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+Project Gutenberg's Camillo Castello Branco, by Antonio da Silva Pinto
+
+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.org
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+
+Title: Camillo Castello Branco
+
+Author: Antonio da Silva Pinto
+
+Release Date: February 22, 2010 [EBook #31346]
+
+Language: Portuguese
+
+Character set encoding: ISO-8859-1
+
+*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK CAMILLO CASTELLO BRANCO ***
+
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+
+Produced by Pedro Saborano (produced from scanned images
+of public domain material from Google Book Search)
+
+
+
+
+
+
+ OS CONTEMPORANEOS
+
+ CAMILLO CASTELLO BRANCO
+
+ POR
+
+ SILVA PINTO
+
+
+ 200 Reis
+
+
+ GUILLARD, AILLAUD & C.ia, LIVREIROS-EDITORES
+ 47, Rua de S.t André-des-Arts
+ PARIS
+ Filial: 28, Rua Ivens, 1.º
+ LISBOA
+ 1889
+
+
+
+
+ CAMILLO CASTELLO BRANCO
+
+
+
+
+ OS CONTEMPORANEOS
+
+ CAMILLO CASTELLO BRANCO
+
+ POR
+
+ SILVA PINTO
+
+
+ 200 Reis
+
+
+ GUILLARD, AILLAUD & C.ia, LIVREIROS-EDITORES
+ 47, Rua de S.t André-des-Arts
+ PARIS
+ Filial: 28, Rua Ivens, 1.º
+ LISBOA
+ 1889
+
+
+
+
+CAMILLO CASTELLO BRANCO
+
+Quando se interroga um leitor portuguez sobre a individualidade
+litteraria de Camillo Castello Branco, o interrogado se é homem affirma
+a recordação dos risos, se é mulher a reminiscencia das lagrimas; e
+d'este duplo tributo, da razão e do sentimento, resalta a nitida
+comprehensão do homem de genio que ha trinta annos, dia a dia, armado da
+observação e da intuição, tem erguido o mais poderoso e alevantado
+monumento de que ha registro em lingua portugueza.
+
+
+
+
+I
+
+Na dolorosa epopêa do genio discutido e calumniado abre uma excepção,
+que nos consola, este grande nome de Camillo Castello Branco. Os grandes
+homens insultados pela mediocridade confiaram sempre do futuro o
+glorioso desaggravo; Camillo encarregou-se da desforra; e os seus
+insultadores são _homens mortos_ para a imputação, desde a hora em que o
+gigante os discutiu,--dado que não vinguem purificar-se no
+arrependimento e honrosamente confessal-o.
+
+Eu insisto ainda agora na expiação que me rehabilita: se ha quem muito
+deva em lição, mais que muito salutar, ao mestre de todos nós, sou eu,
+que lhe aggredi o trabalho colossal, sem resvalar ao insulto ignobil ao
+_homem_ que mais tarde me foi mestre e ao _lar_ que me recebeu amigo...
+
+Pude assistir, hospede, n'esse lar, á formação do ultimo livro de
+Camillo. Pede-me a consciencia, porventura illudida, um juizo favoravel
+á consciencia dos insultadores do livro e do seu auctor;--eu creio que
+os sentimentos de simples equidade, avocados pela simplicissima
+vergonha, dariam rebate á confissão do erro no espirito d'esses
+transviados, se n'esses espiritos pudesse transluzir um clarão
+tenuissimo d'aquelle viver de sacras amarguras que tem o lenitivo no
+trabalho, ou que desabafa em palavras de amigavel incitamento quando a
+provocação dos insensatos o não distrahe para as violencias do correctivo.
+
+Afigure-se ao leitor de boa fé e de claro entendimento que a sorte, raro
+propicia a entendimentos honrados, o levou em hora de paz ao remanso de
+S. Miguel de Seide. É hospede na hospitaleira morada. Alta manhã, subiu
+ao gabinete de trabalho do mestre e achou-o solitario. Sahiu da officina
+para o lugar do descanço: sobre o leito, presa dos soffrimentos physicos
+de cada hora, que os soffrimentos moraes vingam suffocar a espaços, o
+grande homem descança no trabalho. Não ha que hesitar na interrupção:
+entrai: lá está o sorriso socratico do mestre a receber-vos, carinhoso.
+Ahi tendes a _féra_ que se propõem acossar uns taes que mal espulgam a
+insignificancia nas horas ferozes em que o pulguedo da vaidade parva
+lhes dá rebate ás furias: ahi tendes o _homem feroz_ que esses
+pregoeiros de especiarias podres apontam como o algoz de suas industrias
+d'elles. Não hesiteis na expansão do vosso crêr: elle--_o verdugo_--tem
+indulgencia e conselho para todas as ignorancias; tem o silencio de
+favor para as vaidades que o não insultam; o que elle não tem é a
+resignação criminosa da bondade exaggerada, quando os pygmeus chafurdam
+no pantano fetidissimo da injuria soez, no intuito de lhe salpicarem a
+formidavel sombra; o que elle não tem é a indulgencia da exaggerada
+caridade quando suspeita que o aggressor ingenuo encobre o vulto de
+villão cobarde que se agacha na sombra, menos escura que a alma do
+miseravel.
+
+Então, n'esses momentos em que os profanos imaginam, á luz vermelha da
+represalia do mestre, uma irritação feroz, o grande homem converte o
+insultador em titere, prende-lhe o cordel; puxa: as cambalhotas
+succedem-se; o publico ri perdidamente, ou sente fremitos de espanto: o
+insolente morde a terra, e, quando o auditorio espera a punhalada final
+vibrada pelo gigante, o gigante applica no esmurraçado nariz do
+iconoclasta um misericordioso piparote, e ri.
+
+Riso que seria crudelissimo se a bondade da suprema força o não
+temperasse...
+
+Ás vezes, quando o feroz inverno da aldêa me fornecia, benevolo, o
+pretexto para conservar-me á beira de Camillo, o mestre concedia-me a
+leitura do seu trabalho, e eu lia distrahido: é que eu pensava, em
+quanto lia, nos esforços de uns miseros parturientes que atrôam os ares
+com os seus gemidos, quando cerradas noites dolorosas de meditação lhes
+arrancam dez paginas de _original_, morto ao nascer,--uns reformadores
+sarrafaçaes que põem a tratos de emendas os compositores martyres,
+quando não preferem--no furor de producção--pôr a tratos a critica
+misericordiosa que lhes corrige, em que peze a safanões ingratos, as
+demasias de desaforados absurdos. Confrontava, e confronto a
+espontaneidade uberrima e a ardentissima e vigorosa seiva d'aquelle
+espirito de luz com a escuridade interior dos eunucos que o doestam lá
+da acolheita das suas tropelias. É assim que o mister do critico se
+distrahe, a espaços, avocado pelo dever de amargas retaliações.
+
+A _Corja_, elaborada ao correr da penna pelo mestre, é um novo documento
+para o processo da mixordia litteraria. Demonstra-se, uma vez ainda, que
+o esplendor da _obra nova_ é uma illusão d'optica, fascinadora para o
+gentio zanaga, se os arrebiques não occultam o oiro de lei da concepção
+genial, ou da observação profunda, de par com os conhecimentos da lingua
+em que se escreve.
+
+E raro occultam esses thesouros.
