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+ <title>Camillo Castello Branco, por Silva Pinto</title>
+ <meta name="Author" content="Antonio da Silva Pinto, 1848-1911">
+ <meta name="Publisher" content="GUILLARD, AILLAUD &amp; C.">
+ <meta name="Date" content="1889">
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+<pre>
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+Project Gutenberg's Camillo Castello Branco, by Antonio da Silva Pinto
+
+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.org
+
+
+Title: Camillo Castello Branco
+
+Author: Antonio da Silva Pinto
+
+Release Date: February 22, 2010 [EBook #31346]
+
+Language: Portuguese
+
+Character set encoding: ISO-8859-1
+
+*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK CAMILLO CASTELLO BRANCO ***
+
+
+
+
+Produced by Pedro Saborano (produced from scanned images
+of public domain material from Google Book Search)
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+<p>&nbsp;</p>
+
+<div style="text-align:center; border: solid 1px #000;">
+<p style="font-size: 1.2em;">OS CONTEMPORANEOS</p>
+
+<hr style="width: 25%">
+
+<p style="font-size: 1.8em;">CAMILLO CASTELLO BRANCO</p>
+
+<p style="font-size: 0.8em;">POR</p>
+
+<p style="font-size: 1.2em;">SILVA PINTO</p>
+
+<hr style="width: 10%">
+
+<p>200 Reis</p>
+
+<hr style="width: 10%">
+
+<p><img src="images/logo.png" alt="Logotipo do editor"></p>
+
+<p><strong>GUILLARD, AILLAUD &amp; C.<sup>ia</sup>, LIVREIROS-EDITORES</strong><br>
+
+<span style="font-variant: small-caps;">47, Rua de S.<sup>t</sup> André-des-Arts</span><br>
+
+<strong>PARIS</strong><br>
+
+<span style="font-variant: small-caps;">Filial: 28, Rua Ivens, 1.º</span><br>
+
+<strong>LISBOA</strong><p>
+
+<hr style="width: 5%">
+
+<p>1889</p>
+</div>
+
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p style="text-align:center; font-size: 1.4em;">CAMILLO
+CASTELLO BRANCO</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p style="text-align:center;"><img src="images/camilo.png" alt="Imagem de Camilo"></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
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+<div style="text-align:center;">
+<p style="font-size: 1.2em;">OS CONTEMPORANEOS</p>
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+<hr style="width: 25%">
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+<p style="font-size: 1.8em;">CAMILLO CASTELLO BRANCO</p>
+
+<p style="font-size: 0.8em;">POR</p>
+
+<p style="font-size: 1.2em;">SILVA PINTO</p>
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+<p>200 Reis</p>
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+<p><img src="images/logo.png" alt="Logotipo do editor"></p>
+
+<p><strong>GUILLARD, AILLAUD &amp; C.<sup>ia</sup>, LIVREIROS-EDITORES</strong><br>
+
+<span style="font-variant: small-caps;">47, Rua de S.<sup>t</sup> André-des-Arts</span><br>
+
+<strong>PARIS</strong><br>
+
+<span style="font-variant: small-caps;">Filial: 28, Rua Ivens, 1.º</span><br>
+
+<strong>LISBOA</strong><p>
+
+<hr style="width: 5%">
+
+<p>1889</p>
+</div>
+
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+
+<div id="corpo">
+<h1><a name="SECTION00010000000000000000">CAMILLO CASTELLO BRANCO</a> </h1>
+
+<p>Quando se interroga um leitor portuguez sobre a individualidade litteraria
+de Camillo Castello Branco, o interrogado se é homem affirma a recordação dos
+risos, se é mulher a reminiscencia das lagrimas; e d'este duplo tributo, da
+razão e do sentimento, resalta a nitida comprehensão do homem de genio que ha
+trinta annos, dia a dia, armado da observação e da intuição, tem erguido o mais
+poderoso e alevantado monumento de que ha registro em lingua portugueza.<span
+class="pn">{9}</span></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h1><a name="SECTION00020000000000000000">I</a> </h1>
+
+<p>Na dolorosa epopêa do genio discutido e calumniado abre uma excepção, que
+nos consola, este grande nome de Camillo Castello Branco. Os grandes homens
+insultados pela mediocridade confiaram sempre do futuro o glorioso desaggravo;
+Camillo encarregou-se da desforra; e os seus insultadores são <em>homens
+mortos</em> para a imputação, desde a hora em que o gigante os discutiu,&mdash;dado
+que não vinguem purificar-se no arrependimento e honrosamente confessal-o.</p>
+
+<p>Eu insisto ainda agora na expiação que me rehabilita: se ha quem muito deva
+em lição, mais que muito salutar, ao mestre de todos nós, sou eu, que lhe
+aggredi o trabalho colossal, sem resvalar ao insulto ignobil ao <em>homem</em>
+que mais tarde me foi mestre e ao <em>lar</em> que me recebeu amigo...</p>
+
+<p>Pude assistir, hospede, n'esse lar, á formação do ultimo livro de Camillo.
+Pede-me a consciencia, porventura illudida, um juizo favoravel á consciencia
+dos insultadores do livro e do seu auctor;&mdash;eu creio que os sentimentos de
+simples equidade, avocados pela simplicissima vergonha, dariam rebate á
+confissão do erro no espirito d'esses transviados, se n'esses espiritos pudesse
+transluzir um clarão tenuissimo<span class="pn">{10}</span> d'aquelle viver de
+sacras amarguras que tem o lenitivo no trabalho, ou que desabafa em palavras de
+amigavel incitamento quando a provocação dos insensatos o não distrahe para as
+violencias do correctivo.</p>
+
+<p>Afigure-se ao leitor de boa fé e de claro entendimento que a sorte, raro
+propicia a entendimentos honrados, o levou em hora de paz ao remanso de S.
+Miguel de Seide. É hospede na hospitaleira morada. Alta manhã, subiu ao
+gabinete de trabalho do mestre e achou-o solitario. Sahiu da officina para o
+lugar do descanço: sobre o leito, presa dos soffrimentos physicos de cada hora,
+que os soffrimentos moraes vingam suffocar a espaços, o grande homem descança
+no trabalho. Não ha que hesitar na interrupção: entrai: lá está o sorriso
+socratico do mestre a receber-vos, carinhoso. Ahi tendes a <em>féra</em> que se
+propõem acossar uns taes que mal espulgam a insignificancia nas horas ferozes
+em que o pulguedo da vaidade parva lhes dá rebate ás furias: ahi tendes o
+<em>homem feroz</em> que esses pregoeiros de especiarias podres apontam como o
+algoz de suas industrias d'elles. Não hesiteis na expansão do vosso crêr:
+elle&mdash;<em>o verdugo</em>&mdash;tem indulgencia e conselho para todas as ignorancias;
+tem o silencio de favor para as vaidades que o não insultam; o que elle não tem
+é a resignação criminosa da bondade exaggerada, quando os pygmeus chafurdam no
+pantano fetidissimo da injuria soez, no intuito de lhe salpicarem a formidavel
+sombra; o que elle não tem é a indulgencia da<span class="pn">{11}</span>
+exaggerada caridade quando suspeita que o aggressor ingenuo encobre o vulto de
+villão cobarde que se agacha na sombra, menos escura que a alma do
+miseravel.</p>
+
+<p>Então, n'esses momentos em que os profanos imaginam, á luz vermelha da
+represalia do mestre, uma irritação feroz, o grande homem converte o insultador
+em titere, prende-lhe o cordel; puxa: as cambalhotas succedem-se; o publico ri
+perdidamente, ou sente fremitos de espanto: o insolente morde a terra, e,
+quando o auditorio espera a punhalada final vibrada pelo gigante, o gigante
+applica no esmurraçado nariz do iconoclasta um misericordioso piparote, e ri.
