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| author | Roger Frank <rfrank@pglaf.org> | 2025-10-14 19:55:41 -0700 |
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Moniz Barreto</title> + <meta name="Author" content="Barreto, Guilherme Moniz, 1865-1896"> + <meta name="Publisher" content="Guillard, Aillaud"> + <meta name="Date" content="1892"> + <meta http-equiv="content-type" content="text/html; charset=iso-8859-15"> + <style type="text/css"> + body{margin-left: 10%; + margin-right: 10%; + } + .pn { + text-indent: 0em; + position: absolute; + left: 92%; + font-size: smaller; + text-align: right; + color: silver; + } + #corpo p{text-align: justify; text-indent: 1em;} + h1,h2,h3 {text-align: center; margin-top: 3em; margin-bottom: 2em;} + #corpo p.sinopse {margin: 0; font-size: small; text-indent: 0;} + hr.dotted {border: 0; border-bottom: dotted 2px #000;} + hr {border: 0; border-bottom: solid 2px;} + .rodape { + font-size: 0.8em; + margin: 2em; + } + .fbox {border: solid black 1px; background-color: #FFFFCC; font-size: +75%; margin-left: 10%; margin-right: 10%;} + </style> +</head> + +<body> + + +<pre> + +The Project Gutenberg EBook of Oliveira Martins: Estudo de Psychologia, by +Guilherme Moniz Barreto + +This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with +almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or +re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included +with this eBook or online at www.gutenberg.org + + +Title: Oliveira Martins: Estudo de Psychologia + +Author: Guilherme Moniz Barreto + +Release Date: February 24, 2010 [EBook #31379] + +Language: Portuguese + +Character set encoding: ISO-8859-1 + +*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK OLIVEIRA MARTINS *** + + + + +Produced by Pedro Saborano (produced from scanned images +of public domain material from Google Book Search) + + + + + + +</pre> + +<p> </p> + +<div style="text-align: center; border: solid 2px #000;"> +<p style="font-size: 2em;">OLIVEIRA MARTINS</p> + +<p style="font-size: 1.2em;">ESTUDO DE PSYCHOLOGIA</p> + +<p>POR</p> + +<p style="font-size: 1.2em;">G. MONIZ BARRETO</p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p>SEGUNDA EDIÇÃO</p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p><big>PARIS</big><br> +GUILLARD, AILLAUD & C.ª<br> +<small>47, Rue St. André des Arts, Paris</small><br> +<small>242, Rua Aurea—1.º, LISBOA</small><br> +1892</p> +</div> +<p> </p> +<p> </p> +<p> </p> +<p> </p> + +<p style="text-align: center;font-size: 1.8em;">OLIVEIRA MARTINS</p> +<p> </p> +<p> </p> +<p> </p> +<p> </p> +<p style="text-align: center;"><img src="images/om.png" alt="Oliveira Martins de Perfil"></p> +<p> </p> +<p> </p> +<p> </p> +<p> </p> + +<div style="text-align: center;"> +<p style="font-size: 2em;">OLIVEIRA MARTINS</p> + +<p style="font-size: 1.2em;">ESTUDO DE PSYCHOLOGIA</p> + +<p>POR</p> + +<p style="font-size: 1.2em;">G. MONIZ BARRETO</p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p><img src="images/aillaud.png" alt="Logotipo editor"></p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p>PARIS <br> +GUILLARD, AILLAUD & C.ª <br> +<small>47, Rue St. André des Arts, 47</small></p> + +</div> + +<p><span class="pn">{7}</span></p> + +<p> </p> + +<div id="corpo"> +<h1><a name="SECTION000100">I <br> +OS CARACTERES</a> </h1> + +<p>A peça mestra da intelligencia do Sr. Oliveira Martins é a imaginação +psychologica, isto é, o dom de ver e descrever interiores de alma.—É esta a +faculdade que já apparece claramente nos seus primeiros trabalhos, atravez das +leviandades e temeridades da sua estreia, e que crescendo, avulta eminente nos +seus ultimos livros.—É ella quem faz a sua força de historiador e o seu +encanto de escriptor.—É ella quem muitas vezes o ampara nas correrias da sua +improvisação e suppre as lacunas visiveis da sua cultura. É ella finalmente +quem, habilitando-o a decifrar os compostos sociaes pelos compostos individuaes +o mune da capacidade pratica, e o arma com a aptidão politica.</p> + +<p>Em que consiste essa faculdade? Consiste na representação minuciosa e exacta +dos estados da sensibilidade e da intelligencia alheia, e na intuição precisa e +completa dos phenomenos da propria<span class="pn">{8}</span> intelligencia e +sensibilidade. Todos possuem a primeira d'estas aptidões em grau sufficiente +para se adequarem ao meio social em que vivem; e a segunda, para se perceberem +como um todo distincto e individual. Mas em certos espiritos essa faculdade +existe em grau desmedido, e os homens que a possuem são capazes de notar as +mais delicadas e fugitivas impressões da sua alma e da alma alheia, de observar +os sentimentos e os pensamentos mais incoerciveis, de conservar a sua +curiosidade attenta e activa mesmo sob a acção ardente da dor e do prazer +physico, ou sob o surdo encanto da comprehensão e da invenção. Quando ella +attinge o seu maximo, as intelligencias culminantes em que apparece, Balzac e +Shakespeare por exemplo, podem transformar-se nas suas creações e viver nos +seus personnagens com uma intensidade adequada á realidade; e como essa +imaginação é n'elles tão extensa como exacta, a sua obra será egual á natureza +em quantidade e qualidade: o analysta francez escreverá a <em>Comedia +humana</em> e fará passar na tela do romance em tropel vivo, cortezãs, +forçados, magistrados, sacerdotes, industriaes, poetas, todos os estados da +vontade desde a indecisão até ao crime, todas as modalidades da intelligencia +desde a inepcia até ao genio: o poeta inglez comporá o seu theatro e dará a +theoria completa das paixões e das imagens tal como a construem +laboriosamente<span class="pn">{9}</span> a psychologia e a clinica. Esta +especie de imaginação é a mais preciosa entre todas; o espirito que a possue +transforma-se por sympathia nos objectos que descreve; é ella quem faz do +romance uma autopsia e da historia um confessionario. É o dom dos avataras, e o +seu nome é legião.</p> + +<p>O Sr. Oliveira Martins possue em grau raro esta faculdade rara entre nós. Os +exemplos abundam na sua obra, e tão numerosos que constituem prova. Tomal-os-ei +d'aquelles livros em que não é visivel uma influencia extranha, e onde a sua +originalidade é incontestavel. Á portada da sua Historia de Portugal está o +parallelo das duas nações peninsulares, pagina veridica e profunda que abre com +esplendor essa galeria magnifica de retratos.</p> + +<p> </p> + +<p>«Ha no genio portuguez o que quer que é de vago e fugitivo, que contrasta +com a terminante affirmativa do castelhano; ha no heroismo lusitano uma nobreza +que differe da furia dos nossos vizinhos; ha nas nossas lettras e no nosso +pensamento uma nota profunda ou sentimental, ironica ou meiga, que em vão se +buscaria na historia da cultura hispanhola, violenta sem profundidade, +apaixonada mas sem entranhas, capaz d'invectivas, mas alheia a toda a ironia, +amante sem meiguice, magnanima sem caridade, mais que humana muitas vezes, +outras abaixo da craveira do homem a entestar com as feras. Tragica e ardente +sempre, a<span class="pn">{10}</span> historia hispanhola differe da +portugueza, mais propriamente epica; e as differenças da historia traduzem as +dissemelhanças do caracter. Confronte-se Calderon com Camões, Garrett com +Espronceda; ver-se-á a verdade da affirmação e a sagacidade do historiador.» +</p> + +<p> </p> + +<p>Tão lucido na psychologia do individuo como na dos povos, leia-se o retrato +do primeiro rei: dissipadas com o clarão da critica as nevoas do patriotismo, +superada com o alcance da vista a grandeza da distancia, o vulto do fundador da +monarchia apparece vivo, alumiado de frente, na plena resurreição da historia. +</p> + +<p> </p> + +<p>«Quem era Affonso Henriques? Já amestrado no officio de reinar, á maneira +porque então se entendia um tal officio, o moço principe reunia as condições +necessarias para consolidar uma independencia até ahi precaria. Era audaz, +temerario até, pessoalmente bravo, qualidade nem tão commum no tempo, como a +muitos acaso pareça. Fraco general, ao que se vê, porque as batalhas feridas +com as tropas leonezas perdeu-as sempre, era feliz guerrilheiro. Capitaneando +um troço de soldados, cahia d'improviso sobre um logar, e a furia irresistivel +do ataque deu-lhe a maior parte das suas victorias. Nem a grandeza das empresas +o assustava, nem as distancias o impediam de acudir,<span +class="pn">{11}</span> a um tempo, do extremo norte quasi ao extremo sul do +paiz. A estes dotes militares reunia outros não menos valiosos, dada a precaria +situação em que se apossara do reino. Era secco, astuto, friamente ambicioso, +sem chimeras nem illusões. Era um espirito mediocremente pratico, e isso fazia +boa parte da sua força: mal dos politicos ao mesmo tempo apostolos! Como a +tenra haste que verga á mais leve briza do cannavial, assim Affonso Henriques, +sem rebuços obedecia, logo que a sorte lhe era adversa. Passada a tormenta +erguia-se; e á facilidade astuta com que se humilhara, respondia logo a teima +perfida com que se rebellava. Isto fazia-o indomavel. Ubiquo militarmente, era +nos negocios um Proteu. Os seus inimigos, leonezes, sarracenos, não achavam por +onde prendel-o. Submisso e humilde quando se achava vencido, subscrevia a todas +as condições, acceitava todas as durezas, para logo mentir a todas as +promessas, rasgar todos os tratados, com uma franqueza ingenua, uma +simplicidade natural que chegaram a espantar a propria Edade-média. Nem brios +cavalleirosos, nem sentimentos de familia, nem odios pessoaes, nem vinganças +estupendas: nenhuma chimera, nenhuma grande ambição, nenhum poetico sentimento +enchiam a sua cabeça estreita e inteiramente occupada pela idéia fixa de +consolidar a sua independencia. O predominio absoluto d'uma idéia pratica, +servida por uma intelligencia<span class="pn">{12}</span> lucida, por um +caracter sem grandeza e por uma valentia provada, tornavam-no invencivel, ainda +mesmo quando era batido. A sua teima fazia-o semelhante a uma lamina de aço: um +instante vergada por um esforço momentaneo, logo estendida e livre; impossivel +de manter curvada desde que foi solta. O seu pensamento tinha a tenacidade da +mola, e não a rijeza do bronze nem o peso do chumbo. Vivia dentro do seu +Portugal como um javardo no seu refojo: assaltado, investia, despedaçando tudo +com as suas fortes presas. Perseguido, fugia. Não tinha a nobreza do leão, nem +a ferina astucia do tigre: possuia só a brava e bronca tenacidade do javali. Um +fraco apenas lhe notam, embora os actos da sua vida não denunciem que esse +defeito o prejudicasse muito: gostava de ser adulado.»</p> + +<p> </p> + +<p>Mais interressante ainda é o retrato do primeiro Pedro. O psychologo +multiplicou aqui os pormenores e os casos da vida privada, porque o vulto que +quiz descrever tem um alcance mais social do que politico. Para o comprehender +abandona os habitos intellectuaes modernos, a reflexão pautada e a emoção +equilibrada; e em presença do velho rei faz resurgir em si a visão concreta e +os sentimentos de terror e amor que elle devia provocar n'um camponez ou n'um +burguez do seculo <small>XIV</small>. Para ver e fazer ver esse vulto tão +pittoresco, não compõe<span class="pn">{13}</span> uma dissertação, pinta um +quadro. O historiador faz-se subdito do rei que historía, e fechando os olhos +vê surgir na tela interior a apparição colorida e nitida, dotada de vida e +capaz de viver. Leiam-se essas paginas singulares, attente-se n'este retrato do +rei gago e feio, temido e amado do seu povo; uma palavra acode á mente: é uma +allucinação; uma allucinação auditiva e visual completada pela resurreição das +emoções correspondentes.</p> + +<p> </p> + +<p>«D. Pedro tinha a paixão da justiça: era n'elle uma mania como em seu avô o +fora a guerra. Não prescindia de julgar todos os delictos. Os criminosos vinham +á côrte, desde os remotos confins do reino. Quando algum chegava, manietado, e +o rei comia, levantava-se pressuroso da mesa, e trocava a vianda pela tortura. +Prazia-se em ajudar e dirigir os algozes; indicava os expedientes e processos +para obter a confissão dos reos. Nunca abandonnava o açoute enrolado á cinta em +viagem, tomava d'elle, e por suas mãos castigava o facinora que no caminho lhe +traziam. Os adulteros mereciam-lhe um odio especial; jámais lhes perdoava. D. +Pedro tinha um escudeiro, Affonso Madeira, <em>luitador e travador de grandes +ligeirices</em>, a quem, embora o amasse <em>mais que se deve aqui de +dizer</em>, o rei mandou castrar, porque peccou com Catarina Tosse:—o rapaz +engrossou, e morreu depois <em>da sua natural door</em>. Certa mulher<span +class="pn">{14}</span> era infiel ao marido, que nem por isso se offendia: +offendeu-se o rei, e mandou-a queimar; ao esposo desolado respondeu que lhe +devia alviçaras pelo ter vingado. Havia um homem casado, com filhos, mas que +antes da boda forçara a mulher. Roussou? Morra. Enforcou-o entre os choros e +supplicas da esposa e dos filhos. O seu odio aos peccados da carne perseguia +com furor as alcouvetas, e as feiticeiras não lhe mereciam menos cuidados.</p> + +<p>«Quando o tomavam os ataques da furia justiceira, a gaguez fazia ainda mais +terrivel a expressão da sua physionomia. A fala não lhe deixava traduzir bem as +coleras, e rubro, grosso, agitando o latego, n'um delirio, mettia espanto. Os +gagos, porém, tem isto de particular: tanto o defeito accrescenta ao horror da +furia, como põe nas horas mansas o que quer que é de bonhomia quasi ironica. +Era assim D. Pedro. Caçador tenaz, descançava do officio de juiz nas corridas +do monte, seguido pelos moços com os nebris e falcões, e pelas matilhas de +cães. Então, o seu rosto aplacava-se, e era benigno, bemfajezo, liberal, +folgazão. <em>Foi grande criador de fidalgos.</em> Glotão, passava horas +esquecidas á meza, onde a vianda era em grande abastança.</p> + +<p>«Assim como a sua justiça era destituida de majestade, assim eram as suas +folganças. Dir-se-ia um rustico feito rei; e acaso por isso o povo o<span +class="pn">{15}</span> amava tanto. Não tinha distincções, nem delicadezas no +sentimento, nem no trato, sendo em tudo brutal. Se confundia em si o juiz e o +algoz, as suas festas eram kermesses extravagantes e plebéias. Os instinctos +aristocraticos e as fórmas da cortezia nobre, torneios, lanças e outros, não +tinham n'elle um amigo. Era um democrata, um tyranno á antiga, em cujo espirito +toda a brutalidade popular encarnara: por isso mesmo era adorado! Os seus +castigos terriveis, passando de bocca em bocca, faziam-lhe um pedestal de +força; e as suas continuas folganças populares cimentavam essa força com o amor +intimo que nos merece o que tem comnosco a irmandade de gostos. O povo via-se +rei na pessoa de D. Pedro.