+
+O que por ahi vemos, é a saudação aos arrebiques; e, justiça inteira, se
+á pobre chronica jornalistica não é vedado o ingresso nas sociedades de
+_geographos_ e de _escriptores_, a crassissima ignorancia veda-lhe o uso
+da palavra em assumptos que demandam estudo. Que ha a esperar em
+affirmações de tal lote por parte d'esses eternos infantes prodigiosos
+que trocam por bilhetes de theatro a sua triste collaboração nas gazetas
+e os seus direitos de litterato no _Martinho_ ou na associação risonha?
+
+Eu não posso reproduzir-me no aquilatar da moderna escóla (?), dos
+modernos artistas, dos modernissimos abortos e das deturpações que o
+trabalho de boa fé tem obtido dos censores inconscientes e dos
+facciosos instrumentos involuntarios de uns tetrarchas burlescos da
+evolução deturpadissima. Mas que primores de sanissima linguagem, para
+lição crudelissima dos abortos e para nossa lição solicitada, não
+offerece o novo livro de Camillo! Depois, como a espaços, transparece,
+no decorrer da epopêa de miserias, o moralista mordacissimo, e como
+n'essa mordacidade transluz um raio de suprema piedade que sóem
+experimentar e conceder os espiritos de lei, firmados na base dupla do
+estudo e da experiencia dolorosa!
+
+Eu pasmo--hoje--quando um espirito culto e de serios precedentes atira a
+luva, de envolta com a injuria, ao invencivel athleta de mil combates.
+Comprehendo as aggressões de uns gatunos que pedem a um puxão d'orelhas
+a _celebridade_, uns pelitrapos de botiquim aceites na Associação dos
+escriptores portuguezes (_sic_): mas, que uma entidade pensante, no
+usufructo da imputação desça á camaradagem com a suja horda--é o que não
+se póde comprehender sem derivar, para o triste caso, da allucinação
+partidaria, tanto monta--do mais triste facciosismo.
+
+Elle, o flagellador da _Corja_, não é apenas o erudito e paciente
+investigador da nossa historia, o derradeiro e mais illustre mestre da
+lingua portugueza, «o gigante que fixou em livros immorredouros toda a
+comedia portugueza contemporanea» (palavras do snr. A. da Conceição no
+seu primeiro artigo sobre _A Corja_); mal vae aos tristes aggressores
+que o consideram immobilisado nos estudos de ha vinte annos: com a
+autoridade de quem assim levianamente creu e mais tarde corrigiu os seus
+erros sobre Camillo _e sobre outros_, eu poderia asseverar que o grande
+escriptor acompanha no seu retiro da aldêa todo o movimento litterario e
+scientifico do periodo contemporaneo,--poderia asseveral-o, se não visse
+bater em retirada, após tres dias de _lucta_, a aggressão moderna ao
+supposto immobilisado... Mas não será um crime egual ao da aggressão
+esta apparencia de defeza?
+
+De homens como Camillo é uso dizer-se: «Está ainda mui perto de nós para
+a justiça; o futuro ha de fazer-lh'a». Quer dizer:--Estabeleçamos como
+norma o insulto aos mestres, durante a vida; mais tarde, depois da sua
+morte, nos servirão seus nomes para injuriar os vivos! Oh! espiritos
+sublimados dos homens d'hoje, reformadores do existente, destruidores da
+torpeza legalisada! se não applicasseis todo o marmore disponivel á
+construcção das vossas proprias estatuas antecipadas, se não
+empregasseis o vosso esforço em tentativas de demolição das glorias
+justificadas, se não desseis guarida aos insignificantes repletos de
+odio e aos parlapatões repletos de charlatanismo, se abrigasseis o
+respeito ao genio aureolado pelos cabellos brancos e pelo saber,--não
+dariamos o espectaculo permanente de contendas deploraveis entre os
+apregoados voluntarios do bom senso e da justiça.
+
+
+II
+
+O Movimento do Romantismo em Portugal affirma-se n'uma corrente de
+banalidades que dão em litteratura a nota da suprema inepcia. Mas todos
+os crimes e todas as faltas, melhor todas as excrescencias d'essa
+evolução de sentimentos se resgatam e afundam no esquecimento
+misericordioso, se acertamos em ver a toda a luz, a obra colossal do
+homem de genio que entre nós consagrou o romantismo e que o mantem,
+quarenta annos volvidos, nos dominios do romance portuguez, em plena
+força indestructivel e em plena gloria incontestavel.
+
+Vieram, com grandes esperanças, algumas tentativas de implantação de
+novas formulas e de processos novos. Não escaceou o talento, menos ainda
+a observação, com todo o brilhantismo expositor. Mas faltou a
+paixão--desculpe-se a velha definição do facto eterno e insubstituivel.
+Foi pela paixão que triumpharam os raros e grandes triumphadores da
+geração d'hontem. Surgem os excessos de analyse, as subtilezas, as
+minudencias, a cathedra para os sentimentos, mas a inferioridade do
+effeito é manifesta. O successo relativo do romance modernissimo está
+nas bellezas do descriptivo e nos pormenores liberrimos até aos dominios
+da pornographia. Mas é raro que dos detalhes saia o grande traço
+emocional, a forte scena dramatica que convulsiona, a grande synthese
+psychologica que se impõe e que illumina como uma revelação.
+
+
+Um lucido e poderoso espirito que nós perdemos e choramos e cujo nome
+deixaremos vinculado a este singelo estudo--o poeta Cesario
+Verde--apresentava-nos um dia diversas definições muito rapidas e muito
+seguras de varios escriptores portuguezes. Tendo de referir-se a Camillo
+Castello Branco, apresentou a seguinte definição--«é o mais litterato de
+todos»--completo: é no terreno do estudo severo a erudição benedictina
+apoiada no bom-senso profundo; é o _sacerdos magnus_ nos dominios da
+lingua portugueza; é o humorista Sterne combinado com o humorista Henri
+Heine, e das amarguras d'este teem muito as suas amarguras. A nota
+plangente que faz estremecer e sossobrar os espiritos na desolação ou
+que os redime pelas lagrimas, fere-a o grande escriptor com a
+sinceridade do momento--que é toda a força da paixão. Em hora de
+zombaria serena assimila os processos novos e desmascara-lhes a
+impotencia e a inferioridade; logo, corrigindo a ironia, dá-nos em duas
+paginas que adiante serão transcriptas a scena mais artisticamente
+executada da galeria do romance portuguez.
+
+Teremos ensejo de fallar d'elle como polemista. Vejamos no entanto a
+philosophia do seu riso.
+
+
+III[1]
+
+«Não conto commigo para destramente me desempenhar da empreza litteraria
+em que se faz mister mais mocidade de coração que lettras bem ajuizadas.
+
+«É materia,--se se pode com tal nome invilecer o que ha ahi mais subtil
+e espiritual--é materia, isto d'amores, para inspirar sérias
+considerações a homem dos meus annos.
+
+«E se os amores vêm d'azas quebradas e involtas nas escomilhas do lucto,
+se em vez de grinaldas de rozas, cingem cypreste; se lhes alvejam a
+tiracolo caveiras em vez de aljavas, e lá dentro estiletes hervados em
+vez de flechas d'ouro--emfim amores negros, amores abominaveis,--maior
+dever me corre de ser sizudo, elegiaco e espantador de paixões.
