em movimento, força e vida. A ausencia das primeiras qualidades<span
+class="pn">{90}</span> prejudica a sua Historia considerada como obra de
+sciencia, e impede que ella se possa considerar como obra de vulgarisação. A
+presença dos outros dotes dá-lhe um valor raro como obra de arte. O seu
+vocabulario trivial, technico, fornecido em todos os recantos da vida,
+permittir-lhe-á fazer descripções coloridas e supprir pela abundancia de
+pormenores concretos a nitidez ausente que lhe daria a ordem que não possue. A
+syntaxe rapida e tortuosa permittir-lhe-á fazer narrações dramaticas e vivas e
+acompanhar pela marcha offegante e irregular dos periodos a successão
+precipitada e sempre nova dos acontecimentos. Finalmente todos os outros
+expedientes de composição revelando o sentimento do real e a paixão intensa
+convergem no mesmo sentido; e a mesma solidariedade que prende a sua obra á sua
+imaginação e á sua sensibilidade, liga a ella o seu estylo.<span
+class="pn">{91}</span></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h1><a name="SECTION000700">VII <br>
+O POLITICO</a> </h1>
+
+<p>Tendo escripto a Historia de Portugal, o Sr. Oliveira Martins resolveu
+continual-a e naturalmente o pensamento conduziu-o á acção.</p>
+
+<p>Não entra no programma d'este estudo occupar-me de assumptos de politica
+contemporanea, sobretudo quando trato de um homem cuja carreira publica apenas
+começa. Mas fazendo um trabalho de psychologia e não de simples critica
+litteraria, não me é licito calar uma das manifestações mais importantes do
+espirito que analyso. Porém indicarei apenas o valor dos seus recursos e a
+tendencia geral das suas idéias como homem d'Estado.</p>
+
+<p>As faculdades que fazem o homem de acção em cada esphera da actividade
+humana, são essas mesmas que fazem o homem de sciencia, mais o tino das
+circumstancias particulares. As do estadista são as do historiador; digo as do
+historiador e não as do sociologista, porque o conhecimento das leis<span
+class="pn">{92}</span> abstractas que regem o equilibrio e o movimento das
+sociedades, não é sufficiente para dirigir a acção conservadora ou modificadora
+dos governantes; é preciso reunir-lhe o vivo sentimento do concreto, a visão
+plena dos innumeraveis factos particulares que dão a um povo um caracter
+individual e fazem que nenhuma deducção abstracta o possa adivinhar. Pense-se
+na immensa complexidade do organismo collectivo, no caracter profundamente
+individual que uma sociedade reveste em virtude das circumstancias de raça,
+meio e momento, na obrigação de conhecer plenamente a força e a direcção das
+vontades, a energia e a profundidade dos instinctos, a vitalidade e a duração
+dos preconceitos, as necessitades materiaes ou moraes, reaes ou ficticias dos
+seus membros, reflicta-se na obrigação de conhecer essas forças na sua
+quantidade exacta e na sua direcção certa, nas proporções variadas em que ellas
+se combinam e nos systemas complicados que d'ellas resultam, medite-se que cada
+um dos factos presentes tem profundas raizes no passado e consequencias
+inevitaveis no futuro ainda o mais remoto, e ver-se-á que essa improvisação
+maravilhosa e certeira que se chama a arte de governar, consiste na visão
+adequada e perpetua, retrospectiva e prophetica das almas sobre que ella se
+exerce, e que a politica é psychologia activa e em ponto grande. Note-se emfim
+que o habito da representação concreta degenera facilmente no empirismo<span
+class="pn">{93}</span> e que a habilidade technica descamba no especialismo
+estreito, para se admirar ainda mais a plasticidade mental dos que conservam
+intacto sob a acção das questões quotidianas o sentimento dos interesses geraes
+e caminham atravez dos expedientes com olhos fitos nas idéias.</p>
+
+<p>Estas qualidades parecem reunir-se no Sr. Oliveira Martins. Essa visão
+poderosa e plena, essa representação veridica e intensa dos caracteres, esse
+golpe de vista sagaz e profundo mergulhado no intimo dos corações, que faz o
+encanto e a força dos seus livros, podem guial-o nos seus actos; as mãos