</p> + +<p>«Quando voltava em batéis de Almada para Lisboa, a plebe lisboeta sahia a +recebel-o com danças e trebelhos. Desembarcava, e ia á frente da turba, +dançando ao som das <em>longas</em> (trombetas), como um rei David. Estas +folias apaixonavam-no quasi tanto como o seu cargo de juiz. Por ellas chegava a +fazer loucuras. Certas noutes, no paço, a insomnia perseguia-o: levantava-se, +chamava os trombeteiros, mandava accender tochas; e eil-o pelas ruas, dançando +e atroando com os berros das <em>longas</em>. As gentes, que dormiam, sahiam +com espanto ás janellas, a ver o que era. Era o rei. Ainda bem! ainda bem! que +prazer vel-o assim tão ledo! Vestiam-se todos á pressa, desciam<span +class="pn">{16}</span> ainda tontos de somno; e as ruas, uns momentos antes +silenciosas e negras, brilhavam com as luzes e tinham o clamor da multidão em +vivas, o movimento das danças universaes.»</p> + +<p> </p> + +<p>Não só as ruas, mas tambem estas paginas. Como para o seu mestre Michelet, a +historia é para elle uma resurreição, e como no seu mestre Michelet o poder de +evocação é acompanhado n'elle pelo dom da comprehensão. N'este mesmo retrato +que analysei, se os pormenores e anecdotas que fazem <em>ver</em> os objectos +abundam, não escasseiam os juizos geraes que os fazem <em>perceber</em>. Assim +depois de ter pintado o velho rei em corpo e alma, localisa-o na sua epocha e +no seu meio, e indica as causas da sua força, que são os motivos da sua +influencia. Poder-se-iam definir as suas narrações e descripções, como uma +serie de allucinações com integridade da razão.</p> + +<p> </p> + +<p>«D. Pedro é a viva imagem da Edade-média, politica e domestica. Todos os +vicios e todas as virtudes, a fereza e a ingenuidade, os odios terriveis e as +amizades espontaneas, sommadas n'um caracter primitivo, onde acaso alguma lepra +dos vicios civilisados antigos punha nodoas novas, formavam a pessoa d'esse rei +que é verdadeiramente um symbolo: por isso o povo, vendo-se n'elle re-tratado, +o adorou.»<span class="pn">{17}</span></p> + +<p> </p> + +<p>N'este retrato, como em todos os trabalhos do Sr. Oliveira Martins, a cor e +a vida abundam; o que não abunda é a proporção e a ordem. E ainda assim não +transcrevi senão o que convinha. Se o fizesse na integra, ver-se-ia que o nosso +auctor, na furia da inspiração improvisadora, repisa e baralha. Se ordenasse e +concentrasse, o effeito seria fulminante e a critica batida recuaria até á +admiração.</p> + +<p> </p> + +<p>Mesmo assim é nos retratos que elle triumpha; vastos como quadros, ou +concisos como medalhas vêem-se pendurados a todos os cantos da sua obra. +Pinta-os ás dezenas, cunha-os aos centos. Na <em>Historia da Civilização +Iberica</em> é Camões, é Colombo, é Loyola; na <em>Historia de Portugal</em> +são Affonso Henriques, Pedro o Cru, o Condestavel, o Infante D. Henrique, +Albuquerque, D. Francisco de Almeida, D. João de Castro, o Principe perfeito, +D. Sebastião, o Restaurador, o Rei magnanimo, o pobre D. João VI; no +<em>Portugal Contemporaneo</em>, Saldanha, Palmella, D. Miguel e o Telles +Jordão, Mousinho, Rodrigo, Cabral, os Passos e tantos. Com dois traços ou com +duzentos, o personnagem apparece sempre vivo, n'um escorço fugitivo ou n'uma +longa analyse, com uma verosimilhança que garante a veracidade. E não só esta +imaginação é psychologica, mas realista: ella se compraz não só na pintura das +opiniões e paixões, mas tambem na<span class="pn">{18}</span> representação dos +pormenores corporaes e das circunstancias triviaes. Como psychologo, elle sabe +que as grandes forças presentes em cada individuo, e que lhe determinam a +biographia, se revelam não só no mechanismo das idéias e no jogo das +tendencias, mas ainda nas pregas do vestuario e nas rugas do sorriso; como +escriptor conhece que só o traço sensivel provoca a visão, e que a arte de +pintar com a palavra, é a arte de evocar com a palavra. Assim elle verá a +gaguez de D. Pedro, a surdez de Mousinho, a cabeça felina de D. João II; o +peito constellado de Saldanha, a face quadrada de Rodrigo, o eterno charuto de +Palmella; os habitos, as doenças, as idiosyncrasias mais furtivas apparecem +daguerreotypadas por uma imaginação e estampadas n'uma prosa que tem a +complexidade e a velocidade das operações vitaes.</p> + +<p> </p> + +<p>Psychologica e realista, esta imaginação é completa? Um romancista como o +Sr. Eça de Queiroz prima na pintura das sensações corporaes e das paixões +animaes: o cio, a gula, o egoismo brutal e a intriga trivial, a cobiça e a +vaidade, a bondade ingenua e a maldade machinal, quasi que exgottam o seu +reportorio; a população dos seus romances é composta de personnagens medios; se +uma vez n'um livro que é uma confidencia elle pintou uma alma fóra do commum, +foi procedendo á maneira dos lyricos,<span class="pn">{19}</span> transcrevendo +as suas proprias emoções; Carmen Puebla é o proprio romancista com o vibrar +pungente dos seus nervos, e os fremitos da sua furiosa e dolorosa +sensibilidade; mas o auctor do <em>Primo Bazilio</em> nunca escreveu um romance +como <em>Louis Lambert</em>; para um vôo tal são precisas as azas musculosas do +genio cosmopolita e androgyno de Balzac.</p> + +<p>O Sr. Oliveira Martins conhece perfeitamente as raizes inconscientes e +physicas da vida superior do espirito, e mostra-as sempre que precisa, bem que +sem as minudencias do romance, porque pinta a fresco sobre a parede da +historia; mas vê com lucidez egual a florescencia culminante da razão e da +moralidade. Elle retrata tão bem o fundador do jesuitismo, como o filho da +lavadeira. O genio é-lhe tão familiar como o instincto; e não vejo melhor +maneira de cerrar esta analyse da face mais importante do seu espirito, senão +transcrever as paginas magnificas que elle escreveu sobre Herculano, e +reproduzir, depois da figura do rei que com o punhal nos fundou a +nacionalidade, o vulto do escriptor que com o seu genio, incompleto mas +poderoso, nos iniciou a historia.</p> + +<p> </p> + +<p>«.... A palavra que o retrata é o Caracter, porque n'elle a vida moral e a +intellectual eram uma e unica,—o contrario do sceptico, não raro santo, o +proprio do estoico, não raro obtuso.<span class="pn">{20}</span></p> + +<p>«Dizemos pois Caracter no sentido e valor que a palavra teve na Antiguidade, +e não na vaga accepção moderna. Não é a intemerata vida, não é o desprezo dos +bens mundanos, o odio, a ostentação vã, a desabrida recusa de titulos, de +honras, de logares que em si constituem o Caracter; embora a repugnancia pelas +cousas mesquinhas seja consequencia indispensavel d'esse modo d'existir que +essencialmente consiste na afinação perfeita das regras da moral e dos +principios da intelligencia, da vida do cidadão e da existencia do philosopho. +O typo do caracter á antiga é o estoico, e este é o nome que propriamente +define a physionomia de Herculano; este é o typo que passo a passo veiu +crescendo até dominar nos ultimos annos,—quando as licções successivas do +mundo, nunca estoico e muito menos do que nunca em nossos dias, e muito menos +do que em parte alguma em Portugal; quando os desenganos do mundo o degradaram +para o exilio,—não como um martyr, mas como um homem, que protestando sempre, +se não converte, nem se corrompe.</p> + +<p>«Por isso o estoico é por natureza austero e duro; e na pessoa de Herculano +esse genero aggravava-se com effeito por varios motivos: já pelo seu +temperamento lusitano, já pela deploravel baixeza do nivel moral da sociedade +portugueza, já pelo saber consideravel systematisado pelo philosopho, e sem +duvida alguma desproporcionado para a<span class="pn">{21}</span> illustração +media do paiz em que vivia. Olhando as miserias alheias e a alheia ignorancia, +por modesto que fosse—e não o era—via-se muito acima como homem e como +sabedor. Isto, e não a cohorte dos aduladores ineptos a quem não dava +importancia, embora a sua bondade os não fustigasse, o fazia inconscientemente +orgulhoso: porque nenhum orgulho nem pedantismo tinha para com todos os que via +crédores de attenção e respeito.</p> + +<p>«Do accordo da intelligencia e da moral vem ao estoico um pensamento bem +diverso e até opposto ao dos santos, que do antagonismo sentido partem para as +soluções mysticas. Esse pensamento e o individualismo, cujo traço fundamental +consiste na idéia de que o homem é em si um todo indiviso e completo, e a unica +verdadeira realidade da sociedade; a idéia de que a razão humana é a fonte do +conhecimento certo e absoluto, a consciencia a origem da moral imperativa,—a +liberdade, portanto, a formula da existencia social. D'este modo de ver as +cousas nasce aquillo a que podemos chamar o orgulho transcendente,—que os +antigos estoicos disseram Caracter, quando pela primeira vez essa fórma do +pensamento appareceu systematisada em doutrina.</p> + +<p>«No revolver da agitada vida, em que se achara, iam pouco a pouco +reunindo-se, como que crystallizando, os elementos da futura, distincta e +typica individualidade. A nobreza e a ideal rectidão<span +class="pn">{22}</span> do seu espirito tinham na sua profundidade o motivo +d'uma systematica cegueira para pesar e medir as cousas reaes com a fria +imparcialidade d'um critico, ou com a caridade do santo. Com o seu metro +absoluto e integro, Herculano, na agitação do mundo, corria atraz da chimera de +achar aquelles homens que o seu estoicismo desenhava, aquelles raros, dos quaes +elle era em Portugal um e unico. O critico, se é politico, manobra com os +homens como um general com um exercito, auscultando as vontades e caprichos, +dirigindo as forças direito a um fim, sem attenção pelos instrumentos d'elle. +Perante os homens, o santo tem na piedade uma intima força: a coragem que não +abranda; tem o enthusiasmo que o move, e a caridade que explica e lhe faz +comprehender, em Deus, as fraquezas e as miserias da terra. Combate, pois, sem +recuar, levando nos labios a palavra de uncção, e o sorriso d'uma ironia boa, +ao mesmo tempo cauterio e balsamo. O estoico, porém, ferido, pára. O mundo era +elle e nada mais além da sua razão, da sua consciencia, da sua liberdade. E +quando as feridas, as perseguições, os ataques, os ultrajes são profundos e +agudos como os que expulsaram da politica,—e tambem das letras,—Alexandre +Herculano, o estoico repetindo a historica phrase do Africano, suicida-se. É +então que vivamente nasce, pois só então o Caracter apparece em toda a sua +pureza.<span class="pn">{23}</span></p> + +<p>«Não o mata o scepticismo, mata-o o excesso de uma incompleta doutrina. Não +descrê, e é por cada vez mais acreditar em si, que foge a um mundo rebelde a +ouvir a verdade. A morte não é pois um acto de desespero, é um acto de fé. Só a +differença dos tempos fez com que no suicidio de Herculano não entrasse o ferro +como entrou nos suicidios estoicos da Antiguidade. A vida assim coroada, o +homem assim transfigurado n'um typo, e a sua palavra e o seu exemplo n'um +protesto, superior ao mundo e ás suas fraquezas, ficam aureolados com o forte +clarão dos heroes, lume que aos navegantes, errando no mar escuro da vida, guia +a derrota e indica o porto.»</p> + +<p> </p> + +<p>Marcado com firmeza e analysado com perspicacia o facto capital d'este +espirito, o critico passa a estudar-lhe as origens, porque sabe que nos homens +cultos a educação é uma segunda natureza. E no caso presente, como succede +quasi sempre na historia dos homens fóra do commum, a cultura concorda com o +temperamento e exalta o valor das qualidades innatas. O estoicismo ingenito, +exasperado pelo kantismo apprendido, determinam o corpo das suas opiniões +sociaes, politicas, religiosas e economicas, e depois de fundir as idéias ao +pensador, fabricam o estylo ao escriptor. O Sr. Oliveira Martins considera-o +sob todos estes pontos de vista com uma lucidez de expressão e uma<span +class="pn">{24}</span> nitidez de comprehensão, que surprehendem tanto mais que +o nosso critico discorda do auctor que explica, a ponto de combatel-o. Esta +sagacidade é ainda mais notavel no curto juizo sobre as qualidades da prosa de +Herculano, quando se pensa que elle é emittido por um homem que não prima pela +posse d'aquillo a que cabe rigorosamente o nome de dotes litterarios.</p> + +<p> </p> + +<p>«O racionalismo kantista foi o molde onde se vasaram em systema as +tendencias naturaes do espirito de Herculano,—um D. João de Castro da +burguezia e do seculo <small>XIX</small>. O antigo stoicismo portuguez era +catholico e monarchico; o estoico de agora foi romantico e +individualista,—exprimindo a reacção, geral na Europa, contra a religião dos +jesuitas a contra a doutrina da Razão-de-Estado que depois de ter feito as +monarchias absolutas, fizera a Convenção e Napoleão.</p> + +<p>«O kantismo como philosophia, o individualismo como politica, o livre-cambio +como economia,—eis ahi as tres phases da doutrina que, por ser um philosopho, +Herculano media em todo o seu alcance.»</p> + +<p> </p> + +<p>Mas a aptidão superior que o leva a marcar n'um espirito o facto capital é +acompanhada pelo tino da realidade que lhe impede de fazer derivar tudo d'este +unico facto; ao lado d'esta causa primordial<span class="pn">{25}</span> o Sr. +Oliveira Martins restabelece os principios subsidiarios que a modificam, +limitando-a, e combinando-se com ella originam uma alma real, capaz de viver +entre cousas reaes e de produzir obras reaes. Por este sentimento intenso do +concreto o Sr. Oliveira Martins nos apparece como um verdadeiro artista, e não +como um simples combinador de abstracções.</p> + +<p> </p> + +<p>«.... Não basta o principio individualista para explicar a physionomia +intellectual de Herculano. Varias causas concorriam para o temperar ou desviar +das suas logicas conclusões. O saber é uma d'essas, mas a principal é o seu +temperamento estoico. Para Herculano, e em geral para o estoicismo, uma +doutrina não é um producto da intelligencia pura, que póde ser ou não amado e +<em>vivido</em>. O estoico vive com o que pensa; o seu pensamento está no seu +coração: é a carne da sua carne, o sangue do seu sangue; é uma fé, não é apenas +uma opinião. Eminentemente forte, é por isso mesmo positivo e pratico. As +doutrinas são para elle realidades, não são abstracções; e nada valem quando +nada representam na esphera da consciencia e da moral, quando nada valham na do +direito e da economia. Por isso as extremas conclusões do individualismo, +irrealisaveis, praticamente absurdas, immoraes até, repugnantes para o proprio +instincto, contradictadas pelo saber mais mesquinho, essas conclusões,<span +class="pn">{26}</span> delicia d'espiritos seccos, de philosophos abstrusos, de +ingenuos ignorantes,—não podia Herculano, sabio e estoico, abraçal-as. Parava, +pois, afim de conciliar a sua opinião com o seu sentimento; e se em resultado +sahiam inconsequencias, ellas não fazem senão demonstrar a verdadeira nobreza +da sua alma e a tempera rija da sua intelligencia.