+
+«Conheço-me. Dei o primeiro passo na senda da sabedoria, segundo Cicero:
+_se ipsum nosce_; cavei com utilidade no preceito: _Nosce te ipsum_;
+sabia felizmente um pouco de latim para me intender mais depressa.
+
+«A minha raiva ao planeta em que estou é acerba mas fica muito aquem
+da misanthropia. Em rapaz fiz de Heraclito, quando não conhecia melhor
+do que hoje este grego que aforou as lagrimas com honras de eschola
+philosophica. De tal philosopho, coisa que sirva, só temos o boato de
+que chorava e declamava em publico. Hoje em dia, um homem com esta
+sensibilidade era levado ao commissario de policia.
+
+«Por mim e pelos meus visinhos tambem eu chorei.
+
+«Eis que, desce a geada de muitos invernos a nevar-me, o frio a filtrar,
+a temperatura dos liquidos a descer, o sangue a coagular-se, e logo o
+cristallisar das lagrimas no coração como as concreções vitreas d'uma
+caverna.
+
+«Principiei a rir ás vezes.
+
+«Rir é contrahir-se o diaphragma e os musculos faciaes, operação
+materialissima, muscular, carnal, e que nenhum outro animal exercita.
+
+«Claro é que o rir é attributo de ser racional.
+
+«A par e passo que a razão se allumia e fecunda, as contracções
+musculares amiudam-se. Raciocinar é rir. O acume da sabedoria humana é
+ver os reversos das tragedias sociaes; lá está por força a comedia. A
+ignorancia que esteriliza e mirra e incalvece é a que só deixa ver uma
+face da mortalha.
+
+«Eu não cheguei ainda aos pinaculos da sabedoria.
+
+«Vou subindo.
+
+«Subir é ir um homem desatando os nós que atam a dôr estranha á sua; é
+ir tirando ás coizas tristes a sua essencia lacrimal, por feição que o
+_sunt lacrimæ rerum_ de Virgilio não se perceba.
+
+«O rir, porem, do animal philosopho não é a casquinada saloia do bipede
+implume de Platão que vaga á toa e á tuna, sem casta de philosophia
+nenhuma.
+
+«Ha ahi um gargalhar que a sciencia denomina _spasmo cynico_, ou de cão,
+um exhibir das arcadas dentarias até aos condylos. É o caracter bestial
+da canalha. É o que os inglezes chamão rir de cavallo--_horse laugh_.
+
+«Ha tambem o rir chamado _sardonico_, o rir d'uns que comeram o fabuloso
+rainunculo da Sardenha. Ora entre nós os que d'esta arte destampam
+gargalhadas não comeram rainunculos, é gente imbuchada de feijão branco
+e orelha de cevado. Essa hedionda deformidade caracterisa estupidez
+quasi sempre malevola; corresponde ao espojar-se, se o rir é meramente
+bruto e ao escoucear, quando é bruto e mau.
+
+«Não riram assim Democrito, Aristophanes, Esopo, Petronio, Aretino, Gil
+Vicente, Erasmo, Sterne, Rabelais, Charron, Molière, Voltaire,
+Tolentino, Byron, Heine.
+
+«D'estes, alguns, senão todos, riram dos homens e dos Deuses.
+
+«E o ultimo nome que cerra a phalange consubstancia todas as calamidades
+comprehensiveis, desde o jazer do paralytico cego, até á theophobia, o
+horror de Deus. E, assim mesmo, como elle adivinhou o sorrir de Satan, a
+despenhar-se das regiões da luz, onde o _Summo-Bem_ permittiu que se
+gerassem Anjos soberbos! Vejam a superrima vingança d'aquelle Prometheu
+que recurva os dedos nos fusis da gargalheira, que o amarra oito annos a
+um leito, e do estridor dos ferros sacudidos, medula o sinistro arpejo
+das suas gargalhadas sarcasticas! Como Lucifer invejaria o gentilissimo
+demonio que retransido das agonias da nevrose, todo trevas dentro e
+fora, creava a paradoxal harmonia do gemido com a risada.
+
+«É preciso ter chorado para immortalisar o riso no livro, na estrophe,
+na sentença, na palavra; o riso que excava, mina e alue theogonias; o
+riso que desfaz religiões, cujo berço boiou embalado sobre ondas de sangue;
+
+«O riso que abate a abobada do templo sobre as ossadas dos martyres;
+
+«O riso que revolve as tormentas dos imperios, e abysma thronos, e
+espuma espadanas de lama, lama com que as gerações erigem os seus marcos
+millenarios, as suas chronologias gloriosas.
+
+
+«Oh! mas que susto não faria aos proceres que regem a republica e
+aos sacerdotes que regem almas, o rir do demagogo e do atheu, se a cada
+chasco d'uns taes ruissem thronos e altares?
+
+«Nada de medo em Portugal.
+
+«Aqui o dardo do sarcasmo alcança apenas o scopo onde a calumnia mira.
+As gargalhadas, como aqui as bascolejam estas maxilas alvares dos
+goliardos professos, vingam mariar a honra d'um homem, desluzindo-lhe o
+passado, innoitando-lhe o futuro, infernando-lhe o sanctuario da
+familia. Isto é o mais. Receal-as todavia, como attentatorias das
+instituições civis ou religiosas, seria dar-lhes a honra de
+ridiculisarem quem as teme.
+
+«Aqui não ha esgrima de facecia que entre dois contendores decida um
+pleito util. Dois homens que se medem e floreteam a remoques são dois
+fundibularios que se apedrejam.
+
+«Ninguem se lembrou de inscrever algum dos nossos satyricos na pleiade
+dos que, rindo, castigaram. O espirito portuguez nunca espantou ninguem.
+A bruteza carniceira, sim. Assevera-o o douto e pio bispo Amador Arrais:
+«Espanta-se o mundo e tem inveja á nossa ferocidade.» Isto escreveu-se,
+de boa fé, no seculo XVII entre a inquisição e a pirataria portugueza no
+Oriente.
+
+«Quando Rabelais e Montaigne forjavam alavancas para Voltaire--o ridente
+que transfigurou a Europa--nós queimavamos homens, em cujas frontes
+lampejassem reflexos de João de Leide ou de Petrus Ramus. Quando, em
+França, rumorejavam os sorrisos prenuncios do terramoto social, aqui
+ouvia-se o mugir subterreo das masmorras d'um cruelissimo verdugo, que
+disputava á inquisição trevas e supplicios para centralisar a ferocia do
+poder em si, e esteiar o throno nos caibros da forca. Para o riso, que
+assombrava o dogma, acendia-se a fogueira; para o que assombrava a
+realeza, arvoravam-se os patibulos de Belem.
+
+«D'ahi procedeu que portuguezes ainda teem n'alma crepusculos d'aquella
+grande noite. Não sabemos rir com «espirito»; apenas gargalhamos com os
+queixos.
+
+«Sem embargo, implantou-se entre nós uma coisa creada pontualmente para
+nós. Chama-se a «chalaça», que já deu uma filha estupida como sua mãe,
+chamada a «laracha».
+
+«Mãe e filha vivem abarregadas com uns chanceadores lettrados da indole
+dos «eternos tolos» de Tertulliano.
+
+
+«Aos quaes peço indulgencia, se a merecem as tortuosidades por onde me
+transviei, degenerando d'aquella derreada prosa com que abri esta coisa
+alabyrintada.