+</p>
+
+<p>Riso que seria crudelissimo se a bondade da suprema força o não
+temperasse...</p>
+
+<p>Ás vezes, quando o feroz inverno da aldêa me fornecia, benevolo, o pretexto
+para conservar-me á beira de Camillo, o mestre concedia-me a leitura do seu
+trabalho, e eu lia distrahido: é que eu pensava, em quanto lia, nos esforços de
+uns miseros parturientes que atrôam os ares com os seus gemidos, quando
+cerradas noites dolorosas de meditação lhes arrancam dez paginas de
+<em>original</em>, morto ao nascer,&mdash;uns reformadores sarrafaçaes que põem a
+tratos de emendas os compositores martyres, quando não preferem&mdash;no furor de
+producção&mdash;pôr a tratos a critica misericordiosa que lhes corrige, em que peze
+a safanões ingratos, as demasias de desaforados absurdos.<span
+class="pn">{12}</span> Confrontava, e confronto a espontaneidade uberrima e a
+ardentissima e vigorosa seiva d'aquelle espirito de luz com a escuridade
+interior dos eunucos que o doestam lá da acolheita das suas tropelias. É assim
+que o mister do critico se distrahe, a espaços, avocado pelo dever de amargas
+retaliações.</p>
+
+<p>A <em>Corja</em>, elaborada ao correr da penna pelo mestre, é um novo
+documento para o processo da mixordia litteraria. Demonstra-se, uma vez ainda,
+que o esplendor da <em>obra nova</em> é uma illusão d'optica, fascinadora para
+o gentio zanaga, se os arrebiques não occultam o oiro de lei da concepção
+genial, ou da observação profunda, de par com os conhecimentos da lingua em que
+se escreve.</p>
+
+<p>E raro occultam esses thesouros.</p>
+
+<p>O que por ahi vemos, é a saudação aos arrebiques; e, justiça inteira, se á
+pobre chronica jornalistica não é vedado o ingresso nas sociedades de
+<em>geographos</em> e de <em>escriptores</em>, a crassissima ignorancia
+veda-lhe o uso da palavra em assumptos que demandam estudo. Que ha a esperar em
+affirmações de tal lote por parte d'esses eternos infantes prodigiosos que
+trocam por bilhetes de theatro a sua triste collaboração nas gazetas e os seus
+direitos de litterato no <em>Martinho</em> ou na associação risonha?</p>
+
+<p>Eu não posso reproduzir-me no aquilatar da moderna escóla (?), dos modernos
+artistas, dos modernissimos abortos e das deturpações que o trabalho de boa fé
+tem obtido dos censores inconscientes e dos<span class="pn">{13}</span>
+facciosos instrumentos involuntarios de uns tetrarchas burlescos da evolução
+deturpadissima. Mas que primores de sanissima linguagem, para lição
+crudelissima dos abortos e para nossa lição solicitada, não offerece o novo
+livro de Camillo! Depois, como a espaços, transparece, no decorrer da epopêa de
+miserias, o moralista mordacissimo, e como n'essa mordacidade transluz um raio
+de suprema piedade que sóem experimentar e conceder os espiritos de lei,
+firmados na base dupla do estudo e da experiencia dolorosa!</p>
+
+<p>Eu pasmo&mdash;hoje&mdash;quando um espirito culto e de serios precedentes atira a
+luva, de envolta com a injuria, ao invencivel athleta de mil combates.
+Comprehendo as aggressões de uns gatunos que pedem a um puxão d'orelhas a
+<em>celebridade</em>, uns pelitrapos de botiquim aceites na Associação dos
+escriptores portuguezes (<em>sic</em>): mas, que uma entidade pensante, no
+usufructo da imputação desça á camaradagem com a suja horda&mdash;é o que não se
+póde comprehender sem derivar, para o triste caso, da allucinação partidaria,
+tanto monta&mdash;do mais triste facciosismo.</p>
+
+<p>Elle, o flagellador da <em>Corja</em>, não é apenas o erudito e paciente
+investigador da nossa historia, o derradeiro e mais illustre mestre da lingua
+portugueza, «o gigante que fixou em livros immorredouros toda a comedia
+portugueza contemporanea» (palavras do snr. A. da Conceição no seu primeiro
+artigo sobre <em>A Corja</em>); mal vae aos tristes aggressores que o
+consideram immobilisado nos estudos de ha vinte annos:<span
+class="pn">{14}</span> com a autoridade de quem assim levianamente creu e mais
+tarde corrigiu os seus erros sobre Camillo <em>e sobre outros</em>, eu poderia
+asseverar que o grande escriptor acompanha no seu retiro da aldêa todo o
+movimento litterario e scientifico do periodo contemporaneo,&mdash;poderia
+asseveral-o, se não visse bater em retirada, após tres dias de <em>lucta</em>,
+a aggressão moderna ao supposto immobilisado... Mas não será um crime egual ao
+da aggressão esta apparencia de defeza?</p>
+
+<p>De homens como Camillo é uso dizer-se: «Está ainda mui perto de nós para a
+justiça; o futuro ha de fazer-lh'a». Quer dizer:&mdash;Estabeleçamos como norma o
+insulto aos mestres, durante a vida; mais tarde, depois da sua morte, nos
+servirão seus nomes para injuriar os vivos! Oh! espiritos sublimados dos homens
+d'hoje, reformadores do existente, destruidores da torpeza legalisada! se não
+applicasseis todo o marmore disponivel á construcção das vossas proprias
+estatuas antecipadas, se não empregasseis o vosso esforço em tentativas de
+demolição das glorias justificadas, se não desseis guarida aos insignificantes
+repletos de odio e aos parlapatões repletos de charlatanismo, se abrigasseis o
+respeito ao genio aureolado pelos cabellos brancos e pelo saber,&mdash;não dariamos
+o espectaculo permanente de contendas deploraveis entre os apregoados
+voluntarios do bom senso e da justiça.<span class="pn">{15}</span></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h1><a name="SECTION00030000000000000000">II</a> </h1>
+
+<p>O Movimento do Romantismo em Portugal affirma-se n'uma corrente de
+banalidades que dão em litteratura a nota da suprema inepcia. Mas todos os
+crimes e todas as faltas, melhor todas as excrescencias d'essa evolução de
+sentimentos se resgatam e afundam no esquecimento misericordioso, se acertamos
+em ver a toda a luz, a obra colossal do homem de genio que entre nós consagrou
+o romantismo e que o mantem, quarenta annos volvidos, nos dominios do romance
+portuguez, em plena força indestructivel e em plena gloria incontestavel.</p>
+
+<p>Vieram, com grandes esperanças, algumas tentativas de implantação de novas
+formulas e de processos novos. Não escaceou o talento, menos ainda a
+observação, com todo o brilhantismo expositor. Mas faltou a paixão&mdash;desculpe-se
+a velha definição do facto eterno e insubstituivel. Foi pela paixão que
+triumpharam os raros e grandes triumphadores da geração d'hontem. Surgem os
+excessos de analyse, as subtilezas, as minudencias, a cathedra para os
+sentimentos, mas a inferioridade do effeito é manifesta. O successo relativo do
+romance modernissimo está nas bellezas do descriptivo e nos pormenores
+liberrimos até aos dominios da pornographia. Mas é<span class="pn">{16}</span>
+raro que dos detalhes saia o grande traço emocional, a forte scena dramatica
+que convulsiona, a grande synthese psychologica que se impõe e que illumina
+como uma revelação. </p>
+
+<p> </p>
+
+<p>Um lucido e poderoso espirito que nós perdemos e choramos e cujo nome
+deixaremos vinculado a este singelo estudo&mdash;o poeta Cesario
+Verde&mdash;apresentava-nos um dia diversas definições muito rapidas e muito seguras
+de varios escriptores portuguezes. Tendo de referir-se a Camillo Castello
+Branco, apresentou a seguinte definição&mdash;«é o mais litterato de
+todos»&mdash;completo: é no terreno do estudo severo a erudição benedictina apoiada
+no bom-senso profundo; é o <em>sacerdos magnus</em> nos dominios da lingua
+portugueza; é o humorista Sterne combinado com o humorista Henri Heine, e das
+amarguras d'este teem muito as suas amarguras. A nota plangente que faz
+estremecer e sossobrar os espiritos na desolação ou que os redime pelas
+lagrimas, fere-a o grande escriptor com a sinceridade do momento&mdash;que é toda a
+força da paixão. Em hora de zombaria serena assimila os processos novos e
+desmascara-lhes a impotencia e a inferioridade; logo, corrigindo a ironia,
+dá-nos em duas paginas que adiante serão transcriptas a scena mais
+artisticamente executada da galeria do romance portuguez.</p>
+
+<p>Teremos ensejo de fallar d'elle como polemista. Vejamos no entanto a
+philosophia do seu riso.<span class="pn">{17}</span></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h1><a name="SECTION00040000000000000000">III</a><a name="tex2html1"
+href="#foot258"><sup>[1]</sup></a></h1>
+
+<p>«Não conto commigo para destramente me desempenhar da empreza litteraria em
+que se faz mister mais mocidade de coração que lettras bem ajuizadas.</p>
+
+<p>«É materia,&mdash;se se pode com tal nome invilecer o que ha ahi mais subtil e
+espiritual&mdash;é materia, isto d'amores, para inspirar sérias considerações a
+homem dos meus annos.</p>
+
+<p>«E se os amores vêm d'azas quebradas e involtas nas escomilhas do lucto, se
+em vez de grinaldas de rozas, cingem cypreste; se lhes alvejam a tiracolo
+caveiras em vez de aljavas, e lá dentro estiletes hervados em vez de flechas
+d'ouro&mdash;emfim amores negros, amores abominaveis,&mdash;maior dever me corre de ser
+sizudo, elegiaco e espantador de paixões.</p>
+
+<p>«Conheço-me. Dei o primeiro passo na senda da sabedoria, segundo Cicero:
+<em>se ipsum nosce</em>; cavei com utilidade no preceito: <em>Nosce te
+ipsum</em>; sabia felizmente um pouco de latim para me intender mais depressa.