</p> + +<p>«Lado algum das suas idéias mostra isso mais do que o economico. Tão +livre-cambista como individualista: ou ainda mais, porque o socialismo, cujo +crescer sentia e temia, vendo ahi um positivo e declarado inimigo, e o vivo +problema do futuro, ou ainda mais, dizemos, porque não parava, nem limitava as +conclusões ultimas, Herculano era radical no <em>free-trade</em>, pois +firmemente acreditava n'elle como numa panacia. Estoico sempre, a doutrina da +concorrencia apparecia-lhe principalmente por um lado,—secundario para os +economistas. O livre-cambio, proclamado como a melhor receita para crear a +riqueza, era para Herculano sobre tudo a melhor fórma de a distribuir. Queria +que as leis pulverisassem o solo, no qual não reconhecia outro valor senão o +que o trabalho consolidava n'elle, e esperava que a concorrencia, desembaraçada +de todas as peias, creasse uma sociedade proudhoniana, em que todos fossem +capitalistas e proprietarios. Como estoico, era um socialista; mas o seu +socialismo realisar-se-ia pela liberdade, pela concorrencia. E quando se lhe +contavam os<span class="pn">{27}</span> casos repetidos, actuaes, do sem numero +de monopolios de facto, nascidos, não das leis, mas sim da guerra natural +economica,—elle parava, scismava e não respondia.</p> + +<p>«Via-se que lá dentro luctavam a doutrina e a lucidez; em se convencer, sem +mudar, apparecia o moralista invectivando os vencedores d'essa lucta donde elle +esperava a justiça e donde apenas sahia o dolo. Ninguem o excedia então; e ao +ouvil-o, dir-se-ia algum fugido de Paris, dos tempos da Communa,—porque nos +referimos agora aos seus ultimos annos, ás vesperas da sua morte, quando a +agiotagem <em>livre</em> de Lisboa e Porto provocou uma crise bancaria. Quiz +então o governo cohibir a liberdade de emissão, mas não o pôde.»</p> + +<p> </p> + +<p>E transcriptos uns trechos de carta em que o individualista defende a sua +doutrina, mesmo contra argumentos tirados d'um campo, em que as consequencias +d'ella são promptas e fulminantes, o critico prosegue.</p> + +<p> </p> + +<p>«Mas se essa liberdade, expressa na concorrencia economica,—e na franca +emissão de notas, no caso especial tomado para exemplo; mas se essa liberdade +conduz a taes resultados, sendo em si excellente, força é que haja um vicio no +mechanismo das instituições. E ha, sem duvida, diz Herculano,—é o +anonymato.<span class="pn">{28}</span></p> + +<p>«Na essencia, a <em>bank-note</em> é a expressão do credito que o individuo +attribue a si. Que se reunam 7, 70 ou 700 individuos para sommarem essas +avaliações; que se chame banco e que exprimam collectivamente o total, isso não +muda a essencia da cousa. Supprimia todas as responsabilidades +<em>limitadas</em>. A responsabilidade é de sua natureza <em>illimitada</em> +até onde chegam os recursos e pessoa do responsavel. <em>Non habet in posse, +dicat in corpore</em>, é maxima que se não devia desprezar n'esta questão do +abuso do credito. Note-se que eu desejaria supprimidas todas as +responsabilidades limitadas, tacitas ou expressas, manifestas ou disfarçadas.» +</p> + +<p>«Nós vimos antes como o espirito do erudito historiador corrigia em certo +ponto a doutrina individualista; vemos aqui o jurista a corrigir o +livre-cambio; vamos ver o canonista a corrigir para a direita o +ultramontanismo, para a esquerda o atheismo. A educação do homem temperava os +principios do philosopho; e essas correcções eram-lhe indispensaveis para que +os seus pensamentos se mantivessem de accordo com os seus rectos instinctos, +com as suas bellas aspirações,—eram-lhe indispensaveis, porque o estoico não +admitte divergencias entre a intelligencia e a moral, entre o mundo das idéias +e o das realidades.</p> + +<p>«Com fundado motivo dizia Herculano que perante os principios,—liberal e +socialista, ou<span class="pn">{29}</span> individualista e collectivista,—era +indifferente a questão das fórmas do governo: «pouco me incommoda que outrem se +sente n'um throno, n'uma poltrona, ou n'uma tripeça». Mas essa questão da +republica ou da monarchia, é para elle um problema não só historico, mas tambem +religioso.</p> + +<p>«Pondo de parte a questão de opportunidade no momento d'uma crise, a +republica não parecia a Herculano adequada «á velha Europa, sobretudo a estas +sociedades meio-germanicas na indole e celto-romanas na raça que estanceiam ao +occidente educadas pelo catholicismo que na pureza da sua indole é o typo da +monarchia representativa.»</p> + +<p>«A tradição religiosa—ou antes aquella tradição religiosa d'um catholicismo +liberal inventada pelo romantismo,—servia, pois, ao philosopho para temperar o +seu individualismo, para o conciliar com um resto de auctoridade social +consagrada nas prerogativas do throno representativo. De tal modo se combinava +o racionalismo, e este traço é o que dá a Herculano, ou antes á sua doutrina um +caracter d'individualidade original, depois do ensino, apenas racionalista de +Mousinho da Silveira.</p> + +<p>«Tambem entrava ao lado da educação, o temperamento para acabar de afeiçoar +a physionomia religiosa de Herculano. O mechanismo do frio Deus kantista não +bastava á sua indole peninsular.<span class="pn">{30}</span> A imaginação +pedia-lhe a antiga historia tradicional; o sentimento reclamava que quer que é +d'affectuoso e meigo,—a doce caridade catholica; e o bom-senso exigia o culto +e a pompa que impressionam as massas. O protestantismo, alvo das suas acerbas +satyras, não satisfazia a sua alma, nem as suas exigencias de canonista. Nada +propenso ao mysticismo, e até rebelde a comprehendel-o fóra da caridade +pratica, não via na religião mais do que uma Egreja,—instituição e +disciplina....</p> + +<p>«A Liberdade, supposto principio que para elle resumia a essencia d'um +espirito racional e absolutamente consciente, era afinal o seu verdadeiro e +intimo deus. É essa a religião do estoico; e o Deus da <em>Harpa do Crente</em> +é um ser eminentemente livre que por um acto de vontade absoluta creou tudo o +que existe: o deus do estoico é a divinisação do estoicismo. E como todos sabem +por quanto esta antiga philosophia entrou na formação do christianismo, é +desnecessario mostrar desenvolvidamente como e até que ponto Deus era para +Herculano o Deus christão.</p> + +<p>«Obras de tres naturezas diversas nos revelam pelo estylo tres phisionomias. +A primeira, official e grave, são os seus trabalhos historicos, onde o periodo +redondo e classico, mas sem affectação quinhentista, se desenvolve alimentado +pelos <em>caldos de Vieira</em> que nos receitava a nós os moços, para educar a +mão; a segunda são os seus romances<span class="pn">{31}</span> e escriptos +humoristicos, onde mal ataviado o periodo jesuitico, ás vezes combinado com +fórmas e <em>tours</em> estrangeirados, transparece sempre o <em>goût du +terroir</em>, o cunho do portuguezismo duro e pesado, mais aggressivo do que de +comedia. Na terceira, finalmente, em nossa opinião a mais bella, nos escriptos +de polemista a phrase rotunda é quente, a aggressão é viva, as palavras tem +calor, e a dureza do genio lusitano acha nos sentimentos expressos em orações +duras, uma convicção, uma independencia que a ennobrecem. Ouve-se a voz do +estoico, e ha uma harmonia perfeita entre o pensamento profundo, grave e forte, +e o estylo redondo, sobrio e nobre. A rethorica classica é o molde proprio do +classico pensamento estoico. Mas entre estas obras ha uma, uma unica (<em>Carta +á Academia das Sciencias</em>), onde apparece o homem intimo, sensivel, +caridoso e simples, esse homem que nós esboçamos fugitivamente, porque a vida, +a educação, o temperamento, de mãos dadas concorriam para o subalternisar ao +homem estoico; ha uma dizemos, em que as palavras não falam apenas, choram e +vociferam, tem lagrimas e imprecações e ironias. Ferido no vivo coração da sua +existencia, o homem poz no papel o melhor do seu sangue. O que o genio do +artista obtem com a intuição, consegue-o o poeta com a emoção. A <em>Carta á +Academia</em> é tão bella como as melhores das poesias intimas de +Herculano.<span class="pn">{32}</span></p> + +<p>«Para elle que, como lusitano, nada tinha de artista (prova, os seus +romances), a litteratura era uma missão e não um dilletantismo. O universo, a +historia, a sociedade, não se lhe apresentavam como assumpto de estudos subtis +e curiosos, de observações finas ou profundas, de quadros brilhantes, vivos ou +commoventes; mas como objecto de affirmações ou negações inspiradas pela +convicção estoica. Nos seus livros póde seguir-se ao mesmo tempo o +desenvolvimento do seu pensamento e a historia da sua consciencia. São o +retrato da alma do auctor, ora apaixonada, ora melancholica, quasi sempre +triste, raras vezes contente, mas sempre convicta, energica e franca.</p> + +<p>«As <em>Poesias</em> e o <em>Eurico</em> revelam-nos o crente na providente +liberdade d'um poderoso e justo Deus; a alma rijamente temperada contra o +funesto acaso; o coração aberto ás emoções da natureza que se lhe manifesta com +o caracter d'uma fatalidade cruel e d'um cego desabrimento. Deus, a Natureza, o +Homem, são, n'essas obras, personnagens d'uma tragedia biblica, com a +tempestade rouca por musicas e por fundos de scena bulcões de opacas nuvens +cobrindo o azul do ceo.</p> + +<p>«Vem depois as obras polemicas, vasta e riquissima collecção que patenteia a +omnimoda actividade do pensamento de Herculano, e lhe dá o caracter d'um +philosopho, cujo pensamento em vez de se manifestar em tratados, se exprime em +controversias.<span class="pn">{33}</span> Profissionalmente, era historiador. +A <em>Historia de Portugal</em> e os trabalhos que com ella formam o corpo dos +estudos do erudito são a obra mais importante do escriptor e solido fundamento +do seu immorredouro nome na historia litteraria portugueza. Reunindo a um vasto +e forte saber geral a paciencia do erudito e o escrupulo do critico, esses +trabalhos não respiram a pedante seccura do especialismo, e se não constituem, +nem podem constituir uma historia nacional, fizeram com que os problemas das +origens sociaes e politicas da nação portugueza fossem por uma vez resolvidos. +A historiographia peninsular tem em Herculano o seu mais illustre nome: um nome +que se conservará ao lado do de Guizot, de quem tinha os golpes de vista +comprehensivos, e do de Thierry, a quem acompanhava na faculdade de representar +vivas, nos seus habitos, costumes e leis (senão em sua alma como um Michelet) +as passadas gerações,—avantajando-se a ambos na coragem com que arcou com o +trabalho improbo de colligir, coordenar, traduzir, interpretar os monumentos +historicos d'um povo que não tivera benidictinos eruditos. Robinson de nova +especie, Herculano achou-se como n'um paiz deserto e teve de descobrir os +materiaes antes que pudesse pôr mãos á obra.</p> + +<p>«Prodigio de trabalho, de saber, de paciencia, de talento, a <em>Historia de +Portugal</em>, é um monumento;<span class="pn">{34}</span> entretanto,—devemos +dizel-o, se quizermos ser inteiramente justos.—mais de uma cousa lhe falta, +para poder ser considerada um typo, e o seu auctor um grande historiador como +Ranke. Falta-lhe ar na contextura sobrecarregada de eruditas discussões; +falta-lhe, sobre tudo, aquella alta e serena imparcialidade, aquelle ponto de +vista rigorosamente objectivo, aquella isenção critica, impassivel perante as +escholas, os systemas, os partidos; e sem a qual a historia deixa de o ser.</p> + +<p>«Além d'isto, ha uma falta de nexo na <em>Historia de Portugal</em>, +resultado do modo como primeiro foi concebido.... as duas faces do livro se não +ligam,... os factos e os homens nos apparecem como um appendice, subalterno, +indifferente, dando a impressão de que se tivessem sido outros e diversos, nem +por isso a vida anonyma das sociedades poderia ter seguido rumo differente. E +se nem a acção dos elementos voluntario-individuaes e dos fortuitos, sobre os +elementos sociaes, nem a inversa, nos apparece, tirando assim á historia o seu +caracter eminente de realidade; juxtapondo artificialmente a uma chronica, +veridica, desinçada dos erros e das invenções fradescas, uma dissertação +erudita sobre o desenvolvimento das instituições: tambem a apreciação dos +elementos moraes,—crenças individuaes, phenomenos de psychologica +collectiva,—é feita á luz de doutrinas quasi voltaireanas; e no avaliar das +lendas religiosas,<span class="pn">{35}</span> da acção do clero, o historiador +prescinde de profundar os motivos moraes, ou cede a palavra ao sectario que nos +bispos e em Roma não vê outra cousa mais do que sacerdotes da astucia e uma +Babylonia de perversão.».</p> + +<p> </p> + +<p>N'este magnifico retrato se vê em alto relevo todos os recursos do auctor. +No arcar com uma empresa difficil se mede toda a força disponivel. Tendo de +estudar uma natureza complexa e eminente, o psychologo desenvolveu n'esse +trabalho todos os recursos do seu eminente e complexo espirito. Eminente e +differente, o espirito estudado vê-se que quem o estuda, nem philosopho por +officio, nem stoico por temperamento, é capaz de, pela imaginação psychologica, +perceber as idéias geraes e as paixões moraes. Quiz transcrever quasi na +integra, estas paginas numerosas, mas que se lêem d'um fôlego, porque um bom +exemplo se não é um ramo legitimo de prova, é um instrumento optimo de +exposição, e convem expor com a lucidez maxima, aquella que reputo a faculdade +matriz do espirito que analyso, e que nenhum escriptor portuguez contemporaneo +possue em tão alto grau como o Sr. Oliveira Martins.<span +class="pn">{36}</span> <span class="pn">{37}</span></p> + +<p> </p> + +<h1><a name="SECTION000200">II <br> +AS PAIZAGENS</a> </h1> + +<p>Com a imaginação psychologica, possue elle a imaginação physica? O exame das +suas paizagens o dirá. Um escriptor como o Sr. Ramalho Ortigão, por exemplo, em +quem o dom da representação visual, apparece completo e permanece intacto, +procederá nas suas descripções pela transcripção minuciosa, exacta e methodica +das impressões taes como foram recebidas, ou antes taes como foram enviadas dos +objectos. Se elle descreve um trecho qualquer da realidade, supponhamos uma rua +de Amsterdam, começará por calcular-lhe a largura, 3 metros; verá os predios de +tres e quatro andares, em tijolo; notará em seguida a côr do tijolo, preto, e a +nuance particular, preto côr de sombra ou vermelho tostado; falará das varas +pintadas de verde dos enxugadouros, onde pendem riscados brancos, azues e +vermelhos; observará as pranchas com vasos, as taboletas sobre as portas,<span +class="pn">{38}</span> vinte objectos miudos ou dispersos, um gallo branco de +crista encarnada, o pão de assucar da tenda, uma chave de broca para o ar, tres +queijos sobrepostos, um branco, um dourado, um preto; uma lanterna, um barril, +um tamanco; nas janellas, os espelhos quadrados de caixilho de ferro; no chão +comprido e varrido da rua, arrumados á parede uma vassoura, baldes, gigas, +celhas, o pincel das lavagens, uma roda desembuchada do eixo, uma lança de +corvo, uma gaiola de frangos, e n'uma casota, um sapateiro velho, de oculos, +sobre a tripeça, curvado a trabalhar, com o tecto em cima do seu +<em>bonnet</em> de lontra. E os objectos virão descriptos com uma tão vehemente +fidelidade, que enumerando-os parecerá, não que elle redige um rol mas que +estampa uma visão. E as manchas da côr, a direcção das linhas, a obtusidade ou +a agudeza dos angulos, a disposição e o recuo dos planos visuaes, o systema das +apparições corporaes dadas na adaptação dos seus elementos intestinos, e nas +combinações ou contrastes com as apparições adjacentes, o peso, a forma, a +proveniencia e a utilidade das cousas vistas, serão dictas n'uma prosa de tal +sorte adequada pela sua provada firmeza e estructural precisão ao genero de +trabalho a que a submettem, que o leitor se lá esteve, sem querer, exclama: S. +Nicolas Straat! repetindo o nome que leu e a rua por que passou.