+
+«Era meu proposito dizer espalmadamente que, ha vinte annos, comecei a
+ver as duas faces dos lances tristes: uma que intende com as glandulas
+lacrimaes, outra com o diaphragma. Primeiramente, se não choro,
+condôo-me; depois, esgaravatando na raiz das dores humanas, encontro ahi
+ou sedimento de perversidade ou ridicularias miserabilissimas. Então é o
+rir. E, afim de que os padecentes me desculpem, rio primeiro de mim.
+
+«D'ahi se causou que os meus livros, entre muitos defeitos, realçam em
+um que tem ferido a benevolencia da critica: e é que não conservo, sem
+intercadencias desvanecidamente faceciosas, uma situação plangente, e
+amarguro com o acerbo da ironia a dulcidão das lagrimas.
+
+«É justo o reparo.
+
+«E n'este livro me quer parecer que tal defeito subirá de ponto; porque
+vou intender em tragedias amorosas, n'esta edade de quarenta e tres
+annos feitos, velhice em que nenhum escriptor sincero, obediente a
+Horacio, deu aos seus leitores o exemplo das lagrimas. _Si vis me
+flere_, etc.
+
+«D. Francisco Manuel de Mello, em annos sediços, escreveu uma
+_Epanaphora amorosa_. Succede, por isso, ao estremado estylista que faz
+rir a gente quando os seus personagens choram. É o providencial castigo
+de quem anda, fóra de sasão, á cata de flores, ou intenta com myrradas
+perpetuas dar fragrancia de tomilhos ao livro que resumbra o acre
+enjoativo do bolor.
+
+«E d'isto me pesa; que este livro abrangerá um tristissimo caso que me
+fez invelhecer annos na hora em que o vi. Que profanação, se o riso
+me antepozer os fantasmas irritados das almas insepultas!
+
+
+«Creio que, ao fechar d'algumas sepulturas, se abrem livros de
+proveitoso doutrinamento ao de e cima d'ellas.
+
+«Mas quem procura ahi fontes de vida?
+
+«Quem se demora a ver a ladeira por onde resvalou á leiva humida um
+mancebo com o coração ainda a queimar-lhe a mortalha?
+
+«Por isso as historias dos mortos se escrevem, e este livro se faz.
+
+«É, todavia, inutil.
+
+«A mocidade não lê d'isto para aprender. Atira-se á voragem e morre--á
+voragem, onde o menos que se perde é o corpo.
+
+«O coração não se afoga debaixo da pedra onde as cinzas d'outros se
+desfazem. Cada qual quer sentir, em pessoa, o desfibrar-se-lhe o coração
+fio a fio, o esvasear-se-lhe de piedade, lagrima a lagrima.
+
+«Depois, ao fogo das volupias infernaes, d'essa massa informe faz-se o
+pragal, a bruteza d'uma coisa que dá um som asperrimo de tôdo petrificado.
+
+«Seja assim. Eu assim fui. Todos os que eu vi morrer assim foram.»
+
+
+IV
+
+Oiçamos agora as vibrações da dôr e da saudade d'este colosso, que seria
+o descendente directo de Heine, se não possuisse a envergadura d'um
+independente:
+
+«No principio d'este anno de 1864 sahi de Ruivães, onde por espaço de
+oito dias me escondi á minha estrella funesta--a vigilantissima
+desgraça, que eu ia esquecendo. No termo d'este prazo, estranhei o
+socego das minhas noites, faltou-me a mão do demonio que me arregaçava
+com dedos de fogo as palpebras quebrantadas do somno, e fui á procura
+d'elle.
+
+«Deixei o meu amigo na cumiada do outeiro, visinho da casa, com sua
+esposa e filhos. As ultimas palavras d'elle foram: «_quando tiveres o
+livro escripto, deixa-me gozar a não vulgar satisfacão de me ver
+personagem e heroe d'um romance, que me promette uma immortalidade..._»
+
+--De quinze dias--interrompi eu.
+
+«Não longe da obscura paragem de Affonso de Teive, á margem do córrego
+chamado Péle, riacho que, pela primeira vez, é revelado ao mundo em
+letra redonda, assentei eu a minha tenda nomada. A minha tenda são uns
+vinte volumes, um tinteiro de ferro e um cabo de penna de osso, que
+me deram n'outro ponto do mundo, onde ha quatro annos assentára tambem a
+minha tenda,--ponto do mundo que por um singular acaso implicava ao meu
+sestro vagabundo: era no anno do Senhor de 1860, nos carceres da Relação
+do Porto, o menos conveniente dos paradeiros para homem de gostos
+impermanentes em objecto de aposentadoria. Isto, sem embargo, não
+impedia que esta minha tão querida penna, tão amiga confidente
+d'aquellas trezentas e oitenta noites--de janeiro todas, que lá a dentro
+dos congelados firmamentos de pedra reina perpetuo inverno, e giam as
+abobadas, não sei se lagrimas, se sangue, se agua represada nos poros do
+granito,--não impedia, vinha eu dizendo, que a minha penna, com o seu
+incançavel fremir sobre o papel, me aligeirasse as noites, e aos assomos
+da alvorada me convidasse para a banca do trabalho, que foi o meu altar
+de graças ao Senhor, e o confessionario onde abri minha alma ao
+perscrutar do anjo providencial que me dava a uncção dos athletas e dos
+grandes desgraçados, para mais affrontosos e excruciadores supplicios.
+
+«Os meus vinte volumes e o meu tinteiro de ferro estão hoje sob o tecto
+gasalhoso d'uma alma que eu n'outras eras encontrei na minha. Não sei ha
+que seculos isto foi, nem que congerie de abysmos nos separam para
+sempre. Parei aqui, porque ainda aqui, a tempos, se me figura rediviva a
+imagem do passado, ainda aquella alma se me hospeda no coração em
+instantes de sonhos do céo, ainda a pedra tumular das affeições cahidas
+á voragem infernal do desengano, está pendida sobre a derradeira: que a
+saudade é ainda um affecto, um excelso amor, o melhor amor e o mais
+incorruptivel que o passado nos herda.
+
+«A casa, onde vivo, rodeiam-na pinhaes gementes, que sob qualquer lufada
+desferem suas harpas. Este incessante soido é a linguagem da noite que
+me falla: parece-me que é voz d'além-mundo, um como borborinho que
+referve longe ás portas da eternidade. Se eu não amasse de preferencia o
+socego do tumulo, amaria o rumor d'estas arvores, o murmurio do córrego
+onde vou cada tarde vêr a folhinha sêcca derivar na onda limpida; amaria
+o pobre presbyterio, que ha trezentos annos acolhe em seu seio de pedra
+bruta as gerações pacificas, ditosas, e incultas d'estes selvagens
+felizes que tão illuminadamente amaram e serviram o seu Creador. Amaria
+tudo; mas amo muito mais a morte.
+
+«Aqui, se Deus se amercear de mim, embargando o passo ao anjo
+exterminador, que continuo me assalteia os aditos do meu eden de quinze
+dias, aqui escreverei, com quanta fidelidade a memoria me suggerir, a
+narrativa que Affonso de Teive me fez.