+</p>
+
+<p>«A minha raiva ao planeta em que estou é acerba<span class="pn">{18}</span>
+mas fica muito aquem da misanthropia. Em rapaz fiz de Heraclito, quando não
+conhecia melhor do que hoje este grego que aforou as lagrimas com honras de
+eschola philosophica. De tal philosopho, coisa que sirva, só temos o boato de
+que chorava e declamava em publico. Hoje em dia, um homem com esta
+sensibilidade era levado ao commissario de policia.</p>
+
+<p>«Por mim e pelos meus visinhos tambem eu chorei.</p>
+
+<p>«Eis que, desce a geada de muitos invernos a nevar-me, o frio a filtrar, a
+temperatura dos liquidos a descer, o sangue a coagular-se, e logo o
+cristallisar das lagrimas no coração como as concreções vitreas d'uma caverna.
+</p>
+
+<p>«Principiei a rir ás vezes.</p>
+
+<p>«Rir é contrahir-se o diaphragma e os musculos faciaes, operação
+materialissima, muscular, carnal, e que nenhum outro animal exercita.</p>
+
+<p>«Claro é que o rir é attributo de ser racional.</p>
+
+<p>«A par e passo que a razão se allumia e fecunda, as contracções musculares
+amiudam-se. Raciocinar é rir. O acume da sabedoria humana é ver os reversos das
+tragedias sociaes; lá está por força a comedia. A ignorancia que esteriliza e
+mirra e incalvece é a que só deixa ver uma face da mortalha.</p>
+
+<p>«Eu não cheguei ainda aos pinaculos da sabedoria.<span
+class="pn">{19}</span></p>
+
+<p>«Vou subindo.</p>
+
+<p>«Subir é ir um homem desatando os nós que atam a dôr estranha á sua; é ir
+tirando ás coizas tristes a sua essencia lacrimal, por feição que o <em>sunt
+lacrimæ rerum</em> de Virgilio não se perceba.</p>
+
+<p>«O rir, porem, do animal philosopho não é a casquinada saloia do bipede
+implume de Platão que vaga á toa e á tuna, sem casta de philosophia nenhuma.
+</p>
+
+<p>«Ha ahi um gargalhar que a sciencia denomina <em>spasmo cynico</em>, ou de
+cão, um exhibir das arcadas dentarias até aos condylos. É o caracter bestial da
+canalha. É o que os inglezes chamão rir de cavallo&mdash;<em>horse laugh</em>.</p>
+
+<p>«Ha tambem o rir chamado <em>sardonico</em>, o rir d'uns que comeram o
+fabuloso rainunculo da Sardenha. Ora entre nós os que d'esta arte destampam
+gargalhadas não comeram rainunculos, é gente imbuchada de feijão branco e
+orelha de cevado. Essa hedionda deformidade caracterisa estupidez quasi sempre
+malevola; corresponde ao espojar-se, se o rir é meramente bruto e ao escoucear,
+quando é bruto e mau.</p>
+
+<p>«Não riram assim Democrito, Aristophanes, Esopo, Petronio, Aretino, Gil
+Vicente, Erasmo, Sterne, Rabelais, Charron, Molière, Voltaire, Tolentino,
+Byron, Heine.</p>
+
+<p>«D'estes, alguns, senão todos, riram dos homens e dos Deuses.<span
+class="pn">{20}</span></p>
+
+<p>«E o ultimo nome que cerra a phalange consubstancia todas as calamidades
+comprehensiveis, desde o jazer do paralytico cego, até á theophobia, o horror
+de Deus. E, assim mesmo, como elle adivinhou o sorrir de Satan, a despenhar-se
+das regiões da luz, onde o <em>Summo-Bem</em> permittiu que se gerassem Anjos
+soberbos! Vejam a superrima vingança d'aquelle Prometheu que recurva os dedos
+nos fusis da gargalheira, que o amarra oito annos a um leito, e do estridor dos
+ferros sacudidos, medula o sinistro arpejo das suas gargalhadas sarcasticas!
+Como Lucifer invejaria o gentilissimo demonio que retransido das agonias da
+nevrose, todo trevas dentro e fora, creava a paradoxal harmonia do gemido com a
+risada.</p>
+
+<p>«É preciso ter chorado para immortalisar o riso no livro, na estrophe, na
+sentença, na palavra; o riso que excava, mina e alue theogonias; o riso que
+desfaz religiões, cujo berço boiou embalado sobre ondas de sangue;</p>
+
+<p>«O riso que abate a abobada do templo sobre as ossadas dos martyres;</p>
+
+<p>«O riso que revolve as tormentas dos imperios, e abysma thronos, e espuma
+espadanas de lama, lama com que as gerações erigem os seus marcos millenarios,
+as suas chronologias gloriosas.</p>
+
+<p> </p>
+
+<p>«Oh! mas que susto não faria aos proceres que<span class="pn">{21}</span>
+regem a republica e aos sacerdotes que regem almas, o rir do demagogo e do
+atheu, se a cada chasco d'uns taes ruissem thronos e altares?</p>
+
+<p>«Nada de medo em Portugal.</p>
+
+<p>«Aqui o dardo do sarcasmo alcança apenas o scopo onde a calumnia mira. As
+gargalhadas, como aqui as bascolejam estas maxilas alvares dos goliardos
+professos, vingam mariar a honra d'um homem, desluzindo-lhe o passado,
+innoitando-lhe o futuro, infernando-lhe o sanctuario da familia. Isto é o mais.
+Receal-as todavia, como attentatorias das instituições civis ou religiosas,
+seria dar-lhes a honra de ridiculisarem quem as teme.</p>
+
+<p>«Aqui não ha esgrima de facecia que entre dois contendores decida um pleito
+util. Dois homens que se medem e floreteam a remoques são dois fundibularios
+que se apedrejam.</p>
+
+<p>«Ninguem se lembrou de inscrever algum dos nossos satyricos na pleiade dos
+que, rindo, castigaram. O espirito portuguez nunca espantou ninguem. A bruteza
+carniceira, sim. Assevera-o o douto e pio bispo Amador Arrais: «Espanta-se o
+mundo e tem inveja á nossa ferocidade.» Isto escreveu-se, de boa fé, no seculo
+XVII entre a inquisição e a pirataria portugueza no Oriente.</p>
+
+<p>«Quando Rabelais e Montaigne forjavam alavancas para Voltaire&mdash;o ridente que
+transfigurou a Europa&mdash;nós queimavamos homens, em cujas frontes lampejassem
+reflexos de João de Leide ou<span class="pn">{22}</span> de Petrus Ramus.
+Quando, em França, rumorejavam os sorrisos prenuncios do terramoto social, aqui
+ouvia-se o mugir subterreo das masmorras d'um cruelissimo verdugo, que
+disputava á inquisição trevas e supplicios para centralisar a ferocia do poder
+em si, e esteiar o throno nos caibros da forca. Para o riso, que assombrava o
+dogma, acendia-se a fogueira; para o que assombrava a realeza, arvoravam-se os
+patibulos de Belem. </p>
+
+<p>«D'ahi procedeu que portuguezes ainda teem n'alma crepusculos d'aquella
+grande noite. Não sabemos rir com «espirito»; apenas gargalhamos com os
+queixos.</p>
+
+<p>«Sem embargo, implantou-se entre nós uma coisa creada pontualmente para nós.