+acostumadas a fazer a autopsia das almas no amphitheatro da Historia, não são
+improprias para jogar os lances da politica. O habito de ver as cousas de alto,
+proprio do historiador, arrancão aos trilhos mesquinhos em que se perde o
+espirito da rotina e do expediente. Artista pela visão colorida e palpavel da
+realidade, é-o tambem pela intuição magnifica do ideal. A imaginação
+constructiva anda n'elle ligada ao sentimento do real e do exequivel. E tendo
+aquelle exacto bom-senso e aquella efficaz percepção do possivel, que resulta
+da pratica dos homens e da vida, possue comtudo aquella largueza de vistas e
+aquelle desejo do melhor, que provém da convivencia das ideias e do trato dos
+livros.</p>
+
+<p>Será esse ideal realisavel e esse tino pratico sufficiente? Os successos
+dil-o-ão. Não é porém difficil<span class="pn">{94}</span> apontar desde já no
+sentimento da força propria e no generoso instincto do dever civico as causas
+que o fizeram passar do pensamento á acção, e mostrar a clara coherencia que
+liga as suas opiniões de hontem aos seus actos de hoje, e os seus vinte annos
+de historia aos seus dois annos de politica.</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>Tal é essa figura interessante e rara. Homem interior, isto é, dotado de
+imaginação psychologica, admiravel na representação dos accidentes do apparelho
+mental e dos sobresaltos da machina sensivel, toda a sua obra se resente e vive
+d'esta aptidão primordial, que constella os seus livros de retratos veridicos e
+profundos, de paizagens vivas de narrações dramaticas. Capaz de operações
+abstractas, a razão scientifica completa n'elle a imaginação poetica, e a
+analyse explicativa anda ligada ao colorido intenso. Sujeito ás emoções
+vehementes e frequentes, sobre tudo ás de ordem moral, isto é, a compaixão, a
+admiração, a indignação, e o desprezo, a sua obra, dramatica pela logica e pela
+vida, sel-o-á tambem pela paixão; mas a intuição do psychologo e a reflexão do
+philosopho hão de envolvel-o n'um nimbo de indulgencia, de ironia e de
+tristeza. Empregando um estylo em que parecem reviver e encarnar todas as
+qualidades da sua alma, successivamente energico e suave, enthusiasta e
+sarcastico, e cujo tecido fluctuante e agil acompanha como uma purpura
+amarrotada e resplandecente<span class="pn">{95}</span> os movimentos bruscos
+do seu espirito. Lançado na politica pela energia do sentimento moral e
+importando para a Acção a elevação do philosopho e a perspicacia do homem
+pratico, e pondo ao serviço das aspirações do moralista a habilidade do
+psychologo. Uma relação intima liga entre si todas as partes do seu talento e
+faz derivar d'elle todos os aspectos da sua obra.</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>Lisboa, Abril de 1887.</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h2><a name="SECTION000710">INDICE</a> </h2>
+
+<p><a href="#SECTION000100">I. O<small>S CARACTERES</small>&mdash;Que a sua imaginação é psychologica&mdash;Que
+ella é realista&mdash;Comparação com a de Eça de Queiroz&mdash;O caracter portuguez e o
+hespanhol&mdash;Retrato de D. Affonso Henriquez&mdash;Retrato de D. Pedro I&mdash;Retrato de
+Herculano&mdash;Que essa imaginação é completa.</a></p>
+
+<p><a href="#SECTION000200">II. A<small>S </small>P<small>AIZAGENS</small>&mdash;A imaginação physica:
+exemplo, Ramalho Ortigão&mdash;Caracter das paizagens em Oliveira Martins&mdash;Que ellas
+são transcrições moraes dos aspectos physicos&mdash;Que ellas são a explicação de um
+mecanismo.&mdash;Descripção do littoral alemtejano&mdash;Descripção da paizagem
+minhota&mdash;O terremoto.</a></p>
+
+<p><a href="#SECTION000300">III. A<small>S </small>T<small>HEORIAS</small>&mdash;A theoria do
+Acaso&mdash;Concepção do Universo e da sciencia&mdash;Ausencia de razão oratoria&mdash;Falta
+da amplificação e da prova&mdash;Caracter artistico da sua intelligencia&mdash;Comparação
+com as intelligencias simplistas: os primeiros escriptos de T. Braga&mdash;A
+inspiração e a intuição.</a></p>
+