+
+«Seis mezes ha que se fez noite no meu espirito. Por arrebatados impetos
+de quem quer furtar-se ás garras de um imaginario dragão, tenho fugido
+para defronte do meu tinteiro de ferro, e avocado as graciosas
+imagens, filhas do céo, que, nos dias da mocidade fremente de más
+paixões, me refrigeravam a fronte, e disputavam ao encanto do mal,
+psalmeando-me o hymno de amor ao trabalho. O perdimento d'esse amor foi
+a suprema provação, a forja ardentissima em que minha alma foi lançada á
+voracidade d'um fogo depurante. Mas, no interior, por tudo em que
+sombreava a negrura do coração, eram tudo trevas, frio, lethargia,
+esquecimento.
+
+«Não sei de que futuro abril do meu porvir me veiu esta manhã um bafejo
+aromatico de flôres, umas ondulações de luz, que me pareciam as da minha
+juventude. Tudo me visitou como em mãos do fugace archanjo do
+contentamento. Passou o nuncio mysterioso, passou depressa, mas o meu
+espirito ergueu-se alvoroçado a saudar o sol de Deus, do Deus immenso
+que na immensidade dos seus mundos ainda guardará para mim um quinhão de
+alegrias parcas e modestas, as que unicamente podem dar consciencia
+repousada, prelibações de bemaventurança, e honrada alliança com os homens.
+
+«Penso que estou escrevendo as tuas palavras, ó meu amigo, redimido a
+lagrimas, a ultrages e a desapego do mundo. O clarão, que hoje alumiou a
+minha alvorada, seria porventura um reflexo das tuas alegrias. Ha dias
+me disseste:
+
+«Sabes tu o que é ter um Deus, que nos escuta, que nos reprova, que
+nos louva, que nos povôa o espaço onde a alma insaciavel do homem
+encontra um vazio horrendo, uma respiração afflictiva?» Querias tu
+dizer-me que orasse? A ti o confesso em grandes enchentes de consolação,
+e ao mundo o confessarei sem o impio rubor dos miseraveis que perderiam
+sua alma antes que a irreligiosidade os escarnecesse: orei, meu amigo;
+porque, n'um dos mais apertados trances de tua vida, quando m'o acabavas
+de contar, interrompi o teu silencio, perguntando:
+
+«--E que fizeste depois?
+
+«E tu respondeste-me:
+
+«--Depois, OREI[2].»
+
+
+V
+
+Quando o CRIME DO PADRE AMARO e o PRIMO BAZILIO de Eça de Queiroz
+estalaram como gritos de guerra nos dominios das lettras portuguezas,
+fez-se á volta do recem-chegado um clamor de admiração, que, para ser
+justo, só precisava de ser consciente. Quem isto escreve applaudiu e deu
+a razão do applauso. O romancista felicitou o critico pela comprehensão
+do trabalho e dos intuitos. Estes processos desusados tiram á critica a
+feição _protectora_ e fixam a independencia da arte no sentido elevado e
+puro da palavra _independencia_[3].
+
+Mas de par com as saudações _criticadas_ surgiram as acclamações
+insensatas da turba multa e a exploração perfida do _successo_ do
+romancista.
+
+A perfidia consistia em jogar os livros de Eça de Queiroz como uma
+catapulta contra a obra de Camillo Castello Branco. Provocado o velho
+leão, não moribundo por mal dos aggressores, sahiu a terreno--zombando.
+O _Euzebio Macario_ e a _Corja_ são tiros certeiros contra a matulagem;
+não prejudicam nem visam a prejudicar os processos novos dos mestres
+da ultima geração; mas põem a nota de bom senso na conta do que se
+derimia entre a velhacaria e a ignorancia e restabelecem a situação no
+seu terreno sob o ponto de vista da boa critica.
+
+Mas fora dos dois livros de ironia buscaremos specimen de soberba
+execução artistica, alheia aos antigos processos do grande romancista. É
+do livro _A Brazileira de Prazins_. A galeria do romance portuguez não
+apresenta quadro mais vigoroso, nem mais surprehendente colorido
+tragico, com todas as _nuances_ de uma observação que se evade á fadiga
+pelos primores incomparaveis dos seus moldes.
+
+
+«O Melro, ás 8 da noite, quando os freguezes desalojaram, fechou a
+taverna; e, espreitando se os pequenos dormiam, disse á mulher:--A casa
+do Cambado é nossa, mas é preciso vindimar o Zeferino...
+
+«--Credo!--exclamou a mulher com as mãos na cabeça.--Nossa Senhora nos
+acuda!
+
+«--Leva rumor!--e punha o dedo no nariz.
+
+«--Ó Joaquim, ó marido da minha alma, alembrate dos trez annos que
+penaste na cadeia! Olha para aquelles quatro filhos!...
+
+«--Já te disse que me não cantes--e relançava-lhe o seu formidavel olhar
+vêsgo, incendido com os lampejos da candeia em que afogueava o cachimbo
+de páo. Depois, foi tirar d'entre a cama de bancos e a parede uma
+velha clavina. Sentou-se á lareira e disse á mulher que tivesse mão na
+candeia. Enroscou o sacatrapo na ponta da vareta de ferro e descarregou
+a arma, tirando primeiro a buxa de musgo, e depois, voltando o cano,
+vazou o chumbo na palma da mão.
+
+«--Ó José, vê lá o que vaes fazer!--insistia a mulher, limpando os olhos
+com a estopa da camisa. E elle, assobiando o hymno de Maria da Fonte,
+despejava a polvora da escorva, desaparafusava a culatra e tirava as
+duas braçadeiras. A mulher soluçava, e elle, cantando n'uma surdina rouca:
+
+ _Leva avante, portuguezes,
+ Leva avante, não temer..._
+
+«--Pelas chagas de Nosso Senhor, lembra-te dos nossos pequenos.
+
+«E o Melro n'uma distracção lyrica:
+
+ _Pela sancta liberdade,
+ Triumphar ou padecer..._
+
+«Depois, bufava para dentro do cano e punha o dedo indicador no ouvido
+da culatra para sentir a pressão do sopro, que fazia um fremito aspero
+impedido pelas escorias nitrosas. Pediu á mulher umas febras d'agodão em
+rama, enroscou-as n'uma agulha de albarda e escarafunchou o ouvido
+do cano.--Está suja--disse elle--dá cá um todo-nada de aguardente.
+
+«--Joaquim, vamo-n'os deitar, pelas almas. Não te desgraces!
+
+«--Traz aguardente e cala-te, já t'o disse, mulher, com dez diabos!--E
+pôz-se a assobiar a _Luisinha_. Enroscou algodão embebido em aguardente
+no sacatrapo e esfregou repetidas vezes o interior do cano até sahirem
+brancas e seccas as ultimas farripas da zaracotea. Soprou novamente e o
+ar sahia sem estorvo pelo ouvido com um sibilo egual. Parecia
+satisfeito, e cantarolava, _mezza voce_:
+
+ _Agora, agora, agora,
+ Luisinha, agora._
+
+«Armou a clavina, aparafusou as braçadeiras, a culatra e a fecharia,
+introduzindo a agulha. Aperrou e desfechou o cão repetidas vezes,
+acompanhando o movimento com o dedo pollegar, para certificar-se de que
+o desarmador, a caxêta e o fradête trabalhavam harmonicamente. Levantou
+o fusil de aço, que fez um som rijo na mola, e friccionou-o com polvora
+fina; e, com o bordo de um navalhão de cabo de chifre, lascou a aresta
+da pedreneira, que faiscava.