+Chama-se a «chalaça», que já deu uma filha estupida como sua mãe, chamada a
+«laracha».</p>
+
+<p>«Mãe e filha vivem abarregadas com uns chanceadores lettrados da indole dos
+«eternos tolos» de Tertulliano.</p>
+
+<p> </p>
+
+<p>«Aos quaes peço indulgencia, se a merecem as tortuosidades por onde me
+transviei, degenerando d'aquella derreada prosa com que abri esta coisa
+alabyrintada.</p>
+
+<p>«Era meu proposito dizer espalmadamente que, ha vinte annos, comecei a ver
+as duas faces dos lances tristes: uma que intende com as glandulas lacrimaes,
+outra com o diaphragma. Primeiramente,<span class="pn">{23}</span> se não
+choro, condôo-me; depois, esgaravatando na raiz das dores humanas, encontro ahi
+ou sedimento de perversidade ou ridicularias miserabilissimas. Então é o rir.
+E, afim de que os padecentes me desculpem, rio primeiro de mim.</p>
+
+<p>«D'ahi se causou que os meus livros, entre muitos defeitos, realçam em um
+que tem ferido a benevolencia da critica: e é que não conservo, sem
+intercadencias desvanecidamente faceciosas, uma situação plangente, e amarguro
+com o acerbo da ironia a dulcidão das lagrimas.</p>
+
+<p>«É justo o reparo.</p>
+
+<p>«E n'este livro me quer parecer que tal defeito subirá de ponto; porque vou
+intender em tragedias amorosas, n'esta edade de quarenta e tres annos feitos,
+velhice em que nenhum escriptor sincero, obediente a Horacio, deu aos seus
+leitores o exemplo das lagrimas. <em>Si vis me flere</em>, etc.</p>
+
+<p>«D. Francisco Manuel de Mello, em annos sediços, escreveu uma <em>Epanaphora
+amorosa</em>. Succede, por isso, ao estremado estylista que faz rir a gente
+quando os seus personagens choram. É o providencial castigo de quem anda, fóra
+de sasão, á cata de flores, ou intenta com myrradas perpetuas dar fragrancia de
+tomilhos ao livro que resumbra o acre enjoativo do bolor.</p>
+
+<p>«E d'isto me pesa; que este livro abrangerá um tristissimo caso que me fez
+invelhecer annos na hora em que o vi. Que profanação, se o riso me<span
+class="pn">{24}</span> antepozer os fantasmas irritados das almas
+insepultas!</p>
+
+<p> </p>
+
+<p>«Creio que, ao fechar d'algumas sepulturas, se abrem livros de proveitoso
+doutrinamento ao de e cima d'ellas.</p>
+
+<p>«Mas quem procura ahi fontes de vida?</p>
+
+<p>«Quem se demora a ver a ladeira por onde resvalou á leiva humida um mancebo
+com o coração ainda a queimar-lhe a mortalha?</p>
+
+<p>«Por isso as historias dos mortos se escrevem, e este livro se faz.</p>
+
+<p>«É, todavia, inutil.</p>
+
+<p>«A mocidade não lê d'isto para aprender. Atira-se á voragem e morre&mdash;á
+voragem, onde o menos que se perde é o corpo.</p>
+
+<p>«O coração não se afoga debaixo da pedra onde as cinzas d'outros se
+desfazem. Cada qual quer sentir, em pessoa, o desfibrar-se-lhe o coração fio a
+fio, o esvasear-se-lhe de piedade, lagrima a lagrima.</p>
+
+<p>«Depois, ao fogo das volupias infernaes, d'essa massa informe faz-se o
+pragal, a bruteza d'uma coisa que dá um som asperrimo de tôdo petrificado.</p>
+
+<p>«Seja assim. Eu assim fui. Todos os que eu vi morrer assim foram.»<span
+class="pn">{25}</span></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h1><a name="SECTION00050000000000000000">IV</a> </h1>
+
+<p>Oiçamos agora as vibrações da dôr e da saudade d'este colosso, que seria o
+descendente directo de Heine, se não possuisse a envergadura d'um independente:
+</p>
+
+<p>«No principio d'este anno de 1864 sahi de Ruivães, onde por espaço de oito
+dias me escondi á minha estrella funesta&mdash;a vigilantissima desgraça, que eu ia
+esquecendo. No termo d'este prazo, estranhei o socego das minhas noites,
+faltou-me a mão do demonio que me arregaçava com dedos de fogo as palpebras
+quebrantadas do somno, e fui á procura d'elle.</p>
+
+<p>«Deixei o meu amigo na cumiada do outeiro, visinho da casa, com sua esposa e
+filhos. As ultimas palavras d'elle foram: «<em>quando tiveres o livro escripto,
+deixa-me gozar a não vulgar satisfacão de me ver personagem e heroe d'um
+romance, que me promette uma immortalidade...</em>»</p>
+
+<p>&mdash;De quinze dias&mdash;interrompi eu.</p>
+
+<p>«Não longe da obscura paragem de Affonso de Teive, á margem do córrego
+chamado Péle, riacho que, pela primeira vez, é revelado ao mundo em letra
+redonda, assentei eu a minha tenda nomada. A minha tenda são uns vinte volumes,
+um tinteiro<span class="pn">{26}</span> de ferro e um cabo de penna de osso,
+que me deram n'outro ponto do mundo, onde ha quatro annos assentára tambem a
+minha tenda,&mdash;ponto do mundo que por um singular acaso implicava ao meu sestro
+vagabundo: era no anno do Senhor de 1860, nos carceres da Relação do Porto, o
+menos conveniente dos paradeiros para homem de gostos impermanentes em objecto
+de aposentadoria. Isto, sem embargo, não impedia que esta minha tão querida
+penna, tão amiga confidente d'aquellas trezentas e oitenta noites&mdash;de janeiro
+todas, que lá a dentro dos congelados firmamentos de pedra reina perpetuo
+inverno, e giam as abobadas, não sei se lagrimas, se sangue, se agua represada
+nos poros do granito,&mdash;não impedia, vinha eu dizendo, que a minha penna, com o
+seu incançavel fremir sobre o papel, me aligeirasse as noites, e aos assomos da
+alvorada me convidasse para a banca do trabalho, que foi o meu altar de graças
+ao Senhor, e o confessionario onde abri minha alma ao perscrutar do anjo
+providencial que me dava a uncção dos athletas e dos grandes desgraçados, para
+mais affrontosos e excruciadores supplicios.</p>
+
+<p>«Os meus vinte volumes e o meu tinteiro de ferro estão hoje sob o tecto
+gasalhoso d'uma alma que eu n'outras eras encontrei na minha. Não sei ha que
+seculos isto foi, nem que congerie de abysmos nos separam para sempre. Parei
+aqui, porque ainda aqui, a tempos, se me figura rediviva a imagem do<span
+class="pn">{27}</span> passado, ainda aquella alma se me hospeda no coração em
+instantes de sonhos do céo, ainda a pedra tumular das affeições cahidas á
+voragem infernal do desengano, está pendida sobre a derradeira: que a saudade é
+ainda um affecto, um excelso amor, o melhor amor e o mais incorruptivel que o
+passado nos herda. </p>
+
+<p>«A casa, onde vivo, rodeiam-na pinhaes gementes, que sob qualquer lufada
+desferem suas harpas. Este incessante soido é a linguagem da noite que me
+falla: parece-me que é voz d'além-mundo, um como borborinho que referve longe
+ás portas da eternidade. Se eu não amasse de preferencia o socego do tumulo,
+amaria o rumor d'estas arvores, o murmurio do córrego onde vou cada tarde vêr a
+folhinha sêcca derivar na onda limpida; amaria o pobre presbyterio, que ha
+trezentos annos acolhe em seu seio de pedra bruta as gerações pacificas,
+ditosas, e incultas d'estes selvagens felizes que tão illuminadamente amaram e
+serviram o seu Creador. Amaria tudo; mas amo muito mais a morte.</p>
+
+<p>«Aqui, se Deus se amercear de mim, embargando o passo ao anjo exterminador,
+que continuo me assalteia os aditos do meu eden de quinze dias, aqui
+escreverei, com quanta fidelidade a memoria me suggerir, a narrativa que
+Affonso de Teive me fez.</p>
+
+<p>«Seis mezes ha que se fez noite no meu espirito. Por arrebatados impetos de
+quem quer furtar-se ás garras de um imaginario dragão, tenho fugido para<span
+class="pn">{28}</span> defronte do meu tinteiro de ferro, e avocado as
+graciosas imagens, filhas do céo, que, nos dias da mocidade fremente de más
+paixões, me refrigeravam a fronte, e disputavam ao encanto do mal,
+psalmeando-me o hymno de amor ao trabalho. O perdimento d'esse amor foi a
+suprema provação, a forja ardentissima em que minha alma foi lançada á
+voracidade d'um fogo depurante. Mas, no interior, por tudo em que sombreava a
+negrura do coração, eram tudo trevas, frio, lethargia, esquecimento.</p>
+
+<p>«Não sei de que futuro abril do meu porvir me veiu esta manhã um bafejo
+aromatico de flôres, umas ondulações de luz, que me pareciam as da minha
+juventude. Tudo me visitou como em mãos do fugace archanjo do contentamento.