+<p><a href="#SECTION000400">IV. O<small>S </small>S<small>ENTIMENTOS</small>&mdash;Abundancia e energia das
+suas emoções&mdash;Que ellas são de ordem moral&mdash;Sua concepção do Amor&mdash;Sua
+concepção da Vida e da Ventura&mdash;Acção mutua entre o seu caracter e a sua
+intelligencia.</a></p>
+
+<p><a href="#SECTION000500">V. O <small>ESCRIPTOR</small>&mdash;Valor do estylo como documento&mdash;O estylo
+oratorio: o sñr. Latino Coelho&mdash;O estylo de Oliveira Martins&mdash;O vocabulario, a
+syntaxe, as figuras, a composição dos livros, os indices.</a></p>
+
+<p><a href="#SECTION000600">VI. O H<small>ISTORIADOR</small>&mdash;Vastidão complexidade difficuldade dos
+estudos historicos&mdash;Qualidades e lacunas da sua Historia.</a></p>
+
+<p><a href="#SECTION000700">VII. O P<small>OLITICO</small>&mdash;Retrato ideal do Politico&mdash;Oliveira Martins
+como politico.</a></p>
+
+<p><a href="#SECTION000700">Composição do seu espirito e deducção da sua obra.</a></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+<hr>
+
+<p style="text-align:center;">Paris.&mdash;G<small>UILLARD, </small>A<small>ILLAUD E </small>Cª.</p>
+</div>
+
+
+
+
+
+
+
+<pre>
+
+
+
+
+
+End of the Project Gutenberg EBook of Oliveira Martins: Estudo de Psychologia, by
+Guilherme Moniz Barreto
+
+*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK OLIVEIRA MARTINS ***
+
+***** This file should be named 31379-h.htm or 31379-h.zip *****
+This and all associated files of various formats will be found in:
+ https://www.gutenberg.org/3/1/3/7/31379/
+
+Produced by Pedro Saborano (produced from scanned images
+of public domain material from Google Book Search)
+
+
+Updated editions will replace the previous one--the old editions
+will be renamed.
+
+Creating the works from public domain print editions means that no
+one owns a United States copyright in these works, so the Foundation
+(and you!) can copy and distribute it in the United States without
+permission and without paying copyright royalties. Special rules,
+set forth in the General Terms of Use part of this license, apply to
+copying and distributing Project Gutenberg-tm electronic works to
+protect the PROJECT GUTENBERG-tm concept and trademark. Project
+Gutenberg is a registered trademark, and may not be used if you
+charge for the eBooks, unless you receive specific permission. If you
+do not charge anything for copies of this eBook, complying with the
+rules is very easy. You may use this eBook for nearly any purpose
+such as creation of derivative works, reports, performances and
+research. They may be modified and printed and given away--you may do
+practically ANYTHING with public domain eBooks. Redistribution is
+subject to the trademark license, especially commercial
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+*** START: FULL LICENSE ***
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+even without complying with the full terms of this agreement. See
+paragraph 1.C below. There are a lot of things you can do with Project
+Gutenberg-tm electronic works if you follow the terms of this agreement
+and help preserve free future access to Project Gutenberg-tm electronic
+works. See paragraph 1.E below.
+
+1.C. The Project Gutenberg Literary Archive Foundation ("the Foundation"
+or PGLAF), owns a compilation copyright in the collection of Project
+Gutenberg-tm electronic works. Nearly all the individual works in the
+collection are in the public domain in the United States. If an
+individual work is in the public domain in the United States and you are
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+
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+
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+ the Project Gutenberg Literary Archive Foundation."
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+ money paid for a work or a replacement copy, if a defect in the
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+receive the work electronically in lieu of a refund. If the second copy
+is also defective, you may demand a refund in writing without further
+opportunities to fix the problem.