+
+«--Valha-me a Virgem! valha-me a Virgem! soluçava a mulher.
+
+«E elle, zangado com as lastimas da mulher, com expansão raivosa, n'um
+_sfogato_:
+
+ _E viva a nossa rainha,
+ Luisinha,
+ Que é uma linda capitôa..._
+
+«--Vai á loja atraz da ceira dos figos e traz o masso dos cartuxos e uma
+cabacinha de polvora de escorvar que está ao canto.
+
+«A mulher dava-lhe as coisas, a tremer, e fazia invocações ao Bom Jesus
+de Braga, e ás almas santas bemditas. Elle encarou-a de esconso, e
+regougou:--Máo!... máo!...
+
+«Carregou a clavina com a polvora de um cartuxo; bateu com a cronha no
+sobrado, e deu algumas palmadas na recamara, para fazer descer a polvora
+ao ouvido. Fez duas buxas do papel do cartuxo, bateu-as com a vareta
+ligeiramente uma sobre a polvora e a outra sobre a bala.
+
+ _Agora, agora, agora,
+ Luisinha, agora._
+
+«Depois pegou da clavina pela guarda-matta, e poz-se a fazer pontarias
+vagamente, passeando um olho, com o outro fechado, desde a mira ao ponto.
+
+«A mulher fôra sentar-se no sobrado, á beira da enxerga de tres filhos a
+chorar; o mais novo esperneava, dava vagidos na cama a procural-a. O
+_Alma-negra_ fôra dentro beber uns tragos de aguardente, voltou
+enroupado n'um capote de militar, despojo das batalhas da _Maria da
+Fonte_.--Ora agora--disse elle--ouvistes? porta da cosinha e a cancella
+da horta aberta, porque eu venho pelo lado do pinhal.
+
+«--Vae com Nossa Senhora--disse a mulher--e poz-se de joelhos a uma
+estampa do Bom Jesus, a rezar muitos _Padre-nossos_, a fio.
+
+
+«Era uma noite de fevereiro, de nevoa cerrada, um céo de carvão
+pulverisado em brumas molhadas, sem clareira onde lucilasse uma
+estrella. Não se agitava um galho de arvore nua movido pelo ar, nem
+ondulava uma erva. Era a serenidade negra e immota das catacumbas. Ás
+vezes rugia nas folhas ensopadas de nebrina no chão esponjoso das
+carvalheiras a fuga rapida das hardas, dos toirões e das raposas que se
+avisinhavam do povoado a fariscarem as capoeiras. O Joaquim Melro
+estremecia e punha o dedo no gatilho. O restolhar d'um gato bravo, o pio
+da coruja no campanario distante, punham arrepios de medo na espinha
+d'aquelle homem que ia matar outro--chamal-o á janella e varal-o á
+traição com uma bala.--Era o traçado.
+
+«--Que raio de escuro!--dizia, esbarrando nos espinheiros perfurantes.
+
+«Em noites assim, o universo seria o immenso vacuo precedente ao _Fiat_
+genesiaco, se os viandantes não esbarrassem com as arvores e não
+escorregassem nos silvêdos das ribanceiras. O noctivago sente na sua
+individualidade, nos seus callos e no seu nariz, a doce impressão
+pantheista das arvores e dos calháos. Que este globo está muito bem
+feito. Os transgressores do descanço que Deus estatuiu nas horas
+tenebrosas, os scelerados das aldeias que larapeam o presunto do
+visinho, que fisgam a moça incauta ou empunham o trabuco homicida, se
+não temem encontrar as patrulhas civicas das grandes municipalidades,
+encontram os troncos hostilmente nodosos das arvores que são as
+patrulhas de Deus. Alguns, porém, protegidos pelo Mephisto a quem
+venderam a alma pelo preço da consciencia eleitoral, ou mais barata,
+chegam incolumes ao delicto, passando illesos como o lobo e o javali por
+entre os troncos das carvalheiras esmoitadas, hirtas, com os galhos a
+esbracejarem retorcidos n'uma agonia patibular.
+
+«O Melro, como o porco montez e o lobo cerval, embrenhára-se por pinhaes
+e carvalheiras; ás vezes, parava a orientar-se pelo cucuritar dos gallos
+tresnoitados e latir dos cães. Ao fundo das bouças ladeirentas, rugia o
+rio Péle nos açudes das azenhas e nas guardas dos pontilhões. Lamellas
+era da parte d'além. Mas o rio, de monte a monte, rugia
+intransitavel nas pequenas pontes. Foi á de Landim, uma aldeia
+engravatada, onde ainda se avistavam clarões de luz nas vidraças das
+familias distinctas que jogavam a bisca em ricos saráos do _faubourg
+Saint-Honoré_, com uns deboches sardanapalescos de sueca a feijões.
+
+«Havia tambem um rumorejo de vozes que altercavam na taverna do Chasco.
+Tinia dinheiro lá dentro. Jogava-se o monte.
+
+«O Melro cuidou ouvir proferir o nome do Zeferino. Abeirou-se, pé ante
+pé, do postigo da taverna, e convenceu-se de que estava ali o pedreiro.
+Era elle quem reclamava um quartinho que pozera _de porta_, e o
+banqueiro recolhêra com as paradas que estavam _dentro_, quando tirou a
+contraria _de cara_.
+
+«--Que não admittia ladroeiras!
+
+«E o banqueiro desfeiteado observava-lhe que nada de chalaças a respeito
+de ladroeiras; que todos os que estavam d'aquella porta para dentro eram
+cavalheiros. O Zeferino replicava que não queria saber de cavalheiros;
+que queria o seu quartinho ou que se acabava ali o mundo. Que quem
+queria roubar que fosse para a Terra Negra.
+
+«A allusão era muito certeira e inconveniente. Estavam na roda dos
+cavalheiros alguns veteranos da antiga quadrilha do Faisca, na Terra
+Negra, muito desfalcada pelo degredo e pela forca. Travou-se a lucta
+a sôco e páo; havia lampejos de navalhas que davam estalos nas mollas; o
+Tagarro de Monte Cordova tinha feito afocinhar o banqueiro sobre os dois
+galhos do baralho com um murro herculeo phenomenal. O taberneiro abriu a
+porta para escoar o turbilhão. Elles sahiram de roldão; e, quando
+entestaram com a treva exterior, quedaram-se cegos como n'um antro de
+caverna. Um, porém, dos que estavam, não sahiu; encostára-se ao
+mostrador com as mãos no baixo ventre, gritando que o mataram; e,
+vergando sobre os joelhos, n'um escabujar angustioso, cahiu de bruços,
+quando o taberneiro e o Tagarro o seguravam pelos sovacos. Era o Zeferino.
+
+
+«Quando, á meia noite, o _Alma-negra_ entrava em casa pela porta do
+quintal, encontrou a mulher ainda de joelhos diante da estampa do Bom
+Jesus do Monte. Ao lado d'ella estavam duas filhas a rezar tambem, a
+tiritar, embrulhadas em uma manta esburacada, aquecendo as mãos com o bafo.
+
+«O Melro mandou deitar as filhas, e foi á loja contar á mulher, livida e
+tremula, como o Zeferino morreu sem elle pôr para isso prego nem estopa.