+Passou o nuncio mysterioso, passou depressa, mas o meu espirito ergueu-se
+alvoroçado a saudar o sol de Deus, do Deus immenso que na immensidade dos seus
+mundos ainda guardará para mim um quinhão de alegrias parcas e modestas, as que
+unicamente podem dar consciencia repousada, prelibações de bemaventurança, e
+honrada alliança com os homens.</p>
+
+<p>«Penso que estou escrevendo as tuas palavras, ó meu amigo, redimido a
+lagrimas, a ultrages e a desapego do mundo. O clarão, que hoje alumiou a minha
+alvorada, seria porventura um reflexo das tuas alegrias. Ha dias me disseste:
+</p>
+
+<p>«Sabes tu o que é ter um Deus, que nos escuta,<span class="pn">{29}</span>
+que nos reprova, que nos louva, que nos povôa o espaço onde a alma insaciavel
+do homem encontra um vazio horrendo, uma respiração afflictiva?» Querias tu
+dizer-me que orasse? A ti o confesso em grandes enchentes de consolação, e ao
+mundo o confessarei sem o impio rubor dos miseraveis que perderiam sua alma
+antes que a irreligiosidade os escarnecesse: orei, meu amigo; porque, n'um dos
+mais apertados trances de tua vida, quando m'o acabavas de contar, interrompi o
+teu silencio, perguntando:</p>
+
+<p>«&mdash;E que fizeste depois?</p>
+
+<p>«E tu respondeste-me:</p>
+
+<p>«&mdash;Depois, <small>OREI</small><a name="tex2html2"
+href="#foot259"><sup>[2]</sup></a>.»</p>
+<span class="pn">{30}}</span>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h1><a name="SECTION00060000000000000000">V</a> </h1>
+
+<p>Quando o C<small>RIME DO PADRE </small>A<small>MARO</small> e o P<small>RIMO
+</small>B<small>AZILIO</small> de Eça de Queiroz estalaram como gritos de
+guerra nos dominios das lettras portuguezas, fez-se á volta do recem-chegado um
+clamor de admiração, que, para ser justo, só precisava de ser consciente. Quem
+isto escreve applaudiu e deu a razão do applauso. O romancista felicitou o
+critico pela comprehensão do trabalho e dos intuitos. Estes processos desusados
+tiram á critica a feição <em>protectora</em> e fixam a independencia da arte no
+sentido elevado e puro da palavra <em>independencia</em><a name="tex2html3"
+href="#foot260"><sup>[3]</sup></a>.</p>
+
+<p>Mas de par com as saudações <em>criticadas</em> surgiram as acclamações
+insensatas da turba multa e a exploração perfida do <em>successo</em> do
+romancista.</p>
+
+<p>A perfidia consistia em jogar os livros de Eça de Queiroz como uma catapulta
+contra a obra de Camillo Castello Branco. Provocado o velho leão, não moribundo
+por mal dos aggressores, sahiu a terreno&mdash;zombando. O <em>Euzebio Macario</em>
+e a <em>Corja</em> são tiros certeiros contra a matulagem; não prejudicam nem
+visam a prejudicar os processos novos dos mestres<span class="pn">{31}</span>
+da ultima geração; mas põem a nota de bom senso na conta do que se derimia
+entre a velhacaria e a ignorancia e restabelecem a situação no seu terreno sob
+o ponto de vista da boa critica.</p>
+
+<p>Mas fora dos dois livros de ironia buscaremos specimen de soberba execução
+artistica, alheia aos antigos processos do grande romancista. É do livro <em>A
+Brazileira de Prazins</em>. A galeria do romance portuguez não apresenta quadro
+mais vigoroso, nem mais surprehendente colorido tragico, com todas as
+<em>nuances</em> de uma observação que se evade á fadiga pelos primores
+incomparaveis dos seus moldes.</p>
+
+<p> </p>
+
+<p>«O Melro, ás 8 da noite, quando os freguezes desalojaram, fechou a taverna;
+e, espreitando se os pequenos dormiam, disse á mulher:&mdash;A casa do Cambado é
+nossa, mas é preciso vindimar o Zeferino...</p>
+
+<p>«&mdash;Credo!&mdash;exclamou a mulher com as mãos na cabeça.&mdash;Nossa Senhora nos
+acuda!</p>
+
+<p>«&mdash;Leva rumor!&mdash;e punha o dedo no nariz.</p>
+
+<p>«&mdash;Ó Joaquim, ó marido da minha alma, alembrate dos trez annos que penaste
+na cadeia! Olha para aquelles quatro filhos!...</p>
+
+<p>«&mdash;Já te disse que me não cantes&mdash;e relançava-lhe o seu formidavel olhar
+vêsgo, incendido com os lampejos da candeia em que afogueava o cachimbo de
+páo.<span class="pn">{32}</span> Depois, foi tirar d'entre a cama de bancos e a
+parede uma velha clavina. Sentou-se á lareira e disse á mulher que tivesse mão
+na candeia. Enroscou o sacatrapo na ponta da vareta de ferro e descarregou a
+arma, tirando primeiro a buxa de musgo, e depois, voltando o cano, vazou o
+chumbo na palma da mão.</p>
+
+<p>«&mdash;Ó José, vê lá o que vaes fazer!&mdash;insistia a mulher, limpando os olhos com
+a estopa da camisa. E elle, assobiando o hymno de Maria da Fonte, despejava a
+polvora da escorva, desaparafusava a culatra e tirava as duas braçadeiras. A
+mulher soluçava, e elle, cantando n'uma surdina rouca:</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<blockquote>
+ <em>Leva avante, portuguezes, <br>
+ Leva avante, não temer...</em> </blockquote>
+
+<p> </p>
+
+<p>«&mdash;Pelas chagas de Nosso Senhor, lembra-te dos nossos pequenos.</p>
+
+<p>«E o Melro n'uma distracção lyrica:</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<blockquote>
+ <em>Pela sancta liberdade, <br>
+ Triumphar ou padecer...</em> </blockquote>
+
+<p> </p>
+
+<p>«Depois, bufava para dentro do cano e punha o dedo indicador no ouvido da
+culatra para sentir a pressão do sopro, que fazia um fremito aspero impedido
+pelas escorias nitrosas. Pediu á mulher umas febras d'agodão em rama,
+enroscou-as n'uma<span class="pn">{33}</span> agulha de albarda e escarafunchou
+o ouvido do cano.&mdash;Está suja&mdash;disse elle&mdash;dá cá um todo-nada de aguardente.</p>
+
+<p>«&mdash;Joaquim, vamo-n'os deitar, pelas almas. Não te desgraces!</p>
+
+<p>«&mdash;Traz aguardente e cala-te, já t'o disse, mulher, com dez diabos!&mdash;E
+pôz-se a assobiar a <em>Luisinha</em>. Enroscou algodão embebido em aguardente
+no sacatrapo e esfregou repetidas vezes o interior do cano até sahirem brancas
+e seccas as ultimas farripas da zaracotea. Soprou novamente e o ar sahia sem
+estorvo pelo ouvido com um sibilo egual. Parecia satisfeito, e cantarolava,
+<em>mezza voce</em>:</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<blockquote>
+ <em>Agora, agora, agora, <br>
+ Luisinha, agora.</em> </blockquote>
+
+<p> </p>
+
+<p>«Armou a clavina, aparafusou as braçadeiras, a culatra e a fecharia,
+introduzindo a agulha. Aperrou e desfechou o cão repetidas vezes, acompanhando
+o movimento com o dedo pollegar, para certificar-se de que o desarmador, a
+caxêta e o fradête trabalhavam harmonicamente. Levantou o fusil de aço, que fez
+um som rijo na mola, e friccionou-o com polvora fina; e, com o bordo de um
+navalhão de cabo de chifre, lascou a aresta da pedreneira, que faiscava.</p>
+
+<p>«&mdash;Valha-me a Virgem! valha-me a Virgem! soluçava a mulher.<span
+class="pn">{34}</span></p>
+
+<p>«E elle, zangado com as lastimas da mulher, com expansão raivosa, n'um
+<em>sfogato</em>:</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<blockquote>
+ <em>E viva a nossa rainha, <br>
+       Luisinha, <br>
+ Que é uma linda capitôa...</em> </blockquote>
+
+<p> </p>
+
+<p>«&mdash;Vai á loja atraz da ceira dos figos e traz o masso dos cartuxos e uma
+cabacinha de polvora de escorvar que está ao canto.</p>
+
+<p>«A mulher dava-lhe as coisas, a tremer, e fazia invocações ao Bom Jesus de
+Braga, e ás almas santas bemditas. Elle encarou-a de esconso, e
+regougou:&mdash;Máo!... máo!...</p>
+
+<p>«Carregou a clavina com a polvora de um cartuxo; bateu com a cronha no