</p> + +<p>São assim as descripções do Sr. Oliveira Martins?<span +class="pn">{39}</span> Não são. Na sua Historia Romana, no livro das guerras +punicas, encontram-se descripções admiraveis que rivalisam em colorido e +nitidez com as melhores do Sr. Ramalho Ortigão; mas a influencia litteraria é +visivel n'ellas, são reminiscencias intelligentes da <em>Salammbo</em> de +Flaubert. Ha porém nos seus livros paizagens vistas cuja originalidade é +incontestavel. N'essas o processo descriptivo é bem diverso. O Sr. Oliveira +Martins não nos diz o que observou, mas o que sentiu. Os aspectos physicos não +lhe apparecem senão como signaes de forças e fontes de emoções. E a emoção que +elle procura e acha na visão. Se elle observa uma arvore não lhe vê a côr das +folhas nem os contornos dos troncos, e se o faz é com intenção e esforço; +nota-lhe a expressão moral: «Os campos sobem em terraços viçosos, assombrados +pela oliveira <em>doce e pallida</em>, dando com a sua folhagem minuscula, +<em>um tom aereo, um tom grego</em> á paizagem.....» Ou ainda «o aloés +orgulhoso levantando <em>com imperio</em> o seu pennacho de carmim». Falando +com precisão elle não reproduz o aspecto das cousas, mas a sua physionomia. As +suas paizagens são retratos. Um pedaço qualquer da realidade corporea não é +para elle mais que um afloramento de energias latentes e uma causa de +sentimentos presentes. O pensamento de Amiel, que uma paizagem é um estado da +alma, inexacto para os escriptores de imaginação physica, é absolutamente +verdadeiro para<span class="pn">{40}</span> os escriptores de imaginação +psychologica, como o Sr. Oliveira Martins. Elle encara a natureza não como um +pintor mas como um poeta.</p> + +<p>Precisemos ainda mais esta analyse. Uma paizagem é um conjuncto de elementos +materiaes coordenados de um certo modo no espaço e reflectido de um certo modo +no espirito. Dos diversos factos em que ella póde ser resolvida, uns são +propriamente objectivos como a grandeza e a figura, outros uma pura sensação +individual, como a côr, ou uma fonte directa de emoção como o movimento. D'aqui +nascem duas ordens de paizagens, uma a que chamarei descriptiva, outra a que +cabe o nome de expressiva. As do Sr. Oliveira Martins são expressivas, como +convem a um escriptor de imaginação psychologica. Isto explica tambem porque +elle prima na pintura de certas scenas e claudica na descripção de outras. +Descreve muito melhor uma batalha do que um assedio, e um naufragio do que uma +viagem. As tumultuosas descripções, motins, cavalhadas, procissões, triumphos, +combates e festas abundam nos seus livros e são excellentes. Não assim as +scenas tranquillas que demandam a lucidez de memoria e segurança de traço e que +não provocam senão uma emoção pacifica e duravel. Uma viva preoccupação da +força é visivel nas suas grandes descripções e em nenhuma ella se manifesta tão +energica como nas magnificas paginas sobre o terremoto.<span +class="pn">{41}</span></p> + +<p> </p> + +<p>«Na manhã do 1º de novembro a cidade estremeceu, abalada profundamente e +começou a desabar. Eram nove horas, dia de Todos-os-Santos: nas casas ardiam as +velas nos oratorios, e as egrejas regorgitavam povo a ouvir missas. Toda a +gente, n'uma onda, correu ás praias; mas, rolando em massa, estacou perante a +onda que vinha do rio, galgando a inundar as ruas, invadindo as casas. Por +sobre este encontro ruidoso, uma nuvem de pó que toldava os ares e escurecia o +sol, pairava, formada já pelos detritos das construcções e das mobilias, que o +abalo interno da terra vasculhava, e os desabamentos enviavam, em estilhas, +para o ar. A onda do povo afflicto, retrocedendo, a fugir do mar, tropeçava nas +ruinas; e as quedas, e a metralha dos muros que tombavam, abriam na floresta +viva, agitada pelo vento da desgraça, clareiras de morte, montões de cadaveres +e poças de sangue dos membros decepados com manchas brancas dos cerebros +derramados contra as esquinas. E as casas erguiam se com as paredes desabadas, +os tectos abertos sobre o esqueleto dos tabiques, mostrando a nú todos os +interiores funestos, n'este dia em que, para muitos, Deus julgara e condemnara +Lisboa, como outr'ora fizera a Sodoma. Por isso o rouco trovão dos desabamentos +se ouvia cortado pelos ais dos moribundos, e pelos gritos dos homens e das +mulheres, abraçadas ás cruzes, aos santos, ás reliquias, soluçando ladainhas, +ungindo<span class="pn">{42}</span> moribundos, parando esgazeados a cada novo +abalo da terra que não cessava de tremer, arrastando-se pelo chão, de joelhos, +com as mãos postas a face em lagrimas, a clamar: Misericordia! Misericordia! +</p> + +<p>«Casas, palacios, conventos, mosteiros, hospitaes, egrejas, campanarios, +theatros, fortalezas, porticos, tudo, tudo cahia. «Se visses sómente o palacio +real, diz uma testemunha, que singular espectaculo, meu irmão!» Os varões de +ferro torcidos como vimes, as cantarias estaladas como vidro! A onda do rio +sorvia n'um momento o caes do Terreiro-do-Paço, com os barcos atracados +coalhados de gente. Dos andares altos precipitavam-se sobre as lages das ruas. +O medo crescia, vinha a loucura; viam-se mortos arrastados pelos vivos, viam-se +mutilados coxeando, gente correndo desgrenhada, semi-nua, homens e mulheres, +velhos e crianças, dilacerados, sangrentos, arrastando uma perna fracturada, +esvahindo-se em sangue por algum membro decepado. Gritos, choros, clamores, +imprecações, ais, preces, um borborinho de vozes desvairadas acompanhava os +gemidos comprimidos dos soterrados nos escombros. No turbilhão das ruas havia +quedas e mortos, abraços e agonias. A mesma loucura dos homens era o +desvairamento dos brutos: os machos, desbocados, arrastavam os cavalleiros e as +caleças, precipitando-se nos despenhadeiros da cidade montuosa; e as massas +de<span class="pn">{43}</span> gente viva, moribunda e morta, de envolta com os +entulhos, rolavam nas ruas ladeadas pelos esqueletos das casas como uma imagem +desolada do que seria o cahos. Quando a terra se subvertia, quando o mar vinha +subindo afogar a terra, quando no ar faiscavam as linguas flammiferas +rutilantes, que lembrança podia haver das invenções humanas? Abraçados, +confundidos, na communidade do pranto, fidalgas e freiras, meretrizes e mães, +mendigos e senhores, villões e cavalheiros, traçavam-se na communidade da fome, +do frio, da nudez, do terror. De rastos a cidade inteira, sacudida pelo abalo +formidando, reunia toda a sua eloquencia numa palavra unica—Misericordia! +Misericordia!</p> + +<p>«Mas vinha o clarão das chammas com a sua luz sinistra; vinha a labareda +fustigar com o lume a pobre gente semi-nua, tiritando sob o açoute de um +nordeste frigido; gelava-se e ardia-se a um tempo; suffocava-se em fumo e pó! E +as labaredas cresciam, e o incendio lavrava, e aos gritos desvairados dos +infelizes ajuntava-se o crepitar das madeiras o estalar das cantarias, a +cascalhada dos espelhos, dos crystaes e dos charões, que o fogo devorava. A +densa nuvem de pó que escurecia tudo, illuminava-se com os clarões vermelhos +que rebentavam por toda a parte, porque Lisboa inteira derrocada era um +brazeiro. As linguas orgulhosas das chammas subiam emproadas para o ceo, +juntando<span class="pn">{44}</span> ás preces lacrimosas dos habitantes como +um protesto satanico dos elementos. Outros protestos, mais positivos e +egualmente horriveis, atroavam agora os ares: os escravos vingavam-se da sua +escravidão, os mendigos da sua pobreza, os maus da sua maldade. O assassinato, +o estupro, o roubo, como n'uma terra posta a saque, rolavam de envolta com as +ruinas e o fogo: e por entre os destroços ainda apagados, viam-se os perfis +negros dos escravos, rindo infernalmente, com os olhos injectados, os dentes +brancos, a atiçar tições ardentes para cima das ruinas, augmentando o incendio, +acclamando a chamma vingadora!... Misericordia! Misericordia!»</p> + +<p> </p> + +<p>Estas paginas tem o encanto da desordem e a majestade da força. O que seria +defeito na descripção de scenas calmas e de objectos regulares é virtude na +pintura de paysagens revoltas e de figuras desmedidas e informes. A violencia +extrema da imaginação é adequada ao caracter terrivel do quadro. O sentimento +vivo da energia que abunda nos trabalhos do Sr. Oliveira Martins, não podia ter +melhor emprego do que na representação dos estragos produzidos pelo +desencadeamento da energia. Ajunte-se a estas paginas que transcrevo, outras +que calo. Leiam-se as suas descripções de incendios, batalhas, execuções, +matanças, sedições populares, tumultos parlamentares. Observe-se que a<span +class="pn">{45}</span> poesia é a arte que tem por instrumento a palavra, e que +a palavra, pela sua origem provavel e pela sua ligação certa com a paixão, é +uma expressão natural dos movimentos da alma, que a obra litteraria tem antes +um alcance moral do que um valor plastico, e ver-se-á que tive razão quando +disse que o Sr. Oliveira Martins procedia na composição das suas paizagens não +como um pintor mas como um poeta.</p> + +<p> </p> + +<p>Como um poeta e como um geographo. Não só as suas paizagens são sentidas, +mas ainda pensadas. Ellas são para elle não só fontes de emoção, mas resultados +de forças, constituidas em systemas naturaes pela communidade das causas que as +determinam, e pela identidade de effeitos que provocam nos espiritos sobre que +actuam. São poemas que se leem, effeitos que resultam, e meios em que se vive. +Assim, depois, de ter descripto a largos traços a paizagem italiana, resume: +«Ao sul da Italia reinam os vulcões, ao norte imperam os rios; além o +constructor da terra é o fogo, aqui a agua.» Leia-se na <em>Historia de +Portugal</em> esta descripção do littoral alemtejano.</p> + +<p> </p> + +<p>«As aguas estagnam ou escasseiam nos baixos, as populações definham. Ou +torradas pelo arido suão que os areaes ardentes não podem suavisar, e sem +montanhas que obriguem os vapores do mar<span class="pn">{46}</span> a +condensarem-se, ou envenenadas pelos miasmas dos paúes que o sol de fogo põe +numa fermentação permanente, as populações amarellidas e magras definham, +curvadas pelo mortifero trabalho das marinhas de sal, ou da cultura do arroz. +São o contraste das baixas do norte do paiz, estas baixas do sul. Além, +copiosas chuvas e uma humidade criadora; aqui, o ar secco (500 a 700 mill. +annuaes, 30 a 50 no estio; humidade 30 a 80%), duro e carregado de emanações +mephiticas. Além uma temperatura branda, aqui um calor excessivo (med. 17°). +Além uma população exuberante; aqui as solidões e os areaes nus, matisados pela +traiçoeira cevadilha, e pelo aloés orgulhoso, levantando com imperio o seu +pennacho de carmim. Além homens laboriosos e familias; aqui esfarrapadas tribus +em choupanas, tiritando com o frio das sezões n'uma atmosphera de fogo, +mulheres esqualidas, crianças verde-negras, homens na indifferença da +desolação, ou na vertigem do crime!» Eil-o que penetra na paizagem fazendo +reflexões de geographia e meteorologia, munido de um udometro e de um +hygrometro. A imaginação não fica abafada sob os dados numericos e technicos, e +o quadro com ser instructivo não deixa de ser artistico.</p> + +<p>Dos dois caracteres que notamos nas paizagens do Sr. Oliveira Martins, o ser +uma transcripção de emoções e o ser a explicação de um mechanismo o<span +class="pn">{47}</span> ultimo predomina no trecho que acabamos de citar, o +primeiro no que antes citaramos; ambas apparecem n'um justo equilibrio no que +passamos a citar.</p> + +<p> </p> + +<p>«Aquem Tamega o scenario muda. A humidade cria em toda a parte vegetações +abundantes; não ha um palmo de terra d'onde não brote um enxame de plantas; mas +como o solo é breve, como a rocha afflora em toda a parte, e os campos nascem +do terreno vegetal formados nas anfractuosidades do granito pelas folhas e +ramos decompostos e nos estuarios dos rios pelos sedimentos das cheias, a +vegetação é rasteira e humilde, o pinho maritimo de uma constituição debil, o +carvalho um pygmeu, enleado ainda pelas varas das vides suspensas. A densidade +da população completa a obra da natureza, numa região onde o vinho não +amadurece: o acido picante dá-lhe uma semelhança das bebidas fermentadas do +norte, cidra ou cerveja, e com ella, ao genio do povo caracteres tambem +semelhantes aos dos bretões e flamengos. A vegetação de si mesquinha, é +amesquinhada ainda pela mão dos homens; as necessidades implacaveis da +população abundante, produzem uma cultura que é mais horticola do que agricola: +pequeninos campos circumdados por pequeninos valles, orlados de carvalhos +pygmeus decotados, onde se penduram os cachos das uvas verdes. No<span +class="pn">{48}</span> meio d'isto formiga a familia: o pae, a mãe, os filhos, +immundos atraz d'uns boisinhos anões que lavram uma amostra de campo, ou puxam +a miniatura de um carro. Sob um ceu ennevoado quasi sempre, pisando um chão +quasi sempre alagado, encerrado n'um valle abafado em milhos, dominado em torno +por florestas de pinheiros sombrios, sem ar vivificante, nem abundante luz, nem +largos horizontes, o formigueiro dos minhotos não podendo despegar-se da terra +como que se confunde com ella; e com os seus bois, os seus arados e enxadas +forma um todo, donde se não ergue uma voz de independencia moral, embora a +miude se levante o grito da resistencia utilitaria. A paizagem é rural não é +agricola; a poesia dos campos é naturalista, não é idealmente pantheista. Quem +uma vez subiu a qualquer das montanhas do Minho e dominou d'ahi as lombadas +espessas d'arvoredo, sem contornos definidos, e os valles quadriculados de +muros e renques de carvalhos recortados, sentiu de certo a ausencia de um largo +folgo de ideal, de uma viva inspiração de luz: apenas aqui e acolá, no meio da +monotonia da côr dos milhos, um canto do alegre verde do linho, vem lembrar que +tambem no coração do minhoto ha um logar para o idyllio infantil do amor.»</p> + +<p> </p> + +<p>Se eu quizesse resumir o que penso das paizagens<span class="pn">{49}</span> +do Sr. Oliveira Martins, diria que ellas revelam uma percepção mediocre da +linha, e uma percepção maior da côr, um sentimento vivo dos movimentos, uma +visivel tendencia para traduzir os aspectos physicos em impressões moraes, e +uma aptidão activa para explicar os aspectos physicos como mechanismos +naturaes; traços estes que dão ás suas paizagens o valor de um elemento da +Historia. Ellas são productos da imaginação psychologica e da razão abstracta +do auctor, e depois de termos largamente examinado a primeira estudando os seus +retratos, vamos analysar a segunda, estudando as suas theorias.