+Ella poz as mãos com transporte e disse que fôra milagre do Bom Jesus;
+que estivera trez horas de joelhos diante da sua divina imagem. O
+marido objectava contra o milagre--que o compadre não lhe dava a
+casa, visto que não fôra elle quem vindimara o Zeferino; e a mulher--que
+levasse o demo a casa; que elles tinham vivido até então na choupana
+alugada e que o Bom Jesus os havia de ajudar.
+
+«Ao outro dia, o Joaquim Melro convenceu-se do milagre, quando o
+compadre, depois de lhe ouvir contar a morte do pedreiro, lhe disse:
+
+«--Emfim, você ganha a casa, compadre, porque matava Zéférino, se os
+outros não matam elle, heim?»
+
+
+VI
+
+É de Lisboa o grande romancista. Nasceu a 16 de março de 1826. Orphão
+aos dez annos de edade, foi transportado a Villa Real (Trás os Montes)
+d'onde passou ao Porto. Foi n'esta ultima cidade que elle se affirmou
+litterariamente, e no Porto ou a breve distancia tem vivido, salvo
+alguma ausencia limitadissima, a sua vida de combates e de triumphos.
+
+Hoje vive--ha uns vinte annos--na freguezia de S. Miguel de Seide,
+concelho de Villa Nova de Famalicão.
+
+S. Miguel de Seide vincula-se á historia litteraria portugueza do seculo
+XIX, por Camillo Castello Branco, como Valle de Lobos por Alexandre
+Herculano. Ermos sagrados e veneraveis!
+
+
+Não vale a pena mencionar distincções honorificas, desdenhosamente
+acceitas por Camillo. Citaremos apenas a distincção que elle recusou;
+registro de um castigo. É de 1862, na _Revolução de Setembro_ de 19 de
+março d'aquelle anno e refere-se ao Instituto de Coimbra.
+
+
+As obras de Camillo Castello Branco, manuseadas por duas gerações,
+durante os ultimos quarenta annos decorridos (tem a data de 1847 o
+_Agostinho de Ceuta_) não figuram completas em algum catalogo publicado.
+Colligimos, todavia, os dados ao nosso alcance para a formação de mais
+completa lista bibliographica da obra do grande escriptor.
+
+_Abençoadas lagrimas!_, drama em tres actos.
+
+_Agostinho de Ceuta_, drama em quatro actos.
+
+_Agulha em palheiro._
+
+_Amor de perdição._
+
+_Amor de salvação._
+
+_Amores do diabo_, por Cazotte. Traducção.
+
+_Anathema._
+
+_Ao anoitecer da vida_, poesias.
+
+_Annos de prosa._
+
+_Esboço biographico de D. Antonio Alves Martins, bispo de Vizeu._
+
+_Aspirações._
+
+_O bem e o mal._
+
+_No bom Jesus do Monte._
+
+_Os brilhantes do brazileiro._
+
+_A bruxa de Monte Cordova._
+
+_Cancioneiro Alegre._
+
+_Carlota Angela._
+
+_O carrasco de Victor Hugo José Alves._
+
+_Cavar em ruinas._
+
+_A caveira da martyr._
+
+_O clero e o Sr. Alexandre Herculano._
+
+_Coisas espantosas._
+
+_Coisas leves e pesadas._
+
+_Condemnado_, drama em trez actos.
+
+_Coração, cabeça e estomago._
+
+_A Corja._
+
+_Correspondencia epistolar entre Camillo Castello Branco e José Cardoso
+Vieira de Castro._
+
+_Curso de literatura portugueza_, por Andrade Ferreira e C. C. Branco.
+
+_A cruz_, semanario religioso.
+
+_O demonio do ouro._
+
+_Diccionario Universal de educação e ensino_, por Capagne: traducção.
+
+_Divindade de Jesus e tradição apostolica_, com uma carta dirigida ao
+auctor pelo visconde de Azevedo.
+
+_A doida do Candal._
+
+_Doze casamentos felizes._
+
+_Duas epocas da vida_, poesias. Incluindo o folheto _Hossana._
+
+_Duas horas de leitura._
+
+_A engeitada_, romance.
+
+_Esboços de apreciações litterarias._
+
+_A espada de Alexandre. Córte profundo na questão do homem-mulher e
+mulher-homem, por um socio prendado de varias philharmonicas._
+
+_Lagrimas abençoadas._
+
+_O livro de consolação._
+
+_O livro negro_, continuação dos _Mysterios de Lisboa_.
+
+_Luta de gigantes._
+
+_O Marquez de Torres Novas_, drama em cinco actos.
+
+_Os martyres_, por Chateaubriand; traducção.
+
+_Memorias do Carcere._
+
+_Memorias de Fr. João de S. José de Queiroz, bispo do Grão Pará_, com
+uma introdução e muitas notas illustrativas.
+
+_Memorias de Guilherme do Amaral._
+
+_O Morgado de Fafe em Lisboa_, drama em dois actos.
+
+_O Morgado de Fafe amoroso_, comedia em trez actos.
+
+_Mosaico e silva de curiosidades historicas, litterarias e biographicas._
+
+_A mulher fatal._
+
+_Mysterios de Fafe._
+
+_Mysterios de Lisboa._
+
+_A neta do Arcediago._
+
+_Noites de insomnia._
+
+_Noites de Lamego._
+
+_Novellas do Minho._
+
+_O Olho de vidro._
+
+_Espinhos e flores_, drama em tres actos.
+
+_O esqueleto._
+
+_Estrellas propicias._
+
+_Estrellas funestas._
+
+_Eusebio Macario._
+
+_Fanny_, por Ernesto Feydeau, trad.
+
+_A filha do Arcediago._
+
+_A filha do Dr. Negro._
+
+_A filha do regicida._
+
+_A freira no subterraneo_, traducção.
+
+_Gazeta litteraria do Porto._
+
+_O genio do Christianismo_, de Chateaubriand; traducção.
+
+_Historia de Gabriel Malagrida_, pelo P. Mony; traducção.
+
+_O homem de brios._
+
+_Horas de paz_, escritos religiosos.
+
+_A immortalidade, a morte e a vida_, estudo ácerca do destino do homem
+por B. Puchesse, traduzido e com um prefacio.
+
+_O inferno_, por Calet, traducção.
+
+_Inspirações_, poesias.
+
+_O judeu._
+
+_Justiça_, drama em dois actos.
+
+_Onde está a felicidade?_
+
+_Poesia ou dinheiro_, drama em dois actos.
+
+_Poesias._
+
+_Poesias e prosas ineditas de Fernão Rodrigues Lobo Soropita_, com uma
+prefação e notas.
+
+_Purgatorio e Paraizo_, drama em trez actos.
+
+_Quatro horas innocentes._
+
+_O que fazem mulheres._
+
+_A queda d'um anjo._
+
+_O Regicida._
+
+_Romance de um homem rico._
+
+_Romance de um rapaz pobre_, por Octavio Feuillet, traducção.
+
+_O santo da montanha._
+
+_O sangue._
+
+_Scenas contemporaneas._
+
+_Scenas da Foz. Solemnia verba. Ultima palavra da Sciencia._
+
+_Scenas innocentes da comedia humana._
+
+_O senhor do Paço de Ninães._
+
+_A sereia._
+
+_Theatro comico. A morgadinha de Val de Amores,_ em um acto. _Entre a
+flauta e a viola_, entremez em um acto.