+sobrado, e deu algumas palmadas na recamara, para fazer descer a polvora ao
+ouvido. Fez duas buxas do papel do cartuxo, bateu-as com a vareta ligeiramente
+uma sobre a polvora e a outra sobre a bala.</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<blockquote>
+ <em>Agora, agora, agora, <br>
+ Luisinha, agora.</em> </blockquote>
+
+<p> </p>
+
+<p>«Depois pegou da clavina pela guarda-matta, e poz-se a fazer pontarias
+vagamente, passeando um olho, com o outro fechado, desde a mira ao ponto.</p>
+
+<p>«A mulher fôra sentar-se no sobrado, á beira da enxerga de tres filhos a
+chorar; o mais novo esperneava,<span class="pn">{35}</span> dava vagidos na
+cama a procural-a. O <em>Alma-negra</em> fôra dentro beber uns tragos de
+aguardente, voltou enroupado n'um capote de militar, despojo das batalhas da
+<em>Maria da Fonte</em>.&mdash;Ora agora&mdash;disse elle&mdash;ouvistes? porta da cosinha e a
+cancella da horta aberta, porque eu venho pelo lado do pinhal.</p>
+
+<p>«&mdash;Vae com Nossa Senhora&mdash;disse a mulher&mdash;e poz-se de joelhos a uma estampa
+do Bom Jesus, a rezar muitos <em>Padre-nossos</em>, a fio.</p>
+
+<p> </p>
+
+<p>«Era uma noite de fevereiro, de nevoa cerrada, um céo de carvão pulverisado
+em brumas molhadas, sem clareira onde lucilasse uma estrella. Não se agitava um
+galho de arvore nua movido pelo ar, nem ondulava uma erva. Era a serenidade
+negra e immota das catacumbas. Ás vezes rugia nas folhas ensopadas de nebrina
+no chão esponjoso das carvalheiras a fuga rapida das hardas, dos toirões e das
+raposas que se avisinhavam do povoado a fariscarem as capoeiras. O Joaquim
+Melro estremecia e punha o dedo no gatilho. O restolhar d'um gato bravo, o pio
+da coruja no campanario distante, punham arrepios de medo na espinha d'aquelle
+homem que ia matar outro&mdash;chamal-o á janella e varal-o á traição com uma
+bala.&mdash;Era o traçado.</p>
+
+<p>«&mdash;Que raio de escuro!&mdash;dizia, esbarrando nos espinheiros perfurantes.<span
+class="pn">{36}</span> </p>
+
+<p>«Em noites assim, o universo seria o immenso vacuo precedente ao
+<em>Fiat</em> genesiaco, se os viandantes não esbarrassem com as arvores e não
+escorregassem nos silvêdos das ribanceiras. O noctivago sente na sua
+individualidade, nos seus callos e no seu nariz, a doce impressão pantheista
+das arvores e dos calháos. Que este globo está muito bem feito. Os
+transgressores do descanço que Deus estatuiu nas horas tenebrosas, os
+scelerados das aldeias que larapeam o presunto do visinho, que fisgam a moça
+incauta ou empunham o trabuco homicida, se não temem encontrar as patrulhas
+civicas das grandes municipalidades, encontram os troncos hostilmente nodosos
+das arvores que são as patrulhas de Deus. Alguns, porém, protegidos pelo
+Mephisto a quem venderam a alma pelo preço da consciencia eleitoral, ou mais
+barata, chegam incolumes ao delicto, passando illesos como o lobo e o javali
+por entre os troncos das carvalheiras esmoitadas, hirtas, com os galhos a
+esbracejarem retorcidos n'uma agonia patibular.</p>
+
+<p>«O Melro, como o porco montez e o lobo cerval, embrenhára-se por pinhaes e
+carvalheiras; ás vezes, parava a orientar-se pelo cucuritar dos gallos
+tresnoitados e latir dos cães. Ao fundo das bouças ladeirentas, rugia o rio
+Péle nos açudes das azenhas e nas guardas dos pontilhões. Lamellas era da parte
+d'além. Mas o rio, de monte a<span class="pn">{37}</span> monte, rugia
+intransitavel nas pequenas pontes. Foi á de Landim, uma aldeia engravatada,
+onde ainda se avistavam clarões de luz nas vidraças das familias distinctas que
+jogavam a bisca em ricos saráos do <em>faubourg Saint-Honoré</em>, com uns
+deboches sardanapalescos de sueca a feijões.</p>
+
+<p>«Havia tambem um rumorejo de vozes que altercavam na taverna do Chasco.
+Tinia dinheiro lá dentro. Jogava-se o monte.</p>
+
+<p>«O Melro cuidou ouvir proferir o nome do Zeferino. Abeirou-se, pé ante pé,
+do postigo da taverna, e convenceu-se de que estava ali o pedreiro. Era elle
+quem reclamava um quartinho que pozera <em>de porta</em>, e o banqueiro
+recolhêra com as paradas que estavam <em>dentro</em>, quando tirou a contraria
+<em>de cara</em>.</p>
+
+<p>«&mdash;Que não admittia ladroeiras!</p>
+
+<p>«E o banqueiro desfeiteado observava-lhe que nada de chalaças a respeito de
+ladroeiras; que todos os que estavam d'aquella porta para dentro eram
+cavalheiros. O Zeferino replicava que não queria saber de cavalheiros; que
+queria o seu quartinho ou que se acabava ali o mundo. Que quem queria roubar
+que fosse para a Terra Negra.</p>
+
+<p>«A allusão era muito certeira e inconveniente. Estavam na roda dos
+cavalheiros alguns veteranos da antiga quadrilha do Faisca, na Terra Negra,
+muito desfalcada pelo degredo e pela forca.<span class="pn">{38}</span>
+Travou-se a lucta a sôco e páo; havia lampejos de navalhas que davam estalos
+nas mollas; o Tagarro de Monte Cordova tinha feito afocinhar o banqueiro sobre
+os dois galhos do baralho com um murro herculeo phenomenal. O taberneiro abriu
+a porta para escoar o turbilhão. Elles sahiram de roldão; e, quando entestaram
+com a treva exterior, quedaram-se cegos como n'um antro de caverna. Um, porém,
+dos que estavam, não sahiu; encostára-se ao mostrador com as mãos no baixo
+ventre, gritando que o mataram; e, vergando sobre os joelhos, n'um escabujar
+angustioso, cahiu de bruços, quando o taberneiro e o Tagarro o seguravam pelos
+sovacos. Era o Zeferino.</p>
+
+<p> </p>
+
+<p>«Quando, á meia noite, o <em>Alma-negra</em> entrava em casa pela porta do
+quintal, encontrou a mulher ainda de joelhos diante da estampa do Bom Jesus do
+Monte. Ao lado d'ella estavam duas filhas a rezar tambem, a tiritar,
+embrulhadas em uma manta esburacada, aquecendo as mãos com o bafo.</p>
+
+<p>«O Melro mandou deitar as filhas, e foi á loja contar á mulher, livida e
+tremula, como o Zeferino morreu sem elle pôr para isso prego nem estopa. Ella
+poz as mãos com transporte e disse que fôra milagre do Bom Jesus; que estivera
+trez horas de joelhos diante da sua divina imagem. O marido<span
+class="pn">{39}</span> objectava contra o milagre&mdash;que o compadre não lhe dava
+a casa, visto que não fôra elle quem vindimara o Zeferino; e a mulher&mdash;que
+levasse o demo a casa; que elles tinham vivido até então na choupana alugada e
+que o Bom Jesus os havia de ajudar.</p>
+
+<p>«Ao outro dia, o Joaquim Melro convenceu-se do milagre, quando o compadre,
+depois de lhe ouvir contar a morte do pedreiro, lhe disse:</p>
+
+<p>«&mdash;Emfim, você ganha a casa, compadre, porque matava Zéférino, se os outros
+não matam elle, heim?»<span class="pn">{40}</span></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h1><a name="SECTION00070000000000000000">VI</a> </h1>
+
+<p>É de Lisboa o grande romancista. Nasceu a 16 de março de 1826. Orphão aos
+dez annos de edade, foi transportado a Villa Real (Trás os Montes) d'onde
+passou ao Porto. Foi n'esta ultima cidade que elle se affirmou litterariamente,
+e no Porto ou a breve distancia tem vivido, salvo alguma ausencia
+limitadissima, a sua vida de combates e de triumphos.</p>
+
+<p>Hoje vive&mdash;ha uns vinte annos&mdash;na freguezia de S. Miguel de Seide, concelho
+de Villa Nova de Famalicão.</p>
+
+<p>S. Miguel de Seide vincula-se á historia litteraria portugueza do seculo
+XIX, por Camillo Castello Branco, como Valle de Lobos por Alexandre Herculano.