+
+1.F.4. Except for the limited right of replacement or refund set forth
+in paragraph 1.F.3, this work is provided to you 'AS-IS' WITH NO OTHER
+WARRANTIES OF ANY KIND, EXPRESS OR IMPLIED, INCLUDING BUT NOT LIMITED TO
+WARRANTIES OF MERCHANTIBILITY OR FITNESS FOR ANY PURPOSE.
+
+1.F.5. Some states do not allow disclaimers of certain implied
+warranties or the exclusion or limitation of certain types of damages.
+If any disclaimer or limitation set forth in this agreement violates the
+law of the state applicable to this agreement, the agreement shall be
+interpreted to make the maximum disclaimer or limitation permitted by
+the applicable state law. The invalidity or unenforceability of any
+provision of this agreement shall not void the remaining provisions.
+
+1.F.6. INDEMNITY - You agree to indemnify and hold the Foundation, the
+trademark owner, any agent or employee of the Foundation, anyone
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+with this agreement, and any volunteers associated with the production,
+promotion and distribution of Project Gutenberg-tm electronic works,
+harmless from all liability, costs and expenses, including legal fees,
+that arise directly or indirectly from any of the following which you do
+or cause to occur: (a) distribution of this or any Project Gutenberg-tm
+work, (b) alteration, modification, or additions or deletions to any
+Project Gutenberg-tm work, and (c) any Defect you cause.
+
+
+Section 2. Information about the Mission of Project Gutenberg-tm
+
+Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
+electronic works in formats readable by the widest variety of computers
+including obsolete, old, middle-aged and new computers. It exists
+because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
+people in all walks of life.
+
+Volunteers and financial support to provide volunteers with the
+assistance they need are critical to reaching Project Gutenberg-tm's
+goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
+remain freely available for generations to come. In 2001, the Project
+Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
+and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
+To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
+and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
+and the Foundation web page at https://www.pglaf.org.
+
+
+Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive
+Foundation
+
+The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
+501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
+state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
+Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification
+number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at
+https://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
+permitted by U.S. federal laws and your state's laws.
+
+The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
+Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
+throughout numerous locations. Its business office is located at
+809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
+business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact
+information can be found at the Foundation's web site and official
+page at https://pglaf.org
+
+For additional contact information:
+ Dr. Gregory B. Newby
+ Chief Executive and Director
+ gbnewby@pglaf.org
+
+
+Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation
+
+Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
+spread public support and donations to carry out its mission of
+increasing the number of public domain and licensed works that can be
+freely distributed in machine readable form accessible by the widest
+array of equipment including outdated equipment. Many small donations
+($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
+status with the IRS.
+
+The Foundation is committed to complying with the laws regulating
+charities and charitable donations in all 50 states of the United
+States. Compliance requirements are not uniform and it takes a
+considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
+with these requirements. We do not solicit donations in locations
+where we have not received written confirmation of compliance. To
+SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
+particular state visit https://pglaf.org
+
+While we cannot and do not solicit contributions from states where we
+have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
+against accepting unsolicited donations from donors in such states who
+approach us with offers to donate.
+
+International donations are gratefully accepted, but we cannot make
+any statements concerning tax treatment of donations received from
+outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff.
+
+Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
+methods and addresses. Donations are accepted in a number of other
+ways including including checks, online payments and credit card
+donations. To donate, please visit: https://pglaf.org/donate
+
+
+Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic
+works.
+
+Professor Michael S. Hart was the originator of the Project Gutenberg-tm
+concept of a library of electronic works that could be freely shared
+with anyone. For thirty years, he produced and distributed Project
+Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.
+
+
+Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
+editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
+unless a copyright notice is included. Thus, we do not necessarily
+keep eBooks in compliance with any particular paper edition.
+
+
+Most people start at our Web site which has the main PG search facility:
+
+ https://www.gutenberg.org
+
+This Web site includes information about Project Gutenberg-tm,
+including how to make donations to the Project Gutenberg Literary
+Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to
+subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks.
+
+
+</pre>
+
+</body>
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+This eBook, including all associated images, markup, improvements,
+metadata, and any other content or labor, has been confirmed to be
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+
+Procedures for determining public domain status are described in
+the "Copyright How-To" at https://www.gutenberg.org.
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+No investigation has been made concerning possible copyrights in
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+this eBook outside of the United States should confirm copyright
+status under the laws that apply to them.
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