+
+_As trez irmans._
+
+_O ultimo acto_, drama em um acto.
+
+_Um homem de brios._
+
+_Um livro_, poesias.
+
+_Vaidades irritadas e irritantes._
+
+_Vida de D. Affonso VI._
+
+_Vinte horas de liteira._
+
+_Vingança._
+
+_As virtudes antigas, ou a freira que fazia chagas e o frade que fazia
+reis._
+
+_O visconde de Ouguella._
+
+_Voltareis, ó Christo?_
+
+_Euzebio Macario._
+
+_A Corja._
+
+_O general Carlos Ribeiro._
+
+_O Cancioneiro Alegre._
+
+_Os Criticos do Cancioneiro Alegre._
+
+_D. Luiz de Portugal._
+
+_O vinho do Porto._
+
+_Maria da Fonte._
+
+_Eccos humoristicos do Minho._
+
+_Serões de S. Miguel de Seide._
+
+_Brazileira de Prazins._
+
+_Bohemia do Espirito._
+
+_Vulcões de Lama._
+
+_Luiz de Camões--Carta de Guia._
+
+_Vida de D. Affonso VI._
+
+
+VII
+
+Fez-se nos ultimos tempos cerrada noite de amarguras no espirito de
+Camillo Castello Branco. Os desgostos cruciantes que lhe surgiram da
+loucura de Jorge Camillo, seu filho, aggravaram-se com a enfermidade
+dolorosissima e pertinaz, que nos ultimos dois annos tem flagellado
+acerbamente a vida do illustre escriptor, e levado a consternação e a
+magoa a dentro dos corações amigos.
+
+Nestes ultimos mezes, após doze annos de ausencia, visitou Lisboa. A
+vinda do grande homem foi o acontecimento do dia. Acorreram a saudal-o
+os mais distinctos por seu saber, talentos e posição. A ideia de um
+tributo por parte do municipio de Lisboa ao seu filho mais illustre
+n'este seculo pareceu avocar por momentos o _senado_ lisbonense das
+combinações resolutivas e salvadoras da sua politica. Passou breve o
+lampejo racional; não houve rua que fornecesse o cunhal para a
+inscripção d'aquelle grande nome. Estavam distribuidos todos os cunhaes,
+excepto ainda o das Bolas, pelos bolas contemporaneos, não esquecendo o
+_Diario de Noticias_, que o leitor pode ver entre as ruas do Norte e da
+Barroca, muito gratas ás musas nacionaes.
+
+Regressou ao Minho, e lá vive o grande homem, na região que ficará
+celebre, mercê dos livros em que elle de preferencia a enquadrou com
+seus matizes e que elle escolheu para abrigo da sua gloria. Lá vive,
+longe das academias, longe do bulicio dos pequeninos e dos miseraveis,
+involto na lenda entre flammejante e sombria da sua lucta e do seu
+martyrio.
+
+Gloria do seu paiz, em quarenta annos de victorias, Camillo Castello
+Branco deixará na sua obra o monumento mais complexo e valioso da
+historia da nossa litteratura, da nossa lingua e das chronicas
+historicas, e ao mesmo passo o grande e immortal modelo da polemica, do
+humorismo, da elevação tragica, da simplicidade popular, modelo que fará
+o desespero--ai de nós!--d'aquelles a quem foi offerecido.
+
+
+Typ. GUILLARD, AILLAUD & Cª.--1889.
+
+
+ [1] _A Mulher Fatal_, introducção. Camillo Castello Branco.
+
+ [2] Do _Amor de salvação_.
+
+ [3] Veja-se COMBATES e CRITICAS, vol. I, cap. do REALISMO NA ARTE.
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+End of Project Gutenberg's Camillo Castello Branco, by Antonio da Silva Pinto
+
+*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK CAMILLO CASTELLO BRANCO ***
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+WARRANTIES OF MERCHANTIBILITY OR FITNESS FOR ANY PURPOSE.
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+1.F.5. Some states do not allow disclaimers of certain implied
+warranties or the exclusion or limitation of certain types of damages.
+If any disclaimer or limitation set forth in this agreement violates the
+law of the state applicable to this agreement, the agreement shall be
+interpreted to make the maximum disclaimer or limitation permitted by
+the applicable state law. The invalidity or unenforceability of any
+provision of this agreement shall not void the remaining provisions.
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+with this agreement, and any volunteers associated with the production,
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+harmless from all liability, costs and expenses, including legal fees,
+that arise directly or indirectly from any of the following which you do
+or cause to occur: (a) distribution of this or any Project Gutenberg-tm
+work, (b) alteration, modification, or additions or deletions to any
+Project Gutenberg-tm work, and (c) any Defect you cause.
+
+
+Section 2. Information about the Mission of Project Gutenberg-tm
+
+Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
+electronic works in formats readable by the widest variety of computers
+including obsolete, old, middle-aged and new computers. It exists
+because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
+people in all walks of life.
+
+Volunteers and financial support to provide volunteers with the
+assistance they need are critical to reaching Project Gutenberg-tm's
+goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
+remain freely available for generations to come. In 2001, the Project
+Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
+and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
+To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
+and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
+and the Foundation web page at https://www.pglaf.org.
+
+
+Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive
+Foundation
+
+The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
+501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
+state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
+Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification
+number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at
+https://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
+permitted by U.S. federal laws and your state's laws.
+
+The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
+Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
+throughout numerous locations. Its business office is located at
+809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
+business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact
+information can be found at the Foundation's web site and official
+page at https://pglaf.org
+
+For additional contact information:
+ Dr. Gregory B. Newby
+ Chief Executive and Director
+ gbnewby@pglaf.org
+
+
+Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation
+
+Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
+spread public support and donations to carry out its mission of
+increasing the number of public domain and licensed works that can be
+freely distributed in machine readable form accessible by the widest
+array of equipment including outdated equipment. Many small donations
+($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
+status with the IRS.
+
+The Foundation is committed to complying with the laws regulating
+charities and charitable donations in all 50 states of the United
+States. Compliance requirements are not uniform and it takes a
+considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
+with these requirements. We do not solicit donations in locations
+where we have not received written confirmation of compliance. To
+SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
+particular state visit https://pglaf.org
+
+While we cannot and do not solicit contributions from states where we
+have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
+against accepting unsolicited donations from donors in such states who
+approach us with offers to donate.
+
+International donations are gratefully accepted, but we cannot make
+any statements concerning tax treatment of donations received from
+outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff.
+
+Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
+methods and addresses. Donations are accepted in a number of other
+ways including including checks, online payments and credit card
+donations. To donate, please visit: https://pglaf.org/donate
+
+
+Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic
+works.
+
+Professor Michael S. Hart was the originator of the Project Gutenberg-tm
+concept of a library of electronic works that could be freely shared
+with anyone. For thirty years, he produced and distributed Project
+Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.
+
+
+Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
+editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
+unless a copyright notice is included. Thus, we do not necessarily
+keep eBooks in compliance with any particular paper edition.
+
+
+Most people start at our Web site which has the main PG search facility:
+
+ https://www.gutenberg.org
+
+This Web site includes information about Project Gutenberg-tm,
+including how to make donations to the Project Gutenberg Literary
+Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to
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