<span +class="pn">{50}</span> <span class="pn">{51}</span></p> + +<p> </p> + +<h1><a name="SECTION000300">III <br> +AS THEORIAS</a> </h1> + +<p>Qual é a sua concepção do mundo? qual o seu processo de invenção? qual o seu +methodo de prova? qual a quantidade a qualidade e a ligação das suas idéias +geraes? Eis as perguntas que um critico deve fazer sempre que queira ter uma +percepção clara da razão do escriptor que analysa.</p> + +<p>Á portada do seu livro <em>O Hellenismo e a Civilisação christã</em> ha uma +theoria digna de attenção, menos pelo seu valor intrinseco de verdade ou +novidade do que pela sua importancia como indicio do espirito que a formulou. É +a theoria do Acaso. Em presença da realidade historica, como em presença da +realidade natural, o Sr. Oliveira Martins é ferido pelo caracter eminentemente +<em>concreto</em> que ella apresenta. A infinita complexidade propria das +cousas e que imprime a cada uma um caracter de individualidade, não escapa á +sua observação.<span class="pn">{52}</span> Na sciencia, pensa elle, o +necessario e o fortuito tem uma funcção igualmente inevitavel. É certo que o +Sr. Oliveira Martins não confunde o fortuito com o milagroso, que justamente +regeita como irracional. Mas admittindo ser impossivel explicar um caso +qualquer na sua totalidade, elle introduz um elemento d'ignorancia mesmo +n'aquella porção da Realidade que é confessadamente do dominio da sciencia +positiva. É isto que a sua notavel theoria do Acaso enuncia com a lucidez +propria das operações abstractas. Os factos apparecem-lhe certamente formando +series e ligados entre si pelo nexo da causalidade. Mas o encontro d'essas +series determina nos pontos de intersecção a apparição de novas formas de +realidade, cuja existencia a sciencia não póde explicar, visto o encontro das +series não ser necessario, e cujos aspectos o investigador se deve limitar a +descrever, abandonando aqui a razão abstracta, instrumento adequado á +descoberta das leis geraes, pela imaginação poetica, visão sufficiente da +existencia concreta.</p> + +<p>Sem entrar na discussão desenvolvida d'esta theoria, a meu ver inexacta, não +posso deixar de me demorar um instante com ella. A introducção da noção de +Acaso como elemento constitutivo da Realidade, quer se considere o Acaso como +ausencia de leis, quer seja apenas synonymo de contingencia no encontro das +series naturaes expressas<span class="pn">{53}</span> por essas leis, significa +sempre uma abdicação confessada ou tacita da Razão. A previsão dos casos +futuros, aferidora da solidez das verdades adquiridas, torna-se tão impossivel +n'um universo em que a ausencia de causalidade implica uma constitucional e +incuravel anarchia, como n'um mundo em que os factos apparecem, sim, ligados +por um nexo abstracto de causalidade, mas em que as cousas são aggregados +contingentes, resultantes da intercorrencia de series independentes. A +coherencia parcial representada pela existencia d'essas series é inutilisada +pela ausencia de uma connexão natural que ligue as series n'um systema, +resultando d'ahi uma incoherencia effectiva como a que torna um cahos o mundo +concebido pela philosophia de Stuart Mill. Os resultados de uma tal doutrina +fazem-se sentir logo; e não é difficil dizer porque occorrem ás vezes á penna +do Sr. Oliveira Martins expressões singulares, que levariam a suspeital-o de +scepticismo intellectual, se o corpo das suas opiniões não desmentisse uma tal +hypothese, e se o proprio auctor não corrigisse o que as suas expressões possam +conter de excessivo. Copiarei do prefacio do <em>Portugal contemporaneo</em> +estas linhas para exemplo: «O profundo e inabalavel reconhecimento das causas +que fazem dos homens os instrumentos do acaso ou do destino!...» N'este trecho +está como que visivel toda a theoria. A affirmação das causas não exclue a<span +class="pn">{54}</span> admissão do Acaso e uma extranha reserva coexiste com um +dogmatismo energico.</p> + +<p>A theoria acima exposta contém certamente alguma cousa de verdadeiro; para +que fosse absolutamente exacta seria preciso completal-a pela affirmação de uma +solidariedade estructural entre as partes e de uma unidade systematica no todo +universal. Affirmação esta que tem o seu fundamento quer na doutrina da +communidade d'origem e identidade latente dos elementos da Realidade, quer na +philosophia que vê na idéia de Systema como no conceito de Causa formas +condicionaes do pensamento. Admittindo qualquer d'estas hypotheses, o Sr. +Oliveira Martins não se privava do direito de se conservar n'uma prudente +reserva em frente da esmagadora complexidade das cousas concretas, antes lhe +seria facil motivar a sua abstenção com a impossibilidade em que se acha o +espirito de exgottar por analyses successivas a quantidade infinita de +elementos que entram na formação do mais insignificante phenomeno. De maneira +que esta impossibilidade de explicação completa proviria não de uma falta de +coherencia entre as series causaes, mas de um excesso d'ella. Fundada nestas +duas idéias, o Universo e o Individuo, é possivel proceder á construcção da +sciencia positiva. Para conseguil-o deve-se ainda recorrer a principios +subsidiarios. Não entra no programma d'este estudo enuncial-os. Diga-se porém +que a<span class="pn">{55}</span> noção de jerarchia de causas e a comparação +entre grandezas de forças são instrumentos adequados á resolução do problema. +</p> + +<p>Seja porém qual for o valor doutrinal d'esta theoria, ella nos interessa +como documento do espirito que analysamos. Vê-se que o Sr. Oliveira Martins +encontra na realidade dois principios, um necessario, outro fortuito. Quanto ao +primeiro o nosso auctor exprime-se categoricamente; e investe-o de certeza +absoluta; e no fim do seu livro a <em>Anthropologia</em> escreve o seguinte: «A +logica dipensa os prolegomenos da physiologia; e todos os progressos passados +ou vindouros da anatomia do cerebro não alteraram, nem alterarão uma linha só +do systema das suas leis. Podemos affirmar com afouteza que o que torna certa +para nós uma proposição, a tornaria egualmente certa para intelligencias tão +bem munidas de conhecimentos como a nossa: embora com a indispensavel +capacidade organica, tivessem uma constituição physiologica differente. Com +algumas circumvoluções mais ou menos no cerebro talvez se não seja capaz de +comprehender a geometria; mas, sendo-se, a geometria não poderá ser diversa da +que nos ensinaram Euclides ou Archimedes.» Esta peremptoria affirmativa nos +revela uma intelligencia que por natureza ou por systema, se não deixa immergir +nas nevoas da duvida. Quanto á admissão de um elemento fortuito na realidade, é +conveniente observar que<span class="pn">{56}</span> o Sr. Oliveira Martins não +só o confessa mas ainda o pratica. Com effeito nas suas narrações e deducções +elle foge ás explicações que se contentam com uma só causa; as suas previsões +são cheias de restricções. Pegar n'um trecho da realidade, despil-o de tudo +quanto for accessorio, decompol-o n'um pequeno numero de elementos +constitucionaes, referil-os a um pequeno numero de causas simples, subordinar +todas estas causas a um só principio explicativo que é razão sufficiente de +todo o grupo estudado, partir do trabalho feito para formular previsões +imperiosas semelhantes a ordens dadas ao futuro, são actos proprios das +intelligencias simplistas e centralistas, de que offerecem um excellente +exemplo entre nós os primeiros escriptos do Sr. Theophilo Braga. O Sr. Oliveira +Martins procede de um modo bem diverso. Elle multiplica os pontos de vista, não +poupa principios novos para explicar novas formas de existencia, foge de +theorias demasiado simples, e quando formula uma lei só admitte a sua futura +realisação sob certas condições, abstendo-se de uma excessiva confiança na +sciencia como explicação do presente ou previsão do porvir. Sem tomar as +interminaveis precauções, nem ter a delicadeza infinita de um Ernesto Renan, +por que lh'o não permitte o temperamento nimiamente apaixonado da raça, a sua +prudencia é grande e seria efficaz, se a não prejudicasse o seu exaggerado e +contumaz<span class="pn">{57}</span> espirito de improvisação. Assim como é, +não se torna porém difficil mostrar a relação que prende os seus habitos +d'intelligencia á sua concepção da realidade.</p> + +<p> </p> + +<p>Nem é menos facil apontar o nexo logico que liga a concepção exposta e as +tendencias indicadas ao seu habitual e confessado processo de indagação. «Não +bastam á historia, diz elle, a observação e o systema classificador, assim como +á sua lingua, não bastam a precisão e a clareza; é mister sentir e adivinhar e +por no estylo a vida e o calor proprios das cousas moraes». E accrescenta: «O +historiador não reproduzirá a sociedade, se não poder combinar no seu espirito +o raciocinio que descreve, a intuição que vê a alma que sente.» É mister sentir +e adivinhar diz o Sr. Oliveira Martins e é o que elle faz de preferencia. +Alguns verão n'estas palavras um paradoxo ou uma ironia. Mas as pessoas +versadas no assumpto sabem que ha duas maneiras de inventar: Ou se parte da +observação das causas e por um laborioso processo de raciocinio se sobe aos +principios mais geraes que as explicam, ou por uma immediata e impetuosa +improvisação se descobrem estes mesmos principios sem passar por todas as +intermediarias logicas que são os seus antecedentes naturaes. D'estas duas +classes de intelligencias, uma fadada para a grande descoberta inconsciente, +outra predestinada para a perfeita<span class="pn">{58}</span> prova efficaz, e +que mutuamente se completam, porque se uma é a invenção, a outra é a +demonstração, o Sr. Oliveira Martins pertence á primeira, isto é, apparece-nos +antes como um poeta, do que como um orador. Certamente elle estuda os assumptos +de que trata, mas vê-se que as suas theorias derivam menos da erudição que da +intuição. Póde-se dizer que elle adivinha, se entendermos por adivinhação, não +uma milagrosa apprehensão de principios impossiveis de descobrir por meios +naturaes, mas uma veloz e certeira descoberta de verdades que seria lento e +penoso investigar pelo raciocinio ordinario. O nosso auctor pertence, salvo as +differenças de grandeza, a essa classe d'espiritos, de que são excellentes +exemplares Michelet na França, Carlyle na Inglaterra, e na Allemanha tantos +Allemães. É antes um poeta, do que um orador. Porque os attributos proprios da +razão oratoria, o instincto da ordem, o habito da symetria, o emprego das +verdades claras e equidistantes, a contextura equilibrada e a velocidade +uniforme do discurso, a abundancia de argumentos e a efficacia de provas, não +são visiveis nos seus livros. Pelo contrario, os dons propriamente poeticos, a +veracidade e a intensidade da visão concreta, a energia da imaginação +instantanea e intermittente, o vôo desigual e tortuoso do raciocinio, o emprego +da inspiração, e da paixão como processos de descoberta e exposição, saltam aos +olhos de quem o<span class="pn">{59}</span> estuda. Este genero de espirito é +fadado, pela sua estructura, ás verdades importantes e aos erros frequentes, e +nem umas, nem os outros faltam nos trabalhos do Sr. Oliveira Martins.</p> + +<p> </p> + +<p>D'entre os dotes oratorios acima indicados, e cuja falta notei no Sr. +Oliveira Martins, um dos mais importantes é certamente o talento e o gosto da +prova; qualidade esta cuja importancia sobe de ponto, se observarmos que a +prova é não sómente um instrumento da eloquencia, mas ainda um elemento da +sciencia. Quem o leu, observou de certo, que elle se contenta com expor as +idéias, muitas vezes novas, sempre interessantes, que lhe occorrem nas suas +explorações atravez da Historia, sem procurar fundamentar as suas theorias, e +tornar evidente aquillo que considera como verdadeiro. E não só esta ausencia +de provas é visivel em questões theoricas, mas ainda em materia de factos. +Certamente as narrações do Sr. Oliveira Martins tem um cunho d'extrema +verosimilhança. Artista pela visão das massas e pelo sentimento dos conjunctos, +elle sabe adequar os pequenos factos que escolhe ao effeito final que deseja, e +nos seus livros a harmonia do todo garante a veracidade das partes. Mas salvo +esta garantia que é commum ao romance que se imagina, como á historia que se +narra, nada merece nas suas obras o nome de demonstrado. Nem a immensa +accumulação dos factos<span class="pn">{60}</span> averiguados, nem a +enumeração completa dos documentos compulsados, nem a discussão e a critica das +fontes exploradas, vem dar á sua narração o cunho da certeza. Entrando num +assumpto vai direito ao amago d'elle, e depois de traduzir a viva impressão +recebida, com uma abundancia extrema de pormenores sensiveis, n'um quadro que +se grava na memoria, passa a atacar outro assumpto e a pintar outro quadro, sem +procurar convencer o leitor da efficacia da analyse e da fidelidade da pintura. +No seu desdem de artista e no seu orgulho de inventor, parece crer que a +evidencia é a atmosphera da intelligencia e repelle a prova como um pleonasmo. +Nenhum dos nossos escriptores merece mais ser lido, nem carece mais de ser lido +com cautela.<span class="pn">{61}</span></p> + +<p> </p> + +<h1><a name="SECTION000400">IV <br> +OS SENTIMENTOS</a> </h1> + +<p>Estudada a sua intelligencia passemos a estudar a sua sensibilidade; esta +não é menos interessante do que aquella.</p> + +<p>Qual é o numero, a força, a especie das suas emoções? Certamente ellas são +numerosas. A emoção é um estado habitual da sua alma. Qualquer que seja o +assumpto de que se occupa, a paixão abunda. Isto é visivel sobretudo pelo tom +do seu estylo. Historia ou critica, jornal ou theoria, tudo quanto escreve é +animado por um sopro quente de commoção sincera. Nenhuma idéia lhe apparece +como um simples objecto de comprehensão, mas como uma verdadeira fonte de +impulsões.</p> + +<p>Frequentes e intensas. Basta percorrermos os seus livros, mesmo de relance, +para nos convencermos que a força das suas emoções é tão grande como a sua +constancia é perfeita. Vehementes sempre,<span class="pn">{62}</span> violentas +muitas vezes, ellas constituem pela sua multiplicidade e continuidade um estado +habitual de exaltação da sensibilidade. Dotes estes, que ligados á sua +capacidade de visão, concreta e ao seu vivo sentimento dos totaes, dão a este +historiador um alcance de artista e fazem d'este publicista um verdadeiro +poeta.</p> + +<p>Ardentes e frequentes. Até aqui não vimos das suas emoções senão a +quantidade, e isso mesmo dentro d'aquelles limites de imperfeita approximação +que não é dado á Psychologia transpor. Vejamos agora a sua qualidade, isto é a +especie dos sentimentos, e ordem dos agrupamentos.