+Ermos sagrados e veneraveis!</p>
+
+<p> </p>
+
+<p>Não vale a pena mencionar distincções honorificas, desdenhosamente acceitas
+por Camillo. Citaremos apenas a distincção que elle recusou; registro de um
+castigo. É de 1862, na <em>Revolução de Setembro</em> de 19 de março d'aquelle
+anno e refere-se ao Instituto de Coimbra.</p>
+
+<p> </p>
+
+<p>As obras de Camillo Castello Branco, manuseadas por duas gerações, durante
+os ultimos quarenta<span class="pn">{41}</span> annos decorridos (tem a data de
+1847 o <em>Agostinho de Ceuta</em>) não figuram completas em algum catalogo
+publicado. Colligimos, todavia, os dados ao nosso alcance para a formação de
+mais completa lista bibliographica da obra do grande escriptor.</p>
+
+<p><em>Abençoadas lagrimas!</em>, drama em tres actos.</p>
+
+<p><em>Agostinho de Ceuta</em>, drama em quatro actos.</p>
+
+<p><em>Agulha em palheiro.</em></p>
+
+<p><em>Amor de perdição.</em></p>
+
+<p><em>Amor de salvação.</em></p>
+
+<p><em>Amores do diabo</em>, por Cazotte. Traducção.</p>
+
+<p><em>Anathema.</em></p>
+
+<p><em>Ao anoitecer da vida</em>, poesias.</p>
+
+<p><em>Annos de prosa.</em></p>
+
+<p><em>Esboço biographico de D. Antonio Alves Martins, bispo de Vizeu.</em></p>
+
+<p><em>Aspirações.</em></p>
+
+<p><em>O bem e o mal.</em></p>
+
+<p><em>No bom Jesus do Monte.</em></p>
+
+<p><em>Os brilhantes do brazileiro.</em></p>
+
+<p><em>A bruxa de Monte Cordova.</em></p>
+
+<p><em>Cancioneiro Alegre.</em></p>
+
+<p><em>Carlota Angela.</em></p>
+
+<p><em>O carrasco de Victor Hugo José Alves.</em></p>
+
+<p><em>Cavar em ruinas.</em></p>
+
+<p><em>A caveira da martyr.</em></p>
+
+<p><em>O clero e o Sr. Alexandre Herculano.</em></p>
+
+<p><em>Coisas espantosas.</em></p>
+
+<p><em>Coisas leves e pesadas.</em><span class="pn">{42}</span></p>
+
+<p><em>Condemnado</em>, drama em trez actos.</p>
+
+<p><em>Coração, cabeça e estomago.</em></p>
+
+<p><em>A Corja.</em></p>
+
+<p><em>Correspondencia epistolar entre Camillo Castello Branco e José Cardoso
+Vieira de Castro.</em></p>
+
+<p><em>Curso de literatura portugueza</em>, por Andrade Ferreira e C. C.
+Branco.</p>
+
+<p><em>A cruz</em>, semanario religioso.</p>
+
+<p><em>O demonio do ouro.</em></p>
+
+<p><em>Diccionario Universal de educação e ensino</em>, por Capagne: traducção.
+</p>
+
+<p><em>Divindade de Jesus e tradição apostolica</em>, com uma carta dirigida ao
+auctor pelo visconde de Azevedo.</p>
+
+<p><em>A doida do Candal.</em></p>
+
+<p><em>Doze casamentos felizes.</em></p>
+
+<p><em>Duas epocas da vida</em>, poesias. Incluindo o folheto <em>Hossana.</em>
+</p>
+
+<p><em>Duas horas de leitura.</em></p>
+
+<p><em>A engeitada</em>, romance.</p>
+
+<p><em>Esboços de apreciações litterarias.</em></p>
+
+<p><em>A espada de Alexandre. Córte profundo na questão do homem-mulher e
+mulher-homem, por um socio prendado de varias philharmonicas.</em></p>
+
+<p><em>Lagrimas abençoadas.</em></p>
+
+<p><em>O livro de consolação.</em></p>
+
+<p><em>O livro negro</em>, continuação dos <em>Mysterios de Lisboa</em>.</p>
+
+<p><em>Luta de gigantes.</em><span class="pn">{43}</span></p>
+
+<p><em>O Marquez de Torres Novas</em>, drama em cinco actos.</p>
+
+<p><em>Os martyres</em>, por Chateaubriand; traducção.</p>
+
+<p><em>Memorias do Carcere.</em></p>
+
+<p><em>Memorias de Fr. João de S. José de Queiroz, bispo do Grão Pará</em>, com
+uma introdução e muitas notas illustrativas.</p>
+
+<p><em>Memorias de Guilherme do Amaral.</em></p>
+
+<p><em>O Morgado de Fafe em Lisboa</em>, drama em dois actos.</p>
+
+<p><em>O Morgado de Fafe amoroso</em>, comedia em trez actos.</p>
+
+<p><em>Mosaico e silva de curiosidades historicas, litterarias e
+biographicas.</em></p>
+
+<p><em>A mulher fatal.</em></p>
+
+<p><em>Mysterios de Fafe.</em></p>
+
+<p><em>Mysterios de Lisboa.</em></p>
+
+<p><em>A neta do Arcediago.</em></p>
+
+<p><em>Noites de insomnia.</em></p>
+
+<p><em>Noites de Lamego.</em></p>
+
+<p><em>Novellas do Minho.</em></p>
+
+<p><em>O Olho de vidro.</em></p>
+
+<p><em>Espinhos e flores</em>, drama em tres actos.</p>
+
+<p><em>O esqueleto.</em></p>
+
+<p><em>Estrellas propicias.</em></p>
+
+<p><em>Estrellas funestas.</em></p>
+
+<p><em>Eusebio Macario.</em></p>
+
+<p><em>Fanny</em>, por Ernesto Feydeau, trad.</p>
+
+<p><em>A filha do Arcediago.</em></p>
+
+<p><em>A filha do Dr. Negro.</em><span class="pn">{44}</span></p>
+
+<p><em>A filha do regicida.</em></p>
+
+<p><em>A freira no subterraneo</em>, traducção.</p>
+
+<p><em>Gazeta litteraria do Porto.</em></p>
+
+<p><em>O genio do Christianismo</em>, de Chateaubriand; traducção.</p>
+
+<p><em>Historia de Gabriel Malagrida</em>, pelo P. Mony; traducção.</p>
+
+<p><em>O homem de brios.</em></p>
+
+<p><em>Horas de paz</em>, escritos religiosos.</p>
+
+<p><em>A immortalidade, a morte e a vida</em>, estudo ácerca do destino do
+homem por B. Puchesse, traduzido e com um prefacio.</p>
+
+<p><em>O inferno</em>, por Calet, traducção.</p>
+
+<p><em>Inspirações</em>, poesias.</p>
+
+<p><em>O judeu.</em></p>
+
+<p><em>Justiça</em>, drama em dois actos.</p>
+
+<p><em>Onde está a felicidade?</em></p>
+
+<p><em>Poesia ou dinheiro</em>, drama em dois actos.</p>
+
+<p><em>Poesias.</em></p>
+
+<p><em>Poesias e prosas ineditas de Fernão Rodrigues Lobo Soropita</em>, com
+uma prefação e notas.</p>
+
+<p><em>Purgatorio e Paraizo</em>, drama em trez actos.</p>
+
+<p><em>Quatro horas innocentes.</em></p>
+
+<p><em>O que fazem mulheres.</em></p>
+
+<p><em>A queda d'um anjo.</em></p>
+
+<p><em>O Regicida.</em></p>
+
+<p><em>Romance de um homem rico.</em></p>
+
+<p><em>Romance de um rapaz pobre</em>, por Octavio Feuillet, traducção.<span
+class="pn">{45}</span> </p>
+
+<p><em>O santo da montanha.</em></p>
+
+<p><em>O sangue.</em></p>
+
+<p><em>Scenas contemporaneas.</em></p>
+
+<p><em>Scenas da Foz. Solemnia verba. Ultima palavra da Sciencia.</em></p>
+
+<p><em>Scenas innocentes da comedia humana.</em></p>
+
+<p><em>O senhor do Paço de Ninães.</em></p>
+
+<p><em>A sereia.</em></p>
+
+<p><em>Theatro comico. A morgadinha de Val de Amores,</em> em um acto.