</p> + +<p>Sem duvida essas emoções são tristes. O bem estar em frente da realidade, a +alegria de viver, não são sentimentos proprios do seu espirito. A gravidade e a +tristeza que elle considera como qualidades da alma portugueza, são-no tambem +da sua mesma alma. Se a dor é um maximum de sensação, a extrema sensibilidade é +um principio de soffrimento.</p> + +<p>Capaz de emoções frequentes e vehementes, e propenso a emoções graves e +tristes, vejamos que sentimentos são despertados n'elle ao contacto dos +objectos, como elles se combinam com as ideias, quaes d'entre elles se +transformam em paixões, e são capazes pela sua persistencia e efficacia de lhe +governarem a actividade.</p> + +<p>Certamente não é a belleza physica que se impõe<span class="pn">{63}</span> +á sua admiração. Escriptor de imaginação psychologica, a harmonia das linhas e +o esplendor das côres deixa-o insensivel. Nós só nos commovemos com aquillo que +percebemos, e a nossa sensibilidade é solidaria com a nossa intelligencia. Por +isso no espirito que analyso, o enthusiasmo franco em frente da magnificencia +da materia, a sympathia ardente pelo livre jogo das forças naturaes, não são +visiveis. Se o Paganismo significa o amor da vida corporal e o predominio da +actividade instinctiva, em contraposição com o Christianismo, considerado como +uma reacção espiritualista, e uma repressão systematica das paixões organicas, +não se lhe poderia chamar pagão. Mas a solidez da sua razão prática e a energia +das suas tendencias moraes prohibe que o consideremos christão. Não é christão +porque é mais largamente humano.</p> + +<p>Em parte nenhuma isto se verifica melhor do que na sua concepção do amor. A +psychologia das paixões mostra que este sentimento é o mais complexo, e +portanto o mais instructivo documento que se póde explorar para a intelligencia +de um coração. Não temos do Sr. Oliveira Martins uma colleccão de poesias +lyricas onde possamos estudar todos os cambiantes, de que um tal sentimento se +reveste ao passar pelo seu espirito. Mas n'essas admiraveis paginas finaes da +Historia romana, em que o philosopho resumiu as suas idéias sobre a<span +class="pn">{64}</span> Vida, e o poeta poz a nú a sua alma, a confissão +involuntaria vale por um documento especial. Ora de todos os elementos que +podem entrar na composição d'esta paixão, elle só vê dois: o instincto animal e +a compaixão. A energia dos seus instinctos moraes regeita o primeiro como +inferior, e a mulher apparece-lhe não como um arrebatamento dos sentidos, uma +satisfação do orgulho, um objecto de posse, um assumpto de analyse, uma visão +divina imposta á admiração do artista, mas como um ente digno de piedade e +necessitado de protecção. Alguma coisa de viril e triste caracterisa esta +concepção. Ella é propria dos homens em que o dom da analyse perspicaz está +ligado a vigorosos instinctos moraes.</p> + +<p>É que a energia da affirmação moral dá a chave d'este caracter. Esta energia +de affirmação é tanto maior quanto no espirito de que nos occupamos ella não é +uma força cega, mas coexiste com a vasta intelligencia comprehensiva e a grande +curiosidade activa. Sentimentos e idéias tudo está nelle submettido a uma forte +disciplina e subordinado a um plano determinado por uma livre resolução. Um +vivo sentimento da dignidade humana, um amor apaixonado da justiça, brilha na +sua Historia. Em balde a sua penetrante intelligencia lhe mostra o mechanismo +dos factos sociaes e a majestade das causas permanentes. A energia da sua +sensibilidade persiste a despeito da efficacia da analyse, e n'elle a<span +class="pn">{65}</span> philosophia não annulla o sentimento moral. Vinte vezes +nas suas narrativas os movimentos de admiração ou colera, de indignação ou +compaixão, cortam a exposição dos successos. Bem que veja a fatalidade do curso +dos acontecimentos, não pode resignar-se á exposição desinteressada e calma. +Padece e triumpha com os seus personnagens e sobre tudo admira com vehemencia +os seus heroes. É preciso ler no <em>Portugal Contemporaneo</em> a historia de +Manoel Passos para ver como a energia de uma qualidade estructural resiste a +toda a acção da cultura, e reapparece nos momentos decisivos. Este profundo +psychologo, este historiador que explica os conjunctos pelas causas, pára de +repente, soltando um applauso ou lançando um sarcasmo. A grande curiosidade +indifferente que considera as almas como theoremas, e as sociedades como +systemas, e que não vê no mundo senão um mechanismo a explicar, não é a forma +propria da sua actividade mental. O Sr. Oliveira Martins está isento d'esta +magnifica e perigosa exageração, pela sua robusta saude moral, pelo equilibrio +estavel das suas faculdades. Incapaz de ver no Universo um ser divino a adorar, +ou um simples mechanismo a comprehender, igualmente afastado da sensibilidade +religiosa como da sensibilidade philosophica, escapa ás duvidas e incertezas +inherentes á falta de solução do problema da Vida, pela energia da vontade e +pelo habito da acção. E em quanto o<span class="pn">{66}</span> seu amigo +Anthero de Quental, impellido pela intemperança desmedida dos seus desejos, +pela grandeza e incoherencia dos seus instinctos metaphysicos, rolava pela +ladeira do pessimismo ao abysmo da negação, o Sr. Oliveira Martins não mais +feliz do que elle na solução dos problemas da Existencia, appellava para a +força intima da sua alma, e resignava-se a acceitar a vida sem protestos vãos +nem gigantescas indignações.</p> + +<p>Comtudo seria um erro consideral-o um stoico. Para sel-o, falta-lhe aquella +perfeita afinação da intelligencia com a vontade, que segundo a sua propria +definição constitue o caracter. Herculano, poeta da Energia, pôde sel-o; não o +Sr. Oliveira Martins, psychologo por officio e que tem visto a vida e a +historia com olhos de philosopho. A capacidade de fazer reviver em si os +alheios sentimentos e paixões, e o habito de os comprehender e explicar como +factos naturaes, determinados por causas, se não é bastante para abafar n'elle +os movimentos do coração, e leval-o a observar o mundo com a indifferença +immoral dos artistas, impedem contudo a faculdade da convicta approvação ou +reprovação que constitue o fundo do estoicismo. A Justiça é para elle um amor, +não um dogma.</p> + +<p>A palavra que define a alma do estoico, é o orgulho, diz o Sr. Oliveira +Martins. O orgulho transcendente, isto é, o sentimento proprio de quem julga +possuir a verdade absoluta e resolve applical-a<span class="pn">{67}</span> com +um rigor absoluto. Bem diversa é a palavra que resume um caracter como o do Sr. +Oliveira Martins. Esta é a Ironia, resultado natural da superioridade +intelligente. A Ironia é tambem uma especie de orgulho, mas bem differente do +estoico, porque é temperado pela piedade e pelo desdem. São estes os +sentimentos que apparecem cada vez mais claros nos seus ultimos livros e tem a +sua mais perfeita expressão no retrato maravilhoso de Cesar. É a Ironia aquelle +estado da alma, que nelle provocam e confirmam dia a dia a experiencia e a +cultura, o sentimento com que elle se mune para a travessia da Historia e para +a campanha da vida. Foi este o sentimento que lhe dictou estas linhas á portada +do seu livro mais original e que mais apaixonou a critica: «O exame dos nossos +tempos apenas lhe provocou (ao auctor) expressões d'aquelles sentimentos que +são compativeis com a serenidade da critica: uma ironia sem maldade, uma +compaixão sem orgulho, pelas repetidas miserias dos homens; ás vezes, uma +sympathia e um respeito singulares por certos individuos excepcionaes. Ironia, +compaixão, sympathia, respeito,—moderadas commoções, com que é licito +acompanhar o estudo, sem prejudicar a lucidez da vista—não impedem comtudo, +que acima d'estas impressões fugitivas se colloque o profundo, inabalavel +reconhecimento das causas que fazem dos homens os instrumentos do acaso ou do +destino.»<span class="pn">{68}</span></p> + +<p> </p> + +<p>A estructura do nosso espirito revela-se na especie do nosso ideal, e a +nossa concepção da ventura deriva da nossa concepção da vida. Todos os +sentimentos que no Sr. Oliveira Martins desperta a realidade e todas as +opiniões que elle tem sobre as cousas, estão resumidas nas paginas finaes do +seu ultimo livro (<em>Historia Romana</em>). É alli visivel o que ha de mais +importante na sua alma, posto a nú por um psychologo, mestre na arte de pintar +caracteres. O que elle pensa da paixão e do dever, da sciencia e da acção, do +Universo e do eu, a sua idéia da vida e o seu ideal da vida, está expresso +nesta curta pagina, em traços breves e profundos, a que a concisão do escorço +exalta a energia. E não vejo melhor modo de fechar esta analyse, que é uma +tentativa de autopsia moral, do que copiar este retrato que equivale a uma +confissão espontanea.</p> + +<p> </p> + +<p>«Aquelle que, sem ter de esmagar desapiedadamente os sentimentos e paixões +da sua natureza, sem ter de partir a mola interior que o torna um ser vivo, +consegue mitigar, moderar, ponderar ou equilibrar os impulsos do seu sangue com +os dictames das suas idéias, sanccionando paixões e pensamentos com a luz +inextinguivel dos instinctos moraes e do senso esthetico; olhando para si +proprio e para as angustias, para as dores e para as feridas da sua vida com +uma commiseração vizinha<span class="pn">{69}</span> do desdem; olhando para o +proximo e para o mundo, sem desprezo nem orgulho, mas com a ironia caridosa que +se deve a todas as cousas involuntariamente inferiores; contemplando finalmente +com uma curiosidade placida e discreta o nevoeiro dos mysterios e problemas +que, sondados, endoudecem, e de que é mister fugir, como dos abysmos cujas +vertigens hallucinam ou embrutecem; esse homem, por fóra activo, por dentro +como que apathico, por vezes, e só por vezes, atacado de tedio, mas sabendo que +não deve nem póde aborrecer a vida: esse homem é o unico verdadeiramente +feliz.... Ser feliz depende de um acto da intelligencia e da vontade, +independentemente das circumstancias exteriores da vida.»<span +class="pn">{70}</span> <span class="pn">{71}</span></p> + +<p> </p> + +<h1><a name="SECTION000500">V <br> +O ESCRIPTOR</a> </h1> + +<p>Habitos de intelligencia e movimentos de sensibilidade, tudo se reflecte nos +seus processos de escriptor. Como um cardiographo delicado que regista e conta +as mais imperceptiveis pulsações do espirito, assim é o estylo. Tão sómente +pela analyse d'elle podiamos chegar ás conclusões a que nos levou o exame +directo das opiniões e paixões; feito este, as paginas que se seguem só podem +confirmar as verdades que se enunciaram e este capitulo, é menos uma indagação +do que uma prova.</p> + +<p>Que especie de estylo é esse? Um escriptor de imaginação oratoria e gostos +decorativos como o Sr. Latino Coelho, exprime-se n'uma linguagem adequada pela +sua regularidade e sumptuosidade ás aptidões e tendencias do espirito que a +emprega, e ás necessidades e utilidades do fim para que se destina. Leia-se o +seu derradeiro discurso. Os vocabulos graves como fidalgos e compostos +como<span class="pn">{72}</span> hallabardeiros, as immensas phrases roçagantes +comparaveis a reposteiros de damasco, a amplitude e disciplina da syntaxe, a +abundancia e efficacia das incidentes, a extensão e o aprumo dos periodos, o +predominio do pensamento abstracto sobre a imaginação pittoresca, a perpetua +representação do thema e a perfeita convergencia das provas, a unidade no todo, +a proporção nas partes, a equidistancia nos termos, e a uniformidade na marcha +do raciocinio, a majestade curul e a graça talar do discurso, revelam um homem +apto e propenso para a prosa regular, a dissertação erudita, o elogio +historico, a oração academica, e para todos os generos que requerem o gosto da +pompa e o sentimento da gravidade, a correcção, a riqueza e a ordem, o respeito +continuo de si e dos outros, uma especie de prodigalidade elegante e de arte +sem nervos, a preferencia dada á erudição sobre a sciencia, e á rethorica sobre +a poesia, a capacidade das idéias geraes exercendo-se em logares communs, +qualidades que manejadas por um talento superior e postas ao serviço de um +grande interesse, podem produzir verdadeiros monumentos litterarios.</p> + +<p>Bem diverso é o estylo do Sr. Oliveira Martins. Nada de menos grave, de +menos pomposo e respeitoso. Elle escreve como fala, e fala como acha. O seu +processo é a notação directa dos sentimentos presentes; a sua linguagem, a +algebra nua da paixão. Rapida, irregular, tortuosa, brusca, insolente<span +class="pn">{73}</span> e indecente, burlesca e sublime, composta de palavras +que se empinam por se verem juntas, feita de phrases de todos os tamanhos e +feitios, galopa ou vôa a sua prosa. Nada de mais agil e vivo. Ás vezes, a +suppressão dos elementos grammaticaes produz extranhos escorços, e a phrase +contrae-se como um musculo. Outras os pleonasmos batem o pé, e a repetição +encrava a convicção, como um martello percutindo um prego. Ás vezes a inversão +dá extranhas posturas á linguaguem, e os periodos rugem, crucificados com os +pés para cima. A grammatica violada debate-se n'um tetano. As imagens soberbas +ou ignobeis pullulam de todos os lados, trazidas dos palacios ou das tabernas, +como um rebanho de conscritos arrastados para a batalha. E todo o livro avança, +semelhante a um couraçado de combate, replecto do convez ao porão, n'um +turbilhão de estrondo e espuma, precipitado pela massa e armado da velocidade, +e levando na caldeira abrazada um foco de força e um perigo de explosão.</p> + +<p>Esta é a primeira impressão; profundemol-a, completando o juizo litterario +pela analyse critica, e substituindo a linguagem imaginosa pela notação exacta, +instrumento condigno do trabalho scientifico.</p> + +<p>Tres pontos ha a considerar na analyse de um estylo; o vocabulario, isto é, +o conjuncto de elementos ultimos do discurso; a syntaxe, isto é, a<span +class="pn">{74}</span> ordem em que estes elementos estão dispostos para +constituirem o organismo da expressão; e as figuras, isto é, os expedientes +necessarios para supprir as lacunas do vocabulario ordinario e da syntaxe +regular.</p> + +<p>Mas antes de mais nada, observemos que o Sr. Oliveira Martins não possue o +genio verbal, isto é, aquella facilidade de imitação e invenção de formas da +linguagem, que em alguns dos nossos escriptores substitue e simula a +intelligencia e a sensibilidade ausentes. Supponho que como os dois grandes +historiadores a que o tenho comparado, Michelet e Carlyle, elle teve uma +extrema difficuldade de exposição, no principio da sua carreira litteraria; +pelo menos esteve muito longe de possuir aquella segurança e nitidez da +palavra, aquella capacidade de adequar exactamente a expressão á intenção que +caracterisa os verdadeiros temperamentos de escriptor. É porem justo dizer-se +que sob este ponto de vista, como sob todos os mais, os livros do Sr. Oliveira +Martins manifestam um progresso consideravel. A sua <em>Historia Romana</em> é +um monumento litterario. Mas essa lacuna constitucional e o habito da +improvisação impedem que as paginas perfeitas abundem nos seus escriptos; e +possuindo em alto grau a força e a vida, carece de majestade e graça.</p> + +<p>Em primeiro logar, o seu vocabulario não é numeroso; não se manifesta nos +seus livros aquella<span class="pn">{75}</span> abundancia, que no Sr. Ramalho +Ortigão provém de um forte estudo do lexicon, e no Sr. Camillo Castello Branco +de uma memoria verbal extremamente feliz. As palavras vagas não escasseiam nos +seus escriptos mesmo exprimindo ideias precisas. Com as palavras vagas, os +termos improprios que falseiam a expressão e tornam necessaria a decifração. Os +vocabulos extrangeiros ou mesmo nacionaes tomados n'uma accepção extranha á +lingua lançam manchas desagradaveis na tela do discurso. As expressões +synonimicas e as emendas que elle faz seguir ás expressões originaes, parecem +indicar que o proprio auctor sente que não exprimiu cabalmente o seu +pensamento; e se muitas vezes a accumulação de expressões novas para formular a +mesma idéia, manifesta a paixão obstinada e a convicção activa, muitas outras +significa sómente a consciente escassez de recursos do escriptor.</p> + +<p>Dois typos syntacticos se notam nos escriptos do Sr. Oliveira Martins. Um é +o grande periodo regular, de que elle se serve ordinariamente nos seus +trabalhos didacticos, e de que se póde observar um bom exemplo no prefacio do +<em>Hellenismo e a Civilisação christã</em>. A ausencia de aptidões e gostos +oratorios impede que o Sr. Oliveira Martins prime n'esta forma de discurso. E +diga-se a verdade, poderiamos percorrer os escriptores portuguezes antigos ou +contemporaneos sem encontrarmos muitos exemplares de prosa perfeita, taes como +abundam<span class="pn">{76}</span> na litteratura franceza. O ar latino da +nossa prosa classica póde illudir á primeira vista. Mas quem a submetter á +analyse verá que não encontra nella aquelle habito de decompor as idéias e +passar gradualmente por todos os seus elementos, que constitue um dos +caracteristicos principaes da prosa franceza.</p> + +<p>O outro typo syntactico é o inciso, a phrase curta e entrecortada, +offegante. Ella se obtem suspendendo continuamente o pensamento, supprimindo os +desenvolvimentos das idéias, e até as particulas grammaticaes, pronomes, +artigos e conjucções. A phrase elliptica tem movimentos convulsivos de ave +decapitada, e os elementos do discurso trocam vivamente os logares como os +raios de uma roda. Esta é a forma adequada a um temperamento litterario como o +Sr. Oliveira Martins. É nesta forma que elle vasa as suas descripções e +narrações. As ellipses, as repetições, as inversões, a ausencia completa de +todas as figuras de symetria, conspiram no mesmo sentido, e não é difficil +mostrar como sendo os sobresaltos da machina nervosa irregulares e +instantaneos, é esta a prosa que convem ao escriptor e á obra que analysamos. +Leia-se esta descripção do incendio nos armazens de Gaya. «Posto o fogo ao +rastilho, começou breve a pyrotechnia, allumiando a noute. Começou por uma +explosão tremenda, donde sahiram labaredas e rolos de fumo rapido. O vento +animado impellia a<span class="pn">{77}</span> chamma. E as pipas estalando +troavam como canhões. Singular batalha! O vinho rolava em cachões, da praia +sobre o rio que ia tinto de vermelho como sangue. As labaredas subiam e a vasta +seara de fogo batida pela aragem, ondeando, crescia, andava. Incendiados, como +lavas de um vulcão, desciam ao Douro, os liquidos espirituosos e chocando as +aguas repelliam-nas, entrando nellas como um cabo. Parecia uma tempestade +geologica. A agua do rio fervia, fumava; e fluctuando sobre a agua, vogava á +mercê da corrente um lançol de chammas rubras.» A phrase tem a velocidade, a +mobilidade, a plasticidade da chamma, e o foco moral donde ella brota não é +menos ardente e vivo.</p> + +<p> </p> + +<p>Os outros expedientes litterarios convergem no mesmo sentido. E antes de +mais nada, a ausencia das figuras de dicção, que estabelecem uma symetria +visivel e um equilibrio extrinseco do discurso, revela um espirito pouco +sensivel á harmonia verbal e ás seducções da rhetorica. O epitheto, esse +instrumento de que tanto se abusa, é raro, e quasi sempre pittoresco e novo. +Mas os tropos abundam, como convem a um estylo que é a manifestação de uma alma +audaciosa e ferida vivamente pelos aspectos das cousas. Ás vezes n'uma fria +dissertação de direito publico ou de economia politica uma imagem fulgura +magnificamente, como uma papoula<span class="pn">{78}</span> n'um trigal. Assim +depois de expor o admiravel regimen de federação municipal que consolidava e +completava a conquista romana, exclama num rapto de poeta: «Roma é a capital: +está no pincaro da montanha ideal em cujas encostas por estradas espiraes se +desenrola a procissão das gentes e cidades que sobem». Assim depois de pintar a +angustiosa situação do paiz na primavera de 47, escreve referindo-se ao abuso +da emissão fiduciaria, «Havia em Lisboa uma grande miseria, uma carestia +excessiva de tudo, um doloroso mal-estar, perseguições e recrutamentos, os +batalhões sempre em armas, e fluctuando, as notas, como os trapos de neve +caindo, cobrindo tudo, nos dias mornos que precedem o desencadear da tormenta.» +E as metaphoras como estas abundam ou magnificamente desenvolvidas n'uma +pagina, ou ardendo concentradas n'um verbo e n'um epitheto.</p> + +<p>A mesma vehemencia de imaginação e paixão produz e explica as apostrophes ao +leitor e aos personnagens da sua historia, as interrogações, as exclamações, as +reticencias, as prosopopéias, os bruscos saltos, a falta de clareza, as +referencias a factos que se calam e que o escriptor julga conhecidos. Esta +energia de habitos vai tão longe, que se exerce sobre porções dos seus livros +que parece deveriam escapar a ella. Copio do <em>Portugal contemporaneo</em> +estes titulos de livros e capitulos: <em>Fuit homo missus a Deo; Sic itur ad +astra; O principio do fim;<span class="pn">{79}</span> Væ victis; Os +impenitentes; A raposa e suas manhas.</em> Quando lança um olhar retrospectivo +sobre o conjuncto da sua obra, não encontra uma serie de idéias precisas, mas +um tumulto de visões inflammadas. Por isso escasseiam os summarios, os resumos +e todos os expedientes destinados a precisar as doutrinas e fixal-as na +memoria. Este escriptor faz imagens e sarcasmos até nos indices.</p> + +<p>Tal é esse estylo: irregular, tortuoso, familiar, apaixonado e vivo. Para o +conhecermos cabalmente não recuamos perante a minuciosa analyse das formas +grammaticaes e dos expedientes litterarios, mas fizemol-a como psychologo e não +como rhetorico. O espirito philosophico é o dom da analyse e da synthese, e a +sciencia deve reunir como a aguia as garras penetrantes ás largas azas.<span +class="pn">{80}</span> <span class="pn">{81}</span></p> + +<p> </p> + +<h1><a name="SECTION000600">VI <br> +O HISTORIADOR</a> </h1> + +<p>Composto assim o seu espirito só resta a deduzir a sua obra e demonstrar a +solidariedade que prende aquelle a esta, considerando-o successivamente como +historiador e como politico.</p> + +<p>Se ha trabalho que pela sua complexidade e difficuldade assoberbe a +imaginação de quem o intenta, e exija a maxima energia da parte de quem o +realisa, é certamente o trabalho historico. Só examinando esta complexidade e +difficuldade poderemos fazer idéia da variedade dos recursos empregados e da +quantidade de força dispendida pelos grandes historiadores.</p> + +<p>Para isto, basta considerar que a Historia é a visão intelligente dos +phenomenos sociaes. Toda a formidavel complicação dos trabalhos historicos +deriva do simples exame d'esta formula.</p> + +<p>E antes de tudo, observemos que o aggregado social é dado em relação a um +meio physico e constituido<span class="pn">{82}</span> por unidades vivas, o +que torna necessario o conhecimento das sciencias inorganicas e organicas. A +posição da sociologia na serie gerarchica das sciencias exige, nos que a +cultivam, a posse das verdades que logicamente a condicionam. E desde os +principios mais abstractos da Quantidade e da Forma até os factos relativamente +menos simples da Anthropologia, tudo concorre para a explicação dos phenomenos +sociaes. Os exemplos abundam e são faceis de adduzir. A doutrina da população +não se póde constituir sem a theoria algebrica das series e o calculo +arithmetico dos logarithmos. A relação geometrica que n'uma dada figura prende +a grandeza da area ao valor do perimetro, é um elemento a considerar na +comprehensão do engrandecimento d'um territorio. As leis que ligam o +crescimento do organismo á massa do planeta e regem a distribuição do calor, da +luz e porventura da electricidade á superficie da terra, forçosamente exercem +uma intervenção activa no curso da Historia. Os dados geologicos que enunciam a +natureza actual e as transformações futuras da crosta terrestre, não são +indifferentes á explicação dos phenomenos que a tem por theatro; a theoria dos +ventos interessa á historia da navegação de muitos povos, e a dos terremotos á +vida d'alguns. Finalmente as leis que regem á existencia dos seres vivos, +influem profundamente no corpo social, visto o homem ser um animal, e fazem do +conhecimento da Biologia a<span class="pn">{83}</span> condicção immediata e +indispensavel do estudo da Sociologia. Assim toda a massa das verdades +adquiridas pela Sciencia vem illuminar directa ou indirectamente o caminho que +o historiador tem de percorrer. (V. Spencer, Intr. á sciencia social; A. Comte, +Curso de Philosophia positiva.)</p> + +<p>A todas estas difficuldades que resultam da variada e completa preparação em +que se deve basear o historiador, é preciso juntar ás difficuldades +intrinsecas, as que provém da natureza intima da Historia.</p> + +<p>Em primeiro logar, a Historia é uma sciencia moral, isto é, versa em ultima +analyse sobre factos mentaes, sentimentos e idéias. O ser um estudo da alma +humana é a primeira e mais grave fonte das difficuldades inherentes a esta +ordem de investigações. Com effeito os phenomenos mentaes, quer os propriamente +intellectuaes, quer os puramente emocionaes, se apresentam investidos de um +duplo caracter que os torna eminentemente rebeldes a uma exacta observação. De +um lado, a sua mesma natureza de phenomenos interiores, do dominio da +consciencia, exige um dom especial, um sentido que nem todos possuem +sufficientemente desenvolvido. D'outro lado, o composto mental é extremamente +complicado e cada phenomeno de que se compõe se resolve por seu turno n'um +numero enorme de elementos, que como taes caem fora do campo da consciencia, +onde só apparecem os totaes.<span class="pn">{84}</span> A velocidade extrema +das reacções cerebraes, corresponde a esta complexidade formidavel de que dão +apenas uma vaga ideia os phenomenos que constituem as funcções propriamente +biologicas.</p> + +<p>Accrescentem-se a estas difficuldades resultantes da natureza do individuo, +as provenientes da natureza do aggregado social. Se é certo que em ultima +analyse a Sociologia se reduz á Psychologia, é tambem certo que as opiniões e +paixões individuaes são continua e vigorosamente modificadas pelas paixões e +opiniões adjacentes, e que o espirito de cada um apparece como um espelho da +sociedade inteira de que faz parte. Quando o aggregado social é bastante +extenso a complicação resultante da sua grandeza é tal que parece desafiar o +poder da analyse.</p> + +<p>Junte-se ainda a difficuldade que resulta de se considerar uma sociedade não +num momento dado, mas na sua evolução atravez de muitos seculos. Seguir um +aggregado tão multiplo nas suas continuas e imperceptiveis transformações de +momento para momento, determinar as causas variadissimas e occultas d'essas +transformações, marcar as forças superiores cuja permanencia determina a +identidade de um povo atravez de todas as suas metamorphoses, produzindo essa +consciencia social bem mais difficil de se estabelecer e bem mais facil de se +destruir do que a individual, é<span class="pn">{85}</span> uma empresa +comparada á qual, qualquer trabalho scientifico é relativamente facil.</p> + +<p>Considere-se finalmente que a Historia é uma sciencia concreta, isto e, +descriptiva e narrativa. Este derradeiro traço é origem de grandes +difficuldades na indagação e sobretudo na exposição das verdades historicas. +Mesmo nas sciencias inferiores essas difficuldades são grandes. Por exemplo, em +Astronomia é relativamente facil indicar as forças que determinam a harmonia do +nosso systema solar; mas mostrar a evolução, pela qual elle se veiu +transformando até se constituir como existe actualmente, é uma tarefa d'outra +ordem que não comporta o mesmo grau de precisão; a hypothese da nebulosa está +privada da certeza de que se acha investida a theoria da gravitação, e a +hypothese das agglomerações meteoricas inventada por Julio-Roberto Meyer, prova +a necessidade de tornar a doutrina de Laplace mais adequada á realidade +completando-a com principios subsidiarios. Semelhantemente nas sciencias +inorganicas, o methodo experimental permitte demonstrar com efficacia uma lei +de barologia ou thermologia; mas a applicação d'essas leis para a explicação da +historia passada e constituição actual do globo, não tem a mesma segurança; a +Geologia está longe de attingir o estado de adeantamento da Physica e da +Chimica, sciencias em que ella se baseia; a doutrina das geleiras não se acha +constituida com a mesma perfeição<span class="pn">{86}</span> que a theoria da +irradiação do calor. Em Biologia verifica-se o mesmo. Em quanto se tratam de +indagar as leis abstractas da morphologia e da physiologia vegetal e animal, as +difficuldades são grandes mas superaveis graças ao emprego da observação, da +experimentação e da comparação; mas quando se trata de explicar a existencia +das plantas e animaes taes como realmente são, as difficuldades crescem de +ponto e inversamente diminue a precisão e certeza das doutrinas enunciadas; a +hypothese de Darwin sobre a evolução dos organismos não póde aspirar á mesma +convicta adhesão que o principio de Milne Edwards sobre a divisão do trabalho +physiologico. Semelhantemente as difficuldades de investigação inherentes á +natureza e complicação dos phenomenos sociaes, com serem enormes, são pequenas, +comparadas com as que apresenta o estudo da Historia propriamente dicta. E +abaixo dos philosophos nenhuma classe de espiritos arca com tamanhas +difficuldades, incorre em tão graves responsabilidades, nem se reveste de uma +tão alta dignidade scientifica como os historiadores.