+<em>Entre a flauta e a viola</em>, entremez em um acto.</p>
+
+<p><em>As trez irmans.</em></p>
+
+<p><em>O ultimo acto</em>, drama em um acto.</p>
+
+<p><em>Um homem de brios.</em></p>
+
+<p><em>Um livro</em>, poesias.</p>
+
+<p><em>Vaidades irritadas e irritantes.</em></p>
+
+<p><em>Vida de D. Affonso VI.</em></p>
+
+<p><em>Vinte horas de liteira.</em></p>
+
+<p><em>Vingança.</em></p>
+
+<p><em>As virtudes antigas, ou a freira que fazia chagas e o frade que fazia
+reis.</em></p>
+
+<p><em>O visconde de Ouguella.</em></p>
+
+<p><em>Voltareis, ó Christo?</em></p>
+
+<p><em>Euzebio Macario.</em></p>
+
+<p><em>A Corja.</em></p>
+
+<p><em>O general Carlos Ribeiro.</em></p>
+
+<p><em>O Cancioneiro Alegre.</em></p>
+
+<p><em>Os Criticos do Cancioneiro Alegre.</em></p>
+
+<p><em>D. Luiz de Portugal.</em><span class="pn">{46}</span></p>
+
+<p><em>O vinho do Porto.</em></p>
+
+<p><em>Maria da Fonte.</em></p>
+
+<p><em>Eccos humoristicos do Minho.</em></p>
+
+<p><em>Serões de S. Miguel de Seide.</em></p>
+
+<p><em>Brazileira de Prazins.</em></p>
+
+<p><em>Bohemia do Espirito.</em></p>
+
+<p><em>Vulcões de Lama.</em></p>
+
+<p><em>Luiz de Camões&mdash;Carta de Guia.</em></p>
+
+<p><em>Vida de D. Affonso VI.</em><span class="pn">{47}</span></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h1><a name="SECTION00080000000000000000">VII</a> </h1>
+
+<p>Fez-se nos ultimos tempos cerrada noite de amarguras no espirito de Camillo
+Castello Branco. Os desgostos cruciantes que lhe surgiram da loucura de Jorge
+Camillo, seu filho, aggravaram-se com a enfermidade dolorosissima e pertinaz,
+que nos ultimos dois annos tem flagellado acerbamente a vida do illustre
+escriptor, e levado a consternação e a magoa a dentro dos corações amigos.</p>
+
+<p>Nestes ultimos mezes, após doze annos de ausencia, visitou Lisboa. A vinda
+do grande homem foi o acontecimento do dia. Acorreram a saudal-o os mais
+distinctos por seu saber, talentos e posição. A ideia de um tributo por parte
+do municipio de Lisboa ao seu filho mais illustre n'este seculo pareceu avocar
+por momentos o <em>senado</em> lisbonense das combinações resolutivas e
+salvadoras da sua politica. Passou breve o lampejo racional; não houve rua que
+fornecesse o cunhal para a inscripção d'aquelle grande nome. Estavam
+distribuidos todos os cunhaes, excepto ainda o das Bolas, pelos bolas
+contemporaneos, não esquecendo o <em>Diario de Noticias</em>, que o leitor pode
+ver entre as ruas do Norte e da Barroca, muito gratas ás musas nacionaes.<span
+class="pn">{48}</span> </p>
+
+<p>Regressou ao Minho, e lá vive o grande homem, na região que ficará celebre,
+mercê dos livros em que elle de preferencia a enquadrou com seus matizes e que
+elle escolheu para abrigo da sua gloria. Lá vive, longe das academias, longe do
+bulicio dos pequeninos e dos miseraveis, involto na lenda entre flammejante e
+sombria da sua lucta e do seu martyrio.</p>
+
+<p>Gloria do seu paiz, em quarenta annos de victorias, Camillo Castello Branco
+deixará na sua obra o monumento mais complexo e valioso da historia da nossa
+litteratura, da nossa lingua e das chronicas historicas, e ao mesmo passo o
+grande e immortal modelo da polemica, do humorismo, da elevação tragica, da
+simplicidade popular, modelo que fará o desespero&mdash;ai de nós!&mdash;d'aquelles a
+quem foi offerecido.</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<hr style="width: 30%;">
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<div class="rodape">
+<p><a name="foot258" href="#tex2html1"><sup>[1]</sup></a> <em>A Mulher
+Fatal</em>, introducção. Camillo Castello Branco.</p>
+
+<p><a name="foot259" href="#tex2html2"><sup>[2]</sup></a> Do <em>Amor de
+salvação</em>.</p>
+
+<p><a name="foot260" href="#tex2html3"><sup>[3]</sup></a> Veja-se COMBATES e
+CRITICAS, vol. I, cap. do <small>REALISMO NA ARTE</small>.</p>
+</div>
+</div>
+<p>&nbsp;</p>
+
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<hr>
+
+<p style="text-align: center; font-size: 0.8em;">Typ. G<small>UILLARD, </small>A<small>ILLAUD</small> &amp; Cª.&mdash;1889.</p>
+
+
+
+
+
+
+
+
+
+<pre>
+
+
+
+
+
+End of Project Gutenberg's Camillo Castello Branco, by Antonio da Silva Pinto
+
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+works. See paragraph 1.E below.
+
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+Volunteers and financial support to provide volunteers with the
+assistance they need are critical to reaching Project Gutenberg-tm's
+goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
+remain freely available for generations to come. In 2001, the Project
+Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
+and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
+To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
+and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
+and the Foundation web page at https://www.pglaf.org.
+
+
+Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive
+Foundation
+
+The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
+501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
+state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
+Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification
+number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at
+https://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
+permitted by U.S. federal laws and your state's laws.
+
+The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
+Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
+throughout numerous locations. Its business office is located at
+809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
+business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact
+information can be found at the Foundation's web site and official
+page at https://pglaf.org
+
+For additional contact information:
+ Dr. Gregory B. Newby
+ Chief Executive and Director
+ gbnewby@pglaf.org
+
+
+Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation
+
+Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
+spread public support and donations to carry out its mission of
+increasing the number of public domain and licensed works that can be
+freely distributed in machine readable form accessible by the widest
+array of equipment including outdated equipment. Many small donations
+($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
+status with the IRS.
+
+The Foundation is committed to complying with the laws regulating
+charities and charitable donations in all 50 states of the United
+States. Compliance requirements are not uniform and it takes a
+considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
+with these requirements. We do not solicit donations in locations
+where we have not received written confirmation of compliance. To
+SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
+particular state visit https://pglaf.org
+
+While we cannot and do not solicit contributions from states where we
+have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
+against accepting unsolicited donations from donors in such states who
+approach us with offers to donate.
+
+International donations are gratefully accepted, but we cannot make
+any statements concerning tax treatment of donations received from
+outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff.
+
+Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
+methods and addresses. Donations are accepted in a number of other
+ways including including checks, online payments and credit card
+donations. To donate, please visit: https://pglaf.org/donate
+
+
+Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic
+works.
+
+Professor Michael S. Hart was the originator of the Project Gutenberg-tm
+concept of a library of electronic works that could be freely shared
+with anyone. For thirty years, he produced and distributed Project
+Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.
+
+
+Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
+editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
+unless a copyright notice is included. Thus, we do not necessarily
+keep eBooks in compliance with any particular paper edition.
+
+
+Most people start at our Web site which has the main PG search facility:
+
+ https://www.gutenberg.org
+
+This Web site includes information about Project Gutenberg-tm,
+including how to make donations to the Project Gutenberg Literary
+Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to
+subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks.
+
+
+</pre>
+
+</body>
+</html>