</p> + +<p>Para vencer tão grandes difficuldades, o historiador deve fecundar por uma +vasta preparação geral e technica um espirito extremamente complexo e profundo. +Qual seja essa preparação geral deriva da indicação acima feita dos estudos +subsidiarios que condicionam o conhecimento da Sciencia<span +class="pn">{87}</span> social. A preparação technica resulta semelhantemente da +propria natureza da Sciencia social. Elle suppõe o conhecimento exacto dos +factos adduzidos e a sua classificação methodica em grupos naturaes. Quanto aos +dotes de espirito o historiador deve conter um sabio e um artista. A capacidade +de observação exacta dos factos particulares deve estar ligada á faculdade das +idéias geraes; e além d'isso a imaginação pittoresca que permitte a +representação nitida e colorida das paysagens que constituem o palco da +Historia, ha de ser completada pela imaginação psychologica que faz a alma dos +individuos e povos que são os protogonistas da Historia. Finalmente o grande +historiador deve ser um grande escriptor e empregar um estylo que reuna á +precisão propria do trabalho scientifico, o colorido proprio das descripções, e +o movimento proprio das narrações.</p> + +<p>Comparemos este modelo do historiador ideal com o retrato já traçado do Sr. +Oliveira Martins e veremos o que elle tem e o que lhe falta.</p> + +<p>O seu saber é vasto inda que incompleto. Os volumes publicados da sua +<em>Bibliotheca das Sciencias sociaes</em> e os annunciados no programma, +revelam que o Sr. Oliveira Martins tem consciencia da importancia e largueza de +estudos com que se deve preparar para o trabalho historico. Comtudo seria para +desejar que o auctor conservasse ineditos os livros em que a sua originalidade +e competencia<span class="pn">{88}</span> são contestaveis, e estudando +convenientemente os assumptos sobre que elles versam, se abstivesse de tratar +publicamente sciencias de que só se podem occupar com auctoridade os +especialistas.</p> + +<p>No que toca á exactidão dos factos enunciados nos seus tratados de historia +nacional, constituidos pela <em>Historia da Civilisação Iberica</em>, a +<em>Historia de Portugal</em>, e o <em>Portugal Contemporaneo</em>, o Sr. +Oliveira Martins não tem o habito de enumerar os documentos compulsados e +discutir as fontes exploradas. As notas, que nas grandes historias classicas +acompanham e comprovam as affirmações feitas no texto, não apparecem na sua +obra. É verdade que historiadores como Mommsen e Curtius supprimiram nos seus +livros monumentaes a bagagem das demonstrações; mas esses historiadores já +tinham assignalado a sua actividade de investigadores em numerosas dissertações +especiaes, e accumulado materiaes que serviam de base ao auctor e de garantia +ao leitor. Considere-se ainda que escreviam sobre assumptos largamente +explorados. O Sr. Oliveira Martins occupando-se da historia de Portugal, +deveria redobrar de precauções no que toca ás provas. Mas acceitando-a tal como +está escripta, e lastimando que ella não seja mais extensa, observaremos que a +conhecida assiduidade ao trabalho e a sinceridade certa do Sr. Oliveira +Martins, são consideraveis garantias da veracidade das suas asserções.<span +class="pn">{89}</span></p> + +<p>Quanto as aptidões cujo conjuncto constitue o seu espirito, já vimos que o +Sr. Oliveira Martins possue a imaginação dos movimentos, das massas, das forças +e que as suas paysagens representam as expressões moraes dos aspectos physicos; +e que além d'isso possue a capacidade e o habito de explicar os aspectos +physicos como mechanismos naturaes. Se reflectirmos que estas duas aptidões +exgottam a noção do scenario historico, considerado como um conjuncto de causas +efficazes actuando sobre espiritos, veremos que o Sr. Oliveira Martins está +apto pela imaginação pittoresca e pela razão abstracta a descrever e explicar o +<em>meio</em> dos successos que narra. Semelhantemente e ainda melhor a sua +admiravel imaginação psychologica habilita-o a ver o interior das almas +individuaes e collectivas que põe em scena. Essa imaginação, integral e +intensa, prima na representação das emoções, e como a maioria das acções é +determinada por emoções, resulta d'ahi que o Sr. Oliveira Martins está apto +para representar o <em>agente</em> da <em>Historia</em>, como representara o +seu <em>meio</em>. E o mesmo poder de abstracção que lhe permittira +comprehender as relações geraes entre os factos physicos, lhe faz ver o nexo +logico que determina as coexistencias e as sequencias dos factos moraes.</p> + +<p>Vimos que o seu estylo era destituido de ordem, precisão e clareza, e que +abundava em movimento, força e vida. A ausencia das primeiras qualidades<span +class="pn">{90}</span> prejudica a sua Historia considerada como obra de +sciencia, e impede que ella se possa considerar como obra de vulgarisação. A +presença dos outros dotes dá-lhe um valor raro como obra de arte. O seu +vocabulario trivial, technico, fornecido em todos os recantos da vida, +permittir-lhe-á fazer descripções coloridas e supprir pela abundancia de +pormenores concretos a nitidez ausente que lhe daria a ordem que não possue. A +syntaxe rapida e tortuosa permittir-lhe-á fazer narrações dramaticas e vivas e +acompanhar pela marcha offegante e irregular dos periodos a successão +precipitada e sempre nova dos acontecimentos. Finalmente todos os outros +expedientes de composição revelando o sentimento do real e a paixão intensa +convergem no mesmo sentido; e a mesma solidariedade que prende a sua obra á sua +imaginação e á sua sensibilidade, liga a ella o seu estylo.<span +class="pn">{91}</span></p> + +<p> </p> + +<h1><a name="SECTION000700">VII <br> +O POLITICO</a> </h1> + +<p>Tendo escripto a Historia de Portugal, o Sr. Oliveira Martins resolveu +continual-a e naturalmente o pensamento conduziu-o á acção.</p> + +<p>Não entra no programma d'este estudo occupar-me de assumptos de politica +contemporanea, sobretudo quando trato de um homem cuja carreira publica apenas +começa. Mas fazendo um trabalho de psychologia e não de simples critica +litteraria, não me é licito calar uma das manifestações mais importantes do +espirito que analyso. Porém indicarei apenas o valor dos seus recursos e a +tendencia geral das suas idéias como homem d'Estado.</p> + +<p>As faculdades que fazem o homem de acção em cada esphera da actividade +humana, são essas mesmas que fazem o homem de sciencia, mais o tino das +circumstancias particulares. As do estadista são as do historiador; digo as do +historiador e não as do sociologista, porque o conhecimento das leis<span +class="pn">{92}</span> abstractas que regem o equilibrio e o movimento das +sociedades, não é sufficiente para dirigir a acção conservadora ou modificadora +dos governantes; é preciso reunir-lhe o vivo sentimento do concreto, a visão +plena dos innumeraveis factos particulares que dão a um povo um caracter +individual e fazem que nenhuma deducção abstracta o possa adivinhar. Pense-se +na immensa complexidade do organismo collectivo, no caracter profundamente +individual que uma sociedade reveste em virtude das circumstancias de raça, +meio e momento, na obrigação de conhecer plenamente a força e a direcção das +vontades, a energia e a profundidade dos instinctos, a vitalidade e a duração +dos preconceitos, as necessitades materiaes ou moraes, reaes ou ficticias dos +seus membros, reflicta-se na obrigação de conhecer essas forças na sua +quantidade exacta e na sua direcção certa, nas proporções variadas em que ellas +se combinam e nos systemas complicados que d'ellas resultam, medite-se que cada +um dos factos presentes tem profundas raizes no passado e consequencias +inevitaveis no futuro ainda o mais remoto, e ver-se-á que essa improvisação +maravilhosa e certeira que se chama a arte de governar, consiste na visão +adequada e perpetua, retrospectiva e prophetica das almas sobre que ella se +exerce, e que a politica é psychologia activa e em ponto grande. Note-se emfim +que o habito da representação concreta degenera facilmente no empirismo<span +class="pn">{93}</span> e que a habilidade technica descamba no especialismo +estreito, para se admirar ainda mais a plasticidade mental dos que conservam +intacto sob a acção das questões quotidianas o sentimento dos interesses geraes +e caminham atravez dos expedientes com olhos fitos nas idéias.</p> + +<p>Estas qualidades parecem reunir-se no Sr. Oliveira Martins. Essa visão +poderosa e plena, essa representação veridica e intensa dos caracteres, esse +golpe de vista sagaz e profundo mergulhado no intimo dos corações, que faz o +encanto e a força dos seus livros, podem guial-o nos seus actos; as mãos +acostumadas a fazer a autopsia das almas no amphitheatro da Historia, não são +improprias para jogar os lances da politica. O habito de ver as cousas de alto, +proprio do historiador, arrancão aos trilhos mesquinhos em que se perde o +espirito da rotina e do expediente. Artista pela visão colorida e palpavel da +realidade, é-o tambem pela intuição magnifica do ideal. A imaginação +constructiva anda n'elle ligada ao sentimento do real e do exequivel. E tendo +aquelle exacto bom-senso e aquella efficaz percepção do possivel, que resulta +da pratica dos homens e da vida, possue comtudo aquella largueza de vistas e +aquelle desejo do melhor, que provém da convivencia das ideias e do trato dos +livros.</p> + +<p>Será esse ideal realisavel e esse tino pratico sufficiente? Os successos +dil-o-ão. Não é porém difficil<span class="pn">{94}</span> apontar desde já no +sentimento da força propria e no generoso instincto do dever civico as causas +que o fizeram passar do pensamento á acção, e mostrar a clara coherencia que +liga as suas opiniões de hontem aos seus actos de hoje, e os seus vinte annos +de historia aos seus dois annos de politica.</p> + +<p> </p> + +<p>Tal é essa figura interessante e rara. Homem interior, isto é, dotado de +imaginação psychologica, admiravel na representação dos accidentes do apparelho +mental e dos sobresaltos da machina sensivel, toda a sua obra se resente e vive +d'esta aptidão primordial, que constella os seus livros de retratos veridicos e +profundos, de paizagens vivas de narrações dramaticas. Capaz de operações +abstractas, a razão scientifica completa n'elle a imaginação poetica, e a +analyse explicativa anda ligada ao colorido intenso. Sujeito ás emoções +vehementes e frequentes, sobre tudo ás de ordem moral, isto é, a compaixão, a +admiração, a indignação, e o desprezo, a sua obra, dramatica pela logica e pela +vida, sel-o-á tambem pela paixão; mas a intuição do psychologo e a reflexão do +philosopho hão de envolvel-o n'um nimbo de indulgencia, de ironia e de +tristeza. Empregando um estylo em que parecem reviver e encarnar todas as +qualidades da sua alma, successivamente energico e suave, enthusiasta e +sarcastico, e cujo tecido fluctuante e agil acompanha como uma purpura +amarrotada e resplandecente<span class="pn">{95}</span> os movimentos bruscos +do seu espirito. Lançado na politica pela energia do sentimento moral e +importando para a Acção a elevação do philosopho e a perspicacia do homem +pratico, e pondo ao serviço das aspirações do moralista a habilidade do +psychologo. Uma relação intima liga entre si todas as partes do seu talento e +faz derivar d'elle todos os aspectos da sua obra.</p> + +<p> </p> + +<p>Lisboa, Abril de 1887.</p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<h2><a name="SECTION000710">INDICE</a> </h2> + +<p><a href="#SECTION000100">I. O<small>S CARACTERES</small>—Que a sua imaginação é psychologica—Que +ella é realista—Comparação com a de Eça de Queiroz—O caracter portuguez e o +hespanhol—Retrato de D. Affonso Henriquez—Retrato de D. Pedro I—Retrato de +Herculano—Que essa imaginação é completa.</a></p> + +<p><a href="#SECTION000200">II. A<small>S </small>P<small>AIZAGENS</small>—A imaginação physica: +exemplo, Ramalho Ortigão—Caracter das paizagens em Oliveira Martins—Que ellas +são transcrições moraes dos aspectos physicos—Que ellas são a explicação de um +mecanismo.—Descripção do littoral alemtejano—Descripção da paizagem +minhota—O terremoto.</a></p> + +<p><a href="#SECTION000300">III. A<small>S </small>T<small>HEORIAS</small>—A theoria do +Acaso—Concepção do Universo e da sciencia—Ausencia de razão oratoria—Falta +da amplificação e da prova—Caracter artistico da sua intelligencia—Comparação +com as intelligencias simplistas: os primeiros escriptos de T. Braga—A +inspiração e a intuição.</a></p> + +<p><a href="#SECTION000400">IV. O<small>S </small>S<small>ENTIMENTOS</small>—Abundancia e energia das +suas emoções—Que ellas são de ordem moral—Sua concepção do Amor—Sua +concepção da Vida e da Ventura—Acção mutua entre o seu caracter e a sua +intelligencia.</a></p> + +<p><a href="#SECTION000500">V. O <small>ESCRIPTOR</small>—Valor do estylo como documento—O estylo +oratorio: o sñr. Latino Coelho—O estylo de Oliveira Martins—O vocabulario, a +syntaxe, as figuras, a composição dos livros, os indices.</a></p> + +<p><a href="#SECTION000600">VI. O H<small>ISTORIADOR</small>—Vastidão complexidade difficuldade dos +estudos historicos—Qualidades e lacunas da sua Historia.</a></p> + +<p><a href="#SECTION000700">VII. O P<small>OLITICO</small>—Retrato ideal do Politico—Oliveira Martins +como politico.</a></p> + +<p><a href="#SECTION000700">Composição do seu espirito e deducção da sua obra.</a></p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> +<hr> + +<p style="text-align:center;">Paris.—G<small>UILLARD, </small>A<small>ILLAUD E </small>Cª.</p> +</div> + + + + + + + +<pre> + + + + + +End of the Project Gutenberg EBook of Oliveira Martins: Estudo de Psychologia, by +Guilherme Moniz Barreto + +*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK OLIVEIRA MARTINS *** + +***** This file should be named 31379-h.htm or 31379-h.zip ***** +This and all associated files of various formats will be found in: + https://www.gutenberg.org/3/1/3/7/31379/ + +Produced by Pedro Saborano (produced from scanned images +of public domain material from Google Book Search) + + +Updated editions will replace the previous one--the old editions +will be renamed. + +Creating the works from public domain print editions means that no +one owns a United States copyright in these works, so the Foundation +(and you!) can copy and distribute it in the United States without +permission and without paying copyright royalties. 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It exists +because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from +people in all walks of life. + +Volunteers and financial support to provide volunteers with the +assistance they need are critical to reaching Project Gutenberg-tm's +goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will +remain freely available for generations to come. In 2001, the Project +Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure +and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations. +To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation +and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4 +and the Foundation web page at https://www.pglaf.org. + + +Section 3. 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